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Full text of "Revista do Instituto Historico e Geographico Brazileiro"

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REVISTA 

DO 




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BRAZILEIRO 

Fundado no Bio de Janeiro em 1838 



TOMO LXIX 



I^AnXK .1 



Hoo facit» ut longos durent bena rmU par annos 
Bk poninfc sarft posteritate frui 





RIO DE JANEIRO 

1908 




REVISTA 



DO 



nrSTITUTO inSTOEICO e geografhico 



REVISTA 



DO 



IinniTO HISTOBIGO E mMFBIGO 



BRAZILEIRO 



Fundado no Hio de Janeiro em 1838 



TOMO LXIX 



PAnXB I 



Hoc facit, ut longoi dareat bana gesta per annos 
Bi poasint aarft posteritata frui 




RIO DE JANEIRO 

1908 



491 



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-SAVatví^a 




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wim* iUN .'. i»t3 



A um m DA MISERmili OO RH) DE JAIEilíO 

SB. joil wíMu rÀiimA 



No trabalho A Santa Casa da MiseHcoráia Huminense^ Félix 
Ferreira dá esse estabelocimento como fundado cm 1545. 

No artigo ^o se segao, loavando-se em docameutos existentes 
'no aVchivo da^mesni^iinstituicãò'^ erudito Br. 'José Vieira Fazenda 
contraria â opinião daquelle ' adioir e prova que o promotor da fun- 
dação deial estabelecimento foi o jesuíta José do Anchieta. 

Corrige ainda o Dr. Vieira Fazenda o engano quanto á pa- 
droeira da Misericórdia, demonstrando que a Senhora do Bom Sue- 
cesso não exerceu cjssfi funcção ató 1639. 

Encontra-se iúais no mosmo' artigo uma succinta descripção do 
tempU e do Hospital Velho. 

(Xota da Commissão de lUdacqão), 



li Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro 



FUNDAÇÃO 



Commemora, mais ama tok, a benemérita Irmandade da 
Misericórdia a tradicional ítota da Visita^. 

Vem, pois, de molde recordar os primórdios e antiguidades 
deste santo e humanitário instituto a quem a pobreza enferma, 
os orphãose engeitados devem tantos e tão importantes serTiços. 

Qnem transpõe o limiar do grandioso hospital da praia de 
Santa Luzia, divisa logo, á direita do vestibulo, duas estatuas 
colossaes, mandadas fazer pelo grande provedor Josô Clemente 
Pereira : a primeira, de Arei Miguel de Contreiras, instituidor 
da Misericórdia de Lisboa, e a segunda, do padre jesuíta Josô de 
Anchieta, fundador do primitivo hospital da Santa Casa do Rio 
de Janeiro. 

Dois escriptores, entretanto, que se occuparam desse assum- 
pto, pretenderam, em vEo, arrancar de Josó de Anchieta a gloria 
de ter, por sua iniciativa, lançado os fundamentos daqaillo que 
todos hoje vêm e admiram, gloria authenticada pelos teste- 
munhos dos coevos, dos chronistas e incontestável, em face dos 
argumentos quo apresentarei. 

Na yida do Venerável Padre Jasé de Anchieta^ refore o 
padre Simão de Vasconcellos o seguinte : « Por esto tempo e 
principio do anno de 158S, aportou á Cidade do Rio de Janeiro a 
armada de Diogo Flores Baldez, que constava de dezeseis velas. 
Foi esta armada aaquella Cidade oausa de grande temor, mas a 
José causa de novas maravilhas. Appareoeu de repente, nAo. es- 
perada, defronte da barra, uma légua ao mar, lançando abi fetro. 



8 REVISTA DO INSTITUTO lilSTORICO 

P«rtarbar!un-ie os moradores ; não tinham noUotas que de 
Portogalou d*outra parte hourease. naqueUes mares, numeh) de 
Telaa tSo ezceasíTo ao poder da terra. 

«Julgaram que eram iaimigaa e cuidara cada qual doa 
cidadSo» de oomp haria de pôr em cobro suas ooisas : tudo era 
eooftuSo è Mpaoto. A' iVilMo áot demais «oa)o«»TaQi também 
08 padres do Collegio a pôr em salvo as coisas sagradas da 
Bgr^ía. Porém José, com o seu alto espirito, fez sooegar a todos ' 
adisse ; ninguém se pertube, aquella armada n&o 6 inimiga e 
olhando do alto de uma janella, donde se descobria, aocrescentou : 
antes, aquellas náos vos tmum um homem, grande offloial de 
carpinteiro, que ha de entrar em nossa Companhia e nella ha de 
fluer grandes serviços & ReiigiSo e grande aogmento nas vir" 
tades. 

«Aodicto do Joíô. doou em sooogo a Cidade, todos espe. 
íaTMB ooeasiSo o souberam que era armada castelhana, de três 
Biu&eepaohoes, «omque el-rel Dom Philíppe 11 mandava asse ' 
f«»r o estreito d« MagalhSes e vinha por general delia Diogo 
noras Baldes, homem de grandes parteí. Poi reeeblda com 
«g^l atogílft ú. grande pertobaolo passada e veie lan«ar ferro 
no porto ordinário cora paz e amigável eonfraternldade. 

« Aqui se Tio o grande espirito de caridade de José. Trazia 
«*a annada nuOloM át^tta* « ntce*»itado* da demora « eontratUis 
d* longa viagam, deu trata eomque $e lh$t oeHgnatassê eua dê 
àospital, ,«* aUenUonao havia naquella cidade, a esta fez trazer 
os do«ites e d»$Un»m os Religiosos para servit-os e assistir ás 
•oasouras com olrurglio, medico e toJo o necessário com grande 
a«pe» do CoUeglo j e para oí sSos pobres e necessitados man- 
dara dar todos os dias. na portaria, ama arroba de carne ou 
9Mn. «om toda a ferinha nMesaarta par-x qaantos viwsem e 
andava o mesmo padra volante pelas casas dos que necessitavam 
e nso podiam vir á portaria e lhes tirava esmolas particulares. 
ooosiUndocom as suas palavras a todos e;n terra estranha. » 

Bsi sea Samluario Uai-immo, refere também ft»i Ages- 
tinho de tanta Maria: « Pelos aanos de 1588 se entende («w 
prhMpw» Om» d» lOnrUordim do Rio do Janeiro OM poucos 
aMosantesj porque neste anno chegou iquelle porto uma ar- 
BUdade Castella, que e<«stava de dasesels nAus que iam três 



A SANTA.CASA DA MISERICÓRDIA 9 

mil hespaalioes mandados por Phllippe II de Hespanha e I de 
Portagal assegurar o estreito de Magalhães, de que era general 
Diogo Flores Baldez. Com os temporaes padeceu esta armada 
muitOf porque lhe adoe3eu muita gente e assim chegou ao Rio 
de Janeiro bem necessitados de remédio e de agasalho. 

€ Achava^se naqueila cidaule o venerável padre Josó de An- 
chieta visitando o GoUegío, que alli tem a Companhia fundado, 
no anno do 1567. Como o venerável padre José de Anchieta 
era Varão Santo levado da Caridade, tomou muito por sua 
conta a cura e o remédio de todos aquelies enfermos, dando 
traça como se lhes assignasse unta casa em que pudessem ser 
curados todos e assistidos ; para o que destinou alguos Reli- 
giosos e assistindo tambcm ello aos mais com as medicinas, 
medico e cirurgião. 

€Çom esta occasião teve principio o Hospital da Cidade de S, Se» 
bastião do Rio de Janeiro^ entendendo muitos que ontSLo tivera prin- 
cipio a Santa Casa da Misericórdia que hoje ô nobilíssima. Nesse 
tempo como dizem os Irmãos daquella Santa Casa novamente 
erecta tomaram por sua conta acudir também ao hospital, o que 
fizeram com grande caridade e o foram aagmentando no mate- 
rial oom tanta grandeza e tâo perfeitas enfermarias, como hoje 
se vôm, aondo se curam os enformes de um e outro sexo com 
eximia caridade.» 

Quanto á armada de Diogo Piores, refere frei Vicente do 
Salvador: «Foi este nomeado pelo Rei General delia, para piloto 
mór Antâò Paulo Corso e Pedro Sarmento g>vernador dos fortes 
e povoações. Sahio a referida armada do S. Lucas em 2o de se- 
tembro de 1581, com tfto mio tempo que depois de três dias ar* 
ribou com tormenta ú, bahia de Cadiz oom perda do três navios, 
havendo se afogado a maior parte da gente e tão destroçada 
que para repararem se deteve mais de 40 dias* Tornou a sahir 
com deeesete navios e chegou ao Rio de Janeiro onde invernou 
seis mezes; « porque ainda que chegou a 25 de março, que em 
Hespanha é a primavera, em estes portqs é o principio do hin- 
verno, em que se não se pôde navegar para o Estreito. . . e pa* 
recendo que já era tempo para navegar sahiram da barra do Rio 
a 2 de otttabro com dezaseis navios, deixando um por 
inutil.> 



10 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Tomando a derrota do Estreito, chegou a armada ao Rio da 
Prata, onde se levantou um temporal. A esquadra esteve 22 
dias, mar em travos, sem poder pôr um palmo de vela. Em 2 de 
dezembro Diogo Flores, amainado o vento, voltou buscando 
porto para reparar avarias. Foi a Santa Gatharina e alli a cabo 
de 22 dias deixa três naus com ordem de voltarem ao Rio do Ja- 
neiro e deu outras três a Equinon, que ia por governador do 
Chile para levar a sua gente pelo rio da Prata ao porto de 
Buenos Aires. Em 6 de janeiro de 1583 tornou a Yoltar do Es- 
treito. Lék foi de novo a armada assaltada por terrível borrasca. 

Pondo de parte minúcias, Diogo Flores retrocedeu desani- 
mado, chegou a S. Vicente e passou ao Rio de Janeiro onde en- 
controu D. Diogo do Azega que, por mandado do rei, vinha soo- 
correr o mesmo Baidez, etc. Desta segunda vez, ó de crer, re- 
cebeu ainda o general de Anchieta e dos Irmãos da Misericórdia 
todos 08 bons officios de caridade. 

Que o general hespanhol se mostrou sempre grato a An« 
chieta prova o seguinte facto, narrado por seu biographo, o 
padre Pedro Rodrigues. Ello Baidez, tratou muito famili- 
armente com o padre José, que entoo era Provincial^ e o ia 
buscar muitas vezes em pessoa ao collegio e alcançou muito de 
sua virtude. Mandou o padre José ao padre João Baptista fosse 
pedirão general D. Diogo Flores desse liberdade a um inglez 
que ahi prendera. Não tomou bem a petição e mostrou-se 
bem agastado e ezcusou-se de o fazer. O padre so desculpou, di- 
zendo que seu superior o padre José mandava falar na- 
quelle negocio . Ouvindo o goneral falar no padre Josó, manso 
G mudado acudio dizondo: « Solto-se logo e fuça-so assim como o 
padre José manda ; porque nunca Dp.us queira que eu deixe do 
fazer o que elle mo man*lar ; poi^que a primeira' vez que o vi 
nunca coisa mas abjecta c desprosivel so me representou, porém 
depois olhando bom para elle nunca em pressnça de alguma ma- 
gestade me senti muis apoucado do que dcanto delio.» 

Em 1577, foi Anchieta eleito Provincial, cargo que occupou 
até 1588, em que o substituiu o padre Marçal Belliarte. Segundo 
Simão do Vasconcellos, em 1578, o Provincial visitou a Capitania 
de Pernambuco (visita a respeito da qual faltam relações). Nesse 
mesmo anno, partiu para o Rio de Janeiro e daqui para 



A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA U 

S. Vicente, onde estava a 4 de agosto. Em 82 e 83, estava no 
Rio de Janeiro, onde, graças ao prestigio do seu cargo e suas 
essenciaes virtudes, poade instituir o velho Hospital -da Miseri- 
córdia. Em 5 das kalendas de janeiro de 84, já se achava na 
Bahia, conforme prova a carta, esoripta em latim no volume 
19<» dos Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro, 
pag. 64. 

Daí Narrativa jET/H^/o/ar do padre Fernão Cardim se concluo 
que Anchieta, na qualidade ainda de Provincial, acompanhou 
na vista da província o padre visitador Christovâo de Gouvôa, 
nomeado pelo padre geral Cláudio de Aquaviva. 

Em 20 de dezembro de 1584 chegou ao Rio de Janeiro. 
Aqui passou o Natal, e, em uma das oitavas deste, assiste à 
festa em honra do padroeiro da cidade, o martyr S. Sebastião, 
e ao auto celebrado d porta da Misericórdia, onde se armou um 
iheatro com uma tolda de uma vela . 

AUI, o padre Cardim, por ser a egreja dosjesuitas pequena, 
fez sermão sobre os milagres do santo acima e as mercês que o 
martyr de Narbona havia feito á sua cidade. 

Nesse tempo, poude o venerando jesuíta vôr que a semente 
lançada em terra havia se transformado em frondosa arvore, a 
cuja sombra já se acolhiam muitos iafellzes. Foi sob a im« 
pressão de tio agradáveis resultados, tendo a Misericórdia um 
hospital e egreja própria, que na primeira Informação aqui es- 
cripta, segundo Gapistrano de Abreu, em 31 de dezembro 1584, 
o santo varão escreveu: c Em todas as capitanias ha casas do 
Misericórdia, que servena de hospitaes, edificadas e sustentadas 
pelos moradores da terra, com muita devoção, em que se dão 
muitas esmolas, assim em vida como em morte, o se casam 
muitas orphãs, curam os enfermos do toda a sorte e fazem 
outras obras pias, conformo o seu instituto o a possibilidade do 
cada u.7ia e anda o regimento delias nas principaes da terra.» 

Em vista do exposto, como recusar ao venerável padre José 
de Anchieta o papel de fundador do Hospital da Misericórdia ? 
Como pretender recuar a época da instituição da Confraria ao 
anno de 1545 ? 

Contra tal anachronismo, provarei, protesta a verdade da 
historia. 



12 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Em minha humilde opinião, foi ainda Anehieta quem obteve 
de seu amigo, o primeiro prelado eoolesiagtioo, o padre 
Bartholomen Simões Pereira, a proviaio de 1 de julho de 1691, 
pela qual a Irmandade da Miserioordia flcoa isenta da Jurii* 
dleção parochial. 



Em princípios do século XYII, a administração da Miseri- 
oordia dirigiu á metrópole o seguinte requerimento: «Dizem 
o Provedor e Irmãos da Santa Casa da MiseriooiHiia da cidade 
de 8. Sebastião, partes do Brazil, quo ha sê$senta annos que 
tem feito ea$a com o seu hospital para enfermos, sacristia, par- 
latorio o é uma das boas da Costa e a algumas faz vantagem 
notável com sempre ter sua irmandade guardado o compro* 
misso, fazendo muitas esmolas, casando orphãs e dando ordi- 
nárias, todos os sabbados conforma a possibilidado da terra. 
B, porquanto, ató agora não tem pro^sões para ser Misericórdia 
pede a Vossa Magestade lho mande passar provitão para que 
aquella casa possa gozar de todos os privilégios o graças, 
honras e liberdades que tem e gozão as Casas desta cidade 
de Lisboa e a da vília de Setúbal e as mais do Reino.» 

Philippe III de Hespanha e II de Portugal deu ao reque- 
rimento o seguinte despacho: < £u El^Rei faço saber aos que este 
Alvará virem que havendo respeito ao que na petição atrás 
escripta dizem o Provedor e Irmãos da Santa Miserioordia da 
cidade do Rio de Janeiro, partes do Firazil e vistas as oausas 
que allegam, Hei por bem e Me praz que elles possam gozar 
e usar do todos as provisões e privilégios concedidos á Casa 
da Misericórdia desta cidade de Lisboa e isto naquellas coisas 
em que se lhes poderem applicar e ás justiças a que este Al- 
vará fôr mostrado e o conhecimento pertencer o cumpram 
como nelio se contém, o qual Hei por bem que valha como oarta 
sem embargo da Ordenação do segundo livro titulo quarenta 
em contrario. João Feo o fez em Lisboa oito de outubro de mil 
seiscentos e cinco e Duarte Corrêa o fez escrever.» 

Estes dois documentos, aliás de incontestável authentieidade, 
pois que, no segundo delles, está armada a asaignatura 



A 8ANTA CASA DA MISERICÓRDIA 13 

âulograplifb do ReJ« iôtit servido para 06 pretender sustentar 
(|U6 a nossa Misericórdia data do anno de 1545. Já monsenhor 
Piaarro e Duarte Nanes protestavam, oomo adeante se verá, 
quanto i veracidade dos seuenta annos^ contraria aos factos 
h sietioos. 

No dia 8 de julho do 1880, appareceu no Jornal do Com- 
merciú erudito e curioso artigo, depois reduzido a opúsculo e 
firmado por F. S. Soube-se depois que o seu autor era o 
emérito b dedicado ohefe da secretaria da Misericórdia, Fran- 
cisco Augusto de S&, ctgo nome jamais será esquecido por todos 
qaantoe trataram com tão distincto cavalheiro e exemplar f unc- 
etonario. 

Compulsando os livros do Arohivo da benemérita instituído 
e lendo no chamado livro dos Privilegias os documentos acima 
copiados, aventou com toda a convicção o conceito de que José 
de Anchieta nao íôra o fundador do primitivo hospital. Rssa 
oplttlfto foi, com maior desenvolvimento, seguida também de 
perto pelo operoso autor (Feiix Ferreira) da Noticia Histó- 
rica — A Santa Casa da Misericórdia Huminense-^Fundada no 
Século X 7 — {i894 — 1898) . 

As raeões de um e outro desses dois escriptores não podem 
satisfazer a quem conhecer um pouco a historia da descoberta 
do Rio de Janeiro e fundação desta cidade. Por ora, aualy- 
sarei o que escreveu Francisco de Sá, cuja argumentação não 
pôde resistir aos mais simples commentarios. Tomando o texto 
do JSawÀuario Mariano : 

€ Fiea este (Hospital) situado dos muros a dentro daquella ct- 
dade e junto á Casa da Misericórdia^ diz o referido escriptor de 
1880 : <De firme propósito para esclarecer o ponto duvidoso 
sobre a data da fundação da Santa Casa da Misericórdia do Rio 
Janeiro copiamos textualmente o ultimo periodo da nota extra- 
hidado Sanotuario Mariano, que diz fica este (o hospital creado 
pelo Venerável Anchieta) situado dos muros a dentro daquella 
cidade e junto á Casa da Misericórdia. Do que citamos, se de- 
prebende que, quando o Padre Anchieta croou o seu hospital, 
Já a Santa Casa existia.» 

Frei Agostinho de Santa Maria, autor do Sancluario, — es- 
creveu o seu volume X, de conformidade com a relação que daqui 



14 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

lhe foi enviada pelo fi*aiici8cano Frei Miguel de S. Francisco e 
quando ella asseverava que o hospital estava situado junto da 
Santa Casa^ dizia uma verdade. Frei Agostinho escreveu aquelle 
volume em 1713 e, nesse tempo, com toda a certeza, o hospital 
estava Junto da Egrc^a, em cujo adro, como se refere Fern&o 
Gardim, em 1585, se representou o auto de S. Sebastifto. 

Quando, pois. Santa Maria se refere á sltuaçSo do hospital, 
trata da actualidade (1713) e, por não algum, pretendeu sus-, 
tentar que, quando o venerável Jesuíta oreou o seu hospital, J& 
o da Santa Casa existia. A Egreja, como mais tarde provarei, 
foi edificada pelo mesmo tempo mais ou menos que o hospital. 

« Nao procedem também, continua F. de Sá, as razões apre- 
sentadas pelos citados historiadores, de quo a capitania de São 
Vicente, povoada pelos portuguezes muito antes que a do Rio 
de Janeiro, só principiou a ter Casa da Misericórdia no anno de 
1643 e que era impossível se fundasse outra no Rio de Janeiro 
antes de se estabelecer e povoar a cidade ; porquanto o padre 
Nóbrega dirigindo-se ao cardeal D. Henrique, por carta de 1 do 
julho de 1564, disse : « Esta Capitania (de S.Vicente) se tem por 
a melhor coisa do Brazil, depois do Rio do Janeiro.» 

Em primeiro logar, o autor da missiva não se refere a São 
Vicente mas positivamente ao Espirito Santo, capitania de 
Vasco Fernandes Coutinho, e trata de condições topographicas 
inferiores ás do Rio. Demais, nessa mesma carta se encontra o 
período seguinte, que bem serve para provar não haver, por esse 
tempo, Ducleo algum de população na nossa bahia, aliás conhe* 
cidae desde os primeiros tempos visitada por vários viajantes, 
por Martim Affonso, Thomé de Souza, etc. 

Eis o trecho : € Parece muito necessário povoar^se o Rio de 
Janeiro e fazer-se nelle outra cidade como a da BalUa, porque 
com ella ficará tudo guardado, assim esta capitania de S. Vi- 
cente (de onde foi escripta a carta) como a do Espirito Santo, 
que agora estão bem fracas, e os Franceses lançados de todo Í5ra 
e os índios se poderem melhor sujeitar e para isso ó mandar 
fnais moradores que soldados, > 

Apoia-se também o articulista na carta escripta na Bahia, 
por Anchieta, em 9 de Julho de 1565, cujas primeiras palavras 
são : € De S. Vicente so escreveu largamente o que aconteceu á 



A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA 15 

Armada desta Cidade do Salrador que foi povoar o Rio de Ja- 
neiro este anno passado de 1564. > Exactamente, porém, nesta 
longa misslTa dirigida ao Dr. Diogo Mii^o, corroborada em ra* 
rios pontos peia do paire Quiricio Qaaxa, enviado ao mesmo 
Dr« Mirfto ( 13 de julho de 65), não se encontra ama palavra 
que nEo seja a da necessidade do povoamento do Rio de Janeirof 
até então entregue ao commercio dos Franceses. 

Quando Thomó de Souza resolveu ( 1552 ) visitar as Gapi« 
tanias do Sul, dizia, escrevendo ao Rei com relaçSo ao Rio de 
Janeiro, por elle Tliomé visitado: 

€ Parece-me que Vossa Alteza deve mandar /nzer aUi uma 
povoação honrada e boa ; porque jék nesta costa não ha rio em 
que entrem Francezes senão neste. E tiram delle muita pimenta 
e M sabedor que um anno tiraram cincoenta pipas ; e tirarão 
quantas quiserem, porque os mattos a dão da qualidade destas 
de cà, de que Vossa Alteza deve ter informação. £ escusar-se-hia 
com esta povoação armada nesta costa . E não ponha Vossa Alteza 
isso em traspasso. 

«...E so eu não fiz fortaleza esto anno no dito rio, como 
Vossa Alteza me escrevia, foi porque o não pude fazer por ter 
pouca gente o não me parecer siso derramar-mo por t&ntas 
partes. » 

Quando em 1560, derrotados os flrancezes por Mem de Sà, 
opinaram alguns chefes da expedição deixar forte guarnição na 
ilha de Coligay conquistada, para impedir a volta dos inimigos, 
hypotheso que se realizou, preponderou o voto de não ser oon< 
veniente a divisão das forças. Nessa conformidade, ordenou Mem 
de SÀ fosse totalmente arrazado o forte o recolhidos aos navios 
portuguezos toda a artilharia tomada e grande quantidade do 
despojos. 

Desta vez ainda não foi realizado o povoamento do Rio de 
Janeiro, do qual se apoderaram de novo os Francezes até 1507. 

Pela attenta leitura da obra de Hans Staden se conclue: a 
principio muitos navios portuguezes traficavam com os indi- 
geoas, cm boa companhia com os navios francezes e a bordo 
destes últimos, apezar das penas severas em que incorriam, vi- 
nham engajados marinheiros portuguezes. Admitto por hy- 
pothese que um ou outro ficasse entro os selvagens ou vivesse 



16 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

om harmonia com os franoezes, póde-se admiUir formassem 
tacs elementos dispersos núcleo ou agremiação que se pare- 
cesse com a Irmandade da Misericórdia ? 

Logo, a asserção de existir aqui jà em 1515 a Santa Casa, 
carece de todo o fundamento. Esse idéa tem tomado yulto e até 
sem grande critério tal data tem sido reproduzida em diversas 
publicaç9es-*entre outras o mui conhecido Âlmanack de La- 
emmert. 

Demais, em nenhum dos trabalhos publicados de 1880 até 
hoje se encontra o menor vestígio que patrocino semelhante 
absurdo histórico. 

De tudo, pois, se podo concluir: os sessenta annos citados no 
requerimento referido são ou um ft*ucto de oxaggeração ( ante^ 
lapso de memoria ) ou podem ser explicados também por ma- 
neii*a mais próxima da verdade. 

Isto procurarei analysar, quando tratar das opiniões 
de Félix Ferreira, que no seu trabalho, aliás de muito mereci- 
mento, insiste pela certeza da data 1545 ! 



Com a epigraphe : Quando^ como e por quem foi fundada a 
cidade do Rio de Janeiro^ escreveu, no Jornal do Commercio de 
31 de julho de 1802, Félix Ferreira extenso e curioso artigo sobre 
os primeiros tempos de nossa historia. 

Segundo este escriptor, só a Gonçalo Ck>elho, chefe da ex- 
pedição enviada ao Brazil por D. Manoel, em 1503, cabo a gloria 
daquillo que foi realizado, em 1565» pop Estacio do Sá. 

A povoação, no dizer do articulista, fundada por Gonçalo, na 
Praia, hoje da Saudade, esteve sob as vistas do chefe da ex- 
pediçãOy durante dois annos. Ia ella om via do florescimento, 
atô que foi atacada pelos selvagens que trucidaram todos os 
habitantes, inclusive dois frades Arrabidos. 

Para tal fim, sem maior exame localiza Félix Porreira, no 
Rio de Janoiro, um faeto narrado por Frei António da Piedado, 
na Chronica do Arrábida e repetido por JaboaLão no sen Orbe 
Seraphico^ 



A SANTA CASA DA MISBRIGORDIA 17 



Ora, ezaotamente esses dois chronistas mencionam 
aooutecimenio como ocoorrido em 1503, em Porto Seguro. 
Conforme, porém, % opinião de Capistrano de Abreu, os Arra- 
bidos (Franciscanos) Yieram noa primeiros tempos duas vezes ao 
Brazil: uma, em 1503, á Parahyba do Norte e a outra, em 1551, 
a Porto Seguro. Quanto aos Religiosos Franciscanos, só che- 
garam ao Rio de Janeiro em 1592, quando, pela segunda vez, 
governara Salvador (Corrêa de Sá, sobrinho de Mem de Sá. A 
ezplicacSo de Capistrano de Abreu foi dada em uma nota ás 
Informações e fragmentos Históricos do Padre José Anchieta^ pa« 
blicados em 1886, na Imprensa Nacional. 

Por ahi já se deixa ver o modo superficial por que o histo- 
riographo, encarregado pela Santa Casa de escrever a Memoria 
Histórica, pretendeu explicar os primórdios da antiga e piedosa 
institui^. B porque, segundo informa Frei Agostinho de Santa 
Maria, a egreja da Misericórdia teve a principio a invocação de 
Noesa Senhora da Copacabana, Feliz Ferreira, suggestionado 
sempre pelo seu enthusiasmo para com o chefe da expedi^ de 
1503, condue o capitulo da íúndagSo da Santa Casa do modo 
seguinte: c Ora, si essa invoca^^o (Copacabana), se desligou da 
Santa Casa, náo desappareoeu das cercanias onde Qonçalo Coelho 
primeiramente e depois delle Mem de Sã ! (sio) lançaram os fun* 
damentos da extincta VUla Velha. Copacabana persiste náo s6 
no aetual bairro que se está desenvolvendo tfto promettedora- 
mente, oomo na secular capellinha alli levantada onde se 
venera a Senhora cqja imagem seria talvez erecta como succes- 
sora da primitiva Padroeira da nossa Misericórdia.» 

A fundação da capella de Copacabana, na antiga praia de 
Sacopenapan, obedeceu talvez a outras razões e nada tem com 
Gonçalo Coelho, em cujo tempo, com toda a certeza, não se cogi* 
tava de Misericórdia, no Rio de Janeiro. A ermida supra assim 
como foi fundada alli poderia ter sido estabelecida em outra qual- 
quer praia das redondezas desta cidade. 

No intuito de sustentar a verdade da data de 1645 para a 
Amda(^ da Santa Casa, guiando-sa pelo anno de 1605, exarado 
no despaoho régio, exclama com toda a convicção o chronista 
da Santa Casa: < B tanto isto é verdade que nas primeiras cartas 
dirigidas á metrópole por três vexes sncoessivas se sustenta que 

4&i^f^ Tomo lxzx ?• i* 



18 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

a Casa FiumiaoQâo contava nessa époea sessenta annos de oxis- 
tencia, o que equivale a coliocar ( o grypho é meu ) s%m fundação 
efitre os annos i5 Í5 a Í548, isto é, justamenie gitando a incipiente 
cidade ainda se achaca na Villa Velha, onde Estado de Sd (sio), 
. concentrava as suas farças e fazia o centro de suas sortidas 
contra ílrancezes e tamoyos.> 

Além de, na nota da pagina 120, Feliz Ferreira nSo citar 
as datas de taes despachos, adultera o chronista, por modo im- 
perdoável, a verdade dos factos. Onde foi elle descobrir que em 
1545 a 1548 Estacio, em Villa Vellia, fazia desta centro do ope- 
rações ? 03 francezes de Villegaignon s6 vieram ao Rio de Ja- 
neiro em 1555, quasi dex annos depois. Demais, é hoje sabido : 
Bstacio de Sá veia pela primeira vez ao Rio de Janeiro em 1560, 
em companhia de seu tio Mem de Sá, quando este terceiro Gover- 
nador Qeral desalojou os francezes, sob a chefia de Bois Le 
Comte, sobrinho de Villegaignon, que partira para a França. 

Em 1545, Estacio era seguramente menino. Ainda ha 
poucos dias, deu-me conhecimento desse facto o illustro pro- 
fessor Capistrano de Abreu, dizendo-me que o sobrinho de Mem 
de Sá falleoera com 24 annos de cdade em 1567 ; porque, con- 
forme uma carta oncontrada, por elle, Capistrano, na Biblio- 
theoa Nacional, soube que Estacio tinha de edade 17 annos, 
quando veio ao Brazil. 

Para evidenciar o pouco cuidado com que Félix Ferreira 
escreveu a introducção da sua Noticia Histórica e pôr do sobre- 
aviso o leitor contra o que aquelle sustenta, basta citar o se- 
guinte facto por si eloquente : O despacho do rei, em data de 8 
de outubro de 1605, n3u> podia ser firmado por Felippe II de Hes- 
panha e I do Portugal, mas sim pelo filho, Felippe III de Hes- 
panho e II do Portugal, que reinou de 1598 a 1621 . No entre- 
tanto, Félix Ferreira, em vários pontos da Noticia Histórica^ 
assignala sempre o nome do primeiro daquelles monarchas» faUe- 
eido em 17 de setembro de 1598. 

Feitos estes reparos, cumpre entrar em matéria. 
Procurando combater a opinião de monsenhor Pizarro, é, 
a meu vêr, injusto o autor da Noticia Histórica A Santa Casa 
Fluminense. Com muito critério, o autor das Memorias Histó- 
ricas do Rio de Janeiro {Píiaxro)^ pondo em duvida o$ sessenta 



A SilNTA CASA DA MISERICÓRDIA 19 

annos da petição^ disse: cnSo era a Misericórdia tão antiga, como 
quizoram afflrmar o Provedor e Irmãos delia, na sapplioa, de 
que resultou a Provisão de 8 de outubro de 1605, alli conser- 
vada>. . .« Si 03 impetrantes pretenderam, sem fundamento, de- 
duzir a origem dessa casa da era de 1556, em que no Rio de 
Janeiro se estabeleceram os primeiros francezes, não podiam 
chegar os annos a mais de 49 ; e, si contaram desde a fundação 
da cidade, eram passados apenas 38 annos, segundo a data da 
provisão sobredita.» 

Fazendo referencias á Misericórdia de Santos, ainda muito 
bem escreveu Pizarro : € Si aquella Capitania de S. Vicente, 
povoada pelos portuguezes, muito antes que a do Rio de Janeiro, 
principiou a ter Casa de Misericórdia, no anno de 1543, como 
seria possível que se fundasse outra similhante aqui, antes de se 
estabelecer e povoar a cidade ?> 

Já o mesmo reparo fizera antes o Tenente de Bombeiros An- 
tónio Duarte Nunes^-no seu Almanach Histórico da Cidade de São 
Sebastião do Rio de Janeiro^ manuscripto (anno de 1799) ofTer^cidO 
ao Instituto Histórico e Qeographico Brasileiro por Josó Pedro 
Werneck Ribeiro de Aguilar e em 1858 impresso no Volume 21 
da Revista do mesmo Instituto. < Sem embargo, diz Duarte 
Nunes, do não corresponder a datado dito alvará (8 de outubro 
de 1605) á do cumpra-se que teve nesta cidade, comtudo devo 
suppôr engano (os gryphos são meus) de quem o lavrou ; porque, 
computando a era da fundação da cidade em 1567, com a do — 
cumpra-se — do alvará de 1630, vem-se a conhecer que são (com 
pouca differença) os sessenta annos da posse que allegam no re* 
querimento e daqui infiro que a crea^ desta casa principiou 
logo depois da fundação da Cidade^ em 1568 ou 1569, porque a 
differença que ha seria a demora que teve o requerimento em 
ir a Lisboa e voltar.» 

Para combater a prioridade do venerável padre Josô de 
Anchieta na fundação do primitivo Hospital de Misericórdia e 
pôr em duvida a opinião de Pizarro, baseada nas de frei Agos- 
tinho de Santa Maria e padre Simão de Vasconcellos, estabelece 
Folix Ferreira hypotheses que não provou. 

Ora diz que o Hospital de Anchieta era differente do que 
a Irmandade da Misericórdia estava construindo (1582); ora 



80 REVISTA DO INSTITUTO HIST(MIIG0 

qao O Jesuíta ià assignal&u oom a nada mais ; ora qne uma casa 
pari^ agasalhar tão grande namero de doentes, oomo trazia a 
osquadra de Baldez, nSo se improvisa de momento, tSo pouco 
se encontra de um dia para outro em uma cidade nascente, 
como era então a nossa, que* transferida da Villa Velha fsio), 
na Praia Vermelha (sic), para o morro do S. Januário ou do 
GastellQ* como passou posteriormente a denominarse, «não 
poderia em quinxe annos, de 15Ô7 a 1582, ter casa particular 
capaz de servir tão promptamente de hospital». 

As considerações que se seguem apoiam os argumentos 
que tenho apresentado para Justificar os enganos em que 
incorreu o pperoso Sr, Feliz Ferreira. Todas as vezes que eram 
fundadas villas e cidades nos domínios portuguezes, institoia-se 
Jogo 1^ Santa Casa de Misericórdia, isto é, a Irmandade ou 
Corpora^o com os fins humanitários estatuídos no oompn>« 
misso da Misericórdia de Lisboa, (ormulados por Frei Miguel 
de Contreiras, Os encarregados da governação, os membros 
dos Concelhos e os homens bons davam-se as mãos para auxiliar 
tão santo instituto. 

Foi o que aconteceu aqui, conforme se deprehende das 
palavras de Gabriel Soares de Souza, quando se refere ã par- 
tida de Mem de Sã em 15Ô8, depois de ter permanecido no Rio 
de Janeiro perto de anno e meio. 

Estabelecida a agremiação, tratavam os membros delia de 
construir a casa ou templo onde podessem celebrar actos re- 
ligiosos. Quando não era isso possível, por falta de recursos, 
recorriam os Irmãos da Misericórdia a templos, capellas ou 
ermidas alheias. 

Ainda tal facto se deu, entre nós: os Jesuítas construíram 
logo no alto do monte a sua capella de pàu a pique (Annaes 
da Bibliotheca Nac. Vol. 19). Alli se celebravam as cere- 
monias do culto offlciaes. Os Jesuítas eram então, exclusiva- 
mente até nomeação do P vigário Matheus Nunes, os únicos 
curas d*alma. Salvador Corroa resolveu levantar um templo a 
S. Sebastião, no morro. As obras pararam com a partida desse 
lo Governador, continuaram depois no seu segundo governo e 
só ficaram terminadas em 1583. Nesse anuo, foram para alli 
trasladados da Cidade Velha os restos de Estado de Sã, que, 



A SANf A CASA DA MISBRIGORDIA 21 

desde 1567, repousavam na capella sita na várzea janto ao hoje 
morro de S. João* 

Não é crível qae os Irmãos da Misericórdia, tendo á miú) a 
pequena egreja dos Jesuítas, atravessassem o mar para ouvir 
missas, ir á desobriga, etc, na vellia ermida de que Í6ra juix 
Francisco Velho. 

Até então não haviam os confrades da Misericórdia podido 
construir o hospital e egreja própria. Ha um acontecimento 
extraordinário— a chegada de Baldez e entiío o Venerável Josô 
de Anchieta estabelece o Hospital de que a Irmandade tomou 
conta. 

Dado o impulso, faltava a egr^a e esta foi levantada em 
seguida a 1582 ; serve de prova o testamento de Diogo Martins 
Mourão ; de sorte que já existia em 1585, quando por aqui 
passou Fernão Cardim. Era tão pequena como a dos Jesuítas, 
pois o auto de S. Sebastião e a prégagão foram Mtos em um 
tablado e em plena rua não longe da praia. 

Tudo isso ó possível e pôde ser provado com factos 
análogos que occorrem nos magistraes trabalhos de Gosta 
Oodolphim — As Mis&ricêrdias ; de Victor Ribeiro — A Santa 
Casa de Misericórdia de Lisboa; de Arthur Vianna — A Miséria 
cordia do Pard^ etc, etc. 

£ os ses&enta annos, dirá o leitor ? Ou a rubrica do rei na 
Provisão de 1605 é mesmo de Felippe III, de Hespanha, ou de 
seu filho e sucoessor. No prim^ro caso* a explicação será ama« 
e, no segundo, outra muito mais evidente e segura* 

E* problema que vou estudar, tendo em mira as pálavraá 
de Duarte Nunes. 






Obedecendo sempre ã mã orientação escolhida, contintia 
Félix Ferreira: « Destruída a aldeia de Gonçalo Coelho pelos in- 
dómitos selvagens, logo que o navegador se ausentou e seguiu 
no cumprimento de sua missão em busca do caminho de Malaca, 
antes de um quarto de século aqui vinha Martim Afbnso abri* 
gar-se na enseada, que por muito tempo lhe conservou o nome 



22 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

onde, segando nos informa o irmão Pêro Lopes de Souza, fez 
constrair dous bergantins de (][uinze bancoa cada um. 

« Meio século depois da primeira fundação^ ó que Mem de Sá 
tentou a segunda na Praia Vermelha (sio), onde se acastelou 
posteriormente (sic) Estacio de Sá. com sua gente para dar repe- 
tidos combates aos ft*ancezcs atô conseguir, afinal, a victoria de 
1564 (sio), seguida da transferencia da povoação e fundação 
offlcial da cidade.» 

Pretende em seguida o chronista da Misericórdia « que de 
todos esses ephemeros povoamentos^ incluindo o da ilha de Ville- 
gagnorij iam ficando residuos em torno da hahia^ de forma que 
antes do melado do século XVI a população, ainda que muito 
disseminada, jã era saffictente para formação de uma nova ca- 
pitania »• 

AUade a algumas sesmarias concedidas pelo donatário 
Martim Affonso e seus loco-tenentes e entro as quaes a da ilha 
Grande, dada ao dezembargador Manoel da Fonseca. Não cita, 
porém, nenhuma delias no interior da bahia do Rio de Janeiro. 
Fala na aldeia de S. Lourenço, concedida muito mais tarde ao 
Ararigboia, bem como na zona de Itaóca e na sesmaria de Garcia 
Ayi^es, em Marapicú, coisas que nada tôm com o assumpto. 
< A' vista desta rápida resenha, prosegue, e não seria difllcil 
addicionar muitos outros exemplos (porque não o fez ?) de aldeia- 
mentos e povoados , prosegue o autor da Memoria, comprehende- 
se perfeitamente que, muito antes da fundação offlcial da cidade 
do Rio de Janeiro era relativamente bastante considerável (?) a 
população fluminense por aquelles tempos e a ponto de rivalisar 
com a do S. Vicente. » 

Cita em seu apoio a carta de Manoel da Nóbrega, a qual já 
provei se referia ao Espirito Santo e não a S. Vicente. « Si em 
1560 o padre Manoel da Nóbrega considerava a capitania de 
S. Vicente (sic) depois do Rio de Janeiro, isto ô, ioferior, como> 
nãoadmittirque, quinze annos antes, pelo menos, não estivessem 
ambas no mesmo pè de igualdade e por conseguinte pudessem 
ambas ter a sua Irmandade da Misericórdia ?. . . Tendo-se fun- 
dado a Misericórdia de Santos em 1543, não poderia fundar-se a 
de S. Sebastião em 1545 ? E' bem possível, atô mesmo por $%mples 
imitação, 1^ 



A SANTA CASA DA AÍISBRICORDIA 23 

Mas easa imitação, observarei, só poderia ser realizada* 
pelo menos, vinte annos depois, isto é, em 1565, quando Estado 
de Sá, com seus 180 companheiros, por ordem régia, lançou os 
alicerces da cidade de S. Sebastião junto ao morro Cara de 
Cão. 

Para combater à opinião de monsenhor Pizarro a propósito 
de Braz Cubas, ítmdador da Misericórdia de Santos (1543), men* 
ciona ainda Félix Ferreira um documento que fornece armas 
exactamente contra suas opiniões anteriores. Esse documento, 
também citado por Azevedo Marques, ó do teor seguinte: 

« D. Jeronymo de Athayde, conde de Athouguia, do Con- 
selho de Sua Magestade, capitão general do Estado do Brazil, 
etc. Faço saber aos que esta previsão virem que os Irmãos da 
Misericórdia da Viila de Santos, capitania de S. Vicente, me 
representaram por sua petição que por não haver na dita villa 
casa separada da Mixericordia celebravam seus offieios divinos na 
Matriz e por ser grande a necessidade que aUi ha de hospital, 
por ser o posto por onde frequenta o commercio de toda a ca- 
pitania, haviam resolvido fazer casa de Misericórdia e hospital, 
mas que por serem todos elles pobres, não podiam concorrer 
com as despezas necessárias para aquellas obras, por cujo re- 
speito me pediam lhes fizesse mercê em nome de Sua Magestade, 
que Deus Guarde, conceder para as ditas obras o dinheiro que 
existe em deposito naquella capitania do pedido que se fez por 
ordem deste governo e tendo em consideração a informação, 
que sobre este particular deu o procurador da Faztnda Real 
deste Estado e constar da certidão da mesma capitania, não 
haver nella mais do que 300$ em deposito, hei por bem de lhe 
conceder de esmola, em nomo de Sua Magestade, 100$ para 
as referidas obras, os quaes se despenderão com assistência 
do procurador da Fazenda e com mandado em forma que se 
passará em virtude desta provisão. Dada na cidade do Sal- 
vador da Bahia de Todos os Santos em 3 de outubro de 1654.» 
Pois si em -Santos as coisas se passavam desse modo, como 
admittlr em 1545 melhores condições para a Misericórdia do Rio 
Janeiro ? Havia também aqui, desde os principies da cidade, a 
corporação beneficente pouco numerosa dando esmolas e 
levando a caridade a dojpicilios d2^ n^cente povoação. 



24 RBVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

ApreteDta-se, repetirei, oocasião extraordinária, a chegada da 
esquadra de Diogo Piores Baldez e os Irmãos da Santa Caia, 
segaindo o exemplo de Josô de Anchieta o ajudam nesia fitina 
e, passada a crise, tomam a si o encargo do estabelocímento 
fundado pslo venerável jesuita. Esse facto tem em seu favor a 
tradição. 

Isto dea-se também no Espirito Santo, onde desde 1551 
existia a Confraria, a mesma que, em 1597, prestava honras 
fanebres ao supradito Anchieta, Aindador do nosso velho Hos- 
pital. 

Sem querer acompanhar o chronista da Misericórdia Flu* 
minense em divagações históricas que não vêm ao caso e para 
provar a incerteza de sua opinião citarei apenas as suas ultimas 
palavras com que parece dar as mãos & palmatória : « Dando 
de barato tudo quanto tenho produzido em defesa da affirmaçã^ 
sustentada pelas petições da nossa Misericórdia, em 1605 e em 
1671, admittindo-se mesmo que a administração deste anno se 
baseasse no que encontrou escripto no requerimento daquelle anno 
e que o escriptor desta solicitação se houvesse enganado^ esse 
engano não podia ser tamanho como quer monsenhor Pixarro, 
flrmando-se no que escreveu ílrei Agostinho de Santa Maria, 
bem como aquelies que o seguiram nos seus insustentáveis argu» 
mentos, esse engano seria quando muito de vinte annos^ podendo 
Ur-se na petição de 1605, em vez de sessenta annoe — quarenta, 
o que remontaria a 1564 (sic), quando Betado de Sã (slc) ainda 
se encastellava na Villa Velha (sic), eto 

E foi para cbegar a tal resultado que o autor da Memoria 
escreveu paginas e paginas deturpando os fkctos históricos 
e enchendo-as de anachronismos imperdoáveis I Essa é a ver* 
dade : ou houve erro na petição e em vez de sessenta deve ler-se 
quarenta annos, ou não está certo o anno do despacho e em vez 
de 1605 seja 1625 : nem isso é caso unioo de engano de datas 
ou de numero de annos. Haja vista o celebre testamento de Joio 
Ramalho, que tanto tem dado de si. 

Comparando a data do alvará (8 de outubro de 1605) com 
08 primeiros Cwnpra-se (1630), António Duarte Nunes suppOe 
talvez houvesse engano de quem lavrou o documento assignado 
pelo Rei. Para deita hypothese formar opinião segura seria 



A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA 25 

mister ter presente a rubrica aathentica ou um fac símile de 
Philippe III de Hespanha e II de Portugal para poder comparar 
com a assignatura régia do documento da Santa Casa. A des- 
peito da maior iiligenciat não me foi possivel encontrar aqui no 
Rio de Janeiro o que tanto desejava e vinha muito de molde (*). 

João Feo, entretanto, cujo nome figura no precitado docu- 
mento, foi, em verdade, do serviço de Philippe III de Hespanha 
(II de Portugal). Fez elle vários alvarás no tempo desse mo- 
narcha, como tive occasião de verificar na precisa coUecção (ma- 
nuscripta) de Leis, constante de 37 volumes e existente no ar- 
chivo do Instituto Histórico Geographicô Brasileiro. 

Feo, porém, serviu também com Philippe IV de Hespanha 
e III de Portugal. Nas Memorias Historico-Genealogicas dos 
Duques Portuguezes do século XIX, de João Carlos Feo de Car- 
doso Castello Branco e Torres e visconde de Sanches Baena, a 
paginas 682, vê-se o referido Feo assignando em 9 de novembro 
de 1626 um alvará com referencia a D. Luiza da Motta Feo, 
viuva de Manoel Lopes Pinto. 

Este João Feo nfto deve ser confundido com João Feo 
Cabral, beneficiado de uma das egrejas de Cintra e proprietário 
do offlcio de aljubeiro do Aljube de Lisboa. Em 1624, estava 
doido, como se infere da pag. 672 das referida*? Memorias Eis- 
toricO'Genealogicas • 



1 Algum tempo depois de escriptas estas linhas regressava da Eu- 
ropa o Sr. Dr. José Carlos Rodrigues. O illustre director do Joimal 
do Commercio e benemérito mordomo lo Hospital da Misericórdia em- 
pre8tou-me,da sua riquíssima collrtcção,var os documentos assignados 
pelos ires Philippes de Castella. Do detido exame comparativo que o 
Sr. Dr. Rodrigues e eu fizemos, chegámos á conclusão: assignatura 
de Philippe 111(1605) do documento da Misericórdia é completamente 
authentica. 

Mais tarde, foi isso corroborado por uma carta oscripta por 
alto funccionario da Torre do Tombo ao meu amigo o Sr. barão de 
Vasconcellos. Este distincto cavalheiro havia enviado p ira Lisboa uma 
copia ou /y*o st miVe que eu havia tirado do livro dos priviltgios da Mi- 
sericórdia. 

\ mais aceitavol explicação dos sessenta annos ê a seguinte: 
muito.^ dos auxiliar. ís de E<tacio de Sá tinham vindo com esto di? São 
Vicmtft. Lá, havi.im sido Irmãos da Misoricor«lia ^\^ Sautoa e, che- 
gados ao Rio d* Janeiro, continuaram a obra do frei Miguel de Con- 
treiras. 

Julgavam-se confrade? de um único instituto, tendo só em vista 
a fandação da 1* Mifdricordia do Brazil, estabeiecida por Brai 
Guhas. 



26 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Não foi mais feliz ainda Felix Ferreira, na argumentado 
apresentada contra as duvidas de Duarte Nunes, isto é, que os ses- 
senta annos da petição dos Irmãos da Misericórdia podiam estar 
certos, porém errada a data 8 de outubro de 1605. Depois de in- 
terpretar os nomes dos signatários dos diversos -^Cumpra^se—^ 
todos posteriores a 1625, assevera F. Ferreira que a letra 
da petição era de Mar ti m de Sá, que governou entre os annos de 
Í607 o Í608 ; sem se lembrar que Martira governou por duas 
vezes o Rio do Janeiro e que poderia ter oscripto om 1625, o que 
Ferreira suppõe ter o filho de Salvador Correia de Sá feito vinte 
annos antes. 

O mesmo acontece com a assignatura do prelado e-^clesias- 
tico Matheus da Costa Aborim. Este exerceu o cargo, como é sa- 
bido, de 2 de outubro de 1607 a 8 de fevereiro de 1629 e podia 
ter posto o seu— cumpra-se— tanto em documento do tempo de 
Philippe III, como de seu filho e successor, que começou a reinar 
em 1621. 

Do exposto, salvo melhor juizo, póde-se concluir: nem Fran- 
cisco Augusto do Sá, nem Felix Ferreira conseguiram tirar ao 
venerável padre José de Anchieta a gloria de ter iniciado a 
creação do velho hospital da Misericórdia. 

Os confrades, pois, desta grande agremiação bem fizeram 
coUooando a estatua do inolvidável jesuita ao lado da de frei 
Miguel de Contreiras, fundador da Misericórdia de Lisboa, no 
vestíbulo do grandioso edificio da praia de Santa Luzia. 



CAPELLA 

Para escrever grande parto do decimo volume do Sancluario 
Mariano, frei Agostinho do Santa Maria mandou de Portugal 
pedir seguras informações a frei Miguel de S. Francisco, natural 
do Rio de Janeiro. Eite religioso, que exercera por três vozes o 
cargo de provincial, havia terminado a incumb«3ncia, quando os 
francezes, em 1711, saqueando esta cidade, invadiram o Con- 
vento de Santo António, destruindo os papeis encontradjs nas 



A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA 27 

differentes cellas. Não desanimou, porém, frei Miguel, que deu 
principio a uma nova Relação e a enviou a seu destino. Dahi se 
infere: tudo quanto relata o autor do Sanctuario é fundado no 
testemunho presencial, e os factos narrados de conformidade com 
a historia e a tradição. 

Descrevendo a capella da Misericórdia, assim se exprime o 
supracitado frei Agostinho :< He a igreja da Misericórdia formosa 
e ricamente adornada e ornada de ricos ornamentos. Tem cinco 
capellas e a maior com um retábulo dourado magestoso e com duas 
oapellas de cada parte ; e tem uma formosa tribuna, aonde nas 
occasiões festivas se expõe o Santíssimo Sacramento e onde está 
o sacrário de onde se administra o Yiatico aos enfermos. Das 
referidas capellas na primeira que âca da parte da Epistola está 
a milagrosa imagem de Nossa Senhora do Soccorro. Esta capella 
e a que lhe fica em parallelo da parte do Evangelho, dedicada a 
S. Thomô ficam no mesmo pavimento do Altar Mór ; porque 
delle se desce por seis degraus para o pavimento do corpo da 
igreja. . • A primeira capella depois da maior e que fica da parte 
da Epistola ò dedicada á Rainha dos Anjos com o titulo de Bom- 
successo.» 

Ainda mais á pag. 105 do 1° livro do Tombo encontra-se 
a escriptura de 6 de abril do 1648, pela qual Manoel Rabello se 
compromettia a fazer os ornatos do altar de S. Martinho, do lado 
do Evangelho e defronte do de Nossa Senhora do Bomsuccesso, de 
oonformidade com os do Altar-Mór. 

Do exposto se concluo: até 1713 não era padroeira da Mise- 
ricórdia a Senhora do Bomsuccesso, ouja imagem nSo ocoupava 
o logar de honra e só foi collocada na antiga egreja muito depois 
desta haver sido construída. 

Refere ainda frei Agostinho de Santa Maria: < Indo de Por- 
tugal para aquelle porto do Rio de Janeiro, no anno do 1637 
ou 38, o padre Miguel da Costa, Presby tero do habito de S. Pedro, 
levou em sua companhia uma imagem de Nossa Senhora, a quem 
havia imposto ou venerava com o titulo de Bomsuccesso ; a qual 
imagem (depois de estar já assente naquella cidade) coUocou na- 
quella egreja (Misericórdia) com licença do Provedor e Irmãos 
daquella casa. E quando o fez (porque estavam as capellas delia 
já occupadas e não teria mais que duas do corpo da egreja) foi na 



28 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

capella e altar de Nossa Senhora de Capacavana aonde esteve 
alguns annos. O mesmo Padre Miguel da Ck>sta, que muito vene- 
rava esta Santíssima Imagem, com os desejos que tinha de que 
fosse servida com toda a veneração e culto, que lhe era devido, 
convocou alguns moradores daquella cidade dos que achou mais 
devotos da Senhora, para que elles a festejassem e servissem 
como mordomos e elle era o Procurador e Thesoureiro. Esses de* 
votos com as suas esmolas e de outros mais que se lhes aggre- 
garam flzeram á Senhora outra capella particular, que ó a que 
fica referida e se vê junto d porta da sacristia e próxima d capéUa 
mór>. 

Interpretando mal as palavras de frei Agostinho, pre- 
tendeu Félix Ferreira, em sua Memoria (pag. 129), fosse a 
Senhora da Ck}pacavana a primitiva padroeira e da nossa Mi^ 
sericordia» 

Do que acima vae referido se concluo que a imagem 
dessa ultima invocação também não occupava logar especial 
e sim um dos altares do corpo da egreja onde foi collocada 
a Senhora do Bomsuccesso. 

Demais, escreveu ainda frei Agostinho de Santa Maria : 
€ Agora como tratamos da casa de Misericórdia do Rio de Ja- 
neiro, aonde a Senhora da Copacavana deu lagar no seu aUar 
á Senhora do Bomsuccesso, ô bem que delia não deixemos de 
fazer memoria ; sem embargo que delia se nos devam muito 
poucas noticias. 

c Do que fica referido no titulo antecedente se vô que no 
altar da Senhora da Copacavana coilocou o Padre Miguel 
da Ckista a imagem de Nossa Senhora do Bomsuccesso ; de 
onde se colhe que logo nos principios daquella casa se coi- 
locou em sua egreja a Imagem da Senhora ; e porque nos 
não referiram nada delia digo o que se me ropresonta e é 
que como a Senhora é tida em todo o Império do Purú por 
um grande proJigio poios contínuos milag^os que continua- 
mento obra niquella sua Sagrada Imagem Peruana, poderia 
bem ser a trouxesse do lá. algum portu^uez como a trazem 
muitos em uns relicários de prata e por ella poderia mandar 
fazer esta Santa Imagem e por sua devoção a coUocarla na- 
quella Egreja. » 



A 8AMTA CASA DA MISERICÓRDIA 29 

O Ikoto do commercio oom o Peru é attestado pelas se- 
cintes palavras de Yarnhagen: € No Rio de Janeiro sabemos 
qae esteva D. Fraacisco de Souza, em outubro de 1598. 
O commercio tomara aqui um prodigioso incremento com a 
sajeiçSo a Castella, que franqueava ao Brazil, por meio do 
Rio da Prata, o trato oom o Peru, de cujas minas vinham 
negociantes por fazendas, que pagavam á vista, por preços 
enormes e só quando aqui as não encontravam iam bus- 
oal-as & Bahia e a Pernambuco... A consulta de 29 de no- 
vembro de 1605 orçava a entrada do que descia pelo Rio da 
Prata para o Brazil em mais de quinhentos mil cru- 
■ados. » 

Tudo isto é perfeitamente comprovado pela carta de Fran- 
cisco Soares, escripta do Rio de Janeiro a um seu irmão, 
em junho de 1596, e impressa em inglez em 1600. Essa mis- 
siva foi por mim vertida para o portuguez e reproduzida no 
Boletim da Associação Gommercial (1904) em uns apontamentos 
meus sobre o antigo commercio do Rio de Janeiro. 

Quando, porém, esse movimento se incrementou, Jà a nossa 
egreja da Misericórdia estava fundada e, si algum devoto da Se- 
nhora da Copacabana collocou a imagem delia no referido san- 
otuario o fez em um altar secundário, repito, e nunca na 
oapella-mór. 

Que a Senhora do Bomsuccesso só começou a ser fes- 
tejada mais tarde, na Misericórdia, prova ainda frei Agos- 
tinho, ílizendo menção da tola commemorativa de um grande 
milagre occorrido em 11 de setembro de 1639, dia em que 
se ceMfrou a primeira festa de Nossa Senhora do Bomsuccesso, 

Esse quadro de pouco merecimento artístico, mas de valor 
histórico, citado em 1713, pelo autor do Sanctuario, desappa- 
receu, ha poucos anno0, da sacristia da Misericórdia. Sobre 
elle escrevi algumas notas, em um dos primeiros números 
á'ÂNúiicia. 

Deixando de parte pormenores narrados pelo supradito 
autor sobre o assumpto, os quaes me levariam longe, filarei 
apenas uma ultima consideração. A Senhora do Bomsuccesso 
tinha a sua confraria de todo independente da Irmandade 
da Miserioordia. 



80 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Eis ainda as palavras de frei Agostiako : « Nosta forma 
continuaram aquelies devotos da Senhora, até vinte de setembro 
deí652, em que^ sendo juiz daquella irmandade da Senhora, Je- 
ronymo Barbalho Bezerra, fez, com os mais Mordomos e Irmãos 
da Senhora, entrega e doação daquella Confraria ao Provedor 
daquella Santa Casa, entregando-lhe também tudo o que a ella 
pertencia, o qual, com os mais Irmãos, por justas causas, accei* 
taram a entrega.» 

Desse accordo existe, si bem me recordo, importante do- 
cumento—a escriptura transcripta no !<> Livro dos Accordãos 
da Santa Casa e cugas paginas, como as de todos os outros livros 
do importante archivo da Misericórdia, pacientemente folheei, 
ha annos, com consentimento do finado provedor, conselheiro 
Paulino de Souza. 

Foi só depois de 1652 que a Irmandade da Misericórdia 
tomou a si 08 bens da Confraria do Bonosuccesso e o encargo de 
celebrar a respectiva festa que so devia realizar na dominga 
infra oclavam da Natividade. 

Entretanto, essa commemoraçâo cahiu por vezes em des« 
uso, e, ení nossos dias, desde 1861 a 1873. Nesse ultimo 
anno, o provedor, conselheiro Zacarias, a restabeleceu e, em 
documento oâ9oial,proclamou de novo a Senhora do Bomsuc- 
cesso padroeira da Misericórdia. Refiro-mo ao discurso por esse 
illustre brazileiro pronunciado por ocoasião do lançamento da 
pedra fundamental do novo templo que tem de ser construído 
ao lado do Hospital Geral, em terreno próximo da Faculdade de 
Medicina. 

Qual, porém, a imagem venerada no altar-mór da primitiva 
egreja da Santa Casa, no magestoso retábulo de que nos fala 
(1713) o padre Agostinho de Santa Maria? Por muito tempo 
tive a vaga opinião de que o logar de honra da primitiva ca- 
pella fora occupado pelo grande painel representando a Senhora 
da Misericórdia, o qual esta na antiga portaria do velho hos- 
pital, hoje sala do banco do consultório de gynecologia, a cargo 
do Sr. Dr. Feijó Júnior. Quando para alli foi removido o velho 
quadro 6 impossível dizer. 

Pela leitura da importantíssima obra do Victor Ribeiro 
(190^) A Santx Casa de Misericórdia de Lisboa, fiquei convencido 



A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA 31 

do que a referida tola da primitiva padroeira ô talvez repro- 
ducQao mais ou menos artística do grande painel de Garcia 
Fernandes, feito em 1534, e que existia no altar-mór do gran- 
dioso templo da Misericórdia daquella cidade, mandado con- 
struir por D. Manoel e concluído por D. Jo&o III. 

Esse templo, como ó sabido^ foi quasi completamente des- 
traido pelo terremoto de 1755. No tempo de Pombal a Miseri- 
córdia passou-se para o templo de S. Roque, antiga casa dos 
jesuítas. Dos restos da egreja do tempo do D. João III tomaram 
conta os Freires de Christo que lhe deram nova invocação. 

A teia da antiga portaria representa o grupo da Senhora da 
Misericórdia abrigando sob as dobras de seu manto : um papa, 
vários prelados, a figura de frei Miguel de Contreiras, um rei, 
uma raiuha, fidalgos e homens do povo. 

Esse grupo figurava também em uma das faces das ban- 
deiras de todas as Misericórdias, as quaes, pelo alvará de 24 
de abril de 1ÔB7, eram obrigadas a seguir o modelo das de 
Lisboa. 

No frontão do novo hospital ostenta-se, magnificamente 
executado, o grande medalhão representando a Senhora da Mi- 
sericórdia, pela maneira acima referida. 

£ com razão, porque foi sob os auspioios desse titulo que os 
fundadores da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro le« 
yantaram de pãu a pique a sua primitiva capella. 



Conforme se concluo da acta de 1» do agosto de 1671, 
sondo Provedor Thomô Corrêa de Alvarenga, a humidade 
e o cupim haviam inutilizado os papeis o primeiros livros da 
Santa Casa. 

E', pois, quasi impossível determinar hoje com segurança 
o anno em que foi construída a primitiva egreja, a qual j4 
existia em 1585, segundo se deprehendo da Narrativa Epistolar 
do jesuita Fernão Cardira. 

Felizmente, porém, da destruição escapou o primeiro livro 
dos Aecordoos (1682-1658), onde se encontra mencioníwlo um 



S2 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

dooamento qae serve para iodirectamente provar o se^ruinte: 
foram alada os companheiros de Bstacio e Mem dé Sá os qae 
levaram a cabo a coastrucgao do modesto sanctaario dedicado 
a Nossa Senhora da Misericardia. 

Reílro-me ao testamento feito em 2^ de setembro de 
1031 por Diogo Martins Mourão, íllho de Duarte Martins Moa- 
riU) e de Jeronyma Fartado e casado com Francisca Serrão de 
Thoar. 

Entre as disposições de altima vontade estão as verbas 
do teor segainte : € Declaro qué sou irmão da Santa Casa da 
Misericórdia, de que foi também meu pae Duarte Martins 
Mourão dos primeiros que ajudaram a faser a egreja conforme o 
tem declarado em seu testamento. Peço ao Provedor da dita 
Casa e mais irmãos da mesma me enterrem como irmão que 
sou da dita Santa Casa á qual deixo para o Hospital dez 
mH réis. 

€ Deixo em capella á Egreja da Misericórdia dois lances de 
casas de sobrado com suas lojas e qaintaes que flcão á face da rua 
Direita para a banda do poço, eto. Declaro que afora das ditas 
casas qae deixo em capella âoa outro lanço de casas pare^les em 
meio de sobrado e lojas com seu quintal defronte da porta tra* 
vessa da Misericórdia que fieão ã parte de minha mulher Fran- 
cisca Serrão de Thoar emqoanto fizer nellas moradia como suas 
que são.» 

Abrindo aqui um parenthesis, é bom declarar que Diogo 
Martins não foi sepultado na Misericórdia, de ciga irmandade 
pedia apenas os suffragios e acompanhamento ; mas sim no 
Convento de Santo António. 

Prova-se isto com outra verba do supradito testamento, na 
qual «pede ser sepultado no templo dos Franciscanos, na ca- 
pella-mórdas grades, para dentro, na cova de D. Margarida 
mnlher que foi de Constantino de Menelau^ deftmto — «a qual 
tova me concedeu o Rvdmo. Padre Custodio — Frei António 
dos Anjos a mim e a minha mulher Francisca Serrão de Thoar 
como se vô das letras escriptas na campa que está sobre a 
sepultura». 

Dahi se vê que a mulher do governador Menelau fallecen 
o foi sepultada no Rio de Janeiro e obamavanie Margarida; que 



A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA 33 

]á, om 1631 era fallocido o povoador de Cabo Frio. (Governou 
o Rio do Janeiro de 1613 a ]617.) 

Mas qaem era esse Duarte Martins Mourão, cujo filho se 
orgulhava de ter por progenitor um dos fundadores da pri- 
mitiva capella da Misericórdia? Por duas vezes ó o nome de 
Mourão citado por frei Vicente do Salvador» na sim Historia 
do Brazil: a primeira entre as pessoas que da Bahia aoonKpa- 
nharam Estacio de S& ao Rio de Janeiro, taes como o ouvidor 
geral Braz Fragoso, Paulo Dias Adorno, oommendador de 
Santiago, Melchior de Azeredo, António da Costa, Chdstovão de 
Aguiar, Domingos Fernandes. A segunda, a propósito do Ara- 
rigboia, quando este em sua aldeia (1568) foi atacado pelos 
Francezes e Tamoyos. 

« A este vinhão os Tamoyos ajudados dos Francezes sal- 
tear e prender, para fazerem em sua terra hum solemne ban- 
quete de saas carnes, segundo elles o mandarão por hum men- 
sageiro dizer ao capitão-mór Salvador Corrêa de Sá, o qual 
temeroso que tomada a aldeia tornassem para a cidade a for- 
tificou muito ã pressa e mandou aos moradores e soldados que 
estivessem em armas e não menos solicito da saúde do Índio 
amigo lhe mandou logo soccorro de gente Portugueza, ainda 
que pouca, animosa e governada, por Duarte Martins Mourão, 
seu capitão.» 

Em 2 de novembro de 1566 obtinha Duarte Mourão 600 
braças ao longo da agua e 800 para o sertão em Magé. Em 14 de 
janeiro de 1572, com Domingos Mourâo e Estevão de FigueiredOt 
6.000 braças no rio Acaramandahyba, da banda de cima. Em 
6 de agosto de 1590, terra de praia de Taipú até á lagôa de Ma- 
ricá, 3.0Q0 de costa e 4.500 para o sertão. Em 10 de novembro 
do mesmo anuo, sobejos na praia e costa do mar entre a la- 
gôa e Maricá. Finalmente, em 23 de janeiro de 1602, terras e 
campos no Cabo Frio. Tudo consta da Relação das Sesmarias 
{Manuscripto do Archivo do Instituto Histórico e impresso 
no tomo 63^ parte í», da Revista Trimensal do mesmo Ins- 
tituto). 

Sendo homem importante do tempo, não á diffloil snppõr 
fizesse parte Martins Mourão das primeiras administrações 
da Misericórdia e fosse com seus companheiros de lutas, 

491—3 Tomo lxix. p, i. 



34 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

povoadores todos do Rio de Janeiro, cooperador de Anchieta na 
caridosa e elevada missão de erguer o relho hospital e a an- 
tiga egreja« 

Eâta, no correr de tantos annos, tem soffrido varias mo- 
dificações. Conforme o acoordão de 8 de julho de 1697, quando 
provedor Manoel de Barros Araújo, achando-se completamente 
perdida a cobertura, contraeton-fle um novo madeiramento por 
500$, 86 a parte da carpintaria, correndo a expensas da Casa 
a obra de pedreiro. 

Por aeeordâo de 9 de janeiro de 1705, ílcou resolvida a re- 
eonstme^ do templo, dando-se-lhe maior largura. Em 1708, es- 
tavam as obras concluídas, conservando, porém, a capella-mór as 
suas antigas e acanhadas proporções. Depois da ultima recon- 
stmcçâo, ficou a egreja, por mais de quinze annos, com as pa- 
redes rebocadas, sem pintura, e o altar-mór com um throno de 
taboas, cobertas por velludilho, até que, em 1725, se tratou 
com um entalhador novo throno e mais obras de talha, por 
3.000 crusados, recebendo logo o artista 1.000, por conta. Con- 
cluídas as obras, s^nstou-se a pintura e douramento de toda 
a egreja com Francisco Mauoel de Moraes, por 750$000. 

Bm 1733, foi também substituído o altar-mór por outro 
novo da provedoria do Dr. Manoel Correia Vasqoes, que ajustou 
a*esculptnra com o entalhador Bernardo Machado, por 4d0$000. 
Em 3 de agosto de 1818, reuntu-se a Mesa e Junta, sob a 
presidência do Provedor Tenente-Coronel Joaquim Ribeiro de 
Almeida (por alcunha o Padre Eterno) e deliberaram: <á vista 
do estado de mina em que se achava a Capella Mór e o perigo 
q«e oflTereoia, a n&o se lhe fazer algum reparo e á, vista do es- 
tado de finanças em que se achava a Casa, Já pela grande di- 
vida do Real Erário, já por falta de legados para esse fim», que 
se tratasse da reedificando da mesma capella-mór, por meio de 
esmolas dos irmãos e bemfeitores. 

Em 11 de outubro seguinte, foi approvado o plano apre- 
sentado A Mesa e autori2on-se o Thesoureiro a mandar demolir 
a obra velha e dar começo *á nova, que flcou concluída em 
18S0, com muito bom effeito architectonico ; pois nao só se deu 
maior altura ao âmbito, como se rasgou uma clarabóia coroada 
por um peqaoio Slmborio. 



A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA 35 

Manda a verdade declarar : estefl ultimos apontamentos 
cDja veracidade coníéri com os livros da Misericórdia, são ex- 
trahidos de umas pagrinas impressas da continuação da Memoria 
de Félix Ferreira, as qnaes me foram dadas pelo illostrado Dr. 
Pires de Almeida. Elias, poróm, não foram incorporadas â obra 
do finado escriptor, sendo, por isso, inteiramente desconhecidas. 

A Egrei^k da Misericórdia tem passado por importantes re- 
formas nsus Provedorias de José Clemente Pereira, Zacarias, Co- 
tegipe e Panlino de Souza. Tudo isso consta dos respectivos re- 
latórios. 

Ultimamente, o templo passou por grandes melhoramentos, 
graças A iniciativa da actual adminiijtração. 

Em 1623, existia por traz da Kgreja da Misericórdia um 
becoo que estava em matto sem sahida e sem se usar delle. Og 
Vereadores daquelle anno, Diogo Lopes Pegado, Francisco da 
Costa Homem, Francisco de Siqueira e Francisco Fernandes Que- 
vedo cederam á Santa Casa essa via publica, a titulo de esmola. 

Em uma petição dirigida ao Conselho, allegara a Irman- 
dade «ter necessidade de alargar a cerca e muro para augmento 
do cemitério ; pois já não tinha logar para enterrar os mortos, o 
que não podia fazer sem ficar dentro um becco sem sahida que 
existia entre o muro da Santa Casa junto dos chãos que foram 
de Amaro Affonso, o qual becco ficava em meio e de cujos chãos 
ella Misericórdia havia já comprado seis braças para o referido 
fim »• 

Outro becco separava a egrcja do quarteirão, hoje oo- 
cupado pela Faculdade de Medicina (antigo Recolhimento). Para 
este logradouro dava a porta travessa do templo. Nas alludidas 
paginas impressas, pretende Félix Ferreira que tal becco deeap- 
parecera em 1708. Essa opinião ó nuUiflcada pelos trechos de 
duas escripturas constantes dos livros da Misericórdia: a pri- 
meira de 1715, pela qual consta que a Santa Casa comprou a 
Francisco da Silva Costa e sua mulher Sebastiana Antunes cinco 
braças de chãos na travessa que vae da porta da Misericórdia 
para Santa Luxia defronte da porta travessa daquella egreja. 
Bsses chãos tinham vindo aos possuidores por escriptura de dote 
de seu sogro João Gomes Sardinha, os quaes partiam na dita 
travessa com chãos de D. Maria de Mariz. 



36 REVISTA DO INSTITUTO HIíátORICO 

A seguQda escriptura de 1716, pela qual a Santa Casa com- 
prou a Clirístovâo de Almeida Corrêa seis braças de chãos de 
testada, silos em uma ilharga da Sanla Casa com a rua em meiOf 
1'ronleiras d capella do Apostolo S. T/tomá— quo as comprou a 
Francisco da Silva Costa e sua mulher Sebastiana Antunes, por 
oscriptura feita na villa de Santo António de Sá. Partem de 
uma bania com chãos que foram de D. Maria de Mariz, ao pé da 
dita Santa Casa e pela outra fazem canto. 

Convém não confundir esses terrenos de D. Maria de Mariz 
com os que outra de ogual nome legou á Santa Casa, no canto do 
becco da Musica, onde foi levantado o sobrado, ora em Tia do 
demolição. 

No quarteirão occapatlo hoje pela Faculdade de Medicina 
existiam cm 1631 a casa de residência do S-.vrgento-Mór João 
Dantas, a logaia pelo Padro Bartbolomeu de Oliveira ã Sanla 
Casa e outra deixada por esto sacerdote ao Prelado Aborim, o 
qual, por sua vez, a deixou ã Misericórdia. Preciso é nSo con- 
fundir este sacerdote com o padre Bartholomeu de Franca, que, 
em 173S, logou casas fronteiras ao Hospital. 

Estas ultimas davam fundos para os qaintaes das casas de 
Lopo Gago da Camará, Domingos Gomes e Manoel Nunes Fayal, 
sitas em outra travessa, mais tarde chamada do Recolhimento. 

Tudo isso vem a propósito para dar ligeira idéa dessa an- 
tiga zona da cidade, cuja topographia, dífflcil do fazer-so pela 
deficiência de muitos documentos, não deixa de ser curiosa. 



o HOSPiTAL V£LHO 

Para se ter suffleiente idéa do que, ainda na primeira me- 
tade do século passado, era o antigo Hospital da Misericórdia, 
existem felizmente dois documentos: o relatório apresentado em 
1830 á primeira Camará Municipal e a Planta Topographica 
levantada, em 13:^9, pelo tâuente-coronel do engenheiros Do- 
mingos Monteiro. 

Etn virtude do art. 56 da Carta da Lei de 1 de outubro de 
1828, a qual reformou as nossas antigas Municipalidades, a 



A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA 37 

Cí>mara do Rio de Janeiro nomeou os cidadãos: João Silveira do 
Pilar, José Martins da Cruz Jobim, António Ildefonso Gomes, 
João Pedro da Silva Ferraz, António Ribeiro Fernandes Fortes, 
Gypriano José de Almeida e José Augusto Ce«ar de Menezes 
para formarem a Commús(!ro destinada a visitar as pris(!ies civis, 
militares e ecclesíasticas, os cárceres dos conventos dos Regu- 
lares e todos os estabelecimentos públicos de caridade. 

Dando cabal cumprimento a essa missão, os nomeados apre- 
sentaram extenso relatório, do qual destacarei os principaes 
topleos, oom referencia á Santa Casa: « O hospital da Miseri- 
córdia, situado junto ao mar, nas fraldas de uma montanha, e 
exposto a toda a violência das variações e transportes do ar, 
que são próprios dos paizes marítimos, occupa uma das posi- 
ções mais insalubres desta cidade : a humidade, causa de innu- 
merams moléstias, deve ser alli excessiva, por ficar o estabe- 
lecimento pouco elevado do nivel do mar, porque deve receber 
deste um ar mais saturado do vapor aquoso, porque, final- 
mente» ficando junto de uma montanha, recebe as oxhalações 
de vapor, que esta transmitto continuamente & atmosphera, 
além do flue a experiência tem mostrado, ao menos na Europa, 
a respeito de todos os estabele8imentos, onde ha grande ajunta- 
mento de homens, situados em legares expostos a uma venti- 
lação excessiva e desegual, como são o cimo da montanha c o 
logar em que se acha o hospital, por ciusa das variações 
diárias queelles são sigeitos á grande mortalidade. 

« A commissão, porém, ainda relevaria a má situação deste 
estabelecimento, si outras coisas contribuíssem para contraba- 
lançar 08 males que delia procederão; infelizmente, nada vimos 
digno de louvor, nada de que é indispensável para um bom 
hospital : tudo ô mesquinho, tudo indica uma ignorância abeo- 
luta da hyglene daquellas casas: ventilação, asseio, commodi- 
dade para o tratamento o distracção dos doentes, tudo, emfim, 
se teve em pouca conta na construcção daqueile miserável 
edificio, feito aos pedaços, desde o seu principio, á medida que o 
exigia o accresoimo da população. 

< Aconteceu-lhe o mesmo que a essas grandes cidades que 
attestam a imprevidência humana ou o poueo apreço em quo se 
(em as gerações Alturas : para qualquer parte que sò volte, não 



38 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

se encontra nelle nada qae agrade» nada do que ó dictado pelas 
mais simples regras de hygiene : o payimento inferior está 
quasi ao ni^ei do terreno circumyisinho ; ô por isso muito hú- 
mido, quando era necessário que o soalho tivesse alguns palmos 
de elevado e que por baixo pudesse circular algum ar, em al- 
gumas partes, sendo simplesmente ladrilhado, o tijolo repousa 
immediatamente sobre a terra e transraitte toda a sua humi- 
dade. 

< Neste payimento estfio yarias enfermarias : a dos doidos» 
a dos invalides e doas de cirurgia. Nestas ultimas é tal a aceumu- 
lacão dos doentes e a fiJta de circulação do ar que os enfer- 
meiros asseguram que durante a noite lhes é penoso entrar 
nellas o que sfto obrigados a abrir as Janellas, preferindo expor 
aquellos desgraçados ao ar nocivo da noite, a deizal-KM perecer 
abafados. 

< A primeira destas salas tem de comprimento 11 braças, de 
largura 4 Vt* ^ P^ qnando muito de altura e contém 88 camaa 
efléctivas. Ora, sendo o preceito dado por Tenon e oonfirmado 
por todos os autores que têm esoripto sobre hygiene dos hospi- 
taes, que uma sala com 13 toezas de oomprimento, 4 de lar- 
gura e 14 pés de altura, não deve conter mais de 18 doentes, 
segue-se que esta só pôde oonter 9 ou um terço, pouoo mais 
ou menos, dos que contém. Adverte-se que algumas Teses ella 
contém 40. 

« Mette-se um angulo escuro onde estão 8 doentes e segue-eo 
outra enfermaria com 14 braças de oomprimento, 4 de largura, 
oomprehendido o espaço ocoupado por uma parede do meio, 
damo5-lhQ 14 pés de altura que de certo não tem. Segundo o 
mosmo preceito, ella não pôde conter mais de 26 doentes e 
contém 65 effecti vos . 

< Bsta sala é, demais, um subterrâneo abaixo do terreno 
que flca ao lado do morro e só tem janellas da parte opposta 
ao Norte. Segue-se a casa dos inválidos: é um pequeno telheiro, 
conhecido no hospital pelo nome de galUnheiro^ no qual chove 
por todos os 1 idos e que não pôde servir para residência de vi* 
vente algum. 

« B* aqui que vimos penetrados do maior horror 17 doentes 
oondemnados a solfrer até 4 morte e quem poderá orer que é 



A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA 39 

no Rio éb Janeiro, na Capital do Brazii, que se encontram seme. 
Ihantes misérias t Mas ainda nio é tudo: no mesmo pavimento 
eetfto 09 doidos quasi todos juntos em uma sala, a que chamam 
madrez^ por onde passa um cano, que conduz as immundicies 
jàa hospital. Aqai vimos uma ordem do tarimbas sobre que 
dormem aquelles miseráveis, sem mais nada do que algum 
colchão podre, algum lençol e travesseiro de aspecto hediondo ; 
também vimos um tronco, que é o único meio que ha de conter 
00 furiosos, resto desses tempos bárbaros de que a medicina se . 
envergonha hoje, quando se procurava conter os que tinham a 
daegraga de perder a razSo com os azorragues e toda sorte 
de martyrios. Ha alguns quartos em que mettem os mais 
furiosos em um tronco commum deitados no chão onde passam 
os dias e as noites, debatendo-ee contra o tronco e soalho, no 
que se ferem todos, quando ainda não vem outro, que com elles 
esteja e que os maltrate horrivelmente com pancadas. 

« Nas enfermarias de medicina encontra-se uma primeira 
sala, onde o ar não pôde circular, porque só de um lado tem 
janeUas abertas e no que fica em face ha três que se conservam 
Cachadas para livrar os quartos oontiguos da infeccibo da sala. 

€ Da parte da entrada não pôde vir sinão um ar corrompido 
peias enCarmarias visinhas. Do lado opposto não ha uma só 
Janelia, mas duas espécies de ^vemas onde apenas penetra 
alf um ar e luz e que servem também para gente doente. 

< Segue-se a grande enfermaria, oonstrulda a angulo recto 
sobre a primeira, eUa lhe truismitte por meio de uma grande 
porta de communicação todo o ar que jã serviu para mais de 
eem doentes e que vae de novo alimentar o de 30 a 50 que 
eetio da maneira que dlMemos. Algumas janellas das que estão 
do lado do náar ainda se fecharam ató o meio com um telheiro 
em que estão as catacumbas. 

€ As camas teem entre si uma distancia de quatro a seis 
palmos e no intervallode cada uma se fizeram nichos na parede 
para guardar os vasos de precisão doe doentes e que são outros 
tantos focos de infecção para toda a sala, quando era indispen- 
sável que se fizesse uma latrina para todos os que tivessem forças 
suffieientes para lã irem e que só os impossibilitados tivessem 
junto de si os vasos necessários hermeticamente feshados» 



40 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

€ Esta latrina deverá ser ocmstraida segando o methodo de 
Darcet e se poderá aproveitar para estabelecer a corrente de ar 
no tubo de appaliacao a chaminé da cozinha, que âea ao pé desta 
enfermaria. 

« As camas são de páu, quando deveriam ser de ferro por 
oansji dos insectos, porque elle ó de duração perpetua e porque 
não transmitte com o páu os principies miasmaticos ezhalados 
pelos doentes. A roupa da cama pareceu-nos pouco acseiada, mas 
os mesmos doentes nos pareceram menos asseiados. Os colchões 
e os travesseiros, dizem que servem de doente a doente até que 
se corrompam do todo. As camas, estando tão unidas que quasi 
que se tocam em algumas partes, não teem cortinados, trastes 
desconhecidos no Hospital e que consolo para um desgraçado 
doente estar vendo expirar ao pé de si o pobre companheiro, com 
quem, ha pouco, conversava 1 Não nos animamos a proseguir 
com receio de fatigaj» a vossa paciência. 

« No resto do ediâcio tudo está pouco mais ou menos da 
mesma sorte e o serviço interior corresponde a estas misérias pa- 
tentes. Nada alli vimos do que é necessário para a salubridade de 
um bom hospital : enfermarias comprimidas, a maior parte sem 
ser forradas, janellas em cima muito distantes, salas sem venti- 
lação alguma, como por exemplo a chamada do axou^e que não 
pede servir para ente que respire, latrinas de construção tal, 
que infeccionam os legares circumvisinhos, um cano que empesta 
quasi todo o Hospital e conduz também as immundicies do Hos- 
pital Militar e com tudo isso ha de mais um cemitério ao pé dos 
doentes, no qual se enterram todos os dias para cima de vinte 
cadáveres quasi á íiôr da terra, por não ser possível aproAindar-se 
muito ; com um poço que não devia servir nem para lavar 
roupa e que se acha em íogar que j& serviu também de cemitério. 
Domais não ha agua dentro do estabelecimento. Não ha uma 
casado banhos, não ha recreio algum para os convalescentes. 

«Finalmente, os construotores de semelhante casa parece que 
tiveram em vista a opinião paradoxal de Arthur Young que, por 
motivos de economia politica, pretendia que aquellas casas 
devem ser um objecto de horror para o povo, aftm de diminuir 
o mais possível o numero de infelizes que tentasse recorrer a 
ellas nas suas moléstias ! 



A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA 41 

< Assim dizia o economista : € Tornae o povo mais pre- 
vidente e diminuireis o numero de vadios. Mas oh ! delir io 
humano, o que poderá reservar para as suas precisões extra- 
ordinárias um desgraçado trabalhador que apenas ganha para 
sustentar-se a si e a sua familia ? E a socic<iade que recebe o 
beneficio desse trabalho ha de abandonai- o a todos os horrores 
da miséria ? 

< Façam leis severas contida os vadios, nóa o reclamamos em 
beneficio da nossa pátria e do hospital que os trata em grande 
numero nesta cidade, mas tenhamos um Estabeleoimento, que 
é indispensável e que não sirva para vergonha nossa aos olhos 
de todo o mundo. » 






Conforme roza a tradição, os terrenos cm que foram con- 
struídos o velho hospital e a egreja da Misericórdia perten- 
ceram a um particular, que os cedeu por esmola para fun- 
dação da Santa Casa. 

Sou do opinião, salvo melhor juizo, que esse primeiro 
protector, suggestionado talvez pelo venerável Anchieta, fosse 
Gonçalo Gonçalves — o velho — , assim chamado para se diíTe- 
renciar de outro de igual nome, também mais tarde bemfeitor 
da Misericórdia. O retrato deste e de sua mulher figuram em 
um dos oorredores do Hospital Novo. 

Que Gonçalo Gonçalves, o velho, possuía grande zona de 
terreno no sopó do antigo morro da Só ou de S. Sebastião 
(Castello) e por onie foi aberta a rua outr*ora Direita e hoje da 
Misericórdia, não ha menor duvida. * 

Em seu testamento, feito em 20 de outubro de 1620, le- 
gava elle á Santa Casa o restante de soas propriedades •— 
casas de pedra e cal e terrenos que iam á praia, situados no 
lado impar daquella rua e as quaes ainda fazem parte do pa- 
trimónio da Misericórdia. Estavam situados em frente da 
pedreira que ainda hoje pôde ser vista nos fundos dos prédios 
116 a 128 da mencionada rua. 

Demais, como é sabido, no segundo governo de Salvador 
Corroa de Sá (1592), vieram a esta cidade, com o intuito de 



42 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

fundar convento, os pa4r68 capuchos frei António doi Mar- 
tyres e frei António das Chagas. O governador deu-lhei a es- 
colha de differontes localidades ; mas aquelles religiosos se ooii- 
tentaram com a ermida de Santa Luzia, situada em logar di- 
verso da actual egreja desta santa e mais nas proximidades da 
Misericórdia. 

De accordo com o prelado ecclesiastico Bartholomeu Si- 
mOes Pereira, os confrades de Santa Luzia resolveram ceder 
aos franciscanos não só a capelia como também os bens patri- 
moniaes a esta pertencentes. 

Além disso, obtiveram os religiosos para sua clausura ê r#- 
colhimento (diz a escriptura de 28 de fevereiíD de 1592, lavrada 
pelo tabellião Pedro da Costa) c todo o chão que ha, começando 
de uma cruz que está antes da dita ermida (Santa Luzia), vindo 
pelo caminho debaixo e partindo com os chãos de Gonçalo Gon^ 
çalves e dahi irão correndo ao longo da cerca dos padres da 
companhia ató o forte já dito que está abaixo da Sé, deixando á 
mão direita o caminho e rua publica e do dito baluarte irfto 
correndo pelo trasto desta cida^le, partindo com elle pela banda 
de baixo atô os chãos de Anna Barroso e dahi rumo directo ao 
mar ficando sempre o caminho livre e serventia pela praia ao 
longo e irão correndo atô dar com o chão do dito Gonçalo Gon- 
çalves pela parte do mar e dahi irão correndo direito A cruz 
donde começamos a demarcação, etc., etc.» 

Ejse documento, reproduzido no Arohivo Municipal, anno 
1894, pags. 52-54, está assignado por Salvador Corrêa, o 
administrador ecclesiastico, André de Leão, J<mU) de Bastos, 
Estevão de Araújo, Pedro Gonçalves, Domingos Machado, Julião 
Rangel, Gonçalo de Aguiar, Álvaro Fernandes, Bartholomeu 
Vaz, Thomé de Alvarenga, Gonçalo Gonçalves, Álvaro Pemandes 
Teixeira, Pedro Gomes, João Dias, Bartholomeu Peres Ferreira, 
Manoel do Brito, Manoel de Torres, cujos nomes figuram tam- 
bém nos antigos livros da Misericórdia. 

Em 20 de íovereiro de 1607, chegou ao Rio de Janeiro o cus- 
todio dos Franciscanos Frei Leonardo de Jesus, trazendo em 
sua companhia, além de outros, o muito conhecido Frei Vicente 
de Salvador, que escreveu a sua HiHoria do Brazil^ publicada 
pela Blbliotheca Nacional (1889). Frei Leoniurdo e mui 



A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA 43 

companheiros foram hospedados nas proximidades da Miseri- 
córdia, em casa de Pedro AfTonsOf por traz do Hospital, 
propriedades que, como já ylmos, a Misercordia comprou, mais 
tarde, a Amaro AíTonso, herdeiro de Pedro AíTonso. 

Frei Leonardo não achou, porém, conveniente o sitio de 
Santa Luzia, doado em 1592 e acceitou,de accôrdo com o Gover- 
nador Martim de Sá, outro logar qu« se chamava então o outeiro 
do Carmo (hoje morro de Santo António), defronte da várzea e 
bairro de Nossa Senhora e a cavalleiro de uma antiga lagoa, 
onde o pae de Philippe Fernandes tinha o seu cortume. Aquello 
outeiro havia sido doado aos Carmelitas, que delle não se qui- 
zeram utilizar. 

Feita a competente escriptura em O de abril, diz Jaboatão,e 
tomada posse do logar, os Religiosos que ató então assistiam em 
a Santa Casa da Misericórdia, logo na seguinte segunda^feira, dia 
de Nossa Senhora dos Prazeres (25 de abril), se passavam para 
sua nova residência, elevando um hospício próximo ao logar em 
que está, hoje, a Imprensa Nacional. 

Dizem os chronifltas que Frei Leonardo do Jesus se desgostara 
do sitio de Santa Luzia pela vizinhança dos Padres da Com- 
panhia de Jesus. E' mais provável que aquelle Religioso cedesse 
ás insinuações do Governador Martim de Sá, então Provedor da 
Misericórdia, o qual mostrara a Frei Leonardo a necessidade 
que tinha a Santa Casa dos terrenos para ampliar a área do pri- 
mitivo hospital e o cemitério que lhe ficava próximo. 

Mas, perguntará o leitor, a contiguidade dos terrenos per- 
tencentes a Gonçalo Gonçalves, os quaes começavam na rua 
da Misericórdia, era cortada pela ladeira do Collegio? Não. 
A primitiva ladeira tinha outra direcção, feita por Mem de Sá, 
e calçada em 1620; terminava na rua, hoje, da Misericórdia, 
quasi em frente dos prédios 109 e 113 da numeração actual. 
Quem noi-o af&rma é o vice-rei conde da Cunha, successor de 
Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadelia. 

Quando aquelle vice-rei peiiu e obteve da metrópole a mu- 
dança da residência das casas da praça do Carmo (hoje Repar- 
tição dos Telegraphos e antes Palácio Imporia!) para o Collegio 
dos Jesuítas, deu nova dii*acção á antiga e primitiva ladeira. 

Na carta dirigida, em 8 de março de 1767, pelo vice-rei conda 



44 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

da Cuaha ao ministro FraDcLsco Xavier d3 Mendonça Furtado, 
leio: ta esta régia casa paz nomo de Palácio de S. Sebastião por 
concorrerem muitos motivos para dever ter este grande nomo. 
Fica-s0 trabalhando em um caminho novo para sua serventia ; 
porque o que até agora teve sendo feito para redes e não para car- 
ruagens de rodas ora excessivamente áspero por íngreme e n&o 
tinha romcdio por não ter terreno para onde se pudesse pro- 
longar e suavísar, também por estreito era incapaz, porgue nâo 
cabia por elle mais que uma sege e com aperto, tendo d parte 
do mar o despenhadeiro, que 6 horroroso, e pela da terra o monte 
do Castdllo, que se nâo podia cortar, por ser altíssimo e a prumo 
sobre o mesmo caminho. O novo se faz pela Misericórdia que será 
muito suave e com largura bastante para se poder desemba- 
raçar as carruagens, etc. {Códice do Archivo do Jnst. Histórico 
e Geo. Brás, Correspondência dos vice- reis 1763 — Í777,) 

Não sei como conseguiria o condo da Cunha fazer subir 
carros na hoje ainda muito Íngreme ladeira da Misericórdia, 

Seu sucoessor, o conde de Azambuja, porém, preferira con- 
tinuar a residir na nntiga casa da Praça, indicando & metrópole 
o CoUegio dos Jesuítas para ahi ser estabelecido o Hospital 
Militar. 

Entre outras razões escrevia quo a nova ladeira era de tão 
difflcil accesso quo para se ir ao alto — de paquebote — era 
necessário amarrar-lhe as rodas com cordas ! 

Foi nesse ponto occupado pelo aterro da ladeira nova que, 
a mou ver, foi levantado o primeiro hospital, grande galpão 
de taipa do mão, coberto de sapo feito ás pressas para ac- 
commodar os marinheiros enfermos da esquadra de Diogo Flores 
Valdez. 

Nas proximidaiJes do morro, tendo casa pela parto poste- 
rior, apresentava fi*ente voltada para a praia ou antes para 
o antigo forte (depois de Santiago e ora Arsenal de Guerra). 

Além de um lanço quo ainda hoje existe junto ao edifício 
antigo, é a minha opinião justificada pelo documeuto seguinte 
que encontrei no livro dos Accórdãos( 1622-1658). Ref!ro-me ães- 
criptura de 14 de agosto de 1626, pela qual a Misericórdia com- 
prou, -a Francisco Fernandes, chãos partindo com casas que foram 
de João Gomes Sardinha, que partem com esta Santa Casa de 



A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA 45 

uma banda e da outra fazendo canto de rua com a ladeira 
e calçada que vae para o Gollegío e por trás com as casas que 
foram de Amaro Affonso e diversos herdeiros, os quacs, ora são 
da Santa Casa. Os prédios, parto do hospital, de João Gomes 
SarJinha, haviam sido pela Misericórdia permutados com outros 
legados por Gonçalo d' Aguiar. Essas permutas e compras foram 
feitas no tempo da Provedoria do Prelado Ecclesiastico Ma- 
theus da Gosta Moreira, também bemfeítor da Misericórdia. 

Félix Ferreira, na sua Memoria, diz vagamente que o padre 
Aborim emprehondeu grandes obras para ampliar o velho 
hospital. Que o administrador ecclesiastico ora amante de con- 
strucQÕes temos a prova em uma petição dirigida ao Conselho 
Municipal e existente em um dos livros do antigo Senado da 
Gamara. 

Diz Simão Pires, pedreiro, que tem cem braças de 
terra no districto da Carioca, por uma carta de aforamento 
da Gamara qao ora apresentava e porque elie snpplicante 
não tem possibilidades para nellas fazer bemfeitorias neces- 
sárias 03 queria passar ao Senhor Administrador padre Ma- 
theus da Costa Aborim por lhe serem muito necessárias em 
razão de terem feito nellas ambos uma olaria para se fazer ti- 
jolo e telhas para muitas obras que o dito senhor queria fazer 
e fasta nesta cidade^ pedia houvessem por bem lhe darem li- 
cença para traspassar ao dito Matheus e darem-lhe nova carta 
com as originaes obrigações — Daspacho — Qao pagando o 
foro que pagava Simão Pires lhe farião aforamento para pre- 
fazer o tempo qae faltava ao dito Simão Pires da quantia de 
dois novos annos declarados e nomeados na primeira carta que 
o ditoSímáo Pires teve de aforamento desta Gamara. ~ 'Em 
29 de outubro de 1611. 

Antes de, succiotamente, descrever as condições topogra- 
pbicas do velho hospital, no primeiro quartel do século jpassado, 
algo dlret acerca das suas visinhanças. 

Situando no pequeno largo que tomou o nome de Mise- 
ricórdia, tendo em frente a terminação da Ladeira Nova, a 
antiga casa de caridade estava contígua ã cgreja e em seguida 
a esta corria a flrontaria do ediâcio do Recolhimento das Orphãs 
(hoje Escola de Medicina). 



46 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Neste ponto desembocava o Becco dos Tambores, cortando 
em angulo quasi recto o becco do Calabouço, em cujo Am ficava, 
até 1835, a antiga entrada da Casa do Trem, depois Arsenal de 
Guerra. Este becco (do Calabouço) não era mais que o prolon- 
gamento da antiga rua Direita, da Misericórdia para S. Bento. 
Do lado opposto do hospitat abria-se o Bec^co do Trem e junto a 
este viase a Casa dos Expostos, construída em 1821 (hoje Biblio- 
theca da Faculdade de Medicina). 

E' de notar que não havia o angulo hoje existente no edificio 
do Arsenal. O local occupado por um janpo do quartel de arti- 
lharia, foi demolido, quando ministro da guerra José Clemente 
Pereira, de sorto que o becco do Calabouço principiava junto do 
becco do Trem, em frente à portaria do Recolhimento, piesente. 
mente occupada pela casa do porteiro da Escola de Medicina. 

Quem quizesse passar do largo da Misericórdia para Santa 
Luzia tinha dous caminhos a seguir : pelo becco do Calabouço 
dobrava o becco dos Tambores e depois o do RecoViimento (por 
detrás deste edificio), continuava pela rua de Santa Luzia, dei' 
xando á esquerda o cães do Vigário, assim chamado por ter re 
sidoncia, alli, o padre Bernardo José da Silva Veiga, parocho de 
S» José. 

O becco dos Tambores era bastante estreito e foi alargado, 
demolidas varias casas compradas por José Clemente Pereira, 
quando teve de ampliar o Recolhimento. Desse logradouro pu* 
blico, doado pelo benemérito provedor, apoderou-se o governo, 
fazendo, ha annos, construir, alli, o edificio do Laboratório de 
Hygiene. 

A segunda passagem podia ser feita por baixo de um arco 
(como o do Telles) formando uma espécie de tunnel ciga parede 
superior era o soalho do !"> andar do Recolhimento. Esta pas- 
sagem alumiada á noite por um lampião de aceite de peixe era 
perigosa. Alli reuniam-se mendigos e gente da peior espécie, 
havendo constantes desordens è praticas de actos de pouca 
moralidade. Foi fechada em 1837. Ainda hoje, se notam os ves- 
tígios do arco na froate da dependência, occopada pela Empreza 
Funerária para fabrico de caixões. Por essa passagem deixando 
â esquerda o becco do Recolhimento e á direita o lado do Evan- 
gelho da Egreja ia se ter ás catacumbas, parte das quaes ainda 



A SANTA CASA DA MISBRICOHDU 47 

86 notam na Botica Velha e, costeando o lado do Hospital 
velho da parte do mar, sahia-se ao lado do Cemitério Novo^ 
eqjo muro principal olhava para a Praia de Santa Luzia. 

Ck>mo ô sabido, o velho cemitério, que fUncoionou até 1829, 
estava mais para junto do morro do Gastello, perto de uma das 
enfermarias de dmrgia, situadas no pavimento inferior dà 
parte do velho hospital, demolido para construcçâo das obras 
do novo, e encetadas no tempo de Jos6 Clemente. Foi no referido 
anno (1829) que a Misericórdia obteve do governo do primeiro 
Imperador, mediante certas condições, a faculdade de ampliar 
a área do primitivo e antiquíssimo cemitério, onde, por annos 
e annos, foram sepultados milhares de cadáveres. 

Voltando ao largo, e contemplando a fachada do templo, 
notarei qne esta nada roíhreu em suas condições de architectura. 

Somente as duas janellas, gnamecidas de grossos varões 
de ferro, ha poncof annos foram substituídas por balaustres de 
mármore* 

Ck>nvém lembrar que, no átrio da egreja foi sepultado 
como pedira em testamento, o provedor Thomô Corrêa de Al- 
varenga, cd^ serviços á Misericórdia foram dignamente com- 
memorados por Félix Ferreira, em sua interessante Ifsmorúx. 
Thomé Corroa, como é sabido, governou por vezes a Capitania 
do Rio de Janeiro, e, em 1661, foi o bode expiatório das iras po- 
pulares, quando substituía Salvador Benevides, ausente em São 
Paulo, no entabolamento das minas. ^ ' - 

A fachada do hospital velho apresentava, como ainda hoje, 
além do pavimento térreo, mais dois superiores com sois ja- 
nellas. Estas foram por muito tempo de peitoril, guarnecidas, a 
principio de rotulas, de madeira e, mais tarde, por grades de 
íSnrro. Isto vd-se perfeitamente no retrato dobemfeitor capitão 
Manoel Jorge da Silva, fallecido em 1820, existente na respe- 
ctiva galeria. 

Até & provedoria do Dr. Manoel Corrêa Yasques (1734), o 
hospital apresentava um só pavimento superior. Nesse tempo, 
havendo afiSnencia de enfermos pensionistas, a mesa deliberou 
constrair um segondo andar, passando para elle a Sala do Des- 
pacho e destinando o primeiro para aquelle alludido âm. Em 
tempos mais próximos, no primeiro andar funccionou por muitos 



48 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

annos a secretaria, da qual foram chefes o velho Caminha e 
Daniel Colonua. Hoje, estÀallí um dormitório de asyladas e no 
segundo pavimento funociona a maternidade, a cargo do Sr. Dr. 
Feijó. ( Enfermaria n. 27.) 

Construído aos poucos, conforme as rendas da Irmandade, o 
augmento da população e a affluencía de enfermos, o velho hos- 
pital não podis^ obedecer a um só plano regular ; dahl, os prolon- 
gamentos e accrescimos que, ainda hoje, na parte conservada se 
notam. 

As -primitivas enfermarias foram oonstruidas, como re- 
feri, junto ao morro do Castello e separadas da egreja por 
prédios. 

B' esta a parte mais antiga. Em seguida, por meio de 
compra ou de doações, a Confraria conseguiu unir as antigas de- 
pendências ao lado da epistola do templo. Essas duas partes 
completamente melhoradas, ainda hoje podem ser vistas. 

Mais tardo, segundo se lé dos livros de AccordOos^ foram 
oonstruidas novas enfermarias, buscando a direcção da praia de 
Santa Luzia. Esta terceira parte, relativamente mais moderna» 
desappareceu para dar logar, como disse, ãconstrucção da mo* 
derna e sumptuosa casa hospitalar, levantada por José Cle- 
mente. 

Desta ultima porção demolida darei idéa soccorrendo-me do 
mappa de Domingos Monteiro, do que por muitas vezes ouvi do 
Dr. Pereira Portugal, antigo director do serviço sanitário, de 
velhos empregados e de testemunhas que ainda vivem. Era 
constituido por um vasto parallelogramma, em ci\jo centro exis- 
tia um pateo ajardinado, tendo, no meio, profundo poço. Do lado 
esquerdo de quem entrava existia a continuação do longo corre- 
dor que começava na portaria. No fim delle, havia uma porta, 
por onde a noite os escravos do hospital faziam os despejos, na 
praia próxima. 

Do lado esquerdo, ainda no pavimento térreo, viam-se os 
quartos de empregados e, no lado do fundo do paraiielogramma, 
os quartos e enfermaria de doudos. Voltando pelo lado do morro 
oxistia a grande enfermaria de que falia a commissão de 1830» 
cortando em angulo recto duas outras pequenas salas, também 
de cirurgia. 



A SAMTA CASA DA MISERICÓRDIA 49 

No pavimento superior eiistíam as enformarias de medi- 
cina, as quaes, no dizer de Debret, eram em numero de seis. Não 
tinham essas salas janellas, mas amplos mezaninos, collooados 
sem grande altura das paredes. Nas proximidades, notavam-se 
outras Tarias dependências, taes como deposito de utensilios» 
cocheira, telheiro, gallinheiro, etc. 

Na segunda parte, ainda conservada, existia a portaria (hoje 
sala do banco do gabinete de gynecologia). Alli estava postada 
uma guarda para evitar distúrbios entre empregados do hospital, 
enfermos, convalecent€se soldados dos quartéis próximos. 

Ao lado esquerdo de quem entra, além do altar de que j& 
falei, vê-se ainda a escada da antiga secretaria e a porta da 
Casa da Fazenda deitando uma janella para o largo. 

Ao lado direito, abre-se a porta de uma sala (clinica gyne- 
cologica] . Este aposento e outro quo lhe fica próximo eram ou- 
trora occupados pela Botica e Laboratório. Xo segundo delles, 
effectuava-se depois a extracção das loterias. Seguia-se o 
grande corredor, tendo á esquerda, além da sacristia da egreja 
e o pequeno pateo annexo, a dispensa e um quarto de deposito. 
Esses dois compartimentos, completamente transformados, 
servem hoje de sala de descanso aos Irmãos da Misericórdia, em 
occasião do festividades. 

A' direita^ estão ainda quatro arcos que, com mais doze, cir* 
culam pelos outros três lados, pequeno pateo, em cujas galerias 
vêm ter diversas accommodações, que em outros tempos tiveram 
diversos destinos, bem como casa da lenha, deposito do farinha, 
quarto de empregados, etc. 

Existia também alli uma escada antiga que dava accesso 
ao primeiro pavimento. Neste notavam-se diversos quartos 
sobre as galerias ou corredores do patoo, transformados hoje 
emdarog e espaçosos corredores. 

Nesse andar estão hoje aproveitadas as salas onde fun- 
ccionam as 23 o 25 enfermarias, para os quaes se sobe por ampla 
escada moderna. Ha ahi mais outro pavimento superior occu- 
pado pela enfermaria das velhas (26), circulada de amplas 
Janellas por onde penetram fartamente ar o luz. 

Na parte primitiva *do velho hospital e no pavimento 
térreo estava a' velha cosinha e outras muitas dependências 
491 — 4 Tomo lxix. p. i. 



50 REVISTA DO INSTITOTO HISTÓRICO 

gujD soria fastidioso mencionar. Na parte superior existem liojo 
dormitórios do asyladas, quarto de irmãs de caridade, sala de 
costuras etc. 

Tal era em rápida e qai;& eafadonha descripção o hospital 
Tellio da Misericórdia, o qual terá de desapparecer; mas que 
em todo caso presta ainda bons serviços á pia e benemérita 
instituição. 

Em differentes paginas da Memoria de Félix Ferreira en- 
coutram-se vagas noticias sobre os antigos facultativos do Hos- 
pital o seus ordenados, serviço, enfermeiros, receita e 
despeza, tratamento dos soldados e contracto que tem a Santa 
Casa com os homens do mar, despacho marítimo, serviço 
Amerario, etc. 

Em 1798, era este» segundo o Aimanach de Duarte 
Nunes, o pessoal clinico : Médicos — os Drs. António Fran- 
cisco Leal o José Carlos de Moraes, cirorgião-mor João 
António Damasceno, dito do Banco o cirurgião José António 
Pereira de Godoy (Bisavô do Dr. Oscar Godoy) o Boticário 
Joaquim Custodio. 

Em sua obra, Sigaud apresenta uma estatística do movi- 
mento hospitalar do 1821 a 1842, a qual lho Tora fornecida pelo 
Dr. De Simoni. Notava o illustre medico francez que a mor- 
tandade se mantinha em grau elevado por motivo da entrada 
tardia dos doentes no hospital, grande parte delles indo (como 
ainda hoje acontece), reclamar soccorros em estado adeautado 
das moléstias. 

Sobre preciosas informações acerca da estatística da 
Misericórdia, tanto do velho como do novo Hospital» não 
posso deixar de citar o paciente trabalho organizado pelo 
Dr. Pires de Almeida e publicado no Jornal doCormniercio 
de 2 de julho de 1899, sob o titulo Movimento do Serviço 
Interno e Gratuito do Hospital Geral da Santa Casa de 
Misericórdia desde o Anno Compromissal de 1G98 — 1699 a 
1898 — 1899. 

Ao terminar estas simples notas, tenho a declarar que não 
me propaz escrever o histórico da grande o trisecular insti- 
tuição, mas 86 estudar certos pontos obscuros, devido ã falta de 
documentos. 



A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA 51 

Quem precisar de mais amplas noticias, é dirigir-se ao 
Dr. Bernardo Ribeiro de Freitaff, a qaem, em boa hora, a 
Administracçâo actual confiou a organisação do Tombo da Santa 
Casa e de seu riquissimo e precioso Archivo. 

1905 

Dr. José Vieira Fazenda. 



CARTA 

Ff.. Francisco de Menezes paia o Duque de Cadaval 

SscripU lo Rio dê J&nairoi sobre a iaV&sio de Dadero 
( 1710) 



(Copla extrabida do Códice Msa. n. 00?, de As. 1^ a 167, exitiente na 
Real Blbllotheea Publica da Cidade do Porto e reprodaiida no Códice do 
IneUtuio Histórico e Oeographico Brasileiro com o tltnlo — Doewnenton varíoB 
9còrê o BrazU • Diff'êr$ntei'Arehiv08)» 



Nota — O aignaUrlo desta oarta é o celobre Trado qae^antai 
façanhas praticou em as lutas ontre paulistas o emboabas. 

Famigerado caudilho do dictador Manoel Nunes Vianna, foi, por 
este e seus sequaaes, encarrega lo da ir a Lisboa obter do Rei o com- 
petente indulto. 

Satisfeita sua, misaiQ volven aqualle religioso trinitario ao Rio 
de Janeiro, sendo-lhe prohibido ragraisar ás Minas. 

Nesta cidade asaistiu olle á invasão franceza de Duclerc (1710). 

Conforme testemunho dos contemporâneos, Frei Meneses pra- 
ticou actos de bravura, fazendo fronte aos invasores na altura do 
morro do Desterro (hoje de Santa Theresa). 

Co 0)4) ell^ mesmo f^ declara ao Duaue dp Cadaval, estava resolvido 
a ypH^Í á |f)et^t)Q)e e pcftlWr-s^ | spa co|iyant^. Por ispo o seu 
noma nao figura entre oa combatentes contra os soldados de Duguay 
Trouin. 

A cafU ppi guestâp cpntpin pcirtiouU rodados njÍQ mancionadas 
nas chrooícas e rfa pcff«itaid(^a do caractar desse homem, em quem 
mais assentava a farda de soldado do que o habito de sacerdote. 

Algumas de suas previsões infelizmente so realizaram no anno 
seguinte. São dignas Me nota suas consi(lorac<»e8 sobre as fortifícações 
da cidade o a construccão da prçtendida muralha que, mais tarde, 
edificada nenhum resultado deu. — C^l Votnmissão de Bfdaccâ^.} 



Carla it Fr. Inmm Je Imms pira Dsque de Cadaval, eeeripta 
do tio de Janeiro, flobre a invasão de Dnelerf 



Senhor — Acho-mo nesta torra, porqne assim foi Sua Ma- 
gestado, que Deus guarde, servido, e como a V.Ex.* fiz presente 
anti^s da minha parcida, e parece-me forçoso dar-lhe noras 
delia para cumprir com a minha obrigaçfio, olhando também 
para a que V. Bx*. tem para reparar o Reino, razão porque 
não faço este aviso a outrem, e porque sepultará o meu erro, se 
o merecer, ou remediará o que for possível, sem me entalar. 

Aqui vierão os francezes em 17 d' Agosto, vindo por um 
avizo de um pescador do alto, que apparecião, de que se re- 
solyeo o Governador Francisco de Castro de Moraes a toear a 
rebate naquella noute e nella cuidadosamente remetteo a guar- 
nição que lhe pareceo necessária. No dia seguinte de tarde Com 
a viração costumada quizerão os 6 navios, bnma Balandra, que 
era 1 de 60 peçan, 3 de 40, e hum de 18 e a dita Balandra, entrar 
todos com bandeiras inglezas oomo J& presumíamos mal pela 
noticia que o Paquete havia trazido ás fortalezas, lh*o impe. 
diram para que deitassem primeiro lancha fora e querendo 
continuar, por que os primeiros tiros forao sem baila, lhe tet 
outros oom huma Colombrina, que lhe fez algum damno, e os 
obrigou a leborarem-*se para fora, e se flzerão na alta do mar, e 
na manham seguinte tomaram o rumo do sul. Segundo o que se 
vio, vinha a entrar e assim mo disse o seu General e os mais pri- 
sioneiros^ e dizem deixaram do o íh.zer por ser pouca a viração. 
He certo que, se o fizessem, nos succederia mal pela primeira 
tenção, mas havíamos de melhorar, sem duvida, com o tempoi 
porque as fortalezas estavão muito mal prevenidas d*Artilherla, 
por ser muito pouca, e que não canço a V. Ex*. eom a nar- 
ração, a qual porei em papel á parte o a que estava montada, 
com tão m&s carretas, como a experiência mostrou, que muito 



50 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

poucas eatavão capazes para dar mais de doas tiros e por este 
estylo estavâo as armas de pederneira e marrão. Desenganado 
o Governador que Já nos buscavão 03 Francezes, que o não 
podia c.*er, dou logo ordem a montar artilharia, fazer carretas 
e mandar serrar reparos para cila com louvaTel zelo e trabalho 
pessoal, sem se poupar dia nem noute, e fez mais naquelíes dias 
até os primeiros de Setembro, que havia feito de 28 de Junho 
até os 17 d'Agosto, que foi quando veio o Paquete, e quando 
vierão & barra os Francezes ; c atrevo-me a dizer mais que 
todos os Gk>vernadores flzerão ; he verdade que a paz que lográ- 
vamos, lhe permittia essa omissão ; estes navios forão para a 
Ilha Grande. 

Em 9 de Setembro appareceram dous destes navios na 
nossa barra, tocou-se a rebato com uma peça d'artilhai*iay 
por signal que neste, assim como no primeiro, acudiram 
poucos de fora da Cidade, porque se não ouvia como ou adverti 
ao Governador, quoixando-se de que não vinhãOr o lho disse: eu 
moro daqui 3 léguas, e não ouvi nom um rebato c esta torra 
t&m longos de maia de 10 legoas, e oão é possível ouvir-se. Seria 
bom que houve.^se mais peças ou signaes em lugar propor- 
cionados e por Odta falta nos podia succeder muito mal, 
83 os Francezes entrassem, o esto risco todo provinha da 
má ordem do rebate. Pertendoram os Francezes deitar gente 
em terra em uma praia d'onde chamavão Sapopênopáo, 
distante desta Cidade duas léguas, a qual tom muito máu desem- 
barque assim, porque o mar é nella multo furioso e, saltando, não 
o podem conseguir cem se molharem, e as armas com muita 
segurança nossa os pôde destruir e impedir. Os Paizanos da- 
quella praia aentindo-os, lho flzerão alguns tiros, mas o certo 
que os inimigos nâo desembarcaram naquella neuto, não por 
serem sentidos, mas confessa que foi pela imposibilidade. Deste 
intento do inimigo se fez avizo ao Governador, que logo pòz 
gente pronta para hir tomar o encontro, pixra o que^nomeou 
ao Mestre de Campo João de Paiva Sôto-Maior: como se reti- 
ravão íoi escusado a marcha. 

Bom fui conhecer- se a nica ao ioimigo para entrar, 
porque até aquelle tomp3 havia muitas omissões, porque 
dizião que o inimigo não queria desembarque, porém ainda 



CARTA DE KR. FRANCISCO DE MENEZES 57 

se faltou ao principal, porque um Vassallo leal sem lho 
tocar por obrigação de lugar» me consta, advertio repetidas 
vezes que do inimigo se devia suppôr grande resolução, bons 
soldados e muitos que não vinbão de tão longe para fal- 
tarem ás diligencias, e que elles erão soldados e nós bisonhos, e 
como os successos corrião por conta de Deos, devíamos prevê- 
nir^nos porque bem poiião bs Francezos ganhar a cidade, e 
para podermos restaura-la, seria muito necessário fazer-se re- 
serva de armas e pólvora fora, para o que nomeou o Campo de 
Irajà, distante três léguas e 1/2 desta Cidade, sitio proporcionado 
para todo o alojamento e conservação porque ficávamos senho- 
riando a terra e senhores do mar por onde nos entrassem os 
mantimentos, ficando pobres delles os inimigos e entrando estes 
por onde o fizerão, era onde os podíamos esperar para que não 
cheguem ã cidade, a qual nunca ganhava em vê-los, porem 
como esto não governava cá, e só quem governa tem juizo, 
rião-80 muito disto, e muito mais que era impossível entrar-no3 
o inimigo por terra, porque os mattos o não permittião, ao que 
instou o mesmo dizendo que o matto se não defendia por si, e se 
era ajuda paranós.que era favorável para elles,e fechou dizendo 
que erão os mattos do género commum de dous e que trácias- 
sem de os prevenir e defende^*, porque o iaimigo não podia 
entrar por outra parte. (Permita-me V. Ez^. osta oxtençãoque 
toda é necessária,) porque a barra que os nossos suppunhão 
impenetrável, disía este sujeito, ó a parte mais fácil e de menor 
vUoo para o inimigo, porque tem pouca artilharia e menos Arti- 
lheiros, porque pouco importa ter alguns, se estes o não en- 
tendem, e que as virações mareiras costumão ser fortes em 
muitas occasiões o que se perigasse algum, havião entrar 
outros c, como trazia lanchas de desembarque, sempre se re- 
mediaria. Ha de advertir que neste tempo não se sabia se havia 
mais navios que os qu3 digo, pjrquo como havia apparociio 
om varias partes, assim do norte como o sul, havia pre- 
snmpção quo orão muitos mais e a razão em que fundavão 
seu dictame era que o inimigo ainda que tivesse bom su- 
cceiso, entrando pela barra e vencesse a Cidade, que nunca 
podia lograr o intimo que trazia de senhorear e saquear, por- 
que delxando-lhe nós por força de desgraça a dita Cidade, 



68 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

nonoa passaria delia, teado nós aoade noa flzessemoi fortes e 
tivéssemos munições que lhe impediríamos os mantimentos e 
oom fiicilidade a restauraríamos, e na dita só lhe flcariio as 
paredost e deste modo ficavSo sem despojo e sem conserração, 
porque lhe faltava os meios : o entrando por terra, se Deus 
lhe desse bom sucoossoque âcavão senhoreando um^ c outra 
couza e oomo este era o seu intento, infaliveimento os meios 
haviio de ser estes. Sem desfazerem estos fundamentos nem 
apontarem outros, seguio-se a contraria opet*ação de que nas- 
ceu ver- se esta torra arriscada, porque do reponte saltou o 
inimigo em uma Lagoa ou praia pequena quo parecia incapaz» 
e resoluto, em uma nouto oom lucernas, marchou até se alojar 
em parte que se segurou, como estavio illusos os nossos per- 
suadiram-se que o inimigo não queria marchar 14 léguas, que 
tantas são para esta Gid ide, persuadiram s^e que querião fazer 
carnes nos campos de Santa Cruz, contíguos àquelle districto, e 
nessa oonsideração destacou o Governador um destacamento de 
30 homens da ordenança e por Cabo delles a Jerónimo Barbalho 
a unirse com o Capitão de Cavallos Josó Ferreira Barreto, que 
era o Cabo que guarnecia aquella marinha na qual haveria 900 
armas queoobrião, ontre outros Gabos, dous Capitães d'Infante- 
ria, que hião com animo ou ordem para fazer embarcar ao ini- 
migo. 

A ordem que tinha o Cabo daqueila guarn}<^o polo que 
soa, era para impedir o desembarque, porem como o não 
advertio, não lhe ordenou o que havii de fazer, entrado que 
fosse, o que se coUige de escrever o dito ao Governador que o 
inimigo era entrando e lhe ordenasse o que havia de fazer, a que 
respondeu, com o destacamento que digo, foi e eu vi mandar 
sem mais ordem nem escripto que o que tinha dito. Continuou 
o inimigo na marcha, de que avisou ao Governador ao mesmo 
Cabo, mandou outro destacamento que, dizem, constaria de 10 
homens, por Cabo delles ao Tenente General da fortifleação 
José Vieira Soares, o qual hia a tomar*llie caminho, também 
não levou Regimento para o que havia de obrar, variando o ini- 
migo ou os caminhos ou as disposições. Escando o dito Tenente 
General já a cavallo para marchar, chegou avizo que o inimigo 
estava mais avizinhado a nós, e ainda assim não houve nova 



CARTA DE FR, FRANCISCO DE MENEZES 69 

forma nem Regimanto, lendo o^to que a íálta dellet, foi mo- 
tivo para que os menos aaimogos oanzassem desordens, d^onde 
naseeu rermog, apezar do noaao sentiofiento, Tencidas pelo 
inimigo as impossibilidades que eu ouvia a todos que havia 
nos caminhos, e, para dizermos tudo, marchou o dito as 14 léguas 
em os 4 dias sem impedimento algum, e eu o vi assim, e assim 
o escreveo o General Prancez ao Oapitão de Mar e Guerra para 
dar parte ao seu Rei. 

Com esta noUcia que sérvio para desenganar ao Governa- 
dor e a todos» e pôde ser para criar muitos receios, logo sem 
demora montou o Governador, seria meia noute, a cavallo, a 
retirar a gente da marinha, e hi-la formar no Campo desta 
Cidade, e quando amanheceo, o estavâo, e haveria 2.500 
homens, porque as Fortalezas e algumas Praias estavEo guar- 
necidas e naquelle tempo andavão fora perto de 500 armas» que 
no destacamento e guarnição da Marinha, aonde saltaram os 
Prancezes, havia hido. 

Pela manham, principiou o Governador numa trincheira 
que bastasse para íb.zer aigum reparo aos nossos. Como teve 
mais tempo desistio desta e fez outra que principiava em o 
monte de N. Senhora da ConceiQão, o acabava no monte de 
Santo António, ficando no meio a Igreja de N. Senhora do Ro- 
sário e, se fizesse 3.*, ainda havia do sor melhor, qae a pressa 
nSo dava lugar a conhecer-se os defeitos. 

Guarnecia com 6 peças d'Artilharia no torno diroito e no 
esquerdo que era por onde o inimigo havendo de vir seria por 
elle, guarneceo com 2 e uma delias ora coiqo pedreiro com 
advertência que, se esto não era maior que o derradeiro, não 
era menor, e isto com escândalo geral do Rxorcito. 

Quando o Governador partiu de Caza para o alojamento 
que digo, foi tal a confusão nesta Cidade, e verdadeiramente 
não sei como o diga, foi de medo, que uma pessoa doendo-se 
do desamparo, e prevendo o muito que faltava para o Exer- 
cito, e que nada se previa e que nos faltavão 500 homens, 
entre os quaes erão muitos Capitães d'Iofanteria pagos, e 
Tenente Genoral da Praça e o da Fortificação, e que estes 
não obravão nada, 6 verdade que pela desunião, outros 
dizem que por medo de quasi todos, mas apegaram*se a 



60 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

dizer: nós não temos Regimento nem ordem para aoaometter e 
constava que todos esta vão espalhados, e tanto que um 
Capitão pago vi eu vir só, e disse que vinha dar parte, 
e eu me psrsuado que vinha recolhendo-se, para maior segu- 
rança disse ao Governador que se lembrasse da gente que tinha 
fora, porque não deixassem de obrar por falta de ordem ou que 
a mandasse recolher e enoorporar com o Exercito. O Gover- 
nador disse que era bom que fosse o Regimento» e que lho 
mandassem sem dizer a forma, replicou o Sujeito: será bom que 
vá assim, e assim conveio o Governador e, adiantando-se com 
pressa, não houve tempo para mais. 

Pouco importava hii* eate Regimento se, nio hia assfgnado 
pelo Governador, e como a occasião presente não permittia di- 
lações o havia mais dependências tão importantes ou mais, e 
se via que delias se esquecia o Governador, levado de outras 
attoncôes lambem precisas e communicar-lhe estas, parece im- 
possível porque se ausentou o não ora fácil acha-lo, que as 
partes aonde tinha de acudir, erão muitas e disparadas, e 
elle falto de oíllcjacs. 

Neste aperto mandou oste Vassallo Leal um recado ao 111°°". 
Bispo que acudisse ao Palácio, que assim importava ao 
• serviço do Sua Magestade, que Deos Guarde, e foi áquella hora 
chamar á Gama o Ouvidor Geral e lhe disse que a terra estava 
em grande risco pelas circumstancias referidas e que olla ora 
muita : que viofse para o Palácio que jd havia mandado recado 
ao senhor Bispo e junt.imento á Gamara, ao Secretario do Es- 
tado, o a Jozé Corrêa de Castro quo havia chegado do gover* 
nar S. Thomó, fará que consultassem o quo se devia fazer. 
O Ouvidor rosolvoj com alguns dos quo hivião chegido quo 
ainda que ora diíllcultoso o achar-sc o Governador, fossem a fazer 
diligencia, por cllo, com cíTeito, foi escutado OuviJor Gemi, 
José Corrêa do Castra o a pessoa que movia diligencia ; no que 
se gastou até amanhecer, até quo o acharam andando na for- 
matura do arraial, o mesmo vindo achar o Governador no 
Palácio que se colhia para elle, lhe foi com bom modo e ami- 
sado, que como dito tinha a causa que havia para não ter 
mandado o Regimento, expressando! he algumas couzss para 
elle que todns lhe pareceram boas e lhe recommendou segunda 



CARTA DE FR. FRANCISCO DE MENEZES 61 

vez que o mandasse fazer e o remettesse, com eHeito foi à Se« 
oretaria e o lançou» cujo theor é o seguinte, para que a Y. Ex.^ 
seja tudo presente. — P. virA V. M.^^^na retaguarda do ini- 
migo» de modo que não seja presentido delle e o nSo picará, sal- 
vo elle o quizer com medos» porem no caso que os nossos na 
vanguarda do inimigo o busquem nestes termos a todo risco 
V.M^^. o accometta ; e sendo-llie possível vencer a marcha do 
dito inimigo por diflèrente caminho sem que nisso corra risco o 
menor Soldado, V. M.''* o façae se vá encorporar com o Tenente 
General da Fortificação Joseph Vieira Soares e seguirá a ordem 
que vocalmente tenho dado ao dito, porque ainda que lhe não 
havia dito o que faria em novos incidentes, fiava-se delle e de 
seu valor, acoeitasse as occasiões que o tempo lhe desse, mas 
quando Deus não ó sorvido, nada basta, não houve mais que 
desuniões, sem se faier nada que chegou a tanto, que Ignacio 
Henriques Capitão da Guarda do Governador que se havia 
offerecido para hir, se poz em termos de governar alguma 
gente e mostrou o muito desejo que tinha de ver as nossas 
armas bem succedidas e assim o vi eu em uma Carta e tudo o 
que mais se obrou, e o que deixou de se obrar também vi. 

O que ouço dizer ó que nunca se fizera Conselho para esta 
guerra, nem se dispoz batalha ao inimigo, estando elle já á 
vista, que á nossa fizerão eUes seu conselho, mas a n6s não nos 
foi necessário, mas hia-nos custando muito caro e eu, como não 
estava longe, não lhe vi forma alguma, nem soccorrer aos 
poucos por livre vontade ou obrigado do zelo de Vassallos qui- 
zerão tomar o encontro ao inimigo c sendo estos 850 que não 
forão mais, ainda que haja quem lho queira accrescentar o 
numero, nunca chegarc^m a fazer-lhe cara mais de 200 dos 
nossos e sempre estes forão dos que não orão pagos e houve 
encontro que não teve mais que 24, o se conservou com 1 1 como 
foi no Desterro, o que supponho constará mais claramente das 
Gazetas (ainda que pelo impedimento do Governador estão in- 
capazes de se lerem e dar credito) e nunca o Governador soc- 
oorreo aos nossos e isto mesmo fiz ató o fim, que durou a bulha 
duaa horas e enti*ando o inimigo na cidade que a teve levada, 
vendo o Governador não sei que esperava, até que um mais 
ousado se foi a elle para acudir ao nosso Estandarte» que 



62 REVISTA DO INStrrUtO HISTOniGO 

suppuDha em olla no corpo d« Guarda que havia floadto em 
Palaoio, teye a fortana que com a tal que erA de estudantes, 
formaado-os em duas travessas fji*onteiras, deu 3 eurgas ao iiii^ 
migo para lhe fazer horror, enÉLmiando-lhe ettava guameoido o 
lagar ; pdrque nao tioha geuÊe para esperar o iaiiMifo: nisto M 
gastou largo tempo, nem com tacto isto acudio o GoTemador, 
nem mandou saccorrer aos pobres rapazes, qae todot o erão 
sem barba, que só se achavfto com alguns negros e pardos qoe 
na oocasifto se lhe ajuntaram e pareceu a todos que já aio tinha 
remédio e por estarazSo não vier^ soccore-ros: foi necessário 
que o mesmo que havia sido causa de se fazer cara ao inimigo, 
quo ficava estacado, recomendar ao dito capitão qne continnaíase 
o receio ao inimigo com tiros suocessivos, mae qne nSo lhe 
dessem carga redonda, porque o inimigo os nSo rompesse et 
deixada esta ordem, se foi ao exercito e achando nelie multe 
sentimento, porque sen etceptuaçSo de pessoa, suppanhfio todos 
estar a cidade tomada, e p3r formaes palavras lhe disse o Gk)- 
vernador: estamos mal, temos a cidade perdida, a que respon- 
deu: perdido est& o inimigo 9em remédio, porque está atacado 
oa rua direita em tal parte: e com gosto perguntou quem lhe 
fez isso ? A companhia dos estudantes, o alguma gonte mais 
negra e paixla que ajuntei, e continuou : agora é necessário fuo 
vá uma companhia de estudantes de soccore-ros e vá um troço 
de gente e mais grosso pela parto de S. Bento e da mesma se 
lhe burna uma peça de Artilharia e eu o vou buscar pela teta* 
guarda e o ficarei de modo que elle se dê por picado com adver- 
tência que olie, se virar a cara sobre mim, os nossos o car- 
reguem. 

Até aqui náo vimes mal^ ordem que estas, quo nenhu- 
ma emanou do Governador nem ello soccorreo, até este 
tempo se conservava com o corpo de Exercito na trincheira, 
teia que esperando o inimigo, ou que sappunha que elles haviio 
deixado retaguarda, oomo se isto nao tinha remédio pam 
abrigar-se mandando exploradores, e eu tiverap^, seg^e^' 
nára, ignorar as operações que o inimigo fazia no meu pai2^, 
quando sem risco podifto ser explorados. 

Não duvido que ftiltasse este accordo ao Governador oií 
a quem mandasse, porqne eu sen testemunha que no di» én 



CARTA DE FR. FRANCISCO DE MENEZES 63 

bulha (que lhe não sei outro nome) erão 8 horas da ma- 
nham, não havia do nosso Exercito noticia do poder que o 
inimigo trazia, e ora commua a opinião, que nenhum dos 
nossos os tiahao visto porque muito os receavão e, se 
03 vião, era tão longe e tão depressa, que' esta lhe não 
dava lugar a formar conceito, e as novas que trazião erão in- 
formadas mais de medrosa imaginação que da potencia visiva. 
Este Portuguez se offereceu ao Governador para o ir fazer, e com 
effeito o íéz de modo que se senhoreou dos que erão, e não só o 
fez, mas lhe deixou umas bem de^jostas emboscadas que de 
varias companhias havião sido mandados muitos can*ijód de 
Arco o frecha e para os incitar mais prometteu a todo o soldado 
até Ajadante que apresionasôe ou rendesse ao Cabo dos Francezcs 
cem moedas de ouro e d'ahi pai*a cima :^00 o 400 mil róis a 
qualquer escravo ou negro, e recolheu-se ao Exercito a dar conta 
ao Governador o alegrar a todos, dando-lhes os parabéns da 
grande viotoria que os esperava peios poucos que erão os ini- 
migos, a quem avaliava em 600, havendo quem os tinha avaliado 
em 800 e segunda vez havendo no Exercito duvidas e huma 
pouca de gonto, para ali aparecião em uns montes fronteiros á 
nossa trincheira, não mandou ninguém certificar-se, cuja falta 
supprio o dito de seu motu próprio e como este mesmo não lhe 
soíTreu o animo estar intrincheirado, entrando-nos o inimigo, não 
ficou quem fosse explorar o campo e seguro a V.Ex."" que lhe não 
havia de estar na duvida, ou entendo que cata se conservou 
para terem pretexto para se conservarem mais decorosos, que a 
verdade sabia Deus e não falta quem a entenda. 

Com esta noticia que o inimigo estava estacado, mandou o 
Governador a seu sobrinho Franciseo Xavier com a sua com- 
panhia de forças ao do Corpo da Guarda, e, ao aparecer, o ferio 
um Prancez em uma ilharga levemente, o qual hia fugindo a 
unir-se com os seus, que ainda se conservavão na mesnrn para 
só alguns, havião roto a companhia dos estudantes ; destes uns 
avançaram ao Palácio os quaes valorosamente mataram uns os 
estudantes, e renderam outros os que legaram com murrão que 
ali acharam e os ataram ás cadôas. Emquanto os estudantes em 
cuja contenda morreram 6, veio Gregório de Castro Mora»;, 
Mestre de Campo e Irmão do Governador, e logo de uma bala 



64 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

morreo, assim que apparecea e não tevo lagar de mostrar o 
seu valor que lh'o suppunha. Neste couílicto houve algumas 
mortes dos nossos, que por mal ordenado suocederam, e bem 
se vio o que nelle faltou, o que tinha ordenado os quo até 
aquelle tempo fiouve, neste não assistio, nem bosoou a reta- 
guarda do inimigo, porque, inteatando-o, Ibe veio um soldado 
mineiro trazer um prisioneiro, o qual levou ao Governador, que 
lhe recommendou o quanto importava segurar-lhe a vida para 
sabermos os intentos do inimigo e a gente quê trazia, e só o seu 
respeito o guardaria, porque o vulgo irado o pertsndia matar e 
sucoessivameate lhe foram levando prisioneiros e correndo os 
nossos feridos por necessitados. 

Neste conflito em que morreu o Mestre de Campo, morreu 
valorosamente o Capitão de Cavallos António Dultra e enteada 
Y. Bx.*" que esta S. Magestade obrigado a reconhece-lo assim 
para que não desfoleçâo os que servem, porque o seu mereci 
mento foi gi'ande, aqui me não leva aíTeição que eu nunca o vi 
senão no conflito o outra vez, quando isto andava inquieto, mas 
foi valente e se cá houverão muitos como elle, não duraria 
tanto tempo a balha o seria batalha que deixou do o ser^ não 
porque não houvesse occasião, mas que todos arecoavão, elle tem 
um filho pequeno : sahio ferido em duas partes o Capitão Jozél 
d' Almeida do 3^. Francisco Ribeiro, que veio da torra nova o qual 
se houve com reconhecido valor, mais algumas pessoas, como o 
Ajudante e Luiz de Matos, mas nenhum passou a excessos. 
Hum Religioso dos 3»% filho de Angola, que aqui se 
achava, a quem chamão Fr. António da Conceição, morrendo o 
Mestre de Campo, ficando sem quem governasse, cujo desamparo 
lastimaram os Soldados, sa oífereceu para capitanear e o fez 
com muito grande valor, assim o ouço geralmente, que eu o não 
vi, o um Clérigo chamado Josô Machado, filho de S. Paulo, depois 
de fazer grandes façanhas: huma companhia a quem faltava ca- 
pitão (sem lh'o matarem) mandou o Governador que a cobrisse, 
eque fosse ter encontro ao inimigo á misericórdia, e sempre fez 
tudo com ooniiecido valor. Não pareça a V. Bx.» affectação mi- 
nha, porque o não sei fazer, a mesma noticia ha-de achar no 
Vulgo, que estes são os que fallão verdade, até á rua direita 
não appareceram soldados pagos e ofiioiaes nem ordens nem 



CARTA DE FR. FRAXaSCO DE MENEZES G5 

soooorros, porque uni que houvo, levou-o os Padres Fr. João da 
Yiotoria natural deste Reiao e o Padre Fr. Igaaoio de Santa 
Oatharina, ambos Religiosos de Santo António. 

Finalmente, oonoluia-se a pendência com os Franceses leva- 
rem uma porta de Trapiche» que serye de armazém de caixas 
6 feebar-se dentro e render as armas e 1)andeiras e ficarem pri- 
sioneiros á vontade do Governador e acharam-se dentro o nos 
mais que havíamos prisionado, entrando feridos 600, que sSLo os 
que hcge se achão, depois de morrerem muitos quo havião 
sabido feridos. 

Quando desembarcaram, ajustaram que medissem o tempo, 
e que ao mesmo se achassem uns commettendo a Cidade., e ou- 
tros batendo a Fortaleza de Santa Cruz» porem p vento ou Deus 
fê-los desencontrar, de modo que os de terra chegaram á O* feira 
19, dia de S. Januário, e os Navios a âi, dia de S. Matheoi o sup- 
posto s4 vierão dous e a Carcaça, era notável o medo quo se 
tinha das Bombas. Vierão chegando a dar fundo perto da for* 
taleia, imaginando que os tiros delia os não offendessemi porem 
acharam que lhe foi preciso levarem-se para mais largo espaço. 

Naquelia nouto lançaram 6 Bombas. Como a distancia era 
grande, parece, não proporcionava os tiros por serem as ditas de 
menos conta, conformo ouvi dizer. Suspenderam-se estas bom- 
bas por uma carta que o General Francez oífereeeu, ou lhe ia* 
sinuaram, como é mais provável, a tempo que por o querer re- 
mediar um Vasallo que havia principiado a destruição delles, of- 
ferecendO'Se para hir reudel-as,queima«las ou mette-las a jÂque» 
que o Governador o não quiz consentir e porque não tivesse a 
desculpa do gasto que S. Mageetade podia fazer sem frncto, se 
oífereeeu a faze-lo ã sua cu^ta, e que não queira mais que a li- 
cença, e sempre S. Mageetade tioha da preza a parte que lhe 
toca, e não tem duvida que havião de vir os Navios, porque es- 
tavão sem gonte de guarnição. Isto se tem estraokado muito 
nesta terra e deu motivos a varias murmurações que por outros 
caminhos chegaram a V. Ez. 

Assentaram 03 Franoezes com o Governador que viria para 
dentro o fato dos Prisioneiros, e que nos venderião uma Sumaoa» 
que nos tomaram na barra com as bandeiras inglezai e a carga 
que trazia da Bahia e juntamente a Carcaça • que o procedido 

^91—5 Tomo lxix. p. i. 



66 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

seria para o sastento dos prisioneiros. Veio a parar isto em rir 
ás claras a Samaca gue oomproa o mesmo Mestre delia» e a 
carga não se sabe delia, e, se sabe, esoonde-se e a oarcaga dizem 
e folao nisto rariamente, e, para dizer o qao sinto tudo sSo con- 
veniências pouco úteis para a Corte. Com esta entrega se 
acabou a guerra e se forão os Navios que estlverão neste 
porto tantos dias que dava a entender que se ^ostavão 
pazes o a gento assoUando-so, que tudo se compõem das 
ordenanças, e as fazendas dostruindo-se, e nSLo ha safra d*as- 
sacar este anno, porque vierão no tempo de moer, e se os Na- 
vios se tomaram ou despediram logo, ainda os liomens acudi- 
rião á sua lavoura; partiram d'aquL cm 18 d'oatabro, e 
o que nos deixaram foi umas casas queimadas de um mer- 
cador, que o deixou perdido, mas se elles entenderam que não 
havião de vencer, deixarião tudo assollado, mas vinhão dizendo 
que querião as Fazendas para suas quintas, e já algumas fica- 
ram escolhidas. 

Por desgraça pegou o fogo em a Casa dos contos em uma 
pouca de pólvora que ardeo e mais uma morada contigua e do 
mesmo modo o Palácio e Alfandega ; as duas moradas primeiras 
não podião ter remédio, mas o Palácio bem se lhe podia 
acudir e facilissimamente a Alfandega, porque esta era a ulti- 
ma, e os Francezes ainda não esta vão por render, estavão prezos 
em uma Caza com um grosso cordão e a gente que havia ainda 
no Exercito e a que andava por demais nas ruas bem lho podião 
valer, se houvera accordo, ou se quizessem, e quando o não 
remediassem, acerto podião tirar-lhe as fazendas que tinhão 
dentro e os livros, mas bem pode ser que fosse provldenoia di- 
vina para se principiarem outros, que aquelles por velhos estavão 
desencadernados. 

Meu Senhor, nesta terra não ha mais que desordens, ninguém 
olha para conveniências da Coroa, todos lhe roubão o que podem 
Q o que não podem. Esta guerra fez gastar muita fazenda 
real e as desordens delia teve a culpa do inceniio em que se 
perdeu muita fazenda e fica com ella caminho aberto para 
dizerem que se queimou o que lhe parecerem e dar despezas á, 
sua vontade e crescerão dividas á Fazenda Real e aqui se nome a 
quem lhe deve 90.000 cruzados, e disto ha muito, os Almoxarifes 



CARTA DE FR. FRANCISCO DE MENEZES 67 

dispõem da Fazenda Real como sua, mas Dão tem culpa 
que elles não dão contas nem ha quem lh'as tome. 

Não é o men animo dizer mal do Provedor, porque o tenho 
em boa conta, ainda que com elle não tenho trato, tenho no- 
ticia do 83U procedimento, mas este erro yem muito atrasado e 
melhor constara d'onde nasce, mandando S. Magestade iníbr- 
mar-se ; o mau é que não encontrará muitos que o fIsKão com 
yerdado. He verdade que os descaminhos são tantos que se isto 
se procurar não hão de poder encobrir tudo, e ainda que o Ou- 
vidor Geral é na terra moderno, consta-me que sabe principal- 
mente dos 90.000 cruzados. Grandes rendas tem nesta America 
a Coroa, porem se S. Magestade não mandar reformar isto por 
pessoa que seja izenta dos Governadores e de tal supposição e 
verdade que se não deixe subornar, brevemente se achará sem 
nada : os Governadores são os que dissipão a Fazenda Real, e 
emquanto 8. Magestade não remediar e determinar nova forma 
de despezas e que os Governadores não tenfaão jurisdição na Fa* 
zenda Real, sempre hade ser assim, porque com a dependência 
que delles tem lhe tapão a boca com o que pedem, e deste modo 
se vive por cá inventando cada vez novos modos de dissiparem, 
O Governador vendo que o inimigo entrou por terra as 14 le- 
goas, que digo sem advertir, que de algum modo tem a culpa, 
porque o não podia conseguir se lh'o quizessem impedir, porque 
deixada a impossibilidade que tem pelos maus caminhos ásperos, 
pastos estreitos, e que lhe podemos deixar todo sem manti- 
mentos, e a maior parte sem agua, e que nos alojamentos se 
lhe podia impedir sem muito risco nosso, até a dormir em bus- 
car-lhe umas peças d*Artiiheria, fazer-ihe algumas minas e 
que a tudo se faltou por falta de Conselho e resolução, isto digoe 
eu, outros alargão-se mais. 

Quer remediar o damno futuro com murar a cidade pela 
parte da terra: esta obra sempre é boa, mas parece-me moito 
escusada esta despesa, a qual hade ser muito considerável, 
assim pela entidade da ub.^a, como pelos descaminhos que 
hade dar ao dinheiro quem corre com ella, que tanto que ha 
em que mexer, ha caminho aberto. Nesta cidade não podo 
entrar inimigo por terra, salvo o deixarem como agora: isto 
sabem todos quantos tem conhecimento desta terra : oella ha 



68 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

mailft sente, e, se não vai nas listas do Governador, 6 porqae 
ficaram fora» • se n&o puxou por negros e carijós ou ladios, que 
são todos bons soldados, estes andio occupados nas minas por 
quem governa, e isto nâo serve a Republica e para estes mattos 
no 08 mais úteis : os negros esquecerão o tudo isto querem 
remediar com amofinar a Bl-Rei, pedindo-llie soldados a tempo 
que nesse Reino sio procisos para as Fronteiras. 

S. Magestade tem muita gente para a defensão desta torra 
e, quando lhe fosse necessária, c& a tem nas minas, que kão*de 
acudir com presteza e pela parte de terra com pouca gento 
se deíénde, e havendo quem governe, porom elles querem levar 
isto a poder de milagres e terços, mas por isto os vi na occasião 
enfiados» A verdade é esta: S. Magestade precisa Fover o lugar 
de Mestrd de Campo em quem seja soldado ; este morreu, e tem 
cá Pranoisoo Ribeiro, que ó o Mestre do Campo da terra nova, 
que está incapaz de andar, nem eu o vi sahir fora e só no exer- 
cito o vi, e para se pôr a cavallo lho trouxerão um banco e 
ainda chegaram uns ofllciaes a pô-lo a cavallo: ou o não co- 
nheço, nem elle nesta occasião mostrar o seu valor, que 
será grande soldado, mas ainda que o tivesse, a idade ou 
achaques o havião de escusar: este não serve a S. Magestade 
deste nocdo. 

Nesta terra tom S. Magestade um vaierozo soldado, quo é o 
Tonente Qeneral da Fortificação, que ô José Vieira Soares, quo 
nesta occasião o vi proceder com todo o valor, desprezando oe 
maiores ris^sos : eu nunca o tractoi nem o conheci senão neste 
guerra. Tambam procedeu admiravelmente o Capitito José de 
Almeida, do 3« da Colónia, e sahio gravemente ferido ; também 
o não conheci senão na occasião presente. Dos mortos com grande 
valor o Capitão de Cavallos António Dultra: estes são os a quem 
a fama publica valentes ; fora estes, ha outros que por ordinários 
■e lhe não sabe o nome, e também ha muitos que o fkvor de 
quem governa quer fazer valerozos, ainda que na occasião o não 
mostraram. 

Os Navios franceses baterão com muitas bailas e bombas a 
Ilha grande, a qual o Governador com boa advertência tinha 
guarnecido ; pouco ou nenhum estrago fizeram, nunca poderam 
saiter em terra, por lhe sor impedido pelo cabo, que era o 



CARTA DE FR. FRANCISCO DB MENEZES 69 

Capitão João Gonçalves Vieira, do S.*" da Ck>loaia, o qual é vos 
ooQStaato haver obrado com grande valor e admiração de todos 
e s6 lhe mataram am Alferes, porque se oonservava bem en- 
trincheirado, c, supposto foi desamparado dos Paizanos, sempre 
se defendeu com igual animo. Os Paulistas moradorei de 
Taubuaté e de Goratingaetá pedindo lho soooorro, lh*o derio, 
e com isto mostrarão a sua lealdade de que se presumia 
mal e o mesmo derão a Parati, que guarnecia o Capitão Fran- 
cisco de Seixas, que não sei de que 3.» he. 

Com o aviso que o Governador mandou logo a Santos ouidan- 
do-se fosse por là o acoomettimento dos inimigos, se preparou o 
Governador, que houve com todo o lello e cuidado, e se pos de 
modo que não entraria o inimigo. Pedio soocorroa S. Paulo« 
que lhe veio logo um grande e com louvável zello, porque tudo 
o que era capas de armas veio, e mostraram que não querião 
Rei Francês, no que tiverão grandes descommodos, por ser muito 
o tempo que esti verão fora de suas cazas e muitos gastos. 

António de Albuquerque, como conheceu o erro em que 
havia cabido de se auzentar de S. Paulo, aonde Francisco do 
Castro avizou das novas do Paquete e que havia mã presum- 
pção dos Paulistas e desprezar a mesma noticia que lhe mandou 
o Mestre de Campo Gregório de Castro ( que morreo na occa- 
sião presente), o qual estava nas Miuas por ausência do mesmo 
António d*Albuquerque escrevendo^ihe que elle tinha aviso de 
seu irmão o Governador, que se espera vão por instantes os 
Franceses no Rio, ou em Santos pelo que se recolhia acudir, e 
que as Minas não necessitavão de nada, estavão sujeitas, que 
saria muito conveniente não se ausentar de S. Paulo aonde 
estava, como o não entondeo assim, foi para as Minas, e chegado 
a ellas teve a certeza da chegada do inimigo : voltou logo para 
S. Paulo com muito trabalho, e deixou ordem para com aviso 
seu partisse um d."* com um Capitão-Mór para esta cidade, 
outro para Parati, que ó perto do mar, outro para S.Paulo, tudo 
se escusou com o bom successo que Deus nos deu em duas horas 
depois de tudo concluído, e' passados mais de 15 dias proveo o 
Governador em Capitão a seu Sobrinho e alguns postos mais ; 
veio reparar assim no tempo em que fez o provimento, como 
nas pessoas de que ha bastantes queixosos. 



70 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Seguio-se a esta victoria uma novena de festas sempre com 
luminárias a que obrigou o Governador em varias Igrejas com 
Senhor exposto e sermão, o que alguns chamarão sátiras ao 
Divino, porque consta vão de que por milagre se venceo e eu não 
vi milagre mais escusado, porque nós éramos muitos ( se todos 
brigassem ou tivessem essa ordem ) e elLes muito poucos, festas 
de Cavalio e no fim uma procissão de triampho com carros 
triumphantes. Em um delles hia nma figura com uma bandeira 
alvorada com as armas do Governador e ao pô delias as Armas 
d*El-Rei de Franga, e os mais Estandartes Francezes os ievavão 
figuras a cavallo assas pizados : tudo parecia não só escusado, 
mas vergonha nossa, que tudo mostravão ao3 Prisioneiros, huni 
se rião, entendo quem aprazivel gosto tinha, d'onde inflrião o 
quão temidos havião sido ; outros chora vão, não entendo porque, 
mas não lhes faltavão motivos ; outros se escuzaram de ver, e 
alguns pregantaram se Portu^;al havia conquistado a EI-Rei 
de França e despojara do seu Reino : estas festas, de todos 
forão estranhadas, só serviram de mostrar-se aos Francezes, a 
muita gente que a Cidade tinha, sem entrar as das mais povoa- 
ções, porque, como no conílito a não virão, ficaram na duvida 
se era por medo ou por não ter tanto de que agora lhe fica o 
conhecimento para olreeeio. 

O General Francez a quem chamão Duderc está no Col- 
legio, ó fatal homem; e eu assim o experimentei, porque 
estando ajustando a íórma do Quartel que o Governador 
me havia encarregado, porque eu não vim no que elle 
quiz, me disse estando sem nenhum partido que o negocio para 
oUe não estava acabado e que para elle não havia empreza que 
por diíficultosa deixasse de emprohende-la, ao que eu lhe re* 
spondi pelo mesmo theor. Aponto ist j para dar a conhecer o seu 
animo. Com elle vem cavalheiros de grande supposição e Cabos 
do mesmo género o uns que deixaram de o ser em França, para 
virem na occasião e muitos guardas marinhas : eu disse e 
apontei ao Governador o ao Ouvidor que seria conveniente que 
estes ao monos o General sem se faltar ã palavra, se podião 
impossibilitar de voltarem á França, mandando-se para Ben- 
guela e Caoonda, outros para Moçambique para onde ha aqui 
Navio, outros para Cabo-Verdo, terras onde se vivo pouco e 



CARTA DE FR. FRANCISCO DE MENEZES 71 

agora partio nm navio do António de Albuquerque para Angola, 
que podia levar alguns, que Portugal aoommoda-lhe que eate 
General não torne á França e não se lhe tàz injuria, porque são 
4!onqui8ta8 nossas, e não nos acommoda tê-los nesta, o se morre- 
rem naquellas, seria por conta e risco seu, e peor nos íázem 
aos nossos prisioneiros que rendendo-os em as nossas fronteiras 
08 mandão de Castella para França, que não é província sua, 
porem como o não vejo fazer não deve ser bom o meu diotame, 
porque o Governator tudo quanto tem entendido, tudo tem 
obrado e confesso ser bom servidor d'£l-Rei, principalmente 
para a paz, e nunca lhe conheci erros da vontade, só lhe noto 
não ouvir nem querer consultar o que ouve* 

Ouço aqui fallar em que se quer fortificar a Ilha das Cobras» 
oiijo trabalho será muito prejudicial a esta terra« porque é uma 
ilha junto & Cidade em lugar emminente a ella em uma ponta 
e» se o inimigo entrar as Fortalezas, em a ganhando, já 
assolla a cidade, e mais facilmente achando lugar em que 
monte artilharia, se não uzar da nossa, que para se defender e 
guarnecer a dita Ilha, ha de mister mais de 2.500 homens, e se se 
nãohade guarnecer de gente, para que se fortifica? e se, a 
guarnecer, empobrece a cidade, e expoem-se a que se não possa 
retirar, porque podom sor impedidos dos inimigos : e esta ilha 
se pode conservar como está, e para oífender ao inimigo que- 
rendo a occupar, da mesma Cidade se fará, porque nelLa tem o 
monte de S. Sebastião, emmincnto a dita ilha e o de S. Bento, 
que lhe fica tiro de peça ou da Conceição com pouca mais diífo- 
rença, aondo se pôde fazer iluas cidadclias que não só dofendão 
a Illia mas sir vão para guardar e defender a Própria Cidade o 
se recollião as melhores, feitas estas, pouco importa que o 
inimigo entro na Cidade, quo logo se sujeita c me parece que é 
a única obra nova quo hado mister esta cidade. Eu não me 
obrigo a acertar, mas devo dize-lo o parece me se so ponderar, 
e^ta fortificação da Ilha que se não fará, e. fazendo se, será pela 
parte do mar aonde só 6 conveniente para oflender os Navios 
que quizerem bombear a cidade. 

As Fortalezas da barra são as que bastão, mas não tem 
a artilharia necessária, e a que pode ser nem Artilheiros, 
e não se faz diligencia para que os haja, porque eu conheço 



j 



72 RRVI8TA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

60ta torra ha annos e nuoca Ti faser exorcioio a Ar4i- 
Iharla, e a pólvora apodrece como succede a soldadesca. A 
Barra tem 8 fortalesas e, se se fortificar tudo, não bas- 
tará quanto o BraEil tem, porqae é costa, o que seria bom 
conservar o que tem mal prevenido, que estando na terra 
das madeiras, não tem as carretas reparos, e o mesmo achei em 
Pernambuco, e que ve&hfto cabos para a guerra, qne para a pas 
ha quantidade. 

Eu lulo passei as Minas, porque António de Albuquerque me 
escusou diiendo que maior serviço faria eu a S. Magestade 
ficando nesta terra ; foi meu irmio Pr. Jerónimo Pereira a buscar 
alguma cousa que escapou das perdig^os e determino com o &vor 
de Deus recolher-me ao meu convento nesta primeira Frota. 

António d*Albuquerque foi a S. Paulo, nomeou a 3 capitSes 
de Infantaria pagos, passou as Minas e nomeou outros ainda 
que estio sem patentos mas devia tratar por onde havia de 
sahir com que se lhe pagar. Ató agora n&o tratou de cousa 
alguma ; supponho que não teve occasião ou tempo. Os quintos 
ainda estão com a mesma forma, que não pode ser peor, porem 
assim accommoda a quem por cá está, masS. Magestade cada 
vezoom menos lucros. Aigora se diz aqui publicamente que 
Francisco de Castro manda para a Parahiba, que ó aonde ha 
o registo do ouro e aonde pende tudo, a seu irmão Capitão 
Francisco de Moraes ; fará tudo muito bem feito e emendará os 
erros: 6 verdade quo ninguém o suppord, porque o lugar ó sus- 
peito, o Provodor irmão do Governador não será mau. mas não 
parece bem. O negocio desta terra feito para as Minas cada vez 
tem mais abrolhos ; ainda quos. MagostadefVanquea o caminho, 
taes intelligencias lhe poom que tudo se virá acabar de todo e 
só virá a servir para os quo govornão e mexem e. se ello 
hado ser assim, melhor será que S. Magestade o faça por sua 
conta. Já que o Reino está tão empenhado. Agora tem inven- 
tado o Governador que haja uma Companhia do Mineiros nesta 
terra ; veja V.Ei.» como pôde ser isto, uns quo são almocreves 
da estrada, os que d'qui escapão, que sempre tem passagem, 
tanto que ha moedas, não tornão. 

A estrada da Bahia se conserva impedida, mas é para que 
renda mais, porque todos entrão e difflcuUosamente terá isto 



CARTA DE FR. FRANCISCO DE MBNBZES 73 

remédio em qasmto não governar pessoa de consciência e deseje 
servir a S. Majestade e a Ooroa. Elias estfto qnietas, mas 
reoeio-lhe alguma inquietaçio se lhe lerantarem o 3/, porque 
nelias nSo ha senão gente qoe entra e sahe eom negocio e mo- 
radoresde S. Paulo que vem buscar ouro para se reoolherem 
em suas eazas e muito poucas pessoas assistentes, e estes n&o 
devem ser soldados. 

Os mercadores que são os que povoão oom continuo curso as 
Minas se os fizerem soldados, âcão impossibilitados e os Paulistas 
se os ftierem solteiros ha poucos, os casados hão de hir-se e 
todos senão se inquietarem, fuglião, e despovoão-se as Minas 
que o estavão, porque quem se receava» hia para ellas viver, 
e quem necessitava, agjra poem-se em termo de fugirem todos 
delias, e não ha metter-lhe na cabeça que as Minas as povoon 
a isenção e o commercio, este evitado tudo se desva- 
neceu. 

Nas Minas, estando como estão quietas, não é necessário 
3.<> pago, bastará quo o haja, e 03 Capitães sejão em districtos 
repartidos para quando for necessária alguma diligencia a Aise- 
rem que no Sertão não hado haver invasão dos inimigos, e 
estes Capitães podem ser dos que residem e ter-lhe S. Magestade 
respeito ao serviço que fizeram que sempre será a maior parte 
com escravos seus e cuido que só servira para alguma prisão oii 
observância de alguma ordem, o para guardado Governador 
bastará que hajão duas Companhias, como esta terra tinha 
quando ou a conheci o todo o Brasil; o mais é talhar obra, 
gastar tempo, atropelar os Yassallos, podendo aproveita-lo em 
grangear para a Coroa muitos milhões e cobrar a multa fazenda 
que S . Magestade tem perdida nas Mimis, como eu apontei a 
D. Fernando Martins Mascarenhas, que não emporta em pouco, 
mas o Governador tem muito a que acudir, não pôde tudo : 
finalmente matérias de tanta importância deiza-Fas & disposição 
de um, (^ não as querer ver bem snccedidas, muito perdoo S.Ma- 
gostado em o Bispo não hir ás Minas como lhe ordenava, mas 
havia de ser ouvindo-o e servindo-se do seu parecer» que 6 um 
sorvidor d'El-Rei, e tem claro entendimento, mas estes não são 
os que servem ; parece-me que não hade ser António de Albu- 
querque o que hade servir a S. Magestade de lhe aocresoentar 



74 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

as rendas nas Minas, vejoo muito divertidQ oom o negocio e fiii^- 
se muito dependente dos homens. 

Agora quando ohegou ás Minas mandou pedir ao Capitão- 
Mór e Superintendente do Rio das Velhas oavallos para virem 
a Parati buscar 300 cargas, e porque neste tempo lhe chegou a 
nova dos Francozes, se aproveitou para comboiar mantimento 
para escravos seus que tem a minerar em outras minas. S. Ma- 
gestade deu liberdade aos Governadores para negociarem, hade 
logo encontrar-lh'o, porque elles o obrigaram: até agora sempre 
governavão e negodavão, mas era com receio, sempre tinhSo 
mão em si, agora tem o mesmo soldo que S. Magestade lhe 
accrescentou quando lhe prohibio o negocio, e vfto pondo isto 
em taes termos que já não ha negocio senão o sen, negros só 
são para quem governa e tudo, mas elles vão-se conservando 
porque impedem cartas para ess3 Reino e d&o-lhe a côr 
que qaerem, e, se vão algumas, vem-lhe á mão, ou a noticia, 
e vingão-se. 

António d'Albuquerque as Impedio no Paquete, agora o fás 
Francisco de Castro e as Gazetas ou RolaçOes das operações do 
inimigo e das nossas e também a algumas pessoas que lho pa- 
recem falarão, e querendo a Camará escrever a Bl-Rei a não 
tem deixado, parece até querer notar a carta, se Sua Magestade 
não acudir a isto não sabarã o que cã se passa, c querendo 
mandar um Procurador lh*o não deixa embarcar, cã se governa 
despoticamente, e ho mal quasi sem remédio. 

Sobre estas guerras não quer que vá carta, eu faço esta o 
entrego-a ao Capitão do Paquete. 

Todos os annos esta Costa do Brasil 6 infestada pelos Fran- 
cezes G sempre dolla levão um grndo cabedal o vera com toda 
segurança, porque sabem não ha com que se lho faça mal isto 
haver mister remédio; ou bem vejo que S. Magestade teve aqui 
uma GuarJa-Costa, o que lho fez oxccssivos gastos, mas se 
S. Magestade castigara isto, estaria capaz do pôr agora outra. 

Eu escrevo esta que bom mostra o ser minha, porque vai 
desencadornada, oscrupoliso se não der esta conta, se a V Ex* 
lhe parecer alguma couza destas convenientes o remedeie, e se 
informe, a mim desculpa-me o zello, o o ser para V. Ex." 
me anima, só ro.i^o a V. Ez.« me não dô por Author, não 



CARTA DE FR. FRANCISCO DB MENEZES 75 

porque falte á verdade, maB tenho cá em qae se me (Saga mal, 
razão porque me nio aooommoda, e porqae perderá por minha 
a informaçfio. 

N08S0 Senhor oonserre a V. Ex.* a vida para oonserracio 
do Reino e protee^^ dos seus Capellãei e o guarde por muitos 
e felizes annos. Rio de Janeiro 6 de Novembro de 1710. 

De V. £x> Ex.»» Sr. Duque do Cadaval. Humilde Greado 
Fr, Francisco de MensMes. 



CARTA 



VíWmR»! do Brtzil Conda dt Cunlii 

A FRANCISCO XAVIER DE MENDONÇA FURTADO, ACERCA DOS MOTIVOS 
QUE TEVE PARA PEDIR NOMEAÇÃO DE SUCGESSOR 

(1767) 



(Ezirabida do Códice do Inatitato Histórico G«ographico BrftxUoiro — 
Doe. — STÍ ~ Archivo do Conselho Ultraniarioo — Rio dê Janeiro ^ Com$- 
pandmêia doê Vieê-Reia — i763 - ÍTTÍ,) 



A presente carta é a juatificação do Conde da Cunha, mal apre- 
ciado por algana historiadores. Gomo poderia elle continuar a go- 
vernar bem, tendo contra a si os militares, os commerciantes, os 
membros da Relação e o próprio clero, inclusive o Bispo ? 

(Xota da Commissão de Redacção,) 



Oarta do 7io6«Bei do Braiil Conde da Ouha a Franelsoo Xavier de 
ICendoBça Fiurtado, aoeroa doi motWos que teye para pedir 
nomeaçio de BiMcetsor. 



Iltmo. o Exmo. Snr. — Na ultima occasião em que tive a 
honra de me pôr aos reaes pez de £1 Rey Nosso Senhor, lho pedi 
(com aquella perturbação que naturalmente costumo ter na sua 
real presença) que fosse servido mandar-me um sucoessor logo 
que lho constasse que por cauza de minha curta capacidade 
obrava alguns desacertos, e porque a Praça do Lisboa e a desta 
terra, descobriram em mim muitos que eu não sabia que o erão, 
pois 00 de que elles me podem criminar serão tão somente, os 
de se terem executado flelmento as reaes ordens, que Sua Ma- 
gestade foi servido dar-me na sua regia carta de 16 de Dezem- 
bro de 1753, para serem prezes e sequestrados os eztraviadores 
dos seus reaes direitos, não me podia persuadir que observando 
eu religiosamente, o que na mesma real oarta se me ordenava 
eicedia a minha obrigação, porém para me capacitar de que não 
sirvo, nesta parte, a meu amo tão bem como devia, basta-me o 
ver que o mesmo Senhor me manda promover o zelo com que o 
sirvo, com a prudência e a dissimulação, e como não obstante 
esta determinação, não alcanço o como a posso praticar, peço a 
El Rey Nosso Senhor, que se alguns dos meus serviços tem ai* 
gum merecimento, por remuneração delles, me íaça a merco de 
me mandar suocessor, pois também por outros motivos que 
nesta referirei se vô, que com bastante cauza peço esta graça, 
que também ô preciza para o bem commum e quietação d'esta 
Capital. 

O primeiro motivo consiste o que em outras ocoaziões tenho 
dito a V. Ex*., que os meus muitos annos, os esquecimentos 
que ellee me cauzam, os achaques que padeço, e o não poder 
oom o excessivo pezo deste governo me obrigava a pedir sucoes- 
sor» aftm de que Sua Magestade podesse ser mais bem servido. 



80 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Isto ó O que tenho pedido nas minhas supplicas, sendo tão 
verdadeiras como justas, porem como ainda ha outi*os 
motivos graves que parece sor necessário, que por cauza 
delles Sua Magestade queira mudar de Governador, os devo 
relatar a Y. £z*. para que cheguem á real prewnga do mesmo 
Senhor. 

Segundo motivo é sera duvida , ser necessário que o Governa- 
dor seja bem quisto com todos, especialmonte com os militares ; 
e com estes por infelicidade minha o não posso conseguir, não 
obstante o estarem todos fardados e pagos, ató do que lho 
ficaram devendo meus aateoessoresi alóm do que tem sido muito 
accresceutados nos postos, at tendidos por mim em todos os seus 
particulares, e estimados como nunoa nesta terra so vio. Estes 
mesmos a quem tantos beneficios tenho feito me desejam ver 
vendido, porque só se lembram da liberdade que houve no tempo 
do Condo de Dobadclla, e ainda a apotocem para poderem gozar 
aquella soltura e desobodiencia em que se criaram e viveram não 
menos que trinta annos completos , peio que todos esperam que 
meu saccessor queira seguir aquelle systema. 

Terceiro, os Ministros desta Relação que deviam ocmcorrer 
para a boa harmonia do mesmo Tribunal, e para a boa arreca- 
dação da Real Fazenda, se uniram ao Chancdlicr João Alberto 
Castello Branco, pura protegerem homens indignos, o outros de* 
vedores em quantias graves à Real Fazenda ; estes procedi mea- 
tos foram tão excessivos que ató na mesma Relação e fora delia 
fizeram algumas desattençõos ao Procurador da Coroa, e ainda 
que a scena vao prezontemonte mudada, e a meu entender mi- 
ihorada com a posse do novo Chancollor elles me temem o me 
desejam fura desta terra, mas podará ser que succedendo assim 
elles se emmendem e venham a ser muito bons iMinistros; porem 
jã agora por nenhum modo poderão ser meus bons amigos: e pelo 
que tenho dito a alguns dolles sobre o seu procedimento me de- 
zejam ver fora daqui, e se Gonçalo Jozt^ e o Procurador da Coroa 
ficarem nesta terra depois de eu sahir delia, os hão de apedre- 
jar por terem servido até ao prezento com muita honra, e um 
grande zelo da Real Fazenda e isto com desinteresse o verdade • 
polo que rogo a V. Ex». os pa troei u.í para que possa haver 
muitos Ministros que os queiram imitar. 



CARTA DO VICE-RBI DO BRAZIL 81 

Quarto, o Bispo (se me ó permittido repetir alguns dos 
fiíetos que com elle tem sucoedido) posso dizer o muito que se 
tem interessado pelo Thesoureiro da Casa da Moeda Alexandre 
de Faria» o intento que teve de intimidar o Desembargador 
Procurador da Ck>roa para que não applicasse as contas que a 
este homem se deyiam tomar, o muito que a este Prelado custou 
largar a prata que a Sua Magestade pertencia, e que estava no 
deposito eodeziastico, as vergonhosas diligencias que ali se fize- 
ram para a não darem que tudo é notório; pelo que claro está 
que também este Bispo me não gostará, ainda que aparente- 
mente mostra ser meu amigo. 

Quinto, a Camará Ecclesiastica e Clero que poucos erão os 
oabedaes desta Capitania, para o quo elles lhe tiravam com as 
habilitações dos que se queriam ordenar, e estes por não pode^ 
rem prezentemente conseguir as ordens, julgam uns e outros 
que eu lhe causei este prejuízo, que só quando me auzentar 
poderão milhorar de fortuna, pelo que todos elles me não 
gostam. 

Sexto, tendo os frades vivido sempre (nesta Capitania) com 
escandaloza liberdade, e vendo que esta se lhe tem quartado 
alguma couza, no meu tempo, e neste experimentam o emba- 
raço de não poderem tomar noviços, se persuadem de que eu 
sou o que lhe tenho feito este damno que tem experimentado, e 
por esta cauza também com elles estou mal quisto. 

Sétimo, ó infalível que nem os homens de negocio hão de 
deixar de continuar os contrabandos, nem eu ao que deva obrar 
para os evitar, porque isto é o que Sua Magestado prezente- 
mente me ordena, e como elles mal quistando-me nas duas 
praças conseguem o perdão dos seus excessos, pode Sua Ma- 
gestade estar na certeza que estes homens se queixarão sempre 
de mim, sem deixarem de extraviar os diamantes — ouro — e 
direitos das fazendas. 

Oitavo, também é certo que nenhum Governador se pode 
bem quistar, não tendo com que pague a quem manda tomar 
oâ géneros que preciza, para manter e prover as praças do sul 
e satisfisuser o soldo das tropas ; e porque a falta das frotas tem 
oauzado um grande embaraço na commercio, se experimenta 
uma grande diminuição no rendimento da Alfandega, e com 

491 — 6 Tomo lxix. p. i. 



82 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

estes motíToe oomo pode um GoTemtdor remediar estas fitltas 
de meios para ser hem quisto, oom a mesma tropa e eom os ne- 
gociantes a quem não poderá pagar f : a meu suocessor não será 
difficii o remediar este fiilia, porque se lhe permittirá logo o 
poder se Taier da casa da moeda, liberdade esta que o Oonde da 
Bobadella teve, e de que também usaram oom iargoeia os Go- 
vernadores interinos, e que eu não pude conseguir não obstante 
o tei-a pedido ha três para quatro annos, sem merecer nem a 
resposta desta representação ; pelo que naturalmente por este 
motivoy tombem me hirei mal quietando cada vez mais. 

Nono, sabe-se que a maior rua deste terra e a mais po- 
pulosa ó a dos Ourives, e que este innomeravel gente se sus- 
tonteva daqneiies offlcioe de que já não pode usar, e todos 
suppdem que foi arbítrio a sua eztinc^, pelo que de mim se 
queizam incessantemente, e este só motivo basteva para me 
malqnister, e íkier aborrecido no Rio de Janeiro. 

10«, neste Capitulo mostrarei ultimamente outros motivoe 
pelos quaes se vô claramente que com tedos me tentio mal* 
quistado, e que por este causa me parece ser necessário que 
para este terra venha com brevidade Governador que se possa 
íázer amaio. 

Toios os offlciaes da Alflindega vendo o cuidado em que 
nella esteu e no seu despacho, se não satisfskzem deste novo 
zelo, os da Fazenda, como pela nova regulação perdem os offi« 
cios de que se susteotevam, persuademnse que eu fui o arbitro 
deste novidade e se queixam de mim. 

Os da Casa da Moeda com as necessárias e importentoi dili- 
gencias que tenho feite nella, e^tos mais que todos me desejam 
o sucoeHKV que peço ; e porque em descaminhos da Real Fá« 
lenda tenho achado cúmplices alguns offlciaes militares, que 
tenho prezos e lhe estou averiguando as culpas particularmente, 
tombem estes e seus camaradas anciosamente desejam novo 
governo. 

Estes grandes motivos me impossibilitam para me poder 
bem quistar, o que será multe fácil a qualquer outro que me 
Tier succeder, porque conhecendo estas gentes que elle não 
podia ter parto nos meut desacertos se poderá fazer muito 
amado o que muito importa ao real serviço de Sua Magestadot 



CARTA DO VICE-REI DO BRAZIL 83 

qne não tem conquista tão importaate como esta, a qual achei 
perdida por todos os modos, e por todas ais suas partes mais 
importantes, porque não haria nelia mais que dezordens — 
insultos — ruinas— pobresas— e roubos» sendo nestes a Fazenda 
Real a mais prejudicada, as conquistas do Sul, V.Ez*. sabe o 
deplorável estado em que estavam, e como tudo se reformou ; 
satisí^bço-me com que o digam as pessoas que na praça de 
Lisboa e na desta Capitai me malquistaram ; e para que o be- 
neficio (que com tanta despeia da Real Fazenda e trabalho meu) 
possa permanecer, conheço que ó preciso novo Governador como 
todos desejam, para que com a sua prudência e dissimulagãOt 
venha consolar os que ainda lamentam a perda que tiveram na 
Iklta do Conde de Bobadella, e na brevidade do Gk)vemo in- 
terino. 

Deus Guarde a V.Ez^. muitos annos^Rio de Janeiro a 7 de 
Julho de 1767— Senhor Francisco Xavier de Mendonça Furtado. 
Coi/kl4 da Cunha. 



TRASLADO 

DE 



âdIa de deligODCía sobre a arribada do navio N. í do kario 
e M AntdDio 



( 1645 ) 



^Bibllolhec* Public» piorení^ — Cod, C.V.I. 2—2 f. ÍW) 



Este traslado comprova o que disse o nosso consoeio Sr. Ca- 
pistrano di Abreu em sua notável obra denominada «Gapitolot 
de Historia Colonial (1&00 a 1800)», pag. 98. 

(Nota da ÇammissSo de Redacção,) 



Tniliii íeiíi Alto de itUieicii lOtR t arriiwli a esta Ma to HaTia 
ekaialG Nima Snlion «o Rezarit, e Saitt AiMe me talio ia 
tmiMiUa ia Amadi de Pernantraco, le m foi w Capital Hír. 
o Csniel HíMine Semo te Paira e Capltio le Mar e Saem to 
llto Mo Mo ilTei e Mestre e Filoto Maioel Ferreira Lina. 



Aono do Naaeimento de Nosso Senhor Jezas Ghristo de mil 
seisoeiíios eqnareotae cídoo, ao primeiro dia do mez de Betem-* 
bro do dito anno, nesta Cidade do Salvador Bahia de todos os 
Santos, nas Gazas dos Contos delia, o Provedor mor da fa- 
seada de Soa Mageatade deste estado do Braiil, Pedro Ferrai 
Barreto, mandou a mim escrivão da ditta Real ftkzenda, e de 
saa cargo ao diante nomeado, Aaiaar a ponaria que se segue do 
dito António Telles da Silva, Governador e CapitSo geral deste 
estado, em que lhe ordena tire testemunhas para se informar da 
Cansa que ouve para arribar a esta porto o Navio chamado Nossa 
Senhora do Rosário, que hindo em oompanhla da Armada que 
mandou a Pernambuco, de que foi por OapitiLo mór o Coronel 
Hironimo Serrão de Paiva, e por Capitão de Mar e Guerra do 
mesmo Navio João Alves Soares, e Mestre e Piloto Manoel Fer- 
reira Uma, arribara, e chegara a este porto em vinte nove de 
Agosto próximo passado, e dos mais particulares que a dita 
Portaria conthem; perguntando o ditto Capitão, e Mestre» e Pi- 
loto, e os mais oflQciaes, e Marinheiros do dito Navio que pare- 
oesse» elhe mandasse dar os traslados autênticos de tudo, para 
os inviar a Sua Magestade, que Deos Guarde, e lhe fez todo pre- 
sente, em comprimento do que autuei a dita portaria, e ajuntei 
aqui, e he a que se segue, Oongalo Pinto de Freitas, escrivão 
da fkzenda Real deste estado. Provedoria mor delia por soa 
Magestade o escrevi. 



88 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 



PORTARIA 

Porquanto chegou arribado a este Porto o Navio Santo 
António, de que he Capitão de Mar e Guerra João Alves Soares, 
hum dos que forão na Armada que mandei a Pernambuco a cargo 
do Capitão mor Hieronimo Serrão de Paiva, e convém saber se 
a cauza de sua arribada navegação que teve assim a ditta Ar- 
mada como a de Salvador Corrêa de Sãa do Porto de Tamanda- 
ré donde havião chegado, até 6 Porto do R<icife, couza porque 
no de Tamandaré se não fez Concelho para se rezolver o que fos- 
^e mais conveniente e de maior segurança, em razaõ do tempo 
e das agoas, modo com que ambos estiverao sobre o Recife, 
tempo que ali se detiverão, motivo porque levavão anchora, 
que derrota levou, hua e outra Armada e modo de velejarem, 
sua navegação, e donde ficarão ambos, o Provedor mor da fa- 
zenda do Sua Magestade deste Estado foça logo fazer hum Auto 
perguntando exactamente nelle tudo o assima refferido, e mais 
circumstancías tocantes a este particular, assim ao ditto Capitão 
de Maré Guerra do ditto Navio Santo António, como ao Piloto, 
contra mestre. Marinheiros e mais pessoas que nelie vem, dan- 
do-se-Ihe a todos Juramento para que com a verdade que deste 
Auto rezultar seja tudo prezente a Sua Magestade, para cego 
effeito o mandava copiar pelas vias que se lhe pedirem. 
Bahia primeiro de Setembro de mil seiscentos e quarenta e cinco. 

Inquerição que fez o Provedor mór da fazenda pela porta- 
ria do Senhor Governador. 

Ao primeiro dia do Mez de Setembro de mil seiscentos 
quarenta e cinco, nesta Cidade do Salvador Bahia de todos os 
Santos, na Caza dos Contos, o Provedor da fazenda de Sua Ma- 
gestade deste Estado, Pêro Ferraz Barreto, comigo escrivão 
delia tirou as testemunhas seguintes que pelo contheudo no 
Auto e Portaria junta forão porguntadas. Gonçallo Pinto de 
Freitas o escrevi. 

O Capitão João Alves Soares, de idade que disse ter de vinte 
e quatro annos pouco mais ou menos, a que o Provedor mór 
deu juramento dos Santos Evangelhos, sob cargo do qual pro- 
meteo dizer verdade. 



TRASLADO DR HUM AUTO DE DELIGENCIA 89 

E perguntado pelo contheado no Aato e Portaria do Senhor 
Governador, que tudo lhe foi lido e declarado, disse elle dito 
Capitão, que estando a Armada de que he Capitão mór Hiero- 
nimo Serrão de Paiva, e em que elle testemunha hia por Capi- 
tão da Não Santo António, no porto de Tamandare, surta dentro 
do Recife, a honde lançarão os Mestres de Campo agente em 
terra, em nove do mez de Agosto próximo passado, lhes veio 
recado, em como o Galleao do General das frotas Salvador 
Corrêa de Sáa e benavides com a frota estava surto, duas, ou 
três legoas do ditto Porto, e ao outro dia que fotSio dez do ditto 
mez, sahio a Armada a encontrarse com o ditto General, o qual 
sem aguardar a tomar falia nem fazer Concelho, foi vellejando 
na volta do Cabo de Santo Agostinho, e hindo assim ambcs as 
Armadas tirado a do Almeirante Paulo de Barros que ficava 
no porto» porque ainda sinão esperou, forão dar fundo no porto 
de Pernambuco, de íironte do Recife» e em onze do ditto mez ã 
noite, e naquella noite naõ ouvera mais, que estarem as Ar- 
madas surtas, e tanto que amanheceo virão que estavão fora 
seis Embarcações Holandezas de alto bordo, em que entravão 
hum Pingue e hum Pataxe, e, as mesmas embarcações tinhão 
visto ã noite antes de surgirem e amanhecendo em doze do 
ditto mez, vio elle Capitão sahir da Capitania de Salvador Corroa 
hum Barco da Companhia da Armada, em que ao despois soube 
foraO chamados, o Capitão mor Hieronimo Serrão, digo íorãe 
huns Embaixadores que o ditto General mandava, sem até então 
ter chamado os Capitães da Armada, e despois de despedido o 
ditto Barco, forão chamados o Capitão mor Hieronimo Serrão 
com todos 08 seus Capitães a Capitania de Salvador Corrêa, 
donde lhe foi dilto pelo mesmo General, o que lhes parecia que 
se devia fazer, a que todos responderão que, como já tinha man. 
dado os Embaixadores a terra, naõ se deliberavaõ sem sua vinda 
e resposta dos Holandezes, nem saberem o que continha a Em- 
baixada, mais que levarem as Cartas que o Senhor Governador 
mandava para os do Concelho de Holanda, assim por huma 
Armada como a outra e huma que o dittio General Salvador 
Corroa de Sá disse lhe escrevera, e outra do Capitão mor Hiero- 
nimo Serrão. E estando neste Concelho, apareceo a Não Almei- 
rante de Paulo de Barros com mais um Barco de Sua Magestade, 



90 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

que havia ficado no porto de Tam&ndare, que tronxe Cartas 
dos Mestres de Campo que estaraS em terra Martim Soares Mo- 
reno, e André Vidal de Negreiros, em que avizarão, e erão de 
pareoer que aqueilas Armadas era miihor estarem a balrarento 
do Gabo de Santo A^stinho ou no porto de Tamandare, ou Ilha 
de Santo Aleixo, ou andarem de hna Tolta noutra a balrarento do 
ditto cabo até passar este mez de Agosto, em que aquella Costa 
era muito verde. E logo o ditto General Salvador Corroa pro- 
pez se se poderia seroar aquelie porto para lhe nSo poder entrar 
socorro, e se acentou que não era possível, e assim mais que 
se acentou, que se esperasse ate o outro dia pelos Embaixadores, 
e que então se viria para balravento do Cabo como parecia 
aos Mestres de Campo, visto dizer o ditto General que naõ havia 
de brigar com as Náos dos Holandeses que estavfio fora, e 
ainda quellex o quizessem, o havia de fazer sempre com ban* 
deira branca, porque nâo tinha ordem de Sua Magestade nem 
do Governador para pelleijar com os Holandeses. B com isto» 
se foi cada hum para seu Navio, e amanheceo em trero do ditto 
mez de Agosto sem serem vindos os Embaixadores e ao meio 
dia veio hum Batel dos Holandeses sem trazer os Embaixadores, 
antes lhe vinhaõ pedir o foto e aviados dos mesmos Embaixado- 
res por Cartas suas sem trazerem reposta alguma da Embaixada, 
e deixando hir o dito Batel sem lhe dar o foto nem criados, mas 
antes os despedio, dando hum Anel de preço ao Cabo do Batel, 
e Patacas aos Marinheiros, e Salvando-os com três peças de 
Artelharia. E isto sabe elle Capitão no que toca as Patacas » 
Anel por lho dizer o Padre Frei António da Cnu, Relegioeo Clt« 
pocho da ordem de SaO Francisco, que estava na CÉipitasla, e o 
passou o General para a mão delle Capitão • neste dia sucedee 
ventar vento rijo sueste com que alguns Navios se foriU> fozen- 
do a Vélla, e parecia perderem Amarras, e a Capitania de Sal« 
vador Corrêa se féz também a Vóila pela hua hora depois do 
meio dia, donde por lhe escacear o vento tornou a dar Aindo 
mais perto da terra e pelas quatro horas da mesma tarde se 
tornon a fazer ã Vélla na volta do mar, entendendo elle Capitão 
que de huma e outra ves perdera Ancoras, e assim lho afirmou 
despois o ditto General. E pelas cinco horas da tarde, vendo elle 
Capitão que o Capitão mor Hleronimo Sernlo mandara fozer 



TRASLADO DE HUM AUTO DB DELIGBNGIA 91 

á VéUa a Charrua do Calabar Náo da sua Armada, que estava 
pela proa a delle Capitão, e que largara hama Amarra, elle 
Capitão levoa também ferro, tirando primeiro a Anohorae 
amarra da ditta Charrua, e fazendo-39 tambam na volta do mar 
oom o batel da ditta Charrua, a qual andava á Vôlla com Navios 
da ditta Armada por se serrar a noite lhe não pode dar o Batel» 
nem amarra e arribando á Capitania lhe disse Salvador Corroa 
o seguisse, porque na meia noite havia de virar na volta 
terra. E declara elle Capitão, que antes de serrar a noite 
vio que se não tinha levado do porto a Capitania de Hieronimo 
Serrão, e sua Almiranta e duas Cravellas e dous ou três 
Navios da íh)ta, e seguindo toda esta noite o farol da Ca« 
pítania, amanheoeo em quatorze do dito mez com ella com 
nebrina etc. Despois do moio dia se aoharião dezaoete Navios em 
que não enu) de Guerra mais que Capitaina e Almirante de 
Salvador Corrêa, e ello Capitão que pelas três horas da tarde 
se foi a Capitaina em hum Batel que delia lhe mandarão e fa- 
lando com Salvador Corrêa lhe disse quo lhe desse licenoa para 
hir bttsoar seu Capitão mor, que conforme ao assento que estava 
tomando, havia de estar para balravento, e Sua Senhoria se so- 
taventeava muito, ao que o ditto General lho ordenou dando-lhe 
Cartas para o Senhor Governador, e para os Mestres de Campo 
e para o Capitão mor Hieronimo Serrão. E dizendo-lhe elle Ca- 
pitão que se não achasse seu Capitão mor, e Armada a balra- 
vento, como queria hir por ser bom Navio de VóUa, que nesse 
cazo havia de tornar, conforme o seu Regimento* á Bahia da- 
treição, ao que o Piloto delle Capitão Manoel Ferreira Lima re- 
plicou que não havia de tornar & dita Bahia, por não tor pra- 
tica do Porto, a que respondeo Salvador Corrêa se Vm**. quer 
vir comigo ã noite estamos lã e elle Capitão lhe disse que se 
sua Senhoria lhe ordenava, o faria e, se naõ, segueria sua viagem 
para balravento, porque hir á Bahia da troição era o derradeiro 
remédio. E então Salvador Corrêa se foi a balravento para a 
ditta Bahia, e elle Capitão na volta do mar tratando de vir 
para balravento buscar a sua Capitaina e então lhe deo 
ditto General as Cartas e papeis e entregou o frade Capucho re« 
ferido com dous Escravos mais que viahão com tenção de saltar 
em terra de Pernambuco. E navegando elle Capitão onze diaa 



92 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

om difer6nto3 rumos sempre para balrarento, veio avistar a 
torra das alagóas e vindo correndo a costa qara buscar a sua 
Armada na paragem de Tamandaró ou Ilha de Santo Aleixo» 
ouve vista, junto ao porto Calvo, do hum Navio cora três em- 
barcações pequenas, e chegando ao reconhecer acharSo ser o 
Navio Holandez com três sumacas, o tratando ainda de hir 
buscar a sua Armada ate á Bahia da treiçâo o seu Mestre o Pi- 
loto Manoel Ferreira Lima lhe fizera protestos que nao sabia o 
porto e que o Navio não estava capaz por fazer muita agoa, e 
estava aberto pela Proa e então olle Capitão por todas as razões 
referidas, e ver dar á, bomba, se veio a esta Bala para concertar 
o Navio, e seguir a ordem que lha der o senr. Governador, e 
chegou aqui a vinto nove do passado. E esta he a cauza de sua 
arribada, e mais não disse do oontheudo no Auto nem do costume, 
e assignou com o Provedor mor, e eu Oonçallo Pinto de Freitas 
o escrevi,— Ferraz.— João Alves Soares. 

Manoel Ferreira Lima, Mestre e Piloto, e Senhorio om 
parte do Navio nossa Senhora do Rozario, e Santo António, de 
idade que disse ser do quarenta o cinco annos, pouco mais ou 
menos, a quem o Provedor mor deu juramento dos Santos Evan- 
gelhos, sob cargo do qual prometteo dizer verdade. 

E perguntado pelo contheudo no Auto e Portaria do Se- 
nhor Governador que lhe foi lida e declarada, disse elle Mestre 
que estando em nove de Agosto a Armada desta Bahia dentro 
no porto de Tamandaré, veio recado por hum Barco, em como 
Salvador Corrêa vinha com a sua frota, a qual ã noite ainda 
apareceo, e amanhecendo em dez veio saindo a armada para 
fora e virão que Salvador Corrêa hia navegando na volta de 
Pernambuco, e neste dia pelas quatro horas da tarde a Capi- 
tania de Hieronimo Serrão de Paiva o foi salvar abatendo a 
bandeira, o tirandoa, o pondo hum rabo de gallo. E ao outro 
dia onze do mez de noite derão as Armadas fundo de fí*onte do 
porto de Pernambuco, passando a noite em quietação com f&roes 
acêzos, eem amanhecendo em doze virão que esta vão a par delles 
cinco Nãos, e hum Perigue, todos com as Véllas dalto Holan- 
dezes e aparelhados para se poderem fazer á Vélla. E pelas outo 
horas vio clle testemunha que ã nossa Capitania chegara Iium 
Barco dos nossos, e nelle dizem que sahirão oa Emba^adores 



TRASLADO DE HUM AUTO DE DELIGBNCIA 93 

que Salvador Ck)riêa mandava para a terra, e ao despedir 
salvou com cinco ou sete pessas, e o Barco foi a Capitania Holan- 
deza, e detendo-se ham espaço o vio tornar a sahir para terra e 
o Holandez os Salvar com cinco ou sete pessas, e neste dia não 
vio mais que alguns Barcos Holandezes andarem por entre a nossa 
Armada e o Pirigue, e vio chamar a Concelho á Capitania de 
Salvador Corrêa os Capitães da Armada de Hieronimo Serrão. 
E amanhecendo em treze tempo sueste rijo e ao meio dia 
pouco mais ou menos veio de terra hum Batel Holandez á 
Yélla, que vinha buscar o fato e criados dos Embaxadores, e 
Salvador Corrêa lho não dera, e os brindava, e lhe disse a elle 
testemunha que os Framengos que ali vinhão, vierão disfor- 
cados em habito de marinheiros, mas que hum era o Almeirante, 
e alguns Capitães e ou vio dizer que Salvador Corrêa lhe dera 
hum Anel de sua Mulher de preço, e patacas aos Marinheiros, e 
estando o ditto Batel a bordo veio carregando o tempo de ma- 
neira que se fez o GalleSo á Yélla, e foi dar fundo, por não 
poder dar por devante junto a terra onde esteve com risco lhe 
entrou a viração, e se fez outra vez a Yélla em que devia de per- 
der anchora e amarras. E declara que emquanto esteve no 
perigo dispersou duas, ou três pessas por vezes, e hindo-se assim 
na volta do mar salvou com sete pessas sem baila, a que de terra 
nem dos Navios Holandezes se lhe respondeo, e neste tempo 
avizou o Capitão n^ór Hieronimo Serão a Náo Charrua do Ca- 
labar que se levasse, e fazendo-o ella deixou a amarra pela 
mão, e elle testemunha lha tomou, e levou-a despois com o 
seu Navio, se fez á. Yélla pelo seu Capitão de mar e guerra 
lho mandar e que seguisse a Capitania de Salvador Corrêa, 
como o fez deixando no porto ainda surtos o Capitão mór 
Hieronimo, e sua almiranta e duas Caravellas da Armada, e 
potLcos Navios mais, e nesta tarde chega vão á falia com Sal- 
vador Corrêa e o salvarão com sete pessas, e elle lhes or- 
denou que o seguissem, porque até a meia noite havia de 
hir na volta do mar, c despois tornar na da terra, o que não fez 
senão na madrugada, em que elle testemunha também virou 
com elle e amanhecendo com nebrina perto da Ilha de Tama- 
racà, na volta da terra, o sendo pelas dez horas do dia, cha- 
mara elle Salvador Corrêa ao Capitão, e a elle Mestre e 



94 REVISTA DO INSTITUTO HI9T0RICX) 

Piloto que fossem a bordo da sua Capitaiaa e lhes mandoa 
para isso hum Batel em que forão, e lhes disse que se querião 
hir para a Bahia da treição para honde elie hia, folgaria muito 
e elie Piloto lhe disse que lhe parecia bem, ao que o seu 
Capitão João Alves Soares respondeo que se queria vir para 
balrravento buscar a sua Capitaiaa, o elie Pilloto lhe pro- 
testou diante do mesmo Geueral que, se o havia de fazer, 
o fizesse logo, p >rque se não atrevia dospois a fazeUo, por 
não ser pratico, ao que o seu Capitão lhe respondeo que 
viria para bordo, e faria o que elie quizesse. B então Sal^ 
yador Corroa se pos a escrever para o Senhor Governador, 
Mestres de Campo, e mais Cartas que com hum frade de 
Saõ Francisco, e dois Negros lhe meteo no Navio para lan- 
çar em terra em Tamandaré, para o qual effeito os levava 
elie mesmo e sendo das quatro para cinco horas da tarde» 
hindo Salvador Corrêa para balravento com quinze Navios 
da sua frota somente, elie Pilloto e Mestre se veo embarcar 
com o seu Capitão, frade, e negros, e se vierão na volta do 
mar, honde andarão onze dias em diferentes voltas e ra- 
mos, forçando o Navio para balravento, e avistarâo a terra 
das alagoas, e tornarão na volta de Tamandaró correndo 
a Costa buscando a sua Armada, e defronte do porto Calvo ou- 
vera vista de huma Não e três sumacas e chegando perto delias 
as reconhecerão serem Holandesas, e por virem e se íázerem 
na voltado seu Navio, confirmou mais serem 'Holandezes e por 
esse respeito se forão desviando delles, por não terem ordem de 
pelle^arem com elles, os vierão seguindo todo aquelle dia, e lhes 
amanheoeo ao outro de Tamandaré para esta Bahia sem ver 
terra. £ então lhe ordenou o Capitão fossem a Bahia da treição, 
e elie Pilloto lhe respondeo que estava prestes para isso, se lhes 
desse pessoa que soubesse o porto como lhe tinha ditto di- 
ante do Qoneral Salvador Corrêa, e que mal o poderia faEer e 
agora estando com o Navio aberto com as bombas nas mãos, 
então se rezol verão em vir na volta desta Bahia e sendo-lhe per- 
guntado pelo Provedor mór, que rezão tivera para n&o hir ao 
porto de Tamandaré, ou Ilha de Santo Aleixo, conforme seu 
regimento, disse que o Capitão lho não mandara e por isso o não 
fizera, e por se rezolYer o ditto Capitão que pois ali andavão 



TRASLADO DB HUM AUTO DE DBUGENCIA 95 

aqaellAS embarcaoSes Halaodezas, não andava a aaa Arnouida 
na Ck>8ta, e rindo na volta deata Bahia ohegarâo aqui em vinte 
Aove do passado, abertos e faaendo agoa como se via. £ mais não 
disse nem do costume, e assinou com o Provedor mór, e eu Gon- 
çalo Pinto de Freitas o escrevi^Perraz— Manoel Ferreira Lima. 

Manoel Fernandeá, Marinlieiro Vezinho de Magarellos, junto 
da Cidade do Porto, de idade que disse ser de vinte e sete annos, 
pouco mais, ou menos, a quem o Provedor mór deu Juramento 
dos Santos £ vangellios,sob cargo do qual prometeo dizer verdade. 

£ perguntado pelo Auto e Portaria do Senhor Governador, que 
todo lhe foi lido, disse que he verdade que estando dentro em 
Tamandaré toda a Armada que foi desta Bahia, em nove de 
Agosto, tiverão novas da Armada de Salvador Corrêa de São, 
o em dez do ditto sahio a Armada e ouve vista da Capitaina de 
Salvador Corrêa, que andava á Véila, e ouvio dizer que surgira 
de noite, e que perdeira hoa amarra e naqneile dia a tarde se 
encontrou a Capitaina da Bahia oom a de Salvador Corrêa, e 
salvou com sete possas e tiiou a sua Bandeira e ficou oom hum 
rabo de gallo, e a de Salvador Corrêa respondeo oom três, e ao 
outro dia onze do mez chegarão os mais Navios da Armada da 
Bahia a salva-lo e ella lhe respondia com hua pessa de Arte- 
Iharia, e no mesmo dia a noite surgirão todos deflronte do Recife, 
onde estavão da banda de fora, quatro Nãos Holandezas, hum 
Pataxo, e hum Pingue e amanhecendo em doze vio hir hum 
Bareo nosso, a Capitaina de Salvador Corrêa, que dizem levou oe 
Bmbazadores para terra, e ao tempo de sua sabida disparou 
cinco, ou sete possas, e hindo o Barco a bordo dos Holandeze{>» se 
deteve couza de meia hora e, quando se apartou delia, lhe des- 
pararão cinco, ou sete pessas, e neste dia não ouve mais que 
andar o Pingue, e alguns Bateis dos Hdandezee entre a nossa 
Armada, fallando por ser dia de bonança e em treze amanheceo 
o vento sueste rijo, com que algumas Nãos hião desgarrando, 
e pelo meio dia veio hum Batel de terra Holandez a Capitaina 
de Salvador Corrêa, que ouvio dizer que vinha pedir o fato e 
Criados dos nossos £mbaxaálores, e logo eetando a bordo vio largar 
a Capitaina & Yella na volta do Sul, e por não poder tomar por 
davante surgio junto da terra, e por vezes atirou três pessas 
alhe aouditem, ate que o vento se melhorou, oom que se tornou 



96 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

a fkzer á Vella, e passando pelos Holandezes os Salvou com sete 
pessas, e elles lhe não responderão, e Capitaina de Hieronimo 
Serrão avizou á, Charrua do Galabar, que estava pela sua Proa 
que se levasse, porque se queria elle também levar. B levandosse 
a ditta Charrua, largou a sua amarra por mão e foi na volta do 
Sul, e outros com ella e então se levou o Navio de Joaõ Alves 
Soares em que hia elle testomimha, e tomou a amarra da ditta 
Urca Calabar e a levou com sigo o se forão na volta do Mar 
seguindo a Capitaina de Salvador Corrêa, e a Capitaina de Jero* 
nimo Serrão e Almirante e o Navio do Picouttos e duas Cra- 
vellas âcaraõ surtos. E chegando á falia da Capitaina perto da 
noite lhes disse o Qeneral que o seguissem tó a mela noite na 
volta do mar, e a seguirão to pela manhãa em que já tinhao 
virado na volta de terra, e ftiUando ao Qeneral, e dizendo-Ihe que 
querião hir a buscar a sua Capitaina e Armada lhes disse que 
fossem a bordo da Capitaina, o Capitão e Mestre e lhes mandou 
hum Batel em que fossem, como na verdade forão e tornario de 
lá Junto da noite a vista de Tamaracà, e lhes disse o Piloto, 
quando veio, que se fizesse na volta do mar, porque Salvador 
Corroa hia na volta da Bahia da treição, e logo navegarão onze 
dias em diferentes voltas e rumos forsejando sempre para bal- 
ravento. E então abrío o Navio agoa e a primeira terra que 
forão ver foi a das Alagoas, e tornando a correr a terra pelo 
cabo de Santo Agostinho na altura do porto Calvo, ouverão 
vista de huma Náo, e três Sumacas, as quaes forão reconhecer, 
e virão claramente serem Holandezes, e muito mais se firmarão 
vendo que ató noite lhe vierão dando cassa e o seguirão. 
E vendo-se ao outro dia sem a Não e Sumacas, e dizendo 
o Capitão que navegasem para a Bahia da treição, lhe disse o Pi- 
loto que isso ouvera de fazer quando estava com Salvador Corrêa, 
como então lhe requerera e não agora que não tinha pratico, e 
fazia o Navio muita agoa, e que assim não podia vir se não na 
volta da Bahia, como flzerão, e chegarão aqui em vinte nove do 
passado e Al não disse e do costume que he Marinheiro do mesmo 
Navio, e assinou com o Provedor mor ; e eu Gonçalo Pinto 
de Freitas o escrevi. — Ferraz.— Manoel Fernandes. 

Domingos Duarte, marinheiro do dito Navio, vezinho de 
Peniche, de idade que disse ser de vinte quatro annos pouco 



TRASLADO DE HUM AUTO DE DELIGBNCIA 97 

mais oa menos, a quem o Provedor mor deu o juramento dos 
Santos Evangelhos, sob cargo do qus^l prometeo dizer verdade. 
Perguntado pelo contheudo no Auto e Portaria do Senhor 
Governador, que tudo lhe foi lido e declarado, disse elie teste- 
munha que he verdade que estando em nove de Agosto reco- 
lhidos os Navios da Armada da Bahia no porto de Tamandaré, 
lhe chegarão novas, que aparecia a Capitaina, e Almiranta e 
Arota de Salvadpr Corrêa de Sàa, e ao outro dia em dez do ditto 
sahio a Armada para fora e encontrarão a Armada pelo meio 
dia, e a nossa Capitaina salvou a de Salvador Corrêa com sete 
'pessas, e tirou a Bandeira, e pos hum rabo de gallo, e Salvador 
Corrêa lhe respondeo com cinco possas, o forão navegando até o 
outro dia onze do mez a noite em que todos derão fundo no porto 
de Pernambuco, a honde esta vão da banda de fora quatro Náos 
Holandezas, hum Pataxe, e hum Perigue, o naquelle dia se- 
guinte que foi de bonança, pelas oito, nove horas, chamou o' 
General um Barco nosso, em que mandou Embaixadores & terra 
e disparou pessas de Artelharia ; e o Barco foi a bordo da Capi- 
taina dos HoUandezes, aonde esteve hum pouco, e á sabida os 
Holandezes o salvarão também com três pessas, e se foi para 
terra, e neste dia não ouve mais que andarem os Holandezes 
com Bateis e Pingue, por entre a nossa Armada reconhecendo 
tudo, e amanhecendo ao outro dia treze de Agosto vento sueste 
e rijo, sendo horas do meio dia, viera de terra hum Batel de Ho- 
landezes, segundo se diz, a buscar o fato e Criados dos nossos Em- 
baixadores ; e também se diz que o General lhos não quiz 
mandar, c ouvio dizer que dera hum Anel a hum dos Holan- 
dezes, o Patacas a outros, e logo neste tempo, estando ello 
ainda a bordo largou a Capitaina, e se fez na volta do Sul, e por 
não poder tomar por devante, tornou a dar Aindo tão perto de 
terra, que atirou duas ou três pessas que lhe acudissem, e me- 
Ihorando-se o vento por sima da terra, largou a amarra por mão 
e se foi na volta do mar com alguns Navios seus que ja andavão 
á Vélla. E neste oomenos mandou Heironimo Serrão ã Náo Ca- 
labar que estava por sua Popa, se levasse para elle também o 
fazer e a ditta Charrua Calabar largou a amarra por noão que 
o Navio delle testemunha levantou e recolheo, e logo se fez 
também ã Vella na volta de Salvador Corrêa, deixando ainda 

491 — 7 ToM0. LXix p, 1. 



98 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

surto no porto ao Capitão mor Hieronimo Sen*ão e sua Almi- 
ranta, o Navio de Picoatos, e duas Caravellas, e chegando á 
Capitaina este Navio delle t^^stemunha perto da noite, llie deo 
por ordem o Qenoral o segui ssem te a meia ooiie, por que entaõ 
havia de virar na volta de terra, e hiado te pela maohãa que 
virou se achar&o 6 vista de Tamaraca, e perguntando a Capi-*- 
taina para honde hião, lhe mandou o General hum Batel, e que 
íbssem 1& o Capitão e Mestre como forão e tornarão à tarde e 
lhes disse o Piloto: alhos vamos na volta do mar, que Salvador 
Corrêa vai para a Bahia da treiçaG, como de effeito foi com 
algumas dezoito véllas da sua frota, e nenhuma da nossa Ar- 
mada da Bahia, e navogarfto onze dias sós por diferentes rumos, 
até virem avistar as Alagoas, e tornando a voltar, na volta do 
cabo de Santo Agostinho de fronte do porto Calvo, ouverão vista 
de hama NAo, e três Sumacas para as quaos se deixarão hir 
entendendo ser da nossa Armada, o quando reconhecerão que 
eraO Holandezes, virarão na volt-x do mar para lhes ganhar o 
balravento, e a ditta Não, e Sumacas lhes vierão dando cassa ate 
ã noite, omqae se mllhorouo seu Navio. E quando amanhecee 
nad apareceo nada, o então o Capitão João Alves Soares re*- 
quereo ao Piloto que fossem na volta da Bahia da treição, e o 
Piloto IhiB disse que isso ouvera elle de fazer, quando lho re- 
quereo e estavão com Salvador Corrêa, e não agora que tinha 
o Navio aborto fttzenio muita agoa, o não tendo pratico da ditta 
Bahia, o que assim hora necessário virem na volta desta Bahia 
a concertar, donde farião o que o Senhor Governador ordenasse 
e chegarão a ella a vinte nove lio passado. K osta foi a cauza de 
sua arribada e mais naõ disse nem do costume, e assinou com o 
Provedor mor, e eu Gonçalo Pinto de Freitas o escrevi. — 
FerráB— de Domingos + Duarte, testemunha. O qual Auto Por- 
taria do Governador, e Capitão Geral destr Estado, o deligencia 
que por ^Ma delle se fez eu Gonçalo Pinto de Freitas, escrivão 
ÚBk ílikénáK.Real por Sua Magestade âz traladar do próprio que 
fica em^iâou poder a que me reporto, com que este concertei e o 
sobesorcvi/ o assinei por duas vias na Bahia em treze de Setembro 
de mil seSeentos quaren^ e cinco — Gonçalo Pinto de Fr^iias. 



REaiMJENTO 



POKNBGIOO AO 



(kvernador à Rio k hmn 

(éiUM 4e 7 ie jaMiN 4e 167») 



(Archivo da Torre do Tombo — Livro dos Regimentos do Con- 
selho Ultramarino, fls. 190 v. Documento mandado copiar pelo 
Dr. Norival Soares de Freitas, em missão do Instituto Histórico nas 
bibliothecas e archivos de Portugal). 



Raforindo-s^ a esto regimouto o ao dado ao governador de 
Pernambuco disse João Francisco Lisboa (pag. 336, Jorn, Timon, 
volume 3^): «cada um delles cm vinte c nove artigos, o de Per- 
nambuco de 19 de agosto de 1670 e o do Rio em 9 de janeiro de 
1679, segundo lemos cm uma cópia existente no'Archivo do ex- 
tincto Gonsalho Ultramarino e remettida pelo governador de Qoyaz 
em officio de 20 de julho de 1803. Porém como o regimento já 
transcripto do governador geral e datado em 23 de janeiro de 
1677, refere a artigos do regimento do Rio da Janeiro, ou existiria 
outro anterior ou a data attnbuida ao ultimo é «m erro de cópia, 
que, todavia, ainda não podemos verificar e que torna-ae aliás de 
pouca consequência estando eleitor prevenido». 

fisse regimento é de valor por se ver a importância que ao 
Governo merecia o Rio de Janeiro, máxima depois da fundação 
da colónia do Sacramento e das luctas com os liospanhoes. Destas foi 
viòtima D. Manoel Lobo quo morreu prisioneiro dos castelhanos. 

(Xota da CommisscM de licdacção.) 



BegimMito forneoldo ao Ckyemdor do Bio do Jftuolro, datado 
do 7 do Janolro do 1879 



Ea o Príncipe oomo Regente e governador dos Reynoã de 
Portugal e Algarves tàço saber a vos Dom Manoel Lobo fidalgo 
da minha casa que ora emvio por governador da capitania do 
Rio de Jaoeiro que hey por bem que emqaanto a governardes 
guardeis o Regimento seguinte : 

1 — Partireis desta cidade em direitura ao Porto de Sao 
Sebastião do Rio de Janeiro aonde fareis a vossa assistência 
e delia não sahireis para parte algua sem expressa ordem 
minha por que volo mande fora das que aquy vão declaradas. 

2 ~ Tanto que chegares a dita cidade apresentareis ao go- 
vernador que nella está Patente que vos mandey passar, e os 
mais despachos que levais para logo vos entregar o governo o 
que fora na forma costumada sendo presentes as pessoas que 
neste auto he estillo acharem-se ordinaviamente e da entrega 
se farão autos que se me hão de emviar para a todo o tempo 
constar que se prooedeo comforme a ordem que sempre se pra- 
ticou em autos semilhantes. 

8 — Logo que vos for entregue o governo ireis pesoalmente 
visitar e ver as fortalezas da dita capitania e os Armazéns ; e 
ordenareis que se foça emventario pello escrivão de minha fo« 
zenda de todaa as cousas que nelles estiverem, MunioSes Armas 
e artilharia que houver de que me emviareis a copia, e jun- 
tamente a planta de todas as fortificações que estilo em pee da 
capitania do nosso distrícto, e fortalezas ; e estas vizltareis 
cada seis mezes dando-me conta da folta que houver nellas, 
quando vos não seja pos^vel remediallas para que vos vm o que 
pedirdes para seu fornecimento advertindo- vos que a Artilharia 
tenha suas mantas pello grande damno que os reparos recebem 
sem estarem cnbertos.^ 



102 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

4 — A principal caufla gue obrigou aos Senhores Reys meus 
predecessores mandarão povoar aquella capitania e as mais do 
estado do Brazil foy a redação do gentio delias de nossa santa 
fee oatholica, e assy tos emcomendo fiiçacs guardar aos nova- 
íáente comyertidos os privilégios qoe llies sfio comcedMos t^ 
partindo lhes terras oomforme as leys que tenho feito sobre saa 
liberdade e fazendo lhes todo o mais íáyor qae for Justo de ma- 
neira que emtend&o que em se fazerem christãos não somente 
ganhão o espiritual» mas também o temporal» e seja exemplo 
para outros se comverterem, e em seus Aggravos e yexaçoes 
e proToreis comforme Minhas leys e Provisões dandome conta 
do que se fizer como também as Aldeãs que ha quem as admi- 
nistra no espiritual e temporal, e se o faz de modo que vSo em 
aiigmento e nio em diminuição. 

5 — Da mesma maneira vos encomendo muito o bom trata- 
mento dos menistros que se ocupSo na comverção e doutrina 
dos gentios favoreoendo-os e ajudando-os em tudo o que para 
esse effeito for necessário, tendo com elles a conta que he rezão 
fiizondo-lbes fazer bom pagamento das ordinárias que tem de 
minha fazenda para sua snsteotagão e porque de todo o bom 
effeito» me averey por bem servido de vos : o mesmo usareis 
com os vigários das Igr^as e mais eclesiásticos da dita Capitania.. 

6 — Das casas da Misericórdia e Hospitaesqnehanaquella ca- 
pitania vos emcomendo também muito tenhaes particular cuida- 
do pello serviço que se faz a Deos nosso senhor nas obras de oha* 
ridade que em hua e outra cousa se ezercitão favorecendo a seus 
offlciaes íkzendo-lhes pagar as ordiaarias que tiverem de minha 
íkzenda e as dividas e legados que lhes perteacorem para que 
por esta causa não deixem de comprir com suas [obrigações. 

7 ^ Informar-voâ heis dos offeciaes de Justiça guerra e &- 
zeoda que ha na dita cupitania porque cartas e Provisões ser- 
vem os postos e oíilcios é me dareis conta de todas as -pessoas 
que 08 ezercitão de propriedade ou de serventia, emviando-me 
Rellação das que o fazem e por que provimentos. 

8 -^ Informar-vos heis das rendas que tenho, e pertencem 
a minha fiuenda, e a forma em que se arrecidão e dispendem, 
e da que o Provedor toma conta e resão e das pescas que a tem 
a seu cargo; segundo a de seu Regimento de que particular- 



REGIMENTO AO GOVERNADOR 103 

mente me dareis conta ; E pareoendo-vos necessário reoenciar 
as dos feitores e Almoxarifes e podereis fazer com asistencia do 
Provedor da fazenda ao qual ordenareis também tome as contas 
dos Almioxarifes que servirão e remeta ao meu Concelho Ultra- 
marino os trealados delias na forma do estiUo e não consintirels 
se paguem dividas nem soldos atresadoa sem provisão minha 
como por muitas vezes tenho mandado. 

9 — Atendereis com muito cnidado o vigilância n^ guarda 
e defença de todos os Portos daquella capitania, e fprtalesas 
prevenindo as fortificações da Marinha e aaa artelharia» 
pólvora Armas e tudo o mais que puder ser necessário de 
maneira que em nehua parte vos acheis desapercebidos. 

10 — Também vos emformareis de toda a Artelharia que 
ha nas praças de nosso distrioto assy a que estiver cavalgada, 
como apeada calibres e serviço que tem, armas e monições 
que houver, e se esta tudo carregado em receita aos officiaes 
a que toca, e quando não o fareis carregar assy as que forem 
em nossa companhia como as que eu mandar ao diante, para 
que carregadas em receita se tirem conhecimentos em forma, 
que mandareis por vias todos os annos da pólvora que se dis- 
pender e as armas que faltarem para que se possam prover 
de novo e para este effeito dareis as ordens necessárias aos 
officiaes de nosso districto, e que estes tenham as ditas armas 
limpas e concertadas para o que se oíferecer. 

11 •— Muito vos emcomendo que os moradores da dita 
capitania sejam repartidos em ordenança por companhias com 
capitães e mais offldaes necessários e que todos tenham suas 
Armas, fasendo-os exercitar nos dias que vos parecer na forma 
que se dispõem no Regimento geral das ordenanças o que íkreis 
oomprir assy na gente de pee como na de oavallo ; e pêra que se 
faça com prompta execu.ão vos emcomendo muito que asistaes 
as mais vezes que puderdes aos Alardes que mandares fazer 
pois he o meio mais prompto de se acodir a defensa da capi- 
tania ; e quando os moradores não tenham todas as armas com 
que hão de servir assy de pee, como de cavallo me dareis ponta 
para se vos emviarem advertindo que os officiaes da gente me- 
leciana não hande vencer soldo nem ordenado algum a custa de 
minha fazenda, nem das camarás excepto os sargentos mores. 



104 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

12 — Hey por bem que todos os offlciaes majores soldados qne 
me servem naquella capitania sejâo pagos com toda a pontuali- 
dade pello Rendimento de minha fasenda e mais consignações qne 
'se cobram para esse effeito para o que fareis passar as mostras e 
nella serão obrigados todos a traserem suas Armas limpas e 
concertadas, não comsentindo que haja pragas fantásticas e pro- 
cedereis comtra aquellas pessoas que as passarem, ou comsen- 
tirem na forma que se dispõem no Regimento das fronteiras. 

13 — As mesmas mostras se fará aos Artelheiros que me 
servem nessa capitania, e seus offlciaes tomando noticia dos que 
são sufflcientes ordenando4he que para os que o não forem de 
todo, se faça nos dias que parecer exames e haja barreira aonde 
se exercitem com pega de menor calibre, e a despesa que se fizer 
na pólvora o bailas deste exercício o fareis levar em conta as 
pessoas de cujo recebimento sahirem, e quaudo nesses portos 
hajam navios do meus váçallos obrigareis aos comdestavels e 
Artelheiros delles vão também ao exame á Barreira p\ra que 
a competência faça adestrar a todos. 

14 — Tratareis muito que se augmente a [dita capitania, o 
qu) seus mora^lores cultivem e povoem palia terra dentro o que 
pudor ser fÍB^endo cultivar as terras e que se edifiquem novos 
emgenhos, e aos que de novo reedificarem, ou|flserem Iheslman- 
darais guardar seus previllegios, e aquelles que tiverem terrai 
de sesmarias obrlgarôis que as cultivem e abrãoe os que a não 
cultivarem na forma da ordenação, o Regimen(o|da8>e8marias 
mandareis proceder contra elles como se dispOe na mesma orde- 
nação do Regimento, e também procurareis que se não dem mais 
terras de sesmarias que aquellas que*cadahum poder cultivar. 

15 — E porque eu mandey passar Provisão para que os go- 
vernadores nem Ministros de Justiça, guerra, e fasenda se não 
emtremetão nos negócios mercantis e menos nos contratos pro- 
hibindo-lhes não terem logeas publicas em suas casas, nem 
menos tomarem sobre sy dividas alheas, por ser tudo isto hum 
dos grandes inconvenientes e damnos que recebem meus vá- 
çallos hey por bem que vos guardeis a dita provisão e a fareis 
guardar para o que se vos dará a copia delia com este Regi- 
mento sem embargo de achares registada nos livros de minha 
fazenda e camará da dita cidade de são sebastião. 



REGIMENTO AO GOVERNADOR 105 

16 — Encarrego-Y08 muito o bom tratamento que deveis 
faser aos offlciaes de jostioa e fasenda da mesma capitania 
deixando obrar na administração de justiça e fasenda na forma dr 
seus Regimentos ; emcomendando«Ihes de oomo devem procedee 
em seus cargos ; e quando de sua parte haja omissão lho adver- 
tireis, e comtenuando nella me dareis conta para resolver o que 
for servido, e para os negocies que tocarem a meu serviço, os 
podereis mandar chamar a vossa casa, todas as vezes que vos 
parecer sem lhes admottir escusa. 

17 — E porque comvem ao meu serviço que cada hum 
em sua jurisdição guarde o que lhe he ordenado nSo consln- 
taes que nessa capitania tomem os ecelesiasticos mais Júris- 
diçio que a que lhes tocar, nem Donatários — havendo-os — e 
tendo nisto muita vigilância e cuidado ; e vos nem meus offl- 
ciaes de justiça lhes tomeis nem quebreis seus previllegios 
nem Doações antes em tudo o que lhes pertencer lhos fareis 
comprir e guardar. 

18 — Podereis prover os officios de Justiça e fazenda que 
vagarem no tempo de vosso governo no intre por seis meses 
somente por não parar o curslo dos negócios pertencentes a 
Justiça e fazenda e dareis conta ao governador gorai do es* 
tado tanto que negarem, e provendo elle os taes officios nas 
pessoas que vos apresentarem os taes provimentos lhes poreis 
o cumpra-se e entrarão a serviilos, porem de acabados os seis 
meses de vosso provimento assy o governador geral oomo vos 
me dareis conta por quem vagaram òs ditos officios seu Ren- 
dimento e se âcarão filhos dos proprietários e quem os floa 
servindo dando me logo conta pela primeira embarcação que 
vier ao Reyno. 

19 ^ Provereis os postos melecianos das ordenanças de 
vosso governo, e seu distrioto nas pessoas mais idonias, e ca* 
pases sem dependência do governador do estado, e os providos 
mandariU) tirar a este Reyno dentro de hum anno a ooníirma^^ 
por my como esta disposto, e dos i>ostos de guerra assy como 
vagarem dareis parte ao governador do estado» quaes sejão, e 
por que vagarâo e lhe emviareis emformação do sugeitos bene- 
méritos que houver no vosso governo, para que sendo tudo 
presente ao governador me pAiponhatres pessoas qu^ lhe pare* 



106 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

cer para o dito posto, que tenhfio m reqaesitos a annos de ser- 
tíqqb que dtopoem o Regimeato das flroatoiras, • o goTernado ^ 
geral e tob me dareU oonta, e aoa oapikàes do iDOftotaria que 
Tagareia, oem voa nem elle prorereis as companhias e serTirão 
oa AlíSnret delias goveroando-as emqaanto eu nSo proyer as 
dites companhias nem menod podereis fttser capitães de passa- 
gem por ser cootra as minhas ordens. 

SO — Hey por bem que não possaes criar ofllcio algam do 
noYo assy de jnstica como de fhsenda ou guerra, nem aos cria 
dos acrescenteis ordenados ou soldos, e menos possaea dar 
interinamente soldo de reíbrmados praças mortas oa escudo de 
yentagem ; e fásendo o contrario — o que vos não espero — se 
DOS dará em culpa, e sereis obrigado a pagar por vossa (ázenda 
o que assy mandares despender contra a forma deste capitulo. 

21 — As pessoas que deste Reyno forem degradadas para 
assa capitania e as mais de vossa Jurisdição oixienareis que 
tanto que a eila chegarem, se lhes asente praça naquollas 
partes aonde lhes ordenarão vão comprir seus degredos, e que 
sojão confrontados com Pays terras sinais e annos de degredo ; 
o posto que hão de vencer soldo não poderão ser ocupados em 
postos ou offloios na forma da ordenação as taes pessoas fós de 
offlcios se lhes passarão com todas estas declarações para que 
lhes não sirva de premio a pena do delioto como mais em par- 
ticular o mandey declarar por carta do 31 de mayo de 670 qoe 
ordenei se registasse nas partes necessárias de que me dareis 
conta de assy se houver executado. 

22 » Por ser de grande inconveniência a meu serviço e 
(iBkser damno o comercio dedtrangeiros nesji c\pitania, houve por 
bem de llio prohebir conforme as leys e prohibições que mandey 
passar, e purque convém muito qno os que sem licença minha 
e contra a forma do capitulo das psises celebradas emtre está 
coroa e a da InglatBrra o dos estados de Holiaada forem tratar e 
comerciar a dita capitania sejão castigasios comforme as ditas 
leys prohlbições : os que assy forem oomprehendidos procedereis 
comtraelles naformi delias e contra os Imglesos, e Holandeses, 
como se declara no capitulo das inesmas pases do que se vos 
emviãoas copias. B com os vaçallos de El-Rey christianisbimo 
que forem aos Portos desse governo e seu districto mandareis 



REGIMENTO AO GOVERNADOR 107 

ter toda a boa correspondência e reciproca amisade, como» se 
ooQthem no capitulo do tratado qae com este Regimento se vos 
da, mandando aos offlciaes de Tossa jurisdtçSo que assy o exe^ 
cntem. E sucedendo al^^am navio francos derrotar nossos ma- 
res e ser lhe necessário tomar os de no^o districto o valerse 
de algam fornecimento oa ajada ordenareis qae se lhe não falte 
com a correspondência qae ped3 hna boa amisade de aliança 
qae tenho com el Rey de ft'ança, mas por nenhn modo se lhes 
premita comprar, nem vcmler fasendas algumas péllo damno 
que disso poderá resultar, e he o mesmo que mandey ordenar 
ao governador do estado em carta de 13 de setembro de 663 
pella minha secretaria de estado. 

23 — E porqae a Pas celebrada entre esta coroa e a de 
oastella não declara o reciproco comercio que ha de haver em- 
tre ambas e somente no Artigo do tratado, que vaçallos de hua 
e outra coroa, poderão usar e exercitar com toda a segurança 
comercio por mar e por terra assy e da maneira que se usava 
em tempo do senhor Rey Dom Sebastião quando os vacai los de 
Castella forem sem licença ao porto dass3 governo, mandareis 
proceder contra elles na forma das teys o prohibiçOos que são 
passadas, mas aos navios que vierem das índias occideiitaes, 
Rio da Prata, Buenos Ayres com prata, ouro ou outras flskzen- 
das, como não sejão fasondas da Kuropa, e índia ocidental, lhes 
mandareis dar entrada, e poderão comerciar levando em troca 
08 escravos, e géneros dessa capitania, e pagando os direitos 
costumados, e os mais que se dedarão nas ordeas que se pas- 
sarão em 19 de Agosto de 651 — 30 de julho de 653, 28 de ja- 
neiro de 654, 9 de mxrço do mesmo anno 28 de setembro de 
656, e 9 de novembro da 660 por assy comvir a meu serviço. 
E quando se não obra esto comercio por parte do castelhano, 
poreis tolo o cuidado e diligencia p^ra vor se por via de Por- 
tuguezes desse governo S3 pode Abrir o do Rio da Prata e Bue- 
nos Ayres peios meyos mais convenientes que possa ser, o que 
vos terei a particular serviço. 

24 — Tereis particular cuidado do procurar de todos os 
Mestres dos navios que forem deste Reyno a essa capitania, se 
levãoas ordens ou cartas minhas ou despacho do meu Conselho 
Ultramarino porque consto que o não havia» e não vos entre* 



j 



108 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

gando hua e outra oousa fareis alguma demostracSo para ex- 
emplo ao diante, em matéria de tanta importância em que 
delles nao recebem dano ou dillação. 

35 — Sereis advertido que todos os negócios de Justiça, 
guerra e ftuienda, mehaveis de dar conta pello meu Gonsellio 
Uitramarino aonde honde yir as ordens derigidas, a quem pre- 
vativamente tocão todas as matérias das conquistas e o mesmo 
advertireis aos Menistros de vossa jurisdição e assy vos como 
elles nao comprireis as ordens que forem passadas por outros 
Tribnnaes excepto as que se expiderem pela secretaria de estado, 
e expediente, e pela mesa daconciencia c ordens que tocarem 
ao eclesiástico, defuntos e absentes ; e as pessoas que forem pro- 
vidas em beneficios e vigairarias que houverem do vencer or- 
denados por conta de minha fazenda serio obrigadas a levar 
Alvarás de mantimento passados pello Conselho Ultramarino 
para lhe serem asentadas e sem elles se lhes nao asentarSo as 
taes ordinárias ; e assy guardareis as cartas passadas pello 
desembargador do Paço ao ouvidor geral dessa capitania que 
também ha de levar Alvará de maatimento expedido pello 
Ck)nselho Ultramarino para vencer seus ordenados e sem elle 
lhes não asent^rão, e assy comprireis a3 provi::ões e Alvarás 
X^assados pello meu concelho da faseada sobre as licenças dos 
navios emqucnto eu não mandar o contrario. 

26 — E se omquanto me servires nesse governo sucederem 
alguas cousas que por este Regimento não vão providas e 
comprir faser-se nella obra como seija Ruyna de alguma for* 
tifloação a co^o reparo se deva promptamente acodir por 
correr risco detença, mandareis faser o tal reparo, o me 
dareis conta do seu custo e ao governador do estado ; e dos 
outros casos que tiverem dilação dareis a mesma conta, não 
obrando sem resolução sua emquanto eu ordeno o que mais 
convier a meu serviço. 

27 — Houve por b3m de mandar largar a meus vaçallos 
o lavor das minas de ouro desse estado, com declaração que 
elles pagassem os quintos a minha fasenda por ella se não 
achar em estado de poder acodir a essas despesas, e lhes íkser 
a elles mercê, para o que se lhes passou Regimento, assy vos 
emoomendo que avendo pessoas que queirão tratar do desço- 



REGIMENTO AO GOVBBNADOH 109 

Crlmeato das minas os íáTorecaes para que se animem a 
descobriUtui* e lhes ftica por isso as meroes que hoaver por bem 
28 — Tanto qae tomardes posse desse governo me enviarei 
logo hum pee de lista da infantaria que achardes nessa Praça 
e suas anexas emtrando as primeiras planas oom o que cada 
hum vem, e por que patentes Alvarás e provisões. E o mesmo 
fitrels nos Offlciaes da Artelharia comdestables e Artilheiros 
e assy htia RellacSo do que emporta a folha eclesiástica, e 
secular emtrando as tenças que nesse governo se pagfto e a 
Rellaçfio com destin<^ das pessoas do que cada hum vence e 
por que ordens, e os que tiverem escudos de ventagem quantos 
seJSU) e de que tempos os vencem assy offlciaes como soldados, 
e porque Alvarás e Provisões, e outra Rella<^ dos gastos 
extraordinários que nio entrSo na dita folha, livranças repato 
das fortalezas despeza da artilharia concertos de Armas e 
Armasens ; E quanto se paga a mesericordia dessa cidade da 
oura dos soldados, e a quem se entrega este dinheiro, 
è por que ordem se faz este pagamento e lista dos soldados 
doentes que em hum anno por outro emtrão no dito Hospital, 
e se nos socorros que fazem os soldados se desconta algua 
cousa para o mesmo Hospital e quanto importara por anno ; 
E outra semilhante Rellação me enviareis muito por menor 
de todas as despesas que fiser o senado, e a ordem que para 
isso tem ou sejfio por conta de minha fazenda, ou pella das 
camarás delias, e subsídios que tiverem impostos, e quanta he 
a ordinária que se da aos capuchos flranceses e com que ordem 
ftcar&o ahy, e quantos assistem : e por que neste governo, e 
seu destricto ha vários offlciaes de Justiça fasenda e guerra que 
tem seus Regimentos, e outros tem estos muito confusos e 
émcontrados com varias Provisões e Alvarás e cartas e por 
esta rezSo se não observa e ser comvenient<j assy pello que 
toca a meu serviço como para bem da justiça e bom governo 
desses povos emmendarem-se e reformarem-se tendo-se con- 
sideraçio ao tempo presente ; vos emcomendo e mando que 
também façaes tresladar todos os Regimentos ; ordens, cartas, 
alvarás e decretos que se tenlião passado asy meus como dos 
senhores Reys meus predecessores e do governador geral do 
estalo» e outras psssoas que tivessem ordens minhas para as 



110 RBVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

pasmr e os mais papeis que a «sto pertemserem enviados dos 
governadorefl vossos antooessoros. E esta doligencia maudarels 
fazer desde o tempo que achareis noticia dos litros e papeis 
antigos que houver assy nos offlciaes de Justiça fasenda ou 
Camará dessa capitania ate o preseatj, e os mais papeis 
Rellações e pees de lista que por eslie capitulo vos ordeno e 
mando ; sereis obrigado a mandar tirar e remeter ao meu 
Conselho Ultramarino dentro de hum anno desde o dia em 
que tomares posse com vosso parecer e informac&o e dos offe- 
oiaes que em tenderes o podem dar para melhor se reformarem 
as ditas ordens e Regimentos. B sendo caso — o que de vos 
não espero ^ que haja omissão nesta matéria tereis entendido 
qoe paanmdo o auno. e não tendo noe satisfeito ao que vos 
ordeno por este capitulo Hey por meu serviço que logo o con- 
celho Ultramarino me possa consultar este governo de que 
agora nos fls merge e eu nomear pesoa que vos va suceder 
alem do que mais ordenar ; e para este effeito e bem desta 
deligeneia tanto de meu serviço ordeno aos offlciaes de justiça 
(Suenda ou guerra dessa capitania cumprão vossas ordens e 
mandadoe como devem e são obrigados. 

^ — B porque sobretudo o quo por este Regimento vos 
ordeno conâo tereis em todas as matérias assy do eclesiástico, 
como de Justiça fasenda ou guerra» e as mais tocantes ao 
bom governo dessa capitania tal procedimento como he a 
comfiança que faço de vossa pesoa, para vos encarregar delle ; 
vos ordeno e mando que de todas mo deis particular conta, 
e das que sucederem, e entenderes comvem ter eu noticia assy 
no que a experiência vos mostrar ser necessário para bom 
governo dessa capitania, como dos procedimentos das pessoas 
que nellas me swvem, o que fareis em todos os navios que 
partirem desse Porto e não empedireis aos oâeciaes da Camará 
Menistrofl oíTeciaes de justiça fasenda o guerra de oscreveropi 
ainda que aeião queixas, peilo que cumpro a meu serviço e 
administração da mesma Justiça. E quando se vos pessão infor- 
mações as mandareis com toda a claresa o distincção que 
puder ser. 

E este Regimento cumprireis como nelle se conthem, em 
tudo o que nelle ha declarado sem duvida algua, e sem em- 



REGIMENTO AO GOVERNADOR Hl 

bargo de quaesquer outros Regimentos ou Provisões em 
contrario e de nâo ser passado pella chamcellaria, o qual 
mandareis registar nos livros de minha fasenda, e nos da 
camará enviando-me certid&o de como fica registado, Manoel 
Roiz de Amorim o fes em Lisboa a sete de janeiro de seis 
centos e setenta e nove o secretario André Lopes de Laura 
o fiz escrever • — Príncipe. 



PROVISÃO DO príncipe 

SOBRE SESMARIA 

(1675) 



(Cod. CIX^ 2-5 Bib. Pub. d'Bvora) 

(Doe. mandado copiar pelo Dr. Norival Soares de Freitas, em 
mssáo do Instituto Histórico nas bibliothecas e archiyos de 
Portugal.) 

401—8 ToMôtxix P.i. 



DemoaiCra 0ft« docruBesto o respeito trilmUdo pela metrópole 
aof iadividttaa (^úe pSSkÚiátci sesiaariad na antiga Capitania de 
S. Thomé. De facto D. Pedro TI, regente, concedea ao !<> Visconde de 
Âsaeca e a João Corrêa de 81 (amboé fllhoá de Salvador Benevides) a 
donatária sob certas oondiçOes, da referida capitania. Dessa regea 
doaoào originaram-se acontecimentos que podem ser apreciados na 
obra do Snr. Augusto de Carvalho e anm opaaculo pnbhcado em 1900 
sobre uma questão da Camará Municipal de Campos com a Ordem 
Benediotina. 

(Nota da Gommisião de Redacção;) 



FroMo lo Fmcioe solire Sninula 



CIX 
Cod. B. P. d'ETor* 



Ea O Prlndpe eto. Faço saber ao0 qne egta m* ProTis^ Ti- 
rem q* havendo-se visto no meu Cons."» Ultramarino o treslado 
aatentioo dos Autos q^ se prooessar&o na Oaredr.» Q.*^ do Rio 
de Janr"^. entre p/*' embarg>'o8 offl.** da Cam.* daquella 
Cap.''^* e os possuidores de Sesmarias da Paraiba do Sul o em- 
barga Salv ^ Corrêa de Sà p' seu Proo»' Thome de Sz». Corr». 
se resolTeo no dito Oons.« q^ não erão de receber os d^. emb»". 
visto sua matéria e o que sobre isso respondeu o Proo* da Coroa 
a q"" se deo vista. Pelo q"* mando ao d* Ouv^^ O*' da d» Cap.°^ 
do Rio de Janr°. dè á execução p' sy ou pelo Min® q* nomear 
as doaçSens embargadas p^ se fundarem as V .^ na Gap*"^* q* foi 
de Qil de Góes de q"* ítd servido fazer m"^ ao Visconde d'Asseoa 
e a seu Irmão João Corr» de S&, Donatários delias ; com decla- 
ração q* das d*' Y." se Cará medição e demarcação na forma 
das suas doaçCas e sem prejui») das pessoas q^ nas d*' terras 
tiverem as suas Sesmarias, por q^. se lhes não tira a posse 
delias na forma em que lhe fòriío dadas pelos Donatários anti- 
gos. E esta se cumprirá m^ inteiramente como nellase contem 
a qual valerá como carta sem emb^. da Ord. do L. 29 n<>. 40 
em contr<». e se passou p' duas vias. Pascoal d^Azevedo a fez 
em Lz*. a 28 de Nov«. de 675. O Secretario. M.^ Barreto de 
Sampaio a fiz escrever.— PriVtctpe. 



ALVARÁ 



PELO QUAL É NOMEADO DUARTE CORRÊA VASQUEANNES 

PARA O EXTABOLAMEXTO DAS MIXAS 

NA AUSÊNCIA DE SALVADOR CORRÊA DE SÁ K BENEVIDES 

(1644) 



(Archivo da Torre do Tombo -^ Livro dos Regimentos do Conselho 
Ultramarino, fl. 40 v. Documento mandado copiar pelo Dr Norival 
Soares de Freitas em missão do Instituto Histórico nas bibiiothecas 
e archivos de Portngal). 



Não 0Ò no entâbolam^nto das minas substituiu Martim Corrêa 
Vasquoannes a seu sobrinho Salrador Corrêa de Sá, mas também no 
governo do Rio do Janeiro. Sabe-se que não obstante as vantagens 
promettidas aos doas pela metrópole as minas de S. Panlo não deram 
o resultado que se esperava. 

(Xoia da Commissão de íífdaeção,) 



Akará p»lo qual 6 nomoado Dui^rte Oerria y^sqnean&es para o eu- 
tabolamraio das muai na ausoiioU da Salrador Corria ip Si 
eBaneyidaa. 



Eu El-Rey íi^^o saber aos que este Alvará Tirem qae 
eu informado qae convém muito a mea aerylQO e 
ao benelloio oomnm da meiu Reinos e senhorios e dos 
naturais deites e proveito de minha teenda âonqaiatarem<4e 
beneficlarem-se e administrarem-sa as minas de ouro e 
prata e oatros metaes, descubertas a par desoubrir nos 
dístrictos das duas cappitanias de aSo Paulo e sSo Visente daa 
partes do Brazil, euio descubrimento e entabolamento emcarre- 
gei a Salvador Corrêa de Saa e Benevides* peia contança qoa 
tenho de soa pessoa, e experienoia qoa tem das cousas daqnelias 
partos, e pellas que conoorrem em soa pessoa verdade a zelo que 
tem do men servisao, e esperar deite que neste oegooio me ser«- 
virà a toda a minha satisútçio e contantamepto. B porque o dito 
Salvador Corrêa, depois da ter entaboladas as ditas minas, ha 
de voltar para este Reino oom a flrota que teva a seu cargo, da . 
que he general, e ter a mesma confiança de Duarte Corrêa Vai* 
queannes, seu tio, em quem coneorrem ai mesmas partes, Hey 
p(M^ bem que o dito Duarte Corrêa sirva o dito cargo nas auaen.* 
das e impedimentos de dito Salvador Corrêa e huie ám mesmos 
poderes e Regimentos que lhe mandei dar para as ditas minas, 
epor des^ar de lhe Huser gragaemeroe pete tiabalho que jémíú 
ha de ter, e ajuda que a de dar neste negocio ao dito Salvador 
Corrêa de Sá. Hey outrosy por bem de lhe fazer mercê ao dito 
Duarte Corrêa que ajudando ao dito Salvador Corrêa e a desco- 
brir e entabolar as minas e polas em suas perfeições de modo 
que Rendão para minha fazenda em cada hum anno quatrocen- 
tos mil cruzados de ouro de minerais e betas e nfto de lavagens 
livres de todos os gastos e custos, do Gk)verno da cappitania do 
Rio de Janeiro por seis annos e de promessa de bua comenda 



120 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

ejffoctiva de lotte do cento e vinte mil rs., com f^uldade qae a 
possa nomear em seu íllho, e para minha lembrança e sua guar- 
da lhe mandei dar este Alvará que a sen tempo se comprira 
como nelie se oonthem, o qual Hey por bem que valha como 
carta posto que o efiTeito delle haja de durar mais de hum anno 
sem embargo da ordena^^ em contrario. Pasohoal d* Azevedo 
o fez em Lixboa a 22 de junho de Bj° Rny — Rey — e eu o secre- 
tario António de Barros Caminha o fiz escrever. 

A' margem do registo do alvará acima trasladado encon- 
tra-se também registada a seguinte Apostilla: 

Tendo respeito a que pello alvará atras escrito, de vinte e 
dous de junho do presente anno de seis oentos e quarenta e qua- 
tro, que se passou a Duarte Corrêa Yasqueanes, se lhe concedeu 
que servisse no descubrimento das minas de São Paulo e Sao 
Vicente, nas abzencias de Salvador Corrêa de sá e Benevides ; 
B que ajudando no mesmo desoubrimento e entabolamento delias 
de modo que rendessem quatro centos mil cruzados, livres de 
todo o custo ; lhe faria eu mercê do cargo de Governador do Rio 
de Janeiro por seis annos, e de promega de hua comenda de lote 
de cento e vinte mil réis, com faculdade de a poder testar em 
seu filho ; E em consideração do mais que ora por sua parte se 
me representou, Hey por bem de declarar qae conforme ao ser- 
viço que for fazendo, terei respeito para lhe fazer mercê sem 
ser necessário chegarem a render as mesmas Minas os quatro- 
oentos mil cruzados referidos ; E esta apostilla com o dito alvará 
se oomprirao inteiramente, sem davida nem contradição algua, 
a qual vallerá como carta sem embargo da ordenação do 2^ livro 
titulo 40 que dispõem o contrario. E desta apostilla e alvará 
referido pagara o novo direito se, conforme ao Regimento, o 
dever. Paschoaldazevedoa fez em Lisboa a S3 de novembro de 
644. E eu o secretario Afonço de Barros Caminha a fiz escrever. 



CARTA DB FORAL 

POVOAÇÃO, NATURIZAMEiNTO, NO ESTADO DO GRÃO PARA, 

E RIO DAS AMAZONAS NO MARANHÃO, 

DE QUE SUA MAGESTADE FAS MERCÊ AO. CAPITÃO PEDRO SULTMAN, 

IRLANDEZ DE NAÇÃO, E AOS MÃES DE SUA FACÇÃO 

REZIDENTES NA ILHA DE SÃO CHRISTOVÃO 

(1644) 



(Arehivo da lorre do Tombo — Livro dos Regimentos do Conselho 
Ultramarino, fí, 37, Documento mandado copiar pelo Dr. Noriyal 
Soares de Freitas em missão do Instituto Histórico nas bibliothecas e 
archivos de Portugal). 



Curiosa é rata carta foral, em que o Gorar no da metrópole 
concod > sesmarias c direitos d ' portuguezes a estrangeiros*- 

Pedro SuUman e seiu patricios viviam na ilha de S. Cbristovão 
(África) e começaram a s r perseguidos piUos inglezes. 

Sultman pediu t ^rras do BrazU ao Rei de Portugal, que as con- 
cedeu com grandes privilegies, 

(Xota da Commissão da Redacção.) 



OftrtA de foralp PoTOaçio, Bâturliamonto, no Estado do srao Pará, 
e Bio das Amaionas no Uaranhão do qno Sna Vaitostado fas 
morco ao oapitSo Pedro Snltman Irlandei de nação, e aos mães 
de sna boglo residentes na Ilha de sio Ohrlstovio. 



Dom João per graça de deus Rey de Portugal e doe algar- 
ves daqaem e dalém mar em Africa senhor do Brazil, de 
Gaine e da conquista navegação comercio de Bthlopia, Arábia 
Perçia e da índia, etc, faço saber a todos os que esta minha 
carta de foral, Povoação e Doação, e naturizamento dado a 
Pedro SuUman Irlandez catholioo reaidente na Ilha de são 
Chviatovão, virem e aquém o conhecimento pertencer, Que por 
parte do dito capitão Pedro Sultman, em seu nome, e dos mães 
Irlandezes de sua companhia, e familiaridade, abbittadores da 
ditta Ilha, me foi proposto, Que elles ei^o verdadeiros catho- 
licos, reconhecendo a sancta Madre Igreja de Roma, e vivendo 
debaixo de sua obbediencia, profeçando a sancta fé oatholica, e 
por sua proâção padecerão grandes persiguiçoes e trabalhos, e 
pello aperto das guerras, e terra« forão povoar e abbltar a ditta 
Ilha de lâo Christovão, cento e setenta legoas da costa do meu 
estado do Brazil, que esta occupada e abbitada de Irlandezes; B 
elle Pedro Sultman, levara a sua custa, e por sua conta, muitos 
lavradores e soldados, pêra povoarem e romperem, e abrirem a 
terra, e recrescendo as guerras entre Inglaterra, e os seus 
naturaes de Irlanda, os Inglezes senhores da ditta Ilha, por 
serem mais em numero e poder, e de diversa profl^, os per-* 
çiguirâo, e tiranizarão, de sorte que elle capitão, E Principal 
delles, e muitos dos dittos Irlandezes, que serião quatro centos» 
e entre elles çincoenta, ou sessenta cazados, com sua familia, 
dei6javão,e detremina vão saísse, c ir povoar a outra Provín- 
cia, em que profeçassem livremente a sancta fee oatholica, os 



124 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

quaes lhe derSo seu aprazimento, que se ajuntara nesta carta* 
o foral, oom a qual recorrera a my, como Príncipe tão catho- 
lico, e favorecedor e protector de todo o catholico desterrado, 
e em particular, da ditta Nação, reoebendoos, e dando-lhes 
neste Reino comentos, e mosteiros de Rilligiosos, e RiUigiosas ; 
B siminarios de sua nação, com grandes esmoUas e particular 
piedade; E assy me pediâo lho flzesso a mesma mcrçe e amparo. 
Para que nas minhas Províncias do Brazil, de que muitas os- 
tavão dezabitadas por falta de moradores, lho fizesse merçe, 
ou na Província Do Maranhão, ou do Grão Pará, e Rio das Ama- 
zonas, de lhes assinar, e conceder terras para abbitarem e po- 
voarem nella, e a deffonderião, e se daríão annos como aos mães 
Vasallos, e collonias da diUa Provinoia, reconhecendo-me, como 
Rey e senhor natural, acodindo com seus direitos, e tributos, 
como os mces Portuguezes naturaes ; E mandando ver sou ro- 
quorimento, depois de rezol ver de os amparar o admittir, e fa- 
zer merçe no que pedião, Mandey que pello Doutor Thomé Pi- 
nheiro da Veiga do meu Conselho Dezembargador do Paço o 
Procurador da Coroa, ajustar a forma, clauzulas e condições, 
com que se lhes concedesse, e selebrasse a ditta merçe, foral e 
Doação, as$y com o ditto Capitão, como com os de sua compa- 
nhia ; E Visto tudo o que me roprezentou, e ajustou oom a 
mayor informação e parecer dos do meu conselho, segundo a 
forma em que os senhores Reis meus antecessores, gaardariío 
nas terras do Reino, De novo conquistadas, as derão a povoar 
por seus foraes, a seus vasallos, e o que nas capitanias do Bra* 
zil se tem observado, para sua povoação, e abbittação, e honra 
dos vasallos beneméritos ; E quorendo fazer graça e merçe ao 
ditto Pedro Sultmam, e aos dittos Irlandezes catholicos de sua 
oompanhia e conducção ; Hey por bem e me praz, do minha 
certa sçienoia, poder Real, absollotto, sem embargo das leis, 
regimentos e prohibições, e capittulios de cortes, por que ho 
deffezo, e se não permitta a nação nenhuma estrangeira, nem 
de Espanha, nem pessoas, nem navios, entrar nem abbittar nas 
dittas partes do Brazil, De lhes conceder, como faço, ao ditto 
Capitão e aos mães de sua companhia, até cento o trinta abbitta- 
dores da ditta Ilha, por hora, que possam entrar, povoar, 
e abbittar na dita capitania do Pará, na forma deste foral, e 



CARTA DE FORAL 125 

carta de povoação e Doação, que lhes concedo na maneira 
segointe : 

Primeiro que o ditto Pedro Saltman, e os dittos Irlandeses 
de sua companhia, que forem catholicos (que he a razão prin- 
cipal porque lhes faço esta merçe e acolhimento) tanto que fo- 
rem entrando na ditta terra, com ministro, ou ministros que eu 
ordenar para sua conducção, vão em direitura ao porto da ci-. 
dadedeBetlem, onde rezide o meu governador, e se lhes de 
todo o acolhimento, e tempo necessário, ate lhes assinar as 
terras, e lugares de sua abbittação e povoação. Aonde seirão 
assentados e escritos em hum livro que para esse eífeito ha- 
verá na camará da ditta cidade, assistindo o Capitão mor e o 
ouvidor geral da ditta Provinda que lhe nomear ; B pello ditto 
acto, Logo lhes faço, e hei por feita merçe de os naturalizar nel- 
les, e seus descendentes, e haver por Portuguezes naturaes vas- 
sallos e súbditos desta Coroa, e obbedientes a saneia se apposto- 
liça, como Bons, e verdadeiros christoes, com todas as graças, 
Previlegiose liberdades, e eizenções que tem agora os natnraes 
destes Reinos de Portugal, e seus domínios, como se o foi^ por 
origem naçimento, e abbittação, e elles como taes vassallos 
subdittos por sy' e seus deçendentes, me reconhecerão por Rey 
e senhor, como os mais vasallos naturaes, renunciando outro 
qualquer senhorio, natureza, e domínio, e como se cada hum 
fora naçido no Reino, e fizera preito e omenagem particular, e 
juramento de fedilidade, como pella assinação do ditto livro, se 
entenderá, feita a todos, para todos os previlegios. ; E assy pelo 
contrario, incorrendo nas penas de infedilidade, e crime de 
le2a magestade, divina e humana, como os mães vasallos, e 
subdiitos, so jeitos a minhas leis e justiça, o da sancta Inquisi- 
ção, e cençura Ecclesiastioa, em todo por todo, assy casados 
com filhos, como solteiros, e que eazassem na terra, e com mo- 
Iheres que vão do Reino, ou quaesquer outras, ou de sua Ilha, e 
terras. 

E nesta conformidade, o ditto capittão poderá levar em 
cada húa das dittas viagens que declarou que podia fazer no 
anno, sessenta, ou setenta dos dittos Irlandezes, cazaea de sua 
companhia dos dittos cento e trinta, eos mães, para quç 
depois lhe der faculdade, procurando que serão os ipaes que 



126 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICSO 

pader 0er oazadoB, ou easem na terra ; E tanto qm entra 
rem na sobreditta forma na ditta capitania e cidade do Pará, 
a metade pouoo mães oo menos, a que vier melhor, e mais a 
prasimento seu, e do ditto caplttSo, serSo recebidos por oi- 
dadõet, e moradores da ditta cidade, seus arrabaldes, e termo, 
e suas Aldeãs, onde melhor lhes estiver abblttar, com todos 
os previllegios e liberdades dos mais cidadões, para entrarem 
nos cargos da governança, na paz, e na guerra, com todas 
perrogatiras dos naturaes ; para o que Hey por bem que dontf 
dos mais nobres casados, entre logo hd por vereador, outro 
por Almotaçe, sendo em tudo tavorecidos ; para o que o Go- 
vernador, e ouvidor, e pessoa que mandar a ditta eonducção 
com o ditto capitibo ; e dous de sua companhia, e duas pes^ 
soas mães da cidade, Ikçâo repartiç&o de terras bastantes, 
com largneta, no ditio distrioto, em gitios mais aooomodados, 
e de mães fertilidade que lhes assinem, que serfio todas as que 
puderem cultivar e abrir, para sy, e serem suas próprias, di- 
zimo a deus, como taes virem a seus herdeiros, e disporem 
delias como próprias, como os mães naturaes, repartindo-as 
com a ditta largueza, que de presente, e adiante puderem 
redduzir. A cultura, e para seus gados, quintas, e abegoarias, 
o mães sem prejuízo dos abbitadores da cidade, que pudef 
ser, de maneira que tenhSo as terras que puderem apro- 
veitar, como os 'mães, ficando com tudo da companhia do ditto 
seu capitão, como os das ordenanças, como adiante se declara. 
O qual capit&o com a outra a metade, pouoo mães ou 
menos, por hora poderei ftmdar outra povoaçfto, e villa prin- 
cipal com os seus e qb mães da terra, que de presente, ou 
adiante nella quizerem abbitar pelo Rio e terra acima, enl 
çitio competente algúas legoas, que se chamará slo Joio, a 
que dareis as armas, e Inçinias, cem os Previileglos das mães 
villas do Reino, e do ditto Estado, para o que o ditto Gover- 
nador, e capitão, e as sobredittajs pessoas, verão o citio mães 
aocomodado, e í^nda^o, e deffencão, • correspondência da 
ditta cidade do Parft, e menos contradição do gentio da terra, 
o terrenho de Agoas, e fertilidade tal, que se possa substentar 
e floreçer ; B o ditto Governador em meu nome» a levitntará 
em YiUa, c<« Peilourinho, Gamara, Jurisdição, e (bral» e 



CARTA DE FORAL 127 

Previliegios do Pará ou são Luís ; £ oom as dittas pessoas lhe 
assinará de termo, e districto, as legoas, e terras bastantes para 
todos os dittos povoadores, e os que com elles quizerem habbi- 
tar, e aos qae eu adiante der' faculdade com largueza bas- 
tante, não 8ó de logradouros, e pastos do comu da Villa, mas 
para lavoura, planta. Engenhos, pastos de gado, e quintas, e 
Aldeãs* e se repartirem com os povoadores, e as abrirem como 
suas para sempre, na forma sobreditta, e como os mães na- 
turaes. 

B do ditto Pedro Sultman, hey por bem, se lhe assine húa 
legoa em quadro, de terra, que seia sua própria, para seu uzo, 
e dispor e fazer delia, e seus fructos, e rendas, como cousa 
própria, haforar. Arrendar, dar, ou vender, como lhe estiver 
melhor, com o reconhecimento, e obrigação das pessoas â que 
fis meroe de terras no ditto Estado, naquella villa, e fora delia» 
e em todas as mães partes, se guardarem em todo minhas 
leis, e ordenações» no crime, e no eivei, e seu governo, na 
paz, d na guerra, com seus juizes, vereadores, e Procurador, 
Almotaçeis, e Escrivães, e Alcaide, e mais oíficios, como nas 
mães do Reino, e do ditto Estado, fazendo suad EUeições, Pos- 
turas, e acordos, e bordem de governo. 

Para o que esta primeira vez, para instrucção, e crea^o 
dos officiaes, Hey por bem, que a pessoa que faz com o ditto 
capitão, ou la estiver Assistindo o ditto capitão, chamem» os 
dittos povoadores, com os mães que nesse acto se acharem 
para virem votar em offlciaes, a som de campa, e facão Ellei- 
^ na forma da ordenação, tomando os vottos, e appurando 
os pellouros o ditto julgador, com o ditto capitão E esta pri- 
meira EUeição, será hum juiz dos povoadores, e outra dos da 
terra para se instruírem nas leis, e governo» E hum escrivão 
natural, e os mães vereadores, Almotace, e Escrivão dos po- 
voadores» e os mães offlcios, B dahi em diante sem disthição 
de huns e outros, e virão os EUeitos a confirmar ao Oover* 
nador em meu nome, sem pagarem outjos direitos dos offl- 
ciaes. 

E poderão os Portuguezes e mais pessoas da terra a que 
estiver bem vir abbittar na ditta villa» e suas Aldeãs, E os 
Irlandezes ir abbittar com os naturaes em suas povoações» sem 



128 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

80 prohibir a huns, nem a outros, a Elleiçâo, o a abbitiacão, 
como as mais villas ontre sy, e o mesmo na comonicagão, 
tratto, e cazamontos, e contrair domiçillio sem distinção ; K 
outro sy poderSo do Reino e da Ilha onde estão, e de sua terra 
levar por via do Reino, levar suas molhares e filhos, e as que 
com elles se contratarem de casamento, e com bordem da ca- 
mará e governador, se deixarão ir, e assy os casaes, e pes- 
soas natnraes do Reino, que com elles quizerem hir abbittar, 
e povoar, com seus previlegios. 

£ ao ditto capitão Pedro de Sultman, Hey por bem de fazer 
merçe que seia, e se chame Alcaide mor da ditta villa, desde 
que chegar a ella, com os direitos, perrogativos, e privilégios 
que tem os Alcaides mores por minha ordenado, e que por 
ella lhe compete, fò.zendo-me preito e omenagem, ou em mãos 
do meu Governador, para que se lhe passará carta minha ; 
B outro sy, seija, e se chame seu capitão e dos de sua, com- 
panhia, onde quer que estiverem, como capitão da ordenança, 
com seu Tenente, e os do Pará. com o regimento das dittas 
ordenanças ; E isto em sua vida por hora, assy Alcaidaria mor, 
como a capitania, e com subordinação Ao Qovernador, e Go- 
vernador Qeral do Estado, e seu ouvidor, na forma das outras 
villas, e povoações da Província. 

E hey por bem que estes primeiros cinco annos possa no- 
mear hu ouvidor confirmado pello Governador, que seia natural. 
A que venhão as appellações e . aggravos, e nelle tenhão 
fim, até dez mil réis de Alçada no cível, e quatro nas penas, 
e dous annos de degredo nos crimes, e dez mil réis em dinheiro 
nelles,que será posto por elle» e se nomeará por my ; E isto 
nos moradores da dita villa e termo que nella tiver^n con- 
tráhido domiçillio, ou nelle cométterem o delicto, ou naturaes, 
ou estrangeirob, E nos Escravos, e Plebeyos em que cabe penna 
vil, até Assou tes, e degredo por dous annos. 

E huns e outros da ditta companhia, pagarão inteiramente 
08 disimos e permiçias e mães cousas devidas á Igreja, e sedes, 
assy e da maneira que pagão os naturaes, com todo o reco, 
nhecimento, e obrigação da Igreja, e Perlados, e herdem dos 
sagrados cânones, sem exeição no costume em contrario, em 
todo, e por todo, como os mães naturaes. 



CARTA DE FORAL j 29 

E de oairos direitos Reaes, o contribaiçõoa serSo isentos, 
DO que de novo cultivarem, e abrirem, e Eagenhos que flze- 
rem de Açúcar, e mães lavouras, na forma, e pelloB annos 
que são isentos os que Eddiâcão Abem de novo, e rompem 
as terras por foral dos do estado ; E Hey por bem de os isentar 
mães, ate nove annos, pagando os mais direitos, e Alfandegas, 
assy na Ilha, como no Reino, onde manejarem suas merca- 
dorias, e fruotos da terra, e aoquiridos, c mercancias, para 
o que se lhes dará todo o favor, e embarcações, e a suas todo 
o bom despacho para as dittas fazendas, e mercancias, e fructos; 
E pela mesma maneira, para manejarem, e trazerem os da 
ditta provincia, os seus fretes, e despacharem nas minhas Al- 
fandegas, onde despachão os mães natoraes, pagando seus di- 
reitos na terra, B Reino, salvo os sobredittos do seu foral, ou 
por outras provisões, lhe fazer merçe do os isentar. 

E serão obrigados a guardar inteiramente os regimentos e 
prohibições do ditto Estado do Brazil, para não admittirem 
navio nem pessoa estrangeira, da nenhúa qualidade, nem de 
sua nação, sem expreça hordem minha, nem de Castella, nem 
outra nação, nem navegação para ella, salvo para este 
Reino e suas Ilhas, na forma dos regimentos e ordenações, 
e hordeos dadas nesta matéria, sem differença nenhúa dos 
outros mães vassallos, e os mães que for servido ; E por 
firmeza de tudo lhe mandey dar esta carta de foral, e naturi- 
zamento, por my assinada e cellada com o çello pendente ; 
Belthezar Gomes a fez em lixboa aos quatro de março, Anno 
do Nasimento de nosso senhor Jesus Ghristo de mil e seiscentos 
6 quarenta e quatro ; Balthazar Roiz de Abreu a fiz escrever. 
— El-Rey. 



POSTILLA 

O que tudo se entendera, com declaração, que a sobre- 
ditta gente que o ditto Pedro Sultman, levar em sua com- 
panhia, seja toda de nação Irlandeza, sem entrar pessoa algua 
de outra nação, E o Governador do Maranhão, logo que en* 
trarem naquelle Estado» tome a todos» e a cada hu^m par- 
491 — Tomo lxiz. í. i. 



130 REVISTA pO INSTITUTO HISTÓRICO 

ticular, juramento de .omenagem» e fidelidade no ditto livro 
nesta carta e para este effoito ordenado ; E desta postilla se 
porÀ verba nos registos ; Lixboa a dezassete de janho de 
mil e seiscentos e quarenta e quatro.— fiey. 

Archivo da Torre do Tombo. Livro dos Regimentos do 
Conselho Ultramarino, íls. 37. 



Repnento que a de usar o Send da Frota 

SALVADOR CORRÊA DE SA 

(1644) 



(Arehwo da Torre do Tombo, Liwo dos Regimentos do Conselho 
Ultramarino, fl»i3 v. Docamento mandado eopiar peloDr. NoriTal 
Soares de Freitas, em misefto do Instituto Historioo nas bibliothecas 
• arohlTOB de Portugal). 



Sobr.í a niaioria dost.) repri mento dado ao general da frota Sal- 
vador Benevides, veja-Sí o que escreveu o illustrado Dr. Vieira 
Fazenda no Boletim Co7mnercialf annos de 10O4«5-6, sobre o coui- 
niercio do Rio d* Janeiro nos S'Culos 16* c 17*. 

(Xota da Commissão de Redacção*) 



Retíieito ie me a it m o Beienl la mta SalTalor Corro de 8i 



Ea El-Rey faço saber, a vos Salvador Corrêa de Sá y bena- 
Yides, fidalgo de minha c^isa, que por jostas considerações de 
meu serviso bem de meãs vassalos e melhor segurança da na- 
vegação do Estado do Brazil. Mandei ordenar hda frotta para 
dar escolta, aos navios da navegaçSo para que se possão opor, 
a qualquer acometimento dos enemigos e meus vassalos logrem 
com segurança as rezultas, dos cabedaes que nelles meterem. 
Ouve por bem, de vos, nomear, por general da ditta frotta 
pela experiência que tendes das couzas do mar, e vosso zello, 
en meu servisso e por confiar de vos quo em tudo procedereis 
conforme vossa obriga(^ e por Almirante a Diogo Martins Ma- 
deira na qual se guardará o Regimento seguinte : 

Primeiramente os n%vios que ou verem de servir nesta 
frotta de Cappitana Almirante delia, serão meus, que eu Man- 
darej nomear, dos de Minha Armada Real, comprados, provi- 
dos e Armados, por conta dos fretes e avarias dos assucares e 
fazendas que nelles se carregarem, e será cada hfi delles de 
porte de seiscentas tonelladas, bem artilhados, com cem in* 
lentes cada hum, e seu capitão de mar e guerra com hfi AI, 
feres e sargento nos quaes se meterá somente duas partes da- 
carga, para que com os frettes e avarias, que se hão de pagar 
pela maneira ao diante declarada, se supra o gasto da infantaria 
do mar. 

2 — Averá na dita frotta hfi sargento mor e h(l ajudante 
pessoas de valor e de servissos. E se pello tempo em diante a 
experiência mostrar que se necessita de outro Ajadante man- 
dareis prover delle. 

3 — Averá também hfi auditor que conhesa de todas as 
cauzas çiveis e crimes, das pessoas que andarô enbarcadas, 
nestas frottas que forem dependentes da gente delias, e forem 



134 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

criadas, depois de terem, aaentado praça, nas dittas frottas, 
com o mesmo poder e jurisdiccão que tem, e de qae se aza nas 
ArmaJas da lodia o qual eu mandarey nomear, e asy a pessoa 
que com elle ba de sernr de escrivão. 

4 - - Averá. tão bem hum feitor que sirva juntamente de 
Almoxarife para areoadar e feitorizar o direito da avaria que 
se a de arecadar das caixas de asuquar e fazendas que se car- 
regarem em todos as navios da fh>ta para sustento e pagas da 
gente de Guerra e monições, vosso soldo e do Almirante e dos 
mais ministros qae nella servirem. 

5 — Sendo os donos dos navios que servirem na dita frota 
de tal valor partes e experiência que possão ser capitães de 
mar e guerra nelles, os aprovarei, e não concorrendo nelles 
estas partes, ou não o querendo ser, poderão nomear pessoas 
em quem ellas concorrâo a qual, tendo estes requesitos será por 
mira aprovado. 

6 — Aos cappittais e soldados.e capitães qae em seas navios 
servirem de mar e guerra nestas f^ottas, lhe averei o servisse» 
quo nellas me fizerem» como se fosse feito nas Armadas Reais 
deste Reino, e aos homens do mar terei também respeito, nas 
ocaziões de seus acressentamentos. 

7 ^ Os Baixeis qae onverem de navegar para as ditas partes 
serão ao menos do porte de duzentas tonelladas, com dez pes- 
soas de Artilliarla, as quais serão mandados examinar pelo Ck)n- 
selho Ultramarino, e os que forem de menor porte, não averão 
avarias, porem as qne se lhe deverem, se hirão depositando na 
mão do feitor para a compra de dous bons galeõis que sirvão 
de cappitana e Almirante da dita ft*otta para qae por este 
modo, se vão extinguindo as embarcações pequenas, e os Arma- 
dores se disponhão a íl&bricallas do major porte que for possível 
porque disso não somente lhe rozultarão seus interesses mas 
maior segurança em sua navegação e reputação do Reyno. 

8 — Partirá a ftota do Porto desta cidade ate os derra- 
deiros dias do mez de setembro de cada anno, para a Bahia e 
e daly pêra o Rio de Janeiro e daqaella cappitania voltarão os 
navios pêra a Bahia qae ouverem de vir em companhia da 
frota ate o derradeiro de março para qae elles e os da Bahia 
salft^bA abril, qae são as monções mais aprovadas em respeito 



REGIMENTO DO GENERAL DA FROTA 135 

de vir a ft*otta mais coiiBervada, e em que se acha a Armada 
Real fora, vindo por altura de quarenta e hum grãos e meio dei- 
xando os navios do Porto e Viana recolhidos em seus porttos e 
com os mais vireis seguindo nossa Rotta ate o porto desta cidade. 

9 — E porque obrigando aos vassalios a que deste Reino na- 
veguem em ft*ottas pêra o Brasil ajuntandosse pêra este eíTeito 
no porto desta cidade, lhe seria de grande dagno e perjuizo 
asy pelo Risco que correrão em rezão dos tompos e dos ene- 
migos que de ordinário andão nestes mares, como tão bem por 
lhe ser necessário hirem pellas Ilhas fazer suas escallas e pro- 
vimentos de farinhas vinhos o outros géneros que hão de levar 
as ditas partes ; e juntamente para que possão os ditos navios, 
ter tempo de fazer nollas suas oarregaçoís para que ao tempo 
da chegada da flrotta e de sua partida para este Reyno, se achem 
prestes, e não tenham detença; Hey por bem que pêra as ditas 
partes do Brazll possão os ditos navios navegar em todos 00 
tempos que quiserem o lhe bem estiverem sem esperar pelas 
ditas frottas, porem a volta para este Reyno, não poderão vir, 
senão em sua conserva para se evitar o dano que ao pode 
seguir de em rezão de vir só caírem em mãos dos enemigos e 
nem vós nem o governador gerai do dito Estado, ou Gappitao 
mor do Rio de Janeiro lhe poderão dar licença em contrario 
salvo quando for pêra se trazer algum aviso, muito de meu 
servisse e para este effeito se elegerão as embarcaçõis mais pe- 
quenas que ouver para que possão com mais brevidade vir a 
este Reyno, e trazerem o dito aviso. 

10 — Na carga dos ditos navios prefferirão os que forem 
de msOor porte e aos de menor porte se darã so meia carga 
porque assy virão as fazendas dos particulares e carregadores 
mais seguros, e os Armadores procurarão avantajarse nas 
fabricas que fiserom aos que forem de maior porte ass^ 
por se não arriscar a ficarem sem carga, como também 
por gozarem do beneficio da avaria que não hão de lograr 
se os ditos navios não forem ao menos de duzentas tonel- 
ladas e daby pêra sima como fica dito no cappltulo sétimo 
deste regimento. 

11 — Sendo os ditos Baixeis de duzentas tonelladas e des 
peças de artilharia averao de flretes da Bahia por cada sio- 



136 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

coenta e quatro arobas qae he húa tonellada portogeta doso 
mil rs. e os de treseatas tonelladas e quinze possas quatone 
mil rs. e 06 de quatrocentas tonelladas e vinte pessas dezaseis 
mil rs. e vindo do Rio de Janeiro haverio pela mesma ordem 
que flea dito dous mil rs. mas por tonelladas, e avaria quer 
sela da Bahia, quer sela do Rio de Janeiro, será de hum tostão 
por cada arroba. 

12 — E Porque cada hum destes navios ha de carregar ao 
menos seiscentas caixas de assnear, que a vinte arrobas eada 
eaiza como he custnme, fozem doze mil arrobas, e pagando a 
testio de avaria por arroba importiU) três mil cruzados, e desta 
avaria, ha de aver o dono do navio a quarenta ni. por cada 
tostão e 06 sesenta rs. que âcio se aplicSo pêra o sustento e 
soldo do capitão e soldados que hão de hir embarcados em cada 
hum para a sua defença, que hão de ser vinte e sinco que im- 
portSo seteeentos e vinte mil rs. não bastão e he necessário sup- 
prir-se esta falta pelos melhores e mais suaves meios que ser 
possa ; Hey por bem que eo cada hum dos ditos navios (de mais 
dos asucares que ouver de carregar) se earregem quatrocentos 
quintaes de pao Brazil por conta de minha faienda, dos quaes 
se pagará quatrocentos rs. de firete por cada quintal e destes 
quatrosentos rs. haverá o dono do navio duzentos rs. e os 
outros duzentos, se aplicarão também ao sustento e soldo da 
gente, e os navios que carregarem no Rio de Janeiro ou em 
qualquer outra parte do estado do Brasil que não trouxerem 
pao, pagara cinco tostões de eada tonellada que carregar para 
iguda de custo. 

13 —E porque os navios que hão de navegar para a Bahia 
somente hão de carregar quatrosentos quintaes de pao, cada 
hum por conta de minha íkienda em rezão do pao do Rio de Ja- 
neiro ser de qualidade que não tem conta neste Reino, de que 
06 donos dos ditos navios não hão de aver mais que duzentos rs. 
de frette por cada quintal eomo fica dito no cappitulo ante- 
cedente no que se lhe flcão ocupando perto de trinta tonelladas 
con pouca utilidade; Hey por bem que a cappitana da dita frota 
e Almiranta delia carregue cada húa pelo menos duzentas tonel- 
ladas de pao Brazil, o qual o meu governador geral do dito 
Estado, e Provedor mor de minha (kienda em elle e a nos, pela 



REGIMENTO DO GENERAL DA FROTA 137 

parte qne nos <oca fareis carregar em oada hum dos ditos navios 
inyiolayelmente. 

14 — E porquanto nestes princípios he força permitirse a 
navegado das embaroagOes de menor porte de duzentas tonel- 
ladas até ellas se acabaram e se fsiserem outras de major porte, 
como fica declarado neste Regimento considerando também que 
se de todo se lhe prohibir que não naveguem para as partes do 
Brazil, não tão somente ficarão meus vassalos com dano consi- 
derável nos cabedaes que nas ditas fábricas tem metido mas 
tão bem se não dará vazão a saca dos asuqueres do dito Estado ; 
Hey por bem que as ditas embarcações, como ja fica declarado, 
possão navegar pêra as ditas partes, ató S3 extinguirem, e que 
indo a Bahia se lhe de de frotte a dose mil rs. por tonellada, 
e hindo ao Rio de Janeiro a quatorse mil rs. com que tãobem 
se evita o dano que pode rezultar aos carregadores da dilação 
esperando com a carga não a querendo meter nos navios de 
major porte porem do dito fírete serâo os mestres de tais em- 
barcações obrigados a entregar ao meu feitor e Almoxarife 
dous mil rs.de oada tonellada para ajuda do sustento da infiinteria 
que nos mais navios armados os ha de comboiar, E vos mando 
que nas licenças que ouveres de dar a estes navios para carregar 
seião preferidos aquelles que tiverem algúa artelharia e forem 
novos, e nos pareserem melhores pêra acompanhar a frotta. 

15 — Sendo necessário valerense alguns dos navios de par- 
ticulares de algúa artilharia minha, ou sendo necessário meter 
lha para sua melhor defença e guarnição venserão cada duas 
peças que asim levarem o soldo de um marinheiro pêra também 
se dispender nas couzas necessárias á conservação e aumento 
das ditas frottas. 

16 ^ Com o soldo dos marinheiros se não alterará couza 
algúa o qual se lhe pagará na forma que sempre se fez De tudo 
o que tocar ao direito de avaria se cobrará no Estado do Brazil 
para pagas da gente de guerra e mais despezas que forem 
necessário fazerense cõ os navios da frotta a metade, e a outra 
ametade se pagará neste Reyno, o qual dinheiro ha de cobrar 
e despender o feitor e Almoxarife com ordem do meu general» 
e para a cobrança se ha de fazer um livro de Receita nume- 
rado e Rubricado pelo auditor, e se lhe ha de carregar em Re- 



i38 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

ceita tudo o que assy oobrjir, o qaal será obrigado a dar fianga 
nesta cidade, ató quantia de três mil cruzados, e de cada viagem 
que fizer dará conta dos meus contos do Reyno e caza e tirará 
quitaçáo. 

17 — Outro sy Hey por bem que a despeza que o dito feitor 
e Almoxarife fizer, pelo toca ao vosso soldo que são dous mil 
cruzados cada anno sem nenhúa liberdade mais, e o Almirante 
trezentos mil reis cada anno, que se Repartirão aos mezes, 
e asy os soldos do auditor, sargento mor, ajudante, cappitaes. 
Alferes, sargentos e mais offlciaes que serão os que pellos 
mesmos, cargos lhe pertencerem sei^á pella maneira seguinte, 
a saber, no Brazil da terça parto de .seus soldos e neste Reino as 
duas partes, tomando quitações das tais pessoas com as decla- 
rações costumadas para a conta do dito feitor e Almoxarife, 
e por esta mesma maneira a Infanteria o mantimentos delia 
que tudo ha do sahir do dito direito da avaria. 

18 — E porque pode acontecer ser necessário fazeremse 
outras despezas extraordinárias na Cappitana e Almiranta da 
dita frota, mando ao dito feitor e Almoxarife que he húa s6 
posfloa que por despachos nossos as faça e com vossa asistençla 
lênbrando vos que não sejão as tais despezas, senão aqueilas que 
forem presizamente necessárias e não sendo utis e necessárias 
se lhe não levarão en conta. 

19 — Outro sy haverá outro livro da despeza, também 
numerado e Rubricado pello mesmo auditor e servirá de es- 
crivão da Receita e despeza o mesmo que ha de servir na audi- 
toria, no qual se lansarão todas as despezas que se fizerem 
asinadas por vos, e pello dito feitor e Almoxarife declarandose o 
em que a dita despeza se fez, e a cauza que ouve pêra se 
íkzer, e isto alem da ordem por escrito que haveis de passar 
para que a dita despeza se faça e no livro da Receita em que se 
ha de carregar ao dito feitor e Almoxarife tudo aquilo que 
cobrar da avaria se dõc'arara tambimi em cada assento o que 
cobrou quanto de cada pessoa decl.iranduas por seus nomes, dia, 
mez e ano, dos quacs as 'nttos hâo de proceder as quitações que 
se ao de dar as partes que pagarem a dita avarii para sua 
guarda asinados pelo escrivão e pello dito feitor e por vos para 
que por este modo vos seja prezente o dinheiro que tem en- 




REGIMENTO DO GENERAL DA FROTA 139 

trado em poder do ditto feitor, o que se tem despendido, e o 
que âca ainda em seu. 

20 — O dito feittor e Almoxarife terá de ordenado cada anno 
duzentos m!I réis, tendosse consideração ao muito trabalho que 
ha de ter no exercido deste officío andando enbarcado e sendo 
obrigado a dar fiança e contas cada anno o qual se poderá, 
pagar eni sy próprio do mesmo Rendimento da avaria, e o 
escrivão de seu cargo, que o ha de ser também da auditoria 
haverá de ordenado em cada hum anno oitenta mil réis, de 
que também houvera pagamento pelo mesmo modo que o vos 
aveis de haver, e os mais offlciaes e soldados, os quais feitor e 
escrivão sendo necessário encarregaios de outros officios, nem 
por isso haverão outro ordenado, mais que hum só por ser asy 
conforme as minhas leis e Regimentos. 

21 — Para que não haja demoras que obrigem a despezas 
inúteis ; Hey por bem e vo8 mando que com toda a brevidade 
possível procureis abreviar a viagem asy da hida como da volta 
para que se possa fakzer a viagem da frotta todos os annos. 

22 — E para que isto não tenha nenhu estrovo e melhor se 
possa conseguir, Hey por bem e mando a todas as justiças asy 
deste Reyno, como do dito Estado, íação, breve e summaria- 
mente pagar os fretes ou dividas pertencentes a estas viagens 
aos mestres, mercadores, pajssageiros e mais interessados que 
vierem nas dittas ft*ottas constando do que liquidamente lhe 
deverem 

23 — E porquanto para a dofença e segurança dos navios 
marchantes convém que os donos delles lhe metam armas para 
a geote do mar que nelles hão de trazer. Hey por bem que 
tragão nos ditos navios, tantos mosquetes e chuços quantas 
forem as pessoas que nelles trouxerem. 

24 * E Hey outro sy por bem que nem neste Reino, nem no 
estado do Brazil se possa fabricar navio ou caravella que s eia 
de menos de duzentas tonelladas e dahy pêra sima porque nen- 
hua a de navegar nas ditas írottas de menos porte, depois que se 
acabarem as que jà estão fabricadas, e as caravellas que assyse 
fabricarem de porte de duzentus tonelladas serão armadas com 
doz peças de Artilharia como os navios do mesmo porte, e isto 
se entendera nas caravellas e navios que ouverem de nave- 



140 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

gar pára o Brazil, porqae para oatros irattos, poderâo fabricar 
os navios que lhe estiver a conta. 

25 — Os navios que forem ao Rio de Janeiro e mais partes 
do sul virão demandar com a carga que tiverem a cidade da 
Bahia no tempo que por nos lhe for ordenado, pêra virem daly 
em nossa conserva, medindo o tompo de tal modo que, nem 
Yonhlko muito antes da partida da frotta para evitar os gastos 
e despezas que podeão fazer na Bahia, sendo muita a detença» 
nem, tãobem, que venbão sendo nos já partido. 

26 * E porque as couzas do mar são insertas e ha cazos 
que se não podem prevenir antesipadamente, Hey por bom que 
vos com o Almirante do dita frotta, auditor e sargento mor, e 
cappitão de mar e guerra da cappitana disponhaes nos taes 
cazos o que se venser por mais votos, lembrandovos que mi- 
nha tenção he tratar se sempre do milhor acerto em meu ser- 
visso,e não se podendo por algum asidente juntar o conselho na 
forma referida rezolvereis o cazo com a maior parte dos que se 
poderem ajuntar fazendosse de tudo papeis pêra se me dar conta 
sendo necessário, e sendo cazo quo se aparte aAlmirante poderá 
rezolver os cazos não cuidados com o Mestre Pilloto, e ao dito 
Almirante dareis uma copia deste Regimento pêra se saber 
como se ha de haver om semelhante cazos. 

27 — E porque podo acontesser que tenhais boa ocasião 
de voltar com brevidade com a frotta para este Reino, e vos 
possa ser de impedimento não terdes en quantidade os offlciaes 
de calafates* carpiu toiros, ferreiros, madeiras, embarcaçoeis pe- 
quenas gente de mar e tudo o mais de que se necessita para se- 
melhantes jornadas ; Hey por bem que as possais ao governador 
geral e aos cappitais e mais mioistros de guerra e fazenda das 
cappitanias e porttos a que fores ter aos quais mando volos dem 
e pagandose lhes seu estupendio tendo consideração a que como 
isto he para tempo tão breve nunca pode ficar de prejuízo a nin- 
gem, antes en grande beneficio de meus vassallos a que prinsi- 
palmente atendo e que nos dem assy para isto como para tudo 
o mais de que necessitardes toda ainda e favor que nelles for. 

28 — E porque minha tenção he evitar toda a ocazião de 
competências em matérias de jurisdição que podem prejudicar 
ao bem e conservação das frottas. Hey por bem e mando aos 



REGIMENTO DO GENERAL DA FROTA 141 

ministros da justiça e fazeoda do Bstado do Brazil, Utias e de 
outra qualquer parto donde chegar a dita frotta, se não intro- 
motão em couza elgua das dispostas e declaradas neste Regi- 
mento antes mando a todos em geral e a cada hum em parti- 
cular, e aos ministros e offlciaes de guerra que nas ditas partes 
asistirem, que apor tando-vos com a dita frotta em seus portos, 
vos dem toda ainda e favor que vos for necessário para melhor 
conseguirdes o que neste Regimeato vos ordeno os quaes o gar- 
darão como se com cada hum delles em particular falara. 

29 — E sendo cazo que no mar se encontre esta minha 
frotta com as nãos da índia em que venha ou va cappitam mor 
delias faiuo a frotta e nãos salva de três peças igualmente hna 
a outra, e a frota seguira o farol e derrota das nãos, e isto nao 
vindo nellas YisQ Rey, porque vindo abatera a frotta a bandeira 
e abatida a tornara a arvorar, e sendo quaesquer outros navios 
que venhSo das ditas partes que não seião nãos da india lhe fa- 
reis farol e dareis Regimento. 

30 — E encontrandosse a frotta com a Armada Real levara 
a cappitana hna flâmula no tope em lugar de bandeira e a Al- 
mirante outra no mastro do traqueto, e as salvas an de ser as 
da cappitana do mar oceano de menos hua peça as sinco com que 
a hão do salvar e as da boca de menos hua boa viagem respon- 
dendo com trombettas ou charamellaa a ella, e a Almiranta da 
frotta o mesmo, a Almirante da Armada Real, e os mais navios 
da frotta e a cappitana e Almiranta deve responder somente com 
trombettas ou oharamellas sem Artilharia nem boa viagem 
da boca. 

31 — fi sendo cazo que vos encontreis com esquadras ou 
navios de onimigos desta coroa âo de vos que procedereis do 
maneira que tenha eu multo que vos agradecer e folgue de vos 
hontrar e fazer mercê e da mesma maneira o hey por muy re- 
comendado ao Almirante da frotta a quem vos de minha parte 
o fareis saber e aos mais cappitais para nas ocaziois que se offe* 
reçerem vos aludem e procedão como lhes espero e tenha ocazião 
de lhe fazer merçe conforme aos servisses que me flzerem, e va« 
gando por esta cauza alguns cargos na frotta de justiça guerra 
e fazenda nomeados neste Regimento que eu não possa prover 
com^ a brevidade que convém ; Hey por b^ que vos provejais 



142 RBVISTÀ DO INSTITUTO HISTÓRICO 

neste ínterim de serventia os de justiça e fazenda em taia pes- 
soas que conhesão todas as mais que não antepondes respeitos 
particulares a merecimentos próprios, e os de Guerra os devem 
servir as pessoas a que toca fazello por fiilta de seus maiores 
porquanto estes senão podem prover de serventia. 

32 — Todo o disposto e declarado neste meu Regimento vos 
hey por muy encarregado, lenbrando vos que fio de vossa possoa 
que obrareis nestes particulares de tal maneira que fique de 
exemplo aos mais para qae á nossa imitação haja quem siga o 
procedimento que de vos espero e da mesma maneira o Hey por 
encarregado as mais pessoas nelles declaradas para que proçe- 
dão como convém a meu servisse e ao bem de meus vasaUos. 
Paschoal de Azevedo o fez em lisboa a zzb de março de BJc Rii^ , 
ea o secretario Aflònsso de Barros Caminhão fiz escrever. Rey. 
o Marquez de Montalvão ^ Regimento de que se a de azar 
nas Viagens das frottas do Brazil. 



PELO QUAL É CONCEDIDO A SALVADOR CORRÊA DE SA E 

BENEVIDES FAZER MERCÊS AOS QUE 

SE DISTINGUIREM NO DESCOBRIMENTO DAS MINAS 

(1646) 



(Archivo da Torre do Tombo. Lwro de Regimentos do Conselho 
Ultramtkrinoy fl, 4í) 

(Doe. mandado copiar pelo Dr. Noriyal Soares de Freitas, em 
missão do Instituto Histórico nas bibliothecas e archiTos do 
Portugal.) 



136 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

coenta e quatro arobas que he hua tonellada portugesa doso 
mil rs. e os de tresentas tonelladas e quinze possas quatorze 
mil rs. e os de quatrocentas tonelladas e vinte possas dezaseis 
mil rs. e vindo do Rio de Janeiro haverão pela mesma ordem 
que ílsa dito dous mil rs. mas por tonelladas, e avaria quer 
sela da Bahia, quer seia do Rio de Janeiro, será de hum tostão 
por cada arroba. 

12 — E Porque cada hum destes navios ha de carregar ao 
menos seiscentas caixas de assucar, que a vinte arrobas oada 
oaixa como he custume, fazem doze mil arrobas, e pagando a 
tostão de avaria por arroba importão três mil cruzados, e desta 
avaria, ha de aver o dono do navio a quarenta rs. por cada 
tostão e os sesenta rs. que flcãose aplicão pêra o sustento e 
soldo do capitão e soldados que hão de hir embarcados em cada 
liam para a sua defença, que hão de ser vinte e slnco que im- 
portão setesentos e vinte mil rs. não bastão e he necessário sup- 
prir-se esta falta pelos melhoi*es e mais suaves meios que ser 
possa ; Hey por bom que en cada hum dos ditos navios (de nutfs 
dos asucares que ouver de carregar) se carregem quatrocentos 
quintaes de pao Brazil por conta de minha fazenda, dos quaes 
se pagará, quatrocentos rs. de í^te por cada quintal e destes 
quatrosentos rs. haverá o dono do navio duzentos rs. e os 
outros duzentos, se aplicarão também ao austonto e soldo da 
gente, e os navios que carregarem no Rio de Janeiro ou em 
qualquer outra parte do estado do Brazil que não trouxerem 
pao, pagara cinco tostões de cada tonellada que carregar para 
ajuda de custo. 

13 — E porque os navios que hão de navegar pira a Bahia 
somente hão de carregar quatrosentos quintaea de pao, cada 
hum por conta de minha fozenda em rezão do pao do Rio de Ja- 
neiro ser de qualidade que não tem conta neste Reino, de que 
os donos dos ditos navios não hão de aver mais que duzentos rs. 
de frette por cada quintal como fica dito no cappitulo ante* 
çeiente no que se lhe íioão ocupando perto de trinta tonelladas 
con pouca utilidade; Hey por bem que a cappitana da dita frota 
e Almiranta delia carregue cada húa pelo menos duzentas tonel- 
ladas de pao Brazil, o qual o meu governador geral do dito 
Estado, e Provedor mor de minha fazenda em elle e a nos, pela 



REGIMENTO DO GENERAL DA FROTA 137 

parte qae no9 ^oca fareis carregar em eada ham dos ditos navios 
inyioiayelmente. 

14 — E porquanto nestes prinoipios he força permitlrse a 
navegado das embaroagOes de menor porte de duzentas tonel- 
ladaa até ellas se acabaram e se fazerem outras de major porte, 
como fica declarado neste Regimento considerando também que 
se de todo se lhe prohibir que não navegaem para as partes do 
Brazil, não tão somente flcai^ meus vassalos com dano consi- 
derável nos cabedaes que nas ditas fabricas tem metido mas 
tão bem se não dará vazão a saca dos asuqueres do dito Estado ; 
Hey por bem que as ditas embarcações, como ja fica declarado, 
pos^o navegar pêra as ditas partes, até S3 extinguirem, e que 
indo a Bahia se lhe de de firatte a dose mil rs. por tonellada, 
e hindo ao Rio de Janeiro a quatorse mil rs. com que tãobem 
se evita o dano que pode rezultar aos carregadores da dilação 
esperando com a carga não a querendo meter nos navios de 
major porte porem do dito Arete serao os mestres de tais em- 
baroaç(!les obrigados a entregar ao meu feitor e Almoxarife 
dous mil rs.de cada tonellada para ajuda do sustento da infonteria 
que nos mais navios armados os ha de comboiar, E vos mando 
que nas licenças que ouveres de dar a estes navios para carregar 
seiSo preferidos aquelles que tiverem algúa artelharia e forem 
novos, e nos pareserem melhores pêra acompanhar a frotta. 

15 — Sendo necessário valerense alguns dos navios de par- 
ticulares de algúa artilharia minha, ou sendo necessário meter 
lha para sua melhor defença e guarnição venserão cada duas 
peças que asim levarem o soldo de um marinheiro pêra também 
se dispender nas couzaa necessárias á conservação e aumento 
das ditas íirottas. 

16 — - Com o soldo dos marinheiros se não alterará couza 
algúa o qual se lhe pagará na forma que sempre se fez De tudo 
o que tocar ao direito de avaria se cobrará no Estado do Brazil 
para pagas da gente de guerra e mais despezas que forem 
necessário fazerense cõ os navios da frotta a metade, e a outra 
ametade se pagará neste Reyao, o qual dinheiro ha de cobrar 
e despender o feitor e Almoxarife com ordem do meu general, 
e para a cobrança se ha de fazer um livro de Receita nume- 
rado e Rubricado pelo auditor, e se lhe ha de oarregar em Re- 



136 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

coenta e quatro arobas que he hôa tonellada portugota doso 
mil rs. o os de tresentas tonelladas e quinze possas quatorze 
mil rs. e os de quatrocentas tonelladas e vinte pessas dezaseis 
mil rs. e vindo do Rio de Janeiro haverão pela mesma ordem 
que ílea dito dous mil rs. mas por tonelladas, e avaria quer 
seia da Bahia, quer seia do Rio de Janeiro, será de hum tostão 
por cada arroha. 

12 — E Porque cada hum destes navios ha de carregar ao 
menos seiscentas caixas de assucar, que a vinte arrobas oada 
oaiza como he custume, fazem doze mil arrobas, e pagando a 
tostão de avaria por arroba importão três mil cruzados, e desta 
avaria, ha de aver o dono do navio a quarenta rs. por cada 
tostão e os sesenta rs. que ílcão se aplicão pêra o sustento e 
soldo do capitão e soldados que hão de hir embarcados em cada 
hum para a sua defença, que hão de ser vinte e sinco que Im- 
portão setesentos e vinte mil rs. não bastão e he necessário snp- 
prir-se esta falta pelos melhores e mais suaves meios que ser 
possa ; Hey por bom que en cada hum dos ditos navios (de mais 
dos asucares que ouver de carregar) se carregem quatrocentos 
quintaes de pao Brazil por conta de minha fazenda, dos quaes 
se pagará quatrocentos rs. de frete por cada quintal e destes 
quatrosentos rs. haverá o dono do navio duzentos rs. e os 
outros duzontos, se aplicarão também ao sustento e soldo da 
gente, e os navios que carregarem no Rio de Janeiro ou em 
qualquer outra parte do estado do Braiií que não trouxerem 
pao, pagara cinco tostões de cada tonellada que carregar para 
ajuda de custo. 

13 — E porque os navios que hão de navegar pira a Bahia 
somente hão de carregar quatrosentos quintaes de pao, cada 
hum por conta de minha fozenda em rezão do pao do Rio de Ja- 
neiro ser de qualidade que não tem conta neste Reino, de que 
os donos dos ditos navios não hão de aver mais que duzentos rs. 
de frette por cada quintal como fica dito no cappitulo ante- 
çeiente no que se lhe ficão ocupando perto de trinta tonelladas 
con pouca utilidade; Hey por bem que a cappitana da dita frota 
e Almiranta delia carregue cada húa pelo menos duzentas tonel- 
ladas de pao Brazil, o qual o meu governador geral do dito 
Estado, e Provedor mor de minha fazenda em elle e a nos, pela 



REGIMENTO DO GENERAL DA FROTA 137 

parte qoe nos ^oca fareis carregar em eada hum dos ditos nayios 
inviiHayelmente. 

14 *E porquanto nestes principies he força permitirse a 
navegado das emtoroagões de menor porte de duzentas tonel - 
ladas até ellas se aoabarom e se fazerem outras de major porte, 
como fica declarado neste Regimento considerando também que 
se de todo se lhe prohibir que não naveguem para as partes do 
Brazil, não tão somente ficarao meus vassalos com dano consi- 
derável nos cabedaes que nas ditas fabricas tem metido mas 
tão bem se não dará vazão a saca dos asuqueres do dito Estado ; 
Hey por bem que as ditas embarcações, como ja fica declarado, 
possão navegar pêra as ditas partes, até S3 extinguirem, e que 
indo a Bahia se lhe de de frette a dose mil rs. por tonellada, 
e hindo ao Rio de Janeiro a quatorse mil rs. com que tãobem 
se evita o dano que pode rezultar aos carregadores da dilação 
esperando com a carga não a querendo meter nos navios de 
major porte porem do dito flrete seião os mestres de tais em- 
barcações obrigados a entregar ao meu feitor e Almoxarife 
dous mil rs.de cada tonellada para ajuda do sustento da iníánteria 
que nos mais navios armados os ha de comboiar, E vos mando 
que nas licenças que ouveres de dar a estes navios para carregar 
seião preferidos aquelles que tiverem algúa artelharia e forem 
novos, e nos pareserem melhores pêra acompanhar a ftrotta. 

15 — Sendo necessário valerense alguns dos navios de par- 
ticulares de algúa artilharia minha, ou sendo necessário meter 
lha para sua melhor defénça e guarnição venserão cada duas 
peças que asim levarem o soldo de um marinheiro pêra também 
se dispender nas couzas necessárias á conservação e aumento 
das ditas frottas. 

16 — Com o soldo doe marinheiros se não alterará couza 
algúa o qual se lhe pagara na forma que sempre se fez De tudo 
o que tocar ao direito de avaria se cobrará no Estado do Brazil 
para pagas da gente de guerra e mais despezas que forem 
necessário fazerense c5 os navios da frotta a metade, e a outra 
ametade se pagará neste Reyno, o qual dinheiro ha de cobrar 
e despender o feitor e Almoxarife com ordem do meu general, 
e para a cobrança se ha de fazer um livro de Receita num^ 
rado e Rubricado pelo auditor, e se lha ha de eanogar em Re- 



Este doetimenio rem corroborar o que no Conselho Ultramarino 
•jn 3 da maio ée 1677 disae Salvador Corrêa de Sé e Benevides. 
(Vide volume 63 da líevista o artigo com o titulo «Subsidio para a 
Historia das Minas»») 

(Xota da Commiss&o de Jicdacção,) 



Ált«r& ptlo q9«l í ooftcodiAo a tolraAor Oorrla te 84 i («a^ 
Tites e g««8 te86o&te&t«B r^aUnwioi UviAoi^ te iw 

prodaslrem as minas te ouro o prata 



Eu BURey faço saber aos qnc este AlTara Tirem que 
sendo eu informado, que convém muito a meu seryisso, e 
ao beneficio comum, de meus Reinos, e senhorios, e doi 
naturaes delles, e proveito do minha fazenda, conquista- 
rem-se, benaftciarem-se, e administrarem-se, as minas, de ouro, 
prata, e outros metais, descubertajs e por descubrir nos dis- 
tritos das duas cappitanias de São Paulo, e sam Visente, 
das Partes do Brazil, E pela confiança que tenho de Sal* 
vador Corrêa de Sá o Benevides, fidalgo de minha oaza, 
general da frotta do ditto Estado que neste negossio ma 
servira-a a toda minha satisfação e contentamento e de tal 
maneira que me possa eu haver delle por bem servido, oomo 
ate agora o fez, nas couzas de que o encarregei, E por de- 
zejar muito de lhe fazer honra e merçe pellos servisses 
que nesta empresa espero que me faça; Hey por bem e 
me praz de fazer merçe ao dito Salvador Corrêa de Sft 
que Rendendo as ditas minas quatrocentos mil cruzados cada 
anno de ouro de mineraes e betas, e nSo de lavagens livres 
de todos os custos e despezas, haja elle e todos seus de- 
sendentes de juro e herdade quatro mil cruzados de Renda 
cada anno, no* Rendimento das mesmas minas, e o senhorio 
e jurisdição do primeiro lugar que povoar tendo sincoenta 
vizinhos para sua caiza, e subindo á Renda das ditas minas, 
a quinhentos mil cruzados, na maneira asima Reíbrida fi- 
cara com a dita Renda dos quatro mil cruzados e com o 
titulo de conde do dito lugar, com condição que ordenara 
a fiibrica e mineiros e todo o mais neçassario ao des- 
eubrimento e entabolamento das ditas minas a sua custa e 



j 



150 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

para minha lembrança e soa guarda lhe Mandei dar eate 
Alvará que a seu tempo se comprira como nelle se oontem, 
o qual Hey por bem que valha como carta, posto que o 
effeito delle, haja de durar mais de hum anno sem en- 
bargo da ordenaçSLo em oontrario. Bertolamen daraujo o foz 
em lixboa a oito de junho de BJ xxzxxiii e eu o secretario 
António de Barros Caminha o fiz escrerer, Rey. 



CARTA 

DS 

ANTÓNIO TELLES DA SILVA 

A SUA MAGBSTADB 
( 1645 ) 



(líib. Pub, Eborense -^Cod, CV.^IÍ^» f. i85) 



Netta carta o Governador Telles da Silva dá parte ao Rei oomo 
Henrique Dias, de accordo com elle Oovernador, deixou do ir com 
aeuB negros para Angola, como queria, o seguiu para Rio Real. 
A convite de Vieira, depois de chegados a Rio Real, passaram-se os 
negros para o lado de Paraambnco. Quando a gente de Vieira come- 
çou a agitar-^o, Telles da Silva enviou embarcados dous terços sob 
o commando de Martim Soares Moreno e André Vidal do Negrei- 
ros. Como é sabido, os dons mestres de campo a 23 de Julho de 
1645 desembarcaram próximo de Serinhaem. A 4 de Agosto ren- 
deu-se o forte hoUandez e a 3 de Setembro Hoogstraten entre- 
gou-lhes o forte de Pontal. 

(Xota da Commissão de Bedaoção,) 



CARTA DE ANTÓNIO TELLES DA SILVi A SUA MABESTASE 



SeàhQt 

Por eyitar alguns deseoncertor que os soldados pretos -d* 
Henriqae Dias fasiSo nesta praça e aliriar a inftmtaria que 
assiste de f nami^^o no porto do Rio Real lhe ordsnei qae 
se íbsse oom todos para elle nSo lhe admetindo as causas oom 
que qtiasi repugnava por suas, oonTeniencias» sentido desta 
mudança e de eu o nSo hayer enviado a Angola eomo per- 
tendia, e de outros motivos de muito menor momento se 
passou em hnma noite oom os dittos seus soldados & parte dos 
Holandeiss e suspeitando o Mestre de Campo André Vidal de 
Negreiros que neste aoeidente se aehou por aquellas partes 
donde havia hido com licença minha a partieulares próprios 
que seriSo demonstrações exteriores suas para graagear mais 
favor mandou em seu seguimento ao Capitão mor Dom An- 
tónio Felipe Camarfio com huma tropa de índios bastante ao 
redusir por violência quando nILo quisesse ohedeoer*lhe» e su- 
geitarse á segurança oom que da minha parte lhe prometia 
perdão do excesso e melhoramento de sua pessoa de que me 
deu logo conta pela Carta ei^a cópia envio a Vossa Magss- 
tade, chamei a Concelho, e conslderando-se nelle o animo que 
o dito Henrique Dias trasia de hir dar em huma povoação 
de Escravos fugitivos a que chamão Mocambo dos Palmares 
nos oonílns do Rio de Sam Prancisoo e que era provável que 
dissimulasse a jornada, assim pela ambição da preza como 
por saber que lhe não havia eu de dar licença para ella se 
teve por conveniente que se não mandasse mais gente em seu 
alcance, tanto por lhe não acrecentar a desconfiança, como por 
que a não tivessem os Holandeses de que se alterava com sua 
entrada nas terras que possuem o sooego da paz em que es- 
távamos, de que se fez o assento cuja cópia envio a Vossa Ma- 
gsstade, e crendo eu na opinião de todos pela tardança do dito 



154 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Capitão mor e ser grande a distancia dos Palmares, que se 
congregaria com Henrique Dias para aqnella asaltada, temendo 
que. por ambos haverem excedido se deixariSo ficir por 
aquellas Brenhas donde se lhes não podia dar castigo, nem 
elles podi^ conduzir os Escravos aos moradores ájk Cam- 
XMinha, mandei o P« Joaõ Lais Religiozo da Companhia de Jezns 
com outro companheiro seu a Reduzlllos, e ambos se tor- 
narão sem os poder desistir, e ante o tempo que forão dezacete 
deste prezenbe mez de Julho me chegou hum avizo, de como 
chegando noticia destaa duas Tropas aos dittos moradores de 
PernaObuoo e vendo que com seu favor se podião levantar e 
acciamar naqueila Capitania a Vossa Magestade os mandarão 
persuadir ocultamente neste fim, c elies como sugeitos de 
menos descurço que vallor imaginando indeacretamente que 
acertavão, baixarão á Campanha a tempo que os moradores 
delia se havião já rezolnto a negar declaradamente a obediência 
aos Holandezes, e tomar as Armas em deffença do sua liber- 
dade, com esta nova me enviarão os dittos moradores Por- 
taguezcs huma suplica firmada por todos, reprozentandome ò 
manifesto perigo a que íicavão expostos, o deprecando-me os 
socoorresse como a leaes Vassallos que erSo de Vossa Mages- 
tade. £ Imaginando eu que seria rdvolução daquelles povos 
ocoa9Íonada do alguma exasperação do trato dos Holandezes 
que se poderião sooegar por tal intelligenoia que elles ficassem 
seguros da roina que temião os liolandezes obedecidos e eu 
sem dar motivo a se entender em nenhum tempo de mim 
que dava impulços a esta sua acQão, chamei logo a Conoellio 
todos os Ministros superiores da Guerra, o politico, e Pro* 
lados do todaa as Religiões o nelle fiz a proposta ouja copia 
envio a Vos^a Magestade para que consto a Vossa Magestado 
o modo com que procedi noste caso o a in viola vol observância 
com que de minli» parte so conservarão sempre as capitula- 
ções das pazes, que ainda que eu entondia que na realidade 
as não oífendia este socorro, antes as confirmava na tençaõ 
com que deveria mandar, pois era a valor aos nossos em 
favor dos Holandezos, todavia respeitava mais o temor das 
apertadas ordens do Vossa Magestade que a mesma razão 
e necessidade prezente, mas todos se levantarão, e por assen- 



CARTA DE ANTÓNIO TELLES DA SILVA 155 

timento comnm votarão uaiformemente qae devia eu mandar 
aocorrer com toda a brevidade aquelies Povos, pois sendo 
tam grande o empenho em que se aohavão era maior a iaha- 
manidade que com elles se uzaria faltando-lhes a prote^ 
que taõ justamente devião esperar das Armas de Vossa Ma- 
gestade e que sendo oouza tSo praticada entre todos o^ Prin- 
oepes do mundo, e ainda entre os mais bárbaros darem favor 
a qnaesquer naçSes e Estrangeiras que se quiserem valier de 
sua tutella, se não haveria Vossa Magestade por bem servido 
de mi, se a negasse aos Vassallos de Vossa Magestade em um 
acto tão nacido de sua confidencia o lealdade, estimulado agora 
tanto mais das violências de dominio Estrangeiro, quanto era 
maior o da Liberdade aos olhos de um Rey natural de 
que sorião privados, alôm de outras muitas razoes mui 
vehementes que todos me propuzerão, e coneiderando-as eu 
vondo-me vencido nos votos, o que pareceria que podendo não 
faltar ao exacto cumprimento das capitulações, faltava a obri* 
gação de amparar aos Vassallos do Vossa Magestade maior-* 
mente quando o intento não era fazer hostilidade alguma aos 
Holandezes sanão livrar aos nossos por meio puramente de- 
fencivos da oprcção pubUca em qne ficavão e reconciliai) os 
com os Holindezes prosontindo também, que se cnzergavfto 
algumas demonstrações de que se eu duvidasse de mandar este 
socorro se occazionarfa nesta praça outro movimento peor do 
qne o prezente por ser a maior parte dos soldados deste Exer- 
cito, o moradores desta Cidade, naturaes de PernaGbuco, e 
retirados de todas aquellas Capitani<is, me pareceo tomar por 
rezolução evitar o excesso que se receava com mandar reme- 
dear o socedido, quo suposto que se pudera reprimir por 
outro meio tive por mais acertado o de condecender com a 
suplica dos dittos Portuguezes, e acordo geral de todo o 
Concelho e enviar o ditto socorro, pois com ello se devertia 
mais suavemente qualquer dozordem nesta Praça, e apa- 
ziguava todo o tumulto naquella Capitania de que tudo se fez o 
auto cuja copia autentica envio também a Vossa Magestade. 
A este mesmo ponto entrou nesta Bahia hum navio Ho- 
landez com dois Embaixadores dos do Concelho do Supremo 
Governadores em Pernambuco, hum pulitico, e outro Qover- 



156 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

nador do oabo de Saoto Agostinlxo os qaaes me offerecerâo a 
Carta cuja oopia traduzida por alies mesmo, eavio auten- 
tica a Vossa Magestade dandome conta do sucesso que tenho 
refferido, e pedindo-me quizesse mandar recolher as Tropas, 
que naquella Campanha anda vão pelos meios e demonstrações 
que me parecessem mais oonstrangentes, e vendo eu o que 
ellei pediãot e protestavão era o mesmo que se havia re- 
soluto, que era mandar este socorro fazendo-mo com elle me- 
dianeiro, entro uma e outra nagão, e dezejando mostrar-lhes 
a benevolência, e affecto com que os quizer fazer, obedecer 
o respeitar, lhes respondi com a Carta cuji oopia autentica 
envio a Vossa Magestade. Mas atteodendo eu á prevenção que 
os Ilolandezes havião feito do quatro mil Tapuas Bárbaros que 
tinhao no Maranhão, o que sou socorro que fosse nao levasse 
poder bastante a sugeitar por violência aos que presistissom 
em suas obstinação e repugnância,' ficaria infhictuosa esta 
jornada, me pareceo enviar a aquella Capitania hum golpe 
de Infantaria a cargo dos dous Mestres de Campo Martim 
Soares Moreno, André Viáú do Nagreiros, sugeitos do cuja 
prudência fiei iodo o acerto, assim na correspondência com 
os liolandezes, como no socego e quietação dos moradores 
como ultimo âm desta Missão e para ella me vali de huns 
navios que neste posto aprestava para impedir o socorro que 
Vossa Magestade foi servido mandar-me escrever por Carta de 
dezaceis de Fevereiro próximo passado, que de São Lucas man- 
dava El Rey de Castella ao de Congo, fazendo delies Capitão mor 
ao Coronel Hieronimo Serrão de Paiva pessoa de muita satisfa- 
ção, e por esto meo espero em Nosso Senhor se soceguem as 
inquietações, e fiquem os Holandezes seguros de seos receos. 
Mas porque pode. Senhor, acontecer que desta resolu^^ 
que tomei, se me forme diante de Vossa Magestade alguma oulpa 
que diminua o zello com que procurei acertar na indefferença e 
pezo das obrigações que conoorrem juntas nesta matéria de tanta 
considera^, me pareceo justificar, prostrado humildemente aos 
Reaes pés de Vossa Magestade, a pureza com que desde que en- 
trei neste Governo pretendi estreitar nelle os vincules da ami- 
zade, e boa correspondência, que Vossa Magestade se sérvio 
mandar-me expressamente que tivesse com os Holandezes; por- 



CARTA DE ANTÓNIO TELLES DA SILVA IÒÍ 

que se meu animo fora romper com elles e restaurar a Vossa 
Magestade as Praças de Pernaõbuco, grandes foi^o as oocazioes 
que me offerecerão oom suas dizigualdades em tempos mais op- 
partanos, porque os procedimentos que nestas partes tiverão, 
despoisda felice acclamação de Vossa Magestade, forão sempre 
mais de Inimigos declarados, do que de amigos fingidos, pois 
no mesmo tempo como tudo ho prezente a Vossa Magestade em 
que os Estados geraes estarão ajudando com suas Náos as Armas 
de Vossa Magestade nesse Reino, e os nossos Embaixadores que 
ontros Govwnadores que forão deste Estado emviarão ao ReciíFe» 
mandando nelle retirar da Campanha as Tropas que actualmente 
lha talavãocomperdataõsemcivel de seus súbditos, e protesta- 
rão, vendo aprestar huma Armada, que as não mandasem invadir 
porto algum dos senhorios de Vosaa Magestade ásua mesma vista 
a expedirão, e partio oom vós de hir dar em índias a conquistar 
Angola, e chegando eu a esta praça» mandando pedir ao Conde de 
Nasau e aos de seu Concelho supremo Cartas e ordens para que 
naquelie Reino cessasem também as Armas e so gozasse da paz 
que neste estado, me responderão que era jurisdição aeparada 
e independente da sua de maneira que tiverão poder para em- 
prender a facção antes da retiflcação das pazes havendo-se j& 
publicado tregoas neste Estado e não o tiverão despois de confir- 
madas parasuspenderem a guerra, e o damno de seus effeitos 
naquelie Reino, e menos o concurço dos socorros, que até hoje 
se lhe emviarão sempre do Reciffe. De ci;^^ cavilação e engano 
com que acometerão e conquistarão também as Ilhas de São 
Thomee cidade de São Luiz no estado do Maranhão lhes re- 
sultou o escrúpulo que para dar sombra a estes eflèitos de sua 
amizade, quizerão conceber da nossa chiando a mandalla ezpri- 
mentar como testefica bem a oarta que oscreveo um Comissário 
seu por nome João Gzening que a esta Cidade veio comprar fari- 
nhas que lhe mandei por ser manifesta a esterilidade grande que 
delias havia como elle muito bem vio,o qualpedindo-lhadeíkvor 
António da Fonceca de Ornellas para o Director de Loanda para 
donde hia por mandado de Vossa Magestade diz neila. Assim que 
mais se me mandou a esta Commissão a experimentar a amizade 
quepor necessidade, mas elles aconheoerão melhor, queizando- 
le-me despois do Capitão Agostinho Gardozo que transcedendo ás 



168 REVISTA 00 INSTITUTO HISTÓRICO 

ordem oom que o eaviel ao Rio Real chegou á Campaaha a caia 
de hum súbdito seu a quem dizem que tomara algamas fa« 
zdndas e de hum Domingos da Rooha que para esta Bahia 
fuglo com hum Barco de asucares, porque no mesmo tempo e 
instante mandei logo meter ao G apitão em hua áspera prixSo, 
donde m/eí com elle de maior rigor que me foi licito, ate o 
remeter a Vossa Megestade, e lhes fiz restituir todos os asucares 
que no ditto Barco vinlião, e a correspondência oom que mo 
agradecerão foi mandarem infestar oom suas Náos estes mares 
donde renderão hum Navio nosso que sahia da Capitania do 
Espirito Santo carregado de asucares, e roubando-ihe logo tudo 
o que levava entre as cobertas como se forão piratas o remete- 
rão por prezo para o Reoiffe donde fora, te os poucos Portu- 
guezes que nelle bião o não tornarão a rocobrar, do que se in- 
fere evidentemente ser ordem particular que o Capitão da Não 
trazia, e não excesso seu como a queria relevar pois ocultava o 
furto se sentira que era culpa de que dei contra a Vossa Ma- 
gestade, remetendo os mesmos seis flamengos, que o levavão 
naj Caravellas' do Sabastião Vaz, e Braz Vicente Negrão, 
que desta Cidade partirão em quatro de Fevereiro do anno 
passado de seiscentos quarenta e quatro ; e queixando-me eu 
por hum Embaixador deste atrevimento, e protestando pela Jus* 
tiça, recompença de todo o damno que delle resultasse ao fu- 
turo, chegou a Pernaõbuco hum Pataxo de Angola co m os Por- 
tuguezes expulços da quele Reino que havião escapado d* Asso- 
lação do ARaial do Bengo, e reprezeotando o dito Embaixador 
ao Conde de Nasau, e aos do sou Concelho a aleivozía e traição 
com que os Dircitores de Loanda se ouveriío com o Governador 
P.° Cezar do Menezes debaixo da palavra e segurança das^api- 
talações que do novo havião com elle celebrado para que se lhes 
desse o castigo que merociõo, e se restituísse aos nossos o que 
se lhes havia i*oubado, que ora o mais precioso de todo o Reino; 
elles lhe responderão também que não era aquelle Governo 
subordinado ao seu; escasando-se com este dezabrimento de dar 
remédio a tantas Iniolencias como os que os miseráveis mora- 
dores daquelle Reino tolorão de que não foi a menor chegarem 
a tratar ao dito Governador P.<» Cezar na umildo prizao em que 
o meterão com as maiores indecencias que sua qualidade podia 



CARTA DE ANTÓNIO TELLES DA SILVA 159 

padecer, e a retrlbulç&o que tomei destas eso andalos íbl mandar 
enforcar a ham soldado, e a hum mercador desta Capitania que 
passando & Campanha cometeiAo nella alguns insultos sem se 
me íiBkzer queixa alguma por sua parte que tal foi a pontualidade 
com que procurei acreditar comos Holandezes abeneyolencia 
deste Governo.efé de nossa boa veziohanQa, etal adifferen^a com 
que elies a corresponderão em tudo o que lhes premetioo tempo 
preferindo sempre os Respeitos de sua conciencia aos de nosia 
amizade e singeleza e se tendo eu todos estes piutivos, e em 
oucaziões em que esta praça se achava cam maiores forças que as 
que havia em Pornaobuco para tomar satisfação de todos elles, 
como de violências, que tão positivamente cometerão contra a fó 
publica, estatuto das Capitulações me não descuidei hum ponto 
de as guardar, ainda na menor acção, bem se verifica, Senhor, 
que não concorreria eu nesta de socorrer aos Portnguezes, por 
intento de vir a rompimento com os Holandeses, S3 não mera 
mente por obrigaçío preciza e natural de dar auxilio a quem 
adcclama o de Vossa Magestade, e ser medianeiro entre elies, o 
03 Governadores daquelle Concelho Supremo, porque se minha 
tenção fora recuperar Pernãobuco menos diâcultoza era a facção 
por intrepreza subjeita que por disposições tão oocazionadas a um 
sucesso infelice como pudera ser o prezente se eu mandara estas 
tropas senloellasde negros e de tam pouca confiança poiá estava 
mais certa a boa fortuna no conhecimento das poucas forças que 
o Reciffe tinha que na contigencia de se saber o intento e resul- 
tarem delle as das nossas consequências que deixão considerar em 
matéria tão grande, e em que suas mesmas impossibilidades são 
a maior abjno e ju^tidcação da sinceridade do meu animo, o do 
cuidado com que só tratei de obedecer a Vossa Magestade na infa- 
lível observância das pazes com os Holandezes de que me pareoeo 
dar esta devida conta a Vossa Magestade com toda a brevidade 
deste successo, e suas dependências, e noticias precedentes para 
que tudo seja prezente a Vossa Magestade. Quarde Nosso Senhor 
a Real pessoa de Vossa Magestade como a Christandade, e todos, 
seus Vassallos havemos mister. Bihia a dezanove de Julho 
de mil seiscentos quarenta e cinco, António Telles da Silva. 



TRASLADO DE UK ASSENTO 



QUK SB TOMOU EM PRESENÇA DO GOVERNADOR DESTE ESTADO 

DO BRAZIL SOBRB A OARTA QUE S8CRETE0 

O TENENTE DB MESTRE DE CAMPO GERAL ANDRÉ VIDAL 

DB NEGREIROS IM QUE DÁ CONTA Dl SER FUQIDO 

HENRIQUE DIAS 

(1645) 



(Bibliotheca Publica Eborense Cod. GVI ^ 2^B f. iQ4). 
49 -> 11 Tomo uuz p* i. 



Este documento esclarece um ponto da historia da guerra hol- 
landesa. Por alie se proTa a fuga de Han^igi^e Dias, a 28 de Março 
de 1645, da estancia do Rio Real para Pernambuco. Henrique quei- 
xou-se do Governador por não lhe dar licença para Ter a família. 
Nunca lhe deram nada da fazenda rea^. Serviram -se delia como si 
fora capiivo. Bssas queixas foram traasmittidas a Anlonio Telles da 
Silva por André Vidal de Negreiros que, segundo communicou, 
mandou o Gamarão com os seus indios no encalço do Henrique Dias. 

(SoUik <Í0 Commissão de Bedaoção.) 



Traslado de ham asaento que se tomou em presença do 
OoTornador deste estado do Brasil sobre a carta que 
eacreTeo o Tenente de Mestre de Oampo Ger&l André 
Vidal da Negreiros em que da conta de ser fugido 
Henrique XMas» 



Km os trinta e hum dia0 do mes do Março de seiscentOj^ 
quarenta e oinco» nesta cidade do Salvador* Bahia de todos o» 
Santos, nospftçosdo Sua Magestade mandou o Sr. Governador 
e Oapitto geral deste Estado António Telles da Silva chamar 
à sua presença os Mestres de Campos João de Araújo e Francisco. 
* Rebello e oe Tenentes de Mestre de Campo geral P"* Corrêa 
da.Qama si António de Freitas da Silva e os Sargentos moreai 
Joio Rodrigues de Sousa, Domingos Delgado e Qaapar de Soas» 
Uohoa, e o Provedor mor da fazenda de Sua liagestade Sehaa* 
tiio Panis de Brito, e o Doutor António da Silva e Souza, Ou- 
vidor geral Provedor mor dos deftmtos e auzei^tes, e Procure- 
dor da Ikienda eCoroadeite Estado, e sendo todos assim Juntos 
he mandou ler hnma carta que havia recebido do Tenente de 
Mestre do Campo geral André Vidal de Negreiros qoe está na 
flronteira do Uo fteal, em que diz que em vinte e oinco deste 
mez de Margo pelas duas horas depois d« meia noite, fogiu Hen- 
rique Dias daqoella estancia com toda a sua gente, e que vai 
alrllha deUa na volta de Pemambuoo e que como tioha a es- 
trada provida eom osssus soldados não foi sentido, nemo soube 
senio depois de claro dia, e que antes da Aiglr se q[ueizava do 
Senhor Governador por nSo lhe dar licença para vir ver suas filhas 
e molhar que estava morrendo e que nomca lhe derSo nada da 
flazenda Real, mais que servirem-se delle como se fora cativo, 
e que a semana antecedente o quizera mandar prezo por estas e 
outras liberdades que dizia, mas^-nlinca lhe pareceu que 
huma eouza tão mal íbita, mais que como negro que era 



164 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

merecia ham grande castigo para exemplo dos mais; que logo 
maadaya o Camarão ti*as delle com os seus índios para que o 
tragão prezo, ea bom recado, aiaiaque custara algumas mortes, 
de huma e outra parte, que considerassem os ditos Ministros o 
que lhe paiH3cia se devia fazer no cazo e lhe dessem seus pra- 
zei^s. 

B vista a ditta Carta, e conciderado o cazo votar&o cada hum 
o que llie pareceo, e concordarão que o Tenente de Mestre do 
Campo geral André Vidal de Negreiros tinha feito o que naqaelle 
fragante se podia fazer» e que posto que ocaso era feio» o mere- 
cedor de grande castigo, sa o prendessem, por hora não se podia 
mandar mais gente em seu seguimento, por que se tinha animo 
damnado em se passar aos Holandeses, já tinha tempo de estar 
do Rio de São Francisco para Pernambaco de vinte e cinco desto 
to agora que cá chegou o avizo, e em tornar iá estaria mais longe 
e que se o prenderem então se tratará do castigo que merece, 
e quando o não prendão e deserto se saiba que foi para os Holan- 
dezes, ou se passou a Pernambuco a roubar e fazer outros ' 
maleficios, será bom avizar aos mesmos Holandeses que vai le- 
vantado e ftigido, para que se o prenderem prender o cas- 
tiguem como tal. 

E o Senhor Governador so conformou com o mesmo parecer 
e resolveu que assim se fizesse e mandou disto fazer este assento 
que a«sinou e os ditos ministros, e eu Gonçalo Pinto de Freitas, 
escrivão da fazenda de Sua Magestade o esorivi António Telles 
da Silva, João de Araújo, Francisco Rabello, P» Corrêa da 
Gama, António de Freitas da Silva, João Rodrigues de Souza 
Domingos I)elgado, Gaspar de Souza Uchoa, Sebastião Panis de 
Brito, António da Silva o Souza; o qual acento em Gonçalio 
Pinto de Freitas escrivão da fazenda de Bi Rei nosso Senhor 
deste Estado de Brazil fiz trasladar do próprio que fica cm meu 
poder no que derem dos assentos das Juntas e concelhos a que 
me reporto com que este treslado concertei; e sobescrevi e as- 
sinei na Bahia em primeiro de Abril de mil seisoentose quarenta 
e cinco, Gançalh Pinto de BVeitas, 



TKASLADO 

DO 

Asseoto qoe se fez sobre as coQsas de PeroaAkco 

(1645) 



(Bib. Pub. Eboretiae — Cod. CV) 



(Basta ler este documento para conhecer o sou valor. £* uma 
pagina em que se patenteia o proteito dos Brazileiros contra ò do- 
mínio dos Hollandeses). 

(Nota da Commissão dê Bedacção.) 



TrasIaJo i% Assento qm 8e fei sobre as ooaias h Pernaobico 



Anno do Nascimento da Nosso Senhor Jezos Christo de mil 
e seis centos e quarenta e cinco em os dezoito dias do mez de 
Julho do dito anno nesta Cidade do Salvador, Bahia de todos os 
Santos nos paços de Sua Magestade os Senhores António Telles 
da Silva, Ooyernador, e Capitão geral de Mar, e terra deste es- 
tado do Brazil, mandou ajuntar a sua presença os Provinciaes* 
e Prelados, das quatro Religiões desta Cidade, Companhia de 
Jezns, São Bento, Carmo, e São Francisco, e os quatro mestres 
de Campo deste Exercito Martin Soares Moreno, João de Araújo» 
André Vidal de Negreiros, Francisco Rebello, e os três Tenentes 
de Mestre de Campo Oeneral, Pedro Corrêa da Gama, João de 
Lucena de Vasconcellos, e António de Freitas da Silva, e os Sar- 
gentos maiores Gaspar de Souza Uchoa e António de Brito de 
Castro, e o Proved >r m.>r d;* fiz mia i) Sua \íag;ís-xle. desjie 
estadot Pedro Ferraz Barreto, o o Licenciado Sebastião Paruy de 
Brito, que té agora exercitou o dito cargo, e o Doutor António 
da Silva e Souza, Provedor mor dos defuntos, e anzentes desta 
estado, que hora serve o cargo de ouvidor geral e os Juizes or- 
dinários Vereadores, e mais Oíficiaes da Camará desta Cidade, 
e alguns homens principaes do povo, e governança delia aomo 
forão o Coronel da gente da Ordenança Jerónimo Serrão da 
Paiva, e o Alcaide mor António da Silva Pimentel, e o Doutor 
Francisco Bravo da Silveira, os Capitães Paulo de Barros, Paulo 
Cardozo de Vargas, Felipe d^^ Moura de Albuquerque, e Diogo 
da Aragão Pereira, a sendo todos juntos lhes mandou ler a pro« 
posta seguinte : 



168 RBVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

PROPOSTA DO SENHOR OOVIRNADOR 

De Pei*Q&obaoo chegarão esta noite Corrôos com avizo que 
me íázem os moradores daquella Capitania, de como oão podendo 
já sofrer as intoleráveis, rioloncias tirania, sogei^^o dos Holan- 
deses, considerando o excesso grare, com que de noYO, se lhes 
duplicava o pezo dos tributos, e a insolência de seu domínio, se 
fuzia mais iacomportavel a Iqjusta direcção de sen governo, e 
qne nesta miserável fortuna, a que se vião reduzidos, se lhes 
impossibilitava tanto mais o remédio, e ainda a esperança de 
melhora quanto era mayor desejo da liberdade, o o natural sen- 
timento, de que sendo elles Vassalos de El-Rey Nosso Senhor es- 
tivessem padeoendo havia tantos annos o prlvão deste nome, e 
a ignominia de conquistador de outra nação, e s6 a elles não ti- 
vessem aloda chegado os venturozos effoltos da Mllz acclama^o 
de Sua Magestade que Deos Quarde levado sdestos dous Incita- 
mentos de sua opressão e lealdade, se dellberariLo todos a igualar 
os intentos a dezesperação, e a negar a obediência aos Holan- 
dezes, querendo antes morrer gloriosamente em deffenção da 
liberdade, e restauração de sua pátria, do que o poder das inju* 
rias, que naquelle cativeiro padeoião, reprezentandu*me o es- 
tado om que flcão Implorando os socorra, com toda a brevidade 
pois he tão grande o perigo da vingança que temem dos Holan ~ 
dezes, como a obrigação que me occore de lhes não faltar com a 
Proteção que tão justamente devem esperar das Armas de seu 
próprio Rey e Senhor, e ooosiderando eu este success?, e que 
ainda que nelle se me offerocia ocoazlão tão disposta para poder 
tomar dos Holandezes a devida recompença das disiguaes corres- 
pondências, de seu procedimento nestas partos, pois quando este 
governo estava com aquelle logrando a mayor pas mandando re- 
tirar as tropas da Campanha, e cessar nella todo o acto de hos- 
tilidade, e confirmando, com estas demonstrações de benevo- 
lência a conservação da amizade, em que nos víamos elles a es- 
tlmavão tão pouco, que de baixo dessa mesma segurança nos 
mandarão invadir, e occupar o Reino de Angola, Ilha do São 
Thomé, e Cidade de São Luiz, no estado do Maranhão, chegando 
a infestar com seus Navios esta costa, e a vender nella um 
nosso, que sahia carregado de Asuqueres da Capitania do Espi- 



COUSAS DB pernAobuco 169 

rito Santo oomo he notório, sendo todas estas aoçSes tSo dignas 
de eu me nSo esquecer delias, com tado he tão apertado o yin- 
ciiio da fé pablica, e palavra Real oom qae Saa Magestade se 
sérvio que se oontrahissem as pazes, e rateftcassem as Capitu- 
lações delias, oom estados das Provincias unidas e tão inviolável 
a observância, oom que expressamente me manda, que as guarde, 
que não dão lugar, a se relaxarem por nenhum acontecimento 
assim impostas estas duas obrigações, tão precisas que neste ac' 
cidente concorrerão Juntamente de socorrer aos moradores de 
Pernãobuco, e não íkltar ã conservação das pases vendo-me in- 
diferente na consideração de ambas, e das graves consequências, 
que de qualquer delias podem rezultar, dezejando tomar reso- 
luç^ com tal acerto, que experimentam nella tanto os Portu- 
guezes, a humanidade com que lhes quizera valer, como os Hol- 
landezes a sinceridade, e pureza de animo com que pertendo 
perpetuar, com elles a amizade que professamos ; me pareceo 
mandar chamar a este Conselho a iodos os Perlados das Reli- 
giões, e Ministros Superiores da Guerra, Politica, (kzenda, e Jus- 
tiça que se achão presentes, e fozer-lhes esta proposta em que 
todos votem livremente o que sentem nesta matoria, e se he 
justo mandar-se este socorro o não mandar-se para que me de- 
libere no que mais convier ao serviço de Sua Magestade segu- 
rança daquelles Povos, e estabelidado da paz com os Holandezes, 
que he o que só pretendo e protesto. 

E logo lhes mandou ler a Carta que recebo dos moradores 
de Pernãobuco cujo traslado é o seguinte: 

CARTA 

Os Affelictos moradores de Pernãobuco oppremidos ã 
tantos annos de moléstias tiranias da Nação Holandesa, a quem 
estão sugeitos, com exemplos tão notórios do sua crueldade, 
como por muitas vezes temos exprimentado em tempos pas- 
sados vendo de hum General chamado Sigismnndo para destruir 
e n^tar os miseráveis moradores tomou hua pequena occazião 
de virem a evta campanha Soldados do Porto do Calvo que então 
governava o Conde de Banholo, e com este mào animo, partio 
o dito General, de Sesinhaen oom Tapuyas, que para esse eífeitò 



170 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

mandou descer o sertSo, o sahiu até Matiope distancia de trinta 
legoas matando degolando, o entregando aos ditos Tapuyas 
homens, meninos, o mulheres para em sua prezença fazerem 
extraordinárias tiranias, e na mesma maneira succedeu em 
goyana, que três dias naturais largarão o gentio, c soldados 
destruir o povo fazendo em molhe rcs Cazadas, e donzellas, tais 
vitupérios quais única no mundo sevirão fazer a nação Herética 
nenhuma, e alem d'outras muitas crueldades que cada dia es- 
tamos padecendo agora de novo dezejosos os índios de nos verem 
acabados, e destruídos, como inimigos da Christandado, com 
falsidades arguirão entre os Hollandozes, que hojd governão, 
mentirosos levantamentos com que os ditos Governadores man- 
darão descer do sertão quatro mil Tapuyas e os tem no Rio 
Grande, cora ordem que a todo tempo que tivessem recado 
seu, viessem matando, e abrazando este povo; e inteirados os 
de sua danada tenção há vista de tantas crueldades monidos da 
natural de ffunção, cinco dias antes de fazermos esta a vossa 
Sinhoria nos levantamos geralmente em toias as partes de 
Pernãobuco e nos puzemos em detTença como melhor podemos 
tratando só de remediar as vidas fazendo por escapar o ímpeto 
deste tirano golpe, e assim ficamos neste risco com tanta 
afllição qual Vossa Sinhoria poderá considerar como tão Ga-* 
tholico lhe pedimos e requeremos hua e muitas vozes, da parte 
de Deos e de El Rey nos socorra, e acuda alibertar as vidas 
como Vassallos de El Rey, Dom João, e tão grande risco 
em que nos vemos que se Vossa Sonhoria nos não acudir 
com muita brevidade e abrigar do desamparo em que nus vemoa 
clamaremos justiça aos céus, e mandaremos pedir socorro a 
El Rey de Hespanhae a outros Reys Gatholicos; que assim o 
premitem semilhantes extremos, o que não esperamos de 
Vossa Senhoria antes que logo nos acudx aremediar as 
vidas doeste miserável povo, no que fará muito grande serviço 
a Deos e o £1 Rey Nosso Senhor, o nos assinamos em nome de 
todo o Po70, João Fernandes Vieira, Bernardin de Carvalho, 
Bastião do Carvalho, Manoel Calvacante, António Calvacante, 
Cosmo de Crasto Pasços, João Posçoa Bezerra, Gonçalo Cabral 
de Caldas Diogo Dias Leite, Gaspar Antunes dos Reis Gosmo 
do Rego Barros, Arnáo de Olinda Barreto, Miguel Bezerra, 



COUSAS DE PERNAOBUCO 171 

Vicente Cerqueira, Padre Matheus de Souza Uchoa, António 
Borges Uchoa Gonçalo de Sooza Velho, Luiz da Costa Se- 
polveda Manoel Alvares Deos dará, Amaro Lopes Madeira, o 
Vigário Francisoo da Costa Falo£o, Jerónimo da Rootia, João 
Veiho de Souza, João Pimenta, Aiberto Lopes da Rocba João 
Pessoa Baralho, Simão Furtado de Mendonça, Manoel Pereira 
Corte Real, Manoel Jaime Bizerra, Álvaro Fragozo de Albu- 
querque, Pedro Marinho Falcão, João Gomes de Mello, Lioen- 
ciado António Pereira, João Paes Cabral, Francisoo Berengel de 
Andrade, Francisco Bezerra Monteiro, Alyaro Teixeira de 
Mesquita, Josó Gomes de Mello, o Padre Diogo Roiz da Silva, 
Prey Anselmo da Trindade, Dom Abbade de São Bento, 
Diogo de Araújo, Paulo de Araújo de Azevedo, Feliciano 
de Araújo de Azevedo, Francisco Gomes Moniz, João Soares 
Lopo Curado Gano^ Amador de Araújo, Gonçalo da Rocha, 
Simão Lopes, Manoel de Queiroz de Siqueira, Padre Vigário 
João de Abreu Soarez, Frei Pedro de Albuquerque, Gonçalo 
de Barros Pereira, Domingos Gomez de Brito, Franoisoo Gomes 
de Abreu. 



CARTA QUE ESCRKVErXo OS MORADORES DE PERNAOBUCO 
AOS HOLLANDEZES PA BOLÇA 

Mui nobres senhores. Os moradores deste estado súbditos de 
vossas senhorias opremidos há tantos annos de agravos e males 
e moléstias, vondo-se matar, destruírem tempos passados^ com- 
tanto Tigot que sem indícios de culpas, padecião inocentes, 
entre outros exorbitantes cazos que nelles succederâo sempre 
ossofrerâo com muita paciência guardando toda a fidelidade, per- 
mitida, e agora estando quietos tratando de suas vidas e fa- 
zendas, nas veio á notisia por ditos de muitos judeos desse Re- 
cife que Vossas Senhorias pertoúdião arruinas a todos òs ditos 
moradores portuguezes imputando-lhe culpas graves com que 
nosconfiscassem nossas fazendas, e os premitissem a outros da 
na^ Flamengo, que para esse effeito tinham mandado vir de 
Hollanda; e como taes ditos sé comegarão geralmente entre os 
ditos judeos há muitos tempos levantamentos de traições contra 



172 . REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

este povo, que Vossas senhorias sempre experimentarão serem 
falsos nem mostrar&o occasião provável» de que muitas vezes 
nos queixamos sem Vossas Senhorias prohlblrem semilhantes, 
oocasiôes com que sempre vivemos veceosos, e agrora com o 
rigor das prisões que Vossas Senhorias mandai^ fazer aos 
principaes moradores, e temerosos do risco das vidas nos re- 
tiramos aos Maios, deixando nossas mulheres, filhos, e fazendas 
por nfto estar sujeitos a má inclinado de pessoaes pouco nossas 
alfeiçoadas sugeitando^nos antes aos rigores, e incomodidades 
de trabalhos, moléstias, que ficamos padecendo com tonçSo 
dever o fim de semilhante rigor, pondonos em extremos de 
huã dezesperacão agora de novo nos veio anoticia que Vossas 
Senhorias mandarâo fixar hun Edital, que dentro em cinco 
diaz paressesem em sua presenoa os retirados, exceptuando al- 
gumas pessoa como autores da culpa, no que flcamoscertos duma 
prezun(^, que de nos tem e o credito que Vossas Senhorias dao 
asemelhantes maldades, com que mais ficamos comentrentados 
considerando, que a culpa pode cahir em cada qual dando mais 
limitade tempo, para nos recolhermos, que mal bastará para 
chegar á noticia de todos, porque alguns com o medo estarão 
tSo longe, que antes do tempo a não tenhão; Vossas Senhorias 
considerem bam oremedio de nossa quieta^ sem deixar ca- 
minhoz por onde nos fiquem receios, e assim lhe requeremos 
huã e muitas vezes da parte de Deos a quem havemoz de 
chamar justiças; e aos Reis e Príncipes Catholicos do mundo pro« 
testando portodas as perdas, e ruínas, que Vossas Senhorias nos 
devem, dividas e fazendas, sem haver mais causas, que os ditos 
levantamentos de falsidades e de pessoas forçadas, que Vossas 
Senhorias mandarão prender que por remir vidas deram o que 
mais acommodar a seu remédio, o que Vossas Senhorias devem 
attentar, querendo-nos conservar como são obrigados; cujas pes- 
soas Deos Guarde. Vinte dois de junho de seis centos e quarenta 
e cinco. João Fernandes Vieira, António Gavalcanty. João Pes- 
soa, António Bezerras Manoel Gavalcanty, Cosmo Crasto 
Paços. 

E assim mais mandou ler outro papel que com adita Carta 
veio de que o traslado he o seguinte. 



COPIA DA CARTA 



QUK ÍJS DO SUPREMO CONCELHO GOVERNADORES EM PERNAMÍIUCO 

ESCREVERÃO AO SENHOR 

ANTÓNIO TELLES DA SILVA, GOVERNADOR 

E CAPITÃO GENERAL DESTE ESTADO, POR DOUS EMBAIXADORES 

QUE A ESTA CIDADE MANDARÃO 



(1645) 



(Bibliotheca Publica Eborense -^Cod. CVJ — ^ — ^^ 



Esta carta esclarece pontos da historia do domínio hollandes» 
Dahi a sua importância. Delia se vê a resposta altiva e- politica 
que aos emissários do Supremo Concelho de Perna mbnco deu o 
QoTernador Geral Telles da Silva. 

(Nota da CammiêMão d$ AtdoooSoJ 



Copla da carta gno os do supremo conoeiho governador es em Per 
naml)xico escreverão ao senbor Antonk Telles da SilTa, gover- 
nador e capitão general deste Estado, por dous embaisadores 
que a esta cidade mandarão. 



Com quanta pontualidade as pazes confirmadas entre o 
Serenissimmo Rey de Portugal Dom João o quarto, e os mui pode- 
rosos Senhores do estados geraes das Províncias unidas, que os 
moradores destas Capitanias comprirão em tudo» e em cada hum 
dos Artigos delias, consta pellas Cartas e Embaixadores da boa 
correspondência a Vossa Excellencia, enviados, e o devem 
testemunhar todos os que da Bahia, e outras partes vierão a 
estas Capitanias pelo menos nâo se achará quem mostre sombra 
de alguma falta; o mesmo sempre se esperou da sua Magestade 
e da Vossa Excellenciu, e nunca se pode recear que da sua 
parte se permetisse, que seus Vassallos, fizessem ou intentassem 
cousa que fosse contra contratos tão formaes como aquelles ; e 
ainda que alguns Portuguezes, Vassallos dos ditos mui Poderosos 
Senhores quebrando sua âdelidade jurada, intentarfto huma 
conjuração publica, o tomarão armas contra este estado tanto 
que veio ásua noticia, que o Gamarão, e Henrique Dias oom 
seus índios, e negros em companhia de outros Portuguezes, 
chegarão da Bahia a estas Capitanias de pancada sem licença e 
sem a pedir, oontra o direito publico, e geral ajuntando suas 
tropas, e armas com as dos levantados movem, e fazem hama 
guerra, mais oomo deshumanos ladrões e piratas, que oomo os 
soldados usSo em Europa, não podemos prezumir, que esta gente 
decâra por ordem ou permissão de Sua Magestade, onde Vossa 
Excellenoía contra seus federados taes autos intentarão; Graças 
a Deos não nos falta ordem, nem forças bastantes oom que obrigar 
a estes amotinados, que senão saião da soa devida obediência, 
e obrigação, e para fazer despejar os de fora, oom total ruina 
sua ; eomtodo para que todo o mundo saiba, quanto foi, e ainda 
o nosso deseje de viver oom toda a pas e quietação oom Sua 



176 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Mag60tade, e seus Vassallos assim como nossos saperiores oon- 
tinuamente nos enoomendão» e para tirar as sospaitas que os 
Róis, Prinoipes, e Potentados por a chegada desta gente poderão 
presumir, e que oonstas.se a disculpa de Sua Magestade o de 
Vossa Exoelleocia, e se provasse que não tom dado a origem a 
esta conjuração nem a sustenta e uniamos em nome, e da parte 
dos ditos mui poderosos Senhores, os Estados Qeneraes, Sua 
Alteza, o Príncipe de Orange, e os nobres Senhores da outorgada 
Companhia das índias ocidentaes, commandado e Ordem plenária 
a declarar a Vossa Ezcellencia todos os Artigos allegados, o 
pedir que Vossa Exoellencia sega servido que logo com a chegada 
destes nossos Deputados por públicos éditos, ou outras demon- 
straçSes constrangentes mande ao dito Gamarão, Henrique Dias 
o a outra qualquer cabeça que estiver nessas Capitanias, se 
recolhão logo, com todas suas tropas, e gente-úe guerra, e sejão 
castigados oom todo o rigor, e não obedecendo sejão elles todos, 
e cada hum delles declarados por inimigos de Sua Magestade 
por quanto não achamos outra via por onde os ditos mui pode- 
rosos Senhores. Sua Alteza e os nobres Senhores desta Illustre 
Companhia, se dê a satisfação que esperamos de Vossa Exoel- 
lencia que esta vão assinados do Vossa Excellencia mui affciçoados 
amigos Henric, Hamel, Adriam, Van-Bullestrata, PieterDan- 
senbas ; Recife a sete de Julho de seis centos quarenta e cinco 
annos ; por ordem dos mui nobres Senhores do Supremo, e 
segredo Conselho, estava firmado D. van Walbeng, este he 
o traslado da Carta flamenga, que os mui nobres Senhores do 
I Supremo e segredo Concelho nos derfto em eonússão, de entregar 

I a Sua Exoellencia Bahia de todos os Santos aos vinte do mez 

! de Julho de seis centos e quarenta e oinoo, Balthaiar Bande 

í Hoogestratera. 

Reposta que deu o Senhor António Telles da Silva Qover- 
nador, e Capitão Geral deste Estado do Brazil, ã Carta acima e 
outros trasladadas. 

Os Senhores Balthazar Vande Voorde, Conselheiro da Justiça, 
e Theodoro Vanhoo Estratem Comendador no cabo de Santo 
Agostinho digníssimos deputados de Vossas Senhorias me derão 
a C^rta em que Vossas Senhorias se servirão repre^Bentar-me o 
Inconsiderado movimento com que esses moradores se delibe- 



COPIA DA CARTA 177 

rarão a ne^rar a obediência a Vossas Senhorias, nora que en 
senti como devo, e sentira ainda com maior extremo do que 
o signifiquei aos ditos Senhores Deputados se nSo Tira a justis- 
sima segurança com que Vossas Senhorias orem que não podia 
ter impulsos deste governo, acção tao indigna por tantas cicun- 
stancias da fidelidade e valor dos Portugueses, e suposto que eu 
pudera justificar melhor esta merecida opinião da nossa fé 
com 00 procedimentos da correspondência, que havemos tido 
neste estado deduzindo-a desde seus principies para mostrar a 
Vossas Senhorias e ser prezente a todos os Reis e Potentados 
do mundo, que foi sompre da nossa parte esta amizade tão firme 
nas experiências como a de Vossas Senhorias encarecida nesta 
aua Carta, com tudo por não magoar mais o sofrimento e ílaizer 
manifesto ás gentes das occasiões em que positiva e declarada- 
mente se violou pelos súbditos de Vossas Senhorias na maior 
ignorância confiança nossa a pureza das tregoas, e capitulação 
das pazes contrahidas, e ratificadas entre a Magestade Serenís- 
sima de El Rey meu Senhor e os altos poderes dos Senhores Es- 
tados gerais das províncias unidas, quero antes deixar no si- 
lencio de nossa mesma vizinhança os deireitos,que nella puderão 
desculpar qualquer intento, do quo fundar o meu em lembrar 
a Vossas Senhorias todos os que tem precedido, e em particular 
a expedição da Armada para Angola, ao mesmo tempo, em que 
os Senhores Estados geraes estavSo capitulando em Portugal 
com suas Nãos as Armas desta Coroa e nesse Recife os nossos 
Embaixadores fazendo retirar as tropas que tanto erão temidas 
na campanha e aproveitarão a não mandassem invadir porto 
algum dos de El Rey meu Senhor despachando-a a sua mesma 
vista, com vós de hir dar em índias de Castella a conquistar 
aquelle Reino, a entrada e ocupai das Ilhas de São Thomô Q 
Cidade de São Luiz do estado do Maranhão ; o excesso com que 
chegarão a mandar infestar esta costa, e arrender nella um 
Navio nosso que sabia carregado de Assucares da Capitania do 
Espirito Santo, a esperiencia que mandarão fleizer de minha fé 
pelo Commissario João Greving com sombra de pedir farinhas 
na esterilidade em que esta Cidade se achava oomo elle mesmo 
testeflcou em huma carta sua, em que diz assim que mal? se 
me mandou a esta comissão a experimentar a amizade, que por 
491—12 Tomo lxix i». i. 



178 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

neadMidAdey caatella oom que og Diretoreg de Loanda capitalarfio 
oom o Governador P.» Cezar de Menezes, a aleivozia e aso* 
lação do nosso arraial do Bengo a ezpulcio dos mizerayeifl 
moradores daqnelle Reiao, as indeoendas com que tratarão ao 
dito Governador P."* Cezar sendo hum General de Sna Mages- 
tade tão vituperadas em sna qualidade, e posto oomo contrarias 
a toda a humanidade, e estilos Militares, não digo eu de Nações 
politicas, de Europa mas ainda das mais barbaras do mundo, e 
finalmente o desabrimento, oom que nesse Ck)noelho Supremo 
00 respondeo sempre a todas as Embaixadas, com quepertendi que 
naquelle Reino cessassem também todo oacto de hostilidade dizen- 
dome que era jurisdição separada e independente da sua, esque- 
cendo-me também da pontualidade com que ã vista destes 
dezenganos qualifiquei mais a f é e singeleza de animo» com que 
tenho procedido, pois mandando-me Vossas Senhorias fazer 
queixa do Capitão Agostinho Cardoso, e de hum Domingos da 
Itocha que para esta Cidade fogio com um Barco de Assucres 
08 fiz Jogo restituir metendo ao dito Capitão em huma áspera 
prizão até o remeter a Sua Magestade e ultimamente sendo eu 
informado que hum soldado, e hum morador desta Capitania 
chamados João de Campos, e Domingos Velho o Segismundo 
passarão a essa de Pernãobuco e âzer£U> nella alguns insultos, os 
mandei logo enforcar, sem mais incitamento que o da fé publica 
da amizade, que professamos, e juntamente nos devemos, e se 
havendo-me o tempo oilèrecido todos estes motivos tão merese- 
dores de toda a devida recompença me nSo quiz nunca lembrar 
mais que das Expressas e apertadíssimas ordens com que Sua 
Magestade se sérvio mandar-me, que guardasse estabellecesse, e 
çoncervasse com Vossas Senhorias os efeitos da reciproca paz e 
alianças que tinha assentado com os altos poderes dos Senhores 
Estados geraes, bem se verifica, que ainda na opinião de sol- 
dado, quando não quizesse respeitar as obrigações, e consequên- 
cias de estado, não devia eu deixar perder tantas occaziões 
passadas, e muito mais opportunas, para na prezente dar 
sombra aos intentos de quatro Portuguezes desarmados, e a 
fugida de um negro descontente, e união de outro quais rebe- 
lado para huma facção tão árdua, e de dependências tão diffl- 
çultosai, donde se infere evidentissimamente que. nem por 



COPIA DA CARTA 179 

pençamenfos podia mie governo ser oculta cansa deste acidente 
como Vossas Senhorias devidamente o oonfessio, e mo qais 
mostrar, na repiti^ destas particularidades para esta satis- 
íáçio que privadamente dou a Vossas Senhorias de meu natural 
affecto e obrigação deste lugar, e para que Vossas Senhorias* 
tenhão verdadeira noticia da ausência de Henrique Dias elle se 
passou hua noite do porto do Rio Real, donde estava á parte de 
Vossas Senhorias, e mandando-se em seu alcance ao GapitSo mor 
dos índios Dom António Felipe Camario, vendo eu que tardavio 
ambos havendo sido imaglnaç&o de todos, que hiria dar na 
pouvoa(^ e mocambo dos Palmares do Rio de Sfio Francisco, 
mandei em seu seguimento, por n&o parecer que alterava o 
sooego, da paz commeter na campanha tropas de Inftmtaria 
deus Religlozos da Gompanhiade Jezas,aredu2iloseâe nenhum lhe 
quiz obedecer, ou por estarem temerozos do castigo ou já inficio- 
nados do intento dos moradores dessa Capitania, segundo agora 
colíjo, e delles não tive mais noticias que as que Vossas Se- 
nhorias se servirão mandar-me. 

Agora me chegarão avizos dos mesmos Portugueses reme- 
tendo-me hum manifesto das couzas que os constragerik) a levan* 
tar-se, e implorando>me os socorresse como a verdadeiros 
Vassallos que erão de El Rey meu Senhor por ficarem expostos 
ao rigor e fereza de quatro mil Tapuyas que Vossas Senhorias 
tinhão já no Rio grande a inclemência das brenhas para 
donde se havião retirado, deixando suas molheres, e famílias á 
indignação e vingança de Vossas Senhorias, com temor dos 
perigos que Vossas Senhorias hião fazendo íUlminando-lhes, 
graves culpas, para lhes confiscarem as fazendas, tudo por indu- 
ção e maldade dos índios inimigos tão pérfidos da Chrlstandade, 
couza que eu não crera da prudência de Vossas Senhoriafrpois 
chegarão a dar credito as simulações de homens tão desaforados 
e temidos, que afflrmarão a Vossas Senhorias que andavão na 
Campanha pessoas que os Senhores Deputados virão nesta praça 
e suposto que eu me persuado que nas disposições deste sucôsso 
seria mais officaz o amor da liberdade desses povos, e a magoa 
de se verem agora privados do bem de hum Rey natural que 
Deos nos havia dado, do que á exasperação dos receios em que 
ficão com tudo considerando eu por huma parte o fim com que 



180 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Vossaa Senhorias me esoroyerão, e 03 ditos Senhores Depatadofi 
mo propuzorão e rogar&o mandasse recolher os ditos Capitão 
mor Camarão, e Henrique Dias e apaziguar esses Portagnezes 
tumultaozos pelos meios que me parecesse mais idóneos e por 
outra a opressão publica em que se me reprezentarâo sentindo 
não ter o remédio tão propinqno como o dezejo pois he certo 
que se estes dous Capitães não me obedecerão persuadidos menos 
se sogeitarâo violentados e mais em paizes e brenhas tão des- 
tantes, e em qae todos elles andão tão versados, condescendendo 
com promptissima vontade, ao que Vossas Senhorias mesmos 
são servidos, e quereodo eu mostrai* em todo o tempo, e parte 
qual he a fidelidade dos Portuguezes, e a sinceridade cândida, 
que neiies resplandece para com todos seus oonfedrados, e qne 
não sabem attentar para conveniências próprias por mais que o 
tempo as offereça e sejão de maior importância pela menor 
(luebra, ou falência que delias possa rezultar om sua sempre 
incontrastavel confidencia e pactos de Aliança, e união como 
outras Nações, me pareceo tomar por resolução ser eu hum 
medianeiro commum, e socegar com a interposição de minha 
authoridade as inquietações intrínsecas dessa Capitania oomo 
dezapaizonado amigo, e bom vezinho, e assim me pareceo dizer 
por esta a Vossas Senhorias que fico tratando como Remédio 
mais efilcaz do enviar a essa Capitânia com toda a brevidade 
que me for possível pessoas de tal prudência que por sua dispo- 
sição, o inteligência em nome de Sua Magestade El Rey meu 
Senhor se aquietem estes movimentos, e soceguem de todos os 
Portuguezes para o qne vão prevenidos, do mineira que quando 
nãD quelrão sjjeitir se por suavidade e bom modo, os constran- 
jão por violência a obedecer a seu pezar a Vossas Senhorias, e se 
fique continuando daqui em diante nelles a sojelçao que devem 
espei*ar da benevolência de Vossas Senhorias, e entre nós a boa 
correspondência e demonstrações de amizade, que confio em 
Nosso Senhor se perpetuo e conserve entre estas nossas duasNações 
como tão amigas, e conformes que são, Quarde Nosso Senhor as 
mui nobres pessoas de Vossas Senhorias. 

Bahia 19 de Julho de 1645 annos. 
As quais cartas ; Eu Gonçalo Pinto de Freitas, escrivão da 
fazenda fiz trasladar das próprias que estão na Secretaria 



COPIA DA CARTA 181 

do Senhor Governador, a que me reporto, e as conferi so- 
bescrevi, e assinei na Bahia em 22 de Jalho de mil seiscentos 
e quarenta e dnco, Gonçalo Pinto de Freitas, Bernardo Vieira 
Ha/vaico» 



COFIA DE HDIA CARTA 



QUE ESCREVERÃO DE PERNAMBUCO 

MARTIM SOARES MORENO E ANDRÉ VIDAL DE NEGREIROS 

A ANTÓNIO TELLES DA SILVA 



1645 



(Dib. Puh. Eborense ^Cod. OVl-^S — »^f. i98} 



( o presente documento orientará o leitor sobre yarioi pontos 
da historiado dominio hoUandez uo Brazil c de sua importância não 
é licito duvidar atteuto o papel quo repr^^sentaram os 83TU signa- 
tários . 

(Xota da Commissão da Redacção,) 



Ctpia le tuna arta une mrnn la Caimka de Fenaitiiin a Mntra 
le Caipo HartiD soarei Moreno, e Anilre Yiial de Necreini, ao 
OOTenalor Gapitio geril le Mar e Terra leite Eitalo lo Brazil 
Aitoiio Tellei la Silva e le oitni m ellei eiTlano ao Recife. 



Senhor 



Presente he a Vossa Senhoria o ef&caz aperto com qne os 
que Qoyernão o Recife enviarão a toda a deligencia a Vossa Se- 
nlioria sua Embaixada, significando nelia a alteração que João 
Fernandes Vieira tinha movido nesta Capitania, e como em 
oorpo de gente lhe fazia guerra, impedindo-lhe os mantimentos, 
e a liberdade de seu trato, e como também rogarão a Vossa 
Senhoria por cansa sua se servisse interpor sna-Authoridade 
com o meio, que a Vossa Senhoria parecesse mais conveniente 
rezervando a sua elei^ para effectivamente socegar e por em 
paz commua tal alvoroço para conservação de hum e outro 
estado. 

Da mesma maneira serã bem mais prezente a Vossa Se- 
nhoria a lastimosa a encarecida Carta que estes moradores no 
mesmo dia da Embaixada a Vossa Senhoria fizerão. mostrando a 
ultima razão natural, com que se puzerão em deftenca com 
paos tostados por não poderem aotrer já a insolência de 
tantas injurias que com desaforo e sem recato, que com atre- 
vimento, e sem petjo, lhe fazião no maior aperto da honra 
mais publico agravo, não fazendo reparo na ozurpação dos 
bens, no mão tratamento das pessoas que tcdas trazião em 
sinal de seu Cativeiro hua vara de medir por bordão mas 
íázendo o grande do impedimento o posto ao exercício divino 
da inaudita lacivia, com que ã vista dos honrados Paes stru- 
pavão as bem criadas donzellas e ái vista dos corridos por en- 
vergonhados. Maridos manchavão a virtude das respeitadas 



186 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

doDas, encarecendo por ultima razão a petição gae a Vossas 
Senhorias fazião de socorro com o protesto de que lhe seria 
força buscarem Rey Catholico, inda que contrario, remédio a 
seus males, quando da parte de Vossa Senhoria se lhes de- 
negace. Com tão grandas novidades se sérvio Vossa Senhoria 
i^liamar a Concelho, em Claustro pleno, os mais doutos Padres, 
os Letrados mais escolhidos, os Mestres de campo de maior ex- 
periência, 08 Sargentos maiores de mais madura disposição, os 
Capitães de maior prudência com os homens bons de toda essa 
Republica e a todos propoz Vossa Senhoria assim a suplicada 
Embaixada, como a agonia da Carta de seus Portuguezes, que em 
mizerayel aperto de hereges intrusos na terra que não her- 
darão imploravão socorro a seu Rey huma das Colunas da 
Christandade, porque poderião, e a buscavão em Vossa Senho- 
ria dados na piedade, no valor, no illustre herdado por Vossa 
Senhoria de seus claros progenitores, lhe não podia faltar em 
afflição tão gi*ande e que votando-se com toda a ponderação que 
cazos de tanta importância pedião, consideradas as mais fortes 
razões, assim naturaes como estadistas, por toda se concluir sem 
discrepância de voto algum e ainda por communs requerimentos 
e protestos dos Letrados devia Vossa Senhoria, com toda quanta 
deligencia pudesse, acudir a tantas mil almas Portuguezas e 
Christãas, que com tanta anciã lhe pedião amparo para se exa- 
mirem do cruel cutello que herege ameaçava suas gargantas, 
maiormente quando Vossa Senhoria tinha tão fácil occazião na 
Embaixada que lhe ezpunhão os do Recife e em satisfação da 
qual pela urbaoidade comprometida nos concertos da paz, podia 
Vossa Senhoria compor hua e outra queixa rednzindo ambas a 
hua amiga conformação, mas que sempre Vossa Senhoria ficava 
obrigado, suposta a eleição do meio mais conveniente que se 
deixav^k na de Vossa Senhoria que esta fosso de que Vossa Se- 
nhoria mandasse sempre tal poder que obrigasse aos Governa- 
dores no Recife a não uzar de sua natureza conhecida tanto & 
custa de nosso inocente sangue, e não sei se á do nosso sofredor 
brio pois he certo que se não enxergasse este poder chamariio 
dobradamente nossos Partuguezes, e despois de seguros os des • 
pedaçarião, como muitas vezes íizerão. 

Resoluta, Senhor, esta Consulta, oom ella respondeo Vossa 



CARTA A ANTÓNIO TELLES DA SILVA 187 

Senhoria na obtorga e despacho da Embaixada, e em breyes 
dias nomeou nossas pessoas para que oom Carta sua viéssemos a 
esta Província a por em paz tantas e tâo crecidas alterações e 
mandaado Vossa Senboria aparelhar algumas das embarcações 
que çostum&o fazer escalla nessa Bahia, nos mandou basear a 
terra de Tamandaró nesta Capitania, a qual chegados, nos foi 
publico não só o aberto que nossa gente padecia andando com 
sen Governador Joaõ Fernandes Vieira, escondido pelos matos, 
zoas que estes mesmos, Senhor, que impetrarão e interpuzerão 
a autboridade de Vossa Senhoria na conveniência de sua paz 
nos ataUayavão e eeperavio com exercito formado em Cam- 
panha, tendo entfto de prezonte chamado com simulado trato 
a trinta e taotos Portognezes moradores no Rio grande a sua 
Igrqja e aeUa a sangue frio os despedaçavão sem perdoar á de- 
oreplta velhice nem à infttncia inocento, acutilando atrevidos as 
Imagens sagradas, até sacrílegos profanando a contaminada 
Igreja, porem suas atrevidas mãos na Rainha dos Anjos cujas 
roupas roubarão, e 9 divino rosto ferirão, passando a tantas 
insQleodAã que uM hum Velho Hermitão que com hum menino 
se veio lhes a hua Ermida, acerbamente matarão, como tam* 
heis\ o teerão a hum Sacerdote de Missa, deflorando na varge 
muitas e aobres donzellasã vista de seus agonisados Paes, sem 
se doerem dos suspiros, dos clamores, dos gemidos de tantos ma^ 
goados, n^as antes para mais incitar a justiça divina mandarão 
recusar nas pacientes gimidoras os brutos, os indómitos Cabou* 
colos» que a todo o desaforo contumeleavão, manoyavão e exer- 
oitarfto apetites de seu desenfreado natural. 

Certo, Senhor, afflrmamos a Vossa Senhoria não puderiamos 
nunca crer, se bem a experiência nos persuado, taes insultos taes 
traições nem tão livres desaforos, e confessamos a Vossa Se- 
nhoria que ainda informados nos não persuadimos atô que 
a notoriedade com a fé de tantas e tão fldedignsts pessoas que a 
recontavão nos fez ter por certo o que duvidávamos com tanto 
que havendo nos de marohar aquella jornada a Serinhaem 
soubemos que nesta villa o Holandez nos aguardava de mão 
armada em hua força, em outra caza fora e em hum reduto 
feito eoi hua Igreja, pela qual razaõ consultando entre nós o 
nono ouvidor g^» e noMos OapltSai, eouvienoios piarohar a 



188 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

oautellados da traição, e prevenidos ao suoeaao, e que man- 
dássemos ( como mandamos ) a Carta de qne vai a oopia pri- 
meira a Vossa Senhoria ao Comendor dos Holandezes, manifes- 
tando lhe a cansa do nossa vinda, e estranhando a novidade de 
snas Armas a que responderão com a Carta original que por 
terra he hida a Vossa Senhoria, paleando nella neutralidades 
que a nos nos formarão bem findadas desconfinnças para nos 
rezolver com os momentos dos Governador P«. Cezar, em 
Angola, a não poder dar numa por desculpa não cuidávamos e 
assim chegados d Villa que nos esperou em arma com bandeiras 
de Guerra tendidas, nos determinamos a não deixar suas forças 
nas espaldas, e sendo logo hospedados oom Embaixada saa que 
continha ameaços de bailas, minas e cutiladas, lhe respondemos 
com a cortezia, com a mansidão, com os protestos da paz 
por Vossa Senhoria tão encomendada, que tudo lhe sérvio de 
maior lavareda para suas soberbas, mas como virão que nossos 
soldados hião com a derrota em suas forças do Exercito de suas 
arrogâncias, derão no de pedir quartel as suas vidas que com 
toda a benevolência lhe concedemos com as mais capitulações 
de qne vai a copia segunda. 

Rendidos forão mais de cento e trinta ; nestes entrarão se- 
centa índios que por serem muito Portuguezes na lingua nas- 
cidos e criados muitos nessa Bahia o todos Baptizados oom 
a profissão da Igreja Romana, e Vassallos de Sua Magestade 
haverem tomado armas oom os Infiéis inimigos nossos haverem 
feito atrozes injurias aos Christãos moradoi-es daqueiia Villa, 
como consta por huma petição por elles assinados, mãdamos 
delles padecer morte natural a trinta e nove, e os mais perdo* 
amos por menores, de que já nos peza, por alguns delles bave- 
rom fugido para o Recife, os bastimentoe que se acharão não 
forão de sustancia de que se possa fazer menção as Armas, si 
que forão quazi tantas como soldados e vierão a muito bom 
tempo para guarnição das mesmas forças de que fizemos Ca- 
pitão mor Álvaro Fragozo de Albuquerque, pelo muito que 
merece nesta e em outras muitas ocasiões de que lhe passamos 
patente de que vai copia terceira. 

Desta Villa marchamos a Bojuco com muitíssimo trabalho 
pelas innimdaçOes dos Campos^ e pelf» grandes tereicOs a qi|e 



CARtA A ANTÓNIO TELLES DA SILVA l89 

he SDgeito este território, eomtuJo chegados oatendemos com 
algumas cousas de que necessitava esti povoação por ser muito 
populoza, cujo governo demos por então a João Carneiro do 
Kariz e depois confirmamos em Amador de Araújo. 

Aqui tivemos dous avizos, hum que Jeão Fernandes Vieira 
era chegado ao cabo que distava trea legoas, e outro de que 
o Holandoz do forte de Nazaret, com o corpo de gente que ha- 
via sabido em companhia do Capitão de Gavallos João de Van- 
derlens que se lhe tinha agregado campeava livre com asso- 
lação dos moradores com o que rezolvemos hir o Mestre de 
campo André Vidal de Negreiros fosee logo com alguns homens 
ligeiros a prender João Fernandes Vieira, como tudo se obrou 
na forma determinada, e o Mestre de Campo Martim Soares se 
ficou segurando os moradores e referiando os excessos destes 
Senhores de Holanda, e o Mestre de Campo André Vidal fez o 
que hia e levando prezo a João Fernandes Vieira que lhe ma- 
nifestou o como o Exercito do Holanda o perseguira, de maneira 
que não tendo jã para onde se recuar estando situado nas ta- 
boeas se pos em deffença, e naturalmente rechaçou a estes 
Senhores com perda de trezentos mortos e feridos ; marchando 
pois o dito Mestre de Campo com seu prezo tanto avante como 
no lugar da Moribequa que dista outras três legoas do Cabo 
achou ali tal clamor, descompostura e pranto, desconsolação 
e ritiro de molheres que podemos significar a Vossa Senhoria 
nio ouvi mais lastimoso acto porque ver molheres nobres com 
filhas donzellas meninos de peito, e outros de tenra idade re-^ 
tirados a pé distancia de três legoas que tanto fica a varge, 
roubados os vestidos, mal tratadas as pessoas, enxovalhada a ho<^ 
nestidade, todas emlodadas, banhadas em lagrimas, cheias de 
mortaes acoidenies, he couza digna de toda a compaixão que 
provoca os mais sofk^edores corações, e os mais humildes so- 
geitos como nesta occazião fez não só em nos em quem fazia 
reparos a prudência, e suspendia a paixão que sua de Vossa Si- 
nhoria trazíamos da conserva^^ão da paz mas nos mesmos mo- 
radores, cuja dor por propia lhe irritava a razão para demandar 
o castigo. 

Aqui trabalhou ò Mestre de Campo muito sobrenatural- 
mente e não sei se com demaziado sofrimento por não encon- 



190 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

traf a ordem de Vossa Senhoria, e eom iodo o exoesso conso- 
lara ali hum rancho com acarretadas razSes impedia aoollá 
hum pranto com mimos, e com afagos, atemorizara em oatra 
parte hum ramor qae Já formara apostada anlio, qaando da 
Varge chegarão noras, que nâo contente o Exercito Holandez 
com os roubos, afrontas que haria feito lerara ainda prezas 
quatro qualificadas molheres amarradas aos Caralios com o que 
08 moradores de todo deliberados, e Juramentados entre si 
tomando seu Goremador Jo&o Fernandes Vieira sem o Mestre 
de Campo lhe poder impedir, forSo logo a buscar o Exercito 
contrario com o que bem cheios de aftwntas buscarão a honra 
aonde lha lerarào riolentada, e porque a hora em qae arran- 
carão erSo J& quatro da tarde, e o Mestre de Campo le presu- 
adio não puderão encontrar o qoe buscarão ajantoa a mais 
gente que pode por ter pouca consigo, e seguindo o aloaaoe dof 
nossos por maior diligencia que fez os não pode topar, qu* 
tanto exporea o brio o excesso do agraro. 

Aquelia noite sondo muito churoia e de temirel tempes- 
tade fez o Mestre de Campo albergue no engenho de Dona 
Cosma Ja na rarge para antes de amanhecer mandar com 
sua gente a rer se podia impedir o encontro, e sendo Ja dons 
terços do quarto da lua muito escuro porem pelo tempo muito 
deflouitozo pela impossibilidade dos eaminhos marchou com sua 
gente a toda a preça ao Rio de Capibaribe para ali obrar sea 
intento mas quiz a Justiça dirina que he o mais certo que nad 
bastarão os excessos de sua deligencia para impedir despacho 
do queixume, que do Céo alcançou porque quando Ja chegou 
ao Rio achou que a retaguarda da gente da terra hJa Ja pas- 
sando com a agoa pelo pescoço, para o engenho do Torlão 
aonde o Exercito contrario se tinha posentado aquella noite« 
tendo-lhe Ja morto duas espias, que tinhão ao largo sem to- 
car em arma. 

Como o Mcscre de Campo rio quo este sucesso ef a mais 
que ordinário tratou de ajuntar assi a sua gente que rinha de 
ragar em razão da lama para que com essa pouca incorporada 
tratar de remediar o que pudessi, e logo no intre ordenou ao 
Dezembargaior Francisco Braro da Silreira Auditor gmieral 
passMe em hum Garallo ligeiro o Rio, e a tod« a pressa note- 



CARTA A ANTÓNIO TELLES DA SILVA 191 

floafse a todos da retaguarda, e a vangarda não rompessem em 
Qaerra com es Senbores Holandezes o que eilí3 logo fez e dando 
a execução e ordonado com todo a di4goacia e agilidade correo 
o flo da gente que molbada do Rio hia com pouco folgo t@rri- 
tando raivas de chegar, e tolos por huma boca, e todo^ llie 
responderão hiâo buscar suas honras que lhe iovavã o furtadas 
com as mulheres dos homens que os governciva, e quando Ja 
chegou a vanguarda vio que em hum boqueirão que dezem- 
boca em hum grande terreiro em frente o engenho do torião 
duas sentinelias Holandezcis toca vão arma a vanguarda por- 
tugueza que marchava em carreira como formigas, de ma-- 
neira que suposto o contrario estar alerta lhe deu lugar a nossa 
gente da espera que fez para ajaatar bua única Compa- 
nhia para o Exercito Holandez se formar em quadro com duas 
Companhias volantes de mosqueteiros nos lados que logo 
os moradores envlstirão aj mesmo passo que o contrario 
reforçava suas mangas, e a nos nos hia socorrendo a gente que 
hia entrando de maneira que se aqui se perdião vinte passos 
acolá se cobra vão; coatiauando assim o aperto da Querra sahio 
de hum lado a Companhia do João d ) Albuquerque que com 
pouca gente se havia emboscado e entrado taborda que pelo 
mesmo lado encuberto do mato hia picar a retaguarda e de 
todo topou cem homens do Holandez emboscados que imagi- 
nando-se cortados se puzeram em fugida em cujo alcance se 
lançarão matando e ferindo, e a este mesmo instante fizerâo 
entrada no terreiro pela frente os Capitães António Jacome, e 
António Leite, e António Gonçalves Picão, e João de Magalhães 
para ver se podlão por em paz porem em ocazião que ja não 
havia remédio de maneira que junto estes motivos com os de 
huma voz que gritou à espada o Exercito contrario se poz em 
fugida com quinhentos homens todo:? mosqueteiros, e cravinei- 
ros, que consigo tinha gente velha e bem exercitada no Brazil 
da primeira de sua conquista o contrario se retirou de Rondão 
para a Caza forte do engenho em cujas janellns tinha já prepa- 
rados ciocoenta homens de mão posta que ílzerão apartar os 
nossos do ímpeto que leva vão, ferindo e atropelando os Holan- 
dezes que se ílzerio fortes, juntamente na Caza que o era muito 
por arte porque sendo de pedra e eal e paredes dobradtus tinha 



192 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

tres sobrados de aadames de janelas de barandas em roda que 
pódio gaaraição do mais de trezentos homeas como tiaha o para 
maior segurança, porque os alioeroes ficasem mais seguros lhe 
fizerão suas estacadas fortes gaarnecidas de Mosqueteiros o 
que fiz a dar e receber cargas tam a miúdo que era hum espanto 
ver o valor com que os nossos Portuguezes envestirão a peito 
descuberto e íkzer tiroi as seteiras de hua muralha e o pior he 
que os s3nhores Holandezes que por esta maneira lhe matarSo 
muitos com as feridas do naris até o cabelo e porque entre nos 
havia dous outros mortos e alguns feridos tratarão de en vestir 
a sua estacada oomo flzer&o com machados derubarão parte, e 
entradas nos baixos da primeira varanda lhe applicavão os 
materiaes para lhe por fogo, neste estado e aperto se virão os 
Holandezes quando a todoo oorror chega o Mestre de Campo An- 
di*é Vidal de Negreiros, o reunindo e estranhando a todos 03 
soldados os tiros que tazião tomou logo um a tambor, e hum 
soldado com huma bandeira branca na mão e se foi andando 
para o engenho para assim remir aos que nelle esta vão, do fogo 
que se lhe aplicava mas oomo elies nunca mudem de natureza 
pagavão esta boa obx*a, ao Mestre de Campo com huma carga 
serrada com que logo lhe matarão o da Bandeira e lhe ferirão 
com duas pelouradas o cavallo o que tudo naõ bastou para 
deixar de lhe conceder o quartel das vidas que logo lhe pedirão 
com partido de serem enviados a suas terras pela Bahia. 

Os Rendidos e mortos forâo quatrocentos entre cabououlos, e 
tramengos os prizioneiros de conta forão o seu Oovernador das 
Armas Henrique Bús, hum Sargento maior, o Capitão JoãoBelar, 
o Capitão mor dos Cabouculos que todos vão a /ossa Senhoria. 

De Serrinhaem escrevemos aos Governadores do Supremo do 
Recife a Carta que vai copia quarta que enviamos pelo Alferes 
Manoel António e porque cá o detiverão alguns dias lhe envia- 
mos, segunda Carta depois do sucesso do turlão de que vai copia 
quinta, a todas respondem sem poder negar seus decretos oomo 
a Vossa Senhoria serã. prezente. Estes senhores tem mandado 
decer quantidade de gentio e ja nos tem feito muitas crueldades 
com que nos vemos em estado que se acaso trataremos de nos- 
querer retirar nos matarão a todos e quantas mil almai tem 
esta Província, pelo que consideradas as razoes naturaes as de 



CARTA A ANTÓNIO TELLES DA SILVA 193 

todo O direito caaooioo eivei, e ainda os mais delicados de es- 
tado, parece coaza dura que huns mercadores com- hama so- 
ciedade e companhia de mercancia separados dos senhores 
Estados de Holanda faça tantos acintes tantas traições, e uzem 
de termos iSo elicitos como os de Angola, São Thome, Maranhão* 
navegação destas costas e ainda dos prezenteíi aqui relatados con- 
tra hum Príncipe Soberano cujo sangue ec^jas Armasse fizerSo 
sempre tanto respeitar, e que ajusta de publicidade de tão de- 
maziados feitos continue o sofrimento com a certeza de evi* 
dente perigo ponderados senhor tantas táo justas e tão eficazes 
razoes nos pereceo antes expor a jusUça de Y . Mg«. e do Vossa 
Senhoria o fundamento de nossa cauza fiando da Mizericordia 
divina avogará nossa defensa que arriscar a Christandade de 
huma tam dilatada Provinda ainda de tantos milhares de ino- 
centes, e sobre tudo de perder a oucazião que Deos houvera 
razão nos dã de restituir a V. Mg^. as terras que com o sangue 
de seus Vassallos, e despeza de sua Real fazenda conquistarão 
ainda que por comua repartição dos Princepes da Europa, os 
senhores Rey seus predecesores e isto para semear neste novo 
mundo a ceita de Calvino e escrever o sol da de Jezus Christo 
pelo que fasendo da necessidade virtude, da virtude obrigação 
nos resolvemos pois a obrigação he tam super abundante e a 
causa delia por parte destes senhores tantas vezes a romperem 
Guerra e desembuçar a vergonha que emmascarada por obe- 
diente sufria ató não poder mais e assim lhe mandamos sitiar 
atacar por todas as partes o Recife aonde os temos metidos ou 
os encarcerou seu peccado e ruindade e deixando o sitio posto 
o pusemos também na fortaleza de Nasaret a quem quizemos logo 
escalar pois nos ameaçava a sua armada no mar e depois de tiros 
e combates mortes e outros sucessas de guerra de que se não 
&Z menção entendendo seroados nossos intentos se venderão a 
partido com as capitulações de maiores favores que ja mais se 
fizerão que nos lhe concedemos por que vejão que quando ti- 
ranos uzavão com nosso crueldades nos vencedores lhe fazemos 
mimos e mercês. Os rendidos são mais de dozentos todos lu- 
zidos soldados o forte muito valente de cava e faxina, estacada 
e baluartes com dez peças de artelharia de bronze de m9 e doze 
t6 vinte e quatro, alguns mantimentos de Carne de Porco, Ari- 
491 — 13 Tomo lzix r» z. 



J 



194 REVISTA 00 INSTITUTO HISTÓRICO 

nhãs de sentelo muaiçõds poaoas pesgoaB de ooata algumas em 
partiòulAr . o sargento maior Tlieodoro o Capitão de Ga-* 
yalios Gaspar de Venderley, o Teneate Joio Beque tem 
seu Irmão Joio Bequo, e oatros Ajudantes e pesssoas de nome 
na Guerra os quaes hiao para êssa Bahia exoepto os que quise- 
rem âcar na forma de suas capitulações tamliem temos o for« 
teeinho da barra oom três pegas de ferro para maior ainda lhe 
tomamos com o Ajudante Barreiros que he Capitão duas ÍAn- 
tíias, h«ma que Tinha de socorro, e outra que hia de ariso. 
Neste estado ficamos Vossa Senhoria se sirva como quem he tam 
boa testemunha do ofléreeido representar a Sua Majestade 
nossa justiça para que oom eila nos acuda Deos; Guarde a Voesa 
Senhoria muitos anoos Nasare pontal^ e Porte do Santíssimo 
Sacramento seis de Setembro de seis centos quarduta e cinco 
Martin Soares Moreno, André Vidal de Negreiros. 

Cópia da primeira Carta que oâ Mestres de Campo Martin 
Soares Moreno e André Vidal de Negreiros mandario aos Go- 
vernadores ao Recife e escripta em Serinhaem. 

Das graves alterações e encorporadas sedições que es Por* 
toguezes levantarão nesta Capitania tomarão Vossas Senhorias 
motivo para representar ao Senhor António Telles da Silva* 
Governador e Capitão Geral do Brazii, sua perturbação e a todo 
o encarecimento lhe pedio mandasse socegar aquelie alvorosso 
pelos meios que lhe parecesse mais constrangentes a este 
mesmo tempo por todos os moradores desta Província foi 
exclamado perante o mesmo Senhor emparo e ajuda para serem 
livres das aflrontas, das mortes dos roubos, dos strupos que 
actualmente padecião com que deliberarão animados procla- 
marem sua liberdade e em Exercito formado com pios tostadee 
pela impossebelidade a que esses tinhão reduiido seu cativeiro 
querião defender suas honras por tantas vias manchando flraude 
da jura divina quando este ja de tanto sangue frio derramado 
fazendo presente outros a Sua Senhoria e obrigação em que 
estava de os socorrer e sgudar ou j& por Português Catholtco de 
ssu mesmo sangue e nação ou por que compadecido de suas 
mizerlas pois quando não forão estes bastará no mais apertado 
termo de rm&o natural e ainda da mais politica de estado implo* 
rarem seu auxilio para lhe não faltar fechando por ultima razão 



CARTA A ANTÓNIO TELLES DA SILVA 195 

qae quando Saa Senhoria lhe não acudisse oorreria por sua 
oonta dá-la Deos de elleã buscarem Principe estranho o que o 
seu natural lhe negava : ponderadas pelo Senhor Governador 
OapitSo Geral tão apertadas e orgentes razões com a devida 
cortesia com que devia responder a Vossas Senhorias adver- 
tindo nos meios mais oonstrangentes que Vossas Senhorias 
rezervavão a sua eleição e a efflcacia dos apertados gemidos de 
seus Portuguezes resolveo por meio único e singular na forma 
da Embaixada mandar socegar tão grande Inquietado, mas 
porque a união Portugueza era grande se bem maior a dér, e 
da parte de Vossas Senhorias ameassava execução, determinou 
viesse a esta Proviocia taes pessoas e tal poder que igualmente a- 
braee a prudência e a guerra para a effectiva quieta^ pedida e 
dezejada, nesta forma Senhores somos enviados governando nosso 
poder á petiçflío de Vossas Senhorias a conveniência soa dando- 
Ihe nossa iguda na conformidade de nossa paz, e aliança tratada 
com a despesa que Vossas Senhorias poderão ter entendido em 
que não &zemos reparo e apenas pizamos esta terra quando do 
Rio formoso nos ferem os ouvidos e iastimão o Cora^ os 
inocentes com gemidos de quarenta Portuguezes nossos Oatho- 
Íleos e naturaes mortoe a sangue frio em uma Igreja onde 
com fingidas caricias foram chamados por Ministros de Vossas 
Senhorias sem reparar na autoridade ancian do velho nem na 
inocência pueril do menino que nos peitos de sua Mãi devorou 
o gentio como sustento, como também na Vargea de São Lou- 
renço os. suspiros das nobres donzellas que violentadas stru- 
pavão 08 gentios, e soldados de Vossas Senborias, procedendo 
a mortes, e descompostas lacivias, c5 outras multas que seus 
Ministros de Vossa Senhoria mandarão executar em ipojuca 
com tam publica crueldade chegando a espedaçar um velho 
Irmitiío e hum menino na sua mesma Igreja contaminando e 
profiittando os lugares sagrados ferindo os santos e com mãos 
sacrílegas despindo a Rainha dos Céos a Virgem Sagrada e 
Nossa Senhora; cazos todos inauditos que digo, que tàxem 
tremer por inauditos os mais acerbos corações e o fazem recear 
e desconfiar os mais generosos peitos e como nós vimos que 
tendo Vossas Senhorias interposta autoridade do Senhor Go* 
veroador, e Oaq[iitão general, inovarão tantas variedades de 



196 RBVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

cousas, e ainda formarão hum Eiercito tam cupioso qne aotual- 
mente tem esta campanha seado força avistar menos com 
Vossas Senhorias nesse Recife na forma de nossa ordem nos 
determinamos com effeito a não deixar nas Costas poder algum 
que nos possa acresentar magoa a magoaa, e assim com a 
cortezia e agazalho que profeçamos levamos comnosco a solda- 
desca desta Viila de Serinhaen até com Vossas Senhorias assen- 
tarmos o que mais convenha a servisse de Deos e de nossas 
Republicas e pedimos a Vossas Senhorias queir&o dar e remediar 
o excesso de seus soldados sem permittirem que de sua parte se 
de causa a hum rompimento guerreiro porque da parte de 
Deos e de Gl-Rey Nosso Senhor Dom João o quarto que Deos 
Guarde, e da dos Senhores Mstados que Deos aumente, reque- 
remos e protestamos a Vossas Senhorias hua o muitas vozes a 
concervação do nossa tratada paz, que só trazemos por guia, 
e inviolável ordem que nos fica autentica para satisfação dos 
Príncipes da Europa e para que o seja maior a Vossas Senhorias 
Uie enviamos a cópia dos quartéis que nesta Capitania temoe 
mandado fixar, Deos Quarde a Vossas Senhorias, Francisco 
Bravo da Silveira. 

Copia da Carta segunda que os mesmos Mestres de Campo 
mandarão ao Gk>vernador do Recife depois da Batalha do En- 
geniio de Turlão. 

Pelo Ajudante Manoel António fizemos pi^ezente a Vossa 
Senhoria como er.imos chegados a esta Capitania, e enviados 
pelo General do Bratil o Senhor António Telles da Silva a rogo 
de sua Embaixada do Vossas Senhorias pelos meios mais 
urgentes havemos de meter em paz e quietação as alterações 
que se tinhão levantado, e também das muitas novidades não 
merecidas nem esperadas que achamos já no lastimoso clamor 
das nobres Donzellas strupadas a poder da violência despojadas 
ã tirânica crueldade, ja na lamentação dos moradores do Rio 
grande cujas quarenta, dos mais nobres hum simulado chama- 
mento a hua Igi*eja, despedaçou a sangae frio, com hum 
Clérigo Sacerdote de Missa e dous homens ontem nas salinas, e 
já da profana obstinação com que nossos templos, e Imagens 
sagradas foi^io maltratadas ati3 sacrílegos roubarem as roupas 
da Virgem sagrada Mãy de Deos com tal ezceoso e demazia 



CARTA A ANTÓNIO TELLES DA SILVA 197 

que faz impedir a declaração pelo respeito e como pslo aperto 
destas rasõas, e por Vossas Senhorias terem sea Exercito em 
Campanha nos obrigou a defeza natural, e estilo da Milícia a 
não deixar em nossa vangaar Ja poder de qae nos pudéssemos 
rocentir até ajustarmos com Vossas Senhorias a melhor conve* 
nicncia para mais firme estabelecimento de nossas pazes pois 
este he único intento de nossa vinda. Seguindo pois nossa 
missão a esto Recife ja com João Fernandes Vieira prezo peia 
mão do Governador André Vidal de Negreiros, que na Viila do 
Cabo com doze ho.nens de sua guarda aprisionou, achamos 
tal retirada de mulheres, de meninos, de Clérigos que roubados 
e afrontados, o fazião desta vargea, publicando as tiranias, as 
iqjuriasque padecei^o do Capitão João Blar, e sua soldadesca, 
que não contente com o relatado ainda para maior contumelia 
levou consigo com incrível desprezo três nobilíssimas mulheres 
metendo-as em suas Casas, e as demais de que os moradores 
abrigados da dor e irritados da sem razão sem nos o podermos 
remedear tomarão seu Governador João Fernandi^s Vieira, e a 
todo o Ímpeto nos deixai'ão, e por mais que fomos em seu 
seguimento de noite, lhe não pudemos dar alcance, senão des- 
pois de terem ja brigado no Engenho de Izabel Gonçalves e 
já nelle sitiado o Governador das Armas, e sua soldadesca de 
Voflsa Senhoria. Perparádo o material necessário nas Casas baixas 
do dito Engenho para lhe dar fogo, o que toda força acudimos 
interpondo nossas pessoas a salvação da gente como o fizemos 
guardada a cortezla devida ainda que nos custou muito por da 
parte de Vossas Senhorias se plejir com bailas encravadas, 
ervadas, e cotn palanquotas, e porque estas sedições crescem 
com as hostilidades, que da p^irte da Vossas Senhorias com- 
nosco se uzão lhe fazemos prezente a Vossa Senhoria a procla- 
mação e ratificação de nossas pazes de que protestamos perante 
Deos e Vossas Senhorias hua e muitas vezes c da parte de 
El-Rey Nosso Senhor D<.»m Joilo o quarto, e da dos Senhores 
Estados, e ainda do tolos os Príncipes nossos aliaios, Vossas 
Sjuhorías não entrem em romplmecito de nossa celebrada paz, 
e nos não dem occazião com suas offenças a romper<aos 
em Guerra, parecem bastão os de tanto clamor que ainda 
desoulpão e deixam crer os motivos de João Fernandes Vieira, 



198 RBVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

pois DOS eonsta tratou só de deffender o sangue de tantos ino- 
centes, e podendo faier com suas Armas sua gente, o nfto íéz, 
antes andou de hum em muitos sitios, vendo se podia escusar 
a peleja, até não ter mais para onde recuar, e ser força o 
defender-se. 

Queirao Vossas Senhorias ver este nosso papel, e olkalo 
com a consideração que convém a nossos Repúblicos porque 
até mesmo o Céo parece se oflTonde de nosso sufrimento. Deos 
Guarde a \ossas Senhorias Francisco Bravo da Silveira. A qual 
Carta dos Mestres de Campo, e tratados dos protestos que man- 
darão aos Holandozes. Eu Gonçalo Pinto de Freitas escrivão 
da fazenda Real deste Estado do Brazil por Sua Magestado fiz 
trasladar das próprias que para isso me deu o Governador 
Capitão geral do dito Estado a quem as tornei e a ellas me 
reporto, e delias este traslado e concertei, e o sobescrivi, e 
assinei por duas vias na Bahia em treze de setembro de mil 
seiscentos e quarenta e cinco. Gonçalo Pinto de Freitas. 



REGIMENTO 

QUE HA DE USAR NAS MINAS DE SÃO PAULO E SiO VIGENTE 

DO ESTADO DO BRAZIL 

SALVADOR CORRÊA DE SÁ E BENEVIDES 

(1644) 



(Archivo da Torre do Tombo, Livro dos Regimentos do Conselho 
Ultramarino, fs. 4ív, Documento mandado copiar pelo Dr. Xorival 
Soares de Freitas, em missão do Instituto Histórico nas bibliotheo<ts d 
arohii>os de Portngal), 



Este re^^imento jastifioa o quo diss^ Pedro Taquos de Almeida 
Paes Lome na sua inrormação sobre a.s minas de S. Paulo e dos 
sertOes da saa eapitania desd ^ o anno iU 1597 atA o de 1772 c o 
qae sobro as Minas do Brazil escreveu o nosso i Ilustre consócio 
Pandiá Calogeras (1904). 

(Xota da Comniis$ão de Redacção.) 



Begime&to de que h* de xusar nas minas de São Paulo e Slo Vioente 
do Estado do Brasil Salvador Corrêa de Sá e Benevides . 



Eu El Rej faço saber aos que este meu alvará virem, que 
ea mandei passar outro, em qainse de agosto, do anno de 603 
sobre largar a meus vassallos as minas que nas partes do 
Brazil bavia descobertas e por descobrir, e a forma e modo em 
que na fobrica delias e seu descobrimento se havia de prooeder 
do qual o treslado ho o seguinte: 

Eu El Rej faço saber aos que este meu alvará virem que 
eu sou informado que nas partes do Brazil são descobertas Ai- 
giias minas de ouro e prata e que facilmente se poderão des- 
. cobrir outras, e querendo nisso fazer graça e meroe a meus 
vassallos e por outros Respeitos de meu servisso, Hey por bem 
e me praz de largar as ditas minas aos descobridores delias 
e que elles as possão benificiar e aproveitar a sua custa e des- 
peza pagando a minha ftizenda o quinto somente de todo o ouro 
e prata que das ditas minas se tirar salvo de todos os custos 
depois dos ditos metaes serem fundidos e apurados e no descobri- 
mento repartição e tudo o mais tocantes as ditas minas se guar- 
dara o Rerimento seguinte ; 

Qualquer pessoa que quiser descobrir minas se aprezentara 
ao provedor delias que tenho ordenado que htya nas ditas par- 
^ e lhe declarara como quer fazer o tal descobrimento e la- 
vrar e tirar os metaes que nellas forem achados a sua própria 
custa do que pagara o quinto forro de todas as despezas a 
minha fazenda sem ella ter obrigação de lhe dar pêra isso oouza 
algua de que se fará asento pelo escrivão do dito Provedor em 
hum livro que pêra isso haverá asignado e numerado por elle 
e em que a tal pessoa asinara, e com sertidão do dito asento 
mando ao Governador do dito Estado, Cappitais das Cappltanias 
delle Provedor mor de minha flizenda quaesquer outros ofllciaea 



202 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

assy delia como da ju3tíQa que lhe deixem dosoobrir as ditas 
minis e lhe de toda ainda e favor que pêra isso for necessário. 

£ tanto que for descoberta algua mina se Registrara loj2:o 
pello dito escrivão com todas as declarações e oonfrontaçoens ne- 
cessárias ao pé do asento que devia fazer quando o descobridor 
delia se apresentou ao Provedor das minas na maneira atras 
declarada. 

E depois de o discobrldor tirar metal da dita mina será 
obrigado apareser com elle e a o manifestar ao Provedor pre- 
sente sen escrivão dentro de trinta dias ; E por juramento que 
lho será dado declarara como o dito metal de ouro on pratta 
he da própria mina que tem registada e achandosse não ser 
delia será castigado como for justiça o pagara todas as perdas e 
dannos que se seguir em aquellas pessoas qae pedirem parte na 
dita mina e sendo passados os trinta dias ditos sem fazerem a 
dita roanifestaç&o do metal que tiver tirado não gozara do pre- 
vilegio de descobridor salvo se alegar e justificar tal cauza • 
empedimento ao Provedor porque pareça que deve ser Relevado. 

Ao descobridor do beta do metal de ouro ou prata se lhe dará 
nella huma mina de oitenta varas de comprido e quarenta de 
largo medidas pela vara de cinoo palmos de que se uia neste 
Reino e se lhe dará mais na mesma beta oHtra mina de sesenta 
varas de comprido e trinta de largo em lugar apartado que elle 
escolher. B a vendo porem entre bua e outra distanoia de duas 
minas de sesenta varas eada hua e querendo o dito descobridor 
on outra pessoa a quem se der Repartiçam e mina tomar mais 
em largo que em comprido o poderão fttzer oomeseando de 
hum em ontro e pelo dito modo se Repartirão as minas, entre as 
pessoas qua na dita Betta desouberta as vierem pedir para 
Delias trabalharem. 

Conoorrendo duas ou mais pessoas no descobrimento de 
algna mina o que primeiro achar e tirar delia metal se enten- 
dera ser descobridor e gozara do privilegio ainda que outro 
tenha primeiro buscado a dita mina e betta com tanto que o nfio 
va tirar da beta que for seguindo. 

E acontecendo que duas ou mais pessoas busquem a ditta 
betta em divorsas partes e achem metal no mesmo dia sem se 
poder abreguar quem o aohou e tirou primeiro aquelle sêrâ 



REGIMENTO A SALVADOR CORRÊA 203 

havido por descobridor que primeiro apareser com o dito metal 
ante o Provedor e sendo ausente o manisfestara perante o juiz 
da terra se o ouver e uão o hivendo perante duas pessoas dignas 
de fé de que cobrara certidão para constar por ella ao prodedor 
como elle foi o primeiro descobridor e se fará disso asento no 
livro das minas. 

O descobridor da mina poderá buscar e cavar toda a betta 
que descobrir e tirar delia metal emquanto nfío ouver quem lhe 
peça mina na mesma betta, mas avendo quem lhe pessa e que se 
demarque a abalize será obrigado a dentro em quinze dias, es- 
colher, signalar, e demarcar as suas oitenta varas em comprido 
no lagar e parte que quiser, e depois de foi ta a dita escolha não 
poderá varear nem f^zer outra e o que primeiro pedir a mina 
e Repartição ao descobridor delia medira e demarcará a sua 
mina dentro em dous dias e o mesmo farão os outros que susesi- 
vãmente após ello a vierem pedir e não o fazendo alguns delles 
aasy o seguinte em ordem poderá demarcar livremente sua mina 
como se o outro que sé não quiz demarcar no dito tempo não 
estivera diante e nenhuns dos sobreditos depois de ser feita 
huma vez a sua demarcação poderá varear nem mudar os 
marcos e balizas para outra parte sob pena de perder o direito 
que na dita mina tiver. 

As quarenta varas que ao descobridor se consedem e as 
trinta aos mais que pedem minas e Repartição em largo e qua- 
drada não serão obrigados a demaroalas até que haja quem 
venha pedir minas repartição daquella parte e avendo quem 
a pessa será o descobridor obrigado a demarcar a sua quadra no 
mesmo termo de quinze diase os outros a quem for dado mina 
dentro de três dias para a parte que quizerem sem poderem 
varear do que hua vez escolherem e não se demarcando neste 
termo o que pedir a demarcação poderá tomar e balizar sua 
mina para a parte que mais quizer da beta descuberta deixando 
ao descobridor vinte varas em largo e aos outros a quem forem 
dadas minas quinze varas comtanto que o que assy se demarcar 
e tomar mina descubra betta de novo na parte em que se 
demarcar e a Registe. 

E quando se pedir demarcação de quadra e largura da mina 
do descobridor ou de outra pessoa a quem for dada será 



204 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

demarcada a dita quadra por cortei direito fazendo quatro 
cantos iguais e direitos e dentro ficara o estaca e sinal da sorte 
que se deu pêra se cavar a mina. 

As Balizas e marcos do que nestas demarcações se ha de 
uzar para saber cada hum o que he seu, se^to de pedra ou terra 
levaLtida bem amassada em altura de hum cavado de modo 
que o tempo as nao desfaça o se possi sempre saber o que a 
cada hum pertence os quais marcos se porã3 sendo prezeute o 
Provedor e seu escrivão e o que assy o nâo fizer, perdera a mina 
que lhe for dada para quem a pedir como que se fosse vaga. 

E para que a medida das varas que cada hua a de haver 
cm toda será sertã e igual onie a terra das minas for montuosa 
e mais alta em hua parto que outra se porá hua vara ou lança 
da altura que for necessário no lugar mais baixo da dita mina 
e do alto da vara se deitara hum cordel do tamanho da medida 
das varas que a mina a d ) ter e assy direito se medira até par- 
to de sima da terra onde chogar o dito cordel e ahy se porá ou 
baliza. 

E se para se desmontarem o alimparem as minas for neces- 
sário mudarense os marcos ou balizas delias o poderão fazer 
sendo presente o Provedor e seu escrivão com as mais partes a 
quem tocar as quais não querendo ser presentes sendo para isso 
Requeridas se procedera na mudança dos ditos marcos as suas 
Re verias. 

E porque algumas vezes se pedem minas e demarcaçõis na 
parte a quadra e largura das minas que ao descobridor e aos 
mais se tem dado e medido com tensão de lhes empadir quo não 
possão por aly dezemtulhar o que das suas minas sae e a essa 
conta os avexão e obrigão a lhe pagarem e delxalos por aly dei- 
tar seus entulhos ou lhe venderem suas quadras que he grande 
prejuízo dos que lavram as ditas minas ; Hey por bem e mando 
que o que vier pedir a tal demarcado das ditas minas seja 
obrigado a dar em beta fixa do metal dentro de quarenta dias 
do em que se lhe fizer a dita demarcado e não bastará achar 
metal como muitas vezes se acoatesse no que o dito Provedor 
fárà grande diligencia o não dando no dito tempo em beta fixa 
do met'\l não poderá empedir e tolher ao outro dono da mina 
lansar para a dita parte seu entulho mas se ao dito Provedor 



REGIMENTO A SALVADOR CORRÊA 205 

parecer por outros siaaea e experiências que aly ha beta fixa e 
que por estar muito funda ou peila callidade da terra se lhe não 
pode chegar nos ditos quarenta dias lhe dará mais algum para o 
poder seguir e buscar a dita beta não passando de outros qua- 
renta dias. 

E para que aja mais pessoas que enteadão em descobrir e 
lavrar minas aquelles a que nas minas descobertas for dado 
sorte e Repartição a não poderão vender aos descobridores e 
senhorios das minas principais antes de terem descuberto metal 
fixo sob penna do compilador perder o preço que por ella dor e 
o vendedor o direito que na dita mina tiver. 

Se depois que se for cavando a mina em altura ouver deífe- 
rença sobre a medida e pertença delia entre dous senhorios por 
se não poderem dar os poucos direitos poderão os donos das mi- 
nas que estam da parte de sima o da debaixo pedir hum ao 
outro que lhe de igualdade e direitura para correr com a sua 
obra o qual será obrigado a lha dar atravessando um pao na 
boca da dita mina e atando no meio delle hum cordel com hum 
chumbo o qual abaixara até onde se vay lavrando o metal e aly 
onde o chumbo assentar se fará hum sinal estando prezentes as 
partes o qual servirá de marco o daly pêra baixo se poderá hir 
íkzendo o mesmo e as partes serão obrigadas a flsizelo quantas 
vezes hum vizinho o pedir ao outro dentro em vinte e quatro 
oras e não o comprindo assy dentro no dito termo o dono da 
mina ou o que em ssu nome fizer a obra o Provedor fará a 
dita medida a reveria da parte quo sendo requerida não quiz 
es(ar prezente. 

Tendo Algaa pessoa mais quantidade de varas das que lhe 
são consedidas qualquer outra lhe poderá pedir as que tiver de 
maise elle será obrigado a lhas largar dentro en dez dias esco- 
lhendo primeiro a parte em que quizer que lhe fiquem as varas 
que lhe forãó consedidas comtanto que sejão juntas e contíguas 
o não apartadas em diferentes partes e dizendo que tem vendi- 
do a dita demazia não será ouvido e o Provedor lha fará largar. 

E o que pedir as ditas demazlas ou sejão de mais varas ou 
de mais minas das que cada hum pode ter não terá mina 
na mesma Beta nem ao derredor em distancia de lego a 
e meia. 



J 



206 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Neohama pessoa poderá bussar minas e betas na repartição 
de outrem conforme as varas que llie farão consedidas de com- 
prido e largo sem primeiro lhe pedir que se d3marqu6 e Balize 
em quadra da maneira asima dita e satisfeito poderá buscar 
Beta dentro da sua repartição e não na alliea. 

Sendo descoberta bota de que o descobridor se dera o privi- 
legio que por a descobrir se lhe consede por este Regimento 
e depois se descobrir e achar alguma beta Junto ao logar onde 
a primeira se descobrio ou ao Redor delia por espaço de legoa e 
meia o que achar a tal beta não poderá gozar do previlegio de- 
descobridor como o primoiro somente poderá tomar nella huma 
mina de sessenta varas em comprido e trinta em largo na 
parte e lugar que delia escolher. 

Qualquer pessoa poderá buscar e seguir mina em herdade 
e terra alhea contanto que o que a achar e os que a lavrarem 
dem âança a pagarem o danno que por resão da dita mina 
vierâo dono da tal herdade. 

Ninguém poderá ter mais que huma mina das ditas sessenta 
varas deniro do termo de legoa e mela e poderá ter as ditas 
varas repartidas nas betas que ouver na dita distancia não as 
tendo primeiro escolhidas e tomadas em mina inteira na bet« 
descobridora ou em outra salvo comprando algmna mina porquê 
com titulo de compra poderá ter mais que huma e o mesmo 
swa se vendendo a sua tomar outra mina na beta ou betas que 
de novo se descobrirem. 

Se dentro na dita distancia de legoa e mea se descobrirem 
algumas betas de metal pobre poderá ter nellas huma mina o 
que tiver outra na beta principal e Rica porque sendo de prata 
custume he mesturar-se o metal pobre com o Rico para qae 
na fundição corra o Rico e se derreta melhor e assy poderá 
mais ter e lavrar todas as betas que se achar dentro nas suoui 
quadras e marcas. 

Qualquer beta que se dono for lavrando ou s^a a principal 
ou a que a que depois achou em sua quadra e Reparti^ poderá 
hir seguindo ainda que va entrando pelas quadras alheas sem 
lhe poder S3r posto empedimeato al>rum até que a tal beta 
que assy vay seguindo entre na beta principal ou quadra 
aleha. 



REGIMENTO A SALVADOR CORRÊA 207 

Acliandosse bettas nas ilhargas da beta principal e estando 
tão perto que os donos delias se não pu^^ão todos quadrar 
em meio deixando a huma o outra parto espaço se possa deitar 
entulho e terra que se tira das minas o da beta mais antiga 
se quadrara e demarcara primeiro ainda que o não Requelrão 
e estando algum dos ditos donos das minas ja demarcado não 
poderá, variar nem demarcar-se para outra parte co:iio fica dito. 

Yindosse huma beta ajuntar e encorporar em outra como 
muitas vezes acontesse farçea companhia entre os donos que 
lavrarem as ditas betas para que beneficiem e lavrem do meãs 
e partao aproveitando a hum como ao outro ainda que hnma 
das betas seja mais larga e prinsipal por ser de menos e con- 
veniente partirse tudo entre elles por igual parte do que será 
averiguar qual das betas he melhor e mais larga. 

Os que ouverem de cavar minas primeiro que nellas metão 
gente as assegurarão e desmontarão de moio que não aja pe- 
rigo noB que nellas entrarem a trabalhar e não o fazendo assy 
encorrerSo nas penas que por direito merecerem e pagarão 
todo o dano que dahy rezultar as partes danificadas. 

Cada pessoa no Repartimonto da sua mina fará caminho 
en todas as betas que nelle se acharem para que se possa ver 
e andar de humas minas em outras o para que esta obra se faça 
como convém o Provedor com hum oficial mineiro pratico e 
entendido entrarão nas ditas minas e verão como se lavrão e 
seguiuo e se lhes fazom paredes e repairos necessários par 
que não caião em prejuízo dos que nellas trabalhão e das 
minas dos vizinhos. £ o dito Provedor obrigará com as pessoas 
que lhe parecer a se fazerem os concertos que nisto forem ne- 



E porque pode acontesser que o descobridor da beta por 
cauza da sua pobreza não possa chegar ao metal e os outros que 
nelle tem suas minas e repartiçõis não querem trabalhar nellas 
ate verem o metal que o descobridor tira o que he contra meu 
servisse e bem das mesmas partes, Hey por bem e mando que 
todos os que na dita beti tiverem parte serão obrigados a dar 
ajuda ao descobridor para cavar na sua mina ate altura de 
dez braças pagando elle a quarta parte do gasto que nisso 
so fizer e tanto qae elle chegar ao metal tao lhe poderão as 



208 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

oairas partes pedir perante o Provedor das minas tudo o que 
para a dita ajada lhe derão. 

Se os que em algama mina tiverem repartição tem poeto 
seus maroos e balizas na parte e lugar por onde a beta não 
corre e vierem outros depois a registrar a mesma beta demar-* 
cando-a e abalizando-^ por onde na verdade corre e descobrirem 
a acharem nelia metal serão preíTeridos aos primeiros a que 
as minas forão dadas não sendo elies os descobridores prinsi- 
pais por quanto estes por rezão de seu privilegio podem tomar 
a demarcar e balizar suas miacusasy o prinsipal de oitenta varas 
como a sobre saltada de sesenta na parte e lugar por onde a 
beta realmente corre e o mesmo poderá fazer qualquer outro 
que descobrir bota dentro da distancia de logoa o meia a que 
se dará somente huma mina do sesenta varas como fica 
dito. 

E porque das minas se não lavrarem nem estarem povoa- 
das se seguira muito prejuízo a minha fazenda e dano a meus 
vassallos ordeno e mando que se nãa dem senão a pessoas que 
as hfigão de povoar e beneficiar as quais não as lavrando den- 
tro de sincoenta dias depois de serem registadas se haverão as 
ditas minas por perdidas e despovoadas e o mesmo se guardara 
com os descobridores se dentro do dito termo depois de regis- 
tadas minas não beneficiarem o para se ter huma mina por 
povoada andarão nella contino dois escravos ou quatro traba- 
lhadores ou por o dono dz mina ser pobre andara continua- 
mente no dito trabalho. 

Se algua pessoa pedir mina como despovoada e vaga por 
serem passados os sincoenta dias sem nella se ftizer beneficio 
algum o Provedor sitada o parte es^«ando em lugar certo onde 
possa ser ou por éditos de trinta dias sendo auzente sem se saber 
delle ouvira o que cada um hum alegar por sy e tomara emfor- 
maçãodo estado em que a dita mina estiver e da causa porque 
esta despovoada de que mand ira fo,zer autos em que pronunciar 
o que conforme a este Regimento com justiça lhe parecer tendo 
particular advertência em que não aja nisto conluio nem se 
tome a mina por vaga do que a tem sem para isso aver causa 
muy bastante e de sua pronunoiação poderão as partes appeiar 
ou aggravítíP, 



REGIMBNTO A SALVADOR CORRÊA 209 

O que provido de mina por rezão do se aver por vaga e des- 
povoada será obrigo dentro de três meses abrir nella altura 
de seis bragas e estando ja aberta em a mesma altura doseis 
braças abrira outras seis mais ao fundo sob pena de se perder a 
dita mina e se dar por vaga a quem a pedir. 

E porque podeaoontesser que o que tem Registado a mina 
e demarcada a nfto poderá lavrar no tempo atras deolarado 
por ÍUta de ferramenta ou de alga*» outra causa para isso ne. 
cessaria o dito Provedor lhe poderá reíbrmar o tempo que lhe 
parecer com respeito da qualidade e possibilidade da pessoa 
não entrevindo nisso malida ou animo de dilatar. 

Tendo huma pessoa duas minas em diversas partes e dis- 
tancia de legoa e meia será obrigado a lavralas ambas sob pena 
de se lhe poderem tomar por despovoadas ou aquella que não 
lavrar salvo se huma for Rica e a outra pobre porque em tal 
caso tendo povoada a mina Rica não se lhe poderá tomwr o pobre 
do metal. 

Tendo duas ou mais pessoas alguma mioa misticamente ou 
por partir qualquer delias que a lavrar será insto &sollo 
em nome de todos para que se não possa pedir por despovoada. 

E porque o melhor lavor das minas he ouro e prata quando 
as betas são fixas e ítmdas e nãose lavrarem nem cavarem a 
pique senão em traves por ser assy a obra mais forte e mais 
segura para as que nella trabalharem poderem chagar melhor 
ao metal como a experiência tem mostrado em muitas partes do 
Peru e nova espanha trabalharão quanto for possível os que 
lavrarem minas de as abrirem só cavando as por baixo em 
traves pêra o que poderão comessar a boca da tal socava donde 
melhor lhes parecer ainda que seja longe das suas minas e 
qualquer dono de mina descoberta será obrigado a dar entrada 
ao da mina que estiver por cavar por tempo de sincoenta dias 
que poderão bastar para pela dita socava se abrir hum poço 
por bnde a dita mina se possa servir. 

E antes de se comessar a socava se pedira ao provedor que 
aslnale e demarque o caminho direito por onde se a de abrir 
ató a mina e quando se delle trosser em prejuízo dalgum o 
Provedor fará que a socava corra direita e que se satisfaça o 
dano a pessoa que o Recebeo e entretanto que se trabalhar na 

491 — 14 Tomo lx« p. i- 



210 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

socava para chegar a mina não se poderá pedir nem tomar por 
despoToada a dita mina continoandoBse porem sempre na obra 
da dita socava sem entre vir nisso malicia nem simalaçam. 

O que nas quadras das saas minas acliar algumas bettas 
ou lUmos delias podelo ba seguir o lavrar e ter por suas assj 
como a mina principal a que vay derlgido pella dita socava po- 
rem Hâo poderá nas ditas bettas que ass/ descobrir lavrar mais 
em larga nem em comprido que o que se contem na sua demar- 
cado e quadra. 

E sendo casso que buscandoese em a socava a mina e betta 
principal se achem no caminho outras bettas princlpaes a que 
assy as descobrir terá tanta parte nellas quanta paresser que 
tem a betta a que vay deregido sem embargo de atras ficar 
declarado que dentro de legoa e mea não possa hua pessoa ter 
moitas minas o que não haverá lagar quando a beta que se 
achar for já descoberta e Registrada ou alguma mina lavrada 
porque então passa adiante com a socava deixando o metal ao 
senhorio da ditta betta sem fazer maior caminho assy de alto 
como de largo do que leva com a socava e avendo sobre isso 
alguma duvida o Provedor vera tido com algumas pessoas pra- 
ticas e entendidas e a determinara oomo lhe paresser justiça. 

O Provedor asinara e demarcara a quadra e largura que 
ha de levar a socana porque por ella se não possa abrir outra 
sem pediremse huns aos outros querendo porem lavrar algua a 
sua mina pella socava alhea será obrigada a lhe dar a quarta 
parte do metal que tirar sem dolla descontar custo algum. 

Ao que descobrir em quebrada seca ou com agoa se lhe 
dará hnma mina como descobridor de sesenta varas em com- 
prida o aos mais que vierem pedir se lhe darão de quarenta 
varas susesl vãmente pella ordem que as pedirem. E porque nas 
minas que se abrem em quebradas Regatos ou Rios caudais ordi- 
nário he darse por quebrada tudo o que banha a agoa quo 
nas quebradas he pouco Hey por bem que nellas se de de largo 
as minas sois varas de cada parte pondo huma estaca ou baliza 
no meio do Rio da agoa donde comessara a dita medida para 
cada huma das partes. 

O que descobrir mina ou Regato a tomara iior descobridor 
de sesBQuta varas de comprido e o quo banhar o Regato em 



tlEGIMENTO A SALVADOR CORRÊA 211 

largo e poderaeha alargar pella vargea em campo seis varas 
pella parte que quizer para por ahy enxugar e despejar a agoa 
o qual despejo fará primeiro que tudo com a obra fixa e segara 
buscando metal na sua mina ate chegar a pedra e não a fa- 
zendo assy não poderá ter as ditas seis varas e quem quizer 
lhas poderá tomar e o dito descobridor será obrigado a dar 
minas e demarcar com quem lhas pedir as quaes serão de sin- 
coenta varas em comprido e da mesma medida serâo as minas 
sobresaltadas. 

Se descobrir ouro em Rio caudal poderá o descobridor to- 
mar huma mina de oitenta varas e aos mais se darão de se- 
tenta varas e averão mais seis varas de largo para beneficio e 
fabrico década mina, 

O que descobrir ouro em vargeas, campos, seiTas, oiteiros, 
fontes. Rios, quebradas o Regatos poderá tomar huma mina o 
descobridor de trinta varas em quadra e os que depois pedirem 
Repartição se dará mina de viate varas e cada hum e a estas 
minas chamão menores e sendo curta a terra em que estas 
minas se acharem o Provedor fiiça nellas repartição com demi* 
nuição da medida conforme a gente que para ellas ouver para 
que todos ajão sua parte e quinhão e o descobridor poderá so- 
mente gosar da mina sobresaltada. 

E porque nestas minas menores se evite os inconvenientes 
de os mineiros dizerem cada ora que fazem novos descobrimen- 
tos Hey por bem e mando que feito hum se não admita outro 
de nenhuma parte da quebrada Rio ou campo onde se descobrir 
dentro de meia legoa. . 

O entulho e matto que se tirar e cortar para se lavrar as 
minas se lansara em parte donde a corrente da agoa em que a 
mina se lavra o não possão levar nem empedir o lavor e sem- 
pre será dentro de quadra da mina de quem o tirar e avendo 
nas ilhargas outras minas que o defendão farsea repairos de 
terra e Rama que R ecolham o sustentem o dito entalho em 
modo que a corrente da agoa a não possa levar e avendo entre 
as partes sobre isso algumas duvidas o Provedor tomando o 
pareser de pessoas entendidas e praticas as determinara. 

Qualquer pessoa que buscar ouro em quebrada, Regato, Rio 
caudal ou qualquer outra parte seguira a busca até dar na 



212 RBVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

pedra porque de senão fazerem assy se siguíra não se desoo- 
brir muitas vozes o ouro qae ss asenta na pedra e carando ate 
chegar a ella se entendera que foi abjuacado e se escusara tra- 
balhar se aiy mais em vão. 

Nenhuma pessoa poderá tomar mina para lavrar en nome 
do outrem nem como seu procurador e só o poderá fazer sendo 
criado ou salariado para a lavrar em nome de quem a tiver 
c quem ílzer o contrario perdera o direito que na dita 
mina tiver e pagara sinooeota cruzados para aocuzador e 
capptivos. 

E para que as minas possão ser melhor beneficiadas o apro* 
veitadas e se fazerem engenhos, cazas, asentos e mais couzas 
necessárias os senhorios delias se poderão aproveitar de todas 
as madeiras campos e Rossios de que se logriLo e uzão os mora- 
dores da vi lia ou lugar em cujo limite estiverem sendo os tais 
campos comuns e do conselho e não de Particulares e assy pode* 
rão trazer nas defezas prados e campos públicos que estiveram 
por todos asentos das minas todas as bestas gados que servirem 
e forem necessários para beneficio delias e sendo em defezas par- 
ticulares pagarão aos donos delias o pasto que se estimar e 
avaliar sem lho poderem empedir e vedar. 

B pello grande prejuízo que se seguira a se empedir o 
lavor das minas Hey por bem que os donos delias não possão 
ser presos por dividem emquanto uellas trabalharem nem penho- 
rados nos escravos, ferramentas, mantimentos o mais pretextos 
que para lavor e beneficio delias forem necessários e as justiças 
a qu(^ p3r tecer farão que pagem elles suas dividas com o pro- 
cedido e ganho quctivereni das ditas minas. 

O Provedor terá particular cuidado de as vizitar as mais 
vezes que poder ser com o seu escrivão para ver se estão lim- 
pas e seguras e comessadas forttes se se lavrão sem prejuízo 
de outras minas dos vezinhos e se se guardão nelias todo o oon- 
theudo nesse Regimento paressendo lho necessário levar com* 
sigo mala alguma pessoa pratica e entendida nesta matéria e 
poderá fazer e não consentira aver nas ditas minas gente ostosa 
e vadias e obrigara aos que andarem nelias para trabalhar que 
comeífeito o facão e de outra maneira não as consentirá estarem 
nellos. 



REGIMENTO A SALVADOR CORRÊA 213 

O Provedor thesoureiro e escrivão e quaisquer outros 
officiais que forem das ditas minas não poderão ter parte nem 
companhia nellas nem tratarão com metal algum por sy nem 
por outrem sob penna de perdimento de sua fazenda e privação 
de seus officios e na mesma penna de perda de sua fazenda 
eneorrerão os que lhe derem parte ou tiverem companhia e 
huns e outros serão wibarcados para o Reino e não poderão 
tomar mais as ditas partes. 

O Governador do dito Estado com parecer do Provedor 
mor da fazenda e Provedor das minas o dos mestres da fundição 
mandará fazer huma caza a custa do minha fazenda 
no lugar que parecer mais acommodado assy por rezão do sitio 
como de agoa e lenha para a fundição o qual vira todo o metal 
de ouro e prata que das minas se tirar para nella se fundir e 
tanto que entrar na dita caza se pezara perante o Provedor 
thesoureiro e escrivão de que se fará acento em livro e depois 
que for fimdldo e apurado se Registara ao pe do dito asento e se 
marcara todo com as Minhas Armas Reais deste Reino e se fará 
conta do que pertence a minha íleizenda pello quinto que a ella 
se deve o qual se pagara logo no mesmo metal que se fundir e 
se carregara em receita em ham livro que para isso haverá sobre 
o thesoareiro pello escrivão do Provedor que Hcy por bem que 
sirva tambemoom o dito thesoureiro emquanto eu não mandar o 
contrario e se meterá em huma arca de três chaves das quais 
terá huma o thesoureiro e outra ao escrivão e a terceira o Prove- 
dor e sem estarem todos três prezentes se nãapoderaa dita Arca 
abrir nem fechar e dentro delia estará a marca de minhas armas 
com que todo o ouro e prata se a de marcar donde se não 
tirara nem metera sem estarem prezentes todos os sobreditos 
três officiais. 

Os donos das minas podei^ ter suas marcas particulares 
para marcarem o metal que lhes pertencer alem da marca que 
a de ter das minhas armas como esta dito e por conta delles 
farão todas as despegas que se fizerem na fundição do metal. 

E nenhuma pessoa de qualquer sorte e condição que seja 
poderá ter fora da caza da ftmdição vender, trazer, doar nem 
embarcar para qualquer outra parte nietal algum de ouro e 
prata que das ditas minas so tirar sem ser marcado com as 



214 REVISTA DO INSTITUTO HISTORICX) 

ditas minhaa armas da maneira assima declarada sob peaa de 
morte o do perdi mento de sua fazenda as duas partes para 
minha camará Real e a terça pà.rte para o aouzador. 

Achandosse algum metal do ouro ou prata fora da caza 
da fundição ou dentro nelia sem se lhe saber dono certo será 
entregue ao thesoureiro e se lhe fará delle Receita por depozito 
com todas as declarações necessárias e que com o thesourciro 
asinara o Provedor para a todo o tempo se saber o que he e 
se entregar a quem pertencer o a justiça mandar. 

Terá o Provedor muita adrertencia em nâo consentir que 
na caza da fundição entrem pessoas de sospeita e desnecessá- 
rias nem que delia se tire fazenda alguma sem sua licença 
para ver se tudo ostá na forma devida e ordenara que nisto aja 
muita vigia e para esse effeito e para as mais diligencias que 
forem necessárias em couzas tocantes as ditas, minas Hey por 
bem que haja hum meirinho e três guardas a que o Provedor 
dará ordem do que hão de fazer os qnais haverão de ser orde- 
nado o que por outra provisão minha serã declarado. 

Todas as duvidas que se moverem entre quaisquer partes 
sobre as ditas minas ou couzas tocantes a ellas o Provedor as 
determinara summariamente indo pessoalmente ver as couzas 
sobre que forem as contendas nas quais lera alçada ate quantia 
de sesenta mil rs. e passando delia para appellaçao e aggravo 
para o provedor mor de minha fazenda do dito estado e porem 
so a cauza for tal que impida ou possa impidir o lavor das 
minas o dito Provedor para cumprir sua sentença sem em- 
bargo de se ter apellado delia dando a parte em cujo favor for 
dada fiança a tomar ou pagar tudo o em que a outra for me- 
lhorada o nas contendas que não forem desta calidade se sobes* 
tara até no cazo da appellaçao se dar anal determinação na 
mor Alçada. 

E porque convém muito a meu servisse hir se me dando 
particular informação do descobrimento e lavor que se flzer 
nas ditas minas e do proveito que delias se rezulta a minha 
fazenda e aos descobridores delias encomendo e mando ao dito 
Provedor que em cada hum anno ftiça fazer huma folha muito 
distinta o declarada de tudo o que no tal anno for descoberto 
nas minas e de todo o ouro e prata que delias se tirou e levçu 



REGIMENTO A SALVADOR CORRÊA 215 

a caza da fundição e qae' ficou em limpo depois de fundido e 
quanto importou o que delie pertenceo a minha fazenda e quanto 
as partes a qual folha será feita pello dito escrivão e assignada 
pello Provedor e thesourolro e se a experiência do tempo for 
mostrando que ha algumas couzas e que se deve prover assy 
em mudar ou declarar as conthendas neste Regimento como 
em acrescentar outras do novo o dito Provedor me avizara 
delias para eu mandar o que ou ver por men servisse. 

E porque atras neste Regimento se trata somente das 
minas de ouro e prata sendo cazo que nas ditas partes se achem 
algumas de que se tire cobre nelias haverá lugar o qae nelle 
se contem com declaração que as pessoas que o tirarem serão 
obrigadas a venderem a minha fazenda todo o que lhes ficar 
depois de pagarem o quinto pelo preço que comumente valer e 
avendo pescaria do pérolas quaisquer pessoas o poderão fazer 
tendo para isso licença do dito provedor das quais pagarão o 
quinto a minha fazenda e avendo eu por bem que as ditas pé- 
rolas se tomem porá mi serão as partes obrigadas a vendellas 
pello preço que vallerem a dinheiro ou por desconto dos di- 
reitos deoutfas pérolas que pescarem. 

Terá o governador Muito Particular cuidado de saber se o 
Provedor das minas thesoureiro e escrivão e quaisquer outros 
officiaes delias cumprem com as obrigações de seus cargos e 
ílEkzem nelles o que devem e achando que o não fazem assy pro- 
cedera contra os culpados como for justiça e me avizara iavian- 
do*me os treslados de suas culpas. 

E Mando ao dito Governador e a todos os offlciais das ditas 
partes do Brazil assy da justiça como da fazenda que cumprâo e 
guardem e fazam inteiramente cumprir e guardar este Regi- 
mento o qual farão publicar nos lugares públicos delias para 
que venha a noticia de todos e se Registara nos livros das co- 
marcas das cappitanias e assy se Registara nos livros do meu 
Conselho Ultramarino e Hey por bem que valha tenha força e 
vigor como se fosse carta feita em meu nome por mim asina- 
da e passada pella Ghancellaria posto que por olla não passe 
sem enbargo das ordenaçõis que o contrario dispõem Manoel 
Roiz o fez em Valhadolid a quinze dagosto de mil e seissentos 
e três E cu o secretario Luis de Figueiredo o fis escrever. 



216 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

E este Regimento se oumpriri tão inteiramente como 
nelie se contem sem davida nem contradição algaa. Pasohoal 
dAzeyedo o fez em Lisboa a z de Jnnho Bj"^ R i i i j. £ eu o 
secretario António de Barros Caminha o íiz escreyer — Ray. 



NOTICIAS 



QUE DÁ AO P. M.* DIOOO SOARES O ALFERES JOSÉ PEIXOTO 

DA SILVA BRAOA DO QUE PASSOU DA PRIMEIRA 

BANDEIRA, QUE ENTROU AO DESCOBRIldENTO 

DAS MINAS DOS GUAYASES ATÉ SAHIR DA CIDADE 

DE BELÉM DO ORÃO-PARÂ 



(Bib. Pub. Eboren$e — Cod. CV,) 



Os documentos que se seguem até a pagina 909 constituem a 
preciosa colleccão denominada de Diogo Soares. Consta do roteiros 
de bandeirantes e sertanistas, recolhidos por aquolle opToso sacer- 
dote da Companhia do Jesus, Como é sabido. Soares o Domingos 
Cappací, também da Companhia de Jesus, vieram aoBrazil cm vir- 
tude do Alvará do 18 de Novembro de 1739 com a missão de demar- 
car terras, levantar plantas o proceder a trabalhos astronómicos, 
etc. Para tal íira o Rei D, João V determinou aos diversos Gover- 
nadores das Capitanias dessoui-lhes todo o apoio. Os referidos 
documentos foram copiados por Varnhagen nos Archivos de Portu* 
gal c a Revista os publica na ordem do Códice existente no Archivo 
do Instituto. 

{Xota da Com missão de Redacção, ) 



NOTICIA — !.• PRATICA 



Que dá ao P. M®. Diogo Soares o Alferes José Peixoto da Silva 
Braga, do que passou na Primeira Bandeira, que entrou ao 
doBcobrimento das Minas do Guayses até sahir na Cidade de 
Belem do Grâo-Par&. 



Sahi da Cidade de S. Paulo a três de Julho de 1723 em 
companhia do Capitão Bartholomeu Bueno da Silva, o Anhan- 
guera de alcunha, que era o cabo da Tropa com 39 cavallos, 
dois Religiosos Bentos, Fr, António da Conceição, e Frei Luiz 
de SanfAnna, um Franciscano Fr. Cusme de Santo André, e 152 
armas, entre as quaes ião também 20 Índios, que o Sr. Rodrigo 
Cezar, General que então era de S. Paulo deu ao cabo Bar- 
tholomeu Bueno, para a conducção das cargas e necessário. 
Doa brancos quasi todos erão filhos de Portugal, um da Bahia, 
e cinco ou aeis Paulistas com os seus índios, e negros c todos á 
Bua custa. 

2.— Passado o Rio Theató fomos pousar neste dia junto ao 
matto do Jundiahy, quatro legoas distante da Cidade de 
S. Paulo ; na manhaã seguinte entramos no Matto, e gastámos 
nelle quatro dias. Sabidos do Matto passámos o Rio Mogy, 
que he rio de canoa, e muito peixe tem, e dá mostras de ouro, 
mas com pouca conta ; aqui falhamos um dia, e no seguinte, 
marchando sempre ao Norte, demos com um rio também de 

Canoa, a que posemos o nome 

e nelle pousamos esta noite. E' o caminlio todo campo 
com alguns capões de mattos, bons pastos e bastantes 
agoadas. 

3.— No dia seguinte passamos o rio em um váo com agoa 
pelos peitos, e fomos pousar no meio do campo distanoia de 
três para quatro legoas ; 6 todo bom caminho, bons pastos, 
• muita caça, e tem alguns Córregos com bastante peixe. 



220 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Desbe ponto fomos dormir distancia de quatro legoas Janto a 
um Córrego, que entra como os mais do Rio Qrande. Daqui 
passámos no outro dia a fazer pouso nas margens de um riacho, 
que passámos na manhaã seguinte encostados a uns p&os, 
e presos com uns cipós para vencermos a muita violência 
e grande força d*agoa, com que corria. Neste pouso falhámos 
um dia, sendo a causa o requerer toda a Tropa a Anhanguera, 
lhe âzesse a resenha que lhe tinha promettido antes fazer 
em Mogy, e a que tinha já faltado, flsousou-se este com a 
promessa, de que em chegando o Capitão João Leite da Silva 
Ortiz, seu Genro, que nos tinha ficado atraz, e era o oulro 
descobridor, a faria, e caso, que este não chegasse a tempo 
competente, a fsiria elle cabo no Rio Grande. 

4.— Com esta esperança marchou toda a Tropa, sete dias ou 
oito dias, sempre por campos, e mattos grossos, e pousando 
sempre á beira de Córregos, e rios : não faltou em todos elles 
caga e peixe. Deste ultimo pouso fomos ao Rio Grande, 
passamo-lo em canoas feitas de páos de samauma depois de 
dormirmos; e falharmos nelle dois dias, esperando se nos 
fizesse a resenha promettida, mas faltou como sempre, o Anhan- 
guera. Partio deste sitio toda a Tropa ainda junta, mas já 
desconfiada, e foi dormir distancia de quatro legoas junto a 
um Córrego, que desagoa no Rio Grande. Aqui nos começou 
a faltar o mantimento, e assim nos foi preciso marchar cinco 
dias passando com o que dava a espingarda, pássaros, macacos, 
palmitos, e algum mel. 

5.— No fim destes cinco dias chegámos ao rio das Yelhas,que 
entra no Rio Grande, é caudeloso, tem bastante peixe, mas sem 
mostras de ouro. Falhámos nelle dois dias, pescando, e 
caçando por ter bons mattos, e para provimento da viagem. 
Aqui nos deixou o Anhanguera adiantando-se com parte de 
tropa, ficando a mais expedindo-se para o seguir. Neste tempo 
e ausente já o cabo, chegou João Leite com a sua gente, por 
cuga causa fiilh&mos mais esse dia. No seguinte seguimos com 
João Leite ao Anhanguera, e depois de quatro dias de marcha 
o achámos oom ranchos feito entre o matto, passámos do ca- 
minho alguns córregos, que nos permittit^o o vadealos por 
3er tempo de seca* 



NOTICIA — 1.* PRATICA 221 

6.— Avistada a Tropa com o cabo lhe pedio João Leite, 
que fizesse a resenha promettida taatas vezes não só em 
8. Paulo, mas no Certão, porque avia desconfiada, e temia se 
malojiri^a-âse por esta causa a empreza que ambos tinhão offe- 
recido não 86 ao General Rodrigo Gezar, mas ao mesmo 
Soberano. Respondeu-lhes que a resenha era escusada, porqua 
os Amboabas, assim phamão aos Reynoes, não era gente que 
lho merecesse. Com esta resposta desconfiados não só os 
Amboabas, mas ainda os poucos Paulistas, que nos acompa^ 
nhavão, determinarão voltar-se logo para S. Paulo, mas 
aòudindo a isto João Leite, os obrigou oom rogos, e com 
promessas, e muito mais com o seu natural agrado, a que o 
não desamparassem. 

7.~Reduzida a Tropa se poz em marcha depois de quinze 
dias do falhas, que se gastaram nestas desordens, como também 
em fazer algum provimento do que permettia o matto, e como 
este não era muito, nem todos tinhão quem lhe caçasse, 
obrigou a alguns a matarem, e comerem um cavallo que tinha 
quebrado uma perna, e eu fui um dos que nos aproveitamos 
delia. Aqui quisemos falhar mais alguns dias por entrarem 
Já as agoas, e temer-mos não só os rios, e córregos, mas a 
falta de mattos, e com ella o necessário, e preciso para o sus* 
tento. Resolveu porem o cabo a marchar em ódio dos Am- 
boabas de quem era o voto. Seguio a tropa, e fomos dormir 
nesse dia Junto de um córrego, que tinha algum peixe com 
melhores pastos, e bastante matto. Aqui desconfiámos de todo 
persuadidos, que o Anhanguera, nos queria acabar no meio 
daquelles mattos, e alguns houve que se resolvião a ficar, 
lançando rossas, e plantando alguns poucos pratos de milho, 
que tinhão ainda para o seu sustento : mas o Capitão JdU) 
Leite, os tornou de novo a animar, o reduzir a que passassem 
avante como passai^. 

8.— Passados alguns dias de marchas, e nelles alguns rios, 
e Córregos com assaz tmbalho, e perigo, por serem as agoas 
muitas, e maior a fome, nos fomos arranchar perto da meia 
ponte. £* a Meia Ponte um rio caudeloso, tem bastante peixe, 
bons pastos e muito matto. Passado este rio em umas pe- 
quenas Canoas, que fizemos de cascas de arvores, fomos dormir 



222 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

na outra banda do rio» que nos hospedou toda a noite com 
uma formosa trovoada, que durou até a manhaã seguinte com 
tanta agoa, que não nos deu logar a podermos faser ranchos, 
e por isso me vaii de uma tolda, que tinha comigo. Da Meia 
Ponte distancia de dois dias de viagem se deixou flcar Fr. An* 
tonio com animo de lançar rossa com des negros, um sea 
sobrinho, e um mulato, com outro branco Paulista* que com» 
sigo tinha. Sen tio toda a Tropa naquella noite a falta do 
dito Religioso, deu-se parte ao Anhanguera, mandoa-o este 
persuadir a que voltasse e marchasse adiante, como faiiSo 
os mais. Mas teve por resposta vista que, a falsidade que S. M"**. 
tinha asado com todos, faltando a tudo, o que lhes tinha pro- 
mettido em S. Paulo, lhe nâo era possível o pode-lo acom- 
panhar, que elle determinava plantar algum milho, com que 
se podasse recolher a Povoado. 

9. ^Desenganado o Anhanguera, marchou com a mais tropa 
e julgando, que indo sempre ao Norte, como até ali tinha feito, 
lhe ficavam jáatraz oa.Guayazes, que procurava, mudou de 
rumo, e seguio a Nordeste 4'' do Norte. 

Passar&o de cento e tantas léguas, as que andamos a este 
rumo sem mais sustento, que o que dava o matto, e esse 
pouco. Nestes dias lhe fugirão ao cabo oito Índios dos seus» 
publicando primeiro todos, que iamoe errados, porque os Quaya- 
zes nos flcavfto já atraz. Destes índios forão apanhados depois 
de alguns dias só três, que trouxe presos João Leite, que se 
expedio a buscal-os com dois negros e quatro brancos : trouxe 
também nesta volta comsigo a Frei António, que nos ficava 
distante perto de oitenta iegoas : mas ainda que veio Frei An- 
tónio, nem por isso desamparou a sua rossa, porque deixou 
nella o sobrinho comquasi todos os negros. Nesta occasiio de- 
mos em uSs grandes chapadas íkltas de todo o neceesario, sem 
mattos, nemmantimentoB, só sim com bastantes córregos, em 
que havia algum peixe, dourados, trayras, e upiabas, que forão 
todo o nosso remédio, achamos também algum palmito, do que 
chamão jaguaroba, que comíamos assado, e ainda que é amar* 
goeo sustenta mais, que os mais. 

Aqui nos começou agente a desfliillecer de todo: morreriLo* 
nos quarenta e tantas pessoas entre brancos e negros, ao 



NOTICIA — 1.* PRATICA 223 

desamparo, e o eu ficar oom vida o devo ao meu cavallo, que 
para me montar nelle pela nimia ík^aqueza» em que me achara, 
me era preciso o lauçar^me primeiro nelle de braços leTantado 
sobre o primeiro copim que encontrava. 

10.-*Vendo-se o Cabo nessa miséria, e temendo a falta, e 
mortandade de gente, e muito mais considerando o erro que 
tinha dado no rumo que entfto seguia, se valeu do Ceo, e foi a 
primeira vez que o vi lembrar-^ de Deos, promettendo, 6 
fazendo varias novenas a Santo António para que nos deparasse 
algum gentio, que conquistado, nos valêssemos dos mantimen- 
tos que lhe achássemos, para remédio da fome, que padecia* 
mos. Passados quinze dias com bastante moléstia, e trabalho, 
demos em uma picada nos mesmos campos, seguimol-a nove 
dias, achando nella alguns ranchos feitos de pâu e ramo8« 
com alguns grSíosde milho, já nascidos: no fim destes nove diaâ 
chegamos a uma Serra, cujas vertentes desagoão para o Norte, 
e lançando adiante quatro índias a farejar o gentio os seguimos 
ires dias de viagem. Éramos só dezeseis com o Cabo, porque a 
mais tropa, e bagagem a deixamos atraz oom os doentes. 

Na noite do terceiro dia avistámos as rancharias do Gentio, 
e seus fogos : embosoamo-nos no matto para lhe dar-mos na 
madrugada, mas sendo sentidos dos cachorros, que tinhfto mui« 
tos, e bons, quando os avançámos, nos receberam com os seus 
arcos e frechas. 

11.— Náo demos um só tiro por o*rdem d o Cabo, de que 
resultou o fugir-nos quasl todo o gentio, o envestif um deiles 
ao sobrinho do Cabo com tal animo, que lançando^ihe a mão á 
rédea do oavailo lhe tirou a espingarda da máo, e da cinta o 
traçado, e dando-lhe com ella um famoso golpe em um dos 
hombros, e outro no braço esquerdo, fngio levando-lhe comsigo 
as armas. Desembaraçado do Tapuia o Paulista correu sobre 
elle sem mais effeito, que recuperar a espingarda que lhe 
largou o Tapuia, retirando-se oom o traçado. 

Nesta mesma occasiáo outro Tapuia em uma das suas por- 
tas ferio levemente no peito com uma ft!echa a um Francisco 
Carvalho de Lordelo, e acodindo outro lhe deu na cabeça oom 
um porrete de que cahlo logo, eahindo*lhe dou outra porretada 
outro Tapuia, que appareceu denovo, deixando-o já por morto. 



224 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

E* para admirar, que em todo este oonâicto nSo fizeasè 
ao(^ alguma mais o noaso Cabo, que o andar sempre ao longe, 
gritando, e requerendo-nos, que atirássemos só ao vento por 
não atemorisar o gentio. 

Foi Deus servido levar-mos os ranchos chovendo sobre nós 
as fireohas, e os porretes. 

12.— Retirario-se para o matto os Tapuias, mas sem nunca 
no8 perderem de vista, e tanto, que querendo darmos sepul- 
tura ao Carvalho persuadidos, a que estaria morto, procuraram 
em duas avançadas que nos derâo, o tira-lo e oomô-lo, e ven- 
do-se rebatidos nos pedirão por acenos lhe déssemos ao menos 
a metade para a comerem, por ser diversa a língua da geral. 
Retirado o dito Francisco de Carvalho, o achamos com a boca, 
narizes, e feridas cheias de bichos, mas vendo que lhe palpitava 
ainda o coragfto, e que tinha outros mais signaes de vida, o 
recolhemos na rancharia, curando-lhe as feridas com ourina, e 
ftimo, e sangrando-o com a ponta de uma faca, por não termos 
melhor lanceta : aproveitou tanto a cura, que o Carvalho pela 
noite tornou em si, abrio os olhos, mas não pôde ftillar, senão 
no dia seguinte : o regimento que teve, não passou d'um 
pouco de angu, e algumas batatas, das que achámos nas ran« 
charlas. 

13.— Em todo esse tempo nos não deixou o gentio, perse- 
guindo-no8 os negros, que nos ião conduzir algumas batatas de 
vinte e cinco batataes que tinhio grandes, e exoellentes no 
gosto : destes negros nos mataram um, e um cavallo, o que 
visto pelo Cabo se fez forte em um dos ranchos, que lhe pare- 
ceu melhor, mandando recolher todo o milho, que se achou, a 
um payol, a que poz guardas, como o fez também a sete ín- 
dios, que cativámos, mandando-lhe lançar a todoe suas corren- 
tes, ezcetuando um indio torto, também cativo, a que ao depois 
deu liberdade. Recolhido no seu rancho o Anhanguera mandou 
logo buscar os doentes, e mais bagagem. 

Neste tempo se tinha humauisado Já mais o gentio, busoan- 
do-nos, e servindo-nos sem arco e frecha, e admirando moito as 
nossas armas. Oífereoerão-nos paus, trazendo-nosem um destes 
dias dezeseís india^ ainda moças, muito claras e bem feitas, 
Aio éramos mais os brancos, em slgaal de amizade. Repugnou 



NOTiaA — 1.* PRATICA 225 

O Cabo a aceita-las, contradizendo todos os mais companheiros, 
c eu fai o que mais o persuadia a aceita-las, dizendo-lhe, que 
na consideração de sermos tão poucos, e estes fracos, e mortos 
de fome, e muito o gentio o não esoandalisassemos, e que postas 
em guarda as ditas índias com as mais, que se achavão já prezas, 
podíamos facilmente cathequisar a todo o mais gentio, não só a 
ajuste das pazes, mas a darem-nos alguns, que nos ensinassem 
o verdadeiro caminho dos Quayases. Mas a nada disto se mo- 
yen o Anhanguera com a ambição de querer para si todo o 
gentio, motivo, porque escusou sempre a resenha, e porquê 
desconfiado o gentio desapareceu logo no outro dia : temeroso, 
que ao entrar nova ^ente nas rancharias, erão os doentes, 
e bagagens, os queríamos matar para os comermos a todos; 
assim no-lo certiâcarão as índias, que se achavão entre nós. 
Desesperado o Cabo com a ausência do Gentio, largou o torto 
com algumas iácas, tesouras, e outras galanterias, para que as 
persuadisse a voltar, mas o torto foi, e nunca mais o vimos. 

14— Chama-se este Gentio Quirizá, vive aldeiado, usa de 
arco, frecha, e porrete, é muito claro, e bem feito; anda todo nu, 
assim homens como mulheres. Tinhão 19 ranchos todos re« 
doudos, bastantemente altos, e coberto de palmito, com. uns 
buracos juntos ao chão em logar do portas ; em cada um destes 
vivião 20 e 30. cazaes juntos, as camas erão uns cestos de bu- 
ritis, que lhes servião de colchão, e cobertor ; erão pouco mais 
de 600 almas; estava situada toda esta aldeia, junto d*um 
grande córrego com bastante peixe, e bom:— no 2<> dia, que 
marchamos a busca-la, encontrámos um rio caudaloso, em que 
havia muito peixes cayjus, palmito, e muita e grande caça^ 
que nos sérvio de muito. Nesta aldeia achamos 200 mãos de 
milho, vinte e cinco batataes, muitas araras, e também alguns 
periquitos, que nos servião de sustento, e de regalo : tinhão 
também bastante copia de cabaços, e panelas, e uma grande 
multidão de cães, que matarão quando fugirão, e se retiram de 
todo, só afim de não serem sentidos das nossas armas, como 
experimantámos depois nas Bandeiras, que se lançaram-a 
espia-los . 

15— Aqui nos detivemos três mezes sem nelles nos dá o cabo 
milho nenhum* reservando-K) todo para si só, e para a sua 
491 — 15 Tomo lxix p. i. 



226 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

comitiva, desculpando esta sua tiraunia com dizer-Dos lhe era 
preciso para as Bandeiras, que havia de lançar, mas supposto 
lançou duas, nem por isso foi muito o milho, de que os proveu ; 
não faltou este, nem farinhas aos seus cavallos, e a sua comi- 
tiva. Bu só tive a fortuna de me darem 17 espigas, e se tive 
mais algum milho o devo ao trabalho, c perigo, com que o 
recolhi das rossas, quo tinha deixado, o gentio de reAigo ; 
assim o íizerão todos os mais não se isentando do mesmo tra- 
balho ainda os religiosos, porque se o quiaerão, o carregarão, 
e tirarâo por suas próprias mãos, escoltados sempre de outros 
por medo do gentio. Antes do nos ausentarmos nos fugiram 
quatro doa índios, que o Cabo tinha prezas, e nuuca mais so 
virão. 

16— Na demora que azemos n^sta aldeia, vendo toda a Tropa 
que o Cabo sobre faltar a resenha tantas vezes promettida. 
tinha a culpa de perdermos o gentio, se amotinou, e tanto que 
se resolveram dois bastardos e um mulato Mamaluco com alguns 
Paulistas a querer-lhe tirar a vida, e levantar a seu irmão 
Simão Bneno por cabo, por ser de melhor, e mais dócil con- 
dição. Eu que soubo a sua resolução, não obstante o não mo 
merecer o Anhanguera, fiz todo o possível pelos dissuadir de 
aimilhante intento, insinuando -lhe o muito que devião a João - 
Leite. Dissuadidos os Bastardos, e seus sequazes, seguimos 
viagem costeando o córrego da ranoharia, ou aldeia, ató dar-mos 
em um rio, que fomos costeando também pela parte do norte 
a buscar nuvo gentio, que nos podesse ensinar o caminho dos 
Gnayases. Nestas marchas gastámos 76 dias, andando dois delles 
sem achar agoa, de sorte, que quando chegámos ás margens 
d*um rio, foi tal a alegria em nós, que cobrámos nova 
alma, e tanto, que nem os cavallos havia que os tirasse da agoa 
por mais pancadas que para isso lhe da vão. Aqui falhámos 12 
ou 15 dias, esperando por João Leite, que nos tinha ficado atras 
em busca das índias, e não chegava. 

17— Neste sitio ouvindo dizer ao cabo nos licava já perto o 
Maranhão me resolvi a deixa-lo, e rodar rio abaixo buscando 
alguma terra já povoada, por não perecer a fome e sede no 
meio daquelles mattos. Seguirão*me três camaradas, que forão 
José Alves, Francisco de Carvalho, seu irmão, Manoel de Oliveira, 



NOTICIA — 1,* PRATICA 22t 

Paulista, 6 João da Matta« filho da Bahia, ainda rapaz. Jozô 
Alves, com um negro, e uma negra, sen irmão com um só 
negro, eu com ires, e um mulato, que forão todas as peças, 
que nos escaparam da viagem do Anhanguera, entrando eu com 
seis n^ros, e o mulato, o Alves com cinco, e o irmão com três. 
Repugnou o cabo a que sahissem comigo os dois irmãos sem que 
primeiro lhe satisâzessem quarenta e seis mil róis, que devião 
o João Leite, que jã era chegado com Frei António, paguei por 
elles, porque lhe não vi outro remédio. Porem João Leite ven- 
do-me ausentar insistiu, e com elle Frei António quanto lhe foi 
possível, a que não cm desamparássemos ; mas as insolências do 
cabo que dizia publicamente havia de enforcar aos Amboabas, 
me obriganLo a dar gosto a João Leite, e a Frei António. O 
certo era, que o Anhaguera tinha passado ordem a um dos seus 
Tapuias para matar ao Alves por uma bem leve causa, o peior, 
foi, que vendo o mesmo Anhanguera, que eu o deixava, me 
catheqoisou um negro bom matteiro, chamado Pascoal, e o 
deixou ficar comsigo. Vendo-me sem elie voltei ao sitio do 
cabo distancia de meia legoa, rogando-lhe me restituísse o 
negro ; respondeu-me que o negro não estava em seu poder, 
' nem sabia delle* Fiz então procuração a Frei António para que 
o tomasse a si, e me remettesse o procedido delle, caso que 
o vendesse, a minha mulher Leonarda Peixota, & Cidade de 
Braga. Soube João Leite, desta procuração, e estranhando esta 
aoção de seu sogro, me mandou offerecer um moleque por 
Estevão Maçaste Franoez, em logar do negro, que aceitei logo 
por ser preciso mais gente para remar nas canoas ; publicando 
neste tempo o cabo, que j& que nos iamos, e o deixávamos, 
morreríamos naqaelles rios, e maitos, por nosso próprio gosto, 
sendo que melhor seria o matar-nos, que o deixar- nos pe- 
recer entre as agoas ; não duvido que nos quizesse herdar os 
negros, como tinha feito a todos os mais sócios. 

18 — Feitafl duas canoas, e dado o meu cavallo a Frei Luiz, 
para m*o dizer em missas a N. S.^ da Boa Viagem, por lhe ter 
morrido o seu— rodamos rio abaixo pelo interesse do peixe, e 
oaga, que era muita; passados oito dias de prospera viagem dêmos 
na barra d'outro Rio, que vinhão da mão direita, e terras de 
Portugal, tão grande, como o porque rodávamos; passada esta 



228 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

barra, e dopois do quatro dias avistámos outra barra d*um rio 
mais pequeno, quo viaha da mesma parte direita, e desta a 15 
ou ^ dias, buscando sempre o Norte, que ora o rumo a quo 
corria o nosso, dêmos em outro rio maior, que vinha da parte 
esquerda, em que achámos com as cheias innumeraveis jan- 
gadas feitas de buritis, que tinhão rodado com ellas signal de 
haver gentio perto. Navegámos adiante, e depois de oinco ou seis 
dias avistámos alguns recifes de pedras, e náo poucas ca- 
choeiras, que passámos junto á terra da parte direita, cirgando 
as canoas por entre os penedos, mas não com tanta cautela, 
que não topasse uma em uma pedra, e aê partisse pelo meio. 
perdendo nella duas canastras com ropas, ouro, e prata, tachos, 
espingardas, traçados, ansoes, linhas, e outros trastes neces- 
sários no sertão, e que nello se precisão ; entre estes foi mais 
sensível a perda a d'um pacote de chumbo com duas arrobas, 
escapando outro com o mesmo numero, e um pequeno barril 
de pólvora, que veio boyando acima ; escaparam também três 
espingardas de oito que trazíamos, o tudo o mais se perdeu. 
19 — Passado este perigo fomos na outra canoa buscar a 
parte esquerda por baixo da cachoeira, onde o rio fazia re- 
manco com umaexccllonte praia : nella matámos dois porcos, 
que nos servirão de matalotaoro para a viagem, o fizemos de 
novo outra Canoa com tros machados, e duas enx6s, que tam- 
bém nos escaparam, vertendo sangue as mãos por ser de tam- 
boril duríssimo o pàu de que a Azemos, gastámos na sua fa- 
brica 12 dias abrigados á sombra daquelles mattos, e como 
pordemos os ansoes, e linhas, perdemos também gosto ao peixe, 
e nos valiamos do palmito bocajuba, que depois de esfolado, o 
feito em uns pequenos pedaços secávamos ao fogo, e seoo o 
socavamos em uma pedra, e o oomiamos em mingáos, servin- 
do-nos de tacho ou panella uma pequena bacia de arame, que 
também nos escapou. Feita a Canoa seguimos* nossa derrota, 
e passados tros dias de viagem dêmos com um pàu cortado na 
beira do mesmo i*io : abordamos as Canoas a expiar algum 
maeaco pai*a comer-mos e matar-mos a fome, que éra já muita 
quando descobrimos um arraial de gentio pouco menos distante 
que um ou dois tiros de espingarda ; era o arraial grande, e 
teria mai9 de trinta ou quarenta ranchos redondos* Visto nos 



NOTICIA — !.• PRATICA 229 

tornámos logo a embarcar, fbgindo a todo o remar por não 
sermos sentidos delles, e tanto qae fomos dormir distancia da 
qaatro ou cinco legaas rio abaixo, arrancliando-nos no matto 
da parte esquerda, onde achámos algum palmito Indayá» 
maa foi tal a perseguição dos morcegos nessa noite, que sobre 
nos tirarem o somno, nos cuatou muito a livrar delles ; por- 
que como vínhamos Já nús, tanto, que fechávamos os olhos, se 
prega vão logo em nós, e nos sangra v2lo de sorte, que acordá- 
vamos banhados todos em sangue, motivo porque desampa- 
rámos mais cedo do que queríamos aquelle sitio. 

20 — Daqui rodámos rio abaixo e demos em um junipa- 
peiro, com cuja fruta nos regalamos dois dias, e no flm destes 
eomo a fome era muita entramos pelas sementes das ditas 
frutas ; mas estas nos poserão em tal estado, e impedirão de 
tal sorte o curso, que nos considerámos mortos, valemo-nos 
d'uos pequenos paus, e com elles em logar de cristel obrigámos 
a natureza a alguma evacuação. Falhamos neste ponto 4 ou 5 
dias, que gastámos em buscar alguma caça para comer-mos, e 
para que nos não fiiltasse também o peixe, Hzomos do virote 
d*uma espada, que cortámos a enxó, um formoso ansol, e agu- 
sado com uma pedra tirámos bastante peixe, servindo-nos de 
linha um pouco de ambó, era o peixe exoellente, muito, e 
grande, e tanto como o do mar : matámos também aqui muitos 
barbados que postos de moquem, nos serviram de nova matalo- 
tagem para o oaminho— Caminhámos rio abaixo e depois d*alguns 
dias nós quebrou a outra Canoa em uma pedra, que estava na 
beira d'nma grande correntesa, em que demos, aqui se nos aca- 
bou de perder tudo, e eu como não sabia nadar, me peguei á 
mesma Ganóa, valendo-me d*um cipó, com que me atei a ella e 
ítai sahir em um recife de pedras : peior succedeu a um dos 
meus negros, que rodou pela cachoeira abaixo mais de dois ou 
três tiros de espingarda levado da correnteza da agoa, e 
quando o supúnhamos já morto o achámos sentado sobre um 
grande penedo, que havia no meio do rio, tinha este um quarto 
bom de legoa de largo. Perdemos também aqui o nosso esti- 
mado ansol, que nos roubou um formoso e grande peixe, e 
assim ficámos só a palmito e janipapo, e esses quando os 
ochâTamos. 



230 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

21 —Neste pooBo concertámos a Canoa, e, rodando pelo 
rio mais de quinze dias abaixo nos vimos obrigados em todos 
elles a domir-mos nas soas Ilhas, que erão muitas, enterradas 
na areia por medo do gentio, que era InnumeraTel, e o mais 6 
sem poder-mos dar um só tiro, para remédio da fome, que nSo 
era pouca. Aqui vimos varias barras d'oatros rios pequenos, 
que d^uma e d'outra parte se mettião no em qne rodávamos : 
passadas estas descobrimos a poucas legoas a barra d 'ura 
grande rio, que vinha da mão direita, dormimos essa noite entre 
uma e outra barra, mas sahindo na manhaS seguinte costeando 
o rio pela mesma parte direita, pela eztraordiaaria largura, 
que aqui tinha, dêmos com um grande palmital, e nelle com 
três gentios Junto á praia, pegou um dos companheiros na es« 
pingarda, tirou a um, e ferio^o, ferido aoudio logo todo o mais 
gentio, que andava ao Corredio, {Sic) dando taes urros, e to- 
cando tfto horríveis tararacas, que parecia se nos abrira naquelle 
sitio o iaferno, valeu-nos n^ ter este gentio de Canoa, atra- 
vessámos logo o rio, fugindo quanto então nos (bt possivel; 
aqui nos vimos perdidos novamente porque as ondas, e mar- 
retas ei^o taes, ao atravessar da corrente, que tememos muito 
nos submergissem, chegámos bem cauçados, e quasi mortos a 
uma Ilha, e prendendo as Canoas em uma das suas pontas nos 
ÍOmos arranohar na outra enterraodo-nos na areia para evitar 
o gentio se viesse sobre nós. 

S2 — Passado este susto, depois de dois dias de viagem sem 
mais sustento, que o dos coquinhos, que nos davão alguns pal- 
mitos, com algum palmito indaia, onde se achava» dêmos em 
um outro novo perigo, topando no meio do rio com um redfe 
de pedras, em que a minha Canoa se vio perdida, porque sabida 
das pedras deu em um Juplá, aonde depois de 17 ou 18 voltas, que 
nelle deu a mesma violência d*agoa, alançon fora : a outra 
tomou melhor caminho foi encostada á terra, e passou sem susto: 
dormimos esta aoite na beira do mesmo rio janto a um matto, 
com não menos fome, e chuva que foi muita e durou toda a 
noite. Passados dois dias de viagem matamos uma anta mas 
tão magra, que por tal nos esperou um tiro, de que cahio, e 
mal assada se comeu : nessa noite dámoi em trilha de brancos 
com que cobrámos sem duvida novos alentos : e vimos entrar 



NOTICIA — 1.* PRATICA 281 

no nosso da parte esqnerda um rio, que ao depois soubemos ser 
o Aragoay, e o porque navegávamos o Tooátis* Seguimos a 
dita trilha por ser esta sempre a beira do rio, e dando dahi a 
três dias com oito ilhas, nos vimos perplexos por não saber- 
mos o Canal, que seguiríamos, buscámos então a terra, e junto 
a ella, e d'nns penedos quizemos varar as canoas, e não pode- 
mos pela pouca agoa que ali havia. 

23 * Falhamos aqui qnatro dias buscando algum palmito, 
ou caça, que era pouca, e como a fome era mais, mandei ao 
meu mulato a matar alguma coisa para comer; voltou este 
sem nada, mas só com o seguro de ter achado picada certa de 
branco, peguei da espingarda, e assim nú, como estava, segui 
a dita picada, acompanhado só do Paulista, e a menos de 
quarto de legoas avistámos uma Missão dos R. R. P. P* da Com- 
panhia que formava de novo. Vendo-nos um dos Padres nds, e 
com armas, fugio logo, e deu aviso ao mais persuadido que era 
Gentio Manas, que também usa de armas de fogo pelo eommer- 
cio qne tem com os Hollandezes, e são nossos inimigos. Acudio 
promptamente o Capitão mór, que se achava entre os 
Padres, com toda a sua soldadesca armada, e tocando caixas ; 
aoudião também os indios com os seus arcos, e frechas : lan- 
çando em terra as armas, e batendo as palmas em signal de paz 
nos veio buscar logo o R. P. Marcos Coelho, que era o superior 
da Missão, e vendo que éramos Portagaezes nos levou oomsigo 
com extraordinária alegria e amor, e ouvindo-nos contar o 
que tínhamos padecido não podia reter as lagrimas, e assim 
sabendo, que tínhamos mais oompanheiros os mandou logo 
boflcar pelos seus Índios em uma das suas Canoas, e chegados 
por não haver na pequena Capeila outro sino, aos recebeu com 
três alegres repiques, que formavão os golpes d'nm pequeno 
ferro em uma pedra, 

^ — Nesta primeira e amorosa hospedagem começámos a 
matar logo a fome: não faltou feijão e peixe, e como um e outro 
era temperado» não deixou de o estranhar por muito tempo o 
estômago. Durou-nos esta alegria só quinze dias, porque no fim 
delles nos remetteu ao Pará o dito Capitão-Mór Domingos Por- 
tella de Mello, gastando 20 dias na viagem. Chegados ao Pará, 
se deu parte ao Governador João da Maia da Gama, veiu oste 



j 



232 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

TÔr-nos logo ao porto, e ouviado os tragioos sucoeasos da viagem, 
qae trazíamos, nos nao dea credito, aates iatontou prender-nos 
para justificarmos, se os negros, que o trazíamos crão nossos, ou 
íúrtados á mesma Tropa, de que tínhamos desertado; respondi- 
lhe que oathequísasse os negros e que seoathequísados confessas* 
sem não serem nossos, nos castigasse, o que não obstante e 
menos a miséria em que nos Tia, pois estávamos todòe nús, e 
com a pelle só sobre os ossos, nos deixou ficar na mesma praia, 
e porto das canoas sem resolver nada, e sem mais sustento, o 
cama que a que nos derão os cavacos e cascas dos paus do esta- 
leiro Real. 

Porem emendarão logo na manhaã seguinte os particulares 
a indispensável foJta deste sen Governador, vindo-nos buscar á 
praia do estaleiro o R, Cónego JoSo de Mello, com mais algumas 
pessoas graves da Cidade, e compadecidos do miserável estado 
em que nos vião, nos levarão a todos para suas oazas. Eu tivo 
a do mesmo R. Cónego João de Mello ; José Alves foi p{ira a de 
Manoel de Góes oom seu irmão ; Manoel d*01íveira para a de 
João de Souza, filho de Basto, e João da Matta para a de João 
da Silva, filho de Guimarães ; ->- No Pará adoeci depois d*algun8 
meze3d*uma febre que me poz em perigo, e tanto que degene- 
rando em maleitas estive ungido ; durarão-me estas oito mezes 
emquanto estive de cama levaram alguns dos negros mão cami- 
nho, porque um me morreu de bobas, e o mulato de veneno que 
lhe deu uma Tapuia : e assim me embarquei só com dois 
para o Maranhão ; destes conservo ainda um, porque o outro 
me foi preciso vendel-o para comprar dois cavallos que me con- 
duziram a estas Minas, gastando no caminho dez únicos mezes 
com alguns dias falhos ; e desde que deixamos o grande Anhan- 
guera até Deus nos trazer ao Pará quatro mezes e onze dias, 
entrando nestes as flUhas. 

26 — Lembra-me que antes de dar-mos no Jupiá, quando 
íbgimos do gentia de que fallo acima nos ns. 21 e 22, por ser o 
rio muito largo, e quasi morto, nos lançamos á matroca aquella 
noite, prendendo uma Canoa á outra, e dormindo todos os mais 
eu por mais temeroso e acautelado vigiei toda a noite, e não 
me valeu de pouco ; porque ouvindo roncar ao longe o mesmo 
rio, os aooordei gritando, que tínhamos perto cachoeira, e assim 



NOTICIA — !.• PRATICA 233 

foi porque varados em uma liha, Timos logo na madrugada o 
perigo de que escapámos de noite: porque a cachoeira era horrí- 
vel, e tão alta, que teria 500 palmos, e entre penedo hruto, que 
a fazia mais formidável, e com tantas ondas, fumaças, e cachões 
que parecia um inferno ; passamos por cima d*uns recifes lan- 
çando as Canoas pelo Canal á fortuna: sahiram estas abaixo da 
cachoeira cheias de agua, e rombos, tiramol*a, então a nado, e 
concertadas como podòmof, seguimos nossa derrota. Estes sao, 
R. Senhor os trabalhos, as misérias, e as grandes conveniências 
que tirei das novas Minas dos Guayazes, etc. 

Minas Geraes — Passagem das Congonhas, 25 d*Agosto do 
1734. — José Peixoto da Silva. 



NOTICIAS PRATICAS 



NOVO CAMINHO QUE SE DESCOBRtO DAS CAMPANHAS 

DO RIO GRANDE E NOVA COLÓNIA DO SACRAMENTO PARA A VILLA 

DE CORITIBA NO ANNO DE 1727 

POR ORDEM DO GOVERNADOR E GENERAL DE S. PAULO 

ANTÓNIO DA SILVA CALDEIRA PIMENTEL 



(jBtb, Pub. JZ^orente — Cod. CV) 



NOTICIAS PRATICAS 



Do noTo oaminlio que se descobrio das Campanlias do Rio 
Grande, e nova Ck)lonia do Sacramento i»ara a Villa da 
Coritiba no anno. de 1727 por ordem do Governador e 
General de S. Panlo, António da SilTa Caldeira Pi- 
mentel. 



NOTICLV — I» PRATICA 

Dada ao R. P. M. Diogo Soares, pelo Sargento Mór da Cavallaria 
Francisco de Sonza e Faria, primeiro descobridor, e abridor do 
dito Caminho. 

Justa com o General de S. Paulo a abertura do Caminho e 
provido das instrucções e ordens necessárias para se me assis- 
tir na Fazenda Real de Santos, com gente e muniçOes; me 
embarquei na dita Villa, para de Parnaguá com 35 pessoas, 
entre Índios e brancos em a pequena Sumaca do M.» João 
Martins Roza ; Gastei três dias nesta viagem, e na Villa de 
Pamagud um mez, fazendo nella alguma gente mais para a 
diligencia em que ia. 

De Pamaguá, junta a gente, me embarquei com ella para a 
Villa de S. Francisco, gastei cinco dias na viagem, e um mez 
na dita Villa, procurando nova gente que me quizesse seguir. 

Da Villa de S. Francisco passei na mesma Sumaca a Ilha 
do S.t&.Catharina: gastei na viagem oito dias, e nove na dita 
Ilha, e adquirida nella alguma gente mais, passei com toda 
ella, que seriao Jà 9õ pessoas, por terra a Villa da Laguna» 
onde gastei dois mezes, não só para dar descanço a toda a 
tropa, prepara-la do necessário, e prover-me de novos Práticos* 
mas lambem para consultar ao CapitSo-Mór da dita Villa, 
segundo as instrucções que trazia do S. Paulo. 

Sabido da Laguna marchei com toda tropa pela praia a 
buscar o Rio Araranguá, e nelle o sitio a que chamão os Con- 
ventos, distantes da Laguna, e ao Sul delia pouco mais de 15 
léguas. 



238 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Neste sitio, e em 11 de Fevereiro de 1728 dei principio ao 
caminho rompendo mattos fechados, e dando a pouoo mais 
d'ama legoa com um pântano, que teria meia de largo, em que 
me foi preciso fazer-lhe uma boa estiva para o podermoi pas- 
sar ; passado elle dei quasi a meia legoa com nm grande ri- 
beirão que desagua no Araranguá, se chama Cangioassú, e 
como não dava váo lhe Hz uma boa ponte de 12 braças e meia 
de comprido, e braça e meia de largo. 

Passado o Cangicassú busquei logo a margem do Rio Aran- 
ranaguã, e seguindo-a passei nella vários córregos e ribeiros 
Dftzendo em uns pontos, e desbarrancando outros para os poder 
passar. Chegado ao logar, que chamão as Itaypabas passei o 
Araranguá, que terá no dito sitio pouco mais de 90 braças de 
largo ; passado o rio caminhei sempre ao Norte, cortando 
mattos em toras alagadissas, estiva ndo-as com assas trabalho, 
e com não menos fazendo pontes em alguns rios, até que anda- 
das cinco léguas me foi preciso buscar outra vez o Rio Araran- 
guá, por me livrar dis serras, e morrarias altíssimas em que 
dei, e me era impossível o subilas. 

Segui rio acima, e o tornei a passar nas cabeceiras, em o 
sitio onde chamão a Orqueta, e aonde principião os morros da 
serra chamada Paranapiacaba, e de que nascem muitos e vá- 
rios ribeirSes todos de pedras. Entre os morros achei um espi- 
gão por onde subi com toda a tropa, depois de 11 mezes de 
contínuo trabalho, fazendo o caminho a talho aberto, e é o 
único por onde se pode subir a serra. Desde os Conventos até 
este sitio que terão 23 léguas tudo são mattos, e terras alago- 
dissas, cortadas de vários córregos, e rios, em que entre pontes 
e estivas passarão de 73 as que lhe fiz, tudo a força de 
braço, e só com 65 pessoas, e 32 cavalgaduras, por me ter fu- 
gido, e desamparado a mais gente, e parte desta a devo ao 
General de S. Paulo, que me mandou de novo. 

Subida a Serra dei logo em campos e pastos admiráveis, e 
nelles immensidade de gado, tirado das Campanhas da nova 
Colónia, e lançado naquelle sitio pelos Tapes das aldeias dos 
P. P, Jezuitas no anno de 1712. 

Nestes campos me demorei seis mezes esperando por nova 
recluta, qoe tinha pedido a S. Paulo, e sustentando-me nellas 



NOTICIAS PRATICAS 239 

do mesmo gado. morto a espingardat além de 500 e tantai vacas» 
qae reservei, e levei comigo para a viagem. Em todo o tempo 
qne aqai estive me animei a correr uma grande parte de toda 
aqaella Campanlia, em que passIU), segundo jalgo* de duzentas 
mil as vacas que neila lia, tem muitas, e boas agoas, bastante 
caça, alguns pinheiros, e umas pedras de coco quo arrebentão 
com o sol, e dentro outras pedrinhas que» parecem diamantes j4 
lapidados, umas roxas, outras brancas, amarellas; cór de vinho, 
e algumas esverdiadas. 

Destes campos segui viagem arrumado sempre a serra do 
mar, e a pouco mais de 7 legoas de caminho achei uma grande 
cruz feita de um pinheiro e este letreiro nella Maries 16 de 
Denembro anno de i727 pipe Capitolo Aéreos Omopo. Descida a 
Cruz e adorada com toda a veneração, lhe mandei tirar o titulo, 
olhepuzeste I. N. R. J. e junto á mesma cruz em um bom 
padrão de páu este outro —Viva El-Rei de Portugal D. João o 
&>, — anno 1729. 

Deste sitio a que dêmos o nome da Cruz dos Tapos^ segui 
viagem encostado sempre á serra» e a pouco mais do quarto de 
légua demos com um rio com matto diurna e outra parte, a 
que chamei o Rio dos Porcos, e até elle chega o gado de que 
acima fallo. Passado este Rio segui caminho 6 léguas ao nor- 
deste, em que achei um sitio em uma lomba que chamei a Boa 
Vista, aqui fiz uma grande rancharia, que depois chamarão as 
Tajttcas, e destas é que Christovão Pereira d* Abreu, dali a dois 
annos entrando comigo ao mesmo caminho, fez nelle o atalho 
que agora tem. 

Das Tajucas fui sempre acompanhando a mesma Serra do 
mar, e achando sempre campos com alguns capões de matto e 
não poucos ribeirões, ató chegar ao grande Cambiera, ou Morro 
de Sta. Anua, fi^)nteiro a Uha de Santa Catharina neste me foi 
preciso gastar alguns dias para abrir um grande matto, que 
teria 6 legoas de comprido, e aberto dei com um rio, a que 
chamei S*^ Luzia. 

Deste rio segui viagem por os Campos, e passando nelles 
algumas restingas de mattos dei um outro campo mais alto, e 
alegre, de donde avistei um morro, que pelo roteiro que levava 
dos Gertonystas antigos julguei ser o rico^e sempre procurado 



240 REVISTA DO INSTITUTO ttlSTORICO 

morro Tajó, e o mesmo pareceu ao moa Piloto , bons desejos 
tive de os socavar, mas a fome e miséria em que nos viamos 
todos, nos obrigoa, nfio só a deixar o morro, mais ainda a 
mesma serra do mar, pela muita aspereza, oom que um e outro 
nos ameaçava, e assim fugindo a morte, e abrindo novo cami- 
nho por mattos grossos, distancia de quatro legoas sahimos 
com nSo pouco trabalho nas primeiras cabeceiras do rio Urnru- 
guay, e passámos nellas com duas braças de largo. 

Deste passo seguindo rio abaixo dei com pastos admira* 
veis d*uma e outra parte do rio que, pelo passar 15 vezes» 
lhe paz o nome de Passaquinze, e tornando a procurar o 
morro do BirimbÀo, que era a nossa balisa do caminho, me fui 
afastando mais da serra e avisinhando mais para o campo, 
cortando varias restingas, e passando alguns córregos até sahir 
pela ponta de outra serra a que chamarei Serra Negra, e 
que vae afossinhar sobre o rio Passaquinze, e este é o logar em 
que Christavão Pereira sahio com o seu atalho. 

Deste sitio passei ao campo chamado dos Coritibanos, cami- 
nhando sempre por campos em que ha algumas restingas e ca- 
pOes de mattos, e nestes nSo poucos córregos e rios. 

Dos Coritibanos segui viagem, c passado um campo alto 
entrei em um matto grosso chamado Espigão, fiz nelle nSo 
só estivas e algumas pontes mas também um bom cami- 
nho aberto & força de braço. Passado o matto, cheguei a um 
rio em que achei Jà canoas, e passando nellas segui por campos e 
mattos ató o matto grande de S. João, e passado este com 
assas moléstia e trabalho, segui por campos e mattos até 
outro rio que chamei de S. Lourenço, que ter& de largara 20 
braças, e passado este tornei a seguir por campos e restingas 
até outro rio, que por muito negro e fundo lhe chamão 
o Rio Una, nelle fiz alguns pastos, e lhe deixei uma boa canoa 
de pinheiro, e só nelle achei indicies de gente. 

Passado o Una, e seguindo sempre por campos e restingas 
cheguei ao Rio Grande pequeno, o destes aos Campos Oeraes 
da Coritiba e Rio do Registo em dia de Nossa Senhora da Luz 
de 1730, sahindo de S. Paulo a 20 de Setembro de 1727. 

Todo este caminho desde a Serra da Vacaria até os 
Campos Geraes de Coritiba é em seu tempo, isto é, de Março 



NOTICIAS PRATICAS 241 

ató Setembro abundante de caga e pinhão, principalmente 
Antas e Porcos. O mel é em tanta abundância, que não só 
serve de regalo, mas de sustento às tropas : todo elle é sadio 
e de 63 pessoas com que entrei, só morreu um negro meu 
é outro de Manoel de Sá Corrêa, de pura fome e miséria : 
também morrerão nelLe um branco, e um índio pelo muito pi- 
nhão e mel de que se fartaram. 

B' o que se me offerece dizer e informar por ora a 
V. Rma., debaixo do Juramento do meu cargo. Porto do Rio 
Grande de S. Pedro, 21 do Ferereiro de 1738. — Francisco de 
Sousa e Faria. 

ROTEIRO 

DO CBRTÃO E MINAS DE INHANGUERA, VINDO DA VILLA DO 
CORITIBA PAKA ELLAS 



Partlndo-se da povoação de Coritiba, pa^sandose o rio 
Grande da dita povoação, se vai logo buscar o rio Grande 
pequeno, que é o que chamão Iguassú-merim, e passando este 
se irã alongando mais para o campo largo, por não ir rompendo 
mattos por cima da serra. 

Dahi começarão a buscar o rio Negro, chamado Una, 
que é rio de Jangada por ser fundo. Passando-se este rio 
caminhando pelo rumo du Sudueste, darão com um ribeirão que 
cortando um pinheiro alto passarão por cima delle ; o qual 
ribeirão foi agoada do Gentio Gabelhudo, e o Rio pela lingua da 
terra Inhanguera. 

Logo passarão outro ribeirão pequeno chamado Itupeba 
e avistarão logo a uma serra que corre para o poente, não alta, 
que pôde estar desviada da nossa serra do mar, 2 léguas o meia 
pouco mais ou menos. 

Pela ponta desta serra passarão e darão com faobina 
dos Certanistas do tompo do gentio, chamada Garcelhos, e 
logo aviitarâo o morro Negro, chamado pela lingua da 
terra Biturúna, o qual morro vae afossinhar sobre o rio 
Uruguay» 

491—10 Tomo j-xix r. i. 



^42 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Este morro negro tem um campo ao pó mui grande, mui 
razo, e com moitissimos veados^ maltas Emas, muitos Cervos, 
e muitos Botiás, que dão muito e boa farinha, e por baixo dos 
Botiàs tem muita erva mimosa. 

Desta Serra Negra caminho de Leste nao poderão errar o 
morro chamado Ta^ó, que é o que se vae buscar. 

Peio pó da Serra Negra corre um ribelr&o que vae buscar 
as cabeceiras do dito morro Taijó, o qual morro ó baixo, re. 
doudo, e agudo çom sua campina ao pó, e tem este feitio. 

Tem também sua campina da banda do Norte, e da banda 
do Sul matto grosso carrasquenho, pelo pó deste morro podem 
buscar ouro ; e quando se queirão alongar para os mattos do 
mar,não seja pela parte do Sul, seja pela parte do Nordeste, que 
dali maaão as cabaceiras todas do Pajay-merim, que n&o pode- 
rfto deixar de achar ouro. 

Estas s&o as chamadas Minas de lohanguera, tão afamadas 
como as antigas, e ficfto no certão da Enseada das Guaroupas e 
Ilha de Santa Catharina. 

As Serras da Costa do mar vão acabar e afossinhar 
perto a um rio chamado Taramandy, o qual está abaixo da 
Laguna 40 léguas pouco mais ou menos ; deste Rio ao Rio 
Grande de S. Pedro *da Costa do mar fazem 35 legoas pouco mais 
ou menos, e doado acabão estas Serras para adiante se não tem 
mais terras aUas, nem serra aiguma, até o dito Rio Grande e 
sua Campanha, 

Na dita paragem onde acabão estas serras do mar ó que 
se sobe, por ter menos diffioaidade a chegar ao campo, no qual 
se dará com pinhejraes, e na dita paisagem vindo mais para 
a banda da Laguua farão diligencia por umas pedras toscas 
as quaes chamão pedras de coco, estas arrebentão com o 
sal, e do âmago lhe sahem umas pedras pequenas toscas, a 
outras lizas, uma cor de bagos de romã, outras roxas e oqitraSí 
brancas como cristai, e todas estas pedras são finas dcy^is de 
lavradas. 

Para se descobrir e entrar para as minas de Inhanguera» 
é mais perto, e mais fácil entrar por este caminho donde 
acabão as serras do mar como fica dito, dq quo pela Yilla 
de Coritiba. 



NOTÍCIAS PRAtlCAS 243 

Este roteiro ó o mesmo, que diz trouxera comsigo o 
Sargento-mór Francisco de Souza e Faria, que se o seguira 
abrindo o caminho a onde acabão as serras e não em Ara- 
ranguà, nunca experimentaria em perto de três annos que 
gastou nelle, as fomes e as misérias que são notórias, verdade 
6 que culpão nesta parte ao Capitio-mór da Laguna, que por 
seus particulares interesses, llie quiz fazer ímpossirel a jornada 
e o caminho, Ílausilitando-Ihe a entrada pela parte mais difficuN 
tosa que ha para esta abertura. 



NOTICIA — 2/ PRATICA 

DADA AO P. M. DIOGO SOARES SOBRE A ABERTURA 
DO NOVO CAMINHO PELO PILOTO JOSÉ lONAClO, QIE FOI E ACOM- 
PANHOU EM TODO ELLE 
AO MESMO SARGENTO MÔR FRANCISCO DE SOUZA E FARIA 



NOTICIA— 2.» PRATICA 



Dada ao P. M, Diogo Soares sobro a abertura do novo caminho 
pelo Piloto José Ignacio, que foi o acompanhou em todo elle ao 
mesmo sargenlo-mór Francisco de Souza e Paria. 



Subidti a Serra, e sahiDdo no alto delia se dà logo, R>^*. Sr., 
com um campo admirável, que á uivei da mesma Serra, e 
abunda de capões, pinheiraes, e em partes de mattos carras- 
qaentaos, com muitos e rarios córregos» de que a maior parte 
desagoSo otm^o dentro, caminho de noroeste e poente* 

I^go da sabida do matto ao Norte distancia de um quinto 
de légua pouco mais ou menos se vê uma cruz ao pó d^uma 
lomba, e beira de um riacho, que corre como os mais ao poente, 
mais adiaato ao mesmo Norto se passa logo outra Lomba não 
menos alta quo a passada, tem varias pedras no cume, e pelo 
pó lhe possa um riacho, que nasce na girande serra do mar. 

. Passada esta Lomba caminho de Noroeste, e distancia d'uma 
legoa se encontra outra cmz em um alto que se chama Ar- 
raial Grande, de onde continuando ao Norte achamos outras 
cruzes a pouca distancia umas das outras, até chegarmos a 
uns pequenos morretea que se avistSo da Real grande, distáo 
delia 3 legoas. 

Passados estes morretes seguimos ao Nordeste, encostados 
sempre á Serra, achando sempre os mesmos vestfgios de Fap^, 
e por entre os capões algumas picadas Já abertas, e seguidas, 
muitas Lombas, riachos, e catingas, emAm terra toda enchar- 
cada, por respeito das muitas lages que em si tem. Neste mesmo 
caminho 2 legoas dos morretes a Lesnor leste está o ribeirão 
das Lages, com multo bôa passagem, e pouoo mais de meia 
legoa adiante ao Nordeste e dos Porcos, com não menos igual 
passo entre dois morros, um e outro, não sendo tempo de agoas, 
oão tem de ftando mais que 3 palmos. 



248 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Seguido avante 6 legoas ao Nordeste dêmos em uma 
Lomba bastantemente alta, que chamámos a Boa Vista, e dalla 
vimos na costa do mar a LAgoa de Guarupaba que está íhm- 
teira aos morros de Santa Martha. A dita Lomba corre coisa 
de meia legoa Leste Oeste, e floa Noroeste Sueste com a dita 
Lagoa Gaarupaba : pelo Sul desta mesma Lomba ha bastante 
matto, e nelle caminho f^ito, e no alto uma espaçosa chapada 
com uma formosa cruz. 

Desta Lomba, seguindo sempi^e a serra, e o mesmo rumo, 
dêmos com vários morretes, em que ach&mos um bom caminho 
feito a fouce e machado, mas durou pouco, por que nos mette- 
mos logo em uns taes matagaos do taquari miúdo, e tSo fechado 
que apenas divisávamos a Serra que era a nos^a balisa : nSo 
nos faltarão antas, mas muito pouco pinhfto, por causa da hu- 
midade, e fragosidade da Serra. Chegamos finalmente a uma 
baixa que fica entre dois morros dos quaes o que fica para a 
parte da Serra ô o mais alto, e se chama o morro do Incêndio : 
com o mesmo nome de Incêndio lhe passa pelo pé um ribeirôo 
que corro a Leste Sudoeste* e distará pouco mais de 6 lagoas 
da Boavista. 

Passado, e seguido avante ao mesmo rumo por campos sem- 
pre, e alguns capões de matto, entramos logo a mui pouca dis- 
tancia de caminho no matto doe desertores. Consta este de vá- 
rios campinhos, mattos carrasquenhos, terras encharcadas, e 
descidas e subidas d 'alguns morros. 

Passado o matto dêmos logo em outro muito mais grosso* 
e nelle com o rio das santas que distará 5 legoas do morro do 
Incêndio ; corre ao Noroeste, e tem de largo na passagem 15 
braças, o 4 palmos do fundo. Tem todo este matto muita 
caça, multo pinhão, excellcntes pastos, boa cera, mas* muito 
pouco mel. 

Passado o rio das Antas nos avesinhamos mais á Serra su- 
bindo e descendo grandes morros, atô darmos em um campo 
quechamão da retirada : terá este pouco menos de legoa de 
comprido, e em partes meia de largo ; deste campo seguimos 
ao Noroeste afastando-nos da Serra, e a pouco mais de 2 lé- 
guas dêmos no Rio da Vaca com 4 braças de largo, e de 
fundo só 2 palmos : seguimos o mesmo Rio, qne corre ao 



NOTICIA — •2.* PRATICA 249 

poente, e depois de o passarmos 15 yeees chegámos ao de 
Santo André com 12 braças de largo, e de fundo pouco mais 
de O palmos. Este Rio de Santo André á o mesmo Rio da Vaca, 
esó nesta ultima passagem muda o nome ; não falta por aqui 
caça, e mel, tem algum pasto, campos queimados, e algumas 
restingas do matto grosso : Dista o campo da retirada do Rio 
da Anta 6 legoas, e o da Vaoa pouco mais de 7 de Santo André. 

Passado este a pouco mais de 2 legoas camintio de Norte 
e Noroeste, chegamos a um campo que cham&o Santa Luzia, 
e caminhando por elle meia legoa ao Ponente dêmos no ribeirão 
da Faxina e é em si pequeno, mas para se passar necessita de es- 
tiva, porque atoUa muito. 

Passado este 4 legoas ao Noroeste corre ode S. Thomô 
com 10 braças de largo, e 4 palmos de fundo na passagem 
mas encantilado d'uma e d'outra parte ; e caminhando avante 
chegámos ao ribeirão do Norte distante do de S. Thomé p^moo 
mais de legoa e meia: 4 legoas ou 5 ao Pouente, cominhando 
sempre pelo mesmo campo pass&mos o ribeirão dos Cavallo0 
com 10 braças de largo, e 13 palmos de fundo, quando ha 
aguas. 

Noste Ribeirão dão flm os campos de Santa Luzia, que estão 
cercados todos de grandes morros, e terão em circuito 20 le- 
goas ; tem porém em si muitas catingas, capões, pinheiros, e 
taquaras o por baixo muHa congonha, e algum mel, pouca caça, 
e em parte nenhuma : é tudo terra enchuta, e com muitos 
bons pastos para gados. 

* Quasi pelo meio dos ditos campos, passa o Rio da Vaca, ou 
o Passaqainze, buscando sempre o Poente, e engrossando-se do 
cada vez mais. A Serra desde o campo da retirada até o ribei- 
rão dos Cavallos corre a Lesto, o deste ribeirão começão Já os 
campos de Tayó, como também a avistar-se o dito morro quasi 
ao Noroeste : seguindo avante pelos mesmos campos a Leste e 
Oesnoroeste chegámos outra ves a passar o ribeirão dos Caval- 
los por cima d'uns paus que lançamos para isso; d*uma e d'oatra 
parte, haverá entre estas duas passagens pouco mais de 12 lé- 
guas : 3 legoas mais adiante caminho de Leste o tomá- 
mos a passar em outra semelhante ponte, e seguindo daqui ao 
Nornoroeste em basca no Tayò dêmos com o Birirobáo, e assim 



250 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

deve-se advertir, qne no traressio desta primeira e seg^anda 
passagem do ribeirão dos Cavallos, adonde virem dois ribeirões 
que correm para a Serra, ambos de lages, reparem qoe o morro 
que delies se avista a Loesnoroeste, estando o tempo claro nâo 
é o Tajó, mas o Birimbáo. 

Pica este Birimbào sobre a serra do mar e delle nasce uma 
outra serra que corta ao sudoeste, e parece negra ; ohama-se a 
Serra do engano, terá de comprido 5 legoas, e olhando^se de 
longe para eUa parece qua se divide do morro do Birimbào, mas 
Ô engano, porque toda é a mesma: tem ao pé seus campestres, 
e captes, e para mais conheconça alguns pés de Botiàs grandes, 
o que se não acha desde a ultima passagem do ribeirão dos Ca- 
vaUos at6 ã ponta do Sudoeste desta Serra do engano, que se- 
rão pouco mais de 8 legoas: neste travessio se passão 5 ribei- 
rões, que em tempos d*agoas, são rios de 2 e 3 braças de 
l\indo, e 12 e 15 de largo. 

Seis legoas mais avante caminho do pouente demos com 
um campo razo j& queimado, e nelle com muitas cruzes. Aqui 
volta Jã a Serrado mar caminho de nornordeste, e daqui se 
avista também ao mesmo rumo outra serra quasi tão alta 
como a do Engano, lançada de Leste Oeste, chama-se a Serra 
da Onça, terá de comprido 5 legoas, e tem por conhecença uma 
lomba que despede da ponta, e olha para o nascente. 

Pela ponta desta lomba ó que seguimos caminho por cam- 
pestres o restingas. Da berra do Engano a esta Serra da 
Onça haverá 18 legoas, e no travessio 7 ribeirões grandes, mas 
tudo campos, ficando-lhe os mattos da serra sempre á vtsta, 
os quaes vem afossinhar no mesmo campo, formando outros 
quando rematão. 

Duas legoas mais adeante da ponta da dita Lomba, e ca- 
minho de noi*deste, entramos na restinga grossa, tem 3 legoas 
de travessia, pouco matto grosso, sem pasto algum de capim, 
mas muito e boa folha de taquara. 

Sabidos deste matto passamos 7 campinas com bellos pastos, 
distancia de legoa e meia, e no (Lm delias o rio das Canoas que 
costuma ser o desembarque dos que rodão de Curitiba pelo rio 
grande abaixo. Legoa e meia mais adiante chegamos ao alto da , 
Lomba grande, da qual se vê próximo á parte do nascente uma 



NOTICIA — 2. •PRATICA 251 

l&rguesa grande de matta» qae segundo julgo vio feneoer, na 
Serra do Mar: tem a dita Lomba grande om despenhadeiro 
para a parte do Nascente, e olàsundo delia para a parte do Sueste 
se vô estar sobre a Serra do Mar, um morro só, quasi redondo, 
do feitio de uma oella: floa a dita Lomba no matto de S, Joio, 
ò qual terá de traressia 7 ou 8 legoas ; no meio deste matto 
ha um ribeirfto que oorre para o nascente o<Hn grande bar- 
rooada, d\ima parte, e outra, muita pedra, e 4 bragas de largo 
com só 2 palmos de Aindo, e se chama o Ribeirio de 
S. Joio. 

Qoasi na sabida deste matto floa outro ribeirão que ohamib 
o Criste, oom 4 palmos de fundo na passagem, e 7 braças de 
largo: passado este, subimos uma ladeira, e continuando pelo 
mesmo matto, caminho de nomoroeste qnasi nm quarto de 
legoa chegamos a Desejada. E* .esta uma campina que terá 2 
legoas de circuito, com muito e bom pasto, tem porém um pan« 
tanal que a cinge quasi toda pelo Norte, e no mais estreito uma 
grande estiva com 128 pranxOes: aqui ha também um ribeiro 
chamado o Desejado com pouco mais de 5 braças de largo, e de 
íhndo só 3 palmos, e daqui é que começa o matto do Desenganei 
e a pouco mais de 2 legoas o ribeiro do mesmo nome : passado 
este caminho de nornordeste, e O legoas de distancia por mattos 
e campinas, chegamos a outro ribeiro chamado de S. Lourenço, 
terá IO braças de largo, e 4 palmos de fundo, e daqui principia 
o Oampo Alegre. 

Entrado nelle caminho de nordeste, e distancia de 2 legoas, 
Uca o rio do mesmo nome do Campo, tem 5 braças de largo, e 3 
de ftmdo, e deste a legoa e meia, e sempro do mesmo rumo âca 
e ribeinU) de Bartholomeu com 8 braças de largo, e só 3* palmos 
de íhndo no sitio em que o passamos: mais adiante caminho do 
norte fica o rio Qrande pequeno ; terá de largo 12 braças, e 
pouco mais de 5 palmos de fundo, e distará do de S. Bartho- 
lomeu 5 legoas. 

Seguindo o mesmo rumo do norte 7 legoas mais avante 
demos no rio Grande da Coritiba, e passado este sahimos com o 
caminho pouco mais de 9 legoas distante da mesma villa, junto 
ao Capio Bonito, que é uma legoa digo das Fazendas do Sar- 
gento raór de Santos, Manoel Gonçalves d'Aguiar. 



252 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Isto 6 o qne poeso iaformar a V. Rma», segando o que 
obserrei neste caminho, no que tooa as alturas nSo posso diaer 
nada, porque nem as misérias que pafisei nelle, Jantas oom a 
fiBilta de mantimento, nem a pouca saúde que sempre tive me 
deriU) logar algum para a mais minima observação. Porto 
do Rio Grande de S. Pedro 29 de março de 1738, José Ignacio. 

Desta laformaçSo se colhe com evidencia a facilidade com 
que se asseverou ao General de S. Pulo, e este á Corte, que a 
sabida do matto, e entrada do campo da Vacaria no alto da 
Serra» estava em 28 e 20 de latitude Austral, motivo que obri- 
gou a crer-ae de que estes campos e gados entestavão não só com 
a Ilha de Santa Catharina, que segundo o Roteiro Português 
está na mesma altura, mas ainda cora a Villa de S. Francisco» 
porque nem este Piloto tomou altui*a alguma, nem a ilha est& 
na em que diz o nosso roteiro Portuguez, mas muito mais ao 
norte, como o está também o morro de SanfAnna» ou Gambi- 
rera, distante tantas legoas quantas diz o primeiro descobridor 
do rio dos Poieoi até onde chega o gado. 

Ougamos agora ao coronel Christovão Pereira d*Abreu, e 
ao seu Piloto» qae foriU> os segundos que entrarão ao caminho» 
• oomferidas as soas com as minhas observações feitas não só 
na ilha mas no rio Ararangaá, se verá manifestamente o erro 
daquelle informe, além de que, se da ilha de Santa Catharina ã 
laguna ha 18 legoas» e desta ao rio Araranguá 15 legoas ou 13» e 
o dito caminho sahe no alto da serra ao sul do rio, como é pos- 
sivel enteste com a ilha de Santa Catharina ? 



NOTICIA. — 3/ PRATICA 

DADA PELO CORONAL GHRISTOVAO PEREIRA DE ABREU, SOBRE 
O HESMO CAMINHO AO R. P. M*. DIOGO SOARES 



NOTICIA — 3.» PRATICA 



Dada pelu coronel Christovâo Pereira d' Abreu, sobre o mesmo 
caminho, ao R. P. M. Diogo Soares 



Pede-me V. Rma. o informe do novo caminha qao abri 
peio oertâo para a Yilla de Coritiba, as utilidades que so podem 
seguir delle, e também osseus inconvenientes. Melhor poderá íV 
zer esta deligencia, se me achara aqui com um mappa que fiz do 
dito caminho, e dei ao Exm. Sr. Conde de Sarzedas, Gover- 
nador e capitão general que foi da Capitania de S. Paulo, mas 
na falta delle, direi o que tiver presente na minha lembrança, 
certo, de que a prudência de V. Rvma. disculpará os meus 
erros. 

£* bem sabido» que por tdâtA de gados, e principalmente 
de cavalgaduras, se não tem desfrutado mais os grande, e ricos 
thesouroSy oom que a providencia divina dotou e enriqueceu 
nesta America os vastos domínios que S. Magestade nella 
possuo, e que nas goucas que ha pelo seu grande valor con- 
somem os vassallos muita parte dos seus cabedaes. 

Querendo dar-lhe remédio António da Silva Caldeira Pi- 
mentel, que Governava S. Paulo, discorreu mandar abrir o 
caminho para por elle se introduzirem destas campanhas na- 
quella Capitania, e nas das Minas, gados e cavalgaduras, (to 
sorte que se utilisassem osVassallos, e augmentasse a Fazenda 
Real de S» Magestade. 

A esta diligencia forão sempre oppostos vários moradores 
das ilhas de Santos, Parnaguá, e Coritiba, e da mesma sorte 
os da Villa da Laguna, e de Sta. Catharina, estes porque vi« 
vendo retirados, ou por crimes, ou por outros iguaes motivos, 
como régulos sem obediência nem terror algum de justiça, re- 
oeosos de que eom a abertura do novo caminho perderião as 
suas liberdades, o fazião impossível; e aquelles, porque senda 



256 KKVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

S^enhores d^aiguiuas J imitadas fazenlajs, queba aos Caaipi>6 dt^ 
Ooritiba, temião o flcar com muito meuos valor, o por segui- 
rem a sua opiQíào, publícaudo com arestos íalsos de Paulistas 
antigos serem aquellos Certoes impraticáveis, querendo tam- 
bém persuadir-nos, que b'endo aquollas terras confinantes com 
aa Aldeias dos P. P. Castelhanos, poderíamos sul* invadidoà 
pelo Oonnollas aldeiados. 

Contra todas estas opposições resolveu o dito (ioueral An- 
tónio da Silva Caldeira, mandar penetrar o dito Certâo, prin- 
cipiando deste Rio Grande de S. Pedro, o a e^ta diligencia 
despachou ao Sargento- mór Francisco d(s Souza e Faria, man- 
dando-lhe assistir com todo o necessário por conta da Kaeeuda 
Real» e dando-ilio ordens amplas, para que as Gamaras da todas 
as ViUas, e Capitães-móres delias lhe dessem toda a gente, u 
o mais que lhes pedisse. 

Neste tempo me achava eu na nova Colónia do Sacramento, 
o tendo esta noticia, me puz Logo a caminho a ver o estado 
em que se achava esta diligencia, e chegando á Villa da Laguna 
achei ao dito Francisco de Souzx com alguma gente, mas quasi 
impossibilitado a dar a execução ao que se lhe ordenava, por- 
que oCapitão-mór da dita Villa, ou pelos motivos já ditos, ou 
por oontemplação dos moradores das Villas de Santos, Parna- 
guá, eCoritiba, com quem era aparentado, simuladamente lhe 
fttzia impossível, principalmente na gente» porque tanto se lhe 
alistava de dia como lhe fugia de noite; o vendo-o eu neste es- 
tado, cuidei em applicar-lhe o remédio, fazendo-o primeiro 
oongraciar o dito Francisco de Souza, com o Capitão* mór a 
qoem não íiUlava, e tive a fortuna de que oLle se puzesse a ca- 
minho com boa ordem e a gente necessária em Fevereiro do 
728. 

Deizando-o nestes termos me recolhi à Colónia, cuidando em 
fazer vma tropa de cavallos, c bostas muares para metter pelo 
novo caminho, e na consideração de que o acharia feito, parti 
daquella Praça com 800 cavalgaduras, e cheguei a este porto 
nos fins d'Outubro de 1731, e passando a parte do Norte achei 
varias pessoas com um grande numero do animaes para entra« 
rem ao dtto caminho, e sem embargo de haver noticia certa, 
que 06 descobridores tiohão sahido fora, nenhum se auimava a 



NOTICIAS A DIOGO SOARES 257 

i88o; assim por se dizer que o tal caminho necessitava de refor- 
mado, e de muito beneficio, como pot umas vozes vagas que 
corrião do haver gentio dos P. P. em cima da Serra, o que 
me resolvi a ir em pessoa examinar levando comigo só três 
peisoas, confiado em trazer cartas do Provincial das Missões 
para o General de S. Paulo, e para quem commandasse o dito 
gentio, e chegando acima da Serra me demorei dois dias, s^b 
ver mais que campos e gados. 

Voltando desta diligencia deixei a tropa da banda do Norte, 
passei a Santos, e a S. Paulo a fisLlIar ao General António da 
Silva Caldeira, como também a buscar nova providencia de 
gente, armas, ferramentas, e munições, para a dita entrada 
com novas ordens do dito Qeneral, que mo deu liberalmente, 
e com effelto chegando de volta, e seguindo 00 ramos dos pri- 
meiros descobridores entrei pelo Rio Araranguá com um Pi- 
loto, e sessenta e tantas pessoas, occupando muita parte delia 
no beneficio do caminho, em que gastei dilatado tempo em até 
sahir a Serra, por serem mattos muitos espessos, morros, rios* 
córregos, e pântanos, em que precisamente se havião de fazer 
pontes e estivas. 

Feita esta diligencia mandei marchar as tropas divididas 
em trossos, que entre a minha, e a dos particulares erão 
perto de três mil cavalgaduras, e cento e trinta e tantas 
pessosas ; sahidas esta me acampei, o mandei ver, e examinar 
logo o caminho dos primeiros descobridores, o vendo que a 
pouca mais distancia tornava a entrar em grandes asperezas, 
por se encontrar sempre a serra, e que precisamente dava uma 
grande volta pelo rumo que levava, determinei buscar outro s 
entrando mais pela campanha, o receando já a grande demora 
que poderia ter, tomei a providencia de levar comigo perto 
de 500 vacas qne mandei colher naquelles campos, e nesta 
forma ftii continuando a minha diligencia, que conclui, 
gastando nella treze mezes, e topando em partes como 
o caminho ou picada dos novos descobridores: cheguei a 
Villa de Coritiba. deixando-o na ultima perfeição com estivas, 
canoas em rios, e mais da 300 pontes, de sorte, que em 
menos d*um mez gente escoteia a pé podia passar todo o em 
que gastei 13. 

491 — 17 Tomo lxix p, 1. 



258 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Sabida a Serra se compõem aquellas terras d'ama apra. 
zivel vista, com campos mui dilatados, cruzados todos de 
vários córregos de cbristallioas aguas, que correndo para 
liCste, formão vários rios caudelosos, que sem duvida irão 
desagoar no Grande Rio da Prata, ha também nelles muitas 
qiadeiras, bons mattos, e grande numero de pinbaes. 

Logo a subir se topa com gados que cbegSo aomente aeom- 
panhando o caminho ató a cruz chamada dos Tapes, por um^ 
que ali acharão os primeiros abridores, .mas entrando para 
dentro se topa um grande numero do dito gado em campos 
nçioi dilatados, que vâx) confinar com uma grande Serra, em 
uma grande distancia que se mette de per meio com as 
terras das aldeias dos P. P. da Companhia, a qual Serra fez 
uma quebrada com mattos mui espessos, e ó por onde os di- 
tos P. P. ha poucos annos, com muito trabalho, e força do 
braço, e machado, abrirão caminho para passar os primeiros 
gados, o que aei pelo mandar examinar por duas possoas de 
quem me fiava. 

{Istando eu naquellea campos por varias vezes do dia vi 
pegar fogos, e. a primeira me deu algum cuidado, e toda a 
tropa, por entender-mos seria gentio, mas mandando*se exa- 
minar se não achou signal algum disso, e viemos a en- 
tender, que nascia do grande numero de christaes que ha por 
aqueJUes campos e córregos, não só de varias cores, mas lapi- 
dados, e tão finos, que com a força do sol pegão fogo, ou d*uns 
cocos de diUèrentes tamanho formados pela natureza por fora 
d' uma fina pederneira, e por dentro de uma pinha de cristãos 
jã lapidados, que ao arrebentar com o sol faz o m^mo 
efifeito. 

Além do referido com que a natureza formou e creou 
aquellas terras tem admiráveis paragens para creações de 
giidos, e tem mais a ezcellencia de serem tão salutiferas, que 
em todo o tempo que gastei naquelle sertão não houve uma 
sangria, nem me morreu mais que um homem, que jã entrou 
mui doente. São também muito farta de todo o género de caça, 
mel e pinhão, e mui férteis para todo o género de plantas^ 
como eu experimentei nos campos dos Coritlbanos, onde tive 
alguma demora. 



NOTICIAS A DIOGO SOARES 259 

Sobre tudo isso promettem muitos haveres, e nSo meoos 
augmento para a Fazenda de S. Magestade, pois só as cavalga- 
duras que entrarão em minha companhia renderão para a 
mesma Fazenda mais de 10 mil cruzados, e se tivera conti- 
nuado, se com a occasi&o da guerra do Rio da Prata não fora 
preciso vedar o dito caminho para não divirtir assim a gente 
como os cavallos, de que se podia necessitar, e isto sem experi- 
mentarem já tanta mortandade nelles, como eu, e os que forão 
comigo experimentámos, assim (lor estar o dito caminho já 
perfeito, como por se povoarem os campos de viamão, e se 
descobrir nelles novo atalho á subida da serra, que ô onde se 
experimentava a maior perda, sem que possa haver inconve- 
niente algum que o embarace. 

Porque o affectado temor, que nos querem introduzir os 
apaixonados de sermos invadidos pelos Tapes, se não pode 
recear em nenhum tempo, assim pela estreita garganta por 
onde sabemos entrão naquellas terras, com 50 armas se lhe 
pôde cortar o passo : como por ser aquella nação tão traidora, 
como cobarde, incapaz de por si só combaterem com outra 
alguma, como á poucos annos se vio nas differenças que tiverão 
com os Paragaes que bastarão só 500 destes para passar á es- 
pada 4000 para mais de Tapes. 

Menos nos devemos persuadir que peção socoorro aos Hes- 
panhoes, pelo grande ciúme que os P. P. teem de que estos 
lhe entrem nas Aldeias, temendo perde-las ; finalmente parece 
indigno de vir á imaginação, que por temor de semelhante gente 
haja S. Magestade se deixar usurpar os seus dominios, e perder 
as grandes conveniências, que pelo dito caminho podem resultar 
á Sua Real Fazenda e vassallos. 



NOTICIAS PRATICAS 



MINAS GERAES DO OURO E DIAMANTES 

QUE Vk DO R.P. DIOGO SOARES O CAPITAO-MÓR I.UIZ BORGES PlXTO, 

SOBRE OS SEUS DESCOBRIMENTOS DA CEI.EBRE 

CASA DA CASCA COMPREIIENDIDOS 

NOS ANNOS DE 1726-27 E 28, SENDO GOVERNADOR E CAPITÃO 

GENERAL D. LOURENÇO D*ALMEIDA 



NOTICIA- 1.» PRATÍCA 

Que d& ao R P. Diogo Soares, o Gapitão-mór Lais Borges Pinto, 
sobre os seus deacobrimeatos da celebre oasa da casca oompre- 
hendidos nos annos de 1726-27 e 28, sendo GoTernador e Capitão 
General D. Lourenço d'AImeida. 



I*RIMBIRA. TIÂOBIC 

Sahl do Arraial da Gnarapiranga nos princípios d*Abril de 
1726, com 97 armas toda>< A minha casta, e providas de fkcSeSi 
patronas, pólvora, e ohambo, o Pratico a oitava, e os mais á 
propor^ : sahio também comigo o R. P. Manoel da Silva 
Borgos, que sempre nos disso Missa a meia oitava de esmola. 
A primeira marcha qae fizemos, foi á barra do Xipotó,gastAmos 
nella dois dias por est ir por a^uella parte já feito todo o ca- 
minho, é todo matto geral com bastantes rossas, fazendas e 
lavras, e algnmas n^ tem dado pouco ouro. Passado o Guará»* 
piranga, e o Xipotó, no sitio de Manoel Valente, comecei a 
romper o matto, que ha, e grosso, buscando o sul, e costeando 
o Xipotó ; depois de IS ou 13 dias de boa marcha, voltando 
quasi ao sueste, fui dar com um quilombo de negros, que ttve 
ao principio por alguma aldeia de gentio pela forma, rossas e 
ranchos, de que estava provida: forão cercados, en vestidos, e 
mortos quatro, e os restantes se amarrarão para serem remet- . 
tidos a seus Senhores. 

2 — Ficava este quilombo n&9 cabeceiras d*um córrego, que 
cham&o o Turvo, e desagoa no Guaraplranga 6 tegoas abaixo do 
Xipotó, e antes do sumidouro. Daqui fui buscar logo as cabe- 
ceiras do rio dos (Coroados seguindo o rumo do susudoeste: gastei 
na viagem 17 dias, é tudo matto grosso com bastante caça e 
vargeria. Nestas eabecettas íhi ameaçado do gentio chamado 



264 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Lopo, que habita ncllas, e por todo o rio Lopo, qoe lhe dá o 
nome. Este rio é o que vem do Pinlio novo, e Velho, a se passa 
nelles no cAminho geral do Rio de Janeiro para estas Minas, o 
com outra cabeceira, ou riacho, que nasce, e corre da ponta da 
tromba da serra da Casca, forma por entre a mesma serra, e o 
morro redondo, que lhe fica quasi ao Oesnoroeste, o dito Rio 
Lopo, que recebendo em si da parte do Leste ao Rio Fundo com 
mais alguns córregos se vai metter no Parabuna e esta na 
Parahyba. 

3 — Das Cabeceiras dos Coroados abri picada costeando o 
mesmo rio e encostado sempre a serra com bastante trabalho e 
perigo ; cheguei ao Rio da Casca que desagoa nelle, e nasce na 
mesma Serra, gastando neste caminho 81 dias. 

Fiz rossas na 'sua barra de uma e outra parte do rio^ e para 
mais deligcncias, que nelle fiz, não achei o ouro que precisou 
aos paulistas a deixarem as suas casas pelo «eu descobrimento, 
porque ó tudo vargeria e matto grosso. 

Desta barra dos Coroados correndo abaixo o mesmo rio dei 
em um córrego, a que puz o nome Poço grande, gastei 7 dias 
nesta picada. Puz*lheuma cruz por mostrar algumas ílsiiscas 
d'ouro. 

Não passei adianto por me faltar já o mantimento e temer 
ao gentio, c assim atravessando os Coroados, vim com a nova 
picada, e mais direita, sahir ao quilombo por entre maito fe^ 
chado, e vargerias. No quilombo lancei novas rossas, e delle 
parti com toda a tropa para a Gnarapiranga, trazendo comigo 
os negros, que tinha deixado nello com guardas, e sahindo nos 
principies de abril chegou nos de Outubro do mesmo anno. 

SEGUNDA VIAGEM 

No anno seguinte de 1727 sahi segundo vei aos 17 de Maio 
com 44 armas, vinte cargas, e sem o R. P, Manoel da Silva 
Borges, que seguiu diversa picada. Passei o Gnarapiranga no 
Sitio do Medeiros, o Xipotó no do Velloso, e abrindo picada até 
o primeiro bi^açode um pequeno rio, que entra no mesmo Xi- 
potó da parte do Leste, ti*es legoas abaixo do Velloso, reparti 



NOTICIAS A DIOGO SOARES 265 

nelle a gente, elevando comigo só dezoito armas, foi costeando 
o rio, e o Xipotó, basoando-lhe as cabeceiras, nellas achei 
o Mello, que trouxe então comigo para me servir de Pratioo, 
e valerme também com algumas armas. 

Pela mesma picada voltamos ao Sitio, onde tínhamos repar- 
tido a gente, e achávamos Já no quilombo. 

2— Nesta picada que Az para o Mello, achei signaes de gen- 
tio ; e com efiEéito tinhSo morto ao mesmo Mello no seu mesmo 
sitio a uma india, e nos mattos visinhos dois mulatos. Do qui- 
lombo fui buscando o caminho e picada, que tinha deixado 
feita no anno antscedeute, e para ella as rossas do Rio da 
Casca ; cheguei aellas depois de alguns dias de viagem a 26 de 
Julho dia de N. S. de SaQt*Anna,«e achei já nellaR. P. 
M^moel da Silva, com a mais tropa, que o acompanharão. 

Aqui me deixou o Mello, deixaado-me também só sete ar- 
mas, por lhe ser preciso voltar as ua oasa, e não sem risco 
pela noticia que teve de lhe fugirem delia os negros na sua 
ausência. 

3— Nestas rossas acheijà colhido os milhos, e feita nova 
matalotagem, marchei abrindo picada ató o pó da Serra, onde 
cheguei depois de quatro dias de marcha ; Subia no primeiro 
de agosto com insuportável trabalho, em que gastei 7 dias, e 
quatro em a descer, para que ó altíssima; passada esta, subi 
logo outra Serra, entrando por uma quebrada delia, mas não 
com tanta facilidade que não gastasse três dias em a subir e 
descer ; e deixando outra a mão esquerda, que tem a ponta ao 
Sul e corre como as mais qiiasi ao Norte, dei em um grande 
ribeiro, a que dei o nome de Rio Fundo: e costeando por elle 
abaixo sempre ao Sul encontrei outro, que se mete no mesmo 
Rio Fundo, da parte de Leste, e nascem ambos nas ditas serras 
da parte do Sul, e um e outro desagoa no Rio e Lopo e este na 
Parabuna. 

Gastei nesta picada 57 dias com os de falha que forão nove, 
para descanço da Tropa. 

Restabelecida a Tropa passei na barra este rio, e costeando 
o Fundo um ou dois dias, me resolvi a voltar pelo evidente 
perigo do gentio, que habita por todo o Rio Lopo, e tanto que Já 
nos cahião noa ranchos, e nas picadas as folhas das suas 



266 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

queimadas, e assim seguiu pela mesma picada o caminho das 
serras, e antes delias tive algumas das folhas aoima ditas, e 
descobri também no mencionado ribeiro, que entra no Rio 
Fundo, boas mostras d'ouro. 

4— Tornei a subir a Serra, e vendo, que era já tempo de 
planta precisa para sustento da Tropa, busquei entre as duas 
serras as cabeceiras do Poço Grande, e nellas lancei uma rossa ; 
oocupou-se neste servigo alguma gente, em quanto eu com a 
mais marchava ás rossas da casa da casca a prover- me de man- 
timentos, conduzido esto á cabeça dos negros segui logo a mes- 
ma serra pela volta que faz ao Norte, e desci por uma quebrada 
gastando na viagem cinco dias. 

Nestes dei com as oaBeceiras do Rio Abatipó, e correndo 
por elle abaixo lhe encontrei as aguas mortas, e vermelhas em 
bastante distancia, e vi, que estas despediâo ao depois em 
uma grande e forte correnteza, que segui, e esperimontei 
achando nella alguns signaes de ouro. 

No ílm desta correnteza passei o Rio para a outra parte de 
Leste, e socavando-o também achei ouro. Passado este dei em 
outro rio, que nao sei, se é o que chamão Capibari e desagoa 
no Ribeirão do Carmo, ou Rio Doce, se braço ou cabeceira 
Rio Tapeba, porque lhe nSo vi a barra. 

õ^Passado este busquei logo o Taplba, e depois o Rio CnyetÒ, 
mas antes de chegar a ellè, me vi precisado a voltar-me por 
medo e receio do gentio, que nelle habita, e é innumeravel, de 
que eiuo signaes certos as muitas panella que achamos suas 
por todo este caminho a lem de que já me achava a 8 de outu- 
bro, visinho ás aguas, e era preciso plantar as rossas da Casca 
e quilombo para sustento da Tropa, porque as da serra se tinhao' 
plantado no mesmo teioapo que andei nesta derrota, e asam 
volteia Casca em oito dias, o desta ao quilombo em cinco, dei lo 
ao Xipotó em três, e desta ao Guarapiranga em um que foi aos 
^ de outubro, deixando tudo preparado e prompto para no anno 
seguinte fazer nova viagem com as plantas das três rossas 
pelas mesmas picadas antecedentes, e passar a buscar os Rice 
Arary, Preto e Pardo, e descer a ver na parte do Norte a oele- 
bre Bituruna, onde dizem ha muito ouro, e sítios capazes de 
uma boa Povoaçáo. 



NOTICIAS A DIOGO SOAhES 267 



TEROBIRA VIAGEM 

Nesta terceira viagem, qae emprehendi para os meuâ des- 
cobrimentos determiaava sahir no principio de Mayo de 1728» 
e estando Já preparado com 50 armas, poucas para o fim que 
intentava, todas como sempre a minha custa, o com o mais 
necessário de pólvora, chumbo e bala, me resolvi a dar parte ao 
general D. Lourenço d* Almeida, e valer-me juntamenta da sua 
actividade, e protecção para me por prompta mais alguma gente, 
pois a expedição a que agora sabia, era muito mais arriscada que 
as duas antecedentes, e o sitio habitado de innumeravel gentio : 
mas como as ordens que para isso se derao, nSo sortissem efléito 
algum, &ltando-me não s6 a gente, mas consumindo-se-me 
nestas demoras o tempo, e os mantimentos, que tinha promptos, 
me resolvi a deixar a viagem do Arary e Rio Pardo, e com 
élles a da Bituruna, e assim costeando novamente a Xipotó, 
busquei outra ves o Mello resoluto a lançar fora daqusUes mat- 
tos um bon^ lote de gentio ooroado, que nos dias antecedentes 
tinhão morto a taes brancos, e com effeito o flz gastando 
dais mezes com esta viagem por me entrarem mais cedo as 
aguas, e não me darem logar a poder passar adiante. — Luix 
Borges Pinto* 



NOTICIA — 2/ PRATICA 

DADA PELO ALFERES MOREIRA AO P. M*. DIOGO SOARES 

DAS SUAS BANDEIRAS NO DESCOBRIMENTO 

DO CELEBRADO MORRO DA ESPERANÇA EMPREIIENDIDO 

NOS ANNOS DE 1731 E 1732 

SENDO GENERAL D« LOURENÇO DE ALMEIDA 



notícia — 2.» PRATICA 



Dada pelo Alferes Moreira ao ?• M. Diogo Soares 

das suaa Bandeiras no descobrimento do celebrado Morro d« 
Esperança euiprehendido nos annos de 1731 e 1732, sendo 
General D. Lourenço d' Almeida. 



1. — Sahi da Villa de N. Sdf^. da Piedade no Pitangul a 15 
d* Agosto de 1731, com 20 armas, todas á minha custa. Cheguei 
ao Bamboy, que ô ultima Fazenda do Rio de S. Francisco, 
rio acima, depois de 20 dias de viagem, abrindo em todos elles 
picada por mattos carrasqucnhoB» campos cobertos, e catan* 
dubas : a poucas marchas passei o Lambary, que é um rio, 
que nascendo emparelhado com o do Pitangui, entra nelle oito 
Idgoas abaixo da Villa do seu mesmo nome : mas como perdi 
o rumo, e temi as agoas foi-me preciso o voltar pela mesmi^ 
picada, em que gastei 15 dias. 

2. — Tornei a tentar fortuna, vendo que se demoravSo as 
agoas, nos princípios de Setembro sahindo pela picada antiga, 
que vai do Pitangui para S. Paulo, mas abrindo-a de novo 
por estar já. cerrada com o matto cheguei ao Cururú em 23 
dias com marchas pequenas, e algumas falhas, depois de 
passado outra vez o Lambary. 

B* o Cururú um brejo grande, distar& pelo caminho velho 
de S. Paulo da Villa do Pitangui, donde sahi só três dias de 
viagem. Passado o Cururú cortei ao Pouente a buscar o Rio^ 
Grande com intento de emprehender o descobrimento do Morro 
da Esperança, de que dizem os Certanistas antigos ter muito 
e excellente ouro. Depois soube, que fora lançada, e plantada 
esta rossa por outros aventureiros do mesmo Morro, mas sem 
effeito. Situado fiz logo duas canoas, rodei nellas rio abaixo 
dia e meio de viagem achando d'uma e outra parte do Rio 
varias i*ancharias que ao depois me constou tinhão sido de 



272 REVISTA IX) INSTITUTO HISTÓRICO 

duis Tropas qu« sahirão do Rio dos Mortos para os Quayases, 
pola parte em que a serra das Carrancas faz a primeira cabeça do 
Rio Graode, e passado o Piauy entraram peia primeira bocayaa, 
onde sabe um dos braços, oa primeira cabeceira do Rio do 
S» Francisco, e buscando o oampo dos Cayapós, forão sabir A 
estrada de S. Paulo, nu sitio a que chamão de Lanboso. 
S. — A parte, que rodei do Rio Grande é limpa o boa, mas 
para baixo tem innumeraveis cachoeiras principalmente até o 
sitio, onde chamão o somidoiro que fica abaixo da barra do 
Rio Sapuoay oito dias de viagem. São chapadas tudo, e 
morrerias. Da rossa ou sitio em que ne arranchei lancei uma 
bandeira, que se recolheu no ftm de cinco mezes de passados 
innumeraveis trabalhos, perigos, fomes, e todas as mais misé- 
rias, que costumamos experimentar em semelhantes emprezas 
os Gertanistas. Busoon-me esta na rossa, não me achou ja 
nelia por me ter recolhido a Pitangui suppondo-a perdi a. 

4. — Nesta retirada que foi da rossa para o Pitaagui en« 
centrei perdido naqnelles mattos ao Capitão Thomaz de Souza, 
natural das Ilhas, que com outra bandeira buscava a altura 
dos Guayases com o signal de três morros, em que nasce um 
formoso Rio, que chamão o 'Rio das Velhas, desagoa no Par- 
nahiba, este no Rio Grande ; recolhemos ambos ao Pitangui 
onde ohegamoe a 23 de Junho véspera de S. João. Descansámos 
na Villa alguns dias, os que bastaram para nos prover-mo.s 
de pólvora, e munição, e voltando ao oertão seguimos ã minha 
mesma picada, e a primeira que eu nelia abri, passamos o 
Bamboy, e nos fomos arranchar no Piauy : gastamos nesta 
derrota 23 dias por respeito dos cavalloi, em que conduzíamos 
00 trastes e mantimentos. 

5. —Do Piauy lancei uma bandeira que me gastou hum 
- mez e foi buscar o Morro, onde as carrancas atravessão o 

Rio Grande, e socavado o morro, aohou não ser o da Espe- 
rança, eomo dizia o Guia : emfim não consegui então aquelle 
descobrimento ; porque quando o quiz emprohender de novo 
me desamparou o Guia, indusido d' um Bautista Maciel 
Paulista, que se acha situado no Piauy, e o mais foi, que 
não m) me privou do guia. mas ainda de cinco escravas 
menos, a quem induzio também a me deixarem; e assim 



NOTICIA —2.* PRATICA 27B 

veado-me som gente, e sem meio para a dezejada oonquista 
me tornei a reoolher ao Pitangui sem mais lacro, que o que 
V. R. pôde inferir destas misérias. 

6. — E' de advertir, que da Bocayna, ou primeira oabeceira 
do Rio do S. Francisco a estrada gerai de S. Paulo para 
03 Guayases, cortando os campos dos Cayapós, são onze dias 
de viagem ; e da barra do Rio Grande ao Sapuoay seri 
um mez por matto, e só quinze dias pelo rio. Do Sapucay 
ao Morro da Esperancei serão ires dias : neste corta o Rio 
a Serra íicando-lhe esta sempre & mfto direita ; fronteira ao 
morro da Esperança fica o Bituruna— gaassu, este morro 
exhala fogo, e ha muitas tormentos nelle : dizem que tem 
muito ouro, e que pouco abaixo delle está uma boa aldeia de 
Gentio. Do morro da Blturuna á primeira bocayna da serra 
talhada serão oito dias de viagem, e desta & segunda bocayna 
quando muito meia iegoa. Entre o Piauy, e a terra ha um 
grande tremedal, em que são innumeraveis os mosquitos tem: 
porem muito peixe e algumas poagàs de ouro. Os rios 
dê canoas são os rios Grande e pequeno, o Lambary, o Rio 
Verde, o Juruoca e o Sapucay, que é maior que este nosso 
rio das velhas, e com muito mais cachoeiras, mas tem bom 
peixe, a agua ó limpissima, e muito clara. O Alpsres Moreira. 



491 — 18 Tomo lxiv p* i. 



XOTICIA — 3.' PRATICA 

QUE L>A AO R. r**. DIOGO SOARES O MESTRE DE CAMPO 

JOSÉ HEBELLO VERDXQÂO. SOBRE OS PRIMEIROS DESCOBRIMENTOS 

TAS MINAS GERAES DE OURO 



NOTICIA — 3.» PRATICA 



Quo dá ao R. P. Dio<;o Soaro.s o Mf^stre do Campo Jozó Rebollo 
P.Tdijrão, sobre os primoipos descobrimentos das Minas Ooraes 
do Ouro. 



Manda-me Y. Revm", quo por serviço de S. Mag. que 
Deo0 Gde. e como habitador dos mais antigos destas Minas, 
o informe dos primeiros descobrimentos digo descobridores 
delias principalmente do celebro, e precioso Ribeirão de Ouro 
Preto, e dos mais que nelle entrão ató formar o famoso 
RibeirSo de N. Snr*. do Carmo ; com particular individuações 
do qne neista matéria souber, e como para semelhantes em- 
pregos é a minha obediência cega direi o que se informou 
ao primeiro Oenerai, que com esta incumbência passou ás 
Capitanias de S. Paulo, de quem vim por Secretario do seu 
Governo. 

2. — Tendo-se feito presente a S. liAagestade o muito alto e 
poderoso Rei D. Pedro 2.« de gloriosa memoria, qne para 
estes oertões tinhão vindo os primeiros descobridores do ouro, 
foi o mesmo Senhor servido mandar a Arthur de Sà e Me- 
nezes, ás Capitanias de S. Paulo para lhe pôr em arrecadação 
08 seus Reaes quintos, e passar igualmeute a estes grandes 
e preciosos oertdes, e dar as primeiras normas precisas ao au- 
gmento da Sua Real Fazenda, o que com eíTeJto fez indo pri- 
meiro a S. Paulo onde se informou dos homens e certanistas 
mais práticos, e fidedignos, do principio que ti verão estas mi- 
nas, e sitio em qne se achavão, e com as suas informações 
formou o Regimento, que fundamos nesta Capitania, com a 
experiência do que vimos, e experimentamos nestas Minas, o 
ô o mesmo, que hoje se observa uellas, remetteodo-se pri« 
meiro ao Conselho Ultramarino, segundo o que ordenou o 
mesmo Soberano ao Desembargador Josà Vaz Pinto, primeiro 
superintendente das mesmas Minas. 



HEVISTA DO INSTITUTO HlSTOniGO 

278 

3. — Pelas noticias que derão em S. Panlo os primeiros 
Certanistas, quo yierão do descobrimento das esmeraldas oom 
o Capitão-Mór Fernando Dias Paes, e principalmente pela d*um 
Duarte Lopes, quo bzendo experiência em um certo Ribeirão, 
que disse desaguava no Rio Guarapiranga, de que com uma bateya 
tirava ouro, e tanto que chegava em Povoado a fazer delle varias 
peças lavradas para o uso de sua casa, se animario os moradores 
de todas aquellas Villas a formarem uma Tropa com o intento 
de buscarem e descobrirem a paragem, ou certão da dezejada 
casa da casca, onde disião era muito e precioso o ouro. 

4. — SabiriLo estes do Povoado no Verfto de 1694, trazendo 
por seus primeiros cabos, Manoel de Camargo, sen cunhado 
Bartholomeu Bueno, seu gearo Miguel d'Almeida, e Joio Lopes 
Camargo, seu sobrinho, que ainda hoje existe nestas Minas. 
Chegados a Itaberaba flzerfto na sua serra as suas primaras 
experiências, e descobrirão nella o primeiro ouro ; mas oomo 
este descobrimento nSo fosse de grande lucro, pfosegnlo, o 
dito Manoel de Camargo, oom seu filho Sebastifto de Camafgo, 
a sua primeira derrota da ideada casa da oasoa, mas anios 
de chegar a ella teve a infelicidade do o matar o seu gentio« 
deixando só com vida ao tiiho com mais alguns negros, oom 
quo este retrocedeu a viagem, retlrandose o gentio para o 
matto, oomo natural delle. 

5. — Depois deste primeiro descobrimento se animou a em. 
prehender segundo um Miguel Qarcia, descobrindo na íbz da 
Swra da Itatiaya um ribeirão a que deu entSo o nome, e se 
chama agora o Qualaxas do Sul ; mas como neste descobri- 
mento recusarão oa Paulistas, ou naturaes de S. Paulo, a dar 
partilha nas lavras aos de Taubaté, desconfiados astes lan» 
çarara sua Bandeira, e por cabo deila a um Manoel Garcia, e 
oom tanta f^iicidaJo que em breve tempo descobriram o oe* 
lobrado o rico ouro preto. Com osta notícia chegou de Po« 
voado tanta gente, que apenas se repartiram três braças dn 
torra a cada um dos mineiros por cuja cansa lançou nova Ran« 
deira um António Dias, e correndo a mesma Sorra de^cobrio 
o ribeiro que hoje ohamão do mesmo nome, que com a con« 
tinuação e disposição que lhe derio, ó agora uma continuada 
ru^, e forma a rica Yilla de Ouro Preto. 



NOTICIAS A DXOGO SOARES 279 

6. •— Com a mesma emulado fez 8ua tropa o P.* João da 
Faria» e em breve tempo descobrio o Ribeiro de sea aome: 
porém ooma os qoa tiabão mais armas, e mais séquito erão 
seiw^ nestes desoobrimeiítos os mais bem aquinhoados, deter- 
minaram os mal contentes formarem noras Bandeiras: uma 
dietas deseobrio e socavou o Ribeiro que oluanão Bento Roiz, 
Bome do Cabo, de tanta grandeza, que tiraram nel^ algumas 
batesradas da duzentas e trezentas oitavas: sendo a pinta geral 
de doas, e três oitavas ; e foi tanta a gente, que concorreu, 
qqe no anno de IÔ97, valeu o alqueire de milho sessenta e 
quatro oitavas» e o mais & proporção. 

7. -** Outra Bandeira fez também o Capitão João lopes de 
Uma, morador no Tibaya de s. Paulo, levando ooQudgo ap 
P.^ Manoel liOpes, seu irmão ; o Buá, de alcunha^ e desço- 
bilram o fiunoso ribeirão do Carmo, que mandou r^partir^ es- 
tando já em S. Paulo, o meu General, nomeando para M^o 
por Quarda-M6r destas Minas ao Sargento-Mór Manoel iiopes 
de Medeiros ; O ouro deste novo ribeirão se avaliou então por 
melbor, que a do ouro preto, por este der miUs agro, e de se 
ftier em j^daços ao pâr-se-lhe o cunho, tanto que se Julgou 
por inútil, çhegando*se a vender a oitava por doze e treze vin- 
téns, na Cidade da S. Paulo, motivo porque se abandonou três 
vezes aquelle descobrimento, como ou presenciei. 

8. — Este ribeirão do Carmo se repartio coisa de duas legoas 
em 15 de Agosto de 1700, dando o descobridor a esperanoa do 
que para baixo se seguião maiores pintas, e assim se tem ex- 
perimentado em tantos annos, que se tem lavrado o dito Ri- 
beirão. Passados dois annos se descobrio também o Ribeirão 
de António Pereira, nome do descobridor ; a que chamão hoje 
Qualaxos do Norte : e como este descobrimento foi só nas ca* 
beceiras do dito ribeiro, passou a descobril-o uo n^eio Sebastião 
Roiz da Qama,porque o seu fim ou barra a descobrio um João 
Pedroso, descobridor ^também do Rio Brumado, e da do Semi- 
douro, que não derão menos riqueza. Estes rios desagoão ambos 
no de Miguel Oaroia, ou Qualaxos do Sul, e todos no RibelrSq 
do Carmo Junto ao Forquim» 

9. — No mesmo Ribeirão do Carmo desagoa o Ribeiro do 
Bom Successo, que descobrio o Coronel Salvador Fernandes 



280 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Fartado, deu muita grandeza, e foi o sou descobrimento um 
anno depois do de Ribeirfio, e o mesmo Coronel o repartio por 
ordem do meu General, com este exemplo continuaram os mais 
Mineiros a proseguir os seus descobrimentos, Ribeirio abaixo: 
e o primeiro que o investigou, foi o GapitSo António Rodova- 
lho, distancir de dez léguas pouco mais oa menos, hoje do Ouro 
Preto, e enUo 6 dias de viagem, e se situou, onde V. R."^ 
me acha agora situado. Passou mais abaixo JoSo Lima Bom- 
íistnte, e se sitiou, onde hoje é a Freguezia do Bom Jesus do 
Ifonte, chamado commummente Forquim, e o que depois foi 
mais abaixo, foi o P.^ Alvarenga, que investigou muita parte 
deste Cert&o. O ultimo de todos que se situou neste Rio foi 
Francisco Bueno de Camargo, grande Certanista, e lançou o 
seu primeiro sitio junto a barra, em que este Rlbeir&o se íd- 
corpora com o Rio (luarapiranga, maior que todos os mais, 
e que desagoa nelle por três grandes bocas. 

10. Todos estes descobrimentos se íiserSo do anno de 1700 
para diante. Esta informação a dou a V. R."** por me achar 
morador nessas Minas, e neste Ribeir&o do Carmo ha perto de 
32 annos, e como V. R.»* me nio encarrega a noticia das 
mais partes, a não dou, o que íkrei sendo necessário. D.* 
G/<» a V. R.»* Sr. Ribeirio abaixo, 2 de Janeiro de 1733, 
José Rehello Perdigão, 



NOTA PRIMEIRA 

Depois de alcançada esta noticia que ao depois experi- 
mentei ser verdadeira, se me dice no arraial de S. Caetano 
3 legoas antes do do Forquim, e aonde fiz esta mesma di- 
ligencia que os primeiros seus descobridores forâo sim o dito 
António Rodovalho da Foncooa, mas acompanhado do Capitão 
Francisco Alvares Correia, e Sebastião de Fieltas Moreira, e 
que estando arranchados no Pissarão cam suas rossas, as 
deixaram ; e entraram a descobrir pelo RibeiriLo abaixo tudo, 
o que corre até o Forquim, e que a primeira rancharia, 
que tiohão feito, fora no morro Grande, oode e:?tiveram 



NOTICIA A DIOGO SOARES 281 

alguns mezos lavrando o dito Ribeirot donde passaram de 

pois ao Forquim arranchando-8C e lavrando nelle, e qae 
isso haveria pouco menos de 30 annos. 



NOTA SEGUNDA 

o Ribeiro a que esta Noticia chama de Miguel Garcia 
mm primeiro descobridor, não é o verdadeiro Gualazos do 
Sul, ainda qne é cabeceira sua ; porque este nasce na Serra 
da Itatiaya» e o Garcia unido com o do ouro branco entra 
no do Gualaxo pela parte direita junto ao sitio, onde hoje 
tem as suas lavras o Dr. Guido. O mesmo succede ao Gua- 
laxo do Norte, com o de António Pereira, que sendo diver- 
sos Ribeiros correm a unir-se com o mesmo nome. Notas 
Ao estas, que nSo mudSo a sustancia desta noticia, mas sâo 
precisas para algum escrupaloso, etc. 



NOTICI\ — 4. \ PRATICA 

QUE T)A AO R. P. DIOGO SOARES O SARGENTO MÓR JOSÉ MATTOS 
SOBRE OS DESCOBRIMENTOS DO FAMOSO RIO DAS MORTES 



NOTÍCIA — 4.» PRATICA 

Que dá ao R. P. Diogo Soares, o ISargento-aiôr José Maltos sobre 
os descobrimentos do Famoso Rio das Mortes. 



O que posso iaformar á V. Revma. sobre o qae me 
ordeaa, é, quo oo aono de 1702, pouoo mais ou meãos, des- 
cobrio Thomó Portos d'£l-Rei juoto ao sitio, em que boje está a 
Villa do S. José, um Ribeiro que ello, como substituto, do 
Guarda-mór Garcia Roiz Paes, repartio entre si, e alguns 
Taubatoaoos, onde formaram todos um arraial, a que dorão 
o uomo de Santo António, levantando nelle uma pequena 
Capella com a invocação do mesmo Santo, e nesta teve 
principio a primeira Freguezia deste districto. 

2. No anno de 1704, com pouca differenca, morando 
sobro o Rio das Mortes desta parte, aonde hojo é, e foi 
sompro o porto da passagem, António Garcia da Cunha Ta- 
batiano, que por morto do dito Thomó Portos, sen sogro, 
succedeu em Guarda-mór para a repartição das terras mi- 
neraes, assistia na sua visinhança um Lourenço da Costa» 
natural do S. Paulo, que sorvia ao dito António Garcia de 
bou escrivão das datas ; osto descobrio o Ribeiro que corre 
por detraz dos morros dejta Villa de São João, para a parto 
do Noroeste, e foi repartido entre varias pessoas oom o nome 
do S.' Francisco Xavier, e tem dado, e dá ainda hoje ouro, e 
n^ só no principio do seu descobrimento, mas em alguns annos 
depois so lhe acharam em algumas paragens pintas ricas. 

3. Neste mesmo tempo um alho de Portugal chamado 
Manoel João Barcellos, descobrio pelo morro desta Villa, em 
que hoje so minera muito, e bom ouro, o foi o primeiro 
quo se descobrio polo campo fora dos ribeiros, e suas mar- 
gens. Descoberto e repartido o dito morro, o primeiro que 
nelle se poz a faiscar foi um Sr. Pedro do Rosário, da Ordem 



286 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

de S. Panlo e a seu exemplo os mai« que tinhSo na 
dita repartição sua parte, acharam estes pela raiz do capim 
muitas e boas manchas, a que naquelle tempo chamavão pa- 
nollas, de 300, 500 e 700 e mais citaras com tanta flMilidade 
que convidados delia alguns dos visinhos, e outros vindos 
de fora, uns pedindo alguns restos do dito moiTO, e outros 
assoeiaudo-se, formarão arraial ao pá do mesoio morro, pela 
paragem que está da Matriz atô ao mesmo morro, com uma 
Gapelia dedicada a N. S. do Pilar, que depois foi a 
segunda ft*eguezia, e assim lhe deram o nome de Arraial 
Novo de N. S. do Pilar em razão do Arraial de Santo 
António ser primeiro, pelo que ficou sondo arraial velho 
nome que perdeu creando*o Villa no anno de 1718, ò Condo 
d^Assumar, D. Pedro d' Almeida, sendo Governador e Gene- 
ral destas Minas, e dando-lhe o nome de S. José quatro 
annos depois da erecção desta por D. Braz Balthazar da 
Silveira, seu antecessor no anno de 1714, debaixo do titulo 
de S. João d'El-Rei. 

4. Nesta, e na de S. José, e seus termos se lavra 
atô ó presente por terra, e pelo mesmo rio das Mortes, e 
suas margens, e se tem topado em difforontes tempos com 
boas pintas, o grandes manchas ; porque da outra parte do 
rio, aonde chamam o Córrego, que também ó descoberto 
desde o principio destas Minas, se tem dado varias catas 
de grandes conventos, como também por matto dentro da 
Villa de S. José, e ainda na mesma VlUa com boas e ricas 
Guapiaras. 

5. Nesta rossa de S. João se tem achado polo pó do 
morro delia varias manchas de consideração na primeira 
fbrmação, e na que chamam segunda muito maiores pxo- 
í\indanão*a alguns dos mineiros, que a tem lavrado pela 
baixa do mesmo morro, que corre da parte do Ribeiro da 
Villa para o poente, por alguns signaeSi que toparão na 
primeira formação ; como também pela vargem, que se estendo 
pelo mesmo Ribeiro da Villa até onde chamão o Tejuco, se 
tem extrahido muito ouro* 

6. Tanibem no mesmo rio das Mortes no sítio a que 
chamão o Cuyabã se tirou estes annos próximos uma grande 



NOTICIA A DIOGO SOARES 287 

mancha de pedaços d*ouro, no mesmo anno de 1730 tirou o 
CapitSo Jofto Ferreira dos Santos, uma ezeessiya grandeza» 
harendo tirado no mesmo Cuyabá, 5 ou 6 antes, em todos 
elles bastante ouro: no mesmo anno de 1730 teve a mesma 
íòrtnna João d^Oliveira, e seus sócios, tirando igual gran- 
deza a de João Ferreira dos Santos, e só com a diíTerença, 
que este o achou no yeio do Rio, e aquelle no barranco 
do mesmo Rio, e no sitio, que partia com o veio, que 
lacrou o dito João Ferreira dor Santos ; e assim por todos 
06 barrancos de ama e outra parte se tira actualmente bas- 
tante ouro. Como também pelo veio do mesmo Rio nas suas 
Itaybas, ou ilhas cobertas d'agoa, tirando-se de mer- 
gulho ; porque onde as nâo ha de faísca com Oanôas ar- 
madas de uns ferros á maneira de colheres. 

Todo este louvor se faz excessivo trabalho, valendo«so 
todo para esgotar a agoa da força de negros com bateas 
ou outros engenhos de rodas e rodas sobro rodas mas com ser 
igual o trabalho o proveito é de peuoos porque os haveres só 
são para quem Deus os tem determinado eto. 

A' pag. zn — Noticia, 2» pratica * Nota (2), ha esta 
lacuna: 

€ Chegando ao Rio Grande com bastante dias de viagem 
me arranchei em uma rossa que achei plantada nelle : re- 
colhi o mantimento, rossei e plantei de novo outro •> Depois 
soube etc... 



NOTICIAS PRATICAS 



COSTA E POVOAÇÕES DO MAR DO SUL 

B RS8P03TA QUE DBU O 8AR0BNT0-MÓH DA PRAÇA DB SANTOS MANUBL 

GONÇALVBB DB AGUIAR, ÁS PBROUNTAS 

QUE LIIB FBZ O GOVERNADOR B CAPITÃO-OBNBRAL DA GIDADI 

DO RIO DB JANBIRO E CAPITANIAS DO 0UL. 

ANTÓNIO DB BRITO B MENEZBS, 80RRB A GOSTA B POVOAÇÕB.S 

DO M£!JMO NOMB 



491—19 Tomo lxix p. i. 



KotitiM pmicag li CMtii e FDTOKfin lo Mar ii 



NOTICIA- 1.» PRATICA 

E resposta que líen o Sar-ento-mór da Praça de Santos, Manoel 
Gonçalves do Aguiar, ás perguntas que lhe fea o Governador e 
Capitão General da Cidade do Rio de Jaiíeiro, e Capitanias do 
Sul, António de Brito e Menezes, sobre a costa e povoações do 
mesmo mar. 



1.» PE Ra UNTA 

Se a entrada da Ilha de Santa Catharína ó fácil a toda a 
casta de navios, ou se necessita de monção alguma, assim de 
ventos, como de correntes de aguas? 

RESPOSTA 

Digo que a dita entrada da Ilha de Santa Catharina é sim 
fácil a toda a casta de embarcação, mas não tanto, que possão 
estas passar da Ilha de Ratonez, onde costumavão dar fundo os 
navios Francezes, que ião e vinhão do mar do sul em tempo, 
que tínhamos guerras com eUes, como ainda agora o •stão 
também fazendo, uns a refrescar-se, e fazerem agoada, e lenha, 
e outros a esperarem o tempo das monções chegando ali antes, 
ou depois delias ; porque dos Ratonez até a Povoação só podem 
entrar Samaoas, ou Patachos pequenos, que demandem pouca 
agoa, porque em partes tem somente duas braças de fundo, o 
que se entende entrando os ditos navios, pela barra do 
Norte, que entrando pela do Sul só Sumacas grandes, ou Pa- 
tachos pequenos podem chegar á Povoação, sahindo por uma 
barra e entrando por outra, tudo por dentro d% Ilha e terra 



292 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Também na barra do Sul costumão dar ftindo os Francezes 
entre uma Ilha que fica na boca da mesma barra, e a Ponta da 
terra flrme. onde puzerio um marco ou padrão que amda h(we 
extete sobre adita Ponta daa Pedra», e ahl fezUto agoada, e 
lenha, mas com nSo pouco risco do darem i costa, entrando 
iCue^ ventos Sueste ou Sul. Para se buscar ^ta l^a nio 
2e necessita de monção, e menos o esperar mar6s. mas com 
torrS^mpo se navega para cila por (kzer um como cabo 

H Aflta Gosta do Sul . 

sem embargo de que revirando os ventos Sues no seu 
tempo dar* detrimento a se alcançar. 

a.* PERGUNTA 

se os navios que estão ancorados no Porto da Ilha estão 
seguros de todos os ventos, o do todo o mar? 

RESPOSTA 

Respondo, que os navios na Ilha. e porto dos Ratonez estão 
seiruroBdos ventos tendo boas amarras, e do mar muito 
melhor, por estarem entre a terra arme, e a Ilha onde so- 
ment^ ha mat quando venta. E' verdade que no Porto da 
Povotc-al) tem as Sumacas o Patachos, que nelle «tão muito 
mais abrigo, assim dos ventos, cómodo mar. 

3.» PBRGUNTA 

Se ha abundância de peixe, e se tem capacidade para se 
fazerem nella pescarias de Baleias ? 

RESPOSTA 

Não ha duvida, que ha na dita Ilha bastante peixe i«ira so 
moradores que nella morão. o tanto que fazem suas secas ; que 
^írcgâo as Suniacas. que ali vão para negocio, mas se se po- 
^r^combasunte gente, terão o preciso para o sustento 
líf^ra secas só as poderão fazer no tempo do P^^aq"^ ^o 
íuercspeit. a pescaria das baleias, respondo, que nao tema 
dUaíha capacidade alguma panv isso ; porque pelos baixos que 



NOTICIAS A DlOr.O SOARES 203 

tem nao entrão baleias nella. Só no Rio de S« Francisco se 
poderá fazer uma boa pescaria, e melhor, e mais suave que a 
do Rio de Janeiro. A mesma so pôde fazer em Santos com 
não menos commodidade. 

4.» PERGUNTA 

Se a Ilha ó sadia, se tem bons ares, e boas agoas ? 

RESPOSTA 

E' sem questão, que de todas as terras, que ha povoadas 
nesta costa, é esta a Ilha a melhor, e a mais sadia, e com as 
melhores, e mais saudáveis agoas, e com os ares semelhantes 
aos de Portugal, assim na Ilha, como na sua terra íirme. 

5.* PERGUNTA 

Se a terra é montuosa, ou campina das a que chamão 
Massapé ? 

RESPOSTA 

Digo que a terra da Ilha é toda Lavradia, tem algamas 
campinas, e os montes, e serras que tom so lavra ao pé delias ; 
não é massapé, ma? é uma terra de areia grossa que sempre 
está (Vesca, e ])or isso produzem nellas todos os mantimentos 
por sor a mais delia com pedregulho miúdo. 

6.* PERGtJNT.V 

Se do tempo em que foi povoada lho íicou algum gado^, que 
moradores tem, e se farão mais em outros tempos, que frutos 
dá, o de que se sustentão seus moradores ^ 

RESPOSTA 

Não ha duvida, que, do principio que foi povoada esta 
Ilha atô o presente, sempre teve moradores, o o gado sempre o 
conservarão, ou pouco ou muito antes que França tivesse 
guerra comnosco havia mais do que hoje tem poros seus 
corsários lhe matarão quasi todo em um campo chamado 
Aracatuba, que flca na barra do Sul na terra firme. 



294 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Este gado teve sea principio na Ilha, pelo lerar a ella da 
Villa de Coritiba um morador da mesma Ilha: passando-o em 
balças pela mesma costa do mar. Os moradores que actual- 
mente tem nâo passâo de vinte e dois oazaes. Dá todos os 
frutos do Brazil, e também os da Europa, como trigo, uvas, a 
flgos. O de que por ora se sustentão é mandioca em ftirinha, 
milho, feijão, ftimo, e peixe. 

7.» PERGUNTA 

Se a Ilha pela parte do mar tem algam desembarcadoiro» 
ou se a terra ó em alguma parte baixa com capacidade para 
elle? 

RESPOSTA 

Em toda a Ilha, assim pela parte do mar, como pela da 
terra ha varias enseadas com suas praias de areias, onde se 
pôde facilmente desembarcar, e nas mais das ditas parages tem 
terra raza, sem embargo de que pela parte do mar, s3ndo o 
tempo ruim, não se desembarcará sem perigo» principalmente 
nSo sendo pratioo. 

8.* PERGUNTA 

Se a Ilha da Galé tem porto em alguma parte, agoa, e 
lenha ? 

RESPOSTA 

A Ilha da Galo ó rocha toda do feitio, e forma de uma Galo 
que lhe dá o nome e assim não tem porto algum, agoa, ou 
lenha. 

9.» PERGUNTA 

Se a Ilha do Arvoredo, que também ahi fl&a tem algumas 
das ditas cousas ou propriedades ? 

RESPOSTA 

A Ilha do Arvoredo, que est& fronteira a da Galé, é sim 
maior que elia, e coberta toda de arvores ; tem alguma agoa, 
mas pouca, e sem porto nenhum, por ser tudo pedras em roda. 



NOTICIAS A DIOGO SOARBS SÔ5 



10> PBÍIGUNTA 

Se a terra flrnie froateira & Ilha de Banta CAtliarina a que 
chaiúto Maodtíy é monttio0&, coberta de tnattô, abundante de 
Agoas, 6 de boná ares ? 

11K3P0STA 

A terra quo fica fronteira á Ilha de Santa caihari&a nito le 
chama Maodiiy, mas Mariguy : esta tem seas montes não muito 
altos : tem vargens lattudiaá todas cobertas de mattos, tem 
aboadanciu de agoas com vários rios, e com os loesmos ares que 
06 da Ilha por estar & vista uma da outra. 

11.» PERGUNTA 

Que coisa é a Bnseada das Guaroupas, e se defronte delia, 
ou da Ilha da Galé, ha também alguma Bafaia f 

RESPOSTA 

A Enseada das Giiaroupasi é uttta enseada eapaa de reééMr 
em si uma armada, e aonde pôde fkíèr ésti a^a^ e lenh&, mn 
hottò adooi^as é afnafras : e de nma llbotà ()úe teiíl da dit& 
Shséadá pái^a a terfa podem estAr Sttffièu^ se^nras de todds 
os ventos amarradas com qualquer cabo: mas nem pc^i* Mo 6 
capaz de se povoar, por que as suae serras vem ter ao mar, e 
assim não tem terras, mais quo s6 praias. 

De fronte da Uha da Galo fica uma Bnseada ou bahia, a que 
chamão da tojuca a Lés-sudoeste delia ; e esta Enseada ou 
Bahia poucas embarcações dão fundo nella, porque os f erraoa 
são sempre ali continues, e eon grande força, alem de ter 
também bastantes lages sobre agoadas. 

12.* PERGtJNtA 

911 entre o Rio TamàúdaM e Mandtiy ha gentio algum, e te 
M r^ssgate f Sle ós tátíipoÉ Ma perto, e tl^ ha ftedétt gééô í 



296 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 



RESPOSTA 

Em toda esta costa do mar do sul nSo ha rio, que se obama 
Tamandaré, Dom Manduy : 86 abaixo da Povoação da Laguna 
ha um rio chamado Taramandy 30 léguas pouco mais ou menos 
ao sul da dita Povoação ; e ao Norte deste rio está ontro a qae 
chamão Ibopetaba ; e nem em um nem om outro ha já gentio, 
nem fbmo delle, e nelles tudo são campos até o pé das serras 
com muitas e varias Lagdas. 

13." PERGUNTA. 

Se ha noticia, que os castelhanos neste oertão, ou nesta 
visinhança venhão buscar a Erva chamada Congonha, ou fazer 
alguma descoberta, de que tenhão noticia os Paulistas ? 

RESPOSTA 

Pelas noticias que me derão os moradores da Laguna no 
anno de 1716 em Janeiro que ali estive sei, que os Castelhanos, 
donde se provião das congonhas era da Cidade a que chamão 
Paraguay, e outros legares circumvesinhos, e princijBalmente 
das aldeias dos P. P. da Companhia Castelhanos, que todos flcão 
pelo rio de Buenos Aires acima e da nossa parte, e que ahi 
fazião negocio para a levarem para a outra banda da parte 
do Peru ; e sobre fazerem alguma descoberta não ha noticia 
alguma. 

14.* PERGUNTA 

Se fazendo-se uma fortaleza na Terra arme, ou na Ilha de 
Santa Catharina defendera, e impedirá a entrada do seu porto 
a todas as embarcações ? 

RBBPOGTA 

Ainda que se fizessem não só uma fortaleza, mas quatro, 
era impossível o impedir-se a entrada de navios, e defender 
aquelle porto, ou fossem na terra firme, ou na Ilha, principal- 
mente na barra do Norte, que ô a melhor, e a mais segura ; 
porque onde os Navios dão fundo nos Ratones ha de ter mais de 



NOTICIA A DIOGO SOARES 297 

nma legoa de largo ; e só na paragem onde chamão o estreito, 
ou na terra firme, ou na Ilha, é« que se poderá faier uma boa 
fortaleza para defesa da Povoaçfto ; porque de qualquer das 
partes a descobre* por ser um tiro de mosquete seguro de pon- 
taria de uma, e outra parte. 

15.* PKRGUNTA 

Que Rios ha desde a Ilha de Santa Catharína até o Porto 
ou Rio Grande da Lagoa de S. Pedro ? 

RBSPOSTA 

Da Ilha de Santa Catharina até a Laguna ha 3 rios : 
o I ."^ junto á Uha, a que cbamâo Ivay, o 2.<» que sabe de uma 
Lagoa chamada Blariqnira, o 3.« queé a barra da Laguna. 
Deste ao porto de S. Pedro ha outros 3. O I .'^ é o rio Ara- 
ranguá, o 2.o o Ibopetuba, e o S.** o Taramandy. Antes de 
chegar ao dito Porto ha também uma lagoa que terá de 
oomprido 14 ou 15 legoas pouco mais ou menos chamada 
Boripú, que em occasiio d*agoa8 abre barra. Em todos estes 
rios nao entrSo nem ainda lanchas, excepto no da la^na, em 
que cntrão também Sumacas* 

16.* PERGUNTA 

Que distancia ha do Rio Taramandy ao Porto de S. Pedro, 
que qualidade tem este Porto, se tem terras altas, ou campinas, 
se tem muito gado, boas agoas, bons ares, e se ó fértil, e habi- 
tado de gentio, que fluça algum resgate ? 

RBSPOSTA 

Do Rio Taramandy a barra do Rio Qrande, e Porto de 
S. Pedro fazem 30 legoas. As qualidades das terras, segundo as 
noticias, que me deráo vários moradores de todas aquellas 
Povoações, que cruzarão estas Campanhas no tempo do Gentio, 
sâo as melhores, e as de mais fertilidade, que tem todo este 
Brazíl, o que tudo melhor consta das certidões, que me derâo 
Gamaras, e moradores de todas as Povoações desta costa, em 



298 REVISTA DO INStlTUTO HISTÓRICO 

daas òòeasiões, que fai a ellas em diligenoias do serriço de 
S. Mageatade. a 1.* por ordem de Francisco de Castro Moraes, 
sendo Governador e Capitfto General da Cidade do Rio de Ja- 
neiro, sobre haverem informado a S. Mageatade de ser capaz 
a enseada daa Guaroupas para nella se ftmdar uma cidade, — 
a 2.* por mandado do Governador e Capitão General Francisco 
de Távora, acerca dos mesmos particulares, e outros mais do 
serviço de S. Mageatade que umas e outras certidões remetti 
aos ditos Governadores, das quaes constSo as conveniências que 
se podem ter de as povoarem S. Magestade e seus Vassalloa, 
como também das qualidades das terras. 

SSo as mais destas, campos, e por alguns rios tem algumas 
madeiras boas, e de toda a casta. O gado, que ha nellas é só 
da outra parte do Rio chamado de Buenos Aires. Dizem-me, 
que iUdo-Se por um rio dentro, a que chamSo Cabopoana, por 
onde pode navegar a maior Sumaca,ou Patacho, se vai matando 
da mesma embarcação o gado preciso para o sustento, e que 
este lio éorta por toda a campanha até dar perto dos Cas- 
telhanos. 

Dizem mais que as agoas todas até a Barra do Rio Grande 
g&o doees, os ares os mesmos de Buenos Aires, e com muita 
mais ventagem a sua fertilidade, porque os veados, e mais 
caça é como o gado,— o peixe tanto, que pôde carregar ftottas, 
e que nos Lagamares se apanha só com cestos : são pouco 
habitadas da Gentio, e só ao pé da Serra, e antes de chegar a 
qUa se voem bastantes fumaças de Gentio bravo, mas este não 
oommercea oom ninguém. 

1?.* PERGUNTA 

Se a lagoa tem mais de 18 ou 13 legoas, em que logar fica. 
•e tem peixe, e se é habitada de Gentio ? 

RESPOSTA 

A lagoa a que hoje chamão Laguna tem 10 legoas de 
comprido, e fica ao Sul da Ilha de Santa Catharina 15 legoas, 
e é tão abundante de peixe, que todos os annos sahem delia três 
e quatro embarcaçóes carregadas, é podeito sahir mais se 



NOTICIAS A niOGO SOARES 299 

houvessem nella moradores bastantes para fazerem: tem 
actualmente triata oasaes, e a povoa^^o o TituLo de Santo 
António da Laguna, que ó Orago da Matriz. Foi o seu primeiro 
Povoador o Capitão-mór Domingos de Brito Peixoto, com mais 
alguns camaradas, e assim n&o ha nella mais gentio algum mais, 
que o que assiste oom os moradores. 

18.* PERGUNTA 

Se o Porto, e entrada do Rio Grande de S. Pedro é fácil em 
todo o tempo a toda a embarcação, que altura tem de fundo e 
que distancia do boca ? 

RESPOSTA 

A entrada do Rio Grande de S. Pedro é ao presente 
difflcultosa, por não ter agora entrado na dita barra, Sumaca 
alguma grande; mas será muito fácil a qualquer Sumaca ou 
Patacho o entrar nella se levar bom pratico, e se governar pelo 
mappa, qu3 agora fiz desta Costa, principalmente navegando 
na monção de Setembro atô Janeiro do N. para o S. A altura 
que tem entre os bancos íóra da barra são 3 braças, e obra de 
legoa e meia ao mar tem duas braças e meia de ftindo, em um 
banco que tem, mas não quebra nelle o mar, de sorte que tenhão 
as embarcações perigo nelle : sem embargo de que eu fallei 
nesta Villa de Santos com um Inglez, e me disse haveria 8 
aunos, pouco mais ou menos entrara no dito Rio Grande com 
uma fragatinha corrido do tempo, vindo do mar do sul, o que 
sahira com bom suocesso. Terã este porto na barra pouco mais 
de legoa, mas dentro pôde estar, e andar a maior nao que 
houver. 

19.* PERGUNTA 

Depois de entrada a barra, que forma ioma a terra ? á que 
rumo corre, e se lhe entrão muitos Rios f 

RESPOSTA 

A Costa corre Nordeste Sudoeste, e o mesmo corre a terra. 
O Rio dentro corre ao noroeste, recebendo em si 6 rios, e uma 
Lagoa, alem de vários riachos, de que se nfto faz conta. 



300 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

20.« PBROUNTA 

Qae gentio povoa esta marinha, e se o que liabita o fundo 
desta Enseada tem tido algum commeroio com algumas embar- 
cações nossas, e se fez algum resgate com ellas, se tem ouro, 
e ák mostras de haver grande abundância delle, como também 
de gados para se fazer courama ? 

RESPOSTA 

O Gentio que habita esta marinha chega até Castilhos, 
Maldonado, o Monte Vodio; 6 gentio livre, o os mais delles das 
Aldeias dos Padi'es da Companhia Castelhanos: uns em quanto 
tivemos guerras vinh&o acompanhar aos Castelhanos que 
estavão de guarda em Monte Vedio, e Maldonado, como também 
o fazião 03 das Aldeias: outros nesse mesmo tempo negociavão 
com os Francezes, receosos sempre de que os Portuguezes 
passassem aos doâ Portos a povoa-los, e assim quasi todos os 
mezes se achavão nelles três, e quatro navios carregando d® 
courama, e cebos, que lhes vendião os Índios : o que sei pela 
noticia de um mesmo Castelhano, que esteve em um dos ditos 
navios Francezes naquelles portos, o qual se acha hoje casado 
no Rio de S. Francisco em que o deixou um navio Francez 
voltando dos mesmos portos: e não tenho noticia nem até ao 
presente a h4, de que embarcação alguma Portugueza passasse 
aos ditos portos a commerciar com o.^ Castelhanos, ou índios ; 
só o que sei é que alguns moradoros da Laguna forão ao centro 
desta campanha a resgatar algum gado, e cavalgaduras, e com 
t^eito fizerão o dito resgate com os Índios, e as conduzirão para a 
mesma Laguna, trazendo em sua companhia alguns dos índios, 
que tornarão a voltar para as suas toldarias, o campanhas. 

A noticia que tenho, e me d')r&o os moradores da Laguna 
sobre o ouro, é que das cabeceiras do rio a que ch:imão Tecuary 
havia bastante copia delle, e que as o buscassem em todos os 
mais, que desagoão, como este no mesmo Rio Grande o acharião, 
segundo as disposições das terras, ;y o não estar )i descoberto 
fora por estimarem mais que o Ouro, o gentio para so servirem 
doUe, como também por não ter ma*s valor entre elles que 320 



NOTICIAS A DIOGO SOARES ^ 301 

a oitava, e menos qaintado. Também me disserâo que em 
direitura do mesmo rio grande na serra chamada Botucarayba 
havião minas de prata, por noticias, que havia dado um Índio 
apanhado naquellas partes a Francisco Dias Velho, e ao Capitao- 
mór Domingos de Brito Peixoto ; e com eífeito forão estes com 
uma boa tropa a certificar-se do dito, e subindo peia serra 
chegarão perto do morro, onde o Índio dizia havia a prata, mas 
ouvindo alguns tiros 4e espingardas, e mandando explorar o que 
)seria, acharam situados já naquella mesma parte aos P. P. 
Joznitas Castelhanos com os seus índios com caminhos feitos de 
Carros, e cavalgaduras em que conduzião a prata para as suas 
Aldeias, e como forâo sentidos, vendo ser maior o poder dos 
ditos P. P., o receando o ficarem todos mortos na empreza, se 
retiraram logo par < a Laguna, e certificaram que desde as 
cabeceiras do Rio (irando a estas minas pozerão 15 dias só dê 
viagem, e 6 unicamente na volta pulo medo de que os seguissem. 
No que toca a abundância de gado dizom-me que em tempo 
de secas descem inumerável ao dito Rio a beber agoa, e que no 
mais do tempo para se fazer courama é fácil sahir a campanha 
a faze-la principalmente havendo cavallos, o que os mesmos 
índios nos vendem, excepto no Rio Cabopoana, como já disse em 
que pelo gentio, que o habilitava, ser bravo, é mais diíficultosa 
a courama. 

21.» PERGUNTA 

Em que parte se pode fazer uma Povoação conveniente 
assim para se aproveitar de toda a utilidade, como para o 
augmento da nova Colónia, e promptidão para os seus soocorros, 
assim dentro deste Porto do Rio Grande como fora da Costa do 
mar, ou perto da Ilha de âanta Catharina? 

RESPOSTA 

Duas paragens julgo próprias para duas Povoações que 
sirvão de soccorro, e utilidade a nova Colonix do Sacramento, 
no Rio Grande de S. Pedro, dizem todos os que nelle estiverão, 
e cuidaram aquellas campanhas, Rios, mattos, e serras, que não 
só se pode fazer uma cidade muito grande, mas de grandes 
conveniências para sua Magestade, e seus Vassalios, segundo 



302 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

oonsta das Certidões das Gamaras, e moradorea das Povoações 
ddsta Gosta, em que affirmio haver nelle ouro e pedras de valor, 
achadas por yezes naquellas terras, como também abuadancia 
grande de prata, e muito maior de gado, que com facilidade 
se pôde conduzir da campaaha, e crear aaquelles campos 
havendo moradores, que o domestique. Do peixe se podem 
carregar muitas embarcações que o trausportem á Colónia 
quando o não quainiiO levar por terra em cavallos ou carros, 
por sar tudo campanha rasa, e de bons caminhos para isso. 

ESsta mesma bondade dos caminhos facilita á mesma Colónia 
iodo o socorro, que se lhe queira fajser por terra em caso de 
necessidade, por que pode succeder ser em tempo, que nSo 
possam sahir daquelle porto as embarcações destinadas para 
isso por neisasitarem da ooigunção, tempo, e marés. Verdade 
ó que nSo pode entrar por ora navio na dita barra, mas segundo 
me parece, de se povoar, e houver navegação, £»rá a 
Continuação t^\U o que agora se julgar dificultoso, como 
suceedeu ao princií^o na barra da Laguna, que sendo peri- 
gosa ao principio a entrada, hoje a faz Bem receio qualquer 
Sumaoa. 

B* preciso porem se faça na barra do mesmo rio uma Torre, 
eu no Pontal do Norte, ou no Sul para divisa não só das em- 
barcações que a buscarem por ser tudo terra raza, mas ainda 
para impedir, o reprezar os soldados que desertao da Colónia. 

A outra parte própria para o socorro da Colónia ó a ilha 
de Santa Gatharina pela facilidade com que se lhe pode aeodir 
daqnèila Ilha por mar, e em todo o tempo, assim com madein» 
que as tem exeellentes, como com mantimentos que os produs 
de todo o género com abundância. Povoando-se esta Ilha po- 
derão formar nella seus moradores alguns Bngenhos de assuear, 
porque as suas canas, são tão pingues e assucaradas, que qual- 
quer pingo delias se íiiz em assuear; a sua entrada não de- 
pende de monção, de dia ou de noite a pode tomar qualquer 
navio, e sahir delia; e para a sua defesa bastara uma única 
fortaleza no Estreito, e para impedir dos inimigos as lenhas, 
e as aguadas com uma companhia de Infstn teria paga entre 
aquelles mattos se consegue fibcilmente como o tem jã conse« 
gvsiào por vezes os poucos moradores que ali se aehão. 



NOTICIA A DIOGO SOARES 303 

Isto ó O que respondo ás perguntas que se me íáiem com 
declacaçSo, que da Laguna, ultima povoação desta Costa do Sul 
até a Cidade do Rio de Janeiro vi, oorri, e examinei, e sondei 
em pessoa, e do Rio Grande, sua campanha ató dentro de Buenos 
Aires me informei de pessoas âdedignas, que cursarão todas a- 
quellas campanhas moitos annos, o que tudo constará das cer- 
tidões que tenho por vezes remettido aos Srs. Governadoree do 
Rio de Janeiro de todas as Gamaras, e moradores das Vilias, e 
Povoações desta Costa Jurados aos Santos Evangelhos, ede 
como todo o referido passa na verdade o juro também aos mesmos 
Santos Evangelhos. Praça de Santos, 2ò de Agosto de 1721 — 
Manoel Gançalveê d*Aguiar. 



Declaro que o Rio Grande de S. Pedro terá de distancia 
da barra ás suas cabeceiras 50 legoas pouco mais ou menos, se- 
gundo dizem as pessoas que por melhor andaram, e em partes 
6 tão largo, que se não vô terra d*uma para outra parte, e 
parece tudo um mar. 

Declaro também, que a Ilha de Santa Catharina tem de 
comprido 9 legoas pelo rumo de N. S. e de largo em partes 
terá 3 legoas pouco mais ou menos, e me parece, que se S. Ma- 
gestade a povoar será de mais utilidade a Povoação a fortaleza 
feita na barra, e terra firme na ponta do Estreito, em que em 
algum tempo esteve a primeira povoação, e por causa de gentio 
bravo que então ainda ali havia, a pasmarão para a Ilha, na 
mesma ponta da terra firme se pode fazer também a Povoa^^o 
por receio dos iaimigos, sem embargo de que os navios onde 
dão ÍUndo, que ó na Ilha dos Ratões pouco mal lhe podem fazer 
por, distarem 3 legoas da Povoação, e menos o podem íi&zer pela 
barra do Sul distante 5 legoas da mesma Povoação. 



NOTICIA — 2/ PRATICA 

QUE DÁ AO P. M. DlOOO SOARES, O CAPITÃO GHRISTOVÃO 

PEREIRA, SOBRE AS CAMPANHAS DA NOVA 

COLÓNIA, £ RIO GRANDE OU PORTO DE 8. PEDRO 



491 — 20 Tomo lxix p. i. 



NOTICIA — 2.* PRATICA 

Qae dá ao P. M. Diogo Soares, o Capitão Christovão Pereira, sobra 
as Campanhas da nova Colónia, e Rio Grande ou Porto de S. 
Pedro, 



Pede-me VR.°^* o informe da capacidade destas terras ató 
o Rio Graade, Lagana e Ilha de Santa Cathariaa, e das utili- 
dades que delias se podem segair, assim aos vassallos, como á 
Coroa, e Fazenda Real, e supposto me sobra o desejo de acertar, 
me falta a capacidade para discorrer, mas na cooâaaQa dd que 
VR.>'*'^discuIpará os erros nascidos da minha ignorância, e obri- 
gado da obediência, exporei o que tenho visto, e palpado em onze 
ah nos que tenho do experiência destas campanhas, e o qae sente 
a rudez do meu discurso, e mo ficará grande gloria, e desvani- 
timento se limitado, e aperfeiçoado no utlI engenho de VR.^'<^ 
cirardelle algum fruto. 

Comp5e-se este Paiz d*um clima muito ameno, saudável, e 
criador de riquissimas e férteis terras em que produz em grande 
maneira, e com vantagem mui crescida todos os frutos da 
Europa, assim Trigos, como vinhos, liaho e toda a Casta de 
frutas, que pôde causar inveji as de qualquer parte do mundo, 
oom perto de cento e cincoenta lagoas de Campanha até 
o Rio Grande toda cruzada, da rios, revestidos de soberbos 
o vistosos arvoredos, que servem de sombra ás suas correntes 
compostas de riquissimas e salutiferas agoas, nascidas d'uma 
serra, que começando do Maldonado vai cortando a Campanha, 
correndo ao Nordeste até altura de Castilhos, a qual com ri- 
quíssimos, e amenos valles pelo meio, da generoso iogar a que 
se possa crusar, e communicar d*uma a outra parte. 

Em Castilhos, ou pouco mais adiante, correndo ao Noroeste 
vai buscar as Cabeceiras do Rio Grande, e logo da parte do 
Norte se torna a restttuir a costa, e a vai acompanhando até 



308 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

S. Paulo, deitando pelais suas fraldas da parte domar vistosos 
e aprasiveis Campos em distancia de 80 iegoas desde o Rio 
Grande até a Yiila da Laguna, que crusão três caudolosos rios, 
nascidos da mesma Serra. O Primeiro chamado Taramandy na 
lingoa do gentio, 30 Iegoas distante do Rio Grande a que se 
segue o 2""^ 20 Iegoas mais adiante chamado Ibopetuba, e logo em 
distancia do 15 iegoas se segue o Terceiro a que chamSo Ara- 
ranguá, todos d'agoa doce e nestes meios abundância de lagoas, 
e mattos com providencia do lenhas, o vistosos campos. 

E tornando ao Rio Grande não digo ó uma das mais vis- 
tosas coisas, que criou a natureza, por não parecer encarecido, 
ou cahir na censura de ignorante ; mas expondo a sua 
grandeza, deixarei, o louvor á ponderação de VR"'*. Corre de 
Oeste a Leste, e na entrada distancia pouco menos de 2 Iegoas, 
com meia de largo, para a parte do Norte faz uma barra, ou 
praia de areia com uma enseada em que podem ancorar 
grande numero de Navios, boa tença, seis ou sete braças de 
fundo, todo limpo, encostado a uma planície, que lhe fica supe- 
rior, a que alguns que ali tem chegado, puzerão o nome de 
Cidade, e não sem mistério pelo que naquelle logar se pôde 
fazer com um rio de excellente agoa doce, que permanente por 
um lado se mette no Rio Grande. 

Neste logar é a única parte em que se pode povoar, o 
passar, e ainda que tem bastante largura, não é diifioultoso o 
passar nelia anlmaes em razão de que com marô vasia tem 
bancos em que descanção» e tem jã passado muitos com felici- 
dade conduzidos pelos mercadores da Laguna, e eu passei 
alguns em minha companhia. 

Pouco mais acima entra nesto Rio na parto do Sul uma 
lagoa de extremada grandeza, a que chamão Braço, na boca 
estreita, e logo para dentro vai alargando até se perder de vista 
d' uma a outra parte, e vem entrando a Campanha para o 
Sudoeste, distancia pouco mais ou menos de 30 Iegoas aonde 
recebe em si vários rios sahidos da Serra, e entre elles o mais 
principal se chama Sabolhaty. 

Da parte do Norte faz um saco a moio de enseada, que 
arrimada a falda da Serra entra pela Campanha também perto 
de 30 Iegoas até o Rio chamado Taramandy: logo para dentro 



NOTICIA A DIOGO SOARES 309 

faz um bolso que a vista não aloança, a que chamão Rio Grande 
de que não posso dar mais noticia, que a que adquiri de algumas 
pessoas antigas na Villa ds Lagana, que me disserão entrava 
pela terra mais de 60 legoas, e que nas suas cabeceiras en- 
travão vários rios, com muitos mattos, e terras muito vistosas 
onde se podião fazer muitas PoYoacods, e rendozas fazendas, 
e por noticia de algum gentio so afflrmava haver nellas abun- 
dância de Ouro, e pedra? de valor. Bom desejo tive de examinar 
a sua grandeza mas faltarão-me os meios para o poder fazer, 
sendo o principal de que se necessita, embarcação capaz, porem 
qual ella seja, se pôde considerar d'um Corpo que tem seme- 
lhantes braços. 

Da barra também não poderei dizer mais que o que 
alcancei de alguns homens maritimos, que levados dos seus 
interesses se animaram. 



o PRIMITIVO NOME DO BRAZIL 



POR 



DOMINSOS DE CASTRO L0FE8 



o PRIMITIVO NOME DO BRAZIL 



AO ILLUSTRE MBSTRE DR. VIEIRA FAZENDA 

São acoordes todos os modernos historiadores de nossa pá- 
tria em declarar que Vera-Oruz^ ou ilha de Vera-Crus foi o 
nome que recebeu ella immediatamente após o seu descobri- 
mento. 

Citemos, para corroborar a nossa asserção, os mais conhe- 
cidos desses actuaes expositores; 

« O nome de Vera-OruM foi posto á terra, quarta-feira 22 de 
Abril.» Moreira Pinto, Epitome da Historia do BrazU. 

€ O (nome) de Vera-CruM foi dado & nova terra descoberta.» 
R. Villa-Lobos,'. i7ú(orta do Braxil. 

€ Suppoz Cabral que a terra descoberta fosse uma ilha; con- 
decorou-a com o nome de V^ro-Cnij, que dentro em breve 
mudou no de Santa Cruz.i^ Padre Raphael M. Qalanti, Lições de 
Historia do Brazil, 

€ £ porque esse dia fosse o do oitavario da Paschoa, deu 
Cabral o nome de Paschoal ao monte primeiro descoberto ; e, 
quanto á terra, o de Yera-Cruz^ mudado depois para o de Terra 
de Santa Cruz e mais tarde para o de Brazih António Vieira da 
Rocha, Resumo da Historia do Brazil, 

< Cabral deu á nova terra o nome de Yera^Cruz^ que depois 
foi mudado no de Terra de Santa Cruz, e mais tarde substituído 
pelo nome actual de ^ra^t7.> Dr. Joaquim Maria de Lacerda, 
Peqi*eHa Historia do Brasil» 

< A nova terra descoberta fi>i sapposta uma ilha, recebendo 
por isso (?!) o nome do Vera^Cruz; mais tarde, reconhecendo-se 
o erro, foi esse nome mudado pain. o de Terra de Santa Cruz . 
Este ultimo nome também não prevaleceu, sendo mudado para o 



314 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

de BrazUt peia grande quantidade de pao-brazil existente na 
nova terra.» Sara VillareB Ferreira, Pontos de Historia do 
BraxU. 

€ Finda a ceremonia religiosa (a M missa), reunia Cabral um 
conselho de offlciaes da expediç&o, e resolveram mandar a 
Lisboa GasiM&r de Lemos, commandante do navio de manti- 
mentos, levar a D. Manoel a notieia do descobrimento da terra 
de Yera^rux^ que suppunham ser uma ilha.» Mattoso Maia, 
Lições de Historia do BrazU. 

«A terra supposta ilha foi chamada de Vera-Cruz^ ao depois 
Santa CriAz. Prevaleceu porém o nome de BrazU. i^ João Ribeiro, 
Historia do Brazil, 

«A torra que suppunham erroneamente os ousados descobri- 
dores fosse uma ilha, chamou-se a principio Vera^Cruz, depois 
Santa Cruze finalmente Brazil.» Sylvio Romero, A historia do 
Brazil ensinada pela biographia de seus heroes. 

«Cabral reputou a terra que descobrira uma grande ilha e 
chamou-a ilha de Vera-Cruz^ nome dado em recordação da festa 
que celebra a igreja no dia l^ de Maio ; esse nome trocou-se 
em breve pelo de Terra de Santa Cruz e poucos annos depois 
pelo de Brazil^ em consequência da madeira preciosa, etc.» 
Dr. Joaquim Manoel de Macedo, Lições de Historia do Brazil. 

«Pelas informações que pareciam dar os naturaes se 
julgou ser a terra uma ilha — outra Antilha mais. Nesta 
hypothese, Cabral a denominou Ilha da Vera-Cruz, comme- 
morando por este nome a festa que no principio do mez 
Immediato devia celebrar a Igreja.» Yarnhagen, Historia Geral 
do Brazil. 

Não ohBtante'ser^hoje conhecimento elementar e comesinho, 
como o mostram os compêndios supracitados, que Vera-Cruz 
foi a primitiva denominação do Brazil, é de notar que nenhum 
dos antigos historiadores da nossa pátria houvesse referido tal 
denominação, mas sim e sempre, em vez delia, a de Santa Cruz, 
que igualmente figurava nos primeiros mappas geographicos do 
XYI século, mais recentes da data do descobrimento do nosso 
earo torrão, quaes os de Cantino (1502), João Ruijsch (1508), Jo- 
hannes Schôaer {Glohus de Johannes Schôner, I5I5), MaioIIo 
0519), etc. 



o t>RlMlTÍVO NOME DO BRAZIL 315 

Vejamos: 

Na Primeira Parte da Chrônica dô Serenissimo Senhor Rei 
D. Emanuel, escrita por Damião de Góes, e no' Ôapitulé £V, 
intitalado: De como a frota partio do porto de Betketem, & do des- 
cobrimento da terra de Sacta Crus^ a que chamão do BrazU, le- 
se o seguinte: 

«Estando ja sobrancora se aleuantoa de noite hum tem* 
poral, com que correrao de longo da costa até tomarem hum 
porto mui bom, onde Pedraluarez surgio com as outras nãos, êí 
por ser tal lhe pos nome Porto seguro. . .Antes que Pedralilareí 
partisse deste lugar, mandou poer em terra huma Cruz dtt 
pedra, quomo por padrSo, com que tomatta posse de toda aquella 
prouincia, pêra Coroa dos rognos de Portugal, a qual pos nome 
de Sacta Cruz, posto que se agora (orradaméte) efaamie do 
Brasil, por caso do pao vermelho que delia vem, a que ehaiâSo 
Brasil. > 

Gabriel Soareii de Souaía, no Roteiro do Brarfi (obra cviã 
authenticidade é, alUs, contestada peio Dr. Zeferino Cândido, nd 
capitulo VIII do seu livi'o Brasil, commemorativo do Qtiarto 
Centenário do nosso descobrimento, e que por Franclseo A<folpho 
de Varnhagen foi publicada sob o titulo Tratado Desthripiito de 
Brazil em 1587, edição castigada pelo estudo e exame de mitUeiÊ 
códices manuscriptos existentes no Brazil, em Portugal, tiespanha 
e Prança, e accrescentados de alguns commentarios) escreve 
estas palavras: 

«Esta terra se descobriu aos $5 dias do mez de Abril de 1500 
annospor Pedro Alvares Cabral, que neste tempo ia pòi^càpfiAè* 
môr para a índia por mandado de £1-Rei D. Manoel, èm 6aJo 
nome tomou posse desta província, onde agora é a capitania M 
Porto Soguro, no logar onde jA esteve a ilha de Santa Crtiis, 
que assim se chamou por se aqui arvorar uma muito grande, 
por toatidado de Pedro Alvares Cabral, ao pé da qual mandou 
dizer, em seu dia, a 3 de Maio, uma solemne missa oom muita 
festa, pelo qnal respeito se chama a villa do mesmo nome, e a 
provineia muitos annos foi nome&da por de Santa Cru» e dô 
maitos Nova Lusitânia.» 

fiada nos diz, com relaç&o ao primitivo nome da nossa 
terra, o Padre João de Souza Ferreira, no Capitulo II da sua 



31G REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

America abreviada (Como se descobrio, o que delia toca d Oorôa de 
Portugal, eío.) 

Em compensação, a Historia do Braxil^ de Frei Vicente do 
Salvador, que antes do dito padre floresceu, refere, no Capitulo 
segundo^ Do nome do Brasil-. «O dia que o Capitão-Mór Pedro 
Alvares Cabral levantou a Cruz, que no capitulo atraz dissemos 
era a três de Maio, quando se celebra a Invenção da Santa Cruz, 
em que Chriato Nosso Redemptor morreo por nós, e por esta 
causa poz nome á terra, que havia descuberta, de Santa Cruz, e 
por este nome foi conhecida muitos annos.» 

Citemos também Sebastião da Rocha Pitta, o qual diz no 
lÂvro Primeiro da Historia da America Portugueza: 

€ Nella surgindo as nãos, pagou o General a aquoUa ribeira 
a segurança, que achara depois de tfto evidentes perigos, com 
lhe chamar Porto Seguro, e à terra Imanta Cruz, pelo Estan- 
darte da nossa Fó, que nella arvorou com os mais exemplares 
júbilos, e ao som de todos os instrumentos e artliheriada 
Armada, eto.» 

Qual, porém, o motivo por que todos esses antigos autores 
que a historia de nossa terra escreveram, calaram desta o 
nome primevo— <ytfra-Oru;r, nome que somente nos modernos 
compêndios de historia do Brazil âgura ? 

Fácil e prompta será, sem duvida, a resposta por parte 
dos eruditos e profundos mestres na matéria. Mas não ô a 
estes qne se dirigem estas toscas linhas, sinão aos menos 
apparelhados, que não hajam, como nós, para elucidar á nossa 
incompetência este ponto, esmerilhado o assumpto, o qual 
naquelies modernos compendies não ó esclarecido, nem mesmo 
tratado, e poderá, por isso, suscitar duvidas e causar em- 
baraços para responder & interrogação que acima formulamos. 

E de facto. Em Novembro de 1905, tivemos a honra de 
terçar armas, pelas columnas do órgão niteroiense A Capital, 
com um distincto critico do mesmo apreciado contemporâneo, 
o qual, no correr da discussão, escreveu a locu^ seguinte: 
€a Terra de Santa Cruz de Í500, ...» 

Replicando nós que, em lõOO, o Brazil ainda se não 
chamava terra de Santa Cruz, mas sim Vera-Crtiz, e ilha de 
Vera-Crus, redarguiu o nosso digno contendor, contrapondo-nos 



o PRIMITIVO NOME DO BRAZIL 317 

a seguiate passagem do João de Barros, por elle tirada — - 
GxpUcou—á ArUhologia Nacional , coliectanea collegial organi- 
zada pelos Drs. Fausto Barreto e Carlos de Laet: «. . . . mandou 
arvorar uma cruz mui grande no mais alto logar de uma 
arvore, e ao pé delia se disse missa, a qual foi posta com 
solemnidade de bênçãos de sacerdotes, dando este nome á terra 
Sanla Crus, quasi como, etc» . 

£ accresceotou o nosso nobre antagonista: «Isto osoreveu 
João de Barros, que vivia ao tempo da descoberta do Brazil, 
referindo-se ao anno de 1500, tendo sido a missa a que se 
refere o citado esoriptor, celebrada no mez de Maio. 

« Assim sendo, como de facto o é, não sei si errei, mas, Si 
tal aconteceu, fll-o emexcellente companhia». 

Ora, temos azo de responder ao nossso gentil adversário 
(jã que, na occasião, não lográmos o prazer de ser acceita peF 
A Capital a nossa tréplica), aclarando, ao mesmo tempo, o 
ponto que nos ocoupa, contido na interrogação que, ha pouco, 
azemos. 

João de Barros não empregou, é certo, a expressão Vercí- 
Cruz, mas sim Sancta Cruz^ não só no trecho exemplificado, 
que vem no Livro Quinto^ Capitulo II da !■ Década^ como 
tambom no summario do dito capitulo, onde se lê: «^ seguindo 
a sua derrota descobrio a grande terra a que commummente 
chamamjs Brasil^ a qual elle pos nome Sancta Cruz ». 

Vivou o chronlsta do Emperador Clarimundo de 149Ô a 
1570. Como se sabe, quando escreveu a sua Ásia (Dos fectos que 
os portugueses fiíeram no descobrimento e conquista das terras e dos 
mares do OrieMe)^ mais conhecida por Décadas (que assim se de- 
nominam os vários tomos da obra, continuada por Diogo do 
Couto), e quando escreveu a sua historia da Terra de Sancta 
Orut, que se perdeu, bem como se perdeu a America Portugueza^ 
de Manoel de Faria, Já, o Brazil. é bem de ver, estava desco- 
berto, havia uns tantos annos (pois, em 1500, João de Barros 
tinha quatro annos de idade). Em todo oaso, o autor das 
Décadas sabia que a nova terra foi tomada por uma ilha; tanto 
assim que, nessa mesma í* Década, diz o Tito Livio portoguez: 

« A qual terra estavam os hómôs tam crentes em nã auer 
algua arme oocidental a toda a costa de Africa, que os mais 



I 



318 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

dos pilotos se afflrm&aâ ser algua graaáe ilha, assi como 
as terceiras, etc». 

Por que então não disse eila, seado recente o ftKsto, que assa 
sappostailha foi, a priacipio, chamada Vera^Orus ? Ignoraria, 
acaso, João de Barros, ignorariam os outros antigos historiadores 
do Brazil, por nói citados, essa primitiva denominação f 

Tudo faz crer que sim, e difEleil nio ser& hoje prorar, como 
Tamos ílatzê-io. 

A í» Década de João de Barros, convém otervar, foi 
publicada, a primeira vez, em Lisboa, em 1558| Isto é» mais 
de meio século após o descoMmento da nossa terra, e^por con- 
seguinte, o tempo suflloiente para ser esquecida uma denomi- 
nação ephemera. 

Nem mesmo o € livro impresso mais antigo que existe» 
narrando o « Descbrimento do Brazil» e descripto pelo Dr. 
José Carlos Rodrigues, na noticia que a respeito desse acon- 
tecimento publicou, a 3 de Maio 1905, no Jornal do Commerdo 
e, depois, em folheto, nem mesmo esâe livro dá a locução Vera- 
Crus como o primitivo nome do Brazil. 

Páeêi nuovamenie riirouaii — assim se intitula tal livro, 
para o qual muito concorreram as noticiai sobre as nave- 
gações da época, do almirante Domenico Maliplero, celebre 
historiador da Republica de Veneza, Sérvulo Angelo 'l>e- 
vigiano, embaixador veneziano junto aos reis dá Hespanha, 
o Lourenço Gretieo, ciigo verdadeiro nome era Oiovanni Matteo 
Cretico, embaixador veneziano em Lisboa. 

E' o Paetf , que constituo também o livro IV de uma collecção 
de viagens de Prancanzano Moutalboddo, homem culto e pro« 
fessor de literatura em Vicencia, a transcrip^ de um opús- 
culo intitulado LibreUo de Tutta la Navigoiione de Rede Spagna. 
De le Isole ei Terreno Naouamenio Trowui^ que foi dado & 
estampa por Albertino Veroellese, de Lisona, a 10 de Abril de 
1504, no qual— capítulos LXIII a LX Vil— vem a narrativa do 
deacobrimento do Brazil. 

Mas em nenhum desses capítulos figura, repetimos, a ez« 
pressão Yera-Cruz. 

Como^ pois, explicar que só os modernos autores de historias 
do Braxil Mem na prima designação V#ra-Crti^ que lhe foi dada t 



o PRIMITIVO NOME DO BRAZIL 319 

Em que fonte, em que dooumeato fon^meUes i^aquisar e 
liaorir essa desigoação, quai|4o os vetustos e des^ngauados 
textos pass^r^m em slianaio tal appelUdo? 

£i0 que aitingimofto escopo. do preeeata artigo, o ponto 
que mqito oouvirá seja eaclaneoido naq futuras edIçSes das 
nossas Jiistorias patpias, i^Im de evitar, talvez, a mesAia 
ofekjecQãjO que im>3 offereoou j^VA Cc^tal o nosso jov^n e 
affarel contradictor. 

Dois cutâneos e jLoooutrastay eis testQiw^^hos noa dizem foi 
Vera-Ctiu o nome que primeiro teve a terra defa9her.ta.B0r 
Cabr^al. São esses preciosos cipielios as duas cartas, escriptas a 
l^» de Maio de 1500, em que o cbrooista Pere Vaz de Gamintta 
e «o bacharel mestre Joham Moo e cirurgyaae» d' el-rei, os 
quaes fwKiam parte da expediglbo do almirante portnguaz, no- 
ticiaram a D. Manoel o desoobfHmeato da nova terra; é ac;8^ta 
de Gaminba datada de Uha da Vera-Cruz, e de Vêra-Cruz^ sim- 
plesmente* a do mestre João. 

Jouveram ató ao século XIX na Torre do Tombo, q^ifi& 
ignorados, tâo impartantes documentos; sóentâo foi que ÀycâS 
do Casal e, poBteriormento» Varnhagen oa deseopovaram». cada 
documento por seu turno. 

Diz Varnhagon {op cU, no<. 6*); «Sendo mui. couUeeijla a 
carta do Fero Vaz de Caixúalia, que desde que foi pela primeira 
vez publicada por Gazal ha sido reproduzida em vaii^ias obs^Sf 
contentar-noft-hemos por agora de incluir aqui a do physico 
oftestre Jioão, qoe demos em outro logar a conhecer, apenas ti- 
yemjQsa fortunado a descobrir na Torro áoTombo em I,Júiboa« 
(Corp. Ghron. P. 9^m. 2, doe. 2> 

E, reíèriado-se á dita carta de Caminha, declara Manoel 
Ayres de Cazai, logo na 1* edição, hoje muito rara, da sua Co- 
rographia Br<Mi/tca,apparecida em 1817: cO original conserra- 
se no Arquivo Real da Torre do Tombo, gaveta 8, mac- ^41- 8.> 

Está, pqis, explicada a razão pela qual os historiadores do 
BrazU anteriores ao século XIX omittiram o nome Y^ra-Cruz^ 
dado primitivamente ao nosso paiz. 

Ainda quanto ao primitivo nome da no^sa terra, adverte 
Vaçahagen: «Tapubemnos coosta que o aspecto e novidade 4^ 
cores das grandes araras, enviadas a Lisboa, impressionaram 



320 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

ahi a alguns de tal modo que oliegaram a deôigaar com o nome 
de Terrados Papagaios o novo descobrimento.» 

Mas de curta duração, é sabido, foi aqaella designação pri- 
meva de Vera-Oruz^ para logo substituída pela de Santa Cruz, 
O próprio D. Manoel, na carta escripta em Santarém, aE9 
de Julho de 1501, communicanio aos reis de Hespanha, seus 
sogros, não só o descobrimento da nova terra, como todo o suc- 
cedido na viagem de Cabral, pela costa d* Africa até ao mar 
Vermelho, occuUou esse primeiro nome. 

Bem como o Roteiro do Brazil^ de Gabriel Soares de Souza, 
a authenticldade dessa carta, trasladada para o hespanhol no 
tomo III de Lo5 Yiages menores, de Don M. F. de Navarrete,o 
qual declara que ella cezistia em Saragoça no archiro da antiga 
deputação de Aragão, destruído na guerra da Independência, 
cópia tirada por D. Joaquim Traggia», é contestada pelo Dr, 
Zeferino Cândido, no capitulo IX do seu citado trabalho. 

Transcrevamos, comtudo, ainda que apocrypha a r4gia 
missiva, cujo original portuguez se perdeu, mas por colher ao 
nosso ponto, o que nella relatava, através a traducção hespa- 
nhola, D. Manoel, o Venturoso: 

<B1 dicho mi capitan con trece nãos partió de Lisboa & nueve 
de Marzo dei ano pasado. En las octavas de la pascua segulente 
llegó à una tierra que nuevamente descubrió, ã la cHal puso 
nombre de Santa Cruz^ en la cual halló las gentes desnudas 
como en la primera inocência, mansas y pacificas.» 

Vem de molde apontar alguns equívocos do finado e pro- 
vecto professor Dr. Mattoso Maia, o qual, no capitulo III do seu 
compendio já por nós referido, diz que cem Julho desse mesmo 
anno de i500^ D. Manoel commnnicára aos soberanos da Europa 
que o capitão-mór de uma expedição portugueza para a Aflia 
tinha descoberto no Novo Mundo uma ilha grande e boa para 
refrescarem e fazerem aguada suas armadas da índia, e que a 
essa terra se tinha dado o nome de ilha. de vbra-cruz » 

Relativamente á substituição do nome Vera^Cruz pelo de 
Santa Cruz, expende o Dr. Zeferino Cândido, no capitulo III do 
seu mencionado livro BrazU, as seguintes considerações: 

«Santa Cruz é nome posterior (ao de Vera-Cruz), mas 
muito próximo da descoberta. Mantém a palavra essencial e 



o PRIMITIVO NOME DO BRÂZIL 321 

apenas diverge no qualificativo. Bacontram-se ainda outras 
íórmas, todas contemporâneas, que couser vam a palavra cara- 
cterística, como i7Aa da Cruz, terra da Cruz. Neste oscillar do 
appellativot uma forma prevaleceu— 6fanto Cruz» B* muito pro- 
.vavei que a preferencia se baseie n*uma selec^^ religiosa. Vera- 
Crus estabdlecia de prefere acia uma data, e nesse sentido en- 
volvia um erro, ou apenas inculcava uma recordaçfto ; ílAa e 
terra da Oruz tinham o desprimor de aíkstar da preoocupação 
religiosa e envolver uma questSo geográfica. Santa Oruz tinha 
realmente condições vigorosas para triumphar. 

cA palavra BrazU é também coevft. Bncontra-se cartogra- 
flcamente estampada, em synonymia com Santa Cruz, desde 
1504, pelo menos. B*nome de origem oommercial.» 

Foi, talvez, em virtude dessa «selecção religiosa», que Cabral 
e D. Manoel desprezaram logo o nome Vera^Cruz, preferindo- 
lhe o de Santa CruM» 

Confirmando essa preferencia, que patenteava o espirito re- 
ligíoso da época, pondera João de Barros, na sua jã citada i* 
Década : «Porem como o demónio per o sinal da Cruz perdeo o 
dominio que tinha sobre nós, mediante a Paixã de Christo 
Jesu, consumada n* eila: tanto que daquella terra começou do 
viro páo vermelho chamado brasil, trabalhou que este nomo 
ficasse na boca do pouo, que se perdese o de Sancta Cru». 
Como que importaua mais o nome de hu páo que tinge 
panos, que daquelie pão que deu tintura a todolos Sacramentos 
per que somos salvos, per o sangue de Christo Jesu que nelle 
foy derramado.» 

Frei Vicente do Sal valor, que escreveu a sua Historia d(y 
BrazU cerca de um século ("1627; após o apparecimento da 1» 
Década^ de João de Barros, comprova também essa selecção, essa 
preferencia religiosa, nas seguintes palavras, cópia quasi tex- 
tual das do autor da Ásia e accrescentadas ao trecho. Já por nóa 
transcripto da sua Historia do BrazU: 

«... porem como o Demónio com o signal da Cruz perdeo 
todo o Dominio, que tinha sobre os homens, receando perder 
também o muito,que tioha em os desta terra, trabalhou que se 
esquecesse o primeiro nome, e lhe ficasse o de Brasil, por causa 
de hum pauassim chamado <ie odrabrasada.e vermelha, comque 

491— 2i Tomo lxix p. i 



322 RfiVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

tiogeni paaoa, que o daquaUe di7iao páa, que deo tinta e vir^ 
tude a todos os Sacrameatos da Igrotía, etc.» 

A cseleog&o religíjsa», de que MaoDr, Zeferiao Cândido» 
fez, d provarei, trocar em breve a primitiva denominação V&ra- 
Oru* pela de Sanla Crus, Mas o motivo pelo qual os antlgoii 
liistoriadures de nossa pátria silenciaram esse primeiro nome, 
foi, certamente, porqne o ignoravam; qne só aos pósteros o re- 
velaram Ayres de Casal e Yarnhagen, na benemérita exca- 
vaçSo das cartas de Caminha e de mestre João. 

Rio de Janeiro, 1906? 



nriDioB 



Matérias contidas no tomo LXIX, parte I 



PA08, 

A Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, pelo Dr. José 

Vieira Fazenda.. , . . . 5 

Carta de Frei Francisco de Menezes para o Dnque de Cadaval. 53 

Carta do Yice-Rei do Bri|zil, . Conde da Cunha, a Francisco 
Xavier de Mendonga Furtado, acerca doa motivos que iere 
pi^li, pedir snccessor. ,•»•••,«..,•. 77 

TrasU^Q de nin auto de diUgencia sobre a arribada do navio 

Nossa Senhora do Rosário e Santq Ântonto 85 

Kegimento fornecido ao Governador do Rio de Janeiro, (datado 

de 7 de janeiro de i079). 99 

Proviaão do Príncipe aobrc) Sesmaria • . . 113 

Alvará pelo qual é nomeado Duarte Corrêa yasqueann?8 para 
o entabolamento de Minas na aoaencia de Salvador Corrêa 
de Sa e Benevides. 116 

Carta de foral povoação, naturi ta mento» no Fstado do Grão 
Pará e.rio do Amazonas no Maranhão, de que Sua Ma- 
gestade faz mercê ao capitão Pedro Sultman, Jrlaedez de 
Naçfio e aos mais de sua facção residentes na ilha de SSo 
C^stovão. 121 

Regimento qu ; ha de usar e general da Frota Salvador Corrêa 
> de Sá 131 

Alvará pelo qual é concedido a Salvador Corrêa de Sao Be- 
nevides fazer mercê aos que se distinguirem no descobri- 
mento das Minaa 143 

Alvará pelo qual é concedido a Salvador Corrêa de Sá Bene- 
vides e seus desoendentea rendimentos tirados do que pro- 
duzirem aa minas de ouro e prata • 147 



1 



324 índice 

41 . • 

Curta de António Telles da Silva a Sua Mageetade. . . . 511 

Traslado de um asaânto que se tomou em presença do Go- 
vernador deste Estado do Brazil sobre a carta que escraTeo 
o tenente de Mestre de Campo General André Vidal da Ne- 
greiros em que dá oonta de ser fugido Henrique Dias. 161 \ 

Traslado do assento que se fez sobre as cousas de Pernambuco. 165 

Copia da carta que os do Supremo Conselho Governadores em 
Pernambuco escreveram ao Sr. António Telles da Silva, 
GoTernador o Capitão Geral deste Bstado, por dons em- 
baixadores que a esti cidade mandara o 173 

Copia de uma carta que escreverão de Pernambuco Martim 
Soares Moreno e André Vidal de Negreiros a António Telles 
daSiWa 18? 

Regimento que ha de usar as Minas de São Paulo e São Vi- 
cente, do Estado do Brazil, Salvador Corrêa de Sá e Be- 
nevides 199 

Noticias que dá ao Padre Mestre Diogo Soares o alferes José 
Peixoto da Silva Braga do que passou da primeira ban- 
deira, que entrou ao descobrimento das Minas dos Guayases 
até sahir da cidade de Belém do Grão Pará 217 

Noticias praticas do novo caminho que se descobria das cam- 
panhas do Rio Grande e Nova Colónia do Sacramento para 
a villa de Coritiba os annos de 1727 por ordem do Go- 
vernadsr de São Paulo António da Silva Caldeira Pi- 
mentel 29& 

Noticias praticas das Minas Geraes do Ouro e Diamantes que 
dá do R. E. Diogo Soares o Capitão-Mór Luiz Borges 
Pinto sobre os seus de^^cobrimentos d? celebre oasa de 
casca comprehendldos nos annos de 1726-27 e 28 sendo Go- 
vernador e Capitão General D. Luiz de Almeida. . . 861 

Noticias praticas de Costa e povoaçGes do Mar do Sal e res- 
posta que deu o sargento- môr de praça de Santos Ma- j 
noel Gonçalves de Aguiar ás perguntas que lho fez o Go- 
vernador e Capitão General da cidade do Rio de Janeiro J 
e Capitania do Sul António de Brito e Menezes sobre costa • 
e povoações do mesmo nome • 29^ * 

O primitivo nome do Brasil, por Domingos de Castro Lopes. 311 



491 — Rio de Janeiro — Imprensa Naeional — 1908 



Fins do Instituto*— Revista* — Admissão de sócios*— 
Sessões*— Correspondências* 

o Instituto tem por fim colligir, estudar, dWulgar, investigar e ar- 
chiTar os documentos concernentes á historia, geographia, athnographia e 
archeología, principalmente do Brazil. 

Publica desde 1839 uma Rtívista, a qual no fim do aano torma um tomo 
em duas partes: ai* constando dos documentos relativos ao Brazil e a 2* 
comprehende os trabalhos de sócios e as actas das sessões, assim como os 
discursos do Presidente e do Orador e o relatório do 1° Secretario, apre- 
sentados nas cessões anni versarias. 

Os sócios são: — efTectivos em numero de 50, correspondentes em numero 
de 100, honorários em numero de 50, beneméritos em nnmero de 10 • 
bemfeitores, havendo uma classe de presidentes honorários, i qual só podem 
pertencer o chefe do Estado e os chefes de outras nações. 

Admittem-se como sócios, tanto os nacionaes coroo os estrangeiros, medi- 
ante oirereciniento de obras e aprosentação, por escripto, da respectiva 
candidatura. 

Os sócios do Instifuto têm como distinctivos um oollar e medalha de 
ouro e uma roseta de côr azul celeste. 

As sessões ordinárias do Instituto, a que podem assistir todos os sócios, 
realizam-se mensalmente de Abril a Outubro, á noite. 

A corre3pon<tencia e todas as remessas ilevem ser dirigidas ao 1^ Secre- 
tario e encaminhadas para o Instituto, aberto todos os dias das II horas da 
manhã ás 5 da tarde. 

Presidente do Instituto 

(1908) 

Barão do Rio-Branco. 

Gommissão de redacção da Revista 

(X908) 

Max Fleruss. 

Conde de Affonso Celso. 

Alfredo Nascimento. 

Augusto Olympio Viveiros de Castro. 

Alfredo Ferreira de Carvalho. 

l"" Secretario Perpetuo do Instituto 

Max Fleiuss. 

Thesoureiro do Instituto 

Arthur Ferreira Machado Guimarães. 

Bibliothecario do Instituto 

Dr. José Vieira Fazenda. 



-áLVISO 

Art. 54 dos Estatutos : 

€ Os sócios que satisflzorem a jóia e as cuiitribuiçoes torão di- 
reito a ura exemplar da Revista fio Instituto, desde o dia da sua 
admissão era diaate, pagando o porto do Correio. 

§ I .» Aqutíllo que dever as preataçõoa de tros annos perderá o 
direito do reoober a Revista, 

§ 2.<> O V Secretario flca incumbido da sua distribuição aos sócios 
e a outras pessoas, residentes no Brazil e fóradelle.» 



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REVISTA 




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ITUTO fllSTOfilGO E GEOGBAPfflCO 

BRAZILEIRO 

Fundado no Elo ás Jsndra em 1B33 



TOMO uix 



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REVISTA 



DO 



INSTITUTO HISTÓRICO E GEOaRAFHICO 



REVISTA 



DO 



E 



BRAZILEIRO 



Fundado no Rio de Janeiro em. 1833 



TOMO LXIX 



t^AItTK II 



lloo fácil, Qt longos darent boné gwu pe» ^niiot 
Bt poasint a«ra post«ritato frai 




liVSTm/njití^ 

Í^BIEXXI OCTOflIUSj 



4â83-.í 



RIO DE JANEIRO 

1908 




/!lU-x'1'2^ 



DA INDEPENDÊNCIA A RBPDBLICA 



PBLO 



DR. EOaYDES DA CUNHA 

Sócio effectivo do Institato Histórico e Qeographiop 

Brasileiro 



Esto trabalho do nosso illustrado consócio Dr. Euclydes da 
Cunha foi cscripto em maio do 1901 o publicado, então, no Estado 
de S. Paulo, com o titulo — O Bràzil no Século XIX, 

Deliberando a Gommídaio de Redacçto inoluil-o na Revista, 
prcstou-se gentilmente o autor a refundil-o e ampliai- o na sua 
maior parte, augmentando assim o seu valor. 

(Xota da Commissão de Redacção,) 



DA INDEPENDÊNCIA Á REPUBUCA 



Chegamos ao século XIX na plenitude da expansão territo- 
rial, expressa nos Tratados de Madrid (1750) e Santo Ildefonso 
(1777). Apagara-se a linha ideal da concordata de Tordesillas» 
e a penetração colonizadora, j& seguindo a rota accelerada 
das bandeiras, já o passo tardo dos missionários, irradiara 
por três quadrantes — para o norte, buscando os thalwegs do 
Oyapock e do Amapá ; para o occidente, a encontrar as missões 
do Equador e as terras bolivianas, e para o sul, procnrando o 
Prata, onde se erigira a balisa extrema da colónia do Sacra- 
mento. 

O grande tracto de terras retratava desde então a configu- 
rando actual do Brazil. Mas indefinida e dubla. Firmada a leste 
e ao sul pela desmedida faixa de uma costa massiça, pelo poente 
e norte derivava em traços indecisos, raro modelados pelas 
conformações geographicas e ambíguos no fugitivo de linhas 
imaginarias lançadas em regiões desconhecidas, ou scindindo as 
cabeceiras de rios problemáticos. 

Extremava a desmedida fronteira um único ponto astrono* 
mioamente determinado na foz do arroio do Chuy, ao Sul (33® 
45'L. S.;53o25'05" L. O. G.). 

Partia dalli num traçado fiexuoso, pela lagoa Mirim, inter- 
ferindo saocessi vãmente as cabeceiras dos Rios Negro e Ibicuhy, 
ctga correnteza a conduzia ao Uruguay. Desatava-se depois pelo 
Pepiri, buscando-lhe as nascentes; alcançava-as ; transpunha-as; 
descia pelo Santo António até ao Iguassú, seguindo-o ató ao 
Paraná ; e alongando-se ao arrepio da corrente deste attingia a 
confluência do Igurey. Subia-o «té ás cabeceiras, volvendo ao 



8 REVISTA DO INí=!TITUTO HISTÓRICO 

ocoidente e depois em cheio para o norte, quasi ao acaso, diva- 
gante entre vertentes indecisas até ao Parasruay. Proseguia 
inflectindo outra vez ao norte pelo Paragnay acima ató ás cer- 
canias da Bahia Negra, onde o deixava, illogicamente, para 
formar as lindes da Bolivia demarcadas pelos mais apagados 
pontos determinantes, rompendo pelo meio das « corixas » ala- 
gadas que salpintam vasta região de nível, até á foz do Jaarú, 
onde uma recta para o occidente — um capricho de oartographo 
— a distendia ató á confluência do Quaporé com o Sararé. 
Descia em dilatada longura por esta divisa firme ató um 
ponto no Madeira, módio entre a sua foz e a do Mamoré — 
para se estirar de novo no desconhecido, em longo e imaginoso 
traçado rectilíneo, procurando as fontes problemáticas do 
Javary, seguindo ao som das aguas ató á eàtrada no Amazonas. 
Depois novas lindes imaginarias, em que mal se fixa o traço se- 
guro do Japurá, atóattingir, numa inflexão definitiva para leste, 
o c divortium aquarum » do Amazonas e o Orinoco. 

Seguindo esta extensa moldura, mal delimitando o theatro 
da nossa existência naquelle século, a carência de divisas arcifl- 
nias prendeu-nos, na phase decisiva da nossa organização 
nacional, a sérios problemas de organização do território. 

Os limites com o Uruguay só se firmaram em 1857, depois 
dos successivos accordos de 12-10-1851 e 15-5-1852 em que 
intervieram o marquez de Paraná e o visconde de Uruguay. 

Com a Republica Argentina originaram a questão quasi 
secular das Missões, em que uma troca de nomes dos rios extre- 
menhos tendo annullado todo o esforço do visoonde do Rio 
Branco, em 57, se destinava, depois de longas negociações» á 
solução pela arbitragem em nossos dias (1895), e a reviver no de 
um digno herdeiro o nome daquelle grande estadista. 

Depois de uma campanha victoriosa, fixamos definitivamente 
as fronteiras, com o Paraguay, desde a foz do Iguassú á do 
Apa, passando pelas magistraes das serras de Maracajú e 
Amambahy, conforme o Tratado de 9 de Janeiro de 1872, nego- 
ciado com admirável brilho pelo barâo de Cotegipe. 

As extremaduras extensíssimas da Bolivia, poróm, mal 
reguladas pelo Tratado de 27 do Março de 1807^ do Conselheiro 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 9 

Lopes Natto, onde se trocoo o critério geographico das linhas 
naturaes que nos garantiam a posse dos tributários meri- 
dion ies do Amazonas, pela l>ase indefinida do uli possideiis, 
destinavam-se a chegar indeterminadas ao século XX, sob 
o aspecto ameaçador das questões incandescentes do Acre 
travadas em torno da linha imaginaria que, partindo de uma 
coordenada fixa naqnelle tratado (lO^ 20' L. S.)» ha margem 
esquerda do Madeira, se alonga ás cabeceiras do Javary. 

As do Pcrú accordaram-se pelo Tratado de 23 de outubro 
de 1851, sob o principio, expresso, da posse, tragando-se, defi- 
nitivamente, em 1874. 

As do Equador o da Colômbia ficaram insolúveis durante 
o cori*er do século. Autepunham-se-lhes, como preliminar indis- 
pensável, as questões do limites entre estas republicas e a 
do Peru. Quanto ás da Colômbia, adscriptas, por sua vez, a 
sérias duvidas com a Venezuela o ò Equador, encerravam 
germens de complexo litigio nas paragens desconhecidas do 
alto Rio Negro. 

Attingido o norte, liquidamos, pelo Tratado de 5 de maio 
de 1859, negociado por Pereira Leal, as nossas divisas com a 
Venezuela, restando-nos, adeante, no rumo de leste, duas outras: 
— com a Guyana Ingleza, vizando a posse do território neutro 
de Pirara, e com a Franceza, relativa á região contermina que 
se desdobra entre o Amapá e o Oyapock. 

Velha de três séculos, porque podemos consideral-a nas- 
cente desde 1605 com La Revardiòro; transitando em successivos 
tratados e convénios que fora longo rememorar; parando 
no statu quo do arranjo de 5 de julho de 1841, constituindo 
o t Contestado»; permanecendo inextricável a despeito das ne- 
gociações entaboladas de 1853 a 1856 ; revivendo mais tarde na 
republica extravagante de Cunani (1887) ; provocando, em 1895, 
um choque pelas armas entre nacionaes e franeezes — aquella 
ultima destinava-se á mais bella consagração do principio civi« 
lisador da arbitragem rematando, nos ultimes dias do 
século (1900), á luz do vigoroso espirito dobarão do Rio-Branco, 
todo esse longo trabalho de reivindica^ do solo. 



10 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

E flBemos, oerto, muito, nesse reatar e corrigir tantas 

linhas oonfinaes enleadas, ou partidas pelo repentino abalo d o 

dominio hespanhol dissociando-se, de chofre, em nore estados. 

Porque no flm da quadra colonial não havia curar-se do 

laes oompromisflos, entregues ao futuro. O Brazil era amplo 

demais para os seus três milhões de povoadores em 1800. 

Além disto, ft contiguidade territorial, delineada numa costa 

inteiriça, contrapunha-se completa separa^^ de destinos. 

00 vários agrupamentos em que se repartia o povoamento rare- 

léitoi evolvendo emperradamente sob o influxo longínquo dos 

alvarás da metrópole, e de todo desquitados entre si, não 

tinham uniformidade de sentimentos e ideas que os impel- 

lissem a procurar na continuidade da terra a base physica de 

ama Pátria. 

Formações mestiças, surgindo de uma dosagem variável 
4e três raças divergentes em todos os caracteres, em que as 
comHnações dispares e múltiplas se engraveciam com o influxo 
diflérenoiador do meio phjslco, de par com as mais oppostas 
ooadições geographicas, num desdobramento de 35 grãos de 
latitude, ^ chegavam ao alvorar da nossa edade com os traços 
deaunciadores de nacionalidades dístinctas. 

Dixem-n'o todos os suocessosdos tempos anteriores. 
O drama da Inconfidência terminara recentemente no sul. 
sem que o seu desenlace trágico oommovesse o norte, onde« 
por sua ve2| em quadra mais remota, a lueta contra os bata- 
vos ae abrira e se encerrara com o divorcio completo das gentes 
meridionaes. 

Entretanto, sobre wím divergências de ordem politica 
reinava inteira uniformidade nas situações mental, moral 
• sooial da colónia. As duas primeiras tinham o lastro 
uniforme das crenças catholicas triplamente inquinadas pelas 
superstições medievas, pelo fetichismo indígena e pelo animismo 
aítíoano ; e a ultima, caracterizando um estado semi-barbaro 
em que todo mérito estava na coragem pessoal e todo prestigio 
na gloria militar, repousava sobre a escravidão. 

Dest*arte, insulados no paiz vastíssimo om que se per- 
diam, os nossos patrícios de ha cem annos, tinham frágeis 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA H 

laços de solidariedade. Dlstaadavsi-os o melo; 8eparayam-n*os 
profundamente as discordâncias ethnicas. A directriz da nossa 
historia retorcia- se sem uma caracterização precisa, em movi- 
mentos paroellados, estrictamente locaes. E punha-se de mani- 
festo um corollarlo único : a formação de algumas republicas 
turbulentas, sem a afflaidade fortalecedora do uma tradição 
secular profunda. 



Alguém, porôm, ci^Ja missão prejudicial ô hoje ponto incon- 
troverso, mau grado o brilho de uma gloria discutivol, la 
realizar, sem o querjr, completa transmutação em nossos 
destinos. 

Napoleão, que se propunha derramar sobre a terra o fulgor 
da elaboração cmancipadora da Encyelopedia num lampejar de 
fuzilarias, lançou, cm 1807, as tropas de Junot sobre a Penín- 
sula Ibérica. E foi, como se sabe, um rude passeio militar... 

O immortal sargeatão entrou pelas ft*onteira8 desguar» 
necidas de Portugal, e apavorou o mais inoíTensivo dos reis. 

O príncipe regente da terra, D. João VI, não se modelara 
para aquelle transe. 

Representara, desde 1792, em que assumira a regência de 
Portugal, iníblicissimo papel nas agitações da Europa, oscu- 
lando entre as mais oppostas attitudes. Partidário, a principio, 
da Liga contra-revolucionaria, abondonara-a, depois da paz de 
Basilóa, para cortejar o Directório. Volvera-so depois ã velha 
alliança ingleza applaudíndo o revido fulminante de Nelson; 
para a deixar logo, numa curvatura lastimável ã aureola im- 
perial do menor dos grandes homens, emergente do 18 de Bru- 
mário. Completara, afinal, a fraqueza, prendendo-se ás clau- 
sulas humilhantes do tratado de Madrid (1801) e pagando ã 
peso de ouro a própria neutralidade, até surgir, em 1806, a 
conjunctura do bloqueio continental, acarretando-lhe novas 
oscillaçOcs o novos desastres. 

Titubeando entro a Inglaterra e o seu tenaz adversário, 
despertara o desquerer deste ultimo. Procurara serodiamente 
afastal-o, enviando os passaportes ao ministro britannico vis- 



12 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

coDde de Strangford, o extremando-so no excesso de zelo de deter- 
minar o sequestro das propriedades inglezas em Portugal. 

Mas deflnira-se tarde. O próprio chefe da esquadra britan- 
nica, que começara o bloqueio do Tejo, Sidney Smith, remetteu- 
lho, ironicamente, o numero docMonitonr» em que se estampava 
o Tratado de 27 de Outubro do 1807, de Fontainebleau, dividindo- 
Ihe o reino entre a Franga e a Hespanha ; o, simultaneamente, 
a noticia da invasão íranceza. 

Não a aguardou. Fugiu — para escrerermos o verbo que 
lho sombreia a memoria, empanando o significado mais verda- 
deiro de uma hábil retirada. Embarcou com a família e a 
corte alarmada (29 de novembro de 1807) nos restos de uma 
frota que abrira esteiras nos lAares nunca dantes navegados, 
e, passível do mais caprichoso joguetear do destino, comboiado 
pelos próprios navios inglezcs, inimigos da véspera, seguiu 
para o Brazil. 

Ora, estes factos, vertiginosamente desencadeados no passo 
do carga do uma invasão, iam ter consequências memoráveis. 

Lançavam á nossa terra o único estadista capaz de a trani- 
i)gurar. 



De facto, na situação em que nos achávamos imprópria vamo- 
nos por egnal ao império de um caracter forte o aos lances do 
um reformador de génio. O primeiro seria novo estimulo ás 
revoluções parciaeá, acarretando á desaggregação inevitável ; o 
ultimo agitar-se-ia inútil como um revolucionário incompre- 
hendido. Precisávamos de alguém capaz de nos ceder, transito- 
riamente, feito um minorativo ãs scisões esboçadas, o anel do 
alliança da j^^. tradição monarchica, mas que a não soubesse 
implantar ; e não pudesse, por outro lado, impedir o advento 
das aspirações nacionaes, embora, apparecessem, paradoxal- 
mente, no seio de uma diotadura dcsvigorada e frouxa. 

E D. João VI, um medíocre, foi um predestinado. Aveaiso a 
bravuras, alma ingénua ornada de uma placabilldade burgueza, 
abatido ademais pelas desordens de um lar infeliz, entristecido 
pela figura da velha rainha D. Maria 1, que enlouquecera -* a 



DA INDEPENDÊNCIA Á REPUBLICA 13 

iQercia foi-lhe attribnto preemioeDto : permittia que lhe agisse 
intacta, sobre o animo, a vontade de alguns homens superiores 
queorodeiavam. 

ReTelam-n'o todos os factos subsecutivos & sua chegada a 
Bahia, em 22 de janeiro de 1808. 

Alli, o sen primeiro acto foi um golpe sulcando a fundo todo 

regimen colonial, pela franquia dos portos brazileiros ao com- 
mercio das nações amigas, que ooram todas, exceptuada a França. 
Mas na Carta Rôgia de 28 de janeiro daqnelle anno, que a esta- 
tuiu, reflete-se, exclusiva, a suggestão directa do nosso primeiro 
economista, José da Silva Lisboa, visconde de Cayrú. 

Gomipletou-a, depois de chegar ao Rio de Janeiro, com a de 

1 de abril, desafogando as actividades e derogando a lei do 5 de 
janeiro de 1785, que ordenara o fechamento de todas as fabricas, 
extravagante traço legal sublinhando a ociosidade indígena. 

Estes dois decretos, equivalentes a duas revoluções liberaes, 
bastavam a ennobreeer-lhe o nome. Relegam a segundo plano 
todas as falhas de uma educação imperfeita que, ligadas ao do- 
sadorar os mínimos rigores da pragmática, o tornaram inferior 
& própria dignidade real, jungindo*o para sempre ao humorismo 
nem sempre justo dos chronistas, ou historiadores do anecdotas. 
Porque quem lhe restaura hoje a figura — expungida de sem 
numero de pormenores lastima velmentc hilares e enquadrada, 
de preferencia, logo em principio, naquelles decretos decisivos 
e quasi revolucionários, aprecia-a sob outro aspecto. 

Foi, em primeiro iogar, um stoico. 

Não o abatera o súbito declinio de uma pátria em despenhos 
do fastígio ephemoro em que a alcandorara a dictadura de Pombal ; 
não o abalara, depois, a troca de uma capital sumptuosa pelo Rio 
de Janeiro de então, grande aldeia de 45.000 almas, salpintada 
de mangues, invadida pelas marés, que lhe intumesciam as 
lagoas, e construída desageitadamente com as suas viollas em tor- 
eioollos, orladas de gelosias de urupema, pelas quaes embitesgava, 
o paupérrimo trem real de velhas seges de cortinas decouro, 
recordando os últimos frangalhos de uma opulência extincta. 

Depois, um convencido e um sincero. 

Se não traçou, pelo próprio punho, no manifesto de 1 de maio 



14 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O compromiBso do «levantar a voz do seio do novo império que 
ia orear», comprchendeu-o, lucidamente. 

Pelo menos deixou vacillante o juizo da historia, inclinaado-o 
de preferencia ao parecer de um contemporâneo illustre« Luckok, 
quando escreveu que elle «possuía mais sentimento e energia 
do caracter do que ordinariamente lhe attribuiam amigos e 
inimigos >»• 

E' o qae, de facto» delatam todos 03 actos subsequente! que 
vamos apontar apenas, neste relancear o passado da nossa terra. 

Foi a principio uma reação contra o inimigo longínquo . 

Uma expeiição militar fulminante, ao mando do general 
Marques d'i:ivas, dirigiu-se para a Guyana Franoeza, chegando, 
a 15 do dezembro ás cercanias de Cayenna. Assediou-a ; o 
expugnou-« a 12 de janeiro do anno seguinte (1809), expulsando 
o governador Victor Ilugues e toda a guarnição. Deste moda 
a nossa primeira acção externa no século XIX tem todos os pontos 
de contacto com a ultima: áquoUe choquo armado da dictadura 
real contrapor-se-ia, em 1901, victorlosa pela arbitragem, contra 
os mesmos adversários e no mesmo campo, a acção pacifica da 
Repablica. 

A segunda extremou-se no sul, e prolongar-se-ia intermiten- 
temente ató aos nossos dias. Traha, ao parecer, mal encoberto 
anhelo da esposa de D.João, D. Carlota Joaquina, que imagi- 
nara restaurar, no vice-reinado doPrania, o throno oastelhano 
desabado na Europa com Fernando VII. Mas realizou se ao 
reclamo do próprio governador hespanhol. General Blio, que, 
depois da revolução emancipadora de 25 do maio de 1810, em 
Raenos Aires, se viu cercado no anno seguinte na praça de 
Montevideo pelas tropas argentinas o orientaes do General 
Rondeau e Josô Artigas. Depois de alguns combates inúteis — om 
que o Capitão General do Rio Grande, D. Diogo do Souza, 
invadindo o Kstado Oriental, desbaratou os guerrilheiros que se 
lhe antepuzeram— , a lucta terminou (1812), pela intervenção do 
ministro Rademaker, dedicado físcal da politica britannica, e 
teve como resultado mais próximo ligar-nos á convivência 
perigosa dos caudilhos, de que Artigas foi o primeiro molde. 

Fallecendo por este tempo o condo de Linhares, ministro 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 15 

quo estimulara estas duas aventaras gaerreiras, poade D. JoKo 
applicar-se à administração interna do paiz. 

Começou a reagir, então, effloazmente, sobre os nos«o8 deíi* 
tinos, por uma série de medidas que, reflectidas mais tarde m 
ordem politica, com a resolução do 16 de dezembro de 1815, el0- 
vando o Brazil á categoria de Reino, tiveram» segundo outra 
ordem de idéas, uma significação mais alta no propelliram o 
nosso desenvolvimento intcllectual. 

Foi a sua acção realmente útil. 

Propiciara-a de algum modo o meio em que se ezffi*citava* 

O espirito nacional, apozar da situação inferúNr da massa 
da oolonia, começara a despertar alguns annoi antes» 

Revolam-n'o alguns nomes expressivos. 

Conceição Yelloso, o nosso primeiro botânico, fôra na 
própria metrópole um vulgarizador de trabalhos utilíssimos. 
Vicente Seabra, Nogueira da Gama e José Bonifaoio de Andrada 
e Silva, induiam-SG entre os lentes da Universidade de Coimbra 
e Escola de marinha de Lisboa. José da Silva LisbOa era um 
digno discípulo de Adam Smith e oriterioso oommentaáor de 
Burke. HippolJto José da Costa, no Correio BraHiimisê^ pnbli« 
cado em Londres, agitava com brilhantismo raro dois sérios 
problemas — a independência politica e emancipa^^ dos escra- 
vos. Arruda Camará, Josó de Sá Bettencourt e Josó Vieira Ck)uto, 
nos sertões de Pernambuco, Bahia e Minas, abriam em nossa 
terra as primeiras veredas ã soiencia fora das picadas tortuosas 
das bandeiras. 

Silva Alvarenga, Tenreiro Aranha, Villela Barbosa e Souza 
Caldas, esboçavam a nossa vida litteraria. £ sobre todos, de 
muito superior ã sua época, grande mathematioo • eeo^ 
nomista notável, aquella rara mentalidade do hísgo Aieredo 
Coutinho, caracterizando, no versar os mais dispares assumptos, 
o traço essencial do nosso espirito vesado ás generalizações 
brilhantes em detrimento das especializações fecundas. 

Ora, o attributo preexcellente da dictadura real consistia 
em favorecer esse germinar da expansão civilisadora. 

Fundou a Imprensa Régia ; e a Gazeta do Mio, ovgun 
official, appareceu iniciando a imprensa no Brazil. 



16 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Alli se imprimiram paginas que ainda hoje delettreamos 
com vantagem : o cDicoionario da Lingua Portugaeza», de A. 
Moraes e Silva e a c Ghorographia Brasilica», de Ayres de 
Casai; livros que com a «Historia do Brasil», de Southey 
(1822), os volumes descriptivos do príncipe de Newied, os tra- 
balhos de ArrndaCamara, as primeiras linhas de Martius, os 
esoriptos de Aug.Saint-Hilaire, Eschwege, Varnhagen, Feldner, 
e as memorias históricas de Pizarro, ou Annaes do Rio de Ja- 
neiro, de Balthazar Lisboa — delinearam o primeiro quadro da 
nossa cultora. 

Concorrentemente, outros pioneiros substituíam o bandei- 
rante 6 o missionário no desvendar a terra, prolongando os 
esforços, até então esparsos, de Qabriel Soares, Lacerda e 
Almeida e Alexandre Ferreira. Eram uns nomes extranhos 
— Mawe, Koster, Waterton...— batedores de outros mais 
illustres, nacionalisados todos entre nós pelo carinho com que 
olharam para uma natureza portentosa. O agasalho que encon- 
travam denunciava novos estímulos no governo. 

Havia pouco ainda, no começo do século, um governador 
fluspicaz lançara, zeloso, um decreto de expulsão «contra um 
tal Barão de Humboldt », individuo suspeito, que andava pelas 
extremas septentrionaes do Amazonas. • . 

Mudavam-se evidentemente os tempos. A oóne attrahia 
os abnegados naturalistas, alguns dos quaes, sob o razoável 
pretexto de enriqueoerem as coUecções do Museu Nacional, 
reoemoreado, se tornaram pensionistas do Estado. 

Renovou-sedo mesmo pajsso o movimento artístico quo, 
apenas iniciado, ao norte, durante o domínio hollandez, por 
Eckhout e Pieter Post, e escassamente animado por alguns ta- 
lentos nacionaes, sem cultura — teve, desde 1816, o amparo 
permanente da Academia de Bailas Artes, que a recente paz com 
a França apparelhara de todos os elemontos de successo com 
avinda de Joacbim Le Breton, membro do Instituto, que a dirigiu, 
auxiliado por um pintor notável, Debret, por um artista ci^o 
nome se vincularia ã nossa historia numa progénie i Ilustre, 
Nicolau Taunay, por um architecto de génio, Grandjean de 
Montigny e o escuiptor Marc-Ferrez. 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 17 

Volvendo a outros ramos administrativos, fundou, d. João, 
as Aoademias de Marinha e Artilharia, o Archivo Militar e 
^frizemos esta circumstancia digna de nota— desfazendo-se 
dos seus livros, a Bibliotheca Nacional ; e gisou o primeiro es- 
boço de um Jardim Botânico, futuro Índice da nossa flora. 

Rematou tudo isto com a creação da primeira instituição de 
credito do paiz, o Banco do Brazil. 

Bsta imperfeita resenha, diz tudo p(.r si mesma. Traduz 
inestimável legado que outros factos, sem a mesma altitude, 
não empanam. 

Nestes incluem-se todos os renovamentos das supérfluas 
velharias de uma sociedade desfibrada, em que a burocracia se 
tornara e ideal da vadiagem paga : a Mesa de Consciência e 
outras, que nos forramos de citar, entre as quaes uma Inten- 
dência Qeral da Policia, centralisada na corte, como se pela vasti- 
dão do Brazil um Pina Manique titânico pudesse alongar dois 
braços de Briareu... E, mais nefasto ainda, despontando com 
a « Ordem da Torre e Espada », um prodigalizar fabuloso de 
oommendas em tal cópia que, segundo Armltage, ultrapassaram 
as doadas por toda a dynastia ; iniciando-se nesta terra a 
mais achamboada das aristocracias e e3<io dissipar de « honras >, 
que tanto desaira a honra purae simples. 

Accrescente-so a annexação inútil, da Banda Oriental, 
(16 de julho de 1821), constituindo a provinda Cisplatina, que 
devíamos perder mais tarde depois de longas fainas guerreiras, 
e teremos completado a única face obscura do quadro. Releva^ 
entretanto, considerar que neste lance a politica exterior de 
D. João VI feriu, por acaso, a questão mais séria deste conti- 
nente. Aprovei tando-se das discórdias entre os orientaes de Josô 
Artigas eos argentinos, para firmar desde 1817, com a espada 
do Barão da Laguna, o seu domínio em Montevideo, ella lançara 
as primeiras linhas de uma opposição ató hoje victoriosa contra 
o pensamento da raconstituiçao do Vice-reinado platino, que se 
planeara desde 1811, na Junta Ooveroativa de Buenos Aires, e 
erigiu-se ató aos nossos dias como ideal preeminente do 
patriotismo argentino. 

43:83 ^ 2 Tomo lxix. p. ii. 



18 RB VISTA DÓ INSTITUTO HISTÓRICO 

 dictadura de D. João VI encerrara com esta abção ex- 
terna a sua phase reconstractora e utll. 

Iam assaltai-^ e abatel-a dois movimentos inopinados — a 
revolução de 17, em Pernambuco, e a de Portugal, em 1820. 

A primeira, i, parte as causas secundarias e immediatai 
de uma revolta militar, estampando o rotulo falso das agi- 
tações nacionaes, tinha origens profundas. 

Domingos Theotonio Jorge e o impetuoso Barros Lima, o 
< Leão Coroado », assassinando o commandanto militar do Re- 
cife, e expulsando o capitão general António Pinto de Miranda 
Montenegro, agiam, heróes autómatos, sob o impulso incoercível 
das tendencial nativistas, sob o disfarce republicano, cujos 
chefes reaes, o commerciante Domingos Martins, o padre Miguei 
Joaquim de Almeida e o mallogrado padro Roma, secundados 
pelo seminarista Martiniano de Alencar, pertenciam a profissões 
pacificas por excollencia. 

Depois de um successo epbemero, em que à Junta Revo- 
lucionaria, legando-nos exemplo que não foi esquecido, adoptou 
como mais urgentes medidas o augmento do soldo ás tropas, o 
accesso de três postos aos officiacs revoltosos e o tratamento 
oílicial de vós^ o revide legal vibrado polo pulso vigoroso do 
conde dos Arcos, governador da Bahia, sopeou-a, niaculando-ie 
depois com levar ao patíbulo os rebeldes supplantados. 

D. João VI vencera, porém, a tempo de attender a outros 
antagonistas, que lhe surgiam na própria pátria com a revolução 
liberal de 24 de dezembro de 1820, no Porto. 

Na revolta portugueza o que apparece no primeiro plano 
é a corrente generalizada do constitucionalismo que ia assober- 
bando a Europa, depois da Restauração. Mas os seus reagentes 
mais enérgicos eram outros. Resumiam-se na circumstancia cte 
haver-se deslocado o throno para o Brazil instituindo, aqui, a 
autonomia económica, preliminar da autonomia politica è còl- 
looando o reino ém situação visivelmente inferior. 

Houvera, de fticto, uma troca de papeis : Portugal, empo- 
brecido desde a franquia dos portos, aggravada com o escoar-se- 
Ihe, de Lisboa para o Rio, as rendas da realeza e do seu 
séquito ' era a colónia de Y^cto. 



DA INDEPENDÊNCIA Á REPUBLICA 19 

Assim, aquella a^tagão era menos a lucta por um prin- 
cipio que a revolta de uma nacionalidade illudida e melindrada. 

A nora chAgou ao Rio de Janeiro trazendo, desde o Pará, 
a sobrecarga aggravante da adhesão das tropas lusitanas dai 
provincías. £ reviveu na alma timorata do rei antigas e des- 
lembradas commoçôes — a resonancia longínqua do tropear 
dos granadeiros de Junot. . . 

D. João VI não balanceou a crise. Tergiversou, entretanto, 
irresoluto, entre os brazileiros, que o attrahlam, e portuguezes, 
que o intimavam a acceitar a constituição da Junta revolucio- 
naria de Lisboa e a voltar para o Reino. 

Jurada aquella, e marcadas, de accordo com o que estatuirá 
(7 de março de 1821), as eleições de deputados ás Gôrtes, novas 
vacillaçT^es no deixar a terra a que se affeiçoara, originaram 
sanguinolentos recontros nas ruas do Rio de Janeiro entre os 
nacionaes e as tropas auxiliares portuguezas. 

Por fim, encerrando a sua carreira politica do mesmo 
modo por que a inaugurara, com uma fuga ou com uma hábil 
retirada, oscillante entre dispares desígnios, com as mesmas 
peripécias dolorosamente ridículas, que temos por excusado 
reviver, partiu, a 2Q de abril, para Portugal, deixando ao 
filho, D. Pedro de Alcântara, uma corda que Julgava passível 
de ser preada por um aventureiro qualquer. 



Houve, entSo, na nossa historia uma antinomia notável. 

O nativismo nacional que, á parte a breve irritação per- 
nambucana, tolerara o absolutismo da realeza, começou de ser 
rudemente aferroado pelo liberalismo portuguez. 

Contravindo ao espirito superior do pensamento politico 
que as inspirara, as Cortes de Lisboa planearam revogar as 
reformas feitas anteriormente e adoptaram quanto ao Brazil o 
programroa extravagante de rocolonização : votaram a sup- 
pressão das escolas e tribunaes superiores ; a dissolução do 
governo geral do Rio, completada cora a tentativa de revocação 
do príncipe D. Pedro; e fraccionando a administração inteira, 
com o impor a cada provinda a oorrespondenciti directa da me- 



20 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

tropole remota, phantajiiaram um Brazil aoterior a Thomé de 
Souza. 

Não trancaram os portos porque o commorcio gorai era, 
em ultima analyse, o commercio inglez. 

A minoria do representantes brazileiros om Lisboa — em 
quo se destacavam um orador impetuoso e vibrante, António 
Carlos, um pensador por egual poeta e mathematico, Viliela 
Barbosa, um argumentador tenaz, Lino Coutinho, e aquelle 
perfil esculptural de Diogo Feij j, e o lúcido Arai^Jo Lima, Ver- 
gueiro e outros — mal se oppoz áquelle recuo. 

Protestando, pela voz de António Carlos, e abandonando um 
posto inútil, emigraram os deputados para a Inglaterra, ou de- 
mandaram a Pátria. 

Aqui, a discordância dos partidos, espelhando todos os cam- 
blantea, do nativista exaltado ao reaccionário, se engravecia 
com o antagonismo crescente dos dois elementos nacional e 
portuguez.E no baralhamento das paixões vivamente acirradas 
pelas noticias gravíssimas de ultra-mar, o primeiro, scindido de 
facções, sem coiHmando porque havia chefes demais, certo não 
pulsearia o ultimo, mais unido e centralizado pela divisão 
auanliadara do goneral Jorge de Avilez, onde so csteiava de 
resistência da metrópole. 

Dado o divorcio, que até aquelle tempo isolara os vários 
agrupamentos em que se subdividia o paiz, punha*se de mani- 
festo o seu desmembramento. 

AS revoltas parciaes, que iriam irromper repellindo a 
ameaça recolonisadora, sujeitar-se-iam a destinos vários nos 
diversos pontos do território, e na melhor hypothese presa- 
giavam, a exemplo do que succedera no Vioe-Reinado do Prata, 
a formação de minúsculos estados, entregues ás intrigas im- 
punes do extrangeiro, ou á phantasmagoria de uma liberdade 
sangrando sob a espora dos caudilhos. 

Impediu-o o Príncipe Regente. 

Menos pelo valor pessoal quo pelo prestigio da posição, 
fez-se arbitro entre os partidos, e o inclinar-se para os natu- 
raes propiciou-Ihes o iriumpho, creando á monarchia o seu mais 
elevado destino úa nossa terra. 



PA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 21 

D. Pedro de Bragança talhara-ae, realmente, para aquella 
crise. Mediano cm tudo — parte soldado, rei em parte, em 
parte condotieri^essa, ausência de uma linba firme, no caracter, 
dava-Ihe plasticidade para se amoldar ao incoherente da socie- 
dade em que surgia. A situação histórica só lhe exigia a indole 
cavalheiresca, brilhante e arrebatada, a bravura impetuosa e, 
por fim, a própria inconstância que o levaria, tempos depois, 
após representar o seu papel revolucionário, a abandonar o 
paiz, ao despontar a phase roconstructora de 1831. 

A exemplo do pae, ia agir sob a influencia dos homens de 
valor que o circundavam. 

Tinhamol-os, felizmente. 

José Bonifj.cio chegara da Europa com renome feito de 
proeminente cultor da philosophia natural, o tornara-se a 
figura dominante de um grupo de patriotas apercebidos para 
as exigências complexas do momento. 

Mas como entravamos em periodo forçadamente demolidor 
e critico, coube ao jornalismo os primeiros passos na empreza. 

Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa, no Reverbero ; 
fr. Francisco de Sampaio e Soares Lisboa, no Correio do Rio, 
esboçaram a reacção nati vista, deslocando para o á.mago das 
agitações nacionaes o que ellas ainda não haviam tido, o vigor 
moral da opinião publica. E como nas provindas, desde 
Maranhão até S. Paulo, outros jornaes seftindaram, reforçando- 
lhes os esforços, a imprensa fez-se instrumento preexcellente 
da lacta iniciada, genoralizando-a a todos os ângulos do paiz e 
favorecendo um movimento de conjuncto que ainda não existira. 

Eivada de uma metaphysica dissolvente, e desse lyrismo 
politico, que tanto compromettera a elaboração recente do 
século XVIII, o seu papel, embora exclusivamente critioo* 
traduziu-se como uma redistribuição de alentos e não dilatou a 
energia centrífuga além dessa propa<iranda tenaz. 

Porque se lhe contrapunha, no Rio, a força central da 
realeza. 

Não vacinemos em reconhecei-o. 

Somos o único oaso histórico de uma nacionalidade feita 
por uma theoria politica. Vimos, de um salto, da homogenei- 



22 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

dade áa^ colónia para o regimea coDstitucionaL Dos alvarás para 
aa leis. E ao entrarmos de improviso na orbita dos nossos 
destinos, fizemol-o com um único equilíbrio possível naquella 
quadra: o equilíbrio dynamlco entre as aspirações populares e 
as tradições dyaasticas. Somente estas, mais tarde, permit- 
tiriam que entre os «£zaltados>, utopistas avantajando-se de- 
masiado para o futuro ató entestarem com a Republica pre- 
matura, e QB «Reaccionários», absolutistas em recuos excessivos 
para o passado, repontasse o influxo conservador dos «Mode- 
rado6>, da Regência, o que equivalia a conciliação entre o 
Progresso e a Ordem, ainda não formulada em axioma peio 
mais robusto pensador do século. 

DesVarte, a lucta da Independência teve, no englobar 
elementos destruidores e reconstructores, o caracter positivo 
de uma revolução. 

£ desenrolou-se com uma finalidade irresistível. 
Mas o principio foi esparso, dispartindo nos mesmos actos 
sem solidariedade, tão oaracteristicos da nossa historia. As 
fJuntas Governativas», qqe para logo se fundaram constituindo- 
se em pequenos estados, volviam ao aspecto exacto dos tempos 
ooloniaes, numa espécie de decomposição espontânea. Algumas, 
como a de Pernambuco, mesmo reassumindo a attitude batalha- 
dora, tendo supplantado o elemento portuguez na cCapitulaçâo 
do Beberibe», (outubro de 1821), subtrahiam-se ao influxo do 
governo do Rio, revivendo o antigo sonho da existência 
autónoma. Outivas, as demais do norte, volvendo a obedecer ao!( 
antigos dominadores, fiicilitavam o programmadarecolonisaçao. 
Apenas quatro — Minas, S. Paulo, Rio de Janeiro e Rio 
Grande do Sul— acceitaram desde logo o governo do príncipe. 
Nessa instabilidade, é claro que o pensamento libertador, 
adstrioto á contingência de captar o beneplácito preliminar dos 
aggrupamentos de novo dissociados, tinha um signiflcado duplo: 
confundiam-se, penetrando-se entrelaçados, o ideal da indepen- 
dência e o da unidade nacional. 

E coube ao Sul levantal-o, a começar pelo Rio de Janeiro, 
onde chegavam directamente os decretos retrógrados da metro« 
polé. 



DA INDEPENDEIÍCIA A REPUBLICA 23 

Occorrera ademais, alli, ama transigência forçada, contra- 
produoente no irritar os ânimos: as tro]^ de Avilez haviam, 
desde Jqnho, imposto o juramento da Coostituição das Cortes 
portuguezas, combatida pelos deputados brazileiros, e a forma- 
ção de uma Janota governativa destinada, como as patras^ a 
agir em coirrespondencia directa com o governo de Lisboa. 

F9Í no regimen transitório desta victoria ephemera, gue 
entraram 09 decretos recolonisadores: declara vam-se indepen- 
dentes do Rio os goyarnos das provincias e supprimidos todos os 
tribunaes superiores. 

Impunha-se, por fim, a partida improro^vel de D. Pedro 
para a Europa. 

Esta ultima clausula rompeu a represa d% revolta. 

Sublevou-sea multidão no Rio, (9 de janeiro de 1822), 
estimulada pela propaganda anterior de Gonçalves Ledo e Janu- 
ário Barbosa, chefiada pelo presidente do senado da camará, 
José Clemente Pereira, impondo ao príncipe, talvez yacillante, 
a permanência no Brasil. 

Impondo, ó o termo. A representação de oito mil assigna- 
turas, qu6 lho foi lida, não çra um pedido; era uma intimativa. 

Redigira-a um luctador, que não tem o rQuome mere- 
cido, fr. Francisco de Sampaio; e o sacerdote rebelde fora 
singularmente í^anco na primeira phrase que traçara: < a par- 
tida de S. A. seria o decreto que teria de sanccionar a indepen- 
denciç. do Brazll. ^ 

O príncipe cedeif ; e este rompimento, não já da solidariedade 
politica, senão da do sangue, completado, três dias depois, pela 
capitulação da divisão auxiliadora de Avilez, apoio material da 
acção longínqua de ultramar, foi o traço mais intenso, i^aquell^ 
quadra, da reacção nati vista. 

Aq mesmo tempo deâniam-^e as provincias. A Junçta de 
S. Paulo, ci:go presidente, Oyenhausen, se norteava pela, 
vontade firme de José Bonifácio, ligara-se em manifestq en^r^ 
gico aos SUCC68SOS anteriores — e no norte, a antiga fidelidade ^ 
metrópole partia-se ( 19 de fevereiro ) precisamente na terra 
onde era clássica, a Bahia, levantada, em ma«sa qontrf^ 9 
general Madeira de Mello. 



24 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Estava declarada a campanha libertadora. 

Dado o primeiro choque victorioso contra o exercito estran- 
geiro, antes mesmo que a sua repercussão nas províncias se 
coroasse de idêntico sucoesso, o governo recem-organizado» 
dirigido por José Bonifácio, começou a deliberar, sobranceando 
os tumultos, como se o não rodeiassem as maiores dificuldades. 

Caraoterizaram-n*o três medidas radicaes, de prompto decre- 
tadas: a chamada dos representantes das províncias para concer- 
tarem nas reformas urgentes ; a preliminar do <cumpra-se» do 
príncipe d. Pedro imposta á effectividade das leis portuguezas; 
e por fim, medida mais séria, a convocação de uma Assembléa 
Constituinte (decreto de 3 de junho). 

Emquanto isto succedía, o príncipe, numa viagem trium- 
phal a Minas, em março, onde á sua chegada se apagaram 
nocivas discórdias emergentes, representava o seu papel real 
o único — o da acção de presença-— como se nas transformações 
sociaes se torne também preciso, ás vezes, essa mysteriosa 
força catalytioa, que desencadeia asaí&nidades da matéria. 

O titulo que anteriormente lhe fora offerecido, numa data 
que se tornaria ainda mais celebre, (13 de maio) de « Defensor 
perpetuo do Brazil », j& valia por um pallido euphemismo, 
escondendo o de Imperador, em que desfechariam todos os 
acontecimentos. 

Ampliou-o a proclamação de l de agosto. Ahi elle se declara 
defensor da independência das províncias, e pede cqua o grito de 
união dos brazileiros ecoe do Amazonas ao Prata». 

Redigida por Gonçalves Ledo, agitador que recorda um 
girondino desgarrado em nossa terra, ella foi por isto mesmo 
altamente expressiva. Expunha o único destino da monarchia 
entre nós, o de agente unificador ; e como este seria nullo sem 
o alento das expansões populares, o pensamento do futuro 
imperante devia realmente vibrar na penna de um nervoso 
chefe liberal. 

E' inexplicável, por isto, quoaquella data tenha escapado 
& consagração do futuro. Falta-lhe talvez a exterioridade de 
outras, menos eloquentes e mais raidosas: a de 7 de setembro, 
por exemplo. 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 25 

Com efTeito, o interessante episodio da viagem que levara o 
príncipe a S. Paalo, com o mesmo intuito da ida anterior, a 
Minas,— em nada modifloou o curso natural dos factos. Apenas 
teve, deante da comprehensão tarda e rudimentar do povo, a 
clareza suggestiva das imagens, e deu-lhe a minúcia singular- 
mente valiosa de umsymbolo, o tope nacional, auri-verde, 
substituindo a velha divisa portugaeza quando esta foi violenta- 
mente despedaçada peio régio itinerante ao receber, sobre a 
collina do Ypiranga, a noticia das decisões arbitrarias das Cortes, 
que lhe annullavam todas as reformas praticadas. . . 

€ Independência ou morto! », brcvdou varonilmente, no meio 
da comitiva electrizada. E a revolução teve afinal uma for- 
mula synthetica, armada ao apercebimento immediato do povo, 
oncautando-o pela nota romântica e theatral, e, como tantas 
entras por egual detonantes, desferindo o repentino surto da 
energia potencial das idéas. 

Proseguiu dalli por deante vertiginosamente. 

Acclamado e coroado (12 de outubro e 1 de dezembro de 
1822) Imperador constitucional, d. Pedro I não lhe cerrara o 
cyclo inflexível. Dilatarão. 

O movimento libertador teve, então, o inconveniente da 
própria força adquirida ; e agindo num meio inconsistente ' 
conduziria a resultados desastrosos. 

Era forçoso regulai o. 

Foi a notável missão de José Bonifácio, cujo ministério 
salvou a revolução, com uma politica terrível, de Saturno: 
esmagando os revolucionários. 

Sombreamn*o,com eíTeito, ante uma observação superficial, 
medidas odiosas: destruiu a liberdade de imprensa, suppri- 
mindo os jornaes que o applaudiam na véspera; e, com rigor 
excessivo, arredou da scona ruidosa, om que eram prota- 
gonistas. Clemente Pereira, Gonçalves Ledo e Januário da 
Cunha Barbosa, desterrando-os para o Rio da Prata e para 
a França. 

C que o grande homem vingara, num lanço genial, o fastí- 
gio de uma crise. Iniciava a funcção reconstractora urgente, 
sobre o terreno movei das paix5es. 



26 REVISTA PO INSTITUTO HISTÓRICO 

Mostra-o suocesso capital, subsequente: a Assembléa Geral 
Constituinte, reunida a 3 de maio de 1823. 

A' parte as desordens que a agitaram numa curta exis- 
tência de seis mezes, atô 12 de novembro, quando foi dissol- 
vida por « lia ver perjurado na defeza da pátria e da dynastia », 
previa-se que, ainda quando transcorressem calmos, os seus 
trabalhos provocariam agitações profundas. 

Porque nma constituição sendo uma resultante histórica 
de componentes seculares, accumuladas no evolver das idéas e 
dos costumes, ó sempre um passo para o futuro garantido pela 
energia conservadora do passado. Tradicional e relativa, des- 
pontando de leis que se não fazem, senão que se descobrem no 
conciliar novas aspirações e necessidades com os esforços das 
gerações anteriores, é um traço de alliança na solidariedade dos 
povos. 

E nós iamos partil-o. 

Com effeito, legislar para o Brazll de 1823 — agrupamentos 
ethnicae historicamente distinctos — seria tudo menos obedecer 
á consulta lúcida do meio. £ra trabalho todo subjectivo, ou 
capricho de minoria erudita iniiiferente ao modo de ser da 
maioria. Porque a nossa única tradição generalizada era a do 
ódio ao dominador recente ainda em armas, e esta, servindo como 
recurso de momento no propagar a rebeldia, extinguir-se-ia com 
a yictoria, deixando aos formadores da nova pátria um problema 
formidável: erguer, unido, ao regimen constitucional, novo na 
própria Europa, um povo disperso, que não atravessara uma só 
das phases sociaes preparatórias. Um salto desmesurado e 
perigoso. A execução temerária da mais grave das revoluções, 
essa paradoxal revolução < pelo alto >, que o génio de Turgot, 
poucos annos antes, concebera, como recurso extremo para salvar 
Luiz XVI, aos rumores profundos de 89. 

Invertidas as suas fontes naturaes, as reformas liberalis- 
simas, ampliando todas as franquias do pensamento e da activi- 
dade, iriam a descer a golpes de decretos, & maneira de deci- 
sões tyranicas. 

Impol-as um grupo de homens, que mais do que represen- 
tantes deste paiz, eram representantes de seu tempo. Despeadoi 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 27 

das tradiQõdfl aacionaes, qae a bem dizer n&o existiam, arreba- 
taya-08, exclusiva, a miragem do futuro. 

Mas esta deu-lhes intuição genial, esclarecendo-us na tarefo 
extranha de formar uma nacionalidade sem a própria base 
orgânica da unidade de raga. 

Porque estávamos destinados a formar uma raça histórica, 
segundo o conceito de Littré, através de um longo curso de 
existência politica autónoma. Violada a ordem natural dos 
fEictos, a nossa integridade etbnica teria de manter-se garantida 
pela evolução social. Condemnavam-nos á civilisação. Ou 
progredir, ou desapparecer. 

E nas aperturas desta alternativa a intervenç&o monarchlca 
foi decisiva, opportuna e benéfica. 



Os trabalhos da Constituinte principiaram malignados, desde 
os primeiros dias, pelo lyrismo revolucionário dos que a com- 
punham. Insurgindo-se contra o ministério Andrada, no impu- 
gnar as medidas repressivas que este resolvera, a opposição 
accarretou-lhe a queda, após successivos revezes: retirando-lhe 
a confiança, ao eleger-se a mesa, toda com adversários ; favore- 
cendo a absolvição dos desterrados políticos ; e repellindo um 
imponderado projecto de suspeição contra os portnguezes domici- 
liados, que tivera, lastima veimen te, o apoio da palavra 
infiammada de António Carlos. 

Apeada do poder, a trindade illustre dos Andradas appellou 
para os recursos que condemnara na véspera. Aproveitando-se 
da liberdade de imprensa, restaurada pelo novo governo, de 
Carneiro de Campos (Marquez de Caravellas} fez de seu jornal, 
o Tamoyo^ orgam de um radicalismo infrene; e, emparceirando-se 
com 08 exaltados da Constituinte, rodeou a nova situaçfto de toda 
a espécie de empeços — erigindo-se, por fim, inspiradora da lei 
que incompatibilizaria de todo aquella Assembléa com o impe- 
rante: a que tornava independente do veto imperial o código 
orgânico que se elaborava. 

Era collocal-o sob o golpe de Estado. 

De fiioto, ao appareoer, em 30 de agosto, o projecto oonsti- 



28 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

tucional, quasi aborticio ou temporSo, precipitado nas votações 
atropelladas ou tangidas pelos ultra-radtcaes, estava prompto 
o ambiente que o afogaria. O antagonismo pessoal de D. Pedro I 
08tentara-se já na protecção desafiadora que elle dera aos officiaes 
e soldados portuguezes da Bahia, onde, entretanto, se traçara a 
legenda patriótica do 2 de julho; o, se não occorressem as difflcul- 
dades de oommunicaçoes, lord Cochrane e Qronfeld não com- 
pletariam a rota pacificadora do norte, do Maranhão ao Pará 
(junho a agosto de 23), nem Frederico Lecor( Barão da Lacuna) 
debellaria em Montevideo (18 de novembro) a ultima resistência 
das forças addictas á metrópole. 

Porque o divorcio do Imperador e da Assembléa attingira o 
desenlace tempestuoso da dissolução desta, logo apósá formação 
do ministério contra-revohicionario de Villcla Barbosa (marquez 
de Paranaguá) (12 de novembro de 1823). 

Ao mesmo tempo foz-se o avesso da situação anterior: os 
cascos dos batalhões portuguezes, do Rio, aggremiados cm São 
Cbristovam, tornaram-se a ultima garantia dj throno, tendo sido 
um dos seus commandantes o portador do decreto dieta toriaU 
Comminou-se o desterro aos Andradas, Montezuma e outros 
patriotas ferventes. E, como suppletivo do rompimento, a 
multidão, no Rio, entre alegrias inexplicáveis, realizou, pela 
primeira vez, a sua symbiose moral com um triumphador do dia, 
applaudindo-o. 

Felizmente nos livraram de todos os cífeitos da contra - 
revolução, de um lado, o temor Je um levante nas provincial 
c de outro, a própria indole sonhadora e cavalheiresca do 
monarcha, que não abdicara o sou papel de cortezão pertioaz 
da Liberdade. 

Aàsim, congregou os melhores espíritos que o rodeavam — 
Carneiro de Campos, Villela Barbosa, Carvalho o Mello, Nogueira 
da Gama, Pereira da Fonseca (marquez de Maricá), e outros, 
oommettendo-lhes a tarefa de escrever em um Código Or- 
gânico. 

Aquelles eruditos, olhos fixos na Europa e no constitu- 
cionalismo nascente, não a elaboraram. Reuniram as me- 
lhores conquistas Uberaes, joeirando-^as dos exaggeros dQmo* 



DA INDEPENDÊNCIA Á REPUBLICA 29 

oratiooSt e sobrelevaram, por fliUt inattingiveis, sobre a cultura 
do paiz, na Constituição jurada a 25 de Março de 1824. 

Tinham cravado um marco, ao longe, no futuro. 

A nossa historia dahi por doante recorda um fatigante 
esforço para o alcançar. 

A carta outorgada, que ainda hoje seria um código li- 
beral, despertou, incomprehendida, revoltas. Mas, nestas, 
quem lhes destrama a meada dos factos secundários, verifica 
apenas a incompatibilidade dos vários grupos brazileiros para 
a existência autónoma e unida. A de 24, em Pernambuco, 
teve o lastro único das tendências separatistas. A* primeira 
vista, surge daqnella anomalia do regimen constitucional imposto 
sobre asruinas de uma constituinte» aquelle bizarro contrasenso 
da Uberdade doada arrogantemente por um decreto ; mas o 
que vislumbram as linhas do « Desengano Brazileiro >, de Soares 
Lisboa, ou os períodos explosivos de frei Caneca, o terrível 
pamphletario do «Typhlis», jornalistas e representantes naturaes 
de Pernambuco, é o eterno perigo da unidade politica contras- 
tando com a heterogeneidade da raça. 

De sorte que a ephemera < Confederaçlio do Equador » 
ligando as províncias, de Alagoas ao Ceará, precisamente no 
tracto do terras em que as vicissitudes da historia mais se uoi- 
formisaram nas luctas contra os hollandezes, ô um caso franco de 
diiferenciação ethnica. 

Dirigida per um dos patriotas da revolução de 1817, Paes de 
Andrade, reflete-lhe os mesmos estímulos ; e ao ser esmagada 
pelas forças combinadas de F. Lima e Silva e lord Cochrane, 
deixou, a exemplo de todas as revoltas infelizes, na memoria de 
seus martyres, os germens de outros elementos revolucionários. 

Estes reuniram-secom um traço legal nas camarás de 1826, 
que a constituição instituirá, e onde se agruparam, sob todos os 
matizes, federalistas e republicanos. 

A maioria, do liberaos monarchistas, adeptos do regimen 
parlamentar inglez, deliberava no tumulto. 

Excusamo-nos de o pormenorizar. Archivou-o o jorna- 
lismo da época. Aevelaram-n'o as perturbações do governo. 

Cahiodo o ministério Paranaguá, que durara três annos, o 



30 REVISTA DO mSTlTUTO HISTÓRICO 

qne lhe saccedeu (16 de Janeiro de 1827), do ▼iscoade de 8. Leo* 
poldo, teve $, existência inútil de alguns mezes atô ao primeiro 
ministério parlamentar, de Pedro de Araújo Lima, marquez de 
Olinda (novembro de 1887). 

Dahi por deante o desequilíbrio goremamental vai aooen- 
toando-se nam crescendo, até ao desabamento de 31 • 

O imperador vacilla, sondando a opinião, proeurando-a 
mesmo entre os liberaes extremados, com chamar ao governo 
José Clemente Pereira (15 de junho de 1828) ; e volta-se, 
intermitteniemente, para o homem qne lhe moaopoliz&ra a 
confiança, Paranaguá . 

Intervêm factos externos acirrando a crise. 

A Banda Oriental levantase, á voz de La valida, píDtegido 
pelo governo de Buenos- Aires, e trava-se a mais inglória das 
nossas guerras numa successão de combates inúteis, onde 
apenas sobrosahem as victorias de Rodrigo Lobo contra o almi- 
rante Brown. Os exaltados, no Rio, tomam-se qnasi sócios dos 
orientaes rebeldes. O fracasso do marquez de Barbacena, em 
Itozaingo, (28 de fevereiro de 1827), no recontro desegual com o 
exercito de Alvear, provoca-lhes singulares Jubilas, como se por 
ama intuição profunda prefigurassem os perigos da volta 
triumphante de um general victorioso para a pátria anarchizada, 
depois de cnrsar, nos pampas, a escola tradicional da caudi- 
Ihagem. E, quando, depois da guerra, a esquadra do barão 
de Roussin, exigiu imperativamente a entrega de alguns navios 
francezes preados no bloqueio do Prata, a coi^unctura em que 
se encontrou o governo, dobrando-se á intimativa, feriu fhndo 
as susceptibilidades patrióticas e arrancou da fronte do Impe- 
rador a sua aureola de valente. 

Elle estava, além disto, em situaçSo que o impropriava a 
afoltar-se com a adversidade crescente. De posse da corõa 
portugueza por morte de D. João VI (1826), repartia-se 
em preoccupaçoes oppostas. Mas embora o animasse o desejo 
de transpor o mar para fazer-se paladino do constitucionalismo 
em Portugal, tentou ainda em 1831 (19 de março) um ultimo 
esforço de reconciliaçSo, abraçando-se ao partido liberal, com 
o ministério de Carneiro de Campos. 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA SI 

Era tarde. Nas eleições de 1830 haviam iriumphado, em 
maior Damero ainda, radicaes e federalistas; e a imprensa, com 
um vigor que nanca mais teria no Brazil, dirigida >éla Avírora 
fluminense, de Evaristo da Veiga, tom&ra a direcção do 
movimento, tornando-o irreprimível, generalizandose nas 
províncias com o «Observador Constitucional», de Lll^ero 
Badarô, em S. Paulo, com o « Uiiiversal », em Minas, e no 
norte, com o Bahiano, de Rebouças. 

O ministério Carneiro de Campos durou uin mez. 

O paiz era ingovernavel . O baralhamento das idõas princi- 
piava a alastrar-se nas ruas em desordens sanguinolentas 
entre nacionaes e portuguezes, de que foi modelo à tormentosa 
< noite das garrafádas » (13 e 14 de março de 1831). 

Nesta emergência, o imperador appellou mais uma vez para 
Villela Barbosa, constituindo um ministério de senadores, velhos 
serventuários, leaea, mas ^agilimos. 

Foi o pretexto de maiores tumultos. 

O povo do Rio enviou uma deputação a S. Christovam exi- 
gindo a reposição do ministério anterior. Repellindo-a nobre- 
mente D. Pedro, a multidão aivorotou-se e, captado o apoio da 
tropa (7 de abril), confiou a um dos chefes militares, o major 
Miguel de Frias, nova intimativa imperiosa. 

Era o desfecho. D. Pedro I abdicou no imperador infante, 
confiado á tutela de José Bonifkcio, repatriado em 1830, e, 
embarcando na náo ingleza « Warspite », cerrou a primeira 
phase da soa carreira aventurosa. 



O 7 de abril era Inevitável. 

Tinha dez annos o embate entre as correntes monarchica 
e democrática e como a divergência das idéas at tingisse a úm 
maximum gravíssimo, empunha-se o domínio de uma delias. 

Maã — embora o favorecessem todos os resultados de uma 
acção que abatera não só o príneipio mooarohico, como também, 
'pelo caracter militar que assumira, o prestigio da auctorídadé 
civil— o liberalismo triumphante não foi levado ás suas ultimas 
consequências. Porque entro as forças adversas dos íbderaiistasi 



32 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

extremados o triumphantes (partido Liberal Exaltado) e rea- 
ccionários absolutistas (partido Restaurador ou Caramurú), 
surgira, ierlius gaudet, na lucta que não compartira, fortalecido 
pela situação neutral entre aquelles rivaes que se maniatavam, 
um outro, o Liberal Monarchista (partido Moderado), que, 
conciliando as conquistas dos combatentes da véspera com as 
reservas da sociedade conservadora retrahida, lhes repellira por 
egual as tendências exclusivas, evitando dois perigos extremos 
que se fronteavam : a Republica prematui*a e o Absolutismo 
revivente. 

O papel da Regência, ponto culminante da nossa historia 
politica, instituiu-se, assim, como um ponderador das agi- 
tações nacionaes : um volante regulando a potencia revolta de 
tantas forças disparatadas. Comprehenderam-a'o os homens 
extraordinários que ao assumirem naquelle momento o governo 
< se temiam de si mesmos, do enthusiasmo sagrado do patrio- 
tismo e do próprio amor da liberdade», que os armara. 

Nem careciam para isto de aquilinos lances de vistas. 

Os perigos da situação nfto lhes demandavam a cogitação 
mais breve. Assoberbavam-nos. Estadeiavam-se, francos, impres- 
sionadoramente. E entre olles, peior do que uma dictadura real, 
surgia a aspiração federalista, collímando o rompimento 
definitivo dos frágeis elos entre as províncias. 

Um extrangeiro illustre, Augusto de Saint-Hilaire, depois 
de caracterizar o estado revolto das republicas platinas, volvia 
naquella ópoca o olhar para o Brazil, e aponta va-lhe idêntico 
destino, se fossem satisfeitos, pelo regimen federal, os desejos de 
mando das patriarchias aristocráticas, que o retalhavam : . . • 
<que os brazileiros se acautelem contra a anarchia 'le uma 
multidão de tyrannetes mais insupportaveis do que um déspota 
único.» (l) 



(l) Deanto do quadro lastimavol da politica nacional, têm ainda 
hqjp a mais porlVita opportunidado as palavras austeras do frraudc 
naturalista, em 32: «Les brésiliens ne sauraient ótablir chez eux 
le système iêdôral sans co um. sncr par rompr • les laiblos liens 
qui les unisscnt encore Impatietits de toutc supcriorité, plusieuts 
chefs hautaiiis de ces patriachies aristo^ratiques dont Ic Brésil cst 
couvcrt, appellent sans doute U fédéralisme de tous leurs v<»ux ; 



DA INDEPENDÊNCIA Á REPUBLICA 33 

Ora, a missão da Regência consistia em afastal-os% 

Contratta em tanta maneira com as rerolta» anteriores 
qqe o 7 de abril passou em julgado como ut%e jottmée de dnpes : 
Uludidof 08 Eialtados que o precipitaram, o exercito que ds 
amparou e a própria nação para quem a abdicação íõra uma 
surpresa. (1) 

Mas o conceito é falso. Dos víctoriosos da véspera desponta- 
riam 08 três maiores homens do tempo, Evaristo da Veiga, 
Bernardo Pereira de Vssconcellos e o padre Diogo António 
Feijó; e o general que chefiara o movimento,?, de Lima e Silva, 
seria membro immutavel dos triumviratos, de 31 a 35. 

O que houve foi o caso vulgar nas revoluções triumphantes: 
o radical, extincta a sua funcção demolidora, fazia-se conserva- 
dor, no governo, e vibrava a auctoridade resem-adquirida con- 
tra 06 que o haviam auxiliado a destruir a auctoridade antiga. 

Mudavam por coherencia. 

Adivinhando a missão histórica do império, Evaristo salvou 
o principio monarchico, identificado, então, com a unidade ák 
pátria ; prevendo a anarchia em que esphacelaria o paiz, 
Feijó restaurou, por um milagre de energia incõinparavel, a 
auctoridade civil. 

Completam-se. São dois nomes que são dois Índices de uma 
época inteira. 

O ultimo, sobretrdo, domina inteiramente o quadro. 

Recorda o heróe providencial, de Thomaz Carlyle. 

Ministro da justiça, na primeira Regência Permanente 
Trina, soffreiou rijamente todo o Ímpeto da torrente revolucio- 
naria. 

O S6U primeiro golpe foi contra os companheiros da vés- 
pera» aupplantando (14 e 15 de julho) fortes levantamentos 
militares que estalaram no Rio. Foi um golpe fulminante. 



^aÍ8 que tes hrésiliens se ticnncnt en garde contre une dêception 
qui les conduirtHt a ranarchit et aux^ vexations d'une foule âe 
petits tyrans, mUlc fois plus insupportaòles que ne Veet un teul 
dcspote.» 

(l) Joaqtdm Nabuco — í/m estadista dò Império, T.i^. 
4323— 3 Tomo lxix. p. ii. 



34 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Reprimiu as desordens; dissolvea alguns corpos indisciplinados; 
fragmentou os demais, destacando-os para as provindas» 

Nunca se vira auctoridade egual. Ella golpeiou de espanto 
o próprio governo, det,erminando a sabida do alguns ministros 
assombrados e a entrada de Bernardo de Vasconcellos e Lino 
Coutinho. 

Diogo Pejyó proseguiu, inílexivel. Tendo-se apenas armado 
de estoicismo raro, que o fevava intremulo ás decisões mais 
arriscadas, creou a Guarda Nacional (18 de Agosto de 1831) e 
com ella, logo depois (7 de outubro), reprimiu novo levante do 
corpo de infantaria de marinba, que foi por sua vez dissolvido, 
depois de severamente corrigido, sendo entregues os negócios da 
marinha a um lente da academia militar destinado a longa 
carreira, Rodrigues Torres. 

Deste modo, em poucos mezes a anarchia emergente da 
indisciplina militar, dobrava-so, jugulada sob mãos inermes de 
um padre. Eo governo poudo devotar-se á organização adminis- 
trativa creando o Tbesouro Nacional e thcsourarias provinciaes; 
sanccionando e procurando applicar, ainda que inutilmente, a 
primeira lei de repressão do trafico (7 de novembro de 31) ; e 
reorganizando as Escolas. 

Edificava sobre o solo vibrante da revolução. 

O anno do 1832 antolhou-selhe repleto de ameaças. 

Os três partidos que se enterreiravam nas camarás tinham 
elementos que se contrabalançavam. Aos Moderados diri- 
gidos por Evaristo, Vergueiro, Limpo de Abreu, Carneiro Leão 
e Paula de Souza, contrapunham -se os Exaltados, de Paes da 
Andrade, de Bernardo Pereii*a de Vasconcellos. dos Franças, da 
Bahia, e de Miguel de Frias, emquanto o cCaramurú» enfeixava 
os nomes tradicionaes de Josô Bonifácio, Paranaguá» Cayrú e 
Martim Francisco. 

Na imprensa, o Republico, de Borges da Fonseca, e a 
Aurora^ batiam-so sob ataques convergentes dos jornaes federa- 
lidtas (o Exaltado, a Matraca o a Sentinella, de Cypriano Barata) 
e raaccionarios (o Caramurà^ o Tempo e o Diário do Rio), 
E, fora destes dois campos, a Sociedade Federal, a Socie- 
dade Militar, dos absolutistas, e a notável Sociedade Defensora, 



DA INDEPENDÊNCIA Á REPUBLICA 35 

dé Evaristo, transmittiam, aggri^ayadas, ao povo, estas diver- 
gências insanáveis. 

A 3 de abril rebentou novo motim, impellido por Miguel de 
Frias, liberal extremado; foi supplantado. Segnia-se-llie, dias 
depois, um outro, desencadeado pelos absolutistas e dirigido 
por um allemão aventureiro, o conde Von Bulow. Foi completa- 
mente supplantado. O inflexível ministro da justiça firmava 
definitivamente a ordem. De sorte que, a exemplo do anno 
anterior, os trabilbos do governo e das camarás puderam 
traduzir se em medidas fecundas, em que sobresabem a sanccão 
do novo Código do Processo Criminal, á, luz das modificações 
profundas que o constitucionalismo imprimira na antiga 
legislação portugueza; a reforma das Ordenações; a instituição 
do jnry e o abandono de uma velharia colonial, a Casa da 
Supplioação. 

Os poderes constituídos galvanizados pelo animo inflexível 
de Diogo Feijó atravessaram, afinal, mais firmes, todo o anno 
de 33, extremando-se mesmo em actos de energia inúteis e 
oondemnaveis: a destruição, pela justiça snmmaria do empastel- 
lamento, da imprensa adversa; e, a 15 de dezembro, a prisão do 
José Bonifácio, suspenso do cargo do tutor da família dynastíca. 

O partido Moderado, preponderou por fim, incondicional- 
mente, desde 34. 

Pertence-lhe, inteira, a lei de 3 de agosto, daquelle anno, o 
Acto Addicional. Ahi ha um transigir cauteloso com o liberalismo 
attonuado, senão com as próprias tendências federalistas : 
8ubstituem-se os conselhos pelas Assembléas provinciaes ; sop* 
prime-se o Conselho de Estado e, como um minoratívo a estas 
franquias, faz-se a concentração do governo na Regoncia Una, o 
institue-se o Poder Moderador. 

Uma proposta dos separatistas para que os presidentes das 
províncias se escolhessem numa lista tríplice das respectivas 
assembléas, cahiu, impugnando-a Evaristo da Veiga, o grande 
inspirador dos Moderados que lhe lobrigara nas entrolhinhas o 
fraccionamento do paiz, 

Justiâcavam-n'o todos os factos, além dos que occor- 
riam na capital. As revoltas nas províncias desata vam-se em 



36 RBVISTA DO INSTITUTO HLSTORICO 

datas, Tinoaladas em série : no Ceará (1831-1832), otn Pernam- 
buco (1832-1835), no Pará (1835-1837), na Bahia (1837-1838), no 
láaranhSo (1838-1841) e abrangcndo-as, sommando-as, a longa 
agitação no Rio Grande (1835-1845). 

Debeilada a primeira pela Regência Ti*ina, as duas seguintes 
deparariam adversário mais tenaz. 

Diogo Feijó fora eleito regente (18 de outubro do 1835). 

Mas parecia mudado. 

As luctas ferozes que compartira liaviam-n*o tornado vacil- 
lante sobre o futuro. As clausulas que impoz pira aoceitar o 
governo, uma das quaes, a S**, prevô a bypothese da soecessão 
das províncias, mostram-n'o salteado de desânimos. Compre- 
bendera, talvez, a enormidade do problema que sa propunha 
atacar; e que os tumultos federalistas, os mais lógicos entre os 
que abalavam o paiz, tinham génesis inacccssivel, exgindo ope- 
rac^io mais séria do que cargas das bayonetas. Uma daquellas 
revoltas, a do Pará, vencida pelo general Soares de Andréa, em 
1836, dera um typo novo á nossa historia— o «cabano». Symbo- 
lisava o repontar de questão mais séria, que passou despercebida 
A sua visão aguda, o se destinava a permanecer na sombra até 
aos nossos dias. 

Era o crescente desequilíbrio entre os homens do sort&o e os 
do litoral. O raio civilisador, refrangendo na costa, deixava na 
penumbra os planaltos. O massiço de um oonlinente compacto 
e vasto talhava uma physionomia dupla à nacionalidade nas- 
cente. Ainda quando se fundissem os grupos abeirados do mar, 
restariam, ameaçadores, affeitos ás mais remotas tradições, 
distanciando-se do nosso meio e do nosso tempo, aquelles rudes 
patrícios perdidos no iosulamento das chapadas. Ao «cabano», 
substituiriam no correr do tempo o «balaio», no Maranhão, o 
€chimango», no Geará, o «cangaceiro», em Pernambuco, nomes 
diversos de uma diathese social única, que chegaria até hoje, 
projectando nos deslumbramentos da Republica a sUhouêtU 
trágica do « jagunço»... Observe-se, comtudo, de passagem, 
que nâo escapou de todo ao discortino excepcional de Peijó o 
meio preexcoUente para remover-se em parte esta fatalidade 
physica. Na lei de 31 de outubro de 1835, a primeira que pro- 



DA INDEPENDÊNCIA Á REPUBLICA 37 

malgou ao asgumir a Regência Una, tracam-se as primeiras 
linhas do nosso desenvolvimento económico: anctorisava-se a 
constr acção de uma estrada de ferro para ligar-se a Capital do 
Império ás provinoias de Minas e S. Paulo. Mas o bello pensa- 
mento governameotal avantajava-se demais i, própria sociedade. 
Foi inviável. Ao grande homsm íloou, porém, a gloria de baver 
adivinhado esse antagonismo formidável do deserto e das 
distancias, que ainda hoje tanto impece o pleno desdobramento 
da vida nacional. 

Vencida a «cabanada», curou o regente da insurreigão rio- 
grandense, dirigida por um campeador, Bento Gonçalves da 
Silva, com quem naodesadoravahombrear um outro predestinado 
a maior fama, Giuseppe Garibaldi. 

A pcção do governo foi, entretanto, frouxa» permittindo 
que, apezar de aprisiona io o pnmeiro em sangrento combate 
de três dias (2, 3 e 4 do dezembro de 1836) se avantajassem os 
«Farrapos», sobr anccii*os ao revoz, ao ponto de proclamarem um 
mez depois a Republica de Piratinim, sendo eleito presidente o 
próprio general prisioneiro. 

As vacinações governamentaes favoreciam-n*o8. 

Bento Gonçalves, conseguindo evadir-se do Forte do Mar, na 
Bahia, dera-lhos novo alonto; e o melhor chefe legalista, Bento 
Manoel, que se notabilizara em 1818 na campanha contra Artigas, 
com elle se bandeou numa defecção lastimável. 

Ao mesmo tempo, aggravavase nas camarás a opposição 
liberal dirigida por Bernardo de Vasconcellos, Epara malignar 
as coisas, a morto de D. Pedro (1836), que se âgurava circum- 
stancia favorável, destruindo de golpe as esperanças dos reaccio- 
nários, occasionara a alliança destes com a opposição parla- 
mentar, creando-se o partido «Conservador», triumphante nas 
eleições daquelle mesmo aono e maniatando de todo o go- 
verno. 

Diogo Feijó avaliando a situação resolveu-a com a autiga 
rectitude. Nomeou ministro do império o seu principal adver- 
sário, o chefe opposicionista, Arauio Lima ; e no dia seguia te 
(19 de setembro de 1837) entregou-lhe o cargo da Regepcia, 
altimando<se a missão histórica do partido Moderado. 



áÊ 



38 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Desapparecia nobremente e no momeato opportuno. 

Nobilitara a lei ; resuscitara a autoridade ; dignificara o 
governo. 

Deante de sua alma de romano, quebrara-se, amortecida, 
a vaga de uma Revolução. 

Ficava-lhe adeante, um remanso : o segundo império. 



€ Depois do 1836 a historia politica do Brazil se resume na 
lucta dos dois partidos, o conservador e o liberal. » (Barão do 
Rio- Branco.) 

Mas, desde logo, ô claro o descambar do principio demo- 
crático, até então predominante. A regência de Ararsjo Lima 
esboça a reacção monarchica, favorecida inesperadamente pelos 
dois maiores paladinos das franquias liberaes, E. da Veiga o 
B. de Vasconcellos* 

O ultimo traçou com incomparável lucidez a sua nova 
altitude : 

«Fui liberal, entfio a liberdade era nova nopaiz ; estava 
nas aspirações de todos, mas não nas leis, não nas idôas praticas: 
o poder era tudo : fiii liberal. Hoje, porém, ô diverso o aspecto 
da sociedade: os princípios democráticos tudo ganharam e muito 
comprometteram ; a sociedade, que então corria risco pelo 
ppder, corre agora risco pela desorganização e pela anarchia. 
Gomo então quiz, quero hoje servil-a, e por isto sou regressista. 
Não sou transíuga, não abandono a causa que defendo no dia de 
seus perigos, de sua íY^queza; deixo-a no dia em que tão ;^guro 
ô o seu triumpho que atti o excesso a comprometto.» 

Ahi está todo o ementário da época. Não temos em toda a 
nossa vida politica, em tão poucas linhas, programma tão vasto. 

O grande homem aprumando-se na encruzilliada a que che- 
gara a phase preparatória da Regência, trancava a passagem 
para a Republica. O Império surgiria com a maioridade 
antecipada, e inconstitucional, feito anhelo commum dos liberaes 
de António Carlos e conservadores de Paranaguã. 

Foi o que sucoedeu a 23 de julho de 1840. 

A maioria do paiz estava em paz» Debellara-se na Bahia a 



DA INDEPENDENQA A REPUBLICA 39 

«Sabiaada» (1838) e a ephemera «Repablica Bahiense» ; e no 
Maranhão os «Balaios» fagiam deante de um general íbliz, 
L. A. de Lima e Silva (Caxias), cajá espada seria a escora 
de am reinado. No sul, mau grado dois lidadores eguaes no 
destemor e no brilho, separados depois por uma variação de 
soenario, David Canavarro e Garibaldi, os rebeldes recuavam 
ante a firmeza do general Andréa (Barão de Caçapava). 

Decahiam as paixões. A própria imprensa abdicara de si o 
papel agitador que monopolizara. Dois Jornaes, o Brazil^ 
do Justiniano Josô da Rocha, e o Maiorista, de Salles Torres- 
Homem, bem escriptos, phrases limadas, sem o affogo e a 
sinceridade dos anteriores, bastavam ás exigências politicas. 
Percebia-se a infiltração do arthritismo monarchico no corpo 
fatigado do paiz. Vão surgir ainda algumas revoltas, as in- 
timas. E nestas, nas de Minas e S. Paulo (1842) suflocadas 
por Lima e Silva, nos combates de Santa Luzia e Venda-Orande ; 
na de Pernambuco (1848), o que se observa ô apenas o desaponta* 
mento partidário. Os rebeldes timbram no conclamar a ádheSão 
ao tbrono. Batem-se saudando a realeza. 

Imprimira-se uma inflexão na directriz da nossa historia. 

Era obrigatória. O nosso desenvolvimento social fora até 
allí quasi nuUo. A vida nacional ativera-se aos interesses 
absorventes da politica. 

A cultura litteraria, permanecera inapreciável. A philoso- 
phica papagueava no eclectismo massudo do Padre MonfAlverno. 
Os talentos que appareciam, resumamol-os em Araújo Porto- 
Alegre, Gonçalves de Magalhães e Gonçalves Dias, tinham 
educação alienígena, através da preliminar obrigada de uma 
viagem á Europa, de onde nos vinham os únicos contingentes 
da sciencia, emmalados. Nas sciencias restringiamo-nos á figura' 
solitária daquelle notável Padre Custodio Alves Ferrão (1 842) 
incomprehendido e inútil nas salas desfrequontadas do Maseo 
Nacional incipiente. 

Seguindo o exemplo de Saint-Hilaire, alguns eleitos* sal- 
tavam, envoltos na indiíTereaça geral, num ponto qualquer da 
costa, e iam descerrar as opulências de uma natureza sem par, 
immensa pagina da historia natural que não sabíamos lêr. 



40 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

D*OrbigDy segue para Matto Qrosao ; Pedro Clauaen (1841) 
para Minas; Helmreichen (1846) para Bahia; Gardner, para o 
extremo norte ; Pisais delineia o nosso primeiro mappa geolo«* 
9ÍQ0 ; Castelneau (1843) afunda nos planaltos, e mais iUustre 
que todos, Willíam Lund, de seu retiro tranqtuillo da Lagôa 
Santa, principiara a abalar o mundo sciantiflco oom as suas 
extraordinárias descobertas» 

Ninguém os percebia. 

$ob o aspecto intellectual, reduzidos á litteratura apressada 
dos jornaes o ás rimas de um o outro poeta de talsnto, esta- 
ríamos ÁqvLQjn da dictatura real e, sem maguar a historia, 
pcder-se-ia dar a D, João VI o titulo de Mecenas, se, desde 1838, 
a ÍUnd^ção do Instituto Histórico e Gêographico BraiUetro^ sob 
a direcção do marechal R. da Cunha Mattos e cónego Ja« 
Quacio Barbosa, não se erigisse como um centro de conver^ 
gencia das energias dispersas do espirito nacional • A simples 
lista de seus primeiros sócios, onde a par dos nomes estran- 
geiros, decorativos, de Chateaubriand e de Humboldt, se 
destacam os de Marques Lisboa, Vasconcellos Drumond, Maciel 
Monteiro, Pedro de Angelis, Ladislau Monteiro Baena, paciente 
compilador da? Eras da Província do Pard^ Visconde de S. Leo- 
poldo {Ánnaes da Provinda de S, Pedro do S^l)^ Ignacio Accloli 
(Memorias históricas e politicas da Bahia) ^ Marquez de Maricá, 
Pedro de Alcântara Bellegarde, Joaquim Caetano da Silva e um 
moço, Varnhagen, que seria mais tarde o Visconde de Porto 
Seguro — ô por si só bastante çzpressiya no revelar uma viva- 
cidade espiritual amplamente generalizada. Mas aperreavam-n*a 
as desordens dispersivas dos partidos. 

Na própria ordem pratica, as mais imperiosas medidas 
despontavam aborticias. A idéa de bater-se a distancia o 
abrevjar-se a enormidade da terra pelas linhas férreas, resur- 
gira em 1840, no privilegio concedido a um estrangeiro pertinaz, 
ThQu^z Cockrane. Mas elucido profissional agitou-se debalde 
no meio da sociedade desfallecida, até ao mallogro completo 
de seu pensamento progressista. 

Açsim, a nossa evolução, por sor cstrictamente politica, era 
probleipatica. Pelo menos illusoria. Estava numa minoria edu- 



DA INDEPENDÊNCIA Á REPUBLICA 41 

cada á européa. O resto jazia no ponto om qae o largara a 
metrópole, obscuro e dúbio— amalgama proteiforme de brancos, 
pretos e amarellos, uns e outros pratica e moralmente prejudi. 
cados pela escravidão crescente com o trafico, que se não 
extinguira. 

De sorte que embora a Regência, com ser electiva, exem^ 
plificasse a praticabilidade da Republica, foi providencial a 
attitude dos que lhe prorogaram o advento. Seria, então, 
artificial e forçada. Contravinha ã situação social. 

Esta, soindida de crises, viera desde a constituição de 24, 
que impuzera (permitta-se nos a antilogia) a liberdade, numa 
ascensão vertiginosa para que se não apparelhara. 

O segundo Império foi uma parada. Digamos melhor, 
uma situado de equilíbrio. 

Predominara, logo, em boa hora, o elemento conservador. 

Na camará de 43, uma figura isolada, António Rebouças, 
nnlco a representar a phalange liberal decahida, appareoia 
como uma evocação do passado. Fundindo duas raças, aquelle 
aryaQO bronzeado desdobrou, inútil, deante dos reaccionários 
tranquUlos, a sua solida envergadura de luctador. Era um 
incomprehendido. Falava uma lingua morta no recinto onde, 
entretanto, eclipsando os grandes nomes do Senado, surgiam 
Maciel Monteiro, Abrantes, Wanderley, Euzebio de Queiroz e 
Nabuco. 

E* que a regressão, segundo o ideal de Bernardo de Yas« 
coQcellos, íôra completa. 

Começando a governar com os liberaes — António Carlos, 
Martim Francisco, Limpo de Abreu, A. Coutinho e Hollanda 
Cavalcanti — o imperador fizera-o por gratidão aos batedores 
da maioridade. 

Este ministério não durou um anno. 

A reacção monarcbica desmascarou-sv3 logo com o Marquez 
de Paranaguá (23 de março de 41) exaggerandose até golpear o 
Acto Addicional: restabeleceu-se, por uma lei ordinária, o Con- 
selho de Estado; e, por uma outra de 3 de dezembro, foi entregue 
a distribuição da justiça a um complicado appnrelho policial. 

Carneiro Leão (depois Marquez de Paraná) ( 80 de janeiro 



42 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

de 43), um convencido que attrahiria todos os resentimentos do 
monarcha para lhe amparar melhor o throno, continuou este 
esforço. E ao entregar cm 44 o governo aos liboraes do Vis- 
conde de Macahé, yia-se que o fazia monos pelo decahir do 
programma conservador que por um resenti mento pessoal do 
imperador. 

Com effeito, a preoccupação absorvente de estancar as 
reformas ia nivelando os partidos. Tinha-se andado demais. O 
próprio António Carlos, desequilibrado no estontoamento 
da altura a que se chegara» atirava no seio da representação 
nacional um brado de espavorido: 

— Senhores ! a constituição foi feita ás carreiras I 

Era preciso parar, ainda que repellindo as melhores figuras 
do passado: Feijó e Vergueiro, duas tradições vivas e ballissimas, 
compromettidos nas revoltas que irromperam em 42« em Minas 
o S. Paulo foram desterrados. Desfechou-se em 45 o ultimo 
golpe no federalismo, no Rio Qrande. 

Por fim, o partido liberal sahiu em 1848 do poder para a 
rovoluçSLo do Pernambuco. Desenhou -se o perfil do ultimo 
revolucionário, Nunes Machado. E a crise extlnguiu-se de vez— 
dominado o horizonte politico (29 de setembro de 48) pelo Mar- 
quez de Olinda, a quem o cargo de ultimo regente dera quasi a 
magestade de um rei. 

Começava a política imperial. 



Nobilitou-a, a principio, uma medida civilisadora. 

Uma questão incommoda, a da escravidão, viera desde o 
século anterior (1758) com o «Ethyope Resgatado »» de M. Ri- 
beiro da Rocha, Intormittentemente revivida. Em 1810, 
Yelloso de Oliveira aprcsentava-a a D. João VI, com a idéa da 
libertação dos nascituros. Hippolito da Costa, agitara-a, pelo 
Correio Brasiliense^ discutindo a emancipação gradual. O Vis- 
conde da Pedra Branca, um sentimental, levantara-a, sem 
resultado, nas Cortes de Lisboa, em 21. Em 1825, José Bonifácio 
apresentava notabilissimo projecto sacrificado nas desordens do 
tempo. 



DA INDEPENDÊNCIA Á REPUBLICA 43 

Sobreviera por fim a inílaencia da Inglaterra ( 1826), visando 
refrear o trafico, a partir de 1830. Depois a lei inexecutada do 7 
de novembro de 31, inspirada por um projecto anterior e malo- 
grado dos irmãos Ferreira França 

Snccedea um hiatus durante a Regência e comego da maio- 
ridade, até ao bill Aberdeen (1845). A nova intervenção 
ingleza, poróm, malestreara-se com estatuir a captura do 
negreiro mesmo nas aguas territoriaes e o seu julgamento nos 
tribunaes britannicos. Foi contraproducente: o traficante, em« 
boscado no resenti mento nacional, tornou-se um (luasi vingador 
da nossa soberania melindrada e ferida. 

A Inglaterra, porém, insistiu ao ponto do infiuir excepcio- 
nalmente no ministério do Visconde do Monte-Alegre, em que 
se rccompuzera anteriormente o do Marquez de Olinda. 

A lei de 4 de setembro de 1850 immortalizon Euzebio de 
Queiroz o, severamente applicada, avantajouse ás balas dos 
cruzeiros inglezes. 

O grande mérito de Monte- Alegre está no haver pairado a 
cavalleiro das explorações que se exercitaram sobro o melindre 
nacional. A pressão das armas inglezas era inilludivel. 
Não havia obscurecol-a e ao seu caracter irritante. Mas ora 
também uma intimativa austera da civilisação. 

O mesmo se dirá de um outro acto, subsecutivo : a « 
intervenção nos negócios do Prata (1851), depois de um longo . 
afastamento em que um nome, Ituzaingo, se escrevia isolado, 
desairando o nosso prestigio no exterior. O ministro dos estran- 
geiros, Paulino de Souza (visconde do Uruguay) approveitou . 
um lance magnifico para ampliar, de golpe, o campo da acção 
innegavelmente civilisadora da diplomacia imperial. 

Realmente, as tropelias de D. Manoel Rosas, que, desde 
1835, submottia a Confederação Argentina a tyrania deplorável— 
desencadeia vam-se próximas demais das nossas fronteiras. 
Constituíam ameaça de complicações inevitáveis. 

O velho sonho imperialista do YiceRoinado entontecia a 
alma do tyrano, levando-o a intervir intermittentemente nos 
negócios do Estado Oriental do Uruguay, ha longo tempo scin-' 
dldo pela rivalidade dos caudilhos Manoel Oribe e Fructnoso 



44 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Rirera. Rosas* inclioando-se ao primeiro, em 1851, ao ponto 
do fornecer-lbe tropas para assediar Moatevidéo, desvendara os 
seus intuitos. Mas, contravintia á politica tradicional do Brazil, 
essencialmente baseada na manutenção da autonomia não só 
do Uruguay, como do Paraguay a quem nos ligáramos por 
uma alliança em 25 do dosembro de 1850. De sorte que a 
Tríplice Alliança de 29 de maio de 1851, entre o Império, o 
Uruguay e a provinda de Entre Rios dirigida pelo general 
Urquiza, instituindo-so para debellar a diotadura tumultuaria 
da Mashorca do Buenos Aires, que ameaçava alastrar-se pelas 
nações visinbas — foi ao mesmo passo, um acto de defcza na- 
cional, e um lance superior do liberalismo incomparável na 
politica exterior. Tão certo ó* que os 20.000 soldados, do 
marechal duque de Caxias, reforçados pelos marujos de Grep- 
feld, não foram repelllr apenas as arremettidas do allucinado 
quo no carimbo das notas oíficiaes completara o disUco— mu#- 
ran los selvagens unitários I ~ com insultos ao infame governo do 
Brazil^ senão tambom para, do accordo com o art. l*" do con- 
vénio de 29 do maio, «manter a independoncia da mesma Repu- 
blica do Uruguay, fazondo sahir do torritorio desta o general 
Oribe o as tropas argentinas que ellc commaudava.» 

A campanha rematada com o melhor êxito, em Monte- 
Caseros (13 de fevereiro de 1832), do que resultaram a queda do 
tyrano o o reaccender-se a nossa gloria militar depois do eclipse 
parcial de luzaingo, tove dois notáveis eíTeitos : a libertação do 
Uruguay e a navegação franca no estuário do Prata. 

Firmou um inconveniente único: a Alliança de 12 de 
outubro de 1851 . negociada polo marquez de Paranã, que nos 
arrastaria outra vez cm armas, mais tarde, para o sul. Entre- 
tanto o triumpho de Caseros dera-nos prestigio para naqaella 
cccasião resolverem-se decisivamente muitos assumptos deli- 
cadoK, entre os quaes o da neutralidade completa e definitiva da 
Ilha de Martim Garcia, quo chegou lastimavelmonte indefinido 
ató aos nossos dias. 

Este ministério, poróm, o a sua segunda recomposição, em 
1852, com a presidência do visconde de Itaborahy, realizara 
trabalhos tão nutavois que não ha insistir naquolle breve deslise. 



DA INDEPENDÊNCIA Á REPUBLICA 45 

Começou, na ordem pratica, a tarofa da unidade nacional, 
batendo de frente o obstáculo da extensão do território, com as 
primeiras linhas de estradas de ferro e navegação. O decreto de 
20 de Junho de 1852, estabelecendo as garantias de juro, iniciou, 
praticamente, a industria fjrro-viaria, que para logo se delineou 
no norte com a estrada do Recife a S. Francisco (decreto de 19 de 
outubro de 1853) e no sul com a de D. Pedro II (decreto de 9 de 
outubro ^853.) Antes, porém, sem nenhuns favores do governo, 
a iniciativa individual deânira-se na vontade triamphante do 
I. Evangelista de Souza (Barão de Mauá) ; e os 17 kilometros 
da Unha do Orão-Pará investiam com as encostas da Serra do 
Mar, nos primeiros passos da conquista magestosa dos planaltos, 
ouvindo-se o primeiro silvo da locomotiva na America do Sul. 

O governo secundou este renascimento. Regulou a fortuna 
publica pela omissão bancaria de 1853, código commercial, leis 
do terras e reforma do Thesouro. Creou as provindas do 
Amazonas e Paraná. Expandia a vida internacional organizando 
a diplomacia. Abriu o livre transito do Paraguay, com o 
Tratado de 25 de dezembro de 1850. E, por í!m, deu vigoroso 
impulso á corrente immigratoria que, esboçada com D. João VI 
(colónias Leopoldina e Nova Friburgo), D. Pedro I (S. Leopoldo), 
e, em 1840, oom a fundação do Petrópolis, teria, desde 1850, á 
vinda de Hormann Blumenau, um traçado oontinuo, de que 
restam como pontos determinantes Blumenau, Joinville, Mando 
•Novo, S. Lourenço, Teutonia e outras. 

Nunca uma situação trabalhara tanto. 

Abandonando o poder, em õ de setembro de 1855, fazia-o sem 
um golpe adverso, como que assaltado de fadigas. 

Entregava-o ao homem que lhe fora inspirador encoberto 
nas administrações interna e externa, o Marquez de Paraná. ' 



O grande estadista chegava ao poder como um triumphador. 
Fora a alma dosministorios anteriores-jà Ba presidência perigosa 
de Pernambuco annullando os restos do movimento de 1848, oom 
setembristas de Pedro Ivo, já na missão ao Prata amparando a 
feac^o de Urquiza. 



46 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Conquistara o mando, em que pcze ao desquerer do Impe- 
rador, que lhe extranhava o génio áspero, altivo e auctoritarlo. 

Mas, por uma circumstancia notável, foi através do seu 
espirito independente que se transmittiu pela primeira vez a 
induenoia directa daquelle nos acontecimentos políticos. . 

De facto, o seu principal programma — o da Conciliação 
dos partidos — executado em todos os pontos, reflectia uma 
inspiração do alto, um «pensamento augusto» no dizer de 
Araújo Lima. B a anomalia de se ter apeado o governo anterior 
tão enigmaticamente sem nenhum conílícto partidário, reforça a 
prcsumpção. 

Além disto o cansaço a que se referiram Euzebio de 
Queroz e Rodrigues Torres (Visconde de Itaboraby), como 
motivo único do abandono do logar em que tanto se haviam 
nobilitado, era*o, de facto, não já somente delles, senão do paiz. 

Chogava-se alli depois de trinta annos de luctas. Urgia 
um armistício. Salles-Torres-Homem, quebrada a pena. do 
« Libello do povo », definiu, depois o caso : 

« Entro a decadência dos partidos velhos que acabaram 
o seu tempo e os partidos novos a quem o porvir pertence, 
virá assim interpor-se uma época sem physionomia, sem omo- 
çOes, S3m crenças, mas que terá a vantagem de romper a 
continuidade da cadeia de tradições funestas e de favorecer 
pela sua calma e por seu silencio o trabalho interior de reor- 
ganização administrativa o industrial do paiz.» 

Foi o que aconteceu. Atreguados os despeitos partidários, 
indistinctos liberaes e conservadores, no período de 1853-1858, 
com os ministérios successi vos de Paraná, Caxias e Olinda, a ca- 
racterização do governo ô «antes moral que material ; o traço 
predominante de sua politica é o arrefecimento das paixões 
que produziam as guerras civis». 

O caracter de unidade desta longa administração foi tão 
firme que ao fallecer em setembro de 56, o homem cuja vontade 
de ferro a equilibrara, apezar do abalo produzido não se lhe 
sentiu o vácuo. Permanecera imraortal sobre a solida archite- 
ctura governamental construída, tornando-se uma espécie de 
Presidente do Conselho posthumo dos dois gabinetes (Caxias e 



DA INDEPENDÊNCIA Á REPUBLICA 47 

Olinda) que o substitairam. Rodeara-se de homens que iam 
bastar a todas as exigências do Império ató quasi a Republica : 
Caxias o mais prudento dos heróes ; Limpo de Abreu (Abaete) 
vindo desde a Regência galgando todas as posições som desejar 
nenhuma ; J. Mauriclo Wanderley, fervente auctor da lei liber- 
tadora de 5 de junho de 54 destinado, entretanto, a ser mais 
tarde um paladino da escravidão ; Nabuco de Araújo, que reor- 
ganizara a justiça e o direito ; J. M. da Silva Paranhos, remo- 
vido sucessivamente da sciencia para o jornalismo, para a 
diplomacia e para a politica ; Couto Ferraz, que refundiu a 
instrucção publica; Pedro Bellegarde, que nobilitou o exercito. 

Fora deste circulo, outros, adversários ou adeptos, mas cres- 
cendo no ambiente propicio que se formara: Josó António 
Saraiva, Silles Torres Homem, J. Maria do Amaral, Teixeira de 
Freitas, Fernandes da Cunha, CansansSo de Sinimbu, Justiniano 
da Rocha, e, sobre todos, se não o afastasse a morte prematura, 
um gigante intellectual, a nossa mais completa cerebração no 
século, Joaquim Gomes de Souza, o «Souzinha», jurista, medico 
e poeta, íegando-nos sobre o calculo infinitesimal paginas que 
ainda hoje sobranceiam toda a mathematica. 

I^lstá ahi a significação moral do governo de Paraná. 

Lembra uma arregimentação de forças, adextrando-se para 
commettimentos ulteriores mais sérios. 

Na ordem pratica refundiu a instrucção pelos novos es- 
tatutos dos cursos jurídicos, e Faculdades medicas, regulamen- 
tando o ensino primário e creando o A. dos Cegos. Am- 
pliou o desenvolvimento económico melhorando a Companhia 
de Navegação do Amazonas, organizando a Estrada de Ferro 
de Pedro II e concedendo a de Santos a Jundlahy que seria a 
aorta de toda a existência económica de S. Paulo. (Dec. de 26 
de abril de 1853.) Firmou a paz exterior, repellíndo o erro' da 
intervenção activa no Prata, e ligando-se em tratado de 
commcrclo com a Argentina. Adheriu dignamente aos principies 
do direito marítimo do Congresso de Paris (1856). Completou 
a lei destructiva do trafico com a de Wandelrey, que prohlbia 
o corameroio interprovincial de escravos. 

Suggeriu a reforma hypothocaria, e, mais clvilisadora e 



48 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

arguente, a judiciaria — reconstituindo o direito, dedtruido pelo 
odioso apparellio policial da lei de 3 de dezembro de 1841 . 

Completou estes actos, com um que devia dalli em diante 
reagir p3derosamente sobre toda a politica— a lei eleitoral dos 
CircQlos, destinada a grapliar com um rigorismo de cópia a von- 
tade nacional. 

Mas o que dd ao Marquez de Paraná, a linha superior de 
um estadista 6 ter compreliendido que na nossa gens com- 
plexa, sem tradições profundas, e democrática apenas pela ca- 
rência de uma selecção histórica, a existência dos partidos era 
por sua natureza ephemera, adscriptos ao mallogro ou ao successo 
das necessidades de occasião que representavam. A politica nacio- 
nal da época tinha que se adaptar ás oxigancias de momento 
e a todas as combinações concretas, a todas as surprezas de 
uma pátria em formação accelerada; e partiria as molas de um 
partido moldado em formulas prefixas. 

A conciliação dos partidos, gastos no attricto de suas próprias 
luotas, era lógica. A loi eleitoral dos «Circulos)>, o seu comple- 
mento indispensável. 

Com effeito, o que houvera desde 22 ató âquelle tempo, 
fora uma convergência de forças. A principio a dispersão revo- 
lucionaria, o ideal da independência, revolto ou esparso em 
f^tcçõôs, patrulhas senoi numero mal arregimentadas sob o 
prestigio de um príncipe. Depois, em 31, a delimitação dos 
Inctadores, nos três partidos definidos da Regência . Subseoutiva- 
mento, com o despertar do prestigio monarcbico de 37, nova 
concentração em dois partidos únicos. 

Mas este movimento, que se ostenta em nossa historia, 
Gomum rigor do traçado geométrico, numa composição me- 
eanica de forças — o quo accentuadamente reflecte é a victo- 
rla dos elementos conservadores sobre os progressistas: um 
continuo amortecimento do principio democrático ; uma re- 
volução triumphante que a pouco e pouco so gasta e se re- 
mora, perdendo num curso de 34 annos (1822-1 86'J) toda a ve- 
locidade da corrente, atô desapparecer, afinal, de todo, no 
remanso largo do Império. 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 49 

Tinhamoa por isso nocessidade de alguém qtie se nao des- 
lumbrasse pelo quadro uoioo da ordem iuaugurada, e pudesse, 
sondando o sentimento do povo, despertar a pouco e pouco o 
elemento progressista, que tombara na sangueira das revoltas 
infelizes. 

Foi a missão do marquez de Paraná. 

Com eile extiogairam-so partidos em cu^o antagonismo 
havia, desde 48, a forca dispersiva do ódio ; e sob o seu influxo 
iam apparecer partidos modelados pela força constructora das 
idóas. 

O creador da Conciliação — e esta nada mais foi do que a 
absorpçao do partido liberal exhausto pelo conservador pi^jante 
— seria o creador posthumo da Liga, de 62, que nada mais foi 
do que a absorpçao da maioria do partido conservador «cindido 
pelo liberalismo revivente. A eleição por districtos, de cada 
deputado, erguendo deante das velhas influencias históricas, 
sobretudo conservadoras, o prestigio nascente dos chefes ou 
influencias regionaes, alastraria de facto sobro todo o paiz, 
as responsabilidades politicas. Seria realmente, consoante a 
phrase do um Jornalista da época, o triumpho á\ causa terri- 
torial, «contra o entrincheiramento ã beira mar do velho regí- 
men. » 

Pelo menos, extlnctos os < deputados de enxurrada >, con- 
forme a ironia fulminante de Paraná, os novos eleitos retra* 
tariam com mais fidelidade a vontade do paiz. 

Deste modo o grande homem demarca um trecho decisivo 
da nossa historia constitucional; e centralisa-a. Enfjixa as 
energias do passado e desencadeia as do futuro. 

Separa duas épocas. 

Foi o ponto culminante do Império. 

Depois delleo que dizem todos osfactoi ó o decahir continuo 
do principio monarchico até 1889, gastando na descenção quasl 
tanto tempo quanto para a subida. 

Realmente, a Republica, que não devemos confundir com 
a bella parada commemorativa de 15 de novembro de 1889, tinha, 
lançados, os seus primeiros fundamentos. 

4323 — 4 Tomo lxix p. ii. 



50 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O prfQcipio democrático renasoea da lei dos cCircuIos». 
Triumphou ruidosamente nas eleiçOes de 1860. 

Poaco antes, faltando o ponto de apoio do homem em que 
se esteiara, a situação se revelara âactuante, prevendo-se uma 
transmutação de scenario. 

Caxias, fk*agil para a herança que o esmagava, cedeu o 
governo ao marquez de Olinda, e este, ligando-se a Souza 
Franco, um intransigente liberal de 48, trahiu na hybridez desta 
alliaaça, o enfraquecimento conservador. Apeou-se do poder 
assim como o gabinete que lhe succedeu, do visconde de Abaete, 
com o pretexto de divergências sobre reformas bancarias, mas 
de facto pela falta de um apoio na sociedade inconsistente. 
O imperador recuzara-lhes tenazmente o recurso de dissolução 
da camará, como se temesse uma consulta ao paiz. 

Era a < época sem physionomia », de Timandro, que findava. 
Esboçavam-se, dúbios ainda, três partidos: o liberal revi vente, o 
conciliador decahido, e o conservador extreme. Os governos 
vacillavam entre uns e outros aggremiando ao mesmo passo a 
adhesão e as desconfianças de todos. 

Na imprensa soava uma palavra nova, que era uma 
palavra de combate. Francisco Octaviano apparecia no Correio 
Mercantil^ na attitnde correcta que sempre manteve, vibrando 
sem perder a linha da sua organização finamente aristocrática, 
golpes mortaes «no monopólio do governo entregue a mãos 
desfollecidas». Era a primeira voz do espirito novo re- 
nascido. 

Nesta situação, o ultimo ministério reaccionário de Diogo 
Ferraz (10 de agosto de 1859) organisou-se como uma torsão 
violenta para a ordem aitiga, mal combatida no parlamento 
por Landulpho Medrado, Tito Franco e Martinho Campos. 

Aquelle refluxo, porém, occorria, quando o termo legal da 
camará de 1856, entregava ao povo um pleito que a monarohia 
evitava. 

E o resultado foi admirável. 

Mostram-no as eleiçOes no Rio, que Já então era a mi- 
niatura do Brasil. 

€ Essa eleição de 1860, pode*se dizer que assignala uma 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 51 

époea em nossa historia politica ; oom ella recomeça a encher 
a maró democrática. . . » (I) 

De facto, toda a agitação daquelle anno decisivo se fez em 
roda de três nomes qae viotoriosos nas urnas» faziam mais do 
que resascitar o partido liberal lentamente destruído nnma 
Incta de quarenta annos : Francisco Octayiano, Theophiio 
OttonS e Saldanha Marinho. O primeiro, um atheniense dos tró- 
picos, sonhador e poeta, ficaria abraçado á legenda histórica do 
liberalismo ; o segando, oij^o papei foi o de detonar a expansid 
popular pela eloquência explosiva, que o incompatibilizaria 
depois com a lucta no parlamento, permaneceria para sempre 
dúbio, com a sua feição de rebeliado. O ultimo, porém, dará ot 
primeiros passos de longo itinerário. . . 

Abria-se uma éra nova. 

O ultimo gabinete reaccionário eahira como que ao baqtM 
de uma reTolução. Não aguardara a abertura das camarás. 
E o que lhe succedeu, de Caxias, eomeçando com elementos 
incolores (Y. de Inhambupe) ou francamente oonaeryadores 
(Paranhos e Sayão Lobato), a brere trecho transigiu com a 
nora ordem de coisas, vinculando-^e numa recomposição for- 
çada, á opinião Tiotoriosa, por intermédio de um deputado* 
José António Saraiva, destinado a reunir oe attributos mais 
nobres dos nossos homens políticos. 

£' que o velho militar — cabo da guarda do Império 
— aquilatara a crise. 

Mudavam-se os tempos. No pagamento formara*se a Ug a 
dos liberaes com os conservadores moderados (1862) e um novo 
partido, cProgressista », enterreirava a veiba phalange reaceio- 
naria de £. Queiroz, Itaborahy e Ufugaay. Fora, irradiando 
pelo paiz e fulgurando na capital, na < Actualidade », de 
Laâtyette R. Pereira, Pedro Luiz e Flávio Famese, o ultra-. 
Hberaiismo avassalava os espirites, visando oonolusões extre* 
mas. Desenhava^se no seenario politico a triplioo organizado 
partidária de 1831, Mas a componente maior tendia visivelmante 
para a demooraeia. 



(1) Josqttim N ábaco -« Um e9ta€tiata do Império. 



52 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Naquelle m&smo anno am faoto Beoundario objectivara o 
noYO ramo das idéajs. 

Inaagaroa-se a estatua de D. Pedro I« 
Bra opportuno lanoe para reacoender-ge a tradição 
monaroMoa, deletreando-ie a pagina histórica da ladependencia. 
O sentimento popolar, porém, derivou á cadencia dos versos 
desafiadoras da M&ntira de Branãe^ de Pedro Luiz ; e da eephera 
superior da politica» a palavra que desceu pelo orgam do sena- 
dor Nabnco de ArangOt timbrara noaffirmar que o monumento, 
longe de signiflear a glorificação de um reinado, traduzia apenas 
a Justiça de um povo livre, que não esquece os serviços pre- 
stados. 

Entalhava-se a orthodoxia monarchica. Pedia*8e em todos 
os tons a representação das minorias ; oondemnavam*se as 
patriarohias governamentaes das camarás unanimes ; e, em 
pleno senado, uma phrase histórica— O rei reina e não governa^ 
soava como um refr^ ameaçador e extranho. 

Por fim, a politica imperial, que, havia pouco, perdera um 
ministério ante uma manifesta^ popular, perdeu um outro 
batido pelo parlamento. O gabinete Caxias cabiu (21 de maio 
de 68) e com elle a situação conservadora no poder desde 48. 

A camará quasi toda de liberaas e dissidentes readquirira, 
depois de um esbulho de 14 annos, o direito de dispor do 
governo* 

Equilibravam-se, porém, no seu seio, os dois partidos 
extremos, e esta egualdade levava paradoxalmente ao desequi- 
líbrio. O ministério de um Inctador de pulso, Zacharias de Yas- 
concellos, onde apparecia um heroe das campanhas do sul, o 
Barão de Porto- Alegre, durou apenas três dias. Nesta emer- 
gência, o Imperador appellou de novo para o marquez de Olinda 
e o antigo regente formou, então, o único ministério possível, 
o « gabinete dos velhos », venerandos aposentados de 31, entre 
os quaes sô havia um moço, á volta dos cincoenta annos, Can- 
sansão de Sinimbu. 

BBte governo emoliente, inapto para dominar a camará, 
diSBolvea-a» 

O paiz ia outra vez definirn» ; e fel*o incisivamente. Am- 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 63 

pliando a de 60, a eleição de 63 levantou liberaes e democratas, 
numa maioria desproporcionada e alarmante. 

Por outro lado, o espirito popular desatava-se em rebeldias 
desde muito deslembradas. Foi o que succeden por oooasião da 
questão dos salvados da barca Prinee of Wales e consequentes 
represálias da fragata inglesa Farte â entrada da barra. 

Amotinou-se a multidão no Rio. Tomou lhe a frente Theo- 
philo Ottoni.Um protesto ameaçador arrebentou Junto do throno; 
e o ministério Olinda, num esvabimento de sombras— as ultimas 
sombras do passado — extinguiu-se ante a palavra ooroscante 

do tribuno. 

* 
* * 

Ao reassumir o governo (15 Janeiro 64), Zacharias de Yas* 
conoellos podia dizer que reatava o seu ministério, de três dias, 
de 24 de maio de 62. A situação antecedente Í5ra um desvio 
morto, removendo da larga estrada que se abrira um em 1860 ; 
todos os elementos, cc^o papel findara. 

A camará de 64 reflectia a um tempo a victoria democrática 
e o rejuvenescimento do espirito nacional. Lá estavam: 

F. Octaviano, Tavares Bastos, o pensador irónico da^ 
u Cartas de um solitário» ; Pedro Luiz, o lyrico iconoclasta da 
« Ode a Tiradentes » ; José BoniftMdo, o moço ; o romancista 
Joaquim Manoel de Macedo ; Feitosa, o jornalista vibrante de 
48 ; o barão de Prados, um dos raros scientistas brasileiros do 
tempo ; Martinho de Campos, que se tornaria o terror de todas 
as situações; Urbano Sabino Pessoa e Pelippe Lopes Netto, duas 
figuras vingadoras, dois nomes que recordavam um único, o de 
Nunes Machado, sacriflcado 16 annos antes ; Liberato Barroso, 
Christiano Ottoni, Souza Dantas, Silveira Lobo; e, obscuro ainda, 
um predestinado, Affonso Celso. 

Sobre todos, dominando-os, centros attractivos em tomo 
aos quaes Já se desenhavam os dois partidos em que se fraccio- 
naria a Uga, Theophilo Ottoni e Saraiva. 

O elemento conservador, supplantado, só tinha um nome— 
Junqueira. 

Apezar disto, o ministério progressista, fortalecido de taes 
elementos, numa camará quasi noaiUmei ia dobrar-se á presido 



64 RBVISTA DO INSTITUTO HISTOBICO 

do próprio moTimeato liberal, cahindo de ixnproTiso a 29 de 
agosto daqaelle anão, 

E' que o liberalismo avançando diBtanciara-ae doa alliados 
da yespera. A seisão da ligd., como a da Ck)aciliaçio, opera- 
ya-se ante o expandir dademocracia. B, dividida em dois partidop, 
o '(histórico», oom os elementoi radieaea, e o «progressista», com 
08 moderados, reproduziam estes, ante o conservador inalte- 
rável, a triplico physionomia partidária da Regência. Abria-se, 
ao parecer, na nossa historia, o circulo phantasista do viço. 

Mas era ama semelhança exterior. 

Ia operar-se um movimento opposto. Ao envez da arregi- 
mentação em torno dos elementos moderados e conservadores— 
o destaque cada vez maior e irresistível do liberalismo. 

Pelo menos, a uniflcaçao successiva dos três grupos já nâo 
se íária em torno da bandeira reaccionária. 

Levava um outro norte. Não se tratava mais de fluer 
parar, como em 1837, uma revolução, que preenchera o seu 
destino. 

la-se oomeçar uma outra. , . 



Impediu-a ou remorou-a, porém, um facto esporádico — a 
guerra com o Paragoay. 

Tinha, certo, antecedentes que permittiam prevel-a. £ra« 
sobretudo, uma resultante do fácies geographUo impondo-nos as 
communicaçoes com Matto-Grosso peio longo desvio contornean te 
de Prata. 

Desta drcurnstancia Jã haviam resultado graves attrictos. 

Garantia a passagem o Tratado de 25 de dezembro de 1850. 
A situação moral do Paraguay, porém, que sahira da rigida 
dictadura do dr. Francia para a tyrania de um verdugo inapto 
a avaliar o esforço do estadista, certo íeroz, mas talvez único 
para resuscitar um paiz que o jesuitismo matara, annulava 
todos os convénios. 

Os dons Lopes, em cujo espirito o sonho do vice-reinado se 
ampliava oom o da conquistado Matto-Groaso, predispunham-se 
ha muito para a lucta. Organizaram um exercito despropor- 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLIC.i 55 

eionado — o maior exercito permanente que ainda houve na 
America do Sul ; ouriçaram as ribas do Para<iruay de fortalezas 
extremiibdas pelos fortes Olympio e Hamaytá ; e, desde 1853, 
Carlos Lopes provocara um rompimento, enviando ao ministro 
brazileiro, Leal, os passaportes, sob o pretexto de se dedicar 
elle á intriga contra o Supremo Governo. Salvaram-nos, então, 
da luct^i, duas circumstancias: a tibieza do almirante Pedro 
Ferreira, que, sendo enviado a exigir prompta reparação do 
insulto, quedara inerte, tolhido pelo temor de uma intervenção 
anglo-francoza; e o solido critério do marquoz de Paran<l, que 
iniciava o governo de todo entregue á obra da reorganização 
nacionaL 

Esto desastre diplomático teve depois (185Ô) o correctivo da 
missão Paranhos (visconde do Rio-Branco), firmando com o 
plenipotenciário Berges um tractado de livre transito fluvial. 

A regulamentação do convénio, porém, annullava-o. A 
travessia era uma tortura através de fiscalização humilhante, 
impondo continues desembarques e insidiosos exames dos 
passaportes crivados de vistos irritantes ; além de outros 
entraves que determinaram, em 57, a ida de outro plenipo- 
tenciário nosso, José Maria do Amaral, á Assumpção, com o 
resultado único de contemplar deporto a altaneria de Lopes l"", 
extranhando-lhe o ter ido até lã em um vapor armado em 
guerra. 

Por fim, nova intervenção de Paranbos (visconde do Rio- 
Branco) originou o Tratado de 12 de Fevereiro de 1858, fran- 
queando o rio Paraguay a todas as naç5es. 

São antecendetes expressivos. Revelam no animo do 
paraguayo o aohelo da lucta, para que procurava apenas 
um pretexto. 

Ora, este antolhou-se-lhe em 64. 

O Tratado de 12 de outubro de 51— contracto unilateral 
que nos fizera protectores platónicos do Uruguay, contem- 
plando, neutros, as arrancadas entre blancos e colorados-^ 
prendera-nos ás discórdias platinas. Tornara-nos, margeando o 
palco de uma revolução chronica, espectadores dos escândalos 
entre os caudilhos, e estimulara entre os rio-grandenses as 



56 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

mais peccamíDOsas algaras, as famosas « calirornias», copia das 
tnontoneras platinas, om quQ succossivos grupos iavadiam a 
eatnpanha oriental, aggravando-iiie os tumoltos. Desse modo, 
a nossa neutralidade era oSloial apenas ; col laborávamos 
também a golpes de lanças e patas de cavallos naquello 
regimen olassicode tropelias ;e é comprehensivei que nos envol- 
vêssemos, por fim, seriamente, nas desordens. 

De facto, em 61, sobrevieram as noticias de vexames 
e torturas de toda a sorte exercidas sobre os brazileiros, nas 
luctas do Uruguay, onde um revolucioaario, o general Flores, 
colorado, se insurgira contra o presidente blanco, Aguirre. E a 
opinião, no Rio, ainda abalada pela recente questão ingleza, 
inflammou-se. Não se cogitou que os brazileiros torturados, 
amatulando-se com as tropas daquelle general, haviam trocado 
a bandeira da pátria pelo poncho do caudilho. Eram, aânal, 
soldados de Flores, e o Qoverno orlentil, repellindo«09, não 
podia distinguil-os nas fileiras adversas. 

Estas circumstancias attenuavam os attontados comettidos, 
permittindo afastar-se, sem desaire, umconâicto inútil. 

Mas os factos precipitaram-se. Enviado ao Uruguay, Sa- 
raiva, a despeito de seu animo superior e nimio tolerante, não 
poude evitar o rompimento. O presidente Aguirre repeliiu uma 
intervenção que era, de feito, um apoio ao cabecilha rebelde. 
Devolveu o uUimaium de 4 de agosto e aprestou-se para a 
refrega; emquanto os navios do almirante Tamandaré singravam 
ameaçadoramente, as aguas do Uruguay. 

Solano Lopes aproveitou então o momento que lhe vinha a 
talho para uma aspiração antiga. Offereceuasua mediação em 
Junho. Logo depois, om setembro, protestou contra o auxilio 
que se dispensava a Flores. Num e noutro caso a sua attitude 
foi irritantíssima. A nota extravagante que dirigiu ao diplomata 
brazileiro em Asuncion, Vianna de Lima (barão do Jaurú), em 
que se intitula garbosamente defensor da independência e do 
equilíbrio politico das republicas platinas, repassava se de tão 
altaneiras ameaças que valia uma declaração formal de hostili- 
dades. Completou-a o aprisionamento (12 do novembro do 64) 
do vapor commerclal Marquez de Olinda, onde se embarcava 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 57 

O coronel Carneiro de Campos, presidente do Matto^Grosso. Assim 
a campanha do Uraguay, desfechada pelas ba^^onetas do general 
Mena Barreto, ultimando-se com as tomadias de Paysandú e 
Montevideo e pela deposição de Aguirre, sabstituido pelo nosso 
alliadò general Flores, foi apenas o preludio de uma outra 
maior. 

Mas passemos, Á carreira, sobre uma pagina tristemente 
gloriosa. 

A guerra do Paraguay é um desvio na nossa historia. 
A sua causa mais próxima está, talvez, na interferência de duas 
vontades, injustificáveis ambas. De um lado o delírio de grandezas 
de um déspota minúsculo de mais para a sua própria ambiçSo, 
de outro a diversão temerária de um Imperador constitucional, 
por ventura impressionado com o scenario da politica interna 
do seu paiz. 

O primeiro era mais lógico. Aquelle anhelar por um grande 
império baseava-se, afinal, nas scisões do outras republicas pla- 
tinas e na nossa relativa fraqueza militar. Os noventa mil 
homens de I^pes toroavam-lhe factivel aempreza. 

Faltou-lhe, pOrera, a envergadura e o lance do vista de 
um conquistador. Comprometteu logo a sua causa com duas 
invasões desanrosas : a de Estigarribia, no Rio Qrande, avan- 
çando no desconhecido até pcrder-so na rendição de Uru- 
guayana ; e a mais infeliz, de Robles, em Corrientod, que mais 
do que a alliança da Argentina, poz ao nosâo lado o grande 
prestigio moral de Bartholomeu Mitre. 

Com estes dois erros estava perdido aos primeiros passos. O 
que houve depois foram cinco annos de memoráveis con/lictos. 

Não 08 descra veremos. Fora perdermos a linha essencial dos 
acontecimentost que trilhamos. 



Durante a campanha, assistiu-se na politica interna do 
paiz a um espectáculo naturalmente previsto: a lenta ascensão 
do partido coxmervador, ostensivamente estimulada por D. Pq- 
dro H, 



68 REVISTA DO INSTITUTO HISTORIGO 

O governo, genuinamento liberal de Pranoisco José Furtado, 
onde se destacavam Liberato Barroso, Dias Vieira e o general 
Beeurepaire Rohan cahira (abril de 65), substituído successiva- 
mente, oom applausos de todos os reaooiooarios, que compre- 
hendiam a necessidade de uma transição pouco violenta, pelos 
progressistas do marquez de Olinda e de Zacharir^s de Vascon- 
ccellos ; até que, com a retirada deste, em 16 de julho de 68, 
se definisse ás claras a situação com a subida dos conservadores 
de Rodrigues Torres, sendo dissolvida a Camará, quasi tod a 
liberal, que o combatera para logo violentamente com a 
palavra vigorosa de Josó Bonifácio. 

Ora, esta reviravolta, illogica e contrastando com todos os 
successos anteriores, como um inesperado refluxo, fora deter- 
minada por um incidente mínimo que dispensa, pela eloquência 
do próprio enunciado, maiores commentarios: o governo 
de Zacharias, e com elle a situação liberal, cahira em virtude 
de um pedido de demissão do general Caxias, então ã frente do 
exercito victorioso, esclarecido por uma carta ao próprio 
ministro da guerra, em que o velho militar, conservador da 
velha guarda, num espelhar de resentimentos inexplicáveis, se 
declarava tacitamente incompatível com o gabinete «que visava 
quebrantar-lhe por diversos modos a força moral ». 

Esta oiroamstancia diz tudo. 

No opinar entre aquella auotorídade militar e a legalmente 
superior, do ministro, a politica do Imperador desvendava se 
inteiramente, franca, sem que a tolhesse a círcumstancia de ter 
sido o ministério Zacharias o organizador da victoria da iucta 
com o Paraguay, graças à actividade admirável dos ministros 
da guerra e da marinha, Angelo Ferraz (barâo de Uru- 
guayana) e Affonso Celso (visconde de Ouro Preto). 

Mas não foi uma sorpreza. A politica nacional, illudida pela 
preoccupação absorvente da campanha externa, desviara-se, 
transitoriamente, de seu rumo histórico. 

Pronunciara-se Já, em todos os tons, uma palavra, < impe- 
rialismo», que a pouco e pouco ia imprimindo um traço cesa^ 
riano no platónico poder moderador, e forjando a extravagância 
de uma autocracia constitucional. 



DA INDEPBNDENaA A REPUBLICA 59 

Falseado de todo em todo o processo eleitoral, que, & breve 
reyiyiscencia impressa pelo marquez do Paraná, bastara para 
originar a victoria democrática em 186), o poder dynastico 
completando a sua faculdade privativa da escolha dos depositários 
do poder executivo com a cumplicidade das camarás nomeadas, 
iniciava uma reacção extemporânea, sem o traço superior e 
opportuno das de 1837 e 1848. 

Perceberam-na, desde 65, os próprios representantes dos 
partidos monarchicos ; e o alinhar-se-lhes, ao acaso, as pbrases, 
equivale a retratar com fidelidade aquelle período artificial e 
retrogrado forrando-nos a uma missão de Tácito. 

Souza Carvalho, naquelle mesmo anno, dera o grito de 
alarma appellando para o palliativo de eleição directa. 

Tito Franco indicava, logo depois, em 67, a causa única da 
decadência do paiz < no polichinello eleitoral daasando segundo 
as phantasias dos ministérios nomeados pelo imperador.» Sayão 
Lobato, antigo reaccionário, caracterizava em phrases yigorosas 
o contraste da esplendida architectura governamental com os 
vicios e abusos que derrancavam. Josô de Alencar, compro-- 
mettia a sua próxima escolha para ministro, ferretoaado com 
attlcismo incomparável todo o regimen. Para Josô António 
Saraiva, o paranympho da Liga do 1862, <o poder dictatorial da 
oorôa era uma verdade só desconhecida pelos néscios ou pelos 
subservientes aos interesses illegitimos da monarchia. » Um 
caracter austero, d. Manoel de Mascarenhas, pronunciara em 
pleno Senado uma phrase cruel: «Morreram os costumes, o 
direito, a honra, a piedade, a fé, e aquillo que nunca volta 
quando se perde, o pudor.» Completou-o, no mesmo recinto. 
Silveira Lobo, deplorando a morte do systema representativo 
6 chegando temerariamente á conclusão de que < o vicio não 
estava nos homens, mas sim nas suas instituições.» Para 
Francisco Octaviano, o império constitucional «era a ultima ho- 
menagem que a hypocrisia rendia ao século», e a phrase ficou 
celebre. 

Tavares Bastos, o paladino da ft-anquia do Amazonas, num 
quasi ostracismo, na Europa, volvia o ultimo brilho de seu 
grande espirito para a Republica, para a qual se dirigiria em 



60 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

breve» ostensivamente, um outro, José Maria do Amaral. O 
visconde de Camaragibe e o grupo conservador do norte previam 
á desaggregaçao do paiz na condemnavel concentra^ qne se 
formava. António Prado, João Mendes de Almeida, Duarte de 
Azevedo, conservadores do sul, estadeavam em phrases ainda 
mais amargas o desquerer pelo throno. 

Por fim, alguém culminou sobre esta situação moral. 

O conselheiro Nabuco de Araújo, enfeixando num plano su- 
perior todos os desânimos e todas as revoltas da nacionalidade 
trahida, abalara o Senado com um sorites formidável, conden- 
sando em pbrase que é um prodígio de synthese toda a politica 
do tempo: 

«O poder moderador pôde chamar a quem quizer para orga- 
nizar ministérios; esta pessoa faz a eleição porque ha de 
fazela ; esta. eleição faz a maioria. 

Ahi esta o systema representativo do nosso paiz !» 

£ nesse torvelinho retalhado, de desapontamentos e tristezas 
e desânimos e revoltas, — dois Ilberaes, obscuros ainda, sem 
phrases afogueadas, quasi sem ruido, transpunham tranquilla- 
mente as fronteiras da Republica : Francisco Rangel Pestana 
o Henrique Limpo de Abreu. 

De sorte que, ao irromper a reacção monarchica» resusci- 
tando uma rígida figura de 37, antigo companheiro de Feijó, o 
visconde de Itaborahy, estava descoberta a estrada que a con- 
tornaria. Além disto, o partido liberal unira-se de choft*e, oomo 
se o abalo da queda lhe annullasse as discórdias intestinas, em 
torno dos seus melhores representantes. E, delidos os resenti- 
mentos pessoaes da véspera, sopeado o radicalismo de muitos 
que como os Ottoni e Silveira Lobo propunham a eliminação do 
poder moderador, num perigoso avançar para a frente—firmou, 
no terreno partidário, sob as grandes responsabilidades de 
Zaoharias, Theophilo Ottoni, Nabuco, Souza Franco, Octaviano 
o Paranaguá, o protesto do abstencionismo, ante a mentira 
eleitoral, e no terreno politico o Manifesto de 1869, com estes 
cinco compromissos : 

a reforma eleitoral, única capaz de se oppor ao absolutismo 
emergente ; 



DA INDEPENDENOA A REPUBLICA 61 

a reforma Judiciaria, desbancando a Justiça russa instituída 
em 41 pelo Código de 3 de dezembro ; 

a aboli(^ do recrutamento e da Guarda Nacional, que ab- 
dicara o seu nobre papel da Regência e se tornara a guarda 
pretoriana das urnas ; 

e, afinal, a emancipaçSo dos escravos.» 

Rematou com um dilemma entre cujas pontas oscíllaria 
dalll por deante todo o edificio monarchioo : 

<0u a Reforma ou a Revolução.» ^ 

Mas opinava logo : 

< A reforma para ooi^urar a revolucSo. 

< A revolução como consequência necessária da natureza das 
coisas, da ausência do systema representativo, do exclusivismo 
e olygarchia de um partido. 

< NSo ba que hesitar na escolha. 
€ A Reforma ! 

< E o paiz será salvo.» 

Ora, agindo no centro dos acontecimentos em que eram auto 
res e actores, sem a visão de conjuncto permittlda por um afas- 
tamento do fioenario, os reformadores, ainda addiotos ao throno 
pela força prodigiosa da inercia,nSo podiam perceber que aquella 
condicional era serôdia. As duas palavras nâo extremavam 
mais uma alternativa. Gonjugavam-se: reforma e revulução. . . 

Foi o que 00 acontecimentos depois revelaram. 

O governo de Itaborahy, um anachronismo palmar, em cpjo 
tirocínio de quasidois annos s6 ocoorreu um successo apreciável, 
o termo da guerra do Paragnay (1 de março de 70), completado 
pela missão do ministro dos estrangeiros, visconde do Rio-Branoo, 
incumbido de organizar o governo nacional do Paraguay—cahiu 
por evitar o problema emancipador, appenso em additivo 
proposto pelo senador Nabuco de Araújo á lei do orçamento 
daqnelle anno. Provocara ao mesmo tempo a formação da 
dissidência conservadora dirigida por Jeronymo Teixeira Júnior 
e composta de elementos — Ferreira Yianna, Junqueira, João 
Mendes, Duarte de Azevedo e Perdigão Malheiro — que dariam 
em breve áquelle partido o compromisso anómalo de se bater 
por todas as ideias liberaes. 



62 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O marqaec de S. Vicente (Pimenta Bueno), que lhe saccedeu, 
tentou uma conciliação impossível, mau grado a sua robusta 
mentalidade. Suspeito ao liberalismo, com reflectir, numa 
passividade de espellio, o desejo claro manifestado sem rebuços 
pelo Imperador, de obstar a todo o transe quaesquer reformas 
no apparelho das eleições; suspeito á velha guarda conservadora 
j& dirigida por Paulino d;3 Souza (Andrade Figueira, Josó de 
Alencar, A. Prado e Francisco Belisario), pelos seus antigos 
projectos emancipadores discutidos no Conselho de Estado desde 
o ministério Zacharias — viu-se em situaçfto instável. NSo 
puderam firmal-o ministros da estatura excepcional de Salles 
Torres Homem (visconde de Inhomerim), JoSo Alfredo Correia 
de Oliveira, Oiymplo Gomes de Castro, Pereira Franco e Teixeira 
Júnior. 

Abandonou o governo legando-nos, como unioo testemunho 
de sua passagem, a fundação do Conservatório dramático. • . 

E' que a conciliação planeada— um outro < pensamento au- 
gusto > imprópria va-a não a falta de um marqvez do Paran&, 
mas a transformaç&o das coisas. 

A monarchia preenchera o sen papel. As reformas liberaes, 
erigindo-se para logo no pensamento da eleiçio directa e da 
emancipação dos escravos, embora acabassem por senhorear o 
espirito do próprio Imperador, iriam abalar toda a architeotura 
monarchica. Peroebera-o o visconde de Itaborahy, graças á 
visão exercitada em moio século de actividade politica. Mortos 
Araújo Lima e Eusébio de Queiroz, elie era o ultimo dos yelhos 
constructores do regimen . Conhecia todas as falhas e o gasta« 
mento inevitável do apparelho extraordinário dentro do qual se 
constituirá a nossa nacionalidade. B oomprehendia, avassallado 
de espantos, que elie não resistiria ao empuxo dos novos ideaos. 
«Não queiramos aluir de chofre os fundamentos em que se acha 
assentada a associação brazilelrat» exclamara no parIameato« 
em 1870, com a intuição profunda de nm vidente. 

Com elfelto, no seu ministério eshoçou-se ó deoli&io do 
Império. 

Dahi por deante o triumpho demoeratieo não se manifestara 
mais, como em 62, por uma liga de liberalismo nifriro^ 



bA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 63 

attrahindo ao seio os conservadores adeantados. Proseguirá 
isolado. 

Destaca-se-Ihe dos flancos um partido novo — o republicano . 
Difficilmente se depara em nossa historia acontecimento mais 
lógico. 

O manifesto de 3 de dezembro de 1870 íéz-se, realmente» 
a segunda pagina do manifesto liberal de 1868. 

Mas inclinada ao outro vértice do dilemma. 

O programma alli exposto foi o que devera ser— um libeilo. 

Fazia-se o processo de um reinado. 

E em que peze aos ezaggeros da metaphysica politica, que as 
debilita, aquellas linhas, as primeiras linhas escriptas da his- 
toria da Republica, graphavam um dictado antigo. 

Entre as suas assignaturas^a de Joaquim Saldanha Marinho, 
nome já tradicional, as de Christiano Ottoni e Flávio Fámese, 
vindos das tendas liberaes, as de Lafayette Rodrigues Pereira e 
Salvador de Mendonça, as de Quintino Bocayuva, Aristides Lobo 
e Francisco Rangel Pestana, que proseguiriam até á vietoria, 
e outras, que se apagariam na obscuridade — faltava uma que 
seria a mais expressiva de todas, « de Theophilo Ottoni, o 
agitador destemeroso de 6â* 

As linhas anteriores justiâcam oasaerto. 

O novo pensamento politico, inearacteristico e mal vinculado 
Às tendências separatistas nas insurreioC^s inooherentes que 
vieram até 1817; inopportuno em 1822 e 1831, por contrariar o 
interesse maior da unidade da pátria ; repellido em 1837-1848 
por que ainda se tornara indispensável a acção exclusiva da 
força centrípeta da realeza ; evolvendo, imperceptível, e 
perdendo o caracter separatista com esposar os resentimentos 
alastrados pelo palz inteiro na trégua partidária de 1853-1858 ; 
aflorando, por fim no violento revide de 1862, que uma guerra 
externa abrandou, desviando as preoocupações nacionaes : — 
depois dessas vicissitudes, em 1870, impunha-se. Para vencer 
tinha a força das novas aspirações sociaes t&o vigorosas que 
se reflectiam nos próprios partidos dynasticos^ talhados em 
dissideaoíAs que se degladiavam, desangrando-se, sem pouparem 
dos golpes, como vimos, a própria figura imperial. 



64 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

lavertiam-se os papeis: o perigo separatista estava naquella 
concentração golpeada de crises. E o partido republicano cres- 
cendo desde logo, mercê dos contingentes snccessivos que lhe 
ad vinham de todos os deailludidos e de todos os desesperados dos 
doisontros^o que aconteceria até as vésperas do 15 de 
novembro « começava a esboçar, de facto, uma outra < Con- 
ciliação », mas, esta, agora, definitiva — a Republica. Sahira, 
das divagações do manifesto de 70, para o terreno da propa- 
ganda. Deliaeavam-se em S. Paulo, em linhas cada voz mais 
nítidas, até se imprimirem profundamente na nossa historia 
politica os perfis de Américo Brasilieose, Rangel Pestana, 
Américo de Campos, Campos Salles, Prudente de Moraes e 
Venâncio Ayres. 

Ao mesmo tempo, o povo tomava um logar na represen- 
tação nacional. 

Ouviu-se dentro da Gamara dos deputados uma palavra 
extranha com a tonalidade imponente dessas vozes propheticas 
que anunciam a rnina dos impérios. 

Não era a dialéctica vibratil de Zacharias, a argumentação 
fria, sulcada de súbitos lampejos de génio, de Nabuco, a fluência 
cantante de José Bonifácio, ou o período artístico e sonoro de 
Salles Torres Homem, a que se havia affeiçoado o nosso parla- 
mento. Mas uma eloquência quasi selvagem na sua esplendida 
rudeza, na energia nunca vista com que reinvidicava os direitos 
populares, e nas suas rebeldias da fórmi» e nas suas grandes 
temeridades de conceitos. . . 

Silveira Martins desdobrava, improvisamente — passando 
fugaz, num faigor instantâneo e desappareoendo -- a sua esta- 
tura athletica de Danton. 

* « 
O governo do visconde do Rio-Branco ( 7 de março de 71) 
sobreveiu, então, como uma longa trégua oiviiisadora. 

Antes diplomata que politico, o grande homem fez o mi- 
lagre de dirigir utilmente o paiz até 1875, no mais dilatado 
ministério que tivemos. 

E fel-o, sobretudo* porque não representava nenhum dos 
dois partidos monarohlcos. 



DA INDEPENDÊNCIA Á REPUBLICA 65 

DemoDstra-0 o caracter antinomico, mas expressivo, de 
uma situação conservadora ezgottando qaasi por completo o 
programma liberal — e appellando indistinctamente para a 
dissidência do seu próprio partido e para a boa vontade dos 
adversários, liberaees e republicanos. 

Estes últimos podiam, com eflèito, permanecer espectantes, 
como o fizeram. 

O governo do estadista que tinha a investidura única da 
parte san de sua terra — ia desbravar-lhes o caminho. 

Desarraigou a escravidão do paiz pela lei de 28 de setembro 
do 187], em que o secundou brilhantemente o ministro predes- 
tinado a vibrar o golpe decisivo de 13 de maio, João Alfiredo 
Correia do Oliveira; abateu pela reforma judiciaria de 20 de 
setembro de 71 a lei tyrannica de 3 de dezembro de 41, < a velha 
arvore de Bernardo de YaconcelUos o do visconde de Uruguay, a 
cuja sombra cresceu o império (1) » e nisto o coadjuvou Sayão 
Lobato, penitenciando-se do aforro com que outr*ora se ajustara 
áquelle velho apparelho de escravização civil ; sulcou a fundo a 
dictadura espiritual, que se esboçava, reprimindo severamente, 
até ao extremo da prisão os dois bispos de Olinda e Pará— e para 
a empreza perigosa que ia divorciar a causa monarchica da 
egreja, o partido republicano armou-o com o montante for- 
midável de cGanganelli» (Saldanha Marinho). 

Dissolveu em 1872 a Camará em que preponderava a massa 
emperrada de seu próprio partido, dirigida por Paulino do 
Souza Júnior, que seria ató ao fim do Império a sombra realci- 
trante de Itaborahy.— Neste acto parecia provocar um rompi- 
mento com aqaelle, ondes0bresahiam António Ferreira Vianna, 
Domingos de Andrade Figueira, Francisco Belisario, António 
Prado e Josó de Alencar. 

Mas não rompia ; avantajavanse. 

Era uma translado para o ÍUturo. 

Refundiu a instrucção publica, profissional e superior, orç- 
ando em algumas escolas ( a Polyteohnica e Militar, recem-for- 



(1) Consellioiro Nabuco do Araújo. 
4323 — 5 Tomo lxix p. u. 



66 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

madas pela divisão da aatiga Escola Ceatral) cadeiras espeoiaes, 
acompanhando o ascender continuo das sciencias, e fundou a de 
Minas. Iniciou a tarefa complexa do levantamento da nossa 
oartaitineraria e geológica, que seria abandonada pelos governos 
que lhe succ adoram. Realizou a primoira estatística geral do 
Brazil. Attendeu ás indicações de todos os competentes : 
André Rebouças demonstrar .i as vantagens da subvenção 
ou garantia de juros ás companhias de estradas de ferro, e a 
lei de 24 de setembro de 1873 organizou-se logo retravando-se 
á campanha contra um velho inimigo— o deserto. £ as linhas 
férreas que em 71 attingiam a 732 kilometros, subiram a 1500 
kilometros em trafego, em 75 ; alóm de 8180 em construção, 
ou estudos, e 1700 concedidos, recebendo todas um impulso que 
nunca mais parou. 

Vincularam-se as provindas pelo tolegrapho submarino cos- 
teiro, outro elo illudindo a vastidão do território; emquanto 
por outro lado se expandiram as linhas tclegraphicas terrestres 
(2081 kilms. em7U 9281 em 75). 

Laaçou-se o primeiro cabo transatlântico; e a 24 de junho 
de 1874 estávamos a alguns minutos da civilisação, receben- 
do-se o primeiro telegramma da Europa. 

Planeou-se garantir o Rio Qrande contra uma visinhança 
agitada, com as primeiras estradas do ferro estratégicas. 

Subiu a mediada immigração, quadruplicada, a 30.600 tra- 
balhadores por anno. 

Por âm, as curvas no diagramma do nosso commercio 
geral directo e de exportação, deprimidas ambas ha longo tempo 
aprumaram-se em 73 a um ponto a que só chegaram de novo 
em 79; acontecendo o mesmo com as rendas geraos. E o cambio 
que cahira em 68 a 14, e estacionara em 1870 em 23 Vi> elevon-se 
numa continuidade invariável, chegando ao parem 73 ;eem 
75 a altura que tiunca mais alcançaria, 28 %. 

Na politica exterior attenuaram-se as consequências preju- 
ciaes do Tratado de Alliança com o Uruguay o a Republica 
Aj^gontina ( 1» de maio de 1805 ), que dava a parte do leão á 
ultima, nos eHeitos da campanha do P<iraguay, — firmando-se 
a linha do Pilcomayo, que ao mesmo passo resguardava o 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 67 

território da nação vencida e resalvava os direitos da Bo- 
lívia. 

• • 

Dei>oi8 do ministério Rio- Branco, desonhou-se pela terceii*a 
vez no acenar io politico uma dessas «épocas sem physionomia», 
presagas de transformações profundas. Mas, evidentemente, 
estas se effectuariam fora do apparelho monarchioo. 

Dizia-o o curso impressionador da historia. 

As nossas phases sociaes tinham-se desdobrado com um 
rytlimo perfeito, onde a disperáão o convergência successivas 
dos acontecimentos denunciavam ao mais inexperto espirito o 
rigorismo inflexível da lei universal da vida. 

A principio o aggregado diíTuso, a nebulosa humana, des- 
prendida do colonato, sciudida de ideaes revolucionários em 
uma larga dissipação de movimento, reíleotindo, no periodo de 
IS0H-IS31, o proccsius geral de todas as existências orgânicas. 
Depois, do 1831 a 1837, a delimitação dos lutadores nos três par- 
tidos definidos da Regência, traduzindo-se a tendência para 
uma phase mais definida, a par de uma distribuição mais in- 
tegra e lieterogenea do prestigio governamental, até então 
enfeixado na autoridade de um príncipe. Subsecutivamente, 
com o crescer da reac^o monarchica, de 37, compensadas a 
simplicidade maior do governo e a complexidade maior da 
sociedade, evidenciouHie, inilludivel, a rellectir-se tangível* 
mente no binário conservador e liberal, a marcha gradual 
para o equilíbrio, dns duas forças co-existentes» democrática 
e reaccionária, que persistiam desde a Independência. Por 
fim, em 1848, e sobretudo com o marquoz do Paraná, na 
quadra que uma intuição de génio rezumiu na palavra Conci- 
liação^ a harmonia completa dos lutadores, ultimando-se intei- 
ramente a admirável evolução monarchioa. 

O império constitucional attiogira, de facto, o termo de 
suas transformações; e, de accordo com a própria lei evolutiva 
que o constituirá, iria desintegrar-se submettido por sua vez 
ao meio, que dominara, o aos excessos de movimentos que 
este adquirira. 

Ora, esta dissolução é tão demonstrável» que até teve, e era 



68 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

necessário que o tivesse, o seu primeiro symptoma no rotratar 
com a fidelidade de um decalque 03 estádios anteriores. Assim 
a liga de 1862, surgindo do excesso do movimento do meio, nas 
eleições de 1860 — e logo depois delia o schisma dos «progres- 
sistas» e «históricos», deante dos «conservadores» transformados, 
reproduziram successivamente os tumultos desordenados dos 
primeiros dias das lutas da liberdado e a triplice pbysionomia 
politica da Regência. . . 

Mas a nova concentração do forças já não se podoria fazer 
em torno do regimen imperial. Os seus mais eminentes susten- 
táculos, Juxtapor-se-iam, sem o pensarem o sem o quererem, á, 
nova directriz dos acontecimentos— d estacando-se, como expres- 
sivo exemplo, o próprio ministério Rio-Branco tão accentuada- 
mente demolidor e reconstructor, ao mesmo passo que com as 
suas medidas administrativas memoráveis derivara para o 
campo das agitações politicas as energias ronasoentcs da 
sociedade. 

Depois delle— a attitudo curiosíssima do partido liberal em 
todo o período que vae de 1878 a 1880 — de Cansanção de Si- 
nimbu ao ultimo ministério do conselheiro Saraiva—Já agi- 
tando esterilmente, como reforma unioa, a pseudo* reforma 
liberal da eleição directa e censitária. Já estonteando a opinião 
com os seus vários governos inco!ierentes sustentados de ordi- 
nário com o amparo do elemento conservador, e cahindo todos 
batidos por violentas moções de descontiança dos próprios 
liberaes— seria bastante incisiva no delatar o artificialismo de 
um regimen theorioamento extincto, e implicativo das novas 
aspirações sociaes. 

E\ porém, uma historia recente do mais. Acotovellam-se, 
vivos ainda, alguns no í^istigio da Republica, outros, na 
glorificação de um exílio virtual imposto pela inflexibilidade 
de suas convicções — os seus principaes actores. 

Como facto predominante dessa politica artificial, espe- 
lhada no invariável contraste entre os velhos principios que a 
alentavam e a situação verdadeira do paiz, o historia lor fu- 
turo coramentar.1, sorrindo, a abdicação graciosa e bellissima de 
13 de maio do 1888, em que o ministério conservador do con- 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 69 

solheiro João Alfredo cor toa as ultimas amarras do Império, 
abandoaando-o na caudal IrresMivel das idéas republicanas. . • 



Depois disto a Republica não podia ser uma surpreza, 
inexplicável estribilho dos que enfermam da nostalgia desse 
passado brilhante, que também yeneramos porque é toda a 
justificativa do nosso regimen actual. 

Vimos, nas varias phases, a traços largos esboçadas, o 
constante despontar, cahir o renascer de uma aspiração dis- 
persa em movimentos isolados; supplantada a principio pelo 
pensamento primordial da autonomia politica, depois pela 
preoccapação superior da unidade nacional. Impertinente em 
1822, inopportana em 1831, aborticia cm 1848, era-o a Republica, 
sobretudo porque se não podia inverter a série natural da evo- 
lução humana. 

Aspiração politica, requeria que lhe propiciasse o ad- 
vento o desenvolvimento social. 

A sociedade não a repellia ; prorogava-a. 

E a partir de 1875 começou a incorporal-a. 

Mudáramos muito. 

Deanto da grande « maioria indifTerente o amorpha que 
ainda existe — como um prolongamento da colónia — for- 
mando o caput moriuum do grande organismo deste paiz, só 
so alevantara até 1875, através de agitações exclusiva- 
mento politicas, o espirito critico da metapbysica revolu- 
cionaria de que ó impeccavel modelo o próprio manifesto re- 
publicano do 70. Mas este, que illusoriamente preside o ascender 
crescente do novo ideal politico até 15 do novembro de 89, res- 
valara a segundo plano. 

A propaganda republicana ( evitamos descrevel-a, inaptos 
para synthetizal-a, em meia dúzia de linhas, com o incon- 
vodiente de citar-lhe os protagonistas, na maioria ainda 
yivos) fazia-se por si mesma. 

Attribuir-lhe o sucoesso á palavra dos tribunos, ao Jor- 
nalismo doutrinário ou agitador, ao enthusiasmo de uma mo- 
cidade robusta, á indisciplina militar, e por fim ao levante 



70 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

de um exercito que, como o de 7 de abril, nada mais foi que 
a ordenança passiva da nação em marcha — equivale a attri- 
bair a maró montante ás vagas impetuosas que ella alteia. 

Porque, de facto, o que houve foi a transfiguração de 
uma sociedade em que penetrava pela prlmoira vez o im- 
pulso tonificador da philosophia contemporânea. E esta, 
oerto, não a vamos buscar nosso tão malsinado e incompre* 
hendido positivismo, que ahi está som a influencia que se 
lhe empresta, immovel, crystallizado na alina profundamente 
religiosa e incorruptível de Teixeira Mendes. 

As novas correntes, forças conjugadas de todos os principies 
o de todas as escolas — do comtismo orthodoxo ao positivismo 
desafogado de Littró, das conclusões restrictas de Darwin ás 
generalizações ousadas de Spencer — o que nos trouxeram, de 
facto, não foram os seus principies abstractos, ou leis incompre- 
hensiveis á grande maioria, mas as grandes conquistas libe- 
raes do nosso século ; o estas compondo-se com uma aspiração 
antiga e não encontrando entre nós arraigadas tradições monar- 
ohicas, removeram, naturalmente,scm ruido^no espaço de uma 
manhã — um throno que encontraram. 

Este abalara-se de ha muito. O nobre espirito do homem 
que o occupava com a sua preoccupaçSo* absorvente de perquirir 
anciosamente as coisas da sclencia, com o seu anhelar o 
titulo de phllosopho, com o anceiar pela camaradagem nobili- 
tados dos pensadores do seu tempo, com a sua indifferenca 
superior pela força organizada, que lhe escorava o império, com 
o estimular os decretos libertadores, que lhe destruíram o apoio 
da propriedade territorial — tornou-se no termo da vida o 
exemplo vivo da transmutação de seu próprio paiz. 

E* natural que fosse o seu ultimo ministério conservador 
que realizasse a 13 de maio de 1^88 a mais alta das reformas 
IJberaes. 

Não tinham mais significação os nomes dos partidos. 
Existiam pela forçi cia inorcia. Tond>se pr.'ndido ao curso ir- 
reprimível da propv-iganda abolicionista, iniciada activamente 
om 1884, a monarchia obtivera uma estabilidade momentânea, 
derivando ao som da c )rrenleza democrática. 



DA INDEPENDÊNCIA A REPUBLICA 71 

De sorte qao, em 1889, qu ando o seu ultimo ministério li- 
beral tentou a ultima reacção conservadora, cahiu—porquo não 
podia mais parar. 

O 3** reinado osteiado na esplendida envergadura do 
visconde de Ouro Preto seria uma represa na torrente. 

Foi o que se viu a 15 de novembro do 1889: uma parada 
repentina e uma sublevação ; um movimento refreado de 
golpe o transformando-se, por um principio universal, em força; 
e o desfecho feliz do uma revolta. 

Porque a revolução já estava feita» 



O nosso século XIX acaba naquella data. 

NSo devemos constringil-o no inexpressivo de uma ezacçSo 
numérica. 

Teve ura remate bastante incisivo para caracterizar 
uma época, porque a Republica, de facto, desvenda uma outra 
éra. Recente ainda, nâo ha lobrigar-se-lhe o determinismo 
próprio. 

Todos 08 successos da sua brevíssima vida de dez annoi não 
resaltam ainda na escala superior da historia. 

Cerremos esta pagina. 



o DUQUE DE CAXIAS 



J. CAPISTRANO DE ABREU 

Sócio níTectivo ilo Institnto Histórico e Ocograpliico 
Hraziloiro 



o presente artigo, di> nosso illusirado consócio, Sr. J. Ca- 
pistrano do Abreu, foi publicado na Gazeta de Xoticias, sein nome 
do auctor, de i de agosto de i903, de onde o extrabimos. 

(Xota da Comtnissão de Redacqão.) 



o DUQUE DE CAXIAS 



Ha nm século, em Magé, na baixada do Rio do Janeiro, 
naiicea Luiz Alves de Lima, a 25 de agosto, dia de S. Luit, rei 
de França, de quem tomou o nome. Descendia de notável família 
em que cruzavam o elemento francez, o elemento portuguez e 
o elemento nacional; pelo lado paterno como pelo lado materno 
dclla sahiram onze generaes, no decurso de três gerações. 

A 22 de novembro de 1808 sentou praça de cadete no regi- 
mento de seu avô José Joaquim de Lima e Silva ; aos quinze 
annos foi promovido a alferes; terminados vantajosamente os 
estudos na Real Academia Militar, passou a tenente, ainda cm 
tempo de D. João VI. 

A retirada do velho rei para a Europa foi o despertar de 
um sonho agradável que durara treze annos. Metrópole e reino, 
o Brazil voltava a colónia. E as cortes portuguesas, com uma 
coherenoia democrática, honrada mas imprudente, começaram 
a obra de regeneração pelo throno e pelas camiadas. No Bratll 
fbram logo feridos em seus interesses os altos dignitários que 
circumdavam o joven príncipe regente, e em contacto continuo 
com este podiam incitar e incitaram sen temperamento impe- 
tuoso e impulsivo. Após breve hesitado, o representante de 
el-rei trabalhou contra o próprio pai; quem devia garantir obe- 
diência e fidelidade á metrópole, encabeçou o levante contra 
cila; a autoridade foi derrocada pelos órgãos da autoridade. 
Não seria a ultima vez na historia da dynastia. 

Desde quo tinha a diri^nl-a o príncipe regente, aftuitados os 
elementos que podiam alTrontal-a, a idéa de independência 
lavrou subitanea no Brazil inteiro. Na Bahia, as tropas da nie 
tropole resiâtiram com vantagem por algum tempo aos filhos da 



76 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

terra, redozidas a S6U8 únicos recursos. Soccorros mandados do 
Rio realentaram os espíritos dos patriotas; a esquadra começou 
o bloquoio do porto da capital; a 2 do julho de 23, desanimados 
e derrotados, partiram para além-mar os últimos defensores do 
poderio lusitano. A resistoncia na Bahia teve ainda o resultado 
do benefício de levar a esquadra 4s alongadas regiões do NE, evi- 
tando assim que, em nossa historia, houvesse separação, como 
succedeu geralmente na America hespanhola, ou que ficasse 
ainda na grande colónia livre alguma pequena dependência da 
metrópole, como succedeu á solitária Cuba até nossos dias. 

Na Bahia, Luiz Alves avistou-se com guerra pela primeira 
voz. Seus assentamentos mencionaram feitos de 28 de março, 
3 de maio e 3 de junho do 23. AUi conquistou um dos titules 
que mais prezava, o do veterano da independência. A 22 de ja- 
neiro do anno seguinte teve a patente de capitão. 

Ao movimento de independência contra Portugal adheriram 
também as terras da banda oriental do Prata, incorporada ao 
Brazil pela força das armas, polo cansaço dos motins e guer- 
rilhas, pelas combinações diplomáticas e pelas afflnidades geo- 
graphicas. Em comoço de 25 parecia resolvido de vez o litigio 
secular, levantado pela fundação da colónia do Sacramento, e 
sempre pendente e irritante, apezfir de tantas campanhas e 
tantos tratados ; quem sô attendesso ás manifestações offlcíaes 
juraria a indissolubilidade da união entre brazileiros e orientaes. 

Como illudiam taes apparoncias vorlflcou-se desde abril do 
mesmo anno. Trinta e três patriotas, entre estes João António 
de LAvalleja, desembarcaram no porto das Yaccas, junto á Co- 
lónia, internaram-se, angariaram adeptos, o já em setembro 
e outubro ganhavam as batalhas do Rincon de las Oallinas o 
Sarandy sobre as tropas imperiaes. Ao apoio quasi unanimo da 
população aggregaram-so auxilies e soccorros vindos do outro 
lado do rio, primeiro claniestlna, mais tarde publicamente, 
depois do imperid declarar guerra &s províncias platinas. O 
bloqueio de Buenos Aires, fructo desta declaração, teve em re- 
sposta a oreação de luna esquadra de pequenos vasos que zombou 
da nossa alterosa Armada, e dezenas de corsários que feriam a 
golpes redobrados e terríveis nosso commercio marítimo, des- 
respeitando nossos mares. 



o DUQUE DE CAXIAS 77 

O theatpo da guerra passou do Uruguay para o Rio Grande 
do Sul, e as operações bollicas poderiam protrahir-se iadofinida- 
menie, se a iatervenção ingloza, om 1828, não trouxesse coin a 
paz a creação da Repablica Oriental^ iadependoiite ao mesmo 
tempo do BrazlL e da Confederação Argentina. 

Luiz Alves tomou parte nesta campanha do sul, ao qual de- 
via depois tornar mais de uma vez, sempro com mais glorioso 
renome o p/estando novos serviços à pátria. De lá voltou m ijor. 

Como major, chegado a esta capital, commandou-o batalhão 
do imperador, e assistiu bem de pert j aos successos da abdi- 
cação de D. Peiro I. Embora seu pae fosse um dos chefes mas 
infensos ao fundador do império, ollo conservou-se ao lado do 
soberano até o ultimo momento. Compre hendeu quanto havia 
do artidcial na aceitação, e suggeriu meios de jugulal-a ; mais 
D. Pedro sentia-so contrafeito entre seus súbditos, quo lhe não 
perdoavam o peccado original de estrangeiro, nem acreditavam 
mais na sinceridade do seu constitucionalismo; via-se alheio, se- 
gregado do povo, tão outro das multidões enthusiasticas do 22. 
Ao mesmo tempo occorriam em Europa successos que lho pro- 
mettiam nova e mais brilhante carreira no velho mundo. Pre- 
feriu partir quando lhe seria facil ficar, e talvez fosse melhor, 
tanto para elle como para o paiz. 

Com a partida de D. Pedro, desencadearam-se as forças re- 
volucionarias desde o Amazonas ao Prata. Um dos logares mais 
ílagellados,. si não pela amplitude, certamente pela frequência 
das convulsões, foi essa multo heróica e leal cidade. E ninguém 
mais fez para arrancal-a ao cahos elementar do que Luiz Alves 
de Lima, commandante da policia militar durante longos 
annos. 

Esta commissão espinhosa, desempenhada brilhintomente, 
deixou vestígios bem profundos em seu espirito. Ahi aprendeu 
como ódiíHcil governar, como qualquer pronunciamento, que se 
parece resolver uma rliíflculdade momentinoa, na realidade ac- 
cresccnta aos antij^os novos problemas mais árduos. Sobretudo 
aprendeu a iientificar-se com seus subordinados, a não querer 
para si glorias o triumphos de que a parte maior não lhes cou- 
be^ise. 

Teve de abondonar algum tenrpo este posto para, já tenente- 



78 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

coronel, acompanhar om 39 o ministro da gaerra ao Rio Grande 
do Sul. 

Reben.tara um movimento revolucionário em Porto Alegre 
a 20 de setembro de 35. O presidanto, homem de incontestável 
coragem, não achou quem o ajudasse a resistir nem allí, nem 
na cidade do Rio Grande, ond s reconhecendo isto, embarcou 
sem demora para a corto. 

Os revoltosos tomaram conta da capital ; a força publioa 
passou para sen lado ; oi recursos do Governo cahiram om suas 
mãos ; a maior parte da província tacita oa explicitamente ad- 
heriu. Um novo presidente, mandado logo, chamou a ai parte 
dos levantados, reoccupou a cidade de Porto Alegre que nunca 
mais sahiu da legalidade, e o combate de Fanfa (4 de outubro 
de 36) pareceu terminar a revolta, pois nelle foram vencidos e 
presos alguns dos cabecilhas mais influentes. 

Desde o principio os legalistas da província disseram que os 
sediciosos tinham om vista separar-se da commuuhão brazileirae 
proclamara republica. Negou- o Bento Gonçalves uma e muitas 
vezes por documentos solemnes em que acclamou a constituição 
e o joven imperador. E parece que era realmente sincero, pois 
s6 depois delle preso em Fanfa, seus amigos e companheiros pro- 
clamaram a republica em Paratini a 6 de novembro. 

E* duvidoso se isto lhes deu novos olemontos de vitalidade e 
resistência. Mas Bento Manoel, o vencedor d) Fanftt, não 
achando asou gosto o novo presidente mandado para substituir 
seu parente José de Araújo Ribeiro, mais tarde visconde do Rio 
Grande« prendeu oprosidento; Ciçapava, evacuada pelas forças 
legaes, foi tomada com os abundantes matérias bellicos que 
possuía, cahin em poder da Republica a cidade do Rio Pardo, 
chave da campanha, e a nova forma de governo, ou governizo, 
como então se dizia, consolidou-se por muito tempo. 

Bento Gonçalves, na ausência eleito presidente da republica^ 
ÍUgiu das prisões da Bahia e novamente poz-se ú, frente de seus 
partidários. Em manifesto de 2ò de sdtembro de 35 declarara por 
único objecto « sustentar o throno do joven monarcha o a inte- 
gridade do iraperiu >. Agora, a 29 de agosto de 3S, exprimia-se 
de outro modo : «Desligado o povo rio-grandense da communhão 
brazileira, reassume todos os direitos de primitiva liberdade, usa 



o DUQUB DE CAXIAS T9 

desses direitos imprescindíveis, constitaindo-fle republica inde- 
pendente, toma na extensa escala dos Estados soberanos o 
logar que lhe compete pela safflcienoia de seus recursos, ciyiU- 
saçao e naturaes riquezas, que lhe asseguram o exeroicio pleno e 
inteiro de sua independência, eminente soberania e dominio« 
sem si:^jeiQão ou saoriâcio da mais pequena parte dessa mesma 
independência ou soberania a outra nação, governo, ou potencia 
estranha qualquer. Igual aos Estados soberanos seus irmãos, o 
povo rio-grandense não reconhece outro juiz sobre a terra, além 
do auctor da natureza, nom outras leis, alóm daquellas que 
constituem o código das nações.» 

O ministro da guerra, a quem Luiz Alvos acompanhoui pa- 
rece não ter achado particularmente grave a situação, pois, che- 
gando na província em fins de março, já em fins de maio se re- 
tirava para esta capital. E* de suppor que esta visão rápida não 
fosse perdida para o joven sisudo tenente*coronel e desde Já 
pensasse nos meios de desatar ou cortar o nó, se algum dia lhe 
coubesse tal iocumbencia. Hypothese aUás pouoo provável 
então, pois ningem pensava que o governioho durasse ainda 
muito tempo. 

Neste mesmo anno elevado a coronel, Luiz Alves foi enr 
carregado de pacificar a provinda do Maranhão, no caracter do 
presidente e commandante das armas. 

A 13 de dezembro de 38,na villa da Manga de Igara, o va- 
queiro Ray mundo Qomes, vulgo Cara preta^ € figura insignifi- 
cante, quasi negro, a que chamamos fula, baixoi grosso, pernas 
arqueadas, tosta larga e achatada, olhar timido, humilde », que 
tinha a habilidade de fazer pólvora, arrombou a cadeia da villa 
e soltou os presos. A 2 de janeiro de 39, no Breôo, Manoel Frao- 
cisco dos Anjos B'erreira, vulgo Balaio^ eoliocansa á. frente de re- 
bellados e começa a semear destruições e mortes. Um preto 
Cosme, que se assigna <D. Cosme, tutor e imperador das liber- 
dades bemtevis », chega a alliciar três mil escravos. Taes as 
cabeças mais salientes desta conclusão conhecida por Baiaia<ki, 
de nome de um dos seus chefes. 

D. Cosme, intitulando-se « tutor e imperador das liberdades 
bemtevis », como negro pernóstico fugfdo das cadeias da capital, 
insinuava-se representante do partido que tinha por orgam na 



80 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

impransa o periódico Bemievi. Mas a desordem só teve alguma 
cousa de politica no Piauhy, onde encarnou sérios esforços para 
sacudir o jugo de ferro do barão da Parnabyba. No Maranhão 
foi obra social ou, se a palavra parecer muita ambiciosa, eth- 
nographica. Bra um protesto contra o recrutamento bárbaro, 
começado desde a guerra da Gisplatina em ^5, contra as prisões 
arbitrarias, contra os ricos prepotentes, contra todas as vio- 
lências que cabiam, sobre os pobres desamparados negros, indios, 
brancos miseráveis. Duas ftlhas de Balaio tinham sido defloradas 
por um official da força publica, e dahi sua avidez de vingança, 
a sanha de desaggravo. O Cara preta levantou-se para libertar 
am irmão preso 

Gente desta não se inspira em politica, porque sua acção ó 
contra a politica. Podem os Balaios pedir que se aeabe com as 
prefeituras, qne se respeite a Constituição, quo se expulsem 
portuguezes, tudo isto não passa de oitivas mal decoradas. 
Sua verdadeira inspiração é matar, destruir, queimar e dei- 
xar-se matar como tinha sido na Gabanagem do Pará o entre os 
Cabanos de Pernambuco, como ia succedendo com os Quebra- 
kilos da Paraliyba e ainda não ha muito veriflcou-se nos santos 
de Canudos. 

Entretanto, essa massa cahotica por duas vezes tomou 
Caxias, cidade opulenta e populosa situada a meio caminho dos 
que viajam do Maranhão a Bahia, e eram muitos ntquella ópoca, 
pios a navegação a vela não offereoia segurança na costa de N. 
E., graças ao regimen dominante de ventos; esta massa caho- 
tica invadiu duas provindas, intimidou a tal ponto a cidade de 
S. Luiz que o presidente mandou encravaras peças de arti- 
lharia para não cahirem em seu poder. 

« Meu il lastre antecessor, escreveu mais tarde Luiz Alves 
de Lima, entregando-me a presidência desta provinda, asse- 
gurou-me que seis rebeldes naquella época a devastavam, nu- 
mero sempre crescente, e nunca maior antes daquella data, por 
que se alguns se entregavam ou eram capturados, outros em 
maior copia se levantavam e os substituíam; e isto mesmo se 
deduz de sua correspodencia official, qúe na secretaria deste go- 
verno se acha. Mostrou-me depois a minha própria experiência 
que bem longe estava de ver exaggerado este computo, como a 



í 

i 



o DUQUE DB CAXIAS 81 

'|>rincipio jalgnei, a poDto de acreditar que só ozisUam três a 
qaatro mil. Se calcalarmos em mil os seus mortos pela guerra, 
fome e peste, sendo o Dumero dos capturados e aprisionados, 
durtfite o meu governo, passante de quatro mil e para mais da 
três mil os que reduzidos i. tome e cercados foram obrigados a 
:depor as armas dep}is da publicação do decraio de amnistia, 
'temos pelo menos oito mil rebeldes; se atestes addicionarmos três 
mil negros aquilombados sob a direcção do infame Cosme, os 
quaes só de rapina viciam, assolando e despovoando as fozendas, 
temos onze mil bandidos, que com as nossas tropas' lactaram 
fidos quaes houvemos completa victoria. Eite oalculo ô pára 
-menos e não para mais: toda esta provinda o sabe.» 

Partindo do Rio a S2 de dezembro de 39, só a 5 de fevereiro 
4o anno seguinte poude Luiz Alves cbegar a sôu destino, por 
causa do contratempos do diversa ordem que o detlTeram. A 7 
tomou posse e começou logo a reparar os numerosos abusos que 
encontrou, dispoz as forças em trás columnas priocipaes, de que 
deviam separar-se columnsus volantes para atacar os diverâòB 
pontos onde os Balaios apparecessem. A 7 de março sahiu pela 
primeira voz da capital, indo por Icatú até Vargem Grande. 
Mais outras viagons fez sempre que lhe pareceu necessario« 
ora a um, ora a outro ponto, como em Itapicurúmirim onde 
reprimia, severamente* parte da força publica levantada, por 
atrazo em pagamento de soldados* 

A mais longa de suas excursões foi a Caxias, a antiga prin» 
oeza de Itapicurú, duas vezes violada, que o recebeu como um 
salvador. 

Graças á mobilidade das forças avulsas, ã habilidade com 
que harmonisou seus movimentos, ã providencia com que im'« 
pediu a paisagem dos Balaios porá o Para e Goyaz, foi por toda 
a parte victorioso e em pouco tempo foram apparecendo os li** 
neamentos da nova ordem. A deserção, o desanimo se estabe*- 
leceu entre 00 combatentes do desespero ; a amnistia facilitoúD 
desfecho. A 29 de janeiro de 41, Luiz Alves proclamou a pro- 
víncia pacificada. 

No meio destas labutações não se esqueceu que além de 
chefe militar era também chefe civil. Reuniu a Assembléa e 
com ella coUaborou, começou edificios, mandou explorar rios. 
4323 — 6 Tomo lxix. p. ii. 



82 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

A 13 de maio entregou o poder ao sea succes^or, oom um: 
relatório em que so lô: 

« Posto seja a guerra uma calamidade publica, e ainda mais 
a; guerra civil, também é âs vezes um meio de civilisac&o para 
o ftituro, e a par de seus males preisentes alguns germens de 
beneficio deixa. Pela rapidez dos movimentos e continuas 
marchas communicam-se os homens, eslreitam-se as relações e 
08 animes inertes se vigoram. Algumas pontes se levantaram 
no theatro das operações militares ; citarei por exemplo a de 
Paulica, de mais de cem pés de comprimento, feita toda pelos 
soldados da 2^ columna, sem nada despender a fazenda publica* 
As villas se entrincheiraram e a faxina limpou as mattas de ve- 
getação ociosa que as invadia e sobre ella accumulava os va- 
pores contrários á saúde; activaram-se os correios, augmentou- 
se a necessidade de correspondência, e esta repartição rende 
hoje mais que em outros tempos.» 

Diz ainda melancolicamente: c Não me ufano de haver mu- 
dado os corações e sufEòcado antigos ódios de partido, ou antes 
de famílias, que por algum tempo so acalmam e como a peste 
se desenvolvem por motivos que não prevemos ou que não 
nos 6 dado dissipar.» 

Entretanto, occorreu nesta capital um sucoesso das mais 
graves consequências. O rdgento, eleito por um quatriennio, 
devia governar até 42 ; o herdeiro da corda, pela Gonstitui^o, 
3ó podia subir ao throno aos dezoito annos, Isto é, em 43. Isto 
pareceu muito tempo ao partido inimigo do regente e come- 
çou a agitar a idéa de reconhecer-se a maioridade do imperador 
antes do prazo legal. Neste sentido foi apresentado um projecto 
ao parlamento, que o rejeitou ; mas os maioristas souberam 
captar o assentimento do joven monarcha, e adiadas as Cama- 
rás, quando o lanoe parecia irremediavelmente perdido, decho- 
flre, como por magica, tudo sahiu á medida dos desejos dos con- 
spiradores. A 23 de julho de 40, D. Pedro II começou areinar, 

O ministério organizado, como é natural, de maioristas, entre 
os quaes avultavam os dous irmãos Aniradas, figuras lendárias 
da independência e do primeiro império, tinha a esperança e 
julgava-se capaz de serenar os animes, sempre agitados no Rio 
Grande do Sul. 



o DUQUE DE CAXIAS 83 

Enganara-se o ministro da guerra em 39, S3 pensou com 
sua apparição fugaz tor modificado vantajosamente a situa- 
ção. 

Km julho, oom a tomada de Laguna, a republica rio-gran- 
dense conquistava afinal um porto de mar, que ató então não 
conseguira, graças á esquadra legal; proclamada a republica ca- 
tharinense, encontrava outro sócio de aventuras ; uma marinha 
apparelhada ás pressas por José Garibaldi, desfraldou seu pavi- 
lhão no oceano. No interior, Porto Alegre continuava cercada. 
Em diversos recontros, como em Forquilha e Taquary, os 
legalistas levaram a melhor ; nem por isso a posição do gover- 
nixo se tornara precária, o o facto de tanto tempo haver resiS' 
tido ao império, dava-lhe força, e uma confiança extraordinária 
no futuro. Só em Santa Catharina a legalidade restabeleceu- sq 
facilmente de uma só vez, a republica extinguiu-ae mais de- 
pressa ainda do que nascera. 

O ministério maiorista mandou ao Rio Grande do Sul um 
emissário, o benemérito paulista Francisco Alvares Machado, 
incumbido de encarecer a maioridade, os novos homens que se 
achavam á frente da governança e pregara boa nova da con- 
ciliação e da paz. Pondo-se em correspondência e depois em 
contacto directo com os inimigos do império, Alvares Machado 
convenoeu-se de qne passara a óra da intransigência, e voltou 
com um ramo de oliveira. Para levar a termo sua missão pa- 
cificadora, foi nomeado presidente da província, ao mesmo 
tempo que o general João Paulo dos Santos Barreto seguia para 
commandar em chefe o exercito logal. 

Tomaram ambos posse em novembro de 40. Logo as felici- 
dades começaram a sumir-se, os equivocas se desfizeram, as 
promessas ficaram burladas. 

Bento Gonçalves desejou sinceramente voltar & communhão, 
mas, como tantas vezes so observa, o chefe só era obede- 
cido porque obedecia &s vontades dos que se diziam seus sub- 
ordinados. Por detrás do velho militar agitava-se um ele- 
mento novo e insoffddo, que queria a republica ainda antes 
de Fanfa, e este elemonto triumphou. Já a 7 de dezembro 
Alvai*es Machado declarava rotas as negociações e prepara va-se 
para luctar. João Paulo pisou o território occupado pelos re* 



84 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

baldes, mostrando quo podia fazel-o sem ser anniquilado im- 
mediatamente como òUos blasonavam. 

A esta primeira decepção do ministério maiorista, jan- 
tou-se logo outra ainda mais mortificante, a de ser desp3- 
dido depois de apenas oito mez js do exercido o ver chamado 
ao poder o partido contra o qiial montara o golpe de Es- 
tado. Foi este o verdadeiro motivo das sedições quenoanno 
seguinte rébentiram em S. Paulo e Minas Oeraes e foram 
encommendadas para Pernambuco e Ceará. 

De esmàgal-a €m S. Paulo foi imcumbido o barSo de 
Caxias que, desembarcando em Santas, transpoz a serra de 
Onbat&o, dirigiu-se a Sorocaba e alii de um só golpe re- 
stabeleceu a ordem. Mais devagar andou em Minas Oeraes, 
onde o incêndio tivera tempo para se propagar ; mas ahi 
a batalha de Santa Luzia mostrou breve que passara o tempo 
das revoluções fáceis o quo, se a regência fora a tempes- 
tade, o império podia e queria sor a bonança. 

Estas duas campanhas tão rapidamonte ganhas legiti- 
maram a promoção do barão do Caxias a marechal de campo, 
e indicaram seu nomo como o do homem capaz de chamar 
novamente os rio-grandonscs ao seio da pátria grando pela 
qual tantas vezes derramaram seu sangue desde a ópoca co- 
lonial. 

A situação era em summa a mesma que deixara Alvares 
Machado. As tropas mandadas pelo interior sob o commando 
do eneaiporado Labatut, general de Napoleão, não deram o 
quo se esperava. Os combatos tanto tinham do numerosos 
como de pouco decisivos. S3 a gente da legalidade não des- 
animava, 06 defensores do governicho não so sentiam exhaustos ; 
aquelles não podiam ser desapossados do litoral, estes conti- 
nuavam a dominar na campanha. 

Caxias tomou posse da presidência e do commando do exer- 
cito a 9 de novembro do 42. A 11 do janeiro do anno se- 
guinto, atravessa o rio S. Gonçalo sob os olhos de Netto, que 
não o poude impedir. Bonto Manoel, o vencedor de Fanfa, 
volta ao serviço e em Ponche Verde mostra que a victoria 
continuava £(Ua fiel companheira. A discórdia se introduz entre 
ot fundadores da republica. A fh>nteira occupada tira ao 



o DUQUE DE CAXIAS 85 

ioimigo os recuraos dequo so alimentava; encerrado dentro, 
do próprio território é por ílm obrigado a bator-so. O com« 
bate de Porongo, em novembro de 44, produz o desejado 
effeito sedativo. Começam a sorio as negociações. Al de março 
de 45, Caxias proclamava pacidcada a província do Rio Orande 
do Sul. 

Abrindo a assembléa provincial, assim apreciava o que 
tinha feito: 

4 Em 9 de novembro de 1842 tomei posse da presidência 
desta provinda e do commando em chefe do exercito eqd oi>e- 
rações, para que tinha sido nomeado por carta imperial de 
28 de setembro daquelie anuo. A revolução que nesta pro- 
víncia fizera sua explosão em SO de setembro de 1825, por 
motivos que a historia um dia relatará, adquirira na suajá 
t&o longa duração novos incrementos, redobrava suas espe- 
otativas e refazia suas forças, sem que nada annanciasse o fim 
de sua torrente, apezar do muito que para isso se fazia. 

«Assim achei a província como bem o sabeis. 

«No campo era o pleito, e o exercito imperial me cba* 
mava á sua frente para abrirmos a campanha. 

« Depois de dar todas as providencias para que minha au- 
sência da capital da provincía não transtornasse a marcha 
dos públicos negócios, sahi no dia 25 de janeiro de 1843 para 
o exercito, e de^e logo encetei as operações, não como o 
único meio de chamar os dissidentes ã ordem, mas como um 
meio auxiliar da politica de conciliação que empregava e 
que sempre empreguei em iguaes casos para poupar sangue 
de irmãos; porquanto repetidos exemplos nos têm mostrado 
que nascendo a divergência e a desordem das idéas e das 
padxões do tempo, o tempo as gasta, e a palavra e a per- 
suasão que as propagam também por sua vez as destroem, 
e por fim reunem-se os homens em uma mesma crença, ab- 
jurando sons passados preconceitos, filhos do tompo e da íklta 
de experiência, e muito mais ainda quando os ligam os santos 
laços da con fraternidade. 

«Com este pensamento fiz a guerra, que durou ainda dous 
annos da minha presidência ; o com este pensamento desen* 
volvido e posto em acção sem jamais ser desmentido, está 



86 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

em paz esta parte do império ; e em tão boa e conaolidada 
paz, qae após nove aimos e meio de uma gaerra qae apenas 
terminou em 28 da fevereiro de 1845, francamente se pôde 
atravessar toda esta vasta campanha, sem se encontrar um 
só homem armado que ainda dispute sobro exaggeradas idéas, 
que já o tempo consumiu. 

€ Todas as autoridades civis estão restabelecidas no exer- 
cício de suas fancçdos constitucionaes ; a paz reanima todos 
os ramos da publica felicidade ; e o espirito novo, nascido 
do seio da desordem, enriquecido oom a dolorosa experiência 
do passado, apregoa as vantagens da monarchia constitu- 
cional representativa. 

«Esta tão extraordinária metamorphose é devida cm 
parte ao caracter fhinco e leal da maioria do povo rio-gran- 
dense, caracter qno sampre conservaram os legalistas e os dis- 
sidentes. No campo os conheci ; gente brava, digna de íàzer 
parte da união brasileira ! Alóm de que são todos os bra- 
sileiros humanos, sinceros, enthusiastas e aferrados ao seu paiz, 
ílBbods em perdoar, em esquecer e em conformar-se com as 
occurrencias do tempo.» 

Os serviços íbitos na pacificação do Rio Grande tiveram 
como galardão ser elevado a conde de Caxias o promovido a 
marechal de campo effectivo. A província elegeu-o na lista 
tríplice para senador, e desde 46 ató a morte representon-a 
no Senado. 



Em junho de 51 o conde de Caxias foi nomeado novamente 
presidente e commandante do exercito do Rio Grande do Sol. 
Não se tratava agora de lucta civil, mas de garantir a indepen- 
dência do Urngaay, ameaçada por Manoel Oribe, instrumento 
de Rosas, o dictador e tyranno argentino. Tomando posse de 
seus cargos em Porto Alegre a 30 do mesmo mez, começou os 
preparativos pnra invadir a fh)ntoira« Ponde transpol-a a 4 
de setembro. No quartel general de Gunbapem assim deAniu a 
seus soldados a missão que iam cumprir : 

« Não tendes no Estado Oriental outros inimigos senão os 
soldados do general D. Manoel Oribe, e esses mesmos em* 
quanto illudidos empunharem armas contra os interesses de 



o DUQUE DB CAXIAS 87 

É aaa pátria ; desarmados ou yencido6, sao americaaos» são 

■ nossos irmãos e como taes os deveis tratar. A verdadeira bra- 

Iji Yura do soldado é nobre, generosa e respeitadora dos principies 

B de liumanidade. A propriedade de quem quer que soja; na- 

^ cíonal, estrangeiro, amigo ou inimigo, ó Inviolável o sagrada; 

e devo ser tao religiosamente respeitada pelo soldado do ezer- 
iu cito imperial como a sua própria honra. O que por desgraça 

li a violar, será considerado indigno de pertencer ás Aleiras do 

^ exercito, assassino da honra e reputarão nacional e como tal se- 

^ vera e inexoravelmente punido. > 

Continuou a marcha para Montevideo; lâuo foi, porém, pre- 
ciso que entrasse em acção, porque as forças de Oribe foram se 
rendendo a Justo Urqniza, governador de Entre Rios, creatura 
do Rosas, agora revoltada contra o creador. 

A esta rápida companha na banda oriental do Prata, se- 
guiu-so a guerra contra Rosas, que, desde anno? , cobria de 
sangue e ruinas as terras argentinas, de que se constituirá 
tyranno, defendendo-as contra os cimmundos e asquerosos 
unitários». Justo Urquiza, declarado douco, traidor o selvagrai 
unitário >, em lei promulgada pela cHonrada Sala de Represen- 
tantes », conhecia bem a fragilidade do colosso, nas apparencias 
inabalável, e mais prestigioso e íorte ainda depois de ter bar* 
lado a intervenção armada de França e de Inglaterra. 

Baiston a passagem de Toneleros, realisada por nossa, es- 
quadra, e a batalha de Monte-Caseros (3de fevereiro de 52), 
onde combateu uma divisão brasileira mandada por Marques de 
Souza, íhturo conde de Porto Alegre, para apeal-o. Rosas fugiu 
para bordo do vapor inglez Centaur, acolheu-se ã hospitaleira 
loglaterra e ahi, annos mais tarde, terminou plaoidamente sua 
negregada existência. Hoje procuram rehabilital-o. 

Tão rápidas andaram as duas campanhas libertadoras que 
já a 4 de junho de 52 o conde de Caxias entregava em Jaguarão 
o commando interino do exercito ao barão de Porto Alegre. 
Neste mesmo anno foi elevado a marquez de Caxias e a tenente 
general. 

A nova situação resultante da derrota de Oribe e Rosas 
liquidou-se sem difficuldades particulares na Confederação Ar- 
gentina ; o mesmo se não deu no Uruguay, terreno apropriado & 



88 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

caudilhagom e guerrilhas' por sua situação entre dous paize^, 
donde lha Têm incitamentos incessantes para^ novas perturba^ 
(0OS. para onde se recolhem os guerrilheiros quando se vêm 
mal amparados em sua desditosa pátria. 

O oombate de Quinteros (28 de jan^ro de 58) assegurou por 
algum tempo o predomínio dos Blanoos, pois todos os chefeà 
colorados feitos prisioneiros foram summariameote degollados ; 
mas o general Flores, que emigrara para a Argentina e lá 
parecia esquecido de suas antigas ambiç5es, renovou a façanha 
dos Trinta e três, desembarcando com poucos paittldarios no 
Rincon de Ics Galllnas a 14 de abril 4e d3« 

A- revolu^o rebentou violenta. OLgoverno oriental denan- 
oiou.ao.do Brasil a parte ostensiva tomada por brasileiros na 
empreza do Flores. Novas queixas, recriminações de parte a 
parte^ o avivamento de antigias íbridas levaram a umasituaçSo 
tensa que terminou pelo ulHmatum Saraiva, a alliança do 
Brazil com Piores, o bombardeamento de Paysandú, a queima 
acintosa em Montevidóo de todos os tratados o convenções assi* 
gnados entre o Brazil e a Banda Oriental, a victoria de Flores 
e a entrega de Montevideo. 

Foi o prolo;>o. do drama sanguinolento que. ia começar; 
Francisco Solano Lopez, dictador do Paraguay, interveiu.a 
favor da Republica Orienti^U e vendo desprosada sua interveun 
ção, apossou-se do vapor Marquex de Olinda que ia para Guyabá., 
invadiu o sul de Matto Grosso, penetrou pelo território ar^ 
gontino de Entre Rios e Corrientes e atravessando o Uruguay 
apossou-se da parte do Rio Qrande do SuL 

Foi declarada a guerra, em que o Brazil, a Argentiúa o o 
Uruguay . entraram alliados. A batalha naval do Riachuelo, o 
combate de Yatahy e a tomada do Uruguayana prenunciaram 
campanha rápida, cheia do encontros decisivos. Puro engano: 
o tratado da tríplice alliança ó de 1 de maio de 65, a morte 
de Lopez o o ftm da guerra só occorreram em março de 70* 

Desde o começo foi lembrado o nome do marquez de Caxias 
para o commaado em chefe das forças braziieiras. Gonside^* 
rações politicas da parte d<)s governantes, melindres pessoaes 
da parte do velho general arredaram esta solução. Foi preci- 
so o desastre de Curupaity para impol-a. 



o DUQUE DE CAXIAS 89 

O marquez se apresentou em Tuyuti em novembro de 1866, 
e desde lo^o foi fazendo o que lhe permitiiam sua situação de 
subordinado ao commaodo em chefe do general Mitre (fruoto 
do tratado da tríplice alliança), o cholera que devastara o exer- 
cito, a natureza traiçoeira do terreno inhospito, o mais flel e 
seguro alliado do dictador sanhudo. Quando o general Mitre 
chamado à pátria pela morte do vice-presidente, deixou^o 
commandante geral do exercito alliado, poude cootinuar a obra 
com maior vigor. De sju commando doa Permanentes na mo«- 
cidade ílcara-lhe a convicção quo maia vale organanizar victo* 
rias do que ganhal-as, e é preferível ser Carnot a ser Bona- 
pirte. Mas sabia também ganhal-as: Itororó, Lomas Yalentinas 
bastariam para proval-o, se restasse alguma duvida possí- 
vel, 

A S4 de dezembro de 68 os commandaotes do exercito alli- 
ado escreviam a Lopez: € O sangue derramado na ponte de 
Itororó e no arroio Avahy devia ter persuadido V. Bx. a potqpar 
as vidas dos seus soldados no dia 21 do corrente, nSo os for^ 
çando a uma resistência inútil. Sobre a cabeça de V. Bx. deve 
cahir todo esse sangue, assim como o que tiver de correr ainda, 
se y. Ex. julgar que o seu capricho deve ser superior á salvação 
do que resta do povo da Republica do Paraguay. Se a obsti- 
na^ cega e inexplicável for considerada por V. Ex. prefe- 
rível a mllharee de vidas que ainda se podem poupar, os 
abaixo assignados responsablllsam a pessoa de V. £x. perante 
a Republica do Paraguay e o mundo civilisado pelo sangue 
que vai correr a jorro e pelas desgraças que vão augmentar as 
que já pesam sobre este palz. > 

E o dictador respondia-lhes : < VV.BBz. julgam dever re- 
oordar-me que o sangue derramado em Itororó e Avahy deveria 
ter»me determinado a evitar o que correu no dia 21 do cor- 
rente. VV. EBx. esqueceram sem duvida que estes mesmos 
actos podiam de antomão provar quão certo é o que acabo 
de ponderar sobre a abnegação de meus compatriotas, e que 
cada gotta de sangue que cae em terra é uma nova obrigação 
cootrahida pelos que vivem ... VV. ÊEx. não tém o direito 
de accusar-me perante a republica do Paraguay, porque de- 
fendi*a, defendc-a e continuarei a defendel-a. Ella me impõe 



9Ò REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

este dever e eu me orgulho de leval-o até á ultima extremidade, 
e do mais, legando á historia meus actos, só a meu Deus 
devo coutas.» 

Depois desta tentativa frustrada, rondida Augustnra, 
occupada a capital do Paraguay, o marques de Caxias deu 
sua missSo por terminada. Continuar a guerra era oolla- 
borar com Lopez para o anniquilamento da nação. Prendel-o 
era tarefo somenos, de capitão do matto, para quem tinha atrás 
de si o seu passado altivo. A rato velho gato novo, dtz a 
sabedoria popular e que seria difiicil achar um, e de facto 
se achoa. 

A 14 do janeiro de 69 Caxias mandou seguir uma expedido 
para Matto Grosso, a 19 tomou o vapor ; a 24 chegou a Monte* 
vidéo. No dia 9 de fevereiro escreveu a ordem do dia de des- 
pedida, a 15 chegou a esta capital. Foi nomeado duque de 
Caxias pelos relevantes serviços prestados na guerra do Para- 
guay. Jd era marechal do exercito eiffectivo. 



Eleito e escolhido senador pelo Rio Grande do Sul, Caxias 
alistouse no partido de Vasooncellos, Paraná e Eusébio. Con- 
vidado para entrar em mais de um gabinete, recusou sempre, 
até Paraná consegair fazel-o ministra da guerra a 6 de Junho 
de 55. 

Foi um decennio memorável o de 50. O imperador contava 
vinte e cinco annos e a nação sontia-se igualmente moça. Ter. 
minara o período revolucionário, guerras estrangeiras felizos 
varreram a atmosphera, a extinção do trafico tolhia novos 
insultos da soberania nacional, encurtava a distancia do velho 
mundo com a navegação a vapor do Atlântico. Mauã canali- 
sava mllhOes esterlinos, silvavam as primeiras locomotivas, as 
lettras rasgavam os clássicos andrajos coloniacs, fallava-se em 
opera nacional, em theatro nacional, João Caetano figurava 
de novo Moysés, três poemas épicos andavam om elaboração, 
havia quem escrevesse tragedias, na commissão scientlfica do 
Norte não se admittiu um só estrangeiro, porque brailleiros 



o DUQUE DE CAXIAS 91 

bastavam e haviam de fazer melhor obra qae os pobres Mar- 
tías e Saint-Hilalre, o Instituto Histórico fitava sem acanha- 
mento o Instituto de França, afinal delia-se a macula original 
da nossa gente, a capagada e vil tristeza», de que já se quei- 
xava o épico lusitano e Paraná, o político realista e pratico, 
se empenhava em conciliar os partidos políticos. 

Paraná pensava em conciliação de partidos o parecia dese- 
jal-a realmente. Caxias ajudou-o por sua parte, fazendo na pasta 
da guerra todo o bem que poudea seus camaradas, reformando 
as partes carunchosas do exercito, procurando tornal-o real- 
mente cfflcaz. Depois da morte do poderoso marquez, assumiu 
a presidência do conselho e presidiu ás novas eleições, em que 
pela primeira voz foi executada a lei dos circules, essa lei de 
que esperava maravilhas a ingenuidade nunca escarmentada de 
nossos estadistas de boa fé. 

Pela segunda vez organisou gabinete com Paranhos em 
março de 61 e esteve á frente dos negocies ató abrirem-se as 
Gamaras, em maio do anno seguinte. Na realidade era tão pouco 
politico que, ao começar a guerra, interrogado por um ministro 
liberal se queria partir para o Rio Grande do Sul, declarou estar 
prompto a seguir sem demora, se fosse nomeado ao mesmo 
tempo presidente da provinda, porque só com este titulo teria 
competência para mover a guarda nacional, sem a qual nada 
poderia. 

Encarregado do commando do exercito, esqueoeu-se* inteira- 
mente da politica, mas seu exemplo não foi seguido, nem por 
amigos, nem por inimigos. Principalmente a partir de 68« 
quando com aquôda inesperada do partido liberal rebentou uma 
intemperança de linguagem, um fogo de paixão que se propagou 
até á Sibéria senatorial, não lhe pouparam golpes ; contrista ler 
o discurso em que se defende das misérias que lhe assacaram. 

Antes annos de dura guerra do que mezes de gabinete,— 
dizia amargamente, resumindo experiências dolorosas. Nem 
mesmo a vaidade poderia leval-o a voltar de novo a governar, 
pois a nada mais podia aspirar depois da morte da duqueza, 
D. Anua Luiza Carneiro Vianna. « Perdi o maior bem que 
neste mundo gozava, a minha virtuosa companheira de 41 
annos, no dia 23 de março de 1874.» 



92 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Eairetanto, em 1875, depois da quôda do gabinete que com 
o voto de Caxias iibertoa o ventre escravo, teve de organisar 
ministério por instancia do Imperador, anoioso para ver e ser 
Yisto nos Estados-Unidos, e que dizia não fazel-o oom sega- 
rança se não doixasse o Bstado nas mãos firmes do pacifloador 
de quatro províncias, do lidador da libertação de três nações vi« 
zinhas. Emquanto o Imperador andou por fora, montava guarda 
ao Throno. A* sua ohegada, pediu para ser rendido, pois suas 
enfermidades não lhe permittiam mais taes serviços. 

O modo por que o soberano exigiu a retirada «do resto do 
ministério» foi a a£Qronta final. Desde então não fez mais que 
vegetar. Mas na agonia lenta, que terminou na (kzenda de 
Santa Mónica a 7 de maio de 1880, elle que assegurara ou ver* 
berara ser mais militar que poliiloo, quii provar que ao menos 
uma vez podia ser mais politico do que militar : rejeitou todas 
as honras e pompas ofllciaes, quiz ser enterrado como obscuro 
paisano. 

Agosto 1003. 



JTJIjI o S Js/rEÍZTL,X 



NUMISMÁTICA BRAZILEIRA 



DR. ALFREDO DE CARVALHO 

Soeio correspondente do Instituto Histórico e Qeograpbico 
Brazileiro 



96 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

mento demonstrada a utilidade do oommettimento do Sr. Meili, 
em face da pobreza quasi absoluta da nossa litteratura numis- 
mática. De faoto, não rcalizala a promessa feita, em 1880, 
por Teixeira do Aragão, do consagrar um quarto volume 
da sua excollente Descripção Geral e Histórica das Moedas de 
Portugal, ao numario brazileiro, apenas possuíamos ca lacunosos 
«apootamcntos e catalogo» que, sob o tilulo de Moeda do 
Brasil, João Xavier da Motta deu á luz nove annos depois. Quem 
procurava esclarecimentos mais minuciosos tinha que respigar 
trabalhosamente informações esparsas por grande numero de 
obras e catálogos, na apparencia alheios ao assumpto, cnjdk 
bibliographia methodica occupa as primeiras paginas do vo- 
lume citado. 

Vem após uma relação das principaes Leis, Alvarós, Cartas 
Regias, Decretos, Provisoas, Portarias e Avisos, de 1604 a 1823, 
referentes ao meio circulante no Brazil-Golonia na qual está 
condensada toda a legislação sobre a matéria. 

A* parte deseriptiva, profusamente entremeiada de notas 
históricas, serve de introdução um golpe de vista retrospe- 
ctivo sobre o numerário portuguez tendo curso no Brazil de 
1500 a 1688« A leitura deste capitulo ó sammamonte instru* 
ctiva: nelle se nos mostra como, em um período de quasi dois 
séculos as suocessivas e frequentes reduoç5es de padrão foram 
enfraquecendo a moeda e elevando o valor do metal. 

Passando a tratar do numario propríamente brazilotro, o 
autor nos ministra dados novos e curiosos sobra o primeiro 
dinheiro metaliico fabricado no Brazil : as famosas moedas obsi* 
dionaes cunhadas no Recife, pelos Hollandezes, em 1645-46 
o 1654. 

Em íins do mesmo século XVII, a exportaçSo do dinheiro 
de contado para a metrópole, por motivos perfeitamente expli- 
cados no sucoulento capitulo — Rasão dos estabelecimentos de 
casas de Moeda no Brasil, attingiu proporções taes que a colónia 
ficou quasi inteiramente privada de numerário. 

Deliberou então El-Rey D. Pedro H autorizar por Carta 
Regia de 8 de março de 1694, a cunhagem de cMoedas-Provin* 
ciaes>, que deviam circular somente no Brazil^ não podendo 





Moeda obsidional de 1640 





Ensaio monetário da primeira moeda brazileira 





Poça de quatro mil réis de D. Pedro íí, 
cunhada em Pernambuoo 





Escudo de ouro de D. João V 




Moeda mineira 



A NOMISMATICA NO BRA2IL 97 

ser exportadas. Afim deooDflervar naoolonia o novo dinheiro, 
foi aqui prohibido, por Alvará de 10 de Dezembro de 1695, o 
ourso das moedas do reino e aos ourives qae trabalhassem, ou 
fundissem metaes preciosos amoedados. 

Os valores estabelecidos para o novo numerário foram de 
nove espécies : três de ouro (4$000, 2$000. e 1$000) e seis de 
prata (640, 320, 170, 80, 40, e 20 réis). 

As primeiras disbinguiam-so das do reino pola inscripçao 
— Et Brastlce DomintM;— para as de prata foi adoptada a dl- 
yvÊ^ — Subq, Sign. Nata <Sfto6. ^-ciga significação tem sido di- 
versamente interpretada. 

A Casa da Moeda, primeiramente estabelecida na Bahia, 
alli funcoionoa por espaço de quatro annos ; transferidos entfto 
para o Rio de Janeiro o sen pessoal o material, trabalhou nesta 
cidade de 17 de março de 1600 a 13 de outubro de 1700 e mu- 
dada finalmente para Pernambuco, laborou no Recife até 5 de 
abril de 1702. 

No decurso do século XVIII a produoçao fabulosa das Jaildas 
auriferas de Minas Geraes, S. Paulo, Goyaz e Cayabá levou & 
metrópole um caudal de riqueza inestimável. 

Afim de amoedar o ouro proveniente do imposto de 20% 
{quinto)^ e que sob esta forma era de preferencia exportado 
para o reino, institoiram-se casas de moeda em diiferentes 
pontos das regiões mineiras, assim como no Rio de Janeiro 
e na Bahia. As espécies e variedades de moedas nellas fabri- 
cadas, até a Independência, sfio tão numerosas que se nos torna 
impossível mencional-as. 

ToOas, porém, mereceram circumstanciada descrlpçao no 
trabalho do Sr. Meili e acham-se representadas, nos seus prin- 
cipaes typos, nas bellissimas estampas que o acompanham e 
completam. 

L* sobretudo digna de nota a magnifica serie de eseudot de 
ouro, cunhados na Bahia, no Rio de Janeiro e em Villa-Rica, 
durante o reinado de D. João Y, com a effigie do monarcha ; as 
cinco espécies desta serie, pelo seu alto valor intrínseco e a sua 
perfeição artística, são das maia procuradas pelos collecciona* 
dores. O mesmo acontece com os enormes dobrões de cinco 

4323 — 7 Tomo lxix p. ii 



98 RBVlStA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

moedas, íábiicados em Villa*Rica de 1724-27, com perto de 54 
grammas de peso e o valor nominal de 2Q$000. 

Dentre o numerário cunhado no reinado de D. José I 
(1750-77), salleataremos iómente as denominadas moedas mi-- 
neiras, espeeialmente adaptadas ao commercio do oaro, a cujo 
preço em vinténs (32 uma oitava) correspondiam as suas de- 
signações de valor: 600, 300, 150 e 75 réis. 

A historia das moedas do reinado de D. Maria I (1777-1805) 
abrange dois capítulos relativos aos dois períodos: o em 4ue 
governou com o consorte D. Pedro III (1777-86) e o segando 
(1786-1805) em que governou só. 

Igual divisão soSreu naturalmente o governo de D. João VI, 
primeiro como Príncipe Regente (1805'18) e, por fim, como rei 
(1818-»). 

Do primeiro destes reinados, o Sr. Meili descreve 278 
moedas de ouro, prata e cobre, cunhadas no ou para o Brasil . 

Não escapou ás suas pesquizas o avultado numero de ca- 
rimbos postos em moedas nacionaes e estrangeiras, durante o 
reinado de D. João VI, aflm de lhes modificar o valor. 

Estas contramarcas são frequentes, principalmente nos pesos 
hespanhóes, que corriam pelo valor de 960 réis, e receberam o 
carimbo constante das armas do reino, entre dois ramos de 
louro, tendo por baixo 9ô0 e no reverso a esphera armiilar. 

Das barras de ouro de kí, que tiveram larga ciroulaçio 
nos districtos auríferos, descreve o Sr. Meili diversos exem- 
plares provenientes das casas de fundição de Villa-Rica, Sabarã 
8 Serro Frio. Estes fragmentos do precioso metal acbam-se 
completamente revestidos de marcas constantes das armas do 
reino, tendo por baixo o nome da localidade da oílicina fundi- 
dora, do nomero da barra, do anno da AmdlçSo, da palavra 
Toque e o respectivo algarismo, e dos algarismos do peto e si- 
gnaes particulares. 

Comquanto reservasse para o terceiro volume o estudo da 
moeda fiduciária, o Sr. Meili consagrou neste um pequeno ca- 
pitulo ã fundação do primeiro Baneo do BratU^ estabelecido 
pelo Alvará de 12 de outubro de 1808, enumerando brevemente 
as notas por elle emittidas. 





Moeda de ouro D. Maria I e D. Pedro III 




^iíH^ 




Moeda de D. João VI 





Moeda de cobre ^e D. João VI 





Barras de ouro. Casa de F^undição de Saberá 



A NUMISMÁTICA NO BRAZIL 99 

Valiosa oontribaição para o estudo da nossa historia eco- 
nómica oonstitae o eapitalo intitulado Producção total das Catas 
de Moeda do Brazil, de 1703 a 1822. 

Segando os dados pacientemente reunidos pelo Sr. Meili, 
p valor do numerário produzido durante aquelle período ele- 
Tou-se ás seguintes sommas: 

Ouro 245.640:998$000 

Prata 40.460:8Ô6$300 

Colrre 5.000:000|000 

Sm 1905, sahiu á luz o segundo volume d' O Meio Circulante 
no Brazil, comprehendendo As Moedas do Brazil Independente 
(1822-1900). 

Gomo o primeiro, forma um álbum copiosamente illustrado 
com gravuras de 245 moedas do Império, 26 da Republica e 223 
fichas emittidas por particulares ou sociedades. 

E' talvez ainda mais completa do que aquelle, nâo faltando 
no texto e nas estampas uma só das espécies cunhadas desde 
a Independência, a começar pela famosa moeda de ouro, de 
1822, com a efflgie de D. Pedro I e que tanto desagradou ao 
monarcha, por não trazer o qualificativo de Imperador Consli-^ 
tudonal, até ás de nickel da emissão de 1901, logo tão abun- 
dantemente falsificadas. 

A parte descriptiva é igualmente fertilissima em notioia3 
históricas, económicas e financeiras, e dados sobre as alterações 
do padrãp e as oscillações do cambio, 

De permeio a estes dois volumes appareceu, em 1903, o 
terceiro, relativo à Moeda Fiduciária no Brazil, 1771 até 1900, 
de formato um tanto maior. 

Gomprehende o teito duas grandes secções— Emissões le^ 
gaes e Emissões illegaes^ subdivididas em vinte e seis capitules 
respectivamente occupados com a legislação e mais noticias 
relativas a toda a casta de papel moeda que tem circulado 
no nosso paiz desde 1771, quando, em virtude do regimento de 
2 de agosto, começaram a correr em Minas-Geraes os famosos 
bilhetes de extracção dos diamantes, até os vales de troco de 
ouro actualmente emittidos pelas alfandegas. 



100 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Combiaando a leitura destes capítulos oom o exame das 
estampas, que em numero de 192 representam 1637 espécies 
differentes, obtem-se um golpe de vista assas instructivo, não 
só sobre a evolução dos nossos processos financeiros, como sobre 
os progressos das artes graphicas e do aperfeiçoamento esthe- 
tico. 

A partir das notas do primitivo Banco do Brazil, desmesa- 
radaSt grosseiras, feias, faoil e frequentemente falsifloadas, 
chega-se através de um sem numero de emissões interme- 
diarias às cédulas do Thesouro Nacional boje circulantes, per- 
feitas, elegantes, commodas, mas, ainda igualmente, objecto de . 
fraude. 

Ck>mpletam excellentemente esta primeira secção d* A Moda 
Fiduciária no Brazil, prestabilissimos quadros dos Bancos de 
emissão que tôm existido de 1806 a 1896, outros coafrontativos 
das emisiSes do Ooverno e dos Bancos com o cambio, de 1808 a 
1900, attentas as modificações do padrão monetário occorridas 
em 1833 e 1848, e uma lista dos valores de papel-moeda legal- 
mente em circulação em fins de dezembro de 1900, na impor- 
tância de 699.631 :719$000, ou uma módia de 44$000 para cada 
habitante do paiz. 

A segunda secção— i^mm^^i illegaes^ comprehendo os bi- 
lhetes de Estados, municipalidades, emprezas de omnibus, barcas 
e bondes, e de companhias e particulares, abrangendo o pro- 
digioso total de 1283 espécies. 

Estas emissões abusivas, illegaes ou criminosas de títulos 
de credito (quer dizer de divida) ao portador, denominados apó- 
lices, cautelas, cupões, estampilhas, ficas, fichas, livranças, 
obrigações, recibos, sellos, vales, e alcunhados no Ceará de 
Borós, em Pernambuco de Caleareos, Sampaios e Baja Paus, no 
Maranhão de Debentures^ em Minas*Geraes de Barrosque$, não 
são tão modernas como em geral se presume. O Sr. Meili nos 
mostra que já circulavam, de 1837 a 1859, em S. Paulo, Rio 
de Janeiro, Minas-Geraea, Pernambuco, Maranhão e Pará. 

Em appendice menciona ainda o sábio e operoso numisma- 
tista specimens de annuncios, reclames, bilhetes de loterias, e 
de rifa, e fichas de jogo. 




Moeda carimbada no Ceará 





Primeira moeda de D* Pedro I, sem a palavra Const. 





Primeira moeda de D. Pedro II 



A NUMISMÁTICA NO BRA2IL 101 

Como complemento indispensaTel a obras deste género sa- 
lientam-se as centenas de magoiâcas estampas, representando 
milhares de moedas e cédulas, que acompanham os três yo« 
lames publicados. Executadas com admirável perfeição pelo 
processo photo-oallographico, o mais flel que desejar se pôde, 
estas estampas constituem, já por si, um verdadeiro curso de 
historia da nossa cultura. 

Um quarto volume, consagrado ás medalhas e condeco* 
rações, e Já no prólo, completará em breve esta obra grandiosa 
e sem rival na litteratura das demais nações latino-amorlcanas. 

Julho 1906. 



o BRAZIL SOCIAL 



DR. SILVIO ROMÉRO 



Sócio eíTectivo do Instituto Histórico e Goographico 
Brazileiro 



i 



Sob o titulo «-O lirasil Social — iniciou o illustre consócio 
Dr. Sylvio Roméro um estudo de que o pre^ento numero da Jíe- 
vista do Instituto publica os primeiros capítulos e dos quaes se 
pôde justamente avaliar a importância do trabalho. 

(Nota da Cotnmissão de Redacção) 



o BRAZIL SOCIAL 



O PROBLEMA. 

Porque continuo firme na snpposição de ser a critica uma 
parto da lógica que nutre intimas relações com a sociologia 
em todas as suas manifestações» persisto em afUrmar que o 
gonero de critica quo mais o Brazil ha mister » é o da 
critica social, de preferencia a individualmente psychologica. 
Esta, dizem certos phantasistas de agora, tem o privilegio 
de entrar na indole dos escriptores.., mas, a despeito de tantas 
penetrações, não tem feito a nação adiantar um passo, jã não 
digo no seu progresso litterario e intellectual, mas simples* 
mente na comprehensão da sua própria indole, de seu próprio 
caracter. 

Por isso se me antolha vantajoso traçar um quadro do 
verdadeiro estado do paiz como elle hoje se apresenta de 
facto após quatrocentos annos de contacto com a civilisação 
européa. NSo serã uma dessas telas phantasistas o aéreas, 
como as que os nossos governos hão costume encommendar 
periodicamente para mostrar o paiz nas Exposições interna- 
cionaes. Será cousa mais simples e mais modesta para nosso 
uso interno firmada por documentos irrefragaveis, meditada 
em longas lucubrações e presidida por um patriotismo que não 
pede meças aos mais ardentes. 

E' um acto de coragem e de amor que já agora a velhice 
me impõe como o ultimo preito prestado á pátria, em nome 
da verdade, em prol de seu futuro. 



106 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

E* um facto positivo, claro, eviCleatissimo por todos re- 
conhecido e proclamado, que as três classes que tôm mais 
de perto dirigido a vida mental e publica do povo brazi- 
leiro — 03 poUticos^ os Jornalistas e os litteratos^ lôvaram-na a 
um tal gráo de confusão, pessimismo e desanimo, que nem elles 
mesmos tomam mais pé no meio dos desatinos que accumu- 
laram. (1) Só se ouvem pragas e esconjures ; apontam-se 
panaoéas capazes de curar as fundas chagas da nação ; sur- 
gem de todos os lados prophetas e guias, com suas bandei- 
rolas de improvisados estadistas e salvadores de povos. 

Nunca se viu tanta desordem forrada de tanta filáucia. 
Causas ânancelras e politicas, estas incomparavelmente mais . 
a miude, são invocadas para a explicação dos nossos males 
que avultam cada vez mais. 

O cambio, a hyperproducção do café, as especulações dos 
bancos estrangeiros, a queda da monarchia, o militarismo, o re- 
gimen presidencial, os despotismos olygarchicos dos Estados, os 
gastos supérfluos dos governos, os roubos nas repartições pu- 
blicas, a pluralidade das magistraturas, os impostos interesta- 
doaes, a falsidade das eleições, os defeituosos programmas e 
metbodos do ensino publico, a falta de confiança em o novo re« 
gimen, a revolta da armada, a do Rio Grande, a de Canudos. •• 
todas estas cousas e outras muitas tém sido invocadas como 
causa de nossos males. Mas é evidente, para quem sabe en- 
xergar, que não passam de symptomas e effeitot de uma causa su- 
perior que se não tem querido vêr ou se não tem tido a pre- 
cisa coragem para assignalar ao povo, ao seu governo, ás suas 
classes dirigentes para que mudem de rumo e tratem resoluta- 
mente, se fõr possível, de arrancar as raises do mal. 

Se a lista das falsas eajtsas é enorme, a dos falsos remédios 
não é menor. 

Bolsa do café ou monopoUo das vendas deste pelo Estado, 
creação de bancos de credito agrícola, suppreasão dos impostos 
interestadoaes, unificação da magistratura, reforma do ensino, 



(1) No Brazil muitas vnes at tr«8 qualidades andam jantas mo 
megmo individuo. 



o BRAZIL SOCIAL 107 

reforma da Constituição Federal (aqui variam immoDsameate 
as opiniões acerca das bases a propor), restauração da monar- 
chia e até a dictadura milUar^ reclamada em altas vozes das 
columnas de vários jornaes e até da tribuna do Congresso Fe- 
derai, . . todas estas cousas têm sido simultânea ou successi vã- 
mente invocadas como antídoto á, enfermidade que nos devora. 
Houve até politico, litterato, jornalista, tido na conta de grande 
sabedor, que, com todo o desembaraço nos aconselhou a renuncia 
da independência e a submisãão ao protectorado dos Estados- 
Unidos, . . Tanto é profunda a incapacidade desses levianos 
directores da opinião brazileira t 

Entretanto, se algumas dessas medidas são razoáveis, não 
passam todas ellas de palliativos mais ou ou menos inefflcazes 
para solver as dificuldades do presente e preparar o caminho 
do futuro. Algumas são manifestos erros, passos em &lso por 
estreitos atalhos. 

Urge enfrentar a situação nacional como ella é em si 
mesma, no seu caracter, na sua Índole, na sua estruotura in- 
terna, na substancia intima de sen ser, na trama fundamental 
da sua organisaçãe, nos seus elementos formativos, na essência 
intrínseca que a constituo. Quem o íizer terã a plena vidência 
da raiz de todos os sophismas, de todos os enganos, de todos os 
iUusorios engodos, de todos os cálculos falhos, de todas as de- 
cepções amargas que ahi andam a encher d^alto a baixo a his.- 
toria brazileira, -nomeadamente a do século próximo ando 
e começos do actual. 

£sse é o ponto a esclarecer, o estudo que deve ser feito. 
Dessa falha inicial, do desconhecimento da indole exacta de nosso 
povo, orlginam-se nelle, especialmente na classe que se diz diri- 
gente e nada de facto dirige, as seguintes consequências, fontes 
de grandes males e de cruéis desenganos para a nação inteira: 
1*, não se ver a antinomia profunda entre o estado real do 
paiz, quasi todo ainda inculto e mergulhado no maior atrazo, e o 
tempo presente, a época do carvão de pedra, do vapor, da ele- 
ctricidade, da grande cultura, da grande industria, da concur- 
rencia universal, da grande offlcina de trabalho, e producção 
mecânica por apparelhos de todo género ; época de vertiginoso 



108 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

movimento que não espera pelos retardatários ; 2«, não se. re- 
parar em a não menor antinomia que lavra entre o povo quasL 
inteiro e ama pequena elite de intellectuaes^ como se eiles próprios 
appeliidam, cheios de todas as vacuidades, de todas as fumaças e 
protenQoes de grandeza, que a scmi-cultura sóe sempre inspirar ; 
3<^, não se levar em conta a ainda menos inilludivol antinomia 
existente entre essa mesma elite de nossos directores, políticos^ 
Jornalistas e litteratos, e os seus collegas entre os povoa verda- 
deiramente cultos ; porque estes tacs são realmente a floração 
de velhas e aperfeiçoadas civilisações e os nossos não passam 
de superfetaçoes, de arremedos do estrangeiro, sem base 
séria no meio que os cei*ca ; 4*, a illusão, oriunda das três 
falhas notadas, do possuirmos as mesmas qualidades, os mesmos 
predicados dos povos que suppomos poder imitar e que, para os 
igualar ou sobrepujar, não ó mais preciso que copiar-lhes as 
leis, as constituições, os planos de governo e está tudo feito ; 5% 
o amargo peaiimismo, a turbulenta gritaria de que se apoderam 
todos, quando, falhos os seus cálculos, e não poderiam deixar de 
falhar, vêem que não adiantaram um passo e a desordem 
moral é cada vez maior ; 6^, finalmente, a peior consequên- 
cia de tudo isto, a teima de julgar politica^ e sanavel por 
meios politicos, uma questão orgânica, ethnica, de psychologia 
popular, uma questão profundamente, essencialmente, unica- 
mente da estructura social do povo. 

E' desmontando em todas as peças a sociedade brazileira 
que se ha de achar a chave do enigma : porque a na^^ 
marca passo num eterno messianismo que se não realisa ; por- 
que as panacéas dos politicas de nada valem senão para au- 
gmentar a confusão. 

Não são de hoje as duras desillusões de nosso povo após 
o fracasso das promessas phantasticas de quantos o têm diri- 
gido ou explorado sem ensinar-lhe o caminho da própria re - 
generação. Todos os planos sonhados pelos que hão tido nas mãos 
os seus destinos, uns úteis, outros de valor contestável, têm 
sido levados a effeito sem que a éra das venturas promet- 
tidas se tenha traduzido em realidade. 

O paiz tem avançado Qo andar de kagado, pela força do 



Ò BRAZlL SOCIAL 109 

tempo, das cousas, das ciroamstancias e por um pouco de 
boas qualidades que repoisam no fundo das camadas populares, 
raramente por impulso emittido por seu3 chefes. £' que 
estes, até nas medidas mais acertadas, andam quasi sempre 
ás cegas. A presampção os traz illudidos. 

Não é inútil lembrar aqui alguns dos mais famosos passos 
do que se poderia chamar o grande processo de desillusãò 
que vem desabusando as gentes brazileiras desde os fins do 
século XYIII. Por elles se verá que até algumas reformas 
sociaes e económicas não produziram os resultados promettidos, 
por causa do predomínio que em tudo quanto 6 nosso tem 
sempre exercido a politica^ melhor fora dizer a politiquice^ 
da peior qualidade. 

« O que nos falta, dizia-ae nos fins do século alludido, é re- 
vogar as leis que nos fecharam as fabricas de tecidos e obraS 
de metal.» O desideratum se cumpriu etaes industrias não 
prosperaram!... 

< O que nos vae salvar, dissese, nos primeiros annos do sé- 
culo XIX, é a abertura dos nossos portos aos navios de todas as 
nações.» O desejo cnmpriu-se e ainda hoje não temos marinha 
mercante de longo curso, ou sequer de cabotagem ; não possui- 
mòs um commercio nosso, nacional, não passando o paiz, sob 
tal aspecto, de uma feitoria estrangeira, na qual um doe pro- 
blemas mais difficeis (tenho deste duras provas) ó empregar um 
rapaz brazileiro. . . « Não, tudo isto é secundário ; o que ô mister 
fazer ó a independência politica do paiz»; proclamou-se na dé- 
cada seguinte. A independência se fez ; aqui a desillusãò co- 
meçou logo no anno seguinte. Os agitadores de profissão so- 
nhavam com farta mesa á custa do orçamento. Grupos inteiros, 
verdadeiros clans políticos se preparavam para viver á sopa dos 
orçamentos municipaes, provinciaes, ou geraes. 

Era difflcilimo achar logar para tanta gente. 

A industria politica cresceu a olhos vistos, o funccionalisrno 
triplicou ; era, poróm, impossível contentar a todos, apezar da 
espoliação em larga escala feita, no interior das provindas, 
das fortunas dos reinóes. 

A bancarrota das i Ilusões foi geral. < Mas sabemos onde 



110 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

está a raiz dos males, bradava o troço de patrioteiros do tempo, 
é no imperador que não é de cá, não ô um do3 nossos. . • Urge 
pôl-o fora. • .» B a cousa foi por diante. Pedro I demandou as 
plagas de seu paiz natal e deizou-nos, pode-se dizer, entregues a 
nós mesmos.— Abre-se o fomoso período regencial de que se pôde 
dizer algum bem attendendo ao quasl milagre histórico, deTido a 
raros homens meritórios, de termos escapado a tantas lou- 
curas, sempre renascentes nesse período de nove annos. 

O que então se passou, o que se praticou em todo o paIz no 
decurso de trinta e quatro revoltas não anda escripto ; nem o 
será jamais. E' preciso ter propositalmente conversado com 
homens slzudos de todas as províncias, testemunhas directas 
dos factos, como ainda se encontravam entre 1860 e 70, para se 
ter idéa mais ou menos adeqnada do que foi a quadra disten- 
dida de 1830 a 40 e annos próximos. Nâo podia, assim, ser mais 
esmagadora a decepção. Não parou ella, antes cresceu, com as 
descentralisaçOes do Acto Addicional ; nem cessoa com a reacção 
de 1836-37. 

O atropello causado pelas facções, o parco prestigio dos 
chefes do bando mais em evidencia, o desengano de todos 
na própria força — levaram-nos a pedir um rei^ um tnonar- 
cha, um dictador na pessoa dum menino de 14 annos I 
Sempre a politioagem curando de complexos interesses sociaes^ 
que escapam ao grosseiro empirismo dos mais hábeis e ás 
malversações dos menos escrupulosos. O novo reinado não foi 
mais feliz, nem no seu período de arroxo que se estendeu 
até 1857-58 ; nem nas phases liberalisantes posteriores ; não 
foi mais feliz, nem podia sel-o, na tarefa impossível de solver 
graves questões intimas, da essência mesma, da oonstituição 
social do povo com recipes políticos de 3* ou 4* ordem, sem 
attender a tendências ingenitas nacionaes. que cumpria cor- 
rigir pela prolongada acção educativa, grandemente diflOicíl 
aliás. 

Reformas sobre reformas de vários abusos e achaques 
políticos foram tentadas e levadas a effeito em quasi todas 
as ordens dos serviços públicos, ensino, eleições, magistratura, . 
regimen judiciário. O resultado negativo de todas ellas, como 



o BRAZIL SOCIAL 111 

eopias servis de insiitaicdea estrangeiras mettidas no re- 
activo dissolvente do caracter brasileiro, não se fazia mnito 
esperar e cada vez mais se avolumava a descrença nacional. 

Ninguém comprehendia oomo era que um dos povos mais 
eminentes, mais cheios de altas qualidades, de prestimosos pre- 
dicados, segundo a crença geral ainda hoje muito corrente ; 
do posse, além disso, do paiz mais rico e mais fértil de todo 
o planeta, consoante ainda a crença geral, andava mergu- 
lhado em tamanha pobreza, em tal atrazo qae até o mais 
ossificado optimismo nfio ousava contestar. . . Como sóe acon- 
tecer em casos taes e entre gentes de tal índole, não po- 
deria existir senão um culpado: o governo ; e nelle acima de 
todos o Imperador, com o seu poder pessoal incontrastavel 
e o seu terrível systemade corromper os caracteres.,. Polí- 
ticos, litteratos e jornalistas, durante 50 annos não tiveram 
outra linguagem, não se pejaram de repetir essa frioleira, 
esse pleonasmo demagógico dos ineptos gritadores de todos 
os tempos. Sempre o processo simplista de arranjar um bode 
expiatório para os erros e fraquezas de uma nação inteira t 

Afinal quasi todos accordaram em attribuir á existência 
da escravidão nas plagas brazilicas os desastres de todo o 
nosso viver. O Imperador foi dos mais solícitos em dar ou- 
vidos a esses rumores e em ajudar a extirpar do seio da 
nação o cancro secular que a corrtna, na phrase dos declamadores 
do tempo. Coincidia a abolição geral da escravidão com a 
crise do assucar, principal fonte da riqueza de todo o norte 
do paiz, desde o Espirito Santo até ao Maranhão, batido na 
concurrenoia do mercado do mundo pelo assombroso desen- 
volvimento da producção da beterraba. O desbarato da velha 
assucarocracia do norte do Brazil, phenomeno singularmente 
curioso e de extraordinário alcance para toda a grade população 
daquella extensíssima zooa, não tem sido devidamente estu- 
dado, porque, entre nós, a incompetente philancia dos po- 
litiqueiros não deixa margem alguma para cousaa sérias. 
Vociferações, tendentes todas a aplainar os seus arranjos, ó 
quasi tudo o que se lhes ouve. O alludido desbarato, sobre o 
qual se ha de tornar nestas paginas, foi ainda mais intenso 



112 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

do que a da aristocracia agrícola dos Estados do Sal da 
União Americana, após a guerra de secessão. 

O abalo produzido pelo fechamento de qaasi todos os mer- 
cados europeas, devido à caus)^ citada, ainda mais aggravado 
se tornou com a suppressão repentina dos braços em la- 
voura tão dura e áspera como ó essa predominante da região 
referida. A decadência resalta de toda parte. 

A caféocracia do sul tinha de passar por qaasi ignaes 
perturbações. Achou, ó certo, um quasi succedaneo do escravo 
no colono; mas essa situação nova estava e está muito longe 
de se equiparar á. primitiva. 

Despezas extraordinárias, difflculdades praticas creadas 
pelo novo operariato agrícola, levaram e estão levando à liqui- 
dação crescido numero de fazendas; o numero das famílias pros- 
peras da aristocracia cafeeira do sul se viu grandemente reduzi- 
do. Quasi igual á decadência dos senhores de engenho nortistas. E* 
evidente que a abolição do captiveiro não poderia apparecer, 
depois de taes provanças a esses que se suppunham victimas 
dessa medida, senão como um acto maleâco, um feito pre- 
judicial. Foi mais um élo na cadeia das desillusoes nacionaes. 

Naturalmente a culpa de tantos contratempos estava prin- 
cipalmente nas instituições politicas : na monarchia. Era mister, 
era urgente pôl-a abaixo. Dito e feito ; porque nestes povos 
nos quaes a classe agitadora, que vive principalmente do Es- 
tado, sob todas as formas imagináveis, é numerosíssima o 
medra na razão da intensidade das perturbações politicas, basta 
se interessar ella por uma questão, para que esta triumphe. 
Politicões e literateiros, traço que dirige as avançadas da 
imprensa, levantam tal berreiro que o grosso do povo, alheio 
a quasi tudo que o devia mais intimamente interessar* cede 
sem saber mesmo de que se trata. 

A nação tinha adormecido monai^chica e na bella manhã de 
15 de novembro de 1889 acordou republicana I Era muito rápido 
para ser sério, era único em todo o mundo para não inspirar 
desconfianças ao observador imparcial dos factos sociaes. A bes- 
tialixação^ na phrase graphica do mais sincoro dos republicanos 
do dia, porque tinha a sinceridade da loucura, a besHali- 



o BRAZIL SOCIAL 118 

zação foi geral. Ninguém se moreu, Díngaem luctou, ninguém 
86 bateu por uma iQstitui(^ que era a irmã gémea de noflsa 
independência, que tinha tantos annos de vida quanto temos 
nós de povo liyre 1 setonta annos de regimen autónomo em 
quatrocentos quasi de tutela, desde os primeiros passos que 
demos no caminho do destino que conduz os povos.t. desflze- 
ram-se como a novoa riipida nas manhãs estivaes, ou a leve 
poeira ceio apagada de sob os pés do viandante ignorado do 
sertão. 

Um tal phenomeno, singularmente estranho aos olhos do 
historiador, demanda para o oxplicar, ou um povo em tão alto 
gráo de cultura tine conscientemente resolva, com segurança, 
acerto e firmeza, os mais complicados problemas de seu Tiver ; 
ou uma multidão quasi amorpha, sem um caracter firme, in* 
toansigente, definido, dos que não torcem á mercê dos ca- 
prichos dos especuladores, uma espécie daquelie povo rebanho 
sem aprisco e sem pastor, de que Mava o poeta, fácil de ser 
guiado e illudido pelos grupos de poUUcians que o devoram. 

Gonta-se, e Deus queira que não tenha sido verdade, que, 
quando foi de 15 de novembro de 1889, um ofilcial chilenoj do 
navio de guerra daquella na^ surto naquella data no porto 
do Rio de Janeiro, dissera, ao assistir á indifferença da popu- 
lação diante do que se passava e da facilidade com que se depo* 
zera a monarohia: não éum povo, é uma horda. 

Palavras duras, que encerram mais verdade do que ã into- 
ressada cegueira dos vivedoros da politica alimentaria mantida 
no Brazil pôde parecer. 

Gomo quer que soja, a Republica 6 agora e por emquanto,* 
a ultima desillasão do pobre povo brazileiro. Sua constituição 
espúria, copiada da constituição dos Estados-Unidos por alguns 
rhetoricos que andaram sempre a confundir phrases e pala- 
vriados com idóas ; sua loucura financeira por occasfão do fa- 
moso encilfiamento ; suas revoltas da armada, do Rio Grande, 
de Ganudos, e outras e outras acarretando tremendas despesas 
ao Thesoaro, o dando lugar ãs mais repugnantes scenas de cruel 
ferocidade ; seus câmbios sempre baixos, revelando a extraor- 
dinária depreciação da moeda ; sua bancarrota, que trouxe a 
4323— 8 Tomo í.xix. p, h. 



114 RliVKrA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

moratória do fuftdingloan ; seus pesadíssimos imposios do todo 
o género a Toxarom o povo ; o dospoUsmo das olygarchiat 
estadoaes, opprimindo toias as olassos ; a desorganização de 
todos os serviços admioistrativoa; ai roubai fieiras nas reparti^ 
çim fijcao9, denunciadas quasi diariamente pela imprensa ; 
todas estas chagas visíveis a olhos nús, que andam a afeiar o 
corpo da Republica, levantaram um tão formidável coro de im- 
precações, como se não tinha ainda ouvido outro igual em toda 
a existência da nação. 

Por cima do tudo isto— , a quela completa do credilo 
agrícola^ O relrahinienlo do capiial^ a desordem económica do 
todas a9 classes, aggravada na dos agricultores de cjifó — pela 
ht/perproducção o subsequente baixa dos preços desse principal 
ramo de nossa oxportação, tem levado o pais ás bordas do deses- 
pero. As maldições ochòam por todos os lados, o, para aggra- 
var ainda mais a appUcação geral, as populações do olnoo Es- 
tados do norto ainda ha pouco morriam á mingua, ou expatria- 
vain-so, acossadas por uma das mais terríveis sêccas que em 
quatro séculos tem açoitado aqueila desventurada zona. (1) 

Qrita-se, por isso, agora por soccorro de todas as bandas e 
em todos os tons ; levantam*se planoj ; procuram-se remédios; 
buscan-se soluções para es graves problemas que nos ameaçam 
<ragar. 

Na ossificada teima do supiK>r uma simples e passageira 
crise poliiica, que nos esU a affl^ir, esse estado elironico de 
agitação da alma braziieira, os politieões que nos dirigem 
acham -se em ebulição intensi ao oíFortar á nação as costuma- 
d )S drogas que lhe dão sempre a inj<erir. A restauração mo- 
narchica é a solução d*alguns ; a revisão da Goostitsi;^ é a re- 
ceita d*oatros. E como se me antolha evidente não ser politico 
o problema brazileiro da actualidJide, julgo de todo desastrada 
a aventara da nova restaara^, que virá perturbar ainda mais 
o nosso detestável estado geral. 



(1) Não va (uecdi* que estas paginuts estão seudo oscriptas eiu maio 
fU) 1904 ; (!umpre, poiviii, advertir ciut» o Hai/í-IU» r^tá sr in pt-t n«lo 
agora om VJJl o, lí>O.S. 



o BRA/.IL SOCIAL 115 

A nioDarchIa, como forma autoritária, leva certas vanta- 
gens na directo dos povos mal constituídos organicamente ; 
mas 6 preciso, mesmo entre elles, que ella encontre certas bases 
que de todo nos faltam. 

A reforma dà Constituição pódo o deve ser feita no sentido 
Cipecial de precaver a unidade do paiz o tornar possível a serio 
de medidas sociaes, capazes do trazer não a cura do todos os 
nossos males, porque vários de clles são incuráveis ; sim a extir- 
pação do alguns o a meltiora da maior parte. 

Eis a tarefa a tentar, o caso a resolver. . • 

II 

os METIiODOS H PROCESSO DA ESCOLA DE LE PLÂY 

Duas especiaes circumstancias puzcram-me no encalço das 
idéas que vão ser expostas: a observação attonta dos factos 
passados no período republicano, que se vae atravessando, e o 
conhecimento mais intimo das doutrinas e ensinamentos da 
chamada escola da Sciencia Social^ áo Le Platj^ H. de Tourtille^ 
Ed, Demolins^ P, Rottsiers^ A. de Prèville^ P, Bureau o tantos 
outros, aos quaes se devem, a meu vêr, os melhores trabalhos 
existentes sobre a índole das nações. 

A Republica teve a vantagem de revelar este querido povo 
brazileiro tal qual ó, entregue a si próprio, ou aos seus natu- 
raes directores, o que vem a ser a mesma cousa. 

Os vícios e eflbitos de sua cstractura social tornaram-se 
patentes aos observadoi^es imparciaos o cultos. 

Atô a Independência, o Brazil tinha apparecido sempre sob 
a tutela da realeza portugueza que o havia dirigido, gniado, 
aiteiçoado, por assim dizer, ao sabor de seus planos e desejos, 
até onde governos podem influir na estructura das massas so- 
ciaes sobre que lhes cumpre velar. 

No regímen passado, igual tutela tinha sido exercida pela 

monarohia nacional que se poderia considerar, em mais de um 

sentido, uma continuação, um prolongamento da realeza-mãe. 

Poder-se-ia diz?r que havia uma força estranha a estorvar o 

povo no seu andar normal. Hoje este obstáculo jaz desfeito. 



116 REVISTA DO INSTITUTO IIISTORÍCO 

Não existo mais tal embaraço, ou tal desculpa. O observador 
não encoDtra tropeços do caminho. 

As doutrinas do evolucionismo spenceriano tinham-me posto 
na pista do desdobramento dos vários ramos da actividade hu- 
mana; tinham-me despertado a attonção para as formações 
dispares doi povos mestiçados. nomeadamente os da America 
do Sul, e, por esse caminho, havia sido conduzido ás conclusões 
a que cheguei em todos os meus osqriptos acerca de minha 
pátria. Os processos da escola de Le Play fizeram-jme penetrar 
mais fundo na trama interna das formações sociaes e completar 
as observações exteriores de ensino spenceriano. E' uma confir- 
mação, em ultima instanciai, de conclusões obtidas por outros 
meios e estradas. 

* A historia destes dezoito annos de Republica tem servido» 
aos espíritos som preoccupações mesquinhas, para aclarar toda 
a historia colonial, regencial e imperial do Brazil. O periodo da 
Regência sobretudo se esclarece com uma intensa luz nova. A 
cohesão, a unidade, a estabilidade constitucional do paiz, a in- 
tima organisação da nação oram, em grande parte, puramente 
illusorias. A Republica manifestou o Brasil tal qual ó : e por 
isso é o governo que lhe convém, com a condição de ser vasado 
em moldes conservadores, num unitarismo contido por um forte 
governo central. E' o que se vae ver na luz do systema de Le 
Play e Henri deTourville. 

Claro ó que de tal doutrina não tenho a fazer aqui uma ex- 
posição esmeuçada : apenas as linhas principaes para a compre- 
hensão do leitor. 

Os homens cultos dentre os nossos médicos, engenheiros, 
magistrados, advogados, offlciaes de curso de terra e mar, que 
são 08 verdadeiros inlelleciuaes do Brazil, têm quasi geralmente 
andado ao par d'outras doutrinas, as do positivismo, do evolu- 
cionismo, do socialismo, por exemplo, e não tôm lançado as 
vistas sobre os belios trabalhos da escola de Le Play, cij^o nome 
uma ou outra vez ha sido citado, com evidente desconhecimento 
de seu ensino. Que eu saiba, 6 esta a primeira vez que entrenós 
se faz um appollo mais serio a esse methodo e systema. Não é 
que lhe aooeite todas as idéas. 



o BRAZIL SOCIAL 117 

Sobro o ooncoito de raça, verbi grafia, a colobre escola, sup- 
poDho eu, confunde o sentido anthropologico cora o sociológico ; 
porque parece nao ligar importância ao primeiro e só admittir 
o segundo. Pigura-se-me Isto uma simples illusão francesa. 
Também n&o lhe acceito de todo a classificação dos phcnomenos 
sociaes, que me parece mais uma nomenclatura de problemas 6 
questões. 

Como quer que seja, os méritos da escola, a despeito desta 
ed'outras divergências, se me antolham preciosissimos para 
quem quer conhecer a fundo um paiz qualquer e a gente que o 
habita. 

Em primeiro logar, lança mão, para tal fim, de processos do 
acurada observação local, estudando em monographias espeeiaet 
cada região do paiz sob as mais variadas ftu^es, conforme ama 
enumeração de questões, que são outros tantos aspectos fanda- 
mentaes da vida social. Só depois de reunida grande massa de 
documentos do género é que os grandes mestres do systema se 
atrevem a formular quadros geraes desta ou daquella naciona- 
lidade e estabelecer as leis de seu desenvolvimento. Neste gé- 
nero í^ dignos de detida leitura os livros de Edmond Demo- 
lins, P. Rousiers, Poinsard e outros. 

A enumeração ou classificação dos problemas sociaes deve 
partir dos factos mais Íntimos e indispensáveis ã vida, sem os 
quaes nem a própria subsistência da gente a estudar seria pos- 
sível. Taes são os meios de existência, que so chamam logar ^ 
trabalho^ propriedade, bem moveis, salário, economias^ ou pou- 
panças. Entre estes seis grupos de m^ios de existência, que dão 
logar a variadíssimas questões, como se pôde vêr em Henri de 
Tourvllle,— La Nomenclature Sociale, ou cm Maurico Vignes,— 
La Science Sociale d^aprés les Principes de le Play, entre estes 
meios, dizia, e o modo de existência (alimentação, habitação, ves» 
tuario, hygiene, recreações) que vôra após, colloca-so assumpto 
dos assumptos, a questão da^J qiiostões,— a família. Esta é a 
base de tudo na sociedade humana ; porque, iMm da funcção na- 
tural de garantir a coatinuidado das gcraçõos successivas, 
forma o grupo próprio para a pratica do modo de existência, o 
núcleo legitimo da maneira normal do empregar cs rocuraos 



118 REVISTA DO INSTITUTO HISTOllICO 

creados pelos meios de viver. Em seguida, saocedem-se asphases 
da existência , o patronato ^ o commercio, as cultvras intellectuaes, 
a religião, a visinhança, as corporações, a ccmmuna, as uniões de 
communaSf a cidade, a comarca, a província, o Estado, a expansão 
da raça, o estrangeiro^ á historia da raça, a posição, a hierarchiã 
da raça. Ao todo viate o cinco grupes de factos o problemas so- 
ciaes. 

O estudo destea assumptos, no tempo e no espaço, tem dado 
logar a algumas conclusões estáveis. Desfarte, a humanidade 
mais ou menos em conjuncto tem atravessado três grandes 
edadcs sociaes :— a edade das producções espontâneas o dos ap- 
parelhos ou instrumentos manejados pelo braço ; a edade das 
machinas, movidas pelos animaesy pelos ventos, pelas aguas cor* 
rentes ; a edade do carvão de pedra, do vapor e da electricidade, 
applicados d producção das subsistências e ao serviço dos tranS" 
portes. 

As revoluções operadas na vida social por essas varias al- 
terações introduzidas no regimen do tral)alho são da mais 
considerável importância. 

A familia, estudada quer historicamente, quer na actuali- 
dade, apresenta quatro modalidades typicas, do maior valor 
para quem quizer oomprehendor a indole das sociedades a que 
servem ellas de base.— Uma sociedade vale pelo que vale nolla 
a familia. Os quatro typos são: familia patriarchal, familia 
quasi'patriarc7ial, familia-tronco (souche), familia-instavel^ aocei- 
tando as modificações feitas nas doutrinas do Le Play por seus 
discípulos. 

O velho mestre só tinha olassiíicado a familia em tros typos 
e acertadamente foi corrigido neste ponto. Eis a definição daa 
quatro modalidades, conforme Maurício Vigues : « A fumilia pa- 
triarchal ó aquella na qual os pais não pensam em preparar seus 
filhos para que elles venham a crear uma posição livre ; porque 
a extensão do solo disponível, o Araco crescimento da população 
e das necessidades permittem aos filhos ficarem na indivisão. 
Quando estas circumstancias, que facilitam a vida em commum 
nos domínios paternos, vêem a dcsappareoer, quando o numero 
dos casios, reunidos cm um mesmo sitio, fica fora de proporção 



o BRAZIL SOCIAL 119 

com a producUvidade das terras, ou da?» offleinas de trabalho, 
quando o equilíbrio entro as subsistências que estas produzem 
e a população que nellas reside é roto, 6 preciso que algumas 
famílias sedostaqaom. Lim.tase assim a familia patriarchal a 
cinco, ou quatro, ou três casaes e seus filhos. Um dia, sob o 
impulso das mesmas cansas, a familia se reduz a dois casaes,— 
o do pai e o do herdeiro escolhido para continuador. Estamos* 
assim, cm face da familia quasi-paíriarchal . A transmis^o 
integral da ofHolna de trabalho a um só filho é, neste caso, com 
effeito, um Ycstlgio da transmissão integral em proveito do 
todos; a transmissão individual substituiu a transmissão integral 
coUectiva. Os filhos que não herdam em bens, recebem sua 
quota em dinheiro ; mas como não foram criados com o pensa- 
mento do deixarem a terra natal, nada os prepara no sentido 
do vencerem na luta pela vida. Saliidos de uma communidado, 
continuam a contar com cila, a appelbr para cila cm seus 
embaraços c em seus desânimos. 

A familia-tronco f souche ) não ^, como a precedente, 
uma 1-oducrão da família patriarchal. As sociedades que 
t^m este género de familia por base, as sociedades de formação 
particularista^ se originaram nas costas da Scandinavia, cm 
consequência da invenção da barca a velas e das condições de 
iniciativa e isolamento impostas a essas gentes enérgicas pela 
pesca marítima. Tal familia funda-se na educação individua- 
lista dada aos filhos. Eita educação os leva, ás vezes, a aban* 
donarem o pai para melhor trabalhar, empregar melhor as 
próprias forçaa. A's vezes, um filho consente em ficar, sob 
a promessa de lhe ser integralmente transmlttida a oflflcina 
do trabalho. Outras vezes recusa ; porém, at(5 neste caso, a 
familia não perde o seu caracter fundamental ; porque o iso- 
lamento dos pais o a sahida de todos os filhos originam-se do 
desenvolvimento das qualidades de iniciativa e de coragem dos 
últimos e tendem ao progresso da actividade geral e das vir. 
tudos cívicas. Na familia-tronco, os filhos, collocados entre 
dois deveres, o do piedade filial e o de labor social, sacri- 
ficam o primeiro, em consequência, alias dos incitamentos dos 
próprios pais, que renunciam a guardar perto de si seus des» 



120 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

cendentes, reclamados pela pátria o pelo trabalho. E, pois, se 
o individuo yoluntariamento se desprende da familia ô para con- 
sagrar mais intensamente sua actividade ao augmeoto das ri- 
quezas e das forças goraes. 

Os hábitos, oriundos do espirito da familia, cedem o passo 
aos costumes impostos pelo devotameato á sociodade. 

Não é em tão boas razoes que se funda a família instável. 
Nesta faltam dois característicos ossenciaos, existentes na fa- 
milia precedente: falta a educação viril dada aos filhos; e, 
além disso, se não existe a transmissão hereditária integral, 
não ó porque os filhos recusem prestar-so a ella, por trazerem 
em si as largas esperanças e os vastos pensares, cuja realisação 
ô incompatível com o apego á profissão paterna, não ; é porque 
a transmissão integral se tornou, ou inútil pelo retalhamento 
da propriedade, ou impoasivel em consequência do influxo dis- 
solvente da legislação e do principio da partilha igual em bens. 
Se 08 filhos não ficam junto aos pais, ó que temem perder a 
liberdade, porque esse dever lhes pesa, e não porque os pais 
lhes aconselhem a procurar, ou lhes tenham ensinado a achar 
fora uma posição independente ; é, ainda, porque nenhum filho 
pôde contar com a transmissão integral em seu favor, em rasLo 
do estado de desmembramento excessivo das propriedades, ou 
da má legislação. A familia instável deriva, portanto, da falta 
de espirito familiar, da falta de domínios agglomorados e do 
principio da igualdade, em espécie, imposta por uma legislado 
retrograda.» 

Estes quatro géneros de familia, oriundos de certas e de- 
terminadas particularidades ethnicas e históricas o, muito de 
perto, de condições cspeciaes de logar, trabalho^ e propriedade^ 
dão origem a duas categorias de sociedades Iiumanas : as socie- 
dades deformação eommunaria (communautaire) e as sociedades de 
formação particularista . 

As sociedades de form ição eommunaria^ expressão esta que 
se não deve confundir com o termo communisla no sentido que 
hoje lhe dá certa ramificação do moderno socialismo, comprehen* 
dem as diversas variedades de gontes que procuram resolver o 
problema da existência, apoiando-se na conectividade, na com- 



o BRAZIL SOCIAL 121 

mnnhão, no grapo, quer da família, quer da triba, quer da 
classe, qnor dos poderes públicos, do município, da província, 
do Estado. As do formação particularista encerram as diversas 
variedades que buscam resolver o problema da existência, 
apoiando-s6 unicamente na energia individual, na iniciativa 
privada, e tira o nome do flucto de nellas conservar o parti-^ 
eular toda a independência em relação ao grupo. 

Pondo de parte as sociedades simples de caçadores e pesca' 
dores selvagens, cujo característico principal ô não ter família, 
as sociedades complexas, em cujo numero, abrindo a lista, devem 
ser contadas as gentes pastoris do Oriente e os pescadores pro- 
gressivos da Scandinavia, pertencem a uma ou a outra das 
duas categorias citadas. As communarias, que são em muito 
maior numero do que as particularistas^ apresentam três mo- 
dalidades typicas, conforme a espécie de í^milia que lhes serve 
de apoio: communaria de fàmilia, tendo por fundamento a família 
patriarchal ; communaria de familia e de Estado, tendo por base 
u fomilia quasi patriarchal; communaria de Estado, armada na 
familia instável. As duas primeiras predominam no Oriente 
asiático e onropôo ; a ultima no meio dia ocoidental da Europa 
e na America do Sul. 

As sociedades de formação particularista apresentam duas 
modalidades : ou dá-se a escolha de um continuador do patri- 
mónio o da officina de trabalho, o que, além da forte educação 
moral e do grande espirito de iniciativa, faz a sociedade re- 
vestir-se dum bello aspecto patriarchal no largo sentido ; ou, 
com a plena liberdade de testar da parte dos pai9, os filhos 
nem sequer pensam em lhes succedor, contentando-se com as 
qualidades de caracter que herdam. A primeira modalidade 
t corrente na Europa Scandinava, na Inglaterra, na Hollanda, 
na planície Saxónica; a segunda nos Estados-Unídos. 

Sob o ponto de vista especifico do trabalho, que vem a ser 
a grande mola que move e afeiçoa as sociedades humanas, 
cumpre não perder de vista que varias tem sido as phases 
atravessadas pela espécie, partindo ella do simples apanha- 
mento de substancias, que se prestavam ao alimento, e dos 
produçtos espontâneos da caça o da pesca, que demandavam 



i 



122 RFA'ÍSTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

rudimentares esforços, passando pela recoUa ou coUecta da arte 
do pattoreio o das producções fructiferas arbore.^centes, seguindo 
pela cultura maior ou menor, até chegar á cultura intonsa e 
vastíssima e ás industrias complicadas dos tempos hodiernos. 

Cada um destes géneros de trabalho, cada uma destas offl- 
cinas de producçSo, cada uma destas maneiras de agenciar os 
moios de existência trazia o traz consequências especiaes inde- 
léveis, difflcilimas de apagar, porque cilas constituem o subsíra- 
dum intimo das sociedades. 

Claro <3, por outro lado, que a humanidade, tomada em seu 
todo, ou considerada em seu conjuncto, não atravessou toda 
ella ao mesmo tempo e de parceria cada uma das phases de^sa 
gradação. As situações reciprocas dos povos divergem. 

A posição do Rrazil, seu verdadeiro estado social, escla- 
rocido com esto critério intimo dos elementos primários e es- 
senciaes da vida, ó que mo proponho a elucidar. 

Infelizmente só em traços largos e em linhas geraes ; porque 
um estudo regular e completo do Brazil, sob tal methodo, 
exigiria três ou quatro volumes, firmados em duzentas, ou 
trezentas monographlas... que não existem, que estão por 
fazer. . . 

Seria preciso estudar acuradamente, sob múltiplos aspectos, 
cada um dos povos que onti^ram na formação da na^o actual ; 
dividir o paiz em zonas ; em cada zona analysar uma a uma 
todas as classes da população o um a um todos os ramos da 
industria, todos os elementos da educação, as tendências es- 
peciaes, os costumes, o modo de viver das famílias do diversas 
categorias, as condições de vizinhança, de patronagem, de 
grupos, de partidos ; apreciar especialmente o viver das po- 
voações, villas e cidades, as condições do operariado em cada 
uma delias, os recursos dos patrões, o com outi*o8 problemas, 
dos quaes, nesta parte da America, d rhetorica politicante dos 
partidos em lucta nunca occorreu cogitar. 



o BRAZIL SOCIAL 123 

III 

03 FACTORES E SUAS ACHEGAS TRADICIONAES 

E porque a tal ou qual civilisação do que tanto hoje 
infaDiilmeute nos orgalhamos 6 no Brazil, em suas manifes- 
tações mais elevadas» producto transplantado, figura-se-me 
preferível, antes de dividir o paiz cm zonas para examinal-as, 
dar logo do principio noticia corta do estado social dos factores 
que constituíram as actuaes gentes braziloiras. Sâo antecedentes 
históricos, indispensáveis ao conhecimento intimo das gerações 
do hoje, principalmente se se tiver em vista penetrar na índole 
de tacs factores sob o aspecto social e não dar simples e incon- 
gruontes descripções dos usos externos, quo nada quasi adiantam 
e para nada quasi prestam. Outro critério, outro alvo, outro 
intuito devem trazer diverso resultado. 

No primeiro livro da Historia da Litteratura Brasileira^ — 
já alguma cousa âcou dita acerca do assumpto, sob um ponto 
de vista muito geral, e não no peculiar sentido especifico a que 
ora seallude. 

£* verdade, o eu não o ignoro, que o bom tom da critica, 
da historiographia, das dissertações politicas, de tudo, em 
summa, que se escreve no Brazil a respeito de cousas da terra, 
ó o do tratar o paiz e a sua gente como se isto aqui fosse feito 
de pedaços da AUemanha, da Inglaterra, da Suissa, da França, 
no que ellas contam de mais culto, do mais progressivo, de 
mais adiantado. Ao geral dos nossos escriptoros, das três ca- 
tegorias principaes que nos têm andado a illudir e a que já 
se fez mais de uma vez aliusão, este paiz nâo é o Brazil re.vl 
que o estudo e a verdade revelam, senão um Brazil phantas- 
magorico imaginado por elles para uso de seu incorrigível 
dilettantismo. 

Não pôde haver maior inconveniência aos olhos dessa gente 
do quo lembrar o incommodo problema das origens. • . 

Perturbar a auto-idolatria da sublime prosápia desses 
arjmnos puro sangue é, perante elles, praticar um acto da 
maior indisoreção, do mais accentnado desaso... 



124 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Em que peze, porém, ús alterosas pretenções desies despei- 
tados praguejadores, creio ser possirei ainda affirmar não ter 
sido a sciencia inventada para iisongear-lhes a vaidade ; tem 
ella outros desígnios. 

E* ainda licito, para conhecer um povo, sondar-Ihe as 
origens, mazimé se o problema a solver é o da exacta deter- 
mina^^de sna estructura social. 

Ou se admitta, ao que me parece mais aoertado, os dois 
slgniíioados diversos do termo raça, o anthropologico e o 
sociológico^ ou só se acoeite este ultimo, a questão ethnogra- 
phica ô a base fundamental de toda a historia, de toda a poli- 
tica, de toda a estructura social, de toda a vida esthetica e 
moral das nações. 

E, quando se queira reduzir toda a extensão do assumpto 
ao que se convencionou chamar de raça sociológica^ maior será 
a gravidade do problema ; porque maiores ficarão sendo as re- 
sponsabilidades dos que têm a seu cargo a direcção dos povos. 
Sim ; se o conceito de raça não pertence ã historia natural do 
homem, não é um phenomeno anthropologico, e, sim, mera- 
mente um producto da historia civil, um facto sociológico, 
vale isto afflrmar que a raça como formai, por assim diser, 
consciente do próprio homem, é um resultado de selecção vo- 
luntária, ô alguma cousa que se faz, que se prepara, que se 
dirige, que se aífeiçôa ao sabor dos desejos daquelles a quem 
mais de perto cabe a fúncção do organizar e dirigir. No pri- 
meiro caso, trata-se de alguma oousa de inconsciente, de me- 
cânico, de nec3ssario, cujos defeitos só mui lentamente, por pro- 
cessos adequados, ô possível muito de leve corrigir. 

No segundo estamos em face dum phenomeno histórico, 
humano, social, cujo processus ó susceptível de ser acompa- 
nhado com discernimento e convenientemente modificado ao 
«abor dos nossos planos, dos nossos desejos, dos nossos ideaes. 
Num caso, a vontade humana 6 quasi impotente ; noutro é ella 
o elemento principal o, se lhe não agradar o resultado, é por- 
que não soube ou não quiz tomar a sério a sua própria missão. 
Dos dois significados, pois, do termo, o de consequências mais 
jjravespara os directores de povos novos, como o brazileiro, é 



o BRAZIL SOCIAL 125 

exactamente aqaelle a que se apegam os preteaciosos que 
temem yer desfeitos oertos cálculos da vaidade em pyoà da 
realidade das fontes donde dimanam. 

E nSo é sem razão indicar aqui em prevenção aos incautos 
donde e quando proveio essa idolatria pela intitulada raça so- 
ciológica ou histórica em ódio ao vordadeiro sentido naturalis- 
tico da cousa. Foi de certo tempo a esta parte. Vários escri- 
ptores, e entre elles até os que no concoito anthropologioo da 
raça, como Taine e Renan, tinham feito repousar a base mais 
segura de seus estudos do linguistica, de critica religiosa, de lit- 
teratura e de esthetica, entraram a se desdizer e a reduzir o 
mais possivel o valor da originaria distincção das raças humanas. 
Era e ó evidentemente um capricho para encobrir e desculpar os 
defeitos nacionaes. Neste intuito tanto mais tem procurado en- 
curtar o valor do flsicto anthropologioo, quanto tem alargado o do 
facto histórico. Já alguns têm chegado a asseverar : não existem 
e atô nunca existiram raças anthropologicamente distinctas e 
livres de mesclas, têm existido o existem ainda hoje apenas 
raças historicamente formadas. 

Eis ahi a pretencão em toda a sua nudez. Aqui anda erro 
conscientemente arranjado e applaudido. Para chegar a isso pre- 
param de propósito a confusão e chegam ao ponto de, por so- 
phisma, para o desacreditarem, estender o conceito de raças 
aos simples ramos, simples garfos, meras variedades de um 
grupo ethnico qualquer, no claro empenho de, p3la exageração 
da cousa, mostrar-lho a sem razão. 

Nada disto, poróm, colhe perante a sciencia, severa em 
seus methodos e estudos. Falam-nos abusivamente de i*aca por- 
tugueza, hespanhola, francoza, italiana, alleman, ingleza, hol- 
landeza, noruegnense, sueca, flamenga, polaca, latina, grega... 
meras variedades da raça aryana, para, pelo absurdo, mostrando 
as condições históricas em que se formaram essas nações, entre 
si sempre emmaranhadas, chegarem ã negação do facto geral: 
a distinção originaria dos aryanos em face, não dos membros es- 
parsos do seu mesmo grupo, senão diante de semitas, 
uralo-altaicos, malaios, drawidianos, polynesios, negritos, afri- 
canos, americanos. 



12G REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O absurdo é patonto. 

O valor da historia, ninguom o contesta om bom juizo, na 
caldcação, diga-sc assim, das populações aryanas entre si o ató 
com populações mais antigas na Europa e na Ásia para a for- 
mação das nacionalidades em que veio a dividir-se a grande 
raça.— Hindus, Persas, Hellenos, Italiotas, Coitas, Germanos, 
SIavos primeiro, e, depois, francezes, hespanhóes, portuguezes, 
allemãeSfiDglezes, suecos, norueguenses, flamengos, hoiiandezes, 
russos, polacos — são, por certo, prodactos da historia, estes 
muito mais do que aquolles. 

Se historia, poróm, explica quasi por si só a formação de 
cada uma das variedades, por exemplo, cm que se dividiram os 
diversos ramos da grande raça aryana, já não consegue com 
igual facilidade dar o porque da distincçao dos alludidos ramos 
o muito monos a razão da diíTerença entre a citada raça e as 
outras raças inconfundíveis, que, com ella, formam oconjuncto 
do goncra humano. Sim, se 6 relativamente fácil mostrar, 
historicamente, como se formaram, verbi-gratia, as variedades 
do ramo latino, portuguezes, hespanhóes, francezes, italianos, 
já não 6 historicamente facll explicar porque Latinos e Germâ- 
nicos, Celtas e Hellenos, SIavos e Iranianos, Hindds o Ligures 
(admittindo que estes últimos sejam aryanos) se distanciaram 
tanto entre si ; o muito menos commodo é, pelo mesmo 
processo, dar os motivos da radical diirerouciação entro os 
Aryanos o os Malaios e os Negros d'Africa o os Polynesios. . . 
Este é que é o facto contra o qual não valem esconjuroSi 
despeitos e sophismas. 

A Aimosa acção da historia, por mafs que se tenha agitado 
o homem nos ultimes dez ou doze mil annos, que tantos deve 
haver desde a civilisação do Egypto, da Chaldôa, da Assyria, 
de Babylonia c mesmo da China, por mais que tenha destruído 
e misturado povo, não conseguiu ainda apagar as inconcussas 
verdades da Anthropologia c da Ethnographia. 

Pôde ser que ainda o venha a conseguir; mas, por emq^uanto, 
é cedo para falar nisso. . . Tal o forte motivo pelo qual ó neces- 
sário contar sempr3 em nossa própria historia, em nossa pró- 
pria vida com o factor ethnologico. A* espera da mais ou monos 



-i 



o BRAZJL SOCIAL 127 

pbaDtaslica extincçâo total das diíFereoças othnicas entro as 
Dações, a humanidado Acará talvez, não dez, mas trinta ou cia* 
Goenta ou cem mil annos, o ató lá a anthropologia terá sempro 
razão o direito de se fazer ouvir. Verdado 6 que, nos uUimos 
quatro séculos, depois quo os europêos correram todos os maros 
e terras o se arrogaram o direito do tomar conta das regiões 
que dizem ocoupadas por selvagent e gentes inferiores^ muito 
tem sido feito, na crença dos sonhadores, no sontiJo da indis- 
tiocçSo almejada. Olhando-so, porém, de mais porto para o 
íkcto, a grandeza do resultado ac roduz a bem pouco, porquanto, 
não conseguindo anniquilar o negro e o amarello^ poude apenas 
o branco desbaratar quasl por toda a parte o vermelho^ pondo, 
porém, cm seu logar, na America do Sul principalmente, um 
variegadissimo contingente de mestiços^ mais variados de cores, 
segundo a expressão de Quatrefages, do que a multidão de gatos 
que babitam nossos tolbados. . . 

Gomo quer que seja, e om todo caso, o tal processo do igua- 
lisação, ató onde ó possivol, é um processo de morto o anni- 
quilamento directo ou indirecto. O diVdcf o é posto em pratica 
pelos aoglo-saxonios, a gente colonisadora por excoUencia ; o 
indirecto^ que é o do cruzamento, foi e continua a ser mais do 
gosto dos ibero-latinos, o segundo grupo notável do gentes colo- 
nisadoras do Renascimento a esta parte. Pelo primeiro methodo 
tem desapparecido quasi geralmente os indígenas dos Estados- 
Unidos e de varias zonas da Oceania. 

O mesmo tentarão íazer, ahi com muitissimo menor êxito, aos 
negros d* Africa, logo quo a península osti vor quasi toda na posse 
de inglezes e aiiemãcs, iguacs os uUimos aos seus parentes 
neste particular. Não é que uns e outros destruam om directas 
e monstruosas hecatombes os selvagens ou os tratem peior do 
que 03 hespanhóes e portuguezes. B* que cream nos paizes sub- 
mettidos e conquistados uma ordem de cousas em que as raças 
inferiores não se podem manter. Prestam serviços, como animaes 
de earga, emquanto se formam as cidades, os canaes, as estradas, 
oi portos, a drenagem do solo, o desbravamento das mattas, as 
Unhas telegraphicas ; porém não cruzam, definham e morrem. 
Os restos que ficam, como os negros nos Estados Unidos, vivem 



128 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

debaixo da perpetaa suspeição, ilhados da popnlaçio branoa. B' 
o resultado a quo chegam, por via de regra, povos escuros em 
ccmtacto esobo domiaio direoto das gentes xantochroides do 
norte da Earopa. Esses belios exemplares hamanos de pelle 
alva, cabellos louros e olhos azues são iaconscien temente um fer- 
mento de morte para os pobres selvagens. Não assim os melano^ 
ehraide» do Meio^Dla. Estes são gentes de tez morena, cabellos 
pretos, olhos negros ou pardos, o são já, sem a menor duvida, 
resultado de misturas de brancos com berberes, altaioos, mongo- 
lóides e negros no imraenso laboratório circular do Medi- 
terrâneo. Inconscientemente, espontaneamente, sentem-se attra- 
hidos pelas Venos escuras das terras tropioaes. Cruzam oom 
ellis. B* um processo indirecto de riscar povos do livro da vida, 
apagando-lhes os caraoteristicos ethnicos ; mas ó mais humano e 
não digo mais meritório; porque não são cousas filhas de reflexão 
consciente. E este tem sido o caso dos portuguezes no Brazil por 
quatrocentos annos ; e ha de ser e está sendo em grande escala 
o dos italianos, que de S. Paulo, para onde principalmente têm 
convergido, hão de espalhar-se, já cruzados e integrados nas 
populações da terr^, por todo o planalto central do paiz. 

Emquanto, poróm, este ultimo facto so não dá, releva 
tratar de nossos fiictores ethnicos como elles nos são fornecidos 
pela historia e pela acção diuturna da vida durante os quatro 
séculos decorridos da descoberta ató a^ora: portugueus, indios^ 
e africanos. Eis ahi os três povop, anthropologica c ethnographi- 
camente distinctos, que nos têm vibdo a forjar, a amalgamar na 
incude e no cadinho da liistoria, cujo estado intorno o social 6 
preciso sondar, agora por methodo novo, para ser poesivei o 
exacto conhecimento da alma brazi leira de hoje. 

De nós outros é que se pôde dizer desde Já, e cada vez mais 
se poderá afflrmar no futuro, que vamos formando uma raça 
histórica^ em o sentido geralmente da'io a esta expressão. Um 
ft^agmento da bella e valorosa raça aryana, já de si muito desfi- 
gurado e constituindo um caso disso que se chama raça 
histórica,— os portuguezes, — alliou-se a duas raças, genni-* 
namente anthropologicas, completamente diversas e sob varies 
aspectos : indios americanos e negros da Afí^ica. 



^i 



o BRAZIL SOCIAL 129 

Releva ainda uma yez confessar, não ser igual ao que de- 
fendo o ponto de vista de Le Piay e seus continuadores neste de-^ 
bate. Assim como saa classiflcação social não se me antolha uma 
verdadeira classiílcaçSo de phenomenos sociológicos, senão uma 
bella serie^ uma excellente nomenc! atura de problemas e questões 
da scienciaf assim também me parece que não assignalam ú. dif- 
ferencia^o das raças humanas as causas verdadeiramente pri- 
mitivas e ílnndamentaes . 

Não ó que desconheçam essa differenciação ; é que apre- 
sentam como modificações do um typo único sob o influxo dos ca- 
minhos seguidos pelos vários grupos em que aquelle typo se 
Araocionou. Eis o que diz Ed. Demolins : «Laraoe n'est pas une 
cause, c*est une conséquence. La cause première, et decisive de 
la diversité des peuples et de la diversitâ des races, c*est la route 
que les peuples ont suime. G*est la route qui orée la race et qul 
tsj^ le type social» (1). 

Sim ; a raça ô uma consequência, mas consequência de 
causas multo anteriores e muiio mais fortes do que quaesquer 
caminhos. A diversidade das raças provém, creio eu : 1« do ap- 
parecimento dos primitivos grupos humanos Já do si diíferen- 
ciados em centros também divergentes ; 2* da permanência 
delles nesses sítios que operaram oomo consolidadores das diffe- 
renças nativas ; S^ as migrações posteriores que serviram para 
preparar as differenciações das variedades em que se vieram a 
fraccionar os Tarios grupos primitivos ; 4<» a permanência dila- 
tada dos emigrados em novos meios. 

As duas primeiras causas explicam as divergências radicaes 
das raças mães ; as duas ultimas as distincções das variedades em 
que se ftragmeniou cada raça primltíva. Os caminhos de Ed. De- 
molins, que se acham no terceiro grupo, com terem seria impor- 
tancia, não representam o principal papel no assumpto. 

Feitas estas reducções e expostos estes preliminares, é tempo 
de convidar o leitor a uma explicação mais directa do methodo 
de Bd. Demolins e de sua escola ao caso brazileiro. 



(1) Commeiit ia roato crée lótypj social, I, pag. Vlí. 
4323 — 9 Tomo lxix. p. ii. 



130 REVISTA Dó INSTITUTO HISTÓRICO 

E* mister começar pelo indío. Elle representa na popu- 
lação do paiz o elemento mais antigo, mais adaptado ao 6ólo« 
mais aclimado, mais conhecedor das varias zonas, mais nume- 
roso durante dois séculos; aquelle quo, a despeito do luctas pos- 
teriores, foi o arrimo primário a que se acostou o invasor, direi 
meliior, os invasoresi, porquanto, sendo já em 1500 constante o 
trafico de africanos e crescido o numero de escravos negros em 
Portugal, deve-se admittir a opinião de YarnLagen, o qual 
acreditava na vinda de gente desta procedência ao Brazil, 
desde a viagem de Pedro Alvares Cabral. Por taes motivos o 
Índio se me antolha como o leito sobre o qual se distendeu a 
população futura, ou, se quizerem, o velho tronco em que se 
vieram enxertar os elementos estranhos. 

O portuguez e o negro nSo destruíram senão limitadamente 
oselyioola americano. Cruzaram com elle. Assimilaram -no 
foram por elle assimilados. O drama dessa fusão, dessa dspla 
operação ethnico-social, até hoje mal descripto e mal compra- 
hendido pelos historiadores e sociólogos brazlleiros, será pa- 
ginas adiante esboçado. 

Os estudos americanos em geral, na Europa ou ao conti- 
nente, têm peccado todos por alguns vioios Intrínsecos q^e os têm 
corrompido e tornado ató agora perfeitamente inutei^ para 
dolles se tirar uma consequência qualquer. 

Os missionários e colonos intelligentes do século XVI, que 
deixaram noticias escrlptas dos nossos selvagens, eram dema- 
siado incompetentes para uma observação regular, capaz de sor« 
prehender os mais Íntimos factos sociacs o a fuodajnental psy- 
chologia dessas gentes rudes. 

E, todavia, 6 onde se encontram hoje as natações de mór 
valia acerca de tudo que lhos diz respeito. Fizeram meras des- 
cripções; mas nelles vae hoje o investigador sociólogo achar os 
materiaes mais ou menos adequados p^ra suas conclusões. 

Já não é o mesmo o caracter e o prestiqio dos escriptos dos 
colonos o missionários dos séculos XVilyB XVIIi. Inimisados, 
brigados uns com os outros, por motivo exactamente dos 
indi)s, seus relatórios, memorias, cartas o noticias, sobre o 
tbeina de suas desavenças e luctas, revestem as cores de estu- 



o BRAZIL SOCIAL 131 

dadas apologias oa desdenhosas caricaturas. E* mister nesso 
cahos respigar com parco afan o desconfiado critério. 

Os naturalistas e ethnologos do secnlo XIX, a despeito de 
todas as suas pretenções, nada mais têm feito até agora do que 
alguns estudos das linguas e dos usos e costumes mais ou menos 
exteriores, dos quaes têm precipitadamente feito brotar classi- 
ficações, classificações e mais classificações. Entendem elles que 
com aJgons róes de raças e linguas e de linguas e raças está tudo 
feito. E até os mais eminentes, como Martins, von Steinen, 
Ehrenrcieh, não saliiram d*ahi. Que dizer dos de segunda ou 
terceira ordem, como H* von Ihóring e E. Qoeldi?. Este ultimo 
era conferencia realisada em 1896 sob o pomposo titulo — £!srado 
actual dos conhecimeniofí acerca» dos Índios do Brazil^ — não sae 
do safaro terreno das classificações. Mas ahi mesmppommette 
o lapso de não citar Rodrigues Peixoto, que rocti doou a çlassi-: 
ficação de Prichard, Baptista Caetano, que corrigiu a de Hervás 
e de Martins. 

Fala, é certo, em Capistrano de Abreu, de quem dá apenas 
o nome, sem declarar que ello emendou a classificado de von 
den Steinen e ampliou4ho os estudos do bacahiry... E' gente 
quo ainda hoje se suppõe em mundo yirgem e em terreno por 
ella conquistado. (1) 

E* pena que esses naturalistas sejam tão alheios ás questões 
sociológicas. Ainda hoje pensam que, com o classificarem os 
Índios brazileiros om quatro grupos principaes, — Gês^ Ka- 
raiòas^ Nú-Aruacks^ e Tupis, ou em cinco, segundo Capistrano 
de Abreu, que a estes junta o grupo importantíssimo dos Ca~ 
rirySf está tudo feito. Completo engano. 

O reduzir a quatro ou cinco grupos, povos primitivos da 
Ásia, da Africa, ou da Europa, ou da Oceania, ou da America 
não faz caminhar um passo o saber positivo da humanidade*, 
nem esclarece n'uma linha os problemas sociaes. 

Ainda menos adiantam as impertinentes questões continua* 
damente levantadas pelos auctores brazileiros durante quasi 



(i) Vide Jioletimdo Museu Paraense, vol. 11, n. 4; dozombro do 
1898, pag. 397 e seg. 



132 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

todo O correr do secnlo XIX, a respeito dos gentioíi. Radaziam- 
se, por via de regra, ás seguintes: se houve ou não injustiça no 
modo como os colonisadores trataram os indios ; se estes eram 
Ott não civilisados ; quaes os meltiores processos para o con- 
seguir ; 80 iam em progresso, ao tempo da descoberta do paiz, 
ou estavam retrogradando ; se eram os donos da terra com 
direito de repeliir os invasores ; se eram ou nfto os genuínos 
representantes do povo brazileiro... Parece incrível que se 
gastasse tanto papel e tinta em discutir taes fi*ioleiras. 

Ainda em melados do século, os mais empenhados no debate 
nfto etam os medíocres escriptores da occasião ; eram os me- 
lhores talentos e as maiores illustrações, Gonçalves Dias, Gon- 
çalves de Magalhães, J. Francisco Lisboa e F. A. VarnhageD. 

' Os dois poetas tomaram o partido dos caboclos e os dois 
historiadores o dos portuguezes. Os themas discutidos foram 
èstes, seguàdo J. F. Lisboa, que lhes chamava importafUes 
questões. €08 selvagens, que os primeiros exploradores encon- 
traram no Brazil, eram um povo bruto e ferozt destituído de 
toda e qualquer virtude, ou degeneraram da primitiva grandeza 
e magnanimidade ao contacto da escravidão a que os sujeitaram! 
Eram ellcs proprietários da terra que pis9.vam, e — com direito 
exclusivo á sua posse, — tinham por ventura ode repeliir os 
invasores europeus que pretendiam turbal-a? Foi deveras uma 
desgraça para estas regiões que na lucta travada entre uns e 
outros, a victoria se declarasse pelo arcabuz e pela ospada, 
contra a flecha e o tacape ? 

Qual era a população provável do Brasil ao começar a oo- 
lonisação portugueza? Podia ella computai^-se por milhões? 
Foram os portuguezes que a ferro e fogo anniquilaram tantas e 
florescentes aldeias? A nação brasileira actual de qaemddBoende, 
dós portuguezes, ou dos selvagens ? Foram estes os que deram 
a base para o nosso caracter social ? Será a coroa da nossa pros- 
peridade o dia de sua inteira rehabilita^ ?» (U 

Taes os pontos esclarecidos por F. Lisboa em resposta a 
Gonçalves Dias, em 1854. 



(1) Obras do João Francisco Lisboa, íl, pag. idd; edicao deiddS. 



o BHAZIL SOCIAL 133 

Pouco depois, P. A. do VarnhageD, maU acaloradamente 
ainda quo o seu predecessor do Maraoh&o, debatia estes capí- 
tulos contra os selvagens: cEram os que percorriam o nosso 
território, & chegada dos christãos europeus, os seus legítimos 
donofl? Viviam, independentemente da falta do ferro e de co- 
nhecimento da verdadeira religião, em um estado social inve- 
jável? Esse estado melhoraria, sem o influxo externo que 
mandou a Providencia por meio do chriatianismo ? Havia meio 
de 06 reduzir e amansar, sem empregar a coacção pela forca ? 
Houve grandes excessos de abuso nos meios empregados para 
essas reducções ? Dos três principaes elementos de povoacãOi 
Índio, branco e negro, que concorreram ao desenvolvimento 
de quasi todos os paizes da America, que predomina hoje no 
nosso ? Quando se apresentam discordes ou em travada lucta 
estos três elementos no passado, qual delles devemos suppor 
representante histórico da nacionalidade de hoje?» (1) 

Eis ahi: parece odoscretear de preparatorianos em dicidir 
quem foi maior Alexandre ou Gezar, Annibai ou Napoleão. • . 

São debates sem alcance, insolúveis ou impertinentes. Não 
ó isso que havemos mister. A questão é uma só: qual o estado 
de cultura do indio, ou quaes as suas qualidades sociaes e como 
6 com que entrou na forma(^ do povo brazileiro. Tudo o mais ^ 
pintar n'agua. 

E o seu estado social tem de ser procurado no que é Ainda- 
mental na vida: trabalho, propriedade, família, organização da 
existência. A Sciencia Social chegou neste ponto a couclusões 
certas, cujo valor e veracidade tenho confirmado nos escriptos 
dai melhores autoridades oxistontos a cerca dos costumes dos 
selvagens brazilefros. Podemse eleger os principaes Gabriel 
Soares e Fernão Cardim, representando o quo hqk de 
mais selecto no assumpto em todo o século XVI, quando os 
chronistas diziam sine ira ac studio q que viam ; Francisco 
Lisboa e Adolpho Varnhagen^ symbolizando a sciencia brazileira 
de meiados do século XIX, principalmente naa investigações 
históricas em que ainda não foram excedidos: e, finalmente, 



(1) Historia Geral do Brazil, II, pag. XI; edição de 1857. 



134 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Cauto de Magalhães 6 Capistrano de Abreu, falando estes pela 
mesma sciencia nos ultimos annos do alludido século ; podem-se 
eleger, dizia estes notáveis espíritos, todos elles confirmarão as 
conclusões que vão ser ora referidas. 

Habituado a estudos do género, segundo o methodo de- 
scripto, habituado a sondar a organização social atravéz dos factos 
desconexos acòumulados pelos viajantes, com a simples leitura 
do livro, aiíás magnifico, de Crevaux, Voyages dans VAmérique 
du Sud, Edmond Demolins'chegou a este resultado, quanto aos 
selvagens desta parte do mundo, resultado aqui reproduzido, 
resumindo fortemente as paginas do illustre escriptor. 

Vamos agora apreciar, pondera elle, o ultimo gráo de desor- 
ganização social om que possa cabir a humanidade. 

O typo que nos vae olTerocer este espécimen é o índio das fio- 
restas da America do Sul. 

A região differe dos esteppcs e das savanas, sob o ponto de 
vista do clima e das producções vogetaes e animaes. O trabalho 
deve àhi estar organizado de modo divergente .Éo que se vae vêr. 
Nos solos fiorostaes, as populações não podem se entregar nem â 
arte pastoril, nem á caça em ponto grande^ a caça de animaes 
em numerosas manadas; não lhes resta como meio principal de 
existência senão a pequena caça. Tem-se a isto de juntar a pesca 
fluvial e a collecta de fructas selvagens, que são ainda uma 
espécie de caça. Gomo a arte pastoril, a caça e a pesca desse gé- 
nero são um trabalho de simples collecta^ attrahente, portanto. 
O attractivo da caça e da peaca devo ser ass^gnalado, porque 
mostra como, em certos casos, pastores podem facilmente se 
transformar em caçadores o mostra também a immensa difiicul* 
dade do transformar caçadores cm agricultores e industriaes. 

A caça não exige nenhuma previdência : a presa de cada 
dia fornece o alimento desse dia. Deve até ser consumida mais 
ou menos immediatamente, porque não pôde se conservar por 
maito tempo. Ê um género de trabalho, pois, acccessivel ao 
geral dos homens. 

Se por esses caracteres geraes a caça e pesca se parecem 
com a arte pastoril, differem delia por muitas condições essen- 
ciaes que modificam completamente o typo social. 



o BRAZIL SOCIAL '' 135 

1«. Superioridade da mocidade em face da velhice. — A cata 
o a preza da caça exigem qualidade eapeciaes: agilidade, dos* 
treza, força, qualidades estas que se encontram mais pecnii^ 
armente nos moços. Estes podem cedo bastar-se a si mesmos, 
o são levados a constituir vida á parte, afim do guardarem 
para si o fructo de sou trabalho o ezonorarem*se dos dereres 
d*assistencia para com os velhos pães. E um modo de trabalho 
que dá & mocidade a superioridade sobre a velhice: a aucto- 
ridado e a influencia passam dos pães aos filhos. 

^. Desenvolvimento do individualismo.— A arte pastoril con- 
serva juntos todos os membros da familia; a grande caça dos 
animaes em manadas, como o bisão, reúne ainda os homens; a 
pequena, a dos animaes esparsos, nem ao menos dá para formar 
os clans de caçadores, como entre os Pelles Vermelhas, Cada um 
tem, ás mais das vezes, interesse em isolar-se, em fazer a ca- 
çada por sua própria conta: qualquer caçador ô um concur- 
ronte. Esta tendência ao individualismo é ajudada pelas faci- 
lidades que a pequena caça offerece. O joven pastor não é 
tentado a separar-se da grande communidade patriarchal, 
porque não pôde viver som rebanho, nem arranjal-o facilmente. 
E\ pois, quando outros motivos não existissem, retido no lar 
pela difflculdade material de afastar-se. A auctoridade paterna 
é, deste modo, singularmente fortificada pela natureza 
das cousas. 

B' inteiramente o inverso entre caçadores ; os trabalhos para 
a collocação dos que se retiram são os mais elementares e 
menos custosos imagináveis. As habitações não passam de 
palhoças de páos e ramos, cobertas de palha. 

Os moveis, por causa das mudanças frequentes, são mais 
rudimentares. Os apparelhos de caça e pesca es^ no mesmo 
caso. Tudo os leva a separarem-se. 

Deve-se ter, porém, todo o cuidado cm não confundir esse 
individualismo amorpho o dissolvente, que deforma os sel- 
vagens, com o forte parlicularismo, que caracterisa os povos 
mais progressivos da terra. O primeiro reduz a sociedade a 
uma espécie de pulvorisação individual, o outro assegura ao par- 
ticular, ao cidadão — a maior somma de independência em feioe 



136 RBVI^TA DO INSITTUTO HISTÓRICO 

40 Estado, sem lhe retirar a aptidão para c&nsHluir aêsaciações^ 
quer na vida privada, qaer na vida pablica. A differença 
6 radical e não deve ser esquecida. 

2^, Limitação dos meios de emsíência , — A caca esgota-se com 
facilidade; a sabsistencia torna-se diíflcil e a questão da alimen- 
^ção transforma-ae em preocupagão grave. A incerteza dos 
paeios de existência dà aos selvagens um estômago particular- 
mente complacente. Podem âcar muitos dias sem comer e 
absorver depois, se a collecta é abundante, uma quantidade pro- 
digiosa de alimentos. Estas circumstancias fazem nascer as 
Çtierras incessantes de tribus contra tribus e, nalguns pontos, o 
cannibaHsmo, 

Nem ao menos podem elles, os selvagens desta parte 
America preparar e levar a eíTeito as formidáveis invasões em 
busca de novos céus e novas terras, pelas dií&culdades espe- 
çiaes do meio e mais ainda pela falta de cavallos e d*outros 
animaes deconducção. Volttam-se entíio contra os seus próprios 
similhantes. 

4<^. Necessidade e difficuldade das migrações periódicas.— A 
caça forca o selvagem a migrações periódicas. Tem elle de 
seguir 08 animaès em seus diversos esconderijos, ora afundando- 
se na matta para alcançar os claros e descampados onde se 
reúnem certos animaes, ora vindo á margem dos rios a pescar 
os peixes andadores, como o cumaru, ou recolher os ovos das 
tartarugas. Se, porém, o caçador ô obrigado a taes migrações, é 
lhe, por outro lado, diíficilimo leval-as a effeito. Bmquanto tudo 
é caminho na savana e no esteppe, tudo 6 obstáculo nas mattas- 
As veredas não são íi*anqueadas e a vegetação as toma rapida- 
mente impraticáveis. Por isso varias tribus tlcam muitas vozes 
sem relações entro si e encontra-se não raro um dialecto para 
cem Índios i 

Taes são as circumstancias que desenvolvem nestes selva- 
gens, mais ainda do que entre os caçadores de bisões e de bú- 
falos, um costume que mais accontila a desorganização da íámilia^ 
— o abandono dos velhos, dos doentes, das crianças, e, em geral, 
todos os que não se podem transportar focilmente. 

A despeito dessas dlfflculdades que assaltam de vez em 



o BRAZIL SOCIAL }37 

quando os eaoadores, elles preferem esse reinado atirahente daa 
prodaoQões espontâneas do solo e das agaas. Sontem repugnância 
inveneivel etu passar para o regimen da cultura o por isso só a 
mais elementar e que tenha os caracteres da simples collecta^ 
quasi t&o singela como a pesca e a caga, existe entre elles : a da 
mandioca, do milho, da banana, do inhame. 

Póde-se diaer destes selvagens que praticam vagamente o 
regimen da propriedade Wibál^ quanto ao sólo ; — da proprie- 
dade fomiliál ou grupai^ quanto á choupana (ou óca) e da proprie- 
dade individual^ quanto aos instrumentos rudimentares de tra- 
balho. Mas se o sólo é de todos, a extensão de percurso accessivel 
a cada grupo é restricta. 

Esta limitação provóm, em primeiro logar, das difflculdades 
da circulação que predem os caçadores em um território relati- 
vamente limitado, ^, em segundo logar, da natureza das pro- 
ducções espontâneas, que são susceptíveis de esgotarem» se 
facilmente, forçando os grupos a defenderem com energia contra 
ps visinhos o accesso de seu território de caça. 

A verdadeira propriedade do selvagem é a sua destreza^ sua 
forfia, sua agilidade, que são coisas exclusivamente pessoaes, que 
não se transmittem. A grave questão da transmissão da pro' 
priedade não existe. Nenhum laço, nem até material, liga as 
gerações entre si, tornando-as solidarias. O mão, o dissolvente 
individualismo triumpha. 

Tudo está mostrando que essas gentes, tendo ficado caçado- 
ras e pescadoras, não puderam constituir a família patriarchal, 
typo característico dos pastores. O excrcicio da auctoridade pa- 
terna ó obstado pela superioridade que a caça outorga aos moços 
sobre os velhos. A pulverisação do apagada e rudimentar 
fUmilia instável substituo a forte cohesão da família patriarchal. 
• Nesia a estabilidade é garantida pela perpetuidade em 
torno d*um mesmo lar, movei ou fixo. 

Não existe solução de continuidade entre as successivas 
gerações. 

Aqui é o inverso : a iociperfeita familia se dissolve perio- 
dicamente, fragmentando-se para se reconstruir momenta- 
neamente em torno de novos lares, tão pouco estáveis quanto os 



138 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

procedentes. NSo á mais uma arrore secular, é uma planta do 
vida ephemora. E* facto conhecido que os povos de famílias 
patriarchaes transmittem sucoessivamente as tradições e as 
lendas mais antigas do suas raças. Ainda hoje a lembrança de 
Timur, do famoso TamerlOo, ó viva debaixo das tendas ; conser- 
va-se em cantos repetido entre os Mongóes. N&o se dá o mesmo 
com os solvagens, que não tôm passado, porque seu lar é ins- 
atvel, não se presta á conservação e transmissão das velhas 
recordações da raça. Quem conhece as tradições dos selvagens 
da America, da Austrália, ou da Nova Zelândia? (1) 

Vê -se bem, por estes factos, quo a perpetuidade do lar con- 
stituo para as raças um solido fundamento de suas nacionali- 
dades. Os pacs em conservando junto a si até ã morte todos os 
filhos, ou ao monos um dellos, inculcam naturalmente o conjun- 
cto dos onslnamentos, das idólas, dos hábitos, das tradições que 
receberam polo mesmo modo. Cada geração se prende intima- 
monte a todas as que a precederam. Ck>mprehend6-se, sem que 
soja mister insistir, a que fica reduzida a auctoridade paterna 
n'um regimen que afasta tão prematura e tão completamente 
os filhos dos pães. A funoção do pae limita -se aos encargos maíii 
estrictamente indispensáveis : a procreação e os cuidados mate- 
riaes da infância ; a mocidade fica fora do sua influencia, a edade 
madura escapa-lhe de todo. A organização da família humana 
tende a modelar-se pela dos animaes. Os fílhos são pequenos 
selvagens alheios a quaesquer praticas .moraes ; a religião se 
reduz a superstições grosseiríssimas, ao terror dos mãos espí- 
ritos, cujo influxo se conjura com feiticeírlas o sortilégios. Este 
género de incipiente família instável acarrota oomsigo outra 
consequência grave: deixa sem refugio e sem amparo os orphãos, 
os doentes, os velhos, em uma palavra, os fracos, os incapazes, 
ao passo que o lar patriarchal esta sempre aberto para rooolher 
os inválidos da vida: podem nunca sahir ou voltar sempre em 
caso de infortúnio. 



(1) Os selvagens transmittem apenas de geração em geração in- 
significantes concepções mythicas. Posso amrmar, modificando cm 
parte as asserções de Demolins, 



o BRAZIL SOCIAL • i39 

A organisação dos poderes pttblicos é análoga á da família. 
Diverge, portanto, entre caçadores e pastores. Bntre esies o 
mecanismo dos poderes públicos ó concentrado na família; entre 
caçadores, desaggregada elia e reduzida & expressão mais sim- 
ples, ô Imprópria para prehencher as mesmas funeções. Nâo 
são os velhos, considerados incapazes, que poderiam assumir o 
pesado encargo de resistir aos incessantes ataques das tribu 
visinhas. Para isso ó mister ser moço, vigoroso, emprehen- 
dedor. O poder pertence aos mais fortes. Estes o exercem arbi> 
trariamento, como soe acontecer com toda auctoridade que re- 
pous:& na força e tem por intuito principal— a guerra. 

O poder 6 despótico e cruel; cada tribu ô organizada para 
a defesa e para o ataque, e deve estar prestes para o que dér 
o viór. E não é sem razSo que as tabas e ocas selvagens sao 
ornamentadas por horrorosos trophéos. O estado permameute 
de guerra desenvolvo a forma de auctoridade mais arbitraria ; 
a franqueza extrema, a instabilidade da familia tornam essa 
auctoridade invasora, o que não priva que tal poder seja 
também essencialmente instável. S* a força que faz os chefes; 
ó a força que os derriba: elles fazem tremer, porém elles 
tremem também. Todos os viajantes que visitaram os sel- 
vagens notaram esse traço de seus costumes (1). 

Este quadro é verdadeiro em suas linhas geraes. Mas duas 
considerações attenúam, até corto ponto, as suas cores, que 
poderiam ser mais carregadas: é que o illustre escriptor, de 
um lado, obedecendo ao preconceito da unidade originaria de 
todos os homens, vô nos selvagens da America do Sul gentes 
que, na origem, possuíram a. familia patriarchal, vindo a trocal-a 
pela instável no correr de míllenios em sua nova residência ; e, 
d*outro lado, conhece os alludidos alarves^ como lhes chamava 
Gabriel Soares, pelo livro do Dr. Greveaux, onde se acham 
descriptos os Índios já algum tanto cultos do plató 
das Ouyanas e do valle do Amazonas, em contaoto com 



(l) Les grandes Routes des Peuples(E8sai de Géographie Sociale)* 
—Les Routes de l'Antiquité, pag.s. 163 e seguintes. Fiz uma conso- 
lidação resumida. 



140 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

OS brancos desde mais de ires scoulos. Se Edmond Deroolins 
Dão fosâe fiel á sua preoccupaç&a inicial o conhecesse os sel- 
vagens pelo citado G. Sjares, por exemplo, ou Gardim, ou 
outros escriptores do primeiro século da cjoqulsti, haveria de 
vér que, no Brazil, muitos delles nilo passaram de meros a/xi- 
nkador^s; que não chegaram a constituir nem mesmo a família 
instavfil existente n*outras raças; que não Unham conceito certo de 
propriedade; que não formavam tribut organisadas e apenas 
simples grupos (tabas), subdivididos em clans rudimentares 
(óoas), tendo por base quasi indistincta promiscuidade o não o 
parentesco. O individualismo dissolvente era ainda mais accen- 
tuado do que pareceu ao sábio sociólogo franoez. 

Sua descripção, poróm, ó acceitavel como o retrato das 
raças mais adiantadas dentre os indios brazileiros (1). E como 
muitos dos traços de nossa psychologia nacional de hoje estão 
alli em garmen ! E como somos levianos em não estudar as 
nossas origens para conhecer donde partem nossos defeitofl e 
procurar corrigil-os ! 

E como somos superdciaes em buscar fora a fonte de nossos 
males, attribuindo-os aos governos, quando ella está em nós 
mesmos, o aqui todos dalto a baixo, governos e povos, provêm 
da mesma origem e padecem da mesma doença: o vicio origi- 
nário e oonstitaicional ! 

Mas não se antecipem factos e conclusões. Urge proseguir. 
B' tempo de apreciar o factor Africano, um dos elementos essen- 
eiaes e predominantes na formação brazileira. 

O negro acha-se nas mesmas condições do selvagem da 
America do Sul. «Le typedes chasscursdes forôts afrioaines 
doit ôtre placo h la suite du type quo nous venons de de- 
orire» (2). O inconsciente da historia ligou os dous typos no 
Brasil. . . Haverá nisto mero acaso ? Não o sei dizer. 

Se acerca dos indios tiveram logar pequenas discussões 



(1) D;âxo, para não sobrocarroprar demasiado estas paginas, de 
transcrever trechos comprobativos— do G. Soares, F. Varnhagen, F. 
Lisboa, Oouto do Magalhics o Capistrano de Abreu. 

(2) Demolins, op. cit. 



o BRAZIL SOCIAL 141 

algum tanto ingénuas, a respeito dos negros o silencio tem 
sido na sciencia do paiz absolutamente completo. 

Maita estranheza causaram em varias ródás nãoionaes o 
haverem a Hiitoria da Liiteraiura e OS Esiudos sobre a Poesia 
Popular Brasileira reclamado contra o olvido proposital feito 
nas lettras nacionaes a respeito do contingente africano e pro* 
testado contra a injustiça dahi originada. 

Entre nós, nos derradeiros tempos sobretudo, alguns espi« 
ritos, intelligentes, honestos e desabusados têm estudado os 
Índios sob vários aspectos. 

Dos negros 6 que ninguém se quiz j&mais oocupar, commet- 
tendo-se, assim, a mais censurável ingratidão. 

Qual a carta ethnographioa d* Africa ao tempo do descobri- 
mento do Brazil, época em que começou este]a importar escravos 
d*alem-mar? E no século XVII, que nos forneceu centenas de 
milhares de africanos? E no XVIII, que proseguiu fartamente 
na messe r £ no XIX, ató 1850, que se excedeu no terrível 
commercio? Qual então a classificação das raças, a situação 
politica de vários estados do continente fronteiriço ? Qual o 
gráo de cultura em que se achavam? Qual a organização social 
dessas gentes ? Quaes as tribus de que nos trouxeram captivos ? 
E em que numero ? Que lhes devemos na ordem económica, 
social, politica? Ninguém o sabe ainda hojel... Ninguém ja- 
mais quiz sabôi-o, em obediência ao prejuízo da côr, com medo 
de, em mostrando sympathia em qualquer gráo por -esse im- 
menso elemento da nossa população, passar por descendente da 
raça africana, de passar por mestiço L,. Eis a verdade nua e 
orúa. £' preciso acabar com isto; ô mister deixar de temer 
preconceitos, deixar de mentir e' rdstabelocer os negros no 
quinhão que lhes tiramos : o logar que a elles compete, sem a 
menor sombra de fovor, em tudo que tem sido, em quatro se- 
oulos, praticado no Brazil. 

E o que mais admira, o que é mais censurável, sem duvida* 

è que o não tenham já feito tantos negros intelligentes, tantos 

mestiços illustrados, que abundam em elevadas posições no paiz. 

Preferem, como os velhos que se pintam, illudirem-se a si 

proprioB: darem-se por latinos, celtas e creio que ató heUems, . . 



142 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Não pôde haver nada mais cómico. Sim; nada mais para 
fazer rir sobre a terra do que apreciar o aplomb com qne a mes- 
tiçada nacional, na soa immensa escala chromatica, em rea- 
niões, sociedades, congressos, grupos, academias, assemblóas, 
tropas de torra e mar, todo e qualquer ajuntamento, em summa, 
em que appareçam de cem brazileiros para cima, caso em que a 
proporção dos misturados para os brancos suppostos puros é 
sempre de noventa e cinco a noventa e novo por cento, nada mais 
cómico do que o sério com que a immensa mestiçada fabula de si 
própria pouco mais ou menos como se constituísse uma reunião 
de fidalgos anglo-saxões ou de antigos Eupatridas do mais puro 
sangue... Ah! Deus ! Quando se acabará essa cegueira e nosso 
povo, para seguir firme o seu caminho, tratará de conhecer suas 
origens sem illusões e sem preconceitos? 

Depois de proferido o citado rebate sobre o esquecimento 
em que sempre no Brazil se deixou o estudo de nossas origens 
africanas, appareceram uns pequenos escriptos na Bahia acerca 
de fêiticismo dos pretos daquelia zona e de alguns levantes que 
alli se deram, por elles promovidos, em fins do século XVIII e 
nas primeiras quatro décadas do século seguinte. 

Não deixam de ter algum interesse essas achegas para o 
conhecimento das alludidas origens ; mas, evidentemente, por 
esse caminho, iremos ter ás producções anecdoticas ao gosto das 
Já referidas a respeito dMudios. O que havemos mister ó co« 
nhecer, á luz dos novos processos da sciencia social, o estado 
exacto das sociedades africanas que enviaram representantes ao 
Brazil e a parte com que entraram na formação da nova nacio- 
nalidade aqui ftiodada. Esta ó a questão; o mais é esgrimir 
no ar. 

Felizmente, na falta do e3tudos brazileiros, existe o admi^ 
rave!, o magnifico livro de A. do Préville,— Lcs Sociétés A/W- 
caines ; leur origine — leur évolulion — leur avenir, que derrama 
uma luz intensíssima no assumpto. 

O auctor é um dos mais autorizados discípulos da escola de 
Le Play, um dos mais eminentes companheiros de H. de Tour* 
villc, Ed. Demolins, P. de Rousiers. 

O objecto do livro é como se fosse um assumpto estricta- 



o BRAZIL SOCIAL 143 

mente nacional ; e por isso é aqui resumido em saas tbesea 
capitães. 

O continente africano, espécie de pia giganU$ca^ como lhe 
chamava Livingstono, é nm plató alto cercado quasi comple- 
tamente por montanhas, próximas da costa. 

Divide-se em quatro regiões perfeitamente distinctaSt qae 
sao outras tantas ssonas sociâes igualmente definidas. 

Cada uma dessas zonas é o habibat de raças e sociedades 
divergentes. 

A seguir do norte para o sul a successao das regiões é a se- 
guinte, segundo as próprias expressões de A. de Próville: 

A zona dos Desertos do norte, que ô sêcca, onde a vegetação 
arborescente é qaasi nuUa ou pouco considerável; constitae um 
todo de vastos desertos ou csteppes mais ou menos pobres ; con- 
fina com a Ásia de que é nm prolongamento. 

A zona do planalto central, ou área equatorial, onde as 
chuvas quotidianas asseguram uma humidade constante, favo- 
rável ao crescimento das arvores, é um inamenso massiço de 
florestas luxuriantes e pantanosas, no qual abundam a grande e 
a pequena caça. 

A iona dos Desertos do sul, que reproduz a seccura crescente 
da do norte. 

E, finalmente, a zona montanJiosa, situada a leste, formada 
por um cmaranbamento de yalles florestaes e de cumiadas 
hervosas. 

Cada uma dessas grandes zonas se subdivide, sob o ponto 
de vista do clima, dos recursos da vida, e, portanto, do trabalho 
e da organização social, em varias regiões. De8t*arte, a dos de- 
sertos do norte que nSo interessa directamente a este estudo, 
por não ser habitada por negros e sim pelos brancos Berberes, 
divide-se em: região dos pastores cavalleiros, região dos pastores 
cameleiros, região dos pastores cabreiros, região dos pastores va* 
queiros^ seguiodo do norte para o sul. 

A zona montanhosa de lôste que merece peculiar attenção 
a quem estada as raças negras, por ser uma espécie de offieina 
gentium no continente preto, por ser o ponto alli primeiro po- 
voa lo por ellas e donde ainda hoje irradiam para oeste e sul, 



144 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

"posaao: — pequeninos plaiós liêrvosos^ próprios para a industria 
píistorilf terrenos de pastoreio artificial e cultura ; paragens ad^^ 
quadas d caça ; terras próprias para a eollecta de fiructos espon- 
tâneos do solo. 

A zoDa dos desertos do sol apresenta as seguintes modal i* 
dades: — savanas^ esteppes pobres ^ territórios de caça. 

A zona do eentro, que 6 a região da mata equatorial, mais 
pujante ainda do que a do Amazonas, que lhe ô fronteiriça, 
divide-se em quatro regiões distinctas: a da mandioca^ a da ba» 
fuxna, a do tocusso (èleusine)^ a do sorgho (dourah)^ do sul para 
O norte. 

Pondo de parte os Árabes, que se têm mettido na Africa 
pelo menos desde três ou quatro séculos antes de Ghristo, mais 
ou menos intensamente, o com assignalada aotiridade desde o 
século VII da nossa éra ; sem íàlar nos Europeos^ que, desde o 
século XV, têm fundado feitorias e colónias em suas costas ; 
excluindo os Egypdos e Berberes, contados entre as gentes 
brancas, ou quasi, e os Hottentotes^ que sSo incluídos entre os 
povos amarellos, os habitantes das três zcuas de Leste, Centro e 
Sul são pretos, ramificados em três grupos: Baniús, ChUúkes^ 
Bthiopes. Estes últimos se subdividem em Abyssinios e Oallas; pa- 
recem uma formação mestiça, devida a antiquíssimos crasa* 
mentos com os primitivos Aditas. Os Abyssinios, por sua posição 
próxima ao Egypto, e outras vantagens naturaes, civUisaram-se 
até certo ponto e escapam ás considerações feitas por A. de 
Préville sobre o complexo das gentes pretas africanas. Não 
assim os GcUlas e menos ainda os Bantús e ChUuhe».'- As 
raças negras, tomadas em coojuncto, mostram muitos pontos 
de semelhança com os indios do Brazii e diversos pontos de di- 
vergência. Entre estes avultam o facto de serem varias dellai 
dadas á industria do pastoreio nas regiões de leste e sul e o 
facto de se dedicarem algumas aos trabalhos agripolas. Póde-se 
atô dizer que o negro só deixa de ser pastor onde não p6do 
absolutamente dar-se a esse género de vida, na lona do centro, 
infestada pela í^mosa mosca tjsétzé, mortal aos rebanhos, e s6 
não exerce a cultura, onde é*lhe também impossível nessa 
mesma zooa na parte da mata, quasi impenetrável. Infoliz- 



o BRAZL SOCtAL 145 

mente o império da tséljtê orça por 10 milhOes de kilometros 
quadrados, um terço da Africa, igual à Europa inteira, e 8ó a 
extensão da intensa mata, sobe a cerca do um milhão do kilo- 
metros. 

Grande porção das gentss negras yive oircumscripta nestes 
limites, entregue á caça o a collecta, com todos os inconveni- 
entes próprios destes meios de viver, e, onde é possível, a um 
rudimentar cultivo do solo. 

O maior numero dos africanos vindos para o Brazil foi da 
zona typica snb-equatorial. 

Mas, acompanhando Préville, veja o leitor o caracter so- 
cial do preto, zona por zona o v&, desde já, reparando nos 
poDtos de semelhança existentes entre esse caracter e o do vá- 
rios grupos das populações brazileiras. 

Começando pela originalíssima região montanhosa de 
Leste, o primeiro núcleo de populações negras a despertar a 
attenç&o é a dos que se dão ao pastoreio nos platós cobertos de 
hervao. A vida pastoril, porém, nessas paragens está mui 
loDge de se paracer com a dos pastores nómades, organisados 
em famílias patriarchaed, do immenso esteppe central asiático, 
com a dos nómades do grande deserto do norte africano e até 
com a dos esteppes pobres dos bottentotes no sul do continente. 
Os pequenos platós hervados das' montanhas de Leste são dema- 
siado estreitos para darem logar ao regimen nómade, que é 
substituído pelo do mudança simples de pastagens óu retiros. 
Os francezes chamam a isto le regime de transhumance^ le pâ^ 
turage transhumantf c^est-d^dire qú*on établit deux stations pour 
les traupeaux, Vune d^hiver^ Vautre d'été, segundo as próprias 
palavras do autor que vou compendiando. Temos o facto 
entre nós em nossa enormíssima zona pastoril, que abrange 
todo o Brazil central, desde o alto norte nas margens do Rio 
Branco em o massiço da Guyana até á fronteira da Republica 
do Uruguay, com excepção apenas do corte produzido pelo Ama- 
zonas; temos o facto, muito commum principalmente na região 
typica que vai do Paraguaçú da Bahia ao Itapecurú do Ma- 
ranhão sem o termo technico. Em Sergipe, chama-se: mudar o 
gado de pasto ou de solti. ; em Minas diz-se mudar o gado de 
4323—10 Tomo lxix p. ii. 



â 



146 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

retiro, ao que me asseverou o Dr. Carlos Lindenberg, iiias- 
trado agrioaltor e oiiador estabelecido na cidade da Campanha. 
Em Portugal tradui-Be transhiumance por deamb%U€íção . 

Na vastíssima extensão do Brazil pastoril, porém, o pheno- 
meno se dá em escala muito menor e aem as oonseqeaencias acar- 
retadas peculiarmente em Africa na região de que se trata. 
Alli a &milia tende a tornarão sedentária em uma das resi- 
dências, ordinariamente a de inverno, mais própria para a 
conservação dos lacticiuios, e a enviar uma parte de seus 
membros com os rebanhos, quando estes se deslocam para a 
estação de estio. Só por este íkcto fica ella cortada em duas, 
pelo menos durante uma parte do anno. 

A posse dos pequenos platós tem sido desde os primórdios 
disputada, dando origem a perpetuo estado de guerra, man- 
tido peia estreiteza dos alludidos planaltos. B' mister manter-se 
a gente nelles contra os ataques de no70s invasores e oontra as 
reivindicações incessantes dos antigos possuidores esparsos nas 
\i8inhanças« Não ó só este estado de defensiva o resultado da 
residência nos apertados sítios ; ella estimula também ã offen- 
siva: não raro as pastagens se tornjkm insofficientes e ó preciso 
occupar as do visinho. O rebanho pelas epidemias reiu&se 
muitas vezes a nada: é necessário íkier a razzia nos mais 
próximos. Sob o influxo dessas necessidades de defeza e de ata- 
que,— um grupo se desprende da familia sedentária: ó o doã 
cofnhaitenteSf dos guerreiros, dos moços. B eis a offlciaa de tra- 
balho da familia dividida pelo menos em três offlcinas isoladas: 
a do pae^ que flca no ponto mais favorável das pastagens, o 
mais defensável; a dos pastores ou hraalde trabalho, composto 
de jovens de ambos os sexos« encarregados de vigiar os rebanhos 
nos pastos de estio ou de inverno ; a dos guerreiros ou kraal mi' 
litar, dedicado ã defeza do solo e ás expedigOes de razsias. Em 
tal meio a guerra é uma questão de vida o morte, ó um modo de 
trabalho^ O serviço das armas exerce sobre o grupo sooial pre* 
ponderancia irrecusável. A familia, o dan^ a nação são consti- 
tuídos para a guerra. Os meninos de ambos os sexos permanecem 
longe do lar ató ã idade de quatorze annos nos kraals de pasto- 
reirOf pertencentes ãs varias íiamilias . Quando o filho de um chofe 



o BHA^ZIL SOCIAL 1^7 

local^ am chefe de clan^ attíoge aquella idade, |em de eotrar no 
serviço da guerra, seguido de todos os seus companheiros á^ 
mesma idade. Cada ps^ d& a seu filho algamas cabeças de gado 
para seu uso pessoal, e todos juntos partem para o hraaf, occupa« 
dos yelosBl Morans ou Jovens guerreiros, da suWi visão. As pas- 
toras acompanhf^m ainda ahi os pastores: ficam com elles no 
hraal guerreiro, como dantes no hraal de gado, para os serviços 
domésticos e preparo dos alimentos. E eis ainda neste segundo 
pstado a mistura dos sexos, longe da rudimentar família, que fica 
sempre fora da formação da mocidade. O El-láoratp não exerce 
outro oficio além do da guerra. Suas armas, son escudo, sua 
tenda de couro, todos os sous petrechos são fabricados pelo Eh 
GonOf misero escravo, habitante das aldeias conquistadas, ao qual 
incumbem também todos os trabalhos, alóm d^^ gua^rda do rer 
banho do acampamento, e é conservado na mais complatã^ ab- 
jecção. O joven soldado não ficii ocioso, O campo movei não é res- 
guardado ppr nenhuma fortificação; sua segurança repousa na 
vigilância das sentinellas regularmeate coUocadas. 

No intervallo de suas horas de gu^^rda o M-Moran deve 
aprender a melodia selvagem do canto de guerra, escutar em 
silencio intermináveis discursos, ou íazel-os, se lh*o mandam; 
aprender em manobras mothodicas nas cercanias do acampa- 
mento o man^o das armas, e, sobretudo, instrair-a^ na graQ4e 
arte de furtar com destreza os utensílios, o marfim, ou os re- 
banhos. Este ponto é capital; porque se se deixa agarrar, sua 
cabeça, fincada em uma estaca, virá a ornar a portt^ de uma 
aldeia inimiga. Os bandos, sempre ambulantes dos El-Morant^ 
servem de gns^ição ao paiz; espreitam todas as passagens, que 
os soldados conhecem admiravelmente por tel-as percorrido, 
quer effeoti vãmente no correr das expedições quer pelos olhos 
do alto de algum cumis elevado. Cahem t^es bandos de improviso, 
ao sul, á leste e ao oeste, nos pontos que o grande conselho, as- 
sistido pslo grande niagico ou Jjybon^ designa como objectivo d§iS 
raxzias, ou, quando chamados em socorro, mediante salário, por 
algum chefe de sua raça, residente em terras afastadas, intervêiqi 
em seu £avo^ eontra os rivaes sustentados por outro^ ))^ndos, 
formados pelo mesmo mod«AQ* 



148 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Quando a raszia é bem saccedida, ou o salário em rezes é 
pago ao bando, trata-se da partilha do espolio, tiradas de an- 
temão numerosas cabeças de gado em proveito do Lyhon^ o ma- 
gico, oiyos conselhos são tão preciosos. A divirilo do restante 
oocasiona brigas sangainolentas. Os valentões, os insolentes, 
consultando apenas a própria avidez, apoderam-se dos animaes, 
segundo sua conveniência e desafiam os companheiros a vil-os 
tomar. A regra é que se, contra, todos conseguem defender du- 
rante três dias a preza, ella não será mais disputada. E* então 
que se dão as verdadeiras batalhas. 

Sucumbem mais guerreiros nestas desavenças do que du- 
rante a sortida em terra inimiga. 

Matar, porôm, por este modo é permittido; porque todo o 
homem que nâo sabe garantir a sua pelle, não merece senão o 
esquecimento. 

Sorprehende-se aqui a profunda differença existente entre as 
raças originadas dos pastores nómades e as formadas nos pe. 
quenos platós hervados. O logar do patriarcha está vasio e a 
partilha, fim natural das operações da communidade, effectua-se 
com a força do braço. 

Foi do rebanho do pae que os El-Morant tiraram a primeira 
subvenção em gado, necessária á sua administrado no acampa- 
mento; é, em troca, o rebanho paterno que se enriquece com os 
animaes capturados por seas filhos, ao menos em grande parte. 
Contribue, desta arte, o emigrante militar para conservar o lar 
donde sahio, viveiro de guerreiros, atô á morte do pae. Quando 
esta se dá, o mais velho, o mais antigo dos El-Morans sabidos 
de casa, é chamado ás pressas e toma posse da suocessão que lhe 
toca inteira. Sae com saudades da corporação militar, casa-se 
logo que chega a sazão em que nascem os bezerros. B' um caso 
de iransmisião integral do património^ bem diverso, porém, do 
que se dá nas íkmilias patriarchaes em que persiste a indivisão 
para todos, passando ao mais velho apenas a autoridade moral^ e 
também divergente do que se dá nas fumUias — troncos, base das 
sociedades de formação particularista , nas quaes o herdeiro é 
antes associado d gestão, é um escolhido por certas qualidades. O 
pastor dos pequenos planaltos não conhece seus filhos e nenhum 



o BRAZIL SOCIAL 149 

destes é preparado para a succesinLo; porque as officinas do ira- 
halho em que elles se formaram s&o alheias & direcção dos 
cheíbs de fomiliar A razão que limita a um só o numero dos 
herpeiros ó uma idôa de lucta constante contra os visinhos para 
a.conserYação dos pequenos platós de pastagem, id^ inspirada 
pela própria estreiteza desses platós. 

Neste género de sociedade, nesta espécie de paizes de re- 
cursos limitados, importa limitar também o numero dos oasaes 
estabelecidos no território. As noiras são compradas por nm 
certo numero de vaccase o costume tem estabelecido que, até & 
morte do pae, os filhos não as podem possuir como próprias, o 
que retarda ató lá os casamentos. 

Ck>m o systema de vida em commum para a mocidade dos 
dois sexos* o ^ií-iforan acharia mulher grátis; mas os filhos 
oriundos desta união, os bastardos nascidoii nos hroids de guerra» 
pertencem ao pai da mulher. A casa que se quizesse assim 
ítindar seria um lar sem filhos, e, portanto, caduco ; seria em 
proveito do ayó materno e de seu futuro herdeiro que os moços 
trabalhariam, quer dizer pilhariam no futuro ; seria elle que 
receberia o preço do casamento das filhas. Em taes oondlções 
pode-se praticar a união livre, mas não o casamento, o au- 
gmento normal dos lares estabelecidos, direito que pertence só 
ao filho mais velho e só pela morte do progenitor. 

O primogénito, uma vez transformado de El^Moran em 
EI^Morua^ em chefe de casa e seohor de rebanho, não sonhara 
mais com proezas pessoaes ; seu cuidado será multiplicar, com 
o rebanho, o enxame de defensores do solo e roubadores de 
gado. Tendo vivido, oomo se viu, longe das vistas do pae, num 
meio turbulento e brutal, não recebeu nenhuma formação 
moral, nenhuma tradição: não aprendeu a honrar senãoa íorça 
material e a coragem feroz. 

O antigo chefe da familia, que não tomava mais parto na 
guerra, morto de moléstia ou velhice e não no brilho da força, 
em meio de façanhas, n(U> preitava mais para nada» Por isso não 
obtém as honras fúnebres, reservadas aos heróes cabidos na 
lucta. O herdeiro toma nos hombros esse cadáver, que nenhuma 
aureola ennobrece, e o lança fora do recinto da casa atraz do 



150 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

oorral dos animaes. Depois as hyenas e aves de rapina deixam 
alli apenas alguns ossos limpos em qae o caminhante dà com o 
pó, oa que os meniaos do hraal, rindo, atiram uns nos outros 
em seus brinquedos. 

Nos lares desses montanhezes, pois» desorganisados pela 
guerra, não existem respeitosas tradições firmadas na memoria 
dos maiores ; nâo existe culto domestico, religifto na íkmilia ; 
e, como ó mister ao homem um culto, o poYo inteiro entrsgar- 
se-á ás superstições da magia, é, influencia dos Lybons ou faxe* 
dor9s de chuna^ que se gabam de poder refk^escar & Tontade ai 
pastagens, impedir a mortandade dos animaes, predizer a tí- 
etoria ou a derrota. 

Que contraste pasmoso com o typo patriarchal, existente 
entre os pastores nomadesl Que diflérença entre esse patriarcha 
sempre presente^ formado no lar pelos antepassados, revestido 
da autoridade tradicional» afeiçoando seus desoenduites ao 
molde de que eile mesmo é um exemplo e este El Morua, cujos 
filhos e filhas correm aventuras ao longe e crescem debaixo da 
dirocçfto única dos camaradas, tomados por chefes por causa do 
vigor do seu braço! 

Que difEérença entre o antepassado reverenoiadOv ao qual, 
vivo ou mortO) se dirigem os signaes do mais absoluto respeito, 
a inclinação, Siprostação e este chefe de hraal que sou herdeiro, 
naturalmente, sem o mais leve remorso, vae atirar á estrada! 

Donde nasce esta opposiçfto tão completa nas idéas e nos há- 
bitos? Provêm em grande parte de uma simples difliérença na 
organisaçfto do trabalho, da separação completa, nos pequenos 
piatós em questão, entre a offlcina de trabalho dos filhos e a 
do pae. Mas para dar a explicação completa, do ultimo flMsto que 
é puramente africano, é forçoso admlttir a ausência de tradições 
patriarchaes anteriores no seio da raça que povoou aqnelles 
sitios e nellesJ4se entrega á industria do pastoreio transhu- 
mant» 

Resta examinar a sorte dos filhos mais moços^ por occasião 
da morte do pae, quando o mais velho toma posse do rebanho. 
Biles, os irmãos mais moços, nada podem pretender na sttcoessão ; 
porém dahi por diante todo o gado conquistado por elles lhes 



o BRAZIL SOCIAL 151 

pertencerá. Ficarão ainda algrom tempo em serviço, reunindo 
recarsos, aguerrindo-se cada vez mais, tomando sobre os sens 
jovens camaradas uma inâuencia crescente. Quando jnlga a oc- 
casião opportuna, o vete /ano entre elies, e com o recarso dos 
companheiros d^armas, desce das alturas, condaziodo diante de 
si seu pequeno rebanho* 

Levando suas boas amigas, toma uma direc^ já segnida 
por seus predecessores e invade algumas aldeias das terras 
baixas, onde os negros, expulsos em épocas passadas das alturas, 
vivem da eollecta e de exigua cultura. Impõe tarefas e tributos 
para sustentar seu gado, suas gentes e a elle mesmo; toroa-se 
senhor do solo, toma o governo e ítinda, desVarte, uma dessas 
chefarias de aldeia encontradas por toda parte n*Afrioa pelos via 
jantes, desde as bases das montanhas de leste até ao divisor 
das aguas do Congo. 

Uma vez estabelecido, esse invasor tenta aoorescentar seu 
império pelo commercio e pela guerra, pela politica, pelas ali- 
anças com os chefes visinhos da mesma raça e os bandos de seus 
antigos camaradas. Tal é a origem de um grande numero de reis 
negros^ de quasi todos aquelles que são senhores de aldeias com- 
prehendidas na zona montanhosa e mesmo dos que se encontram 
até ao coração do plató central, ainda de posse, em signal de 
nobreza, e a detpeito das difflonldades do logar, de alguns ani** 
mães que se tornam quasi selvagens. 

Bsses chefes implantam-se âtcilmente no meio das popii<* 
iaçOes das terras baixas, porque estas populações são oompUta- 
mente desorganisadas sob o ponto de vista social, porque a con* 
stituição da família se acha nellas inteiramente arruinada, em 
razão das mudanças a que foram forçadas, das conquistas que 
soffreram; ao passo que os emigrantes dos pequenos platóe her- 
vosos sahem de um dan mais ou menos solido, estão, pelas oir- 
cumstancias afeitos a uma disciplina seria. Esses chefes, im- 
postos pela força, são considerados como senhores, por direito 
de conquista, da região sobre a qual se extende sua acção. Não 
constituem, porém, a propriedade privada do selo, desconhecida 
em suas pastagens. Usarão do poder para fazer respeitar o ter- 
ritório, para manter nelle uma certa ordem proveitosa a seus 



152 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

iotoresses, para compelir o povo ú, cultura, se a collecia e a caça 
não forem sufflcieates. 

Não recuarão diante de nenhuma repressão sanguinária, de 
nenhuma explosão barbara. Não podendo mais roubar gados, 
farãoirazzias de escravos. Não se aoham no caso de ensinara 
seus súbditos as qualidades que não receberam em sua edu- 
cação: o respeito da mulher, a autoridade paterna, a compaixão, 
o culto privado. Sua corte sorá dissoluta, seu governo absoluto 
e feroz; a influencia dos feiticeiros serã para elles omnipotente, 
o trafico dos escravos se organisarà sob sua direcção. Tal é 
quadro geral da África negra, Jã desde essas mais adiantadas 
gentes da região montanhosa de leste, quadro que se vae 
cada vez mais tornando escuro, á medida que se vae eston- 
dendo ás populações das outras zonas, ainda mais desorga* 
nisadas. 

K este ó o caso dos habitantes das regiões baixas, visinhas 
dos pequenos planaltos hervosos, que o autor passa a examinar 
por meudo. Não o acompanharei nesta excursão, altamente in- 
strnctiva, porque mais urgente é o estudo das gentes do sul e do 
centro, d'onde ao Brazil veiu a môr parte dos africanos impor- 
tados. Limito-me, sempre com Próville, seguido quasi pelas 
mesmas palavras, a dizer que as populações das terras baixas vi- 
sinhas dos planaltos de pastagens foram d*alli repellidas e for- 
çadas, em novos sitios, a trabalhos diiferentes dos do pastoreio, 
vindo a soffrer uma tríplice deformação: a primeira pela neces- 
sidade de submetterem-so a chefes militares; a segunda, como 
vflneida?, pekt privação de seus meios primitivos de existência ; 
a terceira sob a acção de novos modos de trabalho impostos 
pela natureza dos legares que as receberam após a derrota. A 
caça, a collecta de fructas, a cultura impuzeram-se-Uies, con- 
forme a natureza dos Jiabitats. 

Mas nem todos os repellidos da grande região do Leste, 
ponto inicial dessa vibração que põe, segundo a phrase do autor, 
em movimento e desloca perpetuamente as populações negras, 
como o comprovam todos os exploradores, têm íicado nas re- 
giões baixas visinhas. 

Muitos se têm dirigido para o Sul ou para o Oeste, onde os 



o BRAZIL SOCIAL 153 

seus destinoi tôm sido assas diyergentes, conforme as novas re* 
sidencias. 

Deste numero sâo as gentes, que formam o grande grupo 
ethnico denominado Baniu, das quaes provieram em mór escala 
09 negros passados ao Brazii, não s6 Bantús, do sul« como do 
centro. 

Nas savanas da zona meridional âsaram-se mais ou menos 
muitos grupos desses emigrados, que são geralmente denomi- 
nado Ca/re^, cujos principaesrepresentaotes são ^ti/ús, Mauhdesj 
Makololos, Beihcuanas^ Damaras^ Eerreros, Ovambos, Amboellas 
e outros menos famosos. 

Jà de si desastradamente organisados no seu remotíssimo 
viver nas altas regiões de leste, ainda mais imperfeitas são as 
linhas geraes de seu estado social nas bellas savanas do sul 
africano. 

As deformações aocentuaram-se notavelmente no correr da 
longa o morosisaima retirada através das hervagens das mon- 
tanhas. Para resistirem aos que os impelliam a sahir, para des- 
locarem-se e pôrem-se em marcha em boa ordem, salvando os 
gados, para abrirem caminho em meio de populações hostis que 
era mister desalojar de posições de difficil acoesso, os actuacs 
habitantes d'Africa austral foram obrigados a submetter-se cada 
vez mais a uma disciplina militar implacável. O que se chama 
a sociedade civil, da qual o casal do chefe da família, do El» 
Morua, é uma representação, como se viu, foi nesses pobres emi- 
grados absorvidos pelo commando militar absoluto. 

Estes grupos não se podem mais denominar nem famílias, 
nem clans, nem tribus: são, como dizem os missionários do 
Zambeze—, regimentos. Os chefes locaes são Indunas ou capitães. 

Só elles, e isto raramente, são consultados pelo rei ; formam 
um consaho de guerra^ que julga os delictos e só applioa duas 
espécies de penas: a mutilação o a morte. 

Quando uma sociedade, pondera o auctor, que vou seguindo 
quasi literalmente, se transforma a esse ponto, quando todas as 
suas forças vivas so concentram nas mãos dos que governam, 
sendo estes puramente militares, é que ella atravessou circum- 
stancias, nas quaes a íUmilia se tornou insufAciente para ga- 



154 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

rantir aos seus membros a satisfaçSo das primeiras neoessi- 
dades: o pão quotidiano e a segurança da existência. Compre- 
hede-se, sem esforço, a dificuldade que se mostrou, desde o co- 
meço da longa migração, para conduzir separadamente os re- 
banhos pertencentes a cada El^Morua ou chefe de fi.milia; for- 
çoso era jantar os animaes em um só comboio que os bandos ar« 
mados pudessem proteger. 

No fim de longos prazos de jornadas e lactas, era impossível 
proceder a partilhas e especialmente repartir ae perdas^ consi- 
deradas como soflfridas por todos. 

De tudo resalta a neoesssidade de formar series de rebanhos 
eommans, cujo admnistrador é o chefe de guerra, o que ordena 
os moTimentos e deve assegurar a alimentado dos combatentes. 
De6t*arte, pòie^se dizer que se achavam invertidas as posições: 
na montanha, como se viu, os rebanhos conseguidos pelos kraals 
de guerra, pelos diversos El^M&ruas iam engrossar os rebanhos 
dos chefes de familia, dos diversos Bl^Moruas ; agora é o con- 
trario: subsiste só o rebanho pertencente ao campo de guerra, 
engrossado pelos rebanhos particulares dos chefes de casa. E* 
uma transformação radical, prenhe de consequências graves. 

Despojado da gestão, que era sua funcção própria, o chefe 
de fámilia retoma a lança, entra na fileira e vae perdendo aos 
poucos suas qualidades de previdência postas em pratica em 
tempo do pastoreio deambtdante^ e agora inúteis no meio de um 
verdadeiro regimento. Só ao envez disso, o chefe encarregado 
de tudo dirigir, de fazer viver toda a partida, conserva essa qua- 
lidade da previdência. Ck)ncentra em suas mãos os interesses de 
todos, dirige o rebanho e reúne em torno de si as mulheres que 
se encarregam da manipula^ do leite. Este chefe toma-8e« 
além de patrão gerais um director do trabalho ; toma-se, por 
isso, muito poderoso, conserva a hereditariedade em sua fkmi - 
lia, á qual, e só a ella, as oircumstanclas conservam a idóa de 
previsão e de governo. B assim a raça de pequenos patrões 
com suas casas independentes dos pequenos platós hervosos 
chega aos pastos da zona do sul transformada em regimento^ 
com um pequeno numero de capitães hereditários, senhores 
de tudo» dos guerreiros, das mulheres, dos rebanhos... 



o BRAZIL SOCIAL Í 5S 

Nas pastagens mais uniformes da Africa austral acbam-ae 
mudadas as condições do trabalho, ao mesmo tempo que o oa^ 
racter da raça. 

O regimen de simples deambulação {transhumanoe) Já nSo é 
mais possível para o gado, porque a alternativa das estações 
9Qcci9k e hnmiáA prodvt ao mesmo tempo as mesmas modificações 
na região inteira. A Tida nómade, qual a praticam os moradorw 
dos desertos do norte, ó impossível ao caflra, como Já se disse, 
porque a existência dos pastores nómades, mongóes, semitas, 
berberes ou aryanos, hontem como hoje, suppõe o laço patri- 
archal na família e na tribu, o respeito das tradições, dos maio- 
res, a autoridade dos anoiios, a solariedade baseada no paren- 
tesco, cousas todas estas que Jamais ot negros possuíram, nem 
até nos famosos platôs da região montanhosa de Lesta e ainda 
menos, se é possível, nas regiõe» do sul e do centro. 

O capitão nao ó um patriarcha; é um explorador e um do- 
minador íbroz, que usa das qualidades de um mando que poude 
conservar, não como pae devotado, sim como senhor interes* 
seiro e implaeaTel. 

Seu regimento é para elle uma cousa que lhe pertenee, 
não é sua fttmilia. 

8e as grandes migrações são interdietas aos poTos cafres, 
em virtude de sua constitui^ social, se o pastoreio deambu- 
lante, que corrige a desigualdade das estações, lhes escapa, 
forçoso lhes á o reduzirem seus rebanhos ao numero minimo 
de cabeças que a terra pôde alimentar na esta^ secca, a mais 
desvantajosa. Não se pôde, pois, viver exclusivamente de gado 
e deve-se recorrer á cultura^ aliás fooil e remuneradora pelas 
condições favoráveis do clima. 

Os pastos são, em geral, nas savanas do sul limitados por 
espaços inflBstados de abrolhos e espinhaes ou por verda 
deiras florestas que tornam as eommunicações difflceii de uns 
para outros. Cada dan habita separadamente as vastas ilhotas 
aptas ao pastoreio. Retida pelas fronteiras naturaes e pela re- 
sistência dos visinhos, a oabiida tornvse sedentária e entrega-se 
á cultura. B como a guerra ô constante nas fh>nteira8, entre 
essas gentes arregimentadas, todo homem é soldado, o que vale 



156 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

dizer, que á malher incumbe o trabalho da terra. 03 bomens, 
nos intervallos dag expedições, passam os dias a fumar e a beber 
em roda do kraal e das cabanas do capitão, A mulher Tem a ser» 
desta íórma» o verdadeiro trabalhador e productor entre os 
eaí^es. 

Ora as necessidades das primitivas retiradas guerreiras já 
tinham grupado as mulheres era torno do chefe e sob a saa 
direcção. 

Comprehende-se que esse mandão poderoso reclame o 
maior numero possível de taes trabalhadores. Nas expedições 
de guerra — não se captura somente o gado do inimigo, 
leva-se também uma parte da popula(^o. Os homens^ são 
massacrados, salvo os que podem fUglr a tempo do campo de 
batalha; as mulheres tornam*-se escravas; os flihos, levados com 
ellas, reparam as perdas que os continues combates infligem aos 
vencedores. 

Os meninos/ criados no exercito, tomarão nelle logar mais 
tarde ; as meninas serão mais tarde desposadas pelos Indunas 
(capitães), ou pelo rei. Até doze annos todos os meninos, nas- 
cidos na tribu ou tomados de íóra, são alimentados exclusiva- 
mente de leite. Desde que podem andar, vão duas vezes por dia 
todos Juntos ao kraal do capifâo, e sob a inspec^^o deste ofll- 
oial, tomam por si mesmos sua refeição nas tôtaj das vaocas. 

Só por este traço tão característico póde-so avaliar o que 
resta da família ! . . . Um capitão do bando a substituo nas Ain- 
cções mais necessárias e mais intimas !... Tome-se nota do facto. 

Acima desses capitães de bando^ origem certa de nossos ca- 
pUães de matto eáe muitos outros mandões^ que sempre infes« 
taram todo o interior do Brazii, onundos delles^ dos coct^^i^s sei» 
vagens e de certos chefes de solares portuguezes, acima de taes 
capitães esta o rei, capitão dos capitães. A autoridade superior, 
poróm, exercida pelo rei não chega a contrabalançar a influencia 
de que gozam os capitães sobre cada uma de suas companhias, 
influencia que não ó o resultado d*uma intimidado de momento, 
mas uma verdadeira força social, ligada á fUncção de patrão e 
de director do trabalho, exercida pelos taes capitães. Infelizmente 
a destruição da famiUa levou as cousas a este triste resultado. 



o BRAZIL SOCIAL 157 

O capit&o facilmente percebe o poderoso laço que o .prende 
a seus homens, serve fielmente o rei, por causa das distribui- 
ções de rôzes feitas por elle depois da viotoria, cujo principal 
elemento foi o agrupamento sob suas ordens d'um grande numero 
de companheiros. Mas quando se sente bastante rico e bastante 
forte para escapar ao mando real, um rebento de ambíç^ brota 
em seu cérebro. Quando se julga, por modos vários, preparado 
para a empreza, emigra, deserta com sua companhia e seu re- 
banho e vae por sua conta occupar uma terra afajstada, cujos 
habitantes submette. 

Estes, privados de seus gados, são coagidos a nutrir por 
meio de tributos, cobrados sobre suas culturas, suas caças, suas 
ooUectas, o bando invasor que fica formando uma espeeie de 
casta superior, tendo só ella direito ao rebanho de bois. Os pa- 
rentes do feliz capitão, seus guerreiros notáveis e os filhos, 
filhas e ató sobrinhas destes —governam as aldeias e íázem 
entrar os impostos*. . Por este methodo ô que tôm tido origem 
os afamados governichos africanos de Mahololos, Matabeles, Zulus 
e outras gentes do continente tenebroso. 

A devastação, o roubo dos gados, a escravidão dos que 
escapam têm sido o viver normal das gentes negras desde os 
mais remotos tempos. E* regra que tem sido descripta por todos 
os que as têm visitado desde o século XV ate hoje. 

A formado exclusivamente militar dos povos que habitam 
a região das savanas, vencedores ou vencidos, é a causa da fra- 
gilidade do laço nacional entre elles. Este laço é quebrado nos 
vencidos pela suppressão do kraal de gado do seu capitão ; nos 
vencedores pela deserção constante, e, por assim dizer, clássica 
dos respectivos capitães. E' uma espécie de endémica traição po^ 
litica de que, parece, varias amostras, como sobrevivência, tém 
appareoido nos modernos tempos entre os régulos brazileiros e 
seus mais chegados capitães. Em Africa o facto tem sido e ó 
ainda hoje corrente. 

Tornado Inhosi, istoé, m, o antigo /ncíuna, ou capitão^ in- 
forma Préville, que tenho estado, repito, a compendiar, acha-so, 
por sua vez, nas condições do Inhosi^ por elle abandonado, a 
saber, tondo sob suas ordens officiaes^ possuidores cada um de 



158 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

seu kraal de gados, aos quaes Impõe a autoridade que elle 
acaba de sacudir por sua conta. Estes, após prazo mais oq menos 
curto ou longo, conforme as circumstancias, pelo exercício 
mesmo de suas funoçOes patronaes, são fustigados a ter para 
com o seu rei ou Inkosi exactamente a mesma oonducta, o 
mesmo proceder que elle próprio tinha seguido com vantagens: 
eyadirem-se traiçoeiramente para o norte, pois é invariavel- 
mente nesta direcção que se têm feito os movimentos dos bantús, 
depois de sua segunda pátria nas savanas meridionaes. 

O verdadeiro centro de agrupamento, de recrutamento so- 
cial, o ponto inicial e persistente oommum a todos os membros 
da agglomeração, entre os Cafres, ô, claramente, o rebanho que 
possuo o rei ou o capitão. 

Por Isso nas guerras incessantes que são o focto predomi- 
nante da zona, os rebanhos são sempre a attracção e o lucro do 
combate: o vencido, despojado do seu gado, é condemnado, por 
isso mesmo, á morte nacional, 

A importância que tem para o vencedor nada deixar 
escapar de rebanho e de gente da população inimiga, é que dictou 
as regras da táctica cafre: emquanto o centro âca immovel« 
guardando as rezes, as duas alas do exercito se extendem ã di- 
reita e á esquerda em um vaato movimento rotatório, afim de 
encurralar completamente o adversário. Mas nem todos os 
povos vencidos são destruídos; um grande numero, até de an- 
tigos cafres, é simplesmente reduzido ã escravidão. O exercito 
dos senhores, acampado em torno da residência real e submet- 
tido a dura disciplina, escreve E. Reclus, citado em Próville, o 
exercito dos senhores, infinitamente mais reduzido em numero 
do que as populações escra visadas, só pelo terror pôde dominar: 
apparece, ora n'u:n ponto ora n'outro, devastando campos, pi- 
lhando os animaes. . . Gentes, outr*ora sedentárias, tomaram-se 
hordas de fUgitivos, abandonando aldeias e culturas quando se 
approxima o exercito do rei. O trabalho das minas é-lhes inter- 
dicto para que se não enriqueçam; a caça do elephante, nas 
regiões mais ao norte em que elle apparece, lhes ó vedada, por 
ser uma occupação nobre e escravos não deverem se igualar aos 
senhores... 



Q BBAZIL SOaAL 169 

Alguns deflses destroços de gente deixaram de oriar gado ; 
03 Mandandas^ habitantes das plaoioies situadas perto do rei 
de Gata, puzeram-se a criar cachorros, na esperança de gueao 
menos esta carne deepresad^ não lhes será tomada por seus 
oppressores. 

£ são estas as gentes consideradas a raça affe^Uva por so- 
nhadores phantasistas, preoccupados em arranjar trindades, 
trios e trilogias!... 

O caracter social dos bantús meridionaes está, eridente* 
mente, ainda mais deteriorado do que o dos seus parentes 
das regiões altas de lóste. 

Não são elles, poróm, os únicos habitadores africanos 
do sul do continente. Nos esteppes de sudoeste residem os 
EoUentotes, que não são negros, como já âcou dito, e no desertp 
de Kalahari e yisinhanças os Bushmanos. 

Daquelles nada ha a dizer que intsresse ao Brazil ; dos 
outros, dos quaes nos vieram não poucos exemplares, basta re- 
ferir que esses Íncolas de magros terrenos de caga, impróprios 
para o pastoreio e para a cultura, andam reduzidos á maior des- 
organisação pelas diíflculdades d' uma vida quasi sempre er* 
rante e semrecursos certos E' uma poeira de homens, diz o 
illustre escriptor, sem laço, sem resistência contra as incursões 
dos estrangeiros. De tempos immemoriaes os Bushmanos foram 
um oelleiro d* escravos para os Hottontotes e Cafres. 

£' tempo de passar á zona equatorial do centro, o grande 
império da tiéué, a região sem rebanhos, sem pastores, a re- 
gião da rudimentar cultura, da pura collecta e da grande e 
pequena caça, a verdadeira África, viveiro d^escravos para a 
America, durante perto de quatro séculos e durante mais de 
quatro mil annos para o Velho Muudo. 

A rápida vista lançada sobre as gentes de lóste foi exigida 
pelo facto de ali estarem em gérmen as fontes dsus populações 
afiicanas, segundo a melhor critica; o leve olhar atirado aos 
povos do sul foi imposto pela necessidade de mostrar a pri- 
meira deformação dos africanos negros, logo ao sahir dç seu 
ponto de partida e pelo facto de que muitos milharejs dos escravos 
importados no Brazil foram dali provindos. 



160 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

A apreciação, porém, do caracter social das gentes do 
oentro, dos africanos sub-equatoriaes, impoe-se a quem quer 
que pretenda saber duas linhas acerca da formação, da cons- 
titaiçSo e do caracter da sociedade brazLleira. Em que peze 
a fátuo pretenciosos de todas as formas e feitios, ali está 
uma das fontes caudaes que despejaram no Brazil, durante 
quasi quatrocentos annos, numerosisimos contingentes para a 
argamassa de sua população. Assim o quizeraro, assim o te- 
nham. N&o é mais do que viver séculos do trabalho alheio, es- 
crayisando duas raças, e depois pretender arrancar as paginas 
da historia para phantasiar fidalguias. Não é mais do que 
fazer do paiz um vastíssimo harsm de Índias, pretas, mulatas 
cor de canella, e morenas cor de jambo, segundo o lyrismo 
dengoso dos D. Juans colonisadores e patrícios, e, agora, impor 
silencio ao sangue . • • A enormíssima mestiçada brasileira labuta 
numa situado psyohologica verdadeiramente original: tem ódio 
ao branco e procura por todos os modos passar por branca ! — 
E* curioso. Falta-Ihe a coragem de dar-so pelo que realmente é. . . 

A immensa zona africana do centro, manancial da mór 
parte dos vinte e tantos milhões de negros escravos que im- 
portamos, divide-se em quatro regiões, caracterisadas pela plan- 
ta, cujo producto serve de base á alimentação das respectivas 
populações : a mandioca, a hanana^ o tocusso {éleusinê]^ o sôrgko 
[dourah). 

Servir de base ã alimentação é, talvez, nm simples mado 
de dizer, porque a verdadeira base se encontra na caça. Va- 
mos lidir, pois, com gentes caçadoras, ao geito mais ou menos 
dos Índios brazileiros: e digo mais ou menos, porque em Africa, 
n:x região ora estudada existe a grande caçada dos enormes 
quadrúpedes que não se encontra entre nós, como jã notei, pa- 
ginas atraz. 

As populações africanas, quer as berberes do norte, quer 
as abyssinias, quer as negras estudadas de láste e sul, dão-se 
como se viu, ú, arte pastoril c modiflcam-se, conforme as va« 
riações impostas pela natureza a esse género de trabalho. Na 
zona do oentro uma modificação ainda mais radical se eifectua 
nas gentes negras. 



o BRAZIL SOCIAL 161 

Ahi desappareGem os grandes auxiliares do homem : o boi, 
o cavailo, o camello. a cabra. Raros exemplares desta e do boi 
são conservados num e noutro ponto* com enormes difficul- 
dades. Alguns cães, também difflcilmente conservados, e aves 
constituem a provisão de animaes domésticos. A causa deste 
phenomeno estranho ô, como Já disse, repetindo sempre Pré- 
ville, o quot ainda uma vez o noto, o leitor deve sempre ter 
em vista, ô a mosca tzétzé^ também chamada mosca do éle^ 
phantôy cuja picada ô causa do morto certa para o boi^ o cavallo 
Q o cão. O homem é immune. Mas é forçado a viver sem o au- 
xilio dos principaes animaes domésticos, auxilio indispensável, 
ató certo ponto, até para os mais elementares trabalhos de 
simples coUecta^ de pequena cultura, do mera extrac(^, de fa- 
bricação e de transportes (1). 

Na vastíssima zona do centro esta o theatro do uma orga- 
nisação social particular. As cabildas que passaram as fronteiras 
dos domínios da tzéué foram aquellas que, não se podendo 
manter nas regiões visinhas, se acharam compellidas a penetrar 
e a ficar na terrível zona. Tiveram de transformar-se quanto 
aos meios de existência e a estructura social. 

A grande caçada, isto é, a caçada aos grandes animaes, os 
buffklos, rhlnocerontes, hippopotamos e elephantes, exige agru- 
pamentos numerosos, que se podem chamar clans fie caça. B* 
recrutamento que se faz fora dos laços do sangue ; porque as 
fiimilias estão Jã desorganisadas de antemão, quer anterior- 
mente a seu recalcamento para dentro das mattas equatoriaes, 
quer pela pratica diária da caça aos pequenos animaes ; porque 
não se deve esquecer que as grandes caçadas slo relativamente 
pouco numerosas e vão se tornando cada vez mais espaçadas. 



(1) Cumpro chamar a attonção para a palavra coUecta, Segundo a 
escola de Lo rlay existem certo» trabalhos de fácil producção arbores- 
cente^ fructos, tâmaras, castanhas, nozes, amêndoas, etc, trabalhos 
que os francezes denominam de simple cueillettè. Ora, a melhor 
traducção de cueillette seria —colheita, se, em portugnez, esta pa- 
lavra não se applicasse também aosproductos dos mais complicados, 
difBceis e penosos trabalhos da cultura da terra. Por isso verto 
sempre o termo francez por coUecta^ quando temo referido sentido. 

4:?23— 11 Tomo lxix p. ir. 



162 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

No valle do Congo, como no do Amazonas, os efléitos dessa 
especia de trabalho sSo: a imprevidência, a superioridade ou- 
torgada á mocidade sobre a velhice, o desenvolvimento do es- 
pirito de máo individualismo dispersivo, o relaxamento do 
berço familiar, a poIygamia« a cultura pelas mulheres, a indillé- 
rença dos pais para com os filhos. 

A familia assim desorganisada, não tom acçSo sobre os in- 
divíduos que oompOem o olan ou bando da grande caça ; não 
pode, além disto, lhes dar a mínima protecção contra o chefe 
ao qual os submettem as necessidades do trabalho. Este chefe 
é naturalmente vigoroso ; e o habito do perigo inspira-lhe o 
despreso da vida alheia. A disciplina torna-se inexorável e o 
poder absoluto do director não pode solfrer nenhuma opposição. 
As cabildas de caçadores reunemnso ao som sinistro de enormes 
tambores, espalhados nas mattas. Taes cabildas têm numorosis- 
simos ensejes para mutuamente se guerrearem, 

A caça se desloca diante da perseguição de que é objecto ; 
o elephante torna-so raro, choga a desapparecer de certos sítios, 
exactamente os que são habitados pelos caçadores mais intre-- 
pidos; a occupação por estes de novos territórios; o encontro 
das cabildas ou clans ; as queixas frequentes que esses homens 
violentos têm a levantar uns contra os outros ; a penúria, em 
fim, todas essas circumst^neias sio causas constantes de guerra. 
Os chefes de caçadoi^es tornam-se chefes de guerreiros ; os bandos 
de caçadores tornam-se tropas de combatentes. A guerra é para 
elles uma variante da caça ; e é bradando — Bobo, bobo^ carne, 
carne, que se lançam sobre o inimigo. 

Quanto ã mais notável de todas as caçadas, a do elephante, 
dã ella logar á operação da partilha que exige a presença do 
ohefe. A graxa e a carne utilisadas são em quantidade enorme. 
A carne é dividida em manias que são moqueadai, exacta- 
mente como faziam os Índios do Brazil, dos quaos os negros em 
assumpto de caça, coUecta e lavoura nada tiveram a aprender o 
sim muito a ensinar. Uma parte cabe a cada caçador ; a parte 
do chefe é um terço ou metade do animal todo, conforme os 
casos. Cabem-lhe, além disso, certas partes do íkto, mocotós, 
orelhas, pedaços delicados, na opinião dnssas gentes, e, demais, 



o BRAZIL SOCIAL 163 

todo O marfim, O commercio a que este dá logar é antiquUsimo ; 
6 foi eUe então oomo hoje o attrativo das caravanas para o in- 
terior da Africa. Quasi todo anda nas mãos dos chefts on pe* 
quenos reU E' um monopólio que llies dá ImmeQSo poder, dç 
<mde nascem graves oonsequenoias. 

A imprevidência dos caçadores e o apparecimanto da pena- 
ria gerai trazem aos chefes repetidas occasiões de utilisarem a 
riqueza, oriunda desse privilegio, comprando géneros que re- 
vendom aos homens e mulheres de sua aldeia, dos quaes quasi 
espontaneamente se constituem senhores, especialmente dos me- 
ninos. As caravanas, traficadoras de marfim desde a mais re-^ 
mota antiguidade, desde sete ou oito mil annos atraz, fornecem 
uma sahida segura para os escravos qua o rei não utilisa dire- 
ctamente, além daquelles que ollas constantemeate prêam por 
sua conta. £' no commercio do marfim, pois, que se deve pro 
curar a origem do trafico dos negros para o Egypto, Núbia, 
Arábia, índia, As^yria, Babylonia, Pérsia, Judéa o Phenioia 
desde os mais longinquos tempos. 

E eis o resultado geral, no centro da Africa, da influencia 
do trabalho da caça sobre os populações: modificação da familia 
e de todos os agrupamentos sociaes no sentido da escravidão. 

Mas esta synthese das sociedades da zona central, da região 
da caça, tomadas em oonjuncto, não dispensa a caracterisação 
das gentes do cada uma das quatro porções em que aquella zona 
se subdivide. 

Cumpre, antes de ir adiante, não deixar em esquecimento 
um traço de grande valor. 

A religião dos negros oaçadores da mata é muito mais som- 
bria do que a dos pastores pretos de leste e do sul. 

Os feiticeiros não são mais os fazedores de chuva ; são fa- 
brioantes de filtros e de encantamentos, destinados a fascinar 
a caça, a afugentar as feras. São mestres eméritos na fabri- 
cação de venenoe, cujo emprego se liga â arte da caça, o elles 
estendem ás suas artimanhas magicas e feiticerias de caracter 
vario. As myatoriosas trevas da floresta, cujos impenetráveis 
labyrintos podem homisiar a morte a cada passo, o isolamento 
e a falta de aipoio resultantes da profunda desorganisação da 



164 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

fiuniliat arrebatam o caçador ]^ra os (errores supersticiosos, 
entretidos caidadosamente pelos feiticeiros. Estes empregam 
todos 08 meios para entreter taes pavores, simulando appari- 
çlies sinistras, phantasmas medonhos, e nSo se esquecendo de 
daremrse sempre como tendo o preciso poder para ooqjurar os 
génios malignos que infestam as florestas. . . 

A immensa zona das maias africanas se divide em quatro 
regiOes especiaes, oomo J& se disse e repitiu. Cada uma destas 
subdivisões não é influída só pelo clima e pela espécie de cul- 
tura que suppre na alimentagSo, as deficiências, que se vSo 
cada vez tornando maiores, da caça ; soffre também cada uma 
delias o influxo especial das populações que as cercam e nellas 
entram. Dest*arte a chamada regi&o da inandioca ; que é das 
do oentro a mais meridional, é invadida pelos Cafres do 
sul ; as denominadas da banana e do iociuso pelas cabildas di- 
reotamente decidas das montanhas de leste, de GaUas e Chilu- 
?tâê ; a intitulada do $6rgho^ colonisada, ha millenios, pelos 
ChUuhes^ tem sempre permanecido sob a pressão das incursões 
dos Berberes. Dahi, sob a ioflaencia desses três factores, dif- 
íérenciações mais ou menos accentuadas. 

O enorme valie do Gongo, especialmente na margem es- 
querda do portentoso rio, e a bada do Ogouô ou Qabão são as 
terras, por ezcellencia, da mandioca. 

A cultura desta planta é a mais própria para os que se 
iniciam na arte agrícola: exige muito pouco trabalho edá 
grandes resultados. Nella tudo se aproveita: o amidon« a fé- 
cula, as folhas, os brotos. 

Tem apenas o defeito de cançar depressa a terra o que 
força os negros, neste mesmo sentido, aliáSt jã influídos pela 
caça que esoassôa, a mudarem-se de um sitio para outro. Esta 
necessidade de mudanças perpetuas oppõe-se á constituição 
da propriedade e contribuo para manter a instabilidade das fo^ 
milias. Os Cafres militarisados, cuja desciip^ J4 fcH dada, 
facilmente se estabeleceram desde remotos tempos e estabe- 
lecem ainda hoje nas terras oecupadas pelos caçadores a os 
Ibrçam à cultura. Os vencedores, segundo o costume cafre, 
attribuem a seu capitão, tomado rei, a posse do solo. 



o BRAZIL .SOCIAL 165 

Fundam novas aldeias e as povoam de captivos, homens 
e mulheres capturados nos matos, e de fúgitiyosy que procuram 
escapar a um senhor e caem sob o domínio de outro. 

O rei colloca é, frente de soas aldeias seus principaes guer- 
reiros e, de preferencia, os membros de sua parentellat homens 
ou mulheres. Ha assim, uma continua fermentação de povos 
em toda a zona ; a instabilidade de todas as aggremiaçOes po- 
liticas ô completa. 

As consequências de um tal estado de cousas refleotem-se 
immediatamente na organisaçfio da familia, se este nome se 
pode dar ao fraquíssimo agrupamento pelos laços de sangue por 
ventura ainda subsistente entre estes negros. 

Não sendo mais retidos em torno do hraalf porque nSo pos- 
suem mais rebanhos, os pretos da zona centrai seguem a mOe^ 
quando ella se separa de seu homem ou vae morar noutra 
aldeia. Este laço materno se estende até ás sobrinhas e primas 
germanas nas famílias dos chefes que se arrogam uma certa 
posse territorial. Mas entre o resto da população quebra-se em 
cada geraçlio, porque não se apoia em nenhuma posse da tem ; 
porquanto o rápido esgoUimento ou cansaço do solo, jã notado em 
géneros do cultura dirigidos sem o menor methodo, impede a 
constituição das propriedades particulares originadas do tra- 
balho. 

O direito territorial dos chefes ó um direito de guerra, re- 
pousa no poder militar por ellos exercido. 

Homem ou mulher, o chefe de aldeia não faz cultivar para 
si só: o poder de que se acha investido, deveo a um chefo su- 
perior, a quem obedeoe ; entrega ao capitão ou kilola uma 
parte da coUecta ; ô até por causa da percepção deste imposto 
que ó investido de auctoridade. O hiMa^ por seu turno, é en- 
carregado especialmente de recolher os tributos das aldeias para 
os levar ao rei. K uma vasta machina hierarchica destinada a 
obrigar o povo a ciUHvar para os conquistadores* 

Mantidos estes pela cohesão militar, ocoupam as posições 
de mando. A população está, pois, dividida emduas classes: uma 
inferior^ forçada ao trabalho por ordem alheia, desorganisada 
pela constitui^ social qne deve á caça, e uma superior, que 



166 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

força a outra á cultura, dlrige-lho o trabalho e recebe os pro- 
ventos. Graças ú. disciplina que a mantém, osta olasso substitue 
£ioilmente os chefes caçadores, e forma eâpeoies de dynastiat 
qne se conservam no poder pelo rigor. A recepção do imposto 
tom logar, em todos os grilos, cora um enorme apparolbo mi- 
litar e com o barulho ensurdecedor de tambores. 

E* verdadeiramente o senhor que recebe a qnota do hu- 
mildes servidores ; estes, delegados dos moradores das aldeias, 
prostram-se diante do chefe, esfregando-se com o pó do chão. A's 
vezes o rei se resolve a dar uma volta por seus dominios e a 
receberas contribuições em casa dos súbditos. 

Emprehende continuamente expedições para punir o atraso, 
a negligencia ou a recusa do imposto e muita vei toma este pre- 
texto para executar terríveis razzias. O poder do tyrannno sobre 
seus capitães oa kihlas só se mantém por uma disciplina 
de ferro: a etiqueta é severa e as mais leves íkltas aio 
punidas. Só existem duas espécies de pena : a mutilação e a 
morte! 

Cumpre notar, aânal, que os negros da região da mandioca^ 
ooftumados à lavoura, foram sempre, em todos os tempos, pro- 
curados poios tralioantos de escravos. As Antilhas, o Brazil, os 
E&tados Unidos forne)eram-se ali dos negros chamados— Conpot, 
feios, accrescenta Préville, mas robustos e trabalhadores. Esse 
mercado está hoje fechado ; e, todavia, a exportação por terra 
continua em vasta escala para o Oriente e para outras regiões 
da própria Africa. 

A região, ehamada da banana^ é aquella em que a floresta 
snb-equatorial africana ô mais mde e intensa. 

Ahi param os invasores bantús ou cafres meridionaes. 

Deve existir um grave motivo que, na Africa Central, íto 
parar aquelles guerreiros e oe impede de levarem mais adiante 
toa eolonisação agrícola. E' o que se vao vér. 

A região do que se trata, situada debaixo do equador, esten- 
dendo-se ao norte e ao sul, mais naquella do que nesta direcção, 
recebe nma enormíssima quantidade de chuva, durante todo o 
anno e todos os dias. A zona inteira, alôm de sua proximidade 
tia linha dos eqninoxios, está collocada no ponto em que se én- 



o BRAZIL SOCIAL 167 

.contram as três series de inclinações ou declives que formam 
os grandes accidentes da Africa interior. 

A immensa ourva-norte, doscripta pelo Cougo, ó determi- 
nada pela linha na qual vêm morrer as descidas dos platós dos 
desertos do sul, a queda meridional das oumiadas entre Nilo- 
Congo-Tchad e os últimos contrafortes da zona montanhosa de 
leste. 

£\ por certo, posição que oonvem a um massiço de matas 
Yirgens. 

A altura e a dimensão das arvores, no âmago da floresta, 
dão abrigo a uma tão inexcrioavel vegetação, mais baixa, que se 
emaranlia sob suas sombras ; e é tal o cerrado de troncos, ramos, 
lianas, cipós, matos e folhas ; tão espesso o conjnncto de tal 
agglomeração de páos de todas as formas e tamanhcs, que im- 
possível quasi ó a travessia, o que explica a razão pela qual as 
terras que se avisinham do alto da curva do grande rio não 
tenham habitantes em grande extensão e tenham âcado sempre 
fora das explorações tentadas aates de Stanley e Schweiníúrth. 
Taes difflculdades impediram o pas:)0 aos exploradores eu- 
ropeus e aos próprios bantús. 

Sob o ponto de vista da cultura, considerável dificuldade 
origina-se da fulta de estação secca e vem a ser o pullular con- 
tinuo das liervas, nomeadamente das altas e fortes gramíneas 
equatoriaes, nas clareiras derrubadas da floresta. Asroçagens 
e sachaduras para supprimir hervas são de nenhum effeito, 
porque estas, sob a ac(^ da humidade constante entretida 
pelas chuvas diárias, pullulam e crescem por encanto. São 
um obstáculo para quaesquer plantações que se quizesse con- 
fiar á terra. 

Por isso, na região florestal vrisinha do equador o principal 
alimento, tirado do reino vegetal, não ô devido á. cultura e 
sim fornecido por uma essência arborescente^ que é a banana, 

A região das matas equatoriaes e da banana atravessa a 
Africa inteira, desde a zona dos grandes lagos próximos ás 
terras altas de leste, até ao golpho de Guiné. Fica entre as 
terras oongolezas, próprias ao cultivo ia mandioca, e as re* 
glões situadas ao norte, nas quaes predomina a lavoura de ce- 



168 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

reaea. Pode mr dividida, por sua vez, em dois climas diffe- 
rentes. 

Nas regiões mais baixas, como s&o as meridionaes confl-* 
nantes com as terras da mandioca, domina o regimen florestal 
puro: nas partes mais altas, nas qnaes a regifto das matas se 
approxima das montanhas de lôste e de oeste, nota-se modiA« 
oa^ de clima em sentido mais favorável á vida. 

A zona inferior e paramente florestal oonstitae um im- 
menso tarritorio de caga, 

B' a lúgubre e phantastiea floresta descripta i>or Stanley, 
pondera Prôville, e a qual o explorador americano attribuiu 
uma extensão de 840.0(X) kilometros quadrados sem levar em 
conta seu immenso prolongamento para o oeste. 

Nestas florestas virgens inextricáveis, que parecem sem 
limites, vagam as liordas ameaçadoras dos selvagens A9%$$ibas^ 
dos ferozes Pahuins^ Fans ou Ossyéboi cujas incursSes no Ck>ngo 
Francez e no Gongo Portuguez sâo de vulgar noticia. 

Outra raça, curiosissima, ali residente ó a dos Pygmeus. 

As terras mais altas, mais seccas, posto que snjeitas ás 
chuvas equatoriass, sSo próprias para as bananeiras, plantadcu 
ou limpas de mato em vista da coUeeta dos fructos. A* bananeira 
devo Juntai*-se outra arvore preciosa, a palmeira de aseitê 
{iSasis guineensis)^ productora do conheeidissimo ateite de dêndê 
edo, menos vulgar no Brazil, mnho de dendê chamados também 
aseite e pinho de palma. O óleo serve para variados arranjos 
eulinarios ; o vinho p5o ao alcance dos negros, por um slmplis- 
simo trabalho de mera coUecta, a bebedeira diária e geral. (1) 

Nestas terras, que devem ser elassi doadas entre as de 
eollecta^ a banana e o óleo de dendô constituem o fundo da ali- 
mentação, associados a diversos produotos espontâneos: 
inhame, batata doce, milho e á eaça^ fkcto constante de toda 
a zona central africana. £* um viver mais fácil do que o dos 



(i) Vide, alóm de A. de Prévillo, sobre eita zona — Um anno 
no CongOy oor Jayme Pereira de Sampaio Por jaz de Serpa Pimentel, 
Lisboa, 1899; e mais — As Colónias Portug^iezas, por Ernesto J. de 
G. e Vasconcellos, Liabaa, i896; e maia — A raça negra soh o ponta 
i6 tiêta da civilisação da Africa por A. P. Nog^aeira, 1881. 



o BRAZIL SOCIAL 169 

simples caçadores da mata pura e dos bantús do sul, planta- 
dores de mandioca e disciplinados pelo trabalho. 

As gentes da zona da banana acham-se organisadas em 
olans baseados sobre o trabalho da collecta. 

SSo curiosos exemplos destes povos com tal organisação 
ds famosos reinos de Dahomey^ na extrema occidental, o Mombutú 
na extrema oriental da zona de que se trata. São anthropo^ 
phagos. 

Como em toda zona central africana, a família entre os ne- 
gros que fazem da coUecta da banana a base principal de sua ali- 
mentaç&o, apresenta um minimo de cohesSo e fixidez ; o prin- 
cípio de agrupamento nâo é para elles a tradícção patriarchal 
inexistente, ô o trabalho da collecta, ao qual concorrem utilmente 
os meninos o as mulheres. Por outro lado, 6 preciso ser forte 
para defender, contra os viandantes e os risinhos e principal- 
mente contra o invasor, attrahido pela abundância, uma safira 
sempre pendente^ que não custa a fazer brotar e crescer e que 
garante fartamente o pão de cada dia. E' mister ser numeroso 
para ser forte. 

D'ahi o agrupamento em grandes aldeias de cabildas que 
se arregimentam em torno de um chefe, cnjo poder é jastifi* 
cado pela necessidade. 

A força de cohesão quo dá o agrupamento em grande nu- 
mero não é empregada somente na defensiva. Comprehende-so 
bem que um povo dado ao mesmo tempo á collecta da banana 
e do dendê, á caçado elephante e do buffalo, sempre em armas, 
sempre prestes para o que der e Tier, deve emprehender sem a 
menor cerimonia expedições contra as naçõos visinhas . As de- 
vastações dos de Dahomoy são famosas. Não o sio menos os 
dos de Mombatú. A lóste e sul desse reino, nos paizes que mar- 
geam o Bomocandi o Kibali, residem negros dados ã cultura, 
possuidores de algumas cabras e sem chefes poderosos. São os 
Afon/Víf considerados pela aristocracia bananal dos Mombutús 
como raça inferior. Os chefes do pavoroso reino, de per.neio com 
as sortidas para prêar buífalos e elephantes, ordenam amiu- 
dadas razzias entre aquellas gentes desprezadas. Ao grito de 
carne ! carne ! atiram-se sobre os pobres stlvagens e voltam 



170 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

trazendo oabrai e oaptiTos. E, como os de Mombutú, não pre- 
cisam de auxiliares para suas levissimaa culturas, nem desejam 
de modo algum, para augmentar o numero de seus guerreiros, 
que indivíduos estranlios ao clan sejam admittidos a compar- 
tilhar da collecta de suas bananeiras e de seus elais, a 
sorte dos prisioneiros 6 decidida por outra íòrma : são comidos I 
As ceremonias do saoriftcio têm muitos pontos de contacto com 
as dos selvagens do Brazil. Idêntico é o hediondo espectáculo 
dos trophéos de craneos que orlam de lado a lado as longas 
ruas dai aldeias. 

Nada ô mais adequado para impedir uma sociedade por esse 
caminho do canibalismo do que a organis ição em clan defensivo 
como essa que é imposta aos negros que vivem da collecta da 
banana. Esta forma de sociedade ó adaptada ao clima equato- 
rial de uma sô estação, onde a safra dos ftuctos está sempre pen- 
dente, 

O exclusivismo gerado por este modo de agrupamento, o 
soberano desprezo para com todo o individuo que não faz parte 
da cabilda transpiram de tudo e em tudo se fazem sentir. Tal ó 
o caso em toda a região entre os Akkas, Pahuinos, Balolos, Aia- 
neunas, U-Gandas, Mombutús e Dahomeys mesmo depois da des- 
truição dos fortes reinos dos três últimos povos inglezes e fran- 



A observação dos factos que influem positivamente nas so- 
ciedades, pondera ainda o escriptor, dã a explicação das causas 
de tão estranhos costumes. Gomprehende-se a cohesão que 
liga as sociedades que vivem da collecta, o poder absoluto, ex- 
tenso, oentralisado na mão dos chefes, que sobre ellas se alo« 
vantam, a ferocidade e os appetites repugnantes como esses 
dessa espécie de negros. Desde osopó das montanhas de leste ató 
ao golpho de Guiné, desde os Mombutús e U-Gandas ató Ofl Da- 
hwneys e Yoruhas^ o espectáculo é o mesmo: o agrupamento dum 
grande numero de mulheres em torno dum chefe de casa perpe- 
tuamente bêbedo de vinho de palma, as razzias de captivos nas 
regiões próximas ao reino, a policia disfarçada e presente por 
toda parte, o numero excessivo de fúnccionarios e a ins' 
tabilidade de suas posições, a guarda do rei e seus regimentos 



o BRAZIL SOCIAL 171 

de guerreiros e de amazonas, os hedioodoa trophéos de oraneos 
à roda do paço real emâm, os massacres e sangrentas orgias 
oostameiras aptas a conservarem o canibalismo em estado tra- 
dicional e, por assim dizer, oonstitucional. 

Essas truculentas gentes, que actualmente chegam atô esta- 
cionar nas yizinlianças do Atlântico, devem sua origem a an- 
tigas e formidáveis migrações vindas do oriente atra vez das 
florestas equatoriaes. 

A. de Préville falia com segurança de uma numerosa e irre- 
sistível invasão que chegou até ao mar, no século XVI. Neste 
ponto posso vir em auxilio do meu prestimoso guia. 

EUe quer se referir á tremenda invasão de 1558 que le- 
vantou todo o antigo Império do Gongo, visitado em íins do sé- 
culo XV por Diogo Câo. 

De irrupções anteriores áquella faliam os velhos João de 
Barros, Manoel de Faria e Souza, Ruy de Pina e Duarte Pacheco. 
Da de 1558 tratam Duarte Lopes, Frei Luiz de Souza^ Qarcia 
Mendes, Gastello Branco, que eram contemporâneos, 

€ Dapois de estabelecidas relações dos portuguezes com os 
reis do Ck>ngo e seus súbditos, escreve Forjaz de Serpa Pimentel 
consolidando as narrativas de antigos escriptores, depois de es* 
tabelecidas relações dos portuguezes com os reis do Gongo e seus 
súbditos, invadiram-no em 1558 as tribus selvagens dos Ajahkas^ 
MaJacaSf Mazacas, Yakkas, Djaggos OU Gingas, as quaes per- 
corriam, guiados por valentes chefes, a Aílrica Central de leste 
a oeste, lançando a morte e o extermínio por toda a parte. 
Chegaram até Banza iV* Bati ou Ambasse (a S. Salvador dos 
Portuguezes), onde destruíram tudo até a própria cathedral e 
os templos christãos que os portuguezes Já aili tinham erigido, 
não encontrando resistência porque o rei do Congo, a sua corte, 
os missionários, a população inteira da cidade, á approximação 
dos invasores, se haviam refugiado numa das ilhas que os por* 
tugnezes oooupavam no Zaire (o Congo dos mappas modernos) 
pouco acima de Bòma e d'onde só sahiram, reconstruindo a ca- 
pital depjis de El-Rey de Portugal ter mandado em seu soc- 
corro uma expedição sob o commando de Francisco de Gouveia, 
expedição que conseguiu expulsar os Yakkas do paiz, deixando 



172 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

porém, já O império negro do Coogo em rápida e progressiva 
decadência.» (1) 

£' a conflrma^o completa do facto assignalado por Préviile 
e a porfeita jastiflcação das idéas a que elie chegou por diverso 
caminho, 

Campre-me, apenas, accresoentar que de taes tmcolentos 
invasores da África occidental, a despeito de sua fereza, os ne- 
gociantos de escravos, os negreiros enviaram durante trezentos 
e cincoenta annos alguns milheiros de exemplares. Que bella 
acquisi^o ! Que interessantes exemplares da raça affecHva I 

Poucas palavras mais a respeito dos pretos das regiões do 
oGusso o do sôrgho e estará ílnda esta resenha das gentes afri- 
canas que ajudaram a formar a populaçio brazileira no espaço 
de cerca de quatro séculos. 

Comecemos pelos primeiros. 

Nas terras baixas de Guiné, a producçSo em ponto grande 
da banana e do oleo de palma pôde BStender-se até ao 1^ gráo 
de latitude norte e chegar em certas paragens até ao lO^*; na 
parte oriental, porém, da vasta regifio própria para estes pro- 
duotoso 4<» gráo norte é, em regra, o limite ao seu desenvol- 
vimento, por causa da altitude das terras. Álóm do Rio Uellé, 
acaba a região da collecta e entra-se no paiz denominado San^ 
deh, habitado pelos Niam-Niams^ terríveis bárbaros que to- 
maram parto nas invasões do século XVI. O ceatro do paiz 
constituo as cumiadas e espigões que dividem os affluentes do 
Nilo Branco e do lago Tohad e dos do rio Ubanghi. Privados 
dos rebanhos por causada tzétzé, privados da banana, dodendô 
eda mandioca, os Niam-Niams arrojam-se com todo o ardor á 
caça, abundante na região. Javardos, macacos, esquilos, tre- 
padores vários, concorrem com os elephantes, leopardos, veados 
e cabras montezes. Mas, nem sempre ha a fartura ; ao contrario. 
Ha estações no anno em que o elephante deixa os platós e em- 
brenha-se nas florestas, onde é difflcilimo préal-o. Os pequenos 



(í) J. P. deS. Forjaz de S^rpa Pimentel — um anno no Con<^o, 



o BRAZIL SOCIAL 173 

e tímidos aoimads, por outro lado, espantados na mata, com o 
barulho feito pelo elephante, quando sopra, se espoja nos brejos, 
quebra os ramos seccos ao passar, sacode as arvores om que 
se coça, fogem, a grande e a pequena caça se redozem conside- 
ravelmente. 

Os Niam^Niami ou comedores^ atiram-se a tudo : inhames, 
raízes, comestíveis, cortiços de abelhas selvagens, (cera e mel), 
ratos, rans, lagartas. . . ,n&o esquecendo as formigas de azas (tér- 
mites) das quaes extrahem um óleo brilhante sem máo gosto. 
Surge a antropophagia e com ella o costume de comer o fiel 
companheiro do homem : o cão I. . . 

Nesta zona, porém, desmentindo o facto, sempre notado do 
reduzido numero das gentes puramente caçadoras, a população 
é numerosa. Igual desmentido, pondera o guia que vou se- 
guindo, se nota entre os Bantút dá região da mandioca e os 
descendentes de Gallas da região da banana. E' que estas 
plantas supprem fartamente as falhas da caça. Na região, ora 
estudada, esse papel ó representado pela planta chamada pelos 
abysslnios dakwsa {tsada agussa), conhecido pelos portugueses, 
affirmo eu, desde o tempo em que estabeleceram suas primeiras 
relações com a Ethiopia, em tempos de D. João 29, denominada 
por elles, imitando o termo abexim, ou tocuãsa-tacussa. Os fran- 
oezes chamam-lhe eleusine, conservando- lhe o nome soientifico 
{eleuiina-coracana) porque só a conhecem pelos livros. Os negros 
trouxeram o tocusso ao Brazil, em cujo norte existem planta- 
ções delle (l). 

E' uma planta da família das gramíneas, não da tribu das 
panicéas e sim da das chloridéas, E' o trigo do Sandeh; mas, um 
trigo pobre em amidon e qualidades nutritivas; é recurso ali 
dos caçadores, tanto mais quanto sua cultura é facillima e pôde 
ser feita quasi exclusivamente pelas mulheres. Cada um tem 
que tomar cuidado de sua colheita e por isso estabelece-se no 
meio das suas culturas. Não existem cidades nem aldeias ; cada 
logarejo contém duas ou três famUias, isto é, duas ou três pa» 



(1) Vide Gaminhoá ^ Botânica. 



174 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Ihoças, em cada uma das quaes Tive uma mulher com os 
filhos, e, mais, a casa do marido. O pai2 ô cheio de numerosos 
contrafortes que partem das montanhas de leste, separados 
por valles florestaes, perfeitamente intransponiveis e defen* 
sáveis. 

Com tal disposição natural dos logarôs, a aoçao dissolvente 
produzida pelo trabalho da caça tem formado um reiniculo ou 
▼ice-reiniculo de cada um desseB planaltos. E' uma multidão de 
pequenos povos governados com o mais infrene despotismo por 
pequenos chefes. Rei (bié) ou vice-rei {bainki), o chefe traça para 
si uma vasta propriedade, ciiltÍTada por suas mulheres que são 
numerosas, e por escravos tirados de raças submettidaá. A 
Mbanga^ residência do regulo, se reconhece logo entre as di- 
versas cabanas, espalhadas no plató, pelos numerosos escudos 
suspensos nas visinhanças, nas arvores ou em postes, pelos sons 
das cornetas de marfim, pelo retumbar do grande tambor sus- 
penso na praça. Alguns guerreiros de escol noite e dia, ás or- 
dens do senhor, montam guarda nesta praça cercada pelas re^ 
sidendas reaes. Cabanas circulares com tectos cónicos d'altura 
excepcional servem para qiorada do rei, de cada uma de suas 
mulheres, de corpo de guarda, de thesouro e de celeiros. E' o 
rei que espreita a apparição dos bandos de elephantes, faz dar 
pelo tambor signal da batida e apoderasse por isso de todo o 
marfim e metade da carne. Conduz frequentes expedições de 
guerra contra as aldeias; dá o exemplo da cultura, fikzendo pro- 
duzir seus campos, comendo o tocuss j o oíTertãndo a seus hos- 
pedes e visitantes a excellente cerveja feita daquelio grão. E* 
quem faz os casamentos. 

Quando alguém se quer casar— faz o pedido ao resito, que 
lhe arranja mulher a gelto. Os pães da noiva não são consul- 
tados, nem recebem nada do fhturo genro. A explicação desta 
singularidade, em desacc<»do com o que se passa em toda a 
AMca, provém de ser a mulher votada ao trabalho de cultura, 
OQja iniciação e superintendência geral pertence ao rei, e nesta 
qualidade de alto patrão dos operários agrícolas, que são as 
mulheres, arroga-se o direito de collocal-as como lhe parece 
conveniente. Etites reis são conquistadores, que se consideram 



o BRAZIL SOCIAL 175 

verdadeiros donos de seus súbditos, formam yerd&deiras dynas- 
tias e exercem um poder rigorosameote despótico ! 

€ O chefe Mukia (um dos taes regalos do Sandeh visitado 
pelo moderno viajante grego Potagos) o chefe Mukia, escreve o 
viajante citado em Prévílle, mandou chamar os homens que 
deviam me acompanhar ; tendo-os atirado por terra, baten-os 
desapiedadamente, ordenando-Ihes o combaterem até a morte, 
se preciso fosse, por mim e por seu irmto mais mogo que ia 
acompanhar-me em seu iogar. Ajuntava que se elles nos aban* 
donassem, fal-os-ia morrer, a elies, a suas mulheres e a seus 
filhos... 

O medo que inspiram taes régulos, ajunta outro vkijante, 
oDr. Schweinfurth, também referido no meu gvia neste as- 
sumpto, o ten-or que inspiram a seus súbditos ó inacreditável; 
conta-se qae, no só intnito de lembrar o direito de. vida e de 
morte de que se acham investidos, esccdhem uma victima na 
multidão, lançam-lhe um laço ao pescoço e abatem-lhe a ca- 
beça com a sua própria mão !• . .B' mais um traço da crueldade 
negra que parece apta a esclarecer a grande affectividade de 
que são dotadas essas gentes. 

Mais duas ou três paginas a respeito das popalaç?^ da 
região do sôrgho e estará completo este inquérito sobro os afri- 
canos pretos, caudalosissima fonte de que se alimentou a for- 
ma<$o de vários povos americanos. 

Em toda a região da tzéiMé, a caça, substituindo o trabalho 
pastoril, forma, sob o ponto de vista social, pondera ainda Pré- 
viile, uma espécie de tela geral na qual se vêem desenhar as 
modificações occasionadas por outras influencias. 

Nas regiões, já percorridas, da mandioca, da ban^-naQ do (o- 
cuisso, a humidade do clima e a curteza das estações seooas des- 
envolvem a vegetação arborescente de preferencia a qualquer 
outra; geram a floresta e dão, ipso facto, á caça a preferencia 
sobre todos os ontros modos de vida. 

E!ssa região, porém, tem um limite caracterisado ao norte 
da zona Cbutral, peia parada dos povos aathrc^of^agos e de saas 
culturas de toeusso. Ao sahir das florestas virgens e das bana- 
neiras, a recolta do máo trigo dos caçadores é já indicio da mo- 



176 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

deração das estações hamidas que dão ao grio tempo de se 
formar. O clima melhora progressivamente no sentido da reda- 
cção da humidade ; a mata cede o passo a cultura at6 as fron- 
teiras dos grandes desertos septentrionaos, onde se torna ella 
de novo impossivel, por motivos oppostos aos da r^ião florestal. 
A cultura preponderante, na zona de que se trata, ó o sôrgko 
(dawrah)^ lambem chamado milho da índia e milho de Guiné. 
E* o cereal dominante na Africa e Ásia, em toda a immeasa 
área comprehendida entre as terras equatoriaes e os desertos 
seccos que atravessam essas duas partes do mundo. Em toda essa 
enorme porção da terra o milho da índia pôde ser considerado 
como a base da alimentação vegetal do homem. Entre os pró- 
prios pastores árabes do Soldão o pão ou bolo de sôrgho é de 
extrema importância, quanto mais entre as populações pretas 
privadas de gados ainda por causa da terrível tjsétsé. 

A primeira consequência das condições do logar vem a ser: 
pela ausência do pastoreio e da caça como meio seguro de exis- 
tência, os homens não podem entregar-se senão ã cultura ; tra- 
balham nos campos com suas mulheres e filhos. A poljgamia 
i Ilimitada em uso entre os caçadores não tem mais razão de 
ser, o numero das esposas entre estes povos agricultores parece 
reduzir-se a três. O laço social que reúne as fJBLmilias ó baseado 
nas necessidades da cultura, 

O trabalho determina então a reunião em aldeias, e í)siz ap- 
pareoer o chefe natural nesses pequenos clans. 

Entre os chefes de familia que vivem separados uns dos 
outros cada um em sua cabana, a massa é imprevidente. Depois 
da collecta, durante a estação secca em que nada se tem a fazer» 
o maior numero desses pretos vive largamente sem a menor 
economia. As mulheres batem no pilão durante todo o dia e 
assam continuamente os bolos de massa. Enorme quantidade de 
grão que deveria durar até á colheita seguinte, é posta a fer- 
mentar para a fabrico de uma grande provisão de cerveja. 
Yive-se a beber, a mandriar, a Jogar, e antes do fim do anuo 
os grandes potes da predilecta bebida estão vazios e ató os grãos 
que serviam de semente acabados. Surge a necessidade, a pe- 
núria. Come*se, então, toda a casta de alimárias. 



o BRA/JL SOCIAL 177 

Quando volta a sazão das chuvas o o tempo do proceder a 
Dúvas plantações, a maioria dos negros, nem sequer possuo se- 
mentes para plantar cm suas roçi-is. S' quando intervém o in* 
dispensável patronato, (1) Algum velho ccoDomico empresta aos 
esbanjadores sob condições vantajosas. O devedor torna se por 
um certo numero de dias servo do credor, que, tendo sabido 
guardar grande cópia de sementes, tem necessidade de braços 
supplementares para bem utilisal-a. 

O velho, quando é previdente, está em condições de eco* 
nomisar, o numero do boccas cm sua casa tem diminuído com o 
estabelecimento dos moços que vão fazer vida ú, parte ; em sua 
provisão do grãos ha um stock disponível ; e, quando tem ca- 
sado filhas, a moeda em ferros de enxada, pás e cavadores (é a 
moeda da terra) está agglomerada em seu thesouro. Surge-lhe 
a olientella de todos os lados ; os sous devedores, que se tornam 
outros tantos jornaleiros o servidores, cercam-no. 

Seu prestigio augmenta. Acreditam que entretém relações 
o jm o feitiço do sitio. (2) 

Nas proximidades da aldeia avulta uma moita de mato, ou, 
ás vezes, uma grande arvore, escapa da queimada, por cuidadoso 
asseiro, e cercada d'um parapeito de terra. E' o templo do fei- 
tico. Depois do trabalho do dia e a refeição da tarde, os habi- 
tantes da aldeia, sentados á porta de soas cabanas, fumando 
enormes caximbos, gozam da fresca do crepúsculo. De repente» 
fortes barulhos fazem-se ouvir do lado do bosque sagrado. Todas 
as vistas se voltam para lá. Luzernas movediças, cabeças me- 
donhas, vultos ameaçadores apparecem. A*s vezes uma voz si- 
nistra se escuta, denunciando um furto, ou qualquer outro crime 
com tremendas imprecações e ameaças aos culpados. S' o fer- 
reiro da aldeia, que, por ordem do velho chefe, sen principal 



(1) Patronage ó o termo francez ; siçuifica, é claro, a acção pro- 
tectora (lo patrão ; pódc-se também tracluzir por iirotccrão, patroci- 
'fíio, padroado. Kscrevrria, uo caj-o do texlo, palronagem, 8o não 
Uv(8'0 medo da fúria pur .-^la que se apoderou ai^^ora dos aristarchos 
do Rio de Janeiro. 

(2) Fetiche ó o termo francoz, tirado do nosso feitiço. E dizer que 
do torna viagem, tem .ido traduzido por fetiche I 

4323— lá T«.M<) Lxix. P. it 



178 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

cliente, simula a appariçao do feitiço. Na manhan seguinte 
encontrará perto do bosque sagrado as ofTertas dos indivíduos 
amedrontados: cabaças de mel, gallinhas, eto. 

Tal é um dos processos do governo do velho rico ou myeré. 
Um myeré, se 6 só n*uma aldeia, ou os tnyerés reunidos em 
conselho quando ha diversos, formam o poder publico da terra. 
Esses myerés são simples patrões necessários ; porque tôm a 
suficiente previdência e salvam a população, todos os annos, 
da fome. Em comparação aos chefes de tantas e tantas outras 
gentes afiricanas, que foram estudadas, constituem uma bella 
excepç&o. Mas, a medalha tem reverso, pondera, afinal, o illustre 
analysta. 

Para percebel-o, basta levar um pouco mais longe a obser- 
vação dos ftictos, concernentes á vida publica entre os negros 
do sôrgho. 

A familia do myeré participa da sorte commum a todas as 
da aldeia, que são perfeitos typos da família instável: os filhos 
estabelecem-se á parte desde a mocidade, e nenhum delles herda 
exclusivamente a posição criada pelo pao em seus velhos diais. 
A situação patronal instável ó periodicamente desfeita pela 
morte. E ainda mais radicalmente é destruída entre esses 
negros, do que n^outras sociedades que têm o mesmo regimen, 
porque elles nem ao menos possuem, como próprio, o solo que 
cultivam ou mandam cultivar. Nenhuma influencia séria por- 
tanto, se pôde perpetuar na aldeia e menos ainda estender de 
uma aldeia a outras, ligar entre essas minúsculas sociedades 
esparsas as relações que pôde criar e manter a existência de 
nma aristocracia rural, que transmitta integralmente a he- 
rança paterna a uma serie de herdeiros escolhidos» adestrados 
no governo dos negócios locaes. Por isto as aldeias da região do 
sôrgho são constituídas isoladamente e a raça que as habita 
desconhece todo liame nacional. 

Nenhuma cohesão, nenhum accôrdo, existe entre ellas; a 
região inteira está dividida em pequenas commuuidades ia- 
dependentes que vivem entro si em uma completa anarchia. 
Por isto, ainda fácil, foi aos arabe^^ vaqueiros das ft-onteiras 
o fundarem no sul das seus desertos a multidão de sulta* 



o BRAZIL SOQAL 170 

natos alli existentes, juntando milhares e milhares de al- 
deias negras sabmettidas a tributo e a razzias de escravos. 
E eis porque na ZDna central aft*icana a regiSo do sôrgho foi 
sempre e é ainda hoje o principal theatro do trafico dos negros. 
Homens, mulheres, e até os meninos habituados á cultura 
são procurados e assaltados em massa para os trabalhos agrí- 
colas dos oásis do grande deserto quando não são nas pró- 
prias aldeias reduzidos á mais dura escrayidão. A raça dos 
Bongos, dos Mitus^ dos Belandas tem quasi desapparecido de- 
vido a uma exploração desenfreada e a desvastações inauditas. 
Os escravos Bambarras figuraram outr*ora em avultado nu- 
mero á bordo dos navios negreiros carregados para a America. 
Cultivam hoje os campos do Dahomey e os oásis do Adar e de 
Marrocos. Os árabes e seus mestiços musulmanos, os reis pretos 
da costa de Guino exploram estas populações, cujo fracciona- 
mento paralyza n*ellas toda resistência. E esse fraccionamento ó 
a consequência d'uma constituição social que leva á instabilidade 
de todas as posi^^. Tal ó e tem sido durante dezenas e dezenas 
de séculos o estado real das populações negras da Africa. 

O grande sociólogo francez, nas precedentes paginas 
resumido e condensado, attribue tão deprimente situação ao 
que elle chama a grande singularidade das gentes negras : não 
haverem em parte alguma da terra e em tempo algum da his- 
toria chegado a conhecer a organização patriarcTuil da famUi%, 
Para a escola de Lo Play ó a excepção única conhecida: 
todas as raças aryanas, semitas, uralo-altaicas, mongólicas» 
todas, ató as americanas das Montanhas Rochosas, México e 
Peru, passaram por um organisador período patriarchal; as 
gentes pretas nunca. . • 

A essa oiroumstanoia finalmente attribue o illustre scien- 
tista o que denomina o grande facto social africano: o trafico 
de escravos desde a mais remota antiguidade ató aos dias de 
agora. . . 

Depois vêr-se-ha a consequência de tudo isto na psy- 
chologla geral dos brazileiros. 



A CAPITARIA DO CAKJTA 



DR. MANUEL DE MELLO CARDOSO BARATA 

Sócio honorário do Instituto Histórico e Qeographico 
Braziloiro 



1 



Pablicando a Capitania do Camutâ^ estudo devido á competên- 
cia do illustra Io consócio Dr. Manuel do Mello Gardoao Barata, 
a Commissão de Redacção archiva nas paginas da Bevista mais 
um curioso trabalho do modesto, mas proficiente hiatoriographo 
paraense. 

(Nota da Commissão de Redacção.) 



A CAPITANIA DO CAMUTÁ 



(breve noticia histórica) 

Faz hoje 270 annos que fallecen om Villa Viçosa de Santa 
Craz do Camatá, aonde fora á procura de melhora de saade, o 
primeiro governador e capitão general do Estado do Maranhão 
(1626-1636), Francisco Coolho de Carvalho, que foi sepultado na 
igreja de S. João Baptista, matriz daquella povoação. Era elle 
filho de Feliciano Coelho, antigo governador de S. Thomé e^ de- 
pois, da Parahyba (1595), e oommendador da Villa de Côa ; e de 
sua mulher D. Maria Monteiro. 

Antes de tomar posse do governo do Estado, Francisco 
Coelho de Carvalho militara em Pernambuco contra os hollan- 
dezes. 

Antorisado pelo alvará de 19 de março de 1624 (1) e cart^ 



(i) Ea RI Rey faço sabor aos qne este Alvará virem que por justas 
conçoderações do meu soniiço quo mo raouorão líoy por bem que 
francisco Goelbo do Carualiio, quo trnho nomeado por çoucrnador 
do Maranhão, com parecer do Prouedor de minha íazenda daquella 
conquista, possa Rej)artir as terras, <* (>apitanias daquelle Estado, 
aos pouvadores e cultivadorn.s qiin pedirem, sondo pessoas d*^ sus- 
tancia, E cabedal, que cumpro sor.Mn taas para Benr^ticio das ditas 
terras, c cípitanias, E com obripação de havorem de pedir comíir- 
mação ddlas no Conselho de minha fazenda dentro de dous annos 
primeiros seguintes, Koste so cumprira inteiramente como se nelle 
comthem, o qual valerá como Cirta, e não passará pela ClianccUaria 
sem embargo das ordenações do sep^undo Liuro, numero trinta E noue, , 
quarenta, que dospoein o contrario, francisco da Brtu o fcs em* 
Lisboa a dezanoue de Março de seis centos e vinte quatro, Diogo 
Soares o fes escrever.» (Carta de doação da cipitania do Camutá a 
Feliciano Coelho de Cirvalho, 16'í;. Chancellaria do Felip.pe III, 
Liv. 35, foi. 95, no Archivo da Torre do Tombo. Por copia,^ que pos- 
sui mos. 



184 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

rógiade 14 de maio de 1633 (2), Francisco Coelho concadcu a 
capitania do Camutá a seu filho Feliciano Coelho de Carvalho, 
que, tendo vindo com elle de Portugal, servira no Maranhão e 
Pará, e commandára a expedição mandada em 1G32 contra o 
forte inglez de Cumaú, tomado do assalto, na noite de 9 de 
julho desse anno, pela intrepidez do capitão Pedro Baião de 
Abreu. A carta de doação dessa capitania foi-lhe passada em 14 
do dezembro de 1633 (3), em compensação da do Caetó, que lhe 
havia sido doada pelo mesmo governador, S3a pae, em 1627. 

Por carta de 25 de maio de 1622, Felippe III fez mercê a 
Gaspar de Sousa, que fora governador geral do Brazil (1613-1616), 
de € huma capitania nas terras da dita oonqnista do Maranhão 
ou Pará, conforme ao sitio e parte que elle escolhesc o com a 
mesma Jurisdição o obrigam com que foram conoelidas as 
outras capitanias do Estado do Brazil pêra que benoflciase e fi- 
zese povuar, da qual morce lhe passou portaria om 22 de 
agosto do dito anno, com declaração que com ella se prezentaria 
sua nomeação authentica do sitio c parte que escolheso para a 
dita capitania de que se lhe passaria carta de doação...» (4). Fal- 



(2)«. . . o as mais capitanias desst* Kstad ^ E Jo Pará so repartirão 
lo^o a particulares quo tenhão cabedal para as pouoar c cultiúar, 
Kodazindo<is ao menor distrito para quo oh donatários, a que se iiser 
mercii doUas, po.>são milhor cumprir com suas obriírações, princi- 
palmente com a da Tortifícação, dandosse huas a pcs-^oas quo por 
merco minha tenhão pormeça diillas, comforme seus despachos, e 
procedendossc' em so repartir as mais com formo as ordens quo nos 
estão dadas, c ao que Aca dito.» (Idem, ibidem.) 

Conseguinti^mente, não tem razão Varnhagen, quando diz que 
«Ao ter conhecimento dos planos de Bmto Maciel, acerca do estabe- 
lecimento de novas Capitanias no Estado, assentou o governador 
(Francisco Coelho do Carvalho) que poderia doar desde logo duas, 
uma ao mencionado seu lilho (Feliciano Goeliio do Carvalho), o outra 
ao sou irmão António Coelho de Carvalho, dcscmbarf^ador do PaQO, 
— fundando-so, para iisso, abusivamente, no disposto em húas pro- 
visões régias (o alvará oa provisão de 19, e não de 17, de marco de ÍG24 
c a carta r(''gia de 14 de maio de 1633, mencionados), que o autori- 
savam a dar terras de sesmarias,)^ 

(Hist. Geral do Brazil, 2* ed., t. II, p. 711). 

(3) « Dada nesta Cidade de são Luiz do Maranhão sob meu aignal 
E senete de minhas armas aos quatrose dias do mez de Dezembro. 
António Gonçalves teixeira, tabalião a fes de mil e seis centos e 
trinta e três annos. O governador francisco Coelho de Carualho.» 
(Carta de doação, citada). 

(4) (^.arta de doação da capitania do Caete a Álvaro do Sou^a. 
Chancellaria rio Felippe IH, Liv. 27, lol, 82, no Archivo da Torre 
do Tombo. Por copia, quo possuímos. 



A CAPITANIA DO CAMUTÁ 185 

lecQu porém Gaspar de Sousa, som qae tivesse escolhido as terras 
qae deviam constituir a capitania promettida. Álvaro de Souza, 
seu filho mais velho e herdeiro da soa casa e dos seojs serviços 
ao rei, fez peti(^, em 10 de outubro de 1C33, dizendo que < em 
conformidade da dita mercê e sentença de Justificação lhe fizesse 
mercê mãodar paasar doação da dita capitania.,, e declarou 
que elle escolhia para a dita sua capitania as terras que jazem 
desde os Rios tury athe oRio cayte.» (5) A* vista disto foi-lhe 
passada a carta de doação da capitania do Gaetá, em 13 de 
fevereiro de 1634 (6), ficando portanto sem effeito a doação 
dessa capitania anteriormente feita a Feliciano Coelho* 

Da aldeia de Santa Cruz do Camutá fez Feliciano Coelho ca- 
beça da sua capitania, como lho fora determinado por seu pai 
na carta de doação, € por ser o lugar mais defenaauel de todos 
que ha nas ditas terras», e deu-lhe o titulo do Viila Viçosa de 
Santa Cruz do Camutá, em 1Ô35. £rigiu-lhe a modesta igreja 
matriz, já, referida, sob a invocação do S. João Baptista, ees« 
tabeleceu um engenho para fabricar assucar (7). 

O primitivo assento dos Índios dessa aldeia, os tupinambás» 
não foi esse,oomo se tem dito. Mas, deixemos por agora de lado 
este ponto, que nos levaria mais longe do que desejamos. Basta 
dizer que elles foram para ahi mudados em 1620, de outro sitio, 
fora do rio Tocantins ; o ã sua nova aldeia se continuou a dar o 
nome do Camutá, da soa primeira situação. Foi então a novi^ 
aldeia missionada pelo padre capucho de Santo António, Fr. 
Christovam de S. Josô, que nella ergueu uma cruz de madeira, 
donde lhe veiu o nome de Santa Cruz do Camutá. Passou depois 
(1643) á administração dos frades carmelitas ; destes, a dos je- 
suítas (1655), que foram substituídos pelos capuchos da Piedade 



(5) Idem, ibidem. 

(6) « Dada nesta cidade de lixboa a treze dias do mez de fcveroiro 
lais de cerneira a fez anno no nacimento do nosso senhor Jessu 
christo de mil seis centos e trinta e quatro annos.» (Idem ibidem). 

(7) A principal cultura e layoura da terra era o tabaco de que se 
faziam annualmente cerca de dois mil rolos, ou quatro mil arrobas. A 
canna de assucar dava em gran I3 abundância, como também algodão, 
urucucú e laranjas. Nas cercanias da cidade de Balem havia então 
dois enprenhos. Não s» fazia, poróm, assucar por falta de caldeiras e 
outros utcnsilios; fazia-se aguardente. 



186 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

1003); e, finalmente, depois de remcttidos estes para Portugal 
(1750), passou ella a ser parochiada pelos meroenarios. 

O P.^ José de Moraes (8) refere que, sendo a aldeia assolada 
por uma epidemia de bexigas, o padro jesuíta Manuel Nanes a 
mudara para ò sitio de Parajó, que é o da actuai cidade de 
Gamutâ, segando Cândido Mendes(nota ao texto daquelleauctor), 
a qual foi elevada a esta categoria por lei provincial n. 145, de 
24 de outubro de 1848. Não nos diz José do Moraes o anno, em 
que se fez a mudança. Mais de um missionário jesuíta daquelle 
mesmo nome entraram no Pará, de 1655 a 1680, tendo sido um 
delles companheiro do P/ António Vieira e reitor do coUegio 
desta miSGÕo (1655). 

Pelo que podemos conjecturar, parece que a aldeia fOra 
para alli mudada pelos annos do 1670—1690. 

O logar abandonado ficou desde então denominado «Camuld* 
tapera*. 

Pouco depois da mort3 do governador, seu pai, partiu 
Feliciano Coelho, em outubro de 1636, para Lisboa, onde re- 
quereu e obteve a confirmação da doação da sua capitania, por 
carta de 26 de outubro de 1637 (9) . 

No dizer dessa carta, a capitania do Caiiiutá ceram as terras 
que ha Entre o Rio Pará ( Tocantins ) e o primeiro Braço do 
Rio das amasonas ( Xingu ), com as legoas que ou ver do estreito 
que cie chamâo do Camutã atte sahir ao Rio Corupá (costa de 
de Gurupá, margem direita do Amazonas), que podem ser 
quarenta legoas, pouco mais ou menos, por Rumo direito, e por 
o dito rio do Corupá assim para o de paranahiba ( Xingu ) as 
legoas que costumão tor todas as capitanias de que tenho feito 
mercê naquellas terras damerioa. Respondendo osta arrumação 
pello Rio do Pará (Tocantins) assima p:\ra o sul pella parte 



(8) «Historia da r.onipanhia «lo J >sus, in Momorios para a Historia 
do extincto Estado do Maranhfio, por (landitlo Mim loa de Almeida, 
T. I, p. 499-500. 

(0) « ... Da Ia nosta ci<lnde de Lixboa, aos vinte sois dias do moz 
do outubro, Bertolarnen da J^aujo n fez Anno do Nassiinento do Nosso 
Senhor .Tcssu Christo d' Mil e sois centos E trinta o sotte.. AfTonso 
deBarros Caminha a foz oscrov^r El Rey. Concertada Manoel Oodinha 
da Silva. (Chancollaria do D, Follipo [II, Livro 35, foi. 95, Archivo 
do Torre do Tombo, Por copia que possnimo^). 



A CAPITANIA DO CAMUTA 18T 

de loeBie onde se aoaba o lemite que ea tenho nomeado para a 
Capitania do Pará. • . 

Bem aasy mais seiuo do dito fóliçiano Coelho de Caraalho e 
seuA guQwaorei ajs Ilhas que oaaer na maneira anima dita atte 
desE Lagoas ao Mar na firontarla £ de maroaçfto das ditas qna* 
ronta Legoas de costa (Agente) de sna Capitania, as quais se Bn- 
tenderfto medidas palia maneira que âea dito e emtrarSo pello 
oertao e torra firme a dentro pello modo aasima dito, E dahy 
por diante tanto quanto poderem emtrar B forem de minha 
conquista daquella terra. • •» • 

Por esta delimita^ se tô que a capitania deFdiManoOoelhe 
abrangia o yasto tracto de terras comprehendido entre a margem 
esquerda ou Occidental do rio Tocantins e a direita oa oriental 
do Xingu. A sua costa ou íirente era a tàM septentrional desse 
continente, desde a Ponta de Tatuoca, de Jupatitnba, do Li- 
meeiro ou do Frechai (nomes que se lhe tem dado), extremo da 
margem oocidental da fiMs do Tooantius, até o rio das Areias 
(10), hoje Marajó-miri ou Marajoi, afiluente da margem direita 
do Amavmas, três léguas superior & boca do canal de Tajipará 
que demora dose léguas abaixo da cidade de GurupA. 



(10) «...Também aqui advirto ao leitor que passando pelo rio Li- 
mooiro, fazendo-se nma linha imaginaria ate o rio das Areias, tudo 
o que ftca a mão direita era pertencente ao Barão da Ilha Grande 
(donatário da capitania da ilha Granie do Joanes), e o que fíca á mão 
esquerda tocava ao donatário do Camutá, Francisco de Albuquerqna 
Coelho de Carvalho (o quinto e ultimo donatário), cujas terras começão 
da boca do rio Tocantins até o rio das Areias, por costa, com algumas 
ilhas, e quarenta loa:ua8 para o certão... Da Aruoará (Portel), se a^- 
guissemos a costa da terra firme, poderíamos Ir sahir á boca do 
rio das Areias, ao largo do Gurupé... E sahindo nesse famoso rio 
(Amazonas), objecto da nossa descri pção, a poucos passos topamos, á 
mão esquerda, com a boca do rio aas Areias...» (P^, José do Mo- 
raes, líist, da Comp, de Jesus, in Memorias para a Hist, do esetincto 
Estado do Maranhão, T. i, pp, 501—502). 

«Navegando já pela Costa austral do rio das Amazonas acima se 
atravessarão peía ordem seguinte as bocas do igarapé das Areias, 
do rioPionrui, edoiguarapé das Aningas, até aportar em a villa e 
fortalexa de Santo António de Garupa, que fica treze léguas acima da 
boca superior do Tajepurú.» (João Vasco Manoel di Braun. Roteiro 
choropraphiro, i 784) . 

«O rio das Áreas, que desagua no Amazonas junto á entrada sep- 
tentrional do Estreito Taygipurú, he navegavid por largo espaço 
através de matos cria'Ioeem terreno plano, povoado de caça.» (Aires 
do Casal, Corographia brasilica, 1817 T. 11, pp. 304—305). 



188 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O qae então se oham&ya < estreito do Camuia» é o canal qae 
corro entre a supra determinada costa e as ilhas adljaoentes, 
atravessando as bailias dos Bocas ou de Oeiras» de Portel c de 
Melgaço, donde sae com o nome de Tajipurú, o yai desembocar 
no Amasonas. Bssas bahias são alimentadas pela ooQjancção dos 
rios Cupij6, Araticú, Panai va ou Panaúa, Jacundá, Pacajá o 
Uanapú ou Quanapú, e muitas igarapés ou ribeiros, que docon* 
linento do Gamutá surgem pela margem meridional delias. 

A linha de fundo da capitania devia correr, de um lado, 
pela margem esquerda do Tocantins acima, até o limite da capi- 
tania do Pará (margem direita), que era o primeiro salto deste 
rio (a cachoeira das Guaribas, oincoonta léguas acima da sua 
foz); de outro, pela margem direita do Xingd c as legoas que 
costnmao ter todas as capitanias de que tenho feito mercê 
naquella costa damerica ». (11) 

£sta capitania oomprohendida assim as duas capitanias em 
que Bento Maciel Paronte, no seu conhecido € Memorial >, havia 
proposto a divisão dessas terras, que ello considerava ilhas : 
uma, entro os rios Tocantins e Pacajá, com vinte léguas de lar« 
gura e quarenta de comprimonto ; outra, entre esto ultimo rio e o 
Xingu, com vinte léguas de frente o quarenta e cinco de fundo. 

Feliciano Coelho nao tornou do Lisboa & sua capitania, cujo 
governo confiou a seu loco- tenente e capitão-mor Cipriano Maciel 
Aranha. 

Succedeu-lhe, em 1G46, na donatária da capitania seu irmão 
António de Albuquerque Coelho de Carvalho, que foi nono go- 
vernador e capitão general do Estado do Maranhão (I(j67-1671). 

Ao terminar o seu governo, em 1071, António de Albu- 
querque mandou oxhumar da igreja de S. Juão Riptistado Ca- 



(11) Equivocou-so Varnhagcn, dizondo qno osla capitania «devia 
começar dos coiiCms da capitania do Pará ; coaCms quo cm 13 do abril 
de anno {Í033) foram decretados ser na l» caxoeira do Tocantins, 
devendo a doação chegar até as terras dos Tapuyassus » (Obr., t. 
e. p. cit.) 

Os confínsd.i capitania do Pará, ou a primeira cachoeira do To- 
cantins, era taiàibem o limite sul ou do fundo da capitania do Ca- 
mulã. As tf'i'ras dos Taptiymsus ou, antes, o rio dos Tapuyussus 
(Curupntuba), marirem esquerda do Amazonas, era o limite d.i capita- 
nia do cabo do Norte, deBmto Maciel Parente, c não da do Camutá. 



A CAPITANIA DO CAMUTÁ 189 

mu tá os restos mortaes de seu pai Fi-aucidco Coelho de Carvalho, 
eos levou comsigo para Lisboa. 

ADtonio de Albuquerque Coelho de Carvalho veio a suoceder 
tambeni na donatária da capitania de Cumá, no Maranhão, por 
ter casado em segundas núpcias com sua prima D. Ignez Maria 
Coelho do Carvalho, filha e herdeira do desembargador António 
Coeltio do Carvalho, a quem a dita capitania fora doada por sou 
irmão o governador Francisco Coelho de Carvalho, por carta 
passada na cidade de Belém em 12 de junho de 1627, e confir- 
mada por Phillppe III, por carta « Dada nesta cidade de Lisboa 
aos quinze dias do mez de Margo do Aono do nascimento do 
nosso Senhor Jesus Christo de mil seis centos trinta e novo». A 
doação da capitania de Cumá foi confirmada em D. Ignez Maria 
Coelho de Carvalho por carta de 6 de outubro de 1648. 

As duas capitanias, de Camutá e de Cumá, ficaram assim reu- 
nidas no senhorio de António de Albuquerque Coelho de Carvalho. 

A este succedeu na donatária das duas capitanias seu filho 
Francisco do Albuquerque Coelho de Carvalho, que falleceu a 
14 de abril de 1720, cm Lorvão, co;narca do Coimbra (12). 

Por este donatário foi concedido ã Camará do Camutá uma 
sesmaria de terras, para seu património, por carta de data de 
37 de maio 1713, cujo auto de posse foi lavrado em 20 de no- 
vembro do mesmo anno. 

Tendo fallecido sem filhos, deixou iostituido por testamento 
seu universal herdeiro a seu irmão segundo, António de Albu- 
querque Coelho de Carvalho (segundo do nome), a quem foi 
passada carta de confirmação das duas capitanias em 2 de no- 
vembro de 1722. Foi este António da Albuquerque Coelho do 
Carvalho decimo segundo capitão-mór do Pará (IG85— 1690) e 
decimo quarto governador o capitão general do Estado do Ma- 
ranhão (1690—1701). 

Por patente de 7 de março do 1700, foi nomeado gover- 
nador .do Rio de Janeiro. Exercia elle este cargo, quando, sendo 
oreada, por carta regia de 9 de novembro daquelle anno, a ca- 
p itania de São Paulo e Minas do Ouro (Minas Geraes), até então 



(i2) Gazeta de Lisboa ^ n. IS, ile 2 du iiiaiu de 1720. 



190 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

aonexada & do Rio de Janeiro, foi elie nomeado gorernador e 
capitão general da nova capitania, por carta da mesma dat^ e 
patente de 83 de novembro do mesmo anno. No sen governo 
foram creadas (1711) as Tillas de Ribeirão do Carmo, Villa 
Rica 6 Villa Real do Sabarã, e elevada á categoria de cidade a 
villa de São Paulo (171^). Chegando-lho a noticiada inva^U) do 
Rio de Janeiro pela esquadrado DugayTrouin, marchou k 
A*ente das suas tropas em soccorro da cidade, que encontrou jã 
abandonada pelo seu governador, Francisco de Castro Moraes, 
acampado com as forças da guarnição no sitio do Eagenlio-Novo. 

Este havia assignado a capitulação imposta pelo almirante 
francez, no dia 10 de outubro de 1711, véspera da chegada do 
António de Albuquerque. 

Voltando á sua capitania, passou o governo delia a D. Braz 
Baltazar da Silveira, no dia 23 de agosto de 1713, e tomou ao 
Rio de Janeiro. 

D'aqui partiu, por via da Bahia, para Lisboa, aoade chegou 
a 7 de março do anno seguinte, depois de ter resistido victorioei^ 
ao ataque dos piratas de Argel, a não N. S. do Carmo, em que ia 
de viagem. Foidepois nomeado governador de Angola, cigo go- 
verno exerceu desde 22 de março de 1722 até 5 de abril de 1725, 
em que alli falleoeu, e foi sepultado na igreja dos padres capu- 
chinhos. 

Suocedeu-lhe nas duas donatárias sen filho mais velho 
Francisco de Albuquerque Coelho de Carvalho (segundo do 
nome), aquém foi confirmada a doação por carta. « Dada em 
Lx* Occiai aos Yinte e quatro dias do mez de março Anno 
do nascimento de N. Sr. JezuChristo do mil setecentos trinta 
e cinco. » 

Foi o seu ultimo donatário. 

Os melhoramentos da capitania nenhum cuidado mere- 
ceram aos seus donatários ou loootenentes, que se limitavam a 
colher o fructo da terra peio braço do indio servo, objecto de 
continua disputa entre os donatários, os capitães generaes e os 
missionários. A carta regia de 3 de março de 1684 determiuava 
ao governador Francisco fie Sá de Menezes < que não tire Índios 
da Capitania do Camutá. . . », e a de 17 de janeiro de 1699 ad- 
vertia ao superior das missões que < tenhaes entendido que a 



A CAPITANIA DO CAMUTÁ 191 

jurisdição chamada temporal, que se tos conoedeo se não en- 
tende em forma que por virtude delia fiquem os índios das al- 
deãs das Capitanias do Gamutá e Cumá, de que he Donatário o 
dito António de Albuquerque Coelho de Carvalho isemptos da 
sua jurisdição, nem para quo possaes de algum modo impedir 
■cus mandados, que sempre se prezumem justificados, e quando 
acheis o contrario o deveis fazer prezcnte ao dito Donatário, 
ou ao seu Capitão Tenente, por modo de requerimento, e não 
de jurisdição, para que vos defira como for de justiça, e não 
vola fazendo recorreis a mim para rezolver o que for servido, 
porque deata forma se evitarão estas contendas, e inconveni- 
entes...». Em 1731 era tal o desamparo da villa do Gamutá, 
que nem egroja, nem casa de camará e cadeia tinha ; pro- 
pondo-se por isso um morador do logar, Bento Bonito Vam- 
zeller, a edifical-as & sua custa, pela recompensa de postos de 
commando» Disto faz menção o curioso documento, que trans- 
crevemos : 

«Dom Joãc-etc. Faço saber a vós Governador, e ca- 
pitam General do Estado do Maranhão que vendosa o 
que me escreveo o Bispo do Pará em carta de onze de 
septembro do anno passado, cuja copia com esta se vos 
em via, assignada pelo secretario do meu conselho ultra- 
marino, sobre a total ruina, e miserável estado, a que 
se acha reduzida a Villa do Camutá, e o oferecimento 
que fez Bento Bonito Banzeler (Vanzeller) para edificar 
a Igreja da mesma Villa a sua custa, e fazer casa da Ga- 
mera e cadêa pondo todos os materiaes necessários, 
mandandolhe eu dar somente os ofilciaes precisos com 
condição de o prover no posto de capitão-mor da orde- 
nança daquella capitania, e de lhe dar a Administração 
da Aldeã de índios, que se fundou junto da dita Villa 
em sua vida e de seu filho. Me pareoeo ordenar vos in- 
formeis ouvindo o Donatário da Villa, e o capitão mor 
actual interpondo o vosso parecer. Kl-Rey nosso Senhor 
o mandou pellos Doutores Manoel Fernandes Varges e 
Gonçalo Manoel Galvão de Lacerda, conselheiros do seu 
conselho ultramarino, e so passou por duas vias. Dio- 
nysio Cardoso Poreyra a fes em Lisboa Occidental a 



192 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

quatro de Janeyro de mil setesentos e trinta o dous. O 
Secretario Manoel Caetano Lopes de Laire a fes es- 
crever». 

Não sabemos se Yanzjller obtere despacho favorável, e se 
foz as obras propostas; não oncontramos documento que nos es- 
olareccsso. 

Tendo D. Josó I rosolvido reunir aos beus da coroa todoi os 
dominios ultramarinos, doados pelos reis soas predeoessores a 
alguns particulares, foi oxtincta a capitania do Camutá e cncor- 
porada na coroa, como também a do Cumà , por carta regia do I 
de junho do 1754, por meio de uma índomnisação paga a Fran- 
cisco do Albuquerque Coelho de Carvalho, em pensão annual do 
trcs mil cruzados. 

Belém do Pará, 15 de setembro de 1006. 



i 



REFLEXÕES SOBRE O CONCEITO DÂ HISTORIA 



DR. PEDRO AUGUSTO CARNEIRO LESSA 

Sucíj circctivo (lo Instituto Histórico o Gcographico 
Brazileiro 



4323 — i3 Tomo i.xix. v. Ii. 



Reproduzindo n^ste tomo da lievista o trabalho do consócio 
Dr. Pedro Augusto Carneiro Lassa, já publicado alhures, a Com- 
missão de Redacção tivo om vista archivar nestas paginas mais 
nma demonstração sup3rior do ominentj homem de letras, per- 
mittindo a sua leitura aos que não puderam ainda apreciar as 
esclart^cidas considerações sobro o conceito da Historia e aos que 
desejarem de prompto relel-as. 

(Xoia, da Commistão de liedacção.) 



 HISTORIA ANTES DE BUCKLE 



Na Qrocia e em Roma, consistia a missão do historiador em 
narrar os acontecimentos memoráveis. Obra d'arte, o não de 
scienoia, a historia so escrevia geralmente para perpetuar, en* 
carecendo, os feitos militares, ou políticos (I) ; e seu priacipal 
merecimento estava em reproduzir tradições e chronicas, muitas 
vezes infleis» sob os primores li tterarios do ostylo descriptivo. 

Dionysio do Halicaraaso nota uma cor la semelhança entre 
a forma animada e pittoresca da Hisioria de Heródoto c a dos 
poemas de Homero {i) . A profunda concisão de Thucydides e a 
perfeição attica de Xonophonte fizeram da Historia da guerra do 
Peloponeso e da Retirada dos Dez Mil inimitáveis modelos de 



(l) Tácito deplorava não poder iii 'luir nos sou.s Annnes os assum- 
ptos que faziam o objocloda historia, qual a entendiam os antigos ro- 
manos: « Não se devem comparar os meus Anna''s com as antigas his- 
torias do povo romano. Nesse tjmpo, iiavia para contar grandes 
guerras o granies hatallias; muitas cidades tomadas por força, o 
muitos reis vencidos ou ditos pi*ir>ioneiro>; c, se alguma voz so fazia 
munção djs nv;gocios domésticos, era para relatai* livremente as dis- 
córdias dos cônsules com os tribunos, os d. bates sobre as leis a:4;rarias 
easc3ntendas do povo com os «grandes. Mas, o meu objecto c muito 
somenos, e pôde 8 !r talvez que também assim seja a minha gloria; 
pois escrovj de uma época ejn <[uo, quasi sempre tem havido paz, ou 
poucas vez s tom si lo pjrtu»kÍ3ada ; e na qual não posso dar noticia 
senão do desgraças int.rnas, e d) governo de um príncipe que nunca 
ambicionou estender o s íu império. . . A deseripção de diversos povos 
edillerentjs paizcs, a varie. lide das batalhas, e as acções iilustres 
dos grandes capitães, naturalmente prondom o enlevam a attenção 
dos Ifitores; mas, eu não poso nem tenho para contar senão ordens 
e decretos atrozes; continuas accusações; perfilas violações da 
amizade; ruina e de>gra<vas de muitos iunocentes ; o ao mesmo tempo 
quaes foram as suas causas; objectos estes que, por soreni quasi em 
tudo semelhantes, chegam por fim a enfastiar.» (Annaes, liv. 4^% 
XXXli eXXXlll). 

(2) Historia de Heródoto, trad. de Miot, pref., XXXVIU. 



196 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

narração. Sallustio, de quem dizia o poeta Marcial «prtmiis ro« 
mana Crispas in historia, exige do historiador, como primeira 
condição do successo, tuma linguagem á altura dos aconteci- 
mentos» (3). Som embirgo das suas qualidades de homem de 
acção, dos seus dotes do incomparável cabo de gusrra, Gesar foi 
exímio na grammaticae na rhotorica; e tão rigoroso era o 
sou classicismo, que aconselhava a ovitar as expressões novas ou 
incorrectas, com a mesma solicitude com que o marinheiro deve 
fugir das penedias (4). E' por isso que Cicero, segundo o testo- 
munho de Suetonio, admirava o estylo puro dos Commenlarios, 
ao ponto de reoommendar que ninguém «bordasse sobro essa 
talagarça» (5). Tito Livio éa eloquência romana: tendo vindo 
Já muito tarde— quando a libardade ora apenas uma tradição — 
para exercitar os seus talent:)8 oratórios, o achando intordicta 
a tribuna das arongas forenses, transportou o rostro para as 
Décadas, o, no dizer de Taino, «tV /xU hislorien pour resler 
orateur» {6). Quinto-Curcio, um simples rhotorico, a nenhum os- 
oriptor cede na descripção das batalhas. A energia, a profun- 
deza e o brilho do estylo de Tácito, que «a poesia, o ódio e o 
estudo inílamaram e sombrearam», só se encontram uma voz 
na historia (7). 

Mas, sob as formas attrahontes ou empolgantes deisa con- 
summada arte de descrever, não se procure, pois frequente- 
mantc seria vão esforço, apurar a fldelídade das infv>rmações. 
Inquirir a verdade dos factos. Não se observavam, porque so 
ainia não conheciam , os cânones da heurística, da diplomática 
eda critica de Interpretação, sem os quaes ninguém hoje se a- 
vontura ã árdua tarefa da historiogt*aphia (d). Ilaros historia- 
dores, ao roconstruirem os factos políticos e militares da vida 



liv. 2. 



(3) Caliliva IJI, 

(4) Momuisen, Ilistona HomanatVoi, 7', liv. 5.o, cap, Xllt 

(5) Suotonio, Os Dose Césares, Júlio César, L. VI, 

(6) Essai sur Tite^Lice, iutroducção, § 1,«. 

(7) Taino, obra citada, conclusão. g2.". 

(8) I.anj^lois o S.^ig-nobos, Tntmhirtion av.v E\itãcs Ifisforiquss ^ 



A HISTORIA ANTES DÊ fiUCKÍ.B 197 

de um personagem, de uma família illustre, ou de um povo em 
determinado período (o cifrava-se nisso a lustoria), procediam 
a um escrupuloso exame das provas, ou se davam ao ímprobo 
labordó cirandar meticulosamente os documentos. Quão poucos 
poderiam repetir» convencidos, as palavras de Thucydides! « No 
qie toca & verdade dos factos, diz o autor da líiHoria da guerra 
do PeloponesOf não dei credito As primeiras pessoas que en- 
contrei, nem a minhas Improsaõas pessoaes; narrei &ómente 
os acoot^i mentos de que fui espectador, ou sobre os quaes 
adquiri informações procísas ode certeza absoluta» (9). Na 
Anabatê, Xenophoote descreve factos de que hi tostomunUa, 
porquanto fez parte da expedição de Cyro, o moço, a qual cora- 
maniou depois da morte de Gloarcho, o por isso a sua narrativa 
se acceita como verdaieira ; mas, na Cyropedia^ tanto desde- 
nhou averdade, que é hoje opinião unanimo não passar a Historia 
de Cyro de um romance moral (10). Bm vordade, aquille joven 
príncipe, dutado pela natureza do todos os encantos imagináveis 
do espirito e do corpo, educado no seio de um povo singular, 
que a tudo antepunha a utilidade publica, e de til arto for- 
mwa o cjra^o de seus Alh)â, que eUo) não commoUiam 
jamais actos censuráveis, nom tiuham nunca motivo para 
corar; aquellos bárbaros, tão zelozos cultores da Justiça que 
nas escolas só ensinavam as normas do direito, tão imbuidos dos 
preceitos da mais pura ethica, que escrupulosamente prati- 
cavam todas as virtudes mais tarde preconisadas p3lo chrístia- 
nismo ; aqnelle perfeito o clovadissimo estoicismo, quo nos ÍH? 
antever em cada Persa, sectário da religião mazdeista, o mais 
bem acabado pvototypo do mystico medieval (II); tudo isso por 
certo pólo constituir o ornato o o onsinamento moral do um 
livro destinado á educado da juvontude, mas destoa profunda- 



da Ti-a lucção do Lóvôsqae, liv. I», XXII. 

(10 .Tá or.inçoso Laharpe comparava a Cyropedia ao Telemaco de 
Fi^nelon, no Diantnto Pve/tmi7iar quo procede a trada»ção de Sue- 
Innio. RofiRuet ó um dos poucos historiadoros que dão credito á 
Cyropedía {I)is?ours sur rifistoivt' Univfrsi^lle, pari 3 primeira, 
7* epoc:i). 

(II) Cyvopediay liv. 1.'' 



198 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

menie da severidade do historiador. So» para escrevera Reti- 
rada dos Dez Mil, Xenophonte fez de Thucydides o seu modelo» 
qnaoto á fidelidade da exposição, na Cyropedia imitoa o pae da 
historia, o qual com fabulas e lendas, entretecidas nos fkctos^ 
oompoz 03 seus nove livros, consagrados ás nove musas, e que 
mais se assemelham aos cantos de uma epopéa do que aos capí- 
tulos de uma historia. 

Nfio obstante o manifesto desdém de Quintiliano, ao. alludir 
ás historias gregas (12), os historiadores romanos não foram 
menos descaroaveis para com a verdade. Difílciimente compre- 
heademos hoje o modo como Tito Livio se preparou para 
escrever a historia, a sua absoluta ausência de curiosidade 
quanto aos documentos e testemunhos com que devia cimentar 
as suas narrativas. Bra«lhe fácil ir ao thesouro publico e ao 
templo das Nymphas, para lêr sobre as taboas do bronze as leis 
regias e tribunicias, os antigos tratados celebrados com as nações 
vencidas pelo povo romano, os decretos do senado e os plebis- 
citos ; cumpria-lhe, ao menos, recorrer aos annaes preparados 
pelos pontífices, que minuciosamente foram annotando todos os 
acontecimentos merecedores de transcripção na historia romana; 
mas Tito Lívio teve por indigno de si proceder a essas pesquisas, 
aliás tão fáceis a um cidadão romano ; nem sequer visitou os 
legares onda se passaram muitos dos foitos militares, por elle 
descriptos* Dahi os equívocos, os erroa, as falsidades, que 
abundam nas Décadas (13). Sallustio escreveu somente para re* 
velar a admirável perfeição do sou estylo, o por isso «explorou 
a historía, como se fora a sua província d' Africa, como egoísta 
e artista de génio», tratando apenas dos factos susceptíveis de 
de8cripç5es brilhantes pela forma (14). Asioio Pollião contesta a 
fidelidade dos Commeniarios ^ notando que Cosar diminuo as fa- 
çanhas dos seus companheiros d'armas, e altera, encarecendo, 
os proprioá feitos (15). Cícero, conta-nos Plutarcho, tinha for- 



(12) Instit,, Orat,, ÍI, 4. 

(13) Tainc, obra citada, parte 1«, cap. 2<^, gO.*^ 

(14) Taúíí?, conclusão, §2.0 

Íl5) Suelonio, Júlio Cesav, LVI. 



A HISTORIA ANTES DE BUCKLB 199 

mado o plano de escroYer uma historia de Roma, na qoal 
pr6teodia indair parte da historia grega, com qaasi todas at 
saas fabulas (16). 

A historia, para os gregos e romanos, ó om género litte* 
rario. A amplificação oratória, as flcgSes, o maravilhoso épico» 
inçam as narrativas, desfigurando os factos, e subtrahindo-os fc 
justa apreciação dos mais claros e seguros entendimentos. O que 
oonstitue a sedueçSo da historia na antigaidade ó a lingua, e 
ostylo, a arte da composição, a movimentação dramática» íbnte 
iaezgottavel de emoções e do prazer, a nos mostrar» em quadros 
animados da mais vivida eloquência, as grandes e fortes vir* 
tndes do heroísmo e do patriotismo (17). 

Alguns historiadores desse período alimentavam a preteni^ 
de fkzer da historia um vasto repositório de licçQes politicas e 
moraes, a «mestra da vida» (18). Polybio e Plutarcho foram 
insignes no género. Jã Xenophonte tinha sido um iniciador, e 
Sallustio fes preceder a cada uma de suas obras {Qailma^ seu 
hellum caiiUnarium, e Jugurtha^ sen bêllum jugmrthinum) um dis^ 
curso da mais enaltecida moral, tão destoante da vida de quem 
foi expulso do senado por suas escandalosas immoralidades. 

A antiguidade clássica não fez da historia uma sciencia. 
Nem quanto a essa doutrina (para a maior parte dos pensadores 
ainda hoje impossível) que, muitos séculos depois» se chamou a 
philosophia da historia, conseguiu roais do que rudimentar e 
grosseiro esboço. Apenas o génio proítindo de Thucydides teve 
uma percepção fugas das leis a que estão SQjeicos os phenomenos 
súoiaes: acreditava o autor da Historia da guerra do Pelopornsê 



(10) Vida de Cícero, UW, 

(17) Vacherot, La Science et la Conscienee, lí, Les historiens* 

(18) K* a concepção que ainda neste século domina o espirito de 
alguns histopiadorog. No tumulo de Alexandre H»»rculano, no convento 
dos Jeronymos, veem-so as seguintes palavras, que lá tivemos occasião 
de li^r, e foram trasladadas de um dos sous escriptosu Aqui jaznm 
homem que conquistou para a grande mostrado futuro, para a his- 
toria, algumas verdades importantes.» E Oliveira Martins comaça a 
s^a Historia de Por tugai» diiendo: «â historia c sobretudo uma licção 
moral ; eis a conclusão qm», a no^>so vôr, s^ae de todos os eminentes 
progressos ultimamente realizados no foro d»» «ciências sociaes» 
(Advertência), 



1 



200 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

que seu eftudo seria atil a todos qae quizessem, partindo do 
oonhecimeato dos factos passados, comprehender oâ factos fu- 
turos, qud cseguQdo as leis humanas ser£o semelhantes, ou aná- 
logos» (19). Mas, lançadas aocidentalmente essa e outras obsor- 
vaçõai de admirável justeza, o historiador grego prosegue em 
sua narratira, sem indacçõeíi, sem systematizar os factos, 
explicando, quando muito, os acontecimentos como um politico, 
pela natureza das instituições, pelo papel desempenhado pelos 
partidos, polo conflicto dos interesses, pelo Jogo das paixões, pela 
eloqaencia dos homens do Estado e pela táctica dos homens de 
guerra (20). Ainda é a personalidado humana, a vontade indivi- 
dual ou collectiva, que occupa a soena da historia, como em He- 
ródoto. NSo se nota mais a sensibilidade ingénua, a imaginação 
juvenil do Heródoto, para quem a queda de um raio sobre os 
bárbaros reunMos junto aos muros do templo de Minerva 
Pronéa, e o despenharem-se com fracasso dois rochedos do cumo 
do monte Parnaso, são os maiores prodígios, os mais porten- 
tosos acontecimentos, que p6de narrar um historiador (21). 
O auctor da Historia da guerra do Pelopaneso não se eleva ás 
causas naturaes dos íkctos, nem nos dá as leis a que alludiu no 
começo de sua chronica, em um rasgo assombroso do génio. 
Continuador do methodo histórico de Thucydides é Polybio, que 
procura explicar a superioridade politica e mUitar de Roma, 
comparando-lhe as instituições com os dos outros povos. Mas, 
toda a philosophia de Polybio eitá condensada nesta formula: 
cCumpre estudar a constituição de um Estado, como a causa pri- 
mordial dos bans e mãns successos em tudo. E' dessa consti- 
tuição, como de uma fonte, que derivam as empre^zas e seus 
effeitos» (22). Sallustio, Tito Lívio, Tácito, todos os historiadores 
romanos, nos dão uma única explicação da grandeza e da deca- 
dência de Roma: a cidade cresceu, elevou «se, dominou, em 



(19) Liv. 1^ xxir. 

(20) Vachero(, obra citada. 

(21) Historia do Heródoto, liv. S\ XXXVIl e XXXVIII, trad. de 
Miot. 

(28) Polybio, HistúHa Geral, VI. 



A HISTORIA ANTES DE BUCKLE 201 

consequeDcía de saas virtudes e por uma predestinação divina ; 
decaliiu, perdeu a liberdada e o império do mando, em conse- 
quência da dissolução dos costumes, produzida pelo luxo (23). 
Não passa dessa rudimentar consideraoao a philosopiíia da his- 
toria em Roma, 

Nâo se pretenda tam pouco descobrir nos historiadores gregos 
e romanos, a coordenação metliodica dos factos, a systomatização 
scientifica dos elementos preparados pelo historiador, para as 
generalizações das scioncias sociaes. Taine caracterizou bem a 
historia, tal como foi compreliendida pela antiguidade clássica, 
dizendo que ella nos oíTorece unicamente uma saccessão de 
acontecimentos, c não classes de factos (24). Preoccupados com 
os feitos bellicos e as acções dos j^liticos, os historiadoras do pe« 
rlodo greco-romano poucas ou neuhumas informações nos mi- 
nistram sobre a industria, o commercio, os costumes domésticos, 
a religião, a scioncia, as lettras, as artes liberaes e mecânicas, 
sobro t.dos aquelles factos estudados hoje pelos historiadores, 
como o conteúdo principal da hiatoria. 

f; lendo Ottfried Muller, ThirlwalJ, Grotí>, Niebuhr, Mom- 
rosen, Curtius, Fustel de Coulanges, que bom conhecemos e 
comprehendemos a Qrocia e Romi. 

A edado media nos legou alguns toscos esboços de historia 
universal, modelados pelos escriptos de Eusébio, Orosio e outros 
historiadores catholicos . 

A pratica das glosas, tão util ao desenvolvim3nto do direito 
no periodo medieval, transplantada para o estudo e composição 
da historia, foi fecunda em resultados, especialmente na sua 
spplicação ás collecções de documentos o ás dissertações cri- 
ticas {2ò). E cifrou-S) nisso o progresso da historia na edado 
media» quo, facilmente se oomprehende, a nenhum principio, 
doutrina, mothodo, ou classificação scientifica, subordinou as 
investigações ou a exposição do historiador. 



(23) Vacherot, obra citada, I. Tainc, obra citada, introducs^âo. 

(24) Obra citada, conclusão, 

(25) Laniílois e S^ignobos, obra citada, liv. 3<*, cap. 5. 



202 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

NarenaacBiiga, Macbiav6l bosqnejoa a sua original conce- 
pção da historia, baleada em um abstruso semi-fatalismo. O 
principio cardeal da tbeoria do famoso secretario florentino 6 o 
movimento das espheras. A direcção dos astros, o curso das es- 
tações, a passagem da vida para a morte, tudo é preestabelecido 
e dominado pela evolação circnlar do universo. Também o 
homem e^ soô^i^o ^ osse principio: multiplica-se cegamente, 
invade a terra; e, quando o mundo regorgita de habitantes, as 
espheras o despovoam pelas pestes, fomes e inundações, para que 
a humanidade recomece a sua faina. O movimento circular unif- 
versal veriftca-sono seio das sociedades ; os Estados se organizam 
e corrompem-so, como os individues; passam da monarchia i 
aristocracia, e desta ã democracia, para regressarem á pri^ 
meira forma de governo. Todas essas continuas mutações são 
resultantes do impulso communicado pelas espheras, e os ho- 
paens nunca poderão adivinhar o fim definitivo do universo (86). 

Admittido o principio, mal se comprehende a inoongruencis 
da& deducçOes. Acreditam muitos, diz Machiavel, que Deus e a 
fortuna, ou o destino, regem as cousas deste mundo, e de tal 
arte que toda a prudeneia humana ó impotente para lhes deter, 
ou regular, o curso ; a concepçãoé acoeitavel com uma limitação: 
€ a fortuna dispõe da metade de nossas acções, mas confia a 
outra metade ao nosso livre arbítrio» (27). TitoLivio ô o guia» 
o mestre de Machiavel, que repete, convencido, estas palavra 
do historiador romano: ^Ohcceicat ânimos fortuna^ etftn vim $uam 
ingruentem reftingi non vu;t.> Os homens podem secundar o 
destino, mas nunca obstar aos seus decretos (28) • Os factoi 
históricos se repetem, porquanto os mesmos desejos e as mesmas 
paixões dominam em todos os tetnpos e em todas as regiões, o 
que permitte aquelles que estudaram os acontecimentos do pas- 
sado prevôr os que o futuro reserva ás nações, e applicar-Ihee 
os remédios j& experimentados eom suooesso, ou imaginar novas 



(26) Machiavel, iMuvve$ Politiques, app, pag. 573. 

(27) O Principe^ cap. 25. 

(28) Discurso sobre !^ito Livio^ liv. 29, cap. 29. 



A HISTORIA ANTES DK BUCKLE 203 

corabioacSes. Demais, nSo raro ó dado ao homem conbeoer o 
futuro de um modo sobrenatural. A atmosphera está repleta 
de intelligencias celestes, que, tomadas de piedade pela miséria 
dos mortaes, os instruem sobre os factos vindouros por meio de 
prognósticos (29). laso não quer dizer quo as religiões sejan^ 
Terdadeiras. Em todos os tempos o dogma religioso é umaen* 
genhosa falsidade, engendrada pelos bomens em proveito da 
seus interesses (3J). Quanto ao engrandecimento e á. decadencii^ 
das sociedades, só ha uma explicação aooeitavel, ó a dos his- 
toriadores romanos, adaptada ao principio ftindamental da 
doutrina de Macbiavei: o luxo, a sensaalidade e os vioioe 
extinguem a economia e todas as virtudes, que oonstituem v 
grandeza e o sustentáculo dos Estados. Já o poeta satyrieo 
Juvenal tinha afflrmado essa verdade: < Gul<n 

et scevun' armis Lujsuria incubuitf 
victum que ulciscitur orhem > (Sat.VI). 

Com a nossa hodierna concepção da natureza da sciencia, 
difflcilmonte poderíamos dar a denominação de theoria scienti- 
íica da historia a esse amalgama informe de erros, preconceitos» 
penetrantes observações admiráveis o verdades empíricas, que 
se nos deparam no Príncipe e nos Discursos sobre Tito Livio. 

A doutrina de Bossuet é o polo opposto á de Machíavel. E, 
como seria Imperdoável ousadia traduzir^ ou resumir, o que es- 
creveu a águia de Meaux, transcrevamos um trecho do Discurso 
sobre a historia universal^ em que está condensada a sua theo- 
ria providoncialista da historia: €Ce long enchatnement des causes 
particuliéres qui font et défont les empires dépend des ordres secrets 
de la ditine Providence, Dieu iient du plus haut des cieux les rênes 
de tous les royaumes* Ilatous les cceurs en sa main: taniôt il reiient 
les passions^ taniôt il leur lâche la bride, et par là il remue tout le 
genre humain, Yeut-il faire des conquérantsí il fait marcher 
répouvante devant eux, et il inspire à eux et d leurs soldais une 
hardiesse invincible. VeutHl faire des légis lateurs í il leur envoie 



(29) Discursos sobve TitoLirio. liv. !<>, cap, 56, 

(30) 01 ra citada, passim. 



204 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

son esprit de sagêsse et de prêvoyancef il leur fait préeenir le$ 
maux qui menaceni les soldais, et poser les fondements de la 
trunquillité publique» Il connait la sagesse humaine, toujours 
courie par quelque endroit: il réclaire, il éíeni ses vues, et puis il 
Vabandonne d ses ignorances, il Vaveugle, il la precipite, il la con* 
fond par elle-même: elle s^envelopi^e, elle s" embarrasse dans ses 
propres subtilités et ses prècautions lui sont un piêge, Dieu exerce 
par ce moyen ses redoulablesjugjmenls, selon les régies de sa jus- 
ti e toupurs infaillible ; c^est lai qui prepare les effets dans les 
causes les plus /loignéei, et qui fi'appe ces grands coups doni le 
contre^coup porte si ioin: quand il veut lãcher le demier et ren- 
verser les empines^ tout esi foible et irréguHsr dons les conseils, 
VEgypíe, aulrefois si sage, marche enivrée, étourdie, et chance- 
lente, parce que le Seigneur a répandu V esprit de vertige dans ses 
conseilsi elle ne sait plus ce qu^elle fait ; elle est perdue. Mais, 
que les hommes ne s^y irompent pas: Dieu redresse quand illui 
plalt le sens égaré ; et celui, qui insultait d Vaveuglement des au» 
três tombe lui-même dans des ténèbres plus épaisses, sans quUl 
faille sou^ent autre chose pour lui renverser le sens que ses lon- 
guês prospèritès , Cest ainsi que Dieu régne sur tous U^ peuples, 
Ne parlons plus de hasard ni de fortune, ou parlons en seule* 
ment comme d^un nom donl nous couvrons notre ignorance: ce 
qui est hasard à Cêgard de nos conseils incertaúis, est un dessein 
concerte duns un conseil plus haut, c^est-à-dire dans ce conseil éter- 
nel qui renferme tout es les causes et tous les effets dans un même 
ordre. De cetle sorte tout concourt à la même fin^ et c^esí fouie 
d*enlendre le tout qae nous irouvons du hasard ou de Virrigularitè 
dans les rencontres particulières> (31). Dous intervom oa dirooção 
das cousas humanas, obrigando constaatemoDto a natareza a 
aahlr das leis pjr elio próprio estabelecidas ; ô um senhor abso- 
luto, despótico, cuja vontade constituo o único vinculo que 
mantém a ordem no universo. Com razão observa Laurent, que, 
os milagres por meio dos quaes Deus, tal como o concebe Bos- 
suet, subverte a regularidade dos factos históricos, se asseme- 



(31) Parle ttrce ra, oip. 7, fim. 



A HISTORIA ANTKS DE BUCKLE 206 

Iham aos golpes de Estado de um monarcha voluntarioso, qao se 
compraz em violar as leis que promulgou (32). A9 ioooQ^eqaea- 
cias da douiriua de Bossuet são manifestas. O homem, ozpuls 
do paraíso, foi entregue ao seu próprio arbítrio ; suas inclinações 
se corromperam, seus desmandos tocaram o extremo, o a iniqui - 
dado cobriu a superflcio da terra. Tal ó o resultado da .direcção 
pi-ovidenoial! Deus se arrepende do ter creado os homens. Medita 
contra elles uma vingança terrível, o diluvio universal. Então 
Doas, que croou todos os sores, destroe a mais bolla parte de 
sua obra, e o Omnipotente por esse movlo se vinga do miserá- 
veis creaturas, abandonadas por seu oreador. No celebre dia em 
que o sol detém o seu curso por ordem do Josué, Deus se distrao 
no alto do céo, atirando pedras sobre os infelizes fugitivos, para 
lhes completar o extermínio. Jurusalóm e Babylonia cahom — 
uma em seguida a outra, de acjordocom a palavra dos prophe- 
tas; mas, Deus faz convergir todos os rigores de sua colora contra 
os Chaldeus, ao passo que aos Juleus dispensa um castigo pa« 
ternal. Toda a indulgência para com os seus eleitos ; toda a 
cruellade para com o resto do género humano. De resto, o povo 
de Deus, objecto da mais carinhosa educação por meio de mi- 
lagres, a ouvir frequentemente a palavra dos prophetas, acaba 
por desconhecer as prophecías, ri-se dos milagres, e mata o Filho 
do Deus, vindo ao mundo para salval-o ! Os maiores personagens 
da historia, César, Alexandre, todos os grandes conquistadores, 
são instrumentos da providencia: €Dieu ne les envoie sur la terre 
que dans sa fureur,^ A historia 6 um vasto campo de carnificinas. 
Quando dois povos se guerream. Deus quer vingar-se de um 
delleS) ou de ambos (33). A philosophia da historia do Bossuot ó 
um tecido do preconceitos e incongruências. Nada mais absurdo 
do que o esforço para oonciliaro livre arbítrio, que Bossuet não 
podia negar, com esse provídenoíalismo, segundo o qual €Dieufa%t 
louty il voitj de Vêternilé louí ce qu^il faiL* Indiscutivelmente não 
temos aqui uma thooria, que possa pretender os foros da sciencia. 



(32) líistoivede VhumanitiK Philusopliie Ao Tliisioiro, liv. I., cap. f. 

(33) Lauront, ibidem. 



.*.n 



206 HEVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Vioo allnentoa a preteagSo de fandar a philosophia da his- 
toria, e para muitos a Seianja Nuova foi o inicio dessa doutrina. 
No ooQoeito do pliilosoplio italiano, as nações passam por ires 
edades, que se repetem eterna e necessariamente t a edade 
citeifia, a heróica e a humana. Ha três espécies de naturezas, 
de que derivam três espécies de costumes, que produzem três 
espécies de dirtHio natural^ que dSo origem a três espécies de 
governo {Zi). Para communicarem entre si os costumes, leis e 
goTomo, 08 homens formaram três espécies de línguas e de ca- 
raderes. A primeira natureza foi dominada pela imaginado* 
poética ou creadora^ divinizou os seres materlaes, o se cara- 
cterizou por uma íbroz barbaria. A segunda produziu os heróes, 
de origem divina. A terceira foi humana, inteiligente ; reco- 
nheceu a consciência, a razSo o o dever (35). Os primeiros cos- 
tumes tiveram o caracter religioso que se attribue a Deucalião 
e Pyrrha. Os segundos foram os de homens susceptíveis, e que 
facilmente se encolerisavam por quoatOes de honra, taos como 
Achilles. Os terceiros foram subordinados á noçfto do devevy e 
íkziam consistir a honra no cumprimento dos deveres civis. 
O primeiro direito foi imposto pelos deuses. O segundO'^^ direito 
da força submettida à reiigifto. O terceiro— o direito dictado 
pela razão humana desenvolvida. O primeiro governo foi a theo- 
eracia ; tudo era ordenado pelos deuses ; foi a edade dos orá- 
culos. Em seguida veio o ^ov^rtio heróico ou aristocrático. Mais 
tardo se estabeleceu o governo humano^ em que predominava 
a eguaidade civil e politica. A primeira língua ^ lingua divina 
mentalf compunha-se de oeremonias sacras, signaes silenciosos. 
Depois os homens adoptaram a linguagem das armas, e afinal 
a linguagem articulada, de que usam hoje todas as naç9es (36). 

AS nações reproduzem eternamente eiS três edades. £' a fa- 
mosa lei dos ricorsi, em virtude da qual a edade media repetiu 
a edade antiga. Os três poriodos— (ftv^no, heróico e humano^ se 



(34) Micholut, (Euvres choisies de Vico^ lomo 2®, pag. Jf61. 

(35) Obra cilada, paj?. 2^2 . 

(36) Paga. 265 e 2ôy. 



A HISTORIA ANTES DE BUCKLB 207 

nos deparam nas dnas edades, o qae Vioo tenta mostrar, des- 
cendo a uma eomparagio minnciosa entre os íhctos antigos e os 
medieyaes (37). Ha apenas três exoepçQes a essa lei : Carthago, 
Captta e Nomancia não repetiram as tros edades, —a dMnai a 
herêica e a humana. Os Garthaginezes foram detidos em sen 
desenroivimento histórico pela súbiilexa peculiar ao espirito afri^ 
cano^ aggravada pelos hábitos do eommercio martltma. Gáptta 
também abria uma excepção á iel dos rieorsi, em consequência 
da extraordinária doçura do seu clima. E Numanoia parou na 
edade heróica a um aceno do SoipiSo (38). 

Os ftustos históricos, seguado a Stienxa Nuoii>a, são o pro* 
dueto de dois factores: a ao^ dos homens e a intervenção da 
Providencia, que muitas vezes contraria a vontade humana, e 
sempre lhe ô superior. Na theoria de Viço não ha logar para o 
fatalismo^ porquanto os homens são dotados do Uvre arbítrio. 
Também não 6 admittido o acaso, porquanto os mesmos fiictos^ 
repetindo se, produzem regularmente os mesmos eífeitos (30). 

A idéa fiosa de Vioo, observa com raiãoVacherot, é desco- 
brir o immutavel no variável, a unidade na diversidade, em 
uma palavra a lei no facto, apprehender os mesmos traços, os 
mesmos caracteres, nessa variedade de actos, pensamentos, in^ 
stitulções, costumes e linguas, que nos apresentam es aanaes do 
mundo (40). Tal é o escopo que procurou attíngir < o génio re- 
ligioso e melancholico » do auctor dos principies de philosophia 
da historia. Aleançou-0? Responde-nos Laurent em poucas pa- 
lavras (41). Comparemos a nossa edade com a edade média, ou 
com a antiga, ou estas duas entre sí, o vijamos se os três pe- 
ríodos repetem os mesmos factos, e na mesma ordem de suc- 
ces^o das três épochas, — divina, heroieae humana. Seria uma 
tarefa ingrata, por infantil, demonstrar que o presente differe 



(37) Pags. 347 e3t>3. 

(38) Michelet, citado, pag. 365. 
(39; Pag. 382. 

(40) La scietice et la canscietice, lí, Les kistorient , 

(41) LaPhilosophie deVHisioire, pags. 82 a 85. 



208 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

do passado quanto aos costumes, á religião» às instituições poli- 
ticas e jurídicas, ás idéas scientiâcas, sio progresso das artes, à 
industria e á guerra. E reconhecer essa verdade intrangivol 6 
negar a lei liistorica dos corsi e ricorsi, isb é, todaa phiiosophia 
da historia do Viço. 

Em phiiosophia Viço é um precursor do ilegel, assim como 
na historia é um precursor do Niebuhr. No conceito do auctor 
da Scienza Nuova^ o que precede o produz tudo o que ha c o es- 
pirito : o espirito do homem produz a idéa, a vontade do homem 
produz o facto. A idóa o o facto partem do mesmo centro ; 
deve, pois, haver entre o facto o a idóa analogia e harmonia 
necessárias, ou, segando a linguagem de Hegel, identidade da 
natureza humana e da historia (42). No systema de Hegel o real 
e o ideal são duas manifestavoes de uma razão absoluta^ que 
perpetuamente sa transforma; o principio de sua phiiosophia ó 
que €ludo o que é real é racional ^ e tudo o que é racional é real » 
(43). A raiOo absoluta começa a existir como ente puro, ente em 
5i, ou lógica ; manifesta-se depois como natureza; e finalmente 
se volta, ou dobra, sobre si mesma, conservando os elementos 
que adquiriu fora de <i, e transforma-se em espirito» Abstrusa 
concepção, que levou Scheliing e Hartmann a perguntarem : 
porque a razão, u puro pensamento, do sua natureza essencial- 
mente contemplativo, teria renunciado a afortunada paz do re- 
pjuso, para se entregar aos tormentos de um fieri perpetuo, 
aos trabalhos de um operoso querer, ac^ infortúnios da exís* 
tenciareal í D'onde procede para a idéa^ para a razão, aquelle 
impulso espontâneo que a deixa escurecer o eterno esplendor 
que lho é apanágio, e precipitar-so na confusa agitação da rea- 
lidade? (44). 

Niebuhr approxima-so mais da verdade, e, no dizer do 
Taine, a sua vista penetrante da natureza humana e o seu 



(48) Lerulinier, Introdtirtion G^hièraie à VHistoire du Droit, 
pag. M>. 

(•í3) O. Carie, La rita dei diritlo vci su<n rapporti rolla r/íu so- 
cta^c, pa*r. 37ti. 

(44) Carie, pjijr- ^í^^- 



A HISTORIA ANTES DB BUCKLE 209 

exiroordioario conhecimento dos factos o coUocam entre os 
génios modernos. Para elle nada é subitaneo nas instituições 
humanas, que so formam e desenvolveni gradualmente, não 
em virtude de vontades arbitrarias, mas pela força das situ- 
ações; o homem não se conserva o mesmo por um só instante, 
e a historia é a narração desses continues e ininterruptos 
movimentos (45). 

Para alguns Voltaire é o verdadeiro creador da philo- 
sophia da historia. Não que tenha escripto uma theoria philo- 
sophica : O Ensaio sobre of costumes não merece tal denomi- 
nação. E* um misto de considerações philosophicas, factos 
insignificantes e anecdotas satyricas, um beUo cJmos^ como 
já disse um critico reputado (46). Mas, observam os qae nas 
obras de Voltaire descobrem uma concepção scientifica da 
historia, em vez de começar por uma doutrina, para a impor 
depois aos factos, o auctor do Seoiao de Luiz XIV ^ da Historia 
de Carlos XII e áo Império da Rússia sob Pedro o Grande^ 
comprehendeu, com o seu maravilhoso bom senso, que a dou- 
trina devia decorrer naturalmente do estudo dos íkctos. Im- 
porta inquirir os f^tos, como única base solida para a philo* . 
sophia da historia. Antes de Voltaire a historia era incompleta, 
pois só abrangia os acontecimentos politioos e religiosos. Foi 
elle quem incluiu na historia os costumes, as lettras, a philo- 
sophia, todos os elementos, em 8umma« que reflectem a vida 
da humanidade (47). 

Mas, qual a coneepçãa scientifica da historia de quem 
cynicamente escreveu estas palavras: € Rêduisez Vhistoire à la 
vérité, vous la perdes ; c'est Alcine depauillée de ses presiiges > 9 
Ora todos os factos são dominados pela Providencia: € la prom, 
mdence fait tout ; providence, tantôt terrtble, et tantôt favo» 
rahle^ devant laquelle il faut également se proslerner dans la 
gloire ou dans Vopprobrc, Ainsi pensait mon oncle, ainsi 



(45) Taine, obra citada, pag. 116 

(4l5) E. Fagiiet, Vix-IIuitième Siècle, Eludes Littéraires, pag. 268 
(47) Laurent, Philosophie de VHistoire, pags, 85 e 86, 
4323 ~ 14 TOMG Lxix. p. u. 



210 REVISTA DO INSTITUTO HISTQRIGO 

pénsent tou8 les sages » (48). Ora pelo destino, pelo aeaso. 
pela oéga fatalidade: < N*y a-M7 pas vitiblemetU une destinée 
qfU faU Vaccroissemênt et la ruine des Estais ? (49) » ; Une fa- 
taUté aveugle gouverne les affaires du monde> (50). 00 factos 
hifltoricoB estSo scú^itos ao acaso, doutrina que Frederico 11, 
o grande amigo de Voltaire, resaniu nesta phrase: « Plus on 
vieillit, pPus on se persuade que sa sacrée Magesté le Hasard faU 
les trois quarta de la hesogns de ce nUsérable univers (61). 
ProYideDoia ou acaso, nenhuma das duas idéas oíferece om 
fundamento racional a uma explicação scientífica. À pro« 
yidencia exprime ama vontade superior ás leis, e sem o co- 
nhecimento destas, isto é, das relagões necessárias derivadas 
da natureza das cousas, do que ó commum, constante, per- 
manente, na producção dos phenomenos, não temos scienoia. 
O acaso é a antithese directa da lei. Attrihoimos ao aeaso 
aqnUlo que não sabemos como subordinar a uma lei (59). 

Voltaire foi incapaz de um sysfcema: < ee grand espril^ 
e^est un chãos d*idées claires^ (53). 

No Espirito das Leis e nas Qoimderações sobre as eausas 
da grandeza dos romasios e de sua decadência, Montesquieo 
fee admiráveis observações sobre a historia politica. Não 
tentou escrever sobre a philosophia da histiNria propriamente 
dita, não estadou as leis a que estão sojeitos os &ctos históricos 
em geral, redusindo as leis obtidas a um principio superior, 
fundamental. O famoso livro decimo quarto do Sspiwiio das Leis 
nos mosira apenas a influencia do caracter e das paixões sobre 
as leis, e a do clima sobre as paixões e o caracter do espirito. 
Mas, Montesquieu não íkz depender a vida social unicamente de 
clima: diversas cousas governam os homens,-*o clima, a reli- 
gião, as leis, as máximas de governo, os exemplos do passado, os 



{48) La Defense de mon onde, cap. i.« 
(49) Introd, a VEssai sur les mo^utê, L I, 
{50) Siècle de Louis XV, cap^ i.® 

(51) Laurent; obra citada, pap:. 91. 

(52) Stuart Mill, Système de Logique, vol. 29, pag, 48. 



A HISTORIA ANTES DE BUCKLB ' 211 

oo8tam68(S4). Montesquieu ô aoima de tudo legislador, e para 
elle 06 bons legisladores sEo os que se oppõem aos vioios do 
clima, e os maus os que favorecem as tendências naturaes deri- 
vadas das causas physioas (55). Se algumas vezes exaggera a in- 
fluencia do clima, ao ponto de se não poder explicar dentro de 
sua theoria a diversidade de espirito, de caracter, costumes e 
instituições, entre povos visinhos, como os athenienses e os the- 
banos na antiguidade, os gregos e turcos na épocha actaal (56), 
logo se nos revela o legislador, com a sua confiança nas iDsti- 
tuiçoes, acreditando poder melhorar os homens e as sociedades 
pela força das idóas. 

Nem no Espirito das Leis, nem no estudo sobre a grandeza e 
a decadência dos romanos^ se nos depara uma theoria, uma phi- 
losophia da historia. São considerações y como bem diz Taine, um 
eonjuneto de notas, e não um systema. E uma sequencia de ob- 
servações, ou ponderações, por mais interessantes que sejam, 
não é uma philosophia da historia (57) . Montesquieu não des- 
cobriu leis geraes da historia, não deu á sua theoria um prin- 
cipio fundamental, superior ; apenas explicou as razões parti- 
culares de certos factos, formulou algumas leis especiaes. Para 
elle o espirito de uma lei é o eonjuneto das relações que 
prendem essa lei a diversos phenomenos, e ezplioam-lhe o appa- 
recimento e a existência. E, porque as formas de governo incon- 
testavelmente influem no caracter das leis, elle se occupa lar- 
gamente com os governos, dividindo-os em monarchla, despo- 
tismo e republica, e subdividindo esta em democracia e aristo- 
cracia. Não que as formas de governo tenham a influencia 
prejponderante que o empirismo politico lhes attribue. As 
formas de governo são effeito, e não causa, do caracter de um 
povo; 8, pois, fora inútil transplantar leis e instituições poli- 
ticas de uma nação para o seio de outra, differente no que toca 



(53) Paguei, Diat-ffuitième Siècle, pag. 219 

(54) De VEsprit de» Lois,liv, XÍX cap. IV. 
(5õ) Obra citada, liv. XIV, cap V. 

(56) Laurenty obra citada, pag. ili. 

(57) Taine, obra citada, pag, 179, 5» «dição. 



212 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

á raça, ás qaalidades iatellectuaes e moraes, aos antecedentes 
históricos e ás condições physicas (58). A proclamação desta ver- 
dade já era bastante para fandar a gloria immarcessíTel de um 
escriptor. 

Peio seu liyro — Esquisse d'un tableau kistorique des progrés 
de VetprU humain^ Condorcet merece um logar saliente entre 
08 que pretenderam crear a philosophia da historia. A sua 
idéa fundamental está exposta logo na introdução da obra. 
E* sua inten^ traçar um quadro em que succintamente nos 
apresenta as sociedades humanas em todos os estados por que 
tém passado, com todos os progressos que tôm feito para a ver- 
dade ou para a felicidade, para chegar & conclusão de que não 
ha limite ao aperfeiçoamento das faculdades humanas. A 
perfectibilidade do homem é infinita; os progressos dessa 
perfectibilidade, de hoje em deante independentes da com- 
pressão de qualquer poder, tem como termo único a duração do 
globo em que nos coUocou a natureza. Condorcet divide as 
phases por que tem passado a humanidade om nove épocas. Na 
primeira, os homens viveram em hordas, ou ajçgremiações sel- 
vagens e errantes de caçadores e pescadores. Nesse periodo 
rudimentar Já havia uma auctoridade publica, uma certa orga- 
nisação da familia e uma linguagem articulada. Caracteriza-se 
a segunda época pela passagem do primitivo éístado ao dos 
povos agricultores : estabeleceu-se a propriedade, introduziu-se 
a desegualdade das condições, inventaram-se as artes mais 
simples, adquiriram-se as mais rudimentares noções da sciencia. 
Na terceira época inventou-ae a escripta alphabetica. A quarta 
comprehende os progressos realizados pela Grécia até a divisão 
das. sciencias no século de Alexandre. A quinta abrange os 
progressos das sciencias na Qrecia e em Roma, desde sua divisão 
até sua decadência. A sexta e a sétima são duas phases da 
edade média : a primeira termina com as cruzadas, a segunda 
coma inven^^ da imprensa. A oitava época vai da invenção 
da imprensa ao periodo em que as sciencias e a philosophia sa- 



(58) Flint, La Philosophie de VHistoire de Fra/nce, pag. 52. 



A HISTORIA ANTES DE BUCKLE 213 

cadiram o Jogo da auctoridadOt moTímento que Descartes tere 
a honra de iniciar, segando nos diz Condoroet. Começa, flnal- 
mente, a nona época com essa revolução intellectual, para aca- 
bar com a revolução politica de 1789. 

Como se vê, nem os acontecimentos escolhidos para assi- 
goalar o começo de cada periodo* ou para dividir as épocas 
da historia da humanidade, são todos do mesmo valor, têm 
exercido a mesma influencia, nem sequer pertencem á mesma 
ordem : ora o que distingue uma época ó um íà<^to industrial, 
ora um facto politico, ora um acontecimento religioso (59). 
Imbuido das prevenções do sectarismo íknatico do seu tempo, 
Condoroet reputa o christianismo uma impostura, a monarchla 
e a egreja duas instituições essencialmente perniciosas. Dahi 
uma palpável contradicção na sua doutrina : a que fica redu- 
zido o continuo aperfeiçoamento do homem, o progresso inces- 
sante e illimitado, a infinita perfectibilidade, que tão enthusi- 
asticamente preconiza Condoroet, si as mais importantes e dura- 
douras instituições são obstáculos a esse progresso ineessanU e 
illimitado^ &zem recuar a humanidade, ou pelo menos lhe pa- 
ralyzam o movimento ascendente para a verdade ou para a feli- 
cidade % 

Por xun bem entendido determinismo, Condoroet basôa o pro- 
gresso moral sobre o desenvolvimento intellectual : o interesse 
mal comprehendido 6 a causa mais frequente das acções con- 
trarias ao bem geral ; a violência das paixões é na maior parte 
dos casos o effeito de hábitos a que nos entregamos por um 
erro de calculo, ou por ignorância e falta de reflexão (60). Na 
decima época, a em que estamos, o progresso intellectual ha de 
produzir como resultados — a extineção da desegualdade entre 
as nações, a egualdade entre as classes da um mesmo Estado e 
o aperfeiçoamento real do homem sob o aspecto intellectual, 
moral e physioo. Neste ponto de sua theoria, as extravagâncias 
de Condoroet attingem os limites do ridículo : a medicina, a 



(59) Flint, obra citada, pag. 102. 

(60) Progrès de Vesprit huniain^ dixième époque. 



2l4 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

bygiene, a economia politica e a arte do goyerno não tâm a 
efflcacia de prolongar oonsideravelmeate a vida humana, ou de 
llie assegurar uma duraç&o cujo termo se não pôde caleolar* 
como pensavaaqoella nobre victima dasselvageriaede 1789 (61). 

A theoria do progresso eontinao e illimitado é cabalmente 
refatada pelo próprio Condorcet, qne não raro dos deaoroFe 
factos históricos que são obstáculos ao progresso, ou recuos 
para as trevas do passado. Nota-se na Rsquisse d'un tabhau hiê^ 
íorique des pregtés dê Petprit hummin^ o mesmo defeito das obras 
de Voltaire, de Rousseau, de Diderot, de todos os escriptoresdo 
século XVIII em França : ezoellentas na arte de de^trnir, eram 
incapazes de uma constraoção systematica em qualquer pro- 
Tincia do saber. Foram todos um pouco desequilibrados (62). 

Herder, o aator das Idéas sobre a philosophia da historia da 
humanidade^ no sentir de Lanrent ó um poeta, e não um 
historiador, ou um philo&opho. Mas, o qne ô certo é que as suas 
Idéas constituem um dos mais famosos subsidies prestados ao 
tontamen de formar a philosophia da historia* Herder a prin- 
cipio se diz deista, e manifesta-se um espirito profiindamente 
religioso, dominado por uma conflança illlmitada na sabedoria 
eterna e na bondade infinita do Creador. Entretanto, não ad- 
mitte o proTidencialismo na historia, contradicção que tanto 
irrita a vaniloquente philosophia de Laareut, para quem a phi- 
losophia da historia tem por base estas duas idéas : o pro- 
gresso e ô governo providencial, A idéa de progresso envolve o 
conceito de que os homens e os povos preparam por si mesmos o 
seu destino ; a idéa de governo providencial quer dicer que a 
humanidade tem no sen creador um guia, que a dinga e educa, 
sem lhe supprimir o livre arbítrio, doutrina que só podem ac- 
oeitar os espíritos aflbitos A vacuidade e ás incongruências da 
fòtdk pseudo - philosophia do auetor dos Estudos sobre a Hts* 
toria da Humanidade. Com esta observação não pretendemos 
significar que não exista na theoria de Herder a oontradicgão 
apontada por Laupent. 



(61) Flint, obra citada, paga. 116 o il7. 
(GS) Faguet, Dix-Euitame 8iMe,^g. 868. 



A HISTORIA ANTES DE BUCKLB 215 

E' absurdo, no conceito do historiador e philosopho aliemão, 
suppôr que Deus dirige os actos dos homens e dos poTos, e íd- 
terrem incessantemente no drama interminavQl da historia, 
permittindo a pratica de aocSes boas e más, o appareoimento 
da homens santos e perrersos, tudo predispondo para um des- 
fecho determinado. Para os sectários do proyidencialismo na 
historia as mais hediondas atrocidades, os crimes mais abjectos, 
commettidos pelas nações sob um i^retezto qualquer, inyentado 
porseas Toluatariosos conductores, todas as carniflcinas da his- 
toria, nada mais são, e como taes se justificam perílsitamente, 
de que meios de que se utilisa a Provideneiupara realisar seus 
altos desígnios. O bom seuso de Herder se revolta contra essa 
ooncepgSo abstruaa : c é ultrajar a magestade divina, suppôr 
que, para estender o reinado da verdade e da justiça, ella só 
disponha deste meio : o jogo oppressor e as mãos ensanguen- 
tadas dos romanos ». Para os sectários do providencialismo, os 
conquistadores são os instrumentos de que se servem a bondade 
infinita de Deus e a sua eterna sabedoria, para a realização do bem . 
Para Herder apparecem entre as nações os Alexandres, os Césa- 
res, os Attilas, do mesmo modo oomo existem os lobos e os tigres 
ao lado dos bois e dos carneiros: são produotos da natureza» 

€ Toda a historia da humanidade, diz Herder, é uma 
pura histma natural das forças humanas, de acçOes e 
inclinações, que dependem dos tempos e dos lugares. > O 
homem ó um ser subordinado á natureza, e delia dependente. 
Herder attribúe ao meio cósmico e ã organização physiolo- 
gica uma influencia decisiva sobre a psyohioa humana. De- 
mais, o homem não ó um ser isolado ; está sujeito ã lei 
da solidariedade ; para a formação de cada um de nós 
contribuem os antepassados, os mestres, os amigos, os compa- 
triotas, a raça com todas as suas qualidades (63). O fiictor pre- 
ponderante 6 a naturezgí : mil annos de disciplina não modifi- 
cariam o caracter do negro, ou do chim ; não toiam o primeiro 



(63) Flint, Philosophie de Vfíistoire en Allemagne, cap. IV. 

(64) Stnart Mil], Augusto Comie e o Poritivismo, trad. de GIó- 
msac^au, pag. O* 



216 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

attenuar suas paixões grosseiras e ríoleatas, nem o segando 11- 
bertar^se da tradição e do habito. Foi o solo da Europa, acciden- 
tado, coberto de bosques, cortado por numerosos rios, golphos, 
montanhas e valles, que formou o espirito activo e emprehen- 
dedor do europeu. E* por isso que Laurent denomina a doutrina 
de Herder — a do fatalismo da natureza. Mas, Herder n&o su- 
bordina a sua theoria a um principio fundamental. Ha nas Idéas 
sobre a philosophia da hisUn^ da humanidade , como reconhecem 
geralmente os críticos de Herder, falta de precisSo nos conceitos, 
de vinculo que ligue as partes do todo, harmonizando as, de 
principies que dominem as magniâcas exposições dos aspectos 
parciaes da historia. Qual a lei fundamental da historia? A su- 
jeição do espirito humado ao fatalismo da natureza? Nâo : Deus 
oreon o homem para o progresso. O progresso ? Nfio : o homem 
está adstricto ás fatalidades do meio cósmico. A doutrina 
de Herder quasi nos leva á conclusão do Machiavel : a metade 
das nossas acções pertence ao livre arbítrio, a outra metade ás 
imposições da natureza. 

Um pouco antes de Buokle na Inglaterra, já em França o 
philosopho extraordinário com o qual mantém uma certa affl- 
nidade o historiador ioglez, tentara determinar a lei funda- 
mental da historia, e erigida â categoria de sciencia; mas, o 
génio assombroso do Augusto Gomte e a admirável solidez de 
seas conhecimentos scientifleos não lograram evitar á philosophia 
positiva a sorte dos ensaios anteriores do mesmo género. Au< 
gusto Comte naufragou como os seus antecessores, c de toda a 
sua vasta obra colossal nos resta unicamente (oo que toca á phi- 
losophia da historia) a indicação do methodo. 

O ponto de partida do systema de Comte ô que o homem 
só conhece, e só pode conhecer, phenomenos, e que esse mesmo 
conhecimento é relativo, e não absoluto. Não conhecemos a essên- 
cia, nem o modo real de producção, de.nenhum facto, mas, uni- 
camente, as relações de successão ou de semelhança dos factos 
entre si, relações que são constante.^, ou sempre as mesmas em 
condições idênticas. As semelhanças constantes que ligam os 
phenomenos entre si» e as succeasões constantes que os unem 
como consequentes a antecedentes, se denominam leie. As leis 



A HISTORIA ANTES DE BUCKLE 217 

dos phcnomenos — eis tado o qoo delles sabemos. Saa essõocía e 
suas causas ultimas, quer effleieotes, quer ânacs, são para nós 
impeaetraveis (64). Só podemos, pois, averiguar quaes são as leis 
a que estfk) subordinados os factos históricos, e, si a liistoria é 
uma scioDcia, qual é a lei fundamental, a que as suas leis espe- 
ciaes, ou derivadas, podem reduzir-se. 

No systema de Comte, a phiiosopliia da historia ó uma parte 
da sociologia. l<:sta scienciaé dividida em duas partes : a está- 
tica e a dynamica. A primeira limita o seu estudo ás condições 
de existência o de permanôncia do estado social ; abstrahe do pro- 
gresso, da evoluçio, das modificações por que passam as socie- 
dades. B* a theoria do consensus ou dependência mutua dos phe- 
nomenos sociaes (65). Ensina-nos que certos attributos geraes da 
natureza humana tornam possível a existência social, e que o 
homem tem uma inclinação espontânea para a sociedade de seus 
semelhantes, que procura instinctivamente,e sem se preoccupar, 
o que se dã depois de um certo gráo de adiantamento, com as 
vantagens ou interesses que se lho doparam na vida collectiva. 
Ao lado dos sentimentos egoístico.^ tem o espirito humano uma 
certa benevolência natural, o altruísmo, sentin ento m .is fraco 
do que as inclinações pessoae^, mas sufficiente para manter a so- 
ciedade. O trabalho, que é umainjuncção da natureza humana, 
sob o estimulo d is duas correntes de sentimentos, modifica e me- 
lhora as condições do individuo e da aggramiação. Pouco a pouco 
se vai formanlo o espirito de progresso, om antagonismo com o 
espirito conservado/, que alimentam os instinctos pessoaes, e 
dahi a lacta universal entre as duas ordens de tendências. Con- 
stitue-se a família, que é a escola ondo os homens aprendem o 
desinteresse, e contrahem os hábitos da conducta que exigem as 
relações sociaes. Finalmente, um outro phenomeno verificado 
em todas as sociedades é a especialisação das ftmcções, que cada 
vez mais estreita entre os homens os vincules do interesse e da 
sympathia (60). Tal é o campo da estática. 



(64) Staart Mill— Augtistc Comte e o Positirismo, trad. de Clô- 
mcnccau, pap:. 6. 

(65) Obra citaila, pag. 89. 

(66) Stuart Mill, obra citada, pags. 9,0 e 94. 



â 



220 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

exemplo, notoa com muita felicidade que em nenhum tempo , 
nem em paiz algum, se descobriu um deus do peso. Verifloa-se 
a mesma cousa, em geral, ató do domínio dos assumptos mais 
complicados, quanto aos phenomenos bastante elementares e 
basta)ite familiares para impressionarem expontaneamente o 
menos preparado observador pela perfeita invariabilidade de suas 
relações effeotiyas. Na ordem moral e social, que uma vâ oppo- 
síq&o pretende hoje yedar systematicamente & philodophia po- 
sitiva, tem^se tido necessariamente a noção das leis naturaes 
no que concerne aos phenomenos mais simples da vida quoti- 
diana, como evidentemente exige a oonducta geral de nossa 
existência real, individual ou social, que nunca teria podido com- 
portar qualquer previdência, si todos os phenomenos humanos 
tivessem sido rigorosamente attribuidos a agentes sobrenaturaes, 
porquanto desde então a oração teria logicamente constituído 
o único recurso imaginável, para influir sobre o curso habitual 
das acções liumanas. 

Pelo contrario, importa notar, a esito respeito, que foi o es- 
boço espontâneo das primeiras leis naturaes peculiares aos 
actos individuaes ou sociaes que, ficticiamente applicado a todos 
os phenomenos do mundo externo, forneceu no começo, de 
accôrdo com as nossas precedentes explicações, o verdadeiro 
principio fundamental da philosophia theologica. Assim, o 
germon da philosophia positiva é tao antigo, no Aindo, quanto 
o da philosophia theologica, sem embargo de se ter desenvol- 
vido muito mais tarde. Tal noção importa em muito & perfeita 
racionalidade de nossa theoria sociológica, porquanto, não po- 
dendo a vida humana offerecer nenhuma verdadeira creação, 
mas uma simples evolução gradual, não se comprehenderia o 
surto ílnal do espirito positivo, si desde os tempos primitivos se 
não tivessem verificado os seus primeiros rudimentos neces- 
sários (68) .» 

Stuart Mill, que adoptou muitas verdades ensinadas por Au- 
gusto Comte, por quem professava a mais profunda admirado 
fBLZ restricções á J0» fundamental da historiai € Não se deve crer 
que a mathematica, desde que começou a ser cultivada, tenha 

(68) Cours de philosophia positive, tomo 4^, paga. 694 e 695, t* e4i 



A HISTORIA ANTES DE BUCKLE 221 

jamais passado pela phase theologica. ProvaTelmente nunca 
houve homem convencido de que era a vontade de um deus que 
impedia as linhas parallelas de se encontrarem, ou que fazia da 
somma de dois e dois quatro, assim como nunca houve quem 
supplioasse aos deuses a graça de tomarem o quadrado da hy- 
pothenusa igual a uma quantidade maior ou menor que a somma 
dos quadrados dos cathetos. Os crentes mais devotos tôm reco^ 
nhecido nas proposições da natureza dessas— uma classe de ver- 
dadesi independente da omnipotência divina». (69) 

Littré, o mais illustre dos disdpulos de Gomte, reputando 
empirica a lei dos três estados, propunha a substítuição da desco- 
berta do mestre por uma outra do diwipulo (70). A historia da 
numanidade, no entender de Littré, se divide em quatro épocas, 
a mais antiga ô a em que os homens soffrem o império prepon- 
derante das necessidades; em seguida vem a edade das religiões, 
do desenvolvimento da moral e das primeiras creações civis e 
religiosas; a terceira ó a idade das artes, na qual o sentimento 
do bello engendra as construoçoes e os poemas; finalmente se 
abre a edade da sciencia, em que a razão se consagra ás investi- 
gações da verdades abstracta. E' mais uma divisão da historia, 
que, como tantas out.as, tem o grave defeito, assignalado por 
Flint, de partir do presupposto de que os desenvolvimentos 
especiaes da actividade hnmana formam períodos succes* 
sivos ia historia, quando a verdade á que esses desenvolvi- 
mentos se realisam simultaneamente (71). Entretanto, o facto 
de um discípulo como Littré propor, á guiza de correcção, uma 
lei fundamental da phiLosophia da historia, tão dissonante da do 
mestre, j& bastava para nos prevenir o espirito contra a theoria 
do philosopho franoez. 

Em verdade, a reflexão sobre os factos liistoricos, desde a 
mais alta antiguidade, nos convence de que as idéas theologicas, 
metaphysicas e positivas têm sempre coexistido. As três ordens 
de concepções não assignalam períodos suocessivos do pensa- 



(69) Obra citada, pag. 48, 2» edição. 

(70) Paroles de Philosophie Positive, e Auguste Comte, pag8,49 e 50. 

(71) La fhUosophie de Vhistoire en Francc, pags. 339 e 340, trad . 



de Carrau 



222 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

mento humano, porém modalidades synchronioaSt foeto que 
díTersas, direcções yarias, posto que coevas, das idéas que for- 
mamos sobre os foctos. Si desde os tempos primitivos o homem 
formou idéas positivas sobre os phenomenos, apprehendeu-lhes 
numerosas leis, de ordens differentes de conhecimentos, como 
reconhecem Comte e Stuart Miil, no período actual, denominado 
positivo, as concepções theologicas e metaphysicas subsistem per- 
feitamente ao lado das verdades scientificas. Dahi a doutrina de 
Spencer, para quem ca religião e a soiencia são necessariamente 
correlativas», representam dois modos antitheticos da con- 
sciência, que não podem existir separados: i^o os poios, negativo 
e positivo, do pensamento, um dos qnaes não pôde crescer era 
intensidade sem augmentar a do outro» A certeza da existenda 
do poder insondável tem sido sempre o flm que a intelUgencia ha 
procurado attingir. (72) 

O próprio Comte reconheceu essa verdade, quanto tentou 
constituir a sua religião positiva^ que Plint qualifica— eitrava- 
gante contubernio do fetichismo, do scepticismo, do cathoiicismo 
e da sciencia. Que melhor argumento poderia ministrar o Ain« 
dador daphilosophia positiva contra a lei dos ires estados do que 
a oonflssâo de que a humanidade ia entrar em um quarto estado^ 
no qual a sciencia e a religião deviam coexistir por toda a oon- 
tinuação da historia ? 

Si tal é a verdade em relação ao theologismo, isto é, ao ele- 
mento religioso, mais ainda nos convence o estudo da natureza 
do espirito humano de que a nossa intelUgencia nunca poderá 
resigaarse á abstenção de qaaesquer cogitações sobre as causas 
primarias e as causas finaes. 

Tudo nos leva a crer que esse conjuncto de especulações 
sobre os seres que não podemos conhecer pelos processos scienti- 
flcos, e especialmente sobre a Causa Ultima, que Augusto 
Comte reunio sob a denominação de metaphysioa, ha de ser 
perpetuamente uma fonte ínezhaurivel de consolações ou de es- 
peranças, de incertezas ou de angustias, para esta miserável e 
torturada impotência do espirito humano. 

{72)Lêt Premiert Prineipes, pags. 04 • 9b,irad. d6CaceIlM,8» 
edição. 



 HISTORIA m corno DE BOCELE 



O rápido esboço do capitulo anterior eomprova a affir- 
mação com que Backle inicia a Historia da CiviH$açao na 
Inglaterra^ que ó um dos ensaios mais admiráveis no sen- 
tido de determinar as leis da liistoria, de alçar a historia 
á dignidade de soiencia, oa de constituir a soienoía da 
historia. 

Desde o periodo greoo-romano se tem oolligido os uinaes 
politieos e militai-es de todas as grandes nações da Eurofa ; 
começaram depois a se aocamular eopiosos dados históricos 
sobre a legislação, a religião, a scieoeia, as lettras, as 
bellas-artes, os inventos úteis e os costumes; foram exa- 
minadas antiguidades de toda espeeie ; elevou-se a economia 
politica á categoria de sciencia ; a estatística e a geogra- 
phia physica têm feito progressos maravilhosos; estuda- 
ram-se as acções e os traços caracteristieos dos povos ci- 
vilisados e a vida de numerosas aggremiações selvagens em 
todos os pontos do globo; tornou-se possível comparar as 
condições da humanidade eia todas as phases da civUisação, 
e nas mais variadas ctrcomstancias. Mas, se exceptuarmos 
algumas observações empiricas, algumas reflexões moraes e 
politieafl de utilidade pratica, qual o sueco idóal extrahido 
de tão abundantes materiaet, no que o^oerne ao domínio 
da historia? Que induoções, que genaralisações, que leis« 
que principies, se formularam, que mereçam a denomi- 
nação de soiencia da historia? Os próprios historiadores, 
com poucas excepções, têm limitado a sua tarefa & narração 
dos acontecimentos. Raros os que tentaram subir até as 
leis geraes, e entre estes quasi todos guiados por processos 



224 REVISTA DO INSTITUTO HISTORIC» 

lógicos sabjectivosi dominados por preoonceitog, e sem uma 
oxacta comprehensão d^ natureza, da sciencia. 

Foi deanbe dessa riquoza de materiaes o dessa escassez 
de Yordades scieniiftcas, que o historiador britannico se ar- 
rojou ao tentamen, como elle próprio qualifica a sua arris- 
cada e traballiosa empreza, de elevar o importante ramo 
das investigações históricas ao niyel das soiencias que se oc- 
cupam com a natureza. 

Com uma nitida visão do seu assumpto, começa Buckle 
por uma indagagSo primordial, que nesta ordem de idôas 
necessariamente nos deve ministrar o fundamento de qualquer 
theoria que aspire aos foros de soientifica: os nossos aotos, 
individuaee e sociaes, e consequentemente os factos histó- 
ricos, são governados por leis âxas, ou o producto do livre 
arbítrio? A nossa vontade ó livre, independente da acção 
de qnaesquer outros factores, ou obedece aos moveis e mo- 
tivos? Eis o problema, cuja solução nos levará a admittir 
e estudar as sciencias que têm por objecto os phenomenos 
sociaes, ou a repellir in limine quaesquer investigações nesse 
sentido. 

Não ha muito que a philosophia contemporânea pela booca 
de Fouillée proclamava ser a questão do livre arbítrio e do 
determinismo o problema philosophico por eafcellenda. A ado- 
pção de qualquer das duaa theorias repercute em todas as 
sciencias que estudam o homem, individualmente considerado 
ou em conectividade (73). Se professarmos o livre arbítrio, 
será a mais rematada incongruência qualquer pretensão de 
estudar soientificamente os factos dependentes da vontade hu- 
mana; e consequentemente deveremos repellir, por impos- 
síveis, todas as sciencias sociaes, como o direito, a economia 
politica, a politica e a moral social, ou iremoi até ao im- 
comparavel dispauterio de conceber um conjunoto de sciencias 
constituídas sobre factos caprichosos, leis que governam 
phenomenos arbitrários, regularidade e previsão naquiUo 



(73) Hamon^-D^tcrmíniímc et respotisabiliiê; pag. i». 



A HISTORIA NO CONCEITO DK BUCKLB 225 

que aó dej^ale da vontade^ superior a todas as circamstaa- 
cias internas e externas, que podiam gerar a ordem e per- 
mittir a previsão. 

Mais historiador do que psychologo, maia preoccupado 
com a ostatistica do que com a observação do que se 
passa no èspiínto liumano, Bucklo liaure o seu principal ar- 
gumento em í^LVor da thoso scientiQca do dotermisismo na 
regolaridado de certos factos, que, se fosse uma verdade o 
livre arbítrio, seriam absolutamente inexplicáveis. A unifor- 
midade, ou, em dadas condições, o augmento, ou a dimi- 
nuição lenta e gradual, com que se verificam os crimes e 
os suicídios, o até factos insigaificantes, que parecem es- 
capar a qualquer lei, como a omissão do endereço nas 
cartas postas no correio, não têm explicação plausível dentro 
da theoria do livro arbítrio. Mas, tão grave é esta questão, 
e tal é a sua influencia sobre tudo o que interessa ás sci» 
encias sociaes particolares, á sciencia social fundamental e 
á philosophía da historia, do cuja constituição adeante tra« 
taremos, que importa esclarecer um pouco mais este ponto 
capital. Tanto mais se faz mister a nossa explanação, quanto 
ó incontestável haver homens illustrados, que, por deficiência 
de ínstrucção philosophica, como nota Schopenhauer, reputam 
o livre arbítrio um facto de certeza immediata, o o pro- 
clamam como verdade indiscutível, não acreditando, om sua 
ingenuidade, que sôriamente alguém possa pôl-o om duvida 

(71). 

Pensa Buokle que o homem nos tempos primitivos, não 
tendo ainda descoberto a uniformidade com que se produzem 
os phenomcnos da natureza, attribula tudo ao acaso. A ob- 
servação quotidiana dos factos e a comparação lhe foram a 
pouco e pouco suggerindo % idéa da estabilidade nos processos 
da natureza. Da primeira concepção deffluio a doutrina do 
acaso no mundo externo, a que corresponde a do livre arbítrio 
no mundo interno ; da segunda, a doutrina das relações ne- 



(74) Essai sur U libre arbitre, cap. 2, 
4323 — iõ Tomo lxix. p. ií. 



226 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

cessarias entre os factos, da qual derivou a doutrina da 
predestinação. O livre arbítrio e a predestinação— eis os 
dois principios oppostos, o em lucta durante um longo espaço 
de tempo. 

Hoje podemos dizer quo, na explicação do mecanismo da 
vontade humana, ha duas escolas em renhida controvérsia, a 
do livre arbítrio o a do determinismo. No conceito da primeira 
o livre arbítrio, liberdade moral, ou liberdade volitiva, quer 
dizer que, não obstante a pressão continua e multiforme do 
meio exterior e a lucta interna dos diversos motivos, a de- 
cisão final entre duas possibilidades oppostas pertence exclusi- 
vamente à vontade do individuo (75). Por outras palavras, 
o livre arbítrio é o poder que tem a nossa vontade do se deter- 
minar, de se decidir, ora virtude de sua própria iniciativa, su- 
perior a qualquer influencia extranha, interna ou externa, ou 
o poder que tem o eu de ser elle próprio o autor, o creador de 
seus actos (76). 

Para os sectários do determinismo todos os phenomenos do 
universo, tanto os physicos como os moraes, são determinados 
por causas superiores á nossa vontade. Divide-se a theo- 
ria do determinismo em tros sub-theorias: a do deter- 
minismo mecânico, a do determinismo physiologieo e a do 
determinismo psychologico (77j . O determinismo mecânico parte 
do principio de que a energia no seio do universo ô sempi*e a 
mesma, toda a força se resolve em movimento e todo movi- 
mento em força, o pretende explicar por essa tlieoria mecânica 
todo o mecanismo da vontade. Esta doutrina até certo ponto se 
confunde com a do fatalismo, segundo a qual tudo ostã previa- 
mente regulado, o homem nada póie modificar pela sua activi- 
dade, só lhe cumpro submotter-se, resignar-se, deante do poder 
mysterioso o superior (Dous ou o destino), contra o qual toda 
lucta é impossível (7S). Os sectários do determinismo mecânico, 



(75) Enrico Forri, Sociolofjia crimincU, pag. 262, Paris, 1893. 

(76) Rayot, Lcçons de pi^ychologie, pags. 447 c 448. 

(77) Cepeda, E/tiw cílio' de Droit NatuveU trad. de Oiiclair, pag. 32. 

(78) G, Renard, L'homme est-il libre t pag. 13. 



A HISTORIA NO CONCEITO DE BUCKLB 227 

bem como os fatalisi», não vêm qae o homem 0x0106 um poder 
de diree^» limitado mas incootestaTel, sobre as forças iuUa« 
raes. O determinismo physiologioo só admitte instinetos, stfitl* 
mentos, iaelinaçJSes e paixões, e explica todos os antos toIoih 
tarios pelo temperamento, peio ambiente, pela sensibilidade ^79). 
O determlnsmo physiologico abstrahe dos motivos consistentes 
em idéas oa razões de ordem superior, como o dever, a jostíga^ 
a solidariedade humana, a abnegação, motivos a que o homem 
obedece» contrariando seus moveis sensíveis (80)« Finalmente, o 
determinismo psych(riogico, em antagonismo oom o meoanleo e 
physiologico, enstna-nos que a vontade não está adstricta a essa 
força cega, manifestação da energia do universo, nem nniear- 
mente aos instinctos, inclinações e sentimento, mas obedeoe 
também ás idóas e aos raciocínios, qae riio motiwi determi-« 
nantes de nossas volições* E* a doutrina verdadeira, e acceitA 
por todos 03 psychologos, philosophos e pensadares« qne tdm 
aproíúndado esta difficil e complicada questão. O priBieiro dos 
argumentos exhíbidos em fitvor do livre arbítrio repousa em 
uma grosseira confosio, facilmente dissipaveL Se interro- 
garmos a nossa consciência, affirmam os adeptos do livre ar- 
bítrio, obteremos a resposta de que podemos fazer a fue qui* 
zermos. Cada homem faz o çiue quer, não ha duvida alguma, 
desde que se lhe não depare um obstáculo material. Mas eomo 
observa Schopenhauer, essa ó a a liberdade ph^sica, o poder de 
agir^ que nada tem com a nossa intrincada questão. O que a 
consciência proclama é a Uberdade dos actos^ com a preeupposiçãe 
da liberdade das volições ^ mas sobre esta ultima liberdade— a 
das nossas volições— a consciência nenhum testemunho offerece 
em ííivor da theoria do livre arbítrio. Isso não nos deve sar-' 
prehender, por^iuanto a eonsciencia, nota o philosopho allemão» 
tal qual habita no fundo da generalidade dos homens, é uma 
cousa demasiadamente simples e acanhada para poder explicar 
questões dessa ordem. O problema é outro e muito diverso. O 
problema ô este: nás queremos as nossas voHçõesí Qiteremes o qtte 



(79) Cepeda, ob. cit., pag. 34. 

(80) Cepeda, pag. 35, 



228 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

queremosf Âs nossas determinações, as nossas resolagõjs, sio o 
producto exclusivo de nossa vontade, independente e soperior 
ás circumstanoias externas, aos moveis e aos motivos ? Ou as 
nossas volições são o produoto destes dois factores—o caracter, 
a organisaçao mental, a constituiç&o psychica de cada um, e os 
moveis o motivos? Quando um homem afflrma: ueu posso fazer 
o que quizor, caminhar para a direita, ou para esquerda, oon*- 
forme quizer, porquanto sou livre», afflrma uma verdade irre- 
futável. Apenas prosappõe a liberdade da vontade, o admitte 
implicitamonto que a decisão Já está tomada (81). Os nossjs 
actos dapendem do nossas volições, do nossa vontade. Mas, essas 
volições, essa vontade, ^u) independentes de quaesquer circum- 
stanoias, do quasqner forças, internas ou externas ? Eis o pro- 
blema. E a solução nnica admissível no estado actual da scie- 
oncia á a de Buclsle, como hoje reconhecem todos os homens oom- 
petentes neste assumpto. 

Em verdade, a observa^ quotidiana dos factos nos arrasta 
a confessar que os homens são resultantes dos tempos e dos Io- 
gares em quo vivem, estreitamente solidários com tudo o que os 
cerca, os precede e os segue (82). A hereditariedade, ou meio in- 
terno, determina-lhes o caracter o o temperamento. O meio cos* 
mico, o meio individual e social, actuam sobre o caracter e o tem- 
peramento, e 08 modificam. A influenciado ultimo iRnctor éfte- 
quenlemento proclamada: não ha quem duvide da acção dos ha- 
bites, dos costumes da sociedade em que vive o individuo, dacon- 
dição social em que nasceu, ou se conserva, da profissão, da hy- 
giene, da educação, da instrucção, das instituições e das leis (83). 

A voli';ão 6 uma resultante destes dois factores: a consti- 
tuição psychica e òs motivos. Submetter-se a este ou áquelle 
motivo, não á facto que depende do livre querer de cada um. 



(81) Fssai sur U libre avhiirr, parrs. íííí o 34. 

(82) Piopor, La rir soriale, la morale et le pvonrH. papt?» 2^, 
cap. 2'>. x- uf 1 » 

(81) Hfliiion, obra cila«la, pa«?. 22. Voja-sr eflpooialmenle o excol- 
lento livro do Dp. M. Bombarda, proíessor de medicina em U»l>oa,— 
A consciência eo livre arbítrio {.dip, 5'. 



A HISTORIA NO CONOBITO DE BUCKLE 229 

08 motÍTos não tôm uma força iatrínsoca» sonipre a mesma 
I^ara todas as vontades. Saa energia depende da organiâaçfto 
mental dos individoos: o qae para um homem civilisado, e de 
coracSo b3m formado, constituo motivo preponderante, pôde 
nao passar de um motivo secundário, on absolutamente nullo, 
para um cérebro rude e dominado por necessidades pbysiplo- 
gicas o tendências inferiores. Mas, oljectam os propugnadores 
do livre arbítrio, a vontade humana tem em si um principio 
activo, capaz de resistir a todos os moveis e motivos imagi- 
náveis, do abstrahir dessas forças determinantes, do sobrepôr-se 
a ellas, e dominal-as ; os motivos nâo impeliem necessariamente 
a nossa vontade. Na soa linguagem pittoresca, Schopenhauer 
reproduz essa objecção sob a forma de alguns exemplos. Para 
provar o livre arbítrio, um iiomem toma um revolver carregado, 
e declara que depende exclusivamente de sua livre vontade* 
sem a influencia de motivo algum, suioidar-se ou nfto. Esquece-se 
de que a condição capital para que se dê tal facto* ó a inter- 
venção de um motivo de força esmagadora e por isso mesmo ra* 
rissimo, de um motivo que possa sobrepujar o amor á vida ou 
o temor da morte. Só depois que um tal motivo entra em jogo, 
é que a nossa vontade se determina, resolve a pratica do acto, 
que antão é uma consequência necessária. Diz um outro defensor 
do livre arbítrio: posso dar aos pobres tudo o que possuo, e 
tornar-me pobre. Poderia, respondo o philosopbo, se tivesse um 
caracter diverso, se levasse a abnegAçao até á. santidade ; mas, 
nesse caso nada poderia impedir a pratica desse acto, que se 
daria necesariamnte , 

Uma illusão da consciência, muito commum, pároco op« 
pôr-se ao determinismo psychico: do facto de podermos pensar 
(note-se bem— pensar) na realisaç<ão de duas acções completa- 
mente oppostas, tiramos a conclusão de que, em um determioado 
caso, podemos querer eguaimente dois actos contrários. Schope. 
nhauer desfaz essa illusão por meio desta bella e significativa 
prosopopea:— Eu podex*ia, diz a agua, levantar-me ruidosa- 
mente em vagalhões immensos, tragando navios alterosos, açoi- 
tando os mais elevados rochedos.— Sim, responde o philosopbo, 
se fosse agua do mar, agitada por uma tempestade violenta. 



230 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

—Eu poderia preoipitar-me em uma carreira vertiginosa, arras- 
tando Da minha paragem troncos de arvores, blocos de granitos, 
«adaveres de liomens.— Sim, poderia tudo isso, mas precisava 
ser uma grossa torrente, que se despenhasse de aleantilada 
montanha. — Eu poderia esparzir-me pela atmosphera em li- 
geiros flooos niveos, tão brilhantes como os raios do sol. —Po* 
deria, se fosse repuxo de jardim, em dia de oáo anilado, sob os 
revérberos de um sol vivamente fulgurante. —Eu poderia re- 
flectir com a maior nitidez as mais puras formas, os contornos 
das imagens mais beilas. — Sem duvida, se fosse agua de lago, 
orystallina e pura, não encrespada a fftce pela mais ligeira brisa. 

Quando suppomos que em uma determinada hypothese po- 
díamos ter tomado duas resoluções completamente oppostas, 
esquecemos todas as circumstanclas que rodearam a nossa vo- 
lição, abstrahimos da força que determinou a nossa vontade, do 
elemento que iníiuio decisivamente na deliberação. A acção 
desse elemento, o facto de termos obedecido a esse motivo, a 
eircumstaneia de ter sido elle o preponderante, não dependia 
da nossa vontade, era um corollario das condições do nosso es- 
pirito, da nossa organisação mental. 

Em ultima analyse, a única liberdade que tem o homem ô 
a de agir ( liberdade dos actos ) de acoordo com a sua vontade, 
suas predilecções, suas inclinações, de conformidade com os seus 
maceis e motivos (84). E, sendo assim, o determinismo não 
destróe a individualidade, a personalidade, o conjuncto das qua- 
lidades peculiares a um individuo, e que o distinguem dos outros 
individues da mesma espécie. Exactamente por haver uma 
riqnesa admirável de foctores que distinguem a constituição psy- 
ehlca dos indivíduos, e uma grande abundância de idéas e sen- 
timentos, de uidinações e paixões, que actuam como forcas 
propulsoras da vontade, e por não conhecermos previamente 
quaes os factores e os motivos que hão de predominar em um 
determinado caso, 6 que não podemos prever com segurança 
os phenomenos voluntários, excepto dentro de certos limitos. 



(84) Hamon, pai?. 47. 



A HISTORIA NO COXCBITO DE BUCKLE 231 

Um outro argumento decisivo contra o livre arbitrio nos 
fornecemos estadistas, legisladores, jurisconsultos e moralistas, 
de todos os tempos. A existência das leis nâo teria absoluta- 
mente explicação, se a vontade humana fosse independente doa 
motivos. Que homem sensato se lembraria de dirigir, de go- 
vernar, o livre arbitrio ? As leis tôm por base a presumpçao de 
que a vontade está sujeita ú. coacção dos motivos • Um codil^o 
penai ó simplesmente uma serie de motivos, creados polo legis- 
lador, para o flm de dominar os moveis e motivos conducentes 
ao crime (8*3). Os mais notáveis criminalistas estão accordes 
neste ponto: para Beccaria a pena é um motivo sensível op- 
posto ao delicto ; para Feuerbach um dos fins da peaa é a coacção 
pfiychologica ; segundo Romagnosi, uma das funcções da pena é 
a contra-impulsão á impulsão do crimo (86). O legislador 
serve-se das próprias paixões, das mesmas tendências, que levam 
ao crime, para afastar o homem da pratica dos actos delictuosos. 
A cobiça, a sensualidade, o instincto de destruição, querem sa- 
ciar-se: o legislador estabelece penas que vão ferir o delinquente 
exactamente no património, na liberdade ( cuja privação lhe 
tolhe os gozos materiaes), na vida, isto é, nos próprios instinctos 
que eile quiz satisfazer. A representação das consequências do 
delicto contrabalança, ou sobrepuja, as vantagens, os resultados, 
a utilidade collimada ; e assim a ameaça do castigo, a commi* 
nação da pena, actua como motivo para vedar a perpetração do 
crime. Se algumas vezes a pena deixa de ser efficaz, e se trans- 
gridem as leis penaes, isso prova a regularidade com que actuam 
os diversos factores que concorrem para formar o caracterisaí 
a nossa constituição psychica. O moralista não raciJcina de outro 
modo, quando se esforça por nos desviar da pratica do mal, por 
meio da representação das consequências prejudiciaes decorrentes 
da infracção dos preceitos ethicos, consoquencias que são as 
sancções da moral. 

Como todos os deterministia, Buckle tora sido increpado 
pelos que não conhecem a doutrina — de tor preconisado um 



(85) Essai snr le libre arbitnu appendico l». 

(80) Ilamon — DHerminisme et responsabilité^i^ai!^, 2uC. 



232 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

priaoipio philosophioo cujos ooroUarios são immoraes. Acceito o 
determinismo, euppoem taes coQSoree que temos eliminado as 
noções de imputabilidade, responsabilidade, mérito e demérito, 
pena e recompensa, e consequentemente os fundamentos da 
moral o do direito. Nenhuma supposicSo mais errónea. Sendo 
os nossos actos voluntários a resultante do caracter individual, 
ou organisação mental de cada individuo, e dos motiros, e fa- 
zendo-se mister uma certa correlação entro a vontade e os mo- 
tivos, isto ó, que 08 motivos tenham a forca do propulsar um 
determinado caracter, e que esse caracter esteja formado de tal 
modo que sobre elle influam esses motivos, nós temos o senti- 
mento claro e seguro da imputabilidade de nossas acções. O de- 
terminismo não nega a individualidade, a personalidade; pelo 
contrario, explica scienUAcante por que a constituição psychica 
dos individues varia, e distingue cada homem dos seus seme- 
lhantes. Ninguém ainda so lembrou, observa Schopenhauer, de 
se desculpar da pratica de um acto condemnavel, attribuindo-o 
exclusivamente aos motivos: todos estão certos de que a imper- 
feição do seu caracter contribuiu para a producção do acto cen- 
surável. Cada um de nós está convencido de que, sob a pressão 
dos mesmos motivos que o levaram a praticar um acto immoral, 
outro individuo de mais aperfeiçoada organísaçao mental, 
de melhor educação e do intoUigencla mais esclarecida o 
capaz do reflexão, teria procedido diversamente. As acções vo- 
luntárias de um individuo decorrem do seu caracter, do con- 
juncto de attributos que o distinguem, e consequentemente lhe 
são imputáveis. Lançam -se na conta de cada um de nós. Não 
devemos responder por esses actos? Juridicamente a questão 
nos parece hoje impossível. A responsabilidade do delinquente 
repousa exclusivamente na imperiosa necessidade da defesa so- 
cial, reconhecem todos os criminalistas contemporâneos aucto- 
risados: o delinquente respondo pelo delicto, impõe-se-lho uma 
pena, porque a conservado da sociedade o exige. Ora, já vimos 
que a idéa de pena com exclusão do determinismo psychico só 
pôde aninhar-se no cérebro de um insensato. Consequente- 
mente, o determinismo não destróe a responsabilidade ; o que 
se não comp/ohende é a responsabilidade som o determinismo. 



A HISTORIA NO CONCEITO DE BUCKLE 233 

Mas, dir-se-ha: a que ficam reduzidas as idéas de mérito e 
demérito em face do determinismo ? Quando uma acção foi jal- 
gada moralmente bôa, dizemos que o agente moral é digno de 
estima e recompensa, eis o mérito. No caso contrario, jul- 
gamos o agente digno do desprezo e de punição, eis o demérito 
(87). Louvamos e estimamos o individuo que procede de acoordo 
com oa preceitos da ethica ; desprezamos e punimos a quem 
transgride essas normas salutares, ostabeiecidas em pro- 
veito do individuo, da sociedade e da humanidade. Mas, 
não 6 3ô no dominio dos factos moraes que discriminamos 
o que 6 utii do que nos prejudica, ou não nos inte- 
ressa. Honramos e admiramos, louvamos e estimamos todos 
03 que se distinguem por um talento scientifico, artístico ou 
litterario, pela habilidade no oxercicio de uma profissão» 
por uma preciosa qualidade physica ou intelloctual. Ninguém 
liberalisa prémios ou encómios, recompensa monetária, ou 
sequer alguns momentos de attenção, ao mau poeta. Prestamos 
todas as nossas homenagens de estima e admiração áquelles 
que por seus dotes oaturaes, por sua constituição mental, se 
iC\m distinguido na arte de exprimir as idéas e sentimentos 
humanos sob a forma eterna do verso. Entretanto, sabemos 
que nenhum desses artistas é o autor do seu génio, que todos 
elles devem a ezcellencia na sua arte & natureza e ás circum- 
^tanclas. Lamartine, que não equiparamos ao rude burilador 
de versos sem génio e sem inspiração, poude dizer de si próprio 
com verdade: 

Je chantais^ mes amiSy comme Vhomme respire^ 
Comine Voiseau gémit, eomme le vent soupire, 
Comme Veau murmure en coulant . 

B Hugo escreveu em rela^ ao sou próprio génio : 

Tout souffle, tout rayon^ ou propice ou fatal, 
Fait reluire et vibrer mon âme de cristal, 
Mon âme aux mille toix^ que le Dieu que fadore^ 
Mit au centre de tout comme un écho sonore. 



(87) E. Saisset, Príncipes de la Morale, pag. 361. 



234 REVISTA no INSTITUTO HISTÓRICO 

Uma mulher nos attrahe pelos oncanios de sua belleza. 
Não é eila a autora d\, perfeição das linhas de seu rosto. 
Vamos por isso desprezal-a, ou confuadil-a com as que não têm 
o dom fatal de que nos falia Byron ? 

As perfeições moraes são estimadas e applaudidaa do mesmo 
modo que as perfeições intellectuaos. As imperfeições, as falhas* 
08 vicies, os defeitos moraes, são votados ao desprezo e ã re- 
pulsão, do mesmo modo que as imperfeições intelleciuaes (88). 
Tanto umas como outras não nos devem provocar odio^ mas 
oompaizão. e o descijo de corrigil-as, de eliminal-as^ nos limites 
do possível. O determinismo não nos leva & inércia do f^ita- 
Jismo. 

O determinismo pftychico é a theoria regeneradora da huma* 
didade, a doutrina do bem, da moral, da salvação. Conhecedor 
da dualidade dos factoros que produzem as nossas volições, n&o 
mais se limitará o homem a conselhos inefflcazes, a vãos precei- 
tos, ã simples formulação de regras de condncta, que são ovtrofl 
tantos motivos contradictoriamonte oíferecidos pelos adeptos do 
livre arbítrio como meios de dirigir a vontade humana. Sabendo 
que os actos moraes dependem da correlato desses motivos 
com a organização mental, e quaes os elementos que infloem 
na formação do caracter, procuraremos evitar o mal, cortando- 
lhe as raizes ; eliminar o vicio, estancando-lhe as fontes ; ex-* 
pungir o crime, dando caça aos seus antecedentes necessários, 
mais remotos e recônditos. Os individues e as sociedades por 
seus orgams se esforçarão por attenuar, quanto possível, as as- 
perezas do meio physico, e por melhorar todas as eondições 
individuaes e soeiaes de que depende o aperfeiçoamento do es- 
pirito humano. 

Se o determinismo psychologico é a expressão da verdade, 
Bnckle tem razão, quando logo no limiar do seu magestoso 
edifício oolloca esta epigraphe sigaiftcativa : «Temos, pois, que 
o homem modifica a natureza, o a natureza — o homem ; o 
dessa reciproca influencia devem necessariamente decorrer todos 



(88) Renard, obra citada, pags. 90 a 97 



A ÍIISTORTA NO CONCEITO DE BUCKLE 235 

OS acontecimontos » (89) . Podemos appliear o methodo seienti- 
fico ao estado dos factos volantarios prodazidos pelas agremia- 
ções humanas, generaliziír depois de observar, e assim conhecer 
as leis a que esses factos estão sujeitos. E, sendo assim, do 
conhecimento do passado podemos colher elementos que nos 
aatorisem a prever o faturo. 

Não (hltam escríptores que neguem a possibilidade da pre- 
visão em relação aos fictos soeiaes. Refuta-os Speneer esma*- 
gadoramente por meio de uma distincção que cumpre lembrar, 
o que faremos, servindo-nos dos mesmos exemplos do pensador 
britannico. Ninguém contesta o desenvolvimennto da mecâ- 
nica, uma das sciencias mais adeantadas actualmente, mais 
próximas da perfeição, e que comportam predicçOes mais se- 
guras e precisas. Os astrónomos se utilisam dos princípios da 
mecânica como basode suas Infaliiveis previsôos. Supponha-se 
que se trate de fazer explodir uma mina. Os principies da me- 
cânica nos autorizam a predizer que cada um dos fragmentos 
descreverá uma curva ; que todas as curvas, embora differentes 
entre si, serão da mesma espécie ; que, desprezados os desvios 
produzidos pela resistência do ar, teremos partes de ellipses 
bastante excêntricas para se confundirem com as parábolas. 
Tudo isso podemos prevôr com segurança. Mas, que nos é per- 
mittido saber previamente em relação ã sorte particular de 
cada um dos fragmentos ? A parte esquerda do bloco sob o qual 
se coUooou a pólvora saltará em um s6 pedaço, ou om muitos ? 
Este fhtgmento será lançado á maior altura do que aquelle 
outro? Será detido em seu curso por um obstáculo? Eis ahi per- 
guntas a que a dynamica não responde, por não ter dados sobre os 
quaes possa formular as suas predicçoes. E assim uma das 
sciencias mais exactas só nos pormitte previsões geraes em re- 
la^ a um assumpto de sou domínio. O processo geral do phe- 
nomeno pode ser conhecido previamente ; as particularidades 
não. Dá-se o m:^smo com a anthropoiogia. Nasce uma creança. 
Podemos prever o que lhe reserva o faturo ? Morrerá em tenra 



(89) Tradarção d» Baillot. vol. 1«, papr. 24. 



236 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

edade ? Viverá algum tempo para suocombir à escarlatinat on 
á coqueluche? Cabirá de uma escada? Impossível absolota- 
meate prever qualquer desses factos. Se desses factos pessoaes 
passarmos aos que Spencer denomina quasi-biographicos, al- 
gumas conjecturas serfto possíveis. E* licito afirmar que o 
recem-nascido aos três annos não será um matliematico, nem 
aos des um psychologo» nem um estadista na puberdade. Se 
eliminarmos os factos biographioos e quasi^biographiooSp ainda 
nos restar&o muitos factos que poderemos prever com segu- 
rança, e tacs s&o os relativos ao crescimento, ao desenvolvi- 
mento, á estructura e ás diíferentes funcções do corpo humano. 
Também a historia nos oíTerece duas ordens de factos, os con- 
tingentes e os necessários, os imprevisíveis e os previsíveis (90). 
Só os uliimofl offerocem base para generalizações. A theoria do 
determlnijmio psychico não nos leva á conclusão absurda de que 
tudo se pode prever no domínio dos factos sociaes. Mas, iSsO 
não quer dizer que haja factos dependentes do livre arbítrio e 
outros regulados por leis fixas, para nos servirmos da expressão 
do Buckle. Significa uoicamente que, devido ã extrema compli- 
cação das cansas e condições do certos pheaomenos, não lhes 
conhecemos as leis, e esses são os phenomenos denominados im- 
propriamente contingentes. 

Bnokle precisava começar pela afilrmação do determinismo, 
porque todo o seu estudo sobre a historia, o seu methodo e os 
seus principios, decorrem logicamente da estreita relação entre 
os actos humanos e as leis physicas, são applicações do prin- 
cipio do determinismo psychologico.. 

As leis fundamentaes da historia no conceito de Buckle, e se- 
gundo elle próprio as formulou, são as seguintes : < 1.'— os pra- 
grossos do género humano dependem do suooesso das investiga- 
ções no domínio das leis dos phenomenos da natureza, e da pro- 
porção em que se divulga o conhecimento dessas leis ; 2.*'- para 
que poifsam começar essas investigações, é mister que exista o , 



(90) Spencer, Introdnction à la science sociale, pags. 56 a6t. 
Paul Mongeollo, Les probíèmes de Vhistoire^ prefacio de Yvea Quyot, 
pag. VII, 



A HISTORIA NO CONCEITO DE BUCKLE 237 

espirito de duvida, o qual, proTOcando as pesquizas soientifloas, 
ô por soa turno alimentado por ellas ; 3.*— as deseobertag 
assim obtidas aagmentam a inâaenoia das verdades intellectuaes, 
e diminuem relativamente, n&o absolutamente, as verdades 
moraes, porquanto estas, não podendo ser tâo numerosas, s&o 
mais estacionarias do que as verdades iotelieotuaes ; 4.* — o 
grande inimigo desse movimento, e consequentemente o grande 
inimigo da civilização, 6 o espirito protector, isto é, a convicção 
de que a sociedade só pôde prospei-ar, se o Estado e a Bgreja 
dirigirem os nossos passos mais insignificantes, o Estado pela 
determinação do que devemos fazer, a Egreja polo ensino do 
que devemos crer» (91). Taes são na phrase do historiador 
inglez. as proposições nuiis essendaes para a sã inielliffoncia da 
hisioriat proposições que eilo julga ter demonstrado pela 
inducção e pela deduoção . 

Terá o erudito e genial escriptor formulado as leis ftinda* 
mentaes da historia, as bases da philosophia da hisioria« como 
emprehendeo, tão convencido da effleacia do seu methodo e da 
superioridade de suas forças intelleetnaes? 

O progresso do género humano (é a primeira lei)— depende 
do successo das investigações no domínio das leis qne regem os 
phenomenos da natoreza, e da propor^ em que se espalham os 
conhecimentos dessas leis. 

Eoi primeiro lugar, importa saber o que é o progresso 
do genei*o humano. Nada mais vago, mais indefinível, do qne 
a idáa que se faz geralmente acerca do progresso. No sentido 
commum, o progresso é uma expressão subjectiva, que de- 
signa as modificações que satisfazem as nossas preferencias 
(98). Algumas vezes, empregamos o vocábulo para exprimir o 
augmento, ou a qnilidade superior, dos prodnctos das industrias ; 
outras, para significar o desenvolvimento dsts sciencias, das 
letras, d\s artes, ou as modificaçSes que, directa, ou indirecta- 
mente, conduzem á felicidade (93). No sentido objectivo que 



(91) Trad. de Baillot, toI. 4, cjp. XV. 

(92) Laa^lais e Feignob s, obra citada, pag. 249. 

(93) Sptncer, Essaís surle prxigrès, paga. 3 e seguintes. 



â38 RBVISTA DO INSTITUTO HiatORIGO 

lhe deo Speooer» o progreflBO podo ser definido : o augmento de 
variedade e de ooordenação dos pheaomeaos, ou a passagem da 
esiructura homogénea para a ostractura heterogénea. O termo 
é tâo yago como a palavra citnlisação, que para alguns ligniflca 
unicameioite o desenvoivlmeato das sciencias, da literatura e dai 
artes, o para outros abrange a industria, o eommerciOt todos os 
ramos actividade útil, não faltando historiadores que a em- 
pregam como expresiMio apropriada para repi*esentar tudo isso e 
também a vida domestica, o culto religioso, os usos e eostames, 
os utensilios e a alimentação (94). 

Que quer dizer o progresso do género humano de que nos 
falia Buckle? O progresso, ou a civilização (não raro expressões 
synonymas) que oomprehende todas as modiieaçSes úteis, que 
nos dão o bem estar, e que traduzem uma elevação intellectual 
e moral, ou o progresso em determinado ramo da actividade 
humana? 

Buokle nos responde, primeiramente definindo a elviiizaçao 
que 6 o triumpho do espirito sobre os agentes exteriores e 
depois consagrando algumas paginas á no^o do progresso. 
Reproduzamos-lhe as phrases : cSe perguntarmos : que ô o 
progresso ? a resposta parecerá muito simples : ó um duplo 
desenvolvimento, moral e intellectual ; o primeiro se refere 
aos nossos deveres, o segundo aos nossos oonheeimeutos». Con- 
fessemos que a resposta pôde talvez ser muito simples, mas, com 
certeza, não é satisfaotoria. «Esse duplo movimeuto moral e in- 
telectual, continua Buckle, ó essencial á idéa de civiHsação, e 
encerra toda theoria do progresso mental. Cumprir o sen 
dever, eis a parte moral ; saber como se desempenha o homem 



(94) Guinplowiz» Sooiologie vt Politique, pa^. 00. Plint não ad- 
mitte a synonymia entro os terinos — civilisação e progresso. «O bom 
senso naturald) género humano, diz o illustre escriptor Inglez, ab- 
solutamente não tom o direito de ailirmar quo a civilização seja o 
progresso, ou mesmo do considerar o pro<riT8.sO um caracter es- 
sencial e universal da civilisação ; ò, peloa factos que devo ser pro- 
vada, a verdade ou a falsidade dessas proposições ; o os factos nos con- 
vencem precisamente de que aml)as são lalsas. Uma grande rarte da 
civilização do mundo ae conserva estacionaria, ou (^atá em declinio. 
A civilisação progre.ssiva c, não a regra, mas a excepção. A civilisação 
progrcí-siva è a única que encerra a noção do progresso». {PhilO' 
sopkie de Ihisioire eu France : cap. X.) 



A HISTORIA NO CONCEITO DB BUCKLE 2^9 

do seu ddV6r, eis a parte Intelleotaal.» Ma;»« uma grave questão 
se offereoa logo ao espirito do escriptor brítanDico : dessas doas 
partes» ou elementos do progresso meatal, qual é a maUí impor- 
tante? Cumpre sabel-o para subordinar o elemento inferior ao 
superior. Se o desenvolvimento da civilisagão e a felicidade doe 
homens dependem mais do senso moral que das aoquisições da 
intoUigenoia, naturalmente é esse o estalão de que nos devemos 
utilisar para medir o progresso da sociedade ; se, pelo contrario, 
tudo está subordinado ao augmento dos nossos conhecimentos, 6 
a actividade intellectual a nossa craveira. Depois de uma longa 
argumentação, afflrma Bnckle que o progresso da intelligencia, 
das noções soientiflcas (ou intellectuaes, como elle denomina), ó a 
progresso por ezcellenoia, e, pois, a medida do progresso do 
género humano. 

Sendo assim, ou o progresso a que se refere Buckle na 
formula da sua primeira lei da historia abrange todas as modi- 
íicações úteis, intellectuaes e moraes, que constituem o pro- 
gresso no sentido amplo; ou exprime unicamente o augmento 
do nosso património intellectual. 

Sendo o fim do historiador britannico tragar a lei Ainda- 
mental da historia da humanidade, e não a lei especial de deter- 
minado ramo do progresso humano, é na primeira aocepção 
que devêramos tomar o vocábulo. 

Mas, nesse caso a lei de Buckle tom contra si os mais elo- 
quentes protestos da historia universal. Em todos os paizes do 
Oriente, o mormente na Grécia o em Roma, as instituições po- 
liticas, a legislação e a jurisprudência, a religião, a moral, a 
vida domestica, a architectura, a esculptura, a pintura, a 
dança, a musica, a poesia, as industrias não aguardaram o de* 
senvolvimento das scioncias physicas para progredir, nem se 
desenvolveram na proporção em que se foi divulgando o co^ 
nhecimento das leis naturaes. Não ha uma só grande idéa mo- 
derna, uma concepção phiiosophica, uma theoria do pensamento 
que não tenha os seus primórdios na concepção de algum philo* 
sopho da Hellade (95). Nas artes <o ponto, aonde chegou o 



(96) Latino Coelho, A Oração da Coroa ^ pag. 35. 



240 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO ' 

génio gi*ego, deve fleguramente reputar-0e o limite superior 
da humana inspiração» (96) . Da Hellade receberam os romanos 
a philosophia e as artes, a que nunca deram o maravilhoso de- 
senvolvimento que entre elles teve a jurisprudência. Entretanto» 
as sclenoias physicas apanas ensaiavam os seus primeiros passos, 
e jaziam immersas em um retardamento que contrastava com 
a brilhante cultura de outros ramos do saber. A verdade é, 
como nos diz Stuart Mill, e o próprio Gomte o reconheceo em 
uma pagina que reproduzimos no capitulo anterior, que desde 
os tempos mais remotos tem havido um desenvolvimento simul- 
tâneo em todos os domínios da lotelligencia humana, ora pre- 
ponderando un, ora outro. 

Se a lei de Buckle somente eomprehonde o progresso intel- 
lectiial,o desenvolvimento das sclenoias, começa pelo defeito 
de não ser uma lei universal, e multo menos fundamental, da 
historia da humanidade. Seria uma lei especial, talvez, do 
progresso das sciencías. Mas, então, já. antes de Buckle alguém 
que lhe era superior em génio e profundeza de conhecimentos, 
tinha mais precisamente formulado a proposição. De facto, que 
ficaria sendo, em tal bypotheae, a lei do historiador inglez, 
senão a these de Augusto Gomte, segundo a qual o progresso 
das sdencias que so oocupam com o homem e com a sociedade 
depende do desenvolvimento das sciencías physicas, assim como 
o destas do das sciencías inferiores, na ordem hierarchica ge- 
ralmente conhecida ? 

A segunda lei do Buckle não é menos falsa. B' a expressão 
de um fikcto que se tem dado, que pôde se verificar, mas não 
uma lei fundamental da historia. Tem razão Littró, quando 
assevera que, nem com relação aos indivíduos, nem com re- 
lação ás épocas, se pôde reputar o scepticismo, ou o espirito 
de duvida, uma condição necessária das primeiras investigações 
das leis naturaes (97). 

Buckle impressionou-se por certos factos da historia da 
Hespanha, onde a Bgreja, auxiliada pela íDquisição, fazia uma 



(9()) Obra citaria, pap. 353. 

(97) Líkscience au point de vue philosophique , pag. 487. 



i 



A HISTORIA NO CONCEITO DE BUCKLE 241 

guerra de extermínio, só explicável pela eetapidez do fanatismo 
a todos 03 pensadores e homens de scíencia ; e por esse modo 
conservou na ignorância, que sempre lhe ó tão agradável, 
aquella nobre e infeliz nação. Generalizando precipitadamente, 
vicioso habito de que severamente, mas com razão, o Inorepa 
um seu compatriota iiiustre (98), Buckle formulou uma lei 
geral da historia, desmentida a cada passo pelos factos. Catho- 
licos sinceros, protestantes fervorosos, como Descartes, Newton, 
Haller, fizeram avançar as scienoias naturaes (99). Na edade 
média, cegamente si^eita a todos os dogmas theologioos, as es- 
peculações da alchimia produziram descobertas importantes» e 
prepararam o caminho para muitos progressos da chimíca (100) 
Ainda na idade média, as crenças religiosas não impediram 
Alberto o Grande de conceber methodos e verdades scientifieas 
muito dissonantes das idéas erróneas qye o cercavam ; Vicente 
de Beauvals de se consagrar ao estudo da natureza, de inves- 
tigar no dominio da astronomia, da botânica, da zoologia ; 
Rogério Bacon de ser o propugnador do methodo experimental 
naquella época de trevas, de indicar os meios de extrahir o 
phosphoro, o manganez e o bismutho, de indirecta ou directa- 
mente dotar a civilização com inventos preciosos, eomo os 
relógios, as lentes e os espelhos reflectores, de ter ama intuição 
do poder do vapor, e de algumas das principaes doutrinas da 
chimica moderna, de insistir sobre a necessidade do emprego 
das mathematicas como auxiliar das outras s