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REVISTA 

DO 

INSTITDTO HISTÓRICO E GEOGRAPHIGO 



D,Bi,z,db,Google 



D,Blradb,GOO<^le 



REVISTA 

DO 

USTITOTO HISTÓRICO E BEOGRAPIICO 

BRAS2ILEIHO 
Fundado no Hlo de Janeiro em 1838 



(1915) 
J:'A.BXE li 



Hoc tadli ut longos durcnt bens gesU p«r«aaot, 
Et poMlnl lera poateriutc frui. 



DIRECTOR 

Dr. B. F. Ramiz Gahào 




RIO DE JANEIRO 

lUrRSMSA NACIONAL 
1916 

DigtizedbyGOOgle 



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DOCUMENTOS 



A VIDA F, A OBRA DE NICOLAU ANTÓNIO TAUNAY 

UM DOS FUNDArjORES DA ESCIIOLA NACIONAL 
DE IIELLAS ARTES 



Dr. AffoNSO D'Esí:nAr.NOtLR Taonw 



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SR. L. SOVLLIÉ 



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Diaintu iitoi a lUa le Uq liloilo TaDDiy \\\\\\\\% 
BI IK tiBlalBtei ia Euboia Racioial le Miai Irtn 



BREVE NOTICIA BIOGRAPHICA ACERCA DE NICOLAU 
ANTÓNIO TAUNAY 

Oriundo de antiga família do Poitou [i] qilc se convertera ao 
calvinismo no século XVI e muito sof&era, sob todos os sentido;;, 
por esse motivo, sobretudo com o exilio, após a revogaç3o do 
Eklito de Nantes e o subsequente regresso ao solo pátrio, nasceu 
Nicolau António Taunay em Pariz, a lo de Fevereiro de 1755. 

Foi seu pae Pedro António Henrique Taunay ( 172&-17ÍI7), 
durante longos annos chimico e perito da Manu&ctura real de por- 
ccUanas de Sivres ; hábil artista, inventor de diversos esmaltes e 
matizes, concedera-lheLuizXVoqualificativo então muito honroso 
depensionisla do rei. 

Desde os primeiros annos da meninice revelou Nicolau An- 
tónio irresistível pendor para o dcscuiio. Aos doze annos entrou 
para o a^íer do Lepicié, passando depois ao de Brenet e afinal 
para o de Casanova, que então tinha immensa reputação. Reti* 
rando-se de Casanova para a Rússia, resolveu Taunay tomar como 
único mestre a natureza ; muito affeiçoado a paizagistas célebres 
como Demarne, Bruandet, Swebach, começou por estudar as flo- 
restas dos arredores de Paris, detidamente, e depois partiu cm com- 
panhia de Demarne e ouUos amidos para uma lonpa excursão pelo 
Delphinado, Sabóia e Suissa , 



inno de iSCti, tomo KXI, arilgo 

■ DigtizedbyGOOgle 



to REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Pela primeira vez exhibiu-se em publico, oo anno de i7j-7, na 
Exposição da Mocidade, sendo então muito notadas as suas pai- 
zagens c ^uaches ; disse a critica da épocha que essas obras eram 
uoalvore^ierdotaleDtodeuni novo Berglicm ». Em 1779 concorreu 
pela s^unda vez à Exposição da Mocidade, obtendo novoi 
triumphos. Em I782reapparecea no Salon de h Correspondcnce ; 
já tinha cntSo uma reputação Teita de artista de mérito. 

Em 1784 foi acceiío agreáá Academia Real de Bellas Artes, 
mcrecendo-lhe esta distíncçâo um quadro inspirado por um assumpto 
do Ariosto. 

Muito querido de Fragonarde de Hubert Robert relacionou-so 
por intermédio destes com o conde de Angcvilliers, Superintendento 
dos Edifícios Reaes e de Bellas Artes, sob Luiz XVI ; offcreccu-lhe 
d'Angevilliers um logar de pensionista da Academia de França em 
Roma ; acceitou-o Taunay, que na Itália esteve três annos, até o fim 
de 1787, estudando sob a direcção de Lagrenée e Menageot. obser- 
vando e viajando muito. 

Voltando à França, casou-se em princípios de 1788 com Josc- 
phina Rondei, de quem teve cinco filhos, Félix, barão de Taunay 
(1795-1881}, por longos annos director da Academia de Bellas Artes 
do Rio de Janeiro; Hippolyto, iitterato e professor ; Adriano, pintor 
e naturalista e Iitterato, morto afc^ado no rio Guaporé { 1803-1828) ; 
Carlos, militar e Iitterato; Theodoro, cônsul de França no Rio 
de Janeiro. 

Em 1787, ainda na Itália, expoz pela primeira vez no salfm 
official, concorrendo mais tarde às exposições de 1789, 1791 e 1793. 
Os numerosos quadros apresentados angariaram-lhe, desde logo, 
grande reputação de consummado paizagista. 

Os acontecimentos terríveis da Revolução fizeram-no re- 
tirar-se e até occultar-se em Montmorency, numa propriedade 
outr'ora pertencente a J. J. Rousseau. Em 1795 foi chamado para 
fazer parte do Instituto de França, classe de Bellas Artes, secçjío 
de pintura, fundado nesse anno. 

Expoz nos salons de 1796, 1798, 1801, i8oa quadros que 
lhe accresccram ainda a reputação. Em 1801 obteve uma grande 



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DOCnUENTOS SOBRE K VIDA R A OBRA DE NICOLAD A. 

medalha e premio de animação instituído pelo govôrao e tomou 
parte no concurso para a eitecuçáo da Batalha de Kamrelh, 
encommendada pelo Governo Francez. 

Intimo da imperatriz Joscpliina, foí-lhe o Império muito favo- 
rável. 

Teve muitas e valiosas encommendas do Estado, de grandes 
quadros sòbrc assumptos militares, telas essas eipostas, com 
muitas outras, nos salons de i8a), i!to6, 1808, 1810, 181 2 e 1814; 
em 1804 obteve um grande premio. 

A. queda do Império e graves revezes financeiros que quasi o 
haviam arruinado decidiram-no a acceitar o offèrecimcnto do po- 
vômo portufíuez, a regência de uma cadeira na Academia de Belbs 
Artes projectada no Rio de Janeiro por d. J(^o VI e o conde da 
liarca. Chegou a esta cidade a 2Õ de Março de 1816, em com- 
panhia de diversos outros artistas como seu crmSo Augusto Taunay, 
cscuiptor, Debrel, Lebreton, Grandjean de Montigny e Pradier. 

A morte do conde da Barca em Junho de 1817 fez com que 
nada se executasse do que fora projectado. Passou Tauoay quasi 
cinco annos no Brasil, aproveitando o tempo para fixar em nume- 
rosas telas trechos da paizagem fluminense. Cm 1819 fallecia Le- 
breton, chefe da colónia artística franceza ; a nomeação de um ullra- 
mediocrc pintor portuguez, Henrique José da Silva, para o sub- 
stituir, melindrou o artista, que resolveu retirar-ae para França 
cm princípios de 1831. 

Trabalhador infatigável, recomeçou aos 65 annos a sua labuta 
contínua ; do Brasil concorrera ao ââ/ofl de 1819; reappareceu o 
seu nome nos de 1632, 1834, 1827 e 1831, sendo uo ultimo uma 
exposição posthuma. Achando-se no Brasil ainda dera-lhc Luiz 

XVIII a cruz da Leg^o de Honra. 

ladiffêrente ã Incta do romantismo contra o classicismo, como 
quasi indifferente se mantivera sempre ao combate dado pelos 
claasistas á antiga eschola do século XVllI não divergiu Taunay 
na velhice da orientado escolhida na mocidade. 

Entristeceram-lhe os últimos annos de vida grandes deí^ostos: 
em Maio de 1834 &llecia no Rio o único ermão, Augusto, que 



Cooglc 



12 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

considerava como seu primogénito ; em Janeiro de 1828 brutal 
catastrophc roubava a existência ao mais joven dos filhos, Adri- 
ano, moço possuidor dos maiores dotes artísticos. Recorreu ao 
trabalho intenso como a um grande consolador e, pôde dizer-se, 
morreu com os piaceis na mão, produzindo sempre, sem que a 
edade viesse trazer-Ihe o enfraquecimento ao talento. Falleceu a 
30 de Marij-o de 1830; os collegas do Instituto de França, de 
quem era o decano, e o mundo artístico em geral fizeram-lhe 
muito sentidas exéquias. Sobre o seu tumulo pronunciou Gros 
commovidas palavras, lembrando quanto aquclle artista illustre 
fora um homem de bem na extcnsSo da palavra. 

Taunay representa com Dcmarnc a eschola de paizagistas de 
transição do século XVIII ao século XIX. Os contemporâneos cha- 
mavam-lhe o Poussin dos quadros peqttcnos c o í. j Fonlaine da 
pintura . 

Os traços característicos de sua obra são a firmeza do toque, a 
habilidade e elegância da composição e a notável belleza de archi- 
lectura. Pertencente á eschola histórica, Tautiay possue-lhe as qua- 
tidades sem que lhe revele os defeitos: « toque espirituoso c largo, 
colorido natural c vivo, figuras bem desenhadas e ingénuas». 
Charles Blanc, um de seus lerventes admiradores, notando-lhc a 
tendência philosophica dos quadros, appellidou-o David dos pC' 
quenos quadros. 

» Pela ductilídade do talento taulo póJe Taunay ser conside- 
rado paizagiata, cultor da pintura anecdotica e anímalisti, como 
pintor de historia.» E' sobretudo como paizagísta e aníraalista que 
mais o apreciam os críticos e conhecedores modernos ; neste parti- 
cular, entende Quatremère de Qumcy, procede directamente dos 
grandes mestres hollandezes, de Woúwermans e Berghem. 

A OBRA DE NICOLAU ANTÓNIO TAUNAY 

Apaiiíonado de sua arte, para a qual quasi exclusivamente 
vivia, e trabalh.idor infatigável, raethodico, desses que á risca se- 
guem o preceito do mestre dos mestres da antiga pintura : o nulla 
dies sine linea, deixou Nicolau António Taunay copiosíssima 



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DOCUMENTOS SOBRE A VIDA E A OBRA DE NICOLAU A. TAU.NAY I3 

obra : centenas de quadros a oleo, deguacheseaquareilas, dese- 
nhos c esboços de toda espécie. 

Pintou e desenhou durante mais de sessenta annòs, e graças a 
esse labor formidável, diuturno e continuo, pude dar execução aos 
innumcros planos que a tcrtil imagiuação lhe suggeria. Traba- 
lhava, pintava, constantemente, em viagem como no atelier. Diz 
Charles Blanc que a arte o absorvia de modo tal que lhe succedeu 
uma vez, na juventude, não perceber a appariçâo de um ratoneiro 
que, saltando o muro do quintal, ch^ra certa noite até á porta en- 
vidraçada do atelier, em que o pintor costumava trabalhar até alta 
madrugada. Só no dia seguinte pôde verificar a presença do suspeito 
c intruso graças aos vestigios dos grosseiros sapatos sobre a neve. 

Já sexagenário, apenas chegado ao Rio de Janeiro, viram-no 
de modo tal empolgado pela beJIeza dos panoramas fluminenses, 
pintar dias c semanas a fio, fazendo enormes caminhadas atravez 
da floresta que coroava as montanhas da Tijuca para descobrir 
novos pontos de vista e paizagens, que llic lixassem a attenção. 

Não ó exagerado suppôr que haja produzido mais de septe- 
centos quadros; muitos delles, verdade c, de restrictas dimensões 
como diversos apontados no presente ensaio de catalogação, mt- 
niaturas etc. 

Guaches lambem deixou numerosas, hoje altamente cotadas, 
pois segundo Edmundo de Goncourt supportam o confronto com 
as melhores de Lancret c Pater. Infelizmente só lhe conhecemos 
uma meia dúzia. Uma delias La Parade, hoje no LiOuvre graças ao 
legado da collecçáo Audeoiid, attingiu em leilão em Paris a somma 
elevada de dezoito mil e cem francos no anno de 1907. 

Dosdesenhos de Taunay S(j temos noticia de duas collecçõcs 
organizadas, uma no museu do Louvre c outra no de Versaitles. 

Por occasiáo do leilão de seu espolio artístico innumeros foram 
vendidos, provavelmente hoje dispersos ; dos mais importantes al- 
guns por vezes tCm reapparecido no Hotel Drouot, alcançando 
sempre elevados preços. 

Trabalhosa foi a confecção do catalogo de quadros de Taunay 
que se segue a estas linhas, pelo grande numero de fontes estu- 

. Google 



14 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

dadas e numerosas consultas aos museus da Europa, sobretudo aos 
da França. 

As maiores contribuições para a lista dos foram fornecidas \)dos 
catálogos das exposições ofEciacs dos sa/ons de 17U7, 1789, 1791, 

'?93i 1796, 1798, 1801, j802, 1834, 1806, 1808, lillO, !Íll2, 

1814, i8ig, i832, 1824, 1837 e 1831, a que concorreu o pintor, 
pelos dos dous leilões do seu atelier, após sua morte, em 1831 e 
1835, por diversas obras como o Trésordc lacuriostíé, de Charles 
Blanc, o Guide de VAmaleur, de Tb. Lejeune, etc. 

Além desses elementos tivemos os que nos deram os catálogos 
de numerosos leilões de quadros em Paris e diversas outrafi cidades, 
sendo nessa tarefa auxiliados poderosamente pelo erudito em ma- 
téria de historia de arte o sr. L. Soullié, que com verdadeira 
amizade nos ajudou. 

Devemos ainda excellcutes apontamentos á gentileza do sr. 
dr. Luiz Gastão d'Escr3gnolle Dória, que teve a amabilidade du põr 
à nossa disposição as notas por elle colligidas sobre a obra de 
nosso antepassado commum. 

Aos srs. dr. Goffredo d'Escragnolle Taunay e Victor A. 
Taunay também devemos o mais valioso auxilio, prcstundo-ncs 
estes caros e bons parentes o concurso de seu conhecimento da his- 
toria de arte 1'ranceza e das tradições da familL-i. 

Muito ha ainda que averbar no inventario artístico de Ni- 
colau António Taunay ; as indicavócs a este respeito, porém, si) 
poderão avultar como producto de constantes c longas pesquisas. 

E' possivel e mesmo provável que alguns dos quadros aqui 
mencionados sejam as mesmas teias designadas por nomes diversos, 
lalhando-nos até agora, acerca de muitas, o conhecimento dos ciu' 
racieristicos que as podem precisar exactamente, como as dimen- 
sões, a natureza dos objectos pintados, a descripção dos assumpto.-^, 
ctc. {1). 

(1) V. .1 Missiii .Irlisik-J.lí ill,',, pelo auctor Un presente tliwio ii.l Itctisli .1" 
Imlltuh HisUirko c Cc-igrjphic- ISrjsUcir'', tomo LXXIV. parlo i' (1911)01.11^ 
^cp.irata Riu Ju Janeiro. i'>i:,KoJrJKUCSU C)i.,so9pai;slii.a.u 



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FiisrxT:riiA.s a. olbo 



SCENA marítima NO RIO DC JANEIRO 

TeU: iltur» o^.íSo ; camptlmelito O^.SJIJ 

Pertence este quadro ao Victoria and Albert Muaeum {South 
Kcnsington) de Londres, em ^virtude de um legado do collcccio- 
nador Townshend) em 1869, e é notável peia pureza e admirável 
bcllcza dos céus, representação exacta do llrmamento brasileiro. No 
lundo vò'Se a fortaleza de Sancta Cruz e as montanhas que formam 
o sacco da Jurujuba. A' extrema direita a ponta correspondente á for- 
taleza de S. João. Dous veleiros estão ancorados na bahia, a seu lado 
vc^m escaleres. Uma falua com as velas enfunadas, onde se lé a 
assignatura do pintor, dirige-se para a praia, onde está uma esqua- 
drilha de botes tripulados por brancos e negros. De uma das 
embarcações descarregam tardos de mercadorias; num desses 
fardos lí-ee — Mr. Sainl. Esta tela é uma das melhores vistas da 
bahia do Rio de Janeiro, uma das mais lindas paisagens de Taunay. 



VISTA DA BAHIA DO RIO DB JANEIRO TOMAUA UAS MONTANHAS UA 
TIJUCA 

Teia: altur* o",53; cOmprimcJilo «"At 

Este quadro pertenceu á collecçáo de Etienne Arago, dispersa 
em Maio de 1892, c hoje pertence (1914) ao dr. Raimundo de Castro 
Maya ; a vista parece ter sido tirada da Estrada Velha da Tijuca, 



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l6 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

nas vizinhanças da Boa Vista. No fundo vij-se a cidade do Rio de 
janeiro, a bahia, uma ilha e as praias da margem opposta. - 

iV direita, montanha cheia de matto. No segundo plano á es- 
querda está um coqueiro em cuja vizinhança pastam bois. No pri- 
meiro plano, ú direita, um grupo formado de uma senhora de pé, 
com uma umbella na mão, trcs moças sentadas e um homem só, 
interpellado por um cavalieiro. Atraz do grupo vô-se um n^ro 
carregando um fardo á cabeça. 

«6TA DO RIO JANEIRO, TOMADA DO JARDIM 1>0 CONVENTO DB 
S. FRANCISCO 

Tela : allMra o^.is ; comprimento o^.j? 

No jardim estão três religiosos, um dos quaes, o mestre do 
imperador d. Pedro I, aos pés dos companheiros. 

No fundo vèm-so a bahia do Rio de Janeiro, montanhas. 
Pivcrsas figuras animam a paizagem. 

VISTA DA BAHIA E DA CIDADE DO RIO IIE JANEIRO, TIRADA DO 
TERRAÇO DO CONVENTO DE S. FRANCISCO 



Quadro exposto no leilão Tauuay de 1S31. No terraço vários 
religiosos obscrvam.o panorama ; servc-se um dcllcs de um óculo 

dS' alcance. 

o CORPO DA GUARDA VELHA VISTO DO MORRO DESANCTO ANTÓNIO, 
K.M 18 16 

Teta : aJtiira tf".4&: comprjmeiílo o"", 57 

Quadro pertencente á Pinacotheca Nacional do Rio de Janeiro. 

(V. o numero da Renascença, de Julho de 1907, em que o 
quadro foi reproduzido em trichromia.) No primeiro plano á 
^uerda conversam três frades de Saneio António, um sentado no 
chão e dous de pé. No segundo plano o casario da cidade que se 
prdonga até o porto, onde se veera fundeados numerosos veleiros. 
A direita um morro com uma casinha no cimo, 

D,3t,ZBdbyGOO<^le 



DOCUUENTOS SOBRE K VIDA C K OBRA DE NICOLAU A. TAUNAY I? 

Na base desse morro uma rua, em que ae vêem diversos 
transeuntes e uma boiada que caminha meio esparsa. Sob um 
alpendre, numa pequena praça, uma sentinella e diversos soldados. 

VISTA DAS MONTANHAS DA OAVEA E DE BOTAFOGO, TOUADA DA 
BABIA DE BOTAFOGO 

Tela : altura o™ ,31 ; comprimento D",4a 

ESeito de occaso. Este quadro figurou nas venles Taunay de 
1831 e 1635. A paizagem é observada de uma das barcas que se 
acham nas aguas da bahia. O Corcovado tem um aspecto azu- 
lado ác crepúsculo, enquanto a Gávea ainda está coberta de sol. 

VISTA DA BAlItA DE BOTAFOGO TOHADA DE UMA EMINÊNCIA 
PRÓXIMA, DE ONDE SE AVISTAM AS MONTANHAS DA DAVEA E 
CORCOVADO 

Tela: altura 0^,40; comprimento 0^,45 

Quadro que figurou nas ventes Taunay de 1831 e 1835. 
Numa ladeira sobem algumaã negras, uma montada num 
burro e outras a carregar embrulhos e pacotes. 

VISTA DA BAHIA DE BOTAFOGO 

Tela: altura 0^,315 ; comprimento 0^,455 

Quadro pertencente á Pinacotheca Nacional do Rio de Ja- 
neiro. 

FURACÃO NO RIO DE JANEIRO 

Tela; altura o" ,61; comprimento o"^i 

Caí o raio na vizinhança do magnifico aqueducto que em- 
moldura as elegantes ^bricas da cidade. Apezar da tempestade 
ínlclízes negros continuam sem descanço a trabalhar numa mina, 
que cs^o obrigados a perfurar. Noa ares numerosas gaivotas. 
Venles Tauaay de 1831 e 1835. 



DigtizedbyGOOgle 



l8 BBVUTA DO WBTITDTO MUtORlâl 

CiSCAtA A DOSE LfeGUAS DO Rlõ DE jAMetttO 
Tela: comprlneato ■".jM; altura a^.ioo 

Quadro que figura na vente Taunay em 1835, e que a MaaU- 
factura d« Sévres mandou copiar para o reprodusír em porcellana. 
O piutor se representou copiando a natureza no momento em que 
um Índio vem trazer-Ibe o producto de sua caçada. 

TUTA DOa ARRKDORBS DO RIO DK JANEIRO 
Tela : altura o"^ ; comprlmetilo a*,5B 

Tela assignada à esquerda. LeiUo de 36 de Maio de 1888, era 
Pariz por Haro e Bloche. 

TISTA DA EGREJA DA OLORIA, NO RIO DE JANEIRO, TIRADA DO 
PALÁCIO DO MARQUEZ DE BELLAS 

Quadro exposto no salon de 1Õ34 sob o numero 1.668. 

TUTA DO BAIRRO DO RIO DE JANEIRO CBABtADO MATA-CAVALLOS 

Quadro exposto no sjIoh de iSai sob o numero 1.334. 

NATUREZA BRAZILEIRA 

Grande quadro existente 00 gabinete do conservador do Museu 
de Zoologia do Jardim das Plantas de Pariz. 

Representa o auctor a pintar no mdo da natureza virgem, 
tendo perto de si dou3 de seus lilhos. Um caçador indígena, do 
lundo do quadro, traz uma tieíra de pássaros. 

VKTA DA CASA DO PINTOR A UMAS CINCO LÉGUAS DO RIO DE 
JANEIRO 

Quadro exposto no salon de 1822 sob o numero 1.237. 

VISTA DO PALÁCIO DE sXo CHRISTOVAM 

Ap. Debret, Voj-oge pitloresgue au Bristí. 



DigtfzedbyGOOgle 



fiOCUHENTOS SOBRE A VIDA B K OBllA DE NICOLAU A. TAONAT H) 

VISTA DO RIO DE JANEIRO TIRADA DO CONVENTO DE sXo 
FRANCISCO 

Pequeno quadro pertencente ao sr. Victor A. Taunay, de 
Pariz. 

CASCATA NO BRASIL PERTENCENTE AO AUCTOR 

Quadro exposto no salon de 1833 sob o numero 1.338. 

PAIZAGEM DO BRASIL 

Quadro exposto no salon de 1819 sob o numero 1.063. 

LOGAR DO BRASIL NA SERRA DOS ORGXOS 

Quadro exposto no salon de 1833 sob o numero 1.333. 

No primeiro plano vfiem-se muitas plantas characteristícas da 
flora tropical e um indio que volta da caça carregfando grande nu- 
mero de aves mortafc. 

VISTA DA OLORIA, EQRBJA DO RIO DE JANEIRO 

Tela : aliara 0^,31 ; comprimento 0"^ 

Paizagem tirada da eminência, em que se acha situada a egreja. 

O mar nos primeiros planos. Barca à vela e chalupas. Indí* 
viduos banhando-se ; tratadores a banhar cavallos. No fiindo as 
montanhas do Pão de Assucar. Leilão Taunay, 1831. 

VISTA DE UHA HABITAÇÃO RÚSTICA NO BRASIL 

Quadro vendido em leiláo de sdeFevercirode 1834 pelo perito 
Moriee. 

VISTA DA BARRA DO RIO DG JANEIRO, TOMADA DO CONVENTO DB 
SANCTO ANTÓNIO 

Quadro exposto no salon de 1833 sob o numero 1.335. 

VISTA DE UM DOS BAIRROS DO RIO DE JANEIRO, TOMADA DO 
CONVENTO DE SANCTO ANTÓNIO 

Quadro «xposto no salon de 1833 eob o numuo 1.936. 

DigtizBdbyGOOgle 



REVISTA. DO INSTITUTO HISTÓRICO 



. PAIZAGEM BRASILEIRA 



No primeiro plano um rebanho de vaccas pasta numa coUina, 
em que ha diversas arvores tropicaes e onde se vêem diversas fi- 
guras. No fiindo do quadro uma cidade à beira mar, atr^ da qual 
ha montanhas. Quadro pertencente á collecção Saint vendida a 4 
de Maio de 1846 ein Paris. 

A VOLTA DOS PRADOS 

Tela ; altura 0^,45 ; comprimento 0^,64 

Paizagem brasileira. Por entre arvores e mattas pastores con- 
duzem gado. No fundo oPãodc Assucarilluminadopelosot. Venle 
Taunay, 1831. 

VISTA DO URANDE AQUEDUCTO DO RIO DE JANEIRO 

Pequeno quadro, que o auctor deste catalogo viu em Paris em 
casa de um amador. Entre os arcos passam diversas pessoas, 
brancos e pretos, uma sege, ura carro de bois, uma tropa de burros 
de cangalhas. A um canto do quadro nota-se um grupo de escravos 
a carregar grande fardo. 

o BAMllO 
Tela: altura C.ij ; comprimocito o", 3; 

Paizagem pittoresca do Brasil. Altos rochedos, entre os quaes 
correm as aguas limpidas de uma torrente. A' sombra de grandes 
arvores varias mulheres moças tomam banho. Ao lado das que se 
banham, ohserva-as outra vestida c resguardada por uma umbella. 
IVIais longe uma escrava sentada está alerta para que ninguém venha 
perturbar o prazer de suas amas. O logaréum dos aspectos da 
cascata da Boa Vista (cascatinha Taunay). Leilão Taunay de 1831. 

D. MARIA II NA SUA INFÂNCIA 

A futura rainha de Portugal d. Maria II está nos braços de 
uma preta e tem ao lado a sua aia. No ultimo plano vè-se o príncipe 
d. Pedro, o futuro primeiro imperador do Brasil, a cavallo e diri- 
gindo-se ao encontro da filha. Ap. venle Taunay, 1835. 



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UOCUUENTOS SOBRE A VIDA E A OBRA DE NICOLAU A. TAUNAT SI 



Quadro* ln«plrado« poi* epl«odlo« da* oatnpanlia* re- 
publicana* A Imperlaes. pela hlatorla napolconica 
e a vida oominuni na opocba revolucionaria 



ATAQUE DO CASTELLO DE COSSARIA 

Tela: altura i^.sú; largura i".^. Sãlon de 1811 

Augereau ordena que se desaloje o general auatriaco Provera 
das ruínas do antigo castello da montanha de Cossaría perto de 
MUlesimo, o que é levado a efleito a 13 de Abril de 1796 peloa 
granadeiros do general Baunel. 

Este quadro cncommendado pelo governo francez figura no 
museu de Versaillcs, e está assignado no meio da tela sobre um ro- 
chedo. Foi gravado por Schroeder (Frederico) para as Galerias 
Históricas de Versailles. Na coUecção Henniu, na Bibliotlieca 
Nacional de Pariz, ha um esboço a tinta do quadro. A tela re- 
presenta a subida da ÍD^ntaria franceza pela montanha e o com- 
bate que dá aos austríacos, que guarnecem as vizinhanças das 
minas. 

o GENERAL BONAPARTE RECEBE PRISIONEIROS NO CAMPO DE 
BATALHA, 1797 

Tela: altura i"'.6i ; cotnprimcBio i^.s? 

Quadro exposto no salonde 1801, adquirido como premia 
de animado ao artista nesta data e incorporado ás collecções do 
Louvre, de onde foi transferido para o Museu de Versailles. Nos 
últimos planos vô-se uma cidade incendiada, de onde saem 
grandes rolos de fumaça que ennublam a atmosphera. No centro 
do quadro o general, montado em soberbo corcel, recebe a es- 
pada de um official inimigo, carregado numa maca á testa do seu 
regimento desarmado. No primeiro plano um cadáver despojado 
da roupa e vigiado por um cáo, um granadeiro carregando um 
feixe de armas e de bandeiras inimigas ; á direita Um moribundo 



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3S MTmA DO INSTITUTO HBTOMCO 

aperU nerroso um retrato de mulher; á esquerda do quadro 
vários grupos de mortos e feridos, de cirurgiões occupados com 
as soas fiiDCÇ&es, Montões de cadáveres e feridos. 

ATAQUE AO FORTE DE BARD 

Quadro feito em collaboraçflo com Bidault e exposto no salon 
do auno IX (iSoi), sob o numero 335, 

O general Bonaparte, adormecido sobre uma padiola á beíra 
do caminho que abriu o exercito franccz, é contempiíido com 
o maior carinho pelos soldados que destilam deaate dellc em 
ulencio. 

EPISODIO DAS CAMPANHAS DE NAPOLEJLO NA ITÁLIA 

Bonaparte rodeado dos seua gencraea mostra a planta de um 
monumento. No liindo uma porta de cidade e algumas construo* 
çjjes italianas. Este quadro figurou na exposição do Ministério da 
Guerra sm 1889 (secção 5', numero 7a do catalogo] e pertenceu k 
coUecção Moreau Chaslon, vendida no Hotel Drouot a 33 de Março 
de 1891. 

o EXERCITO PRANCEZ AO DESCER O HONTE SÃO BERNARDO 



Quadro exposto no salon de iSoi e adquirido pelo Estado 
francez para o Museu Napoleão. Pertence hoje ao Museu de Ver- 
sailles ; foi gravado por Aubert pae para a collecção das Galerias 
de Versailles. Representa uma columna do exercito francez des- 
cendo os Alpes para o lado do Piemonte, debaixo de uma nevada 
abundante, que dh ao quadro um effeito muito characteristico e 
delle faz unia bella composição. 

A TRAVESSIA DO MONTE sXo tlERNARDO 

Tela; allur» o'",jij ; comprimento O", jo 

Quadro da coUecçSo Jourde, provavelmente reducçío do quo 
existe com o mesmo titulo no Museu de Versailles. 



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DOCIIMENTOS SOBRB K VlDk B A OBRA DB NICOLAU A. TAVNAT 93 
PASS&GEH DOS ALPES PELO GENERAL BONAPARTí; 

Quadro exposto DO 5aIon do anuo IX (iSoi), sob O oumero 33. 

Reprcsenu Bonaparte a cavallo animando com o olhar um 
artilheiro, que sustenta uma das rodas do aeu canhão e eoxuga o 
suor da fronte. 

HOMENAOEU A VtRQlLlO 

Quadro exposto, sob o numero 757, nosoíondoauBode 1810. 
O assumpto da tela é o s^uinte: passando por Petiole, perto de 
Mantua e pátria de Vlrgilio, Napoltíto examina o planú e deseaho da 
columna que ordenara erigissem no local da casa, onde Virgilio 
TÍera ao mundo, plano esse que aa auctoridadea do logarejo lhe 
afffeseatam- 

BONAPARTE MOSTIUNDO AO CONSELHO MUNICIPAL DE MILIO O 
PROJECTO OE COLUHNA A EDIPICAR^SE PARA COMMEUORAR A 
FUNDAÇÃO DA REPUBLICA CISALPINA 

Quadro pertencente á collecç&o do marquez de Houdan, dis- 
persa em Aogers, a r7 de Agosto de i6tí8. 

ASIDHPTO INSPIRADO NDH EPISODIO DA VIDA DE NAPOLEXo 

Painel que decorava um dos salões da Malmaisos e encom- 
mendado directamente pela imperatriz Josephiha (V. Memorias de 
Fontaine, Revue de Paris, 15 de Março de 191 1), 

AS6DBIPTO INSPIRADO NUM EPISODIO DA VIDA DE NAPOLEXo 

Painel symmetrico do precedente, num dos salões da Mal- 
maiaon (V. fonte citada adma). 

ENTRADA DE NAPOLEXO EH UUNICH A 34 DE OUTUBRO DE 1805 
T«Í4: Altura 1*^1 eomprlmanlo i",78 

Etíe quadro foi exposto no salon de 1808, pertenceu ao Museu 
NapoJeSo e hoje faz parte das Galerias de Versailles. Está repro- 
dtuido numa grande gravura por Schroeder. 

DigtizBdbyGOOgle 



34 RETISTA DO INBTITCTO HISHmíCO 

No fundo grande casario da cidade de Muních, de onde emeige 
uma serie de torres e campanários. Muita tropa formada, intantaría 
e cavallaría, occupa o meio do quadro e uma longa rua que vae ter a 
uma porta da cidade ; muito povo rodeia a soldadesca. 

No primeiro plano Napoleão, de cabeça descoberta, cercado de 
grande estado maior, recebe a deputaçSoda municipalidade, que lhe 
ofierece as chaves da cidade. A' esquerda, numeroso concurso de 
pessoas, homens e mulheres, bem e mal vestidos. Numa grande 
arvore garotos trepados, assim como sobre um muro. 

à ENTREVISTA DE NAPOLEÃO COM O PAPA PIO Vlt EM 
PONTAINEBLEAU 

Madeira: Bliura 0^.14 ; comprimenio 0^,17 

Quadro, pertencente ã collecção do barSo Denon, dispersa em 
maio de 1826. 

A VIAJAR, A IMPERATtUZ RECEBE ESTAFETAS QUE TRAZEM NOTICIAS 
DE UMA VICTORIA 
Tela: altura om.54 ; comprimento tf",Èe 
Quadro exposto sob o numero 575, no salon de 1808. A impe- 
ratriz no balcão de um palácio da cidade de Milão lé um boletim 
imperial annunciando uma victoria do seu séquito. Numa das nãos 
segura um ramo de loureiro. Grande numero de populares está a 
correr para o palácio. 

A ENTRADA EH NÁPOLES DO EXERCrTO DE CHAMPIOTJNET, 1804 

Quadro pertencente â galeria do conde de Narbonne dispersa 
em leilão a 5 de Abril de 1843. 

ENTRADA DA GUARDA IMPERIAL EM PARIZ DEPOIS DA CAMPANEA 
DA PRÚSSIA, A 3S DE NOVEMBRO DE 1807 

iTela; altura i*,8i ; comprimento s".!! 

A guarda imperial, tendo á testa o marechal Bessieres, é rece- 
bida pela camará municipal de Pariz, presidida pelo prefeito do 
Sena, Prochot, sob um arco de triumpho que a cidade mandara 
construir além da barreira de La Villette. E^te quadro, exposto no 



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&0cnHEHT03 SOBRE A VIDA E A OBRA DE NICOLAU A. TADNAT 35 

salon de 1810, gravado por Schroader, íoÍ adquirido cm 1833 
pelo Estado k viuva do pintor ; faz parle hoje da galeria de Ver- 
sailles. Figurou na exposição retrospectiva da arte (ranceza, por 
occasião da Exposição Universal de Paris em 1900. 

Accompanhaudo a tropa vô-se grande multidão, dentre a qual 
sobresae numerosa garotada. Ao lado do arco de trinmpho está 
uma espécie de coreto ou estrado de madeira, sobre o qual sobem 
diversos indivíduos, ao passo que outros já alli estão installados. 

o exercito frakcez atravessa 03 desfiladeiros ca sierra 
guadarrÁma 

Tela: allura i°',3o ; comprimento a*" .11 

Este quadro esteve exposto no salon de 1813 ; foi adquirido 
pelo Estado, pertenceu ao Museu Napoleão e hoje figura na Galeria 
de Versailles. Gravado por Huot e por Gelée, lithographia de En- 
getmann. Deste quadro existe um esboço, que faz parte da collecção 
Heunin, na Bibliotheca Nacional de Paris. Sob um ceu nevoso 
o exerdto francez atravessa os altos platós da Sierra Guadarrama. 
No fundo do quadro vém-se duasconstrucções de tamanho regular 
parecendo ser mosteiros. Entre ellas passa a estrada pela qual tran- 
sita penosamente a infantaria. No primeiro plano vãem-se soldados 
ajudando o esforço doa cavallos que puxam boccas de fogo. 
Notam-se alguns cavalleiros, offidaes talvez, e uma carroça cujo 
toldo está sendo sacudido pelo Tento. A figura mais em evidencia 
do quadro é, no primeiro plano, a de um soldado que se senta 
no chão, descalça-se e examina o pé ferido. 

PASSAGEM DA SiErRA GUADARRAHA 

Redução do quadro do mesmo titulo pertencente ao Museu 
de Versailles e vendido num leilão em Paris a 24 de Junho de 1903 
pelo perito Blocbe. 

A IMPERATRIZ JOSEPIIINA E SEU SÉQUITO VISITANDO A ESTATUA 
DE S. CARLOS DORROMEU, PERTO DO LAGO UAIOR 

Telai allura o^Ai; comprimento (/"A> 
Quadro que figurou na veníe Taunay em 1835 e na vente Ron- 
dei em i86g. No centro de uma grande avenida se ergue a estatua 

. Google 



36 RBT18TA DO INBTITVTO UISTORICO 

colossal, illuminada pelos raios de um bello sol, Um cardeal recebe 
a imperatriz rodeada de seus cortez^os ; um frade distríbue esmolas 
eatre os pobres, cuja attitude eiprime a gratidão que dedicam & 
generosa soberana. Uma moça, a certa distancia de Josepliioá, 
□ccupa-sc em desenhar e tem diversos observadores em tomo de st. 

A IMPERATRIZ JOSEPltlNA RECOLHENDO AS OBRAS DOS ARTUTAB 
MODERNOS 

Teta : «liura<v°,jB; comprlmanto o°<,)j 

Quadro exposto no ia/o» de 1808 sob o numero 574. No 
baldo de uma casa opulenta estão a imperatriz e as damas do seu 
séquito. Uma destas apresenta ã soberana um retrato ; ao seu lado 
um padre atira dinheiro aos populares que estáo na rtu : peregrinos, 
mendigos, desvalidos, homens, mulheres e creanças. Dous homens 
semi-nús carr^m num andor uma estatua de Apollo. No fundo, 
bellas Fabricas cheias de gente. Este quadro foi vendido por 
1.331 frs. no leilão da collecção Vigneron a 3 de Março de iSsS 
com a nota de que fora cncommendado pela imperatriz Josephína, 
embora o catalogo lhe attríbua assumpto diverso. 

A BATALHA DA PONTE DE LODI 

Pertenceu à galeria de Berthier, príncipe de Wagram e Neuf- 
chatel, por quem foi encommendado, e esteve exposto no salott de 
i8io, Berthier ordena à cavallaría que transponha o rio a nado. Na 
ponte vê-se grande movimento de tropas de infontaría, que a atra- 
vessam. O marechal está rodeado de seu estado maior, a quem dá 
ordens. 

Gravado por... 

A BATALHA DA PONTE DE LODI 

O pintor fez outro quadro, reproducçâo exacta do primeiro, 
de menores dimens&es c pertencente em 191 1 ao sr. Victor 
A. Taunay, de Pariz. 



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DOCUUENTOS SOBRE A VIDA B A OBRA DB NICOLAU K. TAUNAIT Z7 

COJlttATE DE NAZARETH, ABRIL DE I799 

Tota : Altura o™ ,91 ; comprl mento i",!/} 

Quadro destinado a commemorar o memorável feito (Tarmas 
em que Junot, ã testa de quiaheatos homens, destroçou um corpo 
de eieráto turco do cínco mil homens, e cujo esboço esteve presente 
ao concurso aberto para o fim alludido em 1801, em que uma tela 
de Gros obteve o premio. Foi adquirido pelo Estado francez em 
183S da viuva do artista e figura nas coilecçõea do Museu de 
Versailles. È um dos quadros mais animados de Taunay e tem 
um colorido quente e harmonioso. No primeiro plano um cavallo 
a estorcer-se com as patas para o ar, sobre um turco mal ierido, 
cadáveres de musuhnanos, feridos arrastando-se, um ottomano a 
derrear-se, mortalmente attingído, sobre a auca do cavallo que em- 
pina. Descaca-se a figura do general, de espada desembainhada, 
montado em bello cavallo brauco, a commandar a carga. No fundo 
terrível entrevero de cavallaria e Infantaria. Nos últimos planos, á 
direita e á esquerda, rochedos escalvados. Gravado por Aubert. 

A BATALHA DE NAZARETH 

Reduc^ do quadro perteucente ao Museu de Versailles, 
outr'ora parte da galeria de Ducos, recebedor geral do Thesouro, 
e vendido em leilão a 18 de Dezembro de 1837 sob o titulo de Com- 
bate da campanha do Bgyfilo. 

EPISODIO DAS GUERRAS DE IIISPANHA 

Tela ; altura ií",Bi ; comprimento o^.óo 

Quadro pertencente à collecçâo Petit de Meurville, dispersa no 
Hotel Drouot a 26 de Maio de 1908. Representa um comboio 
militar dirígindo-se para uma cidade por uma porta de aspecto 
mourisco. Soldados de cavallaria e in&ntaria marcham debandados ; 
campouios hispanhoes os accompanham. No primeiro plano á di- 
reita uma mulher conversa com um cavalleiro. A' extrema direita 
um soldado sentado num rochedo. Assignado ã direita, sobre um 
rochedo. 



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a8 REVISTA DO IHSTITDTO HISTÓRICO 

TROPAS NA FONTAINE d'eSPAGNB, EM 1808 

Quadro vendido em lei^ do Hotel Drouot a 9 de Junho de 
1909, em Paris. 

o INCÊNDIO DE MOSCOU 

Tela ; allura o™ ,34 ; coraprimonlo o",59 

Esboço de um assumpto encommendado por Napoleão pouco 
antes de sua queda. Figurou nas venles Taunay, 1831 e 1835. 
A cidade em chammas occupa o fundo do quadro. Os habitantes 
espavorídoa íbgem carregando o que possuem de melhor. 

A DATALIIA DE EBERSDGRG 
Tela : altura l'".ia ; largura ^'",03. Salon de iG[q 

A divisão do general Claparòde occupa a ponte do Traum, 
perto de Ebersberg e apodera-se da cidade. Este quadro pertence 
ao Museu de Versailles e representa a batalha na ponte, que os 
Austríacos evacuaram. A' margem do rio baterias bombardeiam os 
inimigos. No fundo do quadro a cidade em chammas. 

A CHEGADA DE PIO VII A FOÍJTAINEBLEAU 

Esboço vendido no leilão da Galeria de Ducos, recebedor 
geral do Tbesouro, a 18 de Dezembro de 1837. 

A LIBERDADE, A EGCALDADE E A FRATERNIDADE ACCLAMADAS PELO 
POVO E PELO ESERCrrO 

Tela: altura (P.ji; comprimento o",49 

Quadro vendido em leilão no Hotel Drouot a 14 de Março de 
1908. 

A MARSELREZA 

Quadro exposto na Expoaiçío Retrospectiva da cidade de 
Pariz por occasíão da Exposição Universal de tçoo, e pertencente 
á collecçâo Jorge Lehman. 



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D0CUKEKT09 SOBRE A VIDA E A OBRA DE HICOLAtI &. TAUNAT 39 
EPISODIO DA RETOLUÇÁO DE 1793, EM BESANÇON 

Diversos presos das cadeias de Besançon, teodo pedido e 
obddo a permissão de combater, voltam victoríosos ã prisão, 
debaizo das acclamaçSes do povo da cidade. Vente Taunay, 1835. 

A FEDERAÇÃO 

Tela; altura o™,38; comprimento if.54 

Numa praça publica, e nas ruas adjacentes, vãm-se grandes 
mesas em tomo das quaes cidadãos de todas as classes e dos dous 
sexos celebram, em commum, alegremente, a commemoraçãododia 
da Federação franceza. Quadro pertencente á collecção Fossard, 
dispersa em Páriz a 32 de Abril de 1835 ; perito Henry. 



Tclíi altura i",i7 ; largura i",i3 

Quadro vendido no leilão Felíx Gérard, a 28 de Março de 
1907, e representando o episodio do naufrágio do célebre navio de 
guerra francez. 

FESTA DA FRATERNIDADE 

■Tela: altura o™,45 ; comprimento t^M 

Quadro vendido em 1859 no leilão da collecção A. Lerous. 
Ap. Th. Lejeune: Guta do amador de quadros. 

BANQirETE cívico CELEBRANDO A PAZ 

Uma certa porção de individnos banqueteta-se alegremente. No 
cbão, a um canto, um gato e um cão comem no mesmo prato. Ap. 
Charles Blanc: bic^aphia de Taunay na Historia dos pintores 
de todas as escolas. 

UMA TARDE NO PALAIS ROTAt 

Assignado á extrema direita. Quadro que pertenceu ao grande 
pintor russo Weretschaguine e figurou na exposição de quadros 
antigos feita em Petersburgo em 1908. (V. Les Arts et les Ar- 



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30 ttMnrtK DO iNSTiTttto uietouco 

listes de Março de 1909.) No primeiro plano á esquerda sobre um 
estrado canta uma mulher, para quem se inclina um individuo com 
ar apaixonado. Numerosa orchestra de rab^uístas, guitarristas, 
flautistas, violoncellistas, uns quinze artistas, acompanha a cantCH'a. 
Junto desta se acham uma menina e um menino, provavelmente 
seus filhos. A' extrema esquerda um grupo de crianças olha com 
curiosidade para ura caderno de musica collocado sobre uraa estante. 
No primeiro plano um outro livro de musica aberto, no chão, e 
onde lê um joven tocador de ferrinhos. No fundo do quadro a co- 
lumnata do Poiais Royal e o graode repuxo do jardim. Grande con- 
curso de povo eeajuncta para ouvir a musica, homens e mulheres, 
08 elegantes da épocha. No meio da multidão se destaca um mame* 
luco com o turbante. Assignado á extrema direiu. Este quadro 
foi vendido em 1910 em Paris por 12.000 francos. 

JARDIM DAS TULHEttlAS NO COMEÇO DO SÉCULO XtX 

Tela: «liura tf",qa ; comprimento i",» 

Quadro muito interessante, que làzia parte da coUecçáo de 
Mme. Bruant, vendida no Hotel DrouotaSde Maiode 1897. Vê-se 
no jardim uraa multidão de passeantes, entre os quaes numerosas 
celebridades da épocha, como Talleyrand, Chateaubriand, Madame 
Récamier, etc. 

o MENSAGEIRO DE PAZ 
Tola; altura o" ,41 ; comprlmenio o" ,61 
Quadro pertencente ã Pinacotheca Nadonal do Rio de Janeiro. 
A uma aldeia de França chega um estafeta trazendo a nova de que 
acaba de ser concluída a paz, um dos múltiplos tractados napoleó- 
nicos. Desmaia uma mulher ao saber que lhe morreu um fílho. Em 
tomo do cavalleiro vê-se numeroso grupo de aldeões. 

o CORREIO DE AMIENS 

Ap. uma referencia da Historia da Escola Brazileira do dr. 
Fernando Paes Barreto, que cita esse quadro como existente no 
Brasil. 



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MCOicBNtOft sofiRB K Vida s a osra db McoUu a. tAOHAV 31 



■ por nasumptoM 

HENRIQUE IV VOLTANDO DA CAÇA 

O rei rodeado de cortezãos saúda Gabriella d'E8trées, que cer- 
cadade creados está num balcão « Diga-me, beldade, poroude pode 
se entrar neste castello? — Pela porta da egreja, Real Senhor! ». 

Quadro perteQcente em iSsõà galeria Lejeaa, exposto nesse 
anno na galeria Lebrun ouma exposição organizada em proveito 
dos gregos. 

HENRIQUE IV — OS ADEUSES 

TcU : altura o".ii ; comprimento o™,ii 

Quadro pertencente á collecçáo do duque des Cars que figurou 
na exposição realizada no Louvre em 1889, em beneficio das orpbãs 
da Alsacia-Lorena. 

HEKRIQIJB IV E o CAMPONIO 

TeU : allura of^.ii ; corúprlmcnlo tr.y) 

Estudo para o quadro do sjlon de 1804, vendido no leilão da 
collecção Gasquet a 9 de Março de 1888. 

HENRIQUE IV E HtCHAUX 

Teia ; allnra o",íj : comprimento o^.ji 

Composição muito espirituosa, cheia de finura, diz o catalogo 
de Ittitío da collecção Lacroix, realizado a 3 de Abril de 1886. 

HENIUQOE IV ClIEGANIK) Á PRESENÇA DE SUA CORTE COM O 
LENHADOR Á GARUPA DO CAVALtX} 

Tela ; altura o", 16 ; comprimento tf".n 

Quadro que figurou na venie Taunay _'em 1835; miniatura 
talvez do quadro exposto do salon de 1804. Damas e fidalgos v3o 
ao encontro do reí, que é o único que se não descobre. 



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REVISTA MJ INSTITUTO HIBTOIUCO 



BATALIU. SOB HENRIQUE: IV 

Collecçáo do barão de Holbach dispersa em 1861. Ap. 
Theodoro Lejeune : Guia do amador de quadros. 

OABRIELLA D'eSTRÉES CONTEMPLANDO O RETRATO DE 
HENRIQUE IV 

Esboço a óleo que figurou na vente Rondei em 1869. 

ENCONTRO DB HENRIQUE IV E DE SULLY DEPOIS DA BATALHA DE 
IVRY 

Tefa : altura «■".j; ; coniprimeiíío o'",'» ; liyuraa de o'",[j 

Quadro pertencente ao museu de Nantes, a que foi doado, em 
1854, peio sr. Urvoy de Sainl Bédan. A' sombra de uma arvore 
está Sully sobre uma padiola, a quem o rd, adornado do famoso 
pennadio branco, abraça. A' direita quatro couraceiros a carallo. 
Em tomo do rei e do ministro um porta-estandarte e quatro outros 
cavalleiros, diversos pagens, um dos quaes segura o cavallo do rei 
c outro traz na corrente alguns cães de caça ; soldados a pé, apoiados 
sobre os mosquetes. No segundo plano, cavalleiros que parecem 
estar de sentinella. A' esquerda, no segundo plano, um casal de 
fidalgos a cavallo precedidos por um pagem, também a cavallo, e um 
falcoeiro, que carrega diversos falcões, dirigem-se para o grupo 
principal. No fundo do quadro a planície a perder de vista onde 
SC destacam cavalleiros galopando acompanhados por cães de caça. 

ENCONTRO DE HENRIQUE IV E DE SULLT DEFOIS DA BATALItA DE 
IVRY 

Teia ; altura, ["',90; comprimento 2" ,8o : figuras de o^.io 

Quadro encommendado a Nicolau Taunay pelo rei Lui2 
XVIII em 1831, adquirido por 2.000 francos ; esteve exposto no 
salon de 1833. Pertenceu ao museu do Louvre e hoje está no de 
EVreux. No segundo plano Sully ferido e carregado numa padiola ■ 
e rodeado por numeroso cortejo Icvanta-se deaute do rei, que lhe 



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DOCUMENTOS SOBRC A VIDA B A ODRk DB NICOLAU A. TAUNAY 33 

aperta a mão. No priaieiro plaao está um pagem, visto de costas, 
envolvido num manto vermelho e segurando uma lança e dous 
cavalldros couraceiros. 



Foi este quadro exposto no salon de 1789, sob o numero 1O4, 
e serviu de ponto de partida para os dous outros citados aqui, os 
dos museus de Nantes e de Èvreuz. 

HENRIQUE IV E o CAMPONEZ 

Quadro exposto no salon de 1804, sob o numero 450, Mesmo 
assumpto que o acima rererido. Henrique IV, tendo se perdido na 
floresta, encontra um camponio a quem pede que o guie ; sobe o 
rústico á garupa do cavalloe pergunta-Ihe como ha de conhecer o 
rei. Diz-Ihe Henrique que este terá a cabeça coberta enquanto os 
demais se hão de manter de chapéo na mão. Ao chegarem ao logar 
desejado, onde estavam seus corteiáos, pergunta Henrique IV ao 
camponio: onde estará o rei ? E' boa ! o rei sou eu ou tu, pois 
somos os únicos que estamos de cabeça coberta. 

PEDRO o EREMITA PREGANDO A CRUZADA 
Tela; íUura (V", 41; comprimento O", M; Ggxjras de o",o8 

Quadro que em 1846, por oaasiSo da dispersão da galeria do 
sr. Saint, foi adquirido para a collecçao de Luiz Philippc. Pertence 
ao museu do Louvre ; á direita Pedio o Eremita, num rochedo, 
vestido de burel, longa barba, fala a um certo numero de au- 
ditores, que Jhe estão cm frente e sob uma grande arvore, entre 
elles um guerreiro a cavallo, um soldado de pé, revestido de 
armadura. No meio um grupo de homens e mulheres ajoelhados, que 
ouvem a pregação da guerra sancta. No primeiro plano á direita um 
cão perto de uma poça. No fundo montanhas cobertas de matto. 
Assignado á esquerda. 



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34 RBnSTà DO MSTItOTO msTOUCO 

FRANCESCO FRANCIA DESMAIANDO AO VER UM QUADRO DE RAFAEL 

MaJelra ; altura o'",io ; coaiprinieHlo o^i.iú ; figuras de 0^,04 

Quadro pcrteacente ao auctor do presente ensaio. No atelier 
de Francia acaba de ser desencaiitotado o quadro de Rafael, Sancta 
Cecília, que dous homens p&em em pé. O pintor cai desmaiado e 
é sustido na queda por um grupo de discipulos. Do fundo do 
quarto, onde se vè uma columnau, acode um dos discipulos de 
braços abertos. Outro, ajoelhado sobre a tampa do caixão, olha 
surpreso para o velho mestre. A' esquerda uma janella ; á direita, 
na parede, quadros, uma estatua de amazona. Um banquinho em que 
se vê uma palheta sobre uma capa. No chão uma torquez, diversos 
pregos, a tampa do caixão. 

FRANCESCO FRANGIA DESMAIANDO AO VER UM QUADRO DE RAFAEL 

Tela: .iltora ff",»); i;omprÍmenti>.u'",(ii 
A venle Taunay, de i!Í35 menciona um quadro de assumpto 
idêntico, de que provavelmente o anterior é a reproducçáo era di' 
meusóes menores. 

FRANCESCO FRANCIA DESMAIANDO AO AVISTAR <5 QUADRO DE RAFAEL 
— SANTA CECÍLIA 

Tda; altura «".p; comprimento cf".p 

Este quadro, cujo assumpto é idêntico ao do5 que atraz estão 
mencionados, Bgurou na vente Taunay, 1835. 



Quadro da collecçao Larché, de Dijon, vendido nesta cidade 
em leilão a 16 de Maio de 1856. 

HORÁCIO E LÉSBIA 

Quadro da collecçâo Larché, de Dijon, vendido em leilão a 16 
áe Maio de 1856. 



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^DOCUMENTOS SODRE h VIDA E K OBRA CE MICOLAD A. TAUNAY 35 
O 1.eXo de AKDftOCLEa 

Tela que figurou durante muitos aduoS do palácio imperial de 
SáoChristo7Ío{V.T>assieax: O" arlisl2sfranLe\csttoe.\lrangeiro.) 



Paizagem selvática, rochedo cheio de urzes, onde se vã um 
nmho de serpentes. O quadro representa Androclcs no momento 
em que acaba de tirar o espinho do p>^ do leão. Leilão Taunay, 

1831. 

ANDROCLES 

Esboço para o penúltimo quadro. Leilão Taunay, 1851. 

VISITA AO PALÁCIO DE NERO 
Leilão de 8 de Abril de 1890, no Hotel DrouoC, pelo perito 
Bloche. 

JoXo o liOM NA DATALIIA DE POITIBRS 

Madeira: aliur.i o"'^a; comptlmenlo 'jf.ge 

O rei ferido, derrubado sobre a garupa do cavallo, está amea- 
çado pela lança de um infante e em via de ser aprisionado. 

E^te quadro ligurou nas ventes Taunay e na venie Rondei. 

Tem enorme vida e representa um combate encarniçadíssimo 
entre cavalleíros e infantes. 

FRANCISCO I NA BATALHA DE PAVIA 

Quadro de dimensões regulares, que o auctor deste ensaio viu 
em Pariz numa coliecçáo particular. O rei cercado pelos inimigos 
esta na imminenda de render-se. 

A MORTE DE BAYARD 

Madeira: altura o"',[ú ; comprlmenlo iy",iil 

Quadro da galeria do conde de Perregaux vendida a, O de De> 
sembcode 1841. 

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36 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

AESUUPTO INSPIRADO PELA VIDA DE BAYARD 

Esbdço a óleo que figurou na vetile Rondei, 1869. 

EPISODIO DA BATALHA DE FONTENOY 
TcU; altura D^i.i^icompriíiiâDlo o°<,tS 

Quadro pertencente á antiga collecção do Palaís Royal, dos 
duques de Orléans e gravado na obra : Galeríe du Falais Ro;fal 
por J. Vatout, 4 volumes. 1823-1826. Representa um combate de 
infantes e cavallciros : no fundo um grupo de infantes defende a 
bandeira do regimento ; no primeiro plano cavalleiros acutilam os 
adversários que se defendem a baioneta ; um cavallo ferido es- 
torce-se de dõr com a3 quatro pernas para o ar. 

Perdeu-sc esta tela, segundo parece, no grande incêndio do 
Palaia Royal em 1848. 

A FAMÍLIA DO GENERAL LAFAYETTE NA AMERICA 

Quadro vendido no Hotel Drouoi a 2a de Junho de 1878 
pelos peritos Feral c Pillel : 

ACCLAHAÇXO DE DOM AFFONSO HENRIQUES REI DE PORTUGAL 

Quadro que lez parte por muito tempo da collecçâo imperial 
do Palácio de São Christováo e hoje pertence aos condes d'Eu, 
achando-se no castello d'Eu. 

No primeiro plano, à direita, vários personagens elevam o novo 
rei sobre um escudo. D. Affonso Henriques, apoiado numa lança 
faz um gesto com a mão esquerda ã multidão que o acclama. A' sua 
frente cornetas e tambores o saúdam. No primeiro plano, à es- 
querda, um pagem que lhe mantém o palafrem, uma mulher levando 
um filho no collo e chamando outro ; um popular saúda o acclamado 
agitando o cliapéo. No segundo plano vêm-se cavalleiros com os 
estandartes de d. Affonso Henriques. No fundo enorme concurso 
de povo, levantando os braços e os chapéus, e à extrema direita 
um castello forte. 



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SOCOHENTOS SOBRE A VIDA E A ORRA DE NICOLAU &. TACKAT 37 
ACCLAMAÇÃO DE DOM JOXO V 

Ap. Debret: Voya^ Pilloresque ati Brésil. 

CIMABUB B QIOTTO 

Quadro exposto no salon de 1808, sob o numero 570 ; repre- 
senta o encontro do grande pintor primitivo italiano do século XIII 
com Giotto, então pastorínho, no momento em que este desenha 
aôbre um rochedo uma de suas vaccas que aliás nâo figura no 
quadro. Atraz de Cimabuevése um velho. As figuras são de 
grandes dimensões. V. Journal de rEmpire. Salon de 1808. 



ASSUMPTO DA JERUSALÉM LIBERTA 

Quadro exposto no salon de 1806. Vafríno escudeiro de Tan- 
credo, disfarçado em árabe, penetra no exercito egypcio, que o 
sultão junctara para fazer levantar o cerco de Jerusalém. Chegado 
no momento em que Emiren passa revista ãs suas tropas, é reco- 
nhecido por Hermínia, amante de Tancredo, rainha de Antíochia, 
que lhe dá Ic^o as informações que lhe haviam motivado a viagem 
(Catalogo do salon de 1806). 

O sultão numa eminência assiste ao desfilar do exercito. 
Brilhante cavallaria; profusão de armamento reluzente rico ; desta- 
cam-se dons elephantes trazendo i costa torres cheias de soldados. 
(Ap. artigo do Journal de VEmpire, 1806). 

VAFRINo, ESCUDEIRO DE TANCREDO 

Quadro exposto sob o numero 870 no salon de 1814. Vafrino 
dis^çado em árabe penetra no acampamento musulmano no mo- 
meato cm que Emiren passa em revista o exercito levantado pelo 



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38 REVISTA PO INSTITUTO HISTÓRICO 

sultão do Egypto pra soccorrer Jerusalém. Vafríno nesse Ínterim 
consegue falar com Hermínia. Assumpto idêntico ao cio quadro 
exposto no salon de i8o6, 

IIERMIIÍI4 E-VTRE QS PASTORES 
Tela: Bllura i/",2i; comprímeiílo o™,;? 

A guerreira tranquiUi^ os pastores que se mostram assustados 
com n sua pr^ença. Está a cavallo e levanta a viseira para acalniar 
os receios dos zagaes, que se occupam em fazer cestos de vinte, 
(cíi/es Taunay, 1831 e 1835. 

HERMÍNIA E os PASTORES 

Tela: altura i",?;; compfimento i'",34 
Quadro pertencente ã Pinacotheca Nacional do Rio de Janeiro. 

CLORINDA, GUIADA PELA SUA AMA, VISITA O TUMULO DA MÍE 

Quadro veqdido em Paris |iqm leiloo de 17 de Fevereiro 
de 1849 pelo perito Simonet. 

CLORINDA ENTRE OS PASTORES 

Ap. um artigo ãa Revue Universais des ArU, de Outubro 
de 1861. 

ASSUtiPTO INSPIRADO POR ARIOSTO 

Quadro apresentado à Academia Real do Pintura quando o 
auftor pleiteou a gua entrada para essa sociedade c graças ao qual 
foi aceeito agréé. 

ROGÉRIO NA ILHA BE ALCINA 

Este quadro, cujo assumpto 6 um episodio doOrlando Furioso, 
figurou no ieilSo do Chevalkr de J.,. a 10 de março de 1828. 

DON QUICIIOTTE ATACANDO OS CARNEIROS 

O3 pastores levantóm-se do logar onde estão, sob umas 
Vvores frondosas, para conter o cavalloiro, (leante do qual fogem 



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DOCnHENTOS SOBBB A VIDA B A OBRA DE NICOLAU A. TAHKAT 39 

08 carneiros em desordem. Sancho, segurando as rédeas ào burro, 
ri a baniJeiras ({empregadas. Leilão no Hotel Drouot a 5 de Dezem- 
bro de i838. 

o APRENDIZ CABPIklTBIRO OB ROfilNSON 

Ap. uma gravura de AUx (1763-1817). Robinson sentado sobre 
a sua canoa apoia-se num machado. Traz-lhe um cachorrinho um 
martello, na bocca. Ao lado, no para-sol de colmo, empoleira-se 
o papagaio do naufrago. No fundo arvores. 

ROBINSON, O niSPANHOL, SEXTA-FEIRA E O PAE 

^p. outra estampa de Altz. Numa praia rodeada de altos e 
sombrios rochedos está encalhado um bote. Sexta-feira carregando 
o pae ás costas dirige-se para a terra. Já esta quasi em secco. 
Á praia T£>$e Robinson de pé, com duas carabinas ao hombro 
e o HispanhoJ sentado na areia. 

SAINT PREUX NO TUMULO DE JÚLIA 

Tela; attura tf", 15; largura ff»,io 

Saint Preux sentado ao lado de um mausoleo, em que se lã a 
inscripçao Julie, contempla ou antes tem em mãos o retrato da 
amada. Arvores no fundo. Este quadro figurou na venie Forgeron, 
jo de Dezembro de 1909. 

ASSUMPTO mSPI^pO PELA IIISTOBIf DB PAP^O B VIRGINU 

Quadro que figurou no leiláo da coUecção Des Horties, dispersa 
em 1852, e no da do barão Rodíer, 38 de Janeiro de 1833. Ap. 
Th. l^jeune : GuiJe de tAmaleur de tabUaux. Pauto e Yirginit 
perdidos na matta são descoberto^ pelo negro Domingo. 

ASSUMPTO INSPIRADO PELA HISTORIA DB PAULO E VIRGÍNIA 

Quadro que pertencia ã collecção pes Horties, dispersa em 
1659 e ã do barão Rodier> Servia átpendanl ao precedente. 



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40 nevisTA do imstituto histórico 

Ap. Théodore Lejeune ; GuUle 1'Amateur de íabkaux. Re- 
presenta a descoberta do cadáver de Virgínia, na praia, por Paulo 
e Domingo. 

os GANS08 DE FREI PUILIPPE 

Tela: oltura o",»'; comprimento 0^,165 

Pequena pintura pertencente ao auctor deste ensaio. No 
fundo do quadro um rio atravessado por uma ponte, e tendo á 
direita diversos ediãcios, de cujo conjunto se destaca um zimbório 
e UQi campanário. No primeiro plano um eremita vestido de burel, 
apoiado num bastSo e precedido por um pequeno cSo, dissuade 
um rapaz de prestar attençâoa três mulheres que lhe fazem signaes. 
Por traz dos personagens um renque de quatro grandes arvores. 

os GANSOS DE FREI PUILIPPE 
Tela: altura o'".3]] comprimenlo <y",4s 

Quadro que figurou nas ventes Taunay era 1831 e igjg. 
O mesmo assumpto que o precedente, que è talvez uma miniatura 
deste quadro. 

os GANSOS DE FREI PHILIPPE 

Quadro de grandes dimensões, que se achava outrVa no 
salão do throno do Paço da Cidade no Rio de Janeiro. (V. Dus- 
sãeux : Os artistas franceses no exiran^ro. Assumpto idêntico 
ao dos dous quadros anteriorescom maiores dimensões. 

o MOLEIRO, o FILHO E O ASNO 

Quadro inspirado pela fabula de La Fontaine, vendido em 
eilâo de 34 de Março de 1840 pelo perito Simonet. 

A FORTUNA B A CRIANÇA 

Quadro exposto no salon de 1832,30b o numero 1.340,6 
inspirado numa íabula de La Fontaine. 



D,gt,zedbyGOO<^le 



DOCUMENTOS SOBRE A VIDA E A OBRA DE NICOLAU A. TAUNAY 4I 
O TELHO E SEUS FILHOS 

Traducçâo de uma fabiria de La Fontaine, exposta no salon 
de 1833, sob o numero 1346. 

o VELHO E os TRES RAPAZES 

Quadro inspirado pela fabula de La Fontaine, vendido em 
leilão de 38 de Março de 1840 pelo perito Simonet. 



4eeiin* bíblica* e ancraa 

adkahío e os trez anjos 
Tela: altura 0^,31) comprimento 0^,4] 
Quadro exposto no salon de 1793 sob o numero 141. 

AGAH NO DESERTO PROCURA REANIMAR O FILHO COM A AGUA DA 
FONTE, QUE UM HXAGRE LUE ACABA DE REVELAR 

Teia; nliura o",}!; larguraow.^o 

Este quadro figurou nas venles Taunay (1835) e Rondei 
{1868). A elie se refere o Trésor de la Curiosilé, de Charles 
Blanc. « Numa paízagem mysteriosa, natureza virgem, que parece 
nunca ter sido desvendada por pessoa alguma, perto de altas ar- 
vores e de rochedos eutre os quaes correm límpidas aguas, Agar de 
joelhos procura reanimar Ismael. O anjo que acaba de guia-la a esta 
fonte bem&zeja já levantou o võo ; não tardará a desapparecer ». 

BOOZ E RUTH 
Tela: altura<y",3i. cúmpriniento o*<,43 

Quadro exposto, sob numero 88, no salon do anno de 1793. 

JOSt, CRIANÇA, EXPLICA OS SEUS SONHOS AOS ERMÃOS 
Tela; altura iy",ji; comprimento o",4o 

Paízagem grandiosa contrastando com a simplicidade das 
figuras, diz o cataliso da venle Taunay. José, tendo ao lado os 

D,s zP.byCOOgle 



43 ItBVlBTl. DO IHSTITOTO itlSTORICO 

crmSos e á sombra de copadas arvores, dirige-lhes a palavra. Km 
formosos campos, animaes a pastar. 

JACOB 

Quadro exposto no sahn de 1814 sob o numero O71. A tela 
representa o encontro do patríarcha com Rachel, que, no meio de 
Buas aiae, se entrega a trabalhos domésticos. 

ELIEZER 

Quadro que sob o numerf) i .605 figurou no sahn de 1834 e 
que representa o enviado de Abrahío estacando ante a belleza c 
el^ncia de Rebecca. 

ELIEZER E REBECCA 

Quadro exposto Bob o numero gfii no sahn de 1837. 

ELIEZER E REBECCA 

Quadro que figurou na vente Taunay em 1835. 

MOISÉS SALVO DAS AGfjAS EEL4 FILHA 00 PHAHAÓ 
Tela: altura o^.õ^; coniprlipeDtú o°<.3i 
Thermutis, filha do Pharaó, acaba de avistar, entre juncos e 
caQlços, o pequeno Moisés, cujo berço fluctua no Nilo, e ordena 
a quatro de suas aias que tirem a creança dalli. Em diversos planos 
destacam-se arvores, bosque^, uma ponte ; no fundo uma cidade. Na 
outra margem do c^nal três mulheres enchem bilhas. Ap. vente 
Taunay 1831 . quadro reappireccu na veada da coilecção Deneyer 
em Bruxellas, 1908. 

HOISÉS S4T.YO DAS iaiAS PELA FILHA DO PHARA<'i 

Pintura que o cata|ogp da v^nfe Taunay (1835] classifica de 
esplendido esboço para o quadro do mesmo nome acima mencio- 
nado, de que só differe, quanto a pormenores. 

llOIsts SM.VO DAS AGUAS 

Quadro ejposto sob o ujirnero 979 no salon de 182^. 



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DOCUMENTOS SOBRE A VIPA B A OOBà DE HICQLAU A. TAUNAY 43 

A VARADA fíQ ROCUEDÚ 

'Cela: allura of",(n ; comprimenlo o^.Si 

O quadro representa Moisés no momento em que do ro- 
chedo de Oreb faz jorrar uma funte, • pinta o contraste entre a 
sofreguidão de parte dos israelitas sedentos e o estupor daquelles 
a quem o milagre pasma » Numerosos grupos : um pae a carregar 
o filtio, desmaiado, uma fílha a sustentar a mãe exânime, dous 
moços carregando um velho, indivíduos precipitando-se com vasos 
e outros utensiUos para recolher agua, um camello a caminhar para 
a fonte. Moisés, sobre o rochedo, domina toda a composição, 
á sombra de uma arvore jmmensa. Ap. catalogo d^ renlc 
Taunay, 1831 

HOIBÈS PERI»DO O ROCHEDO 

Quadro exposto sob o numero 1.606 nq salon de 1834. 

A VARADA NO ROCHEDO 
Tela; altura o'",ig; comprltneDio iv".38 

Museu de Quimper, Quadro pertencente k collecção Silguy t 
catalogado sob o nuqiero O35. 

A VARADA NO ROCHEDO 

Variante do penúltimo quadro, que figurou na venie Taunay 
de 1831. 



Tel^; ,itturao'"|39; comprimento o", 14 

Surprehendida pelos velhos, Suzanna salta sijbre a roupa que 
havia deiíado á margem do regato em que se banhava, á sombra 
da espessa folhagem de um carvalho. 

■1 Os dous seductores csforçam-se por acalmar-lltc o temor 
fizcndo-lhe os protestos de um amor criminoso. » Vcnie Taunay, 
1831. Reducçáo do quadro do salon de 1834. 



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44 RBVISTA DO INSTITUTO Ut3T0RIC0 

SUZANNA SURPREHEWOIDX NO BANHO PELOS VELHOS 

Quadro exposto no salon de 1824 sob o numero s.354. 

A VOLTA DE TOBIAS E DO ANJO 
Tela: altur& i"',7o ; comprimento i", 45 

Tobias, sua mãe e o anjo estão no primeiro plano do quadro ; 
no fundo uma paizagem ornada de grandes fobricas. (Ap. a dea* 
cripção do catalogo do salon de 1787) 

SANSÁO 

Quadro etpostonosa/on de 181430b o numero 873. Passando 
por Thamnata o juiz israelita encontra um bando de moças. Uma 
delias attrae-lhe a attençáo e &z-lhe uma proposta de casamento. 

PAIZAGEM E ASSUMPTO BÍBLICO 

Pequeno quadro pertencente á coUecção Audoin, vendida ao 
Hotel Drouot de i6 a i8 de Novembro de i8gi. 

A ADULTERA AOS PÉS DE JESUS 
Tda: altura o", jíicomprlinentao^.íS ; figurai deo*,c6 

Este quadro foi comprado pela cidade de Grenobie em 1836 
por 3,000 frs. Christo está rodeado de homens e mulheres ; a seus 
pés está uma mulher que lhe beija a fimbria do vestido. No pri- 
meiro plano foge um homem precipitadamente. O Redemptor 
esboça largo ge.<ito de accolhimento e protecção. 

A ADULTERA AOS Pts DE C^RlSTO 
Teh: altura o™, 175; coraprlmenloo^.jTo 

Qjadro de menores dimensões e composição idêntica ao que 
já foi mencionado ; hoje no Museu de Grenobie. Vendido no leilão 
da Galeria Fossard a aa de Abril de 1837 pelo perito Henry. 

MULHER CURADA AO TOCAR AS VESTES DE JESUS 

Quadro que sob o numero 433 figurou no sa!on de 1796. 

DigtizBdbyGOOgle 



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DiBlradbjGOOgle 



I>OCUtt£NTOS SOBRE A VIDA E A OCltA D£ NICOLAU A. TAUNAY 4j 

JESUS MO UEIO DOS DOUTORES DA LEI ANTIGA 
Altura: o", 31 ; comprimeiílo o™ ,43 
Quadro exposto sob o numero 43 qo salon do aano de 1793. 

A CANAMÉA 

Quadro exposto no salon de 179 1 sob o uumero 79 com a 
designação : pequena tela. 

A PARTIDA DO FILUO PRÓDIGO 

Madaira : altura 0^,39 ; comprimculo o™i4j 

Exposto no salon de 1806, gravado por Descourtis, na serie 
das quatro estampas do Filho Pródigo, a cores. Assignado ji 
direita, em baixo. 

A' porta da casa despede-se o Filho Pródigo da famiiia: do 
pae, mãe, erma e ermão. As mulheres estão chorosas, o pae austero, 
O ermão inteiramente indiflèrente. A' janella uma creada, que estava 
a fiar, debruça-se muito commovida. O Filho Predigo prepara-se 
para montar num cavallo, cujos arreios revista um creado agachado. 
No primeiro plano um cachorrinho. Nos últimos diversas coastruc- 
ções typicas do estylo de Taunay e montanhas ; em baixo de uma 
arvore, perto de um aqueducto, está sentado um servo que vigia 
deus cargueiros, um cavallo e uma mula. 

Pertencia o quadro à bella galeria do Exm. Sr. dr. Augusto 
Carlos da Silva Telles, que delle fez presente ao auctor deste ensaio. 

A ORGIA DO FILHO PRÓDIGO 
Madeira : altura <y",39; comprimento 0^,43 

Ap. a estampa de Descourtis na serie do Filho Pródiga. No 
primeiro plano, sob frondosa arvore e em torno de uma mesa de 
mármore estão sentados o Fího Predigo e duas mulheres, uma 
das quaes é uma guitarrista. Coroado de louros e voltado para uma 
terceira mulher, que depÉlhe pÕe uma flor nos cabellos, o libertino 
tem numa das mãoa uma maçã e extende a outra, que sustem uma 



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46 RBVIStA no INSTITUTO HISTÓRICO 

taça, a uma escrava negra de pè a despejar-lbe vinho. Com o 
pé direito o perdulário inclina uma amphora com o fito de des- 
p2jar o vinho que ella contem. A' extrema esquerda uma estatua de 
Cupido sentado. JuDctoã mesa, um cão a passar; no s^tindo plano 
á direita duas lavadeiras e um menino, que estão no rio que occupa 
o fundo do quadro. Atraz desse rio, uma casa alta de três andares c 
uma columnata occupam todo o comprimento do quadro. 

o FILHO PRÓDIGO GUARDANDO PORCOS 

Ap, a estampa de Descourtis iia serie chamada do Filfio 
Pródigo. 

No primeiro plano, sentado numa pedra, semi nú, ar inrelicls- 
simo, cabelleira inculta, está o Filho Pródigo, tendo um cajado na 
mâo e aos pés um porco deitado. Um pouco alraz vê-se uma mu- 
lher que o aponta a dous meninos. Ao infeliz cercam dous porcos e 
um cão. No fundo do quadro grandes edilicioa, arcos, columnas, 
eimborio, a architectura characteristica do artista. Um rebanho de 
bois e carneiros encaminha-se para a direita, guiado por uma 
mulher montada num burro. Eutre 03 aiiimaea se acha um, carre- 
gando grande fardo. A esquerda um regato, a cuja margem esiãp 
pinheiros e palmeiras. 

A VOLTA DO FILHO PRÓDIGO 

A' porta de casa o Filho Pródigo ajoelha-se aos pés do pae,'que 
O manda levantar-sc. Atraz deste a mãe e a erma do joveii perdu- 
lário approxiraam-se delle, o ermâo levanta os olhos ao céu, a 
creada acode ás pressas tendo na mão um fuso ; e um escravo se 
adeanta com o novilho, que deve ser immolado em sacríficio. No 
fundo do quadro um ribeirão, á margem do qual cstà um homem a 
puxar um camello pela rédea, edifícios á esquerda ; ao fundo pal- 
meiras, vegetação. Ap. a gravura de Descourtis na serie do FHHo 
Prodigf}. 

o BOM SAMARITA.VO 

Ap. o Lexicoa de Nagler. 

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I 



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DOCUMENTOS SODBE A VIDA E A OBRA bE NICOLAU A. TAUKAY 47 

SXO MATHEUS 

Tela: altiiiil cffii: comprlmcnlo o",Ri 

Niini logar calmo e solitário, sob grandes arvores, escreve o 
Evangelista sentado numa psdra o que lhe dieta nm anjo. Esta 
tda figurou tia? wntes Taunay (1835) ê Rondei (1869). 

SÃO UATIIEUS 

Tela; flilura o"',ii; comprimeiílo o"',.6 

Reducção do quadro acima descripto e piertencente á Pinaco- 
theca Nadonal do Rio de Janeiro. 

SXO MARCXDS 
Tela: alliira o^.fq; comprimento o".8( 
Uma foQtc corre aos pés do Evangelista, que medita profun- 
dameate sobre o que acaba de escrever ; o leão está ao lado do 
sancto. Este quadro figurou na rente Tauoay (1835). 

SÃO MARCOS 

Telar allura tf",!!; coraprimciilo iy",i6 

Reducç3o do quadro acima mcQcioaado, pertencente á Pina- 
cotheca Nacional do Rio de Janeiro. 

SÁO LUCAS 
Tela: allura o'",6í; comprimento iy",8i 

Ao lado do Evangelista está deitado o boi, que lhe 6 attributivo. 
Este quadro, assim como os três precedentes, figurou na vente 
Taunay (1635), No fundo do quadro vasta e espessa floresta. 

sXo LUCAS 
Tela; altura o",iCi comprimento o^.ió 

ReJucçáo do quadro acima mencionado, pertencrate á Pina- 
cothecã Nacional do Rio de Janeiro. Figurou na vente Taunay 
(■835). 



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4» RE>1STA 00 INSTITUTO HJSTORICO 

SkO JOXO EVANGELISTA 

Tela: altura c/"M: eoaipr'mesiíocFfli 

O Evangelista acha-se á sombra de um rochedo, &õbre o 
qual está pousada a águia aitributiva, que nas garras esmaga uma 
serpente. E^te qu4dro figurou na vente Taunay (1835). No fundo 
do quadro, após especo bosque, deslacam-se edifícios de uma d- 
dade construída em amphitheatro. 

SXO JOÃO EVANGELISTA 
Tela: altura (y",3i; comprimento o'",t(i 

Reducção do quadro acima mencionado pertencente á Pína- 
cotheca Nacional do Rio de Janeiro. 

SACRA família 

Tela: altura o",ji; comprimento o"',tO 

Tela pintada no gosto da eschola italiana; figurou na venie 
Taunay de 1835. 

SÃO JERONTMO 
Tela: altura o"' ,6,1; comprimento o™, 8| 

Sentado perto de enormes rochedos coroados de urzes e de 
arbustos selvagens, Sâo Jeronymo parece inspirado pela leitura do 
que acaba de escrever. Um leão de pé no primeiro plano, compa- ' 
nheiro do sancto, é o único ser que anima esse deserto. Este 
quadro figurou na venle Rondei (1869). 

A PREGAÇÃO DE SXO JOÃO BAP1'1STA 

Teto: altura o™.9Sl comprimento 1"^ ; figuras de O^.if 

No segundo plano, à direita e perto de um lago, S3o Jckío, de 

p£ sobre um montículo ensombrado por uma grande arvore, tem 
em mãos uma cruz e prega a um auditório numeroso. Entre os 
assistentes destacam -se, no primeiro plano, á direita, dous guerreiros 
sentados qo chão, uma mulher sustentando uma creança sobre um 
burro, no meio um cavalleiro inclinado para traz ; no fundo, à es^ 



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DOCUMENTOS SOBRE A VlD.V E A OBRA Dt NICOLAU A. TAUfJAY 49 

querda, camellos, uma caravana e minas sobre uma montanha cheia 
de matto. Asaignado sobre um rochedo ; Taunay, Rio de Janeiro 
i8t8. Este quadro pertenceu á collecção de Luiz XVIll ; tòí 
exposto no salão de 1IÍ19 e adquirido cm 1810 pclo Estado por 
trcs mil IVancoe. A paiza^m é um Ic^r do Brasil. Pertence ao 
museu de Louvre e foi por este emprestado ao de Nice (1911). 

A PREGAÇÃO DE SÃO JOXO BAPTISTA 

Redução do quadro existente no museu de Nice c vendido 
em Pariz num leilão a 37 de Mar^x) du 1871. 



NIOBt; 

Quadro vendido num leilão do Hotel Drouota 13 de Março 
de 1856. A' direita vé-sc a entrada de um palácio antigo cora co- 
tumoatas, a que se sobrepõem eRtatua^í. Nas vízinhanvas vé-se 
Niobe implorando a clemcncb de Apoiln cujas llcchas lhe attingem 
inflexivelmente os Hthos. 

OKPIIEU E EUBVDICE * 

Tela: altura f",j3 ; tomprimcntu (i'",4i 
Quadro pertencente â coUecvâo J. L., dísjKrsa no Hotel 
Drouot, a 14 do Dezembro de igijJI, c rendido por i.ofy francos 
pelo perito Feral. 

ORPHEU 

Tela: aiameiro o".Tn (Circular) 

Quadrinho pertencente ã exma. ara. da, Adelaide de E. 
Taunay Dória. 

KYMPHAS A PROCURAR PROSÉRPINA 

Quadro da collecvâo Rollin de Lyou, dispersa em Pariz a i" de 
Abril de 1873. Numa paíz^em cheia de grandes arvores diversas 
aympha« munidas de archotes exploram a matta. 

D,3 zB<ibyCOO<^le 



SO REVISTA DO INSTITUTO lUSTORICO 

XYMPIIA E AURORA 

Tela: allurai>"',33; coiuprimculo o",4( 

Quadro pertencente á coltecção J. L., dispersa no Hotel 
Drouot a 14 de Dezembro de 190ÍÍ ; vendido por mil francos pelo 
perito Feral. 

NYMHIAS E C!(IANI,:AS EM TORNO DE UM POÇO 

Quadro da coUecção Falbe, de Londres, dispersa em leilão a 
ig de IMarço de 1900. 

HtLAS E UMA NVHPIIA 

Tgla: comprfmciUo 45 t/i pullcijatiiis 

Quadro da collecção Ctiristic, dispersa em Londres, em 1911, 
a a8 de Janeiro. 

UMA COLU.MSATA, NYMPllA E UUPIDO 

Quadro da collcc^o Falbc, vendido em leilão cm Londrus, a 
Igde Maio de 1900. 

SUPPLICA DO AMOR 

Quadro vendido em Paris num leilão dirigido pelo perito 
LeIÊvre a ao de Março de 1867. Assignado á direita e em baiso. 

sacrifício a ima DIVINDADB 

Painel: aitiira a^.iy. comprimcnlo o'", 375 

A' esquerda um sarcophago monumental ; á direita um grupo 
de amores que offireccm ura sacrifício aos manes do defunto. Um 
deixa que uma pomba vúe ; traz outro um bode ; no fundo uma 
paizagem montanhosa. Leilão da galeria do sr. Alphonse Wattel. 
Bayart em Roubaix a 17 de Dezembro de 1906. 

A ItACCllANTE 
Madeira: allura o"',a6; comprimcnlo o'", 13 

a Uma gruta em frente á qual se dá nma bacchanal. A' esquerda 
âatyios e nymphasdansam. A' direita grupos enlaçados. No ceatro 



«byCoogIe 



IiOCOMEMOS SOBIIE A VIDA E \ OORA DE NICOLAU A. TAUNAY 5I 

do quadro a bacchante seminua adeanta-se e dansa, agitando um 
pandeiro. Céus muito claros.— Composição cheia de vida e moci- 
dade e toque aprimorado — Aasignado á esquerda N. Taunay. • 
Leilão da collecçâo F. Bohler a 33 de Fevereiro de 1906. 

l-AUNOS E BACCHANTES 

Tela : altura i"",!; ; coiuprlmcjiio, u"',i/j 
Quadro que ligura na vente Delassue no Hotel Drouot a 23 
de Dezembro de 1908. 

VII 

ti«;ena« untisu* 

DESAFIO ENTRE PASTORES QUE DISPUTAM O PREMIO DA FLAUTA 
DE PAX NA ARCÁDIA 

Quadro de grandes dimensões e comprehendendo muitas 
figuras, que outr'ora ornava a sala do throno do palácio de 
Sâo Chrístoram. Dussieux: Lcs artistes f rançais à Célranger. 

os PASTORES DA ARCÁDIA 
Tela: «llura tf",:^); comprimento tf",]; 

Quadro pertencente ás coliccçóes do Museu de Cherbourg. 

PASTORES DE THEOCRITO E VIRGÍLIO RECOLHENDO OS SEUS 
líEDAXHOS 

Quadro exposto no sahn de 18:3, sob o numero i .339. 

TOUADA DE UHA CIDADE 
Tela: altura W^i ; comprimento i'°,oo; finuras dco'".ro 

Quadro adquirido pela administração imperial em 1800; fez 
parte do museu do Louvre, que o cedeu ao de Nice. A' dirdta nu- 
merosos habitantes de uma cidade, presa das chammas, são levados 
como reféns, atravessando uma ponte situada á beira de um rio 
atravessado por uma ponte. No primeiro plano, ã esquerda, dous 
cavalleiros marcham á frente dos prisioneiros, que outros soldados 
acavallovi^am: A'direita vários pinheirosde Itália. 



byCoogIe 



53 HXVISIA DO l.NSTirctO HISTÓRICO 

TOMADA DE LMA CIDADE 
Tela: altura i"'.u:; iiomprlniculo i'".^ 

Assumpto idcntico tractado em maior escala, num quadro 
exposto sob o numero 14, no sahn de 1793. 



Numa paisagem destacasse um grupo de moças romanas 
acompanhadas de escravas. A um canto um pastor indica-lbes o 
caminho. Collccção do calligrapbo Bertrand, dispersa no leilão de 
13 de Novembro de 1855, no Hotel Drouot. 

PARTIDA Para uma caçada com falcões 

Quadro vendido em BruxcUas, a 6 de Novembro de 1878, pelo. 
pintor E. Tcnaerts. 

GUERREIROS DA MEDIA EDADE JOGANIK) CARTAS 

Tela ; altura 0",^! ; ijompclrncnlu 0^,37 

Quadro que figurou na venlc Taunay, em 1835. Jogam os 
guerreiros, inteiramente indt^rentcs cm relação á sorte dos compa- 
nheiros (éridos que, atraz dellee, são transportados do campo de 
batalha para o hospital. 

GUERREIRO CARREGADO SOBRE CM PA VEZ 

Quadro exposto no salon de 1804, sob o numero 44R. 

COMBOIO DE PRISIONEIROS GUIADO POR CAVALLEIROS MED1EVAE5 

Ap. um artigo da Revue Universelle des Arls, de Outubro 
de i86t. 

GUERREIROS CONDUZINDO PRISIONBIRUS 

Leilão dirigido pelo perito Bloche a 17 de Junho de 1899. 

D,s zP<:byCOOgle 



DOCDMEXTOa SOBRE A VIDA R A OBRA DE NICOL&r A, TAUNAY 53 

Tm 

Cleena» oplentne* 



O BAZAR 
Tela : «llura tf".3í ; comprimento o".*) 

Num bazar negociante!! de chalés, jóias, quadrOR, etc, oBêrecem 
suas mercadorias. O grupo principal é ctnistituido por um individuo 
que comprou um chalé branco a dua» mulheres, uma das quaes 
eeatada num cesto. Mais I(M)ge, um homem examina com uma lente 
um collar que uma mulher lhe mostra ; amadores examinam aiten- 
tamente quadros ; aqui e acolá, escravos oecupadofi em transportar 
&rdo!i, a abri-los ; no Tundo alguns a arranjar quadros. Atravcz de 
uma grande porta avista-se uma casa rodeada de arvores. Leilão 
Taunay, 1831. 

BAZAR TURCO ESTABELECIDO EM RUmAS DA GRÉCIA ANTIOA 
Tela ; altura iV",6s ; comprimrnro o",8l 

Numerosos mercadores ambulantes offèrccem as suas merca- 
dorias a uma turba de compradores, servindo de quadro á scena 
ruínas de cstylo hcllenico, perto de um obelisco. A tela pretende 
reproduzir scenas da vida asiática e tigurou nos' leilões Taunay 
(1831 e 1835). 

No primeiro plano um Turco ricamente vestido oferecendo 
uma bolsa a um homem sentado num fardo. Aos diversos perso- 
nagens rodeiam escravos e negociantes. A' esquerda do quadro, 
outro Turco, montado num cavallo baio escuro faz esmola a uma 
mulher que segura uma creança. Rscravos carregam e arrumam 
fardos, mascates offerecem mercadorias a mulheres ; vâ-sc no meio 
da multidão um grande elephante. 

BAZAR Tl'RCO ESTABBLECmO EM RUWAS DA AÍTTIOA QRKCIA 

Tela: comprimento if.^t ; altura <i".,ij 

Reducçãp do quadro precedente, que se acha mencionado naa 
ventes Tauoay (1831 e 1835), 

DigtizedbyGOOgle 



54 MvnTA DO IN8TITDT0 KISTORtCO 

O PAGODE 

Tela: alturi c/",73; compnnienlo o™ ,59 

Quadro da coUecção Otlet de Bruxelks, vendido em leilão 
nesta ddade a 30 de Dezembro de 1912. 

PREGAÇÃO NOS DESERTOS DA ARADIA 

Eabôçoa óleo que tigurou no leilão Tauoay, em 1835. 

o CONDtlCTOR DE CAMELLOS 

Madeira: allura iv",io; comprimcnlu o".h 

Um camelieiro guiando um camello está parado â porta de 
uma cabana. Leilão da collec^o Laloge de Dijon, a 4 de Abril de 

1873. 

A DESFILADA DE UM EXERCITO ORIENTAL 

Madoir.-i; alliirii tf", 46-, comprimcnlo o" ,63 

Quadro vendido no Hotel Drouot a 3 de Dezembro de igro 
por 5.600 francos. Figurara no leilão Miallet em 1901. No centro, 
, sobre uma eminência, está um chefe, coberto de turbante, de p6, 
accompanhado de pagens e guerreiros, a extender o braço para uma 
planície, onde desfilam innumeravcls tropas. A' direita três cle- 
phantes carregados de guerreiros. No primeiro plano numerosas 
personagens, cavalleiros, soldados, homens de côr e uma mulher 
vestida de roupas luxuosas. 



fRoeaa* mil I tare* 

A FOLGA NO ACASIPAHENTO 
Madeira: altura tf^.^s : comprlmenio o" ,07 

Quadro pertencente á collec^o imperial da Ermitage em 
SSo Petersburgo. No primeiro plano, sentado ao lado de uma 
barrica e tendo um papel em mãos, está um soldado, em mangas de 
camisa, a quem um camarada dá um copo de vinho. Em torno 
vôem-sc diversos soldados conversando, um tambor, faxineiros tra- 



z.cbyCOOgle 



DOCnUENTOS SOBRG A VIDA E A OBRA HE NICOLAU A. TAUNAV SS 

balbar; no tiiodo diversas barracas e uma grande arvore, tudo isso 
ádíreita. A' esquerda, no primeiro plano, uma vivandeira ou mulher 
de ãoldado a carregar dous barrítetes, um homem a cavallo bebendo 
numa bilha. No plano do fundo, á díreiu, desfilam diversos in- 
Êintes. Este quadro foi adquirido pela imperatriz da Rus^, Maria 
Feodorowna, do ourives da corte russa Duval, no anno de 1805, 
■ com o fito de com elle presentear o imperador Alexandre I no seu 
dia onomástico. 

PAIZAGEM E ACAMPAMENTO 

No primeiro plano vê-se a passagem de uma bateria de arti- 
lheiros. No fundo as barracas de um acampamento. Quadro que 
figurou numa exposição de Fevereiro de 1830, no Museu Colbert, 
á rua ViTienne em Paris. 

VISTA Dt UM ACAMPAMENTO 

Quadro exposto no salon do anno de 1791 sob o numero 754, 
e a indica^ de que se tracta de uma tela pequena. 

EXTERIOR DE l'M HOSPITAL MILITAR 

Tda: altura i'",)^; comprimemn i'",òz: figiuras de a",:a 

Este quadro foi exposto no salon do anno VI (1798) e adqui- 
rido então pelo Estado. No primeiro plano, á direita, doentes dei- 
tados na t^rama ; perto de uma arvore um soldado em sentinella 
deante de uma barraca. No segundo plano, á esquerda, outros 
doentes passeiam apoiados em muletas. No meio, ao pé de uma 
escada, que leva a um grande edificio á direita, e sobre a porta do 
qual está escripto « Hospício militar », acha-se parada uma carreta 
cheia de feridos. Homens diversos tomam-nos nos braços e os 
transportam para o interior do monumento. Este quadro está hoje 
BO palácio de Compiègne. 

EXTERIOR DE UM HOSPITAL MILITAR 
Tela; altura o",fi: comprimento rf.à^ 

Reducção do quadro do salon de 1798, exposta sob o numero 
449 do s:jlon do anno XII (1804), com pequenas modificações, se- 



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■ 5* REVMTA no INSTITUTO HISTÓRICO 

gundo OB críticos da épocha. Vendido por 3.635 frs. no leilão da 
coUícção da Mra. Milbank, em Londres, a 7 de Julho de 1900. 

CUR&TIVOR PEITOS NUM FERIDO NO INTERl(»t RE UH K08PITAI. 

Tela: alliira o",!! ; comprimento 1^,32 

Quadro que figurou nas v«n/etTauaay cm 1831 e 1835. No pri- 
meiro plano um íerido sôhre uma padioia, a quem um cirurgiSo, 
que lhe íaz uma ^tiigria no pé, applica uma ligadura ; uma crmã de 
caridade ajuda a operação, enquanto um dos padioleiros sustenta 
o paciente. No fundo da sala convalescentes junto ao leito e perlo 
de um terraço interior. 

UM HO8PITA.L MILITAR 

Quadro que pertenceu á collecçáo do marechal Marmont, 
duque de Ra^isa, dispersa a|T«^ a morte da diiqueza, em 1859. 
Ap. Th . Lejcune : Guia âo amador de quadros. A scena se passa na 
Itália. No primeiro plano, sob uma grande arvore, vO-se um offieial 
superior Tardado de gala, tendo em torno de si al<>:uns soldados, 
cansados ou doentes, uns deitados, outros sentados. O grupo 
principal do quadro é o que cerca uma grande carreta puxada por 
dous cavallos a transportar um certo numero de Teridoa. Numa 
grande escada vèem-se homens carregando doentes ; a enfermeira 
extende rou|)a sobre o corrimão. 

ERHITàS RAMnO HOSPITALIDADE A MILITARES PRANCEZES 

Quadro exposto no -nlon de ifira soh o numero 883 e 
reprodmtido no Museu de Landon j gravado por l.e Nonnaod. 
Paizagem arída c montuosa, em que se voem pinheiros e carvalhos. 
No fundo grandes cdificios, que parecem os de uma Cartuxa situada 
sobre penhascos. No primeiro plano à esquerda na estrada vèem-se 
cinco soldadas sentados no chão c um cavalleiro a puxar um 
cavallo. Quatro monges descem de uma vereda, trazendo viveres 
para os militares. 



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DOCUMENTOS SOBRE A VmA E A OBRA DE NICOLAU A. TATINAT .';7 
OFFICIAL DE CAVALLARIA E SEU ORDENANÇA 

Um official de cavallaria, montado num corcel branco, atravessa 
um bosque, a conversar com um hussardo que cavalga a seu lado. 
No fundo pas8a um esquadt^ de cavallaria. 

Rabôço a oleo para um quadro. Véwtó Rondei, 1869. 

COMEtOrO MILITAR DE GADO EH MARCHA 

Tcl.i: altura o", 19 ; cnniprjmonlo o", 11 

No segundo plano destaca-se um grupo imitando o de Loih 
e suas filhas a tugir, segundo Rarael. Catalt^o da vente Taunay 
de 1835. 

COMBOIO MILITAR DmiGINDO-RE PARA A PORTA DE UMA CIDADE 
Tela: altura o°',6s; comprimento a".Bi 
Quadro no gosto de Wmivermans, que figurou no leilão 
Taunay de 1835. . 

PARADA DF IIM OOMUOIO MILITAR 

Quadro exposto ao aalon de i8i(i soh o numero 758. 

PARADA DE tFM COMBOIO MILITAR 

Quadro exposto no sahn de 1814 sob o numero 86Ô. 

PARADA DE VOLUNTÁRIOS 

Quadro exposto no saio» de 1793 soh o numero 592. 

EXERCITO MARCHANDO 

TffI.i: nltiira 'i,"'^7 : cumprimento n.'".!'' 

Quadro da collecçâo do Conde de C. ,,, vendido am laitâo 
em Paris, pelo perito RIoche, a 12 de Junho de 1903. 

EXERCITO ATRAVESSANDO UM OESFILADEIRO 

Quadrn da colleceSo Dumond (do Instituto de França), ven- 
dida no Hotel Drouot, a 13 de Fevereiro de 1854. 



DigtizedbyGOOgle 



58 REVISTA DO IHSnTUTO HUTORICO 

MARCIIA DE TROPAS IRANCEZAS 

Quadro exposto sob o numero 759, no salon de 1796. 

-MARCHA DE TRUI'AS NUM DESKILADEIRO 

Cavalleiros atravessam um ribeiro; duas mulheres raar- 
cham-Ihe á frente. No segundo plano animaes c comboio accom' 
panham a margem do rio; no fundo do quadro deatacam-se 
altas montanhas, onde se vêem algumas fabricas. Este quadro foi 
exposto uo saUm de 1787. 

TltOPAS 1>ESCAN(;-AND0 
Tela; alliirn a",&t : eomprimcnio if".ai 

Militares formando a cauda de numeroso comboio, cuja van- 
guarda se vè no primeiro plano, pararam para tomar algum repouso. 
Hm carrega um cavallo com diversos objectos, outro arranjão 
calcado, enquanto um cavaltciro escuta o que uma vivandeira lhe 
conta. Um pouco mais longe uma carreta com feridos juncto à qual 
estão soldados e vivandeiras. Dous olficiaes parecem inspeccionar a 
marcha desses retardatários. No fundo do quadro se vi uma 
grande c alta montanha. Leilão Taunay, líl.v. 

TROPAS MARCHANDO 

Quadro pertencente ao sr. Victor A. Taunay, de Pariz. 

TROPAS DESCANÇAXDO 

Tolo: altura rf^t : íomprimenm """vl^j 

Repetição do penúltimo quadro, sob menores dimensões. 
Apenas o céu tem menos nuvens. Leilão Taunay, 1831. 

PARADA DE' TROPAS EH JIARCHA, A HARQEM DC VM RIBEIRO 
Tela: «Itur» """..H; comprlmEnto o'^,Ó4 

Quadro que figurou na vente Taunay de 1S35. A' margem de 
nm pequeno rio está estacado um contingente de soldados que se 
desaltcram nas frescas aguas da corrente. Em posição de destaque 
a bandeira do regimento. 



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DOCUMENTOS SOBRE K VIDA E A OHRA DE NICOLAU A. TAUNAT S9 
SOLDADOS DE iNrANTARU DESCA\ÇANI)0 DA -MARCHA 

Pequeno quadro, exposto fóra do catalogo, pouco antes do fe- 
chamento do saton de ii:toi, .segundo se lè num artigo do Examett 
des niivrages du saion de i8oi, far une socUlé Sartisles, coIlecçSp 
Deloyoes, t. XXVI. 

o PORTA nSTANflARTE 

Tcl«; almra o",3i: comprimem^ ií".i.\ 

Numeroso contingente de in&ntaria caminha por uma ladeira 
acima no st^undo piano ; uo primeiro vO-se um grande numero de 
soldados retardatários, escoltando uma carreta com feridos e para~ 
dos á mar^m de um regato, onde vários se desalteram, um delles 
carrega um crmão darmas. No mesmo logar, entre diversos grupos, 
destaca-se um granadeiro de pè, abraçando a bandeira tricolor, cuja 
altura domina a scena. O quadro representa um episodio das cam- 
panhas da italia. Vente Taunay, 1H31. 

CAVALLBIROS DESCANÇANDO 

Pequeno quadro que liiíurou no leilão Marlin, a 4 de abril de 
ifigs no Hotel Drouot. 

COMBATE DE HUSSARDas 

Leilão de aq de março de 1861 pelo perito Laneuville. O 
quadro é attribuido a Taunay. 

UM COMnATE 

Tein; alturn o^iifl; comprimento o",;o 

Quadro assignado, que pertenceu á coIlecçSo do rei Ltiis 
Philippe e foi vendido no leilão Dumesnil em Pariz a 10 de Maio 
de 1900 por 1.780 francos, 

SUCCESSOS COMTRADICTOniOS ACONTECIDOS APÓS UMA DATALHA 

Quadro exposto no salon de i7f/'> sob o numero 452. Oa 
planos do fundo são occupados por tropas que combatem ainda. 



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6o nevisTA do ihbtituto histórico 

No primeiro vêem-f^ guerreiros a despojar cadáveres, a amon- 
toa-toa e outros a transportar feridos. (V. Décadaire, saion 
de 1796). 

o DIA SEGUINTE AO DE UMA BATALQ* 

Tela; altura o™ ,31 ; comprimem 00" ,40 

Ap. Quatremère de Quiacy : Elogio fúnebre de Taunay. 
Yécm-se soldados de pé, sentados e deitados na relva, alguns a 
jogar cartas. A' direita, perto de uma barraca improvisada, uma 
mulher carregando viveres ; do outro lado, juncto a um massiço 
de arvores verdes, soldados a carrear feridos, fardos e um carro 
puxado por vários cavallos. Mais longe, atravez do bosque, um 
batalhão de infantaria a marchar escoltado de oRiciaes. Venie 
Taunay, 1831. 

A CARRFTA DOS FERIDOS 

Quadro pertencente ít íjaleria do barão Pérignon, dispersa 
no Hotel Drouot a i(> de Novembro de iftgf). 

RETIRADA DOS FERIDOS APÓS A BATALHA 

Quadro exposto no salon de 179.-^, sob o numero ,566. 

SOLDADO MORTO XO CAMPO DE IIONBA 

Quadro vendido pelo perito Fabre, em leil5o de 17 de Março 
de 1873. 

os PRANCEZES 

Scena militar mencionada no DiccUmario dos Pintores, de 
Tbeodoro Guedy. como tendo figurado num leilão de quadros em 



DE ARTILHARIA ENTRANDO XUMA PRAÇA FORTE 
■ Tel«: :iUuta n",?" : comprimento i-"//- 

Quadro vendido no Hotel Drouot, a 14 de Dezembro de 1908, 
na vente J. L- pela somma de 1 .760 frs. Perito Feral. 



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DOCUMENTOS SOBRE A VIDA E A OBRA Dt NICOLAU A. TADKAY 6l 
COMPANHIA Dt ARTILHEIROS 

No (>riniciro plano de uma paiiagem vti-sc passar uma com- 
panhia de um ri^imento de artilbafia. No fundo do quadro um 
acampamento. Tela que ligurou numa exposi^o do Museu Colbert, 
cm Fevereiro de 1830. 



UENÇAO DOS REBANHOS EM ROMA 

Quadro exposto sob o a. 209 no saUm do anno de 1787. 
Ura religioso abençoa, sob uma arvore em cujo tronco se vi uma 
Madona, os rebanhos guiados por uns pastores. 

Vários moi^^ com cirios acoesos cercam-no. 

Vè-ae uma mulher de pé oflêrecendo um cordeiro c zagaes 
ajoelhados. Fabricas, um rio com uma grande ponte de pedra, 
montanhas longínquas occupam o resto do quadro. Entre os pas- 
tores acham-se mulheres; o religioso 6 um monge branco. Este 
quadro pertenceu à cotleci;áo do Marechal Marmont, duque de Ra- 
gusa, dispersa a 14 de Dezembro de 1857 após a morte de sua 
viuva. 

U.HA PRAÇA PUBLICA NU.MA CIDADE ITALIANA 

Numa pra»;a cercada de ediiicios de catylo iulíano rcaliza-se 
animada feira. Quadro da coUecção do calligrapho Bcrtrand dis- 
persa no Hotel Drouot cm leilão de 13 do Novembro de 1855. 

o JOGO DL itOLAS 



Quadro pertencente ao museu Fabre de Montpelller. Quatorze 
figuras priocipaes no plano df)s que jogam o giuocco Ji bucci ; no 
fundo uma cidade italiana, onde se vé uma ponte sobre um rio. 

A direita arcadas e construcçõcs. 



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6^ REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

LEILÃO DE QUADROS AO AR LlVRt 
'l'ola ; aliura o"'.)a ; copiprinicntij V.fi 

Quadro exposto no salon de 1796 sob o auiuero 452 com 
quatro outros do mesmo auctor. 

Scena italiana : um leiloeiro ttepado num estrado susteauido 
por barricas, cm frente á porta de uma casa, grita com todas as 
forças as qualidades do quadro que mostra ao público. A seus pés 
um escrivão regista os lances ; os amadores sentados em cadeiras 
trocam impressões e olhares para as bellas, que o pregão pro* 
mettedor de obras primas attrahe. 

{V". o artigo de Philippe Burty na Gíi\eUe des Bcaux 
Arls, 1^59 (tomo II, pag. 307.) 

MISSA CELEBRADA NUMA CAPELLA DE SÃO ROQUE PARA OUTER DO 
CtU A CESSAÇÃO DK UMA LPIDtMIA 

Tela: aliiira ['"jo: comprinicnlo i™,95: ligiiras -i", 1$ 

Este quadro pertenceu à collecção de Luiz XVIII. Foi ex- 
posto no salon de 1814 e adquirido pelo Estado por 3.400 francos. 
Pertenceu ao Museu do Louvre e hoje faz parte do de Oouai. 

A' esquerda duma pequena apella, em cujo frontespicio se lé 
S. Rocco, celcbra-ae uma missa. O padre, de braços abertos, vol- 
ta-se paia a assistência composta de campouios de pc e ajoelhados. 
Doentes, um cm macca outro deitado na relva, frades a rezar em bre- 
viários, crmãos de uma confraria com o seu estandarte, etc. A' ex- 
trema esquerda, sob uma arvore, uma mulher a cozinhar c um 
aldeáo ao lado de um burro. No fundo do quadro os ediHcios de 
uma cidade. A' direita um burro a espojar-sc na relva, um caval- 
leiro que acode ao local e um camponio que se afasta levando um 
cacete ao hombro. 

MISSA CELEURADA NUMA CAPELLA DE SÃO ROyUE PARA OUTER DO CEU 
A CESSAÇÃO DE UMA EPIDEMIA 

Tela: altura O'" ,074-, comprímcnio i'",05j 

O mesmo assumpto que o precedente, que c a rcproduoção cm 
ponto maior deste quadro, expostosobo n. !83nOíjíonde 1789. 
Diz o catalogo que a tela era propriedade do sr. Souris. 



lyCoogle 



DOCUMENTOS SOBHIi A VILA L A OBRA DE MCOLAU A. TAUNAY 63 



Uma praij-a de aldeia, onde se vi um edilicio bastante grande 
cm Irenie a uma egreja. No fundo do quadro uma paizafjem. 
A' porta da egreja um cruzeiro tosco de madeira ; um missionário 
ajoelhado prega junto â cruz a numeroso auditório de camponios. 
Quadro vendido cm Pariz num leilão pelo perito Hue a 12 de 
Novembro de 1832. 

DIBTRmUIÇÃO UE ESUOLAS FEITA POR MiAGES NA ESCADARIA DE UM 
GRANDE edifício PERTO DO CONVENTO DE SÃO JOÃO DE LATRÃO 



Leilão Taunay, ilfji. Tela de pequenas dimensões. 

DISTRIBUIÇÃO DE ESMOLAS PEITA POR MONGES 
Tela: alUira o'",ji; comprimuiiio o"', |0 

Quadro comprado em 1784 pelo joalheiro Langraff ao perito 
Paillet pela somma de 800 fraa. Ap. Charles Blanc, bic^raphia de 
Taunay. 

DISTRIBUIÇÃO DE ESMOLAS POR CARTUXOS 

Madeira: altura o"', 54; comrrimciilo o"',Oii 

Ap. uma gravura de Leprince. A scena se passa na Itália. 

No primeiro plano, á esquerda, uma galeria que dá s<ibrc uma 
escadaria. Sobre esta se acha uma multidão de mendigos, makra- 
pidos, semi-nús, que de diversos monges recebem esmolas de viveres 
e roupas. -Uma mulher levando pela mão uma criança dirígc-sc 
para o grupo. No primeiro degrau um mendigo sentado devora um 
prato de sopa, tendo ao lado um cachorrinho, que lhe pede sustento. 
No primeiro plano, á direita, vâem-se dous velhos miseráveis e rotos, 
que se apressam em caminhar para o grupo principal, s^uidos de 
um cão. No fundo, k direita, editicios importantes. Uma columna 
supportando uma estatua. 

DISTRIIJCIÇÁO DE ESMOLAS POR FRADES CARTUXOS 

Estudo a óleo para o quadro acima. Vente Rondei, 1869. 

lyCoogle 



REVISTA DO ifCMTlTDTO lIlSTOftlCO 



DISTRIBUIÇÃO DE ESMOLAsi A PORTA DE DM MOSTEIRO 1 
TORRE DE NERO 



Assumpto aaalogo ao da distribuição de esmolas pelos Car- 
tuxos. Perto da torre de Nero, no pateo de um claustro e sob as 
suas galerias, frades distribuem víveres a diversos meodjgos. Entre 
outras cousas nota-sc um donato soccorrcndo uma tamília infeliz c 
um moço que recommcnda paciência a dous homens, que parecem 
acabrunhados pela fome e pela fadiga. Venles Taunay ( 1833} e 
Rondei. 

WSTRIflUlÇXo DE ESMOLAS k fORTA DL UM MOSTEIRO PERTO DA 
TORRE DE NERO 

Esboço do quadro adma mencionado com o mesmo titulo. 
Kente Taunay, 1831. 

A SALTARtLLA 

Ida: aiiura a-/» : i:ompiidienlo •vfii 

Exposição posthuma no salon de 1851 sob o numero I974> 
Um Napolitano e sua joven companheira executam uma dansa cha- 
racteristica à vista de numerosa assembléa de camponezes. Entre 
os curiosos dcstaca-se um musico trepado sobre taboas, mulheres 
sentadas e dístrahidas na conversa, um cavalleiro envolto num 
manto ; do outro lado camponesas, uma das quacs montada em 
um cavallo branco perto de rapazes sentados, de |x: ou deitados na 
relva Toneis e outros objectos trazidos para baixo de uma barraca 
construída ás pressas, annunciam que a dansa será seguida de 
banquete. Coroa o quadro um bosque de arvores altas ; a com- 
posição destaca-se sòbrc um fundo ornado de fábricas c terminado 
por montanhas. 

A TARANTELLA 

Numa bclla paizagcm um tocador de rabeca c um guitarrista 
fazem dansar camponezes napoUtaaos. Além dos {nttorescòe per- 



rfbyGoOgle 



DOCUMENTOS SOBRE A VIDA E A OBRA DE NICOLAU A. TAONAT 65 

sonageas que os rodeiam, ainda se vêem, do segundo plano do 
quadro, muitos outros grupos que retratam uma serie de epi- 
sódios tnteressaales. Ap. catalago da vente Ronde), 1869. 

FANDANGO NAPOLITANO 
Tela: altura tf" ,3»; comprimento o", 4) 

Quadro que figurou na vente Taunay em 1835. 

No primeiro pl^no dous parea de dansarinos bailam. A' direita 
assistem  dausa nove pessoas sentadas no chão, das quaes uns gui- 
tarristas e um camponio depé: á esquerda um grupo de oito 
pessoas, das quaes um guitarrista e um rabequista. Completam a 
assembléa no fundo um individuo, que levanta no ar uma mulher, 
outro a tocar pandeiro, uma mulher a dansar e um individuo a 
chamar alguém. No ultimo plano arvores, um almocreve a tocar 
um burro, uma egreja muito alta e outros edificios. Gravado pelo 
aguafortisla Réveil para o seu Museu de Pintura e de Esculptura 
(Pariz, 1873}. 

FESTA NAPOLITANA 
Tela: altura 0^,34 : compTÍnenta o" ,4a 

Asmgnado á direita e datado: 1834. E^te quadro pertenceu á 
collecçâo do barão Mourre e hoje faz parte da galeria do dr. Rai- 
mundo de Castro Maia (1915). No fundo, altos edificios, uma egreja; 
no segundo plano, ã direita, um bosque de arvores esgalhadas e 
copa frondosa. No primeiro plano numerosa reunião de camponezes 
rodeia um casal, que dansa a tarantella. A' direita uma barraca, 
juncto à qual está um homem a cavalto e uma mulher sentada em 
outro cavallo. A' esquerda um grupo de individues sentados ao 
lado de outro grupo, no centro, de homens de pé. 

o ENTOADOR DE CÂNTICOS 

Tela: atiura o",3i; comprimento iV",^ 

Trepado num estrado está um cantor italiano a entoar hymnos 

religiosos e rodeado de numeroso auditório, a quem indica com o 

arco da rabeca a imagem do sancto, cujos louvores celebra. No 

D,r„cb,L.oo<^le 



66 REVISTA DO WeiITUTO BISTOtllCO 

fun^ do quadro Tèem-aã em tórno de uma mesa diversos individiioa 
parecendo tidícularizar o myatícismo do cantor. No auditório do- 
tam-se honicns s mult^eiea em diveraaa attitudes, e um íaziarme 
a cavallo, benzendo-se. No primeiro plano uma mulher vestida de 
brauco afasta-se do grupo cantando num livro, que acaba de comprar. 
Fábricas ao fundo. Vonks Taunay de 1831 e 1835. 

o ENTOADOR DE CÂNTICOS 

Primeiras ideas do quadro, que tem o mesmo titulo, acima 
descripto. Vçntç Taunay, 1831. 

3CENA ITALIANA 
Tela; altura o",Í4 ; comprímcnlo o^.Oo 

Um grupo de raparigas camponezas volta da lavoura ; á di- 
reita numa ponte conversara uma mulher montada numa mula 
er um mendigo, à esquerda um camponez guarda um rebanho 
á sombra. Vaccas estão a beber numa poça. Assignado à directa 
e em baixo. Leilão da collecção Wattel Bayart, Roubaix, 17 de 
Dezembro de igo6. 

A RAJADA 
Tcli: nliura o™,3i ; íomprimcnio tf°,íO 

Numa estrada, nas vizinhanças da porta de uma cidade da 
Itália, cujos edi£ctos occupam todo o fiindo do quadro, está uma 
ponte collocada ao pc de uma grande arvore e illuminada pela luz 
que atravessa espessaã moitas. Mulheres allí viim buscar agua, 
uma delias já encheu dous vasos o vai voltar. Perto um via- 
jante e uma aldeã, otoatada a cavallo, dirigem-se para a cidade. 
No segundo plano vã-se um grande rebanho. As nuvens, o movH 
mento das arvores, as roupas agitadas dos personagens mostram 
que ha vento. Ken/e Taunay, 1831. 

os MENDIGOS ROMANOS 

Quadro que tígurou no leiL^to de 19 de Novembro de 1875 no 
Hotel Droupt. 



D,gt,zedbyGOO<^le 



DOCnHENTOS SOBRE \ VIDA E A OBRA DE NICOLAU A. TAUNAT 6? 



LAVADEIRAS ITALIANAS 
Tela: «llura o" .33 ; comprimento 0"J5 

Perto de grandes arvores e moitas espessas diversas mulheres, 
vestidas com os trajes das camponias italianas, lavam roupa nas 
aguas de um riacho encoberto por íblbagens ; uma delias chega 
carregando um fardo na cabeça. Outra mulher sustenta uma 
criança, que está montada na anca de uma vacca. Outra vacca e um 
cão negro completam o grupo. 

LAVADEIRAS A BEIRA d'aGUA 

Tela ; allura o'",^ ; comprtaeolo 0"^ 

No fundo v<^cm-se edificios, cujo eslylo revela a architcctura 
italiana. Leilão da collecção Jules Burat a sS de Abril de iSGg. 

CAMPONEZAS ITALIANAS A LAVAR ROUPA NUM AÇUDE 

Tela: altura tf^^Si; comprinesto <p,4d 
Vtott-se Tarias lavadetras occapadas a lavar ronpa & margem 
de um pequeno açude. Na vizinhança pastam muitos anlmaes. 
Vettle Taunay de 1831; 

UOÇAS ROUANAS A FONTE 

Em tõnio de uma fonte, em logar umbroso, algumas jovens 
romanu brincam. No fundo os edificios de uma cidade antiga. 
Collecção do calligrafriío Bertrand, vendida no HoCel Drouot a 16 
de Novembro de 1855. 

MULHERES ROMANAS A MARGEM DE UM RIO 

Quadro da collecção do calligrapho académico Bertrand, ven- 
dido era leilão do Hotel Drouot a 16 de Novembro de 1855. 

A VOLTA DO MERCADO 
Tela r altura d",64 : comprimento o^.S: 
Ap. Quatremère de Quincy : Elogio fúnebre ih Tatinay. 
Qoitro mulheres moças, trajadas á itaUana, voltam do mercado, a 

I Google 



68 REVISTA DO INSTITUTO mSTORlCO 

conversar. Três carregam diversos objectos, a quarta apenas uma 
bolsa e parece motejar das companheiras. Mais longe uma mulher 
montada num burro atravessa uma ponte a conversar com um 
camponío ; do lado opposto vaccas guiadas por um pastor atra- 
vessando um valle. Planície fértil e de aspecto ameno. Vente 
Taunay. 1831. 

A VOLTA DO MERCADO 

Tela : allura 0^,14 ; comprimento o'°,3i 

O mesmo assumpto do ante-penukimo quadro com uma ligeira 
modifica^ na paizagem: a ausência de um grupo de arvores. 

VINDIHADORES ITALIANOS DESCANÇANDO 

Tela ; altura o",}i : comprimento <y",4'> 

Quadro que figurou na Venle Taunay em 1835 e representa 
uma scena de outomno. 

A VINDIMA 

Vindimadores trabalham enquanto outros descansam. Scena 
crepuscular. Quadro que figurou na vente Taunay de 1831. 

o EXTERIOR DE UMA HERDADE NA ITÁLIA 
Madeira: altura o'°.ia; comprimento 0^,49 
Num grande pateo vS-se um rebanho de vaccas, cabras e car- 
neiros, guiado por uma mocinha acavallo que se dirige em compa- 
nhia de dous camponezes cm direcção a um poço circundado por 
grande carvalho, perto do qual um burro se espoja. Por traz doa 
muros do pateo avistam-se os monumentos e a porta de uma cidade. 
Lulão da collecçâo Vigneron, a 3 de Março de 1838. 
A saÍda dos rebanhos 

Madeira; altura o'",»; comprimento o", 30 

Num logar montanhoso, onde se notam edíGcios de arcbitcctura 
italiana, uma mulher montada num burro e um pastor envolto no 
seu manto tangem um rebanho de vaccas e carneiros. A' esquerda, 
no segundo plano, uma vereda onde caminha uma rapariga carre- 
gando uma cesta. O sol surgindo no horizonte íllumina o campo ; 



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DOCDMENTOS SOBRE A. V1D\ E A OBRA DG NICOLAU A. TAUNAT 69. 

as arvores e as casas projectam sombras á esquerda. Leilão da col- 
lecção Jules Burat a 38 de Abril de 18Õ9. Foi este quadro então 
vendido por 3.100 francos. 

A VOLTA DOS REBANHOS 
Tela: allura ly^j ; comprimento o'°,4a 

A porteira da herdade está escancarada ; os pastores entram 
tocando seu& rebanhos ; no primeiro plano um burro espoja-se no 
solo, levantando poeira e perto de um cáo qae late ; á direita uma 
grande arvore e um poço, onde um creado tira agua. Quadro de 
tom alourado e ílluminado pela luz do Poente. Pertenceu â collecção 
Jules Burat e foi vendido a 28 de Abril de 1889, por 3.100 francos. 

CAMPONIOS DOS ARREDORES DE GÉNOVA TIRANDO AGUA 
NUMA FONTE 

Tela: allurao".3); comprimento o",4o 

Mulheres rodeando uma fonte situada a pouca distancia da 
estrada. Ap. Le Trésor de la curiosité, dfi Ch. Blanc. 



ilcona* felrae* o aldeB« 

DANSA DE CAMP0NEZE8 

Tela: o",5SSXo".«5 (Oval) 
Quadro pertencente â collecção imperial da Ermitage em SSo 
Petersburgo. No fundo ruinas, um rio atravessado por uma ponte 
em arcada, â direita ; um bosque de grandes arvores ã esquerda ; 
00 ultimo plano uma montanha nevada. No primeiro plano dis- 
tingue-se um individuo debruçado sobre um banco, tendo ao lado 
am musico que, de pé sobre um barril, toca para que dous campo- 
nezes e três camponezas dansem em roda. Á esquerda, no se- 
gondo plano, uma carroça puxada por dous bois. No primeiro, 
k direita conversam dous namorados sentados no chSo. Adqui- 
rido, em 1903, por 500 rublos (2.000 francos) pela direcção dos 
Museus Imperiaes Russos ao sr. A. Bouniascowsky. Assignado. 



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HETI9TA DO INSTITUTO OBTOIUCO 



Mndeirs: lUura iy",i85: comprimento 0^,17 

Uma praça pública, em que á direita e ã esquerda se vêem 
lojas, n^ociaates e compradores ; casas diversas e algumas arvores 
no fiindo do quadro. No primeiro plano uma multidão versicolor 
cheia de alaria. Leilão da colle^ F. Bohler a 23 de Fevereiro 
de 1906. 

FESTA n' ALDEIA 

Madeira; altura o^.i^j; comprimento o",Sí 

Quadro da collecçfio Decourcelle, vendido em leilão a 39 dâ 
Maio de 191 1 por 6.500 francos. 

DANSARINOS IU8PANHÓE8 

Tola; altura ff°,3i ; comprimento o",<> 

Um homem está a locar castanliolas e uma mulher rufa um 
pandeiro ; dansam rodeados de numerosa assembléa. No Tundo do 
quadro as muralhas elevadas de um mosteiro. Leilão da galeria 
Tancé em Lille a ia de Dezembro de 1881. 

nAILG CAMPESTRE 
Tela: Bliura o"ji ; comprimento o™, 40 

Cerca de trinta camponios italianos bailam ao som da musica 
de uma orchestra rústica. No fundo do quadro um mosteiro. 
Leilão da coUecçâo Qasquet a 9 de Março de 1888. 

FESTA DE ALDEIA 
Madeira : altura o'',ii; comprimento a™,ii 

CampODCzes estão a divertir-se ; uns jogando bolas e outros 
cartas deaute de uma grande columoata, atravez da qual se v£ a 
praça de uma cidade da Itália. Quadro pertencente ao mueeu Fabre 
de MootpeDsier, a que foi legado pelo ar. Valedeau. 



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DOCUMENTOS SOBRE A VIDA E A OBRA DE NlCOLAt A. TAtTNAT ?! 
A ROSlfcRE 

Festa aideS. Grupo de dansarinas e de bebedores occupam os 
primeiros planos ; no fundo do quadro montanhas cobertas de ar- 
vores. Quadro exposto em 1787, sob o numero ^10 do catalogo, e 
pertencente então ao marechal de Noailles. 

pRocissAo 
Qoadro exposto no salon de 1812 aob o numero 883. 

INTERIOR DE TABERNA 



Quadro, a que se refere o artigo de W. Burger, na Gazelle des 
Beaux Aris, eôbre uma eiposiçâo de quadros da Escbola Franceza 
no B.dos Italianos, (tomo VIII, pag. 360, anno de i86o}i artigo que 
é accompanhado por uma reproducção da tela, desenhada por Ed- 
mond Hédouin e gravada por SotaiUi Trez camponios prcparam-se 
para jogar cartas. Á esquerda, no fuudoí uma chaminé, deante da 
qual conTeraam trez outros peraonagena. 

BODAS DE ALDEIA 

Ap, a celebre estampa de Carlos Melchior Descourtis (1753- 
lôao) pertencente á serie da Rixa, do Tamboriletro e da Feira de 
Aldeia, reproduzida numa grande quantidade de edições. Os 
noivos dansam uma í^arabanda em frente a um grande circulo de ' 
convidados, muitos dos quaes se acham sob uma tenda, seatadosa 
uma mesa. Um tambor e um tocadot- de cornamusa formam a 
musica do bailado. No primeiro plano uma mulher sentada com uma 
criança ao collo e dous meninos que brigam por causa de um do. 

AS LIGAS DA NOIVA 

Quadro ekposto no salon de 1808 sobo numero 571, e na opi- 
nião do critico do Journal de VEmpire legitimo primor. Repre- 
aenta um basquete de casamento ao ar livre sob um pannosostido 
por galhos de arvores. Os noivos dao o agnal da retirada ; nesse 



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73 BEVI8T4 DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Ínterim um dos convidados atira-se às pernas da noira para lhe 
desatar as ligas no meio de grandes gargalhadas e de palmas da 
assistência. O noivo carrancudo puxa pelo braço da mullier, en- 
quanto o cura finge assoar-se para não ver a scena. No ultimo 
plano uma mulher sentada com uma criança ao collo, um rapaz 
deitado no chão, outro sentado em feixes de capim e applaudindo. 
Ap. Journal de FEmpire; salon de 1808. 

A NOIVA DA ALDEIA 
Madeira: altura (V",ii ; comprimento 0^,17 

Enquanto numerosos aldeões dansam sob uma tenda armada 
em frente a uma casa rústica, vé-se no primeiro plano o noivo, que 
traz uma rosa na mão, deixar o baiie, accompanhando-o a noiva. Um 
camponío a tocar rabeca e outro a tocar flauta fazem dansar a assis- 
tência. Leilão de aa de Fevereiro de 1872 no Hotel Drouot. 

NOIVOS DE ALDEIA 

Quadro oatr'orapertencenteá galeria imperial de São Chri»- 
tovam, segundo Dussieux : Les arlistes français à rétranger. 

PRESENTES DE NÚPCIAS 

Quadro exposto no salon de 1806. Os convivas de uma boda, 
depois de terem feito os seus presentes aos noivos, recon- 
duzem-nos para a casa ao som de uma guitarra, de um tambor e 
de um pifano, carregando objectos &miliares. 

nODAS NO CAMPO 

Um rapazito furta a liga da noiva ; o cura presente á festa 
finge não v£r a ac^o maliciosa do rapaz, assoaudo-se. Ap. Charles 
Blanc : Bio^aphia de Taunay. 

o DIA SEGUINTE AO DE UMAS BODAS DE ALDEIA 

Quadro exposto no salon de 1814 sob o numero 869, Os con- 
vidados accompanham os recem-casados ã nova casa, carregando 
os presentes. 



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DOOIUENTOS SOBRE A VIDA E A ODRA DE ttlCOLAtJ A. TADHAY 75 
FEIRA DB ALDEIA 

Ap. a celebre estampa de Descourlis da serie da J!i:>a, do Tam- 
borileiro e da Boda de Aldeia. No primeiro plano, ã direita, mo- 
desto estrado ao lado de uma barraca e de dou3 troncos de arrores. 
Nelle estão um palhaço e um pierrol a embasbacar uma roda de al- 
deões, homens e mulheres, na qual se acha também uma mulher 
vestida elegantemente, decotada e penteada com apuro, attrahida 
ao local pela curiosidade, ou talvez comparsa dos saltimbancos, 
pois parece s^urar pela mão um menino vestido de palhaço. 

Em frente ao estrado, e de costas, vâ-se um tamborzmho a 
rufar o aeu instrumento. A' direita e no fundo barracas de feira ro- 
deadas de gente. Passam uma velha levando um menino e dous 
frades que olham curiosamente para os palhaços. No primeiro 
plano dous cães rosnam um para o outro. 

UMA FEIRA 

Tcln: altura o",S4 ; comprimento o°>,67 
Quadro exposto conjunctamente com outro, sob o numero 
188, no salon de 1789. 

UMA FEIRA 

Quadro exposto, sob o numero 885, no salon de i8i3. 

o ARRANCADOR DE DENTES 
Madeira: altura o^,S! ; comprimento o",i7 

Ap. Charles Blanc : Bic^raphía de Taunay na sua Vida dos 
pintores de todas as escholas. 

Um arraucador de deistes ambulante está sobre um palco 
em frente a uma multidão, teado ao lado o ajudante vestido como 
Scapin. 

Este quadro e o aeu pendanl : Bailarinos num palco foram 
vendidos em 1813 no salon de Charies Godefroy por 760 francos 
e em 1834, na dispersão da collecção do Êimoso banqueiro Jacques 
Laffitte, cada qual por a.500 francos. 



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74 HBTBTA BO IKÍirTOTO miTOnK» 

chablatXo arrancando um dente 

Quadro expoeto, sob o numero 451, no salon de 1804. O pa- 
ciente faz horríveis caretas de dór. (V. Journal des Dobais, salon 
de 1804.) 

o TIIEATRO DE LA FOLIE 

Tela : allura o'" ,64 ; comprimento o^.Si 

Numa praça publica e à sombra de uma grande arrcH^ 
aúha-ee nm ttieatro improvisado, deante do qual La Folie, montado 
num estrado, encara os espectadores e, sorriodo, eBcrcve a vida dos 
homens illustres dictada por Arlequino. O eccptro do jogral col- 
locado Bòbre o globo terrestre indica que a tolice preside a todas as » 
acções humanas ■. Num dos lados do theatro lè-ee : « Halogar para 
todos n. Na 3ssislenci'a vé-se gente velha e moça, pobre e rica, de 
todas as classes e tempo. Quadro philosophico, que figurou na venle 
Tannay de 1831. 

o TIIEATRO DE LA FOLIE 
TeU : aliurn <i"',3i : comprimento o",!|i 

Quadro pertenceote ã Pínacotheca Nacional do Rio de Ja- 
neiro ; é a reproducção do precedente. 

BAILARINOS NUM PALCO 
Madeira ; nllura tV",37 ; comprimento o'",3y 

Arlequino atira o seu piston sobre uma velha ; um actor ves- 
tido de jogral tem debaiso do braço um volume da Vida dos 
Homens fílustres, de Plutarclio. Este quadro foi Vendido em 1813, 
no leilão de Charles Godefroy, pela somma de 760 fraticos, conjun- 
ctamente com o seu penianl — O arrattcador de deHIei. Em 1834, 
quando se deu a dispersão da collecçáo do famoBO banqueiro 
Jacques Lafflte, attinglram ambos o preço de a.500 ítaíieoB. 

03 CÓMICOS AMBULANTES 

Quadro da coliccçâo H. F. Broadwood, dispersa num leilão em 
Londres a 37 de Março de 1899 e vendido nessa occasiâo por 
£310 (5.250 francos). 



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DOCDSGHTOS SOBRE A TIDA B K OORA DE NICOLAU A. TADNAT 75 

LA FOLtB ESCREVENDO O QUE ARLEQUINO LHE DICTA 

Tcli : altura o*", 31 : comprimento 0^,40 

Quadro que figurou na vi;n/«Taunay em 1835. Espectáculo de 
pantomimeiros num dia de feira. 

o MERCADO ■ 
Tela; aliurao^iSp; comprlmenio o",?^ 
A' entrada de uma cidade numerosos indivíduos estão re- 
unidos ; á direita saltimbancos íazem momices ; à esquerda vé-se 
uma ponte sobre um rio. Leilão no Hotel Drouot de 14 de De- 
zembro de 1908, collecção do sr. J. L. ; vendeu-se este quadro 
por 1.700 francos; perito Feral, v 

MERCADORES AMOUIANTES 

Dous mascates, homem e mulher, carregados de embrulhos, 
fizeram parar uma cavalleira, que se extasia ante a belleza das fa- 
zendas que o mercador lhe apresenta. No fundo do quadro mon- 
tanhas e construcções diversas, uma nrvore. A' esquerda, no 
primeiro plano, um c3o. Paizagem árida em que só se vè uma 
arvore. Gravada por Ponce. 

TROPEIROS NEGOCIANDO UM CAVALLO 

Madeira; altura o™, ao ; comprimento o",jB 

Quadro pertencente á exma. sra. da. Adelaide C Tauflay 

Dória. Em tomo de um bello animal normando sete individuos 

discutem-lhe as qualidades e defeitos. No segundo ptano trez 

outros personagens. 

o POÇO 

Ap. uma lilhographia de Engelmann. Em torno de um poço 
juncto a uma arcada véem-se duas mulheres de pé, uma das quaes 
carr^a uma bilha enquanto a outra tem na cabeça um fardo. 

A' direita, outra mulher montada a cavallo, installada numa 
cangalha, a quem accompanha um individuo envolto em grande 
manto, dirige-lbes a palavra. 



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76 REVISTA DO meriTOTO histórico 

Sob a arcada passam um boi e cinco carneiros guiados por 
um caralleiro. 

o POÇO 

Uma mulher e um homem tiram agua de um reservatório. 
Leilão do Hotel Drouot a 9 de Maio de 1874. 

A PARTIDA PARA A CIDADE 

Madeira : allura o'",io: compriminilo 0^,14 

Miniatura pertencente á galeria Laloye de Dijon, vendida em 
leilão a 4 de Abril de 187a. 

os au)eCes 

Quadro exposto fora do catalogo pouco antes de se fechar o 
salonde 1801. V. Examen des ouvrages du salon de tSor, collecçâo 
Deloynes 26. 

LEITURA NUHA FAHIUA DB ALDeSeS 

Quadro exposto sob o numero 591 no salon de 1793 

NOTICIAS DA GUERRA 

Tela: altura o°<,ii ; comprlmciito 0^,34 

Em frente a um chalet de madeira coberto por uma vinha que 
invade todo o tecto, camponezes, sob alegres raios de sol, rodeiam 
um velho sentado numa pedra a ler^lhes um jornal. A' direita, 
uma moça salta de um escabello para um burro ; no fiindo trez 
rapazes armados de varapaus. 

Quadro vendido por i.ioo francos no leilão da collecçâo 
Rothan em maio de 1890. 

8cena« onmpestrc* o paatnrl« 

PASTORES A TOCAR FLAUTA ENQUANTO APASCENTAM OS RKBAíHIOS 

Tela : altura 0^,55 ; comprimemo o",3a 

Quadro exposto no salon de iÕiosobonumero765. A' sombra 
de grandes arvores um grupo de pastores ouve o concerto de dous 



DigtizedbyGOOgle 



DOCOMENTOS SOBRE A VIDA E A OBRA DE NICOLAU A. TAUNAY 77 

zagaes Sautistas. Bello cfFéíto de luz solar coando atravez da fo- 
lhagem copada. Numerosos bois e carneiros espalham-se pelo 
quadro, que figurou no leilão da galeria do perito Robert Leièvre 
em "2 de Março de 1831. 

PASTORES DISPUTANDO, NUM TORNEIO DE FLAUTA, A HONRA. DS 
SEREM COROADOS POR UMA PASTORA 

Quadro exposto sob o numero 447 no salon de 1804. 

Segundo um artigo do Journal des Pelites AJjiches de Ducray 
Dumesnil sobre o sahn de 1804 tracta-se de uma grande tela, 
■ cujas figuras estão distribuidas com perfeita elegância em altitude 
muito interessante ». 

o TORNEIO DE FLAUTA 

Num sitio pittoresco dous pastores estão a tocar flauta perante 
numerosa assembléa. Este quadro foi vendido no Hotel Drouot a 
18 de Novembro de 1893 pelo perito Feral. 

o TORNEIO DE FLAUTA 

Numa bella paizagem, numerosos bois e carneiros descansam. 
& sombra de grandes arvores ou pastam. No primeiro plano di- 
versos pastores estão a tocar flauta. Leilão em Paríz, de 17 de 
Dezembro de 1893, por Feral. 

UM PA3T0R PENSA AS FERIDAS DE SEU CÃO QUE ACABA DE DERRIBAR 
UM LOBO 

Tela: «ltutao™,7J; comprimenio (i",ôi 

Um pastor pensa as feridas de seu cáo — que após terrível 
combate acaba de matar um lobo — e para isso poz em tiras a ca- 
misa. O fundo do quadro é uma paizagem, em que se vém alguns 
carneiros. Este quadro figurou nas venles Taunay e Rondei, 
Diz o caulogo desta que foi o ultimo quadro, em que trabalhou o 
artista, deixandcK) por acabar. 



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78 KBriSTA DO imrnvTO histórico 

o PASTOR DESC0\80LAtX) 

£^bàça attribuido a Taunay. Leil&o de 8 de Fevereiro de 1908 
por Sortaia. 

o LOBO HtDROPIIOBO 

Tela; «Iturao^.sj; comprimento o",ig 

No momento em que um homem e uma mulher saem de casa 
são assaltados por um lobo hydrophobo, que os derriba e os vicli- 
maria, si não fosse o soccorro ministrado por um homem corajoso, 
que com um forcado repelle o animal e sobre si attrahe o furor 
do animal. Um creado armado de pau corre em defesa do homem, 
enquanto um menino se esconde atraz do batente da porta, es* 
pavorido. 

PASTORA OFFEREC^DO AS PRIMÍCIAS DO LEITE, QUE ACADA DE 
TIRAR, AO SANCTO ERMITÍO DO ROCUEDO 

Quadro exposto no sahn de 1821, sob numero 1.343. 

A PASTORA DOS ALPES 

Quadro cxpoato no salon de 1824, sob o numero 1.607. 

SCENA PASTORIL 

Quadro exposto no salon de 1814, sob numero 1875, 

A COLHEITA 

Num valle pittoresco, ri^do por um rio, vários campo* 
Dtos segam os trigos, enquanto outros descansam á sombra. 
Lei^o no hotel [>rouot a t6 de Março de 1879. 

A COLHEITA DE NOZES 

Quadro vendido em Pariz, num leilSo, a 27 de Fevereiro de 
1867, dirigido pelo perito Dhias. 



D,gt,zedbyGOO<^le 



DOCUUCHTOS SOBRE A VIDA B A OBRA OB NICOLA0 A. TAUKAT 7Q 
O LENHADOR 

Quadro exposto fora do catalogo, no salon de i8oa ; rçpre- 
aeota um lenhador a cortar grosso ramo de arvore. 

Ap. um anonymo Reytie du salon de fan X; collecção 
Deloyncs, tomo XXVIII. 

ADERTORA DE UUA ESTRADA NO CA3(PO 
Tela: allura (■.'"ji ; comprlmonio c>,'°is 

Quadro exposto em 1782, no Salon de la Correspondance 
e então adquirido pelo conde de Cossé. Um operário transporta 
terra num carrinho de mão, ao lado de um carroceiro que enche 
com aterro a sua carroça, e de uma mulher agachada. Diversos 
cavouqueiros trabalham de picareta. Num canto võ-ae um individuo 
de calças caídas, a fazer as suas necessidades num regato. 

Ap. o catalogo do leilão da collecção dos Goncourt. 

UMA ESTRAUA ATRAVBZ DE CAMPOS 

Uma estrada corta uma campina, onde se vém arvores, moutas 
que abrigam [»storee e muitos animaes. Este quadro pertenceu á 
collecção de Arsène Houssayc vendida em Iei&> em Paiiz a 37 de 
Novembro de 1907. 

ANtMAES CAMINHANDO 

Um rebanho airavessa aguas tranquillas ; uma mulher o guia, 
levando um filho pela mão ; no segundo plano distinguem-se al- 
gumas casas, e nos últimos planos montanhas e um lago. Quadro 
exposto sob numero sii no salon de 1787. 

ANtUAES CAMINHANDO 

Tela; aliura iV",i6: íomprimeolo o™,»4 

Paizageni que lemlva as do Languedoc. Um pastor accompa- 
ahado de duas camponias, uma montada num burro c outra num 
cavallo branco, conduz numeroso rebanho. Â eequerda, no se- 



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8o REVISTA DO INSTITUTO IIISTORICO 

gundo plano, um pastor guia caroetros. Altas montanhas, em cujo 
sopé corre um rio. Grandes arvores, bosques. Vente Taunay, 
1831. 

ANIHAES CAMINHANDO 

Telai altura o", içicomprlmento o",m 

Grande rebanho guiado por pastores e suas mulheres. No 
fundo um comboio militar. No primeiro plano destaca-se um 
pastor sentado perto de seus carneiros a tirar um espinho do pé. 
Vente Taunay, 1831. 

REBANliO CAMINHANDO 

Quadro que figurou na venle da duqueza de Ragusa em 1857. 
Paizagem montanhosa, onde se tô uma fábrica e diversos anímaes 
caminhando. 

VOLTA DO REBANHO AO APRISCO 

Quadro exposto no salon de 1814 sob o numero 873. 



Quadro exposto sob o numero 874 no sa/ort de 1811, repre- 
sentando um rebanho a caminhar, 

VOLTA k HERDADE 

Quadro pertencente à coUec^o da duqueza de Ragusa dis- 
persa em 1857. Ap. Lejeune : Guide de ramaleur de tableaux. 

Um homem montado num cavallo branco precede uma car- 
reta puxada por dous cavallos e seguida por um rebanho de car- 
neiros e vaccas. 

PASTOR A COLHER CEREJAS 

Um joven pastor está a colher cerejas de uma arvore à beira 
da estrada. Algumas vaccas estão em torno dellc a pastar ou dei- 
tadas. Collecçâo Ch. de Beiz, dispersa em leilão de 8 de Março de 
' 1878 em Pariz. 



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DOCUMENTOS SOBRE A VIDA E k OBHA DE NICOLAU A. TAUNAT 8i 

PASTORES E ANIMAES 
MaJdra -. aUura <y",ii ; comprimcnlo a",:^ 

No primeiro plano um pastor. Uma vacca deitada, outra de 
pé c um carDciro. Em plano mats atastado um pastor, uma pas- 
tora c vários autmacs. Quadro pertencente ã collecção Saint, 
vendida a 4 de Maio de 1846 cm Paríz. 

Pertenceu á collecção Etienne Arago, cujo leilão se realizou 
a 8 de Fevereiro de 1872. 

PASTQRGS E ANIMAES DESCALÇANDO 

Quadrinhos formando um par que figurava no leilão Martin, 
4 de Abril de 1893. 

PASTORES DESCANÇANDO 

-MaJcira ; comprinicntci o™ ,63 

Quadro pertencente ao Museu Fabrc de MontpcDlicr, a que 
foi l^ddo pelo coticccionador Valedeau. Trcz pastores c duas mu- 
lheres com 08 seus filhos e rodeados de rebanhos conversam sobre 
uma eminência. 

PASTOR E BOI 

Madeira : allun cy.to; cumprimcuiú &",n 
Miniatura vendida no leilão da collecção Laloye de Dijon a 4 
de Abril de 1872. 

PASTORES E ANIMAES 
Tela : altura o*", 50 ; Comprimeiíto <V",4J 

Num terreno muito accídentado alguns pastores tangem 
dcaote de si um grande rebanho de carneiros e vaccas. Leilão no 
Hotel Drouot em Paris, a 22 de Fevereiro de 1873. 

PASTOR E REDANHO 

Madeira : allura iy",io ; comprimento o'",!^ 

Ldião da galeria Laloye em Dijon a 4 de Abril de 1872. 



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RBVHTA DO INStlTDTO UBTOMCO 



Ap. uma litbo^raphia de EDgelmann. Dous pastores, dos quaes 
um a cavallo, guiam cm aguas pouco profundas um boi e treze car- 
neiros, vigiados por um cão. Ambos cstao de costas. 

A' esquerda ruínas de uma torre. A' direita, uma margem 
baisa onde se acham uma arvore e gramíneas. 



Ap. uma cstamjia do Muséc de Landon, tomo IV, estampa 55. 
Um rebanho dn bois c carneiros, guiado por um pastor, passa 
um rio a vau. Gravado por Chancourtís. 

A PASSAGEM UO VAU 
Tela: altura i>'",65 ; i;omprlincnli) o" ,57 

Assignado c datado 1H25. Quadro pertencente á collecção 
J. L. dispersa no Hotel Drouot a 14 de Dezembro de 1908. 

CAVALLOS A UtUER NUM VAU 
Tda: altura V.ii; cumprlnicnlo 0^,411 

Num ribeirão, onde se acha um banhista, estSo a beber, dentro 
d'agua, alguns cavallos conduzidos por tractadorcs; um dos ani- 
macs, no primeiro plano, mostra-se rebelde ao seu guia. A' direita 
vd-sc ptltorcsca aldeia. Este quadro figurou nas venlcs Taunay em 
183 1 c 1835. 

o TOURO FURIOSO 

Quadro que IJgurou na vcnlc Fouquct cm 1804. 

o CAVALLO DISPARADO 

Qaudro exposto no salon do anco de"i8o2 sob o numero 374. 

COCHEIRO ARREANDO CAVALLOS 

Madeira: alliira ir",io ; Comprlinenlo lyn.i^ 

Quadro da coltcc^^o Laioye de Dijon, vendida cm leilão a 4 
de Abril de 187a. 



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DOCUMENTOS SOBRE A VIDA E & OURA DE NICOLAU A. TAUdAT 
XIII 
Ijundi-os auucdulioi» liiaiiilmilua |>ulua 



O TAHfiORlLElRO 

PjpKlau; altura o",i5 : cumprimunlo O" ,17 

Ap. a ramosa estampa da DescourtU, da serie da Ittxa, da 
Bali de Aldeia e da Feira 4e AlJeia. Numa alameda de parque 
a06 pés de uma estatua, que representa um personagem mytholo- 
gioo, sentado e tendo entre as pernas uma aguía, dous ciganos 
lázem trabalhar antmaes amestrados. Um delles toca tambor e uma 
pequena trombeta, enquanto o outro faz dansar dous cães vestidos. 

A' direita uma uumerosa assembléa de damas e lidalgos conversa, 
accompanhando com os" olhos os exercidos. Num dos cães está 

montado um pequeno macaco. 

Assignado á direita. Este quadro figurou no leilão do Hotel 

Drouot de 34 do Abril de 1907, venlc da sra. X .'. . c pertenceu á 

collecção da imperatriz Eugenia, dispersa em Mar^o de iSUi. 

o TROVADOR 

Numa villa, em frente a um repuxo, à sombra de grandes 
arvores, numerosa assembléa ouve os cautos de um trovador, que 
SC accompanha num bandolim. Esboço a óleo, que ligurou ua vente 
Rondei, i86g. 

ESPECTACUI/l AO AR LIVRK 

Madeira; sllura 'í",ji : cuiuprimcnW o'i'.4» 

Um clarim e um palhaço representam uma scena cómica num 
parque, rodeados de muita gente, com homens, crianças c mulheres 
elegantemente vestidas. 

Leilão no Hotel Drouot a aa de Fevereiro de 1U73. 

SCGNA QE CARNAVAL 
Veníe Richard W... « E^ta Scena de earnaval filia-sc ao pri- 
meiro estylo de Taunay, que se approxima de Grcuze e é o melhor. 



D z.cbyCOOgle 



tJ4 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

A sccna c mais fácil de pintar do que descrever : um pierrot 
endiabrado, teodo tido a carnavalesca idóa de caralgar uma torneira 
da fonte, faz rir velhos e moçose escandaliza as senhorius [)oriae 
c Toinette, que cobrem o rosto com as mãos — que horror I — dei- 
xando contudo coar o olhar pelos dedos ■. Artigo de Charles Blanc 
W3 Coiiricr áe Paris. Este quadro foi vendido catão (1857) p» 
3.300 frs. e ]à 6gurara do leilão de LafBtte em i8.';4. 

SCENA DE CARNAVAL 

Um palhaço montado numa columna de chafariz procura 
molhar com o e^uicho um bando araavalcsco ; fogem da agua 
alguns camponios, que estão admirando os masaradoe ( Journal 
des Débats, saloit de 1804 ). 



Tda: altura o",ji ; comprimento o^.ij 

Ap.a celebre estampa de Carlos Melchior Descourtís da serie 
do Tamborileiro, da Boda de Aldeia c da Fdra de Aldeia. No 
fundo uma torre, em ruínas, ao lado da qual se vâ uma casa e uma 
arcada. No primeiro plano, á esquerda, uma mesa em tomo da qual 
estão sentados, a beber e a jogar, diversos homens. Dous militares 
de espadas desembainhadas preparam-se para o duello. Um delles 
■ sustem nos braços uma mulher desmaiada e está contida por dons 
dos companheiros de orgia, ao passo que ao contendordetem outra 
pessoa. A' mesa dous j<^adore9 proscguem as paradas, indiffèrentca 
3 tudo. Sob a arcada trez pessoas. 

Esteve exposto este quadro em 1888, por occasião da Expo* 
sição Universal de Paríz, no Museu das Artes da OníamentaçSo e 
foi vendido em 1898 por 7.300 frs. no leilão da collec^o Decloux. 

UMA, RIXA 

Madcir»: nllura o",i8;eompriincnioo™,:j 

Leilão no Hotel Drouot a 1 de Junho de 1901, Arrastados pela 
cholera dous homens, armados de adagas, não se batem devido á 
intervenção de mulheres e crianças que se interpdem ao duello. 
Assignado ã direita sobre o terreno. 



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D0CDHE.1T0S SOBRE A VHJA E A OBRA PE NICOLAU A. TAUXAY «3 

O RAPTO 

AUJeira: altura o'",]: ; com prime» to o^.iU 

Quadro legado ao museu de Rennes pelo sr. de Trégoin. Doua 
bandidos pretendem arrebatar violentamente uma mulher que se 
debate, no auge do desespero. Ao longe vé-se um cavaJleiro me- 
dieval encouraçado em ferro, que a galope acode, attrahido pelos 
gritos da mulher. Os dous raptores ao avista-lo desembíúnham as 
espadas. 

o RAPTO 

Tela: allura a°ff) ; cooiprimcnlo o",B8 

Quadro que pertenceu às galerias do capitão Slratfotd e de 
Gagaet. 

ATAQUE DE ItANDlDOS 
Tela: Miuraiy",f5: comprimento fi"", 53 
Quadro pertencente às collecções do museu de Quimper e que 
outr'ora fez parte da collecção Silguy. 



Um ermita, de pé sobre um montículo, prega ante uma 
multidão reunida em tomo de si ; destacam-se duas mulheres ajoe- 
lhadas e um guerreiro uo meio de muitas outras figuras. No fundo 
viiem-se arvores, os subúrbios de uma cidade e um vasto trato de 
terras. Ap. a descripçSo do catalt^ do salon de 17S7, em que o 
quadro esteve expoâto. 

A CARIDAI>E DO ERMITA 
Tela: altura o", 66: comprimento o~^ 

Um ermita, nas vizinhanças da sua gruta, dá de beber a 
ama mulher ajoelhada que traz uma criança às costas, enquanto 
um homem, que accompanha as duas, bebe sofTregamente, de pé, 
arrimado a um bastão, num púcaro. Um cachorrinho pede com 
a que lhe dém alguma cousa. A' porta da gruta está uma 



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86 REVISTA DO msTITDTO DUTOBICO 

cruz e um rosário do ermitão. No extremo plano vá-se um rebanho 
de bois, que sobe uma ladeira, guiado por um cavalleiro que se 
volta para vòr a scena. Esta tela pertencia em igii a Henri Ro- 
chefort e esta assignada k esquerda. 

VIAJANTE A DAR ESHOLA A UH ERHITA 
Teln : nltura o",js; comprimento iy°,35 

Um cavalheiro dá um óbolo ao companheiro de um ermitão 
sentado à marpem de um rio. 

No fundo um rebanho e massiçoíi de verdura. Quadro que 
figurou na vente Tauoay em 1835. 

ERMITA ARRANCANT)0 O DISCIPILO H SEDUCÇJJES DA CIDADE 

No fundo do quadro, ;i margem de um rio, os edíllcios de uma 
cidade. Sein )%rsonagens ; o ermita, o diíícipulo ; trez cortezãs 
riem-se do velho e fazem Rignaes ao moço. Um homem a tomar 
banho á margem do rio, que occupa um dos planos do quadro. 
Esta tela foi eiposta no saUm de 18114. Ap. artigo do Journal 4es 
Débils sobre a exposição. 

ERMITA PRÉOANDO 

Quadro esposto no salon de iSoA. Sôhre um montículo um 
ermita vestido de hurel e tendo longa barba cinzenta, prega a uma 
grande multidão de homens, mulheres e crianças, o vento agita-lhe 
o vestuário e deixa ver-lhe aa pernas nuas. Destacam-se na com- 
posição um velho deitado no chão, com a cabeça levantada, a olhar 
para o pregador, uma mulher acocorada de mãos postas, e outra 
mulher no primeiro plano com o rosto em terra. Nos últimos planos 
vôm-se soldados a cavallo e mulheres a levantar crianças nos braços. 
{Ap. Journal de VEmpire, salon de Tan 1806). 

Este assumpto foi tractado por Taunay em outros quadros, 
como em Peiro o Eremita pré^an-io a cruzada^ do Museu do 
Lonvre. 



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DOCDMENTOS SOBRE A VIDA. T. A OBRA RR HÍCOLAU A. TAUNAY 87 

O JARDIM DO ERMITA 
Tela, altura tf".4i ; comprlrnsnio n^iji 

Rste quadro foi vendido em leilão do Hotel Drouot a idde 
Dezemhro de 190A pelo perito Lâír Dubreiíil. 

CARTUXOS TRANSPORTANDO PARA O REU MOSTEIRO UM FRRIDO 
QUE ENCONTRARAM 

Quadro esposto sob o numero 333 no salon de 1801. No 
fundo de uma alameda umbrosa avistam-se a porta e o» altos muros 
da Cartuxa e por traz de tudo o zimbório de uma egreja. No pri- 
meiro plano do quadro, vêem-se dous religiosos carregando numa 
padiola o ferido que acabaram de encontrar. Caminham ao lado de 
um açude, num cotovello da avenida e pararam um minuto ; o mais 
moço dos monges clptica a aventura a um das padres que vâo ao 
seu encontro, enquanto o outro prodigaliza ao moribundo con- 
solos da religião. V. Journal des Débats, salon de ran IX. 

o CAPUCHINHO MISSIONÁRIO 

nia melro tf",in 

Pintura redonda. Vm capuchinho prega perante uma assem* 
biéa de camponezes. Leilão de 13 de Março de 1907 por P. Roblin. 

EPISODIO I>E CAÇADA 

Uma dama elegaiTte, montada num cavallo branco, ura fidalgo 
com chapéu e plumas c um escudeiro param para pedir informa' 
çâes a um camponio, que lhes mostra o caminho, de pá súbre um 
velho tronco nodoso. Nm últimos planos véem-sc um asno e 
alguns carneiros guiados por um camponio. (Leilão pelo fallecimento 
da duqueza de Ragusa, a cuja galeria pertencia este quadro). 

ENCONTRO NUMA CAÇADA 

Tela : aliura ■i™,!^ ; comprímonlo iy",.ii 

Uma lidaljta vestida de amarello, cuja cauda do vestido um 
pagem carrega, está perto da sua carruagem. Vêem-sc ainda caval- 
leiro^, lacaios, moateiros, cães. Quadro vendido pelo perito Féral 
a 36 de Abril de 1907. 



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REVISTA DO INSTITUTO KISTOBICO 



A AMAZONA 



Montada num cavaJlo branco vé-se uma moça de botas e es- 
poras, tendo na mão direita um chicote, cujo cabo apoia sobre a 
ilharga. Ti'az saia vermelha c corpinho verde e um chapéu de 
largas plumas brancas. Nos coldres da solla vâem-ee pistolas. Accom- 
panha-a um escudeiro n^ro. Galeria Tencé, vendida em leilão a 17 
de Sepetembro de 1860, em Lille. 

CAVALLEIRO CAÍDO NUMA TORRENTE 

Quadro que appareceu do leilão da cotlecção Jorge Téral, a 
37 de Fevereiro de 1882. 

ENCONTRO k MARtiE.M HA TORRENTE 

Matlclrn : .iliura 0^,37; comptimcnto tf.iB 

Leilão do Hotel Drouot, 24 de Abril de 1907. Collecçãode 
Mme. X . . . No primeiro plano, á direita, sobre uma nesga de ter- 
reno grammado, entre o rio e um rochedo a pique, um homem a 
cavallo, mãos e pés nús, encontra uma camponeza carregando um 
pote. Na margem opposta de um declive quasi abrupto, atravcz de 
grandes rochedos, uma torrente se precipita no rio. Na curva da 
colltna, muito vestida de vegetação, apparecc um castello, por cima 
das arvores. Assignado à direita. 

VOI-TA DO MILrrAR AO LAR PATERNO 

Ap, uma estampa de Bocquet, gravador do principio do 
século XIX. Uma casinha á beira da estrada ; ao lado umagrande 
arvore, a que está presa uma corda sustentando roupas; num plano 
do fundo seis pinheiros, grandes massas de vegetação. O joven mi- 
litar, que regressa ao lar paterno, acaba de descavalgar e cai nos 
braços do velho pae, que o beija commovido. Juncto ã parede da 
casita, está sentada uma avó octc^enaria que, não podendo le- 
vantar-se, abre os braços c chama o neto. A mãe do moço, desperta 



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DOCUMENTOS SOBRE A VIDA E A ODRA DE NICOLAU A. TAtIXAT 89 

pelo ruido, acaba de acenar à porta da habitação, caminhando 
apressadamente para fora. Os ermáos do moço tçmaram conta do 
cavallo e já dou3 deites se encarrapitaram sobre o animal. 

ANNUNCIO UE FELIZ REGRESSO 

Ap. uma gravura de Bocquet gravador do principio do século 
XIX. Sentado numa pedra em frente a uma casinha de madeira, lô 
um relho uma carta, que quatro camponios e trez camponczas 
ouvem com muita atteu^o. A certa distancia vò-sc uma mulher, 
que está a manter um burro ; mais longe trez pastores a conversar. 

A VIAGEM DO MUSICO INTERROMPIDA 

Quadro exposto no salon de iQo2 sob o numero 371. Vé-se 
uma carruagem cheia de bagagens empaada. (V. tomo XXVIII, 
collccção Deloynes, Revue du salon de l'an X. 

o EHBARQUB DB UMA FAMÍLIA 

Quadro da colle^o Briant, vendido em leilão de 27 de Março 
de 1 1171, cm Pariz. 

o CONTEMPLATIVO 

Quadro exposto sob o numero 207 no nion de 1787. Pai- 
zagem agreste e solitária ; entre duas cadeias de montanhas ncha-se 
um vallc, onde se viiem um pastor e rebanho ã margem de uma 
corrente. Montanhas limitam o horizonte ; sobre um cume elevado 
um homem de pé contempla a natureza. Pertencia a tela na épocha 
ao ar. Villers (Catalc^o do sjlon de 1787), 

UMA SALA DE BILHAR 

Quadro exposto no sxlon de 1608 sob o numero 571 e muito 
louvado pelo critico do Journal de VEmpire. Um rapaz no centro 
da sala desafia parceiros para o j(^o. Acima da porta da sala, que 
tem uma bonita decoração, vê se a figura da Victoria tendo na mSo 
uma bolsa em legar da palma ; um cachorrinho enrolado num 
manto brinca com o desaHador. 



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90 REVISTA bO INSTITUTO UISTOtUCO 

O CAFÉ DES ARTS 
Tela; «Itiira n",!; ; comprimcnlo tf",íí 

Ap. um artigo de W. Burger na GaT^elle des lieaux Aris, 
tomo VII, anno de 1860, pag. 356. Figurou este quadro na 
eKposi^o do Boulevard dos Italianos em 1860 e na de 1874 no 
Palácio do Corpo Legislativo em proveito doa Aisaciantfâ e 
Lorenos. Pertencia eniâo á cóllecçáo Burat. Vô-se nesse quadro 
David envolto num manto vermelho, Girodet a jc^r bilhar com a 
mão esquerda, Gros a ofterecer uma bola a um sujeito visto de 
costas. Em 1889 foi este quadro vendido por 4,400 francos. 

A PARTIDA DE BILHAR 
Madeira: sliurn o",i6; comprlmenlo o",« 
Quadro mencionado no Dkcinnarío dos pintores, de Theo- 
doroGuedy {Pariz, 1893) como lendo figurado na v«i/e Perregaux. 

A PARTIDA DE RILHAR 
Quadro pertencente à colleçflo L. de Saint Vincent (gabinete 
Burat) dispersa em 1853. Ap. Th. Lejeune: Guidede Vamateur 
de laHeaux. 

o CONCERTO 
Madcir»: .illurn o".i6 ; t^omprlmcnlo iffix 

Quadro da galeria do conde de Perregaux, vendido em leilão 
a 8de Dezembro de 1841. 

UM COKCKRTO 

Quadro ex|y»to no ,fj/o» de 1810 sob o numero 761. 

os JOGADORES DE CARTAS 

Quadro de pequenas dimensões, miniatura a que allude Charles 
DIanc na Ga^dl/e dcs Bcaux Aris, pag. 31Q, 1859, com enormes 
gabos. Representa jogadores numa taberna rústica, dcstacando-se 
dentre as figuras a de um conductor de diligencias, que ae mostra 
muito afflícto com a feição desfavorável do jí^o. 



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DOCirilENTOS SOBRE A VIDA E A OBRA DE NICOLAU A. TAC 
A CLINICA DO bR. HOREAU, ROR A RI!3TAURAÇÍ< 

Quadro do MuFeu Carnavalct cm Pariz, aitribuido a ' 
ainda por tennÍDar. 

o PIQUE-NIQUE 

Paizagem. Num vallc ensombrado damas e cavalheii 
parados debaixo de grandes arvores, a cuja sombra se vêci 
parativos de um repasto campestre. Quadro da collecçíío 
vendida em Parii a lae i3de Janeiro de 1843 pelo periti 

o PASSEIO NO PARQUE 

Um bando de passcnntes ssuca ante um pedestal, cuj 
tombou e quebrou-se ; uni gaiato trepando sobre elic 1 
logar da figura. No fuudo do quadro umacoiumnata co 
pturas rodeando um lago. Leilão da colIccçSo Audoin, en 
de 1893. 

09 TASSEANT^S 

Num bello parque numerosos passeantes estáo agruf 
torno de um lago. LeitSo da colIccçSo Martin a 4 de Abril 

os TURISTAS 

Leilão Jules Duelos a 30 e 3t de Novembro de 1878. 

A CASA Tt£ CAMPO 

TpIs t nliura ■'".^n ; comprlmcntn (i",ji 

A direita ura jardineiro visto de costas ; no .centro dui 
e um velho sob um alpendre, sõbrc o qual se empol 
voam diversos pombos. Leilão da collecçSo Jnles Burat 
Abril de 1R89. 

o IXCENniO DE U.MA CIDADE 

Quadro da coltecção Du Sommerard, dispersa em lei 
de Dezembro de 1843, em Pariz, 



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93 RBVI8TA DO INSTITUTO fltSTORtCO 

O AMOR E A BORBOLETA 
Ti.'la: aliura ly.ii -. coiapr intento u°<,iã 
Quadro vendido em Pariz num leilão, a 1 1 de Janeiro de 1884, 
pelos peritos Haro e Bloche. 
Assignado e datado : 1823. 

AMOR t LOOCURA 

Quadro da coUecção Chrístíe, vendido em leilão a 28 de Ja* 
neirode 191 1. 

o PASSARINHO MORTO 

Madeiro: sltura ci",)i ; comprimento it^.j; 
Uma mulher moça corre num parque, coro a mão na testa e a 
outra a fazer um gesto de dôr. Está vestida de seda branca, sem 
coUete, com a satã levantada pelo vento. Acaba de deixar o banco 
de pedra, onde se vè um passarinho morto e diríge-se para uma e3< 
tatua de Cui»do, que se destaca no meio de um roseiral. Envolto 
em ampla capa de panno pardo, um moço, ajoelhando no chão, abre 
03 braços á joveo desesperada. No fundo uma balaustrada rodeia 
um tanque ornado deesphynges e de um grupo csculptural. 
Quadro vendido por a.ioo frs. no leilão Henri LacroixaiSde 
Março de iqoi. Assígnado por extenso. 

o SOLDAIM GALANTEADO!) 

Um soldado está ajoelhado aos pós de uma moça, no primeiro 
plano, a the fazer declarações. No segundo plano vfi-se uma ra- 
pariga a aconselhar o objecto do amor do ardente militar. Miniatura 
vendida a 38 de Fevereiro de 1899, em Pariz, pelo perito Bloche. 

ODRA DE CARIDADE 

Quadro exposto no silon de 1814, sob o numero 867. 

o PROSCRIPTO 

Quadro pertencente à coIlecçSo Saint, disperíta em 1845 e de 
que fazia parte a Prégaç3o Je Pedro o Eremita. Ap. Guide Ae 



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DOCVUENTOS SOBRE A VIDA E A OBRA DE NICOLAU A. TAUKAT 93 

1'ãmaieur de kiblaiux, por Theodoro LcjcuDc. Doze pcrsoDagens 
estão a conbbular juncto a uma choupana, 

A SORPREZA 

Uut rapazola nò collocou-se em attitudc de csulua sòbrc um 
pedestal, rcsguardaado-se contudo com a clássica folha da [xirrcira. 
Este quadro figurou na venie Taunay em 1835. 

A VOLTA DA AMA 

Td* : altora if.lB; comprimciilíjii"',;? 

Uma camponesa, montada num cavallo cinzento, tem nos 
braços um mcniao nú que cila cntri^ a seus pães, de pé no limiar 
de uma casa. No primeiro plano vé-se um cão deitado, c no fundo 
do quadro um homem a descarregar um burro. Pertenceu este 
quadro á collecção Miallet dispersa no Hot«l Drouot em Junho de 
1903. 

UMA AMA ENTREGA UMA URIANÇA AOS PAES 
Tela : altura o™^ ; comprimento ty.yi 
Quadro exposto no salon de 1793 sob o numero tça, 

UM WÒ RODEADO PELOS NETOS 

Ap. o Lcxico de Nagler. 

tlM PAE A LER O JORNAL A FAMÍLIA 

Quadro exposto no sahn de 1810 sob o numero 763. 
o sacrifício do CORDEIRINHO Q1'ER1D0 

Quadro exposto no salon de 1834 sob o numero i .610, lilho- 
graphado pela sobrinha de C. Mottc, director de uma typo- 
lithí^^phia, segundo reza a estampa publicada por Giraldon 
Bonnet. A esquerda uma moça corre desesperada, com as mãos no 
rosto para 1^ vér a morte do cordeirinho querido, que um mapa- 
refb amarra a uma argola fixa num muro ; o animal lambe a mão do 
algoz, em que está o cutello. No lundo construoções diversas, um 
pastor âzendo entrar um rebanho de carneiros numa cocheira. 



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REVISTA DO INSTITUTO HtSTORKO 



Tela: altura i'",S7; comprimcniu i' 



Quadro exposto no sahndu 1803 j obteve um premio de 
animação, foi adquirido pelo Estado para o Museu Napoleão e 
depois cedido pelo Louvrc ao Museu de Argel. 

Representa uma moça, que, ao passeíar num logar solitário e 
penhascoso, encontra uma ursa a dormir ao lado dos dous cachor- 
rinhos, que acaba de dar à luz. A moça espavorida deixa cair um 
ramalhete que trazia na mão e preparasse para fugir. 



Esboço da galeria do pintor Rcdoutc, vendido etii leilão a 33 
de Julho de 1B40. 

o I' AR A VENTO 

Quadro da collecção do Abbé Dourgat, vendido em leilão a 3 
de Abril de 1900 por 7.000 francus. Perteucôra ao imperador 
Napoleão 1. 

XIV 

VIataa <lu Itália 

ARREDORBS UK NÁPOLES 

No primeiro plano jMstores e aniraaes, no segundo construc- 
çóes italianas sobre um grande rochedo, nos últimos planos uma 
montanha, cujo cume está encoberto pelas nuvens. Assignado á es- 
querda. Quadro da collecção Meynier de Saint Fal, vendido no 
leilão Cotténeta 16 de Maio de 1881. 

ARRKUORIlS de N&rOLES 

No fundo do quadro edilicioe de Nápoles. No primeiro plano 
cainponios e pastores conduzindo rebanhos. Assignado. Quadro 
pertencente á collecção Meynier de Saint Fal dispersa no leilão de 
10 de Abril de 1860 em Pariz. 



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DOCDMENTOS SOBRE A VIDA E A OBRA DE NICOLAU A. TAUNAT 95 
VI8T& DE NATOLES 

Figurou ua vente Taunay em 1B35. 

VISTA DOS ARRLbORES UE MtSSlNA 

Pequeno esboço orígiaal de um quadro maior. No primeiro 
plano, ã direita, raparigas a dansar ao som da guitarra. Este quadro, 
vendido cm leilão pelo perito Hue em 13 de Novembro de 1834, 
foi gravado. 

AKREDOREli DE MESSLNA 

Quadro da ^olIecção-Ch. de Belz dÍ8pa'sa a 34 de Março de 
1878 pelo perito Horsiu Déon. Desta tela existe uma reducção. Foi 
gravada. 

VISTA DOS ARREDORES UE GÉNOVA 

Tela; altura o'",:^ ; tomprimciiio o"',3i 

Marinheiros occupam-se cm carregar mercadorias cm chalupas. 
Na praia, entre outros grupos, destaeam-se duas mulheres a con- 
versar e um marÍDhcíro dispondo-se a carregar um fardo. Mais 
longe vê-se uma barca com o paono ferrado. No fundo tàbricas e 
altas montanhas. Vente Taunay em 1835. 

VISTA DE ITÁLIA REPRESENTANDO .MO.NTANHAS, CORTADAS DE 
VALLBS E tUOS E CObGRTAS DG tÁURlCAS E .MONUMENTOS 

Tola; allura V"^; tomprimculo &",^i 
No primeiro plano, em que ha muitas liguras, vi!em-se trez mu- 
lheres dansando. Este quadro pertencia ã collecçâo Orimod de la 
Reynière vendida em Março de 1797. Ap. Charles Ulanc, biographia 

de Tauuay. 

VISTA DE ITÁLIA 

Paizagem, cujas liguras foram pintadas por David c data da 
estada do pintor na Eschola de Roma. Vendida no leilão de 5 de 
Novembro de 183a pelo perito Hue. 



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90 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

VISTA DE UM LOQAR DA ITÁLIA 

Quadro eiposto 00 ofendo anuo de 1791,80b o numero 385. 

VISTA UE ITÁLIA 

Quadro exposto no saionde 1791, sob o numero 60. 

VISTA DE UMA PEQUENA CIDADE ITAUANA 

Sobre uma emíocncia, ao sopé da qual passa um rio cujas 
aguas, represadas por alguns rochedos formam cascatas, á esquerda 
doquadro, vtem-se os ediãcios de uma pequena cidade italiana. A 
mai^em do rio estão alguns animaes a pastar, guardados por uma 
pastora assentada num rochedo. LeiMo de 14 de Novembro de 1843 
pelo perito Simonet. 

VISTA DO LAGO DE NEMI 

Quadro exposto no Sii/on doannode 1791, sob o numero 321, 

TISTA DA PONTE CHAMADA DE JÚLIO CÉSAR XA SICÍLIA 
Tela: altura ly.ji; tzomprlniciilo o^.jo 

Num rio Tôem-se varias barcas cheias de operários c mari- 
nheiros, que estão a tirar pedras do fiindo d'agua. Perto da ponte, 
á margem, pedreiros carregam pedras para uma carroça puxada 
por vários cavaltos. Entre ellcs está um viajante montado num 
cavallo branco ; os planos do fundo mostram altos rochedos c 
montanhas. V^nteTaunay, 1831. 

VISTA DA PONTE CIIA.MADA DE JUI.IO CÉSAR, NA SICÍLIA 

Estudo para O quadro j mencionado; venle Tmtay, 1831. 

AS CASCATAS DE TIVOLI 

Quadro vendido em leilão, em Paris, a 14 de Novembro de 
1843 pelo perito Simonet. 

VISTA I>A CAMPANHA ROMANA 

Quadro que figurou na vente Taunay em 1835. 



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DOCUltENTOS SOBRE A VIDA S A OBRA DE NICOLAU A. TAUNAT 97 

FÁBRICAS DB ROMA ORNADAS DE FIGURAS 

Tela : allura <»",J5 -, comprimcnio tf^ 

Quadro exposto conjunctameiíte com outro, sebo numero i86, 
no saion de 1789. 

PAIZAGEH DA ITÁLIA 

Madeira ; altura ti'°,33 ; i:<ioipriniciito <f°,ii) 

Pastores, guiando um rebanho de vaccas e carneiros, descem 
uma coUina. No fundo dcstacam-se diversas construcçóes italianas. 
CoUecção do Barão de Beurnouville, dispersa em leilão a 9 de 
Maio de 1881. 

PAIZAQEH CA ITALU 

Madeira : altura <i/",ií ; comprimcmo cfjp 

Um pastor envolto em grande manto e uma mulher montada 
num burro descem uma colHna, sõbrc a qual se vécm edificios de 
aspecto italiano, cercados de grandes arvores, a tangerem grande 
rebanho de carneiros e vaccas. Céo nebuloso. Leilão da collecção 
Ph. Sichel a aa de Junho de 1896 ; pertencera ao barão de Beur- 
nouville. 

PAIZAGEH DA ITALU. 

Madeira: altura iV",)?; comprioiculo ij",ío 

A* margem de um rio cncachoeirado, num local montanhoso 
estão diversos camponios. 

Vendido em leilão no Hotel Drouot a 31 de Abril de 1910. 
Perito Feral. 

PAIZAQEM MONTANHOSA DA ITÁLIA 

Numa estrada, ã margem de um rio, numerosos personagens, 
rebanhos, carros animam o quadro. Leilão no Hotel Drouot pelo 
perito Bloche, collecção B... 10 a 13 de Março de 1890. 

PAIZAGEM DA ITAUA ORNADA DB KÁDRICAB E DE FIGiniAS 
Tela : allura 0^,54 ; comprimento o" .711 

Quadro exposto scb o numero 185 no salon de 1789. 

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MtVtttA ttO IKSTltDTO UBtOKlCO 



A TORRENTE 

Tela: o'-,555>í*".-MS(Oval) 

Quadro pertencente á collecção imperial do Museu da Ermi- 
agc cm S. Petersburgo. Paizagem que parece ser do Delphioado ou 
do Obcriand bemez. Uma cascata no primeiro piano transposta por 
uma ponte de madeira. iMontanhas cobertas de neve ao fundo. 
A' esquerda um tronco quasi morto de pinheiro ; á direiu uma 
mulher c um menino guiam um pequeno rebanho de bois c 
carneiros que se encaminha para a pontezinha. Mais ao fundo 
um cavalheiro parece estar chamando alguém. Foi adquirido cm 
1903 pela direcção dos Museus Imperiaes russos e pela quantia de 
500 rublos (a.ooo frs.) ao sr. A. Bouniascowscsy. Asisgnado. 

PAIZAGEM MO.VTANHOSA 

LTma cidade edificada sdbre rochedos; uma estrada c uma 
ponte que a e)ia levam ; no fundo altas montanhas, cujos cumes se 
confundem com as nuvens ; no rio vâm-ae uma barca de pescadores 
c alguns banhistas : na estrada animaes guiados por um pastor, um 
cavalheiro que dá esmola a uma crian^. Enfim à esquerda, sentado 
numa pedra e absorto pela leitura do livro que abriu sõbrc os 
joelhos, está um ermita, cuja gruta se acha aberta no rochedo da 
direita. 

Este quadro Itgurou na vcnle Rondei em 1U69. 

o CREPÚSCULO NA MONTANHA 

O sol deitasse atraz de montanhas, illuminando uma paizagem 
muito accidentada. No primeiro plano vaccas, carneiros e cavallos 
deitados ou a pastar. 

Leilão da galeria Delamarche em Dijon, a 39 de Mato de 1860. 



i,CoogIc 



OOCDUENtOS SOBRE A VIDA B A OBRA DE NICOLAU A. TAUNAY 99 
O CAMINHO RU8T1CO 

Quadro pertencente a Marmont, duque de Ragusa, c vendido 
em leilão em 1857, após o lãllecimento da dirquezu. Ap. Th.: 
Lejeune, Guia tio amador de quadros. 

o REGATO DO BOSQUE 

Sob frondosa vegeução, um regato cujo leito está cheio de 
pedfas ; á margem do ribeiro diversas personagens. Quadro da 
primeira phasc do artista, vendido pelo perito Huc num leilão em 
Pariz, a'7 de Novembro de 1833. 



Representa o quadro um ribeiro, em cujas maryena so víem 
altos rochedos coroados de [Mnheiros. Num canto está um jiastor 
aguardar trez vuccas. Leilão da collecção Alph. Giroux a 16 de 
Dezembro de 1833, cm Pariz. 



Tela : «Iciira o'",J5 ; cunipriínculo <t',ii 

O centro do quadro é occupado por um rio, que vai ter a 
aqueductos e pcrde-sc no fundo entre montanhas ; de um lado 
perto de uma estrada vécm-ae diversos grupos de liguras c animaes, 
0bricas c minas ; do lado opposto collinas cobertas de arvores. 
Leilão da galeria do barão Denon, Maio de 1836. 



Ap. Charics Blanc, biographia de Tauuay. 
A' esquerda uma ponte, sobre a qual se vò uma mulher montada a 
cavallo c tocando gado. Na montanha, ã direita, um moinho de 
vento. 

PAIZAGEM 
Míddra : allura o",* ; comprlmenlo o"', 11 

Quadro n. i68 do museu de Ais ea Frovencc. Composição 
central um bosqucle de arvores que coroa um monliculo. Num 

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100 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

caminho, á direita, trez personagens. No fundo uma cidade, um 
castello fortiiicado e casas ; as$ignado á esquerda. 

PAtZAGEM COM PIGURAS 

Toli : altura lí", ji ; coinprimeiílu o",4g 

No primeiro plano um frade sentado a ler. Mais longe um 
cavalheiro dá esmola a um pedinte, e um pastor guia um rebapho 
de vaccas. A' margem de um rio atravessado por uma ponte vcem-se 
pescadores num pequeno bote e vsrios homens que se banham. 
Além da ponte um rochedo, sobre o qual constroem um mos- 
teiro. Lólão da collecção E. Martinet a 37 de Fevereiro de 1896* 

PASTAGEM AO SOPÉ UA MONTANHA 

Quadro vendido no Hotel Drouot a 14 de Abril de 1910. 

TEMPO TEMI'ESTUOSO 

Paizagem ; efleito de chuva torrencial. Collecção do visconde 
de Malczieux dispersa em Pariz a 32 de Novembro de 1893. 

PAIZAGEM 

Quadro exposto sob o numero 684 no s^ilon do anno de 1791, 

PAIZAOE.M COH FIGURAS 
Tela ! altura a",0! -, comprimuiito o",í« 
Quadro exposto sob o numero 76 no sahn do anno de 1793. 

PAIZAGEM COM FIGURAS E ANIMAES 
Madeira: altura tfK.íO ; comprimento 0",i7 

Leilão judiciário efectuado em Pariz no Boulevard Maillot, 
n. 100, a 35 de Abril de 1887. 

PAIZAZEM E ANIMAES 

Tela : altura cf,S} ; i:oinprlmcnto o",4S 

Quadro exposto conjunctamente com outro, sob o numero 186 
noíotonde 1789. 



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DOCtniEfTOS SOBRE A VIDA E A OBRA DH NICOt-AD A. TAUNAT lOI 
PAtZAGEM COM ANIMAES E FIGURAS 

Quadro exposto conjunctamente oom outro sob o numero 1 87, 
no salon de 1 789. 

PAIZAGEM 

Quadro expoeto no sjlon de 1791, sob o numero 694. 

RUIMAS A MARGEM DA TORRENTE 

Quadro rendido em leilão do hotel Drouot, a 30 de Outubro 
de ift86, pelo perito Gaudon. 

A CASCATA 

Madeira : altura if.^i ; (U^mprimenla o™,i] 

Paizagfem com figuras, que Toi vendida no leilão de 8 de Maio 
de 1895 pelo perito Haro no Hotel Drouot. 

CASCATA E ARCO-IRtS 

Quadro que fíi^urou HAVcnlc Taunay em 1835, 



Paiza^m da collecçâo Delaunay, dispersa em leilão de 28 dé 
Janeiro de 1848, em Pariz. 

VISTA DE UMA FONTE QVF. SE ESCAPA BA BASE DE UMA COLUMKA 
CANNELLADA QUE SUPPORTA UMA ESTATUA 

Tela oval que pertencia á collecçâo da duqueza de Ragusa 
dispersa em 1847. Cm tòrno da fonte vâem-sc lavadeiras a molhar 
roupa nas aguas do bebedouro, onde animaes guiados por uma 
pastora bebem ; o Tundo é uma paiza^em vaporosa no e^tylo de 
Karel Dujardín. 

VISTA DA GRANDE CARTVXA DE GRENOBLE 

No ultimo plano a<i edifícios do grande mosteiro encostado às 
fraldas de alcantilada montanha cheia de pinheiros. No primeiro 
plano notam-se diversos operários a scrraj: madeira ; um grupo 



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103 RmeTA DO INSTITUTO HISTOUCO 

de mODges rod6a um burro ricamente ajaezado, cuja rédea um me* 
nino tem cm m^OR ; um desses monges está com uma bolsa de 
dinheiro e outro a concertar a cilha do animal. A' direita dous 
crmãos leigos carrc^m um tacho suspenso de uma vara, e uni 
religioso lú attcntameote o breviário. Este quadro está gravado e 
rcproduEÍdo no Musée des Árts, de Landon. 

VISTA IK> PALÁCIO DE VBEtSALlieS, TOMADA DO LAGO DOS SUISSOS EM 
FRENTE k OBANGEHIE 

Quadro pertencente à collecção D. de B. vendida no Hotel 
Drouot, a,iode Fevereiro de 1891. 

VISTA DE MONTMORENCY 

Ap. uma referencia da obra de Gault de Saint Germain : 
Les Irois siècles de la peinture en France. 

PAIZAriKNS COM ANIMAES E FIOURAS 

Quadro exposto no salon do anno de 178^ sob o numero 
187 com a indicação de que pertencia a um sr. Nodoue. 

PAtZAGEM DO FRANCO CONDADO 

Quadro exposto no salon de 1834 sob o numero lóis. 

VIADUCTO EM RUÍNAS 
Tcl* : aUum o™,.-;! ; comprimenro if.y) 

Quadro vendido no hotel Drouot em Pariz, a 15 de Maio de 
1903, por 1 .600 {■'ancos. 

XVI 

IMnrtnhn** ««aiiM* mnrlttmna 

VISTA DE UM PQRTO 

Madeira; altura 0^,14 ; comprimento o.^si 

No primeiro plano numerosos personagens conversam. Leilão 
da galeria de i/itas. Q. Gr. a 6 de Junho de 1899, pelo perito 
Sortais. 



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DOCUMENTOS SOBRR k VtDA S K OBDh DE NtCOtAlI A. TAONAY lOJ 
VISTA DE UM PORTO DO MEDITERRÂNEO 

Quadro exposto sob o numero 373 no salão de i!Wl. Num 
C3ci rodeado de altos edifícios vò-se grande numero de fardos de 
iiiiircadorias de toda espécie e muitas pessoas. Céu nebuloso. 
Leilão da coilcção Odiot a 3 de jilarço de 1B47, 

\1STA DE UM PORTO DE MAR 

Madeira: allur* tf"^ ; ctimprlmentn o^/j,! . 

Panorama de um pono, em que se avíatim i^odes c pe- 
quenos navios. Este quadro faz parte da galeria dos duques de 
Leuchtenberg, que muito tempo existiu em Miinlch, sendo depois 
transportado para ^o Peteraburgo. (V. catalogo de 1837). 

UM PORTO DE HAR 

Td«; altura r/",},i : comprimento <^,4a 

Quadro exposto conjunctamente com outro sob o numero 1S8 
no salon de 1789, 

UH PORTO DE MAR 
Telai altura a*<,A8 : comprimento o",;; 

Quadro exposto no salon de 1789 sob o numero 188. 

VISTA DE UM PORTO MARÍTIMO NUM DIA DE VEVOEmO 

Quadro exposto ao salnn do anno de 1796, sob o numero 

IKORNpIO DE UMA CIDADE MARÍTIMA 

Quadro exposto sob o numero ^176, no salon de 1814. 

PEÇOEWO PORTO DE MAR 

Quadro exposto no salon de 1813, sob o numero 884. 

MARI>nTA NUM DIA DE TEMPESTADE 

Quadro vendido num leilão diri^do pelo perito George, em 
Pariz, a 17 de Dezembro de 1879. 



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I04 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

MARINHA 

Quadro exposto sob o numero 453 no salon de 1796. 

MARINHA, EFFEITO DE LUAR 
Telí! altura om.j; comprimento o"^ 

Quadro que figurou na vente Taunay em 1835. 

NAVIOS CARREGANDO 

A beira-mar vém-se vários navios carr^ndo. Sobre riles e 
na praia numerosas figuras. Leilão da galeria da viscondessa de 
Cboiseul, em Paríz, a 17 de Março de 1849. 

NADPRAQIO DE UMA CHALUPA 

A embarcação vira numa cataracta. De pè sobre um rochedo 
vê-se uma mulher desesperada. No fando do quadro, collinas 
revestidas de matta, arvores e uma fobríca. (Catalogo do sahn 
de 1787, em que esteve exposto o quadro.) 

NAVIO EM PERIGO 

Collecção Marcille vendida em leilJlo a 37 de Abril de 1857, 
em Paríz, 

RASGO DE CORAGEM 
rcii; altura i'",i57 ; comprimento a^.gs ; fiÇflira» de ef.^o 

Quadro exposto no síUoa de 1802; adquirido pelo Estado 
por indicação dos artistas expositores d9 salon, para o Museu Na- 
poleão. Do Louvrc passou para o museu da cidade de Saintcs. 

Representa a acção heróica de uma criança de doze annos, 
Toussatnt QuiUot, de Port Léon, na Bretanha, que estando a banhar 
um cavallo do ermSo, vã duas crianças prestes a afc^r-se nas 
ondas encapelladas, attra-se ã agua c salva as duas victimas. O 
quadro traduz o momento, em que o rapazito volta ã praia 
asm a segunda das crianças. A primeira, desmaiada, jã está nos 
braços da mãe e de uma outra mulher, que acudiram ao barulho do 
perigo. No primeiro plano vfl-se um menino segurando nas rédeas 



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DOCUMENTOS SOBRE A VID\ E K OBRA DF. NICOLAU A. TAUNAT 105 

do cavallo do joven Toussaint; perto, outra mulher parece 
querer levar as roupas dos banhistas, outras mulheres e velhos 
correm de diversos lados para assistir ao espectáculo. Nos últimos 
planos, numa espécie de cães, cheio de numerosos edifícios, avis- 
ta-se uma multidão de indivíduos occupadoB em diversos misteres ; 
num canal barcaças carregadas de mercadorias, mais longe um 
navio que está sendo concertado, outro ancorado no portO e um 
terceiro que entra a todo o pauno para evitar a tempestade, que ao 
longe se Torma. 

o SALVAMENTO 

Madeira: altura (i™,i7 ; comprimenlo o",íl 

No primeiro plano a raultidSo se comprime em tomo de 
varias pessoas que acabam de ser arrebatadas ás vagas, num porto 
de mar. Um moço segura um cavallo pelas rédeas. A' direita uma 
pane da cidade com suas torres, estaleiros, um edificto de arcadas. 
Este quadro ó a primeira idêa de outro quadro de grandes dimen* 
soes : o Rasff) Je coragem do salon de 1802, hoje no Museu de 
Saintcs. Em 1878 esteve exposto no Museu das Artes da De- 
coração e em 1890 reappareceu com a dispersão da coUecção Rothan. 

os NÁUFRAGOS 
Madeira; altura cf.ij-, compriípcnto •y",:} 

Quadro que figurou no leilSo da collecçáo Haro (30 de Maio 
de 1392), Provavelmente ptndani do precedente. 



Ilctrata* 

AUTORETRATO 

Teli; altura o",is: comprimento o™,it 

Quadro pertencente aosr. Victor A. Taunay, de Pariz. 

Representa o artista aos quarenta annos mais ou meno», em 
'795, cabelloa crescidos repartidos ao meio, visto quasi de frente ; 
traz um collarinho e uma gravata de incroyahie. Reproduzido em 
A Missjo Arlistkci de T^ió, obra da lavra do anctor deste catalc^. 



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I06 KIT»TA DO ntSTITDTO HnTOIUCD 

ADTORETRATO 
Tcln: allura ''",73; comprímontii tf" ,59 

Quadro que figurou na /ítjftosiçáo dos Retratos do Scctiio em 
1883 e 1884, realizada era Parii em proveito da Sociedade Phihn- 
tliropica. Nessa occasiáo pertencia ã collecção do sr. Boitellc. 

A pintura reproduzida na obra do dr. Laudelino Freire: Um 
século de pintura, como o autoretrato de Nicolau António 
'1'aunay, está evidentemente mal attribuída ao pintor, pois repre- 
senta pessoa que em nada se parece com qualquer dos seus seis 
retratos authenticos. Houve manifesto c absoluto engano nessa 
procurada identificação. 

JOSEPHINA TAUNAT, ESPOSA DO flNTOR 

rtlametro de íf.fç (Clrculsr). 

Miniatura pertencente ao sr. Victor A. Taunay, de Pariz. 

Representa uma moça de cabcUos caídos sobre os hombros, 
vestido meio decotado deixando ver bello collo. Traz ao pescoço 
uma corrente que sustenta um medallião sobre o peito. 

MADAME TAtJNAV G SEDS FILHOS 
Marllqi: diâmetro o» ,08 (Circular). 
Miniatura pertencente em 191 1 ao sr. Victor A. Taunay, de 
Pariz. Madame Taunay, esposa do artista, senhora de vinte e 
lx>ucos annos tem noa braços Tlieodoro, seu quarto filho, criança 
de mezes. Rodeíam-no os outros três filhos mais velhos : Carlos, de 
costas, a correr, Hippoly to a tocar pandeiro e Feli j a tocar violino ; 
ã direita e à esquerda arvores. 

CARLOS TAtJNAY, FILHO DO PINTOR 

Quadro em que o filho do pintor é representado fardado com 
o uniforme da Grande Armée. e pertencente i Pinacotheca Nacional 
do Rio de Janeiro, 

CARLOS TAUMAY 



Representa-o na primeira infância. 



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DOCOllEKTOS SOHRR K VIDA F. A OBRA DE NICOLAU A. TAUNAT IO7 
HIPPOLYTO TAUKAT, FILHO DO PINTOR 

Teia pertencente ao sr. Victor A. Taunay. RepreaenU um 
aJolescente, visto de trez quartos, vestido de farda, com um largo 
collarínho, cujas pontas caem sabre a gola do uniforme, 

IIIPPOLYTO TAUNAY 

Representa um adolescente. Pertencente a Madame Aíezes- 
cases Taunay , de Alcnçon. 

FÉLIX TAUNAT, FILHO DO PINTOR 

Qaadro pertencente á Ftnacothcca Nacional do Rio de Ja- 
neiro, Representa um adolescente. 

FÉLIX TAUNAY 

Quadro pertencente 4 Pinacothoca Nacirmal do Rio de 
Janeiro. Representa otna criança, 

TIIEOtKJRO TAUNAY, FILHO DO PINTOR 

Quadro pertencente ú Pinacotheca Nacional do Rio de Ja- 
neiro. 

THEODORO TAUNAY 

Quadro pertencente á Pinacotheca Nadonal do Rio de Janeiro. 

ADRIANO TAUNAY, FILHO DO PINTOR 

Quadro pertencente á Pinacotheca Nacional do Rio de Janeiro, 

ADRIANO TAUNAY FILHO DO PINTOR 

Retrato em criança do mais moço dos filhos do artista. 

GERARDO VAN SPAENDONCK 
"m/i: nilura 0.49; coinpr1nientao,4o 

Este quadro pertence ao Mosen de Versalhes e hm parte da 
collecçâo de Luiz Philippe, que o adquiriu em 1840. Representa o 
celebre pintor de flores em avançada edade, com longa cabelleir 
branca e TÍsto de trez quartos. 



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I08 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

IIUBERT ROfiERT E SUA FAMÍLIA 

Retrato do piotor, aua mulher e quatro filhos, executado sobre 
a tampa de uma grande tabaqueira. 

V. a obra de C. Gabillot: ffubert Roberl et son temps. 

JEANNETON, CREADA ORAVE KA FAMÍLIA TABNAY 

Quadro pertencente À Pinacotheca Nacional do RÍo-de Ja- 



Ap. uma reFerencia do Leitíco de Napler, biographia de 
Taunay, 

o NOIVADO DO PINTOR 
Papelão: dlametia <v",o6s (Circular) 

Miniatura pertencente ao sr. Victor A. Taunay, de Pariz. O 
artista acaba de ver o seu pedido de casamento acceito. Está a con- 
versar com a futura sc^ra, quando entra a noiva. M3e e filha 
abraçam-se ternamente. No fundo á direita um aparador, onde se 
notam uma garrafa de crysta) e uns pratos. Ao bdo uma cadeira ; 
á esquerda uma grande janella, para qual dà Nicolau Taunay as 
costas. 



Painel decorativo de um grande relego pertencente ao chefe 
de policia Cios, amigo de Voltaire, c em que havia pinturas de 
Joseph Vcrnet e a representação dos signos do zodiaco cinzelados 
por Sauvage. 

ESTUDO DE GATO E MACACO 

Ap, o cataliso da vente Taunay de 1835. 



ESTUDO DE GATO E PAPAGAIO 

Ap, O catalogo da venle Taunay em 1835. 



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DOCONENTOS SOBRE & VIDA £ A OBRA DB NIC01.AD A. TAUNAT lOÇ 
NEGRO MOÇO 

Tela que tigurou na venlc Taunay em 1B35. 

NEGRA MOÇA 

Tela que figurou na venb: Taunay em 1835. 

Qnalm ie Nicolan AntODiíi %mi perleDcenlGii a Mmas 

FRANÇA 

Pariz (Museu do L^urre) — Pedro, v Eremita, ^égxndoa 
ertrjada — A parada (guacbe). 

Museu Caniavalcl — A dinica do Dr, Moreau. 

Jardim das plantas, Museu de Zoologia — Visla da cascata 
Tauuay, na Tijuca. 

Versalhes (Museu Nacional) — Batalha t^Ebersbcrg — En- 
trada deKapoUáo em Munich — Combtic de Cassaria — Batalha 
de Katareth — Bonaparte rectí>endo prisioneiros no campo de 
batalha — Entrada da Guarda Imperial em Pariz — A passagem 
do monte São Bernardo — A travessia da Serra Guadarrama 
— Retrato de Gerardo van Spaeodonck. 

MoNTPELLiER (Museu Fabre) — O joff) de botas — 1'csía de 
aldeia — Pastores descansaiuio. 

Nantes (Museu de) — EiKotitro de Henriqne IV e Sully 
depois da batalha de hry. 

Grenoule (Museu de) — A adultera aos pés de Christo. 

Evreux (Museu de) — Encontro de Sidty ferido com fíenm 
rique IV. 

Cmerburgo (Museu de) — Os pastores da Arcádia. 

Saintes (Museu de) — Rasgo de coragem de uma crian^. 

D0UAI (Museu dé) — Missa campal Htima capdla de São 
Roque. 

Rennes (Museu de) — O Rapto. 

Aix EH PROVENCB (Museu de)~-Paisigem. 



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lio REV13TA DO INSTITUTO HtSTOIUCO 

QuiMPER (Museu de) — Moisés ferindo o rochedo — Ataque 
de bandidos. 

CoMi-ikoNE (Palácio de) — fxíerior de um hosfntal mililar 
provisório. 

Nict, Prefeitura do. Deparumeulo dos Alpes Marilimos — A 
pregação de São João Baptista — Tomada de uma cidade. 

AftGEL (Museu de) — ^ ursa. 

DIVERSOS PAIZGS 

Londres (Victoria and Albert Museum) — Hccna marilima 
wi Rio de Janeiro. 

McNicii (Galeria dos duques de Leuchtenberg) — Marinha. 

São Peteksuuruo (Museu Imperial da Ermitage) — A fotgfl 
no acampamento — A iorrenlc — Dansa de aldeões. 

Rio de Janeiro (Pinacotheca Nacional) — O thealro de La 
Folie — Herminia e os pastores — O mensageiro da paz — V 
.Largo da Carioca visto de Saneio António — Vista da bahia de 
Botafogp — Vista tirada do Convento de Saneio António — Doua 
retratos de Hippolyto Taunay — Doua retratos de Carlos Taunay 
— Dous retratos de Félix Taunay — Doos retratos de Tlicodoro 
Taunay — Retraio da creada grave Jeanneton — Dous retratos 
de Adriano Taunay — Quatro esboços : Os evanj^elistas. 

flnalros Biisleotes no Brasil e {erEenceflles a coUgcijõbs particnlarGS 

Rio DE Janeiro — O vendedor de cavallos, de da. Adelaide 
d'£scragnollu Taunay Dória — Festa napolitana, do dr. Raimundo 
de Castro Maia — Vista tirada da £-^lrada da Tijiica, do dr. Rai- 
mundo de Castro Maia — BaT^r oriental, da baroueza de Ribeiro 
de Almeida — Pastor a tocar Jlaula, do dr. Joaquim Murtinho 
(altribuido ao pintor). 

SXo Paulo — A partida do Filho Prodig<>, do dr. Augusto C. 
da Silva Telles — Franccsco Francia — <}s fftnaos de frei Phi- 
lippe, de Affonso d'E3cragnolIc Taunay. 



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r>BSE3sriios 

Os deseahos de Nicolau Taunay são raramente eDcontrados e 
altamente cotados. A seu respeito emittiu Edmundo de Goncourt 
na AhisoR d'un artiste muito lisongeiros conceitos. 

Museus que os possuam só conhecemos o Louvre c Versalhes, 
provenientes da acquisição leitu pelo Estado francez aos herdeiros 
de Denon. 

O celebre director do Museu Napoleão tízcra executar uma 
grande serie de desenhos, aquarellase guaches por diversos artistas, 
entre outros fiagctti, Bourgeoís, Meyníer, Zíx, Taunay, etc, remo 
morando os episódios mais notáveis da campanha da Itália. 

Por sua morte, porém, esses desenhos tiguraram em inventario 
c durante longos dcccnnios pertenceram aos seus herdeiros até 
que, ha alguns annos, indo a leilão, embargou o governo francez 
a praça e os adquiriu mediante accõrdo com os possuidores. 

Entre etles havia quarenta c quatro devidos a Taunay ; Ibram 
divididos entre os museus do Louvre e de Versalhes, licaddo o 
primeiro com os esboços o segundo com as peças definitivas. 

LOUVRK 
Heniiit: altura u'",iJ7 ; coinpniDCiilo'<.'',}jii 
Esboço para o desenho : Incêndio de Baunasco. 

['lombaifloa : aliura o",i7; ; twnpr] ncnlo rf",iS4 

lísbôço para o desenho : O diKjiic de ModcitJ /ogc da íiaade 
carregando os seus Ihesouros. 

No alto o Taunay o em baixo « Sabida do duque de Modena ■. 



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113 REVISTA 00 LXSTITUTO UISTORICO 

Penna: 3Jturau'",iu5 ; comprlmunlo o*,j30 

Esboço para o desenho : Lannes enira em Pavia, que é en- 
tregue ao saque. 

No alto w Taunay » a lápis. 

■■lomliaijiua: altura o"',aili ; conpriíncnlo (^,:j9 
Cerco de Mantua ; entrada da ponte de S3o Jorge. 

|>lomba(-iiia: aJiura oi^.ios ; comprlmcnio <j'°,iy> 

Esboço para o desenho : Batalha de Bor^teUo. O Miitcio. 
Caslellode Vareggio. 

l'Ioiii batina: allura o'",iu5; cumprlutiDlo o'",^ 

Esboço, sem íadicaçócs : Dms folhas coitadas. Sem as- 
signaura. 

I>lumbagiii3: allura o™.^; i:onipriincii[oo'".33l 

Esboço para o desenho : Cerco de Mantua, O^palado do Tê, 

PJombagína: altura uio.iis^coDipniactita V",i<n 

Esboço para o desenho : Peliole, pátria dt Virgilio. 

l>ciiDa: allura oi>>,h3i comprimento ti^jm 
A praça principal de Lonato. 

, Plombagina; alliirx c.i.jj-, comprimento o»', lúo 

Esboço para o desenho: Tomada do caslello de La Pieira. 

Pcnna a plombagina: aUura o"", 191; coioprinninio o^.sjQ 

Esboço para o desenho : Batalha de Rivoli. 

Plomba;{lDa: altura ,0^,119; <;omprimciiio o», 140 

Esboço para o desenho : O exercito Jrancez se apodera de 
Faenza. 

Nanklm: altura o'".]i9; comprimento o<",3»i) 

Esboço para o desenho : Combate no desJUadeiro da Dura. 

Ptombagina: allura oi^.iio: comprimento o<», 161 

Esboço para o desenho : Tomada do forte de Chiusa, 



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DOCUMENTOS SOBRE A VIDA E A OBRA DE NICOLAU A. TAUNAT 11$ 

VERSALHES 

NaDkim; aliura om,:s5; comprimento o", 115 

O duque de Modena foge da cidade carregindo os seus lhe- 
souroi. Assigmtdo. 

Sepiae uanklrn: altura oi^,!^; coroprimenlo o<°,3i3 

Incêndio de Bagnasco, cujos habitantes haviam tomado armas 
contra os Francezes, a 24 de Maio de vjgb. Aasignado. 
Naakim : altura o^n.ill ; comprímenlo o™,356 

Lannes em Pavia, que é entregue ao saque. Assigoado. 

Nankiin : altura om,ig6 ; comprimento o°<,3iã 

Batalha de Borghelío. Os granadeiros do general Gardanne 
atravessam o Mincio, 28 de Maio de 1796. Assigoado. 

Nankim : altura o°',ti3 ; iiomprimealo 0^,145 

Sitio de Mantua. Bonaparte occupa o bairro de Sãojorgp, 3 
de Junho de ij()6. Assignado. 



Circo de Manlua. Bonaparte faz mudar a direcção das bale- 
rias para poupar as pinturas de Júlio Romano existentes no palácio 
do Té, Junho de 7796. Assignado. 

Nankim : altura »",i8j ; comprimento o",i83 ■ 

Petiolc, pátria de Virgilio. Bonaparte ordejia a elevação de 
um monumento em honra ao poeta, Jualio de 7796. Perdoa aos 
habitantes a contribuição de guerra. Assignado. 

Nankim: altura o"',i88 ; comprimento o",3Jo 

Combate em Saio entre Francezes e Austríacos, a 31 de Junho 
de f^. Assignado. 

Nankini: altura o*", 194 ; cumprimento o^,]ij 

O exercito passa por San Miehele, Março de r^. Assignado. 



DigtizedbyGOOgle 



It4 ttwmtK no íiwnwto Bmotacú 

NanUm ; altura o<",uq -, comprimeoto o",iig 
Combale no desfiladeiro da Dura. Assignado. 

NaDkím : allura o",!^ ; comprimento <^,S7ú 

A arlUheria passa pela vereda de Albaredo a 2j de Mar^ de 
lõoo. Assignado. 

Nauliím: altura o'", 4;8i comprimcnlo □".jsi 

Bonaparte examina o forte de Bard, a 13 de Maio de 1800. 
Não assignado nem datado. 

Pcdn negra lavada o 

Arona. Eslatua de São Carlos Borromeu. 

Lápis preto lavado com nankrm : altura o'",i9i{; comprimento (^,189 

Napoleão chegando a Sancto Ambrósio no dia de sua coroação 
como rei da Ilalia, 1805. Assignado. 

Naitkjm : aliura o^.irj comprimcnlo o", agi 
Tomada do forte de Chiusa, Março de fji^. Assignado. 

Naokim : allHta o^.tM ; comprimento i^jjS 
O exercito f rance: se apodera de Faenza a 6 de Fevereiro de 
ti^. Assignado. 

Plombagioa; altura o"", 307 ; comprimento o">,ais 
Bonaparte entra em Imola, Fevereiro de 7797. Náo datado 
nem assignado. 

Nankim: altura o", 119; comprimcnlo 0^.6^0 
Serrurier chamado por Bonaparte levanta o cerco de Mantua, 
a 3í de Julho de i-^. Assignado. 

Nanklm: altura tf", 135; comprimento o^.iõg 
Msnge, enviado por Bonaparte, é recebido pelo Conselho da 
Republica de São Marinho, Junho de J796. Assignado. 

D,gt,zedbyGOO<^le 



DOCUMENTOS SÔBRfe A VlbA t k OBRA DE NICOLAU A. TAUNAY 11$ 

Nankini! iltura 0",!^ ; comprimento iy*,jç7 

Bonaparte chegi a Lonalo ; informam-no de que a guarnição 
foi inlimaJa a que se rendesse, 4 de Ág)sto de i-^4. Aasignado. 

Nankim: allura <f"^li ; comprímcDlo 0>°.$i2 

Madame Bonaparte indo para Legnano no Lago de Guarda, 
Agasto de J79Õ. Sem data nem nome de auctor ; attríbuido a 
Taunay. 

A(]uarclla: allura (y",):6 ; com p ri mento o" ,301 

A occupaçSo de Brescia, 4 de Agosto de 1796. NSo datado. 
Attribuido a Taunay e Montigny (?). 

NaDklm: altura V.m!; comprimento on.sSo 

Casti^ione; os Austríacos eniregindo a cidade. Asàgnado. 

Nankim; altura o», 156 ; comprimento o>°,»8 

Combale de Ma\etta. Massena ataca os Austríacos que recuam 
fin direcção a San Marco. Assignado. 

Nanliím: altura om, 179; comprimento ('",»5s 

Massena e Dammarlín se apoderam do citstello da Pieira. 
Asmgnado. 

NaDklm: altura 00,179 ; comprimento 0^,16; 

Escaramuça no desfiladeiro de Lavío. Trez caçadores a 
cavailo e da^ granadeiros contém quatrocentos Austríacos e os 
obrigim a capitular ; 5 de Setembro de !-^g6. Asagnado. 

Nankim: altura o™ ,it6 ; comprimento 0^.337 

Massena entra em Bassano ; 8 de Septemhro de ri<)6. Aasi- 
gnado. 

Nankim: altura o™,3;t ; comprimento iif"fi« 

O marechal Wurmser encerra-se em Manlua ; 3 de Septembro 
de 1796. Asugnado. 



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REVISTA DO INSIITUTO HISTÓRICO 



Baialha de Rivoli. Chegada da divisão Rey ao nascer do sol ; 
14 de Janeiro de 1^9^. Assignado. 



atf",íO; comprimenio iy",647 



Baialha de Favula. O ^neral Provera entregi-se; 16 de 
Janeiro de ii<^, AssigDado. 



As trez illustraçoes, que Taunay fez para a grande edição das 
obras de Racine, impressa por Didot em 1801, são peças de alta 
valia: duas pertenceram a E, de Goncourt, que deilas talla na Miúon 
^un arliste, e têem de altura onze ceotimetros, de comprimento 
oito, e foram vendidas por occasião do leilão de seu espolio, em 
Fevereiro de 1897, por 6co francos. 

Representam um juiz accompanhado por dous indivíduos, que 
lhe illuminam o caminho com archotes ; uma audiência de Perrin 
Dandiu, a tão cómica scena dos cachorrinhos, c a scena em que 
um escrivão ajoelhado escreve sobre a perna. 

A primeira foi gravada por B. L. Prevost; a segunda pòr Le 
Villain e a terceira por Duvai. 

A Bibliotheca Nacional de Parii possue dous beilos desenhos 
origiuaes de Taunay, na coUecçao Hcnnin, estudos para os grandes 
quadros: A travessia da Sierra Guadarrama e o Ataque do 
castello de Cassaria. 

No primeiro, caminha o exercito francez debaixo de ver- 
dadeira tromba d'agua, idea que o pbtor não manteve no 
quadro. 

Dentre os desenhos grandes de Taunay conhecemos: Pemr 
da família real de Bourbon sobre o tumulo de Luiz XVI, gra- 
vado : arrbas que o artista entendeu dar á Restauração, de que 
não era seu inimigo; o Recitativo, gravado por Ponce, em que se 
vé um desfructavel trissotin a recitar ante um circulo de homens 
e mulheres mais que maduras. 



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DOCUMENTOS SOBRE A VIDA E A OBRA DE NICOLAU A. TAUNAY M? 

O catalogo do leilão do atelier do pintor, em 1831, menciona 
com especial referencia um grande desenho a nankim sobre papel 
branco, representando José tio meio dos ermãos, numa bella paí- 
zagem animada por graodes rebanhos. « Tal desenho, o único no 
género deixado por Taunay, attrahirá certamente a atteaçâo dos 
amadores», diz o livrinho. 

O sr. Victor Taunay, de Pariz, neto do artista, possue uma 
certa quantidade de desenhos diversos do seu antepassado illustre, 
a nankim e sépia, muitos e valiosos estudos de cavallos, carneiros e 
bois, i;rog»is de estudo para paizagens, vistas da Itália, diversos 
projectos e esboços de quadros, muitos dos quaes realmente apre- 
ciáveis como Uma festa de aldeia ; Camponezas a apanhar agua 
àfonle; Um bazar; Uma procissão na Itália; Rebanho de bois e 
carneiros ; Lacta de S. Miguel e do dragão ; Tropas ajnarchar, 
etc. Os estudos sobre animaes são realmente de nota. 

Em i88g, por occasiâo da Exposição Universal de Pariz, fez-se 
uma exposição retrospectiva de quadros e desenhos abrangendo 
o período de 1789 a 1889. 

A mã fé ou a ignorância dos organizadores fez com que o 
nosso pintor hella figurasse representado por uma tela mais que 
medíocre, uma de suas peiores obras: O general Bonaparte rece- 
bendo prisioneiros no campo da batalha, quadro 'do Museu de 
Versalhes, que é realmente pouco digno de admiração. Essa gra- 
víssima injustiça para com o artista levou um ou outro crítico a 
lhe depreciar a reputação, estribando-se, para julgar a obra de 
quem produziu centenas de telas, no estudo de um único exemplar 
de sua arte. Entre outros o sr. Arsène Alexandre, litterato cujo re- 
nome Dão vai muito além do circulo de suas amizades pessoaes, 
valha a verdade. 

Na exposição de desenhos organizada pelo sr. Carlos Ephnissi 
o nosso pintor foi muito mais feliz, pois delle expuzeram duas 
lindas peças, a acreditarmos o que diz o artigo de crítica do 
marquez de Chennevières na Gazette des Beaux Arls, pag. 127, 
1889. Esses dous desenhos eram : o primeiro, plomba^na e sepàa : 
Um cura a reprehender rapazes e raparigas, sobretudo ama mo- 

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Il8 UniTA DO miTlTUTO BUTOniCO 

^ila qua subira numa arvore e que um rapaz ajuda a descer. 
« Não é sinão am sopro, diz o articulista, amarei, delicado, fresco, 
porém o ; na segunda peça, uma aquarelU : Fesla campestre na 
Itália, ss vèzm oà raflexos doirados daq^elle sol italiano, qus cod- 
vinham maravilhosameate á palheta daquelle que fpi procurar o 
Astro Rei até ao Brasil ». 

De quaado em quaaio apparecem no Hotel Drouot, cm Pariz, 
desenhos e aquarellas do Tauoay. 

Nos ultitnoa ânuos temos canhecimeRto de alguas, bem poucos 
inlsliimeote: 

O Jariim do Poiais Royal, peona e aguada ; collecçâo De- 
loyes dispersa cm Junho de 1 899 ; aasignado e datado ; representa 
uma multidão de elegantes e de muscadins a passear e a conversar ; 

O Pastor gilanteajor, vendido por 345 francos no Hotel 
Drouot no leilão de 37 de Novembro de 1909 pelo perito Delteíl ; 

A caçada dn veado, as^iignado e datado: 1783, desenho a 
psnna c aapia pertencente á collecç5o Deatailleur, pago por aóo 
francos no Hotel Drouot, em igor ; 

O recreio, coUecçâo do Marquez de Chenneviires, vendido a 6 
de Maio de 1898 no Hotel Drouot ; altura 18 ceuttmctroa, compri- 
mento 34 centímetros. Ê o desenho, a que se refere o artigo acerca 
de exposição retrospectiva de 1889. Alcançou então 695 francos. 



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o Louvre possue uma linda guache deTaunay proveaiente do 
l^do Audéoud : La Parade, onde se \é, sobre um estrado, um 
palhaço e dous pollchinellos representando perante um publico e 
aldeões em alguma feira. Essa obra do artista é soberba, de uma 
suavidade de colorido extraordinária, harmoaiosa e elegante quanto 
possível. Uma gravura popularizou-a, desde atgura tempo (i). 

Os Goncoun contavam na sua esplendida coUecçSo artística 
diversas guacbes de Taunay, entre outras : Abertura de uma 
estrada no campo (o" ,33 X o", 25), em que se vê um certo numero 
de operários trabalhar na terra, e vendida a 17 de Fevereiro de 1897 
por 3.400 trs. A seu respeito exprime-se E^mond de Goncourt 
na Maison d'un arliste: v Um desenhador de que só se encontram 
habitualmente desenhos e íllustraçóes da. velhice sem os characte- 
ristícos accentuados do século XVIIl e que, cousa de muitos 
ignorada, foi um dos mais espirituosos e elegantes guachístas do 
século XVIII, um guachista que sabre a pelle apergaminhada fez re- 
viver a clara e esfusianle pintura de Pater com os seus deliciosos 
loques claros e luminosidade dos suaves matizes, os còr de cinza 
esverdeados, os vermelhões e amarellos de enxofre . . . «, 



NOU : Eitensos apontamentos súbre mais de oitenta quadros, Dumerosos de- 
senbos, guachcs.etc. da lavra de Nicolau A. Tauna; possuc-os ainda o auclor 
deste ensaio. 

Dclles, iofelízmeote, nSo ponde ulilliar-se poli que, desde Julbo d( 
acham os seus maauscríplo'!. completos para orçamento, em mios de 
esiabetecido na lona da França, invadida pelos exércitos alIemSes. 

Devia uma ediçSo francezi da presente memoria, profusamente illusl 
perecer simuUaneamealc com a brasileira ; vieram os acontecimentos < 
graçSo européa Impedira realização de um projecto summamentc caro 
meno^, pOT longo tempo adiado. 

(i) Fdra esta guacbc vendida ao legatário pela somma de iS.Ioo tia 

D,3 zB<ibyCOO<^le 



130 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

As guaches de Taunay attmgem preços muito elevados nos 
leilões de collecçóes artísticas em França. Citemos nos últimos 
annos: A entrevista, da collecção do conde de Bryas dispersa a 4 
de Abril de 1898 (altura 17, e comprimento 13 centímetros) e ven* 
dida pela somma de 840 frs.; Uma boda de aldeia, dacolIecçSo 
Pipard (Hotel Drouot, 3 de Março de 1900) vendida por 1,810 
Irancos. 



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Obras iè Tamiay reprodiiziias pela giaTDra; artistas m as grararai 

De todos os gravadores, que reproduziram obras de Nicolau 
Taunay, destaca-se na primeira plana Descourtis, cujas famosas es- 
tampas Feira de Aldeia e BoJã de Aldeia, reproduzidas por 
varias tiragens fiancezas, inglezas e allemans, attingem a elevadís- 
simos preços, quando da primeira edição. 

Descourtis {Carlos Melchior), gravador em cores, no mesmo 
género db que Jeannlnet, seu mestre, nasceu em Pariz em 1753, 
e alli falleceu em 1830. 

De Taunay gravou duas series de quatro assumptos. A pri- 
meira consta da : Feira da aldeia ; A Boda da aldeia ; A Rixa ; O 
Tamborileiro e a segunda da coUec^o chamada do Filho Pródigo, 
a saber ; A Partida do Filho Pródigo ; A Orgia do Filho Pródigo ; 
o Filho Pródigo guardando porcos, e A Volla do Filho Pródigo. 

Das duas primeiras dizem o barão de Portalis e Beraldy na 
sua obra de grande auctoridade acãrca dos gravadores firancezes 
do século XVlll : « Essas duas estampas de dous quadros fi- 
Dissiiiios de Taunay foram reproduzidas com um gosto encantador 
e Duma escala de tons muito harmoniosa I e das quatro da ultima seria 
— Os assumptos da Vida do Filho Prodi^ — ^0 muito maus >. 

A Rixa e o Tamborileiro sâo boje muito estimados, embora 
alcancem preços um pouco inferiores aos das duas primeiras. 

Na vente Behague em 1877 alcançaram as quatro provas, da 
serie avantioute letlre, a cotação de 1.500 francos: as mesmas, em 
1885, na veíi/e Hocqaert attiogiram 3.100 francos. 

Descourtis gravou estas estampas em dous formatos, um de 
310 sobre 340 "/m e outro, reduzido para 33, de 95 sobre 65 "/m. 

Do grande formato ha trez estados : antes de qualquer lettreiro, 
com lettreiro e armas, armas apagadas e lettreiro substituído por 

. Google 



122 REVI3TA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

lettras ínglezas como na Ttixa e no Tamborileiro. Destas duas ha 
dous estados ; antes do lettreiro e com letCreiro. 

« As estampas de pequeno formato no original sâo negras, às 
vezes apparecem coloridas, inas isso não é sináo uma pura phan- 
tasia de amador que as pinte e mal. Ha uma particularidade a 
assignalar : A Boda eetà gravada ao inverso, e A Feira no mesmo 
sentido que o exemplar maíor. Ha também algumas pequenas 
divergências entre o pequeno e o grande formato : A Rixs e o Tam- 
borileiro d3o foram reduzidas. Toda a serie é muito procurada ; 
as duas primeiras tém sobretudo grande cotação. Foram todas 
quatro reproduzidas pelo sr. Magner e muitas veies imitadas. » 

n O Marquez de Vareones possuiu uma dezena de provas ori- 
ginaes de ensaio da serie. A aquarella original da Rixa está 
actualmente em cosa do ar. M. F. Vergues. Ateia original, quo 
pertenceu ao sr. Charles Pillet, figurou em 1878 na Exposição das 
Artes de Decoração ( 1 ) . 

Actualmente o preço corrente da serie é 3.000 frs. para 
09 exemplares que téem grandes margens {2). 

As quatro Filho Pródigo atttngem quando muito a 300 frs., 
mas são muito raras. Em todas ha um certo numero de versos 
de auctor a nós desconhecido. 

Alix (Pedro Miguel, 1763-1817), gravador de grande mérito, 
gravou de Taunay duas esump)as, in 4', sobre comprido, em 
cores, dizem Portalise Béraldy, com ^gM/mdealtosôbre 226"/'" 
de comprido ; seis estampas, segundo o Manual do Amador de 
Estampa, de Charles Blanc. As duas que conhecemos são: Ro- 
bison, o Hispanhol, Sexta-Feira e o Puee O aprendi\ carpin^ 
teiro de Robinson. 

Aubert (Pedro Eugénio) nascido em Pariz em 1780 e grava- 
dor das Galerias Históricas de Versalhes, foi quem reproduziu o 



(I) Bourcard, Estampas do ScculoXVIll. 

(1) No tcjlão P. Barrot, a 10 de Junho de [907, aa quatro cslampaa cm quesllo 
antes da Imprcs.^ao das armas o do» retoques fcllos mais tarde, com grandes 
margcDB, altlngiram o prcfo fabuloso de ig.ioo rrancos . 



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DOCUMENTOS SOB«E A VIDA E * OBRA D!! NICOLAU A. TAUNAT 123 

Combale de Nai^relh e A Passagem do São Bernardo, que 
tiguram nessa obra. 

De Boquet (Pedro José), gravador de aguadas do comíço do 
Beculo XIX, conhecemos duas reproducções de Taunay in 4°, 
Annuncio de feli^ regresso iã Volta do militar ao lar paterno. 

De Nicolau Ponce (1746-1831), artista dos mais considerados 
entre os gravadores da épocha, conhecemos a reproducçSo de um 
pequeno e espirituoso desenho de Taunay, um<xnacu\oà&prícteux 
e précieuses a ouvirem um trissotín que recita. 

A Gelée {António) nascido em 1796 e discípulo de Pauquet 
— grande premio de Roma em 1834, habil burilador, mas muito 
adsCricto ao losango, se deve a reproducçâo da Passagsm do Gua- 
darrama, nas Galerias Históricas de Versalhes. 

Frederico Schrceder, originário de Hesse Cassei e morto em 
Parizno annode 1839, burilador, gravadorde paizagens, de alguma 
habilidade, gravou ; Ataque do Caslello de Cassaria e a Entrada 
de Napoleão em Munich, para as Galerias Históricas de Versalhes. 
Do ultimo assumpto fez uma estampa de granias dimensões. 

Lacoste pac, gravador xylographo de nomeada, reproduziu 
de Taunay a Batalha da Rivoli. 

De Sotain (Noel Eugénio) nascido talvez em 1816, gravador 
sobre madeira para o Magasin Pilloresque c a Vida dos Pintores, 
conhecemos um Interior de taberna, segundo um desenho de H6- 
douin (V. Ga\eUe des Beaux Arls, 7", anno de 1860, pag. 350 ). 
Além desses artistas citemos ; Huet, que gravou A passagem da 
Sierra Guadarrama ; Chancourtis e C. Motte, a quem se deve a re- 
producção do Vau e do Sacrificio do cordeirinho querido ; Le- 
prince, nomeado pintor e gravador, que viveu longos annos na 
Rússia Ê gravou a Distribuição de esmolas por monges Cartuxos. 
Num anigo de Charles Blanc, na Gazeltc des Beaux Arts, 2° pe- 
ríodo, tomo XI, 1875, pag. 204 rcfcre-se clle a umas vibrantes aguas 
fortes de Edmundo Hédouin, celebre pintor aguafortista discípulo 
de Delaroche, Sapràs Watteau, e d'après Taunay. 

Dos desenhos de Taunay conhecemos gravados, além da Reci- 
tação, Os sentimentos da familia de Bourbon sobre o tumulo de 



134 REVISTA DO INSTITUTO UISTOBICO 

Luiz XVI, reproduzido porGirardet, os trei relativo; aos Piai- 
deurs, de Racine, da grande edição de luxo de F. Didot em 1801. 

O do primeiro acto traz a indicação — B. L. Prevôt scuips, — ; 
odosegundoÉdevidoaDuval, e o do terceiro aLe ViJlaín, artistas 
cujos nomes são pouco conhecidos. De Godofredo Engelmann, um 
dos precursores da Lithographia, lia diversas reproducções de 
Taunay, hoje muito apreciadas. Nascido em Mulbouse, em 1788, 
estreou esse artista mandando aos sahns de 1Õ17 e 1819 quadros 
conteúdo, sob o titulo de « productos lithographicos », composições 
de Demame, dos Vernet, Rcehn e Taunay. 

Delle conhecemos i A passa^m da serra Guadarrama ; Um 
rebanho a altravessar um pântano onde ha uma torre arruinada, 
Umas mulheres a tirar agua de um poço nas vizinhanças de aque- 
dueto em ruinas. 



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Liros iimsMs m hcilao AiMo Una; 

Em sua primeira mocidade, aos 21 annos, o piotor illustrou 
um livrinho de frirolídades, fructo das lucubrações de um dos tão 
fiiteis quauto numerosos cenáculos litterarios do século XVllI: a 
Ordem da Tavola Redonda. 

Intitulasse essa obra: A Jornada de Amor ou Flores de 
Cylhera, e seus auctores são a condessa de Turpin, BoufEers, 
Gaillard, Favan e o abbade de Voisenon. 

Dedicado ás mulheres e impresso auma edição muito restricta, 
que não foi exposta ã venda, constitue hoje uma raridade bíblio- 
graphíca. Tauaay concorrera com quatro figuras « das mais gra- 
ciosas " e oito vinhetas gravadas por Macret, Michel e Pmneau. 

Foi este o único livro, ao que nos consta, illustrado exclusiva- 
mente por Nicolau António Taunay ; seu formato 6 in 8°, trazendo 
a seguinte e desfructavel indicação de proveniência Gnido, iTjb. Col- 
laborou porém Taunay com outros e notáveis artistas em diversas 
edições como a esplendida tiragem feita, em 1 801, por F. Didot 
das obras completas de Racine. 

Esta soberba edição, primor de arte typographica, tem como 
illustradores, além de Taunay : Girodet, François Gérard, Moitte, 
Scrangeli, Chaudet, Peyrou. A cada artista coube fazer as illustra- 
çSes para um certo numero de peças do grande trágico. Taunay 
teve os Plaideurs e fez os três soberbos desenhos, um para cada 
acto, de que jà fizemos menção. 

Diz Nagler, no seu Léxico, que Taunay fez diversas illustra- 
çôes para uma edição luxuosa de Paulo e Vir^nia. 

Egualmente sabemos que a casa Didot lhe encommendara 
illustraçôes para uma grande edição de luxo do Orlando Furioso, 
dez assumptos, conforme se deprehende do recibo seguinte: 



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126 REVISTA DO INSTITUTO HlSTORltiO 

n O abaixo assígoado declara bavçr recebido do cidadão Didot 
a somma de dez mil francos pelos septimo, oitavo, nono e decimo 
quadros da serie do Ariosto. Pariz, 30 tbermidor, anno III da Re- 
publica (17 de Agosto de 1795). — Taunay « (V. Revue de tArl 
Franjais, anno de 1884). Ainda trabalhou Nicolau António, se- 
gundo parece, para uma edição do Robinson Crusoé, bzendo uma 
qeríe de seis assumptos, que Alix gravou. Essa edição, porém, nSo 
foi levada a cabo, quer noa parecer. 



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ICONOGRAPHIA 

Dos retratos do mestre o mais conhecido é o de BoOly (Luiz 
Leopoldo), cujo original se acha no museu de Lille e o repre- 
senta em companhia de I»abey. Este quadro foi gravado por 
A. Clément e Milius e reproduzido num dos números de UArl 
em excellente estampa. Isabey como que reclinado sobre uma ba- 
laustrada tem uma das mãos no bolso direito e é visto de trez 
quanos; Tauoay eatà inteiramente de perfil, de pi, com uma das 
mãos para traz ; longa cabelleira empoada emsombra-lhe o rosto t 
cai-lhe sobre as orelhas. Traz os indefectíveis óculos, veste uma 
casaca parda e usa grande gravata branca. 

Em outra tela coHocou Boilly o retrato do amigo, quando 
em 1800 expoz a sua Reunião de Artistas, mais tarde gravada por 
A- Clément (i), em que se voem as cabeças agrupadas de modo 
pittoresco de muitos artistas celebres, entre os quaes Percier, Fon- 
taine, Talma, Girodet, Isabey, Bídault, Swebach-Fontaine, Mehul, 
Lethiére, Charle-Veraet, HoSinann (o auctor dos Contos) Chaudet, 
Demame e o próprio auctor. 

Pintou-o ahi como no quadro precedente, de cabello em- 
poado e óculos, de perfil, com o pescoço esticado. 

No museu de Lille ha diversos esboços ainda de Boilly para 
o quadro O atelier de Isabey; num delles vê-se Taunay de cabellcs 
compridos e empoados com um aspecto a Luiz XVI, magnifico, 
diz L. Gonze do seu Estudo sobre o Museu de Lille ; em outro 
esboço reproduzido na bella obra de Mme. Basile Callimaki sôbrc 
Isabey vê-se numeroso grupo de artistas examinando um quadro 
coUocado sobre um cavaliete ; entre elles também está Nicolau An- 
tónio Taunay. 

[ I } Reproduzido Da Renuicença úts Julbo de 190^, 

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130 REVISTA DO INSTITCTO HISTÓRICO 

Em 1Õ35, publicando Julio Boilly, Slho de Luiz Leopoldo, 
uma collecção de Retratos de todos os membros do Instituto de 
França, nella appareccu o de Nicolau Tauoay que entSo tinha se- 
ptenta annos de edade, representado de trez quartos, grande, • 
cabelleira branca, óculos espessos, larga griLvata-cacheneí a en- 
volver-lhe o pescoço ecobrir-lhe o peito. Este retrato aproveitou-o 
Charles Blanc para a sua Historia dos Pintores de todas as Es- 
colas. Retratou-se Taunay, a exemplo do que geralmente fazem os 
pintores. Representou-se quasi de frente com os cabellos ondeados, 
puxados para traz e repartidos ao meio, cobrindo-lhe o pdto uma 
gravata de irKroyable, o que faz crer que o quadro date de 1795, 
épocha em que o pintor linha quarenta annos.. 

A tela pertence ao sr. Victor A, Taunay, de Paris, e foi re- 
produzida na Missão Arlistica de 181Õ. Além desí« retrato existe 
outro umbem da lavra do próprio artista, sobre tela (0^33 xcsg) 
que pertenceu á collecção do sr, Boitelle e figurou na Exposição 
dos Retratos do Século em 1884, Pariz (i). 

No graude e notável quadro de Heim, hoje no Louvre, 
Carlos X distribuindo recompensas aos artistas, após o salon de 
1824, cm que o auctor retrata todas as notabilidades contemporâ- 
neas, aggrupando-as num conjuocto realmente soberbo, vô-se o re- 
trato de Taunay, na primeira fila, entre os membros do Instituto 
de França, muito era destaque, graças á grande cabelleira branca e 
os óculos, ao lado de Mme. Vigée Lebrun e de Horácio Vemet. 

Bustos de Taunay sabemos da existência de dons: um de 
Ramey filho, segundo a mascara que lhe fot modelada síibre o rosto, 
logo após a sua morte, e outro em mármore, existente no Museu 
de Versalhes, obra do esculptor Roubaud, encommcndado pelo 
ministro das Bellas Artes sob Napoleão III, o sr. de Nicuwekerke, 
inspirando-se o artista num dos quadros em que Taunay se retratara. 
Deste busto possue nossa Eschola Nacional de Bellas Artes uma 
rcproducçiío. 

r.Uú altríbuido peto Jr. t.íviídclliio Ftciro tio pínlor vide 



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Disciim (a laiRi le caslcllan, lilo i itira lo Inilo le MM 
MH Taaia! gelo larão Sm, o ceM giitoi (') 

Scoborea — E' próprio da natureza das sociedades que se per- 
petuam tudo ver acabar c renovar-ae em lòrno de si. 

Um único dentre nós, Senhores, assistira à fundação do Ins- 
tituto, accompaohando-lhe as vicissitudes, e vira a Academia de 
BcUas Artes renovar-se por completo : triste apanágio o de sobre- 
viver aos contemporâneos, aos amigos I 

Sangrava-lhe com isto o coração e a idéa alHictiva de que vivia 
entre minas, desligado dos liames naturaes que o prendiam á vida, 
c esta idea, sempre presente ao pensamento, pode. ter contribuído 
para o seu fim. 

Com eSeíto, mal deixáramos o lucto do ultimo dos fundadores 
da eschola moderna de pintura, vemo-nos obrigados a toma-lo no- 
vamente pelo decano da Academia, que ao mesmo tempo era 
quasi o dos pintores da èpocha actual e um dos que mantinham do 
melhor modo a tradição dos verdadeiros princípios da Arte. 

Tannay, qne podemos indicar entre os regeneradores do bom 
gosto em França, mais influencia exerceu pelo exemplo do que pelos 
conselhos. Não se tendo filiado a eschola alguma propriamente 
dieta conseguiu mais imitadores do que modelos tivera; c si 
acaso existe inimitável originalidade ú essa, que Taunay possue c 
cujo cunho impoz ás suaa obras. 

Não foi no entanto pela exquisítice que se mostrou original ; 
nos seus quadros nada se afasta das leis da natureza : tudo nellcs 
delia lembra os traços characteristicos, combinados por um génio 
creador ou animador de um espirito jocoso ou melancholico, se- 



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130 KBrtSTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

gundoas impressões experímentadas pelo artista, a que subordinava 
o assumpto de suas composições. 

Asam é que cremos entrever numa de suas ultimas telas as 
prcoccupaçótís de um espirito impressionado com o desappareci- 
mento successivo de artistas, amigos da mocidade; representa a es- 
tatua colossal do virtuoso Carlos Borromeu, isolada na eminência de 
um promontório do Lago Maior com a cabeça envolta em nuvens. 

Ta&to quanto este sancto personagem, pode o nosso amigo ler 
tido rivaes, inimigos uunca. [>esarmavam a inveja a sua inalte- 
rável doçura e modesta franqueza, ass^urando-Ihe perfeita paz a 
pureza de costumes, por assim dizer patríarchaes, e a ausência ab- 
soluta de ambição. 

Quando muito saia do seu retiro para assistir às nossas 
sessões, certo de se ver rodeado do prestigio e do respeito que lhe 
eram devidos e, sobretudo, o que mais o commovia, da mais 
carinhosa afíèctuostdade. 

Escoara-se-lfae a vida pauifica mas não sem glorias, como as 
aguas dessas fontes que, embora escondidas sob modestas folhagens, 
nem por isto deixam de reflectir os mais puros raios do astro 
do dia. 

Apaixonado das bellezas da natureza, soube Taunay traduzi-las 
cm todos os seus quadros : paizagens, marinhas, batalhas, scenas 
familiares ou históricas, tudo pintou tanto sem as tbrçar como sem 
affe:taçÍo. 

A França, a Suissa, a Itália forneceram-lhe assumptos. Ainda 
mais : ch^ou a ir ao Novo Mundo na anciã de descobrir novas 
inspirações e estudos numa natureza mais virgem. 

Cheio de saudades da pátria, onde bem sabia que o apreciavam 
c onde deixara amigos que lhe choravam a ausência, dentro cm 
breve, fugindo penosamente ao abraço dos filhos que d3o mais 
devia ver, regressou á França, com a virtuosa consorte que o accom- 
panhara sempre, quer uos dias de felicidade quer nos de tristezas. 

Voltou pois, nada trazendo da viagem sinão a representação 
dos Ihesouroa naturacs da America, thesouros que estavam bem 
longe de o haver enriquecido. 



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DOCUMENTOS SOBRÍ A VlOA E A OnflA DE NICOLAU A. TADNAV I3I 

Poudc ao menos cncoatrar corações Reis : um dos filhos, uma 
nova família que o adorava; os mais carinhosos tratos lhe foram 
então dispensados ; tudo teve, tudo quanto os entes que declinam c 
se enfraquecem necessitam de amor e dedicação para se sustentar 
G brilhar, ainda que por lampejos, antes da e-xtincçúo total. 

Foi pois assim que, no meio de doces illusões c consoladoras 
realidades, chegou por insensível declive á penosa transição desta 
vida ã eterna existência. 



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Elop Hre U Hicolai AiHo Tana; pratiailo ii InsUM 
le Fnga gelo secrelailo temttao ijnalreiíière 1b toiíc; 

KOTICIA IIISTOKICA SODRIC A VIDA E AS OUKAiJ IK) SR. TAUNAY, 
NASCIDO EM PARIZ EM I755 E AIII FALLECIDO EM 183O 

Nasceu Nicolau António l'aunay cm Pariz, em 1755. O pae 
era um chimico de valor, a quem a píatura deve algumas desco- 
bertas úteis, inspiradas por forte pendor pelas producçoes desta 
arte. Muito oaturalmente pois, pôde o filho encontrar na casa 
paterna um incentivo, de onde nasceu, c mais tarde augmentou, 
uma inclinação, que em breve se converteu no preludio de uma 
vocação franca. 

Foram-Ihe naturalmente os álbuns do pae os primeiros brin- 
quedos da infância. Dentro em breve se lhe convertiam elles em 
habitual motivo de occupação e, . afinal, em matéria exclusiva de 
apaixonado estudo, que lhe absorvia as faculdades do estudo. En- 
tendeu o amor paterno dever oppor algumas diversões a este zelo, 
cuja violência, em edade ainda tão tenra, poderia prejudicar o 
desenvolvimento de uma constituição ainda traça. 

Vencendo a paixão a todos esses obstáculos, foi preciso obcdc- 
cer-íhe, e o pequeno Taunay pôde enfim, livremente, eQtr<^ar-sc 
sem reservas aos estudos preliminares da pintura. Até então seus 
gostos e desejos se tinham resumido na prãctica do desenho. Havia 
nos seus órgãos visuaes uma imperfeição assaz commum, que teria 
podido restringir- lhe o talento ã parte linear da arte, si a scíencia 
dos ópticos, por intermédio de seus vidros mágicos, não houvesse 
dissipado o veu que lhe encobria o encanto das cores, com que a 
natureza pintou as suas obras. 

Desvendou-se-lhe um novo mundo, revelando-se-Ihe ao mesmo 
tempo que elle estava destinado a ser um colorista ; de oia em 

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DOCUMENTOS SOBRE k VIDA F. A OBHi DE NirOLAU A, TAUNAY I33 

deante o pincele a palheta lhe iam ser os instrumentos predilectos, 
e a paízagem com tudo o que a natureza campestre apresenta de 
vari^ado ao olhar e á alma passou a constituir o domínio privi- 
I^iado do seu talento. 

Começara Tauaay tendo como mestre de pintura, verdade é 
que em cuno lapso, um pintor de historia, Brenet, que nessa épocha 
não deixava de ter certo talento e celebridade. Deixou-o, porém, para 
s^uír a Casanova, pintor de batalhas e de animaes, que, em 
breve, se viu obrigado a sair de França, para se estabelecer na 
Rússia. 

Pode-se pois afBrmar que pouco ficou Taunay a dever a esses 
dons mestres. Maior aprendizagem lhe teria sído utii > 

Não cremos. A continuação dos tempos demonstrou perfeita' 
mente que nelle havia um germe de talento próprio, certa' seiva 
de originalidade, que a direcção de uma cultura extranha poderia 
ter impedido que se desenvolvesse, a contento dos meios que a 
natureza lhe proporcionara. 

Deveu pois a este feliz espirito de independência o poder 
escolher livre c judiciosamente o género, para o qual tinha maiores 
dotes. O apurado gosto não o levava a medír-se com a natureza, nas 
altas espheras da Imitação. Em vez de lançar-se para os géneros 
de arte elevados, onde é tão commum que o olvido recompense a 
mediocridade, teve o bom senso du ouvir a própria voca^o e, 
aquilatando a ambição peta» ri*irças, creou segundo os dictames 
de seus recursos naturaes um género de superioridade, que nenhum 
dos contemporâneos poderia disputar~lhe um dia. 

E' um dom bem raro da natureza, esse de bem conhecer o 
que ella de nós espera, o que nos impõe, permitte ou recusa. 

Delia recebera Taunay atilado espirito, delicados sentimentos 
e uma imaginação capaz de apprehendcr, no mundo physico e na 
ordem moral, essas subtis harmonias, cuja graciosidade é causa de 
tanto encanto, essas filigranas que em certos géneros ingcnuos de 
lítteratura, como os do conto, do idyllio ou do apologo, immorta- 
tizaram o nome de certo numero de poetas. Ora, o génio é tão 
raro nease terreno como nos demais. Sem querer pois levar as 



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134 RGVBTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

suas pretençães a mais alto ponto teve Taunay ' a sensatez de 
nivelar o seu talento c a sua ambiçSo. 

Esforçou-se por crcar, pela reunião de duas espécies de 
méritos, um na paizagcm, outro nos assumptos chamados ane- 
cdotícos, um duplo meio de encantar e attrahir os ollios e o 
espírito de grande parte do público, esse que antes de tudo 
pede às artes eaeaR imagens suaves e ligeiras, cuja verosimilhança 
é tanto mais racilmentc apreciável porquanto se acha ao alcance de 
todos. 

Decidido a cntregar<se inteiramente ao instincto, que o levava á 
práctica da paizagcm, ornada de figuras, foi na Suissa que Taunay 
entendeu procurar os elementos dessa fclir união, que tanto harmo- 
niza a natureza agreste das localidades com a simplicidade dos 
costumes, os hábitos campestres dos homens c o variegado dos 
trajoA das camponezas. 

Partiu com Demarnc c alguns outros companheiros de viagem 
ou de estudos e, de accordo com elles, ao percorrerem aquelle paiz, 
verdadeiro museu de pabjgcm, não cessou um só dia de encher a 
carteira com os mais interessantes esboços, e ainda melhor, fixou- 
os na memoria, instrumento indispensável ao paizagista que a ellc 
sempre precisa recorrer, afim de resuscitar esses eHeitos fugidios, 
dos quaes nenhum elemento pode, na realidade, reproduzir-se a 
contento das necessidades do artista. 

Regressando a Pariz deu-se Taunay a conhecer por intermédio 
de um quadro de cavallcte que representava uma festa de aldeia, 
graciosamente homc^neo no seu colorido exacto, e fina execução, 
prenunciando um desses talentos, cujo nascimento 6 um s^redo 
que a natureza desvenda quando quer. 

Este lindo quadro attrahiu, de modo muito especial, a attenção 
dos conhecedores. A Acad^nia, illimitada então no numero de 
seus membros e na liberdade dos iociUmentos de que podia knçar 
mão, ao felicitar o auctor pelo feliz preludio deu-lhe a entender que 
nova obra do seu pincel, mais vasta então e de estylo mais elevado 
lhe alcançaria honrosos c utcis sutfragios. Taunay comprehendeu 
quanto havia de lisonjeiro c de promissor nesse prognoaico. 



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DOCUMENTOS SODRE A VrOA E A OBRA DE NtCOLAU A. TAONAY I3;; 

Apressou-se em respoader, com secundo quadro, cujo aesumpto 
the foi inspirado pelo ArioRto. 

As duas obras lhe valeram ser eleito, por unanimidade de votos, 
sócio correspondente da Academia, eestc novo successolhe trouxe 
um premio ainda mais vantajoso: uma estada em Roma, a no- 
meação para a vaga aberta com a morte de um dos pensionistas, 
o joven Taraval, grande premio na edade de dezesete annos. 

Partiu porá Roma em 1784 no mesmo anno da sua eleição 
para a Academia. 

A vista c o estudo da natureza na Itália, o aspecto c a influ- 
encia das grandes obras d arte, nfio podiam deiíar de comniunicar- 
lhe ao talento alguma cousa de mais nobre no cstylo, na escolha 
dos assumptos e dos accessorios, na composiçito e ciecução. 

Ha paru cada categoria de assumptos, mesmo para os que se 
filiam a uma ordem inferior de ídeas, certo numero de characteris- 
ticos que os recommenda, mais ou menos intensamente, aos olhares 
e gostos do amador, mais ou menos culto, e aciírca do qual deve ser 
estabelecido o seguinte preliminar: nem lo^laa ax verdades se 
prexlam a ser pinladjs. 

Taunay linha muita elegância de character e espirito para que 
ella oSo llie influenciasse as composições. O género da copia 
servil e vulgar nunca poderia tò-io attrabtdo. O aspecto de Roma e 
o estudo alli iam, porém, contribuir para o desenvolvimento dessa 
feliz tendência do sen talento, como demonstraram varias das telas, 
que o seu pincel fecundo executou naquella cidade. 

Entre eltas citam-se um bello quadro representando: A bcnçd» 
í*M rebanhos e sobretudo uma grande paizagem de nobre estylo, 
adornada de figuras, maiores do que geralmente se usa, e cujo 
principal assumpto 6 o Anjo Rafaet em companhia 4e Tobias. 
Com as mesmas dimensAes wnda executou em Roma outro quadro 
representando : l 'm ermila 3 pregar, tela muito notada pela 
grande variedade dos grupos de figuras, pela diversidade de trajos 
e pelo encanto do colorido. 

De volta a Pariz, após trcr annos de estudos na Itália, vê-se 
Taunay multiplicar as snas composiçúes, sempre variadas, cm que a 



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136 REVISTA DO INSTITDTO HISTÓRICO 

verdade do colorido e a facilidade do piocel se unem para a 
representação de ímagiDosos assumptos e espirituosas concepções 
que, sem pretençóes a attingit ã nobreza do género histórico ou 
heróico, nem por isso se limitavam a ser — como em certas cscholas 
aconteceu — simples reflexo de vul^r realismo. 

E' impos^vel deixar de reconhecer que em todas as produc- 
çôes do seu pincel vive inventivo espirito, realçado por não muito 
extensa erudito, por assún dizer, mas adequada ao grau de 
elevação com que tractava os dífferentes assumptos e pretendia 
íàzê-los observar. 

Refiro-me aos que ia buscar em todas as regiões da fabula e da 
histOTÍa, dos costumes antigos e contemporâneos, a todos os gé- 
neros de acção fabulosa ou real, de allusões criticas ou espiri- 
tuosas. 

E' assim que na mais completa enumeração das suas obras, 
tomada ao acaso, vemos : Moisés ferindo o rochedo e a Batalha de 
Na^reth, o Theatro de La Folie e ura Ba?^r Turco^ Moisés salvo 
das aguas e o Lobo damnadOt a Volta do Mercado e o Dia m- 
mediato ao de uma bataliia, um Hospital militar, José explicando 
sonhos aos ermãos e um Conto de La Fonlaine . 

Poucas ha, porém, dessas numerosas composições, cm que o 
pintor tenha deixado de frisar alguma verdade moral ou critica es- 
pirituosa, capaz de deleitar a razão. 

Haverá quem sustente que essa propriedade de dar às licções 
da moral um disfarce, que lhe attenue a severidade, seja o privilegio 
da poesia, com excluso da pintura? Numerosos exemplos applica- 
veis a uma e outra arte nos apresentam o problema como de niuitc 
difficil resolução. 

Contentemo-nos em dizer que, nesse particular, forneceria 
Taunay novos elementos de comparação que seriam favoráveis á 
arte do pintor, podendo.se invocar a seu respeito a opinião publica, 
que o baptisara: — « O La Fontaine da Pintura ». 

Seja-nos dado apontar aqui, cm attenção aos louvores que me- 
rece, relevando-se-nos essa indicação que deveria ser mnis abstracta 
do que synthetizada, mais geral do que particularizada, seja^nos 



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DOCUMENTOS SOBRE X VIDA E A OBRA DE MCOLAU A. TAUNAY I37 

dado apontar esse mérito, cujas qualidades nosso discurso não pode 
púr em pleno destaque. 

Todas as artes tèm os seus recursos próprios, que só podem 
ser apreciados pelos órgãos que a cada uma correspondem. Ora 
pretender traduzir em palavras as composições de Taunay, a que 
aos rereritnos, seria uma cincada egual á iltueão do pintor que 
pretendesse tomar inteiligiveis aos olhos &bulas como « O car- 
valho c o caniço » ou « A mosca e a form^a >• . 

Havia, como fiiemos ver, dous talentos em Taunay e, 
digamos assim, dous pintores, tão ideatificados entre si, que sen> 
timos ter sido obrigados a delles tractar separadamente. 

Sim ; sob o pomo de vista do paízagista soube creir um 
logar, que, coUocando-o em destaque na numerosa coborte dos 
hábeis mestres que esse género cultivaram, ainda no-lo mostra 
muito mais sujeito ã inspiração própria do talento do que aos 
exemplos dos predecessores. 

Dabi lhe provam a saborosa originalidade das obras, oriunda 
de uma faculdade instinctiva do artista muito mais do que do 
estudo. Em Tauuay tudo, ate a maneira com que encarava a natu- 
reza, era original . 

Os seus estudos do natural não são absolutamente do género 
desses em que vemos o pintor eslòrçar-se por surprehender &s 
pressas, para Sxa-las pelo lápis e pelo pincel, imagens moveis e 
variáveis, cffèitos de sombra c luz c os diversos accidentes transi- 
tórios do espectáculo, cuja fugitiva impressão deseja estampar. 

Inspiravam-lhe essas impressões a disposição de espirito que 
o dominava, auxiliando-K) poderosa memoria, que lhe reproduzia 
todas as minúcias do conjuncto e das particularidades applicaveis 
303 assumptos que devia tractar. 

Asúm pintava pois, sem a realidade de modelo algum, a scena 
que a imaginação lhe evocava, e as figuras que nella punha vestia-as 
sem o auxilio do manequim. Não trabalhava, não dispunha mctho- 
dtcamente as minúcias de uma composição, improvisava : sem 
apalpadeltas, sem hesitações nem arranjos prévios. 

Empolgado por um assumpto não tractava de coordenar, de 



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I3II REVISTA DO INSTITtTO nBTOKICO 

antemSo, os primeiros planos com os últimos, as massas do arvo- 
redo com os grupos dos personagens. 

Tudo isto já o executara o cérebro ; nada maín tinha do que 
(a7^ a traducção em cores; era-lhe isto na sua arte, como um 
discurso pronunciado de improviso por orador, que conhece a 
tundo o seu assumpto c recebe de subitanea inspirado essa vivaci- 
dade de efleitos, que a lima do trabalho embotaria. 

No domínio da imitação, que era o seu, creara Taunay uma 
como que universalidade de talentos pela reunião de quasi todos os 
géneros de habilidade exigida pelos diversos ramos, um dos quaes 
basta para firmar a reputação do artista que o cultiva com superio- 
ridade. Não devemos pois eiquccer de lembrar quanto sobresaía 
□a representação dos anlmaes ; aos entendidos na matéria caberá 
fixar-lhc uoi Jogar entre Paulo Potter, Wouvermans e Berghcm. 
Tal reunião de capacidades e de utentos, como essa que esbo 
çamos, deveria ter cODCcdído a Taunay sináo os favores dessa 
fortuna qve vende o que se acredita que ella dS, ou pelo menos a 
feliz abastança, de onde decorre a doce despreoccupação do flituro. 
Durante algum tempo gozou desta ultima, que as primeiras 
borrascas revolucionarias não perturbaram, no seio de uma femilia 
amável, que com assíduos carinhos tractava de &zer com que exque- 
cesse os perigos passados e arrostasse confiante os receios mais 
series do futuro. 

Após haver perdido, porém, graças ás consequências suces- 
sivas das perturbações politicas, o fructo das economias e o dote da 
mulher, cm vão esperou do futuro a volta das circunstancias afor- 
tunadas, que lhe haviam aberto, ao talento, útil e brilhante carreira. 
O titulo de académico, que a formação do Instituto lhe havia 
conferido, não passava de equivalente nominal, inteiramente in- 
capaz, na nova ordem de cousas, de lhe assegurar ao talento e á 
collocação dos quadros o successo e a reputação, elementos com 
que pudesse levantar novamente a compromettida fortuna. 

Nestas circunstancias novas perspectivas vieram brilhar apon- 
tando ã natureza especial do talento e ao mau estado da fortuna 
inesperados recursos. E, com efièito, indicavam-Ihe um novo mundo 



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DOCUMENTOS SOBRR A VIRA B A OBRA DK NICOLAU A. 

a explorar e conquistar em proveito da Arte e do artista. Agentes 
portuguczes, residindo cm Pariz, prctcadiam recrutar para o Brafiii 
pequena colónia de hábeis artistas, cujos talcotos pudeíwem implan- 
tar naquella rt^áo virgem, si assim se pode diur, galardoada pela 
natureza com as mais ricas dadivas, o g('>sto pelos artes do desenho 
quer pelos ensinamentos quer pela virtude dos exemplos, mais 
tbcundos c mais activos ainda que todas as licções. Gabavam à portía 
a magnificência de uma natureza novj, a rica vegetação das flo- 
restas, que o machado ainda não violara, os aspectos pitlorcscos das 
producçúes e das plantas desconhecidas totalmente na Europa. 

O novo governo do Brasil alli desejava introduzir o g<Jsto de 
uma nova cultura, a das artes da imitação, e ofierecia aos artistas 
parizienses o duplo chamariz da fortuna e das honrarias. 

Taunay Jeixou^sc levar por estas promessas Callazes e partiu 
para o Rio de Janeiro, com dous dos filhos e alguns amigos, atira- 
hidos como cllc pelas mesmas esperanças. Digamos que nem todas 
lhe foram enganosas, isto é para o talento e a reputação. AJais de uma 
grande tela, rcmcttida á Academia durante esse voluntário exilio' 
si em nada contribuiu a uma reputação que nada mais tiuha que 
conquistar, deu novos tcstímunhos da sua rara capacidade em se 
impregnar de todas as diversidades das formas c das physionomias 
da natureza. 

No entanto, decorridos alguns annos, as saudades da pátria não 
podiam deixar de nclle produzir o effêíto de uma desillusão> a que se 
juncuram o pezar da perda de alguns companheiros do voluntário 
desterro, e sobre tudo o lucto pela morte de um dos filhoR, cir- 
cunstancia que acabou de lançar um véu fúnebre si'ibre a perspc- 
ctiva de fortuna e de gloria que o seduzira. 

Desde ahi nada mais desejou sináo respirar o ar da pátria, 
onde o chamavam os votos dos amigos e a ennobrecedora dis- 
lincçáo da cruz de honra, que parecia ter ido procura-lo no Brasil 
unicamente para lhe lembrar quanto se honrava a pátria com os 
seus talentos. 

Voltou pois, mais para gozar da reputação adquirida no meio 
das amigos do que para entrar de novo em líçn com a multidão dos 



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140 REVISTA DO rsSTITOTO HISTÓRICO 

coQCurrentes, que os eflettos dos acontecimentos revolucionários 
haviam suscitado. 

Mais que septuagenário arranjou pacifico retiro, ao tado da 
mullier e o unico filho readente em França. 

Alli, exemptode sofliimeatos physicos, liberto de quaesquer 
preocupações e ambições, comprazÍa-se em fazer como que um 
retrospecto dos trabalhos que lhe haviam tomado a vida toda. Ro- 
deado de grande numero de obras suas aubmettia-as a uma critica, 
cada vez mais severa, cujas sentenças acatava pc^ meio de felizes 
retoques até que estes lhe satisfizessem plenamente o gosto. Assim 
terminava suavemente a carreira no meio das lembranças de uma 
existência hohrada, de esperanças de duradoura gloria e das do- 
çuras da vida domestica, gozando da estima e amizade de todos os 
confrades, confiante em que a sobriedade da vida e a solidez da 
constituído lhe haveriam de recuar o prazo fatal, ainda por alguns 
annos. 

Vá eitperança ! súbita fraqueza, funesto presagto da morte dclle 
se apoderou. 

Nâo era moléstia da alçad.i da scicncla nem da arte dos mé- 
dicos, e sim uma extiacção. 

No (im de quinze dias morrín, aos<tãptenta e cinco annos, a ao 
de Março de iRyi. 



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A «CIRCULAR.. DE TllEOPHILO OTTONl 

REPRODUCt, .^Q DO OI>USCULO EDITADO EH l(!60 E fSÕI, SESTA CAPITAL, 
COM O TITULO " CIRCULAR DEDICADA AOS SR5. ELEITORES DE SENA- 
DORES PELA província DU ICINAS-GEHAES NO QUATniENNIO ACTUAL 
B ESPECIALMENTE DIRIUIDAS AOS SR8. ELEITORES DB DEPUTADOS PELO 
3" DISTRICTO ELEITORAL DA MBSKA PROVÍNCIA PARA A PROXIllA LE- 
GISLATURA 1>K,0 E\-DEPUTADO TllEOPHILO BENEDICTO OTTONl • 
PRECEDIDA DE U.UA SUMHARIA APRECIAÇ.tO DA VIDA E FEITOS DO 
BENEMÉRITO PATRIOTA. 



BASÍLIO DE MAGALHÃES 



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Ao Sr. professor Basílio de Magalhães, noSSo c 
auxiliar, pedíramos um prefacio, destinado a justificar a in>- 
serção do precioso documento politico de Theophilo Ottoni 
nas paginas de nossa < Revista >. 

Ai)enas nos foi entregue aquelle trabalho, leu-o o nosso 
venerando bibliothccario, o provecto dr. Vieira Fazenda, que 
sobre elle traçou esixjntaneaniente as linhas seguintes: 

— « E' o estudo mais completo que conheço sõbrc 
Theophilo Uttoní, inclusive tudo quanto do illustre Mineiro 
escreveu Joaquim Nabuco». 

Nada mais nos resta a accrescentar a esse honroso pa- 
recer, que subscrevemos sem discrepância. 

A DiKiiCCÃo. 



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A emeHUE »e theopeilo ottoni 

Em boa hora resolveu o Instituto Histórico e Geogra- 
phico Brasileiro estampar na sua < Revista >, por ser hoje 
de extrema raridade, a melhor produc<;ão das postas em letra 
de forma pelo^naís adeantado liberal do império. 

Datada de 19 de Septembro de 1860, nesse mesmo 
anno saiu dos prelos do Correio Mercantil, de M. Barreto, 
Filhos & Octaviano, á rua da Quitanda 11. 55, nesta capital, 
a — € Circular dedicada aos srs, ' eleitores de senadores pela 
província de Minas-Geraes no quatriennio actual e especial- 
mente dirigida aos srs. eleitores de deputados pelo 2° districto 
eleitoral da mesma provincia para a próxima legislatura pelo 
ex'deputado Theophilo Benedícto Ottoni », 

As suas 161 paginas, em typo miiido, evidenciam desde 
logo que tal obra fugia á vulgaridade, ou, melhor, á vacuidade 
que, como ainda agora, characterizava então as congéneres. 

Assim como no longo período colonial, entre as ínnu- 
meras florações poéticas aqui abrolhadas ás inspirações do 
cultísmo ou da reacção clássica, só duas houveram jus á ím- 
mortalidade, — o « Uruguay » de José Basílio da Gama e as 
«Cartas chilenas >, de Thomaz António Gonzaga — .assim 
também do sem-numero de opúsculos políticos, adubados pelas 
agitações em que nasceu e se consolidou a nossa soberania c 
proliferaiTos pelo rotativismo dos grossos partidos nionar- 
chicos, apenas três abriram sulco profundo e imperecível na 
esteira dos pátrios annaes : — o « Libello do povo » de Ti- 
mandro (Francisco de Salles Torres Homem, depois visconde 
de Inhomirim), a admirável synthese a que Justiniano José 
da Rocha deu o titulo de « .■\cção, reacção, transacção» e a 
€ Circular» de Theophilo Benedicto Ottoni, 

Não é só a absoluta escassez desta no mercado de livros 

o que determina a necessidade da sua reimpressão. Não fosse 

■ ella, como é, o inestimável e fidedigno depoimento dos prín- 



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146 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

cipaes episódios da evolução brasileira na maior parte do 
regime imperial, prestado por quem os testimunhou em dila- 
tada e brilhante carreira pública, e, sobretudo, não fosse ella, 
como é, efficiente doutrínamento de alto civismo, límpida 
licção de moral politica, — sem duvida merecera dormir o 
somno do perpetuo olvido, como tantas outras que visaram a 
interesses de occasião e sobre as quaes paira hoje o mais 
justificável silencio, 

A acção exclaredda e perseverante do grande liberal e 
aquella sua autobiographia constituem, em perfeito conjuncto, 
não só um luminoso capitulo da Historia nacional, como 
também um edificante exemplo aos homens, a quem ora in- 
cumbe a direcção dos supremos destinos da Pátria. 

Vamos, pois, bem que em pallido resumo, corroborar o 
que acabamos de dizer, demonstrando ao mesmo tempo o 
novo serviço meritório, que o Instituto Histórico e Geogra- 
phico Brasileiro tão opportunamente presta ao paíz, com o 
fazer revibrar a voz do estrénuo trabalhador, o qual, além de 
pôr em práctica, com o completo sacrificio da sua fortuna e 
da sua saúde, a defesa e o desenvolvimento dos nossos mais 
elevados interesses económicos, foi sempre um impolluto e 
indefesso paladino das franquias democráticas, afinal con- 
quistadas pela terra, que tanto deve ufanar-se de lhe ter sido 
berço. 

Nasceu Theophilo Ottoni a 27 de Novembro de 1807, 
na então villa do Principe e hoje cidade do Serro, em Minas- 
Geraes. Argúe-lhe o cc^^nome sangue italiano, pelo lado pa- 
terno (1) . Era sobrinho de José Eloy Ottoni, um dos nossos 
mais inspirados lyricos da primeira metade do século XIX, 
e ermão de Christiano Benedicto Ottoni, erudito mathematico 
e proficiente engenheiro, a quem deve o Brasil assígnalados 
serviços (2). 

(1) Sesundo informacãai qu> tiot foram gcntUniente larntciíU* ptlo ít. 
ir. Júlio Benedido Olloni, Theophilo, que era lilho de Jorge Benedicto Ottoni 
e d. Rosália Ottoni e neto de Manuel Vieira Ottoni e d. Anna Fellrarda Pua 
Leme, descendia de Manuel Ottoni, Genovei emigrado fiara Portugal e de IÍ 
para o Bruil noi fina do primeiro quartel do século XVIII. poii a (ua carta 
de naturalizaçlo foi regiilada na canura d> cidade de S. Paulo a ii de Julho 
da t;»?. 



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k CIRCULAR DE THBVHILO OTTONi 1^7 

Na terra natal, além de outras disciplinas, estudou cuida^ 
dosamente o latim; e aos quinze annos já rimava algumas 
estrophes patrióticas, incentivadas pela repercussão que tivera 
em nossas plagas o movimento constitucionalista portuguez 
de 1820. 

Vindo para esta capital em 182Õ, aqui se matriculou na 
Academia de Marinha (primeira denominação que teve a 
Escola Naval), onde logo se fez notar a robustez do seu 
talento. 

Ao concluir as provas do primeiro anno, teve ensejo de 
ouvir do presidente da banca examinadora, o chefe de es- 
quadra José de Sousa Correia, as seguintes palavras de espon- 
tâneo elogio : — « Estudantes, como este, honram aos profes- 
sores e á própria Academia > . 

Durante o curso, realizado sempre com brilho, ainda o 
jovcn Mineiro teve tempo de fazer-se professor de Geometria, 
folgando de contar entre os seus discípulos a Evaristo da 
Veiga, de quem se tornou assiduo e sincero amigo. 

Admira que ainda lhe sobrassem momentos de lazer para 
a intensidade jornalisttca, a que também se entregou. Assim 
é que collaborou activamente na Astréa (não publicada em 
S. João dei Rey, como equivocadamente af firma Nelson de 
Senna, in € Rev. do Inst. Hist. e Get^. Brás. », LXV, p. 2*, 
35S, mas editada aqui, no Rio de Janeiro, sob a direcção de 
António José do Amaral e José Joaquim Vieira Souto, tendo 
durado de 1826 a 1832), com o pseudonymo de c Joven Per- 
nambucano», pois, sendo menor, teve de acceitar para seus 
escriptos a responsabilidade legal, que generosamente lhe em- 
prestou tun official do exercito, filho da província septen- 



lente da Academia de Uarinha e cathedratíco da Eichota MiliUr, lendo escripM 
compendíot de Mathcmatica dementar, que lhe srMgefuit ■ mili Juals nomeada. 
A' timilhinta do teu digno ermáo, começou cedo a carreira politica :— foi depu- 
tado prorincial em iSjS, e nas lesislatuias de iS+S, 1861 e iSfi4 reprsientou 
Minas na Camará temporária geral; eleito e escolhido senador pela prorineia 
do Espirito-Sanclo em 1879. enconlTOu-o a Republica na iiiemblía nUlicia, & 
qual, transformada pelo nav« reilme, voltou elle em iSei, pelos sutfragios da 
sua tern utal. Falleceu aoi 81 iduoi, teodo coDMirado i Fatii» 4 meUiar d« 
■ua longa e piccioM ejuttsncia. 



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I48 REVISTA DO INSTITUTO HI8T0IUCO 

trional; e daqui traçava frequentes correspondências para o 
Echo do Serro, assun como para o Astro de Minas, de S. João 
dei Rei. 

Attrahia-o a Politica, e os seus primeiros actos denun- 
ciaram immediatamente o altivo e inflexivel defensor das 
liberdades pátrias. 

Nas eleições de 1829, acciamado escrutador da mesa 
parochial da f reguezia do Sacramento, não lhe faltou coragem * 
para propor que fosse multado o general Joaquim de Oliveira 
Alvares, então ministro da Guerra. 

Comprehende-se facilmente que se negasse ao audacioso 
estudante, — inscripto no « index > desde aquelle dia pelos 
que dispunham das disposições governamentaes — , o direito de 
concluir o curso de Mathematíca na Academia Militar, por- 
quanto já havia elle completado o da Academia de Marinha. 
Não se lhe permittiu, siquer, assistir, como ouvinte, ás licçÕes 
de Mechanica professadas por Joaquim José Rodrigues Tor- 
res, depois visconde de Itaborahi, seu digno mestre e então 
illustre correligionário. 

Ordens de embarque para a inhospita costa da Africa 
e para o remoto Amazonas, assim como irritantes inspecções 
de saúde, a que a disciplina militar o sujeitava, forçaram 
Theophilo Ottoni a pedir baixa do posto de giiarda-marinha, 
tão galhardamente conquistado. 

Revoltara-o já, — nem iJodia deixar de ser assim num 
espirito onde ardia em ara perenne o fogo sarado da demo- 
cracia — , o facto de assentarem aquella praça os « filhos dos 
grandes, ainda que idiotas », < antes mesmo de se matri- 
cularem na Academia » ; e, para que se lhe dessem as duas 
estrellas, fora mister que elle dirigisse ao Governo um pro- 
testo enérgico a favor do « principio da egualdade consagrado 
na Constituição » . Rebellando-se contra a escandalosa pro- 
tecção que immerecidamente se fizera a condiscípulos seus, 
logrou o denodado moço ser o único Brasileiro a quem, na- 
quelle tempo, coube, independentemente de titulos paternos 
ou avitos, < assentar praça de aspirante graduado em guarda- 
marinha». 

Quando ignóbil perseguição politica lhe cortou a car- 
reira profissional, iniciada sob tão fulgidos e risonhos auspi- 



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A CIRCULAR DE THEOPHILO OTTONI I49 

cios, já Theophilo Ottoní era secretario do celebre club dos 
«Amigos Unidos», de que proveio mais tarde o «Grande 
Oriente» do Passeio Publico. Tal associação, em que mili- 
tavam muitos dos mais notáveis agitadores republicanos da 
epocha, entre os quaes Cypriano José Barata de Almeida, 
«teve mais influencia do que se pensa na revolução de 7 
de Abril». O digno Mineiro deixa claramente entrever na 
« Circular > o nobre papel que coube á Maçonaria na árdua 
pugna de escalar as trincheiras do obscurantismo e de chantar 
a signa excelsa da democracia nos torreões do « orienta- 
lismo» e « moscovitismo » monarchicos. 

Em 1830 retirava-se Theophilo Ottoni do Rio de Ja- 
neiro para o seu torrão natal, onde ia montar uma casa com- 
mercial e para onde transportava uma pequena typographia .• 

Calcule-se com que difficuldade, num tempo em que não 
havia ainda nenhuma ferrovia no território nacional, não 
arrastou elle para o longínquo sertão, desbravado outr'orA 
pelo < caçador das esmeraldas », o material de que ia sair o 
seu novo orgam de combate ! 

A Sentineiia do Serro, offuscando os outros raros pe- 
riódicos da provincia, foi a rútila almenara que de lá, das 
« alterosas montanhas », iltuminou a áspera e íngreme senda', 
por onde se houvera de attingir á víctorta dos ideaes demo- 
cráticos . 

A 3 de Abril de 1831 chegava á villa do Príncipe a 
noticia das luctuosas scenas das «garrafadas >, prenuncio de 
inevitável e maior explosão. 

Theophilo, sem perda de um minuto, chamou ás armas 
os conterrâneos, «para deitar por terra a tyramiia». Os 
cidadãos válidos congregaram-se todos sob a bandeira do 
joven chefe. Até as matronas mais venerandas concorreram 
com as suas valiosas offertas para a caixa militar. Com- 
proU'Se tudo quanto havia no commercío local de arnías e 
munições. 

Assim, desde o dia 4 de Abril, aquelle pintoresco e 
histórico recanto de Minas se transmudara numa praça de 
guerra, sob a direcção do ex-guarda-marinha . Conservou-se 
ella sempre alerta, até que lá apparecesse um expresso, man- 
dado de Ouro-Preto pelo pae de Theophilo, levando a boa 



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IjO UnSTA DO INSTITUTO msTORica 

nova da abdicação. E só o prestigio da palavra do «stímadò 
cabo liberal pôde salvar de horrendo morticínio os Portu- 
guezes domiciliados na povoação serrana. 

Ante o mallôgro de sua ridente aspiração republicana, 
escreveu Theophilo Ottoni, com justa razão, que — « 6 7 de 
Abril foi uma verdadeira journêe des dupes » . 

Mas, desde que elle percebeu o perigo, que se antolhava 
á nação, de ve-la mergulhada na anarchia das casernas, na 
orgia militar apparelhada pela indisciplina (&s classes far- 
dadas, sem o apoio das quaes, todavia, fora impossível con- 
seguir-se a deposição de Pedro I, — não hesitou um só tns* 
tante em eollocar-se, para salvação da Pátria, ao lado dos 
monarchistas, que arvoraram o gonfalão do liberalismo mo- 
derado. 

Além do seu valente hebdomadario, fundou elle no Serro, 
em 1832, a € Sociedade Promotora do Bem Publico », a cujo 
excellente programma Evaristo da Veiga, pela Aurora Flu- 
minense, chamou cEncycHca Promotora». Já então o pre- 
vidente liberal mineiro se insui^a contra o conservatorismo 
do Senado e pregava francamente a reforma unilaterit da 
Constituição . 

Foi por causa de similhante attitude que o redactor da 
Senlinella do Serro, processado e perseguido, teve que sus- 
pender a publicação do seu periódico. 

Na imprensa propugnou elle, hábil e energicamente, pela 
modificação radical da carta outoigada pelo soberano de- 
posto. E, embora não conseguisse que triumphassem todas as 
suas idéas, como, entre outras, a da abolição da vitaliciedade 
do Senado, rejeitada pela maioria de um só voto, viu, contudo, 
consagrada no Acto Addicional a victoria do seu alto plano 
politico ; — a suppressão do Conselho de Estado vitalício e a 
conversão dos conselhos geraes em assembléas l^islativas, o 
único meio de manter cohesas as dezoito províncias do Im- 
pério . 

Houve, é certo, quem pensasse existir no Acto Addicional 
< o germe da anarchia e da ruína da unidade brasileira t 
(Justiniano José da Rocha, € Acção, reacção, transacção », 
pags. S5 da 2* ed.) . Mas é evidente que não daquella lei em 
si mesma, e sim dos abusos commettidofi em nome delia, da 



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A CIRCOLAR DB TREOraiLO OTTONI iSl 

inexperiência então dominante e do estado de confusão que 
reinava em todos os espiritos, foi que resultaram dentro em 
pouco alguns graves males e graves apprehensões, a que se 
buscou prompto remédio com a interpretação de 1840. 

Promulgada durante as exéquias do ex-imperador, falle- 
cido em Porti^al a 24 de Septembro de 1834, aquella reforma 
constitucional foi também « um penhor de alltança, que .aos 
liberaes mais adeantados offereciam os estadistas moderados, 
senhores da situação». E Theophtlo, de quem é a phrase, 
acredita, num insophtsmavel julgamento a posteriori, que elles 
não teriam assentido á modificação do pacto de 25 de Março 
de 1834, < si soubessem mais a tempo que se podiam consti- 
tuir vice-reis durante a menoridade, si vissem deante de si a 
perspectiva de serem, depois da menoridade, proclamados 
Césares, e associados ao Império, mesmo sob o reinado do 
sr. d. Pedro II maior. . . » 

O trespasse do príncipe que, < cedendo ás instancias dos 
Andradas», tinha concorrido poderosamente para a nossa 
independência, alterou profundamente a situação politica do 
Brasil. Com ef feito, perdera a razão de ser a facção dos 
restauradores ou caramurús, e com estes e com os dissidentes 
de todos os matizes foi que Bernardo de Vasconcellos, — 
<o Mirabeau do Brasil >, no conceito de Armitage (f Historia 
do Brasil », trad., ed. de 1837, pags. 229) — organizou o par- 
tido conservador, depois vulgarmente chamado saquarema, que 
triumphou nas eleiçSes de 1836. 

O Acto Addicíonal, como é sabido, estabelecera a re- 
gência una, para a qual fora eleito em 1835 o enérgico padre, 
que tinha sido ministro da Justiça do segundo triunvirato. 
Feijó, character espartano, ao qual, como a Ottoni, a Paula 
Sousa e a raros outros, não faltara quem acoimasse de revo- 
lucionário e anarchista, Feijó, o inexorável jugulador dos 
pronunciamentos quarteleiros e das bernardas civis imme- 
diatamente posteriores ao desthronamento de Pedro I, si con- 
seguiu a pacificação do Pará por meio da acção efficaz do 
general Andréa, não I<^ou chamar ã paz os « Farrapos », e, 
ante a formidável opposição parlamentar, contra elle desen- 
cadeiada, ante a impossibilidade de cumprir lealmente a re- 
forma constitucional de 1834, renunciou ao seu alto posto. 



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153 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

. entregando o poder a um dos mais graduados guieiros das 
hostes adversarias, Pedro de Araújo Lima, depois marquez 
de Olinda, e < astro do imperialismo », como lhe chamaram 
mais tarde alguns follicularios «chimangos». 

Em 1835 Theophilo Ouoni, sem a menor solicitação de 
sua parte, fora eleito deputado provincial, e a sua mira prin- 
cipal consistiu, como elle próprio o confessou, em defender na 
assembléa de sua terra natal o c famoso palladium >, isto é, 
o Acto Addicional, que elle reputava a « tábua de salvação do 
Brasil ». 

Mas não se adstringíu a isso: muito contribuiu também 
para o desenvolvimento do ensino público, especialmente do 
secundaHo, até então muito descurado, e tomou parte activa 
na elaboração e votação da lei de constnicção e conservação 
das estradas de rodagem da província, interessando-se, c(Mn 
muito empenho, pela navegação dos rios que servem a MÍna<i 
e ás circunscripções confinantes, — origem da sua futura em- 
presa do Mucuri. 

No pleito logo depois travado entre liberaes e conserva- 
dores para a quarta legislatura do Império, a sua intelligencia 
e os seus serviços fizeram-no conquistar facilmente uma ca- 
deira na Camará temporária. 

Os horizontes políticos estavam medonhamente contur- 
bados. A' guerra, francamente separatista, do Rio Grande do 
Sul, e que já se havia extendído a Sancta-Catharina, não 
tardou a sobrepôr-se a revolução de 1837-1838, conhecida por 
< Sabinada >, na Bahia, e accrescida, no anno mesmo de sua 
extincção, pela longa lucta civil da < Balaiada >, que ensan- 
guentou o Maranhão até 1841. 

Substituídos no poder os liberaes, desde a renúncia de 
Feijó, pelos conservadores, ía travar-se o renhido e memo- 
rável duello parlamentar, cujo desfecho foi a maioridade, 
também journée des dupes para os seus defensores. 

A província de Minas timbrara em escolher dentre seus 
filhos os que mais dignamente e scíntillantcmente a podiam 
representar na assembléa geral: — na legislatura de 1838 a 
1841, Theophilo Ottoni teve como companheiros de bancada 
a vultos da estatura intellectual e moral de Bernardo Pereira 



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A. CIRCULAR DE THEOPBILO OTTONI 1^3 

de Vasconcellos, Cândido José de Araújo Vianna, Honório 
Hermeto Carneiro Leào, António Paulino Limpo de Abreu, 
José Joaquim Fernandes Torres, José Feliciano Pinto Coelho 
da Cunha e padre José António Marinho. 

Succederam-se cinco ministérios conservadores desde 19 
de Septembro de 1837 até 23 de Julho de 1840: — o de Ber- 
nardo de Vasconcellos (19 de Septembro de 1837 a 16 de 
Abril de 1839), o de Francisco de Paula de Almeida e Albu- 
querque (16 de Abril a 1° de Septembro de 1839), o de Alves 
Branco (i° de Septembro de 1839 a iS de Maio de 1840), o de 
Lopes Gama (iS de Maio a 22 de Julho de 1S40), e, final- 
mente, o de Vasconcellos, que durou apenas poucas horas, a 
22 de Julho de 1840. 

Bateu-se Theophilo Ottoni, rutila e infatigavelmente, 
contra o que elle denominava de * oligarchia », e cuja feição 
retrógrada o irritava sobremaneira. 

Ao restabelecimento do beija-mão (também estigmatizado 
em 1855 por Justiniano José da Rocha, op. àt, pags. 56-57), 
devido ao ministério de 19 de Septembro de 1837, deu elle 
o epitheto de c orientalismo », de « acto indigno do cidadão 
livre», apressando-se a impugna-lo, 1(^ que se iniciou a 
sessão legislativa (discurso de 10' de Maio de 1S38). 

Não poude, todavia, obstar a que os rotineiros, que desde 
1836 vinham cogitando de cercear as franquias do Acto Addi- 
cional, levassem a cabo a sua tentativa, concretizada afinal na 
interpretação, promulgada a 12 de Maio de 1840 e que, con- 
forme o auctor da «Acção, reacção, transacção» {pags. 57), 
foi < o pomo de discórdia lançado em meio dos partidos, e 
traçou a linha tfivisoría entre os reactores contra a organi- 
zação democrática e os defensores delia». 

Parecia ao espirito de largo descortino do eximío liberal 
mineiro que « se devia antes alargar do que restringir as 
faculdades provinciaes » ; e, apostolo de taes prerogativas, 
€ tendo fé no governo do povo por si mesmo », exforçou-se 
em vão por impedir que se convertesse em realidade um dos 
mais « atrevidos lances de jogo » da oligarchia conservadora, 
isto é, < D maior dos erros da legislatura de 183S a 1841 », a 
lei interpretativa. 



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154 RBVBTA 00 INBTITDTO mfflORICO 

Theophilo Ottoní, cujas idéas, como se está! vendo, de- 
nunciavam um perfeito republicano, foi, entretanto, um dos 
mais fervorosos campeões da maioridade. 

Era preciso derribar a « oligarchia tenebrosa, apoiada no 
poder e no dinheiro dos traficantes da costa da Africa », e 
aos que o accusaram de associar-se a um movimento em que 
claramente se percebia a fome do poder, explicou, com a sua 
sinceridade, — que « adoptava a idéa da maioridade como 
uma espécie de regresso, segundo a definição que dava a esta 
palavra o seu illustre auctor: recurso contra os desatinos; t 
queria fazer da maioridade uma égide em favor dos princípios 
liberaes > . 

Da tribuna da Camará temporária, em meio de sussurros 
de reprovação, teve elle a coragem de dizer que discordava de 
muitos dos seus companheiros de campanha maiorista, para 
os quaes os males da governação provinham de serem os re- 
gentes homens do povo, a quem faltava o prestigio de uma 
nobreza perdida em a noite dos séculos. Proclamava elle que 
o prestigio de d. Pedro II nascera aqui, em nosso paiz, no 
instante em que seu pae, < comprehendendo bem as necessi- 
dades do Brasil», adheriu á! nossa independência. E accres- 
centava, dilucidando melhor o seu pensamento: — «Si acaso 
succedesse que, em vez de ser o primeiro imperador do 
Brasil, descendente da casa de Bragança, quem se poz á 
frente deste movimento verdadeiramente nacional, que nos 
elevou á categoria de nação, fosse outro heróe, como João 
Fernandes Vieira, e a nação tivesse collocado a coroa sobre 
a sua cabeça, o sr. d. Pedro II, descendente desse outro heróe, 
e não do filho dos reis, não teria menos prestígio». 

Apreciando, a seu turno, essa inopinada mutação do 
nosso scenario politico, occorrida em meiados de 184D, e cujo 
estado confusional já assignalara em linhas anteriores, assim 
se exprimia Justiniano José da Rocha {op. cit., 62): — «A 
acção democrática havia tríumphado em 1831 ; que importam 
seus instrumentos, as paixões, os interesses que lhe deram o 
triumpho? A reacção monarchica triumphou em 1840; que 
importam seus instrumentos, as paixões e os cálculos que lhe 
deram o triumpho? A grande lei do progresso achou-se cum- 
prida ; foi essa a segunda phase da lucta ; era tão i 



rfbyGoOgIe 



A GUtCUL&R DE THIOPBUO OTTONI 155 

como a primeira, tão necessária ramo a terceira. Felicí- 
temo-nos; que nessas jornadas escabrosas da nossa oi;ga- 
niza^ politica a Pátria se conservou inteira, incólume; nos 
rochedos em que teve de abalroar, não deixou dispersos os 
pedaços do seu corpo gigantesco ; nelles não verá o pensador 
politico os destroços de uma nacionalidade extincta». 

Taes palavras indicam nitidamente que a adhesão ao 
movimento maiorista, por parle dos mais sinceros e exclare- 
cidos condottieri do liberalismo adeantado, foi determinada 
não só pelo receio da fragmentação do Brasil, sinão também 
pelo temor de ve-Io submergir-se na sangrenta anarchia do 
caudilhismo e do caciquismo. 

Mas a victoria de 23 de Julho de 1840, — 'para a qual, 
consoante com o que refere pormenorizadamente o auctor da 
< Circular >, tanto contribuiu o joven monarcha, que aos 
quinze annos incompletos já sabia tão solertemente manejar os 
cordéis da titeragem dos partidos em lucta, — não podta 
deixar de ser ephemera, no ponto de vista dos altos interesses 
da nação colltmados pelos liberaes, e o triste ludibrio arrojou 
Theophilo Ottoni a novas refr^;as no parlamento, assim como 
a encabeçar a revolução de 1842 em Minas-Geraes . 

Com effeito, a vontade do joven dynasta, desde cedo es- 
tereotypada na fórmula do «quero já>, impoz ao seu pri- 
meiro ministério o < pontifice da seita palaciana >, Aureliano 
de Sousa e Oliveira Coutinho, associando desse modo aos 
Andradas, aos hoplitas da Maioridade, o mesmo homem que 
já havia desterrado para a ilha de Paquetá e feito processar 
perante o jury ao < Washington brasileiro », ao patriarcha da 
Independência . 

O reinado tfe d. Pedro II, que começara pela mais cla- 
morosa violação do pacto constitucional, assignalou-se bem 
depressa pela maior desorientação na « selva escura > da 
Politica . 

Custa crer que tivesse podido sustenlar-se no governo, 
durante oito mezes precisos, o gabinete de 23 de Julho de 
1840, que, além de acolher o chefe do aulicismo, era o expo- 
ente de c uma- Camará que apoiou sem tergiversar o minis- 
tério parlamentar de 1837, o ministério r^encial de 1839 e o 
ministério oligarchico de 1840 e que, em seguida, depois de 



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IS6 REVISTA DO IKSTITDTO HISTÓRICO 

haver alternadamente condemnado e applaudído a Maioridade, 
accompanhou servilmente o ministério maiorista e terminou a 
sua carreira obnoxía como rabadilha do ministério palaciano 
de 23 de Mari:o de 1841 ». 

Custa crer qtie os liberaes, a quem a renúncia de Feijó 
derribara do poder, tivessem emprehendido tão longa e bri- 
lhante campanha para conquista-lo, e, uma vez trJumphantes, 
houvessem revelado tão lamentável subserviência' à imperial 
criança . 

Subindo de novo ao governo e encontrando o dócil apoio 
de tão propicia situação parlamentar, cuidou o partido con- 
servador de recorrer a todos os meios possíveis, afim de per- 
petuar-se na suprema direcção do paiz. 

Não lhe foi preciso o golpe de Estado, que planejara 
antes, de dar por nuUo o Acto Addicional, « a pretexto de 
que na sua adopção não havia intervindo o Senado». 

A Camará famosa, — na qual como que se aleiloara a 
dotação civil do menino imperante, elevando-a a 800 :ooo$ooo, 
quantia que assombrara ao honrado Martím Francisco e talvez 
&o próprio d. Pedro II, — não vacillou em approvar os pro- 
jectos de reforma do Código do processo criminal e de resta- 
belecimento do Conselho de Estado, isto nos últimos dias da 
legislatura. 

Em vão representaram os liberaes contra esse garro- 
teamento das franquias, que a tanto custo haviam logrado 
inscrever em nosso primitivo pacto constitucioti^l . 

Só lhes restava, para romper aquellas gargalheiras, 
aquelles grilhões, com que os contrários pretendiam suffoca-los 
e esmaga-los, a Camará que se ia reunir a 3 de Maio de 1842, 
é na qual contavam com grande maioria. ' 

Pois bem : — essa esperança foi-lhes também tirada pelo 
singular decreto de i" do referido mez e anno, que dissolveu 
uma assembléa, que nem siquer chegara a abrir-se legalmente 1 

Era também, — como salienta Teixeira de Mello em suas 
€ Ephemerídes nacionaes > (I, 275), — a primeira vez que se 
empregava essa violenta medida, depois da Constituinte. 

As provincias de S. Paulo e Minas-Geraes recorreram 
então ás armas, o único meio de que dispunham para fazer 
tríumphar a vontade soberana da nação. 



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A CIRCULAR DE THEOFHILO OTTONI 157 

Ainda continuava accesa, no extremo Sul, a guerra dos 
c Farrapos >, e é innegavel que Pernambuco teria adherido 
ao levante dos Mineiros e Paulistas, si não o houvessem a 
tempo desviado de tal proceder as manobras astuciosas de 
Aureliano Coutinho, o verdadeiro imperante, nos inglórios 
prodromos do s^undo reinado. 

Jã era sabida a derrota dos revolucionários da terra dos 
bandeirantes pelas tropas de Caxias, quando Theophilo Ottoni, 
que em 1842 era deputado á assembléa legislativa da sua 
provinda natal, mas estava então nesta cidade, daqui partiu 
para Minas, afim de ir pôr-se á frente do movimento estalado 
em Barbacena a 10 de Junho. 

A attitude do denodado chefe liberal foi a mais digna, 
abn^;ada e coherente. 

A fortuna, que sempre sorrira á longa e rutilante car- 
reira de Luiz Alves de Lima e Silva, — o braço direito do 
s^tmdo reinado — , permittiu-lhe triumphar dos rebeldes de 
Minas, a 20 de Agosto, no combate decisivo de Sancta-Luzia, 
onde tudo, entretanto, parecia indicar que iam emmurchecer 
os lauréis ganhos no Maranhão e em Sorocaba. Os vencidos 
tinham, contudo, meios sobejos de continuar a lucta. Mas n 
isso se oppoz Theophilo Ottoní. Evitou este, em primeiro 
Ic^ar, que se lançasse ás chammas o archivo da revolução, 
afim de não subtrãhir ao julgamento dos tribunaes e da 
posteridade os elementos probantes essencíaes do como haviam 
procedido os Mineiros no seu appêllo ás armas. Obstou a que 
se derramasse inutilmente mais sangue dos seus compatrícios 
e fez timbre em entregar-se prisioneiro ao vencedor, com 
todos os seus companheiros civis. 

Fazia questão de que o poder judiciário decidisse si 
eram ou não inconstitucionaes as leis de 23 de Novembro e 
3 de Dezembro de 1841, assim como o decreto de r de Maio 
de 1842, que dissolvera a Camará temporária, antes de começar 
ella a funccionar. 

Ao mesmo tempo, em que se justificava .elle pelas co- 
lumnas do Ilacolomy, publicado em Ouro-Preto, muitos dos 
seus amigos e correligionários também lhe acudiam em defesa, 
quer nas assembléas provtnciaes, quer no parlamento nacional. 



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1S8 REVIBTA DO IHSTITIITO HIBTOIUCO 

A exemplo do que se dera com outros cabeças da mallo- 
grada revolta, quando Thec^hilo Ottoni se apresentou á 
barra do jury de Mariana, todo o conselho de sentença, de 
que faziam parte muitos dos seus adversários, se levantou 
para homen^ea-lo, e a sua absolvição foi unanime, após 
quasi anno e meio de prisão. Guardava elle, como relíquia 
preciosa do seu glorioso passado, a penna com que haviam 
sido escriptas as respostas aos quesitos do juiz de direito. 

A < seita palaciana >, que constituíra o gabinete de 23 de 
Março de 1S41, fora excluída do ministério de 20 de Janeiro 
de 1843, pois os conservadores se consideravam sufficiente- 
tnente assegurados pelas derrotas infligidas aos liberaes de 
S. Paulo e Mínas-Geraes. 

Era obvio, portanto, que os cortezãos se exforçassem por 
alijar do poder os seus amigos da véspera, e, como isto de- 
pendia apenas do alvedrio da imperial criança, a 2 de Feve- 
reiro de 1844, mercê de simples capricho, subiam outra vez 
os liberaes á suprema governação do paiz. 

Um dos primeiros actos da nova situação foi perdoar a 
todos os implicados nos movimentos de 1842, sendo a expo- 
sição de motivos, redigida por Alves Branco, uma justificação 
análoga á que se procedera perante os tríbunaes populares, 
que haviam absolvido os rebeldes. 

Governaram os liberaes até fins de 1848, com òs se- 
guintes gabinetes: — Almeida Torres (visconde de Macahé), 
de 2 de Fevereiro de 1844; visconde de Albuquerque, de 5 de 
Maio de 1846; Alves Branco (visconde de Caravellas), de 
22 de Maio de 1847, com o qual se creou o cargo de presi- 
dente do conselho de ministros, regularizando-se assim o sys- 
tema parlamentar do Império; Visconde de Macahé, de 8 de 
Março de 1848; e Paula Sousa, de 31 de Maio de 1848. 

Amnistiados por decreto de 14 de Março de 1844, os 
principaes chefes dos vencidos de Sancta-Luzia vieram imme- 
diatamente para a assembléa geral. Assim, na sexta legis- 
latura, de 1845 a 1847, tiveram assento alli, como represen- 
tantes de Minas-Geraes, Theophilo Ottoni, José Pedro Dias 
de Carvalho, o padre José Antonb Marinho (que foi o bri- 
lhante historiador da revolução), José Feliciano Finto Coelho 



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A CUtOlUR DE THBOPHILO OTTOHt 159 

da Cunha (depois barão de Cocaes), Joaquim António Fer- 
nandes Leão, ao lado de António Paulino Limpo de Abreu 
(depois visconde de Abaete), José Joaquim I^emandea Torres, 
Herculano Ferreira Penna, Paulo Barbosa da Silva, Fran- 
cisco de Salles Torres Homem (depois visconde de Inho- 
mirim), Manuel Odorico Mendes e outros. Theophilo Ottoni 
foi eleito, nessa occasião, vice-presidente da Camará dos depu- 
tados.' 

Convém assignalarmos aqui, consoante com as informa- 
ções que nos fornece Christiano Ottoni (c Biographia de 
Theophilo Ottoni», pags. 27-28), que, tendo o vice-presi- 
dente da Camará temporária comparecido, nesse character, 
em 1846, á ceremonia do baptizamento da princeza imperial 
d. Isabel, herdeira presumptiva da coroa, não foi entretanto 
condecorado, contra os hábitos tradicionaes da realeza e os 
assentos da pragmática. Assim se deu contudo, a pedido do 
próprio interessado, que entendia não deverem os membros 
do poder legislativo acceitar graças do executivo, e de certa por 
também não se coadunarem com os seus princípios democrá- 
ticos similhantes honoríficencias. Fot aínda aquelle motivo o 
que elle allegpu, em 1863, para recusar a carta de conselho, que 
lhe fora expedida por decreto.de 30 de Maio de 1862. Do Go- 
verno, portanto, nunca recebeu ou acceitou nomeação de es- 
pécie alguma, Aão tendo sido presidente de provinéía, nem 
ministro, nem titular, nem siquer conselheiro. Em taes con- 
dições, pôde o evangelizador das idéas líberaes hombrear-se, 
nas paginas immortaes dos nossos fastos, com os estadistas 
que, para prestarem serviços á Pátria, não precisaram das 
seducções de ouropéis, com que era costume da monarchia 
acenar-Ihes. Bernardo de Vasconcellos, Evariáto da Veiga, 
Dii^o Feijó e a trindade andradina também passaram á 
veneração dos pósteros sem que aos peitos lhes luzissem 
veneras e penduricalhos, sem que os seus nomes abençoados 
e inexqueciveis se escondessem sob titulos quaesquer... O 
dr. Ferreira Vianna (o «Suetonio» do «Antigo r^men», 
pags.i 113-116) conta como, em consequência da revolução 
de 1842, António Carlos e Martim Francisco foram despo- 
jados das funcções de gentis-homens da imperial camará, por 
decreto de 12 de Septembro daquelle anno, o qual provocou de 



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j6o retista do instituto histórico 

António Carlos a resposta immediata de que assíni ficara 
lavada a unka nódoa de sua vida pública. 

Renovou-lhe a sua provinda o mandato em 1848, tendo 
sido a esse pleito applícada, pela prÍQieira vez, a lei eleitoral 
de 19 de Agosto de 1846, na qual tanto elle cooperara e que 
considerava « talvez o único padrão que a legislatura de 1845 
3 1S4S levantou ás idéas liberaes». 

Além da maior parte dos seus companheiros (Ta sexta 
legislatura, contou elle também, como colida de bancada, o 
seu digno e illustrado ermão Chrístiano Benedtcto Ottoni. 

Afora alguns trabalhos de commissões, a que se não 
furtara, remetteu-se o egrégio liberal a completo mutismo, 
que < foi latamente commentado pelas folhas da opposíção 
conservadora». 

Como é que se explica essa attítude de Theophilo Ottoni? 

E' elle mesmo quem no-la justifica, por meio das se- 
guintes palavras: — <A situação em que o 2 de Fevereiro 
collocava o partido liberal era a mesma que o 23 de Março 
de 1841 dera aos conservadores. Em 1841 eu os havia inve- 
ctivado em pleno parlamento, por se haverem sujeitado á 
imposição palaciana. Não podia ser-me agradável que o par- 
tido liberal se collocasse em idêntica situação: essencialmente 
Mineiro, eu também capricho era sustentar o pundonor da 
coherencia ; e sabe o publico que o meu voto não prevaleceu 
nessa conjunctura. Achando-me em unidade, e não querendo 
embaraçar os chefes do partido liberal, que julgavam das 
trevas poder tirar a luz, eu me abstive systematicamente de 
toda discussão sobre politica geral >. 

Analysando aquelle quatriennio de dominio liberal. Justi- 
niano José da Rocha (op. cit., pags. 64-66) era muito maís 
explicito do que Theophilo Ottoni . Dizia elle : — «No pe- 
ríodo de 1844 a 1848, os ministérios que se succederam com- 
puzeram-se dos seus mais notáveis estadistas, dos seus mais 
dedicados alliados ; todas as posições de predomínio e de 
influencia foram por elles occupadas; as camarás davam-lhes 
qtiasí unanime apoio; e entretanto a doutrina actualmente 
acceita do poder moderador, doutrina tão repi^nante aos 
princípios do r^ime parlamentar, foi por algum delles in- 
vocada, por todos sustentada e firmada no paiz; a grande 



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A CIRCOLAU de TIIEOPHILO OTTONl l6l 

conquista do veto presidencial sobre os actos das legislaturas 
das províncias á interpretação dos dous terços, foi por um 
desses ministérios estatuída. Explicaremos esses phenomenos, 
como nos dias de grande lUcta o faziam os partidos? Apre- 
senta-Ios-hemos como aviltamentos dos cliaracteres politicos, 
como denúncia de falta de convicções e de pouca fé nas idéas 
que aproavam? Longe de nós simiihante injustiça, que 
desairaria o character nacional; não; chamados ao poder, os 
homens dessas opiniões achavam-se tolhidos pela tendência 
que encontravam ; ainda não era o temix> das suas idéas, 
ainda a sociedade não sentia a justeza, a necessidade delias, 
e os obrigava a recuar. Deveriam ter largado o poder? Mas 
o poder era-lhes uma dupla garantia: já porque os livrava, 
a elles e aos seus co-partidarios, da preponderância de homens 
que a cegueira das paixões politicas lhes representava como 
fataes, já porque pensavam assim impedir que a tendência, 
contra a qual luctavam, continuasse em novas e maiores con- 
quistas » . 

E' bem de ver que os conservadores, arrojados ao ostra- 
cismo em 1844 por inexplicável arbitrio do monarcha, iam 
desde logo, sinão imitar os liberaes nas suas levas de broquéis, 
ao menos combater por todos os meios e modos o € governo 
pessoal >. cuja existência eram forçados a admittir, em vir- 
tude de uma experimentação sobrevinda quando elles menos 
a esperavam. 

Dirigiram essa campanha os seus dous mais scintillantes 
e hábeis timoneiros, Bernardo Pereira de Vasconcellos e Ho- 
nório Hermeto Carneiro Leão. A'quelle se attribuiu um in- 
teressante e sensacional pamphleto, saido então a lume com o 
titulo c A (Tissolução do gabinete de 5 de Maio ou a facção 
aulica», que, entretanto, era lavra do outro, E o futuro 
marquez de Paraná, em 1846. como relata enthusiasticamente 
Theophilo Ottoni, quiz organizar uma c fusão dos brasi- 
leiros », afim de pôr termo ás * misérias do governo pessoal ■». 

Si. congruente com as suas idéas adeantadas e atten- 
dendo ás injuncções do seu nobre character, o preclaro Serrano 
evitava a tribuna parlamentar, nesse longo periodo de do- 
mínio do seu partido, para não se ver coheren tem ente coagido 
a profligar-lhe a deplorável submissão á caprichosa vontade 



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tfis Revista do institdto iiistorico 

da coroa, — não fugia, entretanto, ao cumprimento de outros 
altos deveres, que lhe dictava o seu exclarecído e efficiente 
patriotismo. 

Entaboladas, em 1844, com o então conde de Caxias, as 
negociações para a pacificação do Rio Grande do Sut, dirigiu 
David Canavarro a Theophilo Ottoni extensa carta, trazida 
por mensageiro idóneo, para que o illustre Mineiro defen- 
desse perante o Govêmo o reconhecimento da Republica de 
Firatinim, mediante a federação com o Império. 

Sabendo provavelmente do vergonhoso tractado, feito 
nesta capital a 24 de Março de 1S43, pelo qual pediam re- 
cursos ás forças de Rosas (que felizmente, e para maior vílta 
nossa, não conveio á mal inspirada pretenção da politica im- 
perial), afim de serem definitivamente esmz^dos os bravos 
republicanos fronteiriços ; temendo o despedaçamento do terri- 
tório nacional e desejando ardentemente que os heroiojs c Far- 
rapos », retornados á actividade pacífica de outr'ora, engros- 
sassem as fileiras dos legionários do prc^resso da Pátria, — ■ 
o prestigioso chefe liberal respondeu de maneira tão precisa 
e tão convincente ao destemido caudilho, que o próprio David 
Canavarro foi o primeiro a confessar ter sido similhante 
carta «o pharol que levou ao desejado porto os Rio-gran- 
^enses livres ». 

Com essa nitida visão dos interesses vitaes e dos supremos 
destinos do Brasil, Theophilo Ottoni, em mais de uma qaestão 
fundamental de princípios, achava-se frequentemente em fla- 
grante antagonismo com os seus próprios correligionários. 

Como, a exemplo dos conservadores, adoptassem cm 
geral os liberaes a theoria de que a abdicação de Pedro I 
significava, pura e simplesmente, o conwço do segundo rei- 
nado, pela ordem natural de successão, o abalisado pensador, 
cujo espirito critico se escudava nas irrefragavcis licçÕes da 
historia pátria e da evolução do mundo culto, insurgia-se com 
razão contra aquelle estreito e erróneo ponto de vista, de que 
se faziam derivar tão importantes corollaríos, e exclamava: 
— « Não querem comprehender que no dia 7 de Abril de 
1831 o povo e a tropa, reunidos no campo da Honra, ao 
grito significativo de — viva a federação f — quando simul- 
Uneamente se faziam pronunciamentos idênticos em Minas e 



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A CtttCtlLAR DE tllBOPtítLO OTtOttt 163 

na Bahia, haviam consummado uma revolu<;ão como a de 
1688 na Inglaterra. Não querem comprehender que a nação 
quebrou no dia 7 de Abril o que podia haver de aspiraq^ 
tradicional no primeiro reinado, e marcou soberanamente as 
condições de existência do segundo. Não querem compre- 
hender que as instituições no dia 7 de Abril receberam nova 
tempera, e que nesse (tia foi, por antecipação, inaugurada a 
reforma federativa ou acto addicional. Não querem com- 
prehender que a abdicação, publicada no acto do embarque 
para a nau ingleza IVarspite, foi uma inspiração feliz, mas 
não acto espontâneo, e que realmente nesse dia o Brasil tirou 
o throno ao príncipe portuguez e o devolveu regenerado ao 
príncipe brasileiro V. 

E, considerando que o « governo pessoal > constituía 
doença mais grave do que o dominio de camarilhas, favo- 
ritos ou validos, declarava alto e bom som que o culpado da 
aberração, a que havíamos chegado, não era d. Pedro II, mas 
tão somente os seUs ministros e conselheiros, liberaes, con- 
servadores e palacianos, tntre os quaes não sui^ira um só 
que dissesse ao imperador a verdade. . . 

A 29 de Septembro de 1848 voltaram ao poder os con- 
servadores, com o ministério presidido pelo marquez de Olinda, 
e o primeiro que subiu á tribuna parlamentar, para um impe- 
tuoso discurso de opposição, foi Theophilo Ottoni. 

Cessada a fermentação mílitaresca que nos viera do pri- 
meiro reinado, enchera todo o periodo regenctal e se extendera 
bem após a Maioridade, parecia haver o paiz entrado em 
marcha normal e que não mais se dariam sublevações civis. 

Entretanto, assim não aconteceu. Embora não contassem 
com apoio algum nas outras provincias, ao contrario do que 
occorrera em 1842, rebellaram-se os Itberaes em Pernambuco, 
onde facíl foi a victoria da legalidade, lamentando-se, todavia, 
mais que tudo, o estupi<{o homicídio de Nunes Machado e o 
myiterioso desapparecimento da privilegiada intelligencia de 
Pedro Luiz. 

Referindo-se á lucta < praieira », assim se expressa Na- 
buco, em seu substancioso trabalho < Um estadista do Im- 
pério» (vol. I, paga. 93) ; — «Quando os liberaes foram dis- 
pensados do governo em 1841, fizeram as revoluções de 



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l64 BBVISTA DO INSTITUTO tItSTORICO 

S. Paulo c Minas. Nesse tempo, os chimangos faziam po- 
litica sua, á parte do grupo liberal do Sul, que se ficou 
chamando liido e apoiavam com todas as forças o minis- 
tério, que abafou aquellas revoltas, Erâ agora a sua vez: 
tinha chegado a occasião de resgatarem perante o partido a 
sua culpa de 1842 » . 

Cumpre ler também os incisivos períodos em que Jus- 
tiniano José da Rocha {op. cit., pags. 69-81) com tanta 
imparcialidade julgou os levantes provocados e (firigidos pelos 
liberaes. Diz elle : «... foi o erro do partido liberal nessa 
quadra, erro análogo ao que em quadra diversa haviam com- 
mettido os caramunis: desse erro aproveitou-se a tendência 
social a bem da auctoridade, como do pensamento da restau- 
ração se aproveitou a tendência social a bem da democracia. . . 
O partido liberal não teve fé em si, nem confiança no futuro ; 
quiz tudo apressar, e tudo comprometteu ; quiz invocar as 
paixões da revolta, e teve de exaggerar as suas pretenções, 
afim de dar arrhas a essas paixões. Hoje hão de por certo os 
chefes desse partido, vendo o estado a que se acha reduzido 
o paiz, lamentar as fatalidades de 1S42 e 1848 ! » E mais 
adeante : — «O observador, que, desprevenido, confrontar as 
epochas, verá em tudo e por tudo que os caramunis de 1831 
a 1836 e os liberaes de 1841 a 1851 desempenharam o mesmo 
papel, commetteram os mesmos erros, fizeram os mesmos 
benefícios. O que arredava dos caramunis as sympathias da 
grande massa nacional, era a restauração ; o que arredava dos 
liberaes as mesmas sympathias, era o constante appêllo para 
as armas: em um e outro caso, revolta, soffrimento, ruína 
da liberdade e da ordem, e a nação queria existir, e existir 
livre » , 

Antes de proseguirmos na exposição dos factos directa- 
mente vinculados á personalidade do grande democrata ser- 
rano, convém que deixemos bem exclarecido, pelo menos em 
suas linhas geraes, o momento histórico singular, que chara- 
cterizou o segundo reinado, em meiados do século XIX. 

?í nos fosse permittido proceder a uma simples divisão 
didáctica da quasi completa meia centúria do governo de 
d. Pedro II, — diríamos que a primeira decade se distinguiu 
pela jugulação das revoltas intestinas, assegurando a plena 



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DE THEOPHILO OTTONI lÓJ 

tranquilidade da coroa; que as duas decades seguintes (1850- 
1870) se notabilizaram pelas nossas questões externas, sobre- 
tudo pelas nossas interferências no Rio da Prata, dando en- 
sejo á guerra contra Oribe e Rosas, á! lucta pro-Flores e 
contra Aguirre, e á prolongada e ruinosa campanha contra 
Solano López; e, finalmente, que as ultimas decades (1870- 
1889) foram assignaladas pelo duplo movimento da abolição 
e da Republica, sendo a victoria do primeiro seguida, quasi 
sem solução de continuidade, pela victoria do segundo. 

Justiniano José da Rocha estabelece {op. cit., 18) uma 
synthese interessantissima da evolução politica da monarchia, 
3 partir de 1822 e terminando em 1855, data em que saiu do 
prelo o seu substancioso opúsculo. Assim, segundo elle, houve 
no Brasil: — «De 1822 a 1831, período de inexperiência e 
de lucta dos elementos monarchico e democrático; de 1831 a 
1836, triumpho democrático incontestado; de 1836 a 1840, 
lucta de reacção monarchica, acabando pela Maioridade; de 
1840 até 1852, dominio do principio monarchico, reagindo 
contra a obra social do dominio democrático, que não sabe 
defender-se sinão pela violência, e é esmagado; de 1852 até 
hoje (1855), arrefecimento das paixões, quietação no pre- 
sente, anciedade do futuro, período de transacção». 

Em 1849, realizado o pleito para constituição da Camará 
temporária, dissolvida em 1848, foi Theophilo Ottoni esco- 
lhido mais uma vez para alli representar a sua província 

Não obstante isso, protestou elle contra a legalidade da 
eleição, não só por motivo das violências de que haviam sido 
victimas os liberaes em várias freguezlas, como principalmente 
por ter sido cumprida a ordem do Governo de se reger o 
processo eleitoral pela derradeira qualificação, quando a lei 
de 19 de Agosto de 1846, então vigorante, dispunha que no 
caso se obedecesse á qualificação do anno anterior. 

Assim, quando foi chamado a tomar assento na assembléa 
geral, como supplente por Minas, não vaciJlou elle em re- 
signar o Ii^ar de deputado, sobrepondo a cohcrencia e a 
dignidade a todos e quaesquer outros interesses. 

Para que se possa fazer uma apreciação segura da intei- 
reza de character de Theophilo Ottoni, cumpre ouvir áquelle 



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I66 RBTIBTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

propósito as suas próprias palavras, relativas aos doze annos 
do seu ostracismo voluntário, comprehendidos entre 1848 « 
1860. Eis como SC explica elle: — c Desejo somente tornar 
bem claro que em todo esse longo periodo guardei sempre o 
pundonor da coherencia, permanecendo fiel ao symbolo que 
articulei no jornalismo em 1831 e que professei imperterrito 
na tribuna da assembléa provincial da nossa província, na da 
Camará dos deputados e no banco de réu perante o jury de 
Mariana. Quando, em 1848, o arrefecimento das boas graças 
do palácio afastou os liberaes de toda a participação no poder, 
tomada a praça pelos contrários, nenhum delles me disputou 
o direito de retirar-me, erguida em punho a bandeira que, ao 
entrar no parlamento em 1838, eu arvorara e íôra adoptada 
pela opposição liberal. E, em 1851, quando, com razão ou 
sem ella, me pareceu que os chefes liberaes, candidatos ás 
pastas tíe ministros, se mostravam na imprensa e no parla- 
mento dispostos a fazer ao governo pessoal mais concessões 
do que aquellas que eu julgava admissíveis, retirei-tne da 
politica, e deixei de estar em communhão com qualquer 
partido». 

Bem andou em assim proceder o digno Brasileiro, que, 
sem tardança, revelou em outra esphera de acção a energia 
da sua enfibratura. 

Enquanto os conservadores jugulavam a revolta «prai- 
eira >, derribavam Rosas (lançando no Prata os germes de 
futuras contendas), extinguiam o trafico de africanos (a que 
a Inglaterra, pela rigorosa execução do bill Aberdeen, coagira 
o Império) e apparelhavam reformas, num palpável exforço 
de cimentarem o seu tríumpho na opinião do paiz e a sua 
perpetuação nos conselhos da coroa, — trocava Theophilo 
Ottoni o campo de .'^gramantc da Politica pelo da actividade 
commercíal. 

Desde 1845 montara elle nesta capital uma importante 
casa de negocio, e vinha de mais longa data a sua constante 
preoccupação com o franqueí amento de vias de communi- 
cações interiores, que ligassem entre si as províncias de Minas, 
Espírito-Sancto e Bahia, bem como a incessante cogitação de 
explorar as ubertosas terras do hinterland do seu berço natal. 



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k ClttCULAR DE TneOPlIILO OTTQNI 167 

Dispondo de largo credito e das melhores relações nos 
círculos financeiros, aventurou-se a realizar a sua antiga e 
patriótica aspiração. 

E' de 1847 o seu opúsculo intitulado « Condições para a 
incorporação de uma companhia de commercio e navegação 
do rio Mucury >. 

A essa árdua e vasta empresa, cujo capital era de réis 
1.200:000$, quantia enorme para aquella epocha, dedicou por 
muito tempo os seus melhores exforços, o seu afan pessoal, 
toda a sua actividade, toda a sua fortuna, enfim. 

Sobejam documentos para o estudo integral dessa parte 
da existência do eminente cidadão, de quem nos estamos 
occupando. Além dos relatórios annuaes da < Companhia 
Mucury », publicados desde 1852 até 1860, traçou elle o 
histórico do seu audaz emprehendimento nura folheto que, 
também com aquella epigraphe, deu aqui á estampa em 1856.' 
Pouco depois dirigia a Joaquim Manuel de Macedo, o ce- 
lebre romancista, então secretario do Instituto Histórico e 
Geographico Brasileiro, extensa carta explicativa, com a de- 
nominação de « Noticia sobre a colónia e os selvagens do 
Mucury», inserta na € Rev, Trím. », t. XXI, ps^s. 191-338, 
e em 1858 tirada em separata, numa brochura de 48 paginas. 
No anno seguinte (1859) editava outro volumito sobre o 
mesmo assumpto, « A colonização do Mucury >, e em 1862, 
finalmente, para que não pairasse a menor dúvida no espirito 
dos accionistas e do público sobre a lisura do seu proceder 
quanto aquella portentosa tentativa, infelizmente mallograda, 
ainda fez sair á luz uma « Breve resposta >, que se enfeixava 
em cerca de 100 paginas. 

Antes de mais nada, cumpre-nos salientar quanto o bem 
formado coração do benemérito Brasileiro, guiando-lhe a intel- 
ligencia robustíssima, se sublevou ante as montarias que se 
faziam contra os nossos desgraçados aborigenes e o com- 
pelliu a propor a única solução convtnhavel ao magno pro- 
blema de os proteger e attrahir para o nosso convívio, inte- 
grando-os definitivamente na grande Pátria, originariamente 
só delles, e na qual estavam apenas acampados. As idéas, 
que a esse respeito preconizava elle, eram as mesmas que 
outr'ora jorraram da alma do incomparável estadista que ^i 



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l68 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

José Bonifácio, o Patriarcha, e que só ultimamente puderam 
ser transformadas em realidade pelo moderno apostolo das 
nossas selvas, o coronel Rondon, e sua abnegada plêiade de 
auxiliares , 

Ouçamos, porém, o que Theophílo Ottoni (vide < Rev. 
do Inst, Hist. e Geogr. Brás.», t. XXI, pags. 200), depois 
de referir os innumeros attentados commettidos pelos brancos 
contra os indios do Mucuri. racional e humanamente apre- 
goava : — € Eu tinha adquirido a convicção de que os sel- 
\'agens, nas suas aggressões contra os chrístãos, eram quasi 
sempre incitados por violaicias e provocações destes. Em 
consequência, acreditava que um systema de generosidade, 
moderação e brandura, não podia deixar de captar-lhes a 
benevolência. A principal difficuldade para a execução, ou 
ao menos ensaio deste systema, estava em chamar á práctica 
e convivência os filhos das selvas, em convencê-los de que 
havia, com effeito, um novo processo de catechese, que não 
empregava pólvora e bala, nem tinha por fim roubar-lhes os 
filhos ». 

Nos escriptos acima citados, bein como em algumas 
poucas linhas da « Circular », deixava o inolvidável Serrano 
transparecer o patriótico enthusiasmo, com que todo se votou 
á realização do seu grandioso projecto. 

O sector comprehendido entre os rios Jequitinhonha e 
Doce, no seu angulo central, fora o ultimo onde penetraram 
os descobridores de ouro, na zona convizinha do litoral. 
O nome de Minas-Novas ligou-se, por isso, ao único arraial 
de exploração metallica alli despontado, quasi em meiados do 
século XVni. 

O resto daquella vastissima área ficara exclusivamente 
entregue aos seus primitivos donos, aos seus posseiros natu- 
raes, os índigenas. 

Um centennio depois, o bandeirante que alli ousou em- 
brenhar-se, tão intrépido como os seus antepassados paulistas 
e levando na alma acendrada róseos sonhos e aspirações mirí- 
ficas, foi Theophílo Ottoni. 

O seu escopo não consistia apenas em desbravar aquelle 
solo virgem e feraz, porém sim em estabelecer a navegação 
de todos os caudalosos cursos de agua, que iam do sertão em 



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A CmcOLAR DE THEOPHILO OTTONl I69 

demanda do Atlântico, e, pois, em abrir portos no oceano a 
insulada Minas. 

Não é difficil imaginar a grande força de vontade que 
teve Ottoni de pôr em jcgo, afim de fugir á emmaranhada 
teia das preoccupações partidárias que dominavam todos os 
espíritos, naquella phase por que passava a nossa conecti- 
vidade social, e afim de chamar a attengão dos administra- 
dores públicos para a expansão da nossa capacidade eco- 
nómica , 

Legatário dos methodos rotineiros de Portugal, que 
sempre oppoz o mais ferrenho monopólio ás aspirações uni- 
versaes do livre-cambio ; herdeiro do innominavel systema 
escravista, que a metrópole aqui implantou e que existiu até 
1888, impossibilitando tanto o nosso prc^esso moral como 
o nosso progresso material : — o Brasil, ainda em meiados do 
século XIX, poucos passos havia dado a beneficio da sua 
agricultura, da sua pecuária, do seu commercio, da sua in- 
dustria. 

Basta dizer, — cumpre dizê-lo com tristeza — , que, 
quando Theophilo Ottoni emprehendia aproveitar os ca- 
minhos naturaes do interior para o intercambio de mérces, 
ainda nem siquer o Amazonas havia sido aberto aos navios 
de todas as nações do mundo, o que só foi feito pelos de- 
cretos de 7 de Dezembro de 1866 e 31 de Julho de 1867 ! 

Basta dizer que, quando o inspirado patriota arrostava 
os maiores incommodos e os maiores perigos para levar a 
civilização a uma extensa superfície do território nacional, 
ainda não havia no Brasil, apesar da lei de 31 de Outubro 
de 1835, emanada da regência de Feijó, nenhuma estrada de 
ferro, pois a primeira, devida á iniciativa de Irineu Evan- 
gelista rfe Sousa (visconde de Mauá), só se inaugurou a 30 
de Abril de 1854, numa extensão de 14 kilometros, e ainda 
nem se sonhava com a Central! 

O projecto do genial Serrano mal logrou -se ; mas, cm não 
remoto porvir, quando enormes ferrovias ligarem o Nordeste 
mineiro ao htoral espiríto-sanctense, — o seu melhor e mais 
fácil escoadouro — , então o nome de Theophilo Ottoni será 
por certo relembrado e abençoado.' 



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170 REVISTA DO INSTITUTO IIIÍTORICO 

Desde 1841 que Theophilo Ottqni, quando se agitou no 
parlamento nacional a abertura de communicações entre a 
Bua província natal e as confinantes marítimas, advc^u :i 
linha de Minas-Novas para Caravellas ou immediações. 

No meiado do século XIX procurou-se corrigir a ve- 
tusta divisão administrativa do Império, herdada da metró- 
pole. Foram, porém, creadas duas circunscripções novas; 
a do Paraná, constituída pela antiga comarca de Curitiba, 
desmembrada de S. Paulo; e a do Amazonas, formada pela 
antiga comarca de S. José do Rio Negro, separada do Pará. 

Pela mesma epocha, qual se vê de opúsculo « Pinsonia > 
(pags. IX) de Cândido Mendes de Almeida, também se 
tentou crear a província Oiapockia no território compre- 
hendido entre os rios Nhamundá < Amazonas, o oceano 
Atlântico e os limites septentrionaes do Brasil. 

Pois bem: — o grandioso projecto de Theophilo Ottoni, 
conta o seu digno ermâo e biographo (op. cit., pags. 29), 
< fez nascer e tornou practicavel uma idéa politica, acceita 
pelo marquez de Paraná, advogada por vários deputados, mui 
' bem acolhida pelas populações a quem interessava, e, para 
resumir tudo em uma só palavra, medida de vantagem in- 
tuitiva. Tractava-se de crear uma nova provincia, contendo 
a comarca do Jequitinhonha e parte das do Serro e S. Fran- 
cisco, em Minas, a de S. Matheus, no Espiríto-Sancto, e as 
de Caravellas e Porto-Seguro, na Bahia. A nova provincia 
e sua rede de estradas approximariam do oceano mais de 
100.000 habitantes do Norte de Minas, facilitariam o rotea- 
mento de extensíssimas matas, e dariam um porto de mar a 
uma grande parte da província (de Minas), que não pôde 
continuar, em toda a sua vasta extensão, dependente da al- 
fandega do Rio de Janeiro». 

Obstáculos de toda sorte, especialmente por parte dos 
ministros da coroa, esbarrondaram a enérgica iniciativa do 
rijo sertanista. 

Não foi só a fortuna que elle consumiu, foi também a 
saúde que se lhe comprometteu irremediavelmente. 

Para que não morresse a empresa do Mucuri, abriu elle 
mão das indemnizações a que porventura tivesse direito, con- 



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* CmCULAR DE THBOPHILO OTTONI t^I 

tando que assim o Governo geral, que a encampará em 1860, a 
levaase auspiciosamente a bom termo. 

Assim, porém, não aconteceu. Quando o dilecto filho da 
antiga villa do Príncipe expirou em 1869, restava apenas, da 
sua obra colossal, a povoação cujos alicerces lançara á margem 
do rio Todo3-os-Sanctos, affluente do Mucuri, e a qual dera 
o bello nome de Philadelphia, hoje substituído pelo do seu 
fundador, — única homenagem que em boa hora e até ao 
presente lhe prestou a suprema administração dá sua terra 
natal . 

Depois desse hiato de um decennio, todo consagrado á 
sua interpresa sertaneja, — ei-Ío de novo na estacada, na van- 
guarda dos mais valentes pelejadores, o intrépido legionário 
da democracia. 

Em 1853, pondo afinal em práctica um seu antigo plano, 
inaugurara o marquez de Paraná a chamada < politica de 
conciliação », formando com liberaes e conservadores o ga- 
binete de 6 de Septembro daquelle anno. Essa nova orientação 
tivera no auctor do Libello do povo o seu grande paladino da 
imprensa e em Nabuco de Araújo, a cujo discurso de 6 de 
Julho se deve o bem posto nome de * ponte de ouro ^, o seu 
evangelizador parlamentar. 

Fallecendo Honório Hermeto Carneiro Leão, que deixou 
o nome inscripto em vários serviços prestados á Pátria na 
quadra mais agitada do seu evoluir, Caxias, que o substituiu 
então na presidência do conselho, a 3 de Septembro de 1856, 
continuou a mesma traça. 

Mas, subindo ao poder em 4 de Maio de 1857 o minis- 
tério chefiado pelo marquez de Olinda, começoií-se a fazer 
de novo a separação dos dous partidos. 

Foi então que Theophilo Ottoni, vendo já em traf^o a 
estrada do Mucuri e adeantada a empresa ingente a que se 
abalançara, entendeu de retornar á actividade politica. 

Durante a abstenção de luctas partidárias, tinha sido 
eleito presidente do Montepio Geral, que elle reformou con- 
venientemente, elevando-o a alto grau de prosperidade. 

A 7 de Outubro de 1856, elle e o seu illustre e digno 
ermão, Christiano Benedicto Ottoni, haviam dirigido aos Mi- 
neiros uma circular, aventando a idéa da reforma do Senado.; 



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1^3 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Certos de que — « Senado vitalício, acostado a Conselho de 
Estado vitalício, não pôde trazer outro resultado sinão a 
mais detestável das oligarchias », — recommendavam á. massa 
suffragante da sua província natal só elegesse representantes 
que expressamente se compromettessem a pugnar < pela 
eleição dos senadores por circulo, pela renovação parcial do 
Senado em cada legislatura». 

Sem dar cõr partidária á sua candidatura, disputou o 
inexquecivel liberal uma curul da Camará alta, no pleito de 
21 de Agosto de 1859, correspondendo assim á confiança 
com que o distinguiam os seus comprovincianos, que em 1857 
espontaneamente lhe haviam suffragado o nome para aquelle 
cargo, pouco faltando o ser incluitfo na lista sextupla. 

Veio em primeiro logar na lista tríplice; mas, submettida 
esta ao poder moderador, foi escolhido o segundo votado, o 
conselheiro Luiz António Barbosa, a cujos serviços e eximias 
qualidades fez justiça o próprio preterido. 

Havendo outra vaga, também por Minas, na assembléa 
vitalícia, pelo fallecimento do venerando senador Vergueiro, 
novamente entrou na liça o benquisto patriota, a quem outra 
vez coube a honra do posto culminante na lista tríplice de 
ri de Fevereiro de 1860. Mas, quando esta foi sujeita á 
consideração do monarcha, entendeu d. Pedro 11 de escolher 
o terceiro dos eleitos, um sr. Manuel Teixeira de Sousa. 

O procedimento da Coroa provocou amplas manifestações 
pela imprensa e pela tribuna parlamentar, A esse episodio se 
ligam três pamphletos, então vindos a lume : — « Monarchia 
e democracia », « O poder moderador e o sr. Theophilo Be- 
nedicto Ottoni » (publicado em S. Paulo) e < Da natureza e 
limites do poder moderador » (anonymo, mas geralmente 
attribuido a Zacharias de Góes e Vasconcellos) . 

O probo liberal mineiro, por seu turno, não pôde sopitar 
o profundo resentimento que lhe iransbordava da consciência 
justamente indignada, do seu grande e notório mérito ferido 
e menosprezado. Tendo sido officialmente publicada a 28 
de Abril de 1860 a desastrosa escolha imperial, no dia se- 
guinte inseria elle nos jomaes a declaração irrevogável de 
que não disputaria a cadeira, que a morte do conselheiro Luiz 
António Barbosa deixara vacante no Senado. E as expli- 



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A CIRCULAR DE THEOPHILO OTTOM 173 

cações de similhante absenteísmo foram feitas eiii < lingua- 
gem rude > . 

Afim de melhor exprimir o seu pensamento, não só de 
gratidão para com os com provincianos que lhe haviam reite- 
radamente attendido á pretenção de sentar-se na Camará alta, 
como ainda de pedir-lhes os suffragios para um logar na 
assembléa temporária, traçou o ineguãlavel manifesto politico, 
a célebre «Circular», que, tanto pela quahdade como pela 
quantidade, ficou singular em nossa Historia. 

• Traz a data de 19 de Scptembro de 1860. Ora, a lei de 18 
de Agosto desse anno modificara o systema electivo geral, 
pois. embora conservasse os dous graus, estabelecera a eleição 
por circulo de trez deputados, o que obrigou as províncias a 
remodelarem as suas circunscripções eleitoraes. 

Na famosa carta apresentou-se Theophilo Ottoni can- 
didato á Camará baixa, pelo 2° districto de Minas-Geraes . 
As ultimas paginas daquelle documento notável merecem me- 
ditadas ainda hoje. Nellas o genial Serrano, com a sua 
assombrosa clarividência, referiu- se ao prodigioso influxo 
que a artéria ferroviária central, então apenas iniciada, estava 
destinada a exercer no futuro engrandecimento da terra de 
Tiradentes. E. com o amplo descortino que lhe characterizava 
o espirito práctico, assignalou a urgente necessidade de mon- 
tar-se no rio S. Francisco a navegação a vapor, afim de 
facilitar o commercio do Septentrião e do Nordeste mineiro 
«com as comarcas vizinhas e com a província da Bahia». 
Não se exquecera também de lembrar a installaçâo de uma 
vasta rede de estradas de ferro, que servisse aos valles do 
Parahiba, rio Doce, rio Grande (cabeceiras) e S. Francisco. 

Quanto ao ponto de vista geral, o seu programma con- 
tinuava a ser o de combate sem. tréguas ao «governo pes- 
soal > e o de levar a effeito, constitucionalmente, as reformas 
que o seu adeantado liberalismo desde muito pregava e recla- 
mava, — abolir o « flagello da prisão arbitraria » e o recruta- 
mento forçado, retirar aos agentes policiaes amovíveis as 
íuncções judiciarias de que os investira a lei de 3 de De- 
zembro de 1841, e, finalmente, extinguir a vitaliciedade do 
Senado. 



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Jf4 RbVbTA M ÍN8T1TDT0 ttlStOUlCO 

O disputãdissinio pleito que se feriu nas urnas para a 
decima-primeira legislatura do Império, a qual devia exten- 
der-se de 1861 a 1864, comprovou á saciedade o inabalável 
prestigio de que gosava em todo o paiz o ardoroso patriota. 

Dirigiu elle, pessoalmente, o partido liberal nas eleições 
da então Corte, e tanto o 2° distncto de Minas como o 1' 
distrtcto da província do Rio de Janeiro o honraram com o 
mandato para os representar na Camará dos'deputados geraes. 
A 19 de Junho de 1861 optou elle pelo circulo da sua terra 
natal, tendo tido por substituto no fluminense o indeslem- 
bravel parlamentar Martinho Alvares da Silva Campos, de 
quem Af fonso Celso Júnior, no seu trabalho « Oito annos de 
parlamento» (pags. 41-50), traça com brilho o interessante 
perfil politico. 

E' imprescindivel, agora, ouvirmos a opinião de Joaquim 
Nabuco {op. cit., vol. II, pags. 74-76) sobre aquelle memo- 
rável pleito, de cujo triumphador fez elle ao mesmo tempo o 
mais elevado juizo no que respeita ao charactcr, embora sobre- 
modo injusto quanto á valia mental : — « Essa eleição de 1860 
póde-se dizer que assignala uma epocha em nossa historia 
politica; com ella recomeça a enclier a maré democrática, que 
desde a reacção monarchica de 1837 se tinha visto continua- 
mente baixar e cuja vasante depois da Maioridade chegara a 
ser completa. No Rio de Janeiro a campanha foi ardente, 
enthusiastica, popular, como ainda não se vira outra ; a moci- 
dade tomou parte nella, o commercio subscreveu generosa- 
mente, o povo dirigia-se de uma para outra freguezia capi- 
taneado por Theophilo Ottoni, cujo lenço branco figura 
constantemente nos epigrammas políticos da epocha. A chapa 
liberal triumphou toda: Theophilo Ottoni, Octaviano, Sal- 
danha Marinho ; e esse acontecimento tomou as proporções de 
uma revolução pacifica, qUc tivesse finalmente derribado a 
oligarchia encastellada no Senado. Tal victoria creava um 
partido; queria dizer, de facto, a resurreição do partido li- 
beral com outro pessoal e outras idéas. mas com as mesmas 
tradições, o mesmo espirito, mais forte que os homens e 
que os principíos. Nabuco tinha previsto bem: a situação 
era de Theophilo Ottoni. Si este não fosse então, em phrase de 
Disraeli, « imi vulcãp extincto >, um homem acabado, de 



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A tlRCttbAR DC "ÍHeOPIlILO OTTONI l^j 

outras eras, que não renovara desde 1831 o seu cabedal 
politico, um veterano novato, apparecendo, ao lado das ge- 
rações modernamente educadas como um anachronismo vivo, 
ter-se-ia apossado do governo, dominado a Camará e cur- 
vado o imperador deante da sua popularidade. A repu- 
tação immensa que o precedia impunha-lhe, porém, obrigações, 
que elle não podia satisfazer ; exigia delle, perante um publico 
por natureza critico e iconoclasta, como o nosso já se estava 
tomando, um talento que fizesse sentir a superioridade do 
passado que elle representava, ou então uma mocidade de 
espirito que lhe permíttisse partilhar os enthusiasmos de uma' 
epocha profundamente diversa da sua. Theophilo Ottoni não 
tinha nem essas faculdades intellectuaes poderosas, nem essa 
plasticidade e volubilidade de espirito. Na tribuna, pertencia 
á ordem dos oradores espontâneos, porém diffusos e prolixos.. 
Sua estréa, anciosamente esperada em 1861, é um contra- 
tempo; fala até ao escurecer, e, a uma observação do presi- 
dente, declara-se prompto a ir até meia-noite. A arenga toda 
é hoje iilegivel ; o tributo eleitoral que o povo seguia arre- 
batado sentia- se enjaulado no parlamento, onde, exclusiva- 
mente, se conquistava a primeira posição. Com sua genero- 
sidade e cavalheirismo, egualdade e affabilidade de tracto, elle 
é particularmente um homem estimado e querido de todos». 

E logo adeante : — «As eleições de r86o tiveram im- 
mensa repercussão em todo o paiz. O ef feito da eleição de 
Ottoni e seus companheiros de chapa foi além de tudo o que 
imaginava a opposição a Ferraz. A oHgarchia fora desar- 
raigada, derribada por um verdadeiro furacão politico. Ferraz 
não esperou a reunião das camarás para demittír-se. Em 2 de 
Março de 1861 formava-se novo gabinete sob a presidência 
de Caxias, cujo braço direito será Paranhos». 

. Chegou-se a pensar, — accrescenta Nabuco, em nota, a 
P^gs. 77, — que « a formação do ministério de 2 de Março 
de 1861, com o marechal Caxias e o chefe de esquadra 
Joaquim José Ignacio (Inhaíima), aprese ntando-se, além 
disso, incompleto », era « uma combinação militar do impe- 
rador, em resposta á eleição de Ottoni ». 

Ainda em 1861, sem que elle houvesse cogitado de simi- 
Ihante candidatura, insistiu Minas em apresenta-lo no pri- 



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176 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

meiro logar á consideração do monarcha para uma curui do 
Senado. E no anno seguinte também Mato-Grosso o exalçou 
á sua lista tríplice para a Camará vitalicia. 

Excusado é dizer que a essas irrebativeís manifestações 
de valor politico corresponderam outras tantas preterições, 
que, todavia, não mais estomagaram o invencivel luctador, 
porque este, quando lançou a público a sua declaração de 29 
de Abril de 1860, atrás mencionada, já as havia curialmente 
previsto, quando ponderava ; — «O damno que a minha lin- 
guagem rude ha de acarretar-me é talvez irreparável...». 

Pela mesma occasião, fazia elle sair do prélo um no\o 
e vigoroso pamphleto politico, intitulado « A estatua eques- 
tre». As idéas de Theophilo Ottoni a respeito do movi- 
mento nacional de 7 de Abril de 1831 já deixámos suffi- 
cientemente evidenciadas em linhas anteriores, citando-lhe 
as próprias palavras. 

Ora, tendo sido elle escolhido por duas assembléas pro- 
vinciaes, trinta e duas camarás municipaes e diversas asso- 
ciações scientificas, para as apresentar no acto de entregar- 
se á admiração do publico a « mentira de bronze », julgou 
imprescindível expor pela imprensa, na véspera, do dia em 
que a população carioca devia assistir á inauguração do 
monumento, que ora avulta majestoso em meio da Praça Ti- 
radentes, os sérios motivos que o compelHam a declinar da- 
quella incumbência. 

Marcada para 25 de Março, data conimemorativa da 
outorga da carta constitucional de 1824, foi, contudo, adiada 
para 30 do mesmo mez a pomposa solennidade, cujo alvo 
histórico era zargunchado pela válida penna do intrépido 
Serrano. O folheto, hoje posto em olvido, teve no momento 
profunda repercussão em todo o paiz, dando aso a varias 
publicações, umas de applauso e outras de contradicta. 

O anno de 1862 assignala-se por extranhos aconteci- 
mentos eni nossa historia politica. 

Um delles é a defecção de vários chefes conservadores, 
— o marquez de Olinda, José Thomaz Nabuco de Araújo, 
Zacharias de Góes e Vasconcellos, José António Saraiva, — 
que, descontentes com o gabinete de 3 de Março de 1861, 



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A CIRCULAR DB TIIEOPHILO OTTONI T77 

presidido pelo marechal Caxias, se passaram com armas e 
bagagens para as fileiras contrarias. 

Com o famoso discurso do < uti ix>ssidetis >, pronunciado 
por Nabuco, torna-se triumphautc a « Liga », c o resultado 
intniediato de tal procedimento foi a ascensão dos liberaes ao 
poder, em que se conservaram até ao golpe de Estado de i6_ 
de Julho de 1868. 

O gabinete de 24 de Maio de 1862, presidido por Zacha- 
rias, foi chamado de «ministério dos anjinhos», porque teve 
a curta existência de sete dias, derribando-o pela imprensa a 
penna máscula de Torres Homem, Mas, a 30 de Maio, cons- 
tituia Olinda o que foi denominado < ministério dos velhos >, 
por delle fazerem parte, além do ex-regente de 1837- 
1840, o marquez de Abrantes, os viscondes de Albuquerque e 
de Maranguape, Joaquim Rodrigues de Lamare, Polydoro dá 
Fonseca Quintanilha Jordão (depois visconde de Sancta- 
Tcrcsa) c João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu. 

Deu-se no tempo deste o outro « extranho acot^ecí- 
mento > a que acima nos referimos, poís diversa qualificação 
não merece aquillo, a que em nossa Historia se conveio em 
chamar de «questão Christie». 

Este lobrego evento, que se originou do naufrágio da 
barca ingleza Prhice of Wales nas costas do Rio Grande do 
Sul, em Junho de 1861, e da prisão em fins de 1862, de 
officiaes da fragata Port, pertencente á marinha de guerra 
britannica c então ancorada na bahia de Guanabara, eviden- 
ciou a inépcia dos estadistas que dirigiam naquelle momento 
a {xilitica nacional, quer no ministério, quer no Conselho de 
Estado. Com effeito, para evitar a violação da soberania 
brasileira, em consequência das represálias ordenadas pelo 
representante diplomático de Sua Graciosa Magestade, era 
sufficiente que o nosso Governo acceitasse o arbitramento 
para os dons casos em litigio, o que em nada podta diminuir 
ou lesar a dignidade da nossa Patrta, porquanto, como bem 
obser\'ou um dos mais insuspeitos e cultos pensadores desta 
terra, R, Teixeira ^Fendes («Benjamin Constant>, vol. I, 
pags. 1 15-1 16), si procedesse a objecção de estar a Coroa 
convencida da sua justiça no concernente aos salvados da 
Priuce of Wales, então, logicamente e dignamente, não de- 

s" lyCoogle 



ITS nZVISTA DO IKSTlTDtO BlStOMCO 

veria também ter acceitado o juizu arbitral para a questão 
dos officíaes da Fort, 

E' sabido que o povo desta capital se exaltou leonina- 
tneiite ante a injuria, que nos irrogara a esquadra do almi- 
rante Warren, nas nossas aguas territoriaes, ás barbas do 
monarcha brasileiro. 

Coube a Theophilo Ottoni o prestar, nes^se grave passo 
da nossa evolução, mais um dos relevantes serviços que lhe 
deve a nossa Pátria. Conhecido e respeitado em toda a cidade, 
onde a sua iogosA intelligencia, liberalismo avançado e ina- 
tacável probidade o haviam erigido a um dos Ídolos da 
população carioca, — só o prestigio de tão peregrinos pre- 
fticados e a fascinação de sua palavra foram capazes de 
impedir excessos, que ix)deriam ter chegado ás mais funestas 
consequências, quando a grande massa popular se agitou, 
cholerica e impetuosa, por toda parte, contra a audácia do 
plenipotenciário da Inglaterra e o insólito proceder da es- 
quadra britannica. 

St a questão Christie deixou no espirito dos dirigentes 
da politica brasileira traços indeléveis, que incontestavelmente 
contribuirani para arrojar-nos em 1S64 á intervenção nos 
negócios Íntimos do Uruguai, precipitando-nos na prolongada 
e sanguinolenta camjjanha contra o Paraguai, — verdadeiro 
crime (,no sentir de João Ribeiro, um dos nossos mais com- 
|K;tentes historiadores) da dynastia bragantina occu^jadora da 
único throno americano — , não é menos certo que, no tocante 
á pessoa do digno filho da terra dos diamantes, serviu para 
riscar-lhe o nome do «livro negro», em que o inscrevera o 
soberano. i 

Em 1863 foi tlissohida a Camará, que, entretanto, applau- 
dira com grande alarde a attitude do Governo imperial no 
deplorável incidente ai^lo-brasileiro. 

Travado o pleito para a constituição da decima-segunda 
legislatura geral, que devia prolongar-se de 1864 a 1866, 
Theophilo Ottoni foi reeleito deputado por Minas, que 
Umbem, como que porfiando em tributar-lhe similhante ho- 
menagem, o mandou na lista triplice para a Camará alta. 

Escolhido, enfim, pelo monarcha, e tendo acceitado a 
curul senatorial foi substituído, na bancada mineira da as- 

lyCOOglC 



à ClftCOLAR DB THEOPHILO OTTONI 174 

sembléa tcm[x)raria, \K)r Manuel Igiiacio de Carvalho Meií- 
(loiii;a. a ^3 de Junho de 1864, 

Antes de proseguirnios, devenius acceiíttiar que o nosso 
iltu^tre patrício andava muito mollior, pondo em práctiva a 
coherencia, de cujo pondonor tanto se desvanecia e de que 
efíccti vãmente dera arrhas por tanto teinpo, — si fizesse o 
bcllo gesto de recusar a cadeira* de senador, com que afinal 
o distinguira d. Pedro II. 

Preconizando, e com sobeja razão, a necessidade de re- 
formar-se a Camará alta, tornando-a temporária, isto é, reno- 
vável annualmente pelo terço; e carregando em sua íé-de- 
officio de impolluto democrata tantas preterições injustas, 
de que, para aquelle cargo electivo o fizera alvo o arbítrio 
imperial : — quanto mais acertado não teria sido que Theo- 
philo Ottoni continuasse da tribuna da Camará dos deputados 
a sua campanha patriótica, aureolado então por novo estenima 
de desinteresse politico, \)or mais um exemplo raro de abne- 
gação e de dignidade — , pela recusa de um posto na assembléa 
vitalícia I 

Provavelmente, foi a situação especial em que se encon- 
trava naquella epocha, situação de extrema responsabilidade 
na grei liberal, que o compelliu a entrar os humbraes do 
mesmo Senado vitalício, por elle com lanta razão combatido 
como factor de oligarchia. 

De facto, desde 1863, fora arvorado o eminente par- 
lamentar em um dos mentores da situação < progressista », 
que atravessou os gabinetes de Zacharias e de Furtado., 
Aqiielle, formado a 15 de Janeiro de 1864, contava em seu 
seio dous Mineiros, José Pedro Dias de Carvalho, um dos 
chefes revolucionários de 1842, e Domiciano Leite Kibeiro 
(depois visconde de Araxá), além do formosíssimo talento 
de José Bonifácio, o moço. O de 31 de Agosto do mesmo 
annu, constituído, além de Francisco José Furtado, |>or José 
Liberato Barroso, Carlos Carneiro de Campos (visconde de 
Caravellas, substituído em 4 de Outubro por João Pedro 
Dias \'ieira), Francisco Xavier Pinto Lima, Henrique de 
lieaurepaire Rohan (visconde de Beaurei>aire, substituído no 
cotnc^ de 1865 pelo visconde de Camamú) e Jesuino Mar- 
condes de Oliveira e Sá, foi o que, sem perda de tem^, 

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Itly HEVIbTA UO INSTITUTO HISTÓRICO 

nplfcllou para o volunlariado e recorreu á conscrip<^o mi- 
lilar, chamando lambem ás armas a Guarda nacional, aíiin 
de termos exercito com que enfrentar a invasão ]>araguaia no 
território brasileiro de Mato-Grosso e cm seguida no Rio 
Grande do Sul. 

Em 1865, derrotado no parlamento esse ministério, que 
foi substituído pelo de Olinda a 12 de Maio do mesmo amio, 
entrou em declinio a coltigação « progressista », que se rompeu 
completamente em iSó6, quando ao gabinete do ex-regente 
succedeu o de 3 de Agosto, presidido por Zacharias. 

Foi contra este ministério que Theophilo Ottoni, Chris- 
tiano Ottoni, Sousa Franco, Furtado e outros liberaes da 
vellia guarda lani;aram a público, por occasião das eleições 
de 1867, «um manifesto acrimonioso» (vide Uahuco, op. cil., 
vol. III, pags. 108), no qual, além de muitas outras duras 
apostrophes, vinha esta: — «Em vez de tocar a fibra na- 
cional, appellando para o alistamento dos voluntários. . .. 
chegou ao (xiiilo de atirar ao seio do exercito, como para 
salvar o pavilhão brasileiro, uma centena de galés de Fer- 
nando de Noronha 1 » 

Nesse pleito, entretanto, ainda foi esmagadora a maioria 
.obtida pelos « progressistas > . 

E' também da mesma epoclia (1867) o livro de Tito 
Franco de Almeida. « O conselheiro Francisco José Furtado, 
biograpliia e esludo de historia politica contemporânea », do 
qual jK^ssue o Instituto Histórico e Get^raphíco Brasileiro o 
precioso exemplar que pertenceu a d. Pedro II e em cujas 
margens traçou o zeloso mouarcha, de seu próprio punho, 
interessantissímas « notas », colligidas pelo operoso e com- 
petente snr, Max Fleiuss na « Revista >, t. LXXVII, p, i', 
l)ags. 245-289. E' documento indisiiensavel á apreciação in- 
tegral e sincera daquetla quadra de transição e de transacções. 
Basta dizer que as explicações do imperador levaram Tito 
Franco a entoar pouco mais tarde a palinodía do seu opús- 
culo « Monarchia e monarchístas » . 

Theophilo Ottoni, não obstante a culminância em que 
estava naquella curiosa phase da nossa trajectória politica, 
■ entendeu de não participar de nenhuma ot^nização minis- 
terial . I 



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A CIRCtlLAR DR TIIROPIHLO OTTOXI ifll 



O incidente occorrido entre elle e Saraiva, quando se 
cogitava de formar o gabinete de 12 de Maio de 1865, afinal 
presidido pelo sacerdos magitus do imperialismo, Olinda, pa- 
rece evidenciar-lhe a resolução de não ser conselheiro da 

Como Tito Franco insinuasse, na sua obra de 1867, a 
existência da má vontade imperial contra Theopbilo Ottoni 
e Sousa Franco, declarou d. Pedro II, numa das referidas 
« notas >, que não se oppuzera á entrada deites na combi- 
nação ministerial incumbida ao depois cliamado * vice-impe- 
rador » . 

Ao character inteiriço de Theopbilo Ottoni não podia 
deixar de ser displicente a adhesão interesseira e afortunada 
dos antigos conservadores, que, mal se tornaram transfugas, 
ti\eram logo tomo premio os mais altos [íostos de commando 
nas novas phalanges. 

Foi elle quem, nas luctas entre as duas facções do partido 
liberal, respectivamente constituidas pelos antigos e recentes 
elementos, dirigiu os chamados «históricos» até 16 de Julho 
de 1868, que foi quando galgaram outra vez os conservadores 
o galarim do poder, com o ministério presidido pelo visconde 
de Itaborahi. 

Exquecidas então muitas animosidades e corrido um véu 
espesso sobre as funestas dissenções domesticas, unificaram-se 
«históricos» e «progressistas» para a opposição tenaz ao 
partido rival. que. todavia, logrou sustentar-se no governo 
durante todo um decennio. 

A 25 de Julho de 1868 realizava-se na casa de Nabuco a 
primeira reunião « fusionista », para fundar-se o Centro I,i- 
beral. Christiano Ottoni, que nisso interpretava fielmente p 
sentir do ermào, propoz alli, como lábaro do partido, «a ex- 
tincção do poder moderador». Formaram o directório inicial, 
que, aliás, pouco ou nada fez, Theopbilo Ottoni, Nabuco, 
Francisco Octaviano, Zacharias e Silveira Lobo. Nabuco foí 
depois eleito o presidente definitivo. O « Manifesto do Centro 
Liberal» foi publicado cm Março de 18Ó9 (67 paginas), e o 
programma saiu a lume em Maio do mesmo anno. O Mani- 
festo, que foi assignado por Nabuco. Theopbilo Ottoni, Sousa 
Franco, Zacharias, Chicliorro, Furtado, Octaviano, Dias de 



rfbyGoOgIe 



ifia niíVISTA DO INSTITUTO IIISTORICO 

Carvalho e Paranaguá, é um documento de al^a e inestimável 
valia para o estudo da politica do Império. Por um pouca 
mais, os seus eminentes signatários, todos com grandes rcs- 
ponsaliilidades nos destinos do paiz, teriam cliegado á franca 
ajxjstolização da Republica, Limitaram-se, porém, ao grito de 
— reforma ou revolução I 

Tlieopliilo Ottoni pouco sobreviveu a essa nova procla- 
mação das aspirações liberaes. Mas, antes de esvaecer-se-lhe 
de todo o excelso espirito, ainda proferiu no Senado, ao 
apagar das luzes da sessão legislativa, um dos seus mais pro- 
fundos e mais brilhantes discursos, o seu «canto de cyane». 

Expirou a 17 de Outubro de ifíóg ("3), pouco antes de 
ultimar-se a longa refrega, que o Império travara com Solano 
Ltípez e que o golpe de Estado de 1868 confiara á decisão 
dos conservadores. 

E' sabido que farte quanto aquella derradeira campanha 
do Prata influenciou o novo norteamento dado á solução dos 
problemas quintessenciaes do Brasil: — foi realmente com a 
cessação da guerra do Paraguai que se organizaram de ma- 
neira bem definida os dous movimentos nacionaes da Abolição 
c da Republica. 

Si Theophilo Ottoni vivesse mais uns quinze mezes. 
temos de certeza que assignaria o manifesto de 3 de Dezembro 
de 1R70, iK)rque o digno Mineiro foÍ incontestavelmente um 
precursor da conquista democrática de 15 de Novembro 
de T889. 

Como a gigantesca empreza do Mucnri e as contínuas 
hictas politicas lhe tivessem consumido os bens de fortuna, 
Iiavidos de herança ou ganhos no trabalho honrado, e lhe 
tivessem também minado a saúde, combalindo-the lethalmentc 
o coração, morreu pobre e antes de attíngir á accentuada 
cdadc da velhice. 



(3) o HD único niho. dr. Thíophílo Cirloi Btncdicto Otioní, quí chíRon 

(foi. coRi Rangi'! l-rclanii, Cmiiria Alvim <■ Araiijo Mor.-Íra. um ftn^ rcdactnri-3 
lio vilomsn semanário t (I Kiitiiro ». giiK bc editou pni S. Paulo por nua» lodo 
o anno At tSújI, lalleceu aimia nlalivaniniitc moço. Ifn.lo rlcixado npruas quatro 
filhai, it modo qur com dlc te cxlínguiu d descendência masculina. dirKIa da 
IndilD libera] myMiro. 



D,Bi,z,db,Goo<^le 



A CntCDLAR DE TUBOPHILO OTTONI 183 

Quem quizer ver pormenorizadamente todo o sulco de 
intenso pesar, que o passamento do egrégio Mineiro abriu no 
paiz, leia as paginas sentidas do preito de fraterna amizade 
que c a sua biographia, tão a primor traçada pela penna de 
Christiano Ottoni. Não eram somente ermãos pelo sangue: 
eram-n-o também pela refulgente cultura do espirito, pela 
inteireza do character, pelo civismo exclarecido, pelas idéas 
adeantadas, pelos serviços que porfiavam em prestar á Pátria 
estremecida. 

Ao € patriarcha da democracia no Brasil do século XIX » 
(como bem lhe chamou Nelson de Senna) foram tributadas 
homenagens fúnebres, só a raros cidadãos concedidas. Das 
camarás muntcipaes, das assembléas provinciaes, do parla- 
mento nacional, de grémios scientificos e de sociedades poli- 
ticas, do jornalismo, das escholas superiores, das classes com- 
merciaes. do clero, e, sobretudo, do povo desta capital, mere- 
ceram os seus despojos as honras, que aos dos salvadores c 
heróes da Pátria preíteavam os antigos Romanos. 

Embora não se possa acoimar de apaixonada a obra 
que o benemérito engenheiro consagrou á memoria do ermão 
(4). — recorramos, contudo, de preferencia, ao testimunho 
de extranhos, para avaliarmos devidamente do como então se 
julgou o grande Serrano. 

Joaquim Manuel de Macedo, no seu c Anno bíographico 
brasileiro» (vol. ITI. pags. 267-271), assim fala do inolvidável 
vexillario do liberalismo radical : — « Até o ultimo dia da sua 
laboriosíssima, fulgente e honrada vida, Theophilo Ottoni 
foi sempre denodado paladino das idéas liberaes ; nutria 
aspirações republicanas: soube, {)orém, sujeita-las ao pro- 
gramma do partido liberal, a que pertencia e de que foi um 
dos mais prestigiosos chefes, sem que jamais vacillassem sua 
lealdade e sua constância . Ardente e vigoroso nas discussões 



(4i Conlorme » justa observiclij ir Martinho Campos, inaeiíi no prefacin 
dl < HiofiripliU A» Tbmphilo Ottoni > (Rio. iRro) por ChriMiano Otionl. tslt tà 
«norou no ermío o político, reputando romo * louvor em bocc* própria > todo 

■tnboi. Achatn-*t a<ndi hiogriphiM rio Rrindt libtral minfico na f Galeria dni 
Liaiilciroi illuitru > << Diccionario >, t. II, n. C... jj) c na t RcTÍata coniem- 
porinu ie Porlu»a1 t Braiil > (vol. IV, paas. 43S-4«). dl iBli, por J. da 
C. F., tados MHi Mcriptoi 



D,gt,zedbyGOO<^le . 

â 



l84 REVISTA Dl INSTITUTO HISTÓRICO 

politicas, tribuno ás vezes exaltado, lionesto e probo até o 
ponto de desanimar a própria calumnia, elle, principalmente 
nos últimos dez annos de sua vida, foi o homem mais popular 
'do Brasil. Rico de virtudes, alma cândida e óptimo coração, 
era por todos estimado, e entre os seus próprios adversários 
politicos deixou numerosos e Íntimos amigos. A morte de 
Tlieophilo Benedicto Ottoni foi chorada em todo o Brasil, e 
o seu enterro espontaneamente acompanhado por alguns mil 
cidadãos». ' 

Póde-se affirraar que toda a imprensa carioca estampou 
necrológios sentidos por occasiáo do passamento de Tlieo- 
philo Ottoni, e os periódicos das províncias também noti- 
ciaram com sincero sentimento a irreparável perda soffrida 
pela democracia brasileira. Para não citarmos as expressões 
de pesar da « Reforma » e do « Diário do Rio », que tinham 
accentuada còr politica, limitemo-nos a transcrever as sin- 
gellas, mas justas palavras, com que o «Jornal do Com- 
mercio» (n. 319), sempre ini])arcial e criterioso, comme- 
morou no dia seguinte o trespasse do eminente cidadão: — 
'« Foi o senador Ottoni um dos membros mais proeminentes 
do partido liberal, em cujas fileiras assentou praça ainda 
nos mais verdes annos. Estreou na imprensa as suas pri- 
meiras armas, e desde então tomou parte activa cm todas as 
luctas politicas, associando o seu nome a alguns dos mais 
importantes acontecimentos do paiz. Deputado á assembléa 
geral em successivas legislaturas, assistiu e representou papel 
conspícuo em algumas das mais memoráveis sessões que re- 
cordam os annaes do nosso parlamento. O seu nome chegou 
3 tornar-se um dos mais populares, e repetidas vezes in- 
cluído em listas tríplices foi Theophilo Ottoni afinal esco- 
lhido senador pela província de Minas, onde nascera. De 
tracto ameno e maneiras francas e cavalheirescas, o finado, 
apesar de partidário estrénuo, contava muitos e bons amigos 
em todas as parcialidades politicas, que faziam justiça ás 
suas virtudes e inteireza do seu character. Disso ainda hon- 
tein tivemos duas provas: uma no cortejo que acompanhou 
o saimento, outra na assembléa provincial do Rio de Janeiro, 
onde uma proposta para se levantar a sessão em demonstra- 



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A CIRCULAR nt THEOPHILO OTTONI iflj 

ção de pesar |>elo |)assaniento de um dos iiiais notáveis ci- 
dadãos do Império foi approvada unanimemente » . 

Poucos dias depois da sua morte, a < Semana Illustrada », 
que se publicava nesta capital, inseria-lhe o retrato, devido 
.10 lápis amestrado de Henrique Fleiuss, assim como um 
artigo da lavra de Machado de Assis, que synthetizava o seu 
pensamento nas seguintes palavras : — « Theophilo Ottoni era 
«m filho querido do povo, um sacerdote da liberdade ; não era 
]x>ssivel que a sua morte fosse indifferente áquelles por cujos 
direitos pugnara durante toda a sua vida de homem publico». 

Era natural que a musa patrícia tanibem vibrasse as 
cordas de suas lyras e tiorbas em altisonantes loas ao nome 
e aos feitos do campeão dos ideaes democráticos. Entre os 
que lhe descantaram a gloriosa memoria, destaca-se a sj^m- 
pathica figura do inspirado Bruno Seabra, que, 1<^o após 
haver elle descido á sepultura, lhe consagrou as duas se- 
guintes quadras, dignas de lhe servirem de epitapliio: 

« O athteta liberal baixou ao tumulo, 

Mas não lhe morre a gtoría; 
E', peto pátrio amor, honra c civismo, 

Monumento na historia. 

Ottoni, morto já, ainda é potente, 

B exalta a heroicidade; 
Que da cova. onde jaz, transpira cm ílnmmas 

O amor tia liberdade 1 » 

Não é intento nosso transcrever para aqui tudo quanto 
saiu a lume a propósito do passamento do inolvidável pa- 
triota . 

Da sua própria «Circidar» vé-se que, um quarto de 
século antes do seu trespasse, já havia quem. da tribuna de 
uma assembléa de província que não era a sua, o comparasse 
ao Romano prototypo de todas as virtudes civicas. 

Com effeito, na sessão de 22 de Abril de 1843 da Ca- 
mará dos deputados da província do Rio de Janeiro, José 
Augusto César de Menezes, referindo-se a Theophilo Ottoni 
c ao papel deste na revolução de 1842 em Minas, assim excla- 
mava: — < ..,.,esse moço por quem mais se deve encher de 



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RTA DO mSTlTOTO msTORiro 

) que pelas pedras preciosas que rolam 
lis rios, esse moço, no qual, todas as 
go : — Assim foi de certo Catão na sua 
do Brasil, si alguma commissão militar 
a cabeça, ou si alguma taça ministrada 
tmigo lhe não corroer lentamente as en- 



esta succinta analyse de sua existência, 
nente o contrario daquelles ignóbeis pa- 

mondo snl per far letame », 

ita objurgatoria do inspirado Ariosto; já 
la, desde a infância até aos últimos mo- 
nplo edificante de trabalho fecundo c de 
I collectivo. 

a, encara-lo quanto ao aspecto da sua 
, que também não é pequena. 

hibliograpbico brasileiro», de A. V. A. 
[vol. Vir, fii. V. «Theophilo Benedíclo 
>s, coordenando-a melhor pelas datas, a 
3 escriptos enfeixados em volumes im- 
ituem o acervo literário do digno filho 
, mineira : 

para a incorporação de uma companhia 
gação do rio Mucury» (1847, 51 pags.). 
istorica sobre a vida e poesias de José 
, 28 pags.). 
lia Mucury > (relatórios annuaes, de 1852 

sobre o Montepio Geral» (1854-1857). 

1 Mucury» (histórico da empresa, 1856, 

íbre a colónia e os selvagens do Mucury » 
n Manuel de Macedo. 1858, 48 pags.). — 
o Instiinto Histórico e Oeographico Bra- 
igs. 191-238. 
ização do Mucury» (1859, 58 pags.). 



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A CIRCULAR DE TUEOPHILO OTTONI 187 

VIIQ «Circular dedicada aos srs. eleitores de senadores 
pela província de Minas-Geraes no quatriennio actual e espe- 
cialmente dirigida aos srs. eleitores de deputados pelo 2" 
fliRtricto eleitoral da mesma provincia para a proxiir ' 
latura> (1860, 161 pags.)- — Fez-se 2' edição em 18 
163 pags. 

IX) «A estatua equestre» (1S62, 12 pags.). 

X) « Breve resijosla » (a propósito da < Companl 
cury», i8()2, 96 pags.). 

XI) «Parecer sobre bancos» (1862). 

XII) «Discurso proferido na sessão de 7 de J 
1864 (9 pags.). 

XIII) «Considerações sobre algumas vias de ■ 
nicação, férreas e fluviaes» (1865), 

XIV) « Manifeso do Centro Liberal» (i86g, 
ginas) (5). 

Dos annacs do parlamento nacional constam os s 
cursos, que não foram poucos, e das collecções de 
do temjío os innumeros escriptos da sua phase de 
jornalista. 

O auctor de «Um estadista do império », — que. 
fala na eslréa de Theophilo Ottoní em 1861, eviden 
se refere á da volta deste á Gamara, após os doze a 
ostracismo voluntário, — envida deprimir a aureola 
diador mineiro na curul das assembléas legislativas, 
cendo-a, porém, na tribuna das conciões. 

Ao \\ú?.n de Joaquim Nahuco, uni dos Brasileiros 
mais admiramos, preferimos, entretanto, o de quem o 



I Diccionario hibliograpliico portaguez > (de Innocencio 
Hmoido por Brílo Aranha) reUcíani as obrai de Thfoph 
. uagi, 310-31J; e no vol. XIX (XII do Bupplemento). 



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l88 REVISTA DO ISSTITIITO IllSTORIfO 

intimamente e mais de perto accomj>anhou a longa carreira 
pública do filho da villa do Príncipe. 

Joaquim Manuel de Macedo, na sua citada obra, fez de 
l'lieopbilo Uttoni uma apreciação enthusíastica, encarando-o 
como orador, sem elevar o tribuno da praça pública sobre o 
polemista da Camará e do Senado. Contemporâneo e corre- 
ligionário, o seu testimunlio é fidedigno e Jião suspeito, por- 
quanto o historiador põe desde logo em foco a mais rude 
justiça, não lhe encomiando a gesticulação, que estava longe 
de adequar-se á elevação de sua linguagem e aos arroubos 
da sua imaginação. Eis o que detle assevera o auctor do 
« Anno bic^raphico brasileiro» (loc. cit.): — «... impe- 
tuoso, inspirado, radiante de talento, corajoso, incapaz de 
recuar, estupendamente altivo, assoberbador das mais vio- 
lentas tempestades i>a ria mcn tares, vulcão arrojador de sar- 
casmos em lavas ardentes, elle era como o génio das borrascas, 
sabendo desenfreia-las e conte-las, com a força de sua vontade 
e com D poder de sua popularida<te . Não podia, nunca poude 
ser Cicero; mas foi Graccho, pela sua influencia sobre o 
povo > . 

Como escriptor, a melhor parte da bagagem literária de 
Tlieophilo Ottoni patenteia a sua accentuada disposição para 
o pamphletismo . Não era, entanto, a modo do de Courier, 
olympico, escurril e mordaz, mas antes sempre lhano, sempre 
cgual, sempre circunspecto, envolvendo tanto as mais ferinas 
verdades quanto as idéas mais altanadas de uma serenidade 
inquebrantável e de uma seriedade pertinaz, irreductivel. 

Quem se der ao grato trabalho de pesquisar-lhe as lu- 
cubrações jornalísticas, verá que lambem alii é essa a feição 
predonu'nanle, mesmo nos escriptos da mais tenra mocidade, 
quando tudo fazia crer que lhe borbotasse da alma o alegre 
devanear tão próprio da primavera da vida. 

Si <o estyto é o character», — como hoje parece suffi- 
cientemente demonstrado, — a personalidade moral de Thco- 
phílo Ottoni, vi.sta através de suas producções literárias, é de 
honradez, elevação e austeridade ínnegavcís. 

A excellente cultura tnathematica, por elle haurida na 
antiga Academia de Marinha, influiu poderosamente em sua 



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k CIRCULAR DE THEOPHILO OTTONI I89 

mentalidade. Era tal a i)redisposii;uo que o animava para os 
estudos das sciencias ijositivas, que mn dos seus confessados 
pesares foi o não ter podido diplomar-sc em Engenharia, pois 
acreditava que assim teria prestado melhores servit,-os ao paiz. 

Os discursos, artigos de imprensa e vários folhetos, de- 
vidos ao preclaro Brasileiro, argueni todos a sua familiaridade 
com a disciplina tão á justa chamada de < base solida de todos 
os conhecimentos humanos >. 

Não é só a lógica, a maneira regular de entretecer os 
argumentos tirados da própria inspiração ou tomados ao 
adversário iwra prompto revide, o que lhe distingue as flo- 
ra(;òes intellectuaes. mas, sobretudo, a clareza e a methodí- 
za<;ão dos assumptos versados, revelando a maneira especial 
de quem esta\-a habituado a armar equações algébricas e a 
demonstrar theoremas de Geometria. 

.'V < Circular » de 1860 constitue um exemplo frisaiiie da 
ordem que reinava tio cérebro de seu auctor e que esse sabia 
projectar cm todos os seus escriptos. 

Além disso, os fortes estudos de Latinidade que elle fizera 
na terra natal, — ninguém ignora quanto em Minas se pre- 
zava a língua matriz da nossa, — possibililaram-lhe um por- 
tuguez escorreito, ás vezes convizinho do vernáculo granítico 
cm que Alexandre Herculano, espirito congenial pelo libe- 
ralismo adeantado e pela probidade indesmentivel, vasara os 
seus nobres i>ensamentos e as suas imperecíveis investigações. 

Embora pertencesse Theophilo Ottoni a ei>oclia em que 
na literatura nacional preponderava a eschola romântica, que 
teve no < condoreirismo » e no «indianismo» as mais bellas, 
mais pujantes e mais populares manifestações da sua vita- 
lidade, — o seu estylo, retratando-lhe fielmente a tempera 
moral, não se arreta nunca de flores de Rhetortca : é asseiado, 
bem composto e até elegante, mas sem troix)s desnecessários 
c sem galas frívolas. 



A opportunidadc da redi\ulgação da c Circular » justi- 
fica-se cabalmente por diversos motivos.. 



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iQo Revista do instituto histórico 

Documento precioso para o estudo da evolução consti- 
tucional do Brasil, não o é menos para a historia integral do 
rotativismo |>artidano do Império. 

Posto que muitas das idéas alli contidas tenham sido rea- 
lizadas pelo advento do novo regime, outras ha que ainda 
são de palpitante actualidade. 

Haja vista o que diz Theophilo Ottoní quanto á feitura 
e applicação das leis annuas da monarchia. O que se teni 
passado agora, sob a Republica, c o mesmo que arrastou o 
Império ao abysmo dos defUits permanentes . Ataca elle, com 
zelo civico, o systema então adoptado de se não cumprir o 
orçamento, mas de crear-se uni orçamento novo por parte do 
poder executivo, com o nome de «créditos supplementares». 
Haja vista, egualmente, ás ponderosas considerações por elle 
formuladas sobre a interindependencia dos poderes institu- 
cionaes da nação, especialmente quanto ás relações entre o 
legislativo e o judidarío. 

Mas, pondo á margem toda e qualquer outra das licções 
que reçuinam do raro e sobranceiro manifesto politico, bas- 
taria a recommenda-lo á quadra hodierna, á geração brasileira 
actual, o alcandorado doutrinamentu que jorra de um exein[ilo 
perfeito de acendrado e inflexível patriotismo, de trabalho 
perseverante e enérgico em mais de uma esphera da acti- 
\'idade humana e de desinteressado devotamento á causa pú- 
blica, qual foi a existência de Theophilo Ottoni , 

Completando o julgamento, que em synthese admirável 
fez Joaquim Nabuco (op. cit., vol. I, pags. 32) de a^uns dos 
constructores e consolidadores da nossa nacionalidade, cremos 
não errar affirmando que, si a gloria de José Bonifácio é ter 
conquistado a nossa independência, si a gloria de Feijó é ter 
firmado a supremacia do governo civil, si a gloria de Eva- 
risto é ter salvado o principio monarchico, si a gloria de 
\'asconccllos é ter reconstruído a auctoridade, — a gloria de 
Theophilo Ottoni é ter sido o incansável pregoeiro de prin- 
cípios adeantados, alguns dos tiuaes triumpliaram ainda na 
vigência da monarchia, é ter sido o clarividente precursor da 
idéa de liberdade int^a e definitiva, realizada vinte ânuos 
depois de sua morte. 



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A CUtCnLAR DE THEO^HlLO OttONl I9I 

Assim, pelo seu adamantino character, pelos seus ele- 
vados sentimentos, pela sua primorosa intelligencia, e, mais 
que tudo isso, jtelos serviços iI1cotlta^'cis que prestou á nossa 
terra, — Theophilo Ottoiíi é digno de íigurar nos altares cí- 
vicos, onde se rende culto de justit;a e de reconhecimento aos 
grandes beneméritos da Pátria. 



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DEDICATÓRIA 

Aos Sn. «leltorttB MpeciaeB para eleíçio de aenadores na 
presente legislatnra pela provincia de Minas 

Senhores ! 

O pequeno trabalho que vai sahir á luz é todo inspiração 
vossa. 

A generosidade com que nestes últimos três annos, sem 
distincção de parcialidades, me haveis galardoado incitou-me 
a publicar uma exposição de minha modesta vida poltica 
e um juizo critico sobre os factos contemporâneos em que 
eu pudesse ter tido participação. Confesso que um dos fins 
a que mirava era provar que não sou indigno da vossa con^ 
fiança. Quem sabe se errei o alvo? 1 

Em todo caso estou convencido que os meus nobres com- 
provincianos hão de acolher com bondade o meu escripto, 
poque a singeleza e sinceridade são dotes altamente apreciados 
nas montanhas de Minas-Geraes. 

E os meus nobres comprovincianos sabem que, se ando 
desvairado, não é porque intencionalmente queira afastar-me 
do caminho direito. 

Meus erros nascem do entendimento e não da vontade. 
Vosso dedicado comprovinciano 

Theophilo Beuedicto Ottoni. 



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ADVERTÊNCIA 

Quando forão para o prelo as primeiras folhas desta 
minha circular não estava ainda feita a divisão eleitoral da 
província de Minas-Geraes. 

Somente o ultimo capitulo foi escripto depois que, co- 
nhecida a divisão, me deliberei a solicitar especialmente o 
voto dos Srs. eleitores do 3° districto. 

As freguezias que compõem o 2" districto creado pelo 
decreto n, 2.636 de 5 do corrente mez são as seguintes. 

§ i.° Tiradas do 2'' districto creado pelo decreto n. 842 
de 19 de setembro de 1855 (districto de Pitanguy) : — Pi- 
tanguy, Patafufo, Bom Despacho, Sant'Anna de S, João 
Acima, S. Gonçalo do Pará, Matheus Leme, Santa Quitéria, 
Dores do Indaiá, Morada Nova, Taboleiro Grande e Sete 
I^agôas. 

§ 2.° Tiradas do 3° districto (Sabará): — Sabará, Ra- 
posos, Congonhas do Sabará, Caethé, Lapa, Curral d'El-Rei, 
Capella Nova do Betim, Piedade da Paraopeba, Santa Luzia, 
Santíssimo Sacramento da Barra do Jequitibá, Santo António 
do Rio Acima, Lagoa Santa, Contagem, Mattosinhos, Roças 
Novas, S. João Baptista do Morro Grande e Trahiras. 

S 3.° Tiradas do 4" districto (Itabira) : — Itabira, S. José 
da Lagoa, S. Gonçalo do Rio Abaixo, S. Miguel do Piracicaba, 
Santa Barbara, S. Domingos do Prata, Morro de Gaspar 
Soares, Sant'Anna de Cocaes, Cattas Altas de Matto Dentro, 
Sant'Anna dos Ferros, António Dias Abaixo, Taquarussú, 
Sant'Anna do Alfié, Joanezia e Cuiethé.. 

§ 4." Tiradas do 5" districto (Serro) : — Conceição, Nos- 
sa Senhora do Porto e Tapera. 

S 5.° Tirada do 6' districto (Diamantina): — Freguezia 
do Curvello. 



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8rs. elaitores I 

Mais uma vez ambiciono ser representante da nação. 

Solicito uma cadeira na camará temporária. 

Ahi pôde collocar-me a vontade dos eleitores, sem depen- 
dência de referenda. 

Se for eleito, tenciono empenhar-me na milida activa 
da politica. 

£ não o poderei fazer com vantagem sem um mandato 
explicito e significativo. 

Este deve basear-se na enunciação franca das minhas 
aspirações. 

Relevar-me-heis, pois se vou fallar de mim mais ampla- 
mente do que é de estylo em taes occasiões. 

Sigo a praxe dos antigos. 

Não era somente quando pleiteavão eleições populares 
que os romanos se explicavão para com a nação. 

Não coravão de escrever para os contemporâneos a nar- 
rativa dos actos de sua vida, por mais modestos que fossem. 

O escriptor tinha confiança nos costumes ' singelos de 
seus concidadãos. 

E o3 cidadãos acoroçoavão essas manifestações, longe 
de condemna-las por immodestas. 

Plerique suam ipsi vitam narrare, fiduciam pottus morum 
quam arrogantiam arbitrati: nec id RutUio et Scmtro citra 
fidem aut obtrectationi fuit. 

Firmado nestes exemplos, ousarei pôr diante dos vossos 
olhos o meu modesto passado. 

Ao menos poderei provar-vos que desde os mais tenros 
amtos tenho sido constante servidor da liberdade e do go- 
verno constitucional. « A educação, diz Capfigue, deixa em 
cada um de nós um sello indelével — as mudanças ulteriores 
não penetrão além da epiderme; nascemos e morremos com 
a mesma idéa ou o mesmo sentimento». i. CoOqIc 



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o verdor dos annos 

Eu contava apenas 13 annos de idade quando em 1821 
ecoou pelo Brasil o grito da liberdade. 

Levantado no Porto em 24 de agosto de 1820, repercutiu 
successivamente no Pará, na Bahia, e chegou ao Rio de Ja- 
neiro a 26 de fevereiro de 1821. 

Foi uma faisca eléctrica que, passando através do espi- 
rito patriótico de meu pai, o Sr. Jorge Benedicto Ottoni, 
ãbrasou-me também a joven imaginação. 

E que ao adolescente analphabeto arvorou em cantor 
da idéa regeneradora. 

Era o tempo das emoções patrióticas. Primeiro a liber- 
dade, depois a independência, forão o assumpto de meus 
ensaios poéticos, desses communs nos verdes annos e de que 
não restão vestigios nem na memoria dos autores. 

Mas que obtinhão applausos nas reuniões enthusiasticas 
da época, e que assim encarecião a meus olhos o pequeno 
cabedal de intelligencia que concedeu-me a natureza, e enrai- 
zavão no meu espirito as idéas liberaes. 

Foi desenrolando diante de mim os novos horizontes que 
ia abrir aos homens illustrados o estabelecimento de um 
governo livre que meu pai passou-me das lidas commerciaes, 
em que me estava iniciando, para o banco dos estudos inter- 
médios. 

Estimulado por tão nobre emulação, cedo aprendi o que 
no Serro-Frio se podia ensinar, e achei-me nesta Babylo 
procurando habilitar-me para servir o meu paiz. 

Matriculado na academia de marinha, appliquei-me, cc 
é próprio dos estudantes aguilhoados pelo amor da glori 
pela necessidade de conquistar posição. 



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DO INSTITUTO HISTÓRICO 

A primeira praça na corporação scieiítifica da marinha 
é a de aspirante. 

Outr'ora os filhos dos grandes, inda que idiotas, tinhão 
o direito de assentar praça de guardas marinhas, e os des- 
cendentes de quatro avós nobres á de aspirantes, isto antes 
mesmo de se matricularem na academia. 

Os paisanos como eu, que não tinhão quatro avós nobres, 
só podião conquistar o direito á praça de aspirantes obtendo 
approvaçào plena em todas as matérias do i° anno. 

Eu estudava o i" anno em 1827. 

Era ministro da marinha o fallecido Sr, marquez de Ma- 
ceió, que, apezar daquellas regras estabelecidas nas dispo- 
sições oi^nicas da academia, no meio do anno lectivo, por 
puro favor, mandou que assentassem praça de aspirantes di- 
versos condiscípulos meus paisanos como eu, e que, portanto, 
só podião obter as duas estretlas sendo no fim do anno 
fpprovados plenamente em todas as matérias. 

E, como o motivo dò favor se dizia ser o aproveitamento 
dos agraciados, alleguei o meu direito, requerendo que se 
verificasse, mediante as informações académicas, se eu estava 
em circumstancias idênticas, e reclamando no caso affirmativo 
igualdade de tratamento. 

Como nunca procurei padrinhos, o meu requerimento 
ficou atirado na poeira da secretaria, e no entanto tive de 
faier acto antes de obter o despacho. 

O acto era presidido pelo meu prezado mestre o Sr. chefe 
de esquadra José de Souza Corrêa, o qual convidou os exa- 
minadores para não me arguirem somente sobre o ponto 
sorteado, porém sim vagamente sobre as matérias do 1° anno, 
accrescentando a respeito do examinando palavras de tanto 
obsequio que, se aqui as omitto, é porque assim o pede a 
modéstia, e não porque não me ficassem indelevelmente gra- 
vadas na memoria agradecida. 

Assistia aos exames como director da academia o fallecido 
chefe de esquadra Sr. Diogo Jorge de Brito. E por felicidade 
minha, poucos dias depois, o Sr. Diogo Jorge de Brito era 
encarregado do ministério da marinha, em logar do Sr. mar- 
quez de Maceió e em solução a minha reclamação expedia 
a seguinte 



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A CIRCULAR CE TBEOPHILO OTTONi 



c Sua Magestade o Imperador, atendendo ao que lhe 
representou o alumno dessa academia Theophilo Benedícto 
Ottoni, e a constar da informação que Vm. dera a seu res- 
peito em officio de 28 do mez próximo findo ter elle sobre- 
sahido entre todos os alumiios académicos conio o melhor 
estudante, ha por bem conferir-lhe a praça de aspirante gra- 
duado em guarda-marinha, concedendo-lhe para esse effeito 
as dispensas necessárias. O que participo a \'m. para sua 
intelligencia e execução. Deus guarde a Vm. Paço, em 2 de 
dezembro de 1827. — Diogo Jorge de Brito. — Sr. José de 
Souza Corrêa, » 

Assim, o 1° acto de minha vida civica era um protesto 
em nome do principio da igualdade consagrada na consti- 
tuição, e obtinha em resultado uma distincção honorifica: — 
a praça de aspirante graduado em guarda-marinha. Nunca 
houve nem na armada portugueza nem na armada brasileira 
nobre ou plebeu que assentasse praça de aspirante graduado 
em guarda-marinha senão o estudante de que reza a portaria 
que acabo de transcrever. 

£, se a esta singularidade se accrescentar a circumstancía 
dos honrosos fundamentos da promoção creio que se des- 
culpará o meu pequeno amor próprio, se guardo cuidado- 
samente um tal pergaminho. 

Os triumphos académicos não enchião minha ambição, 
e o aspirante graduado em guarda marinha, dominado pelas 
inspirações que o havião arrancado do telonio mercantil, não 
cessava de entreter o fogo sagrado do patriotismo. 

Sobrava-lhe o tempo para ganhar o pão, explicando geo- 
metria, para estudar suas lições de astronomia ou calculo 
differencial, e ao mesmo tempo para occupar-se de politica. 

Cedo foi admittido á sociedade de Evaristo e de Vas- 
concellos. que o acariciavão como que presagiando-=lhe bri- 
lhantes destinos. 

De Evaristo o aspirante graduado em guarda-marinha 
leve a distincta honra de ser explicador de geometria. 



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903 hBVISTA DO IKSTlTtlTO HISTÓRICO 

No celebre club dos Amigos Unidos, de que Origina- 
riamente proveiu o Grande Oriente do Passeio Publico, foi 
secretario o aspirante graduado era guarda-marinha. Esle 
club nasceu sob os auspícios (fallo só dos mortos) de An- 
tónio José do Amaral, José Augusto César de Menezes, João 
Mendes Vianna, João Pedro Mainart, Epiphanio José Pe- 
droso, Dr, Joaquim José da Silva e António Rodrigues Mar- 
tins. Um dos presidentes honorários do club era o Dr. Cy- 
priano José Barata de Almeida. 

Oh ! fortes pejoraque passt 

Mecum saepe viri. 

O club dos Amigos Unidos teve mais influencia do que 
se pensa na revolu<;ão de 7 de abril. 

O secretario dos Amigos Unidos se multiplicava escre- 
vendo para a imprensa daqui e de Minas. 

Na Astréa publica as cartas assignadas Joven Pernam- 
bucano, e, não estando ainda por falta de idade, no gozo dos 
direitos políticos, aceitava para seus escriptos a responsa- 
bilidade legal que nobremente lhe concedia um distincto 
official do nosso exercito, filho de Pernambuco, cujo nome 
as conveniências mandão que se cale, e que ainda hoje con- 
serva puras suas crenças do verdor dos annos. 

No Astro de Minas, em S, João d'Et-Rei, e no £co do 
Serro, na Diamantina, fazia-se sentir a actividade do escre- 
vinhador. 

Relacionado com os patriotas de maior consideração, por 
elles fui levado em 1829 á mesa parochial da freguezia do 
Sacramento, presidida pelo respeitável Sr. conselheiro Fran- 
cisco Gomes de Campos, hoje procurador da coroa e sobe- 
rania nacional. 

Escrutador, eu fiz abstracção da minha farda de guarda- 
marinha, para somente lembrar-me que era cidadão. 

Discuti com calor uma questão de ordem que affectava 
a pessoa do então ministro da guerra, o Sr. general Joaquim 
de Oliveira Alvares, que propuz fosse multado. 

Se já não estava no livro negro, fui inscripto nesse dia, 



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& CmCOLAR DE THBOPHILO OTTOKI 30;} 

não só porque o meu discurso foi talvez inconveniente, como 
principalmente porque excitou os applausos do povo liberal. 

Dahi começou para mim a perseguição politica que o 
primeiro reinado legou ao segundo, e que presentemente mtí 
atropella. 

Tinha completado o curso da academia de marinha sem 
perder, apezar das distracções referidas, o legar de primeiro 
estudante. 

E por isso foi cheio de confiança que requeri licença 
para continuar na academia militar os estudos mathematicos. 

Será difficil cre-lo t mas não obtive permissão para ma-! 
tricular-me. 

Estudava, porém, como ouvinte por especial favor do 
lente de mecânica, o Sr. Joaquim José Rodrigues Torres, hoje 
visconde de Itaborahy, que me distinguia como estudante e 
como correligionário politico. 

Ao sahir da academia eu me comprazia muitas vezes 
em acompanhar o meu digno mestre ao tetonio de Evaristo. 

Não sei onde o Sr. Rodrigues Torres enlevava mais o 
seu discipulo, se na academia, iniciando-o nas formulas de 
Francoeur e' de Poisson, se nas palestras do livreiro patriota, 
explicando as bellas theorias de Jefferson, de que S. Ex,; 
era caloroso en comi as ta e eloquente expositor. 

L'm estudante que naquelle tempo tinha as boas graças 
de seu mestre, se esse mestre era o Sr. Joaquim José Ro- 
drigues Torres, incorria por esse simples facto no desagrado 
do governo. Não era preciso que o estudante tivesse sido ■ 
escrutador liberal em uma eleição parochial. 

Foi, pois, uma questão de estado separar o discipulo do 
mestre, e na secretaria da marinha ha de existir, para ver- 
gonha daquella época, o registro das portarias expedidas ao 
commandante da companhia dos guardas-marinhas, para fazer 
um guet apens ao ouvinte do Sr, Rodrigues Torres. 

Ordens de embarque para a Costa d'Africa e para o Baixo 
Amazonas, inspecções de saúde, já pelo cirurgião dos guar- 
das-marinhas, já pelo physico e cirurgião-mór da armada, tudo 
foi posto em pratica para que eu não ouvisse as lições do 
Sr. Joaquim José Rodrigues Torres. 



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304 REVISTA DO IHETITUTO HISTORtCO 

Já se vê que o ministro não podia deixar de tríumpbar, 
e tive de considerar-me feliz aceitando baixa do posto de guar- 
da-marinhã, e consentindo, pesaroso, que se cortasse a minha 
carreira de engenheiro, em que talvez me teria habiUtado 
para servir melhor o meu paiz. 

Era isto em 1830. Separei-me do meu mestre, que cá 
ficou no Rio de Janeiro redigindo o Independente, emquanto 
eu transportava para Minas uma pequena typographia, e ia lá 
publicar a Sentinella do Serro. 



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o iomalismo • o progruunk do verdor dos lUiOB 

A Sentinella do Serro era o periódico a que durante a 
viagem do imperador pela província de Minas o Republico 
bradava daqui: 

€ Olá da Sentinella do Serro, alerta I » 

Alerta estava a Sentinella I 

No dia 3 de abril de 1831 chegou-nos um expresso en- 
viado pelo Sr. José Feliciano Pinto Coelho da Cunha, hoje 
barão de Co<:aes. 

Communicava-nos este honrado mineiro as lutuosas scenas 
das garrafadas nas noites de 13 e 14 de março no Rio de 
Janeiro, pedia conselho sobre a situação, e assegurava da 
sua parte e da de seus íUustres irmãos que todos de bom 
grado sacrificarião vida e fortuna pela liberdade. 

No dia 3 de abril eu fazia uma proclamação aos serranos, 
chamando-os ás armas, para deitar por terra a tyrannia. 

No dia 6 mais de 500 pessoas, inclusive todas as auto- 
ridades populares, se reimirão no paço da camará municipal 
e subscreverão os seguintes artigos, que vou transcrever do 
n. 32 da Sentinella do Serro, publicado a 9 de abril do mesmo 
anno, e, portanto dous dias apenas depois da revolução de 
7 de abril no Rio de Janeiro, Fizemos no Serro no dia 6 
o mesmo que os bahíanos havião feito no dia 4. Esta simul- 
taneidade prova que moralmente a revolução já estava con-* 
summada por todo o Brasil, em razão dos desacertos do 
governo. 

Era presidente dos confederados o fallecido Sr. João 
Innocencio de Azeredo Coitinho, Eu era o secretario. 

Formou-se no acto da reunião uma caixa militar com 
1 1 :ooo$. Antecedentemente se havia comprado todo o chumbo, 
pólvora, salitre e armamento que havia no commercio da 



REVISTA DO INSTITUTO HISTORlcO 

icipe, como tudo consta do citado n. 32 da SeH- 
7rro. 

:s os artigos do compromisso jurado publicamente 
■)T solemnidade no dia 6 de abril de 1831 : 
dadãos abaixo assignados, querendo evitar a 
; ameaça todo o Brasil por causa das desordens 
lo logar no Rio de Janeiro, se obrígão aos sc- 
os, e cada um de per si consente em ser tratado 
■ e inimigo quando se não preste, pela maneira 
'ada, para a defesa <ta pátria e da liberdade. 
:." Pois que pelo código criminal se impõe aos 
obrigação de resistir ás ordens illegaes, e, visto 
utistas peidem lançar mão de prisões arbitrarias 
isar os esforços aos liberaes, compromettem-se 

abaixo assignados, força pela força, e a tirar 
alquer cidadão que não esteja legalmente preso. ' 
feito logo que algum dos associados souber que 
Igum cidadão convidará a quantos encontrar, e, 
ao logar da prisão, examinará se ha ordem para 
io-a, se é legal, e, logo que o não seja, tirar-se-hd 
■ça d'armas. 

° Logo que cbeguem noticias que continuão 33 
I Rio de Janeiro os cidadãos abaixo assignados 
neste mesmo logar para concorrerem com as 
dsas para uma caixa militar, que servirá para 
guardas nacionaes de fora, que devem ser cha- 
1 pagar soldo aos que tiverem de marchar contra 
s e a favor dos patriotas. 
' Todos os associados assentarão praça na guarda 

que a camará municipal a estabeleça, e promo- 
o entre os guardas nacionaes, e o entliusiasmo 
i liberdade, por todas as maneiras que estiverem 

" Se antes de chegarem noticias do Río de Ja- 
certeza que das Divisões, de Minas-Novas, ou 

Jquer parte, marchão tropas para o Serro, ou 

-Preto rebentou também a lava revolucionaria, 
immed latamente todos os associados, aqui ou 

ar, promoverão a reunião da camará municipal 



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A CIRCULAR DE THEOPHILO OTTOMi ÍO? 

O mais breve possível, convocarád todos os cidadãos para con- 
correrem ão -largo da Cavalhada e ahí se alistarem em dif fe- 
rentes companhias, as quaes se organisarão em batalhões, na 
forma da representação do conselho, afim de operar em defesa 
da pátria e da liberdade. 

cArt. 5.° Se a segurança individual e as garantias con- 
stitucionaes forem atacadas aqui com estrondo e escândalo, 
ou quando cheguem as noticias em que fallão os artigos 
antecedentes logo depois da reunião, e, se esta não for pos- 
sivel, antes delia, e logo que cheguem as noticias, se man- 
dará tocar a rebate em todas as igrejas da villa, afim de 
se reunir o povo em defesa da pátria. » 

Quando os cidadãos juravão electrisados os artigos acima 
foi o enthusiasmo levado ao detirio com a leitura do seguinte 
officio de algumas das principaes senhoras do paiz, que offe- 
recião suas jóias, seus serviços e uma quota para a caixa 
mihtar. A primeira assignatura é de uma das matronas mais 
veneráveis que tenho conhecido, já pelas suas virtudes do- 
mesticas e exemplar caridade, já pela sua elevada intel- 
ligencia e rectidão de espirito, Fallo da Exma. Sra. D. Maria 
Salomé Perpetua de Queíroga, mãi do Exm, Sr. Dr. Ber- 
nardino José de Queiroga, tronco illustre de uma illustre e 
estimável descendência. 

Eis o officio: 

«Senhores. — As abaixo assignadas, convencidas da uti- 
lidade que seguramente deve resultar da reunião patriótica 
de seus concidadãos em prol da liberdade, e tendo noticia 
das prestações voluntárias que os mesmos teem feito de suas 
pessoas e vidas, e de seus bens, lamentando a fraqueza do 
seu sexo, que as impede de empunhar as armas para a defesa 
commum, vêm offerecer espontaneamente para a caixa mi- 
litar suas jóias, seus serviços, quando sejão necessários. 

« Além das of fertas acima declaradas, onze das abaixo 
assignadas offerecem mais para a mesma caixa 850$. 

« Villa do Príncipe, 6 de abril de 1831. 

« Maria Salomé Perpetua de Queiroga. -.; ■.. ,; 
<Theodora L. de Azeredo Coutinho.. . >j .. . >: 



. COCH^IC 



308 REVISTA DO INSTITUTO BIBTORlCO 

€ Bernardina Flora de Queiroz - . .■ 

€ Anna Ermelinda de Queiroga ioo$ooo 

€ Marcelianna Emília de Magalhães icx>$ooo 

€ Eufrosina Perpetua de Queiroz ,., ioo$ooo 

€ Carbta Joaquina da Fonseca. ....,..,.. ioo$ooo 

€ Francisca Dorothéa de Padilha ioo$ooo 

<Anna Bonifacia de Lima .• • • 50$ooo 

< Maria Nazareth de Queiroz. 
« Maria Salomé de Queiroz. 

€ Marta de Nazaretli de Queiroz. 

< Maria Salomé Azeredo Coutinho. 
€ Maria Flora de Castro Lessa. 

< Policena Alexandrina da Fonseca. 
€ Firmiana Henriqueta da Fonseca. 
« Maria Carlota da Fonseca. 

€ Maria Nazareth de Lima. 

< Eufrásia Augusta de Lima. » 

Do dia 4 até o dia 22 de abril foi o Serro uma praça 
d'armas, de cuja revolta aberta contra o governo geral eu 
assumi com prazer a principal responsabilidade. 

Na noite de 22, de 10 para 11 horas, um expresso que 
meu pai, o Sr. Jorge Benedicto Ottoni, me expedira do Ouro- 
Preto, trouxe-nos a noticia da revolução de 7 de abril e da 
abdicação do imperador. 

Instantaneamente a cidade illuminou-se, bandas de mu- 
sica acompanhavão a guarda civica e a população em massa, 
que até ao romper do dia percorrerão as ruas, cantando 
hymnos patrióticos, entre vivas á liberdade, á revolução de 
7 de abril, ao redactor da Seniinella do Serro, etc, etc. 

Nessa noite, sem a generosa e enérgica intervenção do 
redactor da Sentinella do Serro, os primeiros Ímpetos do povo 
triumphante terião sido fataes a alguns poucos desafectos á 
nova ordem de cousas e mesmo a pessoas inoffensivas. 

Entre os hymnos cos vivas repetia-se com furor o grito 
de guerra dos dias antecedentes : — Abaixo o tyranno 1 — 
Morrão os portuguezes ! — Morra o Japiassú ! como desi- 
gnavão o ouvidor da comarca, desembargador António José 
Vicente da Fonseca, magistrado severo, e que por efíeitp de 



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K eiRCDLAR DE TllEOPUJLO OTTONI 309 

suas convicções havia desapprovado o nosso movimento revo- 
lucionário. 

A exacerbação dos espirítos prognosticava scenas horro- 
rosas ; mas minha influencia, graças a Deus I era immensa. 
A* porta do ouvidor, depois de uma scena tumultuosa, pude 
cons^^ir silencio e attenção. Arenguei o povo, pregando e 
exigindo moderação e generosidade, e pedindo que os — 
morras — somente ecoassem contra o tyranno, e que não man- 
chássemos com excessos criminosos a bella victoria que nossos 
irmãos fluminenses acabarão de ganhar. 

Minha palavra tinha autoridade, e coube-me a gloria 
de salvar um magistrado honrado e os portuguezes que resi- 
dião na povoação, alguns dos quaes até fraternisavão com as 
nossas idéas. Não faltào ainda hoje na cidade do Serro teste- 
munhas do facto. 

Revolucionário da véspera, o redactor da Sentinella da 
Serrcr trz o ordeiro typo no dia do triumpho. 

Não significa este procedimento que eu houvesse de 
approvar a direcção que os moderados ião dar á revolução. 

O 7 de abril foi um verdadeiro jountée des dupes. Pro- 
jectado por homens de idéas liberaes muito avançadas, jurado 
sobre o sangue dos Canecas e dos Ratecliffs, o movimento 
tinha por fim o estabelecimento do governo do povo por si 
mesmo, na significação mais lata da palavra. 

Secretario do club dos Amigos Unidos, iniciado em ou- 
tras sociedades secretas, que nos últimos dous annos esprei- 
tavão somente a occasião de dar com s^urança o grande 
golpe, eu vi com pezar apoderarem-se os moderados do leme 
da revolução, elles que só na ultima hora tinhão appellado 
comnosco para o juízo de Deus I 

O redactor da Sentinella do Serro acreditava, como o 
sábio Camot, que a liberdade não é um devaneio, e menos 
que fosse mostrada ao homem só para que este se lastimasse 
de não poder goza-la. 

O redactor da Sentinella do Serro não podia admittir 
que fosse mera illusão esse bem tão universalmente prefe- 
rido a (odos os bens, e sem o qual não tem a posse dos 
outros a menor valia. 



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310 REVISTA DO IN&TmTTO BlETORlOa' 

Ao redactor da Sentinella do Serro dizia o coração que 
a. liberdade é possível, que o seu regimen é facíl e mais es- 
tável que o dos governos arbitrários de qualquer denominação. 
Mas ainda na agitação e devaneio da luta o redactor 
da Sentinella do Serro nunca sonhou senão democracia paci- 
fica, a democracia da classe média, a democracia da gravata 
lavada, a democracia que com o mesmo asco repelle o despo- 
tismo das turbas ou a tyrannia de um só. 

Ao passo que censurava os chefes do partido liberal mo- 
derado, porque desvirtuavão a revolução, de que se havião 
apoderado, a Sentinella do Serro com mais energia stygtna- 
tisava os excessos anarchicos applaudidos pelas folhas demo- 
cráticas da corte. 

Dahí nasceu que a Sentinella do Serro mais de uma vez 
foi invocada como autoridade contra os desordeiros, tran- 
scripta na Aurora por Evaristo e no Independente pelo 
Sr. Joaquim José Rodrigues Torres, hoje visconde de Ita- 
borahy. 

Parece-me ainda hoje que eu era lógico dentro do circulo 
das minhas convicções. Censurava, é verdade, alguns ímpetos 
do nosso Cavãígnac de sotaina; mas era somente em com- 
munhão com o Sr. Diogo António Feijó e com as notabí- 
lidades parlamentares do ultimo quatriennío que eu admittia 
a possibilidade de obter-se uma reforma mais liberal em a 
nossa constituição. 

A ordem de idéas que depois de 14 de julho predominou 
no governo de 7 de abril não me agradava por certo. E se 
a democracia creasse então uma opposição regular, eu me 
não chegaria provavelmente para os moderados. Porém a 
opposição começou a revolver na corte e na Bahia os mais 
perigosos ínstinctos da nossa sociedade, chamou em seu apoio 
a espada de soldados indisciplinados, quando se tratava da 
solução das mais graves questões constitucionaes. 

Órgão e defensor da democracia pacifica, o redactor da 
Sentinella do Serro em tal contingência preferiu acostar-se 
ao principio monarchico, comtanto que a monarchia fizesse 
por meio de reformas legaes na constituição largas concessões 
ao principio democrático. 

D,gt,zedbyGOO<^le 



A. CtRCOLAR DE THEOPHILO OTTOMI 311 

Ahi vai o programma e exposição de motivos que o re- 
dactor da Sentinella do Serro offereceu á consideração dos 
leitores no seu n. 43 de 25 de junho de 1831. Note-se bem 
que é o democrata pacifico que logo depois de 7 de abril 
propõe aos monarchistas liberaes a transacção de principies, 
mediante a qual se devem fundir as duas nuanças do partido 
liberal 

ASTIGO DS SENTINEI.IA DO 5ERK0 
< Trezentos annos de escravidão não podem bem pre- 
parar um povo para entrar no gozo da mais perfeita Uberdade. 
Um povo educado sob o despotismo, sem idéas algumas sobre 
a organisação do corpo social, de mais imbuído pelos seus . 
tyrannos em princípios erróneos, fautores do despotismo, pre- 
cisa de óptimos guias para se não desvairar e perder nas 
ignoradas veredas que devem conduzi-lo ao templo da divina 
liberdade. Mãos guias, podem leva-lo aos horrores da anarchia, 
ou entr^a-lo de novo ás garras do poder absoluto. Estes 
os dous medonhos cachopos que ameaçarão a náo do estado 
desde os primeiros ensaios que fizemos para a nossa r^e- 
neração politica. Ora a anarchia, ora o despotismo, parecia; 
tragar-nos, apezar da nobre resistência de alguns espirites ge- 
nerosos; mas em 1824 definitivamente suppoz-se não haver 
mais antídoto contra o despotismo. Esta terrível supposição 
e a fadiga produzida por uma luta ínfructuosa germinarão 
a apathica indífferença politica, que como epidemicamente 
grassou em todo o Brasil nos annos de 1825 e 1826 e mesmo 
em 1827, 

«A causa da razão e da pátria estava desesperada; o 
despotismo parecia infallível, e a ignorância persuadia a não 
poucos brasileiros que por não estarem em contacto directo 
com o governo podião esperar socego no cabos do absolutismo. 
As phalanges da tyrannia sensivelmente engrossavão; mas 
de outro lado os deputados, affoitando-se a defender na tri< 
buna nacional os direitos inauferíveis do povo soberano, 
tinhão dado calor á imprensa para debellar a tyrannia. 
Desde então começou o rebate contra os traidores que nos 
opprimião; os clarins da liberdade ojns^fuírão muito, acor- 
darão o povo do lethargQ, manifestárão-lhe as traiçdes do 

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3ia RBVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

poder e a necessidade de abate-lo, fizerão-lhc apreciar as 
doçuras da liberdade, e assim o obrigarão a correr ás armas 
e lançar por terra o tyramio. Este resultado maravilhoso 
e quasi inesperado é devido á espantosa revolução que operou 
no espírito nacional a imprensa livre ' Ha cinco annos (fal- 
íamos pelo que vimos na nossa província) erão apontados 
como temerários e loucos os cidadãos que tinhão coragem para 
advogar a causa da liberdade, ou mesmo defender essa con- 
stituição illusoria com que o déspota nos quíz embalar. 

cO — que me importa? — politico estava generalisado ; 
a maior parte dos cidadãos fugia a todos os actos públicos. 
Hoje os cidadãos tcem conhecido que a sua felicidade ou 
desgraça depende essencialmente do andamento do corpo po- 
litico; que todos os sacrifícios se devem fazer para evitar 
os horrores do despotismo; já ninguém ousa negar a sobe- 
rania da nação, e o consequente direito que tem qualquer 
povo para alterar e modificar sua constituição ; que ninguém 
pôde ser punido senão em virtude das leis ; em uma palavra, 
conhecemos nossos direitos e estamos na firme resolução de 
sustenta-los. Mas por\'entura está na mesma linha de per- 
feição o conhecimento de nossos deveres? O amor da verdade 
nos obriga a dizer que não. 

« E nem a educação que tivemos nos habilitou para es- 
tarmos hoje ao nivel dos americanos do norte. 

« Faltão-nos a instrucção e moralidade politica, que tanto 
distinguem estes nossos conterrâneos. Mas desenganemo-nos ; 
se tivermos juizo, baqueou para sempre o despotismo, qual- 
quer tentativa de seus satellites servirá somente para co- 
bri-los (se é possível) de maior opprobrio: é preciso, porém, 
reconhecermos que nas actuaes circumstancías a própria uti- 
lidade nos recommenda muita prudência, circums^cção e 
inteira confiança na representação nacional, ou, para melhor 
dizer, na camará dos deputados, emquanto ella marchar, como 
até agora, dentro da orbita que lhe traçou a lei fundamental. 
A camará dos deputados é actualmente o único centro de 
reunião que pôde conservar ligadas as províncias, prestes a 
desgarrar-se ; a camará dos deputados é o único poder a quem 
não falta ainda o apoio da opinião publica, e por isso o 
único capaz de oppór diques á impetuosa torrente (& anarchía, 



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A aRCULAR DE TREOPHILO OTTONI 2I3 

fomentada por alguns ambiciosos, que querem ser melhor 
aquinhoados, e pelos absolutistas, que pretendem, anarchi- 
sando o Brasil, fazer ver ao mundo que não somos dignos 
da liberdade que conquistámos. A SentincUa do Serro nunca 
pertenceu ao partido das meias medidas; pelo contrario, em- 
quanto existiu o tyranno appellou constantemente para os 
golpes nacíonaes, consagrou em suas paginas o sagrado di- 
reito da insurreição; mas hoje, caros patrícios, o despotismo 
cahiu, e, se nos afastamos da orbita da lei, nos arriscamos ú 
perder o muito que temos ganho pelo pouco que nos resta a 
ganhar, e que o tempo pôde trazer serenamente. 

c £', pois, mister sacrificarmos alguma cousa de nossas 
opiniões ; isto protesta fazer o redactor da Sentinella do Serro. 

< Por exemplo, somos de opinião que, se aos dous can- 
didatos da Nova Lu::, os Srs. Braulio e Manoel de Carvalho 
Paes de Andrade, se juntasse o Sr. Vergueiro, teríamos uma 
óptima regência: mas, se a assembléa em sua sabedoria ou 
mesmo em sua moderação nos der outros quaesquer regentes 
(que comtudo não serão- por certo Clementes Pereiras) nem 
por isso declararemos guerra á representação nacional, nem 
a essa regência. Somos de opinião que se deve lentamente 
republícanísar a constituição do Brasil, cerceando as fataes 
ottribuições do poder moderador, organisando em assembléás 
Provinciaes os conselhos geraes de provinda, abolindo a vita^ 
liciedade do senado, e isto desde já. Mas se, contra a nossa 
humilde opinião, a camará dos deputados se conservar esta- 
cionaria, nem por isso appellaremos para golpes da nação; 
mas, pelo contrario, continuaremos a reprovar altamente todos 
os meios violentos, que podem levar-nos á anarchia e depois 
ao despotismo militar, que opprime a quasi todas as cha- 
madas republicas da America ex-hespanhola. Ainda assim, 
pois, recommendaremos obediência aos decretos legaes da 
assembléa geral; esperaremos pe4a próxima legislatura, e, 
fazendo ver aos nossos patrícios a necessidade de attenuar 
lealmente o demasiado vigor que a constituição dá ao sempre 
funesto elemento monarchioo, apontaremos pelo nome os 
deputados amigos das reformas constitucionaes, para serem 
reeleitos, e os deputados estacionários ou retrógrados, não 

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ai4 RETieT& DO INSTITUTO RUTORICO 

para os insultar, mas para que o povo os exclua da repre- 
sentação nacional. 

c Estamos intimamente convencidos de que só assim 
poderemos marchar em segurança para o estado de perfeição 
e felicidade a que se elevou a pátria dos Washington, dos 
Jefferson e dos Franklin, Estamos intimamente persuadidos 
de que, se Washington, Franklin e todos os outros pa- 
triarchas da liberdade americana tivessem nas actuaes cir- 
cumstancias o leme dos negócios do Brasil, elles nos enca- 
minharião assim. 

' « Podemos errar, mas é esta a nossa' convicção ; e, como 
escriptor liberal não queremos deixar de emittir o nosso 
voto em negocio de tanta ponderação. 

«Quando nos chegou a noticia da abdicação do ex-im- 
perador suppuzemos que a revolução iria mais avante, ficando 
todavia terminada antes que o brioso povo fluminense depu- 
zesse as armas, e sahisse do campo da honra; felizmente, 
porém, o resentimento deixou logar á reflexão, e a revolução 
de 7 de abril tomou á direcção mais favorável á liberdade 
americana. Nós a desfrutaremos, e liaremos a nossos filhos 
e netos essa venturosa liberdade, sem que para isso sejão 
precisas mais bernardas e rusgas ; pelos meios legaes podemos 
tudo conseguir, e sahindo do circulo da constituição tudo 
perder. 

« Alguém perguntará que cousa pôde ter motivado este 
longo sermão? 

« Ao que responderemos : « O Rio de Janeiro não está 
€ em socego : pessoas respeitáveis nos escrevem, narrando 
< que os homens do cacete continuão em suas correrias ; que 
« vai desapparecendo da corte a segurança individual, cuja 
« conservação deve ser o objecto principal de todo o bom 
«governo; que os assassínios se teem multiplicado; e final- 
« mente que os ambiciosos, procurando justificar-se com a 
«nimia moderação (no que aliás alguma razão teem) da 
■« camará dos deputados e regência, que ainda não deitarão 
«para fora do Brasil os guerreiros de fundo de garrafa, 
■< querem tudo baralhar para, no meio da confusão geral, cm- 
«polgarem o mundo». 

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A COtCDL&R D8 THEOPHILO OTTONt 91$ 

€ Todavia nós esperamos que o bom e honrado povo flu- 
minense não deixará murchar os louros que ha colhido nos 
para sempre memoráveis dias de abril, os bravos do campo 
da honra servirão de guarda â assembiéa geral, e não per- 
mittiráõ que alguém ouse querer dar lei á representação na- 
cional. » _ ' 

O artigo que acabo de reimprimir palavra por palavra, 
29 annos depois de sua primeira publicação, não precisa 
de commentarios. 

Em tempo de lutas eleitoraes os meus adversários teem 
por vezes transcripto, truncadas, para melhor me guer- 
rearem, algumas dessas palavra^ que escrevi no verdor dos 
annos e que, longe de renegar, ainda hoje repito com orgulho, 
considerando-as um, dos brasões da minha fidalguia politica. 

Ahi podem os Srs. eleitores ver o symbolo da fé, a cujo. 
serviço, combatendo na imprensa e na tribuAa, tenho consa- 
grado toda a minha vida. 

Quaes forão as reformas que o joven redactor da Sen- 
iinella do Serro exigiu em 25 de junho de 183 1 que se fi- 
zessem na constituição (declarando que só as queria pelos 
meios l^aes) como condição do seu apoio ao governo de 
7 de abril? ■ -: ■■J.9r 

Leião os Srs. eleitores o artigo mencionado, e verão 
que três crão as modificações que eu propunha que se fi- 
zessem na constituição: 

i." Que Os conselhos geraes de provinda fossem conver- 
tidos em assembléas provinciaes. 

2.* Que fossem cerceadas as attribuições, que chamei fa- 
taes, do poder moderador. 

3.' Que fosse abolida a vitaliciedade do senado. 

Poucos mezes depois o prt^ramma da Sentinella do 
Serro tinha sancçao legal no projecto de lei approvado na 
camará dos Srs. deputados, no qual se ordenava aos eleitores ^ 
da seguinte legislatura que dessem poderes ã futura camará 
para reformar-se a constituição, admittidas as três bases 
mencionadas. 

E' sabido que no fim do anno de 1831 os homens do 
velho r^men havião tomado a si do atordoamento que lhes 
causara a inesperada le mal aproveitada .revolução de 7 de 

lyCoogle 



àl6 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

abril. Só o governo parecia não se aperceber deste movi- 
mento retrogrado, e persistia em só reconhecer perigos nas 
aspira<;ões do partido liberal mais adiantado. 

O senado se mostrava sobranceiro às novas ídéas, e os 
conservadores preparavão-se evidentemente para nma le\'a de 
broqueis. 

Derribar com o governo a regência em nome do Sr. 

D. Pedro II e substitui-la por outra em nome do Sr. D. Pedro 

I, tal era o progamma retrogrado, qual o futuro o patenteou . 

As circumstancias erão difficeis. A revolução ia para 

a rua em nome dos conservadores. 

Não pôde admirar, portanto, que os liberaes recorressem 
ao direito natural da própria defesa. 

Era o tempo das sociedades patrióticas de todas as 
nuanças. No Rio os conservadores conspiravãõ na sociedade 
Militar, e mesmo em um dos grandes orientes maçónicos 
convertido em alavanca politica. A sociedade Defensora era 
com as suas filiaes o instrumento de Evaristo e o espirilo- 
sanlo do governo. A sociedade Federal, de que era presi- 
dente o Sr. Frei Custodio Alves Serrão, symbolisava o pro- 
gresso pacifico. 

Nas provicias via-se por toda a parte o reflexo da corte. 
A questão que mais excitava e animava as diversas tri- 
bunas politicas era o projecto de reforma da constituição, 
que acabei de mencionar, e que havia passado na camará dos 
deputados . 

Era \oz geral que havia infallivelmente de naufragar 
no senadc. 

Foi sob estas impressões que eu installei na cidade 
do Serro, então \ilta do Príncipe, uma associação politica 
com o titulo de sociedade Promotora do Bem Publico, que a 
Aurora Fluminense denominava a Encyclica Promotora. 

A reforma da constituição como a tinha decretado a 
camará dos deputados era uma conquista de que o partido 
liberal já não podia prescindir, e que negada acarretaria fu- 
nestos resultados á ordem publica. 

A sociedade Protectora do Bem Publico, por própria 
inspiração, sem a menor insinuação estranha ao Serro-Frio, 
havia-se apresentado a peito descoberto, propondo um golpe 



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& aRCULAR DE TBEOPHILO OTTONI 317 

de estado eleitoral que salvasse o projecto de reformas appro- 
vado na camará dos deputados. 

Da sociedade Promotora dá ampla noticia a Sentinella 
do Serro no seu numero 74 de 4 de fevereiro de 1832, no 
artigo que passo a transcrever textualmente e em outros: 

ARTIGO DA < SENTINELt^ DO SKBRO > 

c No dia 2 houve sessão da sociedade Promotora do 
Bem Publico, e por indicação de um dos sócios {*) deli- 
berou-se convidar as outras sociedades patrióticas e do im< 
peno, bem como as municipalidades para que, não tendo 
pessado no senado o projecto da reforma constitucional ou 
havendo sido regeJtado até o dia da convocação da assembléa, 
hajão de influir nos círculos eleitoraes do seu distrícto, para 
que os eleitores dêem poderes constituintes aos futuros de- 
putados para reformarem a constituição, como tudo se vê 
do officio circular que passamos a transcrever: 

< A mesa que dirige interinamente os trabalhos da so- 
€ ciedade Promotora do Bem Publico, estabelecida na villa 
« do Principe, comarca' do Serro-Frio, leva ao conhecimento 
« da sociedade Patriótica, estabelecida em Pouso-Alegre, que 
« o Serro conta já em si uma associação semelhante áquellas 
«de que tantos beneficios teem colhido muitos municípios.: 

« A sociedade Promotora do Bem Publico, anhelando 
c com todos os bons cidadãos a prosperidade e gloria da pátria, 
'< não podia deixar de lançar os olhos sobre a questão das 
S reformas constitucionaes, que actualmente occupa, não só 
«os amigos, como os adversários da felicidade publica, os 
« primeiros trabalhando por afastar os estorvos que ínutilisão 
< as mais bellas garantias que a constituição offerece e por 
« extinguir as instituições européas, que se pretendem enraizar 
« entre nós ; os segundos, ora procurando evitar ou retardar 
«estas indispensáveis reformas, ora querendo precipita-las 
« em demasia, occasionando desordens que sirvão a seus fins. 
« A sociedade tem meditado, não só sobre os elementos que 
«se oppoem á reforma, como sobre os meios de os destruir: 
"4 em resultado tem concluido existir no senado o primeiro 



{') T. B. Otioní.' 



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Il8 XBVISTA DO INSTIT0TO BUTOttRXy 

< escolho que devemos evitar, se queremos ch^ar ao porto 

< da liberdade, de que ha tanto tempo nos afastão pilotos impe- 
c ritos ou mal intencionados. Este corpo coUectivo, esque- 

< cendo-se do cumprimento de seus mais sagrados deveres, 

< ou antes sendo consequente com a sua péssima oi^anísação 
« e influencia que na sua eleição exercitou o despotismo, 
€ esmera-se continuamente em exci^tar tropeços ao anda- 
c mento das instituições que possuímos e ao estabelecimento 
«daquellas de que necessitamos. A' vtsta disto, julga a so- 
<( ciedade Promotora do Bem Publico que os brasileiros devem 
c prevenir o caso de que o senado não annúa ao projecto das 
c reformas approvado na camará dos deputados ; parecendo- 

< lhe mais que neste caso seria contradicção admittír os votos 
€ dos actuaes senadores para as reformas que se houverem 

< de fazer; e, firmada nestas razões, deliberou convidar a 

< todas as municipalidades e sociedades patrióticas, não só 
« desta como das outras provincias para que, no caso de que 
€ até o dia da convocação da futura assembléa l^slativa 
€ não tenha ainda passado ou tenha sido regeitado no senado 
So projecto das reformas constitucionaes, se esforcem de 
€ commum accordo para que nos respectivos círculos elei- 
€ toraes se dêem poderes constituintes aos futuros deputados 
« para reformarem a constituição, na forma do projecto 
« approvado na camará dos deputados, fazendo-se a reforma 
€ independentemente do senado, reunindo-se os futuros eleitos 
c o mais breve que possa ser, declarando terminada a l^is- 
€ latura actual com o senado, fazendo os deputados eleitos 
«as funcções de assembléa legislativa em tudo o mais; não 
«passando os seus poderes constituintes além do projecto 
« de reforma da camará dos deputados, actual, e continuando 
■< depois as funcções que segundo a constituição reformada 
«competirem á camará dos deputados. 

« A sociedade Promotora do Bem Publico espera que 
« a sua proposição será attendida pelos cidadãos que compõem 
«as associações a quem se dirige, e de cujas luzes, enei^a 
«e patriotismo depende a felicidade futura da nossa pátria.; 

« Sala das sessões da sociedade, 2 de fevereiro de 1832. 
« — Joaquim Pereira de Queiras, presidente. — Bento Josi 
'^'Affonso, secretario., — João Innocencio, de 'Azeredo^ Çour 



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A CIRCULAR DE THEOPRILO OTTONt 319 

<tinho, secretario. — Joaquim José de Araújo Ponseca, se- 
«cretario. — Theophilo Benedicto Ottoni, secretario.» 

Tão arrojada iniciativa da sociedade Promotora do Bem 
Publico devia causar grande abalo no paiz. Os moderados, 
que estavão no governo, não podião dar de súbito a sua 
adhesão á ousada medida, planejada em uma villa do interior 
sem o seu beneplácito. 

Demais, na occasião a regência e o ministério ainda se 
achavão na esperança de que os homens do velho regímen, 
— os homens que se dízião partidistas e enthusiastas do pai, 
• — não serião contradictoríos a ponto de quererem derribar 
por meios violentos o governo do filho. 

Assim, os moderados suppunhão ter somente inimigos 
do lado liberal um pouco mais avançado.' 

Por isso guerreánio quanto puderão a representação 
encyclica, o jornal que a sustentava e os homens que a 
apoiavão. 

A representação foi fulminada pela imprensa do po(fer, 
que imaginava a pátria em perigo e a anarchia levantando 
o coUo, se desse ouvidos ao convite condicional da socie- 
dade Promotora do Bem Publico. 

A perse^ição politica dos constituintes do Serro-Frio 
tomou vastas proporções. 

A Sentinella do Serro cedeu, menos prudentemente, ás 
provocações das gazetas moderadas : foi processada, e víu-se 
na necessidade de suspender a sua publicação. 

Mas tão desculpáveis erão os excessos a que a polemica 
levou a Sentinella do Serro que a folha achou apoio no juizo 
dos seus pares. Submettida a accusação ao jury especial 
da liberdade de imprensa, na forma da lei então em vigor, 
o jury não achou matéria para accusação. 

Não obstante, os membros influentes da sogedade Pro- 
motora do Bem Publico não tiverão outro recurso senão o 
de deixar o campo aos seus adversários, ceder-lhcs a typo- 
graphia e retirar-se completamente da scena. 



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Sediçflaa oonservtdoria — Fnsio dos libertes. — O meu pro- 
aramma convertida em lei conititDoionel 

Homem impossível para o partido conservador, repu- 
diado pelos moderados, que me pers^uião, e sentindo a mais 
pronunciada repugnância pelos anarchistas, democrata' paci- 
fico, recolhi-me a quartéis de inverno e passei a viver retirado, 
na mais perfeita abstenção. 

No entanto a reacção imprudente dos moderados contra 
bs reformistas animou por tal maneira os retro^ados que 
um mez depois do encerramento da sociedade Promotora do 
Bem Publico tinhão elles empunhado as armas no Rio de 
Janeiro contra o governo, 

E o dia 17 de abril de 1832, a não ser a repugnância 
que tÍ\-erão os liberacs exaltados de entrar em allíança com 
os retrógrados, seria o ultimo dia da regência e do governo 
de 7 de abril. São factos que a historia explicará sem du- 
vida. 

Abandonados com a maior ingratidão pelos retrcçrados, 
que até a vida lhes deviao, os moderados novamente pro- 
curarão congraçar-se com os Itberaes exalta(fos. 

E, para captar o concurso delles, appellárão, por uma 
dessas contradicções usuaes na vida dos partidos, para o 
mesmo recurso que havião condemnado quando proposto pela 
sociedade Promotora do Bem publico e que havia dado em 
resultado o meu ostracismo. 

Projectarão esmagar o senado e reformar a constituição 
de autoridade própria. Foi o golpe de estado parlamentar 
tratado entre regentes, ministros e maioria na noite de 29, 
e que a 30 de jidho de 1832 frustrou-se pela habilidade e 
valor estratégico de um pequeno grupo de deputados, capi- 
taneado pelo Sr. Honório Hermeto Carneiro Leão, que nesse 
dia não acompanhou os seus amigos da véspera. 

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A CIRCULAR DE THEOPHILO OTTOW 33| 

O parecer da' commissão, que opinava para se arvorar 
a camará dos deputados em asserabléa constituinte, e que 
foi rejeitado, é o seguinte: 

€ A commissão especial encarregada de dar o seu pa- 
recer a respeito da mensagetn da regência do império, em 
que dá a sua demissão do alto emprego para que fora no- 
meada, passa a expor a sua opinião acerca deste objecto. 

€ Ninguém de boa fé pôde duvidar que as circumstanctas 
em que nos achamos são extraordinárias, que a nação se 
acha á borda de um abismo, pelas divisões que infelizmente 
teem retalhado o nosso paiz, e principalmente pela existência 
de um partido retre^rado, que, não contente com pregar 
abertamente pela imprensa a restauração do detestado go- 
verno (fe D. Pedro I, tem levado a audácia a ponto de em- 
punhar as armas contra as autoridades lealmente constí- 
tuidas, não duvidando derramar o sangue daquelles que não 
partilhão seus indignos sentimentos. E' igualmente manifesto 
que o governo não pôde lutar com vantagem contra tal par- 
tido com os meios que tem á sua disposição, principalmente 
quando a maioria do senado e parte da magistratura pela 
sua conducta teem mostrado protege-lo abertamente; donde 
resultou, não só a demissão de todo o ministério, que merecia 
a confiança da regência e da nação, mas também a impossi- 
bilidade de organisar outro, porque os cidadãos mais iUus- 
trados e reconhecidos patriotas recusão collocar-se em tão 
difficil e arriscado posto. 

< Vendo, pois, a commissão que das causas acima ex- 
pendidas não podem deixar de resultar os maiores males; 
vendo imminente a guerra civil e a anarchia; e antolhando 
com horror as revoluções parciaes e desregradas que tie certo 
hão de apparecer nas províncias, e de que podem resultar 
a desmembração e a ruina do império: julga que só as mais 
enérgicas medidas podem salvar a nação e o throno consti- 
tucional do Sr, D. Pedro II. E, como estas não cabem nas 
nossas attribuições, nem tão pouco aceitar a demissão da 
regência permanente, é de parecer que esta augusta camará 
se converta em assembléa nacional, para então tomar as re- 
soluções que requer a crise actual, e que isto mesmo se 
participe ao senado. 



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333 RETUTA DO INSTITUTO HieTOUCO. 

€ Paço da camará dos deputados, em 30 de julho de 
1832. — Prancisco de Paula Araújo e Almeida. — Gervásio 
Pires Ferreira. — Manoel Odorico Mendes. — Gabriel Men- 
des dos Santos. — Cândido Baptista de Oliveira. » 

H' sabido que a nova constituição, em que se abolia o 
senado vitalício e se tomavão outras medidas de igual im- 
portância, estava redigida e ia ser votada por acclamação 
logo que a camará se convertesse em assembléa nacional. 
A sociedade Promotora do Bem Publico estava justi- 
ficada I Triumphava logo depois de proscripta.: Os mode- 
rados, cinco mezes depois de haverem condemnado a so- 
ciedade Promotora e a Sentinella do Serro, se apresentavão 
em campo com a mesma bandeira, proclamando os mesmos 
princípios, visando ao mesmo fim. 

Não podia haver melhor justificação para oa consti- 
tuintes do Serro-Frio.; 

Nós propúnhamos simplesmente que, no caso de não 
passar no senado a lei da reforma constitucional, os eleitores 
fossem convidados a dar de autoridade própria 'poderes aos 
novos deputados para fazerem a reforma qual á tinha ap- 
provado a camará dos deputados. Appellavamos do senado 
para a soberania nacional. 

Os moderados em 30 de julho queríão ir além ; — arvo- 
ravão-se, sem missão, em assembléa constituinte, e decretavão 
uma nova constituição. 

O mallogro do 30 de julho deu era resultado o ministério 
dos 40 dias, em que figuravão os Srs. Hollanda Cavalcanti, 
hoje visconde de Albuquerque, e Pedro de Araújo Lima, 
hoje marquez de Olinda. 

O ministério dos 40 dias deu alento ao partido conser- 
vador, que então mats do que nunca sonhava a restauração 
do Sr. D. Pedro I. 

Aos estadistas do segundo reinado não podia sorrir tat 
idéa. Se o duque de Bragança voltasse ao Brasil o pessoal 
dos altos funccionarios estava de antemão designado, e devia 
naturalmente compor-se dos que tinbão ficado fieis ao ex- 
imperador no tempo da sua desgraça. 

Mas um grupo bem conhecido, que se havia apoderado 
da situação em 7 de abril, e que a explorava em proveito 



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k CIRCULAR DE THEOrailO OTTONI 393 

do seu domínio, temia que, dada uma tal eventualidade, os 
seus talentos não fossem devidamente aproveitados, e elles 
tivessem de voltar ao ingrato papel de opposicíonistas, como 
tinhão sido de 1826 a 1831. 

Ainda nâo tinha chegado o tempo de deporem a mascara 
è fundirem-se no partido conservador, acclamando-se seus 
exclusivos chefes c directores. 

For isso cahiu o ministério dos 40 dias, e o partido mo- 
derado novamente se assenhoreou da situação, e tomou a 
bandeira da reforma amstitucional .; 

Para obte-Ia fazião pressão sobre os conservadores mais 
tímidos, encarecendo os perigos que corria a monarchia se 
o senado não condescendesse com a reforma constitucional. 
Para chegar a seus fins, mesmo nos debates, que podem ser 
estuiíados nos jomaes do tempo, desenhavão com as cores 
mais medonhas a encyclica Promotora, de que eu fora se- 
cretario, bem como a muito fallada republica de S, Félix 
na Bahia, onde pela primeira vez entrou em scena o fallecido 
deputado por aquella' província Aprigio José de Souza. 

Os conservadores, que se ião reconhecendo e reforçando, 
á medida que D. Pedro se approximava do fim < 
de que se encarregara em Portugal, não pod 
os livreiros e chapéos redondos, que govemav: 
rebeldes que havião conspirado contra a mon: 
padores que se coUocavão no logar do monarci 

Ao passo que os retrógrados se afastavão 
chegavão-se elles para os exaltados. 

Por outro lado, o facto de mallograr-se 
iex^erava aos olhos do partido retrogrado si 
fraqueza do governo, 

Deliberarão, portanto, fazer uma nova lei 
e apparecêrão em armas no Ouro-Preto no di 
de J833, depondo violentamente o presidente, 
Ignacio de Mello e Souza (depois barão do 
vice-presidente, o Sr. Bernardo Pereira de 
que prenderão, bem como o deputado (depc 
Sr. cont^o José Bento Leite Ferreira de M< 
g&rão a sahir do Ouro-Preto acompanhados p 
de soldados, com orctem de deixarem a provin 



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234 RBVISTA DO INSTITUTO UISTORlCa 

' Foi uma sedição militar sem a mais fraca raiz na po- 
pulação. Minas pôde gloriar-se dos prodigios cívicos que 
então praticou. 

O povo de Queluz libertou o vice-presidente Vasconcellos, 
que foi installar o governo em S. João d'El-Rei, e, com o 
profundo tino que o distinguia, reuniu em torno de si a, 
provincia inteira. 

O governo nos mandou do Rio de Janeiro um general, 
o distincto e benemérito Sr. José Maria Pinto Peixoto. 

O Sr. general Pinto Peixoto, que já em 1821 fora o 
principal motor do estabelecimento do governo provisório, 
que assignalou em Minas a época da regeneração, veiu em 
1833 ganhar novos louros e conquistar a immorredoura gra- 
tidão dos mineiros. 

Tratava-se de combater o principio retragrado, e por 
isso eu não podia ficar neutral. A' voz do grande cidadão, 
que havia assumido em S. João d'El-Rei a vice-presidencia, 
fiz-me o centro do movimento no Serro e marchei comman- 
dando uma companhia da guarda nacional da força expedi- 
cionária, que datli foi ao Caethe, e que não custou um vintém 
de despeza ao thesouro publico. 

Os serranos não tiverão que bater-se, porque durante 
a sua marcha os sediciosos se havião rendido ás forças da 
legalidade. 

Voltámos, pois, á cara pátria, contentes por não termos 
molhado as espadas no sangue de nossos irmãos. Trazíamos 
também a consciência satisfeita, não só por termos cumprido 
o dever que nos chamou ás armas, como porque havíamos 
deixado honrada por onde passámos a severa disciplina, em 
que caprichava o nosso chefe, o Sr. coronel Faustino Fran- 
cisco Branco, e a generosidade e cavalheirismo da briosa 
guarda nacional serrana. Em prova citarei um facto. Es- 
tavão compromettidos na sedição os meus amigos, os Srs. 
Dr. Jacintho Rodrigues Pereira Reis, coronel José de Sá 
Bittencourt, e seus illustres irmãos, os quaes, na certeza, que 
não foi iUudida, de que no acampamento dos serranos livres 
serião tratados cavalheiramente, caminharão muitas l^uas 
ao nosso encontro, para nos honrarem entregando-nos de 
preferencia as suas espadas. 



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A CIRCULAR DE THliOPlIlLO OTTOKI 33$ 

Terminada a expedição, voltei ao meu retiro, onde fui 
esperar tranquillamente o resultado da reunião da camará 
constituinte que tinha de reformar a constituição. 

A sedição militar do Ouro-Preto apparecêra depois de 
terem sido feitas as eleições para a camará constituinte. E 
não tinha havido logar na deputação de Minas para o re- 
dactor da Sentinella do Serro, que havia' sido na província 
o primeiro arauto da reforma ! 

Mas de ninguém podia eu dizer que me houvesse atrai- 
çoado, porque nesse anno não troquei palavra acerca de 
eleições com potestade alguma. 

O meu nome foi arredado das umas sob o falso pre- 
texto de falta de idade legal, e pelo motivo real de não ser 
eu maleável á vontade dos chefes: fiquei entre os supplentes. 

Nem por se me haver desviado do congresso constituinte 
deixei de applaudir as suas deliberações. 

Ao contrario, foi com grande enthusiasmo que vi con- 
signado no acto addicional, e conseguintemente fazenda parte 
da constituição do império, o programma que três annos antes 
eu havia offerecido á consideração publica em o n. 43 da 
Sentinella do Serro, que já transcrevi nesta carta. 

Das três bases propostas por mim só não tinha vingado 
a abolição da vitalidade do senado, que aliás fora regei- 
tada pela maioria de um voto apenas em sessão promíscua 
da assembléa geral legislativa. 

Os conselhos geraes de província estavão convertidos em 
assembléas legislativas com amplas faculdades. 

A suppressão do conselho de estado vitalício era também 
um grande triumpho da idéa liberal, pois que annullava era 
sua essência o poder moderador, causa de tantas apprehensões 
durante o primeiro reinado. 



ed'b'yGOOgle 



o poder modarador 

Rehabilitado por unia lei inconstitucional, a do conselho 
de estado, o poder moderador resurgiu com pretçnçòcs que 
ninguém se atreveu a cmprestar-lhe no primeiro reinado, 
quando era um poder constitucional. 

Sophiamando a constituição, pretende-se lioje que não 
ha responsabilidade para os actos do poder moderador, e 
que o poder moderador, filho do direito divino, não tem no 
exercício de suas funcções outra sancção senão o foro interno, 
para não dizer o capricho" da prestigiosa individualidade a 
quem é delegado. 

Assim se tem ousado affirmar na imprensa e no parla- 
mento. 

Questão tão ímiHJrtante que vejo nella compromettido se- 
riamente o systema constitucional. 

Por isso desculpareis se, cortando o fio da narração que 
ia escrevendo, acerca da promulgação do acto addicional, eu 
me antícipo a explicar-vos o modo por que tenho encarado 
sempre o poder moderador e o exercício de suas funcções. 

Sonharão alguns políticos em seus devaneios especulativos 
a creação de um quarto poder, que associassem á trindade 
orthodoxa do systema constitucional : — poder legislativo, 
executivo, judiciário. 

Esse poder neutro foi introduzido em a nossa consti- 
tuição com o nome de poder moderador. 

Era unia variante de certa entidade que no seu projecto 
de constituição do 18 brumairc Syees inventara com o nome 
de — grande eleitor — e que Napoleão annullou com o ridí- 
culo de uma palavra — «O vosso grande eleitor, disse Napo- 
leão a Syees, é um — grand cachou » . 



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A CmcULAB DE THEOrniLO OTTONI Í2f 

Morto em embrião pelo epigramma do i* cônsul, em vão 
Benjamin Constant com o seu talento esforçou-se por tirar 
o poder neutro dos domínios da ideologia. 

Intercalado cncapotadamente no art. 14 da carta de 
Luiz XVIII, succumbiu com a revolução de julho, de que 
foi pelo menos a causa occasional. 

Admittido na constituição brasileira, talvez, na intenção 
de quem o iniciou, o poder moderador devesse ficar envol- 
vido nos limbos da legitimidade, para ser oppOrtunamente 
paraphrascado, como a parábola do art, 14 da charta franceza 
o foi com o commentario das ordenanças de julho. 

Mas o bom génio que presidiu á redacção do nosso pacto 
fundamental traduziu a parábola em linguagem constitucional, 
definiu o poder que creava, e cortou os herpes á monomania 
absolutista. Estudemos na constituição o poder moderador (*). 

Considerado somente no art, 98, o poder moderador é 
tão nominal como o titulo de defensor perpetuo que o art. 100 
dá ao imperador. , 

Com effeito, o art. 98 não encerra attribuições ou pre- 
ceitos definidos, [>orém sim meras apreciações do que o poder 
moderador fica sendo, com as attribuições e faculdades que 
lhe são conferidas em outra parte. 

Eis as palavras do art. 98: 

< O poder moderador é a chave de toda a organisaçáo 
politica e é delegado privativamente ao imperador, como chefe 
supremo da nação e seu primeiro representante, para que 
incessantemente vele sobre a manutenção da independência, 
harmonia e equilíbrio dos outros poderes políticos. * 

A legislação constitucional, mais ainda do que a ordi- 
nária, deve ser precisa em sua expressão e conter somente 
regras e preceitos claramente definidos. 

Apreciações abstractas como a do art. 98 são mal ca- 
bidas em uma lei qualquer, e com mais forte razão no pacto 
fundamental. 



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338 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Mas é evidente que, separadas das regras e prescripções 
segundo as quaes o poder moderador tem de manter a inde- 
pendência, liarmonia e equilibrio dos outros poderes, as pa- 
lavras do art. 98 nada significão. 

São, quando muito, como o cousiderandum de uma lei, ou 
os fins que teve em mira o legislador, os quaes, se não forão 
transportados para o texto da lei, não podem ser tomados em 
consideração pe)o executor. 

Se attendermos somente ao art. 98, o imperador é a chave 
da organisa<;ão politica, do mesmo modo que pelo art. 100 
é o defensor perpetuo do Brasil. 

São títulos e apreciações que demonstrão a impor- 
tância de que o legislador constituinte quiz rodear o mo- 
narcha. Nada mais. 

Só em tempos revolucionários, e porque a victoria sanc- 
cionou o arrojo, pôde o titulo de defensor perpetuo I^itimar, 
por exemplo, a dissolução da constituinte. 

Somente em éfiocas e condições análogas poderá o poder 
moderador apoiar-se no art. 98 para praticar por sua conta 
e risco, a pretexto de ser a chave da organisação politica, qual- 
quer acto que não esteja expressamente autorisado por outra 
disposição constitucional. 

Moderador, defensor perpetuo, chave da organisação po- 
litica, são palavras sesquipedaes, que as vezes teem préstimo 
nas circumstancias em que são inventadas, e que são nullas 
em tempos normaes. 

O art . 98 é da mesma lavra que as íntrucções eleitoraes 
de 1824. 

< O eleitor, dizia um dos artigos, não deve ter a mais 
leve sombra de suspeita de inimizade á causa do Brasil. » 
Sempre se entendeu que taes palavras erão simples adver- 
tência aos votantes, para que attentassem na importância do 
eleitorado. 

As únicas condições legaes de idoneidade eleitoral con- 
siderou-se sempre que erão aquellas que estavão expres- 
samente definidas na constituição. 

O titulo de defensor perpetuo ficou sem duvida na 
região das palavras sesquipedaes, de que acabo de fallar, e só 

i.,CoojjíIc 



A CTRCULAR BE TIIEOPHILO OTTONl 239 

merece nossos respeitos como uma designação de honra dada 
pela constituição ao chefe do estado. 

Dahi não passaria o poder moderador se fosse contem- 
plado somente no art. 98 da constitui<;ão. 

Mas, cumpre confessa-lo, o poder moderador passou da 
região das abstracções para a do positivismo. 

No art. lOi e no capitulo relativo ao conselho de estado 
estão consagradas em termos precisos as suas attribuJçÕes e 
meios de acção. 

No art. lOl vêm especificadas uma por uma as attrí- 
butções cujo complexo constitue o poder moderador, ç que 
lhe dão os meios para ser a chave da nossa organisação 
política. Fora das faculdades que o art. lOi lhe concede, 
nada absolutamente pode o poder moderador. 

O art. lOi seria uma excrescência se o art. 98 desse 
quaesquer outros attributos ao monarcha, pois que, se os 
desse, pela generalidade em que é concebido, a concessão com- 
prehenderia os attributos que estão no art. loi e outros 
quaesquer. 

Tudo quanto ao juizo do monarcha se tornasse necessário 
para restabelecer a independência, harmonia e equilibrio dos 
outros poderes sempre que Sua Magestade julgasse estar 
perturbada essa independência, harmonia e equilibrio estaria 
no art. 98. 

Oh ( que se assim fosse nunca o poder moderador acharia 
lacunas no capitulo de suas attribuiçÕes^ nunca reputaria 
manca a constituição, nem lhe chamaria, como Napoleão ál 
do directório : — Tola constituição ! 

Não o é a nossa, e ao contrario muito sabia, porque con- 
sagrou em todas as suas disposições a divisão e harmonia 
dos poderes políticos, conforme a bella these do art. 9.' 

O art. 142 é a chave do art. 101. Estou suppondo exis- 
tente o conselho de estado, supprimido pelo art, 32 do acto 
addicional. 

A audiência do conselho de estado, como ahi se vè, é 
obrigatória, salvo para a nomeação dos ministros, em todos 
os casos em que tenha de ser exercida qualquer das funcções 
consagradas no art. lOi. 



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230 HEVISTA DO mSTlTCTO HISTÓRICO 

E logo em seguida no art. 143 se declara que os conse- 
Iheirps são responsáveis pelos conselhos que derem. 

Logo, os conselheiros podem aconselhar o crime, e o 
crime aconselhado pôde eslar nos actos do poder moderador. 

Castigo para o conselho e impunidade para o crime com- 
mettido por virtude do mesmo conselho são idéas que se re- 
pellem e contrariào todos os princípios de justiça. 

The king cannol do wrong, dir-se-me-ha. 

Bem sei que esse é um dos dc^;mas da monarchia con- 
stitucional. 

E não tenho a menor duvida que dahi se derive a irres- 
ponsabilidade da pessoa real. « Mas o principio the king cannol 
do wrong, sobre que se funda a irresponsabilidade, diz um 
cscriptor, só é racional subentendidas estas palavras : — Be' 
cause he does nolhing». 

A ficção diz somente que o rei não pôde fazer mal, e 
que, portanto, é irresponsável. 

Não diz que o erro ou crime não possão estar nos actos 
promulgados em nome do rei. 

Nem a constituição o ixideria admittir, porque suppõe a 
possibilidade do crime no conselho. 

E, se houve crime no conselho, não pôde deixar de ha- 
ve-lo na execução do conselho criminoso. 

E como, segundo a ficção, o rei não pôde fazer mal, é 
preciso que ao lado da irresponsabilidade real esteja sempre 
a responsabilidade de um executor. 

E' outro dogma, sem o qual a ficção constitucional fora 
o maior dos escarneos ao bom senso. 

Pelo mal, que pôde estar nos actos do rei, é responsável 
quem lhe deu o cunho da exequibilidade. 

Não ha sophismas e filagranas que possão contrariar 
esta theoria. 

A constituição suppo-la, porque é congénita com o sys- 
tema, e consagrou no seu texto esta supposição.' 

Occasional mente, quando decretou nos arts. 69 g 70 o 
formulário para a publicação das leis, menciona c declara 
indeclinável a necessidade da referenda. 

Mal cuidavão os legisladores constituintes que no Brasil 



U; ZK:|-.yCOOgIC 



A CmCOLAR DE TKEOPHILO OTTONi 831 

A constituição suppo-la, porque é congénita com o sys- 
tema constitucional referenda sem responsabilidade. 

E que rebaixassem os ministros de estado a notários pú- 
blicos, que na referenda dos actos do poder moderador nada 
fazem senão portar por fé que ta! é a vontade de seu au- 
gusto amo. 

Tal direito publico é o da Turquia: lá com ef feito, por 
virtude da constituição, a referenda do ministro significa 
somente que no serralho se decretou como está escripto no 
documento assignado. 

Resta definir a parte que tem o conselho de estado nas 
funcções do poder moderador. 

Quem se der ao trabalho de ler as discussões do acto 
addicional reconhecerá que a camará constituinte compre- 
hcndia perfeitamente a intima ligação que se dava entre o 
poder moderador e o conselho de estado, que ficou suppri- 
mido pelo art. 32. 

Demonstrada a responsabilidade dos ministros pelos 
actos do poder moderador, as funcções deste só differião, 
antes da abolição do velho conselho de estado, das funcções 
do poder executivo em um único ponto, e vem a ser, que a 
audiência do conselho de estado era obrigatória sempre que 
funccionava o poder moderador, excepto no caso da nomeação 
dos ministros. 

Dahi resulta que necessariamente a responsabilidade pelos 
actos do poder moderador tinha de repartir-se entre os mi- 
nistros e os conselheiros de estado, emquanto o poder exe- 
cutivo propriamente dito ficava livre para obrar por si e só 
com a responsabilidade ministerial. 

Não vejo na constituição outra distincção. 

Mas a responsabilidade dividida entre os ministros e con- 
selheiros de estado se enfraquece, e torna menos effectivas 
as garantias do paiz e os direitos individuaes. 

Demais, o conselho de estado vitalicio, senhor daa tra- 
dições do governo, cônscio da importância de sua posição, 
deve perennemente predominar sobre o ministério. 

Eu acredito e cuido que assim se pensava em 1834, que 
toda a vantagem está na idéa contraria. Parece-me que os 



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33» REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

ministros devem ser especialmente feitura da camará tem- 
porária, receber as inspirações bebidas na eleição popular. 

O conselho de estado vitalício, creatura e auxiliar nato 
do poder moderador, estará sempre em desconfiança contra 
os representantes immediatos do povo, 

O senado vitalicio, que é essencialmente estacionário, fica 
reforçado em extremo com a existência de um conselho de 
estado vitalicio. Apoiar-se-hão reciprocamente, e a communhão 
de interesses facilmente se estabelecerá entre as duas corpo- 
rações. 

Para isso não será preciso que os senadores accumulem 
as funcções de conselheiros de estado, como actualmente, que 
de dezesete membros do conselho de estado quinze são sena- 
dores. 

Com as duas corporações assim organisadas todo o mi- 
nistério que não esteja filiado na confraria vitalícia é 
impossível. 

E todo o progresso igualmente. 

Abolido o conselho de estado, os ministros, mais des- 
assombrados em presença do senado, se ínspirarião e se 
apoiarião na seiva de uma camará popular, renovada perio- 
dicamente, e assim poderião mais facilmente levar á legis- 
lação as reformas que houvessem amadurecido no seio da 
nação. 

Abolido o conselho de estado, ficavão os ministros res- 
ponsáveis únicos pelos actos do poder moderador. E, depen- 
dentes os seus actos da referenda ministerial, sem outro 
influxo estranho, estavão o poder moderador e as suas attri- 
buições suave e naturalmente absorvidos pelo poder executivo. 

Eis ahi as razões por que sempre entendi que o art. 32 
do acto addicional fora um magnifido triumpho da tdéa 
liberal, e que annullava em sua essência o poder moderador. 

No entanto essa conquista nos foi confiscada pela lei 
inconstitucional que restaurou o conselho de estado. Posso, 
para assim qualificar a lei que restaurou o conselho de estado, 
apoiar-me na prestigiosa autoridade do Sr. Carneiro Leão, 
marquez de Paraná'. 

Na sessão de 19 de maio de 1840 S. Ex. fulminou, como 
se pôde ver no Jornal do Commercio, a creação de estado vi- 



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A CIRCULAR m THEOPRILO OTTOKI 233 

taltcio, comparando a instituição com o conselho dos dez 
em Veneza, e provando a inconstitucionalidade de tal creação. 

No entanto o conselho de estado foi restaurado vitalício, 
sendo facultativa a sua audiência, circumstancia que dtminue 
as garantias e augmenta os perigos da instituição. 

O conselho de estado vitalício, convertido em conselho 
veneziano dos dez, como temia o Sr. Carneiro Leão, pôde 
com a consulta facultativa prolongar indefinidamente o seu 
dominio sem a menor sombra de responsabilidade. 

Fica atrás da cortina, e colloca no ministério os seus 
instrumentos 



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[Tesio e regresso. — Origem e fins da ollgarchia 

1834 saudei a abolição do conselho de estado, bem 
outras disposições do acto addlcional. 
cto addicioiíal era no meu entender uma victoria me- 
da democracia pacifica. 

Fosse lealmente executado, eu pensava que o systema 
tativo se tornaria entre nós uma realidade, que devia 
os annos satisfazer as aspirações dos amigos da li- 

[iie, acasteltados em tão bellõ reducto, mais devião 

es confiar no progresso da razão publica do que nas 

olucionarias. 

a só apprebciisão me incommodava. 

cto addicional era um penhor de alliança que aos li- 

lais adiantados offerecião os estadistas moderados, 

da situação. 

entanto a concessão tinha sido arrancada, não ás 
es, mas ao medo. 

ectivamente as reformas constitucionaes forão decre- 
12 de agosto de 1834. 
mulgárão-se porque os estadistas que dominavão a 

tcmião o duque de Bragança. 

lião-o, porque elle, se fosse restaurado, havia de 

governar, e era provável que chamasse para os seus 

s, antes os que lhe tinhâo dado provas de dedicação, 

iquelles que havião decretado o seu banimento. 

uque de Bragança fallcceu a 24 de setembro de 1834. 

este facto se tivesse dado quatro mezes antes não 

-ido reforma constitucional. 

istadistas senhores da situação, se mais cedo se vissem 

> pesadelo em que os trazia D, Pedro, se soubessem 



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A CIRCULAR DE THM>PHn.O OTTONI 335 

mais a tempo que se podião constituir vice-reis durante a 
menoridade, se vissem diante de si a perspectiva de serem 
depois da menoridade proclamados Césares, e associados ao 
império mesmo sob o reinado do Sr. D. Pedro II maior, — 
oh ! por sem duvida nada terião cedido ao principio liberal, 
e desde logo se terião constituido os mantenedores do prin- 
cipio da autoridade. 

As reformas conslitucionaes terião fih^ado á margem, 
como aspirações chimericas de senhoradores politicos, se não 
como projecto tenebroso de revolucionários anarcbistas. 

Assim ficarião desde logo qualificados os Feijó, os Paula 
Souza, e alguns outros ursos, que não teem sabido compre- 
hender quantas vantagens e gozos em unia monarchia como 
a do Brasil poderião ter colhido para si e para os seus, arvo- 
rando-se também em donatários irresponsáveis. 

Mas em fim o acto addicional foi proclamado durante 
as exéquias do duque de Bragani;a. 

Dessa circumstancia nasceu que simultaneamente se de- 
lineassem as feições dos partidos do segundo reinado. 

Um grupo de ambiciosos formou desde então essa oli- 
garchia famosa, que no ministério ou fora delle tem sido o 
primeiro poder no presente reinado, e que se]>arando-se dos 
simplórios que querião ainda tomar ao serio a revolução de 7 
de abril e as garantias dos cidadãos, avassallárão ministérios, 
regentes, regências e a própria magestade. 

Neste comenos, eleito deputado provincial sem a menor 
solicitação minha, fui defender na assembléa todas as vir- 
gulas desse famoso palladium. que ainda hoje pôde ser a 
taboa da salvação do Brasil. 

Conhecido na tribuna provincial ao menos pelo zelo com 
que procurava preencher os meus deveres, tendo deixado no 
livro da lei mineira vestígios de minha dedicação aos inte- 
resses da província, tendo-me cabido a gloria de haver lutado 
com athletas como Bernardo Pereira de Vasconcellos, pcr- 
mittir-se-me-lia a persuasão de que não foi sem titulos que 
cm 1836 obtive uma cadeira na camará quatríennal da quarta 
legislatura. 

Quando em 183S appareci como deputado a situação era 
das mais difficeis. 



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336 REVISTA DO INSTITUTO tnSTORICO 

Diogo António Feijó, homem como os antigos de melhor 
tempera, havia desanimado na tarefa que aceitara de ensaiar 
lealmente a execução do acto addicíonal. 

Fundidos na oligarchia alguns conservadores eminentes 
do primeiro reinado, a reacção corria á rédea solta. 

O que andava na berra era a seita do regresso, pro- 
clamada em Ímpeto de desculpável despeito por uma das 
maiores illustrações brasileiras. 

Foi a bandeira a cuja sombra os oHgarchas derrocarão 
os monumentos de civilisação e de progresso que os patriotas 
do primeiro reinado havião erigido na legislação do paiz. 
E o talisman com que conquistarão e teem explorado com 
privilegio exclusivo o segundo reinado. 

Era ameaçadora' á, catadura da oligarchia em 1838 I 
Entre os cardeaes da seita tive o pezar de vir encontrar 
ministro da marinha o meu antigo mestre o Sr, Joaquim José 
Rodrigues Torres. 

Quantum mulatus ab illo. 
■ O ministério de 19 de setembro apresentava-se diante das 
camarás brilhante de talentos, com a aureola que não se 
lhe podia contestar de haver conquistado parlamentarmente 
as pastas, reforçado pela sancção do corpo eleitoral, que aca- 
bava de elevar â r^encia o ministro do império, rico de pres- 
tígio pelo facto de haver abafado na Bahia uma revolta 
perigosa, aliás insuflada por amigos do ministério antes da 
conquista do poder, armado com a força que lhe dava a escola 
da autoridade, que, arredada oito annos da scena politica, nella 
entrava remoçada. 

Um dos symbolos do novo credo era a reforma do acto 
addicional, que já havia sido proposta a titulo de interpretação. 
Minhas convicções e meus antecedentes indicavão suffi- 
cientemente qual seria o meu logar no parlamento. 

A verdade do acto addicional, — eis o meu prc^ramma: 
a defesa dos opprimidos, que os havia numerosos, e a eco- 
nomia na distribuição do suor dos contribuintes, — eis a 
missão que tomei sobre meus débeis hombros, 
O combate travou-se no voto de graças. 
Acerca do acto addicional ahí vai o que a commissãó - 
propoz e foi approvado que se dissesse ao throno. 



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A^CIRCULAR DE TIIEOPUILO OTTONI 337 

Depois de estasiar-se pela victoria da Bahia e de applaudir 
o vigor da autoridade, cujas sanguinolentas demasias tinhão 
afeiado o triumpho da legalidade, dizia o projecto de resposta 
á falia do throno proposta pela coniniissão e approvada pela 
camará: 

< A camará dos deputados está firmemente decidida a 
sustentar na sua essência a lei constitucional de 12 de agosto 
de 1834, que reformou alguns artigos da constituição do im- 
pério, como consequência necessária do principio de justiça, 
que exige se dê ás províncias todos os meios de recursos pro- 
vinciaes que não podem deixar de existir dentro delias : reco- 
nkecendo todavia que a mesma lei tem suscitado duvidas 
graves e gerado conflictos perigosos á paz do império, pelos 
termos vagos, obscuros e inexactos com que forâo redigidas 
algumas de suas disposições, trabalhará por esclarecer o que 
ha de obscuro, precisar o que existe de vago, e por fazer 
desapparecer, peJas regras de uma sã hermenêutica, qualquer 
intelligencia que pareça estar em contradicção com o rigor dos 
nossos princípios constitucionaes, afim de que esse acto, de 
vital esperança para o Brasil, possa produzir os salutares 
benefícios que teve em vista a sabedoria que o ditou. > 
(/ornai do Commercio de 9 de maio de 1838) 
Propuz a seguinte emenda, que copio do mesmo jornal: 
c A camará, Senhor, confia que o prt^resso da razão 
publica, ajudado por uma administração, firme, liberal e pru- 
dente, severa com o crime e indulgente com o erro, acalmará 
a violência das paixões e firmará a obediência legal £' prin- 
cipalmente da escolha de delegados esclarecidos e fieis que 
muito depende a ascendência moral do governo nas províncias. 
O Brasil quer o desenvolvimento progressivo das instituições 
constitucionaes, quer ver respeitados todos os direitos e cum- 
pridos com fidelidade todos os deveres. O Brasil, Senhor, 
ama a liberdade e à ordem. A camará dos deputados, fiel 
aos seus juramentos, está firmemente decidida a sustentar 
o acto addicionai, hoje parte integrante da constituição do 
estado, e não se recusará, Senhor, a fixar a intelligencia de 
algum artigo delle, quando, depois de maduro exame, se 
convencer ser duvidoso o seu litteral sentido. 



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IlEVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

do deplorável da fazenda publica e da circulação 
erecerá da camará o mais rigoroso exame, e as 

que lhe parecerem adequadas ao seu tão indis- 
Ihoramento. Nenhuma medida porém. Senhor, 
1 sem que os ministros de Vossa Magestade Im- 
lo-se ao voto geral da nação, e convencidos da 
ie uma severa e intelligeute economia na gestão 
s nacionaes, limitem as despezas publicas ás 
irias, e tomem a iniciativa em todas as reducções 
nerando-se em fazer com que a arrecadação de 

seja negligenciada. » 

enda, eu a justifiquei, conforme se vé do seguinte 
: vou transcrever do Jornal do Commerào de 29 

1 mesmo anno : 

Otixjni — Passando a tratar da resposta ao 
lo da falia do throno, o orador diz que procurara 
eJatorio do Sr. ministro da justiça quaes crão 
traves que se liSo suscitado sobre a lei consti- 

2 de agosto de 1834, mas que S. Ex. ahi nada 
respeito, o que o orador espera que S. Ex. faça 
ão. 

; satisfaz com o período da commissão, ainda com 
da palavra — essência — , a qual realmente lhe 
na sensação, e que podia ter uma significação 

perigosa. 
i que o art. 25 do acto addicional somente au- 
5 legislativo para resolver quando occorra alguma 
; um ou outro artigo: assim, emquanto do- 
ticiaes nào apparecerem mostrando que se teem 
'idas, não podem passar no corpo legislativo reso- 
ías á inteiligencia do acto addicional. Observa 
;cies lia de interpretação, a grammatíca ou lógica, 
a. Guiado pelo art. 25 do acto addicional, é sua 

ix)der constituinte não teve em vista outra 
dar ao poder legislativo o direito de quando 

itelligencias differentes em diversas assembléas 

1 seja a verdadeira, isto é, qual era o sentido 
nimatical do artigo duvidoso; que, pois, não se 
nterpretação que se chama authentica, por meio 



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A CIRCULAR DE THEOPItlLO OTTONÍ 33<) 

da qual se podem insinuar modificações na legislação ante- 
rior, co!locando-se o que interpreta na posição do que legislou. 

« Parece-lhe que a illustre commissão no seu periodo pro- 
mette interpretar reformando. Tudo quanto tender a modi- 
ficar os princípios constitucionaes que são garantidos no acto 
addicional é uma reforma que está fora da esphera do poder 
ordinário e não pôde ser decretado senão por um poder con- 
stituinte competentemente autorisado. Se algumas das dis- 
posições do acto addicional prejudicão, entendidas no seu . 
sentido lógico c gramm atiçai, ao que a commissão chama 
princípios constitucionaes, então não compete ao corpo legis- 
lativo ordinário senão, referindo-se ao art. 174 da constituição, 
decretar que os eleitores da legislatura seguinte autorisent 
os deputados para esta reforma. O orador julga esta questão 
de summa transcendência e expõe as funestas consequências 
que podem resultar se se entender que, pela faculdade de 
interpretar expHcando-se no sentido lógico e grammatical, 
pôde se estender o direito de interpretação. » 

Durante a discussão do voto de graças a emenda em 
que eu consagrava como artigo de fé a fidelidade aos prin- 
cípios do acto addicional foi rirticularisada por uma maioria 
que se dizia brasileira; mas tive a gloria de vè-la elevada ás 
alturas de um programma politico — proclamada como sym- 
bolo e bandeira de opposiçáo — adoptada e eloquentemente 
defendida pelos Montezuma, Limpo e Alvares Machado. 

Se não me engano, foi o Exm. Sr. Montezuma, hoje 
visconde de Jequitinhonha, quem deu ao nosso symbolo o 
nome, que largos annos conservou, de — uandeira das tkan- 

(jrEZAS PROVINCIAES. 

Democrata constitucional, eu procurei combater cora 
toda a energia da minha natureza o orientatÍswx> da corte, que, 
para dar arrhas do seu recente monarchísmo, havíão os oli- 
garchas restaurado. 

Um dos penhores que de sua conversão haviáo offe- 
recido os novos ministros fora o restabelecimento do beija- 
mão, que estava era desuso durante a menoridade. 

Censurando uma tal resurreição, eu qualifiquei o beija- 
mão como um acto indigno do cidadão livre.. 



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Í4P REVISTA DO INSTITUTO lUSTOIUCO 

Este incidente de um dos meus discursos deu occasião 
a uma scena de que dou idéa na correspondência que vou 
reproduzir, e que foi publicada no Jornal do Commercio de 
6 de fevereiro de 1857: 

os MONAftCUISTAS 

« Na ausência do Sr. Christiano Benedicto Ottoni, que 
actualmente viaja inspeccionando os traballras do alinhamento 
da estrada de ferro de Pedro II, não posso deixar passar 
desapercebida a publicação a pedido do Jornal do Commercio 
de hoje, na qual um Sr. Monarchista puro exulta de pra:;er, 
a pretexto de haver o Sr. C. B. Ottoni ultimamente beijado 
a mão a Sua Magestade o Imperador; e, attribuindo este 
procedimento presente ao amadurecimento da idade, comme- 
mora o Sr. Monarchista puro a sabia politica do fallecida 
marquez de Paraná. 

c Começarei repellindo com desprezo a insinuação de 
que o procedimento do Sr, C. E. Ottoni em qualquer acto 
seu de deferência para com o chefe da nação possa ter sido 
pautado pela sabia politica do fallecído marquez de Paraná. 

cO Sr. C. B. Ottoni nunca teve outras relações com 
o illustre morto senão as de vice-presidente da directoria da 
estrada de ferro de D. Pedro II, como presidente do conselho 
de ministros, em duas entrevistas a respeito do fundo de 
reserva da companhia; tendo tido o Sr. C. B. Ottoni a 
felicidade de chamar o nobre marquez á sua opinião em 
favor da creação do fundo de reserva, sem affectar a ga- 
rantia dos 7 %. 

< Seria, pois, conveniente que o Monarchista puro ex- 
plicasse como é que a politica sabia actuou sobre o Sr. C. 
B. Ottoni, 

S Os que teem feito fortuna especulando com as <fis- 
cordiãs civis, e que desejão continuar nesse modo de vida, 
incommodar-se-hão acaso de ver o Sr. C. B. Ottoni retirado 
das lutas politicas, e prestando, com o auxilio dos seus hon- 
rados collegas da directoria da estrada de ferro de D. Pedro II, 
relevantíssimos serviços ao paiz? Como quer que seja, in- 
formarei ao Sr. Monarchista puro que o Sr. C. B. Ottoni 
desde 1839 tem tido muitas vezes a honra de se achar perante 



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k ClItCCLAR DE TIIEOPIULO OTTONI 34I 

Sua Magestade o Imperador, c que o sen procedimento pre- 
sente é pautado pelo seu procedi meti lo anterior. Em 1ÍÍ48, 
por exemplo, o Sr. C. B. Ottoni foi convidado pelo fallecido 
visconde de Macahé, autorisado por Sua Magestatlc o Im- 
perador, para aceitar a pasta da fazenda ou da marinha no 
ministério de que S. Ex. era presidente. O convite foi dous 
dias discutido no terreno do programnia ministerial. 

«O Sr. C. B. Ottoni só entraria para o ministério 
comi)romet tendo- se os seus collegas a restituir ás asSeqibléas 
provinciaes as faculdades de que forão ellas inconstitucio- 
nalmente esbulhadas, a pretexto de interpretação do acto 
addicional. Ousou propor que fossem retirados do conselho 
de estado ordinário os mais proeminentes chefes do partido 
conser\ador, afim de que assim reconhecesse o paiz que a 
coroa depositava a necessária confiança nos seus conselheiros 
responsáveis. As condições da aceitação da pasta da fazenda 
ou da marinha, sobre que não se pudera chegar a accordo, 
forão com toda a lealdade postas por escripto e entregues 
ao fallecido visconde, pelo qual foi o documento levado á 
augusta presença de Sua Magestade o Imperador, Resolvida 
constitucionalmente a não entrada do Sr. C. B. Ottoni jwra 
o ministério, restava a S. S. o dever de ir apresentar a Sua 
Magestade o Imperador a homenagem de sua gratidão pela 
alta confiança com que Sua Magestade o Imperador o havia 
honrado, permíttindo que fosse convidado para seu conse- 
lheiro official. 

< Nessa audiência, que obteve, o procedimento do Sr. C: 
B. Ottoni foi igual ao procedimento presente. E posso 
accrescentar, estimando muito que isso dê prazer ao Mo~ 
narchista puro, que o Sr. C. B. Ottoni se retirou da pre- 
sença imperial penhorado pelo gracioso acolhimento que teve, 
dignando-se Sua Magestade louva-lo pela escrupulosa since- 
ridade do seu procedimento. 

« Parte do que tenho referido está no doniinio publico, 
e poT isso (fevo crer que o Sr. Moiiarckista paro- nas suas 
historias de beija-mão pensou dirigir-se ao individuo que ora 
escreve este artigo, e que teve a infelicidade de censurar na 
camará dos deputados em 1S38 o restabelecimento do beija- 
mão. Não será esta a primeira vez que, em razão da feliz 



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342 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

solidariedade que entre iiós existe, tenha o Sr. C. B. Ottoni 
remido os meus peccados . 

« Considerando-me, pois, chamado também a contas pelo 
ST.Mortarchista puro, vou ter a honra de explicar-me sobre 
este objecto. 

« Na sessão de lo de maio de 1838, impugnando as ten- 
dências retrogradas do ministério de 19 de setembro de 1837, 
citei, por exemplo, o restabelecimento do beija-mão, que 
estivera em desuso durante todo o tempo da menoridade, 
e que me parecia, como ainda hoje me parece, um uso oriental 
impróprio do cidadão de um paiz livre. 

€ .^s poucas palavras que eu disse neste sentido forão 
abafadas pelos gritos de ordem e pelos insultos da policia 
ou do partido ministerial, que preponderava nas galerias. 
Bepelli com energia tão indecorosa manifestação, e, offen- 
dido em meus brios e dignidade, julguei que devia dar prova 
da sinceridade das minhas opiniões não me sujeitando jamais 
ao uso que uma vei e tão solemnemente condemnára. Affirmo 
ao Sr. Monarchista puro que teiiho sido fiel a este pro|x)sito. 
E, tendo tido a honra de comiiarecer perante Sua Magestade 
o Imperador, já como vice-presidente da camará dos de- 
putados em 1847, já como orador da deputação que em nome 
da camará felicitou a Sua Magestade o Imperador pelo 
nascimento de Sua Alteza o principe imperial, e já como 
particular, tenho consciência de que em minhas palavras e 
no meu procedimento tenho sabido conciliar a digniifade da 
minha iwsição com o acatamento devido a tão augusta pessoa, 
que, com os sentimentos elevados que lhe são conhecidos, 
não é iwssivet que tenha levado a mal vêr diante de si um 
hc»nem em pé. 

« Não seja, pois, o Monarchista puro mais realista do 
que o rei, e detxe-me em paz ; mas, ainda que o não faça, não 
voltarei ú imprensa acerca deste assumpto. 

«Rio de Janeiro, 5 de fevereiro de 1857. 

«T. B. Ottoni. » 

De reacção em reacção temos penetrado tão longe |iclas 
r^iões asiáticas que muitos espíritos reflectidos hão de 
achar pequenina esta questão de beija-mão. 



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K CIBCOLAR DE THEOPAILO OTTONI 343 

Não o é em suas consequências relativamente a mim, se 
é certo, como disse um jornal diário nesta corte, que ainda 
este anno contribuiu para que se me fechassem as portas 
do senado. 

Para avaliar com critério um facto qualquer diz a boa 
hermenêutica que se devem considerar attentamentc o Icaiiw 
e as circnmstancias sob os quaes occorrcu. 

Jodici. ofikium «1, ut r», iu lemi«ra rcrum 
Quocicre; ijuacsilu temiiore tutus cris. 

O restabelecimento do beija-mào em 1837 delineava as 
feições de unia politica nova no pair, e que nunca foi minha . 

Sobre este objecto diz o Sr. Ur. Justiniano José da 
Rocha, á pag. 32 de um interessante paniphleto puhlicaffo 
em 1856 com o titulo — Ac^ão, reacção, iransacíão, verbis ibi : 

«Appellamos jíara a recordação dos que então vivlão 
e se achavão na capital do império: elles que digão i|uc sen- 
sação immensa produziu na cidade, de exaltação cm uns, de 
intfignação em outros, de sorinreza em todos, qwaiido se 
soube que na festividade da Cruz, á ixjrta cfa igreja, diante 
de numerosissimo concurso, havia-se o regente inclinado e 
beijado a mão do imperador !» 

Na sessão de 1839 conscrvou-se a oligarcliia fiel ao se» 
prc^ramma. 

Destruir os monumentos levantados ao progresso no pri- 
meiro reinado e nos primeiros annos da menoridade — tal 
era o seu empenho. 

Não escondiào o nefando propósito de comi>õr um go- 
verno arbitrário, sob o qual, associatTos ao império, domi- 
nassem a geração presente, 

A reforma inconstitucional do acto addicional, pronuit- 
gada com o nome de interpretação, foi um dos seus mais 
atrevidos lanços de jogo. 

Apostolo das franquezas jirovinciaes, tcmlo fé no governo 
do povo iK>r si mesmo, eu procnrei ]>ór toda u sorte de em- 
bargos a semelhante lei, que considero o maior dos erros da 
legislatura de 1838 a 1841. 

Parecia-nie (jue se devia antes alargar do que restringir 
as faculdades provinciaes. 

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344 REVISTA l>0 IMSTiTUTO IIláTORlCO 

Acho ridiculo que o ordenado de 150$ do carcereiro de 
uma aidéa da província do Amazonas ou de outra qualquer 
seja objecto de um decreto imperial ; que as províncias não 
possão designar os seus vigários c officiaes da guarda na- 
cional ; que um tabellião de aldêa ou escrivão dos orpliãos só 
possa ser nomeado na corte. E' um modo de escolher o jicior 
e de augmentar os meios de corrupção que tem o governo 
geral para seduzir os representantes da nação. 

No Jornal do Cammercio de 11 de junho do anno de 
1S39 vem um dos discursos em que, protestando contra a 
intitulada interpretação do acto addicional, assim me exprimi. 

Para melhor intelllgencia do meu discurso o faço pre- 
ceder do projecto depois lei de interpretação do acto addi- 
cional.: 

« A assembléa geral legislativa decreta : 

«Art, 1." A palavra municipal do art. 10 § 4" do acto 
addicíonal comprehende ambas as anteriores — policia e eco- 
nomia — e a ambas estas se refere a clausula final do mesmo 
artigo, precedendo proposta das camarás . A palavra — 
policia — comprehende a policia municipal administrativa 
somente e não a policia judiciaria. 

«Art. 2." A faculdade de crear e supprímír empregos 
municipaes e provinciaes, concedida ás assembléas de pro- 
víncia pelo S 7° do art. 10 do acto addicional, somente diz 
respeito ao numero dos mesmos empregos, sem alteração 
da sua natureza e attribuiçÕes, quando forem estabelecidos 
por leis geraes, relativas a objectos sobre os quaes não podem 
legislar as referidas assembléas. 

«Art. 3.° O § II do mesmo art, 10 somente compre- 
hende aquelles empregados provinciaes cujas funcções são 
relativas a objectos sobre os quaes podem legislar as as- 
sembléas legislativas de província, e por maneira alguma 
aquelles que são creados por leis geraes relativas a objectos 
da competência do poder legislativo geral. 

«Art. 4.'* Na palavra — magistrado — (de que usa o 
art. II S 7" do acto addicional, não se comprehendem os 
membros das relações e tribunaes superiores. 

«Art, 5.* Na decretação da suspensão ou demissão dos 
magistrados procedem as assembléas provinciaes como trí- 



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A rlRCUHR DF. TnROPHILO OTTONr Z45 

bunal de justiça. Somente , podem, portanto, ímpõr taes 
penas em virtude de queixa por crime de responsabilidade, 
a que ellas estão impostas por leis criminaes anteriores, obser- 
vando a forma de processo para taes casos anteriormente esta- 
belecida. 

«Art, 6,' O decreto de suspensão ou -demissão deverá 
conter: i°, o relatório do facto; 2", a citação da lei em que 
o magistrado está incurso; 3°, uma succinta exposição dos 
fundamentos capitães da decido tomada. 

«Art. 7.'* O art. 16 do acto addicional comprehende 
implicitamente o caso em que o presidente da província negue 
a sancçào a um projecto por entender que offende a consti- 
tuição do império, 

«Art. 8." As leis provinciaes que fjorem oppostas á 
interpretação dada nos artigos precedentes não se entendem 
revendas pela promulgação desta lei sem que expressamente 
o sejão por acto do poder legislativo geral. 

< Paço da camará dos deputados, em 26 de setembro de 
1838. — Paulino José Soares de Sou::a. — /. C. de Miranda 
Ribeiro. — José Clemente Pereira. » 

(Jornal do Commerdo de 4 de junho de 1839.) 
«O Sr. Ottoni — Sr. presidente, levanto-me para sus- 
tentar o requerimento do meu nobre colida o Sr. Alvares 
Machado, que denunciou conter o projecto incoherencias, con- 
tradicções e absurdos, por ser manifestamente contrario á 
constituição e por envolver uma verdadeira reforma do acto 
addicional, debaixo do mal fingido pretexto de interpretar 
alguns artigos. 

« Antes, porém, de entrar nas provas em que baseio a 
minha opinião, seja-me licito responder a uma censura do 
nobre deputado pela Bahia, o illustre Sr. 3** secretario. 

«Não é a supposição de que as luzes estejão só no lado 
da opposição o que nos obriga a abrir mais ampla discussão 
sobre este projecto, 

< O anno passado a opposição impôz-se ccMnpleto silencio, 
não teve parte no debate desta lei ; por isso tem mais obri- 
gação de justificar o motivo que determinou o seu proce- 
.dimento nesta importante questão.. 



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a4Ó REVISTA DO INSTITUTO ilISTORirO 

< Se isto é iim dever imposto ao deputa'(ío em todos os 
casos, parece de mais forte razão neste, em que se pro|>Õe 
modificar a consiitiiição do estado. 

« E' de rigorosa obrigação para o deputado vencido 
justificar o seu voto perante a nação, perante a maioria da 
casa. A opposição acha para justificar-se a occasião minis- 
trada peto regimento: é esse, |x>is, o campo que escolho. 

€ Analysarci os differentes artigos do projecto que se 
discute. O 1° artigo diz (lê). Na primeira parte deste artigo 
concordo em que está a única doutrina que se i>óde qualificar 
como interpretação: vejo que diz o artigo lo S 4". na uUima 
parte, precedtnda proposta das camarás, sem que, nem a 
collocação grammatical, nem qualquer outra circumstancia, 
nos induza a crer <|ue esta condição não comprehendc ambas 
as parles do 1" membro do paragrapho. Ora, se a uhíma 
condição envoh-e tanto a |}olicia como a economia, seguc-se 
que a [xilicia de que se traia é somente a mimicijial, i>ois do 
contrario i>o<terião as camarás fazer propostas sobre a policia 
gerai da provincia. ^'ê-se, (kiís, a razão por que não impugno 
a primeira ]>arte do art. 1". Mas não sei por que fatalidade, 
e i)ara não haver um só artigo neste projecto que não seja 
inconstitucional, foi-se inventar a distincção que se acha na 
segunda parte do artigo, classificando a policia municipal em 
judiciaria c administrativa, e declarando que as assenibléas 
provinciaes não ]>odem legislar sobre policia municipal ju- 
diciaria . 

cO Sr. pRKsmiíVTií — O Sr. deputado está fallando 
fora (Ia ordem. 

«O Sr. Ottoni — Perdoe \. Ex. En pretendo mostrar 
que o projecto é todo contrario á constituição, e por isso con- 
tradictorio, absurdo e incoherente. Proseguirei, portanto, 
consentindo \' . Ex. Anteriormente ao acto addicional j:i 
as i>rovincias gozavão das garantias de legislar, por meio 
de suas camarás e conselhos gcraes. sobre a policia judiciaria 
municipal: vejo que o art. tGg da constituição diz que uma 
lei regidanientar marcará o modo da eleição das camarás 
e a formação de suas posturas policiaes: vejo que a assembléa 
geral, desenvolvendo este arligo constitucional na lei do 
I" (Ic outubro de 1S28, determinou no art. 71 (Jê) que as 



«byCoogIe 



K CIRCOLAR DE THBOPHILO OTTONI 247 



poãfiiras das camarás versarião também sobre a segurança 
publica, e, como que não satisfeita com esta declarai;ão ge- 
nérica, decretou no art. 66 (lê) que as camarás municipaes 
[KKtiíio fazer as posturas contra injurias e obsceni<fades . 

«Ora, se isto não é o que se chama policia judiciaria 
municipal, não sei o que ser possa. 

« Por conseguinte, na intelligeticia do corpo legislativo, 
as camarás municipaes podião fazer essas posturas sobre 
a policia judiciaria, que os conselhos geraes approvavão para 
serera If^o observadas . Os legisladores constituintes que 
tinham de dar destino a estas attribuições dos conselhos ge- 
raes nada mais fizerão senão traspassa-las para as assembtéaa 
provinciaes, sem terem intenção de tirar o que aos muni- 
cípios j se havia conferido. Se, pois, é essa a intelligencia 
cia assembléa geral, como, sem uma manifesta violação, nào 
9Ó do acto addicional, como do art. 169 da constituição, se 
ha de admíttir semelhante interpretação? 

« Sr. presidente, chegou o tempo da reacção, e não se 
contentão os nobres deputados em querer parar em 18.14: 
quer-se regressar de 24 para trás. Porque nesse tempo não 
se achou tão perigoso dar ás províncias o que agora se lhes 
quer tirar? Quando tratou-se de reformar a constituição foi 
em consequência de um clamor geral de todos os ângulos 
do império, porque as províncias distantes oitocentas e mais 
l^uas, com tantai> necessidades, tanta difficuldade de com- 
municações, não podião dispensar por mais tempo o desen- 
\olvimento desse gérmen federativo, já consagrado na consti- 
tuição do estado. Entretanto a reacção que appareceu ao tempo 
em que essa fatal idéa do regresso foi proclamada não se 
contentou em destruir o trabalho da camará constituinte de 
1834, mas quer ir ainda muito para trás. 

«Vamos ao art. 2." Antes de entrar na analyse deste 
artigo, farei uma observação : 'parece que até ha receio de 
se dar ás assembléas legislativas provinciaes o titulo que lhes 
compete. O artigo já somente as chama assembléas de pro- 
víncia; daqui a pouco serão reduzidas a conselhos adminis- 
tratívos do governo. Outra observação que julgo dever fazer 
é relativa á invenção feita de empregados geraes provinciaes 
e empregados municipaes geraes. Não posso deixar de con- 



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348 REVISTA DO INSTlTfTO HISTÓRICO 

fcssar que é uma (iistincção galante, para não chamar absurda. 
Nos Esta<Ios-Unidos existem, ou empregados federaes, isto 
é, empregados da união, ou empregados dos estados; creio 
que não ha outra distincqão. Tribunaes federaes e tribunaes 
dos estados. Neste projecto, porém, ha uma ídéa inteiramente 
nova, e vem a ser empregados geraes municipaes e empre- 
gados geraes provinciaes; parece que era o mesmo que dizer 
nacionaes estrangeiros. 

«Outra observação ainda. Dada a intelligencia que o 
art. 2» estabelece para o § 7° do art. 10, isto é, de que a 
attribuição ahi conferida ás assembléaS legislativas provinciaes 
reduz-se a marcar o numero dos taes empregados provinciaes 
geraes e municipaes geraes, esse § 7° é a mais insignificante 
parte do acto addicional. E, com ef feito, se recorremos á 
classe dos empregados judíciaes, os mais importantes com- 
prehendidos neste § 7° são os juizes de direito; mas já pelo 
§ I" do mesmo art. 10, podendo as assembléas provinciaes 
legislar sobre a divisão judiciaria, isto é, podendo crear as 
comarcas que acharem conveniente, tinhão implicitamente o 
direito de marcar o numero dos juizes de direito. Portanto, 
na classe judiciaria nada trouxe o § 7°, ou quasi nada, que 
já não estivesse no § 1°. Na jerarchia ecciesiastica os em- 
pregados comprehendidos no S 7" são os parochos; ora, 
cabendo jú pelo mesmo § i" do artigo ás assembléas pro- 
vinciaes legislar sobre a divisão ecciesiastica, implicitamente, 
e sem ser preciso vir essa idéa no § 7", marcavão as assembléas 
provinciaes o numero dos parochos. Vê-se, pois, que a in- 
telligencia dada pelo artigo 2" do projecto reduz o § 7° do 
artigo a uma redundância, inutilidade ou insignificância. 

« Ora, eu desejo que se confronte imparcialmente esta 
redundância, inutilidade ou insignifcancia. a que se pretende 
reduzir o S 7°, com o que disse ante-houtem o nobre ex- 
mtnistro da marinha, Revelofl-nos S. Ex, que em uma con- 
ferencia de seus amigos políticos, os do tempo em que se 
reformou a constituição, S. Ex. se pronunciou altamente 
contra este S 7° do art. 10, por julga-lo inadaptado ás cir- 
cumstaiicias do paiz ; que igual opposição lhe fizerão outras 
personagens que afinal cederão; mas que emfim S. Ex., não 
tendo podido convir cm tal posição, e tendo ella sido appro- 



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A rlUrULAR DE T1IE0P1I1I.0 OTTOHI 549 

vada, taes escrúpulos lhe trouxera que até \eiu a votar contra 
a atloi«;ào do acto addicioiíal. Se, ix>is, o nobre ex-niinistro 
nas suas conferencias com seus amigos (mliticos de então 
julgou tão im]X)rtantc esta doutrina que não admittiu transi- 
gência alguma, apezar de cederem outras personagens, não 
devo eu desta circumslancia concluir que na intelligencia dos 
d^ijnlados con^ititui-ites o § 7° era um dos mais importantes 
do acto addicional ? Que 087" não era uma inutilidade, porém, 
sim dispo»i(;ão tão transcendente que a seu respeito não 
admittia transigência alguma entre as personagens que aliás 
parecião estar até alli de intelligencia e accordo? Esta de- 
claração, de que tomei nota, me parece summamente preciosa 
para demonstrar que a intelligencia que se quer dar não é 
3 dos legisladores que o povo mandou a esta casa com a 
missão especial de crear um poder legislativo provincial e 
marcar-lhe altribuições . 

< Entro agora na analyse do S 7°, como está concebido. 
Creio que quando a mesma lei a respeito dos mesmos objectos 
se exprime com os mesmos termos parece que hermeneuti- 
camente não se pôde concluir senão que ella quiz decretar a 
mesma, idêntica disposição. Vejo que a constituição no 
art. 15 § 16 determina. (Lê). Se, pois. a constituição, mar- 
cando nossas atlribuições sobre a creação e suppressão de 
empregos, usa das mesmas palavras com que o acto addicional 
dá ás assembleias provinciaes o mesmo direito, como se pôde 
negar ás assembléas provinciaes fazer o mesmo que nôs aqui, 
tendo ellas legislação idêntica pelos mesmos próprios termos? 
Creio (jue esta identidade de termos, tratando do mesmo 
objecto, significa a identidade de idéas que o legislador quiz 
exprimir. Sr. presidente, noto mais que ainda ha pouco 
tempo a assembléa geral se pronunciou em diff crente modo. 
Aqui se legislou que os officiaes da guarda nacional do mu- 
nicípio neutro fossem nomeados pelo governo. Ora, se a 
assembléa não se julgou autorisada para legislar sobre a 
guarda nacional senão no municipio neutro, é porque reco- 
nheceu que havião attribuições de outro poder, que são as 
assembléas provinciaes, a quem o negocio está commettido 
nas províncias. A este respeito, todas as províncias, ou a 
maioria delias, teem dado a mesma intelligencia que a camará 



«ibyCoogIe 



350 REVISTA DO INSTITDTO BISTORICO 

e a assembléa geral teem dado. No Rio de Janeiro não se 
legislou sobre isto ? Creio mesmo que essa lei foi sanccionada 
pelo nobre deputado o Sr. Paulino, ou pelo Sr. ex-miiiistro 
da marinha. Se o nobre deputado foi quem sanccionou uma 
tal lei, já por este facto reconheceu que no § 7" do art. 10 
está comprehendida uma faculdade mais ampla do que a de 
marcar o numero dos empregados. Como é que o nobre 
deputado teve de arredar-se de um voto tão solemne? Nessa 
occasião devia ter examinado a natureza dessas attrihuições 
provinciaes, e, com a vastidão de intelligencia que tem o 
uohre deputado, proceder na forma da constituição. Eis a 
intelligencia da maioria das assembléas provinciaes, da geral 
e dos próprios autores e defensores deste projecto, e que 
todos esta\ão de accordo a dar a esse § 7° tal qual se acha 
nas suas palavras. Como,'pois, eu hei de convercer-me sem 
que appareção razões que destruão tantas e tão respeitáveis 
convicções? Como acreditar que este artigo tem outra intel- 
ligencia? São mysterios que não posso penetrar I A commissão 
quando desenvolveu estas idéas estabeleceu varias hypothescs 
e diz (Lê o parecer da commissão.) 

€ Sr. presidente, quanto á primeira hypothese, não acho 
inconveniente; declaro-o com franqueza, apezar do que se 
possa dizer a este respeito. E, se o inconveniente é real, o 
meio de o remediar é outro. Se de um artigo da constituii:ão 
resullãn inconvenientes, estes remedeião-se refomiando-o 
pelos meios constitucionaes, e não é de necessidade que seja 
este artigo por isso interpretado contra a litteral disposição. 
das suas palavras. Se acaso a assembléa conhecesse que os 
códigos devião ser uniformes no império, e o acto a<rdÍcÍonal 
determinasse o contrario, resultaria a obrigação de pedir ao 
povo soberano a autoridade para reformar este artigo do 
acto addicional. 

< Devia-se primeiramente provar que a intelligencia não 
era esta; podem haver inconvenientes, mas ha o remédio, 
qtie é autorisar a camará dos deputados para remove-los: 
faça-sc isso pelos meios legaes e não (permitta-me-se dizer) 
revolucionariamente . 

(O orador lè a 2' 3" e 4" hypotheses do parecer da com- 
missão; c, concordando com as conclusões a este respeito, 



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A riRfULAH DE THEOPIIILO OTTONI 3SI 

ainda insiste em fazer ver que os inconvenientes resultantes 
da primeira hypothese só podem ser removidos, se existem, 
reformando-se a constituição, e passa ao art. 3" do projecto.) 

«Sr. presidente, estabelece este art. 3' a mesma dis- 
tincção entre empregados provinciaes creados por leis geraes 
e empregados provinciaes creados por leis provinciaes, e diz 
que só a respeito destes podem as assembléas provinciaes 
legislar quaifto á nomeação, etc. Eu já demonstrei que tal 
dístincção não está no acto addicional ; e assim creio poder 
concluir que também o art. 3° é offensivo da lei f undai^ental .1 
Direi mais, O 8 11 do art. 10 autorisou as assembléas pro- 
vinciaes para legislarem sobre os casos e o modo de nomeação 
dos empregados provinciaes, sem excepção alguma. iL,ê.) 
Ora. é sabido que mesmo antes da reforma constitucional 
havia graves descontentamentos nas províncias, por ser 
preciso vir mendigar de tão longe á corte a nomeação de 
um juiz de direito, de um vigário, de um professor, de um 
escrivão, etc. ; e em 1831 a assembléa geral compenetrou-se 
da importância destes inconvenientes, e convenceu-se da ne- 
cessidade de pôr nas províncias o remédio. Em consequência, 
na lei da regência se fez a primeira dístincção entre empre- 
gados geraes e provinciaes, e -se autorizou no art. 18 (lè) o 
que está hoje no S 7" e S 11 do art. 10 do acto addicional, 
os quaes não são mais do que uma cópia do que está na lei 
da regência, com [lequenas modificações. Como esta lei fosse 
interina, por vigorar somente durante a menoridade do impe- 
rador, a assembléa geral quiz fazer desta disposição uma 
legislação permanente, e por isso é que vem o g ir do art. lo.. 
Mas os nobres deputados dizem e argumentarão que, se o 
S II concedesse aos presidentes a nomeação dos juízes de 
direito, por exemplo, ficaria reformado o art. 102 da consti- 
tuição, que não foi julgado reformavel. 

« Esta razão prova de mais. Porquanto, se o 8 3' do 
art. 102 diz que a nomeação do magistrado comgiete ao 
imperador, 084* também dá ao imperador o provimento 
dos mais empregos ; e, se tal razão prevalecesse para o S 3°, 
devia também prevalecer para 054": entretanto, eu creio que 
os nobres deputados não quererão negar também ás pro- 
víncias, vcrbi graiia. o direito de nomear os mestres de pri- 



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342 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

nieiras letras. A coarctada. ik>ís, de artigos da constituição 
reformáveis, ou não reformáveis, provando de mais. nenhum 
peso merece. A lei de 12 de outubro de 1832. ordenando aos 
eleitores que mandassem a esta casa deputados com facul- 
dade para crear um poder legislativo provincial (tacs são 
suas expressões), virtualmente exigiu que o poder constituinte 
tivesse a amplitude de investir o novo poder legislativo de 
tudo quanto podem ser attribuições legislativas. -Citarei mais 
alguns exmplos que mostrão a debilidade da argumentação 
contraria. O art. 13 da constituição delega todo o poder legis- 
lativo ás duas camarás, com a sancção do imperador: o 
art. 13 não foi julgado reformavel, e seguir-se-Iia dahi que 
não tenbão as assembléas provinciaes uma boa parte do poder 
legislativo I 

< O art. 36 diz que a iniciativa sobre impostos é da 
exclusiva competência da camará dos deputados; o art. 36 
não foi julgado reformavel: e haverá quem negue ás assem- 
bléas, nào só o direito de iniciar, como o de decretar impostos? 

«Tassarei agora ao art. 4° do projecto. Diz este artigo 
que na palavra magistrado não se compreliendem os membros 
da relação e tribunaes superiores. O acto addicional § 7" do 
art. II diz. (Lê.) Ora, á vista desta generalidade, só se não 
comprehenderáõ aqui os membros das relações e tribunaes 
superiores se elles não são magistrados; do contrario será 
também este artigo uma verdadeira reforma. 

€ Passemos ao art. 5°. que declara que as assembléas pro- 
vinciaes procedem como tribunaes de justiça quando decretão 
a suspensão ou demissão do magistrado. 

«Em primeiro logar observarei que nunca 1Í ou ouvi 
applicar-se o verbo decretar para exprimir uma funcção de 
tribunal de justiça ; e me parece que, se o acto addicional qui- 
zesse converter em corpos judiciários as assembléas. diria, 
em vez de — compete ás assembléas provinciaes decretar a 
suspensão, etc, — julgar os magistrados, applÍcaiido-Ihes a 
pena de suspensão, etc. A constituição, porém, escolheu a 
phrase legislativa ou administrativa, e sujeitou o termo ju- 
diciário. E' dos Estados- Unidos que se transplantou para o 
3rasil esta disposição. Nos Estados-Unidos (na constituição 



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A CIRCULAR DE TlIEOl-HILO OTTONI 353 

federal, por exemplo) o senado é declarado tribunal de jus- 
ti»;a para julgar todos os empregados públicos por causa po- 
litica {empeachement), impondo a pena de demissão e decla- 
rando a inliabilitação para outros empregos. Entretanto, a 
par desta disposição, que também reconhece a constituição 
particular do estado de New- York, vem ahí outra disposição 
do ã 13 da secção IV. E' esta disposição que está copiada no 
acto addictonal. Dá a constituição de New-York neste para- 
grapho ás duas camarás simultaneamente o direito de decretar 
a demissão dos magistrados, cujos titulos lhes dão o direito 
de continuar emquanto bem servirem. 

« A segunda parte deste artigo diz que as assembléas 
provinciaes só poderão impor a i)ena de suspensão ou de- 
missão no caso de crimes a que estas penas estejáo impostas 
por leis criminaes anteriores. Ora, permitta-me V. Ex, que 
eu combata esta parte do artigo com um principio geral con- 
signado no parecer da commissão que propoz este projecto. 
{Lê.) Como, pois, com este principio quíz a commissão fazer 
dependentes das leis da união um acto das assembléas provin- 
ciaes? Não será isto tornar mancas e imperfeitas suas attri- 
buições? Não pôde, por exemplo, a assembléa geral por uma 
lei ordinária inutilisar completamente este artigo consti- 
tucional, marcando para os crimes dos magistrados em todos 
os casos penas que não sejão a suspensão ou demissão? 
Vê-se, pois, que a conversão das assembléas provinciaes em 
tribunaes de justiça é mais uma inconstitucionalidade do 
projecto. 

«O art, 6" declara que o decreto da suspensão deve ser 
formulado de uma maneira especial. Na verdade, se as assem- 
bléas provinciaes são tribunaes da união, pôde esta marcar, 
não só as formulas do julgamento, como as das sentenças; 
mas uma difficuldade acho eu, e consiste em que pelo art. il 
(lê) compete ás assembléas provinciaes decretar seus regi- 
mentos com certas e determinadas excepções; accrescentar 
outras não é interpretar, é evidentemente reformar. 

«Art. 7.° {Lê.) Dá aos presidentes o direito de sus- 
pender os actos legislativos que julgarem contrários á con- 
stituição. Este artigo é o filho querido do regresso, cujo 
originário autor, o Sr. ex-ministro da justiça, já assim en- 

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354 REVISTA DO ÍNSTITUTO HiSTOBICO 

taideu o acto atldicioiíal, e assim o inaiidou executar pelos 
seus presidentes. Se elle governasse sempre, até bem podião 
dispensar este artigo os mesmos senhores apaixonados do 
regresso ; mas, como podem vir, e eu o espero, administrações 
para quem a constituição não seja letra morta, conviria de- 
cretar-se a verdadeira intelligencia, se duvida pudesse haver 
a este respeito. Eu me explico. 

< O acto ãddicional, declarando o modo por que serião 
submettidos á sancção os actos legislativos provinciaes, disse " 
que os presidentes negarião a sancção quando entendessem 
(jue esses actos não convinhão ao bem da província. Talvez 
]Kjr uma espécie de poder l^islativo, não quiz a consti- 
tuição declarar hypotheses em que as assembléas provinciaes 
fossem-lhe contrarias em seus actos. Quiz que a formula geral 
com que o presidente negasse a sancção fosse com o pretexto 
de que as leis não sanccionadas não convinhão aos interesses 
provinciaes : assim também na constituição, quando suppõe-sc 
que o imperador não dè a sancção a uma lei geral (e note-se 
que pôde em algum caso ser essa lei no juizo do imperador 
contraria á constituição) se diz que o fará pela formula cheia 
de cortezia: — O imperador quer meditar. — No art, 15 do 
acto ãddicional estão, pois, a regra e a formula geral para 
a não sancção, quando as leis são pela primeira vez enviadas 
ao presidente. 

« O art. 16, porém, é já para o caso de querer a assenibléa 
provincial por dous terços de votos fazer prevalecer sua 
opinião sobre a do presidente: o acto ãddicional dá esse 
correctivo ao veto presidencial, mas estabelece duas hypo- 
theses, em que o presidente possa, a despeito do juizo da 
assembléa, suspender a execução da lei, e appetlar para a de- 
cisão da assembléa geral. Diz o art. (Lê.) Conheceu o legis- 
lador que, se se desse ao presidente a faculdade de suspender 
todos os actos legislativos pro\'Ínciaes cm que pudessem achar 
pretextos de offensivos dos interesses de outras províncias, 
seria isto uma grande latitude dada ao executivo provincial : 
restringiu, pois, o legislador essa suspensão ao caso uníco 
do S 8" do art. 10, isto é, quanto á: lei relativa á aav^fação, 
estrada, ou outra obra publica, que possa trazer dauino a 
outra proviucia. 



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A CdlCULAR DE THEOPUIIX) OTtONI 355 

< Quanto á excepção relativa ás leis que possão oífendcr 
os tratados, bem se vê em primeiro logar que ella se limita 
por sua natureza a poucas leis provinciaes, e em segundo 
logar que era um recurso indispensável aos delegados do 
poder executivo geral, que tem o direito exclusivo de fazer 
a guerra e a paz, e de tratar com as nações estrat^eiras. 
Se esta restricçào não houvesse, poderia, verbi gratia, uma 
província maritima decretar taes medidas que trouxessem 
inevitavelmente a guerra com alguma potencia estrangeira. 
Thlas se, além destas duas excepções, tão restrictas, tão limi- 
tadas, tão positivas, se ^'ai ainda accrescentar uma, e tão 
ampla como a que se acha consignada no artigo, me dirá V. £x. 
onde vão as attribuições das assembléas provinciaes, as suas 
garantias ? 

< Finabnente ha o art. 8.° {Lê.) Já íoi muito suííicien- 
temente provado quanto eile é absurdo, quanto é contrario á 
constituição : desnecessário é ajuntar as minhas vozes ás dos 
oradores que tão de espaço sobre esta matéria fallárão. Li- 
mitar-me-hei a dizer : < Aqui está o maior dos absurdos, a 
maior das extravagâncias l^islativas que tenhão apparecido.> 

« Determinar que certos actos legislativos das assembléas 
provinciaes são contrários ã; constituição, e na mesma lei 
determinar que ficáo em vigor esses actos, isto não se poderá 
applicar senão, verbi gratia, como uma transacção com uma 
província importante. Quando ha factos que parecem jus- 
tificar boatos creio que não estamos inhibidos nesta tribuna 
de apresentar esses boatos. No projecto original offerecido 
pela commissào não appareceu este artigo, com a declaração 
nuva e muito curiosa : — Ficão em vigor as disposições em 
contrario. Creio mesmo que este artigo, proposto na 2" dis- 
cussão, foi rejeitado, declarando-se a maioria da camará 
contra tão cerebrina disposição; mas boatos correrão de que 
a representação de Pernambuco estava muito mal satisfeita 
com a interpretação do acto addicional, porque ia revt^r 
leis que estão em vigor naquella província, que aquella repre- 
sentação suppõe que teem feito muito beneficio, e que revo- 
gando-se podião causar abalos: diz-se mesmo que o Sr. ex- 
ministro da guerra não era alheio a esta opinião; que em 



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956 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

consequência unia lransac<;ão se fez, afim de que se respei- 
tassem essas leis que se revogarão. 

« Swpponho.quc semelhante modo de proceder não c 
de maneira alguma airoso á camará dos deputados: ou a cousa 
cou\em ou não; mas I^istar-se com receio de certas influ- 
encias, legislar-se por transacções a respeito do acto addicional, 
a respeito da constituição, não aciío muito decoroso. Entre- 
tanto, como a minha razão não me subministra um só racio- 
cinio em a|X>io desta disposição, que acho extravagante, eis 
|K)rque dou algum credito ao boato de que ella foi feita por 
transacção ; e, como em tudo e por tudo sou adverso a trans- 
acções, é uma razão de mais para que eu vote contra a dis- 
jiosição (io art. 8", manifestamente absurda. 

« Tenho dado em geral as razões em que me fundo para 
julgar contradictorio, absurdo, incoherente e anti-consli- 
tucional o projecto em discussão. \'oto, jTOrtanto, para que 
assim se julgue, e entrando elle em nova discussão se emen- 
dem esses absurdos, incoherencias, contra dicções, que resultâo 
de sua inconstitucionalidade provada. » 

{/ornai do Commcrcio de ii de junho de 1839.) 



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A maioridade 

No meio destas lutas, cliegámos ao atino da maioridade 
do Sr. D. Pedro II. — 1840. 

O principio de que o rei não pôde fazer mal nunca 
esteve em mais proveitoso relevo do que durante a meno- 
ridade do Sr. D. Pedro II. 

Em todo esse período os erros das câmaras, das r^encias, 
dos regentes e dos ministros prejudicavão somente o elemento 
popular, de que erão filhas essas entidades. 

As desordens do primeiro reinado estavão em 1840 como 
que apagadas da memoria dos contemporâneos. 

A as demasias do governo pessoal, que havião acarretado 
a animadversão nacional contra o Sr. D. Pedro I, comple^ 
tamente esquecidas. 

Apenas se estudava a liistoria do passado na devota pali- 
nodía que cantavão penitentes, e, batendo no peito, alguns 
coripheus (outr'ora) do liberalismo. 

Os realistas do bom velho tempo, evocados complacente- 
mente pelos novos conversos^ batião palmas na esperança de 
verem reerguidos os altares da sua idolatria. 

Acreditavão sinceramente que o prestigio da realeza havia 
de reparar, como por encanto, os estragos produzidos pelo 
governo da plebe. 

Contavão que seríão suffocadas para sempre nossas dis- 
senções intestinas, e que teríamos de desfrutar a idade de 

Applaudião antecipadamente as festas natalícias com as 
chuvas de grai;aá e condecorações, que são o seu inseparável 
cortejo. 

E os oligarchas aproveitavão o tempo, procurando en- 
raizar o seu ominoso domínio', estudando a maneira de s^ 

s. írCoogle 



age REVISTA DO IN3TITDT0 HI8T0MCO 

fazerem homens necessarbs e beneméritos do império, na 
sua qualidade de restauradores da monarchia e exclusivos 
devotos da boa causa. 

Por sua parte, os Itberaes bem sabiao quanto terreno 
tínhão perdido nos últimos annos. 

E nos seus apertos e embaraços sonhavão encarnar-se 
na monarchia, e inicia-la no manejo honesto do governo. 

Era o desideratum que havia falhado sob a regência ç 
regentes populares. 

E por accordo universal appareceu a idéa de decretar-se 
am supprimento de idade para o joven imperador. 

Oppunha-se a constituição, que é terminante no seu ar- 
tigo 121 : « O imperador ê menor até a idade de dezoito annos 
completos. » 

Por esse pequeno embaraço não se deixavão prender os 
oligarchas. 

Ao contrario, o seu plano confessado era apparelhar a 
machina do governo forte, para entregal-a nominalmente ao 
imperador menino. 

Em nome das sympathias que desafiava o orphão da 
nação, ião élles confiscando, uma a uma as garantias consa- 
gradas no pacto fundamental. 

Erão os preparativos do seu projecto de maioridade. 

Mas, se a maioridade fosse iniciada em lei ordinária 
pelos liberaes, era quasi certo que a lei seria combatida 
pelos conservadores em nome da constituição. 

Da constituição I que elles acabavão de rasgar violen- 
tamente na, interpretação do acto addicional 1 

A maioridade só poderia ter o cunho da constitucio- 
nalidade se fosse iniciada e decretada por essa oligarchia 
tenebrosa, que, apoiada no poder e no dinheiro dos trafi- 
cantes da costa d'AfrÍca, a cujas emprezas se associara, 
começava, segundo a phrase de um aproveitado neophito, 
a plantar «o corte o seu futuro. 

E que, posta á margem a constituição, preparava ousa- 
damente as machinas de guerra que devião ass^iirar-lhes, 
e de facto assegurarão, o dominio em nome do Sr. D. Pedro II. 

O partido liberal havia reconhecido o gravíssimo perigo 
da situação. 

DigtizBdbyGOOgle 



A CIRCULAR DE THEOPUILO OTTONI 359 

A verdade do systema constitucional estava ameaçada 
pelo trama oligarchico. 

A lei da interpretação antes da annullação do acto addi- 
cioBal era a precursora da lei inconstitucional de 3 ^^ <^^ 
zembro de 1S4I1 da restauração inconstitucional do conselho 
de estado, e das mais armadilhas I^islativas que confiscarão 
as liberdades publicas em proveito da oligarchia. 

E que fiíerão a de^fraça e sellárão o opprobrio do pre- 
sente reinado. 

A escola do liberalismo verdadeiro é a escola da lega- 
lidade e da ordem bem entendida. 

Mas cumpre confessar que circumstancias se dão em que 
a letra da lei mata e o espirito vivifica. 

€ Para aproveitar-se uma occasião fugitiva de fazer o 
bem do paiz, diz Jefferson, é licito ir além da coostituição. 
Nestes casos, os representantes da nação, se interpretão bem 
as necessidades publicas, devem prescindir de subtilezas meta- 
physicas, e, arriscando-se como fieis mandatário^, pedir depois 
á soberania nacional um biil de indemnidade. Se o facto pra- 
ticado é verdadeiramente utíl e honesto, a nação não des- 
approvará o procedimento dos seus mandatários, e o bill de 
indemnidade, tomando mais salientes os traços da separação 
da linha dos poderes, longe de enfraquecer, ccHisolidará a 
constituição. > 

De conformidade com a sã doutrina que acabo de citar, 
justificados se devem considerar os liberaes brasileiros se, 
na deplorável situação que está descripta, appellárão para 
um golpe de estado parlamentar, proclamando, apezar da con- 
stituição, a maioridade do imperador, e procurando identificar 
com a gloria do reinado a salvação das garantias consti- 
tucionaes. 

Pensavão os liberaes que Sua Magestade o Imperador 
podia ser o instrumento providencial que fizesse resvalar o 
golpe liberticida e quebrar as taboas de proscripção decre- 
tadas pela oligarchia.' 

Offerecendo o seu apoio ao imperador menor, os liberaes 
erão sinceros e procuravão assim dirigir no sentido dos seus 
principios a politica do segundo reinado. Não tinhão pensa- 
mento reservado. Estava longe da idéa dos liberaes brasileiroa 



a60 REVISTA DO IXSTITUTO rilSTORKO 

O exemplo dessa opposição famosa que, como diz H ■ Heíiie, 
durante a restauração protestou em França que se conten- 
tava com a carta, que depois da revolução de julho alardeava 
ter representado quinze annos uma farça que aliás continuava, 
fazendo-se, com visivel ironia e manifesta repugnância, com- 
parsa da realeza. 

Erão unisonos. No dia 2 de dezembro de 1838, na cidade 
do Serro os conservadores faztão a festa do natalicio impe- 
rial, e a consideravão festa de partido, em que os liberaes 
nada tinhão que vér. 

E no meio dos seus cantares estourou entre elles a profecia 
da maioridade, por parte de um liberal, como symbolo e 
bandeira de todo o partido liberal do império. 

Empunha o sceptro teu, o1i I magestsdc t 
Eimiiga a ntpaliiuio, ■ prepotcncu. 
O regresso, o terror, > iniquidade. 

Uue Kja o <filbo>, oh 1 queira a Ptovideucia I 

O defenaor, o heróe da liberdade. 

Bem como o e pai » o foi di independência (") 

Assim acabava um soneto recitado por meu fallecido 
irmão, o Sr. Honório Benedicto Ottoni, no theatro levantado 
pelos conservadores, e onde etles julgavão estar sós. 

Nesta disposição dos espíritos abriu-se a sessão legis- 
lativa em 1840. 

Uma associação se formou com o comprtrtnisso confes- 
sado de se levar a effeito a maioridade. 

Creio que o primeiro motor da idéa foi o senador Alencar, 
em cuja casa a associação celebrou todas as suas sessões. 

Quatorze éramos os confederados, seis senadores e oito 
deputados. 

Entre os senadores contavão-se \'erfueÍro, José Bento 
e Alencar ; entre os deputados os dous Andradas e Marinho. 
além de um illustre veterano da independência, que tivera 
a prioridade da idéa, propondo-a dous annos antes em casa 
de Alvares Machado. Além do meu humilde nome só me 
considero autorisado para declinar os daquelles que já per- 
tencem á historia. 



{') Vide ejornal do ComiDcrcío» de a? dc Julbo de i&t». 

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A attCDLAR CE THEOPHILO OTTONl 36l 

Com OS íins confessados a medida só podia attingir o 
seu alvo se obtivéssemos previamente o accordo e a benevo- 
lência do imperador. a , 

Neste presupposto, delíberou-se na primeira sessão, antes 
de tudo, sondar o animo de Sua M^estade. 

Os Andradas ficarão encarregados de o fazer por inter- 
médio de pessoas alto collocadas, e que tinhão accesso junto 
de Sua Magestade. 

Deliberou-se mesmo a formula da missiva, que devia 
reduzir-se a estes restrictos termos: 

f Os Andradas e seus amigos desejão fazer decretar pelo 
corpo legislativo a maioridade de Vossa Magestade Imperial ; 
mas nada iniciarão sem o consentimento de Vossa Mages- 
tade Imperial. » 

€ Quero e estimo muito que esse negocio seja reau- 
ZADO PELOS Andradas e seus amigos. » 

Tal a resposta imperial que trouxe a António Carlos um 
dos embaixadores. Era o gentil-homem Bento António Vahia, 
que no dia 2 de dezembro desse mesmo anno, em remuneração 
do serviço que prestou ao club maiorístá, foi despachado 
conde de Sarapuhy. 

O gentil-liomem Vahia teve por coli,ega m delicada 
missão que se lhe confiou outro cavalheiro de igual jerarchia, 
e que também foi despachado titular no mesmo dia. 

Além destes, um dos deputados confederados para a 
maioridade estava encarregado de visitar repetidas vezes o 
palácio de S. Christovão, para se assegurar das boas dispo- 
sições do imperador. 

Desde que tivemos o assentimento imperial mettêmos 
mãos á obra. 

Discutíu-se na reunião um projecto de maioridade desde 
já acompanhado com diversas providencias, e entre ellas a 
creação de um conselho de estado. 

Por pouco que esta medida era o pomo da discórdia no 
club maiorista. 

Já expliquei em outra parte a importância que dou ao 
art. 32 do acto addicional. Foi no meu entender uma grande 
concessão ás idéas democráticas e annullou completamente o 

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963 REnSTA DO INSTITUTO UISTOIUCO 

poder moderador. O fallecido monsenhor Marinho tinha as 
mesmas idéas. 

Era, pois» impossível que nos sujeitássemos a advogar 
nas camarás um projecto que contrariava nossas mais que- 
ridas aspirações. 

Marinho era um allíado prestimoso, de quem o club não 
podia prescindir. 

Por consideração para com elle e bondade para comigo, 
o club deliberou destacar as duas idéas e apresenta-las em 
projectos separados. — maioridade e conselho de estado. 

Assim trabalhávamos unanimemente para a maioridade, 
e nos separaríamos segundo a convicção de cada um na lei 
do conselho de estado. 

Os dous projectos geraes forão redigidos na reunião em 
o dia 12 de maio de 1840 e no dia seguinte forão submettidos 
i consideração do senado. 

PROJECTO DE RESOLUÇÃO PASA DECLARAS A UAIOSIDAJ)E 

Sessão em 13 de maio de 1840. 

«Artigo único. O Sr. D. Pedro IP. imperador consti- 
tucional e defensor perpetuo do Brasil, é declarado maior 
desde já. 

€ Antónia Francisco de Paula Hollanda Cavalcanti de 'AU 
buquerque. — José Martiniano de 'Alencar. — Francisco de 
Paula Cavalcanti de Albuquerque. — José Bento Ferreira de 
Mello. — 'António Pedro da Costa Ferreiro. — Manoel Ignacio 
de Mello e Sousa. > 

Tinha-se deliberado no club solicitar para o projecto 
da maioridade a assignatura do marquez de Paranaguá, que 
se inculcava o monarchista por excellencia, mas que não com- 
mungava com a oligarchía. O marquez declarou que não 
assignava, mas comprometteu-se a adv<^r sua adopção na 
tribuna, como effectivamente o fez, apezar de não ter sido 
a doutrina impugnada. 

Emquanto pendia de decisão do senado o projecto de 
maioridade, o deputado Carneiro Leão, para melhor fazer 
pressão sobre a «unara vitalícia, motivou na camará tem- 

Coogle 



K CniCCLÂR DE THEOPHIIO OTTONI 263 

poraria um projecto de reforma da constituição, autorisando 
os eleitores da seguinte legislatura a darem poderes consti- 
tuintes aos novos deputados para refonnarcm o art. 121, que 
marca a época da maioridade do monarcha. 

A discussão abriu-sc; e, como tenho já exposto meus 
principies e modo de encarar a questão, está claro qual terál 
sido o meu precedímento nesta eventualidade. 

Quando oradores distinctos trouxerão para o campo da 
argumentação subtilezas metaphysicas, e pretenderão provar 
que a dispensa da idade imperial cabia nas faculdades ordi- 
nárias da legislatura, os princípios puderão mais no meu 
espirito do que a consideração que eu tributava e tributo ainda 
ás illustrações que assim se enunciavão. 

No Jornal do Commercio de 18 de julho de 1840 vem 
o discurso em que mais detalhadamente me expliquei a res- 
peito. 

Disse eu: 

« Sr. presidente, eu estava resolvido a não tornar parte 
' no presente debate, porque oradores muito abalisados já de 
antemão se havião empenhado, mesmo antes de começar a 
discussão do projecto, em analísa-lo, e havião annunciado a 
intenção em que estavão de faze-lo, como teem feito, com 
profundidade de conhecimentos e de illustração, que eu nem 
de longe poderei imitar. 

« Entretanto, Sr. presidente, fui obrigado a pedir a pa- 
lavra, provocado pelo nobre deputado 2° secretario, chamado 
a terreiro e 'interrogado sobre minhas opiniões antigas a este 
respeito; fui por consequência forçado a pedir a palavra para 
tomar parte na presente discussão: entrarei, pois, nella, é 
serei o mais resumido que for possível, dando a minha opi- 
nião a respeito do projecto, a respeito de alguns tópicos que 
se teem aventado na casa, e algumas respostas ás observações 
que teem apparecido. 

« Sr. presidente, eu voto contra o projecto que está em 
discussão porque é inteiramente inútil e não preenche os fins 
que se diz ter em vista com a sua apresentação. Quer o 
projecto que os eleitores que teem de nomear os deputados 
da legislatura que ha de começar em 1842 lhes confirão nas 
procurações especial faculdade para reformar a constituição 



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304 «BVISTA DO INSTITUTO RISTORtCO 

110 artigo que diz respeito ao termo da menoridade do mo- 
iiarcha: entretanto, Sr. presidente, a legislatura de 1842, na 
forma da constituição, está convocada desde o dia 3 de junho ; 
e, na íórma da lei de 29 de julho de 1828 no S 1° do art. r, 
no prazo de seis mezes, contados da época em que o decreto 
da convocação chegar ás differentes províncias, as eleições 
devem estar ultimadas. E' verdade que S. Ex. o Sr. ministro 
da justiça já declarou no senado que havia recommendado 
aos presidentes das provincias que tivessem em consideração 
na execução da lei o projecto que se achava no sraiado, es- 
paçando as eleições. 

« Mas, Sr. presidente, nem a intenção do governo, se- 
gundo se expressou o Sr. ministro da justiça, era que se 
espaçasse contra a lei o prazo das eleições além dos seis 
mezes, nem as circumstancias actuaes são hoje aquellas sob 
as quaes fez esta declaração o Sr. ministro da justiça. 

«Quasi dous mezes são passados da convocação; restão, 
portanto, apenas quatro mezes, dentro dos quaes se teem 
de ultimar as eleições nas provincias mais longínquas, como 
o Pará e Mato-Grosso. Por consequência, serál possível que 
esta lei que discutimos chegue a estas provincias antes de 
se fazerem as eleições? Evidentemente é ímpossivel. O espa- 
çamento das eleições acaba de ser rejeitado na camará vi- 
talícia, tendo-se votado alli, não só contra o artigo que deter- 
mina que as eleições se não facão senão no anno de 1841, como 
contra todas as outras providencias, á excepção de uma, 
que se achavão consignadas naquelle projecto. Por conse- 
quência, já o senado interpoz a sua opinião a respeito do 
espaçamento da eleição; e, se o curto prazo marcado pela 
constituição e pela lei regulamentar respectiva não permitte 
que, ainda no caso de passar o projecto que se acha em 
discussão pelos tramites exigidos na constituição, chegue elle 
a tempo de poderem os eleitores conferir poderes especiaes 
aos deputados da seguinte legislatura, é evidente que o pro- 
jecto é inteiramente ocioso, é inútil. Nem vejo razão para 
que nos occupemos de um projecto que não preenche os fins 
a que se destina. 

« E' verdade que o nobre autor do projecto e os nobres 
deputados que o defenderão adví^rão na casa o espaçamento 



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A CmCDLAIl BB THEOt-HIU) OTTOHI 265 

das eleições; mas eu tenho de lamentar uma contradicção 
bem flagrante a este respeito, e é que os alliados dos nobres 
deputados defensores do projecto, que formão a maioria no 
senado, não fizessem passar alli o espaçamento das eleições I 
Os alliados do ministério actual, os. alliados do nobre depu- 
tado autor do projecto, já de antemão havião declarado nó 
senado que não querião este projecto. Ora, á vista destes 
successos, eu faem podia capitular este projecto como uma 
allicantina parlamentar, tendente unicamente a fazer cahir 
na outra camará, como já se disse; outro projecto que se 
temia. 

« Sr. presidente, os nobres defensores do projecto parece 
que hoje tomão o conselho que Felippe II dava aos estadistas : 
dizia este monarcha que o homem politico devia constan- 
temente voltar os costas para o alvo a que pretendia cliegar, 
e que devia proceder como os remadores, que, sentados nos 
seus bancos, voltão as costas para onde a força de seus 
braços impelle a embar<^ção. Sem duvida, á,vista do succf ssq 
Decorrido na outra camará, de se rejeitar o espaçamento 
das eleições, á vista da impossibilidade em que estamos de 
que tenha logar, pela reforma exigida no projecto, a maio- 
ridade, é evidente que os defensores do projecto, conforme 
Felippe II aconselha aos estadistas que procedão, fazem como 
os remadores; voltão as costas para o alvo a que pretendem 
attingir ; mas remão para elle. Os nobres defensores do pro- 
jecto voltão prudentemente a cara para S. Christovão. mas 
remão para a rua dos Arcos. (Risadas e apoiados.) 

« Sr, presidente, a isto poderia eu limitar-me pelo que 
diz respeito ao projecto; na casa tem-se jS discutido suffi- 
cientemente qual o meio de fazer terminar o provisório actual, 
qual o meio mais conveniente e constitucional para elevar-se 
ao throno o Sr. D. Pedro II ; mas os defensores do projecto 
contradizem-se, porque alguns, como o nobre deputado pela 
província de Minas-Geraes, fazendo ver que a idade de 18 
annos é a mais apropriada em geral para terminar a meno- 
ridade, entretanto votão pelo projecto. 

f Se a idade de 18 annos é a mais apropriada para ter- 
minar a menoridade do monarcha, por que razão votão os 
nobres deputados por um projecto que tende a enairlar este 



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REVISTA. DO INSTITUTO HUTOaiOO 

e 03 nobres deputados ju^o tão razoável? Mas, 
lente, esta mesma contradicção dos nobres deputados 
suas convicções, revela que os nobres deputados estSo 
os á vista da marcha dos n^ocios públicos, que 
lis possível que o mesmo braço que hoje dirige o 
istado continue. (Apoiados.) 
presidente, eu entro com alguma difficuldade nesta 
lorque tem alguma cousa de pessoal a respeito da 
rresponsavel. Mas em primeiro Ic^r eu vejo que 
lição s6 declara irresponsável o r^ente, não o de- 
iolavel, por consequência, permitte que se discuta 
mportamento: em segundo Ic^r tenho os prece- 
>s nobres deputados que hoje formão a maioria. 
s.) Constantemente na legislatura passada se dis- 
aneira mais ou menos constitucional por que a von- 
iponsavel de então se dirigiu no exercicio do seu 
ego ..»,.,,.. ^ ,.-.,.. . 

i, Sr. presidente, á vista destas considerações e de 
: resultão dos factos que expuz, factos não meus, 
do a que pertenço, mas de outras pessoas que teem 
a contacto com o governo actual não resulta que 
ias circumstancias as mais melindrosas e delicadas 
paiz talvez se tenha achado, e que será preciso alguma 
le remova os males que nos estão imminentes ? Creio 
s observações evidentemente se concluc a conveni- 
lecretar-se a maioridade do monarcha, e que somente 
aridade do monarcha podem cessar os males pu- 

rtanto, se a decretação desta medida não pôde ter 

)s meios que o projecto indica, e se, ainda que pu- 

logar, não sei se nossos males admittem uma demora 

annos. . . 

Sr9. Quadro Aranha e Andrada : — Apoiado. 

Sb. Ottoni — ... creio que nestas circumstancias 
camará, quando se apresentasse um projecto dis- 
os annos que restão para cí«npletar-se a maiori- 

nonarcha, deveria sem duvida tomar sobre si a res- 



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A CiaCDLAB DE TBB0PH1I.0 OTTONI 367 

ponsabilidade que desse seu acto pudesse provir e decretar 
a dispensa. 

< Sr. presidente, eu não pretendo entrar na discussão 
da constitucionalidade do art. 121 da constituição. Entre- 
tanto, as minhas opiniões a este respeito estão consignadas 
em um discurso que o nobre deputado pela provinda de 
Minas-Geraes teve a bondade (fe trazar á casa; e a camará 
ha de permittir que eu leta duas linhas desse discurso, onde 
bem expressamente se dá a entender qual é minha opinião., 
Eu disse na assembléa legislativa provincial de Minas-Geraes, 
tratando de um artigo que está nas circumstancías do art 121 
da constituição : < Se o artigo da constituição (o que exige 
a idade de 25 annos para o parente mais próximo do impe- 
rador poder assumir a regência) não tem caracter de consti- 
tucional, então não ha na constituição alguma disposição que 
seja ctmstltucional, e tudo está á discrição e mercê da as- 
sembléa geral l^slativa. > 

« Sr. presidente, a consideração que mais tem influidò 
no meu espírito para emittir este voto, e que ainda hoje me 
obriga a sustentar esta minha opinião, apezar de argumentos 
tão luminosos que teem sido apresentados pelos senhores do 
meu lado, e apezar de ter sido discutida com tanto saber a 
questão da constitucionalidade do artigo; a consideração de 
conveniência, digo, que me obrigou e me obriga a insistir 
nesta opinião que professo é o receio de que a assembléa 
geral abuse de um precedente desta natureza, e queira re- 
formar outros artigos da constituição a pretexto de que não 
são constítucionaes . Foi sempre a minha opinião que era 
constitucional tudo que estava na constituição, mesmo apezar 
do disposto no art. 178. Se nós formos querer entender lit- 
teralmente o art. i^S da constituição, achar-nos-hemos a 
respeito de quasi todos os artigos nos mesmos embaraços em 
que se teem achado os oradores do lado opposto, para res- 
ponder aos argumentos dos oradores do lado a que pertenço, 
que sustentão que o artigo não é constitucional. 

< Quando se tratou da reforma do acto addicional e em 
outras occasiões tenho-me pronunciado contra a omnipotência 
parlamentar; tenho declarado que devemos considerar consti- 
tucional tudo que existe na constituição, não obstante a letra 



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368 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO' 

"do art. 178, e que nunca rfeviamos admittir reforma de um 
artigo da constituição a pretexto de que não era disposição 
constitucional, pelos inconvenientes e abusos que daqui podem 
r-se. Por consequência, quando apparecer o projecto 
jridade de Sua Magestade o Imperador, eu votarei por 
as pela razão de conveniência (apoiados), pondo de 
1 questão de constitucionalidade; porque, segundo os 
irincipios, em certas circumstancias e occasiões, pode 
itor das leis e da constituição tomar sob sua respon- 
:de o não proceder inteiramente de accordo com a letra 
10 espirito da lei, quando motivos muito ponderosos 
ão este seu procedimento. Digo a minha opinião 
nente, e quando apparecer em discussão na casa um 
í a este respeito tomarei francamente sobre mim a 
abilídade, e direi á nação : < A minha convicção me 
este artigo é constitucional : eu tenho receio de que 
ibléa geral entre na discussão de quaes são os artigos 
icionaes e de quaes o não são: entretanto o governo 
)ela maneira por que procede abisma' a nação: o meio 
icional que sympathisaria mais com meus princípios, 
e acha consagrado na constituição, é inexequível, por 
I cabe no tempo; e, quando não seja inexequível, trará 
iltado tomar-se a medida daqui a dous annos, quando 
I precisa de remédio immediato, quando dous annos 
antes talvez, ou antes quando dous annos são bastantes 
) para acabar-se de perder a nação. > 
Testas circumstancias, eu, posto aqui por meus consti- 
para velar na guarda da constituição e das leis, tomo 
lim esta responsabilidade de emittir um voto, não 
r dos meus principios, não muito de accordo com os 
rincipios, mas porque as circumstancias da nação o 

.' vista desta declaração franca e leal, os meus consti- 
decidirão se obrei bem ou mal ; elles, ou me darão 
e idemnidade, ou, lançando-me fora dos bancos desta 
anifestarào que desapprovão e que censurão o meu 
nento . 

r. presidente, creio que, se a legislatura brasileira, 
a época da maioridade, dissesse ao Brasil: «Eis 



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DE TIIEOPHILO OTTOHI s69 

aqui a constituição com o art. 121 intacto; entendi que este 
artigo era constitucional e tive escrúpulos (apezar de que o 
povo lhe potfia responder: «Não tiveste tanto escrúpulo 
quando trataste de reformar o acto addicional !... > Mas 
quero pór isto de parte), tive escrúpulos de tocar neste artigo, 
que julguei constitucional, entendido restrictaniente ; entrego- 
vos, portanto, a constituição nesta parte ao menos do 
art. izi intacta. » Mas o Rio Grande perdeu-se, a confla- 
gração continua em todo o orbe brasileiro; a bancarota bate 
á porta; e entretanto não pudemos evitar isto, porque o re- 
gente, que tomou posse no anno de 1838, tinha direito adqui- 
rido, como nos disse um illustre jurisconsulto bontem, a 
governar o Brasil por quatro annos; e, como nos disse outro 
nobre deputado de Pernambuco hoje, porque a camará dos 
deputados, ou os deputados adquirirão o direito de ser de- 
putados por quatro annos, e, se acaso a maioridade do mo- 
narcha tiver Ic^r desde já, poslergão-se os nossos direitos 
adquiridos, pôde haver alguma dissolução, e nós perdemos 
o direito de ser deputados por quatro annos. (Risadas.) 

« Creio, Sr, presidente, que o povo brasileiro em taes 
circumstancias não applaudiria certamente o nosso respeito 
pelo art. 121 da constituição; pelo contrario estou persuadido 
que o povo applaudiria aquelles que, iwsto não estivessem 
convencidos de que cabia nas attribuições da assembléa geral 
a medida: de que fallo, comtudo tinhão-Uie dado seu voto, 
por julgarem que as circumstancias o exigião. 

«Tem-se, Sr. presidente, argiunentado muito com os 
defeitos das regências, tem-se querido persuadir que todos 
os nossos males nascem da falta de prestigio que acompanha 
ordinariamente a estes governos. 

« Sr. presidente, eu estou intimamente con\cncido de que 
os inconvenientes que teem sido apresentados nesta casa como 
próprios das menoridades e dos governos regenciaes teem 
logar especialmente nas monarchias absolutas; não entendo, 
portanto, que seja da construcção e da organtsação do governo 
durante a menoridade que nasção nossos males; nascerão, 
sim, do desacerto da escolha. Eu estou persuadido dt que, 
se os votos dos cidadãos brasileiros tivessem collocado no 
alto posto de regente a um individuo que comprehendesse 



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370 ■ REVISTA DO tM8TITUI0 HBIXHUCO 

bem o elevado daquella posição, a um individuei que tratasse 
de corresponder á espectativa de seus concidadãfos, esses 
decantados inconvenientes da franqueza das regências não 
terião apparecido, embora, Sr. presidente, os votos dos ci- 
dadãos fossem procurar em uma fabrica de velas o filho 
do proprietário; se succedesse que esse homem, pelo voto 
de seus concidadãos, assim tirado da obscuridade, fosse um 
Franklin, não seria por falta de prestigio que elle deixaria 
de cumprir os elevados deveres de sua posição. 

< Terei de dizer mais algumas verdades, bem que triviaes; 
entretanto eu julgo-me obrigado a dize-las.s 

« Eu confio muito em que o prestigio da realeza contri- 
buirá alguma cousa para melhorar as difficuldades do go- 
verno; entretanto não entendo que o prestigio que cerca o 
throno do Sr. D, Pedro II venha de que seus antepassados, 
desde séculos muito remotos, occupassem thronos na Europa. 

«Sr. presidente, o prestigio do Sr, D. Pedro II nasce 
do campo da Acciamação, onde seu pai foi acclamado im- 
perador do Brasil, não porque descendesse de uma antiga 
linhagem de reis da Europa, mas porque, comprehendendo 
bem as necessidades do Brasil, pòz-se á frente da nossa inde- 
pendência, e soltou nas margens do Ypiranga esse grito fa- 
moso: — Independência ou morte 1 Se acaso succedesse que, 
em vez de ser o primeiro imperador do Brasil, descendente 
da casa de Bragança, quem se pôz á frente deste movimento 
verdadeiramente nacional, que nos elevou á categoria de nação, 
fosse outro heróe, como João Fernandes Vieira, e a nação 
tivesse collocado a coroa sobre a sua cabeça', o Sr. D Pedro II, 
descendente desse outro heróe, e não do filho dos reis, não 
teria menos prestigio. (Susurro de reprovação). O prestigio 
do Sr. D. Pedro II nasce da constituição e da acciamação, 
pela qual o povo elevou o primeiro imperador ao throno que 
elle tinha erigido. 

« Passarei agora a responder, ainda que mui levemente, 
a alguns dos tópicos do discurso do nobre deputado que me 
precedeu. 

« Muito sinto que o nobre deputado se tivesse retirado 
da casa ; mas, como estou prompto para repetir quando S. Ex, 
.estiver presente o que vou agora dizer á camará, não se to- 



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A CIRCUtAR DE THEOPHILO^OITONI 37I 

mará como falta de generosidade de minha parte fallar pela 
maneira por que o vou fazer ; porque seria na verdade falta 
de. generosidade da minha parte censurar no illustre deputado 
ausente uma contradicção flagrante «e eu não estivesse re- 
solvido a dizer o mesmo em qualquer occasião on que o nobre 
deputado possa defender-se. 

« O nobre deputado começou o seu discurso declarando 
que não queria arriscar a inexpeqencia dos primeiros annos 
do imperador. 

€ Ora, pergunto ao illustre deputado : « O imperador 
ficaria mais moço, ficaria mais inexperiente, de 25 de maio 
de 1837 para cá? Desejava que o nobre deputado me res- 
pondesse a isso, porque, segundo vejo no .Correio Official 
do dia 26 de maio de 1837, o nobre deputado de Pernambuco, 
ex-ministro dos negócios estrangeiros, que acabou de fallar, 
foi um dos dez membros desta casa que apoiarão um pro- 
jecto do Sr. deputado Vieira Souto propondo por uma lei 
ordinária a maioridade de Sua Magestade o. Imperador. 
(Apoiados.) Eis o que diz o Correio Official de 26 de maio 
de 1837,. (U.) 

«Alguns Sbs. deputados — Não ha a menor duvida. 

cO Sb. Ottoni: — Por consequência, desejava que o 
nobre deputado attendesse bem para isto, e me dissesse se 
em 1840 o imperador era mais joven, mais inexperiente, do 
que em 1837. ( Apoiados e risadas.) 

« Mas, Sr. presidente, talvez em 1837 existisse com 
muito mais verdade o que o nobre deputado pela provincia de 
Minas-Geraes nos quer attribuir hoje. O nobre deputado disse- 
nos que quer-se a maioridade porque se tem fome de poder. 
Em 1837, quando o joven monarcha não era joven, não era 
inexperiente, por que razão se davão estes votos? Porque se 
tinha fome de poder, segundo os princípios do nobre deputado 
peta província de Mínas-Geraes applicados á opposição 
actual. 

« Eu não cito, senhores, os nomes dos dez deputados 
que votarão desta maneira, porque alguns se teem pronun- 
ciado coherentemente com suas opiniSes de então e outros 
ainda se não enunciarão na casa; e não quero incorrer na 
X censura que fiz ao nobre deputado pela provincia de 



. Cooglc 



373 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

ilinas-Geraes, de querer achar contradicção antes de os depu- 
tados emittirem suas opiniões. 

« O nobre deputado de Pernambuco, ex-mínistro dos ne- 
gócios estrangeiros, fez duas distíncções entre mudanças de 
princípios que se tinhão professado no verdor dos annos, 
quando liberaes, e quando o não erão. Quando os princípios 
professatfos por alguém no verdor dos annos são liberaes esse 
nobre deputado justifica a mudança; mas disse que o nobre 
deputado pela provincia de S. Paulo, o Sr. Alvares Machado, 
incorre em grave censura, porque mudou os princípios pro- 
fessados no verdor dos annos para princípios menos liberaes 
actualmente. Entretanto a demonstração disto cifra-se na 
conducta do nobre deputado em 1837. De modo que agora 
é que sei que o meu nobre amigo em 1837 estava no verdor 
dos annos. {Apoiados^ e risadas.) Mas creío que o nobre 
deputado não estava nas circumstancias mencionadas; não 
mudou suas opiniões liberaes para opiniões menos liberaes; 
nem mudou de opiniões que erão menos liberaes para as 
opiniões que o nobre deputado em outras occasiões disse que 
são republicanas. 

«Mas, Sr. presidente, o nobre deputado, que acha o meu 
nobre amígo de S. Paulo corcunda, achou uma cousa que 
ninguém sabia; e a reputação de que goza o Sr, Alvares 
Afachado con» patriota, como amigo das instituições, como 
amigo do progresso na ordem, é uma reputação bem esta- 
belecida {Apoiados.) Primeiramente, não sei que agora de 
maneira alguma possa estar em contradicção com os prin- 
cípios que tão porfíadamente tem defendido por tão longos 
annos (Apoiados) ; em segundo logar, o nobre deputado, qile 
censurou tanto esta incoherencia, é o mesmo que votou tam- 
bém nesta casa pela adopção do acto addícíonal, e vem nos 
dizer hoje que o acto addicional é illegal, que a camará cons- 
tituída em 1834 não tinha poderes para reformar a consti- 
tuição independentemente do senado. 

.« Eu não entrarei nesta questão, porque foi ventilada 
na casa com muita sabedoria; apresentárão-se argumentos 
tirados da letra c espirito da constituição e índole do systenm 
representativo, principalmente em um paíz cujo dogma fun- 
damental é a soberania nacional. Argumentou-se nesta casa 



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A CIUCULAIt DE THEOPillLO OTTONI 373 

com considerações deduzidas deste principio, que o único 
poder que estava competentemente autorisado para modi- 
ficar o pacto social era a camará dos deputados, que tinha 
recebido do povo especial autoridade para fazer esta modi- 
ficação. Não preciso entrar nesta questão, que foi muito 
bem decidida nesta casa, depois de uma discussão muito lu- 
minosa; mas entretanto o nobre deputado, que ■ estava per- 
suadido que era nullo o acto addJcional, não sei como justi- 
ficará o seu voto a favor da adopção do projecto. . . 
cO Sr. Quadros Aranha: — Apoiado. 
«O Sr. Ottoni: — ... quando podia ter outros argu- 
mentos para rejeitar o acto addicional, os quaes vou men- 
cionar, porque podem offerecer outras provas da incolierencia 
do nobre deputado. O nobre deputado podia rejeitar o acto 
addicional por não terem passado muitas idéas suas e de 
pessoas com quem estava intimamente ligado, querendo que 
os presidentes não fossem nomeados pelo imperador, mas 
pelos eleitores das províncias, em listas tríplices. (Apoindos.) 
Outros argumentos desta natureza poderia o nobre deputado 
apresentar como fundamento para rejeitar o acto addicional, 
mas desprezou todos esses argumentos, votou pela adopção 
do acto addicional, e agora nos vem dizer que o acto addi- 
cional é nullo, porque a camará dos deputados não o podia ■ 
decretar sem o concurso do senado. Declarou-nos também 
o illustre deputado que a lei da regência é constitucional, e 
que, sendo constitucional, não podia ser alterada por lei or- 
dinária; entretanto durante o tempo em que o Sr. deputado 
fez parte do seu ministério pedirão-se modificações á lei da 
regência, como autorisação para o governo dar amnistia. 
(Apoiados.) Entretanto o nobre deputado se esqueceu disto. 

« Passo agora a respontfer ás observações de um nobre 
deputado que foi presidente de Minas-Geraes, e na mesma 
occasião responderei a outros argumentos que até aqui não 
tenho tomado em consideração. 

cO nobre deputado pela província de Minas-Geraes, a 
quem me refiro, expressou, como é seu costume, mui franca- 
mente a sua opinião a este respeito. O nobre deputado disse: 
< Todos os males do Brasil nascem da opposição que se fez 
ao governo de D. Pedro I e das leis que forão filhas dessa 



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374 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

opposição > ; e por consequência o nobre deputado não quer 
levar o imperador ao throno emquanto não cahJr por terra 
toda a legislação filha da opposição feita ao governo de 
D. Pedro I. 

€ O nobre deputado, quando raciocina desta maneira, 
quando cstigmatisa a opposição desde 1824 até 1831, csque- 
ce-se de tutfo o que occorreu naquellas épocas; esquece-se 
de tudo absolutamente. Pois porventura seria menos ra- 
zoável a opposição que se fez á dissolução da assembléa 
constituinte? Porventura seria menos razoável a opposição 
que se fez quando o ministério que cahiu em dezembro de 
1S29, com geral applauso da nação, tramava para o absolu- 
tismo? Quando esse ministério mandava vir das províncias 
a um liomem como Pinto Madeira, de quem as próprias auto- 
ridades do Ceará, que o apoiavão por ordem do governo 
de então, dizião: «Este homem é um tigre, cuja ferocidade 
se exercita contra os inimigos de Sua Magestade » ; quando, 
digo, o ministério mandava vir este homem, o cobria de 
comniendas e lhe dava postos no exercito, e o encarregava 
do commando militar das villas do Jardim e do Crato, onde 
este homem foi immediatamente soltar o grito do absolutismo ; 
seria menos patriótica a opiiosição feita a ministérios que 
apoiavão, galardoavão e premiavão homens desta natureza? 
O ministério que crcava conimissÕes militares, que mandava 
degolar os cidadãos sem sentença, que mandava fazer assas- 
sinatos jurídicos em virtude de sentenças de commissões mi- 
litares; o ministério que procedia desta maneira, o ministério 
que compromettia por este modo o fundador do império, 
não terá porventura parte alguma na abdicação do ex-im- 
perador? Não será responsável por ella? E serão rcsi>onsaveis 
por essa abdicação os cidadãos generosos, amigos da liber- 
dade da sua pátria, que ti\-erão coragem de oppor-se aos 
planos de absolutismo, que tiverão a coragem de oppôr-se 
aos planos da sociedade das Columnas, instituida em Per- 
nambuco? E, se são responsáveis como causa originaria dessa 
abdicação os homens cujos erros comprometterão tão grave- 
mente o monarcha, porque o nobre deputado lhes dá amnistia? 
Mas em verdade o nobre deputado está coherente com seus 



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K cmctíi.An DE THEOPiiiLo OTTONi a?5 

princípios porque o nobre deputado absolveu nesta casa a 
homens que tinhão creado commissões militares. 

«O Sr. Miranda Ribeiro: — Eu dei as ra2Õe3 por que. 

« O Sr. Ottoni : — Mas eu quizera que o nobre depu- 
tado não fizesse recaliir sobre a opposíção generosa e patrió- 
tica da primeira legislatura, que começou em 1826, os 
peccados que são propriamente peccados de seua alliados po- 
líticos; porque forão elles que compromettêrão o primeiro 
imperador do Brasil; porque forão elles que assustarão a 
naqão. caminhando indevidamente por um caminho que não 
era constitucional. Mas o nobre deputado não quer somente 
fazer esta opposição patriótica e generosa, solidaria e respon- 
sável pelo que então succedeu. quer também que seus actos 
sejào todos responsáveis; quer também que se risquem das 
collecções das leis do Brasil todas as leis filhas desla oppo- 
5Íi;ão, e que se sacrifiquem cm holocausto aos principios do 
ministério de 1829 e das instituições das Columnas. Ora, eu 
julguei tanto mais necessário pronunciar-me contra uma pro- 
posição desta natureza, avançada pelo nobre deputado, quando 
o partido que domina no Brasil de 1837 para cá procura 
fazer uma especulação verdadeiramente immoral com os sen- 
timentos de benevolência que appareccm em favor de Sua 
Magestade o Imperador; aproveitando-se destes sentimentos, 
que todos os lados da camará, e em geral toda a nação, nutre 
pelo jovcn monarcha, vem arrancar leis que não estão de 
accôrdo com os principios do systema representativo. Sirva 
de exemplo a reforma do código que se propõe no senado, 
restabelecendo os commissarios de ixilicia, c quando nesta casa 
se vem propor uma lei mais barbara do que a ordenação do 
livro 5.' Refiro-me a uma proposta do ministério de 19 de 
setembro, que diz; < No código criminal, artigo tal e tal, onde 
diz — aos cabeças — supprima-se a palavra aos cabeças. > O 
código criminal tinha reconhecido que nos crimes politicos 
as massas nunca são criminosas, mas são arrastadas por am- 
biciosos, que se prevalecem de sentimentos muitas vezes ge- 
nerosos de que estas massas se achão penetradas para arras- 
ta-las a "fins criminosos. Por consequência o código quiz que 
nos crimes de conspiração, sedição e rebellíão somente 03 
paliieças fossem punidos. 

D,3 zB<ibyCOO<^Ie 



376 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

« Ora, Sr. presidente, este principio luminoso que se acha 
no código até certo ponto estava reconhecido na legislação 
antiga: a mesma ordenação do livro 5° não mandava con- 
demnar, proscrever as massas, queimar as cidades e suffocar 
nos porões das embarcações as massas infelizes que pudessem 
ter entrado nas rebelliões. (Apoiados.) Mesmo antes da con- 
stituição o espirito philosophico do século i>assado tinha já 
feito proscrever alguma parte da barbaridade que se infiltrara 
na legislação antiga. {Apoiados.) Já antes da constituição 
não se quintavão batalhões quando elles tinhão entrado em 
algum motim; entretanto hoje, em 1840Í depois de quasi 
20 annos de systema representativo, vem-se pedir a esta casa 
a condcmnação das massas ; vem-se pedir que supprima-se 
no código a palavra — cabeças — ; vem-se pedir emfim que 
todos aquelles que tiverem parte em algum movimento po- 
litico estejão sujeitos ás mesmas penas. E, quando se argu- 
menta contra esta exigência, os coripheus do partido nos 
respondem : < E' preciso dar força ao governo, porque o 
monarcha está para subir ao throno: se nós o estimamos, 
se o prezamos verdadeiramente, é preciso sacrificar esta legis- 
lação e votar neste sentido. » 

< Ora, Sr. presidente, isto é, como eu já disse, uma espe- 
culação verdadeiramente immoral. {Apoiados da opposição.) 

Toda a boa acção obtém de ordinário recompensa. A sin- 
ceridade com que exprimi na occasião minhas convicções 
valeu-me as fehcitações do parlamentar mais distincto que 
então se sentava opposto ao meu lado na camará dos depu- 
tados. 

« O Sr. Carneiro Leão, fallando logo depois de mim, 
disse o seguinte: 

« Parece-me que os meus illustres adversários não estão 
fortes: um só é que o está, porque foi sincero. {Apoiados.) 

« Sr. presidente, eu sou como esse nobre deputado ; eu 
o applaudo. Sr. presidente, porque a sua linguagem não é 
parecida com a de seus nobres alliados, alguns dos quaes 
teeni desmentido lodos os seus precedentes. 

« Eu, Sr. presidente, muito applaudo que este nobre 
deputado pudesse sahir do meio de tanta poeira radiante e 
permanecendo nos seus princípios. {Apoiados.) Aparte-se 



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A CtltCULAR DE THEOPIIILO OTTOOT 3?? 

tudo quanto diz respeito ao odÍo que tem contra a adminis- 
tração; aparte-se tudo quanto se não dirigiu a esse ponto: 
e o discurso do nobre deputado é filho da sinceridade. 
(Apoiados.) Eu muito applaudo que se pudesse libertar do 
jugo de partido, jugo na verdade pesado, para pronunciar 
suas opiniões livre e sinceramente. . , 

cO Sr. Carneiro da Cunha: — Honra lhe seja feita 1 

<0 Sr. Carnkiro LkÃo: — ...permanecendo cm seus 
principies c não desconhecendo a verdade. » 

(Jornal do Commercio de 19 de julho de 1840.) 

Vê-se também do meu discurso que eu estava assustado 
com a tendência demasiadamente realista que a discussão 
(fiscriminava. 

Eu adoptava a ídéa da maioridade como uma espécie de 
regresso, segundo a definição que dava a esta palavra o seu 
illustre autor: — Recurso contra desatinos — ; e queria fazer 
da maioridade uma égide em favor dos principies liberaes. 

E os meus collaboradores, na melhor intenção, a susten- 
tavão na tribuna, fomentando as mais extravagantes anti- 
gualhas. 

No entender de muitos oradores maioristas o mal dos 
últimos tempos provinha de que os regentes não tinhão o 
prestigio do nascimento e erão homens do povo. 

O remédio que se esperava devia provir essencialmente, 
assim o proclamavão, do esplendor da realeza e < 
á dynastia, cuja nobreza imaginavão perder-se na 
séculos. 

Eu tinha a simplicidade de acreditar que a ind 
era uma realidade, e que o Sr. D, Pedro I dev 
vãmente a coroa á ficção da unanimidade constili 
os brasileiros consagrarão no seu pacto fundamenta 
que a dynastia brasileira tinha nascido no dia 7 d 
de 1822, e que o Sr. D. Pedro I fora acclamado 
não porque fosse o neto dos reis, mas porque, 1 
instancias dos Andradas, então seus ministros, tini 
a missão de protogonista no drama da independeu 
ciando a pátria onde nascera pela nova que adopta 
gando solemnemente como imperador constituciojiE 



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3^8 REVISTA DO 1N8TITDT0 HISTÓRICO 

a dynastia, de que, herdeiro presumptivo da coroa portu- 
gueza, era na occasião o mais moderno representante. 

Assim me enunciei em 1840, e assira o entendo ainda 
hoje. 

Como quer que fosse, o projecto de reforma do art. 121 
produziu o fim que tinha em vista o seu illustre autor, con- 
tribuindo poderosamente para que tosse rejeitado na camará 
vitahcia o projecto de maioridade em lei ordinária. 

No mesmo dia em que se deu este facto reuniu-se de 
novo o club Alencar. 

A agitação dos espíritos era excessiva, geral a adhesão 
com que a idéa era acolliida pelo povo, tropa e guardi 
nacional . 

Da parte dos dous illustres generaes que então com- 
mandaváo as armas e a guarda nacional se assegurou não 
haver probabilidade, apezar de qualquer requisição do go- 
verno, de ser a tropa, ou a guarda nacional, empregada contra 
as reuniões populares que porventura se formassem com o 
fim da proclamação da maioridade. 

Nas camarás, a não se realizar o adiamento, em que já se 
fallava, o projecto do deputado Carneiro Leão, propondo a 
reforma do art. 121 da constituição, facilmente seria con- 
vertido em resolução de maioridade desde logo. 

Tenho explicado francamente as aspirações com que o 
partido liberal iniciou a maioridade. 

Outras não tinha que não fossem as de salvar do nau- 
frágio as conquistas que o espirito progressista havia paci- 
ficamente, durante os primeiros annos da menoridade e nos 
últimos do reina<fo anterior, consagrado em leis constitucio- 
naes e regulamentares: — obstar a torrente da reacção, em 
que os retrógrados ameaçavão tudo submergir, e finalmente 
contraminar o trama dos Césares em projecto.. 

Parecia-nos que seria grande felicidade para o Brasil 
se, na honestidade da adolescência, e logo no princípio do 
seu governo, o imperador tivesse occasião de apreciar pra- 
ticamente a alta moralidade, o acrysolado patriotismo e pu- 
reza de intenções dos Andradas, dos Feijós, dos Paula Souzas, 
dos Vergueiros, dos Alencares, dos Alvares Machados, além 
de outros illustres finados, não faltando, para não offen- 

D,gt,zedbyGOO<^le 



à. CIRCULAR DB TDEOPHILO OTTONI 979 

der-lhes a modéstia, nos vivos, que ahi estão, c que airosa- 
mente se agrupavão em tão belía companhia. 

Bem que fossem confessáveis de cabeça levantada tão 
patrióticos fins, está claro que fora loucura insistir em sua 
realização se não estivéssemos bem seguros das disposições 
de animo do mancebo imperial, se não contássemos com o 
seu beneplácito, e, para tudo dizer, com as suas boas graças. 

Era preciso que fossemos hábeis politicos e até certo 
ponto cortezãos. 

Já tínhamos a palavra imperial dada por intermédio do 
conde de Sarapuhy e do seu illustre collega na embaixada. 
Já tínhamos certeza de que o imperador estava disposto .1 
assumir as rédeas do governo, e que se comprazia em rece- 
be-las das mãos puras e venerandas dos anciãos da inde- 
pendência. 

Kazia-se em geral o mais vantajoso conceito, não só dos 
dotes moraes do imperador, como do seu desenvolvimento in- 
tellectual, e mais que tudo do profundo critério e discreta re- 
serva, em que se mostrava eminente. 

No entanto, em tão verdes annos, era licito temer que 
as primeiras manifestações benévolas com que o imperador 
acolhera a idéa da maioridade significassem somente consi- 
deração pelos patriarchas da independência que a propunhão, 
e velleidades de emancipação, naturaes em todos os moços, e 
a cuja lei creio que não haverá irreverência em affirmar que 
não escapão nem mesmo os filhos do direito divino. 

O caso era grave; os chefes do partido liberal temião 
arriscar os grandes interesses do progresso. Se não vencessem 
passarião por ambiciosos vulgares, que só tinhão tido em mira 
as vantagens do poder. 

Nossa derrota teria de ser explorada, com a habilidade 
que os distingue, pelos Césares em projecto, que sobre as 
ruinas do partido liberal garantirão o seu futuro no presente 
reinado. Só a sancção da victoria, a posse do poder e a 
realização do programma da opposição liberal nos últimos trea 
annos podião justificar nossa participação em tal empreza. 

Assim, era de indeclinável necessidade que tivéssemos 
segurança prévia de que o poder nos viria para as mãos se 



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38o RETISTA DO INeTITOtO HISTÓRICO 

nossa idéa triumphasse. aliás traballiariainos estupidamente 
para reforçar a preponderância dos retrógrados. 

Nesta nossa conspiração, mais do que em qualquer outra, 
O segredo era uma das condições indispensáveis para o 



No momento em que se certificassem que o imperador 
queria deveras ser maior, nós temíamos, e com razão, que os 
oligarchas nos tomassem a dianteira, confiscassem a maio- 
ridade, em proveito do regresso, e pudessem ápplicar á nossa 
simplicidade o — sic vos non vobis — do poeta. 

Nós já tinhamos provas irrecusáveis do fino tacto e dis- 
crição superior á sua idade que distinguião o imperador. 

Na tarde do dia em que fora rejeitado no senado o pro- 
jecto da maioridade redigido em o nosso club o imperador 
entrava a respeito em expansões intimas com uma alta per- 
sonagem que se havia declarado neutral na questão da maio- 
ridade. Durante o colloquio appareceu um dos mestres de 
Sua Magestade, senador, que havia votado contra a maio- 
ridade. E o imperador ordenou silencio ao seu interlocutor, 
e passou placidamente a entreter-se com o seu illustre mestre 
em objectos de litteratura. 

Esta circumstancia, de que tivemos immediato conhe- 
cimento, provou-nos, não só que o imperador havia reflecti- 
damente acolhido a idéa da maioridade, mas também que 
a queria decretada pelos Andradas e seus amigos. Sobravão- 
nos motivos de animação. 

Mas como é que se havião de esconder á policia perspicaz 
do Sr. conselheiro Euzebio os fios directores da conspiração 
que transpirava por todos os poros da sociedade? 

Como é que havíamos de occultar nossas relações com 
o imperial protogonista, junto do qual tinhão accesso franco 
e diário os homens da situação? 

A alta policia do palácio, que necessariamente havia de 
funccionar por conta da regência e dos oligarchas. como é 
que poderia ficar ignorando que os promotores da maioridade 
marchavão \ys.sso por passo de accordo e com autorisação do 
imperador ? 

O perigo de comprometter-se o segredo da augusta inti- 
midade era, pois, um terrivel pesadelo. 



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A CIRCULAR DE TIIBOPHIIO OTTONI 281 

Para obvia-lo tratou-se de precipitar os acontecimentos. 

Um memorial foi escripto por uma de nossas illustraçÕes, 
no qual se expunha a anciedade publica, o voto universal do 
paiz e os meios do triumpho. 

Ass^urava-se a Sua Magestade que as camarás em sua 
grande maioria entravão com enthusiasmo nas vistas dos An~ 
dradas e seus amigos, e que, no caso de adiamento, que os 
oligarchas projectavão, o povo, a tropa e a guarda nacional 
saudarião com unanimes acclama(;Ões o imperador maior, 
porém respeitosamente declarámos ao mesmo tempo que nada 
se tentaria se a empreza não fosse do agrado imperial e sem 
expressa approvação do imperador. Terminava o memorial 
pedindo que esta approvação não fosse verbal, mas sim em 
despacho escripto. 

O memorial nos foi devolvido com um — SIM — escripto 
pelo próprio punho do imperador. 

A maioridade estava decretada, e decretada exclusi- 
vamente pelo partido liberal, com a sancção imperial antici- 
padamente concedida. 

E o regente, o ministério, em que figuravão os cardeaes 
da oligarchia, a policia do palácio, a policia do parlamento 
e a policia do Sr. Euzebio, gente toda de primeira, plana, 
estavão mystificados. 

Ninguém, senão os conjurados e o imperador, sabia das 
molas secretas que govemavão o jc^o da scena ! 

Não é que a espionagem do palácio fosse confiada so- 
mente a agentes subalternos. Os mais illustres arautos da 
situação não se dedignavão de ir lá! directamente sondar o 
terreno. 

Em certa tarde, um dos deputados que estavão no segredo 
foi a S. Christovão fazer sua corte ao imperador, que na 
occasiao passeiava pela cidade, e que, chegando em seguida, 
disse estas palavras: « Vi hoje (tantos) deputados maioristas; 
a casa de F. estava fechada. > F. : c Vossa Magestade não 
o podia ver, porque está aqui para ter a honra de apresentar 
seus respeitos a Vossa Magestade. ^ 

Este exórdio indica sufficientcmente quanto seria gra- 
cioso o acolhimento feito ao deputado maiorisía, que se achava 



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aSa tlEVlSTA DO INSTITUTO mSTORICO 

no palácio, e súbito se apreseniou para beijar a mão a Sua 
Magestade. 

Estavão em conferencia, quando appareceu também o 
Sr. Honório Hermeto Carneiro Leão. De prompto Sua Ma- 
gestade deixou o visitante de intimidade com quem se entre- 
tinha, e tomou o braço de Honório Hermeto Carneiro Leão, 
com quem passeiou largo tempo. 

No dia s^uinte o Sr. Carneiro Leão dizia triumpliante 
a alguns deputados liberaes por Minas, cujo testemunho sendo 
preciso posso invocar, que os projectistas da maioridade os 
compromettião, levando-os a votar por uma idéa que, a tri- 
umphar, faria ministro a elle Carneiro Leão. 

Justificou o seu dito com a anecdota que acabei de referir, 
c de que já tínhamos conhecimento. 

E tão ufano estava com a sua supposta privança que não 
quiz mostrar-se communicativo somente nos bancos da ca- 
mará ; subiu á tribuna para alardear o seu validismo. 

O Jornal do Comtnercio do dia 19 de maio de 1840 re- 
produz esta parte do discurso do exímio parlamentar nestes 
termos. Ahi se lê na pag, 2', cot. 2*; 

O Sk. Carmkiro Lkâo: — ... Não hei de procurar, 
como tenho ouvido que se tem procurado, homens rasteiros 
para seduzir o animo do imperante... para perturbar os 
seus estudos, acendendo-lhe o desejo de governar... > 

Vè-se que se nos lançava em rosto pretendermos seduzir 
o animo inexperto do joven monarcha, por intermédio da 
Ínfima criadagem. 

Parece que a policia ageítou um criado de galão branco 
que se fosse offerecer aos Andradas para medianeiro e por- 
tador de quaesquer confidencias, das quaes devia dar conhe- 
cimento ao governo. Algumas palavras calculadas para enredar 
os governadores forão confiados ao agente provocador, e ahi 
está tudo quanto a alta policia regencial, ministerial e oli- 
garchica pôde descobrir de nossas relações com o palácio. 
O que provão o discurso do Sr. Carneiro Leão e as 
confidencias que referi é que o imperador com 14 annos soube 
inutilisar a indiscreta curiosidade dos oligarchas, e habil- 
mente mystificou o estadista mais sagaz dos que se teem 
sentado nos seus conselhos. 



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K CIRCULAR SB THBOPIULO OTTONI 9Õ3 

Os conjurados estavão senhores da situação: ou se votava 
o projecto Carneiro Leão com o additamento de um desde 
já, pois que tal era nos últimos dias a tendência da camará; 
ou, dado o adiamento, o povo, e a guarda nacional procla- 
mavão a maioridade. 

Quem fazia um triste papel em toda a comedia erão os 
ministros oligarchas que suppunhão ter força para supplantar 
os anarckistas, e estavão elles mesmos isolados no meio da 
população do Rio de Janeiro, sem que apparecesse ao menos 
uma alma caridosa que lhes abrisse os olhos e dissesse que 
o seu reinado estava findo, e que elles já não tinhão nem 
soldados, nem guarda nacional, nem força policial, nem depu- 
tados e ncni imperador. E que tudo estava a nosso lado 1 

E taJ era a confiança que tinhão em si que, se algum 
amigo lhes levasse estas noticias verdadeiras, passaria por 
visionário. 

Na simplicidade do seu orgulho, o Sr. Rodrigues Torres 
na véspera da maioridade foi alta noite ao Macaco solicitar 
do fallecido senador o Sr. Bernardo Pereira de Vasconceílos 
que entrasse para o ministério, afim de os auxiliar na em- 
preitada que premeditava o governo para o dia seguinte. 

E' lun ponto histórico digno de investigar-se a parti- 
cipação de Vasconceílos na tentativa de suppressão da maio* 
ridade. 

Quando se dissolveu o ministério de 19 de setembro, 
porque os ministros recusarão assignar a carta imperial de 
senador para o Sr, Lopes Gama, hoje visconde' de Ma- 
ranguape, que o regente desejava escolher, Vasconceílos reti- 
rou-se descontente com a vontade irresponsável e com os 
collegas. 

Parece que já então Vasconceílos começava a ser homem 
impossivel para os Césares, como depois o foi para Augusto. 

O cerlo é que no dia 20 de maio a oligarchia voltou para 
o poder, deixando á margem o chefe do ministério de 19 de 
setembro, que á margem ficou até o fim da vida, salvas as 
nove horas de agonia da menoridade. 

O certo é que o' infeliz deputado Navarro, creatura de 
Vasconceílos e um dos primeiros atiradores que soltou o 



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284 REVISTA DO INSTITUTO mSTORICO 

brado da maioridade, era considerado como sentinella per- 
dida, que o velho parlamentar arriscara no meio dos inimigos. 
Parece mesmo que da parte de Vasconcellos alguma 
abertura se fez a alguns dos coripheus da maioridade, não 
tendo tido seguimento a idéa da coalHsão que o facto sup- 
punha. 

Vasconcellos no dia 21 de julho estava em unidade. Com 
o tino politico que lhe era conhecido, eu creio que Vasconcellos 
bem sabia que a maioridade ia triumphar e também que 
os maioristãs nâo tinhão condições de permanência 110 poder. 
Presentira a nossa força do momento pelo facto de não 
termos dado ás suas aberturas o devido apreço. Para calcular 
o desmantelamento do castello que se ia levantar não era 
mister ser Vasconcellos. 

Portanto, Vasconcellos, certo de que os oligarchas, que 
havião reentrado para o ministério sem o seu beneplácito, 
ião cahir com o regente, associou-se calculadamente á queda 
delles, para obriga-los a aceitar a sua direcção na hora da 
victoria que próxima se lhe affigurava, c que próxima estava 
com effeito. 

Aceitou o convite do Sr. Rodrigues Torres, e veiu pre- 
encher o que chamava as nove horas mais gloriosas da sua 
vida, gloriosas sem duvida, porque nunca provou melhor ser 
forte em estratégia politica, 

O decreto de adiamento e as scenas que se lhe s^;uirão 
constão dos jornaes da época. 

Consta igualmente, e está o facto authenticado até na 
acta da assembléa geral, publicada no Jornal do Commercio 
de 25 de julho, que o regente, o Sr. Pedro de Araújo Lima, 
foi comprometi ido pelos ministros oligarchas. a ponto de ir 
a S. Christovãó de manhã dar conta do adiamento das ca- 
marás, declarando que o seu fiin era unicamente preparar 
a solemtiidade para se proclamar a s de dezembro a maio- 
ridade do imperador. 

Já expliquei quaes erão as solemnidades com que os oli- 
garchas querião proclamar a maioridade. 

Lei do conselho de estado, que lhes garantisse a asso- 
ciação no governo da presente geração. 



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A CIRCULAR DE TIIBOPHILO OTTONI s8S 

Reforma do código, de sorte que a policia se tornasse 
omnipotente, 

Nomeação dos postos da guarda nacional pelo governo 
central. 

Nova lei de eleições, feita de modo que os agentes de 
policia tivessem larga influencia na designação dos votantes. 
Taes erão os arcos triumphaes com que, no interesse 
do seu ominoso domínio, querião festejar a maioridade. 

Nesses fogos de artificio qiieimavão sem consciência a 
constituição. 

Ou o imperador ouviu silencioso as communicações que 
o ministério oligarcliico lhe fazia por intermédio do regente, 
ou deu explicita approvação às medidas que lhe ião annunciar. 
Em todo o caso, o fim manifesto de Sua Magestade devia 
ser estudar até que ponto chegavão a imprevidência e cegueira 
ou do ministério ou dos conjurados. 

Mal se leu no senado o decreto de adiamento, uma cTas 
maiores glorias da medicina no Brasil partiu para S. Chris- 
tovão, encarregado de saber de Sua Magestade a sua ultima 
palavra acerca da maioridade, e de assegurar a Sua Mages- 
tade a vinda da deputação que o publico suppõz ser inspi- 
ração que acudira de momento aos deputados e senadores 
reunidos no paço do senado. 

O distincto medico tinha também a missão de saber de 
Sua Magestade se Sua Magestade esperaria pela deputação, 
ainda que o governo nomeasse outro tutor, como se dizia, 
e este convidasse a Sua Magestade para ir temporariamente 
residir em Santa Cruz. 

A resposta não foi demorada. Sua Magestade não iria 
em caso algum para Santa Cruz, e esperava a deputação. 

Sabe-se que o desenlace do drama correspondeu á espe- 
ctativa dos conjurados, deixando em relevo a alta sagacidade 
e discreta reserva de Sua Magestade o Imperador, qur *- — 
pôde, como certo imperador romano, estimar estas quali 
como das mais eminentes que tem : 

Nullam aeque c.v i-irlutibits suis quam dissimtilal 
àiUgcbat. 



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Mal triumphava a maioridade, já sobravão razões ao par- 
tido liberal para se arrepender de havc-la iniciado. Podia 
cobrir a cabe<;a mesmo no dia do triumpho. 

Ainda resoavão os vivas da festa, e já o governo pessoal 
se inaugurava com a nomeação do chefe da facção aulica, 
o Sr. Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho, para ministro 
dos negócios estrangeiros. 

E os maioristas não tinhao que estranhar. 

A deliberação do — quero já — , que havião solicitado 
c applaudido, era de muito mais importância do que uma 
composição de gabinete. 

A doutrina do governo pessoal decorria naturalmente do 
precedente estabelecido. 

Instincto ou inspiração, o imperador nomeou livremente 
o seu primeiro ministério. 

Cinco ministros forão tirados do grupo parlamentar que 
proclamara a maioridade. Erão os Srs. António Carlos e 
Martim Francisco, HoUanda e Paula Cavalcanti, e o Sr. Limpo 
de Abreu. O sexto era o ministro dos negócios estrangeiros. 

Se considerarmos o montc-pio dos servidores do estado, 
a casa de correcção, a navegação a vapor, a companhia de 
omnibus, e outras fundações úteis a que está ligado honro- 
samente o seu nome, Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho 
é um brasileiro benemérito, e já o era então. 

Mas, arredado da sccna politica jior ciúmes de prepon- 
derância, este notável estadista se afastara dos oligarclias, 
e se constituirá o fundador e pontífice da seita palaciana. 

Na grande batalha que se acabava de pelejar o Sr. Au- 
reliano se havia conservado em estudada neutralidade, e os 

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A CIRCULAR DE THEOPUILO OTTONI 30/ 

seus antecedentes cm relação aos collcgas b collocavao em 
perfeito antagonismo para com cada um delles. 

Mal se comprehendia, em vista da feliz solidariedade que 
se conservou inalterada entre os irmãos Andradas, que os 
dous superstites de bom grado se associassem no governo 
com o ministro que havia desterrado para a ilha de Paquetá 
e feito processar perante o jury o Andrada — primogénito, 
José Bonifácio — o Washington Brasileiro. 

Menos cordiaes ainda devião ser as relações com o 
collega da justiça, que, na qualidade de presidente de Minas, 
recusando cumprir um decreto do poder moderador, havia 
apressado a queda do ministério anti-restaurador, em que era 
figura proeminente o Sr. Aureliano. 

Donde vinha, pois, tão anómala organização de gabi- 
nete? Como fora aceita? 

Capricho infantil ou trama palaciano, o gabinete de 24 
de julho tinha no ministro dos estrangeiros o principio dis- 
solvente, 

O que ia fazer o ministério? Os seus dedicados amigos 
o ignora vão. 

Pela minha parte vi com a mais dolorosa sorpreza que, 
tomado o castello, depois de assedio tão prolongado e assalto 
tão perigoso, os generaes não houvessem içado nos torreões 
a nossa bandeira victoriosa. 

Como, porém, faze-lo se a organização ministerial não 
era o producto de uma combinação politica, nem exprimia, 
como se devera esperar, o triumpho do programma que a 
opposição sustentava desde 1838? 

Parecia que um dos corollarios immediatos do que decor- 
rera era a dissolução da camará dos deputados, e a convo- 
cação de outra que viesse reconsiderar o que pudesse haver 
de inconstitucional na legislação novíssima e iniciar a poli- 
tica do segundo reinado. 

Assim era preciso, até para que a soberania naci 
pronunciasse quanto ao bill de indemnidade de que c 
os autores da maioridade, 

A dissolução teria poupado á moralidade publica 
gonhoso espectáculo de uma camará que apoiou setr 
versar o ministério parlamentar de 1837, o ministério 



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388 REVISTA DO INSTITDTO HISTÓRICO 

ciai <íe 1839 e o ministério oligarchico de 1840, e que em 
seguida, depois de haver alternadamente condemnado c 
applaudído a maioridade, acompanhou servilmente o minis- 
tério maiorista, e terminou a sua carreira obnoxia como 
rabadilha do ministério palaciano de 23 de março de 1841. 
Mas, em vez do decreto da dissolução e prc^ramma 
ministerial, o publico foi edificado com os despachos que 
tiverão os ministros, primeiros agraciados da maioridade. 

Logo no dia seguinte ao da organisação do ministério 
o pontífice da seita palaciana vestia com a libré de cama- 
rista os seus cinco collegas. 

E os Andradas, sobre cujas cabeças venerandas resplan- 
jdecia o astro do Ypiranga, conforme a bella e verdadeira 
phrase do meu amigo o Sr. Salles Torres-Homem, tiverão 
de enfileirar-se nas ceremonias da corte com a criadagem 
imperial. 

Mais cavalheiros do que estadistas, os ministros que ha- 
vião incitado o imperador a trocar os seus estudos pelas 
rédeas do governo se achavão por essa circumstancia obri- 
gados a condescendências que senão impossíveis em outra 
situação. 

O tempo era excepcional, e a reacção absolutista, que 
os oligarchas havião suscitado para o fim de serem declarados 
beneméritos da monarchia, estava ainda no seu período ascen- 
dente. 

Logo que as camarás reabrirão as sessões jKirfiavão os 
oradores em mostrar-se cada qual mais realista do que o seu 
vizinho. 

A discussão do projecto que decretava a dotação do im- 
perador é uma pagina digna de estudo, Líberaes e conser- 
vadores, opposicionistas e ministeriaes. disputarão entre si 
quem do pão do compadre havia de dar mais lai^ fatia ao 
augusto afilhado. 

O Sr. António Carlos cobriu o lanço dos outros lici- 
tantes propondo 800 :ooo$, que forão votados de enthusiasmo. 
Ainda assim a imprensa dos oligarchas invectivou o minis- 
tério por não ter aceitado a emenda excêntrica do infeliz 
deputado Navarro, que concedia 1.000:000$ em quanto mais 
pão permíttisse a penúria do thesouro. 



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A CIIICULAR DE TIIEOI-IIILO OTTONl 369 

Quando se votava a dotação na camará dos deputados o 
venerável Martim Francisco celebrava sua primeira coníe- 
rencia e despacho com Sua Magestade o Imperador. 

Ao chegar de S. Christovão fui eu quem lhe annunciou 
a votação dos 8oo:cxx)$. «E' muito, me disse o honrado 
velho; o thesouro está pobre, e o imperador se contentava 
com menos. E' bom menino, tem latriotismo, e póde-sc fazer 
dcDe alguma cousa.» 

Em seguida me referiu que Sua Magestade exigira uma 
lista dos brasileiros que com os Andradas havião projectado 
a maioridade. 

Se, como é provável, a lista foi apres|entada, é a^ 
primeira em que o meu humilde nome foi submettído á alta 
consideração de Sua Magestade o Imperador. 

Approvada a dotação, tivemos scena igualmente des- 
fructavel com a decretação da nova festa nacional de 24 
de julho. 

Cortezanice ou epigramma, o Sr. Henriques de Rezende 
propoz por emenda que dos dias de festa nacional se riscasse 
o 7 de abril. 

No Jornal do Commercio de 26 de julho de 1840 vera o 
pequeno protesto que fiz contra a emenda do nobre repre- 
sentante por Pernambuco. 

< O Sr. Ottoni : — Não posso deixar de protestar contra 
a emenda que se acha sobre a mesa, e admira-me que fosse 
ella proposta pelo digno representante de Pernambuco. 
Quando se leu esta emenda eu recordei-me de um facto 
Decorrido no senado, depois do dia 7 de abril, a apresentação 
de um projecto pelo fallecido Sr. senador Gomide, riscando - 
o dia 12 de outubro do catalogo dos dias de festa nacional. 
Esta coincidência penalisa-me, e ainda mais por ver que a 
censura merecida pelo sobredito senador podia ser applicada 
a um cidadão tão distincto como o nobre deputado o Sr. Re- 
zende. O dia 7 de abril ha de ser constantemente de festa 
nacional; o dia 7 de abril não está nas mãos de ninguém 
risca-lo da memoria do povo. (Apoiados.)» 

Fallando assim eu quiz demonstrar que a torrente ainda 
não me tinha assoberbado, e que, soldado do progresso, me 
conservava com firmeza no meu modesto posto de honra. 

i.aoogie ' 



aço REYIBTA BO INSTITUTO SISTÒRICO 

Porém, conhecida a tendência dos espíritos, recolhi-me 
ao silencio e á inércia, reducto em que mais de uma vez 
me tenho entrincheirado, ora i>or considerar-me inferior á 
situação, ora por faUa de resolução para collocar-me em anta- 
gonismo com os meus amigos da véspera. 

A posição dos ministros era melindrosa. O deposto dos 
liberaes tão manifesto como o trabalho incessante do ele- 
mento palaciano, ({ue pretendia depurar o gabinete. 

Por sua parte os ohgarchas não cessavão de inculcar-su 
L'omo os únicos capazes de salvar a monarchia. Incutindo 
terrores no animo do monarcha, proclamavão-se homens ne- 
cessários, certos de que assim conquistariáo a posição de Cé- 
sares associados ao império. Segunda tenho repetido c cuido 
que demonstrado, esta era a sua idéa fixa. 

Como invejavão a excellente posição do Sr. Auretiano, 
querião tomar'lh'a, e foi contra elle que mais especialmente 
assentarão as suas baterias. 

Consultem-se os annaes do parlamento na sessão de 1840, 
e muito se terá que aprender na discussão do orçamento 
para a repartição dos negócios estrangeiros. 

Fora <So parlamento não se descuidavão os oligarthas 
de aviventar a fé dos traficantes da costa d'Africa, que erão 
os seus mais prestimosos alliados. Neste ponto o arrojo tocou 
a meta do delirio, e, para dar arrhas de sua adhesão ao 
trafico, um senador do império fez entrada triumphal em 
uma povoação importante da provinda do Rio, escoltando 
imia ponta de moleques de tanga e barrete vermelho, em ura 
domingo, á hora em que o povo estava reunido para ouvir 
a missa conventual. 

Declararão ao Sr. Hollanda Cavalcanti, ministro da ma- 
rinha, a guerra mais indecente, |X>rque S. Ex. deu ínstrucções 
aos commandantes dos navios de guerra para apprehensão 
dos barcos suspeitos. O conimandfinte de um lanchão que 
|)erturbou certo desembarque foi desembaraçadamente pro- 



Em taes circumstancias, cônscio, tanto das difficuldades 
com que lutavão os ministros, como da pureza de suas in- 
tenções, dei-lhes constantemente o roeu voto, bem que silen- 
cioso; mas, estando posto inteiramente á margem o pro- 



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K CtnCtLAR DE THEOPHILO OTTONI agi 

grãmma das franquezas provinciaes, e o ministério entregue 
á vida inglória do expediente, recusei ser seu collaborador 
official. 

E ao meu amigo o Sr. Limpo de Abreu, que íJor bondade 
sua me destinara um emprego eminente, tive a honra de pon- 
derar (|uc, estando próxima a elevação dos conservadores eu 
julgava melhor ficar de sentinella no aprisco liberal, onde, 
soldados da mesma idéa, breve estaríamos reunidos para de- 
bellar o inimigo commum. 

Encerradas as camarás, fui para a minha província 
absorver essa seiva vivificadora de que a ahna fica satu- 
rada quando se respira o ar livre da província de Minas. 

Quando voltei em 1S41 as scenas tialião mudado com- 
pletamente. O elemento palaciano tinha predominado. £, au- 
torisado o Sr. Aureliano para reorgaiiisar o gabinete, od 
oligarchas se havião prestado a coadjuva-lo com a mais sera- 
phíca humildade. 

Expiarão amplamente as injustiças que havião feito ao 
regente Feijó, exigindo um ministério parlamentar e con- 
demnando a intevenção das camarilhas nas organisações dos 
gabinetes . 

Ninguém lhes perguntou quaes erão os chefes parla- 
mentares que as camarás quererião elevar ao ministério. 

O elemento i^alaciano, que se havia achado mal na uni- 
dade em que estivera no ministério da maioridade pro- 
curou reforçar-se, e chamou para o seu lado o Sr. Araújo 
Vianna, docíl até a subserviência e mestre do imperador; o 
Sr. José Clemente, que outra politica não tinha que não fosse 
o pagamento de uns celebres 800 .■000$ a Guilherme Young, 
e que na ultima hora havia desertado das bandeiras oli- 
garchicas para apoiar a maioridade; e finalmente o Sr. mar- 
quez de Paranaguá, que fazia ranclio á parte. 

Aos oligarchas propriamente ditos concedeu-se somente 
e como que por favor um Ic^ar no ministério. 

A oligarthia do sul nunca foi um partido politico, mas 
sim um grupo de homens que associarão a sua influencia 
e a sua intelligencia, para explorar em próprio proveito o 
Segundo reinado. 



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392 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Creando terrores imaginários e imaginários perigos i>arii 
a iiionarchia, conseguirão acastellar-se em posições vitalícias 
rendosas, donde suscitão a seu bel prazer manifestações po- 
pulares, abalos financeiros e verdadeiras sedições, que, na 
qualidade de mestres do officio, são chamados a comprimir. 
E' a sua faina mais lucrativa. 

Que o digào a revolução de Minas em 1842 e a de Per- 
nambuco em 1S49. Formão uma espécie de companhia domi- 
nica com o seu geral e capítulos, recrutando os talentos sem 
consciência, que, certos da omnipotência da ordem na dis- 
tribuição dos donsi do estado, são nas mãos do seus supe- 
riores perinde ac cadáver. 

Governem liberaes ou i>alacianos, se um noviço da con- 
fraria é convocado para servir em qualquer posição eminente, 
ministério ou presidência, antes de ir, como é de regra, levar 
sua resposta a palácio, vai consuhar a vontade do synhedrim 
e receber as devidas instrucções. 
Por via de regra aceita. 

Ministro não discute em conferencia com os seus col- 
legas, ou mesmo em despacho com o imperador, assumpto 
que não tenha sido suffícientemente esclarecido nos capítulos 
da ordem, que assim imprime sua acção e direcção ao governo 
do estado. Esta explicação deve aclarar o que ha de obs- 
curo, e ás vezes de incomprehensivel mesmo, no procedi- 
mento de certos ministérios, instrumentos involuntários da 
iissociação mysteriosa. 

Já em 1S41 era assim. - 

E felizmente para a oltgarchia, o neophito convidado 
para fazer parte do ministério de 23 de março de 1841 era 
de primeira força. 

O Sr. Paulino José Soares de Souza, depois senador, 
visconde de Uruguay, era o relator que propoz e o ministro 
tjue sanccionou a reforma do acto addícional. 

Sob os auspicios do ministério de 23 de março de 1841 
desencadeou- se contra os ex-ministros o furor da oligarchia, 
que lhes não perdoava have-la defraudado do "seu dominio 
oito longos mczes. 

E eu, que apenas havia prestado ao ministério maiorísta 
um apoio silencioso na sessão de 1840, glorío-me de ter 



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A CmCULAR RE TIIEOPHILO OTTOSI 293 

occupado perennementc a trilnina em 1S41, defendendo os 
ex-ministros e os altos funccionarios que havião sahído das 
fileiras da opposição liberal. 

Também occupei numerosas vezes a tribuna por occasião 
de discutit-se a reclamação que fazia o súbdito inglez Gui- 
llierme Young da somma de 800:000$, como indemnisação 
de perdas e damnos que allegava em consequência de não 
haver o governo de 7 de abril recebido uma porção de arma- 
mento que lhe havia encommendatto em 1829 o ministro da 
guerra, o Sr. Clemente Pereira. 

Naquelle tempo ainda não se havia descoberto a Cali- 
fórnia dos créditos supplementares, com que os ministros 
legalisão toda a casta de despezas a que os leva a sua phan- 
lasia, reduzindo, como effectivamente teem reduzido, a lei 
úd orçamento á mais escandalosa das mystjfícações. 

Naquelle tempo ainda não havia camarás que fossem 
feitura exclusiva da policia, e tinha-se a pretenção — hoje 
risível — de que a lei da responsabilidade dos ministros de 
estado não fosse tetra morta. 

Assim, o governo de 7 de abril recusou receber a encom- 
menda, por que o ministro a fizera sem ter para isso fundos 
decretados na lei do orçamento. 

E a camará dos deputados decretou a accusação do mi- 
nistro, que foi levado á barra do senado, convertido em 
tribunal de justiça. 

O ministro defendeu-se produzindo um documento em 
que o negociante inglez declarava ter sido a encommenda 
condicional, ficando a recepção das armas e o pagamento de- 
pendentes de autorisação legislativa. 

O ministro foi absolvido, e o negociante vendeu ao go- 
verno, por mais do que o preço do custo, uma parte das 
armas, e com as restantes especulou, remettendo-as para o Rio 
da Prata e para a Grécia, então em guerra com a Sublime 
Porta. 

Passados annos, o vento começou a rondar para o qua- 
drante do absolutismo, e, portanto, era preciso honrar ci 
recompensar o ministro que havia armado no Ceará a Pinto 
Madeira, e que havia colmado de condecorações quantos se 
havião declarado em rebellião contra o systema constitucional. 

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394 BEVrSTA DO INSTITUTO IlIflTORICO 

Em consequência, foi levada ás camarás, sob a protecção 
do ministro eno^mmendante, a reclamação de perdas e 
daniiios, na importância de 8ooX)00$, somma a que se fazia 
chegar, mediante uma conta de juros compostos, o preço 
originário da factura apresentada em 1831, sem ao menos, 
fropter decus, abater-se a quota que na mesma occasião o 
governo de 7 de abril comprara e pagara. 

Abriu-se largo debate sobre a questão, em que me em- 
ptnhei com alguma tenacidade. 

Vinha o pedido documentado com uma sentença, bem ou 
mal emanada, do poder judiciário, e que pela.s tralhas e pelas 
malhas havia passado em julgado. 

Pretendeu-se que uma sentença do poder judiciário con- 
demnando a fazenda publica ao pagamento de uma somma 
de dinheiro obriga o corpo legislativo, sem mais exame^ a 
decretar os fundos para a execução da sentença. 

Fiz os maiores esforços para que nSo vingasse tão ruim 
principio. 

Se os poderes politicos creados pela constituição s5o inde- 
pendentes, um não se pôde subordinar, sem exame, ás deti- 
beraçScs do outro. 

A votação annua dos impostos 6 uma das mais seguras 
garantias do systema constitucional. 

Supponhamos que por falta de confiança no ministério 
as camarás recusão os impostos e que o ministério de auto- 
ridade própria levanta um emprestimo-e o applica ao seniço 
publico. 

No meu entender, voltando a situação ao estado normal, 
o ministério subsequente não pôde fazer a despeza do ser- 
viço desse empréstimo sem que as camarás a decretem. 

Supponhamos que as camarás se recusem a amortizar 
esse empréstimo illegal. 

Os possuidores dos titulos do empréstimo podem sem 
duvida ventilar o seu direito perante os tribunaes judiciários 
te estes reconhecer-lh'o. 

Mas a sentença judiciaria não ê exequível sem o placet 
do corpo legislativo, grande jury neste caso. 

Desta theoria, que sustentei como pude, derivei o corol- 
lario de que, assim como as sentenças do poder judiciário 

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,A CIRCni.AR DF THEOPHILO OTTONI 295 

não podem coarctar a liberdade de exame ao poder legislativo 
quando importão novos ónus aos contribuintes, assim também 
os actos do poder le^alativo que possão prejudicar as attri- 
bui^ões e regalias que a constituição confere a qualquer dos 
cutros poderes não são obrigatórios para estes. 

E' uma alta questão constitucional que eu muito dese- 
jaria ver aprofundada pelos jurisconsultos abalisados que 
abundão entre nós. 

Eu sustentei, por exemplo, que, se o corpo leipsUtivo 
decretar uma lei inconstitucional, o poder judiciário pôde, 
como os tribunaes da união, nos Estados-Unidos, não applicar 
essa lei aos casos occurrentes. 

E do contrario os poderes não serião independentes. 

Assim como dizemos estados independentes aquelles que 
são soberanos em relação uns aos outros, parece que dos po- 
deres independentes podemos também dizer que são sobe* 
ranos uns em relação aos outros, isto é, que a nenhum obrigão 
os actos dos outros quando não são traçados dentro da orbita 
de cada um. 

Se o poder legislativo ordinário decretasse, por exemplo, 
a mudança da dynastía, sem duvida o poder executivo estaria 
no seu direito considerando como papel sujo um tal decreto, 
porque as camarás exorbitarião de suas attribuições se a 
promulgassem. 

E o poder legislativo não pôde dar ordens ao poder 
cxeci^ivo, que é independente, ou por outra soberano dentro 
da orbita de suas faculdades. 

Cuido que o mesmo se deve dar a respeito do poder 
judiciário. 

Sou, porém, o primeiro a confessar que esta juris- 
prudência, de cujo fundo de verdade estou compenetrado, é 
sobremodo singular no nosso paiz, onde o juiz municipal, o 
de direito, o tribunal do commercio, e não sei se até o da 
relação, consultão aos ministros do poder executivo acerca 
da intelligencia dos actos legislativos, e gastão o seu tempo 
estudando a jurisprudência dos avisos e portarias. 

Revoltava-me a condescendência c a amabilidade com que 
os antigos chefes do partido parlamentar, que apeou Feijó 
da regência, agora se curvavão perante o reposteiro. 

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296 REVISTA DO INSTITUTO mSTORICO 

No anuo da graça de 1841 quem ousava fallar em facção 
aulica era, sem ceremonia, proclamado anarchista. 

Estavão os óligarchas enfeitando os arcos festivos com 
que em 1840 querião festejar a maioridade. 

A reforma do código do processo, abastardado o jury, 
generalisada a prisão arbitraria a titulo de averiguação, sup- 
primida a inviolabilidade do asylo que a constituição tinha 
garantido á casa do cidadão, entr^ues aos espiões da po- 
licia as funcções judiciarias, preparou o domínio absoluto 
para o governo pessoal. Hoje o conhece e deplora talvez 
a própria oligarchia. 

Mas em 1841, no interesse de associação, o conselho de 
estado deixou de ser conselho veneziano dos dez. Consagrado 
cm lei, deixou de ser inconstitucional, porque fundava-se em 
proveito da oligarchia, e era o terrível reducto em que ella 
ia acastellar-se, conquistando os óligarchas a posição de Cé- 
sares associados ao império. 

Era preciso a todo o transe inutilisar a opposíção liberal, 
que lhes fazia frente. 

Para esse fim continuarão a trama revelada na tribuna 
quando se discutia a maioridade. 

Nessa occasião o chefe mais hábil e mais prestigioso 
dos óligarchas, mas ao mesmo tempo o mais franco e mais 
generoso, havia intimado ao partido liberal e ao paiz o seu 
ultimatum. 

No Jorna! da Commerdo de 19 de julho de 1840 i'êm as 
seguintes memoráveis palavras do Sr. Carneiro Leão : 

< Eu o que receio, senhores, é que as cousas não se es- 
tejão preparando para fazer eleger uma camará opposicionista 
ao Sr. D, Pedro II. Se tal apparecer declaro desde já que 
o Brasil se declarará contra toda essa camará; se tal acon- 
tecer, quando O Sr. D. Pedro II governar com todos os po- 
deres magestaticos que a constituição lhe concede, seus con- 
selheiros não deixarão de representa r-lhe que uma assembléá 
eleita debaixo das influencias perniciosas que actualmente 
dirigem os destinos do Brastl não pôde ser apropriada para 
cooperar com o Sr. D. Pedro II. > 

Vê-se, pois que antes da maioridade os óligarchas, se- 
nhores de todas as i>osições officiaes de alguma im|K>rtancÍa, 



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A CIRCWLAR DG TltEOMtlLO OTTONI 307 

com esses e outros meios de influencia que tínhão, contavão 
derrocar e substituir de prompto qualquer ministério que 
o imperador organisasse, e de antemão nos intímavão a guerra 
de extermínio que nos estava preparada. 

As palavras que o Sr. Carneiro Leão proferiu no par- 
lamento em 1840 serião uma jactância indiscreta se não ficasse 
transparente o fim que levavão em mira. 

Era uma advertência feita aos seus soldados da camará 
f de fora para não se apressarem a fazer engajamentos 
com os commandantes interinos que ião ter, visto que os pro- 
prietários não tardarião a empunhar o bastão, que lhes per- 
tencia et par droit de naissance et par droit de conquèle, 
< Se decretardes a maioridade, dizia-nos o Sr. Carneiro 
Leão para aviventar a fidelidade dos seus satellites, se con- 
seguirdes nomear uma camará de deputados das vossas 
idéas, desde já a proclamamos camará de opposição ao im- 
perador, e protestamos que havemos de enxota-la do paço 
l^slativo. porque não permittimos que ninguém seja mo- 
narchista senão os oligarchas. » 

Quando ouvi aquellas palavras em 1840 confesso que 
lhes não dei todo o peso que devia dar, até porque o orador 
qile as proferiu não costumava discorrer em vão. 

Na sessão de 1841 o Sr. Carneiro Leão annunciou que 
a letra sacada da tribuna em 1840 havia de ser aceita o 
mesmo p^a antes do vencimento. 

Estudou-se na tribuna cynicamente o meío pelo qual a 
oligarchia se havia de descartar dos seus adversários, que em 
grande maioria estavão eleitos para a seguinte legislatura. 
Primeiramente se declarou que o governo bem podia dis- 
solver a camará, que estava terminando o quatriennio, e que 
ri dissolução desta importaria a da camará eleita. 

Reconhecido o absurdo deste expediente, imaginarão o 
discutirão outro que o não era menos, a dissolução prévia e ao 
mesmo tempo um golpe de estado, por virtude do qual se 
desse por nullo o acto addicional, a pretexto de que na sua 
adopção não havia intervindo o senado. 

Na discussão apparecêrão em frente um do outro os dous 
princípios que estão em luta eterna em todos os governos 
possíveis, o principio progressista e o conservador. 



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398 REVISTA DO INeriTDTO HISTÓRICO 

A grande táctica dos oligarchas consistiu em procla- 
marem-se os arautos exclusivos do principio conservador, que 
exagerarão a capricho. 

Era um meto de ganhar terreno no espirito do joven 
monarcha, sendo o fim tanto mais fácil de alcançar, porque 
os representantes progressistas defendião os princípios sem 
estratégia e sem pensamento reservado. 

Aproveitando-se de nossa sinceridade, exageravão as 
theorias oppostas, certos de que assim fazião a corte e le- 
va vão a agua ao seu moinho. 

De exageração em exageração, o Sr. Carneiro Leão 
chegou a formular como expressão resumida do seu symbolo 
politico este notável theorema : 

< O governo é sempre legitimo a cuja frente está o im- 
perador. » 

Para symbolisar a politica opposta, eu sustentei que, se o 
governo do Rio de Janeiro dissolvesse previamente a camará 
dos deputados, e declarasse nullo o acto addicionai, seria para 
mim um governo de facto tão legitimo como o de Piratinim . 

E' fácil de avaliar qual das duas theorías agradaria mais 
ao governo pessoal. 

Mediante esta explicita profissão de fé que os oligarchas 
corroborarão annullando todas as garantias que a legislação 
anterior concedia ás liberdades publicas, ficou decidido que 
a situação lhes pertencia exclusivamente e que as suas con- 
dições esta vão aceitas. 

Pensavão que, entrincheirados como estavâo no senado 
e apoderanJo-se do conselho de estado, que estavão decre- 
tando, erão homens necessários, que podílo dar a lei tanto ao 
povo como ao monarcha. 

Cedo tiverão de verificar que com a machina executiva 
f judiciaria que havião montado não havia mais poder effe- 
ctivo no Brasil senão o de quem nomeia os ministro.i. 

Cedo tiverão de reconhecer que, fautores da iniquidade, 
não ficarião preservados contra os corollarios naturaes da 
sua theoria. e que, se quizcssem continuar a desfructar as 
gordas pitanças que ageitassem ou tivessem ageitado. terião 
de passar humildemente pelas forcas caudinas do palácio. 



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A CIRCULAR nP TIIKOPHIIXI OTTONI ' 399 

Em 1841 estávamos em plena reacção e nmguem via 
as ultimas consequências da situação. 

Não pretendo escrever a historia dessa memorável sessão, 
mas simplesmente explicar-vos, Srs. eleitores, que no fim da 
legislatura eu advc^va os mesmos principios que tinha invo- 
cado no começo, e que era coherente comigo mesmo. E que 
tinha seguido o preceito: Qualis ab incoepto processerit, et 
sibi constei. 

Para esse fim porei diante dos vossos olhos alguns pe- 
ríodos de um longo discurso que proferi na sessão de 12 de 
julho por occasião de discutir-se o orçamento do império 
e que foi publicado no Jornal do Commercio de 14 de julho 
de 1841. 

\"ereis também do meu discurso que já nessa época, isto 
é. ha quasi vinte annos, eu estudava seriamente a m^na 
questão das communicações do centro e norte de noss^ pro- 
vincia com o litoral adjacente. 

Entendia que não erão proveitosamente applicados os 
esforços para abrir estradas de Marianna e Ouro-Pretp para 
a Victoria, mas já então indicava as estradas de Itapemirim, 
S. Fidelis e Mucury como as que tinhão mais actualidade. 
O tempo provou que eu estava bem informado : o povo, sem 
auxilio algum do governo, tem aberto estradas para S, Fi- 
delis, Itabapoana e Itapemirim, no sul do Espirito Santo, 
e a companhia do Mucury as communicações desta corte com 
o norte de Minas. 

Entendia, como igualmente vereis do meu discurso, que 
era preciso proteger a companhia do Rio-Doce, que muito 
podia ter feito em prol do commercio e engrandecimento da 
Ilabira e do Serro, se o governo a não deixasse morrer des- 
prot^ida e abandonada. Mal podia eu imaginar em 1841, 
quando intercedia em favor da companhia do Rio-Doce, que 
\ ínte annos depois eu seria director de uma companhia seme- 
lhante, c que lutaria com difficuldades análogas ! 

Na rede dos meios de communicação dos Abrolhos para 
o sul figurará no futuro o Rio-Doce, como dependência que 
é, tanto cnmo o Mucury. do porto de Caravellas. 

«O Sh, Ottoni: — Sr. presidente, o discurso do nobre 
ministro do império tomou cm consideração o que cu disse 

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300 RF.V19TA DO INSTITUTO llISTOBiro 

sobre estradas de communicação entre a província de Minas 
e o vasto litoral compreheiKÍido entre a barra do Parahyba 
c a barra do Jequitinhonha no Belmonte, on a do Rio-Pardo 
em Cana-Vieiras. 

« No meu discurso a este respeito mostrei quanto o 
relatório bavia sido lacónico sobre taes objectos. Sr. presi- 
dente, sem duvida que uma das matérias de mais transcen- 
dência que estão commettidas especialmente ao ministério do 
império é o melhoramento das vias de communicação. La- 
mento tanto laconismo da parte do nobre ministro no seu 
relatório, tanto laconismo nesta discussão. 

« A censura que fiz, especialmente acerca da companhia 
do Rio-Doce, o nobre ministro a justificou trazendo á casa 
'informações que deverião estar consignadas no relatório. 
Sr. presidente, ha dous ou três mezes que se achão apodre- 
cendo, no porto do Rio de Janeiro, uma ou mais embarcações 
da companhia, por causa das difficuldades suscitadas pelo go- 
verno ou pelos seus agentes. Eu estou bem certo que o 
governo não pôde ter desejos de suscitar embaraços á com- 
panhia; mas entretanto era preciso que essas difficuldades ti- 
vessem já cessado. A companhia, com muita razão, se recusa 
a pagar a siza do valor de embarcações que lhe são próprias, 
c a respeito das quaes exige-se o pagamento, segimdo in- 
formou o nobre ministro, i>elo simples facto de mudarem 
a bandeira ingleza que trouxerão para a bandeira nacional. 

< Supponho que com isto não ha transferencia de do- 
mínio, são os mesmos proprietários, e somente por esta mu- 
dança de bandeira não se devia exigir a siza; mas, quando 
a legislação fosse duvidosa a este respeito, o governo devia 
p.pressar-se em trazer ao conhecimento da camará estas diffi- 
culdades. Não sei mesmo qual é a deliberação do governo, 
desejava sabe-la em tempo de poder offerecer um remédio 
na lei do orçamento. Estou certo que a camará não recusaria, 
no caso do governo dever exigir da companhia o pagamento 
da Siza ; estou certo que a camará, em attenção á importância 
e magnitude da empreza, não se recusaria a alliviar a com- 
panhia deste e de outros pagamentos iguaes; mas, para se 
offerecer uma emenda a este respeito, é preciso que o nobre 



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A CmCULAll DE TIlEOrUlLO OTTOKI 301 

ministro me iiiíonne definitivamente qual é a intenção do 
governo. 

« A respeito das communicaçôes da província de Minas 
com o litoral, lamento que o nobre ministro nada respondesse. 
Eu tinha em vista, quando fiz algumas considerações em 
outra occasião, nâo só chamar a attenção do nobre ministro 
sobre este importante objecto, como excita-lo também para 
que os dinheiros públicos não fossem despendidos de uma 
maneira, ou improfícua, ou menos vantajosa. Estando eu 
na província de Minas, recebi a cópia de uma interessante 
memoria, escripta sobre a estrada chamada do Rubim, que 
communica a província do Espirito-Santo com a província de 
Minas, pelos rios Guandu e Manhuassú ao termo de Ma- 
rianna, nos dístrictos da Ponte-Nova e de Casca. 

« Esta memoria foi escripta pelo muito digno ex-pre- 
sidente da província do Espirito Santo, o Sr. José Joaquim 
Machado de Oliveira, que o governo apressou-se em demittir, 
c accrescentou á demissão dada a este benemérito servidor 
o menosprezo com que tratou aquella sua aliás importante 
producção. O nobre ex-presídente me communícára em uma 
carta que enviara á secretaria do ímperio a sua memoria. 
Creio que ella deve existir na secretaria, mas não mereceu 
menção no relatório do nobre ministro, quando o nobre mi- 
nistro fallou a respeito das estradas de communícaçào do 
Espirito-Santo com Minas, que não podião ser senão as duas 
únicas actualmente em projecto, que são a estrada de Ita- 
pemirim, que vai ter á barra deste rio e vítla do mesmo 
nome, e a estrada de Rubim, que vai ter á bahia da Victoria. 
Mas o nobre ministro nada disse a este respeito, e eu de- 
sejo que S. Ex- tome em consideração essa memoria, e que, 
entretanto, examine o que eu disse a respeito da maior uti- 
lidade de promover as communicações do município do Pre- 
sidio com o de Campos, e o do município de Minas-Novas 
com as comarcas de Caravellas e Porto-Seguro. 

< As duas estradas que se dirigem do Espirito-Santo 
l>ara o centro da província de Minas, para a capital da pro- 
víncia, teem a distancia de 6o a 70 léguas. 

€ Ora, sendo a distancia do Ouro-Preto ao Rio de Ja- 
neiro quasi a mesma pela estrada do Parahybuna ou pela 



i,CoogIc j1 



30* RBVISTA DO INSTITUTO BlflTORICO 

estrada do Mar de Hes]panha; sendo estas duas estradas 
muito mais frequentadas; estando já consideravelmente me- 
lhoradas, a ponto de em muitas léguas poderem já actualmente 
iodar carruagens; atcrescendo que o mercado do Rio de 
Janeiro não pôde ter comparação alguma com u insigni- 
ficante mercado da Victoria: é evidente que, nas actuaes 
circunistancias, seria talvez em pura perda a despeza que 
o governo fizesse mandando abrir aquellas estradas. En- 
tretanto, 05 sacrificios que o governo parece inclinado a fazer 
jior aquelle lado, se os fizer pelo lado do Presidio a Campos, 
ou pelo lado de Minas-Novas, comniunícando este munjcipio 
com Caravellas e Porto-Seguro, podem trazer extraordinária 
vantagem, porquanto os municípios do Presidio e da Poniba, 
na [Kirte (|uc pôde ter relato immediata com a cidade de 
Canii)os, cujo mercado é já alguma cousa considerável, com- 
prehende uma iiequena distancia, talvez menos de metade 
da distancia que ha desse ponto para a capital do império. 

cO Sr, P. Cândido: — Metade precisamente. 

«O Sr. Ottoni: — Metade precisamente, diz o nobre 
deputado. Já se vè, pois, que grandes vantagens se podem 
tirar de qualquer sacrificio que se fa^ para accelerar esta 
coramunicação. No momento em que o productor mineiro 
daqucllas paragens puder levar a Campos os seus productos 
imniedi atam ente deixa esta dispendiosa e muito mais longa 
estrada do Parahybuna e Mar de Hespaiiha, e, mesmo 
quando tenha de vir procurar o grande mercado da corte 
fa-lo-ha com mais vantagem indo embarcar os seus productos 
na cidade de Campos. 

< Ora, a respeito de Minas-Novas a vantagem é ainda 
mais considerável. 

« O municipio de Minas-Novas aproveita-se já do Je- 
qui tinlionha e de sua nascente e insignificante navegação 
para obter alguns géneros de primeira necessidade da Bahia ; 
nmitos outros desses géneros, ou se vão buscar em costas 
de bestas á cidade da Bahia, ou ao Rio de Janeiro, cami- 
nhando-se por terra a distancia de 150 para 200 léguas: en- 
tretanto, toda esta interessante comarca está em muita vizi- 
nhança com Porto-S^uro e Caravellas; a população tem 
affluido para aquelle lado, e, se se facilitarem as comum- 



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A circdlar de thbophilo ottoni 303 

nicaçÕes, o algodão, interessante ramo de producção <ia 
industria agricola de Minas-Novas, e que hoje talvez não 
se produza em maior escala por causa das despezas extra- 
ordinárias do transporte, inimediatamente Iteiá um incre- 
mento considerável, porque, ein vez de se transportar este 
producto por 150 ou 200 léguas, poder-se-ha transportar por 
20 ou 40 léguas. Creio que, á vista destas considerações, o 
nobre ministro procurará antes^^lsr impulso á communícação 
da provinda de Minas por estas duas extremidades do que 
pelo centro com a província do £spÍrito-Santo. 



€ O nobre deputado (o Sr. Carneiro Leão) yeiu de 
alguma maneira confirmar as minhas apprehensões acerca 
do acto addicional. Eu peço á camará que haja de pensar 
bem nas palavras do nobre deputado a este respeito. O 
nobre deputado, depois de fazer ver que só admitte os 
golpes de estado, não como jurisprudência ordinária, mas 
em casos excepcionaes, depois de haver declarado que o acto 
addicional havia peccado em sua origem, que tinha defeitos, 
e que o nobre deputado, apezar de receber os factos con- 
summados, ainda não se tinha desviado de seus príncipios 
a respeito da origem desse acto, accrescentou que não devia 
haver receio algum na actualidade I 

«O Sr. Carneiro Leão: — Porque não tenho a pre- 
sumpção de prever o futuro ; é o que isto prova unicamente. 

« O Sr. Ottoni : — O nobre deputado passou a explicar 
mais este seu pensamento. Depois de dizer que na actualidade 
não podia ser conveniente de modo algum semelhante golpe 
de estado, passou a dar os motivos porque o governo não 
poderia da-lo, não porque não fosse justo que o governo lan- 
çasse mão deste recurso, mas somente porque, estando actu- 
almente empenhado em uma guerra para conservação da 
integridade do império, não devia chamar sobre si mais diffí- 
culdades. 

« Quaes são os corollarios que daqui se podem tirar ? 
O governo não deVe dar por ora o golpe de estado para 
annullação do acto addicional, pelo receio de que deste golpe 
nasção reacções e se venhão a complicar as difficuldades. 



. Cooglc 



3«4 



KBVISTA DO INSTITUTO litSTOlUCO 



Eni ultimo resultado, a guerra do Rio-Grande do Sul, a 
rebellião do Rio-Grande do Sul, no entender do nobre depu- 
tado, é a única difficuldade que pôde haver para supplA- 
tar-se o acto addicional. 

cO Sr. Caunkiro Leão: — E' má lógica. 

< O Sr. Ottoni : — E' como a do nobre deputado, que, 
sendo muito forte em argumentar, não vejo que o fosse muito 
no discurso a que respondo. 

€ Attendendo-se, pois, a este motivo que deu o nobre 
deputado, póde-se dizer que a guerra do Rio-Grande do Sul 
é quem conserva o acto addicional, Veja-se o perigo que 
pôde resultar das inducções que naturalmente nascem das 
palavras do nobre deputado. 

€0 Sr. Carneiro Leão: — Taes inducções com ef feito 
são perigosas, e por isso é que as combato. 

«O Sr. Ottoni: — Mas, se tal é o pensamento occulto 
do governo, e se espera unicamente achar-se com os braços 
livres pelo lado do Rio-Grande do Sul para dar esse golpe 
de estado, está o governo muito enganado: nem o exercito 
legalista que ha de pacificar o Rio-Grande servirá de instru- 
mento para quaesquer machinações iniquas contra a consti- 
tuição do estado. (Apoiados.) 

<Eu tinha dito que, no caso do governo annullar as 
eleições da camará futura, contra todo o direito e contra 
a constituição, se continuasse a praticar medidas de seme* 
Ihante natureza, toma-se-hia um governo de facto. O nobre 
deputado de S. Paulo sem duvida estranhou também uma 
jiarte de minha proposição, e não attendeu ao todo delia. 
Eu não declarei que o acto da dissolução da camará era por 
si sô motivo pATi declarar o governo do império o governo 
de facto. Lá está no Jornal do Commercio o meu discurso 
tal qual o proferi, e appello demais para a memoria da 
casa. Eu disse que, se o governo praticasse esse acto, que 
eu considerava contrario á constituição, e continuasse a pra- 
ticar actos semelhantes, isto é, actos contrários á constituição, 
entre os quaes estava sem duvida o que eu mencionei, de 
annullar o governo de autoridade própria o acto addicional, 
em taes circumstancias o governo tornar-se-hia um governo 
(ie facto, tão legitimo como o de Piratinira. 



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A CIRCULAR DE THEOPHILO OTTOKl 30$ 

« O Sr. Carneiro Leão : — Isto é o que eu nego. 

< O Se. Ottomi : — Tão legitimo como o governo de Pi- 
latinitn. 

tO Sb. Carneiro LeÃo; — Essa proposição ha de ser 
refutada; mas quem se atreve a refutar seus discursos são 
iras e cóleras. 

€ O Sr. Ottoni : — Da minha parte é que é ousadia 
muito grande refutar o nobre deputado ; mas tenha paciência. 

«O Sr. Carneiro Leão: — Eu gosto que o senhor se 
occupe de mim. 

« O Sr. Ottoni : — O nobre deputado disse que pouco 
falta para que esta doutrina seja semelhante á de algimi 
convencionista incendiário, e que o governo é sempre legi- 
timo a cuja testa está o poder moderador. 

c (Lê a parte do discurso do Sr. Honório.) 

« Ora, Sr presidente, em primeiro logar tomarei em 
consideração o que me diz respeito, e especialmente neste 
período do discurso do nobre deputado, em que elle qualifica 
a doutrina enunciada na proposição a que ha pouco me re- 
feri como anarchica, incendiaria, própria dos convencionistas, 
e somente tolerável no club dos Sansculottes . Se a minha 
proposição é anarchica e incendiaria, não sei como possa 
qualificar a doutrina do nobre deputado, de que p governo 
do monarcha é sempre legitimo era todos os casos; não sei 
como possa qualificar a doutrina que annulla o direito de 
resistência e de insurreição. 

«O Sr. a. Machado: — Esta doutrina é própria par* 
At^l e Constantinopla. 

«O Sr. Ottoni: — Mesmo em Constantinopla somente 
é própria para ser proferida pelos eunucos do sultão ás 
portas do serralho. (Apoiados da opposição.) Mesmo lá as 
revoluções protestão contra a doutrina. Mas examinemos a 
questão. 

« O Sr, Carneiro Leão : — Ahi é que é o principal. 

« O Sr. Ottoni : — O governo a cuja frente está o poder 
moderador é sempre legitimo, dada mesmo a hypothese de 
que seja destruída a constituição. 

«O Sr. Carneiro Leão: — De violar. 



«ibyCoogIe 



306 RinSTA DO INSTITUTO HIBTORICO 

'« O Sr. Ottoni : — O nobre deputado admittíu até a 
liypothese de destruição da constituição ; mas eu admitto que 
tivesse dito — violar — ; é já um principio de retracção do 
nobre deputado. O nobre deputado modificou o seu discurso, 
mas lé deixou estas plavras: «O govemp a. X-uja. testa 
está. . . » 

{Ouvem-se numerosos apartes dos differentes lados da 
camará.) 

c O Sr. Ottoki {Depois de uma pequena pausa) : — 
■€ O governo a cuja testa está o monarcha é sempre legitimo. 
O imperante é sempre chefe do governo Intimo; é sempre 
legitimo o governo a cuja testa está o imperador.» Ora, 
examinemos primeiramente esta questão com os factos da 
casa. 

« Esta doutrina annulla evidentemente o direito de in- 
surreição e resistência ; considera em todos os casos a resis- 
tência criminosa, a insurreição illegitima. 

« O Sr. Carneiro Leão dá um aparte que não ouvimos. 

€ O Sr. Ottoni ; — O nobre deputado guarde para de- 
pois a resposta, afim de refutar os princípios que s^uiu 
em 1817; mas agora tenha a bondade de me ouvir. 

c Na opinião do nobre deputado a resistência pôde deixar 
de ser sempre criminosa contra um governo que é sempre 
legitimo. 

< Não quero mencionar as tentativas que o Brasil fez 
antes de 1821 para conquistar a sua liberdade e independência: 
não commemorarei os esforços nobres desses illustres mi- 
neiros, que em 1790 procurarão sacudir o/jugo de Portugal, 
o jugo do despotismo; não trarei â casa os motivos hon- 
rosos que impeli irão os patriotas pernambucanos a iniciar 
este movimento grandioso em 1817. (Apoiados.) 

« Começarei em 1821. Já não era então o Brasil colónia de 
Portugal, mas um dos três reinos da monarchia portugueza; 
havião-se installado as cortes da nação portugueza; o mo- 
narcha legitimo dos três reinos, D. João VI, se achava em Por- 
tugal á testa do governo dos três reinos ; por consequência, o 
governo de Portugal era em 1821 a respeito do Brasil o 
governo único legitimo. Entretanto, o Brasil, depois de ter 
nomeado deputados ás cortes geraes e extraordinárias da 



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A CIRCOLAR BE THEOPHILO OTTONI 307 

nação portugueza, reconheceu que o governo de Portugal 
não correspondia a suas intenções e calcava aos pés, direitos 
que j4 tinha como reino que era e parte integrante da nação 
portugueza. Em taes circumstancias, qual foi o nosso com- 
portamento? Corremos ás armas, procurámos decidir a questão 
como rebeldes, porque é o que éramos a principio. 

«O Sr. Martim FRANasco : — Muita gente ainda pensa 
que o somos e nos trata como taes. 

cO Sr. Ottoni: — Emfim, a rebeUião grassou desde 
o Pará até o Uruguay : as armas dos rebeldes ganharão tri< 
umphos gloriosos, e humilharão as quinas, vencedoras em 
outras épocas {apoiados) ; e entretanto a quem se fazia a 
guerra? Ao governo legitimo, a cuja testa estava o Sr. D, 
João VI. E' preciso, pois, que façamos amende honori^le 
do nosso comportamento. 

«O Sr. Casneiko Leão: — Ha uma confusão manifesta 
de idéas. 

«O Sr. Ottoni: — Os rebeldes, que tomá!rão as armas 
para chamar o governo de Porti^l ao cimiprimento de seus 
deveres, entenderão que, á vista da falta de fé com que 
aquelle governo nos pretendeu tratar (a nomeação dos depu- 
tados ás cortes de Lisboa provou que os brasileiros estavão 
resolvidos a continuar a fazer parte da monarchia portu- 
gueza), era violado o pacto fundamental da monarchia pelas 
cortes e pelo monarcha a respeito do Brasil; e, longe de 
considerarem como verdadeira a doutrina do nobre deputado, 
correrão ás armas, tendo ã sua frente o Sr. D. Pedra I, re- 
belde a seu pai, a seu monarcha e á sua nação. Veja o nobre 
deputado se pretende que a memoria deste principe expie 
esse crime, visto que declarou-se contra um governo que, 
s^undo os principies do nobre deputado, era o único In- 
timo, só pelo facto de que o monarcha estava á testa desse 
governo. 

« O Sr. Carneiro Leão : — Admira-me como se con- 
fimdem assim todas as idéas. 

«O Sr. Ottoni: — o nobre deputado nio pôde dar 
outra resposta senão generalidades desta natureza. 

«O Sr. Carneiro LeÃo: — Eu lhe mostrarei se lhe res- 
pondo tom generalidades. 

DigtizedbyGOOgle 



30B REVISTA DO INSTITUTO mSTORlCO 

« O Sr. Ottoni : — E também deste lado haverá quem 
replique. 

«O Sr. Carneiro Leão : — Não me assusto com as res- 
postas. 

«O Sk. Ottoni: — E' certo que a coragem do nobre 
deputado é invencível. (Risadas.) Mas pergunto se o governo 
de Portugal, havendo violado o pacto social a respeito do 
Brasil, quando nós lhe faziamos a guerra naquella occasião, 
-era para o Brasil mais legitimo do que o governo de Pira- 
tiním? Creio que não: ambos erão tll^aes e illegítímos; 
tanto o governo de D. João VI como o de Piratinira estão 
nas mesmas circumstancias ; um, porque não quer submet- 
ter-se; e outro, porque não queria que subsistíssemos como 
nação, quando já o éramos. Entretanto, o governo de 
D. João VI era, na opinião do nobre deputado, sempre 
legitimo, porque á sua testa estava o rei. O nobre deputado 
vai para diante com a sua argumentação. A respeito do 
aparte que dei, quando disse que na verdade o governo do 
imperador do Brasil era legitimo, mas emquanto existisse 
constituição, o nobre deputado declarou que não havia tal. 

« O Sr. Carneiro Leão : — Eu não ouvi dessa maneira : 
bem sabe que quem está orando não pôde ouvír bem os apartes. 
Pela resposta que dei bem se vê que não entendi dessa 
maneira. 

«O Sr. Ottoni: — O nobre deputado disse: [Lê parte 
do discurso do Sr. Carneiro Leão.) Por consequência, na opi- 
iiião do nobre deputado, a legitimidade do imperador não 
vem da constituição. 

«O Sr. Carneiro LeÃo: — Não vem só da constituição, 
« O Sr. Ottoni : — Vou chamar os factos da historia da 
Qossa independência em meu apoio. O nobre deputado diz 
que a Intimidade do imperador não vem só da constituição, 
porque elle é imperador por unanime acciamação dos povos. 
Quando a constituição falia em unanime acciamação dos 
povos não menciona um facto, mas dá um título. E nem de 
outra sorte se podia considerar esse artigo da constituição, 
porque o Sr. D. Pedro I não foí acciamado unanimemente. 
Sabe-se que houve dissidências, tanto de brasileiros, que pre- 
tendião outra forma de governo, como do partido portt^ez. 



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A ORCOLAR DB THBOPttILO OTTONI 309 

que pretendia recolonísar-nos. Por consequência, não foí accla- 
mado unanimemente, e não é da acclaraação que vem o titulo, 
mas da constituição. 

€ Eu appello para os factos e para a liistoria da revo- 
lução que começou em 1821. O fim dessa revolução era a 
liberdade : é por ísso que todo o Brasil, nomeando deputados 
para as cortes de Lisboa e tendo ficado príncipe r^ente o 
Sr. D. Pedro I, em 2 de março se exigiu que se começassem 
a formar certas instituições tendentes ad estabelecimento 
do governo representativo. Tal foi o' estabelecimento da li- 
berdade da imprensa, que teve logar em 2 de março de 1821, 
abolindo-se a censura prévia, que então existia, tal foi o 
juramento das bases da constituição portugueza, que o povo 
reunido exigiu que fosse prestado peta familia real, e taes 
forão outros muitos factos que occorrèrão em 1821. 

« Em 1822, quando apparecérão as tentativas das cortes 
de Lisboa, para roubar ao Brasil as prerogativas de que já 
gozava, o Brasil come^u a agitar-se mais, trabalhando ao 
mesmo tempo para a liberdade e para a independência, nunca 
perdendo de vista o fim a que primeiro se propoz, que era 
a liberdade. 

« Em i6 de fevereiro de 1822 exigiu-se a reunião de 
procuradores geraes das províncias do Brasil, para virem 
trafar dos negócios do reino do Brasil. Em 23 de março 
bouve um movimento do povo do Rio de Janeiro, talvez por 
alguma suspeita de tendência contra o systema de governo 
que o Brasil queria estabelecer. Antes da acclamação do 
imperador existe o facto da convocação da assembléa geral 
constituinte. Reuniu-se a junta de procuradores geraes, e 
por sua resolução immediata, á qual se "uniu o conselho de 
estado, 1(^0 depois foi convocada para o dia 3 de junho uma 
assembléa constituinte lígislativa, em virtude de uma requi- 
sição da camará municipal e do povo, e o Sr. D. Pedro I 
tomou o titulo de constitucional logo depois, no dia 10 de 
junho. Finalmente, no dia 7 de setembro proclama o prin- 
cipe nas margens do Ypiranga a independência do Brasil, 
e, tendo de antemão já reconhecido a constituição e o sys- 
tema representativo, recebe o titulo de imperador consti- 
tucional em 12 de outubro de 1822. 

D,gt,ZBdi,yCOO<^le 



3>o 



REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 



€ Ora, pergunto eu, não estarão em todos estes factos 
bem formuladas as condições com que o Brasil elevou ao 
throno o Sr. D. Pedro I? Sem duvida nenhuma. Se o nobre 
deputado, não achando bastantemente valiosas todas estas re- 
clamações, todos estes actos que tiverão logar no decurso do 
anno de 1822, recorrer ás actas por que nas diversas camarás 
municipaes o imperador foi acclamado, achará condições 
muito expressas na maior parte delias, pelo menos condições 
analc^s ás palavras celebres do magistrado do Aragão quando 
entregava ao rei as insignias do poder. A nação brasileira, 
reconhecendo o seu poder, a força, o direito, que tinha reco- 
brado tornando-se independente de Portugal, disse ao prín- 
cipe como os aragonezes de outro'ora : « Nós, que somos tanto 
como vós, e que podemos mais do que vós, nós vos fazemos 
imperador constitucional, com a condição de que respei- 
tareis as instituições que a convenção ou assembléa consti- 
tuinte, que já: se acha convocada, houver de instituir, > E o 
imperador o jurou. Por consequência, se por um juramento 
persistente o imperador se obrigou a respeitar em todos os 
casos 3 constituição, é falsissima a doutrina do nobre depu- 
tado, como os factos da historia do nosso paiz demonstrão, 
e a proposição que emittí não é das que são somente dignas 
de ser proferidas por detrás de barricadas. 

€A constituição me resguarda, me defende sufficien- 
temente, para poder proferir proposições muito mais fortes 
na tribuna nacional, Resguarda-me mais do que quantas bar- 
ricadas possão imaginar-se. 

« O Sr. Carneiro Leão : — Resguarda a pessoa, mas não 
toma a doutrina verdadeira, nem a applicação. 

« O Sr. Ottoni : — Já expliquei a historia e os factos 
succedidos no nosso paiz. , . 

cO Sr. Carneiro L&So: — Fiquei na mesma. 

'« O Sr. Ottoni :—._.. para comprovar que as dou- 
trinas que expendi, longe de serem revolucionarias, não podem 
ter o mais leve resaibo de menos constitucionaes ; vejamos 
o que dizem os publicistas os menos suspeitos a esse res- 
peito. Eu citarei dous ou três. 

€ Creio que não pôde ser suspeito Vatel, cujo compendio, 
na conformidade das leis, serve á instrucção da mocidade nos 

Google 



JL CntCULUt DB THEOPHILO OTTONl 3II 

cursos jurídicos. No cap 2" 8 do direito das gentes, diz cHe: 
(lendo) « Vatel, § 50, pag. 84, vol. I,° Droit des Gens: — Se 
« a autoridade do principe é limitada e regulada por lets 
« íundamentaes, o principe, sahindo dos limites que lhe estão 
«traçados, governa sem direito algtmi e mesmo sem título; 
c a nação, desobrigada da obediência, pôde resistir ás suas 
<t tentativas injustas. Desde que ataca a constituição o prin- 
< cipc rompe o contrato que o ligava com o povo 1 o acto 
« do monarcha desobriga os súbditos, que o podem consí- 
« derar como usurpador. Esta verdade é reconhecida por 
« todos os escríptores sensatos, cuja penna não está escra- 
« visada ao temor ou vendida ao interesse. > 

< Outros publicistas, cuja autoridade creio que é tão 
pouco suspeita como Vatel, emittem proposições semelhantes, 
sem precisarem de barricadas, á face do mundo... 

« O Sr. Carneiro Leão : — Não estavão na tribuna, de 
certo. 

« O Sr. Ottoni : — ... onde havia constituição escrípta, 
onde se sabía o que era governo de facto e governo legitimo. 
Diz Silvestre Pinheiro, por exemplo. 

«O Sr. Carneiro Leão: — Não aceito a autoridade. 
«O Sr. Ottoni: — Mas não é suspeito, e, se é sus- 
peito, não o pôde ser de certo de sans-culottismo. 

« O Sr. Carneiro Leão : — Mas tem muitas doutrinas 
falsas. 

cO S». Ottoni : — Silvestre Pinheiro diz no art. 3": 
(lendo) € Silvestre Pinheiro, Droit constitutionel du pouvoir 
alegidatif, pag. 158: Deixai aos que se fazem patanaes do 
« absolutismo a crença que fingem ter de que toda a resis- 
«tencia ao poder é uma rebellião e toda a insurreição contra 
« o arbitrio uma revolta. » e mais abaixo : c A insurreição 
* do homem livre pôde também occasionar guerra, se o dcs- 
4 potismo é tão cego que, para execução de suas medidas 
€ illegaes, ousa recorrer á força, » 

« Portanto, Silvestre Pinheiro reconhece também o di- 
reito de resistência e de insurreição todas as vezes que é 
violado o contracto social, dizendo mui expressamente : « Point 
de loi, point d'obéissance. » Logo que cessa o império das leis, 
cessa o dever da obediência. Não sei se o nobre deputado 

C.oo<^le 



312 RET1ST4 DO INSTITUTO HKTOIUCO 

aceitarii a autoridade de Delolme, autor muito conhecido, 
que expõe as excellencias do governo inglez. Depois de de- 
senvolver os differentes princípios da magna carta... 

cO Sb. Carneiro Leão: — A citação é mal feita para 
justificar a proposição. 

cO Sr. Ottoni: — ...diz que todas estas instituições 
bem combinadas, como forão, sem o direito de resistência 
serião inteiramente nullas: occupa-se longamente em desen- 
volver este principio, e diz_ (tendo): c Delolme, ConstituUon 
d'Ãngleterre, tom. 2", cap. XIV : « FoÍ a resistência que deu 
« nascimento á m^na carta, fundamento e base 'da liberdade 
« ingleza, e os excessos de um poder estabelecido pela força 
« forão reprimidos pela força. :» 

<Já se vè, pois, que não é só por detrás das barricadas 
que se considerão governos illegitímos governos presididos 
pelos monarchas, e que pelo contrario autores que estão 
acima de toda a suspeita, como estes que citei, entendem que 
nos casos em que o governo se pÕe acima das leis elle se 
torna ÍtlegÍlÍmo. Como quer, pois, o nobre deputado que eu 
acredite que é o governo legitimo um governo que é ille- 
gitimo, illegal? Para mim, se o governo é Intimo, eu o 
considero legítimo, se é illegal, illegal, e no meu espirito 
não posso graduar a differença da illegalídade que ha entre 
iim governo usurpador qualquer e o governo de PJratiním. 
Eu poderia citar ainda Chateaubriand, cuja autoridade sem 
duvida 110 caso presente não pôde ser contestada, porque 
é um realista e até le^timista, como tal estimado de todos 
os realistas distinctos e de boa fé. Quando uma facção ávida 
e interesseira, para seus fins particulares, para realizar seus 
projectos de ambição, procurou fazer derribar a constituição, 
ou uma parte delia na França, é bem sabido que Chateau- 
briand e muitos outros legitimistas distinctos virão o perigo 
em que punhão o monarcha especuladores politicos presi- 
didos por M. Víllele. 

«O Sr. Carneiro Leão: — Não, por Poligtiac sim. 

«O Sr. Ottoni: — Polignac estava então na Inglaterra. 

«O Sr. Carneiro Leão: — Não em 1827. 

« O Sr. Ottoni : — Em 1827 houve a coallisão de Cha- 
teaubriand, de Hyde de Neuville e outros realistas distinctos 

. Cooglc 



k CmCOLiR DE THEOPHILO OTTOHI 313 

com os patriotas mais decididos e contra o ministério dos 
especuladores politicos, á frente dos quaes estava Mr. Vil- 
lele, que compromettía a monarchla, para satisfazer suas am- 
bições. Mr. Cháteaubríand previu o que havia de succeder 
a Carlos X, e lhe gritou da tribuna que temia nas circimi- 
standas da França muito mais as revoluções que vinhão 
<b governo do que as que vinhão do povo. 

« O Sr. Cakneiro Leão : — Eu temo pelo contrario, por 
experiência. 

« O Sr. Ottoni : — Sem duvida o cMnportamento de 
Chateaubriand em toda a sua vida dá direito a pensar que 
CS seus receios erão nascidos do interesse que votava mais 
especialmente ao throno; mas, infelizmente, Carlos X não 
tinha a força de razão que caracterisava o seu predecessor 
Luiz XVin, e por isso acreditou mais nos especuladores 
politicos Villele e Polignac, nos sectários das transacções, e 
o resultado foi comprometter o seu throno na revolução de 
julho. Eu não quero fazer confrontações históricas; estou 
certo de que o monarcha actual do Brasil ha de seguir de 
preferencia os passos esclarecidos de Luiz XVIII, e que não 
se ha de deixar arrastar pelos Villele e Polignac. (Apoiados.) 

<0 Sr. Marinho.: — Apoiado: bravo ! 

€ (Bravos e apoiados vas galerias.) 

€ Muitas vozes : — Ordem ! ordem I 

^(Restabelece-se o silencio nas galerias.) 

(Jornal do Commercio de 14 de julho de 1841 . ) 



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Revolnção de iO de jVDbo de 1842. — Paclficagfio de Hlnas 

A fatalidade que em lo de junho de 1842 sublevou 3 
heróica cidade de Barbacena e toda a província de Mínas, 
c bem assim a minha voluntária comparticipação no movi- 
mento, são pontos históricos de que está cada um de vós 
cabalmente informado. 

Creio sinceramente que mais teria ganho o systema con- 
stitucional se, apezar de rebellado o governo contra a consti- 
tuição, se, apezar da promulgação das leis ínconstitucíonaes 
de 1841, apezar da dissolução prévia da camará dos depu- 
tados, apezar de tudo, a opposição mineira, em vez do recurso 
ás armas, de preferencia empregasse contra o governo os 
meios pacíficos que ainda lhe restavão. 

Infelizmente a opposição era de tal modo provocada e 
arrastada para o terreno fora da lei que não havia meio de 
conte-la. 

O facto era, portanto, indeclinável. 

A não ser esta consideração, eu poderia lamentar que 
a energia e a acerbidade das minhas invectivas na sessão 
de 1841 pudessem ter contribuído para o movimento de 10 
de junho. 

Em todo o caso, porém, posta a mão na consciência, ainda 
acho lá o éco de minhas palavras, e assevero que erão es- 
tremes de ódio e de ambição. 

E posso recordar-me complacentemente que na noite de 
15 para 16 de junho de 1842, arrostando perigos, e com o 
fim de partilhar a sorte de meus amigos, parti do Rio para 
Minas, quando aqui já se festejava a derrota da Venda 
Grande, a retirada da Ponte dos Pinheiros, e consequen- 
temente a queda da revolução de S. Paulo, 

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A CanCULAR DB THEOPHtLO OTTOm 31$ 

A' memoria do meu saudoso amigo monsenhor Marinho 
rendo graças, porque á pag. 207 do i' vol. da sua Historia 
da revolução de Minas consignou esse acto de lealdade que 
pratiquei para com os meus amigos. 

O generoso historiador omittiu systematicamente os seus 
próprios serviços e grandes sacrifícios, mas não perdeu occa- 
sião de pòr em relevo a mais pequena circumstancia que 
podia ennobrecer o caracter de seus amigos. 

Assim, á pag. 252 e seguintes e nos documentos que se 
Icem no 2° vol, o historiador mineiro r^strou: 

i.° O propósito em que estava em 19 de agosto de aceitar 
a presidência e a direcção do movimento depois da batalha 
que teve Ic^r no dia 20. 

2.' A resolução que, de accordo com outros amigos tomei 
no dia 20, de acabarmos com a revolução em Santa Luzia, 
e ahi ficarmos para sermos presos, em vez de nos retirarmos 
escoltados pelas forças respeitáveis de Galvão e Alvarenga, 
que até a noite occupárão a ponte da villa para protegerem 
a retirada dos insurgentes. 

3.° O facto de se acharem na Lagoa Santa no dia 21, 
immediato ao da batalha de Santa Luzia, mais de 2.000 ho- 
mens bem armados e municiados, e que debandarão por se 
ter dissolvido o governo insurgente, 

4." O importante documento assígnado pelos coronéis 
Galvão e Alvarenga, perante o subdelegado de Mattosinhos, 
declarando que debandavão suas forças, recolhião-se ás suas 
casas, e não se opporião mais ás leis em vigor, afim de pôr 
termo ao derramamento de sangue dos mineiros. E' tambcm 
datado de ár de agosto de 1842. 

Bem apreciados os dados expostos, claro está qual era 
a ordem das minhas idéas naquella crise. 

Se o Sr. barão de Caxias fosse vencido, como tínhamos 
as melhores esperanças de que o fosse, a revolução estava 
terminada pelo triumpho, e estaria acabada a guerra civil. 
< Dentro de três dias, dizia eu aos meus amigos, estamos no 
palácio do Ouro Preto, dentro de qutnue dias um ministério 
liberal terá suspendido a lei inconstitucional de $ de dezembro 
c a do conselho de estado, e terá annutlado o decreto incon- 
stitucional que dispersou os representantes da nação. > 

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3l6 ABTISTA fiO IH8TITCT0 BISTORICO 

Nossa tarefa estaria finda, restabelecida a ordem, a 
ordem bem entendida, que é inseparável da verdadeira li- 
berdade. 

Perdida a batalha de Santa Luizia, sobravão elementos 
ao partido liberal para continuar uma guerra de recursos, 
cujo resultado é difficil calcular qual teria sido. 

Mas eu não comprehendo revolução senão quando o povo 
se levanta em massa para dizer aos seus oppressores : <B<uta.» 

Pensávamos, os mineiros, que em 1842 seria assim; e, 
como nem queríamos nem suppunhamos guerra civil, os que 
estávamos no Rio não enviámos para Minas nem uma espin- 
garda nem uma libra de pólvora. 

Contávamos que a provincia de S. Paulo se levantaria 
como um só homem, e que aos mineiros não estava destinada 
outra tarefa senão a de uma manifestação popular até certo 
ponto pacifica. 

Frustrada a revolução em S. Paulo, nada tínhamos que 
fazer. 

* Mas o pundonor dos guardas nacionaes mineiros, sua 
energia e enthusiasmo um momento persuadÍrão-nos que, 
desprevenidos como tinhamos entrado na luta, e mesmo tendo 
ficado a sós, podiamos dar leis ao império. 

E pouco faltou para que esta esperança se realizasse 
no dia 20 de agosto de 1842. 

Longe de mim duvidar da coragem pessoal e mais qua- 
lidades que concorrem, como universalmente se reconhece, e 
eu sou o primeiro a confessar, na pessoa do nobre general 
marquez de Caxias, illustre veterano da independência. 

Mas estou persuadido que os cordões, os bordados e as 
condecorações dadas a S. Ex. em razão da batalha de Santa 
L,uzia mais racionalmente adomarião a estatua do Destino. 

Acerca deste combate os chefes insurgentes podião dizer 
como Napoleão em Santa Helena, f aliando de Waterloo: 
« Ney ! Grouchy 1 Dia incomprehensivel, em que tudo se 
perdeu depois que tudo estava ganho! Houve traição ou 
foi uma dessas fatalidades com que o destino se apraz em 
zombar das mais bellas combinações do espirito humano ? I . . . » 

Como quer que fosse, perdida a batalha de Santa Luzia, 
pensava eu, ainda antes do facto, que, se era certo que po- 



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A CIRCULAR DE THGOPBILO OTTONI 317 

diamos continuar a revolução com chanças de successo, 
também era fora de duvida que só conseguiríamos assolando 
os bellos campos de Minas e anarchísando a provincia. Diante 
de tamanha responsabilidade honro-me de haver recuado. 

Julguei que em taes circumstancias mais ganhava o paiz 
se da sentença lavrada pelas baionetas do Sr. Caxias appel- 
lassemos para os tribunaes judiciários. 

E, como só podíamos discutir estando presos, ficámos 
em Santa Luzia, havendo-se retirado os chefes militares, 
p quem o juízo dos seus pares nos conselhos de guerra não 
podia inspirar a confiança que depositávamos no jury. 

Já em frente do Ouro-Preto, vendo os ânimos dispostos 
a uma capitulação, e não querendo que para o fim de ob- 
terem os chefes condições menos duras se arriscasse uma 
gota de sangue mineiro, tinha eu feito a seguinte proposta, 
que também copio da historia de Marinho: 

c § i.° Que o presidente interino proclamasse a todas 
as forças que em seu nome podião estar e de facto estavão 
em armas na provincia que, tendo sido feita a revolução de 
Minas unicamente como tmia manifestação destinada a apoiar 
a de S. Paulo, pacificada aquella provincia, devião os mi- 
neiros depor as armas, e a isso os convidava. 

€ § 2." Que esta proclamação fosse de prompto enviada 
ao barão de Caxias, declarando-se-lhe que, para evitar effusão 
do sangue, e pelo motivo na dita proclamação exarado, de- 
punhão os mineiros as armas, depois de uma victoria bri- 
lhante, qual a de Queluz, e se entregavão á discrição da de- 
mência imperial. 

< ã 3.' Que então todas as pessoas notáveis que se 
achavão no acampamento, tendo á sua frente o presidente 
interino, se fossem apresentar ao general em chefe. » 

Esta minlu proposta, que não foi possível levar a effcilo 
diante do Ouro-Preto nos últimos dias de julho, realizou-se 
em Santa Luzía no dia 20 de agosto. 

Os Srs. José Pedro Dias de Carvalho, vigário Joaquim 
Camíllo de Brito, coronel João Gualberto Teixeira de Car- 
valho, capitão Pedro Teixeira de Carvalho, tenente Antonío 
Teixeira de Carvalho, padre Manoel Dias do Couto Guima- 
rães e Francisco Ferreira Paes voluntariamente esperarão 



. Coo^^lc 



3l8 REnSTA DO INSTITUTÚ HUTOUCO 

comigo a entrada do exercito vencedor, para darmos teste- 
munho de que alli tinhamos ficado até a ultima hora e que 
a revoluçáo estava acabada. 

Das reminiscências da campanha de 1842, acreditai-me, 
Srs. eleitores mineiros, são estas ultimas as mais gratas ao 
meu coração. 



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DiglizibyGOOgle 



A revolução de Minas findou repentinamente e como que 
por encanto no dia 20 de agosto. 

Findou, permitta-se-me que o repita com satisfação, 
porque eu não quiz assumir a vice-presidencia. 

€Se o ex-deputado Ottoni, diz o historiador da revo- 
lução, que tanto prestigio linha no exercito e na província, 
não tivesse ficado em Santa Lusia o sucesso de zo de agosto 
seria apenas um revés. > 

Dissolvido o governo insurgente, coube aos coronéis 
António Nunes Galvão e Francisco José de Alvarenga a 
honra de authenticarem perante o subdel^ado da Lagoa 
Santa a pacificação da provinda. Por toda a parte deban- 
davão as forças rebeldes, e cada qual recolheu-se para os seus 
lares mansa e pacificamente. O confticto dos liberaes com 
o governo ia entrar em nova phase perante os tribunaes. 

Fui eu, como cfiz Marinho na Historia da revolução, 
quem conservou o archivo rebelde, material valiosíssimo para 
os processos e para a historia. 

Preservei-o das chammas a que o havião condemnado, 
mais feliz de que o bibliothecario de Alexandria, se é certo que 
com effeito o califa Ornar queimou a bibltotheca daquella ci- 
dade, e se não procedem as objecções de Gibbon contra essa 
tradição histórica. 

O archivo rebelde era o auto de corpo de delicto imi- 
versai dos revolucionários. 

Tinhão elles protestado em lo de junho que a lei de 3 de 
dezembro de 1841 e a dissolução prévia erão actos inconsti- 
tucionaes. 

Os tribunaes ião decidir se aquelle protesto tinha sido 
um crime ou uma resistência legaL 



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320 RBTISTA 00 INBTITDTO aiSTORlCO 

Era da maior conveniência pleitear a causa perante a opi- 
nião e discutir perante os jurados, não só a theoria consti- 
tucional e as causas longo tempo acciunuladas, e as paixões 
exacerbadas que havião produzido c podião justificar o mo- 
vimento de lo de junho, mas também o modo por que os 
rebeldes havião procedido. 

Glorio-me de haver conservado as peças justificativas ne- 
cessárias aos libellos do promotor publico e aos numerosos 
advogados da defesa. 

Para serem devidamente aproveitados estes materíaes 
era indispensável um centro e curadoria geral dos accusados. 
que systematisasse a discussão, reunisse em um feixe os 
casos julgados que devião compor a jurisprudência da 
questão, e que enfim, resumindo os debates, tornasse bem 
patente o julgamento definitivo do poder judiciário e da 
opinião publica acerca do movimento de lo de junho. 

Tal foi a missão do Ifacolomy, publicado logo que se 
levantou o sequestro á typographia liberal do Ouro-Preto. 
Collaborárão activamente no Itacolomy alguns dos compro- 
mettidos que tinhão feito parar o carro revolucionário era 
Santa Luzia, e se havião rendido á discrição, certos de que 
era mesmo estando presos que poderião melhor defendef sua 
causa e de seus amigos perante a opinião e perante os tri- 
bunaea. 

Ainda as algemas nos roxeavão os pulsos, e já estávamos 
appellando para a imprensa, que tudo salvou. 

Reparávamos assim o grande erro que havíamos com- 
mettido recorrendo ás armas, mas não cessávamos de esti- 
gmatisar os actos inconstitucionaes que tinhão dado causa ao 
movimento. 

Tinhamos o maior empenho em que fosse a questão ven- 
tilada solemnemente perante os tribunaes, 

E éramos tão sinceros nesta opinião que a nosso pedido 
a assembléa legislativa provincial, na qual o voto de nossos 
amigos preponderava, se absteve de representar ao poder 
moderador pedindo amnistia para os presos e compromettidos. 

Não procedemos assim porque pensássemos que houvesse 
o menor dezar em appetlar em casos taes para o poder mo* 
derador. 



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A CmCtJLAR bE THEOPHILO OTTONl 3*1 

EsUvamos longe de uma opinião tão inconstitucional. 
A amnistia deve ser concedida sempre que o aconselhar 
o bem do estado. 

E' um direito e uma garantia do cidadão brasileiro, que 
l)óde invoca-la logo que julgue dar-se a hypothese da con- 
stituição, do mesmo modo que pôde requerer um habeas- 
corptiS. 

Na assembléa provincial fluminense uma voz generosa 
suscitou a nobre idéa, e durante a discussão patenteou-se ao 
paiz quanta consideração mereciâo os proscriptos. 

O fallecido Sr. José Augusto César de Menezes, homem 
da tempera dos antigos, e que levou ao tumulo firme a sua 
reputação e inabaláveis suas crenças politicas, disse o se- 
guinte ; 

€ Vou agora, Sr. presidente, não fazer uma resenha, mas 
apresentar alguns individues implicados no movimento de 
que falíamos, para vermos se merecem os convicios que lhes 
lançou o parecer da nobre commíssão. 

;< Será inimigo da ordem publica, ousado, lurbulent», 
vilipendiador das leis, aquelle varão probo (o Sr. Vergueiro) 
e prestante, que, comprehendendo bem o que é uma pátria 
adoptiva, resistiu á tentaição das doces emoções que faz 
nascer a vista do solo natal, para neste trabalhar por sua li- 
berdade e independência, cuja estada no poder era uma ga- 
rantia de socego e ordem? 

« Será inimigo da ordem publica, ousado, turbulento, 
idipendiador das leis, aquelle estóico e desinteressado (o 
Sr. Feijó), que regeitou um bispado e resignou uma regência, 
logar que mais de um especulador quereria, ainda dando 
400 % sobre o seu orçamento? o qual, se commetteu algum 
excesso, ninguém deixará de confessar que foi por amor 
da ordem, excesso que teve talvez por causa principal a sua 
sinceridade, illudida pela falsa amizade, da qual fallou o 
Sr. Dias da Motta, quando ella lhe aconselhava que mane- 
jasse a clava de Hercules? que deixou o poder quando viu 
que a continuação da sua gestão podia occasionar a per- 
turbação da paz publica? 

« Merecerá aquelles epithetos esse moço, por que mais 
se deve encher de orgulho o Serro do que pelas pedras pre- 



. Gv^ogle 



3^3 REVUTA DO IHSTtTDTO USTORICO 

ciosas que rolão pelos leitos dos seus rios, esse moço no qual 
todas as vezes que penso digo: — Assim foi de certo Catão 
na sua idade e será esperança do Brasil, se alguma ccKJunissão 
militar lhe não fizer saltar a cabeça, ou se alguma taça mi- 
nistrada por algum fingido amigo lhe não corroer lenta- 
mente as entranhas ? » . 

(Diário do Rio de 27 de abril de 1843. Sessão de 23 do 
mesmo mez e anno.) 

Na camará dos deputados, entre outros levantou-se em 
nossa defesa o honrado bahiano o Sr. João José da Cruz 
Rios. 

Assim apoiados na tribuna legislativa, proseguiamos 
tenaz mas pacificamente na discussão do nosso direito. 

O exercito podia desarmar os mineiros, inutilisar a sua 
resistência, mas não decidir a questão constitucional. 

A resistência de 10 de junho, discutida de mil modos 
perante 05 tribunaes de Minas, ficou plenamente justificada 
como uma resistência legal. 

Qualquer que tenha continuado a ser a opinião dos po- 
deres legislativo e executivo, os actos contra os quaes se 
erguera o grito de Barbacena forão declarados inconsti- 
tucionaes pelo poder judiciário, que também é independente. 

Todos os chefes de alguma importância levados ao jury 
obtiverão absolvição e em muitos casos apotheose. 

Era regra que quando entrava no jury algum dos muitos 
cabeças da revolução o tribunal em peso levantava-se apezar 
das reclamações de alguns juizes de direito. Este facto está 
registrado no Jornal do Commercio de outubro de 1843. 

Era homenagem prestada ã nossa boa f é e á honestidade 
dos motivos de nosso procedimento. 

E cumpre observar que no maior numero de casos os 
jurados que absolvião os rebeldes e com elles fraternisavão 
nos tribunaes erão os legalistas da véspera. 

Honra aos mineiros ! Os mesmos que havíão feito os 
maiores sacrifícios para abafar a revolução, cujas consequên- 
cias temião, estavão longe de approvar o procedimento do go- 
verno, e não querião de modo algum sanccionar o precedente 
de poderem a assembléa geral e o governo decretar leis in- 
constitucionaes. 

D,3t,ZBdbyGOO<^le 



A ahCDLAR DE TllEOPUILO OTTOHI 3*3 

Honra ao jury de Maríanna, do Ouro Preto, <fa Piranga 
e outros, que nos restituirão ao gozo de nossos direitos, com- 
pletamente justificados, salvando o principio de resistência 
a ordens illegaes, e com mais forte razão a leis ínconsti- 
tucionaes. 

Assustada com o verdict dos jurados a imprensa con- 
servadora da província começou a aconselhar-nos a resis- 
piscencia dos nossos actos. Já se contentavão que ao menos 
nos mostrássemos contrictos. 

€ Peção misericórdia ! nos repetia a Ordem de S. João 
d'El-Rei. 

< Peção misericórdia I repetíamos no liacoiomy. Mise- 
ricórdia devem pedir esses irmãos degenerados, que se teem 
locupletado com a rapina e engordado com o espolio do 
orphão e da viuva, que teem opprimido os seus concidadãos, 
que teem vendido a justiça e commettido toda a sorte de 
iniquidades, e' muita contricção precisão eltes para que Deus 
lhes perdoe por sua infinita misericoridía. Quanto aos ci- 
dadãos que por effeito de suas convicções tomarão parte 
nos movimentos políticos do anno passado, de que hão de 
pedir perdão ? Porque forão rebeldes ? Mas esses rebeldes 
não estão em circumstancias de fazer acto de contricção. 
Coube-lhes a rara fortuna de que seus pares e juízes nos 
tribunaes judiciários teem antecipado a purificação de sua 
conducta, emittindo acerca das revoluções de Barbacena e 
Sorocaba um juízo que a posteridade sem duvida confir- 
mará > . 

(Do Itacolomy de 28 de agosto de 1843.) 
Effecti vãmente jurados mineiros unanimes e sem dís- 
tincção de partidos decretavão por toda a parte que era jus- 
tificável o nosso procedimento, e que, portanto, criminosos 
erão os ministros que havião promulgado a tei de 3 de de- 
zembro de 1841 e dispersado os representantes do povo com 
o mesmo direito com que Cromwell mandou fechar as portas 
do parlamento. 

Eu fui um dos absolvidos por unanimidade no jury de 
Maríanna, composto o conselho de liberaes e conservadores 
promiscuamente. 



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324 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O presidente do conselho era o distincto mineiro e meu 
amigo o Sr. José Marianno Pinto Monteiro, lioje residente 
em Ubá e alli um dos prestigiosos chefes do partido liberal. 

O Sr. Pinto Monteiro fez-me presente da penna com 
que havia lançado as respostas unanimes aos quesitos do 
juiz de direito. Essa penna é uma reliquia preciosa que con- 
servo, e que 'inactiva depois de i8 annos, vai hoje servir-me 
para escrever neste papel, afim de que sejão transmittidos 
á imprensa acompanhados de bênçãos sinceras e de meu 
agradecimento immorredouro, os nomes dos cidadãos cujo 
memorável verdict me restituiu á minha família puro de toda 
a criminalidade. 

São os Srs.: 



José Marianno Pinto Monteiro, presidente. 
José de Souza Cimha, secretario. 



Francisco Xavier Pereira. 

Manoel Coelho Linhares. 

Ignacio Alves da Rocha. 

José Pedro Gonçalves. 

Quintiliano de Abreu e Lima, 

António Gonçalves Machado. 

Francisco José Ferreira. 

Manoel Francisco Damasceno. 

■Manoel Moreira da Cruz. 

José Bernardino dos Reis. 
A sede de perseguição fora tão longe que no meu pro- 
cesso se investigou sobre discursos que proferi como depu- 
tado, sobre escriptos que dez annos antes dei ao prelo como 
jornalista, e finalmente sobre minhas opiniões em abstracto, 
quanto ás bases constitutivas do governo. 

De minha defesa perante o jury, publicada no Itaco- 
lomy de 26 e 30 de setembro de 1843, ver-se-ha que vinguei 
os privilégios de deputado c a liberdade da imprensa, expli- 
cando ao juiz formador da culpa esses pontos do nosso di- 
reito constitucional. Quanto ao terceiro tópico, é manifesto 
que a minha dignidade não podia permittir alli a menor expli- 
cação, visto que não havia autoridade para m'a exigirem. 
Limitei-me, pois, a protestar que na constituição luvia Jogar 



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A CIRCULAR DE THEOPHILO OTTONi 335 

para todos, e forte com a minha consciência repeti aos ju- 
rados os versos de Phílinto: 



Quando os jurados mineiros começarão a multiplicar 
desenganos ao espirito retrogrado, o governo e seus agentes 
delirarão. 

O jury, mutilado pela lei de 3 de agosto, posto debaixo 
da tutela humilhante do juiz de direito, pela absurda fa- 
culdade da appella-ião que se lhe deixou, e pelo arbítrio no 
formular os quesitos, arbítrio que em grande numero de casos 
tira ao jury a apreciação moral do facto imputado e legi- 
tima a condemnação de accusados que o jury tem intenção 
de absolver, o jury assim mesmo estropiado não servia ás 
exigências dos dominadores. 

E o secretario do governo, deputado á assembléa pro- 
vincial, propoz que se pedisse ao poder legislativo oulra 
forma de processo. 

Ko Ilacolomy de 5 de julho de 1843 vêm transcriptos a , 
proposta e o parecer da commissão, cuja conclusão appro- 
vada era a seguinte : 

« Que não se tome em consideração a indicação para se 
pedir aos poderes supremos a suppressão do jury. — Paço 
da assembléa provincial, em 30 de junho de 1843. — João 
de Salomé Queiroga. — F. de A. L. Mendes Ribeiro-. — /. Ro- 
drigues DuOrte. » 

Emquanto o jury de nossa província rehabilitava os com- 
promettidos, ganhava terreno na corte a reacição conspx- 
vadora, e julgava-se o partido conservador com força para 
no dia 20 de janeiro de 1843 (fissolver o ministério pala- 
ciano de 23 de março de 1841. 

Apezar de ser triumpho de retrógrados, o dia 20 de ja- 
neiro seria um bello dia para o systema representativo se 
o Sr. Paulino José Soares de Souza, autor principal da 
dissolução, viesse explica-la ao parlamento como filha da 
necessidade de fazer cessar o governo pessoal, supplan- . -jl,. 



336 REVISTA DO INflinUTO HISTÓRICO 

tando-se as camarilhas e restituindo á sua pureza as normas 
constitucionaês. 

Nada disso. S. Ex. sahiu com outros seus collegas a 20 
de janeiro, para tornar a entrar dias depois, E nas expli- 
caijões que deu ás camarás, em vez de confessar a defei- 
tuosa organisação do gabinete dissolvido, referiu-se assim 
ao facto recente: 

« O Sr. Paulino : — As causas que originarão a crise 
ministerial que produziu a dissolução do gabinete, da qual 
acabamos de ser testemunhas, não são de muito recente data. 
Existião entre alguns membros do dito gabinete descon- 
fianças reciprocas, relativas em pontos de lealdade de uns 
para com outros. Dahi nascia uma desintelligencia sensive! 
e funesta, da qual devia necessariamente resentir-se o ser- 
viço publico, e que devia influir sobre o estada da camará 
e do paiz; e nunca as suas circumstancias requererão mais 
união, mais harmonia e mais fortaleza nos conselhos da 
coroa. » 

{Jornal do Commercto de 24 de janeiro de 1843.) 

O Sr. Soares de Souza guardou-se bem de deixar es- 
capar uma só palavra que denunciasse a flagrante inconsti- 
tucionalidade da organisação e dissolução dos gabinetes sem 
interferência do parlamento. 

As reciprocas desconfianças em pontos de lealdade forão 
o pretexto infeliz com que se pretendeu acobertar a ver- 
dadeira causa do facto que acabava de occorrer. 

Se se tratasse de restabelecer os bons princípios, outras 
serião as palavras do ilUistrado Sr. Soares de Souza; mas 
a verdade produz ódio e podia prejudicar na opinião de 
Augusto o interesse dos Césares. 

Nem uma palavra sobre governo pessoal — camarilha — 
poder aulico, e outros synonimos. S. Ex., em vez disso ini- 
ciou essa giria de mystificações que, mutandis mutatis, ora 
sob a forma de cansaço, ora sob a de doença, tem regulado 
com força de pragmática nas exéquias ministeriaes. 

Quaesquer, porém, que fossem as sinuosidades pelas 
quaes se chegou ao ministério de 20 de janeiro, por mais 
errada que me pareça ter sido a sua politica de compressão, 

>glc 



A CIRCULAR DE THEOPHILO OTTOMI 33? 

a historia saudará o primeiro ministério do Sr. Carndro 
Leão como uma tentativa honrosa para o restabelecimento 
do governo representativo. 

Demais, o ministério de 20 de janeiro expiou nobremente 
no dia do passamento os peccados de sua vida. 

Contempla-lo-hei somente nesse transe, que vou tomar 
em consideração simultaneamente com o nascimento bastardo 
do ministério de 2 de fevereiro de 1844. 



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X 

o 3 d« fevereiro de 1844.— Progresios do governo peasoil 

Tenho feito estudo para não contrariar nesta minha carta 
a máxima fundamental de que o rei não pôde fazer mal. 

Quando me refiro a factos inconstitucionaes acobertados 
com o nome do imperador entenda-se sempre que longe está 
de minha intenção a mais leve sombra de censura que vá 
além dos ministros, que aceitão, ou conservão as pastas, 
quando taes factos se dão. 

Dirijo-me exclusivamente aos agentes responsáveis quando 
moraliso sobre a entidade inviolável . 

Feita esta declaração franca e leal, vou entrar em al- 
gumas considerações acerca do 2 de fevereiro de 1844. 

Primeiro façamos um ligeiro retrospecto. 

A seita palaciana havia predominado desde a maioridade 
até o dia 20 de janeiro de 1843. 

Os ministros da maioridade tiverão de resignar o poder, 
por não se sujeitaram ao conselho aulico do seu collega dos 
estrangeiros. 

A condescendência do partido conservador facilitou ao 
Sr. Aureliano a tarefa da reorganisação ministerial de 23 
de março de 1841. 

Quando na sessão desse anno eu denunciava na camará 
dos deputados as invasões do reposteiro, os Césares esta- 
vão-lhe na cauda, e fazião coro com o pontifice palaciano. 

Abstinhão-se cautelosamente da menor allusão que pu- 
desse offender as susceptibilidades do palácio. 

Foi somente depois de vencido no campo da batalha em 
Minas e S. Paulo o partido liberal que elles se considerarão 
senhores da situação, e em 20 de janeiro de 1843 ousarão 
excluir do ministério o elemento palaciano. 



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X CIRCnUR DE THEOPHILO OTTOHI 339 

Manifestamente o ministerío de 20 de janeiro de 1843 
foi organísado pelo enérgico e illustrado Sr. Carneiro I^eão, 
na dupla intenção de reifenerar o governo parlamentar e 
consagrar o dominio do partido conservador. 

Rodeados de uma camará unanime, acastellados no con- 
selho de esíado e no senado, os Césares imaginarão que o seu 
poder não tinha mais competidor possível. 

Por sua parte os palacianos bem sabião que, se estavão 
arredados das doçuras do governo, não era por terem cabido 
em desgraça, e sim por virtude das circumstancias . 

Postos em disponibilidade, suspirarão pelas cebolas do 
Egypto, e espreitavão a occasião de vingar a injuria que em 
nome das desconfianças em ponto de lealdade fora irrc^da 
ao chefe da seita. 

Repellidos pelos conservadores, era natural que os cor- 
tezãos se voltassem para o lado liberal, e com elie se enten- 
dessem para apoiar-se qualquer ministério que não estivesse 
nos interesses do inimigo commum. 

Esmagados sob a tyrannia ministerial, os liberaes não 
podião ser difficeis de chegar a accordo. 

Foi em taes circumstancias que nasceu o ministério de 
2 de fevereiro de 1844. 

Sua missão era demonstrar praticamente aos Césares 
que elles não erão homens necessários. 

Aceito este mandato, o ministério de 2 de fevereiro pro- 
curou apoiar-se simultaneamente nos palacianos e nos li- 
beraes, 

«O 2 de fevereiro (diz o meu amigo Sr, Salles Torres- 
Homem) não foi um triumpho da opinião liberal, não foi 
uma satisfação ás exigências constitucionaes do Brasil, foi uma 
simples vindicta da corte ; e a duração da nova ordem politica 
que dahi resultava tinha de ser circumscripta pelo tempo 
que persistisse a causa sentimental e pessoal que a creára » . 

E' exactamente o que disse no senado o Sr. Carneiro 
Leão quando explicou a dissolução do ministério de 20 de 
janeiro, declarando que se retirara por não ter podido obter 
a demissão do inspector da alfandega, que tomava ares de 
valido e pelas gazetas desafiava o ministério a que o demit- 
lisse se pudesse.; 



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330 REVISTA DO INSTITUTO HHTORICO 

Não podendo conseguir a demissão do inspector da al- 
fandega, o Sr. Carneiro Leão nobre e parlamentarmentc 
dissolveu o ministério que organisára, e veiu ás camarás tudo 
explicar. 

O inspector, aliás homem de grande mérito, era irmão 
do pontífice da seita palaciana, e solidário com seu irmão. 

Demittido o ministério, o pontífice foi de prompto en- 
carregado da presidência do província do Rio de Janeiro. 

A decifração do enigma de 2 de fevereiro estava parti- 
cularissiniamente nessa nomeação. 

A província do Rio de Janeiro, inaugurada em virtude 
do acto addicional, estivera perenncmente sob o domínio 
pessoal da oligarchia. 

Entrega-la ao pontífice palaciano', que um anno antes 
sahira do ministério expulso pelos oligarchas, era por si só 
um facto altamente significativo. 

E, para que não restasse a menor duvida, um ministro 
"do 2 de fevereiro affixou perante as camaras_ como parte 
essencial do seu programma este notável hexametro : c Parcere 
subjectis et debellare sitperbos. > 

Dizia-se ao ouvido que. nomeando o novo presidente do 
Rio de Janeiro, o ministério reagia contra a irreverência 
com que o Sr. Cerneiro Leão havia indicado á coroa para 
seu successor o próprio inspector da alfandega, que era causa 
da dissolução do gabinete. 

Seja como for, guerra mais formal não se podia declarar 
aos oligarchas. 

Era insignificante o partido palaciano, e por isso mal 
estaria o ministério sem o apoio liberal. 

Para ganha-lo o Sr, Alves Branco, que na occasião não 
estava ligado a partido algum, mas cujas idéas erão essencial- 
mente brasileiras e progressistas, e cujos talentos erão tão 
brilhantes, como vasta a sua illustração e pura a sua virtude, 
impoz como condição para entrar no ministério a amnistia 
aos rebeldes de S. Paulo e Minas. 

Na memorável exposição de motivos que precedeu o 
decreto de amnistia em 14 de março justificou o Sr. Alves 
Branco, como o jury de Minas já tinha justificado, os movi- 
mentos que o seu futuro collega da marinha havia denominado 



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A CIRCULAR DE TREOPHILO OTTONI 33! 

nobres e generosos. Serviço tão relevante devia «necessaria- 
mente ganhar os tiberaes em favor do ministério de 2 de 
fevereiro . 

Quebrava-lhes os ferros, libertava-os da policia arbitraria, 
rehabilitava-os emfim, e, portanto, havia de obter essas maio- 
rias de amor e de ternura, como por escameo forão quali- 
ficadas na época, mas que realmente symbolisavão o cavalhei- 
rismo do partido amnistiado em 14 de março de 1844. 

O que é triste vem a ser que tudo isto nascesse de um 
simples capricho da corte. 

O ministério de 20 de janeiro de 1843 dissolveu-se por 
negar-lhe a coroa a demissão do inspector da alfand^a, que 
estava em antagonismo com os ministros. A coroa, porém, 
mostrou desejar continuar a mesma politica pelo facto de 
chamar primeiramente para a substituição dos ex-ministros 
pessoas que commungavão com os principios delles, As«im 
o declarou no senado o Sr. Carneiro Leão. 

Eis o discurso do Sr. Carneiro Leão, qual se lê no Jornal 
do Commercio de 13 de maio de 1844: 

cO Sh. Carneiro Le.^o: — A causa da retirada do mi- 
nistério foi uma questão pessoal : nenhuma havia na politica, 
quer interna, quer externa. Eu comprehendi que o pensa- 
mento da coroa era conservar a mesma politica, dadas as 
divergências que se podem dar entre dous homens que partí- 
cipão dos mesmos principios. Pareceu-me que a coroa queria 
manter a mesma politica. Porém o ministério entendeu que 
não podia continuar a servir um chefe de repartição de fa- 
zenda que era inteiramente opposto á sua politica e que por 
algum motivo occulto era inimigo pessoal da administração. 

« Ora, que a administração que me succedeu, vendo que 
esse empr^fado a que me referi não estava em divergência 
com o seu pensamento, o conservasse é cousa muito regular. 
Penso mesmo que a administração obrou com muito pouco 
critério não chamando esse empregado para o ministério; é 
uma verdade, não se pôde duvidar da sua capacidade, do alto 
conceito em que a população do império, principalmente a do 
Rio de Janeiro, o tem tido sempre. 

< Era de suppor que se reputasse revestido de uma alta 
confiança, e ninguém pôde duvidar que esta alta confiança 

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33a REVISTA to INSTITUTO HISTÓRICO 

é um dos elementos fortes para a administração. A admi- 
nistração do paiz deve ser forte ; nem servem administrações 
fracas, vacíllantes, que a todos os momentos estejão a cahir. 

< A administração que entrava em taes circumstancias 
apresentar-se-liia com muito mais força representando a con- 
fiança do coroa se esse empregado fizesse parte delia. Esse 
empregado, posto fora do administração, necessariamente 
seria um embaraço para ella, 

< A administração sabe muito bem o que são os corlesãos, 
os aulicos; a administração sabe muito bem o que são os 
homens interesseiros, que servem todas as administrações, 
levando em vista, não os interesses do paiz, o bem da nação, 
a prosperidade do governo imperial, mas seus interesses par- 
ticulares. 

€ Portanto, devera receiar-se a administração que, quando 
se apresentassem, por exemplo, em um logar dado a admi- 
nistração e esse empregado, todas as vistas fossem para ellc 
como sol nascente. E que esse empr^fado tivesse uma in- 
fluencia no paiz era regular, porque tinha um elemento para 
essa influencia. > 

Todas as palavras do discurso do Sr. Carneiro Leão 
são solemnes e dignas do estudo dos homens que se inte- 
ressão deveras pelo Brasil; mas merece mais acurado exame 
a declaração de que a coroa só admittiu outra politica quando 
não foi possível organisar no aprisco oligarchico um gabinete 
condescendente . 

Evidentemente o governo pessoal transigia com os li- 
beraes, sem sympathias e sem convicções, somente para punir 
os chefes conservadores das velteidades de independência que 
havião recentemente despertado entre elles. 

Para tamanha impiedade todo o castigo era brando. 

O presidente pontífice tomou-os á sua conta. 

Se recorrermos ás gazetas de então acharemos este inte- 
ressante memorandum, que se dizia ter sido dirigido ao mi- 
nistro do império peto presidente do Rio de Janeiro: 

«Pôde V. Ex. tranquillisar a Sua Magestade quanto 
aos receios que hontem manifestou-me. Nenhum dos Lobatos 
(f aliava em geral dos oligarchas) ha de sahir deputado por 
esta província. > 



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A CIRCULAR DE TIIEOPinLO OTTONI 333 

A presidência do Rio de Janeiro em 1844, a vida intima 
do ministério de 2 de fevereiro e a historia da organisação 
dos gabinetes de 1844 a 1848, podião sahir da minha penna 
tão minuciosas e não menos instructivas do que a da maio- 
ridade. Mas lembro-me que Sir Robert Peei recommendou 
que se não pubHcassem as memorias que deixou emquanto 
estivesse vivo um só dos actmres nellas commemorados. 

Seguindo tão salutar conselho, passo adiante. 

A presidência do Rio de Janeiro e o ministério de 2 de 
fevereiro converterão aos bons princípios os parlamentares 
da escola da autoridade. 

Não creio ,em extravagantes projectos que então se lhes 
attribuirão, envolvendo o nome de Sua Alteza o Sr. conde 
d'Aquila. Foi provavelmente intriga palaciana. 

Mas os conservadores tomarão constitucionalmente uma 
bella posição. 

Se não appellárão para a theoria Tliiers, de que rei reina 
e não governa, profligárão com coragem a intervenção incon- 
stitucional da vontade irresponsável nos actos do ministério. 

Não foi somente na tribuna legislativa que o ex-ministro 
da fazenda censurou com severidade o modo inconstitu- 
cional da organisação e dissolução dos ministérios. 

Dous annos depois, por occasião da dissolução do mi- 
nistério de 5 de maio de 1846, o Sr. Carneiro Leão veiu á 
imprensa condemnar com a sua lógica inexorável a usurpação 
dos direitos do parlamento, que cada dia se tornava mais 
flagrante. 

Um pamphleto se publicou na occasião, intitulado A disso- 
lação do gabinete de 5 de maio ou a facção aulica. Esse es- 
cripto foi* attribuido pelos defensores da situação ao Sr. se- 
nador Bernardo Pereira de Vasconcellos . Assim o declara 
a resposta dada em nome do Sr. Alves Branco. 

No entanto supponho poder asseverar, baseado em va- 
liosos tesemunhos. os quaes sendo preciso invocarei, que o 
importante pamphleto é da lavra do Sr. Honório Hermeto 
Carneiro Leão, depois marquez de Paraná. 

Porei diante dos vossos olhos, Srs. eleitores, algumas 
poucas citações do folheto, e reconhecereis com quanta força 

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336 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

da coherencia são qualidades a que os mineiros prestão culto 
religioso. O adversário politico em Minas sabe lionrar-se, 
honrando a consitancia e a sinceridade dos seus adversários. 
Cumpre também confessar que algumas vezes o anta- 
gonismo está nas rivalidades locaes. 

Quaesquef, porém, que sejão os matizes sob os quaes 
a opinião se manifeste na província, acliar-se-ha entre os mi- 
neiros acerca de certos princípios constitutivos de todo o 
governo livre maravilhosa harmonia. 

Garanta um ministério qualquer a execução franca c leal 
da constituição, a liberdade e seriedade das eleições, a hones- 
tidade na administração, a economia na gestão dos dinheiros 
públicos, e eu asseguro que um tal ministério terá o applauso 
universal dos mineiros, sem distincção de partidos. 
Assim é hoje, assim era em 1845, 184Õ e 1847. 
A situação em que o - de fevereiro coUocava o partido 
liberal era a mesma que o 23 de março de 1841 dera aos 
conservadores . 

Em 1841 eu os havia invectivado em pleno parlamento 
por se haverem sujeitado á imposição palaciana. 

Não podia ser-me agradável que o partido liberal se 
collocasse em idêntica situação: essencialmente mineiro, eu 
tembem capricho em sustentar o pundonor da coherencia; e 
sabe o publico que o meu voto não prevaleceu nessa con- 
junctura ■ 

Achando-me em unidade e não querendo embaraçar os 
chefes de partido liberal, que julgavão das trevas poder tirar 
a luz, eu me abstive systematicamente de toda a discussão 
sobre politica geral. 

O meu silencio de então foi largamente commentado 
pelas folhas da opposição conser\'adora . Mas o que poderia 
eu fazer contra a torrente? A reacção da maioridade corria 
á rédea solta, e não havia recurso senão curvar a cabeça e 
deixar passar a onda. 

A justificação dos chefes do partido liberal que estíverão 
no ministério durante o lamentável quinquénio foi magis- 
tralmente escripta pela penna illustrada e não suspeita do 
Sr. Dr. Justiniano José da Rocha. Do folheto a que já 
me referi vou copiar algumas judiciosas apreciações.. 



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A CimUí.AR DE Tl[r,01'H[I.O OTTONI 337 

A' pag. 38 diz o Sr. Rocha: 

< No período de 1S44 a 1848 os ministérios que succe- 
dèrão conipuzerão-se dos seus (o autor íalla do («rtido li- 
beral) mais notáveis estadistas, dos seus mais dedicados 
alliados ; todas as ix>sji,-ões de predominio e de influencia 
forão por elles occupadas ; as camarás davâo-lhcs quasi una- 
nime apoio; e entretanto a doutrina actualmente aceita acerca 
do poder moderador, doutrina tão repugnante aos princípios 
do regimen parlamentar, foi por alguns delles invocada, por 
lodos sustentada e firmada no paiz: a grande conquista do 
veto presidencial sobre os actos das legislaturas das províncias, 
a interpretação dos dous ter^s, foi por um desses ministérios 
estatuída . 

< Explicaremos esses phenomenos como nos días da 
grande luta fazião os i>artidos? Apresenta-los-hemos como 
aviltamento dos caracteres políticos, como denuncias de falta 
de convicções e de pouca fé nas idéas que apregoavào? Longe 
de nós semelhante injustiça, que desairaria o caracter na- 
cional ; não ; chamados ao poder os homens dessas opiniões, 
achavão-se tolhidos pela tendência que encontravão; ainda 
não era o tempo das suas idéas, ainda a sociedade não sentia 
a justeza, a necessidade dellaS, e os obrigava a recuar. De- 
verião ter largado o poder ? Mas o poder era-lhes uma dupla 
garantia, já porque os livrava, a elles e aos seus co-partidaríos, 
da preponderância de homens que a cegueira das paixões 
politicas lhes representava como fataes; já porque pensavão 
assim impedir que a tendência contra a qual lutavão conti- 
nuasse cm novas e maiores conquistas. 

« Entretanto elles próprios a serviào. Quando, na dis- 
cussão do voto de graças, quiz o senado apresentar uma indi- 
cação de politica diversa da que pelo governo era annunciada, 
foi por este trazida a campo a vontade imperial, como de- 
vendo, pelo acatamento que infundia, cohibir essa indicação: 
quando um senador disse algumas verdades theoricas acerca 
da monarchia real e da pessoal, mil capítulos se erguerão, 
derão-se mil interpretações ás suas palavras, de modo a mover 
enredos absurdos no regímen representativo: quando se apre- 
sentarão aos eleitores pernambucanos as candidaturas dos 
Srs. Chichorro e Ferreira França, não duvidarão desculpar- 

5" t»ioo<^le 



33S ItSVtSTA DO INBTITUtO UIBtOMCO 

SC desta ultima declarando-a imposta pelo imperador; e 
quando, emfim, forão apresentadas ao senado as cartas im- 
periaes desses dous senhores, quando o senado <]uiz discutir 
a validade da eleição pernambucana, afadigárão-se na Uda 
insana de tornar odioso o senado, apregoando que queria 
desattender á coroa e cassar cartas iniperíaes I 

€ Erão homens de opiniões liberaes I Criraina-los-hemos ? 
Não, pois sabemos que o poder impõe necessidades, que ha 
tendências sociaes imperiosas, que os partidos teem arras- 
tamentos irresistiveis. Ora, a tendência de todas as forças 
£ de toda a opinião corria nesse sentido; a atmosphera que 
a todoB nos rodeava, em que totjos vivianios, era essa; está- 
vamos em plena reacção. 

c Firmou-se então a doutrina de que os actos do poder 
moderador não jxKlem ser discutidos, pois são privativos da 
coroa, que é sagrada e irresponsável. Estabeleceu-se que 
nesses actos o ministro referendador obrava como machina 
passiva, sem responsabilidade alguma, nem mesmo a que re- 
sulta das discussões perante o juizo da razão nacional. Em- 
balde se dizia que a rubrica importava a responsabilidade, 
que devia o ministro, a bem do paiz, examinar o acto, e, se 
o achasse cx)ntrario aos públicos interesses, devia, por leal- 
dade á constituição, e até por lealdade á coroa, negar-lhe 
essa rubrica; embalde se dizia.,.. < Calai-vos, respondião: 
Q acto é da privativa attribuição do imperador, e o imperador 
é inviolável e sagrado; calai-vos; pois nás ministros tambetu 
nos calamos; referendamos, como simples officiaes de secre- 
taria; a nossa referenda é uma formula vã. Calai-vos. > 

No interesse geral dos partidos regulares achei tendência 
e disposição para fazer-se uma lei de eleições. 

Bçm compenetrado de que era indispensável subtrahir 
as eleições aos esbirros de policia, sob cuja tutela havião sido 
postas pelas instrucções do i" de maio de 1842, empreguei-me 
com fervor na confecção da lei eleitoral. 

Devo confessar que os conservadores não puzerão em- 
baraço a esta lei, que ao contrario procurarão melhorar. 

A experiência lhes ttnha feito sentir que havião dous 
gumes na espa<hi eleitoral do decreto de 4 de maio de 1842. 

Patere legem quam í« ipse tulisti, dizião os liberaes ar- 



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A CIRCULAR DE THEOPKILO OTTONi 339 

vorados em subdelegados e delegados de policia, excluindo 
legal, mansa e pacificamente das camarás os chefes conser- 
vadores, que liavião fabricado as instrucções em vigor. 

Quem estudar os debates do senado verificará que, sem 
o auxilio poderoso do Sr. Carneiro Leão, o governo teria 
ficado armado com as instrucções de 4 de maio de 1842 
para despachar livremente os deputados. 

O Sr. Carneiro Leão havia comprehendido que era in- 
dispensável coarctar a omnipotência do governo pessoal e 
reliabilitar o systema representativo. 

A extrema consideração com que o illustrado senador no 
seu folheto Jntulado Facção Aulica, que já mencionei, tratou 
a deputação hberal de Minas liga-se a este procedimento no 
Senado e á política do seu ultimo ministério. 

Muito teria ganho o paiz se animosidades pessoaes não 
houvessem embaraçado em 1846 a fusão dos brasileiros, que 
conhecião as misérias do governo [wssoal e desejavão pór- 
Ihes termo. 

Que o Sr. Carneiro Leão fez tudo para que essa fusão 
se realizasse provão-o de sobejo os factos referidos. 

Membro da commissão de poderes com os Srs. António 
Carlos e Urbano, eu empreguei os maiores esforços para 
que se garantissem na lei a liberdade do voto e a verdade da 
eleição. Na proposta sobre as incompatibilidades, apresentada 
então, o meu humilde nome corre associado ao do illustre 
paulista o Sr. Gabriel José Rodrigues dos Santos. 

Promulgada em 19 de agosto de 1846, é a lei eleitoral 
talvez o único padrão que a legislatura de 1845 a 1848 le- 
vantou ás idéas liberaes: foi trabalho da sessão de 1845. 

Se a lei de 3 de dezembro atravessou incólume este 
período, asseguro-vos que não foi por falta de diligencias da 
minha parte. 

Guarda da constituição e da,s leis, não perdi occasião de 
condemnar as violências praticadas contra os cidadãos. 

A prisão arbitraria é uma das maiores chagas da actua- 
lidade. 

E' risível que aspiremos aos foros de povo livre e alar- 
deemos as garantias consagradas na constituição emquanto, 
a pretexto de averiguações, o cídadãb pôde ser índefini- 

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340 REVISTA DO INSTITUTO niSTOmCO 

(lamente conser\a<lo na prisão pela autoridade policial, eni- 
quanto o subdelegado, amovivel ad nutum, estiver revestido 
de attribuições mais amplas que as do magistrado vitalício. 

€ A prisão arbitraria, diz ainda o erudito Sr. Dr. Rocha, 
com todos os escândalos das paixões mesquinlias de mil 
agentes prendedores, com todo o desdém pela sorte das vi- 
ctimas, pelo sof f rimento dos cidadãos ; a prisão arbitraria, 
contra a qual não ha senão uni recurso, a carta de empenho, 
tal foi o principio de uma organisação policial irresponsável, 
soberana, que só depende do governo, que só ao governo dá 
conta de si. > 

Bem que retirado do campo das discussões |X)liticas, os 
annaes da época conservão vestígios de que procurei sempre 
resguardar contra os horrores da prisão arbitraria as garan- 
tias índividuaes do cidadão. 

Apresentarei um exemplo no seguinte parecer da com- 
missão de constituição, de que eu era membro com os Srs. An> 
tonio Carlos e Urbano. 

Eu dava o meu voto aos ministros do 2 de fevereiro nas 
questões de confiança, mas não hesitei em levantar a voz 
em defesa de um opprimido e infeliz amnistiado. 



I de constituição e poderes foi presente 
o requerimento de Eduardo Francisco Nc^eira Angelim, que 
pede ser restituído á sua liberdade e retirado do presidio de 
Fernando, em que se acha contra a lei. E, considerando a 
commissão : 

« i." Que o supplicante, tendo sido implicado na re- 
bellião do Pará, foÍ amnistiado pelo decreto de 22 de agosto 
de 1840, e obrigado, na forma do art. 2° do dito decreto, a 
residir temporariamente onde a autoridade llie indicasse ; 

• 2." Que. sujeitando-se a esta condição, e assignando o 
termo competente de residir no Rio de Janeiro, e não poder 
voltar para o Pará senão no fim de dez annos, foi Para aqui 
mandado pelo presidente daquella província, e apresentou-se 
á autoridade competente ; mas que no fim de poucos dias foÍ 
preso, remettido para a fortaleza, e depois embarcado no 
,dia I» de agosto de 1841 para a ilha de Fernando; 

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A riRrri,An DE THEOPHILO OTTOM 34l 

*« 3." Que, tendo o supplicante ciitnpriflo a condição eh 
amnistia, e sortindo ella por conseguinte o devido effeíto, 
sem poder rescindir-se senão no caso de quebrar o suppli- 
cante o termo, facto i>elo qual perderia o gozo da amnistia 
concedida, mas nunca poderia ser punido sem sentença; 

« 4." Que, lavando a amnistia todos os crimes politicos 
para que fora concedida, e não liavendo o supplicante pra- 
ticado nenhum outro que o sujeitasse á acção das leis fora 
o acto do ministro que o condemnára a um degredo um per- 
feito attentado contra a liberdade individual ; 

€ 5.' Que assim o tem pensado o actual ministro da 
justiça, fazendo voltar para Goyaz ao Dr. Francisco Sabino 
Alves da Rocha \'ieira, que ahi estava em consequência do 
termo que assignára de residência, do forte do Príncipe da 
Beira, na província de Mato-Grosso ,para onde o arremessara 
injusta e violenta arbitrariedade: 

< E' de parecer que seja o requerimento do supplicante 
remettido ao ministro da justiça, para lhe deferir na forma 
da constituição e das leis, 

« Paço da camará, 14 de fevereiro de 1845. — A. C. Ri- 
beiro de A. M. e Silva. — T. B. Oitoni. — U. S. Pessoa de 
Mello. » 

Este parecer foi approvado em 22 de abril de 1845; e en 
suppunha ter produzido os seus naturaes effeJtos, quando 
ânuos depois soube que o Sr, Angeltm era conservado com 
os condemnados no presidio da ilha de Fernando. 

O Sr. Eduardo Angelim, sem outra sentença conde- 
mnatoria, lá esteve dez annos com sua família, e lá enlou- 
queceu de desespero sua infeliz senhora. 

E o infeliz, que fora illegalmente para o inhospíto porto 
do Príncipe da Beira, lá succumbíu ! 

Sem ser julgado e sem sentença condemnatoria, lá está 
também na ilha de Fernando ha mais de oito annos Vicente 
de Paula, que pôde ser muito criminoso, mas que tem di- 
reito a ser considerado innocente emquanto outra cousa não 
disserem os tríbunaes. 

Oxalá que fossem raras as violências desta ordem ! 

Só por escameo ao bom senso se pôde considerar livre 
um paiz em que taes attentados se praticão. 



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343 REVISTA DO ItieTITDTO HISTÓRICO 

Segundo lord Palmerstoii disse no iiarlaniento, em Ná- 
poles o mal consiste essencialmente em que o governo é a 
IKílicia e a policia é o governo. 

Srs. eleitores, vós bem o sabeis, no Brasil quem diz go- 
verno (Tiz policia, e, o que é peior ainda, quem diz policia 
diz poder judiciário. 

Pro honra da civilísação é preciso que entremos nas con- 
dições normaes do systema representativo. 

Foi no anno de 1844 que me coube a grande felicidade 
de contribuir para um facto importantíssimo que occorreu 
durante o ministério de 2 de fevereiro. 

rnnegavetmente o serviço mais relevante que prestou ao 
paiz o ministério de 2 de fevereiro foi a pacificação do Rio- 
Grande do Sul. 

Com razão o Sr. Salles Torres-Homem se extasia diante 
de tão prospero acontecimento. 

Diz elle: 

« Em breve foi apagado o terrível incêndio que a tanto 
tempo devorava S. Pedro do Sul. e firmada a concórdia 
nessa província, que o imperador pôde então viajar sobre 
caminhos juncados de flores, naqwelles mesmos logares onde 
apenas dous annos antes só encontraria os rastilhos da re- 
belHão e os destroços sangrentos dos combates. Bastou a 
força morai de nossa moderação e de nossa lealdade; bastou 
a ascendência de nossos princípios de nacionalidade, de fra- 
ternidade e conciliação, para que cahissem as armas das mãos 
daquelles a quem um decennio de porfiadas lutas, tantos exér- 
citos e riqueza destruídos não puderão domar. 

Noa annimi domuere dícem, non mi lie carinct. 

(ViíCiUO.) 

Entaboladas em 1844 com o Sr. conde de Caxias as 
negociações para a pacificação do Rio-Grande do Sul, o go- 
verno de Piratinim mandou um emissário ao Rio de Janeiro. 

Este emissário, que hospedei çm minha casa, foi portador 
de uma caria que me dirígia«o bravo Sr. general David Ca- 
navarro e communicações do governo republicano, 

Ilavíão os río-grandenses projxjsto ao governo imperial 



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A CIRCIfLAR DE THEOPHILO OTTONI 34J 

O reconhecimento da republica de Piratiiiim mediante a fede- 
ração com o império. 

Dado que não chegasse a accordo com o governo impe- 
rial, eu era consultado sobre a possibÍh'dade de fazer reappa- 
recer a revolução na província de Minas, para o que se noa 
offerecião os melhores officiaes río-grandenses para virem 
rommandar os tnsurgentes de Minas. 

Se eu tenho horror á guerra civil, mais me assusta ainda 
o aparcelameiito do Brasil. Nunca fui separatista. 

Cotn o direito <ias gentes do século actual a maior das 
desgraças para uma nação é ser pequena. 

Por isso nutri sempre 03 mais sinceros desejos de que 
o Rio-Crande se não destacasse do grémio brasileiro. 

Ambicionava ver os rio-grandenses livres, reforçando 
o partido liberal das outras provincias irmãs. 

Já se vê, porém, que eu não podia comprehender paci- 
ficação sem que aos rio-grandenses livres se concedesse capi- 
tulação honrosa. 

A opportunidade era magnifica, certo como eu estava 
das disposições conciliadoras do governo. 

Eu temia que se a pacificação se adiasse viesse a ter 
logar sob o dominio dos Césares, como a de Varsóvia ou de 
Perusa. 

Em consequência, sem dizer palavra aos ministros acerca 
da federação proposta, annunciei a Canavarro que tal idéa 
seria por certo repellida. 

Ao mesmo tempo fiz ao general rio-grandense uma 
exposição franca e leal acerca do estado da opinião em Minas 
e S. Paulo, informando com verdade que datli os rio-gran- 
denses não devião esperar a menor diversão. 

Chamei a attenção de Canavarro para o facto de terem 
estado no poder chefes liberaes de Minas e S. Paulo, e terem 
feito aos rio-grandenses livres a mesma guerra que lhes fa- 
2Íão os conservadores. 

E, demonstrando que os río-grandenses estavão isolados, 
lhes declarei que só podião contar para a execução do seu 
intento com o valor e resignação de que a nove annos davão 
brilhantes exemplos. 



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J44 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Voltando ao Kio-íírandc o emissário, teve logar a i)ad- 
ficação da província. 

Em seguida o distJncto Sr. general David Canavarro 
declarou-me que a minha carta foi o pharol que lez-ou ao 
desejado porto os rio-grandenscs livres. 

Eis textualmente o que me escreveu o illustre rio-gran- 
dense : 

< Illm. Sr, Theophilo Benedicto Ottoni — Se a mais 
tempo não tenho respondido á estimada carta que V, S. se 
dignou dirigir-me em 24 de setembro do anno findo, tem sido 
essa falta devida á escassez de um seguro meio pelo qual 
fizesse chegar ás mãos de V. S. a minha resposta. Agora, 
porém, contando com o favor do meu illustre amigo o 
Sr, José Simeão de Oliveira, por cuja intervenção espero 
que V. S. não deixe de honrar-me com suas letras, vou pagar 
uma divida em que estava para com \'. S. 

« Tomando em alta consideração as sabias reflexões de 
V. S-, fiquei convencido da impossibilidade de levar a ef- 
feito a desejada federação desta província, pela qual fervo- 
rosos pugnarão mais de nove annos os rÍo-gran deuses livres, 
tanto mais assegurando \ . S. que só devíamos contar com os 
nossos irmãos d'armas, por isso que nenhuma coadjuvação 
nos proviria dos homens que em 1842 lutarão em S. Paulo 
e Minas a favor dos mesmos principios. e que finalmente 
os próprios chefes do partido progressista quando no poder 
fazem a mesma guerra que os regressi.stas. Apreciando, pois, 
a franqueza de \'. S. e leal exposição que me fez do estado 
geral das cousas, me convenci a empregar os meus esforços 
e diminuta influencia- na terminação da guerra que por 
tanto tempo devastou as bellas campinas deste continente, 
podendo assegurar a V, S. que a sua carta foi o pharol que 
conduziu os continentistas ao desejado porto. 

« Oxalá que esse tão rclet-aiite serviço por V. S. prestado 
em favor do bem geral e da liberdade fosse um dia lembrado 
pela governo eom o mesmo apreço com que o recordâo os 
rio^randenses livres. 

€ Desnecessário seria relatar a V. S. as condições por 
que foi terminada essa importante questão, vislo que delias 
estará V. S. scienti ficado. 



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A CIRCULAR DD TIIEOPHILO OTTOXI 345 

€ Hoje me aclio retirado á vida privada, e [jor isso so- 
mente com as influencias de um particular; porém, mesmo 
assim me ufanarei se tiver occastão de executar as ordens 
de V. S, de quem com o mais alto apreço e consideração 
me firmo attento venerador e criado, — David Canai-arro. 

€ Fazenda da Alegria. 30 de maio de 1845. » 

Com a pacificação do Rio-Grande devia crer-se que o 
partido liberal saliisse da quarentena. 

E que, tendo dado testemunho do seu afferro á consti- 
tuição, ser-Ihe-hia permittido lenta e progressivamente entrar 
no pri^ramma progressista com que havia iniciado a maio- 
ridade. 

Vã esperança ! 

< De 1845 em diante, diz o meu amigo o Sr, Torres- 
Homeni, foi o corpo l^slativo tratado sem a mínima con- 
sideração; gabinetes se compuzerão fora de sua influencia, 
c até sem sciencia sua : o ministro incumbido de os organísar 
propunha em palácio os nomes daquelles com quem lhe con- 
vinha ser\nr, de accordo com o voto parlamentar ; esses nomes 
crão regeitados; lembrava outros, depois outros, até que fi- 
nalmente, esgotada a longa lista dos ministros impossiveis, 
o governo pessoal compunha um amalgama de entidades hete- 
rogéneas, onde apenas um ou outro liberal era induido, para 
que se não dissesse que o pensamento dominante no parla- 
mento havia sido desattendido, 

€ Era isto guardar realmente as regras e observar as con- 
dições que prescreve o regimen representativo? O que dc- 
via-se esperar de gabinetes assim formados, retalhados entre 
si \ioT diversidade de opiniões, debilitados e desacreditados 
logo ao nascer por esses germens de destruição que trazião 
no próprio seio? Por outro lado. o que l>odião as camarás 
fazer de útil e de grande, tendo em frente de si ministérios 
em que seus princípios não erão convenientemente repre- 
sentados, e que mal poderião dar impulso, direcção e systema 
í seus trabalhos, navegando elles próprios a ludibrio de todos 
os ventos? 

€ Por muilo tempo a camará dos deputados devorou em 
silencio esta infracção clamorosa das normas da constituição, 
que eslerilisava seus esforços e a inhibia de cumprir os graves 



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340 REYISTA DO INSTITOTO HI8T0IUC0 

empenhos que havia contrahido para com a nação. Mas ella 
sabia que só tinha que optar entre a sujeição á influencia 
inconstitucional da coroa, ou então a guerra civil, o desmo- 
ronamento do paiz, effeitos inevitáveis da rehabilítação im- 
mediata dos apóstolos do absolutismo, com quem já se tinha 
feito pazes e com quem se a ameaçava quotidianamente. 

« Se o partido liberal ama e respeita os princípios da 
organisação politica que abraçamos, também consagra iguaes 
sentimentos á ordem e paz publica ; e não queria expo-las 
a medonhas contingências, rompendo logo com o poder fátuo 
c desasisado, que não olharia as consequências de sua vin- 
gança. Cumpria-lhe, no interesse do paiz, ter prudência por 
si, e por quem a não tinha; cumpria-lhe de dous males pre- 
ferir o menor, e dar tempo ao tempo, esperando da mesma 
circumspecção de sua conducta, da diuturnidade de sua pa- 
ciência e dos triumphos pacíficos da razão publica que se 
chegasse a aceitar frequentemente o governo da constituição 
com todos os seus corollarios. 

< Assim correu este período monótono da vida parla- 
mentar até a abertura da sessão de 1848 em que perante a 
camará dos deputados um novo gabinete compareceu, mb- 
saicamente composto como os anteriores, com a differença, 
porém, que uma de suas fracções, preponderando, pelo visível 
apoio de alta personagem, ameaçava arrogantemente inverter 
a situação politica, que ella laboriosamente fundara e que 
tomava a peito conservar. 

€ Desta vez a resignação da camará devia ter limite ; o que 
se atacava era a bandeira mesma de sua politica; o que corria 
perigo era a ordem de cousas que os acontecimentos havião 
justificado e legitimado, e em cuja manutenção estavão com- 
promettidas sua fé e sua honra. Uma votação solemne e 
hostil ao presidente do conselho arrependido, e a impressão 
da nova assustadora da revolução de Paris, que naquelle 
mesmo tempo aqui chegara, determinarão o reposteiro irri- 
tado a demittir a seu pezar o ministério, e a escolher outro 
menos desestimado, que provisoriamente tranquilisasse a opi- 
nião ate o termo da sessão legislativa. 

€ A nomeação do gabinete Paula Souza não era com 
effeito mais do que um armistÍcÍo, um espaçamento da luta 



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A CIRCULAR DE THEOPHILO OTTONI 34? 

qtie se ia travar com o partido constitucional. A corte, vendo 
arder as barbas de Ugalegonte, recuava, porém não desistia 
de seu projecto, e antes cada vez mais suspirava pela volta 
de seus bons alliacfos, os sectários da monarchia sem tram- 
bolho. Mas quantas decepções e perfídias não era mister 
empregar para reter o ministério no seu posto até o encer- 
ramento da assembléa, e isto quando por outro lado o redu- 
zião á mais miserável nullidade ! 

« Antes de dous mezes já o vco da illusão estava roto 
para o primeiro ministro Paula Souza, contrariado em suas 
vistas, impossibilitado de obrar, e a quem só se pretendia 
deixar a responsabili<fade do governo sem a realidade da 
acção. 

< Tarde elle reconheceu o laço armado á sua boa fé ; e, 
tendo debalde instado pela demissão, retirou-se a pretexto 
de moléstia, e foi occultar em S. Domingos profundos des- 
gostos, deixando seus collegas entregues á traição e aos desa- 
catos de reposteiro. Aquilio de que não havia ainda exemplo 
nas monarchias modernas, a criadagem da casa do rei ul- 
trajar impunemente os depositários do governo da nação, 
estava reservado a esta triste época. Um dia era o cama- 
rista da semana que enxotava os ministros de palácio como 
a cães, e vedava-lhes brutalmente o accesso junto á pessoa 
do monarcha; outro dia era o medico de Sua Magestade 
que vinha vangloriar-se em pleno parlamento das humilhações 
que os vira soffrer, e cobri-los de impropérios e de escarneo. 
È esse camarista não teve a minima admoestação, e esse 
medico foi promovido ao logar de director da escola de me- 
dicina, sem embargo da opposição dos ministros, a quem 
acabava de enxovalhar publicamente ! A recompensa do in- 
sulto commettido foi a satisfação que se deu ás queixas dos 
membros de um dos poderes do estado ! Faltava-nos mais 
este opprobrío ! 

< Entretanto o gabinete, manietado, e a quem calcula- 
damente recusavão-se as medidas necessárias para o bom des- 
empenho de suas funcções, conser\-ava-se nessa posição anó- 
mala e vergonhosa, receiando, dizia-se, descobrir a coroa 
nas explicações que fosse por\cntura obrigado a dar ao corpo, 
legislativo sobre as causas de sua demissão. Que íalta de 



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^ REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

coinprehensão das verdadeiras regras <la nionarcliia repre- 
sentativa ! 

< Sem duvida é obrigação dos ministros amparar a coroa 
com seu corpo, assumir a responsabilidade inteira dos actos 
do governo, ou sejão voluntariamente praticados, ou extor- 
quidos á sua fraqueza e á sua deferência para conii a vontade 
da pessoa real. Mas, se essa entidade inviolável, sahindo 
de sua espliera própria, e invadindo os poderes activos que 
!i constituição confiou a ministros res]X)nsaveis, tornasse im- 
possível a tarefa destes, então o caso seria differente; então 
seria de seu dever abandonar sem demora o governo e expor 
sem rebuço ás camarás os motivos por que o fizerão. E' um 
mal que a coroa seja ixjsta a descoberto; ninguém o nega; 
mas iiào é outro mal mil \ezes maior que o systema consti- 
tucional seja falseado em um dos seus pontos mais vitaes, 
sem que o paiz o saiba, sem que a opinião publica possa fazer 
voltar o poder transviado ao limite em que se deve conter ? » 

Nos periodos que acabo de trancrever do Livro do poz-o 
o seu illustre autor desenhou com o pincel de Tácito ou de 
Gibbon as ultimas scenas do drama que começou em 2 de 
fevereiro de 1844. 

Na citação que fiz algumas observações mais enérgicas 
são filhas das paixões do tempo; |X)r isso não podem servir 
de argumento contra a natural amenidade de espirito do meu 
illustre amigo. 

Desejei supprimi-las, por me parecer que sahião dos li- 
mites estudadamente guardados neste escripto. 

Mas uma palavra que fosse omittida podia prejudicar o 
brilhante do colorido e o incisivo da critica, em que tanto 
se avantaja o Livro do povo. 

No entanto, para pro\'ar que não creava entes de ima- 
ginação, eu estava obrigado a cítar as autoridades contem- 
porâneas dos factos a que atludia, e que delles podiâo dizer: 
— Quorum pars magna fui — Eis o motivo da citação textual. 

Eu deveria, para vos inteirar cabalmente do meu modo 
de encarar 3 situação politica naquella época, addicionar a 
este capitulo um discurso que proferi na camará dos depu- 
tados condemnando a organisação do ministério palaciano 
ide 29 de setembro de 1848, e denunciando factos semelhantes 



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A CIRCULAR DE TIIEOPHILO OTTOXI 3^9 

nas anteriores orgaiibaçues ministeriacs. Mas o meu discurso 
seria apenas o pallidu reflexo do que acabo de transcrever; 
e, se fez alguma sensação em 1848, é jwrque, ou bondade 
para comigo, ou para de minha franqueza tirarem partido 
em favor da politica a que estavão adstrictos, alguns illustres 
ad\'ersarios derão importância ao meu pronunciamento. 

Mal toquei nas fimbrias do governo pessoal o dislincto 
Sr. Car\-allio Moreira, hoje nosso ministro em Londres, ex- 
clamou : — /acta est alea ! 

E o illustrado Sr. Wanderley, argumentando com o meu 
silencio anterior, quiz transformar em acontecimento politico 
as minhas modestas considerações, das quaes por pouco não 
concluiu que a pátria estava em perigo. 

Tocou alarma no seu acampamento, dizendo astucio- 
samente que Achilles havia sabido de sua tenda. 

Coitado do AchtUes do Sr. Wanderley ! Como a melhor 
^'ontade nestes casos é insufficiente, nada pôde contra os 
Heitores que defendião a praça sitiada; viu os seus alliados 
levantarem o cerco, sem que estivessem de accordo com 
algum Sinon palaciano, e ao contrario deixando em poder 
dos Paris oligarchas e cortezãos a Helena que pretendião 
libertar, que era a constituição. 

O Achilles do Sr. Wanderley teve de voltar ao Scyros 
da abstenção e ^ silencio, e oito annos não forão expiação 
bastante para applacar a cólera dos deuses. 



O discurso a que tetdio alludido está no Jornal do Com- 
mercio de 3 de outubro de 1848. 



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AÍDdi o geverno pesseal 

A' parte a ficção constitucional que acato como devo, 
nenhum brasileiro mais conscienciosamente faz honra ás 
rectas intenções e elevação de espirito que ennobrecem a au- 
gusta pessoa que de presente occupa o throno do Brasil. 

Com consciência de que nem os meus lábios nem a minha 
penna se contaminarão jamais com as misérias da bajulação, 
espero que ninguém ponha em duvida a sinceridade do juizo 
que acabo de, emíttir. 

Se as qualidades moraes dos monarchas por si somente 
significassem bom governo, bem estaria a nossa pátria. 

Porém o mal que nesta carta tenho por vezes denun- 
ciado é independente das individuahdades, porque é um vicio 
orgânico do systema. 

Conforme a constituição art. 102 o imperador deve 
exercitar o poder executivo pelos seus ministros de estado. 

Se, em vez de guiar-se pelo preceito constitucional, con- 
sentem os ministros em que somente se lhes conceda a po- 
sição de meros copistas e amanuenses do palácio, bem se vè 
que a monarchia constitucional ficará transformada na mo- 
narchia pessoal, que debalde denunciou o distincto mineiro 
o Sr. senador Vasconcellos . 

A palavra governo constitucional é synonimo de governo 
responsável : se a entidade inviolável e irresponsável governa 
pessoalmente, de duas uma: ou se ha de annuUar a inviola- 
bilidade e a irresponsabilidade, ou se ha de admittir o abso- 
lutismo. 

No senado, a 28 de maio de 1832, dizia o Sr. marquez 
de Barbacena: 

« O poder moderador é uma innovação no systema con- 
stitucional c incompativel com a inviolabilidade do monarcha, 



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í CtRCVLKR DE THBOPHILO OTTONl Sjl 

a qual só pôde existir quando todos os actos são referendados 
por um ministro responsável. » 

O nobre marquez, por não admittir a responsabilidadt: 
ministerial para os actos do poder moderador, concluia logi- 
camente que este poder é incompatível com a inviolabilidade 
do nionarcha. E' uma dcmonstra<;ão por absurdo da respon- 
sabilidade ministerial em. todo o caso. 

Se disse que o absolutismo do poder moderador está no 
adverbio privativamente, que no art. 98 exprime o modo da 
delagação. 

Ao adverbio privativamente do art. 98 responde do modo 
o mais conveniente o adverbio Uvrefnente do art. lOi I 6°. 
A nomeação e demissão dos ministros é a única attribuiçáo 
que o poder moderador exerce sem responsabilidade de 
ninguém. Que outra significação pôde ser o livremente do 
art. loi § 6.°? 

Eu estou convencido de que no animo constitucional do 
Sr. D. Pedro II não se aninha a mais remota idéa de usur- 
pação. 

E' a subserviência dos ministros e cortezãos, que pro- 
clamào unisonos a omnipotência imperial, quem perverteu 
completamente a nossa forma de governo. 

Os Srs. marquez de Paraná e conselheiro Barbosa profU- 
gárão na imprensa e na tribuna os excessos da facção aulica, 
íncukando-a como dominadora, e a mim próprio talvez me 
escapassem expressões análogas. 

Ha flagrante inexactidão e injustiça em uma tal impu- 
tação. 

O imperador não é nem foi dominado pela facção aulica 
ou por favoritos e validos, que nunca teve, e que parece fazer 
estudo de ostentar que não tem. 

O Sr. Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho foi sacri- 
ficado em 1843 e 18^8 ás exigências dos conservadores com 
um desapego que em nada se assemelhava a essas effusões 
do coração e grandes expansões de sensibilidade que em 
occasiões análogas a historia attribue a Luiz XVIII c 
Carlos X. Quando a reacção legitimjsta derribo» do minis- 
tério o duque de Decaze, Luiz XVIII, banhado em lagrimas, 



3^3 RBVIST% DO INSTITUTO HISTÓRICO 

se despediu do seu ministro predilecto despachando-o em- 
baixador da Inglaterra e dando-llic o titulo de duque. 

« Ao menos aqui me fica o teu retrato, que não me dei- 
xará» disse Luiz XVIH a Decaze, apontando para o fundo 
do seu gabinete, onde mandara collocar o retrato do favorito 
apeado do ministério. 

Annos depois no gabinete de Carlos X dava-se uma scena 
igual com o conde de Portalis na occasião da demissão do 
ministério Martignac. 

O monarcha do Brasil não tem ministros validos, mas 
Sua Magestade o Imperador tem politica pessoal, e a politica 
dos monarclias constitucionaes outra não deve ser senão a 
do parlamento. 

E, conforme as exigências da sua politica, Sua Mages- 
tade, ora se apoia sobre a facção aulica, ora sobre o partido 
liberal, ora sobre o partido conservador. 

Dá ou retira aos partidos e aos individuos o grão de 
preiwnderancia que julga conveniente em qualquer- emer- 
gência . 

Parece mesmo que cm cada partido a politica imperial 
tem sentinellas avançadas, que procurão modificar os voos 
da opinião e obrigão os chefes a não tomar uma posição muito 
decisiva em relação ao paço. 

Não estamos e nunca estivemos sob o domiuio de cama- 
rilha, favoritos ou validos, mas padecemos de doença muito 
mais grave do que essas todas: é o governo pessoal. 

E quem é o culpado desta situação? Será o imperador? 
Não por certo. Os culpados somos nós, e especialmente os 
ministros liberaes, conservadores e palacianos :A''tíj cotisulcs, 
nos cônsules desumtís. 

Se o Sr. D, Pedro II tivesse tido a fortuna de encontrar 
entre os seus ministros um conde de Cavour, seria talvez o 
Victor Emmanuel da America, e com' uma politica generosa 
e americana quem sabe se os ducados do Rio da Prata hoje 
não teriào constituído comnosco um estado mais i>oderoso do 
que o sonhado reino da Itália. 

Oh I que cm tal caso ao menos não se reformaria incon- 
stitucionalmente o art. 6° da nossa constituição, por assim 
te-lo ordenado a legação franceza. 



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A CIRCULAR BE TIIEOPIIILO OTTONI 353 

Mas O certo é que os nossos homens de estado nunca 
dizem ao imperador a verdade. Não lli'a dizem porque lh'o 
prohibem a ambição do poder e o temor de que lhes faltem 
os graciosos sorrisos e boas graças. 

Desde o verdor dos annos o espirito do monarcha tem 
estado perennemente exposto á acção corrosiva da lisonja. 

Pelos escríptos da época actual publicados sob os auspí- 
cios do ministério se podem bem avaliar quantos erros fu- 
nestos, infiltrando-se por todos os poros officiacs, teem 
procurado inocular-se no animo imperial. 

Vimos em 1860 em imi folheto que sahiu dos prelos da 
folha official com o titulo — Moiiarchia c democracia — 
proclamar-se que era tradicional a monarchia brasileira, deri- 
vados do campo de Ourique os seus direitos e annuUadas 
conseguintemente a nossa independência e emancipação. 

Na corte é theoria banal que o dia 7 de abril significa 
pura e simplesmente o principio do segundo reinado pela 
ordem natural de successão. 

Não querem comprehender que no dia 7 de abril de 1831 
o povo e tropa reunidos no campo da Honra ao grito signi- 
ficativo de — viva a federação ! — quando simultaneamente 
■ se fazião pronunciamentos idênticos em Minas e Bahia, havião 
consummado uma revolução como a de 1688 na Inglaterra. 

Não querem comprehender que a nação quebrou no dia 
7 de abril o que podia haver de aspiração tradicional no pri- 
meiro reinado, e marcou soberanamente as condições de exis- 
tência do segundo. 

Não querem comprehender que as instituições no dia 
7 de abril receberão nova tempera, e que nesse dia foi, por 
anticipação, inaugurada a reforma federativa ou acto addi- 
cional . 

Não querem comprehender que a abdicação publicada 
no acto do embarque para a náo ingleza Warspite foi uma 
inspiração feliz, mas não acto espontâneo, e que realmente 
nesse dia o Brasil tirou o throno ao príncipe portuguez e o 
devolveu regenerado ao príncipe brasileiro. 

No entanto, em bem da monarchia, era este o cathe- 
cismo em que Sua Magestade o Imperador devera ter sido 
educado. 



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3S4 REVISTA bO INSTTTtrrO aiBtORIdb 

Pelo contrario, parece que desde o berço os cortezãos 
lhe soletravão o direito divino e os devaneios da It^timidade. 
E os ministros liberaes e conservadores em vez de recti- 
ficarem o que havia de fallaz no direito publico dos cortezãos, 
porfião, para dar arrhas de sua orthodoxia, em augmentar 
o elasterio ao principio da autoridade, annuUando calcula- 
damente tudo quanto de longe que seja pôde parecer limitação 
da prerogativa imperial. 

Para demonstrar a proposição que acabo de enunciar é 
bastante folhear os annaes do parlamento e repetir o que lá 
está escripto em nome dos ministros de primeira plana que 
acabavão de sahir dos conselhos da coroa. 

Ainda me soão aos ouvidos as palavras proferidas pelo 
meu venerável e saudoso amigo o Sr. António Carlos Ribeiro 
de Andrada Machado e Silva na discussão do orçamento dos 
estrangeiros em 1841. 

A cordialidade com que Sua Magestade o Imperador 
havia aceitado a cooperação dos Andradas e de seus amigos, 
para levar-se a effeito a maioridade, havia subjugado aquella 
altiva e generosa natureza. 

Dessa circumstancia resentirào-se muitos actos do mi- 
nistério de 24 de julho de 1840. 

Com a sinceridade que lhe era congénita, António Carlos 
explicou ás camarás a origem e progressos do governo pessoal. 

Tratava-se de apurar entre o ministro dos negócios es- 
trangeiros e os ex-ministros as causas da dissolução do gabi- 
nete, e souberão as camarás que o facto de não ser conde- 
corado opportunamente o irmão do ministro palaciano fora 
ura dos princípios dissolventes do ministério de 24 de julho. 

JORNAL DO COMMERCIO DE 23 DE JUNHO DE 184I 

Sessão de 21 do mesmo mes 

«O Sr. Andrada Machado: — Propondo-se esta re- 
nmneração. Sua Magestade disse que seria mellior que se 
esperasse para quando se remunerassem »s officiaes do Rio 
Grande, que devião ser contemplados, e mandou-me esperar; 
deixou-se, pois, de dar a condecoração ao Sr. Dr. Satur- 



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A aRCQLAR DE THEOPHtLO OTTONI 355 

nino. Mas, deix>is e rqK-iitinaiutiilt, Sua ilagcsladc quiz, c 
repare-se que Sua Magestade quiz por uma razão que podia 
ser particular, pois nesse tempo alguém mais havia que podia 
pretender o mesmo, [xjr exemplo, o nobre general nosso 
collega: mas tudo se espaçava para coniprehender a todos 
os que no Rio Grande tinlião prestado servii;os: eis que Sua 
Magestade repentinamente mandou que se lhe desse ; e eu tive 
então de o fazer por condescendência. * 

Nenhuma reclamação appareceu contra as palavras do 
cx-ministro do império. 

E quem havia de reclamar? 

A opposição? Essa conhecia por demais o patriarcha da 
independência, e conhecia os nobres motivos jáo seu proce- 
dimento. 

Os Césares? Esses, além de fraternisarem na occasião 
com os palacianos, tinhão inaugurado o programma do em- 
pereur quand même... pela boca do seu chefe mais presti- 
gioso. 

Tinhão proclamado que onde está o rei está a lei, e não 
jiijdião censurar os desmandos do governo pessoal, que aco- 
roçoavão, na intenção de se lhe associar. 

Se em todo o caso é legitimo o governo a cuja frente 
está o imperador, desapparece esse temor salutar que, recor- 
dando a punição de 1688, obriga os reis de Inglaterra a não 
governar senão como apraz ao parlamento. 

Se a revolução de 7 de abril de 183 1 tivesse entre nós 
o mesmo prestigio que a de 1Ó88 na Inglaterra o systcm^ 
constitucional teria lançado raizes mais profundas. 

Quem compara, porém, as cortezias do nosso parlamento 
com a linguagem varonil empregada na tribuna ingleza tem 
de reconhecer que o machinismo do nosso governo é uma 
caricatura . 

Em 1825 o duque de York, herdeiro presumptivo da 
coroa, com assento na camará dos lords, foi portador de um 
requerimento do deão e do capitulo da igreja collegial de 
.M'indsor contra a emancipação dos catholicos. 

Ao mandar á mesa o requerimento Sua Alteza Real, 
depois de abundar em protestos de um zelo exclusivista e 



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35<^ ItEVlSTA DO INSTITUTO IIISTOIUCO 

intolerante em favor da igreja anglicana, exclamou com 
emoção, diz o Annuario de Lesur, pag. 526: 

«... e em qualquer situação em que para o futuro eu 
^el1ha a ser collocado, por maior que seja a censura a que 
esta declaração me exponha, hei de perseverar em minha 
opposiçào á emancipação dos catholicos. Assim D«us me 
ajude. > 

Na noite seguinte Brougham', que então tinha assento 
na camará dos communs, depois de ter analysado o discurso 
do príncipe, declarando que as doutrinas pregadas por Sua 
Alteza Real atacavão a segurança do estado, e as'sentavão mal 
na boca de um príncipe cuja familia occupava o throno de 
Inglaterra, por virtude dos princípios da revolução de 1688, 
accrescentou : 

< Eu não odeio a perseverança, não condemno mesmo 
um zelo violento e a linguagem de uma honesta obstinação; 
mas lamento ver essas qualidades varonis obscurecidas pela 
ignorância, exas))eradas pelos prejuízos e cegas pela hypo- 
crisia. Não receio dizer que nunca monarcha algum ch^ou 
ao throno desíes reinos em um espirito de hostilidade tão 
directo, tão predeterminado, tão altamente declarado de 
antemão contra as opiniões e voto do seu povo. Quando tal 
acontecimento tiver Ic^r o bill será impossível, e mesmo 
agora sua approvação esta cercada de duvidas e de perigos, 
desde que tal personagem lhe prepara semelhante opposição. 
O momento presente é critico, o tempo passa, e esta gloriosa' 
occasião pôde escapar, E no entanto chegará o reinado da 
hypocrisia e sorprender-vos-ha como um homem armado 
sorprende á noite homens adormecidos, e destruirá a paz da 
Irlanda, comprometterá a segurança da Inglaterra, e amea- 
çará a liberdade de todo o império. . . eu não me queixo de 
uma resistência sincera e leal, a ninguém acuso de má fé 
nesta camará ou fora delia... mas é preciso confessar que 
muitas vezes homens honestos, á força de ignorância, tornão 
se adversários tão perversos que ninguém se deve intro- 
metter a corrigi-los de seus erros. Assim Deus os ajude. > 

A revolução memorável que expelliu do throno a dy- 
nastta dos Stuarts a cada passo é commemorada pelos maiores 
homens de Inglaterra, como uma gloria nacional, sem que 



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A CIRCDLAR DE THEOPniLO 0TT(M»1 357 

níiigiieni se lembre de attribnir essas manifestações a affe- 
tação de patriotismo ou a despeito de estadista que perdeu 
as boas gragas da corte. Lord John Russell, primeiro ministro 
da rainha, ainda este anno na camará dos lords foi muito 
explicito sobre esta matéria. 

A opposição havia qualificado o invicto Garibaldi, heróe 
da Sicilia, de pirata e flibusteiro. Lord John Russell respon- 
deu-lhe simplesmente: 

« A historia é que ha de decidir se é pirata e flibusteiro, 
ou patriota e heróe. Em novembro de 1688 desembarcava 
nas costas da Inglaterra um pirata e flibusteiro, e a revolução 
que fez é uma das maiores glorias da nação.» 

Lord John Russell, faliava assim a respeito do chefe da 
dynastia de Sua Magestade a rainha de Inglaterra, glorían- 
do-se de compara-lo a Garibaldi, qualificado na camará de 
pirata e flibusteiro. 

Se em o nosso parlamento um ministro se atrevesse a 
comparar com o de Garibaldi o procedimento do Sr. D. 
Pedro I, quando, cm virtude das vivas instancias dos An- 
dradas. poz sobre o braço a legenda da independência, no dia 
seguinte não seria mais ministro. 

Ainda na ultima sessão um deputado, tendo ousado 
fazer uma remota allusão á incúria com que se consente que 
os filhos da nossa estimada princeza a Sra. D. Januaria se 
estejão educando sob os auspícios de uma corte beata e abso- 
lutista como a de Naix)les, os ministros tiverâo a sem cere- 
monia de impor silencio ao orador, proclamando que tal 
objecto não podia estar na alçada do parlamento. 

Pelo que, acerca da illusire princeza, o parlamento deve 
não ter outro direito senão o de votar annualmente ro2:ooo5 
de pensão para Sua Alteza e mais 6:000$ para cada príncipe 
napolitano que Sua Alteza dá á luz. 

Na Inglaterra a rainha, acompanhando os sentimentos 
e sympathtas do rei consorte, que tanto ou quanto é também 
austriaco, desejou, organisando o anno'passado um ministério 
liberal, dar a presidência a lord de Gramville, liberal pala- 
ciano, mas recuou de tal pretenção, porque a vontade sobe- 
rano do parlamento lhe impoz como primeiro ministro a lord 
John Russell. 



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3S>> REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

E a rainha de Inglaterra não se julgou com isso desairada. 

No Brasil o imperador escolhe a politica que ha de do- 
minar e marca-lhe periodicamente o tempo de sua duração, 
e designa qual é o primeiro ministro que deve representar 
cada partido, quaes são os collegas que o primeiro ministro 
deve ter, e recusa ao ministério a demissão de empregados 
de confiança. 

E os cortezãos justificão o governo pessoal escrevendo, 
como se escreveu, que o imperador do Brasil com a vastidão 
dos seus conhecimentos não pôde resignar-se ao papel passivo 
da rainha iVictoria. 

Esquecem que o papel dos reis constitucionaes é essen- 
cialmente passivo. - ■; 

Durante os cem' dias Napoleão dizia a Benjamin Constant : 
« Sinto-me velho, e por isso me parece que já sirvo para rei 
constitucional.» '■'• •*■:»■'■ 

Infelizmente pretende-se que no Brasil o exercício da 
realeza corres|K)nda ao serviço activo da milícia. 



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I JUstençfio politico. — Hncnrr 

NSo entra nas minhas vistas escrever a historia destes 
iiltimos doze annos. nem cabe ella nos limites desta carta .■ 

Desejo somente tomar bem claro que «n todo esse longo 
período guardei sempre o pundonor da coherencia, perma- 
necendo fiel ao symbolo que articulei no jornalismo em 1831, 
e que professei imperterrlto na tribuna da assembléa pro- 
jvincial da nossa provincia, na da camará dos deputados e 
no banco de réo perante o jury de Marianna. 

Quando em 1848 o arrefecimento das boas graças do 
palácio afastou os liberaes de toda a participação no poder, 
tomada a praça pelos contrários, nenhum delles me disputou 
o direito de retirar-me erguida em punho a bandeira que, 
ao entrar no parlamento em 1838, eu arvirára e fora adoptada 
pela opposição liberal. 

E em 1851, quando, com razão ou sem ella, pareceu-me 
que os chefes liberaes, candidatos ás pastas de ministros se 
mostravão na imprensa e no parlamento dispostos a fazer 
ao governo pessoal mais concessões do que aquellas que eu 
julgava admissíveis, relirei-me da politica, e deixei de estar 
em communhão com qualquer partido. 

Uma declaração que então fiz, e a que se associou o 
Sr. conselheiro C. B, Ottoni, publicada nas folhas diárias 
da corte, valeu-nos a seguinte felicitação dos Hberaes mais 
avançados do município de Itabíra: 

FEUCiTAçXo 

c Cidadãos Ottonis t 
« Sendo-nos presente o Jornal do Commercio de 22 de 
julho passado, nas poucas linhas que ahi estampastes encon- 



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36o REVISTA DO INSTITOTO HISTÓRICO 

trámos abundantes e irrecusáveis provas de vossas cívicas 
virtudes, virtudes que ha muito temos a satisfação de ler em 
vossos corações verdadeiramente americanos ; e, comparti- 
lhando os sentimentos por vós manifestados, comvosco nos 
congratulamos, e vos offcrecemos nossos serviços como signal 
de consideração pela franqueza, lealdade e desinteresse com 
que procurais servir ao paiz que nos viu nascer. 

< Temos o prazer de assignar-nos 

< Vossos patrícios dedicados e amigos certos 

«João Baptista Vianna Drummond. 

« Domingos IgnacJo Capistrano de OHveira.j 

«Custodio Martins da Costa. 

«Francisco Félix Pereira. 

« Raymundo Gomís da Silva. 

« Thomaz d' Aquino e Oliveira. 

«Joaquim Reitor Motta. 

€ Bento José Machado, 

«João José Ventura. 

«Manoel Moreira Figueiredo. 

«Pedro Anacleto da Silva Lopes. 

«Joaquim Fernandes Passos, 

«Manoel António de Freitas, 

«Germano do Prado Ferreira. 

«João da Silva Torres. 

«Joaquim Pereira Novaes. 

«José Rodrigues Lage, 

«José de Souza Pereira Júnior. 

«Clemente dos Santos. 

«Francisco de Paula Farias, 

« Custodio Alves de Farias. 

«António Rodrigues Vieira. 

« Sebastião Pio da Costa. 

«António Teixeira Godoy. 

« António Alves Moreira, 

«Joaquim Zeferino de Magalhães. 

«Joaquim José de Oliveira. 

« Francisco Rodrigues Vieira. 

«Joaquim José Rosa. 

< Germano Mendes de Brito,. 



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A circulaK de THEonniLO OTTOXi 361 

«Quintiliano Messias da Costa. 
«Joaquim José dos Santos. 

< Florêncio José Pereira . 
«Joào Prisco Alves de Araújo. 
« Martiniano da Costa Torres. 

< Bernardino, de Souza Brandão. 

« Pauto Procopio da Silva MonteírO( 
« Manoel Lazaro da Assumpção. 
«José Marcellino da Cruz, 
«José Joaquim de Andrade. 

< Manoel Jacintho da Fonseca. 
«Antonb Pires da Silva Pontes. 
«João Alves dos Santos. 

«José Alves de Araújo. 

«Joaquim Basílio dos Santos. 

«Basílio José Vieira. 

«Caetano Rodrigues Malta. 

« Felício José de Mendonça. 

« Basílio José da Costa. 

« Raymundo Ferreira da Silva, 

«Joaquim de Souza Pereira Primo, 

« Itabira de Matto-Dentro, 18 de agosto de 1851. »' 

Do Itamontano. que então se publicava no Ouro-Preto, 

e de que até essa data eu fui na córie um dos correspondentes, 

vou copiar a resposta que dei aos meus amigos de Itabira: 



«Concidadãos ! 

« Os jornaes teem dado noticia de um programma oppo- 
sicionista, no qual pareceu-nos, não só pelo seu contexto, 
como por circumstancias que precederão a sua publicação, 
pão estarem formulados sufficientes compromissos para com 
ás idéas políticas que em nossa curta e insignificante vida 
publica cuidamos ter servido com alguma constância. 

« E, como não desejemos contribuir de modo algum para 
que uma nuança qualquer da opinião libera] chegue ao poder 
sem intenções previamente confessadas, que lhe dêem a força 
moral indispensável á realização das grandes reformas que 
são reclamadas pela nação, por esses motivos escniputisámos 



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^63 REVISTA DO INSTITUTO HISTOHICO 

ficar comparticipantes do mencionado prc^amma, e assim 
o declarámos pura e simplesmente em uma correspondência 
transcripta no Jornal do Commercio de 22 de julho. 

< Coube-nos a fortmia de que esta nossa declaração tão 
benevolamente fosse por vós interpretada que, qualiíicando-a 
como prova de lealdade para com o partido liberal e para 
com o paif, tendes a bondade de galardoa-la com a honrosa 
congratulação da vossa carta de 18 de agosto passado. 

< Altamente penhorados por tamanha distincção, pro- 
curaremos não desmentir a vossa confiança, persistindo com 
firmeza em o nosso modesto posto de honra, bem compene- 
trados da importância dos deveres que nos impÕe a lisongeira 
adhesão de nossos comprovincianos . 

« E tanto mais grato nos é o brinde com que fomos sau- 
dados do pico de Itabira, porque em suas expressões encon- 
tramos provas do bom e patriótico espirito que anima a oppo- 
sição mineira, convencida sem duvida que, embora se 
prolonguem um pouco mais os soffrimentos da actualidade, 
cumpre que olhemos para o futuro, não com a mira era 
Victorias ephemeras e concessões precárias ou pouco sinceras, 
mas com a firme intenção de conquistar e consolidar as ga- 
rantias de liberdade que nos faltão. 

« Possuídos destes sentimentos, temos a satisfação em 
nos assignarmos 

c Vossos patrícios e agradecidos amigos 

< Theophilo Benedicto Ottoni. 

< Chrístiano Benedicto Ottoni . 
«Rio de Janeiro, 15 de setembro de 1851. » 

Estava eu nessas disposições de espirito quando fuí 
chamado a tomar assento na camará dos deputados como 
supplente por Minas. 

Ainda nessa conjunctura foi o pudor da coherencia que 
determinou o meu procedimento. 

Havia eu protestado contra a l^alidade da eleição, não 
só em razão das violências praticadas contra a opposição 
em muitas freguezias, como especialmente iielo vicio da 
origem .j 



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A CIRCULAR DE THEOPHIIO OTTONI ,163 

A lei de jg de agosto de 1846 dispõe terminantemente 
que, dado o caso de dissolução, a eleição da nova camará se 
faça pela qualificação do anno anterior ; de ordem do governo, 
o processo eleitoral se fizera pela qualificação novissima. 

Resignei, por isso, o logar de deputado. 

Afastado da politica procurei outro terreno, em que 
pudesse ser útil ao meu paiz. 

Uma idéa grandiosa me havia assaltado o espirito. 

Eu a segui com ardor proporcional á importância do 
objecto que representava. 

Quem ha ahi mineiro que ignore o que é a empreza do 
Mucury e os motivos patrióticos que a puzerão em scena? 

Tratavã-se de abrir fácil sabida para o oceano a mais 
de 200.000 mineiros. 

Tratava-se de lhes proporcionar terrenos fertilissimos 
e tão vastos que em poucos annos poderião vender ao estran- 
geiro tantos milhões de arrobas de café como o valle do 
Parabyba. 

Tratava-se de absorver a princeza dos Abrolhos na pátria 
de Tiradeiites — crear um magnifico porto de mar para a 
briosa provincia de Minas. 

E, se não devesse Minas continuar peça inteiriça, e nova 
estrella se houvesse de destacar da constellação mineira e 
da promogenita de Cabral, tratava-se de abrilhanta-la de 
modo que, ao apparecer entre as demais irmãs, não desmen- 
tisse a sua nobre linhagem. 

Era arrojado o esforço, e bem se me podia dizer: 

Uagna petía, Ptiacton, «t qux non vitíbus iilis. 

Mas o Rubicon estava passado. 
■ Arrisquei um cento de vezes a minha vida, arruinei a 
minha saúde e sacrifiquei os meus interesses. 

Foi mister sujeitar-me ao agro viver das mais inhospitas 
brenhas. Era somente cada anno, quando volvia ao Rio de 
Janeiro, que eu avaliava o insano da luta em que estava em- 
penhado. 

Então, comparando as doçuras do lar domestico com a 
vida agreste das selvas, confesso que me arrependia do passo 
temerário que havia dado. 



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364 REVBTA DO IMSTITtm) HMTOHKO 

Mas de volta ao Mucury. a imaginação predominava, 
e iwr entre os espinhos via somente as flores. 

A' proa do meu gentil Peruipe, eu me enlevava ao ve-lo 
cortar desembaraçado as torrentes, naquelles mesmos logares 
onde três annos antes a canoa rompia com difficuldade por 
entre o balseíro. 

Se atravessava ao galope as florestas ainda ha pouco 
virgens de todo o contacto com o homem civilisado, se me 
afigurava, mesmo ao correr, estar reconhecendo frescas as 
peadas do meu sapato ferrado, primeiro que alli tinha 
pisado. 

Oh ! que emoções me assaltavão quando ao cruzar as 
veredas dos selvagens eu era detido aos gritos : — Pogirum I 
Pc^irum ! com que alegres me davão a boa vinda essas ca- 
bíldas, que a historia aponta como as mais ferozes entre 
os anthropofagos. 

E que effectivamente ainda dons ou três annos antes 
erâo o terror da minha própria bandeira. 

E cujos horrorosas proezas ainda o mez passado se fi- 
zerão sentir no Rio-Doce. 

Quando pelas estradas, que, engenheiro, administrador 
t operário, eu tinha improvisado, encontrava, aqui a barraca 
de uma tropa, alli um carro tirado por bestas, mais adiante 
outro de bois carregando fardos de fazendas, que ião chegar 
.'I Minas-Novas dous mezes mais cedo do que pelas velhas 
estradas, cheia estava a medida dos meus desejos. 

Em 1857 foi talvez com sentimentos de vaidade que per- 
corri no meu carrinho as 27 Xj léguas da estrada de Santa 
Clara, e no dia 23 de agosto entrei tríumphante na minha 
Philadelphia. 

Sob as impressões em que este complexo de drcum- 
stancias me embalava não havia arrependimento possivel, 
todos os sacrifícios me parecião compensados. 

Sentia-me mesmo com disposição de os fazer maiores, 
e me suppunha sufficientemente forte para, daquelle reducto , 
que havia levantado, inutilisar quaesquer tramas que ur- 
dissem contra o emprezario e director da companhia do 
Mucury. 

Parecia-me que, pisando o solo do Mucury, crescia o 

D,gt,zedbyGOO<^le 



A CIRCULAR DE T11EOPIIIL0 OTTOHI 365 

meu alento na proiwrção da base larga e solida em que podia 
apoiar-ine. 

Ligado por laços multiplicados aos interesses daquella 
terra, que minha fora, ainda que mineiro eu não fosse, me 
considerava na posição desse gigante invencivel emquanto 
se podia aquecer ao seio materno. 

Mal pensava que a clava ministerial cm mão de qual- 
quer Hercules burlesco podia arredar do thcatro dos seus 
serviços o director da companhia do Mucury, e então facil- 
mente suffoca-lo. 

E é o que succedeu. 

Não referirei a historia das ultimas crises da companhia 
do Mucury ; ctunprometto-me, porém, a escreve-la mais de es- 
paço e detalhadamente. 

E' sabido que ha um anno interrompi os importantes 
trabalhos da estrada do Alto dos Bois, por não poder su- 
jeitar-me ás duras condições que, contra toda a lei e todo o 
direito, pretendeu impor á companhia do Mucury o mínistiiç 
da fazenda, o Sr. Angelo Moniz da Silva Ferraz, o qual fez 
dependente de clausulas inaceitáveis a entrega do emprés- 
timo feito por conta e ordem da companhia, e que indevi- 
damente está retido no thesouro. 

Para provar-vos que as minhas exigências não erão de- 
sarrazoadas, bastará lembrar que o ministro do império, o 
Sr. João de Almeida Pereira Filho, estava em antagonismo 
com o seu collega da fazenda, e pretendeu debalife que jus- 
tiça fosse feita á companhia. 

Estabelecido o conflicto em razão da diversa intelligencia 
dada pelos dous ministros á lei de 8 de junho de 1859, fez-se 
appello para o corpo legislativo, que tinha de explicar o 
sentido controvertido. 

De accordo comigo, a deputação mineira unanimemente 
comprehendeu os verdadeiros interesses da província, e 
propoz a pedida explicação, intercalando a respeito tia lei 
de orçamento um artigo additivo. 

Esta explicação, impugnada pelo ministro da fazenda, 
foi retirada pelos nobres deputados por Minas, que em tal 
coUisão tiverão de abraçar o alvitre, insinuado pelo ministro, 

.gle 



366 REVISTA DCUNSntUTO HISTÓRICO 

de encampar-sc d contrato com a companhia do Mucury, 
pagando-se aos seus accionistas o capital realizado. 

Em vista do occorrido, reuni os accionistas da com- 
panhia, c fui por elles autorisado a aceitar as condições que 
o governo imperial nos impunha, tendo-iue eu abstido de 
tomar parte nessa questão, e tendo tido os accionistas a 
generosidade de declarar que a sua acceitação subentendia que 
ficavão salvos os direitos que, na forma do art. 22 dos esta- 
tutos, tem o emprezario a uma indemnisação. Pela minha 
parte comniuniquei esta deliberação ao governo imperial; 
mas , não querendo que meus interesses pecuniários pu- 
dessem embaraçar uma solução que no estado actual das 
cousas os accionistas desejão, antecipadamente declarei ao 
governo imperial que essa indemnisação que me é devida não 
devia prejudicar nem retardar a solução da questão, porque 
acerca do meu direito eu me louvava no que deliberasse a 
a secção do conselho de estado dos negócios do império, pro- 
testando nada reclamar se me for contraria a sua decisão. 

Assim, a encampação da companhia do Mucury deve 
suppor-se um negocio acabado, e eu aguardo somente as 
ordens do governo imperial para saber a quem devo fazer 
entrega da administração. 

No entanto a empreza do Mucury não morreu. D'ora 
em diante não é mais negocio em que quemquer que seja 
possa enxergar pretenções individuaes. E' imia empreza geral 
que interessa ás províncias do Espirito Santo, Bahia e mais 
especialmente á de Minas, cuja deputação se estiver unida 
na futura legislatura pôde obter que justiça se faça neste 
e em outros pontos á nossa provincia, tão desconsiderada e 
mesmo ludibriada pelo ministério actual. 

Pelo que me diz respeito, applaudo-me considerando que 
a provincia de Mínas-Geraes não está circumscripta ao Mu- 
cury, e que, se um voto parcial dalli me arrancou, mil votos 
imparciaes ijodem designar-me outro posto em que, debel- 
lando os Hercules do cortezanismo e da oligarcliia, eu tenha 
a gloria de ser\ir, não somente aos interesses de Minas como 
aos do Brasil em geral. 



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Candidatura Bonatorla 

Em 1857, inaugurada a estrada, do Mucury, comecei a 
perguntar a mim mesmo se não era tempo de saber o que 
se havia feito em politica durante a minha longa abstenção. 

Havia no senado duas vagas por Minas, Apresentar-me 
candidato á senatoria, não tendo solicitado um logar na mi- 
lícia activa da deputação, parecia-me pouco consentâneo com 
os meus antecedentes. 

Qaiz, porém, significar aos mineiros que me achava 
prompto para entrar em actividade politica se os meus ser- 
viços fossem reclamados. 

O Sr, Carneiro Leão acabava de descer ao tumulo, com 
o seu recente titulo de marquez de Paraná, sem ter podido 
realizar o pensamento reformador que na opinião geral o 
acompanhara durante o seu ultimo ministério. 

Nove annos depois das revelações feitas ao senado por 
occasião da dissolução do gabinete de 20 de janeiro de 1843 
havia o Sr, Carneiro Leão entrado novamente para um mi- 
nistério que organisára. 

Não era já o corajoso orador da oligarchia, que em 1S41 
mais contribuirá para as vtctorias e conquistas dos Césares, 
e que sustentara com calor essa these famosa que tive a 
gloria de prof ligar: «O governo é sempre legal, a cujo 
frente está Sua Magestade o Imperador. > 

O Sr. Carneiro Leão de 1853 era o pamphletista para 
quem não ha na constituição poder algum absoluto, nem 
mesmo o poder moderador quando nomeia os ministros. 

Era o estadista que nas explicações dadas ao parlamento 
acerca da dissolução do outro gabinete a que prisidira se 
havia abalançado a denunciar os excessos do governo pessoal 
e sua interferência indébita na organisação dos gabinetes. . 



368 nEVISTA 00 INSTITUTO HISTÓRICO 

Era o conservador que eni 1845 e 1846 mais se havia 
empenhado no senado pelo triumpho da lei eleitoral qu« os 
liberaes havião proposto. 

E que em 1848 auxiliara poderosamente o Sr. Paula 
Souza para traduzir eni lei as incompatibilidades dos funccío- 
narios públicos nas eleições populares. 

Ou fosse desgosto contra o governo pessoal, em razão 
do que os Césares soffrérão no aimo de 1844 e seguintes, ou 
nobre reconhecimento de passados erros, o certo é que nos 
últimos annos de sua vida o Sr. Carneiro Leão pareceu de- 
sejar sinceramente a fusão dos dous grandes partidos politicos, 
para assim regenerar o systema representativo. 

Nessa intellígencia os liberaes prestarão apoio ao seu 
ultimo ministério, depois que elle, acudindo ao reclamo da 
patriótica manifestai;ão de Vassouras, pareceu entrar fran- 
camente nos caminhos do progresso. 

Bellas esperanças, que todas murcharão em flor I 

Mas que, amenisando a lousa do illustre morto, ainda 
por algum tempo embalarão docemejite o. paiz. 

Foi sob as impressões desses factos que eu tive a honra 
de vos escrever a seguinte: 



€ Srs. eleitores mineiros ! — Ha algum tempo que ouvis 
proclamar do alto das cadeiras minísteriaes a necessidade de 
reformas em nossa organisação politica. 

< Parece que a voz do povo encontrou éco nas regiões 
do poderi" 

« As promessas de melhoramento, o prc^ramma da li- 
berdade de voto e de reforma parlamentar, aconselhavão 
aos abaixo assignados que persistissem na inércia politica, 
em que se teem conservado estes últimos annos. 

« Cumpria não perturbar o trabalho regenerador se, como 
õ de crer, nelle se empenhão os obreiros com sã consciência 
e patriótica sinceridade. 

« Se ao contrario alguma decepção amarga ameaçasse o 
paiz, desejarão os abaixo assignados esquivar-se á respon- 
sabilidade de figurar em tal profanação. 

D,3t,ZBdbyGOO<^le 



DE THEOPHILO OTTOHl 369 

« Neste intuito se abstiverão de toda a interferência nos 
preparativos para o festim eleitoral que vai ter logar no paiz ; 
aliás resolvidos a aceitar o mandato espontâneo, que porven- 
tura os seus concidadãos lhes conferissem. 

« Podendo, porém, este procedimento ter sido attribuido 
a reprehensivel indifferentismo, os abaixo assignados se 
julgão na obrigação de explicar-se perante o respeitável corpo 
eleitoral de Minas, cujos suffragios os teem honrado mais 
de uma vez. 

«E volverão novamente ao silencio da vida privada e 
ao cumprimento de outros deveres, em cujo desempenho (*) 
se lisongeão de prestar serviços á sua pátria. 

€ No entanto, para que a abstenção politica dos abaixo 
assignados não seja interpretada como abandono dos prin- 
cípios a cuja defesa teem elles consagrado os melhores annos 
de sua vida, se aproveitão da opportunidade da eleição de 
dous senadores que vai ler logar na provinda, e chamão a 
attenção do corpo eleitoral para uma necessidade palpitante 
ua actualidade. 

« Foi encetada pelos poderes do estado a reforma elei- 
toral, mas combinadas de tal sorte as disposições novíssimas 
que, podendo melhorar a representação temporária do paiz, 
nenhuma influencia terão na escolha dos representantes vi- 
lalicíos. 

< Anomalia inconcebivel ! 

« Dir-se-hia que o pensamento reformista progrediu até 
ás portas do senado, e que ahi se lhe fecharão os reposteiros, 

5 E' assim que a eleição por círculos attenderá de ora 
em diante aos interesses legítimos de todas as localidades 
proscrevendo o falseamento das urnas por meio das chapas 
provinciaes; e todavia a dos senadores aínda se fará pelo 
velho systema, que a lei aboliu por vicioso. 

« Reflecti, senhores, e só encontrareis a explicação ló- 
gica desta anomalia no estéril principio da vitaliciedade. 

€ Velha instituição, que, imitando a medo as dos governos 
aristocráticos, jjossue todos os defeitos e nenhuma das van- 
tagens do pariato hereditário. 



<*) Emprcii do Mucuíí. — Estrada de ittto de D. Fedro II. 

DiBlradbjGOOgle 



370 REVISTA DO IN8TITDT0 HISTÓRICO 

« Srs. eleitores mineiros, se desejais o prt^resso refle- 
ctido e pacifico, a reforma sem lutas violentas, tentai inocular 
no senado o principio reformista. 

€ Purifiquem-se dos vicios reconhecidos as eleições da 
segunda camará. 

€ Sejâo chamados os senadores ao juizo das urnas, como 
os deputados, embora em mais largo período. 

« Invocando estes princípios, os abãíxo assignados hão se 
dirigem exclusivamente a partido algum, porque a reforma 
do senado é pensamento gravado na consciência de todos os 
brasileiros patriotas, sem distincção de creíiças politicas. 

€ Srs. eleitores mineiros ! Em nome da paz, do pro- 
gresso e da concórdia politica vos pedem os abaixo assi- 
gnados : — elegei deputados e senadores que expressamente 
se compromettão a pugnar por todos os meios tegaes : 

tPela eleisão dos senadores por circulas. 

'4 Pela renovação parcial do senada em cada legislatura, 
« Theophilo Benedicto Ottoni. 
€ Christiano Benedicto Ottoni. 

« Rio de Janeiro, 7 de outubro de 1856. > 

Estive sempre persuadido que um senado vitalício dá so- 
mente garantia aos interesses indivíduaes dos senadores e 
de suas famílias. 

O senado temporário da Bélgica tem sido alli o fiador 
da monarchia constitucional. 

Senado vitalício, acostado a .conselho de estado vitalício, 
não pôde trazer outro resultado senão a mais detestável das 
oligarchias . 

No entanto no meu programma de 1838, apresentado á 
camará dos Srs, deputados, não vem uma só palavra acerca 
da reforma do senado. 

Por três legislaturas já tive a honra de occupar uma ca- 
deira entre a deputação de Minas; subi repetidas vezes ú 
tribuna, e nunca propuz nem advoguei a reforma do senado. 

Seria por estarem modificadas minhas opiniões acerca da 
vitaliciedade do senado? 

De nenhum modo. Tudo, porém, quer occasíão opportuna. 

Se reflectirdes no que escrevi á pag. 21, reconhecereis 



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A CIRCULAR DE TBEOPBILO OTTONt 3?! 

que desde o verdor (fos annos eu não adniítto reformas cou- 
stitucionaes senão dictadas pelo progresso da .razão publica 
c amadurecidas mediante uma discussão diuturna. 

Somente o progresso lento e reflectido ha de trazer-noa 
uma reforma conveniente no senado. 

E' preciso aproveitar-se a occasião propicia, e se a qui- 
zerem crear artificial o principio liberal pódc perder, em vez 
de ganhar. 

Eu me explico. 

Se o governo pessoal se persuadir que é mais conforme 
com o direito divino que a escolha dos senadores se faça 
livremente e deixe de ser inquinada pelo filtro eleitoral, re- 
formar o senado fora desservir o principio progressista. 

Com effeito, o elasterio dado ao adverbio livremente do 
art. lOi S 6' da constituição e a omnipotência ministerial e 
policial consagrada em nossa legislação habilitão quaesquer 
estafermos de posse das pastas para manipularem uma ca- 
mará constituinte e decretarem que a composição do senado 
seja da privativa competência do poder moderador. 

Ora, a um senado exclusivamente palaciano eu prefiro 
o senado actual com todas as suas mazelas. 

Quizera, porém, de preferencia o que estava decretado 
na constituição de 30 de julho de 1832, a qual tirava á coroa 
o direito de concorrer com os eleitores para a formação do 
senado. 

E, escrevendo em 1857 acerca de eleição senatorial, era 
indispensável que os Srs. eleitores soubessem minha opinião 
sobre esta importante questão. 

E' claro que a minha circular não significava, como se 
pretendeu inculcar, que, entrando para o senado, eu iria 
propor uma tal reforma, que aliás somente pôde, na forma 
da constituição, ter iniciativa na camará dos deputad"" 

A minha manifestação nada significava senão 
tenho o pundonor da coherencia, e que conserva\ 
ainda conservo, aquella opinião, de nenhum modo het 

Significava que, se eu- fosse senador e da can 
deputados fosse dirigida, em tempo que me parecess 
tuno, uma proposição, por virtude da qual os eleitore 
autorisados a dar poderes constituintes aos deput 



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371 REVISTA DO INSTITBTO HISTÓRICO- 

seguinte legislatura para reformarem a constituição em refe- 
rencia ao senado, eu havia de votar para que aquella pro- 
posição da camará dos deputados fosse dirigida ao imperador, 
declarando-se, na forma da constituição, que era útil e van- 
tajosa, e pedindo-se a sancção a Sua Magestade Imperial, 

Fica também fora de duvida que o tempo somente me 
pareceria opportuno para a reforma se eu tivesse fundada espe- 
rança de que, em substituição á camará vitalícia, se decre- 
taria um senado temporário e electivo, como a camará dos 
deputados, salva a differença razoável nas condições de ido- 
neidade e de duração das funcçòes. 

Era, portanto, aquella circular um acto de franqueza e 
de lealdade de candidato honesto para com os seus consti- 
tuintes. 

Minhas palavras singelas desafiarão a vossa genero- 
sidade, Srs. eleitores mineiros, e, sem distincção de partidos, 
vossos votos espontâneos captivárão a gratidão do candidato 
que apenas indirectamente se apresentara. 

Veiu depois a eleição de 21 de agosto de 1858. 

Então eu me dirigi francamente aos meus illustres com- 
provincianos. 

Todos vós, Srs. eJeitores, tereis em lembrança a lin- 
guagem da minha solicitação. 

Penhorado sobremodo pela circumstanda de ter sido na 
eleição anterior votado promíscua e espontaneamente !por 
ambas as parcialidades em que a provincia está dividida, eu 
considerei que era de minha parte um dever de delicadeza 
não dar còr politica á minha candidatura. 

Por isso, sem dizer uma palavra que estivesse em con- 
tradicção com o meu passado, eu me limitei em minha cir- 
cular de 10 de junho de 1859 a declarar-mc candidato sob 
os auspicies da \ossa benevolência. 

E, dirigindo-me especialmente aos conservadores meus 
amigos, eu Jhes dizia: 

« As cadeiras do senado, na forma da constituição, são 
destinadas para recompensar os serviços prestados ao estado. 
Se julgais que teem alguma importância os beneficios que 
a empreza do Mucury já está prestando á nossa provincia, 
dai um voto ao emprezario, dai um voto ao mineiro que pri- 



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A CmCULAn DE THEOPHILO OTTOSI 373 

meiro levou um vapor do Rio de Janeiro á província de 
Minas. » 

Primeiro na escala da votação, eu me considerei sobe- 
jamente galardoado com essa obsequiosa manifestação de 
meus comprovincianos. 

E quando, submettida a lista triplice ao poder mode- 
rador, foi escolhido o segundo votado, o Sr. conselheiro Luiz 
António Barbosa, não fui dos últimos a reconhecer que jus- 
tiça fora feita. 

Muitos dentre vós poderão verificar que esta linguagem 
está em perfeita harmonia com a minha correspondência de 
então. 

Justiça fora feita. 

O Sr. conselheiro Luiz António Barbosa, politica a 
parte, era um mineiro que honrava a nossa província. Ma- 
gistrado da maior integridade, administrador zeloso e orador 
íUustrado, é deplorável que tão prematuramente fosse rou- 
bado ao senado, de que seria um dos mais bellos ornamentos. 
Antes da sentida morte do Sr. conselheiro Barbosa outra ca- 
deira tinha vagado no senado. 

Honrado como eu havia sido pelos meus comprovincianos, 
não me apresentar candidato na eleição de ii de fevereiro deste 
anno fora revelar um despeito tão pretencioso como ridículo. 

Kovamente appareci solicitando a vossa benevolência 
e a vossa generosidade. 

Com o resultado da eleição de ii de fevereiro deste 
anno fiquei confundido. 

Com fundamento ou sem elle, se me afigurou que, apezar 
do mérito real que os distinguia e das sympatbias que os 
meus illustres competidores justamente desafiavão-se, havia 

na maioria dos collegíos estudados expedientes — - 

meu humilde nome fosse submettido com algum; 
ã consideração da coroa. 

Segunda vez me couberão as honras do prii 
na lista triplice, avantajando-me em 174 votos 
gundo votado e em 294 sobre o terceiro. 

E tão uniforme se manifestou a vontade d 
que, se a eleição de senadores se fizesse por cír 
a dos deputados, eu teria tido a gloria de ser 

lyCoogle 



374 REVISTA DO msTITITTO HISTÓRICO 

ã coroa pelos 20 distríctos- eleitoraes de Minas, primeiro da 
lista triplice em treze, segundo em cinco, terceiro no decimo 
nono, c ficando empatado em terceiro Ic^ar no vigésimo. 

Em 19 dos circulos eu teria sido apresentado á coroa pela 
maioria absoluta dos eleitores, só o sendo por maioria rela- 
tiva em um circulo, onde aliás obtive 43 votos em 85 elei- 
tores. 

Pareceu-me que eu podia exclamar como Cícero, eleito 
cônsul, e, como acontecia a meu respeito, primeiro na escala 
da votação: 

Me omnes ordines, me universo civitas, me cuncta Itália 
tion prius tabeliã, quatn você, priorem consulem declaravit. 

Os partidos sem discrepância, a universalidade dos colle- 
gios, a província em massa, antes que as urnas faltassem, 
me designavão a uma voz para senador do império. 

No entanto, submettida a lista triplice á illustrada con- 
sideração de Sua Magestade o Imperador, foi escolhido o 
Sr. Manoel Teixeira de Souza, terceiro votado. 

A escolha foi publicada nos jornaes do dia 28 de abril 
do corrente anno, e no dia immediato sahiu á luz a minha cir- 
cular dã mesma data, declarando que eu não seria candidato 
na eleição senatoria a que tinha de proceder-se em conse- 
quência do prematuro f allecimenHo do Sr. conselheiro 
Barbosa. 

Se eu tivesse por costume antepor meus interesses indi- 
viduaes á causa publica não teria escripto a circular de 28 
de abril. 

O damno que a minha linguagem rude ha de acarre- 
tar-me é talvez irreparável; mas a tudo me resigno conso- 
lado, porque o meu procedimento, por excepcional que fosse, 
deu occasião a uma discussão larga e proveitosa sobre o 
mecanismo da nossa constituição" nas suas mais transcendentes 
disposições. A' guelgue chose malkeur est bon. 

Aferiu-se o poder moderador pelo padrão constitucional 
e reconheceu-se que nas medidas usadas havia manifesta fal- 
sificação. 

A imprensa e a tribuna ecoarão o pro e o contra. 

No trimestre immediato á escolha senatoria de Minas 



Google 



A CIRCULAR DB THEOPHILO OTTOMI 37$ 

tnultiplicárão-se acerca das attribuições do poder moderador 
as publicações jornalísticas e pamphletos. 

Um intitulado — Monarchia e democracia — sahiu da 
penna do principal defensor official do ministério nas co- 
lumnas do Jornal do Commercia. 

Publicou-se outro em S. Paulo, em que sobresahe a in* 
conveniência do titulo: — Opoder moderador e o Sr. T. B, 
Ottoni. 

Um publicado nesta corte cm anonymo e com o titulo — 
Da naturesa e limites do poder moderador — é o escripto 
mais importante dos que se teem levado aos prelos sobre o 
objecto; tem sido geralmente attribuido ao ílluatrado Sr. con- 
selheiro Zacharias de Góes e Vasconcellos. 

As conclusões seguintes, com que o Sr. conselheiro Za- 
charias encerra o seu folheto, dimanão, por uma deducção 
lógica e rigorosa, dos princípios mais sãos bebidos na letra de 
nossa constituição, e em muitas e valiosas autoridades, apro- 
priadamente adduzídas pelo illustre pamphletista. 

< Concluamos, diz S. Ex. ; 

« No exercício do direito de graça, ou de qualquer outra 
funcção do poder moderador, assim como no das do poder 
executivo, a responsabilidade ministerial é, em nossa forma 
de governo, uma consequência necessária, irrecusável, da in- 
violabilidade do imperante. 

« O actual imperador dos francezes não se apoia na res- 
ponsabilidade de seus ministros; mas a razão disso está no 
art. 5° da constituição daquelle paiz, que declara o chefe 
do estado responsável perante o povo francez. 

€ O chefe do estado iR União Anglo-Americana não 
depende da responsabilidade ministerial ; mas ahi esse chefe 
é directamente responsável e sujeito a uma jurisdicção con- 
stituida. 

« Não ha meio termo : em paiz livre, ou pelo menos não 
de todo escravo, ou o chefe do estado é responsável, e neste 
caso decide e governa como entende, sem necessidade de 
firmar-se na responsabilidade de seus agentes; ou elle é irres- 
ponsável, e então não ha funcção, não ha prerogatíva que 
possa exercer sem o arrimo da responsabilidade ministerial, 

ogle 



376 REVISTA DO INSTITDTO HISTÓRICO 

responsabilidade que, ainda não estando expressamente esta- 
belecida, não é menos incontestável, visto que decorre da 
Índole do systema politico consagrado na lei fundamental do 
paiz. 

«E com ef feito, para que os ministros não respondessem 
entre nós pelos actos do poder moderador, dous artigos, além 
de outros, fora preciso cancellar da constituição do império, 
a saber: 

«O art. 3°, CUJO theor é: cO governo do Brasil é mo- 
narchico hereditário, coftstituctoiídl e representativo. »' 

< E o art. 99, que diz : < A pessoa do imperador é in- 
violável e sagrada. Elle não está sujeito a responsabilidade 
alguma. > 

Em uma advertência preliminar pulverisou o Sr. con- 
Iheíro Góes e Vasconcellos diversas proposições dos mi- 
nistros do império e da fazenda quando este anno perante 
as camarás pretenderão demonstrar que os ministros nada 
teem que ver nos actos do poder moderador, mas que não 
obstante nenhum se recusaria a tomar a responsabilidade 
desses mesmos actos. 

Ao nobre ministro da fazenda fiquei devendo especial 
fineza pelo empenho que S, Ex. mostrou ter nessa occasião' 
■de discutir a preferencia dada ao Exm. Sr. Teixeira de 
Souza. 

Cumpre confessar que é uma descoberta em direito pu- 
blico constitucional esta singular theoria da responsabilidade 
ministerial voluntária I 

Os ministros são responsáveis emquanto quizerem ter 
a generosidade de o ser. 

Não é por certo esta nova espécie a responsabilidade 
dogma que o systema constitucional suppôe. 

O systema constitucional impõe aos ministros a respon- 
sabilidade de amores nos actos do poder moderador. 

A nova theoria colloca os ministros na posição dos 
testas de ferro, conhecidos da imprensa, que se responsa- 
bilisão pelo que outros escrevem. 

No entanto os expositores da doutrina forão inspirados 
pela musa da historia. 

DigtizedbyGOOgle 



A CIRCUUia BE THEOPHILO OTTONI 377 

Professarão a jurisprudência dos precedentes, pois que 
é innegavel que, tanto no primeiro como no segundo reinado, 
os ministros teem sido no império do Brasil responsáveis 
somente na qualidade de testas de ferro, 

A imprensa fluminense fez justiça ao luminoso trabalho 
do Exm. Sr. conselheiro Góes e Vasconcellos. Eu a acom- 
panho no juizo imparcial que emittiu. E na maior since- 
ridade reconheço que S. Ex. prestou ao paíz um serviço 
relevante. 

Mas não posso deixar de deplorar que S. Ex., sem 
duvida porque em minha circular de 28 de abril eu me não 
exprimisse com a devida clareza, sem nomear-me, pareça 
emprestar-me opiniões que não professo nem alli estão con- 
signadas, e supponha no meu modo de proceder motivos que 
me não guiarão. 

Não me pôde caber a imputação de que eu figurasse 
a coroa na nomeação dos senadores livre como o pensa- 
mento. 

Se eu disse que a prerogativa não tinha limitação, 
motivei essa declaração pela circumstancia de ser o poder 
moderador o Juiz da preferencia que a constituição manda 
dar ao mais digno, sem que de modo algum negasse a respon- 
sabilidade dos ministros pelos actos do poder moderador. 

Também não disse que, deixando de recahir a escolha 
sobre um candidato apresentado seguidamente diversas vezes, 
isso trouxesse dezar á provincia que o apresentava. Menos 
queixei-me da preterição, considerando-me mais digno do que 
o nomeado. 

Limitei-me a explicar os motivos Ja minha desistência, 
que é também um direito, e tão sagrado pelo menos como 
o que tem o poder moderador de escolher entre os eleitos 
o individuo que lhe parecer maís digno. 

Commemorei as diversas coincidências segundo as quaes 
talvez mal aconselhado pelo amor próprio, que sem duvida 
engana a muita gente, e me deve ter enganado muitas 
vezes, acreditei que os collegios eleitoraes, guardadas as con- 
veniências, havião revelado sufficientemente que ambicio- 
navão a minha escolha. 

D,3 zB<ibyCOO<^le 



378 KcrmA do ntvmmo butorico 

A província podia assim interceder por um individuo 
que não fosse digno da mercê; mas, se o pediu, houve rae- 
nospreço no indeferimento, E por isso eu disse : 

«Essencialmente mineiro, se me fattão os predicados 
para ser escolhido senador do império, sobra-me patriotismo 
para zelar o nome e pundonor da minha província. » E por 
isso deixei de apresentar-me. 

Se eu me equivocava acerca da aspiração dos dignos 
eleitores mineiros, cessavão sem duvida o menosprezo e o 
dezar, mas haveria nesse caso dobrada razão para que eu 
não solicitasse uma nova eleição. 

Por ultimo, é muito expressa e sem restricção mental 
a declaração que fiz na circular de que sou o mais obscuro 
e talvez dentre os da lista tríplice o que menos serviço tenha 
prestado ao paiz. 

Não se pense, porém, que exagero a modéstia ao ponto 
de admittir que uma cadeira de senador deva estar fora do 
alcance de minhas aspirações. 

O nome de Theophilo Benedicto Ottoni, se não é des- 
conhecido na briosa provincia de Minas-Geraes, também não 
o pôde ser perante a coroa. 

T. B. Ottoni em 1845 foi o orador da deputação que 
em nome da camará dos deputados levou ao imperador as 
felicitações pelo feliz nascimento de Sua Alteza Imperíal o 
fallecido Sr. príncipe D. Affonso. 

T. B. Ottoni em 1846 foi o vice-presidente da camará 
dos deputados, que de ordem de Sua Magestade o Imperador 
teve de ser convidado pelo ministro do império para assistir 
ao baptisado de Sua Alteza Imperial a Sereníssima Sra. prín- 
ceza D. Izabel. 

T. B. Ottoni, na qualidade de vice-presidente da camará 
dos deputados, e por designação especial de Sua Magestade 
o Imperador, foi um dos seis grandes do império que teve 
a honra de carregar uma das varas do pallio, sob o qual 
passou o berço de Sua Alteza Imperial do paço para a ca- 
pella imperial. 

T. B. Ottoni é o deputado que de 1845 a 1848 foi apon- 
tado pela imprensa opposicíonista como chefe da patriótica 

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k CIRCULAR DE THEOPHtLO OTTOKI Z?9 

maioria da camará dos deputados, bem que seja dle o pri- 
meiro a reconhecer que tal qualificação não lhe podia caber 
em «ma camará onde avultavão estadistas e oradores como 
os Andradas, Limpo de Abreu, S. Torres-Homem, Gabriel 
Saturnino, Urbano, Marinho e outros muitos. 

No entanto: 

T. B. Oltoni, insignificante deputado pela provincia 
de Minas-Geraes, merecia nesse tempo alguma consideração 
aos seus collegas e aos ministros da coroa, alguns dos quaes 
lhe fizerão a honra de o ouvir com obsequiosa complacência 
mesmo sobre as organisações ministeriaes, como por certo 
não terá escapado á perspicácia de Sua Magestade o Im- 
perador. 

Dadas estas circumstancias felizes para mim, posso li- 
songear-me que do meu humilde nome subsistão alguns ves- 
tígios nas altas regiões da corte. 

Lá, onde se conhece dia por dia a vida dos brasileiros 
que estão na scena publica. 

Lá, onde apparece em notas transparentes a tarifa das 
consciências e suas applicações, se sabe perfeitamente que 
o deputado Ottoni nunca se curvou ou bajulou, e nunca es- 
peculou com a politica, 

E, portanto, se acaso o ministério de lo de agosto, sub- 
mettendo á consideração da coroa a ultima lista senatoría de 
Minas, commemorasse alguns dos serviços que tenho tído a 
fortuna de prestar ao paiz ; 

Se lembrasse, por exemplo, que o desinteresse e inde- 
pendência são traços característicos da minha biographía par- 
lamentar ; 

Se soubesse e mencionasse a parte que tomei na paci- 
ficação do Rio-Grande; 

Se tivesse um momento de remorsos para accusar-se da 
guerra ignóbil que tem feito á patriótica empreza do Mu- 
cury, e penitente confessasse os serviços relevantes que, ar- 
riscando a minha vida, arruinando a minha saúde e compro- 
mettendo a minha fortuna, glorío-me de haver alli prestado; 

Não seria do espirito elevado do imperador que poderíão 
nascer objecções pequeninas para que me não fosse expedida 

Cooglc 



RBTISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 



a carta imperial, embora em minha rustícidade não pudesse 
eu allegar como o cortezão de Pliilinto: 



Cinsadoí ittvitoi: por vinte ai 
Alio ter curttdo o» venenndoí 
Tijoloi de paticio, e feito airoui 
No bcij>-mlo » lalJtBi mctursi. 



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Candidatara á camará temporária 

Comecei esta carta dizendo-vos francamente que ia es- 
crever uma circular de candidato. 

Nas circumstancias excepcionaes em que fui coUocado, 
minha candidatura para a camará temporária, que em outros 
tempos fora talvez uma velleidade condemnavel, hoje é po- 
sição obrigada e um dever de honra. 

Acolhidas tão benevolamente como forão minhas ultimas 
aspirações eleitoraes, censurável seria não estar eu na lista 
dos pretendentes, agora que se trata de composição da ca- 
mará, que é feitura exclusiva do corpo eleitoral. 

Se eu não me apresentasse dir-se-hia, e com razão, que, 
ambicioso vulgar, somente appetecia deitar-me nos cobcões 
macios dos princípes e dos Césares. 

E' por isso que mais empenho faço para obter uma 
cadeira de deputado. 

Sou partidista da eleição do campanário, como foi de- 
cretada em 1855. 

Quizera para aperfeiçoa-la, que a reforma abrangesse a 
eleição primliria. 

Sem chegar á eleição directa, para ficar dentro da con- 
stituição, bem podia dividir-se cada freguezia em tantos quar- 
teirões eleitoraes quantos eleitores houvesse de dar. 

A cada quarteirão eleitoral corresponderia um eleitor. 

Este processo pelo menos havia de matar um sem nu- 
mero de fraudes. 

E o corpo eleitoral, vera effigie da população, de que 
assim sahiria regularmente, havia de escolher o deputado que 
melhor conhecesse as necessidades do districto e melhor o 
representasse. 



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382 REVISTA DO IMSTITDTO HISTÓRICO 

Na ultima reforma eleitoral os legisladores infelizmente 
abstrahirão dos vicios e defeitos da eleição primaria. 

Alargarão os círculos e deixarão a designação dos depu- 
tados ao capricho irracional das maiorias relativas. 

Eis a reforma, 

A nova divisão eleitoral da provincia muito me pre- 
occupava, porque do modo pelo qual íosse delineada dependia 
a minha candidatura. 

Tinha-rae eu lembrado do campanário, que tive a gloria 
de erguer no centra das matas do Mucury, onde fiz minha 
maior residência estes últimos annos- 

Lembrava-me também do campanário do Serro, que 
abriga o meu berç© natal. 

E a pia onde bebi as aguas do baptismo. 

E o jazigo em que repousão as cinzas de alguns (fos 
meus maiores. 

Parecia-me que a lei da contiguidade reuniria, para for- 
mar-se o novo districto, os de Minas-Novas e Serro com o 
da Diamantina, onde affinidades de opinião e de familia 
animavão minhas aspirações. 

E esse era o districto eleitoral que eu ambicionava re- 
presentar. 

Lá mais do que em qualquer outra região de Minas, 
minha vida está ao alcance da investigação publica. 

Lá se sabe que para mim forão sempre sagrados o pa- 
trimónio do orphão e da viuva. 

Lá se sabe que não são para mim palavras vãs nem os 
deveres domésticos nem os da humanidade. 

Lá os eleitores podem melhor avaliar se o emprezarío 
da companhia do Mucury é um especulador ou um patriota. 

E até onde vai a magnitude dos sacrifícios a que se su- 
jeitou para dar ao norte de Minas um porto de mar. 

Lá, no Serro, em Minas Novas, na Conceição e na Dia- 
mantina, minha candidatura estava apadrinhada pelas recor- 
dações do campanário. 

Mas o decreto n. 2.636, de s do corrente mez, se reuniu 
Minas-Novas e Serro com a Diamantina, mutilou estes dous 
últimos districtos, separando sem razão sufficíente fregueziaa 
que, a julgar pela benevolência com que me considerarão nas 



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A ClttCOLAR DE THBOPHILO OTTONl 383 

ultimas eleições senatoriaes, era provável que em sua maioria 
me conferissem o mandato para a camará quatriennal. 

Enfraquecida minha candidatura com esta inesperada 
mutilação, outro recurso não me resta senão appellar para a 
generosidade dos bons vizinhos que formão o actual 2° dis- 
tricto eleitoral, a que forão adjudicados os eleitores seques- 
trados dos distríctos do Serro e Diamantina. 

Foi o 2° districto que me honrou com maior numero 
de votos nas ultimas duas eleições senatoriaes. 

Ainda na eleição de 1 1 de fevereiro tive a gloria de ser 
o primeiro votado nos três circulos em que então se dividia 
da Itabira, Sabará e Pitanguy. 

Tanta benevolência desculpa, se não justifica, minha 
apresentação já na ultima hora. 

O meu prt^ramma está nos antecedentes da minha vida. 

Deputado, meus principaes esforços serão para que o sys- 
tema constitucional seja restituído á sua verdade. 

Farei opposição aos ministros de qualquer partido que 
se subordinarem ao governo pessoal. 

Hei de também esforçar-me para que cesse o flagello 
da prisão arbitraria, para que seja abolido o recrutamento 
forçado, e retiradas aos agentes policiaes amovíveis as fun- 
cções judiciarias, que pela constituição só podem caber aos 
magistrados. 

E, dada a opportunidade, procurarei fazer com que lejão 
levadas a ef feito constítucionahnente as reformas a que tenho 
alludido nesta carta. 

Isto pelo que toca ao geral. 
■ O 3° districto eleitoral de Minas tem necessidades espe- 
ciaes. 

Do lado do poente o rio de S. Francisco está reclamando 
a navegação a vapor, que facilite o commercio das comarcas 
de Pitanguy e Sabará com as comarcas contíguas e com a 
província da Bahia. 

E' objecto de que ha mais de um anno me occupo, na 
intenção de mostrar-me grato á generosa província de Minas, 
cujo filho me ensoberbeço de ser. 

Na Januaría poder-se-hão encontrar as provas desta 
minha asserção. 



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384 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Na eleição de 21 de agosto de 1859 um só exemplo de 
unanimidade appareceu nos collegios eleitoraes tia nossa pro- 
vinda. 

Foi no collegio da Januaria, composto de liberaes e con- 
servadores, que todos sem discrepância me honrarão com o 
seu voto. 

Penhorado por tamanha distincção, despertou-se-me q 
desejo de ser útil aos Januarenses. 

Nesse intuito dirigi-me ao honrado negociante da Ja- 
nuaria o meu amigo Sr. Manoel Caetano de Souza e Silva, 
l>edin<fo-lhe noticias circumstanciadas sobre a natureza e 
valor do commercio que se faz pelo rio S. Francisco, do Porto 
do Salgado com as comarcas limitrophes da província da 
Bahia, e sobre a lotação das embarcações empregadas na- 
quello trafego. 

As informações não se fizerão esperar c me vierão os 
dados estatísticos mais completos e satisfactorios sobre o 
commercio das canoas, e ajoujos usados no caudaloso São 
Francisco, sobre o numero approximado dos volumes trans- 
portados, preço dos fretes, etc. 

Confrontadas estas informações com a interessante der< 
rota do Sr. Halfeld, não hesitei em aconselhar o meu amigo 
Sr. Souza e Silva para pôr-se á frente da idéa da naví^ção 
a \'apor no rio S. Francisco, do Joazeiro para cima, offe- 
recendo-me para auxilia-lo com a experiência que tão caro 
me tem custado no Mucury. 

Em carta de 15 de julho ultimo o raeu amtgo me an- 
nuncia que aceitou com enthusiasmo a idéa da navegação a 
vapor no S. Francisco, que se tem entendido a respeito eom 
os negociantes e capitalistas das villas ribeirinhas na pro- 
víncia da Bahia, que todos estão adherindo á idéa com o 
mesmo enthusiasmo. O Sr. Souza e Silva vem ao Rio de 
Janeiro tratar desse importante objecto. 

Resta que antes do apparecimento do meu amigo algum 
magno charlatão, desses que sabem ò geito para conquistar 
as boas graças da corte, não obtenha gorda pitança e lai^^a 
subvenção, a pretexto de ter sido o pai da idéa e o descobridor 
da navegarão da rio S. Francisco. São cousas que já se teem 
visto. 



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A cmcULAR DE TIIEOPHILO OTTONt S^S 

A praticabilidade da navegação a vapor no rio das Velhas 
c para niím duvidosa ; mas na extensão de mais de 200 lé- 
guas, entre o municipio do Joazeiro e a cachoeira de Pira- 
pora, acima da barra do rio das Velhas, o S. Francisco com- 
porta vapores de maior lotação do que os do Ohio, nos Es- 
tados-Unidos. 

E para pequenos vapores lambem, sem nenhuma obra 
hydraulica, parece que é adaptado o S. Francisco algumas 
dezenas de léguas, desde o Pirapora até a barra do rio do 
Pará, na comarca do Pitanguy. 

E, hoje que a estrada de ferro de D, Pedro 11 passou 
do domínio das utopias para o dos factos, hoje que todos os 
espíritos positivos já adniittem que o cavallo dynamico nestes 
próximos três annos terá de desalterar-se nas aguas do Pa- 
rahyba, é tempo de investigar que partido podemos tirar das 
incalculáveis riquezas do valle do rio S. Francisco, 

Um ramal do braço do sul da estrada de ferro de 
D. Pedro II pôde ir facilmente á villa de Lavras com menos 
de 30 léguas. 

E a estrada de Lavras, aproveitadas algumas dezenas 
de léguas de navegação do Río-Grande, franco para bons 
vapores nessa extensão, é a estrada de todo o valle do rio 
S. Francisco. 

O 2° districto eleitoral de Minas, alongando-se na linha 
léste-oeste da cachoeira das Escadinhas, no Rio Doce, até as 
contra ver tentes do Parnahyba, tem de ser envolvido em doce 
amplexo pelos dous braços que a razão indica para a estrada 
de ferro de D. Pedro II. 

Antes que o braço do sul se tenha estendido até Lavras 
o sibilar da locomotiva terá feito decuplicar a actividade e 
energia dos yankees mineiros, que em tão poucos annos im- 
provisarão o rico municipio da Leopoldina. 

Quando o braço do norte da estrada de ferro chegar á 
Leo|x>ldina, o valle do Rio Doce começará a ser devidamente 
apreciado. Então se conhecerá que as terras que alli jazem 
incultas teem mais valor do que o ouro do Congo, de Co- 
caes e da Itabira. 

A principal necessidade da população de léste do 2' dis- 



J 



3,% RKVtSTA DO ItnriTDTO IIIBTOIUCO 

tricto está em facilitar-se-lhe os meios de tirar partido das 
férteis terras do Rio-Doce. 

Decrete-se a rede futura das nossas estradas de ferro 
ao menos em relação aos valles do Parahyba, Rio-Doce, Rio- 
Grande (cabeceiras) e S. Francisco. 

Preparem-se caminhos ligeiros, na direcção dos ramaes 
que devem vir entroncar-se no ramal do norte, e essa vigo- 
rosa emigração, que deixa os municipios de Itabira e cir- 
cumvizinhos para vir enriquecer Itabapoana, Campos e Ita- 
' pemirim, achará perto onde empregue mais vantajosamente 
sua actividade e seus capitães. 

Escrevi estes últimos periodos na intenção de demon- 
strar-vos que não estou alheio a algumas ao menos das prin- 
cipaes necessidades do 2" districto. 

Se obtiver a vossa confiança, de antemão appello para 
as camarás municipaes, afim de que, na forma da lei de sua 
creação, me auxiliem com as indicações convenientes, na cer- 
teza de que serão por mim tomadas na mais seria consi- 
deração. 

Eu sou o primeiro a reconhecer que no 2* districto 
abundão intelligencias que não hão de deslustrar no parla- 
mento a província de Minas. 

Sei que aos veteranos da luta politica ahi residentes se 
associa uma brilhante plêiade de jovens lidadores, cujas as- 
pirações applaudo sinceramente, e que, partidista como sou 
da eleição do campanário, não posso estranhar que me sejão 
antepostos. 

Conheço mesmo que nestes casos ha impossibilidades 
moraes, que acato devidamente, porque venero a religião da 
palavra. 

Resumamos, pois: 

Expuz sem restricção mental minhas opiniões sobre 
questões da maior transcendência. 

Disse claramente o que quero e para onde vou. 

Declarei estar em disponibilidade e mesmo desejoso de 
entrar no serviço activo da politica. 

^ (atta, Srs. eleitores, ficareis sabendo 
I quaes posso ter a honra de 
' latlvo por vossa parte. 

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A CIRCULAR DE TIIEOriULO OtTONI 38? 

Portanto, se entenderdes que com as idéas que expendi 
eu posso, na camará dos deputados, ser de alguma utilidade 
á nossa pátria; 

E se em vosso espirito ainda não está fixado irrevoga- 
velmente o voto que tendes de levar ás urnas: 

Aceitarei agradecido um logar entre os mandatários do 
z" districto eleitoral de Minas-Geraes. 

Vosso dedicado comprovinciano 

O ex-deputado Theophiivo Benedicto Ottoni, 

Rio de Janeiro, 19 de setembro de 1860. ' 



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ENTRE OS BOROROÍ 



(TRàCUCÇXO do CAP. XVll DA OBRA. " ONTER Dl 
ZENTRAL-BRASILIENS » DO DR. KARL TON 



Professor Basílio de Magalh 



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ENTRE OS BORORÓS 



-PAETE HISTÓRICA — FUNDAÇÃO DAS 
COLÓNIAS (i) 



Borõro di Campanhi < 



Distinguem-se em Mato-Grosso dons grupos de Bororós, 
os Bororós da Campanha ou da planice e os Borôros-Caba- 
çáes ou do rio Cabaçal. Os Bororós da Campanha vivem em 
pequenos aldeiamentos abaixo de Villa-Maria, á margem di- 
reita do Paraguai e Jaurú, para o lado da Bolívia ; os Bororós 
do Cabaçal não longe daquelleSj ao Norte, nas margens e nas 



(i) o que M v*l ler f o cap. XVII dl obrm ( Untct den NstnrTÔIksro 
Zcntral-Smilieni > (Bertim, 1894) do dr. Karl von den Steinan. Achate 
>11i de pigs. 441 B 51S, sob a eplgraphe ■ Zu dm BorotA». Tendo eu pla- 
nejado um trabalho ifibrc ■ Intereasante trihu inattO'KroiHn>e. com tf» re- 
pre^cntantei da qual um aca&o feliE pic puzera cm contacto por 1909, nfio 
podia prescindir d«a curiosa ■ a tidedlgnas informacSes, conitantci do forte 
volume publicado pelo operoao eiplorador germânico. Maa o* meuB conhe- 
cimento! da língua allemi nto eram Ho complelo), que me poiíibilitasiem 
evitar quaesquer enganoi em termos technicos, de que nSo haviam cogilado 
01 leiicographoi, Aulm, o receio de totnar-me < iraditorc *, que nlo < Ira- 
dutlorea, mo levou a procurar □ auxilio do erudito profciaor ir. Tlieodot 
Vahn. cuj(9 venerandas cSa >e contam como outros tantos Eervli;o9 prettados 
ao enaino am Campinas. Devo atfirmar, em homenagem ao meu hondoto 
amigo, que ■ UaducQio toÍ em grande parte (eita por elle, cabende-me prín- 
cifiatmente a Mnna definitiva, em que ella te vasou, Accreaccntei uma ou 
outra noia e aupprlmi Iodai ■■ remlisSes, que poderiam antei perturbar que 
facilitar a leitura. Dai «tampas, apenas *e coniervou o quadro de arcos e 

ia armas doa Botíto». Como o btilhante i* Congreíso d* Historia Nacional 
approvou a lembrança de le vertet para o nosso idioma, além doa eacriptoi 
de outros aabios teutaes, a acima citada obra de von den Steinen, — Julgvcl- 
do meu dever oftcriar ao no»o benemérito Inatituto o preaenle trabalho, que 
cxali sirva de estimulo ao* maia competentes do que eo. — Baailio de Ma- 



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393 RBVISTA DO INBTITUTO UISTORICÚ 

cabeceiras do rio desse nome e do Jaurú, ambos os quaeS 
desemboccam no lado direito do alto Paraguai, aquelle juncto 
a Villa-Maria e este um pouco mais ao Sul. 

Estes Bororós não raras vezes foram visitados por via- 
jantes: em 1827 entraram em contacto com a expedição 
Langsdorff ; no mesmo anno, o naturalista austríaco Natterer 
obteve entre ellcs uma rica coUecção, que hoje se acha no 
Museu Imperial de \'Íenna ; o conde Castebiau e seu com- 
panheiro Weddell, que de 1845 a 1846, em sua celebre tra- 
vessia pela America do Sul, estanciaram em Mato-Grosso, 
deixaram-nos um pequeno vocabulário; o engenheiro Rodolfo 
Waehneldt dá uma intuitiva descripção de taes Índios na 
Revista Trimensal do Instituto Histórico, t. 27, do anno de 
1863; e, finalmente, o coUeccíonador Ricardo Rohde, que, 
por 1883-1884, em commíssão ethnographíca do Museu ber- 
línense, viajou na parte meridional de Mato-Grosso, inseriu 
alguns dados no caderno n. i das « Communicaçõcs originaes 
da secção ethnoli^ica dos reacs museus de Berlim» (1885). 

Estes Bororós da Campanha e do Cabaçal são tidos como 
restos de uma tribu poderosa, que occupava a região entre o 
rio Paraguai e o rio Cuiabá, vivia em lucta acirrada com 
os colonos, sobretudo perturbando sensivelmente o commercío 
entre Cuiabá e Villa-Maria e Mato-Grosso, e se repartia 
em numerosas e hoje já destruídas sub-tribus. 

Por João Pereira Leite, abastado fazendeiro das vizi- 
nhanças de Villa-Maria, o qual durante seis annos pelejou 
com elles, matando 450 e aprisionando 50, os Bororós da 
Campanha, no segundo decennio do nosso século, foram pela 
primeira vez pacificados e em parte baptizados (2). Os Bo- 
rorós do Cabaçal, os ordinariamente mencionados, só era 
1842 é que foram estabelecidos no Jaurú, « por suave per- 
suasão e presentes», pelo vigário de Mato-Grosso, José da 
Santa Fraga; mostraram-se, porém, muito rebeldes aos tra- 
balhos ruraes, plantaram só um pouco de arroz„ batatas e 
bananas, e preferiram a!ímentar-se principalmente da caça, 
obtida por meio de arco e flecha. Hoje, á margem direita 



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EN-TBE 08 BOBflROa 393 

do Paraguai, são os Bororós uma decaída e miserável com- 
munhão. Não puderam supportar a civilização por meio de 
syphilis e cachaça. 

De outros Bororós nos fala a historia da colonização da 
provinda, já nas suas mais remotas epochas. Em 1743, António 
Pires saiu com um bando de Paulistas c 500 Bororós alliados. 
para siibmcttcr os Caiapós na parte sul da província, fez 
também mais de 1.000 prisioneiros, estabeleceu algiuis postos 
militares c deixou alli «uma guarnição de Bororós» (3). 

Todos estes Bororós saíram originariamente da região do 
rio S. Lourenço; da sua parte baixa estes caçadores nómades 
extenderam-se pela zona sita entre elle e o seu affluente, o 
Cuiabá, como também pela margem direita do Paraguai, 
que fica defronte da sua foz; ao passo que', depois, tendo saldo 
da parte alta do S. Lourenço, se estabeleceram a Esle e 
Sudeste da província, nas cabeceiras do Araguaia, nas con- 
travertentes do S. Lourenço, como vizinhos e inimigos dos 
não menos fortes Caiapós. 

E' difficil comprehender por que razão, a respeito dos 
Bororós, existia a maior confusão de idcas, tanto entre os 
próprios Mato-grossenses, como na literatura. Diz-nos Cas- 
telnau que os Bororós do Cabaçal eram também chamados 
tPornidos»; mas «o nome velho do rio S. Lourenço, que 
ainda hoje elle conserva na parte alta», como ensina o geo- 
grapho Melgaço {Rei: Tr., t. 47, pags. 459), é «rio dos 
Porrudos » (4) . 

Os Índios do S. Lourenço são hoje chamados Coroados, 
— o que provoca confusões. Coroados podeuamos também 
chamar aos Índios do Xíngú; Coroados havia, antes de tudo, 
na bacia do Paraná, e ainda outros no rio Xipotó, na divisa 



(3) Refcrt 


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394 . hEVISTA DO INSTITUTO BMTORICO 

das províncias de Mínas-Geraes e Rio de Janeiro, tribus que 
são de todo differentes pela origem e linguagem, e diversas 
dos Coroados de Mato-Grosso. 

Em Cuiabá, os Coroados, a nossa chegada, eram objecto 
de interesse geral. Depois de terem passado como os mais 
ferozes inimigos da povoação rural, em toda a região entre 
o rio Cuiabá e o S, Lourenço até ás fronteiras de Goiaz, 
foram finalmente pacificados e estabelecidos, em 1886, em 
duas colónias militares sitas si. margem do S, Lourenço, graças 
aos exforços do presidente Galdino Pimentel (5). 

Mas, nem todas as crueldades, que correm por conta dos 
Coroados, foram commettidas por elles. Têm sido elles, a 
tal propósito, confundidos com os Caiapós, que ao Nordeste 
de Cuiabá fizeram invasões de rapina. Também na capital 
ninguém sabia que os temidos Coroados não eram mais do 
que ermãos de tribu dos mesmos Bororós, os quaes desde 
muito tempo viviam em differentes aldeiamentos, ao lado 
direito do Paraguai, em relações i>acificas, bem que em estado 
de accentuada decadência. Antes do meiado do século XVIII, 
já eram alliados do fundador de Cuiabá, António Pires, e 
foram empregados por elle como soldados de guarnição. 

Eu fiquei bem admirado, quando Atahualpa, um dos 
Coroados que foram conduzidos para a capital afim de re- 
ceber o baptismo, me informou de que elles se denominavam 
a si mesmos Bororós. 

Deste modo, cheguei também a decifrar logo outro 
enigma, que me offereceu a conversação com Atahualpa. Eu 
tinha acabado de ler um relatório sobre alguns Coroados 
que, em 1859, foram levados presos para Cuiabá {duas rapa- 
rigas e um rapaz), no livro de Joaquim Ferreira Moutinho, 
Noticia da Provinda de Matto Grosso (S, Paulo, 1869, 
pags. 425 e segs.), onde achei um vocabulário (pags. 192),' 
que então tractei de comparar com os meus próprios aponta- 
mentos. Com grande admiração minha, não concordava nada, 
mas nada. O auctor tinha colhido as palavras de um rapaz 
Coroado de Cuiabá, com o nome de Sebastião e que lhe 
havia contado historias commoventes. «Vamos dar algumas 

(;) A pcetidtncta d* Jeaquin Galdino Pimentel eitendeu-Be de 5 d« Ko- 
vembro de iSSj a 9 de Ociembro de IÍU (NoM de B. de it.)x 



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BNTRB 08 BORÚROa 39j 

palavras que aprendemos delle», e segucm-sc 52 palavras 
eopiadas do glossário de Martius, pags. 195 e segs., e ori- 
undas infelizmente dos Coroados do bem distante rio Xipotó, 
nas fronteiras do Rio de Janeiro, os quaes tão pouco com os 
Coroados do Paraná e os Coroados de Mato-Grosso nada 
mais têm de commum do que o infeliz nome porti^ez t Sem 
o nome, esta deplorável confissão não se tornara possível (6). 
Ingenuamente, Moutinho não aproveitou a occasiáo de infor- 
mar-se melhor, quando visitou a aldeia da sub-tribu do rio 
Cabaça!, chamada com razão Bororós, mas não Coroados. 
Nessa visita, que descreve a pags. 169 e segs., deveria elle 
ter observado que os indios falavam um dialecto da língua 
do pequeno e piedoso Sebastião. Consultou outra vez o seu 
Martius, e alli, a pags. 14, achou os Bororós e copiou 40 pa- 
lavras, que eífectivamente pertencem aos Bororós do Cabaçal. 
Também aqui podemos descobrir o infortúnio da sua fonte. 
Pois as palavras notadas pela expedição Castelnau não têm, 
infelizmente, o character portuguez, e sim o franceZ, em que 
os diphthongos têm uma pronuncia de todo diversa da dos 
portuguezes e concordam de um modo tal, como podem con- 
cordar duas notas differentes. 

Um dos poucos que suppuzeram, com razão, como mais 
tarde verifiquei, a identidade dos Coroados com os Bororós, 
foi o barão de Melgaço (7), tão hábil presidente (pela pri- 
meira vez, em 1851) (8), como gcographo de Mato-Grosso. 
«Os Coroados vagueiam na região das cabeceiras do S, Lou- 



(6) Conl. Moulhitig: — íMosliimos um dia o 


céu no pequeno SehíStiSo. 


Elle, Ixanunda aa miai <m >ÍKn*l da venencío, tt 




ttupane» 1 (N- B. palavra tupi, que qu(r diíer <i 


irovSo», peloí miícionarioa 




lhe 10!. — e elle di>»: 




ai a «lol», Inclinando a 


CEbew tm (igual de «.peito.. Nenhum rapai C .1 


oado conheceu u paUir» 


€ lupans * e < obé >, c ainda menos jamaii um de11< 


rs teve aquella deTo.;tci lio 




es anecdoti* ifo lomadai 






auelor, na lua i(norancia, nlo tem idéa da grand 


lisiinia necedade, que com 


bom intuito ofierece (Noia do A.V 





(7) «Bev. Tr. >. (. *}, page. 396. O barfio de Melgaço tinha o nott 
buriuei d* Auguito Levatger, de origem Iranceia (Nota do A.). 

(S) Augusto Leverger. depois batio de UelgaQo, presidiu por trei veii 
■ província de Mato-Groiio: de 11 de Fevereiro de 1851 a >S de Pevereii 
4* iSlS. da IJ de Feiertlrti da 18M a a da Fevereiro d* 1I1Í7 c de aí t 
Uaio de ■8e9 a ■' de Outubro de 1970 tNol* de B. da M-). 



yCoOglC 



396 ttensTA do iHsrmiTú oistorico 

renço; nada têm de commuin com os da bacia do Paraná; 
supponho que sejam Bororós». Elle apenas os julgou ex- 
tinctos. 

Devido á confusão que reina no próprio paíz, não po- 
demos extranhar que Martius tenha tido concepções erróneas 
a respeito dos Bororós. Tracta delles entre os Tupis cen- 
traes (9) ; duvida, porém, e com razão, que representem uma 
tribu tupi, mas torna-se então victima de idéas singulares 
que dominaram outrora sobre a composição de tribus Índias 
e que melhor se externam pela sua expressão predilecta 
«colluvies gentium». — <E' possível que em Bororós se 
comprehendam geralmente Índios inimigos, sem determinação 
certa de nome, e até talvez uma c colluvies gentium >, que. 
sem nacionalidade characteristica e conservada, em língua, cos- 
tumes e apparencia physica, dividida em pequenos bandos e 
sem morada fixa, vagou roubando e matando, Taes hordas 
salteadoras talvez tenham tido por fundadores indivíduos de 
origem tupi. Mas, tendo-se alliado com elles outros índios, 
transformaram a sua língua em uma gíria de ladrões (!) ». 
Cazal {Chorographia Brasílica, pags. 302) menciona duas 
tribus bororós: os Coroados e os Barbados. «Os primeiros 
não são navegadores, mas sim caçadores nómades, que, diz-se, 
vagam ao Sul e Sudoeste da cidade de Cuiabá, em ermos 
inaccessiveis, nas nascentes do rio S, Lourenço e do rio 
das Mortes, tributário do Araguaia». — Estas indicações de 
Cazal são completamente exactas', e também clle considerou 
os Coroados como Bororós, «Entre os Barbados, continua 
Martius, deviam talvez estar comprehendidos os Guatos: 
elles atacaram de vez em quando as bandeiras que iam de 
Goiaz para Cuiabá e extenderam os seus assaltos até Diaman- 
tino. Mas os Guatós nunca chegaram a essas regiões, e vivem 
ainda hoje como nómades de agua, na região do alto Paraguai ; 
aquelles Barbados provavelmente eram Caiapós ou talvez 
Bororós » . 

Naturalmente explica Martius o nome «Borõro» pela 
língua geral, ou como < guerreiros inimigos », no entender dos 
vizinhos, ou como « donos da terra >, na sua própria accepção. 

(9) c ConIrjbuitScs para a Elhnosraphia amtricuii», fie*. »9 k •*(■■• C 

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ENTRE OS BORORÓS 397 

Os Bororós, porém, não sabem nada da lingua geral, e elles 
mesmos chatnam-se assim. 

Abstrahindo agora do nome « Coroado », vou relatar 
alguma cousa sobre a tal chamada catechese ou conversão 
dessa tríbu boróro, — a qual foi durante longos annos dese- 
jada em vão, e que não pôde ser bem succedida, porque as 
tentativas foram feitas ineptamente. Como ponto de apoio, 
serviu uma colónia militar á margem do S. Lourenço, que 
foi estabelecida no fim do f decennio (1875-1880) pelo 
major J. Lopes da Costa Moreira. 

Em 1878, o capitão Alexandre Bueno formou uma expe- 
dição de 70 índios Terenas, — tribu pertencente ao grupo dos 
Guanús, — cpara expulsar os Bororós». Tinha elle, conforme 
me asseguraram, a incumbência secreta de matar a tiro quantos 
pudesse, e o êxito foi-lhe de tal modo favorável, que pôde 
exhibir ao presidente um sacco cheio de orelhas. De vivos, 
apenas trouxe duas mulheres e duas creanças. 

No dia 9 de Outubro de 1880, os Bororós atacaram a 
fazencfa de José Martins de Figueiredo, no Bananal (rio 
Cuiabá), matando diversas pessoas. Apparelharam-se, por 
issd, ao mesmo tempo, várias expedições contra elles. Foi 
commandante de uma delias o alferes António José Duarte; 
accommetteu este, sem vantagem, uma aldeia, aprisionando 
cinco mulheres e 12 crianças. Mais não se alcançou. Dizem 
que nos annos de 1875-1880 os Bororós incendiaram 43 casas, 
mataram 204 pessoas (134 homens, 46 mulheres, 17 crianças, 
septe escravos) e feriram 27 pessoas (11 homens, seis mu- 
lheres, trez crianças, septe escravos). Quantos Bororós foram 
niortoá, — não se conta. Não lia dúvida que a matança era re- 
ciproca. Notou-se geralmente que os indígenas mostraram 
grande tenacidade na satisfacção dos seus planos de vingança. 
Um Brasileiro, que de modo cruel lhes matara duas crianças, ■ 
foi systematícamente perseguido durante quatro annos, até 
que finalmente o aprisionaram e despedaçaram, como merecia. 
Nos seus ataques usavam de toda a previdência, espionando 
durante dias e semanas, até offerecer-se a occasião de estarem 
poucas pessoas no sitio. Viajantes escoteiros, elles os deixavam 
escapar; acontecia, porém, si queriam estabelecer a sua pou- 



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398 REVISTA DO INSTITUTO mSTOMCO 

sada, de noite, serem impedidos por gritos que saiam do 
mato : — «vá embora ! » Não viam ninguém : mas, caso não 
obedecessem, podiam esperar uma flechada. Em Fevereiro 
de 1881, foram mortos pelos Bororós, na Forquilha, a 10 
léguas de Cuiabá, dous homens e septe crianças e penetraram 
aquelles Índios até Urubu, perto da fábrica de pólvora, a 
cinco léguas da capital. 

O alferes António José Duarte, que já mencionei, al- 
cançou finalmente a feliz modificação desse estado insuppor- 
tavel. Fez voltar com ricos presentes mulheres aprisionadas, 
e prometteu mais regalos, si os homens se approximassem ; 
e desse modo se obteve felizmente a conciliação. Em Janeiro 
tle 1887 elle levou para Cuiabá cerca de 400 Bororós. Havia 
de apresentar-se então um singular movimento nas ruas da 
cidade. O que mais agradou foram as crianças, que se mos- 
traram muito selvagens e foram comparadas a pequenos 
jaguares, «somente unha c dente»; as mulheres saltavam as 
cercas dos jardins e trepavam, conforme o seu costume, nas 
arvores para apanhar fructos. 

A provincia exultou de contentamento. Avaliaram-se os 
Índios, com a acostumada exaggeração, em lO.cxx) almas, e 
imaginaram-se estes 10.000 indivíduos como trabalhadores 
ruraes e de engenho. O Governo immediatamente poz á dis- 
posição da catechese 70 contos de réis, e a burguezia con- 
tribuiu voluntariantente com 3 contos de réis, o que tudo 
junctO, naquelle tempo, importava em 140.000 marcos. 

As despesas, dentro em pouco, subiram a 118 contos de 
réis. 

Os Índios foram estabelecidos em duas colónias : uma, na 
confluência do Prata com o S . Lourenço, foi chamada < Te- 
resa-Christina », do nome da imperatriz ; a outra, na foz do 
Piquiri com o S . Lourenço, foi chamada « Isabel », do nome 
da princeza imperial, esposa do conde d'Eu. O presidente 
também fundou um «CoIIegio de N. S. da Conceição», para 
educação dos filhos dos indíos, — um collegio que nunca teve 
alumnos. 

Toda aquelta gente foi solenncmente baptizada pelo 
bispo, sendo padrinhos o então presidente dr. Álvaro Mar* 



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ENTRE 09 BORArOS JQQ 

condes (lo) e sua esposa: o cacique Moguiocúri, de quem 
adeante falaremos, — magnifica figura indígena, com ef feito, 
— com i",90 de altura, e, apesar de alguma brutalidade, um 
bondoso typo, — recebeu o nome de Álvaro. O seu christia- 
nismo', porém, limitoií-se á lembrança desse nome por alguns 
dias. 

« Moguiocúri, — assim se expressou o Jornal do Com- 
tnercio, em uma carta de Cuiabá — , parece inteiramente iden- 
tificado com a questão da civilização de sua tribu ; frequenta 
assiduamente o palácio para visitar o presidente e offerecer- 
Ihe presentes; mostra a maior sympatliia para com elle, e o 
chama de padrinho, beijando-lhe a mão, sempre que o vê. 
Todas as vezes que encqntra o presidente, manifesta a sua 
alegria com muitas risadas e repetidos abraços. > 

Difficile est saliram iion scribere. E' mesmo muito dif- 
ficil. O bom do Moguiocúri certamente tinha a melhor in- 
tenção, conforme o seu raciocinio & enquanto não lhe faltaram 
presentes. O Índio, o official, o fornecedor, cada qual quiz 
enriquecer á vontade, — eis o que foi a catechese. O governo 
fornecia os meios a mancheias, ^ o que .se conseguiu foi 
única e simplesmente quç as inimizades, de que ambas as 
partes estavam egualmente animadas, cessassem, O christia- 
nismo, o habito de trabalhar, o ensino da juventude, — a 
minha penna recusa-se a escrever essas bonitas palavras. O 
dinheiro destinado aos Índios serviu só, com certeza, para 
acabar com esta magnifica materia-prima humana. O alferes 
Duarte, director de Teresa-Christína, era ef fectivamente, como 
disseram os Cuiabanos, « o deus dos Coroados * ; dava-lhes 
tudo o que pediam, e tomou-os mansos por meio desse me- 
thodo simples, que não lhe custava nada, e pelo qual deixava 
ganhar os negociantes, conforme os conhecidos systemas de 
calculo . 

O numero dos Índios, aos quaes o Estado paga por cabeça, 
é naturalmente indicado como muito grande, e a isso ajuncla- 
se o considerável ganho que o ofíicial percebe do soldado 
raso, o qual é obrigado a comprar delle ou do fornecedor por 



(lo) o dr. Álvaro Sodovalho Harcondet doa Seit- pruldiu a provincia 
d« Maio-Crosio de g de Ouembro de 1886 a iC de NoTcmbio de 1BS7 (Nota 
de B. de M.). 



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400 REVISTA DO INSTITUTO UISTORICO 

elle contractado. Não só os géneros fornecidos pela cidade 
ou pelas fazendas ao longo do caminVio para a colónia eram 
na colónia mais caros para o pobre soldado do que na cidade 
para o burguez ; a farinha, o feijão, o toucinho custavam o 
■ dobro 1 

Tomei nota dos seguintes preços (1.000 réis egual a dou3 
marcos) : 

1 litro de farinha 

I litro de arroz 

I litro de feijão ■. , 

I kilo de toucinho 

I litro de sal 

I maço de phosphoros .... 
I garrafa de aguardente . . . 
I cálice de aguardente .... 
I kilo de carne verde .... 

I kilo de carne secca 

I arroba de carne secca . . , . .(11) 3$000 

I kilo de matte , . 

I rapadura 

O soldado recebia 600 réis tfc etapa diária, o que, devido 
áquelles preços, era pouco para elle e sua companheira. De 
soldo recebia mensalmente 5.000 réis, além de 5.000 réis 
de gratificação. 

«Eu bem sei, — disse um dos presidentes, — que Duarte 
descobriu uma Califórnia». Mas também o presidente não 
IKxIia modificar cousa alguma. Logo que adquire unia certa 
orientação, tem que deixar o seu posto, e, quanto mais queira 
oppor-se á administração ruim, tanto mais rapidamente vem 
a sua substituição, porque todos os que com isso ganham são 
seus inimigos. Não vale a pena entrar na questão principal, — 
si o soldado brasileiro, inclusive o bom e honesto, é capaz de 
resolver a certamente não fácil tarefa de fazer que os índios 
sejam um elemento util da collectividade. 

As paginas seguintes hão de niostrar-nos isso. 



Cid.de 


Colónia 


$100 


$200 ! 


$160 


$300! 


$160 


$300 ! 


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i$500 ! 


$200 


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$320 


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$400 


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$080 


$250! 


$200 


$200 


$400 


$500 


) 3$ooo 


8$ooo 


$400 


I$OO0 1 


$120 


$250 ! 



citado (Nota de B. de M.). 



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U..— QUADROS DA CATECHESE : 

Ao S. IiOurcufo (Primeiro enconlro com oi biptiudos de CuUU. VUgcm). 
Os habitantes (Clemenlt) e a siluacio da colónia. Vectuario Í europ^. 
Uodo de cultiTar o campo. Ai nouas impreasJtaa . Briga e Ineta fsniiiiiia 
(Maiia). Dislrihuiçlo de carne. LamenUçõa noctnrnaa. Orofio da Urde. 
Escândalo com Arateba. Sexta-lcira da Paíxio. LamcnUcão pelo* morto*. 
Sabbado da Alleluia <judai). <Caiap6ii. Ameafa de destruiçlo da coloni». 
< Eichoia >. Os ermios ÍDimigos. Diicipliiu. Chegada de Doirtc. « Vo* 
luntuioa da Pátria >. Almoso e secenala. 

Ao S. LousçNço. — Já em Julho de 1887 podíamos 
examinar os primeiros Bororós; Duarte havia trazido al- 
guns, para que fossem baptizados. De outros tomámos co- 
nhecimento no principio de Março de 1888. Estavam des- 
calços, porém no mais vestidos ái bui^eza, e traziam ao 
pescoço um cordão com um papel verde do tamanho de um 
cartão de visita, que encerrava o seu novo nome: Atahu- 
alpa, Montezuma, José Domingos, etc. José Domingos 
tossia fortemente; disseram-me que se havia constipado no 
acto do baptismo. Debaixo do vestuário traziam todos o 
seu habitual cartucho de palha; logo que se achavam fora 
dos muros da cidade, despojavam-se de tudo, embrulhavam 
as preciosidades, e ficavam somente, por poucos dias, com 
o seu cartão verde ao pescoço, — como lembrança da con- 
versão. 

Eram rapazes altos e corpulentos, com testas salientes, 
sem sobrancelhas e pestanas. Mostraram grande contenta- 
mento pelas cousas boas de Cuiabá, onde foram tractados com 
excessivo carinho, sendo somente de notar que lhes deram 
bebidas alcoólicas, em logar de guloseimas doces. A sua prin- 
cipal al^ia era o ckapéu-claqite de Guilherme ; saudaram-no 
á maneira de urros de urso, com risadas de A«, A«, e batiam 
no hombro de Guilherme, em signal de applauso. Em nossa 
casa queriam sempre beber c comer, mandioca ou tapira (que 



Croogie 



403 ^REVISTA DO INSTITUTO BISTOIUCO 

significa carne de vacca e não tapir) (12), ou então dormir 
pu enfeitar-se. Em toda parte achavam amigos; e quando, 
juDcto a nós, estavam á porta da rua, cada negra que passava 
dizia alegremente, acenando com a cabeça : — « Ob 1 com- 
padre 1 Como vae, compadre?» 

No dia 14 de Março de 1888 partimos para Teresa- 
Christina, pois não podiamoa visitar Isabel. Duarte ainda 
tinha de demorar-se algum tempo em Cuiabá, e pretendia 
ir mais tarde. Fomos atcompanhados pelo bakaeri António 
e os dous camaradas Carlos e Pedro. As mulas estavam, 
como sempre, aa tão bom estado, que nos serviram de ani- 
maes de sella. O nosso primeiro atvo, a velha colónia militar, 
está situada a i6°-32'-6" de latitude Sul, e a o°-S9'-9" a 
Leste de Cuiabá, sobre a margem direita do S. X^urenço, 
quasi em direcção Sudeste para Cuiabá. Tivemos de passar 
alguns affluentes do rio Cuiabá, subimos a chapada e che- 
gámos, a 18 de Março, ao meio do caminho, que é a fazenda 
< S. José>, numa altura de 555 ms. sobre o pateo da cathe- 
dral cuiabana. Ao Sudoeste delia, estão situadas as fazendas 
do € Cupim » e € Palmeiras >, quf abastecem principalmente 
as colónias. Do outro lado de «S. José», a região não é 
habitada; o estabelecimento é uma pequena casa branca, cer- 
cada de muros, como si fosse uma fortaleza, e apparece na 
grande çolidão occupando uma depressão do solo com de- 
clives cobertos de relva e nada mais. No riacho, cujas mar- 
gens eram juncadas por muitas palmeiras buritis novas, havia 
uma única, mas alta arvore. Era preciso ter coragem, para 
morar e trabalhar alli. Fora dos muros de « S . José », quasi 
quasi nada, durante o trajecto, lembrava as pelejas contra os 
Bororós. Somente de vez em quando chamavam a nossa at- 
tenção apertados e baixos caramanchões, que eram compostos 
de definhadas arvoresinhas do sertão; tinham sido feitos por 
soldados, afim de se abrigarem durante a noite. Passando 
campos horrivelmente desertos, chegámos, a 19 de Março, 
aos primeiros affluentes do S. Lourenço, que tinham poucos 
metros de largura. Deparou-se-nos no ribeirão Prata uma 

(11) c'rapira> é uini ãta TarissLmaa palavras que o* BorArol tomaniD 
de empTeiitiiiii> ac cabanbecn»; mas, eÍ na linKiia s«ra1 > uU (c Tapir ame- 
licao^is ») é chamada < tapíra >, d&o o é entre oi iadioi do S. Louienço, que 
Ike did o nome d« €ki> (Nota de B. de IC.). 



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BNTRE OS BOROROS 403 

aprazível paísagenzinha, que nos lembrou a floresta, o viçoso 
prado e a linha argentina do riachinho do nosso lar. Esta 
impressão foi apenas contrariada por algumas palmeiras novas 
e pelo thermometro, que obstinadamente marcava para a 
refrescante, € gelada agua», 22'',8. No dia 21 de Março 
descemos do terraço do planalto, passando pinturescas rochas 
de renito, e pela tarde alcançámos os laranjaes da colónia mi- 
litar, onde passa, ccHn uma largura de 127 ms., o matagoso 
S. Lourengo. Fomos muito hospitaleiramente recebidos pelo 
commandante, capitão Serejo. 

No dia s^uinte chegámos a Teresa-Chrístina . Está si- 
tuada para dma da margem direita, não pouco abaixo da 
barra do Prata; mas o S. Lourenço faz fortes curvas e a 
região florestal é tão pantanosa, que o viajante é forçado a 
dar tuna grande volta. 

Avistámos então : — uma extensa roça coberta de magro 
mato, no qual se distinguiam muitos cepos velhos e vários 
troncos de pau, uma porção de baixas e quadrilongas cabanas 
uom tectos de sapé dispostos immediatamente por cima da 
porta, tudo monótono e triste, côr de palha e barro, cercado 
de matas e de um rio considerável, além do qual apparece o 
perfil de tuna floresta viçosa, deante de uma cadeia de col- 
linas. — Eis o que era Teresa-Christina. 

O representante de Duarte, que nos recebeu com muita 
cordialidade, era o cadete Elyseu Pinto d'Annunciação. Ca- 
detes, no Brasil, são aspirantes a officiai (geralmente filhos 
de funccionaríos públicos e de officiaes), que servem desde 
soldado raso e cuja promoção depende de protecção. Nosso 
Elyseu tinha o posto de sargento e disse que seria logo al- 
feres, si eu no Rio me empenhasse por elle. Era um bom 
e consciencioso hcrniem, que poderia ter sido util, si tivesse 
tido o direito de agir, consoante com a sua opinião. Um se- 
gundo cadete, — officiai subalterno, — chamava-se Caldas 
(13), moço de aptidão musical e, mediante luna gratifica^, 
mestre dos rapazes bororós. E^le também tinha formado tmj 



(13) Josí Augugto Caldu cim alteres em iSgç, uino em que pi 
KU «Vocabulirio da lingua udisena doi Boraras-Coroados > <Cuii 
< d'0 MaCo-Groiia >), pequena bcochuta de 44 pagi., dedíeida i 
do Ms«tt»corand Astcoio Ja*t DoMts (Notk ds B. d* K.), 



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4CH RBnSTA DO INSTITUTO BISTOIUCO 

vocabulário, e era portanto, alli, o representante da arte e 
das scicncias. Ainda havia outro cadete, Joaquim, um bo- 
ticário e o administrador Ildefonso. Mas para mim a per- 
sonagem mais importante «ra Clemente, que tinha 28 annos, 
dos quaes passara trez em captiveiro entre os Bororós. Seu 
pae, Manuel Pedroso de Alvarenga, morava juncto a Peixe de 
Couro, aííluente do Piquiri, que desembocca no rio S. Lou- 
renço. Em Scptembro de 1873 os Bororós assaltaram alli 
cinco crianças, que tomavam banho: duas foram mortas, uma 
escapou e duas foram aprisionadas, — Clemente e um ermão 
menor. Contou-nos elle que se lhe haviam amarrado as mãos 
deante dos olhos, e, assim, até chegar á aldeia dos indios, 
passou cinco dias sem parar. O ermão morreu logo. E ellc 
em 1886 foi restituído pelos Bororós. A esse tempo, porém, 
já elle mesmo se havia tomado borôro: não só andava nesse 
trajo com arco e flecha, não só havia exquecído quasi total- 
mente o seu portuguez, mas tinha também, como pude em 
proveito próprio observar, soffrido no seu modo de pensar 
e de saber uma educação puramente india. Por outro lado, 
nesse Ínterim, tinha bastante aproveitado da sua lingua ma- 
terna, para poder servir-me de interprete prestimoso. Infeliz- 
mente deixou antes de nós Teresa-Christina, porque lá < não 
se aprendia nada». Até os officiaes não sabiam nada. No 
seu lar, dizia elle, havia um homem que era capaz de curar 
todos os doentes e de abrir qualquer fechadura. 

Situação da colónia. — A casa principal da colónia 
tinha por plano um rectângulo comprido e muito estreito. 
Consistia em uma porção de compartimentos de terra chã, 
com paredes de pau a pique e tecto baixo de palha ; as portas 
abriam todas do mesmo lado para o patw. O mobiliário li- 
mitava-se a uma mesa, cadeiras e caixas. De um lado ficava 
o quarto de Duarte, com uma janella, sem porta para fora; 
em seguida vinha o refeitório, onde Caldas, ás vezes, dava ■ 
aula de manha, e que servia geralmente para as reuniões, 
com uma porta para o pateo e outra para o lado opposto; á 
esquerda estava a entrada para o quarto de Duarte, e á di- 
reita uma porta para a dispensa, que era também deposito 
de cachaça, e cuja chave, nas rehições com os indios, repre- 
sentava um grande papel. Depois, viam-sc outras portas para 



BNTttB 03 BtHtdROS 405 

O pateb', um pequeno cubículo destinado aos soldados presos, 
o qual estava sempre occupado e cujos habitantes haviam 
de ficar na rede, mais um quarto para Elyseu e o adminis- 
trador, e ainda armazéns. O boticário possuía uma bem pro- 
vida guarnição de venenos em uma casinha sita defronte, a 
poucos passos. Os soldados moravam em pequenos ranchos, 
dispostos parte em direcção ao rio e parte á beira da flo- 
resta. Em redor achavam-se as cabanas dos Índios, feitas 
com tectos triangulares que chegavam até ao solo, de seis 
passos de largura e 10 a 13 de comprimento; estavam ao 
abrigo do sol e algum tanto contra a chuva. Eram muito 
simples, e cada uma servia para uma família. 

No meio da colónia havia um grande pateo. Ahi se 
elevava o tal chamado ranchão, o baíto dos índios, de lO 
passos de largo e 26 de comprido. Também este, apesar de 
feito com o auxilio dos soldados, não tinha arte ; as paredes 
lateraes consistiam em paus roliços, negligentemente reves- 
tidos de folhas de palmeira, distanciados de modo que quasi 
em toda parte offerecíam entrada. Os lados estreitos quast 
sempre eram abertos. 

Os moços solteiros trabalhavam e dormiam no bailo. 
Este era também o centro das festividades, principalmente 
para entoar os cantos de caça, para as dansas e para as 
lamentações pelos mortos, bem como para as deliberações. 
Para as mulheres a entrada era livre, e, conforme havemos 
de ver, ellas ás vezes eram levadas para lã á força. 

As cabanas quasi todas avançavam até á bocca da mata. 
Estreitos atalhos conduziam para lá; lebres para servir ás 
necessidades corporaes, mesmo da maneira mais primitiva, 
tão pouco existiam nas habitações como em Cuiabá', e, como 
na ddade para esse fim se procuravam os pomares, na co- 
lónia para isso servia o mato. Rio acima estava a olaria, 
donde tiravam o barro; ahi havia um forno, que nunca foi 
utilizado. O pouco de plantação achava-se numa clareira. 
De animaes só se viam poucos cachorros e gallinhas, per- 
tencentes aos soldados, e algumas araras vermelhas dos ín- 
dios. Também vagavam nas proximidades alguns urubus. 
As rezes a abater eram laçadas no campo pelos vaqueanos. 



nunca foi 

I clareira. ; 

nhãs, per- 
as dos ín- 
s urubus. 

aqueanos. 

-â 



406 REnSTA DO INSTITUTO HI8T0IUC0 

Também as mulas andavam soltas, sendo só procuradas para 
o serviço e para a verificação do seu numero. 

Existiam na colónia mais ou menos 50 Brasileiros, ajmi- 
ctando-se-lhes as suas companheiras; poucos eram mais daros 
que os Bororós e muitos eram mais escuros. Avaliei o nu- 
mero dos Bororós presentes, inclusive mulheres e crianças, 
em cerca de 200. Porém um bando tinha ido fazer uma ex- 
cursão de caça e Duarte levara consigo uns 20 para Cuiabá. 
Avaliando alto, a somma total importava em 350, offi- 
cialmente em 450. Diz-se que, no começo, eram muito mais, 
— e Elyseu avaliou-os um dia em i.ooo. Ef lectivamente, 
também Clemente contava que se haviam apresentado alli 
os Bororós de todas as aldeias. Assim, vemos que os 
« 10.000 >, de que se falava em Cuiabá, eram imaginários. 

Vestuário k europía.. — A primeira impressão que 
recebemos dos Bororós era essencialmente diversa da que 
tínhamos dos ordeiros e actívos índios do Xingu. Não tanto 
a respeito da falta de vestuário. O cacique Moguíocúrí, sím, 
andava quasi sempre só de camisa, raras vezes de calças; 
só o bruto cacique Arateba é que andava sempre de camisa 
e calças; de noite e em dias mais frios, gostavam de embru- 
Ihar-se nos seus cobertores; algumas mulheres, prindpal- 
mente as que tinham relaçSes intimas com os dirigentes da 
colónia, distinguíam-se pelo uso de camisas de cores e dese* 
nhos bizarros, paletós e saias; porém os mais ou menos ves- 
tidos de ambos os sexos constituíam excepção. Os homens 
traziam um cordão ã cinta e o cartucho de palha, as mulhe- 
res um oordlo ou dnta feita de casca (Basibind) (14). Os 
dou9 sexos gostavam de enfeites para o pescoço e o peito.- 
Mais tarde relatarei as particularidades. A Moguiocãrí dei 
uma peça preciosa, que lhe agradou bastante: — uma ca- 
misola turca bem vermelha, bordada de arabescos e de man- 
gas largas que um dia, em Dussetdorff, servira a um mas- 
carado. O sempre risonho gigante offereceu, nesse el^ante 
trajo, um aspecto muito engraçado. 

<Que é que havemos de fazer? >, queixava-se o ca- 



(14) Ao cirtnebo, doiomliudo <M>, e i dota de cuca, dunuda «M- 
dobie >, refere-Bc Ton den Steinen pormcnoriaduuent^ nul* adcaote (H«tt 
de B. d< U.). 



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ENTRE OS BpRdROS 4O7 

pitão Serejo, na colónia militar. Quando a grande turma 
embarcou para Cuiabá, tinham-se-lhe arranjado 430 vestuá- 
rios. A isso ainda em Cuiabá se junctarani muitos, E, quando 
os índios voltaram, de tudo isso não restava nada. Em pri- 
meiro logar, por terem os negociantes fornecido fazenda 
ruim, muito fina e mal fabricada, que lhes era impos«vd 
vender; depois, porque os vestidos eram muito apertados e 
curtos, as camisas não fechavam sobre o largo peito, e as 
calcas rompiam-se; e, finalmente, porque os Bororós tra- 
ctavam os presentes da civilizado com o mais solenne pouoo 
caso. Logo que se sentiam incommodados, arremessavam- 
n-os fora; quando precisavam de um sacco para carrear carne 
ou peixe, utilizavam-se para isso de suas coberturas e ca- 
misas. Em redes, de que cortavam pedaços, e em toalhas de 
mesa, — um original presente brasileiro para índios nús, — 
envolviam os seus corpos untados. Elles mesmos nSo usam 
de redes, e dormem sobre esteiras. Nem por sonho pensavam 
na lavagem da roupa; as camisas ficaram da côr de barro, 
como os seus corpos, o chão e as cabanas. 

Os bons Bororós eram era demasia tão carinhosamente 
tractados, que os nossos modestos artigos de troca eram mal 
vistos por elles. Já eram tão conhecedores, que s6 pediam 
machados norte-americanos . De maior apreço lhes foram 
as nossas contas (de vidro), mas também a respeito disso as 
mulheres eram bastante caprichosas, e, sem ceremonia, indi- 
cavam as que não lhes ^p-adavam, com a tristíssima ex- 
pressão portugueza, que a catcchese tinha geralmente vu^- 
rízado, — < Porcaria I > ou < Merda I >, a não se lembrarem 
do companheiro c Diabo ! >. 

AcRictJLTtniA . — Os Bororós devem roçar e plantar! 
Practicamente, os offíciaes ficavam satisfeitos, quando con- 
seguiam salvar as plantações dos saldados contra os Bororós. 
Logo que os indígenas se apanhavam de posse dos machados, 
divertíam-se em abater os piquis, para não teren 
de trepar nessas arvores e colher-lhes os fructos. 
militar havia um bonito cannavial: era preciso 
guarda, para evitar a devastação. Os Índios, poi 
excursSes nocturnas e achavam meios de occu 
illudir os seus protectores, pois, sem quebrar as ; 



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410 tivnstí DO IHBTITUTO BOTORICO 

separaram-n-as ál força; mas, então, o 'berreiro adquiriu 
maior vehemencia, gritando muitas contra muitas. Era prin- 
cipalmente uma velha quem dominava tudo com a sua voz 
estridente. Caldas, que via com pesar que a sua companheira 
de tenda, também luctadora, tinha o peito rasgado, empurrou 
para tá o grande cacique Moguiocúrí. Com ímraensa tran- 
quillidade entrou no torvelinho, e, de súbito, fez-se com- 
pleto silencio. O seu poderoso e formidável braço poz de 
uma vez para o lado as trez perigosas mulheres. Maria, que 
decididamente tinha perdido, não disse palavra; estava alli 
com olhos entristecidos, de braços cruzados sobre o peito 
offe^^te, enquanto uma sua partidária, lhe compunha o 
cabelb desenhado. Descontentes procuravam ainda avivar 
a tempestade; mas as risadas de Corona dominavam. Sepa- 
raram-se e, em corrida triumphal, foi levada por trez mu- 
lheres a ruidosa velha. 

Sacudindo a cabeça, encaminhábio-nos para o nosso 
rancho, mas de lá tivemos que retroceder, por causa de tun 
barulho infernal. Os soldados estavam dansando com as 
mulatas e indias ao bello luar, e faziam musica com sanfona, 
pratos e garfos, — expansão de alegria em toda parte 1 

Voltei ao rancho dos homens; dous delles faziam exer- 
cidos athleticos. Agarraram-se por debaixo dos braços e, 
fortemente encurvados para a frente, ficaram por muito 
tempo Dessa posição; até que, de repente, um delles tentou, 
com a perna ou o calcanhar, fazer dobrar a perna do outro, 
afim de derriba-lo; foi, porém, suspenso pelo adversário, e 
perdeu. Pequenas fogueiras ardiam ao lot^ da casa. Os 
homens estavam deitados com a cabeça sobre pedaços de pau, 
um ao lado do outro, em fileira, para dormirem alli fora; 
proseavam e mascavam canna, atirando em curva os bagaços 
para trás. Divertiram-se muito, quando me sentei de cócoras 
junto á fogueira, notando as suas palavras. A um lado, não 
longe das fogueiras, também dormiam casaes; também cri- 
anças a>rriam e brincavam al^emente, até alta noite, no 
pateo. 

DiSTBiBuiçXo DE CARNE, 26 de Março. — Uma admi- 
nistração provecta acharia no modo da distribuição dos vi- 
veres um meio excellente para acostumar os índios á ordem.; 



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ENTRE OS BOItditOB 4II 

Mas ninguém pensa em uma justa proporção, nem a res- 
peito das provisões, nem a respeito de outras cousas. Tudo 
corre arbitrariamente. A barbara scena da distribuição do 
iapira (15), isto é, do boi, é espectáculo repugnante. Geral- 
mente são abatidas duas rezes, e em Mato-Grosso a carne 
de vacca é um género immensamente barato. Não hi 
mais commodo para os Brasileiros. Os pedaços de c 
03 ossos são amontoados sobre um couro deante da e 
Índios, homens, mulheres e meninos, em parte muni< 
cestas, ficam ao lado, á espera. Um dos cadetes dá o 
— e todo o bando precipita-se sobre a carne e os ossos 
uma ãlcatéa de lobos. Era um espectáculo tão nojeni 
me tirou o bom humor, ao passo que muitos assiste 
apreciaram com grande alegria. O idiota DtapocúH 
de cretino, foi quem mais prendeu a attenção geral 
selvi^ería animal, o idiota, representante do rancho d 
mens, conquistou trez pedaços enormes, e, de olhos bríl! 
levou-os com um grunhir triumphal, enquanto a ba 
escorria pelo mento. Si isto tivesse sido um gracejo, < 
rude, vá IS; mas não: — este é o systema r^ular e ha 
O Índio, com isso, fica rebaixado a um estado que jâ 
transposto na sua vida de caçador, desde tempos im 
ríaes ; pois um dos fins capitães da instituição dos baris, 
homens-medicos (como veremos), era evitar a discor 
repartição das presas, bem que esse problema, em v< 
seja resolvido por ficarem elles com os melhores pe 
Lamentações NOcrtniNAS. — Noite a noite r 
pelos menos de quatro ou cínco cabanas, as lamurias 
gumas mulheres. São esposas de caçadores, cuja volta < 
rada dentro de poucos dias. Bãbela bâbela bá. .. baba e 
queixumes prolongaram- se até alta noite; é quasi imp 
dormir. Têm elles um fim determinado. Contam as mi 
que, quando deitadas, o sonho lhes revelará' o regresso d( 
homens. Na manhã seguinte, porém, é que de facto o f 
Presentemente ellas se occupam um tanto mais cot 



(ij) cTiidni é gido em lera] e cspeetelmeDte o t>c 
ncca> é < tapIra-cAdo > ; qaindo frnc* ou rerâe, chimi-» 
qaanda lecca, Ctipira.codti]cÍ >. <BdI> dlz-tt cuplra^ncdi 
<t>plra.v«de> (Note 4e B. de H.>. 



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413 REVISTA DO INSTITUTO HBTOUCO 

thema, por ter morrido a mulher de um dos ausentes, o indio 
Coqueiro. No rancho dos homens tinham posto o panno ver- 
melho dos mortos, um vaso e as duas conchas de trabalho da 
finada; dous baris entoavam um longo canto lúgubre, en- 
quanto ao fundo se avistava uma porção de mulheres entris- 
tecidas . 

Oração da tarde, — A's oito horas da noite realiza-se a 
< reza >, a Ave- Maria dos soldados. Hontem observámos mais 
exactamente esta funcção, e, para aprecia-la collocámo-nos 
deante da porta do xadrez, quando o cometeiro deu o signal. 
Pouco a pouco, reuniram-se 32 homens, ao lado da sentinella 
permanente, na casa principal, e arranjaram-se á vontade 
em duas fileiras, grandes e pequenos mixturados, com fardas 
dtfferentes, cada um munido do seu fuzil-Comblain. A lua 
cheia derramava a sua branda claridade sobre os exquisitos 
rapazes . A' frente estavam dous cadetes : enquanto um delles 
lia os nomes á luz de uma vela, o outro picava tranquillamente 
uma canna, chupando os pedaços. I^ogo que era chamado um 
nome, o dono respondia com um « prompto ! », ora alto, ora 
baixo, conforme o temperamento. Com surpresa, ouvimos de 
repente o « prompto ! » também por traz de nós, com uma voz 
sepulcral, que saia do cárcere; atravez de uma fresta da porta, 
víamos com prazer, pela sombra movediça, como o malfeitor 
se balançava na rede, dentro do xadrez bem allumiado . Após 
a chamada, a gente se descobriu, cantando, ou, melhor, ber- 
rando, sobresaindo uma voz clara: 

— < O' Virgem da Conceição, Maria Immaculada, vós 
sois a advogada dos peccadores, criaes todos cheia de graça, 
com o vossa felis grandeza, vós sois dos céus prínceza, do 
Espiriío-Sancto esposa. Maria, mãe de graça, mãe de miseri- 
córdia, rogae Jesus por nós, recebae { \)~nos na hora da 
morte ! Senhor Deus, pequei ( ?), Senhor, misericórdia ! Por, 
vossa mãe. Maria Sanctissima, misericórdia (16). > 

Os Índios, que, por acaso, passaram, não só gritaram 
lambem « prompto 1 >, como ainda tomaram activamente parte 

(i6> Versos burlescos: 

cO' Virsem da Conceiflo, 

Mirik Imniacullda, 

Pagae o oosio aoldo, 

Deiíiiie de cafoada ',> (Nota do A.).- 



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ENTRB 08 BORdHOB 4I3 

na cantarola; lá dentro de casa, Caldas exercitava-se na ra- 
beca. Finalmente, ajoelharam-se todos, inclusive a sentínella, 
e também o cadete com a canna. Os Bororós não faziam 
mais caso deste acto, que lhes era muito conhecido. Porém 
uma hora mais tarde appareceu deante da nossa porta uma 
dúzia de rapazes, cantapdo (a melodia certa, as palavras, 
afora o começo, incomprehensíveis e confusas): — <0h! 
Saneia Maria, mãe de graxa !> — abraçando-se alegremente 
e pondo-se numa linha sem ordem. / 

Lá pelas nove horas, ainda Moguiocúri se apresentou pe- 
rante os cadetes, exigindo cachaça. Para variar, este cacique, 
€ totabnente identificado com a civilização da sua tríbu », 
vestia uma camisa vermelha de mulher e um paletot de linho 
branco; insistiu porque fossem buscar a chave da despensa, 
c afinal recebeu a sua garrafa. EIte não era menos feliz, 
quando, de vez em vez, para o mesmo fim acordava os 
senhores, a horas avançadas da noite. 

Escândalo com Arateba. — Este, como sempre total- 
mente bêbado, ainda clama por mais pinga; desta vez, porém, 
a celebre chave foi-lhe recusada. Então, alarma elle com os 
seus berros e injurias a colónia inteira, corre para o rancho 
e volta com duas « espadas > ! Dando furiosas pranchadas no 
ar e cambaleando de um lado para outro, apenas ameaça. 
Arranca primeiro a camisa, depois as calças, e atira esses 
objectos aos pés do pobre Elyseu; depois, dirige-se aos sol- 
dados, que alli estavam vadiando, e cobre-os de injurias, bem 
como aos seus superiores. Quer ir-se embora, e isso comnosco, 
por lhe haverem negado a cachaça. Afinal, volta camba- 
leando para casa. 

Sexta-Feira da P.uxÃo, 30 de Março. — A sentínella 
traz a espingarda com o cano voltado para baixo. As cara- 
binas dos outros soldados jazem extendidas no chão. As com- 
panheiras dos soldados dirigem-se para o cimiterío, em trajes 
domingueiros bem engommados, levando cruzes e velas. 
Abre-se a cadeia : saem dous presos, um dos quaes, um negro 
alto, tem ás costas um surrão, — sacco de couro que lhe serve 
• de mochila, — e á mão o coxo, violino dos sertanejos, que 
alegremente repinica. Os caçadores voltaram com grande 
carga, trazendo em seus cestos tuna porção de caça; Coqueiro, 



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414 REVISTA. DO IKSTITOTO HISTÓRICO 

O recem-viuvo, ainda pennancce na colónia militar. Mas o 
cadáver de sua mulher já foi exhumado. Os ossos, já limpos, 
foram á noite trazidos do rancho dos homens, dentro de um 
cesto; ao lado está um novo cesto, para o qual elles devem 
ser removidos na occasião dos funeraes próprios, e também 
alli está mn pote com agua. O iocal conserva-se no escuro, 
apenas mal allumiado por algumas brasas que ardem e que 
servem para os fumantes accender os cigarros. Muitos 
homens, mulheres e creanças estão commodament e extendidos 
no chão. Os cestos, porém, bem como o pote, estão rodeados, 
em semi-drculo, por vultos acocorados, com o bári no meio: 
entoam lun monótono, mas alto canto de lamentação. O bári 
sacode incessantemente a matraca (17), uma cabaça* cheia 
de ' pedaços de conchas ; a sua voz, trémula e baixa, sobresae 
com forte pathos entre a de todos. Não cessa de cantar e 
de sacudir a matraca, até lhe faltarem 3 voz e a mão ; então, 
emmudece, e, tremulamente, deixa a matraca ir parando; 
ha uma pequena pausa, durante a qual, no seu êxtase, elle 
ligeiramente leva um cigarro á bocca, chupando «mu força 
a fumaça e tragando-a. De novo canta e agita a matraca, 
e nesse entretanto continua a fumar; até que, após uma 
pequena meia hora, está cumprido o dever. Deixam todos o 
ranchão, vagando por fora, tagarellando e rindo, como quasí 
todas as noites. Ainda se ouve nas cabanas o barulho de socar 
milho, alli e acolá arde uma fogueirínha, allumiando um 
grupo pinturesco, canta-se, faz-se ruído, os rapazes ^arram- 
se brincando, namorados vão e vêm, — enfim, festas por 
toda parte, somente com a (fifferença de abundar a quanti- 
dade de tendas, em que os selvagens devoram coelhos e adoram 
as estrellas. 

Sabbado da Aixeluia. — No dia s^fuinte a Sexta-feira 
da Paixão, celebra-se no Brasil o tal chamado Sabbado da 
Alleluia. Ao meÍo-dÍa, acaba o lucto geral e transforma-se 
num alegre desenfreiamento : em toda parte estalam tíros; 
o traidor Judas, pendurado a uma arvore, é injuriado e des- 
pedaçado. 



raça, coirespondeiitc ao < manei > doi Tupis, diTsm oa 
« bipo >, e. qumdo ncDin', cheia de aenoitai da oolclí 
ram-lbe «Upo-rA8o> (NoM da B. de !!.}■ 



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■NTRE 06 BORÚaOB 415 

Na colónia, o começo da Alleluia é annunciado ás oito 
horas da manhã, por terem, antes, de abater uma vacca e um 
porco. O rio subiu, não se pôde pescar por causa da enchente, 
afim de se fazerem provisões para a Paschoa, e o transporte da 
came cessou. O bom do Elyseu, c(»n toda a seriedade, descul- 
pa-se perante nós de ter sido forçado, pelas referidas cir- 
cunstancia, a marcar o fim da Paixão; nós o tranquillizãmos, 
mostrando-lhe a differença do tempo com Jerusalém. O 
Judas está pendurado numa arvore nova, a i yá metro de 
altura do chão : fato de algodão branco, botas el^antes, mas 
apertadas, mascara de papel, faces pintadas de vermelho com 
urucú, barba e cabello feitos de cabellos de mulheres Índias, 
com enchimento de cavacos €Cabatáf>, («Que é isto?»), 
— perguntam os admirados Bororós. Judas tem na manga 
direita um sabre de pau; de uma algibeira sobresae o gargalo 
de uma garrafa de cerveja; um pedaço de papel mettido no 
paietot — é o testamento do traidor. A's oito horas, porém, os 
soldados, bem asseiados nos seus uniformes de Unho branco, 
desfilam; olhos europeus haviam de extranhar os pés des- 
calços. Elyseu está munido de uma faixa vermelha. O cozi- 
nheiro mette um cartucho na barriga de Judas: — ouve-se 
um estalo, sae fumaça, e Judas começa lentamente a queimar- 
se. O cometeiro entoa uma fanfarra; nesse Ínterim, dão-se 
trez salvas, e, nos intevallos, ajunctam-se á musica as lamen- 
tações penetrantes que saem de uma das cabanas; os indios, 
que aqui se acham em turmas compactas, tapam os ouvidos, 
de certo pensando no tempo em que ouviam nas suas matas 
o estampido dos tiros. Moguiocúri e seu filho, que ainda o 
excedia em altura, apresentam-se para também atirar umas 
flechas nos destroços do Iscariote. Os soldados rettram-se; 
em toda parte dão tiros; até os nossos camaradas não podem 
resistir a essa tentação; do largo do pateo da cozinha, onde 
haviam abatido um porco, ouve-se barulho infernal; a alaria 
reina em toda parte : — AUduia 1 

Caiafós 1 — As exéquias pela mulher de Coqueiros, — 
ceremonia cujos pormenores ainda hei de dar, — caíram numa 
s^unda-feira depois da Paschoa (i° de Abril); nós, hos- 
pedes, continuámos sempre a admirar estes curiosos contras- 
ta, que cada dia da vida agitada da colonía apresentava ao^ 



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4l6 REVISTA DO INSTITUTO UISTORICO 

nossos <dhos. Apenas haviam cessado as lamurias, apenas foi 
levado o cesto funeral, — deu-se nova agitação. Os Bororós 
suppuzeram ter percebido no mato dous Caiapós, que elles 
chamam de Caiámo. O inimigo figadal nas proximidades da 
colónia I Deixar a colónia immediatamente, á noite, — parece 
incrível, — era a senha geral dos índios. Os soldados ficaram 
alarmados; expediu-se uma ronda, qíie devia dar uma dúzia 
de tiros no recanto suspeito da mata. Deste modo, tranquilli- 
zaram-se si et in quantum ; mas o grande cacique Moguiocúrí, 
o terror de Mato-Grosso, pousava, para maior segurança 
' pessoal, não com as suas duas mulheres e crianças, e stm com 
Clyseu. 

Também em a noite de 2 para 3 de Abril tudo ficou em 
vigília. Os nossos amigos indios levaram-nos ao ranchão, con- 
vidando-nos a tomar parte numa sessão que tinha por fim 
animarem-se com musica, na esperança de uma victoria sobre 
os malvados Caiapós. No começo lá estivemos de pé c 
dansámos, enquanto no meio havia um velho cacique, que 
cantava e sacudia fortemente a matraca; tapando a bocca 
com as mãos concavas, bradámos também um surdo u, u... 
dobrando os joelhos ao compasso. Reparando como com isso 
os Bororós ficaram consolados, continuámos por algum tempo 
nessa maneira. Os nossos homens trabalhavam no escuro; 
somente de quando em quando deitavam palha ao fogo, e 
as sérias visagens ficavam por . momentos vivamente allu- 
miadas. A dansa durou meia hora. Depois nós nos sentámos, 
rodeando o velho matraqueiro, que tremia muito pelo ex- 
cessivo exfòrço e bebia agua em fortes goles. Havíamos de 
levar-lhe o vaso á bocca, pois sem isto elle não podia con- 
seguir o seu intento. Então, todos nós ficámos possuídos 
de nova coragem; o venerável ancião explicava, em tom 
meio cantarolado, o objectivo da sessão, e o nosso grande 
coro respondia-the encantado: — tuakina t>, isto é, € muito 
bem I », ou rindo grosseiramente « háháhâ », ou resoluta- 
mente ameaçador ««A...», conforme o temperamento. 

No dia 3 de Abril chegou ao auge o enthusiasmo patrió- 
tico contra o inimigo ínvísivcl. Estávamos nuina refeição, 
quando, de súbito, vimos correndo impetuosam«ntc 10 a 12 



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ENTRE OS BORdROS 4'7 

Bororós, em trajes selvagens, A frente delles achava-se Mo- 
guíocúri, bêbado, com a cara afogueada, vestido com a minha 
camisola turca, armado, ou, por melhor dizer, carregado de 
arco, flechas, mão de pilão e pesado machado sem cabo ; atraz 
delle, José Domingos, com o rosto 'e o corpo pintados de 
fuligem, sacudindo um bonito arco enfeitado com pennas de 
ema, tendo amarrado no pulso, para proteger-se contra o re- 
saltar da corda, um cordão de cabellos pretos, e trazendo 
ligado ao corpo nú, com uma tira de couro, um oscíllante 
sabre; o resto dos heróes, com idêntico apparato bellico, — 
e, last nol least, o idiota Diapocúri . Este infeliz imbecil tam- 
bém se havia besuntado todo de fuligem, e sobre o crânio 
pathologico trazia um cordão de cabellos pretos, á maneira 
de trança chineza. Pendia-Ihe das costas comprido facão de 
cozinha, e com a dextra vibrava um porrete no ar; similhante 
a um possesso, articulando sons confusos, cabriolava, com 
gáudio de quantos se achavam á mesa. Os temiveis guer- 
reiros saíram então á procura dos rastos dos Caiapós. Re- 
tornaram logo : como não tivessem encontrado vestigios dos 
inimigos, parece que então os bobos ganharam juizo, — e 
assim terminou o episodio. 

No ranchão dos homens, desde o romper da manhã, 
tinham estado em muita actividade. Pela tarde, até ao es- 
curecer, uns 12 Bororós divertiam-se em pintar festiva- 
mente para a noite o cabello, a cara e o corpo, com tinta 
muito vermelha ; e lá fora occorria, \<ygo ao crepúsculo, outra 
scena. Tinham levado para fora da cabana uma criança de 
dous annos, que desde 24 horas estava agonizando, c cuja 
morte os baris tinham predicto. Estava ella ao collo da mãe, 
rodeada pelos [< homens-medicos » e parentes, que soltavam 
lamentos. Por traz da mãe estaia acocorado o pae, que por 
alguns momentos ficou sem mexer-se; depois, — justamente 
quando um dos espectadores fez luz, para accender o ca- 
chimbo, — levou um cordão á roda do pescoço da pobresinha, 
e assim a prophecJa dos curadores rapidamente se cumpriu. 
Levantaram-se todos immediatamente, excepto a mãe; os 
baris foram buscar os seus enfeites de pennas e as suas 
matracas, e começaram a dansa fúnebre com o estridente can* 
tico: — <.aroé. ■ ., aroé. . .». 

S« D,3 zB<iby(aOO<^le 



4l8 REVISTA DO UWriTVTO HISTÓRICO 

Mas a festa interna e a ceremonia fúnebre externa do 
ranchão foram de súbito medoahtunente interrompidas, quando 
se ouviram dous tiros do lado do mato. Atirava-se alli outra 
vei contra os Catapós ! Um homem, a quem a bebedeira 
fizera dormir, os tinha visto e ouvido gritar 1 Acorcfodo, deu 
o grito de alarma, que teve como consequência um enorme 
alvoroço. Elyseu chamou os soldados ás armas; em pouco 
tempo, o pateo ficou repleto de homens, carreados de arcos 
e flechiis, de mulheres, que nos seus cestos haviam arrumado 
todos os seus haveres portáteis, conduzindo ainda crianças 
e empurrando outras adeante de si, e de rapazotes, que ge- 
ralmente estavam também armados. Somente não saiu do 
■eu logar a mulher com o pequeno cadáver ao collo ; e alguns 
dansantes, tendo á cabeça uma grande roda, feita de ver- 
melhas pennas de arara, batiam os pés, cantavam e matra- 
queavam sem cessar, ou, depois de ter tomado parte na ce- 
leuma geral, voltavam promptamente aos seus deveres. 

A multidão, em grande alvoroço, rodeava a casa prin- 
cipal. Alli estavam os soldados em longa fileira; ós cadetes 
e funccionarios mal e mal supportavam o aperto, e ninguém 
podia ouvir bem a própria palavra. E era noite escura. Os 
exaltados exigiam que fossem removidos para a outra mai^em 
do rio, antes da chegada dos Caiapós ; toda a multidão estava 
promptã para sair. Felizmente, porém, não tinham animo de 
separar-se dos soldados. Era uma effervescencia tal, que não 
se sabia si os cinco sentidos f unccionavam . Pouco a pouco 
a agitação foi arrefecendo. Mais alto resoava o solenne aroé 
dos dansantes, os moços e as raparigas, pintados de vermelho, 
procuravam as suas pousadas no mal allumiado ranchão, e 
a multidão, que se apinhava no pateo, dividia-se em pequenos 
aggrupamentos ; alli e acolá lobrigavam-se na escuridão achas 
ardentes, e, ao clarão de uma fogueira, avistavam-se hor- 
rendos arcos e flechas, cestos, os enfeites de pennas dos can- 
tores, e, acocoradas e deitadas, pessoas de todas as edades 
e sexos, sobre cujos robustos corpos o contraste de lui e 
sombras, no momento em que eram allumiados, produzia 
effeitos singulares. 

Na repartição principal da colónia, todos os aposentos 
estavam cheios: em casa de Elyseu, de Caldas e do admi- 

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KKTRE 03 BOnõROS 419 

nistrador, em toda parte havia mulheres e creanças, com todas 
as trouxas, em redor da mesa e sobre ella e em todos os 
cantos, — similhando uma grande porção de ímmigrantes 
amontoados numa estação ferroviária. Algumas das mulheres 
mais mo<;as e bonitas davam na vista pela posse de travesseiros 
brancos. Os brasileiros zombavam delias e consolavam-n-as ; 
— € Caiámo bakitno », « os Caiapós não valem nada ! » Os 
Índios gabavam-se de que não tinham medo, entesando os 
arcos e baixando-se á maneira de espiões, para espreitarem 
o inimigo. E, nesse ínterim, esmolavam fumo e cachaça. 

Mais uma vez deu-se grosso alarido: disseram que um 
Borôro tinha sido morto por um Caiapó, perto das ultimas 
casas I Trouxeram um homem com a testa machucada: a 
esposa, desesperada, prectpitou-se sobre eile para examinar 
a ferida. Nós fizemos o mesmo. Uns pares de gottas de 
sangue, uma pequena contusão; o ferido relatou que, no acto 
de espiar, fora attíngido por um pontudo osso de boi. Si 
foi má brincadeira de a^m amigo frívolo, ou si o projéctil 
era destinado a um Caiapó, — isso ficou segredo daquella 
noite sinistra. 

Pelas II horas da noite, julgámos ser tempo de retirar- 
nos. Não havia mais novidade em espectativa. Os cadetes 
jogavam cartas, os caciques estavam muito embriagados. Lá 
íóra também se havia feito silencio. Os soldados haviam-se 
recolhido, e ao seu lado estavam as respectivas mulheres, 
deitadas sobre pelles. O fuiíebre pranteio continuava; no 
bailo, completa escuridão. 

EscHotA. — Observemos agora um quadro mais pacifico. 
Os meninos bororós tornaram-se meus amigos espedaes. 
Delles aprendi os melhores termos da lingua. Mostravam-se 
muito vivos, ousados, mais ou menos como pequenos neger- 
boys, e primando sobre a juventude civilizada da Europa em 
subtileza physica e espiritual. Gostaram muito do seu papel 
de mestres meus e incitavam-me incessantemente a tomar 
apontamentos: — €poiedie papératt (18) mais ou menos 



(iS) Conforme o qnc outí doi Borâroi. o certo t cpoghMje>, que Unto 
■Jtnifica «continue», como timbem «outra tu» ou <nomnent*>. A p>- 
I>Tn «papíri* t 1 idaptaçlo phonetica do vocábulo portuiow <pip«l>> 
(Nota de B. de U.). 



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430 RBVISTA DO INSTITUTO BUTORICO 

€ Continue no papel ! » A elles principalmente devo o conhe- 
cimento dos prefixos pronominaes para as partes do corpo, 
que variam para cada pessoa, e bem depressa se tomou o 
seu sport favorito o declamar na sua língua — cmeu nariz, 
teu nariz, nosso nariz, vosso nariz, seu nariz >, em todas as 
variações. Nomeadamente revelava intelligencia o pequeno 
diabrete, que figura no meio da estampa n. 128. Também 
no nosso allemão elie sempre descobria borôro. Usámos da 
expressão < pap^eienmaessig > ; immediatamente ouvimos a 
exclamação < pafagaima I > ( 19) c vamoa tomar banho I » 
Quando, uma noite, Ehrenreich se dirigia á lua com as pa- 
lavras do dr. Faust, recitando o verso « In deinem Thau ge- 
sund mich baden >, o tratantinho accompanhou immediata- 
mente € itáu, akáu, áu », isto é, « meu cabello, teu cabello, seu 
cabello». Esta brincadeira era tanto mais original, quanto o 
|::adete Caldas, seu magister, que também devia fazer um 
trabalho sobre a lingua borôro, declarava que os prefixos 
pronominaes americanos, que eu procurava, eram mentiras 
e invenções dos rapazitos, conforme a linguagem das gallinhas. 

Elle sustentava isso, por ser muito teimoso em suas opi- 
niões. Expressava-se também desdenhosamente em relação 
ao nosso asserto de que a lingua latina era uma lingua morta, 
porque esse idioma era falado no Egypto... Mas, peíor era 
quando elle affirmava que Muller (sabe Deus donde lhe veio 
o conhecimento dessa uníca palavra allemã !) era palavra 
franceza, e insistia nisso, apesar do cómico desespero de 
Ehrenreich, que, como filho da Athenas do Spree, em face 
de tmi ataque tão inaudito ao < Guia de informações » de 
Berlim, offendia a base do seu pensar e sentir.i 

Si Caldas, que, pelo ensino aos rapazitos boròroá, recetna 
uma gratificação, aprendia pouco dos seus discipulos, estes 
certamente ainda menos aprendiam delle. E' verdade que os 
marotos não gostavam de frequentar a aula : no começo, nem 
appareceram lá; mais tarde, capitularam, quando alguns pães 



(19) c Tomar bontio > r « úma >, cuja primeira pesscA gilural do iinpr- 
TBlivo é ipagaima» (de <pighi>, nús). Em <papaBa!ma> ha, tvideiltinait^ 
o prefixo intensito <pi>, que i a tylbiba iokial tia pronome 4CÍma citado. 
(NoU de B. do M.).: 



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BNTRE 08 BORdROS 431 

curiosos também tomaram assento na eschola. Eram, enfim, 
muito desattentos. Eu pensava que as creanças deviam apren- 
der em primeiro logar os nomes portuguezes das cousas mais 
conhecidas, — plantas de cultura, animaes, utensílios, — que 
haviam de contenta-los e que elles espontaneamente me per- 
guntavam. Eu pensava mais si elles não haviam por força 
de aprender a ler..., mas não vale a pena insistir no meu 
modo de pensar, é melhor restringir-me ao meu papei de 
relator. > ' 

Cada um dos rapazes tinha na mão uma folha de papel, 
manuscrípta por Caldas. Liamos — ai, el, U, ol, ul, bal, bel, 
hil, boi, bui, dal, dei, dil, dol, dul, e assím pbr deante, pela 
pagina inteira. O mestre lia-lhes linha a linha, que os alumnos 
tinham de reproduzir. Durante horas assim se exercitaram 
elles, sacudindo alegremente o seu papel e dizendo: — bal, 
hei, bil, boi, bui, dal, dei, dil, dol, dul, etc. DuTbnte alguns 
mezes não passaram além disso. Caldas mesmo parecia 
perder a paciência e perguntou-nos três vezes quantas horas 
eram durante o pouco tempo em que assistimos ás suas licções. 
Dous pães bororós estavam sentados a um canto, murmu- 
rando de vez em quando, não sem alguma devoção: — bal, bel, 
bil, boi bui. Entre as minhas notas linguisticas acho o seguinte : 
— os Bororós me disseram « elle ensina a ler os rapazes » ; 
a phrase é, em traducção litteral, conforme o verdadeiro obje- 
ctivo, «elle ensina os meninos a olhar no papel». Caldas, 
porém, esperava obter logo melhores resultados; os rapazes, 
dizia elle, eram um bando malcreado, que, antes de tudo, 
devia aprender a obediência. EUe, até então, os tinha casti- 
gado, batendo-lhes com a régua nos dedos, quando estavam 
desattentos. ^ora, porém, possue um mais aperfeiçoado sys- 
tema de palmatória, que nos exhibiu em dous exemplares: 
tinham ellas a forma de colheres de pau, mas com uma peça 
terminal chata, circular, e esta, — nisto é que consistia o 
melhoramento, — era perfurada como uma peneira ; dizia 
Caldas que o ar, penetrando pelos buracos, augmentaria a 
dõr. Esperava, poiá, que as novas palmatórias vingassem bem 
e que os rapazitos chiassem pelo menos ao xat, xel, xil, xol, 
xul. Èm nosso tempo, o resultado era sempre dal, dei, dil, 
'dol, dul. 

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433 REVISTA DO tNtTITDTO mSTOBICO 

Os ermXos inimigos. — No dia 9 de Abril, Arateba tor- 
nou a fazer, no estado de bebedeira, mais uma das suas proe> 
zas. Furioso, derribou a cabana de uma viuva, que lhe não 
quiz satisfazer aos desejos. Aquelle trabalho foi-lhe de facíl 
execução, apesar do perigo de a cada arranco, cair de costas. 
Seu ermão e dous previdentes amigos carregaram-n-o aos 
hombros, levando-o para o seu rancho. Alli, durante um 
quarto de hora, foi tomado de um ataque de choro; levanta- 
se, porém, depois de irrigado com agua fria, e apparece deante 
da casa do commandante. Como um leio que ruge na jaula, 
elle passeia alli de um lado para outro, desafiando o ermão 
para a lucta e injuriando-o muito perante o povo. O ermão 
avan<;a' para elle, e, acurvado, saltita algum tempo deante 
delle; em seguida, engalfinham-se furiosamente. Arateba, 
por quatro vezes, é derribado ao chão. Então Maria, sua erma, 
intervém resolutamente e segura-o com tanto vigor, que elle 
não pode mexer-se. São levados os ermãos para direcções 
oppostas. Da choça de Arateba sai de novo uma gritaria 
selvagem e outra vez apparece o cambaleante bêbado : — tem 
a physionomia de um verdadeiro criminoso, e, além disso, a 
cabeça rapada, — e penetra na cabana onde esconderam o 
ermão. Golpes retumbantes, gritos medonhos, briga geral. 
A excitada multidão, em cujo meio se destaca a figura de 
Moguiocúri, vem para fora: alguns luctam corpo a corpo, 
Arateba é outra vez posto em terra, as mulheres precipitam-se 
então accesamente no torvelinho. Maria subjuga o bêbado, 
este é arrastado para fora, todos riem-se, voltam para o 
ranchão, € alguns dizem, não sem razão: — < Piga pega!», 
isto é, € a pinga é coisa má ! > (20) . 

Disciplina. — Estando taes scenas na ordem do dia, 
nSo se podia evitar que ellas exercessem influencia nefasta 
nos soldados. Estes andavam irritados, por terem de fazer 
todos 05 trabalhos, ao passo que os indios vadiavam ; por 
terem de pagar a garrafa de cachaça a 2$, isto é, cinco vezes 



(10) «Pisa» é alinplet comiptcU do vi>c>bulD ptrtagatx «pinga». A' >!• 
mllhin;! ão duplo slgnifiodo doi termos tupicos tpoxi> e c porangi > (alii), 
«n nosu própria Unsui «bonito* 6 um darlndo ds «bom»), — «ptsa*. em 
borâra, terve para indicar aa ideai de « mau i • de ■ feio >, aialm como 
«peméga* ou « pemegárf > tanto quer diíer «bom» quanto < boplto >. CNoU 
de B. de If.). 



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ENTRE 09 BORdlOS 413 

mais do que o preço da cidade, ao passo que os Índios a 
recebiam de graça, para beber á vontade; e, finalmente, 
porque tinham de frequentar o xadrez, em consequência dos 
seus delidos, ao passo que os Índios podiam impunemente 
gritar & cara dos officiaes ura insultuoso — * filho da... .'» 
No mais, o bom do Elyseu, que não podia modificar o systema, 
era ínnocente, — até era, por exemplo, tão indulgente, que 
perdoou a um homem que sobre elle avançara de faca em 
punho. O soldo, naturalmente, era gasto no jogo de cartas. 
Um tinha perdido 100.000 réis no < vinte-e-um > e no « trinta- 
e-um *, quando chegou o dia do pagamento . Não tendo mais 
dinheiro, vendiam por uma bagatella todos os trastes da casa. 

O ódio contra o administrador concentrou-se em uma 
pequena rebellião, quando um dos camaradas foi preso por 
causa da calumnia de que o dicto administrador lhe havia 
feito â companheira propostas deshonestas, promettendo 
dar-lhe um vestido novo do seu armazém. Queriam os re- 
beldes assaltar o cárcere e matar Ildefonso a tiros. Conse- 
guiram acalma-los, fazendo-lhes ver que Duarte ia regressar 
togo e então decidiria a contenda. Ildefonso, porém, está 
muito exaltado . Disse elle que tinha apenas dado c bons-dias > 
á rapariga; outrora, não o negava, tinha-lhe feito cousas como 
a de que era accusado; mas, agora, para elle, < a mulher era 
ideai >. 

Chegada de Duarte- — No dia ii de Abril, mais ou 
menos ao meio-día, muito celeuma e grande imitação : — Di- 
uáte I Diuáie ! Chiavam do mato, — não ha opereta que 
represente cousa mais bonita, — 14 Bororós, um atraz do 
outro, descalços, em trajo branco-sujo, rodeado de bainha ver- 
melha, com claros chapéus de palha de abas largas, debaixo 
dos quaes ondulava o opulento cabello preto, com grossas 
borlas vermelhas e fitas vermelhas soltas com o disticho < Co- 
lónia Teresa-Christina >, sabres com talins e copos enfeitados, 
grandes e redondas botijas de cachaça, de vez em quando um 
guarda-sol aberto. E atrás Duarte a cavallo, e trez caciques 
montados era mulas, com o uniforme azul-marinho de galões 
vermelhos de u'a mão de largura, que contrastavam bastante 
com os pés nús, trazendo a espingarda na mão, e sobre a 
manga uma brilhante rodella de latão com os dizeres c Vo- 



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434 REVISTA DO INSTITUTO BISTORICO 

luntarios da Pátria». Viva da. Carmina, a presidenta (21) 
Pois nisso consiste a catechese da exma. sra. ! Os robustos 
rapazes, é verdade, tinham um porte garboso, quando cami- 
nhavam aos raios do sol, e marchavam recta via para a casa 
principal; iam, com grande seriedade, sem siquer desviar a 
vista da linha recta, pois nem lançavam uma olhadela de 
lado para as suas ululantes mulheres e creanças, que pareciam 
loucas de alaria.: 

Ainda no refeitório conservavam a mesma solenne atti- 
lude. Nós, os extrangeiros, estávamos sentados em bancos, 
postos ao redor da mesa e junto ás paredes, em grande con- 
traste com os barulhentos e desnudos filhos da brasilea tribu. 
Havia notadamente quatro mulheres, que se lamentavam de 
modo a causar dó, relatando, com os rostos banhados de 
lagrimas, os acontecimentos desfiados desde a separação; a 
mais exaltada rasgava a pelle do peito, braços e pernas, tor- 
cendo em vas't05 queixumes o ensanguentado corpo côr de 
barro amarello aos pés do esposo, que, em seu trajo theatral, 
estava tesamente sentado no banco. 

A 12 de Abril, accompanhando com atrazo de um dia o 
director da colónia, chegaram dous enormes carros carregados 
de géneros, puxado cada um por duas dúzias de bois. Para 
os soldados houve, então", uma mudança: — na ordem do-dia 
da véspera pubHcara-se que de então em deante cessava a 
venda da cachaça, principalmente porque, no momento da 
entrada do tenente, foram encontrados muitos bêbados. 

Ai.Moço lí SERENATA. — Depoís de regulados taes ne- 
gócios, Duarte só no dia seguinte foi que verdadeiramente 
recebeu os cumprimentos de boas vindas dos seus subordi- 





>.) 


core 


nd Francíse. 


Rafa 


I de Mello 


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elidiu > provincia de 


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e 16 de Novembro 


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* Rosí. a Borato 


(vol. 


II. jSçis). 


No mesmo anno, dern tUa i 


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pequeno o|> 




« Ouido >. 


oiisagrad 


& memoria de um 




no boríiro. 






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ahi euri 










uella tribu 


nsula 






Mat 


-Gros 




< Arletactoí 


indigc 


as de Mato-Grosío» 


são, respectivamente. 


de ■ 


897 e 


999. 


(Noia de B 


de M.). 







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ENTRB OS BORMOS 435 

nados. Em primeiro logar, houve ao almoço boni vinho do 
Porto. Este era em abundância, apesar de o tomarem dous 
cadetes num copo só. Duarte era muito morigerado, por 
causa do seu figado. Ao vinho seguiu-se uma collecçao de 
garrafas de clara cerveja extrangeira, cujo rótulo nos lembrou 
a pátria distante: a brasserie era em Hanover. Seis brindes 
celebraram a Duarte como soldado do Paraguai, como pae 
de f amíha, etc . , etc . Havia sempre novos motivos para elogios, 
a todos os quaes elle respondia com o seu amistoso — c obri- 
gado I 9 . 

Esta sessão, porém, era apenas um preludio da serenata : 
Caldas com violino, Duarte com guitarra, Ildefonso com o 
coxo. Foi uma noite linda e alegre, que nos encheu do mais 
alto respeito pela força para beber por parte dos Brasileiros ; 
nunca eu poderia pensar que nos seus sertões houvesse (fessas 
cousas. Duas grandes caixas de cerveja foram totalmente es- 
vaziadas, antes de chegar a vez da cachaça. Ainda mais 
infinita era a correnteza dos discursos. Eu fiz o meu brinde 
ao fundador da catechese dos Bororós, o presidente Galdino 
Pimentel, de quem não foi a culpa de que mais tarde ella 
entrasse numa senda falsa, e assim evitei o dilemma de 
mentir ou de of fender inutilmente. Duarte, então, tomou a 
palavra e falou muito bem. Estava descontente com o go- 
verno ; era por conta do c governo ingrato » o que ainda 
faltava para o aperfeiçoamento da colónia. Considerava 
também um erro que Elyseu ainda não estivesse promovido, 
porém elle mesmo tinha tido razões de dissuadir o governo 
de mandar o seu joven amigo para a colónia '€ Isabel »*, porque 
poderia acontecer que este, por uma única falta, prejudicasse 
toda a sua carreira ! — De facto, era admirav 
observador imparcial ver como os cadetes confia 
temal cuidado de Duarte, — cuidado que a elle p 
veitava, — e como lhe pareciam ser inteiramente 
Avaliei pouco mais ou menos em 30 ou 35 os bi 
noite, dos quaes pelo menos 20 consagrados ao b 
Duarte, Muito engraçado era o bom do Elyseu 
incumbiu o palavroso Ildefonso de falar por elU 
algum tempo, porém, elle mesmo se levantou, 
resolutamente : — « Não tendo a devida intelligenc 



«byCoogIe 



436 BBVUTA DO INSTITim) HISTÓRICO 

então em deante, fez até corajosamente muitos brindes, co- 
meçando sempre com a desculpa de que não possuía a neces- 
sária capacidatfe tntellectual, e pedindo, toda vez que termi- 
nava, a coadjuvencia dos presentes, para vivarem, c debaixo 
de todo o enthusiasmo », successivamente vários membros da 
familiã de Duarte, a esposa em Cuiabá, o ermão e principal- 
mente ã filha mais velha. Quanto mais tomavam cerveja, 
tanto mais solennes e series ficavam os discursos. O boticário 
era poeta, sabia muita cousa de flores de toda espécie, e 
comparava o grotesco sargento Joaquim com um botã<^, e 
celebrava a mulher, a qual, — primeira parte, — devia ser 
considerada uma criança, mas, para elle, — s^unda parte, — • 
era uma divindade, que para nós, os homení, sempre seria 
um mysterio insondável. Ao mavioso accompanhamento da 
guitarra, recitou Caldas umas inspiradas poesias; as bellas 
palavras succediam-se muitas vezes com uma incrível presteza, 
e do mesmo modo as nossas impressões tinham de variar do 
delicado ao pathetico, do forte ao meigo. Apoderou-se de 
todos uma commoção profunda. Duarte foi abraçado como 
um pae, Elyseu ajoelhou-se deante delle, pedindo-lhe a benção, 
ao que, porém, o pae brandamente se recusou, com um — ■ 
< isso não, meus amigos I » . 

Ainda não me referi aos Bororós. Estes, porém, não 
faltavam de modo algum, e estavam alli bem a geito. Vi, 
pela primeira vez, um soberbo cacique índio desarrolhar uma 
garrafa de cerveja allemã. A miude, serviam-se elles com 
prazer do sueco da cevada e da canna, tomando muito mais 
do que podiam supportar. Frequentes vezes, entresachavam 
com 2 sua tagarellice os discursos sentimentaes, o que a 
ninguém incommodava, levantavam as suas garrafas ao tinir 
dos copos, tocando-as também, e não se cansavam de abra- 
çar-se cordialmente. Moguiocúri também tomara assento alli, 
entoando uma canção ruidosa e tocando guitarra, cujas cordas 
elle arrancava como um tapir que empurra bambus. Fal- 
tavam ã serenata somente mulheres índias. Mas duas moças, 
já desde o começo, tinham sido levadas por Moguiocúri para 
o quarto de Duarte, que ficava ao lado do refeitório. Na 
manhã seguinte, alli chegaram á janella, para serem admi- 
radas, com pentes de tartaruga nos cabellos, correntes de 



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ENTRE OS BORdltOS 437 

plaquei ao pescoço, com pulseiras côr de rosa, e honestamente 
vestidas de compridas camisolas, que eram estampadas de 
enormes e variegadas figuras de ramos de palmeira. 

Aqui talvez posso eu fechar o meu caleidoscópio : — 
havia de ser somente uma repetição de quadros. Até á nossa 
saída, no dia 18 de Abril, não tivemos occasião de observar 
que as nossas desfavoráveis primeiras impressões fossem 
causadas pela ausência do director da catechese. Pelo con- 
trario. Duarte ia tomar banho, dava um passeio á olaria, ou 
fazia cousas similhantes; no resto do dia, deixava-se ficar 
no seu quarto, onde também sempre se viam muitos Bororós, 
Todos esmolavam. Uns ganhavam alguma cousa, outros nada. 
Bêbados havia sempre entre elles. Para construcçlo do novo 
edifício, os soldados carregavam paus e folhas de palmeiras, 
que tinham tirado do mato. Certa vez até alguns Bororós 
os ajudaram um bocadinho, a troco de cachaça. 

Si preguiça e divertimentos por parte dos funccionarios 
e Índios eram o objecto da colónia, — então esta poderia ser- 
vir de brilhante modelo. 



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III. — OBSERVAÇÕES 



poloeícM. Htibito cMento (Ctbtlla. 



Ptntuid. Onumeot^çio) . O «arAe». Caca e cultiva 
do campo. Armai. Trabalhos no ranchio e icchnica. AlímentaçEo ; «beo- 
limentoii pat meio doa ( biríi >. Dinu t úlraaOta. Instrumento* de 
muiica; aonidom. Arte de dnenho. Diíeíta e casamento (Coitumei d> 
familia do rancbla). Nascimento; nomes. Featai dos mortos. Alma e vida 
de além-tomulo. Ni^uas celestes. Conjurat^o de meleoros. 

Observações antropológicas . Alíura: 

20 homens: max. 191,2; min. 167,0; med. 173,6. 
i6 mulheres: max. 168,2; min. 156,2; med. i6o,S- 

Uma pasmosa differença da altura dos índios do Xingu ! 
As mulheres bororós regulam pouco mais ou menos com os 
homens da tribu dos Bakaeris. A média dos 26* Bororós de 
ambos os sexos, que medi, é de 170,6, numero esse, porém, 
que, na desproporção de 20 homens para seis mulheres não 
tem valor algum. Tomando por base o eschema de Topinard, 
os Bororós são individuos de estatura alta, sendo de 170,0 
o seu timlte inferior. Na tabeliã communicada por Topinard 
{22) sobre a média da altura dos homens, occupariam os 
Bororós o 3° logar entre as 10 tribus de estatura alta. Só 
seriam superados pelos Teuclches da Patagonia (178,1) e 
pelos Poiynesíos (176,2), e quasi egualariam os Iroquezes 
(■73,5)- 

Extensão dos braços abertos — Altura egual a 100. 

20 homens: max. 113,2; min. 99,9; med. 104,7. 
6 mulheres: max. 102,4; min. 97^4; med. 100,3, 

O mínimo dos homens — 0,2 tinha o maior Borôro me- 
dido, o qual, com 191,2 de altura, tinha 191,0 de extensão 
da braçada. Em duas das seis mulheres, a braçada era menos 
que a altura : — 0,2 para uma altura de 156,2 e — 4,2 para uma 
altura de 160,7. 



€ Anthropologia > 



byCoógIe 



ENTRE OS BOROROS 4^9 

Distancia inter-humeral — A) Altura egual a loo. 

19 homens: max. 25,0; min, 21,6; med, 23^. 
6 mulheres: max. 22,6; min. 20,4; med. si,8. 

B) Absoluta. 

19 homens: max. 45,3; min. 38,5; med. 41,6. 
6 mulheres: max. 38,0; min. 32,5; med. 34,6' 

O máximo da distancia absoluta pertence ao comprido 
fitho do cacique Moguiocúri, que, com a altura de 191,2, 
teve para a distancia inter-humeral relativa 23,7. O numero 
mais approximativo para a distancia inter-humeral absoluta 
é de 43,5 para uma relativa de 23,6. Comparando com os 
Índios do Kulisehú, a média absoluta dos Bororós é de 41,6, 
maior do que a maior média (41,4) dos Mehinakús, e a 
média relativa dos Bororós (23,9) é menor que a menor 
média (24,1) dos Nahuquás. 

Circunferência tkoracica — A) Altura egual a 100. 

19 homens: max. 58,4; min. 524; med. 55,1. 
6 mulheres: max. 55,5; min. 47,9; med. 51,3. 

B) Absoluta. 

19 homens: max. ioo,S; mín. 90,0; med. 95,4. 
6 mulheres: max. 9i,3; min. 76.6; med. 82,$. 

Comparando esta medida, como a anterior, com a dos 
Índios do Kulisehú (pags. 166-167), achamos de novo a 
maior média absohita dos Bororós (954) maior do que a 
maior média (95,1) dos Mehinakús, e a menor média re- 
lativa dos Bororós (55,1) egual á menor média dos Nahu- 
quás (55,1). 

Altura da cabeça — Altura do corpo cg\a\ a 100. 

18 homens: max. 19,4; min. 12^; med. 14,6. 
6 mulheres: max. 16,1; min. 13,0; med. 14,5. 

Dous homens têm números bem altos. Si compararmos 
média das seis mulheres. 

próximo 16,8 (31,0 cm.), veremos que os 18 homens têm 
uma média de 0^4 com só 14,2, a qual é menor do que a 
média das sets mulheres. 

Circunferência da cabeça — Altura do corpo egual a 100. 

20 homens: max. 34,4; min. 31,1; med. 32,9. 
6 mulheres: max. 36,6; min. 31,6; med. 33,4. 

O minimo que achámos nos homens medidos no Xinga, 

. Cooglc 



430 RBVISTÀ DO nwnTDTO mSTORtCO 

por exemplo em um Trumaí, — foi de 32^. A média dos 
Bororós, 32,9, é mais baixa que a média mais baixa das séries 
lá observadas, 37,7 dos Kamaíurás, e, bem entendido, a dif- 
ferença de 0,8 é justamente egual á differença entre a média 
mais baixa e a mais alta das tribus do Kulisehú (Kama- 
iurá, 33.7; Auetó, 34,5). 

Índice craniano em relação á largura e ao comprimento. 

20 homens: max. 85,6; min. 75,0; med. 8o,S. 
6 mulheres; max. 79,8; min. 76,2; med. 77,7. 

10 homens abaixo da média : 75,0, 76^, 77,0, 77i^t 
77'^. 79.4, 79A 80,2, 80,3, 80,3 e 

10 homens acima da média: 80,9, 81,5, 81,8, 83,3 82,5, 
84,0, 844, 84,8, 85,5, 85,6. 

3 mulheres abaixo da média : 76,2, 76,6, 77,6 e 

3 mulheres acima da média: 77,9, 78,3, 79,8. 

Tenho mencionado todos esses algarismos singelos, afim 
de demonstrar que as médias, neste caso, offerecem uma 
imagem fiel. Os homens têm a distancia entre a máxima e 
a minima tão colossal, que parece incrível, A máxima das 
mulheres é mais baixa que a média dos homens, e a diffe- 
rença entre os dous sexos tem um aspecto muito diverso do 
que observámos no Kulisehú. Quanto á média, os algarismos 
referentes aos homens Bororós regulam com os mais altos 
do Kulisehú e são apenas excedidos pelo índice dos Trumaís, 
que é de 8:,8. 

Proporção do comprimento da cabeça para a altura da 
orelha — O maior comprimento da cabeça ^^al a icxj. 

20 homens; max. 75,4; min. 61,3; med. 67,9. 

6 mulheres: max. f)QA'> min. 62,2; med. 66,e. 

Angulo maxillar — Limite do cabello — mento egual a 

19 homens: max. 65,9; min. 51,7; med. 5Í,j. 
6 mulheres: max. 67,3; min. 524; med. 58,4. 
Arco do osso malar — Limite do cabello — mento egual 
00. 
19 homens: max. 85,2; min. 72,8; med. 75,7. 
6 mulheres: max. 84,6; min. 70,3; med. 78,5. 
Tuberosidade do osso »ki/ar— Limite do cabello — 
ito egual a 100. 



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BNTRB OS BORdROS 



43' 



19 homens: max. 57,6; min. 45,7; med. 4Ç,o. 
6 mulheres: max. 49,1; min. 42,7; med. 46,6. 

Face média — Raiz nasal — mento egual a 100. 

20 homens: max. 69,4; min. 53,8; med. óo.ç. 
6 mulheres: max. 68,0; min. 58,0; med. óí,j. 

Altura do naris — Comprimento do nariz ^;ual a 100. 
18 homens; max. 112,5; ">'"• 92,o; med. ioo,t. 
6 mulheres: max. 111,6; min. 102,3; med. 106,8. 
Largura do naris — Comprimento do nariz egual a 100. 

18 homens: max, 108,9; ™'n. 77.8; med, 8ç,i. 
6 mulheres: max. 95,1; min, 73,3; med. 8$,^. 

Altura das espáduas — Altura do corpo ^ual a 100, 
20 homens: max. 89,9; min. 79,4; med. 84,^. 

6 mulheres: max. 85,3; min,, 82,3; med. 8^,ç. 
Altura do umbigo — Altura do corpo egual a 100. 
20 homens: max. 63,0; min. 57,4; med. sp,^. 

6 mulheres: max. 63,0; min. 58,9; med. 60,4. 
Altura da symphyse — Altura do corpo egual a lOO. 

19 homens: max. 53,3; min. 47,1; med. 50,9. 
6 mulheres: max. 53,3; min. 47,4; med. 4Ç,8. 

Altura da crista Uiaca — Altura do corpo egual a 100. 

20 homens: max. 62,3; min. 55,8; med. ^p,ç. 

4 mulheres: max 61^7; min. 58,1; med. 6o,t. 
Comprimento do braço — Altura do corpo egual a 100. 

18 homens: max. 52,5 min. 43,6; med. 46,5. 
6 mulheres: max. 46,2; min. 42,9; med. 44,$. 

Comprimento da mão — A) Absoluto, 

19 homens: max. 19,2; min. 16,1; med. 17,8. 
6 mulheres: max. 174; min, 16.0; med. 16,6. 

B) Altura do corpo egual a 100. 

19 homens; max. 11, i; min. 9,5; med. 10,4. 
6 mulheres; max. 11,3; min. 9,8; med. 10,4. 

C) Comprimento do braço egual a 100. 

20 homens; max. 24,2; min. 19,3; med. í2,i, 
6 mulheres: max. 24,3; min. 21,7; med. sj.s. 

índice do comprimento e largura da mão — 
mento da mão ^ual a 100. 

18 homens: max. 50,3; min. 41,6; med. 45, 

5 mulheres: max. 46,9; min. 41,2; med. 44, 



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433 RBVIBTA DO INSTITUTO HUTOIUCO 

Altura do irochanter — Altura do corpo ^ual a lOO. 

20 homens; max. 53,6; min. 48,4; med. 51,1. 
6 mulheres: max. 55,6; min. 494; med. 5^,1. 

Comprimento do pé — A) Absoluto. 

20 homens: max. 28,3; min. 24,0; med. íó/i. 
6 mulheres: max. 25,5; min. 23,1; med. 24,0. 

B) Altura do corpo e^at a 100. 

20 homens: max. 164;' min. 14,1; med. 15,3. 
6 mulheres: max. 15,2; min. 14,6; med. 14,9. 

índice do comprimento e largura do pé — Comprimento 
do pé ^ual a too. 

20 homens: max. 43,3; min. 30,8; med. 57,5. 
6 mulheres; max, 38,9; min. 36,1; med. S7'5' 

Altura do pé — Altura do trochanter egual a 100. 

17 homens: maiç. 9,1; mín. 7,1; med. 7,<í. 
5 mulheres: max: 7,9; min. 6,8; med. ^,4. 

A pelle tinha a còr exacta de barro ; havia, porém, todos 
os matizes de tons, desde o amarello-claro (nas faces) até 
ao violeta (no peito). Em geral, servia melhor Radde 33 m.; 
a testa um pouco mais vermelha, também com 33 n. e com 
33 o. (bem como as faces). 

Em alguns índividuos notava-se já uma affecção de 
pelle, que mais pronunciada se via na mulher de Moguíocúri. 
Tinha ella só livre a cara, o hypogastrio para baixo do um- 
bigo, onde a peite estava coberta, e o dorso dos pés. No 
mais,a epiderme mostrava-se tapetada de uma erupção esca- 
mosa, que se desenvolvia em curvas concêntricas, circulos e 
ettipses. similhante á face que apresenta uma pedra de aga- 
tha polida (23). 

Cabello preto, e tão liso quanto ondulado, e mais raras 
vezes, — isto em dous para 20 homens, — crespo. 

Barba, quando não arrancada, rara no queixo e no lábio 
superior. 



J3) A esta alfítíão epidirmicí, ii «tudada por alguns do» intclliscnttt 
:iH patricioc que íerviram na lommiaíão Rondon. — dra. E. Roquftle 
e M. de Sou» Campos, — dão oi Boràras a dcDominacio da «blrigírí», 
c escamosa*, ou ainda « biti-ldíoriri », bto é, ca pctie 
i de B. de U.). 



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ENTRE OS DORdROS 433 

Cabeça geralmente alta, ordinariamente lai^, ás vezes 
redonda. Saliência do occSpicio bem desenvolvida. Testa 
baixa, nos homens ás mais das vezes inclinada, nas mulheres 
commummente direita, mas algumas vezes alta e abobadada, 
frequentemente cabelluda. Fortes saliências, principalmente 
nos homens, são signaes characteristicos. Cara geralmente alta 
e larga, raras vezes alta e estreita, na maioria dos casos oval, 
raras vezes redonda, sendo excepcional a quadrada. Ossos 
malares salientes. i ,: 

íris castanho-escura, de vez em quando castanho-clara. 
Distancia dos olhos, grande. Abertura das pálpebras muito 
obliqua, mas na maioria dos casos horizontal, geralmente 
baixa, em forma de amêndoa, de vez em quando rabada.' 
Lóbulos da orelha pequenos ou diminutos, ás mais das vezes 
indistinctos. Nariz: — raiz mais vezes larga do que estreita, 
mais vezes achatada do que saliente; dorso quasi sempre 
largo, geralmente direito ou levemente arqueado, ás vezes 
também em forma de sellim ; narinas, ás vezes em forma de 
telhas, fortes nos homens, finas nas mulheres; ponta um 
pouco aguda; ventas dirigidas para deante, redondas. Lábios 
grossos, arqueados para cima e muito salientes. Dentes re- 
gulares, sólidos, opacos, geralmente amarellos, mas de vez 
em quando brancos, muitas vezes gastos até á metade. Pro- 
gnathismo médio; queixo raras vezes reintrante. 

Seio das mulheres que deram á luz — caídos, com 
grandes circules em roda do bico. Orgams genitaes dos ho- 
mens — pequenos. O prepúcio é artiftcialmetite alongado 
pelas manipulações com o cartucho. 

Mãos e pés proporcionalmente pequenos; Índices curtos. 
Circunferência da coxa, tomada em um homem de i'°,73 de 
altura, í^al a 0^,50 ; da barriga da perna, o",35. Artelhos 
mais compridos: em 17 homens, nove vezes II, sete vezes I, 
uma vez I egual a II ; em cinco mulheres, trez vezes II, duas 
vezes I. 

Habito externo. — Pestanas, sobrancelhas, 
pellos são arrancados ou raspados. Agora começaram 
as pestanas de algumas creanças, o que lhes foi mi 
tajoso era relação ao nosso gosto. 

!< D,gt,zedbyGOO<^le 



434 RETISTA DO HffiTITOTO HIBTORICO 

O cabelló era tractado dífferentemente, mas tanto nos 
luHnens como nas mulheres do mesmo modo arbitrário., A 
tonsura, que se devia esperar conforme o nome de c Coroa- 
dos», restringe-se a uma de o™,oi de diâmetro, que se ob- 
serva casualmente. Talvez aquelle nome se origine das gran- 
des coroas de pennas. Viuvo e viuva trazem o cabello cor- 
tado rente. O modo mais commum e original dos dous sexos 
é pentearem o cabello para a testa, onde o cortam em Unha 
recta, caindo atrâz livremente. Ao lado das orelhas fazem 
ás vezes um corte ou deixam u'a madeixa atada em forma 
de pincel, e ás vezes os homens trazem o cabello arranjado 
atraz em forma de nó ou amarrado com uma tira. de embira.- 
As mulheres, que se inclinavam ás modas brasileiras,' repar* 
tiam o cabello ao meio. Havia também homens que traziam, 
o cabello solto, não cortado, e repartido ao meto. Geralmente 
era cortado com tesoufa; pelo methodo velho, entre duas 
conchas. O pente era fetto de dous pausinhos pontudos, afia- 
dos nas extremidades e ligados na parte média por fibras 
v^etaes; estas eram dispostas entre duas travessinhas, que 
iam além das extremidades. 

Os homens traziam, quasi sem excepção, um cordão á 
cintura. Havia, porém, um ou outro sem elle. O cartucho, 
iiiobá (de no, palmeira uaussú, e bá, ovo ou scrolum) (24), 
chamado gravata pelos Brasileiros já foi descripto por mim 
(com bandeira festival). Póde-se construir facilmente ura 
modelo com uma tira de papel de mais ou menos 0,3 de 
largo por 0,14 de comprido, ligando as duas extremidades 
em forma de annel, dobrando uma ntun angulo de 90°, e 
pondo-a por debaixo da outra. Quando applicavam um car- 
tucho algo apertado, então o prepúcio deante da glande era 
amarrado por um cordel e puxado para fora; por esta mani- 
pulação e applicação do cartucho, o prepúcio fica repu- 
xado e alongado. A bandeira festival é uma tira de palha de 
0,20 de comprimento, collocada ao lado. Também o apri- 

(14) Hl aqui um engano de tod den Steisen! — o catlucho pmU Cb*. 
ma-ie c bi >, conforme dlsaemos em a nota 14. t InobS > quer diíer <a meu 
cartucho penil 1, pois (in<i> é o ad]«ctiTO'pionome posseasivo da primeira 
peisoa gíngular. A palavra bapiisiú ou uauBsú chama-te ciMÍdo> e nio 
«no».' (NoU de B. de H.).< 



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BHTRB 06 BORAROS 435 

sionadó Clemente recebeu um cartucho ê queixou-se 'dè ter 
sentido, em consequência da applícação delle, dores e inflam- 
mação. A expedição Langsdorff refere, a respeito dos Bororós 
da Campanha, no anno de 1S27, que os homens costumavam 
amarrar o prepúcio com uma embira, á maneira dos Guatós, 
e que a embira lhes servia de cinta; e que outros o cobrem 
com um cartucho de folhas (25), Já citei a observação de 
JVaehneldt, o qual certifica que o cordão da cintura', sem 
cartucho, como no Kulisehú, era bastante. Rohde (26) ex- 
pressa-se erroneamente, quando diz : — c Os homens andam 
completamente nús, cobrem somente o penis com um cartucho 
de junco, amarrando o membro para cima do corpo».' Pois 
os cartuchos de junco, entregues por elle ao Museu Berli- 
nense de Bthnographia, são exactamente os cartuchos já 
descriptos, que somente cobrem o penis, porquanto a glande 
é uma parte delle, e o resto parece retrahido no escroto. A' 
constricção do penis no cordão da cintura, — não a vimos 
no S. Lourenço. Dizem que ella é usada apenas por aquelles 
que não trazem cartucho. Disso resulta que o fim para que 
amarram o penis não é, como affirma Waehneldt, facili- 
tar-lhes o correrem mais desimpedidos; mas sim, um intuito 
especial. O verdadeiro objectivo, a que se destinam o cordão 
da cintura e o cartucho, é o prolongamento do prepúcio; 
differe somente pelo methodo, mas tem sido observado na 
grande maioria das tribus brasilicas. 

A respeito das mulheres dos Bororós, diz o relator da 
expedição Langsdorff ; — «As mulheres têm um costume 
singular, não sei si para se cobrirem, caso esse em que ficam 
longe do seu louvável intento. Em primeiro l<^ar, quero 
dizer que, por uma razão qualquer, ellas apertam a cintura 
com um pedaço de casca de dez poUegadas de largura, e 
isso com tanta força, que a carne, á altura do estômago, 
forma um ref^o, o que contríbue para as afeiar; mas, vol- 
tando ao costume singular, tenho de accrescentar que, deste 
cinto, adeante e atraz, prendem dous filamentos de duas a trez 
poUegadas de largura». Conforme Waehneldt, as mulheres 



(2]) «Rcv. Trim. >, 3i. U. pass. 'S'- (Noti do A.). 
<a6) OMumaniciffica originaci da « AbtheiluoKm >, I> P>SB.- 14,- '<NoU 
ia A.). '~~ 



yCoogIe 



436 REVISTA bO INSTITUTO HISTÓRICO 

usam um pedaço de couro de anta, de palmo e meio dé lar- 
gura, em volta do ventre : < delle sai uma imbira de meio 
palmo de largura, que cobre as suas partes genitaes » . Rohde 
diz : — « As mulheres também andam nuas ; o único objecto 
com que pretendem cobrir-se é uma tira estreita de casca de 
cacto, que somente lhes cobre a mínima parte dos oi^;ams 
genitaes > . 

Em relação ás nossas mulheres bororós, já referi que 
usavam no cordão da cintura uma faixa de embira de trez 
a quatro dedos de largura, côr de cinza, a qual, durante a 
menstruação, era substituida por uma de cõr preta, e que 
também traziam, em logar do cordão da cintura, um pedaço 
de Cctsca endurecida, do qual resaia, indo de cima para baixo 
até prender-se atraz, a liga T, ambos seguros jxir um cordão 
de embira torcida. Mulheres mais moças pareciam preferir 
o espartilho ao cordão de cintura; o ventre ficava vigorosa- 
mente apertado naquella dura couraça de casca. 

A embira cinzenta tirava-se do pau-jangada, cuja madeira 
leve era usada para a construcção de jangadas, e que também 
é chamada embira branca, e cujo nome botânico é Apeiba cym- 
baiaria (da familia das Tiliaceas), O mencionado cinto preto 
era feito de casca do jequitibá {Lecythis), bonito ornamento 
da mata virgem, com copa gigantesca. De troncos de tamanho 
médio tiravam um pedaço grosso de casca, collocando-o na 
agua durante uma semana. Finda esta operação, era-Ihes 
fácil tirar da parte interior uma camada molle e fina, que 
fornecia os cintos hygienicos. Estes, depois, eram coloridos de 
preto por meio de tijuco podre. As outras camadas duras e 
mais grossas davam material para cintos de uma largura até 
o",28. Muitas vezes encontravam-se até crianças de três a 
quatro annos trazendo taes cintos, — o que era engraçado de 
ver. 

Conforme o que notámos, deve-se considerar o cinto de 
casca apenas como um substituto do cordão de cintura, cujo 
aperto, enquanto a moda não se tornou exaggerada, talvez 
lhes causasse prazer. 

Conforme, porém, a descripção de Langsdorff, apparece 
o cinto como o objecto principal, porquanto delle pendiam 
livremente filamentos e não havia liga que servisse para 

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BNTRB 03 BORdROS 437 

segura-lo. O próprio observador não acreditava no destino 
da cobertura. As mulheres bororós eram indifferentes a esse 
respeito, e, no tocante ao seu pejei, este lhes era não só em 
parte como totalmente desconhecido, ou, para melhor dizer, 
revelavam nisso um verdadeiro impudor, que, mesmo não 
levando em conta a licenciosidade dos Brasileiros, tinham em 
grande abundância. A' vista de tudo isso, não acho impossível 
que o largo cinto de casca ou de couro de anta houvesse 
originalmente de servir para outro fim. As mulheres vol- 
tavam do mato com cestas tao carregadas de cocos de pal- 
meira', que pareciam acabrunhadas sob o peso, não podendo 
quasi andar; nisso, a extremidade da cesta apoiava-se sobre 
aquelle cinto duro. e este assim lhes protegia a pelle, do 
mesmo modo que os annéis de embira protegiam os hombros 
dos Índios do Kulisehú no transporte das canoas. De facto, 
um pedaço de couro de anta havia, assim, de prestar excel- 
lente serviço. Com o andar dos tempos, disso nasceu aquella 
afamada couraça apertadora. 

O3 lóbulos das orelhas de ambos os sexos eram perfu- 
rados, mas isto se fazia nos rapazes quando na edade de oito 
para 10 annoá, isto é, quando começavam a exercitar-se para 
o mister de caçadores. O operador era o pae, e das raparigas, 
como veremos adeante, era, em sentido bem differente, o 
futuro esposo. 

O lábio inferior perfurado era distinctivo da tribu para 
os homens. Já referi que o nosso António, sendo reclamado 
por certa mulher como filho seu roubado, foi examinado a 
respeito daquelle signal. Conta Waehneldt, a propósito dos 
Bororós do Jaurú, que alguns tinham também uma espécie 
de € palito » atravessando o septo nasal ; no perfurado lábio 
inferior de muitos achavam-se pedaços de pau como enfeites. 
Os nossos Bororós na vida quotidiana não carregavam cousa 
alguma no furo do lábio inferior. Somente quando rapazitos, 
é que costumavam empregar pequenos toletes, para impedirem 
o fechamento do furo: assim, observavam-se lascas de osso, 
por exemplo, de jacaré, ás vezes um prego ou pr^uinhos de 
resina, providos de um botãosinho na extremidade interior. 
Os adultos exhibiam no trajo festivo pregos da mesma qua- 
lidade ou uma corrente labial. Consistia tal corrente em 



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438 itEviBT& DO ntanTUTO Htnoitioo 

meia 'dúzia 'dê fragmentos alongados de concha, ligaifos infé- 
ríormeate uns aos outros por meio de uma borla de íios do 
comprimento de o",i2. 

O orifício labial era feito no recemnascido pelo < homem- 
medico» (bári) , O instrumento, com que se practicava a 
operação, chama-se baragara: constava de Um osso pontea- 
gudo, tendo por extremidade uma vareta de pennas ; tinha um 
aspecto imponente e era usado no cabello em occasiões fes- 
tivas; a vareta, á qual o osso estava ligado com resina, era 
bem coberta de penninhas grudadas, ora vermelhas, ora côr 
de laranja, em meio das quaes também se viam, aqui e acolá, 
pennugens brancas e macias, e finalizava, na parte superior, 
por uma comprida penna azul de arara, de cuja base pendia 
um molho de pennas listradas de gavião, de papagaio e de 
arara, medindo todo o instrumento, de ponta a ponta, mais 
ou menos um metro. O bári dansava, cantando, com a bara- 
gara na mão', deante do recemnascido, avançando e recuando, 
até que, num dado momento, lhe perfurava o lábio. 

A tatuagem era desconhecida; signaes de cicatrizes acci- 
dentaes não eram raros. Um instrumento similhante ao ras- 
pador de feridas dos Índios do Kulisehú, — não o encontrámos 
aqui.; Riscava-se a pelle, não para fins medícínaes, porém sim 
para coça-la, como todo mundo, quando tem comichão, e até 
tinham, para poderem faze-lo nas costas, um objecto especial, 
um osso de o'°,2i de comprido, ornado com pennas de ema, 
o qual era muito usado, com grande proveito, pelos dansa- 
dores, quando suavam muito nas festas. As cicatrizes acima 
alludidas provinham das ceremontas pelos mortos. 

A pintura tinha pouca importância, mas o enfeite dí 
pennas representava notável papel. Não sem razão fala Wa- 
ehneldt das festas quotidianas dos Bororós. Esta observação 
também era completamente justa a respeito dos nossos Índios. 
Com effeito, cada caçada era iniciada com dansas e cantos.' 
Também a rapariga, levada á força para o ranchão, era 
pintada pelos seus amigos do modo mais meticuloso possível.; 
Finalmente, era um remédio diário o enfeitar-se com pennas., 
'A febre intermittente" era frequente na colónia; as creançaá 
a cada instante ficavam doête, isto é « doentes, » E deste' 
modo, era-nos absolutamente impossível perceber onde es- 



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EHTRB 08 BORteM 439 

tavam os limites entre a medicina e a arte do aijõmo. Os 
legares do corpo que doíam eram friccionados com resina 
de almíscar e, depois, cobertos de pennugens. Viamos cri- 
anças que tinham mangas completas de branca pennugem de 
pato. A resina de pintura era preta (27). Para grudarem a 
cara com pennas, appl içavam ao longo dos limites do cabello 
uma tira com grude, de um dedo de largura, e ligavam-se 
de vez em quando as extremidades ao lado das orelhas por 
uma tira travessa, que passava entre o nariz e o lábio, de 
modo que, quando a tira era larga e não grudada, similhava 
uma semi-mascara. O quadro de lacre, originalmente desti- 
nado ás pennas, também era usado sem ellas. 

O quadro 27 mostra-nos um Borôro festivamente en- 
feitado de pennas. Os braços estão totalmente involtos cm 
verdes pennugens de papagaio, como também a parte vizinha 
do peito; acima do umbigo acha-se imia pequena faixa de 
pennas, e nas costas, posso accrescentar, imia parte dos 
hombros e um espaço da largura da mão nas costas estão 
egualmente cobertos de pennugens. O quadro de lacre preto 
da cara já tem perdido muito da sua primitiva boniteza e 
plumagem, e de orelha a orelha exten<Te-se, similhante a um 
formidável bigode, aquella travessa grudada de pennas total- 
mente brancas. O cabello, pintado de urucú, é na frente bem 
coberto de penninhas vermelhas de arara, e ao lado vêm-se 
madeixas coloridas de vermelho; a parte superior da cabeça, 
rodeando a tonsura, uma coroasinha vermelha de pennas de 
arara, circundada irregularmente de um punhado de pen- 
ninhas negligentemente grudadas. Nas mulheres doentes repa- 
ravamos não raras vezes logares pequenos cobertos de pennas: 
Maria, certo dia em que se queixava de febre, appareceu mais 
carregada deste remédio, pois o tinha 
na cara e no peito. A esposa de um cai 
longa ausência, para recebe-lo, tinha-: 
e o cabello á moda das raparigas do r 
transformado a pelle do busto, da cint 
paletó de pennas, aberto na frente. 1 



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4^0 BET18TA DO IKSTITCTO HISTÓRICO 

também o crânio, antes do final enterro, é coberto de pennas, 
de modo similhante ao adómo dos bárts, ao passo que os 
outros ossos são apenas untados com o oleo de urucú. Não 
posso dizer si a esse enfeite ligam a muito vã esperança 
de um effeito medicinal. 

Não havia o pintar diário com fuligem oleosa e urucú', 
como no Xingu. Também os materiaes de pintura não eram 
applicados em nenhum dos seus utensis, a não ser nas ma- 
tracas; em logar delles, viam-se no S, Lourenço, por toda 
parte, as pennas, tanto no corpo como nos utensis. Também 
■não faltava a praga dos mosquitos e dos micuins; de outros 
bichos, víamos, e ouviamos dizer na colónia, somente innu- 
meros gríllos, que faziam barulho nos paióes de milho. O 
urucú, de que h^via pouco, era mixturado com azeite de 
peixe. Applicavam-n-o muito economicamente ; também a 
pintura a preto limitava-se ao quadro de lacre e a enn^recer 
a cara e o corpo, quando marchavam contra os Caiapós. 
Com o urucú é que enfeitavam para a noite a rapariga do 
ranchão. Punham-n-a sentada sobre uma coberta vermelha, 
tendo ao lado uma concha cheia de oleo de peixe e um 
pedaço de pasta de urucú, O cabelto era grosseiramente 
untado, e ao busto davam também uma camada de tinta ; mas 
a operação principal, que durava muito tempo, era a pintura 
da cara com uma palha ou uma estreita varinha de bambu. 
Deste modo, a risca transversal da testa não era feita de uma 
só vez, mas iam imprimindo alli, pouco a pouco, a varinha 
de bambu, molhada na tinta, até perfazerem aquella travessa 
frontal. Pintavam também a pálpebra superior até a borda 
dos cilios. Nas faces traçavam triângulos. Mais tarde, hei 
de referir-me á significação da travessa e dos triângulos (cf . 
o que eu disser a respeito da arte do desenho, depois da de- 
scripção das matracas, que será a única occasião que ainda 
tenho para falar de symbolos) . 

Trabalhos da arte de enfeitar com pennas, para me ex- 
pressar assim, em contraste com a simples cobertura de 
pennas, — viam-se de uni modo magnifico. Os principaes pro- 
ductos da arte venatoria estão reunidos no quadro I, com o 
cacique em gala. Uma formidável roda raiada, de plumas 
azues da cauda da arara, amarellas no avesso, levanta-se ín- 



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ENTBE 06 BORAROB 44' 

clinada para a frente e a testaita: é o pariko. As pennas de 
arara, de o"r45 de comprimento, são presas por um feixinho 
de palhas, que circunda a cabeça e é ligado por um cordão; 
o quarto inferior das compridas pennas é coberto de algumas 
filas de plumagens vermelhas e verdes de papagaio. Um 
pequeno diadema ficava depois inchnado para baixo. Na 
parte posterior da cabeça, tortamente inclinado para traz 
e mais arqueado do que o pariko, destaca-se um diadema, 
^fual a elle em tamanho, de pennas listradas de gavião, or- 
nato esse chamado kurugúgua. Das orelhas pendem sobre o 
peito pedaços variegados, que são feitos de penninhas do 
peito do tucano, muito bem dispostas em listras atravessadas 
(também são usados os grandes bicos de tucano) . Molhos 
de pennas das azas de arara e papagaio e outros pássaros 
de cõr brilhante pendem dos braços, do mesmo modo que se 
observam nos arcos e nos perfuradores labiaes. 

Ha, porém, ainda outros adornos de pennas. Merece 
menção principal a bonita nabuleâga {nabúre. arara) (28) : 
pennas de arara, ondulantes pennas de ema e brancas borlas 
de penugem, ligadas em torno de uma vareta, que intro- 
duzem no furo do lóbulo e têm o",s6 de comprimento. 
Do mesmo modo, punha-se no cabello uma armação de 
varinhas com a forma oval de uma cabeça de matraca, o 
marobóro ; o esqueleto delia era coberto de plumagem branca, 
tendo por cima, fixada, uma penna de cauda de arara. Final- 
mente, é preciso mencionar o chignon dos homens, enfeitado 
de pennas. O nó dos cabeltos era rodeado por uma coroa 
de pennas, ou com pennas salientes em forma de raios. 

Dentes eram também emproados, principalmente para 
adômo do peito: os mais preferidos eram os grandes do 
jaguar, geralmente dous pares reunidos, e pequenos dentes de 
macaco, que, enfiados e dispostos em filas atravessadas, 
formavam uma peça de o™, 30 de largura, cobrindo quasi 



m de < n«bú(e. que, com i 


jm t u * qua^i egual an < u > francez. 


irata vermelha (< Macroce 




nabuleaga», porím sLoi < 


rnabureíga» (< iga quer diíer « ca- 


..). Vou den Sleinen ei 


mpreita «n vários vocábulos borâros 


itrelanto, nXo uiile na «; 


mora língua de tae» lolvicolas, (Kata 



de O. de M.]. 



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443 REVI8T& DO INSTITUTO BIBTOMCO 

totalmente 6 peito.- Raras vezes acontecia quê também mu- 
lheres recebessem desses adornos, e isso mesmo parece ser 
devido á modificação dos costumei, effectuada pela coloni- 
zação; pois dos Bororós se relatava que somente os homens 
se enfeitavam.; Era characterístico que Clemente, que pensava 
de modo indio e falava portuguez, chamasse taes dentes en- 
fiados de rosários; os selvicolas ligavam a esse adorno a idéa 
de que elle os fazia fortes e ágeis. EUes tinham até arrancado 
dentes aos seus prísioneiíibs brasileiros, applicando^os no 
corpo, a>mo enfeite; de egual modo, andavam com queixadas 
dos inimigos. Julgavam também ser protegidos pelo cabello 
dos mortos, cabello que usavam trançando-o em fios e re- 
duzindo-o a cordões, — o que era dif f icil de realizar. Borlas 
de cabello com pennas pendiam dos braceletes. 

Garras, pequenas de roedores e grandes de tatu gigan- 
tesco, — eram ligadas de duas em duas, formando assim uma 
meia-lua ; do ponto central em que estavam ligadas e cobertas 
de resina, pendia um ma^ de fios; na resina embutíam-se 
pedãQos de concha, de forma annular. ^ual composiçãode 
garras de tatu gigantesco tivemos ensejo de conhecer no Kuli- 
sehú, não como adorno, porém sim como utensílio. Os Bororós 
imitavam o enfeite de garras, cortando da folha de latas dê 
conserva brasileira pedaços da mesma forma e tamanho. Este 
modo de uso é tanto mais interessante quanto os dous pedaços 
de lata não indicavam absolutamente que se originassem dê 
duas garras, e, com gáudio nosso, ouvimos de um Cuiabano 
a opinião de que este uso era prova de que os Bororós ado- 
ravam a lua. 

Era esta a maneira pela qual os Índios trabalhavam ém 
metal. Também os pregos labiaes eram cortados da folha de 
latas de conserva. 

Garras de jaguar eram reunidas numa espécie de coroa, 
— adorno muito similhante ao collar do cacique Auetó, feito 
do mesmo material. 

Havia correntes de pérolas de conchas, coco, pedacinhos 
(fe osso e sementes perfuradas; tinham, porém, menos im- 
portância do que as do Xingu. Estimavam-se mais as pé- 
rolas feitas do casco de tatu. Tornarei a falar disso, quando 
chegar a descrever a actividade do ranchão dos homens.] 



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ENTRB 08 BORORÓS 443 

Então, hei <Je tractar também idos cortlões de adorno, qué 
estamos acostumados a chamar suspensórios, usados pelos 
dous sexos. 

O ARÓE. — O centro da existência boróro é o baíto, p 
ranchão, e, ao lado da vida horrivelmente barulhenta quí 
aqui ha dia e noite, as cabanas domesticas quast não são mais 
do que a residência das mulheres e crianças. A reunião dos 
homens chama-se aróe, e isto principalmente em consideração 
á caçada commum. Sem exageração, póde-se dizer que, 
nas cantarolas estridentes saídas dia e noite do baíto, aróe 
nSo era a terceira, mas a segunda palavra; pois os cantos 
continham nomes de animaes e cousas que, uma vez profe- 
ridos, eram seguidos de aróe. Havia cantarola em todos os 
acontecimentos, que de qualquer modo excitassem sentimentos 
de tristeza ou de alegria, não só na véspera, si era possivel, 
como também depois de acabados. O cacique, de tarde, an- 
nuncia uma caçada para o dia seguinte: — a gente, em vez 
de procurar prudentemente conciliar o somno, até ch^ar a 
hora matinal da partida, reune-se no aróe para o canto da 
caçada, e os mais ardorosos cantarolam até ao romper da alva. 
A tribu dá a impressão de uma * sociedade masculina de 
canto >, composta de caçadores, cujos membros se compro" 
mettem a não casar, enquanto não tiverem mais ou menos 
40 annos, e moram em convívio no « Club » . Os sócios mais 
velhos, que têm familia, são os estimados dignitários e po- 
dem, por esse motivo, pouco demorar em casa; tomam parta 
nas excursões venatorias ou trabalham no c Club », onde 
mantêm a ordem, dirigem os cantos e, nos dias de muita 
occupaçSo, alli participam das refeições, mandadas pelaS 
mulheres. 

Clemente assegurava que os índios da colónia não vivíanl 
diffcrentemente das suas aldeias, e que nestas, pelo contrario, 
a caçada commum era muito mais importante, porque só por 
meio delia é que podiam obter o seu sustento. Assim, parece 
que a vida no Kulisehú differe essencialmente da da aldeia 
borõro. Alli, morava-se em bons ranchos de família; aqui, 
possuía cada casal com filhos uma pequena e miserável chou- 
pana; alli, os solteiros eram a excepção; aqui, a maioria; 
alli, os homens, que viviam em monogamia, tinham a suí 



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444 REVUrA DO INBTimTO mBTORICO 

casa de musica, onde não entrava mulher alguma, e que servia 
para as assembléas e dansas, e onde, porém, somente se tra- 
balhava quando era preciso fabricar adornos festivaes; aqui, 
eram levadas á força para o ranchão dos homens as rapa- 
rigas que caíam na posse de vários companheiros, e o tra- 
balho r^ular de armas e utensis era feito no ranchão dos 
homens. Entre os Bororós, a vida familiar era manifesta- 
mente uma conquista exclusiva dos mais velhos e dos maÍ3 
fortes. O sustento só podia ser obtido pelo exfòrço colle- 
ctivo da maioria dos homens, que eram obrigados a afastar-se 
por longo tempo na caça, — o que era impossível para o 
individuo isoladamente. Esse sustento era escasso, e os mais 
moços haviam de ficar contentes, quando podiam saciar a 
sua própria fome; tanto não podiam obter, para satisfazerem 
também a mulher e os filhos. Graças ao cultivo pacifico do 
campo, que entre as tribus do Kulissehu a mulher practicara 
ou aprendera, modificou-se completamente esse estado de 
coisas: a communhão dos homens, o aróe, perdeu a impor- 
tância e podia restringir-se á pesca e ás dansas festivaes. A 
entrada de viveres era agora tão abundante e regular, que 
cada qual recebia o suf ficiente pelo menos para uma pequena 
familia, — o indio cuidava de conservar a família, — e agora, 
que a actividade da mulher se tomara mais prestimosa, era, 
pelo contrario, mais vantajosa a reunião das mulheres para 
o trabalho commum : — vivia-se familiarmente em uma 
grande casa. 

Caça e cultivo do campo. — Na estação chuvosa, elles 
passam < dias e dias, sem nada para comer », — assim re- 
latava Clemente, Que, para se fortificarem, bebiam muita 
agua mixturada com barro, mas não comiam barro; planta- 
vam somente tabaco, algodão e cuias, e isto principalmente 
os Bororós que moravam á beira de riachos, nas cabeceiras 
do S. Lourenço, e que eram pescadores hábeis. Trocavam 
aquelles productos vegetaes por flechas, vindas das aldeias 
collocadas mais abaixo. 

Observa-se, portanto, que, neste caso, o cultivo não co- 
meçou pelas plantas alimentícias ! Os nossos Bororós, esta- 
belecidos em Teresa-Chrístína, não podiam mesmo aprender 
a plantar cousa alguma. Effectivamente, aqui não havia ca- 



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ENTRB OS BORÓROQ 445 

baças, nem cuias compridas para guardar pennas, e cuías 
pequenas eram raras, sendo appltcadas sobretudo á fabricação 
de matracas para o canto arôc ou para pequenos tubos de 
sòpro. Para a caça, não precisavam de vasilhas, ou se ar- 
ranjavam com fructeiras feitas de bambu; as pennas, guar* 
davam-n-as em grandes caixas de bambu, e, em casa, as 
mulheres fabricavam tijellas e potes. O bambú-gigante tam- 
bém não crescia nas proximidades da colónia, porém sim era 
buscado de mais longe ; vimos caixotes de 50 a 6o centimetros 
de comprimento e 9 centimetros de grossura, em cujo lado 
se applicava uma tampa. 

Já citei exemplos frisantes da crassa ignorância, que ti- 
nham os Bororós a respeito do cultivo do campo pelos Bra- 
sileiros. Os homens afastavam-se dias e semanas para a 
caçada; de vez em quando, algumas mulheres os accompa- 
nhavam. A sua vida, portanto, não era puramente nómade, 
pois possuíam uma espécie de domiciliação. Esta domici- 
líação era possibiHtada pelo assar da caça e pela pesca. 

Observámos um bando de caçadores que regressavam: 
traziam em jacas uma porção de carne muito bem assada, 
preta, sêcca, principalmente de porco do mato, de aves e de 
tartarugas. E notámos nella grandes pedaços de couro carbo- 
nizados, com pouca carne. Os Brasileiros apreciavam os Bo- 
rorós como excellentes achaciores de rasto: com o seu auxilio 
foram aprisionados soldados, que haviam desertado (29). 

Pegados com flechas ou anzóes, estes fabricados pelo 
modelo brasileiro, de ferro furtado ou do casco de tatii, eram 
os peixes, ou então apanhados em redes, formando-se um 
cerco e impellindo-os para lá. Em rios largos, faziam cercas 
por meio de galhos e grama, deixando alguns buracos em 
forma /íe funil como entrada, havendo do outro lado um 
tapume de varas de bambu. Em rios rasos, — cor 
mente, — os índios trabalhavam na agua durante '■ 
luz de tochas de palmeira. Não comprehendi a a; 
de que elles podiam permanecer longo tempo debaix( 



(19) Para impedirem o ddcobrímento de uma aldeia peloa 
tdos, os índígeoaa applicavam ■ utucia de faier a ultima i 
minlio o maii paisivd dentro do maio. (Nota do A.). 



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446 REVISTA DO INSTITUTO BtSTORICO 

Elles mascavam as folhas amainas da arvore €Diorúbo> 
(30), antes de mergulharem, cuspindo-as depois. Debaixo 
da agua, agarravam peixes. EUe conhecia um indio que fi- 
cava no fundo da ^;ua durante uma hora, voltando < ccmi 
um braço cheio de pintados ». 

O certo é que os Bororós gostavam de estar na agua. 
t)o alto da colónia viam-se, a um ou dous kilometros de 
distancia, apparecer no rio os caçadores que regressavam do 
mato : nadavam ou vadeavam o rio com agua até ao ptsccxp, 
em Ic^r de virem pela estrada ou de atravessarem de uma 
vez o rio a nado. Já de longe lhes ouvíamos o tagarellar e 
rir; vinham de dous em dous, com curtos intervallos, todos 
empinando os arcos, em cima dos quaes estavam amarrados 
os molhos de flechas, conduzindo-os acima da cabeça, á sí- 
milhança de cruzes alçadas, e carregando ao peito as presas. 
As mulheres voltavam do mesmo modo, carregadas com os 
pesados jacas, cheios de cocos e raízes ou grossos feixes de 
compridas folhas de palmeira, para servirem de telhado e 
paredes. Traziam ellas os jacas amarrados em travessas de 
quatro a quatro, dirigindo-os em cordões como pelota. Con- 
duziam ás costas os cestos, ligados com um laço de fibras, 
que lhes passava pela testa. 

Os Bororós não possuíam canoas.. Denominaram as dos 
, Brasileiros ica, a mesma palavra que usavam para a desi- 
|*^^o de ramos e galhos (não troncos, que diziam ipó (31), 
j^í^esmo modo como estavam acostumados a amarra-los 
■tfÇ^ conducção das cargas, em jangadas. 

!ães, que suppunhamos, conforme o exemplo dos nossos 

iSassados, fossem indispensáveis aos primitivos caçadores, 

am aos Bororós : quer no seu habitat original, quer 

, que elles podiam dispor de taes animaes em grande 

verilicar, não me i licito In. 

itTC Dl Bororós . < Djorúbo >, 
> t * ronedio > ; e < djotúbo- 

. . >«.. t ip j > o dciisnatlio 

preparsdi > cbunam 

para dciignor uma Iraiin* 
oa Inttatiiioa. 




0,1,1,1 bjGoogle 



ENTRE 03 BOROROS 

numero, não os utilizavam. Só mais tardt 
dizer algo a respeito da distribuição da caça 
Armas. — Arcos e flechas denotavam ( 
envolvimento da technica. Eram feitos cot 
nitidez e perfeição. Aqui se podia ver, do i 
possivel, que, si os aguilhoasse a necessidade 
estes selvicolas a invenções posteriores. O : 
arma de guerra, á excepção da maça. A resp 
da campanha, relata-se que eram raras as 1 
de ferro, osso ou pedra. A maça do S. 1 
comprimento de i i]3 de metro: era um 
menos chato de pau de palmeira, com 3 a , 
largura e terminando por um achatamento 
metros de largura. 

O arco commum, baíga (mostra-no-lo a 
tem de comprimento até i",9, sendo circui 
tensão de cf°,$ por um cordão de fibras de p 
de reserva que geralmente é a continuação 
arco. Os arcos, usados pelos caciques em c 
ou recebidos como presentes solennes, tèn 
feite de pennas (esse enfeite é mostrado pelí 
é totalmente envolvido em pennugens variegs 
vermelhas e amarellas, ou azues e amarellas, 
ás vezes de plimiagem branca, e a ponta su 
de um molho de pennas similhantes. Um 
também ás vezes enfeita o arco commum < 
caçador de um jaguar é, finalmente, disting 
da fig. 2; esse é exornado por uma dúzia 
melhas de folha de uaussú (AtuUea specta 
têm o dorso mais ou menos chato, ao pass 
ferior é convexa, ao contrario dos arcos dos 
. As hastes das flechas são feitas oú di 
baiúva ou da elegante e preta palmeira seri 
Quando feitas de seríba, cujas varas são da 
lápis fino, têm a ponta de taquara, em que se 
de cauda; são cuidadosamente aplainada 
conchas perfuradas de bulimus e alisadas ci 
peras da lixa. 



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446 REVISTA DO INSTITUTO mSTOMCO 

Todas as flechas têm de commum duas peiínas de aza, 
amarradas em espiral e cujas terminações estão ligadas, 
amarradas em espiral e cujas terminações estão ligadas, 
encurvada. Entre ellas ha muitas vezes alguns anneis feitcs 
de bonitas penninhas. 

As flechas têm o comprimento de i",5o a i'",75. O que 
geralmente serve para fazer as flechas de caça e pesca — 
são pedaços de madeira pontudos, entravados na canna de 
cambaiúva e encimados por um fragmento de osso afiado. 
A's vezes têm elles um osso que serve de farpa {vide a 
fig. 7), ou a madeira é talhada {vide a fig. 6). Os ossos 
são de macaco ou de anta. Para a caça de pássaros, ser- 
vem-se de flechas de ponta obtusa ; essa ponta é uma espécie 
de pião, com a face larga para cima e tendo no meio uma 
saliência em forma de botão. Em outras flechas observam-se 
pontas de pedaços afiados de bambu, previamente defumados 
por longo tempo, afim de seccarem bastante. A fig. 8 mostra 
a forma mais simples, destinada á caça de porcos do mato: 
— a ponta chata de barabú. com 30 a 40 centímetros de com- 
primento e 2 i|2 centímetros de largura, é amarrada na haste. 
A fig. 3 representa a linda flecha de seriba para a caça do 
jaguar: a flecha inteira tem o comprimento de i°,75, é en- 
feitada na ponta com i>ennas de o"'.24, e a ponta de bambu 
tem o" ,6o de comprimento e o" ,3 de largura ; a vara de se- 
riba está firmada nimi ôco da ponta chata de bambu, feito 
pelo formão de dente de capivara, e ligeiramente ligada com 
um pouco de fios e resina (vide fig, 4). A flecha de guerra 
(vide fig 10), também trabalhada de seriba, termina por 
um pedaço de bambu estreito (1 a 2 cms.) e redondo, mas 
aguçado em toda a extensão {o'",37). As pontas de bambtt 
quebram no corpo. 

A flecha farpada é provida de arpão para a caça de ja- 
carés e peixes grandes. O comprimento dessa flecha na fig-. 9 
importava em i",78, contando o'",3i para a fi^, e ligada 
com um cordão; a haste era um grosso ubá, ainda enleiado 
na extensão de o°,50. 

A tensão do arco resalta da photographia instantânea 
da est. 138 e quadro 28. O atirador está de cócoras, empu- 
nhando o arco horizontalmente. O caçador, quando de pé, 



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escolhidos punham-se de cócoras em rede 



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4S0 REVISTA DO INSTITUTO HI6T0IUC0 

nejando bem as conchas-colhéres . Quem comparasse essa 
stena patriarchal com a da repartição da carne á brasileinit 
havia de tomar-se de justa cholera por aquelle vergonhoso 
facto. 

O idiota do Diapocúri assava 3 carne de vacca, obtida 
naquelle « forrageamento de animaes>. Trouxera fc^o de 
uma das cabanas. O fogo já não precisava de ser feito pelo 
altrito, pois a administração fornecia phosphoros suecos.' 
O processo original dos Bororós era o mesmo que o do Kuli- 
sehú. A melhor madeira para esse fim era julgada a da 
canella brava {Pseudocaryophyllus sericeus) . Naturalmente 
não havia mais indios com machados de pedra e dentes cor- 
tantes de peixe; existiam em abundância machados e facas 
metallicos. Mas ainda havia a observar muita cousa dos 
velhos tempos. Assim, os Bororós, quando comiam, segu- 
ravam entre os dentes grandes pedaços de carne, cortando-os 
rente á: bocca com lascas de bambu; usavam como raspadeira 
um dente de capivara até o°',8 de comprimento, firmado numa 
vareta ; amolavam esse dente com um dente de paca {Coela- 
geiíys paca), pequeno roedor; aplainavam, alisavam e per- 
furavam de modo bem indígena. 

A sua plaina era um caramujo, rúo, de o",io de com- 
prido, perfurado por meio de um coco de ouaussú. Elles 
também alisavam madeira, por exemplo os sonidores, que 
serviam nos funeraes, esfr^ando-os durante um quarto de 
hora com uma pedra lisa e molhada, ou para isso usavam 
das folhas ásperas do pau-lixa ou de embaúba. Sentavam-se 
com os tornozelos cruzados, e cortavam e aplainavam os ob< 
jectos de quaesquer espécies, firmando-os nos pés. No tor- 
nozelo exterior, que ficava encostado ao chão, observei-lhes 
muitas vezes callosidades e também pedaços cartilaginosos 
móveis. Ossos de macaco para adornos de correntes, elles os 
cortavam sobre o pé, de modo que eu a cada instante temia 
jiela sorte de tal oi^am . 

Practicavam o perfuramento por meio de ura molinete. 
Firmavam um prego numa vareta de o",SO de comprimento, 
e esta era rodada entre as duas mãos, que ora subiam ora se 
abaixavam. Perfuravam desta maneira pedacinhos de casca 
para as suas correntes labiae^, que preparavam quebrando 



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EN1RB OS BORORÓS 45I 

uma concha e limando as bordas dos fragmentos sobre uma 
pedra. Assim também perfuravam os dentes, e prendiam os 
que eram pequenos, para não escaparem, dentro de um coco 
de uaussú. Original era também o preparo das pérolas do 
casco de tatu; apresenta-se este como um escudo concavo, 
composto de innumeros pequenos polygonos ; do lado de dentro 
de cada quadrangulosinho, ba um ponto fundo natural ; nesse 
ponto assenta-se o perfurador de molinete, e, só depois de 
ser assim perfurado o escudo inteiro, como uma peneira, é 
que era quebrado nas differentes partículas, que amolavam 
até dar-lhes a forma redonda, e enfiavam . 

Trançavam cabazes, que serviam de deposito de ossos 
para os funeraes; abanadores de fogtí, de forma quadrangular, 
que também serviam de pratos, ou se ligavam como bandei- 
rinhaa numa haste, afim de servirem para tocar mosquitos; 
e grandes esteiras de folhas de uaussú (2'',0 de comprimento 
por afigo de largura) . 

Parece que os fundos jacas eram trançados pelas mu- 
lheres .' 

Os homens fiavam. Era o boito uma reunião de fian- 
deiras ! Confesso que para mim foi uma scena singular, 
quando, pela primeira vez, vi um daquelles caçadores desem- 
baraçar no seu arco guedelhas de algodão, pela vibração da 
corda. Fiavam algodão e o cabello de seus mortos, mas de 
maneira differente da das mulheres do Kulisehú. O castão 
do fuso, de 4 a 4 ^ centimetros de diâmetro, era uma roda 
de barro ou de concha e estava assentada no quarto superior 
da vareta, que a atravessava. Enquanto a mão esquerda se- 
gurava a guedelha espichada ou alguns cabellos dobrados, 
fixando-os na ponta curta dã vareta, a mão direita rodava a 
maior parte da vareta abaixo do castão, em posição inclinada 
do fuso sobre a parte superior da coxa direita; os fios for- 
mavam-se, pois, por cima do castão, na parte mais curta da 
vareta, e o fio preparado enrolava-se na parte «Hnprída da 
vareta, debaixo do castão. 

Os fios de cabello eram trançados em cordão, que se 
punha em redor da cabeça, ou no ventre, ou para prot^er 
a munheca contra o attrito da corda do arco. O cordão de 
fibras de pahneira enrolava-se ao c<wnprido, com a mão, sobre 



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45- REVISTA DO tNBTlTUTO IlISTOItlCU 

a parte superior da coxa, Utiliza\aiii-sc muitas vezes do dedo 
grande para a formação dos fios. 

O «tecer propriamente dicto », isto é, o entrelaçar dos 
fios para formar rectângulos, era desconhecido. Os homens 
fabricavam, com fios de algodão, tiras estreitas, entrelaçadas 
com cerdas de porco-espinho, e que eram usadas á maneira 
de suspensórios ou como cordões de peito para ambos os 
sexos, e também como braceletes, graças a um entrelaçamento 
artístico do fio entre duas varetas delgadas. 

Quão elegante e nitidamente os homens trabalhavam, — 
notava-se principalmente no arranjo das flechas. Havia ahi 
muitas habilidades! nhãs, que parecia mais natural devessem 
ser confiadas ás delicadas mãos femininas. Por exemplo, o 
adônio feito de miudinhas e variegadas pennugens, que eram 
postas uma a uma no chão e meticulosamente arranjadas. 
E mesmo em uma roda de fiandeiras não se ixHlia mais taga- 
rellar e rir do que ahi no baitoi ! Certamente, era pouco femi- 
nino, quando, de repente, para variar, levantavam-se dous dos 
trabalhadores, offerecendo o espectáculo de uma regular lucta 
corporal, que os outros accumpanhavam com o maior inte- 
resse. ErgMÍam-se, luctavam, derrubavam-se, e continuavam 
depois o seu trabalho, ou deitavam-se para o dolce far niente. 
Pois nunca faltavam preguiçosos e. indolentes ; muitas vezes 
cncontravam-se também pares enamorados, — posto que as 
mulheres não apparecessem alli, — que se devertiam debaixo 
de um coramum cobertor vermelho. Ninguém se iiicom- 
modava com isso, excepto alguns amigos atormentados pelo 
ciúme e que haviam de contentar-se com o poderem sentar-sg 
ao lado do casal e palestrar comeste. 

De vez em quando, Dtapocúri fazia uma das suas farças. 
No idiota, que mal sabia balbuciar, os seus companheiros de 
tribu não estavam longe de ver um ente superior. EHe gos- 
tava principalmente de imitar a briga das mulheres, fazendo 
os gestos mais furiosos e arremedando o reciproco arranhar 
e arrancar dos cabellos. Extremamente excitado ficava elte, 
quando algum soldado, tomando um pau aos hombros e man- 
quejando com passos exagerados, bolia com elte, figurando- 
Ihe a saida em perseguição dos Catapós : — o pobre diabo 
espumava de raiva, atirava os seus tições accesos contra o 



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ENTRE OS eORdROS 453 

niotejador e. quando não tinlia mais outro recurso, apanhava 
do chão alguns cavacos, assiçnalando com elles o logar do 
bigode, fazendo caretas, arreganhando os dentes e regougando 
articulações sem nexo. Após algum tem|x> socegava, e exer- 
citava-se cm sacudir duas matracas, grunhindo compa; 
mente o canto aróe. 

Passámos assim, no ranchão, horas divertidas e ii 
clivas. Mas uma cousa era intolerável, — o continuo pedi 
de tabaco. Meu cachimbo andava de bocca em bocca. A 
dictava-me paginas inteiras de boróro, aproveitando pa 
phrases cada incidente que occorria, e m'as faziam n 
rindo-se depois tão contentes como os Bakaeris, Quanto 
ficámos familiarizados com elles, tanto mais notámos 
eguaidade de temperamento e de cliaracter com os indi 
Kulisehú, Executámos também me<li(;òes anthropologii 
elles, depois, também tomaram a minha altura num m 
do ranchão. Mastigaram um iiedaço de carvão, amassarai 
com saliva e fizeram no mourão, em cima da minha ci 
uma linha preta circular. 

Aumentos : < benzimentos ». — Conforme Ciei 
nos narrou, apesar <ie todo o modo de caça, os alimente 
getaes, preparados [lelas mulheres, é que tinham a i 
importância, porque entravam mais regular e abun<lanteni 
As mulheres desenterram raizes por meio de um pau por 
trepam com grande agilidade nas palmeiras, preferir 
uaussú e a akuri, colhem os cocos, cortam na copa o pal- 
mito, procuram fructos. como o jatobá, o piqui, etc. Os côcoii 
são torrados ou socados no chão, e, de|)ois, misturados com 
agua. para obter-se uma l)ebida grossa. — o refresco, que 
corresponde ao mingau ou caldo grosso do Kulisehú, que 
era offerecido ao hospede. O angíi, que aprendemos a 
conhecer no ranchão, faltava nas aldeias, por não haver 
milho. As mulheres preparam os alimentos v^etaes. Fa- 
bricam também os potes, que, aliás, existiam em diminuta 
quantidade . Havia apenas duas qualidades : uma tigella 
aberta, ruôho, na qual se cozinhava, e uma outra, poli (32), 



<3i) Alili, cpóri>. OmtonnE ji disatmos atraz, s 
Mue o «om mnespandcnte ao nosio c I ». (Noia de B. de M.), 



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4S4 RBTISTA DO INSTtTDTO BISTOKICO 

com gargalo curto e assento estreito, quasi da forma de 
um almofariz, e que também servia de vaso para guardar 
agua. Eram de feição grosseira, mal queimados e não en- 
yemizados. O pilão, toscamente talhado, de mais ou menos 
D'",45 de altura, mas facilmente transportável, tinha mais ou 
menos a forma de um ovo a que se truncasse um polo, e, 
para ser utilizado, era preciso firmar-se no chão. Além dos 
cocos, também socavam nelle carne e ossos (33) . 

Quando as mulheres voltavam a Teresa-Christina, davam 
aos homens « carne de coco » e recebiam delles os restos da 
[«carne de gado». Sal e toucinho eram desprezados, ao passo 
que a carne de porco do mato era o seu prato predilecto. 
Rejeitavam a carne do porco domestico, visto. ser o animal 
creado por seu possuidor. Quando era servido aos officiaes 
um leitão, os Índios saíam do refeitório. Idêntica aversão, 
entretanto, não tinham elles para com os bichos que tiravam 
dos pés (observámos uma india que practicava essa pequena 
operação com um garfo tirado da mesa posta). Diziam que 
«os comiam, porque elles também comiam o seu sangue», 
.Toda caça era assada em couro, e só se coziam as tripas; 
'dobradinhas de bucho constituiam a especialidade culinária 
de Diapocúri, Comiam tudo «o que havia na mata e no río». 
Muito apreciados eram os jacarés, caçados com a flecha de 
arpão. Não matavam nem comiam veados campeiros. 

Não se comem, nem se matam araras mansas. Elles 
apanhavam novas as aves de pennas brilhantes, creavam-n-as 
e arrancavam-lhes depois as pennas. Dizia Clemente que 
também entendiam de pintar de amarello as araras, esfr^ndo 
com o sucGo de certa arvore os logares depennados. Este 
costume, conhecido por muHos índios, provavelmente foi 
achado pelo tractamento medicinal dos animaes, á força pri- 
vados das suas pennas. Mais tarde voltarei a tractar do como 
amavelmente poupavam o veado e a arara. 

A etiqueta não impedia de modo algum que os Bororós 
comessem junctos, como os Bakaeris e Carajás; mas, em 
logar dissci, tinham outros usos singulares, que mqstram cla- 



fònna a que se encontra o 



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ENTRE OS BORÕBOG 4SS 

ramente que as tribus, cuja caçada era escassa, haviam de 
recorrer, de outro modo, a meios de evitar questões e brigas 
na repartição das presas. Para conseguirem isso, tinham, em 
primeiro \ogar, uma norma extraordinária : — ninguém as- 
sava a caça que havia apanhado, mas entr^gava-a a outrem 
para aquclle fim ! A mesma sábia precaução é posta em prá- 
ctica a respeito das pelles preciosas e dentes. Caçado um 
jaguar, segue-se uma grande festa; a carne é comida. Mas, 
não é o seu caçador quem recebe nem a pelle nem os dentes, 
e, sim, — o que hei de descrever depois, — o parente mais 
próximo do indio ou india que morreu ultimamente. O caçador 
é honrado com o recebimento de presentes, por parte de todos, 
de pennas de araras, assim como do arco ornado de laços de 
naussn. Porém a medida mais importante para evitar dis- 
córdias acha-se ligada á funcção do < homem-medico », de 
quem vou tractar agora. 

Os Bororós distinguem o bárt e o aroê-taurári . As func- 
ç5es de ambos não se excluem. Ambos são curandeiros, mas 
o aroê'taurári, em primeiro logar, é entoador e guiador de 
dansa durante o canto e dansa arâe, ao passo que o bári é, 
ahtes de tudo, o medico assistente. Os Brasileiros chamavam 
áquelle 5 padre t, a este t doutor » . Limitemo-nos á expressão 
bári ou € homem-medico > . O seu aprendizado parece ser 
menos complicado do que o é geralmente; o que aqui vale 
mais é a vocação natural. No tempo de sècca, — o nome não 
se entende propriamente com a sede, — bebem muito vinho 
da palmeira akuri : furam-lhe o tronco e apanham o sueco 
em uma vasilha ou almofariz, tomando-o cm copos tíe bambu. 
O vinho é acidulado, mas abundante. Ambos os sexos embe- 
bedam-se a valer. Quem mais aguenta isso, chega a ser 
c homem-medico >. Quando deste se diz que é comprehendido 
pelos pássaros do mato, que pôde conversar com as arvores 
e os animaes de toda espécie em sua lingua delles, espero 
que não se refira isso a um medico illuminado pelo vinho de 
palmeira, mas sim que se pense no estudo alcançado na so- 
lidão e no do canto de aróe, no qual são invocados os animaes. 
O bári tracta dos seus doentes pelo modo já conhecido: — 
geme, torce-se, fuma, e chupa a causa da doença, — aqui 
tal causa é geralmente um osso, — do corpo do paciente. 

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45*^ REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Nesse acto são observadas duas cousas: em primeiro logar, 
apenas mostra o osso, que não lhe sai da mão; e, depois, o 
< homem-medico > só cura de noite. 

Cousa simtlhante relata Waehneldt a respeito dos Bororós 
do Jaurú. Alli, curava-se no meio de uma grande fumaceira, 
murmurando palavras incomprehensiveis e, «cousa capital», 
fazendo movimentos convulsivos ; < eu assisti á cura, feita 
por um tal paxlre, a qual consistia no seguinte: chupava em 
diversas partes do corpo, fumando por intervallos no seu 
cachimbo e mastigando o boccal do canudo. Depois de cada 
chupadella, cuspia os pedaços mastigados do cachimbo, fa- 
zendo crer ao doente que aquillo era a causa do seu soffri- 
mento » . Mais ainda, — e assim tornamos a chegar á presa 
da caça, — uma capi\'ara, antes de se poder toca-la ou come-la. 
havia de ser benzida no sanctuarium de um por um dos quatro 
a seis padres. Os baris cortavam os melhores pedaços, dei- 
xando o resto para os outros. 

No S. Lourenço, do mesmo modo, os curandeiros viviam 
ainda na edade de ouro. Seria injusto pensar aqui em abuso 
ridículo da primitiva híerarchia, pois o bári não era « padre» 
c sim € doutor ». ainda com a diff crença de que não sabia 
mais do que um € padre i^. O benzimento era cffectuado exa- 
ctamente do mesmo modo por que se procura resuscitar um 
morto. A lógica é muito simples: em primeiro logar, os ani- 
macs a benzer são exactamente os mesmos em que penetram 
os baris mortos, c. deiiois, os baris transformam-se post-mor- 
tem nos animaes. que são reputados como a melhor caça. 
Aqui é preciso persuadir-se de que o animal apanhado não 
pôde mais ser resuscltado, e nesta tentativa é que consiste o 
benzimento. Tinham pescado um grande jahú, que foi con- 
duzido para o ranchão dos homens, — um exemplar de quasí 
i^.SO de comprimen',o e que não podia ser assado de uma 
só vez. Um bári, que estava de cócoras perto delle, começou 
a tremer muito, fechou os olhos, tremeu horrivelmente com 
a mão direita que tajiava a bocca, depois principiou a soprar 
c a gritar vái, vái, lançando bruscamente a cabeça para trás, 
c, tocando o peixe em todas as partes, molhou-o com saliva, 
em seguida abriu a bocca do animal, gritou e cuspiu para 
dentro delia, f cchou-a outra vez, — e prompto ! Esse acto, 

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ESTRE 08 BORORÓS 457 

que foi executado profissionalmente ligeiro, durou, conforme 
o meu relógio, somente trez minutos. Depois, pegou numa 
faca e cortou o peixe em pedaços, tomando para si o melhor, 
que cu também teria escolhido. 

Os animaes, que incondicionalmente haviam de ser ben- 
zidos, eram os grandes peixes jahú, pintado e dourado, assim 
como a capivara, a anta e o jacaré. E' principalmente a cabega 
da anta que precisa da ceremonia. Ninguém, excepto o bári, 
pódc comer a tromba da anta. que contém a carne mais tenra, 
e o lombo do pescoço; também dos outros animaes a parte 
melhor pertence « ao bári e aos seus amigos », que a repartem 
entre si, depois de assada. O systema tem sido também ex- 
tendido a algumas fructas. como o piqui e a mangaba, e 
até ao milho, — outra vez os mais saborosos. Quanto aos 
cocos da akurí, não era necessário esse processo; e, com 
relação ao milho, só era elle applicado desde que os Brasi- 
leiros forneciam regularmente aquelle grão á colónia. Até um 
bári devia estar presente, quando os animaes eram caçados ! 
Quando tim peixe, dos sujeitos á tal inspecção official da 
carne, cai na rede, sem que esteja presente um bári, tem de 
Rcr jwsto em liberdade, e Clemente dizia que, de facto, isto 
.SC dava, mas só excepcionalmente, porque havia sempre vários 
baris e estes sempre estariam presentes. Quem infringir tacs 
usos, morre l<^o. \'ède mais adeante «a transmigração das 
almas > . 

Dansa r. ovTHAS DiVKRSõRs. — Conforme o precedente- 
mente narrado, o canto aróc. com que se abre cada acto de 
caça c pesca communs, perde todo o maravilhoso. O bári. 
que no fim re|>arte solennemente a presa, é também quem 
cuida do solenne preparo da empresa. A ídéa das relações 
entre animal e homem é a base (faquella apreciação; sem taes 
ceremonias, pareceria uma invenção de impostores ; com ellas, 
justifica-se a sua origem; mas isto aqui não nos import:i. 
O canto de caça é o mesmo que se entoa nos funeraes ! Im- 
pressiona seriamente ; de noite, porém, a impressão é medonha. 
Nos funeraes, homens e mulheres cantam junctos, mas as 
mulheres ficam de um lado ou ^lo fundo e muitas vezes fazem 
pausa, ao passo que os homens nunca a fazem. No preparo 
vespertino para a caçada, muitas vezes se ouviam as baixas 

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4S8 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

e resoantes vozes do coro dos homens. Ao cadete Caldas 
c que eu devo os respectivos dados. Elle distingia um pri- 
meiro canto só para homens, e um segundo canto para 
homens e mulheres. O texto, por elle fornecido a respeito" 
do primeiro, tornou-se infelizmente imprestável. Tracta da 
gaivota, schibaiú, que também apparece no segundo, e não 
é uma simples enumeração de nomes, apesar das múltiplas 
repetições . Esses nomes, seguidos de aróe, constituem o texto 
do segundo canto, formando tamhem uma longa repetição: 
esse é o texto geralmente cantado, não menos pobre em va- 
riação do que a sua musica, a qual, apesar de não ser eu 
versado nessa arte, me parece a mais monótona possível. Os 
seguintes « versos >, traduzidos por Clemente, estão na devi<Ja 
ordem : — bacororó aróe, okóge aróe, schibaiú aróe, kuru- 
gtige aróe, boloróe aróe, imaiaré aróe, diureiólo aróe, kata- 
tóto aróe, manotólo aróe, palavras essas que (menos aróe) 
querem dizer: — agua (uma determinada? geralmente póbe), 
dourado (peixe), gaivota, gavião, uma outra ave de rapina 
que come peixe, < seu peito », sucuri, pilão, herva do pantanal. 
A scena, portanto, passa-se á beira da agua; mais não posso 
adeantar. Si o morto, juncto ao cesto onde está depositada 
a sua ossada, experimenta qualquer cousa; si desejam que 
os animaes, que também concorrem para a pesca, estejam 
no pilão, — o que era mais para acreditar, — isso não cheguei 
a saber. Alternando com esse canto, também faziam ouvir 
— «jaguar», «capivara», « paríko » (diadema de pennas). 
seguidos de ehê; isto, porém, não applicavam aos funeracs, 
e, sim, somente em relação á caçada. 

Rohde fala de uma dansa fararú, para a qual se enfei- 
tavam com coroas de pennas, guisos e outros adornos. Um 
guiatlor de dansa, tendo em cada mão a matraca e nos pés 
guisos feitos do casco de veado, acha-se no meio de uma 
roda, formada pelos homens, a qual é circundada por uma 
roda maior, constituída pelas mulheres. Dansam com com- 
passo, saltam e matraqueiam longo tempo, até que, finalmente, 
o guiador da dansa berra hou ! e dá um feroz salto ultimo, 
que é imitado por toda a coiqpanhia. Waehneldt viu dansas 
imitativas de animaes e diz que acha sobremodo extravagante 
a dansa dos mycetes (macacos roncadores), a qual ccxistste 

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PRIMEIRO 



'h<-n.ii}i \ ^ 






SEGUNDO CAN' 

Jiomens 



ba-ko-ro-ró a-ró - e 



'yT^M^A^ 



a - ro 
Jâulheres 



^ ka _ Ifn - rn _ r>n 



ba - ko - ro - PQ 



*-^ Bchi-bs - yu B - ró - e 



D,gt,ZBdbyCOO<^le 



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ENTRE OS BORdBOa 459 

èm arremedar-lhes todas as vozes e movimentos. Na « d^nsa 
da pelle do jaguar» tomam parte homens e mulheres; estas 
nunca chegam a ver a pelle do jaguar, carregada ás costas 
por um homem, que finge mostra-la com os movimentos que 
faz a cada passo; o medo das mulheres é o dou da diversão. 
€ A dansa', que consistia na imitação dos costumes dos ante- 
passados (?), era algo rude e accompanhada de cantos numa 
lingua que é differente da de hoje. A dansa mais melan- 
cholica e triste era dedicada á recordação dos mortos: estes 
eram representados como presentes nella, conversando com os 
vivos e fazendo-lhes carinhos de toda espécie». 

A dansa, que servia para encoraja-los ao combate contra 
os inimigos Caiapós, e na qual tivemos de tomar parte, já 
a descrivi. Pormenores sobre a dansa e o canto dos funeraes, 
eu os direi no relatório especial sobre as exéquias da esposa 
de Coqueiro, e ahi descreverei também a dansa da véspera, 
quando foram incinerados os trastes da morta. 

No dia 8 de Abril presenciámos uma dansa cómica, cha- 
mada párc; quatro rapazes, adornados com o pariko, appa- 
receram atraz do ranchão, guiados por Domingos, que em 
cada mão agitava uma matraca. 

Elles deram compassadamente pequenos saltos com os 
dous pés junctos e assim dansaram em roda, dirigindo a frente 
alternativamente ora para dentro ora para fora. Depois 
chegaram três mocinhas, cada uma das quaes dansava atraz 
de um moço, pegando-o pelas ancas. Os espectadores es- 
tavam muito contentes, mas sua alegria redobrou, quando 
uma quarta personagem, com cinto de casca e liga de embira, 
corajosamente saltou no meio da roda, e, apesar de trazer 
a cabeça coberta com um [lanno, facilmente foi reconhecida 
como sendo um homem. Estava enfeitado com collarcs de 
pérolas e tinha na mão uma esteirinha, com que, a compasso, 
abanava o chão, O divertimento durou mais ou menos um 
quarto de hora. As mulheres saíram da roda, a fingida em 
primeiro logar, os homens dansaram ainda uma vez a com- 
passo apressado e depois lá se foram tomar banho. 

Havia pacificas luctas corporaes, consoante com as re- 
gras que vou referir. Quem pretendia desafiar a alguém, 
pegava-lhe na munheca direita. Os dous enfrentam-sc, e 



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46o REVISTA DO INSTITUTO BISTORICO 

cada qual põe as mãos debaixo dos hombros ou em redor 
das virilhas do outro; nesse abraço ficam os dous com os 
cor|ws inclinados verticalmente e com os \>és bem abertos, de 
modo que um aviste as costas do outro. Rindo-se, perma- 
necem assim durante algum tempo; de repente, porém, ficam 
muito sérios: o plano é um dar uma rasteira no outro, afim 
de derriba-lo. Um delles começa o ataque, procurando pÔr 
o calcanhar na curva poplitea do outro, afim de dobra-la; 
mas o outro i>õe a perna tão bem esticada para trns, que 
aquelle não chega a applicar a força. Essas tentativas são 
rapidamente feitas de ambos os lados, até que iim dos lucta- 
dores caia. Sempre se realiza a desforra. Em tal diverti- 
mento mostrou-se habilissimo no ranchão um rapaz pequeno, 
dextro, mais feio e caolho, que nós denominamos clown, bem 
que o seu nome de baptismo cuiabano fosse Camões, o qual 
derribou seguidamente a trez ou quatro dos .seus mais altos 
companheiros de tribu. Os adversários, que eram mais cor- 
pulentos e robustos, costuinavam levanta-lo orgulhosamente, 
mas no mesmo instante sentiam o seu calcanhar na cu^^■a do 
joelho e caiam redondamente no cbão, 

Muitas vezes, no pateo livre, exercitavam-se no atirar 
com arco. 

\'ell)os e moços gostavam muito da gangorra (burika), 
invenção dos soldados. Era um pau horizontal com cordas 
nas extremidades o qual gira no meio sobre um mourão. O 
pau fa-ln girar rapidamente alguém, que por momentos fica 
])erlo do mourão, até que os individuos montados nas extre- 
midades voem para os lados. 

Na estampa vêem-se dous objectos de brinquedos de 
creanças: — /•n/^í (34). peteca feita de palha de milho, tendo 
na ponta uma |)enna de arara, e tagóra. um chicote munido de 
uma peuna preta de urubu na [mnta da tala; manejavam o 
chicote de modo que. com um prazer [»uco commovente, a 
penna por um momenlo ficava jxista jierpendicularmente no 
sóin. quando o calx), por um rude movimento da munheca, 



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ENTRE 06 BDRÕROS 46I 

se dirigia para baixo. Um dia vi dous rapazes que faziam 
esvoaçar uma abelha e uma borboleta, presas a um fio. 

Instrumentos de musica; sonidores. — No uso ordi- 
nário, somente se applicavam grandes matracas de cabaça, 
de o",2o de comprimento, e uma pequena cuia para soprar, 
chamada poári. O poári servia de corneta para a caçada; era 
uma abóbora da forma e do tamanho de uma grande maçã, 
tendo na parte inferior uma alwrtura redonda e em cima u'n 
canudinho delgado, da extensão de um dedo, e ao lado do qual 
existia uma lingueta. Os poáris, munidos de madeixas de 
cabellos de mortos, difficilmente se poderiam adquirir dos 
Bororós. A única flauta ou trombeta, que nós vimos, tinha 
i^.zi de comprimento e era tocada na festa dos mortos, bem 
como quando voltavam para casa os cestos de ossada. Um 
tambor, que era usado no ranchào para a mesma ceremonia, 
não nos fez a impressão de ser original : consistia num pedaço 
de couro de boi esticado sobre pilões de madeira; como ba- 
quetas, serviam umas varinhas de seribas. 

Maior interesse offerecem os sonidores (35), não só pelo 
mysterio que se lhes ligou, como também por causa da pin- 
tura, pois são o único instrumento pintado. Como usavam 
os sonidores, já o relatei. Mas, ao passo que no Kulisehit 
elles serviam somente para as alares dansas masquées ou 
ainda como brinquedo, no S. Lourenço eram usados apenas 
nas ceremonias fúnebres, primeiro quando se queimavam os 
trastes dos mortos, occasião em que queriam dizer aos mortos, 
suppostos presentes, por uma dansa pantomímica, que nada 
ficara do que lhes pertencera em vida, e que elles, os ex- 
tinctos, portanto, nada mais tinham, para o futuro, que 
vir procurar no aldeiamento; e, depois, quando mais tarde 
o cesto da ossada era conduzido para fora, deixando assim 
o morto o aldeiamento. O conceito fundamenlal de todas 
essas solennidades consiste uo medo de que o morto pcfssa 
voltar para buscar os vivos. Das ceremonias celebradas i>ara 
impossibililar-lhes isso, exclue-se cuidadosamente o sexo 



(is) «Sonidori loi o único Icrmo <tnr o piol. Vaim i>ucle achar cm nos» 
Imviu para Induzir o illemio * Schwirrliolz. O vocábulo vulgar, porvm, 
■PPlicBdo dííde muito pelos nosioi pairicioi ao «aídje» tloa Borõroi, i 



«berra-boi* (Nota de B. 



byCoogIe 



46) REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

fraco. Durante ellas, as mulheres fogeni para o mato ou 
esçondetn-se nas cabanas. O signal é dado pelo sonidor, cujo 
mJda raturalmente tem um character apavorante. Si ellas 
estivessem presentes, correriam o risco de morrer. Até ahi, 
tudo parece lógico e natural. Mas, nessas usanças accrescen- 
taram a crendice de que havia perigo para as mulheres no 
avistarem o sonidor. Diziam mesmo que ellas morreriam, 
si o avistassem. 

E' esse um augmento certamente exaggerado, porém 
sem nenhuma incompreliensibilidade . Por parte das nossas 
mulheres lia idênticas exag^erações, quanto ao medo de 
armas de fogo. Uma senhora, minha conhecida, tapava os 
ouvidos, quando eu lhe mostrava um revólver sem balas, e 
pedia-me, tão excitada que não queria ouvir-me nem vêr 
cousa alguma, instantemente que eu o guardasse, pois dizia 
ella, — eu cito bem historicamente, — que < acontecia muitas 
vezes que esses bichos disparavam frequentemente, mesmo 
sem que estivessem carregados » . Quando o sonidor troa 
entre os Bororós, nas dietas occasiões, então isso corresponde 
ao revólver carregado ; é um perigo para homens e mulheres, 
mas o cuidado por parte das ultimas é maior, porquanto os 
Índios acreditam ser peculiar das mulheres o chorar e tremer, 
sempre que as ameaçam animaes, inimigos, até somente que- 
das de agua, e que ellas precisam sempre de protecção. SI 
a mulher corre perigo avistando um sonidor, então isso em 
parte é ainda egual ao medo do revólver não carregado, e 
cm parte já uma fórmula inane, adquirida pela práctica das 
gerações, e, sem critério, anxiosamente applicada . Do mesmo 
modo, Wallace observou, na região do Amazonas, que as 
mulheres fogem, quando resoam as flautas da dansa dos 
demónios juruparis, e ouviu dizer que ellas morreriam, si 
as avistassem ; também elle só pôde obter algumas dessas 
flautas mediante condições especiaes. 

Com effeito, quando se lê que os Australianos contaram 
a um viajante, com as mesmas palavras com que me foram 
referidos estes factos a respeito dos Bororós, que «as mu- 
lheres morreriam, si avistassem o sonidor», sendo que o al- 
ludido sonidor, nas mais diversas tribus do velho mundo, 
representava um papel em ritos, de que eram excluídas as 



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ENTRB 08 BORORÓS 463 

mulheres, acha-se isto, á primeira vista, singular. Realmente 
é difficil comprehender que fosse essa a razão de pensar 
entre os elementos mais heterc^eneos, cuja connexão me- 
diata ou immediata carece totalmente de prova; pois não se 
deve considerar como uma grande conquista do espirito hu- 
mano a invenção de uma tábua gyrada no ar por meio de 
cordas, e de que só uma vez apparecesse isso no curso da 
historia ; e não se deveria também achar tão singular o medo 
de doença e morte, as tentativas de explicações desses phenc^- 
menos, as idéas da existência de além-tumulo, a interpretação 
dos sonhos, etc, etc, e que um povo só de outro podia receber 
a sua medicina. Nesse caminho, como para uma longa série 
de invenções e costumes pôde o mesmo ser provado, chega-se 
a um paraíso ethnographico da Humanidade, — caminho esse 
que para o sonidor certamente não existe mais, desde o 
brilhante artigo « The bullroarer » no Cusiom and Myth de 
Andrew Lang (Londres, 1885). 

€ As mais diversas tribus, diz Lang, têm os seus mys- 
terios, necessitam de um signal para chamar as pessoas que 
neltes podem tomar parte e para avisar as que o não podem ; 
occultando o instrumento ás mulheres, etles têm a dupla cer- 
te2a de que o sexo curioso se espanta e afasta». Entre os 
Bororós, o caso é algo differente; tem-se cuidado das mu- 
lheres. Pôde ser que em outras tribus se tracte de ameaçar 
as mulheres com a pena de morte, — e, assim, cada caso deve 
ser investigado particularmente, pois a singular concordância 
será talvez- apenas exterior, — como a índia do Kuliaehú se 
exporia a um perigo de corpo e alma, si entrasse na casa 
em que os homens tocam flauta. A expressão — «as mu- 
lheres morreriam > pôde ter duas interpretações differentes. 

Era-nos absolutamente impossível obter sonidores dos 
Bororós. O medo do abuso, em razão do procedimento dos 
Brasileiros, era bem fundado. Pediam instantemente a Gui- 
lherme que não mostrasse ás mulheres sonidores por elle 
pintados. Quando nós lhes fizemos offertas de compra, os 
aidies foram escondidos. Parece que até os homens tinham 
um certo medo, quando nós falávamos desses objectos, como 
de arcos e flechas e quaesquer outros objectos de collecção; 
um virou timidamente a cara, quando eu lhe toquei no thema 



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4^4 REVISTA DO INSTITUTO 

aidic, c inani ícstou-mc cliiranientc que gostaria iiiais de não 
ouvir tractar de similhante assumpto : a cousa estava bem 
ligada com o medo da morte. Somente lográmos a satisfac<;ào 
dos nossos desejos por meio de trez rapazes mais velhos, que 
estavam no verdadeiro tenijx) da molecagem, e que tanto as- 
piravam às nossas pequenas contas vermelhas quanto nós 
aos seus sonidores. Elles os entalharam e pintaram no mato. 
O primeiro appareceu mysteriosamente em nosso quarto pela 
calada da noite, exigindo que trancássemos porta e janellas. 
Depois, veio o segundo, batendo á porta. e. finalmente, assim, 
o terceiro. Cada um trazia um sonidor debaixo de um i>aniio; 
segredaram-nos que devíamos occulta-los cuidadosamente, 
pois mulheres e creanças morreriam, si os avistassem, e in- 
sistiram também porque os homens, — o moleque Tobakiu 
tinha muito medo de seu pac Moguiocúri, — também não 
soubessem nada daquillo, para não ficarem < brabos > e não 
daren] desapiedadamente nelles. Nós tomámos esse pedida 
em muita consideração, e, á vista delles, puzemos os trez pe- 
rigosos paus no iK)iito mais fundo da nossa mala. 

A forma dos sonidores é comprido-oval, o tamanho é 
de o"',40 a o" ,42, na extremidade da corda acha-se um talhe 
e, um pouco distante deste, na linha média da tábua, um ori- 
ficio, i)ara ficar segura a corda entre esse orifício e o talhe. 

Arte DF. DESENHO. — Aqui posso continuar com os so- 
nidores. No quadro acha-se um feito a lápis. Na figura 
vemos os lados algum tanto adelgaçados e pintados de preto, 
e assim também os lados dos sonidores; a face entre elles é 
pintada de urucú, e sobre este fundo vermelho aclia-se so- 
breposto o molde preto. Os moldes têm (jor motivos o qnc 
mais lhes interessa. No sonidor, que nos funeracs da mulher 
de Coqueiro foi trazido pelo bári, estão pintados semicirculos 
clieios de pontos: representa isso a caixa craniana enfeitada 
com penninhas, tal como deve ir para o cesto da ossada. 
Em outros sonidores apparecem também pintadas partes do 
trajo feminino, ou o cinto de casca, em forma de travessas 
lai^s e pretas, ou faixas de embira em forma de triângulos 
e com a presilha. Este ultimo motivo encontra-se no sonidor. 
que figura no quadro. Em cada lado está desenhada uma 
presilha com três faixas de embira. Aqui, ix>rtanto, teríamos 



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' ENTRE 08 B0RÔR08 4^5 

O triangulo, por nós conhecido entre os Uluris do Kulisehú, 
tsmbem com a faixa de embira, e cuja respectiva imitação 
gostaríamos de ter obtido dos Tramais. Em um exemplar 
de sonidor, que também mostra olhos de madrepérola e por 
elles um semicírculo sem pontos, não só estão pintados trez 
cintos de casca em forma de trez travessas, como ainda, no 
interior, pequenos círculos, á direita e á esquerda dos quaes 
ha ao lado um quadrado. A significação disso não é clara; 
é provável, porém, que os cestos de ossada sejam represen- 
tados pelos quadrados e o crânio peto circulo. 

Pintavam a cara das raparigas do ranchão com as fi- 
guras do cinto de casca e da faixa de embira, do mesmo modo 
que parte dos sonidores: punham-lhes sobre a testa e fontes 
a mesma travessa, circundando os olhos e deixando livre a 
fronte, e os mesmos triângulos nas faces, um de cada lado. 
Somente esta pintura era feita com o mais alegre urucú. A 
gente selvicola fez um dia a graça de dístinguir-nos com uma 
ligeira pintura na cara, o que era um gáudio para as ra- 
parigas que encontrámos; disseram ellas em voz alta, o que 
para nós era enigmático, < aidiV ! », isto é, «sonidores». 
Tirando com a )x>nta do dedo a tinta de um Borôro enfeitado, 
que estava perto, ellas ainda nos accrescentaram uns pares 
de triangulosinhos . — Finalmente, também eram pintadas de 
vermelho as bandeiras do cartucho penil festival. 

Os desenhos a lápis, feitos pelos Bororós, já os descrevi 
junctamente com os dos Índios do Kulisehú. 

Os seus desenhos na areia também foram descriptos allí. 
Com predilecção especial, um indio. que estava caçando anta, 
foi representado com um gigantesco membro viril, no mo- 
mento em que disparava a flecha. Notámos também um va- 
queano que atirava o laço. O mais bonito, porém, era o de- 
senho scintillante de um jaguar. Os desenhos de Guilherme 
sempre lhes causavam vivo interesse. De noite, era frequente 
recebermos visitantes, que os estudavam com a maior exa- 
ctidão possível e propunham novas tarefas : um desejava ver 
a figura de uma unha, outro apanhava uma traça para serviç 
de modelo, etc. Elles comprehendiam também uma paizagem 
e conheciam certa arvore perto de uma cabana, que Gui- 
lherme tinha desenhado em proporções maiores. 

s. ■ líQpogle 



466 REVISTA DO nfSTITDTO HISTÓRICO 

Direito b casamento. — O cacique manda na guerra 
e determina a caçada durante a. paz. Como no Kulisehú, tam- 
bem dirigia a plantação. Quauto ao mais, a sua funcção, que 
'é hereditária, não tem importância. Os Brasileiros procura- 
yam affirmar-lhe o mais possivel da auctorídade, afim de 
terem uma pessoa com quem pudessem contar; porém uma 
auctorídade!, qual a de que gosava M<^iocúri, era, conforme 
dizia Clemente, uma cousa artificialmente augmentada. Real- 
mente, era muito melhor o posto de « homem-media> » 
(_bári) ; pois, si aquelle, em primeira linha, recebia presentes 
jdos Brasileiros, o bári estava na posição agradável de obter 
sempre o melhor quinhão por meio dos seus benzimentos.: 
Com effeito, era muito trabalhoso o matraquear, que fazia 
parte do seu officio (36).- 

Tanto quanto me foi possivel entender, dívidia-se a 
tribu em duas grandes classes: a das cabanas de famílias e 
a do ranchão. Aquella comprehendia os mais velhos pães 
de familta, que viviam em matrimonio regular; .a outra, os 
Solteiros, que arranjavam raparigas, possuidas em commum 
[por pequenos grupos. O rapto de mulheres, que se dava de 
tribu a tribu, era feito dentro da própria tribu. Só uma 
parte dos companheiros de tribu estavam na posse perma- 
nente de mulheres. E' fora de dúvida que estes factos sin- 
gulares não eram certamente um producto casual da oAoniã. 
Referia Clemente que o mesmo occorria nas aldeias, e, — 
o que constitue maior prova, — os próprios costumes mos- 
tram que aqui se tracta de cousas habituaes. Parece que em 
« Teresa-Christina > afora o cabo brasileiro Ehiarte com as 
suas duas mulheres, só Moguiocúri é que vivia em poly- 
gamia, e a maneira era interessante: tinha elle por esposai 
tuna mulher velha e a filfaa do primeiro matrimonio desta; 
casara etie, portanto, com uma viuva que tinha uma filha, 
e, depois que a mãe se tomara feia e a filha bonita, < casou > 
também com esta. . . Nas aldeias, porém, era mais ampla a 
polygamta dos velhos. Parece que, devido ás pretoições dos 

(36) Ao cacique dio os Bororós o appellatiTO àc «midijíia». <TUe- 
< písbi *, < DÓI *} O cbe- 



byCoogle 



ENTRE OS DORdnoa 467 

Brasileiros, existia na colónia, a esse respeito, um estado de 
excepção, poÍ3 faltavam mulheres, tanto para as calranas, 
como para o ranchão. 

Dos Bororós do Jaurú relata Waetineldt o s^uinte: — 
;« Nos seus casamentos não têm outra ceremonia sínão tomar 
tantas mulhefes quantas possam sustentar, ou, melhor dicto, 
tantas quantas (de fora) apparectam lá; quasi todos os ho- 
mens casados tinham diversas mulheres, até seis, enquanto 
na aldeia dos Bororós perto de S. Mathias havia tão grande 
falta de mulheres, que se serviam de meninas de 8 a lo 
annos». Alli não havia o ranchão; em Ic^r deste, havia 
somente um cercado de 4",5o de diâmetro, no qual os « pa- 
dres » faziam os benzimentos e onde não podiam entrar as 
mulheres e as creanças, — era o sanctuarium. Não se exigia 
para o casamento a permissão dos pães . Estes nem dão nem 
recebem nada. Oppondo-se elles, então ha briga, e a força 
decide a questão. Quem é vencido, deixa a aldeia. BaseÍa-Be 
tudo no direito da força. 

A nova esposa permanece com os filhos na casa dos 
pães. O novo esposo fica em casa durante a noite, e, de dia, 
quando não vai á caça, vive no ranchão. Têm os recemca- 
sados um fogão próprio, um pouco ao lado do qual está 
assentada a avó com os netos. Assim se passa tudo até k 
morte dos avós. A avó di de mammar, quando o casal se 
dirige ou ã caça ou á procura de cocos no mato ; « ellas, as 
avós, têm ainda leite, quando casam as filhas». 

Os rapazes cuidam em tempo de achar mulher, e ahí 
ha, em relação ao gesto, dous costumes muito interessantes. 
Os lóbulos da orelha da rapariga são perfurados por seu fu' 
'turo esposo (37) ; si elle não casar com ella,' então o filho 
delle a desposará. 

Quem applica ao rapaz o cartucho penil, t acunhada-se » 
cora elle em consequência disso, e tem que desposar-lhe a 
erma ou a tia. 

Agora, os costumes do ranchão . — Os Brasileiros af fir- 
hiavam ter acontecido que 30 a 40 homens, um após o outro, 
forçavam a mesma mulher, que era agarrada pelos braços e 



erturadoí pelo pae (NoU do A.) 



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408 REVISTA 00 INSTITUTO ItlBTOKlCO 

pernas. Em parte, as raparigas eram procuradas de dia, pu- 
blicamente, e, como já foi descripto, pintadas e enfeitadas 
em meio de muitos gracejos; em parte, eram capturadas ao 
cair da noite. Assim, nós observámos, certa noite, como os 
solteiros, deitados deante do ranchão, atacaram uma turma de 
mulheres que voltavam de uma assembtéa de lamentação : duas 
foram seguras, depois de uma lucta silenciosa, ficando involtas 
em pannos, de modo que não era possivel conhecel-as, c le- 
vadas para o ranchão. Porém, uma das duas era, como vimos 
na manhã seguinte, a muito experta Maria, cuja opposíção 
por certo não fora muito séria. — « Então hontem tu não te 
querias casar ? », pei^ntei-lhe . — < Agora já me casei », res- 
pondeu-me com bom humor. Estava etla, com toda a com- 
modidade, deitada ao lado do seu homem favorito, debaixo 
de um cobertor va-melho, e quebravam cocos. Vimos um dia 
'Maguiocúri animar ^os rapazes a enfeitarem a Maria, que na 
lucta corporal era tão selvagem, e, agora, estava tão submissa, 
Immediatamente seis delles se precipitaram sobre ella e a 
pintaram . 

As mulheres do ranchão eram presenteadas por seus 
amantes com grandes flechas de lascas de bambu. Cada um 
offerecia duas, que a rapariga, acocorada, recebia com indif- 
ferença. Contei, uma vez em que a isso estive presente, de- * 
zoito de taes settas de amor para uma só rapariga. Esses 
mimos eram entregues depois ao seu ermão ou ao ermão de 
sua mãe. As raparigas do ranchão não casavam mais com 
outrem : os filhos eventuaes têm por pães todos os homens do 
ranchão, com quem ella tivera relações. São estas, portanto; 
nonnas perfeitamente reguladas, que provêm da supremacia 
dos velhos: estes têm a posse, e, em pagamento, recebem 
pelas raparigas, cedidas ao ranchão, — e para o que têm de 
fazer accôrdo, como regular fonte de renda, — flechas ou 
também enfeites, como, por exemplo, cordas de suspensórios.; 
Dizem que a pederastia não era desconhecida no ranchão, 
porém que só occorria quando alli era muito grande a falta 
de raparigas. 

Quão regulados eram os direitos de propriedade, já b 
vimos pela circunstancia de que a presa da caça não fica 
<em poder de quem a effectuou. A familia sente um grande 

I. Google 



ENTRE OS BOKOrOS 469 

prejuízo, quando morre um membro delia, poís tudo quanto 
possuía o morto é queimado e lançado ao rio, ou mettido no 
cesto — ossuario, para que o extincto não tenha mais motivo 
de voltar. A cabana fica então completamente desguarnecida.; 
Os sobrevivos, porém, de novo recebem presentes, fabricam 
arcos e flechas- para si, e, — assim o exige o costume, — 
quando é morto um jaguar, a pelle é dada « ao ermão da 
mulher ultimamente fallecida ou ao tio do homem que morreu 
ultimamente»; como protector official da mulher, encon- 
tramos sempre o seu ermão. As flexas são objecto de mais 
valor ; ellas são dadas ao ermão da rapariga do ranchão ou 
ao matador do jaguar; são também os objectos de troca para 
o tabaco e o algodão. 

Furtos occasionaes são investigados com muito barulho, 
mas sem resultado. Os caciques ou pessoas velhas corriam por 
toda parte no pateo livre e ouvia-se grande vozeria. Assim 
aconteceu, quando Ehrenreich deu por falta de uma faca. 
la-se de cabana a cabana, todos tinham que exhibir as suas 
facas, e, com surpresa, vimos que as havia em grande abun- 
dância (em poder de certa mulher contámos 21). Porém, 
no fim de contas, dizia-se sempre que o objecto estava es- 
condido no mato. 

Nascimento; nomes. — A mulher dá á luz no mato, 
encostada ao pae, tenho eu tomado nota, mas não sei si 
antes não devera ter escripto « ao pau > . Sopra-se fortemente 
nos olhos da creança ; o pae corta o cordão umbilical com uma 
lasca de bambu e faz a ligadura com um fio. Durante dous 
dias, nem pae nem mãe comem cousa alguma ; no terceiro dia 
é que podem tomar alguma agua morna. Si o homem co- 
messe, a mulher e a creança ficariam ( 
é enterrada no mato. A mijlher não pó 
á volta da menstruação; depois porém, c 
muitos banhos. Provocar abortos por m 
que é frequentemente practicado, principa 
mulheres do ranchão. Si as mães não t 
mentar, expremem o peito e « fazem se 
fogo, com o que elle desapparece», 
creanças adoecidas, feitos pelo boticário, ; 



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470 SET18T& DO INSTITUTO HISTÓRICO 

paes. A respeito da couvade, virfe page. 334 (38). A questão; 
secundaria — que o pae esteja na rede — tem immediata so- 
lução entre os Bororós, pois elles não possuem redes de 
dormir e praticam, entretanto, a couvade. 

Dá-se nome ao menino, logo após o nascimento, na occa- 
BÍão de ser-Ihe perfurado o labio inferior, o que, na falta do 
bári, pôde também ser practicado por outras pessoas. O ope- 
raíJor pergunta, qualquer pessoa propõe, e o n(«ne respectivo 
fica acceito. A menina também, \iygQ depois do nascimento, 
recebe nome por parte dos parentes.: Oa nomes designavam 
animaes e plantas; disseram-me que Moguiocúri é animal 
parente da cotia.; ' 

Waehneldt accentua o grande amor dos paes para com 
OB filhos. «Biles guardam-n-os (contínua elle) cuidadosa- 
mente dos salteadores; logo que cheguei lá, elles esconderam 
todas as creanças, as quaes só tomaram a apparecer depois 
'de terem adquirido a convicção de que nada tinham a recear. 
Um dos índios pediu-me remédio para um filho doente, di- 
zendo que, caso a crcança morresse, elle havia de comer tanta 
terra, até ficar enterrado nella » . O furo do labio inferior, 
destinado a marcar as creanças, também tem, portanto, entre 
os Bororós do Jaurú, a sua razão determinada. De egual modo 
podemos falar do amor para com os ítlhos : apesar da carga 
pesada, geralmente o bebe é levado ao mato e, de volta, vem 
sentado aos hombros da mãe, com a cabeça desta entre as 
pernas . O respeito para com os paes, ao contrario, era pouco 
manifestado: as creanças eram marotas, desaforadas, porém 
intelligentes, e antes obstinadas do que obedientes. 

A applícação de cartuchos nos rapazes c feita festiva- 
mente. Devem passar o dia anterior no mato, sem que hajam 
recebido cousa alguma para comer. Os jovens guerreiros são 
pintados de ferrugem e hão de sujeitar-se a muitas malícias ; 
a burla principal consiste em fazer o rapaz, posto entre dous 
partidos, ser jogado de um para outro através de uma fo^ 
gueira. 



(]8} Alli, com referancU ia tribui da> cibeceiru At> Xingu, tncta oanctor 
detidamente (de paga. 334 a 339) do nascimento e da * couvade > catre aquelles 
Índios. (Nota de B. de M.>. 



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BNTRE OS BORdROS 4?1 

Cerímonias- FUNEBKES. — Saibamos, antes do mais, o 
que diz Wachneldt a respeito dos Bororós do Jaurú: 

— cAs suas solennidades de lucto e de enterro realí- 
zam-se no meio de suas aldeias, mesmo no sanctwirium (o 
cercado referido a pags. Soi). Mostraram-nos a bssada 
lirapa do mais velho dos Índios, sucimíbido ha poucos mezes, 
o qual tinha sido exhumado depois de ter ficado sob a terra 
durante seis mezes; os ossos estavam limpos e não faltava 
nenhtun. 

« Alli dansavam e entoavam todas as tardes os seus cantos 
de lamentação, cobrindo cada osso com pennas multicores e 
enfeitando ricamente o crânio com pennas de arara e de 
outros pássaros. 

< Essas ceremonias duram muitas semanas, sendo, final- 
mente, inhumados de novo os ossos, previamente depositados 
numa uma. Essas honrarias, porém, não são eguaes para 
todos os mortos. 

« O cadáver fica durante trez dias no seu leito, sem que 
ninguém toque netie, até que a decomposição, já muito adean- 
tãda, produza um fétido nauseante; no terceiro dta, o deftmcto 
é involto em pelles, esteiras e folhas verdes, depois do qu£ 
é posto na cova, sendo esta recoberta com terra, folhas dti 
palmeira e esteiras. 

c As sepulturas acham-se no meio da aldeia e são con- 
servadas muito limpas: tinham o aspecto de um cemeterio 
europeu » . 

A respeito destes informes valiosos, deve ser exdareddoí 
mais um ponto. Waehneldt vê nos Bororós de Mato-Grosso, 
entre os quaes teve uma curta parada, Íncolas immemoríaes 
da região, e acredita, porque assistiu á inhumação das umas, 
que também estas, — existentes em grande abundância nas 
antigas, mas hoje desprezadas habitações, cheias de ossadas 
na sua maior parte, — seriam oriundas dos antepassados dos 
Bororós. Os Bororós delle, porém, são os mesmos aqui do- 
miciliados, depois de longas pelejas, pelo fazendeiro Leite; 
antigos cemeterios de urnas de similhante espécie, ha muitos 
na vizinhança de Villa- Maria ; elles nada têm de commum com 
os modernos Bororós, c ainda são objecto de investigações.' 
JVaehneldt mesmo diz que encontrou só < poucos vasos de 



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473 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

barro, fabricados por elles próprios, e, além disso, alguns 
vasos maiores, destinados á guarda de diversos objectos, os 
quaes, porém, eram cousas herdadas dos antepassados, por, 
não mais se fabricarem hoje ». Ou os Bororós tinham imitado 
taes umas e substituido por ellas os seus cestos-ossuarios, — 
ainda um antecessor da urna, — ou, o que acho mais pro- 
vável, por causa da sua reconhecida pouca habilidade cerâ- 
mica, que corresponde exactamente á dos nossos Bororós, e 
pela indica<;ão de que também de outro modo foram usadas 
velhas umas, — elles depunham os seus mortos nas velhas 
umas, que encontravam em grande numero, em parte já va- 
zias, nas antigas habitações, hoje abandonadas. O costume 
originai dos Bororós é o mesmo que o dos Atures de Hum- 
boldt, dos quaes este explorador somente encontrou um resto 
em numero de seiscentos bem conservados cestos de cabos 
de folhas de palmeira, que continham, como arrtmiados num 
sacco quadrangular, esqueletos pintados de urucú, e de cuja 
língua apenas um velho papagaio da missão próxima sabia 
articular ainda algumas palavras. Conforme a tradição, 
também os Atures depositavam os seus cadáveres primeira- 
mente na terra, durante algum tempo, deixando decompor-se 
a carne, limpando bem os esqueletos com pedras afiadas e 
depositando-os nos cestos. Uma porção de mortos também 
eram já inhumados em umas de azas. 

Assistimos no S. Lourenço a duas ceremonias fúnebres: 
a primeira celebrou-se justamente á nossa chegada; a segunda, 
que vou tentar descrever, observámo-la de principio a fim.> 

A primeira inhumação effectua-se no segundo ou ter- 
ceiro dia, quando, pela decomposição, nào ha mais dúvida da 
morte. O cadáver é enterrado no mato, perto de agua, e 
descarnado mais ou menos depois de quinze dias, celebran- 
do-se então a ceremonia principal, cujo fim é enfeitar e 
arrumar o esqueleto. Nesse Ínterim, mantêm-se relações com 
o morto, tanto durante o dia. como também, e sobretudo, 
durante a noite, no bailo, jjor meio de cantos de lamentação, 
os quaes, em nosso caso, podiam ser restringidos a proporções 
menores, por se tractar de uma mulher, a esposa de Coqueiro. 

A solennidade capital caiu no domingo da Paschoa. No 
dia anterior, sabbado da Allehiia, depois de liquidado o Judas, 



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BNTRE OS BOnÔROS 473 

OS Índios começaram activamente os preparativos, aplainando 
e pintando sonidores, concertando enfeites, enquanto um bãri, 
adornado com as pennas do pariko e sentado negligentemente 
a um canto, matraqueava e cantarolava um pouco; o viuvo 
Coqueiro, na sua cabana, lanhava braços e pernas, que se 
cobriam de crostas de sangue coagulado, e só bem tarde foi 
realizada a solenne destruição dos objectos d^ morta, melhor 
dicto, dos trastes da família particular, que com ella tinha 
morada na mesma cabana, — acontecimento esse ligado a 
uma interessante pantomina, que merece descripção circun- 
stanciada. 

Alguns Bororós mostravam-se de grande gala por detraz 
do ranchão, cabello e corpo pintados de urucú, testa cir- 
cundada da lista de lacre preto, com o cartucho festivo enci- 
mando a bandeira pintada, tendo grudadas nos braços e no 
cabello pennas verdes de papagaio e trazendo á cabeça deus 
parikos e a baragára, achando-se as rodas de pennugem e o 
perfumador dos lábios também adornados de pennas. En- 
quanto dous delles se sentavam numa esteira e chocalhavam 
a matraca, o próprio Coqueiro pegava em frescos e verdes 
molhos de folhas e, tendo-os ligado num cabo em forma de 
pincel, amarrava-os aos hombros do moço melhormente en- 
feitado, onde tinha este manchas negras de pixe, assim como 
nos braços, joelhos e tornozelos. Este Boròro, com o adorno 
verde de folhagem, representava o morto no estado actual, 
em que fora inhumado sob um cobertor de folhas verdes. 
Approximaram-se quatro homens com um cabaz, do qual ti- 
ravam vestidos da mulher de Coqueiro, applicando-os ao 
homem « Vçrde », que alli estava gemendo e tremendo com 
os joelhos, — um quadro de desgraça, mas, consoante com 
as nossas idéas, < uma pobre alma », sobrecarregada, no seu 
singular aspecto, de pennas azues de arara, grinaldas verdes 
e cinco saias de chita multicor. Os outros também se co- 
briram com vestidos de mulher, um com uma pelle de jaguar, 
e, entregando ao c Verde > um flautim enfeitado de penninhas 
brancas, arranjaram uma dansa. Um homem, com duas ca- 
baças, começou a dansa de roda, tendo atraz de si o « Verde > 
e atraz deste quatro outros; todos seis cantarolla\'am em 
coro e dansavam ora para a direita, ora para a esquerda. 



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474 REVISTA DO IKSTITUTO HISTÓRICO 

marchando em direcção ao baito; voltavam então e, pisando 
fortemente, marcavam um circulo no chão. De repente, porém, 
debandaram e correram atropeladamente para o mato, onde 
desappareceram.j 

Por meio do flautim de cucurbitacea, o joven represen- 
tante da morta invocou dous velhos índios, que já ha muito 
jaziam debaixo da terra. Estes deviam estar presentes ao 
acto da entrega dos trastes, receber o novo companheiro e 
averiguar o que lhe pertencia, afim de que não viessem nada 
reclamar em posteriores visitas desagradáveis. 

Depois de tun quarto de hora, a turma saía do mato, 
correndo e berrando muito, carregando ás costas, — hurrah, 
os mortos cavalgam depressa ! — dous vultos verdadeiramente 
horrendos, nús, sem adornos, e desde a cabeça até aos pés 
cobertos de barro do rio. Soltando gritos infemaes, aquellas 
assombrações de barro pulavam como antmaes selvagens, si- 
milhando gigantescos zangams a zumbir, e, agitando vehe- 
mentemente trez sonidores, — não era visível nenhum ente 
feminino, c as cabanas, fechadas com esteiras, pareciam des- 
habitadas, — accenderam com muita ligeireza uma fogueira 
no meio do círculo anteriormente demarcado, conduzindo para 
alli uma infinidade de toda sorte de trastes caseiros, cestos, 
ventarolas, faixas de embira, cintos de casca, um cobertor 
vermelho, muitas pantculas de milho, cabaças e conchas ; foram 
também quebrados arcos e flechas, e tudo reunido em um 
montão. Entrou logo tmia certa ordem na interessante scena: 
05 homens circuitavam o fogo e moviam-se ao redor delle, 
pulando devagarzinho com ambos os pés . O < Verde » foi 
agarrado e calcado em terra pelos dous vultos de barro, nos 
quaes mal e mal reconhecemos o bravo Moguiocúri e o bári 
principal (o atirador do quadro 28) . As matracas choca- 
lhavam, os sonidores zumbiam, e o fogo então ardia vivamente. 
O « Verde > foi posto era liberdade, e elle e outro companheiro, 
que se achava atraz delle vestitío de períko, arremessavam 
ás chammas os trastes, dansando em roda e desviando-se or.i 
para a esquerda, ora para a direita. Nesse entrementes, — 
e isto, no meu entender, era o mais notável de' toda estar' 
scena, — os dous representantes dos mortos velhos curavam 
uma mulher doente, alH apparecida de repente não sei como: 



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BttTRB 03 BOKdROS 47^ 

sopravam nella a esperança consoladora de que tão cedo não 
seria buscada. Alguns correram ao rio próximo, arremessando 
nelle facas e machadinhas. Coqueiro atiçava o fogo, dansa 
e canto acabavam. Os enfeites de pennas estavam deitados 
juncto ao fogo, o « Verde » ajunctava as suas grinaldas, e os 
baris, que estavam acocorados em ]inha, um atraz do outro, 
eram aspergidos com agua. Pouco depois, grande celeuma: 
o cão de um soldado tinha mordido uma creança. Moguiocúri, 
ainda sujo de barro, dirige-se furibimdo ao dono do cachorro, 
o qual, para sua própria segurança, marcha para o cárcere; 
com isso se contentou o cacique, fechando com uma das mãos- 
a bocca da mSe iracunda, que então se foi embora calada, mas 
arre^nhando os dentes alegremente e pondo a língua de 
fora. 

Na seguinte noite, canto ininterrupto de aróe do lado dos 
índios : ninguém nas cabanas e no ranchão ; homens, mulheres 
e creanças, todos fora. Musica incessante, dansas, risadas, 
tagarellices, do lado dos soldados. Esplendido luar. A pri- 
meira hora solenne da Paschoa viu assim maravilhosos con- 
trastes nos grupos da inhumaçao e da resurreição. 

De manhã entrou no ranchão, tendo á frente Mogu-- 
iocúri, uma extensa fila de gente, todos com ramos verdes nas 
mãos, vindo no meio o ermão da morta, com o cesto quadran- 
gular, que continha a ossada limpa do esqueleto, exhumado 
pela madrugada. Posto o cesto sobre uma esteira, quatro 
homens tiraram delle o crânio e o maxilllar inferior, que 
brilhavam de brancura e polimento, como os mais lindos pre- 
parados, e começaram a enfeita-los de pennas, assim como 
3 um cesto novo. Moguiocúri, ornado de grande gala e com 
os cabellos e epiderme pintados de vermelho, estava sentado 
sobre uma pelle de jaguar, com uma cinta de folh" ' ' 
meira akurí, tendo coUadas aos hombros pennas a: 
de mutimi, pendendo-lhe das orelhas tiras amarello-i 
de pennas de tucano, trazendo á cabeça o mais boni 
e no buraco do lábio inferior a corrente de conchii 
lado delle, e também adornados de paríkos, achavam- 
baris, os quaes, de olhos fechados, sacudiam ^s m 
pulavam compassadamente, batendo com os pés.- C 
estava literalmente cheio, principalmente de mulhei 



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4?6 RXnSTA DO INSTITUTO mSTORtCO 

ancas, que accompanhavam o canto e batiam palmas Tythmí- 
camente. Algumas das mulheres approximaram-se do cesto- 
ossuario, pondo-lhe as mãos em cima; a mais velha, então, 
fez nos próprios braços, com estilhas de vidro, umas incisões 
rápidas e agudas, de modo que o sangue caía sobre as mãos 
das outras e salpicava de rubro a palha de palmeira do cesto. 

Os moços, que estavam no meio, pintaram primeiro o 
maxillar inferior com urucú, envolvendo-o depois com pen- 
nugens brancas. Ao lado, tinham elles urucú num casco de 
tatu, um potesinho com olco de peixe, uma concha com re- 
sina, uma esteira com penninhas brancas soltas e uma grande 
tigdla de barro cheia de penninhas de cõr purpúrea, O cesto 
novo foi pintado por dentro e por fora ctwn urucú, e, en- 
quanto uns grudavam pennas no cesto, os outros cuidavam do 
crânio, encaixando-lhe primeiro o maxillar e enfeitando-o 
depois meticulosamente com as alludidas penninhas de cõr 
purpúrea, a começar do occipital. Cada penninha era humi- 
decida de resina por meio de uma vareta e collocada ca<ta 
uma de per si. 

Nesse ínterim, allí chegou também Coqueiro, conduzindo 
uma creança pela mão. Silenciosamente, sentou-se alli ao 
Jado, soluçando e chorando. Afóhi um cinto preto, que elle 
havia manufacturado dos cabellos de sua mulher, não trazia 
nenhum outro adõmo. As suas faces estavam banha<^ de 
lagrimas, e elle apertava os olhos, como si o chorar lhe fosse 
muito doloroso. 

Pouco a pouco, a caixa craniana se cobria como que de 
um. velludo de vermelhas penninhas de arara. Quem tinha 
de limpar as mãos, fazia-o no próprio cesto. Alguns dos 
parentes bem depressa não deram mais importância á cere- 
monia. As creanç^s saltitavam aqui e acolá, alguns homens 
roíam espigas de milho e trabalhavam, umas mulheres ca- 
tavam-se piolhos reciprocamente, continuando, porém, devo- 
tamente a cantar. Por fim, o K^ar rareou de gente. 

Ficava-se. afinal, tonto de tanto zunir e retumbar. Um 
tambor, que sobreviera, tinha os braços cobertos de uma pel- 
lica toda cheia de penninhas de papagaio. De novo se encheu 
o espaço. Septe mulheres approximaram-se do velho cesto-os- 
suario, lanhando-se e pondo-lhe os pés em cima, de modo que 



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ENTRE Oa BORORÓS 47? 

O sangue delias lhe tingia também a palha. As incisões dis- 
tavam dous a três centímetros uma da outra. Um enredado 
vermelho cobria-lhes pemas e braças, seios e ventre. As fcíçÊ«s 
do rosto, porém, estavam tranquillas e demonstravam que ellas 
não sentiam dór. Lanhavam-se com movimentos ligeiríssimos. 
Todas embrulharam os seus estilhaços de vidro em uma folha 
e a entregaram a Coqueiro, sentando-se-Ihe ao pé. Novos 
grupos chegavam para se lanhar, sempre só mulheres e moças, 
procedendo todas do mesmo modo; cada uma molhava o seu 
estilhaço na bocca, antes de dar o talho. Rosnando, roncando, 
duas flautas mixturaram-se com a musica das matracas cho- 
calhantes, do tambor, do canto e do batuque. Os cantores 
dãnsavam com incrível perseverança. Coqueiro também, aco- 
corado junto ao cesto, se lanhava os braços, estando alli a 
seu lado uma mulher com uma creança ás costas. 

Pelo meio-dia crânio e cesto estavam promptos. O 
gorro, como que íeito de velludo vermelho, tinha sido ter- 
minado com uma Unha travessa lindamente amarellada. O 
cesto novo estava recoberto de penninhas alvinitentes, e em 
cada lado delle havia dispostas, similhantes a janellas, duas 
filas de quadrângulos vermelhos. Era de ver o mimoso e 
delicado desse trabalho daquelles rudes caçadores ! Então, 
foi arranjada uma ccremonia especial, — o «benzimento> do 
crânio e do cesto novo. Construiram uma espécie de capella, 
o sanctuarium, ficando em semicírculo cinco arcos e cobrin- 
do-os com esteiras e pannos. Collocaram nesse nicho o cesto 
enfeitado, encostando ainda nelle trez scmidores não pintados, 
e deitando o crânio sobre uma esteira juncada de um monte 
de pennas soltas; o mais activo dos baris tomou assento na 
entrada, que ficou assim fechada pelo seu corpo, e o tambor 
se lhe coUocou atraz. agora sem o instrumento. Para entre- 
te-los, foram também postos no nicho dous potes com agua 
barrosa do rio e trez charutos. Começando de vagar e em 
voz baixa, entoaram os dous o seu canto, sacudindo o bári 
um chocalho em cada mão. Os demais, alegremente sentados 
em roda, faziam pequenas troças, esmolavam tabaco e jun- 
ctavam a sua voz rugidora ao compasso final. Pouco a pouco, 
o canto se tornou mais vivo: claras vozes femininas ajuda- 
vam-n-o fortemetite, e os dous cantores do sanctuarium tra- 



478 REnSTA DO INSTITirrO HUTORICO 

balhavam a plenos pulmões, de sorte que, depois de trêz quaitoá 
de hora, estavam completamente exhaustos. Curvavam-se para 
o nicho, afim de beber, mas o corpo se lhes sacudia, oomo si 
estivessem febricitantes, de modo que se fazia mister am- 
parar-lhes o pote de agua; enxugavam então o suor e mal 
e mal podiam balbuciar uns sons inarticulados, a que o coro 
unísono respondia satisfeito, com murmúrios de reconheci- 
mento. Trémulos, fumavam os seus charutos. 

Tiraram as cobertas do nicho. Seis homens, — entre elles 
agora também Coqueiro, — sacudiam os chocalhos, cantavam 
€ dansavam, sempre de olhos fechados, cMnpIetamente con- 
centrados em si mesmos. Nós também dansámos e matra- 
queámos algum tempo, com grande satísfacção por parte dos 
índio. Somente um ou outro pausava um pouco de vez em 
quando, fumando então apressadamente o seu charuto, e 
limpando o suor, que dos corpos dos seis corria como em 
rios. Numerosas mulheres accompanhavam o canto, passando 
o tempo a catar piolhos e sacudindo os seus abanos para re- 
frescarem os dansatfores, que estavam atraz delias; os homens, 
em grande numero, estavam entendidos ao longo da parede 
e descansavam. Só uma vez fizeram uma pausa geral, ficando 
então a cantarola substituída pelos sons alegres de harmónica 
mal tocada, que vinham dos ranchos dos soldados; porém, 
logo depois de trez ou quatro minutos, a matraca de Mogaí- 
ocúri zumbia, dando o signal de continuação. Todos os ossos, 
um por um, foram pintados de urucú, — primeiro o fémur, 
(depois o humero e os do braço inferior e os das pernas, a 
bacia repartida em duas partes, as costellas e os ossos da mão 
e do pé, até á ultima phalange. Tractando-se de uma creaaça, 
o trabalho é mais fácil: o esqueleto fica arrumado í« tofum. 
Si 03 ossos pingavam oleo, posto em demasia, extendiam co- 
bertores e esteiras por baixo delles, pois nada devia ser per- 
dido. Limpavam as mãos nas folhas de palmeira previamente 
trazidas. Eram cuidadosamente collocadas no cesto todas as 
partes do esqueleto, todas as phalanges das mãos e dos ar- 
telhos, embrulhadas em folhas especíaes, ajunctando-sc-Ihes i 
roupa, — trez calças (mme. Coqueiro I), um paletó de mulher, 
trez camisas, — e ainda as folhas de palmeira já servidas, 
tudo isso no cesto já cheio a arrebentar. Costurarftm-n-0 

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enTRE 06 borAros 479 

na parte superior coni agulhas de pau de um pé de compri- 
mento; foi necessário o forte punho de Moguiocúri para 
serem approximadas as beiras, afim de poder o cesto ser fe- 
chado. As pontas das folhas de palmeira, que sobresairam nos 
dous cantos, foram cortadas .^ ' 

A*s cinco e um quarto estava tudo prompto; cantaram 
ainda um boccadinho, o logar foi, finalmente, ficando quasi 
que de todo vazio, e a ceremonia acabou sem encerramento 
solenne: poz-se-lhe termo singellamente. Moguiocúrí pediu 
o meu cachimbo e tagarellou gostosamente. A festa fúnebre 
já tinha sido exquecida. Uma velha tomou ás costas o cesto ' 
de ossada, e um moço se lhe poz na deanteira, soprando melan- 
cbolicamente a flauta dos mortos.- Ninguém lhes deu impor- 
tância. Ambos caminhavam ao cair do crepúsculo, a mociíbde 
e a velhice, — um encantador quadro vespertino, como de um 
conto de fadas. Com uns murmúrios plangentes, entr^aram 
o cesto a Coqueiro, que estava sentado á porta da cabana 
vazia, e voltaram apressadamente para juncto dos outros. E 
algumas horas mais tarde, nesse domingo da Paschoa, re- 
bentou o barulho por causa dos Caiapós . 

Coqueiro ficara sem nada. Os seus amigos fabricaram 
arcos e flechas, e com isso o presentearam.. Na terceira manhã 
após a ceremonia fúnebre, conduziu elle o cesto de ossa(&, 
indo-lhe atraz uma mulher com carga idêntica. Pois é cos- 
tume que o morto espere o próximo extincto, e assim os dous 
deixam junctos o aldeiamento. Parecia que ninguém se im- 
portava com elles, e poder-se-la crer que levavam dous cestos 
com mandioca. Porém, logo se approximaram apressada- 
mente quatro moços e accompanharam os dous conductores 
para o mato : o primeiro agitava um sonidor, o segundo e o 
terceiro soltavam gritos cheios de terror, e o quarto arrastava 
após si uma folha de palmeira, afim de apagar os rasti 
f icultar aos mortos o regresso á aldeia. Não se via alli 
alguma. Um delles carregava também uma enxada. C 
foram inhumados, parece que numa ilhota rio acima. 

AtUA E VIDA DE AI.ÉM-TUMUMJ, — Nos acordados 
fespecie de alcance á distancia, que lembra a nossa cr. 
tinir dos ouvidos. No Kulisehu, disse-me Tumaíau 
vez em que espirrei, — 5 que eu estava sendo chamj 

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48o REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

minha mnlher, a qual estava triste, por eu não ter ainda vol- 
tado > . Em occasião similhantcí, disseram-me os Bororós a 
mesma cousa : certa vez em que espirrei ao lado de uma int^, 
esta logo perguntou pelos nomes dos meus parentes : — « Como 
se chama tua mãe?, teu ermão?, teu cunhado?» 

A alma chama-se búpe (39). Durante o sonho, ella deixa 
o corpo. Punham bastante de manifesto o medo de accordar a 
adormecidos. Clemente também pensava que isso seria muito 
prejudicial. Mas, tem o seu lado útil, como vimos um dia 
no ranchào. Guilherme devia tirar o retrato de um íidorme- 
cido. Isto, porém, lhes pareceia ser o peior dos males, certa- 
mente porque o retrato poderia servir para bruxarias. Os 
Bororós geralmente se obstinavam contra os exforços de Gui- 
lherme em tal sentido; apesar disso, mais tarde, quando elle 
lhes mostrava retratos tirados a furto, muito se alegravam 
com isso. Em todo caso, parecia-lhes perigoso tirar o retrato 
do adormecido. Queriam acorda-lo, e, quando eu os impedia 
disso, censurando-Ihes o modo de agir, procuravam realizar 
furtivamente (pelo cuspir e atirar pedacinhos de pau) o seu 
intento.' 

Não conheço o sentido exacto de búpe. Durante o sonho, 
a alma sai voando em forma de ave, Ella, então, vê e ouve 
muita cousa. Acreditam firmemente no que o despertado re- 
lata. Assim, os Caiapós, effectívamente, tinham estado nas 
proximidades da colónia: ninguém duvida disso. Clemente 
confirmava, com a sua experiência, a exactidão das suas pre- 
visões : — quando a mulher, deixada na aldeia, durante a au- 
sência do homem na caçada, ficava sósinha, por metade da 
noite sentada na cabana, queixando-se e lamentando-se al- 
gumas horas e deitando-se depois para dormir, a sua alma, 
então, ia com certeza achar o caçador ; e, depois de acordadas, 
as mulheres sempre davam informações certas do ponto em 
que estavam os caçadores e quando haviam de regressar. A 



(M> A I 


,aUvr. 


exita É 


. bõpe . 


>, tiio • 


■ búpe 


.. Sesundo 


. vocabultrio áoí 


Sklesianos, equivale . 


■ «diab. 


)». Pai 




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cerWram bem com 


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íNol» de B. 


át M. 


). 













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EMTRE OS BORdROS 481 

proximidade do inimigo era presenciada no sonho, de modo 
que, fugindo-se, o inimigo chegaria a uma aldeia abandk>nada. 

O certo é que os baris prediziam com exactidão a morte 
de um doente em estado grave. Não só a çreança, de que 
falei a pags. 460, foi morta, quando já era chegado o seu 
tempo, como também no caso da mulher de Coqueiro elles 
a haviam ajudado artificialmente. Ainda viva, foi conduzida 
para o ranchão com a cara coberta por um panno, e, debaixo 
deste panno, ficou suffocada. Era o quarto dia, quando ella 
devia morrer, conforme os baris, e de facto morreu. Eu creio 
que se pôde comprehender facilmente essa intromissão no , 
officio de Atropos por parte de uma tribu nómade de caça- 
dores, mesmo si ella não puzesse tão seriamente, como os 
BorôroS, homens e animaes em egual plano: — elles estavam 
acostumados a dar o golpe mortal nos animaes moribundos, 
e não podiam permanecer á vontade em certos logares. Que 
os baris souberam tirar proveito desse estado de necessidade, 
— era o seu negocio. 

As idéas a respeito da morte e da vida post-morlctn são 
nisso essencialmente diversas das dos Índios do Kulisehú, por 
não morarem os curandeiros, causadores da morte, em uma 
aldeia vizinha, onde fizessem as suas bruxarias, mas, sim, 
estão incorporados em certos animaes, que, infeliz ou tola- 
mente, se matam, e que então se vingam, buscando os vivos. 
Enquanto o «homem-medico » dos Bakaerts, só de passagem 
na narcose, se transforma em animaes, e, depois da morte, 
vai para o céu sob a forma humana, — aqui, a morte não é 
nada mais do que uma transformação animal, um sonho cuja 
realidade é a todos visivel. 

Crè-sc geralmente que o Borõro, homem ou mulher, se 
transforma, depois da morte, em uma arara vermelha, por- 
tanto em ave, como a alma no sonho. Carne e pelle apodrecem ; 
a ossada, solennemente adornada, é entregue do melhor modo 
por que o exlíncto a pôde exigir; reune-se e queima-se o seu 
vestuário, os parentes sacrificam todos os utensís domésticos 
que elle occupava, dào-lhe até do seu sangue: — si clle, graças 
a tudo isso, puder retomar a sua figura antiga, então os 
sobreviventes de certo não lhe devem mais nada, e mais agora 
elle não pôde pretender, não precisa de achar o caminho da 



Gvkh^Ic 



403 ItEVlSTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

volta e deve contentar-se com a sua vida de arara. As araraã 
vermelhas são Bororós, sim, os Bororós vão mais longe, como 
já o referi, e dizem : — « Nós somos araras > . Ou isso é rnn 
exaggero posterior, que de modo evidente mostra quão indif- 
ferentes são aos Índios os escrúpulos dos nossos zool<^os, ou 
a alma-volatil é crida como sendo a arara. Não comem nunca 
a arara e nunca a matam. Lamentam quando morre alguma. 
Somente são mortas as araras selvagens, por causa do adorno 
de pennas, e, pela mesma razão, também as mansas devem 
conformar-se com a sua systematica deplumação. 

Os '« exti netos de outras tribus» transformam-se em 
outras aves. Os negros viram urubus pretos. A escolha não 
é illogica: um malquerente bem pôde ser incitado a tal es- 
colha pela cõr, pela catinga e pelos trejeitos, — e os Bororós 
não gostam dos negros. . . Perguntando a Maria o que é que 
eu seria depois de morto, deu-me ella, com toda a seriedade, 
a seguinte lisongeira resposta: — cuma garça branca», A 
alma, já durante a vida, é um pássaro, e isto não parece nada 
admirável, por ella poder chegar, durante o sonho, a logares 
longínquos, com grande celeridade, e o ente, capaz de fazer 
isso, não pôde deixar de ser ave para o caçador; é questão 
secundaria qual a espécie de ave de uma ou de outra tribu. 
Não é difficil comprehender que uma tribu escolha para si 
mesma a ave mais bonita, que ao mesmo tempo fala e cuja 
plumagem dá ao vivo e ao morto um efíeito magnifico. Os 
Bororós', porém, não são dl'aras azues, e sim vermelhas, como 
os negros são ou serão aves pretas e os brancos aves brancas. 

Não menos fácil é comprehender a seguinte ampliação: 
— os baris, depois da sua morte, podem também transmudar-se 
em outros animaes, por exemplo, em peixes, bagre, jahú e 
especialmente dourado, peixes esses todos grandes e suc- 
culentos. Por isso é que o bári deve estar presente, quando 
se pescam aquellas espécies e até benze-las. Um papel espe- 
cial ainda cabe ao veado. Dizia Clemente: — «Não sei que 
sympathia os Bororós tem pelo veado; é verdade que alguns 
o comem, quando está bento. Também o aróe-taurári só o 
pôde comer, depois de feito o benzimento; outros, si o co- 
messem, morreriam ; matam-n-o raras vezes, mesmo que es- 
teja bem perto. Não sei si é saneio áellíst. 



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EÍJTBE 09 DOnÒHOá 4^3 

Nem foi Boróro, porém sim um cachorro, que certo dia 
matou um veado: um homem provou da carne, adoeceu no 
mesmo dia e morreu dentro em pouco. Clemente sabia contar 
outro caso, — de um homem que tinha matado um enorme 
dourado e que morreu logo depois. «Vede, — diziam os Bo- 
rorós, depois de preparado o cesto de ossada — o dourado era 
bári, e este matou também o homem que o pescou». 

A base dessa hypothese, — como também aprendemos a 
conhecer entre os Índios lío Kulisehú, — é a viva e original 
superstição que os Boróroí, no seu estado de caçadores, têm 
de que os homens e animaes não são mais do que diversas 
personagens. A morte de um dos seus é considerada como 
vingança do que foi morto. Um caçador adoece ou morre, — 
quem é o culpado desse mal ? — Um animal-pessoa, que ellc 
próprio matou e que então se vingou ; como sempre existe a 
probabilidade dessa explicação,, ha de formar-se a crença geral 
de que — o morto busca o vivo. Como é, porém, que o animal 
morto faz isso? — Ora..., um bári está encerrado nelle..,, 
um que pôde tudo, sem que a gente saiba como é que eile o 
faz.: 

Deste modo se completam as tentativas de explicação; 
aqui, onde se tracta de tantas tradições e de tantos affectos, 
não importa que também cheguem a sophismar. Seria, po- 
rém, difficultar a comprehensão, si se quizesse identificar 
a intuição dos Bororós sobre a vida post-mortem com o 
eschema da metempsychose. Uma espécie de metempsychose, 
elles a experimentam todas as noites. Que animaes e homens 
somente são diversas personagens, — é mais importante do 
que pôr-se, devido a circunstancias posteriores, em relações 
mais intimas com um ou outro animal-pessoa. De facto, eu 
comprehendo mais facilmente aquelle povo, quando consi- 
dero a affirmação, que parece ser a mais moderna e confusa, 
que elles fazem, — « Nós somos aves >, e que me parece ser 
a mais simples, não como < eu serei uma ave », e sim como, 
— peço que não tomem isso na accepção bcrlinense, — « te- 
nho uma ave, soti uma ave, que agora volita de noite, porem 
que um dia, espero que mui tardiamente, não mais voltará 
á sua familia, si uma outra personagem, homem, ave ou mam- 
mífero, que of fendi mortalmente, a impedir disso,, e que 

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484 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

então ficará obrigada a guardar a sua figura noctunia, a 
qual, de tal momento em deante, como garça branca na la- 
guna, apanhará peixes, e seriamente contará que os filhos 
e netos não a matem e comam, mas, sim, logo que fõr pre- 
ciso, lhe arranquem as pennas». 

NiCUAS CELKSTES; CONJURAÇÃO DE METEOROS. — Sol € 
lua são pennas de arara. Não pude verificar que idéas exis- 
tem sobre os seus possuidores. Os Bororós, porém, riram-se 
de mim, quando lhes perguntei si sol e lua eram homens, e 
sustentaram que eram < pennas de arara >, e não araras sim- 
plesmente, como si pudessem ser aves. « Nós moramos numa 
grande ilha. no meio de um rio que se chama Darupáru, — ■ 
a reduplicação de bám, céo. Lua e sol (isto é, os seus pos- 
suidores) estão de um lado e caminham pelo rio; quando 
chegam junctos, a lua passa e vem lua nova». 

O Cru::eirb do Sul consiste nos dedos de uma grande 
ema, o Centauro representa uma perna da dieta ema, Orion 
é uma carapaça de jaboti e, na parte dirigida para Sirius, um 
jacaré, e as Plêiades são ramalhetes de flores do angico (Aca~ 
àa) ; os Bororós mostraram-me tudo isso com muito prazer, 
deixando ouvir um ih... de admiração, porém nem sempre 
eram concordes quanto á sua significação, de modo que se 
me tornou duplamente dífficil obter informações dellcs. Em 
um ponctcí, entretanto, estavam de completo accórdo, e isto 
com razão me admirou sobejamente: — as estreitas em geral, 
afora as conste Ilações especiaes. semeadas no céo como 
lK)ntos pequenos e grandes, e os meteoros, que se vêem correr 
no firmamento, — tudo isso eram bichos de pi; a via-Iactca, 
na qual se acham mais densamente aggrupadas, era cinza, e 
Vciias era o grande bicho de pé (40) , 

Como nos Bakaeris, a base daquella concepção é que os 
animaes celestes lã chegaram por encantamento e que, no sen 
aspecto, dif ferem das creaturas terrestres; pois, logo que 



,. 


0) « Cuiídje », de facto, sJBiiifici 


odUferentemenle .eslrell». « «bicho 


de l.. 




curircu> í (grande*) e a via-lactu 




lédjc uruRL'>do>; * iirugúdo * è t c 


iiiaí). Xi rrlacão das coii51tHações. 




IU-8I von deii Steineii da -/ulear 








ce-urarcghe >, isto é. pila* de |ierni- 




». Caldas e os Salesianos nlo re 


Lataram esse vocábulo, que colhi dire 


cume 


nie dat «elvicoUs. (NoU d« B. d 


e M.). 



D,ji,z,db,Goo<^le 



ENTHE 03 B0BÔB03 485 



apparece um novo phenomeno, estão promptos com a sua 
explicação por meio do bári. Um bári é a grande cobra de 
agua, pintada, que nós chamamos arco-iris (41). Um ma- 
gnifico meteoro, que caiu durante a nossa estada alli, era ^ a 
alma de um bári*, que de repente appareceu, afim de com- 
municar aos Bororós que clle tinha vontade de comer « carne 
de caçador » e havia de mandar a um dellcs a dysenteria. A 
sccna, mediante a qual tentam evitar essa desgraça, merece 
descripção pormenorizada . 

O meteoro scintillou no espaço a 14 de Abril, ás 8,35 
da noite, para o lado do Sul, como uma bola de mais ou 
menos um quarto do tamanho da lua : passou por sobre todo 
D pateo um brilho intenso. Caiu muito ligeiro, em 45°, na 
direcção de Leste, deixando atraz de si um rasto do tamanho 
de quatro bichos de pé celestes de primeira grandeza e di- 
vidido em duas partes, como um bastão, na extremidade com 
o brilho de estrellas e no disco fulgcntemente azul. Durante 
quatro minutos, julguei vêr ainda aquelle rasto como uma fu- 
maraça embranquiçada . 

No mesmo instante em que appareceu o meteoro, resoou 
do lado dos Índios, partida de cem vozes, uma gritaria alta 
e continua. De todos os pontos precipitaram-se para o ran- 
chão, onde, durante algum tempo, borbulhavam para dentro 
e para fora, como um formigueiro assustado. Em seguida 
dirigiram-se para a parte do pateo próxima da margem do 
rio. Accenderam alli algumas fc^ueirinhas, e logo se viram, 
assentados ao longo das cabanas, muitos pequenos grupos 
de homens, mulheres e creanças, phantasticamente allumia- 
dos. Como eu me houvesse ausentado por alguns minutos, 
voltei attrahido por um grande barulho. Dous baris, sobre- 
modo pintados de urucú, estavam no meio da multidão e, 
andando em roda excitados, cuspinhavam para o céu, ba- 
bando ainda um pouco de saliva, do mesmo modo por que 
os Índios do Kulisehú conjuravam as nuvens de tempestade. 
Enfrentando então o ponto em que tinha apparecido o me- 



(41} Os Borõroi dto tn 
t Sucuri > (c Boa wytate ■ 
c graphsm <jlir«i, ciradi 
lola ái B. de MJ. 



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406 RE?I3TA DO IKSTITUTO HISTÓRICO 

teóro, ululavam com voz ameaçadora, pávida: — vué; vuê I, 
tapando a bocca com o concavo da mão e extendendo para 
o céu o braço esquerdo, no qual cada um empunhava um 
feixe de cigarros de palha de milho do comprimento de um 
palmo. ■ — «Aqui, olha bem, pareciam dizer, todo este tabaco 
sacrificamos, afim de afastar o mal. Ai de ti, si tu não nos 
deixas em paz ! > 

Uma singular mixtura de medo e coragem, sendo que 
esta, infelizmente, tinha o seu tanto de artificial, como na 
conjuração do perigo dos Caiapós. O tremor augmentou- 
Ihes, o corpo todo lhes vibrava, a cabeça inclinada para traz 
vacillava, e, com movimentos convulsivos, apalpavam e fric- 
cionavam peito e ventre, como que para fazer sair delles todo 
o mal. Depois de ter esta scena durado algum tempo, tJra- 
ram-lhes das mãos os feixes de cigarros e os accenderam ao 
fogo, enquanto os excitados « curadores » descansavam uns 
momentos, gemendo c tremendo de medo. Meia dúzia de 
homens levantaram-se, deram para seu consolo e fortificação 
umas chupadas e cRtão entregaram os cigarros aos baris, que 
immediatamente recomeçaram o seu processo de cura. Os 
baris chuparam no feixe inteiro, berraram contra o céu ainda 
mais viva e increpadoramente do que antes, esfriaram ainda 
mais o ventre, coçaram fortemente a cabeça, sorveram outra 
vez fumaça do seu feixe, sugaram convulsivamente na parte 
anterior dos braços, como si quizessem fazer o sangue subir 
do interior, e gritaram sempre mais alto: — vué; vuáu l, 
vuáu \ Extremeceram e sopraram em direcção ás estrdlzs, 
os seus membros cambaleavam, os seus músculos contra- 
hiam-se. 

Afinal começaram, de súbito, a pesquisar circunva- 
gantemente a multidão, como procurando alguma cousa: fa- 
lavam com os mais próximos, indigitaram um ou outro e 
depois entraram no grupo principal, onde sujeitaram a uma 
pequena cura um ancião alquebrado, o .cacique Domingos, 
e a alguns dos mais distinctos, que, naquelle caso especial, 
pareciam suspeitos. Levanfavam-lhes a cabeça, inspeccão- 
nando-os penetrantemente, e, dizendo — pzu, psu; perdigo- 
tavam-lhes de cuspo a cara, tomando a gritar, por detraz do 
concavo da mão, o seu ameaçador vâu ! ou ura estridente 

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ENTRE 03 BOBÔROS 48? 

hahahó, e nâo se exquecendo de acabar de fumar o seu feixe 
de cigarros. O coro tinha-se em geral conduzido séria c 
quietamente; apenas uma ou outra vez rompeu em um uni- 
sono Ituhá, o que agora pelo fim repetiu triumphantemente, 
quando os dous « doutores » se retiraram batendo os dentes 
e murmurando com calafrios — tédede, tédede. Resoou a noite 
inteira o canto de aroé. 

Tinham aqui applicado a fumaça de tabaco, do mesmo 
modo por que contra a tempestade haviam empregado o 
cuspinhar, e eu tive a impressão de que a fumarada do 
«medico» se parecia com o incensamento . Talvez isto seja 
importante para se comprehender o sentido primitivo do 
methodo de curar. 

Domingos tinha tido, dous dias antes da conjuração do 
meteoro, um ataque de fraqueza. No terceiro día, 17 de Abril, 
estava doente e parecia achar-se muito incommodado. Arras- 
tava-se timidamente de um logar para outro, tendo as mãos 
envoltas em trapos e a cabeça e a cara embrulhadas, de ma- 
neira que não se podia reconhece-lo. Como deixámos a co- 
lónia no dia 18 de Abril, não pudemos infelizmente verificar 
6Í lhe fizera ef feito o remédio empregado. 

Tradições sobre os antepassados. — Arigá-Boròro é 
o fundador da tribu. Tinha uma mulher. Arigá é o nome do 
puma. Mais tarde, dous homens e duas mulheres vieram do 
rio Barupáru para Leste sobre a terra e estabeleceram-se no 
S. Lourenço. Mais não pude colher. Clemente, para isso, 
era totalmente imprestável ; elle próprio não sabia nada a tal 
propósito, e arranjava as suas indicações conforme os co- 
nhecimentos que possuía do Brasil, dizendo que os Bororós 
tinham vindo originariamente do Rio de Janeiro. Consoante 
com o que pude entender, os Bororós moravam, desde o 
tempo em que deixaram o céu, nas cabeceiras do S. Lou- 
renço, e aquella chegada de Leste nada tem que ver com as 
migrações da tribu, mas, sim, é apenas outra vez o resultado 
da mui natural reflexão de que o sol estava de posse dos 
antepassados e que estes, portanto, haviam de ter morado 
lã donde nasce o sol. 

Moguiocúri € é muito creança >, — dizia Clemente, — 
pois não sabia nada, e tsto ficou confirmado pelo facto de que 



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488 REVISTA DO INSTITUTO IllSTORICO 

O cacique não tinha conhecido o avó, como elle me confessou. 
Um ancião longevo, que realmente sabia alguma cousa sobre 
a creaçào do mondo, — pois tinHa ouvido do seu avô, que a 
ella estivera presente, as circunstancias mais próximas, — 
uma tão preciosa testimunlia infelizmente estava ausente, 
na caça. 

Mesmo as informações sobre outras tribus, com as quaes 
os Eorõros tinham relações, eram muito escassas, restrin- 
gindo-se a algumas indicações relativas aos Caiapós, — que 
tinham arcos lisos e curtos, mas muito duros e fortes, flechas 
de taquarinha um tanto pequenas, com pennas costuradas c 
dous ganchos de ferro, e lambem uma chata clava de pal- 
meira seriba, em fornia de peixe, com i^^.o de comprimento, 
e pendurada do pescoço por meio de uma corda. 

Porém, afora os Caiapós, ainda havia outros vizinhos 
exquisito, na tribu dos Rarái, também chamados baredie- 
ragúdo. Vêem-se elles só de noite, e dous a três; usam 
de mantos de embira, e são empretecidos, nunca de cór clara. 
São macacos. Elles tinham, num ou noutro logar, arremes- 
sado os Bororós ao chão, fugindo em seguida . Clemente, — 
e o que elle dizia não era destituído de valor, porquanto re- 
petia exactamente informações colhidas dos próprios índios, 
^jurava a pés firmes que os Rarái eram macacos, que não 
tinham flechas, mas tomavam do chão pedras e paus para 
atirar, e que tinham (jarruchas, « pistolas * como as que os 
camaradas brasileiros e, portanto, também os negros e es- 
cravos fugidos possuíam geralmente. — « São macacos e ati- 
ram com pistolas?»' — «Sim, são macacos, com pistolas de 
ferro » . O negro, portanto, tem a escolha agradável de ser 
macaco ou urubu preto. Mas, deve-se sempre ter em vísta 
que não ha limite entre homem e animal, e que a posse dt 
objectos civilizados também não quer dizer nada. Si os ma- 
cacos têm pistolas, então não se pôde dizer que elles não as 
tenham. 

Língua.. — O material linguistico, colleccionado entre 
os Bororós, e que talvez seja sufficiente para darão menos 
idéa dos mais importantes elementos grammatícaes, . ainda 
não está preparado. Até agora, ainda não pude descobrir 
nenhum parentesco linguistico com outros idiomas conhe- 



ço byGoOglc 



ESTRE 03 nORÔROS 



489 



eidos. Em todo caso, os Bororós não pertencem ao grupo 
tupi, nem ao gê, nos quaes se poderia pensar. Também não 
seria nada de admirar, si todos estes exforços ficassem im- 
profícuos, porque a vizinhança do seu território, em grande 
parte, já desde a primeira colonização de Mato-Grosso, 
atravessou ejKíchas de grande perturbação. Ao Norte exten- 
de-se a estrada que vai para Goiaz, que elles muitas vezes 
assaltaram ; ao Sul appareceram as levas dos descobridores 
idos de S. Paulo; e aqui, como acolá, houve, durante longos 
annos, caçadas de escravos. 

A lingua é harmoniosa e parece de facil aprendizagem. 
Das consoantes falta somente o /, abstrahindo-se de foto-gúro 
(42), que significa c saliva > ^ consoantes duplas são raras; 
a desinência é vocálica. O accento recai em geral na penúl- 
tima syllaba. Não existe terminação plural para o substan* 
tivo. Os pronomes pessoaes independentes são: — 1) imi, 
eu; 2) áki, tu ; 3) ema, au, elle; 4) paghi, nós; 5) taghi, vós; 
6) emaghi, elles. Os correspondentes suffíxos pronominaes 
para o substantivo e o verbo são : 

i) '■; 2) a; 3)—; 4) pa; 5) te; 6) e. 

No seu uso apparecem diversas formas de mudança de 
phonema e influencias sobre o radical inicial. A titulo pro- 
visório, vou dar alguns exemplos: 



i) i-wiia 

2) a-wiia 

3) í"''o 

4) pa-wiia 

5) le-wiia 

6) e-iviia 



iketio 
a-keno 
eno 

pa-ghetto 
le-gkeno 

e-keno 



i-laura 
a-kaura 
kaura 

pa-gaura 
le-taura 
e-taura 



%-iua 

o-fua 

tua 

pa-dua 

tcdua 

e-tua 



Os números seguem o eschema dos Bakaeris: — i, 2, 
.1, 2. .2, 2. .2. , I, 2. ,2,, 2. / chama-se mito, s pól 






3 possDc ■ língua barõro o 
ilenaniínte it íccõrdo cor 



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490 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

esses, porém, apparecem nos termos seguintes, então tomam 
accrescimos, nos quaes podemos distinguir os pronomes da ter- 
ceira pessoa, ema e au (este). No numero j ainda está. con- 
tida a negação bòcua, bocuárei pobéma au metiiia (também 
metia) bocuáre, e isso parece significar: — aqui tenho dous, 
lá não mais do que um > . 4 é pobéma augure pobe, isto é, 
« aqui dous e lá também dous ■>; 5 é pobéma augure pobéma 
áu tnetúya bocuáre; ó é augure pobéma augure pobéma au- 
gure póbe. Com grãosinhos fizeram a formação de grupi- 
nhos de dous, exeactamente como os Bakaeris, e do mesmo 
modo foram consultados os dedos. O meu desejo de conhecer 
os numeraes foi interpretado, sempre e sem excepção, como 
EÍ eu desejasse a enumeração dos parentes. O interrogado 
batia no peito, dizendo: — «eu», e contava mãe, pae, ra- 
pariga, rapaz, com ou sem adjudicação de um e dous, fazendo 
corresponder a cada dedo um membro da famitia. Não pude 
descobrir si os dedos, como taes, têm nomes de parentes; 
julguei, a principio, que o pollegar fosse mãe, mas fiquei 
duvidoso a respeito disso, porquanto as indicações digitaes 
variaram por parte de outras pessoas, devido ás circunstan- 
cias especiaes da familia. Aquj, o seu interesse capital era 
evidentemente o enumerar. Acredito, portanto, que tambeni 
aqui o seu proceder era o seguinte: citavam uma porção de 
pessoas, marcando-as pelos dedos, e empregando para isso 
demonstrativos ou pronominaes, o que, para o começo, era 
a mesma cousa, e determinando o limite para dous não na 
mão, porém, sim nas cousas, quebrando uma em duas partes 
e solvendo o calculo por meio dos dedos. 



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MANUEL MARCONDES DE OLIVEIRA E MELLO 
(ruuEuta bauXo de piMDÀUOKojitiaABA] 

NOTAS BIOGRAPHICAS 



Dr. JoXo Marcondes de Modra Romeiro 



D,Bi,z,db,Google 



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iniDEl UnES DE gUHIHII E UILO 



■ NOTAS UIQCRAPHICAS 

Quando algueiii se dispõe a traçar a biographia de quem 
quer que seja não pôde deixar de ser sua principal preoc- 
cupação a feição moral daquelie que, por se haver salientado 
entre os seus contemporâneos, o induziu a faze-lo reviver. 

Com referencia ao honrado conterraned, de quem nos 
occupamos, não será fácil esta tarefa. 

Estudando a vida do coronel Manuel Marcondes de 
Oliveira e Mello, primeiro barão de Pindamonhangaba, não 
se sabe á primeira vista si se tracta de um cidadão natural- 
mente democrata ou de um genuíno representante da velha 
e enfezada fidalguia portugueza, para quem se justificavam 
todas as oppressões exercidas pela realeza contra o povo. 

A ouvi-lo fallar da familia imperial e notando-se a ve- 
neração e respeito, que consagrava a Pedro i" e ás pessoas 
qite entulhavam o Paço, parecia que não poderia haver nin- 
guém que o excedesse em dedicação á monarchia. No en- 
tretanto na vida intima e tractando com particulares, era de 
uma burguezia exagerada e que talvez não condissesse com 
o logar, que occupava no meio social em que vivia. E o que 
é mais, nas poucas vezes que teve de intervir na politica do 
paiz foi sempre para defender a causa do povo. 

O coronel Marcondes, primeiro barão de Pindamo- 
nhangaba, militou toda a vida no antigo partido liberal, accoin- 
panhando de coração a politica dos Andradas e de Feijó, dos 
quaes era admirador sincero. 



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494 REVISTA DO IKSTITUTO niSTOHICO 

Em 1842 adheria de prompto á revolução chefiada pelo 
brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar e prestou aos revoltosos 
de nossa cidade o apoio e protecção de que precisavam. Todos 
os seus aggregados e camaradas tomaram armas e para re- 
sistir aos « legaes > se prepararam . 

Dir-se-ha que assim procedia por acconipanhar seu ermão, 
monsenhor Marcondes, de quem era amigo extremosissimo, 
e que andava na mais estreita correspondência com o briga- 
deiro Tobias. Mas não é exacto; embora se mostrasse cau- 
teloso e prudente, e não quizesse assumir a responsabilidade 
de possíveis violências, que eram de esperar dos mais exal- 
tados, o que é certo é que pela causa dos revoltosos tinha 
real e sincera sympathía. 

Como se sabe, foi nossa cidade um dos baluartes da revo- 
lução. Eram trez as localidades do Norte de S. Paulo dis- 
postas a accompanhar Tobias até seus últimos momentos: 
Ptndamonhangaba, Lorena e Arêas. E não seria possivel que 
o espirito de revolução fosse tão bem acceito no nosso mu- 
nicipid, si monsenhor Marcondes, que era chefe de grande 
prestigio do partido liberal, e seu ermão o barão de Pinda- 
monhangaba não tivessem esposado a causa sustentada pela 
inegualavel coragem de Tobias e pela reconhecida firmeza 
do dr, Gabriel Rodrigues dos Santos. 

Foi só depois da derrota dos revoltosos e da tomada de 
Sorocaba pelo barão de Caxias, que os filhos da nossa terra 
depuzeram as armas e debandaram. Até então mantiverám-se 
todos no seu posto, não lhes causando medo nem receio a pre- 
sença de Caxias em S. Paulo, nem a noticia de forças que 
vinham por terra, e já tinham saído vencedores de um com- 
bate em Arêaí, travado com paisanos arregimentados pelo 
tenente Anacleto Ferreira Pinto. 

Naquella epocha de abnegação e patriotismo ninguém se 
lembrava do interesse individual e todos se occupavam na 
cidade dos meios de defesa, no caso de invasão dos inimigos, 
e de promptidão se mantinham para cumprir sem demora as 
ordens, que pelos chefes lhes fossem transmittidas. 

Comprehende-se que não se sustentaria tão difftcil e pe- 
rigosa situação, si a ella não prestassem braço forte os dous 
> Marcondes, que eram sem contestação as pessoas de 

I. Google 



ÍIAXUEL MARCONDES DE OLIVEmA E MELLO A^Í 

mais influencia, mais ricas e de melhores relai;Ões e mais con- 
sideradas não só na terra do seu ' nascimento, coriío em todo 
o Korte de S. Paulo. EUes tinham o povo todo em suas mãos 
e podiam leva-lo onde quízessem. Ninguém com mais se^- 
rança podia dizer, como o chefe dos Tamoios: 

«O céo é de Tupá, a terra é nossa». 

A pureza de seu viver, o seu entranhado amor pelo logar 
em que haviam nascido, o cuidado que tomavam pelo bem 
estar e harmonia das famílias, entre as quaes viviam como • 
verdadeiros patriotas, e ás quaes apresentavam proveitosas 
licções no exemplo de sua vida perfeitamente correcta e ina- 
tacável — davam-lhes direito a essa posição que haviam 
alcançado, e que em parte tinham herdado de seu pa^, o 
capitão-mór Ignacio Marcondes do Amaral. , 

Ninguém, pois, pôde duvidar que a attitude altiva e nobre 
em que se manteve a nossa cidade, no periodo revolucionário 
de 1842, era obra principalmente do barão de Pindamo- 
nhangaba, que procedia, em relação aos acontecimentos, com 
prudência, mas com firmeza e patriotismo. 

No entretanto, e era cousa de admirar, a esse espirito 
tão liberal, e quando no paiz já tinham echoado as idéas repu- 
blicanas — o governo de uma nação se afigurava inteiramente 
incompatível com outra forma que não fosse a monarchia. 

No modo de ver cio 1° barão de Pindamonhangaba o 
direito de governar um povo e reger os seus destinos vinha 
de Deus. Para elle as familias reinantes constituíam uma 
casta separada com attríbutos especiaes que lhe davam capa- 
cidade e aptidão, que os outros homens não possuiam, para 
exercer os poderes magestaticos. 

Si tivesse vivído nos tempos medievaes traria com cer- 
teza esta legenda em seu escudo : « Pela Pátria e pelo Rei — • 
Neste ponto era írreductivcl. A' pessoa do monarcha votava 
respeito religioso. 

Não SC supponha, que se servisse de baixa adulação para 
se fazer credor da affeição da gente do Paço, ás quaes tractava 
com a maior consideração, é certo, mas também com digni- 
■ dade e com muita nobreza. 

O primeiro barão de Pindamonhangaba foi guarda- 
roupa do imperador Pedro I, e mais tarde foi nomeado 

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496 KEVISTA DO 1N9T1TDT0 HISTÓRICO 

veador de s, m. a imperatriz d. Leopoldina, primeira mulher 
do imperador, de quem vivia nas melhores graças, ao que 
parece, por saber eila que o coronel Manuel Marcondes era 
dos poucos amigos de d. Pedro, que não applaudiam suas 
escandalosas rapaziadas. 

Em sua viagem para S. Paulo, em 1S22, e nas vésperas 
da proclamação da Independência, d. Pedro, passando por 
esta localidade, hospedou-se com o barão, com quem passou 
■ um dia de descanço, mostrando-se sempre muito commu- 
nicativo e satisfeito. E daqui seguiram junctos, depois de 
reunida a Guarda de Hoiíra, sob o commando do coronel 
Manuel Marcondes, que teve a gloria de ser uma das prin- 
cipaes testimunhas do grande acontecimento passado nas 
margens do Ipiranga. 

E com que prazer relatava o nosso illustre e honrado 
conterrâneo as scenas, que alli se realizaram e que constituem 
facto único, na vida das nações ! 

c No dia 7, sobre a madrugada — contava o velho servidor 
da pátria — deixámos Santos em regresso para S. Paulo. 
D. Pedro vinha montado em uma possante besta gateada, e 
não em cavallo mineiro, como inventaram os nossos novel- 
listas. Em toda sua viagem mostrava-se agitado e appre- 
hensivo, adivinhando todos que eram noticias de Portugal que 
o impacientavam. 

Logo depois que subimos a serra do Cubatão, queixou- 
se o príncipe de ligeiras cólicas intestinaes, vendo-se por isso 
obrigado a apear-se para attender ás exigências da natureza. 
Pouco havíamos caminhado, e elle teve necessidade de nova- 
mente apear-se para o mesmo fim. Percebendo então que 
continuava o incommodo, deu ordem i>ara que a Guarda se- 
guisse adeante, caminhando elle mais á vontade e socegada- 
mente com toda a comitiva, que o accompanhava desde o Rio. 
Assim fizemos; mas ao chegarmos ao Ipiranga', já muito 
perto de S . Paulo, e onde havia uma pequena casa de negocio, 
fiz a Guarda suspender a marcha, esperando por d. Pedro', que 
não iM)dia entrar na cidade sem ser devidamente escoltado. 

Pouco tempo alii estivemos em descanço, e sempre com • 
os olhos voltados para a estrada, quando se nos apresenta um 
official, chegado do Rio, pedindo noticias de d. Pedro, a 

lyCOOglC 



K&NUEL lURCONDCS DE OLIVEIRA E HBLLO 497 

quem precisava entregar, e com urgência, papeis de stimtna 
importância que lhe eram enviados por José Bonifácio. Com- 
prebendemos,, mais ao menos, que se tractava da posição de - 
s. a. perante as Cortes de L,Ísboa, que todos sabiam qu,e 
eram contrarias ás idéas nactonaes do príncipe, a quem por. 
isso procuravam afastar do Brasil. Esta supposição ainda 
mais robusteceu-sc quando nos informou o mensageiro que, 
um dia antes de sua partida, havia ancorado no porto do Rio 
uma galera procedente de Lisboa. Contamos-lhe que d- Pedro 
não podia demorar-se, e elle partiu logo a seu encontro. 

Dividimo-nos então em grupos, onde as conversas con- 
sistiam em conjecturas sobre o assumpto daquella commissão; 
mas todos attentos e á espera do signal que nos devia trans- 
mittir a sentinella, que mandei postar em Ic^r mais eminente, ' 
e donde se descobria longa extensão da estrada, por onde 
vinha o principe. 

Teria decorrido um quarto de hora, quando nos foi an- 
nunctada a chegada de d. Pedro, e Ic^o ouvimos o tropel da 
cavalgada que vinha pela estrada, galopando. Immediata- 
mente procurámos nos pôr sobre nossos animaes, e saímos 
a encontra-lo. Mas ainda a Guarda não pudera pôr-se em 
forma e já d. Pedro era chegado, visivelmente agitado e 
satisfeito, com as faces radiantes e amarrotando na mão di- 
reita um grande maço de papel. Pudemos apenas formar um 
meio circulo, envolvendo sua pessoa. 

Foi então quí, descobrindo-se e com voz firme e tim- 
brante, annunciou-nos a resolução que tomara no momento de 
declarar a nossa pátria independente. 

< — Amigos, disse d. Pedro, não é mais possível vi- 
vermos sob o dominio de Portugal, que persiste era contrariar 
as mais justas aspirações do povo brasileiro ! Somos livres e 
de ora em deante que seja a nossa divisa : — Independência 
ou morte ! » — E ergueu um viva ao Brasil independente. 
Nem se pode imaginar o immenso enthusiasmo, que o 
extraordinário acontecimento nos causou. Levantámos repe- 
tidos vivas a d. Pedro, e ao Brasil, procurando ao mesmo 
tempo cada qual tomar logar no cortejo, que tinha de accom- 
panhar o príncipe; pois d. Pedro proferiu aquellas palavras 



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496 WMlSTk DO INSTITUTO lUSTORlCO 

e foi logo voltando o animal em direcção á cidade de S. Paulo, 
e a meio galope caminhando, como costumava viajar. 

Quando chiámos á cidade, já estava conhecido o facto 
estupendo, que se passara no Ipiranga. Pelo menos ninguém 
se mostrou surprehendido com a noticia que levávamos. Pa- 
recia que a voz de d. Pedro echoara até S. Paulo, cuja popu- 
lação cruzava as ruas, mostrava-se extraordinariamente ani- 
mada, como é fácil de se imanar. 

De noite houve espectáculo, de gala, com a presença de 
s. a. O theatro, que ficava no largo do Palácio e era muito 
acanhado, regorgitava de gente, tendo comparecido o alto 
funccionalismo de S. Paulo, e todos que puderam alli achar 
logares. 

A' hora apropriada, e quando começavam a se impa- 
cientar os espectadores com a demora do príncipe, eí-lo que 
surge em seu camarote, accompanhado dos mais graduados 
representantes do governo. A' sua presença reboou por todo 
theatro uma prolongada salva de palmas, sendo em s^uida 
levantados muitos vivas a d. Pedro e ao Brasil, os quaes 
eram delirantemente correspondidos pela multidão. Logo de- • 
pois o padre Ildefonso Xavier Ferreira, que era dos mais 
exaltados, tendo-me consultado, e por que lhe respondi que 
me parecia agradável a s. a, trata-lo como imperador, — 
ergueu-se em seu camarote, e voltando-se para d . Pedro disse 
com o maior enthusiasmo: — Viva d. Pedro imperador do 
Brasil ! O povo redobrou de enthusiasmo e animação, prin- 
cipalmente quando viu d. Pedro agradecer, fazendo, com a 
cabeça, um signal de assentimento. 

De então em deante ninguém mais quiz saber do que 
se ia representar, trans formando- se o theatro em uma com- 
pleta assembléa, onde só se tractava e discutia o heroísmo 
do príncipe e sua dedicação á causa do Brasí), de quem se 
havia feito verdadeiro libertador. 

Passados estes factos, tractou d. Pedro de regressar 
com celeridade para o Rio, onde José Bonifácio o esperava 
para responder ao governo portuguez, e lhe communicar que 
o príncipe havia sido acclamado imperador do Brasil. Ao 
chegarmos a esta cidade, que era então simples villa, foi a 
guarda dispensada.de accompanhar o imperador, que s^uttt 



D z.cbyCOOgle 



HAKUEL MARCONDES DE OIIVEIRA E MELLO 499 

viagem, caminhando dia e noite, para, de concerto com seu 
ministro, providenciar sobre os meios mais acertados de ga- 
rantir a emancipação politica do paiz, que estava feita. 

Eis ahi como se passaram os factos, de que fui testi- 
munha, referentes ál proclamação da Independência, e nos 
quaes tive de tomar parte como commandante da Guarda de 
honra. E permitta-me dizer, d. Pedro foi um heroe 1». 

Assim fazia o barão de Pindamonhangaba a narrativa do 
que se passou nas margens do Ipiranga no dia 7 de Se- 
ptembro de 1822. 

Foi cc»ti esta exposição exacta que Pedro Américo, o 
grande pintor brasileiro, reviveu em uma de suas melhores 
telas a scena grandiosa, originada dos mais decididos im- 
pulsos do patriotismo, e toda elta envolvida em uma atmos- 
fera verdadeiramente cavalheiresca. Para execução do quadro 
histórico teve o distincto artista de visitar nossa cidade, para 
colher elementos que levassem sua obra a approximar-se 
quanto possível da realidade. 

Foi aqui que o artista ficou conhecendo os capacetes, as 
espadas, as dragonas e os fardamentos, de que usavam os 
soldados e officiaes da Guarda de honra. Daqui levou também 
os retratos, que poude encontrar, dos guardas que foram tes- 
timunhas da acclamaçào de d, Pedro, nas margens do Ipi- 
ranga. Considerava o illustre pintor que devia preferir as 
pessoas que realmente faziam parte da Guarda de honra, para 
aym ellas preencher os logares, onde deviam se achar os 
fieis companheiros de d. Pedro. O barão de Pindamo- 
nhangaba lá está; é aquelle que segue na frente, de espada 
em punho e galopando ao encontro do princtpe. A seu lado 
devem caminhar José Romeiro, Manuel Ribeiro do Amaral 
e Manuel de Godoy Moreira, também nossos conterrâneos. 

Aos que tiveram occasião de tractar com estes, d' 
acabrunhados pelos annos, não será facíl reconhec» 
tela de Pedro Américo que, para ser corrcctcí, precii 
dar mocidade e enfeita-los de bigodes, de que sõ 
quando em serviço e por exigência de d, Pedro. Mas 
que o illustre pintor teve em vista representa-los 
quadro, onde se destaca o barão de Pindamonhangal 

D: zPcbyCOOgIe 



500 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

perfil é conhecido, e deixa ver o desenvolvido órgão nasal, 
characteristico da familia. 

Como se vè, foi o barão de Pindamonhangaba um deli- 
gente e honrado servidor da pátria ; e nos tempos que cor- 
rem é bom consignar que nunca se aproveitou de sua im- 
portante posição para augmentar a sua. fortuna ; nunca em 
sua vida recebeu um real dos cofres públicos, por conta sua 
correndo sempre todas as despesas que lhe impunham os 
serviços da Guarda de honra. O mesmo se dava com todos 
que pertenciam a esta milicia, verdadeira guarda nobre, com- 
posta de moços das príncipaes famílias das provincías do Rio 
de Janeiro, Minas e S. Paulo; não só não recebiam soldo, 
como se mantinham a expensas próprias, notando-se que bem 
avultadas deviam ser estas, attento o grande luxo e esplendor 
com que se apresentavam. 

Verdadeira phantasia de d. Pedro, que por ventura 
deixou-se inspirar no pensamento que dictou a Napoleão a 
instituição da sua heróica e famosa < Garde Impériale >. 
Tinha uma organização toda especial a chamada Guarda de 
honra. Os soldados gosavam de honras de alferes, e as ou- 
tras patentes davam aos officiaes honras correspondentes ás 
de dous postos acima da sua graduação em outros corpos. 
E dahi decorria o direito, que tinha o coronel Marcondes ás 
honras de general. 

A Guarda se compunha de dous batalhões, de um dos 
quaes era o nosso conterrâneo commandante. 

Depois da abdicação de d. Pedro, em 7 de Abril de 1831, 
o coronel Marcondes afastou-se inteiramente da vida publica, 
procurando exquecer de uma vez o que se passava no Paço 
imperial; e recolheu-se á sua terra natal, onde pretendia viver 
o resto da vida, certo de que juncto de sua iliustre e extensa 
familia e no meio dos muitos amigos que contava, não lhe 
faltariam consideração, respeito e amizade, que era tudo o 
que então ambicionava. 

Conta-se que, dias depois da abdicação, passou por esta 
cidade um official que seguia para S, Paulo, levando offi- 
cios do Governo, Foi hospede do coronel, a quem relatou mi- 
nuciosamente os successos do dia 7 e a retirada do imperador. 
Informado do desastre de d. Pedro, mostrou-se triste e pe- 



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HAiniEL MARCONDES DE OLIVHRA E UELLO 501 

saroso, observando ao mesmo tempo que era aquillo de 
esperar-se desde que havia afugentado de juncto de si os me- 
lhores amigos, para entregar-se cegamente aos adversários 
do paiz. E accrescentoií, que a d. Pedro, apezar de suas 
muitas qualidades de imperante, faltavam moderação e pru- 
dência, predicados indispensáveis a quem se propõe a governar 
um povo. 

No segundo império, o coronel Marcondes £oÍ surpre- 
hendido com o titulo de barão de Pindamonhangaba (1856). 
Por esta forma procurou d. Pedro II dar testimunhr^ 
de seu reconhecimento aos serviços que o nosso conterrâneo, 
com a maior dedicação e lealdade, havta prestado a seu pae 
e ao paiz. 

O barão de Pindamonhangaba possuía varias condeco- 
rações, entre as quaes as dignitárias da Ordem de Christo e 
da Rosa e o offícialato do Cruzeiro, que se considerava dis- 
tincção das mais honrosas. 

Era filho de Ignacio Marcondes do Amaral, que foi du- 
rante sua longa vida capitão-mór da nossa villa, em que 
nascera ; era neto de António Marcondes do Amaral, o tronco 
da grande família actualmente disseminada por todo o paiz. 
Este António Marcondes, s^;undo informações colhidas pelo 
barão Homem de Mello, em assentos existentes no archivo 
da thesouraria de Porto Alegre, < era filho de Dionysio Mar- 
condes e sua mulher d. Maria Vieira, moradores na ilha de 
5. Miguel, reino de Portugal, o qual tinha sido mandado ao 
Brasil, como mestre da sumaca S. Boaventura, trazendo 
casaes e soldos de Dragões, um conto de réis da Real T'a- 
zenda e 22 barris de gerebita ; e por que sof f resse naufrágio 
nas praias do Bujurú, ficando salva a tripulação, depois de 
arrecadadas as mercadorias, intemou-se pelo Brasil, e veio 
estabelecer-se afinal nesta localidade > . 

Nasceu o i" barão de Pindamonhangaba em 1780, 
Foi casado em primeiras núpcias com d. Maria Justina 
do Bomsuccesso, filha do capitão Custodio Varella Lessa 
(barão de Parahibuna) o mais rico fazendeiro do nosso mu- 
nicípio. 

Enviuvando, casou-se mais tarde com d. Maria An- 
gélica da Conceição, de importante familia de Jacarehi. 



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$03 BEnSTA DO INSTITUTO WBTOUi» 

O ultimo quartel da vida passou na terra onde nascera, 
longe dos negócios públicos, mas sem nunca ter cedido das 
honras e prerogativas, a que lhe davam direito seus títulos 
nobitiarchioos. 

Vendo em seus ascendentes provas de fidalguia e de no- 
breza, entendendo dever honra-los, cercando-se de verdadeiro 
fausto e de grandeza, como suppunha exigir a posição que 
pretendia occupar entre os seus concidadãos. 

Senhor de grande fortuna, poude facilmente realizar esse 
ideal. 

Effectivamente, desde sua mocidade vivia em sua villa, 
como verdadeiro fidalgo. Já nesse tempo possuía carro ti> 
rado por bellas parelhas só para conduzi-lo ás festividades 
e reuniões, que em sua terra se effectuavam e â!s quaes se: 
dignava honrar cora seu comparecimento. 

Os criados que então o accompanhavam, conforme a 
moda da Còrtt!, vestiam calções e usavam chapéo armado. 

Em sua residência teve á honra de, por varias vezes, 
hospedar com verdadeira sumptuosidade o imperador Pedro 
I* e sua comitiva, e desempenhou esta tarefa sem precisar 
recorrer a extranhos. Quer dizer que tinha á mão todos os 
recursos para receber e obsequiar as pessoas, que por ventura 
o procurassem, mesmo que tivessem direito a hospedagem 
principesca . 

De facto, o que havia de mais fino em linho e seda en- 
contrava-se nos guarda-roupas de sua residência. E por- 
cellanas, crystaes e pratas para banquetes, ninguém possuía 
de mais gosto e mais riqueza. Sua nobre casa correspondia 
exactamente ao tractamento fidalgo de seus donos; guarnecida 
de finíssimos moveis, nella não faltavam objectos de arte que 
a ornamentavam. 

No meio deste fausto, que deveria ser difficil de man- 
ter-se, vivia o barão de Pindamonhangaba em companhia de 
seu ermâo e amigo, monsenhor Marcondes. E muito satis- 
feito, porque todos o estimavam e respeitavam. 

A's grandes solennidades religiosas comparecia sempre, 
e sempre rodeado de aparatei, que bem se pôde imaginar.- 
Abotoado em sua casaca de veador, toda recamada de bor- 



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KANOEL lURCÚNDBS DB OLITEUU B IfELLO SO3 

dados de ouro e cingindo longo espadim, occupava logar re^ 
servado juncto ao altar-mór. 

Alguém, ignorando o que era a sociedade de ent&o, poderá 
considerar extravagante e ridículo esse modo de vida, que na 
actualidade nos parece muito fora de propósito. 

Mas é preciso considerar que o povo desse tempo dava 
a maior importância ás exteríorídades, parecendo-lhe que 
03 homens valiam mais por aquillo que ostentavam, do que 
por sua capacidade moral. Questão de tempo e de costumes.- 

Basta lembrar que pessoas de tractamento não saíam á 
rua sem ser de chapéo alto, e que vereadores da nossa Camará 
Municipal tinham por dever rigoroso comparecer ás sessões 
encasacados. E tudo assim é. Haveria nada de mais extra- 
vagante que o uso de cabelleiras empoadas e de rabicho, com 
que, enfiados em calções e sapatos de fívella, ainda no tempo 
da Independência, se apresentavam em público os altos f unc- 
cionarios ? 

O que é verdade é que todos achavam muito natural e 
ninguém deve poder suppo-lo um aristocrata intractavel e 
coronel Manuel Marcondes de Oliveira e Mello, primeiro 
barão de Pindamonhangaba, na terra de seu nascimento e 
no meio de amigos e parentes. 

Mas é preciso notar que, vendo-o no meio desse fausto, 
ninguém deve poder suppo-lo um aristocrata intractavel e 
presumpçoso. Comprehendia muito bem que nenhuma incom- 
patibilidade havia entre a verdadeira fidalguia e a urbanidade, 
e por isso tractava, a quem quer que fosse, com toda a consi- 
deração e cortezia. 

O barão de Pindamonhangaba era um homem bom, na 
significação da palavra. Foi sempre inimigo de luctas pessoaes, 
e quando se contestavam seus direitoí, referentes a interesses 
individuaes, não punha dúvida em ceder, para prevenir ca- 
prichos e paixões. Nunca em sua vida precisou recorrer ao 
poder publico para resolver uma pendência, que lhe dissesse 
respeito. Era sobretudo respeitador da lei, a qual com a maior 
satis facção se submettia. 

Apezar da importância que gosava, não consta que, 
em qualquer tempo, se aproveitasse de sua posição para ex- 
ercer vinganças ou para melhorar a sua fortuna. 



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S0i4 RETISTA 00 INSTITUTO BtSTORTCO 

Em sua vida nunca negou o seu concurso para os melho- 
ramentos, que podiam redundar em proveito do publico. Em 
seu testamento deixou importante le^do para o. estabeleci- 
mento de uma Casa de Misericórdia nesta cidade. £ a que 
ainda existe, e na qual são tractados os pobres da localidade, 
foi adquirida com o dinheiro que elle le^ou á pobreza. 

Falleceu o coronel Manuel Marcondes de Oliveira e 
Mello, 1° barão de Pindamonhagaba, nesta cidade, a 6 de 
Agosto de r863. 

Como se vê, soube elle honrar a terra em que nasceu, 
destacando-se nobremente em importantes acontecimentos da 
nossa Historia. E isto que para a nossa cidade deve constituir 
um glorioso património não pôde, não deve cair em exque- 
cimento. Si seus parentes não se descuidam de guardar com 
carinho e respeito estas lembranças, devem também seus con- 
terrâneos sentir prazer em recorda-las, pois as honras alcan- 
çadas por aquelles, a cujo lado nascemos, não deixam de 
reflectir sobre nós todos, a quem muito pôde aproveitar o 
exemplo suggestivo de uma vida honrada e nobre. 



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DAS ARTES PLÁSTICAS NO BRASIL EM GERAL 
E NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO EM PARTICULAR 



(CDRSO, EM CINCO LICçOeS, PROFESSADO NO INSTITUTO HISTOItlCO 
E CEOâRAPaiCO BRASILEIRO) 



Dr. Ernesto da Cuniu de Araújo Viana 



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Das Urtes plásticas id Brasil em geral 

e na cidade do Rio de Janeiro em particular 



CENSIIAI,IDADES KELATIVA5 As ARTES PLÁSTICAS NO BRASU; 

Sr. presidente do Instituto Histórico e Gcographico Bra-* 
sUdro. 

Meos senhores. 

Sinto-me abalado em falar no Instituto Histórico, abaladd 
e commovido por motivo de ordem tão intima, que, só fazendo 
violência ao meu temperamento, impeço de correr o pranto 
de uma saudade, que, quanto mais os annos passam, mais 
profunda se toma em meu coração reconhecido,. 

Relevará esta expansão, sr. presidente, v ex. cujo áureo 
traço de character foi sempre de encantadora e extremosa 
dedicação filial... 

Aos meus 63 Maios, cabe-me a honra de, pela primeira 
vez, tomar a palavra no seio do Instituto Histórico, da egrégia 
associação que teve durante largos annos como seu presi- 
dente Cândido José de Araújo Viana (marquez de Sapucahi) 
meu avô paterno, meu s^^ndo pac, porque do primeiro (*) 
fiquei orpham aos nove annos incompletos. No lar tranquillo de 
meus avós, os marquezes de Sapucahi, onde nasci e me edu- 
quei, juncto dos incessantes desvelos de minha 
sempre carinhosas e justas referencias ao InstÍtut( 
ambiente de modéstia e sabedoria que aprendi a 



{') o doaior mt Ifcdiciat Enitito AufUito de Aiknjo ^^m 



D,3t,ZBdbyGOO<^le 



ífX RPnSTK DO INSTITUTO HISTÓRICO 

venerar o Instituto Histórico. Não poderia, portanto, deixar 
de acudir ao seu chamado para a tarefa do curso, que inicio. 

Constará etle de cinco licções, occupando-tne na de hoje 
apenas de generalidades sobre as Artes plásticas no Brasil. 

Tractareí do assumpto com mais desenvolvimento, 
quando, nas subsequentes licções, o particularizar na cidade 
do Rio de Janeiro. 

Passo a cumprir uma ordem, que como tal devo consi- 
derar o convite do sr. presidente do Instituto. 

Meus senhores. 

As Bellas-Artes, segundo classificação moderna e accei- 
tavel, abraçam em synthese duas cat^orias: 

I.' Artes estáticas ou plásticas; 

2.' Artes dynamicas ou de movimento. 

As da primeira categoria são: a Architectura, a Esaã- 
piurtí e a PinturO;, as respectivas derivadas, subordinadas e 
annexas. Pertencem á segunda categoria: a Poesia, a Musica 
e a Eloquência. 

A dança, que impressiona pela vista e pelo ouvido, houve 
íjuem a considerasse Arle plástica animada, a estatuária viva 
íe movimentada. 

As Bellas-Artes da primeira cat^oria farão consequcnte- 
hiente o objecto do nosso curso. 

A Architectura, ao mesmo tempo arte e sciencia, subor- 
dina a matéria inorgânica ás formas rigorosamente geomé- 
tricas, e se rf^e pelas leis da estabilidade e da ornamentação.' 
São suas annexas: a arte dos jardins, o mobiliário, as artes 
decorativas ou artes menores, e também a Esculptura, a Pin- 
tura; enfim todas as artes plásticas. 

A Architectura é arte independente por exceUencia; é 
uma arte de Estado. 

A Esculptura imprime na matéria lenhosa, na matéria 
morta, na matéria inorgânica, as formas da vida. As mais 
importantes de suas subordinadas são: a Glyptica (gravura 
de medalhas), a Numismática, a Ourivesaria, a Cerâmica, a 
Vidraria, a Panóplia e a Indumentária. 

A Cerâmica e a Crystalaria auxiliam também a Pintura. 

A Pintura é a Bella-Arte, que, por meio de linhas, cores 
e matizes, simula, em uma mesma superfície plana, as trez 



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DAS ARTES PLÁSTICAS NO BRASIL 509 

dimensões do espaço. Delia se derivam : a Agua-forle, a Tape- 
taria, o Mosaico, o Esmalte, a Paleographia, a Calligraphia, a 
Diphtnalica, a Miniatura e a Heráldica. 

Consideram hoje subordinadas á Pintura as artes me- 
nores: a Lithographia, a Photographia, o papel de forrar 
muros e os tecidos de toda sorte, 

A Pintura tem géneros, e estes podem se executar por 
diversos processos. 

Está na consciência dos que comprehendem o sentir quão 
elevada é a missão social das Bellas-Artes, que educam o 
homem, o tornam bom, despertam e fortalecem o patriotismo.. 

Os characteres das Artes distinguem epochas e escholas. 
A Historia, mas a Historia não hyperbolicamente admirativa 
ou esbabacante, a Historia, com documentos comparados, 
ensina quaes as formas do todo e das particularidades que 
cada povo, desde afastados tt^pos, collocado em condições 
determinadas, deu ás producções artisticas. E isso como con- 
sequência do temperamento ethnologico, do clima, dos re- 
cursos moraes, da respectiva civilização, das necessidades, 
especiaes, e, finalmente dos costumes. 

O historiador de Artes plásticas deve conhecer e tomar 
por base de sua narração, simples ou philosophica, a evolução 
do ornato, estudado em suas formas geométrica e sentimental . 

Os artistas, desde os primeiros ensaios, não o gravaram, 
não o esculpiram, não o pintaram, discrecionariamente . Com 
a crescente cultura intellectual, a serie decorativa se cingiu 
a linhas entrelaçadas a principio, ou não; a essas linhas se 
s^uiu a imitação de accidentes do rosto humano, até á folha 
ou á flor, que indica estado adeantado de cultura. 

Não se comprehende historiar Artes plásticas, sem aquella 
exigência, para não se reduzir a Historia a emmierações, 
relações chronologicas ou descripções de monumentos, de es- 
tatuas ou de quadros, precedendo-as ou intercalando-as de 
commentarios encomiásticos. . . 

A Arte plástica humana teve, no ornato gravado, a sua 
primitiva manifestação. 

No Brasil os primeiros ensaios, as timidas e grosseiras 
tentativas de Arte occidental, não se fizeram em linhas de edi- 
ficação, nem na Estatuária, nem na Pintura, e sim na escul- 



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5 IO RETBT* no DWHTDTO mSTOMCO 

ptura de ornatos de altares e banquetas das toscas capellas 
da cathechese, levantadas pelos virtuosos padres da Companhia 
de Jesus, os mestres de aborígenes que foram o9 primeiros 
entalhadores. E' o que se deduz do estudo das chronicas. 

Mostrarei, quando me occupar das phases artísticas da 
cidade do Rio de Janeiro, a influencia do ornato, resultanifo 
do temperamento ethno1<^co dos colonizadores, e da prefe- 
rencia e acciimatação naturalmente dadas aos systemas archi- 
tectcmicos e decorrentes estylos decorativos em v^a na me- 
trópole. 

Por transformações passaram os diversos modos de 
c<»istrucção e as várias maneiras de ornamentar, conforme as 
revoluções rel^osas e políticas, as invasões e immígrações, 
que acarretam novas e imprevistas necessicbdes. 

Pelo estudo da doctunentação artistica, atravez dos povos 
e das epochas se observa o facto que, dos diversos elementos 
míxturados com os systemas e estylos dominantes, surge 
sempre novo aspecto, embora em nada original, desde que se 
proceda á analyse attenta dos characteristicos, mas que, por 
convenção, passa a constituir estylo, ganha supremacia, segue 
curso e acaba por attingir a derradeira phase. 

Nada mais interessante do que historiar a Arte no Ocd< 
dente até á epocha do descobrimento e colonização portugueza 
em nossas terras. Exige, porém, a matéria desenvolvimento 
superior aos limites do nosso curso. 

As Artes plásticas no Brasil abrangem dous grandes 
aspectos geraes: o prehístorico ou oriental, e o histórico ou 
Occidental . 

O primeiro se acha por estudar profundamente, apesar 
das importantes investigações, constantes dos Archivos do 
Museu Nacional^ e dos trabalhos de Ladislau Netto Ca- 
panema, Hartt, Herculano Penna, Couto de Magalhães, 
Charles Wiener e outros. Não faltam elementos para estudos 
dos objectos encontrados: nos sambaquis do nosso littoral, 
especialmente em Santa Catharina ; na epigraphia hiero- 
glyphica ou symbolica descoberta em rochedos de nosso terri- 
tório e nos escarpados dos valles dos nossos grandes rios, 
especialmente os que regam a região amazonica, e na estação 
funerária de Marajó, da qual Ladislau Netto fez recoosti- 



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.DA? ARTES KUnCAS NO BRAUL $11 

tuição graphica com a fornia do jaboti, animal sagrado entre 
aborígenes, cujas lendas Hartt narrou e foram publicadas 
nos citados archívos do Museu, assim coma a theoria sobre 
a gF^ ornamental lançada por esse naturalista. 

Não deixarei também de alludir, de passagem, e apenas 
em attenção á memoria de André Rebouças, ás suas cogi- 
tações insertas na Revista do Instituto Polytechnico Brasi- 
leiro, a respeito da hypothese polygenica de Edens, aliás 
inadmissível, que o notável engenheiro e sociólogo imaginou, 
pittorescamente applicando-a á formação dos primeiros nú- 
cleos humanos no Brasil. 

A estação funerária de Marajó lembra monumentos de 
povos da America, extinctos e de origem ignorada, quaes os 
dos mounds-bUders, estudados por archeol<^s americanistas. 

Os mounds, conforme desenhos da obra de Crottal, 
além de alguns apresentarem formas de sólidos geométricos, 
(Mitros as têm de animaes. E' celebre o mound da Serpente, 
em Ohio, nos Estados Unidos. A secção de Archeologia do 
Museu Nacional possue objectos gravados e pintados, nelles 
notando-se morphotogia linear e humana. Nos traços e colo- 
ração revelam oríentalismo. 

Confirmarão eguabnente a suspeita ethnographica alguns 
artefactos de aborigenes e a tatuagem, não exquecendo as 
conhecidas cuias, que para mím parecem um charão ingénuo e 
grosseiro. 

O aspecto prehístorico, que reclama successivas e demo- 
radas investigações, deve pertencer a tmia Archeolc^a, infeliz- 
mente ainda não constituída, nem disciplinada. . . 

No aspecto artístico occidental existiu a sabida phase 
hollandeza, no Norte do Brasil, aliás interessantíssima, porém 
mais do domínio da Historia Geral politica ou de informações. 
Não se perpetuaram (pelo menos não conheço nenhum), 
sobre o solo documentos de Artes plásticas, que influíssem na 
civilização implantada no paiz. Relativamente a esta phase, 
puramente histórica, ha escriptos luminosos dos srs. Oliveira 
Lima, Pereira da Costa e Souto Maior. 

O nosso programma refere-se especialmente ás Artes 
plásticas no Brasil português e no Brasil independente. Foi 



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512 REVISTA DO INSTITDTO BISTORICQ 

a civilização da metrópole a vencedora, continuada e cultí< 
vada até hoje, embora não tenham faltado attentados até 
contra as tradições da nossa vemaculidade porti^ueza. . . 

Portugal, ou melhor ainda, toda a Península Ibérica 
recebeu e acclimou, como seus, os modos de construcção e 
os estylos decorativos, emigrados de Itália, depois da epocha 
brilhante do Renascimento, guando artistas celebres quasi 
deliravam em composições curvilíneas, complicações ornamen- 
taes, entrando a concha, a rocalha, o rústico, e perdendo a 
architectura exterior a feição harmónica de suas linhas com 
os tumultos ornameotaes dos interiores. Desenvolvi este 
ponto em conferencia, que a respeito das Phases da Archi- 
tectura no Brasil fiz, em Dezembro ultimo (i), na Bibliotbeca 
Nacional . 

A colonização portugueza coincidiu com a epocha do en- 
thusiasmo pelos modos e estylos do barroco. 

A Arte estava ao serviço da Religião ; consequentemente 
os templos foram os primeiros a receber aquelles influxos, 
que perduraram, e só muito mais tarde passaram á edificação 
civil. Appareceu então, progressivamente, a Sumptuária nos 
interiores das casas, em seu mobiliário, na Indumentária civil, 
nos vehiculos de transporte. 

Nos interiores das casas; em seus tectos, na carpintaria 
e marcenaria das esquadrias dos batentes das portas e janellas ; 
nos respectivos caxilhos envidraçados; nas clarabóias; na 
serralheira das fechaduras das portas e bahás a rivalizarem 
com as das egrejas e conventos; no emprego do luxuoso da- 
masco a substituir tapeçarias na forraçao de paredes dos 
salões nobres; nas lâmpadas, nos espivitadores, nos foga- 
reiros defumadores, nos castiçaes, nas palmatórias, tudo de 
prata ou de casquinha simulando este metal; nos lustres de 
velas, dourados, com pingentes de crystal para a irização; nos 
azulejos historiados ou não, hoUandczes ou portugueses, a 
vestirem barras dos grandes saguões, corredores, e casas de 
jantar; nos leitos e suas colchas de seda oriental; nas arcas, 
nos armarias, nas mesas e cadeiras do nosso jacarandá e do 
mogno importado; nas baixelas de pratq, com brasões ou 



<i) Conlcrcncia ícaliitds a i6 d< Dciembio de i 



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DAS AllTES PLÁSTICAS KO URASIL 513 

iniciaes gravadas á guiza de monc^rammas ; finalmente na 
loui;a (ta Inclia, e generatizarain-se jardins characteristicos nos 
grandes solares. 

Resumindo direi que até 1817 o modo exclusivo de 
construir, quanto ás linlias systeniaticas e o estylo decorativo, 
quanto aos ornamentos, representam producto sincero e uni- 
forme do sentimento nacional, reflexo artístico dos séculos 
XVII e X\'III da metrópole. Longe estava a anarchia do 
século XIX !... 

Para o demonstrar basta que se percorra o Brasil, co- 
meçando da Bahia, e observar o que se executou desde as 
humildes capellas, com as incorrecções desculpáveis, até aos 
grandes templos definitivos da cidade de S. Salvador, os de 
Minas Geraes, S, Paulo, Parahiba do Norte, Pernambuco, 
Pará e os da cidade do Rio de Janeiro. 

Si me fosse possível destacar exemplos concretos, mos- 
tra-los, veriam que, constantemente, com pequenas dífferenças, 
por conveniência económica, a architectura exterior em geral 
de alguns edifícios religiosos tem infallívelmente as formas 
jesuíticas, e â de outros as linhas de rococõ; e no interior 
a sumptuária de Burromini na talha mural, nos aliares, nas 
balaustradas; nas molduras de quadros e espelhos, nos ar- 
caces, nas mesas, nos bancos, nos púlpitos, nas banquetas dos 
allcSres, na ourivesaria de prata em castigaes, lâmpadas, lam- 
padários e em outros objectos do culto. 

As velhas egrejas constituem verdadeiros museus de 
Archeol<^ia artística. Muitos trabalhos contemplados são da 
lavra, infelizmente, de artistas anonymos 

S. Francisco na cidade de S Salvador; 5'. Francisco 
em Ouro Preto; S. Francisco em S. João d'EI-Rei ; S . Fran- 
cisco na Parahiba do Norte ; algumas egrejas do Recife e 
Olinda ; de Alagoas, do Maranhão e outros estados ; S. Bento, 
S. Francisco da Penitencia e outras da cidade do Rio de 
Janeiro, possuem trabalhos inestimáveis: em Esculptura de 
ornatos, em Estatuária, mesmo em Pintura, em Ourivesaria, 
em miniaturas, em documentos paleoyraphicos e em Arcbeo- 
logia campanário. 

Em obras de relevo sobresaeni as dos precur.wres, dis- 
cípulos e contemporâneos de Chagas (o Cabra) na Bahia; as 

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SM REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

de António Francisco Lisboa C» Aleijadinho) e discipulos 
em Minas Geraes; e as de Valentim da Fonseca e Silva 
(mestre Valentim), seus discipulos e contemporâneos nesta 
cidade. 

Do Aleijadinho, em Minas (.cuja biographia publicou 3 
Revista do Archivo Publico Mineiro em 1896), ha mara- 
vilhas em madeira e pedra. Esmerou-se o artista no con- 
cheado, nas folhas, nos curvilíneos, nas volutas; é de admirar 
a estatuária, extasia a massa tfecorativa, an synthese e nos 
pormenores, das egrejas de Ouro Preto e S. João d'El-Rei, 
Lisboa (o Aleijadinho) fallecido a iS de Novembro de 1S14 
e Valentim (mestre Valeatim) fallecido em i" de Março 
de 1813, ambos Mineiros e mixtiços, considero os maiores 
artistas do século XVIJI no Brasil; o que penso ser hoje 
corrente, ou de facillima prova com documentação compa- 
rativa. 

Nos tempos coloniaes cultivaram a Pintura, a principio, 
artistas quasi auto-didacticos, e, apesar das difficuldades do 
ambiente, muito se exforçaram: não lhes foi fácil trabalhar. 
Mas á medida que augmentaram os recursos, redobraram em 
exforços, e alguns chiaram a attingir incríveis perfeições 
de colorido e perspectiva em quadros pintados nesta cidade. 

Adstrictos a assumptos religiosos, escasseou, na maioria 
dos nossos pintores coloniaes, originalidade nas composições ; 
poucos se entregaram ao género "do retrato e da paizagem, 
outros fizeram apenas decorações de claro-escuro. 

E' vezo formarem, a respeito de muitas das obras de 
arte coloniaes, juízos ou conceitos systemattcamente admi- 
rativos, quanto á invenção e lechnica, e com a maior facilidade 
classificam de obras sublimes a meros ensaios ou tentativas, 
aliás resultados de louváveis exforços, deante da relatividade 
do meio e dos meios. . . 

Citam na Bahia José Joaquim da Rocha, fundador de 
ama eschola de Desenho, e seus discipulos; em Minas, José 
Joaquim Viegas, que cultivou o retrato e teve discipulos, 

A evolução histórica da Pintura colonial nesta cidade, 
conheço pelo estudo e observação deante dos oríginaes. 

Auxiliava á Esculptura decorativa outro elemento lindo 
e precioso, a cerâmica historiada nas barras de oaves, capellas 



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BRASIL SI 5 

mores e recinclos claustraes. Azulejos primorosos existem 
ainda em egrejas e mosteiros nos Bstados e na cidade do Rio 
de Janeiro. Os do claustro de S. Francisco, em S- Salvador 
da Bahia, são dignos de inen(;ão (2) . 

A construcção dos ediíicios, enriquecidos posteriormente 
com obras de arte, teve a sua infância; mas... curioso e 
lógico, o que é natural, foi o encadeamento, conforme os 
recursos desde o pão a pique das capellas choças, desde o 
uso da taipa, dos adobes, da alvenaria de pedras seccas, de 
alvenarias de pedras argamassadas com cal, da cantai^a, 
augmentando gradualmente a solidez, até ás paredes de exces- 
siva espessura e secular resistência, rfypos dessa solidez 
espantosa «xempltf içam : os muros e abobadas de vetustas 
egrejas, conventos, fortificações e de algumas velhas pontes 
dormentes. 

Na especialidade lenhosa das construcções se observou 
similhante encadeamento. O primeiro official, da respectiva 
profissão elementar, foi o carpinteiro que preparou a grande 
Cruz inicial e armou o altar da Primeira Missa, missa re- 
constituída na celebre tela de Victor Meirelles, na qual os 
contrastes da indumentária do conquistador portuguez, do 
seu séquito, com o sitio agreste descoberto, e a multidão 
aborígene surprehendida, compõem um scenario de elevada 
emoção histórica. 

Os madeiramentos passaram por todos os systemas, a" 
começar pelo emprego dos páos rústicos como vinham dos 
mattos. Os forros dos tectos de coberturas apparec^am 
depois do muito uso da telha vã, á guisa do estylo latino da 
primitiva Architectura christã. 

O facto do Descobrimento lembra immediatamente a 
carta de Pêro Vaz Caminha, verdadeiro monumento tfa nossa 
Paleographia. Em estudos comparativos paleographicos, refe- 
ridos em curso publico do Pedagogium em 1903, deante de 
projecções luminosas, mostrei o facto da escripta de 1500 
se assimilhar com a castelhana, naturalíssimo, mas contendo 
interessantes traços exclusivamente lusitanos. O livro his- 



(1) Na cidadã do Rio do Janeira ha ainda iiaca contemptar velhos aiulejoi 
■u egrelas da Gloria do Ouicíro, de Sancti Cruz (antiga Faitnda Impcríatl e 
da PeuiH de Jacuípasuí. 



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5t6 REVISTA DO INSTITDTO HISTÓRICO 

panhol que me ser\iu de guia e mestre nesse assumpto data 
de 1870, e tem por titulo : Escola de lêr cursivos antigos e mo- 
dernos desde a entrada dos Godos em Hespanha até nossos 
dias, por André Merino de Jesu Christo, religioso professo 
das Escholas pias da província de Castella. 

Bibliothecas, conventos, archivos de irmandades, ordens 
terceiras, archivos officiaes, guardam preciosidades paleo- 
graphicas e calligraphicas, onde ha muito a estudar, a com- 
parar e a decifrar. Algumas são miniaturas e illuminuras de 
valor artístico. 

Vi, algures, no Convento do Carmo desta cidade, lindos 
exemplares de graphia attribuida a frades do Pará, de 1721 
e 1730. Constavam de frontespicios e letras iniciaes dos 
cânticos e hymnos com molduras, guarnições e demais orna- 
mentos, bem desenhados, imitações bysantínas e gothicas, 
com as cores admiravelmente conservadas. 

Quanto á Epigraphia, arte que se subordina á Pintura e 
é annexa á Gravura, possuímos bellissimas e characteristicas 
lapides tumulares nos cemeteríos claustraes, e ínscripções em 
carteias de obras publicas, principalmente em chafarizes colo- 
niaes, nesses edifícios de feição calma e bondosa, os quaes 
na Archeologia das cidades brasileiras retratam a historia 
da formação da nossa sociedade civil e documentam serviços 
da administração. 

Em uma aquarella, pintada na Bahia pelo fallecido ar- 
tista Henrique Fleiuss, pae do digno secretario perpetuo do 
Instituto Histórico, e que, no Rio de Janeiro, prestou valioso 
concurso technico ás artes graphicas, fiquei conhecendo, na 
paizagem de um pittoresco, inédito, a forma de velho cha- 
fariz bahiano, no qual se destaca um golphinho na parte mais 
alta. 

Os competentes consideram as ínscripções chrístans 
classe importante da Epigraphia. 

Os Romanos transmiti iram aos povos occídentaes a 
epigraphia latina, gravada ou em relevo, nas legendas hono- 
rificas, nos edifícios, nos sóccos, nos pedestaes das estatuas 
ou monumentos, nos túmulos, nas medalhas, nos escudos, em 
divisas, carteias, bandeiras e estandartes. No Brasil, onde 
o latim, durante muito tempo, se ensinou e se aprendeu com 



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D\3 MITFJ plástica!» NO TIRASIT. 51? 

seriedade, as inscripções e legendas latinas generalizaram-se, 
o que hoje se faz excepcionalmente. 

Não conheço lingua mais synthetica e de maior utilidade 
decorativa do que a latina. 

A Epigraphta muito auxiliou a Arte campanaria. Na 
Europa, ha alguns annos, os sinos figuravam, nos prc^ramnias 
dos estudos archeologicos e históricos, apenas como titulo 
do mobiliário ecclesiastico . Depois da publicação de Henri 
Jadart, em 1884, a respeito do celebre sino de Reims, foi 
que, entre os eruditos technicos, a matéria despertou interesse 
histórico e artistico. Fundou-se então a Archeologia cam- 
panaria, cujo melhor tractado é de Berthelé. 

E' assumpto de apparencia simples, mas que entretanto 
elucida pontos de importância histórica. 

Portugal importou sinos para quasi todas as nossas 
egrejas, poucos se fundiram no Brasil , Nelles se notam eras 
em relevo, ornatos, armas e symbolos. Em templos desta 
cidade dobram sinos seculares, aos quaes attribuem chronicas, 
algumas somente por tradição oral transmittidas . 

Os characteres no bronze dos sinos indicam que a Epi- 
graphia campanaria accompanhou bem de perto o que os con- 
temporâneos fizeram em carteias e nas lapides tumulares. 



Nas artes menores, ou artes applicadas, excluindo por 
completo os artefactos dos aborigenes, sobresaem pela origi- 
nalidade ; a arte chamada catharínense, a joalharia e os tectos 
rústicos de Minas Geraes, as indumentárias rio-grandense e 
bahiana, e finalmente o lindíssimo tecido que vulgarmente 
nomeiam de : — Rendas do Norte. 

A arte catharínense se poderá dividir em duas cat^orías : 
a mural e a applicada a objectos de mobiliário. A primeira 
consiste exclusivamente de mosaicos de conchas, escamas de 
peixe e de pennas, e a segunda de vários objectos, quaes pe- 
queninos leitos decorativos e Joías com caramujos. 

O mestre em bonitas composições foi o illustre Catha- 
rínense Francisco Xavier Cardoso Caldeira (o Xavier dos 
Pássaros) fallecido em 1810, o qual com Francisco dos Santos 
Xavier ( o Xavier das Conchas) que segundo o sr. Henríqi 



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■ Coosle jM 



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5(8 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Boiteux (3), aprendeu a especialidade em Sancta Cãtharína, 
auxiliou a mestre Valentim nas ornamentações dos pavilhões 
do Passeio Publico. 

Na joalharia de Minas Geraes a originalidade está no 
emprego do coco estriado ou' lapidado, como as antigas jóias 
inglezas de carvão de pedra. 

Os tectos rústicos, que observei em modestissímas habi- 
tações de arraiaes, em Minas Geraes, reduzem-se a esteiras 
compostas de varas de taquara caprichosamente trançadas, 
resultando um tecido forte. Os trançados geram figuras re- 
ctilineas, tangentes e seccantes, enfim uma espécie de mo- 
saico, tosco e grosseiro na verdade, mas em não poucos ha 
desenho espontâneo. Quem sabe qual será a evolução desses 
tectos nas habitações campestres? 

Nas artes applicadas á indumentária tndigena são typicos : 
a sumptuária do trajo completo do gaúcho e a do vestuário 
das mulheres bahianas de cõr preta, nos dias de tafularia em 
sua terra natal. Estas duas indumentárias fornecem matéria 
de Ethnographia comparada e themas pittorescos para quadros 
de costumes. 

Não poderei exquecer as redes, evolução aborigene, que 
serviram e ainda servem em certas localidades de meio de 
transporte e até de féretros transitórios para cemeterios de 
Ix>voaçÕes ruraes. Pertencem hoje mais ao mobiliário pro- 
vinciano, como leito ou movei de descanso. Fabricam-se lu- 
xuosas, com malhas, crivos, franjas, listas coloridas e com 
vários enfeites ingénuos ou imitados. 

Chanfrando cantos de varandas abertas das nossas habi- 
tações de campo, a rede, além do conforto, que proporcionará 
áquelles que a apreciam por esse lado, será nota decorativa 
Complementar. Assim saibam escolher o typo e adopta-lo no 
ponto mais conveniente do compartimento... 

As belHssimas rendas de bilro, tecidas especialmente nos 
Estados do Norte, constituem outra especialidade indígena de 
Arte applicada. 

Na historia universal das rendas artísticas se dividem 
estas em rendas de aqttlha e rendas de bilro. 



XaviíT <Jo5 Passart», no «Jornal do Conunercío», de 1 



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DAS ARTE3 PLÁSTICAS NO BRASIt glÇ 

'' O crivo (ou labyrintho) incluo naqiiella categoria, porque 
e com agulha que elle se completa. 

No Brasil, do mesmo modo que na Bélgica, na Itália ou 
na França, tecem outra espécie, a cotijuncta — isto é, parte 
feita a agulha e outra a bilro. Ha bonitas variedades desta 
espécie, fabricadas em Alagoas, no Ceará e no Maranhão. 

Fiz estudos demorados a respeito das rendas, estudos 
que em resumo publiquei no Brasil Artístico (4) . 

No Norte do Brasil usam das linhas de novello, de car- 
retel, de meadas, de algodão, linho ou seda, e também do fio 
extrahido da fibra da palmeira tucum, fio comparável, na 
finura e resistência, ao do algodão de Alcântara no Maranhão 
ou ao do Egypto. Tecem também rendas com fios da bana- 
neira .; 

A arte da renda é bella « feliz applicação do Desenho ao 
trajo e a accessorios do mobiliário. No século XVIII, em 
plena tyrannia da rocalba, tiveram culminância as rendas de 
bilro. Inventaram-se desenhos originaes. Para o trajo femi- 
nino, vaporoso, de fazendas diaphanas e transparentes, se 
adoptou feitio apropriado ao emproo do novo ornamento; 
primorosas composições cobriram então de prestigio as rendas 
de bilro ! 

A renda de bilro, que começara modesta e timtda, a 
principio estreitinha, a orlar somente roupas brancas, afinal 
se tornou na Europa tão preciosa como a da agulha. 

As primeiras mestras em rendar, vindas de Portugal 
para o Brasil, aprenderam com rendeiras de Puy, em França. 

Penso não soffrer duvida, estudando-se as phases do 
tecido, que o primitivo ensino, em Hispanha, Portugal e Ame- 
rica, foi devido ás mestras ou discípulas de Puy. A industria 
artística é peculiar ás localidades portuguezas ao longo da 
costa, facto que se observa também no Brasil. 

A's rendas do Norte mais apreciadas chamam de rendas 
do mar ou da praia, isto é, as tecidas no littoral. 

As artisticas rendas brasileiras, conforme a classificação 
das rendeiras do Norte se dividem: 1°, de cordão, quando ha 
um fio mais grosso a formar desenhos com os mais; 2" de 

(4) Revista tlnl.ycío de Artíi t Olliciol. Vt A. Nolicia >, poUlquci 



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530 REVISTA CO INSTITUTO HISTÓRICO 

panno, quando os fios são todos eguaes, e dos desenVios re- 
sultam espa<;os quasi tapados. 

Variam os desenhos, nem sempre originaes. Quanto á 
nomenclatura nortista, chamam de bico ou ponta as que no 
Rio de janeiro chamamos renda; e o que denominamos de 
entremeio, intitulam de renda. Dizem : renda de bico ou ponta, 
e renda de entremeio. Ha tecidos que rivalizam com a mellibr 
guipure franceza. 

Antes de 1816 não existiu no Brasil ensino official de 
Bellas-Artes. Foi o notável estadista conde da Barca (An- 
tónio de Araújo de Azevedo) ministro de d. João VI (rex 
fidelissimus, artiutn amantissimus) , quem sug^eríu a este 
principe a resolução de fundar no Rio de Janeiro o ensino das 
Bellas-Artes: e o conseguiu naquelle anno, mandando o Go- 
verno contractar, em Pariz, por intermédio do respectivo 
agente diplomático, illustres artistas francezes, de nomeada 
em seu paiz. 

O decreto de 12 de Agosto de 1816, que está a completar 
o centenário, foi o primeiro acto do Governo regulando os 
deveres e ordenados dos professores contractados, dando 
outras providencias concernentes ao ensino, 

E' facto conhecido da nossa Historia, e que se destaca no 
fecundo reinado de d. João VI, 

As Bellas-Artes a elle se prendem pela phase de transição 
do advento da arte neoclássica, que succedeu á da adaptação 
creoula, resultando da instrucção official pela preferencia, até 
certo ]K>nto opportuna, de exclusivos ensinamentos greco-ro- 
manos, ministrados pelos artistas francezes, artistas eminentes 
provindos da e|x>cha napoleonica, que em França foi a das 
linhas, formas e maneiras do clássico na Architectura, na 
Esçulptura e na Pintura, 

As Bellas-Artes na cidade do Rio de Janeiro, desde a 
fundação do ensino official e em determinados characteres 
gcracs dos tempos anteriores, poder-se-hão considerar como 
as do paiz inteiro. A irradiação depois se accentuou, devido 
Ãquellc ensino com influencia generalizada. 

Até então os artistas brasileiros representavam o ideal 
dos seus compatriotas, personificavam sinceramente o senti- 
mento contemporâneo das Artes plásticas no paiz. 



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DAS ARTES PLÁSTICAS NO BRASIL 531 

No Brasil dos vices-reis veremos na cidade do Rio de 
Janeiro documentos, que, sem solução de continuidade apre- 
ciável, marcam graduações ponderadas, e outros evidenciam 
a imaginação crcadora de alguns dos nossos patrícios, os 
quaes isolados, longe da civilização da Europa, entregues á 
sua própria inspiração produziram obras suas, exclusivamente 
suas, na originalidade da traça e ornamentação. 

Apesar das influencias do clássico no Brasil do primeiro 
imperador, durante o reinado do sr. d. Pedro II, até hoje, 
ainda se nota no ornato a primitiva adapta<;ão creoula pelo 
atavismo ethnographico dos colonizadores, adeptos dos es- 
tylos decorativos do seailo XVIII. 

O reinado do sr. d. Fedro II foi para as Beltas-Artes 
no Brasil a phase brilhante da pintura de cavallete no género 
histórico, no qual jamais tiveram competidores Victor Mei- 
relles e Pedro Américo, e no género paizagem Agostinho da 
Motta, contemporaneamente áquelles artistas, o precursor de 
João Baptista da Costa. 

Na epocha colonial no Rio de Janeiro, me apresso em 
citar, antecipadamente, na grande arte da Pintura mural, José 
de Oliveira que inimortalizou seu nome na composição do 
tecto da nossa egreja da Penitencia, e, modernamente, João 
Zeferino da Costa, ha poucos dias arrebatado pela morte, na 
edade de 75 annos e depois de 40 de um magistério exemplar. 

Tradicionalista que sou por educação e convicção, de- 
dicado ás Bellas-Artes, as quaes estudo, e cujos prt^ressos 
accompanho ha muitos annos, me congratulo commigo mesmo, 
por ter merecido a confiança do sr. presidente do Instituto 
Histórico, a quem procurarei, quanto em mim couber, cor- 
responder no desempenho da incumbência de historiar as 
Artes plásticas na cidade do Rio de Janeiro, occupando-me 
nas subsequentes licções da sua Architectura urbana e rural, 
religiosa e civil, da sua Escuiptura de ornatos e estatuária, 
da Pintura, de suas fontes e aqueductos, dos seus jardins an- 
tigos, da sua arte funerária, da sua epigraphia religiosa e 
civil, da Gravura e das Artes graphicas ao serviço do jorna- 
lismo. 



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DAS ARTES PLÁSTICAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO — RIO 
DE JANEIRO COLONIAL — PERtODO DOS VICE-REIS 

Sr. presidente do Instituto Histórico e G«^raphico Bra- 
sileiro. 

Meos senhores. 

Ao principiar as licções particularizadas á cidade do Rio 
de Janeiro, um dever se impõe á minha consciência: pre- 
cede-las da referencia ao nome de um nosso c<Mnpatriota, a 
quem de longa data conheço, desde que cursei o saudoso 
Collegio Pedro II, e a quem accompanho na sua vida de ser-- 
viços a esta cidade, como seu chronista erudito e paciente 
investigador de seu passado. 

A sua obra de historiographo e reconstructor da velha 
Topologia carioca não se pôde medir, nem pesar, tal o seu 
valor. , . 

Quero me referir, já todos podem prever, ao dr. José 
Vieira Fazenda. A preciosa collectanea de seus art^s se- 
manaes, n'A Noticia, durante um decennio ou talvez mais 
um pouco, constitue um património inestimável. 

Alcgra-me vê-lo aqui, desde o inicio do curso, animando- 
me com a sua presença. 

Outro dever de consciência é render preito á memoria 
d'aquelles, que por seus escriptos foram meus guias no co- 
meço dos estudos relativos ás Belias- Artes no Brasil. De 
Manuel de Araújo Porto-Alegre (barão de Sancto Angelo) os 
trabalhos insertos no Osiensor Brasileiro, na Gutmabara, na 
Minerva BrasUiense, e na Revista do Instituto Histórico, nas 
actas da Imperial Academia das Belias Artes, na qual elle 
aprendeu, foi professor e director; de Moreira de Azevedo, 
meu mestre no antigo Collegio Pedro II; e de Joaquim Manuel 
de Macedo, os seus escriptos históricos, os discursos solennes 
do Instituto, os quaes. muitas vezes, tive a ventura de ouvir, 

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DAS ARTES PLÁSTICAS HO BRASIL g33 

pronunciados com aquella voz canora, com que Macedo com- 
movia o auditório selecto, os seus romances, desde a More- 
ninha ás Viclimas Algozes, e o seu theatro. 

Finalmente não devo exquecer Joaquim Maximiano 
Mafra, o velho Mafra, sabedor como ninguém de toda a 
historia das Bellas-Artes no Brasil, secretario aposentado e 
professor jubilado da Academia e auctor do desenho funda- 
mental da estatua equestre de d, Pedro I. Para todas as 
duvidas, todos os pontos, obscuros para mim, relativos aos 
artistas brasileiros e ás suas obras, encontrei promptos excla- 
recimentos em Mafra, que, recebia sempre o seu discípulo de 
Desenho da antiga Eschola Central, com prestimosa e bene- 
volente solicitude. 

Estudaremos as Artes plásticas na cidade do Rio de Ja- 
neiro com os governadores, com os vice-reis, com o rei, com 
o primeiro imperador, durante o periodo da R^encia, até á 
proclamação da Republica. 

A Villa Velha, fundada por Estacio de Sá, foi natural- 
mente o inicio da Architectura carioca, constituída de choqas 
com feitio mixto, aborigene e occidental, choças de toscos 
ramos e palmas sèccas algum tanto selvagens, algum tanto 
pittorescas, que, pouco a pouco, desappareceram com a mu- 
dança da sede da povoação para o morro do Castello. 

Vencidos os Francezes que sonhavam com a Henriville 
e com a França Antárctica, retira-se Mem de Sá, o governo 
passa a Salvador Corrêa de Sá. Começaram as construcçSes 
e fortificações. 

A egreja nova Sé. a principio de taipa, melhorou e chegou 
a cathedral. Posteriormente entrou em absoluto abandono, e 
as edificações se dilatavam pela planície ou várzea. 

Exhumado o corpo de Estacio de Sá, sepultado na ca- 
pella da Villa Velha, os restos mortaes foram trasladadon nara 
a nova Sé. Ahi receberam tumulo com lapide 1 
epigraphada, a qual ainda sç acha em carneiro da c 
mandada construir especialmente em 1863, pel 
Pedro 11. 

No cimo do morro ainda lá se acham, por 
histórica, o tumulo na capella-mór da egreja de S. 
e o marco-padrão no cunhal deste templo. 

D,3t,ZBdbyGOO<^le 



534 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

O marco, padrão fundamental da cidade, é de mármore 
IX)rtiiguez ; a sua forma geométrica af fecta o de paralleli- 
l)ipedo alongado, de pequena espessura. 

Em uma das faces estão em relevo as quinas portuguezas 
e na outra a cruz que figurava nas caravellas e galeões dos 
conquistadores. 

Sobresae na lapide tumular do fundador da ctdáde a 
epigrapliia, cujos characteres modernamente procuram, com 
vantagem decorativa, reviver em legendas, dtsticlios e títulos 
de textos. 

Na Peninsula Ibérica sempre predominaram os alpha- 
betos grego e romano, ás vezes com variantes devidas a ex- 
tranhos. No secuto XVI a cousa chegou a extravagância sem 
nome. Não tardaram as inscri|3ÇÒes a revestir forma inintelli' 
givel com abreviaturas. 

Appareceu a filiação medieval dos characteres conjugados, 
uns dentro de outros, formando syllabas da palavra. Assim 
a syllaba ca, punham o a dentro do c ; formavam a syllaba ta, 
traçando o ( no próprio o. . . 

A eptgraijhia da lapide tumular do fundador da cidade i 
um exemplo. 

O morro do Castello, |X)rtanto, origem da nossa grandi 
cidade, considero monumento histórico para o Rio de Janeiro, 
do mesmo modo que o território bahiano para todo o Brasil 

Não tem faltado entretanto ambiciosos pretendentes ao 
arrazamento do morro, o que a realizar-se seria attentar 
contra a tradição, contra a historia e direi mesmo contra a 
esthetica urbana. Melhorem o morro abandonado, o tractem 
com carinho. Porque e para que arraza-lo? Realçam a nossa 
cidade a sua belleza e a singular descontinuidade plana. Não 
faltam os núcleos de população edificados em terrenos chatos. 

Não ha typo mais commum do que o de cidades planas, 
nas quaes predomina a monotonia rectilínea, e onde o traçado 
geometral jamais poderá evitar a melancholica perspectiva da 
linha (Io horizonte, a perder de vista. . . O typo exclusivo da 
cidade plana adstricto, pela obcessão rectilínea, aos alinha- 
mentos longos e exhastivos, é simplesmente banalissimo. . . 

Alludi que a colonização portuguesa coincidiu com a 
épocha do enthusiasmo petos modos e estylos do barroco, e 



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DAS ARTES PLÁSTICAS NO BRASIL 53$ 

que a Arte, achando-se ao serviço da Religião, consequente- 
mente os templos foram os primeiros a receber aquelles in- 
fluxos em Architectura, Esculptura, Pintura e nas artes appli- 
cadas. Considero os conventos e velhas egrejas do Rio de 
Janeiro, os nossos museus de Arte colonial . Quanto á vetustez 
architectonica urbana cito a egrejinlia de Sancto Ignacio de 
Loyola, na ladeira da Misericórdia, subida para o Castello, 
juncto ao actual Hospital de S, Zacharias, casarão histórico 
e jesuítico. 

A pobreza de linhas, simplicidade demasiada na con- 
strucção e proporções, indicam que não seria essa a egreja 
definitiva, eeffectivamente não seria, porque ao lado se con- 
servam ainda as paredes e ornatos corinthios do sumptuoso 
templo (começado pelos Jesuitas) cujas paredes e recinctos 
aproveitaram para o funccionan)ento do Observatório Astro- 
nómico. ' 

Temos alli naquelles trechos, por concluir, admiráveis 
lavores em pedra documentando a pericia dos escuiptores, e a 
reclamarem memoria technica de Archeologia sobre o typo de 
resistência das alvenarias, sobre o plano do templo, em cons- 
trucçào, sobre a interpretação e execução dos ornatos . 

Si fosse possível destacar exemplos concretos, mostra-los, 
veriam constantemente que, com ligeiras differenças, decor- 
rentes da respectiva conveniência económica, a architectura 
exterior dos antigos edifícios religiosos, affecta: em algumas 
egrejas, infallivelmente, as formas jesuíticas nas fachadas; e, 
em outras ^rejas, as linhas do rococô. 

Nos interiores, porém, é empregada a sumptuária de 
Borromíní, com mais ou menos riqueza, com mais ou menos 
profusão de ornatos. 

Duas egrejas, no Rio de Janeiro, culminam na sumptuária 
de Borromini : a do Mosteiro de S. Bento e a de S. Francisco 
da Ordem Terceira da Penitencia, no morro de Sancto António. 

A architectura jesuítica começada em Itália produziu 
bom ef feito em França ; Maria de Medíeis confiou a Brosse 
a egreja de Saint-Gervais em Paríz. 

Dahi para aquella architectura a divisão em dous typos 
ou escholas: a jesuítica italiana e a jesuítica franceza; a pri- 
meira de frontão triangular, e a segunda de frontão curvo.; 



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526 Revista do ixaiiTUTO hisíorico 

No Rio de Janeiro o estylo jesuítico se adoptou nas 
mais antigas egrejas, e o rococô para as demais. 

Os conventos de S. Bento, Sancto António e Sancta Te- 
reza; a Cathedral, a Cruz dos Militares, a Conceição e Bóa 
Morte, 3 rua do Rosário; e as egrejas do morro do Castello, 
por exemplo, são jesuiticas da eschola italiana. A da Miseri- 
córdia, de frontão curvo, pertence a sua fachada, apesar da 
pobreza e das numerosas incorrecções, a um typo que classifico 
na eschola franceza. São do rococó as fachadas: da egreja do 
Carmo, á rua Primeiro de Março ; da Candelária, embora com 
seu zimbório mais moderno do Renascimento; a de S. Fran- 
cisco de Paula; a. da Mãe dos Homens á rua da Alfandega; 
a de Sancta Iphigenia, do Bom Jesus do Calvário, de Sancta 
Luzia, S. José e outras. 

Dous edificios religiosos antigos se destacam pela forma 
singular das respectivas plantas. 

A forma commummente preferida, na planta das antigas 
egrejas do Rio de Janeiro, foi a rectangular para a nave; e 
rectangular ou polygonal ou curvilinea, para a capella-mór.- 

A forma da cruz latina se accentúa apenas na Cathedral 
e na Candelária. Em S. Bento a planta seria em cruz latina 
perfeita, si um dos braços da cruz não tivesse sido inter- 
rompido pela c<Histrucção do claustro. 

Destacam-se pela* forma singular da planta: a egreja da 
Gloria do Outeiro, de projecção polygbnal, e a de S. Pedro 
(5), á rua deste nome, de forma curvilinea. Esta é a única, 
cuja forma da planta lembra o exclusivismo de curvas con- 
vexas e concavas, systema tão preconizado por Borrominí. 

A planta das primitivas egrejas no Brasil se derivou do 
cruzeiro plantado no aldeamento ou povoado. Construiram-se 
em seguida as capéllinhas transíormadas em templos de 
maiores dimensões, conforme o desenvolvimento do nuclra 
de população e exigência do culto.' Uniu-se ás capellinhas 
outro corpo maior, rectangular; fez-se um arco para commu- 
nicar o novo corpo com a nova construcção, arco que ainda 
se chama arco cruzeiro, sem a planta ter a forma de cruz, 
mas por analogia com as egrejas em cruz. 



(;) EsCTCci nuticii illustrada. a rcspeiío da cgriúa de S. Pedro, 1 
twiiucciíti >. n. í6, da Abiil de 1906. 



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bAS ARTES PLÁSTICAS^ NO BRASIL ^37 

E assim se constituiu a forma particular das nossas pri- 
meiras egrejas, das quaes se derivaram todas as outras. A 
prioridade desta explicação pertence a Manuel de Araújo 
Porto Alegre que primeiro a dera, em 1849, "* revista Gmo- 
nabaro. 

A egrejã e mosteiro de S. Bento são, nesta cidade, ricos 
museus de Arte dos séculos XVII e XVIII (6) . 

Alli foi o berço da pintura a óleo no Rio de Janeiro; a 
Esculptura e a Estatuária em madeira predominam na dourada 
e sumptuosa decoração mural do templo ; a Ourivesaria se es- 
merou nos lampadários e a Architectura na estereotomia dos 
arcos e abobadas; a Carpintaria legou magníficos batentes, 
fartamente almofadados, e os caixotões dos tectos do con- 
vento; e a Marcenaria nas várias peças do mobiliário; a Epi- 
graphia se characterizou nas lapides tumulares do claustro ; e, 
nos trabalhos com a nossa pedra feitos na fachada e mesmo 
no exterior apparecem obras esculpidas, algumas, com formas 
animaes.: 

Informações históricas sobre a Ordem Benedictina no Rio 
de Janeiro encontram-se nos escriptos de Porto Alegre, Mo- 
reira de Azevedo, já fallecidos, e nos dos drs. Ramiz Galvão 
e Vieira Fazenda. 

Naqueiles recinctos seculares de S. Bento são para 
admirar; os primeiros aspectos da Pintura a óleo em nossa 
cidade; os modos da talha brasileira com originalidade de 
applicação e desenvolvimento floral; o espirito subtil e pa- 
ciente do artista na delicada execução de curvaturas e mi- 
núcias do mobiliário; o feliz resultado da martelagem em 
obras de prata, e, finalmente, um prc^ramma de solidez na 
grande fabrica architectonica que, no systema, não possuimos 
superior no Rio de Janeiro. O mosteiro de S. Bento já 
como cónstrucção, já no ponto de vista ornamental, é um 
dos melhores padrões de Arte dos tempos coloníaes. 

A frei Ricardo do Pilar, o primeiro mestre de Pintura a 
óleo no Rio de Janeiro, pertencem as pinturas da ^reja. De 
frei Domingos da Silva, são muitos ornamentos e figuras 



i S . Bculo >, publicido por i 



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DO INSTITDTO mSTOBIUO 

esculpidas, sobresaíndo o crucifixo, mais de duas vezes se- 
cular, que se vê no coro; e de Valentim da Fonseca (mestre 
Valentim) os lampadários de prata da capella-mór. José da 
Conceição e Simão da Cunha trabalharam na talha decorativa 
das naves, e José de Oliveira pintou os painéis da capella de 
relíquias do convento. 

Não se classifiquem de obras primas as producçOes de 
frei Ricardo do Pilar. Sente-se que elle, aproveitando natural 
aptidão, se prestou, na falta de outro, a ornar painéis do 
templo, tornou-se pintor: consequentemente deveria ter tido 
discípulos. A sua obra principal é o quadro da sacristia: O 
Salvador. 

Observando-se os trabalhos de frei Ricardo, \ê-sc a prin- 
cipio o desenho fraco, colorido ora infantil, ora indeciso, em 
alguns painéis, melhorando consideravelmente no quadro d'0 
'Salvador. Ahi se revela como, no Rio de Janeiro, até então 
ninguém o conseguira. 

Na figura de Chrísto, o pintor benedictino procurou 
evidentemente inspirar-se na maneira de Fra Angélico, Não 
se conclua dahi que se possa estabelecer parallelismo artistico 
entre o benedictino e o dominicano, celebridade universal na 
Pintura sacra. 

A Escutptura de ornatos, principal riqueza artística da 
egreja de S. Bento, pode ser estudada por partes, e qualquer 
delias daria margem para muito dizer: taes os resultados de 
espontaneidade fecunda e imaginação creadora, taes os ef- 
feitos da plástica contornada, figurada, symbolica, folheada, 
floreada e concheada, obedecendo a talha, ora a movimentos 
accelerados, ora uniformes, ora tudo dispondo-se em linhas 
discretas e tranquillas . . . 

Espalharam bellezas na talha das naves, onde a origi- 
nalidade se patenteia na preferencia de um ornamento domi- 
nante, o da folha do acantho, ora crespa, enroscada, ora 
espalmada, opulenta e cheia nos planos inferiores, adelga- 
çando-se, á guiza de rebentos, perto das cimathas e dos arcos. 

A Epigraphia, nas lapides do cemeterio claustral. exem- 
plifica o estylo lapidar nos differentes aspectos dos chara- 
cteres latinos e no modo de disix)-los. nas respectivas ins- 
cripções, conforme se usava nos séculos XVI, XVII e XVIII. 



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UÀS ARTES PLÁSTICAS NO BRASIL 539 

Em algumas pedras se notam bem tractados motivos herál- 
dicos, monacaes e seculares. Muito ainda poderia dizer de 
S. Bento !. . . E* de esperar que os religiosos, que se acham 
de posse do mosteiro, conservem, com carinho, todo esse 
património de Arte nacional !... 

A vetusta egreja da Ordem Terceira da Penitencia, no 
morro de Sancto António, ostenta também primorosa talha, é 
monumento de Arte ornamental . Em sua phantasia decorativa 
se observam os caprichos das estylizações da concha, nos eu- 
roscanientos ou em simples contornos, rigorosamente geomé- 
tricos, infalliveis no interior de toda egreja antiga do Rio de 
Janeiro. 

A egreja da Penitencia é [xir assim dizer uma decoração 
construída, mais escuipturesca e pictural do que archite- 
ctonica, modalidade extra-phantasista, onde as columnas, bases, 
architraves, cornijas, frisos, são cortados, interrompidos, 
atormentados, torsos, desnaturados; finalmente, sob uma 
invasão profusa e \'ariada de ornatos, não existem elementos 
architectonicos com as suas verdadeiras linhas, forma, cha- 
racter e funcção. 

Culmina no tecto a grande composição do pintor José 
de Oliveira, maravilha de arte decorativa mural, magia de 
perspectiva no conceito de Porto Alegre. Discípulo incon- 
testavelmente de frei Ricardo, José de Oliveira excedeu ao 
mestre. 

No mobiliário do vizinho Convento de Sancto António 
existe documento, obra prima de Marcenaria e talha no nosso 
jacarandá. Refiro-me ao arcas da egreja: opulento em orna- 
mentação admiravelmente combinada. 

Possuiu o Convento rica cerâmica de azulejos historiados.- 

Ainda ha trez dias por lá andei, os não vi mais ; restando 
apenas alguns, simplesmente ornamentaes, em limitados 
trechos de barras. A fiada de cabecinhas de frades em relevo 
por baixo do coro, que dizem representar martyres da Ordem ; 
as contemplei de novo, na occasião em que enfeitavam, não 
sei porque, as severas columnas e ornamentos, com flores 
azues de papel e panno ! . . , 

Ninguém me deu mais informações do milagroso mo- 
ringue de frei Fabiano, personagem histórica do romance 



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530 REVISTA DO INSTITUTO BI8TOI1ICO 

Franceses «o Rio de Janeiro, por Moreira de Azevedo, mo- 
ringue que até ha poucos aniios conservaram como relíquia 
venerada do monge querido e popularíssimo em tempos pas- 
sados . 

A bengala real, presente attribuido a d. João VI, ainda 
figfura ao lado do orago nas festividades. 

O que commove toda vez que se passa, á noite, pelo 
largo da Carioca e se olha para o Convento, é ver luzir, 
pobremente, a lâmpada do nicho exterior da egreja; é vê-la 
luzir, como foi de uso medieval, vulgarizado no Brasil, espe- 
cialmente durante o século XVIII Todos poderão ver a 

tradição transmittida e respeitada em pleno século XX, frente 
a frente com os lampeões de gaz e cffln a luz eléctrica t , . . 
A Cathedral, outr'ora capella-real e depois imperial, é 
das poucas antigas egrcjas, cuja planta affecta a cruz latina 
perfeita. A ornamentação da Sumptuária borrominica reina 
em todo o templo. As figuras dos apóstolos por José Leandro 
de Caiyalho documentam uma phase da Pintura colonial. 
Alli também existiu a tela commemorando a Cêa, de Rai- 
mundo da Costa e Silva, 

As principaes egrejas, cujas fachadas se traçaram no 
rôcocò, quaes a do Carmo, S, Francisco de Paula e Sacra- 
mento, não se conctuiram no século XVIII. A sinceridade 
dos architectos, que concluíram algumas no século seguinte. 
se evidencia na harmonia da passagem do modo decorativo, 
sem-chóque, semnotavel solução de continuidade ornamental. 
A do Carmo, á rua Primeiro de Março, que ostenta fachada 
de cantaria, com primorosos lavores de mármore do mestre 
Valentim, conseguiu ter suas torres levantadas no século XIX, 
Mello Còrte-Real, mais conhecido como pintor, deu os 
desenhos para essas torres, exactamente executados. Compoz 
desenhos harmoniosos, com zimbórios azulejados de painéis 
in te rmit tentes, com originalidade, ora na collocação da concha, 
ora na collocação da folha de acantho {7). 

Na de S. Francisco de Paula, Pádua e Castro fez pórtico 
clássico, e, na do Sacramento, Bethencourt da Silva harmo- 



a (Duembro de i^j) ,' 



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bAS AUTES PLÁSTICAS NO BRASIL 531 

nizou a agtilha medieval com o dorico abastardado da fachada. 
Modernamente profanam fachadas de algumas egrejas com 
revestimentos de cimento, depois de ter recebido, como a da 
Gloria do Outeiro, ultimamente, coloração descabida. 

Si passarmos á edificação civil na Arte pública colonial, 
sobresaem os chafarizes (8). 

O serviço de aguas de beber atravessou diversas phases 
com os vice-reis, com o rei, no império, tornandose afinal 
realidade que honra a Engenharia brasileira. O Rio de Ja- 
neiro colonial não dispunha de recursos da technica moderna 
do Rio de Janeiro actual. 

O antigo chafariz da Carioca, não o que existe, mas o 
colonial, exprimia nas linhas de sua construcção a arte domi- 
nante. Pelo solido aqueducto, hoje em parte viaducto dos 
carris de ferro de Sancta Tereza, pelo aqueducto vinha á 
fonte do largo a preciosa agua, que, na phrase de Macedo, 
— «tinha feitiço de formosura», Obra de arrojo, e prova 
de que os nossos maiores não vacillavam deante de grandes 
commettimentos, desde que fossem em proveito da população. 
Os vice-reis, apesar de arbitrários, despóticos e violentos, 
não se descuidavam do elemento vital. Evitar a falta d'agua 
foi em todos os temixis a preoccupação da administração 
pública. O espirito dos homens do século XVIII era outro 
que o do periodo seguinte. As fontes, no risco e na execução, 
traduziam innocentemente um sentimento uniforme; nellas 
nenhuma cousa supérflua, nem accessorio inútil nem o 
pretencioso decorativo. 

Citarei entre fontes coloniaes do Rio de Janeiro: o 
fariz de granito e mármore do largo doPaço (praça Quin 
Novembro), o das Marrecas que em forma de exedra e: 
na rua Evaristo da Veiga, planos e execução de m 
Valentim; o da rua da Gloria; o que existiu na r« 
Riachueio; o do Lagarto, á rua Frei Caneca, abastecido 
destruído aqueducto de Catumbi, e o que desapparece 
praia D. Manuel. As inscripções latinas ou em portu] 



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532 REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

gravadas em carteias omamentadaSf são exemplos de bôa 
arte e accrescentarei mesmo de bôa litteratura em algumas. 
As inscripíões latinas do chafariz colonial da praça Quinze 
de Novembro, de Valentim, levantado no govêmo de Luiz de 
Vasconcellos, gravadas em largas e decorativas carteias de 
mármore, são eloquentes, como também o era a inscripção 
de outro chafariz desapparecido da ma do Riachuelo, man- 
dado construir em 1772 pelo marquez do Lavradio. 

Carteias com inscripções perderam-se muitas; bellissima 
a que havia, á rua da Assembléa, na parede do antigo Reco- 
lhimento do Parto ; bellissima a existente no frontão que- 
brado do pórtico da actual Repartição dos Telegraphos, e não 
menos interessantes se notam duas 110 Aqueducto da Carioca. 
Como sabemos, no século XVIII, o artista culminante 
fora Valentim da Fonseca e Silva (mestre Valentim), cujo 
centenário da morte a Prefeitura do Districto commemorou, 
inaugurando, a i" de Março de 1913, o busto do artista no 
Passeio Publico, obra que o mestre tanto amou . 

Está hoje na consciência de todos o que elle compoz e 
executou: a Cruz dos Militares, os mármores e talha da 
egreja do Carmo, esculpturas da Conceição e Bôa Morte, da 
capella-mór de S. Francisco de Paula, os dous melhores cha- 
farizes, um que foi demolido, e o outro, o do largo do Paço, 
onde mestre Valentim deu cunho individual, a estatuária 
demolida da fonte das Marrecas, a ourivesaria em Sancta 
Rita e em S. Bento, e o plano original do Passeio Publico, 
o primeiro jardim da cidade, o jardim querido e tradicional, 
que elle executou tão brasileiramente quanto lhe foi possivel 
imaginar. 

A Architectura civil ficou a principio restringida á mo- 
dalidade administrativa palaciana, da qual é exemplo o 
outr'ora palácio real e !m])erial, actualmente Repartição Geral 
dos Telegraphos. Embora modificado o seu exterior, pela 
introducção da platibanda, substituindo os antigos beiraes 
corridos, conserva-se intacto o feitio colonial das sacadas e 
o vão da frente principal, de èstylo ròcocô, com a artística 
carteia epigraphada no quebrado do frontão, a que já alludi .■ 
A cidade das trez portinhas, assumpto de que tractoti 
Porto-Alegre na Guanabara, em 1849, evoluiu na própria 



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Da3 AltTES PLÁSTICAS NO BHASII. 533 

èpocha colonial, e apesar de vários aspectos que apresentou e 
apresenta até hoje, não abandonou de todo os trez vãos tra- 
dicionaes. 

As casas propriamente dietas urbanas, de sobrado ou 
não, se construiram com fachadas characteristicas : feitios por- 
tuguezes, com reminiscências asiáticas na forma das cober- 
turas de beiraes em pontas recurvadas e mouriscas nas rotulas 
dos vãos das janelias, de portas e sacadas e nos caixilhos 
conjugados de janelias com ou sem postigos. 

Pedreiros ensaiaram a principio ornatos de estuque, e 
nos interiores começaram a empregar as barras de azulejos 
nos saguões, e nas casas de jantar. 

Nas moradas de abastados, fora do limite urbano, ado- 
ptaram o typo de abarracados com avanço dos telhados, dando 
nascimento a varandas, sustentadas |)or pilares ou columnas de 
alvenaria rebocada. 

A vasta habitação de Elias José Lopes, offerecida a 
d, João VI, residência deste, dos dous imperadores e actual- 
mente Museu Nacional, apresentava esse aspecto, o que se 
verifica em desenho de João Baptista Debret. 

Esse typo de habitação patriarchal, de hygiene instinctiva, 
existe ainda em velhas casas de arrabaldes ; generaJizou-se 
nas nossas casas ruraes, não só no Rio de Janeiro, mas 
também nas fazendas, nos engenhos e nas estancias. 

Ensaiaram depois ingénua architectura paizagista em 
pequenos jardins efe quintaes urbanos; cultivavam-se can- 
teirinhos de perpetuas, sempre-vivas, saudades e outras flores. 
Os ensaios precederam aos jardins extensos, accidentados, 
characteris ticos das chácaras dos grandes solares. 



A Pintura durante os governadores e vice-reis teve em 
frei Ricardo do Pilar o primeiro mestre, ie em José de 
Oliveira, natural do Rio de Janeiro, discípulo e continuador.- 

Por muito tempo os artistas se limitaram exclusivamente 
a trabalhos nas egrejas, e só para os fins do século XVIII 
appareceu o retrato com Manuel da Cunha e Leandro Joaquim, 
e a paizagem com este. Decoradores foram todos os pintores 
ida epocha colonial e omamentistas sacros. Manuel da Cunha, 



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534 REVISTA DO INSTITUTO BISTOHICÍI 

escravo (ia família do cónego Januário da Cunha Barbosa, 
aprendeu a arte em Lisboa (9). Considero Manuel da Cunha 
o melhor retratista daquellcs tempos; entre seus trabalhos 
sobresae o retrato de Gomes Freire de Andrade (conde de 
Bobadella) que se acha no Conselho Municipal. 

Foi regular pintor de figura. Em seus contemporâneos 
houve apenas tentativas, aliás louváveis, exceptuando-se José 
Leandro de Carvalho e Manuel Dias de Oliveira Brasiliense 
(o Romano), que estabeleceu na rua do Hospício uma aula de 
modelo- vivo . 

Estes e Raimundo da Costa e Silva trabalharam também 
no tempo do rei; pintaram quadros decorativos para a va- 
randa da coroação de d. João VI. 

De Líandro Joaquim chronistas mencionam quadros que 
desappareceram de egrejas, onde foram pintados. São seus 
os dous painéis guardados na egreja do Parto, representando 
o incêndio e reconstrucçâo do antigo Recolhimento, que existiu 
juncto daquella egreja. 

De um delles e a muito custo, a meu pedido, o então 
alumno da Eschola Nacional de Bellas-Artes e hoje professor, 
sr. Lucilio de Albuquerque, conseguiu extrahir os traços 
physionomicos de mestre Valentim, retrato que em gravura 
saiu n'A Noticia, ha onze annos, e serviu ao esculptor para 
o busto inaugurado a i" de Março de 1913, no Passeio Publico. 

Leandro retratou Luiz de Vasconcellos, quadro este que 
pertence á mesma egreja. 

No género de retrato observa-se, nos originaes, gradações 
successivas de progresso da parte dos artistas. E' interessante 
a galeria dos benfeitores e provedores da Sancta Casa da 
Misericórdia, e de outras casas de religião e caridade. Es- 
tuda-se, nesses originaes, o progresso no desenho, no colorido, 
e as variantes da Indumentária accorde ao uso e á moda. 

No género paizagem, nos antigos pavilhões do Passeio, 
onde brilhou a arte cathannense de Xavier dos Pássaros e 
Xavier das Conchas, pintou Leandro Joaquim elogiadas pai- 
zagens de engenhos de assucar, mandioca, de extracção de 
ouro, scenas maritímas e panoramas da cidade. 

(9) Vide eícciplos de PorlO'AlBgrc e Moreira de Aievcdo a retpcíto deitas 
■riiitu. 

DigtizedbyGOOgle 



DAS ARTES PLÁSTICAS NO BRASIL 535 

Na arte applicada, João Manso Pereira, natural de 
Minas, conhecedor do hebraico, do grego e do latim, fabricou 
porcellana com argilla da ilha do Goveniador, imitou o charão 
e fez camafeus. 

O dr. Moreira de Azevedo affirmou que Manso offe- 
receu a d. João VI um apparelho de porcellana, e ao vice-rei 
Luiz de Vasconcellos, o Mecenas dos tempos coloniaes, uma 
mesa feita [)or elle, onde estavam representadas, em ouro, com 
diversas cores, a cidade do Rio de Janeiro e algumas villas. 

Na pequena esculptura de figurinhas de presépio tor- 
nou-se conhecido o pintor Raimundo da Costa e Silva. Fa- 
mosos foram os seus presépios do morro do Livramento. 

Entre os trabalhos da pintura antiga colonial devemos 
mencionar o da bandeira -estandarte da Misericórdia, o dos 
painéis que figuravam nas procissões, entre ellas a dos foga- 
réos, a respeito da qual, assim como de outras e de festas 
populares, tem-se ocupado magistralmente o nosso Vieira 
Fazenda, 

Em arte applicada, especialmente festiva, vem a pro- 
pósito recordar o que Moreira de Azevedo alludiu, e Vieira 
Fazenda descreveu algures n'A Noticia: os carros allegoricos 
do tenente António Francisco Soares, o precursor de Ftusa 
c Marroig, carros mythologicos que se celebrizaram na festa 
de 178^, percorrendo as ruas da cidade, festa commemoratíva 
do casamento de d. João depois rei, com a princeza Car- 
lota (lO). 

Agora apenas como curiosidade: 

Entre as artes applicadas menores e ephemeras esteve 
muito em voga a Siloplastica, cujas producções fizeram, por 
muito tempo, o regalo de muitos lares, nos dias de festa, 
ornando mesas de banquetes e bandejas de chã, levadas ás 
salas pela criadagem luxuosamente trajada... reminiscên- 
cias dos costumes iK>rtuguezcs do tempo de d. João V. , . 

Cultivaram-n'a também no nosso interior, especialmente 
nos estados do Norte. 



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53Í REVISTA DO INSTITUTO HISTÓRICO 

Do Pará nos vêm ainda as selvagens esculpturas anima- 
listas de guaraná . . . 

Os conventos de freiras do Rio de Janeiro, particular- 
mente o ex-convento da Ajuda, conquistaram celebridade na 
doçaria que fabricavam. 

Durante o século XVIII, e mesmo no século passado, 
a Sitoplastíca constituiu especialidade entre senhoras e mesmo 
entre homens; imaginavam themas, animaes reaes c phantas- 
ticos. A Sitoplastica carioca, ou nortista, cuidada com 
esmero elevou-se á altura da pequena Estatuária ; embora 
ephemera e com estivei, nelta se revelaram aptidões artis- 
ticas perdidas e não aproveitadas. . . 

As formas, inventadas pela industria, acabaram com a 
esculptura confeiteira e com os pães e biscoutos figurados, 
modelados, e não fundidos. 

A Confeitaria foi arte com escholas. O geito de decorar 
bolos e lhes imprimir cunho artistico, occupou a não pouca 
gente. E naquillo que por machina se faz hoje, isto é, nos 
rendados de papel para os pratos e para cobrir bolos, espe- ■ 
cializaram-se pessoas que disputavam desenhos inéditos. 



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AINDA AS ARTKS COM OS VIClí-BEIS, COM O REI. — O RIO 
D5 JANEIRO IMPERIAL, DURANTE O PRIMEIRO REINADO 

Sr. presidente do Instituto Histórico e Geographico Bra- 
sileiro . 

Meus senhores. 

A reconstituição paízagista da nossa cidade, com os 
vice-reis, seria assumpto interessantíssimo para delle tractar 
um pintor histórico. Si o thema apresenta difficuldades, 
como apresentam todos os problemas archeologicos, não fal- 
tarão elementos e subsídios para vence-Ias, 

Seriam aspectos curiosíssimos a reconstruir... 

Vimos e repito que, em todo o Brasil, antes do advento 
da Família Real Portugueza, muito antes, portanto, da vinda 
da missão artística franceza e do rei fundar o ensino official 
de Bellas-Artes no Rio de Janeiro, já se cuidava, cchu esmero, 
das Artes plásticas, cujos exemplos perduram na Bahia, 
Minas Geraes, Parahiba do Norte, Pernambuco, em outros 
Estados e nesta cidade; exemplos de arte ornamental, não 
egualados até hoje, quanto mais excedidos, no talento da 
invenção, na interpretação decorativa executada, e na solidez 
das architecturas . 

Para o bom senso não pôde haver maior disparate do 
que os juízos escarninhos, comparativos, com a successão 
progressiva das cousas, que infelizmente, muitas vezes, menos 
ingénua e menos sincera, perturba de algum modo um enca- 
deamento lógico, quebrando elos resultantes de exforços 
dignos de perpetuo louvor. 

Recentes escriptos. com referencias a antigos e modernos 
documentos brasileiros de arte, ou são de excessiva admi- 
ração, ou injustos a demonstrarem: maldade, absoluta falta 



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S38 REVISTA no INSTITUTO HISTÓRICO 

de comprehensão, ou escassez extraordinária do senfimeníõ 
do saber-vêr. 

Magnificas obras coloniaes, ou antigas, de arte estão 
levianamente a considerar velharias insupportaveis, negando-se 
primor onde ha, não se querendo, ou não sabendo vêr o que 
está á vista. Os Brasileiros não poderão se desnacionalizar 
accompanhando a perversos escrj vinha d ores, que já não se 
contentam com a propaganda manhosa na palestra. . . 

A audácia forasteira, tão bem hospedada, atira-se com 
axiomática incompetência a rabiscar, que nunca tivemos nem 
temos Arte nacional !... Não vale a pena dar-lhes impor- 
tância: o que falarem não se ouve, o que rabiscarem não 
se lê . , , 

A reconstituição paizagista da cidade, por phases dis- 
tinctas, mostraria transformações consoantes os respectivos 
recursos, sem as precipitações económicas, sem os descuidos 
financeiros de hoje. 

A picareta do progresso material passou rasoura em 
quarteirões inteiros de casas de varias epochas, com os vãos 
characteristicos de janellas e portas, desde os rectangulares 
com portaes e vergas de madeira, até aos de cantaria da nossa 
pedra, ou do lioz importado. 

A forma do rectângulo predominou por muito tempo. 
A facilidade do desmonte das rochas gneissicas das nossas 
primeiras pedreiras exploradas concorreu para o emprego 
desse material. A verga em segmento circular, de madeira 
ou pedra, appareceu na edificação particular depois que o 
puzeram nas egrejas. GeneraUzou-se a forma. 

No século XVIII, e no principio do passado, revestiam 
muitos vãos de porias e janellas com o mármore portuguez, 
adoptando aquelle arco. Empregaram o arco semi-circular 
tardiamente, usado a principio somente nas portas do pri- 
meiro pavimento. 

Os vãos rectangulares modernamente estão a voltar na 
architectura commercial ou industrial, E' a forma dictada 
pela utilidade. Em Architectura, a utilidade é a arte de apro- 
priar o edifício ao seu destino e escolher orgams e formas, 
que melhor se prestem.^ 



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DAS ARTC3 PLÁSTICAS NO BRABIC. 539 

A evolução de terraplagena do antigo solo urbano é 
nota a estudar para a reconstituição paizagista: saber-se 
quaes os aterros que substituíram as rústicas pontes de ma- 
deira, que ligavam ruas atravez de braços de pântanos de 
mar, abaulamentos posteriores, pavimentações de pedra me- 
lhorando as superfícies para a rodagem... Tudo isso é 
interessanti saimo . 

Ainda até pouco temjjo se encontravam, no centro da 
cidade, typos de edificação vetusta, casas térreas, casas de 
abastados, abarracadas, assobradadas ou de sobrado; typos 
assignalando epochas pela forma dos vãos das sacadas, das 
coberturas, das clarabóias, das alvenarias, dos rebocos e da 
natureza das caiações. 

Nos interiores, então, as epochas se assignalam pelas al- 
covas, de largas portas envidraçadas, dando para as salas 
de visita e casas de jantar. N'^ Noticia escrevi, em artigos 
semanaes { 1 1 ) , notas a respeito de todos esses pormenores, 
até á invasão do papel pintado de forrar paredes, o qual 
completamente branco, e adamascado, era o preferido para 
as salas nobres, illuminadas por lustres de velas, que pendiam 
do centro do tecto, o qual tinha forma pyramidal truncada. 

Encontram-se mais facilmente esses antigos typos nos 
sítios suburbanos ou ruraes, ou nos Estados, isto é, antigos 
lypos intactos de habitações vastas, com as suas alpendradas 
de telha vã, sustentadas por pilares ou columnas de alvenaria 
rebocada . 

As casas dos primitivos tempos coloníaes, e também os 
edifícios religiosos, não deram aos respectivos arcabouços das 
coberturas outro aspecto que o de duas abas ou aguas, á 
guisa do que se vê em choças, e ranchos de algumas tribus 
aborigenes. Algims dos typos destas habitações aborígenes 
foram imitados pelos primeiros colonos portuguezes nos cha- 
mados ranchos, onde abrigavam as tropas de cargueiros. 

O beiral corrido, sem calhas e sem conductores verticaes 
de exgôtto de aguas das chuvas, caídas sobre o telhado das 
velhas casas, ainda se usou no meiado do século passado. Os 



(ii> Folhetim finntdoa com m mioliii InicUa A. V., ft comvtar da 1901,; 

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540 REVISTA DO DÍSTITDTO niSTOHICO 

telhados, <Ie duas ou de quatro aguas, resumem a~s formas 
posteriores das coberturas dos nossos edifícios. Os telhados 
são amouriscados, de meia mourisca, cravados oU de canudos 
cintados e os de telha vã. A telha curva, chamada portugueza, 
mas de origem mourisca, é a clássica na Archeologia bra- 
sileira. 

Para reconstituição paizagtsta da cidade, além dos fron- 
tispícios de casas, devem ainda reapparecer accessorios de 
rua, quaes, os oratórios e os frades de pedra. 

O ultimo oratório demolido foi o da rua da Alfandega, 
esquina da rua do Regente (hoje Tobias Barreto), e os 
mais velhos frades de pedra (de lioz portuguez),.coloniaes, 
por muito tempo existiram no passeio fronteiro ao real palácio 
da cidade, hoje Repartição Geral dos Telegraphos, 

Dizem chronistas, que, até ao governo do vice-rei conde 
de Rezende, a cidade não tinha illuminação. 

Na edade média da Historia usavam accender, á noite, 
candeias em lanternas, juncto das estatuas da Virgem c dos 
Sanctos, ás portas dos conventos. Em quasi todos os paizes 
catholicos ha reminiscências desse costume medieval. Do 
pintor Luiz de Freitas possuo um quadrinho a representar 
construcção italiana, que lembra a dos nichos históricos ou 
oratórios, nos quaes ardiam lanternas. Na licção passada me 
referi á lanterna do nicho do nosso Convento de Sancto An- 
tónio. 

O único oratório de rua, que ainda perdura intacto, é o 
de N. S. do Cabo da Bôa Esperança, á rua do Carmo, Do 
Rio de Janeiro, antes que tivesse illuminação, escreveu o 
meu finado mestre dr. Moreira de Azevedo: «Deante dos 
nichos que ornavam as esquinas das ruas accendia-se á noite 
um candieiro de azeite ou uma vela de cera, e essas luzes, 
collocadas em frente das imagens pela fé e devoção do povo, 
constituíam a única illuminação da cidade. Naquelles tempos 
o povo se recolhia cedo; ao anoitecer se fechavam quasi 
todas as casas, havia limitado numero de lojas de commercio, 
e sendo as ruas tortuosas, estreitas, sem calçamento nem 
illuminação, tornava-se perigoso o transito nocturno, especial- 
mente nas ruas em que não havia luz nos nichos, Quem 



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bAS ARTES fLASTlCAS NO BRASIL 54I 

tinha servos mandava algum com archotes alumiar o ca- 
minho» (11 a). 

Nas ultimas décades do século passado vi ainda carre- 
gadores de casliçaes accesos, com mangas de vidro, ou com 
candelabros, acconipanhando famílias em algumas ruas de 
arrabaldes, á noite, por insufficiencia da jlluminação pú- 
blica. 

O oratório de pedra, da esquina da rua da Alfandega, 
permaneceu em seu sitio secular até 1906, quando demoliram 
a respectiva casa para em seu logar construirem outra. Não ■ 
faltaram pretendentes ao oratório; ignoro que rumo levou. . .; 

No conhecido romance de Manuel de Almeida — Memo- 
rias de um sargento de milicias — se lê descripção daquellas 
paragens na pavorosa epoclia do Vidigal e seus camarões. 

Um artista brasileiro, fallecído ainda moço, António Fir- 
mino Monteiro, pintou um quadro a que denominou: — O 
Vidigal, exposto pela primeira vez, na Academia das Bellas- 
Artes, em 23 de Agosto de 1884. 

O pintor escolheu scena, na qual o Vidigal exercia a sua ■ 
temida auctoridade, na rua do Regente esquina da da Alfan- 
dega: vê-se na tela representado o oratório de pedra. Neste 
quadro histórico se acha o celebrizado major, chamando á 
falia um trovador de esquina, que se desculpa, atrapalhado, 
ante os camarões dos granadeiros. Pertenceu ao dr. Mon- 
teiro de Azevedo; consegui uma reproducção phott^raphica, 
que me serviu em projecção luminosa na prelecção do curso 
publico do Pedagogium, em 1903 e 1904. A respectiva chapa 
deve estar guardada nesse instituto municipal. 

Na collecção de vistas do Rio de Janeiro, desenhadas [lor 
Moreau, vé-se um dos antigos oratórios de esquina; e Vieira 
Fazenda em artigo d'A Noticia, de 1° de Julho de 1906, men- 
cionou oratórios da cidade, a saber : da rua do Rosário es- 
quina da da Quitanda e Septe de Septembro; Uruguaiana e 
Hospício; da praça da Constituição; rua da Alfandega; no 
principio da rua da Carioca; Primeiro de Março e S. Pedro; 
no fim da de Treze de Maio; no largo da Batalha; na tra- 
vessa de D. Manuel; ruas do Cotovello e Misericórdia; e cm 

(11 a) Dl. Morciía de Aievsdo^iO Bio de Janeiro». 

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542 REVISTA DO 1S9T1TBT0 HISTORlCâ 

frente ao Açougue Grande, o de N. S. dos Prazeres, cuja 
imagem é actualmente venerada na egreja de Sancto António 
dos Pobres. Esses nichos construídos no exterior das casas 
davam effeito algum tanto ornamental. Na estatuária reU- 
gíosa respectiva, conforme referencias lidas algures, pri- 
mavam imagens esculpidas e encarnadas na Bahia, que por 
muito tempo se especializou nesse mister artístico. 

No estudo da historia das Artes plásticas, para uma re- 
constituição paizagista, taes informações escríptas ou dese- 
nhadas tornar-se-hão preciosos subsídios. 
* * * 

Os frades de pedra, ou postes de pedra, de rua, são ■ 
assim denominados pela forma da parte superior, que lembra 
a da cabeça raspada de um monge, O nome, com tal accepção 
figurada, provavelmente resultou de alguma capadoçagem, 
tomou foros na cidade e entrou no vocabulário da língua. 
Desapparecen de nossas praças e ruas grande quantidade de 
antigos frades de pedra, que ladeavam portões das chácaras 
dos grandes solares ; portões characteristicos de alvenaria, com 
pilares por assim dizer cabeçudos, aos quaes, muitos annos 
depois, junctaram vasos, espheras de louça esmaltada, figuras 
de leões ou cães do mesmo material. 

Na especialidade portões, construíram -se alguns artís- 
ticos : o do Passeio Publico, o antígo da Coroa na Quinta da 
Boa Vista, de linhas originaes, e outros. Os frades de pedra 
indicavam (e ainda hoje indicam) prohibíção de rodagem. 
São invenções greco-romanas : a sua historia seria longo re- 
cordar. . , Entre nós, e em Portugal, fincavam pedras nos 
cantos das ruas, alinhadas no sentido do comprimento das 
mesmas, preservando as casas do choque dos carros e garan- 
tindo o livre transito de peões, em trecho determinado das 
calçadas. Não foi moderado o uso dos frades de pedra na 
edade média, e desappareceram paulatinamente depois que se 
inventaram os passeios. 

Considerados pedras protectoras e elementos de orna- 
mentação juncto de monumentos, limitavam e fechavam deco- 
rativamente logradouros públicos. Nos tempos coloniaes 
fincaram frades de pedra sem correntes no Pelourinho do 
largo do Rocio (praça Tiradentes) e com correntes fazendo 



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DA9 ARTES fLASTICAS NO BRASIL J^^ 

de cerca nesse mesmo largo, e no Rocío Pequeno, (praça 
Onze de Junho). 

Davam-se, em geral, a taes pedras fradescas a forma 
que se reproduziu em modernas, collocadas em novos trechos 
de rua ou vielas; outras pedras porém eram simplesmente 
cylindricas, sem terminações especiaes (12). 

De pedra lioz plantaram-se poucos no Rio de Janeiro, só 
excepcionalmente, e por luxo, ou quando ainda não se traba- 
lhava bem com as nossas rochas. Curiosa é a pertinácia do 
predomínio da forma invariável na maioria dos casos, sem 
que algum canteiro, durante longa serie consecutiva de annos, 
se lembrasse de tentar ornamentos ou gravasse inscrípção. 
Os modernos frades de pedra só differem dos seus prede- 
cessores, da epocha colonial, unicamente na qualidade da pedra 
e no lavrado da cantaria. 

Animavam os ambientes urbanos, suburbanos ou ruraes 
do Rio de Janeiro, os primitivos vchiculos de transportei 
redes, carros de bois, bangués, liteiras, cadeirinhas, seges, tra- 
quitanas e coches. Os três primeiros vehiculos interessam 
ao exclusivamente pittoresco, ao passo que os outros (liteiras, 
cadeirinhas, seges e coches) interessarão a arte pelas formas, 
pelos relevos e ornamentos pintados, e pela libré da criadagem. 

A nossa cidade assistiu a trez grandes solennidades poli- 
ticas : a coroação e sagração de um rei, a coroação e sagração 
dos dous imperadores. 

Si no tempo dos vice-reis já existia a arte sumptuária 
em vehiculos de transporte terrestres (liteiras e cadeirinhas), 
ella augmentou com o rei, cuja nobreza trouxe para o RÍo 
de Janeiro lindos exemplares, e se accentuou mais especial- 
mente no império. Nessas solennidades se apresentaram va- 
riados vehiculos durante os cortejos. 

Apesar do progresso de vehiculos de r< 
venção de vários typos, ainda por algum temp 
de cadeirinhas, não mais das ricas de portii 
çadas com relevos e pinturas originaes, ou a 
cret, Watteau e Fragonard, porém das cadeirii 



(13) Vid« estampai antiga) na Bibliothcc 



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544 , REVISTA DO INSTITOTO HISTÓRICO 

cortinados de um azul escuro com cercaduras de galões la- 
vrados . 

Daria matéria para mais de uma licção só o tractar dos 
vehiculos usados no Rio de Janeiro em todos os tempos, não 
só quanto ás origens históricas, ao conforto, mas também á 
evolução das formas e tracção, ao vestuário dos sotas e dos 
lacaios, e enfim ao aspecto completo do vehiculo a preencher 
a sua funcção. Tudo isso é pittoresco, tudo isso é Arte. 

O pintor Debret em sua conhecida obra junctou es- 
lam|)as representando muitos vehiculos antigos de rodagem, e 
|)or ellas poder-se-ha imaginar a sege e a traquitana. 

Os vice-reis já se utilizavam da sege, carro da predi- 
lecção de d, João \'I, o qual foi representado, em gravura, 
dirigindo a sua sege. 

* * * 

Entre os artistas pintores, que aqui se distinguiram antes 
da vinda da Familia Real Portugueza, além de José de Oli- 
veira, Manuel da Cunha, Leandro Joaquim, Ra