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Full text of "Revista do Instituto histórico e geográfico de São Paulo"

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Iistiiuio Histórico o Eleograpiíico 



de: 



SÃO PAULO 



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Typographia do "Diário Offlcial" 

— 1913 — 



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REVISTA 



DO - 



lasiitá Histórico o Seograpliico 



de: 



SAO PAULO 



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1895 



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SÃO PAULO 

Typogrraphia do "Diário OÍBcial' 

— 1913 — 



Ao loitor 



A historia de S. Paulo é a própria historia do Brazil. 

A necessidade de uma associação que promovesse os 
meios de estudar tantos documentos com os quaeâ se pode 
vir a conhecer a origem dos mais importantes feitos dos nossos 
antepassados, ou esclarecer noções erróneas sobre factos que 
merecem ser devidamente conhecidos, era uma destas lacunas 
que se afigurava difficil de ser preenchida. 

Felizmente a nossa iniciativa foi coroada do melhor êxito 
e estamos actualmente gozando do mais útil convívio dos 
nossos homens de letras, que concorrem com suas luzes para 
assegurar ao Instituto Histórico a mais brilhante carreira. 

A « Revista do Instituto » é já uma prova de que o 
trabalho fortifica-se no estudo da historia, que tem valor 
inestimável, e muito pode servir para que os moços aprendam 
a conhecel-a e bem assim para que outros estudiosos com- 
panheiros possam no futuro continuar a obra, que é bem 
pequena, em relação a importância do assumpto. 

Todavia o molde fica traçado, restando a outros modi- 
ficai-© e aperfeiçoal-o até que a nossa historia seja a fiel 
interprete dos acontecimentos, e o ensinamento útil dos 
patriotas. 

O Instituto Histórico, iniciando a publicação da primeira 
parte da « Revista » com alguns trabalhos approvados pela 
assembléa geral, afim de serem publicados, continuará a pu- 
blicação de outros que já foram lidos. E' tão interessante o 
assumpto destas publicações, que será certa a procura da 
« Revista » para leitura dos que desejam conhecer o modo 
sério e consciencioso pelo qual o Instituto vae-se desempe- 
nhando dos seus patrióticos intuitos. 

Aos leitores compete julgar se nos desempenhamos digna- 
mente do encargo. 



A denominação "Serra da Mantiqueira" 



PELO 



DR. ORVILLE A. DERBY 



ií>M fiju 



A denominação "Serra da Mantiqueira" 



A palavra «serra» que, pelo menos na linguagem po- 
pular do Brazil, tem supplantado quasi todos os outros ter- 
mos da nomenclatura orographica. acha-se empregada com 
duas significações bem diversas. A primitiva e mais correcta, 
suggerida pela semelhança ao instrumento do mesmo nome, 
€ applicada a um conjuncto de montanhas constituindo um 
macisso composto de diversos picos, como a serra dos Órgãos; 
ou a uma cadeia ou systema de montanhas, ou cordilheira, 
como a Serra do Mar. A outra significação refere-se a mon- 
tanhas isoladas ou aos membros de um systema de monta- 
nhas consideradas isoladamente. Bem á vista da cidade de 
São Paulo temos exemplos desta dupla significação na Serra 
da Cantareira, um macisso composto, e na Serra de Jaraguá, 
um pico, ou montanha isolada, pertencendo as duas ao sys- 
tema, ou cordilheira, da Serra da Mantiqueira. 

Na linguagem popular, que tem fornecido a maior par- 
te das denominações geographicas, é a segunda significação 
que predomina. Qualquer desigualdade da superficie de certa 
importância recebe o nome de serra, e sendo generalizada 
para abranger mais de uma feição topographica, é raro que 
o mesmo nome seja applicado a mais de uma secção limi- 
tada de um systema montanhoso, como, por exemplo, a que 
a vista abrange de um ponto dado. Os nomes systematicos 
em regra geral não são dados pelo povo, mas pelos geo- 
graphos que, reconhecendo a necessidade de uma denomi- 
nação geral para incluir todos os membros de uma mesma 
cadeia ou systema, ou inventam termos novos, como sejam 
Serra do Espinhaço, Serra das Vertentes, etc, ou dão maior 
extensão aos nomes que entre o povo têm applicação limi- 
tada e local. E' só quando o povo começa a se preoccupar 



8 — 



com noções geographicas, ou quando uma feição topogra- 
phica adquire importância excepcional por sua riqueza na- 
tural ou por marcar uma divisão politica, que ha tendência 
na linguagem popular a generalizar os nomes dando maior 
extensão ás denominações locaes. 

No Brazil a Serra da Mantiqueira é um dos poucos 
exemplos de um nome popular se tornar systematico, e isto 
não somente entre os geographos como também entre o 
povo. Este ultimo facto se explica pela importância dada a 
esta cadeia de montanhas na demarcação das duas Capita- 
nias de São Paulo e Minas Geraes. Nos mappas do século 
]>assado, tanto de Minas como de São Paulo, o único nome 
systematico que se encontra é este da Serra da Mantiquei- 
ra, e em documentos de 1740 a 1750 vê-se que o termo 
foi também empregado entre o povo mais ou menos con- 
forme o seu uso entre os geographos, e não com limitação 
a uma parte determinada do systema. 

Nos primeiros mappas em que se encontra o nome de 
Mantiqueira, este abrange toda a cadeia desde as visinhan- 
ças de São Paulo até as de Barbacena, de modo que não 
se pôde determinar nelles a posição da primitiva Serra da 
Mantiqueira. Na epocha da confecção destes mappas (1765- 
1767), a serra nelles representada era cortada por três es- 
tradas que do litoral davam ingresso na Capitania de Minas 
Geraes. Eram estas a estrada do Rio de Janeiro pelo valle 
do Parahybuna para Barbacena, etc. ; de Guaratinguetá para 
São João d'Elrey, e de São Paulo para o valle do Sapu- 
cahy, passando por Atibaia. Esta ultima tinha sido aberta 
depois da descoberta das minas de SanfAnna do Sapucahy 
cm 1746, quando o nome de Serra da Mantiqueira já esta- 
va muito em evidencia nas contendas entre as duas Capi- 
tanias sobre limites. A questão da origem e emprego pri- 
mitivo do nome é portanto limitada ás duas estradas mai& 
antigas de Barbacena e Guaratinguetá. 

A primeira menção do nome que se tem encontrado nos 
documentos officiaes é nos autos de posse que tomou a 
Camará da Villa de São João d'Elrey de diversas localida- 
des no districto da Campanha do Rio Verde. Estes autos 



9 — 



lavrados em fins de fevereiro e princípios de março de 
1743 affirmam a posse antiga da dita Camará «pela estrada 
geral que vai deste districto para a cidade de São Paulo 
até o alto da serra chamada Mantiqueira». Ahi o termo é 
applicado a uma serra na antiga estrada de S. João d'Elrei 
a Guaratinguetá e, apparentemente em sentido limitado a 
esta localidade, não estando porém excluída a hypothese de 
que o nome já era generalizado, podendo neste caso ter-se 
originado na outra estrada, a do Rio de Janeiro a Barba- 
cena. De facto no mappa do sul de Minas de 1765 ha nesta 
estrada o nome «Pé da Mantiqueira» não havendo nome 
geral para a cordilheira ; e no mappa geral da Capitania 
de 1767 (os dous mappas são provavelmente do mesmo au- 
ctor, e nas partes correspondentes são quasi idênticos) a 
mesma localidade tem o nome de «Rocinha da Mantiqueira», 
apparecendo também o nome systematico de Serra da Man- 
tiqueira abrangendo toda a serrania entre S. Paulo e Villa 
Rica. 

E' sabido que a primeira divisão entre as villas de 
Guaratinguetá e São João d'Elrey foi estabelecida no morro 
de Caxambu, onde a 16 de setembro de 1714 a Camará 
daquella villa collocou um marco de pedra e lavrou um au- 
to formal de posse. 

Quando mais tarde, em 1720, foi creada a Capitania de 
Minas Geraes, esta mesma divisa foi designada para sepa- 
ral-a da de São Paulo. Alguns annos mais tarde os habi- 
tantes de São João d'Elrey removeram o marco do morro 
de Caxambu collocando-o em outro ponto cujo nome não 
vem mencionado nos documentos archivados em S. Paulo, 
porém era provavelmente o referido nos autos de 1743 com 
o nome de Serra da Mantiqueira. A duvida a respeito da 
identidade deste ponto provém da Provisão Regia de 23 de 
fevereiro de 1731 que mandou ajustar de novo a divisão 
entre as duas villas de modo a dar mais largueza a Gua- 
ratinguetá, nada constando porém sobre a execução dada a 
esta ordem que provavelmente ficou letra morta. 

Não estando conhecido actualmente o antigo marco da 
Serra da Mantiqueira e havendo diversas estradas que cor- 



^lo- 
tam a cordilheira hoje conhecida com este nome, é preciso 
determinar qual destas estradas seja a mais antiga para 
poder identificar a primitiva serra da Mantiqueira na es- 
trada de S. Paulo e Minas. 

Assim, pois, temos em meados do século passado o no- 
me de Mantiqueira generalizado por toda a cordilheira, e 
também empregado como termo local em ambas as estradas. 
Sendo pouco provável que o nome se originasse indepen- 
dentemente nas duas localidades, é de presumir que o nome 
local de uma das estradas se generalizou primeiro e que em 
virtude deste facto foi depois applicado na outra. Não é, 
porém, claro qual das duas estradas teve a primazia do no- 
me, parecendo porém pelo testemunho dos raappas que esta 
deve caber á de Barbacena. Felizmente para tirar esta du- 
vida e a outra já referida sobre a posição do antigo marco 
na estrada de S. Paulo, temos o precioso opúsculo de An- 
tonil, intitulado «Cultura e Opulência do ,BraziL> publicado 
em Lisboa em 1711, e por consequência poucos annos ape- 
nas depois da primeira abertura da estrada para Minas. Es- 
ta obra dá um roteiro minucioso da estrada de S. Paulo até 
Villa Rica com detalhes topographicos que permittem iden- 
tificar quasi todas as localidades mencionadas. A parte deste 
roteiro que interessa ao presente estudo é o seguinte, sendo 
esta provavelmente a primeira vez que o nome Mantiqueira 
apparece impresso : 

«De Guaratinguetá até o porto de Guaipacare, aonde 
ficào as roças de Bento Rodrigues, dous dias até o jantar. 

«Destas roças até o pé da serra afamada de Amanti- 
qulra, pelas cinco serras muito altas, que parecem os pri- 
meiros morros, que o ouro tem no caminho, para que não 
cheguem lá os mineiros, gastam-se três dias até ao jantar. 

«Daqui começão a passar o ribeiro, que chaman passa 
vinte, porque vinte vezes se passa ; e se sobe as serras so- 
breditas : para passar as quaes, se descarregão as cavalga- 
duras, pelos grandes riscos dos despinhadeiros, que se en- 
contrão: e assim gastào dous dias em passar com grande 
difficuldade estas serras; e dahi se descobrem muitas, e 
aprasiveis arvores de pinhões, que a seo tempo dão abun- 



dl 



dancia delles })ara o sustento de mineiros, como também 
porcos montezes, araras e papagaios. 

«Logo passando outro ribeiro, que chamão passa trinta, 
porque trinta e mais vezes se passa, se vai aos pinheiros : 
lugar assim chamado, por ser o principio delles: e aqui ha 
roças de milho, abóboras, e feijão, que sào as lavouras fei- 
tas pelos descobridores das minas, e por outros, que por ahi 
querem voltar. E só disto constào aquellas, e outras roças 
nos caminhos, e paragens das minas: e, quando muito, tem 
de mais algumas batatas. Porém em algumas delias hoje, 
achão-se criação de porcos domésticos, galinhas e frangões, 
que vendem por alto preço aos passageiros, levantando-o tanto 
mais, quanto he maior a necessidade dos que passào. E dahi 
vem o dizerem, que todo o que passou a serra de Amanti- 
quira, ahi deixou dependurada, ou sepultada a consciência.» 

O porto Guaipacare acha-se um pouco abaixo da actual 
cidade de Lorena. A antiga estrada, portanto, seguia de 
Guaratinguetá pela margem direita do Parahyba até abaixo 
de Lorena onde passou para a margem esquerda continuan- 
do pelo valle abaixo por uma distancia representada por 
três dias de marcha, sendo a de Guaratinguetá ao porto 
representada por dous. As cinco serras muito altas referidas 
no roteiro são provavelmente contrafortes da serra que a 
estrada ia contornando na procura da garganta do Cruzeiro, 
onde hoje passa a Estrada de ferro «Rio e Minas», que é 
com effeito a mais baixa que se encontra nesta secção da 
Serra da Mantiqueira. O ribeirão que desce desta garganta 
ainda hoje conserva o nome de «Passa- Vinte», ao passo 
que o do lado opposto mudou o nome de «Passa-Trinta» 
para «Passa-Quatro». 

A mesma obra de Antonil dá dous roteiros do Rio de 
Janeiro para Minas ; um, o caminho velho, pelo porto de 
Paraty e Taubaté para ganhar o caminho acima descripto ; 
c o outro, o caminho novo, pelo valle do Parahybúna, isto 
é, a estrada de Barbacena. Na descripçào desta ultima não 
vem mencionado o nome da serra, e é provável que nesta 
epocha não era conhecido nelle o nome de Mantiqueira. 
Seja como fôr, é evidente que o emprego do nome no ca- 



-- d2 — 

minho velho de Sào Paulo, data da primeira abertura deste, 
e que dahi o nome tem-se espalhado, como uma mancha de 
azeite, sobre a cordilheira inteira. Como na linguagem po- 
pular dá-se o tratamento de serra ás secções Íngremes das 
estradas, é provável que primitivamente o nome «Serra da 
Montiqueira» se referisse á garganta e não aos picos ele- 
vados ao lado. 

E' digna de nota a forma primitiva da palavra »Aman- 
tiquira» que é [provavelmente mais approximada do que 
«Mantiqueira» ao original nome indio, se é, como parece, 
de origem indigena. Ainda hoje os habitantes da serra di- 
zem geralmente «Mantiquira». Um documento de 1790 con- 
serva o «A» inicial dizendo «Amantiqueira». A forma Man- 
tiquira acha-se também no nome dado a um córrego nas 
vizinhanças da cidade de S. Paulo, tributário do Tietê, 
quasi em frente á Penha. (*) Seria interessante saber se 
este ultimo nome vem da extensão dada ao nome da serra 
ou se teve origem independente. A ultima hypothese parece 
a mais provável, visto que em São Paulo é raro ouvir-se o 
nome de Mantiqueira applicado á serra ao norte, univer- 
salmente conhecida pelo nome de Serra da Cantareira. 

Com a extensão do nome da Mantiqueira tem desap- 
parecido, pelo menos dos mappas, muitos nomes locaes ap- 



(*) o digno consócio, dr. Theodoro Sampaio me offerece gentilmente a 
seguinte suggestão que se submette á consideração dos entendidos na matéria 
da linguistica indigena. 

«A palavra Mantiqueira, antigamente pronunciada Amantiquira, pronuncia 
que ainda se conserva entre o povo de municípios vizinhos da serra, parece 
derivar-se da tupy— owaníj/ ou amandy que significa chuva e uquire que na 
lingua Tupy do Amazonas significa dormir. Amantyquire viria a significar, 
portanto, dormida ou pouso da chuva, o que bem se explica pela presença das 
nuvens quasi permanentes sobre o cume daquella serra. 

O que corrobora ainda esta interpretação é a existência de outros vocábulos 
de origem tupy contendo o mesmo elemento etymologico nas vizinhanças da 
mesma região, como Buquira, logar numa garganta da mesma serra, na estrada 
conhecida em outro tempo por Caminho do Rio, pouso de tropeiros, e que evi- 
dentemente se origina da palavra tupy uquire pronunciada buquira, que quer 
dizer dormida, pousada. O vocábulo Cambuquira, significando folhas tenras da 
abóbora, ou os brotos, que são folhas fechadas e como que dormentes, vem tam- 
bém do tupy : caa, folha, uquira, que dorme, isto é : Cambuquira, ou caau- 
quira quer dizer literalmeute /oi^a que do? me." 



dõ 



plicados aos diversos macissos ou secções do systema. Alguns 
destes nomes figuram nos mappas antigos, e quando fôr 
levantada topographicaraente a região serão encontradas de- 
zenas de outros conservados na linguagem popular das di- 
versas localidades. Um systema montanhoso como o da Serra 
da Mantiqueira, no sentido lato em que é hoje empregado, 
consiste de macissos mais ou menos individualizados ali- 
nhados em diversas series sub-parallelas. Na nomenclatura 
geographica ha grande conveniência em conservar os nomes 
destes macissos cujas relações entre si só podem ser deter- 
minadas pelo estudo detalhado, topographico e geológico, do 
systema. Como estes macissos podem estar ligados entre si 
de diversos modos haverá, sempre que faltem conhecimen- 
tos topographicos minuciosos, divergência de vistas sobre o 
emprego do nome systematico. E nos casos em que uma 
divisão politica corre por um systema montanhoso, esta di- 
vergência pode assumir grande importância politica e social. 
Ainda hoje os conhecimentos topographicos da região da 
Serra da Mantiqueira são tão imperfeitos que é impossível 
dizer com rigorosa precisão onde é que começa ao norte e 
onde termina ao sul o systema, bem como a sua largura e o 
numero e disposição dos membros subordinados que a elle 
pertencem. Não é, portanto, de estranhar que tivesse havido 
a mesma incerteza a respeito da divisão politica por ella 
traçada. Um systema montanhoso de largura indefinida nun- 
ca pode constituir uma divisão politica. Esta tem necessa- 
riamente de ser uma linha seguindo por um ou outro dos 
membros do systema, e quando este membro for mal defini- 
do ou mal conhecido sempre haverá duvida a respeito. No 
caso presente o membro subordinado que serve de divisa é 
o que tem o mesmo nome do systema, isto é, o prolonga- 
mento natural da primitiva Serra da Mantiqueira nas vizi- 
nhanças da garganta do Cruzeiro. Deste ponto para o sul, 
na parte que corresponde á divisa das aguas entre 'o Para- 
hyba e o Rio Verde, este membro é bem definido ; porém 
depois na secção que corresponde ao Rio Sapucahy ha uma 
espécie de bifurcação, e tem havido discussão sobre ser um 
ou outro dos ramos desta bifurcação o verdadeiro prolonga- 



— d4 — 

mento da Serra da Mantiqueira. Hoje em dia o nome é ge- 
ralmente applicado ao alto espigão que limita o valle do 
Parahyba, e, conforme os Mineiros, é este espigão que deve 
ser considerado como a Serra da Mantiqueira no sentido 
restricto em que é preciso empregar o termo quando se 
trata da divisa. Os Paulistas do valle do Parahyba, pelo 
contrario, mantiveram, pelo menos até o fim do primeiro 
quarto deste século, que o nome próprio deste espigão era 
Serra do Parahyba, e que a verdadeira Serra da Mantiquei- 
ra era a ramificação mais para o oeste que limita os Cam- 
pos do Jordão e que nos mappas antigos mineiros figura 
com o nome de Serra do Caim. Nesta questão muito dis- 
cutida nas contendas sobre divisas no districto de Pinda- 
monhangaba e do alto Sapucahy, a opinião mineira está 
mais de acordo com a nomenclatura que seria empregada 
por topogi-aphos sem preoccupações politicas. A nomenclatu- 
ra mineira, porém, se afasta da topographica para incluir o 
Morro do Lopo que se acha numa ramificação, e não sobre 
o natural prolongamento topographico da primitiva Serra da 
Mantiqueira, que é o grande resalto que limita o valle do 
Parahyba até a grande volta em Guararema, e depois o 
valle do alto Tietê. Assim tanto a nomenclatura mineira 
como a paulista, ambas baseadas sobre preoccupações politi- 
cas, se afastam da topographica. A actual linha convencio- 
nal da fronteira na parte correspondente ao valle do Para- 
hyba á resultante dos confl.ictos entre estes diversos modos de 
ver, e n'uma parte afasta-se notavelmente da linha natural 
topographica. Começando na garganta do Picú entre os dous 
picos altos do Itatiaia e Picú collocados sobre a Serra da 
Mantiqueira no sentido restricto deste nome, segue pelo 
cume desta serra até quasi em frente de Guaratinguetá onde 
a deixa para ganhar por uma linha irregular e mal definida 
a Serra do Caim dos antigos mappas para depois voltar por 
uma linha exquisita em zigzag para o cume da Serra da 
Mantiqueira no sentido topographico, ou a Serra do Parahy- 
ba dos antigos Paulistas, seguindo por esta até o pico da 
Pedra Sellada onde ha uma bifurcação abrangendo o valle 
do Atibaia, da qual bifurcação o ramo esquerdo deve con- 



— d5 — 

servar o nome de Mantiqueira, tomando outro nome o di- 
reito que a linha divisória segue até o Morro do Lopo. 

Nesta parte da fronteira as duvidas a respeito da divisa 
nasceram de differenças de nomenclatura e podem ser re- 
solvidas por um appello franco e leal ao conhecimento to- 
pographico do terreno, estando ambas as partes de acordo 
em traçar a divisa por uma certa distancia pelo cume da 
Serra da Mantiqueira. O desacordo versa sobre o ponto 
onde a divisa devia deixar esta serra para se dirigir para o 
norte em procura do Rio Grande, que é o outro trecho não 
contestado da divisão. Conforme as idéas paulistas a divisa 
devia sahir da serra nas cabeceiras do Rio Sapucahyguassú 
e seguir pelo leito deste rio até a confluência do Sapucahy 
com o Rio Grande. Conforme as idéas mineiras a divisa de- 
via continuar pelo cume da Mantiqueira até o Morro do 
Lopo para dahi se dirigir para o norte de um modo que 
nunca foi claramente definido^ estando na actualidade, po- 
rém, determinado pela evolução irregular dos limites de 
posse dos habitantes de um e outro Estado na zona con- 
testada. 

As duvidas a este respeito provém da confusão que tem 
havido, e que ainda hoje persiste, entre a Serra da Manti- 
queira em sentido restricto e o mesmo nome empregado 
como termo systematico. Como já foi referido, ha ainda in- 
certeza sobre os verdadeiros limites topographicos do systema 
montanhoso da Serra da Mantiqueira. Atraz do grande re- 
salto que define o systema pelo lado do valle do Parahyba 
existe um grande planalto montanhoso cujas feições topo- 
graphicas só podem ser convenientemente classificadas de- 
pois do levantamento topographico detalhado e o estudo 
geológico de toda a região. Neste planalto acham-se repre- 
sentados e de certo modo fundidos uns com os outros, além 
do systema da Serra da Mantiqueira, dois outros mais ou 
menos distinctos, o da Serra do Espinhaço e o da Serra da 
Canastra. Ao norte do Rio Grande estes três systemas são 
mais ou menos destacados e definidos pelos valles dos rios 
Doce e São Francisco ; porém ao sul daquelle rio não é 
possível, com os limitados conhecimentos de hoje, distinguir 



— 46 — 

systema algum. A margem occidental do planalto se desfaz 
em espigões subparallelos entre si e a Serra da Mantiquei- 
ra (Serra do Parahyba), estendendo-se como dedos de uma 
mào entre os valles tributários do Piracicaba e Mogyguas- 
sú, até morrerem de encontro á planicie elevada não mon- 
tanhosa do interior do Estado de São Paulo. 

E' possivel que todos os referidos espigões possam ser 
considerados como pertencentes ao systema da Serra da 
Mantiqueira, porém não ha possibilidade de referi-los a esta 
serra no sentido restricto em que é preciso empregar o no- 
me quando se trata de divisas. Havendo ainda hoje confu- 
são devida aos dous empregos do nome, não é de admirar 
que a houvesse na occasião de se tentar traçar por ahi a 
divisão das duas Capitanias. Com a idéa, baseada nas in- 
formações extremamente incompletas daquelle tempo, de que 
a Serra da Mantiqueira dobrando para o norte continuava 
em linha continua até o Rio Grande, e que a assim chama- 
da Serra do Mogyguassú pertencia a esta linha, o Gover- 
nador Gomes Freire de Andrade, mandou, em 1749, traçar 
a linha divisória pelo cume desta serra imaginaria. 

Se, como convinha, Gomes Freire de Andrade tivesse 
encarregado um engenheiro do levantamento da linha que 
elle mandou correr á bússola (agulhão), este logo se teria 
visto embaraçado em exeeutal-o estrictamente conforme a 
letra das suas instrucções. Para alcançar a Serra de Mo- 
gyguassú, seguindo sempre pelo cume da serra, teria sido 
obrigado a deixar a Serra da Mantiqueira propriamente dita 
mais ou menos na altura da Pedra Sellada, para ir pulando 
de um espigão secundário para outro contornando as cabe- 
ceiras do Jaguary, Camandocaia e Mogyguassú, e depois a 
seguir pelo espigão entre este rio e o Pardo até a Serra do 
Mogyguassú. Seguir d'ahi pelo cume das serras seria ir ca- 
hir no pontal na confluência do Mogyguassú e Pardo sem 
seguimento pelo cume das serras para o Rio Grande. A ou- 
tra sabida, contrariando as instrucções, seria atravessar o 
valle do Rio Pardo para ganhar a linha de altos que divi- 
de as aguas do Mozambinho e Jacuhy das do Rio Pardo e 
Sapucahy mirim. Ao advogado, Ouvidor da comarca do Rio 



— n — 

tias Mortes (*), a quem foi encarregada a divisão, estas mi- 
nudencias topographicas e os mysterios do agulhão não of- 
fereceram difficuldades que não fossem, no momento, facil- 
mente removidas por um traço de penna, ficando porém ac- 
cumuladas e extraordinariamente multiplicadas para todas as 
autoridades que se lhe seguiram durante século e meio. O 
introduzir elle na questão o Morro do Lopo e a estrada de 
São Paulo para Goyaz, facto que de nenhum modo pode ser 
justificado pelas suas instrucções e menos ainda pela dispo- 
sição topographica do terreno, complicou de tal maneira a 
questão de limites que esta até hoje espera solução. 

Na discussão supra a Serra do Mogygiiassú das ins- 
trucções de Gomes Freire de Andrade tem sido identificada 
«om a Serra de Caldas, um macisso meio destacado, de forma 
circular e caracter especial, que se eleva na margem do 
planalto montanhoso sem ligação immediata com o systema 
da Serra da Mantiqueira, nem com qualquer outro até hoje 
reconhecido. Este nome de Serra de Mogyguassú tem dado 
origem a grandes discussões, e com effeito não é uma de- 
signação popular nem uma designação geralmente acceita 
pelos geographos. Nos mappas em que se encontra o nome 
é muito evidente que este figura por motivos políticos e não 
geographicos ; porque estes mappas não dão nomes ás mon- 
tanhas senão quando estas entram em questões de limites. 



(•) A parte puramente technica da ordem dada ao dr. Thomaz Rubim de 
Barros Barreto é a seguinte : — «Chegando Vm. ao marco dito, que está no 
alto da referida serra da Mantiqueira, e servirá de balliza para a demarcação, 
do alto, em que elle se acha, se tirará uma linha pelo cume da mesma serra, 
seguindo toda até topar com a Serra de Mogi-guassú, e o rumo que pelo 
Agulhão se achar, fará Vm. expressai no termo da demarcação, a serra de 
Mogi-guassú se deve seguir como divisão dos ditos Govert^os até findar nos que 
se lhe seguirem, fazendo-se sempre pelo cume delia a divisão, até topar no 
Rio Grande, etc.» 

Chegando o dr. Thomaz Rubim, não ao marco indicado, porém no arraial 
de Santa Anna do Sapucahy, pelo caminho de S. João d'El-Rey donde nem por 
um óculo podia elle avistar a Serra da Mantiqueira, foi alli lavrado o celebre 
auto de demarcação. Os rumos que deviam ser achados pela bússola (Agulhão) 
foram commodamente substituído» pelas declarações juramentadas dos «homens 
mais practicos e de verdade que poderão descobrir-se» estando já descobertas, 
desde São João d'El-Rey, a verdade e a practica de grande parte d'elles, visto 
serem officiaes daquella villa a terça parte, pelo menos, dos signatários do auto. 



-^ 48 — 

Na reunião de 12 de outubro de 1765 da Junta do Rio de 
Janeiro para tratar dos limites das duas Capitanias, os me- 
lhores conhecedores da região (incluindo neste numero o pró- 
prio conselheiro de Gomes Freire de Andrade, o guarda-mor 
das minas Pedro Dias Paes Leme) declararam que não havia 
serra alguma com este nome, julgando alguns delles que 
Gomes Freire de Andrade queria se referir á Serra de Dumbá 
na região de Jacuhy. Diversos mappas posteriores a esta data 
trazem, porém, o nome e uniformememente na posição da 
Serra de Caldas, mas com a circumstancia já notada de ser 
esta quasi a única serra distinguida com nome. Os mappas 
mais modernos e mais minuciosos, em que quasi todas as 
serras vêm com os nomes pelos quaes são localmente co- 
nhecidas, não trazem o de Mogyguassú. 

Embora seja evidente que a identificação da Serra de 
Mogyguassú com a de Caldas nos mappas antigos é uma 
simples hypothese dos seus autores sem conhecimento da 
designação lo^ial, ha fundados motivos para se acreditar que 
seja acertada. Na epocha, em que o nome foi empregado 
por Gomes Freire de Andrade, a região só era conhecida 
vista de longe, da estrada de Goyaz que a sahir da villa de 
^^ogyguassú fraldeia o macisso de Caldas na parte hoje co- 
nhecida pelos nomes locaes de Serra do Caracol e Serra dos 
Poços de Caldas. Ninguém tinha penetrado nestas serras, e 
é provável que nem tivessem nome próprio. Gomes Freire 
de Andrade, querendo designar uma serra nesta região coma 
balisa de sua demarcação, e sabendo que perto de Mogy- 
guassú se avistava uma serra alta á direita da estrada, na- 
turalmente lhe applicou o nome da villa ou rio mais próxi- 
mo. A supposição de que esta serra formava parte da Man- 
tiqueira era, com os conhecimentos da epocha, muito natu- 
ral, tendo mesmo persistido até uma epocha relativamente 
recente. 



ORIGENS REPUBLICANAS DO RRAZIL 

PELO 

DR. DOMINGOS JAGUARIBE 



Origens Republicanas do Brazil 

ANTES BO XIK SEGUUO 



DEDICADO 

ÂS VICTIIIAS DA PREPOTÊNCIA DOí; aVERNOS 



PARTE I 

Para avaliar de quanta oppressão se fez cercar a orga- 
nização do Brazil pela metrópole, é preciso saber-se que ao 
lado do esforço para aniquilar os homens patriotas, esteve 
sempre o trabalho paciente dos educadores do povo, escolhi- 
dos pelo governo portuguez. 

Esta luta dos sórdidos interesses coloniaes offerece o 
triste espectáculo de uma população laboriosa ter vivido á 
mingua, no meio da terra mais rica do mundo ! 

Educando os trabalhadores só para pagar o dizimo^ o 
quinto, a derrama^ e quantos outros conluios se faziam para 
que o povo estivesse sempre convencido do muito que devia 
ao Rei, pela concessão que se lhe fazia de o deixar viver, o 
governo da Coroa não era entretanto menos oppressivo para 
os sens próprios delegados, algozes dos súbditos. Pombal tra- 
tava 08 agentes de nomeação, fazendo-os meros instrumentos 
de dilação do crime em nome da lei, que abrigava á sua 
sombra todos os actos do governo, verdadeiras estorções, com 
aquelle lindo rotulo. 

O ministro de d. Maria I, Martinho de Mello Castro, 
obteve o celebre alvará régio de 5 de janeiro de 1785, no 
qual se ordenava. «Que fossem destruidas todas as fabricas 



— 22 — 

que houvessem no Brazil e todos os estabelecimentos indus- 
triaes, e que se fizesse uma devastação a ferro e fo^o, para 
que fossem cobrados os impostos atrazados » ! 

Não ha meio mais efficaz de fazer nascer a liberdade 
do que dominar uma terra virgem pela tyrannia. -i- 

Minas Geraes, onde o clima ameno e a altitude das serras 
dão ao homem uma robustez e vitalidade que lhe impri- 
mem o sangue puro e oxygenado nas veias, por isso mesmo 
que era o lugar mais prospero, também foi o mais explorado. 

A observação nos ensina que assim na terra como na 
sociedade, todas as vezes que não se aproveitam os elemen- 
tos naturaes da riqueza, seja da natureza bruta ou da ani- 
mada, estes elementos se voltam contra o homem, como que 
bradando contra elle pela sua inépcia. 

E' assim que vemos, junto das mangueiras ou curraes 
onde a superabundância da esterqueira accumulada se perde, 
quando não é aproveitada para hortaliças e culturas, nascer 
a cicuta, veneno terrível com o qual os tyrannos de Athe- 
nas mandaram matar Sócrates no anno de 468, antes de 
Jesus Christo. 

Também os povos quando soífrem o martyrio, a perse- 
guição, a fome, a falta de dinheiro, a crueldade da lei, fa- 
zem brotar a revolução, veneno benéfico quando acaba com 
a tyrannia. 

O uso bom ou máu desta droga tem sido sempre a 
origem dos males que não se extinguem senão com a cultu- 
ra, o trabalho, a justiça e a liberdade. 

Descoberto o veneno, é preciso descobrir o antídoto ! 

Tirai do homem a consciência, o que fica é nada. 

Tirai do governo a Justiça ; o que fica é a força bruta, 
é a tyrannia, porque o governo em si é sempre o represen- 
tante do mando, que está para a sociedade como o instincto 
está para os animaes. 

A educação, que faltava ao governo da metrópole, refi- 
nava os espíritos dos algozes e das victimas, cada um em 
sentido opposto ao outro. 

O governador de Minas, Luiz da Cunha e Mello, aper- 
tou quanto poude as suas victimas, mas o marquez de Pom- 



— 23 — 

bal observou que elle viera pobre ao Brazil e voltara rico 
para o Reino. 

Não se fez demorar uma denuncia contra o ladrão que, 
recem-cheg-ado a Lisboa, foi logo condemnado a pagar 90 
mil cruzados, embolsados criminosamente em Minas. 

A rapacidade dos delegados igualava a sacra f ames auri 
dos governos. (1) 

A gloriosa inconfidência teve um berço digno. 

O ouro que ia do Brazil constituía a origem da fortu- 
na, e aqui se acharam estas novas fontes de riqueza que se 
julgavam inextinguíveis por sahir do solo, e perennes, por 
^erem adquiridas com o povo, esta eterna victima do des- 
potismo dos poderosos, que se servem delia como os rios das 
aguas das suas nascentes, para engrossarem as caudaes das 
inundações que fazem a* devastação e a miséria, e depois que 
seccam, deixam no ar os miasmas mais deletereos que se 
encarregam de matar os que vêm observar os estragos feitos 
na superficie da terra. 

Razão teve o mallogrado mestre e grande escriptor por- 
tuguez Oliveira Martins, quando escreveu, apreciando as ri- 
quezas que iam do Brazil ; Poude d. João V dar largas á 
sua ostentação fradesca, e o Marquez de Pombal reconstruir 
não só Lisboa, mas todo o Reino.» 

Para manter o direito de cobrar os dizimos, verdadeiras 
tisanas com as quaes Portugal curava todas as enfermidades 
do seu tbesouro, era preciso manter um exercito, a titulo de 
garantia do povo ! 

Em 1775 foi feito um recrutamento no meio da escassa 
população livre. 

Seis mil homens foram recrutados em Minas Gerae», 
provindo dessas prisões de innocentes, adoçadas com o nome de 
recrutamento, tanto horror para o j)ovo que ainda hoje o 
mineiro é refractário ao serviço militar, e foi alli que se 



(i) o Padre António Vieira, consultado pelo Rei si convinha dividir em 
duas partes a administracção do Brazil, respondeu— que era melhor conser- 
val-a unificada porque era mais difficil encontrar dois homens de bem do que 
um, e menores males causava um ladrão do qne dois. (Carta do Padre Vieira). 



— 24 — 

tornou popular esta plirase do povo : — Deus é grande, mas 
o mato é maior. (1) 

O decreto de d. Joào III para colonizar o Brazil, é 
talvez o documento mais vergonhoso que se pode ler em 
lingua portugueza, ei-lo : 

«Attendendo El-Rei que o Brazil j^recisa de novo ser 
povoado, ha por bem decretal-o couto e homisio para todos 
os criminosos que nelle quizerem ir morar, ainda que já 
condemnados em sentença até em pena de morte, exceptua- 
dos somente os criminosos de heresia, trahição, sodomia e 
moeda falsa» !!! 

Por outros quaesquer crimes não serão de modo algum 
incommodados» !!! (2) 

A este tempo alguns pais humanos mandaram seus fi- 
lhos estudar na Europa; desde então, estes moços, indigna- 
dos com o modo perverso, cruel e tyrannico, que tornava 
tão precária a vida do cidadão, de modo que o escravo era 
um ente feliz, comparado com o cidadão que pensava, prin- 
cipiaram a organizar as idéas revolucionarias, que mais tarde 
deviam fazer do Brazil uma Republica. 

Pense-se nas palavras do Padre Anchieta, em uma de 
suas cartas, publicadas na Chorographia do Brazil por Mello 
Moraes, na qual diz aquelle varão illustre ao Provincial da. 
Companhia de Jesus : 

«Parece-me coisa muito conveniente mandar Sua Alte- 
za algumas mulheres, que lá tem pouco remédio de casa- 



(i) Quando se fez a guerra do Paraguay, por mero capricho do imperador 
que quiz civilizar e libertar aquelle povo infeliz, esquecendo-se de que havia no 
Brazil um milhão de escravos para se libertar, os mineiros foram os que mais 
deserções fizeram e os que menos soldados deram para a guerra. Estas infor- 
mações obtive-as de um auditor de guerra. 

(a) Os governos ineptos têm nos seus próprios actos o castigo ; as leis so- 
ciaes como as leis no mundo physico têm determinado fatalismo na sua marcha, 
infringidos os princípios básicos de toda sociedade organizada, a própria natu- 
reza humana incumbe-se de reparar as faltas dos governos. O facto de ter sido 
o Brazil declarado couto de criminosos e terra de degredo, trouxe ao seu seio 
elementos de rebeldia contra o seu governo. Estes elementos maus, trazidos do 
reino pela resistência offerecida ás leis, se melhoraram consideravelmente no 
meio americano, mas lançaram germens poderosos contra as autoridades rer 
presentantes do poder que os conderanára. 



— fo- 
mento a estas partes, porque casariam todas muito bem, 
comtanto que não tenham de lodo perdido a vergonha de 
Deus e do Mundo». (1) 

Três séculos se haviam decorrido sem que o novo mun- 
do desse outras provas de sua grandeza, que nào fossem o 
oiro, as pelles dos animaes selvagens, as cascas das arvores 
para as tinturarias européas e os preciosos diamantes. 

A historia do Brazil colonial podia ser dividida em dois 
períodos : 

O 1.'' — Exploração das Minas (2) 

O 2." — Exploração do captiveiro (3) 

Quanto mais se avançava no tempo, mais se recuava 
no progresso, e entretanto este producto do próprio tempo 
ficava intenso, embora latente, nas consciências dos patrio- 
tas e dos martyres. 

Era o Maranhão uma das capitanias mais ricas e po- 
pulosas, e a grapde Companhia do Maranhão fez mais co- 
nhecer o Brazil no velho mundo do que o governo portu- 
guez que o ocultava para melhor explorai. o. 

O decreto de d. João III, acima publicado, era a prova. 
Com vma tal sementeira o governo estava certo da colheita. 

Accresce que a miserável exploração da carne humana, 
fez com que os próprios senhores explorassem os filhos (4). 

Os fazendeiros ricos do Maranhão entraram em con- 
flicto com o vulto grandioso do Padre Vieira, capaz só elle 
de encher uma epocha, de modo que nós chamaremos o sé- 
culo XVI, no Brazil — o século do Padre Vieira. Este heroe, 
tendo aberto luta contra o captiveiro dos Índios, teve de 
ser forçado a retirar-se para Lisboa. 

Lá elle escreveu as celebres cartas do Padre Vieira, 
modelos de eloquência e sabedoria portugueza. 



(i) Apezar disto a mulher brazileira faz excepção ao mundo pelo culto 
intimo da virtude. As estatísticas feitas ultimamente pelos adeptos da escola an- 
tropológica criminal sobre a criminologia da [mulher, encontrariam no Brazil 
muito pouco subsidio. A mulher brazileira concorre para a estatística criminal de 
modo muito insignificante. 

(2) Período mineral. 

(3) Periodo agrícola e monarchico. 

(4) Vide «Herdeiros de Caramurúw. Propaganda abolicionista, do autor, 1880, 



Logo os fazendeiros trataram de se organizar, e a estas 
contrariedades dos que se queixavam, juntaram-se as exces- 
sivas cobranças de impostos. 

A população augmentada com o elemento francez, que 
viera primeiro ao Brazil para aquella capitania em 1590, 
não quiz se submetter e promoveu uma revolução. 

Sem perderem de todo o respeito ao governo da me- 
trópole, estes homens visavam tornar-se os árbitros dos ne- 
gócios do seu paiz, que mesmo na linguagem official elles 
chamavam Republica, e as manifestações de origem popular 
asseguravam ser para aquella forma de governo popular que 
tendiam todas as tentativas que lhe davam um cunho na- 
cional, patriótico e republicano. 

Diz o doutor Joaquim Manoel de Macedo em sua «His- 
toria do Brazil», á pap. 216 : «mas lavrava o desgosto e a 
Companhia faltava aos seus compromissos a respeito dos afri- 
canos e agigantava os seus lucros, vendendo por um maxi- 
mum elevado géneros de ruim qualidade e em máu estado.» 

Urdiu-se uma revolta de que foram chefe Manoel Beck- 
man, portuguez e rico fazendeiro, e cabeças principaes Tho- 
maz Beckman, irmão do precedente, e Jorge de Sampaio, que 
rompeu na madrugada de 26 de fevereiro de 1764, sendo Bal- 
thazar Fernandes preso e deposto do governo, extincta a Com- 
panhia do Commercio, e expulsos os jesuítas por uma «Junta» 
chamada dos «Três Estados» — clero, nobreza e povo — que 
immediatamente se installou, distribuiu postos militares, pro- 
vou-se de meios de defesa e despachou Thomaz Beckman para 
Lisboa «afim de representar ao rei conforme as idéas da revolta. 

Póde-se dizer que desde que se formou a sociedade 
brazileira ella não se submetteu jamais ao regimen da mo- 
narchia, sinão pela força (1). 



(i) A guerra hollandeza no Brazil foi um poderoso factor do espirito de- 
mocrático, porque a metropolt, entregando os brazileiros aos seus próprios re- 
cursos, os fez conhecer sua força contra uma nação poderosa e temida e poz 
em evidencia a fraqueza da metrópole, pela remessa de recursos ridículos e 
pelo desejo que teve, a conselho do Padre Vieira, de abandonar a Capitania de 
Pernambuco aos Batavos. Apezar do desejo manifestado no Reino nessa occa- 
sião, a guerra foi continuada com os próprios recursos brazileiros, nascendo em 
Pernambuco a idéa de independência. 



— -27 — 

Documentos antiquíssimos o attestam como o seguinte : 
Tendo sido nomeado, em 1641, Salvador Correia de Sá e 
Benevides governador da Capitania do Rio e S. Paulo, 
aconteceu que o povo se desgostasse com a sua administra- 
ção, allegando violências, rigores e extorções, e como o go- 
vernador partisse para S. Paulo, deixando nomeado interi- 
namente Thomé Corrêa de Alvarenga (1) a quem o povo, 
querendo dar prova do seu desagrado, e resolvido como es- 
tava a não mais prestar obediência sinão ao eleito por elle 
povo, destituiu-o das altas funcções em que estava e bem 
assim depoz egualmente o próprio general Salvador Benevi- 
des, homem digno e que havia abrilhantado o governo co- 
lonial. 

A acta que o povo revolucionário fez lavrar para cons- 
tar este seu acto, em bem da Republica, prova que o povo 
se impacientava pela liberdade e que não supportava o do- 
mínio dos portuguezes, sinão depois de esmagado pela força. 

Sendo muito extensa a acta, nos limitamos a fazer os 
extractos que vêm ao caso. 

«Auno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo, 
de mil seiscentos e sessenta, aos oito dias do mesmo mez e 
anno. nesta Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em 
casa da Camará delia, onde se ajuntaram o povo desta Ci- 
dade e seu Districto, ás cinco horas da manhã, e todos as- 
sim juntos na dita casa, como fora e recinto delia, fez vir 
os officiaes da Camará, que de presente servem, e que ma- 
guados, queixosos e opprimidos das vexações, tiranias, tribu- 
tos, fintas, pedidos, destituição de fazendas que lhe havia 
feito o general Salvador Corrêa de Sá e Benevides que go- 
vernava esta praça, tratando só de suas conveniências, sem 
attender ao bem commum delle, dito povo, descompondo aos 
homens, e a elles mesmos ditos officiaes da Camará de pa- 
lavras injuriosas e afiProntosas, com que todos se vião preci- 
pitados, vexados e opprimidos e que portanto recorreram a 



(i) o infortúnio que acompanha os paizes explorados pela força e pela 
escravidão veio aggravar a sorte do povo com a epidemia da bexiga, que ex- 
plodiu em toda a Costa do Brazil, em 1665. 

Foi esta a data do apparecimento. (Vid. Southey, vol. 4 pag. 286.) 



— 2S — 

Thomé Corrêa de Alvarenga, que de presente estava gover- 
nando, e vendo elle dito povo que os quatro procuradores 
que haviam enviado a Thomé Alvarenga não surtiam ef- 
feito, vinham em pessoa pelas ditas razões a excluir e re- 
mover, como com effeito excluem e removem ao dito Ge- 
neral Salvador Benevides do cargo e posto de governador 
desta praça...» 

«E logo foi approvado pelo povo qne se chamasse a es- 
te Tribunal o dito Thomé de Alvarenga para declarar si 
estava por esta resolução do povo, como a haviam já re- 
presentado e queriam saber si a acceitava ou não, e como 
respondesse por escripto que não podia convir na remoção ou 
expulsão a bem da Republica, de que eu tabellião dou fé, 
o que ouvido e sabido pelo dito povo todo junto e congre- 
gado, todos a uma vóz acclamaram que elegiam e queriam, 
como com eífeito disseram e elegeram por governador desta 
praça e seu districto ao Capitão Agostinho Barbalho Bezer- 
ra, por ser pessoa em quem concorriam todas as qualidades 
e partes necessárias para o dito cargo, para que o gover- 
nasse com justiça assim na guerra como na politica e foram 
juntos a casa do Capitão Bezerra que mostrando escrúpulo, 
o povo disse que acceitasse, senão tinha que morrer. De- 
clarando em fim que acceitava o cargo de Governador da 
Praça e seu districto logo o dito povo em homenagem 
ao Capitão Bezerra novamente o elegeo e aclamou. /> (Vide 
R. Instituto Histórico). 

Cento e doze homens, além do Governador eleito e ecle- 
siásticos, assignaram esta acta. 

Ora, se isso não é um dos meios revolucionários pelos 
quaes o povo usa de sua soberania para se fazer governada 
por si, como é da missão dos governos republicanos, não 
sabemos como se possa contestar o sentimento que animava 
estes patriotas, que, mal se constituindo em sociedade, já 
aspiravam lhe dar a forma a mais livre. 

Uma vez installado o governo popular, foi lavrado o 
edital seguinte, publicado pelas ruas : 

«Ouvi o Mandado que manda o povo desta cidade o seu 
nomeado, que toda a pessoa de qualquer qualidade que seja, 



— 29 — 

parente ou não parente do General Salvador Benevides, 
criado, amigo, affeiçoado, que lhe quizer ir para a sua com- 
panhia irá manifestar ao senado da Camará, para se-lhe dar 
licença e toda a boa passagem que lhe for necessária para 
se partir, para que dentro em dois dias o possam fazer sem 
se lhe fazer offensa alguma; e passado o dito praso se vi- 
rem manifestar, e constando ao depois por qualquer via que 
alguém se cartêa com o dito General ou segue a sua vós, 
será preso e degradado para Angola, e haverá mais a pena 
que o povo lhe quizer dar. 

Rio de Janeiro, 1 de fevereiro de 1681. 

E eu António Ferreira da Silva, tabellião do publico 
judicial e notas dou fé mandal-o assim o dito povo. — Aíito- 
nio Ferreira da Silva.» 

No dia seguinte o povo, sabendo que alguns cidadãos 
se bandeavam para o general, convocou nova reunião e se 
lavrou uma acta na qual, além da destituição de alguns ca- 
pitães, se nomearam outros. 

Nesta acta se diz «que temendo o dito povo que hou- 
vesse alguma conspiração em damno desta Republica e con- 
tra o povo, nomeavam para coronel o mesmo que de pre- 
sente serve, Francisco Sudré Pereira, para Sargento Mór 
Domingos de Faria, para Capitães Christovão Leite, Fran- 
cisco Vargas, Mathias de Mendonça, Matheus Corrêa Pes- 
tana, Manoel Maciel, Sebastião Pereira, Miguel Machado, 
Sebastião Coelho, António Sardinha, Francisco Dermundo, 
Francisco Brito, Francisco de Macedo Freire e Francisco 
Martins Soares». 

Estas manifestações não conduziam, na verdade, a ne- 
nhum resultado pratico. Seria ignorar os limitados recursos 
da população brazileira e os poderosos agentes da força pu- 
blica portugueza ; mas nós as extractamos para mostrar bem 
claramente quanto o sentimento republicano era intenso e 
delle não duvidavam os próprios governadores, como vere- 
mos neste estudo. 

Uma prova desta verdade achamos ainda na narrativa 
dos acontecimentos do Rio de Janeiro, durante o governo de 
Salvador Benevides, a qual se acha na bibliotheca do Rio, 



— 50 — 

onde se vê que depois dos esforços ingentes para acalmar o 
povo, é o próprio chronista, narrando os acontecimentos pas- 
sados em São Paulo, em apoio do General Benevides, que 
emprega a palavra republicana. (1) 

Os documentos a que nos referimos, mostram portanto 
que em São Paulo havia republicanos. 

A revolução do povo no Rio prova que elle conhecia 
como se chegava a ser republicano. 

Os leitores verão de nossa exposição, em ordem chro- 
nologica dos acontecimentos, que em cada uma das capita- 
nias os germens republicanos se faziam distinguir no meio 
do marasmo em que vivia o governo. 

As origens republicanas no Brazil são como os raios do 
sol que apparecem ao observador que entra nas trevas á 
procura de algum objecto que lhe é caro. (2) 



(i) Expedida a carta, se juntaram os paulistas com os Republicanos á sua 
nobreza e prelados das religiões, para obterem a resolução do Governador que 
pretendia regressar para o Rio. 

Embora á palavra Republicana não fosse dado naquelle o mesmo sentido 
que tem hoje, ella era, todavia, a expressão official própria para designar o 
povo brazileiro patriota, que não se submettia á influencia da metrópole e por 
conseguinte realmente republicano. 

(2) A corrente da democracia no Brazil foi muito avolumada pela legisla- 
ção referente ás successões. A divisão da propriedade territorial e da fortuna 
movei pelos herdeiros tem poderosamente influido sobre as idéas republicanas, 
pelo nivelamento que produziu, impedindo a constituição de grandes riquezas, 
sempre prejudiciaes ao regimen das liberdades. Maiores seriam os benefícios 
produzidos por essa sabia legislação que ainda perdura sobre a Índole, idéas e 
costumes do povo, si os legisladores actuaes impuzessem como medida obriga- 
tória nas successões a subdivisão da propriedade territorial por todos os her- 
deiros, sempre que ella ultrapassasse um «minimum» legal. Por esta forma 
chegaríamos mais depressa á pequena propriedade sem o imposto territorial e 
deste modo se realizariam praticamente as manifestações do socialismo no nosso 
paiz, porque sendo o proprietário essencialmente conservador, subdivir é tor- 
nal-a ao alcance de todos. 

Estamos convencidos de que com a politica e a liberdade, harmoniosamente 
associadas, nada temos que receiar do socialismo, como muito bem disse o 
grande escriptor Oliveira Martins em uma carta que tivemos a honra de rece- 
ber e está publicada na Rev. Útil. de 1894 : «A vastidão das riquezas natu- 
raes e a escassez relativa de população permittiram ao Brazil realizar typos e 
formas de organização civil, a que se chama socialistas no velho mundo, e que 
por cá a tradição, os interesses creados e a exiguidade da riqueza, provocam 
commoções graves.» 



PARTE II 

Quando se pensa nos meios oppressivos do ' governo do 
Brazil e principalmente no tempo do reg-imen colonial, quan- 
do se consideri a educação portugueza, cercada de um des- 
jHjtísmo paternal^ que degenerava em pancada á menor con- 
trariedade, é que se avalia o mérito destes patriotas repu- 
blicanos, què surgiram ora no interior das provincias, ora 
nas capitães, e que ao Sul e ao Norte do Brazil disputavam 
o seu ideal em paciente perseverança, no ignorado silencio 
da vida domestica, onde se educam os bons caracteres. 

Minas foi o theatro das mais risonhas esperanças e tam- 
bém dos maiores supplicios. 

Quando o ouro não chegava para as dissipações monar- 
chicas, «e fazia uma derrama no rico Estado e a capital 
Villa Rica era o centro da indignação do povo, que achou 
em Felippe dos Santos, morto e esquartejado, o primeiro 
Martyr ! 

A religião explorada sob sua forma mais indigna fez 
prender os padres companheiros de Tiradentes e os levou 
para as masmorras do Reino, para que morressem com os 
supplicios que a inquisição inventava e que só no velho 
Reino se sabia bem guardar e. praticar. 

Veiga Cabral, o companheiro de Felippe dos Santos, 
também foi para lá, para que o povo do Reino tivesse occa- 
siào de aprender na applicação dos supplicios o modo de se 
punir a pretençào de ser livre no Brazil. 

Estes rigores faziam brotar da terra opj)rimida, como 
um novo Cadmus, as legiões da victoria. 

Abafava-se o crime de ser republicano, mas a idéa de 
Bernardo Vieira de Mello, apresentando em 1710 ao Senado 
da Camará de Pernambuco um plano para se fazer uma re- 
publica como a de Veneza, nasceu mais fulgurante, em 1789. 
com as bandeiras de Tiradentes e depois com o ideal da 



- 5^2 — 

Confederação do Equador e em 1835 com a Republica de 
Piratinim, evoluções da g-loriosa tentativa de Tiradentes. 

Estas idéas não morrem, mas para que ellas possam 
germinar, crescer e florescer, dando fructos, é preciso muita 
paz, muita justiça, muito progresso. 

Si faltam estes elementos, falta também a atmosphera 
onde somente ellas podem viver : p' rque a Uberdade é uma 
planta mimosa que não vive nem nos áridos desertos da 
intriga nem no dominio da corrupção. 

Mas si a despeito destes elementos se faz o sangue das 
victimas humanas apparecer e regar a terra, então este 
sangue é para aquellas idéas o melhor propulsor, elle apres- 
sa o seu apparecimento mais rapidamente, porque fere a 
imaginação dos homens, que lhe serve de vehiculo. 

A liberdade surge embravecida, tal como a onda quan- 
do atira os fracos bateis sobre as rochas. 

A revolução franceza attrahia naturalmente para a Fran- 
ça os homens livres da America. Entre elles não se pode 
deixar esquecidos os nomes dos três distinctos brazileiros que 
faziam seus estudos em Montpellier e Bordeaux, os cidadãos 
José Joaquim de Maia, José Alves Maciel e Vital Barbosa. 

Terminados os estudos de medicina em Montpellier e 
em Bordeaux, Maciel e Vital Barbosa foram para Minas, 
sua terra natal, afim de fazer a propaganda republicana. 

Lamentamos que a mocidade brazileira não tenha ainda 
formado clubs com os nomes que incontestavelmente exer- 
ceram a maior influencia na propaganda das idéas republi- 
canas do Brazil, e eram os dignos companheiros do immor- 
tal Tiradentes, que apezar de ter este nome, pela habilidade 
que empregou neste officio, era hábil ourives e disso sim, 
fazia profissão. (1) 

Narra o Sr. Oscar de Araújo em seu livro — «Idéas 
Republicanas» — que foi José Joaquim da Maia quem in- 
tentou correspondência, em fins do século passado, com o 



(i) Tiradentes não era só hábil ourives. Os primeiros estudos sobre a 
canalização de agua potável na Capital Federal foram por elle feitos para ca- 
nalização da agua da Carioca ; não conseguiu levar a effeito suas idéas, mais 
tarde realizadas por d. João VI. 



— 35 - 

grande Jefferson, que depois foi presidente da Republica 
Norte Americana. 

Nós tivemos que averiguar o assumpto, e apezar de ter 
o conselheiro Lopes Netto mandado verificar na lista da 
matricula dos estudantes de medicina, em Montj^ellier, se 
havia algum estudante brazileiro, o que não foi confirmado, 
não temos a menor duvida em confirmar o facto, porque 
coincide a sua permanência em França com a de Jefí'erson. 

Os homens que tinham instrucçáo no Brazil, não po- 
diam pretender annunciar os seus pensamentos, porque a 
delação andava atraz do homem, como a sombra do corpo, 
O celeberrimo alvará régio de 6 de julho de 1747, prohi- 
bindo o uso da imprensa no Brazil, sob penas as mais se- 
veras, havia feito a ruina de alguns patriotas que ousaram 
mandar vir alguns typos, para o immenso prazer de verem 
em letras impressas as idéas que «e aninhavam nos: seus 
cérebros oj>primidos. 

Não podemos deixar de recordar neste estudo o esforço 
empregado pelo padre Viegas de Menezes, a quem se deve 
o haver conseguido do governador de Minas, Visconde de 
Condeixas, a permissão para ser interposto o seu valimento 
para a obtenção de revogação de tão cruel lei. Para prestar 
homenagem a este acto que marcou uma éra nas conquistas 
da civilização, o padre, que como Tiradentes era hábil ou- 
rives, gravou o frontespicio do jornal, onde appareciam as 
figuras do general governador e da sua esposa Humilhação 
desculpável em tempos tão remo-tos, em que para se dar um 
passo para a frente era preciso retrogradar tanto ! 

Mas para que a imprensa apparecesse no Brazil era 
preciso algum sacrificio, e ella largamente tem reivindicado 
os males causados pelos oppressores. 

O pseudonymo Vendek, de que elle se serviu, foi in- 
ventado para occultar o nome do distincto dr. Maia: 

Em seguida publicamos esta correspondência, copiada 
dos archivos do Instituto do Rio, obtida pelo sr. Lopes 
Netto. 

O diplomata brazileiaH) Lopes Netto, quando ministro 
■do Brazil em Washington, obteve permissão para copiar as 



— 54 — 

cartas dirigidas a JeiFerson por um patriota brazileiro que 
se assignava Vendek, e que como já vimos era o dr. José 
Joaquim da Maia. 

Estas cartas fazem parte dos documentos do archivo do 
ministério dos estrangeiros de Washington, que por consen- 
timento do governo americano foram copiadas, tendo sido 
verificadas as copias authenticas, legalizadas pelas respecti- 
vas secretarias. As cartas trocadas entre o grande republi- 
cano, que foi o terceiro presidente da republica, e o pa- 
triota brazileiro dão uma idéa tão fiel dos sentimentos 
republicanos dos brazileiros, que julgamos prestar um ser- 
viço á mocidade republicana transcrevendo-as, para que ella 
possa sempre achar no cumprimento do dever, em quaesquer 
circumstancias, um modelo digno. 

As cartas de Jeíferson eram dirigidas da Europa ao 
sr. John Jay, presidente do Congresso Americano. 

As idéas manifestadas não só em relação ao Brazil, 
como a outros povos da America do Sul, provam que antes 
do XIX século, a tendência de toda a America era unifi- 
car-se no regimen feliz da Eepublica. 

Eis a copia da correspondência : 

Vendek a Thomaz Jeíferson. — Senhor — Montpellier, 2 
de outubro de 1786. — Tenho am assumpto da maior im- 
portância para communicar-vos ; mas como o estado da mi- 
nha saúde não me permitte a honra de ir encontrar-vos em 
Paris, peço-vos digneis ter a bondade de dizer-me, si posso 
com segurança communicar-vol-o por carta, pois que sou es- 
trangeiro, e por isso pouco inteirado dos usos do paiz. 

Peço-vos perdão da liberdade que tomo e rogo-vos tam- 
bém que mandeis a resposta a Mr. Vigarens, conselheiro do 
Rei e professor de Medicina na Universidade de Montpellier. 

Sou com todo o respeito. Senhor, vosso muito humilde 
e obediente servo. — Vendek. 

Vendek a Thomaz Jeíferson. — Senhor — Acabo de re- 
ceber a honra da vossa carta de 16 de outubro e muito me 
penalisa não a ter recebido mais cedo ; mas tive de ficar 
no campo até agora por causa da minha saúde ; e já que 



35 



vejo que as minhas informações vos chegam ás mãos com 
segurança, vou ter a honra de communicar-vol-as. Sou bra- 
zileiro, e sabeis, que a minha desc^raçada pátria g-eme em 
atroz escravidão, que se torna todos os dias mais insuppor- 
tavel depois da vossa gloriosa independência, pois que os 
bárbaros portuguezes nada poupam para tornar-nos desgra- 
çados com medo que vos sigamos as pisadas, e como conhe- 
cemos que esses usurpadores, contra a lei da natureza e da 
humanidade, nào cuidam sinão de opprimir-nos, resolvemos 
seguir o admirável exemplo que acabais de dar-nos, e por 
conseguinte, quebrar as nossas cadeias e fazer reviver a 
nossa liberdade, que está de todo morta e opprimida pela 
força, que é o único direito, que os europeus têm sobre a 
America. 

Mas cumpre que haja uma potencia, que dê a mão aos 
brazileiros, visto como a Hespanha não deixará de unir-se 
a Portugal ; e apezar das vantagens que temos para defen- 
der-nos, não o poderemos fasier, ou pelo menos não seria 
prudente aventurarmo-nos sem certeza de sermos bem suc- 
cedidos. 

Isto posto, Senhor, é a vossa Nação, que julgamos mais 
própria para ajudar-nos, não somente porque foi quem nos 
deu o exemplo, mas também porque a natureza fez-nos ha- 
bitantes do mesmo continente, e por conseguinte de alguma 
sorte compatriotas ; pela nossa parte estamos promptos a dar 
todo dinheiro que fôr necessário e a manifestar a todo o 
tempo a nossa gratidão para com os nossos bemfeitores. 

Senhor, aqui tendes pouco mais ou menos o resumo das 
minhas intenções e é para desempenhar esta commissão que 
vim á França, visto como eu não podia na America deixar 
de suscitar suspeitas naquelles que disso soubessem. 

Cumpre-vos agora ajuizar si ellas são realizáveis ; e no 
caso de quererdes consultar a vossa nação, estou habilitado 
para dar-vos todas as informações que julgardes necessárias. 

Tenho a honra de ser, com a mais perfeita considera- 
ção, senhor, vosso humilde e muito obediente servo. 

Em Montpelier, 21 de novembro de 178(^. — Vendek. 



36 



Thomaz Jefferson a Vendek. — Paris, 26 de dezembro 
de 1786. — Senhor — Espero a cada momento fazer uma 
viagem pelas províncias meridionaes da França. 

Demorei a resposta á vossa carta de 21 de novembro, 
esperando poder annunciar-vos a data da minha partida, 
assim como o dia e o logar em que eu poderia ter a honra 
de encontrar-vos ; mas até agora este momento não está 
decidido. 

Todavia terei com certeza a honra de participar-vol-o, 
e pedir-vos uma entrevista ou em Montpelier ou nas vizi- 
nhanças. 

Por emquanto tenho a honra de ser, com muito respei- 
to, senhor, vosso humilde servo. — Th, Jefferson. 

Vendek a Thomaz JeíFerson. — Senhor — A noticia 
que acabo de ter a honra de receber da vossa viagem a 
essa parte da França, deu-me o maior prazer, e felicito-me 
por isto ; porque eu via, que me era essencialis«imo ter a 
honra de fallar-vos, e o estado da minha saúde não me 
permettia fazer a viagem a Paris. 

Si eu pudesse saber o dia da vossa chegada a Nimes e 
o vosso alojamento, não me privaria da honra de alli ir 
encontrar-me comvosco, o que estou prompto a fazer em 
qualquer outro logar que vos aprouver ; e para isso não 
espero mais que as vossas ordens. 

No entretanto lisonjeio-me de ser com o maior respeito 
senhor, vosso muito humilde e obediente servo. 

Em Montpelier, 5 de janeiro de 1787. — Vendek. 

Thomaz Jefferson a John Jay. — 4 de maio de 1787. 

Na minha viagem a esta parte do paiz pude colher 
informações, que tomarei a liberdade de communicar ao 
Congresso. 

Em outubro próximo passado recebi uma carta datada 
de Montpelier 2 de outubro de 1786, annunciando-me que 
o autor era um estrangeiro que tinha assumpto de mui 
grande importância para communicar-me, e desejava que eu 
lhe indicasse o meio de levar avante o seu intento com 
segurança. 



— 37 — 

Assim fiz. 

Pouco depois recebi uma carta, que passo a transcrever. 

( Thomaz Jefferson transcreve aqui ipis-verhis a carta 
de Vendek de 21 de novembro de 1786, omittindo apenas 
a assignatura e mudando a pala\Ta de Monsenhor por 
Senhor. 

Como por aquelle tempo me tinham aconselhado as 
aguas de Aix, escrevi áquelle cavalheiro communicando-lhe 
a minha intenção, e accrescentando que eu me desviaria do 
meu caminho até Nimes, sobre pretexto de vêr as antigui- 
dades daquella cidade, si elle quizesse vir encontrar-me alli. 
Elle veio, e o que se segue é o resumo da informação que 
me deu. 

O Brazil contém tantos habitantes como Portugal. 

Constam : — 1.** de portuguezes ; 2.** brancos nacio- 
naes ; 3.** escravos pretos e mulatos ; 4.** Índios civilizados e 
selvagens. 

Os portuguezes são poucos, casados alli pela maior 
parte ; perderam de vista o paiz em que nasceram, assim 
como a esperança de tornar a vêl-o, e estão dispostos a 
tomarem-se independentes. Os brancos nacionaes formara o 
corpo da nação. 

Os escravos são tão numerosos como a gente livre. 

Os Índios civilizados não têm energia, e os selvagens 
não se hão de intrometter. 

Ha 40.000 homens de tropas regulares. A principio 
eram portuguezes ; mas a medida, que foram morrendo, 
foram substituídos jx)r naturaes, de forma que estes com- 
põem presentemente a massa das tropas, e o paiz pode contar 
com elles. 

Os officiaes são em parte portuguezes, em parte brazi- 
leiros. Não se pode duvidar de sua bravura, e entendem a 
parada, mas não conhecem a sciencia da sua profissão. 

Não têm inclinação para Portugal, nem energia para 
cousa alguma. 

O clero é metade portuguez, e metade brazileiro, e não 
se ha de interessar muito pelo movimento. A nobreza é 
apenas conhecida como tal. Não se ha de distinguir do 



— 38 — 

povo em cousa nenhuma ; os liomens de letras sào os que 
mais desejam uma revolução. O povo não se acha muito 
na dependência de seus padres ; a maior parte sabe lêr e 
escrever, possue armas e está acostumada a servir-se delias 
para caçar. Os escravos hão de acompanhar os senhores. 
Em summa, pelo que toca a revolução, a opinião do paiz é 
unanime, mas não ha quem seja capaz de conduzir uma 
revolução, nem quem queira arriscar-se á frente d'ella, sem 
o auxilio de alguma nação poderosa, visto que a gente do 
paiz pode ser mal succedida. Não ha typographia no 
Brazil. 

Gonsidera-se alli a revolução Norte-Americana, como 
um precedente para ser imitado. 

Os brazileiros contam que os Estados-Unidos muito 
provavelmente hão de prestar-lhes auxilio, e por uma varie- 
dade de considerações nutrem a nosso favor os mais fortes 
preconceitos. 

O meu informante é natural do Rio de Janeiro, a pre- 
sente metrópole, onde elle mora, cuja cidade conta 50.000 
habitantes. 

Elle conhece bem São Salvador, a antiga Capital, assim 
como as minas de ouro que se acham no centro do paiz. 

Tudo é favorável á revolução, e como isto mesmo forma 
o corpo da nação as outras partes hão de seguir o movi- 
mento. 

No producto das Minas o quinto do Rei dá 13 milhões 
de cruzados ou meios dollars por anno (1). 

O Rei tem outras pedras precioso, o que lhe dá cerca 
de metade daquelle rendimento. O producto destas duas 
verbas rende-lhe por anno cerca de dez milhões de dollars ; 
mas com o resto dos productos das Minas, que orça por 26 
milhões, pode contar-se para eífectuar a revolução. 

Além das armas que existem nas mãos do povo, ha os 
arsenaes. Os cavallos abundam, mas uma parte somente do 
terreno permitte o serviço da cavallaria. Precisariam de ar- 
tilharia, munições, navios, marinheiros e officiaes, que esti- 



(i) o cruzado forte portuguez vale Soo reis e o meio doUar vale mil réis. 



— 59 — 

mariam receber dos Estados-Unidos, ficando entendido que 
qualquer serviço ou fornecimento seria bem pago. Têm 
elles carne fresca na maior abundância, a ponto que ha 
lugares em que se matam os bois somente para aproveitar o 
couro. A pesca da baleia é toda feita por brazileiros, não 
por portuguezes, mas em embarcações muito pequenas, de 
maneira que os pescadores nào sabem manobrar navios 



A todo o tempo hão de precisar que lhes forneçamos 
embarcações, trigo e peixe salgado. 

Este peixe é um grande artigo, que recebem actual- 
mente de Portugal. 

Não tendo Portugal nem exercito nem marinha, não 
poderia tentar uma expedição antes de um anno. A' vista 
dos elementos de que essas forças teriam de compor-se não 
haveria muito que receiar delias, e, falhando o primeiro es- 
forço, é provável que nunca Portugal tentasse o segundo. 
Ha mais : interceptada aquella fonte da sua riqueza, Portugal 
mal poderia tentar um primeiro esforço. A parte sensata da 
nação está tão persuadida disto que uma próxima separação 
é tida por inevitável. 

Reina entre brazileiros e portuguezes um ódio implacável 
Para acalmal-o, um antigo ministro adoptou o meio de no- 
mear brazileiros para alguns empregos públicos ; mas os ga- 
binetes que se seguiram voltaram ao antigo costume de con- 
servar a administração nas mãos dos portuguezes. 

Existem ainda nos empregos públicos alguns nacionaes 
antigamente nomeados. 

Para a Hespanha tentar uma invasão pelas fronteiras do 
sul, estão ellas demasiado distantes do núcleo dos seus esta- 
belecimentos, além de que uma empresa hespauhola nada 
teria de formidável. 

As minas de ouro acham-se no meio de montanhas ina- 
cessíveis a um exercito, e o Rio de Janeiro é tido como o 
porto mais forte do mundo, depois de Gibraltar. 

Si a revolução fosse bem succedida, estabelecer-se-hia 
provavelmente ura governo republicano, em um só corpo. 



- 40 — 

Durante, toda a nossa entrevista tive o cuidado de fazer- 
ver ao meu interlocutor, que- eu não tinha nem instrucções, 
nem autoridade para dizer uma palavra a quem quer que 
fosse sobre este assumpto, e que podia somente communicar— 
lhe as minhas idéas como simples particular. Disse-lhe que 
na minha opinião não estávamos presentemente em estado de 
nos intrometter em uma g-uerra nacional; que desejávamos par- 
ticularmente cultivar a amizade de Portugal com quem en- 
tretinhamos um commercio vantajoso ; que todavia uma re- 
volução bem succedida no Brazil não podia deixar de inte- 
ressar-nos ; que a esperança do lucro poderia attrahir-lhe 
certo numero de individuos em seu auxilio, e mesmo guiados 
por motivos mais puros, officiaes nossos entre os quaes não 
faltavam mflitares excellentes ; que os nossos concidadãos 
tendo a faculdade de deixar individualmente o seu próprio» 
paiz sem consentimento do governo, têm também a liberdade 
de ir para qualquer outra terra. 

Pouco antes de receber a primeira carta do brazileiro 
Tim cavalheiro informou-me que havia em Paris um mexicano 
que desejava ter alguma conversa commigo. Em seguida 
procurou-me. A informação que colhi delle foi em sub- 
stancia como vou dizer. 

E' natural do México, onde moram os seus parentes. 

Deixou o seu paiz na idade de 17 annos e mostra ter 
agora 33 ou 34. 

Classifica e caracteriza os habitantes do México como- 
segue : 

1.° Os naturaes da antiga Hespanha possuidores da 
maior parte dos empregos do governo, e que lhe são firme- 
mente dedicados. 

2." O clero egualmente dedicado ao governo. 

3.** Os naturaes do México, geralmente dispostos a re- 
voltaremrse, mas sem instrucção nem energia e debaixo do- 
dominio dos seus padres. 

4.° Os escravos mulatos e negros, sendo os primeiros- 
emprehendedores e- intelligentes, os segundos bravos e de- 
máxima importância, qualquer que seja o lado a que se atirem 
mas que ficarão provavelmente do lado dos seus senhores. 



— 41 — 

6." Os Índios domesticados que é provável não tomarem 
parte por ning-uem, e que não têm importância. 

6.** Os Índios livres, bravos e formidáveis, si interviessem 
o que não é provável, por se acharem a grande distancia. 

Perguntei-lhe o numero destas differentes classes, mas 
não soube responder. Pensa que a primeira é pouco consi- 
derável, que a segunda forma a massa da gente livre ; a ter- 
ceira é igual ás duas primeiras; a quarta ás três precedentes; 
e quanto á quinta não pode fazer idéa do seu numero. 

Parece-me que as suas conjecturas quanto á sexta, não 
assentavam em base solida. 

Disse-me saber de fonte segura que na cidade do Mé- 
xico haviam 300.000 habitantes. 

Mostrei-me ainda mais cauteloso com elle do que com o 
brazileiro. Disse-lhe que na minha opinião particular (sem 
estar autorizado a proferir palavra sobre o assumpto) uma 
revolução bem succedida no México, ainda estava muito longe; 
que eu receiava, que primeiro que tudo fosse preciso escla- 
recer e emancipar intellecualmente o povo ; que, quanto a 
nós, si a Hespanha nos desse condições favoráveis ao nosso 
commercio e aplainasse outras difficuldades, não era provável 
que abandonássemos vantagens certas e presentes, ainda que 
pequenas, por outras incertas e futuras, por maiores que 
fossem. Fui levado a ser cauteloso por haver observado 
que este cavalheiro frequentava intimamente a casa do em- 
baixador hespanhol e que estava então em Pariz commissio- 
nado pela Hespanha para fixar os limites com a França nos 
Pyrinêos. 

Tinha ares de candura^ mas esta podia ser fingida, e nào 
pude julgar por mim mesmo o que elle era. 

Levado pela associação de idéas e pelo desejo de dar 
ao Congresso uma apreciação geral das disposições das nossas 
conterrâneas meridionaes, tanto quanto posso, accrescentarei 
um artigo, que, por antigo e isolado, não julguei assaz im- 
portante para fazer delle menção quando o recebi. 

Estareis lembrado, senhor, de que, durante a ultima 
guerra, os periódicos inglezes davam pormenores da rebellião 
do Peru. 



— 42 — 

Essas folhas duvidaram da veracidade da informação; mas 
a verdade é que as insurreições eram geraes, e que o re- 
sultado ficou muito tempo indeciso. 

Si o commodoro Jonhson, esperado então naquella costa' 
tivesse alli levado 2000 homens, estava acabado o dominio 
da Hespanha naquelle paiz. 

Os peruanos precisavam somente de um ponto de reunião 
que este corpo teria formado. Faltando-lhes este, obraram 
sem harmonia e foram subjugados separadamente. Esta con- 
flagração foi extincta no sangue. 

Morreram de ambos os lados 200.000 pessoas ; mas o que 
resta ainda dá alimento para novo incêndio. Tenho esta in- 
formação de uma pessoa que estava na occasião no logar da 
acção e cuja bôa fé, intelligencia e meios de saber as cousas, 
não deixam duvida sobre o modo porque se deram os factos. 
Observou, todavia, que o numero acima referido das pessoas 
que pereceram não passa de conjecturas, que elle pôde colher. 

Importuno o Congresso com estes pormenores, porque, 
por mais afastados que estejamos, tanto em condição como 
em disposições de tomar parte activa nas commoções daquelle 
paiz, a natureza collocou tão perto de nós, que os seus mo- 
vimentos não podem ser indiíferentes aos nossos interesses ou 
á nossa curiosidade. 

Consta-me que ha outro decreto deste governo augmen- 
tando os direitos sobre o bacalhau estrangeiro e o premio do 
francez, importado das ilhas francezas ; mas não o tendo visto 
ainda nada posso dizer de positivo a este respeito. 

Espero que o effeito dessa medida fique annuUado pela 
pratica que me consta existir nos bancos da «Terra Nova/>, 
de pormos o nosso peixe nas embarcações francezas, ambas 
as partes repartindo o premio entre si, em vez de nós pa- 
garmos o direito. 

Tenciono seguir amanhã para Bordeaux (pelo canal de 
Languedoc), Nantes, Lorient e Paris. 

Tenho a honra de ser, com os sentimentos da mais per- 
feita estima e consideração, senhor, vosso muito obediente e 
muito humilde servo — Th.. Jefferson. 



PARTE III 

Não se pode avaliar a extensão dos sofFrimentos dos 
outros não se conhecendo bem os sentimentos de que estão 
animados. 

Animados pela revolução franceza os patriotas brazileiro- 
tinham pressa em mostrar que o espirito que animava a li- 
berdade no velho mundo, era ainda mais intenso no meio da 
atmosphera tropical do Brazil. 

Nascidos em logares ignorados, se juntavam entretanto 
os republicanos, tal como as aguas que fazem as origens dos 
grandes rios do mundo. O Amazonas e o Rio da Prata, tão 
grandes no seu majestoso curso eram, imagino, pequenos 
ainda para a comparação do grande ideal que elles sonha- 
vam, tal como o admirável plano exposto a JefFerson. 

A imaginação não estava longe da realidade, porque 
ella tinha o Brazil, immensamente rico, para termo da com- 
paração. 

Era portanto licito que os patriotas republicanos de 
Minas, tendo á sua frente o mais modesto dos homens, um 
ourives, fizessem recahir sobre elle a chefia do movimento 
que caminhou como a religião christã, atravez do tempo, que 
tem sido o factor de sua grandeza. 

Apreciemos na sua simplicidade histórica o martyrio das 
victimas. 

Olhando para a immortalidade, não viam os heróes bra- 
zileiros da inconfidência a sepultura, nem o corpo das victi- 
mas que ella encerra, porque aquelles que se dedicam ao 
bem do género humano, sem ambição de mando e de gloria, 
que só tratam de alcançar a felicidade dos seus patrícios no 
futuro, porque o presente é cheio de misérias, hão de sobre- 



— 44 — 

viver também nos tempos, porque viveram muitos annos antes 
a vida que lhes estava destinada. (1) 

Alimentando-se de idêas grandes, taes como a de libertar 
seus patrícios, estes martyres se aqueciam ao sol da pátria, 
vivificando todos os que se chegavam a elles, animados pelo 
calor dos trópicos, que produziu sempre, tanto quanto era 
preciso para desfazer os males que a metrópole espalhava em 
tempestades. 

Querendo escolher tima só victima, a quem se tiraria a 
vida emquanto, no desterro, os outros purgassem os seus cri- 



(1) A Republica sonhada pelo Grande Heroe da conjuração mineira não se 
fez em 1789 porque houve um Judas Iscariote que se chamava Joaquim Silvério 
dos Reis. Mas antes que um século se completasse depois da execução de Ti- 
radentes, o Martyr da liberdade, o 15 de Novembro de 1889, veio abalar pela 
base os fundamentos do Império, proclamando-se a Republica dos Estados Uni- 
dos do Brazil. 

A prophecia dos conjurados, impressa na bandeira da futura Republica— que 
devia ter por divisa as seguintes palavras «libertas quae será tamen», (liberdade 
ainda mesmo tardia) realizou-se 97 annos depois ; mas elles, pagaram bem caro 
a sua tentativa, e, lun delles, o mais audacioso e intrépido, aquelle que teve a 
honra, o valor, o heroismo e a coragem de confessar que era um dos conjura- 
dos, e que o fim da conjuração era banir do solo da pátria o predomínio da 
monarchia ; aquelle que não tremeu e nem vacillou diante da sentença de morte, 
era o Alferes Joaquim José da Silva Xavier ; era o Grande e Glorioso heroe 
da conjuração mineira. 

A sentença condemnatoria que levou o grande patriota mineiro ao p>atibulo» 
foi lavrada nos termos seguintes : 

SENTENÇA 

«Portanto condemnam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha Ti- 
radentes, alferes que foi da tropa paga da Capitania de Minas, a que com ba- 
raço e pregão seja conduzido pelas ruas publicas ao logar da forca e nella 
morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a 
cabeça e levada a Villa Rica, aonde em o logar mais publico delia, será pregada 
em um poste alto até que o tempo a consuma ; o seu corpo será dividido em 
quatro quartos e pregado em postes pelo caminho de Minas, no sitio da Vargi- 
nha e Cebollas, onde o réu teve as suas infames praticas, e os mais nos sitios 
de maiores povoações, até que o tempo também os consuma. 

Declaram ao réu infame, infames seus filhos e netos, tendo-os ; seus bens 
applicam para o fisco e camará real, e a casa em que vivia em Villa Rica será 
arrasada e salgada e que nunca mais no chão se edifique e não sendo próprio 
será avaliado e pago a seu dono pelos bens confiscados e no mesmo chão se 
levantará um padrão pelo qual se conserve em memoria a infâmia deste abo- 
minável réu». 

Nós agora dizemos : fazem hoje centro e três annos que esta infame e abo- 
minável sentença foi proferida contra o immortal Tiradentes. 



— 45 - 

mes soffrendo misérias, o governo não fez sinão augmentar 
a aureola do grande Martyr, porque um ser que soffre por 
tantos outros, não pode deixar de se sentir engrandecer com 
as dores na proporção dos bens pessoaes, que ellas geram ! 

Ah ! Quantos têm ficado immortaes, não tanto pelo que 
escreveram como pelo que sofiPreram ! 

Sem os supplicios e as dores não se santificam os grandes 
homens, nem suas idéas passam a ser o património e o ali- 
mento dos espiritos patrióticos que lhes succedem. 

Como se poderia na livre America, nas altaneiras mon- 
tanhas de Minas destruir a liberdade ? 

Quem ousaria arrancar as gigantes figueiras, perobas e 
gequitibás das florestas tropicaes, que medem dois e três 
metros de diâmetro em seus troncos ! 

Destruir os germens da liberdade em taes regiões é pre- 
tenção egual a que acabamos de indicar. 

Com efifeito, o governo se encheu da alegria que geram 
os festins do ódio e de vingança ; mas não vive só um anno 
quem vive para fazer o mal e o crime. A vida intima dos 
governos que supprimem a liberdade, é talvez a mais fértil 
de festins, de oppressões e tyrannias. 

Foi nos pântanos Pontins de Roma que os Neros e os 
Caligulas fizeram trabalhar as victimas do catholicismo, que 
mortas pelos miasmas pestilenciaes, ficavam insepultas. 

Aquelles que escondiam nos subterrâneos das catacumbas 
de Roma os corpos dos martyres, mal podiam pensar que a 
justiça havia de fazer sahir destas profundas e tectricas ga- 
lerias, a fé, e a verdade que os tyrannos julgavam destruir 
com as suas victimas, que afinal vieram dominar insellectual- 
mente, não só Roma, mas todo o mundo. 

Não era muito para a nossa civilização esperar um século l 

Bem haja a acção bemfazeja daquelles que tiveram a 
tempera rija para as lutas que sustentaram e que no meio 
dos mais inaccessiveis lugares levaram a civilização^ e plan- 
taram as idéas da liberdade. 

Hontem como hoje, bem hajam aquelles que não se jul. 
gam com direito aos bens de que gozam, si não para pro- 
mover, sem ambições, a felicidade de seus patrícios ! 



— 46 — 

A historia da Inconfidência Mineira tem sido escripta 
por outros e ja é conhecida dos moços estudiosos. 

Não é nosso fim repetir o que já está na consciência de 
todos, porém sim narrar o modo por que a justiça castigou as 
victimas. Copiámos dos documentos dos juizes o que elles 
julgaram ser uma sentença exemplar, porque nella se vê de 
que exemplo era capaz tal justiça. 

Envenenado pela falsa dilação que os confessores leva- 
vam aos ouvidos de uns para outros presos, é provável que 
a paixão e a fraqueza das victimas, tivessem feito as reve- 
lações que se queriam. A honra da descoberta, não é porém 
digna de ser commentada. 

A Revista do Instituto Histórico do Brazil, publicou em 
1881, tomo XLIV, a memoria escripta por Joaquim Nor- 
berto sobre Tiradentes perante os historiadores oculares do 
seu tempo. No mesmo volume vem também os últimos mo- 
mentos dos inconfidentes de 1789 pelo frade que os assistiu 
de confissão. 

Deste trabalho copiámos a lista dos presos (tal como se 
contém nos autos). 

«Lista dos cúmplices na projectada revolução de Minas 
Geraes, e que foram sentenciados na Relação do Rio de Ja- 
neiro em maior alçada, conforme as ordens de S. M. F., 
por ministros graduados nomeados pela mesma Senhora: 

1." — O Alferes Joaquim José da Silva Xavier (O Ti- 
radentes) Enforcado. 
2.« — O Tenente Coronel Francisco de Paula. 

Degradado para Ancocha. 
3.° — O Dr. Ignacio José de Alvarenga. 

Degradado para Dande. 
4.' — O medico Dr. Domingos Vital Barbosa. 

Degradado para Santiago. 
5.» — O Cap. José de Rezende Costa, Pai. 

Degradado para Brissan. 
6-** — José de Rezende da Costa, Filho. 

Degradado para Caho Verde. 
7.* — O Sargento-Mór Luiz Vaz de Toledo. 
Degradado para Camhamhe. 




— 47 — 

S."* — O Coronel Francisco Autonio. 

Degradado para Bihé. 
9.'* — O Dr. José Alves Maciel. 

Degradado para Mn cango. 
10° — O Cirurgião Salvador José de Almeida. 

Degradado para Catalo. 
li** — O Ten. Coronel Domingos de Abreu. 

Degradado para Muximho. 

«Os dez acima foram igualmente condemnados á morte, 
porém foram perdoados e degradados para presídios respecti- 
vos por ordem de S. M. F.» 

12" — O Doutor Thomaz António Gonzaga, autor da 

«Marilia de Dirceu». 

Degradado para Pedras Negras. 
lo"* — Cap. Vicente Vieira da Motta. 

Degradado para Angola. 
14° — Cap. Joào Dias da Motta. 

Degradado para Angola. 
15° — Ten. Francisco José Ribeiro. 

Degradado para Angola. 
16° — Coronel José Ayres. 

Degradado para Angola. 
17° — Vigário Correia de Toledo. 

Degradado para Lisboa. 
18° Padre Manoel Rodrigues. 

Degradado para Lisbca. 
19° — Joaquim Faustino Soares dos Anjos. 

Solto por ter descoberto a Conjuração do Deputado se- 
cretario interino da R. Junta do Commercio. 

«Todos os acima eram os cabeças da revolução, tinham 
leis ja feitas, e embaixadores nomeados para irem pedir 
soccorro a diversas potencias, e a maior parte delles homens 
interessados e que estavam ao serviço de S. M. F.» 

O denunciante destes homens martyres chamava-se Co- 
ronel Joaquim Silvério dos Reis Leiria Guites ! 

Na véspera do Natal do anno 1790 chegaram ao Rio 
de Janeiro os dezembargadores António Diniz da Cruz Silva 



— 48 — 

aggravista, António Gomes Ribeiro, aggravista, e Sebastião 
Xavier de Vasconcellos, Juiz da alçada, com carta do Con- 
selho, para exercer o logar de Chanceler da Relação. 

* Os réus foram considerados como homens monstruosos e 
que inspiravam horror pelos seus crimes. 

Em janeiro de 1792 concluiram-se as conferencias e 
devassas. 

José de Oliveira Fagundes foi o advogado encarregado 

de arrazoar a causa. 

A sentença dos réus foi lida ; dizia assim : 
«Que sejam sentenciados e condemnados com pena 
ultima os cabeças da conjuração e os que começaram e man- 
tiveram os Conventiculos: 

«Que os sacerdotes réus fossem sentenciados segundo a 
qualidade de seus crimes, porem que a sua sentença não 
fosse declarada; e que retidos em prisão forte, esperariam 
á sua ultima e real determinação.» 

O dia do julgamento foi solemne. 

Sob a presidência do conde de Rezende, fecharam-se 
os Juizes ás 8 horas da manhã, e só ás 2 horas da madru- 
gada seguinte o dezembargador Francisco Luiz Alves da 
Rocha, como escrivão deputado, rodeiado dos inferiores, mi- 
nistros da Justiça, e acompanhados de onze religiosos do 
Convento de Santo António, fizeram todos entrada na sala 
dos julgamentos, para que os réus tivessem com a presença 
dos juizes e dos frades uma pallida idéa dos tormentos que 
os esperavam. 

Os réus foram para a sala chamada Oratório, todos al- 
gemados ! ! A guarda era de um aspecto terrivel, toda ella 
armada de fuzis embalados. E tudo isso, porque ? ! 

Da sentença consta que os réos queriam levantar uma 
Republica livre e independente, cuja Capital seria a Yilla 
de S. João d'El-Rey. 

Os réus sacerdotes eram : Luiz Vieira da Silva, cónego 
da Sé de Mariana, Carlos Corrêa de Toledo Piza, vigário 
da Fregmezia de S. José ; Manoel Rodrigues da Costa, 
José Lopes de Oliveira e José da Silva Oliveira Rolim. 



— 49 — 

A bandeira da Republica teria como armas, três an- 
ígnlos, allusào á Santissima Trindade, cujo mysterio era da 
maior devoção de Tiradentes, se bem que o réu Alvarenga 
'quizesse o emblema seguinte : — Um indio quebrando as 
•cadeias, com a letra -r- Líber as quoR será tamen. 

As leis fundamentaes da Republica seriam escriptas por 
Cláudio Manoel da Costa, que aos horrores e soffrimentos da 
paixão, preferira o suicídio. 

A senha para a revolução seria : 

Tal dia é o baptisado. (1) 

O dia escolhido para se divulgar a senha era o da 
Derrama, mechanismo inventado pelo governo portuguez 
para haver o ouro do povo, extorquindo-o miseravelmente 
á sombra da lei, e por isso se tornava a medida mais odien- 
ta ao povo victima. 

Alta noite deste dia, se gritaria 'Cm toda a Villa Rica : 
Liberdade. 

O Coronel Francisco de Paula, á testa do seu regi- 
mento sahiria á rua. 

Tiradentes intimaria o General que se rendesse e o 
povo tendo Alvarenga á frente, seguiria para Mariana e 
outras localidades, afim de proclamar-se a Republica. 

Eis a summa do plano. 

Os presos estiveram 3 annos incommunicaveis, e a mi- 
serável justiça, imaginando e inventando torpes dilações, que 
foram a causa do suicidio de Cláudio M. da Costa, não fazia 
sinão imputar a um o excesso de seus crimes por causa do 
depoimento dos outros, porque o fim manifesto era que elles, 
os martyres, para cumulo do infortúnio, odiassem-se reci- 
procamente. 



(1) Talvez para imitar o pensamento destes martyres os republicanos por- 
tuguezes escolheram na mallograda conjuração do Porto em 189a a senha «A 
criança nasceu.» 

O governo tendo achado meios de se apossar do segredo, consentiu na ex- 
pedição dos telegrammas somente para o Porto, cassando-os para os outros lu- 
gares, e fez o bárbaro morticínio e o desterro conhecido, no qual envolveu 
tantos homens de caracter e lealdade, como não os tem iguaes o governo por- 
tuguez. 



— 50 — 

A religião que era aquella doce mãe espiritual que os 
unira e consolara, foi empregada torpemente para fazer este 
artificio ! ! 

Os acontecimentos, eguaes na origem e no fim deste 
martyrologio, acabaram por approximar as victimas. 

Que sublime scena, a do Pae Alvarenga, cabindo nos 
braços do filho desvellado ! 

Os soífrimentos prolongados haviam reduzido o velho a 
uma apparente estatua marmórea, onde a pallidez revelava 
os sofí'rimentos profundos da sua alma (1) 

Emquanto o pae deixava correr torrentes de lagrimas 
abraçando o filho, este animava o progenitor de seus dias 
com estas palavras para sempre memoráveis, narradas pelo 
frade confessor (Revista do I. H. 1881 pag. 175.) 

« — Meu querido pae, ah ! não desanimes, o que é o 
morrer ? Acabam-se as fadigas, os trabalhos, os tormentos 
que tanto consternam a todos durante a vida.» 

«Nós sempre havemos de morrer, ou mais cedo ou mais 
tarde ; o género da morte não nos deve intimidar. Não é 
injuria para nós morrer deste, ou daquelle modo ; os homens 
não formarão a nossa sociedade depois que morrermos, nem 
a injuria poderá recahir sobre os nossos espiritos. A nossa 
família receberá a aggravante noticia de morrermos enfor- 
cados, já acostumada a pensar na nossa infelicidade, e a 
Providencia, que lhe deu valor para sofí*rer a nossa estrepi- 
tosa prisão, a confortará na hora em que souber da nossa 
injuriosa morte : 

Querido pae, sofframos, sofframos estes infortúnios pas- 
sageiros em desconto aos nossos occiíltos crimes ; beijemos 
estas algemas, cinjamos estas cadeias ; ellas podem aligeirar 
os passos no alcduce de uma felicidade eterna, si as carre- 
garmos em memoria da que carregou o nosso Redemptor. 
Ah ! meu amado pae, o que é a vida ? Aspiremos a im- 
mortalidade !» 

Diz o padre, que apezar de suas pesadas algemas, o 
pae pôde levantar o braço para abençoar o filho, e elle 



(I) Admira que o escriptor Joaquim Norberto justifique esta derrama, 
como um direito legitimo ! 



— 61 — 

aproveitou-se desta circumstancia para obter de ambos uma 
verdadeira contricção ! 

Quando se soube do perdão, é ainda linguagem do 
chronista que queremos que fique aqui, porque tem-se glo- 
sado com falsas intenções estas palavras : todos os presos 
diziam a uma voz: «Governai-nos Senhora! vós nos capti- 
vastes.» Também o Christo quando foi preso e esbofetea- 
do, disse ao seu algoz — «aqui tendes a outra face — ». 

Irrita os nervos ler-se os commentarios feitos pelos es- 
criptores, achando na resignação ' das victimas motivos de 
deleite á critica injusta e impiedosa que só comparamos 
com o acto de crueldade que os animaes carnívoros prati- 
cam com as suas presas brincando com ellas antes de as 
devorar ! — Ah ! zombam da ironia sublime ! Alguns têm 
ousado dizer que Alvarenga foi um covarde. 

Que Tiradentes pedindo para beijar os pés e as mãos 
do carrasco dera prova de covardia ! ... 

Mas porque é que o Christo foi heróe dando a outra 
face ao algoz que o atormentava ? ! 

Três annos de martyrio, de confissões, de misérias e je- 
juns, não puderam fazer perecer as victimas. 

Esta é a força que os animava, e é por isso que ellas 
sobrevivem aos que dizem que Tiradentes não foi um he- 
róe, e aos que hoje que a Republica está formada, se fa- 
zem bons republicanos! 

Para sermos fieis á historia transcrevemos as ultimas 
palavras de Tiradentes : 

«'Que agora morria cheio de prazer, pois não levava 
após si tantos infelizes, a quem contaminara, e que isto 
mesmo intentara elle nas multiplicadas vezes que fora á 
presença dos ministros, pois sempre lhes pedira que fizes- 
sem delle só a victima da lei . » 

Amanheceu o dia 21 de Abril que lhe abriu a immor- 
talidade. Entrou o algoz para lhe vestir a alva, pedindo 
de costume que lhe perdoasse a morte que ia fazer e que a 
Justiça é que lhe movia os braços e não a vontade. 

Foi então que voltou-se placidamente Tiradentes e disse 
ao desgraçado algoz : 



— 52 - 

oOh! meu amigo, deixe-me beijar suas mãos e seus 

pés.» 

«O que feito com demonstração de humildade, com a 
mesma despiu a camisa e vestiu a alva, dizendo : 

«Que o seu Redemptor morrera por elle também as- 
sim.» (1) . j j • 

Taes sào as palavras immorredouras de um verdadeiro 
martyr e heróe ; Jesus Christo, a quem elle queria imitar, 
não o ultrapassou na bella ironia, única arma que as victi- 
mas têm para fazer com que o echo de suas palavras passe 
a ser o grito da consciência dos povos nas reivindicações 
sociaes, por onde a sociedade possa adquirir a justiça e a 

liberdade. 

Tiradentes subiu os degráos da escada que o levava á 
forca, sem levantar os olhos que sempre conservou fixos no 
crucifixo, sem estremecimento algum ; deu lugar a que o 
carrasco preparasse a corda, e por três vezes pediu para 
que abreviasse a execução. 

Emquanto esta grande alma se elevava á eternidade, a^ 
humanidade humilhada via a miséria dos povos recitada! 
nestas palavras do padre guardião do Convento de Santo 
António : 

«/71 cogitafione tua regi ne detrahas . . . quia et aves cedi 
portabunt vocem tuam, et qui habet pennas dabit senten- 
tiam. Nem por pensamentos critiques o teu rei, porque as 
próprias aves levarão as tuas criticas e trahirão o teu pen- 
samento. V 

(i) Convém aqui recordar o exemplo dado por Christo junto dos seus após- 
tolos, conforme a Escriptura. 

«Levantou-se Jesus da mesa, e depondo a vestidura cingiu uma toalha e 
deitou agua em uma bacia. Feito isso começou a lavar os pés dos seus após- 
tolos e os enxugou com a toalha. 

Pedro, o apostolo escolhido depois para ser o alicerce da Egreja Universal 
e da qual são successores os Pontífices da Divina Egreja, chocou-se com o 
procedimento do mestre e disse-lhe : Pois Senhor vós me lavareis os pés? Je- 
sus respondeu que elle não sabia o que se estava fazendo e de novo recalci- 
trando Pedro, aquelle lhe declarou que se não lhe lavasse os pés, não teiia 
parte com elle. A isso Pedro de prompto disse que não só os pés, mas ainda 
as mãos e a cabeça daria para lavar». Com estas bellas e significativas pala- 
vras respondeu Christo : «O que está puro só precisa que lhe lavem os pés, e 
assim ficará todo puro. Vós estaes puros, mas não todos. 



-~ 53 — 

Compare-se esta doutrina hypocrita com a linguage*!!! 
do heróe, e ter-se-á feito o maior elogio de Tiradentes. 

Nós que adoptamos a doutrina de Spencer vemos que 
as comparações que a revolução social apresenta na sua in- 
cessante marcha para o progresso, têm uma força enorme : 
a lei dos acontecimentos sociaes se baseia na máxima da 
Escriptura : 

Quem com ferro fere, com ferro será ferido. 

É por isso que não podemos deixar de apreciar ^ cir- 
cumstancia de ter sido empregado pelo governo Real para 
a solemnidade da condemnação de Tiradentes, toda a força 
composta dos seis regimentos e duas companhias de caval- 
laria, a qual pegou em armas para conter o povo e applau- 
dir o enforcamento do resignado martyr : 

O exercito que havia sido aproveitado para este fim 
como mais tarde o foi para pegar os escravos, revoltou-se 
contra este systema corruptor do poder monarchico, e apres- 
sou o advento da Republica no Brazil, fazendo com que o 
dia 15 de Novembro de 1889 fosse escolhido para synthese 
commemorativa das reivindicações sociaes. (1) 



(i) Julgamos de bom parecer publicar a Carta que tivemos occasião de re- 
ceber quando publicamos o nosso livro fazendo a propaganda do Brazil na Eu- 
ropa e apreciando os perigos do militarismo no Brazil, e porque um pensador 
profundo e escriptor insigne tenha achado que aos militares coube o modo de 
apressar a Republica, não é sem fundamento a leitura de tão precioso docu- 
mento para a historia. 

Lisboa, 7 de Janeiro. 

Exm. Sr. — Estou ha muito em divida de agradecimento pelo offerecimento 
de seu livro Influence de VEsclavage et de la Liberte, mas não queria escre- 
ver-lhe sem primeiro o ter lido. 

Èaço-o hoje e sinceramente lhe dou os meus parabéns pela abundância e 
pela descripção das idéas e informaçOes accumuladas no seu livro, e se não 
posso deixar de lhe dar os meus parabéns, esses parabéns são tanto mais sin- 
ceros e vehementes quanto eu, quasi, senão sempre, concordo com as idéas do 
autor. A illusão positivista de fazer a felicidade do Brazil pelos governos mi- 
litares, precipitou como não podia deixar de ser, essa parte da America Meri- 
dional no regimen commum das Republicas Hespanholas. 

Por outro lado, a vastidão das riquezas naturaes e a escassez relativa da 
população, permittiram ao Brazil realizar tj^pos e formas da organização civil a 



— 54 — 

O próprio ex-imperador promoveu a festa do centená- 
rio de Cláudio Manoel da Costa feita pelo Instituto Histó- 
rico do Rio de Janeiro. 

A Assembléa Geral do Império em 1832, mandou en- 
tregar aos herdeiros os bens confiscados em Minas a todos 
os Inconfidentes de 1889. 

Em 1894 o heróico berço do martyr foi honrado com a 
estatua que deve perpetuar a sua memoria. 

Ao passo que os Inconfidentes foram degradados e sua 
memoria considerada indigna e seus filhos infamados o povo 
repetiu em meio de hossanas — Vivas a Tiradentes, o pro- 
totypo da grandeza d'alma e não se lembra destes bipedes 
que com a forma humana deshonraram a justiça e a huma- 
nidade de seu tempo. 

E' pela associação, o progresso, o trabalho e a paz com 
seus semelhantes, que o homem pôde dominar a natureza. 
Não poderá ser digno de uma tão grande honra se não 
cultivar suas próprias faculdades. 

Tiradentes teve a intuição dessa grandeza, e os que o 
acompanharam comprehenderam os seus nobres sentimentos. 

A monarchia marcou o dia de sua morte persuadida 
que seria o do seu esquecimento ; mas a justiça social que 
se vivifica nas consciências dos patriotas, engrandece este 
dia. 

Felizes os povos que na elaboração pacifica do pro- 
gresso podem quebrar os grilhões dos seus pulsos e levantar 



que se chama socialistas na velha Europa e que, por cá, a tradição, os inte- 
resses creados, e a exiguidade da riqueza, provocam commoções graves. 

Como quer que seja, eu creio no adagio que «Deus escreve direito por li- 
nhas tortas» ou por outra «que todos os caminhos vão a Roma». 

Creio que desta revolução o Brazil sahirá retemperado e fortalecido au- 
gmentando o pecúlio da sua experiência com as penas dos soffrimentos inevi- 
táveis, e a energia do seu braço com o exercício duro das armas. 

Disponha^ V. Ex. 
Do seu 

Muito obrigado e venerador, 

(Assignado) Oliveira Martins. 



— 55 — 

os braços para bater palmas e entoar liosannas aos seus 
martyres immortaes. (1) 

O escriptor Major Codeceira, em seu trabalho publicado 
para reivindicar a prioridade da idéa republicana no Brazil 
aos heróes que pag-aram com a vida a ousadia de pensar 
em ter uma pátria livre, é injusto para com Joaquim José 
da Silva Xavier — o Tiradentes. 

Este facto não exclue as homenagens de v^idas áquelle grande 
prototypo da liberdade, a quem a lei, por um processo regular, 
condemnou á morte. E' a consagração do martyrio que se 
mede e se pratica na razão inversa do tempo e directa da acção. 

Os factos dos morticínios dos brazileiros que antes de 
Tiradentes pensaram na Republica, foram antes assassinatos 
infamemente praticados á sombra da lei. 

E' por isso que no nosso trabalho histórico rendemos as 
homenagens devidas a Manoel Beckman, que em 16 de ja- 
neiro de 1668 teve, na qualidade de vereador da camará 
municipal do Maranhão, a coragem de falar em Republica. 

Os factos, porém, provam que elle teve em vista a 
questão do captiveiro. A expulsão dos jesuítas promovida 
por elle prova que o seu ideal de liberdade tinha uma ori- 
gem impura. O distincto sr. João Francisco Lisboa no seu 
livro Apontamentos, notícias e observações para servir a 
historia do Maranhão trata do assumpto, e as referencias de 
outros historiadores nos obrigam a conclusão a que chegamos. 

Quando o governador Gomes Freire de Andrade chegou 
ao Maranhão a 15 de maio de 1684, todo o caracter repu- 
blicano da revolta mudou e o infeliz Beckman, que foi na 
verdade um martyr das idéas liberaes do seu tempo, teve que 
pagar com a vida o crime de ter falado em republica. 

Thomaz Beckman, seu irmão, teve a mesma sorte e 
Jorge de Sampaio foi também condemnado e morto, sendo 
os seus companheiros desterrados, e o fiel Belchior Gonçal- 
ves, chamado mister, espécie de escravo, condemnado a 
açoites pelas ruas do Maranhão ! ! 



(i) A historia deste capitulo foi lida no dia 2r de abril de 1895 em sessão 
magna commemorativa da data do anniversario da morte de Tiradentes, sendo 
as palavras do orador cobertas de prolongados applausos. 



— 56 — 

Em seu livro Bdação Histórica e Politica do Maranhão* 
Teixeira de Menezes descreveu Beckman como um homem 
perverso % sem as qualidades para merecer a apologia que- 
outros lhe queriam fazer. Os documentos fornecidos por 
Beckman provam que não era a Republica o seu ideal, e 
que elle trabalhou para manter o captiveiro dos Índios e as- 
segurar á coroa de Portugal a sua permanência, ainda que 
de sua altivez estejam cheias as paginas da historia. Quem 
lêr suas cartas encontrará o seguinte : «E não era de es- 
perar que o príncipe, com politica e rigores levasse á deses- 
peração vassallos tão fieis e beneméritos a quem a sua coroa 
devia tanto, e que atrozmente perseguidos podiam dema- 
8iar-se em seus excessos^ buscando na protecção de algum 
rei extranho a justiça, quando lhes faltava a natural.» 

Outro vulto benemérito para a idéa republicana foi Fe- 
lippe dos Santos, que sublevou a Villa Rica, e deixou com 
9 seu sangue o gérmen da liberdade que Tiradentes encar- 
nou em sua modesta e virtuosa pessoa. 

O Conde de Assumar, governador, é o primeiro a con- 
fessar no seu relatório o «grande vulto que tomou a revolução». 

O' facto de ter sido condemnado <á morte, e o modo por 
que foi assasinado, sendo seus membros amarrados em 
cavallos bravios que os deviam arrancar, em frente aos pró- 
prios algozes, é um facto que assegurou a primazia da idéa 
republicana a este martyr. 

Acontece, porém,, que os escriptores que para serem 
agradáveis á monarchia têm procurado tirar do martyr da 
Hberdade, a quem as lei£ por um processo bárbaro, indigno 
e reflector do tempo haviam escolhido para único exemplo,, 
a prioridade da idéa republicana, augmentam hoje este 
mesmo serviço que elle prestara á Republica ! 

Deixamos bem provado quanto elle fez, a sua habilida- 
de na propaganda, suas viagens, seu papel modesto, mas 
por isso mesmo mais digno para inspirar confiança aos seus 
companheiros, que tendo aliás mais trabalhos anteriores e 
principalmente o da propaganda, pela palavra, haviam dado 
a Tiradentes esta feição, que a lei mesma veiu conseguir,, 
£azendo-o um martyr. 



PARTE IV 
Depoiís do XIX iseculo 

A revolução frànceza deu aos homens de todo o mundo 
civilizado, os meios de conhecer a razão pela qual os povos 
se deixavam governar pelos Reis. A revolução económica 
que veiu ao mesmo tempo, fez com que passasse para os 
povos de origens saxonias a 25reponderancia no equilibrio do 
mundo, transformando-se as condições do trabalho e do 
trabalhador. 

Os paizes novos, mais do que os outros, foram influen- 
ciados por esta dupla e salutar transformação, na qual os 
filhos dos europeus, vindos ao iiovo mundo, em poucos annos 
ou voltavam ou ficavam como cidadãos destes paizes novos, 
provando que era nelles que o homem podia ser o autor 
de sua própria fortuna, e também viver e ganhar, mais do 
que seus pães no mesmo espaço de tempo. 

A vida intensiva e feliz se traduzia pelo dominio da 
natureza selvagem e pela conquista da terra e do espaço. 

Deste modo a posse da terra passou a ser propriedade, 
e com ella se formaram as collectividades sociaes, que rapi- 
damente se engrandeceram á sombra da liberdade. 

Deste modo o homem foi muito cedo influenciado para 
o regimen republicano, que era aquelle que melhor per- 
mittia aos immigrantes realizar na America, estas formas 
socialistas, que na velha Europa não podem ser postas em 
pratica, sem provocar abalos profundos, perturbações graves e 
destruidoras, e que aqui na America, são a própria essência 
das leis e dos costumes. 

Só esta circumstancia mostra a vantagem que' ha na 
vida dos paizes americanos, que têm entretanto como único 
elemento pernicioso, que serve de fermento ás agitações que 
pertubam a paz, a politica partidária, geradora dos partidos, 



— 58 — 



que sem idéas e sem programma só visam o poder e quan- 
do não dispõem delle provocam todas as pertubaçoes no 
interesse dos partidários, que fazem as chapas para obter a 
governarão dos Estados comum agrupamento, filho deste 
jogo de eternos interesses, chamado politica. 

Tempo virá, não longe, em que a evolução das ideas 
será no sentido de eliminar este systema péssimo, perigoso 
e desigual, que fere a felicidade dos qne trabalham, porque 
nanca^lhes permitte ter outro valor que não seja o de ser 
instrumento vil e cego dos que os entretém com illusonas 
esperanças, cargos de eleições para deputados, impostos e 

penalidades. 

Apenas foram proclamados os direitos do homem pela 
revolução franceza, o Brazil principiou a receber os benefí- 
cios das idéas republicanas. 

Descrever o modo como se originaram estas idéas, quaes 
os que cultivaram, em tempos tão críticos, as sementes im- 
portadas pela civilização, é o assumpto deste modesto traba- 
lho, que servirá para os archivos do Instituto Histórico de 
São Paulo, cuja iniciativa tive e me foi dado ver amparada 
pelos meus companheiros e sócios. 

Talvez que os patriotas possam-lhe dar circulação. 
Foi sempre dos homens livres o dizer a verdade, e o 
melhor dos meios para se inocular no povo este doce senti- 
mento foi a conferencia publica. 

Foi assim que J. Christo operou a reforma social do 
christianismo contra o paganismo, foi por igual modo que 
se chegou a fazer a revolução franceza, foi também com as 
conferencias que no Brazil alguns homens instruídos conse- 
guiram orientar nos tempos coloniaes e depois, as classes 
desprotegidas e o povo sedento de ensino. 

Os athenienses também cultivaram este poderoso meio 
de instrucção, e em quanto os livros eram o privilegio dos 
padres e dos philosophos, o povo só por este meio poude 
chegar a ser soberano. 

Felizes aquelles que na velhice de uma vida ignorada 
puderam morrer amparados pelas idéas republicanas com as 
quaes viveram ! 



— 59 -^ 

Admira-se a constância e lealdade á idéa sempre per- 
seguida. O governo não consentia que a colónia produzisse 
nem os bons fructos das arvores da Europa, nem as idéas 
que pudessem levantar o espirito do abatimento em que 
jazia. 

Criava-se os individuos como se faz com os perus, con- 
servando-os sempre promptos para produzirem um bom 
alimento e davam má alimentação ao povo, para que elle 
não pudesse pensar nobremente. 

O decreto régio ordenando que se arrancassem todas as 
arvores fructiferas que tivessem sido plantadas no Brazil e 
fizessem concurrencia com as da índia, foi uma das medidas 
mais elogiadas no Reino. 

O padre Vieira já expulso do Maranhão, porque preten- 
dia oppôr-se ao captiveiro, escreveu uma phrase que dá 
idéa da medida rigorosa do famigerado governo da metró- 
pole : « Só escapou, diz o sábio escriptor, a gengibre, e 
isso mesmo, por se metter pela terra a dentro. » 

Foi semeando o ódio e o aniquilamento que o povo 
aprendeu a comprehender a causa de seus infortúnios, e 
justamente nos logares onde se faziam sentir a tyrannia e 
a oppressão, a reacção foi igual a acção. 

E' justo, portanto, que nos refiramos a um documento 
authentico, no qual o Bispo do Maranhão, confessa o pre- 
domínio dos sentimentos republicanos do povo, e o poz 
diante dos olhos daquelle que primeiro ousou dominal-o sob 
o fundamento de o emancipar de um jugo mais duro e 
cruel. 

O Maranhão não havia adherido á Independência do 
Brazil. Só mais tarde quando lá foi o almirante Cockrane, 
esta parte do Brazil se annexou ao nascente império que 
galardeou o almirante com o titulo do Marquez do Maranhão. 

Eis como d. Pedro I se dirigiu ao bispo do Maranhão : 

«Meu caro Frei Joaquim — Rio de Janeiro, 80 de ja- 
neiro de 1823. 

«Como o conheço desde que nasci e lhe conheço as suas 
virtudes, é a razão porque pego na penna para dizer-lhe que. 



— 60 — 

trabalho para unir o Maranhão ao Império a que elle per- 
tence, como provincia, dizendo-lhe que nisto faz um grande 
serviço ao Brazil e a mim que não desagrado a meu pae, 
que está captivo de vis carbonários, que são todos contra a 
religião que professamos e que estão excommungados pelo 
chefe da Igreja, assim como todos os que os seguem e adhe- 
rem ao seu governo. 

«Espero que o bispo concorrerá quanto puder para o 
que lhe digo, visto as suas virtudes religiosas. 

«Receba mil abraços e os puros sentimentos deste que 

o ama. ♦ 

Pedro. » 

Por este documento se aprecia de que modo o filho tra- 
tou o pai, e também de quantos ódios estava dominado Pe- 
dro I, contra a maçonaria que veiu a dar-lhe cabo dos dias 
quando elle foi atraz da preza que o pai, de quem elle as- 
sim falava, achou prazer em legar-lhe. 

Justa recompensa sem duvida para um tal filho biogra- 
pho que apparece na historia, desenhando-se a si próprio. 

Convém archivar para ensinamento dos leitores, a res- 
posta desabusada do frade, mas tão violenta na phrase quanto 
insinuante nas deducções de um bispo, a quem o Imperador 
por sua vez insinuara os perigos porque passava a religião. 

«Senhor : 

♦Penetrado dos mais puros sentimentos de respeito e 
gratidão, beijo as mãos augustas de S. Majestade pela dis- 
tincta mercê com que se dignou honrar-me enviando-me 
uma carta de sua própria letra, cheia de expressões as mais 
lisonjeiras e affectuosas. 

«Esta carta. Senhor, escripta em 30 de janeiro e que 
tinha por fim exigir a minha cooperação para o estabeleci- 
mento da Independência do Brazil, representada a V. Ma- 
jestade, tão interessante á vossa imparcial coroa, e a mais 
vantajosa para o bem estar destes povos, foi-me entregue 
em 22 de outubro, tempo em que já tinham decorrido quasi 
3 mezes depois que ella fora acclamada nesta provincia e 



BI 



que eu estava a retirar-me a Portugal para onde sou obri- 
gado a fazer viagem dentro em poucos dias. 

«Mas Senhor, acaso seria eu capaz de trahir meus con- 
cidadãos, a abjurar a pátria que me viu nascer e legitimos 
direitos de V. Majestade? 

Um bispo tão devedor ao sr. d. João VI e tão amante 
da augusta casa de Bragança, pode elle ter outros desejos, 
que não sejam a sua maior prosperidade e grandeza para 
assim patentear a Deus o seu dever e a fiel gratidão de que 
fora sempre animado V 

«Ah, Senhor ! Independência e desgraça são palavras 
synominas entendidas no seu verdadeiro rigor ; ellas se iden- 
tificam, e vêm a significar a mesma cousa. 

«Si V. M. tivesse previsto a alluvião de desgraças que 
têm incendiado este vasto território desde a Bahia até o Ma- 
ranhão, e todos aquelles que ainda estão por vir, sendo mais 
desastrosa a actual ruina do throno de V. M., por certo que 
não teria coração para assignar tantos decretos, feitos talvez 
de propósito para inteiro exterminio e perdição de milhares 
de seus vassallos. Estas provincias estão regadas de sangue 
dos paciíicos europeus que a paixão do furor da baixa plebe 
atiçada pelos revoltosos demagogos, tem derramado impune- 
mente para se apoderarem de seus bens, que tantos suores 
lhe custaram, jurando quasi todos a Independência, e pres- 
tando a mais decidida obediência a V. M. e assim mesmo 
não cessam de ser perseguidos e maltratados por bandidos e 
assassinos, que os obrigam a andar fugidos e a desamparar 
essas tristes famílias, e procurar seguro asylo na America, 
França e na Inglaterra e muitos mais em Portugal. 

«Em uma palavra, as lavouras estragadas, villas e aldeias 
arrasadas e outras despovoadas : eis os sasonades fructos que 
a. Independência tem conduzido a estas provincias e que a 
do Maranhão tem colhido, em pouco tempo, na maior abun- 
dância. 

«Esta desgraçada província, como era de todas a mais 
habitada de europeus e por isso como fora a ultima a ren- 
der-se ao prestigio devastador, tudo se arremessou contra ella. 



— 62 — 

«Cockrane, que pareceu ao principio, enviado como anjo 
de paz, passou poucos dias a extrahir dos negociantes um 
cabedal incomparável, deu o maior corte ao commercio, e foi 
o primeiro a arruinal-o. 

«Seguiram-se os sertanejos do Pará e do Piauhy, aos 
quaes se aggregaram muitos da ralé deste pevo e todos estes 
com mira na rapina e no espolio dos europeus, não têm feito 
mais que devastar, perder e matar, tendo a seu favor aquel- 
les de governança, que parecem estar animados do mesmo 
espirito ou pelo menos, semelhante em tudo. 

<!.Senhor, seja-me licito pateiitear a V. M. toda a cer- 
dade; si V. M. não quer ficar insultado^ não ter quem lhe 
obedeça; ponha termo a tantos males, dê a mão a seu au- 
gusto pae, batalhe com elle a enterrar a Independência, assim 
como enterrou a Constituição. 

<!.Veja V. M. que o espirito dos povos é todo republicano 
e aquelles que os dirigem conhecem bem a fraqueza do Rio 
de Janeiro, e a nenhuma vantagem que de lá tiram; servem- 
se do nome de V. M. para reunirem a gente da plebe e ao 
primeiro rebate clamarão todos a uma voz : Vivam os repu- 
blicanos unidos e acabe-se para sempre o imperador. 

«Eu não falaria com tanta franqueza si não estivesse 
ao facto destas cousas ; e não tivesse notado os seus proce- 
dimentos que são todos filhos de suas malévolas intenções. y> (1) 

«Elles porém dispõe, como bem lhes parece dos bens dos 
empregados, honra e propriedade dos europeus, sem nada se 
importarem com as leis de V. M. a bem dos seus vassallos, 
permittem que por toda parte os estejam matando e roubando 
dando-lhes muita pancada ; tem chegado a proferir que os 
hão de obrigar a sahir todos, ou reduzil-os a misera sorte 
de seus esvravos. 

Finalmente acabou-se a paz, já não ha justiça nem es- 
perança de havel-a tão cedo.» 



(I) Nós gryphamos estas palavras porque a confissão dos actos é a prova 
evidente da existência da idéa republicana entre o povo, e da certeza de que 
Pedro I trahia a este mesmo povo. 



65 



«Ninguém vive socegado em sua c".sa, muitos preferem 
viver ao mar a bordo de algumas embarcações estrangeiras 
para na primeira occasião fugirem. 

«Tal é, Senhor, o bem estar destes povos que tanto prezo 
pelo que sempre me oppuz á Independência, que jamais ju- 
raria porque temo a Deus e estimo a V. M. como estimo o 
seu augusto pae, e não quero a execração de minha pátria 
e muito menos a de meus nacionaes, que são meus diocesa- 
nos bem queridos. 

«Beijo as mãos respeitosamente a V. M. — Freí Joa- 
quim DE Nazareth.» 

Este documento é característico de franqueza e digni- 
dade. Este bispo foi propheta, lançou em rosto de Pedro I 
o ter renegado sua pátria, para vir atraz duma coroa, em 
um paiz republicano, como elle confessa, dizendo que o povo 
unido bradaria : — Vivam os republicanos, morra para sem- 
pre o Imperador. Esta sentença era filha do conhecimento 
das idéas do povo, e ninguém com mais autoridade para fa- 
zer a revolução. 

Jamais se ouviu falar tão claro, e se aquelles que cer- 
caram o throno e lhe deram vida, não fossem os protectores 
da escravidão, ter-se-hia proclamado a Independência e 
Republica. 

O documento que apresentamos e que faz parte dos ar- 
chivos da Revista do Instituto Histórico a pags. 243 e 244 
do vol. de 1889, é a prova mais eloquente dos sentimentos 
republicanos do povo brazileiro, e também da altivez da 
linguagem falada a um soberano. 

O frade Nazareth, teve que vêr, no fim de sua vida, 
que suas crenças na monarchia, eram uma destas cargas que 
só a educação obriga a se carregar, e da qual todo homem 
livre se liberta, quando é capaz de ter o espirito culto, a 
vida cheia de experiência e desprendida de preconceitos e sem 
outro pensamento que o da felicidade do género humano. 

Estas considerações nós as fazemos para render -justiça 
a este honrado e leal portuguez, que voltou para o reino a 
beijar as mãos de d. João VI, depois de ter renunciado o 
bispado do Maranhão, visto não adherir á Independência. 



— 64 — 

O frade Nazareth foi nomeado bispo de Coimbra, teve o 
pariato do Reino, o condado de Arganil e o senhorio de 
Coja. A tudo isto este frade honrado renunciou, e fugindo 
de Portugal, disfarçado em marinheiro inglez para Liver- 
pool, dahi veiu para o Maranhão em 1846, onde morreu em 
1851. 

Fosse nossa pátria uma Republica e estamos certos de 
que o frade, que fora propheta, teria sido um excellente re- 
publicano. 

Deixando as honras para vir morrer no Brazil, elle at- 
testou a mais solemne confissão de arrependimento do que 
dissera contra os brazileiros. 

O sábio Leão XIII acaba de dizer a Castellar, por occa- 
sião da visita deste grande cidadão republicano e a propó- 
sito da França : 

« Tenho viva fé no governo da Republica, porque a 
forma do governo nada importa, quando elle é bom. » 

E' muito fácil o elogio daquelles que pelo nascimento 
e heranças de coUação nas altas posições se fazem grandes 
senhores ; mas não se avalia quanto pode influir para a feli- 
cidade da pátria, a conducta daquelles que passam a vida no 
trabalho, pagam o que compram, vendem o que adquirem, 
nunca abandonam a casa de suas famílias e ensinam aos 
filhos, no meio das alegrias únicas que têm no lar, — o se- 
gredo de se contentar com pouco ! 

A vida do homem sertanejo, no retiro, tal como a pra- 
ticaram os que se afundaram nos sertões, serve tão bem á 
virtude como a do cidadão que é investido dos altos cargos 
e os sabe honrar. 

E' preciso reconhecer que não se preparam as posições 
eminentes sinão pela consciência, e quem procede amando a 
liberdade, para ella vivendo e trabalhando torna-se muito 
mais digno do que tantos outros celebrados com o concurso 
da corrupção e do poder de que dispõem. 

Cicero em seu Tusculanus, disse bem : 

« Tirae a consciência do testemunho interior que se 
presta ao vicio e o que fica é nada. » 



PARTE V 

Algumas vezes sabe-se mais da histeria de um povo 
pelo que escrevem os estranhos do que os naeionaes. 

Quando se proclamou a independência do Brazil, as 
nações européas estavam reunidas no Congresso de Verona, 
•onde a noticia chegou em nov^embro de 1822. 

Espalh0u-se logo na Europa o feliz acontecimento, mas 
•o velho Portugal, enviou diplomatas para todos os paizes 
amigos, afim de nHo consentirem e nem approvarem este acto. 

Glosou-se, entretanto, a phrase que ficou celebre do pae 
♦dizendo ao filho e deste ao povo : 

« Como é para ^em de todos, fico. » 

Para os brazileiros o juizo que se pode fazer da con- 
•ducta de Pedro I, só será justo quando se ligar sua condu- 
KSta ás duas datas — 7 de Setembro e 7 de Abril. 

Portugal estava para com a antiga colónia como um 
polvo para os corpos em que apj)lica uma de suas tenazes 
sugadeiras . 

Sujeito á pressão de uma força qua impellia o Impera- 
dor para a frente, ou elle teria que avançar tomando as 
causas dos patriotas, ou recuar para não mais pizar em ter- 
ras brazileiras na qualidade de pretendente da coroa. 

Comprehendido o momento de uma acção decisiva, o 
Imperador deu provas de amar a sua posição e portou-se 
como um interessado na defesa de um poder que lhe está 
confiado, mas tratou de associar ao maior numero, os ele- 
mentos deste interesse, que na Colónia era a exploração da 
terra e das minas, como o infeliz escravo e para este fira 
tornou-se um defensor acérrimo do captiveiro. 

Estas novas victiraas da violência e da força, tiveram 
também a sua época, e como nos tempos pagãos em que os 
Jiomanos só consentiam que se sepultassem os christãos noa 



— 66 — 

subterrâneos, e só nestes as victimas podiam celebrar as suas 
festas, assim também se fez aos miseros escravos, que tinham 
para leito a terra fria, quando não a tinham logo por sepul- 
tura ! 

Mas foi destes subterrâneos que brotou a fé christã, que 
derrubou os potentados de Roma, como também foi deste 
leito de misérias que a monarchia viu levantar-se o espectro 
que, sem demorar, a demoliu. 

Grande lição, sem duvida, para aquelles que julgam ser 
a liberdade do homem uma fonte de exploração, e quando a 
exploram não sentem no gozo deste hediondo commercio, o 
veneno que lhe prepara a ruina, quando não lhes atormenta 
a consciência. 

Não tendo Portugal se apressado em reconhecer a inde- 
pendência do Brazil, ousou entretanto d. João VI mandar 
emissários que chegaram ao Rio a 20 de setembro de 1823, 
a bordo do navio Voador. 

O povo que não admittia dependência alguma com o 
Reino, fez logo imponente manifestação exigindo de Pedro I, 
que no caso do navio não vir em missão especial para re- 
conhecer, por meio dos i representantes de d. João VI, a 
nossa independência, não consentisse que ficasse siquer nas 
aguas do Brazil. 

Os emissários não tendo trazido esta missão, mas sim 
carta do pae para o filho, por tal modo irritaram o povo 
que este quebrou logo o leme do navio e teria mesmo sacri- 
ficado os emissários se d. Pedro não se desse pressa em de- 
cretar não só o não recebimento do navio, como a prisão dos 
emissários a bordo do mesmo. 

A este tempo teve lugar a reunião da primeira Assem- 
bléa Constituinte do Império. 

As tendências republicanas que constituiam em todas as 
provindas a grande força dos patriotas fez com que elles 
pensassem em organizar uma constituição livre capaz de fa- 
zer o povo se governar por si, de modo a poder, pela fede- 
ração das províncias passar do regimen monarchico para o 
republicano, no dia em que as leis e o povo estivessem 
aptos ao fim que pretendiam, como era o desejo da maioria. 



— 67 — 

Desde o dia 3 de inaio de 1823 os conflictos apparece- 
ram, exigindo os deputados garantias á liberdade, não dei- 
xaram de pôr em evidencia suas tendências revolucionarias. 

Pedro I, que tinha então como consultor intimo, lord 
Cockraue, deliberou a conselho deste dissolver o Congresso, 
para não ser elle mesmo dissolvido e dissolvida a monarchia. 

E' para admirar que o visconde de Cayrú annotando a 
biographia de Jorge Canning, o ministro inglez, que prestou 
relevantes serviços á abolição do trafico, e cuja biographia 
foi escripta pelo seu secretario na mesma época dos aconte- 
cimentos da nossa independência, diga : «que não havia re- 
publicanos no Brazil e sim patriotas liberaes». 

Entretanto é irrisória esta observação pela origem, que 
é de um aulico e mesmo porque Jorge Canning em muitos 
documentos que acompanham a sua biographia declara qne 
as tendências do povo brazileiro eram para o governo repu- 
blicano, e quem assegurava em documentos officiaes «que se 
Pedro I não se resolvesse a abandonar toda a dependência 
de Portugal teria que vêr o Brazil abraçar as idéas republi- 
canas», não podia dizer senão o que elle sabia de certo, isto 
é que as idéas dominantes do Brazil eram republicanas, e 
que o meio de os conter era dar lealmente a independência, 
e fazer vida com os brazileiros. 

Jorge Canning queria reconhecer o Brazil independente, 
mas com a condição de se proclamar a abolição. Infeliz- 
mente Pedro I e os Andradas não queriam isso. 

Esta linguagem é a do diplomata emérito ; verdadeira, 
ella está de acordo com a opinião do Bispo do Maranhão, 
também amigo do Rei. 

O mesmo visconde de Cayrú allega também, em uma 
nota que fez á biographia de Canning, em favor de suas 
opiniões «a circumstancia de haverem acceitado as honras de 
camareiros da Casa Imperial os cidadãos João Fernandes 
Lopes e João da Rocha Pinto, que haviam sido presos por 
causa da propaganda que faziam em favor da Republica». 

Ah ! A corrupção ! ! 

Deste facto só se pode concluir que estes homens eram 
traços, e que obedecendo á politica corruptora dos Braga líças 



— 68 - 

só deram provas de que não foram tão dignos como tantos 
outros que morreram preferindo o trabalho honrado á hypo- 
crita posição dos altos personagens que cedem as suas idéas, 
fingindo uma dedicação que não têm, afim de occuparem as 
boas posições. 

Um dos actos que mais concorreram para acalmar a 
propaganda republicana em 1823, foi o decreto assignado por 
Carneiro de Campos em 19 de setembro de 1823, acompa- 
nhando uma nota ao Conde de Rio Maior, emissário de d. 
João VI. 

A Assembléa Constituinte votou louvores á conducta do 
governo a respeito do navio Nuador. 

Fez mais, querendo restringir a acção de Pedro I, em 
quem não confiava, decretou que os actos da assembléa se- 
riam leis, iadependente de sancção de Pedro I. 

O golpe era de mestre, e mostra como os brazileiros 
patriotas e republicanos estavam decididos a continuar a 
marcha evolutiva da Republica. 

Portugal vendo que a Inglaterra não protegia a inde- 
pendência do Brazil nomeou seu ministro em Londres o 
Conde de Villa Real, que actuava junto do governo inglez e 
das potencias colligadas sob o nome de Santa Alliança, cuja 
preponderância ^^abia á Hespanha. 

Estas duas forças oppostas actuavam para fazer a inde- 
pendência do Brazil, mas a Inglaterra queria o Brazil se- 
jíarado completamente do Reino e as outras potencias atten- 
diam a linguagem do diplomata portuguez que dizia como se 
vê na biographia de Jorge Canning : « Convém empregar o 
credito das grandes potencias continentaes, que se haviam 
colligado, para opj)orem-se aos princípios revolucionários do 
Brazil, e garantir os direitos dos successores legítimos ». 

E' ainda n'e8te documento do adversário que se vê a 
certeza do valor dado ás idéas democráticas dos brazileiros. 

Canning respondeu a esta nota diplomática do seguintçí 
modo : « Que seria bastante fazer saber esta situação a Por- 
tugal somente, mas que a Grã-Bretanha, nunca admittiria o 
direito de se intrometterem as grandes potencias alliadas nos 
negócios das colónias : que o governo britannico declarara 



— 69 — 

alguns mezes antes ao gabinete dé Madrid que si a França 
e os alliados interviessem nos negócios das Colónias Hespa- 
nholas, a Grã-Bretanha daria immediatamente todas as pro- 
videncias que contribuissem mais para salvar os seus inte- 
resses e que se fosse requerida a intervenção das potencias 
alliadas, entre o Portugal e Brazil, e si a Grã-Bretanha 
procedesse diversamente, dir-se-hia que se reconhecia a auto- 
ridade de um Tribunal, que os alliados queriam crear para 
regular os negócios da Europa. 

Portanto a Grã-Bretanha não consentiria que elles exer- 
cessem sua influencia no novo mundo depois de ter constan- 
temente condemnado semelhante supremacia no velho. » 

Era falar claro para quem não tinha muita força. 

Não podendo obter pela justiça o que pretendia pela di- 
plomacia, Portugal agarrou-se á perfídia e á manha. 

Enviou ao Brazil o sr. José António Soares Leal, para 
tratar de negociações sem que disto desse aviso ao ministro 
em Londres, o qual alli foi aíim de pedir a Inglaterra para 
servir de intermediaria em tal reconciliação. ' obnfib ^ôi^^ob 

Foi então que Canning, sabendo desta perfídia declarou 
em nota diplomática ; 

« Que emquanto permanecer no governo em Portugal o 
Conde de Subserra, que fora autor de tal perfídia não podia 
haver harmonia, fé, nem confiança de sorte alguma entre 
Portugal e Inglaterra. 

O que ia parecendo singular, 'era esta insistência de d. 
João VI em se dirigir ao filho, já tendo acontecido o que se 
sabe com o navio Voador. Isso prova que procedia h5rpocri- 
tamente. 

Feita esta nova embaixada, sempre acompanhada de car- 
tas particulares descobriam-se as intenções que ambos ti- 
nham e que mais tarde o 7 de Abril veiu desmascarar. Os 
patriotas foram comprehendendo que a lealdade não dominava 
no governo, e quando a assembléa se reuniu os irmãos An- 
dradas que eram chefes politicos, e também do governo, foram 
demittidos e desterrados I 

O povo que não julga, senão pelo que vê, e a quem 
poucas vezes engana o bom senso, comprehendeu que Pedro I 



— 70 — 

havia mantido a escravidão e os interesses de sua dynastia 
e que elle fora logrado no apoio que dera para se fazer a 
independência sem a republica. (1) 

Perdendo as esperanças de obter da Inglaterra o apoio 
desejado, o governo portuguez recorreu á Santa Alliança e á 
Áustria, tendo também o apoio do Imperador da Rússia, Ale- 
xandre I, para manter o Brazil unido ao império russo. 

Deste modo estavam lançadas as cartas na mesa. 
• O parentesco de Pedro I com o Imperador da Áustria 
(pois elle era casado com a archiduqueza da Áustria) foi in- 
vocado. Não se fez durante 2 annos senão este fermento da 
dymnastia de Bragança, que se agitou nas cortes européas, 
de modo que para o pae ou para o filho ficasse sempre o di- 
reito de governar em ambos os paizes. Só este facto tira o 
mérito de proclamação da nossa independência por Pedro I. 
A comedia era engraçada, mas perigosa a execução. 

Era duro para o pobre Portugal deixar a presa que elle 
tanto soube defender, elle que havia já expulsado os hollan- 
de^es, dando provas de um valor, só digno dos Viriatos e 
dos Camarões ! 

Canning, porém, soube temperar o appetite dos sobera- 
nos de Bragança, declarando que « em todas as communica- 
ções que tivera com o governo brazileiro, nunca permittiu 
que se suppozesse que seria possível a Grã-Bretanha reco- 
nhecer a sua independência sinão debaixo da autoridade da 
dymnastia da familia real de Bragança». 

O que se evidencia é o choque de interesses : os bragan- 
ças atraz da perpetuidade de suas coroas, as nações atraz dos 
lucros que lhe dava a exploração da colónia do Brazil ! 

O povo, este ficava se formando nesta athmosphera de 
interesses, em que não era de somenos importância a que os 
affligia com a escravidão, que torpemente os ricos explora- 
vam no meio do povo victima. 



(I) Estudando-se bem os acontecimentos, vê-se esta conducta na biographia 
do Canning, e os Andradas que tudo podiam, logo que foram chamados ao po 
der, nao quizeram concordar com a abolição. Deixando Pedro I com os fazen- 
deiros e escravos, elles foram logo victimas do seu erro. 



— 71 — 

Chegou-se até a criar viveiros, onde as mães procriavam 
para augmentar o numero dos escravos que os próprios pães 
vendiam ! 

Também os Índios guyanás tinham uma pratica seme- 
lhante, que consistia em fazer engordar os prisioneiros, dando 
a elles as suas mais lindas filhas, e quando da união pro- 
vinham filhos, estes eram, depois de devoradas as victimas, 
nos dias de festa, também comidos, sendo que as mães tinham 
que saborear o primeiro boccado desta innocente victima, filha 
do prisioneiro escravo. (1) 

A morte, tendo a faculdade de nivellar os grandes e pe- 
quenos, entra como factor importante na descoberta dos 
planos que alguns homens escrevem e ficam archivados nos 
papeis velhos, os quaes, depois da morte destes individuos, 
não servem muitas vezes nem para amparar o nome com o 
qual se abriga a reputação. 

Nós tivemos uma prova deste nosso modo de pensar lendo 
as Memoriai praticas sobre os abusos geraes, e modo de os 
reforvicir e prevenir a revolução popular. 

Este trabalho foi dirigido no Rio, em 1814, por ordem 
do príncipe regente. 

Muita gente dizia durante o regimen monarchico que no 
Brazil não havia espirito republicano. 

Nós, porém, temos por costume, quando queremos tirar 
uma duvida, consultar os interessados. 

Até com os animaes usamos e aconselhamos este modo 
de avaliar a importância dos fenos e gramas que queremos 
aclimatar no paiz. 

Pois bem, é o que vamos fazer para se avaliar das ori- 
gens republicanas no Brazil, e já tivemos o melhor resultado 
deste methodo, estudando os actos das camarás, as represen- 
tações do povo, as notas diplomáticas do Ministro da Ingla- 
terra, lord J. Canning, as narrativas de lord Cockrane, a res- 
posta do Bispo do Maranhão a Pedro I e tantos outros velhos 
documentos que neste trabalho vão citados, e por esta razão 
queremos tirar partido das revelações intimas com que os au- 



(i) Southey — Historia do Brazil. 



— 72 -- 

Ecos expunham á Coroa os meios de acabar com os perigos,, 
sendo que estes consistiam, só e exclusivamente em não se 
consentir que o povo se goveiniasse por si. 

Silvestre Pinheiro Ferreira foi o confidente esclarecido- 
de d. Joào VI e do. filhoy o príncipe regente, e, quando apre- 
sentou a estes a resposta dos quesitos que fez e deu os 
planos para que se fortificasse a realeza no Brazil, teve a 
cautela de escrever em baixo deste seu trabalho o seguinte : 

cNoTA — Tanto este aviso como os quesitos serão im- 
pressos debaixo de todo o segredo na presença de um criado 
particular de V. A.. R., só eom^ o administrador de impressãa 
regia e os artífices necessários, queimadas ali mesmo as provas^ 
desmanchadas as formas, e tirados unicamente os exemplares 
precisos para as seguintes pessoas : 

Os conselheiros de Estado : 

O Bispo Capellão Mór ; 

Os titulares maiores de 30 annos.^» 

Estes papeis, porém,, foram achados nas gavetas do pobre 
Silvestre, e logo levados para os arehivos e entregues á col— 
lecçào do Instituto- Histórico do Rio, ande podem ser lidos^ 

Na exposição que precedeu a representação do seu es- 
tudo, Silvestre Pinheiro diz, entre outras considerações : 

«Porquanto não se trata simplesmente de saber em qual 
dos vastos domínios de sua real coroa convém mais que V^ 
A. R. se digne de fixar sua residência.; trata-se de nada 
menos que suspender e dissipar a torrente de males com que 
a vertigem revolucioauiria do século, o exempla de povos vi- 
zinhos e a politica que vae devastando a Europa, ameaçam, de 
um/i próxima dissolução e de total mina oh esiad s de Y. A. R. 

Ora, não se pôde deixar de reconhecer nas phrases que 
nós gryphamos o medo e o pensamento de que a Republica,, 
este phantasma dos reis,, que não intimida aos homens livres, 
apparecesse no Brazil. 

Entre os planos que Silvestre Pinheiro apresentou para 
fazer a felicidade do Brazil e extinguir a praga que devasta 
a Europa, isto é, a Republica Franceza, notamos o seguinte^ 
do qual felizmente escapamos, porque seria ter muitos se- 
nhores juntos para tão poucos escravos. 



— 75 — 

«Lei sobre a nobreza e os grandes do Império do Brazil 
e do Reino. 

«1." Que todos os domínios actiiaes de sua real coroa 
serào divididos em archiducados, marquezados, condados, vis- 
condados, baronatos, regulando-se na forma especificada na 
mesma lei os deveres da inspecção e protecção que cada um 
daquelles titulares tem de preencher junto de V. A. R. e 
bem assim os respectivos territórios, assim como as honras e 
vantagens que lhe deve competir e as formalidades de sua 
promoção.» 

« 2.** Que vindo a vagar qualquer destes títulos, lhe 
succederá o grande, immediatamente inferior . . . 

« 3.** Que ás baronias vagas lhe succederão os vassalos 
beneméritos. . . » 

Ora ahi está um meio fácil de aconselhar, porque natu- 
ralmente o rei reservaria para o conselheiro o melhor quinhão, 
% nós teríamos que vêr, não as 20 províncias do Brazil, mas, 
'iilis 50 marquezados com seus súbditos, e naturalmente com 
os seus escravos, porque delles não prescindiam os portu- 
guezes, de modo que politicamente ficaria o paiz um viveiro 
de grandes duques e marquezes, physicamȒnte um paiz doado 
aos aduladores, moralmente uma escravidão de brancos, feitos 
escravos dos grandes, mas tendo por compensação os pretos 
para seus escravos e a pobreza como apanágio deste systema. 

Aos quesitos que em numero de 14 foram apresentados 
em forma de ladainha, naturalmente para que todos dissessem 
— Ameii, o que mais coi.vem transcrever aqui é o seguinte : 

<- Perdida a esperança que unicamente alentava o povo 
no meio de tantas desgraças, não haverá perigo de que a 
vertigem do século, o exemplo e as suggestões dos vizinhos, 
o induzam na perigosa tentação de cortes, e com ellas em 
todos os horrores de que as revoluções no meio-dia da Eu- 
ropa têm dado tão funestos exemplos '? » 

« Como se poderá conseguir a obediência das capitanias 
do norte do Brazil V » 

Também tem graça o quesito sobre o modo de povoar o 
Brazil : 



— 74 — 

.Como se pode organizar um systema de estabelecer po- 
voações e de fazer vir colonos europeus com pouca despesa, 
sem despesa nenhuma, trazendo riqueza? 

Como se pode trazer asiáticos, africanos, americanos ci- 
vilizados, americanos bravos ? » (1) 

Depois destes quesitos só as instrucções dadas a Domingos 
Jorge Velho, para extinguir os Palmares, podem dar uma 
idéa da facilidade com que se promettia e da difficuldade 
com que se pagava. 

Quem poderá reflectir sobre estes temores régios, sem 
ver que elles assentavam sob a intima convicção de não se 
poder dar a liberdade ao povo, sem que elle delia se utili- 
zasse para acabar com os oppressores? 

Quem duvidará que estas medidas que produziram di- 
latados annos de soífrimentos asseguravam ao povo brazileiro 
dias de reivindicação ? 

Quem não poderá concluir que uma Republica honesta 
justiceira e profundamente amiga da instrucção, da economia 
e da virtude e inimiga da politicagem, poder-se-á firmar no 
Brazil ? 

Uma prova deste asserto está em que mesmo durante a 
monarchia, os homens que tiveram sempre por norma de con- 
ducta dizer a verdade, amar profundamente a justiça e a 
pátria mais do que os partidos, foram sempre o alvo de todas 
as homenagens populares. 

Feijó, resignando o poder para favorecer elle mesmo a 

escolha de um senador serio, tornou-se digno da gratidão dos 

razileiros, porque deu provas de possuir o sentimento da 

abnegação, que é a qualidade mais rara do homem politico. 

Paranhos (Visconde do Rio Branco), foi outro cidadão 
amigo da liberdade, e que considerou a escravidão como uma 
anomalia a viciar todas as outras leis. 

Taes homens tinham na sua vida o ideal da felicidade 
da pátria e serião dignos cidadãos da Republica. 

Quando estas sementes eram cultivadas com tanto cui- 
dado, o excesso do mal produziu o seu bem, verificando-se 

(O Pela leitura destes quatro quesitos se podem avaliar os intuitos do 
seu autor. O rei queria achar riqueza de modo barato. 



— 75 — 

ainda uma vez o provérbio francez — A quelque chose malheur 
est bon». 

Convém aqui uma analyse : 

Conforme se vê da biographia de Jorge Canning a que 
nos temos referido, escripta pelo seu secretario Augusto 
Granville Itapleton, foi só em 4 de dezembro de 1823, que 
aquelle grande ministro soube das perfídias de Portugal, que 
enviava um questionário para os seus diplomatas obterem a 
approvação ao mesmo junto das potencias da Santa Aliança 
e da Áustria. 

Este questionário continha 15 artigos, dos quaes os 4 
primeiros, não podiam soífrer alteração. 

O 1.** dizia assim : 

« O Brazil renunciará a sua independência.» 

A Inglaterra que nos auxiliando, não queria menos nos 
desfructar, vendo accedidas as suas exigências, formulou tam- 
bém umas bases para o accordo entre o reiuo e o novo império. 

Por este acordo, cujas instrucções foram dadas ao mi- 
nistro da Inglaterra no Brazil, sr. Chambertani, « as duas 
coroas, do Brazil e Portugal, se reuniriam na pessoa de d. 
Pedro I, depois da morte de d. João VI, e o governo dos 
dois reinos se devolveria ao chefe da casa de Bragança, em 
successão regular, com residência alternada do soberano em 
Lisboa e no Rio de Janeiro.» 

Pedro I não era extranho a tudo isso, mas homem sagaz, 
comprehendia que convinha guardar reserva e tirar proveito 
das circumstancias. 

Quando alguém se julgava garantido com a amizade de 
Pedro I, podia ficar certo de que seria traido, no meio de 
risos e abraços. 

Não exageramos e os seus mais Íntimos amigos nos dão 
estes dados em linguagem positiva. 

Para se ver como se governava o Brazil, e como se ten- 
teavam os mais sérios negócios resolvidos pelo governo, para 
satisfazer ás exigências do povo, transcrevemos uma das pa- 
ginas das narrativas do marquez do Maranhão. 

Tendo o governo em virtude de denuncia sabido que a 
náu de commando do almirantado, ancorado no Rio, estava 



— 76 — 

com Bommas fabulosas adquiridas pelo marquez do Maranhão, 
na occasião em que fizera a pacificação do Maranhão e Pará, 
ordenou Pedro I, que se fizesse uma parada em Nitheroy, e 
que emquanto esta se realizasse se desse a mais rigorosa 
busca ao navio do almirante. 

Avisado o almirante que se achava no Rio de que ia 
passar por esta desfeita, e que sua casa estaria cercada du- 
rante a busca, este digno official, que a altas horas da noite 
tivera este aviso dado por Madame Bonplande, mulher que 
conhecia os segredos do paço, procedeu como se vè de sua 
própria narrativa : 

«Agradecendo a sua excellente amiga aviso tão oppor- 
tuno, saltei por cima da parede de meu quintal, e só, ca- 
minho desembaraçado para a cavalherice, escolhi um cavallo, 
e não obstante o tardio da hora, parti para S. Christovam, 
palácio do imperador, onde assim que cheguei requeri falar 
com sua majestade. 

Sendo meu pedido recusado pelo camarista de semana, 
de maneira que confirmava o que me annunciava Madame de 
Bonplande, disse : que visse ao que se arriscava, recusando- 
me a entrada, accrescentando que o negocio porque alli 
vinha podia ter as mais graves consequências para S. M. 
o Imperador. 

«Mas, tornou elle, S. M. ha muito tempo se foi deitar. 

«Não importa, respondi eu, deitado ou não, quero vel-o 
em virtude do meu privilegio de ter accesso a elle a qual- 
quer hora, e se o recusa permittir-m'o - lembre-se das con- 
sequências. 

«Porém S. M. não estava a dormir e como a camará 
real era immediata, reconheceu elle a minha voz, na alter- 
cação com o camarista. 

«Sahindo ás pressas de seu quarto, n'um deshabillé que 
em circumstancias ordinárias houvera sido inconveniente 
perguntou-me : 

«Que acaso podia alli trazer-me a taes horas da noite ? 

«A minha resposta foi que constando-me que as tropas 
estavam com ordem para uma revista destinada a ir á náu 
da capitania, em busca de suppostos dinheiros, vinha requerer 



— 7 / 

a S. M. nomear immediatamente pessoas de confiança para 
me acompanharem a bordo, onde as chaves de quantas caixas 
a náu continha se lhe entregariam e se lhes abriria tudo 
para sua inspecção ; mas que se alguém de sua admnistraçào 
anti-brazileira, se aventurasse ir a bordo em perpetracão do 
tencionado insulto, os que o fizessem seriam olhados como 
piratas e tratados como taes. 

«Esteja V. M. certo de qne nào são mais inimigos meus 
do que são seus e do império, e uma intrusão tão injusti- 
ficável, é obrigação dos officiaes e da tripulação resistir-lhe. 
, «Bem, respondeu S. M. pareceis estar informado de tudo, 
mas a trama não é minha ; estando, quanto a mim, conven- 
cido de que se não acharia mais dinheiro do que o por vós 
mesmo já declarado. 

«Supliquei então a S. M. para tomar por minha justi- 
ficação taes medidas que satisfizesse o publico. De nenhumas 
ha precisão, respondeu elle. A difficuldade é como ha de tal 
revista dispensar-se. Estarei doente pela manhã, assim ide 
para casa e não penseis mais n'isso. 

«Dou- vos a minha palavra de que não será ultrajada a 
vossa bandeira pelo procedimento contemplado. 

«O desfecho da farça é digno de relatar-se. 

«O imperador cumpriu a sua palavra e durante a noite 
achou-se de improviso doente. Como S. M. era realmente 
querido por seus súbditos brazileiros, toda a gente de bem 
do Rio de Janeiro estava na manhã seguinte em caminho de 
palácio por saber da real saúde e fazendo pôr os cavallos em 
minha carruagem, parti para o palácio também, afim de nào 
parecer singular a minha ausência. 

«Entrando no salão, onde o imperador cercado de muitas 
pessoas influentes, estava a explicar a natureza de sua doença 
aos anciosos perguntadores, occorreu esse extranho incidente. 

Dando com os olhos em mim, desatou S. M. sem poder 
conter-se, n'uma risada em que eu o acompanhei, julgando 
sem duvida os circumstantes, pela gravidade da occasião, que 
ambos tinhamos perdido o miolo. Os ministros • pareceram 
attonitos, mas nada disseram. 

S. M. guardou segredo, e eu calei-me 1 ^ 



— 78 — 

Eis ahi uma bôa peça para a politica e para o theatro 
que deve tomar conta delia, afim de que o povo possa 
aprender a instruir-se quando considera o modo por que é 
governado. 

Como as aguas que fazem mover os engenhos do mundo, 
nascem em lugares solitários e ignorados, assim também são 
as origens republicanas do Brazil. 

Estes novos Marcos Antonios, do Brazil, ao inverso do 
Romano, não mediam a grandeza do povo pelo que elles re- 
cebiam, mas pelo que elles lhe davam. 

Dahi provinha que o juizo que formam era avaliado, 
nào pela extensão des males do povo, porém, sim pelos sen- 
timentos que emprestavam a estes males ! 



PARTE VI 

A esse tempo tornou-se notório o modo pelo qual os 
brazileiros tratavam os emissários portuguezes, e o governo 
inglez mandou instrucções ao sr. Chambertaini, ministro no 
Brazil, para que, desvanecida a idéa de que Portugal reha- 
veria o Brazil pela força armada, fizesse com que os portu- 
guezes abandonassem esta tentativa. 

« A guerra, disse Canning, cessa de ser justa quando 
deixa de ser necessária. » 

E' singular esta doutrina que mais se coaduna aos 
indignos do que a um povo, que quando quer fazer a guerra 
a faz necessária e portanto justa quando a julga necessária ! 

Estando lord Amhert, em fevereiro de 1823, prompto 
para partir para a índia e tendo de tocar no Rio de Janei- 
ro, indo a Bengala, julgou Canning, que não devia perder 
a opportunidade de aproveitar tão hábil emissário. 

Foram dadas as seguintes instrucções, que por serem 
assaz honrosas, queremos deixar archivadas para vergonha 
dos que não quizeram logo abolir a escravidão no Brazil. 

« A Inglaterra pode reconhecer a independência do 
Brazil, mas para ter amizade com este paiz dependia de uma 
preliminar : — que fosse abolida a escravidão, porquanto 
existia uma differença obvia entre uma politica colonial e a 
independência, o intuito de uma colónia era a cultura e 
commercio ; e emquanto a mãi-patria cura-vos de sua defe- 
sa militar e marítima, sentiam-se menos os perigos e in- 
commodos dos trabalhadores importados do que em um 
estado que depende inteiramente de seus recursos internos. 
Um estado desta categoria não pode com segurança e 
dignidade confiar em uma população artificial, em vez de 
nacional. » 

« Que pugnar o Brasil entre tantos estados de todo o 
continente americano pela continuação de um trafico con- 



— PO — 

demnado solemnemente pela voz unida da America e da 
Europa, offenderia os seus interesses ; assim como mancharia 
a reputação do império, que novamente defendia sua liber- 
dade e independência. Como colónia o Brazil não tinha 
responsabilidade separada, mas os estados cultos do mundo, 
qualquer que fosse sua constituição politica, hesitavam bem 
em admittir em sua communhão uma nação que pela pri- 
meira vez aspirava ser tal, mas que conservava a nódoa do 
caracter nacional, de que estava isenta toda nação indepen- 
dente do mundo civilizado, com a única excepção de 
Portugal. » 

« Portanto, a Grã-Bretanha só podia ter amizade com 
o Brazil quando elle tivesse abolido o trafico abominável. » 
A athmosphera que cercava os homens do Erazil, fora 
e dentro da pátria, estava muito carregada porque os por- 
tuguezes apertavam a independência por fora, e esta se 
fazia cada vez mais necessária dentro do Brasil. 

Estava então bem presente ao espirito de todos, a 
bandeira dos Inconfidentes : Libertas quce, será tamen. 

Ninguém deixava de narrar aos seus filhos e aos amigos 
o supplicio inflingido a Felippe dos Santos, o martyr a 
quem a covardia e a tyrannia do verdugo conde de Assumar 
fez com que em Villa Rica, como elle dizia ad perpe- 
tuam rei memoriam, se sacrificasse aquelle republicano, 
mandando-se escolher dois bellos cavallos bravios, sendo 
então amarrado Felippe dos Santos na cauda dos possantes 
animaes, e logo fustigados estes com o estalar do chicote, 
sendo em pouco tempo espedaçado o corpo do martyr, na 
presença e no meio do regosijo do algoz e outros immundos 
observadores. 

As ruas de Villa Rica receberam o sangue da victima, 
e logo nasceu no espirito de Tiradentes a idéa de vingança 
da qual elle era apenas um fraco echo da opinião publica, 
que pedia vingança e liberdade. 

Tiradentes morreu na forca, e quando se lhe tirou os 
ferros que ligavam as suas mãos aos pés, elle soube encarar 
a morte, de modo que pôde ainda proferir estas palavras 
memoráveis : 



^ Si — 

« Morro cheio de prazer, pois não levo após minha 
pessoa tantos infelizes a que contaminei, e que isso mesmo 
intentava nas múltiplas vezes que fôr^ á presença dos mi- 
nistros, pois sempre lhes pedira que fizessem somente delle a 
victima da lei. -> 

Si foram assim trucidadas as victimas do despotismo 
com sua lei, não admira que o sentimento do mal produzisse 
a liberdade que pouco a pouco ganhou todos os espíritos e 
fez com que a idéa republicana, por isso mesmo que era 
opprimida e corrompida pelos poderosos, desse em resultado 
que mais tarde a Republica apparecesse, quasi sem esforço, 
como um fructo maduro cabido da arvore. 

Como podia o povo esquecer a morte de Cláudio Ma- 
noel da Costa, expirando na masmorra, no meio de cruéis 
martyrios de Maciel e Alvarenga, morrendo no exilio afri- 
ca lo, desta Africa da qual Portugal tirava os negros para 
virem soffirer o captiveiro, na terra onde aquelles heroes 
sonhavam com a liberdade ! 

O enforcamento em 1817 do General Gomes Freire de 
Andrade, em Lisboa, e mais 12 réus de lesa majestade, veiu 
activar é fazer renovar a historia de tantos martyrios que o 
drama nefando de Villa Rica tornava sempre intenso e 
triste no espirito do povo. 

E era em uma tal situação que a independência era 
reclamada, e que o povo a exigia não mais como um meio 
de se libertar do reino, mas do rei. 

Feita ella j)or d. Pedro I, as manhas, os subterfúgios 
constituiram sua norma de governo. 

Os leitores já conhecem a historia do navio Voador. 

Admira que o visconde do Cayurú, analysando este 
acto, num trabalho publicado na « Revista do Instituto His- 
tórico », ache inqualificável o procedimento do povo quando 
quebrou o leme do navio Voador. 

Com as noções actuaes do direito internacional, seria 
até ousadia pretender que fosse recebido por um paiz que 
acabasse de emancipar-se e cortava todas as relações de 
dependências com a metrópole. 



— s?. — 

Nào admiro, pois, que o sr. Carneiro de Campos, nosso 
ministro, tivesse respondido ao sr. Conde de Souto Mayor : 

« Pelo que toca ao procedimento havido, com a corveta 
portugueza Voador que V. Exc. trata de hostil e iuhospito, 
cumpre observar que elle não foi mais que o fructo das 
circumstancias e do systema adoptado, visto que além de vir 
ella artilhada e petrechada, contra os estylos dos parlamen- 
tares, deixou de usar, quando caminhava e era opportuno, o 
signal próprio. » 

Prova evidente do adiantado estado das idéas republica- 
nas no Brazil é o facto confessado na biographia de Jorge 
Canning, escripta na mesma occasião ( 1822 ) em que se 
davam os acontecimentos. Neste documento se apreciam as 
duas opinires dos diplomatas portuguez e inglez. 

« Quando o Conde de Villa Real allegou os seus re- 
ceios de que, a não ser mantida no Brazil a autoridade do 
rei de Portugal, as províncias brazileiras se formariam em 
Republicas independentes, disse Jorge Canning lhe parecer 
que a vista do que tinha acontecido, era assaz claro que a 
acclamação do titulo imperial de d. Pedro I, foi considera- 
da pelas partes contendoras no Brazil, como uma sorte de 
meio termo, entre a conservação da antiga Monarchia e a 
instituição de uma forma democrática de governo ; que por- 
tanto qualquer tentativa de recorrer a um dos extremos, 
restituindo a prepoderancia a Portugal, ao que era antes da 
revolução levaria ao extremo opposto o partido que tinha 
por alvo não só a independência, mas a separação ; e que 
na discussão da alternativa, perder-se-hia o meio termo, sem 
remédio. » 

Eis ahi a linguagem da verdade, ella brota expontânea 
dos corações sinceros, e jamais em toda a nossa historia 
pôde haver melhor prova das tendências centralizadoras e 
observantes do poder do povo do que esta confissão do re- 
presentante da dynastia de Bragança, na occasião em que 
se descutia com o poderoso governo da Inglaterra as bases 
para o que devia ficar feito com o sello da força, porque o 
da liberdade tinha sido quebrado com o cadafalso de Tira- 
dentes e de outros martyres. 



— 85 — 

Toda vez que em uma revolução se fizerem victimas 
desta natureza, sem que pelos processos da lei ellas soffram 
as consequências de suas faltas, a idéa que os fez morrer, 
ganham por milhões em valor e energia. 

Esta proposição real, e que se vê na historia con- 
firmando mesmo reivindicações que não estavam de acordo 
nem com as idèas do tempo, nem com as conquistas do 
povo, é a prova mais evidente do quanto é sagrado o di- 
reito da liberdade, quer elle pereça nas catacumbas de 
Roma, sob o alfange do paganismo, para explodir destes 
subterrâneos em formas organizadas da sociedade civil e 
triumphante que destruiu todos os poderes que a haviam 
amordaçado, quer ella se chame revolução brazileira. 

A liberdade está para a sociedade como a electricidade 
para os corpos que a attrahem, é invisível em suas causas, 
mas terrível em seus effeitos. Sempre a mesma identidade, 
o mesmo poder, o mesmo cunho da natureza, equilibrando 
os desvios e as diíFerenças feitas pelo homem, que se jul- 
gando muito poderoso desconhece suas leis ! 

Parece bem confirmado este ponto das tendências repu- 
blicanas perfeitamente acceitas pelo povo. Fazendo-se echo 
dos desejos e direitos do povo, não para proclamar a nossa 
inteira liberdade, mas só a independência do Brazil, Pedro I 
foi hábil, porque na quantidade dos direitos elle tirou para 
si o melhor quinhão. 

E todavia foi evoluindo que o Brazil pôde chegar dos 
annos 1822 aos 1888, em que fez cahir a praguejada 
escravidão que o interesse dos proprietários explorava, com 
o da monarchia que entreteve os partidos liberal e conser- 
vador, fazendo os seus chefes Martinho de Campos e Cote- 
gipe mostrarem-se irreconciliáveis na politica, mas Íntimos 
no interesse da escravidão. 

Uma vez organizada a nossa independência, não morreu 
a liberdade, e nas primeiras reuniões das assembléas promo- 
via-se a abolição do trafico, mas então os poderes legislativo 
e executivo organizados de modo a poder amarrar as rodas 
do machinismo governativo, fingindo adaptar-se á influencia 
das idéas, não fizeram mais do que as abafar. 



— 84 — 

Nisto consentiu toda a força da monarehia, e nada é 
mais fácil do que illudir, estando de posse do poder, os 
l^lanos que se tem, seja para a destruir seja para fructiíicar. 

Nào fosse este o systema, não tivesse havido a escravi- 
dão e a republica não teria surg-ido auxiliada pelo patriotis- 
mo dos militares no meio da representação eleita por um 
ministério que acabava de sahir das fontes olympicas como 
o raio de Júpiter, e entretanto viu baquear as suas forças 
e serem applaudidas as que surgiam com a Republica de 
1889, como se não houvessem outros homens e outras idéas 
sinào as republicanas ! 

E' esta a verdade histórica e por tal modo se impõe 
que achar-se-ha sempre a historia dos erros da monarehia, 
estudando-se as conquistas e as origens republicanas, que 
agora aqui em traços largos fazemos. 

Esta lição aproveitará a todos os governos porque ella é 
filha da lógica e será sempre verdadeira em todo o logar em 
que a sociedade progredir, cercada da justiça e da liberdade. 

Nào podendo durante o periodo colonial se fazer repre- 
sentantes da Republica, o povo denominava a municipalidade 
com aquelle nome : — As camarás municipaes se reuniam nas 
cidades para tratar dos negócios da Republica, como ellas 
chamavam e escreviam sob esta rubrica as suas deliberações. 

O procurador da Gamara do Maranhão o sr. Guedes 
Aranha, em notável documento, deixou archivado este modo 
de tratar os negócios da corporação, única que estava ao 
alcance do povo. 

Nos convites feitos aos eleitos se dizia sempre ; 

*Convido-vos a vos reunir a tratar dos negócios da re- 
publica.» 

Quando as idéas, dominando o meio social em que vi- 
viam os patriotas, conseguiram abalar o throno, d. João VI 
não se illudiu, e como bom Bragança se agarrou á única 
taboa de salvação que tinha, que era dar o menos, já que não 
podia dar o mais, e elle se tornou o conselheiro do filho. 

Isso faz lembrar a fabula do naufrago que indo em uma 
taboa com um filhinho e um robusto solteirão, quando esta- 
vam todos prestes a se perder pelo peso, disse o pae ao seu 



— 8o — 

companheiro bom nadador : «Pedro, olha que eu sou pae», ao 
que elle ouvindo, se precipitou n'ag'ua, ficando assim salvos. 
O illustrado dr. Rangel Pestana em um notável dis- 
curso proferido a 13 de maio de 1882, disse: «Ha perfeita 
connexão entre a constituição social e a constituição politica, 
entre a constituição de um povo determinado pela evolução 
natural e a constituição politica determinada por essa mesma 
causa, mas sujeita a outras condições de momento viciosas 
que sejam». 

«A feição característica da Constituinte reproduzia a 
tendência para a federação.» 

«Apenas um ou ontro espirito atrazado convindo ainda 
nos preconceitos da educação da Universidade de Coimbra, 
procuravam conter este movimento.» 

Era lógico que com taes tendências o novo imperador 
tinha que se fazer ou victima ou dirigente, e como se os 
applaudisse seria envolvido e suffocado por ella, preferiu cor- 
tar a questão dissolvendo a Constituinte, e dando uma consti- 
tuição muito liberal, é verdade, mas que lhe dava os meios 
para tirar para si o que ella tinha de bom, e podia, como 
Jnpiter, fazer sempre fomentar as tempestades e as moderar 
por si mesmo. 

E não contente com este poder moderador, elle fez brotar 
da sua vontade a semente que mais tarde veiu fructificar com 
o nome de Conselho de Estado, que tanto deleitou o seu 
filho, que também foi querido dos brazileiros por tantas vir- 
tudes que possuia, mas que por participar do mesmo mal 
d' origens teve que soffrer a ingrata sorte dos que governam 
em nome do principio hereditário, entre um povo que por 
causa da educação partidária mal pode supportar o governo 
dos que elle mesmo elege, tal é a sua vontade de ser livre ! 
De facto era tão pura a origem das idéas republicanas 
no Brazil, que se não fosse a força do despotismo portuguez, 
e das j)redicas dos padres jesuitas, que ambos associados in- 
fluenciavam no animo dos que elles escolhiam para vir para 
o Brazil, nós poderíamos dizer com os factos e a historia que 
só e exclusivamente a estas duas alavancas se deve o ter 
ficado aqui implantado o captiveiro africano, que se fez logo 



— 86 — 

irmão gémeo do indígena e com esta negra mancha ficou 
misturada a semente republicana que só veiu a expurgar-se 
do mal que a invadiu, tal como apãocesa invadiu as uvas 
de Portugal, depois que se fez uma lavagem geral e bem 
desinfectada em cada arvore e semente. 

O que é verdade incontestável é esta evolução que se 
sente sempre abrindo caminho por si mesma, como as aguas, 
que fazem engrossar nossos grandes rios. 

Assim também cresceu a idéa republicana. 

Um magnifico resumo dos factos passados para assegurar 
o movei das idéas republicanas pode ser apreciado, devido 
a pena do erudito chefe republicano portuguez o dr. Maga- 
lhães Lima, que como brazileiro de origem, mantém no velho 
reino as tradicções gloriosas dos que sempre trabalharam para 
fazer do Brazil uma republica digna deste grande paiz. Este 
artigo escripto para a Republica Portugueza, merece ser 
conhecido : 

«A provincia cis-platina (actual Republica do Uruguay) 
revolucionou-se em 1826 e separou-se do Brazil em 1827, 
allegando que se houvera unido com a condição expressa de 
ser considerada um paiz confederado, e que a constituição 
unitária, outorgada por Pedro I, havia quebrado esta condição. 

E' conhecida a revolução do Rio Graude do Sul, de 1835 
a 1845, contra a tyrannia unitária. A provincia separou-se 
um anno depois, a 12 de setembro de 1836. Mas na acta de 
proclamação da independência, lavrada por uma assembléa de 
notáveis da nova republica, a 6 de novembro de 1836, na 
cidade de Piratinim (quer dizer rio do peixe branco), decla- 
rou-se que a separação era provisória e que a republica vol- 
taria livremente a fazer parte do Brazil, quando este adoptasse 
os princípios do regimen federativo. 

Em 1843, S. Paulo e Minas Geraes, com os seus princi- 
paes homens á frente (Vergueiro, padre Feijó, Raphael To- 
bias, Theophilo Ottoni, etc), rebellaram-se contra o centro, 
sem se mostrarem ostensivamente republicanos, mas arvorando 
os princípios da descentralização. 

Em 1848 Pernambuco, capitaneado por Nunes Machado 
e Pedro Ivo, o primeiro morto n'um combate e o segundo 



assassinado por ordem do imperador, revoltou-se ainda con- 
tra o centro, proclamando os mesmos principios descentra- 
lisadores. 

Além destes teve o império muitos outros movimentos 
revolucionários, de mais ou menos duração, mas obedecendo 
todos á Índole dos antecedentes. Em 1829, em Pernambuco; 
em 1831, 4 de abril, na Bahia ; em 1831, 6 e 7 de abril, no 
Rio de Janeiro, dando em resultado a abdicação do imperador; 
em 1831, 5 de maio, em Pernambuco ; em 14 de maio no 
Pará ; em 25 de maio, no Maranhão ; em 7 de agosto, no Pará; 
em 13 de setembro, no Maranhão ; em 14 de setembro, em 
Pernambuco ; em 7 de outubro, no Rio de Janeiro ; em 14 
de dezembro, no Ceará. Em 1821, 22 de março, em Minas ; 
em 1833, 16 de abril, no Pará ; em 2 de dezembro, no Rio 
de Janeiro. Em 1832, no Mato Grosso. Em 1835, 7 de ja- 
neiro, no Pará. Em 1837, na Bahia. Em 1838, no Maranhão. 
Em 1840, no Rio de Janeiro. Em 1844, em Alagoas. 

Nos dias da independência, segundo affirma Clemente 
Pereira, n'um discurso que fez ao príncipe regente, em 9 de 
janeiro de 1822, dia em que este pronunciou o celebrado 
«fico», havia um partido x^rganizado, disposto a proclamar a 
republica federativa. 

O próprio Clemente Pereira, conforme elle mesmo o con- 
fessou no parlamento, foi mais tarde accusado de haver per- 
tencido a essse partido. Durante todo o tempo do primeiro 
império, de 1822 a 1831, e durante a regência, que termi- 
nou em 1840, a maioria dos periódicos liberaes das províncias, 
pregava abertamente a doutrina da republica federativa. 

No segundo império, depois de supplantada a revolta de 
Nunes Machado, em 1848, de que já falámos, e tendo o 
paiz entrado n'uma série de complicações externas — guerra 
contra Rosas, dictador de Buenos Aires, 1851-52 ; guerra 
com a Republica Oriental do Uruguay, 1863-64, guerra do 
Paraguay, 1865-70 — houve um poriodo de apparente repouso 
interno. 

Terminada, porém, a guerra do Paraguay, e no mesmo 
anno de 1870, reuniram-se no Rio de Janeiro alguns dos 
mais distinctos representantes do espirito liberal, organizando 



— 88 - 

o partido republicano federal, cujos incessantes e activos tra- 
balhos nas principaes províncias, como S. Paulo, Rio Grande, 
do Sul, Minas, Bahia, Rio de Janeiro, Pará Pernambuco, 
Espirito Santo, deram em resultado a proclamação da actual 
Republica, a 15 de novembio de 1889. Foram signatários do- 
importante manifesto qne por essa occasiào se distribuiu — os. 
srs. Joaquim Saldanha Marinho, Quintino Bocayuva, Fran- 
cisco Rangel Pestana, Lafayette Rodrigues Pereira, Aristide* 
Lobo e luuitos outros. Este manifesto ainda hoje é conside- 
rado como o documento mais notável do partido republicano^ 
N'elle se fazia o processo da monarchia aproveitando os de- 
poimentos dos primeiros corypheus do império. 

A doutrina republicana era alli posta com firmeza e o 
principio federativo destacava com grande nitidez e clareza. 
Desde então foram eleitos vários deputados provinciaes e 
nacionaes por S. Paulo, Minas e Rio Grande. Todos os jor- 
naes republicanos eram federalistas, sobresahindo, entre elles,. 
a Fáderação de Porto Alegre, a Provinda de S. Paido, o 
Paiz, do Rio de Janeiro, etc. 

E por tal forma as tendências federalistas se accentua- 
vam no espirito dos republicanos brazileiros que o eminente 
publicista Assis Brazil, foi levado a affirmar n'um dos seus 
notáveis discursos ; — « que, se não fosse possível proclamar 
uma republica federal, preferia conservar a monarchia ; e, se 
a combatia, era principalmente por a reputar incompatível 
com o ideal federalista.» 



PARTE VII 
A Republica tio Etfiiaclop 

A revolução que teve por fim fazer a republica do Equa- 
dor tem seus prodomos e martyres. No dia 6 de março de 
1817 Pedro da Silva Pedroso no quartel do seu re2:imento 
promoveu a independência do Brazil e a forma republicana. 

O povo applaudiu a tropa e fez quebrar as armas regias 
e as coroas. Nas representações assignadas pelo povo se es— 
cluiu e tratamento V. Exc, que ficou substituído pelo de 
Vós patriota. Novas bandeiras foram inauguradas e em sessão 
solemne ellas foram benzidas. Existe, no Instituto Histórico o 
discurso do Deão de Olinda, o qual proferiu estas palavras: 

«Patriotas, escudados por estas bandeiras não tenhais 
medo nem dos escravos do Norte nem dos sevandijas do sul ; 
eu mesmo se vos faltar chefe serei a vossa frente, tendo-me 
por mais feliz morrer com homens livres, do que viver com 
escravos...» 

O enviado do governo republicano teve que partir por 
terra para Alagoas, e fazendo ahi os prosélitos seguiu em uma 
jangada para Bahia. Desde este tempo a jangada ficou tra- 
diccional nos annaes da liberdade, que ella veiu sanctificar 
depois que se aboliu a escravidão. 

Chamava-se José Ignacio Ribeiro de Andrade este emis- 
sário que ficou conhecido pelo nome de Padre Roma. Este 
Sacerdote mestrou-se digno da sua missão. 

E' um facto característico o de haverem sempre os sa- 
cerdotes sido os maiores amigos da liberdade e esta, entretanto 
ser tão ingrata nas pessoas dos seus representantes, para com 
o clero. 

Muniz Tavares em sua «Historia dos Martyres Pernam- 
bucanos», diz que apparecendo a jangada no dia 26 de 



90 



março em frente a Itapoan, tornou-se suspeita por não quv>- 
rer entrar na bahia esperando a noite . 

Patrulhas destacadas foram apprehender o Padre Roma, 
que defez-se das credenciaes, atirando -se ao mar. 

Preso e encarcerado em segredo de justiça, o Conde dos 
Arcos creou logo uma commissão militar para o sentenciar 
summariamente. O Padre Roma compareceu algemado pe- 
rante o tribunal, chamado de sangue. Interrogado se co- 
nhecia as pessoas para quem trazia as cartas, respondeu que 
não. E por isso foi condemnado á morte ! 

Ouvida a sentença, o Padre Roma mostrou-se digno e 
corajoso, e conforme narrou o seu confessor, as suas ultimas 
palavras foram estas que vem no mesmo livro do Padre 
Dias Martins : «Custa-me a comprehener como a misericór- 
dia de Deus poderia salvar-me. Rendo porém graças a Deus 
por ter-me permittido tomar parte na revolução de Pernam- 
buco, porque assim deixo de ser um condemnado eterna- 
mente.» 

Chegando ao lugar denominado Campo da Pólvora, onde 
devia ser fuzilado, voltou-se para os granadeiros e dise : 

«Camaradas, eu vos perdoo a minha morte ; lembrai- 
vos na pontaria, que aqui (pondo a mão no coração) é a 
fonte da vida.» 

E cheia de episódios a epopéa destes heroes, que no 
meio de uma população de escravos, tinham para chefes o 
Conde dos Arcos e outros potentados, e os tribunaes mili- 
tares, os quês um dia serão banidos na justiça dos homens 
pelos próprios briosos militares que devem ver em taes tri- 
bunaes as machinas infernaes da perversidade humana ; en- 
tretanto estes homens ousavam confiar no povo ao qual se 
apresentavam para libertar a pátria. 

A justiça da Bahia mandou ao encalço dos cúmplices. 
Domingos José Martins é preso no Porto das Gallinhas, 
conjunctamente com o padre Santo e mais outros compa- 
nheiros ; todos foram acorrentados á presença do general Co- 
gominho sendo postos a ferros a bordo do navio Carrasco 
qus os levou á Bahia de S. Salvador. 



— 91 — 

José Luiz de Mendonça, companheiro daquelles, que se 
achava escondido, sabendo que os que dessem abrigo aos 
condemnados seriam enforcados, envolveu-se em uma capa, 
tomou uma cadeirinha, vehiculo de conducção nobre na Bahia, 
e foi ao pateo do feroz Conde dos Arcos, onde sahindo, dei- 
xou cahir a capa e gritou, abrindo os braços : <- Camaradas, 
eu sou o proscripto José Mendonça, atirae se quizerdes e 
matae-me.» Foi preso e posto a ferros a bordo. 

O padre Almeida Costa entrega-se a prisão depois de 
ir a sua casa onde disse a irmã d. Clara de Castro : «Mana, 
nada de chorar, estás orphã, tenho enchido meus dias, logo 
me vêm buscar para a morte, entrego-me a Deus e nelle te 
dou um pae que não morre ; mas ajuda-me a salvar a vida 
de tantos desgraçados, aproveitemos a morte e imita-me.» 
Dizendo isso o padre que éra o Secretario do Governo, en- 
trou na secretaria onde estavam os autos e os destruiu na 
noite de 20 de maio de 1817. 

Arrancado dos braços da irmã, é mettido em grilhões e 
conduzido para bordo do Carrasco. 

A 9 de junho foram todos interrogados. 

Domingos José Martins, José Luiz de Mendonça, dr. 
Manoel José Pereira Caldas e Dião Portugal, portaram-se 
dignamente. 

O padre Miguel Castro ficou conhecido pelo nome de 
padre Miguelinho. 

Narra Codeceira que os empenhos para salvar este padre 
abalaram o Conde dos Arcos, que vendo a victima nada 
negar disse : «Padre, não cuide que somos alguns bárbaros, 
e selvagens que só respiramos sangue e vingança ; fale, 
diga alguma cousa em sua defesa.» O padre continuou si- 
lencioso e o Conde disse ainda ; «O padre não teve inimigos 
e não seria possível que elles lhe falsificassem a firma e 
com ella subscrevessem parte ou todos os papeis que estão 
presentes ?» O padre respondeu : «Não senhor, as minhas 
firmas são authenticas e por signal que em uma delias o 
— o — do meu ultimo sobrenome, Costa ficou metade por 
acabar, por falta de papel.» 

No dia 11 foram todos sentenciados. 



^ 92 — 

Ouvindo a sentença José Luiz disse : «Juizes malvados r 
cegos e vis instrumentos da tyrania, eu vos emprazo para os 
infernos.» 

Na manhã do dia 12 de junho de 1817 os três marty- 
res José Luiz, Martins e Miguelinho, revestidos de alva, pés 
descalços, algemados, sahiram da cadeia para a forca. Ahi 
Martins voltando-se para os soldados disse : «Vinde executar 
as ordens de vosso sultão.» 

O anniversario da morte destes heroes passa desconhe- 
cido como as aguas dos rios que correm nos lugares igno- 
rados. 

Os algozes aproveitam-se destas datas para formarem 
SBas epopéas, como os industriaes daquellas aguas para mo- 
verem suas machinas. 

Em 1817 houve também no Recife uma victima cearense 
chamada António Henrique Rabello. Conhecido como cons- 
pirador contra a monarchia, foi logo condemnado pelo tri- 
bunal militar e ao ir para a forca gritou : «Viva a pátria !» 

Sua cabeça por causa de ter sido o motivo de um tal 
grito, foi decepada e ficou por muito tempo exposta na 
ponte do Recife, até ser consumida pelo tempo. Esta exe- 
cução foi feita a 5 de julho de 1817. 

O sangue excita o appetite dos tyrannos, como o das 
feras. Logo depois desta morte, foram feitas outras, entre 
ellas a do padre Pedro de Souza Tenório, José de Barros 
Lima, e Domingos Theotonio Jorge. Narra Muniz Tavares 
no seu citado livro que ao subir á força este ultimo dissera : 
« Meus patrícios, a morte não me aterra, aterra-me a incer- 
teza do juizo da posteridade ; eu deixo um filho, ensinai -lhe 
o caminho... » mas o carrasco o suff'ocou. 

Todo o norte do Brazil ficou influenciado pelo espirito^ 
de independência, e o rigor das leis fez martyres por toda a 
parte. No Rio Grande do Norte Albuquerque Maranhão foi 
assassinado. 

Os acontecimentos que fizeram approximar-se a liberdade 
foram sendo explorados em favor da coroa, que para não 
perder o Brazil, queria ao menos gosar das vantagens que o 
paiz podia dar-lhe. 



-- 95 — 

Estes lig-eiros traços que acabamos de fazer bem podem 
trazer a luz que a liberdade infelizmente ainda mal com- 
prehendida pode permittir, fazendo-se assim com que o senti- 
mento de partidarismo e politicagem, que tanto mal fez a 
liberdade, não reduza os seus heroes a meros frutos do 
tempo. 

Ainda que a independência tenha satisfeito as aspira- 
ções democráticas da época, alguns patriotas republicanos 
não se contentaram com a conquista feita e queriam ir 
mais adiante. 

Tanto ao sul como ao norte do Brazil dominava este 
pensamento, e se bem que ao sul o movimento houvesse 
achado incremento pela facilidade de recursos do clima e da 
índole do povo, é preciso assig-nalar o esforço feito por 
Tristão Gonçalves, o patriota sobre cuja ordem estavam alis- 
tados homens do valor do conhecido Frei Caneca e outros 
que pasraram com a vida a dura prova de serem republica- 
nos no reg-imen que se inaugurava em 1822. 

iío capitulo VIII das Narrativas de Lord Cockran^, en- 
cima a descripção o pomposo titulo — Governo Republicano 
proclamado em Pernambuco. Transcrevemos o seguinte : 

«Realmente Manoel de Carvalho Paes de Andrade havia 
publicado suas proclamações, denunciando d. Pedro I como 
trahidor, que propunha entregar o Brazil aos portuguezes. 

«A revolução, diz Lord Cockrane, havia tomado raizes 
vigorosas no espirito democrático dos pernambucanos ; não 
era cousa com que se brincasse. 

«Havia-se proclamado a forma republicana de governo, 
cujas vistas eram em mais vasta escala do que as proporci- 
onadas á capacidade daquelles que as propunham, sendo sua 
esperança vã o constituir todas as províncias do Equador 
n'uma federação sob o modelo dos E. Unidos, projectos for- 
mulados por norte-americanos que residiam no Kecife. 

«Para promover este objectivo foram convidadas- as ou- 
tras províncias septentrionaes a repudiarem a autoridade do 
Imperador e a formarem uma alhança sob o titulo de Confe- 
deração do Equador, sendo a consequência que uma grande 



— 94 — 

porção dos habitantes do Parahyba, do Piauhy, do Rio 
Grande do Norte e Ceará se declararam a favor do projecto. 
Eis aqui a concordata das províncias revolucionarias : 
«Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 
1824, terceiro da Independência do Brazil e no dia 3 de 
agosto do dito anno na sala das sessões do Governo de 
Pernambuco, estando presente o cidadão Quaresma Ferrão, 
por parte de S. Exa. o presidente Carvalho Paes de An- 
drade, e o Illm. Revd. Padre Francisco da Costa Seixas, José 
Joaquim Fernandes Barros, o cidadão José Joaquim Geminiano 
de Moraes Navarro, por parte da provincia do Rio Grande 
do Norte, em virtude do diploma datado de 16 de agosto de 
1824 e também os deputados commissionados pelo governador 
da provincia de Pernambuco para tratar por parte do seu 
governo, com o fim de pôr termo á dissensão de opiniões po- 
liticas, que tanto ha retardado o progresso do Brazil, da in - 
dependência e liberdade e ao mesmo tempo tratar de banir 
um espirito servil, que tende a escravizar o Brazil, por uma 
pretendida Constituição, dominando sobre a nação brazileira 
como a do Grão Senhor Ottomano. 

A commissão do governo desta provincia e as illustres 
deputações supra mencionadas, tendo maduramente conside- 
rado estes materiaes concordam : 

I. Que estas provincias de Pernambuco e Rio Grande 
se unam n'uma liga fraternal, oífensiva e defensiva, afim 
de prestarem todas as suas forças contra qualquei aggressão 
do governo portuguez ou do Rio de Janeiro, para reduzir 
estas provincias a um estado de servidão. 

II. Que a dita liga se estenderá ao estabelecimento de 
liberdade constitucional nas ditas provincias e a supplantar 
o espirito servil de que estão infeccionadas e afastar assim a 
guerra civil fomentada pelas intrigas no Rio de Janeiro, 
cuja influencia penetra agora em todo o Brazil. 

III. Que para assegurar o eíFeito deste facto o governo 
de Rio Grande formará um corpo de tropas e o postará nas 
bordas da provincia de Parahyba, para ser empregado segun- 
do as necessidades o exibirem. 



— 95 — 

IV. Que este corpo de tropas será sustentado pela pro- 
víncia de Pernambuco, mas será depois sustentado pela Con- 
federação do Equador. 

E para que o mesmo seja levado a immediato eíFeito, 
terá esta concordata pleno vig-or, logo que seja assignada por 
S. S. Exs. os presidentes das ditas provincias do Rio Gran- 
de do Norte e Pernambuco.» 

Assignados : 

Padre Franchco da Costa Seixas. — José Joaquim 
Fernandes Barros. — José Joaquim Geminiano de Moraes 
Navarro. — Basilio Quaresma Ferrão. — Manoel de Carva- 
lho Paes de Andrade^ presidente. Impresso na Imprensa Na- 
cional. 

Como se havia espalhado a noticia de que o almirante 
Cockrane o que queria era dinheiro, não duvidavam os re- 
voltosos offerecer-lhe os meios que imaginavam ; poderiam 
vir em seu auxilio, e para isso logo que chegou este chefe 
para abafar o movimento revolucionário o presidente mandou 
ao mesmo a seguinte carta que deve ficar archivada : 

« Mylord — A franqueza é o caracter distintivo dos ho- 
mens livres ; mas V. Exa. não a encontrou em suas relações 
com o governo Imperial. O não ter sido recompensado pela 
primeira expedição, oíFerece justificável referencia de que nada 
receberá pela segunda. 

« Tomo, portanto, a liberdade de assegurar a V. Exa. a 
somma de quatro contos de réis, como indemnização por suas 
perdas. 

« O serviço requerido a V. Exa. será o de acceitar a 
causa da Confederação do Equador^ a qual é a adoptada pela 
maioria das provincias septentrionaes, cujo limite será o rio 
S. Francisco do Norte. 

« Tenho a honra de ser de V. Exa. muito humilde criado, 
Manoel de Carvalho Paes de Andrade». 

O presidente revolucionário havia encommendado navios 
veleiros para os Estados-Unidos e os esperava anciost), por- 
que para uma cidade como o Recife, cortada de rios nave- 
gáveis o não ter os recursos para dominar as aguas, era o 
mesmo que não ter braços. 



— 96 — 

O pânico, porém, que o navio « Pedro I » ( qne era o 
do almirantado), produzira e a habilidade com que Cockrane 
tirava partido d'esta situação, dizendo que esperava 30 navios 
de guerra e fazendo espalhar outras noticias, produziram um 
effeito desastrado em uma cidade em que a luta se tornava 
desigual, mostrando a consciência dos lutadores o perigo de 
uma tal luta, ainda que tivessem muito valor. 

Com effeito, chegando 800 homens a bordo do Piranga, 
e começando o ataque, o presidente Carvalho fugiu, indo em 
uma jangada para bordo do Tiveed, corveta britânica, que 
estava no porto. 

O imperador d. Pedro I tinha-se entregado nas mãos 
dos partidários que o povo chamava portuguezes, que gover- 
navam fazendo politica opposta aos Andradas, e havendo 
grande ódio no norte do Brazil ao elemento portuguez, era 
difficil acalmar os homens que preferiam dar a vida a ficar 
submissos a uma tal escravidão. 

Entretanto foi fácil dominar com tão poderosos recursos 
os revoltosos e o general Abreu Lima ponde tomar conta do 
governo do Recife, fugindo os revoltosos para o interior. 

No Ceará principalmente, o movimento se tornara in- 
tenso e foram collocadas bandeiras republicanas na fortaleza 
e nas casas, onde reinava grande alegria. 

Infelizmente a chegada de Lord Cockrane alterou, por 
tal modo o povo, que não tinha absolutamente na Capital re- 
cursos para lutar contra um bombardeio do qual foi logo 
ameaçado e a consequência foi que rendeu-se o governo á 
intimação. 

Tinha sido acclamado presidente da Republica no Ceará 
o heróe Tristão Gonçalves de Araripe, qua soube desenvolver 
ama tenacidade que confirmou o titulo que lhe demos. 

E' preciso não confiar na historia escripta pelos contem- 
porâneos das victimas. O exemplo de Tristão Gonçalves, que 
como veremos mais tarde foi outro martyr da Republica, é 
mais significativo, porque ao passo que outros que estiveram 
sob seu commando têm seus nomes nas praças e ruas, elle foi 
ignorado. 



97 



E' preciso reconhecer que o senador Alencar, seu irmão, 
foi quem o metteu na chefia em que elle soube sustentar-se 
e morrer, tendo sido também senador o presidente do Ceará. 

O illnstrado Cons. Araripe, filho do grande heróe, teve 
que se conformar com a sorte do povo brazileiro e vindo a 
acceitar a Republica, elle que era um dos filhos da victima 
mais heróica da RepublicA do Elquador, Aeiu por uma coin- 
cidência da sorte a ser o ministro que referendou o decreto 
•dissolvendo a 1.* constituinte ào g-overno republicano do 
Brazil. O seu digno pae fez a revolução e a Republica do 
Equador, baseando-se justamente em haver Pedro I dissol- 
vido a Constituinte do primeiro governo monarchico ! 

A historia deve pois ser encarada com a calma e a ver- 
dade, que nenhum poder do mundo pode fazer eternamente 
ficar oceulta. A este respeito devemos notar que os do- 
■cumentos que publicamos n'este capitulo — Republica do 
Equador, — dão muita \va. 

Nós temos o prazer de dar publicidade á proclamação 
feita pelo heróe Tristão Gonçalves. Este precioso documento 
não tem tido a circulação que merecia pelas causas que no 
-cap. II e neste mesmo podem ser vistos. 

O patriotismo e a acção caracterizam os feitos brilhantes 
kIo denodado presidente e martyr, tão mal comprehendido 
,pelos homens de seu tempo e pelos seus próprios parentes e 
patrícios. 

Admira que o governo republicano do Ceará nada faça 
para levantar a memoria do nosso heróe, podendo ser que 
nós também sejamos tido por suspeitos, por causa de termos 
•o mesmo sangue ^o martyr em nossas veias. 



COPIA 

ACTA DA SESSiO EXTRAOBDINIIA Dl 29 DE ABRIL DE IH24 

Aos 29 de abril de 1824 annos, n'esta cidade da Forta- 
leza, nas casas da Camará e paços do conselho, aonde se 
achavam o juiz presidente, pela lei, Joaquim António de 
Oliveira, o vereador transacto Francisco Félix Bezerra de 



— 98 -^ 

Albuquerque, e o republicano Manoel Pereira Vianna, por 
impedimento dos vereadores actuaes e o procurador do conselho 
José António Machado, commigo escrivão ao adeante nomeado, 
sendo ahi appareceram o Ulmo. e Exmo. governador das ar- 
mas desta provincia do Ceará Grande, José Pereira Filgueiras, 
cidadãos e officiaes militares, abaixos assignados, ahi pelo dito 
illustrissimo e excellentissimo senhor, foi apresentada a fala 
seguinte que foi lida pelo R. P. Estevão da Porciuncula : 
« Senhores. Todos sabem que eu não sou orgulhoso e nem 
jamais me arrojei a offender-vos e muito menos ludibriar a 
pessoa alguma n'esta cidade. O meu génio e minhas ma- 
neiras de proceder, penso, teriam sido sempre uniformes até 
o ponto de já não poder soíFrer insultos de homens, que eu 
mesmo ( para o bem dizer ), eu mesmo esforcei-me eleval-os, 
apezar de tudo, a grandes postos : esses ingratos conspiraram 
contra a minha vida, contra a vida dos vogaes do governo, 
contra a vida dos cidadãos beneméritos e pelo menos contra 
a integridade de nossas pessoas. Uma indiscreta compaixão 
embotou os fios das leis e deu azo a novas desordens. Em 
clubs e conventiculos secretos tramavam nova conjuração : 
quasi estive a ponto de ser victima da paixão digo traição, 
como muitos avisos me persuadiram : zombei ao principio, mas 
depois lembrou-rae do triste acontecimento de 14 deste mez. 
Já que a nada se providenciava, arroguei a mim a prisão 
dos cabeças da conjuração ; e por ultimo vi com horror os 
abysmos a que se pretendia arrojar a esta provincia inteira. 
O veneno subtil e mortal se espalhava dentro de piilulas 
doiradas ; com expressões pomposas, rasgos brilhantes e com 
meios capciosos, procuraram illudir a minha ingenuidade e a sin- 
geleza dos povos. O presidente, depois de haver tomado posse 
do governo das mãos da Camará, e do governo faccioso e ille- 
gal, no meio da tropa em tumulto nas trevas nas noite, não 
duvidou negar esta fraqueza no officio que me derigiu a 15 
d'este mez. Este procedimento é muito feio e persuasivo da 
falta absoluta, não sei de que ! Espalhou duas proclamações, 
cujos fins eram somente resplandecer o abominável despotismo, 
e, chegando ao crime do mais abatido servilismo, avançou a 
esta escandalosa proposição : O imperador é a fonte de todo 



— 99 — 

o 2^oder. — Com effeito, creio que nenhum brazileiro se ar- 
rojaria a tanta baixeza ! ! ! 

O Imperador mesmo conhece que a soberania reside no 
povo. E, se elle falou no poder executivo, quem foi que 
conferiu este poder ao Imperador, senão a mesma nação ? 
Não era este só o meio de que se valeu para nos lançar os 
ferros da escravidão ? Atiladamente disseminando a discórdia 
e desconfiança, chamava aos intrépidos defensores dos nossos 
direitos inimigos internos ; porque temia que os cidadãos li- 
beraes se haviam de oppôr ao novo systema, pelo qual se 
encadeavam as correntes para nos prender a todos nas mas- 
morras da escravidão. Obedecemos, veneramos e cordialmente 
amamos a Sua Majestade Imperial C. e L., como primeiro 
chefe do Brazil ; mas nós exigimos uma constituição liberal 
como nos prometteu, afiançou e muitas vezes tem jurado 
dar-nos. Eis porque nos chama inimigos industriosos, pon- 
do-nos de má fé para com o povo, fácil de seduzir e acos- 
tumado a obedecer. Ainda Sua Majestade Imperial C. não 
mandou jurar o projecto de constituição, e havendo cousas 
mais serias da obrigação do sr. presidente, elle não se es- 
queceu de remettel-o para esta Camará fazel-o, ja se sabe, 
jurar por dez ou doze europeus ou brazileiros escravos. Es- 
perando-se breve invasão de Portugal, e devendo nós reba- 
tel-a com força reunida e em taes apertos lembrou-se o sr. 
presidente de convocar um concelho, no qual propoz se man- 
dasse presidiar as fronteiras contra Pernambuco, negando-se- 
Ihe todo o soccorro. Que fomento de guerra civil nestes 
tempos desgraçados ! Que deshumanidade de um brazileiro ? 
Que nos importam os negócios políticos de Pernambuco ? 
Que mal nos fez ? Qual é o seu crime ? Não acceitar um 
tyranno, nomeado presidente pelo Imperador ? Aborrecer um 
déspota, que acabava de exercitar um sceptro de ferro e de 
roubar com escandalosos subornos contra a liberdade da 
mesma sua pátria ?Haviamos reduzir a fome os nossos irmãos, 
os nossos vizinhos, donde hoje vem todo o principal com- 
mercio ? E' por ventura esta a união tão recommendada nas 
proclamações de S. Ex.? Elias são panegyricos de S. Ma- 
jestade Imperial C. e introducções do sr. presidente no go- 



— too — 

verno. Nào sei porque fatalidade S. Ex. ainda não disse — 
Vioa a Nação Brazileim ! - Que total abandono? São 
estes os grandes bens que nos traz o Exmo. sr. presi- 
dente ? Finalmente, no curto espaço de treze dias o sr. pre- 
sidente tem se feito suspeito e mesmo execravel aos povos. 
Os povos requerem a sua demissão, desgostosos dos princípios 
de tal governo e eu fui obrigado a annuir ás suas requisições. 
Nestes termos torna-se necessário installar um governo, se- 
gundo as leis ou lançaudo-se mão das votações já reunidas 
de algumas das camarás interinamente, até que cheguem as 
demais da província ou como melhor convier ao estado actual 
das cousas. São estes os puros sentimentos de um homem 
que sempre se tem dirigido nos negócios de sua pátria sem 
outras vistas mais do que defender o seu direito sagrado, em 
abono dos quaes protesta derramar até a ultima gotta de 
sangue. Cidade do Ceará, 29 de abril de 1824, 3.*> da 
Independência e do Império. José Pereira Filgueiras. 
E consultando toda a assembléa sobre os quesitos do seu 
manifesto, propoz-se que se mandasse ao Exmo. presidente 
nomeado por Sua Majestade Imperial C. L. uma deputação 
para elle responder sobre os mesmos quesitos e foram no- 
meados para a mesma deputação o Rev. vigário António 
José Moreira, o tenente-coronel Tristão de Aleiícar, digo Gon- 
çalves de Alencar Araripe, o capitão ajudante José Ferreira 
Lima, o advogado Miguel António da Rocha Lima, o capitão 
Francisco José Pacheco de Medeiros, o tenente-coronel José 
Ferreira de Azevedo e o sargento-mór Francisco Ferreira de 
Souza, os quaes dirigindo-se á sala do governo e sendo re- 
cebidos pelo mesmo Exmo. presidente, propoz o Rev. vigário 
António José Moreira, como presidente da mesma deputação, 
que o Exmo. governador das armas, vendo a província em 
grande convulsão e temendo males incalculáveis sobre o es- 
tado politico da mesma, se viu obrigado a chamar ás armas 
os cidadãos da mesma e eonvocando-os nos paços do conselho 
perante a Camará desta capital, fez recitar o seu manifesto 
já descripto na presente acta e exigindo de todos a sua es- 
pontânea deliberação, todos unanimemente responderam que 
convinha que o actual presidente nomeado por Sua Majestade 



— iOl — 

Imperial C. L. desistisse da presidência do governo, para 
evitar convulsões politicas e tranquillizar os povos, que a vista 
de seu governo, no curto espaço de 13 dias, mostrava que- 
rer escravizar a provincia, sujeitando-a ao antigo abso- 
lutismo, motivo de todo o movimento. E logo dito Exmo. 
sr. resj)ondeu que estava prompto a demittir-se do governo, 
comtanto que se lhe escrevesse o seu protesto. Avista, pois, 
desta resposta se concordou que se tratasse de nomear um 
presidente temporário para succeder aquelle, até que se reú- 
na a votação dos coUegios da provincia, já ha muito man- 
dado proceder para conselheiros, que, o que tiver maioria de 
votos servirá de presidente na conformidade da lei. E pro- 
cedendo-se com effeito a votos por todos os que se achavam 
na dita assembléa, sahiu eleito o tenente-coronel Tristão 
Gonçalves de Alencar Araripe com 88 votos que se julgou 
pluralidade o que feito compareceu o Exmo. presidente de- 
mittido e apresentou o seu protesto e demissão por escripto, 
requisitando se mandasse inserir na presente acta, dando-se- 
Ihe as copias necessárias, o qual é do teor e forma seguinte : 
(segue o protesto sem importância e assignado pelo Presi- 
dente da Provincia Pedro José da Costa Barros, nomeado 
por dec. de 20 de outubro de 1823). E nesta forma hou- 
veram a sobredita Camará e assembléa esta sessão por finda 
e acabada, do que para constar mandaram lavrar a presente 
acta em que todos assignaram. E eu, João Lopes de Abreu 
Lage, escrivão do senado da Camará o escrevi. Pedro José 
da Costa Barros, Joaquim Antunes de Oliveira, Francisco 
Félix Bezerra de Albuquerque, Manoel Pereira Vianna, José 
António Machado, José Pereira Filgueiras. Com assignaturas 
da assembléa. O Escrivão da Camará, João Lopes de Abreu 
Lage. 



COPIA 

SESSiO EXTRAORDINÁRIA DO GRANDE CONSELHO PROVINCIAL 

Aos 26 dias do mez de agosto de 1824, 3.* da Inde- 
pendência e 1." da liberdade do Brazil e confederação das 



— 402 — 

províncias unidas do Equador nesta cidade da Fortaleza, 
capital do Ceará, na sala do governo onde se achavam o 
Exmo. sr. Presidente do governo da província, Tristão 
Gonçalves de Alencar Araripe, os vogaes do conselho, o 
Exmo. sr. Governador das armas, os srs. ouvidores das duas 
comarcas, o senador da camará desta cidade e das villas 
do Aquiraz e Mecejana, com os procuradores das demais 
camarás da província, presentes os Revs. parochos das 
fre^uezias e na sua falta os seus procuradores, os chefes dos 
corpos militares de 1.'' 2.* e Z.^ linha ou seus procuradores, 
os eleitores de parochia e no seu impedimento supplentes em 
maioria de votos, o clero, muitos officiaes militares, homens 
bons e povo, abaixo assignados, com a competente nota de 
seus postos e graduações e sendo ahi em voz alta e intel- 
ligivel, propoz o Exmo. sr. presidente : Que a vista dos per- 
júrios de d. Pedro, príncipe de Portugal (chamado Imperadoí: 
do Brazil) estava roto nosso pacto social, tantas vezes as- 
segurado por elle e outras tantas violado publicamente a face 
das nações, em afronta daquelles mesmos povos, dos quaes 
elle de motu próprio havia tomado o titulo de defensor per- 
petuo, não lhes tendo sido até agora se não um oppressor 
encarniçado, não respeitando os foros da liberdade do Brazil, 
quando despoticamente, e a força de armas, aboliu a assem- 
bléa geral constituinte da nação inteira, prendendo, degra- 
dando, ainda para reinos estrangeiros e despedindo com 
ignominia os seus representantes, arrogando a si o direito 
absoluto de legislar e constituir por si, como se viu do in- 
fame projecto de constituição, que não só deu, mas também 
mandou arbitrariamente jurar por todas as camarás das pro- 
víncias do Brazil, reputando-nos escravos ou propriedade sua, 
contra as suas promessas e juramentos. — Que além de to- 
dos estes motivos do mais descarado despotismo, accresciam 
mil traições visivelmente apparecidas nos seus decretos, al- 
varás, avisos, manifestos e proclamações com que pretendia 
sujei tar-nos novamente ao domínio portuguez, não cumprindo 
assim as condições essenciaes pelas quaes havia subido ao 
throno. Attentas, pois, tantas circumstancias de justo re- 
sentimeuto do povo, (concluiu o sr. presidente) que a pátria 



— 105 — 

estava em perigo e era necessário salval-a do captiveiro, 
apezar de todos os sacrifícios da parte de seus filhos, pelo 
que o conselho deliberasse, lançando mão dos meios os mais 
promptos e enérgicos e mais plausíveis da sua segurança ; e 
assim apresentou o sr. presidente um plano de nova forma 
de governo, para ser discutido livremente com immunidade 
de pessoa e de opiniões, de ser ou não approvado pelo con- 
gresso. E com eíFeito foram lidas doze artigos e a leitura 
de cada um delles resoavam de todas as salas cheias de gen- 
te apinhoada vivas acclamações de — apoiado — , e um 
prazer geral se divisou no semblante de todo o congresso, 
dando-se uns a outros os parabéns da sua mutua felicidade. 
Logo que foi approvado geralmente o plano offerecido, pro- 
poz o sr. presidente que o grande conselho elegesse pre- 
sidente e secretario para assistirem as suas sessões na 
discussão da matéria sem coacção dos votantes ; mas o 
congresso uniformemente elegeu o mesmo sr. presidente 
Tristão Gonçalves de Alencar Araripe para presidente e para 
secretario do grande conselho o padre Gonçalo Ignacio de 
Albuquerque Mororó. Desceu o sr. presidente desarmado, 
assim como tinha assistido ao acto, com o sr. governador das 
armas e grande parte da assembléa, para os quartéis da 
tropa de 1.* linha, onde igualmente se achou o senado da 
Camará desta cidade, com o novo estandarte da liberdade, já 
de antemão preparado, o depois voltando todos dirigiram-se 
com o sr. presidente no centro da tropa, trazendo arvorado 
um estandarte igual ao da Camará, para a igreja, a render 
acções de graça ao Soberano Auctor da nossa felicidade e 
ahi benzeram-se as bandeiras e o sr. presidente digo e o sr. 
governador das armas foi pessoalmente entregar uma ao corpo 
de tropa reunida. No fim de um elegante discurso oratório 
e patriótico, recitado pelo Rev. vigário da villa de Arronches, 
cantou-se um solemne Te Deum — ficando adiado para hoje 
o juramento dos Santos Evangelhos voluntária e solem uemente, 
digo Evangelhos, cujo teor é o seguinte : «Eu F. juro aos 
Santos Evangelhos voluntária e solemnemente defender e 
guardar a religião catholica e apostólica romana. Juro dar a 
iiltima gotta de sangue para manter e ser fiel a confederação 



- 104 - 

do Equador, que é a união das quatro províncias ao norte do 
eabo de Santo Agostinho e as demais que para o futuro se 
forem unindo, debaixo da forma de governo que estabelecer 
a assembléa constituinte. Juro fazer crua guerra ao despo- 
tismo imperial, que pretende usurpar os nossos direitos, es- 
cravizar-nos e obrigar-nos a fazer a união do Brazil com 
Portugal, a qual jamais admittiremos por nenhum titulo que 
seja. Juro emíim fazer guerra eterna a todo o despotismo, 
que se oppuzer á liberdade de nossa pátria e igualmente 
juro obediência ao governo Supremo Salvador. Assim Deus 
me ajude.» E reunidos, todos novamente na sala do governo, 
com effeito prestaram o juramento na forma acima dita e'm 
o livro dos Santos Evangelhos^ apresentado pelo sr. presi- 
dente, o qual o recebeu e prestou primeiro que todos das- 
mãos do primeiro conselheiro do governo, o Exmo. sr. Joa- 
quim de Paula Galvão. E de tudo para constar mandou o 
Exmo. sr. presidente lavrar a presente acta, autorizando^ 
para o fazer no impedimento do secretario do governo, o 
padre Gonçalo Ignacio de Albuquerque Mororó, na qual to- 
dos assignaram com a competente nota. — Palácio do go- 
verno, em grande conselho provincial, aos 27 dias do mez; 
de agosto de 1824, 3.** da Independência e primeiro da li- 
berdade e confederação do Equador. Eu, Francisco de Paula 
Andrade, segundo official da secretaria do governo, a escrevi. 
Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, presidente ; o coad- 
juctor Joaquim de Paula Galvão, conselheiro ; o coronel José 
Félix de Azevedo Sá, conselheiro ; o vigário António José 
Moreira, conselheiro ; o coronel José Ignacio Gomes Parente^ 
conselheiro ; o governador das armas José Pereira Filgueiras ; 
Francisco Miguel Pereira Ibiapina, escrivão deputado ; Mi- 
guel António da Rocha Lima, ouvidor interino da Comarca 
do Ceará ; Gonçalo Ignacio de Albuquerque Mororó, secretario 
do governo ; Bernardino Lopes áe Sena, ouvidor do Crato ; 
José da Costa Barros Jaguaribe, vigario' de Monte-Mor Ve- 
lho; Padre José Martiniano de Alencar,, procurador da villa 
do Crato ; Fre^i Alexandre da Purificação, por si e como pro- 
curador do parocho da villa da Granja ; dr. Vicente Domin- 
gos Saí)oriti, physico da província ; Francisco José de Salles 



Í05 



Jerobeba, director da typographia nacional ; caiiitão João 
Franklin de Lima, eleitor. (Contam 452 assignaturas afora 
as corporações e cidadãos representados por procurador.) 

Nota. — Não transcrevemos as outras assignaturas por 
ser muito longo o trabalho. 

Na reunião do Collegio Eleitoral para eleição dos de- 
putados que deviam compor o Supremo Conselho Salvador — 
foram eleitos — (28 de agosto de 1824) deputados : 

Padre José Martiniano de Alencar. . . . 355 votos 

Vigário Manoel Pacheco Pimentel. . . . 279 » 

Luiz Pedro de Mello e Cezar 236 » 

Padre José da Costa Barros Jaguaribe . . 220 » 

Ten. Col. Francisco Miguel Pereira Ibiapina 158 » 

Marianno Gomes da Silva 154 » 

Vigário António José Moreira 126 » 

Ten. Col. João da Costa Alecrim .... 108 » 

Estes foram os deputados que deviam vir a Pernambuco, 
formar o Supremo Governo Salvador. Os poderes concedidos 
aos deputados eram os seguintes : O collegio eleitoral da 
província do Ceará autoriza aos seus deputados das provin- 
das confederadas formarem em Pernambuco o Supremo Go- 
verno Salvador, gosando nelle de todos os poderes de legis- 
latura, decretando tudo quanto for a bem das provincias 
confederadas e até jurando e adoptando (se julgarem neces- 
sário) provisoriamente uma constituição, que sirva de base ao 
governo das provincias confederadas, debaixo tão somente da 
única clausula de sempre manterem a religião catholica ro- 
mana e o systema de governo democrático confederativo ?io- 
vamente adoptado». 



Este chefe, não podendo se conformar com as deserções 
dos batalhões commandados pelo chamado General das Armas, 
e por Bizarro, retirou-se para o Aracaty, onde contava por 
em marcha um numeroso exercito para dominar a Capital, 
e rehaver os fracos que a abandonaram. 



— i06 — 

Lord Cockrane, sabendo das deserções nos batalhões de 
Tristão Gonçalves, publicou um manifesto dando geral am- 
nistia aos que, sendo chefes insurgentes ou não, deixassem 
as armas e promettendo dinheiro aos Índios que abandonas- 
sem Tristão Gonçalves. Tristão Gonçalves, vendo o perigo 
por que passava, não esteve entretanto por esta intimação e 
preferiu ir lutar pela republica que o acclamára presidente, a 
ceder a uma intimação humilhante, como se afigurasse a este 
spartano de puro sangue. 

Uma vez que o presidente da nova republica fora orga- 
nizar forças para combater o governo que Cockrane instal- 
lava em nome do Imperador, o almirante publicou uma 
proclamação na qual punha a premio a cabeça do heroe 
Cearense ! 

Realmente a proclamação como o próprio Cockrane con- 
fessa a pag. 185 de suas narrativas : «Tenho o fim de dar 
uma recompensa sufíiciente para indemnizar os Índios que 
antes haviam sido sustentadores de Tristão Gonçalves Ara- 
ripe, a se voltarem contra este para o apprehenderem, resul- 
tando desta ordem vir a ser morto com todos os seus se- 
quazes . » 

A evolução das idéas e dos costumes que tudo ameniza 
e approxima na sua marcha incessante para a perfectibilidade 
humana, veiu fazer com que mais tarde os herdeiros dos 
nomes que se excluíam, se unissem (1) e que o chronista que 
escreve estas linhas, que também tem nas veias o sangue do 
heroe, não tenha escrúpulos em se referir ao nome Cockrane 
senão para reconhecer que este almirante foi uma victima 
da sorte que o atirou do velho mundo ao Brazil, onde elle 
perdeu a única epportunidade que tivera de ser verdadeira- 
mente um heroe, e não um mero agente ganhador ao serviço 
do Imperador, que como elle confessa na exposição que vem 
no seu livro, «era o primeiro a querer desmoralizal-o, dando 
busca no seu navio, e botando-o como ganhador ordinário.» 



(1) José de Alencar, o grande escriptor brazileiro, filho do senador Alencar 
que era irmSo de Tristão Gonçalves Araripe, casou-se com d. Georgiana Co- 
ckrane, neta do almirante Cockrane. 



— 107 — 

Convém aqui para esclarecimento da historia, pois que 
não temos visto em documento algum o facto seguinte que 
fomos conhecer somente agora em. nossa segunda viagem a 
Europa, e é o seguinte : 

Lord Cockrane, quando os inglezes combatiam contra 
Napoleão, foi o almirante em chefe da armada. 

Aconteceu que elle levava a bordo um agente de negó- 
cios, e na Inglaterra como na França houve uma verdadeira 
febre de fazer fortuna no jogo da bolsa, de modo que, não 
se sabe como poude se metter a bordo de um navio de guerra, 
um agente de negócios. 

Como os titulos da Inglaterra e da França constituiam 
a base das fortunas dos que jogavam na baixa, o agente fez 
chegar a noticia da victoria contra Napoleão alguns dias 
antes delia realmente se ter alcançado. 

Os jogadores que compravam os titulos inglezes naquelle 
tempo, chegados ao baixo preço de 15 francos, titulos do 
valor nominal de cem francos, licaram milionários. 

Quando se soube do modo empregado para este escan- 
daloso fim, o governo inglez não só fez com que lord Co- 
ckrane fosse desterrado, como que perdesse o lugar de 
Lord. 

Esta lei de excepção posta em pratica, foi mais tarde 
revogada quando por proposta de um lord inglez se fez jus- 
tiça, depois da morte do almirante inglez. 

. Rehabilitada a sua memoria e empossado o filho na he- 
rança a que têm direito os filhos mais velhos dos lords in- 
glezes, parece que não era isso um motivo para que o lord 
que depois foi Marquez do Maranhão, não contasse elle mesmo 
as razões pelas quaes veiu para o Chile e para o Brazil. 
Para reclamar dinheiro, publicou tão longa narrativa, mas 
para se rehabilitar, nada disse. 

Apreciando as cousas que originaram as idéas republi- 
canas no Brazil não era possivel esquecer o nome daquelle 
que mais mal fizera a ellas, e que podia ter tomado a si a 
causa da Republica do Equador, vindo assim a fundar no 



- 108 - 

Brazil uma gloriosa conquista de paz e liberdade que im- 
mortalizaria o seu nome, em vez de se ter feito um instru- 
mento do Imperador e um reclamante de dinheiro, factos 
estes que tiraram de sua pessoa, não só a tradição dos seus 
feitos, como a idéa que o animava. 

Para se vêr o esforço patriótico empregado por Tristão 
Gonçalves, é preciso conhecer o terreno pisado por elle na 
luta titânica que teve. 

Este intrépido republicano foi um verdadeiro spartano, 
fez com poucas tropas em caminhos longinquos, marchas 
admiráveis, carregando peças de artilheria, as primeiras que 
transitaram nas estradas do Ceará, Piauhy e Parahyba. 

Tendo mandado para Pernambuco Luiz Rodrigues Chaves 
afim de auxiliar as forças rebeldes, este seu emissário á 
frente dos Índios foi peitado por Cockrane, e Tristão Gon- 
çalves apenas soube disso partiu com pouca gente, levando 
duas peças de artilheria, para ir se juntar a outras forças 
no Aracaty. 

Chegando lá teve que se enfrentar com o seu infie 
agente trahidor^ feito chefe dos imperialistas ! Chegando do 
lado esquerdo do Rio Jaguaribe, que tem sua foz na Cidade 
do Aracaty, Tristão Gonçalves fez fogo sobre a cidade que 
se tinha rendido aos inimigos, e como o rio é muito largo, e 
Chaves havia mandado retirar todas as embarcações, não foi 
possível ao heroe cearense chegar immediatamente á cidade, 
onde os ecos das balas da artilharia não produziram menor 
emoção nas consciências dos patriotas aracatyenses, que sen- 
tiram-se animados, vendo de novo perto de si o chefe querido. 
Chaves fugiu vergonhosamente e Tristão Gonçalves, fazendo 
passar a nado muita gente comsigo, toma a cidade de Ara- 
caty ! Este feito só, merece uma epopeia. 

Tristão fez da Casa de Pamplona que era a mais im- 
portante, o seu quartel-general, aprizionou um navio que 
estava consignado a esta casa, e mandando uma escolta com- 
mandada pelo capitão Tamanduá, a bordo do Lexfort (tal 
era o nome do navio inglez), este commandante forçou e 
abriu as escotilhas, tomou o dinheiro e os valores ahi depo- 



— Ui9 - 

sitados, nào obstante o protesto do capitão do navio e veiu 
entregar a Tristão oito contos de réis que achara. 

TristãO) exultando de contentamento, porque estava ex- 
hausto de recursos para manter as tropas, declarou ao seu 
exercito : «Com este dinheiro me queriam guerrear, com elle 
farei a sua guerra». 

No dia 20 de outubro seguiu o presidente da Republica 
do Equador para o centro, porque passara pelo desgosto de 
saber da restauração de Pernambuco, e da chegada de Co- 
ckrane ao Ceará intervindo do modo por que já expressámos, 
para o matar. 

O desanimo produzido nas fileiras do seu exercito foi 
indescriptivel.' O medo de uns, o desanimo de outros fizeram 
com que seus amigos augmentassem até o numero dos na- 
vios de Cockrane : dizia-se que se tinham avistado immensa 
frota do almirante em direcção ao Aracaty. 

As noticias más são sempre de contagio perigoso e sabe- 
se quanto a imaginação nas occasiões de perigo seive como 
se fosse um vidro de augmento. Só Tristão não se acovar- 
dava, reagia animando os soldados, dando ordens e reunindo 
o conselho dos officiaes. Cada qual se mostrava mais firme, 
mas no dia seguinte, os que mais dedicação apregoavam, 
eram os que tinham covardemente desertado ! 

Combinada a retirada para o Cariry, onde o chefe Fil- 
gueiras defendia a republica na zona limitrophe do Piauhy 
e a Parahyba do Norte, Tristão poz-se em marcha, mas os 
acontecimentos que se passaram em Recife e na capital do 
Ceará então em poder das forças imperialistas, apertavam 
cada dia o circulo das operações. Sendo perseguido por tropas 
que arrebanhavam os transfugas elle teve que lutar corpo a 
corpo e morrer como um bravo no dia 31 de outubro de 
1824, em Santa Rosa, lugarejo de sua terra natal. (1) Foi 



(i) Ha uma coincidência que reputamos notável, é aquella que fez com que 
Tristão Gonçalves na sua proclamação allegasse que ia fazer a Republica do 
Equador por causa de ter sido dissolvida a Constituinte. Seu filho, o illustre 
conselheiro Araripe, foi que assignou o decreto de Deodoro, dissolvendo a outra 
Constituinte. 



— 410 — 

ao alvorecer deste dia que sendo alcançado pelas tropas de 
lord Cockrane, foi morto, sendo feito prisioneiros os seus 
poucos fieis companheiros. 

O coronel Bezerra, outro bravo republicano que defen- 
dia a zona que estava comprebendida entre Baturité e So- 
bral, foi preso no lugar chamado — Itães. 

O dr. Teberge, em uma nota que enviou ao Instituto 
Histórico do Brazil, diz que Tristão foi abandonado do pró- 
prio irmão o padre Alencar, e faz justiça ao caracter deste 
martyr das idéas republicanas nestes termos : «Tristão teve 
á sua disposição os meios de fugir. Preferiu ficar com os 
seus camaradas. Foi um bello caracter, um homem de con- 
vicções, e sem duvida o que fez o mais interessante papel 
nesta malfadada republica. Estou que se elle não morresse, 
tinha que representar papel importante, porque tinha von- 
tade forte, audácia, valor e firme convicção. O bravo Fil- 
^eiras teve a mesma sorte do seu leal chefe. 

O velho padre Alencar foi mais feliz, pôde sobreviver 
a estas lutas e vir a ser senador, logar onde prestou bons 
serviços ao paiz. 

Agora copiamos algumas das observações do diário a que 
nos referimos : 

29 de maio de 1823 

«Lê-se cartas do tenente-coronel José Bezerra de Me- 
nezes, participando que vinham tropas do Piauhy, marchando 
sobre Cratins, e que era urgente soccorro, porque as tropas 
que tinham vindo do Gunhamuus haviam sido derrotadas.» 

28 de outubro de 1823 



Declarou-se que fora estabelecido um governo republi- 
cano no Icó promovido pelo sargento-mór Joaquim Fernando 
de Moura.» 



— 141 - ' 

18 de janeiro de 1824 

«E' neste dia que se recebe noticia da dissolução da 
Constituinte, sendo Tristão Gonçalves quem mandou a no- 
ticia.» 

«Felicitou-se a Tristão por sua chegada a Icó.» 

«Recebeu-se participação da Camará de Quixeramobim^ 
analysando a conducta de Pedro I, e nesta participação se 
declara o imperador e sua raça decahidas pela sua trahição, 
e declarando que Filgueiras deve tomar o commando das 
tropas. 

Torna-se urgente organizar um governo republicano es- 
tável e liberal, que defenda os seus direitos com exclusão de 
qualquer familia. 

Participa-se que a Camará nomeou um governo inte- 
rino, tendo para chefe o capitão-mór José dos Santos Lima.» 

19 de agosto de 1824 
«Passou armamento para o Cariry.» 

12 de setembro de 1824 

«Prepara-se a casa para receber o chefe republicano 
Tristão Gonçalves.» 

23 setembro 

«Filgueiras achava-se no Icó. E' marcado o dia l."* de 
outubro para ser proclamada a Republica do Equador». 

1. de outubro de 1824 

«Foi lida, approvada, lançada e jurada na Camará, com 
assistência do povo, a acta da sessão do grande conselho da 
Fortaleza.» 

Idem 

«Foi lida 'na Camará a portaria do presidente da repu- 
blica, decretando um empréstimo forçado para suprimento da 



— n2 — 

expedição de Pernambuco. Tocou ao Icó a parcella de 20 
contos que o Ouvidor foi encarregado de cobrar, dando aos 
contribuintes as cautellas precisas para que taes quantias 
fossem pagas com juros, quando houvesse dinheiro nos cofres.^ 

8 novembro 1824 

«Recebe-se participação da morte de Tristão Gonçalves, 
acontecida na manhã de 31 de outubro em Santa Rosa.» (1) 



(i) Sendo descendente próximo deste grande patriota, talvez nossas consi- 
derações possam ser tomadas como filhas da doce satisfação de ter a familia tão 
illustre chefe republicano. Por esta razão nos limitamos a fazer as noss2S refe. 
rencias acompanhadas todas de documentos. 

Lastimamos que outros não tenham escripto a biographia deste vulto que 
apparece com mais direito do que tantos outros á consagração da immortalidade. 
Quizeram que o illustrado cons. Araripe fosse o autor da biographia do seu illus- 
tre progenitor, e como chronista, tenho nobre satisfação em fazer estas ligeiras 
referencias, por que minha Santa Mãe nasceu no theatro desta revolução, 
achando-se minha avó foragida no Crato, nascendo minha mãe em uma casinha 
sobre um girau tosco. 



PARTE VIII 
Republica tle Pli-atiniiii 

Ao mesmo tempo que se espalhava no norte do Brazil 
O pensamento de autonomia e Republica, o Rio Grande do 
Sul, influenciado pela vizinhança das republicas do Prata, 
tomava uma realidade a idéa, proclamando a Republica de 
Piratinim. 

O esforço e a prolongada luta dos heróes rio-granden- 
ses, sustentados durante um decennio, constituem a pagina 
gloriosa da dedicação e das convicções populares. 

Iniciada em 1835 em Porto Alegre, teve a revolução 
rápida generalização em toda a província, tomando ao prin- 
cipio a forma de uma sedição que bafejada pelo povo e 
abraçada pelos homens ricos, poude dominar o território flo- 
rescente do Rio Grande do Sul, sendo proclamada em 1836 
a Republica. 

Em 1842 foi eleita a primeira assembléa da Republica. 
O desacordo entre os deputados constituintes, reunidos quando 
ainda dominava a luta e o Império não cessava de enviar 
fortes contingentes para debellar os seus inimigos, não per- 
mittiu que os actos desta assembléa fossem reduzidos a leis, 
impressas e sanccionadas. 

Querendo apressar a organização de um corpo social 
ainda embrionário, e medindo o valor dos homens ])elo es- 
forço titânico de tantas glorias adquiridas contra a Monar- 
chia, os patriotas rio grandenses, attestaram valor, mas não 
conhecimento das leis sociológicas que guiam os corpos 
constituídos. 

Logo que explodiu a revolução, o presidente da provín- 
cia o dr. Fernandes Braga, fugiu, deixando abandonado o 
governo que cahiu logo em poder dos revoltosos que duran- 
te quasi dez anniDs dispuzeram da maior parte do território 



144 



do Rio Grande do Sul, até que se findou a guerra no 
acampamento da Carolina, em Ponche Verde, a 28 de 
fevereiro de 1845 rendendo-se as forças rebeldes ao gene- 
ral Barão de Caxias. O distincto escriptor dr. Tristão de 
Alencar Araripè em seu trabalho sobre a guerra civil do 
Rio Grande do Sul, não liga a este movimento o caracter 
que os rio grandeses e os republicanos sempre lhe deram, 
isso é, de uma das mais enérgicas tentativas para a impla- 
tação da Republica no Brazil. 

Mas quando se pensa na desproporção das forças orga- 
nizadas por cidadãos patriotas contra um governo que tinha 
a seu lado todas as outras províncias do Brazil, não se pode 
deixar de reconhecer que tratou-se d'um plano organizado, 
para com o sacrifício da própria vida cada um de seus guias 
levar de vencida até alcançar a forma republicana. Que 
mais digna pode ser a attitude destes bravos ! 

O nome que os monarchistas deram á Republica de 
Piratinim foi « revolução dos farrapos, » mas hoje que nós 
vivemos no feliz regimen da Republica, e que os militares 
apressando o advento das idéas republicanas deram também 
o seu predomínio nos primeiros annos da organização repu- 
blicana do Brazil, o procedimento dos rio grandenses está 
justificado, e o nome não pode mais ser tido como uma 
satyra, mas sim eomo uma , roupagem que traduz bem o 
martyrio e a dedicação dos patriotas. 

O governo revolucionário tratou de nomear ministros, 
e estes praticavam todos os seus actos dictatoriaes, cercados 
do rigor, que o periodo revolucionário exigia. 

E' certo que sem processo algum, Onofre Pinto foi 
morto por Bento Gonçalves, José Pedroso, ministro do go- 
verno revoltoso, em novembro de 1842, mandou matar sem 
julgamento vários inimigos. 

E, certo que se fez o confisco dos bens destes inimigos, 
por simples actos emanados do ministro em seus decretos. 

Entretanto, na revolta que acaba de ser dominada pelo 
marechal Floriano Peixoto, com o apoio do exercito e do 
povo dos Estados do Rio, S. Paulo e Minas, quem é que 
ignora que o Barão da Serro Azul e o Barão de Batovi 



— 445 -- 

tiveram a mesma sorte, e que quando se apurou a legalida- 
de dos actos do governo o Congresso os achou dignos da 
situação que atravessava o paiz ! 

O digno doutor Alencar Araripe, conhecendo bem que 
a republica era o ideal destes revoltosos, não poude deixar 
de lhes fazer a justiça, dizendo á pag. 121 da Revista do 
Instituto Hstorico de 1880 : 

« As idéas republicanas estavam disseminadas na pro- 
víncia e a propaganda delia era acoroçoada pelos homens 
políticos das republica vizinhas, que sonhavam com o le- 
vantamento da provincia e sua união a ella. » 

A propaganda dos patriotas de 1835 produziu um par- 
tido que se intitulava federalista, tendo por bandeira a 
proclamação da Republica no Brazil, sob a forma federativa. 
Cada provincia formaria um Estado independente, e todos 
unidos pelo vinculo da federação constituiriam um só corpo 
social. 

No intuito de propagar e fortalecer as ideias federati- 
vas no Rio Graude do Sul, esse partido organizou socieda- 
des secretas sob o nome e apparencia de maçonaria, e ahi, 
com applausos, se discutiam as reformas projectadas e in- 
vectivavam-se, como verdadeiras oífensas e reaes attentados 
contra o direito da provincia, os actos do governo geral, 
embora justos e razoáveis. » 

Ora é evidente que se este era o pensar dominante, o 
coronel Bento Gonçalves, que era um chefe tão popular, 
como foi mais tarde o legendário Ozorio, estava no seu 
direito de fazer a republica tal como a queriam os patrio- 
tas, e por isso não admira que em breve todos os municípios 
principiassem a adherir ao chefe querido, com excepção das 
villas do Rio Grande, S. José do Norte e Pelotas. 

Procedeu-se a eleição, sendo eleitos presidente da Re- 
publica de Piratinim o coronel Bento Gonçalves da Silva e 
vice-presidentes Paulo António da Fontoura, o coronel José 
Mariano de Matos, coronel Domingos José de Almeida e 
Ignacio José de Oliveira Gomes. 

Tendo Bento Gonçalves sido derrotado e preso na ba- 
talha de Fanfa, procedeu-se a nova eleição, sendo eleito e 



— .M6 - 

empossado o novo presidente, cidadão João Gomes, que 
organizou a Republica, creando para ella as mesmas leis do 
Império, as quaes deviam reger o seu governo. 

Entre os mais importantes figurava o decreto de 6 de 
novembro de 1836, estabelecendo o ministério. 

Para o interior foi nomeado o cidadão Domingos José 
de Almeida. 

Para a Justiça José Pinheiro de Ulhoa Cintra. 
. Para a guerra — o coronel José Mariano de Matos. 

António Netto, David Canabarro e João António foram 
nomeados Generaes da Republica. 

A nova Republica decretou leis libérrimas e a naciona- 
lização dos estrangeiros. 

Na própria sede do Governo imperial do Brazil havia 
repuíblicanos. O exercito os tinha entre os mais sinceros. 

Era no exercito que estavam os mais hábeis generaes, 
e tanto entre os mortos como entre os que ainda vivem, 
J10& seus corações sempre pulsou a liberdade da pátria. 
. : Presos Bento Gonçalves na fortaleza da Bahia e Onofre 
Pires na fortaleza de Santa Cruz no Rio, ambos consegui- 
ram fugir e foram para o Rio Grande do Sul fazer nova 
proclamação republicana. Bento Gonçalves fugiu da prisão 
em 1." de setembro de 1837, e Onofre Pires fizera o mesmo 
em 1." de março de 1837, levando em sua companhia 
Affonso Corte Real. O facto da fuga prova quantos auxi- 
liares tinham no próprio exercito. 

Em 29 de dezembro da Villa do Triumpho Bento Gonçal- 
ves faz nova proclamação e nomeia seus generaes António 
Netto, David Canabarro, João António, Domingos Crescen- 
cio, Onofre Pires e Bento Manoel. Para honra das idéas 
republicanas é preciso reconhecer que foi no Rio Grande 
do Sul que se fundou a primeira imprensa republicana, 
orgam da Republica de Piratinim. Chamava-se Povo o 
novo orgam democrático e appareceu em 1.° de setembro 
de 1838. 

Este jornal foi perseguido depois, mas appareceu ainda 
com 08 nomes de Americano em 1842 em Porto Alegre, e 
em 1843 com o nome de Estrella do Sul. 



- if7 -~ 

Os nomes não precisam de commentarios para indicar 
o fim patriótico dos propulsores da liberdade em o Sul do 
Brazil. 

Uma das maiores vergonhas do Império foi sempre 
apoiar-se na escravidão dos infelizes negros. A republica^, 
porem, queria liberdade. 

Vendo que os escravos faziam e apoiavam os revoltosos 
decretou o Governo Imperial que os escravos que fossem 
apanhados com as armas nas mãos, soffressem o castig-o de 
800 a 1000 açoutes, para depois serem entregues aos seus 
senhores ! ! ! ( 1) 

Para se comparar o caracter dos homens dos dois lados 
á& disputa, o governo legal da monarchia decretando esta 
vergonhosa e infame medida, e os republicanos resistindo 
a ella, publicamos a resposta a este decreto assignado pelo 
presidente da republica de Piratinim : 

« — Em virtude do decreto que inflinge castigo aos es- 
cravos que defendem sua liberdade e a da republica, ordeno 
que sejam punidos passando pelas armas tantos officiaes le- 
galistas, quantos forem os soldados da Republica outr'ora 
escravos surrados pelas forças imperiaes.» (Vid. Hist. do Rio 
Grande do Sul, por Araripe). 

Só este acto merece uma epopeia que ainda esperamos, 
ver escripta, antes de nossa morte ! 

Considere-se que heróes eram estes que assim obrigaram 
a uma nação inteira, a conhecer o que é a liberdade, quan- 
do ella tinha por si homens como Bento Gonçalves, Bento 
Monoel e Garibaldi, que por si só foi a alma da marinha 
da nova Republica, e como únicos navios elle tinha lanchões i 

Dir-se-ia que para se ver implantar no Brazil a Repu- 
blica, qual novo Guilherme Tell o legendário heróe dos 
Suissos, Garibaldi, também sahindo d'uma lancha, foi para 
a terra dominar a tyrannia dos que queriam esmagar os ho- 
mens livres. 



(i) Confessamos o pe?ar que nos invade a alma por ter só agora descoberto 
esta vergonha de modo que no tempo de nossa propaganda á favor da abolição 
nâo podessemos usar deste argumento, que felizmente aproveitamos ainda para 
apostrophar os que tão miseralvelmente opprimiam os escravos. ' 



^ 418 — 

Entretanto este homem que a Itália venera teve de ser 
um dos operários das idéas republicanas no Brazil e se. 
estivesse mais moço e não houvesse sido surprehendido pela 
morte, não se teria limitado a fazer a união da Itália, elle 
a deixaria unida e republicana como ella ainda terá de vir 
a ser, mas só quando o Papa identificado com o povo ita- 
liano puder ser o chefe dos republicanos e também o pre- 
sidente da Republica Italiana. Este bello ideal está mais 
perto de nós do que se pensa. 

As grandes reformas sociaes têm por executores muitas 
vezes aquelles que eram antes os representantes do partido 
contrario a ellas. 

Este facto está evidente em toda a historia, desde o 
tempo da grandeza dos Romanos. 

Imitando o exemplo glorioso de Garibaldi, que auxilia- 
do por João Gabarrone depois de haver recebido do com- 
mandante em chefe João Manoel de Lima carta de corso em 
14 de novembro de 1836, havia tomado uma embarcação 
brazileira, que ficou fazendo parte desta esquadra singular e 
heróica, o valente general David Canabarro a frente de 150 
soldados espartanos marchou para Laguna, afim de conquis- 
tar este porto para a Republica de Piratinim que, dominan- 
do as lagoas dos Patos, a Lagôa-mirim, o rio São Gonçalo, 
os rios Cohy, Taquary e Jacuhy, tinha um verdadeiro mar 
interior, com 150 léguas navegáveis mas sem meios de fa- 
zer com qne os navios podessera livremente ahi entrar. Era 
o porto do salvamento da Republica. 

Ao chegarem em Laguna, os heróes republicanos não 
tardaram em proclamar a Republica também na província 
de Santa Catharina ; o commandante Vicente Villas-Boas, 
fugiu espavorido e o combate foi uma victoria para os re- 
publicanos que fizeram 77 prisioneiros, muitas mortes, e to- 
maram 4 escunas de guerra, 14 embarcações mercantes, 463 
armas de infanteria, 16 boccas de fogo, 36.620 cartuchos 
emballados e muitas munições de guerra. 

Proclamada a Republica neste rico território do Brazil, 
só comparável ao sul da Europa no clima e producçÔes, 
David Canabarro, reunido o conselho da Gamara, officiou ás 



— Íd9 — 

outras municipalidades. Foi depois acclamado presidente da 
Republica o cidadão Vicente Ferreira dos Santos Cardoso. 
Organizou-se ministério composto de Joào António de 
Oliveira Tavares e António Claudino de Souza Medeiros. 

José Garibaldi foi nomeado commandante da armada, 
augmentada com os navios tomados por sua bravura. 

Só a idéa republicana poderia ter força para armar e 
dar victorias tào assignaladas com tão minguados recursos. 
Para se avaliar o heroísmo dos combatentes da armada 
republicana ao mando de Garibaldi, é preciso não esquecer 
que o Governo imperial mandou 18 navios de guerra, e o 
general Andréa, que foi nomeado presidente de Santa Ca-, 
tharina, tinha um exercito ás suas ordens de mais de 9.000 
homens. 

Pois bem : os navios da Republica quasi venceram no 
ataque, e deixaram mais de 200 mortos entre os marinhei- 
ros da armada do império, perdendo elles 180 homens. 

Em combates destes, só a convicção e a dedicação heróica 
á Republica poderiam ter levado a luta a um tal extremo. 
Foi preciso que Bento Manoel trahisse a Republica para 
que o Governo do Império pudesse vencer os heróes. 

A maioridade, apressada para satisfazer os desejos de 
paz no Rio Grande, fez com que o governo nomeasse Alva- 
res Machado para presidente, e as longas lutas, a escassez 
de recursos, a defecção de Bento Manoel, puzeram fim a 
uma das paginas mais gloriosas da Republica Brazileira nos 
dias perigosos de seu inicio na America do Sul. 

O governo imperial recorreu ao Barão de Caxias que 
foi nomeado presidente e commandante das armas. 

O combate de Ponche Verde veiu dar os últimos gol- 
pes aos heróes que se bateram como leões por espaço de dez 
annos. 

Não se pôde imaginar a luta desigual da Republica de 
Piratinim com o Império, sem se admirar o vulto do seu 
presidente Bento Gonçalves (1). 



(i) Como é que até hoje o Estado do Rio-Grande deixou de pagar a divida 
que tem para com este grande cidadão ? e nem ao menos se votou uma verba 
para uma estatua, á tão valente general. J 



— r20 -^ 

A assembléa republicana eleita em outubro de 1840, só. 
pôde se reunir em dezembro de 1842. Abi 22 deputados, 
attestaram com sua presença a fé republicana, Bento Gon- 
çalves leu o seu relatório expondo as causas da demora da 
reunião da assembléa que havia eleito para seu presidente a 
padre Ildebrando de Freitas Pedroso. 

Foi nomeada uma commissão para agradecer os relê 
vantes serviços feitos a Republica do Brazil pelo seu pre- 
sidente. 

A Constituição da Republica Rio-Grandense não foi tãa 
sympathica ao Brazil como o martyrio de Tiradentes, por- 
que este morreu pela Republica do Brazil unido, grande e 
generoso como o fez a natureza; ao passo que os republi- 
canos rio-grandenses queriam a separação do território cons- 
tituindo-© em uma Republica aparte. O heroismo, porém, de 
tantos republicanos tem sido mal comprehendido, e os chefes, 
políticos que têm dominado depois da proclamação da Re- 
publica de Piratinim só têm querido fazer politica, fazendo 
exigências para aquella terra generosa, de modo a collocar 
sempre o direito da força contra a força do direito, e d'ahi 
vem que elles ficam fortes, mas o Estado fraco. ^ 



Cremos que será lida com interesse a carta que em se- 
guida transcrevemos, dirigida pelo glorioso general Garibaldi 
a Domingos José de Almeida, ministro da malograda Repu- 
blica de Piratinim, pai do actual deputado dr. Piratinino de 
Almeida. 

Eil-a : 

«J. Garibaldi a Domingos José de Almeida — Modena^ 
10 de setembro de 1859. 

Meu estimadíssimo amigo — Quando eu penso no Ria 
Grande, nessa bella e cara província; quando penso no aco- 
lhimento, com que fui recebido no grémio de suas famílias,, 
onde fui considerado filho; quando me lembro das minhas 
primeiras campanhas entre os vossos valorosos concidadãos,, 
e dos sublimes exemplos de amor pátrio e de abnegação que 
delles recebi, eu fico verdadeiramente commovido! 



- >I2l — 

E. . . esse passado de minha vida se imprime em minha 
memoria como alguma cousa de sobrenatural, de magico, de 
verdadeiramente romântico j 

Eu vi corpos de tropas mais numerosos, batalhas mai^ 
disputadas ; mas nunca vi em nenhuma parte homens mais 
valentes, nem cavalleiros mais brilhantes que os da bella 
cavallaria rio-grandense, em cujas filas principiei a desprezar 
o perigo e a combater dignamente pela causa sagrada das 
nações ! 

Quantas vezes eu fui tentado a patentear ao mundo os 
feitos assombrosos, que vi effectuar essa viril e destemida 
gente, que sustentou por mais de nove annos contra um po- 
deroso império a mais encarniçada e gloriosa luta ! 

Não tenho escripto semelhante prodígio pela carência de 
habilitações, porém a meus companheiros de armas por mais 
de uma vez tenho commemorado tanta bravura nos combates 
quanta generosidade na victoria, tanta hospitalidade quanto 
affago aos estrangeiros, e a emoção que a minha alma, então 
ainda joven, sentia na presença e na majestade de vossas 
florestas, da formosura de vossas campinas, dos viris e cava- 
lheirescos exercícios de vossa juventude corajosa ; e, repas- 
sando pela memoria as vissitudes de minha vida entre vós, 
em seis annos de activíssima guerra e da pratica constante 
de acções magnânimas, como em delirio, brado : — Onde es- 
tarão agora essss bellicosos filhos do continente, tão majes- 
tosamente terríveis nas batalhas V Onde Bento Gonçalves, 
Netto, Canabarro, Teixeira, e tantos valorosos que não 
lembro? ! 

Oh ! quantas vezes tenho desejado nestes campos ita- 
lianos um só esquadrão de vossos centauros avezados a car- 
regar uma massa de infantaria com o mesmo desembaraço 
como se fora uma ponta de gado ! Onde se acham elles ? 
Que o Rio-Grande atteste com uma modesta lapide o sitio 
em que descançam os seus ossos ! e que as vossas bellissimas 
moças cubram de flores esses santuários de vossas glorias, é 
o que ardentemente desejo — José Garibaldi.* 



— d2r» - 

que o chamado partido portuguez tomou conta de d. Pedro I 
ao ponto de alcançar deste o desterro dos Andradas. 

Estes patriotas brazileiros tiveram uma falta grave, que 
foi a de não fazer deste paiz em 1822 uma Republica sem 

escravos. 

Pelos documentos que vem na biographia de J. Canning 
vê-se que a elles se deve o não ser feita a abolição da es- 
cravidão. 

Dominado o elemento perturbador da nossa independência, 
acabado o fermento que produzia o elemento portuguez na 
esperança de fazer o Brazil voltar ao seu dominio teve o 
imperador Pedro I que se vêr com os que queriam governar 
com o povo e para o povo. 

O 7 de Abril fez lhe ver quanto se tinha enganado em 
pensar que com a estima do povo, se tem direito a não lhe 
dar satisfação pela liberdade que lhe falta, ou que lhe foi 
supprimida. 

Seu filho d. Pedro II teve igual illusão, ainda que tarde 
e quando iniciou o seu governo, sentiu bem que a idéa re- 
publicana devia cedo ou tarde tomar conta do Brazil, (1). 

Terminadas as lutas, a ambição do mando engrandecida 
pela intriga local e a corrupção do império, fêz com que o 
chefe Bento Gonçalves fosse provocado por Onofre Pires, 
tendo ambos sido sempre amigos e desafiando aquelle a este, 
que era forte e muito possante, ao passo que era fraco e de 
pequeno porte o legendário Bento Gonçalves, aconteceu que 
om duello singular sem testemunhas, fosse morto Onofre Pi- 
res, o presidente querido que havia sabido fazer de um pu- 
nhado de bravos um batalhão de heroes, ainda mais ganhou 
no conceito dos que admiram a bravura dos chefes immortaes. 



(1) Isso mesmo elle nos declarou, quando tivemos a honra de lhe falar 
sobre a necessidade de se acabar com os ^escravos, porqae o partido repu- 
blicano estava forte em São Paulo, e era melhor que um governo desse esta 
grande 1 ção de amor á liberdade. EUe nos interrompeu, dizendo com bon- 
dade paternal: Sr. Jaguarybe, creia que se eu não fosse imperador, seria 
republicano, e se eu e minha família soubéssemos que éramos um embaraço 
a esta forma de governo, eu e elia nos retiraríamos- Esta declaração nós a 
fizemos, quando escrevemos em defesa da Republica na Europa em 1890 e 
também em nosso livro escripto para o jnesmi ílm em 18Q4 em Bruxellas : 
L' inflvence de la liberte et de Vesclavacge. 



PARTE IX 

O Rio-Grande do Sul com este movimento salutar de 
patriotismo deixou tão fundas raizes no coração do povo 
guerreiro, que nos excessos de uma liberdade sem limites, 
aquelle Estado tem sido presa de caudilhos que exploram, 
ainda hoje, a natureza de um povo digno, mas que não tem 
tido verdadeiros chefes com orientação da ideia republicana 
federativa. Os chefes se engrandecem a custa da sua terra 
que elles tornam pequena e infeliz. 

Canabarro foi, porém, um bom cidadão, intimamente li- 
gado ao popular Garibaldi emquanto morou no Rio-Grande, 
e bebeu com este o chimarrão do Rio-Grande que elles apre- 
goam com satisfação como uma bebida que faz amigos da 
liberdade os que delia usam. 

Com as virtudes guerreiras de Garibaldi e Canabarro, 
poude-se alcançar victorias contra o governo legal, e ter-se 
ia estabelecido definitivamente a Republica de Piratinim, se 
houvesse mais cohesão no modo de se fazer a propaganda no 
Brazil, visto que o veneno do mal injectado pelo Duque de 
Palmella ficou em todo o Brazil. 

Sabe-se do esforço feito por este diplomata para fazer 
com que cada província se emancipasse da tutella de Pedro I 
porque assim, enfraquecidas, o velho reino podia vir a go- 
vernal-as, contando com o sangue dos portuguezes que fi- 
cassem morando nellas e que, desde o Pará até o Rio- 
Grande, estavam donos do commercio. 

Só mais tarde por causa do tratado feito com a Albion, 
os inglezes poderam se appossar do oommercio do Brazil até 
1826, e rapidamente deslocar os portuguezes, e isso explica o 
ódio que estes tinham ao Marquez do Maranhão Lord Co- 
ckrane, que tantos serviços prestou a independência, destru- 
indo as artimanhas do elemento portuguez, mesmo depois 



_ 1^5 — 

Preso o presidente, o governo da republica o fez soltar 
allegando que a morte fora feita era defesa da honra. 

Entre o Barão de Caxias e os republicanos foi estipulada 
a paz que se firmou com as seguintes clausulas : 

1." Amnistia geral e plena para todos os que se envol- 
veram nas lutas. 

2.'* Isenção do serviço militar e da Guarda Nacional 
para todos os que serviram a rebellião. 

3." Garantias das honras dos postos para cada um que 
os adquirira. 

4.** Pertencerem os escravos que serviram na guerra ao 
Estado que os indemnizaria aos seus senhores. ». 

E' preciso dizer que a declaração solemne e categórica 
de David Canabarro, na proclamação feita quando se estabe- 
leceu a páz, tem. na áua singeleza muita eloquência, por que 
ella não negou aos republicanos a gloria de se terem batida 
para fazer nossa pátria mais cedo do que muitos queriam en- 
trar no regimen geral da livre America. 

Eis as suas palavras : 

Concidadãos ! Competentemente autorizado pelo magis- 
trado civil a quem obedecemos e na qualidade de eomman— 
dante em chefe e concordando com a máxima vontade de to- 
dos os officiaes da força do meu commando, vos declaro que a 
guerra civil que por mais de 9 annos devasta este bello paiz. 
está acabada. » 

Durante o império a acção do governo monarchico foi 
no sentido de levantar os créditos do soberano para que as-^ 
sim ficasse também conhecido o Brazil. 

Mas não ha maior decepção para um patriota que viaja 
no estrangeiro, como seja o ver quanto é desconhecido o 
Brazil. 

O Imperador bom, justo, amigo do Brazil, apercebeu que 
com seu longo reinado elle contemporizou de mais com os^ 
escravocratas, procurou elevar todos os que se faziam repu- 
blicanos, até alguns que por especulação se fizeram secreta- 
rio dos Clubs, foram logo j>romovidos a presidente do Con- 
selho. 



^•25 



Outros foram elevados a altas posições, e por fim, não du- 
vidou de entregar o poder áquelle que mais mal podia 
fazer as idéas rapublicanas. 

Mas assim como viveu, morreu. 

Os que vinham em seu auxilio apressavam a sua queda 
como se uma lei fatal e ignorada estivesse a arrastar os 
obreiros da politicarem para a voragem da valia commum, 
na qual desappareceram. 

Os que sobreviveram aos acontecimentos também se pre- 
cipitaram no mesmo abysmo, e o que impressionou foi que 
alguns chegaram mesmo a exceder os velhos republicanos no 
zelo de fazer. o enterro da monarchia e do Imperador. 

Este facto faz lembrar o caso de Santa Clotilde, que 
tendo se casado com um rei protestante, este por não gostar 
do secretario da rainha que vivia a rezar e a ouvir missas, 
combinou com o administrador das cocheiras reaes, que quando 
lá enviasse um individuo a saber se « estava prompta a or- 
dem » o fizesse metter nos fornos para que desapparecesse 
para sempre. 

Aconteceu que dando a ordem que o secretario levou 
com as palavras que serviriam de senha, o secretario ao pas- 
sar pela Igreja foi ouvir uma missa cantada. 

O rei impressionado por tanta demora em ser avisado da 
perpetrarão do crime, que a consciência fazia-o ainda mais 
inquieto, disse ao seu ministro em chefe — tomae um carro, 
ide indagar o que houve e porque não mandaram me dizer 
« se estava tudo prompto. » 

Apenas o chefe do gabinete perguntou ao fiel empre- 
gado se estava tudo prompto, em um minuto foi atirado nas 
voragens das chammas. 

Logo depois da missa, o secretario da Rainha foi dar o 
seu recado e trouxe ao Rei o resultado de suas ordens. 

O fiel ministro encarregado e cúmplice na execução dos 
crimes pagou o pato. 

Estes e outros factos acabaram por converter o Rei á 
religião. 

A Republica também ia já convertendo o nosso Rei. 



— 126 — 

No Brazil, os próprios imperantes têm sido as victimas, 
de sua ambição, elles tém ido atraz de um ideal de proven- 
tos para si e familia, mas a familia brazileira preferiu sem- 
pre não acceitar os presentes, quer elles fossem liberaes como 
a constituição outorgada, quer de condescendência como 
a liberdade concedida aos escravos. 

Ha no fundo das cousas uma justiça que só a verdade, 
a sinceridade e a virtude que não transige com estes compa- 
nheiros podem vencer e triumphar ; aquelles que se aprovei- 
tam das circumstancias para se fazerem grandes homens, não 
passam de pequenos desta lei fatal que os historiadores ope- 
ram com o doce e eterno sentimento do dever. 

S. Paulo, 15—11 — 94. 



NOTAS 

Joaquim Norberto em seu trabalho intitulado « Tiraden- 
tes e os historiadores oculares de seu tempo », fez sentir que 
o seu enthusiasmo se arrefereceu quando, estudando o pa- 
triota, elle teve de reconhecer que « os annos que passou na 
masmorra, segregado do mundo, o colóquio com os frades 
franciscanos, que lhe transmudaram as idéas, os conselhos que 
lhe deram os seus juizes com fementidas promessas, tudo isso 
transformou o conspirado em um homem eivado de mysti- 
cismo. 

« Prenderam um patriota, executaram ? » 

Esta argumentação é falsa porque para um espirito re- 
volucionário a Religião é a})enas um bálsamo, para o patriota 
um instrumento, para o martyr um sonho. 

As ultimas palavras de Tiradentes, ao subir á forca, re- 
velam que sua alma estava cheia da fé com que iniciara a 
conspiração para liberar o Brazil. 

Elle hoje vive com a justiça da posteridade no cora- 
ção do povo pelo qual morreu e aquelles que têm dito que 
o martyr não teve valor algum, aquelles que não souberam 
honrar a liberdade que elle defendeu, têm sido ou represen- 
tantes do governo, ou do povo na Republica, ou não passam 
de idolatras de um poder que só tem por fim o dominio da 
liberdade dos outros, no próprio proveito. 

A'quelles, as suas consciências servem de castigo, a es- 
tes o povo castigará. 

Em ambos os casos a sua memoria perdura, porque os 
prejuizos e preconceitos desappareceram. (1) 

« Acabo de assistir á posse do novo presidente da Re- 
publica — Prudente de Moraes. 



(i) Não deixa de ter interesse histórico a carta que nos foi dirigida pelo 
Cons. Araripe, filho do grande patriota Tristão Gençalves. 



o acto foi solemnissimo e grandemente concorrido, pre- 
senciando-o não pude deixar de lemlrar-me da scena que, no 
mesmo logar, contemplei em julho de 1840, quando vi che- 
gar e prestar juramento o Imperador, menino então declarado 
maior. Mal podia então imaginar, que passados 54 annos, 
ali viria também prestar juramento um presidente da Re- 
publica. Em meus sonhos de mocidade fantasiei sempre a 
republica no Brazil ; mas depois de 1848 comecei a duvidar 
de vela em meus dias, quando de súbito élla surgiu. Vejo 
agora esses sonhos em fervente realidade que tão intensamente 
me satisfazem a alma e me alegram o coração. Deus fade 
bem a Republica em nossa terra, e findarei-contente os meus 
dias, aliás já tão adiantados. » 



DISCURSO 

lido na sessão de 4 de julho 
de 1895, em homenagem á Indepen 
dencia dos Estados Unidos 



PELO 



DR. JOÃO MONTEIRO 



DISCURSO 

LIDO NA SESSÃO DE 4 DE JULHO DE 1895, DO InSTITUTO HiS- 
TORICO E GeOGRAPHICO DE S. PaULO, EM HOMENAGEM Á 

Independência dos Estados Unidos 



Meus Senhores. 

Escolhendo o dia de hoje, em que se completam cento 
e dezenove annos da definitiva declaração da independência 
norte-americana, para, com caracter solemne, celebrar mais 
uma de suas sessões, o Instituto Histórico e Geographico de 
S. Paulo teve a intenção de patentear publicamente a sua 
admiração pela pátria de Washington, e prestar suas ho- 
menagens de respeitoso reconhecimento ao illustre presi- 
dente Cleveland, que ainda hontem replantou na nossa terra 
a sacrosanta arvore do direito, que alguns brazileiros parecia 
quererem á força arrancar do seio deste torrão ubérrimo. 

O nosso Instituto devia este applauso á maravilhosa 
Republica Americana - devia também este preito ao inte- 
gerrimo magistrado que nos manteve nas Missões, de cujo 
direito estivemos quasi a fazer doação criminosa. 

Republica e Direito — eis, pois, as duas estrellas, que 
na noite de hoje estão a scintillar no nosso céo, como si 
fossem o alpha e o ómega, que da constellação americana 
viessem cair na luminosa esteira do nosso Cruzeiro, sem 
igual nas constellações da intérmina celeste esphera. Ap- 
plauso e preito, que para corresponderem em grandeza á 
collossal grandeza do assumpto, igualarem em brilho ao es- 
plendido fulgor daquellas duas incomparáveis quantidades 
sociaes, só preci&ariam passar por palavra mais eloquente do 
que a do orador, que exclusivamente o vosso aíFecto elegeu 
em hora de tremenda responsabilidade para elle. 



— d32 — 

Mas é tal o seu enthusiasmo pela Republica, a verda- 
deira, a pura Republica— ara santa em que sempre, em to- 
dos os passos de sua vida, depositou todas as crenças politicas 
de seu espirito— columna hebréa, que, menino, já debuxada 
via levantar-se nos incendidos arroubos de sua imaginação 
borbulhante, moço, festejou nas louras estrophes de sua lyra 
intima, homem, acompanhou religiosamente pelos areaes da 
vida, e iiltimamente mais zelava ainda por que a estava 
divisando envolta na tétrica fumarada da anarchia politica ; 
é tal o seu culto pelo Direito— que elle invariavelmente 
adora como os hellenos a Zeus, os mahometanos a Allah, os 
romanos ao humilde philosopho de [Bethlem,. os escravos a 
Spartacus, o polaco a Kosciusko, o húngaro a Kossuth, que 
é para elle a majestosa synthese do humano Kosmos — a ma- 
nifestação mais activa, efficaz, harmónica e eloquente da 
soberania da razão — a própria razão de ser do homem como 
espécie á parte na escala zoológica — que, senhores, a incom- 
petência do orador será attenuada pela sinceridade com que 
vai, por alguns minutos, tediar a vossa complacente attenção. 

Si dos hellenos disse o mais illustre dos académicos 
que Portugal tem tido, não haver povo, que mais do que 
elles tenham um logar assignalado nos fastos do progresso 
humano, que diriamos nós dos norte-americanos, si houvera 
azo para vos falar da inteira historia daquelle povo, que, com 
quarenta e dous milhões de habitantes, concretiza toda a 
escala da evolução humana em sua mais expansiva activi- 
dade ? E na impossibilidade de desdobrar-vos, no breve ter- 
mo de meia hora, a completa physionomia dos invejados do 
Novo Mundo, como lhes chama Elliott, o britannico, d'a— 
quelles incomparáveis engenhosos, na expressão do gaulez 
Laboulaye, dos predominadores do mundo, na escaldada 
phrase de Castellar, o castelhano — com que linhas mais sa- 
lientes farei a construcção do meu discurso ? Filiando-me 
particularmente á Índole do nosso Instituto, deverei traçar- 
vos o desenho geographico d'aquelle prodigioso solo, que do 
Lago Superior aos arrecifes da Florida, e de Nova-York a 
S. Francisco, tem lagos que, como o Michigan, arremedam 
o mar; rios que, como o Mississipi, chegam a desafiar o 



iíiò 



Amazonas ; bahias que, como a Long Bay, a Massachusetts 
Bay^ a Chesapeake Bay, confundein-se com o próprio oceano 
que as forma ; montanhas que, como as Appalachians, são 
para os Estados-Unidos o que os Himalayas o são para o 
Hindostão, os Andes para a nossa America ; variedades geo- 
lógicas inexgottaveis, a enriquecerem cresamente os próprios 
desertos das great ivestern plains ; inexhaurivel fertilidade 
de terras, como as do valle do Mississipi, onde, durante 
cincoenta annos successivos, cresceram copiosas colheitas de 
cereaes diversos sem que o homem lhes levasse o minimo 
cultivo ; riquíssima producção agrícola — vigoroso feno, suc- 
culento trigo, dourada avea, a avena sativa de Linnen, al- 
godão único no commercio internacional ; fauna abundan- 
tíssima, desde os mais humildes representantes da democracia 
animal, como o rato, o ultimo dos plebeus damninhos, até os 
mais arrogantes dictadores da ferocidade brutal, como o 
jaguar, o terror dos carnívoros ; mineralogia variada e ri- 
quíssima : ouro, prata, cobre, ferro, chumbo, carvão de pedra, 
hoje o mais poderoso elemento da internacionalização dos 
povos . . . que sei eu ! um mundo de riquezas physicas eter- 
nas ? Deverei ainda narrar-vos a historia dos United States of 
Americaf Que thesouro de úteis ensinamentos! quanta lição 
proveitosa, evidenciada na irrespondivel lógica dos resultados 
práticos — imitavel, quando estes levaram direito ao caminho 
do bem estar social, repellivel, quando, oriundos da preva- 
ricação governamental ou da deturpação moral do povo, por 
vezes estorvaram elles a marcha evolutiva da vida americana ! 
E no supposto de vos rasgar aos olhos o magico scenario de 
tão opulenta historia, que feição me deverá ser a predilecta V 
Irei, como na historia dos grandes impérios das remotas 
antiguidades, mergulhar-me na noute dos tempos para buscar 
as origens do povo, que hoje, no meio da admiração uni- 
versal, celebra o anniversario da sua independência politica? 
Terei antes de sorprehendel-o já no momento de iniciar-se, 
com as primeiras immigrações, pelos séculos XVI e XVII, 
nos princípios da já vetusta e, por isso, reformavel civiliza- 
ção européa ? Ou basta-me decantal-o na vigorosa pujança 
de sua constituição actual V 



— 4Õ4 — 

Mas, senhores, historiar a vida politica dos Estados 
Unidos equivaleria, como disse Story, a fazer o curso com- 
pleto da historia da humanidade progressiva. The Mstory of 
manJdnd is ali /iere— repetiu Robertson, como si nesta única 
linha tivesse o grande historiador da America tido a idéa de 
compendiar todos os passos da progressão histórica universal . 

E assim é. 

A Hespanha e Portugal, pela afortunada caravella de 
Christovam Colombo, tinham plantado, nas virgens terras do 
novo continente, o marco material da posse, [que Alexandre 
VI, por intermédio de Fernando e Izabel, lhes permittira 
que tomassem. Naquelles tempos de ingénua simplicidade, o 
reino da egreja estava também, e quiçá principalmente, as- 
sentado in hoc mundo. A palavra do Christo não passava 
de um versículo biblico, etherea abstracção de mystica poesia. 

A Inglaterra foi a primeira a protestar contra a fa- 
mosa bulia de 1495 : que direito tinha o papa de favorecer 
as cortes de Castella e Aragão com o monopólio do novo 
mundo, então livre como o próprio sopro do divino creador 
de todos os mundos ? Henrique VII, o primeiro da dymnas- 
tia dos Tudors, investiu João Cabot na mesma missão que 
Colombo recebera das mãos da Rainha Catholica, e com a 
descoberta da Terra-Nova, emergiu para a Grã-Bretanha o 
continente que hoje festejamos. 

Era elle acaso alguma res nullius ? Não : centenas de 
milhares de indigenas alli assignalavam o primeiro periodo 
da vida collectiva, a primitiva cellula do organismo social : 
a industria pastoril debuxava os traços rudimentares da 
propriedade. A tribu ainda não cedera logar ao estado. 

Depois, os Índios das poderosas tribus da Virgínia, da 
Nova Inglaterra, dos Iroquezes, ao norte, da nova Jersey, 
Pensylvania, Maryland, ao meio-dia, e dos Creeks, Cho- 
ctaws e Chickasaws, ao sul, para não falar senão das mais 
activas e fortes, foram os primeiros a banhar-se, como disse 
Morgan em sua Ancient Society, na alvorada de uma orga- 
nização politica. A evolução seguia a linha da sua nor- 
malidade physiologica ; a biologia sociológica passava inva- 
riável por uma das provas da theoria d'Espinas. Depois, na 



— ^55 - 

primeira década do século XVII, as duas grandes Compa- 
nhias de Londres e de Plymouth porfiaram no levantamento 
das mais férteis e ricas rec^iões das possessões inglezas, e 
mediante bem encaminhada colonização, trouxeram-lhe no- 
ções mais nitidas do direito, despertando a noção typica da 
propriedade pela funcção económica do capital. 

O sentimento jurídico já servia de base ás relações 
creadas no dominio da vontade livre. Era a evolução que 
ascendia, heterogenizando as actividades e os institutos con- 
soante a múltipla heterogenização dos órgãos e das necessi- 
dades. O estado começara a patentear sua constructura 
anatómica pela accentuação do funccionamento regular de 
sua existência necessária. Mas só ao longe, ainda atufada 
na nebulosa de um futuro incerto, levantavam-se os róseos 
albores da nacionalidade^ supremo degrau da escala evo- 
lutiva. 

A enérgica vitalidade americana, altamente apurada no 
vasto cruzamento de muitas e variadas raças e castas, que 
ali se talhavam em crenças religiosas, em principies polí- 
ticos, em costumes e hábitos, em cores e preconceitos, na 
massa enorme de mil factores diversos, subia de intensidade 
consciente, como que intimando o século XVIII a retirar de 
seus lagos, de seus rios e montanhas o ultimo annel da 
cadeia britannica. Com a decapitação de Carlos I fervera 
mais ebulitivamente o sangue da almejada liberdade no 
coração das colónias ; a Virgínia, sobre todas as outras, re- 
sistiu com altiva dignidade aos decretos do rei inglez, e a 
propósito da tentativa real para monopolizar, em proveito 
exclusivo da Inglaterra, a cultura do tabaco, teve o governo 
da metrópole prova eloquente de que no novo mundo o 
sentimento da liberdade é tão indomável como as próprias 
feras de seus desertos virgens. 

As insólitas provocações de Guilherme de Orange e seus 
successores, as pesadas exigências do Parlamento, a vexatória 
regulamentação dos impostos, ás vezes levada até a mais 
cynica desfaçatez, como aconteceu com o stamp tax, o sugar 
act, e outros, tornando intolerável o jugo da metrópole, 
até então a custo supportado, foram o vendaval decisivo ; e 



— d 36 — 

eom a mesma altivez das gigantescas e indomáveis quedas, 
do majestoso Niágara, a 4 de julho de 1776 rebentou in- 
dómita, a lavar do solo pátrio, quaes outras tantas nódoas 
aviltantes, os oppressores vestígios da cruel e orgulhosa 
realeza d'além-Atlantieo, a onda da soberania nacional. 

Estava feita a independência, e com esta, implantada a 
nacionalidade norte-americana. E' que, como dos árabes 
disse John Adams, que bem podiam elles vender á Inglaterra 
a própria actividade, mas nunca a soberania da Algéria, 
porque esta era da pátria, puderam os inglezes longo tempo 
traficar sobre o trabalho americano, mas suffocar-lhe eterna- 
mente a liberdade, não : esta era alli tão enérgica como a 
própria natureza. Tinha de ser como foi, e já onze annos 
antes o annunciara um dos mais fogosos oradores inglezes, 
o famoso Burke, que Laboulaye chama o verdadeiro reno- 
vador da smencia politica^ aquelle que a retirou do mundo 
dos sonhos para fundal-a sohre a observação. Em 1775, 
quando mais arrogante se tornara o odiado filho e successor 
de Jacques II, aquelle a quem, com a mesma facilidade 
com que um secnlo mais tarde d. João VI de Portugal 
mandara que o filho puzesse sobre a cabeça a coroa da 
Brazil, dissera o famoso aliciador do parlamento, o devasso- 
corruptor do grande Pitt, segundo a vibrante sentença de" 
May, ao sentir vizinho o termo do seu reinado de sessenta 
annnos ; Jorge, sede rei ! ; quando aquelle temerário, que 
ainda enraivecido pela insolente emancipação americana, 
teve vinte annos depois a pasmosa insânia de tentar repri- 
mir a vulcânica Revolução Franceza, procurava perturbar a 
natural evolução da liberdade das colónias, o fogoso Burke, 
apostrophando Jorge III, fazia-lhe vêr que, antes de go- 
vernar uma colónia, preciso é lhe conhecer o caracter. E 
accrescentou : «No caracter dos americanos o amor da li- 
berdade é o traço predominante, visto em todas as relações ; 
e, assim como uma aíFeição ardente é sempre uma aíFeição 
ciosa, vossas colónias tornam-se suspeitosas, indóceis, intra- 
táveis logo que percebem a menor tentativa de se lhes ar- 
rancar pela força ou se lhes subtrahir pela astúcia a única 
vantagem pela qual vale a p«na viver.» E como a Ame-^ 



_ >I37 — 

rica, senhores, não podia morrer, fez-se a independência, e 
com esta irromjjeu de uma vez a vida americana. 

Já vedes, senhores, que o tempo nào me chegara si eu 
tivesse de deter-me sobre qualquer dos grandes capítulos de 
tão grandiosa epopéa. 

Eil-o agora, o nosso irmão do norte, a nos servir de 
guia na nossa nova vida republicana. Sob que aspecto nos 
apparecerá maior ? Si fossemos obrigados a percorrer-lhe a 
historia contemporânea, qual devera ser, repito, a linha 
predilecta ? Estudal-a pela biographia dos seus maiores ho- 
mens ? pelo seu commercio ? pela sua industria ? pela sua 
jurisprudência ? pela sua instrucção V pela sua litteratura '? 
pelo seu exercito e marinha ? Mas cada um destes pontos 
daria para um discurso capaz de encher-vos a attenção in- 
teira. 

Seus grandes homens ! Desde Washington até Cleve- 
land, que luminosa galeria de varões illustres I Vede-os, os 
mais celebres, a passarem pelo infallivel tribunal da his- 
toria : 

Jorge Washington, descendente de fervoroso realista do 
tempo de Carlos I, aprendera, nas decepções do seu ante- 
passado, que se vira coagido, pelas violências do fatal emulo 
de CromM-ell, a emigrar para a Virginia, como é que o ho- 
mem nascera para ser livre : só elle bastaria para dar á 
Kepublica a seiva da liberdade. Unquestioimbly the grea- 
test man, como delle affirmava Patrick Henry. First in 
peace, first in war, aiid Jirst in the hearts of his countri- 
men, como reza a lenda virginiana, o primeiro presidente da 
federação americana tem na historia o logar dos grandes 
symbolos da humanidade. Foi, na eloquente expressão de 
Marshall, em sua Life of Washi)igton, o Christo do século 
XVIIÍ. 

João Adams, de outra familia de emigrados, juriscon- 
sulto eminente, como patenteara com o seu tratado sobre a 
Canon Late and Feudal Law, foi um dos mais activos pro- 
pagandistas da independência, e, ao lado de Franklin, Jay, 
JeíFerson e Laurens, assentou as bases da tentativa de paz 
com a Inglaterra em 1782. Seu passameutc assignala-se 



— d58 — 

por lima coincidência notável : morreu no dia 4 de julho 
de 1826, justamente quando se completava meio século da 
independência, que elle tão cuidadosamente cultivou. A sua 
obra Defence of the ConstiiiLtiona of Government 'f ihe 
United S.ates, publicada em Londres, é ainda hoje um dos 
mais ricos mananciaes do direito publico moderno. 

Thomaz Jefferson, que por maioria de um voto vencera 
contra a re-eleiçào de Adams. era um talento de primeira 
ordem : philosopho e jurisconsulto de aprimorado cultivo, 
dispondo de invejável fortuna e solida independência, com 
copiosa instrucção do direito internacional, que particular- 
mente cultivara como ministro na França, o terceiro presi- 
dente da Republica, e um dos productores da sua Consti- 
tuição, é uma das mais bellas e impressionadoras figuras do 
século, que vai morrendo. E como o seu antecessor, morreu 
naquelle mesmo dia 4 de julho de 1826, sorrindo ao quin- < 
quagesimo anniversario da sua loved ãaughter, como elle 
chamava a sua Constituição querida. 

James Madison foi, na justa expressão de Storj^, one 
the most eminent, acconiplished, and respected of American 
statesmen. Para deixal-o em plena luz na historia da civi- 
lização, basta lembrar que elle, com Jay e Hamilton, redi- 
giu o Federalista^ o moderno evangelho da emancipação 
politica dos povos. 

James Monroe, alistado, como cadete, no exercito re- 
volucionário com dezoito annos apenas, sentiu que o amor 
pela América mandava-o que estudasse a jurisprudência, e 
com JeíFerson iniciou-se no conhecimento do direito. Tanto 
bastou para que em seu espirito, aperfeiçoado nas luctas 
diplomáticas que teve de sustentar na França e Hespanha, 
86 formasse a idéa que o immortalizou. Reeleito presidente 
em 1820, honrando a imponente popularidade que o aureo- 
lava, foi um dos seus primeiros actos o reconhecimento da 
independência do México e das republicas Sul-Americanas, 
lógico prefacio da promulgação que se seguiu da chamada 
Moiiroe's Doctrine, cujas theses culminantes encheram a 
historia do seu nome. Na primeira se declarava que — the 
American policy of neither entangling ourselves in the hroils 



— >I59 — 

oj Europe, nor suffering the poicers of the Old World to 
interfere ivith the affairs of the New — ; na segunda, que 
— any attevipt to exterid their system to any portion of this 
hemisjjhere, would he dangerous to our peace and safety. 

Andrew Jackson foi o prototypo da energia executiva, 
posta em prova nas varias crises económicas que embaraça- 
ram o seu periodo presidencial. Vetando varias leis vindas 
de grandes maiorias, vencendo reiteradas luctas, e afinal 
acabando com o Bank of the United States^ Jackson foi 
um dos presidentes que mais honraram a popularidade ame- 
ricana. 

Abrahão Lincoln, o segundo Washington da grande 
Republica, é a mais sympathica figura do mundo moderno. 
Washington subtrahiu a America do jugo metropolitano : fez 
uma pátria — Lincoln, redimiu quatro milhões de escravos : 
fez uma nova humanidade. A democracia achou nelle a fiel 
expressão da própria majestade. 

E mais Andrew Johnson, Ulysses Grant, James Gar- 
field, e finalmente Cleveland — eis ahi, senhores, quanto 
chegaria para glorificar o mundo. 

O commercio americano ! mas nelle tem o mundo mer- 
cantil moderno o mais correcto modelo da actividade ho- 
nesta que é a própria essência, o principio vital desse 
Ashavero eterno. E tanto mais notável é a superioridade 
da grande Republica neste assumpto quanto é certo não 
haverem os artigos da federação regulado explicitamente as 
relações mercantis. Haja vista o ultimo meeting de Anna- 
polis, que promoveu a convenção de Philadelpliia, onde se 
devia tratar da regulamentação do commercio com as nações 
estrangeiras, com os diversos Estados da União e com as 
tribus Indianas. 

E si nos detivessemos, senhores, na apreciação da in- 
dustria daquelle incomparável povo ? Applicai bem o ou- 
vido — tanto, que possa elle prodigiosamente vencer o 
Atlântico e chegar a Nova York, Washington, Chicago, 
Philadelphia, Nova Orleans, Columbia, Nova Jersey, até 
qualquer cidade daquelle pandemonium do trabalho, e ou- 
vireis o mais grandioso unisono de quantos silvos podem 



— Í40 — 

irromper de quanta machina o engenho humano possa in- 
ventar jamais. A industria americana! mas si é ali que 
nasceu Edison, esse portento, que um século antes não 
passara de embusteiro necromante ! 

A sua jurisprudência ! Mas o povo que esculpturou a 
Constituição de 17 de setembro de 1787, que jurisprudência 
pode ter se não aquella sobre a qual Ihering muito mais tar- 
de construiu a sua profunda definição : a jurisprudência é o 
precipitado da sã razão humaíia em matéria jurídica — ? E, 
senhores, phenomeno admirável é esse observado por Thimoty 
Walker: a depeito da diversidade, entre varies Estados da 
União Americana, do direito material ou da substantive laiv, 
na technica de Jeremias Bentham, ha muitos e caracteristicos 
traços de uma jurisprudência americana. E si ponderarmos 
ainda, que a guerra da independência não podia apagar de 
chofre o amalgama do direito inglez, ali colonizado como o 
homem — aquelle informe mosaico, de que eram copiosíssi- 
mas incrustações a common laiv e a equity law, proteicas 
formas do direito não escripto, e o quasi incommensuravel 
direito escripto, na phrase de Eishop, direito que só pouco 
a pouco se foi autonomizando nos Estados mais adiantados 
— nacionalisação jurídica esta que, por sua Índole e exten- 
são, mais avolumava a confusão do direito, repartindo-se nos 
estatutos coloniaes, nas constituições dos 42 Estados federa- 
dos, nas numerosíssimas leis que cada um delles separada- 
mente ia promulgando, nas variadas consolidações das diffe- 
rentes fontes legaes da legislação — collecções de arestos, 
opiniões de jurisconsultos, digestos, compêndios, formando 
tudo um milhar de volumes, segundo o testemunho do já 
citado Walker, On American Law — si não perdermos de 
vista tão intrincado labyrintho, quanta admiração nos infunde 
a jurisprudência Americana quando vemos que toda ella se 
esteia reiterada e inperturbavelmente no primeiro cânon da 
Declaração dos Direitos de 1787 : lemos como verdades de- 
monstradas por si mesmas, que todos os homens foram cre- 
ados eguaes e dotados pelo creador de certos direitos inalie- 
náveis, entre os quaes primam a vida, a liberdade e o bem 
ettar ! 



i41 



Não está aqui inteiro o código do direito universal mo-' 
der no ? 

E que admirável simplicidade lógica no completo des- 
dobramento de todos os principios básicos do Direito Ameri- 
cano, assim compendiados por aquelle illustre professor do 
Cincinnati College : 

Primeiro : O poder publico só age sobre a conducta, 
nunca sobre as opiniões dos homens. — E a razão é, diz 
Walker, porque meras opiniões, emquanto não se manifestam 
por actos, não influem absolutamente nem sobre as pessoas, 
nem sobre os bens. Besides, pondera elle, the very attempt to 
regulate opinions would be preposterus ; for though gover- 
nment may eu force outward conformity, it caimot, in the 
natíire of things, reach the iiward thoughts. E' quasi o bro- 
cardo romano : 2ja'jiam cogitationis neino patiiur. 

Segundo : E só age sobre a conducta civil, nunca sobre 
a conducta moral. A razão é, porque o governo nada tem- 
com os homens, se não na qualidade de cidadãos. We can- 
not he gcod ar had upon compulsio. Não podemos ser bons 
ou maus compulsoriamente. 

Terceiro : Os poderes públicos podem ser ad lihitum re- 
vogados pelo povo, que os outorgou. A razão é, porque 
perpetuai poicrs would he incompatihie ivith libert}/. Pode- 
res perpétuos são incompatíveis com a liberdade. 

Quarto : todo systema de governo deve se fundar sobre 
perfeita egualdade de direitos. A razão é, porque um povo 
intelligente não consentiria em outra cousa. Enjoying this 
equality in the state of nature, we cannot douht that they 
ivould insist up<>n retaining it under the connpact. 

Quinto : Em qualquer divergência deve prevalecer a 
a maioria. There is a fair presumptim, that of tico sides of 
a question, that side on ivhich the greatest nuvnber of free 
Tninds concur, is the right side. Já 19 séculos antes Christo 
dissera aos apóstolos a mesma cousa. 

E sobre taes cânones assenta ainda a pedra angular de 
todas as liberdades : a perfeita, a nitida, a incensuravel dis- 
criminação dos três poderes constitucionaes, assim accentua- 
da por Thomaz Cooley reproduzindo Marshall, Constitucional 



— ^42 — 

limitations : o legislalivo faz, o executivo executa, e o judi- 
ciário applica a lei. 

E como cliave de ouro para tão opulento e correcto 
edifício jurídico, rememoremos a sentença de í^Hoffman, 
Legal outlmes : The only equality that can exist among men 
is an eqiialitg of rights and (Migations. 

Já vedes mais, senhores, que não me bastara o tempo 
si eu me predilectasse por este lado da grande Republica. 

E a instrucção publica americana ? Para dar-vos uma 
idéa do modo como os americanos consideram esse primeiro 
de todos os factores do progresso social, bastaria pôr- vos di- 
ante dos olhos o seguinte artigo da constituição do Estado 
de Massachussetts, ali inserido a instancias de John Adams : 

«O saber e a instrucção assim como a virtude espalha- 
das em geral pelo povo, sendo necessárias á conservação de 
seus direitos e de suas liberdades, e visto dependerem das 
facilidades de educação espalhada pelos diversos pontos do 
paiz e classes diversas, é do dever da legislatura e dos ma- 
gistrados em todos os períodos futuros desta Republica pro- 
moverem os interesses da litteratura e das sciencias e res- 
pectivos institutos, especialmente a Universidade de Cam- 
bridge, as publíc schools e as grammar schools das cidades ; 
animarem as sociedades privadas e as instituições publicas por 
meio de prémios e immunidades para a propagação da agri- 
cultura, das artes, das sciencias, do commercio, dos officios, 
das manufacturas e da historia natural do paiz ; manterem 
entre o povo os princípios de humanidade, de sympathia 
geral, de caridade publica e privada, de industria, de fruga- 
lidade, de honestidade e exacção nas transações, de sinceri- 
dade, de bom humor, assim como todas as affeições sociaes e 
todos os sentimentos generosos.» 

Não é um programma completo de nobilitação intelle- 
ctual e moral ? 

E' tão considerável o interesse que os americanos ligam 
a tal assmmpto, que este é ali verdadeiramente popular. 
Cest un i hjet j.opulaire entre tous, affirma Carlier ; e accres- 
centa, que o relatório do commissario da educação para o 
annno de 1885 — 86 lisonjeia o sentimento publico fazendo 



— ^45 — 

notar que os Estados e territórios despenderam naquelle auno 
com essa verba 111,804,927 dollars, ou mais de 222 mil con- 
tos de réis brazileiros, cambio ao par, ou mais de 555 mii 
contos ao cambio de 10, si ali a Republica ainda estivesse a 
tactear nas difficuldades de uma transição, que não anda, 
de uma consolidação, que não chega ! 

Ali, parallela á mais completa liberdade de ensino e de 
profissão, corre sempre activa e vigilante a benéfica, a im- 
prescindível intervenção do poder publico em qualquer dos 
graus de instrucçào ; e posto que em parte alguma do mun- 
do tão amplo seja o sentimento da liberdade como ali, onde 
o self (joveniment baniu de todo a antiga autoridade cesari- 
ana, tanto mais aspbixiante quanto mais pretenciosamente 
arrogantes são os seus inseparáveis pretorianos ; ali, onde a 
vontade legislativa é a vontade do povo, onde a força do ju- 
diciário é a força do povo, onde o braço do executivo é o 
braço do povo, porque o Presidente da Republica é o seu 
servant ; ali, onde a verdadeira noção da liberdade não é 
aquella que Michel Chevalier calumniosamente lhe attribue 
quando, nas suas Lettres sur VAmerique du No rd, escreveu 
o seguinte : Para que não haja tyrannia, preciso é que a 
ordem social reconheça um poder que se interponha entre os 
dous typos em que se divide a espécie humana sobre o. ponto 
de vista da liberdade (isto é, o activo, cujo primeiro movi- 
mento, em presença da força, é resistir, e o passivo, que se 
resigna e espera), e tratando cada qual segundo seu tempe- 
ramento, empregue, com um, a rédea, com o outro, a espora 
— medonha blasphemia, que não parece vinda da penna de 
um francez ; ali, onde tudo é impetuosamente livre, todos 
os Estados, todos os municípios, todas as cidades, todas as 
aldeias teem como indispensável a intervenção governamental 
na educação e instrucção publica. 

Quem se lembraria de dizer em pleno Congresso, na exe- 
cução do mandato popular, esta... esta monstruosidade, cujo 
eco ainda talvez esteja plangentemente vivo na sala do par- 
lamento federal : E' preciso abolir os cursos officiaes, porque 
elles estorvam o progresso das sciencias V ! Aqui taes cousas 
se dizem, porque entre nós, por decreto caprichoso de ura 



rei já valetudinário e condescendência de um ministro amá- 
vel, se confunde a liberdade do ensino com a liberdade da 
vadiação. 

Mas ah ! o deputado que não vacillou em jogar aquella 
affronta ao magistério publico do meu paiz, accrescentou, fe- 
lizmente para os nossos créditos, que si sua scienda se hou- 
vesse limitado ao que aprendeu nas academias, muito pouco 
saberia. Senhores, nunca foi tão franca a confissão de um 
péssimo estudante. 

E tu, ó bella terra de Washington e Lincoln, perdoa 
tão extranha barbaridade, e empresta-nos ainda o brilho das 
tuas letras. 

A literatura americana ! só as bibliothecas das school 
districts do Estado de New-York continham, ha 42 annos, 
1,604,210 volumes ! A livrara de Pisistratus, em Athenas, 
a de Trajano, em Roma, a do Museu Britannico de Londres, 
a Nacional de Pariz, a do Vaticano, a imperial de Vienna, 
a Advocates Librrry, de Edimburgo, a cuja vista ficámos 
um dia estáticos, dizendo : Mas deve ser a maior do mundo 1 
somente reunidas formariam egual. Todos os dominios da 
intelligencia humana estão fulgurantemente representados 
naquella terra prodigiosa. A philosophia, com Channing e 
Browson, a theologia, com Beecher e Emerson, o direito com 
Wheaton e Hamilton, a jurisprudência, com Choate e Mar- 
shall, a politica, com Story e Dudley-Field, as sciencias na- 
turaes, com Wilson e Taylor, a historia, com Prescott e Ban- 
croft, a imprensa, com John Habberton e Ballard Smith, a 
poesia, com Cooper e Longfellow, o romance e o drama com 
Stowe e Bret Harte : rutilante mundo de pujante intelle- 
ctaalidade. 

Mas também, senhores, teiTa onde se lê, estuda e traba- 
lha mais do que em qualquer outra parte do mundo — onde 
ha tantos livros quantas estrellas no céu e tantos jornaes 
quantas areias no mar — onde os legisladores federaes func- 
cionam na intimidade de mais de meio milhão de volumes — 
que 513441 tinha ha dez annos a bibliotheca do congresso 
em Washington — ha de forçosamente ser o moderno em- 
pório do progresso, que é a expressão pratica do direito ven- 



— 145 — 

*cedor, por seu turno a formula exacta da força material 
^vencida. 

A força americana ! mais imperiosamente reside ella na 
soberania da lei do que no poder mortifero de seu exercito 
e de sua armada. Em nome da lei — vale tanto quanto a 
força bnita do ferro. Esta é uma das feições mais typicas 
que os yankees e virginianos conservaram da metrópole. 

Lembro-me ainda do que vi no Castle-Rock, da formo- 
sissima cidade de Walter Scott e John Knox. Um bello 
soldado escossez fazia, ao longo da esplanada frontal do cas- 
tello, o seu rhytmico passeio sentinellar. Procurando ver a 
arma que com sigo devia trazer aquelle denominado agente 
da força .publica, observei que apenas empunhava curta e 
•fina vara, tão flexivel como o junco das lagoas ou dos bre- 
jos. A' observação de extranheza que lhe fiz, respondeu-me, 
com visivel orgulho, o meu guia : — Aquella vara repre- 
senta a lei ; nem de mais precisa o soldado para se fazer 
'Obedecer e respeitar. — E' assim também na Republica Ame- 
ricana. 

TeFra feliz, cujo poder está no direito e não na força ! 
terra invejável, onde a força armada, emprestando a espada 
á Themis, fal-o exclusivamente para defender a balança on- 
de a justiça pesa o mérito e demérito das acções humanas ! 
terra privilegiada, onde o soldado de terra ou mar anda ab- 
solutamente incompatibilizado com a politica do paiz, porque 
a sua única missão, a sua única politica — missão nobre, 
|)olitica patriótica — é obedecer ao poder civil, o qual é o 
poder único que faz a lei, a qual é o poder qae exclusiva- 
mente mantém a vida nacional. 

Ah! si em toda a parte do mundo fosse assim compre- 
hendida a acção da força militar !... 

E, no emtartto, a infallivel lição da experiência já deve- 
ra ter levado á altura de dogmas sociaes intangiveis, conhe- 
cidos conceitos dos mais eminentes homens de todos os tem- 
pos. Desde os rudimentares economistas da Macedónia, que 
segundo Plutarco, dispozeram-se a reformar, no anuo 350 
antes de Christo, os exércitos de Alexandre, até Montesquieu, 
'O evangelista do secuio XVIII, que no seu Espírito das LeM 



- 446 - 

teve esta phrase magnifica : Nous sommes pauvres avec les 
rlchesses et le commerce de tout Vunivers ; et bientôt, à force 
d'avoir des soldais, nous n'aurojis plus que ães soldais^ et 
nous serons comme des Tartares (XIII, XVIII) ; desde Mon- 
tesquieu até o mais adiantado dos estadistas contemporâneos, 
lereis phrases como estas : «A democracia considera o exer- 
cito como incessante ameaça contra as instituições populares 
e uma causa de ruina para o paiz» — diz Carlier, o mais 
profundo dos modernos historiadores da Republica America- 
na. «O exercito é, para os Estados Unidos, o que uma força 
de policia bem organizada e bem disciplinada é para uma 
cidade» — dizia o secretario da guerra da Grande Republi- 
ca em seu relatório de 1877. «A força militar, esclamava 
Thiers, o Messias da França, em um de seus mais 
famosos discursos de 1867, é a força estática da nação.» 
«A autoridade militar é essencialmente subordinada ao po- 
der civil» lê-se nas constituições de Kentucky, art. 13 § 26, 
da Indiana, art. 1 § 33, do Michigan, art. 18 § 8.*^ 

E diante de verdades tão nitidas, só nos resta repetir 
com Júlio Simon, quando discutia a lei franceza de 1867, 
sobre a reforma do exercito : Je sais hien qu'on peut le 
C07itester, parce qu'on peut tout contestei' ; mais s'il y a une 
verité evidente, c'est celle-là. 

E a verdade de todas as verdades, senhores, como dizia 
Washington em uma de suas mensagens, e nol-o refere To- 
cqueville, é que só a sympathia traz a paz e que sem esta 
não ha felicidade possível. Pois bem : na historia do povo 
cuja independência hoje celebramos, resume-se toda a suave 
frescura desse dulcíssimo sentimento, que um inspirado poeta 
nosso disse ser quasi amor. 

Que maior elogio se lhe poderia tecer ? E si o meu 
discurso ficou feito á força de me ser impossível decantar 
mais eloquentemente cada qual das variadíssimas e nobres 
feições de tão opulento paiz, é que ali cada linha é um li- 
vro, cada livro um código, sobre todos os quaes realça a 
dourada majestade do evangelho da liberdade moderna. 

Salve ! Estrellado alcáçar da Liberdade, a soberana rai- 
nha da Democracia, que tu redimiste do intolerante orgulho 



— 147 — 

da esterlina metrópole para ser um século mais tarde a glo- 
ria das duas Américas, salve ! Tu, que és o mais fecundo 
povo da humanidade conhecida, que só com a tua industria 
e a tua liberdade enches de deslumbramentos fascinadores o 
complicadissimo scenario da vida contemporânea, brilha, eter- 
namente fulg-e no rutilante céo do Novo Mundo ! E si, com 
melhor direito do que outro qualquer povo do mundo intei- 
ro, podes repetir, na bella lingua que é a tua, a ardente 
apostrophe de Shakspeare : 

TIvAí, Liberty, art my godess ; to thy law 
My Services are hound ! 

— Liberdade ! tu és a minha divinidade suprema ! é a 
ti que empenhei os meus serviços ! — 

o' terra de Washington ! consumma a tua obra — im- 
pleta a tua obrigação : das 42 estrellas da tua gloriosa ban- 
deira despeja muita luz sobre as 21 do nosso amado auri- 
verde pendão ! Não te pedimos muito, pois tens o dobro da luz 
de que ainda precisamos para entrar desassombrada e defi- 
nitivamente no futuro Pantheon da Republica Universal ! 



os SELVAGENS DE S. PAULO 



POR 

C. R 



mtimn ??n 



os SELVAGENS DE S. PAULO 



Em três tribus ou grupos podem ser divididos os sel- 
vagens que habitam os sertões de S. Paulo : Caynás, Co- 
roados e Cliavahtes. 

Não é nosso fim tratar desenvolvidamente do que diz 
respeito a esses aborigenes, mas dar uma breve noticia da 
lingua, usos e costumes e caracteres physicos de cada um 
delles. 

Neste artigo nos occuparemos dos j)rimeiros. 

I 

Os Caynás 

A sua lingua, com leve alteração, é a guarany, e á fa- 
mília deste nome podemos, sem duvida, filial-os. 

Como todas as liuguas dos indígenas da America, per- 
tence a sua ao grupo das agglutinantes, em que os elementos 
que entram na contextura da palavra não conservam todos 
seu valor próprio ; ha a raiz principal, que se mantém inal- 
terada, e a raiz ou raizes secundarias, que perdem a inde- 
pendência, atrophiam-se e funccionam como elementos mo- 
dificativos da raiz principal. 

Comquanto rudimentar, têm os Caynás sua grammatica. 

Possuem três pronomes pessoaes, com que designam as 
três pessoas do singular : che, eu, de, tu, e íLpeã, elle. Estes 
pronomes prefixados a substantivos denotam possessão. Ex : 
juá, braço ; Chejtiá, o meu braço, âejiià, o teu braço, upeájuá 
o seu braço ou braço delle. 

Os tempos verbaes são todos derivados do infinito, a cujo 
final agglutinam a terminação agué ou agua, para indicar o 
passado, e avhn ou angave, para exprimir o futuro, sendo as 
pessoas discriminadas pela prefixação do respectivo pronome 



- iòl - 

pessoal' seguido de a quanto á 1.* pessoa e de o quanto á: 
2.* e 3.* A forma do. presente é a mesma do infinito, pre- 
fixados a esta o pronome e letra euphonica. O participio. 
forraa-se também do infinito, agglutinando- se-lhe a termi- 
nação oiiia ou ina. Exemplos :. sejam os verbos monMy, 
oorrer, e mondo ^ mandfer., 

Ch amonhá, eu corro. 
Deomonhá, tu corres 
Upeomonhá, elle corre 
Cheamonháagué; eu corria. 
DeoTiwnhdagué, tu corrias 
Zjpeomonhangué, elle corria 
Cheam nháavan, eu correrei; 
Deomonháavan, tu correrás 
Upeoínonháavanj elle correra. 
Monháoiíia, correndo 
Cheamondó^ eu mando 
Deomonãô, tu mandas. 
Upeomondó, elle manda* 
Cheamondóaguá, eu mandava 
Deomondóaguáj tu. mandavas 
Cheamondóangave, eu mandarei 
Deomondóangavey. tvi raSLXiàarÁs 
Mondoina, mandando. 

Têm alguns advérbios para as cireumstanciàs de tempo- 
e logar ; de tempo ; citcêl hontem, amigue^ hoje, coeramo^. 
amanhã, angave, \ogo: de logar-; coépe, aqui, upépe, ali. 

Para exprimiremi os. sete números simples (um a sete),, 
termo de sua numeração,, empregam os nomes peíen, mochoén,^ 
boapé, irundy, tinhernin^ temová e boaperá. 

Quanto aos costumes. Os Caynás andam nús ; os. 
homens completamente e as mulheres apenas velam as partes- 
genitaes com uma tanga de embira trançada.. Usam; furar o 
lábio inferior, collocando na abertura um, pedaço de resina.. 
Os homens trazem os cabellos cortados. Sepultam os cadá- 
veres dos da sua sua tribu, em posição horizontal, e sàQ.reS(r- 
jgeitosQS para com a velhice*. 



— 455 — 

Tem uma única industria e ainda limitada ás necessi- 
dades domesticas — a fabricação de louças de barro, a qual 
é exercida pelas mulheres. 

Suas armas são o arco, a flexa, a lança e o tacape. 

São os Caynás de cor de cobre amarellado, têm a fronte 
saliente e alombada, os cabellos pretos, grossos e lisos, os 
olhos também pretos e bridados rosto achatado, lábios grossos, 
orelhas grandes, queixo saliente ; seus membros são refor- 
çados, os pés pequenos e as unhas chatas. 

São naturalmente indolentes, ainda que algum tanto 
robustos e valentes. 



TYPOS YTUANOS 

I 
Padre Jesuino do Monte Carmello 

PELO 

DR. ANTÓNIO AUGUSTO DA FONSECA 



Ol) 



TYP08 YTDAN08 

I 

Padre Jesuino do Monte Carmello 



No século XV, quando as sciencias renasciam na Itália 
e as bellas artes floresciam rápida e brilhantemente, nasceu 
em 1452, na aldeia de Vinci, perto de Florença, Leonardo 
de Vinci, um dos maiores génios das bellas artes e das scien- 
cias de que a historia tem perpetuado o nome e a gloria. 
Filho natural de um obscuro notário de nome Piero, desde 
a mais tenra edade manifestou decidida vocação para as artes 
e principalmente para a pintura. Seu pai, observ^ando os seus 
variados e tão preciosos talentos, levou-o a Florença, apre- 
sentou-o a Verachio, pintor já bem conhecido, e pediu-lhe 
que admittisse o menino Leonardo como aprendiz em seu 
atelier. 

Aos vinte annos de edade, o discípulo de Verachio era 
já um celebre pintor, esculptor, architecto e musico, e depois 
de mais alguns annos era também reconhecido como um 
grande homem de sciencias. 

Se Leonardo de Vinci tivesse nascido em Ytú no ultimo 
quartel do século passado, como o Padre Jesuino do Monte 
Carmello, de uma familia obscura e pobre, nào passaria da 
altura do Padre Jesuino, assim como este, se tivesse nascido 
na Itália, na segunda metade do século XV, talvez tivesse 
alcançado nas bellas artes a brilhante reputação de Leonardo 
de Vinci, se encontrasse, como este, um mestre como Ve- 
rachio e um protector como Lourenço de Mediei — o Ma- 
í;:nifico. 



— d58 — 

O Padre Jesuino apenas pôde aprender as primeiras 
letras, deu-se ao officio de pintor para ganhar o pão de 
cada dia e viveu disso alguns annos. Nunca viu um atelier 
de pintura, nem teve um mestre qualquer ; entretanto chegou 
a ser um bom pintor, esculptor, musico compositor e archi- 
tecto, como adeante se mostrará. 

Jesuino casou-se, teve três filhos e uma filha, e en- 
viuvou aos trinta annos mais ou menos de edade. Nesse 
tempo foi procurado para encarregar-se de fazer na Egreja 
do Carmo algumas pinturas, de que ella muito precisava. 
Era então prior do convento do Carmo um frade portuguez, 
chamado frei Thomé, que, segundo a tradição, era homem 
illustrado e conhecia bem as mathematicas. Frei Thomé, em- 
quanto Jesuino trabalhava, estava sempre ali a palestrar 
com elle ; logo conheceu a sua grande intelligencia e numa 
dessas palestras lhe dissera Jesuino : — «Desde a minha mo- 
cidade tive decidida vocação para o estado eclesiástico e não 
me ordenei, como tanto desejava, porque a j)obreza de minha 
familia não permittiu que eu estudasse o latim ; dei-me a 
este officio como um meio de vida. Agora que estou viuvo, 
quantas vezes me tenho lembrado com magua o não saber 
latim; se *eu o soubesse ainda me ordenaria.» 

Replicou-lhe então frei Thomé : «Se é esse o único obs- 
táculo, furtai do vosso trabalho de uma a duas horas todos 
os dias e ide á minha cella ; e eu vos garanto que em dois 
annos estareis habilitado para vos ordenardes». 

Jesuino assim o fez, e em dois annos era o Padre Je- 
zuino do Monte Carmello, tão celebre pelas obras de arte 
que fez, como amado e admirado por suas grandes virtudes. 

A Egreja do Patrocinio é obra exclusivamente sua e de 
seu filho Elyseu, que o ajudava. Em frente a essa Egreja 
construiu para si uma casa, que ainda existe e tomava toda 
a largura do pateo, a qual era uma espécie de cenóbio onde 
residia com seus quatro filhos e com o menino João Paulo, 
creado e educado por elle. 

A este menino João Paulo ensinou elle musica, fez es- 
tudar latim com o Padre Mestre Manoel Floriano e orde- 
nar-se. O Padre João Paulo tornou-se mais tarde um lati- 



— 459 — 

nista abalizado e substituiu o Padre Manoel Floriano na ca- 
deira de latim da villa de Ytú. 

O Padre Jesuino trouxe também para a sua companhia 
os seus irmãos José Luiz e Francisco do Monte Carmello e 
a sua irmã Maria, que foram por elle creados e educados, e 
tornaram-se pessoas úteis á sociedade. Na sua casa todos 
eram bem vindos, principalmente os pobres, que sempre en- 
contravam nella conforto e agasalho. 

Dos três filhos do Padre Jezuino, dois, Simão e Elias, 
também receberam ordens sacras e foram bons sacerdotes, es- 
pecialmente o Padre Elias, que foi um santo varão e morreu 
velho, sempre gosando da maior estima e veneração do povo 
Ytuano, por suas virtudes evangélicas e pela pureza de seus 
costumes. O terceiro filho, Eliseu, casou-se e foi sempre o 
auxiliar de seu pai como pintor e esculptor, e notabilizou-se 
pela sua extraordinária voz de baixo profundo ; nunca nas 
egrejas de Ytú se ouviu voz mais grave, mais sonora e pro- 
funda. 

Padre Jesuino emprehendeu a construcçào da Egreja do 
Patrocinio, pedindo esmolas ao povo e trabalhando elle e 
seu filho Eliseu com a perseverança, dedicação, economia e 
zelo, com que trabalha quem edifica uma casa para a sua 
residência ou constróe uma machina com a qual espera ganhar 
uma fortuna. Entretanto, estes dois- homens nada esperavam 
receber neste mundo em recompensa de tanto trabalho. 

Padre .Jesuino organizou, elle mesmo, a planta da sua 
egreja e executou-a tal e qual como existe até hoje. Tudo 
quanto ali se vê de architectura, esculptura e pintura, é 
obra exclusiva destes dois bravos homens, que se não tives- 
sem vivido em Ytú naquelle tempo de tanto obscurantismo, 
seriam celebres architectos e grandes mestres das bellas artes. 

Em 1817 concluiu-se a obra e preparou-se a inaugu- 
ração para o mcz de novembro. Padre Jesuino deixou então 
o esco})ro de esculptor com que tinha feito as imagens pre- 
cisas para o templo, o pincel com que tinha feito as pin- 
turas e quadros, e o compasso do architecto, tomou a penna 
e escreveu todas as musicas necessárias para a festa da Se- 
nhora do Patrocinio. 



— 460 — 

Este homem, que nunca tivera um mestre de musica 
que lhe desse algumas lições de contraponto, escreveu as 
musicas para novenas, vésperas, matinas solennes, te-deum 
laudamus, pangelingua e missa solenne a dois coros, que 
foram executadas nas grandes festas da inauguração, com 
applausos dos melhores mestres de musica da Capital, entre 
os quacs figurava André da Silva Gomes, compositor muito 
estimado naquelle tempo, professor publico de latim e rhe- 
torica, em S. Paulo e membro do Governo Provisório de 
1821-22. 

Depois compoz todas as musicas precisas para as festas 
da Semana Santa, com matinas de quarta, quinta e sexta- 
feira, musicas que até hoje ainda são cantadas nessas festas. 

O escriptor e poeta portuguez Emilio Zaluar viajou em 
S. Paulo em 1858, mais ou menos e nas suas impressões de 
viagem, que publicou em jornal do Rio, disse o seguinte : 
- . «Em Ytú ha o templo da Senhora do Patrocinio, de es^ 
« tylo gothico que attrahe a attenção do viajante pela sua 
c belleza e elegância ; nenhum viajante deve deixar de vel-o.» 

Em 1862, mais ou menos, quando eu residia no municipio 
de Campinas, o finado senador mineiro dr. Firmino Rodrigues 
Silva, que foi jornalista notável e um dos luzeiros do par- 
lamento brazileiro, foi a Campinas em viagem de recreio. 
Depois de estar dois dias em minha fazenda, levei-o para 
Ytú, e como não houvesse ainda estrada de ferro fizemos a 
viagem em troly. Caminhamos, pois, sete léguas no mesmo 
assento e muito conversamos durante a viagem, que durou 
quasi todo o dia. Então tive occasião de contar-lhe a historia 
da construcção da Igreja do Patrocinio e repeti-lhe o que 
desse templo dissera o poeta Zaluar. 

«Pois quero ver esse templo amanhã», me disse elle. No 
dia seguinte lá fomos ; estava a egreja aberta, mas deserta 
porque a missa do dia já tinha sido dita. O senador entrou, 
parou em baixo do coro e em silencio examinou e observou 
tudo por muito tempo ; seguiu depois, vagarosamente, até a 
capella-mór, continuou a observar todo o interior do templo 
e voltou a encontrar-se commigo. Então lhe disse eu : 
— «Senhor senador, o que acha? Zaluar tem ou não razão 



— d6i — 

«no que disse desta eg-reja ?» — Não tem razào, me respon-»> 
«deu senteuciosamente, «isto nunca foi estylo gothico.» 

«Então que estylo tem ?» perguntei-lhe eu. — «Nenhum, 
«me replicou elle ; não é gothico, nem dorico, nem corin- 
«thio, não tem estylo algum conhecido ; porém, é nisto mes- 
«mo que está o seu grande mérito, E' um parto sui generis, 
«um estylo original, que sahiu da cabeça de um artista, que 
«não conheceu systema alguma de arehitectura, mas que tinha 
«na cabeça o ideal da arte. E' um templo digno de ver-se 
«pela sua elegância e originalidade.* 

Em novembro próximo passado estive em Ytú e pas- 
sando pelo largo do Patrocinio, notei que a Igreja estava 
com uma fachada inteiramente nova e elegante ; gostei de 
vel-a assim renovada. Notei também que faziam-se obras 
interiores ; entrei e vi que tinham sido tiradas aquellas bo- 
nitas Golumnas, que em distancias regulares subiam unidas 
ás paredes até certa altura, onde serviam de pedestal ou 
pontos de apoio para os arcos, que atravessavam o espaço 
de uma columna a outra, fingindo sustentarem o tecto com 
os seus grandes zimbórios. Eram exactamente aquellas co- 
lumnas, aquelles arcos e zimbórios que davam ao templo a 
elegância interior e a originalidade qne tanto impressionaram 
o poeta Zaluar e o senador Firmino Silva. Fiquei contrisf 
tado e sahi logo, maguado pela ideia que o- templo ia ser 
todo reformado e desappareceria para sempre o monumento 
■que attestava que em Ytú houve um homem de génio artis- 
tico <que linha uma grande cabeça, assim como um grande 
-coração e grandes virtudes. 

Se havia necessidade de fazerem-se columnas de tijolos, 
•que armassem as paredes, deviam fazel-as, porém, sempre 
recollocando as antigas columnas nos seus logares, unidas as 
paredes de maneira a ser conservado o mesmo original estylo 
■de arehitectura. Não sei si assim se fará, mas será um cri- 
me de lesa-arte e de lesa tradicção se o não fizerem. A 
-capella-mór não tinha ainda sido tocada, e se fôr conservada 
será isso uma attenuante ao delicto da destruição das obras 
primitivas do corpo da Igreja. Os bons Ytuanos, amigos da 
sua terra e zeladores das suas honrosas tradicções, deviam 



— d62 — 

intervir e obter de quem dirige as novas obras que deixe 
ao menos a capella-mór intacta, afim de que por ella se 
possa julgar o que foi a primitiva Igreja do Patrocinio do 
Padre Jezuino, esse monumento immorredouro do seu génio 

artistico. 

O filho Padre Simão, que conservou aquella Igreja até 
depois de 1850, guardava com amor filial tudo quanto fora 
obra de seu pai, e tinha bem conservadas todas as mu- 
sicas de sua composição. Não sei quem foi seu herdeiro, 
nem. onde param, nem se ainda existem as differentes peças 
de musicas próprias para as grandes festas que outrora se 
celebravam naquelle templo. 

Ha cerca de vinte e cinco annos tive occasião de per- 
guntar ao finado Manoel José Gomes, pai do grande maestro 
Carlos Gomes, o qual fora amigo e admirador do Padre Je- 
zuino e todos os annos ia a Ytú tocar o primeiro violino 
naquella festa, se conservava alguma das musicas compostas 
pelo Padre Jezuino. Respondeu-me que as tinha todas e 
as conservava com grande cuidado, e que algumas vezes 
ainda se entretinha tocando em sua rabeca longos trechos 
dessas musicas de tão saudosa recordação. E' possível que 
os seus filhos, Carlos Gomes e Sant'Anna Gomes, as conser- 
vem e tenham nellas feito os seus primeiros passos na subli- 
me arte de Verdi e Mozart. 

Como já disse, a casa de morada do Padre Jezuino era 
uma espécie de cenóbio, onde viviam alguns padres e outros 
aggregados á familia Monte Carmello ; era também o logar 
de rendez-vous diário de outros padres e de muitos amigos. 
Naquelle tempo havia em Ytú muitos padres ; não desses 
que se ordenam por ofíicio, mas por vocação natural e desejo 
de bem servir a humanidade, segundo as suas crenças reli- 
giosas. Eram esses padres quasi todos filhos dos mais abas- 
tados e aristocráticos fazendeiros, entre os quaes preponderava 
a ideia que toda a familia nobre devia ter um filho no exer- 
cito e outro no aVar. Os padres frequentadores do cenóbio 
patrocinista eram desse género. Ytú tinha então cerca de 
vinte e cinco padres, filhos do logar e quasi todos notáveis 
por suas virtudes. Citaremos os nomes de alguns : 



— 465 - 

O franciscano Frei Ignacio de Santa Justina, pertencente 
á familia Silveira, era intelligente, tinha estudos profundos 
de philosophia theologica e foi lente dessa matéria em um 
convento do Rio de Janeiro. Este foi o professor do grande 
orador sagrado Monte Averne, que, quando por sua vez tor- 
nou-se professor da mesma matéria no mesmo convento, fre- 
quentemente citava com respeito; nas suas preleções, as 
opiniões do seu mestre (<'frei Ignacio de Santa Justina, que 
ainda vive em Ytiiy>, accrescentava elle). Referiu-me este 
facto o dr. José IManoel da Costa Bastos, natural $.ã cidade 
de Campos e antigo discipulo de Monte-Alverne. O Padre 
Arrudinha era tão virtuoso que passava por santo ; era 
tal a fama de suas virtudes que ao descer o seu cadáver 
ao fundo da sepultura, o povo julgou ver esta toda 
illuminada ; a noticia espalhou-se e foi geralmente acredi- 
tada, f a tradicção deste milagre existe até o presente. O 
Padre João Leite Ferraz, ou de Sampaio, era conhecido pelo 
appellido de Padre Sargeiíto-mór^ porque tinha sido sargen- 
to-mór de milícias, casado e fazendeiro rico ; mais tarde en- 
viuvando e sabendo seu latim (como quasi todos os fazendeiros 
de Ytú), ordenou-se e foi um sacerdote exemplar. O Padre 
António Joaquim de Mello foi homem de intelligencia su- 
perior, tornou-se bispo de S. Paulo em 1851, voltou a resi- 
dir em Ytú e alli morreu em 1861. O Padre José Galvão 
de França foi um -cidadão distincto e bom sacerdote. O 
Padre Francisco Pacheco, que, sendo fazendeiro rico, orde- 
nou-se, deu tudo quanto possuia em esmolas e morreu pobre. 
O Padre Manoel Floriano era filho do celebre capitão mór 
Vicente da Costa »Taques Góes e Aranha e pertencia a alta 
fidalguia paulistana; dedicou-se ao ensino da lingua latina 
e prestou serviços a sua terra natal. O Padre M 
da Silveira tanto exagerou as virtudes religiosas que 
inutilizou -se, fazendo-se anacoreta e cahindo em verdadeiro 
nervosismo mystico ; encerrou-se em um quarto do cenóbio, 
onde passou vinte e tantos annos sem dirigir uma só 
palavra a alguém e sem responder a quem a elle se dirigia, 
excepto ao Padre Elias, filho do Padre Jesuino, que era a 
única pessoa com quem falava, em cuja companhia rezava 



os officios divinos e ia ouvir missa na vizinha Igreja do Pa- 
trocinio : os padres António Félix, Jeronymo Rodrigues e 
outros excellentes sacerdotes que foram padres de coração e 
não de offieio. 

Ainda a este mesmo admirável gru} o pertencia o Padre 
Diogo António Feijó, depois senador e regente do Império; 
o qual já nesse tempo não se limitava ao estudo da philo- 
sophia theologica, mas ensinava a philosophia kantiana e 
outras matérias, e já era dos que no Brazil mais conheciam 
n sociologia. Com o mesmo ardor com que propagava a 
■doutrina christã dedicava-se ao direito publico, e juntamente 
com o finado senador Paula Souza preparava os Ytuanos para 
a revolução de 1822, na qual teve grande parte como con- 
selheiro e assessor da camará municipal de Ytú. 

Eram ainda desse tempo os padres Francisco Leite Rir- 
beiro (meu tio avô) e Melchior de Pontes Amaral, homens 
virtuosos e intelligentes que, em falta de bacharéis, se deram 
ao estudo da jurisprudência e á pratica da advocacia ; o Padre 
Campos, ex-jesuita, que á sua custa edificou o antigo semi- 
nário, com uma boa capella, e por testamento legou-o á ca- 
mará municipal para que delle fizesse uma instituição de 
ensino popular — condição esta que não foi realizada, porque 
em vez de um estabelecimento de instrucção popular e demo- 
crsAiica,, aquelle seminário está transformado em collegio dos 
padres jesuitas, onde o ensino é todo privilegiado, sectário 
e aristocrático ; e, finalmente, o Padre António Pacheco da 
Silva, que será o objecto de um estudo especial, em outro 
artigo. 

Morto o Padre Jesuino, foi o seu cadáver enterrado no 
convento do Carmo ; alguns annos depois foram os seus ossos 
trasferidos para a Igreja do Patriocinio. Por occasião dessa 
transladação, o Padre Diogo Feijó recitou uma oração fúnebre, 
que é um documento curioso e importante e vai adiante trans- 
cripto. Nesse discurso disse Diogo Feijó que quem falava 
com o Padre Jesuino ficava desde logo, como elle ficara, sub- 
jugado, como que magnetizado, e desejava sempre vel-o e 
ouvil-o ; seu olhar, sua voz, seus gestos eram attrahentes : 
sem ter instrucção philosophica, subia ao púlpito e discorria 



— 465 — 

sobre um ponto qualquer de religião ou de moral de modo 
que prendia a attenção dos ouvintes, porque as suas palavras 
sabiam do coração e eram a expressão do que elle sentia em 
sua consciência, exprimiam o mais fino bom senso e uma santa 
philosophia, que lhe era natural e não recebida dos livros. 
Erasmo, o g-rande philosopho hollandez, ao acabar a lei- 
tura do Tusciilanus, de Cicero (que foi a maior intelligencia 
da antiguidade, segundo a opinião do Padre Ventura de Rau- 
lica), exclamou : — « Este livro parece que foi dictado pelo 
próprio Deus ! » Eu creio que o Padre Feijó podia accrescen— 
tar a exclamação de Erasmo ao que acima referi e dizer que, 
se o Padre Jezuino era assim, foi porque as suas palavras 
eram inspiradas pelo próprio Deus. 

S. Paulo, agosto de 1895. 



Oraçann fúnebre W 

Pregada pelo Padre Diogo António Feijó no aniverçario 
do Padre Jezuino do Monte Carmelo, em ocasiam que se mu- 
daram os osos do mesmo do convento do Carmo para a Igreja 
da Senhora do Patrocino, a 2 de junho de 1821. 

Non recedit memoria cjus — Ecle?°. 

« Seu nome nam cairá jamais no esquecimento. 

O malvado, que aproveitando-se das circunstancias favo- 
ráveis aos seus designeos, tem espalhado a fama de suas 
açoins, e de seo nome, parece disputar ao justo o privilegio 
da imortalidade. 

O Eróe, que o mundo aplaude, quando era bem credor 
de sua execraçam, que de ordinário eleva o edifício de sua 
gloria sobre a ruina de seos semelhantes, atráe comtudo quazi 
sempre os elogios, e a admiraçam do seu século : a posteri- 
dade parece empenhada em guardar a memoria de seos fei- 
tos, e seu nome. Mas que diferença entre a memoria do 
justo, e do que o nam é ! O primeiro é lembrado com dor. 



(i) Este discurso foi publicado em folheto ha muitos annos, sendo a tiragem 
pequena e distribuida entre os amigos do finado. Está exgottada a edição, con- 
stando que ha um exemplar na bibliotheca da Academia. (N. da R.) 



— 466 — 

e saudade : o segundo com orror, e indignaçam ; um é sempre 
lembrado para ser objecto de respeito, e imitaçam, outro é 
apontado algumas vezes somente, e para vergonha, e confu- 
zam do impio e do insensato. 

Meos Senhores, eu nam venho neste lugar santo conça- 
grar louvores a um Eróe, em quem a religiam tem reconhe- 
cido o cunho da santidade. A cadeira da verdade veda ao 
orador christam, arriscar esse tributo da Justiça ao omem, 
que nam tem a seu favor os votos do Universo ; mas a vir- 
tude tem seos gráos, e a religiam nam proibe fazer soar em 
seos templos a voz do amor, da gratidam, e da saudade. 

O Padre Jesuino a dois annos caio no seio da morte ; 
seos dias foram cortados de repente ; elle desappareceu de 
entre nós. Esta fatalidade ainda é para nós um sonho ; não 
podemos crer, que tal homem nos fose roubado, mas é ver- 
dade que o foi ; porem a sua memoria nam o será ; seo 
nome nam cairá jamais no esquecimento. O amor, a sau- 
dade, e a gratidam todos os dias nol-o farão reviver. 

Senhores, aproveitemos esta lembrança, facamol-a fru- 
tífera, tornemos proveitosos nosos sentimentos, e tomando por 
modelo suas virtudes aprendamos igualmente a conhecer a 
triste sorte das couzas do mundo. Este é o meo destino, e 
o objeto de vossa atençõens. 

Meos senhores, o reconhecimento nam é um rezultado da 
cultura do espirito, é um sentimento inato ao omem, seja 
qual for o seo estado. Todos os povos em todas as edades 
tem apresentado brilhantes exemplos desta verdade. Quanto 
mais seus Eróes se tem asinalado pelas virtudes sociaes, 
mais tem sido credores de suas lagrimas, e seos elogios. 

Monumentos de gloria se tem erigido á sua memoria ; 
ritos diferentes se tem inventado para simbolizar a grati- 
dam, e transmitir á posteridade este tributo do mérito, e da 
justiça. E' verdade que o tempo, estragador de tudo, tem 
muitas vezes querido confundir as cinzas do justo com a do 
imjíio ; tem-se queimado incenço tanto sobre o tumulo do 
virtuozo como do malvado. A vil adulaçam tem em dife- 
rentes épocas levantado seo trono a par da verdade ; mas 
aquella não tem podido sustentar estes direitos uzurpados ; 



— d67 — 

quando esta, surgindo por entre o erro, tem recebido o res- 
peito, e a adoraçam de todos os séculos. 

Nosos louvores, tam puros oje como nosos sentimentos, 
nam sam extorquidos, sam livres, ainda que arrancados pela 
força do amor, e da gratidam. Quem averá de entre nós, 
que nam tenha retratado vivamente em sua memoria os 
primeiros pasos daquele Eróe raro ? Aquele engenho vivo, 
penetrante, e atilado, talhado para melhores tempos, e que 
nasido em outra época mais feliz para a cultura das Artes, 
seria capaz de propor modelos originaes ao gosto, e ao belo. 

Senhores, a quem se deve o brilhantismo de vosa pátria ? 
Quem espalhou entre vós tantos monumentos dessa arte 
encantadora, que imortaliza os Eróes, que salva do esque- 
cimento tantos personagens ilustres, dando-lhes uma espécie 
de vida, fazendo-os inda mesmo em sombra objectos de 
imitaçam, e de respeito V 

Na Província inteira, e inda muito alem, chegam, com 
a fama de seo nome, as obras de seo génio. Ele tem sido 
o credito de sua pátria, a honra da Província, a gloria, e 
as delicias dos Ytuanos. A muitos anos voso nome é pro- 
nunciado com respeito, e com inveja : éreis, e ainda sois 
apontados como a primeira vila, onde a magestade do culto, 
a pompa das festividades, o esplendor dos templos dam a 
conhecer voso carater de religiam, e de grandeza. 

A quem deveis esta gloria senam áquelle, cuja memoria 
saudoza desperta hoje nosas lagrimas ? Nasido para orna- 
mento da Igreja, seos cuidados, seos disvelos, todo o seo 
gosto foi ornar os templos, fazel-os respeitáveis, inculcar a 
magestade do lugar santo pelos objectos tocantes, que seo 
zelo, e sua piedade faziam neles depositar. 

Aquela arte divina, de que ele possuía os segredos, e 
que manejavam com tanta destreza, tem asinalado os dife- 
rentes períodos de sua piedade para com Deus, e de seo 
amor para convosco. Mil vezes retumbaram em vosos tem- 
plos sonoros ecos de suáveis cançoens, que nos representa- 
vam ao longe esse prazer, com que o Senhor tem de ine- 
briar seus escolhidos ; que elevam o espirito, e num santo 
entuziasmo faziam-nos gozar de antemam das doçuras da 



168 



Pátria dos Anjo«. Mil vezes sua voz acompanhou a produ- 
çam de sua pena ; e combinada a devoçam com a melodia, 
o olhasteis como a jóia de mais preço, que entam posuieis, 
o considerasteis como o mais firme apoio de vosa pátria. 

Por toda a parte se espalharam monumentos de seos 
talentos, e de suas virtudes. Quantos imitadores nam dei- 
xou ele ? A uns foi motivo de emulaçam, a outros objecta 
de imitaçam. 

Senhores, o Padre Jezuino, com o bom gosto, introdu- 
ziu estas maneiras doces, e attrativas, que umanizam os 
ômens, e que os tornam mais sociaes. Este carater duro,. 
e austero, filho da probidade, mas que ao longe vos tornava 
suspeitozos, modificou-se. A invençam, e a piedade daquele 
sacerdote mil vezes chamaram ao voso paiz os povos cir- 
cumvizinhos. Vistes com prazer anualmente vosas casas ata- 
cadas de ómens desconhecidos, mas tornados vosos irmaons, e 
amigos, prezos pelos laços da gratidam. Aumentaram-se 
vosas relaçoens ; o commercio prosperou ; a civilizaçam 
adquiriu um auge considerável. Todos quantos aqui entam 
nos achávamos desconheciamos vosa pátria ; a alegria trans- 
bordava em vosos coraçoens ; invejamos a vosa sorte ; e 
sendo tudo devido ao Padre Jezuino, o Padre Jezuino por 
si só era a festa, era a mola real do prazer, a pedra pre- 
cioza, que reflectia a nosos olhos, e que formava as delicias 
dos que o conheciam. 

Na verdade, senhores, eu não sei que tinha aquelle 
semblante de amável, e lisongeiro, que atraia, cativava, e 
docemente arrebatava os que o viam. Eu mesmo, a pri- 
meira vista, senti os efeitos deste encanto. Eu me nam 
fartava de vel-o, de ouvil-o, de estar em sua companhia. 
Eu contava por uma feli.iidade ter parte em seu coraçam. 
Este fenómeno raro nam foi encontro de amor, ou inclina- 
çam ; foi uma necesidade de admirar, e amar a inocência, e 
a virtude. Todos que o tem visto, que o tem tratado, 
tem sido obrigados a sentir iguaes efeitos. 

Vós, que tivestes a dita de o conhecer, nam estaes 
como ainda vendo aquele rosto amável, e sereno, onde se 
achavam retratadas a inocência, e a alegria, companheiras 



— 169 — 

inseparáveis da virtude ? Aquele ar modesto, e carinhozo, 
aquela gravidade de semblante, aquelas maneiras respeitozas 
que formavam seo carater ainda no meio das graças ino- 
centes, com que ele fazia interesante, e ao mesmo tempo 
gostoza a sua companhia ? 

A ! E que umildade tam rara em nosos dias ! No 
seo conceito ele era o mais criminozo dos ómens ; nem uma 
açam fazia que para ele nam fosse um crime ; um pensa- 
mento ligeiro era uma temeridade ; a lembrança de um 
pecado era para ele já um delito. Se ele conhecia alguns 
dotes com que a natureza o enriquecera, ele ignorava abso- 
lutamente as belas dispoziçoens, que tinha para a virtude. 

Parece que asas ambiciozo de amar o Autor de todo o 
bem, interesado somente em agradal-o, ele nam descobria 
em seo coraçam senam a semente da discórdia, que S. Pau- 
lo notava entre as leis do corpo, e as do espirito. Sempre 
asustado de sua fraqueza, ele jamais se considerava seguro 
na marxa perigoza da vida ; rodeado de caxopos, onde po- 
dia naufragar a inocência, a vista do perigo que ele vale- 
rozamente afrontava, parecia-lhe ter sucumbido. Tal era a 
delicadeza de sua consciência ; tal era o temor com que ele 
servia ao Onipotente. 

Que trabalhos nam sofreo, que encomodos nam experi- 
mentou, quando a sombra do pecado parecia nublar suas 
intençoens ? Que sustos ! Que temores ! Quantas vezes 
nam o vistes como um criminozo errante, e fugitivo, marxar 
a pé, a procurar com sagaz prudência aqueles médicos do 
espirito, que tinham em seo abono os votos do publico ? 
Nada era capaz de impedil-o, nem mesmo retardal-o a 
aprezentar-se aqueles Ministros da Religiam a quem tinha 
confiado os segredos, e a direçam de sua consciência. 

Cristàons, vós bem sabeis que ele nada empreendeo que 
nam fose para agradar ao Soberano Benfeitor ; que todas 
suas açoes se dirigiam a cumprir a lei do creador, e para isto 
como vivia ele dezapegado do mundo ! Como nada era capaz 
de prendel-o a estes bens falsos e caducos, que cegam tanto 
aos mortaes ? Uma pobreza voluntária, e verdadeiramente 
evangélica foi a máxima constante aprendida na escola do 



Salvador, aue dentro do mundo o conservou separado do mes- 
mo mundo, vós bem o sabeis. 

A ! E o que direi cu de sua caridade ? Senhores, ainda 
que ao Padre Jezuino faltasem estes conhecimentos, que fa- 
zem oje a gloria do século, ele posuia os segredos da verda- 
deira sabedoria. Ele nam sabia falar esta linguagem de 
erudiçam, e ordinariamente de vaidade ; mas ele sabia obrar 
como íilozofo. Ele nam poderia entrar nas questões espinho- 
zas da ciência sagrada ; mas ele conhecia perfeitamente a 
religiam, e a praticava. A caridade, portanto, era sua má- 
xima ; este principio, de uma extenção infinita, o ligava com 
todas as series de entes do Universo. Ele se considerava 
feito para todos. 

Eis aqui, meos Senhores, o momento em que eu exijo 
voso reconhecimento. A gratidam demanda a confisam de 
tantos benefícios. 

O Padre Jezuino aparece neste periodo de sua vida nam 
já como um simples ómem, gozando as vantagens da socie- 
dade, apenas ocupado no pequeno recinto de sua casa, em- 
penhado nos intereses de sua familia. Verdadeiro filantropo, 
as máximas sagradas do cristianismo dam uma firmeza ina- 
balável as propensoens sociaes de seo espirito. Ele aprezen- 
ta-se qual Apostolo, esquecido somente de si, e de seos có- 
modos, tendo somente diante de seos olhos a cauza de Deos, 
e a vosa salvaçam. 

Cadeira da verdade, depõe quantas vezes, tomado de um 
santo entuziasmo, levantou ele a voz para deprimir o vicio, 
para atropelar as paixoens radicaes, que sam a origem fu- 
nesta de tantos males. Mil vezes aprezentou-vos o Evan- 
gelho dezenvolvido pelos oráculos da religiam. A doutrina 
de Jesus-Cristo vos foi pregada com força, e com clareza. 
Mil vezes vos abrio o quadro horrível da ira do Onipotente 
para pordes termo a vosos errados projectos. 

Quantas vezes nam o vistes sentado no sagrado Tribu- 
nal da Penitencia, julgando as conciencias ? Com que pron- 
tidam, ao mesmo tempo com que zelo, com que temor se nam 
empregou ele sempre neste importante, custozo, e arriscado 
ministério ? Quantos pecados se nam diminuíram, quantas 



— 471 — 

conversoens se nam devem a sua caridade V A quem se deve 
este graudc numero de verdadeiros cristãons, que frequentam 
vosos templos, que fieis a seos deveres aprezentam em par- 
ticular, e em publico o verdadeiro carater de Dicipulos de 
Jesus-Cristo, e que dam gloria a Igreja, exemplo aos rela- 
xados ; que diariamente aterram, e confundem os libertinos, 
sendo sua conduta uma calada repi:eençam de seos escândalos, 
e da vergonhosa dezerçam, que tem feito das bandeiras do 
Crucificado ? 

O Padre Jezuino pode bem xamar-se o patriarca destas 
creaturas convertidas, desas almas fervorozas, que em tempos 
nam felizes seram com melhor justiça avaliada. 

Quantos, que jazem oje no seio da morte, nam experi- 
mentaram sua caridade nos últimos momentos, sempre acom- 
panhados do enjoo, e do desprezo, ainda dos mesmos domés- 
ticos ? Quantos nam foram socorridos por sua diligencia, 
quando lutando com a pobreza, miseráveis, apenas faziam 
xegar a seos ouvidos o surdo, e fastidioso éco da necesidade ? 

Senhores, por quantas maneiras diferentes nam procurou 
ele dezenvolver sua caridade, que disençoens nam terminou, 
que ódios nam aplacou, que lagrimas nam enxugou ele ? 
Quantos infelizes nam encontraram nele o remédio, ou a 
consolaçam no meio de suas desgraças ? 

Este ómem incançavel, ativo, laboriozo, procurou em 
toda sua vida reunir a virtude á magnificência : sua pru- 
dência engenhosa vos conduzio, sem atenderdes, jjor caminhos 
sempre suaves á fins de alto interese. 

Este templo é um dos monumentos de sua piedade e 
devoçam. Todo ele pode bem dizer-se é obra de suas maons. 
A ! E que fins ele se propoz ! Ser louvada a magestade do 
Onipotente de um modo mais digno da Divindade, e atrair- 
vos pelo culto externo á verdadeira devoçam ; xamar-vos 
pela pompa das solenidades, que ele empreendia aprezentar 
neste lugar santo, a entrardes nos verdadeiros sentimentos da 
religiam que profesaes. A gloria de Deos, e a vòsa utili- 
dade foram sempre a mira de suas açoens, e projectos. 

Mas, senhores, este ómem raro, este sacerdote zelozo, 
este Pai da jiatria, vosa riqueza, vosa consolaçam, [e vosar 



gloria, terminou seus dias. Quando todos nós descuidados 
nam lembrávamos que ele estava sujeito ao império da mor- 
te, quando alegres contávamos com uma vida salva dos pe- 
rigos, que nos tinham sete mezes antes ameaçado roubal-a ; 
quando todos descançavamos seguros á sombra do bem que 
gozávamos. O ! Providencia adorável ! A morte disfarçada em 
um sono benigno, iludindo nosos disvelos, repentinamente alsou 
a fatal foice, e roubou-nos para sempre tam preciosa vida. 

Cadaum de nós perdeo um amigo. Cada familia perdeo 
um pai. Esta povoaçam perdeo um protetor. O rico sen- 
tirá sempre a falta de um ecónomo que o obrigue a fazer 
justa distribuiçam de seos bens. O pobre lamentará sempre 
a auzencia de um bemfeitor ; sua mesma mizeria cada dia 
fará mais saudoza sua memoria. 

Morreo, senhores, mas nam sentio as agonias do crimi- 
nozo ; nam experimentou o remorso, que dilacera o culpado ; 
nam sofreo o xoque terrível, partilha do pecador. Pagou o 
indispensável tributo imposto a espécie umana; mas o Deos 
a quem elle amava, e a quem soube servir, o izento dos or- 
rores inevitáveis a tam doida separaçam. Nosas lagrimas 
derramaram-se ; em todos os cazos os gemidos formavam a 
triste cançam, que annunciava sua orfandade ; todos entre 
suspiros quizeram ver com seos olhos, quizeram por si mes- 
mo certificar-se de tam funesta fatalidade. Todos dêmos pu- 
blico testemunho de nosa dor ; fizemos justa confiçam de 
nosa perda. 

Eis aqui, Cristãons, a sorte das couzas do mundo. O 
Ímpio, o malvado, que serve de flagelo a sua pátria ; o ci- 
dadão Ímprobo, que perturba a sociedade, este ómem vive, 
e o Padre Jezuino morre ! O ómem, que por parecer de bem, 
mas que invejozo da gloria, que nam merece, disfarça de- 
baixo de mentirozas aparências um carater detestável, que 
exaspera a indignaçam dos que sabem dar o justo * valor a 
probidade, e a virtude ; este ómem vive, mas o Padre Je- 
suino morre! O mizantropo, que nam se comunica com 
outro ómem senam debaixo das vistas do próprio interese, 
incapaz do menor sacreficio a bem da nmanidade ; este ómem 
vive, mas o Padre Jezuino morre! 



173 



Providencia de meo Deos, eu vos adoro ! 

Cristãons, o justo nam morre ; separa-se de nós por um 
castigo devido a nosos crimes, porque nam sabemos agrade- 
cer ao Céo tam caro beneficio. Ele caminha para sua pátria, 
vai receber a coroa da imortalidade ; sua memoria é eterna, 
seo nome é sempre lembrado com amor, e com saudade. 

O Ímpio, pelo contrario, se conserva para flagelo de sua 
pátria, para meter a confuzam, e a discórdia na sociedade, 
para gerar mil descontentes, para fazer-nos, porém, aborrece- 
dores deste caos sempre confuzo, deste teatro de paixoens, e 
de mizerias. Sua vida termina-se com a alegria dos que o 
detestam ; sua memoria sepulta-se no mais ignominiozo es- 
quecimento ; e se é lembrado pelo estrondo de suas infâmias, 
é só para orror, e execraçam. 

Ali está o exemplo : Aqueles osos sam os restos do Pa- 
dre Jezuino, sam pó, sam nada ; mas para nós sam uma pre- 
ciozidade, nós os respeitamos. 

Ali vemos os últimos despojos de um irmam, qne nos 
ajudava ; de um pai, que ternamente nos amava ; de um ami- 
go, que fazia nosa consolaçam ; de um sacerdote que nos 
conduzia pela estrada da virtude com a voz, e com o 
exemplo. 

Sua memoria nos será sempre saudoza. E vós, colunas 
deste templo, paredes do santuário, que sois oje testemunhas 
de nosos louvores, e ainda de nosas lagrimas, guardai para 
transmitir á posteridade as ilustres açoens deste sacerdote ; 
contai a cada ómem, que aqui entrar pela serie nam inter- 
rompida dos séculos, que nós somos gratos a seos benefícios, 
que fazemos justiça a seos merecimentos, e que temos dado 
o exemplo da mais nobre gratidam. 

E vós, sepultura feliz, conservai com cuidado esa jóia 
precioza, que nós vos confiamos ; aqui viremos, nosos olhos 
repetidas vezes voltar-se-am para vós com respeito e com 
saudade ; todos os dias nós, e nosos vindouros vos pediremos 
conta dese caro penhor, que ai depozitamos. Sereis de oje 
em diante o memorial perene dese ómem raro, cujo nome. 
cujas açoens, cujas virtudes eternamente estaram gravadas em 
nosa memoria. 



— 174 — 

E vós, Senhores, a quem o amor, a gratidam, e a sau- 
dade juntaram neste lugar santo á prestar os últimos ofícios 
de religiam, e umanidade ao Padre Jezuino, despedi-vos 
dele talvez para sempre ; mas emquanto viverdes orai por 
ele ; aprendei neste exemplo fatal quanto sam falsas nosas 
esperanças, que só na Pátria dos Justos devemos pôr nosos 
cuidados, e nosa confiança. Trabalhai -para serdes imitadores 
de suas virtudes ; só asim escapareis a uma morte ignomi- 
nioza, e voso nome sobreviverá a vosa ruina. 

Eu nam afirmo que ele é um santo reconhecido por 
uma autoridade legitima ; porem, foi um ómem de bem, um 
cidadão onrado, engenhozo, ábil, ativo, e laboriozo ; um cris- 
tam, que aprezenta em sua vida muitos rasgos de virtudes 
dignas de serem imitadas. Umilde, caritativo, piedoso, será 
sempre amado emquanto no coraçam do ómem nam apagar- 
se o instinto do reconhecimento, e da gratidam ; obterá sem- 
pre o respeito da posteridade, emquanto se souber avaliar o 
merecimento, e a virtude. 

Ministro do Senhor, continuai vosos sufrágios ; nós vos 
acompanharemos ; queremos ser comvosco testemunhas do der- 
radeiro áto, que em nome da Igreja ides praticar á bem desa 
alma. Nós, a borda da sepultura, atentos, pela ultima vez^ 
saudamos com nosas lagrimas os ósos dese sacerdote, que 
tanto amámos, e que mereceo tanto nosa saudade, e noso 
respeito. 



Estudo Critico 
A POSSE DO BRÂZIL MERIDIONAL 



FDIIDIKIIO DA PRIMEIRA [OIOIIIA REGDLAR DOS PDRTDGUE2ES EM í VKEHIE 

PELO 

DR. THEODORO SAMPAIO 



ARGUMENTO : Trinta annos depois do descobrimento 
do Brazil resolveu a Metrópole colonizal-o, enviando para 
esse fim em 1530-1 uma esquadra ao mando de Martim 
AíFonso de Souza, o qual correu a costa até o Rio da 
Prata, donde retrocedeu para o norte, vindo assentar a co- 
lónia em S. Vicente. 

Demonstra-se que a armada de 1530-1 não veiu, como 
opina o sr. Varnhagen, com plano assentado de colonizar o 
Rio da Prata ; que o almirante portuguez tinha amplos po- 
deres para situar a colónia onde melhor lhe parecesse ; que 
o regresso do almirante para o porto de S. Vicente não se 
motivou por haver verificado, após observações astronómicas 
dos pilotos, que as terras do Rio da Prata já estavam fora 
do dominio portuguez ; essas observações não podiam ser 
concludentes ; e que, ao contrario, sempre se julgaram os 
portuguezes, fundados no tratado de Tordesilhas, com di- 
reito não só a esse rio como ainda ás terras da Patagonia 
até o Golfo de S. Mathias ; que o que trouxe o almirante 
ao porto de S. Vicente não foi essa verificação, mas sim o 
conhecimento de que essa região era aurífera, e a fama das 
grandes riquezas existentes no interior. 



Elstudo Critioo 

I posss do Brazíl meridional. Fundação da primeira colónia regular 
dos portuguezes em S. Vicente 



Trinta annos eram já decorridos depois que Cabral, pela 
iprimeira vez, aportara ás praias brazileiras, trinta annos de 
um quasi completo abandono, quando a metrópole portugue- 
za voltou as vistas para suas possessões americanas e resol- 
"veu colonizal-as. 

Essa terra do Brasil que aos primeiros exploradores se 
•exhibira como uma terra pobre, ainda que ostentando galas 
■de uma natureza incomparável, valia, de facto, ainda menos 
que a própria Africa, adusta e inhospita. Simples terra de 
degredo para criminosos, estação de refresco para as arma- 
-las do Oriente, paiz de miseráveis feitorias para o resgate 
-de escravos ou para o trafego do lenho de tinturaria, o Brazil 
não tinha para seduzir o espirito mercantil da época nem o 
ouro, nem o marfim, nem a pimenta da Guiné, não tinha, 
tão pouco, as nações policiadas nem as praças opulentas e 
numerosas dessa índia que todo o mundo conhecia como 
uma terra de maravilhas. 

Das producções dessa terra da Vera Cruz, já visitada 
pelos Pinzons, Cabraes, Vespuccio e Coelho, as premissas 
verdadeiras não eram, de certo, para enthusiasmar um povo 
de coipmerciantes e de audazes navegadores. Vespuccio voltou 
da sua primeira viagem desenganado de que no paiz nãd 
havia metal algum, porque o povo bárbaro e nú que o habi- 
tava nem se quer conhecia o uso delle (i) Gonçalo Coelho, 
depois de muito peregrinar, regressou desilludido, porque as 



(i) Cartas de Américo Vespuccio. 



— 478 — 

mercadorias da Terra que levou, no dizer de Damião de 
Góes, nam eram outras que pau vermelho, a que chamam 
hrazil, hogios e papagaios. Jerónimo Osório, relatando os 
últimos successos dessa mesma expedição de Coelho, que vol- 
tou destroçada, tendo perdido quatro das seis náos com que 
partira, frisa pelo ridiculo quando nos dá conta do carrega- 
mento com que aquelle navegador tornou ao reino ; atque 
duas tantúm simiis in patriam reduxerit (1) Enciso ainda 
em 1518 publicava que a terra do hrazil era de pouco 
proveito. 

Foram, portanto, trinta annos de justificado abandono. 
Agora, porém, as circumstancias mudaram. O império com- 
mercial dos Portuguezes no Oriente estava fundado ; a mi-, 
ragem da índia ia se dissipando e a America, por tantos 
annos, confundida com a própria Ásia (2) desenhava-se já 
como um mundo á parte, opulento, vastíssimo e encerrando 
cousas extraordinárias. 

Os successos dos Castelhanos no Novo Mundo frisavam 
pelo maravilhoso e despertavam a emulação. 

O México, esmagado por um punhado de aventureiros? 
entregara a Fernando Cortez os thesouros de Montesuma ; 
uma civilização autocthone exhibia-se extraordinária no Cen- 
tro- America e nos planaltos de Bogotá e Cundinamarca ; no 
Peru, o império Inca, accommettido pelos Pizarros e Alma- 
gro, estava excitando a cobiça do mundo inteiro ; Fernão de 
Magalhães descobrira já no extremo austral essa passagem 
para o Mar do Sul que tem o seu nome e fizera a volta do 
globo. 

Do estreito de Anian á Terra do Fogo, do cabo de Santo 
Agostinho á Califórnia, uma plêiade de navegadores auda- 
zes tinha feito surgir nitidamente esboçados os contornos de 
um continente enorme abarcando o mundo de pólo a pólo. 



(i) J. Osório, De Rebus gestis Emmanelis. 

(2) Até 1513 quando Balboa descobriu o mar do Sul ou Oceano Pacifico se 
presumia a America como um prolongamento da Ásia. Colombo, fallecido em 
I505, não logrou verificar que tinha descoberto um mundo novo. 



-^ 479 — 

As expedições marítimas e terrestres succediam-se a 
miúdo. Estava se, com effeito, n'um periodo febril, caracte- 
rístico das aventuras bem succedidas. 

No horizonte ignoto de todas as solidões sentia-se como 
que pairar uma lenda de riquezas fabulosas ; e no coração 
de cada aventureiro aninhava-se o vago presentimento 
dessa fortuna, sempre a mesma, sempre captiva da audácia, 
aguçando todas as ambições. 

Foi então que a politica portugueza, como que levada 
pelo estimulo que o successo alheio aguça até o ciúme, re- 
solveu occupar e povoar o Brazil. Esta terra, por tão lon- 
gos annos abandonada, bem podia encerrar o seu império 
como o de Montesuma, e talvez, quem sabe, se não seria 
mais fácil accommetter o Inca do Peru, investindo-o pelas 
costas brazileiras ? 

E assim pelos annos de 1530 e 1531 singrava os mares 
do Brazil uma expedição portugueza de cinco velas e 400 
homens de tripulação ao mando de Martim AíFonso de Sousa 
para iniciar a colonização das possessões americanas. Trazia 
ella por missão : explorar, proteger e colonizar. 

Ao avistar as terras da America na altura do Cabo de 
Santo Agostinho, segue uma parte da expedição ao mando de 
Diogo Leite a explorar as costas do Norte até o Maranhão, 
emquanto o grosso da esquadra, ja augmentada com as náos 
intrusas, capturadas a traficantes francezes, dirige-se para o 
Sul, caminho do rio de Santa Maria ou rio da Prata. 

Na Bahia, onde encontra o Caramurú como um patri- 
archa, deixa alguns homens e sementes para provarem a capa- 
cidade da terra. 

No Rio de Janeiro onde se deteve três mezes, e porque 
sua missão era conhecer o paiz, fez o almirante partir para o 
interior uma turma de exploradores «que foram cento e 
quinze léguas e as sessenta e cinco delias furam por monta- 
nhas mui grandes^ e as cinc?enta foram por um campo inui 
grude: e foram até darem com um grande rei^ senhor 
de todos aquelles campos, e lhes fez muita honra e veiu 
com elles até os entregar ao capitam J. ; e lhe trouxe 
milito cristal, e deu novas como no rio de Paraguay havia 



— leo — 

muito ouro e prata. O capitam lhe fez muita honra, e lhe deu 
muitas dadivas e o mandam tornar para as suas terras. (1) 

Estava, pois, o Capitão de posse de uma informação va- 
liosa e ao sabor dos seus intuitos ; sabia já que para as re- 
giões centraes ao Sudoeste havia muitos metaes preciosos. 

A informação corrobora-se ainda em Cananéa onde a 
expedição foi aportar e se demorou quarenta dias. Ahi se 
lhe apresenta um certo Francisco de Chaves, grande lingoa 
da terra e conhecedor de sertões, offierecendo-se-lhe para 
guiar uma expedição ao interior a qual podia ir e vir em 
dez mezes e tornar ao porto com 400 escravos carregados 
de prata e ouro. Não havia mais duvidar; a noticia dessas 
riquezas já vinha de longe ; as informações colhidas confir- 
mavara-se, e, já agora, essa terra de fabulosas riquezas não 
era mais um mytho ; havia já quem a conhecesse de perto 
e se offerecesse para mostral-a. 

Uma expedição de 40 besteiros e 40 espingardeiros, 
commandada por Pêro Lobo e guiada pelo aventureiro Chaves, 
partiu então de Cananéa a 1 de setembro de 1531 e entra- 
nhou-se pelos sertões a busca dessa região do ouro e da prata, 
do Peru talvez. Partiu, porém, para não mais voltar, por- 
que toda ella pereceu algures trucidada pelo gentio teroz em 
um canto obscuro do valle do Paraná. 

Entretanto, desfalcada da sua gente, mas, porventura, 
mais avolumada nas suas ambições, a armada portugueza na- 
vegou para o sul, caminho do Rio da Prata, completando a 
exploração da costa. 

Atraz, porém, ficava-lhe o melhor das suas esperanças ; 
essa expedição que se entranhava no deserto a busca de ouro! 

Ao chegar á entrada do grande estuário, já em frente 
desse cabo de Santa Maria, que Vespuccio fora talvez o pri- 
meiro a avistar em 1502, é a esquadra colhida por um desses 
furiosos pampeiros, tão communs nos mares do Sul, e se perde 
totalmente a náu capitanea com grande copia das suas me- 
lhores provisões. O capitão, que deu á costa nessa terra 
areenta e agreste que se avizinha do cabo para o lado do 



(i) Do Roteiro de Pêro Lopes. 



— 181 — 

Norte, perdidos alguns poucos tripulantes, desanima de pro— 
seguir. 

O irmão, porém, dispõe -se a completar os intuitos da 
expedição, e embarcando n'um bergantim com trinta homens 
de equipagem anima-se a penetrar no grande rio. Percor— 
re-lhe as margens do Norte até o fundo do estuário, passa 
a foz do Uruguay, e pelos muitos e intricados braços ou 
canaes que o Paraná despede ao ene entro d'aquelle, sobe o 
esteiro dos Carandins onde assenta doi s padrões com as arma» 
de seu rei e toma posse da terra para se tornar. 

Pêro Lopes de Souza, que esse era o jovem e esforçado 
commandante do bergantim, estava então pelo 33** 3/4 de 
latitude Sul, pouco mais ou menos na altura do actual rio 
dos Arrecifes que rega a terra Argentina pela banda direita 
do grande Paraná (1). 

cEssa terra dos Carandins, dizia elle ao irmão, é a mais 
formosa terra e mais aprazível que pode ser. Eu trazia com— 
migo allemães e italianos e homens que foram a índia e 
francezes, todos eram espantados da formosura desta terra, e 
andávamos todos pasmados, que nos não lembrava tornar ! 

O irmão, todavia, se não deixa seduzir pelos encanto» 
áessa terra dos Carandins, e, dando por terminada a sua 
missão no Sul, fez-se de vela para o Norte e veiu aportar a 
S. Vicente, que escolheu para sede da primeira povoação 
que vinha fundar no Brazil. 

Se esta expedição de Martim Affonso de Souza como, 
opina o sr. Varnhagen (2), vinha, de facto, occupar as margen» 
do grande Rio da Prata e nellas assentar a primeira colónia 
regular portugueza da America, tomando posse definitiva dessa 



(1) Cândido Mendes de Almeida, interpretando o roteiro de Pêro 
Lopes, presume o Esteiro dos Carandins á margem do uruguay, em Paysandú 
pouco mais ou menos, quando é certo que o texto do roteiro alludido condas 
a ponto diametralmente opposto. Partindo das ilhas de Santo André que 
estão no Uruguay c seguindo através de canaes e braços nos rumos de Oessu- 
doeste, Noroeste, e Sudoeste não podia tender para Paysandú, que fica a» 
Norte sendo o curso do Uraguay, neste trecho, Norte-Sul. Demais, a terra dos 
Carandins é do lado de Buenos-Ayres e não do Oriental e a latitude indicada, 
para o Etteiro, onde se assentaram os padrões, não se conforma com a posição 
de Paysandú (Vide Atlas do Império do Brazil— pag. 24. 

(2) Historia Geral do Brazil, vol. I pag. 113. 



— 182 -- 

região de clima temperado cujo nome recordava riquezas por- 
ventura ainda veladas, mas já presentidas, é força confessar 
que o principal intuito da expedição estava perdido. Se as 
instrucções do chefe ordenavam-lhe de fixar-se neste rio, não 
seria, por certo, o desbarato de uma pequena parte de sua 
esquadra que o demoveria de cumprir as ordens regias, antes 
pelo contrario, o levaria a dar-lhes execução, permanecendo 
no seu posto, refazendo-se ou pedindo soccorro. O almirante 
porém, reparadas as avarias da armada, preferiu retroceder, 
abandonando essas paragens acossadas dos pampeiros e vindo 
assentar os fundamentos da povoação de S. Vicente no clima 
mais tépido de sob o Trópico. E assim procedendo não 
desobedecia elle as ordens do seu rei, nem lhe despresava as 
instrucções, estava, ao contrario, em exercício das amplas 
attribuições que tinha : explorava, reconhecia a região e se 
locaria onde melhor lhe parecesse. A carta regia de 28 de 
setembro de 1532 dil-o positivamente : «Depois da vossa 
partida se praticou se seria meu serviço povoar-se toda essa 
costa do Brazil e algumas pessoas me requeriam capitanias 
em terra delia. Eu quizera, antes de nisso fazer cousa al- 
guma, esperar por vossa vinda para com vossa informação 
fazer o que bem me parecer, e que na repartição que disso 
se houver de fazer escolhaes a melhor partem. 

Quem assim escrevia em 1532 não tinha por certo plano 
assentado, nem resolução positiva de colonizar uma deter- 
minada região, quando dous annos antes enviava essa expe- 
dição cujos successos estamos relatando. 

A politica portugueza, nessa época, não havia ainda 
comprehendido o valor e alcance da posição que assim se 
abandonava. E' verdade que a presença dos Castelhanos nas 
aguas do Prata, onde com um dos Cabotos se ensaiara pouco 
antes um rudimento de colonização, que breve feneceu, tinha, 
de facto, despertado a attenção dos conselheiros de João III; 
mas as vantagens politicas e estratégicas do estuário, quer em 
relação ao Estreito de Magalhães, quer em relação ás terras 
auríferas do Alto Peru não se lhes tinham tão claramente 
patenteado que viessem a motivar um plano politico de sabia 
previsão. 



— 183 — 

Ao contrario disso, aguardavam-se aiuda as informações 
do almirante j3ara com ellas decidir-se o que convinha fazer- 
se. Para a metrópole, que só cogitava da índia, esse paiz 
da America era ainda, quasi que em absoluto, desconhecido. 
Das primeiras expedições que lhe correram ás costas, baptl- 
zando-lhe os logares mais salientes, até a mesma tradição se 
perdera. Demais, é sabido, aquellas primeiras viagens de 
Vespuccio e de Coelho nào visavam senão duas cousas es- 
senciaes á politica commercial dos Portuguezes : verificar 
que essa terra do descobrimento de Cabral nada tinha com 
a índia e que ahi, dentro do hemispherio portuguez, se não 
encontrava passagem alguma conduzindo aos mares das es- 
peciarias : e se essa passagem algures existia, devia ficar 
tanto ao sul que o caminho das índias pelo Cabo da Bôa- 
Esperança, por mais curto, ficava, de facto, como uma ga- 
rantia do predomínio lusitano no Oriente. 

Mas agora que mudaram os intuitos políticos da metró- 
pole em relação ás suas possessões da America, o conheci- 
mento mais completo do paiz se impunha, exigindo novas 
indagações, precedendo a qualquer plano politico que accar- 
retasse dispêndios ou responsabilidades. E foi isso realmente 
o que veiu fazer o almirante nos mares do Brazil : explorar 
informar, tomar posse do que viesse a descobrir e, porventura, 
estabelecer-se onde e quando lhe parecesse conveniente, por- 
que naquelia mesma carta dizia-lhe ainda o rei como que 
querendo renovar-lhe os poderes : «porque eu confio de vós, 
que no que assentardes será o melhor». 

O erro politico da não occupação do Rio da Prata, erro 
que nem três séculos de porfiadas luctas conseguiram jamais 
neutalizar, nem mesmo pode ser levado á conta de desidia 
ou desobediência do almirante, porque, para escusas, até 
pode elle allegar escrúpulos de leal cavalheiro. 

Conta-se que durante os dias em que se deteve em re- 
paros no Cabo de Santa Maria a armada portugueza, os cos- 
mographos de bordo fazendo observações astronómicas conse- 
guiram verificar que aquella costa e com maior razão todo 
o Rio da Prata, ainda além para o Oeste, já não eram dos 
domínios de Portugal. O sr. Varnhagen exhibe mesmo a este 



— 184 — 

respeito argumentos que persuadem. «Muito provável é, diz; 
nos o illustre historiador, que no entremeio de tantos dias; 
em que Pêro Lopes demarcava o Rio da Prata, não estivessem 
ociosos os pilotos que haviam ficado na costa com Martim 
Affonso. Em terra tiveram occasião de fazer frequentes oh- 
sej^ações astronómicas soòre a latitude e longitude do logar, 
e isso lhes daria a convicção, e ao capitão-mór, de que 
aquella costa, e com mais razão, todo o Rio da Prata, já se 
achavam fora, isto é, mais a loeste, da raia até onde se es- 
tendia, pelo tratado de Tordesilhas, o dominio portuguez na- 
quellas paragens. Ao conhecimento deste facto em Portugal 
devemos attribuir o não proseguirem em Madrid as reclama- 
ções acerca desse rio ; o desistir aquelle reino de mandar mais. 
frotas ás suas aguas ; e até o não doar, quando doou outras- 
terras, as que ficaram além das de Sant'Anna, ou da Laguna,, 
onde terminava a courela que de direito ainda por ahi Ihe^^ 
tocava. 

«Talvez também pelo conhecimento desse facto, continua 
o mesmo historiador, mais que por serem ahi as terras (na. 
littoral) sáfias e areentas, é que Martim AfiPonso não se 
deixou ficar nas plagas da actual Província do Rio Grande,^ 
onde o lançara de si o próprio mar, e decidiu retroceder 
mais para o Norte, a buscar outro local onde fixar-se da 
preferencia». (1) 

Ainda que plausíveis estas razões allegadas pelo nosso 
historiador, ellas não explicam cabalmente a que intuitos 
obedeceu o almirante retrocedendo para o Norte. As obser- 
vações astronómicas e a resultante verificação dos cosmogra— 
phos ou pilotos de bordo, então realizadas como noFo attesta 
o mathematico Pedro Nunes, não deviam ser precedidas da 
tomada de posse daquella região por Pêro Lopes, effectuada 
no Esteiro dos Carandins. Antes esta formalidade, tão essen— 
«ial naquelles tempos, é que devia seguir-se a aquellas.. 
Demais todo o desenvolvimento histórico que se seguiu a este 
erro politico bem claro nos ensina que jamais os Portuguézes, 



(l) Historia Geral do Brázil vol. I., pag. 121 e 122. 



- 185 — 

se convenceram tão cedo da illegitimidade das snas preten- 
ções no Rio da Prata e mais ainda na terra dos Patagões. 

Para nós, ontras e bem diversas foram as razões da pre- 
ferencia de Martim Affonso pela região de sob o Trópico ; 
mas emquanto as não expomos, examinemos, á luz da critica 
historia, a força de convicção que ao animo do almirante 
podiam ter trazido as observações astonomicas dos pilotos de 
bordo . 

Quando em 1494 se negociou entre Portuguezes e Cas- 
telhanos o tratado de Tordesilhas, corrigindo a bulia de 
Alexandre VI que repartiu o mundo entre estes dous povos, 
mas excluia Portugal da America, ficou, em definitiva, es- 
tipulado que a linha meridiana da demarcação correria a 370 
léguas ao poente das ilhas do Cabo Verde e não a 100 como 
a bulia a principio estabelecera ; que as duas partes con- 
tractantes dentro dos 10 mezes que se seguissem á assigna- 
tura do tratado enviariam cosmographos e delegados seus em 
igual numero para, de concerto, demarcarem a referida me- 
ridiana na altura do parallelo daquellas ilhas ; que no pro- 
cesso de demarcação se empregariam os gráos de Norte ou 
de. Sol ou as singraduras de léguas ; e que finalmente se 
compromettiam de parte á parte a não enviarem navios vio- 
lando a raia assim solemnemente convencionada e acceita. (1) 
O tratado, porém, trazia vicio insanável que, para logo, 
tomou-o inexequivel. Appellando para uma linha imaginaria 
que a sciencia contemporânea não tinha como demarcar, o 
tratado ficou, desde logo, letra morta, inútil como garantia 
de direitos recíprocos. 

Para os Portuguezes que, ao negocial-o, nem siquer 
cogitavam do Continente novo, pois ainda não fora desco- 
berto e que só visavam resguardar o seu caminho da índia, 
afastando para bem longe delle a nação rival, o tratado 
correspondia, de facto, a uma necessidade politica. Para os 
Castelhanos, porém, elle só tinha um valor positivo : era o 
do reconhecimento do seu direito ás conquistas do ultramar 



(I) Carlos Calvo, CoUeccion completa de los «Tratados», etc. i vol. pags. 19 



— 1S6 — 

no mesmo pé de igualdade que os Portuguezes os quaes se 
presumiam senhores únicos do Oceano ignoto e de todas as 
terras por descobrir, segundo as concessães anteriores dos 
Pontifices. 

Obtidas estas vantagens reciprocas, ninguém mais co- 
gitou do implemento do lado pratico das clausulas do tra- 
tado. Os 10 mezes se esgotaram sem que de parte a parte se 
pensasse no problema da demarcação, aliás de solução im- 
possivel. 

De facto, toda e qualquer tentativa pelo lado pratico 
para se assignalar então a meridiana não podia dar resul- 
tado tangivel. O Continente da America ainda era desço-, 
nhecido, pois só três aunos mais tarde é que Colombo des- 
cobriu a terra firme na altura da foz do Orinoco, e nenhu- 
ma ilha algures existia no seio do oceano, cortada por essa 
meridiaim e podendo servir-lhe de balisa. Impossível como 
era de assignalar materialmente essa linha por sobre as 
vagas movediças do Oceanc, ter-se-ia de appellar para as 
soluções astronómicas em que, aliás, quasi ninguém acredi- 
tava, tão absurdos e discordantes eram , os resultados que 
exhibiam. 

Nada havia tão incerto e inconsistente como a sciencia 
dos cosmographos e pilotos desta época. Na pratica como na 
theoria tudo era informe e rudimentar. Ptolomeu era então 
o oráculo (1), e todos sabemos hoje o que valia o astrónomo 
de Alexandria com o seu ecclectismo na sciencia. A redon- 
deza da terra era ainda uma hypotliese repugnante e ha 7 
annos apenas provada. A grandeza delia um problema que 
ficou insolúvel a despeito dos trabalhos memoráveis de 
Eratosthenes, Hyparcho, Possidonio e Marino de Tyro. O 
comprimento do gráo terrestre era incerto ainda ; a medição 
delle realizada por Eratosthenes e rectificada um século de- 
pois por Hyparcho que íixou-lhe o comprimento de 700 sta- 
dios gregos ou 110600 metros de hoje, ficou viciada pelo 



(i) As obras de Ptolomeu começaram a circular impressas em 1475. A 
traducção latina de Jacobo Angelo foi impressa pela primeira vez neste anno, 
em Vicença sob os auspícios de Xisto IV. 



— 187 — 

mesmo Ptolomeu com a adopção de um stadio fictício, cuja 
identificação jamais se conseguiu realizar. 

O mundo conhecido ou Ecumeno que Eratostlienes e 
Strabo calculavam então não abranger mais que 2/7 da cir- 
cumferencia do globo, fora pelo mesmo Ptolomeu elevado á 
metade, donde depois se originaram cálculos erróneos como 
os de Colombo que presumia não haver mais de 1.100 léguas 
entre as costas da Europa e o extremo opposto da Ásia que 
elle esperava attingir por occidente. 

As observações astronómicas, a julgar pelos resultados 
exhibidos por Ptolomeu, eram simplesmente grosseiras ap- 
proximaçòes. As latitudes calculavam-se com erro de um 
gráo a mais ou a menos ; as longitudes davam verdadeiros 
disparates. Quando determinadas por observação astronómica 
como aquella do eclipse do sol realizada simultaneamente em 
Carthago e Arbelles, dayam resultados com erro de onze 
gráos! Quando as longitudes eram calculadas por meio da 
conversão de elementos itinerários em annotações astronó- 
micas, não eram menos grosseiros os resultados. 

Em 1530 quando navegam os mares do Brazil essa ar- 
mada de Martim Affonso a que nos temos referido, os cos- 
mographos, os pilotos ou mercantes sabiam muito bem ma- 
nejar o seu astrolábio, tosco instrumento com que mediam a 
altura dos astros para calcularem a latitude^ e corrigirem a 
derrota do navio, ainda assim eram frequentes os erros de 
um e mais gráos na determinação desta coordenada, justa- 
mente como no tempo de Ptolomeu. 

Segundo se vê do roteiro de Pêro Lopes de Souza, a 
latitude da fóz do rio de S. Francisco está ali determinada 
com o erro de um gráo para mais ; (1) a latitude da Bahia 
de Todos os Santos com o erro de um quarto de gráo a 
mais ; a do Rio de Janeiro com um terço a mais, e sÓ a do 
Cabo de Santa Maria, á entrada do estuário do Prata, talvez 



(i) o roteiro alludido consigna as seguintes latitudes : 

Foz do rio São Francisco ii ija 

Bahia de Todos os Santos 13 II4 

Rio de Janeiro 23 114 

Cabo de Santa Maria 34 314 



— 188 — 

por ter sido reiterada nas observações feites em terra, accusa 
com pequena differença, resultado exacto. 

Nas operações em que se requeria maior rig-or, desem- 
barcavam em terra os pilotos e tomavam ao meio dia a al- 
tura do sol. A latitude, uma vez calculada a declinação do 
astro para esse dia, deduzia-se então sem mais correcções. A 
bordo do navio era-lhes penosissima a operação, e até mes- 
mo impossível si se tratava de estrellas, porque então não 
sabiam como se haverem com o balanço do mar. 

Mestre Johanes Emenelaus, um dos pilotos da armada 
de Cabral de 1500, escrevendo a D. Manoel e dando-lhe 
conta de como se dispunham no nosso céo as constellações 
circumpolares, sem aliás determinar-lhes os gráos (1), com- 
municava haver observado em 17." austraes a latitude de 
Porto Seguro, mas como divergia em muito a opinião dos 
demais pilotos que uns davam 150 léguas mais e outros 
menos, não havia como certiíicar-se senão depois que se 
chegasse ao Cabo da Boa Esperança, porque então, dizia 
elle, se havia de ver quem mais certo andava se os pilotos 
com a carta se elle com a carta e com o astrolábio. Ainda 
assim o calculo do mestre estava affectado do erro de um 
gráo a mais. 

Américo Vespuccio que, aliás, era um cosmographo há- 
bil, errava a miúdo nos seus cálculos de latitude. Dos seus 
escriptos, por vezes tão discordantes, se vê que calculou a 
latitude do Cabo de Santo Agostinho com um erro de 13 
gráo a menos, e a do Cabo de Santa Maria, á entrada do 
estuário do Prata, onde diz que deixou de costear a teíra 
para accommetter o mar por outra parte, accusava taes dif- 
ferenças que o próprio Vespuccio ora dava-lhe 32*^ austraes (2)^ 



(r) Dizia em sua carta o piloto : ». . . quanto seflor ai otro puncto sabra 
vosa altesa que cerca de las estrellas yo he trabajado algo de lo que he podydo- 

pêro non mucho solamente mando a vosa alteza como estan situadas las 

estrellas dei, pêro em que grado esta cada una non lo he podydo saber antes 
me paresce ser inposibile en la mar tomarse altura de ninguna estrella oorque 
yo trabajê mucho en eso e por poço que él navio enbalance se yerran quatro ó 
cinco grados de guisa que se non pueden faser synon en terra...» 

(a) Lettera ai Solderini em Canovai, vol. II. 



— 189 — 

ora calculava-a em 17" 1/2 para além do Trópico de 
Capricórnio, o que equivale a 41.° ao Sul (1). Discrepâncias 
estas tão grandes que os mesmos detractores de Vespuccio 
mais se servem delias para provar a má fé ou o descaro de 
um mentiroso do que para demonstrar a impericia do cos- 
mographo, ou a imperfeição dos processos de observação 
astronómica Bm uso no seu tempo. 

Quanto ás longitudes o processo commumente usado era 
o da conversão dos elementos itinerários em annotações as- 
tronómicas. Nenhum processo directo, observando os astros, 
era então praticado. 

Os pilotos ou mareantes deduziam a longitude pela 
derrota do navio, para o que partindo de um ponto cuja 
latitude era conhecida e guardando um rumo certo vinham, 
no diário de bordo, assignalando os incidentes mais notá- 
veis, as causas que, por ventura, perturbassem a marcha 
regular da embarcação, e, tomando alturas do sol ao mtio 
dia para calcular a latitude, corrigiam qualquer erro na es- 
timativa das singraduras. Este simples problema de loxo- 
dromia, quasi sempre resolvido pelos marujos por um pro- 
cesso graphico, era o único que então possuiam para deter- 
minar a longitude no mar. 

Mas, quem souber quão fallivel é esse rumo indicado 
pela bússola, instrumento imperfeito e de emprego duvidoso 
por se não conhecerem ainda as leis do magnetismo ; quem 
conhecer como as correntes oceânicas, cuja velocidade aliás 
não se sabia bem medir, podem viciar a derrota do navio, 
comprehenderá quão erróneo deve ser esse processo de de-r 
terminar longitude, todo baseado na marcha de embarcações 
de vela, absolutamente dependentes da feição do vento. 

As singraduras de léguas de que fala o tratado de 
Tordesilhas eram a cousa mais incerta e variável que é 
possivel imaginar-se. As singraduras diárias de uma cara- 
vella, navio veleiro, dos mais empregados nesse tempo, 
tinham-se como valendo 30 léguas, ou 1" 1/2 ; mas como 
tudo dependia do vento, a marcha da embarcação só se 



(i) Veja-se o «Summario de A. Vespuccio». 



— 190 — 

calculava bem, quando o tempo permettia observar o sol 
para determinar a latitude. 

Se a caravella seguia a direcção de um meridiano, essa 
operação auxiliar, repetidamente feita, permittia attingir al- 
guma exactidão ; se porém a derrota se eíFectuava na dire- 
cção de um parallelo, como o tratado de Tordesilhas deter- 
minava que se fizesse no acto da demarcação, partindo das 
ilhas do Cabo Verde, essa operação auxiliar, não tendo ap- 
plicaçâo, deixava a estimativa do navio dependente exclu- 
sivamente da apreciação dos pilotos. E' fácil de compre- 
hender quão susceptivel de erro é um tal processo de calcular 
longitude por singraduras de léguas. 

Na historia da navegação ficaram para sempre memo- 
ráveis os gravissimos erros de longitude em que incorreram 
Colombo e Magalhães navegando no sentido do parallelo. 
Aquelle, por occasião da sua primeira viagem ao Novo Mundo 
querendo usar de um estratagema para prevenir o terror da 
equipagem que se via afastar para uma região longinqua 
sem esperança de tornar, fraudava distancias no livro de 
bordo, ao passo que reservadamente escrevia outro para si, 
onde presumia consignar o roteiro exacto ; sabe-se hoje que 
no fim de 24 dias de navegação, o primeiro- livro indicava 
resultado mais cbegado á verdade do que o de seu roteiro 
reservado. O almirante tinha-se illudido a si próprio. 

Magalhães, navegando atravéz do Pacifico na primeira 
e sempre memorável viagem de circumnavegação do globo, 
accusou tão notáveis diíFerenças nas longitudes que a cir- 
cumferencia da terra ficou diminuída de 20 gráos (1). Erro 
este que todos sabemos como a Portugal sahiu tão caro. 

O famoso Capitão Cook, cujos trabalhos são de uma 
exactidão admirável, o primeiro navegador que teve a sua 
disposição para calcular longitudes Ephemerides Astronó- 
micas (2), chogou a reconhecer por occasião de uma das suas 
viagens aos mares austraes um erro de mais de 30 gráos na 



(1) Alexandre de Gusmão diz 40 gráos e o demonstra com o mappa que 
traz Herrera na sua Ilist. das índias Occidentaes. Revista do Inst, Hist. e 
Geogr., vol. I. 

(2) O Nautical Almanach appareceu em Inglaterra pela 1.» vez em 1767. 



— 191 — 

longitude, servindo-se desse mesmo defeituoso processo. «A 
observação, diz elle no seu diário de bordo, nos fez conhecer 
que a estima do navio havia produzido um erro de 31° 6' na 
longitude desde a partida de Taiti, pois que, nos achamos 
a esta distancia a Oeste da longitude que dava o loch.» Não 
é preciso dizer mais para condemnar um tal processo. 

Como pois tomar a serio as observações astronómicas de 
latitude e longitude realizadas pelos pilotos de Martim Af- 
fonso em 1531. 

O sr. Varnhagen que nol-o relata, apoiando-se no douto 
mathematico Pedro Nunes não devia ignorar que por esse 
tempo jamais se fizeram observações astronómicas de longi- 
tude, porque estas só depois de 1666, depois de descoberto 
o telescópio, quando Domminique Cassini calculou as Ta- 
boas para os eclipses dos satélites de Júpiter, é que come- 
çaram a ser determinadas astronomicamente ; e ainda assim 
não eram empregadas nos misteres da navegação em vista 
da imperfeição ou impropriedade dos instrumentos. Só depois 
que Laplace aperfeiçoou as Taboas da Lua, primeiro cal- 
culadas por Tobias Mayer em 1770, é que o problema das 
longitudes no mar teve a sua solução verdadeira. 

Antes disso, tudo era vago e indigno de inspirar con- 
fiança, nem mesmo aos próprios pilotos ; razão porque não 
podemos admittir que devido aos trabalhos astronómicos dos 
pilotos da sua armada é que Martim Aff'onso de Souza aban- 
donou o Rio da Prata e se recolheu a S. Vicente. 

Essas observações astronómicas de que nos fala o sr. Var- 
nhagen, si se realizaram, não foram, por certo, as razões de- 
terminantes do regresso do almirante, como não foi por causa 
delias e do reconhecimento de se achar o Rio da Prata fora 
do hemispherio portuguez que não proseguiram em Madrid 
as reclamações acerca desse rio, que não foram doadas essas 
terras do Sul ao tempo em que se doaram as demais terras 
do Brazil ; porquanto os Portuguezes e todos quantos entre 
elles escreveram até o fim do século 18." sobre a historia e 
geographia da America Lusitana sempre consideraram o rio 
da Prata, e mais ainda um grande extensão das costas da 
Patagonia, como pertencentes aos domínios de Portugal. 



— 192 — 

Frei Vicente do Salvador que escreveu em 1627 ; o 
Padre Simão de Vasconcellos, chronista da companhia de 
Jesus que escreveu em 1662 ; o P. Joào de Souza Ferreira 
em 1693 ; Frei Gaspar da Madre Deus, cuja obra foi até 
approvada pela Academia Real das Sciencias de Lisboa em 
1796 e outros mais antigos como Francisco da Cunha, Diogo 
de Castro e o próprio Pedro Nunes, todos accordaram em 
como as possessões portuguezas iam muito além do Rio da 
Prata, até o fundo do golfo de S. Mathias. 

Para bem avaliar-se quão discrepantes eram os cosmo- 
graphos contemporâneos ao representarem nas suas cartas o 
continente do Sul da America, basta attender para os dados 
fornecidos pelos roteiros dessa época e por elles construir as 
cartas segundo os processos em uso. 

O Continente do Sul oscillava nessas cartas para Oriente 
ou para Occidente conforme a nacionalidade dos pilotos. 

A largura do Atlântico entre a Africa e a America era 
reduzida ou ampliada segundo os intuitos que visavam esses 
pilotos ou cosmographos. 

Américo Vespuccio, quando em 1501 veiu explorar as 
costas do Brazil, tomara para ponto inicial da sua travessia 
o porto de Besenegue na costa africana, por 14'' 1/2 de la- 
titude norte e d'ahi fez proa em rumo constante de Sudoeste- 
quarta de Sul (SS'' 45' 50") atravessando o Atlântico até 
avistar terra na latitude de 5" ao sul da Equinoxial. Pois 
bem, com taes dados, como os consigna Américo en? uma 
das suas cartas, o continente do sul devia estar figurado no 
mappa do cosmographo com um erro de 10" 1/3 para menos 
na longitude em relação á Africa, ficando assim o Atlântico 
mais estreito entre as duas massas continentaes. 

A costa oriental do Brazil estaria figurada como uma 
linha privada de endentações ou sem as saliências caracte- 
rísticas ; porquanto, segundo o mesmo cosmographo, toda a 
costa corre ao Sudoeste desde o cabo de Santo Agostinho 
para o siíl. (1) 



(1) A carta de Vespuccio diz «... navegando sempre per libeccio a vista 
di terra dl continuo facciondo di molte scale...» 




.■^ . ■*«• 1^'^^»^ Ca^f/ia^ o f£'e faixes cícc^rrK^rícou i^aScu' L 
^»J5l «tou*%Jo os x/cteL s aã ro/éura c/s. T^ero Z^ohes /.<2 / 



/í- 



trytAte 



3*27 



195 



Tomando ag-ora os dados do roteiro de Vicente lanez 
Pinzon na sua viagem de 1499, se vê que a costa do norte 
do Brazil, desde o cabo de la Consolacion ficaria deslocado 
para oriente pelo menos uns três graus. (1) 

Construindo-se, entretanto, a carta da costa brazileira 
pelos dados do roteiro de Pêro Lopes, se o deslocamento do 
continente ahi quasi desapparece no extremo norte, não deixa 
todavia de sel-o bem sensivel no sul, onde a linha da costa 
declina mais para Oriente. O cuidado que se nota na parte 
do roteiro, correspondente á travessia do Atlântico onde se 
vêem observações acerca das correntes oceânicas, da estima- 
tiva das distancias e rumo em relação aos pontos mais co- 
nhecidos da costa dos dous continentes, e as latitudes tomadas 
quasi diariamente, tudo mostra o interesse dos pilotos em 
bem verificar essa travessia e assignalar-lhe a distancia com 
a possivel exactidão. A parte do roteiro, porém, que corres- 
ponde ao trecho da costa entre o Rio de Janeiro e o Rio 
da Prata vem mais deficiente nas indicações dos rumos ; as 
latitudes são ahi mais escassamente determinadas em vista 
dos coQstantes nevoeiros, e não poucos pontos dos mais sa- 
lientes da costa deixam de ser assignalados porque a armada 
por elles passa sem os perceber. 

As longitudes deduzidas de um itinerário como este não 
podiam absolutamente dar resultados decisivos, capazes 
de trazer convicção nem mesmo aos próprios mareantes 
que as calculavam. Demais, no roteiro alludido não se lê 
a minima referencia a operações realizadas com esse 
intuito. 

A palavra longitude^ nem mesmo é ahi citada ; e a não 
ser a lacónica observação do dia 23 de novembro de 1531, 
onde se lê que nesse dia da partida para explorar o estuário 
do Rio da Prata, o sol estava em 14'' 35' de Saggittario e 
a lua em 27 "* de Tauro, observação que parece lembrar que 
se acompanhava a marcha desses astros, tudo mais ,em re- 
lação á esphera celeste refere-se invariavelmente ás obser- 
vações da altura do sol para o calculo das latitudes. 



(i) Historia Geral do Brazil do sr. Varnhagen, vol. I pag. 78. 



196 



Vê-se, portanto, que as taes observações astronómicas 
dos pilotos da armada de 1541 para determinar longitudes 
não se podiam ter realizado como nol-o refere o sr. Var- 
Tihagen, e que não foram ellas certamente que determinaram 
o almirante de retroceder para o Norte. Outras foram, por 
certo, as razões que levaram Martim Affonso de Souza ao 
porto de S. Vicente. 

E não residia só no defeituoso processo de calcular lon- 
-gitudes a dificuldade ou impossibilidade de taes verificações, 
a linha meridiana, suggerida no tratado a que nos temos 
referido, era outra difficuldade invencivel. 

O tratado foi omisso na fixação do- ponto inicial das 370 
léguas no Archipelago de Cabo Verde, sendo certo que entre a 
ilha de Santo Antão, a mais occidental e a do Sal que está 
mais a oriente ha um âmbito de mais de 2 graus em longi- 
tude. Além disso o typo das léguas não foi determinado 
«omo convinha, pois que entre a légua portugueza e a hes- 
panhola havia notável differença. 

Os graus do Sol a que o tratado se refere, que são os 
graus do Parallelo, como os graus do Norte que são os do 
Meridiano, já o dissemos, não eram bem conhecidos, ainda 
que fossem geralmente aceitos os cálculos erróneos de Pto- 
lomeu. 

As singraduras de léguas só podiam valer se a demar- 
<íação se viesse a realizar ds commum acordo por meio de 
pilotos de ambas as nacionalidades. 

O tratado, que tudo isso deixou ao cuidado dos cosmo- 
vgraphos e commissarios a reunirem-se dentro de 10 mezes 
em uma das ilhas Canárias para o fim de demarcar a me- 
ridiana, não tendo tido execução nessa clausula, deixou tudo 
em suspenso e impossivel qualquer solução definitiva. 

Só em 1523, depois da viagem de Magalhães, quando os 
Hespanhoes reclamaram as Molucas nos mares das especiarias 
•como comprehendidas nos ISO*' do seu hemispherio de influ- 
encia, é que o tratado de Tordesilhas foi, pela vez primeira, 
interpretado. 

Reunidos em Saragoça os commissarios portuguezes e 
hespanhoes para regularem essa questão, não visavam aquel- 




Desiocamtrt-lô «U C^rx/ctterx^ /taxa. /es A ; S . 






Th. 5at«.^v«u>P «t«*- 




Z)e3ÍocoimenCà do coixtcnt-ríti •nAYV' 2.tsíê rro 



CostoCS c^t^&^y^ faces oícç Jln^er^ocoí oío uocC 






— 201 — 

les outra cousa senão salvar as Molucas ainda que com sa- 
crifício do lado da America ; estes, os hepanhoes, ao contrario, 
não só reclamavam essas ilhas das especiarias, mas até Ma- 
laca, pois que devido a um erro do roteiro da viagem de cir- 
cumnaveg-ação, o âmbito do Oceano Pacifico tinha sido muito 
reduzido e dava logar a que os 180° de Hespanha viessem 
a abranger possessões portuguezas no extremo oriente. E como 
para salval-as não tinham os coramissarios de Portugal meio 
algum de demonstrar a falsidade daquelle roteiro, por se não 
conhecer melhor processo de determinar longitudes, esforça- 
ram-se o possivel para tirar das garras de Carlos V, ao menos, 
as suas ilhas das especiarias, e, para tanto, exigiam que o 
ponto inicial das 370 léguas para a demarcação da meridiana 
fosse a ilha do Sal, a mais oriental das do Cabo Verde, e 
não a de Santo Antão que, aliás, favorecia ás suas preten- 
sões na America. 

Mas, como nesse tempo, a America pouco valia e as 
especiarias da índia valiam tudo, o Brazil foi sacrificado ás 
Molucas e procurou-se, recuando a demarcação para leste, 
diminuir a differença dos graus que se teria de pagar em 
ouro. (1 ) 

Em 1531, quando ainda percorria os mares do Brazil a 
armada de Martim Affonso, Portugal guardava, é certo, as 
suas ilhas das especiarias, mas no Atlântico tinha perdido, 
porque tendo recuado o ponto inicial da demarcação para a 
ilha do Sal, perdera no continente da America, pelo menos, 
2 1/2 graus em longitude. 

Mas, se neste ponto o acordo se impunha por força de 
coherencia, de outro lado, impossível era entre os cosmogra- 
phos de cada parcialidade, qualquer solução definitiva da 
demarcação no terreno pratico. 

Acreditavam os Hespanhoes que a linha de demarcação 
não dava aos Portuguezes na America senão um terço do 
território que hoje possuímos, e, segundo os seus cosmogra- 
phos, essa linha imaginaria devia cortar o continente, ao Norte, 



(1) Portugal pagou 350: OCO cruzados d'ouro pelos 17 que deviam abran- 
ger as Molucas. 



__ 202 — 

na bahia do Maranhão e sahir, ao Sul, em S. Vicente ; fi- 
cando assim para a Hespauha todo o trecho das costas me- 
ridionaes, desde este porto até ao Rio da Prata. 

E n'isto andavam elles mais chegados á verdade, por- 
quanto, se n'essa época lhes fosse dado effectuar a demarca- 
ção com o rigor dos nossos modernos processos astronómicos, 
se verificaria que as 370 leg-uas contadas da ilha do Sal 
acabariam u'uma meridiana que corta o nosso território, ao 
Norte na barra do Gurupy, antiga Abra de Diogo Leite e 
ao Sul nas immediações do porto de Santos. (1) 

Mui diversamente opinavam os Portuguezes, os quaes, 
baseados nos seus trabalhos geographicos, sempre acreditaram 
que a meridiana de demarcação lhes cortava o continente, 
do lado do Norte, a Oeste da foz do Amazonas que ficaria 
toda portugueza, (2) e, para o Sul, vinha cortando as ter- 
ras do Rio da Prata ainda por cima do estuário, mais ou 
menos na altura do ísteiro dos Carandins, onde Pêro Lo- 
pes assentou os dous padrões, e indo sahir mais em baixo no 
fundo do golfo de S. Mathias. Valia tanto como deslocar o 
sul do continente para leste de 14 para 15 graus. 

Os escriptores portuguezes que do assumpto se occupa- 
ram, pelo menos os que escreveram antes do fim do século 
18" são todos concordes neste modo de fazer a demarcação. 

Francisco da Cunha conta ter visto e examinado em 
1563 um padrão de mármore com as armas portuguezas en- 
tre a ponta meridional do Golfo de S. Mathias e a Ponta do 
Padrão, mais chegado á primeira, padrão que ahi fora as- 
sentado por uma das primeiras armadas exploradoras, talves 
pela de 1503. (3) 

(1) Calculando se pelas léguas portuguezas de 3000 braças, ou pelas de 
16 ao crau no parallelo da ilha do Sal. A meridiana assim determinada cor- 
reria a 23* 7,30" ao poente daquella ilha. Se, porém, em vez da ilha do 
Sal fosse a de S.to Antão, s meridiana viria cortar a ilha de Marajó na foz 
do Amazonas em frente a ilhota das Flechas e no sul viria sahir nas im 
mediações da Laguna. 

(2) Calculando pelas léguas reaes do Hespanha de 25.000 pés que no- 
parallelo da ilha de S to Antão são léguas de 15 ao grau. A meridiana as- 
sim determinada cahia a 24" 40' a Oeste daquella ilha e passaria nas vizi- 
nhanças do Cabo Orange. 

(3) Casal, Corographia Brasílica, vol. I, pag. 44 e 45. 



— 208 — 

O mesmo Sr. Varnhagen que se apoia em Pedro Nunes, 
quando nos relata as observações astronómicas dos pilotos da 
armada de Martim Affonso, não devia ignorar a opinião des- 
se douto mathematico, exarada nestes termos : «A Provincia 
do Brazil começa a correr junto do rio das Amazonas, onde 
se principia o Norte da linha de demarcação e repartição, e 
vae correndo pelo sertão desta Provincia até quarenta e 
cinco graus, pouco mais ou menos; ali se fixou marco pela 
coroa de Portugal . » 

O mesmo illustre autor da Historia Geral do Brazil nos 
transmitte a summa de um velho documento de 1506 em 
que se dá o Brazil como estendendo-se até os AO" de lati- 
tude austral. (1) 

Frei Vicente do Salvador segue a mesma opinião de 
Pedro Nunes. 

O Padre Simão de Vasconcellos refere que como os 
coippassos dos cosmographos variavam muito, os mais liberaes 
davam de comprimento á linha imaginaria de demarcação 55** 
meridianos, outros 45**, outros 35** e outros ainda 24" somente, 
mas apoiando-se nos trabalhos geographicos de Abraham Or- 
telius e outros de grande nomeada, dava o Brazil como co- 
meçando ao Norte no rio de Vicente Pinzon e acabando ao 
Sul na bahia de S. Mathias. (2) 

O Padre João de Souza Ferreira na sua America Abre- 
viada diz também que o Brazil terminava ao Sul do Rio da 
Prata 179 léguas onde se realizaram «os primeiros e verda- 
deiros actos de posse com marco que se metteu na Bahia de 
S. Mathias» (3) e ao Norte ia até o rio de Vicente Pinzon, 
40 léguas além do cabo dos Humos, hoje cabo do Norte, o 
qual está por 2" 40' acima da Equinoxial. 

O mesmo autor relata que, segundo Fr. Marcos de 
Guadalaxara na sua Historia Poatifical, ahi começavam as 



(1) Ilist. Geral do Brazil, de A. Varnhagcn, 2' edieção, vol. I, pag. 57. 

(2) Simão de Vasconcellos, Chroiiica da Comp. de Jesú do Estado do Bra- 
zil— vol. I pag. lY. 

(3) Revista do Instituto Histórico, tomo 57. 



— 204 — 

índias Occidentaes de Castella e que, por commum acordo 
de Carlos V e de D. João III, se metteram dous padrões de 
mármores, um da banda do nascente cora as armas de Por- 
tugal e outro da parte do Poente com as armas de 
Castella. 

Bernardo Pereira de Berredo e António Baena referem 
que um desses padrões fora, com effeito, encontrado em 1723 
por João Paes do Amaral 

Do mesmo roteiro de Pêro Lopes se vê como os Portu- 
guezes consideravam lançada a meridiana de demarcação ao 
Poente da foz do Amazonas ou « rio do Maranhão », como 
então se chamava. «Aqui, diz o roteiro, ao descrever a chegada 
da armada no archipelago de Cabo Verde, achamos hua náo 
de duzentos toneis, e uma chalupa de Castelhano ; e em che- 
gando nos disseram como iam ao Rio do Maranham e o ca- 
pitam J. lhe mandou requerer que elles não fossem ao dito 
rio ; porquanto era dei Rei nosso senhor e dentro da sua 
demarcação.» 

Frei Gaspar da Madre Deus, nas suas Memorias para a 
Historia da Capitania de S. Vicente, obra publicada em 1796, 
quando ja se tinham vulgarizado os processos astronómicos de 
determinação de longitude diz textualmente, falando de 
Buenos Ayres, fundada pelos castelhanos na margem austral 

do Rio da Prata: « que a coroa de Portugal se contentava 

com que este rio fosse a balisa da Nova Lusitânia ; não obs- 
tante chegar mais ao sul a linha divisória. » 

Ve-se, portanto, que desde época remota se consideraram 
os Portuguezes com direito ao rio da Prata e que as taes 
observações astronómicas dos pilotos de Martim Affonso jamais 
lhes abalaram essa crença. 

Ao contrario do Sr. Varnhagen, dizem outros escriptores 
que Martim Affonso, longe de se convencer de que taes terras 
não eram portuguezas, delias até tomou posse em nome de 
seu rei, Simão de Vasconeellos diz que o almirante assentou 
marco na ilha de Maldonado, pouco ao Norto da entrada do 
estuário. Charlevoix repete o mesmo na sua « Historia do 
Paraguay » e mais modernamente o Sr. Cândido Mendes no 



205 



seu Atlas do Brazil nos refere que o mesmo navegador assen- 
tara marco em Castilhos Giandes. (1) 

Parece-nos que outras foram as razões que levaram o 
almirante a retroceder para S. Vicente. 

Posto que, ao navegar para o sul, não lhe foi possivel, em 
vista das difficuldades do tempo, entrar nesse porto e conhe- 
cer-lhe pessoalmente as vantagens, é bem certo que possuia 
acerca da região informaçães precisas. O mesmo roteiro de 
Pêro Lopes a que nos temos referido deixa perceber que a 
bordo da esquadra vinham homens práticos da costa, e até 
nos apresenta um certo Pedre Annes, piloto que era lingua 
da terra. E' por isso que,ao voltar para o Norte, já vinha 
a esquadra de rota batida para S. Vicente (2) e só de arriba- 
da é que entrou em Cananéa onde se deteve cerca de oito dias. 
De facto, a expedição, que partira da Europa com o 
fim de colonizar e conhecer a terra, não veiu com o plano 
assentado de fixar-se nem no Rio da Prata como nol-o affirma 
o sr. Varnhagen, nem em S. Vicente como opina o sr. Mendes 
de Almeida. (3) 

A primeira colónia regular dos Portuguezes na America 
seria assentada onde melhor parecesse ao almirante. E' assim 
que, entrando em Pernambuco, apenas examina as feitorias, 
mas se não decide fixar sob esse clima equatorial ; aporta á 
Bahia, onde por duas vezes arriba por motivo das tempes- 
tades, mas ahi apenas deixa dous homens e sementes para 
ver qual a capacidade da terra ; chega ao Rio de Janeiro 
cuja paisagem parece atrahil-o, mas apenas ahi permanece 
o tempo necessário para refazer-se de mantimentos e aguardar 
a volta da gente que mandou pelo sertão examinar a terra, 
vae por fim até o Rio da Prata, mas ainda ahi se não deixa 
seduzir pela amenidade do seu clima temperado e retrocede 



(1) o roteiro de Pêro Lopes não fala em outros marcos que não os as- 
sentados no esteiro dos Carandins. Na ilha de Maldonado apenas se mandou 
assentar uma cruz com uma carta envolvida em cera para assignal-a um ber- 
gantim que se desgarrara. 

(2) O Diário de Pêro Lopes diz testualmente : *Aqui estivemos nesta 
ilha (a das Palmas, junto ao cabo de S. Maria) quatrc dias fazendo-nos pre- 
tes para nos irmos ao rio de S. Vicente». 

(3) Atlas do Império do Brazil, pag. 24. 



— 'J06 ~ 

para essa região de sob o Trópico, para S. Vicente, que 
aliás não conseguira avistar até então. 

Entretanto, explica-se facilmente o motivo das prefe- 
rencias de Martim Aífonso em relação a esse porto. 

A colónia, que vinha fundar tinha de locar-se no ponto 
da costa que mais vantagens oíFerecesse para a exploração 
subsequente do interior do paiz, tendente a descobrir-lhe as 
riquezas mineraes de que já havia informações quasi que 
positivas. 

E' preciso não perder de vista que a attenção da me- 
trópole pela sua até então abandonada possessão da America 
vinha despertada pelos successos dos Hespanhoes no México 
e no Peru. O ouro da America já a esse tempo despertava 
a cobiça do mundo inteiro. 

No trecho da costa brazileira entre o Cabo Frio e o 
porto dos patos (Santa Cathariua) era tradição de que para 
o interior havia abundância de ouro e de outros metaes pre- 
ciosos, tradição que o almirante ao deixar a Europa não devia 
desconhecer. (1) 

Já no Rio de Janeiro havia elle recebido dos quatro ex- 
ploradores do sertão e daquelle rei selvagem que os conduzia 
a bôa nova de que para as regiões provavelmente do Oeste e 
do Sudoeste o ouro abundava. 

Em Cananéa as informações do aventureiro Chaves 
levam-no até a convição ; e por isso não trepida em enviar 
ao sertão aquelle troço de 80 homens ao mando de Pêro 
Lobo Pinheiro. 

No Porto dos Patos, uns quinze castelhanos, encontrados 
perdidos, e que ahi estavam desde muitos annos «deram 
novas ao capitão I. do muito ouro e prata que dentro do 
sertão havia, e traziam mostras do que diziam e affirmavam 
ser mui longe». Taes palavras são do mesmo roteiro. 

A tradição da viagem de Aleixo Garcia, indo de São 
Vicente ao Peru em 1525, fabulosa ou não, é em si mesma 



(1) Escreve o padre Simão de Vasconcellos : «Affirmavam os 
índios, que os mais dos rios deste districto eram copiosos em mineraes de 
ouro, prata, ferro, calaim e salitre até o rio cananéa : Chronica da Comp. de 
Jesu' do Estado do Brazil, vol. I, pag. LIII. 



— 207 — 

a encarnação dessa vaga idéa de riquezas que se presumia 
abundar algures pelos sertões, e do espirito audacioso que 
prevalescia nessa época de aventuras. 

S. Vicente vinha já na tradição como um porto das 
minas, ou, , pelo menos, como o local da zona maritima mais 
adequado para attingil-as, como dahi Aleixo attingira o 
Peru. A colónia alii assentada vinha, portanto, como sub- 
sidio á desejada solução de um problema. 

Essa parte da costa brazilica que de Cabo Frio se in- 
flecte para o Oeste e depois para o Sudoeste como que mo- 
delando na grande curvatura um mar brazileiro, tão varia no 
seu aspecto, tão bella no pittoresco das suas montanhas de 
granito, tão retalhada de bahias amplas, enseadas seguras, 
tão abundante de ilhas, essa costa bem podia chamar-se 
desde então a costa do ouro pela fama ou tradição delle que 
já corria, como aquella outra secção ao Norte de Porto Se- 
guro se podia chamar a costa do páu hrazil. 

Quando os dous irmãos Souzas tiveram de escolher 
onde locar as suas capitanias, foi certamente atten- 
dendo para taes circumstancias que escolheram o melhor^ e 
porque assim já o havia aactorizado EL REI. (1). 

Por isso, a capitania de Martim Aflonso de Souza abrange 
o centro dessa costa do ouro e vae por 100 léguas desde o 
rio Macahé até 12 léguas ao sul da ilha de Cananéa ; e para 
não descontentar o irmão Pedro Lopes, bravo mancebo, já 
illustre nas lides do Oceano, abre-se-lhe espaço nessa mesma 
costa, nas vizinhanças de S. Vicente, onde lhe são doadas 10 
léguas como para fazer-lhe participar dos beneíieios das so- 
nhadas minas d'ouro, ainda veladas nos seios dos sertões. 

Mas como homem pratico que era, Pêro Lopes quiz ter 
no Brazil também aquillo que aqui positivamente estava 
rendendo, quiz ter o seu trecho da costa do páu hrazil ; e 
então, eiFo com a doação de 30 léguas em Itamaracá onde 
o lenho de tinturaria era o mais abundante e precioso. 



CO Carta dei Rei D. João III a Martim Affonso de Souza, escripta 
de Lisboa a 28 de setembro de 1532. 



— 208 — 

O resto das suas posses escolhe-o elle ainda na costa do 
Sul, nas quarentas léguas que se seguem ás do irmão, e 
abrangendo essa parte o Porto dos Patos, onde também era 
tradicional a fama do ouro. 

Lançados, porém, os fundamentos da primeira colónia 
regular portugueza da America, á margem dessa pittoresca 
bahia de S. Vicente, em cujas aguas ainda balouçavam os 
restos da pequena esquadra, o almirante cuja missão estava 
cumprida, e que tinha ordem de regressar quando lhe aprou- 
vesse, expede tão somente a maruja para a Europa e se 
deixa ficar nesta terra dos Guoyanazes, aguardando novas da 
expedição de Lobo que não voltava. 

Como a de Aleixo que a tradição faz trucidada nas 
margens do Paraguay, essa expedição partiu para não mais 
voltar. Até hoje ninguém sabe que destino foi o seu. Mas 
se a perda de tantos companheiros, cuja morte escura ficou 
para sempre um segredo impenetrável das selvas americanas, 
trouxe desengano a todas as esperanças do almirante, que 
deixou logo o Brazil para sempre, na alma, inculta do ma- 
meluco, do filho dessa raça cruzada que se ia formando, ta- 
lhada para as conquistas do deserto, ficou a crença inabalável 
de um Brazil de ouro, acaso velado nas brumas do futuro. 

A elle, o mameluco, é que devia caber esse lance der- 
radeiro da fortuna ; a elle a justificação inteira das prefe- 
rencias do almirante. 

São Paulo, 17 de julho de 1895. 



ACTAS DAS SESSÕES 



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3Aa 8Á1 



Actas das sessões 



Sei^NRO cie inistallaçâo em !•'' de novembro 
cie 1894 

Ao 1." dia do mez de novembro de 1894, ao meio dia, 
nesta cidade de S. Paulo, em uma saia da Faculdade de 
Direito, reunidos, pessoalmente e por procuração, cidadãos 
em numero de sessenta para o fim de se fundar nesta 
Capital o Instituto Histórico e Geographlco de S. Paulo 
conforme convite anteriormente distribuído por uma com- 
missão composta dos drs. Domingos Jaguaribe, Estevam Leão 
Bourroul e António de Toledo Piza, o sr. dr. Domingos Ja- 
guaribe expoz o fim da reunião e propoz para presidil-a o 
sr. dr. Cesário Motta Júnior, que foi unanimemente accla- 
mado Presidente da assembléa e tomou assento na Mesa, 
convidando para servirem de secretario os srs. drs. António 
de Toledo Piza e Domingos Jaguaribe, que também toma- 
ram assento na Mesa. 

O sr. dr. Domingos Jaguaribe leu cartas de diversos 
cidadãos em que, communicando não poderem assistir á pre- 
sente reunião, por motivos imperiosos, declaram adherir á 
idéa da fundação do Instituto e pedem que sejam tidos 
como presentes e considerados como sócios fundadores. O sr. 
dr. António de Toledo Piza e mais algumas pessoas presen- 
tes também declaram os nomes de diversos cidadãos que, 
não podendo comparecer, os encarregaram de dar a sua adhe- 
são á idéa que motiva esta reunião e solicitar a sua inclu- 
são na lista dos fundadores, devendo-se consideral-os como 
presentes. 

Em seguida o sr. dr. Jaguaribe leu as bases dos Esta- 
tutos da Sociedade, que são postas em discussão. Por pro- 
posta do sr. dr. Garcia Redondo, é deliberado que o projecto 



— 212 — 

<le Estatutos seja approvado provisoriamente, devendo ser 
impresso e distribuido, para em reunião posterior ser discu- 
tido e definitivamente approvado com as emendas que por- 
ventura os sócios apresentassem. 

Passou-se depois a nomear a Directoria que deve servir 
^interinamente, sendo eleitos por acclamaçâo os srs. drs. Ce- 
sário Motta Júnior, presidente. Domingos Jaguaribe, vice- 
presidente, António de Toledo Piza, secretario, Estevam Leão 
Bourroul, Carlos Reis e cónego José Valois de Castro. 

Por proposta do sr. dr. Domingos Jaguaribe, unanime- 
mente acceita, foi acclamado presidente honorário do Insti- 
tuto o sr. dr. Prudente José de Moraes Barros 

Nada mais havendo a tratar, o sr. dr. Cesário Motta 
declarou installado o Instituto Histórico e Geographico de 
S. Paulo, dando parabéns ao Estado, congratulando-se com 
^s fundadores de tão importante instituição e especialmente 
•com os iniciadores de tão útil idéa, cuja brilhante realização 
«s deve ter enchido de jubilo, e promettendo, tanto quanto 
j)udesse prestar, seus serviços á sociedade. 



lielaçâo dos sócios que coiiiparecerain st 
feuniâo para a installaçâo cio Instituto 
e dos que foram considerados presen- 
tes por terem feito se representar. 

1 Dr. Alfredo Moreira de Barros Oliveira Lima 

2 António Augusto da Fonseca 

3 Dr. António Dino da Costa Bueno 

4 Dr. António Evaristo Bacellar 

5 Dr. António Francisco de Paula Souza 

6 António Moreira da Silva 

7 Dr. António de Toledo Piza 

8 Dr. Argemiro da Silveira 

9 Arthur Goulart 

10 Dr. Augusto de Siqueira Cardoso 

11 Dr. Benedicto Estellita Alvares 

12 Dr, Bento Bueno 

13 Dr. Bernardino de Campos 



— 213 — 

14 Dr. Carlos Daniel Rath 

15 Dr. Carlos Reis 

16 Dr. Cesário Motta Júnior 

17 Dr. Cincinato Braga 

18 Dr. Clementino de Souza e Castro 

19 Dr. Constante Affonso Coelho 

20 Dr. Domingos José Nogueira Jaguaribe 

21 Dr. Estevam Leão Bourroul 

22 Dr. Eugénio Alberto Franco 

23 Eugénio Hollender 

24 Dr. Fergo 0'Connor de Camargo Dauntre 

25 Dr. Francisco Ferreira Ramos 

26 Francisco Ignacio Xavier de Assis Moura 
)£! Dr. Francisco de Paula Ramos de Azevedo 

28 Dr. Gabriel Osório de Almeida 

29 Dr. Gustavo Koenigswald 

30 Henry White 

31 Dr. Hermann von Ihering 

32 Dr. Horace M. Lane 

33 Dr. José Gabriel de Toledo Piza 

34 Dr. José Machado de Oliveira 

35 Dr. José de Sá Rocha 

36 Dr. José Valois de Castro 

37 Dr. José Vicente de Azevedo 

38 Jules Martin 

39 Lafayette de Toledo 

40 Dr. Luiz de Toledo Piza e Almeida 

41 Dr. Manoel António Duarte de Azevedo 

42 Manoel Augusto Galvão 

43 Dr. Manoel Ferreira Garcia Redondo 

44 Manoel Marcelino de Souza Franco 

45 Dr. Manoel de Moraes Barros 

46 Dr. Manoel Pessoa de Siqueira Campos 

47 Dr. Orville A. Derby 

48 Dr. Paulo Egydio de Oliveira Carvalho 

49 Dr. Pedro Augusto Gomes Cardim 

50 Dr. Pedro Vicente de Azevedo 

51 Dr. Prudente José de Moraes Barros 



— 214 — 

52 Dr. Raymundo Furtado Filho 

53 Dr. Severino de Freitas Prestes 

54 Tancredo do Amaral 

55 Dr. Theodoro Sampaio 

56 Theophilo Barbosa 

57 Thomaz Galhardo 

58 Tiburtino Mondim Pestana 

59 Tristão Araripe 

69 Dr. Viriato Brandão 



3.* Hcnsão em O de tlezeiíibro de 189^4 

Presidência do sr. dr. Cesário Moita Júnior 

Na sala nobre do edifício da Escola Normal, ao meio 
dia, presentes os srs. Cesário Motta, Domingos Jaguaribe, 
Carlos Reis, Estevam Bourroul, António Piza, Paula Souza, 
Assis Moura, Augusto Cardoso, Souza Franco, Jules Martin, 
Arthur Goulart, Henry White, Carlos Rath, Theophilo Bar- 
bosa, Tancredo do Amaral e Osório de Almeida, o sr. Pre- 
sidente declarou aberta a sessão, convidando o director pro- 
visório sr. dr. Carlos Reis a servir interinamente de 2." se- 
cretario. 

E' lida, approvada e assignada pelos sócios presentes a 
acta da sessão de installação. 

EXPEDIENTE 

Officio do sr. dr. Manoel A. de Souza Sá Vianna ofte- 
recendo ao Instituto um exemplar da sua memoria histórica 
Cincoenta annos de existência, um dito do Catalogo da ex- 
posição dos trabalhos juridicos e uma medalha commemora- 
tiva da libertação dos escravos em 13 de maio de 1888. 

Por parte do sr. dr. João Motta e intermédio do sr. 
Presidente, foi ofFerecido um manuscripto inédito contendo a 
Oração fúnebre do Padre Diogo Feijó pronunciada por Cân- 
dido José da Motta. 

Foram também recebidos dois exemplares dos Estatutos 
do Instituto Geographico e Histórico da Bahia. 

Todas estas offertas foram recebidas com especial agrado. 



Foram considerados sócios fundadores, em vista das de-" 
clarações feitas por alguns sócios presentes, os srs. Alberto 
Lofgren, dr. Joaquim Floriano de Godoy, dr. Hypolito de 
Camargo, dr. José Estacio C. dé Sá e Benevides, dr. Rodol- 
pho Pereira, dr. Augusto Cezar de Barros Cruz e dr. José 
Maria Valle,, que, tendo sido convidados, não puderam com- 
parecer á sessão de installação. 

ORDEM DO DIA 

o sr. Presidente declara que achando-se impresso e dis- 
tribuido o projecto de Estatutos, vai submettel-o á discussão, 
fim especial da presente sessão, e consulta a assembléa si a 
discussão deve ser feita englobadamente, ou por capítulos ou 
por artigos. 

Usam da palavra alguns sócios, apresentando diversos 
alvitres, vindo porém a prevalecer a seguinte proposta do 
sr. dr. Osório de Almeida, a qual foi approvada : 

«Que em razão do pequeno numero de sócios presentes 
fosse adiada a discussão dos Estatutos para outra sessão, 
convocando-se os sócios por convites individuaes e declaran- 
do-se que a assembléa funccionará com qualquer numero 
que comparecer.» 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente levantou 
a sessão, designando o dia 16 do corrente mez, neste mesmo 
togar e a mesma hora, para a próxima reunião, sendo os só- 
cios convidados individualmente por convites especiaes. 



B**" HeiSNão, em 16 de «lezeiubro de 1H04 

Presidência do sr. dr. Cesário Motta Júnior 

Na sala nobre da Escola Normal, ao meio dia, presen- 
tes os sócios srs. Cesário Motta, Carlos Reis, António Piza, 
Garcia Redondo, Augusto Cardoso, Orville Derby, 'Alberto 
Lõfgren, Pedro Vicente, Osório de Almeida, João Monteiro, 
Duarte de Azevedo, Theodoro Sampaio, Estevam Bourroul, 
Domingos Jaguaribe, Luiz Piza, Paulo Egydio, Machado de 
Oliveira, Bento Bueno, Moura Escobar, Rodolpho Pereira, 



— 216 — 

Yiriàto Brandão, Eugénio Franco, Theophilo Barbosa, Hen- 
ry White, Carlos Rath,. Ma«ed© Soares, Tancredo Amaral,. 
Jules Martin, Arthur Goulart, e Souza Franco, o snr. Pre- 
sidente declarou aberta a sessão. 

Foi lida, approvada e assignada pela Mesa a acta da 
sessão antecedente.. 

Foram considerados sócios fundadores os seguintes srs^ 
que, por intermédio de alguns sócios presentes, declararam 
não terem comparecido á sessão de installação por motivos 
de força maior : dr. Alexandre Florindo Coelho, padre 
Joaquim Soares de Oliveira Alvim, dr. Martinho Prado Ju~ 
nior, dr. Manoel Ferraz de Campos Salles, dr. João Nepo- 
muceno Nogueira da Motta, dr. Cândido Nazianzeno No- 
gueira da Motta, dr. Manoel Pereira Guimarães e Gabriel 
Prestes. Achando-se este ultimo na ante-sala, é convidada 
a tomar parte nos trabalhos, o que faz, assignando o livra 
de presença. 

Não havendo matéria de expediente, passou-se á 

Ordem do dia * 

Entra em discussão o projecto de Estatutos. 

Usam da palavra, fazendo considerações a respeito e 
apresentando diversas emendas os sócios srs. Garcia Redon- 
do, João Monteiro, Domingos Jaguaribe, Bento Bueno, Car- 
los Reis, Osório de Almeida e Duarte de Azevedo. Estan- 
do a hora adiantada, o sr. Presidente lembra a conveniência 
de ser adiada a discussão para outra sessão, o que foi una- 
nimemente approvado ; é então levantada a sessão e convo- 
cada a seguinte para o dia 23 do corrente mez, neste 
mesmo logar, ao meio dia. 



4«* Setsisâo, em 23 de dezembro de 1894 

Presideiicia do snr. dr. Cesário Motta Júnior 

No logar e hora do costume, presentes os sócios srs.^ 
Cesário Motta, Carlos Reis, António Piza, Orville Derby, 
Domingos Jaguaribe,, Garcia Redondo, Osório de Almeida. 



~ 2i7 — 

João Monteiro, Hypolito de Camargo, Pedro Cardim, Souza 
Franco, Alberto Lõfgren, Henry White, Bento Biieno, 
Arthur Goulart, Cândido Motta, Viriato Brandão, J^stevam 
Bourroul, Tancredo Amaral, Assis Moura, Luiz Piza, Paula 
Souza e Duarte de Azevedo, o snr. Presidente declarou 
aberta a sessão. 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

Não houve matéria de expediente. 

Por proposta de alguns srs. sócios presentes, a assem- 
bléa, attendendo ás razões apresentadas, deliberou considerar 
como sócios fundadores os srs. dr. Francisco de Paula Ro- 
drigues Alves, Augusto Cezar Barjona, Lindorf Ernesto 
Pereira de Vasconcellos, Henrique Affonso de Araújo Ma- 
cedo, dr. António Joaquim Ribas, dr. José Cardoso de 
Almeida, dezembargador Aureliano de Souza e Oliveira 
Coutinho, dr. Alfredo Rocha e Emmanuel Vanorden. 

O sr. dr. Garcia Redondo, não se oppondo á admissão 
de pessoas na qualidade de sócios fundadores neste periodo 
de constituição da sociedade, propoz e foi sem debate 
approvado que fossem adraittidos e considerados sócios fun- 
dadores todos aquelles que o sollicitassem até o dia 31 do 
corrente mez, uma vez que tivessem as qualidades necessá- 
rias, a juizo da Directoria, que ficava autorizada a acceitar 
ou recusar até aquella data. 

Achando-se na ante-sala, os srs Augusto Cezar Barjona 
e Lindorf de Vasconcellos, acceitos na presente sessão, 
foram convidados a tomar assento na assembléa, o que fize- 
ram, assignando o livro de presença. 

Ordem do dia 

Continua em discussão o projecto de Estatutos com as 
emendas apresentadas na sessão passada. 

Usam da palavra diversos sócios, sendo apresentadas 
mais algumas emendas. Encerrada a discussão, procede-se 
á votação das emendas e afinal dos Estatutos englobada- 
mente. Terminada a votação, foi nomeada uma commissão 
composta dos srs. drs. Garcia Redondo, Domingos Jaguaribe 
e António Piza, para apresentar os Estatutos ordenados e 



— 218 — 

redigidos, ficando convocada uma reunião para o dia 30 do 
corrente, neste mesmo logar, para a approvação da redação. 

ELEIÇÃO DA DIRECTORIA 

O sr. Presidente declara que, de acordo com a convo- 
cação feita, passava-se á 2." parte dos trabalhos, que era a 
eleição da directoria. 

Nomeados os escrutadores, procedeu-se a eleição, cujo 
resultado foi o seguinte : 

Presidente 
Dr. Cesário Motta Júnior. 

Vice-presidente 
Conselheiro Dr. Manuel António Duarte de Azevedo. 

i." Secretario 
Dr. Carlos Reis. 

2.° Secretario 
Dr. Manoel Ferreira Garcia Redondo. 

Thesoureiro , 

Dr. Domingos José Nogueira Jaguaribe. 

Finda a apuração, foram eleitos, proclamados e empos- 
sados dos seus cargos, agradecendo neste acto o sr. dr. 
Cesário Motta a sua eleição e promettendo empregar todos 
os esforços a seu alcance para a prosperidade do Instituto. 



5." seí^sâo, ein 30 de alezeiíilM^o cie IHO^ 

Presidência do sr. dr. Cesário Motta Jiinior 

No logar e hora do costume, presentes os sócios srs. 
Cesário Motta, Souza Franco, Tiburtino Mondim, Garcia 
Redondo, Henry White, Bento Bueno, Osório de Almeida, 
Jules Martin, António Piza, António Augusto da Fonseca, 
Estevam Bourroul, Cerqueira César e Theodoro Sampaio, o 
sr. Presidente declarou aberta a sessão. 



— 2i9 — 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

O sr. Presidente communica á assembléa que, de acor- 
do com a deliberação tomada na ultima sessão, a Directoria 
tinha incluido na lista dos sócios fundadores, participando- 
se-lhes a admissão, os seguintes srs. : 

Drs. Vicente Liberalino de Albuquerque, José Alves de 
Cerqueira Cezar, Júlio Cezar Ferreira de Mesquita, Arthur 
Cezar Guimarães, Augusto Fomm, José Ferreira de Garcia 
Redondo, Eduardo Carlos Pereira, Gabriel de Toledo Piza 
e Almeida, Luiz de Anliaia Mello, Jcrge Tibiriçá, João Alvares 
Rubião Júnior, António da Silva Prado, Francisco Glicerio, 
Alfredo Ellis, Jayme Serva, Horácio de Carvalho, José Fer- 
raz de Almeida Júnior, Braulio Gomes, Augusto Cezar de 
Miranda Azevedo, José André do Sacramento Macuco, Ce- 
sário Gabriel de Freitas, Joaquim de Toledo Piza e Almei- 
da, João Cândido Martins, Fortunato Martins de Camargo, 
Manoel Alves de Souza Sá Vianna, José Francisco Soares 
Romeo, Virgílio de Rezende, Francisco Martiniano da Costa 
Carvalho, Carlos de Campos, Carlos Botelho, António Carlos 
Ribeiro de Andrada Machado e Silva e Jacob Itapura de 
Miranda. 

Communicou mais o sr. Presidente que, nos termos do 
§ 2.** do art. 20 dos Estatutos, e tendo ouvido a Diretoria, 
constituirá as commissões permanentes do seguinte modo : 

1.* CoiiiiiiiNsâo <le Fe^ii lamentos e 
es ta tio tos 

Dr. João Pereira Monteiro. 

Dr. Severino de Freitas Prestes. . 

Dr. Estevam Leão Bourroul. 

2.* Coififiitiissâo de aílaiifissmí de sot*ios 

Dr. Manoel António Duarte de Azevedo. 

Dr. Bento Bueno. 

Dr. Luiz de Toledo Piza e Almeida. 



- 220 — 

a."^ Coiiiiiiissâo de i-eclação da « Revista » 

Dr. António de Toledo Piza. 

Dr. Domingos José Nogueira Jaguaribe. 

Dr. Manoel Ferreira Garcia Redondo. 

4." Conimissão de litstoi*ia e estatística de 
S. Paulo 

Dr. António de Toledo Piza. 
Dr. Jayme Serva. 
Lafayette de Toledo. 

5." Coiiinilssâo de liistoria ^eral do Brazil 

Dr. José Estacio Corrêa de Sá e Benevides. 

Dr. José Valois de Castro. 

Dr. Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho. 

6.* Coiiimissão de Geo^raplila de S. Paulo 

Dr. Theodoro Sampaio. 
Tancredo de Amaral. 
Dr. Orville Derby. 

'7." Coiiiuiissâo de ^eo^rapliia ^eral do 
Brazil 

Dr. José Vicente de Azevedo. 
Major Gabriel Prestes. 
Tiburtino Mondim Pestana. 

8.* Conimissâo de literatura e 
luanuscriptos 

Dr. Pedro Augusto Gomes Cardim. 

Horácio de Carvalho. 

Francisco Ignacio Xavier de Assis Moura. 

O.*^ Conimissâo de seiencias, numismática 
e arclieolo^ia 

Dr. Paulo Egydio de Oliveira Carvalho. 
Dr. Gabriel Osório de Almeida. 
Alberto Lõfgren. 



— 221 — 

iO.*" ConiinlNj^âo de arteis e incluis tr ias 

Dr. Francisco Ferreira Ramos. 

Dr. Francisco de Paula Ramos de Azevedo. 

Dr. Ignacio Wallace da Gama Cochraue. 

Em seguida passa-se á 

ORDEM DO DIA 

Lidos os Estatutos redigidos pela commissão para esse 
fim nomeada e posta em discussão e depois em votação a 
respectiva redação, é esta unanimemente approvada. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente levantou 
a sessão, declarando que a primeira reunião a realizar-se 
será a 25 de janeiro vindouro, dia marcado pelos Estatutos 
para começo dos trabalhos. 



!•* ^íesísâo orclinai-ia, em 2B de Janeiro 
de 1H95 

Presidência do snr . dr. Cesário Motta Júnior 

No edifício onde funcciona o Gymnasio do Estado, as 
7 1/2 horas da noite, presentes os sócios snrs. Cesário Motta, 
Theodoro Sampaio, Macedo Soares, Moura Escobar, António 
Carlos de Andrada, Augusto Cardoso, Clementino Castro, Bento 
Bueno, Soares Romeu, Araújo Cintra, Alberto Lõfgren, Gabriel 
Prestes, Cândido Motta, Manoel Guimarães, Theophilo Barbosa, 
Alexandre Riedel, Henry White, Orville Derby, Tiburtino 
Mondim, Carlos de Campos, Joaquim Piza, Duarte de Aze- 
vedo, Furtado Filho, Augusto Barjona, Viriato Brandão, 
Eugénio Hollender, Virgilio Rezende, Horace Lane, Jayme 
Serva, Mathias Valladào, Siqueira Campos, Paula Souza, 
Eugénio Franco, António Piza, Luiz Piza, Ernesto Cohn, 
Tancredo Amaral, Moreira da Silva, Pedro Cardini,' Souza 
Franco e Carlos Reis, faltando com participação os snrs. 
Garcia Redondo, Domingos Jaguaribe, Alfredo Ellis e 
Eduardo Pereira, o snr. Presidente convidou o snr. dr^ 
António Piza a occupar o legar de 2." Secretario, e decla- 



22 2 

rou aberta a sessão, proferindo neste acto uma brilhante 
allocução. 

Lida a acta da sessão antecedente, foi approvada. 

EXPEDIENTE 

1.° secretario communica terem sido feitas ao Insti- 
tuto as seguintes 

Ojfertas 

Pelo Professor Fival de Teixeira Braga, o 1.'' fasciculo 
do seu Diccionario geographico, histórico, biographico e 
descriptivo da Provinda do Paraná e sete números da Re- 
vista do Paraná, jornal illustrado por elle publicado em 
1887. 

Pelo snr. António Gomes de Azevedo Sampaio, um 
•exemplar da sua monographia Saúva ou manhu-uára. 

Pela Gamara Municipal de Santos um exemplar da sua 
Co7istituição. 

Pela Sociedade Pharmaceutica Paulista, um exemplar 
dos seus Estatutos. 

Pelo sócio snr. Jules Martin, a Planta da Cidade de 
São Paulo em 1810 (mappa). 

Pela respectiva redacção, o 1.** fasciculo da Revista 
Brazileira. 

Todas estas ofFertas são recebidas com especial agrado. 

O sr. Presidente communica que, em virtude da delibe- 
ração da assembléa na sessão de 23 de dezembro próximo 
findo, a Directoria incluiu no quadro dos sócios fundadores 
mais os seguintes snrs. : drs. Theodoro Dias de Garvalho, 
António Francisco de Araújo Gintra, João de Arruda Leite 
Penteado, José Baptista Pereira, Luiz António de Souza 
Ferraz, Alexandre Riedel, José Luiz de Almeida Nogueira, 
Wenceslau de Queiroz, José Maria Lisboa, Mathias Valladão, 
Martim Francisco Ribeiro de Andrada Sobrinho, Ernesto de 
Moraes Gohn, António Pereira Prestes e Oscar Horta, aos 
quaes foi participada a admissão. 



oo; 



Ordem do dia 



Da parte do snr. dr. Domingos Jaguaribe, é apresentado 
nm seu trabalho intitulado Origens Repuplicanas do Brazil, 
o qual vai á Commissão de historia geral do Brazil para 
emittir parecpr. 

Pelo snr. Presidente são apresentadas as seguintes theses, 
que são aceitas pela assembléa para o fim de serem desen- 
volvidas em conferencias pelos snrs. sócios : 

1 Das divisas de S. Paulo com os Estados limitrophes. 

2 Da influencia do rio Tietê na civilização de S. Paulo. 

3 Missões jesuíticas do Guayrá. 

4 Da viação férrea em S. Paulo no passado, presente e 
futuro. 

5 Da geographia medica de S. Paulo. 

6 Da flora e fauna de S. Paulo. 

7 Influencia do estudo do direito em S. Paulo na civi- 
lização do Brazil. 

8 Das finanças de São Paulo, no passado, no presente e 
no futuro 

9 Da lingua portugueza e das modificações que tem 
experimentado em S. Paulo. 

10 Da imprensa de S. Paulo e de sua influencia desde 
os seus primeiros tempos. 

O sr. Duarte de Azevedo lembra que seria conveniente 
dirigir-se uma circular ás Gamaras Municipaes do Estado 
solicitando a remessa ao Instituto de documentos que existam 
em seus archivos que se refiram a pontos da nossa historia 
ou que tenham importância ou interesse geral, porque assim 
obter-se-iam elementos para o estudo das theses a desen- 
volver e para a organização de trabalhos, tornando-se também 
uma fonte de material para a «Revista» a publicar. 

O sr. Presidente declara que a Directoria tomará em 
consideração o alvitre indicado. 

Nada mais havendo a tratar, foi levantada a sessão. 



- 224 - 

3." Sessão em 2á ile abril de 1895 

Presidência do sr. dr. Manoel António Duarte de Azevedo 

No edifício do Gymnasio, ás 7 horas da noite, presentes 
os sócios srs. Duarte de Azevedo, Tristão Araripe, Henry 
White, Carlos de Campos, Domingos Jaguaribe, Augusto 
Cardoso, Cerqueira Cezar, Osório de Almeida, Tiburtino 
Mondim, Theophilo Barbosa, Liberalino de Albuquerque, 
Soares Romeu, Paula Souza, Mathias Valladão, Augusto 
Barjona, Pedro Vicente, Arthur Goulart, José Vicente, 
Evaristo Barellar, António Piza, Tancredo Amaral e Carlos 
Reis, faltando por motivo justificável os srs. Cesário Motta e 
Garcia Redondo, assume a presidência o vice presidente sr. 
conselheiro dr. Duarte de Azevedo, convida o sr. dr. Paula 
Souza a occupar a cadeira de 2.° Secretario e declara aber- 
ta a sessão, expondo em brilhante allocução o fim especial 
da mesma, que é commemorar o anniversario da morte do 
martyr da liberdade — Tiradentes. 

Foi lida e approvada a acta da ultima sessão. 

1.° Secretario dá conta do seguinte. 

EXPEDIENTE 

Officios 

Do sr. dr. Prudente de Moraes, presidente da Repblica, 
agradecendo a sua nomeação de presidente honorário deste 
Instituto, fazendo votos pela sua prosperidade e prometten- 
do-lhe seu apoio. 

Do sr. dr. Bernardino de Campos, presidente do Estado, 
accusando a communicação que lhe foi feita de ter-se 
installado este Instituto, fazendo votos pela sua prosperidade 
e promettendo-lhe seu apoio. 

Do sr. dr. António Gonçalves Ferreira, ministro da 
Justiça, no mesmo sentido. 

Do sr. dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, ministro 
da Fazenda, no mesmo sentido. 

Do sr. dr. António Olintho dos Santos Pires, ministro 
da Industria, no mesmo sentido. 

Do sr. almirante Elisiario Barbosa, ministro da Marinha, 
no mesmo sentido. 



- 225 — 



Offertas 



Pelo «Instituto do Ceará» : os dois fasciculos da sua Re~ 
vista relativos ao anno de 1894. 

Pela Directoria do Serviço Sanitário do Estado : Boletim 
de Estatística, demographo-sanitaría^ fasciculos de janeiro e 
fevereiro. 

Pelos respectivos autores : Uma revelação histórica, por 
Benedicto Gaivão de Moura Lacerda ; Compendio de Geogra- 
phia do Paraná, por Luiz de França Almeida e Sá. 

Pelo sócio sr. Alberto Lõfgren : 

Boletim da Commissão Geographica e Gelogica do Es- 
tado, fasciculos ns. 9 e 10. 

Pelo Director do «Pedagogium Brazileiro», sr. dr. Me- 
nezes Vieira : Memorias e documentos escolares, ns. 1 a 8 ; 
Revista Pedagógica, 1 a 42 ; (com falta dos ns. 11, 28, 29 e 30), 

Pelo Director Geral interino dos Correios da Republica, 
sr. dr. Martinho Viera de Mello : Guia para a expedição de 
correspondência e malas ; Itinerário para expedição de malas : 
tabeliãs diversas : Relatórios dos serviços dos correios, 1880, 
1889, 1892 e 1893; Inst rucçõ es 2:)ar a o Regulamento de 1865 ; 
Regulamento dos Correios, 1888, 1890 e 1894; Convenções 
postaes 1878 e 1S91 ; InstrucrÕes diversas ; Districtos postaes 
do Rio Janeiro, 1889 e 1893 ; Boletim Postal, fasciculos ns. 
1, 2 e 3 deste anno. 

Pelas respectivas redacções : 

A Madrugada, n. de 13 de fevereiro ; Diário Ojfficial do 
Estado, os ns. publicados de 1." de janeiro deste anno em 
diante. 

Todas essas offertas são recebidas com especial agrado. 

ORDEM DO DIA 

O sr. dr. Jaguaribe procede á leitura do bellissimo ca- 
pitulo de sua obra intitulada Origens Republicanas no Brazil^ 
relativo á Inconfidência Mineira, onde trata com particulari- 
dade do vulto glorioso de Tiradentes, sendo ao terminar muito 
applaudido. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente scientifica 
que a Directoria resolveu marcar os dias 5 e 20 de cada mez 



— Í226 — 

para realizarem-sc as sessões ordinárias do Instituto, convida 
os sócios a comparecerem no dia 5 de maio próximo futuro, 
ás 7 horas da noite, neste mesmo logar, e encerra a sessão 



3.*^ sessão, em 5 cie maio de 1895 

Presidência do sr. dr. Carlos Reis 

A's 7 horas da noite presentes os srs. Carlos Reis, Ti- 
burtino Mondim, Clementino Castro, Augusto Barjona, Al- 
berto Lõfgren, Orville Derby, Henry White, Cândido Motta, 
Arthur Goulart, Domingos Jaguaribe, António Piza, Braulio 
Gomes, Valois de Castro, Gama Cochrane e Bento Bueno. 
faltando com participação os srs. drs. Cesário Motta e Duarte 
de Azevedo, assume a presidência, na falta do presidente e 
vice-presidente, o 1." Secretario, sr. dr. Carlos Reis que con- 
vida para occuparem as cadeiras de 1.° e 2.** Secretario os 
sócios srs. dr. António Piza e Tiburtino Mondim e declara, 
aberta a sessão. 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

1.'' Secretario dá conta do seguinte : 

EXPEDIENTE ' 

Officios 

Do sr. dr. Tranquillino Leovegildo Torres, presidente do 
Instituto Geographico e Histórico da Bahia, accusando e 
agradecendo a participação que lhe foi feita da fundação do 
Instituto Histórico de S. Paulo, fazendo votos pela sua pros- 
peridade e offerecendo seus préstimos. 

Do sr. dr. Raul d' Ávila Pompéa, director da Bibliotheca 
Nacional, no mesmo sentido e offerecendo uma collecção dos 
Annaes daquella bibliotheca. 

Ojfertas 

Pela Directoria do Serviço Sanitário : Boletim de Esta- 
tística, fascículo de março, 

Pelo sr. dr. Mello Moraes Filho : Archivo do Districto 
Federal, os faciculos do anno de 1894 e os de janeiro a maio 
deste anno. 



— 227 — 

Pelo sr. dr. Manoel A. de S. de Sá Vianna : Relatório 
dos trabalhos do Instituto da Ordem dos Advogados Brazi— 
leiros no anno de 1894. 

Pelo sr. dr. Oscar Leal : 

O Amazonas, conferencia por elle realizada na Socie- 
dade de Geographia de Lisboa. 

Pelo sócio sr. dr. Ignacio W. da Gama Cochrane, os 
seus seguintes trabalhos : Saneamento) do porto e cidade de 
Santos ; Saneamento de S. Paulo ; A Companhia de S. Paulo 
e Mio de Janeiro e su^s condições económicas : Resgate da 
£i. F, S. Paulo e Rio de Janeiro ; Liquidação da Compa- 
nhia em virtude do resgate. 

Pelo sócio sr. Arthur Goulart : Revista Moderna, jornal 
pedagógico, ns. 1 a 7. 

São estas offertas recebidas com especial agrado. 

ORDEM DO DIA 

Foram apresentadas, lidas e remettidas á Commissão de 
admissão de sócios as seguintes propostas : 

1.* Para sócio eíFectivo o sr. Luiz de França Almeida 
e Sá, membro no Instituto Histórico e Geographico Brazileiro, 
autor do «Compendio de Geographia do Paraná», assignada 
por Carlos Reis, Domingos Jaguaribe e Arthur Goulart. 

2." Para sócio correspondente o sr. dr. Oscar Leal, jor- 
nalista e escriptor brazileiro, residente em Lisboa, assignada 
por Arthur Goulart, Domingos Jaguaribe e Carlos Reis. 

3.* Para sócio correspondente o sr. dr. Ernesto Goulart 
Penteado, advogado, membro do Conselho Superior de Ins- 
trucção Publica do Estado, assignada por Carlos Reis, Arthur 
Goulart e Domingos Jaguaribe. 

4.* Para sócio correspondente o sr, dr. Henrique Coelho, 
chefe da 1.* secção da Secretaria de Justiça do Estado, as- 
signada por Carlos Reis, Arthnr Goulart, Domingos Jagua- 
ribe e Tiburtino Mondim. 

5.' Para sócio honorário o sr. Barão Homem de Mello, 
historiador e geographo brazileiro, assignada por Domingos 
Jaguaribe, Carlos Reis, Arthur Goulart, Orville Derby e 
Tiburtino Mondim. 



— 228 - 



Foi lido pelo sr. dr. Domingos Jagnaribe um docu- 
mento inédito sobre a revolução para o estabelecimento da 
Republica do Equador em 1824. 

Nada mais havendo a tratar, o snr* Pesidente levantou 
^ sessão. 



4.* sessão, em 13 de maio de 1805 

Presidência do snr. dr. Carlos Reis 

As 7 horas da noite, presentes os sócios snrs. Carlos Reis, 
Paula Souza, Theodoro Sampaio, Aureliano Coutinho, Ema- 
nuel Vanorden, Viriato Brandão, Henry White, Eduardo Pe- 
reira, Augusto Barjona, Veiga Filho, Soares Romeu, António 
Piza, Mathias Valladão e Orville Derby, o l.*' Secretario, sr- 
^r. Carlos Reis, em falta do presidente e vice-presidente que 
não compareceram por justos motivos, assumiu a presidência 
e declarou aberta a sessão, convidando para 1." e 2." secre- 
tários os sócios snrs. dr. António Piza e Soares Romeu. 

Foi lida e approvada a acta da sessão anterior. 

Não houve expediente. 

A convite do snr. Presidente, o sócio snr. desembarga- 
•^-dor Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho acceitou a in- 
cumbência de subir á tribuna para solemnizar a data de hoje 
^ ahi proferiu um brilhantíssimo discurso, que foi caloro- 
samente applaudido. 

Dada a palavra ao sócio sr. dr. João Pedro da Veiga 
Pilho, que se achava inscripto para fazer uma conferencia 
na presente sessão, fez elle uma importante, interessante e in- 
structiva dissertação sobre a these — Das finanças de 8. Paulo, 
TIO passado, no jjreseízíe e no futuro — sendo ao terminar 
applaudido. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente convidou 
ios sócios a comparecerem á sessão ordinária de 20 do corrente 
e levantou a sessão. 



— 229 — 

S.*" sesisâo, eiii ^O de maio de 1H95 

Presidente do sr. Cesário Motta Júnior 

As 7 lioras da noite, presentes os sócios srs. Cesário Mottaj, 
Henry White, Viriato Brandão, Pereira Guimarães, Augusto 
Barjona, Paula Souza, Eugénio Franco, Theodoro Sampaio, 
Eduardo Pereira, Jules Martin, Emannuel Vanorden, Orville 
Derby, Domingos Jaguaribe, Arthur Goulart, Alberto Lõfgreny 
Tancredo Amaral, Valois de Castro, José Vicente, Mathias. 
Valladão, Gama Cochrane, Soares Romeu, Pedro Vicente e 
Carlos Reis, faltando com participação os snrs. Duarte de 
Azevedo, Alfredo Ellis e Garcia Redondo, o sr. Presidente 
convidou o sr. cónego dr. José Valois de Castro a occupar 
a cadeira de 2.** Secretario e declarou aberta a sessão. 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente^ 

1." Secretario dá conta do seguinte : 

EXPEDIENTE 

Officio do sr. dr. Joaquim José de Menezes Vieira, di- 
rector do Pedagogium Brazileiro, enviando o ultimo numero 
da Revista Pedagógica. 

Offertas 

Pela Sociedade Pharmaceutica Paulista : fascículo n. 1 
da sua Revista. 

Pela Directoria Geral dos Correios : Classificação das 
Agencias Postaes e fasciculo n. 4 do Boletim Postal. 

Pelo snr. Olavo de Freitas Martins, Retratos dos arce-^ 
bispos da Bahia (estampa). 

Pelas respectivas redacções : Diário Official do Estado^ 
O Ensaio, ns. 13 e 19. 

São todas estás offertas recebidas com especial agrado. 

ORDEM DO DIA 

Foram lidas e remettidas á Commissão de admissão de 
sócios as seguintes propostas. 

1.* Para sócio effectivo o sr. dr. Jorge Maia, engenheiro' 
do Núcleo Colonial de Sabaúna, autor de um tratado de tri- 
gonometria e de um trabalho inédito sobre a lingua guaranji, 



— 250 — 

assignada por Alberto Lõfgren, Domingos Jaguaribe e Carlos 
Reis. 

2.* Para sócio effectivo o sr. dr. Ernesto Young, enge- 
nheiro residente em Iguape, membro da Sociedade de Enge- 
nharia de Londres, autor do melhor mappa sobre a Ribeira 
de Iguape, assignada por Alberto Lõfgren, Domingos Jagua- 
ribe e Carlos Reis. 

3.* Para socío effectivo o sr. dr. Luiz Pereira Barreto, 
escriptor e homem de sciencia, presidente da Sociedade de 
Medicina, assignada por dr. Domingos Jaguaribe, Carlos Reis 
e Arthur Goulart. 

4.* Para sócio correspondente o sr. dr. José da Costa Ran- 
gel Júnior, advogado, membro do Congresso Legislativo do 
Estado, assignada por Carlos Reis, Domingos Jaguaribe e 
Manoel Pereira Guimarães. 

5.* Para sócio correspondente o sr. dr. Alfredo de Toledo, 
advogado e jornalista, residente em Bragança, assignada por 
Arthur Goulart, Domingos Jaguaribe e Tancredo do Amaral- 

6.* Para sócio honorário o sr. Bellarmino Carneiro, jor- 
nalista, redactor d' O Paiz^ investigador em assumptos geo- 
graphicos e históricos, residente na Capital Federal, assignada 
por Tancredo Amaral, Orville Derby e Arthur Goulart. 

Foi lido e ficou sobre a mesa para ser discutido e votado 
na próxima sessão o seguinte parecer : 

«A Commissão de admissão de sócios tendo examinado 
as propostas relativas aos srs. Luiz de França Almeida e Sá, 
dr. Oscar Leal, dr. Ernesto Goulart Penteado, dr. Henrique 
Coelho e Barão Homem de Mello, o 1.° para sócio effectivo, 
os três seguintes para correspondentes e o ultimo para hono- 
rário, verificou estarem as mesmas de acordo com os Esta- 
tutos e possuirem os propostos as qualidades exigidas ; pelo 
que é de parecer que sejam as propostas approvadas e os 
candidatos admittidos como membros deste Instituto. — S. 
Paulo, 16 de maio de 1894. — Dr. Manoel António Duarte 
de Azevedo. — Bento Bueno. — Luiz de Toledo Piza e Al- 
7neiday>. 

Pelo sr. dr. Orville Derby foi lida uma carta inédita do 
Conde de Cunha, vice-rei do Brazil, escripta no Rio de Ja- 



— 251 — 

neiro em 31 de outubro de 1765 e dirigida ao governo da 
metrópole, sobre divisas de S. Paulo e Minas Geraes, sendo 
os pontos principaes desse documento esclarecidos pelo sr. 
Derby. 

Consta desse importante documento que o Conde de Cunha 
em cumprimento á, ordem do rei determinando que elle man- 
dasse tomar assento dos limites por onde deve j^artir a ca- 
23Ítania de S. Paulo com as de Minas e Goyaz, afim de ser 
resolvido o que ao rei parecesse mais justo, devendo entre- 
tanto ser observado o que fosse assentado até a definitiva re- 
solução da coroa, convocara uma junta composta dos Ministros 
da Junta da Fazenda e de pessoas praticas daquelles sertões, 
dentre as quaes salienta o Guarda Mor das Minas Geraes 
Pedro Dias Paes Leme, como a de maior credito, tanto pela 
sua natural sinceridade, como pelo seu conhecido desinteresse, 
sendo esta pessoa a que deu a luz que era precisa para a 
organização das cartas geographicas que elle Conde de Cunha 
e o Governador de Minas mandaram fazer, nas quaes vê-se 
claramente onde nasce o Rio Grande do Paraná e por onde 
faz a sua corrente ; diz mais o documento que tendo d. João 
V em 1748 mandado que o governador do Rio de Janeiro e 
Minas governasse também S. Paulo e que dividisse este go- 
verno com o de Minas pelo Rio Sapucahy ou por onde me- 
lhor lhe parecesse, dito governador não tendo, como é no- 
tório afiPecto aos Paulisias, mandou que tirando-se uma linha 
recta do marco da serra Mantiqueira até a de Mogy-guassú, 
deste ponto imaginário e pelos altos delia fosse findar a di- 
visão no Rio Grande ; em consequência desta ordem tirava se 
á capitania de S. Paulo todo grande terreno que medeia entre 
Rio Grande e Sapucahy e todo o grande território entre este 
rio e a serra do Dumba, a que se dava o nome de Mogy- 
guassú, mas a demarcação feita pelo ouvidor Thomaz Roby 
ainda causou muito maior prejuízo á capitania de S. Paulo. 
Apezar de ser claríssima a justiça e razão dos Pauliátas pre- 
tendendo e esperando a restituição de todo o território que 
até ás margens occidentaes do rio Sapucahy se lhes tem in- 
devidamente tirado, e sendo o assento da Junta conforme e 
sem a menor discrepância deste parecer, assim como também 



— 232 - 

o bispo da diocese entende que pelo Sapucahy devia ser feita 
a divisão, todavia encontrava elle Conde de Cunha um em- 
baraço em enviar a copia do Assento aos Governadores de 
Minas e Goyaz para a observarem até a definitiva resolução 
conforme a ordem do rei, o qual consistia no seguinte ; «A 
capitania de Minas julgando-se então excessivamente vexada 
com a obrigação de pagar annualmente cem arrobas de ouro, 
desejava uma modificação daquella quota e poderia ser mo- 
tivo para exigir dita modificação a tirada daquelles territó- 
rios úteis de que estava de posse desde 1749, podendo tam- 
bém darem-se distúrbios difficeis de conter e pacificar : é por- 
tanto de opinião que a divisão se faça pela forma determinada 
por d. João V, isto é, pelos rios Grande e Sapucahy e que 
nada se abata na quota das cem arrobas que Minas tem obri- 
gação de pagar, porque quando as oífereceu não possuia 
aquelles territórios e só os Paulistas tinham delles alguma 
noticia». 

Finda a leitura, foi o sr. dr. Derby applaudido. 

O Sr. Olavo de Freitas Martins, sócio fundador do In- 
stituto Geographico e Histórico da Bahia, obtendo a palavra, 
manifesta a sua gratidão por ter-lhe sido permittido assistir 
aos trabalhos da presente sessão e faz votos pela prosperidade 
do nosso Instituto. 

O sr. Presidente agradece as palavras do sr. Olavo e de- 
clara que o Instituto de S. Paulo manteria perfeita solidarie- 
dade com o da Bahia. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente levantou 
a sessão. 



6.* seissâo, em 5 de Junlio de 1895 

Presidência do sr. dr. Cesário Motta Júnior 

A' 7 horas da noite, presentes os sócios srs. Cesário 
Motta, Soares Romeu, Manoel Guimarães, Cândido Motta, An- 
tónio Piza, Garcia Redondo, Duarte de Azezedo, Emanuel 
Vanorden, Orville Derby, Henry White, Theodoro Sampaio, 
Cerqueira Cezar, Eugénio Franco, Tiburtino Mondim, Augusto 
Barjona, Tancredo Amaral, Paula Souza, Macedo Soares e 



— 253 - 

Carlos Reis, faltando com participação o sr. dr. Domingos Ja- 
guaribe, o sr. Presidente declarou aberta a sessão. 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

1.*^ Secretario dá conta do seguinte 

EXPEDIENTE 

Officioft 

Do Instituto Geographico e Histórico da Bahia com- 
municado os nomes dos cidadãos eleitos para a administra- 
ção que tem de funccionar de 1895 a 1896. 

Do sócio sr. dr. Garcia Redondo enviando um exem- 
plar das Caricias para os effeitos do artigo 31 dos Estatutos. 
— A' Commissào de literatura e manuscriptos. 

Offertas 

Pela Directoria Geral dos Correios : Boletim Postal^ 
Cullecçào de todos os fasciculos publicados desde o 1.° numero 
até Dezembro de 1894, e mais o fasciculo n. 5 deste anno. 

Pelos respectivos autores : 

Consultor do Commercio, por João Cândido Martins ; 

Indicações sobre a Historia Nacional.^ por Tristão de 
Alencar Araripe. 

Pelo sócio sr. dr. António de Toledo Piza : Documentos 
interessantes para a historia e costume de S. Paulo, os dez 
volumes publicados (1 até 12); Relatório da Eejyartição de 
Estatística e Archivo de S. Paulo, relativo ao anno de 1893. 

Pela Directoria do Serviço Sanitário : Boletim de Es- 
tatística, fasciculo de abril. 

Pelo sr. dr. I\Iello Moraes Filho : Archivo do Districto 
Federal, fasciculo de junho. 

Pela Companhia Industrial: Almanak do Estado de 8. 
Paulo para 1895. 

Pelas respectivas redacções ; 

Diário Official do Estado ; 

A Madrugada. 

São estas offertas recebidas com especial agrado. 

O sr. Presidente, recordando os serviços prestados pelo 
benemérito cidadão dr. Joaquim Saldanha Marinho, declara 



— 254 -- 

que vai mandar consignar na acta da presente sessão um 
voto de pezar pelo passamento dessa illustre individualidade, 
suppondo assim interpretar os sentimentos não só dos sócios 
presentes como de todos os membros do Instituto. 

ORDEM DO DIA 

E' lido, posto em discussão e sem debate approvado o 
parecer da Commissão de admissão de sócios que ficara so- 
bre a mesa e vem transcripto na acta anterior, sendo pro- 
clamados membros do Instituto os srs. : 

Luiz de França Almeida e Sá, sócio effectivo ; 

Drs. Oscar Leal, Ernesto Goulart Penteado e Henrique 
Coelho, socius correspondentes ; 

Barão Homem de Mello, sócio honorário. 

Foi lido e ficou sobre a mesa para ser discutido na 1." 
sessão o parecer da Commissão de admissão de sócios con- 
cluindo favoravelmente a respeito das propostas relativas á 
íidmissão dos srs. drs. Jorge Maia, Ernesto Young, Luiz Pe- 
reira Barreto, José da Costa Rangel Júnior. Alfredo de To- 
ledo e Bellarmino Carneiro. 

Foram lidas e remettidas á Commissão de admissão 
de sócios as seguintes propostas : 

Para sócio honorário o sr. Barão de Paranapiacaba, li- 
terato e poeta distinctissimo, autor e traductor de muitas 
obras poéticas, residente na Capital Federal, assignada por 
Manoel António Duarte de Azevedo, Carlos Reis e Manoel 
Ferreira Garcia Redondo. 

Para sócio honorário o sr. Barão do Rio Branco, arbitro 
por parte do governo brazileiro no litigio das Missões, resi- 
dente em Londres, assignada por dr. Cesário Motta Júnior, 
Carlos Reis e Manoel Ferreira Garcia Redondo, 

O sócio sr. Tancredo Amaral leu alguns capitulos da 
sua obra — A historia de S. Paulo, sendo applaudido e feli- 
citado pelo seu trabalho. 

O sr. dr. Orville Derby, explanando-se em considerações 
a respeito das divisas de S. Paulo e Minas Geraes, apresenta 
e oíferece ao Instituto as copias de duas cartas geographicas 
antigas e ainda inéditas ; uma de 1766, tendo o seguinte 



— 255 — 

titulo — Carta chorograpJuca da Capitania de S, Paulo, em 
que se mostra a verdadeira situação dos logares por onde se 
fizeram as sete principaes divisões do seu governo com o de 
Minas Geraes ; a outra, de 1778, com o seguinte titulo — 
Mappa da capitania de Minas Geraes, com a divisa de suas 
comarcas . 

O sr. Presidente agradeceu ao sr. Derby a oíFerta que 
acaba de fazer e por nada mais haver a tratar, levantou a 
sessão. 



T,* i^eHí^âo, em SO de Jiiiilio de 1895 
Presidência do sr. dr. Cesário Motta Júnior 

A's 7 'horas da noite, presentes os sócios srs. Cesário 
Motta, Alexandre Riedel, Garcia Redondo, Eugénio Franco, 
Clementino Castro, Theodoro Sampaio, Orville Derby, Henry 
White, João Monteiro, Paula Souza, Pedro Vicente, Gomes 
Cardim, Domingos Jguaribe, António Piza, Manoel Guima- 
rães, Soares Romeu, Tancredo Amaral e Carlos Reis, o sr. 
Presidente declarou aberta a sessão. 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

Comparece e toma assento o sr. dr. Ernesto Goulart, 
acceito na sessão passada na qualidade de sócio correspon- 
dente. 

1." Secretario dá conta do seguinte 

EXPEDIENTE 
Officios 

Da commissão da colónia franceza desta capital convi- 
dando o Instituto a tomar parte na manifestação comme- 
morativa da morte de Sadi Carnot a 24 do corrente. — E' 
acceito o convite e nomeada para representar o Instiiuto 
uma commissão composta dos srs. dr. João Monteiro, dr. Do- 
mingos Jaguaribe e Jules Martin. 

Do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano 
participando ter recebido a communieação da fundação do 
nosso Instituto, congratulando-se com os seus fundadores, 
promettendo todo o auxilio a bem da nossa associação e 



— 256 — 

declarando ter remettido uma collecção da sua Revisia e 
duas obras. O 1.** Secretario informa que essa oíFerta ainda 
não chegou ás suas mãos. 

Do Instituto da Ordem dos Advogados Brazileiros ac- 
cnsando o recebimento da communicação da fundação do 
nosso Instituto e fazendo votos pela sua prosperidade. 

Ofertas 

Pelos respectivos autores : 

A Historia de S. Paulo, por Tancredo do Amaral ; Guia 
de viagem fará as aguas mineraes, por Maximino Serzedello; 
Do Tejo a Pariz, Viagem a um paiz de selvagens, O Ama- 
zonas, pelo dr. Oscar Leal ; Pt chás Nepelinas do Braztl, 
Os picos altos do Brazil, Limi es entre 8. Paulo e Minas, A 
contribution to the geology tf the loiver Amazonas, Nephe- 
Une — Rocks in Brasil, Occurence of Xeoiotime as an ac- 
cessory element in rocks, Magnetite ore distric's of Jacupi- 
ranga and Ipanema, Nepheline — Rocks in Brasil — Parte 
II, The Amazoniaii upper carhoniferous fauna, pelo dr. 
Orville A. Derby. 

Pelo sócio sr. dr. Orville Derby Meteoritos brazileiros 
pelo -oífertante, e íevro nativo de Santa Catharina, por Luiz 
F. Gonzaga de Campos (em um volume) ; 

As trilobitas do grez de Ereré e Maecurú, por John M. 
Clarke; Publicações da Commissão Geographica do Estado, 
a saber : 

Relatório sobre os serviços realizados em 1894 ; Explo- 
rações dos rios Itapetininga e Paranapanema ; Dados cli- 
matológicos — 1891 e 1892 ; Boletim da commissão, volu- 
mes ns. 1 a 10 (faltando o n. 3) 

Pelo sr. Lafayette de Toledo : C; llecção das leis do mu- 
nicipio de Casa Branca — Tomo l.*», 1892 a 1894. 
. Pelas respectivas redacções : 

Diário Official do Estado ; Revista Agrícola n.° 1 ; O 
Ensaio, ns. 22 e 23. 

Foram estas offertas recebidas com especial agrado. 



ORDEM DO DIA 

E' lido, posto era discussão e sem debate approvado o 
parecer da Commissão de admissão de sócios que ficara sobre 
a mesa na sessão passada, sendo proclamados membros do 
Instituto os srs. : 

Drs. Jorge Maia, Ernesto Youiig e Luiz Pereira Bar- 
reto, sócios effectivos. 

Drs. José da Costa Rangel Júnior e Alfredo de Toledo, 
sócios correspondentes. 

Foi lido e ficou sobre a mesa para ser discutido e vo- 
tado na próxima sessão o seguinte parecer: 

«A Commissão de admissão de sócios, tendo examinado 
as propostas relativas aos srs. Barão de Paranapiacaba e Ba- 
rão do Rio Branco para sócios honorários, verificou estarem 
as mesmas de acordo com os Estatutos e possuírem os pro- 
postos as qualidades exigidas ; pelo que é de parecer que 
sejam as ditas propostas approvadas e os candidatos admit- 
tidos como membros honorários deste Instituto, que em suas 
pessoas fará uma brilhante acquisição. — S. Paulo, 17 de 
junho de 1895. — Bento Bueno — Luiz de Toledo Fiza e 
A Imeida. — Deixa de assignar o sr. dr. Duarte de Azevedo 
por ser signatário de uma das propostas.» 

Foi lida e remettida á Commissão de admissão de sócios 
uma proposta assignada pelos srs. drs. Manoel Ferreira Gar- 
cia Redondo, Eugénio Alberto Franco e Carlos Reis pro- 
pondo para sócio correspondente o sr. J, Maximino Serze- 
dello, autor da Guia de viagem para as aguas mineraes de 
Minas, brazileiro, residente na Capital Federal. 

O sr. dr. Orville Derby leu e apresentou um seu trabar 
lho a respeito da denominação — Serra da Mantiqueira — 
dada ao systema de montanha assim chamado, o qual foi 
muito apreciado. 

O sr. dr. Domingos Jaguaribe também procedeu á lei- 
tura de mais uns capitulos da sua obra — Origens Repu- 
blicanas do Brazil, sendo applaudido. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente apresenta 
o alvitre de celebrar-se a próxima sessão, não a 5 mas a 4 



— 558 — 

de julho, como luna homenagem á Republica Americana do 
Norte, alvitre que foi acceito unanimemente. Então o sr. 
presidente convidou o sr. dr. João Pereira Monteiro a en- 
carregar-se de proferir o discurso official e levantou a sessão. 



8.'' Sessão em >i de jmíIio cie 1895 

Presidência do sr. dr. Cesário 3ioUa Júnior 

A's 6 horas da noite, presentes os sócios srs. Cesário 
Motta, Garcia Redondo, Alexandre Riedel, Tiburtino Mon- 
dim, Paula Souza, Domingos J. guaribe, João Monteiro,. 
Theodoro Sampaio, Macedo Soares, Soares Romeu, Ernesto 
Goulart, Arthur Goulart, Orville Derby, José Vicente, Duar- 
te de Azevedo, António Piza, Gomes Cardim, Liberalino de 
Albuquerque, Henry White, Tancredo Amaral e Carlos Reis^ 
o sr. presidente declarou aberta a sessão. 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

Em seguida foram recebidos os srs. Henry Smith, cônsul 
americano em Santos, dr. George Ritt, cônsul francez nesta 
capital, os quaes tomaram assento na mesa, drs. Arthur 
Prado de Queiroz Telles e Benedicto Castilho de Andrade,, 
commissionados pela Camará dos deputados do Estado para 
represental-a nesta sessão, diversos representantes da im- 
prensa desta cidade e da Capital Federal e outras pessoas 
convidadas para assistir á sessão. 

EXPEDIENTE 

Officio da Camará Municipal da Conceição de Itanhaen 
declarando, em resposta ao officio circular deste Instituto, que 
em seu archivo nenhum documento existe que possa ser 
útil á nossa associação e que, com os poucos que ainda lá 
se encontram, o cidadão Benedicto Calixto está organizando 
um trabalho que submetterá á apreciação deste Instituto. 

Houve a offerta do n. 5 do Boletim de Estatística De- 
mographo- Sanitária^ que foi recebida com especial agrado. 

O sr. dr. João Monteiro participa que a commissão no- 
meada para representar o Instituto na homenagem a Sadi 
Carnot no anniversario de sua morte tinha desempenhado a 



— 539 — 

sua incirnibencia ; o sr. presidente, em nome do Instituto, 
agradeceu á commissào e em particular ao sr. dr. JoãO' 
Monteiro pela bellissima oração que proferira. 

Em seguida o sr. presidente annunciou que se vai pas- 
sar á ordem do dia, proferindo nesse acto uma brilhante 
allocução eiTl que declara ter sido a presente sessão marcada 
para hoje como uma prova de consideração á grande Repu- 
blica da America do Norte, que nesta data commemora o 
anniversario de sua independência. 

ORDEM DO DIA 

E' lido, posto em discussão e sem debate approvado o 
parecer da Commissào de admissão de sócios que íicára sobre 
a mesa e vem transcripto na acta anterior, sendo proclama- 
dos membros honorários deste Instituto os srs. Barão de 
Paranapiacaba e Barão do Rio Branco. 

Foi lido e ficou sobre a mesa para ser votado na sessão 
seguinte o parecer da Commissão de admissão de sócios 
concluindo favoravelmente a respeito da admissão do sr. J. 
Maximino Serzedello na qualidade de sócio correspondente. 

Foram lidas e remettidas á Commissão de admissão de 
sócios as seguintes propostas : 

Para sócio correspondente o sr. dr. Raymundo Penna- 
forte Alves do Sacramento Blake, engenheiro, autor de mui- 
tos trabalhos de geographia de São Paulo, brazileiro, resi- 
dente em Jundiahy, assiguada por António de Toledo Piza, 
Manoel Ferreira Garcia Redondo e Theodoro Sampaio. 

Para ^ocio honorário o sr. dr. Georges Ritt, cônsul de 
França nesta Capital, doutor em direito pela Faculdade de 
Pariz, assignada por dr. João Monteiro, M. F. Garcia Re- 
dondo e Carlos Reis. 

Dada a palavra ao sr. dr. João Monteiro para proferir 
o discurso official de que se encarregara, leu elle um im- 
portantíssimo trabalho sobre o grande povo que 'constitua 
a Republica dos Estados Unidos da America do Norte, no 
qual mais uma vez patenteou a robustez do seu brilhante 
talento e a rica e variada illustração do seu espirito, real- 
çados por uma linguagem fluente, correcta e elevada. 



--• 240 — 

No correr do discurso foi o orador por diversas vezes 
applaudido e, ao terminal-o, uma viva e prolongada salva 
de palmas cobriu as suas ultimas palavras, sendo cumpri- 
mentado e felicitado pela assembléa. 

Obtém a palavra o sr. dr. Georges Ritt, cônsul de 
França para agradecer ao Instituto o seu concurso na ma- 
nifestação a Sadi Carnot e saudar as três nações amigas — 
America do Norte, Brazil e França ; foi o orador muito ap- 
plaudido pelo bellissimo improviso que proferiu. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. presidente agradeceu 
a presença das pessoas convidadas e levantou a sessão. 



9.* sessão em ^O de jollio de 1895 

Presidência do sr. dr. Duarte de Azevedo 

A's 7 horas da noite, presentes os sócios srs. Duarte de 
Azevedo, Augusto Cardoso, Garcia Redondo, Theodoro Sam- 
paio, Tristão Araripe, Viriato Brandão, António Piza e 
Carlos Reis, faltando por motivo justo o sr. dr. Cesário 
Motta Júnior, assume a presidência o sr. conselheiro dr. 
Manoel António Duarte de Azevedo, vice-presidente, e de- 
clara aberta a sessão. 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

1.** secretario dá conta do seguinte : 

EXPEDIENTE 

Officios 

Do sr. dr. Pedro Vicente de Azevedo, presidente da 
Camará Municipal desta Capital, declarando, em resposta ao 
officio deste Instituto, terem sido dadas as precisas ordens 
no sentido de ser facultado o ingresso no archivo municipal 
a quem ahi se apresentar em nome do Instituto, assim como 
para serem a este enviados os impressos que directa ou in- 
directamente lhe possam interessar. 

Do sr. dr. Ernesto Guilherme Young, agradecendo a sua 
admissão como sócio efifectivo e promettendo seus serviços. 



— Ui — 

Do sr. Bellarmino Carneiro no mesmo sentido pela sua 
admissão como sócio honorário. 

Do sr. Libero Brag-a enviando ura exemplar do 1.° vo- 
lume do seu trabalho — Escorço biographico do Dr. Alfredo 
Ellis. 

Offertas 

Pelo sócio sr. dr. António de Toledo Piza, Documentos 
interessantes, vol. 13.**. 

Pelo presidente da Gamara Municipal desta Capital, 
Relatórios de 1893 e 1894. 

Pelo sr. dr. Mello Moraes Filho, Archivo do Districto 
Federal, fascículo de julho. 

Pelas respectivas redacções^ 

Diário Official do Estado; Revista Agricãa, n, 2. 

Todas as offertas foram recebidas com especial agrado. 

ORDEM DO DIA J 

E"* lido, posto em discussão e sem debate approvado o 
parecer da Commissão de admissão de sócios que ficara so- 
bre a mesa na sessão passada, sendo proclamado sócio cor- 
respondente o sr. José Maximino Serzedello. 

Foi lido e ficou sobre a mesa para ser votado na ses- 
são seguinte o parecer da Commissão de admissão de sócios, 
cuja conclusão é favorável á admissão dos srs. drs. Ray- 
mtindo Pennaforte Alves do Sacramento Blake e Georges 
Ritt, este como sócio honorário e aquelle como corres- 
pondente. 

Foi lida e remettida á Commissão de admissão de só- 
cios a seguinte proposta : 

Para sócio honorário o sr. dr. Mello Moraes Filho, autor 
de diversas obras scientificas e literárias, director archivista 
da Camará Municipal do Rio de Janeiro, redactor da Re- 
vista do Archivo do Districto Federal, etc, brazileiro, resi- 
dente na Capital Federal, assignada por Carlos Reis Duarte 
de Azevedo e Manoel Ferreira Garcia Redondo. 

O sr. dr. Garcia Redondo, de acordo com o art. 25 
dos Estatutos, propõe que seja submettido á discussão o 



importante trabalho do nosso consócio sr. dr. João Pereira 
Monteiro produzido na sessão de 4 do corrente, afim de de- 
liberar a respeito da sua publicação na Revista â o Instituto. 
O 1." secretario faz igual proposta em relação ao trabalho 
do consócio sr. dr. Orville Derby sob a denominação Serra 
da Mantiqueira^ lido e apresentado na sessão de 20 de 
junho. Foram ambas as propostas approvadas, sendo tam- 
bém approvados os trabalhos dos srs. drs. João Monteiro e 
Orville Derby para o fim de serem publicados na Revista. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. presidente levantou a 
sessão. 



IO." isesisâo em 5 cie acosto de 1H05 

Presidência do sr. dr. Cesário Motta Júnior 

A's 7 horas da noite, presentes os sócios srs. Cesário 
Motta, Augusto Cardoso, Soares Romeu, António Piza, Joa- 
quim Piza, Horace Lane, Alexandre Riedel, Theodoro Sam- 
paio, Garcia Redondo, Orville Derby, Domingos Jaguaribe, 
Eugénio Franco, João Monteiro, José Vicente e Carlos Reis, 
o sr. presidente declarou aberta a sessão. 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

O 1." secretario dá conta do seguinte : 

EXPEDIENTE 

Officios 

Do sr. dr. Oscar Leal agradecendo a sua admissão co- 
mo sócio correspondente e promettendo seus serviços. 
Do sr. José Maximino Serzedello no mesmo sentido. 

Offertas 

Pelo sr. dr. Cândido Motta, promotor publico desta Ca- 
pital, A Justiça Criminal — relatório que apresentou ao 
Procurador Geral. 

Pela directoria do Serviço Sanitário, Boletim de Esta- 
tística, fascicalo de junho. 



— 243 — 

Pelo sr. dr. Mello Moraes Filho, Archivo do Districto 
Federal, fascículo de agosto. 

Pelo sócio sr. dr. Domingos Jaguaribe, as seguintes 
obras de que é autor : IntelUgencia e moral do homem ; 
Influence de Vesclavage et de la liberte ; Homens e ídéas no 
Brazil ; Uart des homens de òien; Revista utíl (3.° volume); 
e mais : Silva Jardim — apontamentos para a biographia, por 
José Leão ; A Verdade e A Mutuca picante, jornaes antigos 
publicados no Rio de Janeiro, diversos números. 

Pelo sócio sr. dr. António Piza, Documentos interes- 
santes, volume lé.**. 

Pelas respectivas redacções : 

Diário Offcial do Estado ; A Madrugada ; A Instru- 
cção Popular, n. 1 ; Santos Commercial ; Diário de Tauha- 
té ; O Repórter ; 

Foram estas offertas recebidas com especial agrado. 

ORDEM DO DIA 

E' lido, posto em discussão e sem debate approvado o 
parecer da Commissão de admissão de sócios que ficara sobre 
a mesa na sessão passada, sendo proclamados membros deste 
Instituto os srs. drs. Raymundo Pennaforte Alves do Sacra- 
mento Blake e Georges Ritt, o 1.° na qualidade de sócio 
correspondente e o 2.** na de sócio honorário. 

Foi lido e ficou sobre a mesa para ser votado na sessão 
seguinte o parecer da Commissão de admissão de sócios, 
cuja conclusão é favorável á admissão do sr. dr. Mello Mo- 
raes Filho como sócio honorário. 

Foram lidas e remettidas á Commissão de admissão de 
sócios as seguintes propostas : 

Para sócio honorário o sr. dr. Martinho de Freitas 
Vieira de Mello, sub-director do Correio Geral, cidadão il- 
lustrado que muitos serviços tem prestado ao paiz, brazilei- 
ro, residente na Capital Federal, assignada por Carlos Reis, 
Manoel Ferreira Garcia Redondo e Theodoro Sampaio. 

Para sócios honorários os srs. Silvio Romero, dr. Tristão 
Alencar Araripe Júnior e Tristão Alencar Araripe, homens 
de letras de reconhecida reputação no Brazil, brazileiros, 



244 



Tesidente& na Capital Federal, assignada por Manoel Fer- 
reira Garcia Redondo, Domingos Jaguaribe e Carlos Reis. 

Para sócio corr?spondente o sr. Domingos Leopoldino 
Fonseca e Silva, professor de historia e homem de letras, 
brazileiro, residente nesta capital, assignada por Manoel 
Ferreira Garcia Redondo, Carlos Reis e Theodoro Sampaio. 

O sr. dr. Domingos Jaguaribe propõe que seja o seu 
trabalho — Origens Republicanas no Brazil submettido á 
deliberação na presente sessão para o íim de poder ser pu- 
Mieado na Revista, caso seja approvado visto como até hoje 
não foi apresentado o parecer da commissão á qual foi re- 
mettido. E' approvado que o dito trabalho do sr. dr. Ja- 
guaribe seja publicado na Revista do Instituto. 

O sr. dr. Theodoro Sampaio procede á leitura de um 
«eu trabalho histórico sobre a fundação da primeira colónia 
regular dos Portuguezes em S. Vicente, finda a qual foi 
applaudido e felicitado. 

O sr. presidente consulta a casa si o bem elaborado 
trabalho que acaba de ser lido deve ou não ser publicado 
na Revista; a assembléa, sem debate e por votação unani- 
me, responde affirmativamente. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. presidente levantou a 
sessão. 



ii.* seisisâo, em SO de a^oisto de 1H95 

Presidência do sr. dr. Cesário Motta Jnnior 

A's 7 horas da noite, presentes os sócios srs. Cesário 
Motta, Carlos Reis, António Piza, Arthur Goulart, E. Va- 
norden. Augusto Barjona, Viriato Brandão, Ernesto Goulart, 
Domingos Jaguaribe, Aureliano Coutinho, Pedro Cardim e 
Souza Franco, o sr. presidente declarou aberta a sessão. 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

1.° secretario dá conta do seguinte : 

EXPEDIENTE 
Officios 
Do sr. Barão de Paranapiacaba agradecendo a sua ad- 
missão como sócio honorário e promettendo seus serviços. 



^ *245 — 

Do sr. dr. Georges Ritt manifestando igiiaes agradeci — 
mento e promessa e fazendo offerta da quantia de 50$000^ 

Do sr. dr. Raymnndo P. A. do Sacramento Blake agra- 
decendo a sua admissão como sócio correspondente e pro— 
mettendo seus serviços. 

Ojfertas 

Pelo Instituto Geographico e Histórico da Bahia, a sua 
Revista n. 4. 

Pelo sócio sr. dr. António F. de Paula Souza, a sua 
Geometria Superior. 

Pelo sócio sr. dr. António de Toledo Piza, Documentos^ 
Interessantes, volume X. 

Pelo sócio sr. dr. Raymnndo Blake Noticia sobre a Pro- 
vinda do Paraná e um Mappa da Província do Paraná. 

Pela Sociedade Pharmaceutica Paulista, a sua Revistay^ 
ns. 2, 3 e 4. 

Pelo sr. Paulo Tavares, a Revista Brazileira, fasciculos. 
ns. 2 a 15. 

Pelo sócio sr. Horácio de Carvalho, o seu Discurso sobre 
Iloriano Pixoto. 

Pela Directoria Geral dos Correios, Boletim Postal, n. 7^ 

Pelo Instituto Pedagógico Paulista, A Instrucção Po—- 
pular, n. 2. 

Pelo sr. dr. Alfredo Pujol, o seu Discurso sobre Florianoc^ 
Peixoto. 

Pelo sr. dr. Leopoldo de Freitas, o seu Direito de In- 
tervenção. 

Pelas respectivas redacções : 

Diário Official do Estado; Santos Com mer ciai ; Diária- 
de Taubaté ; O Repórter ; Onze de Agosto— 1895, O Muni- 
cípio; Revista do JS/orte — n. 9. 

Foram estas oíFertas recebidas com especial agrado. 

ORDEM DO DIA 
E' approvado o parecer da commissão de admissão de 
sócios que ficara sobre a mesa na sessão passada, sendo pro- 
clamado sócio honorário deste Instituto o sr. dr. Alexandre 
José de Mello Moraes Filho. 



— 246 — 

E' lido e íica sobre a mesa para ser discutido e votado 
na sessão seguinte o parecer da commissão de admissão de 
sócios opinando pela aceitação dos sócios srs drs. Martinho 
de Freitas Vieira de Mello, Silvio Romero, Tristão de Alen- 
car Araripe Júnior e Domingos Leopoldino da Fonseca e 
Silva, como sócios do Instituto. 

Foram apresentadas, lidas e remettidas á commissão de 
admissão de sócios as seguintes propostas : 

Para sócios effectivos : os srs. drs. Alfredo Pujol e Leo- 
poldo de Freitas : para correspondente o sr. Eurico Saldanha, 
e para honerario o sr. dr. Joaquim José de Menezes Vieira. 

Fica deliberado que a próxima sessão se realize a 7 e 
não a 5 de setembro. 

O sr. presidente levantou a sessão. 



12.*' sessão em T de setembro cie 1895 

Presidência d) sr. dr. Carlos Reis 

A's 7 horas da noite, presentes os srs. locíos inscriptos 
no respectivo livro o sócio sr. dr. Carlos Reis assumiu a pre- 
sidência, na falta do presidente e vice-presidente, convidou 
os sócios srs. dr. António Piza e Augusto Barjona para ser- 
virem de 1.° e 2.** secretários e declarou aberta a sessão. 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

O l.** secretario dá conta do seguinte : 

EXPEDIENTE 

Officio do sr. Frederico Lisboa, director do Archivo Pu- 
blico da Bahia, oíferecendo um exemplar do Relatório sobre 
António Conselheiro. 

Ojff-ertas 

Pelo sr. Luiz de França Almeida e Sá, o seu Promptua- 
rio commercial, civil e militar. 

Pelo sócio sr. dr. Domingos Jaguaribe, o Relatório do 
Director da fazenda de S. João da Montanha. 



— 247 — 

Pela respectiva secretaria, o Relatório do dr. Cesário 
Motta como Secretario do Interior. 

Pelo sr. dr. ]\Iello Moraes Filho, Archivo do Dlstrkto 
Federal — fascículo ii. 9. 

Pelo sr. Paulo Tavares, a Bevista Brazileira — fascículos 
ns. 16 e 17. 

Pela respectiva commissão, a Polyanthéa commemorativa 
do 13." anniversario da morte de Luiz Gama. 

Pelas respectivas redacções : 

Diário Official do Estado ; Santos Commercial ; Diário 
de Taubaté ; A Madrugada ; O Município ; O Repórter. 

Foram estas offertas recebidas com especial agrado. 

ORDEM DO DIA 

E' approvado o parecer da commissão de admissão de 
sócios que ficara sobre a mesa na sessão passada, sendo pro- 
clamados membros deste Instituto os srs. drs. Martinho de 
Freitas Vieira de Mello, Silvio Roméro, Tristão de Alencar 
Araripe e Tristão de Alencar Araripe Júnior como sócios 
honorários e o sr. Domingos Leopoldino da Fonseca e Silva 
como sócio correspondente. Achando-se presente este ultimo, 
foi convidado a tomar parte nos trabalhos na qualidade do 
sócio, o que fez. 

E' lido e fica sobre a mesa para deliberação na sessão 
seguinte o parecer da Commissão de admissão de sócios opi- 
nando pela aceitação dos srs. drs. Alfredo Pujol e Leopoldo 
de Freitas como sócios eífectivos, Eurico Saldanha como cor- 
respondente e dr. Joaquim José de Menezes Vieira como 
honorário. 

Dada a palavra ao sócio sr. Domingos Leopoldino, pro- 
cedeu este á leitura de um bem elaborado trabalho sobre o 
facto da independência do Brazil, citando certos pormenores 
com o mesmo relacionados. Ao terminar foi vivamente 
applaudido. 

Ficou deliberado que este trabalho fosse publicado na 
Revista do Instituto. 

Levantou-se a sessão. 



— 248 — 

iS.-^ sessão, em ãO de setembro cie 1895 

Presidência do sr. dr. Cesário Motta Jumor 

A's 7 horas da noite, presentes os sócios srs. Carlos Reis^ 
Domingos Jaguaribe, Valois de Castro, Augusto Cardoso, 
Augusto Barjona, Soares Romeu, António Piza, Ernesto 
Goulart, Theodoro Sampaio e Alexandre Riedel, foi a sessão 
aberta pelo l.** Secretario sr. dr. Carlos Reis, comparecendo 
depois o sr. dr. Cesário Motta que assumiu a presidência. 

Foi approvada a acta da sessão antecedente. 

1.° secretario deu conta do seguinte 

EXPEDIENTE 

Officics 

Do sócio sr. dr. Manoel A. de S. Sá Vianna agradecendo 
ter sido considerado sócio fundador do Instituto. 

Do sr. dr. Silvio Romero, agradecendo a sua admissão- 
como sócio honorário. 

Do sócio sr. tenente-coronel Araújo Macedo enviando 
dezesete moedas e cinco medalhas que offerece ao Instituto.. 

Ofertas 

Pelo professor Fernando Martins Bonilha Júnior, a sua 
PhoTiologia Portugueza. 

Pela Companhia Industrial de S. Paulo, o Indicador da 
Capital para 1895. 

Pelo sr. dr. Argemiro da Silveira, a Minuta de aggravo- 
commercial de que é signatário. 

Pelo sr. Paulo Tavares, a Revista Brazileira — fascículo- 
n. 18. 

Pela Directoria Geral dos Correios, o Boletim Postal — 
fasciculo de agosto. 

Pela Sociedade Pastoril e Agrícola, a sua Revista Agrí- 
cola — ns . 3 e 4. 

Pelo Instituto Pedagógico Paulista, A Instrucção Po- 
pular — n. 3. 

Pelas respectivas redacções : Revista do Norte — ns. 5, 
6, 7, 8, 10 e 11 : Diária Official do Estado ; O Município; 



— 249 - 

Santos Commercial; Diário de Santos ; Diário de Taubaté ; 
O Repórter; O Ensaio. 

Foram estas offertas recebidas com especial ag-rado. 

ORDEM DO DIA 

E' approvado o parecer da commissão de admissão de 
sócios que ficara sobre a mesa, sendo proclamados membros 
deste Instituto os srs. drs. Alfredo Pujol e Leopoldo de Frei- 
tas na qualidade de sócios effectivos, Eurico Saldanha na de 
correspondente e dr. Joaquim José de Menezes Vieira na de 
honorário. 

E' remettida á respectiva commissão uma proposta firmada 
pelos sócios drs. Domingos Jag-uaribe, Carlos Reis e Tbeodoro 
Sampaio, propondo o sr. dr. Assis Brazil para sócio honorário. 

Dada a palavra ao sócio sr. dr. António Toledo Piza, 
que se achava inscripto, faz elle uma exposição dos trabalhos 
que vem apresentar ao Instituto e em seguida procede á lei- 
tura dos referidos trabalhos, a saber : Biographia do Padre 
Jesuino do Monte Carmello, pelo sócio sr. António Augusto 
da Fonseca e Oração fúnebre pronunciada pelo Padre Diogo 
Feijó em Itú a 2 de junho de 1821. 

Foi deliberado que estes trabalhos fossem publicados na 
Revista. 

Ficou também deliberado que a próxima sessão fosse 
realizada a 12 de outubro, na qual o sócio sr. cónego dr. 
Valois de Castro lerá um trabalho a respeito de Frei Ger- 
mano d'Annecy. 

Nada mais havendo a tratar, foi levantada a sessão. 



14,* Ne^^Nao, em ±2 de outubro de 1895 

Presidência do sr. dr. Cesário Motta Júnior 

A's 7 horas e meia da noite, presentes os sócios srs. 
Carlos Reis, Cerqueira Cezar, Alberto Lõfgren, Braulio Go- 
mes, Orville Derby, Theodoro Sampaio, Macedo Soares, Do- 
mingos Leopoldino, Tancredo Amaral, Miranda Azevedo, 
Gomes Cardim, Duarte de Azevedo, João Monteiro, E. Va- 
uorden, Horace Lane, Evaristo Bacellar e Soares Romeu, foi 



— 250 — 

a sessào aberta pelo vice-presidente, sr. conselheiro Duarte 
e Azevedo, comparecendo depois o sr. dr. Cesário Motta, 
que assumiu a presidência. 

Foi lida e approvada a acta da sessão antecedente. 

O primeiro secretario dá conta do seguinte 

EXPEDIENTE 

Officios 

Do sr. dr. Frederico Lisboa, director do Archivo Publico 
da Bahia enviando a Memoria sobre o Estado da Bahia. 

Do sr. dr. Joaquim José de Menezes Vieira agradecendo 
íi sua admissão como sócio honorário. 

Do sr. dr. Alfredo Pujol agradecendo a sua admissão 
como sócio effectivo. 

Do sócio sr. Jules Martin, oíFerecendo um retrato de 
Frei Germano de Annecy, a planta e vistas da cidade de S. 
Paulo em 1810 e um álbum de fac-similes das assignaturas 
dos governadores da capitania e provincia de S. Paulo. 

Do sócio sr. cónego dr. Valois de Castro participando 
não poder apresentar hoje o trabalho de que se tinha encar- 
regado. 

Ofertas 

Pelo sr. dr . Eduardo Prado ; Le Brésil^ por Levasseur, 
com collaboração daquelle senhor. 

Pela Directoria Geral dos Correios : Relatórios dos ser- 
viços — 1894. 

Pelo sr. dr. Mello Moraes Filho : Arclúvo do District i 
Federal^ n. 10. 

Pelo director do Archivo do Estado : Leis e decretos de 
189^ e 1894 e Documentos interessantes, vol. 15. 

Pela Directoria do Serviço Sanitário : Boletim de Esta- 
tística Demographo-Sanitaria. 

Pela Sociedade Pastoril e Agrícola : Revista Agricola, n. 5. 

Pelas respectivas redacções : Diário Official do Estado ; 
O Miinicipi') ; Santos Commercíal ; Diário de Tauhaté ; O 
Repórter; Revista do Norte; A Madrugada. 

Todas estas oíFertas são recebidas com especial agrado. 



251 



ORDEM DO DIA 



Foi lido e ficou sobre a mesa para ser discutido e vo- 
tado na sessão seguinte, o parecer da commissão de admissão 
de sócios, cuja conclusão é favorável á admissão do sr dr. 
Joaquim Francisco de Assis Brazil, na qualidade de sócio 
honorário. 

Foram apresentadas, lidas e remettidas á commissão de 
admissão de sócios, as seguintes propostas : 

Para sócio effectivo, o sr. dr. Eduardo da Silva Prado, 
autor de diversas obras e de vários capítulos do artigo Brésil 
na Grande Encyclopedia, etc. ; assignada pelos sócios Orville 
Derby, Theodoro Sampaio e Alberto Lõfgren. 

Para sócios correspondentes, os srs. dr. Heitor Peixoto, 
redactor do Diário de Sant s, Alberto Veiga, redactor d'^ 
Folha e Francisco Corrêa de Almeida Moraes, cultor dedi- 
cado da historia pátria ; assignada por Sacramento Macuco, 
Carlos Reis e Tancredo do Amaral. 

Para sócio honorário, o sr. dr. Frederico Lisboa, homem 
de letras, director do Archivo Publico da Bahia ; assignada 
por dr. Evaristo Bacellar, Carlos Reis e T. Amaral. 

Levanta-se a sessão. 



15.'' sesí^âo, em 20 cie outubro fie 1^95 

Presidência do sr. dr. Cesário Motta Júnior 

A's 7 horas da noite, presentes os sócios srs. Cesário 
Motta Júnior. Carlos Reis, Domingos Jaguaribe, Theodoro 
Sampaio, Soares Romeu, Macedo Soares, Gabriel Prestes, 
Garcia Redondo, Wenceslau de Queiroz, e Braulio Gomes, o 
sr. presidente declarou aberta a sessão. 

O primeiro secretario communica que foram feitas as 
seguintes 

Offertas 

Pelo snr. Paulo Tavares : Revista Brazileira, fasciculo 
n. 19. 



— 252 — 

Pela Directoria do Serviço Sanitário : Boletim de Esta- 
tística Demo gr apho- Sanitária. 

Pelo Instituto Pedagógico Paulista: A Instriicçcio Po- 
pular, n. 4. 

Pelo snr. dr. João Baptista Regueira Costa : Inscripções 
em rochedos do Brazil. 

Pelas respectivas redacções ; Diário Official ; O Muni- 
cipio ; Santos Commercial; Diário de Santos; Diário de 
Taubaté; O Repórter; O Ensaio; Revista do Norte. 

Foram estas offertas recebidas com especial agrado. 

ORDEM DO DIA 

E' lido, posto em discussão e sem delate approvado o 
parecer da Commissão de admissão de sócios, que ficara sobre 
a mesa na sessão passada, sendo proclamado membro do Ins- 
tituto, na qualidade de sócio honorário, o snr. dr. Joaquim 
Francisco de Assis Brazil. 

E' lido e fica sobre a mesa, para ser discutido e votado 
na sessão seguinte, o parecer da Commissão de admissão de 
sócios opinando pela aceitação dos snrs. dr. Eduardo da 
Silva Prado, dr. Heitor Peixoto, Alberto Veiga, Francisco 
Corrêa de Almeida Moraes, e dr. Frederico Lisboa como só- 
cios do Instituto. 

Pelo snr. Presidente, em nome da Directoria, foi apre- 
sentado a seguinte proposta : 

« Que a annuidade satisfeita com a jóia pelos sócios 
fundadores seja considerada como paga até 31 de dezembro 
do corrente anno, por ser isso de conveniência para a escri- 
pturação da Thezouraria e não haver offensa aos direitos dos 
mesmos sócios ». Fundamentada a proposta e submettida á 
discussão e votação, foi sem debate approvada. 

Ficou designado o dia 25 do corrente mez para realizar- 
se a sessão de encerramento dos trabalhos, de que trata o 
art. 33 dos Estatutos. 

O snr. Presidente levantou a sessão. 



— 253 — 

16.* Sessão, para eiicepraiiieiitó dos ti^a- 
ballios, em S5 de outubro de 1895 

Presidência do snr. dr. Cesário Motta Júnior 

A's 7 horas da noite, presentes os sócios snrs. Cesário 
Motta Júnior, Carlos Reis, Duarte de Azevedo, José Vicente, 
Gomes Cardim, Raymundo Furtado Filho, Augusto Barjona, 
Ernesto Goulart, Moura Escobar, Domingos Jaguaribe, Do- 
mingos Leopoldino, Theodoro Sampaio. Eduardo Pereira, 
Alexandre Riedel, Braulio Gomes, Eugénio HoUender, Ar- 
thur Goulart, Soares Romeu e Tancredo do Amaral, o snr. 
Presidente declarou aberta a sessão. 

Foram lidas e approvadas as actas das sessões de 12 e 
20 do corrente mez. 

O 1." secretario dá conta do seguinte 

EXPEDIENTE 
Officios 

Do snr. Eugénio Lefévre, director da Secretaria da 
Agricultura, enviando relatórios da repartição. 

Do sócio snr. dr. Gomes Cardim, communicando que não 
pode apresentar o parecer sobre o livro Caricias^ do consócio 
snr. dr. Garcia Redondo, por estarem ausentes os outros dois 
membros da Commissão. 

Offertas 

Pelo snr. dr. Henrique Coelho : Relatório da Secretariti 
da Justiça — 1894. 

Pelo snr. E. Hollender : Moeda do Brazil, por João Xa- 
vier da Motta ; Atlas cosmographici^ ipuhlicabào por W. & A. 
K. Johnston. 

Pelas respectivas redacções : Diário Official ; O Muni- 
cipí I ; Santos Commercial ; Diário de Taubaté ; O Repórter, 

Foram estas offertas recebidas com especial agrado. 

ORDEM DO DIA 

E' approvado o parecer da Commissão de admissão de 
sócios que ficara sobre a mesa na sessão passada, sendo pro- 



— 2Õ4 — 

clamados membros do Instituto os snrs. dr. Eduardo da Silva 
Prado, na qualidade de sócio effectivo, dr. Heitor Peixoto 
Alberto Veiga e Francisco Corrêa de Almeida Moraes, nade 
sócios correspondentes, e dr. Frederico Augusto da Silva 
Lisboa, na de sócio honorário. 

O snr. Presidente apresenta o Relatório da Directoria 
sobre os trabalhos e factos occorridos durante o primeiro anno 
da existência do Instituto, o qual é lido pelo primeiro secre- 
tario e fica sobre a mesa para ser examinado pelos snrs. só- 
cios, aos quaes foi dada a palavra para indicarem as medi- 
das que julgassem convenientes. 

Foi proposto e approvado que se considerasse como tendo 
renunciado o direito de sócio fundador todo aquelle que, in- 
cluído na lista dos sócios dessa categoria, não tenha cum- 
prido até ao presente o dever imposto pelo § X.° do art. 10 
dos Estatutos (pagamento da jóia e primeira annuidade) 
sendo excluído da respectiva matricula. 

Foi também proposto e approvado que ficasse a Mesa 
encarregada de organizar o programma da sessão magna a 
realizar-se a 1." de novembro próximo vindouro, publicando-o 
pelos jornaes, e de promover tudo que entendesse conve- 
niente pára que a mesma sessão se revestisse da maior so- 
lemnidade. 

Nada mais havendo a tratar foi levantada a sessão. 



8eN!sâo nia^iia cie aiinivei«Nai4o, em l,** de 
novembro de 1895 

Presideíicia do snr. dr. Cesário Mottd Júnior 

A's 8 horas da noite, presentes algumas exmas. senho- 
ras, representantes de corporações, associações, repartições, 
estabelecimentos, imprensa e outras pessoas convidadas e Os 
sócios snrs. Cesário Motta Júnior, Carlos Reis, Garcia Re- 
dondo, Pereira Guimarães, Alberto Lõfgren, Henry White 
Horace Lane, Eugénio Hollender, Jules Martin, Alexandre 
Riedel, Domingos Jaguaribe, Veiga Filho, Theodoro Sam- 
paio, Domingos Leepoldino, Orville Derby, E. Vanorden 



— 255 — 

Alfredo Ellis, António Piza, Martim Francisco Sobrinho, Ar- 
thur Gonlart, Soares Romeu, Cândido Motta, Ernesto Gou- 
lart, Camarg-o Dauntre, João Monteiro, Evaristo Bacellar. 
Luiz Piza, Mathias Valladão, Aug-usto Barjona, Augusto Car- 
doso, Tiburtino Mondim, Thomaz Galhardo, Valois de Castro^ 
José Vicente, Sacramento Macuco e Tancredo Amaral, o snr. 
Presidente declarou aberta a sessão e leu um importante 
trabalho, no qual, fazendo a resenha dos trabalhos do Insti- 
tuto e expondo o desenvolvimento que teve e o estado em 
que se acha, mostrou a conveniência de se dedicarem os snrs. 
sócios ao estudo da nossa historia e notadamente ao da lin- 
g-ua tupi-guarany, em vista dos profícuos resultados que dahi 
provirão e do brilho que adquirirá a nossa associação. 
1." secretario dá conta do seguinte 

EXPEDIENTE 
Ojficlos 

Do snr. dr. Francisco Leite Bittencourt Sampaio Jú- 
nior agradecendo os pezames pelo falecimento de seu pai* 

Do snr. Alberto Veiga agradecendo a sua admissão como 
sócio correspondente. 

Do snr. dr. Alfredo Ribeiro dos Santos agradecendo o 
convite feito a elle e aos empregados da Repartição de Po- 
licia, de que é director, para assistir á sessão de hoje. 

Do sócio snr. Jules Martin oíferecendo os objectos adiante 
mencionados. 

Do sócio snr. dr. Augusto Cezar de Barros Cruz oífere- 
cendo um exemplar do seu romance O Paulista. 

Offertas 

Pelo sócio snr. Jules Martin : Carta Geographica illus- 
trada de S. Paulo, publicada em 1878 ; Vista do monumento 
elevado a Vaniliaf/en no Ipanema ; Retrato de l^iradentes ' 
Vista da inauguração do viaducto d ■ Chá. 

Pelo sócio snr. dr. Alfredo Ellis : Medalha escrínio com 
a efíigie de Pedro I, contendo a Constituição Politica do 
Brazil de 1824. 



— 256 - 

Pelo snr. Paulo Tavares : Revista Bmzileira^ fascicuio 
n. 20. 

Pela Directoria Geral dos Correios : Boletim Postal^ n. 9. 

Pelas respectivas redacções : Diário Official ; O Muni- 
cípio ; Santjs Commercial; Diário de Tauhaté \ O Repór- 
ter; O ínsaio. 

Foram estas offertas recebidas com especial agrado. 

ORDEM DO DIA 

o sócio snr. dr. Manuel Ferreira Garcia Redondo pro- 
cedeu á leitura de uma memoria sobre a primeira concessão 
de estrada de ferro no Brazil, reivindicando para S. Paulo a 
gloria de ser a primeira provincia que aventou tal commet- 
timento no paiz e procurou realizal-o. 

Em seguida, o sócio snr. dr. Theodoro Sampaio leu um 
trabalho sobre historia e geographia brazilica. 

Saudaram o Instituto, em bellissimas orações, os snrs. 
dr. Alberto Andrade, como representante do Instituto dos 
Advogados de S. Paulo e Remigio de Cerqueira Leite como 
representante da Escola Normal desta capital. 

O snr. Presidente agradeceu as saudações dirigidas ao 
Instituto e a presença das exmas. senhoras e distinctos cava- 
lheiros que vieram abrilhantar a sessão. 

O mesmo snr. Presidente lembrou o alvitre, que foi una- 
nimemente aeceito, de expedir-se um telegramma ao snr. dr. 
Prudente de Moraes, saudando-o na qualidade de Presidente 
honorário do Instituto pelo primeiro anniversario deste. 

Em seguida foi levantada a sessão. 



RELATÓRIO 

dos trabalhos e occorrencias do 

Instituto Histórico e Geographico 

de S. Paulo no anno de 1895 



RELATÓRIO 



DOS 

Trabalhos e Occorrencias 

DO 
Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo no anno 

DE 1895 

Apresentado pela Directoria 

Na sessão de encerramento 

Em 25 de outubro de 1895 



. Exms. Sm^s. Membros do Instituto Histórico e Geogra- 
phico de S. Paulo. 

Em cumprimento ' ao disposto no § 5.' do art. 12 dos 
nossos Estatutos a Directoria do Instituto Histórico e Geo- 
graphico de S. Paulo, vem apresentar o relatório dos factos 
occorridos durante o primeiro anno de existência da nossa 
associação. 

Sessões 

No período decorrido da data da fundação do Instituto 
em 1 de novembro de 1894, até ao presente, foram celebra- 
das 21 sessões, sendo : 1 de installação, 4 para discussão dos 
Estatutos e eleição da Directoria, 13 ordinárias e 3 extra- 
ordinárias, inclusive a de hoje. 

Al." sessão ordinária foi realizada a 25 de janeiro 
deste anno, seguindo-se uma extraordinária em 21 de abril 
para commemorar o anniversario da morte do Tiradentes. 
Devido á falta de assumpto, deixou de haver sessões nos 
mezes de fevereiro e março. De abril em diante e de 
acordo com a deliberação da Directoria celebraram-se regu- 
larmente duas sessões ordinárias por mez, tendo havido uma 



— 260 — 

-extraordinária a 13 de maio para solemnizar a data da abo- 
lição da esiíravidào no Brasil. 

As sessões têm sido regularmente concorridas, mas seria 
<de desejar que houvesse maior frequência e mais assiduidade 
'^da parte dos snrs. sócios» ■ i> 

O Instituto continua a celebrar as suas sessões em uma 

-das salas do prédio onde funcciona o Gymnasio do Estado, 

á Rua da Boa Morte, n. 17, e é grato á Directoria consi- 

g-nar aqui lun voto de agradecimento ao Governo do Estado 

por este auxilio que presta á nossa associação. 

Trabalhos 

Durante o anno foram api-esentados os seguintes trabalhos : 

Origens republicanas do Brazil, trabalho especialmente 
-^Bscripto para o Instituto pelo sócio snr. dr. Domingos Ja- 
,;^^aribe, que leu alguns capítulos. 

Das finanças de S. Paulo, no passado, no presente e 
M9 futuro, conferencia feita pelo sócio snr. dr. João Pedro 
♦da Veiga Filho, na sessão de 13 de maio. 

Carta, (inédita) do Vice-Rei do Brazil Conde de Cunha, 
dirigida ao Governo da Metrópole em 1765, sobre dimsas de 
S. Paulo e Minas Geraes, lida e eommentada pelo sócio snr. 
dr. Orville Derby, na sessão de 2o de maio. 

A Historia de 8. Paulo, obra do sócio sr. Tancredo do 
Amaral, que delia leu alguns capítulos. 

Serra da Mantiqueira, trabalho do sócio snr. dr. Orvil- 
le Derby e por elle lido na sessão de 20 de junho. 

Discurso s bre os Estados Unidos da America do Norte, 
proferido pelo sócio snr. dr. João Pereira Monteiro, na sessão 
de 4 de julho. 

Posse meridional do Brazil, trabalho do sócio sr., dr. 
'Tkfiodoro Sampaio, lido na sessão de õ de agosto. 

A Independência do Braizl, conferencia realizada pelo 
sócio snr. Domingos Leopoldino da Fonseca e Silva, na ses- 
são de 7 de setembro. 

Biographia'do Padre Jesuino do Monte Carmello, tra- 

<>alho do sócio snr. António Augusto da Fonseca, lido pelo 

^:«ocio snr. António de Toledo Piza, na sessão de 20 de seteinbro- 



— v6l — 

Oração fúnebre pi^oferida em 1821 pelo Padre Diogo 
Feijó a respeito do Padre Jesuino d) Monte CarmeUo^ li4o> 
também pelo sócio snr. dr. António de Toledo Piza, na mes- 
ma sessão de 20 de setembro. 

Oração fúnebre pronunciada por Cândido José da Matta 
a respeit) do Padre Diogo Feijó annotada e offerecida pclo> 
sócio snr. dr. João N. Nogueira da Motta e lida pelo so<ão 
snr. Tancredo Amaral, na sessão de 12 do corrente. 

Também foram apresentadas pelo Presidente do Institot» 
diversas theses, as quaes vão especificadas no annexo n. 1 

BlBLiOTHECA E ArCHIVO 

A bibliotheca e o archivo estão, como é natural, apenas- 
em começo ; poucos livros e objectos contêm, mas pouco & 
pouco ir-se-ão desenvolvendo, muito esperando o Institat» 
da boa vontade dos snrs. sócios, que sem duvida concorrerão^ 
])ara que se enriqueçam. 

Acham-se installados em uma sala cedida gratuitamente 
pelo sócio snr. dr. Domingos Jaguaribe no prédio n. 59 da 
Rua Quinze de Novembro, 2.° andar, funccionando também 
ahi a secretaria. 

Os livros, mappas e objectos existentes actualmente na. 
bibliotheca e no archivo constam do catalago que vai annexa 
sob o numero 2. 

Sócios 

O Instituto ficou constituído com 139 sócios fundadores- 
n^as até o presente somente 116 satisfizeram a jóia e 1.*- 
annuidade, sendo dispensado deste ónus o sócio snr. dr- 
Prudente José de Moraes Barros, por ter sido eleito Presi- 
dente honorário do Instituto, de sorte que 22 sócios funda- 
dores ainda não pagaram a jóia e annuidade. 

A Directoria, em uma de suas sessões, deliberou pedir 
aos snrs. sócios em demora o cumprimento deste dever diri— 
giado-lhes uui officio circular assiguado pelo Thesoureiro; 
alguns acudiram ao apello, outros declararam não quererena 
pertencer ao Instituto e outros, finalmente, nada responde— 
i^hi até agora. 

Cumpre, pois, que tomeis uma deliberação a respeito. 



__ 262 — 

No correr do anno foram propostos e admittidos 32 só- 
cios, sendo 13 na qualidade de honorários, 7 na de effecti- 
vos e 12 na de correspondentes, inclusive os approvados na 
sessão de hoje. Dos acceitos nas duas ultimas categorias, 
por emquanto somente 7 estão considerados definitivamente 
sócios, por terem saptisfeito a jóia e 1.* annuidade, nos 
termos dos Estatutos. 

Nos annexos ns. 3, 4 e 5, encontrareis a relação nomi- 
nal dos sócios fundadores que cumpriram o dever do artigo 
4.** dos Estatutos, daquellles que ainda não o fizeram e dos 
sócios admittidos depois da fundação do Instituto. 

Offertas 

Não só dos snrs. sócios, como de pessoas extranhas á 
associação, tem o Instituto recebido offertas de livros, map- 
pas, jornaes, etc, e a Directoria, em nome do Instituto 
agradece as offertas feitas para a Bibliotheca e Archivo da 
sociedade e pede que continuem a dispensar a esta todo o 
auxilio de que é digna ; especialmente aos snrs. sócios é di- 
rigido este appello. 

Eevista 

Devendo a Revista do Instituto só publicar trabalhos 
originaes dos snrs. sócios, ou inéditos, que tenham mérito, é 
evidente que no curto periodo de tempo de existência da 
associação não podia abundar o material ; só ultimamente 
poude a Commissão de Redação reunir os elementos que de- 
vem constituir o 1." numero da Revista^ o qual acha-se já 
no prelo e será brevemente distribuido, sendo publicado em 
dois fascículos, mas formando um só volume. (*) 

Finanças 
Pelos balancetes organizados pelo Thesoureiro e que 
vão annexos sob ns. 6, 7 e 8, vereis qual o estado financeiro 
do Instituto até 30 de setembro p. findo. 

(•) o primeiro tomo da Revista foi, de facto, publicado em dois faeci- 
culos, um de II — 186 paginas, impresso, em 1895, na Typ. d'0 Municipio, 
Rua do Rosário, 5, e o segundo, de 89 pags., na Typ. King — Carlos Zanohi— 
Rua do Commercio, em 1896. Esses dois fasciculos estão reunidos, para 
guardar uniformidade com os posteriores tomos da Revista, neste volume» 
transportadas apenas para o firo deste as actas insertas no primeiro fasciculo. 

(N. da R.) 



— 263 — 

Até essa data a Receita foi de Rs. 7:894$000, proveni- 
ente de jóia e 1.* annuidade de 102 sócios fundadores, 2 
eíFectivos e 2 correspondentes e do donativo de Rs. 50$000 
feito pelo sócio honorário snr. dr. Georges Ritt. 

A Despeza importou em Rs. 3:000$980, conforme as di- 
versas verbas mencionadas nos ditos balancetes, as quaes 
estão de acordo com os documentos existentes em poder do 
Thesoureiro. O saldo, portanto, naquella occasião, era de 
Rs. 4:893$020. 

No corrente mez foram recebidas as importâncias da 
jóia e 1.* annuidade de mais 14 sócios fundadores e de 8 
eíFectivos e feitos os pagamentos de porcentagem ao cobra- 
dor e de diversas contas, o que constará do balancete do 
trimestre que corre e que será organizado em .31 de dezem- 
bro p. futuro. 

Do saldo actual a favor do Instituto está depositada no 
Banco de Credito Real de S. Paulo a quantia de Rs. 
4:903$000 ; o excedente acha-se em mão do Thesoureiro para 
satisfazer as despezas que possam occorrer e applicar ao pa- 
gamento por conta da impressão da Revista. 



Eis o que a Directoria vos tem a relatar, estando prom- 
pta a dar-vos todos os esclarecimentos e informações que 
julgardes necessários. 

S. Paulo, 25 de outubro de 1895. 

Dr. Cesário Moita Júnior 
Presidente 

Dr. M. A. Duarte de Azevedo 
Vice-Presidentb 

Carlos Reis 

l.** Secretario 

Manoel Ferreira Garcia Redondo 
2." Secretario 

Dr. I}omingos Jaguar íbe 
Thesoureiro 



ANNEXOS 



N. 1 

Theses apresentadas pelo snr. dr. Cesário Motta Júnior. 

1 
Das divisas de S. Paulo com os Estados limitrophes. 

' - '2 ' 
Da influencia do rio Tietê na civilização de S. Paulo. 

3 
Missões jesuiticas do Guaira. 

Da viação férrea em S. Paulo, no passado, presente e futuro* 

5 
Da geographia medica de S. Paulo. 

6 
Da fauna e flora de S. Paulo. 

7 
Influencia do estudo do direito em S. Paulo na civilização 
' do Brazil. 

8 
Das finanças de S. Paulo, no passado, no presente e no fu- 
turo. (*) 

9 
Da lingua portugueza e das modificações que tem experi- 
mentado em, S. Paulo. 

10 , 
Da imprensa de S. Paulo e de sua influencia desde os pri- 
meiros tempos. 



(*) Esta these foi desenvolvida pelo sócio sr. dr. João Pedro da Veiga 
Filho em conferencia realizada na sessão de 13 de maio. 



— 265 — 

X. 2 

Catalogo dos livros^ mapjjas e inq.is objectos existentes 
nesta data na Bihliotheca e no Archivo do Instituto 

BIBLIOTHECA 

Loivros 

Cincoenta annos de existência^ pelo dr. M. A. de S. Sá 
Viíinna. 

Catalogo da exposição de trabalhos jurídicos^ realizada 
pelo Instituto dos Advogados Brazileiros. 

Estatutos do Instituto Geographico e Histórico da Bahia^ 

Fe^/d, oração fúnebre por Cândido José da Motta (ma- 
nuscripto). 

Diccionario geographico do Paraná^ por Nivaldo Braga. 

Revista do Paraná, jornal illus trado. 

Revista Brazileira — Ediçào de Laemmert & Cia. — 
Ns. 1 a 19. 

Saliva ou Manhu-uára, por A. G. de Azevedo Sampaio. 

Estatutos da Sociedade Pharmaceutica de 8. Paulo. 

Constituição do Municipio de Santos. 

Revista do Instituto do Ceará — Tomo 8.°, 1894. 

Boletim de Estatística Demographo-Sanitarixt. 

Uma revelação histórica, por B. G. de Moura Lacerda. 

Compendio die geographia do Paraná, por L. de F. Al- 
meida e Sá. 

Memorias e documentos escolares, publicações do Peda- 
gogium Brazileiro. 

Revista Pedagógica, jornel ào Pedagogiimi Brazileiro. 

Guia para expedição da Correspondência. 

Itinerário de malas terrestres. 

Tabeliã de vencimentos (no Correio). 

Relatório dos serviços do Correio — 1880^ 1889, 1892, 
1893 e 1894. - 

Regulamento dos Correios. 

Instríicções para execução de serviços postaes. 

Convenções postaes. 

Boletim Postal do Bràzil. 



— 266 — 

Archivo do Districto Federal. 

Relatório do Instituto dos Advogados Brazileiros—l^M. 

O Amazonas, pelo dr. Oscar Leal. 

Revista Moderna (jornal) — Ns. 1 a 7. 

Saneamento de Santos, pelo dr. I. W. da Gama Cochrane. 

Saneamento de S. Paulo, pelo mesmo. 

Condições económicas da Comp. S. Paulo e Rio de Ja- 
niiro, pelo mesmo. 

Resgate, da E. F. de S. Paalo e Rio de Janeiro, pelo 
mesmo. 

Liquidação da Comp. S. Paulo e Rio da Janeiro, pelo 
mesmo. 

Revista Pharmaceutica (S. Paulo) — Ns. 1 a 4. 

Classificação das agencias postaes. 

«Consultor do Commercio», por João Cândido Martins. 

Indicações sobre a historia nacional, pelo dr. Tristão de 
Alencar Araripe. 

Documentos Interessantes, publicações do Archivo de S. 
Paulo — Vols. 1 a 15. 

Relatório da Repartição de Estatistica e do Archivo do 
Estado de S. Paulo — 1893. 

Almanak do Estado de S. Paulo jjara 1895 — Edição 
da Companhia Industrial. 

Indicador da capital — Idem. 

A Historia de S. Paulo, por Tancredo Amaral. 

Guia de^ viagem, por J. Maximino Serzedello. 

Do Tejo a Paris, pelo dr. Oscar Leal. 

Viagem a um paiz de selvagens, pelo mesmo. 

Leis municipaes de Casa Branca — 1 vol. 

Revista Agricola — Ns. 1 a 5. 

^.v tribolitas do grez de Ereré e Maccurú, por John M. 
Clarke. 

Relatório da Commissão Geographica e Geológica de S. 
Paulo — 1894. 

Exploração dos rios Itapetininga e Paranapanema. 

Boletim da Com. Geogr. e Geolog. de S. Paulo — Ns. 
9 a 10. 

Dados climatológicos — \Z891 e 1892. 



— 267 — 

Meteoritos brazileiros, pelo dr. Orville Derby — Ferro 
tiativo de Santa Catharíiia^ pelo dr, Luiz F. G. de Campos. 

Rochas nepheliiias do Brazil, pelo dr. Orville Derby. 

Os picis altos do Brazil, pelo mesmo. 

Limites entre S. Paulo e Minas, pelo mesmo. 

A contrihution to the geology of the loices Amazonas, 
pelo mesmo. 

Nephelines rocks in Brasil, pelo mesmo. 

Occurena (f Xenotime as an accessory element in rocks 

— Magnetite ore districto of Jacupiranga and Ipanema — 
pelo mesmo 

The Amazonian upper carboriferous fauna, pelo mesmo. 

Relatórios da Camará Municipal de S. Paulo — 1893 
e 1894. 

Esc^jvço biographico do dr. Alfredo Etlis — vol. I, por 
Libero Braga. 

A justiça criminal, pelo dr. Cândido Motta. 

Intelligencta e moral do homem, pelo dr. D. Jagiiaribe. 

Influence de Vesclavage et de la liberte, pelo mesmo. 

Homens e idéas no Brazil, pelo mesmo. 

L'art de former des hommes de bien, pelo mesmo. 

Reinsta Útil — 3 vol., pelo mesmo. 

Biographia de Silva Jardim, por José Leáo. p. m. 

A Verdade, jornal publicado em 1832. 

A Mutuca pizante, idem. 

Revista do Instituto Geographico e Histórico da Bahia 

— N. 4. 

Cfeometria superior, pelo dr. A. F. de Paula Souza. 

Noticia sobre a provinda do Paraná. 

Discurso sobre Floriario Peixoto, por Horácio de 
Carvalho. 

Discurso sobre Fhriaiw Peixoto, pelo dr. Alfredo Pujol. 

Direito de intervenção, pelo dr. Leopoldo de Freitas. 

António Conselheiro, pelo padre Joào Evangelista. 

Prompfuario commercial, civil e militar, por Luiz de F. 
Almeida e Sá. 

Relatório da Fazenda de S. João da Montanha. 

Relatório da Secretaria do Interior de S. Paulo — 1894. 



~ 268 — 

Relatórios da Secretaria da Agricultura de S. Paulo — 
1892, 1893 e 1894. 

Moeda do Brazil, por João Xavier da Motta. 

TTie cosmograpkic atla, por W. & A. K. Jhonston. 

Mappâs 

Planta da cidade de S. Paulo em 1810, reproducção 
pelo snr. Jules Martin. 

Carta corograpliica da capitania de S. Paulo, organiza- 
da em 1776 (inédita). 

Mappa da capi ania de Minas Geraes, organizado em 
1778 (inédito). 

Planta da cidade de S. Paulo — 1895. 

Mappa topographico da provinda do Paraná. 

jornaes 

Diário Official, Estado de 8, Paulo. 
i A Madrugada (Lisboa) 

O Ensaio (Pindamonhangaba). 
A Instrucção Popular (Capital). 
Santos Commercial (Santos). 
Diário de Tauhaté (Taubaté). 
O Repórter (Ribeirão Preto). 
O Município (Capital). 
Diário de Santos (Santos). 



..-^- 


ARCHIVO 






Moedas 




1 


Moeda de cobre da Republica do P, 


arag 


2 


Ditas da Republica Argentina. 




6 


Ditas brazileiras. 




1 


Dita da Hespanha. 




3 


Ditas de Portugal. 




1 


Dita da Itália. 




1 


Dita da Allemanha. 




2 


Ditas não classificadas. 





— 269 — 

Medalhas 

1 Medalha commemorativa da libertação dos escravos. 

1 Dita de prata — Campanha de 1852. 

1 Dita de antimonio — Tomada de Uruguayana. 

1 Dita de bronze — Tomada de Paysandú. 

1 Dita de cobre — Aos vencedores de Jatahy. 

1 Dita de bronze — Guerra do Paraguay. 

"Retratos e Estampas 

Retratos dos arcebispos da Bahia. 

Dito do Marechal Floriano Peixoto. 

Dito de Frei Gertnano de Annecy. 

Planta e vistas de edifícios da cidade de S. Paulo em 1810. 

X. 3 

Relação nominal dos snrs. sócios considerados defínitiva- 
mente como membros fundadores do Instituto. 

Membro Fundador Jhfonorario 

Dr. Prudente José de Moraes Barros. 

Membros Fundadores Effectivos 

1 Alberto Lôfgren. 

2 Dr. Alexandre Florindo Coelho. 

3 Alexandre Riedel. 

4 Dr. Alfredo Ellis. 

5 Dr. Alfredo Rocha. 

6 António Augusto da Fonseca. 

7 Dr. A. Carlos Ribeiro de Andrada M. Silva. 

8 Dr. António Dino da Costa Bueno. 

9 Dr. António Evaristo Bacellar. 

10 Dr. António Francisco de Araújo Cintra. 

11 Dr. António Francisco de Paula Souza. 

12 António Moreira da Silva. 

13 Dr. António Pereira Prestes. 

14 Dr. António da Silva Prado. 



270 



15 Dr. António de Toledo Piza, 

16 Arthur Goulart. 

17 Augusto Cezar Barjona. 

18 Dr. Augusto Cezar de Barros Cruz. 

19 Dr. Augusto Cezar de Miranda Azevedo. 

20 Dr. Augusto de Siqueira Cardoso. 

21 Dr. Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho. 

22 Dr. Benedicto Estellita Alvares. 

23 Dr. Bento Bueno. 

24 Dr. Bernardino de Campos. 

25 Dr. Braulio Gomes 

26 Dr. Cândido Nazianzeno Nogueira da Motta. 

27 Dr. Carlos de Campos. 

28 Dr. Carlos Daniel Rath. 

29 Dr. Carlos Reis. 

30 Dr. Cezario Motta Júnior. 

31 Dr. Cincinato Braga. 

32 Dr. Clementino de Souza e Castro. 

33 Dr. Constante Affonso Coelho. 

34 Dr. Domingos José Nogueira Jaguaribe. 

35 Eduardo Carlos Pereira. 

36 Emannuel Vanorden. 

37 Dr. Ernesto de Moraes Cohn. 

38 Dr. Eugénio Alberto Franco. 

39 Eugénio Hollender. 

40 Dr. Fergo 0'Connor de Camargo Dauntre. 

41 Dr. Fortunato Martins de Camargo. 

42 Dr. Francisco Ferreira Ramos. 

43 Francisco Ignacio Xavier de Assis Moura. 

44 Dr. P^rancisco Martiniano da Costa Carvalho. 

45 Dr. Francisco de Paula Ramos de Azevedo. 

46 Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves. 

47 Dr. Gabriel Osório de Almeida. 

48 M.o"- Gabriel Prestes. 

49 Dr. Gabriel de Toledo Piza e Almeida. 

50 Dr. Gustavo Koenigswald. 

51 T.C. Henrique A. de Araújo Macedo. 

52 Henry White. 



— Í27i — 

53 Dr. Herniann von Iheriíig'. 

54 Dr. Horace M. Lane. 

55 Horácio de Carvalho. 

56 Dr. Ilypolito de Camarg-o. 

57 Dr. Ignacio Wallace da Gama Cochrane. 

58 Dr. Jayme Serva. 

59 Dr. João Alvares Rubião Júnior. 

60 João de Arruda Leite Penteado. 

61 Dr. João Nepomuceno Noíí^ueira da Motta. 

62 Dr. João Nogueira Jaguaribe. 
6H Dr. João Pedro da Veiga Filho. 

64 Dr. João Pereira Monteiro. 

65 Dr. João Ribeiro de Moura Escobar. 

66 Dr. Joaquim Floriano de Godoy. 

67 P." Joaquim Soares de Oliveira Alvim. 

68 Dr. Joaquim de Toledo Piza e Almeida. 

69 Joaquim de Toledo Piza e Almeida. 

70 Dr. Jorge Tibiriçá. 

71 Dr. José Alves de Cerqueira Cezar. 

72 Dr. José Alves Guimarães Júnior. 

73 José André do Sacramento Macuco. 

74 Dr. José Baptista Pereira. 

75 Dr. José Cardoso de Almeida. 

76 José Eduardo de Macedo Soares. 

77 Dr. José Estacio Corrêa de Sá e Benevides. 

78 José Ferraz de Almeida Júnior. 

79 Dr. José Ferreira Garcia Redondo. 

80 José Francisco Soares Romeo. 

81 José Maria Lisboa. 

82 Dr. José de Sá Rocha. 

83 Dr. José Valois de Castro. 

84 Dr. José Vicente de Azevedo. 

85 Dr. Júlio César Ferreira de Mesquita. 

86 Dr. Luiz de Anhaia Mello. 

87 Dr. Luiz de Toledo Piza e Almeida. 

88 Dr. Manoel Álvaro de Souza Sá Vianna. 

89 Dr. Manoel António Duarte de Azevedo. 

90 Dr. Manoel Ferraz de Campos Salles. 



..r— 2.7 2. ....-- 

91 Dr. Manoel Ferreira Garcia Redondo. 

92 Manoel Marcellino de Souza Franco. 

93 Dr. Manoel de Moraes BaiTOs. 

94 Dr. Manoel Pereira Guimarães. 

95 Dr. Manoel Pessoa de Siqueira Campos. 

96 Dr. Martim Francisco Ribeiro de Andrada Sobrinho. 

97 Dr. Martinho Prado Júnior. 

98 Dr. Mathiag Valladào. 

99 Dr. Orville A. Derby. 

100 Dr. Oscar Schwenk d'Horta. 

101 Dr. Pedro. Augusto Gomes , Cardim. 

102 Dr. Pedro Vicente de Azevedo. 

103 Dr. Raymundo Furtado Filho. 

104 Dr. Rodolpho Pereira. 

105 Dr. Severino de Freitas Prestes. 

106 Tancredo Leite do Amaral Coutinho. 

107 Dr. TJieodoro Dias de Carvalho Júnior. 

108 Dr. Theodoro Sampaio. 

109 Theophilo Barbosa. 

110 Thomaz Paulo do Bom Successo Galhardo. 

111 Tiburtino Mondim Pestana. 

112 M.*"" Tristão Araripe. 

113 Dr. Vicente Liberalino de Albuquerque, 

114 Dr. Viriato Brandão. 

115 Dr. Virgílio de Rezende 

116 Dr. Wenceslau de Queiroz. 

Relação das pessoas que foram consideradas como sócios 
fundadores, mas que ainda não satisfizeram a jóia e primeira 
annuidade. 

1 Dr. Alfredo Moreira de Barros Oliveira Lima. 

2 Dr. , António Joaquim Ribas. 

3 Dr. Argimiro da Silveira. 

4 Dr. Arthur Cezar Guimarães. 

5 Dr. Augusto Fomm. 

6 Dr. Carlos Botelho. 

7 Dr. Gezario Gabriel de Freitas. 



273 



8 Dr. Estevam Leão Bourroul. 

9 G^^K Francisco Glycerio. 

10 Dr. Jacob Itapura de Miranda. 

11 João Cândido Martins. 

12 Dr. Joaquim Nogueira de Almeida Pedroso. 

13 Dr. José Gabriel de Toledo Piza. 

14 Dr. José Luiz de Almeida Nogueira. 

15 Dr. José Machado de Oliveira. 

16 Dr. José Maria do Valle. 

17 Jules Martin. 

18 Laffayette de Toledo. 

19 Lindorf Ernesto Pereira de Vasconcellos. 

20 Dr. Luiz António de Souza Ferraz. 

21 Manoel Augusto Galvão. 

22 Dr. Paulo Egydio de Oliveira Carvalho. 



— 274 — 

N. 5 

Relação dos sócios admittidos depois da fundação 
do Instituto. 



N. 


Categ. 


]\OME8 


Data da 
admissão 


Observações 


I 




Barão Homem de Mello 


5 Junho 


1895 




2 




Bellarmino Carneiro 


20 » 


„ 




3 


« 


Barão de Paranapiacaba 


4 Julho 


1 




4 


c 


' Barão do Rio Branco 


n n 


n 




5 


*S 


Dr. Georges Ritt 


5 Agosto 


n 




6 


CS 


Dr. A. J. de Mello M. Filho 


20 n 


» 




7 




§ 

8 


Dr. Mart. de F. V. de Mello 


7 Setem. 


n 




8 


Dr. Silvio Romero 


,, „ 


« 




9 


Dr. Tristão de A. A. Júnior 


n ,, 


n 




IO 


Conselheiro Dr. T. A. Araripe 


» » 


n 




il 


Dr. J. J. de Menezes Vieira 


20 n 


n 




12 




Dr. J. F. de Assis Brazil 


20 Outub. 


n 




13 




Dr. Fred. A. da S. Lisboa 


25 n 


n 




1 


% 


Luiz de F. Almeida e Sá 


5 Junho 


1895 


Satisfez a jóia e 


2 





Dr. Jorge Maia 


20 n 


ti 


annuid. 


3 




Dr. Ernesto G. Young 


„ „ 


„ 




4 


1 


Dr. Luiz Pereira Barreto 


n « 


» 




5 


Dr. Alfredo Pujol 


20 Setem. 


„ 


Idem 


6 


Dr. Leopoldo de Freitas 


» » 


„ 




7 


Dr. Eduardo da S. Prado 


25 Outub. 


" 




I 


0^ 


Dr. Oscar Leal 


5 Junho 


1895 


Satisfez a jóia e 


2 


Dr. Ernesto G. Penteado 


» n 


n 


annuid. 


3 


^ 

g 


Dr. Henrique Coelho 


» n 


n 




4 


Dr. J. da Costa R. Júnior 


20 n 


n 




5 





Dr. Alfredo de Toledo 


n „ 


„ 




6 


José M. Sezerdello 


ao Julho 


n 




7 


A 


Dr. R. P. A. do S. Blacke 


5 Agosto 


« 


Idem 


8 




Domingos L. da F. e Silva 


7 Setem. 


„ 




9 


Eurico Saldanha ^ 


20 » 


» 




10 


è 


Dr. Heitor Peixoto 


25 Outub. 


„ 




n 


Alberto Veiga 


» » 


» 




12 




F. C. de Almeida Moraes 


" " 


" 





— 275 - 

]\. 6 

Balancete da Receita e Despeza do Instituto His- 
tórico e Geographico da S. Paulo, no trimestre findo 
em 3i de março de 4895. 



RECEITA 

Joiag e annuidades de três só- 
cios fundadores recebida pelo 
TliPzoureiro. 

Idem de quarenta e cinco sócios 
fundadores recebidas por intermé- 
dio do Cobrador do Instituto. 


TT— 




RS. 


3: 


•222 
330 


000 
000 




3. 


552 


OOU 


DESPEZA 

Porcentagem ao Cobrador. 

Annuncios e publicações nos 
jornnes. 

Livrop, papel objecto para a 
Secretaria. 

A rchi vãmente dos Estatutos no 
Registro Geral. 

Impressos diversos. 

Sellos para o expediente. 

lOOO exemplares dos Estatutos. 






Rs. 




303 

49 

126 

23 

64 

10 

230 

8U6 


000 

600 

500 

800 
000 
000 
000 
900 


RESUMO 

Importância da Receita. 
Idem da despeza. 


3: 


552 

806 


000 
90« 


2: 


745 




Saldo 


•• 


... 


Rs. 


100 


S. Paulo, 31 de março de 1895 

Thezoureipo do Insfituto 

Dr. Domingos Jaguaribe 















— 276 — 

Balancete da Receita e Deapeza do Instituto Histo- 
«co e Geographico de 8. Paulo, no trimestre findo 
«m 30 de junho de 4895. 



RECEITA 

Saldo do trimestre anterior 

Jaias e annuidadea de três só- 
cios fundadores recebidas pelo 
thezoureiro 

Idem de trinta e dois sócios- 
fundadores recebidas por inter- 

ídio do Cobrador do Instituto 





; 




2: 


745 
222 








2: 


368 






Rs. 


5: 


335 



100 
000 

000 

dou 



DESPEZA 

Porcentagem do cobrador 

Eacadernação do Diário Official 
1 vol 

Um caiimbo de metal para 
«ello do Instituto 

Annuncios e sellos para expe- 
diente 



Rs. 



236 
lO 
40 
49 



335 



800 

000 

000 

000 
800 



RESUMO 

Importância da receita 
Idem da despeza 



Saldo. 



335 
335 



100 
^00 



Rs. 



4: 



999 



300 



Sendo; Depositado no Banco 
de Credito Real 

Dinheiro em mão do Thezou- 
leiro 



800 



{9^ 



000 
500 



4: 



999 



300 



S. Paulo, 30 de junho de 1896 

O tbezoureipo do Insfituío 

X)r. Domingos Jaguaribe 



— 277 — 



N. 8 



Balancete da Receita e Despeza do Instituto Histórico 
e Geographico de S. Paulo no trimestre de l.<* de julho a 
30 de setembro de 1895. 

RECEITA 

Saldo do trimestre anterior .... 4:999$300 

Jóias e annuidades de cinco sócios, sendo 
4 fundadores, 1 eíFectivo e 1 corresponden- 
te, recebidas pelo Thesoureiro 370$000 

Donativo feito pelo sócio honorário sr. 
dr. Georges Ritt 50$000 

Jóias e annuidades de dezoito sócios, 
sendo 16 fundadores, 1 effectivo e 1 cor- 
respondente, recebidas por intermédio do 
Cobrador do Instituto l:332SOOO 

Rs. 6:751$300 



DESPEZA 

Porcentagem ao Cobrador 133$200 

Gratificação ao porteiro servente do 
Oymnasio do Estado pelo serviço prestado 
ao Instituto nos dias de sessão relativa aos 
mezes de abril a setembro — 6 mezes a 

201000 120$000 

Annuneios nos jornaes 87$500 

Prensa para o carimbo-sello e serviço de 

juncção 50$000 

Circulares e outros impressos e enve- 
loppes 119$õOO 

Sellos para correspondência e despezas 
miúdas 17$300 

Gaz consumido por occasião das sessões 
do Instituto, nos mezes de janeiro, abril, 
maio e junho 30$780 

500 diplomas lithographados para sócios 800$000 



278 — 



12 livros ín folis, pSL^el Hollanda e encader- 
nação forte, com riscado especial e dizeres 
impressos, numerados e rotulados, para a 
escripturação da secretaria, Bibliotheca, Ar- 
chivo e Thesouraria 



5001000 
Rs. 1:8Õ8§280 



RESUMO 
Importância da receita 6:751 $300 



Idem da despeza 
Saldo. 



1:857$280 



Sendo : Depositado no 
Banco de Credito Real 4:200$000 

Dieheiro em mão do 
Thezoureiro 693$020 



Rs. 4:893$020 



4:893$020 



S. Paulo, 30 de setembro de 1895. 

O Thezoureiro do Instituto, 

Dr. Domingos Jaguaribe 



índice 

PAG. 

Ao LEITOR . 3 

A DENOMINAÇÃO «SeRRA DA MANTIQUEIRA» pelo dr. 

Orville A. Derby 5 

Origens Republicanas do Brazil — pelo dr. Do- 
mingos Jaguaribe 19 

Discurso lido na sessão de 4 de julho de 1895 em 
homenagem á Independência dos Estados Uni- 
dos — pelo dr. Joào Monteiro 129 

Os Selvagens de S. Paulo — por CR 149 

Typos Ituanos. I — Padre Jesuino do Monte Car- 

MELLO — pelo dr. António Augusto da Fonseca 155 
Estudo Critico — A Posse do Brazil Meridional 
— Fundação da primeira colónia regular dos 
PoRTUGUEZES EM S. VicENTE — pelo dr. Theodoro 

Sampaio . . 175 

Actas das sessões 209 

Relatório dos trabalhos e occorrencias no anno 

de 1895 e annexos . . . . , 257 

ThESES APJIESENTADAS PELO SR. DR. CeSARIO MoTTA 

Júnior 264 

Catalogo dos livros, mappas e mais objectos exis- 
tentes NA Bibliotheca e NO Archivo do Ins- 
tituto 265 

Relação nominal dos sócios considerados definiti- 
vamente como membros fundadores .... 269 

Relação das pessoas que foram consideradas como 
SÓCIOS fundadores, mas que ainda não satis- 
fizeram A JÓIA E A PRIMEIRA ANNUIDADE . . 272 

Relação dos sócios admittidos depois da fundação 274 
Balancete da receita e despesa no trimestre findo 

em 31 DE MARÇO DE 1895 ' . 275 

Balancete do trimestre findo em 30 de junho de 

1895 * 276 

Balancete do trimestre findo em 30 de setembro 

de 1895 277 



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