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Full text of "Revista do Instituto histórico e geográfico de São Paulo"

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REVISTA 



DO 



Instituto Histórico e Geograpliico 



DE 



SÃO PAULO 



VOLUME V 



1899 — 1900 




SAO PAULO 

TYPOGRAPHIA DO «DIÁRIO OFFICIAL» 
1901 



CHRONICAS 
DOS TEMPOS COLONIAES 



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REVISTA 



DO 



Instituto Histórico e Geograpliico 



DE 



SÃO PAULO 



VOLUME V 



1899 — 1900 



SÃO PAULO 

TYPOGRAPHIA DO «DIÁRIO OFFICIAL» 
190X 



IlsrDIOE 



PAGS. 

CHRONICAS DOS TEMPOS COLONIAES : 

O Supplicio do Chaguinhas, pelo dr- António de Toledo Piza . 3 

Martim Francisco e A Bernarda pelo dr. António de Toledo 

Piza 48 

O SERTÃO ANTES DA CONQUISTA (SÉCULO XVÍI), pelo dr. 

Theodoro Sampaio 79 

EVTARISTO FERREIRA DA VEIGA (COMMEMORAÇÃO HIS- 
TÓRICA), pelo dr. Tullio de Campos 95 

O TENENTE GENERAL AROUCHE RENDON, pelo dr. António 

de Toledo Piza 105 

REFLEXÕES SOBRE O BRASIL, pelo capitão Van Vliervelt . 135 

O PROCESSO VIMIEIRO-MONSANTO, pelo dr. António de To- 
ledo Piza 145 

ESCRIPTURA DE DOTE DO CONDE DA ILHA DO PRÍNCIPE . 151 

ARVORE GENEALÓGICA DE MARTIM AFFONSO DE SOUZA 

E PEDRO LOPES DE SOUZA 158 

RELAÇÃO DOS CAPITÃES LOCO TENENTES DA CAPITANIA 

DE S. VICENTE, por Fr. Gaspar da Madre deDeos . . 159 

CATALOGO DOS GOVERNADORES DA CAPITANIA DE ITA- 

NHAEN, por Marcellino Pereira Cleto 177 

NOTAS AVULSAS, sobre a historia de S. Paulo, por Fr. Gas- 
par da Madre de Dios 180 

PRIMEIRA PHASB DA QUESTÃO DE LIMITES ENTRE SÃO 
PAULO E MINAS GERAES NO SÉCULO XVIIÍ, pelo dr. 
Orville A. Derby .....,, t ...» . 19^ 



IV 

PAGS 

AUCTORIDADES COLONIABS NA RAIA DE S. PAULO E 
MINAS GERABS NO SÉCULO XVIII, pelo dr. Orvillo A. 

Derby 221 

OS PRIMEIROS DESCOBRIMENTOS DE OURO EM MINAS 

GERAES, pelo dr. Orville A. Derby 240 

OS PHIMEIROS DESCOBRIMENTOS DE OURO NOS DISTRI- 

CTOS SABARÁ E CAETHÉ, pelo dr. Orville A. Derby. . 279 
DISCURSO DO DR. MANOEL PEREIRA GUIMARÃES, fazendo 

o elogio dos sócios fallecidos 296 

ACTAS DAS SESSÕES DO ANNO DE 1900 313 

RELAÇÃO DAS OFFERTAS DE LIVROS, REVISTAS, MAPPAS, 
JORNAES, ETC , FEITAS AO INSTITUTO DURANTE O 

O ANNO DE 1900 344 

RELATÓRIO DOS TRABALHOS B OCCORRENClAS DO INSTI- 

TITUTO DURANTE O ANNO DE 1900 349 

CATALOGO DOS LIVROS. IM PRESSOS, MANUSCRIPTOS, MAP- 
PAS E JORNAES, RECEBIDOS DURANTE O ANNO DE 

' 1900 . - . 355 

RETRATOS, ESTAMPAS E PHOTOGRAPHIAS EXISTENTES 

NO ARCHIVO, EM 25 DE OUTUBRO PB 1900 .... 391 
MEDALHAS B MOEDAS RECEBIDAS NO ANNO DE 1900. . 392 
QUADRO DOS SÓCIOS ACCEITOS NO ANNO DE 1900. . . 393 
RELAÇÃO GERAL DOS MEMBROS DO INSTITUTO EM 31 DE 

DEZEMBRO DE 1900 394 

SÓCIOS HONORÁRIOS 398 

SÓCIOS BPFBCTIVOS 399 

SÓCIOS CORRESPONDENTES 400 

BALANÇO DE RECEITA E DESPESA DO INSTITUTO EM 25 

DE OUTUBRO DE 1900 403 



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CHRONIOAS DOS TEMPOS GOLCNIAES 



O supplicio do Chaguinhas 



No moio dos importantes acontecimentos occorridos em S. Paulo 
nos annos de 18.21—22, que trouxeram a esta cidade o principe Dom. 
Pedro, regente do Brasil, e deram cccasião a que fosse dado nas col- 
iinas do Ypiranga o brado patriótico de Independência ou morte, pas- 
sou-se quasi despercebida dos historiadores a execução da pena de 
morte applicada no largo da Liberdade a um tal Chaguinhas, pelo 
crime de ter chefiado em Santos uma sedição mititar nos últimos dias 
do mez de Junho de 1821. 

Realmente, o facto em si não tinha importância alguma, porque 
a execução de uma pena de morte, sob o regimen colonial, era cousa 
por demais communi para attrahir a attenção de quem quer que fosse 
« Chaguinhas não ora homem tão conhecido e de tal valor intellectual 
ou moral que a sua morte, no cadafalso, causasse impressão dura- 
doura sobre o espirito daquella geração convulsionada pelos graves 
acontecimentos precursores da nossa emancipação politica. 

Entretanto, a execução daquella sentença de morte foi rodeada 
de tantas peripécias dolorosas para o paciente e para as numerosas 
pessoas que a ella assistiram e de tantas circumstancias mysteriosas, 
e o nome do velho Martim Francisco apparece nella de um modo tão 
odioso para os corações sensíveis, e principalmente para os patriotas, 
que valo bem a pena dar-lhe alguns momentos de attenção e empre- 



— 4 — 

gar algum esforço na tentativa <le desvendar aquelles mysterios o de- 
limpar a memoria do grande paulista de qualquer tra(,'0 de odiosidad» 
que sobre ella tenha recahido e que o tempo ainda. nao tenha conse- 
guido destruir. 

E' uma espécie do reivindicação histórica que vou tentar, wm 
processo de revisão de um julgamento errado que tem sido transrait- 
tido de geração em geração até o presente, para que a boa fama da- 
quelle brazileiro illustro passe á mais remota posteridade escoiraada 
de uma injusta e odiosa imputação. 

Para chegar, porém, a este resultado, preciso fazer algumas li- 
geiras referencias não somente á historia colonial de S. Paulo, como 
também aos movimentos revolucionários da Europa e da America, que 
tanto contribuíram para a divulgação das idóas liberaes entre os bra- 
sileiros e para a realização da independência do Brasil era 18";?2. Este 
ligeiro retrospecto servirá para explicar a razão de ser muitos factos 
obscuros e para mostrar o estado do espirito publico em S. Paulo na 
occasião ora que teve logar o supplicio do Chaguinhas. 

Tratarei agora da execução da pena de morte a que foi condem- 
nado o infeliz Chaguinhas e depois, era outra chronica intitulada 
Martim Francisco e a Bernarda, terei occasião de apresentar algu- 
mas versões sobre a parte que este illustre paulista tomou naquella. 
odiosa execução. 



A proclamação da independência dos Estados Unidos da America, 
do Norte em 1776, seguida de uma guerra de sete annos e da victo- 
ria final dos Yankees, auxiliados por Lafayette e outros enthusiastas 
da liberdade, echoou era todo o mundo civilizado e produziu no Bra- 
sil a prematura e desastrosa Inconfidência mineira, que levou Tira- 
dentes ao cadafalso e tantos brazileiros illustres ao degredo perpetuo- 
nas inhospitas regiões da costa d'Africa. 

D. Bernardo José de Lorena era então o capitão general de São- 
Paulo e com razão afBrmava que oâ paulistas eram ainda bastante 
fieis ao rei e amantes da monarchia para se interessarem de um, 



— 5 — 

'modo sympathico e positivo pelos acontecimentos que estavam se pas- 
sando na vizinha capitania de Minas Geraes. Assim era ainda, com 
©ffeito, e S. Paulo nao tomou parte alguma naquelle nobre e patrióti- 
co movimento, iniciado pelos mineiros em prol da liberdade do paiz, 
comquanto nello participassem mais ou menos activamente os dois 
irmãos paulistas Luiz Vaz de Toledo Piza e o padre Carlos Correia 
de Toledo. 1'orém, a semente estava lançada pelos mineiros, deitou 
raízes em todo o paiz e devia germinar e produzir os seus fructos 
em tempos mais opportunos. 

Parallela cora a modesta e trágica rebelliao de Villa Rica e ain- 
da como repercussão da independeocia dos americanos e fructo das 
doutrinas de Rousseau e dos encyclopedistas, rebentou era Paris a 
gigantesca revolução de 1789^ que começou arrazando a Bastilha, fa- 
mosa fortaleza e prisão de E-tado, verdadeiro symbolo do despotis- 
mo real que pesou sobre a P'rança por tantoi»^ séculos, e acabou der- 
rocando todas as velhas instituições francezas e creando uraa nova 
ordem social e politica, baseada nos inalienáveis direitos do homem 
«orno cidadão. 

Durante as saníi ninarias guerras quo se seguiram por ura quarto 
de século os exércitos vidoriosos da Republica Franceza e do pri- 
meiro Napoleão levaram a todos os recantos da Europa as novas 
idéas de liberdade pelo regimen representativo apoiado sobre a 
soberania popular, da eguald\de de todos perante o direito, e de 
FRATERNIDADE dos homous oriuudos da miasma raça, falando a mes- 
ma lingua, professando a mesma religião e vivendo sob as mes- 
mas leis. 

Todos os governos se agitaram para a sua defesa commum con- 
tra a inva ãa do jacobimsmo francez. Portugal e Hcspanha, não 
obstante as barreiras naturaes do oceano e dos Pyreneu?, foram fi- 
nalmente arrastados á lucta e invadidos por tropas extrangeiras, e 
a península ibérica transformou-se por seis annos em campo de san- 
guinolentas batalhas entre os francezes e os naturaes da terra, se- 
•cundados pelos inglezes. 

As numerosas colónias hespanholas da America aproveitaram-se 
«da anarchia que dominava a metrópole para sacudirem o seu jugo^ 



- 6 — 

três vezes secular, e entrarem no convívio dos povos livres e inde- 
pendentes . 

A Bolivia foi a primeira a levantar-se, em 1808, luctou heroica- 
mente por muitos annos e só conseguiu assegurar a sua liberdade 
em 18,24, depois da estro ti dosa victoria do general Sucre scbre o& 
hespanhóes em Ayacuco. Auxiliado por seu isolamento no interior 
da Amojica, vem de perta o Paraguay, que proclamou a sua inde- 
pendência em 1809 e íirmou-a em 1814, sob a chefia do celebre 
dictador Francia. O México, capitaneado por Hidalgo, rompeu a lu- 
cta pela liberdade em 1810 e só a terminou em 1829, com a brilhan- 
te victoria de Tampico. Nova Granada, Venezuela e Equador move- 
ram-se em 1811, sob a direcção do grande Bolivar, e flzeram-se livres 
em 1819. Buenos-Ayres, rebellada em 1811, já no anno seguinte 
estava desembaraçada dos seus oppressores e enviava o seu illustre 
general San Martino acudir ao Chile, que estava a braços com o& 
hespanhóes desde 1810 e cuja independência ficou afiBrmada em 1820^, 
pelas grandes victorias de Chacabuco, Maypú e Valdivia. O Peru: 
começou tarde o seu movimento, pois só entrou na lucta em 18^1 ; 
porém, soccorrido por Bolivar, ficou livre em 1824 pela victcria deci- 
siva de Junin, Toda a America Central também se libertou em 1821 
e só restaram á Hespanha, de todos os seus vastos dorainios no Novo 
Mundo, as ilhas de Cuba e de Porto Rico, que agora acaba de perder 
em seguida a uma rápida e desastrosa lucta com os Estados Unidos. 

O Brasil foi um tanto retardatário neste movimento libertador da 
America latina, porque a família real portugueza, fugindo em 1807 
deante dos exércitos invasores da França, tinha vindo se installar no 
Eio de Janeiro e com a sua presença entre nós a situação geral dos 
brasileiros melhorou consideravelmente. A aspiração á independência 
tinha de alguma forma sido satisfeita porque, de facto, a colónia 
agora jà não era mais o Brasil, mas Portugal, visto que a rainha aqui 
residia e do Rio de Janeiro eram expedidas as ordens para as diversas 
partes do reino, na America, na Europa, na Ásia e na Africa. O mo- 
vimento revolucionário de Pernambuco, em 1817, que custou a vida a 
Abreu e Lima, Domingos Theotonio, Barros Lima, padre Tenório e 
outros, foi de caracter regional e não teve repercusão séria na maio- 
ria das províncias. 



Uma vez livres Portugal e Hespanha das invasões francezas e 
sem receios de novos perigos, porque Napoleão cahiu para sempre em 
Waterloo o foi reraettido para Santa Helena, onde ficou até sua morte 
sob a segura guarda do governo inglez, voltaram as velleidades reco- 
nolizadoras destas duas nações ibéricas. Tratou a Hespanha de re- 
conquistar pelas armas as suas colónias sublevadas e Portugal de re- 
haver a familia real e de recoUocar o Brasil no seu antigo estado de 
feitoria explorada até o martyrio em proveito da metrópole. 

Entretanto, o sentimento da liberdade e o horror ao despotismo, 
implantados naquellas duas nações pela influencia da Revolução Fran- 
ceza ou pelos effeitos reflexos das revoluções das colónias americanas, 
tinham invadido as metrópoles e contaminado os seus povos, de tal 
forma que, em 1820, a Hespanha e Portugal estavam em plena revo- 
lução liberal para a adopção de governos constitucionaes. 

As Cortes reunidas cm Lisboa organizaram as bases de uma con- 
stituição politica, que foram acceitas por D. João VI, quando ainda resi- 
dia no Rio de Janeiro, e mandadas jurar e executar por decretos de 24 
de Fevereiro e do 10 de Março de 1821 . Em seguida as mesmas Cortes 
chamaram para Portugal o rei João VI, não somente para que Lisboa 
voltasse a ser, como dantes, a capital damonarchia, mas também para 
que a presença da familia real livrasse o reino do jugo dos inglezes, 
que vinha se prolongando desde 1808 e se tornara intolerável com o ás- 
pero e despótico Beresford. 

Partiu João VI para Lisboa em Abril de 1821, deixando no Rio 
de Janeiro o príncipe D. Pedro, seu filho, como regente do Brazil, que 
ainda continuava a ser parte integrante do Reino Unido de Portugal, 
Brasil o Algarves. Este facto transtornou uma parte dos planos das 
Cortes portuguezas, que não contentes com a transferencia do governo 
do Rio para Lisboa e com a posse do rei, ainda por um decreto de 31 de 
Outubro do mesmo anno, ordenaram que o príncipe D. Pedro também 
se recolhesse para Lisboa sob o pretexto de que presoisava de se ins- 
truir, viajando pelas capitães das grandes nações européas, mas de 
facto para retirar do Brasil toda a apparencia do governo autonómico 
e fazel-o voltar ao velho regimen colonial. 



II 

Entre a partida de João Vi e a chamada do principe regente 
teve logar era S. Paulo a deposição de João Cariís Augusto de Oey- 
nhausen do cargo de capitão general, que exercia desde 1819, e a 
eleição de ura governo provisório, que foi acclamado polo povo e 
pela tropa aqui aquartelada. João Carlos já havia governado regular- 
mente bem as capitanias do Ceará e Matto Grosso e desta foi remo- 
vido para o governo de S. Paulo quando as idéas liberaes iam se 
tornando farailiares a to^las as classes sociaos e o sentimento, ainda 
um pouco vago, da independência estava latente em todos os corações. 

A revolução liberal do Porto, em 1820, e a adopção de um pro- 
jecto de constituição, relativamente livre, que foi logo acceito e ju- 
rado em todo o Brasil, vieram levantar o espirito abatido dos paulis- 
tas e fazel-os pensar seriamente na organização dum novo governo 
que fosse mais consentâneo com o estado politico da nossa sociedade 
e satisfizesse as suas justas aspirações á posse de um regimem mais 
humano e menos arbitrário. 

«Desde então, tornando-se geral a fermentação, só faltava que 
apparecesse alguém que íosse bastante arrojado para dar o primeiro 
impulso e realizar a suspirada raudança de governo.» Esse alguém 
bastante arrojado appareceu na pessoa de José Innocencio Alves Al- 
vim, neto do historiador Pedro Taques, moço de muito talento e de 
boa instrucção, e liberal extremado, que tocou o signal de alarma no 
sino da cadeia, reuniu o povo e a tropa e realizou a idéa do se- 
guinte modo : 

Estacionavam nesta capital um batalhão de caçadores sob o 
comraando do coronel Lazaro José Gonçalves, um de cavallaria mili- 
ciana sob as ordens do coronel António Leite Pereira da Gama Lobo 
e um de infantaria de milicia, chefiado pelo coronel Francisco Ignacio 
de Souza Queiroz. Havia festas na cidade nos dias 21 e 22 de Junho 
de 1821 e, sendo costume as tropas tomarem parte nellas, com revis- 
tas e exercicio-, estavam todas aquarteladas à de promptidão. No 
dia 23, antes que o povo se retirasse e as tropas deixassem o 
quartéis, José Innocencio e seu irmão Joaquim Alvim, entendendo que 
era chegada a occasião de realizar o ideal revulocionario, que avas- 



— 9 — 

sallava todos os espíritos, foram ao paço municipal, tocaram rebate 
no sino da camará e, com vivas á religião, ao rei e á conslituivão, 
pregaram a necessidade da proclamação de um governo provisório. 

Os coronéis Lazaro Gonçalves, Gama Lobo e Souza Queiroz, 
apenas notificados do movimento, correram com os seus respectivos 
corpos a secundal-o, emquanto o povo pelo seu lado não ficava in- 
dillerente e vinha se juntar aos patriotas para a realização do seu 
nobro desideratom. Uma coramissão foi logo enviada ao ouvidor D. 
Nuno Eugénio de Lossio e Seilbz, convidando-o para que viesse assis- 
tir á reunião ; outra coramissão partiu á procura do juiz de fora Ni- 
coláo de Siqueira Queiroz o dos ve eadores António Vieira dos San- 
tos, João Franco da Rocha, José de Almeida Ramos e Amaro José de 
Moraes para que comparecessem immmediatamente no paço da ca- 
mará, emquanto uma 'ommissão militar, composta de três capitães, 
ia a casa de J< só Bonifácio do Andrada e Silva, que havia dois antios 
tinha voltado do Europa, depois duma ausência de mais de trinta 
annos, se achava residindo era Santos e estava de passeio nesta ca- 
pital, para convJdal-o a vir presidir a reunião j guiar os revolucio- 
nários nos seus primeiros passos tendentes ao estabelecimento de ura 
governo popular. 

r^eimidos todos no ediflcio da Camará Muniaipal, onde José Boni- 
fácio foi recebido com salvas de palmas, estrondosos applaus'^s e raui- 
tos e repetidos gritos : Viva o Senho- Conselheiro, assumiu elle a pre- 
sidência e dirigiu ao povo uraa curta o patriótica fala, que convém 
reproduzir aqui : 

« Senhores, eu sou muito sensível á honra que me fazeis, cle- 
gendo-rae para presidente da eleição do governo provisório que pre- 
tendeis installar. Pela felicidade da minha pátria eu farei os mais 
custosos sacriflcios até derramar a ultima gotta do meu sangue. Esta 
eleição, senhores, só pôde ser feita por acclamação unanime ; descei 
á praça e eu da janella vos proporei aquellas pessoas que, por sou 
talento e pela opinião publica já por vós manifestada, rac parecem di- 
gnas de ser eleitas.» 

Neste ponto foi José Bonifácio interrompido por alguns cidadãos, 
que protestaram contra a entrada no novo governo, que deveria sor 
liberal e generoso, de alguns homens que se tinham tornado antipa- 



— 10 -~ 

thicos ao povo por terem sido partes dos governos tyrannieos ante- 
riores. Era prudente este alvitre, como os factos vieram logo demons- 
trar; porôni; José Bonifácio, que nunca se tinha envolvido em politi- 
ca e vivera até então inteiramente absorvido pelos seus trabalhos 
scientificos o litterarios não sentia no seu coração de patriota os 
mesmos azedumes que affligiam o coração do povo o por isso respon- 
deu aos protestantes nos seguintes termos : 

« Senhores, este deve ser o dia da reconciliação geral entre to- 
dos. Desappareçam ódios, inimizades e paixões. A pátria seja a 
nossa única mira. Completemos a obra da nossa regeneração politica 
cora socego e tranquillidado, imitando a gloriosa conducta dos nosso^ 
irmãos de Portugal e Brasil. Persuadido de que haveis posto era 
mim vossa confiança, acceitei o convite que me fiz^ístos e aqui estou 
prompto a trabalhar pela causa publica. Si de facto confiaes em mira 
e estaes resolvidos a portar-vos como homens de bem, então eu me 
encarrego do procurar a vossa felicidade, expondo a propia vida ; mas, 
si outros são os vossos sentimentos, si o vosso fito não se dirige so- 
mente ao bem da ordem, si pretendeis manchar a gloria que vos pôde 
resultar deste dia e projectaes desordens, então eu me retiro, ficai e 
fazei o que quizerdes.> 

O povo em massa resrondeu a esta enérgica e decisiva allocução 
protestando as suas boas intenções e o desejo sincero de acatar a 
opinião de José Bonifácio, em quem depositava inteira confiança. 

«Pois bem, continuou elle, descei então á praça e approvae da- 
quelles que cu nomear os que mais vos merecerem.» 

Desceu o povo ao lavgo, onde se misturou com a tropa alli esta- 
cionada. O ouvidor, o juiz de fora e os vereadores, com o estandarte 
da Camará, tomaram posição em uma janella, emquanto José Bonifá- 
cio assomava a outra e dictava ao povo, agglomerado no largo, os 
nomes das pessoas que entendia estarem no caso de servir no go- 
verno que se ia organizar. O primeiro nome lembrado por elle e ac- 
ceito pelo povo foi do ex-capitão-general João Carlos de Oeynhausen 
para presidente, exigindo em seguida a massa popular que elle pró- 
prio acceitasstí o cargo de vice-presidente, ao que José Bonifácio an- 
nuiu. Acceita essa quasi imposição e combinados os outros nomes,, 
ficou o novo governo composto do seguinte curioso pessoal: 



^ 11 — 

Presidente — General João Carlos Augusto do Oeynhausen. 

Vice-presidente — José Bonifácio de Andrada e Silva. 

Secretario do Interior 8 Fazenda— Martira Francisco Ribeiro de 
Andrada. 

Secretario da Guerra — Coronel Lazaro José Gonçalves. 

Secretario da Marinha — Chefe de Esquadra Miguel José de f'li- 
veira Pinto. 

Deputados pelas Armas — Coronéis António Leite Pereira da Gama 
Lobo e Daniel Pedro Miiller. 

Deputados pela Agricultura — Dr. Nicoláo Pereira de Campos Ver- 
gueiro e Coronel António Maria Quartim. 

Deputados pelo Coramercio — Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão 
e Francisco Ignacio de Souza Queiroz. 

Deputados pelas Sciencias e Educação— Padre Francisco de Paula 
e Oliveira e professor André da Silva Gomes. 

Deputados pelo Ecclesiastico — Padres Felisberto Gomes Jardim e 
João Ferreira de Oliveira Bueno. 

Feita esta escolha do pessoal que devia compor o Governo pro- 
visório do S. Paulo e presidir ao inicio de uma nova era que todos 
esperavam que fosse de paz, de liberdade e de progresso, lavrou-se 
alli mesmo, em livro da camará municipal, um termo da eleição ac- 
clamada que se acabava de fazer, do juramento das bases da consti- 
tuição, de religiosa observância das leis o de preito e vassalagem a 
D. João vi, rei constitucional de Portugal, Brasil e Algarves, e á 
dynastia de Bragança. 

No meio do maior enthusiasmo seguiram os vereadores e alguns 
dos novos eleitos, acompanhados de muito povo, tropa e musica, todos 
cantando o hymno constitucional, para a casa do general João Carlos 
a communicar-lhe a sua eleição. Tendo este acceito o cargo de pre- 
sidente do novo governo, trouxeram-n'o para o paço municipal, onde 
o general prestou o competente juramento nas mãos do bispo D. Ma- 
theus de Abreu Pereira, com toda a solemnidade o em presença de 
muito povo. Passou-se dalli para a egreja da Sé, onde foi cantado 
Te Deum em agradecimento de tantos benefícios. A' noite foi illu- 
minada a cidade e houve espectáculo do gala no theatro, que era 
mesmo em frente ao palácio, sendo representado o drama Disciplina 



- 12 - 

Militar no Norte e o hymno coní^titueional cantado por senhoras dos 
camarotes acompanhadas pelo povo em coro na piatéa. 

Pen-avam os paulistas terem deste raodO; sem derramarem uma 
só gotta de sangue, sem o minimo incidente desagradável, quebrado 
para sempre os ferros da escravidão e completado a obra da sua re- 
organização politica; porem os factos se incumbiram do de.i onstrar 
que a obra estava ainda muito em começo e que sò dahi a cinco 
annos é que elles entrariam na vida normal dos povos livres e inde- 
pendentes . 

Ill 

O governo popular acclamado em S. Paulo no memorável dia 23 
de Junho de l^^ál, como vimos, íicou composto de quinze membros e 
trazia era seu próprio seio o germom da sua dissolluçâo, por ser 
miico mais numeroso do que convinha para a harmonia e unidade de 
sua acção e conter em si os elementos mais heterogéneos que naquel- 
le importante momento histórico se poderiam encontrar nesta capital. 

Só a falta absoluta de conhecimento dos homens e das cousas 
politicas, a mais completa inexperiência da administração e "ma re- 
quintada boa ré, levada até a ingenuidade e própria dos paulistas 
daquelles tempos, ó que poderiam ter produzido este inviável raos- 
trengo politico, a que se deu o pomposo nome de Governo Provisório 
de S. Paulo e sobre o qual depositaram os nossos avós as suas mais 
caras esperanças. 

O próprio José Bonifácio, que foi quem deu-lhe origem, não 
tinha conhecimento dos homens cora quem estava tratando, pouco on 
nada sabia das condições intellectuaes e moraes do povo paulista e 
nâo estava habilitado a fazer uma justa selocção e collocar the right 
man in the right place. Nas»;ido em Santos om 1763 e alli crescido 
até os desesete annos. era 17<Sl foi enviado a Portugal, onde for- 
mou- se na universidade de Coimbra, com grande reputação pelos 
seus vastos talentos litterario e scientiflco. Viajou em seguida por 
quasi toda a Europa durante déz annos, instruindo-se principalmente 
era scieucias naturaes, e voltou em 1800 a Portugal, onde ficou ainda 
muitos annos, corao lente de metallurgia na mesma universidade de 



— Í3 - 

Coimbra, e onde combateu, á frente de ura batalhão académico, con- 
tra os francezes durante a invasão de 1807. A única funcção de 
caracter politico que desempenhou durante a sua longa residência em 
Portugal foi a de chefe de policia da cidade do Porto ao tempo de 
invasão do general Soult, era 1808. Esta coramissão durou pouco tempo 
e foi de caracter mais militar do que politico pela anarchia interna 
que teve de suffocar e pela invasão extrangeira que devia repellir. 
Com ella pouca experiência adquiriu sobre politica e administração. 

. So em 1819 foi que voltou elle ao Brasil, depois de uma ausên- 
cia de trinta e oito ann »s. durante os quaes » raundo civilizado tinha 
sofifrido uma completa transformação politica e social e havia surgido 
um mundo inteiramente novo das ruinas directa ou indirectamente 
produzidas pela Revolução Franceza. Não poderia elle neste longo 
período de tempo ter adquirido conhecimentos especiaes do que se 
passava na sua terra natal, já porque vivia muito occupado com os 
seus trabalhos scientiflcos, já porque os factos que se davam na Eu- 
ropa eram por demais importantes para tomarem o seu tempo nas 
horas vagas dos seus estudos, já porque não havia em Portugal e 
Brasil imprensa desenvolvida que servisse de reflexo dos soffriraen- 
tos o necessidades dos povos, já porque eram raros os livros de 
viagens sobre o Brasil, com a narrativa dos costumes e condições 
politicas e sociaes dos brasileiros, e já, finalmente, porque a nave- 
gação maritiraa, coraquanto rauito raelhorada de i808 era diante, 
depois da chegada da família real ao Rio de Janeiro e da abertura 
dos nossos portos a > commercii» de todas as nações amigas, era 
ain la muito limitada, muito defl^iente, e foi por muitos acnos emba- 
raçada pelas guerras napoleónicas. 

Chegado ao Brasil, José Bonifácio veiu logo se estabelecer era 
Santos, sua terra natal, onde continuou seus estudos de historia na- . 
tural e onde tinha pouca opportunidade para fazer o conhecimento 
dos homens e das cousas de S. Paulo pelo meio acanhado em que 
vivia e pelas pequenas relações então existentes entre a província e 
o seu principal porto commercial. Em 1820 fez, com seu irmão Mar- 
tira Francisco, uma viagem pelo interior para flns inteiramente scien- 
tiflcos e pouco se relacionou com os seus patrícios para se identificar 
cora os seus costuraes e conhecer as suas necessidades e aspirações. 



- 14 - 

Nâo foi elle chamado de Santos para vir a esta capital tomar a 
direcção do movimento politico que se iniciava ; mas, estando nesta 
cidade, a passeio ou a negocio, julgaram os auctores do movimento 
ser medida de prudência e de sabedoria convidal-o para presidir a 
projectada eleição do novo governo e assim cobrir o acto revolucio- 
nário que iam praticar com o nome já illustro do grande santista, 
muito respeitado e admirado pela própria familia real de Bragança. 

Não foram, portanto, a experiência da politica e da administração 
e o profundo conhecimento dos homens e das coisas da sua pátria 
que naqualle momento os paulistas admiravam em José Bonifácio e 
que os levaram a acceitar os seus conselhos e a sua direcção na 
transformação politica por que iam passar, mas sim o facto de ser 
elle um brasileiro nato e ainda mais brasileiro por sentimento, do ser 
um homem verdadeiro c honrado e possuir um nome já feita e res- 
peitado tanto no paiz como no extrangeiro. 

E andaram os paulistas muito acertadamente, porque, comquanto 
os effeitos immeãiatos de intervenção de José Bonifácio na direcção da 
politica em S. Paulo fossem de caracter um tanto negativo, visto que 
ella não trouxe a desejada harmonia entre os habitantes da província 
e muito menos entre os próprios membros do Governo Provisório e 
deu o pretexto para o celebre motim conhecido pelo ridículo nome de 
Bernarda de Francisco Ignacio, comtudo as consequências mediatas 
que delias se seguiram foram de grande importância e utilidade para 
o paiz, por isso que a sua entrada para o Governo Provisório deu 
ensejo a que elle fosse enviado, como delegado especial, ao Rio de 
Janeiro para persuadir ao }*rincipe Regente a que desobedecesse as 
ordens das Cortes de Lisboa o que ficasse no Brasil,— missão esta que 
elle desempenhou cabalmente era Janeiro de 1822 e fez que elle fosse 
sem demora aproveitado por D. Pedro para ministro do Interior o de 
Extrangeiros, era cujo cargo adquiriu direito ao titulo que a postei i- 
dade lhe deu de patriarcha da nossa independência. 

Martim Francisco Ribeiro de Andrada, irraão raais moço e 
genro de José Bonifácio, nascido era Santos era 1774, foi tarabem 
enviado a Coimbra, onde formou-se era raatheraaticas, e com o tempo 
tornou-se ura distincto raineralogista e escreveu Memorias, que foram 



— 15 — 

publicadas na Revista do Instituto Histórico Brasileiro e peio Journal 
des Mines. Foi inspector de minas e bosques da capitania de S. 
Paulo, possuia conhecimentos de economia politica e foi o melhor 
financeiro do tempo da independência. Como poucos annos se demo- 
rou era Portugal e passava quasi todo o tempo viajando pela capita- 
nia de S. Paulo, conhecia bem os paulistas e estava bom ora dia com 
as suas condições intellectuaes e moraes. Caracter «talhado pelo 
molde grego», patriota illustrado o altivo, profundamente brasileiro, 
rigorosamente honesto, corajoso na afirmação das suas opiniões e 
partidário convicto da independência, era Martim Francisco no Gover- 
no Provisório a personificação do espirito paulista e como tal era elle, 
desde longa data, aborrecido pelos portuguezes em geral e especial- 
mente pelo capitão general Franca e Horta, que, cioso do seu mérito 
e da sua altivez, o denunciara por diversas vezes ao governo colonial. 
Já pelo seu duplo parentesco com José Bonifácio, já pela perfeita 
conformidade de idéas e da sentimentos, existia entre clles uma tão 
notável solidariedade do vistas c de proceder que, junto a alta capaci- 
dade intellectual o moral de ambos, fazia o desespero e a raiva, ora 
concentrada, ora mexeriqueira e tumultuaria, dos partidários do re- 
gimen colonial. 

O BRIGA.DEIR0 Manoel Rodrigues Falcão cra um paulista muito 
distincto por seu caracter, pela numerosa e illustro familia a que per- 
tencia e pela sua grande furtuna, adquirida por herança e no com- 
raercio. Residia em 1822 na rua Direita n. 21, tinha 42 annos de ida- 
de, era casado com uma filha do coronel José Pedro Galvão, tinha um 
casal de filhos era tenra edade o um illegitirao Je 17 annos, estudante 
na occasião; sustentava em sua casa uma cunhada solteira e um so- 
brinho moço, também estudante e possuia desoito escravos de serviço 
domestico e a jornal. Era amigo particular do Martim Francisco e 
solidário cora as suas idéas politicas ; partilhava por isso algum tan- 
to do ódio que os absolutistas votavam aos irmãos Andradas e foi 
uma das victimas de A Bernarda. 

O CORONEL Lazaro José Gonçalves era portuguez de nascimento, 
mas brasileiro de coração. Nascido em Ijisboa, de 41 annos de edade, 
casado, tinha uma filha, residia na casa n.o 1 na Travessa do Padre 



— 16 — 

Capão, obscura rua do bairro da Consolação, nas visinhanças da ac- 
tual chácara do major Benedicto António da Silva, onde hoje está o 
reservatório de agua da Consolação, e possuia sete escravos de ser- 
viço domestico. Foi um militar distincto e prestou excellentes sei vi- 
ços ao lirazil em vários tempos, principalmente no Rio Grande do 
Sul, e quando marchou para o Rio de Janeiío á frento da brigada 
dos Leaes Paulistanos, em Janeiro de 1822, para defender aquella ca- 
pital e o governo de t). Pedro, contra as forças portuguezas alli esta- 
cionadas, que se tinham revoltado e se constituído em serio periga 
pa-ra a causa da independência. Quasi sempre ausente desta capital, 
ora no Rio, ora em Santos, sempre em commissões importantes, pou- 
ca parte tomava nas resoluções do Governo Provisório c nelle ora 
tão sensivel a sua falta quanto era útil a sua presença nos legares 
onde a ordem e a liberdade perigavam. 

O CORONEL António Lfite Pereira da Gama Lobo era p^rtuguez 
de nascimento, mas veiu ainda moço para S. Paulo, aqui casou- se na 
importante familia Arouche Rendon e commandava ura corpo de ca- 
vallaria miliciana. Tomou parte activa na proclamação do Governo 
Provisório, auxili u efficazmente o coronel Lazaro Gonçalves na con- 
ducção da brigada dos Leaes Paulistanos ao Rio de Janeiro e esteve 
prcseote no Ypiranga ao grito de * Independência ou morte!» Militar 
em serviço activo e em frequentes commissões fora, o seu voto pesava 
pouco nos conselhos do governo, mas pendia prudente e cautelosa- 
mente para a causa da independência. 

O PADRE Francisco de Paula Oliveira era profOissor e homem 
de pouco valor politico. Como membro do Governo Provisório era 
assiduo nas suas sessões e, coraquanto fosse um espirito liberal, como 
a maioria do clero paulista do tempo, a sua presença servia roais 
para fazer numero do que para resolver questões de alta e grave 
ponderação. 

A-iDRÉ DA Silva G )Mes era portugaez, natural de Lisboa, de 68 
annos de edade, casado com Maria Gracia, paulista, tendo uma filha 
solteirona quinqaagenaria e dez escravos. Residia no pateo de S. 
Gonçalo n.» 7, era professor de grammatica latina, tenonte-coronel de 



- 17 — 

milícias e muito entendido era musica. O seu voto no governo náo 
pesava mais do que o do padre Paula Oliveira, seu collega como re- 
presentante das Letras e das Sciencias. 

O CÓNEGO JoÁo Ferreira de Uliveira Bueno era um velho de 77 
annos, nascido em S. Paulo, thesoureiro da Só, espirito liberal e bom. 
Possuía grande e excellente fazenda de assucar no actual município 
á^ Capivary, fez viagens de catechese de índios pelus rios Tietê e 
Paraná e escreveu ilf em. rias, que foram publicadas na Revista do Insti- 
tuto Histórico Brasileiro. Residia na lua do Rosário, hoje Quinze de 
Novembro, n. 1, em companhia do padre Marcelino Porreira Bueno, de 
diversos aggregados e de dez escravos. Como força politica pouco 
valia pela sua edade e por seu estado religioso. O seu collega padre 
Felisberto Jardim era natural do Rio Grande do Sul, espirito egual- 
mente liberal e honesto, porôm. o seu valor politico não era superior 
ao dos padres Paula Oliveira e João Ferreira e de André Gromes, e to- 
dos estes eram absolutamente incapazes de entrar em lucta com o 
elemento retrogrado e reaccionário, que procurava por todos os meios 
assumir a preponderância na direcção do Governo Provisório. 

NicoLAO Pereira de Campos Vergueiro era outro portuguez de 
nasciraentro e brasileiro de coração, nascido em Lisboa, de 42 annos, 
formado em direito pela universidade de Coimbra, estabelecido em S. 
Paulo desde 1802 e aqui casado com D. Maria Angélica deVasconcel- 
los, paulista, com cinco filhos, daas aggregadas e nenhum escravo. Re- 
sidia na rua Direita n. 14. Espirito muito liberal e progressista, fez 
mais tarde saliente figura na politica nacional, occupando os mais al- 
tos cargos a que ura cidadão podia chegar, inclusive o de regente do 
império depois da queda do Pedro 1 ; porôm, homera ordeiro, modera- 
do e pacifico não inspirava receio nera teraores aos adversários da 
independência e nao foi por elles arrastado a toraar parte na lucta 
travada contra os Andradas. 

Eram estes os membros que representavam no governo o elemen- 
to paulista, fítvoravel á liberdade e á independência, e tinham como 
adherentes ás suas idéas, liberaes e adeantadas, o bispo D. Matheus, 
o notável sacerdote Manoel Joaquim do ^Amaral Gurgel, o cónego 



— 18 — 

Ildefonso Xavier Ferreira, Joaquim Floriano do Tolede, mais tarde co- 
ronel e chefe de distincta família, o a já illustre família dos Silves 
Frado, representada pelo capitão-mór Eleuterio e seu filho António Pra- 
do, mais tarde barão de Iguape. 

Porém, Joaquim Floriano era ainda um cidadão relativamente 
obscuro e só mais tarde foi que adquiriu grande estima e considera- 
ção nesta capital ; a familia Prado era mais commerciente e financei- 
ra do que politica e militar, e os clorigoá mencionados, inclusive t> 
"bispo D. Matheus, velho de 78 annos, eram todos muito liberaes, mui- 
to illustrados e de muito mérito, mas também incapazes de enfrentar 
com vantagem o elemento militar e aristocrático que predomivava no 
partido portuguez, de cujos membros darei uma resumida noticia no- 
artigo seguinte. 



IV 



O partido retrogado, o que continuava a embaraçar as medidas 
tendentes a desenvolver e fortificar no espirito publico a idéa da in- 
dependência do Brasil, não era composto somente de portuguezes, mas 
continha em seu seio muitos brasileiros, alguns dos quaes notáveis 
por seus talentos e outros pelos importantes serviços que tinham 
prestado, tanto á capitania como ao governo geral da colónia. 

O chefe reconhecido e acceito desse partido era o general João 
Carlos Augusto de Oeynuhausen, nascido em Portugal, filho de um 
conde allemão e de uma fidalga lisboeta, de boa educação literária, 
intelligente e sagaz, ora affavel e insinuante por Índole, ora brusco e 
áspero para apparentar energia que estava longe de possuir, sempre 
versátil, inconstante, fraco e até pusilânime a ponto de nunca enfren- 
tar o perigo e sempre procurar ladeal-o. Formava assim um verda- 
deiro contraste com todos os capitães- generaes que tinham governado 
S. Paulo por mais do um século. 

Tinha servido antes como capitão-general do Ceará o de Matto 
Grosso em épochas em que não se pensava seriamente em liberdade 
e independência, e essas suas administrações, relativamente moderadas 
e justiceiras, tinham-n'o feito estimado dos povos que governou. Foi 



— 19 — 

mais tarde senador do império pelo Ceará, marquez de Aracaty e 
valido de Pedro I, a quem acompanhou a Portugal depois da revolu- 
ção do 7 de Abril e nunca mais voltou ao Brasil. > 

Em 1821 a sua posição cm S. Paulo tornou-se excessivamente 
difiBcil e espinhosa, porque de capitão-goueral que ora, governador 
único da província que administrava com poderes absolutos e sem 
outras restricções mais do que as ordens emanadas dos absolutos 
ministros do reino, passou repentinamente em virtude de uma revo- 
lução popular, cuja legitimidade elle contestava, a ser por obra e graça 
de José Bonifácio o presidente constitucional de uma corporação po- 
litica, a que se deu o nome de Governo Provisório de S. Paião, e na 
qual o seu voto deliberativo não valia mais do que o de qualquer 
outro membro e a sua influencia pessoal e voto consultivo eram mais 
do que contrabalançados pelos de alguns paulistas, como José Boni- 
fácio e Martim Francisco, que lhe eram muito superiores em capaci- 
dade intellectual e moral. 

Achava-se João Carlos naturalmente deslocado naquella incom- 
moda posição e, si tivesse tido mais civismo e menos vaidade para 
devidamente encarar os acontecimentos de 23 de Junho de 1821, que 
aliás não poderia ter impedido, devia ter considerado aquelles factos 
como a sua formal deposição do poder pelo povo e tropa em revolta 
e recusado a presidência que José Bonifácio lhe deu do novo gover- 
no, partindo em seguida para o Rio de Janeiro, onde poderia prestar 
ao príncipe D. Pedro outros serviços que estivessem mais de accordo 
com o seu caracter, com a sua educação e com a sua dedicação pes- 
soal á dymnastia de Bragança. 

Ficando na presidência do governo, sem força moral, sem prestigio 
pessoal, rodeado por gente que valia tanto como elle, só serviu para 
se tornar o centro das intrigas e das machinações contra os paulistas 
e contra as idéas de liberdade e do independência, que ganhavam 
terreno dia a dia. 

Doixou-se arrastar até o extremo de assumir a direcção espiri- 
tual dos vergonhosos acontecimentos de 23 de Maio do 1822, conhe- 
cidos na historia com o merecido nome de A Bernarda de Francisco 
Ignacio, e foz assim esquecer os serviços reaes que tinha prestado 
com os males que consentiu que outros praticassem sob a protecção 



_ 20 - 

do seu nome e sob a responsabilidade do seu cargo de presidente do 
Governo Provisosio. 

O papel que então representou não foi inteiramente passivo, co- 
mo a alguns chronistas se aflagura, mas profundamente dissumulado o 
hypocrita, porque, não possuindo a corragem precisa e o talento ne- 
cessário para abrir franca lucta com os Andradas e seus partidários, 
nem a virtude da resignação para acceitar com lealdade e sincerida- 
de a nova ordem de cousas, estabelecida pelos movimentos revolu- 
cionário do tempo, tinha entretanto «o inotincto da intriga, do enredo 
e do manejo secreto para inverter e desvirtuar as intenções e acções 
dos outros>, e assim contrariar a lógica dos factos e oppôr embaraços 
á realização da independência do paiz. 

Quando houve necessidade de se enviar um delegado ao Rio de 
Janeiro com o pedido dos paulistas para que D. Pedro ficasse no Bra- 
sil e se fizesse seu imperador, visto que a independência era já ine- 
vitável, foi o general João Carlos quem se lembrou que esse delega- 
do deveria ser ura dos Andradas, dando elle preferencia a Martim 
Francisco para essa comraissão porque entendia que Martim era mais 
para se temor do que o seu irmão, visto que conhecia melhor a pro- 
víncia, estava familiar com as condições politicas e sociaes dos pau- 
listas, achava-se mais identificado com elles por uma convivência do 
mais de 20 annos e era egualmente homem de muita energia e de 
muita acção. 

Foi, portanto, Martim Francisco o encarregado de desempenhar 
essa importante commissão politica, devendo levar como companheiro 
o seu coUega do governo coronel Gama Lobo ; porém, á ultima hora, 
quando tudo estava prompto, a representação a D. Fedro estava es- 
cripta e até o discurso que Martim devia pronunciar deante do Prín- 
cipe já tinha sido approvado pelos membros do governo, os Andradas 
descobriram o secreto movei do general João Carlos e combinaram 
que Martim cedesse a José Bonifácio a tarefa de ir ao Rio de Janeiro 
entender-se com o Príncipe Regente. 

Com effeito, na sessão de 29 de Dezembro de 1821 votava o Go- 
verno Provisório uma auctorização ao Thesouro para fornecer a Mar- 
tim Francisco o Gama Lobo o dinheiro preciso para a viagem e na 
de 3 de Janeiro de 1822 Martim se escusava dessa commissão por 



— 21 — 

motivos poderosos, que não eram doenças, e era iin mediatamente elei- 
to para ella José Bonifácio que, estando prorapto, partiu sem demora 
para o Rio de Janeiro, onde cliegou no dia 9 e desempenhou tão ca- 
balmente a missão que levava, qu») a 16 do mesmo mez era nomea. 
do ministro e iniciava logo as medidas que asseguraram a indepen- 
dência, proclamada a 7 de Setembro daquelle anno de 18*32. 

Ficou assim desfeito o plano do general João Carlos para desfa- 
zei'-se de Martim Francisco, seu mais temeroso adversário ; porém, 
este incidente somente o levou a lançar mão de outros meios e de 
outros agentes para alcançar os seus fln^', momentaneamente burlados 
pelos Andradas com a troca de um irmão por outro naquella com- 
missão. 

Tendo sido chamado para o Rio de Janeiro por D. Pedro, a con- 
selho de José Bonifácio que, finalmente, conhecera a duplicidade do 
seu caracter e suas secretas conspirações contra o elemento paulista 
e liberal, que dominava então a provi acia, fingiu que obedecia aquel- 
la ordem, mas não deixou a presidência do governo e fez, por meio 
do enredo e da intriga, que o povo ficasse crendo que este chamado 
era equivalente á sua dep rtação de S. Paulo, aconselhada pela am- 
bição irrequieta dos Andradas, que pretendiam assim obter o dominio 
exclusivo da província. 

«A intriga, pestilento miasma da athmosphera das Cortes, disse 
um chronista do tempo, voiu ainda mais aggravar esta situação difiS- 
cil dos patriotas de 23 de Junho e privar a sua auctoridade do pres- 
tigio da alta justiça que deve caracterizar a influencia dos altos func- 
cionarios>. Não havia então imprensa para discutir os actos do go- 
verno, esclarecer a opinião publica e trazer um pouco de luz e de 
ordem no meio da anarchia mental e politica daquella ópocha ; era 
evidente que faria mais proselytos entre as massas populares o par- 
tido que mais intrigasse, e quem tinha mais interesse em desvairar 
a opinião eram exactamente aquelles que, como o general João Carlos 
e seus partidários, viam prestes a desmoronarem-se o poderio e as 
regalias de que os adeptos do regimen colonial estavam de posse 
havia já perto de tresentos annos. 

A épocha dos assassinatos judiciários a bem do prestigio da au- 
ctoridade 'estava passada cora Rodrigo César de Menezes e Martin Lo- 



— 22 — 

pes Lobo de Saldanha e a dos assassinatos por conveniências parti- 
culares e por vinganças pessoaes tinha desapparecido com Caldeira 
Pimentel o Bernardo José de Lorena. Começara então a dos enredos, 
intrigas e mexericos com Franca e Horta e viera culminar no regi- 
men provisório com o general João Carlos de Oeynhausen, quando 
presenteou a historia do paiz com o seu mais genuíno producto — A 
Bernarda de Francisco Ignacio, de 23 de Maio de 1822. 

Incompatibilizado pela A Bernarda com os paulistas partidários da 
independência e mais ainda com os dois irmãos Andradas, victimas 
das suas secretas conspirações e omnipotentes ministros de D. Pedro, 
partiu João Carlos para o Rio de Janeiro, deixando a província anar- 
chizada e cheia de ódios, havendo mesmo municípios como Ytú, Porto 
Feliz, Sorocaba, Campinas, Mogy-mirim, Itapetinínga e outros, que se 
tinham desmembrado de S. Paulo para se constituírem em uma ver- 
dadeira confederação armada era defesa da independência. 

A villa de Ytú, sob a influencia do enérgico liberalismo de Feijó 
e Paula Souza, tinha-se transformado em uma \erdadeira praça de 
guerra, guarnecida por forças reunidas pelos confederados, resistira 
honradamente contra todas as tentativas de intimidação e de suborno 
por parte do governo de João Carlos, de quem ura dos emissários, o 
coronel Macedo, foi expulso da povoação polo povo indignado, sendo 
que até as mais respeitáveis matronas da localidade sahirara á rua 
para enxotal-o a pedradas. 

Tendo os confederados cortado todas relações com o faccioso e 
reaccionário governo de João Carlos para se collocarem sob as ordens 
directas e immediatas do Príncipe Regente e dos Andradas,. deu este 
facto motivo para se apressar a vinda, tanto annunciada e tanto re- 
tardada, daquelle príncipe a S. Paulo afim de accommodar os ânimos, 
acalmar as paixões o conciliar todos os partidos sob uma só bandeira, 
sob um só prograraraa, que era a liberdade dos povos. 

Tendo o Príncipe Regente chegado a esta capital em 25 de Agosto 
foi -lho fácil apaziguar tudo com a demissão do resto do Governo Pro- 
visório e com o exílio momentâneo dos reaccionários mais revoltosos 
para fora desta capital. Foi então que, em viagem de Santos á S. 
Paulo, D. Pedro recebeu nos campos do Ypiranga os celebres despa- 
chos de Lisboa, que o decidiram a soltar allí mesmo o famoso grito 



— 23 — 

de Independência ou morte, que veiu coroar a obra de Innoconcio Al- 
vim, José Bonifácio, Gama Lobo o outros patriotas, e desfazer para 
sempre as ultimas esperanças dos reaccionários. 



Passarei agora a dar algumas notas sobro os membros mais acti- 
vos do partido retrogrado e descerei mesmo a algumas minuciosidados 
inéditas e curiosas, mas absolutamente verdadeiras por serem extra- 
hidas de papeis oflaciaes do tempo. 

Francisco Ignacio de Souza Queiroz, membro do Governo Pro- 
visório pelo Commercio, era nascido nesta cidade pelos annos de 1784 
ou 1785 e filho de fidalgos portuguezes. Herdou os gostos, inclina- 
ções, idèas e costumes da família e bera assim uma boa herança 
<iue o fez regularmente abastado. Tinha negocio de fazenda na rua 
Direita, com três caixeiros, dos quaes ura era tenente e dois eram 
soldados milicianos nao activos, e possuia nove escravos de serviço 
domestico. Era coronel de milícias em S. Paulo, tendo antes sido 
alferes de linha em Portugal, onde aperfeiçoou as suas idéas retro- 
gradas. Casou-se nesta capital com sua prima d. Francisca Miqui- 
lina de Souza, filha de seu tio o brigadeiro Luiz António de Souza, e 
falleceu era Portugal era 1830, ainda moço, deixando duas filhas, que 
foram casadas, uma com o desembargador Albino José Barbosa de 
Oliveira e outra com o seu primo Luiz Ribeiro de Souza Rezende. 

Por seu nascimento, pela educação que recebeu, pelo seu tirocí- 
nio militar e por seu casamento, era Francisco Ignacio genuíno re- 
presentante do partido reaccionário, adversário das idéas liberaos e 
pessoalmente hostil aos irmãos Andradas. Era, entretanto, mais ho- 
mem do acção do que de intelligencia e raovia-se era 1821 — 22 em 
uma atraosphera carregada de intrigas politicas sob a direcção espi- 
ritual de José da Costa Carvalho, futuro marquoz de Monte Alegre, 
que estava com elle em estreitas relações de parentesco desde que 
este se casara com D. Genebra de Barros Leite, viuva do brigadeiro 
Luiz António de Souza e sogra do mesmo Francisco Ignacio. 



- 24 - 

Costa Carvalho foi a cabeça pensante o directora e Francisco 
Ignacio era o braço forte do movimento reaccionário de 23 de Maio 
de 18-32; este trabalhava para nada perder do terreno occupado pela 
fidalguia e aquelle para se abrir um c^^minho para o futuro. Os An 
dradas, o brigadeiro Jordão, Alvim, Paula Souza e outros liberaes, 
intransigentes cora o despotismo colonial, eram uma ameaça ás pre- 
rogativas de ura e sorabras que escureciam o caminho do outro. Só 
Martira e Jordão é que estavara ao alcance no momento e contra elies 
forara dirigidos todos os ataques. 

Assumiu Francisco ignacio, aliás som necessária franqueza e co- 
ragem, a responsabilidade da reacção de 23 de Maio contra os libe- 
raes paulistas e indelevelmente ligou o i-eu norae illustre aos extra- 
vagantes acontecidientos que a historia marcou com o burlesco appel- 
lid • de A Bertmrfla de Francisco Ignacio. Soffreu menos de quo se 
podia esperar da contra-reacçâo operada pelos Andradas, homens 
enérgicos, orgulhosos e já ministros, visto que, deportado para o Rio 
de Janeiro, foi amnistiado com os seus companheiros pelo decreto de 
23 de Setembro desse mesmo anno. Em 1824, tendo acceitado os 
factos consumados serviu como chefe dá Repartição dos Descontos 
desta capital e em 1830 fez, por causa de sua saúde arruinada, uma 
viagem a Portugal e lá falleceu em pleno dorainio do clerical e ty- 
rano D. Miguel. 

António Ma sia Quartim era hespanhol, nascido em Gibraltar, 
de 4t) annos de edade. Era 1818 servia como almoxarife nesta capi- 
tal; em 1822 era coronel o vivia dos seus soldos. Residia no becco 
do Barbas, hoje ladeira do Porto Geral ; era casado com uma senho- 
ra paulista, D. Mathilde Florinda, e tinha então quatro filhos menores 
e sete escravos. Porque o fizeram membro do Governo Provisório 
ninguém poderá explicar, principalmente como representante da Agri- 
cultura ao lado de Vergueiro, que, além de grande cidadão, foi um 
dos lavradores mais proeminentes e mais progressistas que S. Paulo 
jamais teve. Como extrangeiro e militar, sem raízes solidas no paiz, 
não podia ser syrapathico ao movimento da independência e de facto 
não o foi. Fez-se satellite de Francisco Ignacio o representou era A 
Bernarda o papel que lhe foi distribuído. Foi por isso deportado era 



— 25 — 

Jundiahy por algumas semanas, em virtude da contra -reacção andradina ; 
mas foi amnistiado com os seus cúmplices em 23 de Setembro e vol- 
tou depois a exercer o mesmo cargo de almoxarife. Possuía alguns 
conhecimentos de botânica e, era 1831, serviu como inspector do Jar- 
dim Publico, porôm desappareceu da politica, para a que nâo tinha 
aptidão e na qual nunca devera ter entrado. 

O CORONEL Daniel Pedro Mííller, como o general João Carlos 
Oeynhausen, era nascido em Portugal, de familia alleman, o possuia 
regular instrucçao scientifica. 

Tinha 40 annos era 1822, era casado com D. Gertrudes Maria do 
Carmo, paulista, tinha um tilho, quatro filhas e dois escravos, o re- 
sidia na rua Tabatinguera, n. 50, na parte chamada Detraz da Boa 
Morte. 

Como era realmente homem de merit >, estava bera no Governo 
Provisório, ao lado do coronel Gama Lobo, como representante das 
Armas. Prestou bons serviços ao governo na repressão da revolta 
militar de Santos, tendo como seu eompanhei o o coronel Lazaro Josó 
Gonçalves e mostrando-se ambos excessivamente rigorosos nos casti- 
gos que applicaram aos sediciosos. 

Por jiascimento, por educação, por prafissEo e talvez um pouco 
por interesse estava ligado ao paríido retrogado e era o homem da 
confiança particular do general João Carlos, seu amigo intimo e seu 
duplo patrício por nacionalidade e por consanguinidade ; tomou parte 
em A Bernarda e, depois da deposição de Martím Francisco 
e do brigadeiro Jordão, ficou dirigindo os negócios públicos ca- 
marariamente c >ra João Carlos e Oliveira Pinto ( rimeiro e depois com 
o mesmo Oliveira Pinto, Francisco Ignacio e Quartim- todos do par- 
tido portuguez, porque os membros brasileiros ou partidários da in- 
dependência tinham deixado os seus postos no governo em virtude dos 
factos de 23 de Maio. 

A reacção dos Andradas o fez deportar para Atibaya, onde ficou 
pouco tempo, porque a amnistia de 23 de Setembro fel-o voltar aos 
seus lares. Acceitou depois a independência, prestou bons serviços ao 
governo provincial, executou bons trabalhos cartographicos e falleceu 
em 1842, com cerca de 60 annos de edade, estando reformado em 
marechal de campo. 



-SO- 
AS suas filhas casaram-so bem, uma cora o dr. Felizardo Pinhei- 
ro de Campos, outra com o desembargador Figueiredo Rocha e outra 
com o general Beaurepaire Rohan. 

Miguel José de Oliveira Finto nao residia em S. Paulo, mas em 
Santos, onde a sua qualidade de marmheiro e o seu posto de chefo 
de esquadra podiam encontrar applicação. Não tenho encontrado ne- 
nhuma informação segura a seu respeito, mas como offlcial que era 
da marinha devia ser portuguez e estava cm commissão em Santos, 
como intendente da marinha, quando foi aproveitado por José Boni- 
fácio, que com certeza o conheceu no exercio daquclle cargo, para 
secretario da Marinha do Governo Provisório, onde foi um genuino 
representante da peor espécie do espirito retrogado colonial, não tre- 
pidando era descer, quando lhe aprazia, ao baixo mister do pasqui- 
neiro anarchista. 

Tomou parto activa em A Bernarda e, depois da expulsão de 
Martim Francisco e consequente retirada dos representantes da idéa 
da independência, assumiu no Governo Provisório uma posição saliente, 
já como secretario com o general João Carlos, já como presidente 
com Francisco Ignacio, Miiller e Quartira. Demittido do governo com 
os seus companheiros, foi chamado ao Rio de Janeiro o desappareceu 
cia politica paulista, na qual nenhum acto praticou que o recommen- 
dasse á gratidão dos pósteros 0). 

Foram estes os membros do Governo Provisório que representa- 
ram, na direcção da politica provincial, as idéas de retrogradação ao 
puro regimen colonial de outros tempos. A sua escolha para tão alto 
cargo bera prova a falta de experiência politica e adrainistrativa de 
José Bonifácio e o seu nenhum conhecimento dos homens cora quem 
se ia haver no governo que escolheu para S. Paulo. Não somente 
estes homens eram, por nascimento, por educação, por idéas e por 
interesse, contrários á liberdade do povo e á independência do paiz, 
como o numero de membros do governo era excessivamente elevado 



(1) Foi aproveitado no Rio por Pedro I, quo precisava dos serviços de um 
homem deste quilate, e o 7 de Abril do 1831 veiu encontral-o occupando o cargo de con- 
selheiro de guerra, 



_ 27 - 

para a boa harmonia do vistas c unidade de acção que deveriam pre- 
sidir os primeiros passos que os paulistas pretendiam dar na escura 
senda que os levaria á liberdade e á independência ou á volta ao 
despotismo colonial, ainda mais rigoroso em consequência da reacção 
victoriosa. 

Explica-so a presença do coronel Lazaro Gonçalves no governo 
como secretario da Guerra, porque não se podia presumir que a nossa 
emancipação politica se realizasse sem resistências, sem luctas e cho- 
ques, verdadeiras guerras intestinas, que obrigariam o governo a man- 
ter uma força armada e mesmo a lazer delia enérgico emprego, como 
nos casos da sedição de Santos e do levante dos portuguezes no Rio 
de Janeiro, em cujas occasiões Lazaro Gonçalves prestou relevantes 
serviços como secretario da Guerra. Mas, a creação de uma pasta 
da Marinha e a nomeação de Oliveira Pinto para occupal-a não fo- 
ram somente uma inoftensiva inutilidade e sim ura erro prejudicial 
para a causa que so tinha cm vista defender. 

A província tinha um exercito que precisava de um chefe, mas 
não tinha esquadra para justificar a necessidade da existência de um 
ministério da Marinha. Podia haver, e de facto houve, revoluções em 
terra, desordens, que exigiram o emprego da força armada e justifi- 
caram a creação de um ministério da Guerra, porém, nada poderia 
acontecer no mar em que a acção do Governo Provisório se fizesse 
■eíBcaz ; as resistências ao oceano só poderiam partir do governo de 
Lisboa o estas só poderiam ser combatidas pelo governo do Rio de 
Janeiro, único que tinha oa viria a ter existência internacional. Si 
tivesse ficado acephala a pasta da Marinha teria sido uma inutilidade, 
porem, tendo sido preenchida por um dos peiores sequazes do regi- 
men colonial, tornou-se um elemento pernicioso no governo e ura em- 
baraço a mais na marcha do carro triumphal da independência. 

Felizmente para o Brazil, José Bonifácio o Martim Francisco ainda 
eram ministros de Estado e souberam em tempo desenvolver energia 
e actividade bastante para inutilizarem todos os tramas e assalto dos 
reaccionários, de forma que, quando foram ambos demittidos do mi- 
nistério em Julho do 1823 e deportados para a Europa, já tinham 
elles imprimido na marcha dos acontecimentos politiíos da sua pátria 
o cunho de um tão accentuado brasileirismo, que a reacção de 12 de 



- 28 - 

Novembro de 1823, a dissolução da Asserabléa Constituinte e a dis- 
persão de grande numero do patriotas não puderam mais paralysar o 
movimento da independência, que com pequenas dlfficuldades se com- 
pletou dois annos depcis. 

VI 

Representaram papel mais ou menos importante nos aconteci- 
mentos do 2ò de Maio de 18.22, vários outros personagens) sobre os 
quaes convém dizer algumas palavras, tanto mais que alguns delles 
oram homens de real merecimento e fizeram antes e depois da inde- 
pendência figura saliente na historia de S. Paulo e do Brasil. 

José da Costa Carvalho, futuro marquez do Monte Alegre, de- 
putado, senador, ministro o regonto do Império, era natural da Ba- 
hia e formado em direito em 1819 pela universidade de Coimbra. 

Veiu logo para S. Paulo como juiz de fora, cargo que deixou 
pelo de ouvidor por decreto de 6 de Março de 1822 ; tinha então '2Q 
annos de edade, possuia algum talento e sagacidade e era domi- 
nado de natural ambição de se abrir caminho para um futuro bri- 
lhante 

Tratou logo do arranjar para si uma boa situação e fazer-se in 
dependente e o conseguiu, lá pel s annos de 1820, desposando D. 
Genebra de Barros Leite, respeitabili.ssima senhora, que pela edade 
podia ser sua mãe, filha do -fidalgo parnahybano António de Barros 
Penteado, irmã dos futuros barões de Ytú e de Piracicaba, cunhada 
de Paula Souza, viuva do brigadeiro Luiz António de Souza e sogra 
do coronel Francisco Ignacio de Souza Queiroz, muito rica e mãe de 
cinco filhos. Além de outros muitos bens, possuia nesta capital 
grande loja de fazendas na rua do Ouvidor, n. 33, com caixeiros 
portuguezes, e treze escravos de serviço domestico e a jornal. 

Agora rico e relacionado por seu casamento com tudo quanto S. 
Paulo tinha de mais illustre, estava Costa Carvalho bem encarreirado 
e em condições de abrir lucta com os Andradas, não porque fosse 
contrario á ideia da indepedencia, não obstante o seu conservatorismo, 
mas porque via nelles rivaes temerosos por seu grande talento, por 
sua vasta instrucção, por sua energia viril, pelo vigor do seu cara- 



— 29 — 

cter, por seu orgulho pessoal e, finalmente, por serem paulistas e 
estreitamente ligados uns aos outros. 

António Corlos nao estava aqui, mas era aqui muito conhecido e 
já tinha dado mostra do seu valor moral quando, como ouvidor de 
Pernambuco, envolveu-se na revolução daquella provinda em 1817 e 
sofifreu com firmeza e coragem quatro annos de rigorosa prisão, donde 
esperava a todo o momento ser tirado para subir os degraus do cada- 
falso, que devorou tantos companheiros seus, o donde enviou ao 
poder colonial aquella famosa apostropho : 

Sagrada emanação da Divindade 
Aqui do cadafalso eu te saúdo. 



Livre do cárcere, não tardou António Carlos a ser eleito por S. 
Paulo, com Feijó, Paula Souza, Vergueira e S. Leopoldo, deputado ás 
Cortes Constituintes de Lisboa, onde adquiriu reputação de grande 
orador e tornou-se antipathico aos portuguezes por sou intenso bra- 
siieirismo, sendo obrigado a fugir para a Inglaterra, donde voltou 
para a sua pátria a se juntar com os seus irmãos e com elles conti- 
nuar na tarefa de libertar o Brasil dos ferros coloniaes. 

Com taes adversários a lucta devia ser prudente por muito peri- 
gosa e a cautela aconselhava a Costa Carvalho que se encostasse aos 
reaccionários e se servisse delles como instrumentos para a realiza- 
ção dos seus desígnios. Rico pelo casamento, forte p^^las relações de 
parentesco, hábil e sagaz, dispunha destes poderosos elementos para 
angariar adeptos. Como juiz de fora e. depois como ouvidor não 
perdia occasião do levantar conílictos do attribuições com o Governo 
Provisório, embaraçando assim a expedição dos negócios e creando 
difiaculdades ao governo para enfraquacel-o e desmoralizal-o na opi- 
nião publica. omo padastro afira do coronel Francisco Ignacio, ser- 
via-se da grande inflaencia deste, como militar e como negociante 
rico e relacionado, para mover o militarismo e grande parte do cora- 
mercio cm seu favor. Secretamente ligado aos membros reaccioná- 
rios do G»^/f^rno Provisório, era elle a cabeça pensante e directora do 
moviraonti» retrogrado entro o povo e tropa, com a acquiescencia do 
general João Carlos e seus companheiros, e foi o verdadeiro auctor 



_ 30 - 

de A Bernarda, de que o coronel Francisco Ignacio, seu enteado, se 
fez editor responsável. 

Depois de A Bernarda, chamado para o Rio de Janeiro, cora João 
Carlos, Francisco Ignacio e Oliveira Pinto, membros reaccionários do 
governo, nada soífreu da parto dos Andradas pela sedição de 23 de 
Maio ; pelo contrario, tornou-se logo personagem proeminente nas in- 
trigas do palácio ; foi eleito pela Bahia deputado á Assembléa t ons- 
titainte, na qual so fez um dos mais violentos opposicionistas ao go- 
verno de Josó Bonifácio e de Martira Francisco e, quando estes dei- 
xaram o poder, foi um dos que mais trabalharam pela dissolução 
daquclla assembléa e pela deportação dos Andradas e outros patriotas. 

< A famosa Domitilla, a Messalina da épocha, estava já na ampli- 

< tude do seu poder, rodeada de vis e baixos cortezões aduladores e 
« imperando sobre o espirito do mal avisado príncipe que se achava 
« á testa dos destinos do Brasil. Por influencia desta mulher tudo 
« se fazia, e ella vendia os seus favores por dinheiro a quem os 

< queria comprar. Os que so intitulavam republicanos também pro- 
« curavam e compravam os seus favores, sobretudo quando estes 
« wram necessários para satisfazer uma vingança. O imperador viu 

< na corto que faziam a esta mulher os chamados reimhlicanos um 

< indicio de que até os mais exaltados estavam bem dispostos a 

< submetterem-se á sua vontade, comtanto que dahi lhes viesse algum 
« proveito. A Domitilla não foi, pois, extranha ao projecto da disso- 

< iução da Assembléa Constituinte ; pelo contrario, era a represen- 
« tante absalariada dos republicanos nessa conjuração. Estes levavam 

< em vista, na dissolução da Constituinte, dois pontos essenciaes : — 
«1.0 vingarem-se dos Andradas e seus amigos, os quaes com a dis- 

< eolução deviam ser banidos ; 2.o aproveitar a occasião do pertur- 
« bação, que a dissolução devia causar em todo o Bra^jil, para cx- 

< pulsar delle o Imperador e fundar a Republica. 

« Tudo estava preparado para a dissolução da Constituinte 

« O partido portuguez e o republicano achavam- se para ese fira 
« no mais perfeito accordo 

< Ambos estos partidos rodearam a Domitilla, e esta mulher em 

< similhante conjunctura foi o centro das cabalas e intrigas que de- 



— 31 — 

< ram em resultado a dissolução da Constituinte e a prisão e depor- 
« tacão dos seus mais tcrriveis adversários 

« Figurava á testa do cliamado partido republicano ura moço sem 

< talento, mas activo c rancoroso. Era filho da provincia da Bailia e 
c nascido do pais liuraildes e pobres?. Exercendo um cargo subal- 

< terno da magistratura na provincia de S. Paulo, ahi casou-se com 

< uma viuva rica. A riqueza lhe augmentou a actividade, o não sei 
« si a violência do caracter também. Ligado com pessoas da familia 
* de sua mulher, procurou influir e ser o arbitro da provincia em que 

< residia. As suas idéas o levaram para o republicanismo, mas os seus 

< interesses não perraittiam que se separasse dos portuguezes'. Era, 

< portanto, ató certo ponto re;puUicano e portugvez ao mesmo tempo. 
« Depois ficou exclusivamente repuUicano . Nesta posição trabalhou 
« o contribuiu para a abdicação do primeiro Imperador. Foi por isto ele- 

< vado depois delia a membro da regência trina. Nas horas do pe- 
« rigo desertou o posto e voltou para S. Paulo, recebendo sempre os 

< proveitos doll«. L^go que alcançou posição, elevado pelos seus 
« amigos, que entre si distribuíam os altos empregos do Estado e as 
« considerações honorificas, mudou de parecer. Marquez, grã-cruz, 
« conselheiro de Estado, senador e ministro por varias vezes, incli- 

< nou-se mais para o absolutismo do que para a monarchia consti- 
« tucional 

« Tal era o homem que, por parte dos chamados republicanos, 

< mais activamente trabalhou para a dissolução da Constituinte o 

< para a prisão e deportação de alguns dos seus adversários. 

« A Domitilla foi quem mais lho serviu nesta empresa. E' para 
« mim caso averiguado que esta mulher, que tantos males causou ao 

< Brasil, dello recebera doze contos do róis nm premio de seu traba- 

< lho. E' para mim caso averiguado porque vi, li com os meus olhos, 

< uma carta escripta por uma mão augusta em que isto assim so 

< relatava. Era uma carta escripta pela excelsa o virtuosa Impera - 
« triz Leopoldina a José Bonifácio de Andrada em Novembro ou De- 
« zembro de 1824.» (1). 



(1) Vide A. M. V. Drummond, Annotacões, vol. Xtll dos Annaes da Bibliotheca Na- 
cional. 



- 32 - 

Eleito membro da Asserablóa Constituinte pela Bahia, quando 
esta asserabléa foi dissolvida e os Andradas foram deportados para a 
Europa por vários annos flcou-lhe amplamente aberta e franca a 
carreira politica em S. Paulo, por onde foi eleit) deputado na? legis- 
laturas de 18*36-29, de 1830-33 (em que optou pela Bahia, por onde 
também fora eleito) e de 1838—41. Tornou-se rebente do império 
em 1831 — 33, director da Academia de S- Paulo em 1835, senador 
em 1839, presidente d'esta província em 1842, quando esmagou a re- 
volução liDeral capitaneada por Tobias, Feijó, Gabriel e Vergueiro, 
conselheiro do Estado em 1842, ministro em 1848 e 1852, marquez 
em 18")4, e terminou a sua activa e trabalhosa vida politica em 
1880, contando cerca de 65 annos de edade e deixando a reputação 
de pessoalmente honrado e probo, dedicado e generoso para com seus 
amigos e parentes. 

Inteiramente destituído de dotes oratórios, incapaz mesmo de im- 
provisar duas palavras em publico, e extranho a província de S. Pau- 
lo, foi tanta a sua habilidade politica que se manteve constantemen- 
te no alto da roda da fortuna e de tal modo cavalgou os aconteci- 
mentos que foi subindo e subindo sempre até chegar ás mais altas 
posições, que os Andradas, tão talentosos como elle e excellentes 
oradores, porém menos sagazes o menos diplomatas, nunca consegui- 
ram alcançar. 

Estes soffreram pela liberdade e independência do Brasil, porque 
os seus sentimentos patrióticos, os seus vastos talentos, as suas gran- 
des qualidades oratórias e a sua inquebrantável energia de nada lhes 
valeram deante da ignorância estouvada e da caracter leviano e 
grossseiramente ingrato de D. Pedro I, e foram todos três expiar em 
longo e penoso exilio o crime de terem sido intensamente brasileiros, 
honestos até o sacrlflcio e orgnlhosos ató a insolência, de terem pre- 
ferido o Brasil-imperio ao Brasil-colonia e de não terem sabido con- 
temporizar com os defeitos e os vícios daquelle a quem elles mesmos 
tanto tinham contribuído para fazer imperador e defensor perpetuo 
da sua pátria. 

Também Feijó, que apesar de algumas graves faltas, era uma 
das melhores personificações do espirito paulista, deputado, ministro, 
regente e senador, sacerdote, pobre e doente ; Vergueiro mesmo, o 



- 33 — 

exemplo vivo da sisudez e da circuraspecçâo o egualmente deputado, 
senador, regente e ura dos grandes pugnadores das liberdades publi- 
cas e do progresso da agricultura nacional ; Rafael Tobias e Gabriel 
Rodrigues dos Santos, dois genuínos paulistas que tanto honraram a 
sua terra natal e tanto amaram a liberdade de seu paiz, foi-am to- 
dos, ora circtimstancias bem diversas, é verdade, victiraas do seu fer- 
renho conservatorisrao, assira como os Andradas já o tinham sido 
vinte annos antes. O seguinte documento é muito característico. 

Ulmo. Bxmo, Sr. José Carlos Pereira de Almeida Torres: — Acabo 
de receber o Offlcio de V. Bxc de hoje, em o qual me avisa, que 
S. M. o Imperador convoca extraordinariamente a Assembléa Geral 
Legislati/a, e que deve installar-se no dia \.° de Abril do corrente 
anno, para que eu, em consequência, me transporie á Corte do Rio 
de Janeiro a tomar o meu assento. Pode ficar V. Bxc. certo que 

PONTUALMENTE SKBÃO POR MIM OBEDECIDAS AS ORDENS DE S. M. 1 — 

S. Paulo, 20 de Fevereiro de 1829. — José ãa Costa Carvalho-* 

Convocado como representante da nação para uma sessão da assem- 
bléa a que pertencia, elle não acode ao chamado como delegado do 
povo soberano, encarregado de vigiar polo cumpriraento das leis e de 
conter os desmandos do poder, mas por obediência 'pontual ás ordens 
de S. Magestade. Bis aqui o politico retrogrado retratado por suas pró- 
prias mãos ; também as leis reaccionárias e inconstitucionaes de 1841, 
violadoras das garantias liberaes com tanto custo conquistadas pelo 
Acto Acdicional do 1834, encontraram somi.»re nelle ura dos seus mais 
tenazes defensores. 

— Francisco Alves Ferreira do Amaral, era paulista, de 52 
annos de edade, solteiro e muito elogiado pelo cafâtão general Mello 
Castro, por sua honestidade pessoal. Como Francisco Ignacio, era 
também coronel de milícias e coraraercianto ; tinha loja de fazen- 
das em 1818 na travessa da Sé n. 9, que cedeu ao seu protegido 
Caetano Pinto Homera, e abriu outra no n. 17 da mesma rua, e ainda 
possuía 19 escravos a jornal. Sustentava na sua casa um pessoal nume- 
roso, de que faziam parte quatro senhoras, já edosas, que parecem ter 
sido suas parentas, talvez irmãs, Francisco Pinto, portuguez miliciano, 
e Caetano Pinto Homem, também portuguez e capitão de milicias, 



— 84 — 

cora a esposa e três filhos menores. Representou papel activissimo era 
A Bernarda corao auxiliar do coronel Frandsco ígnacio, com quera 
aliás apparentava não estar de perfeito accordo, e commandou no dia 
.2>i de Maio um corpo de tropa armada de combinação cora Francisco 
ígnacio, Costa Carvalho e brigadeiro Moraes Leme. 

Depois da demissão dos restos do Governo Provisório o da dis- 
persão dos reaccionários, esteve algum tempo deportado cm S. Ro- 
que o, quando mais tardo ficou incidido na amnistia de 23 de Setem- 
bro, não fez mais figura na politica. 

Joaquim José Pinto de Moraes Leme era natural desta cidade 
de 68 annos de edade, brigadeiro o fidalgo de alta linhagem ; perten- 
cia ás mais illustres famílias paulistas, que vinham fazendo brilhante 
figura na historia da capitania desde o século XVí, e foi elle mesmo 
um militar distincto que prestou bons serviços ao governo colonial, 
principalmente no tempo do capitão -general Martim Lopes, quando, 
ainda moço, equipou á sua custa ura corpo do voluntários, a cuja 
frente marchou para as guerras contra os hospanhóes no Rio Grande 
do Sul, em 177o. 

Era 1822 residia no bairro da Luz, no caminho da Ponte 
Grawle, era casado com D. Polycona Custodia, paulista das importan- 
tes famílias Lm-a e Moraes, tinha uma só filha, já casada com o ma- 
rechal de campo José Joaquim da Costa Gavião o mãe do brigadeiro 
Bernardo José Finto Gavião Peixoto, o sustentava em sua casa duas 
sobrinhas solteiras e já trintonas, uma senhora aggregada, uma me- 
nina e dois meninos. Vivia d) seu soldo e (los fructos do trabalho 
de vinte e novo escravos que entã> possuia. Fallcceu em 1831, com 
76 annos de edade. 

Retrogrado por gosto e por educação, orgulhoso de si próprio o 
de sua ascendência, suflftcientementc abastado para a sua pequena famí- 
lia, acostumado a mandar despoticamente e a obedecer passivamente, 
era um g nuino representante do espirito colonial o como tal era ar- 
dente adversário dos Andradas e das idcas por elles representadas. 
Tomou parto das mais activas cm A Bernarda, de accôrdo cora Fran- 
cisco ígnacio e Costa Carvalho, e coram^andou, cora o coronel Francisco 
Alves Ferreira do Amaral, as tropas arraadas que vieram dos quartois 
para a rua no dia 23 de Maio. Victorioso no raoraento cora a depo- 



— 35 -- 

sição de Martira Francisco e do brigadeiro Jordão, a contra-reacçáo 
dos Andradas o deportou por algumas semanas para Parnaliyba, até 
que a amnistia de 23 de Setembro veiu restituil-o aos sous lares, onde 
falleceu novo annos depois inteiramente retirado da politica. 

Tedro Taques de Almeida Alvim, paulista, pertencia ás mais 
distinctas famílias da capitania, filho do guarda-mór Manoel Alves 
Alvim e neto do historiador Pedro Taques do Almeida Paes Leme. 
Era 1822 ora casado com D, Joaquina Angélica, paulista, e nâo tinha 
ainda filhos ou pelo menos nEo os tinha em sua companhia. Residia 
íia rua Direita, n. 6, com sua senhora, unia creada e três escravos, 
o na mesma casa tinha loja do fazendas, de que vivia. 

Era um lioraom de 35 annos, rusgucnto, absolutista e profunda- 
mente religioso; dizia que cleante do rei deve-se pôr um joelho em terra 
€ deante de Deus os dois, e entretanto era irmão de José Innoceucio 
Alves Alvim o de Joaquim Alvim, os dois moços liberaes que, no dia 
23 do Junho de 1831, dopuzeram do poder o capitão-general João 
Carlos o fizeram eleger pí^.lo povo o Governo Provisório. Tinha o posto 
de capitão de milícias, era fortemente ligado aos coronéis Francisco 
ígnacio o Ferreira do Amaral o tomou parte importante em A Ber- 
narda, chegando a sahir armado á rua e andar pelas casas particulares 
de trabuco na mão, intimando gente para comparecer nos meetings re- 
voltosos e assignar os termos de accusação contra Martim Francisco 
e brigadeiro Jordão. Foi era consequência deportado para ]*aranaguá, 
onde ficou algumas semanas, e quando amnistiado não se envolveu 
mais na politica da provinda. Falleceu 47 annos depois, em 1869, 
soffrondo das faculdades mentaes, e deixou filhos que figuravam nesta 
capital, como o dr. Pedro Taquos do Almeida Alvim, jornalista de grande 
mérito o deputado provincial do partido conservador. 

José Rodrigues Pereira de Oliveira era moço de 29 annos, na- 
tural de S. Paulo, solteiro e capitão de ordenanças, o vivia dos pro- 
duct")s de um engenho de assucar c aguardente que possuia no muni- 
cípio de Ytú, sob a administração de outrem. Filiou-se em 18.22 ao 
i^artido retrogado e no dia 23 de Maio andou pelas ruas armado, ao 
modo de Pedro Taques, violentando a particulares e até aos vereado- 
res para que tomassem parte em A Bernarda. Esteve por isso de- 



- 36 - 

portado por algum tempo em Porto-Feliz e depois da amnistia nao se 
iutrometteu mais em desordens, nem na politica da rrovincia. 

Caetano Pinto Homem era portuguez, de 32 annos, casado com 
D. Maria Eugenia, paulista, de quem tinha em 1822 quatro filhos me- 
nores. Em 1818 vivia com sua família na casa do coronel Francisco 
Alves Ferreira do Amaral, de quem era inteiramente dependente ; de- 
pois estabeleceu-se por conta própria com loja de fazendas na Tra- 
vessa da Sé, n. 9 na casa de seu antigo protector. Era capitão de 
milicias e como tal ainda mais subordinado ao coronel Ferreira de 
Amaral, a quem acompanhou no dia 23 do Maio, tomando parte activa 
em A Bernarda, pelo que esteve temporariamente deportado era Ara- 
çariguama. Deixou depois o negocio de fazendas e passou a ser, era 
1829, empregado do fisco na qualidade de commissario pagador. 

Jayme da Silva Telles era paulista, de 68 annos, casado e cora 
três filhos já crescidos e solteiros ; vivia dos rendimentos de um pe- 
queno siiio que possuía no bairro dos Pinheiros, custeado e lavrado 
pelos filhos e quatro escravos. Nao tinha nenhuma importância pes- 
soal ou politica e parece que tomou parte em A Bernarda para agra- 
dar a amigos ou para ganhar posição depois da victoria, dos reaccio- 
nários. Esteve deportado em Piracicaba, que ainda nao era villa, 
onde ficou algumas semanas somente, porque a amnistia de 23 de 
Setembro o fez voltar para esta Capital, onde depois da independência 
se tornou funccionario publico, empregado do Thesouro Provincial. 

António de Siqueira Moraes era nataral de Jundiahy, onde a 
sua familia é importante até hoje, do 40 annos de edade, solteiro, 
cora loja de fazendas na rua Direita, n. 1, um caixeiro e cinco es- 
cravos. Era também capitão de milicias, muito ligado aos coronéis 
Francisco Ignacio e Ferreira do Amaral e com elles participou em 
A Bernarda, pelo que andou tomando ares por algum tempo era Na- 
zareth, por ordem dcs Andradas, ministros de Pedro I. A amnistia 
de Setembro o fez voltar do exilio e a sua incompetência politica o 
fez recolher-se a completa obscuridade depois da independência. 

Estos foram os principaes personagens de A Bernarda, os exe- 
cutores dos planos combinados entre João Carlos e Costa Carvalho. 



^ 37 — 

Aquelles, moros iostruraentos manejados por hábeis mãos para a 
ruma dos Andradas e permanência dos privilégios coloniaes, desappa- 
receram para sempre da sceua politica da província depois da inde- 
pendência ; emquanto estes, conscientes e hábeis manipuladores da 
intriga e do en odo para fins políticos, foram subindo sempre, nâo 
obstante a victoria final da liberdade o da independência, até ás mais 
altas posições offlclaes accessiveis aos cidadãos brasileiros. 

Os povos de S. Paulo, ao tempo da vinda do príncipe regente 
em 1822, nao estavam por conseguinte bem preparados o unanimes 
para receberem a independência ; pelo contrario, havia entre elles 
grande desharraonia, profundas divergências e ódios intensos, que não 
somente dividiam em dois campos inimigos os políticos desta cidade, 
como até deram logar á existência de dois governos antagónicos — ura 
nesta Capital, chefiado pelo general João Carlos e sustentado pelos 
auctores de A Bernarda, e outro no interior composto dos municípios 
confederados, tendo o seu quartel general na vi lia do Ytii, transfor- 
mada em praça de guerra para a defesa da liberdade e da indepen- 
dência. 



VII 



Já demonstrei que o militarismo foi uma das grandes calamida- 
des que afíigiram os paulistas durante os tempos coloniaes e que a 
foiça armada da capitania estava muito acima das suas necessidades 
e dos seus recursos financeiros. 

Com o militarismo vieram o despovoamento da capitania pela 
debandada dos homens para outras regiões, o abandono da vida civi- 
lizada pela fugida das classes pobres para as mattas, a decadência da 
lavoura, do commercio e da industria, as exigências exorbitantes do 
fisco e a falta de pagamento dos salários dos empregados públicos e 
dos soldos das tropas aquarteladas ou em serviços de campanha. Aos 
funccionarios públicos a fraude, o peculato, a concussão e o suborno 
offereciam os recursos de que ficavam privados pela falta de paga- 
mento de seus ordenados ; porem, aos soldados só restava o expediente 
da rebollião e do saque. 



— 38 — 

Já em 1716 três corpos da guarnição da praça de Santos, cujas 
soldos não eram pagos havia vários annos, se revoltaram e ccmeite- 
ram diversas violências para obrigar Tliimoteo Corrêa de Góes, pro- 
vedor da Fazenda Real, a pagar-lhes os soldos atrazados, o que foi 
feito mediante um empréstimo levantado com garantia do coronel 
Luiz António do Sá Queiroga, commandante da praça ; porém, depois 
de cífectuado o pagamento e apaziguado o tumulto, os cabeças foram 
presos e punidos em carcero por terem, á mão armada, forçado o pa- 
gamento daquillo que lhes era devido havia já tantos annos. 

As forças em serviço no Eio Grande do Su!, nos campos do Pa- 
raná, nas colónias de Lages e de Yguatemy c nas fortalezas da costa 
marítima eram pagas sempre com atrazo de muitos mezes e frequen- 
temente com demora de vários annos. 

Nas correspondências dos capitães goneraes, publicadas pela Re- 
partição de Archivo de S. Paulo, enconíra-so a todo o momento a 
confissão desta clamorosa injustiça, que veiu atravessando os séculos 
e durou até a independência. 

No dia 3 de Junho de 1821 um batalhão de caçadores aquartelada 
nesta Capital se revoltou contra o capitão general João Carlos de 
Oeynhausen por falta de pagamento dos seus soldos, influenciado tal- 
vez pelo facto de haver desegualdade entra os soldos das tropas bra- 
sileiras e das portuguezas em serviço no Brasil. Esta desegualdade 
não existia somente no valor pecuniário dos soldos, mas também no 
medo do seu pagamento, que era sempre feito ás tropas portuguezas 
em primeiro logar e si o dinheiro não chegava para todas ficavam as 
tropas brasileiras á espera, indefinidamente, até haver com que se 
lhes pagasse. 

Esta rebellião, que poderia ser de gravíssimas consequências por 
se ter dado em tempo em que os espíritos estavam exaltados, im- 
buídos de idéas de liberdade e de independência e cheios de odia 
contra os dominadores portuguezos, não teve outro resultado mais do 
que animar os liberaes, dirigidos pelo distincto e intelligente moça 
paulista José Innocencio Alves Alvim, a apressarem a deposição do 
capitão general João Carlos o a eleição de um Governo Frovisorio^, 
que se realizaram no dia 23 daquelle mesmo mez de Junho. 



— 89 — 

Entretanto, si o governo de João Carlos e seus agentes nada 
soíireram, não foi porque as tropas revoltadas não tivessem disposi- 
ção e desejo de os offender e de pagar-se do sous soldos atrazados 
por suas próprias mãos, mas porque o capitão Joaquim José dos San- 
tos, paulista distincto o muito enérgico, conseguiu por inauditos es- 
forços abafar o movimento sedicioso sem o emprego de violências, 
serenar os ânimos com raciocínios e promessas, e dar ao movimento 
outra direcção, que foi aproveitada pelos liberaes para a transforma- 
ção politica que dahi a vinte dias se realizou. 

Eleito era 23 de Junho da 1821 o Governo Provisório pelo povo, 
dirigido po-: José Innocencio Alvim e aconselhado por J. só Bonifácio, 
o pelas tropas commandadas pelos coronéis Lazaro Gonçalves, Gama 
Lobo e Francisco Ignacio, não tratou o novo governo de ordeoar im- 
mediatamente o pagamento dos soldos do 1.^ batalhão de caçadores 
destacado em Santos, que estava em atrazo de cinco annos. 

O exemplo da Capital, onde as tropas insubordinadas do 2.o ba- 
talhão de caçadores foi ara pagas dos seus soldos atrazados sem que 
softressem castigo algum o ainda exercendo ostensivamente funcções 
politicas, tomando parte activa na derrubada do governo despótico e 
cxtrangeiro de João Carlos e na eleição de ura outro, em que o ele- 
mento nacional e paulista tinha grande influencia, foi contagioso para 
a guarnição de Santos, que apenas esperou uma semana pelas medi- 
das reparadoras do Governo Provisório em relação aos seus soldos 
não pagos por vários annos. 

Na noite de 27 para 28 de Junho de 1821, alguns dias depois de 
eleito o Governo Provisório, revoltou-se aquella guarnição, sahiu á 
rua e apossou-se da villa de Santos. Arrombou a cadeia o soltou 
todos Ocs presos, invadiu a casa era que se guardavara os materiaes 
bellicos e delia tirou todas as armas e munições de que podia neces- 
sitar, assestou artilharia nas ruas e no porto o fez fogo contra um 
navio de guerra portuguez alli ancorado. Em seguida, espalhando-se 
os soldados em grupos pelas ruas, prenderam as auctoridades, saquea- 
ram os estabelecimentos públicos e particulares e mesmo puzerara a 
resgate os homens abastados que conseguiram apanhar. 

Tomados de surpresa os habitantes não puderam oppôr a raenor 
resistência ao levante da soldadesca desenfreada e soffrerara resigna- 



— 40 — 

daraente o saque e o resgate que se lhes impuzeram, cujos productos 
os revoltosos dividiram onte si; mas em terra estavam muitos mari- 
nheiros dos navios portuguezes surtos no porto e com estes os rebel- 
des travaram luctà de que resultaram diversos ferimentos e algumas 
mortes. 

Lido em sessão do Governo Provisório de 2 de Julho ura ofBcio 
do governador da prbça de Santos, coronel Bento da Gama Sá, ex- 
pondo os factos alli occorridos, declarou se o governo em sessão per- 
manente e tratou sem demora de remetter para Santos, afim de s\if- 
focar a revolta e prender os seus chefes, o mesmo batalhão 2." de 
caçadores, que por idêntico motivo se revoltara em S Paulo no dia 
3 de unho. Este seguiu em marcha forçada sob as ordens dos c ro- 
neis Lazaro Gonçalves e Daniel Pedro Miiller, membros do governo, 
e no dia 6 chegou a Santos, onde surprehendeu os sediciosos, os des- 
troçou e prendeu a muitos, inclusive aquelles que eram considerados 
como os chefes dos amotinados. 

Participada no mesmo dia para Sâo Paulo esta importante no- 
ticia, o correio viajou toda a noite e chegou a esta Capital no dia 7 
cedo, e como o governo estava em sessão permanente, publicou logo 
por Bando esta festival nova e declarou beneméritos os ofiQciaes e sol- 
dados que com tanta presteza puzeram fim naquella rebellião e por 
um outro Bando felicitou aos santistas por se verem restituídos aos 
seus lares e antigo socego. Em seguida e sem demora vieram as 
devassas, os tribunaes militares e as sentenças mais ou menos rigo- 
rosas, conforme a intensidade da culpa de cada um. 

Lazaro Gonçalves o Miiller eram portuguezes e, com quanto o 
primeiro fosse sympathico á causa da liberdade e da independência, 
não podiam ambos deixar de ser parciaes e rancorosos contra os re- 
beldes de Santos, que eram brasileiros g r»-presentavam a reacção 
pela violência contra os desmandos, o despotismo e as injustiças do 
governo colonial. Nestes termos, oficiaram elles em 11 de Julho, ao 
Governo Provisório propondo que os menos culpados dos soldados do 
i.o batalhão, que foi da praça de Santos, fossem dispersos afim de não 
infeccionarem os habitantes desta provinda, para o que julgavam con- 
veniente que se pedisse á Corte do Rio de Janeiro uma embarcação que 
08 conduzisse para os paizes que o govertio julgasse mais conveniente. 



— 41 — 

o Governo Provisório só podia ter recebido este offlcio no dia 
12, porque foi escripto a 11 e a distancia de S. Paulo a Santos ora 
pelo menos de doze léguas, que, com os péssimos caminhos daquelle 
tempo, por mangues e serras, nEo podiam ser viajadas em menos de 
doze horas. Entretanto, nesse mesmo dia 12 reuniu-se o governo em 
sessão extraordinária e depois de madura reflexão resolveu : 

1.0 

Que feita quanto antes a separação já ordenada, se passe a jul- 
gar os menos culpados, sobre os quaes este governo devia requerer 
a Sua alteza Real usasse de benignidade, commutando-lhes a pena ul- 
tima em que estão incursos, segundo o artigo 15 de Guerra, em car- 
rinho temporário e os malvados que commetteram mortes e roubos e 
os cabeças do motim sejam castigados com a pena ultima para 
exemplo. 

2.0 

Que os do primeiro caso, que merecerem clemência, sejam logo 
conduzidos e divididos em magotes de 20, 15, 10 e 5 para trabalha- 
rem nos concertos das estradas publicas da província, de S. Paulo a 
Santos, de S. Paulo ao Rio de Janeiro, de Mogy das Cruzes a S. 
Sebastião e de Corytiba a Paranaguá, sendo elles remettidos para as 
cadeias mais fortes das villas visinhas dos legares onde trabalharem. 

Que depois de espalhados estes homens e applicados aos ditos 
trabalhos, aqueJles que com o andar do tempo se mostrarem mori- 
gerados, socegados e arrependidos, deverão ser trocados pelos solda- 
dos casados desta provinda que se acham na campanha do Sul ; e 
outros que forem casados ou possam casar, mimstrando-lhes o governo 
ou a Misericórdia um pequeno dote, serão empregados como colonos 
nas pov^oações de Guarapuava e Ararapira e na povoação abandonada 
do Tietê, fundada pelo general que foi desta capitania D. Luiz An- 
tónio de Souza. 

Foi esta a sentença que o Governo Provisório, depois de madura 
reflexão de alguns minutos, applicou aos menos culpados dos rebel- 
des e votaram por ella todos os membros do governo, com excepção 
apenas de Gama Lobo e Quartira, que se achavam em comraissão no 
Rio de Janeiro, e dos dois coronéis que estavam em Santos e que 



I 



naturalmente concordaram cora elia porque era menos rigorosa do 
que o degredo para a Africa ou Ásia que cUes haviam proposto. 

O § 1.° destas resoluções recoraraenda para os menos culpados 
a comrautação da pena do morte, em que estavam incursos pelo ar- 
tigo 15 de Guerra, em carrinho temjjorario. Si o poder competente 
não c mmutasso a sentença, teriam estes menos culpados sofírido a 
pena capital, que é a mais severa de todas. Que pena deveria então 
ser applicada aos mais culpados, aos que commetteram roubos e as- 
sassinatos e aos chefes da sedição ? Seria necessário inventar para 
estes uma pena mais rigorosa do que a do morte em cadafalso, o 
que seria contra as leis criminaes existentes, ou punil-os todos com 
a mesma pena capital sem attenção á gravidade do delicto de cada 
um, o que seria uma clamorosa injustiça. 



VIII 

Feia severidade da sentença proferida contra os menos culpados 
dos sediciosos santistas, póde-se bem julgar do que estava sendo prepa- 
rado para os mais oorapremettidos e para os chefes. Tiveram as suas 
sentenças do morte confirmadas pelo Governo Provisório, era sessão 
ordinária de 10 de Setembro, com a presença e voto, sem discrepân- 
cia, de onze membros, que foram João Carlos, José Bonifácio, Mar- 
tim Francisco, Quartim, André Gomes, Francisco Ignacio, Gama Lobo, 
Jordão e padres Oliveira Bueno, Paula Oliveira o Felisberto Jardim. Os 
coronéis Lazaro Gonçalves e Miiller estavam ainda em Santos o Ver- 
gueiro e Oliveira Pinto não vieram assistir a essa sessão. 

Não houve recurso de graça para o poder moderador do Prínci- 
pe Regente por ser este um dos casos em que tal recurso era dispensável. 
Os condemnados á morte foram o sargento José Correia, o furriel Joa- 
quim Rodrigues, os cabos Floriano Pires e Francisco José das Cha- 
gas e os soldados José Maria Raraos, José Joaquim Lontra e Joaquim 
José Cotintiba. Deviam ser enforcados era Santos os que fossem na- 
turaes dalli ou da beira mar, e nesta Capital os que fossem nascidos 
nella ou nas povoações de serra acima, para exemplo dos parentes e 
amigos. 



— 43 — 

Em Santos não havia mais forca e para não perder tempo e di- 
nheiro na construução especial de uma para este flra, ordenou o ao- 
vorno Provisório, por suggestão dos coronéis Lazaro e Miiller, que os 
condcmnados naturaesdo Santos fossem immediatamente enforcados 
nas vergas da mesma embarcação sobre a qual elles tinham feito fogo 
nos dias da revolta e que os primeiros suppli.-íiados fossem o furriel 
Joaquim Rodrigues e o soldado José Maria Ramos, como os mais cul- 
pados, seguindo-se os outros José Correia, Floriano Pi]'es e Joaquim 
Lontra. 

Romettidos para S. Paulo os dous outros conderanados, Francisco 
José das Chagas e Joaquim José Contintiba, foram elles, sem demora 
recolhidos aos segredos da cadeia desta Capital, no dia 15 ou 16 de 
Setembro, por ordem do Governo Provisório, que logo determinou ao 
ouvidor, D. Nuno Eugénio Lossio Seilbz, que tomasse conta delles e 
os transferisse para o oratório, emquanto esperavam a execução da 
sentença que devia sor levada a effeito pelo juiz de fora Costa Car- 
valho. 

Nesta Capital também não havia forca em 18.21, tendo pro vavel 
men-^8 se deteriorado e cabido a que antes havia. Por carta regia de 
23 de agosto do 1820 foi mandada installar em S. Paulo uma junta 
de justiça, e não se comprehendia então uma tal junta sem o seu 
necessário appendice— um patíbulo ; por isso, o governo, com a inexpli- 
cável demoi-a de onze mezes, expediu em 23 de julho de 1821 um 
aviso á v^íamara Municipal para que mandasse levantar uma forca no 
logar mais publico e visinho do cemitério geral, qi^ie era chamado 
Campo da Forca, o que ella fosse feita de madeira duradoura. 

Estando a forca prompta em agosto e recolhidos na cadeia desta 
capital os comdemnados Joaquim José Cotintiba e Francisco José das 
Chagas, conhecido por Chagiiinhas, desde 15 cu 16 de Setembro, cujas 
sentenças estavam confirmadas desde 10 desse mez, nada faltava para 
que estes róos fossem sem demora executados, como o tinham sido 
os nascidos em Santos, tanto mais que já o ouvidor Nuno Eugénio e 
o juiz de fora Costa Carvalho tinham ordens para isso desde 17 de 
setembro o os condemnados já tinham até entrado em retiro espiri- 
tual emquanto esperavam que lhes chegasse o momento fatal. 



- 44 - 

Entretanto os dias vâo se passando sem que os róos sejam exe- 
cutados e durante este tempo D. Nuno Eugénio Lossio Seilbz foi sus- 
penso pelo Governo Provisório, por portaria de 24 de Setembro de 
1821, de cargo de ouvidor, que passou a sor exercido por Costa Car- 
valho, interinamente, até de 6 de março de 1822 e effoctivaraente 
dessa data em deante, O presidente da Camará, Nicolau de Siqueira 
Qaeiroz, assumiu o exercício das funcções de juiz de fora pela lei e 
como tal tinha de presidir o acto da execução dos delinquentes depois 
de cumpridas pelo ouvidor todas as formalidades legaes. 

Porque tanta demora, suspensão e transferencia de pessoal, si os 
criminosos estavam condemnados em forma, a sentença de morte es- 
tava devidimente confirmada, com dispensa do recurso de graça ao 
Príncipe Regente, a forca estava armada e prompta, os réos confes- 
sados o ungidos e o ouvidor e juiz de fora com ordem para executar 
a sentença? 

Estas circurastancias, que nunca foram discutidas e elucidadas 
por nenhum dos investigadores da historia paulista, são, entretanto, 
dj grande importância e merecem ser esclarecidas, porque se relacio- 
nam cora alguns factos graves que então occorreram e de algum 
modo explicam certos acontecimentos que nunca foram comprehcndi- 
dos pelos paulistas. 

A historia escripta e publicada não conservou o nome o a lenda 
perdeu os traços do condomnado Joaquim Cotintiba o poucos sabem 
ao certo o que foi feito delle ; porém, Chaguinhas foi acoiupa- 
nhado pelas sympathias populares até aos seus últimos momentos, 
delle se faz menção era todas as chronicas do tempo e seu appellido, 
tornado objicto do contradictorias lendas, ó ainda hoje pronunciado com 
dó e compaixão pelas pessoas dotadas de sentimentos pios e caridosos. 

O que consta cora certeza é o seguinte : 

Levantado o cadafalso no Uarapo da Forca, no espaço em que 
estão hoje o largo da Liberdade e quarteirão contido entre esse largo 
e as ruas da Liberdade, Araerico de Campes o Galvão Bueno, foram 
Cotintiba e Chaguinhas levados a elle da cadeia, que era no largo 
Municipal e íicava a côrca de duzentos metros da forca, e supplicia- 
dos em dia que não é sabido cora certeza, mas que deve ter sido 
entro os mezes de janeiro e maio de 1823. 



- 45 - 

Communicada a elles a sentença e feitas as exortações religiosas 
sóbeni os pacientes os degraus do patibulo. vestidos de camisola ; são- 
Ihos passadas as cordas aos pescoços, os braços atados e a cabeça e 
o rosto cobertos cora um capuz, e exerce o carrasco a sua funcção. 

Removida a taboa sobre a qual pisavam os condemnados, são 
elles atirados ao espaço. Cotintiba morre estrangulado ; porem a 
corda que sustenta o seu corr.panheiro não ó sufficientemente forte, 
rebenta se com o choque e o condemnado vem cahir no chão, em meio 
de uma multidão de espectadores attrahidos ao logar, já pela curio- 
sidade, já pelo interesse e fyrapathia que lhes inspirava o desgraçado 
Chagainhas. 

Conforme o costume do tempo, deitaram sobre elle a bandeira 
de misericórdia, emquanto se communicava ao governo o acontecido 
e o povo descia ao palácio e vinha pedir que o governo comrautasse 
a pena do morte em outra menor, em vista do antigo uso de se re- 
leval-a era casos sirailhantes. 

Convocados os raerabros do governo e reunidos em palácio, com 
excepção do José Bonifácio, que já era ministro e estava no Rio de 
Janeiro, foi considerada a matéria e resolvido, principalmente pela 
influencia de Martim Francisco, que não se comrautasse a pena e 
que Chaguinhas fosse outra vez levado ao cadafalso. Expedida a 
ordem aos executores, voltou- o povo ao Campo da Porca, comprou o 
carrasc3 nova corda, subiu o paciente a escada e passou pelo pro- 
cesso do atamento dos braços e da coberta do rosto pelo capuz ; po- 
rém, abalada a taboa que o sustenta, rebentou-se novamente a corda 
e extondeuse o condemnado no chão. Outra vez foi elle coberto com 
a bandeira da misericórdia eraquan to o povo, supersticioso, horrorisado 
e iniignado, doscia segunda vez ao palácio a exigir do governo a 
commutação da pena do infeliz Chaguinhas para quera nâo havia 
motivo de se fazer tão odiosa excepção ao tradicional costume da 
relevação da pena em tal caso. 

Convocados e de novo reunidos em palaci<', os raerabros do go- 
verno mantiveram o seu despacho anterior e reiteraram a ordem para 
a execução do condemnado. Ás exigências populares, aos clamores o 
protestos das almas bem formadas e caridosas, respondeu Martim 
Francisco, de uma das janellas do palácio, reaffirraando a decisão do 



- AQ ^ 

governo e a recusa de satisfazer o pedido dos reclamantes. Foi, pois, 
tudo baldado e pela terceira vez Ohaguinlias subiu ao patíbulo e fui 
entáo muito bem enforcado, não mais com corda ordinária e quebra 
dica de embira ou de linho, mas cora um laço do couro trançado de 
amarrar bois, que se mandou buscar ao matadouro. 

O cemitério gorai era perto e o cadáver foi para lá conduzido e 
sepultado sem as cautellas medicas que presentemente se usam do 
exame cadavérico e da verificação do óbito. (1) 

No logar do supplicio o povo crente levantou uma cruz do ma- 
deira, tendo ao lado uma mesa rústica sobre a qual se queimavam 
todas as noites numerosas velas de cera que, segundo a tradição, não 
se apagavam com a acção dos ventos e das tempestades do chuva. 
A este sagrado lenho foi dado o nome de Santi Cruz do Enforcado 
e com o correr do tempo a veneração popular foi-se augmcntando, de 
modo que tornou-se grande a concorrência para o logar o nclle se fa- 
ziam rezas e festas religiosas anmiaes com o concurso do muito povo. 

O antigo Campo da Forca era terreno pi^rtencento ao piítrimoni^ 
da camará municipal o nelle podiam obter c tirar datas todos quantos 
quizessem alli construir prédio para moradia ou para negocio. Em 
algumas dezenas de annos o campo estava todo povoado de casas, 
com ruas abertas cm varias direcções e no centro ficou o pequeno 
largo da Liberdade, tendo em uma das faces a cruz, um pouco re- 
cuada para fora do alinhamento do pateo. Casas foram construídas 
de lado a lado, de forma que formou-se entre ellas um becco som sa- 
bida no fundo do qual ficou a cruz. 

Ha cerca de vinte annos alguns moradores da visinhança resol- 
veram construir sobre a cruz uma casinha modesta que lhe servisse 
de amparo contra as inclemências do tempo e de agazalho para aquel- 
las offertas de velas, cera, flores e fitas que as almas pias alli vêm 
fazer para os serviços religiosos celebrados no logar e para enfeito 
da mesma cruz. 

Mais tarde ainda, depois dg. proclamação da Republica, o dr. Fre- 
derico Abranches, lente da Academia de Direito desta Capital e mo- 



(1) Deste facto se originou a crença popular ou lenda da fuga do Chaguinlias, que 
será narrada em outra chrouica intitulada Martim Francisco e à Bernarda. 



rador ao lado da Cruz, de accordo com o reverendo ccnego Bicudo, actual 
vigário da Sé, construiu um outro edifício no logar do primeiro, mais 
solido, mais asseiado o de melhores proporções, que ó o que hoje existe 
o ainda conserva o suggestivo nome de Santa Cruz do Enforcado. 

Todas as noites ainda quem passa pelo largo da Liberdade pode- 
rá ver a fachada da modesta capellinha illuminada pela luz de innu- 
raer s velas, trazidas pelos crentes de todos os bairros da cidade, e 
nella se celebram festas annuaes no mez de Maio, com alguma pompa, 
fogos de artificio e muita concorrência de povo do todas as classes 
sociaes 

E assim vemos que, si o nome do infeliz moço Francisco José 
das Chagas ficou por tantos annos esquecido pelos chronistas de S. 
Paulo e ignorado das massas populares e só agora é restaurado em 
beneficio da verdade histórica, a sua lembrança, o seu appellido de 
Chaguinhas e os soflrimentos por que passou têm sido pela lenda 
transmittidos aos pósteros de geração em geração e permanecem ainda 
hoje vivos na memoria dos paulistas, onde são guardados com res- 
peito e compaixão ; e talvez já não venha longe o tempo em que soja 
ora parte reparada a injustiça de que foi victiraa ea sua memoria ro- 
habilitada porque a justiça da Historia, assim como a justiça de Deus, 
muitas vezos tarda, porem nunca falta. 



A. DE Toledo Pjza. 



Martim Francisco e a Bernarda 



Ningaera soube explioar o papel apparentemente odioso que 
Martira Francisco representou no supplicio de Chaguinhas e este seu 
procedimento, não esclarecido até hoje, é na opinião de muitos um 
desdouro para a sua memoria. 

A farailia de Chaguiniias residia nesta Capital, na travessa das 
Flores, curto e escuso becco que communica a rua da Boa Morte 
com a das Flores. Era modesta, mas estimada e respeitada na cidade 
e ficou depois por muita gente conhecida pelo appellido de A famí- 
lia do condemnado, sem que por isso perdesse as sympathias de que 
gosava. 

Foi penosíssima a impressão que causo a no publico em geral e 
nas classes inferiores em particular o supplicio de Francisco José das 
Chagas, aqui nascido, aqui crescido, bemquisto por todos e de todos 
conhecido pelo appellido de Chaguinhas, e profundo foi o sentimento 
de horror na massa popular contra o Governo Provisório pelo rigor 
da sentença e pela tenacidade da negativa em comrautar a pena de 
morte depois da dupla fractura da corda e das consequentes applica- 
ções da bandeira de misericórdia, tanto mais que era opinião quasi 
geral que Chaguinhas não teve a parte que se lhe attribuia na se- 
dição militar de Santos e nos saques e assassinatos que lá se prati- 
caram . 

José Bonifácio, que votou pela confirmação da pena de morte era 
Setembro de 1821, estava no Rio desde Janeiro de 1822 e não assis- 
tiu as sessões do governo em que se negou a commutação da pena. 
Martim Francisco havia passado a ser o vice-presidente do governo 



— 49 — 

em logar do sou irmão ausente o, já por sou mérito intellectual e 
moral, já por ter seu irmão e sogio como ministro, torn u-se o mem- 
bro mais influente do Governo Provisório e a sua vontade pesava de- 
cisivamente nas resoluções tomadas em conseliio. 

Era isto mesmo um dos motivos para se açularem contra elle a 
inveja, o ciúme, a raiva e o ódio dos rotrogados, dos reaccionários e 
dos portuguezes, receiosos da perda do seu predominio na colónia, e 
porque o brigadeiro Jordão, homem de prestigio, era em tudo tolida- 
rio com Martim Francisco, partilhava da animosidade de que este 
ultimo era o alvo. 

O general João Carlos era a alma da intriga dentro do próprio 
governo, tendo como companheiros Muller, Francisco Ignacio, Olivei- 
ra Pinto e Quartim, e cá fora Costa Carvallio era quem movia todos 
os ciúmes e ódios e com muito mais liberdade de acção e proveito 
para a causa commum porque vivia mais em contacto com o povo e 
não tinha reservas offlciaos a guardar. 

Convenceu se a tropa armada, convenceu-se a milícia, conven- 
ceu-se o publico em geral, todos ficaram convencidos pela intriga, 
pelo enredo, pela calumnia, de que Martim Francisco era o responsá- 
vel pelo supplicio de Chaguinhas nas tristes condiyões em que se 
deu, por ter sido elle o principal adversário da commutação da pe- 
na ; e, ainda mais, de que todas as medidas de caracter violento e 
odioso, emanadas do governo, traziam a responsabilidade do mesmo 
jMaríim, que preponderava nos conselhos por seu talento, por sua ener- 
gia e p3r seu orgulho intransigente. 

E como não se lavraram actas das sessões extraordinárias con- 
vocadas para se tratar do recurso de graça impetrado pelo povo em 
favor de Chaguinhas, até deste facto, aliás extranhavel, se tirou par- 
tido contra Martim Francisco e Jordão, allegando-se que foi para não 
ficar prova da sua responsabilidade pela persistente negativa da com- 
mutação da pena, tornauclo-so assim essa responsabilidade ogualraen- 
te partilhada por todos o ató pelos clérigos membros do governo, que 
como sacerdotes, tinham a missão de perdoar e de minorar os soffri- 
mentos alheios. 

Realmente, um tal procedimento da parte de Martim Francisco e 
Jordão era mais do que injusto, era odioso o covarde, porque indi- 



- 50 - 

cava que queriam ambos dividir com outros a responsabilidade de 
seus próprios actos sem deixar disso prova escripta nas actas das 
sessões do governo. Era um povo analphabeto, supersticioso e sem 
meios de se esclarecer sobre a verdadeira situação das cousas, uraa 
tâo bera tramada e plausível intriga não podia deixar de produzir, e 
de facto produziu, promptos cffeitos. 

No dia 23 do maio de 1822, pouco tempo depois do supplicio de 
Chaguinhas, revoltou-se a tropa armada desta Capital, sob a direcção 
do brigadeiro Joaquira José Pinto de Moraes Leme, dos coronéis 
Francisco Ignacio de Souza Queiroz e Francisco Alves Ferreira do 
Amaral e dos sargentos raóres José Rodrigaes de Oiiveira e Francis- 
co de Paula Macedo. A ella se juntou logo o povo, sera distincção de 
brasileiros e portuguezes, e foram todos se postar no pateo de S- 
Gonçalo, hoje largo Municipal, exigindo era altos brados e vozeria 
que o general João Carlos o Costa Carvalho não deixassem os car- 
gos que exerciam de presidente do governo e de ouvidor, nem se re- 
tirassem desta Capital, e que desobedecessem as ordens posiiivas do 
ministro José Bonifácio, que, em nome do príncipe D. Pedro, os ha- 
via chamado p.ira o Rio de Janeiro, por portaria de 10 de maio de 1822 

A esto tempo José Rodrigues do Oliveira, Pedro Taques do Al- 
meida Alvim o Jaymo da Silva Telles, armados de espada o pistola, 
andavara pelas ruas da cidade intimando com ameaças aos tímidos 
para que concorressem ao largo de S. Gonçalo, cora o fim de en- 
grossarem o movimento popular, o aos vereadores para que se reit- 
nissera era sessão e so fizessem o écho dos sediciosos perante o go 
verno. 

Eraquanto o governo, em sessão, resolvia não annuir ás exigên- 
cias dos amotinados, porque a ordem do 'príncipe, contra a qual re- 
clamavam, devia ser á risca cumprida, Martim Francisco fazia retirar 
a guarda do palácio para evitar ura possível conflicto cora os sedicio- 
sos. Esta medida, prudente e corajosa, foi iramediatam ente desvir- 
tuada pela intriga e pelo enredo e os rebeldes passaram sem demora 
a exigir que Martim e Jordão deixassora o governo e sahissera desta 
Capital, para que se restaurassem a paz e o socego publico ; invadi- 
ram o paço municipal e forçaram os vereadores a transmittirem ao 
governo esta intimação das massas revoltadas. 



- 51 - 

Accecleram Martim e Jordão a esta imposição e demitiiram-se de 
moiubros do governo, rotirando-se o segundo para Santos e seguindo 
o primeiro para o Rio, escoltado por uma guarda que lhe íoi dada por 
João Carlos, apparentemente para honral-o, mas do facto para o vi- 
giar até sahir do território paulista. 

Com a retirada destes, os outros membros paulistas também dei- 
xaram o governo, que ficou entre as mãos dos reaccionários. 

Martim Francisco, chegando ao Rio de Janeiro, foi logo depois no- 
meado ministro da fazenda e, de combinação com seu irmão, demit- 
tiu o resto do esphacelado c incapaz Governo Provisório e fez D. Fe- 
dro vir no mez do Agosto a S. Paulo restaurar a harmonia entre os 
paulistas desunidos e malquistes. Com a chegada do príncipe facilmente 
reconciliaram-se os habitantes desta Capital com os que faziam parte 
da confederação ytuana, para o que muito contribuiu a eleição de um 
novo governo, que ficou composto do bispo D. Matheus de Abreu Pe- 
reira, do marechal Cândido Xavier de Almeida o Souza e do dr. José 
Corrêa Pacheco e Silva, novo ouvidor da comarca, nomeado em sub- 
stituição de Costa Carvalho. 

Fez -se uma devassa sobre os acontecimentos de 23 de Maio e os 
chefes dos sediciosos foram por algumas semanas exilados para va- 
rias partes, até que foram amnistiados pelo decreto de 23 de Setem- 
de 1822, quando a independência já estava proclamada e julgou-se 
conveniente esquecer todas as discórdias intestinas a bem dos inte- 
resses do paiz. O príncipe D. Pedro, que aqui se demorou cerca de 
quinze dias, accommodou os povos, harraonizou-se e, de volta de um 
passeio que foz a Santo?, teve occasião de proclamar a independência 
nos campos do Ypiranga, a 7 de Setembro de 1822. 

João Carlos e Costa Carvalho, chamados novamente para o Rio 
de Janeii o, obedeceram e deixaram S. Paulo ; lá adheriram á indepen- 
dência e quando o imperador abdicou a coroa, em 7 do Abril de 1831, 
o primeiro acorapanhou-o para Portugal e o segundo já tinha subido 
tanto na politica que foi um dos membros da regência trina em nome 
de D. Pedro II, ainda menor. 



52 

II 



Aqui chegando em 1803, depois de concluidos os seus estudos de 
mathematicas na universidade de Coimbra, Martim Francisco levou 
vida activa e útil á sua pátria e foi invejado e aborrecido pelos ca- 
pitaes-generaes, principalmente por Franca e Horta, pelo marquez de 
Alegrete e por João Carlos. 

Foi calumniado, intrigado, enredado, por estes déspotas e até de- 
mettido a bem do serviço publico de um cargo technico que exercia na 
fabrica de ferro do Ypanema, por intrigas do marquez de Alegrete e 
por ordem de D. João VI, que residia no Rio de Janeiro, quando já 
antes, incompatibilizado com este governador, tinha elle próprio pe- 
dido demissão desse mesmo emprego. Fez-se questão de deitar essa 
nota aviltante na sua fé de officio para molestar o sen melindre, aba- 
ter o seu orgulho e enervar a sua inquebrantável energia. 

Pelo conhecimento que tinha dos seus patrícios, pela experiência 
que adquiriu em vinte annos de contacto com os capitães-generaes de 
S. Paulo, por seu grande talento, por sua honestidade pessoal e ató 
mesmo por seu exaggerado amor-proprio, estava Martim Francisco mais 
do que ninguém em condições de bem avaliar, pelas injustiças de que 
foi victiraa, os soffrimentos infligidos aos paulistas pelos delegados do 
governo portuguez e as misérias produzidas por um flsco voraz e por 
um militarismo levado aos últimos extremos e inteiramente fora de 
proporções cora as forças financeiras da capitania e com a sua dimi- 
nuta e esparsa população. 

Elle devia saber que sem o peculato, sem a prevaricação e o su- 
borno, os órgãos da justiça publica não podiam se manter e muito 
menos viver com a decência necessária aos seus cargos e garantir o 
futuro dos filhos, porque os seus parcos ordenados não o pormittiam 
e raramente eram pagos em dia, em visca do facto do erário publico 
estar sempre exgottado pela insaciável cobiça do flsco colonial ( 1 ) . 
Chegou-se até a mandar para S. Paulo magistrados solteiros com pro- 
hibição expressa de aqui se casarem sem licença do governo de Lis- 



(l) Sobre a corrupção da magistratura colonial, vide Archivo do Estado de S. Paulo 
— correspondência dos capitães-generaes. 



- 53 — 

boa, porque, não tendo família a sustentar e prover, poderiam subsis- 
tir com os seus pequenos salários sem sacriflcio do direito das partes 
e sem accrescirao de despesas para a fazenda real. 

Como militar que era e coronel, devia Martira Francisco conhecer 
também os sottrimentos dos corpos armadoá da capiíania e saber que 
os seus soldos, pela mesma razão, eram pagos sempre com grande 
demora e muitas vezes com atrazo de cinco e mais annos, quando o 
rigor dos serviços militares não se relaxava e os paulistas é que fa- 
ziam, em grande parte, as guerras continuadas contra os hespanhóes 
e a defesa das nossas fronteiras do sul. 

Devia ainda saber que, exasperados os soldados paulistas com o 
peso dos serviços, com a falta de pagamento dos seus minguados 
soldos, com a nudez, com a miséria e com a fome, não saciada pela 
alimentação com farinha pouca e mofada, com feijão escasso e ardido 
e com toucinho rançoso, fructos da ganância de fornecedores sem es- 
crúpulos e da pobreza do erário da capitania, era natural uma inso- 
bordinação ou revolta de vez em quando, sempre que os soffrimentos 
chegavam a um maximum. 

Não se justificava ern caso algum a venalidade da magistratura, 
porque essa profissão era livre e somente devia seguil-a quem tivesse 
natural disposição para uma vida de sacrificios a bera da ordem social ; 
porem, explicavase a insubordinação dos corpos armados e ató em 
certos casos era necessário dar- lhe algum desconto e attenuar lhe a 
gravidade, porque o serviço era compulsório, não exi&tia o direito de 
escolha de outra carreira e, a troco da completa renuncia da liber- 
dade e da vida qne se impunha ao soldado, era equitativo, justo e 
mesmo necessário que se proves :e com alguma largueza ás suas ne- 
cessidades physicas. 

O caso da sedição militar de Santos era um destes e por isso foi 
injusta e exaggerada a pena que se applicou aos culpados. O regu- 
lamento militar do conde do Lippe, cora toda a sua severidade, estava 
ainda em vigor e por concomitância no crime foram todos considera- 
dos incursos na mesma pena ; porém, tendo ella sido commutada em 
carrinho temporário para os menos culpados, se confirmou, sem o re- 
curso de graça, a sentença de morte dos chefes da sedição, quando 
era o próprio Governo Provisório quem reconhecia e confesssava em 



- 54 — 

officio dirigido aos coronéis Lazaro Gonçalves e Miiller, quo <era 
necessário no processo e julgamento destes réus attender a efervescência 
das opiniões do tempo, ao abandono em que os deixaram os officiaes e a 
demora que Jiouve em se lhes pagar o soldo que Sua Magestade lhes 
havia conferido*. 

Devia ainda o governo ter attendido ao facto do navio de guerra 
portuguez, ancorado em Santos, ter frequentemente em terra a sua 
marinliagem, que não perdia occasiâo de provocar conflictos com o ba- 
talhão, que era de brasileiros, e que essa marinhagem, tendo sempre 
dinheiro porque era paga mais ou menos a tempo, escarnecia dos sol- 
dados andrajosos e famintos, cujos soldos não eram pagos havia já 
cinco annos. Foram estes marinheiros, em boa parto, os provocado- 
res da sedição, na qual alguns delles fcram mortos e outros -feridos 
e o seu navio foi alvejado pela artilheria dos revoltosos em terra. 

Si muitos dos soldados eram vadios e criminosos agarrados para 
o serviço militar e ainda assim mereciam ser attendidos, como con- 
fessou ainda o governo no citado ofiacio, alguns eram de menor edade 
e outros, como Chaguinhas, eram moços honestos, bem procedidos, di- 
gnos de alguma consideração, e mereciam bera que o seu caso losso 
sujeito á apreciação do poder moderador do Príncipe Eegente, ainda 
mesmo que fosse um daquelles era que esta formalidade podia ser 
dispensada. 

Não atttendendo a nada disto parece que o Governo Provisório, 
ora que na occasião predominavam a influencia e o voto de José Bo- 
nifácio, Martim, Jordão e seus amigos políticos, teve era vista con- 
descender cora o elemento retrogado, dando-lhe assim uma espécie de 
satisfacção, e evitar que se atropellassem os acontecimentos cora pre- 
juízo da idéa latente na independência, que ganhava terreno dia a dia. 

Para aquolla occasião era uma politica sem entranhas, mas hábil 
e proveitosa para a causa da independência, e assim foram o princi- 
paes réus condemnados sem recurso para o poder real e alguns irame- 
dlatamente enforcados nas vergas do mesmo navio sobre o qual tinham 
atirado e em presença daquella mesma marinhagem portugueza que, 
por seu máu comportamento, tanto tinha contribuído para arebellião. 

Trazido Chaguinhas para S. Paulo afim de ser suppliciado aqui, 
por ser filho desta cidade, mudou-se completamente o modo de pro- 



- 55 - 

ceder do José Bonifácio o de Martim Francisco. Desappareccu inteira- 
mente a pressa que tinham mostrado durante o processo e na execu- 
ção dos condomnaclos íillios da costa do mar. A sentença estava lavra~ 
da desde Julho e confirmada desde Setembro de 1821 ; a forca estava 
armada o prompta desde Agosto e o réu confessado e preparado desdo 
Setembro ; mas sempre acharam os Andradas algum moio, algum 
pretexto, para ser adiada a execução da sentença o ganharem tempo 
para algum fim occulto, que tratarei do expor, segundo a tradição hoje 
corrente no meio de pessoas que tem tomado interesso polo assumpto. 



Ill 



Chaguinhas não estava, de facto, tao envolvido c compromettido 
como parecia na sedição militar de Santos. O processo instaurado 
contra os sediciosos foi dirigido pelos coronéis Lazaro Gonçalves e 
Miiller, que, além de serem militares da escola do condo do Lippe, 
eram portuguezcs que não tinham motivos paia guardar muita con- 
sideração para com brasileiros eivados de espirito liberal e sedicioso, 
e por isso foram todos os rebeldes condemnados a pena ultima, sem 
se attendor ao grau de criminalidade de cada um. 

Entretanto, os Andradas reconheciam a injustiça da sentença que 
condemnou Chaguinhas á morto e entenderam que era preciso sal- 
val-o a todo o custo, sem comtudo provocar conflictos com os portu- 
guezes e retrógrados do dentro e do fora do governo, o para isso era 
necessário adiar indefinidamente a execução do réu o dirigir os acon- 
tecimentos, do forma que se pudesse chegar ao resultado desejado 
sem choques, nem attritos compromettedores. 

O primeiro passo foi dividir os condemnados em dois grupos, 
dos quaes um íicou em Santos o lá foi sem domora enforcado sob o 
pretexto de serviu de exemplo para os filhos da costa do mar, porém 
de facto como satisfacção ao elemento retrogrado, e o outro subiu a 
S. Paulo sob o pretexto de sor aqui executado para exemplo dos po- 
vos de serra acima, mas de facto para esperar os acontecimentos. 



— 56 — 

Era evidente que a ex.cuçao realizada em Santos não servia de 
melhor exemplo para os povos de Iguape, S. Sebastião e outras vil- 
las marinhas, que não assistiram a ella, do que uma execução nesta 
Capital. Assim também o supplicio de Chaguinhas o do Cotindiba 
nesta Capital não influia mais sobre o espirito dos povos da Franca, 
de Curytiba o do Bananal e outras villas de serra acima, do que si 
essa execução se desse em qualquer outra localidade na provincia. 

Em seguida devemos notar que o ouvidor, que devia preparar a 
sentença e dar as ultimas ordens para a execução dos conderanados, 
era D. Nuno Eugénio de Lossio Seilbz, retrogrado intransigente, em 
quem não podiam os Andradas ter a menor confiança. Também, o 
juiz de fora, encarregado de estar presente no campo da forca o de 
presidir a cerimonia da execução, era o dr. José da Costa Carvalho» 
que, si não era retrogrado de idéas estava por conveniências ligado 
aos portuguezes o reaccionários, era advtrsaiio dos Andradas e não 
podia merecer destes a miniraa confiança. 

D. Nuno Eugénio foi suspenso do cargo de ouvidor em 24 de 
Setembro de 1821, por conveniência do socego publico, e se lhe as- 
signou o prazo de dez dias para deixar a provincia ; passou Costa 
Carvalho a exercer as luncções de ouvidor e o presidente da camará, 
Nicolau de Siqueira Queiroz, assumiu o exercício do carg(» de juiz de 
fora. Estava dado o segundo passo, que era eliminar aquelle imper- 
tinente representante do poder colonial e, fazendo-o substituir por 
Costa Carvalho, permittir que a execução de Chaguinhas fosse presi- 
dida por Nicolau de Siqueira Queiroz, que não era suspeito aos bra- 
sileiros, comquanto não estivesse no segredo das combinações. 

Em Outubro desse mesmo anno de 1821, aggravou-se a situação 
politica no Rio de Janeiro, com as noticias alli chegadas das exigên- 
cias das cortes de Lisboa relativas ao Brasil, e tornou- se difíicil a 
posição dos Andradas no governo de S. Paulo Chegou, finalmente, 
a crise com a chamada do Príncipe Regente para Lisboa, por decreto 
das cortes, de 31 de Outubro, e a effervescencia popular subiu ao seu 
auge. Representações foram dirigidas de varias partes ao príncipe, 
para que desobedecesse áqaelle decreto e ficasse no Brasil. José Bo- 
nifácio foi enviado ao Rio nos primeiros dias de Janeiro de 1822, 
como portador de uma representação feita pelo Governo Provisório,, 



— O/ — 

em nomo dos paulistas, e a 23 desse mesmo raez seguiu também para 
lá um expleudido corpo de 1,100 homers, denominados leaes pau- 
listanos, sob o commando d^ Lazaro Gonçalves para ^itarnecer a 
Capital do Brasil e defendel-a centra os rebeldes poituguezes, chefla- 
d s pelo general Avillez 

Martira Francisco assumiu a vice-presidencia do Governo Provi- 
sório e, coraquanto ficasse privado do auxilio immediato de seu irmão 
ausente, a sua influencia no govtrno cresceu porque não tinha rival 
em talento, energia o rapidez do acção, e porque podia contar com o 
apoio do governo geral por meio de José Bonifácio, elevado a minis- 
tro a 16 de Janeiro de 1822 B a execução de Chaguinhas conti- 
nuava adiada para melhores tempos. 

Passaram-se os mezes de Janeiro, Fevereiro, Março o Abril de 
1822 ; os acontecimentos politicos caminhavam rapidamente para o 
seu desenlace natural e necessaric — a independência ; a situação foi- 
se aclarando e checou a opportunidade de se executar a sentença que 
condemnou Chaguinhas á morte o de salval-o dessa iramerecida 
pena (1). 

Era no mez de Maio, entre os dias 12 e 18, naquella estação do 
anno em que os dias já s^q relativamente curtos e as manhãs escu- 
ras de cerração nos valles dos rios Tamanduatehy e Tietê, que ba- 
nham a cidade de S. Paulo. Chaguinhas foi levado da cadeia, situa. 
da no largo Municipal, para o campo da For< a, que lhe ficava perto. 
Era entre onze horas da manhã e uma da tarde e muita gente tinha 
affluido ao campo para ver o triste espectáculo. Depois do cerimonial 
já escripto, foi o réu atirado ao espaço, tendo no pescoço fraca cor- 
da amarrada ao gancho do patíbulo. 

Rebentou- se naturalmente a corda amiga e o padecente, cabido 
no chão, foi coberto cora a bandeira da misericórdia (2) ; eram duas 
horas da tarde. O povo desceu ao palácio do governo para reclamar 
a commutação da pena, segundo o costume do tempo. Martira Fran- 



(1) Aqui é a tradição quem falia. Não ha documentoí comprobativos dos factos, 
mas também não ha provas em contrario á tradição. 

(2) A bandeira da misericórdia era atirada sobre o réu pelos religiosos que oficia- 
vam no acto da execução, sendo o paciente por elles recolhido em alguma casa vizinha 
até novos ordens. 



- 58 - 

cisco, directamente interessado no facto, se achava era palácio á es- 
pera de noticia. Quando esta chegou, foram convocados os outros 
membros do governo, residentes em varias partes da cidade, e ató 
que se reunissem todos, ou a maioria, discutissem o caso e tomas- 
sem uma resolução foram-se mais algumas horas. Negada a com- 
mutação, em grande parto pela influencia e pelo voto de Martim 
Francisco, voltou o povo descontente para o campo da fcrrca ; eram 
quatro horas da tarde ou talvez cinco. 

Procedeu- se a nova execução com corda nova, não examinada 
por pessoas entendidas ; osta, como a primeira, quebrou-se muito a 
tempo para deitar no chão o paciente cheio de vida. Veiu de novo 
cobril-o a bandeira de misericórdia, cmquanto o povo, nEo somente 
coramovido, mas indignado, horrorizado, descia outra vez ao palácio 
para parlamentear com o governo, que foi de novo convocado para 
considerar o extranho caso. 

O povo exigiu e o governo não cedeu, aqueile insistiu e esíe 
conservou-se inabalável, e Martim, que não tinha deixado o palácio, 
chegou mesmo a sahir a uma janella e dirigir-se ao povo c&m ex- 
pressões um pouco ásperas, sustentando a resolução do governo de 
não alterar a pena, que ficou mantida. Foram mais duas ou três ho- 
ras e quando resolvida negativamente a petição popular, voltou o 
povo ao logar do supplicio, era já noite avançada. Martim Francisco, 
entretanto, tinha tido tempo por meio de agentes secretos, dois dos 
quaes eram o carrasco e o carcereiro, de substituir na escuridão da 
noite o paciente Chaguinhas por uma figura humana bem preparada 
para o caso. a qual foi pendurada tio laço de couro, que ainda para 
ganhar tempo se mandou buscar ao matadouro publico, emquanto 
Chaguinhas era cautelosamente escondido na occasião e mais tarde 
ora enviado em segredo para Porto Feliz, a embarcar-se em uma das 
monções flnviaes que, nos mezes de Junho, Julho o Agosto, costu- 
mavam dalli sahir para Cuyabá, e naquella distante paragem ficou 
elle sem nunca mais voltar a S. Paulo. 

O povo, porém, ignorante desta substituição e açulado pelas in" 
trigas dos reaccionários, não perdoou a Martim Francisco o supposto 
supplicio de Francisco José das Chagas e alguns dias depois foi se 
juntar á tropa armada para depòl-o do poder e expulsal-o da pro- 



- 59 - 

vincia — revolução cómica em seus effeitos e por isso justamente al- 
cunhada A Bernarda de Francisco Ignacio. B Martim, que tão in jus- 
tamente soffreu por um acto que uão praticou, soube guardar tão 
profundo silencio a respeitO; que não consta que seus próprios filhos 
tivessem conhecimento da realidade dos factos. 

Mas elle teve amigos e cúmplices que o auxiliaram na pratica 
desta caridosa fraudo, e ?A alguns guardaram também absoluto silen- 
cio, outros transmittiram o segredo, sob reserva, aos so.s herdeiros, 
de modo qae hoje a historia apparece sob a forma do lenda e para 
muitos não merece credito. Examinarei no artigo seguinte tudo 
quanto encontrei escripto a respeito. 



IV 



O mais temeroso adversário dos Andradas foi o padre Diogo An- 
tónio Feijó, paulista como elles, pessoalmente honrado como elles, 
enérgico e incohcrente como elles, porem menos orgulhoso e mais 
accessivel do que elles. 

Feijó residia em Ytú, que no tempo da indep«mdencia era o 
maior centro do liberalismo paulista, e alli eram elle e Paula Souza 
os chefes reconhecidos e acceitos dos liberaes. Em 1823, quando D. 
Pedro, já imperador, tinha dissolvido a Assembléa Constituinte e su- 
jeito á apreciação das camarás raunicipaes o seu projecto de consti- 
tuição, que foi jurado a 25 de Março do 1824, Feijó fez a camará de 
Ytú dar paiecer contrario a diversas disposições daquella constituição 
e offerecer uma série de emendas, que, si não foram approvadas pelo 
imperador, serviram ao menos para patentear o espirito independente 
e liberal dos ytuanos e a influencia que Feijó exercia sobre aquella 
gente corajosa e progressiva. 

Eleito em 1821, em pleno Governo Provisório, deputado por S. 
Paulo ás cortes portuguezas, com António Carlos do Andrada, José 
Ricardo de Andrada, Vergueiro, Paula Souza e Fernandes Pinheiro, 
esteve Feijó ausente de S. Paulo todo o anno de 1822 e era Portugal 
esteve mais ou menos de accôrdo com António Carlos no desempenho 



— 60 - 

do sen mandato de deputado, cora ello fugiu de Lisboa para a Ingla- 
terra e ]á publicou o manifesto explicativo do sua conducta politica. 

A divergência entre Feijó e os Andradas deve, portanto, ter-se 
originado depois da volta de Lisboa e nâo tinha por base differenças 
profundas do vistas politicas, visto que na occasiào só se tratava da 
independência, que era defendida por elles, mas desaccôrdo completo 
sobre o raethodo, sobre os meios de agir, de José Bonifácio, minis- 
tro, com que Feijó não podia se accommo ar. Dahi vciu ser elle 
comdderado pelo ministério Andrada como homem anarchico e sedi 
cioso, digno de ser conservado debaixo da mais severa vigilância para 
se evitar a sua perniciosa influen:ia entre os seus comarcões. 

Por isto Feijó sentiu-se muito offendido, mais do que devia, por- 
que não tomou devidamente em consideração o facto de não estar 
ainda completa a independência, de não haver ainda uma constituição 
garantidora dos direitos o das opiniões do cidadão, e do governo ge- 
ral não passar ainda de uma dictadura sem outras restricções mais 
do que a vontade do Príncipe Regente e dos seus omnipotentes mi- 
nistros. Bile era muito intelligento e sufflcientemente instruído, para 
saber que é da natureza de todos os governos dictatoriaes e ainda 
mal firmados considerar toda a opposição como anarchia e todo o 
adversário como um inimigo, e que a independência encontrava op- 
ponentes não só nos portuguezes, senhores até então do paiz, mas 
também entre muitos brasileiros affoiçoados ao regimen colonial. 

A Bernarda de Francisco Ignacio e a victoria dos reaccionários 
de 23 de maio de 1822 eram muito recentes para estarem esqueci- 
das pelos Andradas e nellas tinham tomado parte activa muitos bra- 
sileiros, distinctos por sua posição social, para justificar no ministro 
José Bonifácio a duvida e o receio sobre a lealdade de grande nu- 
mero de seus próprios patrícios. 

A revolta do povo ytuano, amigo de Feijó, contra o governo do 
general João Carlos e a consequente confederação dos municípios do 
interior para ar defesa da liberdade e da idéa da independência con- 
tra os ataques dos retrógrados, acastellados no Governo Provisório, 
com a qual ^e cortaram relações que foram estabelecidas directamen- 
te com D. Pedro e seus ministros, vieram ainda mostrar que o espi- 
rito liberal paulista, representado por aquella confederação, formada 



— 61 — 

era boa parte de amigos de Feijó, estava com José Bonifácio e seu 
governo, de cujos erros e arbítrios não se cogitava naquelle momen- 
to deante da grandeza e sublimidade da causa que estava em jogo e 
que poderia sossobrar si não houvesse a necessária vigilância e ener- 
gia de acção. 

O próprio Feijó, quando ministro da Justiça durante a minorida- 
de de D. Pedro II, foi algumas vezes enérgico ató a violência con- 
tra aquelles que suppunha serem perturbadores da tranquillidade pu- 
blica e não devia extranhar que em um periodo de profunda transi- 
ção politica e social, mais grave áo que o 7 de Abril, José Bonifácio 
o fizesse espionar como homem perigoso para o socego publico e para 
a boa marcha da causa da independência. Naquelle tempo de ortho- 
doxia religiosa e de absolutismo por falta de uma constituição, com- 
batia Feijó o celibato do clero, sustentava idéas do mais avançado 
liberalismo e não queria ser qualificado do anarch<sta e de perigoso 
para a tranquillidade publica ! 

Dissolvida a Asserablóa Constituinte, em 1823, e deportados os 
Andradas para a Europa, onde ficaram em exílio por vários annos, 
D. Pedro outorgou a constituição jurada em 25 de Março de 1824, 
mas deixou por quasi dois annos de convocar as camarás legislativas, 
governando o paiz dictatorialmente, fuzilando os confederados do 
Equador, que tinham reagido contra o seu golpe de et-tado, e prepa- 
rando o governo absoluto permamente, para o que dispunha de boa 
força e de exceliontes conselheiros. 

Mas, em 1825, rebentou a revolta da nossa pro venci adi Cisplatina, 
seguida logo da derrota dos brasileiros em Sarandy, que obrigou 
D. Pedro a fazer marchar para o sul todas as forças de que dispunha 
ea convocar as camarás para 3 do Maio de 1826, ficando assim frustra- 
da a realização do plano de um governo absoluto, que aliás chegou 
a ser proclamado em Tauhaté, na Bahia e outros pontos, por Chi- 
chorro, Itaparica e outros sectários do absolutismo. 

Entretanto, Feijó, que muito se encommodava com os methodos 
de governo de José Bonifácio e Martim Francisco e com a espiona- 
gem e a devassa estabelecií^as por elles, como meios de assegurar a 
independência, deixou-se ficar vários annos em silencio, sem protestos 
e sem acção contra as violências de Pedro I, os fuzilamentos dos 



- ç>2 - 

pernambucanos, a tentativa de estabelecimento de ura governo abso- 
luto, regular e perraaraente, e não convocação dos corpos legislativos 
por tanto tempo. 

Era carta dirigida ao imperador, era 1823, Feijó affirmára a D. 
Pedro : 

« O Brasil deve a existência imlitica á vossa magestade^ e a sua 
prosperidade e gloria ao desinteresse, â liJberalidade e â justiça de vos- 
sa magestade. » 

c Tenlio o prazer de ver realisada cm parte a minha asserção. > 

< Vossa magestaàe acaba de salvar o Brasil da oppresssã) em que 
se achava, e ainda espero sô de vossa magestade o complemento de nos- 
sa felicidade. > 

José Bonifácio, sem ter uma constituição a obedecer, lançou mão 
da espionagem e da devassa, como meios de governo, para assegu- 
rar a independência do paiz, mas não fuzilou, nem enforcou ninguém, 
e isto encommodava ao austero liberalismo de Feijó ; mas D. Fedro, 
mesmo depois de outorgada a constituição feita por elle e imposta 
por elle ás camarás municipaes, não convocava o corpo legislativo, 
espionava, devassava, mantinha deportados os Andradas e outros, fu- 
zilava, enforcava e, por uma politica inhabil, provocava a revolta da 
província Cisplatina, e Feijó não se encommodava e deixava-so flcar 
em paz, plantando cannas de assucar em Campinas ou palestrando 
com os seus amigos cm Ytú. 

Tinha avançado demais na carta lisongeira que dirigiu a D. Pe- 
dro para voltar atraz e confessar que o imperador, que tÍ7iha jd rea- 
lizado em parte as asserções do mesmo Feijó, estava depois pondo em 
pratica methodos ainda poioros do que os de José Bonifácio e fal- 
tando inteiramente ao cumprimento dos seus deveres constitucionaes. 

Dizia um moralista que nunca se devia falar tanto mal de um 
inimigo que não se pudesse fazer cora elle uma honrosa reconcilia" 
Ção, nem dizer tanto bem de um araigo que não se pudesse brigai' 
cora elle por uma causa justa. Feijó falara tanto mal dos Andradas 
que uma reconciliação entre elles se tornou irapossivel, por muitos 
annos que ainda vivessem, e tinha emittido opiniões tão lisonjeiras 
sobre os serviços prestados por D. Pedro I e sobre as grandes quali- 
dades do seu coração, justo, liberal c magnânimo, que ficou impossi- 



- 63 - 

bilitadí de reagir, como devia, contra os desmandos iraperiaos. De. 
mais, os Andradas, as mais illustres victiraas desses desmandos, eram 
inimigos do Feijó e esto facto era uma attenuante para o seu pro- 
ongado silencio. 

Convocadas as Camarás Legislativas para 3 de Maio de 1828, 
Feijó foi eleito supplento e tomou assento na vaga do visconde de S. 
Leopoldo, eleito o escolhido senador, o foi reeleito em 1830 para a 
seguinte legislatura, eraquanto os Andradas continuavam deportados, 
— António Carlos e Martim Francisco, até 1828, quando voltaram ao 
Brasil o foram presos o processados por ordem do governo, mas ab- 
solvidos pela Relação do Rio do Janeiro, o José Bonifácio até 1829. 

Para os Andradas não hjivia mais logar na representação nacio- 
nal paulista. José Bonifácio, eleito deputado pela Bahia, em 18.29, não 
acceitava o cargo e retirava-se á vida privada, onde depois o impe- 
rador ia procural-o para o desempenho das altas e dlfQceis funcçõcs 
de tutor dos príncipes menores ; Martim Francisco era eleito por Mi- 
nas Geraos para o quatrienio tempestuoso e revolucionário de 1830 a 
1833, e António Carlos, a maior gloria da tribuna brasileira, que 
soffrôra quatro annos do prisão por amar a liberdade de sua pátria, 
não foi eleito por parto alguma, emquanto Costa Carvalho, bahiano, e 
Monteiro do Barros, mineiro, eram eleitos deputados por S. Paulo. 

José Bonifácio e António Carlos não sendo deputados, Martim 
Francisco encontrou-se sósinho em frente de Feijó e a lucta, inter- 
rompida era 1823 com a deportação dos Andradas, recomeçou com 
intensidade e azedume. Feijó, que desde Julho de 1831 exercia o car- 
go de ministro da Justiça, desenvolveu extraordinária energia contra 
os Andradas o o partido restaurador de Pedro I, em via de organiza- 
ção, de que se dizia que elles eram chefes, o nesta lucta o ministro 
niiraoseava os seus adversários com os mais feios epithetos — interes- 
seiros, pérfidos, hypocritas, etc, e era por elles retribiiido com egual 
liberalidade. 

Na sessão da camará de 10 de Maio de 1833 Feijó apresentou o 
seu relatório como ministro da Justiça, fazendo-o acompanhar de al- 
gumas palavras que não foram tomadas pelos tachygraphos. Apenas 
o ministro acabou de falar, levantcu-se Martim Francisco e pronun- 
ciou as seguintes palavras : 



- 64 - 

«Sr. presidente :—Levanto-me para pedir que, com urgência, seja 
lemettido o relatório do ministro da Justiça ás coramissões lembradas 
por V. exc, aflm de qae dôra o seu parecer com a maior brevidade 
possível, embora eu conheça que alguns de seus membros sao nossos 
inimigos notórios, o qufl é confirmado pelo apoiado de um delles, que 
eu pago na mesma moeda, sem urdir-lhe calumnias, e que eu não 
temo qualquer que seja o furor d) seu ódio gratuito. 

«Este relatório encerra uma maligna accasação contra meu illus- 
re irmão, o tutor, contra seus irmãos e, disfarçadamente, contra ou- 
tros illustres deputados. E todavia vós ouvistes o ministro de Justiça : 
está bem ; novos Lafayettes, nós nos entregamos de bom grado á 
voracidade de similhante abutre e seus comparsas; nós confundire- 
mos a calurania e, qualquer que seja o êxito, o mundo civilizado, os 
contemporâneos imparciaes e a posteridade nos farão justiça... > 

Na sesssão de 12 de Maio, dois dias depois, ainda Martim Fran- 
cisco subiu á tribuna e analysou os actos do ministério em compara- 
ção com os do ministério dos Andradas, em 1822-23, qualificando-os 
de illegaes, tyrannicos, criminosos e atrozes. 

Nas sessões de 19 e 20 de Maio, os deputados Carneiro Leão e 
Evaristo Veiga tomaram a defesa do ministério e, em represália, di- 
rigiram a Martim Francisco palavras pesadas, entre as quaes se no- 
tam a seguintes : 

«Feijó hypocrita ! Bis a accusação mais incrível e fora de razão 
que se possa ouvir e que todo o mundo que o conhece de perto não 
poderá acreditar. Antes são hypocritas aquelles que em 1822, abra- 
çando-o ternamente na hora da sua despedi d. i, ligavam um espião aos 
seus passos para o vigiar como revolucionário . > 

Estas palavras são de Evaristo Veiga e se referem á espionagem 
de Feijó por ordem do ministério Andrada, quando os dois irmãos, 
ministros em 1822, haviam ternamente abraçado o mesmo Feijó por 
occasião de sua partida do Rio de Janeiro para S. Paulo, de voltíi 
dis cortes portuguezas. 

Em resposta a Evaristo, na mesma sessão, Martim Francisco 
dissera que não era hypocrita porque não temia dizer o que sentia, 
que nunca mandara espancar cidadãos adoptivos e que no tempo do 
ministério dos Andradas não houve procedimento ofiScial contra Feijó, 



-. 65 — 

raas apenas uma portaria á policia para quo o flzosse vigiar, por ter 
o padre Fpíjó procurado José Bonifácio com certa obra que apregoava 
idéas republicanas!. Proseguiu ainda Martira na analyso dos actos de 
Feijó como ministro da justiça e falou em prisões, denioia d»^ pro- 
cessos, roubos o assassinatos, sendo quo a segurança publica era tao 
pouca que até os tinteiros da mesa da Camará d^s Deputados ti- 
nham sido roubado8. 



A resposta do Feijó, dada na sessão do 22 de Maio, ó curió, a e, 
porque faz uma importante allusEo aos íactos occorridos em S- Pau- 
lo em 1(S22, julgo dever traní» r vel-a na parte mais interessante: 

«Sr. presidente, bera desagradável é o espectáculo que está dan- 
do a Camará dos Deputados á nação brasileira. Até o presente ser- 
vem as injurias, ultrajes e insultos e nada mais ! . . . 

«Eu de propósito não res onderei as injurias de um sr. deputa- 
do, quo desde os flns da sessão passada tem-se feito celebre pelo seu 
ar de escarneo o de ridiculo, quo lança sobro todos a quem combate... 

«Sr. preridente, outro sr. deputado (Martim Francisco) avançou 
que o meu relatório era a hypocrisia e a ferocidade personalizada 1 
B' muit ) difflcil supportar similhanto insulto! Pois imputa-se hypo- 
crisia a ura homem que faz gosto de dizer a verdade, quando aos 
mais custa ianto?... Será, como disse, porque fali era Providenc a 
Divina? Não sou athêu, não s^ou impio, e me ó dado recorrer á Pro- 
videncia Divina, reverenciai a e respeital-a. Senhores, o Rcto mais 
franco e sincero do meu relatório é para o sr. deputado a prova de 
minha hypocrisia 1 Pois quando eu declaro quo não espero da As- 
sembléa Geral renedio aos males públicos, quando, em tudo, o meu 
relatório não attribuiu á ella nem prudência, nem sabedoria, sinão 
quando me retiro a lei de 26 de Outubro, e tão claramente affirma 
que o futuro que se me antolha é ainda mais melancholico si a Di-. 
vina Previdência não dirigir os importantíssimos trabalhos da pre- 
sente sessão, ó quando sou taxado de hypocrita ? Senhores, eu pre- 
via a marcha da Camará. Os excessos da opposição não me eram 



— ÔCy - 

desconhecidos, e cada dia conheço que nao mo enganei era ter só 
recurso á Divina Providencia. Só ella poderá soccorrer o Brasil con- 
tra os esforços dos facciosos, o oxalá que eu mo engane ! 

Comparemos factos e vejamos quem é hypocrita : —Despedir com 
abraços a ura horaera, charaal-o patrício honrado em que se confia 
haja de promover a prosperidade do paiz para onde parte, e no pri- 
meiro correio mandar que esse mesmo homem seja vigiado por todos 
os meios occultos porque aos sentimentos anarchicos o sediciosos une a 
mais refinada dissimulação ; isto sim é hypocrisia. Feijó não faz 
tanto ! . . .' 

50 orador, fazendo a defesa do seu governo, procura refutar a 
accusação de ferocidade, que atira sobro os seus adversários, o se 
refere aos factos occorridos em S. Paulo, era 1821— 22, nos seguintes 
termos : 

«Sr. presidente, o que entendo por ferocidade é isto : 

<í Mandar enforcar homens, tendo ainda recurso legal contra a j)ri- 
meira sentença. Sr. presidente, eu vi com meus olhos na minha pro- 
víncia. Era o primeiro espect 'culo : a curiosidade chamou-me úquelle 
logar. O desgraçado pendurad» cahiu por haver se cortado a <:orda. 
Recorreu-se ao governo da provinda pedindo qne se demorasse a exe- 
cução emquanto se implorava a clemência do príncipe regente. ÂIU' 
gou se não haver corda própria para enforcar, mandou que se usasse 
laço de couro. Foi-se ao açougue bu9car o laço; o imfeliz foi de 

NOVO PENDURADO, MAS INSTRUMENTO NÃO ERA CAPAZ DE SUFFOCAR 
COM PRESTEZ . CoRTOU-SE A CORDA E O MISERÁVEL GAHIU AINDA SEMI- 
VIVO ; ja' em terra foi acabado de assassimar ! 

«Senhores, isto 6 que eu charao ferocidade ! Eu nunca odiei o 
ainda hoje tenho horror do proferir este pensaraento : <0 sangue do 
inimigo é mui saboroso para beber-se de um só trago.» Isto é que 
é ferocidade. Note-se que aquelles desgraçados foram julgados no 
conselho supremo não dignos do raorto (l) ; mas já estavam mortos ! 
Sr. presidente, eu não desejava atjlar-me no charco immundo de re- 
cíprocos insultos; mas... 



(1) Feijó aqui está inteiramente encanado si se refere a Chaguinhas e outros sedi- 
ciosos de Santos, estavam condemnados á morte e com a sentença devidamente confir- 
mada por quasi unanimidade do Governo Provisório. 



— 67 — 

Passou em seguida Feijó a historiar alguns factos relativos á 
revolta palaciana de 17 de Abril e a conspiração do partido caraniu- 
rú, e proseguiu do seguinte raodo : 

« Disse-se que se fez íogo no theatro a cidadãos inermes, e serei 
criminoso pelos tiros que ouvi já deitado na minha cama? Acaso eu 
ordenei que se dessem ? Si é pela approvação que dei, segundo a ex- 
posição do juiz de paz, na occasião em que esta Gamara procurou 
instruir-se do facto ? Mas si tal exposição é verdade nenhum crime 
então se commetteu. 

c Disoc-se que quando foram combatidos os rebeldes mataram-se 
homens que com as mãos postas supplicavam a vida ? Acaso dirigi eu 
a acção ? Mandei eu que taes mortes se fizessem? 

« Alguém já representou sirailhante injustiça ? Porque razão hei 
de eu carregar com acções alheias? * 

Presumem alguns que a horrivel execução que Feijó vm com seus 
olhos foi a de Chaguinhas, Na narrativa que elle acima fez do que 
viu, osqueeou-se de dizer o anno, raez, dia e hora em que o facto se 
deu e o nome do condomnado, que parece ter sido um só, quando Cha- 
guinhas estava em companhia do ura outro condemnado, Joaquim Oo- 
tindiba, seu cúmplice na sedição de Santos. 

Feijó não residia era S. Paulo, mas em Ytú, o tinha lavoura em Cam- 
pinas. EUe estava era S. Paulo de passeio, ou de passagem para Lis- 
boa como deputado ás cortes portugiiozas. Aqui estando e sabendo que 
havia execução no Campo da í'orca, lá foi por curiosidade, assira 
como quasi todo o povo desta Capital. 

O que elle diz ter visto com seus olhos parece mais ser effoito 
de uma illusão óptica sobre um espirito fortemente impressionavel do 
quo um facto real, ou tambera pôde ser consequência de esquecimento 
de um facto pouco importante era relação a tantos outros factos gra- 
víssimos do agitado período de 1821 a 1832, porque é incrível que os 
factos se dessem como foram por elle narrados, porque a historia dos 
Andradas não justifica tanta perversidade e porque nenhum chronista 
jamais mencionou taes circumstancias. 

Disse Feijó que não era responsi, el pelas violências de seus 
agentes, praticadas em um theatro fluminense quando elle já estava 
deitado na sua cama e quo não tem culpa do quo se assassinassem 



— 68 - 

rebeldes vencidos que, cora as raaos postas, imploravam misericórdia, 
porque nao foi elle quem dirigiu a acção e mandou praticar essas 
mortes; mas quiz imo^tar, á flna força, a Martim Francisco a nao 
eommutaçâo da pena ao condemnado depois da corda ter se rebenta- 
do, quando MartLm apenas era um dos quinze membros do Governo. 
Provisório de S. Paulo ; e deu a entender que o laço de couro, applir 
cado no pescoço do enforcado nao produzindo asphyxia immediata, 
Martim Francisco ordenara que o carrasco cortasse o laço e aca* 
basse no cliâo com a vida do condemnado, quando Martim nao estava 
na Campo da Forca, mas no palácio, a um kilomotro do distancia, e 
nfto havia tempo para vir um aviso ao palácio e ir a ordem para 
o pac ente ser morto, no chão, á faca ou por outro qualquer ins- 
trumento. 

O ministro da Justiça de 1832 nao era responsável pelos actos 
dos sous; agentes nos morticínios do Rio de Janeiro, quando mesmo 
nao punia esses agentes ; porém, Martim Francisco era responsável 
até pelus actos dos carrascos, quando o Governo Provisório se com- 
punha de 15 membros ! 

Deraa s si tal lacto produziu tanto horror no espirito do Feijó, 
a ponto de dez annos mais tarde fazer elle a descripção que acima 
vime , quando tantos acontecimentos importantes tinham occorrido 
nesse intervallo e de alguma forma deviam ter obliterado na sua 
memoria as circurastancia que o rodearam, porque guardou elle silen- 
cio por tantos annos o só veiu expandir-se em represálias contra 
Martim Francisco quando se tornou seu inimigo rancoroso? 

Está claro que ha em toda esta accusação do Feijó um grande 
fundo do despeito o de ódio, que o tempo não conseguiu apagar © 
que o acompanhou até a sepultura. 

l*areco pela narrativa por elle feita que o facto se deu antes da 
sua partida para Lisboa, em fins de 1821 ou nos primeiros dias do 
18;-^, quando não existe documento ofificial algum que prove que- 
Chaguinhas fosse enforcado antes de Maio de 1822, época em que 
Feijó já estava em Lisboa, como não era natural que o horror pro- 
duzido no espirito publico por essa execução ficasse incubad > por 
por tantos mezes para só explodir a 23 de Maio de 1822, por occa- 
siâo do A Bernarda. 



- 69 - 

Os historiadores e chronistas não fazem a narrativa do suppli- 
cio de Chag;uinhas e quasi todos os que se referem A' Bernarda di- 
zem que foi o effeito de dissensões entre o general João Carlos e os 
Andradas. 

Américo Brasiliense diz que com a ida do Josó Bonifácio para o 
Rio de Janeiro flcou João Carlos com mais liberdade de acção e cres- 
ceu-lhe a esperança de manter a influencia portugueza, que para bera 
firmar-se só precisava da eliminação do Martim PYancisco. Passa em 
seguida a repetir o que sobre A Bernarda disso Machado de Oliveira, 
no seu Quadro Histórico, sem eraittir um juizo critico, e nada diz 
sobre o supplicio do Chaguinhas que para elle foi como si não tives- 
se tido logar. 

Pereira d-< Silva, narrando os factos de 23 de Maio, diz que 
João Carlos o Costa Carvalho eram olhados da o/'posição libtral flv- 
minense contra José Bonifácio e não perraittiara que prepondei assem 
em S. Paulo o voto e os interesses dos Andradas, e que dahi veiu 
a chamada para o Rio de Janeiro de ./oão Carlos e Costa Carvalho, 
pela portaria de 10 de Vlaio de 182?, que irritou o povo o produziu 
a expulsão de Martim Francisco. Não toca em Chaguinhas. 

Lopes de Moura apenas diz que. tendo havido em S. Paulo al- 
gumas desavenças entre João <"arlos e a ramilia Andrada, D. Fedro 
aqui veiu o nos campos do Ypiranga proriamoi! a independência Ar- 
mitage somente diz que Martim Francisco foi expulso por desavenças 
com João Carlos de Oeynhansen. .-as narrativas de Varnhagen e de 
Fernando Diniz não alcançam o tempo de A Bernarda. 

Abreu e Lima diz que, em consequência de dissensões occorridas 
entre o presidente da junta governista (João Carlos) e Martim Fran- 
cisi-o, partiu D. Pedro para 3. Paulo e aqui proclamou a indepen- 
dência. 

Basílio do Magalhães, nas suas Licçôes de Historia do Brazil, limi- 
ta-se a dizer que tondo apparecido graves divergências em S. Paulo, 
para aqui partiu o principe, que, depois de ter captado a confiança 
geral, proclamou a independência. 

Constâncio não fala na vinda do principe a S. Paulo, nem do 
grito do Ypivanga e menos ainda sodre A Bernarda de Francisco 
Ignacio. 



— 70 — 

Mello Moraes, na sua Historia do Brazil, affirma quo Costa Car- 
valho e Francisco Ignacio de Souza Queiroz minavam os ânimos com 
insidiosas insinuações e agitavam a província, por serem representan- 
tes do partido reaccionário ; porôra, não se refere a A Bernarda. En- 
tretanto, deixando o seu papel de historiador para assumir o de pam- 
phletista politico, diz que Josó Bonifácio nao queria a independên- 
cia de sua pátria pelo receio de que seus interesses, como pensio- 
nista do Estado, perigassem se adherisse a qualquer pronunciamento 
de separação, e para que concorresse para o movimento que es- 
tava-se operando no Rio de Janeiro foi instigado por seu irmão 
António Carlos, que não cessava de escrever-lho de Lisboa pedindo 
a sua franca intervenção em favor da causa da independência do 
Brasil. 

Esta afflrmação de Mello Moraes é contestável por mais de ura 
lado. José Bonifácio era muito mais velho, mais instruído e não 
menos hábil do que António Carlos e não é de cror-se que só agisse 
debaixo da influencia daquelle seu irmão, que era mais moço, mais 
exaltado e menos prudente. Demais, António Carlos estava ainda 
em viagem para Lisboa, era Janeiro de 1822, quando José Bonifácio 
partiu para o Rio, levando enérgica representação, afira de convencer 
o Príncipe Regente que ficasse no Brasil, e este pedido importava de 
alguma tórma em um primeiro passo para a independência, que era^ 
consequência lógica daquella rebeldia do príncipe contra os decretos 
das cortes constituintes de Lisboa. 

Machado de Oliveira, no seu Quadro Histórico, citado por Amé- 
rico Brasiliense, apenas diz que «o denominado Chaguinhas, a quem 
se imputava a origem da aniiuação para o rompimento da revolta de 
Santos e para todas as phases criminosas que apparaceram de en- 
volta com o seu andamento, foi trazido á Capital e aqui suppliciado, 
em cujo acto occorreram tristes episódios, aproveitados acintemente em 
accrescimo á animadversão injusta em que incorrera um dos membros- 
proeminentes do governo. Adeanto accrescenta elle que os auctores de 
A Bernarda tirarara partido da vaga imputação que se fez a Mar- 
tim Francisco do rancor que patenteou no acto da execução do fau- 
tor da revolta militar de Santos» ; mas, não nos conta quando essa, 
execução teve logar. 



— 71 — 

o dr. Paulo do Valle, que, como Machado do Oliveira, foi con- 
temporâneo dos factos e ora dado a estudos históricos, foi egualmente 
omisso quando narrou os acontecimentos do 23 de Maio de 18.22 e 
somente disso o seguinte em reLção a Chaguinhas : 

«O motim militar de Santos, de 28 de Junho de 1821, favoreceu o 
partido de Francisco Ignacio e proporcionou-llie meios fáceis de con- 
jurar os paulistas contra Martim Francisco. A execução capital do 
infeliz Chaguinhas, tão accuraulada de episódios tristes, excitou a 
piedade publica com essas mesmas demonstrações vivas e brilhantes 
que formam, por assim dizer, uma apotheose sentimental a estas 
grandes victimas da auctoridade no generoso coração do povo.> 

Pelo que dizem estes dois chronistas devemos suppor que os 
retrógrados não tinham, por si sós, elementos para deporem Martim 
Francisco do poder e que foi preciso que a indignação produzida no 
espirito publico pelo supplicio de Chaguinhas viesse favorecer o seu 
intento e facilitar a realização de A Bernarda, que, portanto, devia 
ser ura facto recente e vivo na memoria do povo. 

Assim como as tempestades do mundo physico só tora logar 
quando a athmosphera está carregada de vapores e de electricidade, 
também as explosões populares só se dão quando o coração do povo 
está saturado do indignação e de horror e não mezes depois, quando 
o facto incriminado não é mais da actualidade e a impressão quo 
causou está já obliterada pela influencia de outros acontecimentos 
posteriores mais graves o do maior alcance politico o social. 

Comparemos as poucas datas registradas pelos chronistas e exa- 
minemos si Feijó podia ter assistido ao supplicio de Chaguinhas para 
fazer dello a narração que acima vimos. 



VI 



Aá cortes constituintes de Portugal foram installadas em 26 de 
Janeiro de 1821. Os deputados, que nellas deviam representar o 
Brasil, foram eleitos nesse mesmo anuo de 1821, em vários mezes, 
conforme as ordens dos governos das diversas circumscripções poli- 
ticas em que o paiz estava então dividido. 



— 72 — 

Os deputados por S. Paulo orara António Carlos, Vergueiro, Feijó, 
J)sé Ricardo de Andrada, António Paes de Barros e António Manoel 
da Silva Buono, sendo estes dois uUinios supplentes do Pdula Souza, 
que náo foi tomar assento por doonto, e de Fernandes Pinheiro, qae 
optara pelo Rio Grande do Sul. 

Nenhum dos historiadores, rhronistas o biographos, que tenho 
consultado, tos dá os tempos das partidas destes deputados para o 
desempenho dos seus mandatos. Pereira da Silva, que ó o mais mi- 
nucioso, somente nos diz, na sua Historia da FundaçAo do Império, 
que os primeiros que chegaram a Lisb -a foram os representantes de 
Pernambuco, que tomaram posse a 29 de Agosto de 18:2l, sendo se- 
guidos de perto pelos do Rio de Janeiro, que tomaram assento em 
10 de Setembro, e que na sessão de 31 de Janeiro de 1832 António 
Carlos e Vergueiro f aliaram pela primeira vez (1). 

António Carlos e Vergueiro não eram homens que estivessem 
ora uma assembléa politica como aquella e se conservassem calados 
por muitos dias, principalmente estando ora jogo as idéas do liber- 
dade e os mais altos interesses brasileiros. E', portanto, provável 
que elles tivessem chegado poucos dias antes, em fins de Janeiro de 
1822. A única nota qae encoQtro sobre a chegada do Feijó está nos 
Apontamcntis Históricos, de Azevedo Marques, pela qual se verifica 
que elle tomou assento ora Fevereiro do 1822, sem se precisar em 
que dia do mez. B' provável que tivesse ido com António Carlos e 
Vergueiro e que, cançado e enfraquecido por uma longa e penosa 
viagem, tomasse alguns dias de reparador descanço para depois en- 
trar nas lactas parlamentares. Dahi a differença de alguns dias en- 
trp a sua posse e a dos seus dois companheiros (2 . 

As viagens marítimas naquelle tempo eram diíiceis, demoradas 
e feitas em navios de vela, e gastavam-se raramente men )S de cin- 
coenta dias no transito do Rio de Jan^^iro á Lisboa e muitas vezes 



(l) Pereira da Silva enganou-se : António Carlos falou pela primeira vez em 
data de 11 de Fevereiro, tendo tomado assento pouco antes. Vide Annaes da Consti- 
tuinte de Lisboa „ 

ip.) António Carlos e Vergueiro eram práticos de viagens marítimas, emquanto 
Feijó embarcava-se então pela primeira vez. 



dois. três o raais raczes (t). A partida do Feijó de S. Paulo deve ter 
tido logar antes da ida de José Bonifácio para o Rio, ista é, antes 
do 3 do Janoiío de 1822, para se poder explicar a sua prosenva em 
Lisboa cm Fevereiro desse anno, com a demora de cincoenía dias do 
viagem Quando muito tarde oJle devia ter partido de S. Paulo a 1.» 
de Janeiro do 1822. 

Porôm, Feijó aíBrmou que antes de deixar esta Capital assistiu 
ao horroroso supplicio de um individuo, cujo nome nâo deu, e des* 
croveu o facto de modo a indicar que se referia a Chaguinhas. Esta 
execução, portanto, deve tor-se realizado em Dezembro de 1821 ou 
ainda antes. Neste caso, José Bonifae o, que entáo estava ainda em 
S. Paulo, deva ter tomado parte nas tristes peripécias que rodearam 
aquella execução, e Martim Francisco, que era monos preominenie do 
que elle no governo, não teria representado tão grande papel nessa 
tragedia e não teria sido o único, com o brigadeiro Jordão, responsa- 
bilizado pelo odioso acontecimento, como o foi então e ainda mais 
tarde, até a sua morte. 

A^ chronicas do tempo falam na presença de Martim Francisco 
no palácio durante as longas horas da execução e a tradição até faz 
referencias a certas palavras ásperas que elle, de uma das janellas, 
dirigiu ao p 'vo, no largo, quando insista no seu pedido de comrau- 
tacão da pena do morte depois do duplo rompimento da corda ; porôm, 
nem nas chronicas, nem na tradição, nem nas innumeras accusações do 
que José Bonif^icio foi victima, se encontra a menor referencia á sua 
presença no palácio e á sua participação na recusa do, governo da 
conimiitação daquelle pena. Devemos entender, portanto, que José 
Bonifácio já não estava em S. Paulo quando ('haguinhas foi enforcado, 
mas no Rio de Janeiro, e que Feijó já estava em Lisboa ou em cami- 
nho para lá e não assistiu, como se suppõe, ao supplicio de Chaguinhas. 

Ha ainda em favor desta hypothose o seguinte argumento, qao 
me parece ser de algum valor histórico : 

O coronel Lazaro José Gonçalves era o coramandante chefe dos 
caçadores, dos quaev o l.o batalhão estava aquartelado em Santos o 



(1) Da esquadra que trouxe D João VI e sua família, o navio mais rápido, chama- 
do Voador, veia de Lisboa ao Rio Janeiro em 46 dias; os outros navios gastaram mais 
de 50 dias. 



— 74 — 

o 2.0 nesta Capital. Dissolvido o 1." batalhão, em consequência da 
revolta do Santos o saquo daquella praça, os que foram julgados in- 
nocentes pelo conselho de guerra, que fez o seu processo, foram an- 
nexados ao 2.» batalhão desta Capital. Os conderanados a carrinho e 
a morte, comquanto desligados do batalhão pela sentença, a elle conti- 
nuavam a pertencer pelo juramento da bandeira- Assim, as medidas 
tomadas sobro estes sentenciados pelos poderes competentes eram 
communicadas áquelle coronel para sciencia sua o de seus comman- 
dados. 

A 11 de Maio de 1822 expedia o Governo Provisório um aviso ao 
mesmo coronel para que fizesse executar as sentenças passadas aos 
réus do seu batalhão pelos crimes commettidos p^r occasião do mo- 
tim de Santos. 

O aviso nao nos diz quem eram estes réus, mas entendo que 
não podiam ser outros sinão Chaguinhas e seu companheiro Cotin- 
diba, porque os outros havia já muitos mezes que ou tinham sido 
enforcados nas vergas de um navio portuguez em Santos ou estavam 
applicados em trabalhos forçados nas estradas da província, e porque 
a sua execução na véspera do dia 23 do Maio, tendo produzido ver- 
dadeira e profunda indignação popular, serviu de excellente instru- 
mento nas mãos dos reaccionários para a realização dM Bernarda 
de Francisco Ignacio e consequente deposição de Martim Francisco do 
poder e sua expulsão de S. Paulo. 

As chronicas, os documentos officiaes que tenho compulsado, a 
comparação das datas, já não falando na tradição, tudo vai de en- 
contro ás afarmaçõe-; feitas por Feijó dez annos depois do facto, 
quando, cheio de indignação e de ódio, atirou no parlamento ás faces 
de Martim Francisco aquella medonha objurgatoria. O suppliciado a 
quem Feijó se referiu não pôde ter sido o Chaguinhas ; depois de dez 
annos de violentas commoções pessoaes e politicas, em que não so- 
mente a causa pablica estava em jogo, mas também muito ódio & 
muito despeito, era natural alguma confusão dos factos secundários e 
dahi aflftrraações incongruentes e inexplicáveis. E' verdade que Martim. 
Francisco defendeu-se mal da accusação ; porém uma ruim defesa nem 
sempre quer dizer quo a causa é má e, demais, elle devia sentir-sa 
coacto para descobrir segredos quo não eram somente seus. 



- 75 — 

VII 

A demissão dos Andradas de seus cargos de ministros do Es- 
tado, devida em grande parte á perniciosa influencia que sobro Pedro I 
exerciam a cortezá marqueza de Santos e a sua roda politica, cujas 
demasias elles tentaram reprimir, e a sua deportação para a Europa 
onde ficaram por tantos annos, deixando o paiz entregue aos seus 
inimigos possoaes e politicos e ás leviandades estouvadas do Impera- 
dor, deviam ter creado para elles, na sua pátria, uma atmosphera 
saturada de má vontade o do enredos difflcil de dissipar, e o seu 
procedimento, de apparente incoherencia, depois da queda de D. Pe- 
dro I, de alguma forma veiu dar visos de verdade a muitas das ac- 
cusações que contra elles se tinham levantado. 

Accusados de déspotas como ministros, em 1822 — 23, quando o 
governo era absoluto, porque não havia uma constituição garantidora 
dos direitos do cidadão, nem leis ordinárias que regulassem a marcha 
da administração, as violências que praticaram não revelam aquolle 
alto grau de perversidade que Feijó attribuiu a Martim Francisco, 
quando descreveu a execução de uma pena de morte a que assistiu 
nesta Capital, nem foram de nat^^reza tão grave como as violências 
commettidas no Rio de Janeiro com a responsabilidade de Feijó, 
como ministro da Justiça. Entretanto, em 1822 — 23 não somente não 
havia constituição o leis regulamentares, como se tratava da grande 
causa da independência contra inimigos externos e internos, e em 
1832 havia constituição e leis ordinárias e as discórdias eram pura- 
mente intestinas. 

Accusados ainda de incoherentes foram os Andradas porque pre- 
sos e conservados em exilio durante annos por Pedro I, se fizeram 
partidários da restauração do imperador decahido, com inteiro esque- 
cimento das injustiças que soffreram. A incoherencia aqui é mais 
apparente do que real, porque trata-se mais de uma questão de factos 
do que de principies. Monarchistas accerrimos antes da sua deporta- 
ção, continuaram a sel-o em todos os tempos, até a sua morte, e 
estavam no caso de preferirem a ordem, com a restauração de Pedro I, 
á anarchia que se apoderou do palz em seguida a revolução de 7 de 
Abril. 



- lio - 

Nestj terreno nào era ainda Feijó o mais competente para atirar- 
lhes censuras, porque nos deu o exemplo das mais flagrantes incohe- 
TGíicias politicas. Liberal exaltado cm 1821—23, a ponto do trazer 
da Europa livros de idéas republicanas e leval-os a José Bonifácio, 
ministro, e de se irritar contra a espionagem exercida pelos Andra- 
das, como meio de governo em um tempo em que a formação da 
nossa nacionalidade estava em perigo, nao reagiu, nem protestou, 
contra os fuzilamentos, enforcamentos, deportações e outras violências 
de Pedro I depois de promulgada a constituição de 1824; fez-se res- 
ponsável, como ministro da Justiça, por muitas atrocidad s praticadas 
contra os sediciosos do Rio do Janeiro, em 1831—32, e como regente 
do império, em 1835 — 37, abriu lucta contra tod'S os [rincipios libe- 
raes que antes professava, porque «o seu caracter duro e tenaz 
o constituia em perpetuo antagonismo cora o regimen representa- 
tivo, que ó todo de ponderações e de equilíbrio. Não queria aceei- 
tar as consequências do systema constitucional o a sua presença na 
regência devia ser uma lucta contiaua com as exigências parlamen- 
tares (1)>. 

Entretanto, descendo do poder, voltaram-lhe as idéas liberao-? 
ainda mais exageradas do que em 1822 e as leis reaccionárias de 
1841 vieram encontrar nelle opposição violenta, a ponto de fazer se 
chefe de rebellião armada e de assumir a responsabilidade moral 
e criminal do tresloucado e desastroso movimento revolucionário 
de 1842. 

A tradição da fuga de Chaguinhas está hoje muito generalizada 
entre os velhos e muitos moços de São Paulo e Santos e tem- mo 
sido narrada por varias vezes e por diversas pessoas^, com pequenas 
variantes em detalhes sem importância. Ouvi-a narrada pelo coronel 
Francisco Martins d- s Santos, velho honrado e intelligente, que mo 
garantiu que essa fuga era conhecida do alferes Francisco Martins 
Bonilha, meu bisavô e amigo dos Andradas ; ouvi-a da bocca do velho 
Paula Marques, empregado da Escola Normal desta Capital, que a 



(t) Vide Estudos Históricos, de Homem de Mello. Este escriptor, paulista e admi- 
rador de Feijó, dá ainda a entender que Evaristo Ferrpíra da Veiga morreu de desgosto 
ao vêr que Feijó, como regente, não correspondeu de modo algum á espectiva do par- 
tido moderado, que o elegera e do qual o mesmo Evaristo era o chefe. 



— u — 

ouviu por mais de uma voz contada pelo velho dr Manoel José Cha- 
ves, lente do Curso Annexo á Academia de Direito de S. Paulo ; 
ouvi-a ainda referida pelo cidadão P. C. de Almeida Moraes, membro 
do Instituto Histórico de S, Paulo, negociante em Santos e muito, 
entendido om historia moderna de S. Paulo, qne me affirmou tel-a 
ouvido também do 'velho Bueno, de S Vicente. 

Feijó ó o uniro testemunho do certo valor qué existe contra ella, 
mas as suas affirmaçõos se resentem de muita animosidade, de muito 
ódio, e vieram muito tardiamente para merecerem credito. Só elle e 
mas ninguém viu o laç'^ do couro não ape tar bastante o pcí^coço do 
paciente para prodiidr a morto por asphyxia ; só ollo percebeu que 
um aviso disto fôra enviado a Martim Francisco, em palácio, a um 
kilometro de distancia, e que Martim mandara ordem ao carrasco 
para que cortasse o laço e no chão desse cabo da vida do condem- 
nado á faca ou com qualquer outro instrumento, cujo nome não nos 
quiz transmittir ! 

A tolas estas accusaçõos de perversidade, ambição e incohorencia 
e ainda a outras de que os Andradas foram victituas, responde ter- 
minantemente o ultimo acto de Pedro I como imperador do Brasil, 
mais signiíicativo do que o mais eloquente panegyrico. Ao deixar 
para sempre os seus filhos menores no paiz, que ficava entregue 
á revolução victoriosa o á anarchia, D. Pedro não foi procurar 
.?ntro os que lhe escreviam cartas laudatorias, nem entro os fa- 
bricantes de Bcrnard>/s, nem entre os que o aconselharam a 
dissolver a Assembléa ConsUt/iinte e deportar vários dos seus 
membros, nem entre os juizes de Ratclifif e os carrascos de Frei 
('aneca, um homem de bem a quem confiasse a tutela e a educação 
das iniperiaes creanças ; mas foi buscal-o na pessoa de Josô B /nifa- 
cio, entre os Andradas, entro aquelles mesmos que elle, mal aconse- 
lhado pelos aulicos, prendera e banira por tantos annos porque não 
tinham querido lisonjear a sua vaidade, nem sabido condescender 
com os seus desregramentos e devassidões. 

E a gratidão nacional, quando meio século depois, em uma praça 
publica da Capital do Imporio, levantou um monumento á memoria 
do PATRiARCH.v DA iNDEPEMDtíMí^iA, vcíu provar aíuda uma vez que 



- 78 - 

os povos sabem separar o joio do trigo, discriminar a verdade da 
calumnia e fazer aos bons servidores do paiz a justiça que merecem, 
justificando assim aquelia bellissima quadra que Fagundes Varella 
dirigiu aos paulistas : 

«Foi de teu seio que surgiu sublime * 
Trindade eterna de heroismo e gloria, 
Cujas estatuas cada vez mais liellas 
Dormem nos templos da brasilea historia.» 

A. DE Toledo Piza. 



o sertão antes da conquista 

(SÉCULO XVII) 



Findava o século XVI e cora elle findavam as vacillações, a ti- 
bieza, a descrença mesma com que até então se trataram as empre- 
sas de descobrimento nos sertões da colónia. 

Ao longo da costa, quasi toda occupada, mas mui escassamente 
povoada, tinha-se passado todo ura secalo de luctas obscuras entre a 
resistência do gentio, a surprcza dos corsários e a inclemência do 
clima trópico que, para o europeu, nem a belleza, nem a feracidade 
e abundância da torra logravam mitigar. 

Entretanto, para a raça iraraigrada era já transcorrido esse po- 
riodo doloroso o difflcil da accliraação que, em toda a parte, é o afe- 
ridor das energias e da capacidade do povo colonizador. 

O portuguez, talvez melhor do que nenhum europeu, já entáo 
conseguira firmar pé nessa Zona Tórrida que aos antigos sempre pa- 
receu esbrazeada e inhabita\el. 

A colónia tinha já a sua população adaptada. 

Formara-se nella uma sub-raça pela acção do cruzamento. Os 
mestiços, os mamelucos como se os tratavam ao modo dos Índios, 
avultavam já; e esses mestiços eram o que se podia charaar es ho- 
mens de acção, os nervos dessa população nova que vinha depostan- 
do com os caracteres da independência, da audácia e do amor pelas 
aventuras ora terras distantes. 

O sertão, a despeito das muitas entradas que já nelle se fizeram, 
qu-dava-^e desconhecido e como que envolvido numa obscuridade mys* 
teriosa e cheia de encantamentos, em que se comprazia a imagina- 
ção e se alimentava a ingénua credulidade dos homens de beira-mar. 



— 80 — 

Das primeiras tentativas abortadas, alguraas até es-qiiecidas, não 
restavam sinão lendas conliísas descrevendo os thesouros e bellezas 
do sertão, em enjos vallos Imraensos bem poucos penetraram, mas 
cnjas riquezas escondidas todos instinctivaraente advinhavam. 

Pareciam dissipadas as energias desse povo de sonhadores. Dir- 
se-ia que o clima tinha-lhes amollecido as fibras do rijos marinheiros 
de outr'ora. Um hisioriador coevo, por isteo, escrevia penalizado :«Da 
largura que a torra do Brasil tem para o sertão não trato, porque 
ató agora não houve quem a andasse por negligencia dos portuguezes 
que sendo grandes conquistadores de terras não se aproveitam delias, 
mas contentara-se de as andar arranhando ao longo do mar como ca- 
rangueijos.» (1). 

Entretanto, a vida na beira-mar não era nem commoda nem assas 
garantida para os próprios colonos. Pouco depois de passar o Brasil 
para o dorainio da Hospanha como colónia portugueza que era, e cre- 
via Gabriel Soares que os moradores viviam tao aterrorizados que 
estavam sempre com o fato entrouxado para se recolherem ao matto 
como o faziam com a vista de qualquer náo grande, temendo serem 
corsários (2). 

O espirito de iniciativa cedo feneceu aos primeiros insuccessos das 
expedições sertanejas, e cora isso reinava a inércia ou o desanimo, que 
ura historiador contemporâneo procurou explicar ou «por não haver 
gente na terra para coramelter esta tmpreza, ou também por negligencia 
dos moradores que se não querem dispor a esse trabalho.» (3) 

Os próprios governadores, a quem nao faltavam ordens, instru- 
cções e instantes rccoramendações para que mandassem descobrir os 
sertões, quedavam so tibios e compenetrados de que tudo eram esperan- 
ças vas. sem vislumbres de r.9alidado. Thoraó de Souza, cora aquelle 
génio pratico e maduro dos que se não embalam com rumores ou 
versões imaginosas, escrevia para a Corte a propósito de taes empre- 
gas : «que não falaria outra vez era ouro eraquanto o não raandasse 



(1) Frei Vicente Salvador, His'oria do Brasil, pg. 8 

(2) Visconde de Porto-Segnro— J?ísí-</o brasil, vol. I, pag. 359. 

(3) Gandavo, Tratado da Terra do Brasil, Noticias para a Hist. e Geogr. das Nações 
Ultramarina^. 



— 81 — 

devoras e que, nas diligencias por elle, andaria com muito tento e 
pouca perda de gente e fazenda, pois que p^r muito madru- 
gar nao era que havia de amanhecer mais cedo». Isto, decerto, se 
referia ao mallogro da expedição aos sertões de Forto Seguro, na qual 
tomara parte o josuita Padre João de Aspilcueta Navarro, pelos aunos 
de 1551 a 1552 e cujo chefe ainda hoje se ignora quem fosse. 

Ainda era 16)8. o honrado governador D. Diogo de Menezes, 
justamente magoado com os favores demasiados concedidos a D . Fran- 
cisco de Souza, então nomeado supbrintendente das minas por desco- 
brir, escrevia a el-rei : «C^reia-me V. M. que as verdadeiras minas 
do Brasil são assucar e páu-brasil de que V. M. tem tanto proveito, 
sem lho oistar da fazenda um só vintém. > (l) 

Comtudo, o verdadeiro sentimento dominante na colónia não era 
precisamente o da descrença, era antes o da inércia ou incapacidade ; 
porque todos acreditavam nos thesouros escondidos nos sertões e todos 
murmuravam por se não darem os passos para descobril-os. 

Estavam todos na firme crença de que, sendo esta terra contigua 
cora a do Peru, de que a não dividia mais que uma linlia imaginaria 
indivisivel, tendo lá os castelhanos descoberto tantas e tão ricas mi- 
nas, cá nem uma passada davam por isso e quando iam ao sertão era 
a buscar Índios forros e. dizia então um historiador, ^é tanta a fome 
que disto levam que ainda que de caminho achem mostras, ou novas 
de minas, não as cavam nem ainda as vôra ou as demarcara » (2) 

Depois,accrescenta o mesmo historiador, "Uão basta mandar el-rei, 
se os ministros não obdecem, como se viu no das esmeraldas de Mar- 
cos de Azevedo.» 

A imaginação popular ia todavia fazendo a sua propaganda em 
prol dos sertões, creando contos phantasticos, propalando versões ma- 
ravilhosas a respeito das torras occidentaes, pintadas como uma re- 
gião de riquezas incalculáveis. Contavam-se cousas estupendas. In- 
terpretavam-se as escassas e obscuras indicações ministradas pelos 
índios como dados positivos e reaes ; e com isso davam pasto á cren- 
dice de uma população, aUás para isso predisposta. Ouvindo se es- 



(1) Visconde de Porto Seguro, Historia Geral do Brasil, vol. I, pag. 
<2) Frei Vicente do Salvador— /Ttsíor ta ão Brasil, p. 11. 



— 82 — 

sas narrativas fabulosas, dir-se-ia que os tliesouros do sertão estavam 
á mercê de quem quer que fosse que com alguma audácia se delibe- 
rasse a patentear tão decantadas maravilhas. 

B não é sem importância para a historia resumir aqui essas 
Tersões imaginosas, em que a geographia, a gentilidade e as produ- 
cções do sertão nos são apresentadas através de um prisma de encan- 
tamentos e de mysterios, que bom pintam o estado d'alma da popu- 
lação em cujo seio essas lendas se formaram o se desenvolveram. 

No littoral do continente, devassado pelos navegadores e trafican- 
tes, já se não encontram, entre os selvagens aquellas barras de oura 
com que estes bárbaros attrahiram os marinheiros de Pinzon, como- 
nol-o referem Herrera e Gomara. Os homens agigantados, mais al- 
tos ainda do que os agigantados germanos, que, nas costas para além 
do Cabo de la Consolacion, fizeram bater em retirada os companheiros 
do celebro navegador, desappareceram sem siquer deixar tradição» 
como também desappareceram os famosos patagões de quatorze pés 
de altura vistos por Fernão de Magalhães ao norte da Bahia de São 
Julião. Pigafetta refere que estes bárbaros eram tão altos que ura 
homem de estatura ordinária lhes dava pela cintura. Já se não viara 
mais na ilha de Fernando de Noronha os lagartos de duas caudas de 
que nos dá referencia Vespucci em um dos seus escriptos, m então 
pouco os gigantes que o mesmo celebre navegador descobriu na ilha 
de Curaçáo. 

Os monstros marinhos que assolavam as costas da capitania de 
S. Vicente ninguém jamais tornou a vel-os. 

Falam os historiadores com enthiísiasmo da infinita caça e do- 
infinito peixe que na terra havia. Descrevem os grandes recursos 
que por toda a parte a natureza cxhuberante deparava ao homem 
extasiado. Falam da abundância do peixe boi em quasi todos estuá- 
rios e rios da costa ; das grandes e numerosas baleias e também dos 
lobos marinhos e porcos marinhos que se criavam na terra o no 
mar. 

Frei Vicente do Salvador conta que nos mares do Brasil appare- 
Ciam até homens marinhos chamados Hipupiaras, que já foram vistos 
fora d'agua correndo após oír Índios, de quem tinham por costume 
comer-lhes os olhos e narizes. O mesmo historiador, com aquella 



I 



— 83 - 

cândida singellcza e credulidade de Heródoto, nos refere que no paiz 
havia cobras que á noite vinham mamar no seio das damas, fazen- 
do-o com tanta brandura e suavidade como si foram as próprias cre- 
anças. 

O historiador Gandavo conta prodígios da giboiuçú, a qual engo- 
lia um veado inteiro e arrebentava depois de farta, apodrecendo en- 
tão quanta carne tinha pelo corpo e só ficando no espinhaço com a 
cabeça e a ponta do rabo sãns ; e, dizia o historiador mencionado, 
« tanto que desta maneira fica, torna pouco a pouco a criar carne tão 
perfeitamente como dantes.». 

Do interior das terras nos transmittem os historiadores coevos 
as mais abstrusas e phantasticas versões. 

O mesmo historiador Gandavo escreve que alguns homens lhe 
afarraaram terem visto nessi^s terras serpentes com azas mui gran- 
des e espantosas, bem que sejam monstros mui raros, e também la- 
gartos enormes cujos testículos cheiravam melhor que almíscar. Ou- 
tro historiador contemporâneo cita entre as muitis riquezas do raino 
vegetal a arvore do sabão e a do vidro. (1) 

«Todo o sertão, dizia Vasconuellos, está feito um bosque, entre- 
talhado como ura canteiro, da mesma natureza, cora suas aguas.» (2) 

Noção falsa que bem demonstra quão ignorada era essa parte do 
paiz ainda ao tempo do chronista da Companhia de Jesus, no meia- 
do século XVII, e que provavelmente se originou do facto de se ter 
primeiro atravessado o continente pelo valle do Amazonas o de se 
terem feito as primeiras entradas exa-itamonte na região em que a 
matta littoral tinha mais larga expansão, penetrando pelos valles do 
Jequitinhonha, do Mucury e do rio Doce até quasi ás chapadas cen- 
traes. Ahi, do facto, a matta affecta notável corpulência, exhibe-se 
como a característica da região cujos rios volumosos, retalhando o 
paiz a pequeno trecho, se ligara por meio de braços ou furos, como 
o Amazonas e o Tocantins, corao o Jequitinhonha e o Pardo, ou re- 
cebem, como o Doce, tributo perenne de numerosas e extensas ala- 
goas. 



(X) Frei Vicente do Salvador— 7/isí. do Brasil. 

(2) Simão de Vascoacellos — CAro/iíca dx Compnnhia da Jesus, das Cousas do Bra- 
sil, XIV. 



— 84 - 

A litteratura, porém, guardou indelével essa falsissiraa noção e 
continuou a pintar o paiz com esse aspecto de encantadora poesia 
que tanto nos desvanece a nós brasileiros e nos leva muita vez a 
cerrar os olhos á triste realidade. 

A verdade é que o paiz, conhecido então somente ao longo do 
littoral. onde a frescura do solo dá-lhe uma vestimenta de galas, nas 
florestas virgens quasi impenetráveis, e onde os rios, ainda os menos 
consideráveis, oxhibera largas eraboccaduras e amplo • estuários, não 
era avaliado senão superficialmente e por esse processo quasi sem- 
pre falho em matéria de observação : concluir do todo pela parte. 

Estendendo-se por detrás da zona marítima numa distancia va- 
ri.vel a partir do littoral, o s^-rtão offerece ura aspecto pbysico bem 
differente e bem distincto nas duas principaes secções em que o paiz 
naturalmente se divide: a região-Nírte e a rcgião-Sul, mais (u me- 
nos limitadas pelo parellelo de 18.» de latitude meridional. 

Em uma e outra região, o aspecto physico, a característica do 
sertão é um phenomeno em intima dependência com o relevo e atti- 
tude das montanhas, a constituição do solo e o grau de humidade 
do clima continental. 

Para o Norte o relevo do paia é muito menos accentuado; o so- 
lo, menos variado na sua constituição geológica, se levanta sem gran- 
des e bruscos desnivelamentos, assumindo as momanhas o aspecto das 
planícies elevadas ou chapadas de margens Íngremes, que as corren- 
tes fluviaes, nem sempre perennes, rasgara e atravessara, deixando 
de perraeio as lombadas largas que a erosão secular modelou. Aqui 
e alli, na planura que se desdobra a perder de vista, levantam-se ser- 
ros curtos, ponteagudos, espelhando o sol nas encostas mias, brancas 
da rocha quartz sa estéril. 

O paiz é, no geral, socco e mono tono. A vegetação, por vastissi- 
liia zona, é sempre a mesma, rachitiea, espinhenta, retorcida, caracteris- 
ticamente accentuada nas espécies que constituem o typo da catinguy 
õndo era solo pedregoso e quente sobresaera as acácias, os zízyphos 
e os cefeus variadíssimos. 

As chuvas são escassas no período annuo e por vezes faltara 
totalmente era annos successivos. Então, no solo privado de huraidade 
e sob um céo esbrazeado a vegetação parece morrer. As arvores des- 



— 85 — 

pidas das suas ramagens parecem tostadas jelo fogo. As fontes sec- 
cam ; os rios são simples sulcos, onde apenas se distinguem signaes 
de que a agua por alli correu. 

Os grandes rios, que do longe vem e cujas origens estanciam 
em outros climas, atravessam como forasteiros essa terra reseccada, 
assignalando a sua passagem nas longas filas de uma vegetação mais 
verde como oásis numa planície deserta. 

De longe era Imge, as man'^iias de terrenos saldados, cobertas 
com o manto das carnahubas no mais formoso agrupuraento, quebram 
a fatigante monotonia da paizagem, denunciando o assento de uma 
pequena população jor entro o copado espherico das palmeiras. 

A catinga nãu é, comtudo, uma barreira impenetrável. A vegeta- 
ção sui generis que a constituo dá- lhe antes o aspecto de um laby- 
rintho, com a sua multiplicidade de veredas, de clareiras sempre 
eguaes, e que só uma vez se tranforma, como por encanto, pela re- 
vivescência de um dia, se por ventura a chuva logrou vencer a in- 
clemência do céo. 

Se o perigo da raatta virgem ó a solidão sem veredas e sem sa- 
bidas, o terror da catinga é o desnorteamento infallivcl pela raultiplici 
dado delias. O bruto cora o seu instincto rasga horizontes e vai ao 
seu alvo sem vacillar; o homera, porôm, que uma vez penetrou na 
catinga e lhe falhou a memoria na escolha da vereda, é uma victima 
que só um milagre salvará. 

E' esse o s rtão do Norte que se oxtende por ahi além, desde a 
Bahia até o Maranhão ; que transpõe o Vasa-Barris e o S. Francisco ; 
vinga as montanhas dos Oariris paia além de Pernambuco ; passa do 
Parahyba ao Potengy ; ganha as várzeas do Jaguaribe e do Acarahú, 
o do alto de Ibiapaba, descendo ao agreste do Piauhy, vai entestar nas 
chapadas maranhenses, já visinhas da Hyléa Araazonica. 

Trezentos a quatrocentos metros de altura media sobre o mar, 
pouco mais de mil metros nas altitudes extremas e raras, eis o ser- 
tão da região do Norte. 

Bem diversa é a zona do Sul. A matta do littoral vai ahi se 
fazendo mais estreita. As montanhas abeiram-se do oceano e em 
mais de um ponto mergulham cm suas aguas as encostas alcantiladas 
que avançam em promontório. 



— 86 — 

o relevo do solo é aqai mais variado o, por isso mesmo, mais 
bello. As serranias multiplicam-se e algumas elevam as cumiadas a 
mais de dois mil metros sobro o mar. 

Os Órgãos de Thcresopolis, o Dedo de Deus, as Agulhas Negras 
do Itatiaia, os picos do Itaculurai e do Itambé, entestando com as 
nuvens, assignalam as altitudes maiores, dão a nota pittoresca da 
paizagem e demarcam as cabeceiras dos grandes rios, que não seccam 
jamais. 

Aqui, as gran'íes campinas elevadas avançam até quasi ao mar 
por sobre o dorso das serranias. Na Bocaina, era Paranapiacaba e 
em Curitiba ha sempre um trecho do oceano no horizonte do obser- 
vador das campinas. 

Aqui, os campos nús, cuja serenidade triste, os bosques de arau- 
cária apenas interrompem, são regiões abertas que levam bem fundo 
no interior do coniinonto. 

Aqui estão de facto as portas dos sertões occidentaes. Nascem 
os rios quasi á vista do mar e se engolfam no desconhecido, condu- 
zindo no seu dorso a ambição insaciada dos conquistadores, ao mesmo 
passo que as campinas intérminas deixam ver o horizonte desempe- 
dido, amplo, como se quizessem significar a rendição muda do ignoto 
diante da audácia dos forasteiros 

Perante a funcção histórica dos conquistadores do Novo Mundo, 
a região do Norte do Brasil é um theatro dos mais ingratos que se 
não fora o Amazonas, a expansão brasileira por esse lado teria pa- 
rado no valle de S. Francisco- A região do Sul, ao contrario, reunia 
as condições geographicas capazes de um dia assegurar na partilha da 
America para o dominio lusitano quasi metade do continente austral. 

No Norte do Brasil vêm os rios ao mar em amplíssimos estuá- 
rios, que dão accesso por 20 e 50 léguas longe da costa ató as pri- 
meiras cataractas. Desse ponto cm diante, as successivas quedas 
tornam quasi impossível penetrar nos sertões galgando ou vencendo 
as correntes fiuviaes. Por essa razão é que o movimento colonizador 
hade ahi preferir o caminho do littoral á vereda do sertão através 
de cursos d'agua cuja violência é preciso vencer ou através das ca- 
tingas estéreis, tormentadas pela secca e que só o gado ponde de- 
vassar. 



— 87 — 

No Sul, o homem do littoral como quo domina do alto das suas 
montanhas o intimo dos sertões a que os conduzem os rios caudaes 
descendo para o interior. Aqui. ainda que através do cataractas e 
de saltos, o conquistador desce sem esforço ; as aguas o levam de 
feição ; o seu trabalho é moderar a descida, impedir que a marcha 
se precipite. Depois, a região é favorecida pela benignidade do clima. 
Não ha seccas, nem jamais o deserto se petrifica sob a inclemência 
do céo. 

O destino de cada uma das duas metades da colónia, diante do 
problema da conquista, estava pois perfeitamente assignalado na 
constituição geographica dos respectivos territórios. O paulista, pelo 
seu habitat, tinha de ser o bandeirante por exccUencia. A conquista 
dos sertões estava no seu destino histórico. 

Vede bera quo em toda a hydrographia do continente do Sul, 
nenhum rio considerável como o Tietó tem as cabeceiras mais visi- 
iihas do oceano, nenhum permitte mais largo accesso polo interior 
através de um amplo systema fluvial como o de que elle depende. 

Essa estrada admirável que o Tietê assim facultava ao movi- 
mento invasor só se equipara nos seus effeitos a do Amazonas no 
norte e a do Prata no sul. Mas nem uma nem outra excedia o Tietê 
nas condições propicias para uma expansão guerreira, como tinha de 
ser a que os paulistas depois realizaram. Por isso, o povoador do 
Amazonas vai corrente acima sem encontrar resistência e só estaca 
ou se detom porque se enfastiou de navegar. Não ha outra explica- 
ção. O castelhano sobe o Prata e estaca deanto das cataractas ou 
deanto dos pantanaes; não vai além do Guayrá, como não penetra 
para cima dos Xaráes ; mas depois tem que ceder terreno deante das 
bandeiras victoriosas que conquistam Guayrá, que atravessam os pan- 
•tanaes do Paraguay, ganham o Guaporé o por elle vão ao Amazonas, 
ligando pelos sertões os extremos da conquista quo se fizera pelo 
littoral . 

Mas no começo do século XVIÍ, essa hydrographia, esses sertões, 
como deixamos descriptos, não eram sinão ura mytho para as popu- 
lações que cresciam á beira- mar. 

Falsíssimas noções corriam a propósito da origem e do curso dos 
grandes rios cujas aguas arrojadas corriam doces mar em fora vinte 



— 88 — 

léguas, como o S. Francisco, segundo o descreve Gandavo. Era tido 
então este rio como o mais celebro de quantos na colónia se conhe- 
ciam. Tinha o sou nasciíiioiifco numa famosa alagôa reita das ver- 
tentes do aguas das serranias do liili e do Períi, donde procediam 
também o Grão Pará e o rio da Prata. A' margem dessa famosa 
lagoa aflarraavara liaver numerosas povoações, cujos moradores possuíam 
cabedaes ricos de ouro e pedraria. Cliaraava-se Dourada essa famosa 
aiagôa, que nos faz lembrar o El- Dourado das cabeceiras do Orenoco. 

Tinha o rio enorme sumidouro de doze léguas de extensão, a no- 
venta léguas do mar, e mais de tresentas ilhas desde o sumidouro 
até a barra. Eram as suas margens habitadas por varias nações 
gentias, algumas das quaes se ornavam cora laminas de ouro. (1) 
* Os arvoredos dost.s ribeiras vão-se ás nuvens, tudo é um bosque 
em raiiitas partes tão fechado que impede o céo o a luz.» (2) Paus 
preciosos ahi abundavam ; brasil e cannafistula eram comnmns. As 
suas campinas eram outros Campos Bliseos, férteis, ameníssimos e a 
terra toda abundante de fructas brasílicas. Corria esse rio por ter- 
ras raineraes, ricas de ouro, prata salitre e tanto mais quanto mais 
iam entrando ao sertão. E assim continua o chronista a descripção 
deste famoso S. Francisco tão poeticamente o com tantas galas que 
hoje ao leias ninguém diria que o rio das catingas do Norte, tão 
tormentado pela socca, tão ingrato era quasi raetado do seu extenso 
valle, fosse outr'ora esse paraizo terreal creado pela imaginação dos 
chronistas e historiadores complacentes. 

Do rio Parnahyba do Piauhy, em outro tempo denominado Rio 
Grande dos Tapuyas, faziam se quasi idênticas descripções ; também 
tinha o nascimento em uma formosa aiagôa de vinte léguas de ex- 
tensão, na qual afirmavam os naturaes haver copia de preciosas pé- 
rolas, noção acaso exaggerada da Jagôa de Paranaguá transmittida 
pelo gentio. 

Em 1(3:27. Frei Vicente de Salvador ainda escrevia na sua Histo- 
ria do Brasil que o Pinaré, Mearira e Itapucurú no Maranhão proce- 
diam de mui perto do Peru. 



(1) Vasconcellos, Chronica da Companhia de Jesus no Brasil, Liv. I p. XLVII. 
.(2) Idem. 



- 89 -~ 

Descrevia se o rio Real da capitania de Sergipe como um outro 
caudaloso S. Francisco Em alguns mappas antigos fig;urara-no mes- 
mo como ura braço deste. 

Da mesma alagoa Dourada, com cidades e populações numero- 
sas pelas suas ilhas e margens, donde o S. Francisco dimanava, sa- 
hia um braço para o grão rio das Amazonas, encaminhava-se outro, 
segundo alguns, a desfnítoccar eo mar (ntre S. Vicente e a ilha de 
Santa Catharina. O Paraguay ahi nascia também e vinha misturar 
as suas aguas cora as do rio da Prata- 

Doscrevia-se o balto das Sete Quedas, no Paraná, como uma for- 
midável maravilha, tremendo a terra toda era redor cora o estrondp 
das aguas, ouvido muitas léguas distante. Nas suas margens as ar- 
vores pretificavara-se ; e tinham a propriedade de tornar clara e har- 
moniosa a voz humana as suas aguas es, umantes. 

Nos raappas do terapo flgura-se toda esta geographia phantastica 
de perraeio cora um vocabulário bárbaro representando os povos ha- 
bitadores desse paiz do maravilhas. Legendas, em latim, descrevera 
era stguida a cada nome os costumes e hábitos desses povos 

Na America inteira a imaginação e a crendice humana correm 
parelha com a mais arrojada phantasia. Quanta vez, porém, a própria 
realid de das cousas não tinha surprehendido e deixado muito aquém 
os sonhos imaginosos dos mais arrojados corredores de aventuras ? 

Quantas expedições custosas não se organizaram estimuladas por 
meros contos fabulosos ? 

Vede Ponce de Leon a peregrinar pelo Mar das Antilhas á pro- 
cura dessa ilha mysteriosa cora a sua fonte de (terna juventude. A 
sorte ingrata tinha-o ligado já velho a uraa daraa de encantadora 
formosura e era plena mocidade. Bile julgou na America poder tu- 
do aspirar e desejou ser joven ainda uma vez, apagando da fronte 
encanecida o ultrage dos annos. Não nos diz a Historia se o Amor 
logrou já uma vez destes triuraihos, raas a Geographia extendeu 
ainda mais os seus dominios no Novo Mundo acolhendo o velho peri- 
grino nas costas da Florida, no paiz dos Natchez. 

Vede Orellana descendo d- s indes de Quito, atravessando pelo 
maior dos caudaes toda a largura do continente e vindo descobrir 
esse reino ferainil das Amazonas que ninguém tornou a ver. . 



— 90 - 

Vede esse aventureiro de Inglaterra, Walter Ealeigh, o mallogra- 
do descobridor da Virginia, a engolfar-se nas savanas do Orinoco 
para desencantar o El Dorado na sua cidade resplandecente de Manôa, 
assentada á margem de um lago de ouro e de riquíssima prata. 

Vôde Benalcazar partindo de Quito, Federmann de Venezuella, 
Ximjnes de Quesada subindo o Magdalena, o todos perseguindo a 
rkiesma chimera, esse reino encantado das solidões da Guyana. 

Para as regiões superiores onde estanciam as nascentes do Grão- 
Pará havia a imaginação dos aventureiros creado o riquíssimo reino 
de Paititi, emulo do El Dorado, confundindo-se com este muita vez, 
€omo resto soberbo do que íoi o império dos Incas. 

Da innumera e barbara gente que habitava os sertões corriam 
extranhissimas versões. 

Os Guayazis da extrema occidental erara anãos de tão pequena 
estatura que parece affronta dos homer.-s. 

Os Matuyiis tinham os pés para traz. 

Os Coruqueanas eram gigantes de quinze pés de alto, adornando- 
se com pedaços d'ouro os beiços e narizes. 

Corria a noticia de uma tribu do Ceará que usava comer os ve- 
lhos para llies poupar o trabalho de viver. 

Uma tribu dos pampas meridionaes tinha pernas como as aves. 

A mór parte de tão extranha gentilidade era de uma feridade in- 
doscriptivel. 

Ninguém ousava penetrar-lhes os domínios sem séquito numero- 
so e respeitável. 

Os grandes thesouros do sertão guardavam-se assim por monta- 
nhas alt ssiraas, por caudaes immensos e invadiaveis, por tribus fe- 
rozes e por monstros de terrificante aspecto. Nem jamais á ima- 
ginação dos homens appareceram thesouros que não fossem defendi - 
didos por monstruosidades horrendas. 

Na America, como na Colchida, os velocinos d'ouro ou El- Dorado 
guardam-se por monstros, dragões trilingues ou serpentes aladas, 
mas sempre monstros. 

Era crença em voga entre os colonos haver ura qiie de mysterio- 
so impedindo o descobrimento das riquezas do sertão, o que a morte 
era o castigo inevitável do indiscreto que ousava revelar-lhes o se- 



— 91 — 

gredo. Frei Vicente do Salvador nos transmitte essa crendice popular, 
talvez originada dos repetidos insuccessos com que se coroaram as 
primeiras tentativas. 

De certo, uma tal ou qual desdita agourentava os mais bem com- 
binados tentamens. 

Aleixo Garcia não lograra tornar da sua jornada, tão arrojada 
que por muitos se considerou fabulosa. Fero Lobo perecera trucida- 
do nas margens do Paraná, em 1531, cora toda a sua numerosa comi- 
tiva. A expedição de que fez parte o Padre Aspilcueta Navarro, era 
155.2, não teve êxito. A galé de commando de Miguel Henriques, quo 
Thomc do Souza enviara a explorar o rio S. Francisco, nunca mais 
tornara. !áebastião Tourinho, se logrou ver a serra das Esmeraldas, 
não trouxe provas cabaes delias. António Dias Adorno, percorrendo 
os mesmos sertões, não logrou melhor fortana. Sebastião Alvares nos 
sertões do S. Francisco ; Luiz Alves de Espinha nos dos Ilhóos ; Fran- 
cisco do Caldas em Pernambuco ; Diogo Martins Cão, por a'cunha o 
Mata-Negros, e Marcos de Azevedo no Espirito Santo representam 
outros tantos insuccessos. 

Todavia o século XVI, que Andava sem poder revelar os thesou- 
ros do sertão, não legava ao novo século um sementeira de descren- 
ças ou de desanimo, como era íacil de prever de tão repetidos infor- 
túnios. As pequizas redobraram. 

João Coelho de Souza, antes de 1580, levara três annos a per- 
correr os sertões das cabeceiras do Paraguassú e morrera em tão 
ingrata jornada em sitio ignorado, legando a Gabriel Soares, seu ir- 
mão, o capital, não de ouro que o não logrou descobrir, mas de ex- 
periência para novas e mais arrojadas tentativas do descobrimento. 

Gabriel Soares, de posse dos roteiros que lhe deviam desvendar 
a elle os segredos das minas que o irmão não lograra explorar, parte 
para a Europa, vae á Corte do Castella, solicita favores, proramette 
corapensal-os com valiosos descobrimentos, consegue mercôs e bene- 
flcios, obtém por fim que lhe mandem dar armas, munições e gente e 
regressa ao Brasil. 

Não foi, comtudo, mais afortunado o Ínclito autor do Roteiro do 
Brasil. Gabriel Soares, chegando a Bahia, depois de haver naufra- 
gado nas costas de Sergipe, retira-se para o seu engenho, á margem 



— 92 — 

do rio Jaguaripe, a reunir gente, e toma sócios para a empresa quo 
se lho afigurava auspiciosa. Parte emfira, penetrando nos sertões do 
Paraguafsú pela vereda do mesmo Jaguaripe, cujo valle remonta até 
próximo ás cabeceiras; passa pela serra do Guarerú, onde está hoje 
a povoação da Pedra Branca, e ahi levanta uma casa forte ; segue a 
atravessar o Paraguassú abaixo do logar onde se fundou mais tarde 
a povoação de Jofvo Amaro e ahi próximo levanta outra casa lorte ; 
envereda para o noroeste entranhando-sc nas catingas ao oriente da 
serra do Orobó. 

Faz outra casa forte no meio destes sertões, entre os Payayás, o 
prcsegue a rumo de noroeste atravessando o rio de Jacuipe e attin- 
gindo as cabeceiras do Itapicurú, próximo do logar onde depois se 
fundou Jacobina. Explora as serras conviziràhas, descobre indicies 
de ouro e prata na Pedra Furada e dahi, galgando a chapada, pene- 
tra nas campinas altas do valle superior do rio do Salitre e por ellas 
vae até o Morro do Chapéo, cujos sertões põe-se a percorrer em to- 
dos os sentidos quando a morte o colheu a elle e a mór parte da sua 
comitiva em sitio que flcou até hoje ignorado. 

Dos despojos da mallograda empresa ficou para a histeria a vaga 
tradição que os annos engrandeceram e transfiguraram na mais fa- 
mosa lenda da nossa Historia— as mwas de prata. Melchior Dias 
Moréa, destemido sertanista das margens do Eio Real. apparece então 
após oito annos de continuadas pesquizas pelos mesmos sertões, com 
esse lendário descobrimento cujo segredo a ninguém jamais transmlt- 
tiu. Solicitações, rogos, ameaças, prisões, nada o demoveu da reso- 
lução quo tomara de não deixar passar a extranhos as glorias, as 
honras e beneflcios que para si pedira em troco do seu segredo, uma 
ficção talvez, uma chimera, mas quem sabe também se não um se- 
gredo verdadeiro, quo valia as mercês que a corte lhe negara? 

E assim passaram á posteridade como um enigma indecifrado 
essas minas de prata de Roberio Dias (nome de um dos successores 
de Melchior,) minas mais potentes que as do próprio Potosi, mais ricas 
que as de ferro de Bilbáo, e com as quaes se poderiam calçar todas 
as ruas de Madrid, segundo o asseverava o mallogrado aventureiro. 

Era a prata o metal de estimação mais commum nestes tempos. 
A America depois da conquista do México e do Peru tinha-a espalha- 



- 93 — 

do abundantemente por toda a, parte. Alterosos galeões conduziam 
para a Europa todos os annos riquíssimos thesouros. Estavam no 
auge da sua producção as minas de prata de l-*otosi. descobertas em 
1542 no Alto Peru e de que o Brasil se nao separava sinao por uma 
linha imaginaria. 

Dahi a crença geralmente espalhada de que a America Portugue- 
za também possuia muita prata, e então pelos seus sertões se pro- 
curavam vestígios delia. Do ouro quasi que se nao falava. As 
chronicas e escriptos do tempo, como os contos imaginosos do povo, 
davam á prata maior valia. Toda de prata era a encantada cidade 
de Manôa, cujos reflexos á noite simulavam no cóo a via láctea. 
Também de prata eram as mina» que ficaram para sempre em segredo 
do obstinado aventureiro descendente do Caramurú. De prata oram 
ainda as serras resplandescentes dos sertões de Porto Seguro e que se 
tornaram lendárias com o nome de Itaberâbussú. 

Eis como o historiador Gandavo nos conta a origem dessa famo- 
sa legenda. 

«A esta Capitania de Porto Seguro, diz o citado historiiidor, che- 
garam certos Índios do Sertão a dar novas de umas pedras verdes, 
que havia numa serra muitas léguas pela terra dentro, e traziam 
algumas delias por amostras, as quaes eram esmeraldas, raas não de 
muito preço ; e os mesmos Índios diziam que daquellas havia muitas, 
e que esta serra era mui íorraosa e resplandecente. ^ Esta serra res- 
plandecente, que o gentiu, em sua língua, dizia Itâberâba-oçú e que a 
corruptela em lábios portuguezes transi ormou em Taberaboçú (1) e 
mais geralmente em Sabarâboçú, vai ser por todo o século seguinte o 
alvo das mais arrojadas expedições sertanejas conduzidas de S. Paulo 
em direcção ao valle de S. Francisco, das quaes não poucas vararam 
os sertões em busca de Porto Seguro ou do Espirito Santo, donde 
lhes vinha a longínqua tradição da serra das Esmeraldas. (2) 



(!) Monsenhor Pizarro, nas suas Memorias, escreveu ainda Taharaboçú. 

(2) O Dr. Orville Derby, na sua nionographia a respeito de Uma das primeiras 
bandeiras paulistas, assim o explicou também quando a propósito da vinda de D. Francisco 
de Souza a S. Paulo^ em 1599, diz que «era o objecto principal da sua vinda promover a 
exploração de minas e muito especialmente, conforme contam alguns historiadores, pro- 
curar uma serra chamada Sabarabossú, reputada mui rica de prata e da qual elle tinha 
recebido noticia estando no governo da Bahia.» 



— 94 — 

A lenda de Sabaraboçú vai ter larga repercussão entre os ma- 
melucos de S. Paulo. 

Começa aqui esse período das pesquizas sertanejas de que a ex- 
pedição de 1602, do commando de Nicoláo Barreto, é uma das pri- 
meiras e mais memoráveis, mas cujos feitos só se salvaram para a 
Historia nas netas de viagem de avencureiro extrangeiro Q). Co- 
meça esse período das expedições longínquas para descerem índios 
para as lavouras ou para buscarem minas cujos thesouros, só um sé- 
culo depois de porfiadas tentativas, se desvendam. Um século inteiro 
a bater os sertões atrás de uma chimera . . . 

E seria acaso uma chimera para os contemporâneos de Cortez, 
de Cabral, de Pizarro e de Alvarado correr aventuras, dar avras á 
imaginação, crear Potosis em todos os sertões, e El Dorados onde 
quer que o deschonhecido lhes podia deparar a elles os mais assigna- 
lados prodígios? 

A historia ó testemunha de como a humanidade se tem excedido 
a si mesma perseguindo uma chimera. Colombo nos deu a America' 
um mundo novo, correndo atrás de uma phantasia que a realidade 
não confirmou. Cortez destróe a possibilidade do regresso queimando 
os próprios navios para impor a certeza da victoiia. O seu sonho havia 
de converter-se ^em realidade porque o destino o fizera conquistador. 

Sebastião Tourinho, Dias Adorno, Gabriel Soares, Melchior Dias 
D. Francisco de Souza são os obreiros inconscientes da Geographia 
dos nossos sertões quando, ao través do horizonte infinito e mudo 
do deserto, perseguindo a sua chimera, descem aqui ao profundo dos 
valles para desencavar minas de prata, e alem galgam píncaros de 
serranias para lobrigar no longínquo horizonte os reflexos dessa 
montanha resplandecente que jamais appareceu. 

Sonhos, chimèras, ficções innumeraveis, tudo é vão e pratica- 
mente incomprehensível, e todavia é com isso que o mundo caminha. 

S. Paulo, 21 de Julho de 1899. 

Theodoro Sampaio. 



(1) Roteiro de Gailheraie Glimmer. pabiicaio por Pizo e Marcgraff, em IGiS. 



Evaristo Ferreira da Veiga 

(COMMEMORAÇÃO HISTOEICA) 



Quando estudamos a menlalidade e o patriotismo do povo brazi- 
leiro, naquolles de seus filhos, que, em tempos idos, se salientaram 
nas lettras, nas scienclas e na politica, observamos o mesmo pheno- 
meno que tem occorrldo e occorre no evoluir do um povo, quanto á 
cultura intellectual delle, sempre que o transumpto de todas as suas 
aspirações, de todos os seus ideaes em nenhuma outra cousa consis- 
te senão na liberdade. 

Os povos são como os indivíduos : logo que attingem á maiori- 
dade, difíicilmente supportam a dominação ou a tutela, e quanto raais 
se desenvolvem e se esclarecera as suas faculdades, tanto mais nellesr 
esse instincto, que tende para a emancipação com a insistência do 
primeiro rebento da planta, em busca da luz e do carbono, se robus- 
tece, se avigora e se expande. Quem jamais poude suffocar esse in- 
tincto, sem o tornar mais violento na sua intensidade o no seu im- 
pulso ? 

E essa paixão pela liberdade, incendendo a imaginação, tem pro- 
duzido todos os vates, todos os grandes philosophos o principalmente 
todos os athletas da tribuna— verdeiros enviados do ceu, ou vorda 
deiros desvairados da terra, que só apparecera nos momentos mais 
solemnes e agitados da vida humana, isto é, quando elles vêm servir 
de órgãos potentíssimos especialmente dos humildes e dos fracos, que 
constituem a maioria ; quando encarnam, por assim dizer, o espirito- 
de todos esses em lucta com a matéria, as aspirações á liberdade em 
lucta com a fatalidade do mundo physico — eterno contendor do ho- 



- 96 - 

mem— , o bom em combate com o mal, as luzes era pugna cora as 
trevas. E' de notar, porôra, que esses génios sempre surgera dos re- 
cantos raais obscuros, de berços hurailinios, porque não ha com cer- 
teza eschola mais edificante do que o lar : ahi é que se escutara bem 
os gemidos e os suspiros da maioria do género humano, que padece 
todos os vexames, todas as angustias e misérias, resultantes, entre 
varias circumstancias raais, da prepotência de uma classe de indivíduos 
privilegiados, que o sentimento do egoísmo o do orgulho crêa, e que 
todos ou quasi todos toleram, uns por pusilanimidade, outros por cal- 
culo e outros ainda, ora raaior numero, porque esperara resignados 
alguma refarraa. Mas essa reforma só se opera de n.aneira por de- 
mais lenta e imperfeita, porque nem sempre concorre para ella a so- 
Udíiriedade, — aliás uma lei histórica, — de tal sorte que Hobbers vai 
continuando a acertar, quando diz : <Horao homini lúpus». E assim 6, 
assim não póie deixar de ser e será talvez para todo o sempre, por- 
que não existe uma lógica perfeita entre os princípios estáticos e 
os dynamicos, que presidem ao evolucionismo no mundo physico e á 
conservação e á cropagação das idóas no mundo moral. As evolu. 
ções da matéria, em geral, operam- se regularmente, quanto á essen. 
cia, quanto ao raodo e ao tempo ; ao passo que as do espírito se 
realizam de modo incompleto, ás vezes áspera e bruscamente, assu- 
mindo assim proporções de revolução, ou em épocas demasiado tardias. 

Desde o alvorecer da razão e o despertar da consciência do ho- 
mem até ao grau de cultura, a que attingem, nesta hora do século 
XIX, quasi a expirar, quantos esforços supremos, quantos martyrios 
nao tjm custado o evoluir das idéas para a perfectibilidade, que é a 
nossa felicidade sonhada.— estrella, ou lampejo de cstrella, que tanto 
mais se aparta de nossos olhos, quanto mais a seguimos ! O progres • 
so do espirito é indefinido, o evoluir das idéas é interraino, ao passo 
que, no mundo physico, a matéria gyra dentro de ura circulo vicioso : 
em quanto a chrysalida, por exemplo, depois de ter volitado no es- 
paço em forma de borboleta, volve ao mesmo ovulo, donde irrompera 
a larva, as idóas dominantes em dada epocha, não volvem nunca mais 
a ser as mesmas que as precederam. 

D' ahi vôse quão gigantesca deve ser a lucta. em que se em- 
penham todos os reformadores, quão agitada a época, em que elles 



- 97 - 

surgem, e corno, pois, o espirito humano opera prodígios em as suas 
variadas manifestações. Este phenoraeno deu-se nos tempos coloniaes, 
em que o Brazil, chegado a sua maioridade, entrou a desenvolver a 
sua er^ergia e actividade para sacuiif o jugo da metrópole bragan 
tina ; este phenomeno accentuou-se ainda mais após a nossa indepen- 
dência, durante o primeiro reinado. Foi então que se deram a co- 
nhecer ao mundo individualidades privilegiddas como José Bonifácio^ 
António Carlos, Martim Francisco, José da Silva Lisboa o, mais tai*- 
de, Evaristo Ferreira da Veiga, que, por se destacar dentre todos, 
como o consolidador de nossa independência, do mesmo modo que 
em nossos tempos distinctos democratas o têm sido da Republica, 
manteado cora heroísmo nunca visto o táctica politica pouco vulgar, 
o principio da auctoridade constitiuda. será o objecto do presente es- 
tudo. 

* 
* *' 

Nascea Evaristo Ferreira da Veiga, na cidade do Rio do Janeiro 
a 8 de Outubro de 179^. Fadado 3omo Mirabeau para as glorias da 
imprensa e da tribuna e, tendo um pae enérgico e inflexível como o 
do immortal orador fiancez, já no lar paterno recebera uma educação 
esmerada que lhe acrysoloa todos os nobres sentimentos e lhe enri- 
jou o caracter, nunca desmentidos nos momentos mais difflceis e pe- 
rigosos de sua vida. Ainda muito joveri (1), tendo por mestres o P.e 
Marcelino Pinto Ri( eiró e outros, dedicou -se ao estudo do francez, do 
ingle/, latira, italiano, philosophia, historia e rhetorica, tornando-se 
mui versado neste ramo de conhecimentos, com os quaes logrou de- 
pois, no socego de seu gabinete, alcançar outros mais complexos e 
transcendentes, avantajando- se a não poucos dos que passaram pelas 



(1) NOTA. — Aos 19 annos de idade concluiu Evaristo o curso de humanidades e era 
seu intento laurear-se na Universidade de Coimbra— o que nílo logrou fazer, pois não- 
podia abandonar o vellio livreiro— seu pae ; precisava auxilial-o neáse género de traba- 
lho, como se verifica do Elogio Recitado pelo Tenente General Manoel Joaquim Pereira 
da Silva perante a Sociedade Amante da Instrucção, no Rio de Janeiro a 12 de Agosto 
de 1837. Não tem, pois, razão o «Jorna! do Commercio", quando em sua edição de 12 
de Maio do corrente anno assim se exprime sobre esse ponto : "... que (Evaristo), eu 
tretanto, não quiz se empenhar na conquista, em verdade , mais vaidosa e fútil do que 
imprescindível e árdua de um pergaminho". 



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Academias. Já éra chegado o raomonto, esse momento em que, ao 
agitar-so um povo todo pela sua liberdade, os grandes talentos sur- 
gem dos seus desconhecidos tugúrios, quaes leões que irrompera de 
seus fojos e se lançam á arena do combate. Evaristo foi um desses 
athletas, quiçá o maior dollos, que na época da independência do 
Brazil e na occasião era que esfcavaraos em riscos de a perder luc- 
tarara por ella, com a penna e com a palavra. 

Começou elle a sua missão de escriptor politico, escrevendo al- 
gumas brochuras anonyraas, que a sua natural modéstia nao permit- 
tiu fossem conhecidas além de ura circulo mui limitados de amigos, e 
nas quaes, atravez da apostrophes. da belleza das imagens e dos con- 
ceitos, se revelou o jornalista emérito, o tribuno pujante, que h^wm 
de apparecer cora a «Aurora Fluminense» em 1827 o nas sessões par- 
lamentares de 1830, porque nessas brochuras, como no <sEssai siw le 
despotismet> e nas <Lettres de cachet e Ics Frisons d^Etat» de Mira- 
beau, explode o amor ardente da liberdade, que despeitou nelle tam- 
bém o sentimento poético. 

Sim, Evaristo era dotado de uma organização intellectiva fora do 
commum, era tão malleavel o seu talento, que até na poesia— a mais 
bella das manifestações da arte — pudera tornar- se emulo dos nossos 
vates mais distinctos e consagrados, si tivesse propendido exclusiva- 
mente para as musas e não limitasse as suas producções neste gé- 
nero a alguns hymnos patrióticos, dentro os quaes se destaca o vul- 
garmente conhecido ipoY— Brava gente hrazileira. 

Este hymno que tão agradavelmente impressionou o Dr. Walsh, 
secretario de Strangford, embaixador de S. M. Britannica, por sua 
cadencia e harmonia, passou durante dez annos como producto do ta- 
lento do Pedro 1.°, a quem o Visconde de Cayrú empresta o espirito 
duplicado dos antigos philarmonicos da Historia heróica. — Thcophilo 
e AmphiãOj conformo se evidencia do artigo que inseriu no «Diário 
do Rio de Janeiro» de 10 de Setembro de 1833, subscrevendo-o cora 
o pseudonynio de — Jurista. Esse cortezão laborava, porém, num erro 
deplorável, porque o hymno era da lavra de Evaristo. E qual não foi 
o seu desaponto, quando, depois que elogiou tanto essa composição 
poética, o verdadeiro autor delia, reivindicando despretencioso e mo- 
desto o seu direito de propriedade, escreveu pelas brilhantes colum- 



-^ 99 — 

nas da «Aurora» : "Esso hymno, acceito pelo povo da Corte e provín- 
cias, estampado na obra do Dr. Walsh e elevado, erafira, a tantas 
honrarias, como as que oloquenteraento refere o Jurista, e sahido do 
humilde balcão e producção da nossa primeira mocidade. Era que de- 
sastrado engano foi cahir o nosso antagonista? Sem duvida terá de 
desdizer-se ante o povo caramuruano de todos os seus louvores hy- 
perbolicos, e de fazer solemne protestação de que esses encómios todos 
eram prodigalizados, porque ello suppunha sor o pobre hymno obra do 
Snr. D. Pedro I. Nao sendo assim, o Jurista dá o dito por não dito, 
o declara pueril, chocho, mal metrificado e ate' jacobino e digno da 
forca! » 

B não foi só o mallogro, sinão também a contradicção, em que 
elle cahiu, respondendo a este tópico do luminoso artigo de Evaristo : 
« — tu disseste, não eu» — o que importa numa confissão. 

Nem ó de admirar tal geito ou systema de critica : em regra, os 
juizes littcrarios fazem seus estudos e proferem suas sentenças acerca 
das producçõos do espirito humano, tendo, mais em vista a pessoa do 
productor que a couza produsida ; julgam da obra feio autor delia. 
Dahi quantas injustiças ! As mediocridades decantadas, erguidas ao 
fastígio da fama e da gloria e os talentos de eleição mergulhados na 
obscuridade, morrendo muitas vezes á fome ! 

O Visconde de Cayrú não contestou a auctoria do hymno ao re- 
dactor da «Aurora», e quando o fizesse, já hoje a posteridade resta- 
beleceria, vingaria a justiça violada, indicando, como documentos ir- 
refragaveis, os authographos ou originaes daquella producção poética, 
como de outras mais, existentes no archivo do Instituto Histórico e 
Geographico do Rio do Janeiro. 

Deixemos, porém, o poóta e vamos tratar do publicista, d j politico, 
pois o theatro de suas glorias, consoante o disse o com incontestável 
verdade ura seu parente, consistiu «na iraprensa, na Sociedade 
Defensora da Soberania Nacional e na Caraara dos Deputados». 

* * 

Corria o anno de 1822, quando era virtude do Decreto de 29 de 
Setembro do 1821 emanado das Cortes portuguozas, D. João VI, que 
se havia refugiado com a sua familia em nossa Pátria, teve que re- 
tirar-se delia. Todos sabemos quaes foram as palavras que o regente. 



- 100 - 

ao regressar para a velha metrópole, dissera a seu filho — D. Pedro I :. 
Si o Brazil se ha de separar antes seja para ti, que me has de res- 
peitar, áo que para algum aventureiro.» (1) 

Aqui ficou o filho com todas as vaidades e tresloucam cn tos, de 
que o accusara os historiadores, pensamento constantemente fixo no 
horizonte da pátria primitiva, agora tão longe... alóm da vastidão 
do Atlântico, o coração magoado de saudades delia e de seus pães, 
que haviam partido. 

Sim, ficou aqui esse homem, que havia de trazer o brioso povo 
brazileiro illudido por ranito tempo antes, como depois da indepen- 
dência, porquanto, violando os principias do Direito publico, promet- 
teu outorgar á Nação uma Carta Constitucional, como se dependesse 
isso dos príncipes o não fosse uma emanação da soberania do povo, 
e submetettel-a á Assemblóa Nacional, sem cumprir a promessa, por- 
que jurou a Con?tituição em :5 de Março, prescindindo daquell* con- 
dição. 

— Ora, para o grito de ^Independência ou morte» que a 7 de Se- 
tembro lhe rompera dos lábios nos campos do Ypiranga, concorreram 
varias causas e circumstancias, menos, absolutamente menos a sua 
boa ventado, os seus intuitos 

Uma escravidão de três séculos, a cujo reso esteve a gemer este^ 
paiz ; a liberdade do commercio raaritimo que se iniciou em 1808, 
entre ello e as demais nações ; a fundação de escolas superiores, de 
tribunaes, etc ; a elevação do Brazil á cathegoria de Reino : os ex- 
cessos e despotismo das Cortes portuguezas, exercidos sobre o povo 
brazileiro, era cujo peito naturalmente pulsava um coração patriota— 
eis em resumo, os elementos principaes que determinaram a celebre 
representação redigida por José Bonifácio, depois de terem dado já 
legar era Mina^^ Geraes e no Rio de Janeiro a um movimento bastante 
pronunciado tendente á emancipação. D. Pedro I, porém, é que não 
havia de concorrer para ella, sinão quando lh'o conviesse ; antes é 
mais certo que se lhe manifestava avesso, como se o verifica pelo 
documento para aqui transcripto e por seus actos posteriores ao ju- 
ramento da Constituição. Bis o que escreveu elle ao pae a propósito 



(1) Pereira da Silva- Os Varões illustres. Tom. 11 pag. 2eo, 



— 101 — 

das tendências eraancipadoras do povo brazileiro: «Queriam-nie e di- 
zem que me querem acclamar Imperador. Protesto a Vossa Magesta- 
de que nunca serei perjuro, que nunca lhe serei falso ; e que elles 
far^o o.-ta loucura, mas será depois de eu e todos os portuguezes es- 
tarem {\) feitos era postas, o que juro a Vossa Magestade, escreven- 
do nesta com o meu próprio sangue estas palavras : Juro sempre ser 
fiel a Vossa Magesetade á JSação e á Constituição Portugueza». 

B esse tresloucado e quixotesco príncipe, depois do 7 de Setem- 
bro, iniciou um reinado todo de lisonjas e de distincçôos honorificas á 
similhança do de seu pai ; um reinado todo de divertimentos e dissipa- 
ções, buscando descarte captar as sympathias populares, cscravi/ar 
mesmos os seus súbditos, porque decerto se inspirara nas paginas, 
onde se refere a bella historia de César — tantas vezes heroe, tantas 
endeosado e uma só e para sempre apunhalado diante da estatua de 
Pompeu no recinto do Senado. B coratudo, o povo deixou-se enga- 
nar e nelle confiou, até que os seus actos ulteriores viessem pôr era 
irelevo a sua Índole e o seu caracter. 

Como quer que a redacção do Tamoyo e a da Sentiriella, despres- 
tigiando os portuguezes, censurassem a ordem que elle — D. Pedro — 
expedira ao Governo Provisório da Bahia, no sentido de se remette- 
rem para o Rio de Janeiro todos os prisioneiros de guerra portugue- 
zes, que estivessem dispostos a se engajar voluntariamente no servi- 
ço militar, dous otBciaos patrícios do príncipe espancaram barbara- 
mente a David Pamplona — redactor da Sentmella. A Assembléa Cons- 
tituinte, reunida a 23 de Abril, em cujo seio se distinguiam os An- 
dradas, alarraou-se e, protestando contra similhante selvageria, re- 
clasiou providencias. 

D. Pedro l." não attendeu a essa justa reclamação, mas, ao en- 
vez disto, exigiu por seu turno uma satisfacçao para os officiaes por- 
tuguezes e para a sua augu.sta pessoa, reunindo era palácio a força 
armada, cujos intuitos nao podiam ser sinâo hostis. A' vista de tal 
attitude, a Assembléa declarou-se era sessão permanente ; mas o prín- 
cipe, apoiado nas tropas, exercendo verdadeira dictadura, dissolveu-a. 



(1) Talvez seja um lapsus calami. 



-- 102 — 

e então os beneméritos da pátria, os irmãos Andradas, Monteziima e 
outros foram presos e desterrados. 

Era 1826, diz Armitage, morreu D. João VI, e D. Fedro, no in- 
tuito de coliocar no throno sua filha D. Maria II, depois de celebrar 
o deprimente tratado de 28 de Agosto de 1828 com Buenos-Ayres, 
em virtude do qual perdemos a província Cisplatina (l), recorreu á 
intervenção da Inglaterra, de accordo com o sou gabinete secreto, que- 
um bisíoriador taxa de irresponsável, inconstitucional, absurdo e libcr- 
iicida. Em sumraa, esse homem, que aliás não devemos conderanar, 
porque era afinal de contas uma predestinação histórica e sociológica, 
marchava neste caminho de desatinos, de ambições sem limites, de 
erros e impradencias ; a pátria brasileira, exhausta em suas finanças, 
dilacerada por infrenes luctas partidárias, jazia immersa numa escu- 
ridão profunda, sem sabor que rumo seguir, quan'ío em 1827, sirai- 
Ihante ao sol que rompe no horizonte a viviflcar as plantas com o- 
seu beijo quente, a alegrar a natureza toda com as inundações de 
suas luzes, surgiu um jornal redigido por Evaristo da Veiga ! Bem 
vindo que foi elle e bem adequado o titulo que trouxera ao de cima do 
suas columnas: «Aurora Fluminense». Dahi, como do alto^da tribuna 
parlamentar, para onde o enviou a então província de Minas Geraes. 
como seu representante, Evaristo pugnou sem deseanço, porém com 
afan, sem tibieza, porém com energia e denodo, pela Constituição e 
pelos direitos do povo, contra a politica despótica o imbecil do governo. 

E a sua conducta, no desempenho dessa patriótica e nobilíssima 
missão, foi precisamente o que concorreu para a abdicação do prín- 
cipe a 7 do Abril de 1831, porque a revolução desse memorável dia 
jamais se effectuára, como se effectuou, si elle seguisse extremos, á. 
maneira dos partidos que então se digladiavam . 

O liberalismo moderado o auctoritario era a politica salvadora,, 
naquelle tempo em que o liberalismo democrático seria um mal para 
o povo ignorante, atrazado e incapaz de tirar proveitos de reformas 
que o interessassem directa e immediataraente, como fosse, por exem- 
plo, a federação (2), cuja consequência havia de ser desde logo o es- 

(1) Le Brésil, por C. Reybaud. 

(2) Idéa, pela qual pugnaram com violência o «Republico:», o Luzo Brasileiro, o- 
«Tribuno e outros orgams da imprensa ultra-liberal. 



— 103 — 

tabelecimento do governo republicano era cada uma das antigas pro- 
víncias, quando a não poucas dentre ellas, escasseavam, falleciam 
mesmo, recursos próprios e outras condições iraprescindiveis á orga- 
niza^ao do ura Estado federado. Liberaiisrao, sim, que reformasse o 
que a experiência estava demonstrondo nao convir mais e, pois, não 
dever subsistir, porém moderado, que conservasse o que fosse preci- 
so permanecer ainda. Eis a syntheso do programraa politico de Eva- 
risto da Veiga, tal como ò licito deduzir-se dos seus escriptos e dos 
seus discursos, ungidos sempre desso bom sonso, desse critério que 
distinguem as doutrinas de Benjamim Constant, de Dunoyer. do Droz, 
de Benjamim Franklin e outros publicistas, até hoje apreciados por 
seu eccletismo e pela pureza de sua moral. O trecho seguinte do bri- 
lhante artigo que Evaristo escreveu á propósito da attitude dos sepa- 
ratistas, após o assassinato de Libero Badaró, prova suíBcicntcmente 
o qne acima acabamos de afíirmar : 

«Quando um povo geme nas cadeias de leis oppressoras o não ha 
moio algum por onde a illustração se derrame, então todos os esfor- 
ços são razoáveis, todas as imprudências permittidas. Mas, logo 
que ha representação do paiz, representação especial das Piovincias, 
imprensa livre e garantias do cidadão, para que o necessário apres- 
sar aquillo que hade vir tranquillamente, sem violência, si acaso a 
mudança das coisas o exige? Para que desejar que a mudança se 
opere entre perigos, no meio do frenesi dos partidos, e talvez se 
veja frustada pela mesma aceeleração dos que a pretendem, quando 
o tempo, o derraraamento das luzes politicas a trarião, caso fosse 
necessário ? •» 

Com muito acerto e propriedade seus biographos e quantos o tôm 
glorificado, tecendo-lhe merecidos elogios, o comparam a Benjamim 
Fracklin. 

Si ha, na historia, dois homens perfeitamente assimiláveis, per- 
feitamente parecidos, sob quasi todos os pontos de vista, esses dois 
homens são com certeza o imraortal redactor da <Aurora> — a encar- 
nação viva do 7 de Abril de 1831, e o celebrj philosopho e estadista 
americano. Similhantes no vigor da intelligencia, na rigidez do ca- 
racter e na pureza dos sentimentos, como parecidos íoram na condi- 
ção do nascimento, no modo de servir a Pátria e ató no de morrer 



— 104 — 

por ella, pois que ambos descendiam de pães humildes, que não pu- 
deram ministrar lhes mais que os primeiros rudimentos das lettras. . ., 
sem embargo disto, lograram tornar-se notáveis pelo saber, reivindi- 
cando para o seu povo as liberdades perdidas, ingerindo-se nos go- 
vernos, dos quaes nunca acceitaram nenhum provento até morrerem 1 
Si um delles, como disse Turgot, eripuit ccelo fulmen, do outro, 
bem podemos nós dizer : eripuit sceptrum tyraymis ! 

TuLLio DE Campos. 



o Tenente General Arouehe Rendon 



I 

o tenente general José Aronche do Toledo Rendon, nascido nes- 
ta Capital aos 14 de Março de 1756, foi um paulista dos mais distin- 
ctus, já pela farailia illustre a que pertencia, já pelos relevantes ser- 
viços que prestou á sua terra natal. 

Tinha dois irraáos mais velhos do que elle, a saber: l.o— Francis- 
co Lean -ro de Toledo Rendon, nascido era S, Paulo era 1750 e for- 
mado era Direito pela universidade de Goirabra era 1779 ; foi ouvidor 
de Paranaguá era 1783 e falleceu era 1810, deixando do seu casa- 
raento cora D. Anna Leonissa de Abelho Fortes, pertencente á distin- 
cta e histórica farailia Pinto do Rego, desta capitania, descendência 
illustre que faz honra a S. Paulo até o presente, como sejara os 
Mendes de Almeida e outros. 

2.0 - Diogo de Toledo Lfira Ordenhes, nascido era 1752 e tarabeni 
forraado era Leis pela universidade de Coirabra. Voltando ao Brasil, 
serviu alguns annos corao ouvidor de Cuyabá (1) e là foi raulto con- 
siderado corao raagistrado honrado, expedito e justiceiro. Regressando 
a S. Paulo era 1791, fez era 1793 uraa viagem a Portugal, lá foi no- 
raea«io sócio correspondente da Academia Real das Sciencias de Lis- 
boa e obteve daquella associação que íossera publicadas na Iraprensa 
da Acaderaia as Memorias para a historia da Capitania de S. Vicen- 
te, de F. Gaspar da Madre de Deus. De volta ao Brasil, foi dezem- 
bargador do Paço e raerabro da Assurabléa Constituinte, onde não to- 
mou assento. Falleceu solteiro era 1826, deixando grande parte dos 
seus bens á Sante Casa de Misericórdia, desta Capital. 



(1) Serviu em CuyHbá como juiz de fora e ouvidor desde 1785 até 1790, deixando 
entre ob cuyabanos muitos amigos e admiradores, Vide Ckronicas do Cuyaba. no vol, 
IV desta Revista. 



— 106 — 

Tinha o general mais sete irmãs, que foram Anna Theresa, Cae- 
tana Antónia, Pdlcheria Leocadia, Maria Rosa, Joaquina Luiza, Ger- 
trudes Genefra e Eeduzlnda de Toledo. A primeira falleceu ainda 
moça e as outras todas ficaram sempre em estado do solteiras. 

Estas senhoras residiam todas juntas na Travessa do CoUegio, 
em uma casa que, em 1822, tinha o numero 11, e eram conhecidas 
na cidade pelo appellido de mocinhas da Casa Verde ; possuíam bens 
de fortuna e tinham cerca de quarenta escravos a jornal e em ser- 
viços domésticos e agrícolas. 

Azevedo Marques, nos seus Apontamentos Históricos da Frovmcia 
de S. Paulo, e o dr. JoEo Mendes de Almeida, nas suas Notas Genea- 
lógicas, se referem a este appellido das moças sem nos darem a 
sua razão de ser, ficando o leitor com o direito de suppôr que a ca- 
sa em que residiam nesta Capital era externamente pintada de verde, 
quando a verdade ó que ellas possuíam nos arredores da cidade uma 
propriedade agrícola chamada Casa Verde, na qual, além dos géne- 
ros alimentícios, cultivavam o cafeeiro e já no século passado colhi- 
am alli café bastante para o consumo da família e para presente aos 
parentes e amigos (1). 

Todos os déz írmEos foram filhos legitimes do inestre de campo 
Agostinho Delgado Arouche e do D. Maria Theresa de Araújo Lara, 
paulistas das mais distinctas famílias da capitania, cuja ascendência 
remonta aos tempos heróicos do Portugal e dos diversos reinos em 
que estava dividida a Hespanha, na edade media, como se pode veri- 
ficar pela Nobiliarchia Taulistana, de Pedro Taques. Ler a historia 
dos antepassados des^e casal é passar em revista todos os factos oc- 
corridos na capitania de S. Paulo desde os tempos de Martim Affon- 
so até o fim do século XIX, já pela própria proeminência, já pelas 
suas relações de sangue o de amizade com tudo quanto a capitania 
teve de mais fidalgo e mais distincto. 

E' verdade que o casal tinha nas suas veias um pouco de san- 
gue guayná, porque descendia de Piquiroby, cacique de TJrurahy no 
começo do século XVI ; porêra, este facto, como bem disse distincto 



(1) Esta propriedade agrícola existe ainda ; é situada além do rio Tietê, entre a 
freçuezia urbana de santa Anna e a suburbana de Nossa Senhora do O', pertence hoje 
á família Eudgo e conserva até agora o nome de Casa Verde. 



— 107 — 

escriptor nacional, era nada prejudicou a sua posição social porque a 
filha de Piquiroby, convertida ao catliolicismo cora o nome de Antó- 
nia Rodrigues o casada com o portuguez António Eodrigues, e a sua 
descendência alcançaram a bemaventurança da multiplicação o de 
successivas nobilitações pelo entrelaçamento com muitas familias de 
alta fidalguia. 

Ainda mais : <Esta multiplicação foi tão vasta, tão extensa, quo 
hoje abrange todos os Estados da União ; o cruzamento foi tão ge- 
neralizado o deu-se em tantas direcções que já a Nobiliarchia Pau- 
listana, escripta ha século e meio, não 6 mais do que a historia des- 
ta vastíssima prole. Nem desmerece esta descendência a mistura do 
sangue da íilha de Piquiroby ; pelo contrario, mais a illustra, por- 
quanto sem ella as famílias mais illustres desta parte do Brasil se- 
riam, sim, brasileiras por terem nascido aqui, porôm faltar-lhes-ia a 
sainetc hrasilico que só o sangue daquella princeza selvagem foi suf- 
íiciente para dar-lhes, não existindo ató hoje na successão de tantas 
gerações outra raiz, além delia, que as prenda ao solo brasileiro (1).» 

11 

Formado também ora Direito pela universidade de Coimbra, a 13 
do Julho do 1779, foi José Arouche por algnm tempo advogado nesta 
Capital, onde ainda era pequeno o numero dos diplomados, o teve 
occasião de exercer os cargos de juiz de medições, juiz ordinário,, 
juiz dos orphams o de procurador da coroa, em que se mostrou sem- 
pre proficiente o honrado. 

Sentindo certo gosto pela vida militar, como era próprio da fi- 
dalguia paulista, assentou praça no estado-maior do exercito, já com 
o posto de capitão por ser homem egrégio, e a sua folha corrida ou 
fé de offlcio, muito honrosa para elle e até hoje inédita, diz o se- 
guinte : 



(1) Havia ainda uma outra raiz, que foi Bartira Tebiriçá, filha de Tebiriçá, cacique 
guayaná de Piraiininga. e casada com o portuguez JoSo Ramalho, a qual tem ainda 
hoje descendentes muito distinctos em S. Paulo. 



— 108 — 

«Estado-Maior do Exercito 
Tenente-General Jo.^-ê Arouche de Toledo Rendon 

cAssontou praça de capitão aggrogado ao 1.^ Regimento de Infan- 
teria de Milícias, hoje Batalhão de Caçadores n. 32 de 2." Linha, por 
patente de 13 de Janeiro de 1789; passou a mestre de campo do 2.« 
Terço Auxiliar, hoje Batalhão n, 33 de 2." Linha, por decretro de 2 
Setembro de 179o; passou a inspector geral de Milioias desta provín- 
cia (1) por decreto de 15 de Novembro de 1808 ; passou a brigadeiro 
graduado, ficando dispensado do comraando do Regimento e continu- 
ando no exercício de inspector, por decreta de 17 de Dezembro de 
1813, e á effecti vidado deste posto na arma da 'avaliaria, por decreto 
de 6 de Agosto de 1817 ; passou a marechal de campo graduado por 
decreto de l^ de Maio de 1819 e a eflectivo por decreto de 13 de 
Maio de 182á e apostilla de Õ de Agosto de 1823. Foi dispensado do 
enipreuro de inspector geral de Milícias por decreto de .20 de Junho 
de 1822 e provisão do Conselho Ultramarino Militar dt? 10 de Outu- 
bro do referido anno. Passou a tenente general graduado por decreto 
de 18 de Outubro de 1829. 

«Por attestações dos Governadores e Capítaes-generaes António 
Manoel de Mello Castro e António José da Franca e Horta (2) prova 
que a sua custa concorreu cora bandeiras, caixas e instrumentos de 
musica para o seu Regimento, o qual conservava no melhor pé de 
disciplina; que no emprego de inspector geral de Milícias se portava 
com tal imparcialidade, regularidade e íntolligencia que se fazia muito 
recommendavol no dito exercício, tendo sido também incumbido de 
muitas deligencias, mesmo em grandes distancias da Província. 

«Por attcstação do brigadeiro chefe da Legião mostra que, sendo 
encarregado do recrutamento para aquelle corpo, enviou 141 recrutas 
e lez reconduzir 8 soldados desertores. Pelo Governador e Capitao- 
General desta província Marquez de i:?. João da Palma {^) M encar- 



ei) Deve-se ler capifania e n?5o provinda. 

(2) O primeiro governou a capitania de 8 Paulo de 1797 a 1802 e o seguodo de 
1802 a 1811 . 

;3) Poi governador de 8. Paulo de 1814 a 1817. Tenho em meu poder o attestado 
passado por Franca e Horta e também as cópias das patentes de brigadeiro graduado e 
effecti vo, passado peio Príncipe Regente. 



— 109 -- 

regado da organização de dois corpos de voluntários de Milícias a 
cavallo, que no anno de 1817 marcharam para a campanlia do Sul, 
cuja comraissão cumpriu de maneira que nada deixou a desejar, se- 
gundo attesta o mesmo exrao. Marquez. 

cNo anno de 1819 foi commandar as villas do norte desta provín- 
cia por ordem do Exmo. Marquez de Aracaty, então Governador e 
<'apitão General (i), para obstar qualquer invasão e desembarque de 
tropas extrangeiras, em cuja commissão se conservou desde Outubro 
daquelle anno até Janeiro de 18.0. A importância desta commissão e 
a maneira por que se comportou nella, demonstrou por fíicios do 
mencionado Governador e Capitão General. 

«Este marechal tem do serviço 40 annos e 8 mezes ; destes 24 
annos c 11 mezes em 2.a Linha e 15 annos e 9 mezes em 1.» Linha 
até 15 de Setembro do corrente anno de 1829.» 

E' o que consta da sua fé de offlcio militar ; mas não pararam 
ahi os grandes serviços que prestou á sua pátria. 

Em 1798 foi encarregado pelo capitão-general Mello Castro de 
inspeccionar as aldeias de índios existentes na capitania e de prover 
ao seu bem estar e desenvolvimento, e neste posto tomou muitas 
notas que mais tarde, em 1823, serviram de base para uma interes- 
sante Memoria sobre as aldeias de Índios da província de S. Paulo, que 
foi publicada no volume 4.o da Revista do Instituto Histórico Brasi- 
leiro. 

Liberal e patriota, adheriu francamente á causa da independência 
e foi enviado, em Janeiro de 1822, ao Rio como delegado, da camará 
raanicipal de S. Paulo para pedir ao Príncipe Regente, D. Pedro, que 
desobeiacosso aos chamados das Cortes de Lisboa e ficasse no Brasil. 
Nesta commissão teve como companheiros o coronel Gama Lobo e 
também José Bonitacio. que foi por parte do Governo Provisório, g 
o seu resultado foi ficar no paiz D. Pedro, que alguns mezes depois 
voiu a S. Paulo e foz a proclamação da independência nos campos 
do Ypiringa. De volta a esta ' apitai foi, por seus bons serviços, in- 
tolligencia e provada fidelidade, nomeado commandante das armas 



(1) Capitão general dê S. Paulo de 1819 a 1821 e presidente do Governo Provisório 
de 1821 a 1822; chamava-se João Carlos Augusto de Oeynliausen* 



— lio — 

desta província, por decreto de 20 de Maio de 1822, quando o espi- 
rito publico se achava profundamente agitado c havia inconciliáveis 
divergências entre, os liberaes e patriotas, chefiados pelos Andradas, o 
os reaccionários e retrógrados, dirigidos pelo general João Carlos de 
Ooynhausen e Costa Carvalho. 

Convocada a Asserabléa Constituinte, foi o general Arouche eleito 
deputado por S. Paulo, com José Bonifácio, António Carlos, Paula 
Souza, Vergueiro, José Ricardo do Andrada, Fernandes Pinheiro, Vel- 
loso de Oliveira e Diogo Ordenhes, seu irmão já mencionado, que nã) 
tomou assento e foi substituído por José Corrêa Pacheco e Silva. 
Nesta assemblóa sustentou, com Martim Francisco, Velloso de Oliveira, 
Fernandes Pinheiro, António Carlos e Vergueiro, a idéa da fundação 
de um curso jurídico era S. Paulo, que só quatro annos mais tardo, 
em 1827, foi levada a effoito por Fernandes Pinheiro, então ministro 
do Império. Prudente e moderado, não tomou parte nas discórdias 
que lavravam no seio da Constituinte e não foi envolvido nas vio- 
lentas medidas de repressão e de deportação adoptadas por Pedro I 
depois da dissolução. 

Eleito aindd deputado geral para a legislatura ordinária del826 — 29, 
não quiz tomar assento porque se achava já velho e adoentado e foi 
substituído pelo brigadeir j Ignacio José Vicente da Fonseca ; porem, 
retirando-se da politica geral e deixando-se ficar em S. Paulo, conti- 
nuou a prestar bons serviços nos conselhos do governo o em outros 
ramos da actividade humana e a influir beneflcamente na politica da 
antiga provinda. 

Ill 

Foi, com o velho Brotero, o organizador dos cursos jurídicos desta 
Capital e o primeiro director da nossa academia de Direito,— cargo 
que exerceu por vários annos e do qual se exonerou em 1833. Não 
leccionava cadeira alguma ; havia já trinta e nove annos que tinha 
trocado a carreira do Direito pela das Armas e devia estar inteira- 
mente esquecido dessa sciencia para ensinal-a e muito avançado em 
edade para voltar a estudal-a de novo. Durante seis annos que di- 
rigiu a academia, do 1827 a 1833, foram nomeados e tomaram posse 
os seguintes lentes : 



- Ill — 

1.". José Maria de Avellar Brotero, que leccionou até 1871 o fal- 
leceu em 1873. 

2.". Balthazar da Silva Lisboa, que serviu somente dois annos, 
de 1828 a 1830, e demittiu-se do cargo. 

3.0 Luiz Nicoláo Fagundes Varella, que funccionou por trcs an- 
nos somente, de 18.28 a 1831, porque falleceu neste anno. 

4.0. Padre António Maria do Moura, de 1828 a 1842, anno em 
que falleceu. 

5.0. Carlos Carneiro de Campos, depois visconde de Caravellas, 
de 1829 a 1858, anno em que foi jubilado. 

6.0. José Joaquim Fernandes Torres, de 1829 a 1833, anno em 
que demittiu-se o foi íigurar na politica de Minas. 

7.0. Prudencio Geraldes Tavares da Veiga Cabral, nomeado em 

1829 e jubilado em 1861. Foi genro do general Arouche e teve o 
seu casamento annuUádo por um processo judicial que encheu o ge- 
neral de desgosto e abreviou os seus dias. 

8.0. Thomaz José Pinto de Cerqueira, que tomou assento em 

1830 c demittiu-se em 1834. 

9.0. João Cândido de Deus e Silva, que serviu somente ura an- 
no, do 1830 a 1831, e demittiu-se do cargo. 

10.0. Clemente Falcão de Souza, nomeado em 1830 e jubilado 
em 1864. 

Por decreto de 11 de Agosto de 1827 foi creada a academia de 
S. Paulo e por outro decreto do 13 de Outubro desse mesmo anno 
foram nomeados o general Arouche seu primeiro director e o velho dr. 
Brotero seu primeiro lente. A inauguração teve logar a l.o de Março 
de 1828, C3m muita pompa, grande concorrência de povo e presença 
do mundo offlcial, ecclesiastico e militar. Os frades franciscanos ha- 
viam cedido uma parte do edifício do seu convento para o funccio- 
namento da academia, reservando o resto para a sua habitação e exer- 
cícios religiosos ; porem, ou porque o espaço cedido pelos reverendos 
frades fosse pequeno demais para as necessidades das festas da aca- 
demia ou porque houvesse algara abuso, dando-se á concessão raaior 
elasticidade do que a que estava na intenção dos raesraos frades, o 
que é certo ó que para as festas da inauguração das aulas se occu- 
pou raaior espaço do que o concedido e invadiu-se até a clauzura do 



-- 112 - 

convento, com grave vexame dos reverendos que alli residiam. Dahi 
veiu o seguinte protesto do guardião, que por ser curioso e inédito, 
reproduzo aqui : 

«fix°i.o e Rvm.o Senh)r:-V. Bx.» IL^\ a quem o SENHOR collo- 
cou a frente desta Igr». Paulistana haja por sua bondade de attender 
as razões, q' humildemente dirijo a sua respeitável presença, como 
Zelador, e conservador das Constituiçoens Apostólicas : e fonte donde 
deve dimanar a perfeita moral, e observância da Ley de \. S Jesus 
Christo. 

<Era consequência da Portaria de 27 de 9br." de 1827 em que 
Sua Magestade o imperador foi servido honrar-nos com a eleição 
deste Convento p.» se principiar o Curso Jurídico nós proraptamente, 
e com toda a satisfação aprezentamos os lugares, q'. mais forão do 
agrado de Sua Ex*., o Snr' actual Presidente. Este mesmo Sur'. nos 
tem honrado muito já cora sua estima, já fazendo ver ao Ministério, 
q'. tínhamos tido toda a attenção com os seus sábios desejos donde 
resultou, q'. Sua Magestade o Imperador mandasse agradecer aos Re- 
ligiosos a boa vontade, q'. tinhão mostrado em executar suas Impe- 
rlaes ordens. Transcrevo aqui o Officio do lll^o. e Ex™o. Snr'. Pre- 
zidente para V. Ex.» Rma. ver não só o qt». devemos a bondade do 
mmo, Ex™'>, Snr'., como tãobem o paternal coração de Sua Magestade 
O IMPERADOR. 

COPIA 

«Sua Magestade O IMPERADOR, tendo tomado em Sua Alta 
Consideração a boa vontade, e particular satisfação, que os Religio- 
sos patentearam em ceder no ediflcio do seu Convento as cazas pre- 
cizas para o estabelecimento do Curso Jurídico nesta Capital ; me 
ordena, que lhes louve no seo Augusto Nome esta deciziva prova do 
generoso interesse, que tomâo pela felicidade da Nação, contribuindo 
de tão bom grado para aquelle vantajozo estabelecimento ; o que lhes 
participo para sua intelligencia. Ds. G^. etc. Palácio do Governo 
de S. Paulo, l.o de Fevr». de 1828. 

«Ihomaz Xavier Garcia de Almeida.» 
«Daqui se ve tãobem Ek^\ e Rm» Snr', que o Curso Jurídico 
foi estabelecido dentro do Convento, e por consequência dentro da 



— 113 - 

Clauzura. A Clauzura está demarcada pelas Constituiçoens Apostóli- 
cas, e nao podo ser mudada a arbítrio de qualquer particular. Gre- 
gório nono na BuUa — Quo elongati, 28 de Tbr^. 1230 diz — Nomine 
Monasterii volumus Claustrum, D)inos, et Ojficinas interiores intdligi ; 
e pelas mesmas palavras se explicão innocencio 4.», e Alexandre 4.* 
nas suas Bulias q'. principiáo — Ordinum vestru'. 

«Entretanto consta de certo, que as Senhoras vem assestir den- 
tro do Convento a abertura do Curso Juriíico. Eis aqui o que im- 
plica com as Bailas, com o decoro do Convento, com o systema da 
moral. Nós dêmos lugares para homens estudarem, o serem utois 
hum dia á Nação ; porem foi sempre na ideia de q'. se guardarião 
as leis q', não implicaudo com os seus estudos, e aproveitamento, fa- 
zem huma grande parte do Systema da Religião. Ninguém pode ce- 
der daqui! lo, q'. lhe hé de ultima necessidade, e muito principalmente 
quando penas fortíssimas cem de ligar aos violadores. Nós não po- 
demos ceder do nos utilizar da mesma Portaria, q. serve do entrada 
aos Snrs. Estudantes, ao menos nas oras, q'. não são dos seos Kstu- 
dos : pois hé de ultima dificuldade o servimos } r-* Coníissoens, e es- 
molas por huma porta no fundo do Quintal. 

Podemos promiscuaraente utilizarmo-nos da mesma porta : pois 
não hé contraditório, antes muito racional, e decoroso. Os snrs. Es- 
tudantes acharão nos Religiosos todo o agazalho, e affabilidade, e nos 
teremos a satisfação de sermos estimados de todos. Tal hé a idóa» 
e plano, q'. formo, e q'. a experiência demonstrará. Os snrs. Es- 
tudantes não precizão do Claustro, e nos precizamos não só para dar 
sepultura a nossos Irmãos, como tãobem para as Procissoens em dias» 
q\ não se encontrão com os seos Estudos. Esta hé certamente a 
Vontade de Sua Magcstade Imperial. Nem nos devemos esperar 
outras do tantos Senhores bem educados, e de tão Sabi -s Groverna- 
dores, e Lentos, q'. nos vera honrar nesta Casa do S. Francisco. 

" Não ha necessidade alguma de q'. as Senhoras venhão asses- 
tir a abertura do Acto, dentro do Convento, e então poder-se hia fazer 
a Abertura com mais pompa na Igreja, e depois hirera para hum bom 
Consistório na Ordem . * e tomarem hum copo de agoa, sem q'. todo 
este povo entrasse em huma forto murmuração, sem que houvessem 
bastantes peccados pela falta de caridade q', rezulta das quostoens^ 



- 114 - 

q'. se movera em taes circumstancias, e sem q'. nos mesmos fosse- 
mos o alvo de muitas seitas. Não ha de faltar (como ja vai appa- 
recendo) q.™ defifonda, e quem attaque este projecto. 

" A Bulia de S. ?. 5.^ (1), que principia — Begularium persona- 
rum, 24 Sbr.^ 1563 diz — Motu próprio, et ex certa scientia, ac de Após- 
tolicod potestatis plenitudine, omnes, et singulas facultafes, ac licentias 
ingrendienãi Monasteria, ad Damos Carthusiensium, at aliorum quo- 
rum cumiue Begularium Ordinum, etiam Mendicantium , et mulieribus 
cujus ciimque status, gradus, ordinis, conditionis, et quacumque digni- 
tate, ac proeminentia 2wced'tis etiam Çomitisiis, MarcMonisis, Ducisis, 
sub quibuscumqve verhorum tenorihus, et formis, et cum quibuscumque 
etiam derogatoriarum derogatoriis, aliisque fortwribus efficaciorihus, et 
in solilis clausulis, nec non irritantibus Decretis áb Apostólica Sede 
quimodocumque concessas, quarum tenores, perinde, ac si de verbo ad 
verbum prmsentibus insererentur, haberi volumus pro expressis, tenore 
prcestntium revocamus, et casas, irritas, et inanes esse decernimus. dis- 
tricte prohibentes mulieribus quidem proeditas facultates, et licentias 
pretendentibus, sub ex-cmnmunicationis latce setentioe prnna, postquam ha- 
rum Utterarum notitiam habuerint, d qua non possint absolvi, â Nobis, 
aut Romano Pontífice, qui pro têmpora fuerit, proeterquam in mortis 
articulo, nec dictus Damos, et Monasteria ingredi audeant. Ipsis vero 
Monasteriorum, et Conventuum Abblatibus, Proepositis, Frioribus, et 
aliis PríEsidentibus quacumque vocentur, et eorum Monarchis, Canonicis^ 
et Fratibus, sive Mendicantibus, sive non Mendicantibus, sub privationis 
officiorum, quoe in proesentia obtinent, et inhabilitatis in posterum ad 
illa, et alia omnia, et suspentionis á Divinis, ipso facto sine alia de- 
claratione, incurrendÍ9 pcenis, ne eas introducere, admitterevéprcesumat. 

«Rogo portanto, e supplico humildemente a V. Exc. Revra.» -«.m 
nome de Nosso Seráfico Patriarcha, da S.*» Ró Apostólica, e m.^° de S. 
Magestade o Imperador, q.' se digne promover a Inviolabilidade destas 
Leis, e fazer com q.' as Snr.as em tal cazo assistão na Igreja ao Te 
Deum Laudamus, q.' faremos em Acção de Graças logo depois da 
Oração de Abertura. 



II) São Pio V, papa de 1565 a 1572. 



- 115 — 

D.s Nosso Snr.' derramo sobro V. Bxç». milhares de Graças, o 
beneflcíos. 

26 de Fcvr.o de 18.28. 

De V. Exç.** 
Súbdito m.^o attento, e respeitador 
Fr. Jozé de St.^ Delfina. 

Foi attendida a reclamação do escrupuloso guardião ; as farailias 
não penetraram no interior do convento, íicou salvo o systema da 
moral, mantida a inviolabilidade da clausura e as festas foram na 
sacristia da egreja de S. Francisco, unida ao convento onde se in- 
^tallou o curso jurídico do S. Paulo, que alli funcciona até o presente. 

IV 

O general Arouche foi um zeloso protector da Santa Casa de Mi- 
sericórdia desta Capital e na qualidade de seu provedor fazia lhe doa- 
ção dos vencimentos que recebia como director da faculdade de Di- 
reito, — factos estes que muito abonam os seus sentimentos caridosos. 
Foi também um dos contructores da egreja de Santa Ephigenia, a que 
fez importantes donativos. 

Reíormou-se no posto de tenente -general effectivo e falleceu a 26 
de Junho de 1834, com 78 annos de edade. 

Do sou casamento com d. Maria Thereza Rodrigues de Moraes 
não deixou descendência; mas, tinha -uma filha natural, chamada Ma- 
ria Benedicta, havida em tempo de solteiro e legitimada, a quem dei- 
xou como herdeira de seus bens. Esta casou-so, mas não teve filhos 
e nella extinguiu-se a geração do paulista illustre que tanto honrou 
a sua terra natal. O largo do Arouche, formado em terreno que foi 
de sua propriedade, perpetua a sua memoria e um seu retrato a óleo» 
conservado na Santa Casa de Misericórdia, relembra os grandes bene- 
ficios que fez áquella pia instituição. 

Azevedo Marques, nos seus Ajjontainentos Históricos, o o dr. João 
Mendes de Almeida, nas suas Notas Genealógicas, não dizem a quQ 
família pertencia d. Maria Thereza, esposa do general. Era filha do 
cirurgião-mór Jeronymo Rodrigues e do d. Maria Potencia Leite de 
Moraes, neta paterna de outro Jeronymo Rodrigues, de Portugal, e 



- 116 — 

neta materna de João Leite de Moraes e de d. Maria de Lara e Al 
meida. Foi casada em primeiras núpcias com o ajudante Victorino 
Pinto Quedes e, tornando-se logo viuva, casou-se em segundas nú- 
pcias com o general Arouche nesta cidade, en 1791. Jeronymo Rodri- 
gues, sogro do general, na sua qualidade de cirurgião-mór, prestou 
serviços ao governo portuguez e remetteu, por Martim Lopes, a Lis- 
boa os documentos desses serviços para obter a recompensa ou fa- 
vores a que tivesse direito. Este direito foi transmittido a sua fliha 
Maria Theroza e annos depois era ainda defendido pelo general, que 
desposou aquella senhora. 

D. Mar. a Benedicta, a fllha legitimada do general, fez um casa- 
mento desgraçado com o dr. Prudencio Geraldo Tavares da Veiga 
Cabral, lente da nova academia, de quem atiaz já se fez menção. 
Um tal enlace não era do seu gosto; o noivo era ura homem nervo- 
so e passava por ser um tanto estróina e mesmo maluco ; mas per- 
tencia á academia, era lente, tinha uma boa posição social e pareceu 
ao general que era um bom partido. Fez-se o casamento; porém, na 
mesma noite das bodas, quando os convidados se retiravam, o noivo 
arrependia-se do que praticara e passeava em uma sala, todo agitado 
e repetindo as palavras : — « Que fizeste, Cabral ? » 

Deixou a casa nessa mesma noite, nessa mesma hora, para nunca 
mais lá voltar. Por parte da noiva foi proposta acção de nuMidade 
do casamento, que foi julgada pelos tribunaes do paiz na parto civil 
e os respectivos autos ainda existem nesta cidade, sendo considerados 
como verdadeira curiosidade jurídica, já pela proeminência dos liti- 
gantes, já pela raridade da espécie. Pelo lado religioso a matéria foi 
levada até ao papa, em Roma, que concordou cora a nullidade pro- 
posta e reraoveu os ultiraos escrúpulos da família relativos a este 
lamentável acontecimento. Nenhum delles jamais se casou outra vez. 
Elle continuou a reger a sua cadeira de lente até 1861, quando jubi- 
lou-se, e falleceu era Wó'2, e ella legou toda a sua foi tuna á família 
Rego Freitas. O bellissimo e populoso bairro da cidade, chamado 
Villa Buarque, está todo edificado era terreno que foi de sua proprie- 
dade. 



117 — 



Amigo sincero da monarchia constitucional representativa, ficou 
o general Arouche desagradavelmente impressionado com o plano de 
alguns reaccionários de proclamar o governo absoluto de Pedro I, que 
passou dois annos depois do outorgada, em Wi4, a constituição poli- 
tica do império sem convocar o corpo legislativo nacional. Para mui- 
tos este plano era somente dos cortozaos e dos letrogados, não tendo 
D. Pedro parte alguma nelle, nem favorecendo de qualquer modo a 
sua realização. Entretanto, o próprio ministro da Guerra, José Cle- 
mente Pereira, não fazia mysterio desse plano, no Rio de Janeiro, e 
o comniendador Manoel da Cunha Azeredo Coutinho do Souza Chi- 
ch rro chegou a agir no sentido do realizal-o em aubaté e em ou- 
tras villas do valle do Parahyba, onde servia o cargo de juiz de fora. 

O general Arouche, raonarchista sincero e dedicado á dynastia 
bragantina, pertencia ao numero daquelles que acreditavam na leal- 
dade de Pedro I e na sua desinteressada adhesão ao regimen consti- 
tucional que decretara e fizera jurar a 25 de Março de 1824. Entre 
os papeis velhos por elle deixados á sua família e por esta a mim 
confiados, encontrei um frotesto mauuscripto contra o commendador 
Souza Chichorro e contra as camarás municipaes da sua circumscri- 
pçao judiciaria, que por servilismo, bajulação, medo ou ignorância se 
prOfUzeram a auxiliar a realização do governo absoluto de Pedro I. 
Transcrevo em seguida esse protesto como um elemento a mais para 
o conhecimento do caracter do general e para o estudo da historia 
do curto e agitado governo do primeiro imperador. 

« Lendo no Diário Fluminense^ de 14 de Maio, os documentos que 
dizem respeito ás sediciosas suggestões do Juiz de Fora de Taubaté 
e mais villas da sua dependência, cm S. Paulo, para proclamar alli o 
governo absoluto, não pude deixar de me mortificar, muito particu- 
larmente por me lembrar que a Província que mais se distinguiu na 
proclamação da liberdade politica do Brasil se vê agora manchada 
com uma tentativa em opposição á liberdade civil, não obstante que 
tal infâmia não deve transcender além do sr. Chicorro. Sim ; a his- 
toria não se encarregará dos nomes dos membros daquellas camarás 
sinão para recommendar ao despreso a sua nullidade. 



— 118 — 

«Voltando ao sr. Chichorro, estou certamente persuadido, qualquer 
que seja a sua perversidade, que elle raesnso não pesou o mal que 
se dispunha a fazer ao nosso Heróo e ao Brasil, segundo a ignorân- 
cia que dá a conhecer naquollo manejo e no seu offlcio do Maio, nao 
obstante que seja capaz o sr. commendador de sacrificar a gloria que 
toca ao nosso Augusto Imperador de ser o fundador do primeiío im- 
pério livre do mundo a troco de qualquer casaca com que effectiva- 
mente cobriria o seu corpo e descobriria a sua infâmia (^) 

«Este attentado pareço provir da benevolência o pouca severidade 
das repartições do Império para com os cabildantes de Montevideo, e 
mesmo as suas portarias do 13 de Maio desapprovam os passos do tal 
commendador Juiz do Fora em nome das camarás com tanta docili- 
dade, que a não serem as medidas tomadas em Conselho mal podia 
o farçante sentir o horror do seu crime. Bemdicto seja tão illustrado 
Conselho o abençoado seja para sempre, com toda a sua progénie, o 
^mmcrtal Defensor Perpetuo e Imperador Constitucional do Brasil, que 
Eão 6 capaz de aberrar do caminho da justiça, nem com as sedições 
de todos os hypocritas, como o sr. Juiz de Fora de três villas. 

«Se eu fosse a fazer reflexões sobre a matéria iria longe ; concluo 
então cora uma observação sobro aquella parte do dito offlcio : Si se 
declarar a vontade da capital como eu espero, o Nosso Augusto Impe- 
rador re- entrará no goso dos seus inauferíveis Direitos de Monarcha 
Absoluto . 

«I)á-so maiar pedantice ! O sr. Juiz de Fora julga Sua Magestade 
Imperial constrangido ? Não sabe a historia de Henrique IV, da In- 
glaterra, que por sua viciosa declaração de direitos lançou a sua pos- 
teridade e a nação em uma serie infinita de calamidades ? Ignora que 
o nosso Augusto Imperador tem por seu mais honorifico titulo, eterno 
e inauferivel— Unanime Acclamação dos Povos? Não sabe que o nosso 
Heróe despresa a memoria dos Caligulas, Neros e Caracalas e que só 
quer se parecer com os Henriques 4.os, de França, com os Titos. An- 
toninos e Marcos Aurelios? 



(1) Aqui traz o manuscripto a seguinte nota : 

*La misma capa que te enculre la misma te ãesculre», disse Philippe II ao carni- 
ceiro que encontrou em Lisboa vestido a cavai] eiró». 



- 119 - 

*A propósito lerabra-mo uma anccdota :— Jacob I, rei da Inglater- 
ra, entrotendo-so á mesa em companhia do dois bispos, Andrewes e 
Neile, poz o rei (i) era questão si não podia sem as formalidades do 
Parlamento tornar o dinheiro dos seus súbditos quando tivesse neces- 
sidade, e excusando-se o primeiro cora o especioso pretexto de não 
ser versado em matérias parlamentares, accudiu o segundo mui lam- 
peiro : — Senhor, nós não respiramos outro ar que não seja por Vossa 
Magestade ; que duvida pôde, pois, haver que o possaes fazer. — Jacob, 
comtudo, que não tinha bastante fé na decisão de ura tão vil lison- 
geiro, insistiu com o honrado Andrewes para que desse a sua opi- 
nião, ao que o bispo satisfez do modo seguinte : — Senhor, eu creio 
que sem offender lei alguma Vossa Magestade pode tomar o dinheiro 
aqui do meu confrade Neile porque elle vol-o oferece. 

«No mesmo caso conformo-me cora este parecer e, ou o sr. Juiz 
de Fora seja tolo ou velhaco, bom será fazel-o ser governado despo- 
ticamente, não por um príncipe justo, que perderia nisso a sua digni- 
dade, mas sira por ura carcereiro por todos os dias da sua vida.> 

Este protesto não tora, de certo, a linguagem floreada e a elo- 
quência arrebatadora de muitos pamphletistas modernos, Torres -Ho- 
mem, Landulpho, Amaral e outros, e mesmo é obscuro quando se 
refere ao cabildo de Montevideo ; mas ó sincero o neile se reflecte 
todo o sentir do paulista honrado e simples que ainda acreditava na 
lealdade constitucional do primeiro imperador. A anedocta dos dois 
bispos inglezes e a sua applicação ao caso do commendador Chichor- 
ro mostram que o general tinha não somente patriotismo e amor ás 
instituições liberaes, mas também muito espirito e uma certa malicia, 
bem combinados com o bom senso e com a profunda aversão ás for- 
mulas do despotismo. 

VI 

Não obstante as suas múltiplas occupações, já como advogado, já 
como magistrado, já como militar, era o general um homem de negócios, 

(1) Henrique IV, rei da Inglaterra de 1400 a 1413, foi um usurpador violento e deu 
por seus actos origem á longa e desastrosa Guerra das Buas Eosas entre as casas reaes 
de Lancaster e de York. Jacob é conhecido na historia por Jaime e era filho da des- 
graçada, Maria Stiiart, rainha da Escossia ; succedeu á rainha Elisabeth na coroa da In- 
glaterra governou mal de 1C03 a 1625 e foi pae do rei Carlos I, desthronado e enfor- 
cado por CromweU em 1649. 



- 120 ~ 

previdente quanto ao seu futuro bem estar, niethodico e systematico 
até nos menores negócios. Possuía elte nesta capital ura bora nume- 
ro de prédios, sendo 7 na antiga rua do Príncipe, hoje Quintino Bo- 
cayuva, 3 na run do Quartel, 4 na rua da Freira, hoje Senador Feijó, 
uma na rua de S. José, hoje Libero Badaró, uma na rua Alegre, hoje 
Brigadeiro Tobias, e uma na rua do Jogo da Bola, mais tarde rua da 
Princcza e hoje Benjamin Constant — total, 17 casas, sendo uma de 
sobrado. 

De cada uma destas casas conservava elle escri; turaçao especial, 
em forma de conta corrente, com os nomes dos inquilinos que ncllas 
residiam, importância do aluguer, datas dos pagamentos e despesas 
da sua conservação. Transcreverei algumas dessas notas, não so- 
mente por serem curiosas, como para servirem de base de compara- 
ção entre a cidade de S. Paul> de setenta annos atraz e a prospera 
capital de hoje : 

— Rua do Piincipe, n. 10, alugada mensalmente a Francisco Lou- 
reiro por 1^600, em 18.24, passando de 18i-?5 em deante a 2^000 por 
mez até 18'J9. 

— Rua do Príncipe, n. 11, alugada mensalmente a Gertrudes Maria- 
de Jesus, mulher parda, por lj^60Q, passando de 18"25 em deante a 2p)00, 

— Rua do Príncipe, n. 12, alugada a Marcellino Motta, mensal- 
mente por ipOO e depois de 1825 a :'$000. 

—Rua do Quartel, n. 14, alugada á viuva Portilho, mensalmente 
por 5$0C0, sendo fiador o coronel Francisco Alves Ferreira do Amaral, 
em 1824 ; entregou as chaves em 10 de Fevereiro do 1825, íicando o 
sr. coronel a dever um mez e dez dias. Passsou a ser occupada pelo 
escrivão da camará Benedicto de Toledo, a 6^400 por mez ; ficou a 
dever 25 mezes, de que passsou credito em 14 de Março de 1827. 
Recebeu então as chaves o sargento-mór Diogo José Machado, que a 
tem pago até 22 de Outubro de 1829, quando aforei ao sr Queles, a 
quem hoje pertence. 

— Rua do Quartel, n , alugada em 15 de Julho de 1829 ao 

sr. Carneiro de Campos (1) a 12p00pormez. Recebi ties mezes até 



(1) Foi um dos primeiros lentes da Academia de B. Paulo, e seu direceor de 1833 a 
18c 5 ; jubilou-se em 1868 com í9 annos de magistério. Foi depois o Visconde de Cara- 
vellas. 



— 12! — 

15 de Outubro. No dia 15 de Dezembro entregou as cliaves estando 
a me dever 2l^3oO ; mandou-rae um bilhete de 50 j^OOO para pagar-me 
e dar-lhe 28^670 de troco, que mandei pagar pelo Barreto. Tomou 
as chaves Joaquim José Freire da Silva em 6 ne Dezembro de 18.29 
e entregou-as em 15 do Maio de 18.il, ficando a dever um anno de 
aluguer, pelo qual o filho se obrigou. A 18 de Maio foram as chaves 
ao estudante Raphael de Araújo Ribeiro a pedido do sargento-mór 
Godoy. 

— Rua do Jogo da Bola, casa com quintal muradu e portão, alu- 
gada ao cirrurgião-mór Toledo em 18'23, por 1^000 mensaes. Dei 
ordem ao meu procurador Borges para que nao recebesse os alugue- 
res do sr. Toledo. 

— Rua da Freira, n. 20, alugada ao mestre sapateiro Francisco 
de Paula, mensalmente por lp2«i, em 18'33 ; pagou ao procurador até 
17 de Janeiro de 1826 ; mas negro velhaco, foi executado e penhora- 
ram-ihe as bagatelas ; recebi as chavoí? em 24 de Junho de Ib^^T, com 
4Í(000, ficando outros 4^000 para as custas. Entrou então na casa 
Carlota Joaquina com flapça de D. Gertrudes Feijó, que raandou-me 
como penhor um annel de pedras brancas, que lhe restitui quando 
saldou a conta. 

Sobre a casa n. 22, da rua da Freira, alugada em 1824 a Anna 
Polycena por 5 patai^as mensaes, encontra-se a seg -inte nota : 

« Foi aforada a Domingos Carlos Pereira a 12 de Novembro de 

< 1829, ficando Anna Polycena a dever desde 1.» de Agosto de 1828 
€ até a data do aforamento. Domingos Carlos, com o meu consenti- 
« mento, passou o foro a Henrique Stockler e este, vendo-se perdido, 
« criminoso de morte e preso, fez cessão do foro, e eu recebi as cha- 
« ves, que entreguei ao sargento-mór António Xavier de Miranda, em 

< 20 de Dezembro de 1831, pelo módico aluguer de 20560 mensaes.» 

Esta nota ó um tanto suggestiva : Libero Badaró foi assassinado 
nesta capital na noite de 20 de Novembro de 1630 e segundo rezam 
as chronicas do tempo por três allemães, dos quaes ura se chamava 
Simão Stock. Cora a facilidade de se corromperem os nomes ex- 
trangeiros, como Tacks para Taques, Leims para Leme, etc-, é possível 
que o verdadeiro nome do assassino fosse Stockler, que é bastante 
commum em S. Paulo e Minas, e pela nota acima vemcs quedem 1830 



- 122 ~- 

o general teve como inquilino em sua casa n. 22, da rua Freira, um 
individuo chamado Henrique Stockler, que nesse tempo so tornou cri- 
minoso de morte e foi preso. Nao haverá alguma relação entre este 
Henrique e aquelles allemães, assassino de Badaró ? E' um ponto im- 
portante da historia paulista, deixado até hoje na obscuridade e que 
aquelle general bem podia nos ter esclarecido. 

Por estas minuciosas notas, que representam apenas uma peque- 
na parte do livro do que foram extrahidas, vemos a attenção que o 
general dava aos seus negócios, e era tão cuidadoso que tinha escripta 
especial para uma casa da rua do Brigadeiro Tobias, alugada por três 
patacas por moz e para despesas até de 80 réis feitas nos seus prédios. 

Como documento de valor para as suas qualidades de ho- 
mem do nogocios e também como amostra das suas relações com seus 
irmãos, transcrevo abaixo uma carta particular por elle dirigida ao 
sou irmão Diogo Ordenhes, que se achava em Lisboa em 1794, depois 
de ter estado alguns annos em Cuiabá como magistrado. Para apre- 
ciar a linguagem da carta e o tora um tanto paternal que a caracte- 
riza, deve-se levar cm vista o facto de Diogo Ordenhes ser quatro 
annos mais cdoso do que o general, como elle formado em direito em 
Coimbra e magistrado de alta capacidade moral e scicntiflca. A. car- 
ta diz assim : 

<Mano Diogo : — Tenho recebido as vossas cartas, a excepção da pri- 
meira, que cá não chegou . Estimo que passos bem, já livi e de moléstias . 

< Esta vae pela corveta que breve desferra do porto de Santos e 
de que é capitão o Piedade, moço, bom rapaz, e muito melhor para 
ouvir os seus disparates. Esteve aqui em termos de ir tourear de 
«apinha, mas tomou melhor accordo a conselhos dos interessados na 
sabida do barco. 

< Hontem me appareceu aqui aquelle vosso F. Henriques, que 
veiu do Cuiabá e parte já para Santos para ir na mesma corveta, no 
rancho do contra-mestre. Por elle vos envio cinco cannas cardosas 
das que pedistes ; são as que pude apromptar depois da vossa carta 
de 31 de Agosto passado. Uma tinha eu, três tinha a mana D. Cae- 
tana e uma a sra. D. Marianna ; ellas gostosamente as offercceram quan- 
do souberam que as queríeis . Já as encommendei para ( oritiba e 
quando vierem mais vos irão. 



- 123 - 

« Neste mesmo navio vos vae um caixote de ca:é da Casa- Verde, 
Estamos a espera do Santos -Martyres e do navio dos Freire, segun- 
do diz a praça do Santos. Deus queira que venham logo e que me 
tragam os ornamentos de que tanto se descuidou o Lacerda, e já 
vejo que não servo para correspondente. 

« Esta corveta era poucos dias carrega, pois a praça de Santos 
está atacada de géneros de embarque. Eu podia nella mandar o res- 
to do vosso dinlieiro em algodões, que o capitão queria levar na ca- 
mará, e ellcs se acham promptos ; comtudo não o faço visto que vós 
tanto desconfiastes da corveta, não só em razão do barco, como por 
causa dos francezes. Portanto, como elles se acham promptos, isto 
é, os algodões, podeis flcar certo de que hão de ir no primeiro navio 
que sahir, que ha de sor um dos dois que se esperam, e vós si qui- 
zerdes podeis segurar, para o que com esta irá a conta. 

« Creio que já lá está a salvamento o navio Cysne, que bom 
cuidado me dá, a mim e mais a Josó António. Si os géneros estive 
rem ainda com o valor quo vós informaes a Josô António, não per- 
deremos o trabalho e lucrareis na partida de couros que foram por 
vossa conta. 

« A nossa gente anda toda boa. A cidade está ha muito tempo 
em uma revolução de Festas Roaes, bem atrapalhadas com as chuvas 
Comtudo ellas se têm feito com mais aceio e grandeza do que per- 
mittiam a pobreza e pequenez da terra. No íini vos irá uma relação 
fiel de tudo. 

« As minhas recommendações antigas supponho estarem muito 
na vossa lembrança e por isso não as repito. 

« Quando mandardes o brazão deve vir um em meu nome para 
ter cada um o seu, e mandae-me um slnoto em prata, cora a conta 
da despeza que me pertence. 

« A Lacerda recommendei muito quo procurasse nas mãos de 
António Lobo uns papeis e serviços do fallecido meu sogro, qne 
Martim Lapes tinha levado, como consta das cartas do mesmo, que 
de lá escreveu. Vede si podeis arrecadar esses papeis e guardae-os, 
mandando a minha custa tirar uma copia por qualquer amanuense, 
ou resumo, para me mandardes e eu assim saber o que ha, pois cá 
não ficou nada c cuido que foram os próprios originaes. O vosso 



- 124 - 

dinheiro, que parava era rainha mao, eram 604^800, e abatendo 482j${4*^i0 
que foram importando os 300 couros que levou o navio Cysne, ficara 
122)^400, que hao de ir era algodões; e como estes foram comprados 
cora caroço e raandados descaroçar, vos vão raais baratos do que nós 
comprámos os que foram pelo navio Cysne. Podeis segurar 3' ou 32 
arrobas mais ou menos, que para completar os saccos ha do ir mais 
alguma cousa, segundo me parece; mas ao depois irá a conta. 

« Adeus, que o Henriques vem buscar esta carta para partir 
araanhã. Recebei uraa viva saudade rainha e de toda esta casa. São 
Paulo, 26 do Fevereiro de 1794. 

Vosso Irmão Ara^. 
José . > 
Vil 

José António, a quem o general se refere, era ura negociante em 
Santos, cora relações era Portugal, e coraraissario exportador dos gé- 
neros que e general reraettia ao seu irraão era Lisboa. Lacerda era 
ura amigo da familia, em Portugal, e servia de correspondente ao 
general, cujas ordens cumpria mal. D. Caetana era a mais velha das 
irraãs vivas do general e uraa das mocinhas da Casa- Verde, jà mencio- 
nadas acima. D. Marianna era uraa fidalga paulista e assignavase 
Marianna Angélica Fortes de Bustaraante Sá Leme; era filha do dr. 
António Fortes de Bustaraante Sá Lerae e irraã de D. .Joaquina Jo- 
sepha Pinto da Silva e de D. Anna Leóni>^sa de Abelho Fortes, es- 
posas que foram do dr. Francisco Leandro de Toledo Rendon, irmão 
mais velho do general. 

Martira Lopes, mencionado na carta, foi o celebre capitão gene- 
ral que infelicitou S. Paulo de 1775 a 1782, perverso, quasi louco, 
devasso, e assassino do infeliz musico Caetano José da Costa, conhe- 
cido por Caetaninho e herôe de um drama muito aiTeciado em S. 
Paulo em outras eras. António Lobo, tambera mencionado, era um 
moço borracho, turbulento, filho do capitão -general Martira Lopes e 
seu companheiro de orgias. Foi elle quem, em uraa festa offlcial dada 
por frades benedictinos na fazenda de S. Caetano, na estrada de Santos, 
na qual ao vinho e ao deboche se juntava uraa representação th ea trai, 
a que assistia o oapitão- general, atarracou-se de unhas com o musi- 
co Caetano e foi por este ferido no pescoço cora uraa faca, estando 



— ir>5 - 

ambos ura tanto embriagados polo generoso vinho dos santos frades. 
Por este ferimento, aliás leve e sem consequências para o offendido, 
foi o pobre Caetaninho sujeito a um simulacro de processo perante 
juizes escolhidos ad-hoc e adrem, condemnado á morte e enforcado, 
para exemplo dos povos e manutenção do prestigio da autoridade do 
capitão general. 

Nos tempos coloniaes os que prestavam serviços voluntários ao 
rei tinham direito a uma certa recompensa, que em regra não pas- 
sava de ura posto na milicia, de um offlcií» de justiça ou de fazenda, 
de uma coramenda de Christo, cora tença ou pensão annual de 50j$(000, 
ou mesmo de uma semples carta de agradecimento firmada pelo pró- 
prio rei. Não era grande cousa, mas julgavam os paulistas que era 
quanto bastava para a sua nobilitação e para satisfazer o seu amor 
próprio. Assim, esses serviços eram considerados como bens da for- 
tuna e quando quem os fazia não recebia a devida recompensa, le- 
gava-os a seus herdeiros para que a houvessem do governo portu- 
guez. Daqui vinha a ordem do general Arouche para Lacerda arre- 
cadar de António Lobo uns papeis e serviços do seu fallecido sogro, 
que Martim Lopes tinha levado quando deixou o governo de S. Paulo, 
em l';82, e que deviam estar em poder do filho António Lobo ou se- 
pultado por tantos annos nos archivos do Conselho Ultramarino de 
Lisboa 

E' para extranhar que na carta acima transcripta o general não 
diga uma só palavra sobre a politica e sobre os negócios public';s da 
capitania, para informar a seu irmão, que estava era Lisboa havia 
raais de um anno, do que aqui se passava, nem se mostre curioso de 
saber delle noticias politicas de Portugal e de toda a Europa, nesse 
tempo convulsionada pela Revolução Franceza e pelas guerras que 
delia resultaram. 

Esta indifl:orença sobre o que estava se passando na capitania 
pode ser explicada pelo facto de nada ter occorrldo de anormal e 
importando, que merecesse especial menção; porem o silencio sobre a 
politica europêa parece mais calculado do que casual. Homem de fina 
educação, diplomado em Direito e ofiflcial de alta patent> do exerci- 
to, não podia elle de modo algum deixar de se interessar pelos acon» 
tecimentoc) da Europa ; porem, como rebento que era de uma velha 



>- i26 — 

aristocracia, conservador e moderado por indolo, parece que elle pre- 
feria ingnorar por eraquanto os estragos produzidos pela revolução de 
89 e os horrores do regimen do terror, então era pleno vigor, tanto 
em Paris como em todas as cidades da França, a estar se incommo- 
dando com as consequências daquellas sanguinárias luctas sem poder 
oppor-lhes uma barreira ou ao menos moderar a sua violência. Seria 
uma espécie do fatalismo rausulmanico, o que tem de ser ha de ser, 
mas perfeitamente esplicavel e mesmo acceitavel neste caso. 

O brazão de armas, cuja copia o general pediu ao seu irmão, 
foi-lhe remettido de Lisboa e existe entro os papeis velhos que estão 
em meu poder. E' um documento interessante, desconhecido da mo- 
derna geração, e por isso o transcrevo aqui : 

BRAZÃO DE ARMAS 

«Dona Maria, por graça de Deos, Rainha de Portugal e dos Al- 
garves, daquem e dalém mar em Africa, Senhora de Guino, e da 
Conquista, Navegação e Oomraercio da Ethiopia, Arábia, Pérsia o In 
dia, et costera : — Paço saber aos que esta minha Carta do Brazão de 
Armas de Nobieza e Fidalguia virem que o Bacharel José Arouche 
de Toledo Rendou, Mestre de Campo do Segundo Terço Auxiliar de 
oorra-acima da Capitania de S. Paulo, de onde hé natural, me fez 
petição dizendo que pela sentença de justificação da sua nobreza, a 
ella junto, proferida e assignada pelo meu Dozembargodor e Corre- 
gedor do Civel e Casa da Supplicação, o Doutor José António Pinto 
Donas Boto, subscripta por António José de Souza, escrivão do mes' 
mo juizo, e pelos documentos incorporados nolla, se mostrava que ollo 
hé filho legitimo do Agostinho Delgado Arouche, cidadão da mesma 
cidade, Guarda-Mor das Terras e Aguas Mineraes da villa de Parna- 
hyba e Mestre do Campo do Terço Auxiliar da villa de Paranaguá, 
da mesma Capitania, e do Dona Maria Thereza do Araújo Rendou ; neto 
por parte parterna do Sargento-Mór Francisco Nabo Freire e de Dona Ma- 
ria Pires de Barros : neto pela parte materna de Dioge de Toledo Lara» 
Capitão Mor que foi o Regente dos minas do Paranapanema, que descobriu 
a sua custa, o Dona Angela do Siqueira e Quevedo ; bisneto por parto 
materna do João de Toledo Castelhatios e de Dona Maria de Lara, filha 



- 127 — 

de Lourenço Castanho Taques, governador que foi da leva do descobri- 
mento das Minas Geraes, pelo que recebeu honrosissimas cartas do 
Senhor Rei Dom Pedro Segundo, e de Dona Maria de Lara ; terceiro 
neto polo mesmo lado de Dom Simão de Toledo Piza, natural da ci- 
dade de Angra, de onde, depois de militar nas Armadas e Presidies 
de Castella, se passou para a referida cidade de S. Paulo, onde foi o 
tronco o chefe da lamilia do seu appellido, e do Dona Maria Pedrosa ; 
quarto neto pelo mesmo lado do outio Dom Simão de Toledo Piza, 
governador que foi do Castello de S. Filippe, da cidade de Angra dos 
Reis, o de d. Gracia da Fonseca Rodovalho ; quinto neto peio mesmo 
lado de Dom João do Toledo Piza, fidalgo da illustrissima Casa do 
Silva do Tormes, Duques de Alva e Condes de Orepéza, e Dona Anna de 
Castelhanos ; bisneto por parte materna de Francisco Matheus Ren- 
dou e do Dona Maria de Araújo, filha de Fedro Taques de Almeida, 
fidalgo da minha Real Casa, Capitão-Mór, Governador o Alcaide-Mór 
da Capitania de S. Vicente e S. Paulo, e Administrador geral das al- 
deias do Real Padroado da mesma Capitania, e de d. Angela de Si- 
queira ; terceiro neto de Dom Pedro Matheus Rendou o de Dona Maria 
Moreira Cabral ; quarto neto de Dora João Matheus Rendon, illustre 
fidalgo da Casa de Cora, no reino de Leão, donde se passou com dons 
irmãos para o Brasil, militando na armada de Castella que, com a de 
Portugal, foi restaurar a cidade da Bahia do poder dos hollandezes, 
em praça de soldados- e vencendo três escudos além do soldo, e dali* 
se passou á mencionada cidade de S. Paulo, onde depois de estabele- 
cido levantou a sua custa uma companhia de infantaria para a res- 
tauração de Pernambuco, e de Dona Maria Bueno da Ribeira, filhado 
Amador Bueno da Ribeira, CapitãoMór e Governador da Capitania d© 
S. Vicente e S. Paulo, e na mesma Ouvidor e Provedor da Fazenda 
Real ; quinto neto de Dom Pedro Matheus Rendon, fidalgo de vingar 
quinhentos soldos, segundo o foro da Hespanha, e Regedor que foi 
das Justiças pelo estado de fidalgo da villa de Ocanha, e de Dona 
Maria Magdalena Clemente de Alarcão Cabeça de Vacca. Os quaes 
seus pães, avós, e mais ascendentes foram pessoas nobres, das fami- ^ 
lias dos appellidos de Toledo e Rendon, e dos mais de seus appellidos, 
que neste reino são fidalgos de linhagem, cotta de armas e solar co- 
nhecido, e como taes se tratavam com cavallos, criados, e toda a 



- 128 - 

mais ostentação própria da Nobreza, servindo no militar os postos do 
governo por serem os principaes das xerras onde viveram, sem que 
era tempo algum commettessera crimes do lesa-magestade divina on 
humana, pelo que me peiia elle mesmo supplicante, por mercê, que 
para a memoria dos seus progenitores não se perder, e clareza da sua 
antiga nobreza, lhe mandasse dar minha Carta de Brazão de Armas 
das ditas famílias para delia também usar na forma que as trouxe- 
ram e foram concedidos aos ditos seus progenitores. E vista por mim 
a dita sua petição, sentença e documentos, e constar de tudo o refe- 
rido e que a elle como descendente das mencionadas famílias lhe 
pertence usar e gosar de suas armas, segundo o meu Regimento e 
Ordenações da Armaria, lhe mandei passar esta Carta de Brazao 
delias na forma que aqui vão brazonadas, devisadas e illuminadas 
com cores e metaes, segundo se achão registradas no livro do Registo 
das armas da Nobreza e Fidalguia destes meus reinos, que tem eni 
Portugal meu principal Rei de Armas, a saber: 

Um escudo partido em pala; na primeira, as armas dos Toledos, 
que são o campo xadrezado de prata e azul, de três peças em faxa 
e cinco era pala ; na segunda, as dos Rendon, que são uraa banda de 
ouro sahindo das boccas de duas cabeças de serpentes verdes, sendo 
o campo alto vermelho e o baixo verde, orla vermelha carregada de 
treze bezantes de ouro; elmo de prata aberto e guarnecido de ouro, 
paquife dos metaes e cores das arraas ; timbre dos Toledos, que é uraa 
figura de anjo com a túnica xadrezada como o escudo e por differea- 
ça uma brica verde cora uma banda de ouro. 

O qual escudo o armas poderá trazer e usar tão somente o dito 
Bacharel José Arouche de Toledo Rendon, assim como os trouxeram 
e usaram os ditos nobres o antigos fidalgos seus antecessores, e com 
elles poderá entrar em batalhas, campo.*, reptos e escaramuças e exer- 
citar todos os raais actos licites da guerra ou da paz. E assim mes- 
rao os poderá trazer era seus firmaes, anneis, sinetes e divisas, pol-os 
era suas casas, capellas e raais edifícios, deixal-os sobre a sua própria 
sepultura, e finalmente se poderá servir, honrar, gosar e aproveitar 
delles era tudo e por tudo corao á sua nobreza convera. Cora o que 
quero e me praz que haja elle todas as honras, liberdades, graças, mer- 
cês, isenções e franquezas que hão e devera haver os fidalgos e nobres 



- i29 — 

da antiga linhagem, e como sempro de tudo uzaram e gosaram os ditos 
seus antepassados ; pelo que mando aos meus Desembargadores, Cor- 
regedores, Provedores, Ouvidores, Juizes e mais Justiças do meu Reino, 
e era especial aos meus Reis de Armas, Arautos, Passavantes e quáes- 
quer outros ofiaciaes e pessoas a quem esta minha Cartai for mostra- 
da e o conhecimento delia pertencer que em tudo a cumpram e guar- 
dem, e façam cumprir e guardar como nelle se contém, sem duvida, 
nem embargo algum que a ella seja posto, porque assim é minha 
mercê. A Rainha, nossa Senhora, o mandou por Manoel José Gon- 
çalves, escudeiro cavalleiro de sua Real casa e seu Rei de Armas 
Portugal. Bernardo José Agostinho de Campos, escrivão da Nobreza 
destes Reinos e suas conquistas, a fez era Lisboa aos 22 dias do mez 
de Outubro do anno de nascimnnto de N. S. Jesus Cristo de 1798. 
E eu Bernardo José Agostinho de Campos a fiz e subscrevi. — Bei de 
jLrmas de Portugal. — Registada no livro 5.» do Registo dos Brazões 
de Arraas da Nobreza e Fidalguia destes Reinos e suas Conquistas, a 
fls. 154. Lisboa, 24 de Outubro de 1796. —Bernardo José Agostinho 
de Campos. 

índia e mina 

O Doutor João de Mattos e Vasconcellos Barbosa de Magalhães, 
do Doserabdrgo do Sua Magestade, seu Corregedor de crime do bairro 
de Alfama, que de presente sirvo de Juiz de Índia e Mina e das Jus- 
tificações ultramarinas, etc. :— Faço saber que mo constou por íé do 
escrivão que esta subscreveu serem os signaes retro do Rei de Armas 
Portugal e de Bernardo José Agostinho de Campos, o que hei por 
justificado. Lisboa, 16 de Novembro de 1796. E eu, Lourenço Agos- 
tinho Leite, a subscrevi.— João de Mattos e Vasconcellos Barbosa de 
Magalhães. — E não se continha mais cousa alguma era o dito Brazão 
de Arraas, que por parte do coronel José Arouche de Toledo aqui 
bem e fielmente fiz registar do próprio, ao qual me reporto e o tor- 
nei a entregar, que recebeu, de que assignou coraraigo depeis de ler 
e conferir, e por achar era tudo conforme, sem cousa alguma que 
duvida faça o subscreveu, nesta cidade de S. Paulo aos 30 dias do 
mez de Junho de 1798, e eu, José Manoel da Luz, que o subs- 



- 130 - 

crevi, conferi e assignei.— José Manoel cIjl Luz.— José Arouche de 
Toledos (1). 

VII 

Quando estudante em Coimbra, tendo então 21 annos de idade, o 
general começou, e continuou até se formar, a escrever em um livro 
de lembranças, que intitulou Memorias, os principaes acontecimentos 
que iam se dando ao lado dos factos miniraos da sua vida académi- 
ca. Este livro está em meu podi^T, confiado pela farailia, e, exami- 
nando-o, tive o desprazer de verificar que está estragadissimo por 
agua e traças e que lhe faliam algumas folhas no fim. Está, por- 
tanto, incompleto, de difficil leitura e do impossível restauração. En- 
tretanto, pretendo restaural-o na parte que me for possível e me pa- 
recer mais interessante, em beneficio do Instituto Histórico, e como o 
que o livro contém são notas para o seu uso particular, as suas pa- 
ginas refiectem todas as faces do caracter do general e todo o 
fundo da sua organização moral. O livro começa do seguinte modo : 

« NOTICIAS E FACTOS CURIOSOS QUE SUCCEDEEAM, EM CUJA 
NARRAÇÃO SEGUIREMOS A ORDEM ÇHRONOLOGICA » 

« ANNO DE 1777— COLMBRA » 

« Fevereiro.— A 23 deste mez morreu D. José Ida moléstia das 
pernas (2) ; e por causa desta mesma doença entregou o governo á 
sua mulher por um decreto, em Novembro de 1776 ; morreu em do- 
mingo e na sextafeira antecedente casou o nosso príncipe D. José 
com sua tia, repentinamente. Ò Rei, desenganado que morria, tirou 
de uma gaveta a dispensa e os fez casar deante do si. Pouco antes 
de morrer mandou soltar todos os presos de inconfidência (3), entre 
os quaes sahiu o bispo D. Miguel quasi nú. 

< Março.— A 4 deste mez foi mandado recolher para Pombal o 
marquez de Pombal por decreto da senhora Rainha, succcssora do 



(1) Este registo foi feito no livro competente da campra municipal de S. Paulo. 

(2) Alguns historiadores dão a morte do rei D. José como occornda em 24 de Fe- 
■verelro. 

(3) Em Portugal dava-se o nome de «crimes de inconfidência» aos delictos praticados 
contra o rei ou contra o Estado. Dahi vem chamarem-se ainda hoje «inconfidentes» a tí- 
rad entes e seus companheiros da rebellião mineira. 



- 131 — 

reino e mulher do senhor infante D. Pedro (1). Dizia o decreto qne, 
attendendo á estimação quo seu pao fazia do dito marquez e á sua 
petição, lhe cencedia por estar já cançado o reeolher-se para Pombal, 
e que juntamente lhe fazia mf:!rcô da commenda de Santiago de Bra- 
ga. Dizem que sahiu de Lisboa este desgraçado somente acompa- 
nhado de três criados e de cinco soldados, que lhe concederam para 
o iivrarom de alguns insultos, e os quaes elle mesmo pediu por ver 
quo pouco antes, sahindo do Paço, um seu genro em uma sege do 
dito marquez, foi apedrejado de sorte que lho foi preciso clamar que 
não era o marquez de Pombal, e dizem mais que sempre levou uma 
pedrada na cara. Temendo isto, pois, o marquez pediu cinco solda- 
dos, mas não seguro com isso, dizem, mandou 5ua sege adeante e foi 
atraz em uma caleça de aluguel. Por quasi todos os legares por 
onde passou o descompunha o povo, chamando-o de ladrão para cima. 
« Foi mandado prender na sua mesma sella, pela senhora Rainha, 
« geral dos Bernardos, mandando-se-lhe que respondesse as culpas 
de que o accusavam, isto é, de quebrador de clauzura, alcoviteiro e 
ladrão. Com effeito hé constante que elle costumava entrar no con- 
vento de Odivellas, junto com o conde de Oeyras, por uma porta fei- 
ta para esse flm e falava com as educandas que queria (2) ; o que 
aão podia impedir a abbadessa como seu geral que era e amigo do 
marquez de Pombal. 

< A 14 deste mez se fez em Coimbra a celebre funcção do que- 
bramento dos escudos ; o que consistiu em um grande préstito de 
homens de casaca e capa de estudante por cima, e na cabeça um 
chapóo desabado com fumo cahido, e diante de todos um cavalleiro 
do mesmo modo, trazendo nas mãos uma bandeira com as armas co- 
bertas de fumo, e o cavallo também todo coberto de fumo. Chega- 
ram ao pateo da universidade e o cavalleiro disse certas palavras que 
não ouvi, e veiu outro com as armas reaes dizendo : GJiorae pobres, 
chorae ricos o vosso Bei, e as quebrou em um assento feita para isso 
no meio do pateo. Isto, em logar de tristeza, causa riso.> 



(1) D. Maria I, filha do rei D. José e esposa de Pedro 111 ; foi mãe de D. JOão VI» 
perdeu o juiao e falleceu no Rio de Janeiro em 1816, 

(2) Este convento de freiras era celebre no reinado anterior de D. João V, que 
alli praticava as suas afamadas orgias. Conde de Oeyras foi o primeiro titulo do mar- 
quez de Pombal. 



I 



- 132 - 

Por estes trechos das Memorias pode-se bom avaliar da sua im- 
portância, coraquanto o auctor, estando era Coimbra e não em Lisboa, 
nem sempre narre os factos de sciencia própria, mas por ouvir dizer. 

No Archivo do Estado encontram-se muitos documentos ofaciaes 
relativos aos serviços que o general prestou ao governo em vários 
tempos e era seu arcbivo particular, hoje em meu poder, existem 
muitas notas curiosas sobre a agricultura, a flora e a fauna de S. 
Paulo, que si tivessem sido em tempo publicadas teriam prestado nâo 
pequeno auxilio ao estudo da nossa historia natural. Essas notas sEo 
hoje de í ouço valor em vista do progresso das sciencias naturaes 
nestes últimos oitenta annos, assim como a Historia Natural de Buffon, 
um dos mais bellos monumentos do saber humano no século passado^ 
pouco valor tem hoje em comparação com os grandes e aperfeiçoados 
trabalhos de Cuvier, Saint-Hilaire, Darwin e outros. 

Foi elie quem introduziu a cultura do chá em S. Paulo e sobre 
ella escreveu uma monographia quo existe em raanuscripto e nunca 
vi publicada ; por seu exemplo e por seus conselhos o cultivo do chá 
gentralisou-se por toda a província do S. Paulo, ha meio século, e 
ainda hoje que a cultura do café excluiu todas as outras, ainda en- 
contrara-se nas velhas fazendas evidentes signaes das grandes plan- 
tações de outras eras. 

O seguinte documento, que se refere a este facto e prova o res- 
peito e consideração de que gosava pelas suas qualidades intellectuaes 
e moraes, foi extrahido do archivo da camará municipal de S. Paulo : 

— <Approvando S M. o Imperador, pela portaria expedida pela Se- 
cretaria de Estado dos Negócios do Império, em data de 8 do cor- 
rente, que se continue e finalize a obra do Jardim Botânico a que se 
dera principio nesta capital, devendo nomear-se para dirigil a uma 
pessoa dotada de zelo e patriotismo, a qual se corresponda com o 
director do Jardim Botânico da Lagoa de Rodrigo de Freitas, e con- 
correndo estas e outras distinctas qualidades no Ex™.° Sr. Marechal 
de Campo José Arouche de Toledo Rendou, sendo bastante para o 
fazer recommendavel o ter introduzido nesta província a plantação da 
chá o a sua preparação de maneira que é de esperar que era breve 
tempo venha a mesma a tornar-se abundante desta planta exótica, 
nao só para o seu consumo, mas também para a exportação : o pre- 



— 133 — 

sidente da referida província, ouvido o Conselho do CTCverno, iia por 
bem de o nomear director da referida obra, persuadido de que, dada 
as necessárias providencias ^ara andamento delia, a fará proseguir 
com aquelle acerto, perfeição e regularidade que afiançara o seu re- 
conhecido zelo e conhecimentos; auctorizando-o a nomear feitor e tra- 
balhadores, na certeza de que serão pagas pela Junta da Fazenda 
todas as despezas por elle referendadas. — Palácio do Governo de S. Paulo 
29 de Octubro de 1825. — Lucas António Monteiro de Barros. 

Alem dos escriptos já mencionados deixou o general alguns outros 
trabalhos de phantasia, entre os quaes tenho um manuscripto sobre, 
A Superioridade das Latiras sobre as Armas, isto é, dos Filhos de 
Minerva sobre os Alumnos de Marte ; entretanto elle não vacillou era 
trocar a carreira das lettras e sciencias pelas das armas, — pequeno 
traço de incohereucia entre a theoria e a pratica, que não desdoura o 
seu caracter robusto, nem destróe a lógica reguladora dos valiosos 
serviços prestados ao seu paiz. 

Alguns dos grandes fidalgos paulistas do tempo eram homens de 
<ant.e3 quebrar do que torcer», intransigentes e aferrados aos privi- 
légios e regalias que lhes assegurava o regimen colonial. O brigadeiro 
Joaquim José Pinto de Moraes Leme, paulista illustre por muitos titules 
dedicado servidor da monarchia, dois annoí raais edoso do que o ge- 
neral Arouche e cora elle aparentado, ora o representante era 8. Paulo 
do velho e rotineiro espirito colonial, auctoritario e inaccessivel ás 
idéas novas emanadyis da Revolução Pranceza, que avassallarara tudo 
durante o terço do século de 1790 a 1825 e cujos efteitos não se coraplo- 
tarara no Brasil com a proclamação da independência a 7 de Setem- 
bro de 1822, nera cora o juraraento da constituição outorgada por 
Pedro I a ;^5 de Março de 1824, nera ainda cora a reunião da pri- 
meira assembléa geral legislativa em 1826, mas sóraente a 7 do Abril 
de 1831 cora a queda do priraeiro iraporador e a elevação ao poder 
do eleraento puraraente nacional, chefiado pelo illustre patriota Eva- 
risto Ferreira da Veiga. 

O general Arouche, poróra, espirito conciliador e bem preparado 
para receber cora syrapathia e acceitar sera repugnância as influencias 
liberaes da época, raoderado, prudente e progressista, soube ir tran- 
sigindo sempre a terapo e a hora, sera quebra da sua dignidade, com 



— 134 — 

as necesidades politicas da occasião, de tal fórraa que se tornou, jun- 
tamente com outro distincto paulista, o general Cândido Xavier de 
Almeida e Souza, não somente um poderoso elemento de ordem em 
nm periodo essencialmente revolucionário, como também um presti- 
moso auxiliar na grande obra da construcção da nossa nacionalidade^ 
Assim serviu elle, entre nós, de solida ponte lançada sobre o 
abysmo que separava a pujante, orgulhosa e dominadora fidalguia 
de outr'ora da modesta burguezia de 1824, oriunda do suffragio qnasi 
universal e da egualdade de todos perante a lei, estabelecidos pela 
constituição do novo império ; o por isso mesmo, pelos saeriflcios qu© 
fez pela liberdade de sua pátria, assim como de Bruto se disse que 
foi o ultimo dos Romanos, também delle podemos dizer com acerto 
que foi «o ultimo dos fidalgos paulistas». 
S. Paulo, Agosto de 1899. 

A. DE Toledo Piz4. 



Reflexões sobre o Brasil 

PELO 

Capitão Van Vliervelt, commandante da galeota Tromp 

Traduzidas de um manuscripto hollandez pelo sócio E. Hollender 
e por elle offerecidas ao Instituto 

MiLDELBURG — 1 745 . 

Os francczes appareceram um momento no Brasil. Tinham 
intenção de tomar este paiz de Portugal porque este nenhum caso 
delle fa/ia. 

E' próprio mesmo de Portugal, desta nação leviana e inconstante, 
começar uma empresa com enthusiasmo e terminal-a com frieza. A 
Hollanda já era uma potencia e, portanto, ciumenta da prosperidade 
do outros paizes ; formon, por isso, sobre o Brasil um plano mais 
seguro, mais methodico, e resolveu apropriar-se delle. 

De todos os crimes de que está cheia esta sciencia chamada Po- 
litica, nenhum é tão grave como este plano. Fazem-se leis que as- 
segurem a propriedade dos cidadãos e, entretanto, nenhuma existe 
que garanta as nações contra a usurpação. Uma sociedade inteira 
vale mais do que a propriedade particular, mas não tem grandes ca- 
nhões o ura governo, que faz a guerra, tem sempre muitos. 

Portugal tinha mudado de rei; Philippe II tinha usurpado esta 
coroa (1), assim como o Brasil. Era mais uma razão para a Hollan- 
da apoderar-se desta colónia. A Hollanda só poderia adquirir força 
e poder enfraquecendo a Hespanha, a sua figadal inimiga. 



(1) A descendência portugueza legitima do rei D. Manoel extingiiiu-se com D. Sebas- 
tião. Philippe II era neto legitimo do rei D. Manoel e apoderou-se pela força daquillo 
que por direito lhe pertencia. C^- <^« ^0 



— 136 - 

Apenas appareceu na America a frota das Províncias Unidas, ficou 
o Brazii em perigo ; entretanto, não era mais do que uma companhia 
de negociantes quem dirigia esta empresa militar, o que fez que ella, 
a principio, se mallograsse. Alguns annos depois renovou-se a ten- 
tativa com bom êxito ; o general Henrique Lonck começou a con- 
quista e Maurício de Nassau a terminou. 

Então as riquezas do Novo Mundo, em vez do seguirem para 
Lisboa, tomaram o caminho de Amesterdam e esta cidade tornou-se 
o primeiro dos empórios commerciaes. Portugal, que, a principio, ti- 
nha considerado o Brasil como um paiz inútil e cujo dominio tinha 
resolvido abandonar, fez então prodigiosos esforços para o recon- 
quistar . 

Não se tratava mais desta c lonia, mas sim dos hollandezes, que 
eram pessoalmente odiados e cujo jugo era preciso sacudir. Basta 
um nome para reanimar o ardor das nações:— o dos romanos pro- 
duzia um efteito prodigioso sobre os carthaginezos e o do Luiz XIV 
tornava os inglezes furiosos ; bateram-se durante trinta annos para 
apagal-o da memoria dos homens. 

Levantaram, pois, os portuguezes de Lisboa um grande exer- 
cito, puzeram no mar uma frota considerável e juntaram dinheiro para 
uma guerra em que iam entrar mais por ostentação. Si a corte de 
Lisboa tivesse feito egual despesa para restabelecer Portugal, este 
reino ter se-ia tornado poderoso. 

Os portuguezes, irritadíssimos contra os hespanhóes, collocaram 
no throno o duque de Bragança. Este senhor teria preferido que o 
deixassem na classe dos cidadãos particulares, porque, comquanto a 
amb*ção seja a paixão dominante nos homens, comtudo alguns ha 
cuja philosophia lhes eleva a alma acima das coroas. 

A revolução portugueza mudou a politica da Europa (1). O novo 
soberano firmou um pacto de dez annos com as Provincias-Unidas, as 
quaes, entretanto, ficaram senhoras das suas possessões no Brasil. A 
republica hollandeza escolheu dentre os seus cidadãos trez reis para 
dirigirem o seu novo império: — um era um mercador de Amsterdam, 



(l) Revolução de 1.' de Dezembro de 1640, que expulsou os hespanhóes e elevou 
ao tlirono o duque de Bragança, D. João IV. (N. do B.) 



^ 137 - 

outro um ourives de Harlcm e o terceiro ara carapina do Middelburg. 
E' assim que nas republicas chega-se ao poder supremo. 

Homens educados atraz de ura balcão não tera as qualidades pró- 
prias para o governo de ura Estado; podem possuir as virtudes eco- 
nómicas, porém faltam-lhes totalmente as qualidades politicas. Estes 
reis, occi pados com lucros e proveitos e absorvidos por detalhes com- 
raerciaos, deixaram cahirem era ruínas as fortificações das cidades e, 
pensando somente no dinheiro, nos moios de adquiriJ-o e nos mono- 
pólios para obtel-o, fizeram com que a c lonia se revoltasse. 

Tomou as armas João Fernandes Vieira, portuguez de nascimen- 
to obscuro, porem de muitas virtudes, pôz-se á frente de um partido 
formado as pressas e sem perda de tempo cahiu sobre os hoUandezes 
e os derrotou totalmente. Porôra, a paz trouxe um novo mal: para 
obtel-a Portugal obrigou-se a pagar oito milhões ás Provincias-Unidas; 
era sahir de uma servidão para entrar em outra. 

Livre dos hoUandezes, a corte de Lisboa procurou civilizar as 
nações ainda barbaras do Brasil e diminuiu as taxas e mais impos- 
tos ; mas era muito tarde ; nas nações pobres, onde as artes não es- 
tão introduzidas, tudo depende da opportunidade. Pela descoberta da 
America os selvagens conheceram logo os gosos e coramodidades da 
vida; não era preciso mais nada para corrompel-os. Para homens, a 
quem basta o necessário, não é conveniente que se lhes dê o supér- 
fluo, porque isto faz nascer nelles novos desejos que são a fonte dos 
vicios. 

Vestiram estes selvagens que deviam ter deixado nús ; ninguém 
imagina quanto a vestimenta influe sobre os costumes de um povo 
que nunca andou vestido E' prodigiosa a influencia que este luxo, 
novo para elles, produz sobre as suas almas ; uma ceroula, uma cin- 
ta, produz o mesmo effeito sobre elles que uma moda nova nos eu- 
ropéos. Alojaram-n'os em choupanas mais commodas do que aquellas 
que d' antes tinham, deram-lhes aguardente e elles não puderam 'mais 
passar sem estas coramodidades. 

Os portuguezes conheceram então o rio Amazonas, cujo nome 
deu origem a tantas fabulas. Para se estabelecerem sobre suas mar- 
gens foi necessário fazer guerra a varias tribus tão fracas que fo- 
ram tomadas por Amazonas, raça de mulheres que somente existiu 



- 138 — 

na imaginação dos homens, assim como tantas cousas que não tive- 
ram existência mais real. Este rio conduziu os portuguezes ao Rio da 
Prata (1). 

Dizm-se que Portugal, que muito tinha perdido de sua antiga 
actividade no Velho Mundo, queria cncontral-a no Novo. Na Europa 
não encontrou estímulos para alargar algumas das stias fronteiras do 
lado da Hespanha, mas na America occupava-se unicamente com lon- 
gínquas expedições e descobertas. Eis os governos, eis os homens, 
sempre em contradicção comsigo mesmos. 

De todos os erros de Portugal no Novo-Mundo o maior foi não 
dedicar-Sb á cultura dos productos do Brasil, os quaes por si sós po- 
diam dar-lho riquezas superiores áquellas que era outros tempos tinha 
tirado das índias. Bastava o assucar para enriquecel-o. A colónia 
já produzia bastante assucar para o consumo da raetropole e de va- 
rias nações extrangeiras e o íumo, luxo universal, podia augmentar 
consideravelmente as rendas do Estado ; era apenas necessário aug- 
mentar a plantação e dal-o mais barato que outros productores para 
obter a preferencia. E' sempre da barateza que depende o consumo. 
O cacau, que é produzido em varias partes do Brasil, sem cul- 
tura alguma, não dá outro trabalho ao colono sinão o de colhel-o. 
O seu algodão, superior ao das Índias, bastaria para alimentar um 
commercio dos mais proveitosos. Todos estes géneros primam pela 
sua abundância e boas qualidades. Quando uma colónia tem produc- 
ções únicas pôde impor a lei ás nações que delias precisam. Um 
Colbert ter-se-ia aproveitado de taes vantagens ; porém Portugai, que 
sempre teve hábeis almirantes, nunca teve bons ministros. 

Um luxo prodigioso acabou por destruir as fortunas que o com- 
mercio apenas tinha começado a construir. E' uma espécie de mo- 
léstia própria dos paizes novos quererem seus habitantes viver 
com mais luxo do que os das nações antigas, ou porque os colonos 
querem assim se indemnizar da perda das vantagens de que pode- 
riam gosar no seu paiz natal, ou porque o clima obrigue a essa os- 



0) Esta expressão não pode ser tomada litteralmente porque seria um disparate 
geographico. Deve-se antes entender que o dominio sobre o rio Amazonas induziu 03 
portuííupzes ft extenderem-se até o rio da Prata, hypothese esta justificada pela funda- 
ção da ColoQia do Sacramento e depois pela conquista de Montevideo e seu districto, 
annexados ao Brasil até 1828 (N. da B.) 



— 1H9 — 

tentação ou por outro qualquer motivo. O certo é que em todos os 
tempos viram-se no Brasil portugue^^cs, que tinham nascido na Euro- 
pa na obscuridade e na pobreza, viverem em um luxo e grandeza 
que os primeiros fidalgos de Lisboa nao teriam ousado ostentar na 
corte. 

A corrupção dos costumes, inseparável das riquezas, alastrou-se 
então no Brasil por todas as classes, porque todas precisavam se 
distinguir por um grande luxo. O amor, que em todos os paizes 
quentes é a delicia e o veneno da vida, foi ali sempre acompanhado 
desta devassidão que o torna despresivel. Entretanto, a corte de Lis- 
boa podia reparar todos estes males por uma melhor politica. Todas 
as colónias são susceptíveis de reformas ; basta corrigir os seus vi- 
cies no seu nascedouro. E' o que aquella corte ia fazer quando tudo 
mudou de face no Novo-Mundo com o descobrimento das minas de 
ouro. Este acontecimento teve consequências terríveis; tudo ficou 
perdido e não houve leis, nem regulamentos capazes de prevenir a 
influencia deste funesto metal. Si quando este descobrimento foi 
feito estivesse no throno de Portugal um grande rei, talvez esse mo- 
narcha tivesse procedido como aquelle sábio imperador da China, a 
quem offereceram similhante thesouro e que o recusou, dizendo que 
não queria empregar os seus vassalos em um trabalho que nem era 
o da alimentação nem o do vestuário. 

O homem é fraco de mais para não fazer raáu emprego de ouro, 
sobre tudo quando o tem em primeira mão o não lhe custa outro es- 
forço maior do que o de extrahil-o do solo. Um povo que, por meio 
deste metal, tem recursos para entregar-se ás suas paixões, só pro- 
cura satis fazei- as. Dahi vem a preguiça, a ociosidade e o abandono 
da lavoura e das artes,— vicios estes que em todos os tempos foram 
característicos das nações mineiras. Quanto mais ricas forem suas 
minas maiores serão os seus vicios. 

Nada prova melhor a cega fatalidade que preside aos destinos 
deste mundo do que o descobrimento deste metal. Foi o acaso que 
fez esse descobrimento e foi esse mesmo acaso, de que ninguém po- 
dia prever os efieitos, que mudou a sorte de Portugal. Algumas pa- 
lhetas de ouro no chão fizerem crer que devia haver minas de ouro 
escondidas em algum logar do continente . Procuraram-n'aspor toda a 



— 140 - 

parte e a força de trabalhos e de penas descobriram-n'as. Os negros 
destinados em todos os tempos a serem o instrumento do luxo portuguez 
e de alguns Estados da Europa, foram applicados ao trabalho das 
minas com a obediência própria da escravidão. 

Entretanto o proveito das minas diminuiu; para tirar o ouro e 
applicar-lhe as necessárias preparações era preciso fazer despesas 
que estavam na razão de 1 para 64, e quando o dinheiro duplicou 
em quantidade, perdendo metade do seu valor, a despesa passou a 
estar na razão de 2 para 64. 

Assim as frotas, que levavam para Portugal a mesma quantidade 
de ouro, carregavam, na verdade, uma mercadoria que valia metade 
do seu antigo valor e custava o dobro das despesas primitivas, e prose- 
guindo neste raciocínio, de deducção em deducção, chega-se a achar 
a progressão decrescente da importância desta riqueza. 

Bis, pois, a situação de Portugal, causada por suas minas de 
ouro. 



o Processo Vimieiro-Monsanto 

Entre os papeis deixados pelo tenente- general José Arouche de 
Toledo Rendon e existentes em meu poder encontrei um curioso raa- 
nuscripto, um tanto estragado por agua e muito devorado por traças, 
com o seguinte titulo : 

RELAÇÃO 

DOS 

Capitães loco-tenentes que governaram a capitania de S. Vicente, uns nomea- 
dos pelos verdadeiros donatários e outros pelos intrusos 

O manuscripto não traz data nem assignatura, e não tem as pa- 
ginas numeradas ; entretanto veriflcase pela leitura do texto que não 
lhe faltam folhas. 

Nas primeiras paginas vem a relação dos capitãos-móres de S. 
Vicente, numerados todos desde o primeiro até o ultimo, porém com 
nm salto sem explicação de sete números do 41.° ao 48.», quando 
não ha intervallo de tempo sufiBciente nem para um só capitão-mór 
intermediário com a jurisdicção ordinária de três annos. 

!áegue-se a lista dos capitães-móres da capitania de Itanhaen^ 
nome que tomou a donatária de S. Vicente durante o longo litigio 
havido entre os herdeiros de Martim Aftonso de Sonza pela posse das 
donatárias de Santo Amaro e de Itamaracá depois da extincção da 
familia de Pedro Lopes de Souza, primeiro proprietário destas duas 
donatárias. 

Vera depois algumas paginas em branco seguidas de quarenta e 
três Notas Avulsas, bastante interessantes para a historia colonial de 
S. Paulo e de grande valor para consulta, e termina o manuscripto 
com uma arvore genealógica da Martim Aflfonso e Pedro Lopes, gros- 



— 142 — 

seira, obscura, mas de não pequeno valor para o estudo do litigio 
havido entro es seus herdeiros. 

Este resumo basta para demonstrar a importância do manuscripto 
e justificar a sua inclusão nas publicações da Revista do Instituto. 

Fazendo a copia verifiquei que ha muitas palavras e alguns alga- 
rismos devorados por traças, que julguei não dever supprir por inter- 
polação, preferindo deixar os respectivos espaços marcados com pon- 
tinhos. Além de algumas notas existentes no original, que transcrevi 
no roiapé, me pareceu útil accrescentar algumas notas minhas, que 
vão marcadas como sendo da redacção da Revista, de que sou mem- 
bro. 

Logo na primeira pagina, tratando de Gonçalo Monteiro, que foi 
o primeiro capitão-mór de S. Vicente, diz o auctor do escripto que é 
filho de D. Anna de Siqueira do Mendonça. Esta simples e apparen- 
temente obscura explicação é sufiBeiente para se descobrir quem é 
esse auctor. 

A familia Siqueira de Mendonça era tão numerosa o importante 
que mereceu servir de assumpto para um capitulo especial da JSohi- 
liarchia Paulistana, de Pedro Taques; porém este capitulo, como mui- 
tos outros daquella grande obra, está perdido e delle só se encontram 
referencias nos capitules publicados. Entretanto, como a familia era 
importante, entrelaçuu-se por casamentos com muitas outras da capi- 
tania e alguns de seus membros figuram na parte publicada de Xobi- 
liarchia Paulistana. 

No volume 35 da Revista do Instituto Histórico Brasileiro, cor- 
respondente ao anuo de 1872, á pag. 319 e seguintes, tratando da 
grande familia dos Lemes, se lê que Anna de Siqueira e Mendonça, 
filha de Luiz Dias Leme, casou com Cypriano Tavares, que mais tarde 
foi capitão-mór de S. Vicente e figura na relação com o numero 53.o, 
e que teve cinco filhos, dos quaes destaco José Tavares de Siqueira, 
que era o terceiro em edade e casou em Santos com Isabel Maria da 
Cruz, natural de Portugal. 

Deste casal nasceram quatro filhas e um filho, sendo Anna do 
Siqueira e Mendonça a primogénita. Esta nasceu em Santos era 1692 
e alli casou se em 1712 com Domingos Teixeira de Azevedo, bisneto 
do Amador Bueno da Ribeira— o acclamado. Vivia ainda em 1767 e 



— 143 — 

era raãi do seis íilhos, entro os quaes se conta Gaspar Teixeira de 
Azevedo, que mais tarde tomou ordens sacras, tornou-se monge bene- 
dictino e fez-se notável como escriptor nacional com o nome de Fr. 
Gaspar da Madre de Deus, fallecido no anno de 1800. 

O manuscrip o, portanto, é obra de Frei Gaspar e o seu valor histó- 
rico augraenta consideravelmente por isso; e esta presumpção se torna 
em certeza quando quando se observa a precisão com que são cita- 
das as datas o as paginas dos livros de registros de S. Vicente, onde 
elle residia. 

Nas Notas Avulsas são mencionados factos até do anno de 1783, 
época cm que Yí. Gaspar ainda estava em estado de se entregar a 
estudos históricos, tanto do seu gosto e inclinação. Nas suas Memo- 
rias para a Historia da Capitania de S. Vicente, á pag. 39, § 63, Fr. 
Gaspar (jonta que é filho de D. Anna de Siqueira e Mendonça o, re» 
forindo-so á fazenda SanVAnna, emprega quasi as mesmas palavras 
usadas no manuscripto quando trata do capitão-mór Gonçalo Monteiro. 
Fala o auctor do manuscripto em capitãos-móres, não somente 
da capitania de S. Vicente, mas também da capitania de ItanJiaen, e 
como esta capitania de Itanhaen foi cousa que nunca teve existência 
legal, julgo dever «ntrar em uma pequena divagação histórica para 
explicar o emprego daquella expressão e coUocar o estudante da his- 
toria paulista em condições de entendel-a na sua verdadeira significa- 
ção. 

Pelos grandes serviços prestados por Martim Affonso de Souza e 
seu irmão Pedro Lopes de Souza, foram elles recompensados pelo rei 
João III com a doação de vastos territórios no Brasil, inteiramente 
despovoados e quasi desconhecidos ao tempo em que foram doados. 
Martim Affonso recebeu terras na extensão de 100 loguas de costa 
marítima, divididas em duas secções, sendo a primeira secção do 55 
léguas desde o rio Corvpacé ou Jiiquiriquerè, além de S. Sebastião, 
para o norte até Macahé, e a segunda secção de S. Vicente para o 
sul até doze léguas além de Cananéa, do 45 léguas. Pedro Lopes so- 
mente recebeu 80 léguas de terras, medidas ao longo da costa e di- 
vididas em três secçõec, sendo a primeira de 10 léguas do rio Coru- 
pacó para o sul até encontrar terras de Martim Afíonso em S. Vi- 
cente; a segunda de 40 léguas, contadas de doze léguas além de 



— 144 — 

Cananéa para o sul até a Laguna, e a terceira de 30 léguas nas cos- 
tas de Pernambuco (i). Todas estas secções abrangiam os respecti- 
vos sertões, para o poente, até encontrarem os domínios castelhanos 
e eram chamados donatárias, sendo os seus proprietários chamados 
donatários, — nomes estes que convém conservar. 

A donatária de Martira Affonso denominava-se S. Vicente e as 
duas bécções do Sul da donatária de Pedro Lopes chamavam -se San- 
to Amaro. A razão desta, apparentemente, extravagante e caprichosa 
divisão das donatárias em secções intercaladas umas nas outras, já 
foi dada pelo dr. Theodoro de Sampaio e basêa-se no facto de ser 
conhecida pelos dois irmãos a noticia da existência de minas de me- 
taes preciosos no interior e da divisão assim leita evitar a possível 
injustiça de ficarem essas minas incluídas em uma só donatária, 

Martim Affonso fun ou logo a villa de S- Vicente para cabeça 
da sua donatária e tomou sem demora diversas providencias para o 
seu povoamento, emquanto Pedro Lopes, talvez mais interessado no 
commercio do páu-brasil da sua secção de Pernambuco, descurou 
completimente das duas secções do sul, que ficaram por muitos ân- 
uos em abandono, até a sua morte. 

Crescia tão vagarosamente a donatária de Martim Affonso, ou 
de S. Vicente, nao obstante todos os esforços empregados para de- 
senvolvei a, que em fins do século XVI só existiam nella quatro vil- 
las, pequenas e pouco prosperas, que eram S. Vicente, Santos, S. 
Paulo e Conceição de Itanhaen, cujas respectivas fundações datam de 
1532, 1546, 1554 e 1561, e serra acima os domínios dos portuguezes 
não iam além de Parnahyba e Cotia, cerca de 35 kilometros ao 
poente desta capital (2). 

Pelos annos de 1610, quando havia muito tempo que eram falle- 
cidos Martim Affonso de Souza e seu irmão Pedro Lopes, suscitou-se 
entre os seus herdeiros um grave litigio pela josse de S. Vicente, 



(1) vide Historia ãa Capitania ãe S. Vicente, por Pedro Taqnes de Almeida Paes 
Leme, Revista do Instituto Histórico Brasileiro, vol. IX, pag, 154. A secção de Pernam- 
buco tinha o nome de Itamaracá e não é considerada neste escripto. 

(2) Vide São Paulo no fim do século XVI, peio dr. Theodoro de Sampaio, vol. IV 
da Revista do Instituto Histórico de S. Paulo. 



— 145 — 

Santos e S. Taulo, oriundo da má comprehensão das linhas divisó- 
rias das duas donato rias. 

Entendiam os herdeiros de Martim Aífonso e seus delegados em 
S . V cente que a secção de 10 ieguas da donatária de Pedro Lopes, 
sendo medida ao longo da costa, da foz do rio Corupacé ou Juque- 
riquerô para o sul. nâo passava aquém da barra da Bertioga e não 
podia, [ortanto, alcançar Santos e S. Vicente, que estavam a cerca 
de quinze ou deseseis léguas mais para o sul, nem abranger S. 
Paulo que nao ficava no seu respectivo sertão (*). 

Os herdeiros de Pedro Lopes (2), pelo contrario, entendiam quô 
os termos das concessões das donatárias não podiam ser tomadas ao 
pé da lettra ; que a costa logo ao sul da fóz do rio Corupacé cor- 
rendo quasi directamente para o poente, a concessão das 10 léguas 
de costa com o respectivo sertão tornava-so illusoria porque esse ser- 
tão não passaria de uma estreitíssima tira de terra até as fronteiras 
dos domínios hespanhóes, e que para o sertão ter 10 léguas de lar- 
gura, de accordo com o espirito da doação regia, era necessário to- 
mar a projecção da costa sobre o meridiano da fóz do rio Corupacé 
e sobre este meridiano medir as 10 léguas, de modo que a donatária 
ficasse contida entre dois parallelos de latitude distantes 10 léguas 
um do outro. 

Isto seria realmente mais conforme ao espirito da doação regia 
e também mais equitativo e justo ; porem, sendo assim entendido, 
não somente as villas de Santos, S. Vicente e S. Paulo, mas tam- 
bém a de Itanhaen, ficavam todas contidas na secção de 10 léguas da 
donatária de Pedro Lopes e perdidas para os herdeiros de Matim Af- 
fonso : 

Durou annos o litigio e por meio século ficaram os herdeiros di- 
rectos de Martim Affonso privados da posse de Santos e S. Vicente, 
porque como divisa estava co siderada a barra de S. Vicente, que é 
a terceira ao. sul, em vez da barra da Bertioga, que é a terceira ao 



ri) Vide Historia da capitania de S. Vicente, por Pedro Taqnes, no vol. IX da .Be- 
«ísío do lastituto Histórico Brasileiro, pag. 172. 

(2) Herdeiros de Pedro Lopes aqui não quer dizer seas decendentes, mas aqueUes 
^ue herdaram seus direitos sobre estas donatárias depois da extincção da sua familia 
na pessoa de D. Isabel de Lima, sua ultima descendente. 



— 146 — 

norte ; e para nãp deixarem de ter na sua donatária uma povoação 
quo lho servisse de capital e sede das auctoridades, deram esta re- 
galia á vi lia de Itanhaen, e dahi veiu se chamar capitania de Ita- 
nhaen aquillo que nao era mais do que a mesma capitania de S. Vi- 
cente, somente despojada de alguma villas durante o longo processo 
sobre as suas divisas. 

Fr. Gaspar, nas suas Memorias para a Historia da capitania de 
S. Vicente, parece-se mais com um advogado analysando as peças 
de um processo do que com ura chronista historiando os factos acon- 
tecidos na capitania; o seu systema é o da exclusão e tanto elle ex- 
clne que quasi nada resta da historia colonial de S. l'aulo. B' an- 
tes um polemista do que um historiador. Na pag. 41 da sua obra 
elle confessa que nunca se applicou ao estudo da Genealogia e qne 
por isso os seus conhecimentos sobre esta matéria são muito limita- 
dos. Não admira, portanto, que a arvore genealógica de Martim 
Affonso e Pedro Lopes, desenhada por elle, seja tão imperfeita o con- 
fusa que precisasse de correcção para servir de auxilio ao estudante 
na descoberta da verdade sobre o litigio entre os herdeiros dos dona- 
tários. Essa arvore genealógica, intercalada na Relação dos capitães- 
mores de S. Vicente e de Itanhaen, bem se conforma com o que mes- 
mo Fr. Gaspar escreveu nas suas Memorias, já mencionada!:*, mas 
está em desaccordo com o que diz o chronista Fedro Taques na Sís- 
ioria da capitania de S. Vicente, quando tracta da grande demanda 
entre aquelles herdeiros. 

O próprio Pedro Taques, que fez da Genealogia o objecto de es- 
tados especiaes por mais de cincoenta annos e escreveu a NoUliar- 
chia Paulistana, verdadeiro monumento de paciente sabedoria, é obs- 
curo e incompleto quando, na liistoria da capitania de S. Vicente, 
tracta das relações de parentesco entre o herdeiros de Martim Aífonso 
e Pedro Lopes. Diz elle, por exemplo ('), que D. Diogo de Faro e 
Souza, sexto donatário da capitânia de S. Vicente, cedeu e traspas- 
sou esta capitania em dote de casamento ao conde da Ilha do Prin- 
câpe, e cita um documento fir^ijado por este condo, no qual se lê: — 
« Dou poder a Luiz de Almeida para por mim tomar posse da capi- 



(1) Vide Revista do Instituto Histórico Brasileiro, vol. IX. pags. 301—302. 



— 147 — 

« tania de 100 léguas pela renuncia do Sr. D. Diogo de Faro e 
< Souza em parte do doto da condessa sua prima e minha muito pre- 
« sada e estimada mulher...* 

Aqui não se disse donde vem o parentesco do Diogo de Faro 
com a condessa da Ilha do Príncipe, que sao primos segundo afíirma 
o próprio conde; entretanto, Fr. Gaspar, na lista dos capitaes-móres 
de Itanhaen, diz que Roque Roballo foi confirmado no posto do capi- 
tão-mór de Itanhaen por ter sido indicado para osso cargo por D. 
Diogo de Faro e Souza como tutor do seu sobrinho menor, Francisco 
Luiz Carnnro, filho de sua irmã a condessa da Ilha do Principe. 

Estas duas aífirmações são contradictorias e parece que não ha- 
via motivo para um tal desaccordo, porque Fedro Taquos e Fr. Gas- 
par eram primos e Íntimos amigos, dedicavam-se ao estudo da his- 
toria paulista, communicavara entre si as suas idéas e opiniões o ató 
sujeitavam os seus escriptos a uma reciproca apreciação. A Historia 
da capitania de S. Vicente, de Fedro Taques, foi oscripta em 1772, e 
Fr. Gaspar, que só íalleceu em 1800, devia tol-a lido para evitar de 
dizer que a condessa da Ilha do Príncipe era irmã de D. Diogo de 
Faro a Souza, quando é o próprio conde, marido dessa senhora, quem 
nos diz que era prima. Na arvore genealógica de Fr. Gaspar a 
condessa e D. Diogo de Faro figuram ainda como irmãos. 

Ha duas hypotheses aqui a presumir : — ou Pedro Taques errou na 
copia do documento firmado pelo conde, tomando por p7'ima a palavra 
irmã, ou Fr. Gaspar entendeu que não era natural que um primo 
dotasse uma prima cora uma vasta capitania e dahi concluísse que 
D. Diogo de Faro e a condessa eram irmãos. O facto é que a con- 
dessa assignava-se Marianna de Faro e Souza e polo nome mais pa- 
rece ter sido irmã do que prima do Diogo de Faro e Souza. 

De um confronto das duas historias da capitania de S. Vicente 
se collige que neste desaccordo de aflarmações é Fr. Gaspar quem 
parece estar com a razão. O facto em si não é de somenos importân- 
cia porque na proximidade do parentesco está em grande parte ba- 
seado o direito de herdar ; esse parentesco foi que dou origem ao liti- 
gio, e o litigio aítectou profundamente a historia colonial de S. Paulo. 

Nenhum destes dois illustres escriptores se lembrou do incluir na 
sua historia da capitania de S. Vicente a escriptura da doação feita 



X 



- 148 - 

por D. Diogo de Faro a D. Marianna de Faro de todo o território das 
donatárias de Santo Amaro e de Itaraaraeá, escriptura essa que elu- 
cida a matéria, declarando que são irmãos, como diz Fr. Gaspar, e 
não primos, como diz Pedro Taques. Tenho em meu poder uma copia 
dessa escriptura, extrahida dos archivos da villa de Angra dos Reis 
por Balthazar da Silva Lisboa, e transcrevo«a adeante para esclarecer 
de modo decisivo este ponto da historia de S. Paulo, 

Nas Memorias para a historia da capitania de S. Vicente, diz Fr. 
Gaspar que os condes de Monsanto nao contestavam os direitos dos 
condes de Vimieir ) sobre a capitania de S. Vicente, comquanto fos- 
sem elles descendentes de Martim Aflonso, porque pertenciam á linha 
feminina quando os Vimieiro descendiam da linha masculina. Martim 
Aftonso teve ura casal de filhos : — Pedro Lopes de Souza Q-;, de quem 
descendiam as condessas de Vimieiro e da Ilha do Príncipe— ramo 
masculino, --e D. Ignez de Pimentel, casada cora D. António de Cas- 
tro, que deu origem á família dos condes de Monsanto e marquezes 
de Cascaeá — ramo feminino (^ . Não havia, portanto, duvida alguma 
entre as duas famílias relativa á posse das 109 léguas contidas na 
donatária de S Vicente porque os Monsanto-Cascaes reconheciam os 
pireitos dos Viraieiros sobre estes extensos territórios. 

Porôra, tendo-se extinguido a descendência de Pedro Lopes de 
Souza, irraão de Martira Affonso e proprietário das 80 léguas das do- 
nataras de Saato Araaro e de Itaraaraeá, a sua neta e ultiraa herdeira, 
D. Isabel de Lima, legou seus direitos sobre estas duas donatárias ao 
se 1 primo Lopo de Souza, neto de Martim Affonso pela linha mascu- 
lina e terceiro donatário de S. Vicente, ficando assim concentradas 
nas mãos de Lopes de Souza 150 léguas continuas de costa marítima, 
desde Macahé até Laguna, e mais 30 léguas em Pernambuco, tudo 
cora 05 respectivos sertões até as fronteiras dos domínios hespanhóes. 

A esta successáo foi que se oppôz !•. Luiz de Castro, conde de 
Monsanto, filho de D. Ignez de Pimentel e neto de Martim Aftonso, 
allegando que a successão neste caso não devia ser pela linha mas- 



(1) Deve o leitor ter sempre em. lembrança que houve dois Pedro Lopes de Souza — 
um irmão de Martira Affonso e donatorio de Santo Amaro e de Itamaracá, e outro filho 
de Martim Affonso e segundo donatário de 8. Vicente. 
2) Ob. citada, pag. 187. 



-,-- 149 - 

culina, mas por parentesco e primogenitura; qao elle era mais velho 
de que o seu primo Lopo de Souza e que, como este. era também 
primo- segundo de D. Isabel de Lima. 

A elle, portanto, deviam caber a herança desta senhora e a posse 
das donatárias de Santo Amaro e de Itamaracá. 

Começada a demanda neste terreno, falleceu Lopo de Souza sem 
deixar herdeiros legítimos e na posse de sua herança entrou sua ir- 
mã, D. Marianna de Souza Guerra, condessa de Vimieiro. Com esta 
continuou a demanda, que passou ao seu filho D. Sancho de Faro e 
Souza e ao seu neto D. Diogo de Faro e Souza. 

Fallecendo este ultimo som descendência passaram a sua heran- 
ça e o litigio a D Marianna de Faro e Souza, condessa da Ilha do 
Príncipe, que Pedro Taques diz ter sido prima do fallecido D. Diogo 
de Faro e Souza e que Fr. Gaspar afíirma ter sido irmã. 

Cora o falleciraento do D. LuU de Castro, o iniciador da demanda, 
foi esta continuada por seu filho D. Álvaro Pires de ('astro e depois 
por seu neto D. Luiz Alvares de Castro, que ao seu titulo de conde 
de Monsanto juntou o de marquez de Cascaes. Este venceu a questão 
e ficou senhor das donatárias questionadas, sendo as duas secções do 
sul annexadas á coroa portugueza era 1711, mediante a indemnização 
de quarenta mil cruzados que recebeu o marquez de Cascaes. 

Sem liquidar a questão de liraites entre as donatárias de S. Vi- 
cente e de Santo Amaro, o governo portuguez considerou a barra de 
S. Vicente como linha divisória e assim S. Vicente, Santos o S. Paulo 
ficaram incluídos na compra feita ao marquez de Cascaes e annexa^ 
dos aos domínios da coroa. Mais tarde o marquez de Pombal resga- 
tou também a capitania de S. Vicente {^) e annexou-a aos domínios 
reaes e assim desapparecerara as duas antigas donatárias e as quês" 
toes sobre a sua posse e divisas. 

Azevedo Marques, que é das melhores auctoridades sobre a his- 
toria paulista, nos seus Apontamentos Históricos, dá uma lista dos 
capitães-raóres das capitanias de S. Vicente o de Itanhaen, que não 
se conforma cora a lista organizada por Fr. Gaspar. E' verdade que 
Azevedo Marques não garante a inteira veracidade da relação que 



(1) Por actos de 1753-54. 



- 150 -^ 

apresenta, pela confusão era que Acaram as donatárias e pela exis- 
tência simultânea do vários capitaes-raóres, porem, é também verdade 
que ello próprio confundiu as donatárias ainda antes do litigio e deu 
como capitã'j-mór de S. Vicente a António Rodrigues de Almeida, 
que exerceu esse cargo na donatoria de Santo Amaro. 

Ató o lira do século XVI não tinha havido questão alguma entro 
os herdeiros de Martira Aftonso e de Pedro Lopes sobre a posse das 
donatárias e suas divisas. A donatária de S. Vicente começou logo 
a ser povoada pelos esforços do seu proprietário, porém a de Santo 
Amaro permaneceu por muitos anncs em abandono e esquecimento. 
Na primeira havia já as villas de S. Vicente, Santos e São Paulo 
quando D. Isabel do Gamboa, viuva de Pedro Lopes, pensou seria- 
mente ro povoamento da segunda. 

E' verdade que em 1542 nomeou ella seu procurador a Christo- 
Tam de Aguiar, que já era capitão-mór de S. Vicente como delegado 
de Martira Aflonso ; porém, accumulando este cargo nas duas donatá- 
rias, o mesmu Christovam só zelou dos interesses dadeS. Vicente e 
pouco ou antes nada fez pelo desenvolvimento da de Santo Amaro. Só 
em 1557 foi que a mesma senhora deu poderes de capitão-mór ou 
loco-tenente a António Rodrigues de Almeida, fidalgo portuguez que 
viera a S. Vicente era 1547 e havia regressado ao reino, era 1556, 
em busca de sua familia, que lá tinha deixado. Não tendo onde re- 
sidir na donatária de Santo Amaro, que lhe era confiada, porque era 
ainda um deserto, veiu elle se estabelecer em S. Vicente e dali con- 
cedia sesmarias o praticava outros actos de jurisdicção uls territó- 
rios daquella donatária ; porém, nunca foi capitão-mór de S. Vicente, 
como affirma Azevedo Marques. O mesmo se pôde dizer de Gonçalo 
Affonso, que foi ouvidor de Santo Amaro e não capitão-mór de S. 
Vicente. Também, durante o litigio sobre as donatárias houve alguns 
capitães-móres cujos nomes Azevedo Marques não dá, mas que fi- 
guram na relação de Fr. Gaspar. 

Cora estas explicações, que vão como prefacio, entrego o escri- 
pto de Fr. Gaspar á apreciação dos estudantes da historia pátria. 

S. Paulo, outubro de 1899. 

A. DE Toledo Piza. 



Escriptura de dote 

AO 

AO CONDE DA ILHA DO PRÍNCIPE (') 

João Blau, capitao-mór desta capitania da Senhora Condessa da 
Slha do Principe, diz que llie é necessário o traslado do Alvará que 
passou Sua Magestade El-Rei Dora João IV, que Deus tenha em 
gloria, á Senhora Condessa do doação das terras quando se casou 
cora Dom Luiz Carneiro, Conde da Ilha do Principe, o qual Alvará 
-«stá no livro da camará, pelo que pede a Vossas-raercôs mandem 
dar os traslados que pede e receberão mercê. — Como pede. — Concei- 
to em camará, 9 de Abril de W^9.— Sebastião Luiz Martim da 
4Josta — Custodi o Barroso — Jeronymo Galans — Miguel Gonçalves. 

Traslado da escriptura de dote quk se deu ao Conde da Ilha 
DO Príncipe, pedido na petição atraz. 

Em nome de Deus amen. — Saibam quantos este instrumento do 
•contracto de dote, arrhas e obrigação virem que no anno do Nasci- 
mento de Nosso Senhor Jesus-Christo de mil seiscentos e cincoenta e 
quatro, em 5 dias do mez de Janeiro, na cidade de Lisboa, junto ao 
<}onvcnto de S. Francisco, nos apesentos de Dom AíFonso de Faro, 
«stando ahi presentes partes a saber : — de uma Luiz Carneiro, Senhor 
da Ilha de Santa Helena e de Santo António e da do Principe, Conde 
delia, e do Conselho de Sua Magestade, e da outra Dom Diogo de 
Faro o Souza, íilho de Dom Sancho de Faro, que Deus tem, herdeiro 
e feuccessor de sua casa e morgado do Vimieiro e Alcoentre, e de 



1 Mamiscript(y antigo, um tanto estragado por agua e traças, também encontrado entro 
os papeis do general Arouclie. A. de Toledo Piza. 



- 152 -. 

Dona Izabel de Lima o Carcome, sua mae, que Deus tem, e bem 
assim o Dito Dom Affonso de Faro, seu tio, tutor e curador, e de 
Dona Marianna de Paro e Souza, sua irmã, e seus sobrinhos menores, 
em seu nome e no de cada um delles, e outrosim estavam presentes o 
dr. Pedro Paulo de Souza, Desembagardor dos Aggravos e Casa da 
Supplicação, e o dr. Francisco da Cruz Freire, nomeados procuradores 
pelo dr. Francisco Ferreira Bncerrabodes, juiz dos orphãos e um das 
repartições desta cidade e dos ditos menores, que também estavam 
presentes, para assistirem e darem auctoridade a este contracto e ca- 
pitulações. Disse logo por elles Dom Diogo de Faro e Souza e 
Dom Affonso de Faro, como tutor e curador dos ditos seus sobrinhos 
menores, foi dito a mim tabellião, perante as testemunhas adeante 
nomeadas que estão contractados para, com o favor divino, mediante 
agrado da Espirito Santo e comprazimento de Sua Magestade, por 
seu Alvará ao deante trasladado, haverem de casar a dita D^ na Ma- 
rianna de Faro e Souza, sua irmã e sobrinha, com elle Conde Luiz; 
Carneiro, e que havendo o dito casamento seu roal effeito e sendo 
recebidos por palavras de presente na forma do sagrdo Concilio Triden- 
tino, e consumando se o matrimonio, o contracto qu «. este Dom Diogo 
de Faro e Souza dá e dota a dita Dona Marianna de Faro, sua irmã, 
cora auctoridade do dito Dom Affonso de Faro, seu tio e curador, e 
por bem do Alvará que tem de Sua Magestade de supprimento de 
edado para este dote e casamento e bem de todos ; que outro sim ao 
deante era trasladada a sua capitania de S Vicente, de cem léguas 
de terras, no Estado do Brazil, districto do Rio de Janeiro (1), do que 
elle é capitão, senhor e governador perpetuo, e toda a sua jurisdi- 
cção, direitos o rendas, assim e da maneira que a tem e lhe pertence 
por sua doação e dote, em estimação e valor de vinte mil cruzados, e 
assim mais lhe dá, e dota a dita Dona Marianna sua irmã, duzentos 
mil reis de renda cada um anno em valor de dez mil cruzados consi- 
gnados e constituídos em todos os rendimentos do morgado do Rio 
Maior, sito no termo de San*arem assim da maneira que os possue e 



1 A capitania autonómica de S. Paulo só foi creada 55 ann os depois, em 1709, e ins- 
tallada a 18 de Junho de 1710, dia em que tomou posse o primeiro capitão general 
António de Albuquerque Coelho de Caryalho. 

A. DE Toledo Piza. 



— 153 - 

lhe pertencem por qualquer via que seja, o não bastante todos os ren- 
dimentos tudo o que faltar para o cumprimento dos duzentos mil réis, 
e elie dotador é contente se prefaça dos sessenta mil e quinhentos e 
oito réis de juro que tem na alfandega desta cidade. B porquanto 
Sua Magestade t.m concedido a elle Dom Diogo de Faro que possa 
dotar estes ditos duzentos mil reis de renda cada anno no morgado 
de Vimieiro, se obriga elle Dom Diogo de Faro a haver a apostilla 
no dito Alvará do dito Senhor para a consignação dos ditos duzentos 
mil reis em todos os rendimentos do dito íuorgado de Rio-Maior e 
sessenta mil quinhentos e oito reis de juros na dita alfandega em- 
quanto se não alcança a dita apostilla, é contente elle dotador que 
fiquem sempre seguros os ditos duzentos mil reis de renda do dito 
morgado de Vimieiro o Alcoentre na forma do dito Alvará, que ao 
deante esta inserto nesta nota e seus traslados, com declaração quo 
a todo o tempo que elle dotador ou succesores da dita casa e mor- 
gado quizerera remir os ditos duzentos mil reis e seu valor ou derem 
renda bastante equivalente, que bem os valha, o poderão fazer ; e 
outro sim por morte da dita Dona Marianna, fallecendo ella e 
seus descendentes, ficarão os ditos duzentos mil reis livies aos 
ditos morgados conforme ao dito Alvará e este contracto, o assim 
mais dá e dota o titulo de Conde da Ilha do Frincipe, que elle Conde 
Luiz Carneiro tem em sua vida, o qual titulo, e assim dota, houvera 
por Alvará de duas vidas mais nos descendentes deste raatriomonio, 
estimadas as ditas duas vidas do dito titulo de conde em outros dez 
mil cruzados, porquanto elle dotador tem já alcançado Alvará do 
titulo em uma vida. Das duas promettidas e dotadas e também 
adoante ora trasladado para os descendentes deste motriraonio, esti- 
mados nos ditos dez mil cruzados, declara elle dotador que nao al- 
cançando Alvará da outra segunda vida para neto e descendente deste 
matrimonio dentro do tempo de cinco annos, começados do effeito do 
dito matrimonio em deante, elle do.ador se obriga a dar no fim dos 
ditos cinco annos a quantia de cera mil reis cada anno de renda em 
bens livres, ou de morgados que bem os lenda, estimados no valor 
de cinco mil cruzados, que ó a respeito dos ditos dez mil cruzados 
dotados por titulo de conde das ditas duas vidas, e para a dita renda 
dos ditos cem mil reis elle dotador obriga desde logo todos os seus 



— 154 — 

tens e rendas livres, havidos e por haver, e os rendimentos de seus 
morgados, para o que haverá Alvará de Sua Magestade para segu- 
rança dos ditos cem mil reis de renda, e a todo o tempo que elle do- 
tador ou seus successares alcançarem o dito Alvará da dita segunda 
vida da mercê do titulo de condo ficará cessando a obrigação dos di- 
tos cem mil reis de renda, e desta maneira se entenderá e competirá 
esto dote que elle dotador dota á dita Dona Marianna, sua irmã, nos 
ditos quarenta mil cruzados que leva comsigo, porque nesta quantia 
o valor elle Conde a acceita sem poder allegar lezão, erro ou engano 
algum, porque neste valor das ditas causas estão conformes, e é mais 
declaração deste contracto que todos os adquiridos que se adquirirem 
durante o matrimorio, assim por qualquer maneira, ou por doação, 
herança ou contracto, ou por outra qualquer via, a titulo lucrativo 
ou oneroso, que por qualquer delles so adquirirem ou por outro qual- 
quer que seja, se houveram por adquiridos communicaveis e partes 
entre ambos (i), e no tocante á Capitania de S. Vicente dotada elle 
dotador se obriga a entregar as contas de doação e titulos delia para 
por elles a dita Dona Mariauna tirar carta de successão em sua cabeça 
ou para os descendentes deste matrimonio, conforme o Alvará de Sua 
Magestade ao deante trasladado o mais declaração deste contracto, 
que todos os bens deste dote que a dita Dona Marianna de Faro e 
Souza leva comsigo terão e seguirão a natureza dos bens dotaes sem 
se poderem divertir, traspassar, vender, alienar, nem obrigar por ne- 
nhuma via que seja, e este dote promette e obriga elle dotador fazer 
sempre bom aos ditos dotados assim de maneira que neste contracto 
so contem, de tal maneira que o hajam e logrem e possuam assim e 
do modo que nesta escriptura se contem, pela qual tira e aparta de 



(1) Este trecho e alguns outros do manuscripto são mal redigidos e obscuros. A 
doação feita cm Lisboa em 1654 teve uma copia trazida para Conceição de Itanhaen e 
aM registrada no livro da camará, desta se tirou uma copia que foi levada para Angra 
dos Reis e aili registrada no livro da camará; desta foi tirada uma nova copia por or- 
dem de Balthazar da Silva Lisboa, que esteve em Angra dos Reis fazeno correição em 
1797, como juiz de fora; desta foi tirada a copia que tenho em meu poder, da qual ex- 
trahi outra para o prelo. E' provável que grande parte das phrases obscuras e erradas 
sejam productos dos copistas. A letra deste manuscripto é boa e muito legivel. 

A. T. Piza. 



— 155 — 

si e seus herdeiros e descendentes todos os ditos bens que toda e todo o di- 
reito o acção que até agora nelles teve e adiante podia ter e haver o todo o 
procedo e traspasse nos ditos dotados o successores deste matrimonio e per 
elle Condo foi dito que acceita este doto dos ditos quarenta mil cru- 
zados da mão delle Dora Diogo de Faro com auctoridade do dito 
Dora Affonso do Faro, seu tio, tutor e curador, na forma dita, e que 
a respeito dos ditos quarenta mil cruzados assim de todos se obriga 
elle Conde a dar a torça parto do arrhas, conforme a ordenação, á 
dita Dona Marianna de Faro, sua tutora mulher, consignados o cons- 
tituídos a provimento destes dotadoies era bens seguros e abonados, 
porquanto conforme a este contracto elle Conde promette e dá era 
norae de arrhas e doação á dita Duna Marianna de Faro a terça 
parte dos ditos quarenta mil cruzados do dito dote, que são trezo 
mil, trezentos e trinta e três cruzados, consignados e constituidos era 
bens equivalentes seguros á satisfação delles dotadores ; e outro sim 
se obriga, soluto matrimonio, a segurar o dito dote que peceber e des- 
tas arrhas a raetade dos ditos adquiridos ; o por elle Conde foi mais 
dito que a dita segurança e lostituicção e consumamento do dia des- 
de quo lhe fora entregue, e assim mais das ditas arrhas promettidas 
obriga todos os seus bens assim livres quo por qualquer maneira lhe 
pertençam como do morgado patrimonial e quaesquer outros que 
houver em particular para as ditas arrhas, as borafeitorias do seu 
molde sitas nesta cidade por detraz da egreja de S. Paulo, que im. 
portam em muito mais, as quacs borafeitorias consignadas ao paga- 
raento das ditas arrhas são livres e sem vinculo algura como está 
declarado em uma sentença quo se deu no juizo do eivei desta cidade 
pelo licenciado Manoel Tenreiro de Gouvea, de que é escrivão Do- 
mingos Rodriguez, a que se refere, e sempre elle Conde as fará li- 
vres e desobrigadas com todos os seus rendimentos equivalentes aos 
treze ditos mil, trezentos e trinta e três cruzados de arrhas e rendi- 
mentos do todos os mais seus bens e pelo melhor parado de sua fa- 
zenda, livres rendas, e para esta obrigação e hypotheca de bens de 
morgado haverá para mais segurança Provisão e Alvará de Sua Ma- 
gestade, conforme aos que por sua parte houveram os dotadores para 
a obrigação deste, e uns e outros assim livres como do morgado, 
como a dita licença que for necessária para a sua validade e segu- 



— 156 — 

rança jlquem desde logo era seu vigor, com mais declaração que fal- 
lecendo a dita Dona Marianna com filhos deste matrimonio ficarão as 
ditas arrhas vinculadas ao morgado do filho e successor deste ma- 
trimonio para accrescentaraento delle ; e é mais declaração deste con- 
tracto qne sendo caso que elle Conde falleça primeiro que Dona Ma 
rianna de Faro ella ficará em posse e cabeça de casal com todos e 
quaesquer bens que ficarem de qualquer sorte e seus rendimentos até 
com effeito ser entregue do todo o seu dote, arrhas e a metade dos 
adquiridos inteiramente ; emquanto lhe não forem pagas as ditas ar- 
rhas haverá cada anno duzentos e cincoenta mil réis dos rendimen 
tos de todas as casas do dito molde, que é a quantia que vem a ser 
a razão de juros os ditos treze mil, trezentos e trinta e três cruza- 
dos das ditas arrhas e a mais condição e declaração deste contracto, 
que vencendo em dias a dita Dona Marianna do Faro a elle < onde 
ella logrará e comerá as ditas arrhas em sua vida e assim mais os 
ditos duzentos mil réis de renda consignados nos ditos bens e rendi- 
mentos dos ditos morgados ; assim as ditas arrhas como os ditos du- 
zentos mil réis comerá em sua vida, quer fiquem filhos e successores 
deste matrimonio quer não, e é mais declaração desta escriptura que 
cada um delles partes assim dotadores como dotados poderá haver de 
Rua Magestade a licença e Alvará que forem necessárias para a validade 
deste doto e contrancto delle, e para tudo elles partes dotadores e 
dotados assim cumprirem todo e cada cousa disseram que obrigavam, 
e de feito logo obrigaram, todos os seus bens e rendas livres, havi- 
dos o por haver, de juro e de morgado e melhor parado delles, e 
por elles Dora Aflonso de Faro, tutor e curador, e doutores Pedro 
Paulo de Souza e Francisco da Cruz Freire, curadores, e o doutor 
Francisco Ferreira Encerrabodes. Juiz dos orphãos da dita repartição, 
foi dito que elles approvaram e ratificam este contracto de dote e 
dam a elle sua outorga e consentiraento para que fique firrae e va- 
lioso e tenha seu real e curaprido effeito, assim e da maneira que 
nello se contem e pela melhoria que em direito possa ser, e outor- 
garam de responderem elles dotadores e dotados por todo o aqui 
constituido nesta cidade perante os corregedores da Corte, corregedo- 
res e juizes do eivei delia, onle e perante quem este instrumento for 
apresentado e se pedir e requerer seu curapriraento ahi se obrigam 



— J57 — 

a responder e de se fazer todo o cumprimento de direito o justiça, 
citadas por suas cartas citatorias precatórias e sem ellas, para o que 
disseram que renunciavam e cada um renunciava juiz de seu foro e 
da terra e logar onde ao tal tempo estiverem e morarem, e todos os 
mais privilégios, liberdades, leis, direitos, ordenações, distincções, fe- 
rias geraes e espeoiaeg, e tudo o mais que por si e ora seu favor 
allegar possam, que de nada se poderão valer, salvo tudo cumprir 
pelo modo sobredito ; e declaram elles partes que no que toca ao 
pagamento dos cinco mil cruzados, em que está estimada a segunda 
vida de titulo de conde no caso em que este Dom Diogo o nâo haja 
de sua Magestade nos ditos cinco annos pagará a elle Conde os ditos 
cinco mil cruzados dos bens livres que tiver e pelos rendimentos e 
rendas de seus morgados sem. . .(1). . .mais nos ditos morgados este 
que assenta sobre as rendas e nos rendimentos delles, e que para isto 
se haveriam as licenças necessárias, como atraz fica dito e declarado, 
que esta se outorgou em nove dias do dito mez de Janeiro posto que 
continuada em cinco do dito mez, e em testemunho da verdade assim 
o outorgaram tedos elles outorgantes e pediram que se fizesse este 
instrumento nesta nota e que se dessem os traslados necessários, que 
acceitaram, e eu tabellião o acceito em nome de quem tocar ausente 
como pessoa publica, estipulante e acceitante. Testemunhas que foram 
presentes : o dr. Thomó Pinheiro da Veiga, Procurador da Coroa de 
Sua Magestade e sou Desembargador do Faço, e Manoel Rodrigues 
creado delle Dora Affonso de Faro, e Amador de Abreu, creado delle 
Conde Luiz Carneiro e todos conhecemos a elles partes outorgantes, 
dotador, Conde dotado, tutor, curadores e juiz serem os próprios aqui 
conteúdos, que na nota assignaram com as testemunhas. António Pinto 
de Lemos, tabellião, o escrevi. — Conde da Ilha — Dom Diogo de Faro 
e Souza — Dom Affonso de Faro — Pedro Paulo de Souza — Francisco da 
Cruz Freire —Francisco Ferreira Fncerrabodes -^ Ihome' Pinheiro da 
Veiga -Manoel Rodrigues Cabreira— Amador de Abreu. 

\ 



1 Aqui havia no mannscripto de Balthazar da Silva Lisboa um trecho que o eopia- 

ta não entendeu e qua copiou do seguinte modo: <e.sem fuir ou'ro grasa minha mais...» 

tudo com letra boa e muito legivel ! 

A. T. Piza 



— 158 - 

1.0 Alvará* de que atraz se faz menção (1) 

Eu El-Rei faço saber aos quo este Alvará virem que havendo 
respeito ao que por sua petição mo enviou a dizer Dom Diogo de 
Faro e Souza, por seu tio e tutor Dora AíFon o de Faro, pedindo-ma 
lhe concedesse licença para dotar a sua irmã Dona Marianna de Fa- 
ro e Souza, que está contractada para casar com o Conde da Ilha do 
Príncipe com as loO léguas do terras que tem na costa do Brasil, 
com suas povoações e titulo de capitão e governador, com suas juris- 
dicções o rendimentos, e que lhe passo carta de successão era nomo 
da dita sua irmã na forma que a elle lho está mandada passar, sup- 
prindo-lhe o ser menor para fazer o dito dote, e vistos os casos que 
allega e as informações que se houve pelo dr. Pedr o Paulo de Sousa, 
Desembargador dos Aggravos o da Casa da Supplicação, de que consta 
que ouvira o supplicante e seu tutor o imraodiato successor do mor- 
gado que é a dita sua irmã dotada que o juiz de Orphãos lhe dera cu- 
rador lettrado por ser menor, o todos consentem no dote referido, e a 
resposta que sobre tudo deu o Procurador de rainha Coroa, hei por bem 
e me praz que, tendo feito o dito casamento, se passe carta a Dona 
Marianna de Faro e Souza das cora léguas de terras de que se trata, 
na forraji que está raandada passar ao dito Dom Diogo, a quem hei por 
èupprida a idade para poder fazer o dito dote, tudo corao em sua pe- 
tição podo, e este Alvará se cumprirá como nello se contem e valerá 
posto que o seu effeito haja do durar mais de um anuo, sem embargo 
da Ordenação do livro segundo, titulo quarenta, em contrario Manoe' da 
Costa o fez em Lisboa a deseseto do Setembro de mil seisentos o 
clnconta c três annos . Jacintho Fagundes Bezerra o fez escrever. — Rei. 



(l) Para ficar completa a prova sobre o parentesco de D. Diogo e D. Marianna re- 
produzo um dos alvarás régios, relativo a doação por aquelle feita a esta, e também 
porque iutHressa a historia da donatária de S. Vicente. O outro alvará trata do dote 
de duzentos mil reis anunaes tirados do morgado de Vimieiro e uao interessa a historia 
de 8. Paulo. 

A. T. Piza 




^.r7>;; .<?/« -"« . 



Relação dos Capitães loeo-tenentes que 
governaram a Capitania de S. Vicente, 
uns nomeados pelos verdadeiros do- 
natários e outros pelos intrusos. 



1.0 

Gonçalo Monteiro :— Era sacerdote quando veiu na armada de 
Martim Affonso e aqui flcou por vigário do S. Vicente e depois por 
vigário de Santos. Quando era vigário de S. Vicente governou a 
capitania como loco-tenente de Martim Aftonso por nomeação de sua 
mulher e procuradora, D. Anna de Pimentel, segundo coasta da car- 
ta de sesmaria das terras de Iriripiranga que o dito Gonçalo Mon- 
teiro concedeu ao meirinho João Gonçalves, em S. Vicente, aos 4 
de Abril de 1538, na qual attesta o capitão António do Valle estar 
registrado no livo do tombo um instrumento de poderes escripto em 
Lisboa pelo tabellião António do Amaral, pelo qual D. Anna Pimen- 
tel constituo seu procurador e loco-tenente, em seu nome e do seu 
marido, a Gonçalo Monteiro. 

Deste capitão, que fui o primeiro, existem muitas sesmarias. 
A mencionada sesmaria vera na escriptura de troca que o meirinho 
João Gonçalves foz com António do Valle, e é o titulo das terras de 
Santa- Anna que foram de minha mãe D. Anna de Siqueira e Men- 
donça. O mesmo consta da sesmaria que concedeu a João Ramalho 
aos 20 de Dezembro de 1500 e tantos (1). Já governava.no ultimo 
de Dezembro de 1536 porque nesse dia passou a sesmaria de Este- 
vão da Costa. 



(1) o escriptor deste trabalho é Frei Gaspar da Madre de Deus, apesar do manus- 
criptD não trazer assignatiira, nem data. E' curioso que elle cite a data do mez e não 
saiba com certeza o anno da concessão feita a João Ramalho. 



- 160 «^ 



2.0 



António de Oliveira : — Cavalheiro fidalgo; por provisão de D. 

Anna Pimentel, passada em Lisboa aos 16 de Outubro de 1538. Já 

governava no primeiro de Setembro de 1539. Ha muitas sesmarias 

deste capitão. 

3.0 

Christovam de Aguiar de Altero : — Cavalheiro fidalgo, creado 
por D. Anna Pimentel em Lisboa aos 20 de Dezembro de 1542. To- 
mou posse em S. Vicente aos 28 de Março de 1543 ; consta do livro 
1.0 das vereações da camará de S. Vicente, na vereação do dia. 
Noto-so que não aponto as folhas por não serem numeradas (l). 

4.0 

Br\z Cubas:— Cavalheiro fidalgo, creado por provisão de D. 
Anna Pimentel, passada em Lisboa aos 26 de Novembro do 1544. 
Tomou posse em S. Vicente aos 8 do Junho de 1545. Consta do 
livro citado, na vereação desse dia ; e supponho que houve alguma 
duvida a respeito da sua posse porque não se achou presente o ca- 
pitão que acabava, como era estylo. beu antecessor tomara posse 
em Março de 1543 e como ainda lhe faltavam muitos mezes para 
ajustar o trionnio, pode ser que Braz Cubas tomasse a posse mais 
cedo do que devia e que por isso não lh'.a quizesse dar Crhristovam 

de Aguiar. 

5.0 

António de Oliveira, 2.» vez :— Por provisão de Martim Affon- 
so aos 28 de Jan-iro de 1549. Apresentou a sua carta em Santos 
aos 27 de Maio de 1549, donde infiro que tomou a posse alguns dias 
antes, porque costumavam tomal-a na camará de S. Vicente e ao de- 
pois se registrava a patente em Santos. Tudo consta de uma certi- 
dão passada pelo escrivão da camará de Santos, B'rancisco Lopes, aos 
2 de Abril de 1562. Archivo do Carmo de Santos— maço 15, n. 6. 



(1) o costume de não numerar as folhas era geral nos séculos passados e o auctor, 
que disso se queixa, também não numerou as paginas deste manuscripto. Christovam da 
Aguiar era capítâo-mór das duas capitanias, de S. Vicente e Santo Amaro. 

N. da R. 



— 161 — 

6.0 

Braz Cubas, 2.a vez : Foi creado por Martim Affonso segundo 
attesta o escrivão, mas não declara quando lhe passaram a provisão, 
nem o dia da posse. A primeira sesmaria que tenho visto, passad* 
por elle, tem a data de 2i de Janeiro de 1555 e a ultima a de 2 de 
Março de 1556. ^ 

7.» 

Jorge Ferreira :— Cavalheiro fidalgo (1). Declara nas sesmarias 
qne era capitão em ausência de Braz Cubas, com poderes do gover- 
nador geral D. Duarte da Costa. Passou uma sesmaria aos 20 de 
Julho de 1556. Passou outra sesmaria aos 9 de Agosto de 1557 sem 
fazer menção alguma de Braz Cubas ; nem elle podia estar ausente 
nesse tempo porque a carta de 9 de Agosto foi registrada no livro 
da Fazenda Real nesse raez pelo escrivão Alberto, que o con&tatára 
com o provedor Braz Cubas. Jorge Ferreira ainda governava em 
primeiro de Fevereiro de 1558, com poderes do governador geral, 
porque nesse dia passou um* sesmaria na qual declara a fonte de 
onde manava a sua jurisdicção. 

8.0 

Francisco de Moraes Barreto : — Da carta que lho escreveram os 
camaristas de S. Vicente para o e*fteito de o depor com o fundamento 
de ter concluído o sou triennio, consta que Martim Aíionso o provera 
por três annos, que tomara posse aos 30 de Abril de 1558 e que tinha 
governado até o 1." de Maio de 1531, dia em que lhe escreveram a 
carta, a qual so acha registrada no archlvo da camará, livro das ve- 
reações, que piincipia em 1561, a íls. 16. Avisaram ao Capitão que 
si tinha outra provisão a mostrasse para lho darem cumprimento ; 
aliás, fariam sua obrigação, a qual era juntarem-se com os camaris- 
tas de Santos e elegerem capitão. 



(1) Era casado com Joanna Ramalho, filha do portuguez João Ramalho e neta de 
Tibiriçá, caciçLue goyaná de Piratínínga no tempo de Martim Affonso N. da R. 



— 162 — 

9.0 

Pedro Collaço :— Cavalleiro fidalgo ; consta do livro citado, fls. 

17, quG aos 11 de Maio do 1561 estevo presente na camará desse dia 

o capitão Pedro Collaço. Nâo se acha o auto de sua eleição, nera o 

de sua posse ; mas infere-se da carta citada que as duas camarás o 

elegeram logo depois O0 notificarem a Francisco de Moraes que tinha 

acabado. Vi sesmarias suas de 18 de Junho, 26 de Agosto o 28 de 

Novembro do 1533. 

10.0 

Pedro Ferraz Barreto : — Cora poderes do Martira Affonso passou 

sesmarias aos 5 de Outubro do 1562 e aos 20 de Janeiro de 1567. 

11.» 
Jorge Ferreira, 2.a vez : — Passa sesmaria aos 19 de Junho do 
1567 e manda cumprir outra, sondo ainda capitão em 1571. Em todas 
declara que governa com poderes do Martim Affonso. 
Ou este capitão governou muito tempo 
ou não ha memoria de seus successorcs, por- 
que vai muito tempo do anno do sua posse 
até o tempo de Jeronymo Leitão. 
12.0 
Jeronymo Leitão : —Irmão de Domingos Leitão, fidalgo da casado 
Sua Magestade. Foi provido pelo segundo donatário Pedro Lopes de 
Souza, filho de Martim AíTjnso de Souza. Isto consta de muitas ses- 
marias. Não apparece a sua provisão, nera o auto da sua posso ; 
consta, porêra, do termo da vereação de S. Vicente, em 3 de Novem- 
bro de 1579, que elle já era capitão nesse dia, o do termo da verea- 
ção de 22 de Março de 1592 consta que ainda governava nesse dia por- 
que derara posse ao tabellião Francisco de Torres, nomeado por elle (i). 



(!) Aqui traz o manuscripto a seguinte nota : 

«Si Jeronymo Leitão governou até Maio de 1592, como podiam nomear por seu suc- 
cessor em Março desse mesmo anno ?» 

Para se entender esta nota é preciso suppor que o termo de vereação, mencionado 
no texto com a data de 22 de Março de 1592, tenha a data de 22 de Maio, que o auctor 
corrigia para 22 de Março para combinar com o que adeante se diz do capitão-mór Jorge 
Corrêa. Em sub-nota so diz que J. Leitão tomou posse a 14 de Agosto de 1580 em t.o- 
me de Pedro Lopes. (A\ ãa E.) 



— 163 — 

Daqui por deante é escripto oeatalogo pelo doutor juiz de fora 

Marcellino Ferreira Cleto. 

13.0 

JoiíGE Corrêa : — Consta do livro 6.» da camará de S. Vicente que 
foi nomeado por Lopo do Souza, terceiro donatário, o tomou posse 
aos 33 de Março de 1592. Serviu ató 14 de Março do 1595, segundo 
consta do livro 7.o, no aceordam desse dia. 

14.0 

João Pereira, de Souza:— Tomou posso aos 14 de Março de 1595. 
Foi nomeado peio governador D. Francisco de Souza para servir o 
cargo de capitao-mór com os adjunctos Simão Machado e João Ba- 
ptista (1), mandando suspender a Jorge Corrêa e cha- 

mando-o á cidade da Bahia por capitules que de cá deram contra ello, 
dos quacs mandou devassar. Consta do livro T.» da camará de S. 

Vicente. 

15.0 

RoauE Barreto : — Nomeado por Lopo de Souza ; apresentou-se na 
camará do S. Vicente aos 19 de Outubro de 1598. 

16.0 

Diogo Árias de Aguirre : — Tomou posse de capitão de S. Vicente 
aos 18 do Dezembro de 1598, por provisão do governador geral do 
Estado, D. Francisco de Souza, na qual determinava que governaria 
somente emquanto f»lle governador não chegasse a esta capitania, para 
a qual íicava de partida, suspendendo interinamente ao capitão e loco- 
tenente legitimo, som culpa, Roque Barreto, como consta do livro 8.». 

17.0 

EociUE Barreto, 2.» vez : — Consta do livro 8,o que Roque Barreto 
servia outra vez do capitão aos 13 de Julho de 1600, porque nesse 
dia concedeu foros de villa á povoação de S. João de Cananéa em 
nome do donatário Lopo de Souza. 



(1) o terceiro nome está devorado por traças. {^- <?« -H.) 



— 161 — 

18.0 

Diogo Lopes de Castro : Cavalheiro fidalgo ; aos 24 de Feve- 
reiro de 1602 fez registrar uma provisão do governador geral pela 
qual o creava capitao-mór de S. Vicente. Consta do livro 8.» Foi 

suspenso. 

19.0 

Roque Bahreto, 3.» vez : — Aos 27 de Julho do 1603 registrou 
uma provisão do governador geral Diogo Botelho, pela qual o creava 
capitao-raór de S. Vicente, suspendendo ao dito Diogo Lopes. 

20.O 

António Pedroso:— l'oi nomeado por provisã-o de Lopo de Souza, 
passada em Lisboa aos 30 de Outubro de 1602, para capitão com a 
clausula de que, não querendo ou não podendo servir este posto, ser- 
viria seu irmão Pedro Vaz de Barros. Resta saber si tomou posse 
nesta occasião o dito António Pedroso de Barros. {^) 

21.0 

Pedro Vaz de Barros : — Consta do livro 8.o que aos 18 de Agosto 
de 1603 servia de capitão e ouvidor por Lopo de Souza, o qual ainda 
servia em 24 de Fevereiro de 1605. 

22." 

Pedro Cubas :— Moço da camará de Sua Magestade e alcaide-mór 
das capitanias de S. Vicente e Santo Amaro ; em 11 de Julho de 1605 
foi chamado pela camará de S. Vicente para servir de capitão-mór da 
capitania, segundo consta do livro 9.o. Parece que não o reconhecia 
por capitão a villa do Santos e isto pouco carece de exame. 



(1) Parece haver contradicçSo entre os §§ 19 e 20, ou então havia conflicto entre o 
donatário Lopo de Sonza, que nomeava qualquer dos dois irmãos António Pedroso e Pe- 
dro Vaz de Barros em Outubro de 1602, e o governador geral, que nomeava Roque Bar- 
reto em Julho de 1603. 

íiT. da B.) 



- 165 - 

•23.0 

António Pedroso pe Barros: — Tomou juramento para servir de 
capitão das capitanias de S. Vicente e Santo Amaro aos 20 de' De- 
zembro de 1606, por ter sido nomeado por Lopo do Souza, segundo 
consta do livro 9.«> Ainda servia aos 9 de Setembro de 1607— livro 
citado. Resta examinar si antes desta posse tinha governado. (1) 

24.0 

Gaspar Conquero -.—Tomou posse e juramento para servir de ca- 
pitão e ouvidor da capitania de S. Vicente aos 6 de Outubro de 1607, 
por estar nomeado pelo donatário Lopo de Souza. Consta do livro 9.» 
Passou uma sesmaria a 20 de Fevereiro de 16... (2) a António Fer- 
Qiva,— livro 2." de registro de sesmaria, pag. 86. Manoel Antunes 
passou duas sesmarias como capitão e loco-tenente de Lopo de Souza, 
uma aos 2 de Outubro de 1611 e outra aos 20 de Dezembro dó dito 
anno, que se acham registradas no livro 3.o delias ; porôm o escrivão 
na margem pôz a nota de que não tinham effeito porque o dito nun- 
ca fora capitão. (3) 



(1) Aqui traz o manuscripto a seguinte nota : 

«Consta do mesmo livro que deram posse dos logares de capitão e ouvidor a Antó- 
nio Pedroso aos 21 de Dezembro de 1606, em virtude de uma provisão de Lopo de Souza; 
constando do mesmo livro que tinham dado posse de ouvidor a Zuzarte Lopes aos 20 de 

Dezembro de 1606 por cas que nelle fizera o dito António Pedrosb, a quem tinham 

dado posse de capitão nesse mesmo dia 20 de Dezembro, A' margem vinha uma cota 
que dizia não valer o termo da posse dada a Zuzarte Lopes. Do requerimento, a fls. 
300 do mesmo livro, que fez o procurador da camará de 8. Vicente aos 20 de Janeiro de 
1607, consta que na villa de Santos não reconheciam por capitão, nem por ouvidor, a 
António Pedroso e que alli servia de ouvidor Sebastião Peres e de capitão Gonçalo de 
Pedrosa.» Ha nesta nota uma palavra devorada por traça, que vai com pontinhos. 

(2) resto da data está devorada por traças. 

(3) Aqui traz o manuscripto a seguinte nota: 

«Conservo as pecias confusas de ter achado gue o donatário lhe concedera a facul- 
dade de passar sesmarias no termo da Ilha Grande. Capitão nunca foi, como cora razão 
advertiu o escrivão». 

Esta nota, mal redigida e obscura, está bem conservada e tem a letra bem legível. 
Parece que o auctor ficara perplexo por ter verificado que o donatário facultara a Antu- 
nes conceder sesmarias sem ser capitão-mór. (-^- da M.) 



— 166 — 

25.0 

Lmz DE Freitas Mattoso : — Era capitão em 3 do raez de Julho 
de 1612, nomeado por D. Luiz do Souza, governador geral da Repar- 
tição do Sul, por morte de seu pae D. Francisco de Souza. Neste 
dia passou Freitas provisão de meirinho da correição a Belchior Ro- 
drigues, cuja provisão se cumpriu na camará de S. Vicente aos 5 do 
Agosto do dito anno, segundo consta do livro 11 das vereaçuoá de S. 

Vicente- 

26.0 

Nuno Pereiea Freire:— Fidalgo da casa de Sua Magestade, no- 
meado capitão da capitania de S. Vicente por D. Luiz de Souza por 
provisão de 15 de Julho de 1612. Consta do livro 11.° 

27.0 

Francisco de Sa' Sottomaior -.—Nomeado capitao-mór da capita- 
nia de S. Vicente por D. Luiz de Souza aos 6 de Junho de 1613, a 
qual foi cumprida aos 19 de Junho do dito anno. Livro 11.^ 

Nota : — Este D. Luiz assistia nesta 
capitania epor isso estava nomeando capi- 
tães annuaes contra o estylo antigo, cujas 
provisões eram por três annos. 

28.» 

Domingos Pereira J a come :— Tomou passe de capitão da capita- 
nia de S. Vicente aos 5 do Setembro de 1613, por nomeação do de- 
sembargador Munoel Jacome Bravo, cora poderes bastantes que para 
isso e outras cousas lhe havia concedido o governador geral do Es- 
tado, Gaspar de Souza, por provisão passada aos 24 de Agosto do 
dito anno. Domingos Pereira Jacome nomeou para o substituir, aos 
28 de Fevereiro de 1614, a Pedro Cubas, moço da camará, alcaide- 
móT e provedor da Fazenda Real, durante a ausência que desta ca- 
pitania fazia em serviço de Sua Magestade. Teve para o mesmo ef- 
feito provisão do desembargador Manoel Jacome Bravo, passada aos 
4 de Maio do dito anno, e tomou posse Pedro Cubas aos 31 do dito 
mez e &mio— livro 11.* 



- 167 - 

29.0 

Paulo da Rocha e Siqueira: — Cavalheiro íidalgo ; foi nomeado 
capitão da capitania de S. Vicente por provisão do governador geral 
Gaspar do Souza, datada do 18 de Setembro de 1614. Tomou ho- 
menagem nas mãos do governador geral aos 25 de Setembro do dito 
anno. Serviu até ser suspenso e preso por provisão do mesmo go- 
vernador geral, datada de 12 de Julho de 1615, que se cumpriu na 
camará de S. Vicente aos 13 de Novembro do dito anno— livro lO.o 

30.«» 

Bâlthazar de Seixas Rabello :— Foi nomeado capitão e ouvi- 
dor da capitania de S. Vicente por provisão do governador geral 
Gaspar de Souza, passada aos 12 de Julho de 1615 e cumprida aos 
Vó de Novembro do 1615 na camará de S. Vicente. Tomou posse 

nesse dia— livro IO.» 

31.0 

Gonçalo Corrêa de Sá:— Fidalgo da casa de Sua Magestade, 
nomeado per D. Luiz de Souza, governador geral do Estado, por pro- 
vis^:o passada em Olinda aos 4 de Fevereiro de 1617. Tomou posse 
no 1.0 do Julho dito anno -livro 12.* (1). 

32.- 

Martim Corrêa de Sa':~ Fidalgo da casa de Sua Magestade, no- 
meado capitão da capitania de S. Vicente por alvará de Sua Magestade 
de 2 de Fevereiro de 1618, com a expressa clausula de que serviria 
por três annos, si tanto durasse o litigio que havia entre os donatá- 
rios. Foi cumprido e mandado registrar o dito alvará na camará de 
S. Vicente aos 11 de Novembro de 1620. Consta do livro 12°. 

Pedro Cubas,, moço da camará de Sua Magestade e alcaide-môr 
da capitania de S. Vicente, foi nomeado capitão da dita capitania por 
Martim de Sá durante o tempo da sua ausência por provisão do 20 



(1) Ai^ui vem a seguinte nota :— «Ausentando-se para o Rio de Janeiro passou pro- 
visão a Pedro Cubas para governar, na sua ausência, as villas da Marinha.» 

Esta nota não é de juiz de fora Pereira Cleto, mas do dono do manuscripto, que 
assim o declara. Vide § 1.» sobre Gonçalo Monteiro, (N. ãa R.) 



- 168 ~ 



de Dezembro do anno de 1620, a qual foi cumprida e registrada no 
dito dia e anno na camará da dita villa (l). 



(1) Vem aqui a seguinte nota, com palavras devoradas por traças e substituídas 
por pontinhos : 

«Pedro Cubas nâo tinha dado juramento na camará de S. Vicente, quando a ella 
veiu Manoel Rndrigue? de Moraes tomar a injusta posse da capitania de S Vicente em 
nome do conde de Monsanto. D. Luiz de Souza, com a provisão que por elle mandou, 
ordenando aos camaristas de 8. Vicente e mais justiças que lhe dessem posse, escreveu 
á camará de S. Vicente que nada alterasse a respeito do governo da capirania. 

"Porem, não obstante pretendeu Manoel Rodrigues tomar posse de capitão-mór sem 
provisão do conde de Monsanto, nem do governador geral, e com o único fundamanto de 
que o constituinte e o constituído faziam uma só psssoa; e como El-Reí, na confirmação 

da sentença, dizia que o conde. . . (a) . . .capitão e lhe dariam 

.,.{b)... sua procuração com este argumento persuadir ao vereadores que sendo elle 
procurador devia ser capitão. Replicaram os ditos veredores que o governador geral 
mandava conservar tudo como estava. Respondeu que a provisão de Martim de Sá tra- 
zia a clausula já referida e ermo com a posse do conde cessara o litigio estava concluí- 
do o tempo da sua jurisdicção e governo. Mais assegurou aos camaristas que o gover- 
nador gera' mandara a dita ordem por comprazer com Martim de sá, que elle não podia 
fazer os negócios do conde sem ser capitão, que lhe dessem a posse e elle acommodaria 
ao governador geral. 

« Com effeito, foi-lhe dada posse de capitão-mór e, fazendo a camará aviso a Mar- 
tim de Sá, que se achava no Rio de Janeiro, e elle ao goveremador geral, este ordenou 
que depuzessem a Manoel Rodrigues de Moraes e obedecessem a Martim de Sá. Em 
consequência desta ordem foi chamado Pedro Cubas á camará de S. Vicente, onde deu 
juramento e ficou governando com grande sentimento de Manoel Rodrigues, que preten- 
deu que o conservassem e por lhe não fazerem o gosto alterou razões com tanto furor 
que chegou a empunhar a espada na camará, desordem pela qaal o autuaram os cama- 
ristas, cujos autos remetteram ao governador geral e ao donatário. Tudo consta das 
cartas que os ditos camaristas escreveram a D. Lniz de Souza e ao conde de Monsanto. 
No mesmo livro, onde vem as ditas cartas, acha-se um requerimento de Manoel Rodii- 
gues, no qual elle se queixa de que, indo fazer um requerimento a Martim de Sá, este 
o tratara mal de palavras e lhe dissera que o não reconhecia por procurador do dona- 
tário. 

«Disse bem Martim de Sá, porque a capitania de S. Vicente não pertencia ao donatá- 
rio de quem elle era procurador. Isto pensava o governador, a meu ver, o qual, se- 



ia) Aqui está estragada uma palavra que acaba em ia, parecendo ser daria ou teria 
ou seria, de poucas syllabas porque o espaço é pequeno. 

(b O manuscripto aqui está roto e faltam diversas palavras, de modo que o que se 
segue não faz sentido, nem parece ter ligação com o que vem de traz. 

N. da R. 



- 169 -> 

33.- 

João de Moura Fogaça : — Toraou posse de capitão e ouvidor da 
capitania do S. Vicente por ter sido nomeado pela condessa de Vi- 
miero, D. Marianna de íSouza, donatária perpetua da capitania, 
aos 22 de Outubro do anno de 1622. Consta do dito livro IS» (i). 

34.0 

Álvaro Luiz do Valle : — Era 24 de Jullio do 1624 era capitão 
de S. Vitiente pelo conde de Monsanto e como tal nomeou Lucas Ro- 
drigues de Córdova alcaide-raór da capitania de S. Vicente. Consta 
do dito livro 12^ (2). 



gando eu supponho, mandou conservar o governo no me^ mo estado, temeroso de que o 
capitão-mór, dito Martim de Sá, se oppuzesse á posse injusta, e. . .(a).. . de. . .(b). ..si o 
depuzessem do governo. O dito Martim de Sá nomeou para o substituir em sua ausên- 
cia a Fernão Vieira Tavares, por provisão datada no Rio de Janeiro aos 9 de Abril de 
1622. Cumpriu-se e registrou-se na camará da villa de 8. Vicente no dia l.«> de Maio 
de 1622— livro 12o,» 

(1) Aqui vem esta outra nota : 

« E' necessário examinar este livro, porque nelle achei uma provisão do governador 
geral Furtado, na qual diz que provera á Fogaça. E' certo que a condessa o mandou 
por seu procurador, com o cargo de capitão, e supponho que elle usou da industria de ir 
á Bahia e pedir provisão ao governador geral Mendonça Furtado, porem apresentaria na 
camará a provisão da condessa. O dito governador levantou a homenagem a Martim 
e mandou que Fernão Vieira lhe entregasse o governo (c). Este Fernão Vieira se consti- 
tuiu requerente do conde de Monsanto, cujo direito foi solicitar á Bahia, e vindo de lá 
feito provedor da Fazenda Keal fez as partilhas por ordem da Relação cbmo lhe propa- 
zeram o seu ódio e desejo de vingar-se». 

(2) Aqui traz o raanuscripto a nota soguinte : 

« Este foi o primeiro capitão nomeado pelo conde de Monsanto, e o que entrou a 
governar depois que Fernão Tavares repartiu as duas capitanias pela terceira barra 
mais austral, fundando-se em que este era o rio de S. Vicente». 



a) Falta uma palavra devorada por traças em parte e também estragada por agua. 

b) Idem, idem, que entretanto parece ser D. Luiz. 

c) A expressão levantou a homsnagem a Martim e mandou que Fernão Vieira lhe 
entregasse o governo está contradictoria, porque não se levanta a homenagem de um de- 
legado na occasião de entregar- lhe o governo. A provisão do governador Furtado de 
Mendonça é de 16 de Setembro de 1622, levanta a homenagem a ambos, Martim q Fer- 
não, e manda entregar o governo por três annos a João de Moura Fogaça. Vide Nota 
n. 40, adeante. (N. da R.) 



— 170 — 

35.0 

PEDI13 DA MoTTA Leite ' — Cdado do conde de Monsanto, alcaide- 

mór e capitão-mór, loco-tenente da capitania de S. Vicente, nomeado 

por D. Álvaro Pires do Castro, conde de Monsanto, por provisão de 

18 de Abril de 16:^8. Veja-se o...('l). ..79. Assignou sesmarias em 

26 de Julho de 1637. 

36.0 

António de Aguiar Barriga : — Capitão-raór da capitania do S. 
Vicente era... (2)... de Maio de 1640. Foi creado por provisão do 
conde do Monsanto, D. Álvaro Pires de Castro e Souza, de 'Zl de 
Outubro de 1639, como consta da provisão de João Luiz Mafra. 

37.0 

João Luiz Mafra :— Cavalleiro fidalgo da casa de Sua Magestade, 
foi creado capitão-mór, governador e loco-tenente do conde de Mon- 
santo por provisão delle D. Álvaro Pires de Castro e Souza, de 21 de 
Outubro de 1639 (3), com 300 cruzados de ordenado cada anno, si 
tanto rendesse a dita capitania ao seu donatário. Cumpriu-se, e de- 
ram-llie posse em S. Vicente aos 7 de Outubro de iQàO. Na provi- 
são declarou o conde que serviria por trez annos e que tomaria posse 
de governo depois de António de Aguiar Barriga ter coEcluido o tri- 
ennio por que o tinha provido. 

38.0 

Gaspar de Souza Ulhoa : — Cavalleiro professo da ordem de 
Christo e fidalgo da casa de Sua Magestade ; foi nomeado por provi- 
são do governador geral António Telles da Silva, passada na Bahia 
aos (6, 16 ou 86) de Outubro de 1643, a qual se cumpriu e registrou 
na camará de S. Vicente aos 7 de Dezembro do dito anno. Este 



1) Aqui faUam uma palavra e parte dos algarÍÊmos, estragados per agua e Iraças. 

2) A data do raez foi devorada por traças. 

3) Ha evidente Ci.nti-adicção entre os §§ 36 e 37, que dão a mesma previsão de 21 
de Outubro de 1639 como nomeando os dois capitães-móres mencionadcs. Em relação ao 
§ 36 essa data está sublinhada para ser excluída. N. íío K. 



t 



- 171 - 

capitão estava provido por outros três annos pelo condo do Monsanto, 
de que se lho tinha passado despacho ; porem, queixando-se a camará 
do S. Vicente ao dito conde do sen mán governo pelos procuradores 
que foram a Lisboa tratar dos negócios respectivos aos jesuítas (^), 
mandou o conde que se lhe não observassem os despachos, quando 
os apresentasse, e em seu logar proveu em capitão a Francisco da 
Fonseca Falcão, segundo consta de uma carta do mesmo conde es- 
cripta no dia 1.° de Dezembro de 1Ô42, que existe no archivo da 
camará de S. Vicente. 

39.0 

Francisco da Fonseca Falcão :— Foi nomeado por provisão do 
conde de Monsanto passada aos 12 de Dezembro de 164.2. Tomou 
posse aos ^4 de Junho do 1643 e foi deposto pelo ouvidor geral aos 
14 de Setembro de 1643. 

40.O 

Gaspar dk Souza Uleoa : — Tinha sido capitão-mór da capitania 
do S. Vicente antes de Francisco da Fonseca Falcão ; deposto este 
polo ouvidor geral aos 14 de Setembro de 1643, tornou por determi- 
nação do dito ouvidor a servir de capitão-mór dia por... (2). 

40.O 

Francisco Pinheiro Raposo:— Foi provido em capitão-mór da 
capitania de S. Vicente por carta. . .(^). . .do governador geral, pas- 
sada aos 24 de Maio de 1643 e principiou a servir no l.o de Feve- 
reiro de 1644. 

Jacomo Coutinho (^j. 



1) Quando os jesuítas foram expulsos de S. Paulo em 1640, os paulistas enviaram 
a Lisboa dois emissários, Luiz;da Costa Cabral e Balthazar de Borba Gato, com as queixas 
que tinham contra a ordem. E' a estes emissários que se faz aqui referencia. Vide a 
Eisíoria da JixpuJsão dos Jesuítas, no vol" III desta 'Revista. 

2) Falta uma palavra devorada por traças, que devia ser patente, 

3) Falta uma palavra escripta em breve, devorada por traças. 

4) Este nome apparece aqui isolado e sem nenhuma explicação ; é conservado para 
ser mantida a integridade do manuscripto. N. <ía R. 



- 172 — 

Francisco da Fonseca Falcão, a quem o ouvidor havia deposto 
no principio de seu governo, conseguindo que o governador geral pu- 
zesse o — curapra-se— na provisão que lhe havia passado o conde de 
Monsanto, em virtude delle tornou a governar e tomou nova posse 
em S. Vicente aos 3 de Outubro de 1644. 

41.» 

Manoel Pereira Lobo :— Professo na ordem de Christo ; foi pro- 
vido em capitão-mór pelo donatário marquoz de Cascaes em carta da- 
tada no 1.0 de Fevereiro de 1647. Cumpriu- se e tomou posse no l.«» 
de Junho de 1648. 

48.0 (1) 

Bento Ferrão de Castello Branco : — Foi provido em capitão 
raór de S. Vi tente por provisão do governador e capitão-general pas- 
sada aos 16 de Outubro de 1651; cumpriu-se na camará de S. Vi- 
cente aos 3 de Março de 1652. 

49.0 

Gonçalo Couraça de Mesquita : — Consta que foi capitão-mór por 
uma provisão sua datada aos 15 de Setembro, na qual confirmou a 
André Fernandes de Araújo no posto de ajudante da capitania de S. 
Vicente. 

50.O 

Manoel de Sousa da Silva : — Foi provido em capitão mór da ca- 
pitania de S. Vicente por patente de Sua Magestade de 25 de No- 
vembro de 1656, a qual se cumpriu e registrou na camará de S. Vi- 
cente aos 23 de Abril de 1657. Sendo capitão foi se metter frade, 
segundo consta de uma carta sua escripta aos camaristas de S. Vi- 
cente. Não consta em que religião. 



1) a numeração dos capitães-móres salta de 41.° a 48.<» sem motivo algum appa- 
rente, tanto mais que não ha intervallo de tempo que faça presumir a existência de al- 
guns intermediários. Entre o 41.o e o 48.» ha o espaço de três annos que era o da ju- 
risdicção ordinária dos capitães-móres daquelle tempo. N. da R. 



\ 



— 173 — 

51.0 

Jerónimo Pantoja Leitão : — Tendo sido nomeado por nraa pro- 
visão do governador geral do Estado, Francisco Barreto, de 6 de Ou- 
tubro de 1657, para que vagando na capitania de S. Vicente qual- 
quer dos cargos de capitáo-mór, provedor da Fazenda Real ou sar- 
gento-raór, elle entrasse a servir por virtude desta provisão, que apre- 
sentou na camará de S. Vicente e se cumpriu aos 6 de Janeiro de 
1658 ; nesse dia tomou posse de capitão-mor. 

52.0 

António Ribeiro de Moraes (i) • —Por provisão de Salvador Cor- 
rêa de Sá, governador geral das capitanias do Sul, passada aos 4 do 
Outubro do 1659, cumprida e registrada na cismara do S. Vicente 
aos 19 de Dezembro de 1659. — Archivo da camará de S. Vicente, li- 
vro 14.'». 

53.0 

Cypriano Tavares (2) :— Capitão- mór loco-tenente da capitania de 
S. Vicente por provisão de Salvador Corrêa de Sá e Benevides, go- 
vernador geral das capitanias do Sul, datada no Rio de Janeiro aos 
31 de Dezembro de 1661. Fez homenagem pela dita capitania nas 
mãos do dito governador no l.» de Janeiro de 1662. Cumpriu-se e 
registrou-se a provisão em S. Vicente aos 29 de Janeiro do dito 
anno e tomou posse no mesmo dia. Continuou a servir no mesmo 
posto por outra provisão que se passou aos 22 de Junho de 1665, a 
qual se cumpriu e registrou na camará de S. Vicente aos 18 de Ou- 
tubro do mesmo anno. 

54.0 

Ag stinho de Figueiredo :— Por carta patente de Sua Magestade 
passada aos 29 de Maio de 1665. Tomou posse em 31 de Dezembro 
desse anno. 



1) Era casado em S. Paulo cora Catharina da Ribeira, filha de Amador Bueno da 
Ribeira —o acclamado, e nâo deixou descendência. 

2) Era natural de Pernambuco, onde combateu contra os hollandezes e depois da 
expulsão destes veiu se estabelecer em Santos, onde casou-se com Anna Siqueira de 
Mendonça, da lllustre família dos Leme. N. áo R. 



— J74 — 

Sebastião Velho de Lima serviu do capitão em ausência deste 
proprietário, emquanto elle andou na deligencia de procurar minas, e 
foi provido pelo dito Agostinho de Figueiredo, o qual estava já pre- 
sente quando tomou posse Thomaz Fernandes, a quem elle mesmo 
entregou o governo. 

55.0 

Thomaz Fernandes de Oliveira : — Por carta patente do Sua Al- 
teza (1), passida aos 8 de Julho de 1673; tomou posse aos 17 do 
Fevereiro de 1675. 

56.0 

Diogo Pinto do Rego : — Por carta patente assignada pelo Prín- 
cipe Regente aos 4 d^ Novembro de 1677. Tomou posso aos ~S de 
Dezembro de 1678. 

Pedro Taques de Almeida, por provisão do governador geral, pas- 
sada aos 8 de Outubro de 1683, a qual se cumpriu na camará do S. 
Vicente aos 4 de Março de 1684, e tomou posse no mesmo dia. 

Pedro Person Hostel foi provido na capitania-mór do S. Vicente, 
porem não tomou posso por morrer antes disso, e foi continuando 
Pedro Taques. 

57.« 

Thomaz Fernandes de Oliveira, 2.» vez :— Capitão -mór por pro- 
visão do governador geral do Estado do Brazil, passada aos 5 de Se- 
tembro de 1687 ; tomou posso aos 15 de Fevereiro de 1688. Teve 
nova provisão. 

58,0 

Manoel Pereira da Silva: — Por patente do governador geral 
passada aos... de... br." de 1690; tomou posse aos 11 de Fevereiro 
de 1691. Morreu ejaz na egroja de S. Braz da villa de Santos, com 



1) Affonso VI, tendo sido deposto do throno portugaez em 1667, o príncipe D. 
Pedro, seu irmSo, foi proclamado regente e como tal governou o reino até 1683. Neste 
anno morreu o deposto Affonso e D. Pedro foi proclamado rei com o nome de Pedro II. 
E' delle que aqui se fala. N. da R. 



— 175 — 

campa pequena, de pedra, Junto ao altar de Nossa Senhora do Pilar. 
Consta que já era morto aos 'M de Janeiro de 169.2 (i). 

59.0 

Manoel Peixot > da Motta :— Por carta patente de Sua Mages- 
tade passada aos O de Dezembro de 1691 ; tomou posse aos 5 de Abril 
de 1692. 

60.O 

D. Simão de Toledo Piza : — Por patente do governador geral pas- 
sada aos 3 de Agosto de 1695 ; tomou posse aos 7 de Abril de 1693. 

61.0 

Pedro Rodrigues Sanches :— Por carta patente de Sua Magestade 
passada aos 13 de Dezembro de 16%, a qual se registrou em S. Vi- 
cente aos 8 do Jullio de 1693. 



1) Aqui vem a seguinte extensa e curiosa nota: 

«Por morte deste capitão houve grandes duvidas entre a camará de S. Vicente e o 
sargento-mór Domingos de Araújo, meu bisavô materno, a respeito da successão ao go- 
verno (a), 

«A camará de S. Vicente, apossada pela família dos Guerra, teimava que a ella, como 
cabeça da capitania, competia o governo, tanto militar como politico, de toda a capitania. 
Domingos de Araújo, a quem seguia a maior parte da capitania e a família de seu genro 
José Tavares de Siqueira, nunca consentiu que a dita camará se intromettesse no go- 
verno militar, que suppunha pertencer-lhe pela razão de ser elle o prin;ieiro ofBcial de 
guerra depois do capitão-mór governador. 

«Foi o caso por aggravo á Relação da Bahia, na qual se decidiu que o governo mi- 
litar, na falta do capitão-mór, pertencia ao sargento-raór pago da capitania e o politio 
a cada uma das camarás nos d'strictos respectivos. 

«O governador geral reprehendeu severamente aos camaristas de S. Vicente. Tudo 
consta da sentença e carta do governador, de que tenho coplas. 

«Domingos de Araújo, pela razão de ser sargento-mór da capitania, tomou posse do 
governo militar aos 24 de Janeiro de 1692». 

a) Domingos de Araújo foi pae de Isabel Maria da Cruz, esposa de José TavarCg 
de Siqueira ; deste casal era filha Anna de Siqueira de Mendonça, esposa de Domingos 
Teixeira de Azevedo e mãi de Fr. Gaspar da Madre de Deus, que era, portanto, bisneto 
de Domingos de Araújo. E' mais uma prova de que Fr. Gaspar é o auctor deste ma- 
nuscripto. A', ãa B. 



— 176 — 

62.0 

Thomaz da Costa Barbosa : — Nomeado por carta patente do go- 
vernador geral do Sul, passada aos 20 de Agosto de 1700. Cumpriu- 
se e registrou se na camará de S. Vicente aos 7 de Outubro do mes- 
mo anno. 

63.0 

António Corrêa de Lemos: — Foi capitão- mór da capitania de S. 
Vicente por patente passada aos 2 de Março de 1703. Succedeu a 
Thomaz da Costa Barbosa. 

64.0 

José de Godoy Moreira : — Por carta patente de Sua Magestade 
passada aos 25 de Novembro de 1704 ; tomou posse na camará de S. 
Vicente aos 2 de Novembro de 17i)7 (i). 

65.0 

Joio DE Campos e Mattos : — Por carta patente de Sua Magestade 
passada aos 22 de Outubro de 1707 ; fez homenagem nas mãos do 
governador do Rio de Janeiro. 



Francisco do Amaral Coutinho : — Por carta patente do governa- 
dor geral do Eio de Janeiro, passada aos 5 de Fevereiro de 1709; 
tomou posso no dia l.o de Março do dito anno (2). 

FIM 



1) E' para extranhar que houvesse o longo espaço de três annos entre a nomeação 
deste capitão-mór. em 1704, e a sua posse, em 1707, exactamente um triennio que repre- 
senta o período ordinário da jurisdicção desta classe de funccionarios. E' provável que 
António CoiTêa de Lemos tivesse as suas funcções prorogadas de 1703 até 1707 para que 
a capitania não ficasse acephala. 

2) Neste anno de 1709 foi instituída a capitania-geral de São Paulo e Minas e foi 
nomeado para seu governador e capitão-general António de Albuquerque Coelho de Car- 
valho. Desappareceram os capitães-móres, loco-tenentes, taes como existiam até então e 
surgiram os novos capitães-móres, delegados directos dos capitã es-generaes, que eram os 
supremos governadores da capitania. Com esta alteração desappareceram também a li- 
berdade individual e grande parte da autonomia municipal, que foiam substituídas pelo 
violento e incontrastavel despotismo dos capitães-generaes. k- ^f* ^' 



Catalogo dos Governadores da Capitania 
de Itanhaen 

FBITO PELO 
JUIZ DE FORA MaROBLLTNO PeEEIRA ClBTO 

Por alvará de Julho de 1645 entrou na administração do morga- 
do do Alcoentre, que vagou por morte da condessa de Vimieiro, ao 
qual morgado pertencia a capitania de S. Vicente, seu filho D. Affonso 
de Faro, por se achar ausente nos Estados Hollandezes D. Sancho de 
Faro, seu irmão, a quem pertencia o dito morgado, cujas rendas es- 
tavam sequestradas, dando cada anno para as despesas da guerra 
420)^000 ; cujo alvará se acha registrado no livro, que serviu para 
lançar os accordams da villa da Conceição do Itanhaen desde o anno 
de 1646. 

1.0— D. Affonso de Faro, em razão deata administração, nomeou 
seu procurador ao capitão Manoel Carvalho, morador na Ilha Grande, 
aos 31 de Março de 1646, e este era virtude dessa procuração nomeou 
capitão-mór e ouvidor da capitania de itanhaen a Valério de Carvalho 
aos 9 de Novembro de 1646, cuja nomeação se cumpriu em camará 
na dita Conceição de Itanhaen aos 28 de Novembro de 1643. 

2." — D. Affonso do Faro, já como tutor nomeado por Sua Mages- 
tade de seu sobrinho D. Diogo, nomeou capitão-mór e ouvidor da ca- 
pitania de Itanhaen a Dionizio da Costa por provisão de 4 do Novem- 
bro de 1648, o qual tomou posse aos 3 de Abril de 1649. Consta do 
livro que serviu na dita camará desde o anno de 1648, a fls. 2. 

D. Affonso de Faro desistiu da posse que se lhe havia dado da 
capitania, por pertencer a seu sobrinho D. Diogo de Faro e Souza, 
aos 8 de Novembro de 1648; consta do dito livro. 



— 178 - 

3.0— D. Aífonso de Faro, como tutor de seu sobrinho D. Diogo do 
Faro o Souza, nomeou para capitão-raór e ouvidor de Itanhaen a Jorge 
Fernandes da Fonseca por provisão de 31 de Janeiro de 1651 e cUe 
tomou posse no dia 1." do Maio de 1652, segundo consta do dito livro^ 
a fls. 34. 

4.<' — For provisão de Sua Magestade, foi confirmado Roque Leitão 
Eoballo em capitão-raór da capitania de N. Senhora da Conceição do 
Itanhaen por João Blau ter acabado o seu tempo. {^) 

5.0— Por provisão do dito D. Aífonso Faro foi confirmado João 
Blau por capitão-mór da capitania do Itanhaen, por ter sido nomeado 
pelu condessa da Ilha do Príncipe, D. Marianna de Faro. era sua pro. 
Yisão de 31 de Janeiro de 1662, a qual se cumpriu na camará da 
villa da Conceição aos 15 de Agosto de 1662. Consta do livro que 
serviu de registro da dita camará desde o anno de 1659, a fls. 18. 

Por provisão de sua Magestade foi confirmado Roque Leitão Ro- 
ballo em capitão-raór da capitania de Itanhaen por João Blau ter aca- 
bado o seu tempo (2), e por D. Diogo de Faro e Souza, tutor do sou 
sobrinho menor Francisco Luiz Carneiro, filho de sua irraã, a condessa 
da Ilha do Príncipe, ter nomeado para o dito logar três sujeitos para 
Sua Magestade escolher um na forma das ordens, por provisão de 3 de 
Dezembro de 1666. Tomou posse aos 26 de Janeiro de 1669 ; consta 
do livro que serviu na dita camará desde 1654, a fis. 13 cí 14. {^) 

6 o— Por provisão de D. Pedro, Príncipe Regente, foi da mesma 
sorte confirmado Henrique Roballo Leitão, nomeado por D. Diogo de 
Paro como tutor do seu sobrinho, filho da condessa da Ilha, por pro- 
visão passada aos 18 de Julho de 1669 ; tomou posse aos 18 de Maio 
de 1670. Consta do dito livro, a fls. 23 et 24. 



1) Esta ch.ronica está confasa e obscura ; níío deu a data da provisão, nem men 
tíonou antes o nome deste João Blau como capitão-mór. 

2) E' repetição do § 4.o que se toruou anachronico. Os §§ 4.» e 5.» devem trocar 
da logar para se evitar o anochronismo. 

3) Esta citação de livros está um pouco confusa porçtue os factos mais recentes 
constam de livros mais antigos. O auctor não distingue os livros de refiistros dos li- 
vros de vereações e dahi é que vem esta apparente contradicção. X. de R. 



— 179 — 

7/ — Por provisão do Príncipe D. Pedro foi na mesma forma con- 
firmado Luiz Lopes de Carvailio por capitão -mór, nomeado pelo conde 
da Ilha do Príncipe por provisão do 28 de Abril de 1677 ; tomou posso 
em l.o do Junho do 1679. Consta do livro que serviu na dita ca- 
mará desde o anno de 1673, a fls. 36, 37 e 38. 

8.0— Provísào do dito D. Pedro, Regente de Portugal, loi da mesma 
sorte confirmado Felippe Carneiro de Alcáçova por ter sido nomeado 
pelo conde da Ilha do Príncipe pela provisão de 9 de Dezembro do 
anno de 1684; tomou posse aos 3 de Junho de 1685. Consta do li- 
vro que serviu na camará desde o anno de 1685, a fls. 2 eí 3. 

9."— Por provisão do dito D. Pedro, Regente de Portugal, foi da 
mesma forma confirmado Miguel Telles da Costa por ter sido nomeado 
pelo conde da Ilha, por provisão de 17 de Janeiro do 1701. Consta 
do livro que serviu na dita camará desde o anno de 1695, a fls. 33 
et 34. Tomou posse no anno de 1702. 

10. — Por provisão da senhora D. Catharina, Rainha da Inglaterra, 
Escossia, Irlanda e França e infanta de Portugal, como regente no im- 
pedimento do Rei D. Pedro (i), foi da mesma sorte confirmado Ma- 
noel Gonçalves Ferreira por ter sido nomeado pelo conde da Ilha do 
Príncipe por provisão de 28 de Março de 1705. Tomou posse na ca- 
mará da Conceição aos 7 de Janeiro de 1706. Consta do livro que 
serviu na dita camará desde o anno de 1695, a fls. 44 et 45. 



FIM 



1) D. Catharina era filha do rei João IV e ii-mã dos reis AiTonso VI e Pedro II; 
íoi casada com Carlos II, rei da Inglaterra, Escossia e Irlanda, e giiardou depois de 
viuva o titulo de rainha destes paizes. A inclusão da França no seu titulo de rainha é 
uma excrescência sem justificação. Voltando a Portugal, foi regente do reino em 1704 
—1705 por doença do seu irmão Pedro II. 

N. ãa R. 



Notas Avulsas 
1.» 

D. Diogo de Faro e Souza, com auctoridade de seu tutor, D. Af- 
fonso de Faro, fez procurador a Jorge Fernandes da Fonseca aos 29 
de Novembro de 1651, declarando na provisão que assistiria á medi- 
ção da sua capitania, fazendo citar para ella o procurador da coroa, 
confrontando as medições peia doação, de que poderia appellar e ag- 
gravar, e quo poderia desforçar- se de qualquer violência que lhe hou- 
vesse feito o governador do Rio de Janeiro, Salvador de Brito, a 
fls. 35 

Registro de uma provisão de Rodrigo Homem de Albernaz, pro- 
curador do conde da Ilha do Príncipe e de uma provisão de Sua Ma- 
gestade, a fls. 12 et 13. — Registro do Quartel do capitão-raór Luiz Lo- 
pes de Carvalho, a fls. 39. 

2.» 

Por carta de 22 de Janeiro de 1698, escripta a Arthur de Sá e 
Menezes, separou Sua Magostade do governo geral do Estado do Bra- 
zil, que existia na Bahia, a capitania do S. Paulo, ou S. Vicente, 
sujeifcando-a ao governo do Rio de Janeiro pela grande distancia que 
havia delia á Bahia. Consta do livro que serviu de registro na ca- 
mará de S. Vicente desde o anno de 1684, a fls. 98. 

3.a 

Além das villas que que actualmente existem, houve entre S. 
Sebastião e Ubativa a villa de Santo António de Caraguatatiba, co- 
mo consta do duas sesmarias registradas no livro 11^ delias, — uma a 
fls. 93 e outra a fls, 99, dada a primeira aos 3 de Janeiro de 1;)55 
por João Blau, capitão da capitania de N. Senhora da Conceição de 
Itanhaen, de que era donatária a condessa de Vimieiro, na qual se 



— 181 — 

trata a dita villa corao nova, e a segunda aos 22 de Junho de 1666 
por Agostinho de Figueiredo, capitão loco tenente do marquez de Cas- 
caes. 

4.a 

Estando injustamente empossado da capitania de S. Vicente, de- 
ram posse ao conde da Ilha em virtude de uma provisão de Sua Al- 
teza e carta de diligencia do ouvidor geral. Desta posse aggravou o 
procurador do conde de Monsanto o alcançou sentença de desforço- 
proferida pelo desembargador syndicanto João da Rocha Pitta. Não 
apparecem os autos do aggravo e sentença ; porém o sobredito con- 
sta de uma carta do 'conde de Monsanto escripta á camará de S. Vi- 
cente em 2o de Janeiro de 1382, a qual existe no archivo daquella 
camará: 

5.» 

No livro ll.o do registros da camará de S. Vicente, que princi- 
pia na era de liilO, está registrado no principio um regimento ou ca- 
pitulo de correição do dr. Sebastião Parvi de Brito, ouvidor geral e 
provedor dos defunctos e ausentes e resíduos das capellas da Repar- 
tição, no qual determina que, visto ter achado por costume que em 
todas as quatro villas, de que constava a capitania de S. Vicente não 
se cumprir nellas provisão alguma sem primeiro lhe porem o « cum- 
pra-se » na camará de S. Vicente e roglstrar-se nos livros delia» 
assim se obversasse e de outro modo se lhes não desse cumprimento, 
Os taes capítulos foram asslgnalos em S. Vicente aos 22 de Junho 
de 1610. 

6.a 

Aos 2(5 de Junho de 1611 apresentou Luiz de Freitas uma pro- 
visão de D. Luiz de Souza, governador da Repartição do Sul, para 
temar posse do governo em nome do seu constituinte, o qual com 
effeito tomou posse no tal dia e deu juramento nella. 

D. Francisco de Souza trouxe no seu regimento a concessão do 
nomear successor por sua morte e elle, estando para morrer em S. 
Paulo, ordenou no seu testamento e codlclllo que depois de chegar 
este D. Luiz, o qual era seu filho e estava ausente, ficasse governan- 
do. — Livro supra. 



— 182 — 



7.a 



Aos 17 do Outubro do 1612 assignou o governador D. Luiz do 
Souza uma provisão, cm S. Paulo, na qual diz que por chegar á sua 
noticia que muitas pessoas da villa de Santos queriam despovoar a 
terra e ir viver no Rio de Janeiro e Ilha Grande, mandava que ne- 
nhuma pessoa desta capitania sahisse a morar fora delia o quem o 
contrario fizesse fosso preso e embargada a sua fazenda e perdida 
para a coroa. — Livro supra ('). 

3.a 

Aos 22 de Janeiro do 1614 o desembargador Maneei Jacome Bra- 
vo ordenou, em capitulo do correição, que em todas as villas da ca- 
pitania de S. Vicente se não cumprisse patente -provisão, ou esta res- 
peitasse a justiça ou fazenda, sem primeiro ser cumprida o registra- 
da na camará de S, Vicente, cabeça da capitania, que se não con- 
sentisse tirarem Índios de.^^ta capitania por ser contra o foral e que o 
capitão desta capitania fizesse descer uma aldeia do Índios para o 
Cubatão. — Livro supra. 



Acha-se registrada uma provisão do governador geral D. Gaspar 
do Souza, passada em Olinda aos 10 de Janeiro do 1614, ao desem- 
bargador Manoel Jacome Bravo, na qual, em razão do ter noticia que 
var as pessoas desta capitania vão ás terras o aldeias dos gentios e 
Índios Carijós resgatar com elles e os captivam, lhe manda que tire 
devassa a esto respeito e proceda contra os culpados, e que todos os 
annos na devassa do Janeiro se pergunte pelos culpados neste crime. 
— Livro supra. 



1) Aqui traz o manuscripto a seguinte importante nota : 

«Contra esta provisão protestaram o povo e a camará de S. Vicente aos 2 de No- 
vembro do dito anno, com o fundamento de serem livres e po lerem ir viver com suas 
mulheres e filhos onde melhor òs pudessem sustentar, porquanto nesta terra o não po- 
diam fazer por lhes prohibir o dito governador, com penas, que não pudessem procora- 
seu remédio, e outi"o sim com excommunhões não podiam os moradores ir aos resga- 
tes. Consta do accordam da camará do dito dia.» 

N. ãa R. 



- isn — 



lO.a 



Por provisíio passada cm Olinda em 39 do Maio de 1614 publi- 
cou o governador geral, Gaspar do Sousa, o capitulo de uma carta de 
Sua Magestado, escripta ao governador antecedente com data de 16 
de Outubro do 1609, pelo qual proliibia fundar-se conventos de qual- 
quer ordem sem sua licença.— Livro supra. 

11 .a 

Por uma provisão do governador geral D. Luiz do Souza, passa- 
da em Olinda aos 27 de Setembro de 1618, se pruhibiu a extracção 
de índios da capitania de S. Vicente para se evitar a devassidão com 
•que se tiravam e o ficarem captivos os mais delles, o por serem ne- 
cessários na capitania de S. Vicente pela pobreza dos moradores e 
para trabalharem no beneficio das minas da dita capitania. — Livro 12. 

12.a 

Aos 2 de Janeiro do 1619 se cumpriu e registrou na camará de 
S. Vicente um alvará de Sua Magestade, assignado em Madrid aos 
22 de Fevereiro de 1618, pelo qual nomeou a Mart m de Sá para de- 
fender a costa do Brazil, das capitanias do Sul, dos inimigos o acau- 
telar as piratarias o desembarques, que tinham feito os inimigos nos 
annos antecedentes ; que se não fortificassem em porto algum, re- 
commendando- se-lhe muito Cabo Frio, para o que poderia fazer desce- 
rem aldeias do índios para a marinha ; que de duas delias seriam ca- 
pitães os índios christãos Manoel de Souza e Amador do Souza, para 
o que se lhes passariam provisões e se pediriam ao principal da Com- 
panhia dois religiosos para assistirem nas ditas aldeias ; que os capi- 
tães das ditas capitanias do Sul assistissem a Martim de Sá cora em- 
barcações e o mais de que precisasse para a defensão da costa, e 
que elle ficaria subordinado ao governador geral tão somente, o qual 
também lhe assistiria de sua parte com o necessário para defender a 
costa. — Livro 12 citado, 

13.» 

Aos 2 de Janeiro de 1619 se cumpriu e registrou uma provisão 
do governador geral Gaspar de Souza, passada em Olinda aos 10 do 



- 184 — 

Outubro de 1618, pela qual mandava ao desembargador Antão de Mes- 
quita de Oliveira, desembargador dos Aggravos da Relação do Sul, 
que andava em diligencias nas capitanias do Sul, que na de S. 
Vicente tirasse residência aos capitães que haviam servido nos déz 
annos precedentes, perguntando especialmente ?oLre n aterias do ser- 
tão pelo escândalo e devassidão que delias tinham resultado. Orde- 
nou que, no caso de estar a capitania governada pelo donatário, le- 
levasse o desembargador 12^000 por dia e o seu escrivão 6^000 á 
custa da fazenda do donatário {1).— Livro citado. 

14.- 

Aos 29 de Junho de 1619 registrou se uma provisão do capitão- 
mór Gonçalo Corrêa de Sá, datada em S. Paulo aos 25 de Junho do 
dito ann(*, na qual ordenou a Sebastião Fernandes Corrêa (2) que 
fosse no navio S. Boaventura aos Patos tomar um navio que sahira 
do Rio de Janeiro sem estar para ir resgatar aos Patos mandou 
prender toda a gente e que não deixasse branco algum nos Fatos. 

15.- 

Depois deste registro acha-se cutro de uma provisão, da qual 
não se sabe a data por faltar folha, pela quhl D. Luiz de Souza 
governador geral do Estado, lefeie-se á iníoiraação que teve da ca- 
mará de S. Vicente da licença a Pedro de Cáceres para que pudesse 
ir povoar o rio de S. Francisco e a ilha de Santa Catharina, com 
declaração que não poderia obrigar os Índios a trabalhar no seu ser- 
viço, nem servir-se delies sem lhes pagar o seu estipendio. A infor- 
mação da camará para esse fim foi dada aos 13 de Julho do 1619. 



1) Estes salários para o tempo eram exorbitantes, pois a moeda de entSo valia tal- 
vez qnarenta vezes mais do que a de hoje e 12$000 daqaelle tempo valeriam hoje mais 
de 400ig000: mas era á cnsta do donatário e não da Fazendo Real!... 

2) Foi provedor da Fazenda Real e sogro de D. Simão de Teledo Piza, fundador 
da família deste nome, e avô do capitão-mór D. Simão de Toledo Piza, citado acima com 
o D,o 60. 

N. da R. 



-^ 185 - 

Aos O de Julho do 1620 loi registrada a carta pela qual Sua Ma- 
gestade nomeou a Amâncio Rebello ouvidor geral das três capitanias 
do Sul, assignada aos 29 de Maio de 1619. — Livro citado. 

Aos 7 do dito moz de Julho de 1620 se registrou um alvará de 
D. Felippe, passado aos 20 de Agosto de 1619, no qual determinava 
que, além da alçada e regimento que tinham os corregedores das 
comarcas, usasse mais do r3giraento seguinte, etc. — Livro citado. 

I8.a 

Aos 8 de Julho do dito anno registrou-se outro alvará de regi- 
mento do mosmo ouvidor (1), passado em Lisboa aos 5 de Junho de 
1619. Os capitules mais notáveis deste regimento são os seguintes: 

a) — Tirará devassa aos culpados em fazer entradas ao sertão e 
Patos a resgatar gentios. 

b) — Sendo o dito ouvidor doente ou impedido de maneira que por 
si não possa servir o dito cargo, poderá o capitão nomear outro que 
sirva em<|uanto durar o tal impedimento, e fallecendo o dito ouvidor 
servirá a pessoa pelo dito capitão nomeada até o governador geral do 
Estado prover a dita serventia, e serão obrigados os ditos capitão e 
governador a me avisar por viés do falleciraento do dito ouvidor nos 
primeiros navios que partirem para este reino. 

c) — Era ausência do capitão poderá prover as serventias dos offi- 

cios, avisando logo da sua vacatura para eu prover as propriedades. 

•—Livro citado. 

19.0 

O ouvidor geral Amâncio Rebello Coelho, em correição na villa 
de S. Vicente, ordenou aos 9 de Setembro de 1620 que se não deixas- 



1) o alvará era do rei Felippe e continha o regimento para nso do ouvdor, e 
como ouvidor e corregedor são a mesma pessoa aqui se diz do mesmo ouvidor, que é equi- 
valente a do mesmo corregedor. Fazemos algumas destas notas para não se suppor que 

houve erro de copia. 

N. da R. 



- 186 - 

sem sahir os moi adores da villa de S. Vicente para povoarem outras 
torras debaixo da pena de 200 cruzados e degredo para o Elo Grande 
até Sua Magestade mandar o contrario. — Livro citado. 

20.a 

Aos U df» Novembro de 1620 mandou a camará cumprir o Alva- 
rá do 22 de Fevereiro do 1618, pelo qual Sua Magestade nomeou a 
Martim Corrêa do Sá por capitão-mór da capitania do S. Vicente por 
três annos, se tanto durasse o litigio pendente entro os donatários. 

— Livro supra. 

21. a 

Aos 30 de Março do 1523 requereram os officiaes da camará da 
villa do S. Vicente a ^vlanoel Rodrigues de Moraes, procurador do 
conde do Monsanto, fundidos na utilidade da capitania o nos reque- 
rimentos das mais villas delia, feitos a Martim de Sá, capitão-raór 
da capitania, que porquanto elle Martim do Sá tinha feito descer, 
por ordem que dizia ter do El-Roi certa copia do gente da Laguna 
e villa de Santa Catharina, que orara dos limites desta capitania, 
nossos comarcãos, amigos e companheiros, mandasse fornecer com o 
dito gentio essas barras e portos para defensa delles, porque não ti- 
nham outra ; e do contrario elles protestavam a elle capitão todo o 

prejuízo que pudesse haver nesta capitania no caso de a mvadirem 
os inimigos. 

22.'' 

Pelo requerimento que Manoel Rodrigues de Moraes fez á cama- 
rá aos 28 de Março de 1622, consta que esse capitão gentio não íi- 
cou na capitania, e que o Martim de Sá o mandou para outra parte. — 

Livro citado. 

23.a 

No 1.0 de Maio de 1622 se cumpriu e registrou na camará de 
S. Vicente uma provisão de Martim de Sá, superintendente nas ma- 
térias de guerra na costa do Sul, administrador geral no tocante ás 
minas, e capitão-mór de Cabo Frio e da capitania de S. Vicentcs, 
passada na cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro aos 9 de Abril 



- 187 - 

fio 1622, pela qual proveu a Fernando Vioiía Tavares era capitão da 
capitania de S. Vicente eraquanto durasse a sua ausência, sem em- 
bargo da provisão que havia deixado a Pêro Cubas, c o serviria jun- 
tamente com o logar de ouvidor da dita capitania em que esta\a 
provido pelo governador geral. — Livro sujara. 

24.a 

Aos 22 de Outubro de 162.2 se deu posse em S. Vicente a João 
de Moura Fogaça — Ibidem 

25.» 

Aos 30 de Outubro de 1622 se cumpriu a provisão do governa- 
dor geral Diogo de Mendonça, passada na Bahia aos 16 de Setembro 
de 1622, pela qual levantavam as homenagens que pela capitania de S. 
Vicente haviam feito Martim do Sá e Fernão Vieira Tavares por ter 
feito homenagem pela mesma o capitão João de Moura Fogaça — Ibi 

20." 

Aos 31 de Janeiro de 1627 se cumpriu e registrou nraa provi- 
são de Álvaro Luiz do Valle, capitão-môr da capitania do S. Vicente 
pelo condo de Monsanto, na qual nomeou alcaide- mór da capitania 
aos 24 de Julho de 1626 a Lucas Rodrigues de Córdova, excluindo 
a Fedro Cubas que servia este posto por nomeação de Lopo de 

Souza. — Ibi ... 

27.» 

Aos 14 de Abril de 1639 se cumpriu em camará e registrou-se 
uma provisão de Salvador Corrêa de Sá e Benevides, passada no Rio 
do Janeiro aos 18 de Março do dito anno, na qual vinha ircorporada 
outra do conde da Torre, D. Fernando Mascarenhas, governador ge- 
ral do Estado, passada na Bahia aos 3 de Fevereiro do dito anno, 
em que o governador geral determinava ao dito Salvador Corrêa que, 
pela razão de se ter entendido que os filhos da terra eram de gran- 
de effeito e utilidade nas facções militares por terem mais uso e ex- 
periência nas entradas do sertão, e ter noticia que nas capitanias do 
Rio de Janeiro, S. Vicente e S. Paulo se podiam levantar ató 30O 
homens, os mandava alistar, perdoava aos criminosos que não tives- 



— 188 — 

sem parto, menos os de crime de lesa-raagestade divina ou humana, 
sodomia e moeda falsa, e perdoava degredos, alistando-se com pro- 
messas de grandes prémios de Sua Magestade de serem seguros, fin- 
da a guerra, e de se lhes fazer mercê dos officios de justiça ou fa- 
zenda, que nelles coubebsem. Para alistar essa gente na capitania de 
S. Vicente mandou Salvador Corrêa pela dita provisão ao capitão 
D. Francisco Rendou de Quevedo (1), e na mesma determinava que 
aas Índios desta capitania que quizessem ir á dita guerra os deixas- 
sem ir livremente.— JCm-o 13. 

Íí8.a 

Nos seus Apontamentos diz o dr. juiz de fora que Pedro Lopes, 

donatário das 50 léguas, era morto aos (2) de 1547, conforme 

a escriptura de doação de terras feita por Jorge Ferreira e sua mu- 
lher, na qual escriptura se diz que era donatário Martim Affonso, 
filho de Pedro Lopes. 

Diz o mesmo dr. que Lopo de Souza, terceiro donatário de S. 
Vicente, morrera aos lõ de Oiitubrj de 1610. 

29.a 

Jacques Felix, condestavel da fortaleza da Bertioga, era flamen- 
go segundo consta de uma escriptura lavrada aos 20 de Dezembro 
de 1600, que se acha na archivo do Carmo. Este foi pao de outro 
Jacques Felix, a quem o capitão Balthazar de Seixas Rebello aos 30 
de Junho de 1616 concedeu uma sesmaria para fazer um moinho. 
Era nesse tempo morador em Santos e a sesmaria está no livro 3.», 

a fls. 99. 

30.« 

De uma sesmaria concedida por Gonçalo Corrêa de Sá, aos 30 
de Abril de 1619, a João de Barcellos e Paschoal de Barcellos, cons- 



1) Fidalgo hespanhol residente em S. Paulo e aqui casado com Aana da Ribeira, 
filha de Amador Bueno da Ribeirar— o acclamado. 

2) O logar da data do mez está em branco no manuscripto. 

3) André Fernandes foi o fundador de Parnabyba, Balthazar Fernandes fuhdou 
Sorocaba e Domingos Fernaudes fundou Ytú; todos três eram filhos de Manoel Fernan- 
des Ramos, fidalgo portuguez, e de Suzana Dias, neta de João Ramalho e bisneta de 
Tebiriça. N. da R. 



I 



- 189 - 

ta que Iguape nesso terapo era povoação. Vem a sesmaria no livro 
4.0, a íis. 11. 

De outra sesmaria, concedida a Manoel Peixoto polo mesmo ca- 
pitão aos 4 de Maio do mesvuo anno, consta ser villa no anno de 
1612 e que o dito Manei Peixoto fora povoador delia. Consta do 
dito livro, a fls. 17 et sequcntibus. Este apontamento é do dr. juiz do 
fora; porem, houve engano em alguma destas datas porque se fôra 
villa em lbl2 não estaria na inferior classe de povoação muito de- 
pois, era 1619. 

31 a 

Parnahyba, sendo ainda do termo de S. Paulo, irincipiava a po- 
voar-se no anno de 1629. O descobrimento de minas ciiamou para 
aquelle logar muitos povoadores. André Fernandes {^) pediu sesmaria 
allegando (pie era lavrador de posses, que andava em serviços de 
Sua Magostade no descobrimento das minas e que tinha necessidade 
de terras junto a ellas. Concederam-lhe duas léguas aos 23 de Se- 
tembro de l6l^. Balthazar Fernandes, allegando os mesmos serviços, 
pediu no ineamo logar uma légua, que se lhe concedeu no mesmo 
dia e anno. Clemente Álvaro, pelas mesmas e idênticas razões, pe- 
diu no dito logar, junto as minas, sesmaria em Bituruna, aguas ver- 
tentes para o rio Anhemby, e lhe concederam duas léguas aos 23 de 
Setembro do dito anno. Todas estas sesmarias foram concedidas por 
Gonçalo Corroa e fazem já menção de alguns moradores no dito lo- 
gar. As minas eram de Bituruna e acham-se as sesmarias registra- 
das no livro 4.0, desde fls. 24, 28 até 80. 

32.a 

Martim do Sá e filhos, Salvador Corrêa de Sá e Benevides e D. 
Felícia de Benevides de Mendonça, e assim João... {^) ... e Diogo 
Martins, Índios com seus parentes, que Sua Magestade mandara ajpre- 



1) André Fernandes foi o fundador de Parnahyba, Balthazar Fernandes fundou So- 
rocaba e Domingos Fernandes fundou Ytú ; todos três eram filhos de Manool Fernandes 
Ramos, fidalgo portuguez, e de Suzana Dias, neta de João Ramalho e bisneta de Te- 
biriçá. 

2; Está estragado o resto do nome. N, da R, 



— 190 — 

sentar ondo estavam, pecUrara do sesmaria, para fazerem engenhos, 
as terras de luna, começando onde acabam as dos padres da Com- 
panhia, correndo pela costa adeante para o Sul a entestar com a 
ponta de Mangaratiba, que está defronto de uma ilha, com todas as 
aguas, campos o sertão da dita data ; a qual lhes concedeu o capitão 
de S. Vicente Gonçalo Corroa de Sá aos 4 de Janeiro do 16.20 e se 
acha registrada no livro 4.^, a fls. 35. O mesmo capitão concedeu a 
Martim de Sá outra sesmaria, no dito dia e anno, de duas léguas» 
nos campos de Itaqiiitá ou Quaquitá.—Lívro citado, a fls. 37. 

33.a 

Da villa de San'a-Anna de Mogy foi povoador Gaspar Vaz e da 
dita villa para a Bertioga havia caminho (^). Tudo consta de uma 
sesmaria concedida por Álvaro Luiz do Valie, capitão do condo de 
Monsanto, ao padre Gaspar Sanches, vigário da dita villa, aos 9 do 
Novembro de 16'25, a qual se a"ha registrada no livro tí.«, a fls. 38. 

Que Gaspar Vaz povoou esta villa consta por outra sesmaria 
concedida ao mesmo pelo dito capitão, na qual este confessa ter elle 
sido o primeiro povoador delia, e por este serviço lhe deu de sesma- 
ria as terras que pedia aos 8 do Outubro do lo25, a qual se acha 
registrada no livro 7.o, a fls. 9. 

34. 

D. Martha Borges, Martim Corrêa Vasqueanes o Salvado r Corrêa 
Vasques, mulher e filhos que ficaram do governador Duarte Corrêa 
Vasqueanes, o qual em sua vida antes do seu fallecimento, fez consi- 
deráveis serviços a Sua Magestado com grande dispêndio de sua fa- 
zenda por muitos annos, assim na cpitania do Rio de Janeiro, muito 
antes de a governar, como na capitania de S. Vicente, sendo nella 
capitão, ouvidor r3 provedor das minas, e seus avós foram os primei- 
ros conquistadores e povoadores destas capitanias, pediram por esta 
razão a António do Aguiar Barriga, sesmeiro e procurador do mar- 



1) Esta viila de Santa Annn ãe Mog^j é a cidade de Mogy das Cruzes ds hoje. O 
que so segue a seu respeito não está de accordo com o que diz Azevedo Marques nos 
seus Apontamentos Históricos, baseado em outros documentes. N. da R. 



— 191 — 

quez de Cascaes na capitania do S. Vicente, 10 léguas de terras de 
sesmaria, por costa desde a barra da villa de Paranaguá para o sul 
e pelo sertão dentro por linha direita do uma e outra parte até en- 
testar com a demarcação dos castelhanos, e sendo dadas algumas das 
ditas terras correriam da ultima demarcação para deante, as quaes 
lhos concedeu o dito capitão por sesmaria passada aos 3 do Outubro 
de 1658 e registrada no livro 12, a fls 26. 

35.a 

Aos mesmos implorantes supra foram dadas por Jeronymo Lei- 
tão (1), capitão-raór de S. Vicente e provedor da Faaenda Real e Al- 
fandega, 30 léguas de terra por costa, começando onde acabam as 
capitanias do conde de Monsanto o condessa de Vimieiro, para o sul 
e pelo sertão dentro por linha direita, por uma e outra parte, até 
entestar com os castelhanos, e sendo algumas terras dadas principia- 
ram as ditas 30 léguas da ultima data até se preencherem, cuja ses- 
maria foi concedida aos 23 de Outubro de 1658 e registrada no dito 
livro, a fls. 28. 

36.a 

D. Francisco Eendon de Quevedo, aos 7 do Setembro de 1665, 
allegou, para se lhe conceder uraa sesmaria, que havia quarenta an- 
nos que tinha vindo ao Estado do Brazil, servindo de soldado com 
três escudos de vantagem cada mez, além de sua praça ordinária, na 
armada de que fora general D. Fradiquo de Toledo Osório, que res- 
taurou a cidade da Bahia occupada pelos hollandezes, em cuja res- 
tam ação se achava, que depois se passara á villa de S. Paulo, onde 
se casou, e como soldado o capitão de ordenança, que fora alguns 
annos, procedera com inteira satisfacção dos seus maiores e que ulti- 
mamente levantara uma companhia a sua custa para a restauração 
de Pernambuco, e que agora vivia na villa de Angra dos Reis, pedia 
terras por traz da serra em cujas fraldas está o engenho de Itacii- 



1) Aqui traz o manuscripto esta nota • 

«Falta à palavra Pantoja, porque nesse aiino eracapitão-mór Jeronymo Pantoja Lei- 
tão» . 



- 192 - 

ruça, quo foi do general Salvador Corrêa de Sá e Benevides o ao 
presente era de seu irmão D. José Rendon de Quevedo (i). Dea- 
lh'a João Bláu, capitão-raór da Conceição (^} pela condessa de Vi- 
mieiro, aos 7 de Setembro de 1665. — Livro l2.o de Sesmarias, a 
fls. 84. 

37.« 

A villa de N. Senhora da Conceição do Parahyha {^) é tratada 
como villa era uma sesmaria concedida por Diogo Pinto do Rego, aos 
28 de Fevereiro de 1680, a Bartholoraeu Bueno Cacunda, a qual se 
acha registrada no livro 13.°, a fls. 111. 

Pindamonhangaba intitulava se villa aos 22 de Abril de 1713* 
Consta de uma sesmaria concedida por Domingos Martins da Guerra, 
sargento-mór da capitania da Conceição, procurador geral e sesmeiro 
do conde donatário, a Manoel da Costa Leme e outros, a qual se 
acha registrada no livro 14.o, a íls. 28. Esta villa era somente fre- 
guezia aos 11 de Fevereiro de 1704, segundo consta de uma sesmaria 
dada por Miguel Telles da Costa, capitão e loco-tenente da Conceição 
pelo conde da Ilha, no mesmo dia, a Domingos Velho Cabral, par- 
tindo as terras com seu irmão António Cabral da Silva.— íúto 14,^» 
fls. 35.— Rodrigo César de Menezes (*) a trata por villa em uma ses- 
maria dada aos 10 de Janeiro de 1724 —Livro 14.o, fls. 54. 

38.0 

Aos 8 de Março de 1771, encontrando a expedição que comman- 
dava o capitão Francisco Lopes da Silva na barra do rio a que dou 



1) Eram quatro irmãos, João Matheus Rendon, Francisco Rendon de Quevedo; 
Pedro Matheus Rendon e José Rendon de Qrrevedo ; os primeiros três vieram na armada 
de D. Fradique , os primeiros dois vieram se casar em 8. Paulo com fllíias do Amador 
Bueno . 

2) A capitania primitiva de Martim Affonso compunha-se de duas partes, uma de 
S. Vicente para o sul até além de Cananea e outra do rio Jaqueryqueré, em S. Sebas- 
tião, para o norte até Macahé ; a villa da Conceição de Itanhaen era a cabeça dessa ca- 
pitania em 166Õ e daM vinha o capitão-mór João Bláu conceder sesmarias na costa aa 
norte de S. Sebastião. 

3) Hoje cidade de Jacarehy, sobre a margem direita do rio Parahyba. 

4) Capitão-general de S. Paulo de 1721 a 1727. N. rfa R. 



— 193 — 

o nome de Mourão (^), umas bananeiras e larangeiras, persuadiu se 
que aquelle era o sitio onde existira aulguma das povoações caste- 
lhanas destruidas pelos paulistas e, procurando vestígios de povoado, 
achou- os a 10 de Março do dito anno ; e por julgar que as ruinas 
eram da Villa Rica destruída pelo referidos paulistas, fez alli um pe- 
queno estabelecimento com o nome de Villa Bica. 

39.a 

A freguezia de N. Senhora da Esperança de Capivaruçú teve 
principio aos 21 de Julho de 1774, dia em que principiou a exercitar 
as funcções de parocho o padre Pr. José de Santa Brígida, religioso 
capucho da província de N. Senhora da Conceição do Rio de Janeiro 
com provisão do diocesano de S. Paulo (^j. 

40.» 

S. Luiz de Guaratuba se levantou em villa aos 30 de Abril de 
1771, na presença do tenento-coronel Affonso Botelho de Sampaio e 
Souza, do ouvidor de Paranaguá, do capitão-mór e ofíiciaes da dita 
villa e da camará do Rio de S. Francisco. No termo desta villa se 
erigiu a Villa Nova {^). 

41.a 

A freguezia de Santos, a qual comprehende a villa e seu termo, 
tinha, no anno de 1783, pessoas de confissão e communhão de toda 
casta de gente — 3 1 23 pessoas ; a de S . Vicente— 726, a da Conceição 



1) Pequeno affluente da margem esquerda do rio Ivahy. Eram as ruinas de Villa 
Rica, destruída pelos paulistas de António Raposo nos annos de 1629 — 32 ; vide Explora- 
ção do Tihagy, no vol. IV do Archivo do Estado de S. Paulo, e vol. IX, pags. 92 e se- 
guintes. Azevedo Marques confunde esta Villa Rica, do hoje Estado do Paraná, com 
outra Villa Rica, no Paragnay. 

2) Este bispo diocesano foi Fr. Manoel da Resurreição, que governou o bispado de 
1774 a 1789. 

3) Villa Nova do Príncipe, lioje Lapa, fundada no interior do território de Guara- 
tuba, que flca na costa. N. da R' 



-- 194 - 

de Itanhaem — I0'3o o a aldeia do S. doão, entre grandes e pequenos 
—207 {!}. 

42. a 

Roquo Barreto, capitão e ouvidor da capitania do S. Vicente por 
Lopo de Souza, estando em Cananóa, passou uma provisão, dada na 
villa do Cananóa aos 13 do Julho de 1600 o nella diz: <Que achan- 
do-se na povoação do S. João de Cananéa c sendo necessário levan- 
tar nella pelourinlio e insígnias de villa, e não levando era sua com- 
panhia, escrivão para fazer as ditas diligencias, provia no officio de 
escrivão a Francisco Viegas para o dito effeito o para escrivão das 
datas {-) declarou que passava a provisão de sua mão por não haver 
escrivão c que dera juramento ao dito Francisco Viegas para esse 
efifeito de fazer a villa que bom e íiolmento íizesso seu ofíicio>, e que 
este assignára com clle aos 13 do dito mez. Abaixo vera um despa- 
cho que diz : Registre-se esta provisão no livro dos Registros desta 
camará, hoje 30 de Setembro de IQOO.— António Pedroso — António 
Afonso— João Caldas.* 

43.a 

Piogo de Mendonça Fnrtado, por uma provisão, passada na Ba- 
hia aos 3 3 de Setembro de 163:2, levantou a homenagem a Martim de 
Sá e a Fernão Vieira Tavares ; diz assim : «Fa^o saber a Martim de 
Sá, fidalgo da casa de Sua Magostade, capitão-mór que foi da capita- 
nia de S. Vicente, o a Fernão Vieira Tavares, que hoje está servindo 
os ditos cargos, que eu provi agora nelles a João do Moura Fogaça 
para que sirva por o tempo de tros aunos, de que lhe passei provi- 
são, e porque fez homenagem e preito pela dita capitania e pelos 
castellos e fortalezas delia a Sua Magestade em minhas mãos, por 
esta hei por levantada a que os ditos Martim de Sá e Fernão Vieira 
Tavares prestaram pela dita capitania, castellos c fortalezas e os hei 
por desobrigados. Esta se trasladará ..., etc.> 



1) S. João áe Peruhybe, pequena povoação na costa, cerca de CG kilometros ao sul 
de Itanhaen, a, cujo município pertence ainda hoje. 

2) Datas de torras ou sesmarias. 

N. da. R. 



- 195 - 

Os doze primeiros capitães-móres de S. Vicente foram : '}) 



1 Gonçalo Monteiro — vigário da parochia 

2 António da Oliveira — duas vezes 

3 Christovam de Aguiar do Altero 

4 Braz Cubas — duas vezes 

5 Jorge Ferreira — duas vozes 

6 Francisco de Moraes Barreto 

7 Pedro Collaço 

8 Pedro Ferraz Barreto 

9 Jeronymo Leitão 

10 Jorge Corrêa 

11 Roque Barroto (2) 

A António Pedroso de Barros 

( Pedro Vaz de Barros (•^) 



I 



1) Esta lista é também cie Fr. Gaspar e abrangs os capitães mores de S. Vicente 
até o anno de 1603. 

2) Antes de Rogue Barreto Iiouve um outro capitão-mór de nome João Pereira do 
Souza; porém, como este Joáo Pereira fora nomeado pelo governador geral do Brasil 
D. Francisco de Souza, não é aqui considerado porque a lista é dos capitães-mores no- 
meados pelos donatários. Vide §§ 14 e 15 da primeira lista 

3) l^idalgos portuguezes, com enorme descendência que figura em S. Paulo até 
iioje, eram irmãos e figuram como um só capitão-mór porque foram nomeados por uma. 
só provisão, que estabelecia que qualquer delles serviria na falta do outro. 

{K da E.) 



A primeira phase da questão de limites 
entre S. Paulo e Minas Geraes 



Na collecção de documentos relativos á secular questão de limi- 
tes entre S. Paulo e Minas Geraes que, de combinação com o dr. 
António Piza, organizei, em 1896, para o volume XI da série cDocu- 
mentos interessantes para a historia e costumes de S. Paulo» que 
©stá sendo publicada pelo Archivo do Estado, vêm muito incompletos 
os que se referem ao começo do conflicto nos annos anteriores a 1748, 
quando a Provisão Régia de 9 de Maio veiu alterar completamente os 
termos da questão. Ultimamente vieram-rae ás mãos vários docu- 
mentos que escaparam á busca feita naquella occasião, e que escla- 
recem alguns pontos que ficaram obscuros no resumo histórico quo 
então fiz dos acontecimentos dessa épocha. 

Sendo de bastante interesse histórico as origens deste conflicto, 
parece conveniente apresentar ao Instituto Histórico estes documentos 
como additamento aos já publicados no referido volume XI do Ar- 
chivo, referentes aos pontos essenciaes da historia. 

Nesta nova série de documentos avulta pela importância um que 
já foi publicado em 1865 no Almanack administrativo, Civil e Indtis- 
trial da 'provinda de Minas Geraes, Devemos, o dr. Piza e eu, o 
conhecimento deste documento a uma obsequiosa carta do distincto 
investigador da historia mineira, o dr. Francisco Lobo Leite Pereira. 
A circurastancia de haver este documento também escapado á attenção 
dos defensores, tanto modernos como antigos, dos direitos mineiros, * 



(*) Depois da leitura deste trabalho perante o Instituto Histórico soube que o refe- 
rido documento tinha sido reproduzido e devidamente apreciado no Almanaak de Muni- 
cípio de; Campanha correspondente ao anno de 1900, 



- 197 — 

nos collocará, espero eu, a coberto de qualquer suspeita de suppressáo 
proposital. Os outros documentos foram encontrados num maço do 
papeis avulsos referentes a outro assumpto, e que por esto motivo 
nâo foi examinado na occa«ião da busca. 

Quando nos últimos annos do século XVII houve o rws/i (para em- 
pregar o expressivo termo inglez consagrado a este typo de movi- 
mento) para as minas de ouro então denominadas «de Cataguazes», a 
ultima villa organizada na única estrada que dava accesso á região 
era Guaratinguetá, e, nominalmente pelo menos, as novas povoações 
creadas deviam pertencer á sua jurisdicção . As primeiras villas crea- 
das no novo território, Ribeirão do Carmo, Villa Rica e Sabará era 
1711, e S. João d'Bl-Rei em Dezembro de 1713, não tiveram, ao que 
parece, limites marcados na occasião da sua creação. A 6 de Abril 
de 1714 reuniram-se, por ordem do governador d. Braz Balthazar da 
Silveira, os procuradores das quatro villas mencionadas para trata- 
rem deste assumpto, sendo lavrado o termo seguinte : 

«Aos 6 dias deste mez de Abril do anno de 1714, nas casas em que 
está a secretaria deste governo se achavam presentes os procuradores 
das camarás de Villa Rica e Villa Real, e desta de N. S. do Carmo, 
por lhes ordenar o exrao. sr. D. Braz Balthazar da Silveira, governa- 
dor e capitão general deste estado, viessem a esta secretaria conferir 
e ajustar a repartição das terras que devem tocar a cada uma das 
três comarcas, e porque entre os ditos procuradores poderia haver 
duvidas que impedissem a conclusão do ajuste, resolveu o mesmo sr. 
governador e capitão general que o sargento mór engenheiro Pedro 
Gomes Chaves e o capitão mór Pedro Frazão de Brito assistissem a 
elle para que, pelas noticias que ambos têm da situação e distancia 
das comarcas, desfizessem as duvidas que se offerei-cssem entre os 
ditos procuradores, e porque o da camará da ViUa de S. João d'Bl-Rei, 
cabeça da comarca do mesmo nome, não assistiu, sem embargo de se 
lhe haver feito aviso de ordem do dito sr. para que viesse, e ser 
muito conveniente ao serviço de S. M . i> conveniência de sua real fa- 
zenda que a repartição das comarcas se fizesse com á maior brevida- 
de para se principiar logo em cada uma a diligencia da cobrança das 
30 arrobas de ouro que os povos destas minas prometteram a S. M. 
pelos quintos deste primeiro anno, resolveu o exmo. sr. general quo 



- 198 — 

Tisto a camará da Villa de S. João d'El-Rei nao haver mandado pro- 
curador a tempo opportuno, como se lhe avisou, e ser mui prejudi- 
cial toda demora nesta repartição pelos motivos acima considerados, os 
^procuradores presentes repartissem á dita comarca as terras que lhe 
deviam tocar: e sendo por todos conferido e debatidas as repartições 
das três comarcas, e referido por parte de cada um dos procuradores 
as razões que se lhe ofiereceram, se ajustou unanimente entre elles 
cue a comarca da Villa Rica se dividirá daqui em deante da de Villa 
Eeal, indo pela estrada de Matto Dentro, pelo ribeiro que desce da 
Ponta do Morro, entre o sitio do capitão António Ferreira Pinto e o 
do capitão António Corrêa Sardinha, e faz barra no ribeiro de S. 
Prancisco, ficando a egreja das Catas Altas para a villa do Carmo, e 
pela parte da Itabira se fará divisão no mais alto do morro delia, e 
tudo que pertence aguas vertentes para a parte do sul tocará á dita 
comarca de Villa Rica e para a parte do norte tocará á comarca de 
Villa Real ; o ribeiro das Congonhas junto do qual está um sitio cha- 
mado Casa Branca servirá de divisão entre as comarcas de Villa Rica 
e de S. João d'El-Rei, devendo tocar a Villa Rica tudo que se com- 
prehende até ella, vindo do dito ribeiro para as Minas Geraes, e do 
mesmo pertencerá á comarca de São João d'El-Rei tudo o que vae 
até a villa do mesmo nome, a qual so dividirá com a villa de Gua- 
ratinguetá pela serra da Mantiqueira, e nesta conformidade se ajus- 
taram as repartições das comarcas pelos ditos procuradores a contento 
deiles por entenderem que nestas repartições se destinou a cada co- 
marca as terras que se justamente lhe deviam tocar, por haverem 
procedido ás mais certas informações e ás consideiações necessárias 
para o acerto do ajuste. E os procuradores se obrigaram e obrigam 
por este termo que abaixo assignaram em nome das camarás que os 
constituíram a que ellas e os oíFiciaes que nolla succederem para o 
futuro não contravirão ao referido ajuste, antes o reputarão por va- 
lioso, e como tal darão inteiro cumprimento ao que nelle se conven- 
cionou, e de como assim convieram e se ajustaram eu Manoel de Aífon- 
seca secretario deste governo fiz este termo por ordem do exrao. sr. 
general, que assigno junctamente com os ditos procuradores e dois 
assistentes. — Braz Bàlthasar da Silveira — O secretario Manoel de Âf- 
fonseca—Frei António Martins Lessa—BajpTiaél da Silva e Souza—An- 



— 199 — 

torno M'nães Teixeira— Manoel da Silva Miranda — S. Mór Fedro Go- 
mes Chaves— S. Mór Pedro Frazão de Brito» . 

O que interessa a São Paulo neste termo é a fixação do limite 
entro São João d'El-Rei e Guaratingiietá pela Serra da Mantiqueira, 
visto que cora a creação da Capitania do Minas Gcraes, em 1720, a 
divisa entre o território destas duas villas fleou sendo nesta parto a 
das duas Capitanias. Ainda que o procurador da villa de São João 
à'Bl-Rei não comparecesse á reunião e, ao que parece, o de Guara- 
tinguetá nera_citado fosse, este termo, tendo recebido a assignatura 
do governador, '3ra ura acto perfeitamente acabado e legal. Não cons- 
ta si foi ou não communicado á camará de Guaratinguctá, senda 
porém de presumir que não, visto como poucos raezes depois, em Se- 
tembro do 1714, praticou ella ura acto visivelmente nullo, isto é, 
um auto do posse no morro de Caxambu, algumas léguas dentro do 
limite estabelecido pelo termo de Villa Rica (ArcMvo, vol. Xí, p. 5). 
A camará do São João d'El-Roi era epocha indeterminada, mas pro- 
suraivelraente pouco tem.po depois deste auto, destruiu o raarco no mor- 
ro de Caxarabií e collocou outro no alto da serra da Mantiqueira. B* 
para notar que sendo mais tarde accusada pelos paulistas de ter as- 
sim procedido ob e subrepticiamente, a camará de São João d'Bl-Rei, 
pelo menos nos document 'S á mão, não tratou de se defender cora a 
citação do termo de Villa Rica, com o que podia ter dado uma res- 
posta cabal. E' de suspeitar que, quando uns 30 anncs depois houvo 
discussão sobre o assumpto, a própria existência deste documento ti- 
vesse ficado esquecida. Que esta liypothesenã) é tão improvável como 
á primeira vista parece, fica provado com o exemplo do auto do pos- 
se da comarca de Guaratinguctá que custou a apparecer quando, era 
174J, houve occasião de cilal-o [Arclnvo, Vol XI, p. 17). 

Ao que parece, não hou^e durante alguns annoa questão seria 
entre Guaratinguetá e São João d'El-Rei a respeito do limite que 
permaneceu determinado na única via de comraunicação entre as duas 
villas pelo raarco collocado pela caraara de São João d'El-Rci na gar- 
ganta da serra da Mantiqueira, onde hoje passa a estrada de f.rro 
Minas e Rio. A camará de Guaratinguetá ainda ambicionava o territó- 
rio até ao morro de Caxambu, e, era 1731 obteve por meio do uma 
representação do governador António da Silva Caldeira Pimentel uraa 



— 200 — 

parcial satisfacçâo dos seus desejos na expedição da Provisão Regia 
de 23 de Fevereiro de 1731 [Archivo, Vol. XI, pag. 7) mandando re- 
partir com mais egualdade o território entre as duas villas. Com re- 
ferencia a isto, porem, nada consta além do convite para entiar num 
accôrdo dirigido pelo governador de S. Paulo ao de Minas Geraes 
{Archivo, XI, p. 8). 

Neste tempo e por alguns annos dopois o território ao lado da 
estrada estava completamente despovoado e desprezado, e a única coisa 
que poderia servir de assumpto de uma contenda era a posse de alguns 
ranchos á beira da estrada. B' verdade que já era I7k: O os paulistas, en- 
trando de Pindamonhangaba na região, tinham descoberto ouro a oeste 
desta estrada {Archivo, XI, pag. 12), e houve um começo de minera- 
ção, mas as miuas eram dadas como <bromadas>, e se pôde duvidar 
que se estabelecesse uma povoação permanente, ainda que o Diccio- 
nario de St. Adolphe afflrme que a freguezia da Campanha data de 
1724 (1). Seja como for, a região não despertou grande cobiça até 
1735, quand * houve um rush para as lavras da Campanha do Rio 
Verde que foram repartidas pelas auctoridades de São João d'El-Rei ; 
então formou se ou deu-se novo impulso ao arraial de Santo António 
da Campanha do Rio Verde, hoje cidade da Campanha (2). 

Alguns annos mais tarde, em fins de 1742, as descobertas se es- 
tenderam para o oeste passando do vaíle do Rio Verde para o do Sa- 



(1) No já referido Almanack do Município da Campanha vem transcripto das Ephe- 
meredes Mineiras um interessantíssimo cfficio datado de 9 de Dezembro de 1737 em 
que o Ouvidor da Comarca de São João d'El-Rei, Dr. Cypriano José da Rocha, dá conta 
da sua recente viagem na Campanha dos rios Verde e Sapucahy. Encontrando o distri- 
cto occupado por aventureiros e fugidos da Justiça elle fundou um arraial em forma de 
villa com o nome de São Cypriano, deixando determinado a construcção de uma egreja. 
Ao que parece este nome foi substituído pelo de Santo António que provavelmente já 
tinha sido adoptado pelos moradores da nascente povoação. ouvidor chegou até 
a margem do rio Sapucahy passando ao outro lado em canoa que mandou construir e 
mandou explorar este rio até as suas cabeceiras. 

(2). Por um documento conservado na Bibliotheca Nacional, e publicado mais adian- 
te, neste mesmo volume, vê-se que ainda antes da reputada descoberta de Arzão na re- 
gião do Rio Doce, o padre João de Faria, de Taubaté, com os seus parentes tinha des- 
coberto ouro na região do alto Sapucahy e Rio Grande. 



~ 201 — 

pocahy, e d. Luiz Mascarenhas, recemchegado de Goyaz, onde passou 
os primeiros annos do seu governo, entendeu tomar posse, era nora- 
da capitania de S. Pauio, destas novas descobertas ; mas, ao que pa- 
rece, não da Campanha do Rio Verde. Nomeou, a 21 de Dezembro de 
1742, um superintendente na pessoa de Bartholomeu Corrêa Bueno, na- 
tural de Atibaia ; e como na carta de 10 de Maio do 1743 {Ârchivo, XI, 
pag. 18), elle refere ás vizinhanças de S. João da Atibaia, paroce ter 
considerado o districto como pertencente a este arraial, donde prova- 
velmente já havia uma picada aberta (1^. Com o apparecimento do 
offlcial paulista nas minas a camará de S João d'El Rei poz-se em 
movimento e dirigindo uma repres-entação a d. Luiz Mascarenhas obte- 
ve uma resposta conciliadora datada de 4 de Março de 1743 (2). 

Em quanto esperava resposta á sua representação ao governadoí* 
de S. Paulo, a camará se transportou a Santo António da Campanha 
do Rio Verde, onde a 25 de Fevereiro lavrou ura auto de ratificação 
de posse. Dahi passou para o valle de Sapucahy onde, em três pon" 
tos diversos, Santa Catharina da Pedra Branca, S. Cronçalô e mar- 
gem do rio Sapucahy, repetiu o rae^mo processo nas datas de 28 de 



(1), A portaria de nomeação que vem estampada no vol. XXII do Archivo, pag. 
177, é a primeira datada de 8. Paulo no respectivo livro de ordens de d. Luiz Masca- 
renhas. O titulo dado ao novo official é «Superintendente e Intendente Commissionario 
das minas de Sipocahy» (Sapucahy), e nos documentos oflBciaes paulistas elle é chamado 
superintendente ; mas é de presumir que entre os mineiros fosse reconhecido pelo titulo 
mais familiar de «Guarda-mór» que lhe foi applicado pelo seu contemporâneo Alexandre 
Luiz de Souza Menezes, comm andante da praça de Santos, na sua carta de 25 de Agosto 
de 1765 (Archivo, XI, p. 97). O districto da sua jurisdicção é determinado na portaria 
como sendo «na paragem chamada Sipocahy», sendo assim claramente delimitado da 
Campanha do Rio Verde, com a qual os mineiros da epocha e os historiadores paulistas 
subsequentes o confundiram 

(2). Estes dois documentos são ainda desconhecidos, salvo por vagas referencias. 
A camará de S. João d'El-Rei na sua representação de 1746, abaixo reproduzida, cita a 
carta de 4 de Março como reconhecimento de seu direito, interpretação esta que o seu 
auctor expressamente repelle na sua resposta (Archivo, XI, pag. 23). O certo é que a 
carta foi escripta, mais ou menos, na occasião em que o seu delegado estava sendo ex- 
pulso do districto e que, informado desta circumstancia, d. Luiz Mascarenhas expediu, a 
10 de Maio, ordem peremptória para o repor (Archivo, XI, pag. 18), embora na dita carta 
tenha consentido na sua retirada pacifica. Não se sabe porque esta ordem não teve 
execução, visto haver falta completa de documentos até que, em 1746, a questão surgiu 
de novo ao outro lado do Sapucahy. 



— 202 — 

Fevereiro, 2 e 4 de Março, sendo para notar que esta nltima data co- 
incide com a da carta de d- Luiz Mascarenhas consentindo na retirada 
do superintendente. Este, conforme rezam as chronicas paulistas (Âr- 
chivo, X', pags, 50 e 52), foi intimado para dentro do prazo de duas 
horas sahir do districto para o outro lado do rio Sapucahy (1). Chegan- 
do a S. Paulo a notícia destes acontecimentos, o governador deu or- 
dem ao ouvidor para ir ás minas de Sapucahy c "achando qu9 ellas 
e sua campanha estão dentro dos marcos desta comarca, faça restituir 
a superintendência delia a Bartholomeu Corrêa Bueno, ctc." [Ai-cMvo, 
XI, pag. 10). Do que houve eni seguimento desta ordem só se sabe 
que a camará do S. João d'El-Rei íicou do posse do districto em 
litigio. 

Nos quatro autos de posse lavrados nesta occasião, a camará de 
São João d'Bl-R8Í definiu muito clara e espontaneamente o seu modo de 
entender os seus limites e a situação do território de que se decla- 
rou possuidora. Eelativamente bem informada a respeito da geograpliia 
da região ella não entendeu, como julga um escript r recente, que 
a divisa pela Serra da Mantiqueira podia ser extendida indefinidamen- 
te pela cordilheira a ambos os lados da estrada onde se tinha collo- 
cado o marco. No caso contrario o que ficaria para S. Paulo, o o 
que mais importava para Minas, cora quem ficaria a assim chamada 
Matta de Minas ? Reconhecendo a necessidade de marcar um limite, a 
camará o fez no auto do posse do arraial do Santo António, declarando-se 
possuidora **não só deste arraial e seus districcos, mas ainda de todos 
os sertoens ató o rio Sapucahy" — fórmula es^-a que com pouca varia- 
ção foi repetida no auto de São Gonçalo e do rio Sapucahy. Neste 
ultimo ponto a phrase ó— "por razão de serem estas paragens perten- 
ças das suas posses antigas do arraial do Santo António da Campa- 
nha, por este se estender, como dito fica, até o Llto da Serra da Man- 
tiquira, que inda fica muito mais adiante ató a este rio da outra 
banda." Conforme as chronicas paulistas o acto foi celebrado sobra 



(1) Uma das narrativas eecriptas em 1765 diz qne esta intimação foi dada no 
arraial de Santo António da Campanlia, onde Bartliolomen Coriêa Bueno tinha tomado 
posse alguns dias antes. 61 assim foi, elle excedeu as suas instrucções que claramente 
determinavam a paragem chamada Sapucahy ; e foi talvez por este motivo que d. Luiz 
Mascarenhas desistiu da sua resolução de o repor. ■ 



t 



— 203 — 

lira giráo no meio do rio {Archivo, XI, pag. 50), como para indicar 
que a divisa ora o fio da correnio e não a margem direita sómente- 
Do accòrdo com esta tradição o a declaração da camará, três annos 
mais tarde, que devido ás inclemências do tempo somente no «animo > 
passou para a outra banda do rio. 

E' para notar que nestes autos a camará de S- João d'El- 
Eei nenhuma referencia faz ao termo do G de Abril do 1714 que lhe 
teria fornecido um argumento melhor do que o que empregava. Como 
teremos era breve evidencia que a camará soffria de falta de memo- 
ria, é provável que houvesse aqui esquecime-nto do documento, já um 
tanto vetusto, e não ignorância do son conteúdo. 

E' uma particularidade desta secular contenda que os documentos 
perfeitamente acabados e de termos claros, como o termo de 6 de 
Abril de 1714 o a Provisão Régia de 30 de Abril de 1747, tenham 
sido deixados por ambas as partes no olvido, em quanto se debatem 
cegamente sobre actos incompletos ou de termos dúbios. 

Seccgado, não se sabe bom como, o conílicto de 1743, os ânimos 
descançavara até os primeiros mezes de 1746, quando, annunciada a 
descoberta de ouro a oeste do rio Sapucaby, o governador de S. Paulo 
entendeu nomear um guarda-mór para esse districto na pessoa de Fran- 
cisco Martins Lustosa que, sendo um dos signatários do auto de posse 
de arraial de Santo António em 1743, parece ter sido então morador 
daquelle logar. Em Maio a camará de S. João d'El-Rei sahiu outra 
vez a campo e, nEo podendo cassar o rio por ter Lustosa retirado as 
canoas e recusado passagem, recolheu-se á Campanha donde dirigiu a 
seguinte communicação ao governador de S. Paulo : 

<Illmo. e Exmo. Sr. Bera entendia esto Senado, q. havia de 
conservar a sua jurisdicção nestes destrictos, não só pela pacifica, e 
legal posse, en q. se acha a tantos annos ; mas yinda attendendo ao 
q. V. Ex.a lho certificou en carta de quatro de Março de quarenta e 
três, mandando retirar delles a Bartholomeu Corrêa Bueno, para ef- 
feito do continuar na administração da justiça sem oppressão deste 
Povo, nem dezasocego deste Senado ; porem como, não obstante 
aquella attenção, q. mereceu a V. Ex.» no reconhecimento, de q. de- 
via ser conservado na sua posse, em q. estava sem contradicção alguã, 
agora novamente hé perturbado com a violência, q. lhes fas em nome 



- 204 - 

de V. Ex.a hú Francisco Martins Lustoza, por huâ Provisão, q. al- 
cançou de Guarda Mayor da parte de lâ dt> Sapucahy, talvez por in- 
tbrmaçoens obrepticias e subrepticias ; pois se persuade este Senado, 
q. V. Ex/ não liberalizaria tal graça, a ser informado verdadeira- 
mente da realidade da posse, en q. se acha : Por acordam, q. se fez 
en camará se detriminou dar-se a V, Ex.^ conta dos desmandos, e 
pertubações, con q. se tem portado o tal Lustoza, não sô empedindo 
cora armas, a esta Camará a passagem a outra banda do Sapucahy ; 
mas tirando as canoas para q. não pudesse fazer operação judicial, e 
executar varias deligencias do serviço de S. Magestade perturbando-a 
na sua jurisdicção, com tal excesso, que pouco, ou quazi nada falta 
para um levanto tão sem fundamento, como a V. Exc." lhe será notó- 
rio ; e como não ó justo, que estes distúrbios sirvão de insentivo para 
mayores arojos, nem q. este Senado não tenha com V. Exc.^ aquella 
attenção, que se lhe deve pelo esclarecido da sua pessoa ; segunda 
vés representa a V- Exc." a violência, q, se lhe fas ua usurpação da 
jurisdissão para que V. Exc», a qm. pertence o sucego dos Povos, lhe 
dê a providencia necessária para q. asim se conserve esta camará 
na sua antiga, pacifica e legal posse se ponha termo a estes tumul- 
tos, q. não servindo de validade a Sua Magestade, servem de deza- 
socego a Republica. 

cPela certidão Let.* A. (l) verá V. Exa. a inegável, e jurídica 
posse, en q. se acha esta Gamara ; e ficará V. Exa. inteirado das se- 
nistras informaçoens, con q. o tal Lustoza pertende a Guardamoria 
daquelle continente ; pois como foi huâ das testemunhas, qne assigna- 
rão o termo da posse não pode condecurar o ser intento, mas q. con 
appetulancia, con q. pertende incivilmente ivadir, e escapar as execu- 
çoens da justiça desta comarca em ódio talves dos seus credores, 
cuja posse se ratificou no anuo de quarenta e três, como se vê da 
certidão Let." B, que ainda, q. pelas inclemências do tempo não se 
pudesse passar a outra banda ; como a posse se conserva no animo, 



(1) E' o auto de posse do arraial de Santo António da Campanha de Rio Verde publi- 
cado a fls' 10 do vol. XI do Archivo. A menção da assignatura de Lustosa serve para 
identificar este documento. O da lettra B deve ser o auto da posse do Rio Sapucahy da 
pagina 15 do mesmo volume. Os outros documentos mencionados nesta representação não 
têm sido encontrados. 



— 205 - 

e aquelle acto era ractiflcaçao do passado, não pode haver duvida, 
para q. a haja na tal posse, q. tem adquirido este h^enado, ainda q. 
senão pasasse a outra banda, porque não era precizo. 

«Sendo q. ainda q. não contase, corao a V. Exa. se faz manifesto 
jelas certidoens juntas, a tal posse ; os actos judiciais, q. naquelles 
destrictos se tem opperado desta comarca por tantas vozes, assas 
evidencia davão de q. a eíla pertencia a jurisdissão, sem a mais leve 
controvercia ; porq. alem dos ofiiciaes de Ventena lâ terem feito va- 
rias deligencias e prizoens, e de algumas mortes q. da parte de lâ 
tem socedido, se tem tirado cã as devassas ; como a que se tirou da 
morte de hú João Angelo, e da de hú Paulo de Araújo corao consta 
das certidoens Let.» C. e D. e por parte do juizo dos doíuntos e 
abzentos desta comarca se mandarão buscar os bens dos tais defun- 
tos q. se arematarão na hausta publica : como também se tem co- 
brado os dizimos por parte dos contratadores desta capitania com 
qm. se tem avançado os moradores daquelle continente, eomo o mos- 
tra a certidão dos créditos dos avançados Let.a E. se cobram os quin- 
tos não sô das cargas, e escravos, que entrão dessa ( apitania por 
parte dos contractadores desta, mas se tem cobrado as capitaçoens na 
Real Intendência desta comarca. 

«E quando não ouvesse aquella posse q. consta das primeiras 
certidoens, alem de a ter já tomado o dr. Ouvidor Gl. q. foi desta 
comarca; quando veyo asistir corao superintendente das terras mine- 
rais, logo, q. se descobrirão estas minas, mandando á outra banda do 
rio fazer aquelles actos, q. estão con direitos estabelecidos para ac- 
quizição da posse, como se acha nos livros da superintendência desta 
mesma comarca; bastavão aquelles actos, para q, se conservase na 
mesma tranquilidade, en q. thô agora tem insistido sem contradicção 
alguâ administrando justiça, sem q, agora se perturbase a sua juris- 
dição com tal violência, q. a forsa de armas se empedio a esta ca- 
mera o desforçarse, tomando por escudo q. V. Exa. asim o ordenava, 
e daquella sorte o resolvera. 

«V. Exa. não pode duvidar q. os certoens, que se achão incultos 
pertencem sem contradição a qm. primeiro entra, e aquoUa comare* 
q- nelles primeiro fas pre venta a sua jurisdicção, o havendo esta pre- 
venção desta, e tantos actos para acquizição da posse sem contradic- 



^ 206 — 

ção alguâ; parece direito solido, e incontestável não se poder, não sô 
usurpar a jurisdição desta comarca mas nem ainda privarse da sua 
posse a Gsta camera: Sendo, q. ainda q. por ordem de S. Magestade, 
esteja detriminado, q. os descubertos novos íiquera pertencendo aquel- 
la comarca, e Governo, en q. se derem ao manifesto, nem ainda asim 
merecia violência tão desmarcada este Senado; porq. aquella Real 
Resolução parece se deve entender naquelles certoens, q. ainda não 
estiverem sugeitos a este, ou aquelle Governo, a esta, ou aquella co- 
marca, alem de senão poder já chamar novo aquello descub&rto; pois 
o Guarda Mayor deste destricto, ainda muito para diante, tem feito 
varias repartiçoens, como se vô da certidão Let.a F. e ao mesmo Lus- 
toza lhe couberão algumas terras como se vô da certidão Let.a G. 

«E se a esta comarca não pertence aquelle continente pelas cir- 
cunstancias, q. representa a V. Exa. este Senado, com mayor res- 
peito não sendo, como não he já novo aquelle descuberto, e estando 
já nelle preventa, posse tomada, e ratificada por tantos actos destin- 
títos, como pode pertencer a Caraera de S. Paulo, não havendo mais 
q. esto violento acto, con q. o tal Lustoza em nome de V. Exa, per- 
turba a posse desta Camera, e uzurpa a jurisdicção ordinária a esta 
Comarca a forsa de armas; e som embargo q. o desforço ho prome- 
tido en direito, sendo solido o deste Senado, como todos somos vasalios 
da mesma M., assentou não fazer opperação, sem primeiro dar a V. 
Bxa- esta conta, esperando q. V. Exa. lhe dê a providencia preciza 
para se evitarem: não sô tantos toraultcs, o mutins, mas para q. não sa 
continuem na perturbação do socego publico deste Povo, a posse legal 
deste Senado, e se izente esta Camera de procedimento tão violento ; 

«Certificando a V. Exa. q. o tal Lustoza se determinou a fazer 
esta operação pellas varias dividas, q. tem contrahido nesta Comarca 
o ivitar a requerimento dos seus credores varias execuçocns, q. lhe 
estavão imminetes: e o descobridor Jozé Pires Monteiro capitara do 
Matto por viver com mayor socego, evitando as pressiguiçoens justas 
da justiça pellas varias mortes, en q. está culpado em algumas de- 
vassas, q. se tirarão nesta comarca; e hii Bento Corrêa do Mello por 
se eximir de vários crimes de q. actualmente se está livrando: e hú 
Joseph Manoel montanhês verdadeiramente chamado Fernando Perei- 
ra Soares de Albergaria, por lhe parecer, q. estando daquella parts 



— 207 — 

teria mais descanço no temor das justiças deste Governo, pelo crime 
de caaa de Moeda, en q. saliio com o Escrivão do tal Lustoza culpa- 
do, e criminozo. 

«E como todos estes tenhão estes delictos, parecendo-lhes q, asini 
capiharião mais os seus insultos, sem mais atenção q. ao seu sucego, 
levantarão cabeça amutinandoce para effeito de se exemirem das jus- 
tiças desta comarca perturbando a jurisdicção e pacifica posse desta 
Camera. com o pretexto de q. V. Exa. assim o mandava, incumbin- 
do-lhes defendessem o posto, eu q. se achão armados, não consentin- 
do q. entrace justiça deste Governo, ainda q. expuzesscm as suas 
vidas a todo o risco. 

cEstes são, Ulmo. e Exrao. Sr. os motivos, q. ao Senado desta 
Comarca obrigão a liir a prezença de V. Exa. a pedir, o requerer da 
parte de S. M. q. V. Exa. mando logo desestir de tal violência, para 
q. não nasção mayores distúrbios, nem haja insentivos para q. te- 
nha mayores despezas na conservação da sua posse esta Camera, q. 
espera polia detriminação de V. Exa. para se evitar tanto dezasoce- 
go, em q. S. M. não tom lucro, antes o mayor prejuízo, por não 
querer perturbaçoens, e motins nos seos Povos, mas sim q. se con- 
serve em tranquilidade os seos vasallos, sem q. haja entre elles os 
mais leves dezasocegos; e sem embargo q. esto Senado os experi- 
menta nas perturbaçoens injustas na sua posse, o esta comarca da 
jurisdicção ordinária, asentou não sahir deste destricto, sem esperar 
(para melhor rezolução do seu desforço) a de V. Exa. motivado não 
tanto pellos documentos jurídicos cm q. fuudamentou a sua posse, e 
jurisdição, quanto por atentar q. V. Exa. não tem dado cooperação 
alguâ para tantos arojos, nem concorrido para tantos insultos. 

«Deus guarde a V. Exa. muitos annos. Campanha do Rio Verde 
em < amera 23 de Mayo de 174ô. E ou escrivão da Camera Joaquim 
Joseph da Sylvoira o sobscrevy. 

«Illruo. e Exmo. Sr. d. Luiz Mascarenhas. De V. Exa. Os mayo- 
res e mais reverentes veneradores, Francisco de Mendona de Saa, Ve- 
ríssimo Giz. Ribeiro, Pedro do Valle e Sylva, António de FinJio Mon- 
teiro, Luiz de 'Souza.» 

Para o presente estudo o que ha do mais interessante neste do- 
cumento é a confissão, do accôrdo com as tradições paulistas já cita- 



— 208 ~ 

das, que a camará de 1743 não passou para a margem esquerda do 
rio, e que o auto de posse, que ó evidentemente o documento Lettra 
B da representação, fui lavrado na margem direita ou talvez, confor- 
me a tradição já referida, no meio da corrente. Feita esta confissão, 
a camará de 1743, composta de outro pessoal, procurou desfazer o 
seu pffeito declarando que «ainda que pelas inclemências do tempo 
não se pudesse. passar á outra banda, como a posse se conserva no 
animo, etc, não era preciso.» Assim a camará dá á phrase do auto 
de 1743 <até a este rio da outra banda> a significação de incluir a 
outra banda do rio Sapucahy, quando todas as circumstancias indi- 
cam que a verdadeira intenção era declarar que,— a nossa posse an- 
tiga se extende até a Serra da Mantiqueira de uma banda e até este 
rio da outra. A favor desta interpretação da phrase ura tanto equi- 
voca militarn : o facto confessado da camará de 1743 não passar para 
a margem esquerda do rio; o costume do tempo, provado por diver- 
sos autos de posse, de lavrar estes actos no extremo do território 
reclamado; e, mais do que tudo, a declaração categórica oito dias an- 
tes, em Santo António (remettida sob Lettra A pela camará de 1746) 
e dous dias antes em São Gonçalo, da mesma camará que a sua pos- 
se se extendia «até o rio Sapucahy.» 

Os outros argumentos da representação, baseados numa carta do 
governador de São Paulo, em actos de jurisdicção exercidos no terri- 
tório litigioso e accusações contra Lustosa e os seus companheiros, 
não offcrecem actualmente pontos de interesse para o presente 
estudo. São pontos que hoje não podem ser verificados, e, em vista 
do espirito inventivo revelado no tópico acima discutido, as afiBrma- 
ções da camará não podem, na ausência de confirmações, ser accei- 
tas como absolutamente concludentes. 

Ao receber a representação da camará de São João d'Bl Rei, d. 
Luiz Mascarenhas já se achava informado dos aconterimentos por 
uma carta de Lustosa que não tem sido encontrada e pela seguinte 
carta de Verissimo João de Carvalho (*) 



(1) A letra e a redacção de<4ta carta, como as da de Lustosa reproduzida mais 
adeante, indicam que os seus auctores eram pessoas de instrucção pouco vulgar naquelld 
epocha. 



— 209 — 

<Ilmo. e Exmo. Snor. Assim que vira da cidade cora resposta 
do Dor. Ouvidor Reraety hura propio a toda a pressa para a Carapa- 
nha do Sapucahy que ontora ou hoje o faço chegado lá, e neste 
mesmo dia Recebi carta do Goarda Mór em que me dis vie ão os of- 
flciaes da Caraera do Ryo dos mortos e o que com eles pasou ; e 
como escrevo a V. Exa. rae parece lhe dará tarabem corata cora em- 
deviduaçara, e corao nâo forão satisfeitos se pode teraer tornem com 
outra prevenção e que nesta possa aver alguma mina o que não per- 
raitta, e por ser preçizo remeto a V. Exa. a carta pois me não he 
possível hir posoal, e a Camera desta villa se acha com animo de hir 
socorrer aquelle descuberto e tomar posse dele sendo que V. Exa. 
assim o haja a bem ficando lhe tributário o d.» descuberto e alguns 
mais rendimentos que lhe possão tocar para ajuda das despezas que 
fas este Cone.» visto ter nele poucos rendimentos e V. Exa. desculpe 
esta confiança pois falo neste matéria orateressado no bera e aumento 
desta villa pois lhe fica na fronteira do seu terrao aquela Campanha. 
Deos guarde a V. Exa. para seu agrado corao pode. Vila de Mogy 
e de maio 1 de 1746. (1) De V- Exa. O mais omilde servo Veríssimo 
João de Carvalho. > 

A resposta de d. Luiz Mascarenhas á representação da camará e 
as ordens expedidas para manter a jurisdicçáo da capitania de Sâo 
Paulo já tem sido, por varias vezes, publicadas ; mas, para maior 
clareza, convém roproduzil-as aqui : 

cRecebo as Cartas de Vossas Mercês, de 23 do mez passado, em 
que me representão o intento cora que se achão de estender os Limi- 
tes da sua Comarca, e jurisdicção, mettendo dentro delia o novo des- 
cuberto de que he Guarda Mór com Provisão rainha Francisco Martins 
Lustoza, e de como este lhe disputara a Passagem do Rio Sapucahy 
para a banda desta Comarca ; e porque a conjunctura em que pre- 
sentemente me acho occupado, não só com a expedição dos Quintos 
de Goyaz para o Rio, mas cora outras do Real Serviço, me não dão 



(1) Esta data se acha claramente escripta no original, mas é evidentemente errada 
visto que a carta se refere aos acontecimentos que tanto a camará como Lustota noti- 
ciaram com a data de 23 de Maio e que deviam ter sido da véspera. A verdadeira dat» 
desta carta devia ser maio 31 ou jtinJio 1. 



- 210 — 

tempo para responder positivamente ás diffiísas razões cora que Vos- 
sas Mercês pertendem justificar a sua intenção, só o tenho para lhes 
segurar, que hei de defender de toda a sorte a posse que por parte 
desta Comarca e Capitania tem tomado, e está sustentando o dito 
Guarda Mór, pois já parece ambição desordenada quererem Vossas 
Mercês com passo lento introduzir-se por toda esta Comarca, pretex- 
tando este attentado com posses clandestinas e suprepticias, que não 
podo produzir offoito jurídico, com prejuízo das justiças desta Co- 
marca, auzente, e ignorantes dessas chamadas posses tomadas a sur- 
dina. Sei muito bem que Sua Magestade não quer motins entro os 
seus povos, mas também sei que o mesmo Senhor não quor que huns 
se introduzão pelas jurisdicções dos outros ; e para o evitar he que 
foi servido mandar demarcar os Limites de cada hum, para cada qual 
saber o que he seu, e o que lhe toca : o como este descuberto incon- 
testavelmente se acha dentro da demarcação desta Comarca e Capi- 
tania, e as suas terras já repartidas pelo Guarda Mór com ordem 
minha, a mim me toca defendê-lo, o que protesto fazer em pessoa 
ao primeiro aviso que tiver de qualquer operação que Vossas Mercês 
intentem contra o dito Guarda Mór, e nenhum embaraço me fará a 
mim a minha Carta de 4 de Março de 1743, com que Vossas Mercês 
me allegão, porque se neste tempo condescendi com a supplica de 
Vossas Mercês mandando retirar a Bartholomeu Corrêa Bueno, foi 
por evitar maiores desordens, e por se ter tomado posse primeiro por 
essa Comarca, sem embargo de reconhecer que pertencia a esta ; mas 
como vejo que Vossas Mercês abusando da tolerância que então tive 
continuão na sua ambição, querendo espoliar-nos da posse que já te- 
mos, não posso agora usar de outro procedimento mais do que de 
defender o que toca a esta Comarca, e de dar para isso todas as 
ordens e auxilies necessários; e reconhecendo Vossas Mercês a sua 
sem razão, e parando cora suas conquistas, sem entenderem, ou in- 
tentarem pertubar o dito Guarda Mór, e mais ministros do dito des- 
cuberto, he que farão o que Sua Magestade quer, e poupar-me-hão 
huma jornada desta Villa á essa Campanha. 

« Ao Doutor Ouvidor de S. Paulo ordeno passe logo a esse ar- 
reia! a dar as providencias necessárias, não só para a administração 
da Justiça, mas para a cobrança da Fazenda Real, por ser o único 



— 211 — 

Ministro de Sua Magestade, que reconheço com jurísdicção nesse dos- 
cuberto. e estou certo que nem a Fazenda Real, nem a dos particula- 
res, lia de ter o raininio prcjuiao em ser esse descuberto governado 
nesta Comarca, porque Saa Magestade tem nelles Ministros escolhi- 
dos e mui zelosos, que hao de cuidar muito da arrecadação de huma, 
e distribuição de outra. Deos Guarde a Vossas Mercês muitos an- 
nos. Praça de Santos, 8 de Junho de 1748. D. Luiz Mascarenhas,^ 

Com a mesma data foi dirigida ao guarda mór Francisco Martins 
Lustosa a seguinte carta : 

« Na carta que Vossa Mercê me escreve, de 22 do Maio, vejo a 
noticia que me dá do attentado que cometterao os ofiaciaes da Ca- 
mará do Rio das Mortes, e o louvável modo com que Vossa Mercê 
lhes rebateo o animo com que vinhão de espoliar a Vossa Mercê, e 
a esta Capitania, da posse era que está desse descuberto : em tudo 
obrou Vossa Mercê cora tanto acerto, que novamente lhe recommen- 
do a mesma constância no caso que olles voltem a querer insistir na 
sua teima, e ainda que entendo o nâo farão, baldando segunda vez 
a sua viagem ; porém no caso de o fazerem, Vossa Mercê sustentará 
a todo o custo as ordens que lhe tenho dado, não lhes consentindo 
que facão acto algum possessorio, ou de jurisdicção, antes me fará 
logo aviso, porque quero ter o gosto de ir pessoalmente a esse des- 
cuberto com alguns soldados desta praça, e fazer conduzir presos 
para a fortaleza da Barra Grande, não só as justiças, e officiacs pos- 
tos pelas Geraes, mas também o mesmo Ouvidor do Rio dás Mortes, 
se ahi vier, o que infallivelraente hei de executar ao primeiro aviso 
que Vossa Me. cê me der. Pelo que respeita ao mais em que Vossa 
Mercê me falia da administração da justiça, escrevo nessa matéria 
ao Doutor Ouvidor desta Comarca para dar as providencias necessá- 
rias, o ir a esse districto pessoalmente. Deos Guarde a Vossa Merco 
Praça do Santos, 8 de junho de 1746.— D. Luiz Mascarenhas. > 

Ao Ouvidor Geral da Comarca de S. Paulo, dr. Domingos Luiz 
da Rocha, foram dadas as seguinte ordens : 

« Remotto a Vossa Mercê as Cartas inclusas do Guarda Mór do 
novo descoberto da Campanha de Sapucahy, e também o que me es- 
creveo a Camará do Rio das Mortes nas quaos verá Vossa Mercê o 
que de parte a parte se tem passado, e a renitência desses homens 



— 212 - 

das Geraes era se introduzirem por esta Comarca e Capitania, e pelo 
que vou vendo, se lhe nao acudimos a cortar o passo, em pouco tem- 
po chegarão a dizer, que também essa cidade lhes pertence, e assim 
torao a resolução de dizer a Vossa Mercê da parte de Sua Magestade 
que logo passe ao dito descuberto e dar as providencias necessárias 
não só para a boa administração da Fazenda Real, procurando que o 
Juiz Ordinário que se eleger seja pessoa de contidencia e satisfação 
porque como nos arraiaes pequenos são os Juizes os que acostumão 
a cobrar a Capitação, he preciso que soja pe«soa capaz, a quem Vos- 
sa Mercê deve encarregar essa diligencia, nomeando intendente do 
descuberto, e instruindo-o no raodo cora que deve fazer a arrecada- 
ção dos quintos de Sua Magestade na Capitação dos pretos, e para 
esse effeito levará Vossa Mercê os bilhetes, que era caria particu- 
lar lhe mando tirar dos caixões que trazera as sobras de Goyaz para 
com elles se fazer a Capitação no tal descuberto ; e no caso que 
Vossa Mercê queira soldados para o acompanharem nessa diligencia, 
com aviso de V. Mercê os farei pôr promptos, e tarabera eu o açora- 
panhára se rae não achasse tão occupado, como estou, com a expe- 
dição dos quintos, e outras diligencias do Real Serviço para irem na 
frota ; mas em caso de necessidade estou prompto a ir pessoalmente. 
Vossa Mercê fará o que entender he de razão e justiça, com o seu 
costumado acerto, obrando em tudo cora prudente accordo, e procu- 
rando evitar todo o género de turaulto, ou desordera, entre os povos, 
o que muito lhe recoraraendo ; e se a Vossa Mercê se lhe offerecer 
alguma duvida contra minha resolução. Vossa Mercê, como Ministro 
de Sua Magestade, rae participará cora toda a brevidade, porque o 
meu animo he somente obrar com acerto, e o que fôr a bera do ser- 
viço de Sua Magestade e de seus povos. Levará Vossa Mercê dessa 
('idade dous Livros, que rubricará, e pagará a despeza dellòs o Dizi- 
raeiro dessa Cidade, de que se lhe passará conhecimento para nelle 
se matricularem as Loges. Deos Guarde a Vossa Mercê, 8 de junho 
de 1746. D. Luiz Mascar enho s .■» 

cCorao era outra carta ordeno a Vossa Mercê passe ao novo des- 
cuberto do Sapucahy para nelle dar as providencias necessárias para 
a administração da justiça, e cobrança da capitação, e fazenda de Sua 
Magestade, e para esse effeito julgo conveniente levar alguns bilhetes» 



— 2:13 — 

que me parece bastarão 500, e nessa cidade se achão ainda os caixões 
que trazem os oilhetes, que sobejarão em Goyaz, 'Vossa Mercê, na 
presença de seu escrivão, com as solemnidades que Vossas Mercês 
costumão em semelhantes actos, fará abrir um caixão^ e tirando 500 
bilhetes os guardará para os levar para o dito descuberto, passando 
conheciraen o era fórraa ao cabo que conduzio de Goyaz os quintos, o 
qual se acha nessa cidade para se remetter para a Côrte, do que me 
fará aviso. Deos guarde a Vossa Mercê. Praça de Santos, 8 de Junho 
de 1746. — D. Luiz Mascarenhas». 

O ouvidor da comarca de S. Paulo, tractou de dissuadir o gover- 
nador da sua resolução na carta seguinte : 

*lllmo. e Exmo. Sr.—óa. a V. Bxa. insinuey a iraport^- delig.» era 
q. me acho p.» ver se de alguá sorte posso roçarsir o furto q. a S. 
Mage. se fes de sinco ou seis arrobas de ouro era q. não cesso com 
a exaçara divida p.a na frota, q. está a chegar, dar conta como se 
rae recoraenda do que tenho obrado, e q^o. v. Exa queira continuar 
na deliga- do Sapucahy mo parece não estar em termos disso, refle- 
ctindo na representaçam q. a V. Bxa. fes a Cara*- do Rio das Mortes 
com os docum^cs. q. juntou, os quaes a m». prez?* não pode desva- 
necer, não tendo outros q. os convença, poys huã posse tomada paci- 
flcamte. sem contradiçam algua e rateticada tantas vezes com actos 
possessórios, senão interrope pello adversário só ordinariamte. conven- 
cido, poys o dirto- só perraite desforçarce o espolliado ; e não o espollia- 
dor, e nesta certeza ja a Cama- não cede da sua posse, e ficam evi- 
dentes as desorííens q. poderão resultar em dezaçocego dos povos : o 
como a mesma Cara»- alem das certidoens q. a V. Exa. fes patente 
corroborar com a carta de V. Exa, de 4 de Mço. de 743, em q. V, 
Exa. mandou retirar do mesrao descuberto a Erm^u. Corrêa Bueno, 
pa. q. aquella comca. concinuaco na adrainistraçam da just»-, logo como 
se podem desvanecer estas realidades p^^- corar as violências de q. se 
queixão obradas por criminozos só a izentarençe de serem punidos 
pellas justas- onde existem as suas culpas e como a estas desejarão 
acomular mais fiados era puder mayor, deve V. Bxa. atender a esta 
infalivilide. e q. S. Mage. não raanda a forsa de armas decedir as du. 
vidas, q. se movera entre jurisdiçoens, poys se deve recorrer ao raesrao 
Sr. a qm. toca o decedillas como tributo anexo a sua soberania, e 



— 214 — 

qd.o V. Bx.a assim o haja por bem, cora esta rezoluçam ficará suce- 
gada aquella Cam.^ ficando tambô conscrvandoçe a inteyreza da carta 
de V. Ex.a, de que também se vallem para a just.-^ q. lho assiste : E 
suposto se pertenda tomar posse por p^. desta Capitania, havendo q"i- 
a encontre fica sem eííeyto algum na censura dedir^o. e dispoziçam da 
ley e posto na prezí-^^- do S. Mage., contra a sua Real Rezoluçam não 
ha de haver q™- se atreva, e sem aquella suposta em termos em q* 
as couzas se achão, ííiio infaliveis as consequências perniciosas, q. o 
mesmo Sr. não ha âc haver por bem, pertencendolhe o docldillo como 
Sr. das jurisdiçoens : Isto ó o q. se mo offerece dizer a V. Ex.a, q. 
mandará o q. for mais conv^e. p.a sucego dos povos, e q. S. Mage. 
determine o q. for servido. Deos gf^^- a V. Ex.a mtos. annos. 

Sam Paulo, 17 de Juuho de 1748. — O Ouvor. e Corcr. da ComC'*^- 
Dr. Domingos Luiz da Bocha*. 

A segunda carta do guarda-mór Lustosa dá uma interessante no- 
ticia de vários actos da camará durante o mez pouco mais ou menos 
em que permaneceu (mas não em completa ociosidade) no arraial da 
Campanha, esperando resposta não somente á carta que tinha dirigido 
ao Governador de São Paulo, como também ao da sua própria Capi- 
tania, que na occasião era Gomes Freire de Andrade. 

Eis o teor da carta : 

<Illmo. e Exrao. Sr.—Hontem que foy dia de S. João, por noutc, 
Rce. a de V. Exa., de 8 do junho ; e com ella motivos de render a 
Deos. e a V. Exa. muitas graças ; N. Sr. me ajude para que sempre 
obre em seo servisso, e no do V. Exa. a soo gosto : 

<Depois que partio o próprio, fes taes extremos o Senado da Ca- 
mará do Rio das mortes, que me precizava cá minha obrigação, a que 
logo mandace outro propio ; porem acentey commigo dar parte de tudo 
no fim de tudo o que rezultace de soos inquietos ânimos ; e agora o 
faço na extenção desta : 

«Intentou aquelle Senado por apayxonados o com cores de ami- 
zades fazer sahir deste estabelecimento todos os que mais calor me 
podiam fazer; e vendo que por este caminho o não conseguiam, pu- 
zeram o edital induzo em varias partes para que o temor fizece com 
que mo dezamparacera : a isto acodi eu cora erapedir a passagem aos 
de pouco ser e discurço, quo os que o tom, sempre me assestiram, 



— 215 — 

inda qu9 cora algam dispêndio seo : entraram a erapcdir os manti- 
mentos para que faltandonos, a necessidade os persuadice a sahirem ; 
e vendo que do nada Uie surtia effeyto, mandaram carpinteiros a fazer 
canoas para nellas passarem á força do armas, para o que vieram era 
companhia delles oyto ou dés capitães do mato ; depois de estarem 
nesta deligencia os carpinteiros, com a dita escolta, que por todos 
faziam 22, hum delles me mandou dizer, que trazia ordens p.» fazer 
dospropozitcs, como hera embargar e prender a q™- viece com man- 
timtos. ou sem elles, e isto hera no cara.» muy perto do porto prin- 
cipal do Rio onde cu estava cora a raayor p^e. dos homens deste des- 
cuberto. Dou louvores a Deos por me dar prudência neste movim^o-' 
q. o mais q. íis, foy escrever a carta q. induza remeto, a hum dos 
carpentroâ. que lie morador naC:amp.a do E.o verde e veyo obrigado: 
Com a tal se retiraram logo e deyxaram o caminho franco. Tirou o 
senado huma devassa como se foce de hum levantamento, e como a 
taes nos apelidavam. E nos tem criminado em suas devaças ; e não 
deixo de temer q. se acazo lá apanharem alguns os prendam ; porq- 
he muy próprio de quem obra loucuras semelhantes não se deixar da 
openiam q. julga acertada. 

«Agora Ulmo. e Exmo. Sr. pondera o raeo fraco discursso q. com 
mais cauza se pode devassar deste Senado, pois está claro, q. reque- 
rendo lhe eu da pte. dEl Eey e de V. Exa. mo não perturbacem no 
servisse de El Eey em q. estava ; e fazendo-o elles tara mal, q. com 
orgulhos e tudo o q. tenho mencionado não só me perturl?aram e ao 
povo ; mais inda foram de grande prejuízo á Eeal fazenda, porq. es- 
tavão com despachos p.=^ fazerem suas bandr^s. e cora as referidas 
revoluções se deyxaram de suas pretenções por gastarem o surtimto- 
q. tinham : e outros não lavravam as terras q. por mira lhe foram 
concedidas, timoratos de abrirem ob servisses p^- outrem, o q. seria 
q<io- elles cá ontracem, q. diziam haviam de fazer nova partilha ; e 
os q. heram de fora estavão com decignio de so estabelecerem se 
retiraram emthe ver em q. paravão as couzas finalmente muitos dey- 
xaram por estes motivos, de pagar a real capitação e todos tiveram 
grandes prejuízos ; sendo eu o q. no meo tanto o exprimentey mayor . 
porq. aliem de gastar cora a guarnição q. pus nos três portos do Rio 
mais de duzentas oytavas, deyxey de extrahir mais de outras tantas 



- 216 — 

cora a falta da minha assistência e dos escravos q. levava commigo 
qdo. hia, vinha, ou estava, q. hera o mais do tempo ; esta devassa 
me parece tam justo o tirarce p»- exemplo das camarás mal adverti- 
das na sua obrigaçaií como he justo tiralla de qm. move hum levan- 
tamento ou civilidade ( q. movida estava se Deos me não favarecece 
com prudência) e cazo q. seja penozo ao dr. Ouvidor o vir tiralla, e 
me queyram honrar cora a comissam pa- a tirar, prometo fazello tam 
bem, como q°i- dezeja acertar. 

«Achavace naquella Camp.a cobrando a capitação o fiscal Fran- 
cisco de Crasto Costa e hera tara apayxonado, q. vendo q. não entrou 
a Cam.a aonde queria, odiou do tal sorte os assistentes neste pahis 
na occaziara, q. hindo a pagar lhe alguns q. inda não tinham pago e 
estando cora a matricula aberta, lhes não quis aceytar o ouro, nem 
capitar, era forraa q. foy nessecr.» meterem lhe valimtos. p.a q, o 
aceytacem, e o aceytou por grande indulto a alguns, e a outros não ; 
dizendo q. todos os denunciava era chegando á villa ; deste e de alguns 
apayxonados raais q. cora o senado araotinavão e arguyara me parece 
precizo devassarce. 

«Tambera rae parece precizo q. V. Ex.» se digno ensinuarrae a 
forma, era q. hey de livrar de susto, aos q. tera particulares, e le- 
tigios naquella villa ou Comca. do Rio das raortes onde todos esta- 
mos crirainozos pela devassa q. tirarara como assima digo, e consta 
do seo Eiital; porq. bera ou mal se os prenderem ham de cuydar 
era os destroir. 

«O Govor. (jas rainas respondeu lhe o que elles lhe escreveram 
pedindo lhe favor, q. S. Magde. o não punha naquelle logar p». 
fomentar cívilid^s-, mas sim, p». acomodação dos povos; e que visto 
terem dado pt^. a V. Exa., lhe mandacem a resposta q. tivecera 
com a devaça que haviam tirado, p». a mandar a S. Mag^e. ; espe- 
raram erathe q. chegou o propio q. lá mandaram, e com a chegada 
delle se retiraram p". a villa a 21 do corrte., pareceme q. mais 
envergonhados q. satisfcytos. Mais houvera de dizer; mas receyo 
ser tam erafadonho e molesto a V. Exa., q. lhe cauzo fastio, e em 
outros p'ios. falarey a seu tempo. Era todo prospere Deos a V. 
Exa. cora duplicadas felicidades pa. meo amparo e deste estabeleci- 



— m - 

mento, e o Ge. ms. as. S. Anna de Sapucahy, 2õ de Junho de 1746; 
—Criado de V. Exa., Fraru^o. Miz. Lustoza:* 

A este respondeu d. Luiz Mascarenhas na seguinte carta, já pu- 
blicada á pagina 911 do Archivo, vol. XI : 

«Pela que presentemente recebo de V. Mcô. venho no conheci- 
mento de q;íe tudo quanto tom obrado nesse novo descoberto do Sa- 
pucahy tem sido comtudo o acerto e muito principalmente em fazer 
conservar a posse, que por parte desta Capitania tomou do mesmo 
descoberto, visto se achar indubitavelmente dentro dos scos Icmites, 
e jurisdiçam, o que se comprova pela copia da Real Ordem, que com 
esta remetto a V Mcê. na qual foi R. Magestade servido determinar 
athé onde se devia extender a demarcaçam desta come»- com a das 
Minas Geraes, em cuja conformide, e observância tenho por obrigaçam 
de meu cargo a providenciar e acudir nao deixando perder a mais 
minima pt^. do q' me toca, e assim novamente recomendo a V. Mcô. 
q' a todo custo não consinta q' as justiças das geraes entre nesse 
descoberto a fazer acto algum, no cazo de quererem neste tornar a 
introduzirse. Pelo que respeita a devassa em q' me falia escrevo ao 
Dr. Ouvor. Geral desta Comca., e sobre esta matéria seguirá V. Mcô. 
o que Obte lh'ordena, e assim nesta como em outra qi- qr. q'. se lhe 
oferecer, flco certo q', V. Mcô. se ha de haver com prudência, e 
acerto. D^. G^. a V. Mcô. 17 de julho de 1746.— D. Luiz Mas- 
carenhas. Sr. Guarda Mór do novo descoberto de Sapucahy, Fran- 
cisco Miz. Lustoza.» 

Segundo esta carta de Lustosa, o conflicto terminou píovisoria- 
mente a 21 di junho com a retirada da camará de Sao Jofto d'Bl-Rei 
á espera da solução que, conforme a judiciosa determinação do go- 
vernador de Minas, devia ser dada pelo governo de Lisboa. Ao que 
parece, houve durante um anno paz no districto até que os ânimos 
foram de novo perturbados com a noticia da próxima chegada da 
esperada resolução, conforme se vô da seguinte correspondência, já 
publicada no vol. Xí do Archivo, á pag. 912: 

< Ulmo. Exmo. Sr.— Haverá des dias se me deu a noticia de 
ser chegada ao Rio de Janeiro numa náu que partiu do Lisboa na 
conserva da frota, e logo depois outra, de estar com effeito toda re- 
colhida: cujas novidades acredito pela razão do tempo, que como 



oste logar fica reraoto, tarde se sabe aqui o que já nas mais partes. 
so faz velho. Hontera receby uraa carta da Campanha na qual se 
me pede viva acautellado porque infalivelmente conspiram contra mim 
os do partido das Minas Geraos por ordem de S. Magestade e supos- 
to não ignoro que V, Exa. teria resposta do conselho sobre os fun- 
damentos com que lhe escreve que a não o fazer este assim, so deve 
prezumir obrou apaixonado; se me fa/ preciso dizer a V. Exa. que 
alguma perplexidade me causa esta contumácia, e necessariamente ca- 
roço de que V. Exa. me ordene o que hei de obrar ou o como me 
devo portar nesta matéria, no caso que ponhão em execução o seu 
dezejo; devendo V. Exa. juntamente supor que vivo com uma gente 
inconstante que invejozos das honras com que V. Exa. me trata 
receyo, me maquinem o que o meu aífecto lhe não merece, porque 
me sei fazer lembrado das recomendaçons que V. Exa. me fez. 

cFico esperando a certeza de que V. Ex. está asestido da mais 
perfeita saúde. Deos Guarde a V. Bx. muitos annos. Sapucahy 11 
de Agosto de 1747. — Criado de V. Es..— Francisco Martins Lustoza»T> 

A julgar pela seguinte resposta, esta carta acha- se truncada. 

«Recebo a carta de V. Mc6. de onze deste mez era que me par- 
ticipa o aviso que se lhe fez da Campanha para viver acautellado a 
respeito dos moradores das Geraos, por terem estes decizão de S. 
Mage. na prezente frota em que o dito Snr. por ordem Sua adjudi- 
cou esse descoberto ao destricto o jurisdiçam daquelle Governo, e os 
receyos que V. Mc6. tem, de que com armas queirão os das Geraes 
expulsal-o, servindo de corroborar esta conjectura alguns Dragoens 
que se achão já na dita Campanha sem se saber o fim a que se di- 
rigio a sua vinda, e o mais que V. Mcé. me expende na sua carta. 
Porem cu me não posso, nem deyo persuadir a que os ditos mora- 
dores entrem em algum procedimento, ou esbulho contra V. Mcô. sem 
ordem pozitiva do seu Governador e que este a não dará para V. 
Mcô. ser attacado por Dragoens não só porque este raeyo he alheyo 
da razão e contra a mente do Soberano que não quer que os seus 
vasallos se destruão, ou contendão com armas, mas também porque o 
dito Governador me não tem participado athé o prezente ordem al- 
guma de S. Mage. relativa a esta matéria cuja parti cipaçam devia 
preceder a qualquer acto que se ha de obrar contra a posse era que 



^ 219 — 

V. Mcô. se acha por parte deste G-ovorno, o muito mais havendo 
nelle a ordem de que remetto a V. Mcô. a copia para conferirem os 
Governadores sobre a divizão das Capitanias por esta mesma para- 
gem. Mas ainda assim cazo que por parte das Geraes se entre com 
mão armada neste dcstrito, V. Mcé. do nenhum modo faça rezisten- 
cia, e somente fará hura protesto de que se retira pelo acommette- 
rem com armas mostrando ao Oííicial Militar ou Ministro das Geraes 
a ordem inclusa e requerendo lhe que eu estou pronto para conferir 
com o Governador das Geraes sebra a diviza das duas Capitanias em 
observância desta ordem, ou de me compromettor com elle era pes- 
soas idóneas que a faço; podindo-lhe juntamente o ordem que tem 
de S. Mage. para o novo incidente dizendo lhes a quer para com ella 
me dar parte antes de lhe ceder o território, e cazo que elles insistão 
V. Mcê. depois de feito o protesto lhe deixará, vindo, ou raandandome 
dar parte de que sueceder, porque obrandose a absoluta de attacar a 
V. Mcô. sem se me participarem as ordens de Sua Mag^. primeiro 
hei de hir, ou mandar infanteria desta Praça a sustentar com armas 
a posse deste Governo, porque he licito repellir huma força com ou 
tra. Deos G®. a V. Mcô. mt^^. annos. Vil la o Praça de Santos, 25 
de Agosto de 1747.— Dom Luiz Mascarenhas— Snr. Regente e Guarda 
Mór do descoberto de Sapucahy, Francisco Martins Lustoza.» 

Se effecti vãmente chegou nesta occasião alguma resolução do go- 
verno a respeito da questão de limites, esta não era de natureza a 
renovar o conflicto. A Provisão Regia de 30 do Abril de 1747, que 
devia ter chegado mais ou menos neste tempo, determinou a divisa 
pelo Sapucahy; e d. Luiz Mascarenhas, tendo mantido a posse pau- 
lista na margem esquerda daquelle rio. nenhuma providencia tinha 
de tomar a respeito. De outro lado, a camará de S. João d'El-Rei, 
não encontrando nesta Provisão Régia apoio para as suas pretenções, 
só tinha de ficar calada ou, quando muito, faaer novas representeções, 
como é de presumir que fli.esse, visto que no anno seguinte o governo 
de Lisboa expediu outra provisão— a de 24 de Agosto de 1748— abolindo 
a capitania de S. Paulo e auctorizando Gomes Freire de Andrade a 
traçar uma nova divisa - 

Para a completa elucidação das diversas questões que se pren- 
dera a estas duas provisões é necessário conhecer os documentos de 



- 220 _ 

origem mineira, e é muito para desejar que oUes algum dia appare- 
çara. No omtaato, ha alguma esperançA de poder encontrar as 
consultas do Conselho Ultramarino que precede am as duas provisões 
e neste caso terei de voltar ao assumpto. Já, porém, se pôde afiQr- 
mar que a resolução de extinguir a capitania de S. Paulo nao era, 
como querem alguns escriptores mineiros, uma lembrança do momento 
destinada principalmente a punir d. Luiz Mascarenhas pela insistência 
cora que defendia o que elle julgava ser os direitos da sua capitania. 
Conforme se vô á pagina 253 do volume XXIV do Archivo, já em 
1738 Gomes Freire de Andrade tinha suggerido uma redistribuição 
das capitanias do sul do Brazil e o governo tinha desde então o 
assumpto em consideração. A provisão de 17 18 dava preferencia á 
linha divisória pelos rios Sapucahy e Grande, defendida por d. Luiz 
Mascarenhas e estabelecida pela provisão de 1747, e o ex-governador 
de S. Paulo longe de ser punido recebeu logo uma importante com- 
missão na índia. 

S. Paulo, 17 de Fevereiro de 1900. 

Orville a. Derby. 



Auetoridades eoloniaes na raia de São 

Paulo e Minas Geraes durante o 

século XVIII. 



Francisco Martiíís Lustosa. — Verisslmo João de Carvalho. 
Jeronymo Dias Ribeiro. — Valério Sanches Brandão. 



MEMORIA LIDA NA SESSÃO DE 5 DE FEVEREIRO DE 190l DO INSTITUTO 
HISTÓRICO DE S. PAULO. 

Ao prep.irar a collecção de documentos relativos á questão de 
limites entre S. Paulo e Minas Geraes, que constituo o volume XI 
da serie publicada pelo Archivo do Estado, tive occásiâo do t^ mar 
algumas notas a respeito de diversas pessoas que, tomando parte 
mais ou menos saliento neste conflicto, tiveram notável influencia so- 
bre uma ou outra phase deste litigio e assim sobre a historia da re- 
gião litigiosa. Offerecendo estas toscas notas ao Instituto Histórico, 
é meu intuito prestar homenagem á memoria de alguns dos obreiros 
esquecidos do progresso desta parto do Brazil, na esperança de que 
alguém que tem accesso a outras fontes de informações possa algum 
dia completar os traços biographicos aqui ligeiramente esboçados com 
os dados encontrados no Archivo do Estado somente. 

Nas primeiras phases deste longo conflicto quatro commandantes 
dos postos avançados de um ou outro lado da linha litigiosa exerce- 
ram uma influencia decisiva sobre a marcha dos acontecimentos, as- 
sim merecendo que os seus nomes e feitos sejam lembrados na his- 
toria. Foram Francisco Martins Lustosa, Veríssimo João de Carva- 
lho, Jeronymo Dias Ribeiro e Valério Sanches Brandão. O primeiro, 
embora vencido, salvou paia S. Paulo o direito do se oppór á ex- 



222 



pansão indofinida^de Minas ao oesto do rio Sapiicahy, o segundo era 
um dos factores principaes desta expansão, que teria ido mais longe 
so nao fosse a vigilância e tenaz resistência do terceiro o o quarto 
segurou num momento critico para Minas a posse da região do Jacuhy. 

Francisco Martins Lustosa 




Este nome apparcce pela primeira vez, nos documentos consulta- 
dos, no auto de ratificação de posso lavrado a 25 de Fevereiro de 
1743 pelos officiaes da camará do S. João d'El-Rei, no arraial de 
Santo António, hoje cidade da Campanha. Tendo havido no anno 
anterior certa aííluencia de mineiros para as novas descobertas do 
ouro nas campanhas dos rios Verdo o Sapucahy, o governador de 
São Paulo, d. Luiz Mascarenhas, entendendo que estas, ou pelo me- 
nos a ultima, pertenciam ásua capitania, tinha nomeado um superin- 
tendente, ou intendente commissario, das minas do Sapucahy, na pes- 
soa de Bartholomou Corrêa Bueno. O apparecimento deste na região 
levantou a camará de São João d'El-Rei que reclamou a região para 
a sua comarca e para a capitania de Minas Geraes, motivando assim 
o referido auto de posse. Entre as assignaturas das pessoas que as- 
sistiram ao acto, vem logo em seguida ás dos officiaes da camará a 
de Francisco Martins Lustosa, donde se pode concluir que era ello 
um dos mais graduados dos moradores do arraial. Dos documentos 
consultados nada consta dos seus antecedentes, senão a sua nomea- 
ção em 1732 de tabellião na villa de Mogy das Cruzes. 

Conforme rezam chronicas paulistas, escriptas uns vinte annos 
depois {Archivo, XI, p 51), o delegado do governador de São Paulo 



— 223 ^ 

foi intimado a so retirar iucontincnti do districto, passando clle para 
o outro lado do rio Sapucaliy, onde, porém, não so encontra outra 
referencia a seu nome nos documentos relativos aos acontecimentos 
subsequentes . 

Três annos mais tardo Lustosa recebeu do governador de S. 
Paulo a nomeação do guarda-raór da nova descoberta de Santa Anna 
do Sapucahy, situada ao oeste do rio Sapucahy. Sobro a historia da 
fundação deste nascente arraial só temos as afiirmaçues da carta di- 
rigida a 23 de Maio de 1746 a d. Luiz Mascarenhas, pela camará de 
S. João d'EI-Rei. Segundo esta carta, a região tinha sido occupada por 
foragidos da justiça da sua comarca, sendo a descoberta de ouro de- 
vida a João Pires Monteiro, capitão do matto o criminoso do morte. 
Entro estes foragidos achava-se Lustosa, que se tinha tornado o 
chefo do movimento para a incorporação á capitania de S, Paulo do 
novo arraial, alcançando para si a nomeação do guarda-mór, sendo o 
motivo dotte procedimento o desejo do escapar aos seus credores. 

Logares novos o de jurisdicção duvidosa são sempre pontos pre- 
dilectos para aventureiros e foragidos e, uns dez annos antes, o ar- 
raial do Santo António tinha sido descripto em termos quasi idênticos 
pelo Ouvidor de S. João d'El-Roi. Assim ó possivel que as affirraa- 
ções da camará, embora visivelmente apaixonadas, fossem verdadeiras. 
Do outro lado, porém, Lustoea e os seus companheiros podiam res- 
ponder que tendo a própria camará declarado, em 1743, que o seu 
limite era o rio Sapucahy, nenhuma duvida podia haver. sobre a recti- 
dão do sou procedimento denunciando a nova descoberta ao governa- 
dor de S. Paulo. 

Aííirmi raals a cimara (esto vol. pig. 221 ) quo no districto da 
nova descoberta tinha havido repartição das minas feita pelo guarda- 
raór de Campanha, sendo o próprio Lustosa um dos contemplados, donde 
parece quo a sua mudança do Campanha para Santa Anna teve logar 
entre 1743 o 1746, mas algum tempo antes do começo dos distúrbio?, 
E" provável que uma vez ai li estabelecido tivesse ido a São Paulo con- 
ferenciar com o governador e otferecer os seus serviços para o esta- 
belecimento do dorainio paulista, recebendo em troco o posto do guarda- 
mór c a promessa do apoio. 



^ 224 - 

Inforraada da disposição do governo de São Panlo ora firmar os 
seus direitos na região, a caiuara de São João d'Bl-Rei poz-se em 
campo, mas, ao chegar ao rio Sapucahy, encontrou Lustosa disposto 
a disputar pelas armas a sua passagem, aliás diíRcultada peh retirada 
das canoas que serviam para este fim. Retirando-so para Campanha 
/ a caraara mandou a d. Luiz Mascarenhas a referida carta e indubi- 
tavehuente deu parte do occorrido ao governador de Minas. A res- 
posta do governador de São Paulo era uma declaração categórica do- 
seu propósito de manter a jurisdicção paulista e, no mesmo dia, 8 de 
Junho, elle escreveu a Lustosa applaudindo o seu procedimento o or 
denando-lhe que não consentisse em nenhum acto possessorio por parte 
da caraara e ofterecendo-se a ir pessoalmente, caso fosse necessário^, 
prender os ofiBcae^ mineiros que se apresentassem no districto. 

Conforme as testemunhas ouvidas em 1789 pelo Ouvidor Velloso 
o Gama {Archivo, XI, pp. 378-395] Lustosa achava-se nesta occasião & 
testa de uma força de mais de 200 homens armados, inclusivo um 
destacamento de soldados, e raanteve-se por alguns mezes em pé de 
guerra. E' provável que haja alguma exaggeração nestas noticias, co- 
lhidas quarenta annos depois. Conforme elle próprio contou, na sua- 
carta de 25 de Junho, a guerra mal durou ura mez e consistiu prin, 
cipalmente em tiros de papel, oditaes, devassas, etc, tendo a guarni- 
ção dos três portos do rio lhe custado mais de 2 O oitavas de ouro. 
O que houve de mais sério foi a tentativa da parte da camará de- 
preparar i.ma frotilha de canOas para a passagem do rio, que Lustosa 
conseguiu frustrar com uma carta, dissuadindo ou amedrontando os 
carpinteiros encarregados deste serviço. Finalmente, a 21 de Junho, 
a camará não recebendo e esperado ap io do governador de Minas, 
Gomes Freire de Andrade, retirou- se deixando a solução do conflicto- 
ao governo de Lisboa, conforme ordenou este governador. 

Pelos documentos conservados, relativos a este conflicto, Lustosa 
raostrou-se nesta occasião difflcil, homem intelligente, enérgico o pru- 
dente. A sua proposta de responder ás devassas da oamp.ra, que de- 
claravam crimino-os elle e todos os seus companheiros, com uraa 
contra-devassa, era de bastante espirito e mostrava uma confiança, 
era si de poder luctar no terreno da chicana tão bem como no das- 
arraas. As suas cartas, das quaes algumas são coi.servadas no orí- 



— 225 — 

•ginal, têm muito bôa lettra e são bem redigidas, indicando nma cul- 
tura intellectual quo naquella épocha devia ter sido pouco vulgar nos 
sertões das duas capitanias. 

Durante dois annos a região de Santa Anna doSapucahy ficou em 
paz e, debaixo do mando de Lustosa, auxiliado, depois de outubro de 
1746, por diversos offlciaes de uma administração regular annexa á 
da villa de Mogy das Cruzes, tomou um certo desenvolvimento. Foi 
«onstruida nma egreja não somente no arraial como na povoação 
nova de Ouro Fino, o que não quadra bem com a denominação de 
«quilorabo> que os mineiíos da épocha, como a raposa da fabula, ap- 
plicaram a este districto. Em Agosto de 1747, Lustosa, em caria di- 
rigida a d. Luiz Mascarenhas, mostrou-se apprehensivo sobre boatos 
que correram a respeito de ordens esperadas de Lisboa, mas como 
então nada houve de notável é de presumir que os boatos eram fal- 
sos, ou que as ordens recebidas não eram conforme os desejos da 
camará de São João d'Bl-Rei, sendo talvez referentes á provisão 
regia de 30 de Abril de 1747, quo devia ter chegado por este 
tempo e que provavelmonto era expedida em consequência do con- 
flicto anterior de 1743, e que, confoimo procurei demonstrar no 
referido volume do Archivo, resolvia o conflicto anterior da cam- 
panha do Rio Verde dando o rio Sapucahy como limite das duas ca- 
pitanias. 

A 24 de Agosto de 1748 chegou ao Rio de Janeiro a provisão 
regia de 9 de Maio do mesmo anno, annexando a capitmiia do São 
Paulo á do Rio de Janeiro e auctorizando o governador desta, Gomes 
Freire de Andrade, a estabelecer os limites com Minas Geraes. A 27 
de Maio de 1749 Gomes Freire de Annrade expediu instrucçõcs ao 
ouvidor da comarca do Rio das Mortes, dr. Thomaz Rubim de Barros 
Barreto, para a demarcação desta comarca com a de S. Paulo. Me- 
zes depois, a 19 de Setembro, o dr, Thomaz Rubim be apresentou no 
arraial de S^nta Anna do Sapucahy, acompanhado por uma numerosa 
comititiva de S- João d'Bl-Rei, inclusive as principaes auetoridades 
da comarca. Conforme uma versão escripta alguns annos depois, 
Lustosa, com a gente do arraial, se oppôz á passagem do rio até que 
Thomaz Rubim, passando sósinho, conseguiu com boas palavras des- 
armar a resistência. Outra versão ó que, cnamado á Campanha, 



— 226 — 

Lustosa aprosentonso com uma força armada o recusou assistir á 
demarcação ou acccitar as compensações que o ouvidor prometteu 
obter para elle do governador {Ârchivo, Xí, pg. 50-55). Nenhuma des- 
tas versões parece ser rigorosamente exacta, visto quo Gomes Freire 
do Andrade ua ordem do prisão quo expediu contra Jjustosa [ArcMvo^ 
XI, p. 49) só declara quo esto tinha desrespeitado a sua auctoridade 
recusando-se a receber a sua carta e retirando-se cora os seus se- 
quazes pare o quilombo de Ouro Fino. O informante de Gomes 
Freire era Thomaz Rubira que, sem duvida, contou a historia a seu 
modo. O mais provável é quo se passou alguma coisa de caracter 
puramente pessoal, que o ouvidor por conveniência própria entend2u 
nSo contar. Lustosa ainda no tempo em que tinha o apoio de d. 
Luiz Masc;irenhas teve instrucções para protestar, mas do não fazer 
resistência. Tendo-se antes mostrado intelligento o prudente, é pouco 
provável que com a mudança radical das circurastancias tivesse proce- 
dido de outro modo. Elle devia ter sido prevenido do golpo que lhe 
estava preparado e muito provavelmente do teor das instrucções da- 
das ao ouvidor, as quaes tinham sido raezes antes communicadas ao 
governador da praça do Santos. Sendo assim, é presumível que, em- 
bora com má vontade, elle se sujeitasse ao inevitável, mas que se 
permittiu algumas observações ao ouvidor sobre o modo porque es- 
tava executando a sua commissão — apresentando-so armado de penna 
em Santa Anna do Sapucahy, quando devia ter ido armado do instru- 
mentos geodésicos ao alto da Sena da Mantiqueira — que, ofíeudendo 
ao amor próprio deste, podiam facilmento ser representadas como des- 
obediência ao governador. 

Seja como fôr, Thomaz Eubim não encontrou resistência mato- 
Tial e recebeu a adhesão á nova ordem das coisas da maior parte da 
população do arraial, retirando-se Lustosa cora os descontentes para 
Ouro Fino. A 25 de Novembro do 1749 Gomes Freire de Andrade 
expediu ordem de prisão contra Lustosa, accusando-o não somente de 
desobediência á sua auctoridade como também do ter retido algum 
dinheiro das capitações, sendo esta ultima accusação motivada pela 
falta de prestação de contas por parte do substituto do intendente 
que acompanhou o ox-guarda-mór na sua retirada para Ouro Fino. 
A 29 de Junho do anno seguinte as novas auctoridades de Santa Anna 



do Sapucahy tomaram posse da egreja de Ouro Fino, donde se pode 
presumir que pouco antes desta data Lustosa tinha abandonado o 
districto, retirando-se, conforme consta, para o sertão de Curitiba. 

O nome de Lustosa apparcco de novo num auto de posse toma- 
da em 1755 pela camará de Curitiba, no sertão do Tibagy {Archivo, 
XXIII, p. 4.22). O local designado com o nome de Pedra Branca 
parece ter sido nas visinhanças da actual cidade de Palmeiras. Entre 
os nomes dos que assignaram, depois dos oíílciaes da camará, vem em 
segundo logar o de Francisco Martins Lustosa e adeante o de Antó- 
nio Martins Lustosa que deve ser filho do ex-guarda-mór de Santa 
Anna d; Sapucahy. Annos depois, em 1169, estando já restabelecida 
a capitan a de São Paulo, o governador d. Luiz António de Souza 
mandou explorar os rios Tibagy e Iguassú e os campos de Guara- 
puava, sendo o tenente-coronel Aflfonso Botelho de Sampaio e Souza 
o official encarregado deste serviço. Este, conforme os documentos 
publicados no volume IV do Archivo do Estado, confiou a missão de 
explorar os campos de Guarapuava a Lustosa que, nos documentos, 
vem sempre tractado com o seu titulo antigo de guarda-raór. A ex- 
pedição comnosta de 18 camaradas partiu a 23 de Julho de 1770 de 
Carrapato, na estrada nova para o registro do Iguassú e próximo ao 
rio Guaraúna, donde se podo concluir que Lustosa tinha se estabele- 
cido nestas immediações e que era um dos mais importantes fazen- 
deiros desta região. Não podendo a expedição chegar até os campos, 
por causa da estação das aguas, foram plantadas três roças para fa- 
cilitar a entrada no anno seguinte. Partindo de novo a 7 de Março 
de 1771, e desta vez com 60 homens, incluindo soldados pagos, Lus- 
tosa conseguiu subir a serra da Esperança e sahir nos campos a 21 
de Abril. D alii voltou para o pé da serra da Esperança para plantar 
roça e esperar o tenente-coronel Affonso Botelho que em Dezembro 
foi dirigir em pessoa a exploração dos campos, chegando até o rio 
Jordão, sempre acompanhado pelo antigo guarda-mór. 

Dahi por diante não se encontra mais no archivo referencias a 
Lustosa, sendo, porém, de presumir que deixasse descendência no Es- 
tado do Paraná. Ainda ultimamente estava empregado no serviço do 
levantamento topographico do Estado de Minas ura engenheiro de 
nome Lustosa, que se pôde presumir ser descendente do guarda-mór; 



— 228 — 

e se assim for, é para notar como curiosa coincidência que trabalhou 
na mesnra região defendida contra os mineiros por seu antepassado. 
Assim, na historia de S. Paulo, Francisco Martins Lustosa re- 
presentou um papel saliente, prestando relevantes serviços á sua ca- 
pitania mas, por um capricho da sorte, em territórios que ulterior- 
mente passaram ao dominio de cutros Estados. O movimento de 
Santa Anna do Sapucahy por elle levantado e capitaneado até ser 
vencido pela intervenção da auctoridade do governo de Lisboa {inter- 
venção esta que na execução loi desviada do seu primitivo intento), 
teve, por bera ou por mal, effoitos decisivos sobre o desenvolvimento 
histórico da capitania de São Paulo. O effeito mais immediato foi 
levar o governo a acceitar o alvitre proposto uns dez anãos antes 
por Gomes Freire do Andrade, da supressão da capitania. B' possível 
que sem este movimento não se tivesse dado esta suppressão, mas 
neste caso os mineiros, obtendo pacificamente a desejada posse deste 
districto, não teriam encontrado barreira alguma para a sua expansão 
no sertão que é hoje a parte mais rica do E&tado de São Paulo, e 
na redistribuição das capitanias, que ora inevitável, S. Paulo teria 
sido, talvez, ainda mais sacrificado do que foi em favor das capita- 
nias auríferas de Minas Goraos, Goyaz e Matto Grosso, ficando, como 
Rio de Janeiro, limitado a uma estreita facha junto ao littoral. Ain- 
da que seja attribuido directamente a este movimento o desmembra- 
mento da antiga capitania de S. Paulo, a parte tomada nclle por 
Lustosa era perfeitamente legitima, sendo do accordo com as deter- 
minações do governador de S. Paulo, cujo direito era incontestável 
até que foi derogado pela execução, contraria ao seu espirito sinão á 
sua letra, dada á provisão regia de 9 de Maio de 1748, desmembran- 
do a capitania de S. Paulo. O effeito benéfico da acção de Lustosa 
foi o de firmarem S. Paulo a idéa do seu antigo direito pelo Sapu- 
cahy que, embora não vencedora, tem sido seiopro uma barreira á 
expansão indefinida de Minas Geraes, que por pouco não se apoderou 
de todo o valle do Mogy-gua£sú e Rio Grande. 



— 229 — 

Veríssimo João de Carvalho 

Uma outa figura saliente na historia dos limites entre S. Paulo e 
Minas Qeraes é a de Veríssimo João de Carvalho, por algum tempo 
companheiro de Francisco Martins Lustosa na administração do dis- 
tricto de Santa Anna do Sapucahy. O seu nome appareco pela pri- 
meira vez nesta historia numa carta escripta ao governador de São 
Paulo, d. Luiz Mascarenhas, dando noticia da tentativa da camará d© 
São João d'Bl-Rei de tomar posse do arraial de Santa Anna do Sa- 
pucahy o ooraraunicando que a camará de Mogy das Cruzes estava 
disposta a ir em soccorro daquella descoberta e tomar posse delia. 
Dahi se pode concluir que Veríssimo João, como era geralmente conhe 
eido, era vereador da camará de Mogy das Cruzes e auctorizado a 
falar no seu nome. 

Depois de passado o período agudo do conflicto com a retirada, 
era fins de Junho, da camará de São João d'El-Eei, d. Luiz Masca- 
renhas tratou de organizar o governo regular do novo arraial, que 
foi annexado á villa de Mogy das Cruzes. Nas nomeações de offl- 
ciaos, feitas a 16 de Julho de 1746, cabia o primeiro logar a Veris 
simo João de Carvalho, na qualidade de intendente. A 30 de Outu- 
bro do mesmo anno foi lavrado um auto de posse do arraial e, no 
dia seguinte, da margem do rio Sapucahy, era que figuram os nomes 
dos novos ofiaciaes, sendo do presumir que tivessem chegado poucos 
dias antes. 

Na occasião em que o ouvidor de São João d'Bl-Rei, dr. Thomaz 
Eubim, tomou posse da região de Santa Anna do Sapucahy, a 19 do 
Setembro de 1749, Veríssimo João o diversos outros moradores a«- 
signaram u auto, achando, sem duvida, que sendo o confiicto termi- 
nado por ordem superior não havia motivo para acompanhar o guarda- 
mór Lustosa no seu protesto platónico, significado pela sua retirada 
com os seus adherentes do arraial. Sendo o homem mais importante 



— 230 — 

que ficou no arraial e o representante da antiga administração pau- 
lista, ó do presumir que as novas auctoridades mineiras tractaram de 
não o deixar descontente com a mudança o não seria justo censu- 
rai o por ter acceitado francamente a nova situação. 

Desta data em deante as chronicas paulistas fazem poucas refe- 
rencias a Veríssimo João, sendo certo, porém, que ello se toi'nou uma 
das maiores, sinão a maior influencia na região conquistada pela ca- 
pitania de Minas, em cujo archivo devem existir muitas referencias 
a elle. Consta que a descoberta das minas de Cabo Verde e a fun- 
dação do arraial do mesmo nome foram feitas, ou pelo menos pro- 
movidas por elle o no mappa do itinerário de Luiz Diogo da Silva, 
governador de Minas, em 1764, encontra-se o seu nome entre os dos 
arraiaes de Cabo Verde e Ouro Fino, nas immediações do Eio Pardo, 
onde é de presumi? que tinha estabelecido a sua residência. Cabo 
Verde era nesta epocha uma povoação quasi perdida no meio de ura 
vasto sertão, estando, conforme diz o governador, quasi tapada a pi- 
cada pela qual se tinha feito a primeira entrada pelo lado de Ouro 
Fino. E' de presumir que na occasião da passagem do governador 
fosse dada uma administração regular debaixo da direcção de Veris- 
simo João, visto que annos depois elle era commandante do districto, 
apesar de morar muitas léguas distante e mais próximo de Ouro Fi- 
no do que de Cabo Verde. 

Em 1778 o commandante do registro paulista Jeronyrao Dias Ri- 
beiro attribuiu as tentativas de avançar a fronteira por parte dos 
mineiros ás instigações de Veríssimo João, a quem dava o titulo de 
capitão. Annos depois, o mesmo commandante referiu que Veríssimo 
João tinha estabelecido uma tranqueira numa cabeceira do rio Pardo>. 
próximo á estrada de Ouro Fino a Cabo Verde e que veiu lhe mos- 
trar uma ordem recebida do governador de Minas do não permittir 
aos paulistas avançar um só palmo nem os mineiros uma só polle- 
gada adeante da dita tranqueira. Esta curiosa ordem foi dada por 
d. António de Noronha, e, ao que parece, foi lealmente executada 
por Veríssimo João até a sua morte, que parece ter sido antes de 
1785, quando os distúrbios começaram de novo. Em carta de 23 de 
Novembro de 1788 Jeronymo Dias Ribeiro refere que Veríssimo João 
já era fallecido. 



- 231 — 

Como assistente da demarcação de Thoraaz Rubim, Veríssimo 
João era considerado pelos mineiros como auctoridade no assumpto 
de divisas e a interpretação por elle dada aos termos equívocos do 
auto do 19 de Setembro de 1749 parece ter sido por muitos annos 
acceita por elles como a verdadeira e ter determinad:) os esforços 
que fizeram na manutenção do que julgaram ser o seu direito. A 
descripção da linha entre o Morro do Lopo e o Rio Grande «acompa- 
nhando por ura lado a estrada de Goyaz», prestou-so a uma infinidade 
de traçados por estarem vagos o modo de acompanhai* a dita estrada, 
o ponto do encontrar com ella e o modo de ligar este ponto com o 
Morro do Lopo. Conforme um documento de 1771 (nesta Revista, vol. 
III, pag. 271) Veríssimo João dava a divisa como indo em linha recta 
do Morro do Lopo até um ponto da estrada de Goyaz, situado duas 
léguas ao norte da vilia do Mogy-guassú e dahi seguindo pela mesma 
estrada até o Rio Grande. E' evidente a intenção de designar como 
ponto de encontro com a estrada o registro paulista de Itapeva, col- 
locado de três a quatro léguas ao norte da villa de Mogy-guassú. 
Como pela redacção do auto de Thomaz Rubim o ponto de interse- 
cção podia ter sido escolhido muito mais perto da cidade de S. Paulo^ 
é evidente a intenção por parte do auctor deste plano do divisão do 
respeitar a posso paulista da estrada até onde esta posse fosse as- 
signalada por um estabelecimento offlcial. Assim, é justo reconhecer 
que, ao projectar este traçado para a divisa, Veríssimo João revelou 
ura certo espirito de justiça, bera como uma alta dose do bom senso 
no modo de ligar o Morro do Lopo cora o ponto escolhido por meio 
de uma linha recta. Certo ó que em toda a longa contraversia não 
se encontra outra definição clara do limito que os mineiros preten- 
deram nesta paragem, o embora não conseguissem chegar até esta 
linha na sua totalidade, devera a Veríssimo João de Carvalho grando 
parte do território era que flrmarara a sua posse effectiva. Pelos 
mineiros elle deve ser considerado como um benemérito, e pelos pau- 
listas um adversário feito pela força de circumstancias alheias á sua 
vontade, o qual, embora contribuindo poderosamente para reduzir o 
território da sua antiga capitania, parece ter procedido sempre com 
lealdade e boa fé. 



- 232 - 

Jeronymo Dias Ribeiro 




jjf- 



Quando era Julho de 1765 d. Luiz António de Souza tomou posse 
do governo da capitania de Sao Paulo, restabelecida depois de ter 
estado por 16 annos reduzida á categoria de uma comarca da capi- 
tania do Rio do Janeiro, ello achou aberto ura novo conflicto cora Mi- 
nas Geraes a respeito de minas de ouro descobertas na região do Rio 
Pardo, no dlstricto das actuas cidades de Caconde e Mococa e partes 
adjacentes do Estado de Minas. A carta communicando a descoberta 
e a disposição das auctoridades mineiras de tomar posse delia foi di- 
rigida ao commandante da praça de Santos, era data de 20 de Agos- 
to, pelo sargento Jeronymo Dias Ribeiro, commandante do registro de 
Itapeva, próximo á villa de Mogy-guassú. Desta data em deante até, 
1807 encontra- se este nome nos documentos relativos aos limites e, 
conforme a sua própria declaração, o portador delle já em 1765 ti- 
nha passado longos annos na guarda e defesa da fronteira da capi- 
tania de São Paulo. 

Num inquérito feito em 1789, Jeronymo Dias Ribeiro declarou 
que era natural da freguezia de Cotia e que ^linha então 62 annos, 
pouco mais ou menos. Declarou mais que tinha estado com Francisco 
Martins Lustosa no conflicto de Santa Anna do Sapucahy (em 1746 
quando devia ter estado com 19 annos de edade) e que estava com- 
mandando, havendo chegado ha pouco, o destacamento de Jacuhy, 
quando, em 1764, o governador de Minas, Luiz Diogo Lobo da Silva 
tomou posse daquelle arraial. Ao que parece, Jacuhy era o ponto 
avançado do systema de fiscalização das estradas, mantido pela então 
comarca de São Paulo e depois da occupação deste ponto pelo go- 
vernador de Minas o registro foi recuado para Itapeva, poucas léguas 



— 23B — 

adeante da villa de Mogy-guassú e próximo á actual estação de Matto 
Sêcco, na estrada de ferro Mogyana. Alli estava no anno seguinte o 
sargento Jeronyrao Dias Ribeiro, donde coraraunicou ao comm andante 
da praça de Santos uma nova descoberta de ouro na região do Rio 
Pardo, lembrando a conveniência de medidas urgentes a flra de as- 
sugurar a posse para São Paulo, era cujo território estava. 

Sendo esta noticia transmittida a D. Luiz António de Souza, re- 
cemchegado governador da capitania restaurada de S. Paulo, ura dos 
seus primeiros actos foi mandar o capitão Ignacio da Silva Costa ao 
novo districto, onde foi eíRcien te mente auxiliado por Jeronyrao Dias 
na solução da questão, que foi resolvida paciíicaraento pela retirada 
dos faiscadores e a interdicção do districto pelo governador de S- 
Paulo, que pela sua promptidão de acção, antecipou a posse que as 
auctoridades mineiras tencionavam tomar das novas minas. Soguiu-se 
uma longa correspondência entro os governadores das duas capitanias 
a respeito da posse deste districto até que afinal, era principies do 
anno 17d6, foi convencionada uma espécie de convénio de statu quo 
ficando provisoriamente sujeita á jurisdiccão de S. Paulo a região 
que, durante alguns annos, permanecia em paz. 

Era 1770 parece ter havido accusações de extravios de dinheiro 
contra Jerouymo Dias visto ter o governador expedido ordens de o 
prender e para o sequestro dos seus bens. Devia ter sido accusação 
falsa da qual elle se justificou, visto que no anno seguinte, estava 
outra vez em serviço tomando parte nos conflictos dos annos de 1771 
a 1773. Nesta occasião um destacamento mineiro veiu pôr marco e 
estabelecer registro nas margens do Rio Pardo, no districto da actual 
cidade de Mocóca, e passando o rio chegou até perto da actual cidade 
do Casa Branca. Durante o periodo agudo desta questão houve um 
ofíicial superior em commando por parte de São Paulo, mas aca- 
bada a lucta (sem notável modificação das posições primitivas) Jero- 
nyrao Dias voltou a coraraandar o registro, que tinha sido reraovido 
para o centro do districto questionado. 

Por titulo de 2o de Março de 1774 D. Luiz António de Souza, 
estando a organizar ura contingente de tropas para mandar ao Rio 
Grande do Sul e sentindo falta de ofiaciaes subalternos; promoveu 
Jeronyrao Dias ao posto de alferes, mas sora os vencimentos do 



— 284 — 

posto, dando assim uraa prova de apreciação dos seus serviços na 
defesa da fronteira. Parece, porem, que não seguiu para o Rio 
Orando do Sul visto que, era Agosto do mesmo anno, teve ordem de 
repartir as datas do descoberto do Rio Pardo, cnjas minas eram 
então desimpedidas. 

E' para notar que o governador Martim Lopes Lobo do Saldanha, 
que cancellou muitas das nomeações do seu antecessor, sempre se 
dirigiu ao <coramandanto do rcgistro>, evitando assim dar a Jeronymo 
Dias o titulo militar de alferes ou do sargento. 

Era 1775 Jeronyrao Dias Ribeiro estava era commando do um 
registro que ello denominava « Descoberto de Nossa Senliora do Bom 
Successo das cabeceiras do Rio Fardo» mas, que pelo governador era 
chamado indifferentemente < Registro do Caconde> ou «Registro do 
Rio Pardo >. O antigo registro de Itapeva tinha sido mudado era 
Maio de 1772 para o lado norte do Rio Pardo e, ao que parece, nas 
margens do ribeirão das Canoas na vizinhança da actual cidade de 
Mocóca. De 1780 em deante o registro, talvez depois de uraa outra 
mudança, ficou definitivamente com o nome de São Mathous, sen- 
do a sua posição nas iraraediaçõos da actual cidado de Cacon- 
de. Alli Jeronyrao Dias teve de se oppôr durante algura tempo 
ás tentativas de avançar a fronteira, feitas pelo povo de Cabo Verde 
capitaneado por Vorissimo João de Carvalho, até que, era 1778, este, 
era obediência á ordem de d. António de Noronha, governador de 
Minas, estabeleceu uraa tranqueira nura affluento do Rio Pardo quo 
parece sor nas iraraediações da actual cidade de Caldas, com ordem 
de não perraittir aos paulistas avançar um só palrao para deante e, 
da sua parte, de não avançar uraa só pollegada. 

Em 1781 foi descoberto ouro no próprio Rio Pardo e no ribeirão 
Bom Jesus acima do registro de S. Matheus, sendo a repartição das 
datas feita por Jeronymo Dias Ribeiro, sem notável opposição por 
parto dos mineiros. Mais ou menos nesta epocha foram estabelecidas 
algumas fazendas de criar nos campos dos Poços de Caldas na es- 
trada que da villa de Mogy-guassú ia ao registro de S. Matheus o 
em sesmarias concedidas polo governo de S. Paulo. Estas minas e fa- 
zendas tornaram-se objecto da cobiça dos povos do Cabo Verde e 
Ouro Fino, e era 1785, presumivclmcnto depois da raorte do Vcrissi- 



r 



— 235 — 

mo João de Carvalho, houve uma tentativa de tomar posso delias 
que foi frustrada pela vigilância de Jeronymo Dias, Renovada esta 
tentativa em 1787, na occasiáo de uma interinidade no governo de 
S. Paulo, a denuncia do commandante do registro não foi attendida 
com promptidão pelo então governador, e os mineiros conseguiram se 
estabelecer durante alguns mezes nos campos dos Poços de Caldas, 
mas, ao que parece, tiveram no anno seguinte de se retirar ou de se 
submetter á jurisdicçãj de S. Pauio. Resultou deste movimento a 
abertura de uma nova estrada para Cabo Verde e Jacuhy que redu- 
ziu muito a importância da que passava no registro de S. Matheus, 
do qual dahi em doante ha poucas noticias alóm das da falta quasi 
absoluta de trafico na estrada. Continuava o velho Jeronymo Dias 
Ribeiro no commando e ainda em 1807 elle dava com a costumada 
promptidão noticia de um projectado movimento que não teve conse- 
quências, pedindo ao mesmo tempo exoneração do cargo por causa da 
sua edade avançada, sendo esta concedida a 2l de Agosto do mesmo 
anno. Desta data em deante não existe no archivo mais noticia sua 
e estando então com 82 annos de edade c do presumir que a sua vi- 
da laboriosa o útil se extinguisse logo depois. 

Ao sargento Jeronymo Dias Ribeiro, São Paulo deve quarenta o 
trcs annos de vigilante actividade na sua fronteira de Mogy-guassú 
para doante, o justamente na opocha mais critica para a defesa do 
limite que lhe tinha sido deixado durante o poriodo da suspensão do 
seu governo independente. Felizmente nesta epocha os governadores 
paulistas eram vigilantes e tenazes na defesa dos direitos de sua ca- 
pitania o foram auxiliados por subordinados do quilate de Jeronymo 
Diaí? Ribeiro. Esto velho servidor da cypitania de São Paulo teve a 
satisfacçã3 de fechar os olhos deixando a parte da fronteira confiada 
á sua guarda essencialmente nas mesmas condições em que estava 
quando elle primeiramente appareceu nesta historia como comman- 
dante, em 1765, do registro do Itapeva. Si nesta epocha elle e os 
seus companheiros de lucta tivessem sido menos activos o vigilantes 
ou os governadores menos promptos e llrmes nas providencias recla- 
madas, os mineiros se teriam infallivelmente estabelecido na antiga 
estrada de Goyaz, o S. Paulo teria perdido os importantes districtos 
de Casa Branca, S. José do Rio Pardo, Mocóca, Caconde, Cajurú, São 
Simão, Ribeirão Preto, Batatacs e Franca. 



I 



- 236 - 

Apesar do seu posto humilde e da sua vida, desde muito moço, 
de soldado Jeronymo Dias Ribeiro parece ter tido instrucçao regular 
para aquelle tempo, escrevendo com bôa lettra e redacção soffrivel as 
suas coraraunicações ao governo. 

Valsrio Sanches Brandão. 

Durante os conflictos na região do Rio Pardo, e.r. 1771 e 1772, 
brevemente referidos na nota precedente sobre Jeronymo Dias Ri- 
beiro, o commandante do destacamento mineiro no arraial de Jacuhy 
era o alferes Valério Sanches Brandão, com quem se deu um inci- 
dente, escassamente documentado, que revela um interessante episodio 
da historia local desta parte da fronteira entre as duas capitanias de 
S. Paulo e Minas • Geraes . 

Este ofiacial, preso por ordem do conde de Valladares, governa- 
dor de Minas, fez uma longa representação ao governo de Lisboa pe- 
dindo soltura o sendo esta representação remettida, em 1774, a d. 
Luiz António do Souza, governador de S. Paulo, para informar, elia 
ficou registrada no archivo de S. Paulo. Com este documento, com- 
binado com os factos já conhecidos do conflicto, podo-se restaurar 
nos seus traços geraes a historia de uma tentativa de revolta em 
Minas que, si não fosse frustrada pelo então commandante do arraial, 
muito podia ter influído na historia subsequente das duas capitanias. 

Neste tempo, conforme se vê pelo escripto estampado na Revista 
do Instituto Histórico, em 1852, do desembargador José João Teixeira 
Coelho, que ora então magistrado em Villa Rica e conselheiro do 
governador da Capitania, era ofiBcialmente acceita em Minas a inter- 
pretação dada por Veríssimo João de Carvalho á demarcação de 
Themaz Rubim, isto ó, que o limite devia alcançar a estrada de SSo 
Paulo a Goyaz no registro paulista de Jtapeva e acompanhar esta 
estrada até o Rio Grande. Para alcançar esta divisa o condo de 
Valladares, rompendo o convénio de statu quo, estabelecido em 1767 
com o seu antecessor, deu ordem ao commandante de Jacuhy para 
estabelecer uma guarda e um registro na margem do Rio Pardo. Na 
execução desta ordem o alferes Brandão mandou, em Setembro de 
1771, uma guarda de soldados á passagem do Rio Pardo, na estrada 



- 237 - 

para Jacuhy, no sitio denominado do «Bezerra> que parece ser no 
districto da actual cidade de Mocóca. Esta guarda, passando o rio, 
começou a rondar a estrada de Goyaz até próximo ao sitio, hoje 
cidade, de Casa Branca. O governador de Sâo Paulo reforçou as 
suas guardas nesta paragem e, emquanto aguardava resposta ao pro- 
i;esto dirigido ao governador do Minas, parece ter dado ordem de não 
;permittir aos goralistas, como então se chamavam os mineiros, passa- 
rem o Rio Pardo, mas a deixar era paz as suas guardas na margem 
■direita daq-telle rio. 

Em Janeiro de 1772 o conde de Valladares, em nome da junta 
da fazenda de Villa Rica, mandou de novo estabelecer a guarda e 
registro no Rio Pardo o de cobrar desde o 1 do Janeiro os direitos 
de entrada que até então tinham sido pagos no registro do Sao Pau- 
lo. No começo de execução da ultima parte desta ordem deu-se um 
incidente que bem demonstra o estado dos ânimos por ella produzi- 
do. Em princípios de Fevereiro, estando em Jacuhy o cobrador dos 
impostos por parte de São Paulo, José Pinto Gomes de Almeida, 
chegaram dois negociantes que já tinham pago os direitos em Mogy- 
guassú. Sendo-lhes exigido o pagamento de novos direitos o cobra- 
dor protestou e entrando a discutir com o commandante, este o 
ameaçou de morte e mandou prendol-o no tronco. 

Com admirável teimosia o cobrador escreveu uma carta datada 
de «Prisão de Tronco de Jacuhy» contando os acontecimentos e de- 
clarando que pretendia não sahir do tronco «ainda que me queiram 
soltar > até que fossem dadas as providencias que reclamava. 

A cobrança de direitos duplicados produziu em ..'acuhy um movi- 
mente de revolta contra o domínio mineiro que, estabelecido havia uns 
sete annos apenas, não estava, ao que parece, ainda bem consolidado 
por ser o arraial de origem paulista e ter as suas relações coramorciaes 
exclusivamente com a praça de São Paulo. Conta o alferes Brandão, 
na ííua petição de graça, que animada por boatos da intenção dos 
paulistas de vir tomar posse do próprio arraial, grande parte da sí;a 
população, capitaneada por algumas auctoridades locaes, se declarou 
francamente em favor Ar passagem do districto para a capitania de 
São Paulo. A 23 de Maio de 1772 d. Luiz António de Souza deu 
«ordem de remover o registro de Itap^^-va para a margem do Rio Pardo 



h 



— 238 — 

na passagem (Ia estrada do Goyaz ou, si fosso mais conveniente» 
para um riboiráo na estrada do Jacuhy, o qual parece ser o ribeirão 
das Canoas, nas proximidades da actual cidade do Mocóca. Ao que 
pareço foi esto ultimo o p^nto escolhido, sendo provavelmente este o 
registro que por algum tempo foi conhecido com o nome de Nossa» 
Senhora do Bom Successo o que em 1780 foi removido para o ribei- 
rão de Sao Mathous. Na mesma occasião o governador de São Paulo 
dirigiu um enérgico protesto ao commandantc de Jacuhy, remettcndo-o 
por um soldado de Mina?, quo tinha sido preso por Jeronyrao Dias 
Eibeiro por tentar estabelecer um registro mineiro na margem do 
rio Pardo. 

A noticia deste protesto e do estabelecimento do novo registro 
paulista produziu, como era natural, grande sensação em Jacuhy o 
espalhou-se o boato falso de que os paulistas tencionavam vir cora 
força apoderar-se do próprio arraial. Em vista deste boato os des- 
contentes de Jacuhy se prepararam para o levanto, mas por um acto 
de energia, prendendo as cabeças da revolta inclusive o juiz da 
terra e o alraotacel, o commandante Brandão conseguiu dominar o 
movimento. Alguns mczos depois, em Outubro ou Novembro, cessou 
o conflicto, provavelmente por desanimo por parte do governo de Mi- 
nas, demasiado distante para liday com a necessária força e prompti- 
dão contra a energia e prudência de d. Luiz António do Souza. 

Era consequência destes acontecimentos o alferes Valério Sanches 
Brandão foi punido com prisão e confisco dos bens, ostensivamente 
por abuso de auctoridade em prender auctoridades de Jacuhy, mas 
provavelmente, como elle insinua na sua petição, por não ter conse- 
guido exei*utar o plano de avançar a fronteira até o Rio Pardo c a 
estrada do Goyaz. Não era usual naquello tempo punir com tanta 
severidade os abusos do auctoridade e si a resistência da parte do 
S. Paulo tivesse sido menos forte e tenaz, é quasi certo que os pre- 
sos do Jacuhy teriam em vão reclamado justiça. O alferes Brandão 
foi vencido por força superior na execução das ordens que lhe foram 
transraittidas, mas na sua fó de oflacio devia ter sido reconhecido o 
importante serviço do ter firmado, numa occasião critica, a jurisdic- 
çao dí^ Minas nos districtos de Jacuhy e Cabo Verde. 



— 289 — 

Conforme as inforraações graciosamente prestadas pelo Dr. Júlio 
Brandão, Inspector Agrícola da parte actualmente paulista da região 
então em litigio, o Alferes Valério Sanches pertencia á importante 
familia Brandão, que até hoje tom sido sempre uma das mais influen- 
tes na região sul-mineira e que desde os acontecimentos de Jacuhy, 
aqui referidos, tem sempre representado papel saliente em questões 
de divisas. No Archivo Publico Mineiro e em poder dos actuaes re- 
presentantes da familia devem existir muitos documentos referentes 
a este personagem. 

Orville a. Debby. 



Os primeiros descobrimentos de ouro 
em Minas Geraes. 



Nas escassas referencias e tradições relativas ás primeiras explo- 
rações, ou entradas, effoctuadas durante quasi século e meio no vasto 
sertão que hojo constituo o Estado de Minas Geraes, das quaes se 
tem conservado notioia, vem quasi sempre uma sobre descobrimentos 
de metacs ou pedras preciosas. Em parte imaginários, era parto ver- 
dadeiros, estes descobrimentos nao lograram o effeito de chamar para 
o território em questão nenhum morador permanente até que, nos 
últimos annos do século XVil, descobriram-se as ricas jazidas do 
ouro dos córregos da vizinhança da actual cidade de Ouro Preto- 
Houve então uma d-íslocação da população, ou na phrase inglcza, um 
rush, que, — guardadas as relações do terapo, de facilidade do commu- 
nicações o de outras circumstancias, — foi talvez mais notável do quo 
os do século presente provocados pelos descobrimentos de ouro na 
Califórnia, na Austrália e no Transvaal. Uma vez dado o primeiro 
^mpulso, o vasto planalto mineiro ficou dentro de muito poucos annos 
desbravado e povo do. Uns trinta annos depois veiu o descobrimento 
dos diamantes completar a realização dos sonhos dos primeiros explo- 
radores, bem que na forma do ouro e diaraant^ís era vez de prata e 
esraeraldas com que durante quasi dois séculos se sonhava. 

Antes de considerar detalhadamente este notável acontecimento, 
que tanto influiu na historia do Brazil, ijonvem estudar rapidaraente 
e á luz dos documentos até hoje conhecidos as entradas que o pre- 
cederam . 

A primeira entrada de que se tem conservado noticia foi orga- 
nisada, em 155? ou 1553, polo governador Thomé do Souza e com- 
raandada, conforrae as investigações do sr. Capistrano de Abreu 
( tEphemerides Minewas», vol. I, pag. 372 ), por Francisco Bruza de 



— 241 ^ 

Spinosa. E* raosmo do presumir que esta entrada fosso a primeira 
de todas, a nao str que penetrasse, como ó muito provável, no terri- 
tório mineiro a mal conhecida expedição mandada do Rio de Janeiro 
por Martira Affonso em 1531. O motivo para esta expedição, dado 
por documentos contemporâneos citddos pelo historiador Varnhagen 
^Historia do Brasil, 1.» ed. vol. I, pag. 215), era a vaga esperança de 
alcançar uma região mineral em prolongamento da do Peru, vagas 
noticias dos Índios sobre a existência de ouro (que os ditos Índios não 
conheciam) (i) e informações positivas sobre jazidas do pedras verdes 
que os indioã tinham em alta estimação e que aos portuguozes pare- 
ceram ser esmeraldas. Acompanhou a expedição o padre jesuita João 
de Aspilueta Navarro que, numa carta datada de Porto Seguro em 
24 de junho de 1555, dá as únicas informações até hoje conhecidas 
a respeito delia. Da carta do Padre Navarro apontamos as partes 
seguintes essenciaes para o presente estudo í^). 

«Caríssimos irnalos : Passa de anno e meio que por mandado 
do nosso P. Manoel de Nóbrega ando em companhia de doze homens 
christãos, que por mandado do capitão entrarão pela terra dentro a 
descobrir se havia alguma nação de mais qualidade, ou se havia na 
terra cousa porque viessem mais christãos a povoal-a, o que summa- 
mente importa para a conversão destes gentios. Esta não é senão 



(1) E' de preâumir que antes como depois desta epocha os indios tivessem dado in- 
formações a respeito de ouro, prata e outras cousas avidamente procuradas pelos euro- 
peos, mas em respostas snggestionadas peias próprias perguntas. Exemplo frisante destas 
respostas suggestionadas é a tão falada carta de 20 de Julho de l'>50 em que Felippe 
Guelhem conta ingenuamente que os indios depois de confirmarem a existência de pedras 
amarellas (ouro na imaginação dos ouvintes) acrescentaram por sua conta o detalhe que 
se costumava fazer dessas pairas gamellas para dar a comer aos porccs! Os indios do 
Brazil conheciam e trabalhavam admiravelmente em pedras coloridas por elles consideradas 
como preciosas, mas nada indica que tivessem qualqner conhecimento dos raetaes. Com o 
argumento plausível, mas fallaz, enunciado por Thomé de Souza que «esta terra e Peru é 
tola uma» os Portuguezes difficilraente se convenceram de que não existiam no seu ter- 
ritorÍ3 tribus com riquezas accumuladas, como os Incas, para serem saqueados, e uma vez 
deõeaganados a este respeito ainda mais difficilmente se conveiiCeram de que a riqueza 
argentifera do Peru não se estendia ao Brazil. 

(2) A carta vem estampada por extenso na primeira edição da Historia do Brasil 
(vol. I, pag. 460) de Varnhagem e nacoUecção das cartas jesuíticas avulsas de 1519-1568 
cuja publicação foi começada em 18^7 por Valle Cabral e Capistrano de Abreu. 



_ 242 

para lhes dar conta como depois do tempo que disse voltei com todos 
os doze companheiros, pela graça do Senhor, salvos o em paz que 
era o pafa que o padre mo enviara com elles. 

«Dar-lhcs conta do caminho em particular, soria nunca acabar ; 
mas como sei que com isso lhes vou dar consolação, direi em geral 
alguma cousa do que passamos o vimos. Saberão, irmãos caríssimos, 
que entramos pela terra dentro 350 léguas, sempre por caminhos 
pouco descubertos, por serras mui fragosas que não tem conta, e 
tantos rios que em parte no espaço de quatro ou cinco léguas passa- 
mos cincocnta vezes contadas por agua, e muitas vezes se me não 
soccoí^rerara me houvera afogado. Mais de três mezes fomos por 
terras mui húmidas e frias por causa das muitas arvores mui gros- 
sas 3 altas, de folha que sempre está verde. Chovia muitas vezes ; 
e muitas noites dormíamos molhados, especialmente em legares des- 
povoados ; assim todos em cuja companhia eu ia, estiveram quasi a 
morte de enfermidades, uns nas aldeias, outros em despovoados, e sem 
ter outra medicina que sangrar-se de pó, forçando a necessidade a 
caminhar : e sem ter outro mantimento as mais das vezes que fari- 
nha e agua, não perigou nenhum ; porque nos soccorreu N. S. com 
sua misericórdia, livrando-nos também de muitos perigos de indio> 
contrários que muitas vozes determinavam matar-nos ; principalmente 
em uma aldeia grande onde estavam seus feiticeiros fazendo fei- 
tiçarias, aos quaes, porque andam de uma parte para outra, fazem os 
Índios grandes recebimentos, concertando os caminhos por onde hão- 
de vir e fazendo grandes festas do comer e beber. 

«No outro dia nós fomos e passamos muitos despovoados espe- 
cialmente um de vinte o três jornadas por entre uns Índios que cha- 
mam Tapuyas, que ó uma geração de Índios bestial e feroz ; por que 
andam pelos bosques, como manadas de veados, nus, com os cabellos 
compridos como mulheres ; a sua fala ó mui barbara e elles mui car- 
niceiros ; trazem frechas ervadas e dão cabo de um homem num 
momento. Para passar entre elles juntamos muitos dos que estão 
em paz comnosco, e passamos com espias adianto com grande perigo- 

«Os dias aqui eram calorosos e as noites frias, as quaes passa- 
Tamos som mais cobertura que a do céo. Neste ermo passamos uma 



— 243 — 

serra mui grande, que corro do norte para o moio-dia o nolla acha- 
mos rochas mui altas do pedra mármore Desta serra nascera mui- 
tos rios caudaes ; dois dellos passamos que vao sahir ao mar entre 
Porto Seguro e os Illiécs ; chama-so ura Rio Grande, e o outro Rio 
das Orinas- Daqui fomos dar com uma nação do gentios que so 
chama <Cáthigucú». Dahi partimos e foraos até um rio mui caudal 
por nome <Pará>, que segundo os Índios nos informaram é o rio de 
S. Francisco, e ó mui largo. Da parte donde estávamos sao os Ín- 
dios que deixei; da outra se chamam Tamoyos. inimigos delles; o 
por todas as outras partes Tapuyas. Vendo-nos pois neste aporto, 
pareceu a todos que ordenássemos barcos cm que fossemos pelo rio ; 
e assim começou cada ura fazer o que entendia porque nao tinharaos 
carpinteiros; e assim nos assentamos cm uma aldeia junto da qual 
passa um rio por nome «Monayb, quo vai dar no outro, e isto para 
sermos sentidos dos contrários quo estariam dahi três léguas. Cor- 
remos mui grão perigo, porque os índios quo estão da outra banda 
do rio souberam do nós, e passaram de nos impedir a viagem ; o fo- 
o perigo tão grando que mo raetti na hermida, e mo puz diante do 
um Crucifixo, quo levava commigo. Foi N. Snr. servido que ainda 
quo alguns foram mal tratados, nenhum perigou, o eu os curava com 
mel silvestre c os índios foram mal tratados ; pelo que nos embarca- 
mos com muito cuidado, o fomos pelo rio abaixo ; mas não podemos 
continuar a navegação o assim foi necessário tomar conselho do novo 
acerca do nosso caminho por ser toda a terra, povoada em derredor 
do diversimas gerações de índios mui bárbaros o cruéis. As terras 
que cercara esto rio era trinta léguas ou mais são mui planas o for- 
mosas. Sabidos do Rio fizemos nosso caminhiy por terra volvendo-nos.» 
Coníorrae os próprios terraos desta narrativa, a expedição foi guida 
por Índios Tupiniquins do littoral e seguiu por caminhos já existen- 
tes ligando as aldeias destes Índios, ou dos sons parentes o alliados, 
do cujo território so sahiu n-iraa travessia de vinte três dias. Cora 
esta indicação tão positiva podemos tomar como extremamente pro- 
vável, se não absolutamente certo, que. era regra geral forara feitas 
as primeiras entradas no sertão por carainhos preexistentes, de modo 
quo o roteiro do uma, uma vez conhecido, podia ser aproveitado para 
•esclarecer os pontos obscuros das outras. Com esta consideração eni 



— 244 — 

Tista e, acceitando como certas a identificação dos rios Grande 
(Jequitinhonha) e Pará (S. Francisco) é possivel reconstruir de modo 
relativamente satisfactorio o itinerário desta entrada. 

O districto das pedras verdes, como se sabe pelas explorações 
subsequentes, é na lombada entre os valles dos rios Doce e Jequiti- 
nhonha e especialmente na região em redor das cabeceiras dos lioií 
Mucury e Cricaré (São Matheus). Sabe-se também pelas explorações 
referidas adeante que para alcançar esta região do littoral havia polo 
menos dois caminhos de Índios, um pelo valle do rio das Caravellas, 
seguido por Adorno, e outro pelo do rio Cricaré pelo qual voltou a 
expedição de Martim Carvalho. B' provável que houvesse também 
outros caminhos pelos outros valles que neste trecho da Rerra do Mar 
descem para a costa, entre os quaes o do rio Mucury ofterece a gar- 
ganta mais favorável, hoje aproveitada pela estrada de ferro Bahia e 
Minas. B' também possivel que, como na viação moderna, a entrada 
pela barra do rio das Caravellas fosse para ganhar esta garganta. Na 
hypothese de serem os dois caminhos conhecidos os únicos então exis- 
tentes, é mais provável quo o seguido pela expedição fosse pelo rio 
das Caravellas, não somente por mais próximo ao ponto da partida, 
Porto Seguro, como também por ser presumivelmente mais seguro, 
visto que o caminho pelo Cricaré acompanhava o linaite entre os Tu- 
pinaquins e uma outra nação, a Guaitacá. 

Uma vez no planalto, provavelmente no disti-icto da actual cidade 
de Philadelphia, e fora do matto da Serra do Mar e das suas imme- 
diaçõos, a expedição parece ter continuado pela região campestre ao 
sul do rio Jequitinhonha até encontrar a Serra do Espinhaço, na 
secção que depois ficou conhecida pelo nome de Serra do Frio, que 
se diz ser tradueção do nomo indígena, Hyvituray ou Ibitutuy {Ibiti- 
roig Ibitirohy), á qual talvez se refira á observação do padre Na- 
varro sobre as noites frias. 

Foi talvez nesta travessia que se encontrou o território dos Ín- 
dios hostis. Tapuyas. A referida secção da Serra do Bspiníiaço corre, 
conforme a descripção, de norte para sul e é caracterizada por picos 
de quarzito branco quo facilmente se confunde com mármore. Dos- 
dois rios que correm desta serra um foi identificado, e é provável 
que correctamente, com o Rio Grande ou Jequitinhonha, e neste caso. 



— 245 — 

o outro denominado Rio das Urinas não pode ser senão o Arassuahy 
em cujas margens Sebastião Tourinho encontrou depois uma aldeia 
de Tupinaquins. A donomin çEo de «caudaes», dada a estes rios nos 
pontos era que foram atravessados indica as iramediações da actual 
cidade de Minas Novas, ou peio menos ura ponto de passagem bastante 
para o norte da actual cidade de Diamantina, em cujo districto o nome 
do rio Caetliê-mirim talvez conserve a tradição da tribu Cáthigusú 
{Caethé-guassú'?). 

Estando ao norte do Jequitinhonha é de presumir que a expedi- 
ção seguisse polo valle do Itacarabira e por elle alcançasse o alto da 
Serra do Espinhaço, donde desceu para a margem do S. Francisco. 
Esta hyhothese acha, de certo modo, confirmação na derrota de Fer- 
não Dias í^aos Leme que, mais de um século depois, subiu ao norte 
até o Itacarabira para voltar ao sul até o Itamarandiba, apparente- 
mente no intuito de ganhar este mesmo caminho antigo dos Tupina- 
quins. Si, como ó provável, foi por ahi o roteiro da expedição de 
1553, o ponto alcançado no rio S. Francisco deve ser a barra do al- 
gum rio maior, fronteiro a esta secção da Serra do Espinhaço, Isto ó, 
o rio Jequetahy ou o rio das Velhas (1) que servia de fronteira en- 
tre os Tupinaquins, ou seus alliados, e os Tapuyas, tendo do outro 
lado do S. Francisco os Tamoyos ou Tupinambás, ahi conhecidos pelo 
nome de Amoipuios, isto é, os de outro lado. Com esta supposição 
combina, de algum modo, o facto de ter a expedição de 1602 de S. 
Paulo encontrado Índios hostis na região do rio das Velhas e próxi- 
mo ao rio S. Francisco. 



1 o mappa de Coronelli de 1688 representa dois affluentes orientaesdoS. Francisco 
com os nomes de Geta Caig e Ouibuig, que se pode presumir serem Jequetahy e Guaicuhy 
(Rio das Velhas). O mais oriental destes rios figura sem nome no mappa de Sanson de 
16.Õ0. Dahi se pode concluir que o valle do rio Jequetahy representava papel importante 
na viação primitiva do sertão do São Francisco e de facto este valle dá o accesso mais 
fácil ao São Francisco a partir da secção da Serra do Espinhaço cruzada pela antiga 
estrada indigena. A supposição, baseada nos mappas de Sanson e Coronelli, de ter sido 
o Jequetahy conhecido e frequentado pelos europeus antes do Rio das Velhas está de 
accôrdo com a affirmação do padre Navarro de na barra do seu rio «Monayl» haver 
Índios amigos dos Tupinaquins e outros hostis por toda a vizinhança. 



— ^m — 

Dosta expedição não so encontrou noticia alguma a respeito de 
descobriraontos niineracs ; entretanto, é de presumir que trouxesse 
alguma indicação que servisse do base para as outras entradas que 
se lhe seguiram com curto prazo de tempo. 

Poucos annos depois desta expedição, era looO conforme a ins- 
cripção no tumulo de Braz Cubas, referida por Fr. Gaspar, se desco- 
briu ouro no districto da villa de S. Paulo, m.as, ao que parece, esto 
facto pouca influencia teve no desenvolvimento da colónia. 

Alguns annos depois houve outra expedição, cm epocha incerta 
raas, provavelmente, anterior a 1570. Desta dá noticia o escrjptor 
Pêro do Magalhães, no seu Tradado da Terra do Brazil, offerccido 
^0 príncipe Henrique, provavelmente era lõTO, o publicado ora 18 ?5 
na Collecção de noticias para a historia e geogrophia das nações ultra- 
marinas. Conformo declaração do auctor, foi offorecido, poucos dias 
antes, ao rei ura outro escripto sobro o Brazil que provavolraente era 
oste mesmo trabalho com a falta do capitulo abaixo transcripto, quo 
se declara ter sido accroscentaio no ultimo momento á cópia desti- 
nada ao príncipe. Pouco tempo depois, em 15TC, Pêro de Magalhães, 
accreseentando ao seu nome o opitheto de «Gandavo» (natural do 
Gand) pelo qual ó geralmente conhecido, publicou com o título de His- 
toria da 'provinda de Santa Cruz: a que vidgarmeute chamamos Brazil 
«ma obra que é essencialmento uraa edição do sou tratado, destinada 
ao publico e redigida cora mais desenvolvimento o pretenções littora- 
rias, mas cuidadosamente mutilada do tudo que tinha caracter de da- 
<los estatísticos, inclusive o capitulo sobro descobrimento de minas. 

Este capitule do «tractado» é o seguinte : 

«A esta capitania de Porto Seguro, chegaram certos Índios do 
Sertão a dar novas de umas pedras verdes, quo havia numa serra 
muitas léguas pela terra dentro e traziam algumas delias por amos- 
tras, as quaes eram esmeraldas, mais não do muito preço ; o os mes- 
mos índios diziam que aaquellas haviam muitas, e que esta serra era 
mui ferraosa o resplandoscente. Tanto que os moradores desta capi- 
tania disto foram certiflcados, íizeram-so prestes cincoenta ou ses- 
senta Portuguezes cora alguns índios da terra o partiram pelo Sertão 
dentro, cora determinação de chegar a esta serra onde estas pedras 



— 247 — 

estavam. Hla por capitão desta gento um Martim Carvalho, (1), qiio 
agora lio morador da Bahia do todos os Santos; entraram pela terra 
algumas duzentas o viiito léguas, onde as mais das serras que acha- 
ram o viram eram do mui tino cristal, o toda a terra cm si 
muito fragosa, e outras muitas serras do uma terra azulada, nas 
quaes aSirmam haver muito ouro, porque — [neste ponto ha algumas 
palavras illegiveis no mamiscripto)— entro duas serras ; desta maneira 
foram dar num ribeirão que pelo pé do uma delias descia, na qual 
acharam entre a areia uns grãos miúdos araarcllos, os quaes alguns 
homens apalparam com os dentes, e acharam-nos brandos, mas não 
se desfaziam ; finalmente que todos assentaram ser aquillo ouro, nem 
podia ser outro metal, pois o mesmo ouro desta maneira nasço nas 
partes onde o ha. Apanharam destes grãos entro a areia do ribei- 
rão quantidade de um punhado, oíi quaes acharam muito pezadôs 
que também era prova do ser ouro, deste não flzcrão experiên- 
cia por ser aquilo no deserto o haver muitos dias que padecião 
grande fome ; nem comião outra cousa so nao somente hervas e 
alguma cobra quo raatavão ; passarão adiante determinando a vin- 
da tornar por ali apercebidos de mantimentos, para buscar a serra 
mais de vagar, donde aquelle ouro descia ao ribeirão. Acharão pelos 
matos muita canaflstula, por esto caminho acharão muitos meraes que 
não conhecerão, nem podião esperar pelas guerras dos índios que so 
levantarão contra elles. Alguns índios lhes dcrão noticias, segundo 
a menção que fizerão, que podião estar cem léguas da serra das pe- 
dras verdes que hiáo buscar, e que não havia muito dali ao Peru, 
finalmente quo com os inimigos que reciavão o pela gente que adoe- 
cia tomarão-se outra vez em alraadias por um rio que se chama Cri- 
caré, onde se perdeu numa cachoeira a canoa em que vinhão os grãos 
de ouro que trazião para amostra. 

« Nesta viagem gastarão oito mezes, o assim desbaratados chega- 
rão a esta Capitania de Porto Seguro>. 



(1) Naquelle tempo, conforme informação do si. Capistrnno de Abrea, haviam dois 
Martim Carvalho : um possuía eageaho na Bahia, como se lê em Gabriel Soares, e 
outro serviu de guarda de fazeada nas guerras de Parahyba, como se lê no Summario 
■das Armadas. 



— 248 — 

Por esta noticia parece que a expedição de Martira Carvalho se- 
guia até ura certo ponto o mesmo caminho da de Espinosa, mas que 
para chegar á desejada serra das esmeraldas, que não conseguiu al- 
cançar, penetrou no território de uma tribu de Índios hostis na região 
do alto rio Cricaré — pelo qual voltou para o littoral. O mais impor, 
tante desta noticia é que se julgou ter descoberto ouro e pelos de- 
talhes dados (grânulos amarellos, pesados, ameigáveis aos dentes e 
encontrados nas areias dos córregos) é evidente que a descoberta foi 
verdadeira e que houve na expedição o que faltava á maior parte 
das Bandeiras, isto é, uma pessoa que soubesse onde o como se devia 
procurar o precioso metal Quanto ao local desta descoberta, indu. 
bitavelmento a primeira que se realizou )io território de Minas Ge- 
raos, nada de positivo se pôde deduzir da narrativa ; mas não será 
desarrazoado presumir que fosse no districto da actual cidade de Phi- 
ladelphia, ou talvez no de Minas Novas. A distancia de 220 léguas 
e a referencia a serras de «mui fino cristal» fazem suppôr que a ex- 
pedição pudesse ter penetrado até a Sena do Espinhaço, na região 
de alto Jequitinhonha, na secção que depois ficou conhecida pelo no- 
me de Serra do Frio. 

Muito interessante nesta noticia é o apparecimento da lenda in- 
dígena que deu para origem das pedras verdes uma serra «mui fer. 
mosa e resplandecente», a respeito da qaal o illustre dr. Theodoro 
Sampaio recentemente aventurou, numa memoria lida no Instituto 
Histórico de S. Paulo, uma hypothose tão plausível quão perspicaz. 
A designação «Serra resplandescente» na lingua tupi seria Itaberaba 
ou, com o augmentativo, Itaheraba-bussú, que facilmente dá a corru- 
ptella Ituberá-bussú (forma dada por Pizarro) e finalmente Sabará- 
bussú, a fabulosa montanha de thesouros que por cerca de dois sé- 
culos encheu a imaginação dos colonos europeus e seus descendentes 
e deu motivo para diversas entradas no sertão, ora na região entre 
os rios Doce e Jequitinhonha, onde esta lenda a coUoca, ora na do alto 
S. Francisco. 

Nesta ultima região o nome foi finalmente applicado a uma serra 
perto do rio das Velhas, que não o conservou, sendo conhecida cor- 
rentemente pelo nome de Serra da Lapa, ou Serra da Piedade. A cir- 
cumstancia de ter Fernão Dias Paes Leme andado á procura da le- 



— 249 — 

gendaria serra e de seu genro Borba Gato dpraorar-se por muitos 
annos quasi na sombra da Serra da Lapa (além disso só identificada, 
ao que parece, cora a serra da iexida indígena depois da descoberta 
do ouro no rio quo a fraldêa e que ainda conserva o nome de Saba- 
rá, ou Sabará-buss^), indica que esta designação lhe foi dada pelos 
brancos e não pelos Índios (1). 

Logo depois da expedição de Martim Carvalho, e indubitavel- 
mente em consequência delia, vieram as entradas de Sebastião Fer- 
nandes Tourinho e de António Dias Adorno, referidas por Gabriel 
Soares nos seguintes trechos do seu Tmctado descriptivo do Brasil e 
attribuidas pelos histor adores aos annos de 1572 a 1576: 

«Este rio (o Rio Grande ou Jequitinhonha) vem de muito longe 
e traz sempre muita agua e grande correnteza, pelo qual vieram abai- 
xo alguns homens dos quaes tbraru a serra das Esmeraldas com An- 
tónio Dias Adorno, os quaes vieram em suas embarcações a que cha- 
mam canoas, quo são de um pau, que têm a casca muito dura e o 
mais muito molle, o qual cavam com qualquer ferramenta, de maneira 
quo lhe deitam todo o miolo fora, e fica somente a casca ; e ha des- 
tas arvores algumas tamanhas, que fazem delias canoas que levam 
de vinte pessoas para cima. 

< Sebastião Komandjs Tourinho, morador em Porto Seguro, com 
certos companheiros entrou pelo sertão, onde andou alguns mezes á 
ventura, sem saber por onde caminhava, e metteu-se tanto pela tona 
dentro, que se achou era direito do Rio de laneiro, o que souberam 
pela altura do sol, quo este Sebastião Fernades sabia muito bem to- 
mar, e por conhocerora a serra dos Órgãos, quo cae sobre o Rio de 
Janeiro ; o chegando ao carapo grande acharam alagoas, e riachos 
que se metúam neste Rio Grande ; o indo com rosto ao noroeste, de- 
ram era algumas serras de pedras, por onde carainharara obra de trinta 
léguas, e tornando a leste alguns dias deram em uma aldeã de Tu- 
pinaquins junto a um rio, que so chama Razo Aguipe ; e foram por 
elle abaixo cora o rosto a norte vinte e oito dias em canoas ; em as 
quaes andaram oitenta léguas. Este rio tem grande correnteza, e 



(1) Sobre este ponto veja-se o triballio subsequente entitulado «Os primeiros des- 
cobrimentos de ouro nos districtos de Sabará e Caethé.» 



— 250 — 

entrara ncllo dois rios, ura da banda de leste, e outro do locste, com 
os quaes so vera ractter esto rio Razo-Aguipe no Rio Grande:^. (Cap. 
XXXIII). 

< Esto rio (Rio das Caravellas) vera de rauito longe, e polo sertão 
6 povoado de gentio bera acondicionado, que nao faz raal aos homens 
brancos, que vão por elle acima para o sertão. Aqui neste rio foi 
desembarcar António Dias Adorno cora a gente que trouxe da Bahia, 
quando por mandado do governador Luiz Brito do Almeida foi ao ser- 
tão no descobrimento das esmeraldas, e foi por este rio acima cora 
cento e cincoonta home as, e quatrocentos índios de paz e escravos, 
o todos foram bem tratados e recebidos dos gentios, (que) acharam 
pelo sertão deste rio das Caravellas. (Cap. XXXVII). > 

«Este Rio Doce vem do muito longo corre até o mar quasi leste 
oeste, pelo qual Sebastião Fernandes Tourinho, de quem falíamos, fez 
.uma entrada navegando por elle acima, até onde o ajudou a maré' 
cora certos companheiros, e entrando por um braço acima, que se 
chama Mandi, onde desembarcou, caminhou por terra obra de vinte 
léguas com o rosto a loeste sudoeste, e foi dar com uma lagoa, a 
quo o gentio chama boca do mar, por ser muito grande e funda, da 
qual nasce um rio quo so metto n'cste Rio Doce, e leva rauita agua. 
E.sta lagoa cresce as vezes tanto, que faz grande enchente neste Rio 
Doce. D'osta lagoa corre este rio ao leste, e d'eila a quarenta lé- 
guas tem uma cachoeira : o andando esta gente ao longo d'osto rio» 
que sahe da lagoa mais do trinta léguas, se detiveram alli alguns 
dias ; tornando a caminhar andaram quarenta dias cora o rosto a 
loeste; e no cabo delles chegaram, aonde se mette esto rio no Doce, 
e andaram nestes quarenta dias setenta léguas pouco mais ou menos. 
E como esta gente chegou a este rio Doce, e o acharam tão possante, 
fizeram n'elle canoas de casca, cm que crabarcarara, o foram por elle 
acima, até onde se raetto n'esto rio outro a que chamara Aceci, pelo 
qual entraram o forara quatro léguas, e no cabo delias desembarca- 
ram o forara por terra com o rosto a noroeste onze dias, o atraves- 
saram o Aceci, e andaram cinquenta léguas, ao longo delle da banda 
do sul trinta léguas. Aqui achou esta gente umas pedreiras, umas 
pedras vordoengas, o tomara de azul, que tem que parece turques- 
coas, e affirmou o gentio aqui visinho, que no cimo deste monte se 



~ 2Õ1 — 

tiravam pedras muito aziíos, e qiio havia outras que segundo sua in- 
formação tem ouro muito descoberto. E quando esta gente passou 
o Aceei a derradeira vez, d'aHi cinco ou seis léguas da banda do 
norte acliou Sebastião Fernandes uma pedreira do esmeraldas o outra 
de safiras, as quaes estão ao pó do uma serra cheia de arvoredo do 
tamanho de uma légua (1) o quando esta gente ia do mar por este 
Rio Doce acima sessenta ou setenta léguas do barra acharam umas 
serras ao longo do Rio de Arvoredo, e quasi todas de pedra, cm que 
também acharam pedras verdes : e indo mais acima quatro ou cinco 
léguas da banda do sul está outras serra, em que aflirma o gentio 
haver pedras verdes e vermelhas tão compridas como dedos, o outras 
azucs todas mui rosplandescentes. 

Desta serra para a banda do lesto pouco mais do uma légua es- 
tá uma serra, que é quasi toda de crystal muito íino, a qual cria era 
si muitas esmeraldas, e outras pedras azu es. Com estas informações 
que Sebastião Fernandes deu a Luiz do Brito, sondo governador, 
mandou Antanio Dias Adorno, como já fica dito atraz, o qual achou 
ao pó dosta serra da banda do norte as esmeraldas, e da de leste as 
safiras. Umas outras nascem no crystal, d'onde trouxeram muitas o 
algumas muito grandes, mas todas baixas ; mas presume-se, que de- 
baixo da terra as deve haver finas, porquo estas estavam á flor da 
terra. Em muitas partes achou esta gente pedras desacostumadas de 
grande pezo, que afflrraam terem ouro c prata, do que não trouxeram 
amostras, por não poderem trazer mais que as primeiras e com tra- 
balho ; a qual gento se tornou para o mar pelo Rio Grande abaixo 
como já fica dito. E António Dias Adorno, quando foi a estas pedras, 
se recolheu por terra atravessando pelos Tiqnnaes e por entre os Tu- 
pinambãs, e com uns e outros teve grandes encontros, e com muito 
trabalho e risco do sua pessoa chegou a Bahia e fazenda de Gabriel 
Soares de Souza.» (Cap. XL.) 

Estas noticias, especialmente na parto referente ás explorações attri- 
buidas aTourinho, são muito confusas. Sendo isto, provavelmente, de- 



(1) A phrase «do tamanho de unia légua» que vem na edição do Instituto Histórico 
parece ser eiTo de cópia. Simão de Vasconcellos, que talvez consultasse uma outra cópia 
tio raanuscripto de Gabriel Soares, diz «junto a uma alagoa». 



— 252 — 

vido, era parte, a erros ou omissões nas copias do oscripto de Ga- 
briel Soares, cujo original não é conhecido, e era parte tarabem a 
uma confasâo no escripto deste ou de quem o inforraou a respeito 
destas exploraç5es. Para a parte relativa a Adorno, este informante 
foi o próprio Adorno, e ó bem possível qae- ao redigir, alguns annos 
depois, a sua obra, Gabriel Soares tivesse attribuido a Tourinho al- 
gama parte das descobertas do seu successor, que certamente andou 
na região do alto Mucury e Criciiré, onde provavelmente se acham as 
quatro serras de pedras verdes e azúes mencionadas, ao passo que a 
narrativa detalhada da viagem de Tourinho só indica a sua passa- 
gem pelos rios Doce, Jequitinhonha e seus affluentes. Seja como for, 
a noticia do Gabriel Soares indica explorações tao completas que so- 
monte depois do povoamento dofiaitivo do território mineiro houve 
outras que mais contribuíram para o conhecimento goographico e 
mineralógico da região. Parece pouco provável que a exploração de 
uma região tão vasta e tão difficil fosse obra das duas expedições 
mencionadas, o é licito presumir que a viagem do Tourinho deve sor 
desdobrada em duas ou mais. 

Considerando a noticia de Gabriel Soares como o conjuncto das 
informações por elle obtidas de todas as explorações eftectuadas na 
região, podemos dividir estas em quatro grupos, a saber : 1.» as do 
littoral o baixo Rio Doce ; 2," as dos cursos dos rios Doce e Jequiti- 
nhonha e os seus aífluentes ; 3.o as da região do Rio Doce, e 4.o as 
da região ao sul do mesmo rio. 

A parte mais confusa da noticia ó a que se refere á região do 
baixo Rio Doce, na qual certamente ha erros e omissões nas cópias 
publicadas do manuscripto de Gibriel Soares. A lagoa chamada Boc- 
ca do Mar, ou Bocca de Mandij, conforme a versão de Simão de Vas- 
concellos, não pôde ser outra sinão o lago Juparaná. (l) Neste caso, 
porém, o roteiro— entrando pela barra do rio Doce até onde ajuda a 



(1) Varias tentativas para traduzir graphicamente este trecho de Gabriel Soares 
encontram-se nos mappas de 1700 em deante. Assim o de Guillaume de L'lsle (1703) traz 
uma lagoa com o nome de Bouche de la mer, com um rio correndo ao oeste para des" 
aguar no rio Doce logo abaixo do rio Acecy: Nicolas de Fer (1717) traz a mesma lagoa 
e nome, mas figurando como cabeceira do rio Paraná. 



- 2Õ3 - 

maré e depois caminhando vinte léguas por terra a oeste-sudocste — 
é incoraprehonsivol e só pôde ser acceito na supposição de que a en- 
trada fosse pela barra do Cricaré (São Mathous). A referencia ao rio 
que sai da lagoa, ao longo do qual se andou trinta léguas, é tam- 
bém incoraprohensivel. Para se conciliarem as incongruências da no- 
ticia pode-se suppor que houve uma primeira exploração em que, en- 
tra ]do-so polo Cricaré, foram descobertos o lago Juparaná e o trecho do 
rio Doce entre este lago e o mar, sendo este trecho considerado como 
o desaguadouro do lago. Si depois uma segunda expedição, entrando 
pela barra do Doce, já descoberto, e continuando para cima do lago, 
verificou que o rio vinha de muito longe e que a quarenta léguas do 
lago (ou setenta, pouco mais ou menos, do mar) havia a cachoeira das 
Escadinhas, a noticia torna-se comprohensivel. Mesmo assim, porem, 
a narrativa não fica muito clara e as phrases <chegaram onde se 
mette este rio no Doce* e «e como esta gente chegou a este rio Do- 
ce e o acharam tão possante» ficam sem explicação. 

O segundo grupo das explorações feitas pelos rios Doce, Jequiti- 
nhonha e os seus tributa- ios é mais clararae to definido e, sem gran- 
de risco do errar, podem se acceitar as identificações do sr. Capis- 
trano de Abieu (l) do rio Aceci com o Sassuhy e do Raso-Aguipe 
cora o Arassuahy. Nesta hypothese foram explorados os rios Doce e 
Sassuhy até as cabeceiras deste ultim), nas proximidades da actual 
cidade de Serro e nas da secção da serra do Espinhaço, que depois 
ficou celebre com a denominação de Serro do Frio. Assim as serras 
de pedras, entre as quaes se andou trinta léguas para depois, voltan- 
do a leste, encontrar o rio Arassuahy, poderiam ser as do Districto 
Diamantino, onde de facto se encontram «pedras verdoengas» (quart- 
zitos com mica verde) e o mineral lazulite, ou klaprothina, que facil- 
mente se confunde cora *urqueza, sendo para notar que a raelhor lo- 
calidade actualmente conhecida deste ultimo mineral é a própria ci- 
dade de Diamantina. Uma outra interpretação seria que, em logar 
de seguir pelo tronco principal do Sassuahy, indo em direcção de 
Serro, a expedição subisse pelo seu affluente, o Urupúca, que a levaria 



(1) Artigos na «Semana», de 1887, citados nas «Ephemerides Mineiras", vol. 1, pag. 
372. 



— 254 — 

á serra que depois flcou conhecida como sondo rica em pedras ver- 
des e que foi alcançada por Marcos do Azeredo indo pelos rios 
Doce, Guasisi (Acoci), Guasisi-rairira o Una ató dar numa lagoa. (1) 
Esta hypofchese tom contra si a affirmação de andar acompanhando 
o Aceci em rumo de noroeste ; mas, por outro lado, concorda melhor 
cora os detalhes dados sobre as diversas serras nas quaes foram eu- 
c )ntrailas pedras verdes e com a referencia a um rio de Avoredo, que 
devia ser próximo á sorra < cheia de avoredo» e que, conforme aversão 
de Simão de Vasconcellos, se achava juncta a uma lagoa que talvez 
30 pode identificar com a lagoa Vupabuçú {Upauabussú, Lagoa Grande) 
de Marcos de Azeredo e a lagoa da Agua Preta dos mappas modernos. 
Cora esta hypothese concorda a circurastancia de que Adorno, indo 
verificar as descobertas do Tourinho, entrou pelo rio das Caravellas, 
ou Mucury, polo qual havia de dar na mesma serra. Se for assim, 
é provável que a sahida fosse pelo Itaraarandiba o não polo tronco 
principal do Arsssuahy, sendo este ultimo então o affluente da banda 
do oeste e desapparecendo assim uma outra difíiculdado do interpre- 
tação que vera a ser quq, devido ao pouco espaço entre elle e o Je- 
quitinhonha, o Arassuahy não recebe tributário importante pela sua 
margem esquerda. 

Conforme a redacção da noticia, as serras descobertas por Tou- 
rinho na região entre os rios Doco e Jequitinhonha deviam ser próxi- 
mas ao primeiro e ao longo do uramysterioso rio de Avoredo. Sendo 
certo, porém, que a serra das Esmeraldas dos exploradores subse- 
quentes (Adorno, Marcos do Azeredo, Fernão Dias e os mineiros do 
século XIX) acha-se situada na região das cabeceiras dos rios Cricaré, 
Mucury, Itaraarandiba e Urupúca, ó possível que haja confusão na no- 
ticia e que fosse nesta raesraa região a exploração de Tourinho, sendo 
este ultirao rio, ou ura dos seus affluentes, o seu rio de Avoredo. Neste 
caso é de prosarair que a lagoa mencionada (no caso de ser certa a 
versão de Simão de Vasconcellos) fosso a mesma que depois se tornou 
legendaria cora o norae de Vupabuçú e que, provavelraente, é a conhe- 
cida hoje cora o noiue de lagoa de Agua Preta. 



(]) «Razão do Estado do BrazU no governo do Norte— até o anno de 1612» citado 
pelo dr. Francisco Lobo Leite Pereira no seu excellente estudo «Em busca das Esmerall- 
das» na Revi&ta do Archivo Publico Mineiro, vol. IT, p. 519. 



Cora rofôrencia a explorações ao sul do rio Dòco, pareee extre- 
mamente duvidoso quo as houvesse. As explorações já mencionadas 
dao muita coisa para uma ou mesmo duas expedições nas condições 
de então, e, sendo accrescentada uma viagem ao sul ató a latitude 
do Rio do Janeiro, ellas se tornam fabulosas. E' para notar quo a 
noticia tão minuciosa, embora confusa, com referencia ás outras regiões 
sú dá a respeito desta supposta viagem os detalhes de uma tomada 
do sol e o reconhecimento da serra dos Órgãos. O primeiro pode fa- 
cilmente ser um erro do observação ou uni exaggeio de quem contoa 
a historia, e o segundo é simplesmente impossível para quem nunca 
tinha visto a serra dos Órgãos pelo lado de traz. Serras denteadas, 
que de algum modo se assemelham em aspecto a dos Órgãos, abundam 
era toda a região explorada o é de presumir que a que foi assim 
denominada ficasse bastante distante da bahia do Rio de Janeiro. Se 
realmente houve alguma exploração ao sul do Rio Doce, esta, prova- 
velmente, foi uma entrada pelo Rio Manhuassú acima, até avistar uma 
serra que erradamente se identificou com a Serra dos Órgãos 0-). 

Quanto a descobrimentos do mineraes ó certo que tanto Tourinh» 
€omo Adorno acharam aguas marinhas e turmalinas verdes (as sup- 
postas esmeraldas), turmalinas de duas cores (as pedras verdes o ver- 
melhas tão compridas como dedos) e provavelmente turmalinas ou to- 
pázios azues (as suppostas saphiras), e, talvez, lazuUto, ou klaprothina (as 
suppostas turquezas), sendo todos estos mineraes mais ou menos 
abundantes e caracteriscos em diversas partes da região explorada . A 
respeito de raetaos, porém, estas duas expedições foram menos feli- 
zes do que a de Martim Carvalho, visto não se poderem considerar 



(1) Uma carta inédita do padre Ignacio de Tolosa, datada do collegio da Bahia cm 
7 de setembro de 1575, refere a viagem de dois padres acompaniiando uma entrada quo 
pela épocha, numeio do gente e ponto de partida, parece ser a de Adorno. A partida 
íol em fevereiro de 1574, e a volta em abril de 1575. Além destas datas a carta não 
contém dados geographicos ou históricos quo adiantem, a não ser a affirmação que a 
expedição chegou ató o rio São l^rancisco. Gabriel Soares, informado pelo próprio Adorno 
Eão menciona esta circumstancia e é de suppor que o bom do padre Tolosa ficou tão 
pasmiido com historias de indios com pés para traz e que davam a mamar aos íUhos, que 
introduziu nas noticiai da viagem dos seus contemporâneos as informações que tinha ro- 
ce-údo da do padre Navarro, na expedição de 1553. 



— 256 — 

como descobrimentos as informações de índios (que não conheciam 
ouro ou prata), nem a suspeita da existência destes metaes baseada 
no peso das pedras. 

Bm 1584, Gabriel Soares de Souza, de posse de um roteiro de 
uma viagem á região do alto rio São Francisco, feita por seu irmão 
João Coelho de Souza, foi á Europa a fim de requerer concessões 
para a exploração de minas. No seu preciosíssimo "Tractado Descri- 
ptivo do Brasil", escripto durante a sua estada na Europa, elio decla- 
ra que de ouro e prata "esta terra da Bahia tem delle tanta parte 
quanta se pode imaginar, do que pode vir a Hespanha cada anno 
maiores carregamentos do que nunca vieram das índias occidc^ntaes". 
Procurando, porém, o fundamento desta opinião, que se acredita geral- 
mente ter sido baseada era descobertas feitas por João Coelho de Souza, 
nada se encontra que a justifique. Pelo contrario, eni toda a parte 
da obra que tracta da região do São Francisco se nota a falta com- 
pleta do minudência e de precisão das informações que caracterizara 
a descripção das outras regiões o que tornam tão notável este escri- 
pto. Era logar destas inforraações, que er^m de esperar si realmente 
existissem, ha referencias vagas á lendária tribu das Amazonas, e 
a outro gentio que não communlcava com os {'ortuguezes. que < se 
atavia com jóias de ouro e vive em redor de uma lagoa Grande » 
que indicam antes sonhos peruvianos do que noticias de uma ver- 
dadeira exploração. Tendo João Coelho de Souza morrido no sertão, 
parece que Gabriel Soares só teve as informações de quem não sou- 
be contar o que elle tinha observado e, talvez nem por onde tinha 
andado. O próprio Gabriel Soares na expedição que emprehendeu em 
procura da mesma região perdeu a vida sem conseguir coisa aiguma 
em referencia á mineração a não ser, conlorme pensa Caplstrano de 
Abreu, dar origem á famosa lenda das minas de prata de Rooerlo Dias. 

Durante a administração de d. Francisco de So' za, a lenda do 
nraa sorra de Sabarábussú, rica em prata, parece ter tomado forma 
a ponto de levar este governador a vir a S. Paulo para de lá orga- 
nizar uma expedição á sua procura. Conta o hoUandez Guilherme 
Gliraraer (1) que d. Francisco de Souza recebeu na Bahia de um bra- 



(1) Piso e Marcgraff, "Historia Naturalis Brasile", p. 262; "Revistado Instituto Histó- 
rico de 8. Paulo", vol. IV, p. 333. 



— 257 •- 

sileiro um «certo metal extrahido, segundo dizia, dos montes Sabaroa- 
son, de cor azul escura ou celeste, salpicado de uns grânulos côr de 
ouro. Tendo sido examinado pelos entendidos em mineração, reco- 
nheceu-se que este metal continha «em um quintal trinta marcos de 
prata pura». Por esta descripçao não é muito arriscado identificar o 
supposto minereo com as pedras azues da região das esmeraldas, son- 
do, presumivelmente, uma rocha crivada de beryl, ou lazulite, e mi- 
ca. O resultado do exame feito por entendidos na mineração não é 
necessariamente contrario a esta identificação, porque ainda hoje, 
apesar de todo o progresso que se tem feito em laboratórios e ensa- 
iadores, pódem-se citar analyses análogas em pedras completamente 
destinadas de metaes preciosos. O facto é que até hoje não se 
tem verificado em parte alguma do Brasil a existência de minereo 
azul (ou de outra qualquer côr), com teor em prata, que se approxime 
a este. A pedra em questão foi talvez uma das trazidas por Touri- 
nho ou Adorno, ou, mais provavelmente, trazida da mesma região 
por um dos seus successores Diogo Martins Cão ou Marcos de Azere- 
do. Conforme refere Balthazar da Silva Lisboa {Ánnaes do Rio de 
Janeiro II, p. 200 ), este ultimo trouxe á Bahia, em 1596, amost as 
da serra das Esmeraldas, mas como bem ponderou o dr. Francisco 
Lobo Leite Pereira no seu interessante estudo intitulado « Em Busca 
das Esmeraldas >, no vol. II da * Revista do ArcMvo Publico Mineiro», 
é mais provável que o explorador desta épocha fosse Diogo Martins 
Cão. Assim ha toda a probabilidade de que esta seja a primeira re- 
ferencia impressa á famosa serra de Sabarábussú. Apenas deu-se a 
substituição de4e nome pelo de «Serra resplandecente» da lenda india 
citada por Gandavo, conforme a identificação jà referida do dr. Theo- 
dõro Sampaio. 

De passagem para São Paulo, d. B^rancisco de Souza mandou 
de Espirito Santo uma expedição em busca das esmeraldas mas esta, 
como a de Martins Cão, nada parece ter adeantado geographica ou 
mineralogicamente sobre as de Tourinho e Adorno. 

Chegando em São Paulo, em 1599, d. Francisco de Souza en- 
ontrou era plena actividade a mineração de ouro em diversos pontos 
próximos á villa. Consta por tradições e noticias colhidas por Pe- 
dro Taques que esta mineração foi iniciada em 1589 (provável mento 



— 208 — 

em continuação das descobertas de Braz Cubas, era 1560) por Aífonso 
Sardinha., que em testamento feito em 1G04 (Azavedo'Marquos, ob. cit. 
pag. 3), declarou possuir 80.000 cruzados de ouro em pó. Menric- 
na também o inglez António Kncivet que do assalto de Santos por 
Cavandisli, om 1591, os piratas levaram muito ouro do um certo 
logar chamado Mutinga que é provavelmente a garganta de Tutinga, 
ou Itutinga, na íáerra do Mar, que dá accesso ao planalto do São 
Paulo, onde se acharam as minas. Esta referencia podo ser inter- 
pretada como significando que o ouro vinha pelo caminho que passa- 
va em Tutinga o de algum ponto adcante, isto é, das vizinhanças de 
Sâo Paulo. Si assim fôr, temos aqui uma indicação da posição da 
primitiva estrada partindo de São Vicente para o planalto e passan- 
do pela garganta do Tutinga no valle do Rio das Pedras. O ouro 
do São Paulo era, porem, <ouro de lavagem», o as lavras não pare- 
cem ter sido bastante ricas para satisfazer os desejos dos que so- 
nharam com minas do prata rivalizando com as do Peru. 

Era busca das rainas de prata do Sabarábussii foi organizada uma 
expedição que, coriformo ura manuscripto inédito de Pedro Taques, 
existente na Bibliotheca Nacional, foi commandada por André do 
Leão e recebeu intrucções a 19 de Julho de 1601, sendo de pre- 
sumir que partisse logo em seguida. Azevedo Marques (ob. cit. II, 
pag. 224), bascado no inventario do Ascanso Eibeiro, di2: que o 
commandante era o capitão Nicolau Barreto, tendo entre outros, co- 
mo companheiros, Simão Borges Cerqueira, Ascanso Ribeiro, Pedro 
Leme, Manoel Pinto o Francisco de Alvarenga, e que a partida foi 
em Agosto de 1602. Como d. Francisco de Souza já tinha deixado 
São Paulo antes desta ultima data (em Junho do 1601), é provável 
que a primeira data seja a verdadeira. E' provável que acompa- 
nhassem também a expedição o mineiro Jaques de Palte e o enge- 
nheiro Geraldo Bf>tink, allemães que, conformo o mesmo Pedro Ta- 
ques, tinham vindo da Bahia em companhia do governador. Para a 
historia, o personagem mais importante desta comitiva foi o hollandez 
Guilherme Glimmer, residente cm São Vicente, a quem se deve um 
precioso roteiro impresso em 1648 na obra de Piso e Marcgraff. Por 
esto roteiro, é possível reconstruir de modo relativamente satisfactorio 
o itinerário, como ha pouco tentei fazer em um trabalho que saliiu 



— 259 — 

no vol. IV da Revista do Instituto Histórico de São Paulo. Para 
o fim do presente estudo basta constatar que a expedição, acompa- 
nhando caminhos de Índios, atravessou a região do alto Eio Grande 
e penetrou quasi ató o São Francisco, onde identificou cora a serra 
do Sabarábussú uma montanha que presumivelmente é a Sena de 
Pitanguy, e que nada descobriu de motaes ou pedras preciosas. E' 
provavelmente a esta expediyão que se refere frei Vicente de Salva- 
dor na noticia dada «por um soldado de credito que indo de Sáo 
Vicente com outros, entraram muitas léguas pelo sertão donde trou- 
xeram muitos Índios». 

Depois desta expedição mallograda cessaram por muitos annos 
os esforços officiaes em procura de minas, mas por parte de particu- 
lares houve diversas entradas, mal conhecidas, que na opinião de ura 
contemporâneo* Frei Vicente do Salvador, tiverara como pretexto a 
exploração de minas, mas como motivo verdadeiro a caçada de ín- 
dios. Delias não se conserva contribuição alguma para conhecimento 
geographico ou mineralógico da região a não serem os nomes de 
Lagoa Vupabuçú e rios Guassisi-guassú, Guassisi-mirim e Una regis- 
trados por Marcos do Azeredo (antes do 1612), os quaes, como, já foi 
referido, provavelmente se applieam a feições topographicas descober- 
tas por Tourinho e Adorno (1). No sul de São Paulo já se minerava 
correntemente, no districto de Iguapo, conforme se vê de uma interes- 
sante carta, datada de 1635, que vem estampada na *Revista do Ins- 
tituto Histórico de São Paulo», vol. II, pag. 102. A mineração nesta 
região e na de Paranaguá parece ter sido alguns annos mais antiga 
e, provavelmente, continuou sem interrupção, mas sem attrahir a 
attenção ofíicial ató que, era 1684, e ainda com sonhos de prata, esta 
despertou repentinamente cora grandes esperanças nas minas de Pa- 
ranaguá o nas da serra das Esmeraldas. O governador Salvador 



(1) A affirmação em um memorial dos filhos de Azeredo, em 1643, de que este tinha 
descoberto diamantes, não merece grande credito. Para os exploradores daquellaépocha 
(e por muito tempo depois), todas as pedras verdes eram esmeraldas e todas as azues 
saphíras, mas nem todos chamaram "diamantes" qualquer pedra tranca lustrosa porque 
a ídéa de diamantes não tinha sido ainda suggestionada. Depois, e ainda até hoje, este 
ultimo erro tornou-se hastante commum. 



- 260 — 

Corrêa de Sá e Benevides passou algims mezes cm Paranaguá em 
1660 e ficou completamente desenganado a respeito da prata naquella 
região. Ha noticia também que este governador mandou uma expe- 
dição para a serra das Esmeraldas, em que o seu flliio João de Sá 
perdeu a vida, mas isto não pareço exacto, visto que Salvador Cor- 
rêa na longa exposição feita na reunião do Conselho Ultramarino, de 
3 de Maio de 1677, nenhuma referencia faz a explorações nesta re- 
gião e nesta épocha. 

Em 1684 houve uma recrudescência de interesse na exploração do 
sertão, mas sempre com a preoccupação de prata e esmeraldas. A 
19 de Maio daqaelle anno foi expedida carta patente a Agostinho Bar- 
balho Bezerra para descobrir e beneficiar «as minas de Paranaguá e 
da Serra das Esmeraldas, que se diz, ha no sertão da Capitania do 
Espirito Santo, de que já tem vindo a este reino alguÃias amostras> . 
A 27 de Setembro do mesmo anno foram expedidas cartas regias 
á Camará de São Paulo e a diversas pessoas importantes dessa 
villa, incitando as a auxiliarem Agostinho Barbalho nestas explorações. 
Este entrou pela Capitania do Espirito Santo em busca das esmeral- 
das e perdeu a vida sem nada conseguir. 

Mallograda a expedição de Barbalho, Fernão Dias Paes Leme, 
uma das pessoas que tinham recebido as cartas de 27 de Setembro, 
resolveu tentar a exploração a sua custa. Ja em edade avançada, 
mas provavelmente não com os 80 annos que lhe dão alguns histo- 
riadores (1), elle fartiu com numerosa comitiva a 21 de Julho de 
1674, e sete annos depois, voltando com as suppostas esmeraldas en- 
contradas nos próprios sovacações deixados por Marcos de Azeredo, 
morreu antos de chegar a São Paulo. 

Para a manutenção da expedição e como provisão para a volta, 
Fernão Dias estabeleceu postos, ou pelo menos plantou roças, em di- 
versos pontos que vem ennumerados pelo historiador Southey, ba- 



1 Pedro Taques diz simplesmente que não estava em edade de penetrar sertões ; 
dSo dá a data do seu nascimento, mas dá a da morte do pai em 1633 e a do nascimento 
da mulher em 1642. A representação da Camará de Parnahyba, transcripta por Azevedo 
Marques (ob. cit. I, p. 148) é attribuida ao irmão de Fernão Dias, o padre João Leite da 
Silva, diz somente «em tempo que os seug annos pediam a contínuação de socego». 



- 26i — 

seado num escripto de 1757 do Pedro Dias Paes Leme, neto do ex- 
plorador. Estes pontos sâo : Vituruna, Peraopeba, Sumidouro do Rio 
das Velhas, Roça Grande, Tucambira, Itaraerendiba, Esmeraldas, 
Matto das Pedrarias e Serra Fria, e por elles 6 possível restaurar de 
modo relativamente satisfactorio o seu itinerário. Vituruna é eviden- 
temente Ibituruna, no Rio das Mort s, perto da sua confluência com 
o Rio Grande, e presumivelmente no ponto onde a expedição de 1601 
encontrou uma grande aldêa de Índios que fraternizaram cora os de 
S. Paulo (l). Neste caso ora ura ponto sobro ura caminho índio, e 
a sim t rna-se provável que ató alli Fernão Dias seguisse o mesmo 
caminho da expedição de 1601, o qual depois, no essencial, tornou se 
a estrada geral de S. Paulo para as minas. Sabe-se pelo roteiro do 
Glimmer que havia um caminho para o S. Francisco em rumo de 
noroeste e provavelmente pelo esjigão entre os rios Pará e Parao- 
peba, o que esto cruzava um outro «largo e trilhado» que devia ir 
para o norte. E' de presumir que Fernão Dias, seguindo por este 
ultimo caminho, estabelecesse o seu segundo posto de Peraopeba (S. 
Pedro do Paraopeba o Parahybipeba, em documentos paulistas anti- 
gos), na pasííagera do Rio Faraopeba, e o terceiro era ura lugar cha- 
mado Sumidouro, perto do Rio das Velhas. Este ultimo norae indica 
a região calcarea que se estendo do Lagoa Santa, perto da actual ci- 
dade de Santa Luzia, ató Sete Lagoas, ou além. Dos sumidouros nesta 
região um dos mais notáveis é o do desaguadouro da própria Lagoa 
Santa ; e é certo (como será provado adiante) que não foi muito longe 
deste ponto que Fernão Dias demorou se uns três ou quatro annos, 
deixando allí parte da sua comitiva com o seu genro Manoel de Bor- 
ba Gato. 

O quarto posto. Roça Grande, não pode ser identificado ; mas 
sendo o quinto, Tucambira, no valle do Rio Itacarabira é de presumir 
que o caminh » continuava para o norte fraldeando o grande paredão 
Occidental da serra do Espinhoço até enfrentar com este valle. A 
grande volta para o norte até Itacarabira, para depois tornar ao sul 
ató Itamarandiba (ítamenendiba), provavelmente indica que se andou 



(1) Esta Revista, Vol. IV, p. 335. A hypothese de que esta aldêa, ou uma outra na 
região campestre do alto Rio Grande fosse a alcan(^ada pelos emissários de Martim Af- 
fonso, mandados do Rio de Janeiro em 1531, não é de todo despropositada. 



— 262 — 

procurando a antiga estrada dos Tupiniqnins pela qual a expedição 
de 1553 tinha alcançado o rio Sao Francisco cruzando a serra do 
Espinhaço. Do posto de Itacambira é do presumir que a expedição 
descesse pelo valle deste rio até o Jequitinhonha e, atravessando este 
e a lingua de terra entre elle e o Arassuahy, subisse pelo Itamarandiba, 
em cuja margem se estabeleceu outro posto, até as suas cabeceiras con- 
tra vertentes com as do Urupúca, onde se achava a Lagoa Vupabuçú 
de Marcos de Azeredo. Se assim for, como faz crer a grande volta 
em U feita para passar pelo Itacambira, o caminho desde um ponto 
ao oeste da serra do Espinhaço devia ter sido essencialmente o mes- 
mo que o da expedição de 1553 e, cm parte menor, também o mes- 
mo que o de Tourinho e Adorno. 

Dos três últimos postos estabelecidos por Fernão Dias, os dois 
de Esmeraldas e Matto das Pedrarias foram provavelmente pontos de 
residência cmquanto se exploravam as pedras verdes, e o ultime da 
Serra Fria parece indicar que na volta se procurou um atalho por 
Sumidouro, passando no districto da actual cidade do Serro, onde 
talvez fosse plantada uma roça como provisão para futuras entradas 
por este caminho mais curto. 

Quanto a descobrimentos mineralógicos é certo que esta expedição 
nada mais conseguiu do que verificar os das pedras verdes, feitos 
por Tourinho o Adorno, cem annos antes. O espolio mineralógico de 
Fernão Dias, cuidadosamente cosido e lacrado em um saquinho, foi so-* 
lemnemente aberto pela camará de S. Paulo em 11 de Dezembro do 1681, 
e do auto que se lavrou nada consta além das suppostas esmeraldas. (1) 
A expedição transitou por muitas léguas por terrenos que depois foram 
reconhecidos como ricamente auríferos, mas, com a preoccupação de pra- 
ta e pedras preciosas, parece que não foi lembrado o expediente de levar 
na comitiva alguns faiscadores de ouro de lavagem, que nesta epocha 
não faltavam em S. Paulo. Assim esta expedição, tão demorada e 
tão custosa, pouco ou nada adeantou aos conhecimentos já ha muito 
tempo adquiridos. O seu grande serviço foi iniciar o systema de es- 
tabelecer celeiros de modo a dar maior permanência aos caminhos 
abertos, incluindo um ponto, pelo menos, de occupação permanente, o 



(1) Azevedo Marques. II, p. 242, 



— 263 — 

do Sumidouro, onde ficou Borba Gato com parto do pessoal da expe- 
dição. A estrada aberta do S. Paulo até o rio das Velhas nunca 
mais se fechou aos brancos o o resto, si por algum tempo esteve 
abandonado, nao tardou a ser aberto de novo logo que si divulgou a 
noticia da verdadeira descoberta de ouro. 

Uma questão interessante a investigar é a de saber se a identi- 
ficação da lendária Sabarábussii com uma serra nas vizinhanças da 
actual cidade de Sabará, foi obra desta expedição ou dos mineiros^ 
que depois descobriram ricas lavras de ouro no valle que corre ao pé 
e que ainda hoje conserva o nome na forma abreviada de Sabará. 
Seja qual for a verdadeira posição do sitio do Sumidouro, este não 
podia ser distante da dita serra, si é que não a tinha á vista. Na 
região do Santa Luzia e Lagoa Santa existe um antigo arraial cha- 
mado Sumidouro e próximo um outro que, como o córrego junto, tem 
o nomo de Fidalgo. Este ultimo nome, conforme uma tradição refe- 
rida por uma das testemunhas do processo Tiradentes, coramemora a 
morte violenta do um fidalgo o governador que não pode ser outro' 
sinão d. Rodrigo Castel Blanco, morto polo pessoal de Borba Gato 
perto do seu posto do Sumidouro. 

Si o verdadeiro nome indígena da serra fosse Sabarabussú, ó in- 
crível que Fernão Dias e Borba Gato não tivessem sabido desta cir- 
cumstancia e não a tivessem explorado minunciosamente. A carta re- 
gia de 4 de Dezembro do 1677 (1) respondo ás cartas de Fernão Dias,, 
que deviam ter sido escriptas durante a sua longa residência no Su- 
midouro, pelas quaes o príncipe ficou entendendo «como tracteis do- 
descobrimento da Serra de Sabarabussú e outras minas deste sertão,, 
de que enviastes as mostras de crystal e outras pedras». Dahi so 
conclue que estando no Sumidouro, Fernão Dias considerava Saba- 
rabussú ainda longe e provavelmente na região das esmeraldas. E^ 
mesmo de presumir que, tendo afinal descoberto as esmeraldas, elle- 
comraunicasse á família que tinha acertado com a serra procurada, visto 
que o sou irmão, o padre João Leite da Silva, em um protesto diri- 
gido á camará de São Paulo em 1 de Setembro de 1684, fala das 
minas de esmeraldas em Sabarabussú {2). E', portanto, extremamente 



(\) Pedro Tagues na ,,Eevisfa do Instituto Histórico", vol. 35, p. KG. 
(2) Azevedo Marques, ol), cit. II, p. 241. 



— 264 — 

provável que o rio Sabará ou Sabarábussú, que ainda conserva o nomo, 
e a serra da Lapa ou de Piedade, que era conhecida por este nome 
peios primeiros mineiros mas que nâo o tem conservado, nao foram 
assim denominados por Fernão Dias, nem peios Índios que elle encontrou 
na visinhança. Com a descoberta de ouro ao pé da se ra, e pela pró- 
pria gente que por tanto tempo tinha andado atraz delia, é natural que 
se exclamasse «ahi está o nosso Sabarábussú», sem se importar com a 
circumstancia de que não correspondia pela riqueza em prata nem pela 
denominação índia á lendária serra. 

Intimamente ligado com a expedição de Fernão Dias está o 
triste episodio de d. Rodrigo Gastei Blaiico que, nada tendo adeanta- 
do sobre descobrimentos de minas, não precisa ser considerado aqui. 
De passagem, porém, póde-se dizer que nada prova que elle mereceu 
o desprezo com que os historiadores, seguindo o exemplo de Pedro 
Taques, costumam tractal-o. Foi commissionado como perito na mi- 
neração de prata para descobrir minas deste metal onde não as ha- 
via, e o facto de condemnar as que outros julgaram eriadamente que 
tinham descoberto prova que não era um simples pretencioso. A 
accusação de querer apropriar- se dos fructos dos trabalhos de Fernão 
Dias cai perante o sou procedimento correcto na remessa da parte 
das amostras entregue pelo lllho deste, Garcia Rodrigues. 

No mesmo anuo da partida de Fernão Dias foi dirigida, a 23 de 
Fevereiro de 1674, a Lourenço Castanho Taques uma Carta Regia que 
é interessante por conter o nomo Cataguaies, destinado poucos annos 
depois a se tornar celebre. O texto desta carta não toi conservado, 
e conforme alguns escriptores se falou de «minas de Cataguazes», 
mas Fedro Taques, que deve sor a auetoridade mais segura, diz que a 
carta era a patente de governador para o «sertão dos, Índios Cataguazes». 
Em outra Carta Regia, dirigida á mesma pessoa, se fala no "sertão 
do Caethê.,. Apparontemente só se tractava de caçadas de Índios eas 
cartas só tem interesse por indicar a recrudescência desta Industria 
e a região para onde então se dirigia. O mesmo facto é indicado 
por um ofacio do governador da Bahia, em 1693, representando contra 
o procediraent) das Bandeiras Paulistas que, <com pretextos de anda- 
rem aos Tapuyas de corço, captivam os da língua geral». 

Em 1693, conforme uma tradição apanhada cerca de meio século 



— 265 — 

depois (O, uma destas expedições atraz dos Índios do sertão do Rio 



(1) A tradíçáo da descoberta de ouro por Arzão, que parece ter sido corrente tanto 
era Minas como em 8. Paulo, teve entrada na historia escripta por intermédio do poeta 
Cláudio Manoel da Cogita, que a dá na introducção intitulada Fundamento histórico, do seu 
poema Yilla Rica, que parece ter sido acabado no anno de VITÒ. 

Conforme a declaração do auctor, as suas informações relativas ás primeiras descober- 
tas eram em grande parte devidas ao coronel Bento Fernandes Furtado de Mendonça, 
fallecido poucos annos antes, mas confirmadas por correspondência com o historiador 
paulista Pedro Taques de Almeida Paes Leme. Esta ultima circnmstancia da troca de 
informações entre Cláudio Manoel e Pedro Taques explica a concordância relativamente 
perfeita entre os escriptos dos dois historiadores. Recentemente appareceram nas pagi- 
nas da «Revista do Archlvo Publico Mineiro> (vol. II, pag. V1& e voi. IV, pag. 83) dois 
escriptos inéditos que também estão em quasi completo accordo com os dois acima cita- 
dos. O primeiro, sem data nem nome do auctor, tem sido attribuido ao engenheiro José 
Joaquim da Rocha, com a data approximada de 1778 , mas, pela identidade da lingua- 
gem em muitos paragraphos como o «Fundamento Histórico" de Cláudio Manoel e pela 
discordância no modo de contar as longitudes com o mappa de 1778 (publicado sem data 
ou nome do autor na "Revista do Instituto Histórico" em 1852), que é indubitavelmente de 
José Joaquim da Rocha, conforme se vê pelo original assignado no Archivo Militar do 
Rio de Janeiro, é antes de presumir que este seja também de Cláudio Manoel. O esty- 
o da memoria attribuida ao coronel Bento Fernandes accusa antes um litterato do que 
um sertanejo, e, tendo em vista as relações conhecidas entre o velho mineiro e o poeta, 
é de suspeitar que a relacçjlo deste documento fosse também de Cláudio Manoel. Seja 
como fôr, é qaasi certo que a fonte de informações dos quatro documentos concordantes, 
a saber: a «Memoria» de Bento Fernandes, o «Fundamento Histórico» de Cláudio Manoel, 
a «Memoria» attribuida a José Joaquim da Rocha e a «NobiliarchiaJPaulistana» de Pedro 
Taques, seja a mesma, isto é, as reminiscências do velho mineiro Bento Fernandes, escriptas 
ou dictadas por elle, uns cincoenta f>u sessenta annos depois d os acontecimentos relatados. 
Debaixo deste ponto de vista a ,. Memoria" de Bento Fernandes assume um interesse 
histórico extraordinaiio. Conforme a própria narração, o auctor estava em 1702 em edh- 
de de se pôr á testa de uma exploração e, portanto, as suas recordações desta data em 
deante (ou um pouco mais cedo) são as de um assistente. As de data anterior devem 
ser de informações recebidas provavelmente de seu pae. Salvador Fernandes Furtado de 
Mendonça, e a circumstancia de que estas, como no caso dos incidentes da expedição de 
Fernão Dias, não estão em pleno accôrdo cora outros documentos conhecidos não destróe 
o valor das que são propriamente pessoaes ou de familia. Outra circumstancia que au- 
gmenta o valor histórico deste documento é a ausência de tentativas de engrandecer a 
importância da sua própria familia, como teria sido fácil nos incidentes da transmissão 
da primeira amostra de ouro por intermédio de seu pae Salvador Fernandes. Comtudo' 
com referencia as datas que vêm na ..Memoria" de Bento Fernandes, é preciso lembrar 
que estas sâo as recordações de um velho escriptas muitos annos depois dos aconteci- 
mentos. Pena é que a ,. Memoria" publicada seja um resumo e não a transcripção fiel 
deste importantíssimo documento. 



— 2m — 

Doco sahiu na capitania do Espirito Santo, onde o sen chefe, António 
Rodrigues Arzão, apresentou ao capitão-mór e á camará três oitavas 
de ouro, das quaes foram feitas duas medalhas, íicando uma com o 
descobridor e a outra com as auctoridades locaes. Na correspondên- 
cia offlcial da épocha, aliás incompleta, conservada na Bibliotheca Na- 
cional, nenhuma referencia se encontra a esta descoberca que, de 
certo, não era de natureza a despertar grande interesse ou enthusias- 
mo. Não obstante, é possivel que a tradição tenha o seu fundamento 
e que as auctoridades do Espirito Santo ou deixaram de communicar 
<5sto facto ao governador, ou que este não o julgou do suflScicnte 
importância a ser communicado ao governo. O certo é que a corres- 
pondência interna do governador da Bahia da épocha, que parece ser 
completa, nada contém a respeito, e que até a data do 15 de janeiro 
<Ie 1693, em que foi nomeado António Paos do Sande governador da 
capitania do Eio de Janeiro, com ordem de proceder a averiguações 
das minas de ouro e prata de Paranaguá, l'abaiana, (Itabaiana) e Sa- 
"barábussú, o governo de Lisboa não tinha informação de outras o 
ainda estava sonhando com as possibilidades do prata em Paranaguá 
e Itabaiana o com a lenda já secular da Serra de Sabarábussú. De- 
mais, os escriptos, abaixo referidos, do Bento Corrêa de Souza Couti- 
nho, que resumem as noticias sabidas no Eio do Janeiro ato meados 
de 1695, nenhuma referencia fazem a Arzão (*). Mesmo sendo verda- 
deira esta descoberta, nenhum indicio ha de ter ella influído sobro os 
descobrimentos subsequentes. 



(*) Carta de Bento Corrêa de Souza Coutinho escripta do Rio de Janeiro ao G.ofD. 
João de Lancastre g:.°'' e cap.™ gl. deste Estado ; e tado remetei; a corte para ser visto. 
'•Sr. 

"Meu Sr. Depois de haver escrito a V. S.» chegou a esta Cid." o vigr.» de Taubaté 

João de faria assis 

co;n algas dos moradores desta terra e dos campos 

geraes como dar -çM das novas minas de Oure, que tem descoberto com algus parentes, 
cuja amostra deste trouxe para se ver, e mandar aver, e por sermos conteraporanecs e 
amigos de muitos annos me revelou alguns particulares de mais, e me deu hu roteyro, 
<l' o estimey para o mandar a V, Z.^ q.' o veja e quando V. S.» 

campos geraes donde me dizem ha informações.... moradores. Creyo não lhe faltarão 
exploradores sertanistas para darem (conta destas minas ?) e tratarem de extrahir o mais 
q.' está prometendo aquelle território 



~ 267 — 

Por este tempo parece ter havido uma recrudescência de anima- 
ção na já antiga mineração da zona do littoral de São Paulo, cujas 
minas, sendo de «ouro de lavagem», eram consideradas de pouca va- 



folgarei mxiito ponha V. Sr. em execução p. q.' Sua Mg.© q.' Deos Gd.^ tenha mais que 
lhe agradecer e V. S. a gloria de fazer este serv.» ao d.o S.'" se eu subir assim segare- 

se V. S.* que hei de as minas, e q,' pessoalmente hey 

de assistir ncllas afira de q.' se crie hua nova officina; em q.' S. Mg." tenha mais os 
seus reaes qJ°^. 

"Como foiibe era V. S. sahindo da Corte tratei de ver se podia descuhrir-lhe alguns 
saguis p.» irem a tempo que V. S- os podesse mandar na mesma frota, mas como a 
gente que veio nos prim.os navios do comboy, havifio comprado os que acharão quan- 
do chegou Bernardo Ramires não havia nenhu'. 

"Honte me veyo de fora esse q.' por não perder tão boa occasião vac só, que o ofte- 
reço a V. S. com a confiança de seu mochiUa, e p.» q.' chegue bem tratado o entre- 
guei as P." João Vaz de Carv.» sujeito q.' me disse ia assistir a V. S.» sendo religioso 
da Corap.* Veja V. S.» o que me manda faça destas partes, q.' as suas ordens estou 
certo, e muito obediente, Gd.« Deus a V. S. como dezejo. Rio de Janr.» 29 de Julho 
de 694. Humilde creado de S. S.í"— Bento Correia de Souza Coutt.»" 

{Os eepaços em branco são illigiveis no registro conservado na Bihliotlieca Nacional. 
O referido roteiro vem reproduzido no texto acima.) 

No anno seguiate e evidentemente antes da carta de 16 de Junho de Sebastião de 
Castro Caldas annunciando a descoberta de Carlos Pedroso da Silveira e Bartholomeu 
Bueno de Siqueira, Bento Correia escreveu outra carta ao rei, que ficou registrada em 
Lisboa a 31 de Outubro de 1695. Nesta carta alem do roteiro do Padre Faria ( com al- 
gumas variantes na redacção notadas no texto acima) vem os seguintes trechos inte- 
ressantes para os fins do presente estudo. 

« Governador António Paes de Sande, com quem tinha ajustado quando fôs- 
semos a S. Paalo em serviço de Vossa Magistade passarmos por estes ribeirões (Guari- 
tiba, Angra) por ficar em caminho, e como fallecau naòa teve effeito.» 

« Estas são as noticias que tenho desde a era de 83, em que passei aquellas partes 
em serviço de Vossa Magestade, e supposto não fosse aos longes dos certões, explorei 
todo o povoado da Serra para cima, vendo com particular cuidado todo aquelle territó- 
rio, e depois fiz a mesma diligencia por toda a costa por terra, assistindo em muita 
parte de ribeirões do minas afim de tormar verdadeiro conhecimento, e tomando informa- 
ção dos mais fidedignos homens de tudo o que ignorava, a fim de que havendo occa- 
sião a empregasse no real serviço de V. Mag.*", té que chegando o governador António 
Paes ao Rio de Janeiro, tendo noticias passava as ditas Capitanias por ordem de V. 
Mag.«, o vim buscar e de tudo lhe dei parte para que com mais clareza e conhecimenfo 
fizesse o que mais convinha ao real serviço de V. Mag.», a quem prostrado aos seus 
reaes pés offereço estes arbitrics, e os mappas quo fiz tanto sobre as minas, como o ou- 
tro das terras de Angra dos Reis, para que V. Mag.« tenha uma verdadeira noticia o 
toahecimeato daquellas conquistas. V. M. mandará o que for servido ". 



- 268 - 

lia, mas onde, conforme se vê de diversas referencias, havia esperan- 
ças de descobrir minas de prata rivalizando c(»ra as de Potosi. Um 
oflScio do governador António Luiz Gonçalves da Camará Coutinho, 
datado da Bahia em 19 de junho de 1693 accusa o recebimento de 
uma carta régia transmittindo uma representação da camará de S. 
Paulo « sobre não ser conveniente que os índios das aldôas de Vossa 
Magestade se abalassem ao descobrimento dos ribeirões». 

Informa o governador que se tratava de serviços de ouro em 
pios tão doentios que os paulistas tiravam Índios das aldôas para 
poupar os seus próprio» ; mas nada refere sooro a situação dos ditos 
ribeirões. Esta vem revelada num escripto, do 1H95, de Bento 
Corrói de Souza. Coutinho, tratando das minas e do corte de ma- 
deiras na zona do littoral, que indica que se trata da região de ^Pa- 
ranaguá e Guaritiba. 

O roteiro referido nas cartas de Bento Correia está ura tanto dam- 
niflcado nas copias consultadas existentes na Bibliotheca Nacional, 
mas pela comparição das duas poude ser restaurado do modo se- 
guinte : 

< Roteiro das minas de ouro que descobriu o revdmo. vigário João 
de Faria e seus parentes e do mais que tem em sy os Campos. 

«De frente da villa de Taubaté quatro ou cinco dias (a outra 
cópia diz «três ou quatro») de viagem se acha estar o rio de Sapu- 
cahy, e descendo da dita villa para a de Guaratinguetá tomando a 
Gstradi real do sertão, dez dias de jornada para a parte do norte 
sobre o monte de Amantiquira, quadrilheyra do mesmo Sapucnhy, 
achou o padre vigário João de Faria, seu cunhado António Gonçalves 
Vianna, o Capt. Manoel da Borba (I) e Pedro de Avos vários ribei- 
ros com pintas de Ouro de muita conta (a outra versão diz «era 3 
ribeiros pinta muita boa, e geral de ouro de lavagem de que trouxe 
a amostra delle a esta cidade>) ; e das campinas de Amantiquira 
cinco dias de jornada, correndo para o Norte, estrada também geral 



(1) Será Maaoel da Borba Gato que, conforme Bento Fernandes, depois da morte 
violenta de d. Rodrigo de Gastei Branco, andou feito cacique entre os Índios do sertSo 
do Rio Doce até que voltou para a villa de Pindamonhangaba, donde "retirou-se logo 
para um canto entre a serra do mar e a povoação de Paraitinga" ? 



- 269 - 

do sertão íica a serra da Boa Vista, donde começara os campos ge- 
raes té confinar com os da Bhia; e da serra da Boa Vista thé o rio 
grande são quinze dias de jornada, cujas cabeceiras nascera da serra 
de Juruoca, de frente dos quaes serros té o rio dos Guanlianhans 
{Gmjanas na outra cópia) e ura raonto d3 Ebitipoca tera dez léguas 
pouco raais ou menos de circuito, toda esta planície cora cascalha 
•formadí de safiras e de frente do mesmo serro de Juruoca para o 
parte da estrada, caminho de Oeste pouco mais ou raenos, estão 
umas serras escalvadas, na qual achou o dito Padre vigário safiras 
nativas era vieiros de pedras cavacadas : (1) entre esta distancia es- 
tão muitos montes escalvados pelos campos e muitos rios, e em um 
■destes montes que se chama o Baependi se suspeita haver metal 
pela informação que deixou o defuncto Bartholomeu da Cunha, e 
adiante passando o rio de Igaray («Yrigahi» na outra cópia) se achara 
uraa carapina dilatada de rainas de christaes flnissiraos, o indo fa- 
zendo a raesraa derrota se acharão muitos morros escalvados e cam- 
pos geraos, cujos morros mostrão terem haver para muitas expe- 
riências que se tem feito que por falta de mineiros se não sabe o 
•que é, sendo os ditos campos muito férteis de toda a caça.» 

A outra cópia deste documento, a de 1694, diz, depois da referencia 
á falta do mineiros : <esta quantidade de campos e capões ó regada 
de muitos rios, uns grandes outros pequenos, em que não pôde fal- 
tar ouro de lavagem que por não ter Jogar não fiz exame, e são os 
ditos campos fertilissimos de caça e fructas agrestes» o depois de 
algumas palavras illegiveis «e da Resaca de Catagoas e serra de Ju- 
Tu ca que tudo confina hua cousa com outra, ha de vir sahir dos 
campos geraes o caminho para o Rio de Janeiro.» 

Por este documento se vê que já em meados de 1694 estava 
conhecida regularmente a região do alto Sapucahy e Rio Grande, 
'bem como a existência de ouro nella. A descoberta feita por uma ou 
mais expedições, provavelmente nos annos de 93 ou 94, organizadas 
para este fim especial e evidentemente acompanhadas por gente pra- 



(1) Talvez disthenio azul que abunda em muitas partes de Minas Geraes. Os mine- 
raes azaes a que se referem as suppostas saphiras da região dos rios Jequitinhonha • 
•Doca não são conhecidos nesta parte do Estado, talvez por falta de explorações. 



— 270 - 

tica das lavras do littoral, fora mais positiva e provavelmente mais 
importante pela quantidade de ouro extrahido do que as attribuidas a 
Arzão o Bartholomou Buono. Entretanto, parece ter passado quasi 
despercebida, provavelmente porque o ouro era «de lavagem > e não 
«m quantidade sulB cientemente deslumbrante, para fazer desapparecer o 
antigo preconceito contra esta qualidade de minas, em comparação com 
as sonhadas minas de prata cora que se esperava coUocar a colónia 
portugueza a par das de Hespanha. 

Não sendo conhecida a correspondência de d. João de Lencas* 
tro com o governo de Lisboa, não so podo saber cm que termos cllo 
deu conta desta descoberta do padre Karia, mas é provavelmente a 
ella que o governador se refere na carta do 15 de setembro de 1694, 
dirigida ás camarás de S. Paulo, S. Vicente e Santos, ordenando a 
construcção de uma nova fortdoza em frente de Santos, «porque 
agora quo é tão grande a fama do muito ouro que de novo so tem 
descoberto, poderá a mesma vilia excitar desejo do alguma nação 
inimiga, e ainda de alguns corçantes ou piratas,» E' para notar que 
o chefe da expedição, o padre João de Faria (Fialho), se tornou de- 
pois ura dos mineiros mais importantes da Villa Rica, onde deixou o 
seu nome ligado a um bairro da cidade e onde ainda so apontam as 
ruínas da sua residência. E' também para notar o nomo de um ex- 
plorador, Bartholomeu da Cunha, anterior ao padre João de Faria. 

O ultimo cscripto do Bento Corrêa, era que vera, pela segunda 
vez, o roteiro do padre Faria, não traz data ; raas, polo registro em 
Lisboa, era Outubro de 1695, e pela referencia á morte de António 
Paes do Sande, que teve lugar era Fevereiro do mesmo anno, podo 
ella ser fixada rauito approximadaraente. Era evidenteraente pouco 
antes da denuncia das minas de Cataguazes, a que se refere a seguinte 
Carta Régia, citada por Pedro Taques na Revista do Instituto Histórico, 
vols. 34, 2.a parto, pag. 16. 

«Governador da Capitania do Rio de Janeiro. Amigo. Eu, El-Rei 
vos envio muito saudar. Viu-se a carta que escreveu Sebastião de 
Castro Caldas, a cujo cargo estava esse governo, a 16 do junho deste 
anno ; om que me deu conta do uraas novas minas, que se haviam 
descoberto no sertão da villa de Taubaté, o de que haviam trazido 
cinco oitavas de amostras, quo reractteu, com a noticia do que ainda 



- 271 - 

se haviam descoberto mais ribeiros, como lhe haviam representado 
em suas petições os descobridores Carlos Pedroso da Silveira (l) e 
Bartholomeu Bueno do Siqueira, a quem proveu nos officios delias, 
por ficar dusentas léguas das de Parnaguá, e não poderem os officiaos 
delias acudir as novas minas chamadas de Cataguazes, ctc, 16 de 
dezembro de 1595». 

Pelos termos desta Carta Régia se concluo que foi somente depois 
de receber os requerimentos dos descobridores das minas chamadas 
de Cataguazes que o governador do Rio do Janeiro ligou importância 
ás descobertas do padre Faria, conhecidas desde o anno anterior. Dahi 
se pode presumir que não se enthusiasmou muito com qualquer das 
duas noticias e que a sua communicação ao governo e os actos qné 
praticou a respeito foram dictados mais pelo desejo de satisfazer os 
dois pretendentes do que por interesse no assumpto. 

De facto as cinco oitavas (resto, conforme a tradição, de uma 
apuração original de doze oitavas ) entregues ao governo não era quan- 
tidade sufficiente para despertar grande enthusiasmo sinão entre pessoas 
ignorantes da mineração pratica. A versão que attribue a expedição 
de Carlos Pedroso e Bartholomeu Bueno á primeira descoberta de Ar- 
zão é puramente tradicional, mas nem por isso ó inteiramente inaccei- 
tavel. 

Entre o povo do interior também o despertar do interesse parece 
não ter sido immediato, visto que, conforme as noticias mais fidedi- 
gnas, somente alguns annos mais tarde é que se iniciou o riish para 
o sertão. E' do presumir que o resultado mais immediato desta pri* 
raeira descoberta fora que as subsequentes bandeiras para a caçada de 
Índios tiveram o cuidado de levar alguns mineiros práticos das lavras do 
littoral, e que incidentalmente foi feito exame nos córregos por cnde 
passaram, dando assim occasião a alguma descoberta mais deslum- 
brante da qual não se tom conservado noticia minuciosa, mas que 
provocou o rush, francamente estabelecido em 1698, on talvez um 
pouco antes. De accôrdo com osta supposição está a noticia de An- 



(1) Conforme Pedro Taqnes {Rei: do Inst. Hist. n. 34, II, p. IG) Carlos Pedroso da 
Silveira tinha sido ouvidor por paite do donatário e foi nomeado provedor de uma casa 
<le fundição estabelecida em Paraty e depois removida para Taubaté. 



— zl2 — 

tonil que attribue a primeira descoberta a ura mulato que tinha es- 
tado nas minas do Paranaguá e Curitiba. Este, acompanhando uma 
bandeira era busca de Índios, lavou numa gamella as areias do ri- 
beirão de Ouro Preto, juncto á serra de Tripuy, e tirou granitos de 
ura mefcal pesado eôr de aço, que nâo sondo reconhecido como ouro 
foi vendido em Taubató a Miguel de Souza por meia pataca a oitava. 
Era o famoso «ouro preto» da região ; p, nas circurastancias aponta- 
das, ó de presumir que fosse ajunctada quantidade sufflciente para 
causar maior impressão do qno a produ?ida pela descoberta anterior 
de Bueno e para dar era resultado que as futuras bandeiras fossem 
effectivaraento era busca de ouro. 

A respeito da bandeira de Bueno e das primeiras descobertas 
substquentes temos, alóm das informações já citadas de Bento Fer- 
nandes, as seguintes, dadas em 2 de janeiro de 1733 ao padre Diogo 
S ares por José Robello Perdigão, que, tendo ido, em 1700, como se- 
cretario do governador Arthur de Sá, tornou-se mineiro e, em 1711» 
era o vereador mais raoço da primeira camará da villa de Ribeirão 
do Carmo {Revista do Archivo Publico Mineiro, II, pag. 81.) 

«Os primeiros sertanistas de S. Paulo informam qu^ um Duarte 
Lopes, fazendo experiência num ribeirão que desagua no Guairanga 
com uma batoa tirou ouro, de que no povoado fez varids peças la- 
vradas para uso de sua casa. 

<Sairara rauitas bandeiras á busca da casa da Casca no verão do 
1634 trazendo por seus primeiros cabos Manoel de Camargo, seu cu- 
nhado Bartholoraeu Bueno, seu genro Miguel de Alraeida, e João Lopes 
Caraargo, seu sobrinho João Lopes de Camargo, que ainda existe* 
Fizeram as primeiras experiências em Itaberaba, descobrindo o pre- 
cioso ouro. 

«Sendo pouco o lucro, proseguiu Manoel de Camargo com seufllho 
Sebastião na derrota da casa da Casca, sendo morto pelo gentio, e 
retrocedendo o fllho com alguns negros. 

«Miguel Garcia descobriu na foz da Serra de Itatiaya ura ribei- 
rão, que agora se chama Gualacho do Sul ; mas recusando os paulis- 
tas dai' partilha aos taubateanos, estes fizeram uma bandeira tendo 
por cabo Manoel Garcia e em breve desc br irara o celebre Ouro Preto. 
Accudiu tanta gente que nâo coube a cada pessoa mais de três braças 



- 273 - 

de terra, e nova bandeira lançou ura António Dias, quo descobriu o 
ribeirão de seu nome. O padre João de Paria fez então sua tropa e 
descobriu o ribeirão de seu norae. 

«Outra bandeira descobriu e socavou o ribeirão do Bento Rodri- 
gues, norae do cabo, este tanto produzia que de algumas bateiadas 
tirarara-se duzentas e trezentas oitavas, sendo a pinta gorai de duas 
e três, e tanta gente accudiu que em 1697 o alqueire de milho valeu 
64 oitavas. 

«João Lopes de Lima, morador em Tibaya (Atibaia), cora o padre 
Manoel Lopes, seu irmão, de alcunha o Buâ, descobriu o ribeirão do 
Carmo, que Arthur de Sá mandou repartir estando já em S. Paulo, 
nomeando guarda-mór Manoel Lopes de Medeiros. O ribeirão do Car- 
mo se repartiu em 15 de Agosto de 1709, Passados dois annos se 
descobriu só nas cabeceiras o ribeirão de António Pereira, norae do 
descobridor, o qual chamam hoje Gualacho do Norte; descobriu-o no 
rceio Sobastão Rodrigues da Gama ; a barra descobriu João Pedroso 
descobridor também do B rumado e do Sumidouro, que não crão 
menos ricos. Estes rios doserabocão ambos no Miguel Garcia ou 
Gualacho do Sul e todos no ribeirão do Carmo juneto ao Furquira. 
No mosrao desemboca o Bom Successo, descoberto pelo coronel Sal- 
vador Fernandes Furtado, ura anuo depois do mesmo ribeirão ; foi 
repartido por ordem de Arthur de Sá. Outros seguiram ribeirão 
abaixo, sendo o primeiro o capitão António Rodovalho, a 10 léguas 
pouco mais ou menos de Ouro Preto, onde então esiava situado Per- 
digão. Mais abaixo passou João Lima Boníante, que situou-se na 
freguezia de Bora Jesus do Monte ou Furquim ; mais abaixo foi o 
padre Alvarenga. O ultimo de todos foi Francisco Bueno de Camar- 
go, na barra deste ribeirão, no Guapiranga. Todos estes descobri- 
mentos se fizerara de 1700 para diante». 

Nos pontos essenciaes, para os flns do presente estudo, as noti- 
cias de Bento Fernandes e de Perdigão estão substancialmente de 
accôrdo. Ambos attribuem o descobriracnto effectivo á banddra de 
que fez parte Bartholoraeu Bueno, a quora, ao que parece, os cora- 
panheiros da bandeira e outros, por cujo intorraedio a prirauira 
amostra foi transraittida, não disputaram as honras de primeiro des- 
cobridor, sendo de presumir que a idéa de tirar proveitos oflficiaes da 



— 2Ti — 

descoberta fosse primeiro snggerida por Carlos Pedroso da Silveira. 
O logar deste descobrimento era nas iraraediaçõos da Serra do Itabe- 
raba, qne se acha situada no caminho mais natural de passagem da 
bacia do Rio Grande para a do Rio Doce, sendo do presumir que ser- 
viu de balisa para as bandeiras de caçadores de Índios. Dabi os 
descobrimentos se extonderam progressivamente para as imraediaçõos 
da Serra de Itatiaia e de Itacoluray, ou de Ouro Preto, seudo de pre- 
sumir que somente depois do alcançar esto ultimo ponto fosse que se 
estabeleceu o riish, que transformou as bandeiras caçadoras em mi- 
neiras. Estando as serras de Itatiaia e do Itacolumy fora do cami- 
minho de caçadores e sendo de difficil accesso, é quasi certo que as 
primeiras explorações feitas foram com o flm especial do reconhecer 
a existência de ouro : mas 6 provável que, no principio pelo menos, 
este fim fosse ainda subordinado ao do escravisar Índios. 

A divergência mais importante entre as duas noticias está na data 
de lf)97, dada por Perdigão á descoberta de Bento Rodrigues, que 
certamente foi posterior ás de Ouro Preto, as quaes, conforme Bento 
Pernandes, tiveram logar em 1699. Uma carta de Arthur de Sá e 
Menezes> de 29 de Abril de 1698 (1), indica que neste anno o riish 



(1) «Beiihor: 

«A conta que Sebastião de Castro Caldas deu a Vossa .Magestade das minas de Tau- 
Tjaté são as chamadas dos Cathaguazes, que distão de Taubaté mais de cera léguas. 
Continuadamente se v5o descobrindo novos ribeiros de grandíssimo valimento, como ja 
tenho dado conta a Vossa Magestade em carta de vinte de Maio ; o ouro é excellentis- 
Bimo e dizem os ourives que é de vinte e três quilates. 

«AS diligencias que achei que o sobredito Sebastião de Castro tinha feito para a boa 
an-ecadação foi ter creado um provedor em Taubaté e uma ofiScina sem officiaes, e agora 
fico cuidando se convém ao serviço de Vossa Magistade o conservar aquella officina, 
pelas duvidas que se me offerecem prejudiciaes a boa arrecadação dos quintos, porem 
sobre este particular não tenho disposto nada contra o que Sebastião de Castro deixou 
ordenado, porque quero ver primeiro o que a experiência me ensina examinando estes 
negócios maduramente. 

«E nestas mesmas minas tinha provido Sebastião de Castro a um guarda-mór que é 
o ministro que reparte as datas aos mineiros e tem cuidado de cobrar o dinheiro que 
S9 dá por aquella que toca a V. M. a qual se pôe em praça, e como este provimento 
foi sem conhecer o sujeito, o qual era incapaz do tal cargo pelo seu máo procedimento 
e tyranias que usava, e de mais não dando conta nenhnma do que tocava a V. M., rou- 
bando tudo para si, o mandei depor do ofiS^cio e provi nelle a pessoa benemérita que en- 
tendo ha de servir bem a Vossa Magestade ; e mandei ordem ao antigo guarda-mór a 



— 275 — 

estava francaraonto estabelecido, mas pároco indicar também que no 
intervallo entro a carta do Sebastião de Castro Caldas do 16 de Ju- 
nho do 1695 c aqiiella data o movimento explorador, embora conti- 
nuado no sertão, pouca attonção tinha recebido das auctoridados no 
Kio do Janeiro. 

Considerando todas as circumstancias, ó de presumir que o pri- 
meiro descobrimento potencial contado por Antonil fosse em 169i) ou 
1697, dando assim tempo para a transmissão ao Rio de Janeiro da 
primeira amostra do extranho metal que foi reconhecido como ouro 
preto. Assim devia ter sido de 1695 a 1696 a bandeira de Miguel 
Garcia no districto da serra de Itatiaia. 

Os incidentfcs da bandeira de 1694, contados por Bento Fernan- 
des, mas não referidos por Perdigão, nada têm de inverosímil, salvo 
na importância dada á supposta descoberta de Arzão como causa de- 
terminativa da expedição. A interessante tradição do ter a primeira 
amostra do doze oitavas de ouro passado por diversas mãos sem quo 
estos successivos possuidores disputassem ao primeiro o credito do 
primeiro descobridor denota grande lealdade da sua parte, ou, talvez, 
indiffercnça ou ignorância da importância da descoberta. 

Uma vez começado o movimento immigratorio, toda a fralda 
oriental da Serra do Espinhaço, correspondente a bacia do Rio Doca 
até a Santa Barbara ao norte, ficou dentro de muito poucos annos 
desbravada e cheia do centros activos de mineração. Até o anno da 
1704 parecera terem sido descobertos o povoados todos ^ os districtos 
:iiais ricos desta encosta, que tomou o nome de Minas Geraes de Ca- 
taguazes para distinguir esta região mineira das vizinhas do Rio das 
Velhas e do Caethé, que se desenvolveram quasi simultanearaonto 
como resultados indirectos das descobertas determinativas do rush na 
vizinhança do Ouro Preto. Conforme Antonil, as descobertas na re- 
gião de Caethó foram anteriores ás do Rio das Velhas, ou de Sabará, 
o neste caso é do presumir que fossem feitas por mineiros de Ouro 
Preto passando para o oeste das cabeceiras do Santa Barbara, ou tal- 



quem chamão Joseph de Camargo Pimentel que logo viesse dar contas dos que pertence- 
rem a Vossa Magestade. Como me não tem chegado respostas destas ordens, não posso 
dar conta a V. Magestade com aquella individuallde que é justo. Vossa Magestale nesta 
particular como em tudo mandará o que mais convier a seu real serviço. 
«Rio de Janeiro, 29 do Abril de 1G9?». 



— 276 — 

vez por bahianos vindos do norte. A importância que tiveram cer- 
tos bahianos nos acontecimentos de 1709 e a referencia de Antonil ao 
capitão Luiz do Couto, «que da Bahia foi para esta paragem com três 
irmãos, grandes mineiros>, favorecera esta ultima hypothese (1) que^ 
aliás, está em desaccôrdo cora as informações de Bento Fernandes, 
que dá a fundação de Caethé como tendo sido feita de Sabará por 
Leonardo Nardes. O que parece certo é que ('aethé foi o ponto de 
encontro de três movimentos raaif ou menos independentes, isto ó, o 
de Orro Preto, o do Rio das Velhas ou de Sabará, e o do norte pelo 
sertão da Bahia e talvez pelo littoral de Espirito Santo, sendo todos 
estes movimentos provocados pelas descobertas de ouro no districto 
de Ouro Preto na épocha de 1694 a 1699. 

A fralda occidental da serra do Espinhaço, na região do alto Rio 
das Velhas, começou a ser explorada logo em seguida á oriental e 
provou ser egualmente rica. O movimento por este lado foi iniciado pelo 
capitão Manoel da Borba (-fato, genro de Fernão Dias, que com a 
promessa de descobrir ou revelar ricas minas alcançou perdão do 
crime da morte de d. Rodrigo de Castel Branco, em 1681, que 
lhe foi attribuid». Julgam diversos historiadores que a descoberta 
já tinha sido feita antes da retirada precipitada de Borba Gato do 
sitio de Sumidouro {.?) aa vizinhança do futuro districto mineiro. 
Como já ficou referido, porôm, é extremamente duvidoso que a gente 



(1) Esta hypothese e a do paragrapho seguinte ficaram plenamente comprovadas pelos 
docamentos apresentados num trabalho subsequente relativo aos primeiros descobrimentos 
nos distrjctos de Sabará e Caethé. 

(2) Dois nomes locaes servem para identificar a posição approximada, sinão exacta, 
deste sitio. O de Sumidouro, pequena e antiga (figura num mappa de 1767), povoação 
próxima á Lagoa Santa^ não é, em absoluto, determinativo visto a frequência de sumi- 
douros nesta região. Existe, porém, na vizinhança um ribeirão e povoação antiga com o 
nome de Fidalgo, a que se refere uma das testemunhas do processo Tiradentes, em 1789, 
dizendo ter ouvido «que se tinha morto um general no sitio a que se chamou Fidalgo, 
na comarca de Sabará, cujo successo deu nome ao dito sitio (Norberto Conjuração 
Mineira). A referencia á morte de Castel Branco é clara e assim se torna quas» 
certo que o nome de Sumidouro na vizinhança vem do tempo da expedição de Fernão Dias. 

A versão corrente que a introducção de gado no valle do Rio das Velhas vem da 
dispersão das comitivas de Borba Gato e de Castel Branco parece sem fundamento. Não 
é de presumir que estas expedições tivessem levado gado, e é certo que neste tempo 
a occupação do sertão de S. Francisco pelos creadores bahianos já se tinha eífectuado 
até bem próximo, sinão dentro do valle do Rio das Velhas. 



- 211 - 

da expedição de Fernão Dias tivesse identificado a serra do districto 
de Sabará com a lendária Sabarábussií, ou que tivesse entre si 
pessoal apto para a descoberta de ouro cora que, estando preoccupa- 
da cora a idéa de prata e esraeraidas, pouco ou nada se importava. 
E' tarabera de extranhar que, no caso de ter feito esta descoberta, 
nada se coraraunicasse a S. Paulo na occasião da remessa do espolio 
mineralógico da expedição, feita por mão de Garcia Rodrigues, fliho 
de Fernão Dias e cunhado de Borba Gato. O mais provável é que a 
confiança de Borba Gato foi devida a ura palpite feliz baseado, tal- 
vez, no conhecimento que elle tinha da analogia entre as regiões do 
alto Rio das Velhas e a do alto Rio Doce. 

No principio o único accesso para a região mineira era pelo an- 
tigo caminho dos Índios, passando do valle do Parahyba ao do Rio Gran- 
de G dahi para os do São Francisco e Rio Doce. Poucos annos de- 
pois da descoberta foi aberto, por Garcia Rodrigues, um novo caminho 
em direcção ao Rio de Janeiro, e indubitavelmente houve entradas 
pelos lados da Bahia e Espirito Santo, das quaes não se tem conser- 
vado noticias minuciosas. Estando já occupada por creadores de gado 
grande parte do sertão da Bahia, o accesso pelo lado do norte era 
relativaraente fácil, e é quasi certo que logo nos priraeiros annos de- 
pois da descoberta esta via era aproveitada. De entradas pelo lado 
do Espirito Santo não se encontrara noticias publicadas ; mas pela 
correspondência dos governadores da Bahia, conservada na Bibliothe- 
ca Nacional, vê-se que já era 1700 houve projectos de explorações e 
que era 1702 se fala de rainas era trabalho. No principio de 1704 o go- 
verno de Lisboa, a pretexto de guerra no sul e de piratas, raandou 
retirar a gente das minas e impedir a entrada de raais. Nas ordens 
expedidas para este efifeito se fala das rainas da Serra Fria e To- 
carabira, donde se pode concluir que o movimento do littoral da Bahia 
e Espirito Santo tinha seguido o antigo caminho dos Índios e desco- 
berto ouro nos districtos de dois dos postos de Fernão Dias. Não é 
muito arriscada a hypothese que houve a redescoberta dos córregos 
auríferos da expedição de Martim Carvalho. Subsequenteraente o dis- 
tricto de Serro foi occupado por mineiros vindos de Caethé, Sabará e 
Ouro Preto, aos quaes geralmente se attribuera as priraeiras desco- 
bertas no districto do Serro do Frio, destinado a se tornar celebre corao 



- 278 - 

a Demarcação Diamantina. Conformo parece, a occupação effectiva 
deste districto, que já tinha sido percorrido por grande parte das ex- 
pedições para o sertão, teve logar antes de 1714. 

Em carainiio do S. Paulo para as Minas Goraes os aventureiros 
íivorani do passar por uma grande extensão de terreno aurífero já 
assignalado polo padre João de Faria, o indubitavelmente na passa- 
gem iam fazendo pcsquizas nesta região. Nos primeiros tempos, po- 
rem, era necessário que o rendimento fosso fora do commum para 
attrahir mineiros, e nestas condições só foi encontrado, em 1703, um 
íogar no Rio das Mortes que deu o igera a ura centro de mineração 
rivalizando com os já estabelecidos mais ao norte. As lavras mais 
pobres nas regiões do alto Rio Grande o Sapucaby, já conhecidas 
peia exploração do padre Faria, tiveram, ao que parece, {ArcMvo de 
S. Paulo, vol Xí p. XÍjI), cerca de 1720, um começo do exploração 
effectiva, sendo dadas por «bromadas», e somente mais tarde, cerca 
de 1743, é que foram definitivamente occupadas e trabalhadas. 

Também não tardou muito, (antes do 1713), a ser explorado o 
.caminho da expedição do 1601, dando logar á crcaçao do importante 
centro de Pitanguy, na região onde, presumivelmente, esta bandeira 
julgou encontrar a lendária Sabarábussú. 

Assim, dentro dos primeiros dez ou quinze annos, depois do pri- 
raeiro descobrimento effectivo, ficou conhecido e povoado, como por 
encanto, todo o vasto sertão que durante século e meio tinha sido percor- 
rido pelas mallogradas bandeiras em busca de prata e pedras preciosas. 

No principio as lavras eram exclusivamente nos leitos dos rioc 
^ córregos, mas não tardou muito a descoberta (em 1707, conformo 
Bento Fernandes) que os terrenos marginaes eram também auríferos 
e dignos de attenção. Mais tarde, em 1707, conforme a mesma au- 
ctoridadc, se começou a lavrar as betas nas suas partes superficiaes, 
raas por mais de cem annos este typo de lavras conservou mais ana- 
logia com as do couro de lavagem > do que com as minas em rocha 
propriamente ditas. A mineração subterrânea, conforme as regras do 
arte, foi iniciada em 1815 por Eschwege {Piluto Braãlensis, pag. 271), 
gendo este primeiro ensaio seguido pelas operações das companhias 
iaglezas que começaram do se estabelecer em 1825. 

Orville a . Derby. 



Os primeiros descobrimentos de ouro 
nos distrietos de Sabará e Caêthé. 



No estudo s'»bre os primeiros descobrimentos do ouro no territó- 
rio de Miaas Geraes, que apresentei o anno passado neste Instituto, 
«Dnsiderei o descobrimento do districto de Sabará como sendo poste- 
rior ao do districto do Ouro Preto o como uma consequência natural 
deste. Esta opinião, baseada mais em hypotheses do que em docu- 
mentos comprobativos, era contraria á de alguns escriptores que, era 
vista da prévia residência na região do descobridor das minas de 
Sabará, Manoel do Borba Gato, admittera a possibilidade de ter ello 
voltado á região em consequência de descobertas feitas durante essa 
residência. Na occasião não tive elementos para estudar devidamente 
este ponto e outros rehtivos á historia da parte mais, septentrionat 
úa. região aurífera; mas hoje me acho habilitado a fazol-o, graças á 
obsequiosidade do dois amigos e consócios neste Instituto, os srs. 
Capistrano de Abreu e Eduardo Prado, dos quaes o primeiro fez, a 
meu pedido, uma busca nos documentos inéditos da Bibliotheca Na- 
tjional e do Arehivo Publico do Rio de Janeiro e o segundo mo cedeu 
«ópias de uma preciosa massa de manuscriptos encontrados na Biblio- 
íheca Real da Ajuda, em Lisboa. 

A historia corrento, baseada em documentos da família Paes Lemo 
consultados era Lisboa pelo historiador Southey, e nos escriptos de 
Pedro Taques, membro da mesma família, é que Manoel de Borba 
Gato, genro de Fernão Dias Paes Lemo e membro da expedição de 
1674 era procura das minas do esmeraldas e da lendária serra de 



- 280 - 

Sabarábussú, ficou no sertão depois da raorte do sogro, mira sitio cha- 
mado Sumidouro, que teve do abandonar por ter ficado envolvido na 
morte trágica de d. Rodrigo Gastei Blanco, que lhe foi attribuida, e 
que alcançando, annos depois, indulto do governador Arthur de Sá e 
Menezes, elle voltou ao sertão e conseguiu logo descobrir a procurada 
serra de Sabarábussú, fundando a actual cidade de Sabará, que lhe 
tirou o nomo. Da historia assim contada diversos escriptores tòm de- 
duzido duas conclusões importantes, a saber;— em vista da facilidade 
da descoberta, Borba Gato já a tinha feito antes de abandonar o ser- 
tão, cerca de 1681, e que a introducção do gado na região do alto 
São Francisco e rio das Velhas era devida á dispersão dos habitan- 
tes da nascente povoação do Sumid >uro em consequência das desor- 
dens que resultaram na morte de Gastei Blanco . 

No escripto já referido identifiquei entre as numerosas localida- 
des designadas (ou que podiam ser designadas) com o nome de Su- 
midouro, o sitio estabelecido por Fernão Dias e abandonado por Bor- 
ba Gato com a que ainda conserva este nome, situada próximo ao 
Rio das Velhas, a algumas léguas ao norte de Sabará. Esta identi- 
ficação acha-se confirmada pelo nome de <Fidalgo» dado a um ria- 
cho e antiga povoação na vizinhança que, conforme uma testemunha 
no processo Tiradentes, commemora a morte, neste logar, de um fi- 
dalgo e governador que não podo ser sinão d. Rodrigo Gastei Blan- 
co. Aventurei também a hypothese de que o nome de Sabarábussú 
tenha sido dado pelos brancjs depois e em consequência do descobri- 
mento de ouro, não sendo verdadeiramente a legendaria serra dos Ín- 
dios, e citei um escripto de Bento Fernandes Furtado de Mendonça 
em que se refere que Borba Gato, em logar de andar refugiado en- 
tre os Índios do Rio Doce, estava encostado num sitio na vizinhança 
de Pindamonhangaba, tornando possível que fosse elle o Manoel Borba 
que acompanhou o padre João de Faria na expedição de 1093 ou 1694 
ás regiões do alto Sapucahy e Rio Grande. 

Seja qual íôr o escondrijo de Borba Gato durante o tempo em 
que temia a acção da justiça, certo ó que soube aproveitar a febre 
da mineração provocada pela descoberta de ouro no districto de Ouro 
Preto e inculcar-se ao governador Arthur de Sá e Menezes como 
pessoa apta para extender as descobertas e, presumivelmente, para 



- 281 - 

realizar o grande sonho a respeito de minas do prata e esmeraldas. 
Conseguido o seu intento, e naturalmente ao mesmo tempo o perdão 
do seu crime supposto ou real, obteve, em fins de 1698, a seguinte 
carta-patento. 

«Paço saber aos que esta minha carta-patente virem que haven- 
do respeito ao muito que convém ao serviço de sua magestade que 
D. G. e ao bem commura desta capitania e das da repartição do Sul 
que se descobrara minas a cujo negocio me mandou o dito senhor a 
(stas partes, e pelas noticias que tenho que na paragem a que cha- 
mam Sabarábussú haverá mina de prata, a cujo descobrimento man- 
do Manoel de Borba Gato para que com sua actividade e zelo que 
mostra no serviço d'el-rei Nosso Senhor explore os morros e serras 
que horver naquellas partes, o por esperar delle que neste particular 
se haja muito cuidadoso, fazendo-se digno das honras e mercês quo 
sua magestade que D. G. liberalmente pela minha mao conceda aos 
que descobram minas, hei por bem de o nomear e eleger como por 
esta o faço, nomeio e elego por tenente general desta jornada de 
Sabarábussú— e pode ser que o capitão-mór Garcia Roiz Paes faça 
jornada para a mesma parage ao seu descobrimento das esmeraldas, 
encontrando-se com o dito tenente G. se ajudaram ura ao outro par^ 
mais promptaraente Sb fazer o real serviço, o quo tudo flo do zelo de 
ambos obrando com aquella paz e diligencia que se requer em om- 
preza do tanta consideração. 

«Dada no Rio do Janeiro a 15 (quinze) de Outubro de 1698». 

Nota-se neste documento a preoccupação com minas de prata e 
de esmeraldas e coni a famosa serra de Sabarábussú, e também a 
falta do indicação de conhecimentos exactos a respeito da posição 
desta serra. A fama da serra do Sabarábussú já se tinha espalhado 
na Europa tanto quo eila vem represen'ada (como o nome de serra 
de Sarabassú e em posição proximamente da serra da Canastra) no 
mappa de Coronelli de 1688. Ao quo parece, tanto Borba Gato como 
Garcia Rodrignes foram coramissionados para continuar as explora- 
ções de Fernão Dias e, naturalmente, na região onde este tinha en- 
contrado esmeraldas, isto é, no espigão entre o curso médio dos rios 
Doce e Jequitinhonha. 



— 282 — 

Dois annos dopois Borba Gato estava do volta a São Paulo, tendo 
descoberto ouro (e, conforme ello julgava, indícios de prata) na re- 
gião do alto rio das Velhas, conforruo se ve na seguinte carta coK- 
sorvada na bibliothoca real da Ajuda. 

«COPIA DA CAUTA QUE ESCREVEU PEDRO TÂQUES DE ALMEIDA AO SP.. D, 
JOÃO DE LANCASTRO» 

«Obedecendo a ordens de v s., no particular do informe deste 
sertão que agora se frequenta pelas lavras de ouro ; digo que muitos 
annos ha estava já versado jelos nossos naturaes paulistas polo inte- 
resse do gentio, e ao depois pelo governador Fernão Dias Paes que 
esteve do assento alguns annos com plantas no sumidouro Cabeceiras 
desse rio dos corraes dos moradores dessa cidade na diligencia da 
prata do serro de Sabarábassú, o qual uns modernos deste tempo nãe 
conhecem i elos muitos serros que se implicavam huns aos outros e a 
falta de mineiro, nada surtiram aquellas diligencias. Este é o mes- 
mo districto em quem se tem dado com o ouro, o para essa banda 
se extendem us des^cobrimentos como se vô nos ribeirões que tem 
novamente reconhecido o tenente general Manoel do Borba Gat3> 
com pintas de consideração do que trouxe amostras : e por falta de 
mantimentos não fez a diligencia necessária, a qual fará agora com 
as plantas que tem e por esta mesma causa e falta se dosempararara 
as minas e agora começara a sahir as tropas para ella com maior 
concurso . 

«Notáveis acertos tiveram os últimos mineiros que vieram, os 
quaes lavraram em um ribeirão descoberto de novo onde em menos 
de um mez saíram a arroba ; e cm um delles com tros que nesta of- 
flcina o quintaram e se acham de quintos reaes nolla sete arrobas ; 
o na do Taubató que é a primeira a que chegaram os mineiroè, di- 
zem passam de cinco. Com que nesta froia se reraetteram de quin- 
tos reaes do'/e arrobas e se v. s. cá viera é sem duvida que iria 
muito mais, porque só no zelo, vigilância e cuidado de v. s. poderá 
evitar os seus descaminhos, no que ficava lucrando então grossos in- 
teresses a fazenda real. 

«O capitão mor Garcia Rodrigues Paes tem aberto uma picada 
por ordem do general Arthur do Sá e Menezes, do Kio de Janeiro 



até a rosaca do donde começara os campos geraos confinantes cora 03 
corraos da Baliia, quo ha mais do vinte annos que os moradores do 
Eio de Janeiro procuram conseguir a dita picada que nao teve efieito 
porque se duvidava poderse abrir pelas difficuldades dos serros. O 
dito se tera recolhido á sua casa e certifica ser muito capaz para a 
conducção de gado e cavalgaduras carregadas que serão seis dias do 
jornada do Rio de Janeiro até a resaca, e desta até as minas oito. 

A picada foi aberta em ordem a criar gado os interessados mo- 
radores do Rio do Janeiro, e para estas minas ó muito conveniente, 
porque até bois mansos os mandam para elles dizem os homecs que 
têm andado este sertão, que será e ó mais fácil conduzir gado dcs 
corraes dessa cidade para as minas, que loval-os destas capitanias, o 
quo verificou a experiência nas boiadas dos moradores dessa Bahia 
que V. s. fez conduzir para as ditas minas, pois nesta conducção fez 
V. s. um muito particular serviço á sua magestade dando grande lu- 
cro a sua real fazenda, o bem commum dos vassalos que alli se 
achavam, porque na remessa das boiadas que vieram ás minas soc- 
correu os mineiros, porque destas villas não é possível fazer-se, por- 
que sendo 20 já perecem os povos, nem se vende poso de carne, o 
valendo uma rez dois mil reis, promettem os mineiros oito, pelo que 
interessam nas minas, porque o preço geral atô presente foi 50 oita- 
vas e em alguma necessidade cem. 

«Tem-se ordenado que as boiadas que chegarem dos moradores 
dessa cidade dos seus corraes, se registem nas minas onde chegarem, 
e cora a mesma obrigação os escravos que levarem para darem conta 
do precedido do uma e outra coisa, para não haver descaminho nos 
quintos reaes, havendo pessoa ora todos os descobrimentos que tinha 
isto a seu cargo. O quo só v. s. poderia fazer vindo pessoalmente 
dar forma a esta airecadação com o seu costumado acerto, pois nop 
consta o grande zelo de v. s. e as acertadas disposições com que 
descobriu as minas do salitre, e estabeleceu a sua fabrica, o nisto 
faria v. s. um particular serviço a sua luagestade com muita facili" 
dado, porque como andou por sertões agrestes não ha de estranhar a 
aspereza destes, por estar hoje já feito grande sertanista. 

«E' opinião commum dos mineiros mais experimentados em minas 
de ouro que tem continuado todo esto sertão, segundo as disposições 



- 284 - 

dos serros e ribeiros, que o temos visto ató o presente são indícios 
de grandeza que o tempo mostrará com a continuação para a parte 
das esmeraldas que distara destas minas um mez do viagem por cam- 
pinas e serras fragosissimas, pela mesma aspereza lia esperança de 
muito ouro e pedras preciosas, de que lia indicies de saphiras pela 
raaita escoria que se acha na superfície d» terra e com esta frequên- 
cia descobrir-se-ão esmeraldas finas, e tudo o mais que se considera 
haver naquelle serro, que por falta de mineiro de profissão, se não 
animam os paulistas a trilhar estes desertos, o que afíirmo só com a 
presença de v. s., pois temos e achamos os paulistas que por v. s. 
faremos milhares de impossíveis, e como temos todas as sobreditas 
noticias de que v. s. foi aos sertões dessa Bahia ao descobrimento do 
salitre, e por caminhos tão ásperos animando a todos os que acom- 
panharam a V. s. e facilitando- lhes os carinhos, descobrindo por todas 
estas circumstancias v. s. o salitre, que havia tantos annos estava 
occulto, por cujas razões e pela grande benevolência e honra que v. s. 
faz a todos deste Brasil, tenho por sem duvida que os meus patrícios 
descobririam e se fariam em pedaços por dar gosto a v. s. para des- 
cobrimento das riquezas que nestes sertões estão occultas. 

«Se continuarem os rendimentos do ouro de lavagem como se 
certifica, e se descobrirem as pedras de valor, seria muito conveniente 
mandar sua raagestade povoar no sumidouro a nas esmeraldas por 
que era ambas estas paragens são os campos capazes de criar gados 
continuando cora os corraes até chegar aos do raestre de campo Mathias 
Cardoso, ficando tudo comraunicavel por terra e pelo rio, por que das 
minas do sumidouro até os priraeiros corraes, pódera haver quarenta 
dias até dois mezes de distancia. 

«De grande utilidade seria para os quintos reaes a conservação 
da casa da moeda no Rio de Janeiro ou nesta villa, porque ambicio- 
sos os moradores destas capitanias e muitos do Rio de Janeiro e tam- 
bém dessa cidade cora o valor de 17 tostões, vencera impospiveis por 
fazer jornadas ás minas deixando suas casas irapossibilitadas por lo- 
grar os interesses e seus descobriraentos, e cora a falta da casa da 
moóda estaraos receosos não tenha valor que os raova ao excesso 
cora que de presente se erapenham, e será o preço e valor tão ínfimo 
que não passará a 8.* de ouro erabarretada de dez tostões e menos, 



— ^>85 — 

e virão os paulistas a depor esta conveniência geral, continuando de 
novo as entradas ao sertão a buscar Índios cora que se sirvam. 

<B tendo effeito a continuação da casa da moeda de ouro com 
valor do 8,12 e 16 tostões em cunho geral para todo o reino se con- 
servará o valor dos 17 tostões, e o fervor dos mineiros nunca es- 
friará. 

«E deferindo s. m. a casa da moeda necessitara estes povos de 
negros para minerar, e fora muito conveniente ordenar ao governa- 
dor da Angola era cada anno mandasse ura navio cora peças ao porto 
de Santos para conservação das rainas, e flcarera para sempre esque- 
cidas as entradas dos sertões. 

«O tonente-general Manoel do Borba Gato trouxe agora ao gene- 
ral Arthur de Sá e Mene-ses umas folhetas limitadas que parece fo- 
ram douradas, que me certiflou o dito general, era prata achada en- 
tre ouro das quebradas, em que algans dos serros daquelle território 
afocinham, porque raspando o dourado mostra prata, e neste mesmo 
sitio se descobriu ouro que os raineiros lhe puseram o nome de 
prateado, porque é mais prata que ouro ; razão porque o não lavra- 
ram por não ter valor; e sem mineiro será difflcil descobrir-se prata. 

«Affirraam os raineiros que era todo aquelle território das rainas 
se achara pintas de ouro de mais ou menos consideração fazendo so- 
mente caso das pintas do raeia 8.» para siraa que segundo o rendi- 
mento do ribeiro tirara bateadas de meia libra como tera succedido 
em alguns descobrimentos; e no dia lava ura negro 40 até 50 bateas 
de terra. 

«Isto é o que me pareceu noticiar a v. s. em execução de sua 
ordem sobre o estado, sertão, rainas de S. Paulo e quintos reaes. V. 
s. disporá o que fôr mais conveniente ao serviço de s. m., que Deus 
guarde e a bem destas capitanias. 

«Esse par de grãos de ouro que trouxe um paulista das minas 
das cabeceiras da capitania do Espirito Santo, districto dessa Bahia, 
remetto a v. s. para que veja o que tem na sua jurisdição, que afiBr- 
mam os que lá vão, quanto raais para a Bahia são raais abundantes 
G de maior quantidade. Deus guarde a v. s. muitos annos.— S. Paulo, 
vinte de março de 1700. — Pedro Taques de Almeida.-» 



286 — 



CERTIDÃO 



< Certifico eu Antão do Faria Monteiro, sacerdote do habito do S. 
Pedro, o commissario do Santo Officio e da Bulia da Cruzada nesta 
cidade da Bahia, que eu reconheço o sinal posto ao pé da carta 
atraz, sor de Pedro Taques de Almeida, capitão-mór que foi nas vil- 
las de Santos e S. Paulo ; por rae corresponder com o dito, o tem 
vários sinaes sous ; e assim o juro aos Santos Evangelhos Bahia e 
de agosto dez de mil o setecentos. — Antão de Faria Monteiro. > 

Por esta carta se vê que cm alguma região não especificada Bor- 
ba Gato tinha feito descobertas de curo e que julgava também ter 
descoberto prata ora um typo especial de ouro que elle considerava 
como prata dourada. Esta ultima era indubitavelmente o ouro pal- 
ladiado que se apresenta frequentemente na região de & abará e em 
que uma mistura com o ouro de uma pequena quantidade do metal 
palladio dá á liga uma côr esbranquiçada. Neste tempo o único me- 
tal branco conhecido do grupo dos metaos chamados preciosos era a 
prata, não estando conhecida a platina, descoberta em 1748, e o pa- 
lladio descoberto eni 1803. Nestas circii instancias era natural a sup- 
posição de Borba Gato que é interessante por mostrar a sua constante 
preoccupação cora prata e consequenteraento cora a serra de Saba- 
rábussú, sendo poréra de notar que não parece ter pretendido haver 
descoberto a dita serra, da qual não ha menção nesta carta de Pedro 
Taques, nem na patente cora que, a 6 do Março de 1700, Arthur 
de Sá, que estava então era São Paulo, recompensou a rua desco- 
berta do ouro numa região nova. A parte essencial desta patente é 
a seguinte : 

< . . . e para o districto do rio das Velhas se necessita um guar- 
da raór, vendo eu que o tcnent^-general Manoel de Borba Gato além 
dos grandes merecimentos que tem por sua pessoa, prudência e zelo 
do real serviço, é pratico no dito sertão e pela muita experiência e 
do que desta fio, dará enteiro comprimento ao que lhe foi ordenado 
e ao regimento que mandei dar aos guarda mores das minas, hei 
por bom de o nomear uo cargo de guarda mor do districo do rio das 
Velhas, principiando do sitio do capitão Sebastião Leme para o nas- 
cente, o qual cargo servirá havendo sua magistade por bem...> 



- 287 



Dois dias depois, a 8 do Março, Arthur do Sá nomeou Garcia 
Rodrigues Paes, o moço, escrivão das datas das minas do rio das Ve- 
lhas. 

No anno seguinto Arthur do Sá esteve no districto da guarda- 
moria do Borbp. Gat', ondo concedeu a esto uma sesmaria era carta 
datada do «Sitio do Rio d^s Velhas*, a 18 de Abril de 1701, o que 
descreveu «uma sorte do terras que corro entre o rio Parahypeba e 
o rio das Velhas, chapadas da serrania de Itatiahy mixta e continua- 
da a do Itapucu, começando da parto do Norte e correndo a rumo do 
sul entre um o outro serro acima declarado até ir a entestar com a 
-eachoeira de Itapeveramirim». 

O nome Sabarábussú, ou antes uma variante que faz desconfiar 
que ainda não se tinha feito a identificação com a serra da lenda, 
appareco numa provisão de Arthur do Sá, datada do ribeirão de Sa- 
barávaassâ a 3 do Janeiro de 1702, em que se lê : 

«...minas do prata, em cuja deligencia mandei andar com o mi- 
neiro ao tcnento general Manoel do Borba Gato, guarda mor desta 
repartição do rio das Velhas, o por não poder actualmente assistir 
na dita occupação do guarda-mór.. . emquanto o dito tenento-general 
andar occupado nas diligencias do quo o tenho encarregado... no- 
meio gua>da-raór o capitão Garcia Rodrigues Paes Moço». 

Uma outra provisão datada do «S. António do Bom Retiro do lio 
das Velhas em 9 de Junho do 1702>, diz entro outras coisas: «tenente- 
goneral Manoel de Borba (fato sorvo S. Magestade andando pelos ser- 
tões para haver do descobrir prata», dando a entender que a celebro 
serra da prata era considerada como bastante distante do arraial qne 
depois tomou o nome de Sabará. A forma da palavra « S abará vaassú» 
pareço favorecer a hyputhose do dr. Theodoro Sampaio, quo o nomo 
Sabarábussú é corruptella de Itaverava-assú, nomo indígena applicavel 
a pedra reluzente da lenda. B possível que a forma Sabaravaassú. 
soja lapso de penna do quem escreveu a provisão de 3 do Janeiro, mas 
isto parece pouco provável visto quo em outros documentos de Ar- 
thur de Sá a serra lendária vem designada com o seu nomo proposto 
de Sabarábussú. O nome Itaverava— serra resplandescente— estava 
muito em moda entro os exploradores paulistas deste tempo, que em- 
pregavam correntemente a Lingua Geral e a nenhuma feição topo- 



— 288 - 

graphica podia ser applicado cora mais propriedade do que ao gran- 
de raassico de minereo de ferro que domina todo o horizonte desta 
parte do valle do rio das Velhas e que é actualmente conhecido pelo 
nomo de «Serra da Piedade». O mais provável é que o nome fosse dado 
na forma de Itavoraya-assú e sem referencia á serra da legenda e 
que depois por uma natural associação de ideias passasse para Saba- 
rábussú. 

Até ahi não temos nenhuma referencia ao nome de Sabará como 
designação do arraial ou do districto, que parece ter sido introduzido 
depois. A obra de Antonil, intitulada «Cultura e Opulência do Brazil>, 
publicada em Lisboa em 1711, faz diversas referencias ás minas do 
rio das Velhas e ao «arraial do Borba», mas uma só á serra de Saba- 
rábussú, na seguinte nota sobre as referidas minas : 

«Além das minas geraes de catagnas, descobriram-se outras por 
outros paulistas no rio que chamam das Velhas ; o ficam, como dizem, 
na altura de Porto Seguro e de Santa Cruz. E estad são as do Ri- 
beirão do Campo, descoberta pelo sargento-mór Domingos Rodrigues 
da Foaseca : e a do Ribeirão da Roça dos Penteados : a de N. S. do 
Cabo, da qual foi descobridor o mesmo sargento mór Domingos Ro- 
drigues da Fonseca : a de N. S. de Monte-serrate ; a do ribeirão do 
Ajudante, e a principal do rio das Velhas e a do serro de Seborabnçú, 
descoberta pelo tenente Manoel Borba Grato, paulista, que foi o pri- 
meiro que se apoderou delia e f\o seu território». 

Os nomes mencionados nesta nota e na carta de sesmaria só po- 
dem ser identificados por quem tem conhecimentos mais minuciosos 
da geographia da região do que os que se obtém pelo estudo dos 
mappas existentes. B' certo, porém, que poucos annos depois da 
volta de Borba Gato para a região, o nome de Sabarábussú tinha 
áido introduzido, mas que tão pouca significação se ligava a elle que 
logo ficou abreviado em «Sabará», que assim mesmo sô se conservou 
para o rio era cuja fóz foi situado o arraial. No terrao de 17 de 
Julho de 1711, elevando o arraial a villa com o nome official de Villa 
Eeal de N. S. da Conceição, o sitio é deseripto como sendo «neste 
Arraial e Barra de Sabará». Por sen lado a serra ficou, em data que 
nâo se pode para o momento determinar, rechrismada cora o de «Pie- 
dade», que ainda conserva. Numa descripção de um mappa da Capi- 



^89 



tania de Minas, que apresentei ha tempos a este Instituto e que sahiu 
publicada no segundo volume da sua Revista e que parece ter sido 
escripto entre 1717 e 1721, o nome Sabará só apparece cora applica- 
ção ao rio, sendo, porém, mencionado um Riacho da Prata, que tal- 
vez recorde a supposta descoberta de Borba Gato com a sua prata 
dourada. Ao illustre investigador da historia da mineração era Minas, 
o Dr. António Olyntho, devo a informação que este riacho ainda con- 
serva o nome e desagua no Rio das Velhas do lado direito junto ao 
antigo arraial do Raposos. 

O nome de Borba Gato continuou a apparecer na correspondên- 
cia do governador da Bahia até 1705, dando a entender que até esta 
data ou talvez ura tanto mais tarde, a jurisdicçao do districto' estava 
em litigio entre as capitanias da Bahia e Rio de Janeiro. De facto, 
com data de 22 de setembro do 1700, o governador da Bahia, d. João 
de Lancastro, dirigiu ao do Rio de Janeiro, Arthur de Sá e Menezes, 
uma carta em que se lê : 

«. . .me pareceu advertir a v. s. como seu amigo que o rio Verde, 
o Dosse, o Pardo, o Das Velhas, etc, as cabeceiras do Espirito Santo 
estão no districto da Bahia para que v. s. evite pelo caminho que 
melhor lhe parecer que de nenhuma sorte excedam as pessoas que 
andarem nos taes descobrimentos os termos que inviolavelraente devera 
observar, não passando de uraa capitania para outra, porque tenho 
já mandado a estas partes a fazer os taes descobrimentos por ordera 
que tenho de s. m. que Deus Guarde e como tão ambicioso do dito 
Senhor lhe quero fazer mais este, etc». 

No catalogo do livro da correspondência de d. João de Lancastro 
vô-se que na mesma data elle dirigiu a uma auctoridade do Espirito 
Santo uma carta relativa a uma exploração projectada nas cabeceiras 
desta ultima capitania por Joseph Cardoso de Azevedo, de cujo resul- 
tado não se tera encontrado noticias. 

A 14 de Maio de 1701, d. João de Lancastro tornou a escrever 
a Arthur de Sá, nos seguintes terraos : 

«Nesta occasião tive ordera de sua raagestade que Deus guarde 
para que raandasse suspender a communicação que havia pelo caminho 
que mandey para as minas de Caheté e Tocambira, districtos desta 



— 290 — 

capitauia geral, por se entender poderiam resultar delia muitos incon- 
Tenientes a seu real serviço : e como v. s. mo diz nas duas cartas 
que me escreveu do rio das Velhas era 30 de novembro do anno 
passado que reraettia algumas pessoas que vieram para esta praça, e 
outras que íorara aos carraes desta capitania que quintassem o ouro 
que traziam por entender que se ficariam assy evitando melhor os 
descaminhos que nelle poderiam haver o que por falta do mantimen- 
tos se haviam retirado muitos mineiros para a montaria para terem 
com que sustentar a sua gente, o outros para suas casas para voltar 
em março assy pelos mantimentos que já deixavam plantados como 
pelo gado que haviam mandado buscar aos curraes da Bahia e Per- 
nambuco, o que será grande adjutorio para se poderem lavrar as ditas 
minas, com que nestes termos me é preciso sabor de v. s. se teve 
alguma ordem de sua magestade sobre esto particular, e resolução 
■qno determina seguir para que com mais acerto me saiba resolver em 
um negocio de tantas consequências, e de que se pódora seguir ou 
deixar do seguir outras utilidades a sua Real Fazenda». 

O que ha de mais interessante nesta carta ó a referencia ás minas 
de Cahetó e Tocambira (Itacambira) como sondo já descobertas, Acha- 
se assim confirmada a hypothese que aventurei no referido eseripto 
que as minas de Cahetó para o norte, na região do assim chamado 
Serro do Frio, foram primeiramente descobertas do lado da Bahia e 
não do do São Paulo, sendo a data, porém, anterior á que eu tinha 
imaginado. A carta seguinte mostra que estas descobertas foram, pro- 
vavelmente, obra não do acaso, mas de uma exploração em regra 
planejada por um administrador do vistas largas e que ura dos explo- 
radores era de origem paulista. 

«Copia que vae somente pela Secretaria do Estado. 

«Senhor. — Sabendo eu com toda a individuação que as cabeceiras 
dos sertões da capitania do Espirito Santo, onde novamente se desco- 
briram as minas de ouro, confinam cora os da villa de S. Paulo, Rio 
de Janeiro e os desta Bahia, e desejando que todas as terras do Bra 
sil se convertessem em ouro, para que delias resultassem grandes 
angmentos á fazenda do v. m. despachei o capitão João do Góes de 
Aranjo, que a esta praça tinha vindo da mesma villa de S. Paulo 
donde 6 natural, e filho de Fedro Taques de Almeida, nm dos princi- 



- 291 — 

pães moradores daquella viJla, para que fosse cora trinta homens 
(que voluntariamente se offereceram para o acompanhar) pela parte 
do Norte do rio de S. Francisco, das serranias donde tem a nascença 
os rios Pardo, Doce, das Velhas e Verde ; os quaes distam (pelas in- 
formações que me deram) vinte e cinco léguas,, pouco mais ou me- 
nos, das mesmas minas donde os paulistas se acham cavando ouro a 
presente ; e pela parte do Sul a Pedro Gomes da Franca, natural 
desta cidade, neto do Mestre do Campo Pedro Gomes, o capitão de 
infanteria de ura dos terços pagos desta praça, o qual mandei coni 
mais de cem homens moradores nestes recôncavos e cidade, que tam- 
bém se ofíereceram voluntariamente, para o acompanharem á villa de 
S. Jorgy, capitania dos Ilheos, distante desta cidade sessenta léguas, 
para fazer de alli a sua entrada pelo rio Patippe assima, a donde 
varias vezes se tera já achado ouro, e se vem juntar os ditos quatro 
rios. B pelas noticias que me deram algumas pessoas practicas dos 
mesmos sertões, se presume que do rio Patippe até as ditas serranias 
haverá oitenta léguas ; e se tem por infíilivel haver nellas ouro com 
a mesma abundância que nas novas minas se acha. E aos ditos ca- 
pitães ordenei também se ajuntassem infallivelmente nas cabeceiras 
dos ditos quatro rios, e explorassem nellas tudo quanto se pudesse 
achar de mineraes ; donde e das minas já descobertas viriam ambos 
descobrindo caminho e mais breve para esta cidade, observando por 
todo elle tudo o que houvesse, fazendo mappas e roteiros com toda 
a clareza e distincção ; que de tudo iam bem prevenidos, como man- 
pei fazer no descobrimento do caminho do Maranhão. Entendo, (Sen- 
hor,) que deste que agora mandei fazer, terá grandes conveniências o 
serviço de V. Magestade e espero em Deos que o tempo assim o 
mostro : e V. Magestade se dô por satisfeito desta minha diligencia. 
Estas duas entradas mandei fai.cr sem despendio algum da fazenda 
de V. Magestade. A real pessoa de V. Magestade guarde Nosso 
Senhor como seus vassallos havemos mister. Bahia, 7 de janeiro de 
1700. — Dom João de Lanmstro.y 

Como se vô peia carta a Arthur de Sá, já citada, o governo do 
Lisboa não approvava os projectos e esforces de d. João de Lanças- 
tro, que teriam concentrado na Bahia, cm logar do Rio de Janeiro, o 
movimento commercial das minas, modificando assim extraordinária- 



- 292 - 

monte o curso de historia mineira, e em Junho do anno seguinte este 
governador foi substituído, sendo quanto foi possivol desmanchada a 
grandiosa obra que eiie tinha encetado. Foi ató prohibido o movi- 
mento do gado dos curraes da Bahia para o supprimento da popula- 
ção mineira ; mas esta prohibição era táo contraria ás leis naturaes 
da permuta commercial que se manteve, apesar delia, um activo com- 
mercio de contrabando, e sem duvida também um activo movimento 
de população e de exploradores de minas. Sendo interdictas as en- 
tradas pelo ladn da Bahia procurou-se, mais ou monos favorecido 
pelo governador da Bahia, abrir e conservar communicações com os 
districtos mineiros via Espirito Santo. Oá documentos relativos a este 
movimento espiritosantense sao deficientes e obscuros ; mas parece 
fora de duvida que até 1705 o houve de certa importância, sendo 
claras as referencias ás minas de Itacarabira o Serro do Frio, isto é> 
á região entre as immediações da actual cidade de Serro e as de 
Grão Mogol, incluindo o futuro districto diamantifero. Em 1705 houve 
prohibição formal deste movimento, cessando o trafico legitimo entre 
as minas e as praças da Bahia e do Espirito Santo. Poucos annos 
depois os districtos desbravados e abertos por iniciativa de d. João 
Lancastro e dos bahianos íoram occupados de novo pelos paulistas» 
que nas versões correnies da historia mineira passam por ser os seus 
primeiros descobridores. O que poriam parece certo pelos termos da 
já citada carta a Arthur de Sá é que a exploração ordenada por d. 
João de Lancastro foi bem succedida dando em resultado a descoberta de 
ouro e o inicio da sua mineração em Caethé e Itacambira e a abertu- 
ra do uma estrada passando por estes pontos para a Bahia. 

Intimamente ligada com as questões relativas ao Sumidouro e a 
Borba Gato é a do estabelecimento de fazendas de crear, ou de cur- 
raes, na região do alto S. Francisco. A carta de Pedro Taqnes de 
Almeida, escripta em Í70C, dá a este rio o nome do <Rio dos Cur- 
raes» e refere a existência de um arraial de Mathous ('ardoso. Por 
ura outro documento sem data, mas evidentemente escripto pouco de- 
pois de 1705 e conservado no mesmo masso na Bibliotheca da Ajuda 
e que s^rá opportunamente offerecido ao Instituto, se vé que este ar- 
raial era situado na margem do rio, no ponto em que desemboccava 
um caminho vindo da Bahia e que dahi para cima até a barra do rio 



- 293 - 

das Velhas os curraes eram tão frequentes que a viagem podia ser 
feita sem se dormir ao relento. Era sem duvida o actual arraial de 
Morrinhos uma tapera no meio da qual se ostenta uma egreja de pro- 
porções e aspecto monumontaos, que attesta a antiga importância do 
logar. O Diccionario GeograpMco de St. Adolpho dá esta como sen- 
do a povoação mais antiga de ambas as margens do S. Francisco e 
attribue a sua fundação a «Januário Cardoso, em 1704, o qual, acom- 
panhado dos seus, de seu filho Matheus Cardoso e de seu sobrinho 
Manoel Francisco de Toledo, fugiram da cidade de Ouro Preto, onde 
haviam morto o principal agente do governo no paiz das Minas». 
Sendo o arraial conhecido já em 1700 pelo nome de Matheus (e não 
de Januarioj Cardoso, a data da fundação é evidentemente errada, po- 
dendo-se suppôr que seja também o logar do crime, isto é, que haja con- 
fusão cora a morte de d. Rodrigo de Gastei Branco no Sumidouro. 

Do outro lado afBrma Azevedo Marques, nos seus Apontamentos 
Históricos da Província de S. PauZo.baseaio em parte nas informa- 
ções de Pedro Taques, em parte nas suas próprias investigações, que 
um Matheus Cardoso de Almeida acompanhou d Rodrigo de Castel 
Branco na sua mallograda expedição e que depois tornou se conquis- 
tador dos Índios do senão de Ceará, etc, e, finalmente, estabeleceu-se, 
pelos annos de 1694, com grandes fazendas de crear nas margens de 
S. Francisco. Como este Matheus Cardoso mostrou, por diversas com- 
raunicações feitas á camará de S. Paulo, uma certa indisposição con- 
tra d. Rodrigo, é po^sivel que elle ficasse envolvido no crime de Su- 
midouro e que assim ambas as versões acima referidas tenham um 
fundo de verdade. Soja como fôr, é certo que os curraes do alto 
S. Francisco foram estabelecidos com gado trazido dj» norte e não 
do feul A historia corrente da missão de d. Rodrigo de Castel 
Branco no Brazil foi tirada dos escriptos de Pedro Taques, que mos- 
tra forte indisposição contra elle e ó, portanto, suspeito. Os docu- 
mentos relativos a este personagem da historia mineira existentes na 
Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro devem fornecer material para 
uma historia menos apaixonada e é de esperar que sejam algum dia 
estudados. 

Embora não tenha relação directa com o assumpto aqui tractado, 
julgo conveniente juntar mais um documento dessa época, assignado 



— 294 — 

por d. João de Lancastro, que dá uma interessante apreciação do 
caracter dos paulistas daquelle tempo. 

< Cópia que vae pela Secretaria do Estado e polo íJonsellio Ultra- 
marino. 

«Senhor : — Pelas noticias que do Rio de Janeiro mo deram nas 
cartas que me escreveram o governador Arthur de Sá Menezes, o dr. 
Miguel de Siqueira Castello Branco, syndicante daquella capitania, 
José Ribeiro Rangel, juiz da casa do Moóda da mesma cidade cujas 
copias reraetto com esta a V. Mag.^, lhe será presente o grande ren- 
dimento que tem as minas de ouro que novamente se descobriram 
nos sertões das capitanias de S. Vicente e S. Paulo, e das que se es- 
peram descobrir, nas quaes se considera, serem com excesso mais 
rendosas ; e porque a praça do Rio de Janeiro se acha sem guarnição 
competente e pela banda do sul sem as fortificações necessárias que 
a possam defender de qualquer nação pouco affeita, ou muito ambi- 
ciosa que a pretenda invadir, obrigado da fama, que presentemente 
se ha de espalhar por toda a Europa, da abundância do ouro das di- 
tas minas ; e o porto da villa do Santos, quo é o principal de toda. 
aquella costa e o de mais consequências, se acha ainda cm peior es- 
tado, sendo o único adonde só entram navios e a que precisamente 
ha de vir a maior parte do ouro que se tiram das ditas minas e todos 
os fructos e géneros da capitania de S. Paulo e das mais circumvizinhas, 
para dalli se embarcarem para as mais partes do Brazil : me pareceu 
representar a V. Mag.f' com a submissão devida, que para segurança 
daquella praça e da dita villa, é muito conveniente e seu real serviço 
mandar V. Mag.® levantar logo n.ste estado dois terços de infanteria 
e duas tropas de cavallos para assistirem de guarnição, uma tropa 
com um terço no Rio de Janeiro o um terço com outra tropa na 
villa de Santos, fortiflcando-se a sua barra de maneira que possa de- 
fender a entrada daquelle porto o qual está hoje de sorte que qual- 
quer pirata pôde entrar por ella, sem a menor resistência, não só a 
saquear a villa, se não também senhorear-se delia, por estar quasi 
desamparada de seus moradores, dos quaes anda a maior parte deiles 
nos sertões occupados em cavar ouro e descobrir minas : também me 
parece, é muito conveniente que se levante outro terço de infanteria 
e um esquadrão de dragões, para so mettcr na villa de S. Paulo com 



— 295 — 

o pretexto do que 6 para segurar a mesma villa e delia se poder 
soccorrer facilmente a de Santos ; sendo o íim particular deste nego- 
cio, segural-a de seus mesmos moradores, pois estes tem deixado cm 
varias occasiõos, suspeitosa a sua fidelidade, na pouca obediência com 
que observam as leis de V. Mag.c e ser gente por sua natureza abso- 
luta o varia e a maior parte delia criminosa ; e sobretudo amantís- 
sima da liberdade, em que se conservam ha tantos annos quanto tem 
da creação a mesma villa ; e vendo-se hoje com opulência e riqueza 
que a fortuna lhes offereceu iio descobrimento das ditas minas, me 
quero persuadir sem o menor escrúpulo, são capazes de appetecer 
sujeitar-so a qualquer nação estrangeira, que não só os conserve na 
liberdade e insolência com que vivem, mas de que supponbam podem 
ter aqucllas conveniências que a ambição costuma facilitar a seme- 
lhantes pessoas, sendo a principal o a que elles mais suspiram a da 
escravidão dos Índios. 

«No caso que V. Mag.^ seja servido mandar formar os ditos ter- 
ços e tropas, mo parece deve V. Mag.» mandar vir dessa corte, assim 
os mestres de campo, sargentos mores e mais ofBciaes, como também 
os capitães do cavallos, para servir aquelles postos. 

<E sem embargo, de que supponha não faltará a dar esta noticia 
a V. Mag.e o governador do Rio de Janeiro, Arthur do Sá e Menezes, 
pela parto que lhe toca (ao qual mandei ofíerecer gente, armas, mu. 
nições e tudo o mais que lhe fosse necessário, para defensa aquella 
capitania) a mim me pareceu sou também obrigado a fazel-o como 
governador e capitão general de todo o estado, alem do zelo que me 
obriga a fazer presente a V. Mag.« estas razões, pelas experiências 
que hoje tenho do Brazil. V. Mag.^ resolverá o que mais convier a 
seu real serviço, que sempre será o mais acertado. A Keal pessoa 
de V. Mag.« guardo Nosso Senhor como seus vassallos havemos mis- 
ter.— Bahia, 7 do Janeiro do 1700.— Dom João de Lancastro.o 

Orville a. Derby. 



Discurso do Dr. Manoel Pereira de Gui- 
marães, fazendo o elogio histórico 
dos sócios falleeidos. 

Excmos. srs. 

Conta-nos Aulo Gellio nas Noites Atticas que, durante a sua per- 
manência era Athenas, costumavam os jovens romanos, attrahjdos á 
Grécia pela eloquência de Herodes Atticus, reunir- se em uma sober- 
ba quinta por este possuída nas cercanias da cidade. 

Em derredor, entrajada de formosíssimos bosques e de ensombra- 
das avenidas, que offereciam abrigo, donde impunemente eramaffron- 
tados os calores do estio e os devorantes fogos da ardente canicula, 
prolongava-se bellissima cerca. Sobrepondo-so aos ténues suspiros dos 
zephyros, portadores de delicioso frescor, alçava se vasto pórtico. 

Convidando ao refrigerante banho, amplas bacias enchiam-so de 
límpidas e archi-crystallinas aguas. E, dominando tudo isso, uma en- 
encantadora vivenda, ininterruptamente alegrada pelo ruído das mor- 
murosas fontes e pelos concertos do gárrulo passaredo. 

Nessa seductora paragem de Cephiso eram discutidas as mais 
árduas questões de historia, de philosophia, de geographia, de náutica, 
etc, etc. B aquelles que tinham trocado o brilhante vaguear no Fórum 
romanum pelo remançoso estudar na cidade de Minerva, não raro, 
algo tinham que accroscer aos seus conhecimentos e ao cultivo do 
seu espirito {^). 

A' noite, desfraldadas as velas de ligeira embarcação, que doce- 
mente vogava em demanda do Pirêo, reuniam-se todos á popa, e ahi, 
sob o sereníssimo c6o azul, onde tremeluziam as constellações do 
Carro c das Ursas, embalados pelo cadencioso ondear de um outro 
cóo liquefeito, cujas nuvens são ilhas de esmeraldas, occupavam-se 



(1) Aul. Gel.— Noct. att. L. 1. Capitulo II. 



- 297 - 

todos era considerar a esplendidez dos astros, até que algruem, versa- 
do nas artes da Grécia, entrasse a dissertar sobre astronomia. 

Hoje, quasi vinte centenas de annos depois, sob este magnifico 
céo da America, que semelha um jardim, cujas flore» são estreitas, si 
durante o dia não vos reunis era saudosos retiros, á noite, não sobre 
G tombadilho de uma galera, raas nuraa raodesta sala ante donosa 
praça bordada de suraptuosissiraos palácios, ataviada de umbrosos car- 
valheiros e de artística fonte ; á vista dessa extensa e formosissiraa 
várzea, que parece um Mediterrâneo de verduras, nas visinhanças 
dessa selvática Cantareira e dessa celebrada Paranapiacaba 

< Da força assombroso emblema, 

< Que tens o oceano por throno 

« E as nuvens por diadema!». (2) 

desse poético Tamandoatehy, que contorna as nossas collinas e ser- 
peja pelos nossos prados, e desse soberbo Tleté por onde se partiam 
era doraanda do desconhecido e da gloria os intrépidos filhos de Pira- 
tininga, cujas façanhas se av/íntajara ás dos celebrados Argonautas ; 
alumiados por outras constellações, entre as quaes se destaca á di- 
reita o retorcido Escorpião, cujo coração — Anta7'é- — brilha, rebrilha 
avermelhadamente como para indicar que o sangue de ura povo ju- 
venil referve nas nossas veias ; á vista ou na visinhança de tudo isso 
o mesrao araor da historia e das mais sciencias costuma vos agrupar 
E nós, que temos sede de saber, deix mos o estrépito das ruas, o 
agradável dos divertimentos, para vir aqui, attento, ouVir os vossos 
lábios redizerem a historia do nosso S. Paulo, historia que, no dizer 
do Visconde de S. Leopoldo, será tarabera a historia geral do Brazil. 
No raeio, coratudo, desses passatempos, tão nobres e tão santos, 
brota como uraa lagryma a entremeiar-so cora sorrisos, ura bom e 
divino sentimento que, diz G . Sand, causa ainda maior prazer a quem 
o experimenta, do que a quem delle é objecto : a Piedade, essa divina 
irmã da Esperança. B os nossos peitos como que se desfazem em 
suspiros, e os nossos olhos como que se humedecera de pranto ao 
relembrar aquelles que no dia de hontera aqui traziara o seu po- 



(2). C. de Menezes— A Serra de Paranapiacaba. 



— 298 — 

deroso contingente de trabalho, e que, no dia de hoje, dormem o 
somno tranquillo do scpulchro. 

Não fostes, porém, felizes nobres consócios, na escolha daquclle 
que deve redizer aqui, perante todos, o que foram em vida os com- 
panheiros cujo elogio cabe-lhe fazer. 

Bera sabe elle que necessitaria para bom desempenho da missão, 
que lhe irapuzestes, de ser orador, isto é, falar, como diz Tácito, com 
elocução pura, brilhante e persuasiva, conforme a dignidade do as- 
sumpto e as necessidades do tempo, encantando sempre o ouvido do 
auditório ; que necessitaria do eloquência, mesmo de muita eloquência, 
da magna eloquência, que é como a flamma ; a matéria alimenta-a, o mo- 
vimento excita-a, e, ardendo^ alumia. 

A magna eloquência, diremos nós, como a ílamma, cncandila, crysi- 
taliza. 

As orações de Demosthenes não são mais do que acontecimentos 
encandilados pela lava ardente do seu cérebro. O verbo do Miraboau 
não é sinão uma torrente de ílamma a crystalizar factos. 

Quanta a nós, já que nos falta envergadura para ascender tão 
alto, pediremos vénia para tracejar um levo esbocoto de critica artística. 

Verdade é que não desconhecemos, com Bougot (3), que— «pour 
bienjuger uue ouvre d'art, il faut la considerer tour a tour avec les 
yeux d'un phisosophe, d'un artiste, d'un poete et d'un historien. 

Da magica paleta de J. F. de Almeida Júnior, um dos consócios 
cujo passamento hoje rememoramos, tentaremos desenthesourar algu- 
mas cores com que iUuminemos as nossas palavras, já que nos falta 
calor para encarecer as suas telas. 

Estudar a obra de tão conspícuo artista não é coisa fácil, culti- 
vando como o fez, todos os géneros de pintura. — •Quantos homens 
num só homem! quantos talentos em um só talento! quayitas facetas 
em só um espirito ! quantos méritos em um só mérito /.» (4) 

A sua sagração coma artista, pode-se dizer, data de 1874, epocha 
em que foi pintada a — Besurreição do Senhor. 

Não se sabe o quo mais ahi admirar ; si a expressão bem defi- 
nida da cabeça, onde inscreve-so a divindade, os detalhes da muscu- 



(3) Bougot 

(4) Alves Mendes— /?crcM/ano 



299 



latiira, o lididimo colorido da pelle, quo pareço ceder á pressão do 
dedo, si aquelle manto de illibada alvura, que se torce, que so do- 
bra, que transparece, que íluctua, ou si alíira aquelle alrao diadema 
de luz que resplende sobre a cabeça do Christo. 

Bougot aconselha, para examinar uma obra d'arte, fazer sobre a 
mesma convergir a esthetica, a historia o a teclinica. Com essas três 
luzes, a primeira coisa a fazer será indagar qual a intenção do ar- 
tista, quo sentimento ou idéa propoz-se o mesmo nos despertar. O es- 
tampado na tela está do pleno accôrdo com o quadro da Rosurreição 
que nos delineia Klopstock : «O Messias paira por sobre o scpulchro 
aberto e vazio. A sua cabeça, que, durante o supplicio, inclinava-se 
sobro o peito, recinge-so agora de uma auréola celestial. Como elle 
transluz ! Como deslumbra ! Uraa nuvem, descida do throno do Eterno, 
restituiu todo o esplendor aquelle cujo nome é três vozes santo, aquelle 
que nasceu em Bethléra, que soffreu em Gethsemani, que morreu sobre 
a cruz, e que o tumulo acaba de restituir.» 

Na tela, aquelle rosto, onde ainda se vislumbram signaes de sof- 
friraento ; aquelles estigmas das chagas, signal da crucificação ; aquelle 
corpo nú, meio encoberto por um lençol br anco, signal de que acaba 
de sahir do supulchro; aquella gloria, signal de divindade; aquellas 
nuvens que o devem occultar aos olhos dos discípulos, até que suba 
á presença do Eterno, nao estão patenteando que o artista conseguiu 
optimamente realizar a idéa que se nos propoz despertar? 

No — Derrubaãor brazileiro—^á. falha a intenção. A esthetica po- 
derá dizer que aquella figura de homem é desenhada com toda a cor- 
recção ; que não foi descurada a paysagem; que os planos foram bem 
tractados. Entretanto, aquelle personagem do descompassada complei- 
ção que alli repousa, não é o nosso caboclo; aquellas arvores do mes- 
quinho aspeito não são a luxuriante vegetação das nossas raattas, 
repassadas de seiva. 

«X« séve, debordant d^ábondance et de force 
Sortail en gouttes d'or des fentes de Vecorce (5) 

A razão da não realização ó quo, deslembrado pela distancia, es- 
tiolado pelos estudos de atelier, Almeida, como o Antôo da fabula. 



('>) Lamartne— Joce/ín. 



- 300 - 

devia (como o fez nos Caipiras negaceando) tomar forças no seio da 
terra pátria, inspirar-se nos nosbos opulentados bosques. O americano 
Longfellow tomou para conseliioiros do seu rude Hiaivatha as arvo- 
res seculares das florestas americanas. 

No — Remorso de Judas— ^á Almeida nivella-se cora os maiores 
pintores da actualidade. 

Junto a uma parede de pedras colossaes está sentado o trahidor, 
de cabeça inclinada para o hombro esquerdo, cabellos negros, appa- 
recendo de sob parte do manto ireto, sobrecenhos contrahidos, olhos 
fixos, nariz recto. O rosto, carregado, é oraraoldurado por negrabarba. 

A mao direita dobra-se sobro o joelho esquerdo, emquanto que a 
esquerda espalmase sobre a testa. Alpercatas apresilham-se por cor- 
reias de couro aos pés. Veste vermelha, de amplas mangas com 
aberturas, deixa-lhe á mostra o peito e parte da espádua direita. O 
manto sobre os joelhos, cahe-Ihe dos lados. No chão uma bolsa e, 
junto delia, moedas espalhadas. No plano immediato dnas mulheres. 
Ao longe o Calvário, onde rodeadas de povo, duas cruzes começam 
de ser levantadas. Sobre a scena: céo fortemente carregado. 

c A noite escura, triste e tenebrosa, 

€ Que já tinha estendido o neqro manto 

€ De escuridade a terra toda enchendo ...» 

Senhores ! Em Janeiro ultimo vários amigos dedicadíssimos de 
Almeida Júnior reuniram-se era coraraissão e repetiram nesta porção 
da America um facto extraordinário, que na cultissima Paris tinham 
em 1882 praticado amigos de C. Courbot — uma exposição geral dos 
quadros do nosso infeliz consócio. Ao penetrarmos numa das salas 
dessa exposição, acharao-nos de improviso era írente de tão soberba 
tela. Não nos pejamos em dizer- vos que a impressão causada foi 
tão extraordinária que mudo quedámo-nos ante ella. Paltava-nos 
expressão para definir a nossa sensação ! 

Desde aquelle muro colossal, que bem pudéramos com Castellar 
dizer que «são ossos de uma raça vencida pelos raios do céo e anni- 
quillada pelas maldições de Deus» (6), ató aquelle firmamento escureci- 



^6) Castellar— J. Capella Sixtina. 






- 301 -^ 

do ; desde aquella raaltidáo que apinha-se era roda da cruz, até aquel- 
le precito de physionoraia raivosa, de veias salientes era que o san- 
gue parece escaldar, e que era breve irá habitar nas trevas exteriores 
onde ha o ranger dos dentes, tudo é traçado cora tal vigor de pincel, 
com tal energia de tintas, que bera se pudera considerar sabido das 
mãos de Ri bera. 

A figura de Iscariotes avantaja-se muito á natural. Teria o pin- 
tor tido em vista a tradição referida por Papids : que ao trahidor 
tinha-se augraentado desraesuradaraente o corpo ? 

Aquelles olhos fixos não raais fechar-se-ão ao sorano. <Tic não 
mais dormirás ! mataste o somno, o somno da innocencia ! o doce som- 
no, que apaga no cérebro os t^-aços dolorosos dos cuidados, que cadx dia 
revoca o homem á vida ; esse bálsamo que conforta as almas sofredo- 
ras, esse segundo agente da poderosa natureza, que repara e renova 
os sentidos para os prazer esi . (7) 

Quantos milhões de ideias não remoinham por aquelle cérebro ? 
Figura-se-nos atravcz do seu envoltório estar lendo as seguintes pa- 
lavras: — Morre, miserável! os teus tormentos acabarão com a vida,.» 
O Deus de Moisés disse : Tu não matarás . . , Que importa a mim o 
Deus de Moisés ? já não mais o conheço /. . . O desespero, eis o Deus 
do trahidor ! ordena-me que morra !. , . morre, pois, vil !. . . Tremes ! 
o amor da vida desperta em ti, tu queres viver, tu, infame assassino ! 
Viver, quando uma sepultura, cavada por tuas próprias mãos, rodeiate 
de todos os lados ! ... E tu minKálma, que ousas revoltar- te, te julgas 
immorlal /. . . Não ! não espera viver depois de minha morte para per- 
petuar-me os soffrimentos ; tu morrerás commigo !.. . Um ultimo crime 
vai votar-te ao nada. (8) 

Entretanto essa alma de Iscariotes não morrerá ! vive hoje ! ! 
Viverá por toda a eternidade ! ! ! Aquelle que nos extendo a dextra, 
emquanto na sinistra brande o punhal— Judas ! Aquelle que entrega os 
seus irmãos á ferocidade do algoz — Judas ! Judas ! Aqueile que rece- 
be o ouro do extrangeiro para entregar-lhe o solo sacrosanto da pá- 
tria— Judas ! Judas 1 Judas ! E o Iscariotes trahiu mais 1 Trahiu Deus I 



(7) Shakspeare— iíacòcí/i, 

(8) Klopstock. 



— 30£ — 

Nossa tela indizível o pintor deixa es domínios do bello para 
alcandorar se nas regiões do sublimo. O belio tem sempre forma de- 
terminada, medida o proporções fáceis do discernir-se ; ao contrario 
CO sublime são só apparentes a forma e a medida : é illiraitado e in- 
definido (9). Com a morte do Christo a natureza convulsiona-se, a 
terra tremo, os astros detém -se na sua marcha. — E' o sublimo. 

— La fiiite en Egijpte. A Virgem, montada num jumento, segu- 
ra cora a mao direita as rédeas do animal ; com o braço esquerdo 
sustenta o menino Jesus, para o qual olha attento S. José, que so 
acha á direita da Virgem, era pé á beira do ura regato, era cuja 
lympha, de admirável transparência do crystal, sacia-se o ani!r.al. 
O menino com a mâo esquerda levanta ura véu que a Virgem traz 
sobre a cabeça. 

Devendo a analyse do quadro começar pelos corpos vivos, para 
seguirmos os preceitos de Taine, vamos, desde o principio, fazer-nos 
cncontradiço com os desprimores da obra. Não foi feliz o artista 
com as figuras da Virgem e de Jesus. A' primeira falta grandeza ; 
ao segundo nao só isso, mas correção no desenho. Para modelo da- 
quolla escolheu uma burgueza de physionomia vulgarissima, esque- 
cendo-se de que nas veias de Maria corria o sangue mais puro de 
Israel, o sangue de David. Cahiram da memoria ao artista as licções 
de G. Planche a todo aquelle que se propõe tirar qualquer assumpto 
dos magníficos poemas da Biblia, o que vem a ser, obrar ousada- 
mente, fazel-o amplamente, mas cora simplicidade ? «Milton, Klop- 
stock, Raphael, M. Ango poetisent et agrandissent les paroles de la 
Bible, mais s'ils vont plus haut, c'est en suivant la memo route. lis 
ii'ont pas lo malheur d'enjoliver ou d'embourgeoiser le drame biblique 
en essayant de le renouveler et de rhablller en costumo moderno.» (10) 

Não levamos a exigência ao ponto do querer que o pintor fosso 
agrllhoar-so por completo á tradição do passado o desse -nos um typo 
do Virgem do rara e oxquisita perfeição de Leonardo do Vinci. 

Não ! Para nós temos que o submotter o presente ao passado 
Importará em abdicação da vontade. Mas umas tautas tradições 
existem, transraittidas de bocca era bocca pelos mestres, que «resu- 



(9) Galli — Es'etica delia Musica. 

(10).— G Fla,nche—E'iuá S7ir Yecole française. 



— 303 — 

mcnt íoutes las manières classiques d'envisager la beautc», diz Vé- 
ron. E' a isto que so chama estylo. Para adquiril-o e exprimir a 
bolleza, basta estudar as tradições clássicas, ensina esse escriptor. 
A essas tradições devera apegar-se um pouco mais Almeida Júnior. 
Não o fez, porôm. Tomou paia modelo a primeira burgueza judia, 
sabida talvez de Frankfort a M., esquecendo- se da tradição, emhour- 
geoisant le arame hibliqiie. Olvidou-se do que diz B. de Bury (11)-. 
«II no faut pas prendre le premier modele et ie reproduire. 11 faut 
marquer cette figure de Terapreinte typique et Tamener à vivre dans 
la sphère des creations idéales.» Na tela de Almeida o ar da Virgem 
é distrahido, parecendo pensar era qualquer outra cousa que não a 
scena representada. 

Será, porventura, a visão terrível do Calvário que divisará nas 
penumbras do presentimento ? Ou, quem sabe 

Serão saudades das infindas plagas 
Onde a oliveira pr'Q Jordão semolina ? 

Parece-nos mais natural que esse olhar, olhar de Mãe amantís- 
sima, viesse cahir era cheio sobre o divino Filho. Esses olhos, que 
mais tarde araaram-se-lhe de lagrimas, não devera desviar-se do obje- 
cto pelo qual são soffridas as agruras do deserto. 

S. José, ura velho calvo, de olhar estupendamente lançado, na- 
riz aquilino, nú da cintura para cima, tom explendida carnadura, te« 
eido de veias saliente, á mostra, arrijados músculos, piptados por mão 
de mestre, que conhece todos os segredos da technica, O braço di- 
reito, dobrado, segura ura páu que repousa sobre o hombro do mes- 
mo lado e ao qual prende-se uma trouxa. Os pés, nús, estão cuida- 
dosamente feitos e poderiam servir de modelo. O todo da figura é 
um conjuncto do linhas harraonicas, sera um só defeito, quer quanto 
ao desenho, quer quanto ao colorido. 

A Virgem traja vestes de côr vermelha, muito bem ajustadas: 
sobre a cabeça um véo, de um acabamento tal que por si só bastara 
para recommendar o quadro. Ao pescoso ura lenço branco, tratado 
cora suraraa perícia, corao o é ura manto azul, brilhante, posto sobre 
o animal. 



(11). — Bury — Tableaux romanfiques 



Bis-nos de repente chegados a um dos pontos mais ielieados da 
pintura, o matiz, que é como que a cúspide a que procuram repon- 
tar-se os artistas. A combinação das cores, diz Taine, é um elemento 
capital na pintura; é para as figuras o que o acompanhamento é 
para a musica. 

O azul e o vermelho são cores que se repellem, que jamais 
poderiam betar-so. Entretanto Almeida conseguiu harmonisal-as por 
meio de artiflcios : Attenuando-as, equilibrando as. E' cousa ensinada 
pela Esthetica que, á medida que a luz augmenta, as côres se atte- 
nuam, se desbotam. Pois bem ! O artista deu bastante luz ao qua- 
dro, e dahi o abrandamento e harmonia das côres. Quanto ao equi- 
líbrio : A S. José, além de ura a túnica preta, deu um manto verme- 
lho escuro, enrolado na cintura e atado na frente. Estando o Santo 
á direita da Virgem, a coUocação das côres é a seguinte : 1,° me- 
tade do manto azul ; 2.o vestido vermelho da Virgem ; 3.» outra 
metade do manto ; 4.» manto vermelho de S. José Ainda outro ar- 
tificio : ura raio de sol, batendo nas vestes da Virgem, faz cem que 
dahi se desprenda ura raio que vai tingir de vermelho as pernas de 
S. José. E' a applicaçãu do que ensina Véron «les cbjects colores 
doivent leur teinte précisément a la faculte qu'ils cnt d'absorber cer- 
tains rayons e: d'en renvoyer d'autres. Un étoflfe rouge, par ex, ren- 
voie les rayons rouges et absorbe les autres.> 

Com o vermelho das pomas do Santo está completado o equilibrio 
e conseguida a harmonia das côres. Nos tecidos dos vestuários ha o 
mesmo cuidado e attenção, como no debuxo do jumento. A agua do 
regato revela que quem a fez é um mestre que um dia pode rivalisar 
com Corot nas paisagens. Parece qae ouvimos sussurrar essa agua 
tão crystallina. — Voi sussurranti eliquidi cristalli — como exprimia-se o 
Paterno. Espelhenfca, refiecto as pernas de S. José e o animal. A pai- 
sagem representa um logar árido. A' direita da Virgem uma esphinge, 
no plaao immediato ; ao longe uma montanha verde. A' esquerda uma 
pyraroido e ura obalisco. Por sobre a scena um cóo limpido e quente. 
Céo oriental. Aqui esmalta-se de amarello, de laranja, d'oiro e de 
purpura A lera, de azul esverdeado. Côres seductoras, magicas, bri- 
lhantes ! Soberbissirao espectáculo ! Luz puríssima, luz radiosa, luz 
diaphana e esplen dida ! Bem se pudera dizer com o florentino Dante : 



— 30Õ — 

Una melodia dolce 
Correva per Vaer luminoso. 

Quanta harraonia, quanta grandeza, quanta imponência, meu Deus 1 
Só Loti pudera exprimil-as. 

iiLuz, luz, tanta luz, que admirados, pasmos ficamos, como se, sa- 
hidos de uma espécie de meia noite, os olhos se abrissem de mais, vendo 
mais claro, mais claro sempre .. , Cada vez maior claridade! Real- 
mente os olhos se dilatam e pÕem em estado de enxergar mais raios e 
mais cores . . . Que festa é esta de clarões brancos, de clarões doirados 
que, silenciosos e de sorpreza, parecem surgir por toda a parte?. . . Nem 
uma nuvem ; do zenith ao horizonte a mesma limpidez maravilhosa : 
eil'0, pois, desvendado, tanto quanto alcançar podem os nossos olhos, 
este vácuo intérmino, onde os desconformes universos tombam por my- 
riades, tombam, tombam céleres como gotticulas de incessante chuva de 
fogo». Viagem á Índia. 

Quanto ao desonJio : apesar da rná escolha do modelo, a figura 
da Virgem está bem traçada, cora correcção. A figura de S. José é 
um pouco maior do que o natural. Isto, porém, não prejudica o qua- 
dro. Igual defeito aponta Bougot no (jorregio : < Le Corrège est in- 
corret ; il outre souvent les formes ; mais quelle entente du clair obs- 
cur et de rharmonie des coulours ! Or c'est bien là un secret du mó- 
tier, perdu pour les autres pout-être, mais decouvert et pratique avec 
uno incomparable superiorité par le maltre>. 

As cores obedecem ás prescripções dos mestres. Figuras com 
formas humanas, meio viventes, tão bera dispostas que é fácil á vista 
achar desde logo onde poisar. Horizonte ondulado, de encantadora 
poesia. Óptima perspectiva ! Tudo isto está como que assellando o 
pintar correctíssimo do futuro autor dos Caipiras negaceando. E' uma 
obra d'arte notável, uma das melhores dj Almeida Júnior. 

Passemos a um novo género de pintura. '^o—Pendant le repôs—, 
desde o torso do modelo, tratado cora bastante elegância e com admi- 
rável precisão; desde os braços debuxados com rara verdade; desde 
aquella bocca, donde parece se ouvir a modulada gamraa de uma 
risada crystallina, até os moveis e estofos de encantadora côr; até 
os pequeninos bibelots, com suas imperceptíveis delicadezas, tudo ó 
pintado cora maravilhosa destreza, com graça inimitável. 



— 306 — 

De outra tela— O Tmpoituno — bem poderamos dizer cora G. Plan- 
che que á medida que o olhar mais attentamente se fixa, mais riquezas 
descobre, de mimito em raimito, riquezas de que não teria suspeitado. 
Ex. : nas paredes duas miniaturas dos quadros Caçando o Louvre; 
aquella estupenda minuciosidade com que é pintada a golla da camisa 
do modelo ; aquclle tapiz, brincado do arabescos ; aquoUe reposteiro, 
cujo original todos vimos no seu atelier. 

Si passarmos á pintura de costumes, ainda mais aprimora- se o 
pincel do artista. Desaprcsado das convenções artísticas, ahi Almeida 
superioriza-s8. Onde, porém, o Gautier, o Froraentin, o Euskin, que 
analyse essas notabillissimas telas ? Só o tentar da nossa parte im- 
portara em imperdoável ousadia. 

E aqucllas sobordas marinhas ! Numas, agua azul, brilhante, 
transparente, cuspida do espuma. Á noite, talvez que a noctiluca vá 
recamai a de faiscas de luz. Que praia tão formosa, onde parecem 
jazer conchinhas que representam a cor das nuvens, quando nasce o dia 
E essa aguinha que corta-a não transparece como o rocio? 

Noutra aquella agua verde e agitada. Inclinemo-nos, são os ver- 
des mares, bravios da terra natal de Iracema, onde canta a jandaia 
nas frondes da carnaúba. 

Mas, porque se agita e escuma esse mar tão verde que pareço 
um ferver de esmeraldas ? É que se levanta contra o vento, que vem 
continuamente açoital-o de rijo, para v6r se consegue roubar-lhe das 
entranhas o appetecido segredo de fabricar a pérola formosa. 

Luctaram hontem, luctam hoje e luctarão sempre os dois titans : 
o vento e o mar, — as duas imicas expressões sublimes do verbo de Deus, 
escriptas na face da terra, quando ainda élla se chamava o cahos... 
Viram nascer o género humano, crescer a selva, florescer a primavera ;— 
e passaram e sorriram se. E, depois, viram as gerações reclinadas nos 
campos do sepulchro, as arvores derribadas no fundo dos valles, seccas e 
carcomidas, as flores pendidas e murchas pelos raios do sol do estio; — 
c passaram e sorriram-se. (12) 

Si acompanharmos Almeida na paisagem, achamo-nos em faço 
ão— Trecho de estrada, do— Eio das Pedras, áo— Trecho do Tietê',— 
Caçando, etc. 



( 12) Herculano —Eurico. 



— H07 — 

Em nonhuraa delias esqueceu-so o artista dos conselhos dos mes- 
tres. A agua, fel- a como deseja G. Planche : — Transparente e liquida, 
tremo, enruga-so. Nas arvores seguiu o conselho do 'Jh. Rousseau: — 
Vos arbres doivent tcnir au terrain, vos branches doivent venir en 
avaut ou s'enfoncer daus la toile ; le spectateur doit penser qu'il 
pourrait fairo le tour de Farbre. Ou esfoutro de Planche — «un peu 
d'air doit jouer libremcnt dans les branches». 

Uma pequenina paisagem, que Corot nao desdenharia assignar, 
merece coratudo que a destaquemos das outras — um tanque, — que tal- 
vez algum critico comparasse a uma egloga do Virgílio ou a um idylio 
de Theocrito. 

Parcce-nos estar lendo este trecho de Garcilasso: 

Fuente clara y pura 

Que como de crystal resplandecia 

Mostrando abiertamente su Jiondura 

El arena que de oro 2}cirecia 

De Mancas pedrezuelas variada... 

Arholes que os estais mirando en cilas 

Yerde prado de fresca sombra lleno. (13) 

Sobro aquella agua como quo revoam moscas-dragao ou libellinhas 
do hyalinas azas ; pendem flexíveis tufos de bambus, quo vâo debu- 
xar-se no fundo delia, emquanto as nymphéas vogara sem rumo, os- 
tentando aos caprichos da briza os seus pavilhões róseos ou azues 
bordados d'oiro 

(2ue alegre campo e deleitosa praia ! 

Quam saudosa faz esta espessura 

A formosura angélica e serena 

Da tarde amena ! Quam saudosamente 

A sesta ardente abranda, suspirando 

De quando em quando o vento alegre e frio ! 

JVo fundo do rio os mudos peixes saltam ; 

Os Céos s^esmaltam todos d'ouro e verde, 

E Febo perde a força da quentura. (14) 



(13) Garcilasso— £V7%as. 

(14) Camões— /;<7%as. 



— 308 - 

B, acceitando o amoravel convite da natureza, o pae de Mirtillo 
ahi dormitará, sem que os ventos frescos da noite e o húmido orvalho 
façam-lhe damno algum. (15) 

Causa bem á alma contemplar uma tela dessas, que podíamos 
chamar— wn ahri delideux, un rendez-vous de repôs et de fraícheur 
dans Varidité de la route. Toutes les plus caressantez melodies de la 
nature y ont eté captées pour notre usage par un genie Uenfaisant et 
fraternel. (16) 

Na pintura histórica Almeida deixou-nos a assombrosa — Partida 
da Monção.— O que ora a Monção dil-o o artista nas poucas linhas 
com que apresentou o quadro. A monção ! Quantas idéas nâo des- 
perta essa tela em que o mestre vasou o melhor do seu espirito ! 
<Onde está, porém, o Goethe que faça esse poema? Apparecerá hoje? 
É cedo, multo cedo ainda. (17) 

Dai-me licença para que antes do terminar vos lembre as dua& 
ultimas producções de Almeida Jr. : — a Mendiga e a— Saudade, duas 
telas extraordinárias que os olhos do corpo já não vêem, mas que 
os d' alma ainda estão remirando. 

Aquelle olhar esmaecido de velha pedinte, de enrugado rosto, 
como que ainda nos está fitando, em quanto extende-nos a mão em- 
raagrecida, rematada com unhas descuidadas. 

Planche, esse grande demolidor, não estaria de accôrdo comnosco : 
<Je sais bon gró a Taucteur de nous aví ir epargnóes les ongles noi- 
res des femmes du pays ; c'est un trait d'exactitude dont la peinture 
peut se passer.» « II n'y a pas rien de commun entre la tache de 
pointre et Toffice de greffler. Los gerçures des lèvres, les rides et 
les verrues ne sont pus et ne seraient jamais la partie importante de 
la peinture.> 

Responderemos, com Biaze de Bury, que nos é tão impossível 
pensar com o cérebro do nosso próximo, como 6-nos impossível tirar 
proveito para a nossa nutrição da alimentação que o sustenta. 

E aquellas unhas crescidas, aquelle rosto cheio de rugas serão 
por nós tão admirados, como aquella bocca despojada de dentes, como» 



(15) Gessner—Idí/Jios. 

(16) A. M.iche\—L'u:ure de Corot (Rev. des D. Mondes). 

(17) Luciano Cordeiro —^síros e Palcos. 



— 309 - 

aquelle vestido rnstido no joelho esquerdo, que por baixo se advinha 
ou o lenço azul e côr de rosa, que cobre a cabeça da figura, dei- 
xando apenas apparecer, sobre a orelha direita, uma pequena raa* 
deixa de cabellos grisalhos. É um perfeito espécimen da escola hol- 
landeza. 

Saudade ! 

Gosto amargo de infelizes. 

Delicioso pungir de acerbo espinho. 

Saudade ! Que tocante e pathetica elegia ! 

Junto a uma janella aberta, uma mulher, ainda moça, contempla 
uma photographia, que acaba de tirar de um bahú ao lado. A physio- 
nomia traduz um sentimento de dôr real, verdadeira, profunda, des- 
sas dores que não acabam nunca. 

«Fleurs, rochers, vallons, solitudes si chères, 

«Un seul être vous manque et tout est depeuplé.» (18) 

Saudade ! 

Para nós essa tela, sabendo a um immortal soneto de Petrarcha 
no Trionfo delia morte, excede-o ainda. <Baro um discurso rivalizará 
uma tal pintura, porque raríssimo o poder da palavra rivaliza o poder 
do pincel quando este, embebido pelo génio no iris da inspiração, con- 
vertendo cores bem combinadas em seres maravilhosos, torna um qua- 
dro poema e faz d'um movimento de tintas um deslumbramento de 
ideas.» 

Saudade ! 

A alma do artista dil>uiu-se em pranto e com este dissolveu a 
tinta com que pintou uma admirável lagrima que se deslisa pela fa- 
ce direita da figura, que tenta enxugal-a com o chalé seguro com a 
mão esquerda. 

«Que fora a vida si nella não houvera lagrimas?... A dor mais 
tremenda do espirito quebrantam-na, entorpecem-na as lagrimas» — 
Meu Deus, meu Deus ! — Bemdido seja o teu nome, porque nos deste o 
chorar.-*' 



(18; h^vcíKvXme—Meditationi. 



- 310 — 

E, como não bastasse ter animado a figura, Almeida foz o seu 
feracissirao, dulcíssimo pincel descer a minúcias, como os arabescos 
da ronda que cobre o albura, donde sahíu a photographia, os enfei- 
tes de pregos amarellos do bsliú, ctc. Por sobro tudo uma mirífica 
iuz que Fromentin nunca jamais poderia assaz encarecer, 

ExcelsoTartista ! Aureolando o teu nome no extrangciro, nobili- 
taste o nome da pátria I Honra, pois, a ti ! Esmaltando a tela cora um 
canto dessa Eneida sublime, cujo prologo traçou João Kamalho, escre- 
veste um trecho da historia de S. Paulo ! Honra, pois, a ti ! Espiritua- 
lizando na tola o sentimento da saudade que deixaste nos teus con- 
sócios do Instituto, elevaste, cora o teu nome, o nome da pátria aos 
domínios da gloria. Honra, pois, a ti ! E ciosa de possuir-te, a gloria 
fez que to adormecessem na vida, para mais cedo despertares em 
íseu seio ! 

Permitti, Snrs., que termino com as palavras do A. Houssaye, ao 
sor levantada em Tournus uma estatua ao insigne Crcuie: — A grande 
voz de bronze de Bossuet perp'iuava a lembrança dos mortos até os 
confins da immortalidade. Mas hoje quem falará ião alio para ser 
ouvido por tanto tempo? A oração fimebre, por mais eloquente que 
se]a, perdc-se no 7'uido yniversal. A cada immortal deve-se uma esta- 
tua; é a licção do passado ao futuro; é pelo mármore que a imtria re- 
compensa^ é pelo mármore que ella diz ao rccem-vindo: «E tu tambem- 

UM DIA PODERÁS DESPERTAR SOBRE UM rEDESTAL>. 

Si tão grande perda softreu a arte com a morte de Almeida Jr., 
não menor causou á historia de S. Paulo o passamento de outro distincto 
consócio e fundador do Instituto o Snr. António Augusto da Fonseca. 

Si aquelle estampava na tela a Partida de Monção, este pela 
imprensa, em linguagem castiça, espalhava historias dos nossos maio- 
res. O 2.» volume da nossa Revista nos apresenta bollissimas e elo- 
quentes paginas sabidas da sua bera aparada penna. Corao ?iuetomo, 
elle substituo a historia pela biographia. E' exacto qae—ainsi com- 
prise, Vhistoire per d sans doute quelque chose de sa d'gnité majesteuse 
et de sa beauté artistique. 

Aqui dá-nos a biographia do P. Jesuino Monte Carraello, escri- 
pta em estylo correctíssimo, deixando transparecer o seu amor pro- 
fundo pela tradição, pelo que nos legou o passado. 



— 311 — 

Como rcvolta-se contra aquelles quo mutilaram a egreja do Pa- 
trocínio ! 

Muitos, por esse e outros factos idênticos, accusavara-no de mi- 
santhropia. Também o tem sido Tácito. Mas, com Piclion (19), dire- 
mos: — II rfest pas misanthrope; car il renconnait et salue la vertu 
chaquo fois qu'il Ia recontre, et so vant d'écrire pour la preiserver de 
i'oubli— «c virtutes sileatur. 

Não é raisanttiropo quem reconhece, apregoa e louva aquelles 
ílois sacerdotes, idolatrados pelo povo ytuano pelas suas virtudes tao 
apuradas, Fs A. Pacheco e P.« Miguel Correia Pacheco. 

Si rcvolta-se ao narrar os excessos comraettidos por D. Bernar- 
do, é devido a um requinte do sensibilidade quQ—agita-se e oj^avxo- 
na-se ao contacto das sccnas que observa. — Exsequi sententias haud 
institui, nisi insignes per honestum aut notabili dodecore, dizia Táci- 
to. Como este, Fonseca era um psychologista. Nas biographias de Al- 
vares Machado, de Feijó e de D. A. de Mello muitos factos históri- 
cos interessantes, mas desconhecidos, são narrados. Ahi o escriptor 
faz a veidadcira historia, isto é uma resurreição, pois fazer a histo- 
ria é refazer a vida. 

B não era só na imprensa que luzia esse velho sabedor. Na con- 
versação, se lho désseis um theraa qualquer de S. Paulo antigo, 
aquelles lábios do prompto se descerrariam, e o commentario profun- 
<do do saber surgia como por encanto. Nelle a chronica se encarnara. 
E o que é a chronica sinao a historia ainda por lapidar, a historia 
som cncaieiamento, uma narração de factos, sem indicação de cau- 
sas ? Valerá menos por isso ? 

For Deus que não ! Amanhã surgirá um Thierry, que a apuro 
210 cadinho de philosophia, ou da critica. E, escoimada do lendas o 
«de tradições fabulosas, sabidas das tumbas do passado, deslumbrante 
<íomo um resurrecto, apparecerá a historia verdadeira, elo que nos 
liga ao pretérito, elo que prenderá a nós o futuro. 

E, quando por sobre uma intelligencia tão culta como a de Fon- 
seca, reluz um conjunto de virtudes acrisoladas, então melhor se aqui- 
lata a magnitude da perda soôrida. Então a dôr se avoluma. Então 



("19) Pichon— 7//s^ de la litteratiirc latòie 



— 312 — 

um desejo de seguir tal exemplo apodera-se de todos. Então os elo- 
gios dictados pela gratidão tornara-se um tributo ou, para servir-me 
-da expressão feliz de Voltaire, num delicioso perfume, que se con- 
serva para o embalsamento dos mortos. Então cada um de nós pa- 
rece, paraphraseando enternecido as suas palavras, dizer com aquelle 
velho de Riba-Douro: Companheiro illustre, és morto! JSôs todos 
quantos aqui somos, não tardará que sigamos. 

Era vida, bem mereceste do Instituto. Por meu intermédio envia- 
te elle o tributo de sua gratidão. Repousa em paz, conspícuo consócio 1 

Sao Paulo, 1.0 do Novembro de 1900. 

Dr. Manoel Pereira Guimarães. 



Actas das sessões 

DO ANNO DE 1900 



Sessão ordinária, em 25 de Janeiro de 1900 

PRESIDÊNCIA. DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO 

A's sete e meia horas da noite, no prédio n. 2 do Largo da Sé, 
na sala destinada ás sessões, presentes os sócios srs. Duarte de Aze- 
vedo, Carlos Reis, Pereira Guimarães, Miranda Azevedo, António Piza, 
Orville Derby, Thcodoro Sampaio. Dionysio Fonseca, Bernardo de Cam- 
pos, João Florindo e Arthur Goulart, foi aberta a sessão. 

Foram approvadas as actas das sessões do 25 de Outubro e 1 de 
Novembro de 1899. 

Foi recebido por uma commissão e introduzido na sala das ses- 
sões, onde tomou assento, o novo sócio sr. dr. João César Bueno 
Bierrenbaoh, que proferiu uma bella allocução. 

EXPEDIENTE 
Officios 

Do sr. A. L. Garraux agradecendo a sua admissão como sócio 
correspondente. 

Do sócio sr. Alexandre Riedel pedindo exoneração do cargo de 
2.0 secretario, visto não poder continuar a exercei- o. — Subraettido á 
deliberação, foi acceito o pedido de exoneração, em vista das razões 
apresentadas, devendo proceder-se, na ordem do dia, á eleição de 2.» 
secretario . 



— 314 — 

Do sr. dr. Álvaro A. da Silveira, do teor seguinte, que passa 
para a ordem do dia, afim do ser discutido : «lUms. Srs. Membros do- 

< Instituto Histórico de S. Paulo. — Polo muito que merece qualquer 

< noticia dada pelos orgams da impresa da capitai paulista, níio posso- 
« deixar passar despercebido o sem formal contestação o que foi do- 

< ticiado pelo Commercio de S. Faulo, sob o titulo Instituto Histórico 
* Conta o apreciado jornal que «o dr. Eduardo Prado clumou a at- 

< tenção do Instituto para o notável acontecimento que era a publi- 
« cação da primeira folha da Carta Geographica de S. Paulo, fazenda 
« ver a honra que havia para o Brazil e para S- Paulo em ter a 

< primeira carta rigorosa feita na America do Sul.>— Quero crer qne- 
t tenha havido qualquer engano na transmissão da noticia, pois me 
« parece que o Instituto não ignorará, em assumptos do tanta impor- 

< tancia para elle, o que se passa, mesmo em um Estado visinho — o 
« de Minas Geraes. — Com etteito, antes ua publicação da primeira fo- 
« lha ainda provisória da Carta Geographica de S. Paulo, folha cuja 

< publicação se fez este anno de 1893, já o Estado do Minas tinha 
c publicado, em 1895, duas folhas definitivas da sua Carta Geogra- 
« phica, na escala de 1:100.000, a mesma da de S. Paulo ; consecu- 

< tivamente foram sendo publicadas outras, de sorte a attingir hoje 

< o seu numero a dez, que tôm por titules: (1) Barbacena, (2) S. João 
« d'El-Rey, (3) Ibertioga, (4) Carrancas, (5) Ayuruoca, (6) iluminarias,, 
« (7) Baependy, (8) Lavras, (9) Lima Duarte e (10) Rio Preto. — As- 
« sim, a primeira folha do uma carta rigorosa publicada no Brazil 

< não foi, como pensa o Instituto, a de S. Paulo e sim a folha n. !„ 

< Barbacena, da Commissão Geogranhica e Geológica do Estado de 
« Minas Geraes.— Não tenho poupado esforços para tornar conheci- 
« das as folhas da nossa carta o ainda assim, mesmo em Minas, ondo 
« a sua disseminação deveria ser grande, ha muita gent^í instruída 
« que ignora em absoluto a existência desse precioso trabalho. —Dou 

< parabéns ao Estado de S. Paulo por saber manter serviços que in- 
« felizmente são pouco apreciados o conhecidos no nosso paiz, a não 

< ser apenas por uma parte insignificante da população. — Eis o que^. 
« para orientar o Instituto Histórico do S. Paulo ou para desfazer o 
« effeito desagradável de uma noticia inexacta, julguei conveniente 
« dizer- vos.— Com estima e consideração, subscrevo-me, etc. (assig- 
« nado) Álvaro A, da Si7veim— Engenheiro de Minas e Civil.» 



— 315 — 

Offeutas 

As constantes da relação ora appcndice, as quaes sao recebidas 
com especial agrado. 

Por proposta do sr. Dr. Manoel Pereira Guimarães, foi unani- 
mente deliberado inserir na acta um voto de profundo pesar pela 
morte trágica do distincto consócio José Ferraz de Almeida Jutiior. 

Igual deliberação foi tomada, por proposta do sr. Arthur Goulart, 
pelo fallecimento do sr. Dr. Américo de Campos, seudo também re- 
solvido, por proposta do sr. Dr. Miranda Azevedo, que por offlcio so 
aprosoatassem condolências à familia do illusfre morto. 

ORDEM DO DIA 

Entra em discussão o offlcio do sr. dr. Alyaro da Silveira. Usa 
da palavra o sócio sr. dr. Orville Derby, que faz diversas considera- 
ções a respeito do assumpto, accrescentando que, como chefe da Com- 
missão GeograpMca e Geológica deste Estado, não pode deixar passar 
sem reparo a ^hrasQ— folha provisória, empregada pelo sr. dr. Álvaro 
Silveira como equivalente a^edição yreliminar — que so encontra na 
folha publicada da Carta Geographica deste Estado, o que não podo 
ser adraittido nem pelo sentido etymologico nem pelo sentido technico 
desta expressão ; a edição, concluo o sr. dr. Derby, comquanto pre- 
liminar, não deixa do ser também definitiva : foi chamada pre- 
liminar, porque ainda tôm de ser traçadas as linhas divisórias entro 
os municípios, o que se pretende fazer com toda a exactidão ; é, po- 
rém, definitiva, porque o trabalho gcographico está completo, rigoiosa 
e definitivamente concluído, nada havendo a alterar, a modificar, a 
emendar. O l.o secretario, obtendo a palavra, declara que o Instituto 
não recebeu de qualquer repartição do Estado do Minas folha alguma 
da carta do que so tracta, não sendo, pois, do cxtranhar que se igno- 
rasse a existência dessa carta na nossa associação, quando no pró- 
prio Estado de Minas, ondo a disseminação deveria ser grande, ha 
muita gente instruída que ignora em absoluto a existência desse pre- 
cioso trabalho. O sr. dr. Miranda Azevedo propoz o foi approvado 
que fossem transcriptas na acta as integras do offlcio do sr. dr. Ál- 
varo Silveira o da resposta ao mesmo. 



— 316 — 

Em seguida, o sr. presidente declara que vai-se proceder á elei- 
ção para preenchimento do cargo de 2.° secretario. Por proposta do 
sr. dr. Miranda Azevedo foi unanimemente acclamado 2." secretario o 
sr. dr. Manoel Pereira Guimarães, que agradeceu a eleição e tomou 
posse do cargo. 

Pelo 1.0 secretario foi aprascntada e fundamentada uma proposta 
creando dois logares de supplente^ do 2.° secretario, a qual flca so- 
bre a mesa para ser discutida e votada na próxima sessão. 

Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente levantou a sessão. 

Lavrada por Carlos Eeis, l.® secretario. 

INTEGRA DA RESPOSPA DIRIGIDA AO SR. DR. AlVARO A. DA SlLVElRA 

<0 Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo, ao qual foi 

< presente, era sua sessão de 25 do corrente mez, o offlcio de V. 
c S., cujo recebimento tenho a honra de accusar, tomando na maior 

< consideração o assumpto do mesmo constante, deliberou responder 
« a V. S., encarregando-me de o fazer. — Hm primeiro logar, cumpre 

< notar e V. S. o comprehende perfeitamente, que ao Instituto nèn- 

< huma responsabilidade pôde caber pelas noticias relativas aos tra- 

< balhos de suas sessões dadas pelos jornaes, pois não é ello quem 
« as fornece a estes, mas os respectivos redactores ou seus auxilia- 

< res que, assistindo ás sessões, tomam suas notas e as organizam. — 

< Em relação á noticia do Commercio de S. Paulo, a que V. S. se 
« refere, não podemos cousa alguma afflrmar de modo positivo, visto 
* achar-se ausente o digno consócio àr. Eduardo Prado, único que 
« pôde elucidar o caso- A maior parte dos membros deste Instituto 

< ignorava a existência da Carta Geographica do Minas Geraes, não 

< tendo tido o mesmo Instituto a honra de receber uma folha si quer 
« das publicadas. Não havendo no nosso archivo esse trabalho, não 
« se tendo ouvido falar delle, fácil ora suppor-se que a Carta Geo- 

< graphica deste Estado era a primeira que se publicava com o ca- 
« raeter de rigorosamente exacta, visto ter eila de facto este caracter 

< e desconhecer-se a existência da de Minas. — Por taes motivos, quan- 
« do qualquer asserção monos ftindada fosse avançada por algum so- 

< cio em relação a este trabalho, merecia sem duvida relevação, 

< sendo certo que o Instituto, como pessoa moral, no seu caracter de 



— 317 — 

< conectividade, não é, não pode ser responsável pelos juizos eraitti- 
* dos individualmente pelos sócios, que tém a liberdade de suas opi- 

< niões.— Isto posto, julgamos necessário fazer algumas considerações 

< sobre um tópico do officio a que respondemos. Diz V. S. no allu- 
« dido tópico : «Com effeito, antes da publicação da primeira folha 
« ainda provisória, da Carta Geographica de S. Paulo,...» A 1.» fo- 

< lha desta carta, assim como a 2.* ultimamente publicada, não ó 
« provisória e sim definitiva. Talvez fosse V. S. levado a consido- 
« ral-a provisória pelo facto de constar delia a declaração áe— edição 
« preliminar ; mas perfeitamente sabe V. S. que não só pelo sentido 
« etymologico como pelo technico dos vocábulos preliminar o prrvi- 

< sot'io, não pode nem deve ser este considerado equivalente ou syno- 
« nymo daquelle. A presente edição da Carta de S. Paulo foi cha- 
« mada preliminar, porque tem de ser feita uma outra, na qual serão 

< indicadas as linhas divisórias dos municípios cora a precisa exacti- 

< dão e que actualmente não era possível representar, por falta de 
c dados seguros ; mas não deixa, por isso, de ser definitiva, pois o 

< trabalho geographico está completo e rigorosamente exacto, nada 

< havendo a alterar, modificar, emendar. — Aproveito a oppcrtnnidade 

< para, em nome do Instituto, felicitar na pessoa de V. S. a Coramls- 
« são Geographica e Geológica do Estado de Minas pela publicação 
€ das 10 folhas da Carta desse Estado, e ao mesmo tempo sohcltar de 
« V. S. a fineza de obter a remessa daquella carta para o nosso ar- 

< chlvo, pois multo prazer teremos em possuir tão importante o pre- 

< cioso trabalho. — (Assignado) Carlos Reis, 1 » secretario. 



Sessão ordinária, era 5 de Fevereiro de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SB. CONSELBEIRO DUARTE DE AZEVEDO 

A's oito horas da noite, na sala das sessões do Instituto, presen- 
tes OS sócios srs. Duarte de Azevedo, Carlos Reis, Pereira Guimarães, 
António Piza, Orville Derby, Alberto Lõfgren, Jorge Krichbaum, Dio- 
nysio Fonseca, Theodoro Sampaio, Arthur Goulart, Domingos Jagua- 
ribe, Alfredo de Toledo e Miranda Azevedo, foi aberta a sessão- 

Foi appiovada a acta da ultima sessão. 



— 318 — 

EXPEDIENTE 

O 1.0 secretario communica o recebimento das offertas constantes 
da relação era appendice, as quaes são recebidas com especial agrado. 

O sr. Presidente communica que a Directoria resolveu dispensar, 
a 1.^ do corrente mez, a sala que ora occupada cem a colleeção nu- 
mismática, que foi accommodada na saleta da secretaria, realizando- 
se assim a economia do 60^000 mcnsaes. 

ORDEM 00 DIA 

Entra em discussão e é sem debate approvada a proposta relativa 
á creação de dois supplentes de secretario. Em seguida foram no- 
meados pela Mesa, por delegação da Assembléa, para esses legares 
os sócios srs. Dionysio Caio da Fonseca e Arthur Goulart. 

O Sr. Dr. Pereira Guimarães, como relator da commissão encar- 
regada da revisão do quadro social, submette á consideração da Assem- 
bléa uma proposta para a transferencia dos sócios cujos nomes indica 
da classe dos correspondentes para a dos eftoctivos. Submettida á 
discussão e votação, é approvada a proposta, passando para a cate- 
goria de sócios effectivos os seguintes srs. que foram adraittidos como 
sócios correspondentes: Dr. Francisco de Paula Rodrigues, Dr. Fran- 
cisco de Paula Santos Rodrigues, João Vieira de Almeida, Dr. João 
António de Oliveira César, Dr. Pedro Augusto Carneiro Lessa, Dr. 
Raymundo Pennaforte Alves do Sacramento Blake, Dr. Josó de Cam- 
pos Novaes, José Hippolyto da Silva Dutra e Dr. Alfredo de Toledo. 

Nada mais havendo a tractar, levantou-se a sessão. 

Lavrada por Carlos Reis, l.o secretario. 



Sessão ordinária, em 20 de Fevereiro de 1900 

PEESIDENCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO 

A's oito horas da noite, presentes os sócios srs. Duarte de Aze- 
vedo, Carlos Reis, Orville Derby, Alberto Lõfgren, Luiz Leme, Alfredo 
de Toledo, Eugénio Franco, Bernardo Morelli, Thaodoro Sampaio, An- 
tónio Piza e Barão Homem de Mello, foi aberta a sessão. 

Foi approvada a acta da sessão antecedente. 



— 319 - 

o sr. Presidente congratulou-se com os consócios pela presença 
do sr. Barão Homem do Mello, a quem saudou como ura dos homens 
mais notáveis do Brazil actual, declarando ser a sua presença na 
nossa sessão um grande estimulo para o trabalho. O sr. Barão Ho- 
mem de Mello, agradecendo as palavras do sr. Presidente, disse serem 
dignos de francos elogios os grandes serviços que este Instituto temi 
prestado ao Paiz, concorrendo com o seu subsidio importante para o 
estudo da geographia o da historia do Brazil ; disse mais que, quando 
comparece, como hoje, a este Instituto, sonte-se rejuvenescer ao con- 
tacto de espíritos cultos e elevados que cora tanto zelo e dedicação 
trabalham pela prosperidade da associação ; terminou saudando cor- 
dialmente os membros do Instituto. 

EXPEDIENTE 

OFFICIOS 

Do sr. Dr. Bernardino de Campos agradecendo as condolências 
pela morte do Dr. Américo do Campos. 

Do sr. Dr. Raymundo P. A. do Sacraraento Blake agradecendo a 

sua transferencia para a classe dos sócios eftoctivos. 

OFFERTAS 

As constantes da relação era appendice, as quaes são recebidas 
€ora especial agrado. 

ORDEM DO DIA 

E' dada a palavra ao sr. Dr. Orville Derby, que faz a leitura de 
um seu importante trabalho intitulado — O começo da questão de limites 
€]itre S. Paulo e Minas Geraes, o qual foi muito apreciado o applau- 
dido. 

Tem em seguida a palavra o sr. dr. Alfredo de Toledo, que lô a 
introducção do seu trabalho — Uma reivindicação improcedente. Termi- 
nada a leitura, que foi muito apreciada, ó o trabalho entregue á me- 
sa, devendo ir á Commissão do Historia do Brazil. 

Nada mais havendo a tractar, levantou-se a sessão, no correr da 
qual compareceram mais os sócios srs. Dionysio Fonseca, Alexandre 
Kiedel e Arthur Goulat. 

Lavrada por Carlos Reis, l.» secretaiio. 



- 320 - 
Sessão ordinária, em 5 de Março de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SR. DR. MlRANDA AzEVEDO 

As oito horas da noite, presentes os sócios srs. Miranda Azevedo, 
Carlos Reis, Pereira Guimarães, Eugénio HoUander, Alfredo de Tole- 
do, Orviíle Derby, António Piza, Jorge Krichbaura, Souza Franco, 
Dionysio Fonseca, Horace Lane e Barão Homem de Mello, foi aberta 
a sessão. 

Foi approvada a acta da sessão antecedente. 

Foi introduzido na sala das sessões e tomou assento na Assem- 
bléa o novo sócio sr. Dr. José Vieira Couto de Magalhães Sobrinho. 

EXPEDIENTE 

OFFICIOS 

Do sr. Dr. José de Campos Novaes accussando o recebimento do 
oflacio era que lhe foi comraunicada a transferencia para a categoria 
de sócio effectivo e declarando offertar um volume do seu estudo so- 
bre as Origens cháldeanas do judaísmo. 1.^ secretario informa que 
o volume ofterocido ainda não foi recebido. 

Do sr. Alberto F. Rodrigues agradecendo a remessa do S.» vo- 
lume da Revista do Instituto e enviando um exemplar do Almanack, 
Popular Brazileiro para 1900. 

OFFERTAS 

As constantes da relação em appendice, as quaes são recebidas 
com especial agrado. 

O sr. Presidente, lembrando os predicados que ornavam a pessea. 
do dr. Augusto de Souza Queiroz, paulista distincto e brazileiro illus- 
tre, ha dias fallecido, subraettou á consideração da casa a indicação 
de ser consignado na acta um voto de pesar pelo seu passamento e 
de se dirigir á familia do egrégio morto um offlcio de condolências 
O sr. dr. Couto de Magalhães, em additamento, propoz e foi appro- 
vado que fosse nomoada uma comraissão para assistir ás exéquias 
que se vão celebrar a 27 deste moz ; em consequência foram nomea- 



I 



- 321 - 

dos os srs. drs. Pereira Guimarães e Alfredo Toledo para constituírem 
a referida commisâo- 

O sr. Eugénio Hollender porpoz e foi unanimemente approvado 
que se collocasse na sala dos sessões o retrato do primeiro presiden- 
te do Instituto dr. Cesário Motta Júnior. 

O sr. dr. Peieira Gaimarães, lembrando a approxiraação da época 
em que deve ser commemorado o 4.o centenário do Brazil, acha que 
se deve tractar da execução do respectivo programma. O sr. dr. Mi- 
randa Azevedo dá explicações a respeito. 

Foi proposto e approvado que o Instituto se representasse nas 
festas promovidas em Lisboa pela Sociedade de Geographia para a 
commemoração do 4 o centenário do Brazil. 

ORDEM DO DIA 

Foram apresentadas, lidas e enviadas á respectiva commissão 
propostas para a admissão dos sr^'. dr. Augusto Carlos da Silva Tel- 
les, Horace E. Williams e João Vampró como sócios eflectivos. 

Obteve a palavra o sr. dr, Alfredo de Toledo e occopou-se de um 
artigo publiacado na «Cidade de Santos», em sua edição de 22 de 
Fevereiro ultimo, relativo ao trabalho— Z7ma reivindicação improce- 
dente, que leu na sessão passada, explicando a origem, marcha e fim 
de uma polemica sustentada pelo orador com o Major Codeceira. 

Em seguida o sr. dr. Orville Derby apresentou um mappa em 
relevo da região entre esta Capital e Santos, a respeito do qual fez 
algumas considerações. Este trabalho, que é feito em gesso, foi mui- 
to apreciado pela precisão scientifica e grande aomma do paciência de 
quem o organizou. 

O sr. Presidente, era nome do Instituto, congratulou-se com os 
srs. Barão Homem de Mello e Orville Derby pelo mappa que acaba 
de ser apresentado, porquanto foi o sr. Homem de Mello o primeiro a 
salientar a importância das altitudes do systema orographico de S. 
Paulo e o sr. Derby o primeiro a realizar proficientemente o seu es- 
tudo ; congratulou-se também com o Estado de S. Paulo por ser a 
pátria do primeiro e o theatro do estudos do segundo. 

Nada mais havendo a tractar, o sr. presidente; levantou a sessão.- 

Lavrada por Carlos Eeis, 1." secratario. 



- 322 - 
Sessão ordinária, em 20 de Março de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SR. DR. MIRANDA AZEVEDO 

A's oito horas da noite, presentes os sócios srs. Miranda Azevedo, 
Carlos Reis, Pereira Guimarães, Eugénio Hollender, Orville Derby, 
e Alberto Lofgren, foi aberta a sessão. 

Foi approvada acta da ultima sessão, 

EXPEDIENTE 

OFFICIOS 

Da Sociedade Comraemoradora do 4.o Centedario do Brazil, de, 
S. Vicente, convidando para assistir á inauguração do monumento que 
será erigido naquella cidade a 22 de Abril vindouro. 

Do sr. dr. José de Campos Novaes, communicando que o livro — 
Origens chaldeanas — que offereceu será entregue pelo sócio sr. Alber- 
to Lofgren. 

Do sr. dr. Virgílio Cardoso de Oliveira, Director do Instituto Ci- 
vico-Juridico <Paes de Carvalho», em Belém do Pará, agradecendo a 
remessa da Bevista e enviando diversos folhetos relativos áquelle 
Instituto. 

OFFERTAS 

As constantes da relação em appendice, as quaes são recebida.s 
com especial agrado. 

O sr. dr. Miranda Azevedo communicou quf^ entendeu-se com o 
sr. Presidente do Estado sobre o auxilio para a festa do 4.'^ centená- 
rio e que o mesmo lhe declarou não poder o Governo attender.ao 
appelio do Instituto ; outrosim participa que é provável que o sócio 
sr. Arcsdiago dr. Francisco de Paula Rodrigues se encarregue de 
proferir o discurso offlcial na sessão soelnne de 3 de Maio. 

O sr, Eugénio Hollender envia á mesa a lista das pessoas que 
subscreveram para a acquisição do retrato do dr. Cesário Motta, que 
dentro de poucos dias será entregue e poderá ser inaugurado. 

O mesmo sócio communica que o sr. commendador Alfaya Ro- 
drigues o encarregou de patentear ao Instituto a satisfacção que terá 
a Sociedade Commemoradora do 4.o Centenário, de S. Vicente, si o 



— 323 — 

Instituto tomar parte nos festejos que alli se realizarão, cujo pro- 
gramma apresenta ; declarou mais que a dita Sociedade resolveu con- 
siderar seus membros honorários os sócios deste Instituto. O sr. Pre- 
sidente declarou que a mesa tomava em toda consideração o que 
acabava de ser exposto e communicado pelo sr. Hollender e que, era 
nome do Instituto, agradecia as gentilezas da Sociedade Commemo- 
radora de S. Vicente. 

ORDEM DO DIA 

Foi lido e ficou sobre a mesa o parecer da Commissão de Ad- 
missão de Sócios relativo ás propostas apresentadas na sessão ante- 
cedente. 

O sr. Dr. Manoel Pereira Guimarães procedeu á leitura de um 
seu artigo critico sobre o quadro— Fugida para o Egypto— do pran- 
teado pintor paulista Almeida Júnior, trabalho que foi muito apre- 
ciado. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente levantou a sessão. 

Lavrada por Carlos Reis, l.*' secretario. 



Sessão ordinária, em 5 de Abril de 1900 

PRESIDÊNCIA. DO SR. DR. MÍRANDA AZEVEDO 

A's oito horas da noite, presentes os sócios srs. Miranda Azevedo, 
Carlos Eeis, Pereira Guimarães, Dionyzio Fonseca, Arthur Goulart, 
Orville Uerby, Domingos Jaguaribe e Alfredo de Toledo, foi aberta a 
sessão. 

Foi approvada a acta da sessão antecedente. 

EXPEDIENTE 

OFFICIOS 

Do sr. Dr. Álvaro Astolfo da Silveira enviando Boletins e folhas 
da Carta de Minas. 

Do sr. Dr. F. A. de Souza Queiroz Netto agradecendo os pesa- 
pcla morte do Dr. Augusto de Souza Queiroz. 



- 324 ^ 

OFFERTAS 

As constantes da relação em appendice, as quaes são recebidas 
com especial agrado. 

Foi introduzido na sala das sessões, e torraou assento na Assem- 
bléo o novo sócio sr. Dr. Francisco de Panla Santos Rodrigues. 

ORDEM DO DIA 

Foi lido, posto em discussão e sem debate approvado o parecer 
da Commissão de Admissão de sócios que ticara sobre a mesa na ses- 
são passada sendo proclan^ados membros do Instituto os srs. Dr. Au- 
gusto Carlos da Silva Telles, Horace E. Williams e João Vampré, na 
qualidade de sócios effectivos. 

Foram enviados á respectiva Commissão as propostas apresenta- 
das para admissão dos srs. Augusto Álvaro de Carvalho Aranha, 
como sócio eífectivo, M. Pio Corrêa e António Ferreira Neves Júnior, 
como sócios correspondentes. 

O -2.0 Secretario, Dr. Manoel Pereira Guimarães, offerece um offi- 
cio do Conselheiro Avellar Brotero ao Conselheiro Chrispiniano Soares 
relativo á revolução de 1842. Em seguida communica que no dia 4 
do corrente, desmanchado-se três cellas que existiam sobre a sacris- 
tia do convento do Carmo desta cidade, numa viga do telhado foi 
encontrada uma inscripção datada de 1000, parecendo, á vista disso, 
que quando Frei Gaspar, Azevedo Marques e outros dizem que o 
Convento foi fundado por Frei António de S. Paulo no anno de 1598, 
querem roferir-se ao inicio das obras. 

Nada mais havendo a tractar, foi levantada a sessão. 

Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2.o secretario. 



Sessão ordinária, em 20 de Abril de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO 

Ás sete O meia horas da noite, presentes os sócios srs. Duarte 
de Azevedo, Pereira Guimarães, António Piza, Dionysio Fonseca, San- 



-^ 325 — 

tos Rodrigues, João Monteiro, Eugénio Hollendsr, Orville Derby, Eu- 
génio Franco e Tullio de Campos, foi aberta a sessão. 

Foi approvada a acta da sessão anterior. 

Foi recebido na sala dos sessões e tomou assento na Assembléa 
o novo sócio sr. João Vampré. 

EXPEDIENTE 

OFFICIOS 

Do Club Gymnastico Portuguez convidando o Instituto a assistir 
a sessão solemne que realiza a l.o de Maio, em coramemoração ao 
4.0 centenário do Brazil. Para representar o Instituto foram nomea- 
dos srs. Drs. Carlos Reis, Eugénio Alberto Franco e João Vampré. 

Da Sociedade Commemoradora de S. Vicente enviando o pro- 
gramraa dos festejos do 4.» centenário e convidando o Instituto a 
comparecer. Foram nomeados em commissão os srs. Drs. Theodoro 
Sampaio, António Piza e Orville De»'by. 

Do soeio sr. Dr. Domingos Jaguaribe communicando a sua par- 
tida para a Europa. 

ORDEM DO DIA 

Foi lido e íicou sobre a mesa o parecer da Commissão do Admis- 
são de Sócios relativo ás propostas apresentadas na ultima sessão. 

Foi lido, posto em discussão e approvado o parecer da commis- 
são incumbida de estudar o trabalho apresentado pelo sócio sr. Dr. 
Alfredo de Toledo. 

O sr. Df. João Monteiro oífereceu, em nome do si. Dr. João Ba- 
ptista de Moraes, residente em Pirassununga, diversos autographos 
de homens notáveis do Brazil, promettendo outros de grande valor e 
interesse para o Instituto. 

O sr. João Vampré leu a introducção de um seu trabalho sobro 
festas nacionaes braziieiras, o qual foi muito apreciado. 

O sr- Presidente declara que vai ser inaugurado o retrato do 
pranteado Dr. Cesário Motta Júnior o, em phrases sentidas e inspira- 
das, rememora a vida do 1." presidente o um dos fundadores do Ins- 
titututo, vida essa que foi um modelo das mais acrysoladas virtudes. 



— 326 — 

Em seguida levaritou-se, assim como todos os sócios presentes, e ães 

vendou o retrato que se achava velado pela bandeira da Republica* 
Obteve a palavra o sr. Dr. Santos Rodrigues e leu um bellissim© 

elogio histórico do Dr. Cesário Motta Júnior, sendo muito applandid©- 

e felicitado. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente levantou a stssãa^ 
Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2.° secretario. 



Sessão Solenne Commemorativa do 4.*^ Centenário da 
Descobrimento do Brazil, em 3 de Maio de 1900 

PRESIDE.VCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO 

A's oito horas da noite, no salão onde o Instituto celebra as suas 
ísessões, no prédio n. 2 do Largo da Sé, em presença de grande nxt- 
muro de sócios, presentes o Dr. Carlos Reis, repretentando o Exro- 
Sr. Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, Presidente do Estado, ft 
Dr. António Cândido Rodrigues, Secretario da Agricultura, Commen- 
dador Bernardino Monteiro de Abreu, Cônsul de Portugal, o Padre L^ 
Sangirardi, representado o Sr. Bispo Diocesano, commissões do Seo».- 
do e da Camará dos Deputados do Estado, da Associação Comiiaercial, 
do Club Gymnastico Portuguez, do Instituto Forense e do diversas 
outras associações, exmas. senhoras e pessoas gradas, o »r. Presi- 
dente declarou aberta a sessão, proferindo um bello e notável discur- 
so, em que fez a synthese histórica da nossa pátria, salientaHdo os 
principaes acontecimentos que concorreram para a formação da Dossa. 
nacionalidade. Terminada a sua oração, deu a palavra ao sr. Dr^ 
Theodoro Sampaio para pronunciar o discurso official. 

Subia então a tribuna o laureado consócio Dr. Theodoro Sam- 
paio, sendo acolhido com uma salva de palmas, e leu um consciente e 
substancioso trabalho, onde ainda uma vez demonstrou seus conheei- 
raentos profundos na historia e chorographia do nosso paiz . Ao ter- 
minar o seu discurso, foi muito applaudido e cumprimentado. 

Foi era seguida dada a palavra ao 2.o secretario sr. Dr. Manoe5 
Pereira Guimarães, que passou a ler um discurso commeraorativo d». 



— 327 — 

data quo ora nos cangrcga, sendo este importante trabalho histórico 
do nasso consócio attentamente ouvido, muito apreciado e applaudido 
com uma salva do palmas. 

Usou também da palavra o sócio sr. Dr. Tullio do Campos que, 
em brilhante improviso, congratulou-se com o Instituto e com a pá- 
tria, sendo applaudido. 

Ninguém mais desejando a palavra, o sr. Presidente agradeceu a 
presença das pessoas que vieram abrilhantar a solennidado e levan- 
tou a sessão. 

Lavrada por Dionysio Caio da Fonseca, l.» supplente do secre- 
tario . 

Sessão ordinária, era 19 de Maio de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO 

A's sete o meia horas da noite, presentes os sócios srs. Duarte 
de Azevedo, Miranda Azevedo, Pereira Guimarães, Dionysio Fonseca, 
Arthur Goulart e Alfredo de Toledo, foi aberta a sessão. 

EXPEDIENTE 

OFFICIOS 

Dos srs. Dr, Gabriel Piza, Capitão Pedro Arbues e Dr. Miranda 
Azevedo enviando offertas ao Instituto. 

OFFERTAS 

As constantes da relação em appendice, as quaes são recebidas 
com esoocial agrado. 

ORDEM DO DIA 

Foi submettido ã discuss ão e approvado o parecer da Commissão 
de Admissão de Sócios, que ficara sobre a mesa na sessão de 20 de 
Abril, sendo proclamados membros do Instituto os srs. Augusto Ál- 
varo do Carvalho Aranha, M. Pio Corrêa e António Ferreira Neves 
Júnior, o primeiro como sócio effectivo e os dois últimos como cor- 
respondentes- 



— 328 — 

Achando-se na sala iramediata o novo sócio sr. Carvalho Aranha, 
foi o mesmo convidado a tomar parte nos trabalhos, sendo introduzido 
na sala das sessões e tomando assento na asserablea. 

Foi proposto que se conferisse o diploma de sócio honorário ao 
Sr. General Conselheiro Francisco Maria da Cunha, Enviado especial 
de Portugal para represental-o nas festas do centenário celebradas no 
Rio de Janeiro. Foi a proposta approvada e nomeada uma commissão 
composta dos srs. Drs. Mira)ida Azevedo, Bueno de Andrada e Aze- 
vedo Marques para fazer entrega do diploma. 

^ O sr. dr. Miranda Azevedo apresentou informações sobre o pro- 
dueto da subscripção para as festas do 4.o centenário, declarando que 
a quantia angariada foi despendida com a parte litteraria do pro- 
gramma, cuja nota comprobativa em breve a commissão exhibirá; 
informou mais que as Cartas de Anchieta já estão publicadas e no 
prelo a obra de Hans Staden, que será annotada pelo dr. Theodoro 
Sampaio. 

Nada mais havendo a tractar, o sr. presidente levantou a sessão. 

Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2.o secretario. 



Sessão ordinária, era 5 de Junho de 1900 
Presidência do sr. conselheiro Duarte de Azevedo 

A's sete e meia horas da noite, presentes os sócios ^rs. Duarte 
Azevedo, Pereira Guimarães, Dionysio Fonseca, António Piza, Aquiao 
e Castro, Augusto Cardoso, Theodoro Sampaio, Eugénio Hollender, 
Alberto Lõfgren, Orville Derby, Alfredo de Toledo, João Vampré e 
Carvalho Aranha, foi aberta a sessão. 

Foram lidas e approvadas as actas das três ultimas sessões. 

EXPEDIENTE 

OFFICIOS 

Dos srs. conselheiro Aquino e Castro, padre Miguel Foglino e 
Bernardo de Azevedo da Silva Ramos enviando oflertas para o In- 
stituto. 



— 329 — 

OFFERTAS 

As constantes da relação era appendice, as quaes são recebidas 
com especial agrado. 

O sr. Alberto Lõfgren offoreceu, em nome do sr, Hermann A. 
Eeipert, coraraerciante era Santos, os objectos constantes da dita re- 
lação agradecendo o sr. presidente tão valiosa offeria. 

O sr. João Varapré communicou ter desempenhado a coraraissão 
junto ao Club Gymnastico Portuguez. 

ORDEM DO DIA 

Foram apresentadas e enviadas á coraraissão respectiva propos- 
tas para admissão dos srs. dr. José do Mesquita Barros e Bernardo 
de Azevedo da Silva Ramos, como sócios correspondentes. Por deli- 
beração da assembléa foi dispensada a audiência da coraraissão quan- 
to á proposta do sr. Bernardo Ramos, a qual foi subraettida á dis- 
cussão e votação, sendo unaniraeraente approvada e proclamado 
membro do Instituto o sr. Bernardo de Azevedo da Silva Ramos. 

O sr. Carvalho Aranha procedeu à leitura do seu trabalho — 
Teias, que foi apreciado. 

Nada mais havendo a tractar, levantou-se a sessão. 

Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2.o secretario. 



Sessão ordinária, em 20 de Junho de 1900 
Presidência do sr. dr. Miranda Azevedo 

A's sete o meia horas da noite, presentes os sócios srs. Miranda 
Azevedo, Pereira Guimarães, Dionysio Fonseca, António Piza, Theo* 
doro Sarapaio, Orville Derby, Carvalho Aranha e Alfredo Toledo, foi 
aberta a sessão. 

Foi approvada a acta da sessão anterior. 

EXPEDIENTE 

Offlcio do sr. Bernardo A. S. Ramos agradecendo a sua admis- 
são como sócio do Instituto. 



330 



OFFERTAS 



As constantes da relação em appendice, as quaes são recebidas 
com especial agrado, 

O sr. dr. Miranda Azevedo entregou, por parte do deputado fe- 
deral sr. dr. Luiz Adolpho, importantes manuscriptos relativos a 
Matto-Grosso nos tempos coloniaes. 

Foi proposto e approvado que se lançasse na acta um voto de 
pesar peb fallocimento dos notáveis brazileiros drs. Silva Araújo e 
Annibal Falcão e jornalista Paulo Ariuda. 

ORDEM DO DIA 

Foram apresentadas e enviadas á commissão respectiva propos- 
tas para admissão dos srs. At>tonio Alexandre Borges dos Reis, co- 
mo soeio effectivo, Henrique Raffard e dr. Thomaz Garcez Paranhos 
Montenegro, como lienorarios, e para transferencia do sócio Bernardo 
A. S. Ramos para esta classe. 

Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente levantou a sessão. 

Lavrada por Manoel Pereira Uuimarães, 2.o secretario. 



Sessão ordinária, em 5 de Julho de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SR. DR. MANOEL PEREIRA GUIMARÃES 

As sete o meia horas da noite, presentes os sócios srs. Pereira 
Guimarães, Theodoro Sampaio, Orville Derby, Santos Rodrigues, Sa- 
cramento Blake, Jorge Maia, Arthur Goulart, Eugénio Hollander, An- 
tónio Piza e Dionysio Fonseca, foi aberta a sessão. 

Foi approvada a acta da sessão antecedente. 

EXPEDIENTE 

Foi coramunicado o rebebimento dos jornaes que costumam í5cr 
enviados, que são recebidos com especial agrado. 

Pelo sr. Eugénio Hollender foi offerecido um minúsculo dicciona- 
rio francez-inglez, sondo a offerta agradecida pelo sr. Presidente. 



— 331 — 

Pelo sr. dr. Santos Rodrigues foi lembrada a conveniência de se 
adquirir uma obra sobre o Brazil escripta pela princeza Thcreza da 
Baviera era 18^6, pois contem coisas que muito nos interessara. Pelo 
«r. Engenio Hollander foi declarado que faria oílerta desse livro e de 
4»iitro ao Instituto. 

Foi proposto e approvado que se inserisse na acta um voto de 
pesar pelo fallecimento do philologo sr. Santos Saraiva. Foi também 
^provado que se consignasse na acta um voto de lembrança á me- 
inoria do illustre brazileiro e cultor das lettras pátrias Castro Alves, 
ido cujo passamento é amanhã (6) annivcrsario. 

ORDEM DO DIA 

Furara lidos os pareceres da Commissão de Admissão de Sócios 
capinando pela approvação das propostas apresentadas na sessão pas- 
sada, os qiiaes, por deliberação da asserabléa, foram submettidos á 
discussão e votação e approvados, sendo proclamados membros do 
lastituto os srs. Bernardo Azevedo da Silva Ramos, Henrique Raftrad 
« Dr. Thomaz Galcez Paranhos Montenegro, como sócios honorários, 
-e Aiiíonio Alexandre Borges dos Reis, como sócio effectivo. 

Foram apresentadas o enviadas á commissão respectiva propostas 
para admissão dos srs. Dr. João Baptista de Moraes e Major Paulo 
Pinto Auto Rangel como sócios effectivos. 

Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente levantou a sessão. 
Lavrada por Dionysio Caio da Fonseca, l.» supplento do secre- 
tario. 



Sessão ordinária, em 20 de Julho de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO 

Ãs sete «. meia horas da noite, presentes os sócios srs. Duarte 
•io Azevedo, Pereira Guimarães, António Piza, Dionysio Fonseca, Tui 
lio de Campos, Theodoro Sampaio, Alberto Lofgron, Paula Souza, 
OrviUe Derfey, Alfredo Toledo o Carvalho Aranha, foi aberta a sessão. 

Foi approvada a acta da seseão anterior. 



— 332 -- 

EXPEDIENTE 

É coraraanicado o recebimento das ofifertas constantes da relação 
em appendice, as quaes são recebidas cora especial agrado. 

ORDEM DO DIA 

Foram lidos e ficaram sobre a mesa os pareceres da Commissâo 
de Admissão de Sócios opinando pela admissão dos srs. Dr. João 
Baptista de Moraes, Major Paulo Pinto Auto Rangel e Dr. José de 
Mesquita Barros. 

Foi enviada á respectiva commissâo uma proposta para admissão 
do sr. Dr. Dinamerico do Rego Rangel na qualidade de sócio corres- 
pondente . 

Pelo sr. Dr. Theodoro Sampaio foram lidos dois capitules do tra- 
balho que está escrevendo — O tupi na geographia nacional, sendo 
muito apreciado e applaudido. 

Nada mais havendo a tractar, levautou-se a sessão. 

Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2.o secretario. 



Sessão ordinária, em 4 de Agosto de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO 

As sete e meia horas dá noite, presente os sócios srs. Duarte de 
Azevedo, Pereira Guimarães. Orville Derby. António Piza, José Vi- 
cente, Theodoro Sampaio, Alberto Lofgren, Bernardo Morelli e Diony- 
8Ío Fonseca, foi aberta a sessão. 

Foi approvada a acta da ultima sessão. 

EXPEDIENTE 

Ofiacio do sr. Conselheiro Francisco Maria da Cunha agradecendo 
a sua admissão como secio honorário. 

OFFERTAS 

As constantes da relação em appendice, as quaes são recebidas 
eom especial agrado. 



— 333 — 

ORDEM DO DIA 

Foram subníettidos á discussão e votação e approvBdos os pare- 
ceres que ficaram sobre a mesa na sessão anterior, sendo proclama- 
dos membros do Instituto os srs. dr. João Baptista de Moraes e Ma- 
jor Paulo Pinto Auto Rangel, como sócios eftectivos, e dr. José de 
Mesquita Barros, como sócio correspondente. 

Achando-se na sala iramediata os novos sócios srs. dr. João Ba- 
ptista de Moraes e Major Luiz de Vasconcellos, foram elles convida- 
dos a tomar parte nos trabalhos e receb dos na sala das sessões, on- 
de tomaram assento. 

Pelo sr. dr. Jorge Maia foi oíferecido o l.» fasciculo impresso do 
seu Diccionario da lingua Nheengatú. 

O sócio sr. dr. Theodoro Sampaio continuou a leitura do seu tra- 
balho — O tupi na geographia nacional, sendo, como sempre, ouvido 
com agrado e muito applaudido* 

Nada mais havendo a traotar, o sr. Presidente levantou a sessão. 

Lavrada por Dionysio Caio da Fonseca, !.<> supplento do secre- 
tario . 

Sessão ordinária, em 20 de Agosto de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SR. CARLOS REIS 

As sete e meia horas da noite, presentes os sócios srs. Carlos 
Reis, Pereira Guimarães, António Piza, Dionysio Fonseca, Arthur 
Goulart, Theodoro Sampaio, Orville Derby, Alberto Lofgren, José Vi- 
cente, Jorge Maia, Tullio de Campos, Santos Rodrigues e João Moraes 
foi abarta a sessão. 

Foi approvada a acta da sessão anterior. 

EXPEDIENTE 

Foram recebidas com especial agrado as offertas constantes da 
relação em appendice. 

Foi proposto e approvado que se consignassem na acta votos de 
pesar pelo fallecimento do auctor das «Bphemerides Mineiras» Josó 
Pedro Xavier da Veiga e do notável homem de lettras Eça da 
Queiroz 



— 334 — 

o 2.<» secretario entregou, por parte do sou auctcr e sócio sr. 
Coronel A. Borges Sampaio, uma interoFsante noticia histórica sobre 
o Capitão João Baptista Macliado, a qual foi remottida á Commissão 
ão Kodacçâo da Revista* 

ORDEM DO DIA. 

Foi enviada á respectiva comralssão uma proposta para admissão 
do sr. José Jacintho Ribeiro, como sócio effectivo. 

Pfoseguiu o sócio sr. dr. Thoodoro Sampaio a leitura do seu in- 
teresante trabalho — O tupi na geographia nacional. 

Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente levantou a sessão. 

Lavrada por Manoel Pereira Guimaaâes, 2.o secretario. 



Sessão ordinária, em 5 de Setembro de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO 

As sete c meia horas da noite, na nova sede social, á Rua Ge- 
neral Carneiro n. 1 A, presentes os sócios srs. Duarte de Azevedo» 
Carlos Reis, Pereira Guimarães, Dionysio Fonseca, Theodoro Sampaio^ 
Alberto Lofgren, Soares Romeo, Jorgo Maia, Gomes Cardim, Santos 
Eodrigues, Alfredo Toledo, Getulio Monteiro, Araújo Macedo, José Vi- 
cente, João Vampré e Orville Derby, foi aberta sessão. 

Foi approvada a acta da ultima sessão. 

EXPEDIílNTE 

OFFICIOS 

Do sócio sr. dr. Santos Rodrigues enviando uma lista demappas, 
documentos e livros relativos ao Brazil. 

Do Lyceu Littorario Portuguez, do Rio de Janeiro, enviando um 
iivro para o Instituto. 

Da Academia Litteraria de Lisboa communiçando a eleição do 
sua nova directoria. 

OFFERTAS 

As constantes da relação em appendice as quaes são recebidas 
com especial agrado. 






— 335 



ORDEM DO DIA 



Foi subraottido á consideração da assembléa ura requer .mento do 
Centro Espiritual do Brazil pedindo a sala do Instituto para ser cele- 
brada uma sessão fúnebre cm homenagem a Eça de Queiroz e Fer- 
reira do Araújo ; ficou a mesa auctorizada a resolver a respeito. 

Foram enviadas á commissão respectiva propostas para admissão 
dos srs. drs. Arthur Vautier o António Cândido Rodrigues, na quali- 
dade de sócios correspondentes. 

Foram lidos os pareceres da Commissão de Admissão de Sócios 
opinando pela admissão dos srs. dr. Dinamerico A. do Rego Rangel 
o José Jacintho Ribeiro, os quaes, em virtude do deliberação da as- 
sembléa, foram submettidos á discussão e votação e approvados, sendo 
proclamados membros do Instituto os ditos srs. dr. Dinamerico Au- 
gusto do Rogo Rangel, como sócio correspondente, e José Jacintho 
Ribeiro, como sócio effoctivo. 

Achando-se na sala iramediata os novos sócios srs. drs. José Aris- 
tides Monteiro o Dinamerico Rangel, foram os mesmos convidados a 
tomar assento na assembléa, sendo recebidos com as formalidades do 
estylo. 

O sócio sr. dr. Theodoro Sampaio continuou a leitura do seu tra- 
balho sobre o lupi. 

Nada mais havendo a tractar, levantou-se a sessão. 

Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2." secretario. 



Sessão ordinária, em 20 de Setembro de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AzEVEDO 

A's sete c meia horas da noite, presente os sócios srs. Duarte de 
Azevedo, Carlos Reis, Pereira Guimarães, Eugénio HoUender, António 
Piza, Orville Derby, Theodoro Sampaio, Dinamerico Rangel, Bernardo 
de Campos, Alfredo Toledo, Alberto Lofgren, Santos Rodrigues, Ho- 
race Lane, Miranda Azevedo o Dionysio Fonseca, foi aberta a sessão. 

Foi approvada a acta da ultima sessão. 



— 836 - 

EXPEDIENTE 

OFFICIOS 

Do Centro Espiritual do Brazil convidando a assistir á sessão fú- 
nebre em homenagem á memoria de Eça de Queiroz e Ferreira de 
Araújo. 

Do sr. M. Pio Corroa agradecendo a sua admissão como sócio 
correspondente. 

Do sr. José Jacintho Ribeiro agradecendo a sua admissão como 
sócio effectivo. 

Do sr dr. Couto de Magalhães Sobrinho offerecendo três jornaes 
antigos. 

OFFERTAS 

As constantes da relação era appendice, as quaes são recebidas 
com especial agrado. 

O sócio sr. Dr. Santos Rodrigues, obtendo a palavra para fazer 
uma proposta, fundamentou -a do seguinte modo : < Sr. Presidente.— 

< Proponho que na acta desta sessão seja lançado um voto de pro- 
« fundo pesar pelo fallecimento de Ernesto do Canto, notável biblio- 
« philo e bibliographo, e que foi sem duvida um dos homens de mais 

< saber e competência era questões geographicas no presente século. 

< Como bibliophilo, possuia Ernesto da Canto uma das mais raras e 

< ricis bibliothecas e o celebre archivo da casa Canto e Castro, nos 
€ Açores. Como homem de lettras, ligou o seu nome a trabalhos de 
* grande erudição e assignalado merecimento. Como bibliographo, era 
« versadissimo e conhecia e discorria fundamente sobre todas as obras 
« importantes, antigas e modernas, de historia e geographia. Foi elle 

< o creador do «Avchivo dos Açores», trabalho extraordinário de com- 
« pilação dos materiaos que existiam dispersos e inéditos, respeitantes 
« á historia daquelle archipelago, e para a publicação do qual, feita 

< exclusivamente á sua custa, montou e manteve especialmente uma 
« typographia. Foi nestas continuas investigações, neste insano labu- 

< tar em prol da sciencia e da verdade histórica, que Ernesto do Canto 

< teve a felicidade de encontrar os documentos com os quaes conse- 
.< guiu a certeza histórica do que elle e muitos tiuham a certeza mo- 
c ral : que a prioridade da descoberta da Araerica pertence aos por- 



— 337 -^ 

« tuguezGs, que precederam Colombo de muitos annos. Baseado nestes 
« iraportantissiraos documentos, publicou uma Memoria, era resposta 
« aos livros de Henry Harrisse sobre Colombo e os Corte-ReaoF, e na 
« qual poude sustentar aquella prioridade. Esta memoria veiu trazer 

< completa luz sobre o assumpto e confirmar o que sobro elle já era 
€ conhecido pelas obras de Bnéas Silvius. Petrus Matife, dos notáveis 

< Celarius e Jeronymo Bençon e ainda outras da época da descoberta ; 

* e também o que a respeito ha descripto na encyclopedia de Cham- 
« ber's, nos trabalhos dos afamados historiadores Cartier, Harnin e 
« Petterson, que defendem calorosamente esta gloria portugueza, que 
« podemos dizer nossa, e justificam as nossas reivindicações. Na 
« sessão solenne da Real Sociedade de Geographia do Londres, em 
« 5 de Março de 1894, um professor da Universidade de Cambridge 
€ aproveitou a occa ião de ahi estar reunido o mais escolhido audi- 

< tório, entre o qual figurava o corpo diplomático e a que presidia 
« um príncipe da casa reinante ingleza, o duque de York, para dar 
« conta do notável estudo do historiador geographo portuguez, Er- 
« nesto do Canto, e da revolução histórica que elle envolvia, pois que 
« provava fi evidencia que, antes de Colombo, os portuguozes tinham 
« chegado á America aportando ás terras do Labrador. Este famoso 

< trabalho de Ernosto do Canto, que, naquella sessão, como nas de 

< outras sociedades congéneres, foi devidamente apreciado e caloro- 

< sãmente acceito, tem a grande vantagam. de nacionalizar precisa- 
« mente o navegador que precedeu Colombo e de tirar, todas as du- 
« vidas sobre quando e por quem foi descoberta a terra do Labrador, 
c porque é fundado em documentos da época absolutamente inéditos, 
€ encontrados no archivo da casa Canto e Castro, da Ilha Terceira. 

< da qual os chefes andaram por muitos annos investidos do cargo 
« de provedores das armadas roaes. Estes documentos de tão elevado 

< alcance vieram, como disse, justificar a opinião de muitos eruditos 

< acerca di prioridade dos portuguezes na descoberta da America. 

* Era tal e tão reconhecida e acatada a competência de Ernesto do 

< Canto em assumptos historico-geographicos que era elle amiúde-. 
« mente consultado sobre estes assumptos pelas mais notáveis sumrai- 
« dades de todos os paizes e entre estas o próprio Harrisse, Ferdi- 
« nand Dénis, Réclus, Lenormand, Miln Edwards, Soeley e os príncipes 



— 338 — 

« do Mónaco e Napoleão Bonaparte. Podemos avaliar o grande sen- 

< timonto de que so acha possuída a Sociedade de Geographia do 

< Lisboa pela perda irreparável do seu 'illustrissimo o prestimoso raem- 
« bro Ernesto do Canto ; pelo que, sr. Presidente, proponho mais quo 
« do nosso voto de pesar se dô conhecimento áquella instituição nossa 

< irmã » . Submettida a proposta á discussão e votação, foi a mesma 
sem debate unanimemente approvada. 

ORDEM DO DIA 

Foi lido o parecer da Commissão de Admissão de Sócios opinan- 
do pela approvação das propostas apresentadas na sessão antecedente 
Q qual, em virtude da deliberação da assembléa, foi submettido á 
discussão e som debate approvado, sendo proclamados membros do 
Instituto os srs. Drs. A.rthur Vautier e António Cândido Rodrigues, 
na qualidade de sócios correspondentes. 

Achando-se na sala immedinta o novo sócio sr. Dr. Arthur Vau- 
fier, foi elle convidado a tomar assento na assembléa, sendo recebido, 
cora as formalidades do estylo. 

O sócio sr. Dr. Orville Derby procedeu á leitura do sua memo- 
ria intitulada — Os primeiros descobrimentos de ouro em Minas Geraes 
a qual foi ouvida com a attenção e o interesse que o Instituto liga 
aos trabalhos do digno consócio Dr. Derby, que foi felicitado por 
mais esta sua importante producção. 

Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente levantou a sessão» 

Lavrada por Carlos Reis, !.« secretario. 



Sesíàão ordinária, em 5 de Outubro de 1900 

PRESIDEMCIA DO SB. DR. CARLOS REIS 

A's sete e meia horas da noite, presentes os sócios srs. Carlos 
Reis, Pereira Guimarães, Dionysio Fonseca, Thoodoro Sampaio, Soa- 
res Romeo. Gomes Cardim, Orville Derby, Arthur Vautier, Dinamori- 
co Rangel e Manoel Tapajós, foi aberta a sessão. 

Foi approvada a acta da sessão anterior. 



-- 339 — 

EXPEDIENTE 

OFFICIOS 

Do sr. Barão de La Barro agradecendo a collecção da Revista 
do Instituto- 

Do Centro Espiritual do Brazil agradecendo a concessão da sala. 

Do sr. Coronel Carlos Teixeira do Carvalho, Cônsul Hespanhol, 
lembrando a conveniência do Instituto representar-se no Congresso 
Hispano-Latino que se realizará era Madrid no próximo mez de No- 
vembro—Ficou a mesa auctorizada a resolver a respeito. 

OFFERTAS 

As constantes da relação em appondieo, as quaes são recebidas 
com especial agrado. 

Foi recebido na sala das sessões o tomou assento na asscmbléa 
o novo sócio sr. José Jacintho Ribeiro. 

ORDEM DO DIA 

Foi enviada á comraissão respectiva nma proposta para admis&âo 
do sr. Dr. Carlos de Arruda Sampaio, como sócio offectivo. 

O Sr Dr. Theodoro Sampaio continuou a leitura do seu notabí- 
lissimo trabalho sobre o tupi na geographia nacional. 

Nada mais havendo a tractar, levantou-se a sessão. 

Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2.» secretario. 



Sessão ordinária, em 20 de Outubro de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SR. COXSELHEIIlO DUARTE DE AZSYEDO 

A's sete e meia horas da noite, presentes os sócios srs. Daarto 
de Azevedo, Carlos Reis, Pereira Guimarães, Theodoro Sampaio, Go- 
mes Cardim, Dinamerico Rangel, Arthur Goulart, Alfredo Toledo, Ar- 
thur Vautier, Dlonysio Fonsei-a, António Piza, Santos Rodrigues, Joaa 
Moraes e JacinthD Ribeiro, foi aberta a sessão. 

Foi approvada a acta de sessão antecedente. 



- 340 - 

EXPEDIENTE 

Officio do sr. coronel António Borges Sampaio agradecendo a sua 
admissão como sócio effectivo. 

As offertas constantes da relação em appendice, as quaes são 
recebidas com especial agrado. 

Foi deliberado consignar um voto de pesar pelo fallecimento do 
Dr. César Augusto Marques e apresentar condolências por officio ao 
Instituto Histórico Brazileiro, do qual o finado era digno e prestimo- 
so membro. 

ORDEM óO DIA 

Foram enviadas á commissão respectiva propostas para admissfto 
dos srs- Dr. Luiz Porto Moretzsohn de Castro, como sócio effectivo, 
Dr. Galeno Martins de Almeida o Dr. Sérgio Meira, como sócios cor- 
respondentes. 

O sr. Presidente participa que a sessão para encerramento dos 
trabalhos deste anno, apresentação do relatório da directoria e eleição 
da administração realizar-se-á a 25 do corrente mez. Outrosim convida 
os sócios a elegerem o orador ofiacial para a sessão magna de 1.^ de 
Novembro ; foi unanimemente acclamado o sócio e 2° secretario sr. 
Dr. Manoel Pereira Guimarães para nessa sessão proferir o discurso 
offlcial, agradecendo o Dr. Guimarães a prova de confiança que lhe 
era dada. 

O sócio sr. Dr. João Baptista de Moraes, procedeu á leitura de 
um seu interessante trabalho— Guerras do Sul, que foi muito apre- 
ciado, offerecendo com oUe documentos relativos ao assumpto. 

Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente levantou a sessão. 

Lavrada por Carlos Reis, l.«> secretario. 



Sessão extraordinária, em 25 de Outubro de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SR. DR. CARLOS REIS 

As oito horas da noite, presentes os sócios srs. Carlos Reis, Pe- 
reira Guimarães, Dionysio Fonseca, Arthur Vautier. Alexandre Rie- 
del, Eugénio Hollondor, Theodoro Sampaio, Manoel Tapajós, Jorge 



~ 341 — 

Krichbaum, Alfredo Toledo, João Vampré, Arthur Goulart, Dinarae- 
rico Rangel, José Vicente e Santos Rodrigues, foi aberta a sessão. 
Foi approvada a acta da sessão anterior. 

EXPEDIENTE 

Foram recebidas com especial agrado as offertas constantes dí» 
relação em appendice. 

Foi proposto e unanimemente approvado que se consignasse na 
acta um voto de profundo sentimento de pesar pelo passamento do 
erudito sócio fundador deste Instituto António Augusto da Fonseca. 

ORDEM DO DIA 

Foi lido, posto em discussão e approvado o parecer da Commis- 
são de Admissão de sócios opinando pela admissão dos srs. Drs. Car- 
los de Arruda Sampaio e Luiz Porto Moretzsohn de Castro, como só- 
cios effectivos. Galeno Martins de Almeida e Sérgio Meira, como só- 
cios correspondentes, sendo os mesmos nessas qualidades proclamados 
membros do Instituto. 

Foi apresentado e lido o relatório dos trabalhos e occorencias do 
Instituto no presente anno, acompanhado do balanço da receita e des- 
pesa e annexos respectivos. Submettidos o relatório, balanço e con- 
tas ao exame e discussão da assembléa, propoz o sr. Eugénio Hollen- 
der que fosse consignado um voto de louvor á directoria pelo zelo e 
dedicação com que se houve no desempenho do seu mandato. Em 
seguida, propoz o sr. Dr. Theodoro Sampaio que fossem approvados 
o relatório e contas da directoria ora apresentados. Ambas as pro- 
postas foram sem debate approvadas, abstendo-se de votar os mem- 
bros da directoria. 

Passandose a tractar da eleição da directoria, foi deliberado re- 
eleger por acclamação a actual directoria. A assembléa, attendendo 
ás razões apresentadas, concedeu a dispensa pedida pelos srs. Drs. 
Carlos Reis e António Piza dos cargos de l.» becretario e thesoureiro 
e procedeu á eleição dos legares vagos. Terminado o acto, o sr. 
Presidente declarou ficar constituída do seguinte modo a administra- 
ção do próximo triennio : 

PRESIDENTE 

Conselheiro Dr. Manoel António Duarte de Azevedo. 



- 342 - 

Vice-presidente 
Dr. Augusto César do Miranda Azevedo. 

1.0 SECRETARIO 

Dr. Manoel Pereira Guimarães. 

2.0 SECRETARIO 

Dionysio Caio da Fonseca. 

Thesoureiro 
Dr. Carlos Reis. 

1.0 E 2.0 SUPPLENTES DO 2.o SECRETARIO 

Arthur Goulart o dr. Dinamorico Augusto do Rego Rangel. 

Foi dada a palavra ao socio sr. Dr. Thoodoro Sampaio, que pro- 
cedeu á leitura do capitulo 4.» do seu trabalho — O tupi na geographia 
nacional, sendo ao terminar applaudido e felicitado. 

Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente' declarou encerra- 
dos os trabalhos do presente anno e convidou os srs. sócios a com- 
parecerem á sessão magna de 1.° do Novembro próximo vindouro. 

Subscripto por Manoel Pereira Guimarães, 2.» secretario. 



Sessão magna de anniversario da fundação do Instituto, era 
1 de Novembro de 1900 

PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO 

A's oito horas da noite, ro salão do Instituto, no prédio n. 1 a. 
éa, Rua General Carneiro, presentes grande numero de sócios e pessoas, 
convidadas, entre as quaes cônsules, representantes de institutos, as- 
sociações, estabelecimentos públicos e da imprensa desta capital, fo. 
ram recebidos e acompanhados até á mesa, onde tomaram assente, os 
Srs. Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, Presidente do Estado, o 
seu Ajudante de Ordens Capitão Jayme Marcondes, Dr. Bento Bueno, 
Secretario do Interior, e Dr. Josó Vicente de Azevedo, representante 
da Çamara dos Deputados. O sr. Presidente do Instituto, declarando 



— 343 — 

aberta a sessão, congratulou se cora a associação polo coraparecimen- 
to dos membros dos poderes públicos do Estado a esta festa, fez di- 
versas considerações sobre o desenvolvimento do Instituto nos seis 
anrios de sua existência, deu por empossada a nova directoria e agra 
<ieceu, era norae delia, a confiança dos consócios. 

Foi communicado o recebimento do um telogramraa do sr- Cora- 
mendador Alfaya Rodrigues, Cônsul Argentino em Santos, agrade- 
cendo o convite para assistir á presente sessão, e oíBcios dos Srs. 
Drs. Thomaz Garcez Paranhos Montenegro o Luiz Porto Moretzsoim 
do Castro agradecendo a sua admissão como membros do Instituto. 

Dada a palavra ao orador official Sr. Dr. Manoel Pereira Guima- 
rães, subiu este á tribuna e, em brilhante discurso, salientou os mé- 
ritos o trabalhos dos sócios fallecidos José Ferraz de Almeida Júnior 
<) António Augusto da Fonseca, sendo muito applaudido e felicitado 
peia sua importante oração. 

Em seguida o Sr. Presidente do Instituto, interpretando os sen- 
timentos dos sócios, mandou inserir na acta desta sessão um voto de 
agradecimento ao governo e povo argentino pela maneira brilhantis- 
siraa pela qual receberam o Sr. Dr. Campos Salles o sua comitiva 
naquella nobre nação, sendo redigido e transmittido para Petrópolis 
o seguinte telegramma : «Exm. Sr. Ministro da Republica Argentina.— 
« O Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo, era sessão magna 

< de 1.0 do corrente, resolveu lançar na acta um voto de reconheci- 
« mento pela gentileza com que o governo e o povo da Republica 
« Argentina receberam o chefe da nação hrazileira e os membros da 
« sua comitiva na recente visita feita á nobre Republica.— Dwaríe ãe 

< Azevedo — Presidente do Instituto. > 

Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente agradeceu a pre- 
sença dos membros do governo e illustres cavalheiros, que vieram 
abrilhantar a modesta solennidado commemorativa do 6.0 annivcrsario 
da fundação do Instituto, e declarou encerrada a sessão. 



Relação 



DAS 



OíTsrtas de livros, revistas, mappas, jornaes, etc. 
feitas ao Instituto durante o anno de 1900 



Sessão de 25 de Janeiro 

Carta qeographica de S. Faulo, 2.^ folha ; Estudos historie o—poli 
ticos, por Estevam Ribeiro de Souza Rezende (Barão de Rezende} ; 
Revista do Archivo Publico Mineiro, fase. ns. 1 e 2 de 1899 ; Relató- 
rio do Ministério da Industria, Viação e Oiras Publicas, 1898 ; Re- 
vista do Instituto Geographico e Histórico da Bahia, fase. de Setembro 
de 1899; Boletim Postal, ns. 8 a 12 de 1899; Boletim de Estatistica 
Demographo- Sanitária, tis. 68 a 72 ; Boletim do Instituto Agronómico 
do Estado, ns. 5, 9 e 10 de 1899; Revista Pharmaceutica, ns. 53 a 
55 ; Revista Agricoia, ns . 51 a 54 ; A Ceciliana, n. 25 ; Diário Offl' 
ciai do Estado ; Correio Paulistano ; O Commercio de 8. Paulo ; Diário 
Popular ; A Platéa ; Lavoura e Commercio ; Gazeta de Uberaba ; Cor- 
reio do A.mparo ; Verdade e Luz ; A Estrella ; Vicentino ; O Império, 
até 12 do corrente; Tribuna Paulista, n. 1 ; Capital Paulista, n. 5; 
A Aurora, 5.o fisciculo. 

Sessão de 5 de Fevereiro 

Almanach de Piracicaba para 1900; Almanach da Platea para 
1900 ; Mappa da viagem do revolucionário Gumercindo Saraiva e lo^ 
gar de sua morte; Medalha commemorativa do 4° centenário do Bra- 
zíl, mandada cunhar e offerecida pelo sócio sr, Julins Meili ; Capital 
Paulista, O Império e jornaes que costumara ser enviados. 



— 345 — 

Sessão de 20 de Fevereiro 

Homenagetn ao Dr. Augutto Teixeira de Freitas pelo Tribunal de 
Appellação da Bahia ; Revista do Archivo do Manicipio da Capital do 
Estado da Bahia, n. 1 ; AllegaçÔes finaes, pelo Dr. Alfredo de Toledo; 
A crise e o seu remédio, pelo Dr. Francisco de Toledo Malta ; Revista 
Agricola, n. 55; os jornaes que costumam ser enviados. 



Sessão de 5 de Março 

Medalha commemorativa da inauguração da estatua do Duque de 
Caxias; Proclamação dirigida aos paulistas em 1842 pelo Brigadeiro 
Raphael Tobias de Aguiar ; Almanach Popular Brazileiro para 1900 ; 
Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, n. 52; 
Capital Paulista, n. 9 ; os jornaes que costumam ser enviados. 



Sessão de 20 de Março 

Carta do recôncavo da Bahia, pelo Dr. Theodoro de Sampaio ; As 
origens chaldeanas do judaismo, pelo Dr. José de Campos Novaes; 
Regulamento e Relatório do Instituto Civico-Juridico *Paes de Carva- 
lho ; O Instituto Civico-Juridico, artigos do Dr. Virgílio Cardoso de 
Oliveira ; Almanach do lavrador brazileiro, pelo Dr. Germano Vert ; O 
gado e a lavoura, pelo mesmo; Boletim Postal ; Revista Agricola, n. 
56; os jornaes que costumam ser enviados. 



Sessão de 5 de Abril 

Boletins ns. 4, 5 e folhas ns. 3, 4, 5, 6, 8 e 10 da Carta de Mi- 
nas publicadas pela Commissao Geographica e Geológica desse Esta- 
do ; Os precursores da Republica do Srazil, pelo Major José Domin- 
gos Codeceira ; Boletim Postal ; Capital Paulista ; os jornaes que cos- 
tumam ser enviados. 



- 346 - 
Sessão de 19 de Maio 

Questão de limites entre as Bepublicas de Costa Rica e Cohimbia, 
por M. Peralta; Medalha da campanha do Paraná; Jornal do Com- 
mercio, de 3 de Maio ; Relatórios do Secretario da Agricultura^ 1898 e 
1899 ; Mensagem do Presidente da Republica, 1900 ; Revista Agrícola; 
Boletim Postal; os jornaes que costumam ser enviados. 



Sessão de 5 de Junho 

Medalha de prata distribuída pelo Instituto Histórico Brazileiro 
na sessão corameraorativa do 4.o centenário ; Brazil, por Zeferino 
Cândido, idem ; Quadro commemorativo do 4° centenário, trabalho da 
typographia do Lyceu do Coração de Jesus desta cidade ; Catalaga 
da collecção numismática do Amazonas: Medalha cunhada no Rio do 
Janeiro para coraraemoração do 4.^ centenário ; Relatório sobre a E. 
de Ferro de Avanhandava ; Discurso proferido pelo Dr. M. Po? eira 
Guimarães na sessão do Instituto a 3 de Maio ; Revista do Instituto 
do Ceará ; Boletim Postal: os jornaes que costumam ser enviados. 
Collecção de 4 medalhas, 4 cédulas, 22 moedas de prata, 81 do cobro 
©2 do nickel, ofiferecida pelo Sr. Hermann A. Reipert. 



Sessão de 20 de Junho 

Revista do Instituto Geographico e Histórico da Bahia, numero 
de Dezembro de 1899; Revista do mesmo iDstituto commemorativa do 
4.0 centenário ; Chorographia do Brazil, por António Alexandre Bor- 
ges dos Reis; Discurso sobre Evaristo da Veiga, pelo Dr. Tullio de 
Campos ; Almanach de Piracicaba ; Relatório dos Secretários do Inte^ 
rior e da Justiça, 1898; Terras devolutas; Gazeta Juridica, Maio dô 
1900; Annuario Estatístico, 1899; Revista Agrícola; os jornaes quo 
costumara ser recebidos. 



— 347 — 

Sessão de 20 de Julho 

Revolução Franceza, por Michelet ; Historia do Braiil, por Joilo 
Armitage ; Carta de Pedro Vaz Caminha ; Em Guararapes, pelo Dr. 
Martim Francisco; No lar, pelo sr. Álvaro Guerra; Flor de neve; 
Informações sobre a ponte do rio Pardo, pelo Dr. Ignacio Coehranc; 
Boletim do Museu Paraense ; Boletim de Agricultura : Revista da So- 
ciedade de Geographia do Rio de Janeiro ; os jornaes que eostiiraam 
ser enviados. 

Sessão de 4 de Agosto 

Relatórios do Secretario da Fazenda e do Inspector Geral do En- 
sino, ambos do anno do 1899; os jornaes (jue costumam ser enviados. 



Sessão de 20 de Agosto 

Diccionario hibliograpJiico, pelo Dr. Sacramento Blake ; Annaes da 
Bibliotheca Nacional, vols. 20 e 21 ; Revista Agrícola-, Boletim Pos- 
tal; Boletim de Agricultura ; Boletim de Estatística Demographo- Sani- 
tária ; os jornaes que costumara ser enviados. 

Sessão de 5 de Setembro 

Historia topograpJiica e bellica da colónia do Sacramento : Duas 
estampas, em seda, embarque e desembarque de Colombo ; Phytograpkia 
e herborização, pelo sócio Alberto Lofgren ; Arte da guerra; Boletim 
de Estatística Demograplio- Sanitária; os jornaes que costumam ser 
enviados. 



Sessão de 20 de Setembro 

Organização naval. Quatro séculos de actividade marítima, pelo Al- 
mirante Arthur Jaceguay ; Historia do Paraná, pelo sr. Romario Mar- 
tins ; Primícias, por Joaquim Gil Pinheiro; O Farol Paulistano, n. 
500, de 21 de Junho de 1831; O Paulista Official, n. 4, de 29 de No- 
vembro de 1834 ; O Novo Farol Paulistano, n. 357, de 19 de Agosto 
de 1835; Boge-.i und pfeil ín Central— Br asilien, pelo Dr. Hermann 



— 348 — 

Meyer ; Collecção de mappas relativos â guerra com o Parayuay ; Mappa 
do Estado de S. Paulo, folha de Campinas ; Capital Paulista ; Revista 
Agrícola ; os jornaes que costumara ser enviados. 



Sessão de 5 de Outubro 

Revista do Instituto G. e Histórico da Bahia ; Diário Offidal de 
Amazonas ; Feira dos Anexins : Regulamento da Repartição de Terras 
do Amazonas; Questão de limites do Amazonas; Relatório da Inten- 
dência de Obras de S. Paulo ; Diccionario de nomes próprios ; Theses 
de concurso ; Doutrina christã em nheengatú ; Revista da Escola Poly- 
technica e 50 folhetos e jornaes diversos oflerecidos pelo sócio sr. 
Dr. Manoel Tapajós; Boletim de Agricultura; Boletim Postal; os 
jornaes que costumam ser enviados. 



Sessão de 20 de Outubro 

Revista do Instituto Histórico, Geographico e Ethnographico do 
Pará, n. 1 ; O descobrimento do Brazil, por José Feliciano de Olivei- 
ra ; Apontamentos genealógicos, pelo Dr. Luiz Porto Moretzsohn deCas 
tro ; Boletim da Agricultura, n. 4 ; Boletim Postal ; Illiada de Homero 
(em grego), tomo I, 1828 ; Viagem ao Brazil, por Spix Martins ; Do- 
cumentos interessantes, vols. 29 e 30 ; Revista Brazileira, 1897 a 1899 ; 
Annuario da Escola Polythechnica de S. Paulo para 1900 ; Capital 
Paulista, serie 2. a, n. 4; Revista Agrícola, n. 63; os jornaes que 
costumam ser enviados. 

Sessão de 25 de Outubro 

Arte de fabricar o vinho, pelo Dr. Luiz Barretto ; Carta de apre- 
sentação do Padre António Luiz Braz Prego para vigário de Santa 
Cruz, em Goyaz ; Carta de nomeação do mesmo para cavalleiro da 
Ordem de Christo ; Medalha comraomorativa do anno santo ; Memo- 
ria sobre navegação aérea, pelo Dr. Domingos Juguaribe; Litteratura 
infantil, por Arthur Goulart; Diccionario geographico do Brazil, por 
Alfredo Moreira Pinto; os jornaes que costumam ser enviados. 



I 



Relatório 

DOS 

TRABALHOS E OCCORRENCIAS 

DO 

iDstitnto Hísloríco e GeograuMco de Sâo Panlo 

NO ANNO DE 1900 

Apresentado pela Directoria na sessão de encerramento, 
em 25 de Outubro de 1900 



Srs. membros do Instituto Histortco e Geogra.phico de S. Paulo. 

Cumprindo o dever que lhe é imposto pelo § 5." do artigo 12 dos 
estatutos, vem a directoria apresentar-vos o relatório das occorren- 
cias do expirante anno social de 1900. 

ADMINISTRAÇÃO 

Da directoria por vós eleita era 20 de Outubro de 1897 e cujo 
maniato ora termina, obtiveram dispensa dos respectivos cargos, por 
motivos justos, os srs. Alexandre Riedel, 2.o secretario, e dr. Domin- 
gos José Nogueira Jaguaribe, thesoureiro. Para substituil-os, foram 
eleitos os srs. dr. Manoel Pereira Guimarães, para o cargo de 2.o se- 
cretario, e dr. António de Toledo Piza, para o de thesoureiro, fun- 
cção que exercia interinamente. 



— 3Õ0 — 

Em scíssEo de 5 de Fevereiro, approvastes a proposta do creação 
do dois Jogares do supplentcs de 2.» secretario o elegestes para esses 
cargos os srs. Dionysio Caio da Fonseca o Arthur Goulart. 

Do conformidade com o artigo 41 dos estatutos, tendes de pro- 
ceder, na presente sessão, á eleição da directoria do Instituto para o 
triennio entrante. 

SESSÕES E TRABALHOS 

Durante o anno eftoctuàram-se vinte (20; sessões, sendo uma so- 
lenne, a 3 de Maio, commeraorativa do 4.o centenário do deseobri- 
raento do Brazi!, dezoito (18) ordinárias e a pesente extraordinária. 
C)mo se vô o é grato consignar, o- Instituto celebrou com toda a 
regularidade as suas sessões ordinárias, tendo sido em quasi todas 
apresentados e lidos trabaliios pelos srs. sócios. 
Eis a sumraa dos trabalhos lidos : 

Na sessã ) do 20 do Fevereiro : — tf começo da questão de limites 
entix S. Paulo e Minas Geraes, pelo sr. dr. Orvillo A. Derby, e — 
Uma reivindica çcA) improcfdentc, pelo sr. dr. Alfredo de Toledo. 

Na sessão do 20 do Março :— Estudo critico do quadro *Fvgiãa 

liara o Eg]jpto> de Almeida Júnior, pelo sr. Manoel Pereira Guimarães. 

Na sessão de 20 do Abril : — Festas nacionaes Irazileiros, pelo sr. 

João Vampré, e — Elogio histórico do dr. Cesário Motta, pelo sr. Fran 

cisco do Paula Santos Rodrigues. 

Na sessão solonno do 3 do Maio : — Discurso offlcial commemora- 
tivo do 4fi centenário do dcscobrimentj do Brazil, pelo orador sr. dr. 
Theodoro Sampaio, e — Discurso sobre o d€s>:ohrimcnto do Brazil^ pelo 
2.0 secretario sr. dr. Manoel Pereira Guimarães. 

Na sessão de õ de Junho : — Teias, pelo sr. Carvalho Aranha. 
Nas sessões de 2D de Julho, 4 e 20 de Agosto, 5 do Setembro e 5 do 
Outubro :— O tup'- na gcographia nacional, pelo sr. dr. Theodoro Sampaio- 
Na sessão de 20 de Setembro : — Os primeiros descobrimentos de 
ouro em Minas Geraes, pelo sr. dr. Orville A. Derby. 

Na sessão de 20 do Outubro : — Guerras do Sul — Rcproducção de 
i(m período histórico, pelo sr. dr. João Baptista de Moraes. 

Na sessão do hoje, o sr dr. Theodoro Sampaio deve proceder á 
leitura do ultimo capitulo do seu trabalho sobre o Tupi relativo á 
inter2)retação. 



— 351 — 

BÍBLÍOTHECA E ARCHIVO 

Á bibliotlicca o o archivo do Instituto foram augraontados com 
donativos de livros, mappas, jornaos, medalhas, moedas, quadros, etc. 
Sacontrareis annexos os respectivos catálogos. 

A directoria julga do seu dever cousignar aqui um voto de agra- 
decimento a todas as pessoas que espontânea e genorosaraento con- 
tfifauirara com as suas offcrtas para o augmonto c riqueza das col** 
iecçõos do Instituto. 

SÓCIOS 

Durante o anno foram accoitos dezoito (18) novos sócios, sendo 
4 íia qualidade do honorários, 8 na do cffectivos e () na do corres- 
^ottdentes, estando depeadentes de vossa deliberação 4 propostas 
para a admissão dos srs- Drs. Carlos de Arruda Sampaio, Luiz Por- 
t) Morctzsohn do Castro, Galeno Martins do Almeida e Sérgio Meira, 
isobVQ as quaes já emmittia parecer favorável a respectiva commissão. 

Do accordo com a vossa deliberação, em sessão de 5 do Favo* 
rí5iro, foram transferidos da classe du sócios correspondentes para a 
de effectivos os srs. Dr. Francisco de Paula Rodrigues, Francisco do 
Paula Santos Rodrigues, João Vieira de Almeida, Dr. João Antónia 
ílo Oliveira Ccsar, Dr. Pedro Augusto Carneiro Lessa, Dr. Rayraundo 
FcHuaforte Alves dj Sacramento Blako, Dr. José de Campos Novaes, 
José Hlpyoiyío da Silva Dutra o Dr. Alfredo do Toledo. 

O Instituto teve a infelicidade de perder mais dois illustres mem- 
bros fundadores— José Ferraz de Almeida Júnior, morto era Piracica- 
ba a 13 de Novembro do anno passado, e António Augusto da Fon- 
seca, lallocido nesta capital a 22 do corrente mez. 

Diversos sócios estão em debito de suas annuidades, assira como 
lia alguns que ainda não satisfizeram a jóia e 1." annuidado. 

CENTENÁRIO DO BRAZIL 

Pelos motivos que conheceis, não poude o Instituto executar com- 
pletamente o programma que organizara para commemorar o 4.^ cen- 
tenário do descobrimento do Brazil. Todavia, além da sessão solon- 
no que celebrou a 3 de Maio, publicou com os recursos de que dis- 
pauha a respectiva commissão executiva, um folheto com cartas da 



~ 352 - 

padre José de Anchieta, já distribuído, e a obra de Hans Staden tra- 
ctando do suas viagens e captiveiro entre os selvagens do Brazil. 

REVISTA 

Foi publicado e distribuído o volume 4." da Revista do Instituto 
referente a> anno do 1899. Para o volume relativo ao presente an- 
:po, está a Comraissão de Redacção colligindo e respectivo material, 
afim de ser opportunamente enviado á imprensa. 

FINANÇAS 

Diminuto foi o recebimento de contribuições de sócios, estando 
por arrecadar não pequena somma respeitante a annuidades e jóias. 
E' de esperar que no anno vindouro este serviço fique regularizado © 
seja normalizada esta fonte de receita social, contando o Instituto 
com a boa vontade dos srs. sócios. 

No projecto do orçamento da receita e despesa do Estado, ora 
em discussão no Senado, foi consignado o auxilio de 6:000$000 á nos- 
sa associação e incluída a auctorização para a impressão da Revista 
na typographia do «Diário Ofacial do Estado». Acredita a directoria 
que o patriótico Congresso Legislativo, convicto da utilidade desta 
instituição continuará a auxilial-a, como o tem feito, impulsionando 
assim o seu desenvolvimento e garantindo a sua estabilidade. Em 
nome do Instituto Histórico e Ge graphico de S. Paulo, a directoria 
consigna aqui o testemunho do mais profundo reconhecimento aos 
illustres e dignos membros de ambas as camarás do Congresso Le- 
gislativo do Estado. 

Do balanço annexo, apresentado pelo sr. thesoureiro, e docu^ 
mentos que o acompanham, constam especificadamente as verbas da 
renda arrecada ia e despesa effectuada, cujo resumo é o seguinte: 

Receita 10:866)^760 

Despesa 10:643^760 

Saldo . . . 223g000 

Sendo : 

Em conta corrente no Banco de 

Credito Real de S Paulo . . . 14p00 

Em mão do thesoureiro. . . 208^700 223ÍJ000 



I 



* 



— 353 - 

Ao vosso exame e deliberação submette a directoria o balanço e 
•contas do presente anno, fechadas nesta data. 

CONCLUSÃO 

Attendendo aos desejos manifestados pelos srs. sócios, a directoria 
transferia a sede social do 2.o andar do prédio n. 2 do Largo da Sé 
para o l.o andar do sobrado da rua General Carneiro n. 1 A, onde 
desde 1.» de Setembro está funccionando o Instituto, que, parece, 
acha- se agora melhor installado. O preço do aluguel actual, inclusi- 
ve a illuminação, é de 230j?000 mensaes, havendo nesta verba de des- 
pesa a economia annual de 240$ 000, pois era de 250^000 mensaes o 
aluguel que o Instituto pagava pelas salas do prédio que anterior- 
mente occupuva. 



Taes são, srs. membros do Instituto Histórico e Geographico de 
S. Paulo, as informações que a directoria julgou de maior relevância 
e traz ao vosso conhecimento, promptiflcando-se todavia a vos forne- 
cer quaesquer outros esclarecimentos que vos pareçam necessários. 

Ao concluir esta modesta exposição, cumpre a directoria o grato 
dever de patentear-vos os seus cordiaes agradecimentos pela confiança 
com que honrastes a administração que ora termina o &eu mandato. 

S. Paulo, 25 de Outubro de 1900. 

Dr. Manoel António Duarte de Azevedo, presidente- 
Carlos Reis, 1.» secretario. 
Manoel Pereira Guimarães, 2.° secretario. 
António de loledo Piza, thesoureiro. 

(Deixa de assignar o vice-presidente, sr. dr. Augusto César de 
Miranda Azevedo, por estar ausente desta capital). 



Instituto Histórico e Geographieo 
de São Paulo 



MOLIOTHEC^IL 



CATALOGO DOS LIVROS, IMPRESSOS, MANUSCRIPTCS, MÁPPAS K 
JOENAES EXISTENTES EM 25 DE OUTUCRO DE 1900 



LIVROS E IMPRESSOS 

Abafioênga (Apontamentos sobre o) — O dialogo de Li?ry — por 

B. O. do A. Nogueira 1 

Abastecimento de carne (Parecer [sobre o), pelo Dr. J. P. da 

Veiga Filho • . . . 1 

Abba Daniel do Mosteiro de Scetó (Vida do), por Goldschimidt. 1 

Accidcnts du travail (Congrés international des)— 3 e session, 1894 1 
Acontecimentos do Matto-Grosso ( Os ] — Discursos pelo Deputado 

Luiz Adolpho Corrêa da Costa 1 

Actas das sessões da Camará Municipal de S. Paulo 1898 e 1897 2 

Actas das sessões da Camará Municipal do Santos— 1899 . , 1 

Actividade raaritiraa (Quatro séculos de), por Arthur Jaceguay. 1' 
Actos executivos da Intendência de Finanças do município do 

Sao Paulo 1 

Adamastor — Discurso pelo Dr. Brazilio Machado 1 

Adquisiçâo da posse por intermediário, pelo Dr. Duarte de Aze- 
vedo 1 



355 - 



Agricultura brazileira (Reforraa da), por A. Gomes Carmo . . 
Aguas Piineraos (Guia de viagem para as), por Maximino Scr- 

zedello 

Aguas raineraes do Fervedouro (Breve noticia sobre as) . . . 
Alargamento da E. do Ferro Central do Brazil, por Ozorio de 

Almeida 

Alfandega de S. Paulo — Representação da Associação ('ommeroial 
Alfredo Ellis (Escorço biographico do Dr.), por Libero Braga . 
Alistamento eleitoral (Novíssimo guia do), por A. A. Moreira de 

Toledo 

Aljamía portugueza (Texto em), por David Lopes 

AllocuçOo proferida na Egreja da Boa Morte polo Cónego Ma- 
noel Vicente da Silva 

Almanach do ..Diário de Taubaté" — 1899 

Alraanaeh do Estado de S. Paulo— 1895 

Almanach do ..Estado de S. Paulo" (jornal)— 1896 .... 

Almanach Iguapense — 1899 (2 exemplares) 

Almanach do lavrador brazileiro, pelo Dr. Germano Vert — !.<> 

anno, 1900 

Almanach paulista — 1898 

Almanach paulistano— 1857 

Almanach de Piracicaba— 1900 (2 exemplares) 

Almanach da ..Platéa" — 1900 

Almanach popular brazileiro— 1894 a 1900 

Almanach do Rio Novo— 1888 

Alraanaeh Sul-Mineiro — 1874 

Almirante do mares orientaes (O), por Joaquim Leitão . . . 
Alumnos matriculados e diplomados pela Escola Normal do São 

Paulo -1880 a 1897 

Amazonas — Conferencia pelo Dr. Oscar Leal 

Amazonas (A coutribution t© the geology of the lower), pelo 

Dr. Orville A. Derby 

Amazonas (O Estado do) 

Amazonas (Estudos sobre o)— Limites do Estado— pelo Dr. Tor- 

quato Tapajós ^ 

Amazonas (Noticia económica e financeira da província do); por 



— 356 — 

Cavalcanti do Albuquerque 1 

Amazonas (Província do), pelo Dr. Torquato Tapajós ... 1 
Amazonas (Relatório sobre alguns logares da Província do), por 

J. M. da Silva Coutinho 1 

Amazoniara upper carboniferous fauna ( The), pelo Dr. Orville 

A. Derby 1 

Amazzoni (Nel paese delle), por Vincenzo Grossi 1 

America meridional y septentrional, pelo Dr. Manoel Martins 

Bonilha 1 

Anchieta, as raças e línguas indígenas— Conferencia pelo Gene- 
ral Dr. Couto de Magalhães (3 exemplares) 3 

Annaes da Bibliotheca Nacional— 1876 a 1899 22 

Annaes da Camará dos Deputados do Brazil — 1823 a 1888 . . 74 
Annaes da Camará dos Deputados do Estado de S. Paulo — 1891 

a 1897 7 

Annaes do Congresso Constituinte do Estado de S. Paulo — 1891 1 

Annaes da Província de S. Pedro, por José F. F. Pinheiro . 1 

Annaes do Senado Brazileiro— 1861 a 1888 33 

Annaes do Senado do Estado de S. Paulo— 1891 a 1897. . . 6 

Anuo biographico brazileiro, por Joaquim Manoel de Macedo . 4 

Anuuario do ensino— N. 1 (10 exemplares) 10 

Annuarío da Escola Polytechnica de S. Paulo — 1900 (2exemp.). 2 
Annuario estatístico da Secção de Demographia de S. Paulc— 

1897 a 1899 2 

Annuario medico brazileiro, pelo Dr. Carlos Costa— 1895 . . 1 

António Conselheiro (Relatório sobre), por Fr. João Evangelista 1 
António Ferreira Viçoso (Vida de D.), por D. Silvério Gomes 

Pimenta 1 

António Joaquim de Mello (Vida de D.), pelo Cónego Ezechias 

G. da Fontoura. 1 

António Leite do Canto (Major) — Homenagem d^4 Imprensa — 

Mogy-mirim 1 

Apontamentos genealógicos, pela Dr. L.P. Moretzsohn de Cas- 
tro 1 

Apontamentos históricos da Província de S. Paulo, por M. B. 

de A. Marques 1 



- 357 - 

Apreciações sobre o livro do Dr. Guilherme Studart intitulado 

"Notas para a historia do Ceará 1 

Archipel Indien (L' ), por Louis de Backer 1 

Archivo do districto Federal — 1894 a 1897 4 

Archivo do Estado de S. Paulo — Documentos interessantes — 

Vols. 1 a 30 30 

Archivo litterario — N. 6, 1867. 1 

Arte christan (A), por Monsenhor Camillo Passalacqua ... 1 

Arte de fabricar o vinho (k), pelo Dr. Luiz Pereira Barretto . 1 

Arte da guerra (A) — Poema — por Frederico II 3 

Arvores do Rio Grande do fíul (As), pelo Dr. H. von Ihering. 1 
Assignaturas dos governadores da Capitania e Provinda de São 

Paulo desde 1555 até 1889 (Fac siraile das), por Jules Martin 1 

Assistência judiciaria ( Projecto de organização da) ... ' 1 

Astronomie appliquée (Traité d'), por Emm. Liais .... 1 

Atlantide, por Patrokle Kampanakh 1 

Atlas histórico da guerra do Paraguay, pelo 1.» Tenente E. C. 

Jourdan (2 ex.). 2 

Attentado de 5 do Novembro— Artigos publicados por Caneca . 1 

Atentado de 5 de Novembro — Relatório pelo Dr. Vicente Neiva 1 

Autonomia municipal — Conferencias pelo Dr. Domingos Jaguaribe 2 

Auxilies á lavoura, por J. R 1 

Bahia (Memoir of the Stat of), peio Dr. F. V. Vianna ... 1 

Bahia (Memoria sobre o Estado da), pelo Dr. F. V. Vianna. . 1 

Bibliographie brésilienne, por A. L. Garraux 1 

Boletim da Agricultura — 1.» serie — Ns. 1 a 4 4 

Boletim da Commissão Geographica e Geológica de S. Paulo 

Ns. 1, 2, 4 ,5, 7 a 12 10 

Boletim de estatística demographo-sanitaria do Estado de Lão 

Paulo (monsal)-Ns. 3, 4. 7 a 78 74 

Boletim de estatística demographo-sanitaria do Estado de São 

Paulo (semestral) — 1." semestre de 1894 e 1895 .... 3 
Boletim de estatística demographo sanitária do Estado de São 

Paulo (annual)— 1894 (2 exemplares) 2 

Boletim do Instituto Agronómico do Estado de São Paulo (Cam- 
pinas) •. 14 



— 358 - 

Boletim do Mnsou Paraense-— N. 1 do vol. 3.o j 

Boletim Postal do Brazil— 1889 a 1900 4 

Boletim da Sociedade do Medicina de S. Paulo— Ns. 10, 21,27, 

28, 32 a 39 13; 

Bonds de Santa Veridiana (Questão dos) —Memorial pelo Dr. 

Pedro Lessa 1 

Brasile ai Congresso d'ígiene di Budapest ( 11 ) (2 exemplares) . 2í 

Brasiiianisclie Geldwesen (l)ãs), por Julius Meili 1 

Brazi!, pelo Dr. António Zeferino Cândido 1. 

Brésii (Le), por Levasseur (2 exemplares) 2, 

Busca das esmeraldas (Em), pelo Dr. Francisco Lobo Leite Pe- 
reira (2 ex.) 2 

Camará Municipal e seus impostos (A), pelo Dr. Rodolplio Faria 

(2 exemplares) 2 

('ambio (O), por Duaite Rodrigues t 

Campinas (Monographia do município de), por Christiano Volkurt 1 
Campos Salles (Perfil biographico do Dr. Manoel Ferraz de), por 

António Joaquim Kibas 1 

Canções ridentes, por Carlos Moraes 1 

Cantos populares do Brazil, por Sylvio Romero — 1.» e2.ovols. 1 
Capital do Estado de Minas Geraes (Exposição sobre a nova),. 

por Aarão Reis » . . 1 

Carlos Naudin—Perfil biographico— pelo Dr. A. C. de Miranda 

Azevedo 1' 

Cármen soeculare, por Speridiono de Mediei Dilotti .... 1 
Carta geograpliica do Rio Grande do Sul (Notas para a), por J. 

Arthur Montenegro l^- 

Carta Jurídica, por Eugénio Teixeira "1 

Carta do Pêro Vaz de Caminha, por Francisco Augusto Pereira 

da Costa i. 

Cartas do Padre José de Anchieta t 

Cartas politicas, por Américo Bra'/iliense 1 

Cartas do Solitário, pelo Dr. A. C. Tavares Bastos .... t 
Catalogo da collocção numismática do Bernardo A. da Siív» 

Ramos 4 

Catálogos da bibliotheca da Escola Polytechnica de S. Paulo . 1 



-- 359 ~ 

Catálogos da bibliothcca do Instituto Histórico o GGCsraphico 

Brazilciro 1 

Catochisrao constitucional, por J. Borges Carneiro (2 exem- 
plares) 2 

Catochisrao constitucional do Estado do Rio do Janeiro, por J. 

Borgos Carneiro l 

Catochisrao contitucional do Estado de S. Paulo, porj. Borges 

Carneiro 1 

Catochisrao municipal, pelo Dr- Domingos Jaguaribo (10 Exemplares 10 

Catochisrao brazilico (Publicado por Padres Jesuítas)— 1685 . . 1 

Catechismo historico-Historia sagrada, polo Abbado Fleury . . 1 

Centenário brazileiro, por Leopoldo do Freitas 1 

Centenário da India-Discurso polo Dr. Braz do Amaral ... 1 
Central— Brasilion (Bogen und pfoilin), pelo Dr. Herrraann Meyer 1 
Chile e Brazil— Sessão do Instituto Histórico e Geographico Bra- 
zileiro era horaenagera á nação chilena 1 

Chorographia do Estado do S. Paulo, por M. Ortiz Monteiro . 1 

Chorographia o historia do Brazil, por A. A. Birges dos Reh . i 
Chorographia do município do Serra Negra, por Silvino A. de 

Oliveira (.2 Exemplares). , 2 

Christovão Colombo (Sessão solonne do Instituto Histórico e Geo- 
graphico Brazileiro em homenagem á raomr-ria de) ... 1 
Christovara da Gama (Dos feitos de D.), por M. de Castanhoso. t 
Christu mulienyáua çuriraaan-uára arama nhihingatú rupi, por 

Costa Aguiar ^ 

Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Brazil, polo Padro 

Simão de Vasconcellos "^ 

Chronica dos reis do Bisnaga, por David Lopes 1 

Chronicas do paiz do Atlantido, pelo Dr. Domingos Jaguaribo . 1 

Chronologia paulista, por José Jacintho Ribeiro— l.» volume. . 1 

Cinco annos numa academia, por Hinckmar 1 

Cincoenta annos de existência — Memoria pelo Dr. M. A. de S. 

Sá Vianna 1 

Civilisation en Europe (Histoiro de la), por Guizot 1 

Classificação das agencias postaes da Republica 1 

Classifluação dos criminosos -Dissertação pelo Dr. Cândido Motta 1 



— 860 — 

Código do processo criminal, por Josino do Nascimento Silva . 1 
Colheita e preparo das plantas para herbarios (Da), por Alberto 

Lõfgren (3 Exemplares) 3 

Colombo— Poema — por M. de A. Porto Alegre (2 Exemplares) . 3 
Colónia do Sacramento (Historia topographica e bellicada nova), 

por Simão Pereira de Sá 1 

Colonização e immigração, pelo Dr. Torruato Tapajós (3 Exemplares) 8 

Colonização dos morpheticos (A), pelo Dr. José Lourenço. . . 1 

Companhia de obras hydraulicas, por M. Buarque de Macedo . 1 
Compromisso da Irmandade de N. S. das Dores da cidade de 

Avaré • 1 

Conde de Porto Alegre, Tenente General Manoel Marques de Sou- 
za — Perfil histórico, por Alfredo F. Rodrigues. .... 1 

Conferencias populares — N. 3, Março de 1878 1 

Conflicto de jurisdicção administrativa, por António Sabino do Monte 1 

Conheçamos nossa pátria, por Menezes Vieira 1 

Conquôtes et décou vertes de ia Republique des Pays — Bas, por 

Jules Geslin — 2.e partie — En Asie, en Afriquo, en Amerique. 1 
Constants of nature (The), por F. W.Clarke— 1.*> supplemento á 

parte I, partes II e III 1 

Constituição do Estado de S. Paulo— Projecto doDr. Américo 

Braziliense de Almeida Mello (2 Exemplares) 2 

Constituição do Estado de S , Paulo— Publicada por decreto do 

Governador Dr. Jorge Tibiriçá 1 

Constituição do Estado de S. Paulo — Promulgada a 14 de Julho 

de 1891 1 

Constituição dos Estados Unidos (Commentarios á), por Joseph 

Story 2 

Constituição do Município de Santos 1 

Constituição da Republica dos Estados Unidos do Brazil— Promul- 

da a 24 de Fevereiro de 1891. ......... 1 

Constituinte perante a historia (A), por F. LM. Homem de Mel- 
lo (2 Exemplares . . ..... . ... . , . 2 

Consultor do commercio, por João Cândido Martins .... 1 

Contabilidade, por Horácio Berlinck . ..... . . . 1 

Contes indiens du Brésil, pelo General Couto de Magalhães » , 1 



- 361 — 

Contractos da Intendência Municipal de Belém (Pará). . . . 

Contractos para introducção de iramigrantev no Estado de S. Paulo 

Contribuição para a canalização do rio S. Francisco ao rio Ja- 
guaribe, pelo Dr. Domingos Jaguarlbe (2 Exemplares) . . 

Convenção de 20 de Fevereiro (A), por José Maria da Silva Paranhos 

Convenções postaes diversas, seus regulamentos e instrucçõos . 

Cortezãos e a viagem do Imperador (Os), por L. M 

Cosmographic atlas (The), por W. e A. K. Jolmston .... 

Costa Rica y Costa de Mosquitos, por D . Manoel M. de Peralta . 

Costa Rica (Bxposé des droits cerritoriaux de la Republique de), 
por D. Manoel M. de Peralta 

Costa Rica (Republique de) — Replique à Texposó de la Republique 
de Colômbio -por D. Manoel M. de Peralta 

Cousas animadas e inanimadas (Lições d)e, por A. B. Zaluar , 

Cousas brazileiras, pelo Professor Romão Puiggari 

Cousas da China— Costumes e crenças — por J. Callado Crespo . 

Criação no Brazil /A), por Mário Gambarone , 

Crime de Araraquara — Parecer medico— legal .'.... 

Crise e o seu remédio (A), pelo Dr. Francisco de Toledo Malta . 

Criticai and histórica! essays, por Lord Macaulay 

Cultura dos campos, por J. F. de Assis Brazil 

Curso de processo civil (Programma do), pelo Dr. João Monteiro 
Vol. I 

Dados climatológicos— 1891 a 1892 

Dai — Nippon (O grande Japão), por Wanceslau de Moraes . . 

Declaração da maioridade (A) 

Depuração pelo solo dos productos de exgottos, pelos Drs. Erailio 
Ribas e Theodoro Bayma 

Derivação na serra da Cantareira, por Saint— Clair de Miranda. 

Descoberta da America — Discurso pelo Dr. Manoel^Pereira Gui- 
marães 

Descobrimento do Brazil — Discurso pelo Dr. Manoel Pereira Gui- 
marães 

Descobrimento do Brazil (O), por José Feliciano de Oliveira. . 

Desinfecções em Santos— Relatório pelo Dr. Tolentino Filgueiras 

Diário de um soldado, por Ambrósio Richshoffer 



— 362 — 

Diário fie viagom do Dr. Francisco José do Lacerda o Almeida 1 
Diccionario bibliograpliico brazileiro, pelo Dr. A. O. A Sacra- 
mento Biak • O 

Diccionario chorographico, histoiico o estatístico de Pernambuco, 

por Sebastião de Vasco ncollos Galvão — Vol. 1 1 

Diccionario goog aphico do Brazil (Apontamentos para o\ polo 

Dr. Alfredo Moreira Pinto 3 

Diccionario gcographico da província do Paraná, por Nivaldo 

Braga — l*» F 1 

Diccionario das minas do Brazil, por Francisco Ignacio Ferreira 1 
Diccionario nheôngatú ou abánhcô, por Jorge jMaia — 1.° Fascículo 1 
Diccionario de nomos próprios de homem e de mulher, por F. 

E. do Horisonte Brazileiro 1 

Diccionario portuguez e brazileiro, por * * * 1 

Diccionario dos verbos irregulares da língua portugueza, por C. 

do R . . ^ • 1 

Dictionnaire géographiquo, historiquc et critique (Le grand), por 

B. de La Martinière — Vols. 1 a 5 — A a S 5 

Dieu dans la nature, por C. Flammarion 1 

Direito internacional (Apontamentos para o), por António Pereira 

Pinto 4 

Direito de intervenção, por Leopoldo de Freitas 1 

Discurso na abertura das aulas do Seminário Episcopal do S. 

Paulo, cm 1882, pelo Cónego Manoel Vicente da Silva . . 1 
Discurso na entrega das cartas aos normalistas— 1887 e 1888, 

pelo Cónego Manoel Vicente da Silva ...... 2 

Discurso nas exéquias de D. Maria José de Barros Lcssa, pelo 

Cónego Manoel Vicente da Silva 1 

Discurso na inauguração do Centro dos Operários Catholicos, pelo 

Dr. Duarte de Azevedo 1 

Discurso perante a Academia Nacional do Medicina, p3lo Dr. 

Torquato Tapajós (3 Exemplares) 3 

Discurso aos professorandos da Escola Complementar em 1898, 

por Gabriel Prestes 1 

Discurso pronunciado em Madrid por Eugénio Teixeira ... 1 
Discursos, pelo Dr. João Monteiro— 1890— 189G 1 



Dlsti-letos postaes 2 

Divisão judiciaria e administrativa do Estado de S. Paulo . . 1 
Divisão judiciaria, municipal e policial do Estado do S. Paulo, 

por Sebasttão Moreira (5 Exemplares) 5 

Documentos escolares — Publicações do Pcdagogium Brazileirô . 1 
Educação ensino — Revista do Pedagogium Brazileirô ... 1 
Egreja do Collogio — Acção possessória — Editoriaes do "Correio 

Paulistano" 1 

Electricidade em relação á arte de curar (A), pelo Dr. Marcos 

Arruda , . . . 1 

Elcetrolyso da agua do mar (A), pelo Dr. Torquato Tapajós . . 1 
Eleição do 1.» districto do Ceará (A), polo Dr. Domingos Jagua- 

ríbc 1 

Elemento servil (O), por Joaquim Floriano de Godoy .... 1 
Emancipação dos escravos — Parecer pelo Dr. Ruy Barbosa . . 1 
Empire du Brésil (Situation sociale, politique et economique de 1') 

por J. M. Pereira da íilva 1 

Ensaios do philosophia e scioncia, polo Dr. Estcllita Tapajós . 1 

Ensaios do scioncia— N. 2, Julho do 1876 1 

Entre i'Eurjpo et TAsic, por Prince de Puklor Muskau ... 2 
Bphcníorides Mineiras— 1654— 1897— por José Pedro Xavier da 

Veiga 4 

Esboço histórico, pelo Engenheiro Constante Affonso Ccelho. . 1 
Exeavações archeologicas em 1895, peio Dr. Emilio A., Goeldi . 1 

.Bselavage (Do Ij, por W. E. Channing 1 

Esclavage et liberte (Influence de 1'), pelo Dr, Domingos Jaguaribe 1 
Escola do engenheiros mechanicos e constructorcs, pelo Dr. H. 

Gorceix ^ 

Escola. Polyteclinica (A reforma da), por A. Ennes de Souza— 

1830 o 1893 '^ 

íBseola Publica (A)— Revista de pedagogia pratica (S. Paulo;. . •> 
Escola Superior de Guorra-Discurso pelo Major Alfredo de Mo- 
raes Rego 1 

E -colas do 1-0 e 2.o graus (Relatório sobre as), pelo dr. A. Caeta- 
no do Campos ^ 

Escravatura na Europa e na Africa (A), porF. S. Leitão o Castro. 1 



— 364 - 

Estadistas e parlamentares, por Tiraon 

Estado de S. Paulo (Estudo exconoraico e financeiro sobre o), 
pelo Dr. J. P. da Veiga Filho 

Estados perante o Estado Federal (Posição jurídica dos) — Dis- 
sertação pelo Dr. Reynaldo Porchat 

Estatística agricola do município do S. Carlos do Pinhal . . . 

Estatística e apontamentos, pelo Dr. Franco da Rocha — Ns. Ia 6. 3 

Estatística industrial e agrícola do Estado de Minas Geraes — 1890. 1 

Estatutos das seguintes associações : 
Arcádia Normalista 
Associação Luso-Araericana Financial 
Congresso Brazíleíro 
Club Republicano «Campos, Salles> 
Instituto Forense 

Instituto Goographico e Histórico da Bahia — 1894 (2 Exempl.) 
Instituto Histórico e Gcographico Braziloiro— 1890 
Sociedade Commemoradora do 4.» Centenário (S. Vicente) 

(2 Ex.) 

Sociedade Educadora «13 de Maio» 

Sociedade Pharmaceutica Paulista 12 

Estrada de ferro do Amazonas á Venezuella (Memoria justifica- 
tiva de um projecto de), pelo Dr. Torquato Tapajós. . . 1 

Estrada de ferro do Avanhand^va, por A. <;ambraia (2 Exem- 
plares). 2 

Estrada de Ferro de D. Pedro II— Vistas dos pontos mais impor- 
tantes e plantas de pontes 

Estrada de ferro entre o Tietê e Paranapanema 

Estrada de Ferro S. Paulo e Rio de Janeiro e suas condições eco- 
nómicas (A Companhia), por I. W. da Gama Cochrane . . 

Estrada de Ferro S. Paulo e Rio de Janeiro (Resgate da), por 
I. W. da Gama Cochrane 

Estrada de Ferro S. Paulo e Rio de Janeiro (Companhia)— Liqui- 
dação em virtude do resgate, por I. W. da Gama Cochrane. 

Estrada de Ferro Sorocabana (Melhor directriz da)— Da Botuca- 
tú a Tibagy, por Manoel Marcelino de Souza Franco. . . 

Estudos históricos, pelo Dr. António da Cunha Barbosa . . . 



- 365 — 

Estudos históricos brazileiros, por F. I. M. Homem de Mello. . 1 
Estudos histórico— politicos, pelo Barão do Rezende .... 1 
Etnologia Centro- Americana— Catalogo de los objçtos arqueoló- 
gicos de la Republica de Costa Rica por Manoel M. de Peralta. 1 
Evaristo Ferreira da Veiga— Discurso pelo Dr. Tullio de Campos 1 
Exgottos de Santos (Relatório sobre o serviço de), por I. W. G. 

Cochrane l 

Expedição de correspondência e malas (Guia para a), por A. F. 

da Costa 1 

Exploração do rio S. Francisco, por H. G. F. Halfeld. ... 1 
Exploração dos rios Itapetininga e Paranapanema, pelo Dr. T. 

Sampaio , 1 

Exposição de geographia Sul-Americana realizada pela Sociedade 

de Geographia do Rio de Janeiro em 1889 (Catalogo da) . 1 
Exposição de Philadelphia (Exposição justificando a exhibição de 

productos do Brazil), por J. Cordeiro da Graça .... 1 
Exposição de trabalhos jurídicos realizada pelo Instituto da Or- 
dem dos Advogados Brazileiros a 7 ;de Setembro de 1894 — 
Catalogo e Relatório, pelo Dr. Deodato C. Vilella do Santos. 2 
Fabricação de tubos polo processo Mannsmann, por F. Releaux. 1 
Fabulas do La Fantaine, pelo Barão de Paranapiacaba ... 2 

Fabulas de Loqmán, por José Benolíel l 

Factos históricos da politica republicana braziloira— Discursos 

pelo Dr. A. C. de Miranda Azevedo (2 Exemplares). . . 2 
Fala dirigida á Assembléa Legislativa de S. Paulo era 10 de 
Janeiro de 1883 pelo Presidente da Provinda Cons. Soares 

Brandão • 1 

Fazenda Gandarella (Relatório dos trabalhos na), por Guimarães 

e Calogeras . 1 

Febre amarella (Conferencia sobre a), pelo Dr. Domingos Freire. 1 

Febre amarella (!.» e 2.» relatórios sobre a) 1 

Febre typhoide em S. Paulo (A), pelo Dr. Clemente Ferreira 

(3 Bxempl.) 3 

Feira de anexins, por D. Francisco Manoel de Mello .... 1 
Ferro nativo de Santa Catharina, por L. F. Gonzaga deCanpos. 1 
Ferro-yia de Piracicaba a Vilia-Araericana, por Bu^irque do 



— 366 — 

Macedo 1 

Festa das crianças (A) — Comraeraoração da lei do 13 de Maio . t 

Festas naoionaes, do Rodrigo Octávio 1 

Fute brésilienne célóbréo à Koucn cn 1550 (Uno), por Ferdinand- 

Denis 1 

Finis patrioe, por Guerra Junqueiro 1 

Flor do neve, por Eurico do Góes 1 

Fiora do Goa e Savantvadi, polo Dr. D. G. Dalgado .... t 
Floriano Peixoto — Discurso pelo Dr. Alfredo Pujol .... 1 
Floriano Peixoto — Discurso por Horácio de Carvalho .... 1 
Fronteira Sul do Amazonas— Artigos publicados por Manoel Ta- 
pajós (2Ex.) 2 

Fronteira Sul do Amazonas — Questão de limites, por Mauoei Ta- 
pajós (6 Ex.) (> 

Fundador do Ceará (Documentos para a biographia do), pelo Dr. 

Guilherme Studart 1 

Gado e a lavoura (O , pelo Dr. Germano Vert (3 Exemplares . 3 

Geographia — Atlas, por Monsenhor C. Couturior 1 

Geographia elementar, por Tancredo do Amaral 1 

Geographia do Estado do Minas Geraes, por F. Lentz do Araújo t 

Geographia geral (Noções de) por Alfredo Moreira Pinto ... 1 

Geograghia geral— Curso superior, por Alfredo Moreira Pinto . 1 

Geographia physica do Brazil, por J. E. Wappa?us .... 1 

Geographia primaria, pelo Dr. Carlos Novaes 1 

Geographia da Província do Paraná (Compendio de), por L. de F. 1 

A. e Sá 1 

Géographie historiquo, ecclésiastique et oiviie, por D. Joseph 

VaisseteT. 11 o 12 t 

Geologia elementar, por Nereo Boubéo . . * 1 

Geometria pratica (Primeiras noções de,) por Olavo Freire . . í 

Geometria superior, pelo Dr. A. F. de Paula Souza .... 1 

German grammar (A compendiou s), por W. D. Whitney. . . t 

Gigante Adamastor (Episodio do), por Josó Benoliel .... 1 
Gomma elástica da mangabeira sylvestre, por A. B. de Uchoa 

Cavalcanti (2 Exemplares) 2 

Grammatica do economia politica, por W. F. Marriott ... 1 



— 367 - 

txparaniatica das escolas— Poriodo médio por Miguel Alves Feitosa 1 
Graraniatica da língua do Brazil (Arte da), pelo Padre Luiz Fi- 
gueira , 1 

Gramniatica da língua brazilica da nação Kiriri (Arte do), polo 

padre Ij. V. Maniiani 1 

Graraniatica portugueza, pelo dr. Augusto Freire da Silva . . 1 
Grararaatlca portugueza ( Introducção ao estudo da), por J' Ma- 

theus do A, Cardoso 1 

Grandes pensadores (0.-^, por Tullio de Campos . » . . . 1 

Grèee (La), por Louis Combes 1 

Guararapes (Em)— Conferencia pelo dr. Martim Francisco . . 1 
Guarda Nacional (Guia pratico para o official da), pelo tenente 

coronel Benevenuto Magalhães 1 

Guerra do Oriente ^Historia da), por José da Silva Mendes Leal 

Júnior 1 

Guerra do Faraguay, por Juan Sllvano Godoi 1 

Guia das estradas de ferro dos Estados do Rio de Janeiro, Mi- 
nas Gsraes e S. Paulo, por Gustavo Koenigswald (4 exem- 
plares) 4 

Harpa d'ísraol, por F. R. dos Santos Saraiva 1 

Hematozoario do beribéri e seu pigmento, pelo dr. F. Fajardo. 1 
Herdeiros do Caramurú (Os), polo dr. Donúngos Jaguaribo (íi 

exemplares) 6 

Heroes (sonetos), por Wenceslau do Queiroz. ...... 1 

Hespanhoes no Rio Grande (Os), por Alfredo F. Rodrigues . . 1 

Histoire du Brésil, por A. de Boauchamp 3 

Histoiíe politique des Papes, por P. Lanfrey 1 

Histoire romaine — Republique — por Michelet 2 

Histoire uni versei! o, por César Cantu 19 

Historia da America Portugueza, por Sebastião da Rocha Pitta. i 

Historia da America Septentrional e Meridional 1 

Historia antiga, por João Ribeiro 1 

Historia antiga do Oriente, por J. M. da Gama Berquó. . . 1 

Historia do Brazil (Epitorao da), por A. Moreira Pinto ... 1 

Historia do Brazil, por Felisbello Freire 1 

Historia do Brazil, por Francisco Solano Constâncio .... 2 



— . .%8 — 

Historia do Brazil, por João Arraitage . 1 

Historia do Brazil, (Bpit^rae da), por José P. Xavier Pinlieiro . 1 
Historia do Brazil (Lições de), pelo padre Raphael M. Galanti . 1 
Historia do Brazil (Compondio de), peio padre Raphael M. Ga- 
lanti— T. 1 1 

Historia do Brazil, de Roberto Southey 6 

Historia do Brazii, por Sylvio Ronióro 1 

Historia da Capitania de S. Vicente (Memorias para a), por Fr. 

Gaspar da Madre de Deus 1 

Historia do Ceará (Dados e factos para a), pelo dr. Guilherme 

Sludart 3 

Historia da Fundação do Império do Brazil, por J. M. Pereira 

da Silva , . . . 7 

Historia e geographia das nações ultramarinas dos domínios 

portuguezGS (Noticias para a) 7 

Historia da Grécia e Roma, por J. M. da Gama Berquó. . . 1 
Historia nacional (indicações sobre a), p r T. de A. Araripe . 1 
Historia natural (Noções de), por Felisberto de Carvalho. . . 1 
Historia pátria (Episódios da), pelo dr. J. C. Fernandes. Pinheiro 1 
Historia da Republica dos Estados Unidos do Brazil (Aponta- 
mentos para a), por M. B. de Campos Porto 1 

Historia de S. Paulo, por Tancredo do Amaral (4 exemplares) . 4 
Historia universal (Compendio de), pelo padre Raphael M. Ga- 
lanti 1 

Historia universal (Noções de), por A. Moreira Pinto. ... 1 
Historia universal (Noções summarias de), por J. M. da Gama 

Berquó 1 

Historia universal (Resumo da), por * * * 1 

Homem no século (O), por Monsenhor Caraillo Passalacqua . . 1 
Homens de bem (Arte de formar), pelo^dr. Domingos Jaguaribo 

(6 exemplares) 6 

Homens e idéas no Brazil, pelo dr. Domingos Jaguaribe. . . 1 
Hommes de bien (L'art de former des) pelo dr. Domingos Ja- 
guaribe 1 

Horace Greeley (The life of), por James Parton 1 

Horácio Mann, por Ed* Laboulaye 1 



— 369 — 

Hospital de Misericórdia de Uberaba (O)— Discurso por António 
Boiges Sampaio 

Hugonianas—Poesias de Victor Hugo—por Mucio Teixeira . . 

Hydrographie de Haut San-Francisco et du Rio das Velhas, por 
Eram. Liiais 

Hyrano do Centenário da índia, por Fernandes Costa. . . . 

Idéa republicana no Brazil (A), pelo major J. D. Codeteira. , 

Idealismos, por Bento Athayde 

Ilias, de Homero— T. l — Rhapsodia 1 — XII 

Império do Brazil (Historia financeira e orçamentaria do), pelo 
dr. L. de C. Carreira 

Imprensa em Portugal nos séculos XV e XVI (A), por Brito Aranha 

Indicador da capital de S. Paulo— 1895 

índice das leis e decretos do Estado de S. Paulo, por Alexandre 
Riedel ' 

índices da lei e regulamento da organização municipal do Esta- 
do de S. Paulo, por José Jacintho Ribeiro 

índios do Brazil (Principio e origem dos), por Fernão Cardira . 

Inseri pçoes em rochedos do Brazil, por Carlos Frederico Hartt . 

Institutions de la France (Histoire des), por Paul Bondeis . . 

Instituto Civico- Jurídico «Paes de Catvalho> — Artigos publicados 
por Virgílio Cardoso de Oliveira 

Instituto Histórico e Geographico Brazileiro (O) — Memoria pelo 
dr. Olegário Herculano de Aquino e Castro 

Instrucçáo moral e civica (Elementos de), pelo dr. J. D. Este- 
ves da Silva 

Instrucção publica (Lei sobre) — Estado da Bahia 

Instrueções para execução do regulamento postal de 1865 . . 

Insfcrucções para permutação de fundos (Serviço postai^ . . . 

Instrucções sobre serviço telegraphico 

Integridade do território Pernambucano (Em prol da), por F. A. 
Pereira da Costa , . . 

Infeelligencia e moral do homem, pelo dr. Dominges Jaguaribe . 

Irmandade do SS. Sacramento da Candelária, por F. B. Mar- 
ques Pinheiro 

Irmandade do SS. Sacramento da Gloria, por F. B. Marques 



- 370 - 

Pinheiro 1 

Itanhaera {\ villa dc^ por Benodicto Calixto 1 

Itinerário das malas terrestres, por Alexandre Ferreira da Costa 1 
James A. Garfield (The Life of), por Edmund Kirke .... 1 
Jocelyn — Poema de Laraartine — por J. C. de Menezes g Souza. 1 
Jornacs Pernambucanos— Do lS2l a 1898— por Alfredo de Car- 
valho (2 exemplares) 2 

Justiça criminal na capital do Estado de S. Paulo (À), pelo dr. 

Cândido Motfca 1 

Larvas-Primeiros versos, por Cardoso Júnior l 

Lavoura (Em prol da), pelo dr. M. F. Garcia Podendo. ... 1 
Lavoura (Pela)-Reforma do Banco de Credito Real-pelo dr, Mi- 
randa Azevedo 1 

Legislação postal brazileira (Repertório da), por Paulo Orozimbo. 1 
Legislação sobre o serviço sanitário do Estado de S. Paulo (Re- 

pertoriG da), por Carlos Reis 1 

Lei federal n. 35 de I89.i--Estabelece o processo das eleições fe- 

deiaes 1 

Leis do Brazil-1822 a 1825, 1830 a 1830, 1857, 1863, 1866 a 

1870 e 1877 • 24 

Leis da Camará municipal de Lorena— 1895 1 

Leis e decretos do Estado de S. Paulo— 1889 a 1899 .... S 
Leis e posturas da Camará Municipal de Santo António da Boa 

Vista 1 

Leis o resoluções da Camará Municipal de S. Paulo— 1892 a 1895 . t 
Leis e resoluções do Município de Casa-Bran.ia — 1392 a 1891 . 1 
Lembrança da festa do Coração de Jesus, pelo cónego M. Vi- 
cente da Silva 1 

Lendas e canções populares, por Juvenal Galeno 1 

Levante na Ribeira do Jaguaribe (Inéditos relativos ao) pelo dr. 

Guilherme Studart 1 

Libello do povo (O), por Timandro 1 

Liberdade profissional (A), pelo dr. A. C. de Miranda Azevedo (4 

Exemp.) 4 

Lições de coisas de Calkins, pelo dr. Ruy Barbosa 1 

Limites entre os Estados do Amazonas e Matto-Grosso. por R. 



— 371 — 

A. Figueira 1 

Limites da Republica com a Guyana Ingleza, por Sylvio iscnior . 1 

Litteratura brazilcira (A), por Sylvio Romcro 1 

Litteratura infantil, por Artliur Goulart 1 

Livrí> pensador (O), por Arcesiláo 1 

Livro do democrata (O), por Arcosiláo 1 

Livros do leitura, por Felisberto de Carvalho — l.o a 5.«5 . . . 5 
Luiz Lasagna (D) — Noticia biographica pelo dr. M. A. Duarte do 

Azevedo 1 

Lusiad (The;, por W. Julius Micklo 2 

Lusíadas (Oa), por Luiz de Camões — Grande edição autographica. 1 
Magnetite ore districcs of Jacupiranga and Ypauema, S. Paulo, 

Brazil, por Orvillo A. Derby • . • . 1 

Manifesto ao Estado do S. Paulo, pelo dr. Campos Sallcs. . . t 

Manifesto politico, pelo^dr. Manoel Victorino Pereira .... 1 

Manifesto do presideato da Republica Rio-Grandense .... 1 

Manifesto republicano parlamentar (2 exemplares) 2 

ManoelJosó Alves Barboza (Contra Almirante)— Esboço biogra- 

phico 1 

Manual do empregado da Intendência de Finanças, por Paulino 

Guimarães 1 

Manual of metallurgy (A), por W. H. Greenwood 1 

Manuscriptos sobre a historia do Ceará— CoUocçao do dr, Gui- 
lherme Studart— 2.0 fascículo (2 exemplares) ..... 2 
Marquez de Barbacena (Vida do), por António Augusto do Aguiar. 1 

Marselheza da paz (A) — (Hymno) 1 

Matto-Grosso ao litteral (De), por M. P. Torres Neves ... 1 

Máximas o pensamentos, por Benedicto Xavier 1 

Medico da primeira infância (0^ por António Ferreira Pinto. . 1 
Meio circulante— ('onferencia polo di-. Mattoso Camará . . . t 
Memorias de Madame Dorothéa Duprat de Lasserre, por J. Ar- 
tliur Montenegro 1 

Mensagem ao Congresso do Estado do Amazonas, pelo Governa- 
dor Dr. Eduardo Ribeiro— 1893 e 1894 2 

Mensagem ao Congresso do Estado do Amazonas, pelo Governa- 
dor Dr. Filete Pires Ferreira — 1897 , - 1 



— 372 — 

Mensagem ao Congresso do Estado do Pará, pelo Governador 

Dr. Lauro Sodré— 1892 

Mensagem ao Congresso do Estado de S. Paulo, pelo Vice-Presi- 

dente Dr. José Alves de Cerqueira César — 1892 .... 
Mensagem ao Congresso do Estado de S. Paulo, pelo Presidente 

Dr. Bernardino do Campos— 1894 a 1896 

Mensagem ao Congresso do Estado de 8. Paulo, pelo Presidente 

Dr. Manoel Ferraz de Campos Salles — 1897 

Mensagem ao Congresso do Estado de S. Paulo, pelo Viee-Presi- 

dente Dr. Francisco A. Peixoto Gomide— 1898 (3 exemplares) . 
Mensagem ao Congresso do Estado de S. Paulo, pelo Presidente 

Coronel Fernando Prestes de Albuquerque — 1899 e 1900 (4 

exemplares) 

Mensagem ao Congresso Nacional, pelo Presidente da Republica 

Dr. Manoel Ferraz de Campos Salles— 1899 e 1900 . . . 
Metallurgy of iron (A treatlse on the), por H. Bauorman. . . 
Meteorito de Bendegó (Estudo sobre o), por Orville A. Derby . 

Meteoritos brazileiros, por Orville A. Derby 

Metrificação portuguoza (Tractado de), por A. F. de Castilho 
Minas Geraos e Goyaz (Viagens pelo iaterlor de), pelo Dr. V. 

M. de Mello Branco 

Minhas crenças e opiniões (As), por Francisco Cunha. . . . 
Ministério da Justiça e Negócios Interiores (Noticia histórica dos 

serviços,' instituições e estabelecimentos pertencentes ao) . 

Minuta de Aggravo, por Argemiro A. da Silveira 

Miranda Azevedo (Professor Doctor Augusto César de} — Delegir- 

ter der regierung der veroinigten Staaten von Brasilien auf 

dem International en Congresse fiir Hygiene und Demographie 

Budapest— 1894. (2 Exemplares) 2 

Miscellaneas religiosas, por Monsenhor Joaquim Pinto de Campos . 1 

Misericórdias (As), por Costa Godolphim 1 

Missão de Christo, por Monsenhor Joaquim Pinto de Campos . . 1 
Moeda do Brazil— 1645 — 1888 — por João Xavier da Motta . . 1 
Moléstia da canna em Pernambuco (Relatório da commissão do 

estudo da), por Daniel Henninger ...•,... t 
Monographia-do "município da cidade de de S. Paulo, pelo Dr. 



— 873 >- 

Jeão Mondes de Almeida Jimior 1 

Movimento politico de Minas Geraes em 1842 (Historia do), pelo 

Cónego J. A. Marinho 1 

Mudança da capital federal do Brazil, pelo Dr. D. Jaguaribe 

(2 Exemplares) 2 

Mudança da capital da Uniao-Resposta ao Dr. Domingos Jagua- 
ribe — por L. Cruls 1 

Município e a Republica (O), pelo Dr. Domingos Jaguaribe . . 3 

Nahuatlismos de Costa Rica,fc>por Juan Fernandez Ferraz. . . 1 
Nao-Simples resposta a uma consulta-porEstevam Leão Bourroul. 

Nápoles á China (De), por Adolpho Loureiro 1 

Narrationes excerpta res memorabiles,de Tito Livio .... 1 
Narrativa de serviços no libertar- se o Brazil da dominação por- 

tugueza, pelo Almirante Condo de Dundonald 1 

Navigation aérienne (Memoire sur un appareil pour la), pelo Dr. 

Domingos Jaguaribe . 1 

Nepheline rocks in Brazil, por Orville A Derby 2 

Ninhos e ovos das aves do Brazil, por H. von Ihering ... 1 

No lar, por Álvaro Guerra 1 

Numismática (Collecçáo), por A. J. dos Santos Leitão. ... 1 

Observações criticas, pelo Padre Senna Freitas 1 

Occurrence of Xenotime as an accessory element in rocks, por 

Orville A. Derby 1 

Olinda conquistada, pelo Padre João Baers (2 Exemplares) . . 2 

Or à Minas Geraes, Brésil (L'), por Paul Ferrand 1 

Orationos selectae, de M. T. Cicero 1 

Orbe seráfico brazileiro (Novo)— ou Chronica dos írades menores 

da província do Brazil, por Fr. António de S. M. Joboatam. 2 

Orçamento do Estado de S. Paulo (Leis do)— 1897 a 1901 . . 5 
Organização judiciaria do Estado de S. Paulo— Discursos pelo 

Deputado Dr. Cândido Motta 1 

Organização naval— Artigos publicados por Arthur Jaceguay. . 1 
Origens chaldeanas do judaísmo (As), por José de Campos No- 
vaes ' ^ 

Origines du christianisme (Histoire des), por Ernest Renan . . 1 

Ornithologia paulista, por Gustavo Koenigswald 2 



- 374 - 

Oyapock (O)- Divisa do Brazil com a Giiyana Franccza—polo 

Barão Homem do Mello 1 

Pacificação dos Crichanás, pelo Dr. João Barbosa Rodrigues (2 

Exemplares) 3 

Padres Capuchinhos (Historia da missão dos), pelo Padre Cláu- 
dio D'Abboville t 

P^rá (Estudos sobro o,, por A. O. N. Vianna 1 

Fará e Amazonas — Questão do limites— por José Veríssimo . . 1 

Paraguay (La República dei), por Carlos R. Santos 1 

Parahyba (Notas sobre a), por í. JoíRly 1 

Paraná ( Notice about the State), pelo Engenheiro M. F. F. 

Corroa • 1 

Paraná (Noticia sobro a Província do) 1 

Parteiro (O), por Oscar Leal 1 

Pátria, por João Vieira de Almeida 1 

Paulista (O), por Austo Easec 1 

Pedagogia e methodologia, pelo Padre Camillo Passalacqua . . 1 

Pedro, Alvares Cabral— (Poemeto)— por Cardoso Júnior ... 1 

Pedras da bexiga (A questão das), pelo Dr. Luiz Pereira Barretto 1 
Pedro n (Homenagem do Instituto Histórico e Geographico Bra- 

zUeiro á memoria de) 2 

Percussão e escuta (Compendio de), pelo Dr. Pires do Almeida. 1 
Pestilência da bicha ou males (Documentos para a historia da), 

pelo Dr. Guilherme Studart 1 

Pétalas, por Arthur Goulart 1 

Phonologia portugueza, por Fernando Martins Bonilha Júnior o 

Luiz Cardoso 1 

Physica (Lições do^, por F. X. O. de Menezes 1 

Physics (liossons in elementary), por Balfour Stewait. ... 1 

Fhytographia, por Alberto Lofgren 1 

Picos altos do Brazil (Os), por Orville A. Derby 1 

Planalto central do Brazil — Relatório e Atlas — por L. Cruls. . 2 
Plantação, cultura e preparo do chá, por Fr. Leandro do Sacra- 
mento 1 

Plantio da amoreira no Ceará, pelo Dr. Domingos Jaguaribe. . 1 
Politica e os politicos (A), pelo Dr. Domingos Jaguaribe (2 Exem- 



~ 37Õ ~ 

piares) 2 

Ponte do S. José do Rio Pardo — Informações e Relatório— pelo 

Di\ I, W. da Gama Cochrano 2 

Posologia dos medicamentos mais empregados, por J. F. Soares 

Romeo 1 

Precursores da Republica do Brazil (Os), pelo Major José Do- 
mingues Codeceira 1 

Presidio do Rio Grande (0). por Alfredo F. Rodrigues. ... 1 
Primieias — Poema dos principaes factos da historia do Brszil, 

por Joaquim Gil Pinheira 1 

Príncipes des societés {Bssais sur les premiers), por P. Garreau. 1 
Producção e consumo de café no mundo, por Joaquim Franco de 

Lacerda 1 

Programraas do ensino da Escola Normal do S. Paulo ... 1 

Programmas do ensino do Gymnasio de S. Paulo 1 

E'rojocto do Código Penal (Parecer sobro o) — Instituto da Ordem 

dos Advogados Brasileiros 1 

Iromptuario commercial, civil e militar, por L. do F. Almeida 

e Sá 1 

í^rotostantes da França (Historia dos), por G. do Félico ... 1 
Prova de consideração (Uma) — Lever de rideau — por P. A. Go- 

ra-os Cardira 1 

Província do Rio Sapucahy (A), pelo Senador Dr. J. Floriano do 

Godoy . . 1 

Psyclioses, por Carlos Coelho "í- 

Quadro histórico da Província de S. Paulo, pelo Brigadeiro José 

Joaquim Machado do Oliveira. . 1 

Quadros históricos da guerra do Paraguay. — I — O combato naval 

de Riaehuelo. II— A rendição de Uruguayana 1 

í^ucra descobriu o Brazil?— por Cândido Costa 1 

Questão de limites brazileira — Argentina, pelo Barão de Rio 

Branco ^ 

Questione italiana ai Brasile (La) por Ausonio Latini .... 1 

Questions contemporaínes, por Ernesto Renan 1 

Qíiio/iO de Novembro (O), por Sacramento Macuco 1 

Eamal de Agua Vermelha da Companhia Paulista 1 



— 87d - 

Rapport aunuel fait à la Societé Asiatique, por Ed. Chavannes. 1 

Razões flnaes, de appellação, embargos, etc, por diversos . . 28 

Recorda(,'Ões da Alleraanhã, pelo Dr. A. Las Casas dos Santos . 1 

Recuerdos, por Francisco B. O' Connor 1 

Reflexão e refracçao da luz.— Saes. AfiQnidade— pelo Dr. Ed- 
mundo Xavier 1 

Regimento interno da Escola Polytechnica de S. Paulo ... 1 
Regimento interno das Escolas Complementares do Estado de 

S. Paulo 1 

Regimento interno das escolas publicas do Estado de S. Paulo . 1 

Regiões araazonicas (As), pelo Barão de Marajó 1 

Róglement des postes de TEmpire du Brésil 1 

Regulamento dos Correios do Brasil 2 

Regulamento da Escola Normal de S. Paulo 1 

Regulamento da Escola Polytechnica do S. Paulo 1 

Regulamento da Estrada de Ferro de Bragança ÍPará) ... 1 

Regulamento dos U-ymnasios do Estado de S. Paulo .... 1 

Regulamento dos hospitaes de isolamento do Estado de S. Paulo 1 
Regulamento do Instituto Civico — Jurídico <Paes de Carvallio> 

(Pará) ._ 1 

Regulamento para obras publicas do Estado de S. Paulo. . . 1 

Regulamento da Repartição de Terras do Estado do Amazonas . 1 

Regulamento da Secretaria do Interior do Estado de S. Paulo . 1 

Regulamento do Serviço Sanitário do Estado de S. Paulo . . 1 
Regulamentos sobre instrucção publica do Estado de S. Paulo 

(Leis e) 2 

Reise in Brasilien, pelo Dr. J. B. von Spix e Dr. C. F. von Martius 2 

Relatório da Associação Commercial de S. Paulo — 1900 ... 1 

Relatório do Banco União de S . Paulo — 1891 1 

Relatório da Caixa Económica da Capital Federal 1 

Relatório da Caixa Económica de S. Paulo— 1896 a 1899 . . 4 
Relatório da Camará Municipal da Parahyba do Sul — 1895— por 

L. T. Leite 1 

Relatório á Camará Municipal de S. Paulo — 1893 e 1894— pelo 

Dr. Pedro Vicente de Azevedo 2 

Relatório da Camará Municipal de S. Paulo— 1897 — por A. P. 



— 377 — 

Rodovalho 

Relatório á Caraarar Municipal de S. Paulo — 1898 — por A. F. 
Rodovalho (2 Exemplares) . 

Relatório da Camará Syndical dos Corretores de S. Paulo-— 1895 

Relatório da ( hefia de Policia de S. Paulo — 1878— pelo Dr. Joa- 
quim de Toledo Piza Almeida 

Relatório da Chefia de Policia de S. Paulo-— 1893 e 1894 — polo 
Dr. Theodoro Dias de Carvalho Júnior 

Relatório da Chefia de Policia deS. Paulo— 1895— polo Dr. Ben- 
to Bueno 

Relatório da Commissão Geographica e Geológica de S. Paulo— 
1894— pelo Chefe Dr. Orviile A. Dorby 

Relatório da Commissão de Saneamento do Estado de S. Paulo 
—1897— pelo Chefe Dr. Alfredo Lisboa 

Relatório da Companhia E. de Ferro Leopoldina — 1897 . . . 

Relatório da Companhia Melhoramentos de S . Simão — 1893 . . 

Relatório da Companhia Sorocabana — 1890 

Relatório da Companhia Viação Paulista— 1898. .... 

Relatório dos Correios do Brazil— 1880 — pelo Director Wilkens 
de Mattos 

Relatório dos Correios do Brazil— 1889— pelo Director Dr. L. B. 
Paes Leme 

Relatório dos Correios do Brazil — 1892 e 1893— pelo Director Dr. 
D. Silveira Lobo 

Relatório dos Correios do Brazil — 1894— pelo Director Dr M. F. 
Vieira de Mello 

Relatório dos Correios do Brazil — 1895— pelo Director Dr. E. 
Victorio da Costa 

Relatório dos Correios do Brazil— 1899— pelo Director A. Pires 
de Souza 

Relatório do Departamento das Finanças do Estado do Amazo- 
nas— 1897— pelo Secretario Dr. A. J. da Costa .... 

Relatório do Departamento da Industria do Estado do Amazonas 
— 1897— pelo Secretario J. M. Ribas 

Relatório do Departamento da Industria do Estado do Amazonas 
—1898— pelo Secretario A. de C. Palhano 



- 378 - 

Relatório do Departamento do Interior do Estado do Amazonas 

— 1897— p3lo Secretario Major Pedro Freire í 

Relatório da Directoria do Seerviço Sanitário do Estado do S. 

Paulo— 1894— pelo Dr. .1. J. da Silva Pinta Júnior. . . t 
Relatório da Escola da Bella Cintra (Capital), pelo Professor João 

Francisco Bellogarde 1 

Relatório da Escola Normal de S. Paulo — 1895 — pelo Director 

Gabriel Prestes 1 

Relatório da Fazenda do S. João da Montanha (Piracicaba) . . 2 
Relatório da Inspoctoria do Ensino do Estado da S. Paulo — 189I> 

— polo Inspector Geral Dr. Mário Bulcão 1 

Relatório da Inspectoria de Terras e Colonização do Estado do 

Minas Gcraes — 1898 — polo Dr. Carlos Prates t 

Relatório do Instituto Cívico— Jurídico "Paes de Carvalho' '(Pará>, 

peio Dr. Virgílio Cardoso de Oliveira t 

Relatório do Instituto da Ordem dos Advogados Brazileiros— 1894 

a 189 j— pelo 1.° Secretario Dr. M. A. do S. Sá Vianna . 3 
Relatório da Intendência de Finanças do Município de S. Paulo 

— 1897 — pelo Intendente A. P. Rodovalho 1 

Relatório da Intendência Municipal de Ribeirão Preto — 1896— pelo 

Intendente Dr. J. Estanislau da Silva Gusmão .... t 
Relatório da Intendência de Policia o Hygieno do Município de 

S. Paulo — 1898 — pelo Intendente Dr. J. A. do Siqueira Bueiio. 1 
Relat(;rio do Ministério da Fazsnda — 1893— polo Ministro Dr. Fran- 
cisco de Paula Rodrigues Alves 1 

Relatório do Ministério da Fazenda— 1897 o 1893 — pelo Ministro 

Dr. Bernardino de t'ampos . 4z 

Relatório do Ministério da Industria, Viação o Obras Publicas- — 

1893— pelo Ministro Dr. António Francisco de Paula Souza. 2 
Relatório do Ministério da Industria, Viação e Obras Publicas — 

1895 o 1895 -pelo Ministro Dr. António Oiyntho dos Santos 

Pires ^ 

Relatório do Ministério da Industria, Viação o Obras Publicas — 

1897— polo Ministro Dr. Joaquim Murtinho 2 

Relatório do Ministério da Industria, Viação o Obras Publicas— 

1898— pelo Ministro Dr. Severino Vieira 1 



— 379 — 

Relatório do MinUterio da Justiça— 1837— polo Ministro G . A . A. 

Pantoja 1 

Relatório do Ministério da Justiça e Negócios Interiores— 1893— 

pelo Ministro Dr. Fernando Lobo 1 

Relatório do Ministério da Justiça e Negócios Interiores — 1895 — 

pelo M inistro Dr. António Gonçalves Ferreira .... 1 

Relatório do Ministério da Jusjtiça e Negócios Interiores— 1896 — 

pelo Ministro Dr. Amaro Cavalcanti 1 

Relatório do Ministério da Justiça o Negócios Interiores -1899 — 

pelo Ministro Dr. Epitacio Pessoa 1 

Relatório do Ministério das Relações Exteriores— 1890 — 1891 ~ 

pelo Ministro General Quinttno Bocayuva (2 Exemplares) . 2 

Relatório do Ministério das Relações Exteriores — 1895 — pelo Mi- 
nistro Dr. Carlos A. de Carvalho 1 

Relatório do Ministério das Relações Exteriores — 1897 e 1898 pelo 

Ministro Dr. Dionísio E. de C. Cerqueira 3 

Relatório da Repartição do Estatística e Archivo do Estado de 
S. FauIo--1893 a 1897— pelo Director Dr. António do Tole- 
do Piza 5 

Relatório da Reqartiçao Geral dos Telegraphos— 1894— pelo Di- 
rector Geral F. M. de Souza Aguiar 1 

Relatório da Repartição Geral dos Tolegrapbos — 1898 — pelo Di- 
rector Geral Álvaro Joaquim do Oliveira 1 

Relatório da Secção do Deraographia do Estado do S. Paulo — 

1896— pelo Director Dr. Jaymo Serva 1 

Relatório da Secção do Obras da Intendência Municipal de S. 

Paulo- 1894— por J. F. Ortiz 1 

Relatório da Secretaria da Agricultura, Commercio e Obras Pu- 
blicas do Estado do Minas Geraes— 1898 o 1899— pelo Se- 
cretario Dr. Américo Werneck 2 

Relatório da Secretaria da Agricultura, Commercio o Obras Pu- 
blicas do Estado de S. Paulo 1892 a 1894 pelo Secretario 
Dr. Jorge Tibiriçá ^ 

Relatório da Secretaria da Agricultura, Commercio e Obras Pu- 
blicas do Estado de S. Paulo 18.^5 o 1893 pelo Secretario 
Dr. Theodoro Dias de Carvalho Júnior 2 



— 880 — 

Relatório da Secretaria da Agricultura, Coraraercio e Obras Pu- 
blicas do Estado de S. Paulo— 1898— e i899 pelo Secretario 
Dr. Alfredo Guedes (2 Exemplares) 4 

Relatório da Secretaria da Agricultura., Industria, Viaçáo e Obras 
Publicas do Estado da Bahia I89ó polo Secretario J. A. 
Costa 1 

Relatório da Secretaria da Fazenda do Estado deS. Paulo— 1897 

a 1899 pelo Secretario Dr. João Baptista de Mello Peixoto. 3 

Relatório da Secretaria de Finanças do Estado do Rio de Janeiro 

—1898 a 1900 — pelo Secretario Dr. João Rodrigues da Costa 3 

Relatório da Secretaria do Interior do Estado de S. Paulo — 1894 

—pelo Secretario Dr. Cesário Motta Júnior 2 

Relatório da Secretaria do Interior do Estado de S. Paulo — 1895 

-pelo Secretario Dr. Alfredo Pujol 2 

Relatório da Secretaria do Interior do Estado de S. Paulo— 1896 
— pelo Secretario Dr. António Dino da Costa Bueno (8 Exem- 
plares)] 3 

Relatório da Secretaria do Interior do Estado de S. Paulo — 1897 

—pelo Secretario interino Dr. João B. de Mello Peixoto . 1 

Relatório da Secretaria do Interior do Estado de S. Paulo— 1898 

-^pelo Secretario Dr. José Pereira de Queiroz 1 

Relatório da Secretaria do Interior e Exterior do Estado do Rio 

Grande do Sul— 1898— pelo Secretario Dr. João Abbot . . 1 

Relatório da Secretaria do Interior e Justiça do Estado do Rio 

da Janeiro — 1898 — pelo Secretario Dr. M. A. Silva Campos, 2 

Relatório da '^.ecretaria do Interior e Justiça do Estado do Rio 
de Janeiro — 1899 -pelo Secretario interino Dr. Hermogenio 
P. da Silva 1 

Relatório da Secretaria da Justiça do Estado de S. Paulo— 1894 

— pelo Secretario Dr. João Alvares Rubião Júnior ... 1 

Relatório da Secretaria da Justiça do Estado de S. Paulo — 1896 

—pelo Secretario Dr. Carlos de (Jarapos 1 

Relatório da Secretaria da Justiça do Estado de S. Paulo--1897 

— pelo Secretario Dr. Josó Getulio Monteiro (5 Exemplares) 5 

Relatório da Secretaria da Justiça do Estado de S. Paulo — 1898 

— pelo Secretario interino Dr. José Pereira de Queiroz . . 1 



— 381 — 

Relatório da Secretaria de Obras Publicas e Industrias do Esta- 1 
do do Rio de Janeiro— 1899— pelo iSecretario Dr. Hermogenio 

P. da Silva 1 

Relatório da Secretaria de Obras Publicas e Industrias do Estado 
do Rio de Janeiro~l900— pelo secretario Dr. Virgílio Fran- 

klira de Almeida Liraa 1 

Relatório da Sociedade Portugueza de Beneficência de S Fualo 

- 1899— pelo Conde de Joaquim 1 

Relatório do Tribunal de Contas (Federal)— 1899— pelo Presidente 

Dr. Didimo Agapito da Veiga. l 

Religiões da Lusitânia, por J. L. de Vasconcellos — Vol. 1 . . 1 

Religions (Histoire pittoresque des), por B. T« B. Clavel. . . 2 

Repertório jurídico do mineiro, por Francisco Ignacio Ferreira . 1 
Repertório das leis de S. Paulo — 1876 a 1889, por Alberto Souza 

e Josó Jaclntho Ribeiro 1 

Repertório da Revista do Instituto Histórico e Geographico Bra- 

zileiro relativo aos volumes 1 a 59 1 

Republica federativa no Brazil (A), Por A. F de Paula Souza . 1 

Resgate do papel-moeda, por Alexandre Góes (3 Exemplares) . 3 

Retraite de Laguna (La), por A. d'EscragnolleTaunay. ... 1 

Revelação histórica (Uma), por Benedicto G. de Moura Lacerda. 1 

Revista da Academia Cearense- T. 11—1897 1 

Revista Agrícola (S. Paulo)— 1895 a 19oO 4 

Revista do Archivo do Município da Capital da Bahia — N. 1 . . 1 

Revista do Archivo Publico Mineiro— 1895 a 1899 4 

Revista Braziloira— 1879 a 1881 10 

Revista Brazileira— 1895 a 1899 19 

Revista Contemporânea— \nno 1, N. 8-9, 1900 1 

Revista da Escola Polytechnica (Rio de Janeiro) 24 fascículos) . 24 

Revista de Estudos Livres — Anno I e II 2 

Revista Industrial (New-York — Vol. 1 a 5 2 

Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano. 4 

Revista do Instituto do Ceará 1 

Revista do Instituto Geographico e Histórico da Bahia ... 6 

Revista do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro ... 53 
Revista do Instituto Histórico, Geographico e Bthnographico do 



— 382 — 

Pará— N. 1 1 

Revista da Instituto da Ordem dos Advogados Brazileiros— 1862 

a 1893 5 

Revista do Jardim da Infância (S. Paulo) 1895 e 1898 ... 2 

Revista do Museu Paulista — Vol. I a IV 4 

Revista Pedagógica— 1890 a 1893 4 

Revista Pharmaceutica (S. Paulo)— 1895 a 1899 5 

Revista da Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro — 1885 a 

1900 8 

Revista Util, pelo dr. Domingos Jaguaribe — Vol. II e III (2 

exemplares) 4 

Revolução de Minas Geraes em 1842 (Historia da) 1 

Revolução do Pernambuco em 1817 (Historia da), por F. Muniz 

Tavares 1 

Rcvolution françaiso (Histolro do la), por J. Micholet .... 9 

Rhipsalis megalantlia, por Alberto Lõfgren 1 

Rio Grande do Sul, por Gustavo Koenigswald (2 exemplares) . 2 
Rio de Janeiro (A cidade do) — Estudos de hygicnc — pelo dr. T. 

Tapajós t 

Rio do Janeiro (O), pelo dr. Moreira do Azevedo 2 

Rio de Janeiro et Minas Geraes (Voyage dans los provinces de), 

por A. de Saint-Hilaire 2 

Rivista delia Massonoria (S. Paulo)— N. 1 1 

Rochas nepholinas do Brazil, por Orvillo A. Derby .... 1 

Romola, por George Eliot 1 

Rozas, Francla y Melgarejo, por Thomas 0'Connor. .... 1 

S. Paulo e Minas Geraes (Limites entre), por Orville A. Derby . 1 
S Paulo o Minas Geraes (Questões de divisas entre), por A. P. 

(10 exemplares; 10 

Saint Paul, por Ernest Renan l 

Salinas no Estado de S. Paulo (As), por Ad. Ovidi (3 exemp.) . 3 
Saneamento da cidade e porto do Santos, por E. A. Fuertes — 

Relatório (2) o Atlas 3 

Saneamento do porto o cidade de Santos, pelo dr. I. W. da 

Gama Cochrane 1 

Saneomento de S. Paulo, pelo dr. I. W. da Gama Cochrane. . 1 



— 383 — 

Saneamento de S. Paulo, polo Dr. Torquato Tapajós (2 Exem- 
plares 2 

Saneamento de Santos, pelo engenheiro F. S. Rodrigues Briío . 1 

San Paolo, por Gustavo Koenigswald (3 Exemplares) .... 3 

Santos, pelo Dr. Alfredo Moreira Pinto 1 

São Paulo, por Gustavo Koenigswald 1 

São Paulo (Era) — Notas do viagem— por Junius 1 

Saraeens (The), por Ed. Gibbon e S. Oekley t 

Saúva ou Manhii uára, por A. G. de Azevedo Sampaio ... 1 
Scioncias naturaes e physicas, polo Di. F. R. Fernandes ... 1 
Serzedello Corrêa (Biographia do Dr.)— Homenagem do povo pa- 
raense 1 

Silva Jardim — Apontamentos biographicos— por José Leão. . . 1 
Eocicdado Brazileira para Animação da Criação e Agricultura — 

Actas e estatutos o relatório de 1896-1897 2 

Sociedade Cooperativa do Bom Estar, pelo Dr. Dominp:os Jagua- 

ribe. * 1 

Sul de S. Paulo (O) — Contribuição para o estudo da geographia 

desta zona, pelo Dr. Domingos Jaguaribo 1 

Systcma métrico— Tabeliãs para conversão 1 

Tabeliã das gratificações aos agentes do Correio para 1895 a 1897. l 
Tabeliãs destinadas aos engenheiros, por Alfredo Lisboa ( 4 

Exemplares 4 

Tachcometria (Elementos de) — Cleps— por A. F. de Paula Souza. 1 

Tarifas da Estrada de Ferro de Bragança (Pará) 1 

Tejo a Paris (Do), por Oscar Leal 1 

Telegrapho óptico da cidade do Santos (Novo roteiro do). . . 1 

Ter as devolutas do Estado do S. Paulo (Leis sobre) .... 1 
Terras do propriedade do Dr. Domingos Jaguaribe, por Theodo- 

ro Sampaio t 

Théatre antique d' Aries (Monographie du) por Louis Jacquerain. 2 
Thcse do concurso á cadeira de portugucz da Escola Normal 

do S. Paulo, pelo Dr. J. Thomaz de Aquino 1 

Theses par.» conferencias nos districtos escolares do S. Paulo 

(2 Exemplares) 2 

Traç(;s biographicos, por Amâncio Pereira 1 



- 384 - 

Trechos clássicos para versões 1; 

Três grandes capitães da antiguidade (Histiria dos) — Alexandre, 

Annibal o César, pelo Dr. César Zama 1; 

Três grandes oradores da antiguidade (Traços biographicos e po- 
líticos dos) — Péricles, Deraosthcues e Cícero, pelo Dr. Cezar 

Zama 1 

Tribí.litas do grez de Ereré e Maccurú (As), por John M. Clarke. 1 

Tro! icale (Le)— Canti araericani — por Alessandro Sfrapíini . . 1 

União municipal - Conferencia pelo Dr. Domingos Jaguaribe . . 1 

Uorainí e cose dei Brasile, por Alessandro d'Atri 1 

Urina do doente de febre amarella (A), pelo Dr. J. Bonilha de 

Toledo 1 

Várzea do Carmo (A) — Pareceres (2 Exemplares) 2 

Vasco da Gama— Discurso pelo Dr. João Monteiro 1 

Vasco da Gama e a Vidigueira, por A. 0. Teixeira de Aragão. 1 

Velhice de Camões (A), por G. de La Landelle 2 

Viação do Brazil (Indicador geral da) — 1898 — por J. Cateysson. 1 

Viagem a um paiz de selvagens, por Oscar Leal 1, 

Viagem ao redor do Brazil, pelo Dr. J. S. da Fonseca ... 2 

Viagem á roda do meu quarto, por Xavier de Maistre. ... 1 
Viagens e captiveiro entro os selvagens do Brazil, por Hans 

Staden 1. 

Vida domestica (Noções de), por Félix Ferreira 1' 

Videiras americanas, pelo Dr. E. A. Goeldi ,1 

Villa Americana (Questão de), por António de Moraes Barros . t 

Villa Jaguaribe nos Campos do Jordão 1 

Villa Rica— Poema — por Cláudio Manoel da Costa t' 

Vocabulário brazileíro, por Braz da Costa Rubim t 

Vocabulário Sul Rio-Grandense, pelo Dr. J. Romaguera Corrêa. 1 

Voyage au Brésil, por Madame e M. Louis Agassiz .... 1, 



IMPRESSOS AVULSOS 

Alvará de 10 de Março de 1732 ordenando que de todo o Estado do- 
Brazil não vão mulheres para Portugal sem licença do rei. 



- 385 - 

Alvará de ^5 de Janeiro de 1809 ordenando que se nao passem car- 
tas de concessão ou confirmação de sesmarias sem preceder me- 
dição e demarcação judicial. 

Biograpliia do marechal Floriano Peixoto— Homenagem do povo pau- 
lista. 

Decretos de 1821 sobre soldos e etapas a officiaes e praças do exer- 
cito do Brazil (5 decretos). 

Demonstração do movimento commercial e marítimo da Republica 
Argentina com o porto de Santos durante o anno de 1897. 

Lei de 20 de Março de 1735 ordenando que na navegação para o 
Brazil das ilhas adjacentes ao reino de Portugal se não exceda 
o numero de navios que só lhes é permittido por seus privilégios 
e estabelecendo regras e penas. 

Mappa genealógico, histórico, chronologico, diplomático e litterario do 
reino de Portugal e seus domínios antigos e actuaes.— Pariz, na 
Typographia de Casimir, Rue de la Vieille Monnaie, 12 (10 exem- 
plares). 

Petição ao rei de Portugal por D. Luiz Amónio de Souza sobre pro- 
cedimento da Companhia de Jesus, acompanhada dos Alvarás re- 
lativos ao asdumpts — 1765. 

Privilégios concedidos aos mamposteiros e pedidores da casa e igreja 
de Santo António de Lisboa— 1760. 

Privilégios que gosam os ministros, ofiBciaes, thesoureiros mores e me- 
nores 4a bulia da Santa Cruzada— 1692. 

Proclamação do Brigadeiro Raphael Tobias de Aguiar aos Paulistas 
em 1842. 

Programma dos festejos promovidos pela Sociedade Commemoradora 
do 4.0 Centenário do descobrimento do Brazil de S. Vicente— 1900. 

Projecto apresentado ao Senado Brazileiro em Agosto de 1880 pelo 
Dr. Joaquim Floriano de Godoy estabelecendo as divisas entre 
S. Paulo e Minas Geraes. 

Regimento para os confederados na devoção da adoração perenne do 
SS. Sacramento, instituida na Bahia em 1693, por occasião da 
epidemia da bicha. 



- 386 — 

MANUSCRIPTOS 

Breve noticia do Capitão João Baptista Machado, polo Coronel Antó- 
nio Borges Sampaio. 

Carta imperial apresentando o Padre António Luiz Braz Prego na 
na Igreja parochial de N. S. da Conceição da villa de Santa Crnz^ 
Provinda o Bispado de Goyaz. — Passada aos 3 do Junho do 1856. 

Carta imperial nomeando Cavalloiro da Ordem de Christo o Padre 
António Luiz Braz Prego, Vigário coUado da parochia do Santa 
Cruz, na Província de Goyaz. — Passada aos 20 de Agosto dr» 1873 

Chronicas do Cuyabá ou Relação chronologica dos estabciecimentos, 
factos e successos mais notáveis que aconteceram nestas minas 
do Cuyabá desde o seu estabelecimento por ordem da rainha 
Notsa Senhora, expedida pelo seu Tribunal do Conselho Ultra- 
marino em 20 do Julho de 1782— por Joaquim da Costa Siqueira. 

Edital da Camará Municipal de Sorocaba, de 6 de Dezembro de 1817, 
sobre eleição de dois juizes ordinários e um procurador da Ca- 
mará para o anno de 1818 e sobre correição no municipio. 

Expulsão dos Jesuítas e causa que tiveram para ella os Paulistas 
desde o anno de 1611 até o de 1640 em que os lançaram fora 
de toda a capitania de S. Paulo e S. Vicente. 

Livro de assignatura dos visitantes do Club Republicano de S. Paulo, 

Ojficio, de 2 do Maio ne 1759, assignado por Sebastião Joseph do 
Carvalho e Mello, na ausência de D. Luiz da Cunha, enviando 
a Pedro da Costa Salema a carta regia dirigida ao Papa a res- 
peito dos Jesuítas. 

Officio, de 8 de Junho de 1842, do Director da Academia do Direita 
de S. Paulo, Dr. J. M. de Avellar Brotero, ccmmunicando ao 
Lente Dr. João Chrispiniano Soares que poderia ler no dia 11, 
visto retirar- se daquelle estabelecimento a tropa que ali se achava 
aquartelada. 

Officios, notas, informações, respostas a questionários, etc. enviados 
ao Dr. Alfredo Moreira Pinto por auctoridades e raunicipalidados 
do Paiz. 

Oração fúnebre á memoria do Padre Diogo António Feijó, por Cân- 
dido José da Mottá. 

Panegyrico de Pombal. 



- 387 - 

Papois e planta sobre a descoberta da pedra corameraorativa da de- 
claração da Independência do Brazil, na collina do Ypiranga. 

Plano para a remessa de tropas para o Sul, de Martim Lopes Lobo 
de Saldanha— 15 de Abril de 1777. 

Processo instaurado em S. Paulo contra os implicados na revolução 
do 1842. (Autos originaes — 4 volumes). 

Processo instaurado contra o Senador Diogo António Feijó por mo- 
tivo da revolução de 1842. (Traslado — 1 volume). 

Relação geral da diocese do S . Paulo, suas comarcas, freguezias, côn- 
gruas, usos e costumes, pelo Bispo de S. Paulo Fr. Manoel da 
Ressurreição, em 14 do Setembro de 1777. 

Successos da Provincia de Santa Cruz que vulgarmente se chama 
Brazil. 

Viagem do Capitão António Dias Baptista Prestes e seu irmão Manoel 
Dias Baptista Prestes desta Provincia de S. Paulo á Provincia 
do Cuyabá, em 21 de Abrii de 1851. 



MAPPAS 



Carta da Bahia organizada pelo Engenheiro Theodoro Sampaio (Tre- 
cho da) -Extractado pela Superintendência de Obras Pnblicas do 
Estado de S. Paulo— 1897. 

Carta chorographica da Capitania de S. Paulo em que se mostra a 
verdadeira situação dos logares por onde se fizeram as seteprln- 
cipaes divisões do seu Governo com o de Minas Geraes— 1766. 

Carta gcographica que comprehendo toda a comarca do Rio das Mor- 
tes, Villa Rica e parte da cidade de Marianna do Governo de Mi- 
nas Geraes. 

Carta geographica do Estado de Minas Geraes—Organizada pela Com- 
missão Geographica e Geológica do dito EStado-Folhas ns. 1 a 6, 
8 e 10. 

Carta geographica do Estado do S. Paulo— Organizada pela Coramissão 
Geographica e Geológica do dito Estado — Folhas do S. Paulo, 
Barra de Santos, Campinas, Jundiahy e Atibaia. 

Carta do Recôncavo da Bahia-Org,anisada pelo Dr. Theodoro Sam- 
paio -1899. 



- 388 — 

Carta topographica da Colónia de Surinara (Guyana Hollandeza), por 

A. A. Von Lavaux— 1715. 
Chart of the < oast of Brazil frora port Santos to the River riate (A 

new) — Drawn from the iatest surveys, by J. W. Norie— 1834. 
Chart of the River la fUata from its raouth up to Buenos- '^yres — Sur- 

veyed by order of the king of Spain ( \ new)— 1832. Additions, 1852. 
Chart of the Western Coast of Africa extending from Sierra Leone 

and the Isles de Los to the Cape of Good Ilope — 1834. Addi- 
tions, 1844. 
Map of British Colurabia, showing the Klondike, Cariboo, Kootonay, 

and other goLiflelds (Special). 
Map of China, Korea and Japan (Special). 
Map illustrating the Spanish-American war (Special). 
Map of the Nile from its moiith to Kartum (New) — Illustrating the 

operations of the Bgyptian Arniy in the Sudan. 
Map of the North-Western Frontier— With a map showing the over- 

land routes to ludia, and a military map of the índia Empire— 1897. 
Mappa da Capitania de Minas Geraes com a devisa de suas comar- 

cas-1778. 
Mappa chorographico da Província de S. Paulo, pelo Marechal Daniel 

Pedro Muller-1837. 
Mappa chorographico cie parte da Província de S. Paulo, organizado 

em vista do resultado das explorações mandadas fazer pelo Barão 

de Antonina em 1844 e 1845. 
Mappa dos Estados Dnides do Brazil — Desenhado e gravado sob a 

direcção do Barão de Rio Branco— 1895. 
Mappa geral da America do Sul Organizado por Henrique o Ricardo 

Kiepert e revisto na parte relativa ao Brazil o publicado por 

Gustavo Koenigswald-1893. 
Mappa geral da viação férrea dos Estados do Rio de Janeiro, S. 

Paulo e Minas Geraes, por Gustavo Koenigswald-1893. 
Mappa da guerra no Rio Grande de Sul — Suas principaes operações — 

pelo Tenente Francisco Rath e Coronel Bento Porto. 
Mappa indicando a situação de cidades, villas e distinctos de paz do 

Estado de S. Paulo até o fim do anno de 1897— Organizado por 

Canuto Thorman— 1898. 



~ 389 - 

Mappa parcial dos Estados de S. Paulo e Minas Geraes com indica- 
ção de todas as estradas de ferro era trafego e em construcção, 
etc— Organizado pelo Engenheiro Arthur H. 0'Leary— 1893 
Mappa terrestre e marítimo— Paraná, S. Paulo e Eio de Janeiro— por 

Jules Martin. 
Mappa do theatro da guerra do Paraguay, pelo Dr. Carlos Daniel 

Rath. 
Mappa topographico da Província do Paraná— Organizado pelo Enge- 
nheiro Carlos Kivierre — 1876. 
Mappa dos trabalhos preliminares para o traço ue um tramroad entre 

as colónias de Cananéa e Assunguy, pelo Engenheiro Raymundo 

Pennaforte A. do Sacramento Blake. 
Mappa da viagem de ida e volta nos três Estados do Sul do Brazil 

do revolucionário Gumercindo Saraiva e logar de sua morte, pelo 

Capitão José Scutari— 1894. 
Mappa da zona do rio Ribeira, pelo Dr. Ernesto Guilherme Young. 
Planta da cidade de S. Paulo levantada pelo capitão de engenheiros 

Rufino José Felizardo e Costa em 1810 — Reproducção de Jules 

Martin. 
Planta da cidade de S Paulo, por Hugo Bonvicini— 1895. 
Planta da cidade de S. Paulo com indicação do eixo dos encanamen- 
tos para o serviço de illuminaçâo a gaz e dos limites da decima 

urbana — 18i:)(j. 
Planta geral da capital do S . Paulo — Organizada sob a direcção do 

Dr. Gomes Cardim— 1897. 
Planta geral da cidade de Minas— Organizada pela Commissão Cons- 

tructora da nova capital do Estado de Minas Geraes sob a di- 
recção do engenheiro Aarão Reis. 
Planta da parte urbana, da cidade de Minas designada para 30.000 

habitantes — 1895. 
Planta indicando o logar, na coUina do Ypiranga, onde foi assentada 

a pedra commemorativa da independência do Brazil, pelo Dr. 

Carlos Daniel Rath. 
Planta de Villa Boa, capital da capitania de Goyaz, levantada no 

anno de 1782 pelo Governador e capitão general Luiz da Cunha 

Menezes. (Reproducção photographica) . 



— 390 — 

JORNAES 

Aurora (A)— Sorocaba. 

Brazilian Bevieiv {The)— Rio de Janeiro. 

Brim (A)— S. Paulo. 

Capital Paulista — S. Paulo. 

Ceciliana—S. Paulo. 

Cammercio de S. Faulo [O) — S. Paulo. 

Correio do Amparo, 

Correio do Avare. 

Correio Faiilistano — S. Paulo. 

Diário Offlcial do Estado de S. Paulo 

Diário Popular — S. Paulo. 

Diário de Santos. 

Diário de Taubaté. 

Ensaio (O) — Pindamonhangaba. 

Estado de S. Panlo (O) S. Paulo. 

Estreita (A) — Corityba . 

Farol Paulistano [0} — S. Paulo. 

Folha do Braz — S. Paulo. 

Gazeta de No íícías— Rio de Janeiro. 

Gazeta Fopalar — S. Paulo. 

Gazeta de Uberaba. 

Governista (O) — S. Paulo. 

ImiJerio (O) — S. Paulo. 

lyistrucção Popular— S), Paulo. 

Iracema — S. Paulo. 

Jornal do Oommercio — Rio de Janeiro. 

Jornal de Taubaté, 

Lavoura e Commercio — S. Pauio. 

Madrugaria (A) — Lisboa. 

Municipio (O) — S. Paulo. 

Isação (A) — S. Paulo. 

Noite (Ay— S. Paulo. 

Novidades — S. Paulo. 

Novo Farol Paulistano— S. Paulo. 

Observador Constitucional — S. Paulo. 

Ondma-^S. Paulo. 



— 391 ^ 



FauUsta Offkial (Oj— S. Paulo. 
Flatca (A)— S. Paulo. 
Folichinello — S. Paulo . 
Repórter (O) — Ribeirão Preto. 
Repnblica — Rio de Janeiro. 
Revista do P«míuí— Corityba . 
Santos Commerciul—Sa.ia.tos . 
Temps (Le)— Paris. 
Thema (O)--S. Paulo. 
Verdade e Luz — S. Paulo. 
Vicentino — S . Vicente. 



AUCIllVO 

Retratos, estampas e photographias existentes em 25 de Outu- 
bro de 1900. 

RETRATOS 
Arcebispos da Bahia. 

Cariot) Gomes. 

Cesário Motta Júnior (Dr.) 

Euzebio de Queiroz CM. Camará. 

Floriauo Peixoto (Marechal). 

Germano do Annecy (Frei). 

Jean Maurice de Nassau. 

Libero Badaró. 

Luiz de Camões. 

Luiz Gama. 

Pedro de Souza Holstein (D.) -Marquez do Palmella. 

Prudente José de Moraes Barros (Dr.) 

Tiradentes— J. J. da Silva Xavier. 

Visconde do Rio Branco. 

William Ewart Gladstone. 

ESTAMPAS E PHOTOGRAPHIAS 
Aerostato de invenção do Dr. Domingos Jaguaribe. 
Antiga Gloria (Cam>3ucy). 



— 392 — 

Colombo embarcando era Hespanha e desembarcando na America. 

Ediflcios da cidade de S. Paalo em 1810 (Alguns). 

Esquadra hollandeza em Pernambuco— 1628. 

Exterior e interior da Bgreja do Collegio fS. Paulo). 

Fachada, entrada e salas da Bibliotheca Publica de S. Paulo. 

Monumento commemorativo da independência da Bahia (Bahia). 

Monumento a Gonçalves Dias (Maranhão). 

Monumento á memoria de Varnhagem (Morro Araçoyaba em Ypane- 

ma— S. Paulo). 
Ponte de S. José do Rio Pardo (S. Paulo). 
Quadro commemorativo do centenário do Brazil — Trabalho das offlci- 

nas do Lyceu do Sagrado Coração — S. Paulo. 
Quadro commemorativo da inauguração do Viaducto do Chá (S. Paulo). 
Quadro da correspondência das horas entre as capitães dos Estados 

do Brazil e a cidade do Rio de Janeiro. 
Ruinas da antiga villa de Santo André (S. Paulo). 



MEDALHAS E MOEDAS 

RECEBIDAS NO ANNO DE 1900, QUE ACCRESCEM AOS CATÁLOGOS PUBLICADOS 

Offerta do sr. Hermann A. Reipert: 
4 Cédulas. 
4 Medalhas. 
81 Moedas de cobre. 
2 Moedas de nickel. ^ 

22 Moedas de prata. 

Oflfertas de diversos : 
Medalha commemorativa do anno santo. 
Medalha commemorativa da campanha do Paraná. 
Medalha commemorativa do centenário do Brazil— Cunhada no Rio 

de Janeiro. 
Medalha commemorativa do centenário do Brazil— Distribuída pelo 

Instituto Histórico e Geographico Brazileiro. 
Medalha commemorativa do centenário do Brazil — Distribuída por 

Julius Meili. 
Medalha commer^orativa da inauguração da estatua do Duque de Caxias. 
Moeda portugueza de cinco róis. 



393 — 



Quadro 

DOS SÓCIOS ACCEITOS NO ANNO DK 1900 



NOMES 



CATEGORIA 



DATA 

DA 

ACCEITAÇÃO 



Dr. Augusto Carlos da Silva 
Telles 

Horace E. Williams .... 

João Varapré 

Augusto Álvaro de Carvalho 
Aranha 

Manoel Pio Dias í^ereira Corrêa. 

António Ferreira Neves Júnior . 

General Conselheiro Francisco 
Maria da ('unha 

António Alexandre Borges dos 
Reis 

Henrique Raffard 

Bernardo de Azevedo da Silva 
Raraos 

Dr. Thomaz Garcez Paranhos 
Montenegro 

Dr. José de Mesquita Barros . 

Dr. João Baptista de Moraes . 

Major Paulo Pinto Auto Ran- 
gel 

José Jacintho Ribeiro. 

Dr. Dinamerico Augusto do Re- 
go Rangel 

Dr. Arthur Vautier .... 

Dr. António Cândido Rodri- 
gues 

Dr. Carlos de Arruda Sam- 
paio 

Dr. Luiz Porto Moretzsohn de 
Castro 

Dr. Galeno Martins de Almei- 
da 

Dr. Sérgio Meira 



Effectivo 


5 


Correspondente 


19 


Honorário 


fi 


Effeí^tivo 
Honorário 


5 
>» 


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,, 


Correspondente 
EíTectivo 


4 


M 


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5 


Correspondente 


20 


>» 


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Eftectivo 
>> 


25 
»» 


Correspondente 


» 



Abril 
Maio 

M 

J» 

Julho 
» 

Agosto 
Setembro 

>• 

Outubro 



RELAÇÃO GERAL 



DOS 



MEMBROS DO INSTITUTO 

EM 31 DE DEZEMBRO DE 1900 



SÓCIOS FUNDADORES 



Sócia fundador benemérito 

1 Dr. Orvillo A. Derby. 

Sócio fundador honorário 

2 Dr. Prudente José de Moraes Barros. 

Sócios fundadores effectivo3 

3 Alberto Lofgren. 

4 Dr. Alexandre Florindo Coelho. 
.5 Alexandre Riedel. 

6 Dr. Alfredo Ellis. 

7 Dr. Alfredo Rocha. 

8 Dr. António Carlos R. de Andrada M. e Silva. 

9 Dr. António Dino da Costa Bueno. 



— 395 — 

10 Dr. António Evaristo Baceliar. 

11 Dr. António Francisco do Araújo Cintra. 

12 Dr. António Francisco de Paula Souza. 

13 Antanio Moreira da Silva. 

14 Dr. António Pereira Prestes. 

15 Dr. António da Silva Prado. 
18 Dr. António de Toledo Piza. 

17 Prof. Arthur Goulart. 

18 Augiísto César Barjona. 

19 Dr. Augusto César de Barros Cruz. 

20 Dr. Augusto César do Miranda Azevedo. 

21 Dr. Augusto do Siqueira Cardoso. 
23 Dr. Benedicto Estellita Alvares. 

23 Dr. Bento Bueno. 

24 Dr, Bernardino de Campos. 

25 Dr- Braulio Gomes. 

2S Br. Cândido Nazianzeno Nogueira da Motta. 

27 Dr. Carlos do Campos. 

28 Dr. Carlos Reis. 

29 Dr. Cincinato Braga. 

30 Dr. Clementino de Souza e Castro. 

31 Dr. Constante Aftonso Coelho. 

32 Dr. Domingos José Nogueira Jaguaribe. 

33 Eduardo Carlos Pereira. 

34 Sranianuel Vanorden. 

35 Dr. Ernesto de Moraes Cohn. 

36 Dr. Eugénio Alberto Franco. 

37 Eugénio HoUender, 

38 Dr. Fergo 0'Connor de Camargo Dauntre. 

39 Dr. Fortunato Martins de Camargo. 

40 Dr. Francisco Ferreira Ramos. 

41 Francisco Ignacio Xavier do Assis Moura. 
4'i Dr. Francisco Martiniano da Costa Carvalho. 

43 Dr. Francisco de Paula Ramos de Azevedo. 

44 Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves. 

45 Dr. Gabriel Osório de Almeida. 



— 396 — 

46 Tenento-coronol Gabriel Prestes. 

47 Dr. Gabriel de Toledo Piza e Almeida. 

48 Dr. Gustavo Koenigswald. 

49 Tonente-coronel Henrique Aftonso de Araújo Macedo. 

50 Henry White. 

51 Dr. Herraann von Ihering. 

52 Dr. Horace M. Lane. 

53 Horácio de Carvalho. 

54 Dr. Hyppolito de Camargo. 

55 Dr. Ignacio Wallace da Gama Cochrane. 

56 Dr. Jayme Serva. 

57 Dr. João Alvares Rubião Júnior. 

58 Dr. Joáo Neporauceno Nogueira da Motta. 

59 Dr. João Nogueira Jaguaribe. 

60 Dr. Joáo Pedro da Veiga Filho. 

61 Dr. João Pereira Monteiro. 

62 Dr. João Ribeiro de Moura Bscobar. 

63 Padre Joaquim Soares de Oliveira Alvim. 

64 Dr. Joaquim de Toledo Piza e Almeida. 

65 Coronel Joaquim de Toledo Piza e Almeida. 

66 Dr. Jorge Tibiriçá. 

67 Dr. José Alves de Cerqueira César. 

68 Dr. José Alves Guimarães Júnior. 

69 José André do Sacramento Macuco. 

70 Dr. José Baptista Pereira. 

71 Dr. José Cardoso de Almeida. 

72 Dr. José Eduardo de Macedo Soares. 

73 Dr. José Estacio Corrêa de Sá o Benevides. 

74 Dr. José Ferreira Garcia Redondo. 

75 José Francisco Soares Romeo. 

76 Dr. José de Sá Rocha. 

77 Dr. José Valois de Castro. 

78 Dr. José Vicente de Azevedo. 

79 Dr. Jullo César Ferreira de Mesquita. 

80 Dr. Luiz de Anhaia Mello. 

81 Dr. Luiz de Toledo Piza e Almeida. 



I 



— 397 — 

82 Dr. Manoel Álvaro de Souza Sá Vianna. 

83 Dr. Manoel António Duarte de Azevedo. 

84 Dr. Manoel Ferraz de Campos Salles. 

85 Dr. Manoel Ferreira Garcia Redondo. 

86 Manoel Marcellino de Souza Franco. 

87 Dr. Manoel de Moraes Barros. 

88 Dr. Manoel Pereira Guimarães. 

89 Dr. Manoel Pessoa de Siqueira Campos. 

90 Dr. Martim Francisco Ribeiro de Andrada Sobrinho. 

91 Dr. Martinho Prado Júnior. 

92 Dr. Mathias Valladão. 

?'3 Dr. Oscar Schwenk d'Horta. 

94 Dr. Pedro Augusto Gomes Cardim. 

95 Dr. Pedro Vicente de Azevedo. 

93 Dr. Raymundo Fartado Filho. 

97 Dr. Rodolpho Pereira. 

98 Tancredo Leite do Amaral Coutinho. 

99 Dr. Theodoro Dias de Carvalho Júnior. 

100 Dr. Theodoro Sampaio. 

101 Theophilo Barboza. 

102 Comraendador Thoraaz Paulo do Bom Successo Galhardo. 

103 Tiburtino Mondim Pestana. 

104 Dr. Vicente Liberalino de Albuquerque. 

105 Dr. Virgílio de Rezende. 

106 Dr. Viriato Brandão. 

107 Dr. Wencesláu de Queiroz. 



— 398 — 
SÓCIOS HONORÁRIOS 



N O M E S 



Data da admissão 



1 Barão Homera de Mello 

2 Bellarmino Carneiro 

3 Barão de Paranapiacaba 

4 Barão do Rio Branco . 

5 Dr. Georges Ritt. 

6 Dr. Alexandre J. de Mello Moraes Filho . 

7 Dr. Sylvio Romcro 

8 Dr. Tristão de Alencar Araripe .... 

9 Dr. Tristão de Alencar Araripe Júnior. . 

10 Dr. Joaquim Francisco de Assis Brazil 

11 Dr. Frederico Augusto da Silva Lisboa . 

12 Dr. Augusto Freire da Silva 

13 Dr. Olegário Herculano de Aquino o Castro 

14 Dr. Affonso Celso Júnior 

15 Jules Martin 

16 Padre Raphael M. Galanti 

17 Dr. Manoel Duarte Moreira de Azevedo . 

18 Cons.» Augusto Carlos Teixeira de Aragão 

19 Jalius Meili 

20 D. Martin Garcia Mérou 

21 Dr. Joaquim Aurélio Nabuco do Araújo . 

22 Dr. João Capistrano de Abreu .... 

23 Dr. João Barbosa Rodrigues 

24 Dr. Jolm C. Branner 

25 General Francisco xMaria da Cunha . . 

26 Bernardo de Azevedo da Silva Ramos. . 

27 Henrique Raffard 

28 Dr. Thomaz Garcez Paranhos Montenegro 



Junho 
Julho 
Agosto 
Setembro 

Outubro 

Maio . 
Fevereiro 

Março . 
Setembro 
Abril . 
Julho . 

Outubro 

Julho . 
Outubro 

Maio . 
Julho . 



1895 
1895 
1895 
1895 
1895 
1895 
1895 
1895 
1895 
1895 
1895 
1896 
'897 
1897 
1897 
1897 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1899 
1899 
1899 
190o 
1^00 
1900 
1900 



— 399 — 
SÓCIOS EFFECTIVOS 



NOMES 



•Data da admissão 



9 
10 
11 
12 
13 
14 
15 
W 
17 
18 
19 
20 
21 

h 

24 
25 

x'6 

27 

29 
31 

:^2 

33 

34 
35 

:-!6 
37 

38 
39 
40 
41 
42 



Dr. Jorge Maia 

Dr. Ernesto Guilherme Young . . . 
Dr. Luiz Pereira Barrotto .... 

Dr. Alfredo de Toledo (*) 

Dr. Raymundo P. A do Sacramento Blake(* 

Dr. Alfredo Pujol 

Dr. Eduardo da Silva Prado. . . . 
Dr. Álvaro Augusto da Costa Carvalho 
Dr. Francisco Eugénio de Toledo . 
Dr. António Augusto xMoreira de Toledo 
I>r. Francisco Franco da Rocha. . . 
Bencdicto Galvão de Moura Lacerda . 
Dr. José de Campos Novaes (*). . . 
Dr, João Baptista do Oliveira Penteado 
Dr. Luiz Frederico Rangel de Freitas . 
José Hippolyto da Silva Dutra (*) . . 
João Vieira do Almeida (*) .... 
Arcediago Dr. Francisco do Paula Rodrig. (* 
Cónego Manoel Vicente da Silva . . 
Dr. António Gomes 1'armo .... 
Monsenhor Caraillo Passalacqua. . . 
Dr. Ji sé Getulio Monteiro .... 
Professor Christiano Volkart. . 
Dr. Affonso Arinos do Mello Franco 
Dr. José Vicente do Azevedo Sobrinho. 

Dr- Tullio de ( ampos 

Dr. Brazilio Augusto Machado de Oliveira 
Dr. Pedro Augusto Carneiro Lossa (*) . 
Dr. Francisco de Faula Santos Rodrigues (* 
Dr. João António do Oliveira Cosar (*). 
Dr. João Diogo Esteves da Silva . 
Coronel António Borges Sampaio . . 
Dr. Augusto Carlos da Silva Telles. . 

Horaco E. Williams 

João Vampró 

Augusto Álvaro de Carvalho Aranha . 
António Alexandre Borges dos Reis. . 
Dr. João Baptista de Moraes. . . . 

Major Paulo Pinto Auto Rangel. . . 
José Jacintho Ribeiro ...... 

Dr. Carlos de Arruda Sampaio . . . 
Dr. Luiz Porto Moretzsohn de Castro . 



Junho 



Agosto 
Setembro 
Outubro 
Março 



Abril 

>> 
Agosto 

Abril 



Maio 
Julho 
Março 
Abiil 



Junho 
Agosto, 
Setembro 
Abril 



Maio 
Julho 
Agosto 



Setembro 
Outubro 



1895 
1895 
1895 
1895 
1895 
1895 
1895 
1897 
1897 
1897 
1897 
1897 
1807 
1897 
1897 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1901) 
1900 
lU30 
190O 
1900 
190O 
1900 
1900 
1900 
1900 



(*)— '"«s sócios cujos nomes estão seguidos deste signal foram admittidos no Instituto 
como sócios correspondentes nas datas mencionadas, tendo sido transferidos para a cate- 
goria de effectivos em sessão de b de í^evereiro de 19U0. 



— 400 — 
SÓCIOS CORRESPONDENTES 



NOMES 



Data da admissão 



I 

^ 

3 

4 

n 

f) 

7 

8 

9 

10 

11 

V2 

13 

14 

15 

16 

17 

18 

19 

20 
21 
22 
23 
24 
25 
26 
27 
28 
2Í) 
30 
31 
32 
33 
34 
35 
36 
37 
H8 
39 
40 
41 



Dr 
Dr 
Dl" 



Dr Ernecito Goulart Penteado . . 

Francisco Corrêa de Almeida Moraes 

Dr. Luiz Gonzaga áa. ^ilva Leme . 

Uionysio Caio da Fonseca . . 

Coronel Agostinho José Moreira Rollo 

Dr. José Estanlslau de Arruda Botelho 

Dr. João Alves Corrêa do Amaral. 

Cândido de Carvalho . . . 

Amadeu Amaral .... 

Dr. Bernardo Morelli. 

Álvaro Augusto de Toledo 
Joaquim Monteiro de Mello 
Manoel Dias de Aquino e Castro 

Dr. José Roberto L^^ite Penteado . 

Ur. Joí>é Pereira do Queiroz. . . 

Dr. Euclydes da Cunha .... 

Camillo Cresta 

Josô Honório de Sillos .... 

Dr. Francisco Marcondes de Gouvêa 
vidade 

Dr. Bernardo de Campos. . . . 

José Gomes dos Santos Guimarães. 

Dr. António Augusto Gomes Nogueira 

Dr. 4oâo Baptista de Mello Peixoto 

Dr. Francisco de Toledo Malta . . 

Dr. Rodolpho Viiranda 

Dr. João Francisco Malta Júnior . 

Dr. Aristides Salles 

Victor da Silva Freire Júnior . 
António Manoel Bueno do Andrada 

Dr. António Alves de Carvalho 

Dr. Arthur M. Cortines Laxe 

Francisco Nicolau Baruol. . 

Dr. Carlos Augusto de Freitas Villalva 

Dr. José Maria Bourroul. 

Jesuino da Silva Mello .... 

Dr. Luiz Felippe Gonzaga de Campos 

Dr. Manoel Pedro Monteiro Tapajós 

Dr. Eugénio de Andrade Egas . . 

Dr. José Maria Lisboa Júnior . . 

Dr. Carlos Ekman 

Dr. Llantidio T. de Figueiredo Bretãs 



Nati 



Dr. 

Dr. 



Junho . 
Outubro 
Maio . 

Junho . 

Fevereiro 



Março 



Abril 
Maio 
Julho 
Julho 



Agosto 

Outubro 

Abril 



Maio 
Julho 



1895 
1895 
1896 
1896 
18^6 
1896 
1897 
1897 
.897 
1897 
1897 
1897 
1897 
1897 
I8w7 
1897 
1897 
1897 

1897 
1897 
1897 
1^97 
1897 
1897 
1897 
1897 
1897 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 



401 



NOMES 



Data da admissão 



42 Dr. Jorge Krichbaura 

43 Dr. Mário Bulcão 

44 Dr. Delfim Carlos Bernardino e Silva . . 

45 Paulo Orosirabo de Azevedo 

46 Dr. Luiz Augusto Nogueira 

47 fJoão Vieira da Silva 

48 Dr. .íosé Calmou Nogueira ValledaGaraa 

49 Dr Carlos Augusto Pereira Guimarães . 

50 Professor Aprigio Carlos de Macedo . 

51 Dr. Alberto Carlos de Assumpção . 

52 Dr. Virgílio do Sá Pereira 

53 Dr. ')osé Custodio Alves Lima .... 

54 Cons.o Bernardo Avelino Gavião Peixoto . 

55 Dr. Fernando de Albuquerque .... 
5(5 Commeddador Eugénio Leonel Ferreira . 

57 Professor João von Atzingen 

58 Dr. Samuel das Neves 

59 Dr. Estevam Ribeiro de Souza Rezende (Ba- 

rão de Rezende. . 

60 Dr. loaquim Campos Porto 

61 Dr. Manoel ' orrêa Dias 

6*2 Dr. Pedro Arbues da Silva 

63 Tobias António Rosa . 

64 Dr. Uladislau Herculano de Freitas . 

65 Dr Affonso Regulo de Oliveira Fausto . 

66 Dr. António de Paria Tavares . . - . 

67 Dr. António Martins Fontes ríunior. . . 

68 Dr. ( arlos Ribeiro do Moura Bscobar . . 

69 Dr. Firmiano de Moraes Pinto .... 

70 Dr. Ignacio Pereira da Rocha .... 

71 Dr. ioão Alves do Lima 

72 Dr. Ioão ' esar Bueno Bierrenbach. . . 

73 Dr. Ioão Eboli 

74 ioão Florindo 

75 Dr. José Maneei de Azevedo Marques . . 

76 Dr. José Pinto do Carmo Cintra. . . . 

77 A. L. Garraux 

78 Dr, José Marcondes de Andrade Figueira 

79 Professor Alfredo Bresser da Silveira. . 

80 Dr. José Aranha 

81 Dr. 'osé Vieira Couto de Magalhães Sob.o 

82 Malachias Ghirlanda 

83 Dr. António do Pádua Salles .... 

84 Dr. Cleofano Pitaguary de Araújo . . . 

85 Dr. Eduardo da Cunha Canto .... 



Julho . 
Setembro 



Outubro 



Outubro 

Março 
»» 

Abril 
>> 

i> 
Junho 



Julho 

Agosto 
I) 

Setombri 

>> 
Setembro 



1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
1898 
!8'r)9 
1899 
1899 

1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
[89ií 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 
1899 



— 4Ò2 — 



NOMES 



Data da admissão 



86 
87 
88 
89 
90 
91 
92 
93 
94 
95 
95 
97 
93 
99 
100 



Dr. Joaquim Álvaro de Souza Camargo . 

Dr. José Aristides Monteiro 

Dr. José Leito de Souza 

Dr. José Rodrigues Peixoto 

Dr. Oscar do Almeida 

Tenente-Coronel Felicio de Campos Cintra 

Major Luiz de Vasconeello? 

António Ferreira Neves Junior .... 
Manoel Pio Dias Pereira Corrêa. . . . 

Dr, .'osé de Mesquita Barros 

Dr. Dinamerico Augusto do Rego Rangel. 

Dr. António < andido Rodrigues.. 

Dr. Arthur Vautier ...... 

Dr, Galeno Martins de Almeida. . . . 

Dr. Sérgio Meira 



Outubro 



20 1 Setembro 

áo; 

20Í 

20 

20 

25 

25 

19: Maio . 

I9j " 

4j Agosto. 

5 'Setembro 
201 " . 
20| " . 
25: Outubro 
25| 



189í> 
18&» 
1899^ 
189^ 
189^ 
189Í> 
189Í> 
1900 
190O 
1900 
190C» 
1900 
190(> 
190o 
1900 



RELAÇÃO DOS SÓCIOS FALLECIDOS 



Dr. Severino de Freitas Prestes . . . 
Dr. Aureliano do S. Oliveira Coutinho 
Dr. Martinho de Freitas Vieira de Mello. 

Dr. Cesário Motta Junior 

Dr. Joaquim José de Menezes Vieira. 

Dr. Carlos Daniel Rath 

José Ferraz de Almeida Junior 

António Augusto da Fonseca .... 



Fundador 

Honorário- 
Fundador 
Honorário 
Fundador 



BALANÇO 



DA 



RECEITA E DESPESA 



DO 



Insliluto Histórico c Gcographico de S. Paulo 



FECHADO EM 25 DE OUTUBRO DE lOOO 



RECEITA 

Saldo (leraonstrado no balanço apresentado cm 25 do 

Oatubro de 1899 fíuá^SQO 

Annnidades de sócios— 4l a 24^000 984^000 

Jóias e annuidades~13 a 74$000 962g000 

Sabvençáo do Estado, votada pelo Congresso Legislativo 

para este anno 6:000j?C0O 

Frodueto da venda em leilão de um mostrador envidra- 
çado 17^00 

Idem de venda dos apparelhos de luz eléctrica da casa 

do Largo da Sé 150^000 

Idem do 1 exemplar da Revista 8$000 

10:836jJ7!3n 



— 404 — 

DSEPBSA 

Aluguel da casa do Largo da Sé (Outubro a Dezembro 

de 1899 e Janeiro de 1900)— 4 mezes a 310)^0000. . 1:240$000 

Idem idem (1 de Fevereiro a 31 de Agosto de 1900)— 7 

mezes a 250JS(000 1:750^000 

Gratificação ao zelador (Outubro a Dezembro de 1899 e 

Janeiro a Outubro de 1900)— 13 mezes a 60^(000. . 780$000 

Encadernação de 12 volumes do Jornal do Commercio e 
Gazeta de Noticias e de diversos volumes de livros, 
talões para recibos, carimbos e outros objectos para 
a secretaria e thesouraria 488P00 

Impressão do 4.o volume da Revista 4:150)^000 

Porcentagem ao cobrador pelo recebimento de jóias e 

annuidades I94j$!600 

Flores, lavagens da casa, vassouras, espanador, sólios 
para a correspondência, estampilhas e despesas miú- 
das I05j${000 

Importância de diversas contas pagas á Companhia Agua 
e Luz, Companhia Industrial, EspindoU, Siqueira & 
Comp, Pinto, Leal & Comp., Estado de S. Paião, 
Camará Municipal, Casa Garraux, Cardoso, Maga- 
lhães Barker & Comp., etc, pelos fornecimentos fei- 
tos, panno para a mesa, escarradeiras e moringas, 
aluguel de cadeiras e tapetes, etc, 1:601^460 

Transporte de livros e moveis da casa do Largo da Só 

para a actual sede social 56$000 

Conta de Caetano Apostólico, importância de serviços e 
materiaes por occasião da mudança para a casa 
actual 283j5!700 

10:643$760 



— 405 — 



RESUMO 

Receita 10:866$760 

Despesa I0:643jt;760 

Saldo nesta data '. Z 226^000 

Sendo : 

Em conta corrente no Banco de Credito Real de S. Paulo. 14P00 

Em mao do thesoureiro . . 208$700 

Somma ........... 223pÕÕ 

S. Paulo, 25 do Outubro de 1900. 

O thesoureiro, 
António de Toledo Piza. 



Balancete da receita e despesa de 1 de Novembro a 31 
de Dezembro de 1900 



RECEITA 

Saldo demonstrado no balanço apresentado pelo 
ex- thesoureiro em 25 de Outubro p.p. . 
Jóias e l.as auMuidades dos sócios : 

Professor Christiano Volkart .... 

Dr. Joaquim Álvaro de S. Camargo . . 
Annuidades dos sócios : 

Dr. Francisco de F. Rodrigues Alves— 1900 

Dr. José Alves Guimarães Júnior— 1900. 

José Francisco Soares Romeo — 1900 . 

Dr. José E. de Macedo Soares — 1900. . 

Dr. Theodoro D. de Carvalho Júnior— 1898 a 
1900 

Alexandre Riedel— 1899 

Tiburtino Mondim Pestana— 1899 e 1900. 

Dr. Fergo 0'Connor de C. Danntre— 1899 e 

Dr. Cândido N. N. da Motta— 1900 . . 

Dr. Álvaro Augusto de Toledo— 1899. . 



1900 



223^000 

74^000 

74j$(000 148)5(000 



24jS(000 
24S000 
24$000 
24j$(000 



I20í$(000 
24p00 
4Sj$(()00 
48j$(000 
24 55(000 

24g000 384^000 
755gÕÕÕ 



— 406 



DESPESA 

TTelegrarama ao Ministro Argentino 

Aluguel de cadeiras para a sessão magna do 1 de No- 
vembro 

Aluguel das salas onde funcciona o Instituto e respectiva 
illuminação, no prédio n. 1-A da rua General Carnei- 
ro, relativo aos mezes de Setembro e Outubro de 1900 

Gratificação ao zelador relativa aos mezes do Novembro e 
Dezembro de 1900 

Porcentagem ao cobrador 

Estampilhas para dois requerimentos ao Governo, sellos 
para a correspondência e expedição da obra de Hans 
Staden a jornaes, associações, estabelecimentos, etc. 



16^20 

430;gOOO 
1.20$00() 

31^18^ 
697^700 



RESUMO 

Eeceita" 7õ5$^000 

Despesa 697^700 

Saldo nesta data òTpQO 

Sendo : 
2so Banco do Credito Eeal do S. Paulo . . . 14^300 

Em mâo do abaixo assignado 43^000 òlpOO 



S. Paulo, 31 de Dezembro de 1900. 



O tliesoureiro, 
Carlos Rei&, 



I'