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REVISTA
DO
Instituto Histórico e Geograpliico
DE
SÃO PAULO
VOLUME V
1899 — 1900
SAO PAULO
TYPOGRAPHIA DO «DIÁRIO OFFICIAL»
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CHRONICAS
DOS TEMPOS COLONIAES
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REVISTA
DO
Instituto Histórico e Geograpliico
DE
SÃO PAULO
VOLUME V
1899 — 1900
SÃO PAULO
TYPOGRAPHIA DO «DIÁRIO OFFICIAL»
190X
IlsrDIOE
PAGS.
CHRONICAS DOS TEMPOS COLONIAES :
O Supplicio do Chaguinhas, pelo dr- António de Toledo Piza . 3
Martim Francisco e A Bernarda pelo dr. António de Toledo
Piza 48
O SERTÃO ANTES DA CONQUISTA (SÉCULO XVÍI), pelo dr.
Theodoro Sampaio 79
EVTARISTO FERREIRA DA VEIGA (COMMEMORAÇÃO HIS-
TÓRICA), pelo dr. Tullio de Campos 95
O TENENTE GENERAL AROUCHE RENDON, pelo dr. António
de Toledo Piza 105
REFLEXÕES SOBRE O BRASIL, pelo capitão Van Vliervelt . 135
O PROCESSO VIMIEIRO-MONSANTO, pelo dr. António de To-
ledo Piza 145
ESCRIPTURA DE DOTE DO CONDE DA ILHA DO PRÍNCIPE . 151
ARVORE GENEALÓGICA DE MARTIM AFFONSO DE SOUZA
E PEDRO LOPES DE SOUZA 158
RELAÇÃO DOS CAPITÃES LOCO TENENTES DA CAPITANIA
DE S. VICENTE, por Fr. Gaspar da Madre deDeos . . 159
CATALOGO DOS GOVERNADORES DA CAPITANIA DE ITA-
NHAEN, por Marcellino Pereira Cleto 177
NOTAS AVULSAS, sobre a historia de S. Paulo, por Fr. Gas-
par da Madre de Dios 180
PRIMEIRA PHASB DA QUESTÃO DE LIMITES ENTRE SÃO
PAULO E MINAS GERAES NO SÉCULO XVIIÍ, pelo dr.
Orville A. Derby .....,, t ...» . 19^
IV
PAGS
AUCTORIDADES COLONIABS NA RAIA DE S. PAULO E
MINAS GERABS NO SÉCULO XVIII, pelo dr. Orvillo A.
Derby 221
OS PRIMEIROS DESCOBRIMENTOS DE OURO EM MINAS
GERAES, pelo dr. Orville A. Derby 240
OS PHIMEIROS DESCOBRIMENTOS DE OURO NOS DISTRI-
CTOS SABARÁ E CAETHÉ, pelo dr. Orville A. Derby. . 279
DISCURSO DO DR. MANOEL PEREIRA GUIMARÃES, fazendo
o elogio dos sócios fallecidos 296
ACTAS DAS SESSÕES DO ANNO DE 1900 313
RELAÇÃO DAS OFFERTAS DE LIVROS, REVISTAS, MAPPAS,
JORNAES, ETC , FEITAS AO INSTITUTO DURANTE O
O ANNO DE 1900 344
RELATÓRIO DOS TRABALHOS B OCCORRENClAS DO INSTI-
TITUTO DURANTE O ANNO DE 1900 349
CATALOGO DOS LIVROS. IM PRESSOS, MANUSCRIPTOS, MAP-
PAS E JORNAES, RECEBIDOS DURANTE O ANNO DE
' 1900 . - . 355
RETRATOS, ESTAMPAS E PHOTOGRAPHIAS EXISTENTES
NO ARCHIVO, EM 25 DE OUTUBRO PB 1900 .... 391
MEDALHAS B MOEDAS RECEBIDAS NO ANNO DE 1900. . 392
QUADRO DOS SÓCIOS ACCEITOS NO ANNO DE 1900. . . 393
RELAÇÃO GERAL DOS MEMBROS DO INSTITUTO EM 31 DE
DEZEMBRO DE 1900 394
SÓCIOS HONORÁRIOS 398
SÓCIOS BPFBCTIVOS 399
SÓCIOS CORRESPONDENTES 400
BALANÇO DE RECEITA E DESPESA DO INSTITUTO EM 25
DE OUTUBRO DE 1900 403
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CHRONIOAS DOS TEMPOS GOLCNIAES
O supplicio do Chaguinhas
No moio dos importantes acontecimentos occorridos em S. Paulo
nos annos de 18.21—22, que trouxeram a esta cidade o principe Dom.
Pedro, regente do Brasil, e deram cccasião a que fosse dado nas col-
iinas do Ypiranga o brado patriótico de Independência ou morte, pas-
sou-se quasi despercebida dos historiadores a execução da pena de
morte applicada no largo da Liberdade a um tal Chaguinhas, pelo
crime de ter chefiado em Santos uma sedição mititar nos últimos dias
do mez de Junho de 1821.
Realmente, o facto em si não tinha importância alguma, porque
a execução de uma pena de morte, sob o regimen colonial, era cousa
por demais communi para attrahir a attenção de quem quer que fosse
« Chaguinhas não ora homem tão conhecido e de tal valor intellectual
ou moral que a sua morte, no cadafalso, causasse impressão dura-
doura sobre o espirito daquella geração convulsionada pelos graves
acontecimentos precursores da nossa emancipação politica.
Entretanto, a execução daquella sentença de morte foi rodeada
de tantas peripécias dolorosas para o paciente e para as numerosas
pessoas que a ella assistiram e de tantas circumstancias mysteriosas,
e o nome do velho Martim Francisco apparece nella de um modo tão
odioso para os corações sensíveis, e principalmente para os patriotas,
que valo bem a pena dar-lhe alguns momentos de attenção e empre-
— 4 —
gar algum esforço na tentativa <le desvendar aquelles mysterios o de-
limpar a memoria do grande paulista de qualquer tra(,'0 de odiosidad»
que sobre ella tenha recahido e que o tempo ainda. nao tenha conse-
guido destruir.
E' uma espécie do reivindicação histórica que vou tentar, wm
processo de revisão de um julgamento errado que tem sido transrait-
tido de geração em geração até o presente, para que a boa fama da-
quelle brazileiro illustro passe á mais remota posteridade escoiraada
de uma injusta e odiosa imputação.
Para chegar, porém, a este resultado, preciso fazer algumas li-
geiras referencias não somente á historia colonial de S. Paulo, como
também aos movimentos revolucionários da Europa e da America, que
tanto contribuíram para a divulgação das idóas liberaes entre os bra-
sileiros e para a realização da independência do Brasil era 18";?2. Este
ligeiro retrospecto servirá para explicar a razão de ser muitos factos
obscuros e para mostrar o estado do espirito publico em S. Paulo na
occasião ora que teve logar o supplicio do Chaguinhas.
Tratarei agora da execução da pena de morte a que foi condem-
nado o infeliz Chaguinhas e depois, era outra chronica intitulada
Martim Francisco e a Bernarda, terei occasião de apresentar algu-
mas versões sobre a parte que este illustre paulista tomou naquella.
odiosa execução.
A proclamação da independência dos Estados Unidos da America,
do Norte em 1776, seguida de uma guerra de sete annos e da victo-
ria final dos Yankees, auxiliados por Lafayette e outros enthusiastas
da liberdade, echoou era todo o mundo civilizado e produziu no Bra-
sil a prematura e desastrosa Inconfidência mineira, que levou Tira-
dentes ao cadafalso e tantos brazileiros illustres ao degredo perpetuo-
nas inhospitas regiões da costa d'Africa.
D. Bernardo José de Lorena era então o capitão general de São-
Paulo e com razão afBrmava que oâ paulistas eram ainda bastante
fieis ao rei e amantes da monarchia para se interessarem de um,
— 5 —
'modo sympathico e positivo pelos acontecimentos que estavam se pas-
sando na vizinha capitania de Minas Geraes. Assim era ainda, com
©ffeito, e S. Paulo nao tomou parte alguma naquelle nobre e patrióti-
co movimento, iniciado pelos mineiros em prol da liberdade do paiz,
comquanto nello participassem mais ou menos activamente os dois
irmãos paulistas Luiz Vaz de Toledo Piza e o padre Carlos Correia
de Toledo. 1'orém, a semente estava lançada pelos mineiros, deitou
raízes em todo o paiz e devia germinar e produzir os seus fructos
em tempos mais opportunos.
Parallela cora a modesta e trágica rebelliao de Villa Rica e ain-
da como repercussão da independeocia dos americanos e fructo das
doutrinas de Rousseau e dos encyclopedistas, rebentou era Paris a
gigantesca revolução de 1789^ que começou arrazando a Bastilha, fa-
mosa fortaleza e prisão de E-tado, verdadeiro symbolo do despotis-
mo real que pesou sobre a P'rança por tantoi»^ séculos, e acabou der-
rocando todas as velhas instituições francezas e creando uraa nova
ordem social e politica, baseada nos inalienáveis direitos do homem
«orno cidadão.
Durante as saníi ninarias guerras quo se seguiram por ura quarto
de século os exércitos vidoriosos da Republica Franceza e do pri-
meiro Napoleão levaram a todos os recantos da Europa as novas
idéas de liberdade pelo regimen representativo apoiado sobre a
soberania popular, da eguald\de de todos perante o direito, e de
FRATERNIDADE dos homous oriuudos da miasma raça, falando a mes-
ma lingua, professando a mesma religião e vivendo sob as mes-
mas leis.
Todos os governos se agitaram para a sua defesa commum con-
tra a inva ãa do jacobimsmo francez. Portugal e Hcspanha, não
obstante as barreiras naturaes do oceano e dos Pyreneu?, foram fi-
nalmente arrastados á lucta e invadidos por tropas extrangeiras, e
a península ibérica transformou-se por seis annos em campo de san-
guinolentas batalhas entre os francezes e os naturaes da terra, se-
•cundados pelos inglezes.
As numerosas colónias hespanholas da America aproveitaram-se
«da anarchia que dominava a metrópole para sacudirem o seu jugo^
- 6 —
três vezes secular, e entrarem no convívio dos povos livres e inde-
pendentes .
A Bolivia foi a primeira a levantar-se, em 1808, luctou heroica-
mente por muitos annos e só conseguiu assegurar a sua liberdade
em 18,24, depois da estro ti dosa victoria do general Sucre scbre o&
hespanhóes em Ayacuco. Auxiliado por seu isolamento no interior
da Amojica, vem de perta o Paraguay, que proclamou a sua inde-
pendência em 1809 e íirmou-a em 1814, sob a chefia do celebre
dictador Francia. O México, capitaneado por Hidalgo, rompeu a lu-
cta pela liberdade em 1810 e só a terminou em 1829, com a brilhan-
te victoria de Tampico. Nova Granada, Venezuela e Equador move-
ram-se em 1811, sob a direcção do grande Bolivar, e flzeram-se livres
em 1819. Buenos-Ayres, rebellada em 1811, já no anno seguinte
estava desembaraçada dos seus oppressores e enviava o seu illustre
general San Martino acudir ao Chile, que estava a braços com o&
hespanhóes desde 1810 e cuja independência ficou afiBrmada em 1820^,
pelas grandes victorias de Chacabuco, Maypú e Valdivia. O Peru:
começou tarde o seu movimento, pois só entrou na lucta em 18^1 ;
porém, soccorrido por Bolivar, ficou livre em 1824 pela victcria deci-
siva de Junin, Toda a America Central também se libertou em 1821
e só restaram á Hespanha, de todos os seus vastos dorainios no Novo
Mundo, as ilhas de Cuba e de Porto Rico, que agora acaba de perder
em seguida a uma rápida e desastrosa lucta com os Estados Unidos.
O Brasil foi um tanto retardatário neste movimento libertador da
America latina, porque a família real portugueza, fugindo em 1807
deante dos exércitos invasores da França, tinha vindo se installar no
Eio de Janeiro e com a sua presença entre nós a situação geral dos
brasileiros melhorou consideravelmente. A aspiração á independência
tinha de alguma forma sido satisfeita porque, de facto, a colónia
agora jà não era mais o Brasil, mas Portugal, visto que a rainha aqui
residia e do Rio de Janeiro eram expedidas as ordens para as diversas
partes do reino, na America, na Europa, na Ásia e na Africa. O mo-
vimento revolucionário de Pernambuco, em 1817, que custou a vida a
Abreu e Lima, Domingos Theotonio, Barros Lima, padre Tenório e
outros, foi de caracter regional e não teve repercusão séria na maio-
ria das províncias.
Uma vez livres Portugal e Hespanha das invasões francezas e
sem receios de novos perigos, porque Napoleão cahiu para sempre em
Waterloo o foi reraettido para Santa Helena, onde ficou até sua morte
sob a segura guarda do governo inglez, voltaram as velleidades reco-
nolizadoras destas duas nações ibéricas. Tratou a Hespanha de re-
conquistar pelas armas as suas colónias sublevadas e Portugal de re-
haver a familia real e de recoUocar o Brasil no seu antigo estado de
feitoria explorada até o martyrio em proveito da metrópole.
Entretanto, o sentimento da liberdade e o horror ao despotismo,
implantados naquellas duas nações pela influencia da Revolução Fran-
ceza ou pelos effeitos reflexos das revoluções das colónias americanas,
tinham invadido as metrópoles e contaminado os seus povos, de tal
forma que, em 1820, a Hespanha e Portugal estavam em plena revo-
lução liberal para a adopção de governos constitucionaes.
As Cortes reunidas cm Lisboa organizaram as bases de uma con-
stituição politica, que foram acceitas por D. João VI, quando ainda resi-
dia no Rio de Janeiro, e mandadas jurar e executar por decretos de 24
de Fevereiro e do 10 de Março de 1821 . Em seguida as mesmas Cortes
chamaram para Portugal o rei João VI, não somente para que Lisboa
voltasse a ser, como dantes, a capital damonarchia, mas também para
que a presença da familia real livrasse o reino do jugo dos inglezes,
que vinha se prolongando desde 1808 e se tornara intolerável com o ás-
pero e despótico Beresford.
Partiu João VI para Lisboa em Abril de 1821, deixando no Rio
de Janeiro o príncipe D. Pedro, seu filho, como regente do Brazil, que
ainda continuava a ser parte integrante do Reino Unido de Portugal,
Brasil o Algarves. Este facto transtornou uma parte dos planos das
Cortes portuguezas, que não contentes com a transferencia do governo
do Rio para Lisboa e com a posse do rei, ainda por um decreto de 31 de
Outubro do mesmo anno, ordenaram que o príncipe D. Pedro também
se recolhesse para Lisboa sob o pretexto de que presoisava de se ins-
truir, viajando pelas capitães das grandes nações européas, mas de
facto para retirar do Brasil toda a apparencia do governo autonómico
e fazel-o voltar ao velho regimen colonial.
II
Entre a partida de João Vi e a chamada do principe regente
teve logar era S. Paulo a deposição de João Cariís Augusto de Oey-
nhausen do cargo de capitão general, que exercia desde 1819, e a
eleição de ura governo provisório, que foi acclamado polo povo e
pela tropa aqui aquartelada. João Carlos já havia governado regular-
mente bem as capitanias do Ceará e Matto Grosso e desta foi remo-
vido para o governo de S. Paulo quando as idéas liberaes iam se
tornando farailiares a to^las as classes sociaos e o sentimento, ainda
um pouco vago, da independência estava latente em todos os corações.
A revolução liberal do Porto, em 1820, e a adopção de um pro-
jecto de constituição, relativamente livre, que foi logo acceito e ju-
rado em todo o Brasil, vieram levantar o espirito abatido dos paulis-
tas e fazel-os pensar seriamente na organização dum novo governo
que fosse mais consentâneo com o estado politico da nossa sociedade
e satisfizesse as suas justas aspirações á posse de um regimem mais
humano e menos arbitrário.
«Desde então, tornando-se geral a fermentação, só faltava que
apparecesse alguém que íosse bastante arrojado para dar o primeiro
impulso e realizar a suspirada raudança de governo.» Esse alguém
bastante arrojado appareceu na pessoa de José Innocencio Alves Al-
vim, neto do historiador Pedro Taques, moço de muito talento e de
boa instrucção, e liberal extremado, que tocou o signal de alarma no
sino da cadeia, reuniu o povo e a tropa e realizou a idéa do se-
guinte modo :
Estacionavam nesta capital um batalhão de caçadores sob o
comraando do coronel Lazaro José Gonçalves, um de cavallaria mili-
ciana sob as ordens do coronel António Leite Pereira da Gama Lobo
e um de infantaria de milicia, chefiado pelo coronel Francisco Ignacio
de Souza Queiroz. Havia festas na cidade nos dias 21 e 22 de Junho
de 1821 e, sendo costume as tropas tomarem parte nellas, com revis-
tas e exercicio-, estavam todas aquarteladas à de promptidão. No
dia 23, antes que o povo se retirasse e as tropas deixassem o
quartéis, José Innocencio e seu irmão Joaquim Alvim, entendendo que
era chegada a occasião de realizar o ideal revulocionario, que avas-
— 9 —
sallava todos os espíritos, foram ao paço municipal, tocaram rebate
no sino da camará e, com vivas á religião, ao rei e á conslituivão,
pregaram a necessidade da proclamação de um governo provisório.
Os coronéis Lazaro Gonçalves, Gama Lobo e Souza Queiroz,
apenas notificados do movimento, correram com os seus respectivos
corpos a secundal-o, emquanto o povo pelo seu lado não ficava in-
dillerente e vinha se juntar aos patriotas para a realização do seu
nobro desideratom. Uma coramissão foi logo enviada ao ouvidor D.
Nuno Eugénio de Lossio e Seilbz, convidando-o para que viesse assis-
tir á reunião ; outra coramissão partiu á procura do juiz de fora Ni-
coláo de Siqueira Queiroz o dos ve eadores António Vieira dos San-
tos, João Franco da Rocha, José de Almeida Ramos e Amaro José de
Moraes para que comparecessem immmediatamente no paço da ca-
mará, emquanto uma 'ommissão militar, composta de três capitães,
ia a casa de J< só Bonifácio do Andrada e Silva, que havia dois antios
tinha voltado do Europa, depois duma ausência de mais de trinta
annos, se achava residindo era Santos e estava de passeio nesta ca-
pital, para convJdal-o a vir presidir a reunião j guiar os revolucio-
nários nos seus primeiros passos tendentes ao estabelecimento de ura
governo popular.
r^eimidos todos no ediflcio da Camará Muniaipal, onde José Boni-
fácio foi recebido com salvas de palmas, estrondosos applaus'^s e raui-
tos e repetidos gritos : Viva o Senho- Conselheiro, assumiu elle a pre-
sidência e dirigiu ao povo uraa curta o patriótica fala, que convém
reproduzir aqui :
« Senhores, eu sou muito sensível á honra que me fazeis, cle-
gendo-rae para presidente da eleição do governo provisório que pre-
tendeis installar. Pela felicidade da minha pátria eu farei os mais
custosos sacriflcios até derramar a ultima gotta do meu sangue. Esta
eleição, senhores, só pôde ser feita por acclamação unanime ; descei
á praça e eu da janella vos proporei aquellas pessoas que, por sou
talento e pela opinião publica já por vós manifestada, rac parecem di-
gnas de ser eleitas.»
Neste ponto foi José Bonifácio interrompido por alguns cidadãos,
que protestaram contra a entrada no novo governo, que deveria sor
liberal e generoso, de alguns homens que se tinham tornado antipa-
— 10 -~
thicos ao povo por terem sido partes dos governos tyrannieos ante-
riores. Era prudente este alvitre, como os factos vieram logo demons-
trar; porôni; José Bonifácio, que nunca se tinha envolvido em politi-
ca e vivera até então inteiramente absorvido pelos seus trabalhos
scientificos o litterarios não sentia no seu coração de patriota os
mesmos azedumes que affligiam o coração do povo o por isso respon-
deu aos protestantes nos seguintes termos :
« Senhores, este deve ser o dia da reconciliação geral entre to-
dos. Desappareçam ódios, inimizades e paixões. A pátria seja a
nossa única mira. Completemos a obra da nossa regeneração politica
cora socego e tranquillidado, imitando a gloriosa conducta dos nosso^
irmãos de Portugal e Brasil. Persuadido de que haveis posto era
mim vossa confiança, acceitei o convite que me fiz^ístos e aqui estou
prompto a trabalhar pela causa publica. Si de facto confiaes em mira
e estaes resolvidos a portar-vos como homens de bem, então eu me
encarrego do procurar a vossa felicidade, expondo a propia vida ; mas,
si outros são os vossos sentimentos, si o vosso fito não se dirige so-
mente ao bem da ordem, si pretendeis manchar a gloria que vos pôde
resultar deste dia e projectaes desordens, então eu me retiro, ficai e
fazei o que quizerdes.>
O povo em massa resrondeu a esta enérgica e decisiva allocução
protestando as suas boas intenções e o desejo sincero de acatar a
opinião de José Bonifácio, em quem depositava inteira confiança.
«Pois bem, continuou elle, descei então á praça e approvae da-
quelles que cu nomear os que mais vos merecerem.»
Desceu o povo ao lavgo, onde se misturou com a tropa alli esta-
cionada. O ouvidor, o juiz de fora e os vereadores, com o estandarte
da Camará, tomaram posição em uma janella, emquanto José Bonifá-
cio assomava a outra e dictava ao povo, agglomerado no largo, os
nomes das pessoas que entendia estarem no caso de servir no go-
verno que se ia organizar. O primeiro nome lembrado por elle e ac-
ceito pelo povo foi do ex-capitão-general João Carlos de Oeynhausen
para presidente, exigindo em seguida a massa popular que elle pró-
prio acceitasstí o cargo de vice-presidente, ao que José Bonifácio an-
nuiu. Acceita essa quasi imposição e combinados os outros nomes,,
ficou o novo governo composto do seguinte curioso pessoal:
^ 11 —
Presidente — General João Carlos Augusto do Oeynhausen.
Vice-presidente — José Bonifácio de Andrada e Silva.
Secretario do Interior 8 Fazenda— Martira Francisco Ribeiro de
Andrada.
Secretario da Guerra — Coronel Lazaro José Gonçalves.
Secretario da Marinha — Chefe de Esquadra Miguel José de f'li-
veira Pinto.
Deputados pelas Armas — Coronéis António Leite Pereira da Gama
Lobo e Daniel Pedro Miiller.
Deputados pela Agricultura — Dr. Nicoláo Pereira de Campos Ver-
gueiro e Coronel António Maria Quartim.
Deputados pelo Coramercio — Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão
e Francisco Ignacio de Souza Queiroz.
Deputados pelas Sciencias e Educação— Padre Francisco de Paula
e Oliveira e professor André da Silva Gomes.
Deputados pelo Ecclesiastico — Padres Felisberto Gomes Jardim e
João Ferreira de Oliveira Bueno.
Feita esta escolha do pessoal que devia compor o Governo pro-
visório do S. Paulo e presidir ao inicio de uma nova era que todos
esperavam que fosse de paz, de liberdade e de progresso, lavrou-se
alli mesmo, em livro da camará municipal, um termo da eleição ac-
clamada que se acabava de fazer, do juramento das bases da consti-
tuição, de religiosa observância das leis o de preito e vassalagem a
D. João vi, rei constitucional de Portugal, Brasil e Algarves, e á
dynastia de Bragança.
No meio do maior enthusiasmo seguiram os vereadores e alguns
dos novos eleitos, acompanhados de muito povo, tropa e musica, todos
cantando o hymno constitucional, para a casa do general João Carlos
a communicar-lhe a sua eleição. Tendo este acceito o cargo de pre-
sidente do novo governo, trouxeram-n'o para o paço municipal, onde
o general prestou o competente juramento nas mãos do bispo D. Ma-
theus de Abreu Pereira, com toda a solemnidade o em presença de
muito povo. Passou-se dalli para a egreja da Sé, onde foi cantado
Te Deum em agradecimento de tantos benefícios. A' noite foi illu-
minada a cidade e houve espectáculo do gala no theatro, que era
mesmo em frente ao palácio, sendo representado o drama Disciplina
- 12 -
Militar no Norte e o hymno coní^titueional cantado por senhoras dos
camarotes acompanhadas pelo povo em coro na piatéa.
Pen-avam os paulistas terem deste raodO; sem derramarem uma
só gotta de sangue, sem o minimo incidente desagradável, quebrado
para sempre os ferros da escravidão e completado a obra da sua re-
organização politica; porem os factos se incumbiram do de.i onstrar
que a obra estava ainda muito em começo e que sò dahi a cinco
annos é que elles entrariam na vida normal dos povos livres e inde-
pendentes .
Ill
O governo popular acclamado em S. Paulo no memorável dia 23
de Junho de l^^ál, como vimos, íicou composto de quinze membros e
trazia era seu próprio seio o germom da sua dissolluçâo, por ser
miico mais numeroso do que convinha para a harmonia e unidade de
sua acção e conter em si os elementos mais heterogéneos que naquel-
le importante momento histórico se poderiam encontrar nesta capital.
Só a falta absoluta de conhecimento dos homens e das cousas
politicas, a mais completa inexperiência da administração e "ma re-
quintada boa ré, levada até a ingenuidade e própria dos paulistas
daquelles tempos, ó que poderiam ter produzido este inviável raos-
trengo politico, a que se deu o pomposo nome de Governo Provisório
de S. Paulo e sobre o qual depositaram os nossos avós as suas mais
caras esperanças.
O próprio José Bonifácio, que foi quem deu-lhe origem, não
tinha conhecimento dos homens cora quem estava tratando, pouco on
nada sabia das condições intellectuaes e moraes do povo paulista e
nâo estava habilitado a fazer uma justa selocção e collocar the right
man in the right place. Nas»;ido em Santos om 1763 e alli crescido
até os desesete annos. era 17<Sl foi enviado a Portugal, onde for-
mou- se na universidade de Coimbra, com grande reputação pelos
seus vastos talentos litterario e scientiflco. Viajou em seguida por
quasi toda a Europa durante déz annos, instruindo-se principalmente
era scieucias naturaes, e voltou em 1800 a Portugal, onde ficou ainda
muitos annos, corao lente de metallurgia na mesma universidade de
— Í3 -
Coimbra, e onde combateu, á frente de ura batalhão académico, con-
tra os francezes durante a invasão de 1807. A única funcção de
caracter politico que desempenhou durante a sua longa residência em
Portugal foi a de chefe de policia da cidade do Porto ao tempo de
invasão do general Soult, era 1808. Esta coramissão durou pouco tempo
e foi de caracter mais militar do que politico pela anarchia interna
que teve de suffocar e pela invasão extrangeira que devia repellir.
Com ella pouca experiência adquiriu sobre politica e administração.
. So em 1819 foi que voltou elle ao Brasil, depois de uma ausên-
cia de trinta e oito ann »s. durante os quaes » raundo civilizado tinha
sofifrido uma completa transformação politica e social e havia surgido
um mundo inteiramente novo das ruinas directa ou indirectamente
produzidas pela Revolução Franceza. Não poderia elle neste longo
período de tempo ter adquirido conhecimentos especiaes do que se
passava na sua terra natal, já porque vivia muito occupado com os
seus trabalhos scientiflcos, já porque os factos que se davam na Eu-
ropa eram por demais importantes para tomarem o seu tempo nas
horas vagas dos seus estudos, já porque não havia em Portugal e
Brasil imprensa desenvolvida que servisse de reflexo dos soffriraen-
tos o necessidades dos povos, já porque eram raros os livros de
viagens sobre o Brasil, com a narrativa dos costumes e condições
politicas e sociaes dos brasileiros, e já, finalmente, porque a nave-
gação maritiraa, coraquanto rauito raelhorada de i808 era diante,
depois da chegada da família real ao Rio de Janeiro e da abertura
dos nossos portos a > commercii» de todas as nações amigas, era
ain la muito limitada, muito defl^iente, e foi por muitos acnos emba-
raçada pelas guerras napoleónicas.
Chegado ao Brasil, José Bonifácio veiu logo se estabelecer era
Santos, sua terra natal, onde continuou seus estudos de historia na- .
tural e onde tinha pouca opportunidade para fazer o conhecimento
dos homens e das cousas de S. Paulo pelo meio acanhado em que
vivia e pelas pequenas relações então existentes entre a província e
o seu principal porto commercial. Em 1820 fez, com seu irmão Mar-
tira Francisco, uma viagem pelo interior para flns inteiramente scien-
tiflcos e pouco se relacionou com os seus patrícios para se identificar
cora os seus costuraes e conhecer as suas necessidades e aspirações.
- 14 -
Nâo foi elle chamado de Santos para vir a esta capital tomar a
direcção do movimento politico que se iniciava ; mas, estando nesta
cidade, a passeio ou a negocio, julgaram os auctores do movimento
ser medida de prudência e de sabedoria convidal-o para presidir a
projectada eleição do novo governo e assim cobrir o acto revolucio-
nário que iam praticar com o nome já illustro do grande santista,
muito respeitado e admirado pela própria familia real de Bragança.
Não foram, portanto, a experiência da politica e da administração
e o profundo conhecimento dos homens e das coisas da sua pátria
que naqualle momento os paulistas admiravam em José Bonifácio e
que os levaram a acceitar os seus conselhos e a sua direcção na
transformação politica por que iam passar, mas sim o facto de ser
elle um brasileiro nato e ainda mais brasileiro por sentimento, do ser
um homem verdadeiro c honrado e possuir um nome já feita e res-
peitado tanto no paiz como no extrangeiro.
E andaram os paulistas muito acertadamente, porque, comquanto
os effeitos immeãiatos de intervenção de José Bonifácio na direcção da
politica em S. Paulo fossem de caracter um tanto negativo, visto que
ella não trouxe a desejada harmonia entre os habitantes da província
e muito menos entre os próprios membros do Governo Provisório e
deu o pretexto para o celebre motim conhecido pelo ridículo nome de
Bernarda de Francisco Ignacio, comtudo as consequências mediatas
que delias se seguiram foram de grande importância e utilidade para
o paiz, por isso que a sua entrada para o Governo Provisório deu
ensejo a que elle fosse enviado, como delegado especial, ao Rio de
Janeiro para persuadir ao }*rincipe Regente a que desobedecesse as
ordens das Cortes de Lisboa o que ficasse no Brasil,— missão esta que
elle desempenhou cabalmente era Janeiro de 1822 e fez que elle fosse
sem demora aproveitado por D. Pedro para ministro do Interior o de
Extrangeiros, era cujo cargo adquiriu direito ao titulo que a postei i-
dade lhe deu de patriarcha da nossa independência.
Martim Francisco Ribeiro de Andrada, irraão raais moço e
genro de José Bonifácio, nascido era Santos era 1774, foi tarabem
enviado a Coimbra, onde formou-se era raatheraaticas, e com o tempo
tornou-se ura distincto raineralogista e escreveu Memorias, que foram
— 15 —
publicadas na Revista do Instituto Histórico Brasileiro e peio Journal
des Mines. Foi inspector de minas e bosques da capitania de S.
Paulo, possuia conhecimentos de economia politica e foi o melhor
financeiro do tempo da independência. Como poucos annos se demo-
rou era Portugal e passava quasi todo o tempo viajando pela capita-
nia de S. Paulo, conhecia bem os paulistas e estava bom ora dia com
as suas condições intellectuaes e moraes. Caracter «talhado pelo
molde grego», patriota illustrado o altivo, profundamente brasileiro,
rigorosamente honesto, corajoso na afirmação das suas opiniões e
partidário convicto da independência, era Martim Francisco no Gover-
no Provisório a personificação do espirito paulista e como tal era elle,
desde longa data, aborrecido pelos portuguezes em geral e especial-
mente pelo capitão general Franca e Horta, que, cioso do seu mérito
e da sua altivez, o denunciara por diversas vezes ao governo colonial.
Já pelo seu duplo parentesco com José Bonifácio, já pela perfeita
conformidade de idéas e da sentimentos, existia entre clles uma tão
notável solidariedade do vistas c de proceder que, junto a alta capaci-
dade intellectual o moral de ambos, fazia o desespero e a raiva, ora
concentrada, ora mexeriqueira e tumultuaria, dos partidários do re-
gimen colonial.
O BRIGA.DEIR0 Manoel Rodrigues Falcão cra um paulista muito
distincto por seu caracter, pela numerosa e illustro familia a que per-
tencia e pela sua grande furtuna, adquirida por herança e no com-
raercio. Residia em 1822 na rua Direita n. 21, tinha 42 annos de ida-
de, era casado com uma filha do coronel José Pedro Galvão, tinha um
casal de filhos era tenra edade o um illegitirao Je 17 annos, estudante
na occasião; sustentava em sua casa uma cunhada solteira e um so-
brinho moço, também estudante e possuia desoito escravos de serviço
domestico e a jornal. Era amigo particular do Martim Francisco e
solidário cora as suas idéas politicas ; partilhava por isso algum tan-
to do ódio que os absolutistas votavam aos irmãos Andradas e foi
uma das victimas de A Bernarda.
O CORONEL Lazaro José Gonçalves era portuguez de nascimento,
mas brasileiro de coração. Nascido em Ijisboa, de 41 annos de edade,
casado, tinha uma filha, residia na casa n.o 1 na Travessa do Padre
— 16 —
Capão, obscura rua do bairro da Consolação, nas visinhanças da ac-
tual chácara do major Benedicto António da Silva, onde hoje está o
reservatório de agua da Consolação, e possuia sete escravos de ser-
viço domestico. Foi um militar distincto e prestou excellentes sei vi-
ços ao lirazil em vários tempos, principalmente no Rio Grande do
Sul, e quando marchou para o Rio de Janeiío á frento da brigada
dos Leaes Paulistanos, em Janeiro de 1822, para defender aquella ca-
pital e o governo de t). Pedro, contra as forças portuguezas alli esta-
cionadas, que se tinham revoltado e se constituído em serio periga
pa-ra a causa da independência. Quasi sempre ausente desta capital,
ora no Rio, ora em Santos, sempre em commissões importantes, pou-
ca parte tomava nas resoluções do Governo Provisório c nelle ora
tão sensivel a sua falta quanto era útil a sua presença nos legares
onde a ordem e a liberdade perigavam.
O CORONEL António Lfite Pereira da Gama Lobo era p^rtuguez
de nascimento, mas veiu ainda moço para S. Paulo, aqui casou- se na
importante familia Arouche Rendon e commandava ura corpo de ca-
vallaria miliciana. Tomou parte activa na proclamação do Governo
Provisório, auxili u efficazmente o coronel Lazaro Gonçalves na con-
ducção da brigada dos Leaes Paulistanos ao Rio de Janeiro e esteve
prcseote no Ypiranga ao grito de * Independência ou morte!» Militar
em serviço activo e em frequentes commissões fora, o seu voto pesava
pouco nos conselhos do governo, mas pendia prudente e cautelosa-
mente para a causa da independência.
O PADRE Francisco de Paula Oliveira era profOissor e homem
de pouco valor politico. Como membro do Governo Provisório era
assiduo nas suas sessões e, coraquanto fosse um espirito liberal, como
a maioria do clero paulista do tempo, a sua presença servia roais
para fazer numero do que para resolver questões de alta e grave
ponderação.
A-iDRÉ DA Silva G )Mes era portugaez, natural de Lisboa, de 68
annos de edade, casado com Maria Gracia, paulista, tendo uma filha
solteirona quinqaagenaria e dez escravos. Residia no pateo de S.
Gonçalo n.» 7, era professor de grammatica latina, tenonte-coronel de
- 17 —
milícias e muito entendido era musica. O seu voto no governo náo
pesava mais do que o do padre Paula Oliveira, seu collega como re-
presentante das Letras e das Sciencias.
O CÓNEGO JoÁo Ferreira de Uliveira Bueno era um velho de 77
annos, nascido em S. Paulo, thesoureiro da Só, espirito liberal e bom.
Possuía grande e excellente fazenda de assucar no actual município
á^ Capivary, fez viagens de catechese de índios pelus rios Tietê e
Paraná e escreveu ilf em. rias, que foram publicadas na Revista do Insti-
tuto Histórico Brasileiro. Residia na lua do Rosário, hoje Quinze de
Novembro, n. 1, em companhia do padre Marcelino Porreira Bueno, de
diversos aggregados e de dez escravos. Como força politica pouco
valia pela sua edade e por seu estado religioso. O seu collega padre
Felisberto Jardim era natural do Rio Grande do Sul, espirito egual-
mente liberal e honesto, porôm. o seu valor politico não era superior
ao dos padres Paula Oliveira e João Ferreira e de André Gromes, e to-
dos estes eram absolutamente incapazes de entrar em lucta com o
elemento retrogrado e reaccionário, que procurava por todos os meios
assumir a preponderância na direcção do Governo Provisório.
NicoLAO Pereira de Campos Vergueiro era outro portuguez de
nasciraentro e brasileiro de coração, nascido em Lisboa, de 42 annos,
formado em direito pela universidade de Coimbra, estabelecido em S.
Paulo desde 1802 e aqui casado com D. Maria Angélica deVasconcel-
los, paulista, com cinco filhos, daas aggregadas e nenhum escravo. Re-
sidia na rua Direita n. 14. Espirito muito liberal e progressista, fez
mais tarde saliente figura na politica nacional, occupando os mais al-
tos cargos a que ura cidadão podia chegar, inclusive o de regente do
império depois da queda do Pedro 1 ; porôm, homera ordeiro, modera-
do e pacifico não inspirava receio nera teraores aos adversários da
independência e nao foi por elles arrastado a toraar parte na lucta
travada contra os Andradas.
Eram estes os membros que representavam no governo o elemen-
to paulista, fítvoravel á liberdade e á independência, e tinham como
adherentes ás suas idéas, liberaes e adeantadas, o bispo D. Matheus,
o notável sacerdote Manoel Joaquim do ^Amaral Gurgel, o cónego
— 18 —
Ildefonso Xavier Ferreira, Joaquim Floriano do Tolede, mais tarde co-
ronel e chefe de distincta família, o a já illustre família dos Silves
Frado, representada pelo capitão-mór Eleuterio e seu filho António Pra-
do, mais tarde barão de Iguape.
Porém, Joaquim Floriano era ainda um cidadão relativamente
obscuro e só mais tarde foi que adquiriu grande estima e considera-
ção nesta capital ; a familia Prado era mais commerciente e financei-
ra do que politica e militar, e os clorigoá mencionados, inclusive t>
"bispo D. Matheus, velho de 78 annos, eram todos muito liberaes, mui-
to illustrados e de muito mérito, mas também incapazes de enfrentar
com vantagem o elemento militar e aristocrático que predomivava no
partido portuguez, de cujos membros darei uma resumida noticia no-
artigo seguinte.
IV
O partido retrogado, o que continuava a embaraçar as medidas
tendentes a desenvolver e fortificar no espirito publico a idéa da in-
dependência do Brasil, não era composto somente de portuguezes, mas
continha em seu seio muitos brasileiros, alguns dos quaes notáveis
por seus talentos e outros pelos importantes serviços que tinham
prestado, tanto á capitania como ao governo geral da colónia.
O chefe reconhecido e acceito desse partido era o general João
Carlos Augusto de Oeynuhausen, nascido em Portugal, filho de um
conde allemão e de uma fidalga lisboeta, de boa educação literária,
intelligente e sagaz, ora affavel e insinuante por Índole, ora brusco e
áspero para apparentar energia que estava longe de possuir, sempre
versátil, inconstante, fraco e até pusilânime a ponto de nunca enfren-
tar o perigo e sempre procurar ladeal-o. Formava assim um verda-
deiro contraste com todos os capitães- generaes que tinham governado
S. Paulo por mais do um século.
Tinha servido antes como capitão-general do Ceará o de Matto
Grosso em épochas em que não se pensava seriamente em liberdade
e independência, e essas suas administrações, relativamente moderadas
e justiceiras, tinham-n'o feito estimado dos povos que governou. Foi
— 19 —
mais tarde senador do império pelo Ceará, marquez de Aracaty e
valido de Pedro I, a quem acompanhou a Portugal depois da revolu-
ção do 7 de Abril e nunca mais voltou ao Brasil. >
Em 1821 a sua posição cm S. Paulo tornou-se excessivamente
difiBcil e espinhosa, porque de capitão-goueral que ora, governador
único da província que administrava com poderes absolutos e sem
outras restricções mais do que as ordens emanadas dos absolutos
ministros do reino, passou repentinamente em virtude de uma revo-
lução popular, cuja legitimidade elle contestava, a ser por obra e graça
de José Bonifácio o presidente constitucional de uma corporação po-
litica, a que se deu o nome de Governo Provisório de S. Paião, e na
qual o seu voto deliberativo não valia mais do que o de qualquer
outro membro e a sua influencia pessoal e voto consultivo eram mais
do que contrabalançados pelos de alguns paulistas, como José Boni-
fácio e Martim Francisco, que lhe eram muito superiores em capaci-
dade intellectual e moral.
Achava-se João Carlos naturalmente deslocado naquella incom-
moda posição e, si tivesse tido mais civismo e menos vaidade para
devidamente encarar os acontecimentos de 23 de Junho de 1821, que
aliás não poderia ter impedido, devia ter considerado aquelles factos
como a sua formal deposição do poder pelo povo e tropa em revolta
e recusado a presidência que José Bonifácio lhe deu do novo gover-
no, partindo em seguida para o Rio de Janeiro, onde poderia prestar
ao príncipe D. Pedro outros serviços que estivessem mais de accordo
com o seu caracter, com a sua educação e com a sua dedicação pes-
soal á dymnastia de Bragança.
Ficando na presidência do governo, sem força moral, sem prestigio
pessoal, rodeado por gente que valia tanto como elle, só serviu para
se tornar o centro das intrigas e das machinações contra os paulistas
e contra as idéas de liberdade e do independência, que ganhavam
terreno dia a dia.
Doixou-se arrastar até o extremo de assumir a direcção espiri-
tual dos vergonhosos acontecimentos de 23 de Maio do 1822, conhe-
cidos na historia com o merecido nome de A Bernarda de Francisco
Ignacio, e foz assim esquecer os serviços reaes que tinha prestado
com os males que consentiu que outros praticassem sob a protecção
_ 20 -
do seu nome e sob a responsabilidade do seu cargo de presidente do
Governo Provisosio.
O papel que então representou não foi inteiramente passivo, co-
mo a alguns chronistas se aflagura, mas profundamente dissumulado o
hypocrita, porque, não possuindo a corragem precisa e o talento ne-
cessário para abrir franca lucta com os Andradas e seus partidários,
nem a virtude da resignação para acceitar com lealdade e sincerida-
de a nova ordem de cousas, estabelecida pelos movimentos revolu-
cionário do tempo, tinha entretanto «o inotincto da intriga, do enredo
e do manejo secreto para inverter e desvirtuar as intenções e acções
dos outros>, e assim contrariar a lógica dos factos e oppôr embaraços
á realização da independência do paiz.
Quando houve necessidade de se enviar um delegado ao Rio de
Janeiro com o pedido dos paulistas para que D. Pedro ficasse no Bra-
sil e se fizesse seu imperador, visto que a independência era já ine-
vitável, foi o general João Carlos quem se lembrou que esse delega-
do deveria ser ura dos Andradas, dando elle preferencia a Martim
Francisco para essa comraissão porque entendia que Martim era mais
para se temor do que o seu irmão, visto que conhecia melhor a pro-
víncia, estava familiar com as condições politicas e sociaes dos pau-
listas, achava-se mais identificado com elles por uma convivência do
mais de 20 annos e era egualmente homem de muita energia e de
muita acção.
Foi, portanto, Martim Francisco o encarregado de desempenhar
essa importante commissão politica, devendo levar como companheiro
o seu coUega do governo coronel Gama Lobo ; porém, á ultima hora,
quando tudo estava prompto, a representação a D. Fedro estava es-
cripta e até o discurso que Martim devia pronunciar deante do Prín-
cipe já tinha sido approvado pelos membros do governo, os Andradas
descobriram o secreto movei do general João Carlos e combinaram
que Martim cedesse a José Bonifácio a tarefa de ir ao Rio de Janeiro
entender-se com o Príncipe Regente.
Com effeito, na sessão de 29 de Dezembro de 1821 votava o Go-
verno Provisório uma auctorização ao Thesouro para fornecer a Mar-
tim Francisco o Gama Lobo o dinheiro preciso para a viagem e na
de 3 de Janeiro de 1822 Martim se escusava dessa commissão por
— 21 —
motivos poderosos, que não eram doenças, e era iin mediatamente elei-
to para ella José Bonifácio que, estando prorapto, partiu sem demora
para o Rio de Janeiro, onde cliegou no dia 9 e desempenhou tão ca-
balmente a missão que levava, qu») a 16 do mesmo mez era nomea.
do ministro e iniciava logo as medidas que asseguraram a indepen-
dência, proclamada a 7 de Setembro daquelle anno de 18*32.
Ficou assim desfeito o plano do general João Carlos para desfa-
zei'-se de Martim Francisco, seu mais temeroso adversário ; porém,
este incidente somente o levou a lançar mão de outros meios e de
outros agentes para alcançar os seus fln^', momentaneamente burlados
pelos Andradas com a troca de um irmão por outro naquella com-
missão.
Tendo sido chamado para o Rio de Janeiro por D. Pedro, a con-
selho de José Bonifácio que, finalmente, conhecera a duplicidade do
seu caracter e suas secretas conspirações contra o elemento paulista
e liberal, que dominava então a provi acia, fingiu que obedecia aquel-
la ordem, mas não deixou a presidência do governo e fez, por meio
do enredo e da intriga, que o povo ficasse crendo que este chamado
era equivalente á sua dep rtação de S. Paulo, aconselhada pela am-
bição irrequieta dos Andradas, que pretendiam assim obter o dominio
exclusivo da província.
«A intriga, pestilento miasma da athmosphera das Cortes, disse
um chronista do tempo, voiu ainda mais aggravar esta situação difiS-
cil dos patriotas de 23 de Junho e privar a sua auctoridade do pres-
tigio da alta justiça que deve caracterizar a influencia dos altos func-
cionarios>. Não havia então imprensa para discutir os actos do go-
verno, esclarecer a opinião publica e trazer um pouco de luz e de
ordem no meio da anarchia mental e politica daquella ópocha ; era
evidente que faria mais proselytos entre as massas populares o par-
tido que mais intrigasse, e quem tinha mais interesse em desvairar
a opinião eram exactamente aquelles que, como o general João Carlos
e seus partidários, viam prestes a desmoronarem-se o poderio e as
regalias de que os adeptos do regimen colonial estavam de posse
havia já perto de tresentos annos.
A épocha dos assassinatos judiciários a bem do prestigio da au-
ctoridade 'estava passada cora Rodrigo César de Menezes e Martin Lo-
— 22 —
pes Lobo de Saldanha e a dos assassinatos por conveniências parti-
culares e por vinganças pessoaes tinha desapparecido com Caldeira
Pimentel o Bernardo José de Lorena. Começara então a dos enredos,
intrigas e mexericos com Franca e Horta e viera culminar no regi-
men provisório com o general João Carlos de Oeynhausen, quando
presenteou a historia do paiz com o seu mais genuíno producto — A
Bernarda de Francisco Ignacio, de 23 de Maio de 1822.
Incompatibilizado pela A Bernarda com os paulistas partidários da
independência e mais ainda com os dois irmãos Andradas, victimas
das suas secretas conspirações e omnipotentes ministros de D. Pedro,
partiu João Carlos para o Rio de Janeiro, deixando a província anar-
chizada e cheia de ódios, havendo mesmo municípios como Ytú, Porto
Feliz, Sorocaba, Campinas, Mogy-mirim, Itapetinínga e outros, que se
tinham desmembrado de S. Paulo para se constituírem em uma ver-
dadeira confederação armada era defesa da independência.
A villa de Ytú, sob a influencia do enérgico liberalismo de Feijó
e Paula Souza, tinha-se transformado em uma \erdadeira praça de
guerra, guarnecida por forças reunidas pelos confederados, resistira
honradamente contra todas as tentativas de intimidação e de suborno
por parte do governo de João Carlos, de quem ura dos emissários, o
coronel Macedo, foi expulso da povoação polo povo indignado, sendo
que até as mais respeitáveis matronas da localidade sahirara á rua
para enxotal-o a pedradas.
Tendo os confederados cortado todas relações com o faccioso e
reaccionário governo de João Carlos para se collocarem sob as ordens
directas e immediatas do Príncipe Regente e dos Andradas,. deu este
facto motivo para se apressar a vinda, tanto annunciada e tanto re-
tardada, daquelle príncipe a S. Paulo afim de accommodar os ânimos,
acalmar as paixões o conciliar todos os partidos sob uma só bandeira,
sob um só prograraraa, que era a liberdade dos povos.
Tendo o Príncipe Regente chegado a esta capital em 25 de Agosto
foi -lho fácil apaziguar tudo com a demissão do resto do Governo Pro-
visório e com o exílio momentâneo dos reaccionários mais revoltosos
para fora desta capital. Foi então que, em viagem de Santos á S.
Paulo, D. Pedro recebeu nos campos do Ypiranga os celebres despa-
chos de Lisboa, que o decidiram a soltar allí mesmo o famoso grito
— 23 —
de Independência ou morte, que veiu coroar a obra de Innoconcio Al-
vim, José Bonifácio, Gama Lobo o outros patriotas, e desfazer para
sempre as ultimas esperanças dos reaccionários.
Passarei agora a dar algumas notas sobro os membros mais acti-
vos do partido retrogrado e descerei mesmo a algumas minuciosidados
inéditas e curiosas, mas absolutamente verdadeiras por serem extra-
hidas de papeis oflaciaes do tempo.
Francisco Ignacio de Souza Queiroz, membro do Governo Pro-
visório pelo Commercio, era nascido nesta cidade pelos annos de 1784
ou 1785 e filho de fidalgos portuguezes. Herdou os gostos, inclina-
ções, idèas e costumes da família e bera assim uma boa herança
<iue o fez regularmente abastado. Tinha negocio de fazenda na rua
Direita, com três caixeiros, dos quaes ura era tenente e dois eram
soldados milicianos nao activos, e possuia nove escravos de serviço
domestico. Era coronel de milícias em S. Paulo, tendo antes sido
alferes de linha em Portugal, onde aperfeiçoou as suas idéas retro-
gradas. Casou-se nesta capital com sua prima d. Francisca Miqui-
lina de Souza, filha de seu tio o brigadeiro Luiz António de Souza, e
falleceu era Portugal era 1830, ainda moço, deixando duas filhas, que
foram casadas, uma com o desembargador Albino José Barbosa de
Oliveira e outra com o seu primo Luiz Ribeiro de Souza Rezende.
Por seu nascimento, pela educação que recebeu, pelo seu tirocí-
nio militar e por seu casamento, era Francisco Ignacio genuíno re-
presentante do partido reaccionário, adversário das idéas liberaos e
pessoalmente hostil aos irmãos Andradas. Era, entretanto, mais ho-
mem do acção do que de intelligencia e raovia-se era 1821 — 22 em
uma atraosphera carregada de intrigas politicas sob a direcção espi-
ritual de José da Costa Carvalho, futuro marquoz de Monte Alegre,
que estava com elle em estreitas relações de parentesco desde que
este se casara com D. Genebra de Barros Leite, viuva do brigadeiro
Luiz António de Souza e sogra do mesmo Francisco Ignacio.
- 24 -
Costa Carvalho foi a cabeça pensante o directora e Francisco
Ignacio era o braço forte do movimento reaccionário de 23 de Maio
de 18-32; este trabalhava para nada perder do terreno occupado pela
fidalguia e aquelle para se abrir um c^^minho para o futuro. Os An
dradas, o brigadeiro Jordão, Alvim, Paula Souza e outros liberaes,
intransigentes cora o despotismo colonial, eram uma ameaça ás pre-
rogativas de ura e sorabras que escureciam o caminho do outro. Só
Martira e Jordão é que estavara ao alcance no momento e contra elies
forara dirigidos todos os ataques.
Assumiu Francisco ignacio, aliás som necessária franqueza e co-
ragem, a responsabilidade da reacção de 23 de Maio contra os libe-
raes paulistas e indelevelmente ligou o i-eu norae illustre aos extra-
vagantes acontecidientos que a historia marcou com o burlesco appel-
lid • de A Bertmrfla de Francisco Ignacio. Soffreu menos de quo se
podia esperar da contra-reacçâo operada pelos Andradas, homens
enérgicos, orgulhosos e já ministros, visto que, deportado para o Rio
de Janeiro, foi amnistiado com os seus companheiros pelo decreto de
23 de Setembro desse mesmo anno. Em 1824, tendo acceitado os
factos consumados serviu como chefe dá Repartição dos Descontos
desta capital e em 1830 fez, por causa de sua saúde arruinada, uma
viagem a Portugal e lá falleceu em pleno dorainio do clerical e ty-
rano D. Miguel.
António Ma sia Quartim era hespanhol, nascido em Gibraltar,
de 4t) annos de edade. Era 1818 servia como almoxarife nesta capi-
tal; em 1822 era coronel o vivia dos seus soldos. Residia no becco
do Barbas, hoje ladeira do Porto Geral ; era casado com uma senho-
ra paulista, D. Mathilde Florinda, e tinha então quatro filhos menores
e sete escravos. Porque o fizeram membro do Governo Provisório
ninguém poderá explicar, principalmente como representante da Agri-
cultura ao lado de Vergueiro, que, além de grande cidadão, foi um
dos lavradores mais proeminentes e mais progressistas que S. Paulo
jamais teve. Como extrangeiro e militar, sem raízes solidas no paiz,
não podia ser syrapathico ao movimento da independência e de facto
não o foi. Fez-se satellite de Francisco Ignacio o representou era A
Bernarda o papel que lhe foi distribuído. Foi por isso deportado era
— 25 —
Jundiahy por algumas semanas, em virtude da contra -reacção andradina ;
mas foi amnistiado com os seus cúmplices em 23 de Setembro e vol-
tou depois a exercer o mesmo cargo de almoxarife. Possuía alguns
conhecimentos de botânica e, era 1831, serviu como inspector do Jar-
dim Publico, porôm desappareceu da politica, para a que nâo tinha
aptidão e na qual nunca devera ter entrado.
O CORONEL Daniel Pedro Mííller, como o general João Carlos
Oeynhausen, era nascido em Portugal, de familia alleman, o possuia
regular instrucçao scientifica.
Tinha 40 annos era 1822, era casado com D. Gertrudes Maria do
Carmo, paulista, tinha um tilho, quatro filhas e dois escravos, o re-
sidia na rua Tabatinguera, n. 50, na parte chamada Detraz da Boa
Morte.
Como era realmente homem de merit >, estava bera no Governo
Provisório, ao lado do coronel Gama Lobo, como representante das
Armas. Prestou bons serviços ao governo na repressão da revolta
militar de Santos, tendo como seu eompanhei o o coronel Lazaro Josó
Gonçalves e mostrando-se ambos excessivamente rigorosos nos casti-
gos que applicaram aos sediciosos.
Por jiascimento, por educação, por prafissEo e talvez um pouco
por interesse estava ligado ao paríido retrogado e era o homem da
confiança particular do general João Carlos, seu amigo intimo e seu
duplo patrício por nacionalidade e por consanguinidade ; tomou parte
em A Bernarda e, depois da deposição de Martím Francisco
e do brigadeiro Jordão, ficou dirigindo os negócios públicos ca-
marariamente c >ra João Carlos e Oliveira Pinto ( rimeiro e depois com
o mesmo Oliveira Pinto, Francisco Ignacio e Quartim- todos do par-
tido portuguez, porque os membros brasileiros ou partidários da in-
dependência tinham deixado os seus postos no governo em virtude dos
factos de 23 de Maio.
A reacção dos Andradas o fez deportar para Atibaya, onde ficou
pouco tempo, porque a amnistia de 23 de Setembro fel-o voltar aos
seus lares. Acceitou depois a independência, prestou bons serviços ao
governo provincial, executou bons trabalhos cartographicos e falleceu
em 1842, com cerca de 60 annos de edade, estando reformado em
marechal de campo.
-SO-
AS suas filhas casaram-so bem, uma cora o dr. Felizardo Pinhei-
ro de Campos, outra com o desembargador Figueiredo Rocha e outra
com o general Beaurepaire Rohan.
Miguel José de Oliveira Finto nao residia em S. Paulo, mas em
Santos, onde a sua qualidade de marmheiro e o seu posto de chefo
de esquadra podiam encontrar applicação. Não tenho encontrado ne-
nhuma informação segura a seu respeito, mas como offlcial que era
da marinha devia ser portuguez e estava cm commissão em Santos,
como intendente da marinha, quando foi aproveitado por José Boni-
fácio, que com certeza o conheceu no exercio daquclle cargo, para
secretario da Marinha do Governo Provisório, onde foi um genuino
representante da peor espécie do espirito retrogado colonial, não tre-
pidando era descer, quando lhe aprazia, ao baixo mister do pasqui-
neiro anarchista.
Tomou parto activa em A Bernarda e, depois da expulsão de
Martim Francisco e consequente retirada dos representantes da idéa
da independência, assumiu no Governo Provisório uma posição saliente,
já como secretario com o general João Carlos, já como presidente
com Francisco Ignacio, Miiller e Quartira. Demittido do governo com
os seus companheiros, foi chamado ao Rio de Janeiro o desappareceu
cia politica paulista, na qual nenhum acto praticou que o recommen-
dasse á gratidão dos pósteros 0).
Foram estes os membros do Governo Provisório que representa-
ram, na direcção da politica provincial, as idéas de retrogradação ao
puro regimen colonial de outros tempos. A sua escolha para tão alto
cargo bera prova a falta de experiência politica e adrainistrativa de
José Bonifácio e o seu nenhum conhecimento dos homens cora quem
se ia haver no governo que escolheu para S. Paulo. Não somente
estes homens eram, por nascimento, por educação, por idéas e por
interesse, contrários á liberdade do povo e á independência do paiz,
como o numero de membros do governo era excessivamente elevado
(1) Foi aproveitado no Rio por Pedro I, quo precisava dos serviços de um
homem deste quilate, e o 7 de Abril do 1831 veiu encontral-o occupando o cargo de con-
selheiro de guerra,
_ 27 -
para a boa harmonia do vistas c unidade de acção que deveriam pre-
sidir os primeiros passos que os paulistas pretendiam dar na escura
senda que os levaria á liberdade e á independência ou á volta ao
despotismo colonial, ainda mais rigoroso em consequência da reacção
victoriosa.
Explica-so a presença do coronel Lazaro Gonçalves no governo
como secretario da Guerra, porque não se podia presumir que a nossa
emancipação politica se realizasse sem resistências, sem luctas e cho-
ques, verdadeiras guerras intestinas, que obrigariam o governo a man-
ter uma força armada e mesmo a lazer delia enérgico emprego, como
nos casos da sedição de Santos e do levante dos portuguezes no Rio
de Janeiro, em cujas occasiões Lazaro Gonçalves prestou relevantes
serviços como secretario da Guerra. Mas, a creação de uma pasta
da Marinha e a nomeação de Oliveira Pinto para occupal-a não fo-
ram somente uma inoftensiva inutilidade e sim ura erro prejudicial
para a causa que so tinha cm vista defender.
A província tinha um exercito que precisava de um chefe, mas
não tinha esquadra para justificar a necessidade da existência de um
ministério da Marinha. Podia haver, e de facto houve, revoluções em
terra, desordens, que exigiram o emprego da força armada e justifi-
caram a creação de um ministério da Guerra, porém, nada poderia
acontecer no mar em que a acção do Governo Provisório se fizesse
■eíBcaz ; as resistências ao oceano só poderiam partir do governo de
Lisboa o estas só poderiam ser combatidas pelo governo do Rio de
Janeiro, único que tinha oa viria a ter existência internacional. Si
tivesse ficado acephala a pasta da Marinha teria sido uma inutilidade,
porem, tendo sido preenchida por um dos peiores sequazes do regi-
men colonial, tornou-se um elemento pernicioso no governo e ura em-
baraço a mais na marcha do carro triumphal da independência.
Felizmente para o Brazil, José Bonifácio o Martim Francisco ainda
eram ministros de Estado e souberam em tempo desenvolver energia
e actividade bastante para inutilizarem todos os tramas e assalto dos
reaccionários, de forma que, quando foram ambos demittidos do mi-
nistério em Julho do 1823 e deportados para a Europa, já tinham
elles imprimido na marcha dos acontecimentos politiíos da sua pátria
o cunho de um tão accentuado brasileirismo, que a reacção de 12 de
- 28 -
Novembro de 1823, a dissolução da Asserabléa Constituinte e a dis-
persão de grande numero do patriotas não puderam mais paralysar o
movimento da independência, que com pequenas dlfficuldades se com-
pletou dois annos depcis.
VI
Representaram papel mais ou menos importante nos aconteci-
mentos do 2ò de Maio de 18.22, vários outros personagens) sobre os
quaes convém dizer algumas palavras, tanto mais que alguns delles
oram homens de real merecimento e fizeram antes e depois da inde-
pendência figura saliente na historia de S. Paulo e do Brasil.
José da Costa Carvalho, futuro marquez do Monte Alegre, de-
putado, senador, ministro o regonto do Império, era natural da Ba-
hia e formado em direito em 1819 pela universidade de Coimbra.
Veiu logo para S. Paulo como juiz de fora, cargo que deixou
pelo de ouvidor por decreto de 6 de Março de 1822 ; tinha então '2Q
annos de edade, possuia algum talento e sagacidade e era domi-
nado de natural ambição de se abrir caminho para um futuro bri-
lhante
Tratou logo do arranjar para si uma boa situação e fazer-se in
dependente e o conseguiu, lá pel s annos de 1820, desposando D.
Genebra de Barros Leite, respeitabili.ssima senhora, que pela edade
podia ser sua mãe, filha do -fidalgo parnahybano António de Barros
Penteado, irmã dos futuros barões de Ytú e de Piracicaba, cunhada
de Paula Souza, viuva do brigadeiro Luiz António de Souza e sogra
do coronel Francisco Ignacio de Souza Queiroz, muito rica e mãe de
cinco filhos. Além de outros muitos bens, possuia nesta capital
grande loja de fazendas na rua do Ouvidor, n. 33, com caixeiros
portuguezes, e treze escravos de serviço domestico e a jornal.
Agora rico e relacionado por seu casamento com tudo quanto S.
Paulo tinha de mais illustre, estava Costa Carvalho bem encarreirado
e em condições de abrir lucta com os Andradas, não porque fosse
contrario á ideia da indepedencia, não obstante o seu conservatorismo,
mas porque via nelles rivaes temerosos por seu grande talento, por
sua vasta instrucção, por sua energia viril, pelo vigor do seu cara-
— 29 —
cter, por seu orgulho pessoal e, finalmente, por serem paulistas e
estreitamente ligados uns aos outros.
António Corlos nao estava aqui, mas era aqui muito conhecido e
já tinha dado mostra do seu valor moral quando, como ouvidor de
Pernambuco, envolveu-se na revolução daquella provinda em 1817 e
sofifreu com firmeza e coragem quatro annos de rigorosa prisão, donde
esperava a todo o momento ser tirado para subir os degraus do cada-
falso, que devorou tantos companheiros seus, o donde enviou ao
poder colonial aquella famosa apostropho :
Sagrada emanação da Divindade
Aqui do cadafalso eu te saúdo.
Livre do cárcere, não tardou António Carlos a ser eleito por S.
Paulo, com Feijó, Paula Souza, Vergueira e S. Leopoldo, deputado ás
Cortes Constituintes de Lisboa, onde adquiriu reputação de grande
orador e tornou-se antipathico aos portuguezes por sou intenso bra-
siieirismo, sendo obrigado a fugir para a Inglaterra, donde voltou
para a sua pátria a se juntar com os seus irmãos e com elles conti-
nuar na tarefa de libertar o Brasil dos ferros coloniaes.
Com taes adversários a lucta devia ser prudente por muito peri-
gosa e a cautela aconselhava a Costa Carvalho que se encostasse aos
reaccionários e se servisse delles como instrumentos para a realiza-
ção dos seus desígnios. Rico pelo casamento, forte p^^las relações de
parentesco, hábil e sagaz, dispunha destes poderosos elementos para
angariar adeptos. Como juiz de fora e. depois como ouvidor não
perdia occasião do levantar conílictos do attribuições com o Governo
Provisório, embaraçando assim a expedição dos negócios e creando
difiaculdades ao governo para enfraquacel-o e desmoralizal-o na opi-
nião publica. omo padastro afira do coronel Francisco Ignacio, ser-
via-se da grande inflaencia deste, como militar e como negociante
rico e relacionado, para mover o militarismo e grande parte do cora-
mercio cm seu favor. Secretamente ligado aos membros reaccioná-
rios do G»^/f^rno Provisório, era elle a cabeça pensante e directora do
moviraonti» retrogrado entro o povo e tropa, com a acquiescencia do
general João Carlos e seus companheiros, e foi o verdadeiro auctor
_ 30 -
de A Bernarda, de que o coronel Francisco Ignacio, seu enteado, se
fez editor responsável.
Depois de A Bernarda, chamado para o Rio de Janeiro, cora João
Carlos, Francisco Ignacio e Oliveira Pinto, membros reaccionários do
governo, nada soífreu da parto dos Andradas pela sedição de 23 de
Maio ; pelo contrario, tornou-se logo personagem proeminente nas in-
trigas do palácio ; foi eleito pela Bahia deputado á Assembléa t ons-
titainte, na qual so fez um dos mais violentos opposicionistas ao go-
verno de Josó Bonifácio e de Martira Francisco e, quando estes dei-
xaram o poder, foi um dos que mais trabalharam pela dissolução
daquclla assembléa e pela deportação dos Andradas e outros patriotas.
< A famosa Domitilla, a Messalina da épocha, estava já na ampli-
< tude do seu poder, rodeada de vis e baixos cortezões aduladores e
« imperando sobre o espirito do mal avisado príncipe que se achava
« á testa dos destinos do Brasil. Por influencia desta mulher tudo
« se fazia, e ella vendia os seus favores por dinheiro a quem os
< queria comprar. Os que so intitulavam republicanos também pro-
« curavam e compravam os seus favores, sobretudo quando estes
« wram necessários para satisfazer uma vingança. O imperador viu
< na corto que faziam a esta mulher os chamados reimhlicanos um
< indicio de que até os mais exaltados estavam bem dispostos a
< submetterem-se á sua vontade, comtanto que dahi lhes viesse algum
« proveito. A Domitilla não foi, pois, extranha ao projecto da disso-
< iução da Assembléa Constituinte ; pelo contrario, era a represen-
« tante absalariada dos republicanos nessa conjuração. Estes levavam
< em vista, na dissolução da Constituinte, dois pontos essenciaes : —
«1.0 vingarem-se dos Andradas e seus amigos, os quaes com a dis-
< eolução deviam ser banidos ; 2.o aproveitar a occasião do pertur-
« bação, que a dissolução devia causar em todo o Bra^jil, para cx-
< pulsar delle o Imperador e fundar a Republica.
« Tudo estava preparado para a dissolução da Constituinte
« O partido portuguez e o republicano achavam- se para ese fira
« no mais perfeito accordo
< Ambos estos partidos rodearam a Domitilla, e esta mulher em
< similhante conjunctura foi o centro das cabalas e intrigas que de-
— 31 —
< ram em resultado a dissolução da Constituinte e a prisão e depor-
« tacão dos seus mais tcrriveis adversários
« Figurava á testa do cliamado partido republicano ura moço sem
< talento, mas activo c rancoroso. Era filho da provincia da Bailia e
c nascido do pais liuraildes e pobres?. Exercendo um cargo subal-
< terno da magistratura na provincia de S. Paulo, ahi casou-se com
< uma viuva rica. A riqueza lhe augmentou a actividade, o não sei
« si a violência do caracter também. Ligado com pessoas da familia
* de sua mulher, procurou influir e ser o arbitro da provincia em que
< residia. As suas idéas o levaram para o republicanismo, mas os seus
< interesses não perraittiam que se separasse dos portuguezes'. Era,
< portanto, ató certo ponto re;puUicano e portugvez ao mesmo tempo.
« Depois ficou exclusivamente repuUicano . Nesta posição trabalhou
« o contribuiu para a abdicação do primeiro Imperador. Foi por isto ele-
< vado depois delia a membro da regência trina. Nas horas do pe-
« rigo desertou o posto e voltou para S. Paulo, recebendo sempre os
< proveitos doll«. L^go que alcançou posição, elevado pelos seus
« amigos, que entre si distribuíam os altos empregos do Estado e as
« considerações honorificas, mudou de parecer. Marquez, grã-cruz,
« conselheiro de Estado, senador e ministro por varias vezes, incli-
< nou-se mais para o absolutismo do que para a monarchia consti-
« tucional
« Tal era o homem que, por parte dos chamados republicanos,
< mais activamente trabalhou para a dissolução da Constituinte o
< para a prisão e deportação de alguns dos seus adversários.
« A Domitilla foi quem mais lho serviu nesta empresa. E' para
« mim caso averiguado que esta mulher, que tantos males causou ao
< Brasil, dello recebera doze contos do róis nm premio de seu traba-
< lho. E' para mim caso averiguado porque vi, li com os meus olhos,
< uma carta escripta por uma mão augusta em que isto assim so
< relatava. Era uma carta escripta pela excelsa o virtuosa Impera -
« triz Leopoldina a José Bonifácio de Andrada em Novembro ou De-
« zembro de 1824.» (1).
(1) Vide A. M. V. Drummond, Annotacões, vol. Xtll dos Annaes da Bibliotheca Na-
cional.
- 32 -
Eleito membro da Asserablóa Constituinte pela Bahia, quando
esta asserabléa foi dissolvida e os Andradas foram deportados para a
Europa por vários annos flcou-lhe amplamente aberta e franca a
carreira politica em S. Paulo, por onde foi eleit) deputado na? legis-
laturas de 18*36-29, de 1830-33 (em que optou pela Bahia, por onde
também fora eleito) e de 1838—41. Tornou-se rebente do império
em 1831 — 33, director da Academia de S- Paulo em 1835, senador
em 1839, presidente d'esta província em 1842, quando esmagou a re-
volução liDeral capitaneada por Tobias, Feijó, Gabriel e Vergueiro,
conselheiro do Estado em 1842, ministro em 1848 e 1852, marquez
em 18")4, e terminou a sua activa e trabalhosa vida politica em
1880, contando cerca de 65 annos de edade e deixando a reputação
de pessoalmente honrado e probo, dedicado e generoso para com seus
amigos e parentes.
Inteiramente destituído de dotes oratórios, incapaz mesmo de im-
provisar duas palavras em publico, e extranho a província de S. Pau-
lo, foi tanta a sua habilidade politica que se manteve constantemen-
te no alto da roda da fortuna e de tal modo cavalgou os aconteci-
mentos que foi subindo e subindo sempre até chegar ás mais altas
posições, que os Andradas, tão talentosos como elle e excellentes
oradores, porém menos sagazes o menos diplomatas, nunca consegui-
ram alcançar.
Estes soffreram pela liberdade e independência do Brasil, porque
os seus sentimentos patrióticos, os seus vastos talentos, as suas gran-
des qualidades oratórias e a sua inquebrantável energia de nada lhes
valeram deante da ignorância estouvada e da caracter leviano e
grossseiramente ingrato de D. Pedro I, e foram todos três expiar em
longo e penoso exilio o crime de terem sido intensamente brasileiros,
honestos até o sacrlflcio e orgnlhosos ató a insolência, de terem pre-
ferido o Brasil-imperio ao Brasil-colonia e de não terem sabido con-
temporizar com os defeitos e os vícios daquelle a quem elles mesmos
tanto tinham contribuído para fazer imperador e defensor perpetuo
da sua pátria.
Também Feijó, que apesar de algumas graves faltas, era uma
das melhores personificações do espirito paulista, deputado, ministro,
regente e senador, sacerdote, pobre e doente ; Vergueiro mesmo, o
- 33 —
exemplo vivo da sisudez e da circuraspecçâo o egualmente deputado,
senador, regente e ura dos grandes pugnadores das liberdades publi-
cas e do progresso da agricultura nacional ; Rafael Tobias e Gabriel
Rodrigues dos Santos, dois genuínos paulistas que tanto honraram a
sua terra natal e tanto amaram a liberdade de seu paiz, foi-am to-
dos, ora circtimstancias bem diversas, é verdade, victiraas do seu fer-
renho conservatorisrao, assira como os Andradas já o tinham sido
vinte annos antes. O seguinte documento é muito característico.
Ulmo. Bxmo, Sr. José Carlos Pereira de Almeida Torres: — Acabo
de receber o Offlcio de V. Bxc de hoje, em o qual me avisa, que
S. M. o Imperador convoca extraordinariamente a Assembléa Geral
Legislati/a, e que deve installar-se no dia \.° de Abril do corrente
anno, para que eu, em consequência, me transporie á Corte do Rio
de Janeiro a tomar o meu assento. Pode ficar V. Bxc. certo que
PONTUALMENTE SKBÃO POR MIM OBEDECIDAS AS ORDENS DE S. M. 1 —
S. Paulo, 20 de Fevereiro de 1829. — José ãa Costa Carvalho-*
Convocado como representante da nação para uma sessão da assem-
bléa a que pertencia, elle não acode ao chamado como delegado do
povo soberano, encarregado de vigiar polo cumpriraento das leis e de
conter os desmandos do poder, mas por obediência 'pontual ás ordens
de S. Magestade. Bis aqui o politico retrogrado retratado por suas pró-
prias mãos ; também as leis reaccionárias e inconstitucionaes de 1841,
violadoras das garantias liberaes com tanto custo conquistadas pelo
Acto Acdicional do 1834, encontraram somi.»re nelle ura dos seus mais
tenazes defensores.
— Francisco Alves Ferreira do Amaral, era paulista, de 52
annos de edade, solteiro e muito elogiado pelo cafâtão general Mello
Castro, por sua honestidade pessoal. Como Francisco Ignacio, era
também coronel de milícias e coraraercianto ; tinha loja de fazen-
das em 1818 na travessa da Sé n. 9, que cedeu ao seu protegido
Caetano Pinto Homera, e abriu outra no n. 17 da mesma rua, e ainda
possuía 19 escravos a jornal. Sustentava na sua casa um pessoal nume-
roso, de que faziam parte quatro senhoras, já edosas, que parecem ter
sido suas parentas, talvez irmãs, Francisco Pinto, portuguez miliciano,
e Caetano Pinto Homem, também portuguez e capitão de milicias,
— 84 —
cora a esposa e três filhos menores. Representou papel activissimo era
A Bernarda corao auxiliar do coronel Frandsco ígnacio, com quera
aliás apparentava não estar de perfeito accordo, e commandou no dia
.2>i de Maio um corpo de tropa armada de combinação cora Francisco
ígnacio, Costa Carvalho e brigadeiro Moraes Leme.
Depois da demissão dos restos do Governo Provisório o da dis-
persão dos reaccionários, esteve algum tempo deportado cm S. Ro-
que o, quando mais tardo ficou incidido na amnistia de 23 de Setem-
bro, não fez mais figura na politica.
Joaquim José Pinto de Moraes Leme era natural desta cidade
de 68 annos de edade, brigadeiro o fidalgo de alta linhagem ; perten-
cia ás mais illustres famílias paulistas, que vinham fazendo brilhante
figura na historia da capitania desde o século XVí, e foi elle mesmo
um militar distincto que prestou bons serviços ao governo colonial,
principalmente no tempo do capitão -general Martim Lopes, quando,
ainda moço, equipou á sua custa ura corpo do voluntários, a cuja
frente marchou para as guerras contra os hospanhóes no Rio Grande
do Sul, em 177o.
Era 1822 residia no bairro da Luz, no caminho da Ponte
Grawle, era casado com D. Polycona Custodia, paulista das importan-
tes famílias Lm-a e Moraes, tinha uma só filha, já casada com o ma-
rechal de campo José Joaquim da Costa Gavião o mãe do brigadeiro
Bernardo José Finto Gavião Peixoto, o sustentava em sua casa duas
sobrinhas solteiras e já trintonas, uma senhora aggregada, uma me-
nina e dois meninos. Vivia d) seu soldo e (los fructos do trabalho
de vinte e novo escravos que entã> possuia. Fallcceu em 1831, com
76 annos de edade.
Retrogrado por gosto e por educação, orgulhoso de si próprio o
de sua ascendência, suflftcientementc abastado para a sua pequena famí-
lia, acostumado a mandar despoticamente e a obedecer passivamente,
era um g nuino representante do espirito colonial o como tal era ar-
dente adversário dos Andradas e das idcas por elles representadas.
Tomou parto das mais activas cm A Bernarda, de accôrdo cora Fran-
cisco ígnacio e Costa Carvalho, e coram^andou, cora o coronel Francisco
Alves Ferreira do Amaral, as tropas arraadas que vieram dos quartois
para a rua no dia 23 de Maio. Victorioso no raoraento cora a depo-
— 35 --
sição de Martira Francisco e do brigadeiro Jordão, a contra-reacçáo
dos Andradas o deportou por algumas semanas para Parnaliyba, até
que a amnistia de 23 de Setembro veiu restituil-o aos sous lares, onde
falleceu novo annos depois inteiramente retirado da politica.
Tedro Taques de Almeida Alvim, paulista, pertencia ás mais
distinctas famílias da capitania, filho do guarda-mór Manoel Alves
Alvim e neto do historiador Pedro Taques do Almeida Paes Leme.
Era 1822 ora casado com D, Joaquina Angélica, paulista, e nâo tinha
ainda filhos ou pelo menos nEo os tinha em sua companhia. Residia
íia rua Direita, n. 6, com sua senhora, unia creada e três escravos,
o na mesma casa tinha loja do fazendas, de que vivia.
Era um lioraom de 35 annos, rusgucnto, absolutista e profunda-
mente religioso; dizia que cleante do rei deve-se pôr um joelho em terra
€ deante de Deus os dois, e entretanto era irmão de José Innoceucio
Alves Alvim o de Joaquim Alvim, os dois moços liberaes que, no dia
23 do Junho de 1831, dopuzeram do poder o capitão-general João
Carlos o fizeram eleger pí^.lo povo o Governo Provisório. Tinha o posto
de capitão de milícias, era fortemente ligado aos coronéis Francisco
ígnacio o Ferreira do Amaral o tomou parte importante em A Ber-
narda, chegando a sahir armado á rua e andar pelas casas particulares
de trabuco na mão, intimando gente para comparecer nos meetings re-
voltosos e assignar os termos de accusação contra Martim Francisco
e brigadeiro Jordão. Foi era consequência deportado para ]*aranaguá,
onde ficou algumas semanas, e quando amnistiado não se envolveu
mais na politica da provinda. Falleceu 47 annos depois, em 1869,
soffrondo das faculdades mentaes, e deixou filhos que figuravam nesta
capital, como o dr. Pedro Taquos do Almeida Alvim, jornalista de grande
mérito o deputado provincial do partido conservador.
José Rodrigues Pereira de Oliveira era moço de 29 annos, na-
tural de S. Paulo, solteiro e capitão de ordenanças, o vivia dos pro-
duct")s de um engenho de assucar c aguardente que possuia no muni-
cípio de Ytú, sob a administração de outrem. Filiou-se em 18.22 ao
i^artido retrogado e no dia 23 de Maio andou pelas ruas armado, ao
modo de Pedro Taques, violentando a particulares e até aos vereado-
res para que tomassem parte em A Bernarda. Esteve por isso de-
- 36 -
portado por algum tempo em Porto-Feliz e depois da amnistia nao se
iutrometteu mais em desordens, nem na politica da rrovincia.
Caetano Pinto Homem era portuguez, de 32 annos, casado com
D. Maria Eugenia, paulista, de quem tinha em 1822 quatro filhos me-
nores. Em 1818 vivia com sua família na casa do coronel Francisco
Alves Ferreira do Amaral, de quem era inteiramente dependente ; de-
pois estabeleceu-se por conta própria com loja de fazendas na Tra-
vessa da Sé, n. 9 na casa de seu antigo protector. Era capitão de
milicias e como tal ainda mais subordinado ao coronel Ferreira de
Amaral, a quem acompanhou no dia 23 do Maio, tomando parte activa
em A Bernarda, pelo que esteve temporariamente deportado era Ara-
çariguama. Deixou depois o negocio de fazendas e passou a ser, era
1829, empregado do fisco na qualidade de commissario pagador.
Jayme da Silva Telles era paulista, de 68 annos, casado e cora
três filhos já crescidos e solteiros ; vivia dos rendimentos de um pe-
queno siiio que possuía no bairro dos Pinheiros, custeado e lavrado
pelos filhos e quatro escravos. Nao tinha nenhuma importância pes-
soal ou politica e parece que tomou parte em A Bernarda para agra-
dar a amigos ou para ganhar posição depois da victoria, dos reaccio-
nários. Esteve deportado em Piracicaba, que ainda nao era villa,
onde ficou algumas semanas somente, porque a amnistia de 23 de
Setembro o fez voltar para esta Capital, onde depois da independência
se tornou funccionario publico, empregado do Thesouro Provincial.
António de Siqueira Moraes era nataral de Jundiahy, onde a
sua familia é importante até hoje, do 40 annos de edade, solteiro,
cora loja de fazendas na rua Direita, n. 1, um caixeiro e cinco es-
cravos. Era também capitão de milicias, muito ligado aos coronéis
Francisco Ignacio e Ferreira do Amaral e com elles participou em
A Bernarda, pelo que andou tomando ares por algum tempo era Na-
zareth, por ordem dcs Andradas, ministros de Pedro I. A amnistia
de Setembro o fez voltar do exilio e a sua incompetência politica o
fez recolher-se a completa obscuridade depois da independência.
Estos foram os principaes personagens de A Bernarda, os exe-
cutores dos planos combinados entre João Carlos e Costa Carvalho.
^ 37 —
Aquelles, moros iostruraentos manejados por hábeis mãos para a
ruma dos Andradas e permanência dos privilégios coloniaes, desappa-
receram para sempre da sceua politica da província depois da inde-
pendência ; emquanto estes, conscientes e hábeis manipuladores da
intriga e do en odo para fins políticos, foram subindo sempre, nâo
obstante a victoria final da liberdade o da independência, até ás mais
altas posições offlclaes accessiveis aos cidadãos brasileiros.
Os povos de S. Paulo, ao tempo da vinda do príncipe regente
em 1822, nao estavam por conseguinte bem preparados o unanimes
para receberem a independência ; pelo contrario, havia entre elles
grande desharraonia, profundas divergências e ódios intensos, que não
somente dividiam em dois campos inimigos os políticos desta cidade,
como até deram logar á existência de dois governos antagónicos — ura
nesta Capital, chefiado pelo general João Carlos e sustentado pelos
auctores de A Bernarda, e outro no interior composto dos municípios
confederados, tendo o seu quartel general na vi lia do Ytii, transfor-
mada em praça de guerra para a defesa da liberdade e da indepen-
dência.
VII
Já demonstrei que o militarismo foi uma das grandes calamida-
des que afíigiram os paulistas durante os tempos coloniaes e que a
foiça armada da capitania estava muito acima das suas necessidades
e dos seus recursos financeiros.
Com o militarismo vieram o despovoamento da capitania pela
debandada dos homens para outras regiões, o abandono da vida civi-
lizada pela fugida das classes pobres para as mattas, a decadência da
lavoura, do commercio e da industria, as exigências exorbitantes do
fisco e a falta de pagamento dos salários dos empregados públicos e
dos soldos das tropas aquarteladas ou em serviços de campanha. Aos
funccionarios públicos a fraude, o peculato, a concussão e o suborno
offereciam os recursos de que ficavam privados pela falta de paga-
mento de seus ordenados ; porem, aos soldados só restava o expediente
da rebollião e do saque.
— 38 —
Já em 1716 três corpos da guarnição da praça de Santos, cujas
soldos não eram pagos havia vários annos, se revoltaram e ccmeite-
ram diversas violências para obrigar Tliimoteo Corrêa de Góes, pro-
vedor da Fazenda Real, a pagar-lhes os soldos atrazados, o que foi
feito mediante um empréstimo levantado com garantia do coronel
Luiz António do Sá Queiroga, commandante da praça ; porém, depois
de cífectuado o pagamento e apaziguado o tumulto, os cabeças foram
presos e punidos em carcero por terem, á mão armada, forçado o pa-
gamento daquillo que lhes era devido havia já tantos annos.
As forças em serviço no Eio Grande do Su!, nos campos do Pa-
raná, nas colónias de Lages e de Yguatemy c nas fortalezas da costa
marítima eram pagas sempre com atrazo de muitos mezes e frequen-
temente com demora de vários annos.
Nas correspondências dos capitães goneraes, publicadas pela Re-
partição de Archivo de S. Paulo, enconíra-so a todo o momento a
confissão desta clamorosa injustiça, que veiu atravessando os séculos
e durou até a independência.
No dia 3 de Junho de 1821 um batalhão de caçadores aquartelada
nesta Capital se revoltou contra o capitão general João Carlos de
Oeynhausen por falta de pagamento dos seus soldos, influenciado tal-
vez pelo facto de haver desegualdade entra os soldos das tropas bra-
sileiras e das portuguezas em serviço no Brasil. Esta desegualdade
não existia somente no valor pecuniário dos soldos, mas também no
medo do seu pagamento, que era sempre feito ás tropas portuguezas
em primeiro logar e si o dinheiro não chegava para todas ficavam as
tropas brasileiras á espera, indefinidamente, até haver com que se
lhes pagasse.
Esta rebellião, que poderia ser de gravíssimas consequências por
se ter dado em tempo em que os espíritos estavam exaltados, im-
buídos de idéas de liberdade e de independência e cheios de odia
contra os dominadores portuguezos, não teve outro resultado mais do
que animar os liberaes, dirigidos pelo distincto e intelligente moça
paulista José Innocencio Alves Alvim, a apressarem a deposição do
capitão general João Carlos o a eleição de um Governo Frovisorio^,
que se realizaram no dia 23 daquelle mesmo mez de Junho.
— 89 —
Entretanto, si o governo de João Carlos e seus agentes nada
soíireram, não foi porque as tropas revoltadas não tivessem disposi-
ção e desejo de os offender e de pagar-se do sous soldos atrazados
por suas próprias mãos, mas porque o capitão Joaquim José dos San-
tos, paulista distincto o muito enérgico, conseguiu por inauditos es-
forços abafar o movimento sedicioso sem o emprego de violências,
serenar os ânimos com raciocínios e promessas, e dar ao movimento
outra direcção, que foi aproveitada pelos liberaes para a transforma-
ção politica que dahi a vinte dias se realizou.
Eleito era 23 de Junho da 1821 o Governo Provisório pelo povo,
dirigido po-: José Innocencio Alvim e aconselhado por J. só Bonifácio,
o pelas tropas commandadas pelos coronéis Lazaro Gonçalves, Gama
Lobo e Francisco Ignacio, não tratou o novo governo de ordeoar im-
mediatamente o pagamento dos soldos do 1.^ batalhão de caçadores
destacado em Santos, que estava em atrazo de cinco annos.
O exemplo da Capital, onde as tropas insubordinadas do 2.o ba-
talhão de caçadores foi ara pagas dos seus soldos atrazados sem que
softressem castigo algum o ainda exercendo ostensivamente funcções
politicas, tomando parte activa na derrubada do governo despótico e
cxtrangeiro de João Carlos e na eleição de ura outro, em que o ele-
mento nacional e paulista tinha grande influencia, foi contagioso para
a guarnição de Santos, que apenas esperou uma semana pelas medi-
das reparadoras do Governo Provisório em relação aos seus soldos
não pagos por vários annos.
Na noite de 27 para 28 de Junho de 1821, alguns dias depois de
eleito o Governo Provisório, revoltou-se aquella guarnição, sahiu á
rua e apossou-se da villa de Santos. Arrombou a cadeia o soltou
todos Ocs presos, invadiu a casa era que se guardavara os materiaes
bellicos e delia tirou todas as armas e munições de que podia neces-
sitar, assestou artilharia nas ruas e no porto o fez fogo contra um
navio de guerra portuguez alli ancorado. Em seguida, espalhando-se
os soldados em grupos pelas ruas, prenderam as auctoridades, saquea-
ram os estabelecimentos públicos e particulares e mesmo puzerara a
resgate os homens abastados que conseguiram apanhar.
Tomados de surpresa os habitantes não puderam oppôr a raenor
resistência ao levante da soldadesca desenfreada e soffrerara resigna-
— 40 —
daraente o saque e o resgate que se lhes impuzeram, cujos productos
os revoltosos dividiram onte si; mas em terra estavam muitos mari-
nheiros dos navios portuguezes surtos no porto e com estes os rebel-
des travaram luctà de que resultaram diversos ferimentos e algumas
mortes.
Lido em sessão do Governo Provisório de 2 de Julho ura ofBcio
do governador da prbça de Santos, coronel Bento da Gama Sá, ex-
pondo os factos alli occorridos, declarou se o governo em sessão per-
manente e tratou sem demora de remetter para Santos, afim de s\if-
focar a revolta e prender os seus chefes, o mesmo batalhão 2." de
caçadores, que por idêntico motivo se revoltara em S Paulo no dia
3 de unho. Este seguiu em marcha forçada sob as ordens dos c ro-
neis Lazaro Gonçalves e Daniel Pedro Miiller, membros do governo,
e no dia 6 chegou a Santos, onde surprehendeu os sediciosos, os des-
troçou e prendeu a muitos, inclusive aquelles que eram considerados
como os chefes dos amotinados.
Participada no mesmo dia para Sâo Paulo esta importante no-
ticia, o correio viajou toda a noite e chegou a esta Capital no dia 7
cedo, e como o governo estava em sessão permanente, publicou logo
por Bando esta festival nova e declarou beneméritos os ofiQciaes e sol-
dados que com tanta presteza puzeram fim naquella rebellião e por
um outro Bando felicitou aos santistas por se verem restituídos aos
seus lares e antigo socego. Em seguida e sem demora vieram as
devassas, os tribunaes militares e as sentenças mais ou menos rigo-
rosas, conforme a intensidade da culpa de cada um.
Lazaro Gonçalves o Miiller eram portuguezes e, com quanto o
primeiro fosse sympathico á causa da liberdade e da independência,
não podiam ambos deixar de ser parciaes e rancorosos contra os re-
beldes de Santos, que eram brasileiros g r»-presentavam a reacção
pela violência contra os desmandos, o despotismo e as injustiças do
governo colonial. Nestes termos, oficiaram elles em 11 de Julho, ao
Governo Provisório propondo que os menos culpados dos soldados do
i.o batalhão, que foi da praça de Santos, fossem dispersos afim de não
infeccionarem os habitantes desta provinda, para o que julgavam con-
veniente que se pedisse á Corte do Rio de Janeiro uma embarcação que
08 conduzisse para os paizes que o govertio julgasse mais conveniente.
— 41 —
o Governo Provisório só podia ter recebido este offlcio no dia
12, porque foi escripto a 11 e a distancia de S. Paulo a Santos ora
pelo menos de doze léguas, que, com os péssimos caminhos daquelle
tempo, por mangues e serras, nEo podiam ser viajadas em menos de
doze horas. Entretanto, nesse mesmo dia 12 reuniu-se o governo em
sessão extraordinária e depois de madura reflexão resolveu :
1.0
Que feita quanto antes a separação já ordenada, se passe a jul-
gar os menos culpados, sobre os quaes este governo devia requerer
a Sua alteza Real usasse de benignidade, commutando-lhes a pena ul-
tima em que estão incursos, segundo o artigo 15 de Guerra, em car-
rinho temporário e os malvados que commetteram mortes e roubos e
os cabeças do motim sejam castigados com a pena ultima para
exemplo.
2.0
Que os do primeiro caso, que merecerem clemência, sejam logo
conduzidos e divididos em magotes de 20, 15, 10 e 5 para trabalha-
rem nos concertos das estradas publicas da província, de S. Paulo a
Santos, de S. Paulo ao Rio de Janeiro, de Mogy das Cruzes a S.
Sebastião e de Corytiba a Paranaguá, sendo elles remettidos para as
cadeias mais fortes das villas visinhas dos legares onde trabalharem.
Que depois de espalhados estes homens e applicados aos ditos
trabalhos, aqueJles que com o andar do tempo se mostrarem mori-
gerados, socegados e arrependidos, deverão ser trocados pelos solda-
dos casados desta provinda que se acham na campanha do Sul ; e
outros que forem casados ou possam casar, mimstrando-lhes o governo
ou a Misericórdia um pequeno dote, serão empregados como colonos
nas pov^oações de Guarapuava e Ararapira e na povoação abandonada
do Tietê, fundada pelo general que foi desta capitania D. Luiz An-
tónio de Souza.
Foi esta a sentença que o Governo Provisório, depois de madura
reflexão de alguns minutos, applicou aos menos culpados dos rebel-
des e votaram por ella todos os membros do governo, com excepção
apenas de Gama Lobo e Quartira, que se achavam em comraissão no
Rio de Janeiro, e dos dois coronéis que estavam em Santos e que
I
naturalmente concordaram cora elia porque era menos rigorosa do
que o degredo para a Africa ou Ásia que cUes haviam proposto.
O § 1.° destas resoluções recoraraenda para os menos culpados
a comrautação da pena do morte, em que estavam incursos pelo ar-
tigo 15 de Guerra, em carrinho temjjorario. Si o poder competente
não c mmutasso a sentença, teriam estes menos culpados sofírido a
pena capital, que é a mais severa de todas. Que pena deveria então
ser applicada aos mais culpados, aos que commetteram roubos e as-
sassinatos e aos chefes da sedição ? Seria necessário inventar para
estes uma pena mais rigorosa do que a do morte em cadafalso, o
que seria contra as leis criminaes existentes, ou punil-os todos com
a mesma pena capital sem attenção á gravidade do delicto de cada
um, o que seria uma clamorosa injustiça.
VIII
Feia severidade da sentença proferida contra os menos culpados
dos sediciosos santistas, póde-se bem julgar do que estava sendo prepa-
rado para os mais oorapremettidos e para os chefes. Tiveram as suas
sentenças do morte confirmadas pelo Governo Provisório, era sessão
ordinária de 10 de Setembro, com a presença e voto, sem discrepân-
cia, de onze membros, que foram João Carlos, José Bonifácio, Mar-
tim Francisco, Quartim, André Gomes, Francisco Ignacio, Gama Lobo,
Jordão e padres Oliveira Bueno, Paula Oliveira o Felisberto Jardim. Os
coronéis Lazaro Gonçalves e Miiller estavam ainda em Santos o Ver-
gueiro e Oliveira Pinto não vieram assistir a essa sessão.
Não houve recurso de graça para o poder moderador do Prínci-
pe Regente por ser este um dos casos em que tal recurso era dispensável.
Os condemnados á morte foram o sargento José Correia, o furriel Joa-
quim Rodrigues, os cabos Floriano Pires e Francisco José das Cha-
gas e os soldados José Maria Raraos, José Joaquim Lontra e Joaquim
José Cotintiba. Deviam ser enforcados era Santos os que fossem na-
turaes dalli ou da beira mar, e nesta Capital os que fossem nascidos
nella ou nas povoações de serra acima, para exemplo dos parentes e
amigos.
— 43 —
Em Santos não havia mais forca e para não perder tempo e di-
nheiro na construução especial de uma para este flra, ordenou o ao-
vorno Provisório, por suggestão dos coronéis Lazaro e Miiller, que os
condcmnados naturaesdo Santos fossem immediatamente enforcados
nas vergas da mesma embarcação sobre a qual elles tinham feito fogo
nos dias da revolta e que os primeiros suppli.-íiados fossem o furriel
Joaquim Rodrigues e o soldado José Maria Ramos, como os mais cul-
pados, seguindo-se os outros José Correia, Floriano Pi]'es e Joaquim
Lontra.
Romettidos para S. Paulo os dous outros conderanados, Francisco
José das Chagas e Joaquim José Contintiba, foram elles, sem demora
recolhidos aos segredos da cadeia desta Capital, no dia 15 ou 16 de
Setembro, por ordem do Governo Provisório, que logo determinou ao
ouvidor, D. Nuno Eugénio Lossio Seilbz, que tomasse conta delles e
os transferisse para o oratório, emquanto esperavam a execução da
sentença que devia sor levada a effeito pelo juiz de fora Costa Car-
valho.
Nesta Capital também não havia forca em 18.21, tendo pro vavel
men-^8 se deteriorado e cabido a que antes havia. Por carta regia de
23 de agosto do 1820 foi mandada installar em S. Paulo uma junta
de justiça, e não se comprehendia então uma tal junta sem o seu
necessário appendice— um patíbulo ; por isso, o governo, com a inexpli-
cável demoi-a de onze mezes, expediu em 23 de julho de 1821 um
aviso á v^íamara Municipal para que mandasse levantar uma forca no
logar mais publico e visinho do cemitério geral, qi^ie era chamado
Campo da Forca, o que ella fosse feita de madeira duradoura.
Estando a forca prompta em agosto e recolhidos na cadeia desta
capital os comdemnados Joaquim José Cotintiba e Francisco José das
Chagas, conhecido por Chagiiinhas, desde 15 cu 16 de Setembro, cujas
sentenças estavam confirmadas desde 10 desse mez, nada faltava para
que estes róos fossem sem demora executados, como o tinham sido
os nascidos em Santos, tanto mais que já o ouvidor Nuno Eugénio e
o juiz de fora Costa Carvalho tinham ordens para isso desde 17 de
setembro o os condemnados já tinham até entrado em retiro espiri-
tual emquanto esperavam que lhes chegasse o momento fatal.
- 44 -
Entretanto os dias vâo se passando sem que os róos sejam exe-
cutados e durante este tempo D. Nuno Eugénio Lossio Seilbz foi sus-
penso pelo Governo Provisório, por portaria de 24 de Setembro de
1821, de cargo de ouvidor, que passou a sor exercido por Costa Car-
valho, interinamente, até de 6 de março de 1822 e effoctivaraente
dessa data em deante, O presidente da Camará, Nicolau de Siqueira
Qaeiroz, assumiu o exercício das funcções de juiz de fora pela lei e
como tal tinha de presidir o acto da execução dos delinquentes depois
de cumpridas pelo ouvidor todas as formalidades legaes.
Porque tanta demora, suspensão e transferencia de pessoal, si os
criminosos estavam condemnados em forma, a sentença de morte es-
tava devidimente confirmada, com dispensa do recurso de graça ao
Príncipe Regente, a forca estava armada e prompta, os réos confes-
sados o ungidos e o ouvidor e juiz de fora com ordem para executar
a sentença?
Estas circurastancias, que nunca foram discutidas e elucidadas
por nenhum dos investigadores da historia paulista, são, entretanto,
dj grande importância e merecem ser esclarecidas, porque se relacio-
nam cora alguns factos graves que então occorreram e de algum
modo explicam certos acontecimentos que nunca foram comprehcndi-
dos pelos paulistas.
A historia escripta e publicada não conservou o nome o a lenda
perdeu os traços do condomnado Joaquim Cotintiba o poucos sabem
ao certo o que foi feito delle ; porém, Chaguinhas foi acoiupa-
nhado pelas sympathias populares até aos seus últimos momentos,
delle se faz menção era todas as chronicas do tempo e seu appellido,
tornado objicto do contradictorias lendas, ó ainda hoje pronunciado com
dó e compaixão pelas pessoas dotadas de sentimentos pios e caridosos.
O que consta cora certeza é o seguinte :
Levantado o cadafalso no Uarapo da Forca, no espaço em que
estão hoje o largo da Liberdade e quarteirão contido entre esse largo
e as ruas da Liberdade, Araerico de Campes o Galvão Bueno, foram
Cotintiba e Chaguinhas levados a elle da cadeia, que era no largo
Municipal e íicava a côrca de duzentos metros da forca, e supplicia-
dos em dia que não é sabido cora certeza, mas que deve ter sido
entro os mezes de janeiro e maio de 1823.
- 45 -
Communicada a elles a sentença e feitas as exortações religiosas
sóbeni os pacientes os degraus do patibulo. vestidos de camisola ; são-
Ihos passadas as cordas aos pescoços, os braços atados e a cabeça e
o rosto cobertos cora um capuz, e exerce o carrasco a sua funcção.
Removida a taboa sobre a qual pisavam os condemnados, são
elles atirados ao espaço. Cotintiba morre estrangulado ; porem a
corda que sustenta o seu corr.panheiro não ó sufficientemente forte,
rebenta se com o choque e o condemnado vem cahir no chão, em meio
de uma multidão de espectadores attrahidos ao logar, já pela curio-
sidade, já pelo interesse e fyrapathia que lhes inspirava o desgraçado
Chagainhas.
Conforme o costume do tempo, deitaram sobre elle a bandeira
de misericórdia, emquanto se communicava ao governo o acontecido
e o povo descia ao palácio e vinha pedir que o governo comrautasse
a pena do morte em outra menor, em vista do antigo uso de se re-
leval-a era casos sirailhantes.
Convocados os raerabros do governo e reunidos em palácio, com
excepção do José Bonifácio, que já era ministro e estava no Rio de
Janeiro, foi considerada a matéria e resolvido, principalmente pela
influencia de Martim Francisco, que não se comrautasse a pena e
que Chaguinhas fosse outra vez levado ao cadafalso. Expedida a
ordem aos executores, voltou- o povo ao Campo da Porca, comprou o
carrasc3 nova corda, subiu o paciente a escada e passou pelo pro-
cesso do atamento dos braços e da coberta do rosto pelo capuz ; po-
rém, abalada a taboa que o sustenta, rebentou-se novamente a corda
e extondeuse o condemnado no chão. Outra vez foi elle coberto com
a bandeira da misericórdia eraquan to o povo, supersticioso, horrorisado
e iniignado, doscia segunda vez ao palácio a exigir do governo a
commutação da pena do infeliz Chaguinhas para quera nâo havia
motivo de se fazer tão odiosa excepção ao tradicional costume da
relevação da pena em tal caso.
Convocados e de novo reunidos em palaci<', os raerabros do go-
verno mantiveram o seu despacho anterior e reiteraram a ordem para
a execução do condemnado. Ás exigências populares, aos clamores o
protestos das almas bem formadas e caridosas, respondeu Martim
Francisco, de uma das janellas do palácio, reaffirraando a decisão do
- AQ ^
governo e a recusa de satisfazer o pedido dos reclamantes. Foi, pois,
tudo baldado e pela terceira vez Ohaguinlias subiu ao patíbulo e fui
entáo muito bem enforcado, não mais com corda ordinária e quebra
dica de embira ou de linho, mas cora um laço do couro trançado de
amarrar bois, que se mandou buscar ao matadouro.
O cemitério gorai era perto e o cadáver foi para lá conduzido e
sepultado sem as cautellas medicas que presentemente se usam do
exame cadavérico e da verificação do óbito. (1)
No logar do supplicio o povo crente levantou uma cruz do ma-
deira, tendo ao lado uma mesa rústica sobre a qual se queimavam
todas as noites numerosas velas de cera que, segundo a tradição, não
se apagavam com a acção dos ventos e das tempestades do chuva.
A este sagrado lenho foi dado o nome de Santi Cruz do Enforcado
e com o correr do tempo a veneração popular foi-se augmcntando, de
modo que tornou-se grande a concorrência para o logar o nclle se fa-
ziam rezas e festas religiosas anmiaes com o concurso do muito povo.
O antigo Campo da Forca era terreno pi^rtencento ao piítrimoni^
da camará municipal o nelle podiam obter c tirar datas todos quantos
quizessem alli construir prédio para moradia ou para negocio. Em
algumas dezenas de annos o campo estava todo povoado de casas,
com ruas abertas cm varias direcções e no centro ficou o pequeno
largo da Liberdade, tendo em uma das faces a cruz, um pouco re-
cuada para fora do alinhamento do pateo. Casas foram construídas
de lado a lado, de forma que formou-se entre ellas um becco som sa-
bida no fundo do qual ficou a cruz.
Ha cerca de vinte annos alguns moradores da visinhança resol-
veram construir sobre a cruz uma casinha modesta que lhe servisse
de amparo contra as inclemências do tempo e de agazalho para aquel-
las offertas de velas, cera, flores e fitas que as almas pias alli vêm
fazer para os serviços religiosos celebrados no logar e para enfeito
da mesma cruz.
Mais tarde ainda, depois dg. proclamação da Republica, o dr. Fre-
derico Abranches, lente da Academia de Direito desta Capital e mo-
(1) Deste facto se originou a crença popular ou lenda da fuga do Chaguinlias, que
será narrada em outra chrouica intitulada Martim Francisco e à Bernarda.
rador ao lado da Cruz, de accordo com o reverendo ccnego Bicudo, actual
vigário da Sé, construiu um outro edifício no logar do primeiro, mais
solido, mais asseiado o de melhores proporções, que ó o que hoje existe
o ainda conserva o suggestivo nome de Santa Cruz do Enforcado.
Todas as noites ainda quem passa pelo largo da Liberdade pode-
rá ver a fachada da modesta capellinha illuminada pela luz de innu-
raer s velas, trazidas pelos crentes de todos os bairros da cidade, e
nella se celebram festas annuaes no mez de Maio, com alguma pompa,
fogos de artificio e muita concorrência de povo do todas as classes
sociaes
E assim vemos que, si o nome do infeliz moço Francisco José
das Chagas ficou por tantos annos esquecido pelos chronistas de S.
Paulo e ignorado das massas populares e só agora é restaurado em
beneficio da verdade histórica, a sua lembrança, o seu appellido de
Chaguinhas e os soflrimentos por que passou têm sido pela lenda
transmittidos aos pósteros de geração em geração e permanecem ainda
hoje vivos na memoria dos paulistas, onde são guardados com res-
peito e compaixão ; e talvez já não venha longe o tempo em que soja
ora parte reparada a injustiça de que foi victiraa ea sua memoria ro-
habilitada porque a justiça da Historia, assim como a justiça de Deus,
muitas vezos tarda, porem nunca falta.
A. DE Toledo Pjza.
Martim Francisco e a Bernarda
Ningaera soube explioar o papel apparentemente odioso que
Martira Francisco representou no supplicio de Chaguinhas e este seu
procedimento, não esclarecido até hoje, é na opinião de muitos um
desdouro para a sua memoria.
A farailia de Chaguiniias residia nesta Capital, na travessa das
Flores, curto e escuso becco que communica a rua da Boa Morte
com a das Flores. Era modesta, mas estimada e respeitada na cidade
e ficou depois por muita gente conhecida pelo appellido de A famí-
lia do condemnado, sem que por isso perdesse as sympathias de que
gosava.
Foi penosíssima a impressão que causo a no publico em geral e
nas classes inferiores em particular o supplicio de Francisco José das
Chagas, aqui nascido, aqui crescido, bemquisto por todos e de todos
conhecido pelo appellido de Chaguinhas, e profundo foi o sentimento
de horror na massa popular contra o Governo Provisório pelo rigor
da sentença e pela tenacidade da negativa em comrautar a pena de
morte depois da dupla fractura da corda e das consequentes applica-
ções da bandeira de misericórdia, tanto mais que era opinião quasi
geral que Chaguinhas não teve a parte que se lhe attribuia na se-
dição militar de Santos e nos saques e assassinatos que lá se prati-
caram .
José Bonifácio, que votou pela confirmação da pena de morte era
Setembro de 1821, estava no Rio desde Janeiro de 1822 e não assis-
tiu as sessões do governo em que se negou a commutação da pena.
Martim Francisco havia passado a ser o vice-presidente do governo
— 49 —
em logar do sou irmão ausente o, já por sou mérito intellectual e
moral, já por ter seu irmão e sogio como ministro, torn u-se o mem-
bro mais influente do Governo Provisório e a sua vontade pesava de-
cisivamente nas resoluções tomadas em conseliio.
Era isto mesmo um dos motivos para se açularem contra elle a
inveja, o ciúme, a raiva e o ódio dos rotrogados, dos reaccionários e
dos portuguezes, receiosos da perda do seu predominio na colónia, e
porque o brigadeiro Jordão, homem de prestigio, era em tudo tolida-
rio com Martim Francisco, partilhava da animosidade de que este
ultimo era o alvo.
O general João Carlos era a alma da intriga dentro do próprio
governo, tendo como companheiros Muller, Francisco Ignacio, Olivei-
ra Pinto e Quartim, e cá fora Costa Carvallio era quem movia todos
os ciúmes e ódios e com muito mais liberdade de acção e proveito
para a causa commum porque vivia mais em contacto com o povo e
não tinha reservas offlciaos a guardar.
Convenceu se a tropa armada, convenceu-se a milícia, conven-
ceu-se o publico em geral, todos ficaram convencidos pela intriga,
pelo enredo, pela calumnia, de que Martim Francisco era o responsá-
vel pelo supplicio de Chaguinhas nas tristes condiyões em que se
deu, por ter sido elle o principal adversário da commutação da pe-
na ; e, ainda mais, de que todas as medidas de caracter violento e
odioso, emanadas do governo, traziam a responsabilidade do mesmo
jMaríim, que preponderava nos conselhos por seu talento, por sua ener-
gia e p3r seu orgulho intransigente.
E como não se lavraram actas das sessões extraordinárias con-
vocadas para se tratar do recurso de graça impetrado pelo povo em
favor de Chaguinhas, até deste facto, aliás extranhavel, se tirou par-
tido contra Martim Francisco e Jordão, allegando-se que foi para não
ficar prova da sua responsabilidade pela persistente negativa da com-
mutação da pena, tornauclo-so assim essa responsabilidade ogualraen-
te partilhada por todos o ató pelos clérigos membros do governo, que
como sacerdotes, tinham a missão de perdoar e de minorar os soffri-
mentos alheios.
Realmente, um tal procedimento da parte de Martim Francisco e
Jordão era mais do que injusto, era odioso o covarde, porque indi-
- 50 -
cava que queriam ambos dividir com outros a responsabilidade de
seus próprios actos sem deixar disso prova escripta nas actas das
sessões do governo. Era um povo analphabeto, supersticioso e sem
meios de se esclarecer sobre a verdadeira situação das cousas, uraa
tâo bera tramada e plausível intriga não podia deixar de produzir, e
de facto produziu, promptos cffeitos.
No dia 23 do maio de 1822, pouco tempo depois do supplicio de
Chaguinhas, revoltou-se a tropa armada desta Capital, sob a direcção
do brigadeiro Joaquira José Pinto de Moraes Leme, dos coronéis
Francisco Ignacio de Souza Queiroz e Francisco Alves Ferreira do
Amaral e dos sargentos raóres José Rodrigaes de Oiiveira e Francis-
co de Paula Macedo. A ella se juntou logo o povo, sera distincção de
brasileiros e portuguezes, e foram todos se postar no pateo de S-
Gonçalo, hoje largo Municipal, exigindo era altos brados e vozeria
que o general João Carlos o Costa Carvalho não deixassem os car-
gos que exerciam de presidente do governo e de ouvidor, nem se re-
tirassem desta Capital, e que desobedecessem as ordens posiiivas do
ministro José Bonifácio, que, em nome do príncipe D. Pedro, os ha-
via chamado p.ira o Rio de Janeiro, por portaria de 10 de maio de 1822
A esto tempo José Rodrigues do Oliveira, Pedro Taques do Al-
meida Alvim o Jaymo da Silva Telles, armados de espada o pistola,
andavara pelas ruas da cidade intimando com ameaças aos tímidos
para que concorressem ao largo de S. Gonçalo, cora o fim de en-
grossarem o movimento popular, o aos vereadores para que se reit-
nissera era sessão e so fizessem o écho dos sediciosos perante o go
verno.
Eraquanto o governo, em sessão, resolvia não annuir ás exigên-
cias dos amotinados, porque a ordem do 'príncipe, contra a qual re-
clamavam, devia ser á risca cumprida, Martim Francisco fazia retirar
a guarda do palácio para evitar ura possível conflicto cora os sedicio-
sos. Esta medida, prudente e corajosa, foi iramediatam ente desvir-
tuada pela intriga e pelo enredo e os rebeldes passaram sem demora
a exigir que Martim e Jordão deixassora o governo e sahissera desta
Capital, para que se restaurassem a paz e o socego publico ; invadi-
ram o paço municipal e forçaram os vereadores a transmittirem ao
governo esta intimação das massas revoltadas.
- 51 -
Accecleram Martim e Jordão a esta imposição e demitiiram-se de
moiubros do governo, rotirando-se o segundo para Santos e seguindo
o primeiro para o Rio, escoltado por uma guarda que lhe íoi dada por
João Carlos, apparentemente para honral-o, mas do facto para o vi-
giar até sahir do território paulista.
Com a retirada destes, os outros membros paulistas também dei-
xaram o governo, que ficou entre as mãos dos reaccionários.
Martim Francisco, chegando ao Rio de Janeiro, foi logo depois no-
meado ministro da fazenda e, de combinação com seu irmão, demit-
tiu o resto do esphacelado c incapaz Governo Provisório e fez D. Fe-
dro vir no mez do Agosto a S. Paulo restaurar a harmonia entre os
paulistas desunidos e malquistes. Com a chegada do príncipe facilmente
reconciliaram-se os habitantes desta Capital com os que faziam parte
da confederação ytuana, para o que muito contribuiu a eleição de um
novo governo, que ficou composto do bispo D. Matheus de Abreu Pe-
reira, do marechal Cândido Xavier de Almeida o Souza e do dr. José
Corrêa Pacheco e Silva, novo ouvidor da comarca, nomeado em sub-
stituição de Costa Carvalho.
Fez -se uma devassa sobre os acontecimentos de 23 de Maio e os
chefes dos sediciosos foram por algumas semanas exilados para va-
rias partes, até que foram amnistiados pelo decreto de 23 de Setem-
de 1822, quando a independência já estava proclamada e julgou-se
conveniente esquecer todas as discórdias intestinas a bem dos inte-
resses do paiz. O príncipe D. Pedro, que aqui se demorou cerca de
quinze dias, accommodou os povos, harraonizou-se e, de volta de um
passeio que foz a Santo?, teve occasião de proclamar a independência
nos campos do Ypiranga, a 7 de Setembro de 1822.
João Carlos e Costa Carvalho, chamados novamente para o Rio
de Janeii o, obedeceram e deixaram S. Paulo ; lá adheriram á indepen-
dência e quando o imperador abdicou a coroa, em 7 do Abril de 1831,
o primeiro acorapanhou-o para Portugal e o segundo já tinha subido
tanto na politica que foi um dos membros da regência trina em nome
de D. Pedro II, ainda menor.
52
II
Aqui chegando em 1803, depois de concluidos os seus estudos de
mathematicas na universidade de Coimbra, Martim Francisco levou
vida activa e útil á sua pátria e foi invejado e aborrecido pelos ca-
pitaes-generaes, principalmente por Franca e Horta, pelo marquez de
Alegrete e por João Carlos.
Foi calumniado, intrigado, enredado, por estes déspotas e até de-
mettido a bem do serviço publico de um cargo technico que exercia na
fabrica de ferro do Ypanema, por intrigas do marquez de Alegrete e
por ordem de D. João VI, que residia no Rio de Janeiro, quando já
antes, incompatibilizado com este governador, tinha elle próprio pe-
dido demissão desse mesmo emprego. Fez-se questão de deitar essa
nota aviltante na sua fé de officio para molestar o sen melindre, aba-
ter o seu orgulho e enervar a sua inquebrantável energia.
Pelo conhecimento que tinha dos seus patrícios, pela experiência
que adquiriu em vinte annos de contacto com os capitães-generaes de
S. Paulo, por seu grande talento, por sua honestidade pessoal e ató
mesmo por seu exaggerado amor-proprio, estava Martim Francisco mais
do que ninguém em condições de bem avaliar, pelas injustiças de que
foi victiraa, os soffrimentos infligidos aos paulistas pelos delegados do
governo portuguez e as misérias produzidas por um flsco voraz e por
um militarismo levado aos últimos extremos e inteiramente fora de
proporções cora as forças financeiras da capitania e com a sua dimi-
nuta e esparsa população.
Elle devia saber que sem o peculato, sem a prevaricação e o su-
borno, os órgãos da justiça publica não podiam se manter e muito
menos viver com a decência necessária aos seus cargos e garantir o
futuro dos filhos, porque os seus parcos ordenados não o pormittiam
e raramente eram pagos em dia, em visca do facto do erário publico
estar sempre exgottado pela insaciável cobiça do flsco colonial ( 1 ) .
Chegou-se até a mandar para S. Paulo magistrados solteiros com pro-
hibição expressa de aqui se casarem sem licença do governo de Lis-
(l) Sobre a corrupção da magistratura colonial, vide Archivo do Estado de S. Paulo
— correspondência dos capitães-generaes.
- 53 —
boa, porque, não tendo família a sustentar e prover, poderiam subsis-
tir com os seus pequenos salários sem sacriflcio do direito das partes
e sem accrescirao de despesas para a fazenda real.
Como militar que era e coronel, devia Martira Francisco conhecer
também os sottrimentos dos corpos armadoá da capiíania e saber que
os seus soldos, pela mesma razão, eram pagos sempre com grande
demora e muitas vezes com atrazo de cinco e mais annos, quando o
rigor dos serviços militares não se relaxava e os paulistas é que fa-
ziam, em grande parte, as guerras continuadas contra os hespanhóes
e a defesa das nossas fronteiras do sul.
Devia ainda saber que, exasperados os soldados paulistas com o
peso dos serviços, com a falta de pagamento dos seus minguados
soldos, com a nudez, com a miséria e com a fome, não saciada pela
alimentação com farinha pouca e mofada, com feijão escasso e ardido
e com toucinho rançoso, fructos da ganância de fornecedores sem es-
crúpulos e da pobreza do erário da capitania, era natural uma inso-
bordinação ou revolta de vez em quando, sempre que os soffrimentos
chegavam a um maximum.
Não se justificava ern caso algum a venalidade da magistratura,
porque essa profissão era livre e somente devia seguil-a quem tivesse
natural disposição para uma vida de sacrificios a bera da ordem social ;
porem, explicavase a insubordinação dos corpos armados e ató em
certos casos era necessário dar- lhe algum desconto e attenuar lhe a
gravidade, porque o serviço era compulsório, não exi&tia o direito de
escolha de outra carreira e, a troco da completa renuncia da liber-
dade e da vida qne se impunha ao soldado, era equitativo, justo e
mesmo necessário que se proves :e com alguma largueza ás suas ne-
cessidades physicas.
O caso da sedição militar de Santos era um destes e por isso foi
injusta e exaggerada a pena que se applicou aos culpados. O regu-
lamento militar do conde do Lippe, cora toda a sua severidade, estava
ainda em vigor e por concomitância no crime foram todos considera-
dos incursos na mesma pena ; porém, tendo ella sido commutada em
carrinho temporário para os menos culpados, se confirmou, sem o re-
curso de graça, a sentença de morte dos chefes da sedição, quando
era o próprio Governo Provisório quem reconhecia e confesssava em
- 54 —
officio dirigido aos coronéis Lazaro Gonçalves e Miiller, quo <era
necessário no processo e julgamento destes réus attender a efervescência
das opiniões do tempo, ao abandono em que os deixaram os officiaes e a
demora que Jiouve em se lhes pagar o soldo que Sua Magestade lhes
havia conferido*.
Devia ainda o governo ter attendido ao facto do navio de guerra
portuguez, ancorado em Santos, ter frequentemente em terra a sua
marinliagem, que não perdia occasiâo de provocar conflictos com o ba-
talhão, que era de brasileiros, e que essa marinhagem, tendo sempre
dinheiro porque era paga mais ou menos a tempo, escarnecia dos sol-
dados andrajosos e famintos, cujos soldos não eram pagos havia já
cinco annos. Foram estes marinheiros, em boa parto, os provocado-
res da sedição, na qual alguns delles fcram mortos e outros -feridos
e o seu navio foi alvejado pela artilheria dos revoltosos em terra.
Si muitos dos soldados eram vadios e criminosos agarrados para
o serviço militar e ainda assim mereciam ser attendidos, como con-
fessou ainda o governo no citado ofiacio, alguns eram de menor edade
e outros, como Chaguinhas, eram moços honestos, bem procedidos, di-
gnos de alguma consideração, e mereciam bera que o seu caso losso
sujeito á apreciação do poder moderador do Príncipe Eegente, ainda
mesmo que fosse um daquelles era que esta formalidade podia ser
dispensada.
Não atttendendo a nada disto parece que o Governo Provisório,
ora que na occasião predominavam a influencia e o voto de José Bo-
nifácio, Martim, Jordão e seus amigos políticos, teve era vista con-
descender cora o elemento retrogado, dando-lhe assim uma espécie de
satisfacção, e evitar que se atropellassem os acontecimentos cora pre-
juízo da idéa latente na independência, que ganhava terreno dia a dia.
Para aquolla occasião era uma politica sem entranhas, mas hábil
e proveitosa para a causa da independência, e assim foram o princi-
paes réus condemnados sem recurso para o poder real e alguns irame-
dlatamente enforcados nas vergas do mesmo navio sobre o qual tinham
atirado e em presença daquella mesma marinhagem portugueza que,
por seu máu comportamento, tanto tinha contribuído para arebellião.
Trazido Chaguinhas para S. Paulo afim de ser suppliciado aqui,
por ser filho desta cidade, mudou-se completamente o modo de pro-
- 55 -
ceder do José Bonifácio o de Martim Francisco. Desappareccu inteira-
mente a pressa que tinham mostrado durante o processo e na execu-
ção dos condomnaclos íillios da costa do mar. A sentença estava lavra~
da desde Julho e confirmada desde Setembro de 1821 ; a forca estava
armada o prompta desde Agosto e o réu confessado e preparado desdo
Setembro ; mas sempre acharam os Andradas algum moio, algum
pretexto, para ser adiada a execução da sentença o ganharem tempo
para algum fim occulto, que tratarei do expor, segundo a tradição hoje
corrente no meio de pessoas que tem tomado interesso polo assumpto.
Ill
Chaguinhas não estava, de facto, tao envolvido c compromettido
como parecia na sedição militar de Santos. O processo instaurado
contra os sediciosos foi dirigido pelos coronéis Lazaro Gonçalves e
Miiller, que, além de serem militares da escola do condo do Lippe,
eram portuguezcs que não tinham motivos paia guardar muita con-
sideração para com brasileiros eivados de espirito liberal e sedicioso,
e por isso foram todos os rebeldes condemnados a pena ultima, sem
se attendor ao grau de criminalidade de cada um.
Entretanto, os Andradas reconheciam a injustiça da sentença que
condemnou Chaguinhas á morto e entenderam que era preciso sal-
val-o a todo o custo, sem comtudo provocar conflictos com os portu-
guezes e retrógrados do dentro e do fora do governo, o para isso era
necessário adiar indefinidamente a execução do réu o dirigir os acon-
tecimentos, do forma que se pudesse chegar ao resultado desejado
sem choques, nem attritos compromettedores.
O primeiro passo foi dividir os condemnados em dois grupos,
dos quaes um íicou em Santos o lá foi sem domora enforcado sob o
pretexto de serviu de exemplo para os filhos da costa do mar, porém
de facto como satisfacção ao elemento retrogrado, e o outro subiu a
S. Paulo sob o pretexto de sor aqui executado para exemplo dos po-
vos de serra acima, mas de facto para esperar os acontecimentos.
— 56 —
Era evidente que a ex.cuçao realizada em Santos não servia de
melhor exemplo para os povos de Iguape, S. Sebastião e outras vil-
las marinhas, que não assistiram a ella, do que uma execução nesta
Capital. Assim também o supplicio de Chaguinhas o do Cotindiba
nesta Capital não influia mais sobre o espirito dos povos da Franca,
de Curytiba o do Bananal e outras villas de serra acima, do que si
essa execução se desse em qualquer outra localidade na provincia.
Em seguida devemos notar que o ouvidor, que devia preparar a
sentença e dar as ultimas ordens para a execução dos conderanados,
era D. Nuno Eugénio de Lossio Seilbz, retrogrado intransigente, em
quem não podiam os Andradas ter a menor confiança. Também, o
juiz de fora, encarregado de estar presente no campo da forca o de
presidir a cerimonia da execução, era o dr. José da Costa Carvalho»
que, si não era retrogrado de idéas estava por conveniências ligado
aos portuguezes o reaccionários, era advtrsaiio dos Andradas e não
podia merecer destes a miniraa confiança.
D. Nuno Eugénio foi suspenso do cargo de ouvidor em 24 de
Setembro de 1821, por conveniência do socego publico, e se lhe as-
signou o prazo de dez dias para deixar a provincia ; passou Costa
Carvalho a exercer as luncções de ouvidor e o presidente da camará,
Nicolau de Siqueira Queiroz, assumiu o exercício do carg(» de juiz de
fora. Estava dado o segundo passo, que era eliminar aquelle imper-
tinente representante do poder colonial e, fazendo-o substituir por
Costa Carvalho, permittir que a execução de Chaguinhas fosse presi-
dida por Nicolau de Siqueira Queiroz, que não era suspeito aos bra-
sileiros, comquanto não estivesse no segredo das combinações.
Em Outubro desse mesmo anno de 1821, aggravou-se a situação
politica no Rio de Janeiro, com as noticias alli chegadas das exigên-
cias das cortes de Lisboa relativas ao Brasil, e tornou- se difíicil a
posição dos Andradas no governo de S. Paulo Chegou, finalmente,
a crise com a chamada do Príncipe Regente para Lisboa, por decreto
das cortes, de 31 de Outubro, e a effervescencia popular subiu ao seu
auge. Representações foram dirigidas de varias partes ao príncipe,
para que desobedecesse áqaelle decreto e ficasse no Brasil. José Bo-
nifácio foi enviado ao Rio nos primeiros dias de Janeiro de 1822,
como portador de uma representação feita pelo Governo Provisório,,
— O/ —
em nomo dos paulistas, e a 23 desse mesmo raez seguiu também para
lá um expleudido corpo de 1,100 homers, denominados leaes pau-
listanos, sob o commando d^ Lazaro Gonçalves para ^itarnecer a
Capital do Brasil e defendel-a centra os rebeldes poituguezes, chefla-
d s pelo general Avillez
Martira Francisco assumiu a vice-presidencia do Governo Provi-
sório e, coraquanto ficasse privado do auxilio immediato de seu irmão
ausente, a sua influencia no govtrno cresceu porque não tinha rival
em talento, energia o rapidez do acção, e porque podia contar com o
apoio do governo geral por meio de José Bonifácio, elevado a minis-
tro a 16 de Janeiro de 1822 B a execução de Chaguinhas conti-
nuava adiada para melhores tempos.
Passaram-se os mezes de Janeiro, Fevereiro, Março o Abril de
1822 ; os acontecimentos politicos caminhavam rapidamente para o
seu desenlace natural e necessaric — a independência ; a situação foi-
se aclarando e checou a opportunidade de se executar a sentença que
condemnou Chaguinhas á morte o de salval-o dessa iramerecida
pena (1).
Era no mez de Maio, entre os dias 12 e 18, naquella estação do
anno em que os dias já s^q relativamente curtos e as manhãs escu-
ras de cerração nos valles dos rios Tamanduatehy e Tietê, que ba-
nham a cidade de S. Paulo. Chaguinhas foi levado da cadeia, situa.
da no largo Municipal, para o campo da For< a, que lhe ficava perto.
Era entre onze horas da manhã e uma da tarde e muita gente tinha
affluido ao campo para ver o triste espectáculo. Depois do cerimonial
já escripto, foi o réu atirado ao espaço, tendo no pescoço fraca cor-
da amarrada ao gancho do patíbulo.
Rebentou- se naturalmente a corda amiga e o padecente, cabido
no chão, foi coberto cora a bandeira da misericórdia (2) ; eram duas
horas da tarde. O povo desceu ao palácio do governo para reclamar
a commutação da pena, segundo o costume do tempo. Martira Fran-
(1) Aqui é a tradição quem falia. Não ha documentoí comprobativos dos factos,
mas também não ha provas em contrario á tradição.
(2) A bandeira da misericórdia era atirada sobre o réu pelos religiosos que oficia-
vam no acto da execução, sendo o paciente por elles recolhido em alguma casa vizinha
até novos ordens.
- 58 -
cisco, directamente interessado no facto, se achava era palácio á es-
pera de noticia. Quando esta chegou, foram convocados os outros
membros do governo, residentes em varias partes da cidade, e ató
que se reunissem todos, ou a maioria, discutissem o caso e tomas-
sem uma resolução foram-se mais algumas horas. Negada a com-
mutação, em grande parto pela influencia e pelo voto de Martim
Francisco, voltou o povo descontente para o campo da fcrrca ; eram
quatro horas da tarde ou talvez cinco.
Procedeu- se a nova execução com corda nova, não examinada
por pessoas entendidas ; osta, como a primeira, quebrou-se muito a
tempo para deitar no chão o paciente cheio de vida. Veiu de novo
cobril-o a bandeira de misericórdia, cmquanto o povo, nEo somente
coramovido, mas indignado, horrorizado, descia outra vez ao palácio
para parlamentear com o governo, que foi de novo convocado para
considerar o extranho caso.
O povo exigiu e o governo não cedeu, aqueile insistiu e esíe
conservou-se inabalável, e Martim, que não tinha deixado o palácio,
chegou mesmo a sahir a uma janella e dirigir-se ao povo c&m ex-
pressões um pouco ásperas, sustentando a resolução do governo de
não alterar a pena, que ficou mantida. Foram mais duas ou três ho-
ras e quando resolvida negativamente a petição popular, voltou o
povo ao logar do supplicio, era já noite avançada. Martim Francisco,
entretanto, tinha tido tempo por meio de agentes secretos, dois dos
quaes eram o carrasco e o carcereiro, de substituir na escuridão da
noite o paciente Chaguinhas por uma figura humana bem preparada
para o caso. a qual foi pendurada tio laço de couro, que ainda para
ganhar tempo se mandou buscar ao matadouro publico, emquanto
Chaguinhas era cautelosamente escondido na occasião e mais tarde
ora enviado em segredo para Porto Feliz, a embarcar-se em uma das
monções flnviaes que, nos mezes de Junho, Julho o Agosto, costu-
mavam dalli sahir para Cuyabá, e naquella distante paragem ficou
elle sem nunca mais voltar a S. Paulo.
O povo, porém, ignorante desta substituição e açulado pelas in"
trigas dos reaccionários, não perdoou a Martim Francisco o supposto
supplicio de Francisco José das Chagas e alguns dias depois foi se
juntar á tropa armada para depòl-o do poder e expulsal-o da pro-
- 59 -
vincia — revolução cómica em seus effeitos e por isso justamente al-
cunhada A Bernarda de Francisco Ignacio. B Martim, que tão in jus-
tamente soffreu por um acto que uão praticou, soube guardar tão
profundo silencio a respeitO; que não consta que seus próprios filhos
tivessem conhecimento da realidade dos factos.
Mas elle teve amigos e cúmplices que o auxiliaram na pratica
desta caridosa fraudo, e ?A alguns guardaram também absoluto silen-
cio, outros transmittiram o segredo, sob reserva, aos so.s herdeiros,
de modo qae hoje a historia apparece sob a forma do lenda e para
muitos não merece credito. Examinarei no artigo seguinte tudo
quanto encontrei escripto a respeito.
IV
O mais temeroso adversário dos Andradas foi o padre Diogo An-
tónio Feijó, paulista como elles, pessoalmente honrado como elles,
enérgico e incohcrente como elles, porem menos orgulhoso e mais
accessivel do que elles.
Feijó residia em Ytú, que no tempo da indep«mdencia era o
maior centro do liberalismo paulista, e alli eram elle e Paula Souza
os chefes reconhecidos e acceitos dos liberaes. Em 1823, quando D.
Pedro, já imperador, tinha dissolvido a Assembléa Constituinte e su-
jeito á apreciação das camarás raunicipaes o seu projecto de consti-
tuição, que foi jurado a 25 de Março do 1824, Feijó fez a camará de
Ytú dar paiecer contrario a diversas disposições daquella constituição
e offerecer uma série de emendas, que, si não foram approvadas pelo
imperador, serviram ao menos para patentear o espirito independente
e liberal dos ytuanos e a influencia que Feijó exercia sobre aquella
gente corajosa e progressiva.
Eleito em 1821, em pleno Governo Provisório, deputado por S.
Paulo ás cortes portuguezas, com António Carlos do Andrada, José
Ricardo de Andrada, Vergueiro, Paula Souza e Fernandes Pinheiro,
esteve Feijó ausente de S. Paulo todo o anno de 1822 e era Portugal
esteve mais ou menos de accôrdo com António Carlos no desempenho
— 60 -
do sen mandato de deputado, cora ello fugiu de Lisboa para a Ingla-
terra e ]á publicou o manifesto explicativo do sua conducta politica.
A divergência entre Feijó e os Andradas deve, portanto, ter-se
originado depois da volta de Lisboa e nâo tinha por base differenças
profundas do vistas politicas, visto que na occasiào só se tratava da
independência, que era defendida por elles, mas desaccôrdo completo
sobre o raethodo, sobre os meios de agir, de José Bonifácio, minis-
tro, com que Feijó não podia se accommo ar. Dahi vciu ser elle
comdderado pelo ministério Andrada como homem anarchico e sedi
cioso, digno de ser conservado debaixo da mais severa vigilância para
se evitar a sua perniciosa influen:ia entre os seus comarcões.
Por isto Feijó sentiu-se muito offendido, mais do que devia, por-
que não tomou devidamente em consideração o facto de não estar
ainda completa a independência, de não haver ainda uma constituição
garantidora dos direitos o das opiniões do cidadão, e do governo ge-
ral não passar ainda de uma dictadura sem outras restricções mais
do que a vontade do Príncipe Regente e dos seus omnipotentes mi-
nistros. Bile era muito intelligento e sufflcientemente instruído, para
saber que é da natureza de todos os governos dictatoriaes e ainda
mal firmados considerar toda a opposição como anarchia e todo o
adversário como um inimigo, e que a independência encontrava op-
ponentes não só nos portuguezes, senhores até então do paiz, mas
também entre muitos brasileiros affoiçoados ao regimen colonial.
A Bernarda de Francisco Ignacio e a victoria dos reaccionários
de 23 de maio de 1822 eram muito recentes para estarem esqueci-
das pelos Andradas e nellas tinham tomado parte activa muitos bra-
sileiros, distinctos por sua posição social, para justificar no ministro
José Bonifácio a duvida e o receio sobre a lealdade de grande nu-
mero de seus próprios patrícios.
A revolta do povo ytuano, amigo de Feijó, contra o governo do
general João Carlos e a consequente confederação dos municípios do
interior para ar defesa da liberdade e da idéa da independência con-
tra os ataques dos retrógrados, acastellados no Governo Provisório,
com a qual ^e cortaram relações que foram estabelecidas directamen-
te com D. Pedro e seus ministros, vieram ainda mostrar que o espi-
rito liberal paulista, representado por aquella confederação, formada
— 61 —
era boa parte de amigos de Feijó, estava com José Bonifácio e seu
governo, de cujos erros e arbítrios não se cogitava naquelle momen-
to deante da grandeza e sublimidade da causa que estava em jogo e
que poderia sossobrar si não houvesse a necessária vigilância e ener-
gia de acção.
O próprio Feijó, quando ministro da Justiça durante a minorida-
de de D. Pedro II, foi algumas vezes enérgico ató a violência con-
tra aquelles que suppunha serem perturbadores da tranquillidade pu-
blica e não devia extranhar que em um periodo de profunda transi-
ção politica e social, mais grave áo que o 7 de Abril, José Bonifácio
o fizesse espionar como homem perigoso para o socego publico e para
a boa marcha da causa da independência. Naquelle tempo de ortho-
doxia religiosa e de absolutismo por falta de uma constituição, com-
batia Feijó o celibato do clero, sustentava idéas do mais avançado
liberalismo e não queria ser qualificado do anarch<sta e de perigoso
para a tranquillidade publica !
Dissolvida a Asserablóa Constituinte, em 1823, e deportados os
Andradas para a Europa, onde ficaram em exílio por vários annos,
D. Pedro outorgou a constituição jurada em 25 de Março de 1824,
mas deixou por quasi dois annos de convocar as camarás legislativas,
governando o paiz dictatorialmente, fuzilando os confederados do
Equador, que tinham reagido contra o seu golpe de et-tado, e prepa-
rando o governo absoluto permamente, para o que dispunha de boa
força e de exceliontes conselheiros.
Mas, em 1825, rebentou a revolta da nossa pro venci adi Cisplatina,
seguida logo da derrota dos brasileiros em Sarandy, que obrigou
D. Pedro a fazer marchar para o sul todas as forças de que dispunha
ea convocar as camarás para 3 do Maio de 1826, ficando assim frustra-
da a realização do plano de um governo absoluto, que aliás chegou
a ser proclamado em Tauhaté, na Bahia e outros pontos, por Chi-
chorro, Itaparica e outros sectários do absolutismo.
Entretanto, Feijó, que muito se encommodava com os methodos
de governo de José Bonifácio e Martim Francisco e com a espiona-
gem e a devassa estabelecií^as por elles, como meios de assegurar a
independência, deixou-se ficar vários annos em silencio, sem protestos
e sem acção contra as violências de Pedro I, os fuzilamentos dos
- ç>2 -
pernambucanos, a tentativa de estabelecimento de ura governo abso-
luto, regular e perraaraente, e não convocação dos corpos legislativos
por tanto tempo.
Era carta dirigida ao imperador, era 1823, Feijó affirmára a D.
Pedro :
« O Brasil deve a existência imlitica á vossa magestade^ e a sua
prosperidade e gloria ao desinteresse, â liJberalidade e â justiça de vos-
sa magestade. »
c Tenlio o prazer de ver realisada cm parte a minha asserção. >
< Vossa magestaàe acaba de salvar o Brasil da oppresssã) em que
se achava, e ainda espero sô de vossa magestade o complemento de nos-
sa felicidade. >
José Bonifácio, sem ter uma constituição a obedecer, lançou mão
da espionagem e da devassa, como meios de governo, para assegu-
rar a independência do paiz, mas não fuzilou, nem enforcou ninguém,
e isto encommodava ao austero liberalismo de Feijó ; mas D. Fedro,
mesmo depois de outorgada a constituição feita por elle e imposta
por elle ás camarás municipaes, não convocava o corpo legislativo,
espionava, devassava, mantinha deportados os Andradas e outros, fu-
zilava, enforcava e, por uma politica inhabil, provocava a revolta da
província Cisplatina, e Feijó não se encommodava e deixava-so flcar
em paz, plantando cannas de assucar em Campinas ou palestrando
com os seus amigos cm Ytú.
Tinha avançado demais na carta lisongeira que dirigiu a D. Pe-
dro para voltar atraz e confessar que o imperador, que tÍ7iha jd rea-
lizado em parte as asserções do mesmo Feijó, estava depois pondo em
pratica methodos ainda poioros do que os de José Bonifácio e fal-
tando inteiramente ao cumprimento dos seus deveres constitucionaes.
Dizia um moralista que nunca se devia falar tanto mal de um
inimigo que não se pudesse fazer cora elle uma honrosa reconcilia"
Ção, nem dizer tanto bem de um araigo que não se pudesse brigai'
cora elle por uma causa justa. Feijó falara tanto mal dos Andradas
que uma reconciliação entre elles se tornou irapossivel, por muitos
annos que ainda vivessem, e tinha emittido opiniões tão lisonjeiras
sobre os serviços prestados por D. Pedro I e sobre as grandes quali-
dades do seu coração, justo, liberal c magnânimo, que ficou impossi-
- 63 -
bilitadí de reagir, como devia, contra os desmandos iraperiaos. De.
mais, os Andradas, as mais illustres victiraas desses desmandos, eram
inimigos do Feijó e esto facto era uma attenuante para o seu pro-
ongado silencio.
Convocadas as Camarás Legislativas para 3 de Maio de 1828,
Feijó foi eleito supplento e tomou assento na vaga do visconde de S.
Leopoldo, eleito o escolhido senador, o foi reeleito em 1830 para a
seguinte legislatura, eraquanto os Andradas continuavam deportados,
— António Carlos e Martim Francisco, até 1828, quando voltaram ao
Brasil o foram presos o processados por ordem do governo, mas ab-
solvidos pela Relação do Rio do Janeiro, o José Bonifácio até 1829.
Para os Andradas não hjivia mais logar na representação nacio-
nal paulista. José Bonifácio, eleito deputado pela Bahia, em 18.29, não
acceitava o cargo e retirava-se á vida privada, onde depois o impe-
rador ia procural-o para o desempenho das altas e dlfQceis funcçõcs
de tutor dos príncipes menores ; Martim Francisco era eleito por Mi-
nas Geraos para o quatrienio tempestuoso e revolucionário de 1830 a
1833, e António Carlos, a maior gloria da tribuna brasileira, que
soffrôra quatro annos do prisão por amar a liberdade de sua pátria,
não foi eleito por parto alguma, emquanto Costa Carvalho, bahiano, e
Monteiro do Barros, mineiro, eram eleitos deputados por S. Paulo.
José Bonifácio e António Carlos não sendo deputados, Martim
Francisco encontrou-se sósinho em frente de Feijó e a lucta, inter-
rompida era 1823 com a deportação dos Andradas, recomeçou com
intensidade e azedume. Feijó, que desde Julho de 1831 exercia o car-
go de ministro da Justiça, desenvolveu extraordinária energia contra
os Andradas o o partido restaurador de Pedro I, em via de organiza-
ção, de que se dizia que elles eram chefes, o nesta lucta o ministro
niiraoseava os seus adversários com os mais feios epithetos — interes-
seiros, pérfidos, hypocritas, etc, e era por elles retribiiido com egual
liberalidade.
Na sessão da camará de 10 de Maio de 1833 Feijó apresentou o
seu relatório como ministro da Justiça, fazendo-o acompanhar de al-
gumas palavras que não foram tomadas pelos tachygraphos. Apenas
o ministro acabou de falar, levantcu-se Martim Francisco e pronun-
ciou as seguintes palavras :
- 64 -
«Sr. presidente :—Levanto-me para pedir que, com urgência, seja
lemettido o relatório do ministro da Justiça ás coramissões lembradas
por V. exc, aflm de qae dôra o seu parecer com a maior brevidade
possível, embora eu conheça que alguns de seus membros sao nossos
inimigos notórios, o qufl é confirmado pelo apoiado de um delles, que
eu pago na mesma moeda, sem urdir-lhe calumnias, e que eu não
temo qualquer que seja o furor d) seu ódio gratuito.
«Este relatório encerra uma maligna accasação contra meu illus-
re irmão, o tutor, contra seus irmãos e, disfarçadamente, contra ou-
tros illustres deputados. E todavia vós ouvistes o ministro de Justiça :
está bem ; novos Lafayettes, nós nos entregamos de bom grado á
voracidade de similhante abutre e seus comparsas; nós confundire-
mos a calurania e, qualquer que seja o êxito, o mundo civilizado, os
contemporâneos imparciaes e a posteridade nos farão justiça... >
Na sesssão de 12 de Maio, dois dias depois, ainda Martim Fran-
cisco subiu á tribuna e analysou os actos do ministério em compara-
ção com os do ministério dos Andradas, em 1822-23, qualificando-os
de illegaes, tyrannicos, criminosos e atrozes.
Nas sessões de 19 e 20 de Maio, os deputados Carneiro Leão e
Evaristo Veiga tomaram a defesa do ministério e, em represália, di-
rigiram a Martim Francisco palavras pesadas, entre as quaes se no-
tam a seguintes :
«Feijó hypocrita ! Bis a accusação mais incrível e fora de razão
que se possa ouvir e que todo o mundo que o conhece de perto não
poderá acreditar. Antes são hypocritas aquelles que em 1822, abra-
çando-o ternamente na hora da sua despedi d. i, ligavam um espião aos
seus passos para o vigiar como revolucionário . >
Estas palavras são de Evaristo Veiga e se referem á espionagem
de Feijó por ordem do ministério Andrada, quando os dois irmãos,
ministros em 1822, haviam ternamente abraçado o mesmo Feijó por
occasião de sua partida do Rio de Janeiro para S. Paulo, de voltíi
dis cortes portuguezas.
Em resposta a Evaristo, na mesma sessão, Martim Francisco
dissera que não era hypocrita porque não temia dizer o que sentia,
que nunca mandara espancar cidadãos adoptivos e que no tempo do
ministério dos Andradas não houve procedimento ofiScial contra Feijó,
-. 65 —
raas apenas uma portaria á policia para quo o flzosse vigiar, por ter
o padre Fpíjó procurado José Bonifácio com certa obra que apregoava
idéas republicanas!. Proseguiu ainda Martira na analyso dos actos de
Feijó como ministro da justiça e falou em prisões, denioia d»^ pro-
cessos, roubos o assassinatos, sendo quo a segurança publica era tao
pouca que até os tinteiros da mesa da Camará d^s Deputados ti-
nham sido roubado8.
A resposta do Feijó, dada na sessão do 22 de Maio, ó curió, a e,
porque faz uma importante allusEo aos íactos occorridos em S- Pau-
lo em 1(S22, julgo dever traní» r vel-a na parte mais interessante:
«Sr. presidente, bera desagradável é o espectáculo que está dan-
do a Camará dos Deputados á nação brasileira. Até o presente ser-
vem as injurias, ultrajes e insultos e nada mais ! . . .
«Eu de propósito não res onderei as injurias de um sr. deputa-
do, quo desde os flns da sessão passada tem-se feito celebre pelo seu
ar de escarneo o de ridiculo, quo lança sobro todos a quem combate...
«Sr. preridente, outro sr. deputado (Martim Francisco) avançou
que o meu relatório era a hypocrisia e a ferocidade personalizada 1
B' muit ) difflcil supportar similhanto insulto! Pois imputa-se hypo-
crisia a ura homem que faz gosto de dizer a verdade, quando aos
mais custa ianto?... Será, como disse, porque fali era Providenc a
Divina? Não sou athêu, não s^ou impio, e me ó dado recorrer á Pro-
videncia Divina, reverenciai a e respeital-a. Senhores, o Rcto mais
franco e sincero do meu relatório é para o sr. deputado a prova de
minha hypocrisia 1 Pois quando eu declaro quo não espero da As-
sembléa Geral renedio aos males públicos, quando, em tudo, o meu
relatório não attribuiu á ella nem prudência, nem sabedoria, sinão
quando me retiro a lei de 26 de Outubro, e tão claramente affirma
que o futuro que se me antolha é ainda mais melancholico si a Di-.
vina Previdência não dirigir os importantíssimos trabalhos da pre-
sente sessão, ó quando sou taxado de hypocrita ? Senhores, eu pre-
via a marcha da Camará. Os excessos da opposição não me eram
— ÔCy -
desconhecidos, e cada dia conheço que nao mo enganei era ter só
recurso á Divina Providencia. Só ella poderá soccorrer o Brasil con-
tra os esforços dos facciosos, o oxalá que eu mo engane !
Comparemos factos e vejamos quem é hypocrita : —Despedir com
abraços a ura horaera, charaal-o patrício honrado em que se confia
haja de promover a prosperidade do paiz para onde parte, e no pri-
meiro correio mandar que esse mesmo homem seja vigiado por todos
os meios occultos porque aos sentimentos anarchicos o sediciosos une a
mais refinada dissimulação ; isto sim é hypocrisia. Feijó não faz
tanto ! . . .'
50 orador, fazendo a defesa do seu governo, procura refutar a
accusação de ferocidade, que atira sobro os seus adversários, o se
refere aos factos occorridos em S. Paulo, era 1821— 22, nos seguintes
termos :
«Sr. presidente, o que entendo por ferocidade é isto :
<í Mandar enforcar homens, tendo ainda recurso legal contra a j)ri-
meira sentença. Sr. presidente, eu vi com meus olhos na minha pro-
víncia. Era o primeiro espect 'culo : a curiosidade chamou-me úquelle
logar. O desgraçado pendurad» cahiu por haver se cortado a <:orda.
Recorreu-se ao governo da provinda pedindo qne se demorasse a exe-
cução emquanto se implorava a clemência do príncipe regente. ÂIU'
gou se não haver corda própria para enforcar, mandou que se usasse
laço de couro. Foi-se ao açougue bu9car o laço; o imfeliz foi de
NOVO PENDURADO, MAS INSTRUMENTO NÃO ERA CAPAZ DE SUFFOCAR
COM PRESTEZ . CoRTOU-SE A CORDA E O MISERÁVEL GAHIU AINDA SEMI-
VIVO ; ja' em terra foi acabado de assassimar !
«Senhores, isto 6 que eu charao ferocidade ! Eu nunca odiei o
ainda hoje tenho horror do proferir este pensaraento : <0 sangue do
inimigo é mui saboroso para beber-se de um só trago.» Isto é que
é ferocidade. Note-se que aquelles desgraçados foram julgados no
conselho supremo não dignos do raorto (l) ; mas já estavam mortos !
Sr. presidente, eu não desejava atjlar-me no charco immundo de re-
cíprocos insultos; mas...
(1) Feijó aqui está inteiramente encanado si se refere a Chaguinhas e outros sedi-
ciosos de Santos, estavam condemnados á morte e com a sentença devidamente confir-
mada por quasi unanimidade do Governo Provisório.
— 67 —
Passou em seguida Feijó a historiar alguns factos relativos á
revolta palaciana de 17 de Abril e a conspiração do partido caraniu-
rú, e proseguiu do seguinte raodo :
« Disse-se que se fez íogo no theatro a cidadãos inermes, e serei
criminoso pelos tiros que ouvi já deitado na minha cama? Acaso eu
ordenei que se dessem ? Si é pela approvação que dei, segundo a ex-
posição do juiz de paz, na occasião em que esta Gamara procurou
instruir-se do facto ? Mas si tal exposição é verdade nenhum crime
então se commetteu.
c Disoc-se que quando foram combatidos os rebeldes mataram-se
homens que com as mãos postas supplicavam a vida ? Acaso dirigi eu
a acção ? Mandei eu que taes mortes se fizessem?
« Alguém já representou sirailhante injustiça ? Porque razão hei
de eu carregar com acções alheias? *
Presumem alguns que a horrivel execução que Feijó vm com seus
olhos foi a de Chaguinhas, Na narrativa que elle acima fez do que
viu, osqueeou-se de dizer o anno, raez, dia e hora em que o facto se
deu e o nome do condomnado, que parece ter sido um só, quando Cha-
guinhas estava em companhia do ura outro condemnado, Joaquim Oo-
tindiba, seu cúmplice na sedição de Santos.
Feijó não residia era S. Paulo, mas em Ytú, o tinha lavoura em Cam-
pinas. EUe estava era S. Paulo de passeio, ou de passagem para Lis-
boa como deputado ás cortes portugiiozas. Aqui estando e sabendo que
havia execução no Campo da í'orca, lá foi por curiosidade, assira
como quasi todo o povo desta Capital.
O que elle diz ter visto com seus olhos parece mais ser effoito
de uma illusão óptica sobre um espirito fortemente impressionavel do
quo um facto real, ou tambera pôde ser consequência de esquecimento
de um facto pouco importante era relação a tantos outros factos gra-
víssimos do agitado período de 1821 a 1832, porque é incrível que os
factos se dessem como foram por elle narrados, porque a historia dos
Andradas não justifica tanta perversidade e porque nenhum chronista
jamais mencionou taes circumstancias.
Disse Feijó que não era responsi, el pelas violências de seus
agentes, praticadas em um theatro fluminense quando elle já estava
deitado na sua cama e quo não tem culpa do quo se assassinassem
— 68 -
rebeldes vencidos que, cora as raaos postas, imploravam misericórdia,
porque nao foi elle quem dirigiu a acção e mandou praticar essas
mortes; mas quiz imo^tar, á flna força, a Martim Francisco a nao
eommutaçâo da pena ao condemnado depois da corda ter se rebenta-
do, quando MartLm apenas era um dos quinze membros do Governo.
Provisório de S. Paulo ; e deu a entender que o laço de couro, applir
cado no pescoço do enforcado nao produzindo asphyxia immediata,
Martim Francisco ordenara que o carrasco cortasse o laço e aca*
basse no cliâo com a vida do condemnado, quando Martim nao estava
na Campo da Forca, mas no palácio, a um kilomotro do distancia, e
nfto havia tempo para vir um aviso ao palácio e ir a ordem para
o pac ente ser morto, no chão, á faca ou por outro qualquer ins-
trumento.
O ministro da Justiça de 1832 nao era responsável pelos actos
dos sous; agentes nos morticínios do Rio de Janeiro, quando mesmo
nao punia esses agentes ; porém, Martim Francisco era responsável
até pelus actos dos carrascos, quando o Governo Provisório se com-
punha de 15 membros !
Deraa s si tal lacto produziu tanto horror no espirito do Feijó,
a ponto de dez annos mais tarde fazer elle a descripção que acima
vime , quando tantos acontecimentos importantes tinham occorrido
nesse intervallo e de alguma forma deviam ter obliterado na sua
memoria as circurastancia que o rodearam, porque guardou elle silen-
cio por tantos annos o só veiu expandir-se em represálias contra
Martim Francisco quando se tornou seu inimigo rancoroso?
Está claro que ha em toda esta accusação do Feijó um grande
fundo do despeito o de ódio, que o tempo não conseguiu apagar ©
que o acompanhou até a sepultura.
l*areco pela narrativa por elle feita que o facto se deu antes da
sua partida para Lisboa, em fins de 1821 ou nos primeiros dias do
18;-^, quando não existe documento ofificial algum que prove que-
Chaguinhas fosse enforcado antes de Maio de 1822, época em que
Feijó já estava em Lisboa, como não era natural que o horror pro-
duzido no espirito publico por essa execução ficasse incubad > por
por tantos mezes para só explodir a 23 de Maio de 1822, por occa-
siâo do A Bernarda.
- 69 -
Os historiadores e chronistas não fazem a narrativa do suppli-
cio de Chag;uinhas e quasi todos os que se referem A' Bernarda di-
zem que foi o effeito de dissensões entre o general João Carlos e os
Andradas.
Américo Brasiliense diz que com a ida do Josó Bonifácio para o
Rio de Janeiro flcou João Carlos com mais liberdade de acção e cres-
ceu-lhe a esperança de manter a influencia portugueza, que para bera
firmar-se só precisava da eliminação do Martim PYancisco. Passa em
seguida a repetir o que sobre A Bernarda disso Machado de Oliveira,
no seu Quadro Histórico, sem eraittir um juizo critico, e nada diz
sobre o supplicio do Chaguinhas que para elle foi como si não tives-
se tido logar.
Pereira d-< Silva, narrando os factos de 23 de Maio, diz que
João Carlos o Costa Carvalho eram olhados da o/'posição libtral flv-
minense contra José Bonifácio e não perraittiara que prepondei assem
em S. Paulo o voto e os interesses dos Andradas, e que dahi veiu
a chamada para o Rio de Janeiro de ./oão Carlos e Costa Carvalho,
pela portaria de 10 de Vlaio de 182?, que irritou o povo o produziu
a expulsão de Martim Francisco. Não toca em Chaguinhas.
Lopes de Moura apenas diz que. tendo havido em S. Paulo al-
gumas desavenças entre João <"arlos e a ramilia Andrada, D. Fedro
aqui veiu o nos campos do Ypiranga proriamoi! a independência Ar-
mitage somente diz que Martim Francisco foi expulso por desavenças
com João Carlos de Oeynhansen. .-as narrativas de Varnhagen e de
Fernando Diniz não alcançam o tempo de A Bernarda.
Abreu e Lima diz que, em consequência de dissensões occorridas
entre o presidente da junta governista (João Carlos) e Martim Fran-
cisi-o, partiu D. Pedro para 3. Paulo e aqui proclamou a indepen-
dência.
Basílio do Magalhães, nas suas Licçôes de Historia do Brazil, limi-
ta-se a dizer que tondo apparecido graves divergências em S. Paulo,
para aqui partiu o principe, que, depois de ter captado a confiança
geral, proclamou a independência.
Constâncio não fala na vinda do principe a S. Paulo, nem do
grito do Ypivanga e menos ainda sodre A Bernarda de Francisco
Ignacio.
— 70 —
Mello Moraes, na sua Historia do Brazil, affirma quo Costa Car-
valho e Francisco Ignacio de Souza Queiroz minavam os ânimos com
insidiosas insinuações e agitavam a província, por serem representan-
tes do partido reaccionário ; porôra, não se refere a A Bernarda. En-
tretanto, deixando o seu papel de historiador para assumir o de pam-
phletista politico, diz que Josó Bonifácio nao queria a independên-
cia de sua pátria pelo receio de que seus interesses, como pensio-
nista do Estado, perigassem se adherisse a qualquer pronunciamento
de separação, e para que concorresse para o movimento que es-
tava-se operando no Rio de Janeiro foi instigado por seu irmão
António Carlos, que não cessava de escrever-lho de Lisboa pedindo
a sua franca intervenção em favor da causa da independência do
Brasil.
Esta afflrmação de Mello Moraes é contestável por mais de ura
lado. José Bonifácio era muito mais velho, mais instruído e não
menos hábil do que António Carlos e não é de cror-se que só agisse
debaixo da influencia daquelle seu irmão, que era mais moço, mais
exaltado e menos prudente. Demais, António Carlos estava ainda
em viagem para Lisboa, era Janeiro de 1822, quando José Bonifácio
partiu para o Rio, levando enérgica representação, afira de convencer
o Príncipe Regente que ficasse no Brasil, e este pedido importava de
alguma tórma em um primeiro passo para a independência, que era^
consequência lógica daquella rebeldia do príncipe contra os decretos
das cortes constituintes de Lisboa.
Machado de Oliveira, no seu Quadro Histórico, citado por Amé-
rico Brasiliense, apenas diz que «o denominado Chaguinhas, a quem
se imputava a origem da aniiuação para o rompimento da revolta de
Santos e para todas as phases criminosas que apparaceram de en-
volta com o seu andamento, foi trazido á Capital e aqui suppliciado,
em cujo acto occorreram tristes episódios, aproveitados acintemente em
accrescimo á animadversão injusta em que incorrera um dos membros-
proeminentes do governo. Adeanto accrescenta elle que os auctores de
A Bernarda tirarara partido da vaga imputação que se fez a Mar-
tim Francisco do rancor que patenteou no acto da execução do fau-
tor da revolta militar de Santos» ; mas, não nos conta quando essa,
execução teve logar.
— 71 —
o dr. Paulo do Valle, que, como Machado do Oliveira, foi con-
temporâneo dos factos e ora dado a estudos históricos, foi egualmente
omisso quando narrou os acontecimentos do 23 de Maio de 18.22 e
somente disso o seguinte em reLção a Chaguinhas :
«O motim militar de Santos, de 28 de Junho de 1821, favoreceu o
partido de Francisco Ignacio e proporcionou-llie meios fáceis de con-
jurar os paulistas contra Martim Francisco. A execução capital do
infeliz Chaguinhas, tão accuraulada de episódios tristes, excitou a
piedade publica com essas mesmas demonstrações vivas e brilhantes
que formam, por assim dizer, uma apotheose sentimental a estas
grandes victimas da auctoridade no generoso coração do povo.>
Pelo que dizem estes dois chronistas devemos suppor que os
retrógrados não tinham, por si sós, elementos para deporem Martim
Francisco do poder e que foi preciso que a indignação produzida no
espirito publico pelo supplicio de Chaguinhas viesse favorecer o seu
intento e facilitar a realização de A Bernarda, que, portanto, devia
ser ura facto recente e vivo na memoria do povo.
Assim como as tempestades do mundo physico só tora logar
quando a athmosphera está carregada de vapores e de electricidade,
também as explosões populares só se dão quando o coração do povo
está saturado do indignação e de horror e não mezes depois, quando
o facto incriminado não é mais da actualidade e a impressão quo
causou está já obliterada pela influencia de outros acontecimentos
posteriores mais graves o do maior alcance politico o social.
Comparemos as poucas datas registradas pelos chronistas e exa-
minemos si Feijó podia ter assistido ao supplicio de Chaguinhas para
fazer dello a narração que acima vimos.
VI
Aá cortes constituintes de Portugal foram installadas em 26 de
Janeiro de 1821. Os deputados, que nellas deviam representar o
Brasil, foram eleitos nesse mesmo anuo de 1821, em vários mezes,
conforme as ordens dos governos das diversas circumscripções poli-
ticas em que o paiz estava então dividido.
— 72 —
Os deputados por S. Paulo orara António Carlos, Vergueiro, Feijó,
J)sé Ricardo de Andrada, António Paes de Barros e António Manoel
da Silva Buono, sendo estes dois uUinios supplentes do Pdula Souza,
que náo foi tomar assento por doonto, e de Fernandes Pinheiro, qae
optara pelo Rio Grande do Sul.
Nenhum dos historiadores, rhronistas o biographos, que tenho
consultado, tos dá os tempos das partidas destes deputados para o
desempenho dos seus mandatos. Pereira da Silva, que ó o mais mi-
nucioso, somente nos diz, na sua Historia da FundaçAo do Império,
que os primeiros que chegaram a Lisb -a foram os representantes de
Pernambuco, que tomaram posse a 29 de Agosto de 18:2l, sendo se-
guidos de perto pelos do Rio de Janeiro, que tomaram assento em
10 de Setembro, e que na sessão de 31 de Janeiro de 1832 António
Carlos e Vergueiro f aliaram pela primeira vez (1).
António Carlos e Vergueiro não eram homens que estivessem
ora uma assembléa politica como aquella e se conservassem calados
por muitos dias, principalmente estando ora jogo as idéas do liber-
dade e os mais altos interesses brasileiros. E', portanto, provável
que elles tivessem chegado poucos dias antes, em fins de Janeiro de
1822. A única nota qae encoQtro sobre a chegada do Feijó está nos
Apontamcntis Históricos, de Azevedo Marques, pela qual se verifica
que elle tomou assento ora Fevereiro do 1822, sem se precisar em
que dia do mez. B' provável que tivesse ido com António Carlos e
Vergueiro e que, cançado e enfraquecido por uma longa e penosa
viagem, tomasse alguns dias de reparador descanço para depois en-
trar nas lactas parlamentares. Dahi a differença de alguns dias en-
trp a sua posse e a dos seus dois companheiros (2 .
As viagens marítimas naquelle tempo eram diíiceis, demoradas
e feitas em navios de vela, e gastavam-se raramente men )S de cin-
coenta dias no transito do Rio de Jan^^iro á Lisboa e muitas vezes
(l) Pereira da Silva enganou-se : António Carlos falou pela primeira vez em
data de 11 de Fevereiro, tendo tomado assento pouco antes. Vide Annaes da Consti-
tuinte de Lisboa „
ip.) António Carlos e Vergueiro eram práticos de viagens marítimas, emquanto
Feijó embarcava-se então pela primeira vez.
dois. três o raais raczes (t). A partida do Feijó de S. Paulo deve ter
tido logar antes da ida de José Bonifácio para o Rio, ista é, antes
do 3 do Janoiío de 1822, para se poder explicar a sua prosenva em
Lisboa cm Fevereiro desse anno, com a demora de cincoenía dias do
viagem Quando muito tarde oJle devia ter partido de S. Paulo a 1.»
de Janeiro do 1822.
Porôm, Feijó aíBrmou que antes de deixar esta Capital assistiu
ao horroroso supplicio de um individuo, cujo nome nâo deu, e des*
croveu o facto de modo a indicar que se referia a Chaguinhas. Esta
execução, portanto, deve tor-se realizado em Dezembro de 1821 ou
ainda antes. Neste caso, José Bonifae o, que entáo estava ainda em
S. Paulo, deva ter tomado parte nas tristes peripécias que rodearam
aquella execução, e Martim Francisco, que era monos preominenie do
que elle no governo, não teria representado tão grande papel nessa
tragedia e não teria sido o único, com o brigadeiro Jordão, responsa-
bilizado pelo odioso acontecimento, como o foi então e ainda mais
tarde, até a sua morte.
A^ chronicas do tempo falam na presença de Martim Francisco
no palácio durante as longas horas da execução e a tradição até faz
referencias a certas palavras ásperas que elle, de uma das janellas,
dirigiu ao p 'vo, no largo, quando insista no seu pedido de comrau-
tacão da pena do morte depois do duplo rompimento da corda ; porôm,
nem nas chronicas, nem na tradição, nem nas innumeras accusações do
que José Bonif^icio foi victima, se encontra a menor referencia á sua
presença no palácio e á sua participação na recusa do, governo da
conimiitação daquelle pena. Devemos entender, portanto, que José
Bonifácio já não estava em S. Paulo quando ('haguinhas foi enforcado,
mas no Rio de Janeiro, e que Feijó já estava em Lisboa ou em cami-
nho para lá e não assistiu, como se suppõe, ao supplicio de Chaguinhas.
Ha ainda em favor desta hypothose o seguinte argumento, qao
me parece ser de algum valor histórico :
O coronel Lazaro José Gonçalves era o coramandante chefe dos
caçadores, dos quaev o l.o batalhão estava aquartelado em Santos o
(1) Da esquadra que trouxe D João VI e sua família, o navio mais rápido, chama-
do Voador, veia de Lisboa ao Rio Janeiro em 46 dias; os outros navios gastaram mais
de 50 dias.
— 74 —
o 2.0 nesta Capital. Dissolvido o 1." batalhão, em consequência da
revolta do Santos o saquo daquella praça, os que foram julgados in-
nocentes pelo conselho de guerra, que fez o seu processo, foram an-
nexados ao 2.» batalhão desta Capital. Os conderanados a carrinho e
a morte, comquanto desligados do batalhão pela sentença, a elle conti-
nuavam a pertencer pelo juramento da bandeira- Assim, as medidas
tomadas sobro estes sentenciados pelos poderes competentes eram
communicadas áquelle coronel para sciencia sua o de seus comman-
dados.
A 11 de Maio de 1822 expedia o Governo Provisório um aviso ao
mesmo coronel para que fizesse executar as sentenças passadas aos
réus do seu batalhão pelos crimes commettidos p^r occasião do mo-
tim de Santos.
O aviso nao nos diz quem eram estes réus, mas entendo que
não podiam ser outros sinão Chaguinhas e seu companheiro Cotin-
diba, porque os outros havia já muitos mezes que ou tinham sido
enforcados nas vergas de um navio portuguez em Santos ou estavam
applicados em trabalhos forçados nas estradas da província, e porque
a sua execução na véspera do dia 23 do Maio, tendo produzido ver-
dadeira e profunda indignação popular, serviu de excellente instru-
mento nas mãos dos reaccionários para a realização dM Bernarda
de Francisco Ignacio e consequente deposição de Martim Francisco do
poder e sua expulsão de S. Paulo.
As chronicas, os documentos officiaes que tenho compulsado, a
comparação das datas, já não falando na tradição, tudo vai de en-
contro ás afarmaçõe-; feitas por Feijó dez annos depois do facto,
quando, cheio de indignação e de ódio, atirou no parlamento ás faces
de Martim Francisco aquella medonha objurgatoria. O suppliciado a
quem Feijó se referiu não pôde ter sido o Chaguinhas ; depois de dez
annos de violentas commoções pessoaes e politicas, em que não so-
mente a causa pablica estava em jogo, mas também muito ódio &
muito despeito, era natural alguma confusão dos factos secundários e
dahi aflftrraações incongruentes e inexplicáveis. E' verdade que Martim.
Francisco defendeu-se mal da accusação ; porém uma ruim defesa nem
sempre quer dizer quo a causa é má e, demais, elle devia sentir-sa
coacto para descobrir segredos quo não eram somente seus.
- 75 —
VII
A demissão dos Andradas de seus cargos de ministros do Es-
tado, devida em grande parte á perniciosa influencia que sobro Pedro I
exerciam a cortezá marqueza de Santos e a sua roda politica, cujas
demasias elles tentaram reprimir, e a sua deportação para a Europa
onde ficaram por tantos annos, deixando o paiz entregue aos seus
inimigos possoaes e politicos e ás leviandades estouvadas do Impera-
dor, deviam ter creado para elles, na sua pátria, uma atmosphera
saturada de má vontade o do enredos difflcil de dissipar, e o seu
procedimento, de apparente incoherencia, depois da queda de D. Pe-
dro I, de alguma forma veiu dar visos de verdade a muitas das ac-
cusações que contra elles se tinham levantado.
Accusados de déspotas como ministros, em 1822 — 23, quando o
governo era absoluto, porque não havia uma constituição garantidora
dos direitos do cidadão, nem leis ordinárias que regulassem a marcha
da administração, as violências que praticaram não revelam aquolle
alto grau de perversidade que Feijó attribuiu a Martim Francisco,
quando descreveu a execução de uma pena de morte a que assistiu
nesta Capital, nem foram de nat^^reza tão grave como as violências
commettidas no Rio de Janeiro com a responsabilidade de Feijó,
como ministro da Justiça. Entretanto, em 1822 — 23 não somente não
havia constituição o leis regulamentares, como se tratava da grande
causa da independência contra inimigos externos e internos, e em
1832 havia constituição e leis ordinárias e as discórdias eram pura-
mente intestinas.
Accusados ainda de incoherentes foram os Andradas porque pre-
sos e conservados em exilio durante annos por Pedro I, se fizeram
partidários da restauração do imperador decahido, com inteiro esque-
cimento das injustiças que soffreram. A incoherencia aqui é mais
apparente do que real, porque trata-se mais de uma questão de factos
do que de principies. Monarchistas accerrimos antes da sua deporta-
ção, continuaram a sel-o em todos os tempos, até a sua morte, e
estavam no caso de preferirem a ordem, com a restauração de Pedro I,
á anarchia que se apoderou do palz em seguida a revolução de 7 de
Abril.
- lio -
Nestj terreno nào era ainda Feijó o mais competente para atirar-
lhes censuras, porque nos deu o exemplo das mais flagrantes incohe-
TGíicias politicas. Liberal exaltado cm 1821—23, a ponto do trazer
da Europa livros de idéas republicanas e leval-os a José Bonifácio,
ministro, e de se irritar contra a espionagem exercida pelos Andra-
das, como meio de governo em um tempo em que a formação da
nossa nacionalidade estava em perigo, nao reagiu, nem protestou,
contra os fuzilamentos, enforcamentos, deportações e outras violências
de Pedro I depois de promulgada a constituição de 1824; fez-se res-
ponsável, como ministro da Justiça, por muitas atrocidad s praticadas
contra os sediciosos do Rio do Janeiro, em 1831—32, e como regente
do império, em 1835 — 37, abriu lucta contra tod'S os [rincipios libe-
raes que antes professava, porque «o seu caracter duro e tenaz
o constituia em perpetuo antagonismo cora o regimen representa-
tivo, que ó todo de ponderações e de equilíbrio. Não queria aceei-
tar as consequências do systema constitucional o a sua presença na
regência devia ser uma lucta contiaua com as exigências parlamen-
tares (1)>.
Entretanto, descendo do poder, voltaram-lhe as idéas liberao-?
ainda mais exageradas do que em 1822 e as leis reaccionárias de
1841 vieram encontrar nelle opposição violenta, a ponto de fazer se
chefe de rebellião armada e de assumir a responsabilidade moral
e criminal do tresloucado e desastroso movimento revolucionário
de 1842.
A tradição da fuga de Chaguinhas está hoje muito generalizada
entre os velhos e muitos moços de São Paulo e Santos e tem- mo
sido narrada por varias vezes e por diversas pessoas^, com pequenas
variantes em detalhes sem importância. Ouvi-a narrada pelo coronel
Francisco Martins d- s Santos, velho honrado e intelligente, que mo
garantiu que essa fuga era conhecida do alferes Francisco Martins
Bonilha, meu bisavô e amigo dos Andradas ; ouvi-a da bocca do velho
Paula Marques, empregado da Escola Normal desta Capital, que a
(t) Vide Estudos Históricos, de Homem de Mello. Este escriptor, paulista e admi-
rador de Feijó, dá ainda a entender que Evaristo Ferrpíra da Veiga morreu de desgosto
ao vêr que Feijó, como regente, não correspondeu de modo algum á espectiva do par-
tido moderado, que o elegera e do qual o mesmo Evaristo era o chefe.
— u —
ouviu por mais de uma voz contada pelo velho dr Manoel José Cha-
ves, lente do Curso Annexo á Academia de Direito de S. Paulo ;
ouvi-a ainda referida pelo cidadão P. C. de Almeida Moraes, membro
do Instituto Histórico de S, Paulo, negociante em Santos e muito,
entendido om historia moderna de S. Paulo, qne me affirmou tel-a
ouvido também do 'velho Bueno, de S Vicente.
Feijó ó o uniro testemunho do certo valor qué existe contra ella,
mas as suas affirmaçõos se resentem de muita animosidade, de muito
ódio, e vieram muito tardiamente para merecerem credito. Só elle e
mas ninguém viu o laç'^ do couro não ape tar bastante o pcí^coço do
paciente para prodiidr a morto por asphyxia ; só ollo percebeu que
um aviso disto fôra enviado a Martim Francisco, em palácio, a um
kilometro de distancia, e que Martim mandara ordem ao carrasco
para que cortasse o laço e no chão desse cabo da vida do condem-
nado á faca ou com qualquer outro instrumento, cujo nome não nos
quiz transmittir !
A tolas estas accusaçõos de perversidade, ambição e incohorencia
e ainda a outras de que os Andradas foram victituas, responde ter-
minantemente o ultimo acto de Pedro I como imperador do Brasil,
mais signiíicativo do que o mais eloquente panegyrico. Ao deixar
para sempre os seus filhos menores no paiz, que ficava entregue
á revolução victoriosa o á anarchia, D. Pedro não foi procurar
.?ntro os que lhe escreviam cartas laudatorias, nem entro os fa-
bricantes de Bcrnard>/s, nem entre os que o aconselharam a
dissolver a Assembléa ConsUt/iinte e deportar vários dos seus
membros, nem entre os juizes de Ratclifif e os carrascos de Frei
('aneca, um homem de bem a quem confiasse a tutela e a educação
das iniperiaes creanças ; mas foi buscal-o na pessoa de Josô B /nifa-
cio, entre os Andradas, entro aquelles mesmos que elle, mal aconse-
lhado pelos aulicos, prendera e banira por tantos annos porque não
tinham querido lisonjear a sua vaidade, nem sabido condescender
com os seus desregramentos e devassidões.
E a gratidão nacional, quando meio século depois, em uma praça
publica da Capital do Imporio, levantou um monumento á memoria
do PATRiARCH.v DA iNDEPEMDtíMí^iA, vcíu provar aíuda uma vez que
- 78 -
os povos sabem separar o joio do trigo, discriminar a verdade da
calumnia e fazer aos bons servidores do paiz a justiça que merecem,
justificando assim aquelia bellissima quadra que Fagundes Varella
dirigiu aos paulistas :
«Foi de teu seio que surgiu sublime *
Trindade eterna de heroismo e gloria,
Cujas estatuas cada vez mais liellas
Dormem nos templos da brasilea historia.»
A. DE Toledo Piza.
o sertão antes da conquista
(SÉCULO XVII)
Findava o século XVI e cora elle findavam as vacillações, a ti-
bieza, a descrença mesma com que até então se trataram as empre-
sas de descobrimento nos sertões da colónia.
Ao longo da costa, quasi toda occupada, mas mui escassamente
povoada, tinha-se passado todo ura secalo de luctas obscuras entre a
resistência do gentio, a surprcza dos corsários e a inclemência do
clima trópico que, para o europeu, nem a belleza, nem a feracidade
e abundância da torra logravam mitigar.
Entretanto, para a raça iraraigrada era já transcorrido esse po-
riodo doloroso o difflcil da accliraação que, em toda a parte, é o afe-
ridor das energias e da capacidade do povo colonizador.
O portuguez, talvez melhor do que nenhum europeu, já entáo
conseguira firmar pé nessa Zona Tórrida que aos antigos sempre pa-
receu esbrazeada e inhabita\el.
A colónia tinha já a sua população adaptada.
Formara-se nella uma sub-raça pela acção do cruzamento. Os
mestiços, os mamelucos como se os tratavam ao modo dos Índios,
avultavam já; e esses mestiços eram o que se podia charaar es ho-
mens de acção, os nervos dessa população nova que vinha depostan-
do com os caracteres da independência, da audácia e do amor pelas
aventuras ora terras distantes.
O sertão, a despeito das muitas entradas que já nelle se fizeram,
qu-dava-^e desconhecido e como que envolvido numa obscuridade mys*
teriosa e cheia de encantamentos, em que se comprazia a imagina-
ção e se alimentava a ingénua credulidade dos homens de beira-mar.
— 80 —
Das primeiras tentativas abortadas, alguraas até es-qiiecidas, não
restavam sinão lendas conliísas descrevendo os thesouros e bellezas
do sertão, em enjos vallos Imraensos bem poucos penetraram, mas
cnjas riquezas escondidas todos instinctivaraente advinhavam.
Pareciam dissipadas as energias desse povo de sonhadores. Dir-
se-ia que o clima tinha-lhes amollecido as fibras do rijos marinheiros
de outr'ora. Um hisioriador coevo, por isteo, escrevia penalizado :«Da
largura que a torra do Brasil tem para o sertão não trato, porque
ató agora não houve quem a andasse por negligencia dos portuguezes
que sendo grandes conquistadores de terras não se aproveitam delias,
mas contentara-se de as andar arranhando ao longo do mar como ca-
rangueijos.» (1).
Entretanto, a vida na beira-mar não era nem commoda nem assas
garantida para os próprios colonos. Pouco depois de passar o Brasil
para o dorainio da Hospanha como colónia portugueza que era, e cre-
via Gabriel Soares que os moradores viviam tao aterrorizados que
estavam sempre com o fato entrouxado para se recolherem ao matto
como o faziam com a vista de qualquer náo grande, temendo serem
corsários (2).
O espirito de iniciativa cedo feneceu aos primeiros insuccessos das
expedições sertanejas, e cora isso reinava a inércia ou o desanimo, que
ura historiador contemporâneo procurou explicar ou «por não haver
gente na terra para coramelter esta tmpreza, ou também por negligencia
dos moradores que se não querem dispor a esse trabalho.» (3)
Os próprios governadores, a quem nao faltavam ordens, instru-
cções e instantes rccoramendações para que mandassem descobrir os
sertões, quedavam so tibios e compenetrados de que tudo eram esperan-
ças vas. sem vislumbres de r.9alidado. Thoraó de Souza, cora aquelle
génio pratico e maduro dos que se não embalam com rumores ou
versões imaginosas, escrevia para a Corte a propósito de taes empre-
gas : «que não falaria outra vez era ouro eraquanto o não raandasse
(1) Frei Vicente Salvador, His'oria do Brasil, pg. 8
(2) Visconde de Porto-Segnro— J?ísí-</o brasil, vol. I, pag. 359.
(3) Gandavo, Tratado da Terra do Brasil, Noticias para a Hist. e Geogr. das Nações
Ultramarina^.
— 81 —
devoras e que, nas diligencias por elle, andaria com muito tento e
pouca perda de gente e fazenda, pois que p^r muito madru-
gar nao era que havia de amanhecer mais cedo». Isto, decerto, se
referia ao mallogro da expedição aos sertões de Forto Seguro, na qual
tomara parte o josuita Padre João de Aspilcueta Navarro, pelos aunos
de 1551 a 1552 e cujo chefe ainda hoje se ignora quem fosse.
Ainda era 16)8. o honrado governador D. Diogo de Menezes,
justamente magoado com os favores demasiados concedidos a D . Fran-
cisco de Souza, então nomeado supbrintendente das minas por desco-
brir, escrevia a el-rei : «C^reia-me V. M. que as verdadeiras minas
do Brasil são assucar e páu-brasil de que V. M. tem tanto proveito,
sem lho oistar da fazenda um só vintém. > (l)
Comtudo, o verdadeiro sentimento dominante na colónia não era
precisamente o da descrença, era antes o da inércia ou incapacidade ;
porque todos acreditavam nos thesouros escondidos nos sertões e todos
murmuravam por se não darem os passos para descobril-os.
Estavam todos na firme crença de que, sendo esta terra contigua
cora a do Peru, de que a não dividia mais que uma linlia imaginaria
indivisivel, tendo lá os castelhanos descoberto tantas e tão ricas mi-
nas, cá nem uma passada davam por isso e quando iam ao sertão era
a buscar Índios forros e. dizia então um historiador, ^é tanta a fome
que disto levam que ainda que de caminho achem mostras, ou novas
de minas, não as cavam nem ainda as vôra ou as demarcara » (2)
Depois,accrescenta o mesmo historiador, "Uão basta mandar el-rei,
se os ministros não obdecem, como se viu no das esmeraldas de Mar-
cos de Azevedo.»
A imaginação popular ia todavia fazendo a sua propaganda em
prol dos sertões, creando contos phantasticos, propalando versões ma-
ravilhosas a respeito das torras occidentaes, pintadas como uma re-
gião de riquezas incalculáveis. Contavam-se cousas estupendas. In-
terpretavam-se as escassas e obscuras indicações ministradas pelos
índios como dados positivos e reaes ; e com isso davam pasto á cren-
dice de uma população, aUás para isso predisposta. Ouvindo se es-
(1) Visconde de Porto Seguro, Historia Geral do Brasil, vol. I, pag.
<2) Frei Vicente do Salvador— /Ttsíor ta ão Brasil, p. 11.
— 82 —
sas narrativas fabulosas, dir-se-ia que os tliesouros do sertão estavam
á mercê de quem quer que fosse que com alguma audácia se delibe-
rasse a patentear tão decantadas maravilhas.
B não é sem importância para a historia resumir aqui essas
Tersões imaginosas, em que a geographia, a gentilidade e as produ-
cções do sertão nos são apresentadas através de um prisma de encan-
tamentos e de mysterios, que bom pintam o estado d'alma da popu-
lação em cujo seio essas lendas se formaram o se desenvolveram.
No littoral do continente, devassado pelos navegadores e trafican-
tes, já se não encontram, entre os selvagens aquellas barras de oura
com que estes bárbaros attrahiram os marinheiros de Pinzon, como-
nol-o referem Herrera e Gomara. Os homens agigantados, mais al-
tos ainda do que os agigantados germanos, que, nas costas para além
do Cabo de la Consolacion, fizeram bater em retirada os companheiros
do celebro navegador, desappareceram sem siquer deixar tradição»
como também desappareceram os famosos patagões de quatorze pés
de altura vistos por Fernão de Magalhães ao norte da Bahia de São
Julião. Pigafetta refere que estes bárbaros eram tão altos que ura
homem de estatura ordinária lhes dava pela cintura. Já se não viara
mais na ilha de Fernando de Noronha os lagartos de duas caudas de
que nos dá referencia Vespucci em um dos seus escriptos, m então
pouco os gigantes que o mesmo celebre navegador descobriu na ilha
de Curaçáo.
Os monstros marinhos que assolavam as costas da capitania de
S. Vicente ninguém jamais tornou a vel-os.
Falam os historiadores com enthiísiasmo da infinita caça e do-
infinito peixe que na terra havia. Descrevem os grandes recursos
que por toda a parte a natureza cxhuberante deparava ao homem
extasiado. Falam da abundância do peixe boi em quasi todos estuá-
rios e rios da costa ; das grandes e numerosas baleias e também dos
lobos marinhos e porcos marinhos que se criavam na terra o no
mar.
Frei Vicente do Salvador conta que nos mares do Brasil appare-
Ciam até homens marinhos chamados Hipupiaras, que já foram vistos
fora d'agua correndo após oír Índios, de quem tinham por costume
comer-lhes os olhos e narizes. O mesmo historiador, com aquella
I
— 83 -
cândida singellcza e credulidade de Heródoto, nos refere que no paiz
havia cobras que á noite vinham mamar no seio das damas, fazen-
do-o com tanta brandura e suavidade como si foram as próprias cre-
anças.
O historiador Gandavo conta prodígios da giboiuçú, a qual engo-
lia um veado inteiro e arrebentava depois de farta, apodrecendo en-
tão quanta carne tinha pelo corpo e só ficando no espinhaço com a
cabeça e a ponta do rabo sãns ; e, dizia o historiador mencionado,
« tanto que desta maneira fica, torna pouco a pouco a criar carne tão
perfeitamente como dantes.».
Do interior das terras nos transmittem os historiadores coevos
as mais abstrusas e phantasticas versões.
O mesmo historiador Gandavo escreve que alguns homens lhe
afarraaram terem visto nessi^s terras serpentes com azas mui gran-
des e espantosas, bem que sejam monstros mui raros, e também la-
gartos enormes cujos testículos cheiravam melhor que almíscar. Ou-
tro historiador contemporâneo cita entre as muitis riquezas do raino
vegetal a arvore do sabão e a do vidro. (1)
«Todo o sertão, dizia Vasconuellos, está feito um bosque, entre-
talhado como ura canteiro, da mesma natureza, cora suas aguas.» (2)
Noção falsa que bem demonstra quão ignorada era essa parte do
paiz ainda ao tempo do chronista da Companhia de Jesus, no meia-
do século XVII, e que provavelmente se originou do facto de se ter
primeiro atravessado o continente pelo valle do Amazonas o de se
terem feito as primeiras entradas exa-itamonte na região em que a
matta littoral tinha mais larga expansão, penetrando pelos valles do
Jequitinhonha, do Mucury e do rio Doce até quasi ás chapadas cen-
traes. Ahi, do facto, a matta affecta notável corpulência, exhibe-se
como a característica da região cujos rios volumosos, retalhando o
paiz a pequeno trecho, se ligara por meio de braços ou furos, como
o Amazonas e o Tocantins, corao o Jequitinhonha e o Pardo, ou re-
cebem, como o Doce, tributo perenne de numerosas e extensas ala-
goas.
(X) Frei Vicente do Salvador— 7/isí. do Brasil.
(2) Simão de Vascoacellos — CAro/iíca dx Compnnhia da Jesus, das Cousas do Bra-
sil, XIV.
— 84 -
A litteratura, porém, guardou indelével essa falsissiraa noção e
continuou a pintar o paiz com esse aspecto de encantadora poesia
que tanto nos desvanece a nós brasileiros e nos leva muita vez a
cerrar os olhos á triste realidade.
A verdade é que o paiz, conhecido então somente ao longo do
littoral. onde a frescura do solo dá-lhe uma vestimenta de galas, nas
florestas virgens quasi impenetráveis, e onde os rios, ainda os menos
consideráveis, oxhibera largas eraboccaduras e amplo • estuários, não
era avaliado senão superficialmente e por esse processo quasi sem-
pre falho em matéria de observação : concluir do todo pela parte.
Estendendo-se por detrás da zona marítima numa distancia va-
ri.vel a partir do littoral, o s^-rtão offerece ura aspecto pbysico bem
differente e bem distincto nas duas principaes secções em que o paiz
naturalmente se divide: a região-Nírte e a rcgião-Sul, mais (u me-
nos limitadas pelo parellelo de 18.» de latitude meridional.
Em uma e outra região, o aspecto physico, a característica do
sertão é um phenomeno em intima dependência com o relevo e atti-
tude das montanhas, a constituição do solo e o grau de humidade
do clima continental.
Para o Norte o relevo do paia é muito menos accentuado; o so-
lo, menos variado na sua constituição geológica, se levanta sem gran-
des e bruscos desnivelamentos, assumindo as momanhas o aspecto das
planícies elevadas ou chapadas de margens Íngremes, que as corren-
tes fluviaes, nem sempre perennes, rasgara e atravessara, deixando
de perraeio as lombadas largas que a erosão secular modelou. Aqui
e alli, na planura que se desdobra a perder de vista, levantam-se ser-
ros curtos, ponteagudos, espelhando o sol nas encostas mias, brancas
da rocha quartz sa estéril.
O paiz é, no geral, socco e mono tono. A vegetação, por vastissi-
liia zona, é sempre a mesma, rachitiea, espinhenta, retorcida, caracteris-
ticamente accentuada nas espécies que constituem o typo da catinguy
õndo era solo pedregoso e quente sobresaera as acácias, os zízyphos
e os cefeus variadíssimos.
As chuvas são escassas no período annuo e por vezes faltara
totalmente era annos successivos. Então, no solo privado de huraidade
e sob um céo esbrazeado a vegetação parece morrer. As arvores des-
— 85 —
pidas das suas ramagens parecem tostadas jelo fogo. As fontes sec-
cam ; os rios são simples sulcos, onde apenas se distinguem signaes
de que a agua por alli correu.
Os grandes rios, que do longe vem e cujas origens estanciam
em outros climas, atravessam como forasteiros essa terra reseccada,
assignalando a sua passagem nas longas filas de uma vegetação mais
verde como oásis numa planície deserta.
De longe era Imge, as man'^iias de terrenos saldados, cobertas
com o manto das carnahubas no mais formoso agrupuraento, quebram
a fatigante monotonia da paizagem, denunciando o assento de uma
pequena população jor entro o copado espherico das palmeiras.
A catinga nãu é, comtudo, uma barreira impenetrável. A vegeta-
ção sui generis que a constituo dá- lhe antes o aspecto de um laby-
rintho, com a sua multiplicidade de veredas, de clareiras sempre
eguaes, e que só uma vez se tranforma, como por encanto, pela re-
vivescência de um dia, se por ventura a chuva logrou vencer a in-
clemência do céo.
Se o perigo da raatta virgem ó a solidão sem veredas e sem sa-
bidas, o terror da catinga é o desnorteamento infallivcl pela raultiplici
dado delias. O bruto cora o seu instincto rasga horizontes e vai ao
seu alvo sem vacillar; o homera, porôm, que uma vez penetrou na
catinga e lhe falhou a memoria na escolha da vereda, é uma victima
que só um milagre salvará.
E' esse o s rtão do Norte que se oxtende por ahi além, desde a
Bahia até o Maranhão ; que transpõe o Vasa-Barris e o S. Francisco ;
vinga as montanhas dos Oariris paia além de Pernambuco ; passa do
Parahyba ao Potengy ; ganha as várzeas do Jaguaribe e do Acarahú,
o do alto de Ibiapaba, descendo ao agreste do Piauhy, vai entestar nas
chapadas maranhenses, já visinhas da Hyléa Araazonica.
Trezentos a quatrocentos metros de altura media sobre o mar,
pouco mais de mil metros nas altitudes extremas e raras, eis o ser-
tão da região do Norte.
Bem diversa é a zona do Sul. A matta do littoral vai ahi se
fazendo mais estreita. As montanhas abeiram-se do oceano e em
mais de um ponto mergulham cm suas aguas as encostas alcantiladas
que avançam em promontório.
— 86 —
o relevo do solo é aqai mais variado o, por isso mesmo, mais
bello. As serranias multiplicam-se e algumas elevam as cumiadas a
mais de dois mil metros sobro o mar.
Os Órgãos de Thcresopolis, o Dedo de Deus, as Agulhas Negras
do Itatiaia, os picos do Itaculurai e do Itambé, entestando com as
nuvens, assignalam as altitudes maiores, dão a nota pittoresca da
paizagem e demarcam as cabeceiras dos grandes rios, que não seccam
jamais.
Aqui, as gran'íes campinas elevadas avançam até quasi ao mar
por sobre o dorso das serranias. Na Bocaina, era Paranapiacaba e
em Curitiba ha sempre um trecho do oceano no horizonte do obser-
vador das campinas.
Aqui, os campos nús, cuja serenidade triste, os bosques de arau-
cária apenas interrompem, são regiões abertas que levam bem fundo
no interior do coniinonto.
Aqui estão de facto as portas dos sertões occidentaes. Nascem
os rios quasi á vista do mar e se engolfam no desconhecido, condu-
zindo no seu dorso a ambição insaciada dos conquistadores, ao mesmo
passo que as campinas intérminas deixam ver o horizonte desempe-
dido, amplo, como se quizessem significar a rendição muda do ignoto
diante da audácia dos forasteiros
Perante a funcção histórica dos conquistadores do Novo Mundo,
a região do Norte do Brasil é um theatro dos mais ingratos que se
não fora o Amazonas, a expansão brasileira por esse lado teria pa-
rado no valle de S. Francisco- A região do Sul, ao contrario, reunia
as condições geographicas capazes de um dia assegurar na partilha da
America para o dominio lusitano quasi metade do continente austral.
No Norte do Brasil vêm os rios ao mar em amplíssimos estuá-
rios, que dão accesso por 20 e 50 léguas longe da costa ató as pri-
meiras cataractas. Desse ponto cm diante, as successivas quedas
tornam quasi impossível penetrar nos sertões galgando ou vencendo
as correntes fiuviaes. Por essa razão é que o movimento colonizador
hade ahi preferir o caminho do littoral á vereda do sertão através
de cursos d'agua cuja violência é preciso vencer ou através das ca-
tingas estéreis, tormentadas pela secca e que só o gado ponde de-
vassar.
— 87 —
No Sul, o homem do littoral como quo domina do alto das suas
montanhas o intimo dos sertões a que os conduzem os rios caudaes
descendo para o interior. Aqui. ainda que através do cataractas e
de saltos, o conquistador desce sem esforço ; as aguas o levam de
feição ; o seu trabalho é moderar a descida, impedir que a marcha
se precipite. Depois, a região é favorecida pela benignidade do clima.
Não ha seccas, nem jamais o deserto se petrifica sob a inclemência
do céo.
O destino de cada uma das duas metades da colónia, diante do
problema da conquista, estava pois perfeitamente assignalado na
constituição geographica dos respectivos territórios. O paulista, pelo
seu habitat, tinha de ser o bandeirante por exccUencia. A conquista
dos sertões estava no seu destino histórico.
Vede bera quo em toda a hydrographia do continente do Sul,
nenhum rio considerável como o Tietó tem as cabeceiras mais visi-
iihas do oceano, nenhum permitte mais largo accesso polo interior
através de um amplo systema fluvial como o de que elle depende.
Essa estrada admirável que o Tietê assim facultava ao movi-
mento invasor só se equipara nos seus effeitos a do Amazonas no
norte e a do Prata no sul. Mas nem uma nem outra excedia o Tietê
nas condições propicias para uma expansão guerreira, como tinha de
ser a que os paulistas depois realizaram. Por isso, o povoador do
Amazonas vai corrente acima sem encontrar resistência e só estaca
ou se detom porque se enfastiou de navegar. Não ha outra explica-
ção. O castelhano sobe o Prata e estaca deanto das cataractas ou
deanto dos pantanaes; não vai além do Guayrá, como não penetra
para cima dos Xaráes ; mas depois tem que ceder terreno deante das
bandeiras victoriosas que conquistam Guayrá, que atravessam os pan-
•tanaes do Paraguay, ganham o Guaporé o por elle vão ao Amazonas,
ligando pelos sertões os extremos da conquista quo se fizera pelo
littoral .
Mas no começo do século XVIÍ, essa hydrographia, esses sertões,
como deixamos descriptos, não eram sinão ura mytho para as popu-
lações que cresciam á beira- mar.
Falsíssimas noções corriam a propósito da origem e do curso dos
grandes rios cujas aguas arrojadas corriam doces mar em fora vinte
— 88 —
léguas, como o S. Francisco, segundo o descreve Gandavo. Era tido
então este rio como o mais celebro de quantos na colónia se conhe-
ciam. Tinha o sou nasciíiioiifco numa famosa alagôa reita das ver-
tentes do aguas das serranias do liili e do Períi, donde procediam
também o Grão Pará e o rio da Prata. A' margem dessa famosa
lagoa aflarraavara liaver numerosas povoações, cujos moradores possuíam
cabedaes ricos de ouro e pedraria. Cliaraava-se Dourada essa famosa
aiagôa, que nos faz lembrar o El- Dourado das cabeceiras do Orenoco.
Tinha o rio enorme sumidouro de doze léguas de extensão, a no-
venta léguas do mar, e mais de tresentas ilhas desde o sumidouro
até a barra. Eram as suas margens habitadas por varias nações
gentias, algumas das quaes se ornavam cora laminas de ouro. (1)
* Os arvoredos dost.s ribeiras vão-se ás nuvens, tudo é um bosque
em raiiitas partes tão fechado que impede o céo o a luz.» (2) Paus
preciosos ahi abundavam ; brasil e cannafistula eram comnmns. As
suas campinas eram outros Campos Bliseos, férteis, ameníssimos e a
terra toda abundante de fructas brasílicas. Corria esse rio por ter-
ras raineraes, ricas de ouro, prata salitre e tanto mais quanto mais
iam entrando ao sertão. E assim continua o chronista a descripção
deste famoso S. Francisco tão poeticamente o com tantas galas que
hoje ao leias ninguém diria que o rio das catingas do Norte, tão
tormentado pela socca, tão ingrato era quasi raetado do seu extenso
valle, fosse outr'ora esse paraizo terreal creado pela imaginação dos
chronistas e historiadores complacentes.
Do rio Parnahyba do Piauhy, em outro tempo denominado Rio
Grande dos Tapuyas, faziam se quasi idênticas descripções ; também
tinha o nascimento em uma formosa aiagôa de vinte léguas de ex-
tensão, na qual afirmavam os naturaes haver copia de preciosas pé-
rolas, noção acaso exaggerada da Jagôa de Paranaguá transmittida
pelo gentio.
Em 1(3:27. Frei Vicente de Salvador ainda escrevia na sua Histo-
ria do Brasil que o Pinaré, Mearira e Itapucurú no Maranhão proce-
diam de mui perto do Peru.
(1) Vasconcellos, Chronica da Companhia de Jesus no Brasil, Liv. I p. XLVII.
.(2) Idem.
- 89 -~
Descrevia se o rio Real da capitania de Sergipe como um outro
caudaloso S. Francisco Em alguns mappas antigos fig;urara-no mes-
mo como ura braço deste.
Da mesma alagoa Dourada, com cidades e populações numero-
sas pelas suas ilhas e margens, donde o S. Francisco dimanava, sa-
hia um braço para o grão rio das Amazonas, encaminhava-se outro,
segundo alguns, a desfnítoccar eo mar (ntre S. Vicente e a ilha de
Santa Catharina. O Paraguay ahi nascia também e vinha misturar
as suas aguas cora as do rio da Prata-
Doscrevia-se o balto das Sete Quedas, no Paraná, como uma for-
midável maravilha, tremendo a terra toda era redor cora o estrondp
das aguas, ouvido muitas léguas distante. Nas suas margens as ar-
vores pretificavara-se ; e tinham a propriedade de tornar clara e har-
moniosa a voz humana as suas aguas es, umantes.
Nos raappas do terapo flgura-se toda esta geographia phantastica
de perraeio cora um vocabulário bárbaro representando os povos ha-
bitadores desse paiz do maravilhas. Legendas, em latim, descrevera
era stguida a cada nome os costumes e hábitos desses povos
Na America inteira a imaginação e a crendice humana correm
parelha com a mais arrojada phantasia. Quanta vez, porém, a própria
realid de das cousas não tinha surprehendido e deixado muito aquém
os sonhos imaginosos dos mais arrojados corredores de aventuras ?
Quantas expedições custosas não se organizaram estimuladas por
meros contos fabulosos ?
Vede Ponce de Leon a peregrinar pelo Mar das Antilhas á pro-
cura dessa ilha mysteriosa cora a sua fonte de (terna juventude. A
sorte ingrata tinha-o ligado já velho a uraa daraa de encantadora
formosura e era plena mocidade. Bile julgou na America poder tu-
do aspirar e desejou ser joven ainda uma vez, apagando da fronte
encanecida o ultrage dos annos. Não nos diz a Historia se o Amor
logrou já uma vez destes triuraihos, raas a Geographia extendeu
ainda mais os seus dominios no Novo Mundo acolhendo o velho peri-
grino nas costas da Florida, no paiz dos Natchez.
Vede Orellana descendo d- s indes de Quito, atravessando pelo
maior dos caudaes toda a largura do continente e vindo descobrir
esse reino ferainil das Amazonas que ninguém tornou a ver. .
— 90 -
Vede esse aventureiro de Inglaterra, Walter Ealeigh, o mallogra-
do descobridor da Virginia, a engolfar-se nas savanas do Orinoco
para desencantar o El Dorado na sua cidade resplandecente de Manôa,
assentada á margem de um lago de ouro e de riquíssima prata.
Vôde Benalcazar partindo de Quito, Federmann de Venezuella,
Ximjnes de Quesada subindo o Magdalena, o todos perseguindo a
rkiesma chimera, esse reino encantado das solidões da Guyana.
Para as regiões superiores onde estanciam as nascentes do Grão-
Pará havia a imaginação dos aventureiros creado o riquíssimo reino
de Paititi, emulo do El Dorado, confundindo-se com este muita vez,
€omo resto soberbo do que íoi o império dos Incas.
Da innumera e barbara gente que habitava os sertões corriam
extranhissimas versões.
Os Guayazis da extrema occidental erara anãos de tão pequena
estatura que parece affronta dos homer.-s.
Os Matuyiis tinham os pés para traz.
Os Coruqueanas eram gigantes de quinze pés de alto, adornando-
se com pedaços d'ouro os beiços e narizes.
Corria a noticia de uma tribu do Ceará que usava comer os ve-
lhos para llies poupar o trabalho de viver.
Uma tribu dos pampas meridionaes tinha pernas como as aves.
A mór parte de tão extranha gentilidade era de uma feridade in-
doscriptivel.
Ninguém ousava penetrar-lhes os domínios sem séquito numero-
so e respeitável.
Os grandes thesouros do sertão guardavam-se assim por monta-
nhas alt ssiraas, por caudaes immensos e invadiaveis, por tribus fe-
rozes e por monstros de terrificante aspecto. Nem jamais á ima-
ginação dos homens appareceram thesouros que não fossem defendi -
didos por monstruosidades horrendas.
Na America, como na Colchida, os velocinos d'ouro ou El- Dorado
guardam-se por monstros, dragões trilingues ou serpentes aladas,
mas sempre monstros.
Era crença em voga entre os colonos haver ura qiie de mysterio-
so impedindo o descobrimento das riquezas do sertão, o que a morte
era o castigo inevitável do indiscreto que ousava revelar-lhes o se-
— 91 —
gredo. Frei Vicente do Salvador nos transmitte essa crendice popular,
talvez originada dos repetidos insuccessos com que se coroaram as
primeiras tentativas.
De certo, uma tal ou qual desdita agourentava os mais bem com-
binados tentamens.
Aleixo Garcia não lograra tornar da sua jornada, tão arrojada
que por muitos se considerou fabulosa. Fero Lobo perecera trucida-
do nas margens do Paraná, em 1531, cora toda a sua numerosa comi-
tiva. A expedição de que fez parte o Padre Aspilcueta Navarro, era
155.2, não teve êxito. A galé de commando de Miguel Henriques, quo
Thomc do Souza enviara a explorar o rio S. Francisco, nunca mais
tornara. !áebastião Tourinho, se logrou ver a serra das Esmeraldas,
não trouxe provas cabaes delias. António Dias Adorno, percorrendo
os mesmos sertões, não logrou melhor fortana. Sebastião Alvares nos
sertões do S. Francisco ; Luiz Alves de Espinha nos dos Ilhóos ; Fran-
cisco do Caldas em Pernambuco ; Diogo Martins Cão, por a'cunha o
Mata-Negros, e Marcos de Azevedo no Espirito Santo representam
outros tantos insuccessos.
Todavia o século XVI, que Andava sem poder revelar os thesou-
ros do sertão, não legava ao novo século um sementeira de descren-
ças ou de desanimo, como era íacil de prever de tão repetidos infor-
túnios. As pequizas redobraram.
João Coelho de Souza, antes de 1580, levara três annos a per-
correr os sertões das cabeceiras do Paraguassú e morrera em tão
ingrata jornada em sitio ignorado, legando a Gabriel Soares, seu ir-
mão, o capital, não de ouro que o não logrou descobrir, mas de ex-
periência para novas e mais arrojadas tentativas do descobrimento.
Gabriel Soares, de posse dos roteiros que lhe deviam desvendar
a elle os segredos das minas que o irmão não lograra explorar, parte
para a Europa, vae á Corte do Castella, solicita favores, proramette
corapensal-os com valiosos descobrimentos, consegue mercôs e bene-
flcios, obtém por fim que lhe mandem dar armas, munições e gente e
regressa ao Brasil.
Não foi, comtudo, mais afortunado o Ínclito autor do Roteiro do
Brasil. Gabriel Soares, chegando a Bahia, depois de haver naufra-
gado nas costas de Sergipe, retira-se para o seu engenho, á margem
— 92 —
do rio Jaguaripe, a reunir gente, e toma sócios para a empresa quo
se lho afigurava auspiciosa. Parte emfira, penetrando nos sertões do
Paraguafsú pela vereda do mesmo Jaguaripe, cujo valle remonta até
próximo ás cabeceiras; passa pela serra do Guarerú, onde está hoje
a povoação da Pedra Branca, e ahi levanta uma casa forte ; segue a
atravessar o Paraguassú abaixo do logar onde se fundou mais tarde
a povoação de Jofvo Amaro e ahi próximo levanta outra casa lorte ;
envereda para o noroeste entranhando-sc nas catingas ao oriente da
serra do Orobó.
Faz outra casa forte no meio destes sertões, entre os Payayás, o
prcsegue a rumo de noroeste atravessando o rio de Jacuipe e attin-
gindo as cabeceiras do Itapicurú, próximo do logar onde depois se
fundou Jacobina. Explora as serras conviziràhas, descobre indicies
de ouro e prata na Pedra Furada e dahi, galgando a chapada, pene-
tra nas campinas altas do valle superior do rio do Salitre e por ellas
vae até o Morro do Chapéo, cujos sertões põe-se a percorrer em to-
dos os sentidos quando a morte o colheu a elle e a mór parte da sua
comitiva em sitio que flcou até hoje ignorado.
Dos despojos da mallograda empresa ficou para a histeria a vaga
tradição que os annos engrandeceram e transfiguraram na mais fa-
mosa lenda da nossa Historia— as mwas de prata. Melchior Dias
Moréa, destemido sertanista das margens do Eio Real. apparece então
após oito annos de continuadas pesquizas pelos mesmos sertões, com
esse lendário descobrimento cujo segredo a ninguém jamais transmlt-
tiu. Solicitações, rogos, ameaças, prisões, nada o demoveu da reso-
lução quo tomara de não deixar passar a extranhos as glorias, as
honras e beneflcios que para si pedira em troco do seu segredo, uma
ficção talvez, uma chimera, mas quem sabe também se não um se-
gredo verdadeiro, quo valia as mercês que a corte lhe negara?
E assim passaram á posteridade como um enigma indecifrado
essas minas de prata de Roberio Dias (nome de um dos successores
de Melchior,) minas mais potentes que as do próprio Potosi, mais ricas
que as de ferro de Bilbáo, e com as quaes se poderiam calçar todas
as ruas de Madrid, segundo o asseverava o mallogrado aventureiro.
Era a prata o metal de estimação mais commum nestes tempos.
A America depois da conquista do México e do Peru tinha-a espalha-
- 93 —
do abundantemente por toda a, parte. Alterosos galeões conduziam
para a Europa todos os annos riquíssimos thesouros. Estavam no
auge da sua producção as minas de prata de l-*otosi. descobertas em
1542 no Alto Peru e de que o Brasil se nao separava sinao por uma
linha imaginaria.
Dahi a crença geralmente espalhada de que a America Portugue-
za também possuia muita prata, e então pelos seus sertões se pro-
curavam vestígios delia. Do ouro quasi que se nao falava. As
chronicas e escriptos do tempo, como os contos imaginosos do povo,
davam á prata maior valia. Toda de prata era a encantada cidade
de Manôa, cujos reflexos á noite simulavam no cóo a via láctea.
Também de prata eram as mina» que ficaram para sempre em segredo
do obstinado aventureiro descendente do Caramurú. De prata oram
ainda as serras resplandescentes dos sertões de Porto Seguro e que se
tornaram lendárias com o nome de Itaberâbussú.
Eis como o historiador Gandavo nos conta a origem dessa famo-
sa legenda.
«A esta Capitania de Porto Seguro, diz o citado historiiidor, che-
garam certos Índios do Sertão a dar novas de umas pedras verdes,
que havia numa serra muitas léguas pela terra dentro, e traziam
algumas delias por amostras, as quaes eram esmeraldas, raas não de
muito preço ; e os mesmos Índios diziam que daquellas havia muitas,
e que esta serra era mui íorraosa e resplandecente. ^ Esta serra res-
plandecente, que o gentiu, em sua língua, dizia Itâberâba-oçú e que a
corruptela em lábios portuguezes transi ormou em Taberaboçú (1) e
mais geralmente em Sabarâboçú, vai ser por todo o século seguinte o
alvo das mais arrojadas expedições sertanejas conduzidas de S. Paulo
em direcção ao valle de S. Francisco, das quaes não poucas vararam
os sertões em busca de Porto Seguro ou do Espirito Santo, donde
lhes vinha a longínqua tradição da serra das Esmeraldas. (2)
(!) Monsenhor Pizarro, nas suas Memorias, escreveu ainda Taharaboçú.
(2) O Dr. Orville Derby, na sua nionographia a respeito de Uma das primeiras
bandeiras paulistas, assim o explicou também quando a propósito da vinda de D. Francisco
de Souza a S. Paulo^ em 1599, diz que «era o objecto principal da sua vinda promover a
exploração de minas e muito especialmente, conforme contam alguns historiadores, pro-
curar uma serra chamada Sabarabossú, reputada mui rica de prata e da qual elle tinha
recebido noticia estando no governo da Bahia.»
— 94 —
A lenda de Sabaraboçú vai ter larga repercussão entre os ma-
melucos de S. Paulo.
Começa aqui esse período das pesquizas sertanejas de que a ex-
pedição de 1602, do commando de Nicoláo Barreto, é uma das pri-
meiras e mais memoráveis, mas cujos feitos só se salvaram para a
Historia nas netas de viagem de avencureiro extrangeiro Q). Co-
meça esse período das expedições longínquas para descerem índios
para as lavouras ou para buscarem minas cujos thesouros, só um sé-
culo depois de porfiadas tentativas, se desvendam. Um século inteiro
a bater os sertões atrás de uma chimera . . .
E seria acaso uma chimera para os contemporâneos de Cortez,
de Cabral, de Pizarro e de Alvarado correr aventuras, dar avras á
imaginação, crear Potosis em todos os sertões, e El Dorados onde
quer que o deschonhecido lhes podia deparar a elles os mais assigna-
lados prodígios?
A historia ó testemunha de como a humanidade se tem excedido
a si mesma perseguindo uma chimera. Colombo nos deu a America'
um mundo novo, correndo atrás de uma phantasia que a realidade
não confirmou. Cortez destróe a possibilidade do regresso queimando
os próprios navios para impor a certeza da victoiia. O seu sonho havia
de converter-se ^em realidade porque o destino o fizera conquistador.
Sebastião Tourinho, Dias Adorno, Gabriel Soares, Melchior Dias
D. Francisco de Souza são os obreiros inconscientes da Geographia
dos nossos sertões quando, ao través do horizonte infinito e mudo
do deserto, perseguindo a sua chimera, descem aqui ao profundo dos
valles para desencavar minas de prata, e alem galgam píncaros de
serranias para lobrigar no longínquo horizonte os reflexos dessa
montanha resplandecente que jamais appareceu.
Sonhos, chimèras, ficções innumeraveis, tudo é vão e pratica-
mente incomprehensível, e todavia é com isso que o mundo caminha.
S. Paulo, 21 de Julho de 1899.
Theodoro Sampaio.
(1) Roteiro de Gailheraie Glimmer. pabiicaio por Pizo e Marcgraff, em IGiS.
Evaristo Ferreira da Veiga
(COMMEMORAÇÃO HISTOEICA)
Quando estudamos a menlalidade e o patriotismo do povo brazi-
leiro, naquolles de seus filhos, que, em tempos idos, se salientaram
nas lettras, nas scienclas e na politica, observamos o mesmo pheno-
meno que tem occorrldo e occorre no evoluir do um povo, quanto á
cultura intellectual delle, sempre que o transumpto de todas as suas
aspirações, de todos os seus ideaes em nenhuma outra cousa consis-
te senão na liberdade.
Os povos são como os indivíduos : logo que attingem á maiori-
dade, difíicilmente supportam a dominação ou a tutela, e quanto raais
se desenvolvem e se esclarecera as suas faculdades, tanto mais nellesr
esse instincto, que tende para a emancipação com a insistência do
primeiro rebento da planta, em busca da luz e do carbono, se robus-
tece, se avigora e se expande. Quem jamais poude suffocar esse in-
tincto, sem o tornar mais violento na sua intensidade o no seu im-
pulso ?
E essa paixão pela liberdade, incendendo a imaginação, tem pro-
duzido todos os vates, todos os grandes philosophos o principalmente
todos os athletas da tribuna— verdeiros enviados do ceu, ou vorda
deiros desvairados da terra, que só apparecera nos momentos mais
solemnes e agitados da vida humana, isto é, quando elles vêm servir
de órgãos potentíssimos especialmente dos humildes e dos fracos, que
constituem a maioria ; quando encarnam, por assim dizer, o espirito-
de todos esses em lucta com a matéria, as aspirações á liberdade em
lucta com a fatalidade do mundo physico — eterno contendor do ho-
- 96 -
mem— , o bom em combate com o mal, as luzes era pugna cora as
trevas. E' de notar, porôra, que esses génios sempre surgera dos re-
cantos raais obscuros, de berços hurailinios, porque não ha com cer-
teza eschola mais edificante do que o lar : ahi é que se escutara bem
os gemidos e os suspiros da maioria do género humano, que padece
todos os vexames, todas as angustias e misérias, resultantes, entre
varias circumstancias raais, da prepotência de uma classe de indivíduos
privilegiados, que o sentimento do egoísmo o do orgulho crêa, e que
todos ou quasi todos toleram, uns por pusilanimidade, outros por cal-
culo e outros ainda, ora raaior numero, porque esperara resignados
alguma refarraa. Mas essa reforma só se opera de n.aneira por de-
mais lenta e imperfeita, porque nem sempre concorre para ella a so-
Udíiriedade, — aliás uma lei histórica, — de tal sorte que Hobbers vai
continuando a acertar, quando diz : <Horao homini lúpus». E assim 6,
assim não póie deixar de ser e será talvez para todo o sempre, por-
que não existe uma lógica perfeita entre os princípios estáticos e
os dynamicos, que presidem ao evolucionismo no mundo physico e á
conservação e á cropagação das idóas no mundo moral. As evolu.
ções da matéria, em geral, operam- se regularmente, quanto á essen.
cia, quanto ao raodo e ao tempo ; ao passo que as do espírito se
realizam de modo incompleto, ás vezes áspera e bruscamente, assu-
mindo assim proporções de revolução, ou em épocas demasiado tardias.
Desde o alvorecer da razão e o despertar da consciência do ho-
mem até ao grau de cultura, a que attingem, nesta hora do século
XIX, quasi a expirar, quantos esforços supremos, quantos martyrios
nao tjm custado o evoluir das idéas para a perfectibilidade, que é a
nossa felicidade sonhada.— estrella, ou lampejo de cstrella, que tanto
mais se aparta de nossos olhos, quanto mais a seguimos ! O progres •
so do espirito é indefinido, o evoluir das idéas é interraino, ao passo
que, no mundo physico, a matéria gyra dentro de ura circulo vicioso :
em quanto a chrysalida, por exemplo, depois de ter volitado no es-
paço em forma de borboleta, volve ao mesmo ovulo, donde irrompera
a larva, as idóas dominantes em dada epocha, não volvem nunca mais
a ser as mesmas que as precederam.
D' ahi vôse quão gigantesca deve ser a lucta. em que se em-
penham todos os reformadores, quão agitada a época, em que elles
- 97 -
surgem, e corno, pois, o espirito humano opera prodígios em as suas
variadas manifestações. Este phenoraeno deu-se nos tempos coloniaes,
em que o Brazil, chegado a sua maioridade, entrou a desenvolver a
sua er^ergia e actividade para sacuiif o jugo da metrópole bragan
tina ; este phenomeno accentuou-se ainda mais após a nossa indepen-
dência, durante o primeiro reinado. Foi então que se deram a co-
nhecer ao mundo individualidades privilegiddas como José Bonifácio^
António Carlos, Martim Francisco, José da Silva Lisboa o, mais tai*-
de, Evaristo Ferreira da Veiga, que, por se destacar dentre todos,
como o consolidador de nossa independência, do mesmo modo que
em nossos tempos distinctos democratas o têm sido da Republica,
manteado cora heroísmo nunca visto o táctica politica pouco vulgar,
o principio da auctoridade constitiuda. será o objecto do presente es-
tudo.
*
* *'
Nascea Evaristo Ferreira da Veiga, na cidade do Rio do Janeiro
a 8 de Outubro de 179^. Fadado 3omo Mirabeau para as glorias da
imprensa e da tribuna e, tendo um pae enérgico e inflexível como o
do immortal orador fiancez, já no lar paterno recebera uma educação
esmerada que lhe acrysoloa todos os nobres sentimentos e lhe enri-
jou o caracter, nunca desmentidos nos momentos mais difflceis e pe-
rigosos de sua vida. Ainda muito joveri (1), tendo por mestres o P.e
Marcelino Pinto Ri( eiró e outros, dedicou -se ao estudo do francez, do
ingle/, latira, italiano, philosophia, historia e rhetorica, tornando-se
mui versado neste ramo de conhecimentos, com os quaes logrou de-
pois, no socego de seu gabinete, alcançar outros mais complexos e
transcendentes, avantajando- se a não poucos dos que passaram pelas
(1) NOTA. — Aos 19 annos de idade concluiu Evaristo o curso de humanidades e era
seu intento laurear-se na Universidade de Coimbra— o que nílo logrou fazer, pois não-
podia abandonar o vellio livreiro— seu pae ; precisava auxilial-o neáse género de traba-
lho, como se verifica do Elogio Recitado pelo Tenente General Manoel Joaquim Pereira
da Silva perante a Sociedade Amante da Instrucção, no Rio de Janeiro a 12 de Agosto
de 1837. Não tem, pois, razão o «Jorna! do Commercio", quando em sua edição de 12
de Maio do corrente anno assim se exprime sobre esse ponto : "... que (Evaristo), eu
tretanto, não quiz se empenhar na conquista, em verdade , mais vaidosa e fútil do que
imprescindível e árdua de um pergaminho".
- 98 -
Academias. Já éra chegado o raomonto, esse momento em que, ao
agitar-so um povo todo pela sua liberdade, os grandes talentos sur-
gem dos seus desconhecidos tugúrios, quaes leões que irrompera de
seus fojos e se lançam á arena do combate. Evaristo foi um desses
athletas, quiçá o maior dollos, que na época da independência do
Brazil e na occasião era que esfcavaraos em riscos de a perder luc-
tarara por ella, com a penna e com a palavra.
Começou elle a sua missão de escriptor politico, escrevendo al-
gumas brochuras anonyraas, que a sua natural modéstia nao permit-
tiu fossem conhecidas além de ura circulo mui limitados de amigos, e
nas quaes, atravez da apostrophes. da belleza das imagens e dos con-
ceitos, se revelou o jornalista emérito, o tribuno pujante, que h^wm
de apparecer cora a «Aurora Fluminense» em 1827 o nas sessões par-
lamentares de 1830, porque nessas brochuras, como no <sEssai siw le
despotismet> e nas <Lettres de cachet e Ics Frisons d^Etat» de Mira-
beau, explode o amor ardente da liberdade, que despeitou nelle tam-
bém o sentimento poético.
Sim, Evaristo era dotado de uma organização intellectiva fora do
commum, era tão malleavel o seu talento, que até na poesia— a mais
bella das manifestações da arte — pudera tornar- se emulo dos nossos
vates mais distinctos e consagrados, si tivesse propendido exclusiva-
mente para as musas e não limitasse as suas producções neste gé-
nero a alguns hymnos patrióticos, dentro os quaes se destaca o vul-
garmente conhecido ipoY— Brava gente hrazileira.
Este hymno que tão agradavelmente impressionou o Dr. Walsh,
secretario de Strangford, embaixador de S. M. Britannica, por sua
cadencia e harmonia, passou durante dez annos como producto do ta-
lento do Pedro 1.°, a quem o Visconde de Cayrú empresta o espirito
duplicado dos antigos philarmonicos da Historia heróica. — Thcophilo
e AmphiãOj conformo se evidencia do artigo que inseriu no «Diário
do Rio de Janeiro» de 10 de Setembro de 1833, subscrevendo-o cora
o pseudonynio de — Jurista. Esse cortezão laborava, porém, num erro
deplorável, porque o hymno era da lavra de Evaristo. E qual não foi
o seu desaponto, quando, depois que elogiou tanto essa composição
poética, o verdadeiro autor delia, reivindicando despretencioso e mo-
desto o seu direito de propriedade, escreveu pelas brilhantes colum-
-^ 99 —
nas da «Aurora» : "Esso hymno, acceito pelo povo da Corte e provín-
cias, estampado na obra do Dr. Walsh e elevado, erafira, a tantas
honrarias, como as que oloquenteraento refere o Jurista, e sahido do
humilde balcão e producção da nossa primeira mocidade. Era que de-
sastrado engano foi cahir o nosso antagonista? Sem duvida terá de
desdizer-se ante o povo caramuruano de todos os seus louvores hy-
perbolicos, e de fazer solemne protestação de que esses encómios todos
eram prodigalizados, porque ello suppunha sor o pobre hymno obra do
Snr. D. Pedro I. Nao sendo assim, o Jurista dá o dito por não dito,
o declara pueril, chocho, mal metrificado e ate' jacobino e digno da
forca! »
B não foi só o mallogro, sinão também a contradicção, em que
elle cahiu, respondendo a este tópico do luminoso artigo de Evaristo :
« — tu disseste, não eu» — o que importa numa confissão.
Nem ó de admirar tal geito ou systema de critica : em regra, os
juizes littcrarios fazem seus estudos e proferem suas sentenças acerca
das producçõos do espirito humano, tendo, mais em vista a pessoa do
productor que a couza produsida ; julgam da obra feio autor delia.
Dahi quantas injustiças ! As mediocridades decantadas, erguidas ao
fastígio da fama e da gloria e os talentos de eleição mergulhados na
obscuridade, morrendo muitas vezes á fome !
O Visconde de Cayrú não contestou a auctoria do hymno ao re-
dactor da «Aurora», e quando o fizesse, já hoje a posteridade resta-
beleceria, vingaria a justiça violada, indicando, como documentos ir-
refragaveis, os authographos ou originaes daquella producção poética,
como de outras mais, existentes no archivo do Instituto Histórico e
Geographico do Rio do Janeiro.
Deixemos, porém, o poóta e vamos tratar do publicista, d j politico,
pois o theatro de suas glorias, consoante o disse o com incontestável
verdade ura seu parente, consistiu «na iraprensa, na Sociedade
Defensora da Soberania Nacional e na Caraara dos Deputados».
* *
Corria o anno de 1822, quando era virtude do Decreto de 29 de
Setembro do 1821 emanado das Cortes portuguozas, D. João VI, que
se havia refugiado com a sua familia em nossa Pátria, teve que re-
tirar-se delia. Todos sabemos quaes foram as palavras que o regente.
- 100 -
ao regressar para a velha metrópole, dissera a seu filho — D. Pedro I :.
Si o Brazil se ha de separar antes seja para ti, que me has de res-
peitar, áo que para algum aventureiro.» (1)
Aqui ficou o filho com todas as vaidades e tresloucam cn tos, de
que o accusara os historiadores, pensamento constantemente fixo no
horizonte da pátria primitiva, agora tão longe... alóm da vastidão
do Atlântico, o coração magoado de saudades delia e de seus pães,
que haviam partido.
Sim, ficou aqui esse homem, que havia de trazer o brioso povo
brazileiro illudido por ranito tempo antes, como depois da indepen-
dência, porquanto, violando os principias do Direito publico, promet-
teu outorgar á Nação uma Carta Constitucional, como se dependesse
isso dos príncipes o não fosse uma emanação da soberania do povo,
e submetettel-a á Assemblóa Nacional, sem cumprir a promessa, por-
que jurou a Con?tituição em :5 de Março, prescindindo daquell* con-
dição.
— Ora, para o grito de ^Independência ou morte» que a 7 de Se-
tembro lhe rompera dos lábios nos campos do Ypiranga, concorreram
varias causas e circumstancias, menos, absolutamente menos a sua
boa ventado, os seus intuitos
Uma escravidão de três séculos, a cujo reso esteve a gemer este^
paiz ; a liberdade do commercio raaritimo que se iniciou em 1808,
entre ello e as demais nações ; a fundação de escolas superiores, de
tribunaes, etc ; a elevação do Brazil á cathegoria de Reino : os ex-
cessos e despotismo das Cortes portuguezas, exercidos sobre o povo
brazileiro, era cujo peito naturalmente pulsava um coração patriota—
eis em resumo, os elementos principaes que determinaram a celebre
representação redigida por José Bonifácio, depois de terem dado já
legar era Mina^^ Geraes e no Rio de Janeiro a um movimento bastante
pronunciado tendente á emancipação. D. Pedro I, porém, é que não
havia de concorrer para ella, sinão quando lh'o conviesse ; antes é
mais certo que se lhe manifestava avesso, como se o verifica pelo
documento para aqui transcripto e por seus actos posteriores ao ju-
ramento da Constituição. Bis o que escreveu elle ao pae a propósito
(1) Pereira da Silva- Os Varões illustres. Tom. 11 pag. 2eo,
— 101 —
das tendências eraancipadoras do povo brazileiro: «Queriam-nie e di-
zem que me querem acclamar Imperador. Protesto a Vossa Magesta-
de que nunca serei perjuro, que nunca lhe serei falso ; e que elles
far^o o.-ta loucura, mas será depois de eu e todos os portuguezes es-
tarem {\) feitos era postas, o que juro a Vossa Magestade, escreven-
do nesta com o meu próprio sangue estas palavras : Juro sempre ser
fiel a Vossa Magesetade á JSação e á Constituição Portugueza».
B esse tresloucado e quixotesco príncipe, depois do 7 de Setem-
bro, iniciou um reinado todo de lisonjas e de distincçôos honorificas á
similhança do de seu pai ; um reinado todo de divertimentos e dissipa-
ções, buscando descarte captar as sympathias populares, cscravi/ar
mesmos os seus súbditos, porque decerto se inspirara nas paginas,
onde se refere a bella historia de César — tantas vezes heroe, tantas
endeosado e uma só e para sempre apunhalado diante da estatua de
Pompeu no recinto do Senado. B coratudo, o povo deixou-se enga-
nar e nelle confiou, até que os seus actos ulteriores viessem pôr era
irelevo a sua Índole e o seu caracter.
Como quer que a redacção do Tamoyo e a da Sentiriella, despres-
tigiando os portuguezes, censurassem a ordem que elle — D. Pedro —
expedira ao Governo Provisório da Bahia, no sentido de se remette-
rem para o Rio de Janeiro todos os prisioneiros de guerra portugue-
zes, que estivessem dispostos a se engajar voluntariamente no servi-
ço militar, dous otBciaos patrícios do príncipe espancaram barbara-
mente a David Pamplona — redactor da Sentmella. A Assembléa Cons-
tituinte, reunida a 23 de Abril, em cujo seio se distinguiam os An-
dradas, alarraou-se e, protestando contra similhante selvageria, re-
clasiou providencias.
D. Pedro l." não attendeu a essa justa reclamação, mas, ao en-
vez disto, exigiu por seu turno uma satisfacçao para os officiaes por-
tuguezes e para a sua augu.sta pessoa, reunindo era palácio a força
armada, cujos intuitos nao podiam ser sinâo hostis. A' vista de tal
attitude, a Assembléa declarou-se era sessão permanente ; mas o prín-
cipe, apoiado nas tropas, exercendo verdadeira dictadura, dissolveu-a.
(1) Talvez seja um lapsus calami.
-- 102 —
e então os beneméritos da pátria, os irmãos Andradas, Monteziima e
outros foram presos e desterrados.
Era 1826, diz Armitage, morreu D. João VI, e D. Fedro, no in-
tuito de coliocar no throno sua filha D. Maria II, depois de celebrar
o deprimente tratado de 28 de Agosto de 1828 com Buenos-Ayres,
em virtude do qual perdemos a província Cisplatina (l), recorreu á
intervenção da Inglaterra, de accordo com o sou gabinete secreto, que-
um bisíoriador taxa de irresponsável, inconstitucional, absurdo e libcr-
iicida. Em sumraa, esse homem, que aliás não devemos conderanar,
porque era afinal de contas uma predestinação histórica e sociológica,
marchava neste caminho de desatinos, de ambições sem limites, de
erros e impradencias ; a pátria brasileira, exhausta em suas finanças,
dilacerada por infrenes luctas partidárias, jazia immersa numa escu-
ridão profunda, sem sabor que rumo seguir, quan'ío em 1827, sirai-
Ihante ao sol que rompe no horizonte a viviflcar as plantas com o-
seu beijo quente, a alegrar a natureza toda com as inundações de
suas luzes, surgiu um jornal redigido por Evaristo da Veiga ! Bem
vindo que foi elle e bem adequado o titulo que trouxera ao de cima do
suas columnas: «Aurora Fluminense». Dahi, como do alto^da tribuna
parlamentar, para onde o enviou a então província de Minas Geraes.
como seu representante, Evaristo pugnou sem deseanço, porém com
afan, sem tibieza, porém com energia e denodo, pela Constituição e
pelos direitos do povo, contra a politica despótica o imbecil do governo.
E a sua conducta, no desempenho dessa patriótica e nobilíssima
missão, foi precisamente o que concorreu para a abdicação do prín-
cipe a 7 do Abril de 1831, porque a revolução desse memorável dia
jamais se effectuára, como se effectuou, si elle seguisse extremos, á.
maneira dos partidos que então se digladiavam .
O liberalismo moderado o auctoritario era a politica salvadora,,
naquelle tempo em que o liberalismo democrático seria um mal para
o povo ignorante, atrazado e incapaz de tirar proveitos de reformas
que o interessassem directa e immediataraente, como fosse, por exem-
plo, a federação (2), cuja consequência havia de ser desde logo o es-
(1) Le Brésil, por C. Reybaud.
(2) Idéa, pela qual pugnaram com violência o «Republico:», o Luzo Brasileiro, o-
«Tribuno e outros orgams da imprensa ultra-liberal.
— 103 —
tabelecimento do governo republicano era cada uma das antigas pro-
víncias, quando a não poucas dentre ellas, escasseavam, falleciam
mesmo, recursos próprios e outras condições iraprescindiveis á orga-
niza^ao do ura Estado federado. Liberaiisrao, sim, que reformasse o
que a experiência estava demonstrondo nao convir mais e, pois, não
dever subsistir, porém moderado, que conservasse o que fosse preci-
so permanecer ainda. Eis a syntheso do programraa politico de Eva-
risto da Veiga, tal como ò licito deduzir-se dos seus escriptos e dos
seus discursos, ungidos sempre desso bom sonso, desse critério que
distinguem as doutrinas de Benjamim Constant, de Dunoyer. do Droz,
de Benjamim Franklin e outros publicistas, até hoje apreciados por
seu eccletismo e pela pureza de sua moral. O trecho seguinte do bri-
lhante artigo que Evaristo escreveu á propósito da attitude dos sepa-
ratistas, após o assassinato de Libero Badaró, prova suíBcicntcmente
o qne acima acabamos de afíirmar :
«Quando um povo geme nas cadeias de leis oppressoras o não ha
moio algum por onde a illustração se derrame, então todos os esfor-
ços são razoáveis, todas as imprudências permittidas. Mas, logo
que ha representação do paiz, representação especial das Piovincias,
imprensa livre e garantias do cidadão, para que o necessário apres-
sar aquillo que hade vir tranquillamente, sem violência, si acaso a
mudança das coisas o exige? Para que desejar que a mudança se
opere entre perigos, no meio do frenesi dos partidos, e talvez se
veja frustada pela mesma aceeleração dos que a pretendem, quando
o tempo, o derraraamento das luzes politicas a trarião, caso fosse
necessário ? •»
Com muito acerto e propriedade seus biographos e quantos o tôm
glorificado, tecendo-lhe merecidos elogios, o comparam a Benjamim
Fracklin.
Si ha, na historia, dois homens perfeitamente assimiláveis, per-
feitamente parecidos, sob quasi todos os pontos de vista, esses dois
homens são com certeza o imraortal redactor da <Aurora> — a encar-
nação viva do 7 de Abril de 1831, e o celebrj philosopho e estadista
americano. Similhantes no vigor da intelligencia, na rigidez do ca-
racter e na pureza dos sentimentos, como parecidos íoram na condi-
ção do nascimento, no modo de servir a Pátria e ató no de morrer
— 104 —
por ella, pois que ambos descendiam de pães humildes, que não pu-
deram ministrar lhes mais que os primeiros rudimentos das lettras. . .,
sem embargo disto, lograram tornar-se notáveis pelo saber, reivindi-
cando para o seu povo as liberdades perdidas, ingerindo-se nos go-
vernos, dos quaes nunca acceitaram nenhum provento até morrerem 1
Si um delles, como disse Turgot, eripuit ccelo fulmen, do outro,
bem podemos nós dizer : eripuit sceptrum tyraymis !
TuLLio DE Campos.
o Tenente General Arouehe Rendon
I
o tenente general José Aronche do Toledo Rendon, nascido nes-
ta Capital aos 14 de Março de 1756, foi um paulista dos mais distin-
ctus, já pela farailia illustre a que pertencia, já pelos relevantes ser-
viços que prestou á sua terra natal.
Tinha dois irraáos mais velhos do que elle, a saber: l.o— Francis-
co Lean -ro de Toledo Rendon, nascido era S, Paulo era 1750 e for-
mado era Direito pela universidade de Goirabra era 1779 ; foi ouvidor
de Paranaguá era 1783 e falleceu era 1810, deixando do seu casa-
raento cora D. Anna Leonissa de Abelho Fortes, pertencente á distin-
cta e histórica farailia Pinto do Rego, desta capitania, descendência
illustre que faz honra a S. Paulo até o presente, como sejara os
Mendes de Almeida e outros.
2.0 - Diogo de Toledo Lfira Ordenhes, nascido era 1752 e tarabeni
forraado era Leis pela universidade de Coirabra. Voltando ao Brasil,
serviu alguns annos corao ouvidor de Cuyabá (1) e là foi raulto con-
siderado corao raagistrado honrado, expedito e justiceiro. Regressando
a S. Paulo era 1791, fez era 1793 uraa viagem a Portugal, lá foi no-
raea«io sócio correspondente da Academia Real das Sciencias de Lis-
boa e obteve daquella associação que íossera publicadas na Iraprensa
da Acaderaia as Memorias para a historia da Capitania de S. Vicen-
te, de F. Gaspar da Madre de Deus. De volta ao Brasil, foi dezem-
bargador do Paço e raerabro da Assurabléa Constituinte, onde não to-
mou assento. Falleceu solteiro era 1826, deixando grande parte dos
seus bens á Sante Casa de Misericórdia, desta Capital.
(1) Serviu em CuyHbá como juiz de fora e ouvidor desde 1785 até 1790, deixando
entre ob cuyabanos muitos amigos e admiradores, Vide Ckronicas do Cuyaba. no vol,
IV desta Revista.
— 106 —
Tinha o general mais sete irmãs, que foram Anna Theresa, Cae-
tana Antónia, Pdlcheria Leocadia, Maria Rosa, Joaquina Luiza, Ger-
trudes Genefra e Eeduzlnda de Toledo. A primeira falleceu ainda
moça e as outras todas ficaram sempre em estado do solteiras.
Estas senhoras residiam todas juntas na Travessa do CoUegio,
em uma casa que, em 1822, tinha o numero 11, e eram conhecidas
na cidade pelo appellido de mocinhas da Casa Verde ; possuíam bens
de fortuna e tinham cerca de quarenta escravos a jornal e em ser-
viços domésticos e agrícolas.
Azevedo Marques, nos seus Apontamentos Históricos da Frovmcia
de S. Paulo, e o dr. JoEo Mendes de Almeida, nas suas Notas Genea-
lógicas, se referem a este appellido das moças sem nos darem a
sua razão de ser, ficando o leitor com o direito de suppôr que a ca-
sa em que residiam nesta Capital era externamente pintada de verde,
quando a verdade ó que ellas possuíam nos arredores da cidade uma
propriedade agrícola chamada Casa Verde, na qual, além dos géne-
ros alimentícios, cultivavam o cafeeiro e já no século passado colhi-
am alli café bastante para o consumo da família e para presente aos
parentes e amigos (1).
Todos os déz írmEos foram filhos legitimes do inestre de campo
Agostinho Delgado Arouche e do D. Maria Theresa de Araújo Lara,
paulistas das mais distinctas famílias da capitania, cuja ascendência
remonta aos tempos heróicos do Portugal e dos diversos reinos em
que estava dividida a Hespanha, na edade media, como se pode veri-
ficar pela Nobiliarchia Taulistana, de Pedro Taques. Ler a historia
dos antepassados des^e casal é passar em revista todos os factos oc-
corridos na capitania de S. Paulo desde os tempos de Martim Affon-
so até o fim do século XIX, já pela própria proeminência, já pelas
suas relações de sangue o de amizade com tudo quanto a capitania
teve de mais fidalgo e mais distincto.
E' verdade que o casal tinha nas suas veias um pouco de san-
gue guayná, porque descendia de Piquiroby, cacique de TJrurahy no
começo do século XVI ; porêra, este facto, como bem disse distincto
(1) Esta propriedade agrícola existe ainda ; é situada além do rio Tietê, entre a
freçuezia urbana de santa Anna e a suburbana de Nossa Senhora do O', pertence hoje
á família Eudgo e conserva até agora o nome de Casa Verde.
— 107 —
escriptor nacional, era nada prejudicou a sua posição social porque a
filha de Piquiroby, convertida ao catliolicismo cora o nome de Antó-
nia Rodrigues o casada com o portuguez António Eodrigues, e a sua
descendência alcançaram a bemaventurança da multiplicação o de
successivas nobilitações pelo entrelaçamento com muitas familias de
alta fidalguia.
Ainda mais : <Esta multiplicação foi tão vasta, tão extensa, quo
hoje abrange todos os Estados da União ; o cruzamento foi tão ge-
neralizado o deu-se em tantas direcções que já a Nobiliarchia Pau-
listana, escripta ha século e meio, não 6 mais do que a historia des-
ta vastíssima prole. Nem desmerece esta descendência a mistura do
sangue da íilha de Piquiroby ; pelo contrario, mais a illustra, por-
quanto sem ella as famílias mais illustres desta parte do Brasil se-
riam, sim, brasileiras por terem nascido aqui, porôm faltar-lhes-ia a
sainetc hrasilico que só o sangue daquella princeza selvagem foi suf-
íiciente para dar-lhes, não existindo ató hoje na successão de tantas
gerações outra raiz, além delia, que as prenda ao solo brasileiro (1).»
11
Formado também ora Direito pela universidade de Coimbra, a 13
do Julho do 1779, foi José Arouche por algnm tempo advogado nesta
Capital, onde ainda era pequeno o numero dos diplomados, o teve
occasião de exercer os cargos de juiz de medições, juiz ordinário,,
juiz dos orphams o de procurador da coroa, em que se mostrou sem-
pre proficiente o honrado.
Sentindo certo gosto pela vida militar, como era próprio da fi-
dalguia paulista, assentou praça no estado-maior do exercito, já com
o posto de capitão por ser homem egrégio, e a sua folha corrida ou
fé de offlcio, muito honrosa para elle e até hoje inédita, diz o se-
guinte :
(1) Havia ainda uma outra raiz, que foi Bartira Tebiriçá, filha de Tebiriçá, cacique
guayaná de Piraiininga. e casada com o portuguez JoSo Ramalho, a qual tem ainda
hoje descendentes muito distinctos em S. Paulo.
— 108 —
«Estado-Maior do Exercito
Tenente-General Jo.^-ê Arouche de Toledo Rendon
cAssontou praça de capitão aggrogado ao 1.^ Regimento de Infan-
teria de Milícias, hoje Batalhão de Caçadores n. 32 de 2." Linha, por
patente de 13 de Janeiro de 1789; passou a mestre de campo do 2.«
Terço Auxiliar, hoje Batalhão n, 33 de 2." Linha, por decretro de 2
Setembro de 179o; passou a inspector geral de Milioias desta provín-
cia (1) por decreto de 15 de Novembro de 1808 ; passou a brigadeiro
graduado, ficando dispensado do comraando do Regimento e continu-
ando no exercício de inspector, por decreta de 17 de Dezembro de
1813, e á effecti vidado deste posto na arma da 'avaliaria, por decreto
de 6 de Agosto de 1817 ; passou a marechal de campo graduado por
decreto de l^ de Maio de 1819 e a eflectivo por decreto de 13 de
Maio de 182á e apostilla de Õ de Agosto de 1823. Foi dispensado do
enipreuro de inspector geral de Milícias por decreto de .20 de Junho
de 1822 e provisão do Conselho Ultramarino Militar dt? 10 de Outu-
bro do referido anno. Passou a tenente general graduado por decreto
de 18 de Outubro de 1829.
«Por attestações dos Governadores e Capítaes-generaes António
Manoel de Mello Castro e António José da Franca e Horta (2) prova
que a sua custa concorreu cora bandeiras, caixas e instrumentos de
musica para o seu Regimento, o qual conservava no melhor pé de
disciplina; que no emprego de inspector geral de Milícias se portava
com tal imparcialidade, regularidade e íntolligencia que se fazia muito
recommendavol no dito exercício, tendo sido também incumbido de
muitas deligencias, mesmo em grandes distancias da Província.
«Por attcstação do brigadeiro chefe da Legião mostra que, sendo
encarregado do recrutamento para aquelle corpo, enviou 141 recrutas
e lez reconduzir 8 soldados desertores. Pelo Governador e Capitao-
General desta província Marquez de i:?. João da Palma {^) M encar-
ei) Deve-se ler capifania e n?5o provinda.
(2) O primeiro governou a capitania de 8 Paulo de 1797 a 1802 e o seguodo de
1802 a 1811 .
;3) Poi governador de 8. Paulo de 1814 a 1817. Tenho em meu poder o attestado
passado por Franca e Horta e também as cópias das patentes de brigadeiro graduado e
effecti vo, passado peio Príncipe Regente.
— 109 --
regado da organização de dois corpos de voluntários de Milícias a
cavallo, que no anno de 1817 marcharam para a campanlia do Sul,
cuja comraissão cumpriu de maneira que nada deixou a desejar, se-
gundo attesta o mesmo exrao. Marquez.
cNo anno de 1819 foi commandar as villas do norte desta provín-
cia por ordem do Exmo. Marquez de Aracaty, então Governador e
<'apitão General (i), para obstar qualquer invasão e desembarque de
tropas extrangeiras, em cuja commissão se conservou desde Outubro
daquelle anno até Janeiro de 18.0. A importância desta commissão e
a maneira por que se comportou nella, demonstrou por fíicios do
mencionado Governador e Capitão General.
«Este marechal tem do serviço 40 annos e 8 mezes ; destes 24
annos c 11 mezes em 2.a Linha e 15 annos e 9 mezes em 1.» Linha
até 15 de Setembro do corrente anno de 1829.»
E' o que consta da sua fé de offlcio militar ; mas não pararam
ahi os grandes serviços que prestou á sua pátria.
Em 1798 foi encarregado pelo capitão-general Mello Castro de
inspeccionar as aldeias de índios existentes na capitania e de prover
ao seu bem estar e desenvolvimento, e neste posto tomou muitas
notas que mais tarde, em 1823, serviram de base para uma interes-
sante Memoria sobre as aldeias de Índios da província de S. Paulo, que
foi publicada no volume 4.o da Revista do Instituto Histórico Brasi-
leiro.
Liberal e patriota, adheriu francamente á causa da independência
e foi enviado, em Janeiro de 1822, ao Rio como delegado, da camará
raanicipal de S. Paulo para pedir ao Príncipe Regente, D. Pedro, que
desobeiacosso aos chamados das Cortes de Lisboa e ficasse no Brasil.
Nesta commissão teve como companheiros o coronel Gama Lobo e
também José Bonitacio. que foi por parte do Governo Provisório, g
o seu resultado foi ficar no paiz D. Pedro, que alguns mezes depois
voiu a S. Paulo e foz a proclamação da independência nos campos
do Ypiringa. De volta a esta ' apitai foi, por seus bons serviços, in-
tolligencia e provada fidelidade, nomeado commandante das armas
(1) Capitão general dê S. Paulo de 1819 a 1821 e presidente do Governo Provisório
de 1821 a 1822; chamava-se João Carlos Augusto de Oeynliausen*
— lio —
desta província, por decreto de 20 de Maio de 1822, quando o espi-
rito publico se achava profundamente agitado c havia inconciliáveis
divergências entre, os liberaes e patriotas, chefiados pelos Andradas, o
os reaccionários e retrógrados, dirigidos pelo general João Carlos de
Ooynhausen e Costa Carvalho.
Convocada a Asserabléa Constituinte, foi o general Arouche eleito
deputado por S. Paulo, com José Bonifácio, António Carlos, Paula
Souza, Vergueiro, José Ricardo do Andrada, Fernandes Pinheiro, Vel-
loso de Oliveira e Diogo Ordenhes, seu irmão já mencionado, que nã)
tomou assento e foi substituído por José Corrêa Pacheco e Silva.
Nesta assemblóa sustentou, com Martim Francisco, Velloso de Oliveira,
Fernandes Pinheiro, António Carlos e Vergueiro, a idéa da fundação
de um curso jurídico era S. Paulo, que só quatro annos mais tardo,
em 1827, foi levada a effoito por Fernandes Pinheiro, então ministro
do Império. Prudente e moderado, não tomou parte nas discórdias
que lavravam no seio da Constituinte e não foi envolvido nas vio-
lentas medidas de repressão e de deportação adoptadas por Pedro I
depois da dissolução.
Eleito aindd deputado geral para a legislatura ordinária del826 — 29,
não quiz tomar assento porque se achava já velho e adoentado e foi
substituído pelo brigadeir j Ignacio José Vicente da Fonseca ; porem,
retirando-se da politica geral e deixando-se ficar em S. Paulo, conti-
nuou a prestar bons serviços nos conselhos do governo o em outros
ramos da actividade humana e a influir beneflcamente na politica da
antiga provinda.
Ill
Foi, com o velho Brotero, o organizador dos cursos jurídicos desta
Capital e o primeiro director da nossa academia de Direito,— cargo
que exerceu por vários annos e do qual se exonerou em 1833. Não
leccionava cadeira alguma ; havia já trinta e nove annos que tinha
trocado a carreira do Direito pela das Armas e devia estar inteira-
mente esquecido dessa sciencia para ensinal-a e muito avançado em
edade para voltar a estudal-a de novo. Durante seis annos que di-
rigiu a academia, do 1827 a 1833, foram nomeados e tomaram posse
os seguintes lentes :
- Ill —
1.". José Maria de Avellar Brotero, que leccionou até 1871 o fal-
leceu em 1873.
2.". Balthazar da Silva Lisboa, que serviu somente dois annos,
de 1828 a 1830, e demittiu-se do cargo.
3.0 Luiz Nicoláo Fagundes Varella, que funccionou por trcs an-
nos somente, de 18.28 a 1831, porque falleceu neste anno.
4.0. Padre António Maria do Moura, de 1828 a 1842, anno em
que falleceu.
5.0. Carlos Carneiro de Campos, depois visconde de Caravellas,
de 1829 a 1858, anno em que foi jubilado.
6.0. José Joaquim Fernandes Torres, de 1829 a 1833, anno em
que demittiu-se o foi íigurar na politica de Minas.
7.0. Prudencio Geraldes Tavares da Veiga Cabral, nomeado em
1829 e jubilado em 1861. Foi genro do general Arouche e teve o
seu casamento annuUádo por um processo judicial que encheu o ge-
neral de desgosto e abreviou os seus dias.
8.0. Thomaz José Pinto de Cerqueira, que tomou assento em
1830 c demittiu-se em 1834.
9.0. João Cândido de Deus e Silva, que serviu somente ura an-
no, do 1830 a 1831, e demittiu-se do cargo.
10.0. Clemente Falcão de Souza, nomeado em 1830 e jubilado
em 1864.
Por decreto de 11 de Agosto de 1827 foi creada a academia de
S. Paulo e por outro decreto do 13 de Outubro desse mesmo anno
foram nomeados o general Arouche seu primeiro director e o velho dr.
Brotero seu primeiro lente. A inauguração teve logar a l.o de Março
de 1828, C3m muita pompa, grande concorrência de povo e presença
do mundo offlcial, ecclesiastico e militar. Os frades franciscanos ha-
viam cedido uma parte do edifício do seu convento para o funccio-
namento da academia, reservando o resto para a sua habitação e exer-
cícios religiosos ; porem, ou porque o espaço cedido pelos reverendos
frades fosse pequeno demais para as necessidades das festas da aca-
demia ou porque houvesse algara abuso, dando-se á concessão raaior
elasticidade do que a que estava na intenção dos raesraos frades, o
que é certo ó que para as festas da inauguração das aulas se occu-
pou raaior espaço do que o concedido e invadiu-se até a clauzura do
-- 112 -
convento, com grave vexame dos reverendos que alli residiam. Dahi
veiu o seguinte protesto do guardião, que por ser curioso e inédito,
reproduzo aqui :
«fix°i.o e Rvm.o Senh)r:-V. Bx.» IL^\ a quem o SENHOR collo-
cou a frente desta Igr». Paulistana haja por sua bondade de attender
as razões, q' humildemente dirijo a sua respeitável presença, como
Zelador, e conservador das Constituiçoens Apostólicas : e fonte donde
deve dimanar a perfeita moral, e observância da Ley de \. S Jesus
Christo.
<Era consequência da Portaria de 27 de 9br." de 1827 em que
Sua Magestade o imperador foi servido honrar-nos com a eleição
deste Convento p.» se principiar o Curso Jurídico nós proraptamente,
e com toda a satisfação aprezentamos os lugares, q'. mais forão do
agrado de Sua Ex*., o Snr' actual Presidente. Este mesmo Sur'. nos
tem honrado muito já cora sua estima, já fazendo ver ao Ministério,
q'. tínhamos tido toda a attenção com os seus sábios desejos donde
resultou, q'. Sua Magestade o Imperador mandasse agradecer aos Re-
ligiosos a boa vontade, q'. tinhão mostrado em executar suas Impe-
rlaes ordens. Transcrevo aqui o Officio do lll^o. e Ex™o. Snr'. Pre-
zidente para V. Ex.» Rma. ver não só o qt». devemos a bondade do
mmo, Ex™'>, Snr'., como tãobem o paternal coração de Sua Magestade
O IMPERADOR.
COPIA
«Sua Magestade O IMPERADOR, tendo tomado em Sua Alta
Consideração a boa vontade, e particular satisfação, que os Religio-
sos patentearam em ceder no ediflcio do seu Convento as cazas pre-
cizas para o estabelecimento do Curso Jurídico nesta Capital ; me
ordena, que lhes louve no seo Augusto Nome esta deciziva prova do
generoso interesse, que tomâo pela felicidade da Nação, contribuindo
de tão bom grado para aquelle vantajozo estabelecimento ; o que lhes
participo para sua intelligencia. Ds. G^. etc. Palácio do Governo
de S. Paulo, l.o de Fevr». de 1828.
«Ihomaz Xavier Garcia de Almeida.»
«Daqui se ve tãobem Ek^\ e Rm» Snr', que o Curso Jurídico
foi estabelecido dentro do Convento, e por consequência dentro da
— 113 -
Clauzura. A Clauzura está demarcada pelas Constituiçoens Apostóli-
cas, e nao podo ser mudada a arbítrio de qualquer particular. Gre-
gório nono na BuUa — Quo elongati, 28 de Tbr^. 1230 diz — Nomine
Monasterii volumus Claustrum, D)inos, et Ojficinas interiores intdligi ;
e pelas mesmas palavras se explicão innocencio 4.», e Alexandre 4.*
nas suas Bulias q'. principiáo — Ordinum vestru'.
«Entretanto consta de certo, que as Senhoras vem assestir den-
tro do Convento a abertura do Curso Juriíico. Eis aqui o que im-
plica com as Bailas, com o decoro do Convento, com o systema da
moral. Nós dêmos lugares para homens estudarem, o serem utois
hum dia á Nação ; porem foi sempre na ideia de q'. se guardarião
as leis q', não implicaudo com os seus estudos, e aproveitamento, fa-
zem huma grande parte do Systema da Religião. Ninguém pode ce-
der daqui! lo, q'. lhe hé de ultima necessidade, e muito principalmente
quando penas fortíssimas cem de ligar aos violadores. Nós não po-
demos ceder do nos utilizar da mesma Portaria, q. serve do entrada
aos Snrs. Estudantes, ao menos nas oras, q'. não são dos seos Kstu-
dos : pois hé de ultima dificuldade o servimos } r-* Coníissoens, e es-
molas por huma porta no fundo do Quintal.
Podemos promiscuaraente utilizarmo-nos da mesma porta : pois
não hé contraditório, antes muito racional, e decoroso. Os snrs. Es-
tudantes acharão nos Religiosos todo o agazalho, e affabilidade, e nos
teremos a satisfação de sermos estimados de todos. Tal hé a idóa»
e plano, q'. formo, e q'. a experiência demonstrará. Os snrs. Es-
tudantes não precizão do Claustro, e nos precizamos não só para dar
sepultura a nossos Irmãos, como tãobem para as Procissoens em dias»
q\ não se encontrão com os seos Estudos. Esta hé certamente a
Vontade de Sua Magcstade Imperial. Nem nos devemos esperar
outras do tantos Senhores bem educados, e de tão Sabi -s Groverna-
dores, e Lentos, q'. nos vera honrar nesta Casa do S. Francisco.
" Não ha necessidade alguma de q'. as Senhoras venhão asses-
tir a abertura do Acto, dentro do Convento, e então poder-se hia fazer
a Abertura com mais pompa na Igreja, e depois hirera para hum bom
Consistório na Ordem . * e tomarem hum copo de agoa, sem q'. todo
este povo entrasse em huma forto murmuração, sem que houvessem
bastantes peccados pela falta de caridade q', rezulta das quostoens^
- 114 -
q'. se movera em taes circumstancias, e sem q'. nos mesmos fosse-
mos o alvo de muitas seitas. Não ha de faltar (como ja vai appa-
recendo) q.™ defifonda, e quem attaque este projecto.
" A Bulia de S. ?. 5.^ (1), que principia — Begularium persona-
rum, 24 Sbr.^ 1563 diz — Motu próprio, et ex certa scientia, ac de Após-
tolicod potestatis plenitudine, omnes, et singulas facultafes, ac licentias
ingrendienãi Monasteria, ad Damos Carthusiensium, at aliorum quo-
rum cumiue Begularium Ordinum, etiam Mendicantium , et mulieribus
cujus ciimque status, gradus, ordinis, conditionis, et quacumque digni-
tate, ac proeminentia 2wced'tis etiam Çomitisiis, MarcMonisis, Ducisis,
sub quibuscumqve verhorum tenorihus, et formis, et cum quibuscumque
etiam derogatoriarum derogatoriis, aliisque fortwribus efficaciorihus, et
in solilis clausulis, nec non irritantibus Decretis áb Apostólica Sede
quimodocumque concessas, quarum tenores, perinde, ac si de verbo ad
verbum prmsentibus insererentur, haberi volumus pro expressis, tenore
prcestntium revocamus, et casas, irritas, et inanes esse decernimus. dis-
tricte prohibentes mulieribus quidem proeditas facultates, et licentias
pretendentibus, sub ex-cmnmunicationis latce setentioe prnna, postquam ha-
rum Utterarum notitiam habuerint, d qua non possint absolvi, â Nobis,
aut Romano Pontífice, qui pro têmpora fuerit, proeterquam in mortis
articulo, nec dictus Damos, et Monasteria ingredi audeant. Ipsis vero
Monasteriorum, et Conventuum Abblatibus, Proepositis, Frioribus, et
aliis PríEsidentibus quacumque vocentur, et eorum Monarchis, Canonicis^
et Fratibus, sive Mendicantibus, sive non Mendicantibus, sub privationis
officiorum, quoe in proesentia obtinent, et inhabilitatis in posterum ad
illa, et alia omnia, et suspentionis á Divinis, ipso facto sine alia de-
claratione, incurrendÍ9 pcenis, ne eas introducere, admitterevéprcesumat.
«Rogo portanto, e supplico humildemente a V. Exc. Revra.» -«.m
nome de Nosso Seráfico Patriarcha, da S.*» Ró Apostólica, e m.^° de S.
Magestade o Imperador, q.' se digne promover a Inviolabilidade destas
Leis, e fazer com q.' as Snr.as em tal cazo assistão na Igreja ao Te
Deum Laudamus, q.' faremos em Acção de Graças logo depois da
Oração de Abertura.
II) São Pio V, papa de 1565 a 1572.
- 115 —
D.s Nosso Snr.' derramo sobro V. Bxç». milhares de Graças, o
beneflcíos.
26 de Fcvr.o de 18.28.
De V. Exç.**
Súbdito m.^o attento, e respeitador
Fr. Jozé de St.^ Delfina.
Foi attendida a reclamação do escrupuloso guardião ; as farailias
não penetraram no interior do convento, íicou salvo o systema da
moral, mantida a inviolabilidade da clausura e as festas foram na
sacristia da egreja de S. Francisco, unida ao convento onde se in-
^tallou o curso jurídico do S. Paulo, que alli funcciona até o presente.
IV
O general Arouche foi um zeloso protector da Santa Casa de Mi-
sericórdia desta Capital e na qualidade de seu provedor fazia lhe doa-
ção dos vencimentos que recebia como director da faculdade de Di-
reito, — factos estes que muito abonam os seus sentimentos caridosos.
Foi também um dos contructores da egreja de Santa Ephigenia, a que
fez importantes donativos.
Reíormou-se no posto de tenente -general effectivo e falleceu a 26
de Junho de 1834, com 78 annos de edade.
Do sou casamento com d. Maria Thereza Rodrigues de Moraes
não deixou descendência; mas, tinha -uma filha natural, chamada Ma-
ria Benedicta, havida em tempo de solteiro e legitimada, a quem dei-
xou como herdeira de seus bens. Esta casou-so, mas não teve filhos
e nella extinguiu-se a geração do paulista illustre que tanto honrou
a sua terra natal. O largo do Arouche, formado em terreno que foi
de sua propriedade, perpetua a sua memoria e um seu retrato a óleo»
conservado na Santa Casa de Misericórdia, relembra os grandes bene-
ficios que fez áquella pia instituição.
Azevedo Marques, nos seus Ajjontainentos Históricos, o o dr. João
Mendes de Almeida, nas suas Notas Genealógicas, não dizem a quQ
família pertencia d. Maria Thereza, esposa do general. Era filha do
cirurgião-mór Jeronymo Rodrigues e do d. Maria Potencia Leite de
Moraes, neta paterna de outro Jeronymo Rodrigues, de Portugal, e
- 116 —
neta materna de João Leite de Moraes e de d. Maria de Lara e Al
meida. Foi casada em primeiras núpcias com o ajudante Victorino
Pinto Quedes e, tornando-se logo viuva, casou-se em segundas nú-
pcias com o general Arouche nesta cidade, en 1791. Jeronymo Rodri-
gues, sogro do general, na sua qualidade de cirurgião-mór, prestou
serviços ao governo portuguez e remetteu, por Martim Lopes, a Lis-
boa os documentos desses serviços para obter a recompensa ou fa-
vores a que tivesse direito. Este direito foi transmittido a sua fliha
Maria Theroza e annos depois era ainda defendido pelo general, que
desposou aquella senhora.
D. Mar. a Benedicta, a fllha legitimada do general, fez um casa-
mento desgraçado com o dr. Prudencio Geraldo Tavares da Veiga
Cabral, lente da nova academia, de quem atiaz já se fez menção.
Um tal enlace não era do seu gosto; o noivo era ura homem nervo-
so e passava por ser um tanto estróina e mesmo maluco ; mas per-
tencia á academia, era lente, tinha uma boa posição social e pareceu
ao general que era um bom partido. Fez-se o casamento; porém, na
mesma noite das bodas, quando os convidados se retiravam, o noivo
arrependia-se do que praticara e passeava em uma sala, todo agitado
e repetindo as palavras : — « Que fizeste, Cabral ? »
Deixou a casa nessa mesma noite, nessa mesma hora, para nunca
mais lá voltar. Por parte da noiva foi proposta acção de nuMidade
do casamento, que foi julgada pelos tribunaes do paiz na parto civil
e os respectivos autos ainda existem nesta cidade, sendo considerados
como verdadeira curiosidade jurídica, já pela proeminência dos liti-
gantes, já pela raridade da espécie. Pelo lado religioso a matéria foi
levada até ao papa, em Roma, que concordou cora a nullidade pro-
posta e reraoveu os ultiraos escrúpulos da família relativos a este
lamentável acontecimento. Nenhum delles jamais se casou outra vez.
Elle continuou a reger a sua cadeira de lente até 1861, quando jubi-
lou-se, e falleceu era Wó'2, e ella legou toda a sua foi tuna á família
Rego Freitas. O bellissimo e populoso bairro da cidade, chamado
Villa Buarque, está todo edificado era terreno que foi de sua proprie-
dade.
117 —
Amigo sincero da monarchia constitucional representativa, ficou
o general Arouche desagradavelmente impressionado com o plano de
alguns reaccionários de proclamar o governo absoluto de Pedro I, que
passou dois annos depois do outorgada, em Wi4, a constituição poli-
tica do império sem convocar o corpo legislativo nacional. Para mui-
tos este plano era somente dos cortozaos e dos letrogados, não tendo
D. Pedro parte alguma nelle, nem favorecendo de qualquer modo a
sua realização. Entretanto, o próprio ministro da Guerra, José Cle-
mente Pereira, não fazia mysterio desse plano, no Rio de Janeiro, e
o comniendador Manoel da Cunha Azeredo Coutinho do Souza Chi-
ch rro chegou a agir no sentido do realizal-o em aubaté e em ou-
tras villas do valle do Parahyba, onde servia o cargo de juiz de fora.
O general Arouche, raonarchista sincero e dedicado á dynastia
bragantina, pertencia ao numero daquelles que acreditavam na leal-
dade de Pedro I e na sua desinteressada adhesão ao regimen consti-
tucional que decretara e fizera jurar a 25 de Março de 1824. Entre
os papeis velhos por elle deixados á sua família e por esta a mim
confiados, encontrei um frotesto mauuscripto contra o commendador
Souza Chichorro e contra as camarás municipaes da sua circumscri-
pçao judiciaria, que por servilismo, bajulação, medo ou ignorância se
prOfUzeram a auxiliar a realização do governo absoluto de Pedro I.
Transcrevo em seguida esse protesto como um elemento a mais para
o conhecimento do caracter do general e para o estudo da historia
do curto e agitado governo do primeiro imperador.
« Lendo no Diário Fluminense^ de 14 de Maio, os documentos que
dizem respeito ás sediciosas suggestões do Juiz de Fora de Taubaté
e mais villas da sua dependência, cm S. Paulo, para proclamar alli o
governo absoluto, não pude deixar de me mortificar, muito particu-
larmente por me lembrar que a Província que mais se distinguiu na
proclamação da liberdade politica do Brasil se vê agora manchada
com uma tentativa em opposição á liberdade civil, não obstante que
tal infâmia não deve transcender além do sr. Chicorro. Sim ; a his-
toria não se encarregará dos nomes dos membros daquellas camarás
sinão para recommendar ao despreso a sua nullidade.
— 118 —
«Voltando ao sr. Chichorro, estou certamente persuadido, qualquer
que seja a sua perversidade, que elle raesnso não pesou o mal que
se dispunha a fazer ao nosso Heróo e ao Brasil, segundo a ignorân-
cia que dá a conhecer naquollo manejo e no seu offlcio do Maio, nao
obstante que seja capaz o sr. commendador de sacrificar a gloria que
toca ao nosso Augusto Imperador de ser o fundador do primeiío im-
pério livre do mundo a troco de qualquer casaca com que effectiva-
mente cobriria o seu corpo e descobriria a sua infâmia (^)
«Este attentado pareço provir da benevolência o pouca severidade
das repartições do Império para com os cabildantes de Montevideo, e
mesmo as suas portarias do 13 de Maio desapprovam os passos do tal
commendador Juiz do Fora em nome das camarás com tanta docili-
dade, que a não serem as medidas tomadas em Conselho mal podia
o farçante sentir o horror do seu crime. Bemdicto seja tão illustrado
Conselho o abençoado seja para sempre, com toda a sua progénie, o
^mmcrtal Defensor Perpetuo e Imperador Constitucional do Brasil, que
Eão 6 capaz de aberrar do caminho da justiça, nem com as sedições
de todos os hypocritas, como o sr. Juiz de Fora de três villas.
«Se eu fosse a fazer reflexões sobre a matéria iria longe ; concluo
então cora uma observação sobro aquella parte do dito offlcio : Si se
declarar a vontade da capital como eu espero, o Nosso Augusto Impe-
rador re- entrará no goso dos seus inauferíveis Direitos de Monarcha
Absoluto .
«I)á-so maiar pedantice ! O sr. Juiz de Fora julga Sua Magestade
Imperial constrangido ? Não sabe a historia de Henrique IV, da In-
glaterra, que por sua viciosa declaração de direitos lançou a sua pos-
teridade e a nação em uma serie infinita de calamidades ? Ignora que
o nosso Augusto Imperador tem por seu mais honorifico titulo, eterno
e inauferivel— Unanime Acclamação dos Povos? Não sabe que o nosso
Heróe despresa a memoria dos Caligulas, Neros e Caracalas e que só
quer se parecer com os Henriques 4.os, de França, com os Titos. An-
toninos e Marcos Aurelios?
(1) Aqui traz o manuscripto a seguinte nota :
*La misma capa que te enculre la misma te ãesculre», disse Philippe II ao carni-
ceiro que encontrou em Lisboa vestido a cavai] eiró».
- 119 -
*A propósito lerabra-mo uma anccdota :— Jacob I, rei da Inglater-
ra, entrotendo-so á mesa em companhia do dois bispos, Andrewes e
Neile, poz o rei (i) era questão si não podia sem as formalidades do
Parlamento tornar o dinheiro dos seus súbditos quando tivesse neces-
sidade, e excusando-se o primeiro cora o especioso pretexto de não
ser versado em matérias parlamentares, accudiu o segundo mui lam-
peiro : — Senhor, nós não respiramos outro ar que não seja por Vossa
Magestade ; que duvida pôde, pois, haver que o possaes fazer. — Jacob,
comtudo, que não tinha bastante fé na decisão de ura tão vil lison-
geiro, insistiu com o honrado Andrewes para que desse a sua opi-
nião, ao que o bispo satisfez do modo seguinte : — Senhor, eu creio
que sem offender lei alguma Vossa Magestade pode tomar o dinheiro
aqui do meu confrade Neile porque elle vol-o oferece.
«No mesmo caso conformo-me cora este parecer e, ou o sr. Juiz
de Fora seja tolo ou velhaco, bom será fazel-o ser governado despo-
ticamente, não por um príncipe justo, que perderia nisso a sua digni-
dade, mas sira por ura carcereiro por todos os dias da sua vida.>
Este protesto não tora, de certo, a linguagem floreada e a elo-
quência arrebatadora de muitos pamphletistas modernos, Torres -Ho-
mem, Landulpho, Amaral e outros, e mesmo é obscuro quando se
refere ao cabildo de Montevideo ; mas ó sincero o neile se reflecte
todo o sentir do paulista honrado e simples que ainda acreditava na
lealdade constitucional do primeiro imperador. A anedocta dos dois
bispos inglezes e a sua applicação ao caso do commendador Chichor-
ro mostram que o general tinha não somente patriotismo e amor ás
instituições liberaes, mas também muito espirito e uma certa malicia,
bem combinados com o bom senso e com a profunda aversão ás for-
mulas do despotismo.
VI
Não obstante as suas múltiplas occupações, já como advogado, já
como magistrado, já como militar, era o general um homem de negócios,
(1) Henrique IV, rei da Inglaterra de 1400 a 1413, foi um usurpador violento e deu
por seus actos origem á longa e desastrosa Guerra das Buas Eosas entre as casas reaes
de Lancaster e de York. Jacob é conhecido na historia por Jaime e era filho da des-
graçada, Maria Stiiart, rainha da Escossia ; succedeu á rainha Elisabeth na coroa da In-
glaterra governou mal de 1C03 a 1625 e foi pae do rei Carlos I, desthronado e enfor-
cado por CromweU em 1649.
- 120 ~
previdente quanto ao seu futuro bem estar, niethodico e systematico
até nos menores negócios. Possuía elte nesta capital ura bora nume-
ro de prédios, sendo 7 na antiga rua do Príncipe, hoje Quintino Bo-
cayuva, 3 na run do Quartel, 4 na rua da Freira, hoje Senador Feijó,
uma na rua de S. José, hoje Libero Badaró, uma na rua Alegre, hoje
Brigadeiro Tobias, e uma na rua do Jogo da Bola, mais tarde rua da
Princcza e hoje Benjamin Constant — total, 17 casas, sendo uma de
sobrado.
De cada uma destas casas conservava elle escri; turaçao especial,
em forma de conta corrente, com os nomes dos inquilinos que ncllas
residiam, importância do aluguer, datas dos pagamentos e despesas
da sua conservação. Transcreverei algumas dessas notas, não so-
mente por serem curiosas, como para servirem de base de compara-
ção entre a cidade de S. Paul> de setenta annos atraz e a prospera
capital de hoje :
— Rua do Piincipe, n. 10, alugada mensalmente a Francisco Lou-
reiro por 1^600, em 18.24, passando de 18i-?5 em deante a 2^000 por
mez até 18'J9.
— Rua do Príncipe, n. 11, alugada mensalmente a Gertrudes Maria-
de Jesus, mulher parda, por lj^60Q, passando de 18"25 em deante a 2p)00,
— Rua do Príncipe, n. 12, alugada a Marcellino Motta, mensal-
mente por ipOO e depois de 1825 a :'$000.
—Rua do Quartel, n. 14, alugada á viuva Portilho, mensalmente
por 5$0C0, sendo fiador o coronel Francisco Alves Ferreira do Amaral,
em 1824 ; entregou as chaves em 10 de Fevereiro do 1825, íicando o
sr. coronel a dever um mez e dez dias. Passsou a ser occupada pelo
escrivão da camará Benedicto de Toledo, a 6^400 por mez ; ficou a
dever 25 mezes, de que passsou credito em 14 de Março de 1827.
Recebeu então as chaves o sargento-mór Diogo José Machado, que a
tem pago até 22 de Outubro de 1829, quando aforei ao sr Queles, a
quem hoje pertence.
— Rua do Quartel, n , alugada em 15 de Julho de 1829 ao
sr. Carneiro de Campos (1) a 12p00pormez. Recebi ties mezes até
(1) Foi um dos primeiros lentes da Academia de B. Paulo, e seu direceor de 1833 a
18c 5 ; jubilou-se em 1868 com í9 annos de magistério. Foi depois o Visconde de Cara-
vellas.
— 12! —
15 de Outubro. No dia 15 de Dezembro entregou as cliaves estando
a me dever 2l^3oO ; mandou-rae um bilhete de 50 j^OOO para pagar-me
e dar-lhe 28^670 de troco, que mandei pagar pelo Barreto. Tomou
as chaves Joaquim José Freire da Silva em 6 ne Dezembro de 18.29
e entregou-as em 15 do Maio de 18.il, ficando a dever um anno de
aluguer, pelo qual o filho se obrigou. A 18 de Maio foram as chaves
ao estudante Raphael de Araújo Ribeiro a pedido do sargento-mór
Godoy.
— Rua do Jogo da Bola, casa com quintal muradu e portão, alu-
gada ao cirrurgião-mór Toledo em 18'23, por 1^000 mensaes. Dei
ordem ao meu procurador Borges para que nao recebesse os alugue-
res do sr. Toledo.
— Rua da Freira, n. 20, alugada ao mestre sapateiro Francisco
de Paula, mensalmente por lp2«i, em 18'33 ; pagou ao procurador até
17 de Janeiro de 1826 ; mas negro velhaco, foi executado e penhora-
ram-ihe as bagatelas ; recebi as chavoí? em 24 de Junho de Ib^^T, com
4Í(000, ficando outros 4^000 para as custas. Entrou então na casa
Carlota Joaquina com flapça de D. Gertrudes Feijó, que raandou-me
como penhor um annel de pedras brancas, que lhe restitui quando
saldou a conta.
Sobre a casa n. 22, da rua da Freira, alugada em 1824 a Anna
Polycena por 5 patai^as mensaes, encontra-se a seg -inte nota :
« Foi aforada a Domingos Carlos Pereira a 12 de Novembro de
< 1829, ficando Anna Polycena a dever desde 1.» de Agosto de 1828
€ até a data do aforamento. Domingos Carlos, com o meu consenti-
« mento, passou o foro a Henrique Stockler e este, vendo-se perdido,
« criminoso de morte e preso, fez cessão do foro, e eu recebi as cha-
« ves, que entreguei ao sargento-mór António Xavier de Miranda, em
< 20 de Dezembro de 1831, pelo módico aluguer de 20560 mensaes.»
Esta nota ó um tanto suggestiva : Libero Badaró foi assassinado
nesta capital na noite de 20 de Novembro de 1630 e segundo rezam
as chronicas do tempo por três allemães, dos quaes ura se chamava
Simão Stock. Cora a facilidade de se corromperem os nomes ex-
trangeiros, como Tacks para Taques, Leims para Leme, etc-, é possível
que o verdadeiro nome do assassino fosse Stockler, que é bastante
commum em S. Paulo e Minas, e pela nota acima vemcs quedem 1830
- 122 ~-
o general teve como inquilino em sua casa n. 22, da rua Freira, um
individuo chamado Henrique Stockler, que nesse tempo so tornou cri-
minoso de morte e foi preso. Nao haverá alguma relação entre este
Henrique e aquelles allemães, assassino de Badaró ? E' um ponto im-
portante da historia paulista, deixado até hoje na obscuridade e que
aquelle general bem podia nos ter esclarecido.
Por estas minuciosas notas, que representam apenas uma peque-
na parte do livro do que foram extrahidas, vemos a attenção que o
general dava aos seus negócios, e era tão cuidadoso que tinha escripta
especial para uma casa da rua do Brigadeiro Tobias, alugada por três
patacas por moz e para despesas até de 80 réis feitas nos seus prédios.
Como documento de valor para as suas qualidades de ho-
mem do nogocios e também como amostra das suas relações com seus
irmãos, transcrevo abaixo uma carta particular por elle dirigida ao
sou irmão Diogo Ordenhes, que se achava em Lisboa em 1794, depois
de ter estado alguns annos em Cuiabá como magistrado. Para apre-
ciar a linguagem da carta e o tora um tanto paternal que a caracte-
riza, deve-se levar cm vista o facto de Diogo Ordenhes ser quatro
annos mais cdoso do que o general, como elle formado em direito em
Coimbra e magistrado de alta capacidade moral e scicntiflca. A. car-
ta diz assim :
<Mano Diogo : — Tenho recebido as vossas cartas, a excepção da pri-
meira, que cá não chegou . Estimo que passos bem, já livi e de moléstias .
< Esta vae pela corveta que breve desferra do porto de Santos e
de que é capitão o Piedade, moço, bom rapaz, e muito melhor para
ouvir os seus disparates. Esteve aqui em termos de ir tourear de
«apinha, mas tomou melhor accordo a conselhos dos interessados na
sabida do barco.
< Hontem me appareceu aqui aquelle vosso F. Henriques, que
veiu do Cuiabá e parte já para Santos para ir na mesma corveta, no
rancho do contra-mestre. Por elle vos envio cinco cannas cardosas
das que pedistes ; são as que pude apromptar depois da vossa carta
de 31 de Agosto passado. Uma tinha eu, três tinha a mana D. Cae-
tana e uma a sra. D. Marianna ; ellas gostosamente as offercceram quan-
do souberam que as queríeis . Já as encommendei para ( oritiba e
quando vierem mais vos irão.
- 123 -
« Neste mesmo navio vos vae um caixote de ca:é da Casa- Verde,
Estamos a espera do Santos -Martyres e do navio dos Freire, segun-
do diz a praça do Santos. Deus queira que venham logo e que me
tragam os ornamentos de que tanto se descuidou o Lacerda, e já
vejo que não servo para correspondente.
« Esta corveta era poucos dias carrega, pois a praça de Santos
está atacada de géneros de embarque. Eu podia nella mandar o res-
to do vosso dinlieiro em algodões, que o capitão queria levar na ca-
mará, e ellcs se acham promptos ; comtudo não o faço visto que vós
tanto desconfiastes da corveta, não só em razão do barco, como por
causa dos francezes. Portanto, como elles se acham promptos, isto
é, os algodões, podeis flcar certo de que hão de ir no primeiro navio
que sahir, que ha de sor um dos dois que se esperam, e vós si qui-
zerdes podeis segurar, para o que com esta irá a conta.
« Creio que já lá está a salvamento o navio Cysne, que bom
cuidado me dá, a mim e mais a Josó António. Si os géneros estive
rem ainda com o valor quo vós informaes a Josô António, não per-
deremos o trabalho e lucrareis na partida de couros que foram por
vossa conta.
« A nossa gente anda toda boa. A cidade está ha muito tempo
em uma revolução de Festas Roaes, bem atrapalhadas com as chuvas
Comtudo ellas se têm feito com mais aceio e grandeza do que per-
mittiam a pobreza e pequenez da terra. No íini vos irá uma relação
fiel de tudo.
« As minhas recommendações antigas supponho estarem muito
na vossa lembrança e por isso não as repito.
« Quando mandardes o brazão deve vir um em meu nome para
ter cada um o seu, e mandae-me um slnoto em prata, cora a conta
da despeza que me pertence.
« A Lacerda recommendei muito quo procurasse nas mãos de
António Lobo uns papeis e serviços do fallecido meu sogro, qne
Martim Lapes tinha levado, como consta das cartas do mesmo, que
de lá escreveu. Vede si podeis arrecadar esses papeis e guardae-os,
mandando a minha custa tirar uma copia por qualquer amanuense,
ou resumo, para me mandardes e eu assim saber o que ha, pois cá
não ficou nada c cuido que foram os próprios originaes. O vosso
- 124 -
dinheiro, que parava era rainha mao, eram 604^800, e abatendo 482j${4*^i0
que foram importando os 300 couros que levou o navio Cysne, ficara
122)^400, que hao de ir era algodões; e como estes foram comprados
cora caroço e raandados descaroçar, vos vão raais baratos do que nós
comprámos os que foram pelo navio Cysne. Podeis segurar 3' ou 32
arrobas mais ou menos, que para completar os saccos ha do ir mais
alguma cousa, segundo me parece; mas ao depois irá a conta.
« Adeus, que o Henriques vem buscar esta carta para partir
araanhã. Recebei uraa viva saudade rainha e de toda esta casa. São
Paulo, 26 do Fevereiro de 1794.
Vosso Irmão Ara^.
José . >
Vil
José António, a quem o general se refere, era ura negociante em
Santos, cora relações era Portugal, e coraraissario exportador dos gé-
neros que e general reraettia ao seu irraão era Lisboa. Lacerda era
ura amigo da familia, em Portugal, e servia de correspondente ao
general, cujas ordens cumpria mal. D. Caetana era a mais velha das
irraãs vivas do general e uraa das mocinhas da Casa- Verde, jà mencio-
nadas acima. D. Marianna era uraa fidalga paulista e assignavase
Marianna Angélica Fortes de Bustaraante Sá Leme; era filha do dr.
António Fortes de Bustaraante Sá Lerae e irraã de D. .Joaquina Jo-
sepha Pinto da Silva e de D. Anna Leóni>^sa de Abelho Fortes, es-
posas que foram do dr. Francisco Leandro de Toledo Rendon, irmão
mais velho do general.
Martira Lopes, mencionado na carta, foi o celebre capitão gene-
ral que infelicitou S. Paulo de 1775 a 1782, perverso, quasi louco,
devasso, e assassino do infeliz musico Caetano José da Costa, conhe-
cido por Caetaninho e herôe de um drama muito aiTeciado em S.
Paulo em outras eras. António Lobo, tambera mencionado, era um
moço borracho, turbulento, filho do capitão -general Martira Lopes e
seu companheiro de orgias. Foi elle quem, em uraa festa offlcial dada
por frades benedictinos na fazenda de S. Caetano, na estrada de Santos,
na qual ao vinho e ao deboche se juntava uraa representação th ea trai,
a que assistia o oapitão- general, atarracou-se de unhas com o musi-
co Caetano e foi por este ferido no pescoço cora uraa faca, estando
— ir>5 -
ambos ura tanto embriagados polo generoso vinho dos santos frades.
Por este ferimento, aliás leve e sem consequências para o offendido,
foi o pobre Caetaninho sujeito a um simulacro de processo perante
juizes escolhidos ad-hoc e adrem, condemnado á morte e enforcado,
para exemplo dos povos e manutenção do prestigio da autoridade do
capitão general.
Nos tempos coloniaes os que prestavam serviços voluntários ao
rei tinham direito a uma certa recompensa, que em regra não pas-
sava de ura posto na milicia, de um offlcií» de justiça ou de fazenda,
de uma coramenda de Christo, cora tença ou pensão annual de 50j$(000,
ou mesmo de uma semples carta de agradecimento firmada pelo pró-
prio rei. Não era grande cousa, mas julgavam os paulistas que era
quanto bastava para a sua nobilitação e para satisfazer o seu amor
próprio. Assim, esses serviços eram considerados como bens da for-
tuna e quando quem os fazia não recebia a devida recompensa, le-
gava-os a seus herdeiros para que a houvessem do governo portu-
guez. Daqui vinha a ordem do general Arouche para Lacerda arre-
cadar de António Lobo uns papeis e serviços do seu fallecido sogro,
que Martim Lopes tinha levado quando deixou o governo de S. Paulo,
em l';82, e que deviam estar em poder do filho António Lobo ou se-
pultado por tantos annos nos archivos do Conselho Ultramarino de
Lisboa
E' para extranhar que na carta acima transcripta o general não
diga uma só palavra sobre a politica e sobre os negócios public';s da
capitania, para informar a seu irmão, que estava era Lisboa havia
raais de um anno, do que aqui se passava, nem se mostre curioso de
saber delle noticias politicas de Portugal e de toda a Europa, nesse
tempo convulsionada pela Revolução Franceza e pelas guerras que
delia resultaram.
Esta indifl:orença sobre o que estava se passando na capitania
pode ser explicada pelo facto de nada ter occorrldo de anormal e
importando, que merecesse especial menção; porem o silencio sobre a
politica europêa parece mais calculado do que casual. Homem de fina
educação, diplomado em Direito e ofiflcial de alta patent> do exerci-
to, não podia elle de modo algum deixar de se interessar pelos acon»
tecimentoc) da Europa ; porem, como rebento que era de uma velha
>- i26 —
aristocracia, conservador e moderado por indolo, parece que elle pre-
feria ingnorar por eraquanto os estragos produzidos pela revolução de
89 e os horrores do regimen do terror, então era pleno vigor, tanto
em Paris como em todas as cidades da França, a estar se incommo-
dando com as consequências daquellas sanguinárias luctas sem poder
oppor-lhes uma barreira ou ao menos moderar a sua violência. Seria
uma espécie do fatalismo rausulmanico, o que tem de ser ha de ser,
mas perfeitamente esplicavel e mesmo acceitavel neste caso.
O brazão de armas, cuja copia o general pediu ao seu irmão,
foi-lhe remettido de Lisboa e existe entro os papeis velhos que estão
em meu poder. E' um documento interessante, desconhecido da mo-
derna geração, e por isso o transcrevo aqui :
BRAZÃO DE ARMAS
«Dona Maria, por graça de Deos, Rainha de Portugal e dos Al-
garves, daquem e dalém mar em Africa, Senhora de Guino, e da
Conquista, Navegação e Oomraercio da Ethiopia, Arábia, Pérsia o In
dia, et costera : — Paço saber aos que esta minha Carta do Brazão de
Armas de Nobieza e Fidalguia virem que o Bacharel José Arouche
de Toledo Rendou, Mestre de Campo do Segundo Terço Auxiliar de
oorra-acima da Capitania de S. Paulo, de onde hé natural, me fez
petição dizendo que pela sentença de justificação da sua nobreza, a
ella junto, proferida e assignada pelo meu Dozembargodor e Corre-
gedor do Civel e Casa da Supplicação, o Doutor José António Pinto
Donas Boto, subscripta por António José de Souza, escrivão do mes'
mo juizo, e pelos documentos incorporados nolla, se mostrava que ollo
hé filho legitimo do Agostinho Delgado Arouche, cidadão da mesma
cidade, Guarda-Mor das Terras e Aguas Mineraes da villa de Parna-
hyba e Mestre do Campo do Terço Auxiliar da villa de Paranaguá,
da mesma Capitania, e do Dona Maria Thereza do Araújo Rendou ; neto
por parte parterna do Sargento-Mór Francisco Nabo Freire e de Dona Ma-
ria Pires de Barros : neto pela parte materna de Dioge de Toledo Lara»
Capitão Mor que foi o Regente dos minas do Paranapanema, que descobriu
a sua custa, o Dona Angela do Siqueira e Quevedo ; bisneto por parto
materna do João de Toledo Castelhatios e de Dona Maria de Lara, filha
- 127 —
de Lourenço Castanho Taques, governador que foi da leva do descobri-
mento das Minas Geraes, pelo que recebeu honrosissimas cartas do
Senhor Rei Dom Pedro Segundo, e de Dona Maria de Lara ; terceiro
neto polo mesmo lado de Dom Simão de Toledo Piza, natural da ci-
dade de Angra, de onde, depois de militar nas Armadas e Presidies
de Castella, se passou para a referida cidade de S. Paulo, onde foi o
tronco o chefe da lamilia do seu appellido, e do Dona Maria Pedrosa ;
quarto neto pelo mesmo lado do outio Dom Simão de Toledo Piza,
governador que foi do Castello de S. Filippe, da cidade de Angra dos
Reis, o de d. Gracia da Fonseca Rodovalho ; quinto neto peio mesmo
lado de Dom João do Toledo Piza, fidalgo da illustrissima Casa do
Silva do Tormes, Duques de Alva e Condes de Orepéza, e Dona Anna de
Castelhanos ; bisneto por parte materna de Francisco Matheus Ren-
dou e do Dona Maria de Araújo, filha de Fedro Taques de Almeida,
fidalgo da minha Real Casa, Capitão-Mór, Governador o Alcaide-Mór
da Capitania de S. Vicente e S. Paulo, e Administrador geral das al-
deias do Real Padroado da mesma Capitania, e de d. Angela de Si-
queira ; terceiro neto de Dom Pedro Matheus Rendou o de Dona Maria
Moreira Cabral ; quarto neto de Dora João Matheus Rendon, illustre
fidalgo da Casa de Cora, no reino de Leão, donde se passou com dons
irmãos para o Brasil, militando na armada de Castella que, com a de
Portugal, foi restaurar a cidade da Bahia do poder dos hollandezes,
em praça de soldados- e vencendo três escudos além do soldo, e dali*
se passou á mencionada cidade de S. Paulo, onde depois de estabele-
cido levantou a sua custa uma companhia de infantaria para a res-
tauração de Pernambuco, e de Dona Maria Bueno da Ribeira, filhado
Amador Bueno da Ribeira, CapitãoMór e Governador da Capitania d©
S. Vicente e S. Paulo, e na mesma Ouvidor e Provedor da Fazenda
Real ; quinto neto de Dom Pedro Matheus Rendon, fidalgo de vingar
quinhentos soldos, segundo o foro da Hespanha, e Regedor que foi
das Justiças pelo estado de fidalgo da villa de Ocanha, e de Dona
Maria Magdalena Clemente de Alarcão Cabeça de Vacca. Os quaes
seus pães, avós, e mais ascendentes foram pessoas nobres, das fami- ^
lias dos appellidos de Toledo e Rendon, e dos mais de seus appellidos,
que neste reino são fidalgos de linhagem, cotta de armas e solar co-
nhecido, e como taes se tratavam com cavallos, criados, e toda a
- 128 -
mais ostentação própria da Nobreza, servindo no militar os postos do
governo por serem os principaes das xerras onde viveram, sem que
era tempo algum commettessera crimes do lesa-magestade divina on
humana, pelo que me peiia elle mesmo supplicante, por mercê, que
para a memoria dos seus progenitores não se perder, e clareza da sua
antiga nobreza, lhe mandasse dar minha Carta de Brazão de Armas
das ditas famílias para delia também usar na forma que as trouxe-
ram e foram concedidos aos ditos seus progenitores. E vista por mim
a dita sua petição, sentença e documentos, e constar de tudo o refe-
rido e que a elle como descendente das mencionadas famílias lhe
pertence usar e gosar de suas armas, segundo o meu Regimento e
Ordenações da Armaria, lhe mandei passar esta Carta de Brazao
delias na forma que aqui vão brazonadas, devisadas e illuminadas
com cores e metaes, segundo se achão registradas no livro do Registo
das armas da Nobreza e Fidalguia destes meus reinos, que tem eni
Portugal meu principal Rei de Armas, a saber:
Um escudo partido em pala; na primeira, as armas dos Toledos,
que são o campo xadrezado de prata e azul, de três peças em faxa
e cinco era pala ; na segunda, as dos Rendon, que são uraa banda de
ouro sahindo das boccas de duas cabeças de serpentes verdes, sendo
o campo alto vermelho e o baixo verde, orla vermelha carregada de
treze bezantes de ouro; elmo de prata aberto e guarnecido de ouro,
paquife dos metaes e cores das arraas ; timbre dos Toledos, que é uraa
figura de anjo com a túnica xadrezada como o escudo e por differea-
ça uma brica verde cora uma banda de ouro.
O qual escudo o armas poderá trazer e usar tão somente o dito
Bacharel José Arouche de Toledo Rendon, assim como os trouxeram
e usaram os ditos nobres o antigos fidalgos seus antecessores, e com
elles poderá entrar em batalhas, campo.*, reptos e escaramuças e exer-
citar todos os raais actos licites da guerra ou da paz. E assim mes-
rao os poderá trazer era seus firmaes, anneis, sinetes e divisas, pol-os
era suas casas, capellas e raais edifícios, deixal-os sobre a sua própria
sepultura, e finalmente se poderá servir, honrar, gosar e aproveitar
delles era tudo e por tudo corao á sua nobreza convera. Cora o que
quero e me praz que haja elle todas as honras, liberdades, graças, mer-
cês, isenções e franquezas que hão e devera haver os fidalgos e nobres
- i29 —
da antiga linhagem, e como sempro de tudo uzaram e gosaram os ditos
seus antepassados ; pelo que mando aos meus Desembargadores, Cor-
regedores, Provedores, Ouvidores, Juizes e mais Justiças do meu Reino,
e era especial aos meus Reis de Armas, Arautos, Passavantes e quáes-
quer outros ofiaciaes e pessoas a quem esta minha Cartai for mostra-
da e o conhecimento delia pertencer que em tudo a cumpram e guar-
dem, e façam cumprir e guardar como nelle se contém, sem duvida,
nem embargo algum que a ella seja posto, porque assim é minha
mercê. A Rainha, nossa Senhora, o mandou por Manoel José Gon-
çalves, escudeiro cavalleiro de sua Real casa e seu Rei de Armas
Portugal. Bernardo José Agostinho de Campos, escrivão da Nobreza
destes Reinos e suas conquistas, a fez era Lisboa aos 22 dias do mez
de Outubro do anno de nascimnnto de N. S. Jesus Cristo de 1798.
E eu Bernardo José Agostinho de Campos a fiz e subscrevi. — Bei de
jLrmas de Portugal. — Registada no livro 5.» do Registo dos Brazões
de Arraas da Nobreza e Fidalguia destes Reinos e suas Conquistas, a
fls. 154. Lisboa, 24 de Outubro de 1796. —Bernardo José Agostinho
de Campos.
índia e mina
O Doutor João de Mattos e Vasconcellos Barbosa de Magalhães,
do Doserabdrgo do Sua Magestade, seu Corregedor de crime do bairro
de Alfama, que de presente sirvo de Juiz de Índia e Mina e das Jus-
tificações ultramarinas, etc. :— Faço saber que mo constou por íé do
escrivão que esta subscreveu serem os signaes retro do Rei de Armas
Portugal e de Bernardo José Agostinho de Campos, o que hei por
justificado. Lisboa, 16 de Novembro de 1796. E eu, Lourenço Agos-
tinho Leite, a subscrevi.— João de Mattos e Vasconcellos Barbosa de
Magalhães. — E não se continha mais cousa alguma era o dito Brazão
de Arraas, que por parte do coronel José Arouche de Toledo aqui
bem e fielmente fiz registar do próprio, ao qual me reporto e o tor-
nei a entregar, que recebeu, de que assignou coraraigo depeis de ler
e conferir, e por achar era tudo conforme, sem cousa alguma que
duvida faça o subscreveu, nesta cidade de S. Paulo aos 30 dias do
mez de Junho de 1798, e eu, José Manoel da Luz, que o subs-
- 130 -
crevi, conferi e assignei.— José Manoel cIjl Luz.— José Arouche de
Toledos (1).
VII
Quando estudante em Coimbra, tendo então 21 annos de idade, o
general começou, e continuou até se formar, a escrever em um livro
de lembranças, que intitulou Memorias, os principaes acontecimentos
que iam se dando ao lado dos factos miniraos da sua vida académi-
ca. Este livro está em meu podi^T, confiado pela farailia, e, exami-
nando-o, tive o desprazer de verificar que está estragadissimo por
agua e traças e que lhe faliam algumas folhas no fim. Está, por-
tanto, incompleto, de difficil leitura e do impossível restauração. En-
tretanto, pretendo restaural-o na parte que me for possível e me pa-
recer mais interessante, em beneficio do Instituto Histórico, e como o
que o livro contém são notas para o seu uso particular, as suas pa-
ginas refiectem todas as faces do caracter do general e todo o
fundo da sua organização moral. O livro começa do seguinte modo :
« NOTICIAS E FACTOS CURIOSOS QUE SUCCEDEEAM, EM CUJA
NARRAÇÃO SEGUIREMOS A ORDEM ÇHRONOLOGICA »
« ANNO DE 1777— COLMBRA »
« Fevereiro.— A 23 deste mez morreu D. José Ida moléstia das
pernas (2) ; e por causa desta mesma doença entregou o governo á
sua mulher por um decreto, em Novembro de 1776 ; morreu em do-
mingo e na sextafeira antecedente casou o nosso príncipe D. José
com sua tia, repentinamente. Ò Rei, desenganado que morria, tirou
de uma gaveta a dispensa e os fez casar deante do si. Pouco antes
de morrer mandou soltar todos os presos de inconfidência (3), entre
os quaes sahiu o bispo D. Miguel quasi nú.
< Março.— A 4 deste mez foi mandado recolher para Pombal o
marquez de Pombal por decreto da senhora Rainha, succcssora do
(1) Este registo foi feito no livro competente da campra municipal de S. Paulo.
(2) Alguns historiadores dão a morte do rei D. José como occornda em 24 de Fe-
■verelro.
(3) Em Portugal dava-se o nome de «crimes de inconfidência» aos delictos praticados
contra o rei ou contra o Estado. Dahi vem chamarem-se ainda hoje «inconfidentes» a tí-
rad entes e seus companheiros da rebellião mineira.
- 131 —
reino e mulher do senhor infante D. Pedro (1). Dizia o decreto qne,
attendendo á estimação quo seu pao fazia do dito marquez e á sua
petição, lhe cencedia por estar já cançado o reeolher-se para Pombal,
e que juntamente lhe fazia mf:!rcô da commenda de Santiago de Bra-
ga. Dizem que sahiu de Lisboa este desgraçado somente acompa-
nhado de três criados e de cinco soldados, que lhe concederam para
o iivrarom de alguns insultos, e os quaes elle mesmo pediu por ver
quo pouco antes, sahindo do Paço, um seu genro em uma sege do
dito marquez, foi apedrejado de sorte que lho foi preciso clamar que
não era o marquez de Pombal, e dizem mais que sempre levou uma
pedrada na cara. Temendo isto, pois, o marquez pediu cinco solda-
dos, mas não seguro com isso, dizem, mandou 5ua sege adeante e foi
atraz em uma caleça de aluguel. Por quasi todos os legares por
onde passou o descompunha o povo, chamando-o de ladrão para cima.
« Foi mandado prender na sua mesma sella, pela senhora Rainha,
« geral dos Bernardos, mandando-se-lhe que respondesse as culpas
de que o accusavam, isto é, de quebrador de clauzura, alcoviteiro e
ladrão. Com effeito hé constante que elle costumava entrar no con-
vento de Odivellas, junto com o conde de Oeyras, por uma porta fei-
ta para esse flm e falava com as educandas que queria (2) ; o que
aão podia impedir a abbadessa como seu geral que era e amigo do
marquez de Pombal.
< A 14 deste mez se fez em Coimbra a celebre funcção do que-
bramento dos escudos ; o que consistiu em um grande préstito de
homens de casaca e capa de estudante por cima, e na cabeça um
chapóo desabado com fumo cahido, e diante de todos um cavalleiro
do mesmo modo, trazendo nas mãos uma bandeira com as armas co-
bertas de fumo, e o cavallo também todo coberto de fumo. Chega-
ram ao pateo da universidade e o cavalleiro disse certas palavras que
não ouvi, e veiu outro com as armas reaes dizendo : GJiorae pobres,
chorae ricos o vosso Bei, e as quebrou em um assento feita para isso
no meio do pateo. Isto, em logar de tristeza, causa riso.>
(1) D. Maria I, filha do rei D. José e esposa de Pedro 111 ; foi mãe de D. JOão VI»
perdeu o juiao e falleceu no Rio de Janeiro em 1816,
(2) Este convento de freiras era celebre no reinado anterior de D. João V, que
alli praticava as suas afamadas orgias. Conde de Oeyras foi o primeiro titulo do mar-
quez de Pombal.
I
- 132 -
Por estes trechos das Memorias pode-se bom avaliar da sua im-
portância, coraquanto o auctor, estando era Coimbra e não em Lisboa,
nem sempre narre os factos de sciencia própria, mas por ouvir dizer.
No Archivo do Estado encontram-se muitos documentos ofaciaes
relativos aos serviços que o general prestou ao governo em vários
tempos e era seu arcbivo particular, hoje em meu poder, existem
muitas notas curiosas sobre a agricultura, a flora e a fauna de S.
Paulo, que si tivessem sido em tempo publicadas teriam prestado nâo
pequeno auxilio ao estudo da nossa historia natural. Essas notas sEo
hoje de í ouço valor em vista do progresso das sciencias naturaes
nestes últimos oitenta annos, assim como a Historia Natural de Buffon,
um dos mais bellos monumentos do saber humano no século passado^
pouco valor tem hoje em comparação com os grandes e aperfeiçoados
trabalhos de Cuvier, Saint-Hilaire, Darwin e outros.
Foi elie quem introduziu a cultura do chá em S. Paulo e sobre
ella escreveu uma monographia quo existe em raanuscripto e nunca
vi publicada ; por seu exemplo e por seus conselhos o cultivo do chá
gentralisou-se por toda a província do S. Paulo, ha meio século, e
ainda hoje que a cultura do café excluiu todas as outras, ainda en-
contrara-se nas velhas fazendas evidentes signaes das grandes plan-
tações de outras eras.
O seguinte documento, que se refere a este facto e prova o res-
peito e consideração de que gosava pelas suas qualidades intellectuaes
e moraes, foi extrahido do archivo da camará municipal de S. Paulo :
— <Approvando S M. o Imperador, pela portaria expedida pela Se-
cretaria de Estado dos Negócios do Império, em data de 8 do cor-
rente, que se continue e finalize a obra do Jardim Botânico a que se
dera principio nesta capital, devendo nomear-se para dirigil a uma
pessoa dotada de zelo e patriotismo, a qual se corresponda com o
director do Jardim Botânico da Lagoa de Rodrigo de Freitas, e con-
correndo estas e outras distinctas qualidades no Ex™.° Sr. Marechal
de Campo José Arouche de Toledo Rendou, sendo bastante para o
fazer recommendavel o ter introduzido nesta província a plantação da
chá o a sua preparação de maneira que é de esperar que era breve
tempo venha a mesma a tornar-se abundante desta planta exótica,
nao só para o seu consumo, mas também para a exportação : o pre-
— 133 —
sidente da referida província, ouvido o Conselho do CTCverno, iia por
bem de o nomear director da referida obra, persuadido de que, dada
as necessárias providencias ^ara andamento delia, a fará proseguir
com aquelle acerto, perfeição e regularidade que afiançara o seu re-
conhecido zelo e conhecimentos; auctorizando-o a nomear feitor e tra-
balhadores, na certeza de que serão pagas pela Junta da Fazenda
todas as despezas por elle referendadas. — Palácio do Governo de S. Paulo
29 de Octubro de 1825. — Lucas António Monteiro de Barros.
Alem dos escriptos já mencionados deixou o general alguns outros
trabalhos de phantasia, entre os quaes tenho um manuscripto sobre,
A Superioridade das Latiras sobre as Armas, isto é, dos Filhos de
Minerva sobre os Alumnos de Marte ; entretanto elle não vacillou era
trocar a carreira das lettras e sciencias pelas das armas, — pequeno
traço de incohereucia entre a theoria e a pratica, que não desdoura o
seu caracter robusto, nem destróe a lógica reguladora dos valiosos
serviços prestados ao seu paiz.
Alguns dos grandes fidalgos paulistas do tempo eram homens de
<ant.e3 quebrar do que torcer», intransigentes e aferrados aos privi-
légios e regalias que lhes assegurava o regimen colonial. O brigadeiro
Joaquim José Pinto de Moraes Leme, paulista illustre por muitos titules
dedicado servidor da monarchia, dois annoí raais edoso do que o ge-
neral Arouche e cora elle aparentado, ora o representante era 8. Paulo
do velho e rotineiro espirito colonial, auctoritario e inaccessivel ás
idéas novas emanadyis da Revolução Pranceza, que avassallarara tudo
durante o terço do século de 1790 a 1825 e cujos efteitos não se coraplo-
tarara no Brasil com a proclamação da independência a 7 de Setem-
bro de 1822, nera cora o juraraento da constituição outorgada por
Pedro I a ;^5 de Março de 1824, nera ainda cora a reunião da pri-
meira assembléa geral legislativa em 1826, mas sóraente a 7 do Abril
de 1831 cora a queda do priraeiro iraporador e a elevação ao poder
do eleraento puraraente nacional, chefiado pelo illustre patriota Eva-
risto Ferreira da Veiga.
O general Arouche, poróra, espirito conciliador e bem preparado
para receber cora syrapathia e acceitar sera repugnância as influencias
liberaes da época, raoderado, prudente e progressista, soube ir tran-
sigindo sempre a terapo e a hora, sera quebra da sua dignidade, com
— 134 —
as necesidades politicas da occasião, de tal fórraa que se tornou, jun-
tamente com outro distincto paulista, o general Cândido Xavier de
Almeida e Souza, não somente um poderoso elemento de ordem em
nm periodo essencialmente revolucionário, como também um presti-
moso auxiliar na grande obra da construcção da nossa nacionalidade^
Assim serviu elle, entre nós, de solida ponte lançada sobre o
abysmo que separava a pujante, orgulhosa e dominadora fidalguia
de outr'ora da modesta burguezia de 1824, oriunda do suffragio qnasi
universal e da egualdade de todos perante a lei, estabelecidos pela
constituição do novo império ; o por isso mesmo, pelos saeriflcios qu©
fez pela liberdade de sua pátria, assim como de Bruto se disse que
foi o ultimo dos Romanos, também delle podemos dizer com acerto
que foi «o ultimo dos fidalgos paulistas».
S. Paulo, Agosto de 1899.
A. DE Toledo Piz4.
Reflexões sobre o Brasil
PELO
Capitão Van Vliervelt, commandante da galeota Tromp
Traduzidas de um manuscripto hollandez pelo sócio E. Hollender
e por elle offerecidas ao Instituto
MiLDELBURG — 1 745 .
Os francczes appareceram um momento no Brasil. Tinham
intenção de tomar este paiz de Portugal porque este nenhum caso
delle fa/ia.
E' próprio mesmo de Portugal, desta nação leviana e inconstante,
começar uma empresa com enthusiasmo e terminal-a com frieza. A
Hollanda já era uma potencia e, portanto, ciumenta da prosperidade
do outros paizes ; formon, por isso, sobre o Brasil um plano mais
seguro, mais methodico, e resolveu apropriar-se delle.
De todos os crimes de que está cheia esta sciencia chamada Po-
litica, nenhum é tão grave como este plano. Fazem-se leis que as-
segurem a propriedade dos cidadãos e, entretanto, nenhuma existe
que garanta as nações contra a usurpação. Uma sociedade inteira
vale mais do que a propriedade particular, mas não tem grandes ca-
nhões o ura governo, que faz a guerra, tem sempre muitos.
Portugal tinha mudado de rei; Philippe II tinha usurpado esta
coroa (1), assim como o Brasil. Era mais uma razão para a Hollan-
da apoderar-se desta colónia. A Hollanda só poderia adquirir força
e poder enfraquecendo a Hespanha, a sua figadal inimiga.
(1) A descendência portugueza legitima do rei D. Manoel extingiiiu-se com D. Sebas-
tião. Philippe II era neto legitimo do rei D. Manoel e apoderou-se pela força daquillo
que por direito lhe pertencia. C^- <^« ^0
— 136 -
Apenas appareceu na America a frota das Províncias Unidas, ficou
o Brazii em perigo ; entretanto, não era mais do que uma companhia
de negociantes quem dirigia esta empresa militar, o que fez que ella,
a principio, se mallograsse. Alguns annos depois renovou-se a ten-
tativa com bom êxito ; o general Henrique Lonck começou a con-
quista e Maurício de Nassau a terminou.
Então as riquezas do Novo Mundo, em vez do seguirem para
Lisboa, tomaram o caminho de Amesterdam e esta cidade tornou-se
o primeiro dos empórios commerciaes. Portugal, que, a principio, ti-
nha considerado o Brasil como um paiz inútil e cujo dominio tinha
resolvido abandonar, fez então prodigiosos esforços para o recon-
quistar .
Não se tratava mais desta c lonia, mas sim dos hollandezes, que
eram pessoalmente odiados e cujo jugo era preciso sacudir. Basta
um nome para reanimar o ardor das nações:— o dos romanos pro-
duzia um efteito prodigioso sobre os carthaginezos e o do Luiz XIV
tornava os inglezes furiosos ; bateram-se durante trinta annos para
apagal-o da memoria dos homens.
Levantaram, pois, os portuguezes de Lisboa um grande exer-
cito, puzeram no mar uma frota considerável e juntaram dinheiro para
uma guerra em que iam entrar mais por ostentação. Si a corte de
Lisboa tivesse feito egual despesa para restabelecer Portugal, este
reino ter se-ia tornado poderoso.
Os portuguezes, irritadíssimos contra os hespanhóes, collocaram
no throno o duque de Bragança. Este senhor teria preferido que o
deixassem na classe dos cidadãos particulares, porque, comquanto a
amb*ção seja a paixão dominante nos homens, comtudo alguns ha
cuja philosophia lhes eleva a alma acima das coroas.
A revolução portugueza mudou a politica da Europa (1). O novo
soberano firmou um pacto de dez annos com as Provincias-Unidas, as
quaes, entretanto, ficaram senhoras das suas possessões no Brasil. A
republica hollandeza escolheu dentre os seus cidadãos trez reis para
dirigirem o seu novo império: — um era um mercador de Amsterdam,
(l) Revolução de 1.' de Dezembro de 1640, que expulsou os hespanhóes e elevou
ao tlirono o duque de Bragança, D. João IV. (N. do B.)
^ 137 -
outro um ourives de Harlcm e o terceiro ara carapina do Middelburg.
E' assim que nas republicas chega-se ao poder supremo.
Homens educados atraz de ura balcão não tera as qualidades pró-
prias para o governo de ura Estado; podem possuir as virtudes eco-
nómicas, porém faltam-lhes totalmente as qualidades politicas. Estes
reis, occi pados com lucros e proveitos e absorvidos por detalhes com-
raerciaos, deixaram cahirem era ruínas as fortificações das cidades e,
pensando somente no dinheiro, nos moios de adquiriJ-o e nos mono-
pólios para obtel-o, fizeram com que a c lonia se revoltasse.
Tomou as armas João Fernandes Vieira, portuguez de nascimen-
to obscuro, porem de muitas virtudes, pôz-se á frente de um partido
formado as pressas e sem perda de tempo cahiu sobre os hoUandezes
e os derrotou totalmente. Porôra, a paz trouxe um novo mal: para
obtel-a Portugal obrigou-se a pagar oito milhões ás Provincias-Unidas;
era sahir de uma servidão para entrar em outra.
Livre dos hoUandezes, a corte de Lisboa procurou civilizar as
nações ainda barbaras do Brasil e diminuiu as taxas e mais impos-
tos ; mas era muito tarde ; nas nações pobres, onde as artes não es-
tão introduzidas, tudo depende da opportunidade. Pela descoberta da
America os selvagens conheceram logo os gosos e coramodidades da
vida; não era preciso mais nada para corrompel-os. Para homens, a
quem basta o necessário, não é conveniente que se lhes dê o supér-
fluo, porque isto faz nascer nelles novos desejos que são a fonte dos
vicios.
Vestiram estes selvagens que deviam ter deixado nús ; ninguém
imagina quanto a vestimenta influe sobre os costumes de um povo
que nunca andou vestido E' prodigiosa a influencia que este luxo,
novo para elles, produz sobre as suas almas ; uma ceroula, uma cin-
ta, produz o mesmo effeito sobre elles que uma moda nova nos eu-
ropéos. Alojaram-n'os em choupanas mais commodas do que aquellas
que d' antes tinham, deram-lhes aguardente e elles não puderam 'mais
passar sem estas coramodidades.
Os portuguezes conheceram então o rio Amazonas, cujo nome
deu origem a tantas fabulas. Para se estabelecerem sobre suas mar-
gens foi necessário fazer guerra a varias tribus tão fracas que fo-
ram tomadas por Amazonas, raça de mulheres que somente existiu
- 138 —
na imaginação dos homens, assim como tantas cousas que não tive-
ram existência mais real. Este rio conduziu os portuguezes ao Rio da
Prata (1).
Dizm-se que Portugal, que muito tinha perdido de sua antiga
actividade no Velho Mundo, queria cncontral-a no Novo. Na Europa
não encontrou estímulos para alargar algumas das stias fronteiras do
lado da Hespanha, mas na America occupava-se unicamente com lon-
gínquas expedições e descobertas. Eis os governos, eis os homens,
sempre em contradicção comsigo mesmos.
De todos os erros de Portugal no Novo-Mundo o maior foi não
dedicar-Sb á cultura dos productos do Brasil, os quaes por si sós po-
diam dar-lho riquezas superiores áquellas que era outros tempos tinha
tirado das índias. Bastava o assucar para enriquecel-o. A colónia
já produzia bastante assucar para o consumo da raetropole e de va-
rias nações extrangeiras e o íumo, luxo universal, podia augmentar
consideravelmente as rendas do Estado ; era apenas necessário aug-
mentar a plantação e dal-o mais barato que outros productores para
obter a preferencia. E' sempre da barateza que depende o consumo.
O cacau, que é produzido em varias partes do Brasil, sem cul-
tura alguma, não dá outro trabalho ao colono sinão o de colhel-o.
O seu algodão, superior ao das Índias, bastaria para alimentar um
commercio dos mais proveitosos. Todos estes géneros primam pela
sua abundância e boas qualidades. Quando uma colónia tem produc-
ções únicas pôde impor a lei ás nações que delias precisam. Um
Colbert ter-se-ia aproveitado de taes vantagens ; porém Portugai, que
sempre teve hábeis almirantes, nunca teve bons ministros.
Um luxo prodigioso acabou por destruir as fortunas que o com-
mercio apenas tinha começado a construir. E' uma espécie de mo-
léstia própria dos paizes novos quererem seus habitantes viver
com mais luxo do que os das nações antigas, ou porque os colonos
querem assim se indemnizar da perda das vantagens de que pode-
riam gosar no seu paiz natal, ou porque o clima obrigue a essa os-
0) Esta expressão não pode ser tomada litteralmente porque seria um disparate
geographico. Deve-se antes entender que o dominio sobre o rio Amazonas induziu 03
portuííupzes ft extenderem-se até o rio da Prata, hypothese esta justificada pela funda-
ção da ColoQia do Sacramento e depois pela conquista de Montevideo e seu districto,
annexados ao Brasil até 1828 (N. da B.)
— 1H9 —
tentação ou por outro qualquer motivo. O certo é que em todos os
tempos viram-se no Brasil portugue^^cs, que tinham nascido na Euro-
pa na obscuridade e na pobreza, viverem em um luxo e grandeza
que os primeiros fidalgos de Lisboa nao teriam ousado ostentar na
corte.
A corrupção dos costumes, inseparável das riquezas, alastrou-se
então no Brasil por todas as classes, porque todas precisavam se
distinguir por um grande luxo. O amor, que em todos os paizes
quentes é a delicia e o veneno da vida, foi ali sempre acompanhado
desta devassidão que o torna despresivel. Entretanto, a corte de Lis-
boa podia reparar todos estes males por uma melhor politica. Todas
as colónias são susceptíveis de reformas ; basta corrigir os seus vi-
cies no seu nascedouro. E' o que aquella corte ia fazer quando tudo
mudou de face no Novo-Mundo com o descobrimento das minas de
ouro. Este acontecimento teve consequências terríveis; tudo ficou
perdido e não houve leis, nem regulamentos capazes de prevenir a
influencia deste funesto metal. Si quando este descobrimento foi
feito estivesse no throno de Portugal um grande rei, talvez esse mo-
narcha tivesse procedido como aquelle sábio imperador da China, a
quem offereceram similhante thesouro e que o recusou, dizendo que
não queria empregar os seus vassalos em um trabalho que nem era
o da alimentação nem o do vestuário.
O homem é fraco de mais para não fazer raáu emprego de ouro,
sobre tudo quando o tem em primeira mão o não lhe custa outro es-
forço maior do que o de extrahil-o do solo. Um povo que, por meio
deste metal, tem recursos para entregar-se ás suas paixões, só pro-
cura satis fazei- as. Dahi vem a preguiça, a ociosidade e o abandono
da lavoura e das artes,— vicios estes que em todos os tempos foram
característicos das nações mineiras. Quanto mais ricas forem suas
minas maiores serão os seus vicios.
Nada prova melhor a cega fatalidade que preside aos destinos
deste mundo do que o descobrimento deste metal. Foi o acaso que
fez esse descobrimento e foi esse mesmo acaso, de que ninguém po-
dia prever os efieitos, que mudou a sorte de Portugal. Algumas pa-
lhetas de ouro no chão fizerem crer que devia haver minas de ouro
escondidas em algum logar do continente . Procuraram-n'aspor toda a
— 140 -
parte e a força de trabalhos e de penas descobriram-n'as. Os negros
destinados em todos os tempos a serem o instrumento do luxo portuguez
e de alguns Estados da Europa, foram applicados ao trabalho das
minas com a obediência própria da escravidão.
Entretanto o proveito das minas diminuiu; para tirar o ouro e
applicar-lhe as necessárias preparações era preciso fazer despesas
que estavam na razão de 1 para 64, e quando o dinheiro duplicou
em quantidade, perdendo metade do seu valor, a despesa passou a
estar na razão de 2 para 64.
Assim as frotas, que levavam para Portugal a mesma quantidade
de ouro, carregavam, na verdade, uma mercadoria que valia metade
do seu antigo valor e custava o dobro das despesas primitivas, e prose-
guindo neste raciocínio, de deducção em deducção, chega-se a achar
a progressão decrescente da importância desta riqueza.
Bis, pois, a situação de Portugal, causada por suas minas de
ouro.
o Processo Vimieiro-Monsanto
Entre os papeis deixados pelo tenente- general José Arouche de
Toledo Rendon e existentes em meu poder encontrei um curioso raa-
nuscripto, um tanto estragado por agua e muito devorado por traças,
com o seguinte titulo :
RELAÇÃO
DOS
Capitães loco-tenentes que governaram a capitania de S. Vicente, uns nomea-
dos pelos verdadeiros donatários e outros pelos intrusos
O manuscripto não traz data nem assignatura, e não tem as pa-
ginas numeradas ; entretanto veriflcase pela leitura do texto que não
lhe faltam folhas.
Nas primeiras paginas vem a relação dos capitãos-móres de S.
Vicente, numerados todos desde o primeiro até o ultimo, porém com
nm salto sem explicação de sete números do 41.° ao 48.», quando
não ha intervallo de tempo sufiBciente nem para um só capitão-mór
intermediário com a jurisdicção ordinária de três annos.
!áegue-se a lista dos capitães-móres da capitania de Itanhaen^
nome que tomou a donatária de S. Vicente durante o longo litigio
havido entre os herdeiros de Martim Aftonso de Sonza pela posse das
donatárias de Santo Amaro e de Itamaracá depois da extincção da
familia de Pedro Lopes de Souza, primeiro proprietário destas duas
donatárias.
Vera depois algumas paginas em branco seguidas de quarenta e
três Notas Avulsas, bastante interessantes para a historia colonial de
S. Paulo e de grande valor para consulta, e termina o manuscripto
com uma arvore genealógica da Martim Aflfonso e Pedro Lopes, gros-
— 142 —
seira, obscura, mas de não pequeno valor para o estudo do litigio
havido entro es seus herdeiros.
Este resumo basta para demonstrar a importância do manuscripto
e justificar a sua inclusão nas publicações da Revista do Instituto.
Fazendo a copia verifiquei que ha muitas palavras e alguns alga-
rismos devorados por traças, que julguei não dever supprir por inter-
polação, preferindo deixar os respectivos espaços marcados com pon-
tinhos. Além de algumas notas existentes no original, que transcrevi
no roiapé, me pareceu útil accrescentar algumas notas minhas, que
vão marcadas como sendo da redacção da Revista, de que sou mem-
bro.
Logo na primeira pagina, tratando de Gonçalo Monteiro, que foi
o primeiro capitão-mór de S. Vicente, diz o auctor do escripto que é
filho de D. Anna de Siqueira do Mendonça. Esta simples e apparen-
temente obscura explicação é sufiBeiente para se descobrir quem é
esse auctor.
A familia Siqueira de Mendonça era tão numerosa o importante
que mereceu servir de assumpto para um capitulo especial da JSohi-
liarchia Paulistana, de Pedro Taques; porém este capitulo, como mui-
tos outros daquella grande obra, está perdido e delle só se encontram
referencias nos capitules publicados. Entretanto, como a familia era
importante, entrelaçuu-se por casamentos com muitas outras da capi-
tania e alguns de seus membros figuram na parte publicada de Xobi-
liarchia Paulistana.
No volume 35 da Revista do Instituto Histórico Brasileiro, cor-
respondente ao anuo de 1872, á pag. 319 e seguintes, tratando da
grande familia dos Lemes, se lê que Anna de Siqueira e Mendonça,
filha de Luiz Dias Leme, casou com Cypriano Tavares, que mais tarde
foi capitão-mór de S. Vicente e figura na relação com o numero 53.o,
e que teve cinco filhos, dos quaes destaco José Tavares de Siqueira,
que era o terceiro em edade e casou em Santos com Isabel Maria da
Cruz, natural de Portugal.
Deste casal nasceram quatro filhas e um filho, sendo Anna do
Siqueira e Mendonça a primogénita. Esta nasceu em Santos era 1692
e alli casou se em 1712 com Domingos Teixeira de Azevedo, bisneto
do Amador Bueno da Ribeira— o acclamado. Vivia ainda em 1767 e
— 143 —
era raãi do seis íilhos, entro os quaes se conta Gaspar Teixeira de
Azevedo, que mais tarde tomou ordens sacras, tornou-se monge bene-
dictino e fez-se notável como escriptor nacional com o nome de Fr.
Gaspar da Madre de Deus, fallecido no anno de 1800.
O manuscrip o, portanto, é obra de Frei Gaspar e o seu valor histó-
rico augraenta consideravelmente por isso; e esta presumpção se torna
em certeza quando quando se observa a precisão com que são cita-
das as datas o as paginas dos livros de registros de S. Vicente, onde
elle residia.
Nas Notas Avulsas são mencionados factos até do anno de 1783,
época cm que Yí. Gaspar ainda estava em estado de se entregar a
estudos históricos, tanto do seu gosto e inclinação. Nas suas Memo-
rias para a Historia da Capitania de S. Vicente, á pag. 39, § 63, Fr.
Gaspar (jonta que é filho de D. Anna de Siqueira e Mendonça o, re»
forindo-so á fazenda SanVAnna, emprega quasi as mesmas palavras
usadas no manuscripto quando trata do capitão-mór Gonçalo Monteiro.
Fala o auctor do manuscripto em capitãos-móres, não somente
da capitania de S. Vicente, mas também da capitania de ItanJiaen, e
como esta capitania de Itanhaen foi cousa que nunca teve existência
legal, julgo dever «ntrar em uma pequena divagação histórica para
explicar o emprego daquella expressão e coUocar o estudante da his-
toria paulista em condições de entendel-a na sua verdadeira significa-
ção.
Pelos grandes serviços prestados por Martim Affonso de Souza e
seu irmão Pedro Lopes de Souza, foram elles recompensados pelo rei
João III com a doação de vastos territórios no Brasil, inteiramente
despovoados e quasi desconhecidos ao tempo em que foram doados.
Martim Affonso recebeu terras na extensão de 100 loguas de costa
marítima, divididas em duas secções, sendo a primeira secção do 55
léguas desde o rio Corvpacé ou Jiiquiriquerè, além de S. Sebastião,
para o norte até Macahé, e a segunda secção de S. Vicente para o
sul até doze léguas além de Cananéa, do 45 léguas. Pedro Lopes so-
mente recebeu 80 léguas de terras, medidas ao longo da costa e di-
vididas em três secçõec, sendo a primeira de 10 léguas do rio Coru-
pacó para o sul até encontrar terras de Martim Afíonso em S. Vi-
cente; a segunda de 40 léguas, contadas de doze léguas além de
— 144 —
Cananéa para o sul até a Laguna, e a terceira de 30 léguas nas cos-
tas de Pernambuco (i). Todas estas secções abrangiam os respecti-
vos sertões, para o poente, até encontrarem os domínios castelhanos
e eram chamados donatárias, sendo os seus proprietários chamados
donatários, — nomes estes que convém conservar.
A donatária de Martira Affonso denominava-se S. Vicente e as
duas bécções do Sul da donatária de Pedro Lopes chamavam -se San-
to Amaro. A razão desta, apparentemente, extravagante e caprichosa
divisão das donatárias em secções intercaladas umas nas outras, já
foi dada pelo dr. Theodoro de Sampaio e basêa-se no facto de ser
conhecida pelos dois irmãos a noticia da existência de minas de me-
taes preciosos no interior e da divisão assim leita evitar a possível
injustiça de ficarem essas minas incluídas em uma só donatária,
Martim Affonso fun ou logo a villa de S- Vicente para cabeça
da sua donatária e tomou sem demora diversas providencias para o
seu povoamento, emquanto Pedro Lopes, talvez mais interessado no
commercio do páu-brasil da sua secção de Pernambuco, descurou
completimente das duas secções do sul, que ficaram por muitos ân-
uos em abandono, até a sua morte.
Crescia tão vagarosamente a donatária de Martim Affonso, ou
de S. Vicente, nao obstante todos os esforços empregados para de-
senvolvei a, que em fins do século XVI só existiam nella quatro vil-
las, pequenas e pouco prosperas, que eram S. Vicente, Santos, S.
Paulo e Conceição de Itanhaen, cujas respectivas fundações datam de
1532, 1546, 1554 e 1561, e serra acima os domínios dos portuguezes
não iam além de Parnahyba e Cotia, cerca de 35 kilometros ao
poente desta capital (2).
Pelos annos de 1610, quando havia muito tempo que eram falle-
cidos Martim Affonso de Souza e seu irmão Pedro Lopes, suscitou-se
entre os seus herdeiros um grave litigio pela josse de S. Vicente,
(1) vide Historia ãa Capitania ãe S. Vicente, por Pedro Taqnes de Almeida Paes
Leme, Revista do Instituto Histórico Brasileiro, vol. IX, pag, 154. A secção de Pernam-
buco tinha o nome de Itamaracá e não é considerada neste escripto.
(2) Vide São Paulo no fim do século XVI, peio dr. Theodoro de Sampaio, vol. IV
da Revista do Instituto Histórico de S. Paulo.
— 145 —
Santos e S. Taulo, oriundo da má comprehensão das linhas divisó-
rias das duas donato rias.
Entendiam os herdeiros de Martim Aífonso e seus delegados em
S . V cente que a secção de 10 ieguas da donatária de Pedro Lopes,
sendo medida ao longo da costa, da foz do rio Corupacé ou Juque-
riquerô para o sul. nâo passava aquém da barra da Bertioga e não
podia, [ortanto, alcançar Santos e S. Vicente, que estavam a cerca
de quinze ou deseseis léguas mais para o sul, nem abranger S.
Paulo que nao ficava no seu respectivo sertão (*).
Os herdeiros de Pedro Lopes (2), pelo contrario, entendiam quô
os termos das concessões das donatárias não podiam ser tomadas ao
pé da lettra ; que a costa logo ao sul da fóz do rio Corupacé cor-
rendo quasi directamente para o poente, a concessão das 10 léguas
de costa com o respectivo sertão tornava-so illusoria porque esse ser-
tão não passaria de uma estreitíssima tira de terra até as fronteiras
dos domínios hespanhóes, e que para o sertão ter 10 léguas de lar-
gura, de accordo com o espirito da doação regia, era necessário to-
mar a projecção da costa sobre o meridiano da fóz do rio Corupacé
e sobre este meridiano medir as 10 léguas, de modo que a donatária
ficasse contida entre dois parallelos de latitude distantes 10 léguas
um do outro.
Isto seria realmente mais conforme ao espirito da doação regia
e também mais equitativo e justo ; porem, sendo assim entendido,
não somente as villas de Santos, S. Vicente e S. Paulo, mas tam-
bém a de Itanhaen, ficavam todas contidas na secção de 10 léguas da
donatária de Pedro Lopes e perdidas para os herdeiros de Matim Af-
fonso :
Durou annos o litigio e por meio século ficaram os herdeiros di-
rectos de Martim Affonso privados da posse de Santos e S. Vicente,
porque como divisa estava co siderada a barra de S. Vicente, que é
a terceira ao. sul, em vez da barra da Bertioga, que é a terceira ao
ri) Vide Historia da capitania de S. Vicente, por Pedro Taqnes, no vol. IX da .Be-
«ísío do lastituto Histórico Brasileiro, pag. 172.
(2) Herdeiros de Pedro Lopes aqui não quer dizer seas decendentes, mas aqueUes
^ue herdaram seus direitos sobre estas donatárias depois da extincção da sua familia
na pessoa de D. Isabel de Lima, sua ultima descendente.
— 146 —
norte ; e para nãp deixarem de ter na sua donatária uma povoação
quo lho servisse de capital e sede das auctoridades, deram esta re-
galia á vi lia de Itanhaen, e dahi veiu se chamar capitania de Ita-
nhaen aquillo que nao era mais do que a mesma capitania de S. Vi-
cente, somente despojada de alguma villas durante o longo processo
sobre as suas divisas.
Fr. Gaspar, nas suas Memorias para a Historia da capitania de
S. Vicente, parece-se mais com um advogado analysando as peças
de um processo do que com ura chronista historiando os factos acon-
tecidos na capitania; o seu systema é o da exclusão e tanto elle ex-
clne que quasi nada resta da historia colonial de S. l'aulo. B' an-
tes um polemista do que um historiador. Na pag. 41 da sua obra
elle confessa que nunca se applicou ao estudo da Genealogia e qne
por isso os seus conhecimentos sobre esta matéria são muito limita-
dos. Não admira, portanto, que a arvore genealógica de Martim
Affonso e Pedro Lopes, desenhada por elle, seja tão imperfeita o con-
fusa que precisasse de correcção para servir de auxilio ao estudante
na descoberta da verdade sobre o litigio entre os herdeiros dos dona-
tários. Essa arvore genealógica, intercalada na Relação dos capitães-
mores de S. Vicente e de Itanhaen, bem se conforma com o que mes-
mo Fr. Gaspar escreveu nas suas Memorias, já mencionada!:*, mas
está em desaccordo com o que diz o chronista Fedro Taques na Sís-
ioria da capitania de S. Vicente, quando tracta da grande demanda
entre aquelles herdeiros.
O próprio Pedro Taques, que fez da Genealogia o objecto de es-
tados especiaes por mais de cincoenta annos e escreveu a NoUliar-
chia Paulistana, verdadeiro monumento de paciente sabedoria, é obs-
curo e incompleto quando, na liistoria da capitania de S. Vicente,
tracta das relações de parentesco entre o herdeiros de Martim Aífonso
e Pedro Lopes. Diz elle, por exemplo ('), que D. Diogo de Faro e
Souza, sexto donatário da capitânia de S. Vicente, cedeu e traspas-
sou esta capitania em dote de casamento ao conde da Ilha do Prin-
câpe, e cita um documento fir^ijado por este condo, no qual se lê: —
« Dou poder a Luiz de Almeida para por mim tomar posse da capi-
(1) Vide Revista do Instituto Histórico Brasileiro, vol. IX. pags. 301—302.
— 147 —
« tania de 100 léguas pela renuncia do Sr. D. Diogo de Faro e
< Souza em parte do doto da condessa sua prima e minha muito pre-
« sada e estimada mulher...*
Aqui não se disse donde vem o parentesco do Diogo de Faro
com a condessa da Ilha do Príncipe, que sao primos segundo afíirma
o próprio conde; entretanto, Fr. Gaspar, na lista dos capitaes-móres
de Itanhaen, diz que Roque Roballo foi confirmado no posto do capi-
tão-mór de Itanhaen por ter sido indicado para osso cargo por D.
Diogo de Faro e Souza como tutor do seu sobrinho menor, Francisco
Luiz Carnnro, filho de sua irmã a condessa da Ilha do Principe.
Estas duas aífirmações são contradictorias e parece que não ha-
via motivo para um tal desaccordo, porque Fedro Taquos e Fr. Gas-
par eram primos e Íntimos amigos, dedicavam-se ao estudo da his-
toria paulista, communicavara entre si as suas idéas e opiniões o ató
sujeitavam os seus escriptos a uma reciproca apreciação. A Historia
da capitania de S. Vicente, de Fedro Taques, foi oscripta em 1772, e
Fr. Gaspar, que só íalleceu em 1800, devia tol-a lido para evitar de
dizer que a condessa da Ilha do Príncipe era irmã de D. Diogo de
Faro a Souza, quando é o próprio conde, marido dessa senhora, quem
nos diz que era prima. Na arvore genealógica de Fr. Gaspar a
condessa e D. Diogo de Faro figuram ainda como irmãos.
Ha duas hypotheses aqui a presumir : — ou Pedro Taques errou na
copia do documento firmado pelo conde, tomando por p7'ima a palavra
irmã, ou Fr. Gaspar entendeu que não era natural que um primo
dotasse uma prima cora uma vasta capitania e dahi concluísse que
D. Diogo de Faro e a condessa eram irmãos. O facto é que a con-
dessa assignava-se Marianna de Faro e Souza e polo nome mais pa-
rece ter sido irmã do que prima do Diogo de Faro e Souza.
De um confronto das duas historias da capitania de S. Vicente
se collige que neste desaccordo de aflarmações é Fr. Gaspar quem
parece estar com a razão. O facto em si não é de somenos importân-
cia porque na proximidade do parentesco está em grande parte ba-
seado o direito de herdar ; esse parentesco foi que dou origem ao liti-
gio, e o litigio aítectou profundamente a historia colonial de S. Paulo.
Nenhum destes dois illustres escriptores se lembrou do incluir na
sua historia da capitania de S. Vicente a escriptura da doação feita
X
- 148 -
por D. Diogo de Faro a D. Marianna de Faro de todo o território das
donatárias de Santo Amaro e de Itaraaraeá, escriptura essa que elu-
cida a matéria, declarando que são irmãos, como diz Fr. Gaspar, e
não primos, como diz Pedro Taques. Tenho em meu poder uma copia
dessa escriptura, extrahida dos archivos da villa de Angra dos Reis
por Balthazar da Silva Lisboa, e transcrevo«a adeante para esclarecer
de modo decisivo este ponto da historia de S. Paulo,
Nas Memorias para a historia da capitania de S. Vicente, diz Fr.
Gaspar que os condes de Monsanto nao contestavam os direitos dos
condes de Vimieir ) sobre a capitania de S. Vicente, comquanto fos-
sem elles descendentes de Martim Aflonso, porque pertenciam á linha
feminina quando os Vimieiro descendiam da linha masculina. Martim
Aftonso teve ura casal de filhos : — Pedro Lopes de Souza Q-;, de quem
descendiam as condessas de Vimieiro e da Ilha do Príncipe— ramo
masculino, --e D. Ignez de Pimentel, casada cora D. António de Cas-
tro, que deu origem á família dos condes de Monsanto e marquezes
de Cascaeá — ramo feminino (^ . Não havia, portanto, duvida alguma
entre as duas famílias relativa á posse das 109 léguas contidas na
donatária de S Vicente porque os Monsanto-Cascaes reconheciam os
pireitos dos Viraieiros sobre estes extensos territórios.
Porôra, tendo-se extinguido a descendência de Pedro Lopes de
Souza, irraão de Martira Affonso e proprietário das 80 léguas das do-
nataras de Saato Araaro e de Itaraaraeá, a sua neta e ultiraa herdeira,
D. Isabel de Lima, legou seus direitos sobre estas duas donatárias ao
se 1 primo Lopo de Souza, neto de Martim Affonso pela linha mascu-
lina e terceiro donatário de S. Vicente, ficando assim concentradas
nas mãos de Lopes de Souza 150 léguas continuas de costa marítima,
desde Macahé até Laguna, e mais 30 léguas em Pernambuco, tudo
cora 05 respectivos sertões até as fronteiras dos domínios hespanhóes.
A esta successáo foi que se oppôz !•. Luiz de Castro, conde de
Monsanto, filho de D. Ignez de Pimentel e neto de Martim Aftonso,
allegando que a successão neste caso não devia ser pela linha mas-
(1) Deve o leitor ter sempre em. lembrança que houve dois Pedro Lopes de Souza —
um irmão de Martira Affonso e donatorio de Santo Amaro e de Itamaracá, e outro filho
de Martim Affonso e segundo donatário de 8. Vicente.
2) Ob. citada, pag. 187.
-,-- 149 -
culina, mas por parentesco e primogenitura; qao elle era mais velho
de que o seu primo Lopo de Souza e que, como este. era também
primo- segundo de D. Isabel de Lima.
A elle, portanto, deviam caber a herança desta senhora e a posse
das donatárias de Santo Amaro e de Itamaracá.
Começada a demanda neste terreno, falleceu Lopo de Souza sem
deixar herdeiros legítimos e na posse de sua herança entrou sua ir-
mã, D. Marianna de Souza Guerra, condessa de Vimieiro. Com esta
continuou a demanda, que passou ao seu filho D. Sancho de Faro e
Souza e ao seu neto D. Diogo de Faro e Souza.
Fallecendo este ultimo som descendência passaram a sua heran-
ça e o litigio a D Marianna de Faro e Souza, condessa da Ilha do
Príncipe, que Pedro Taques diz ter sido prima do fallecido D. Diogo
de Faro e Souza e que Fr. Gaspar afíirma ter sido irmã.
Cora o falleciraento do D. LuU de Castro, o iniciador da demanda,
foi esta continuada por seu filho D. Álvaro Pires de ('astro e depois
por seu neto D. Luiz Alvares de Castro, que ao seu titulo de conde
de Monsanto juntou o de marquez de Cascaes. Este venceu a questão
e ficou senhor das donatárias questionadas, sendo as duas secções do
sul annexadas á coroa portugueza era 1711, mediante a indemnização
de quarenta mil cruzados que recebeu o marquez de Cascaes.
Sem liquidar a questão de liraites entre as donatárias de S. Vi-
cente e de Santo Amaro, o governo portuguez considerou a barra de
S. Vicente como linha divisória e assim S. Vicente, Santos o S. Paulo
ficaram incluídos na compra feita ao marquez de Cascaes e annexa^
dos aos domínios da coroa. Mais tarde o marquez de Pombal resga-
tou também a capitania de S. Vicente {^) e annexou-a aos domínios
reaes e assim desapparecerara as duas antigas donatárias e as quês"
toes sobre a sua posse e divisas.
Azevedo Marques, que é das melhores auctoridades sobre a his-
toria paulista, nos seus Apontamentos Históricos, dá uma lista dos
capitães-raóres das capitanias de S. Vicente o de Itanhaen, que não
se conforma cora a lista organizada por Fr. Gaspar. E' verdade que
Azevedo Marques não garante a inteira veracidade da relação que
(1) Por actos de 1753-54.
- 150 -^
apresenta, pela confusão era que Acaram as donatárias e pela exis-
tência simultânea do vários capitaes-raóres, porem, é também verdade
que ello próprio confundiu as donatárias ainda antes do litigio e deu
como capitã'j-mór de S. Vicente a António Rodrigues de Almeida,
que exerceu esse cargo na donatoria de Santo Amaro.
Ató o lira do século XVI não tinha havido questão alguma entro
os herdeiros de Martira Aftonso e de Pedro Lopes sobre a posse das
donatárias e suas divisas. A donatária de S. Vicente começou logo
a ser povoada pelos esforços do seu proprietário, porém a de Santo
Amaro permaneceu por muitos anncs em abandono e esquecimento.
Na primeira havia já as villas de S. Vicente, Santos e São Paulo
quando D. Isabel do Gamboa, viuva de Pedro Lopes, pensou seria-
mente ro povoamento da segunda.
E' verdade que em 1542 nomeou ella seu procurador a Christo-
Tam de Aguiar, que já era capitão-mór de S. Vicente como delegado
de Martira Aflonso ; porém, accumulando este cargo nas duas donatá-
rias, o mesmu Christovam só zelou dos interesses dadeS. Vicente e
pouco ou antes nada fez pelo desenvolvimento da de Santo Amaro. Só
em 1557 foi que a mesma senhora deu poderes de capitão-mór ou
loco-tenente a António Rodrigues de Almeida, fidalgo portuguez que
viera a S. Vicente era 1547 e havia regressado ao reino, era 1556,
em busca de sua familia, que lá tinha deixado. Não tendo onde re-
sidir na donatária de Santo Amaro, que lhe era confiada, porque era
ainda um deserto, veiu elle se estabelecer em S. Vicente e dali con-
cedia sesmarias o praticava outros actos de jurisdicção uls territó-
rios daquella donatária ; porém, nunca foi capitão-mór de S. Vicente,
como affirma Azevedo Marques. O mesmo se pôde dizer de Gonçalo
Affonso, que foi ouvidor de Santo Amaro e não capitão-mór de S.
Vicente. Também, durante o litigio sobre as donatárias houve alguns
capitães-móres cujos nomes Azevedo Marques não dá, mas que fi-
guram na relação de Fr. Gaspar.
Cora estas explicações, que vão como prefacio, entrego o escri-
pto de Fr. Gaspar á apreciação dos estudantes da historia pátria.
S. Paulo, outubro de 1899.
A. DE Toledo Piza.
Escriptura de dote
AO
AO CONDE DA ILHA DO PRÍNCIPE (')
João Blau, capitao-mór desta capitania da Senhora Condessa da
Slha do Principe, diz que llie é necessário o traslado do Alvará que
passou Sua Magestade El-Rei Dora João IV, que Deus tenha em
gloria, á Senhora Condessa do doação das terras quando se casou
cora Dom Luiz Carneiro, Conde da Ilha do Principe, o qual Alvará
-«stá no livro da camará, pelo que pede a Vossas-raercôs mandem
dar os traslados que pede e receberão mercê. — Como pede. — Concei-
to em camará, 9 de Abril de W^9.— Sebastião Luiz Martim da
4Josta — Custodi o Barroso — Jeronymo Galans — Miguel Gonçalves.
Traslado da escriptura de dote quk se deu ao Conde da Ilha
DO Príncipe, pedido na petição atraz.
Em nome de Deus amen. — Saibam quantos este instrumento do
•contracto de dote, arrhas e obrigação virem que no anno do Nasci-
mento de Nosso Senhor Jesus-Christo de mil seiscentos e cincoenta e
quatro, em 5 dias do mez de Janeiro, na cidade de Lisboa, junto ao
<}onvcnto de S. Francisco, nos apesentos de Dom AíFonso de Faro,
«stando ahi presentes partes a saber : — de uma Luiz Carneiro, Senhor
da Ilha de Santa Helena e de Santo António e da do Principe, Conde
delia, e do Conselho de Sua Magestade, e da outra Dom Diogo de
Faro o Souza, íilho de Dom Sancho de Faro, que Deus tem, herdeiro
e feuccessor de sua casa e morgado do Vimieiro e Alcoentre, e de
1 Mamiscript(y antigo, um tanto estragado por agua e traças, também encontrado entro
os papeis do general Arouclie. A. de Toledo Piza.
- 152 -.
Dona Izabel de Lima o Carcome, sua mae, que Deus tem, e bem
assim o Dito Dom Affonso de Faro, seu tio, tutor e curador, e de
Dona Marianna de Paro e Souza, sua irmã, e seus sobrinhos menores,
em seu nome e no de cada um delles, e outrosim estavam presentes o
dr. Pedro Paulo de Souza, Desembagardor dos Aggravos e Casa da
Supplicação, e o dr. Francisco da Cruz Freire, nomeados procuradores
pelo dr. Francisco Ferreira Bncerrabodes, juiz dos orphãos e um das
repartições desta cidade e dos ditos menores, que também estavam
presentes, para assistirem e darem auctoridade a este contracto e ca-
pitulações. Disse logo por elles Dom Diogo de Faro e Souza e
Dom Affonso de Faro, como tutor e curador dos ditos seus sobrinhos
menores, foi dito a mim tabellião, perante as testemunhas adeante
nomeadas que estão contractados para, com o favor divino, mediante
agrado da Espirito Santo e comprazimento de Sua Magestade, por
seu Alvará ao deante trasladado, haverem de casar a dita D^ na Ma-
rianna de Faro e Souza, sua irmã e sobrinha, com elle Conde Luiz;
Carneiro, e que havendo o dito casamento seu roal effeito e sendo
recebidos por palavras de presente na forma do sagrdo Concilio Triden-
tino, e consumando se o matrimonio, o contracto qu «. este Dom Diogo
de Faro e Souza dá e dota a dita Dona Marianna de Faro, sua irmã,
cora auctoridade do dito Dom Affonso de Faro, seu tio e curador, e
por bem do Alvará que tem de Sua Magestade de supprimento de
edado para este dote e casamento e bem de todos ; que outro sim ao
deante era trasladada a sua capitania de S Vicente, de cem léguas
de terras, no Estado do Brazil, districto do Rio de Janeiro (1), do que
elle é capitão, senhor e governador perpetuo, e toda a sua jurisdi-
cção, direitos o rendas, assim e da maneira que a tem e lhe pertence
por sua doação e dote, em estimação e valor de vinte mil cruzados, e
assim mais lhe dá, e dota a dita Dona Marianna sua irmã, duzentos
mil reis de renda cada um anno em valor de dez mil cruzados consi-
gnados e constituídos em todos os rendimentos do morgado do Rio
Maior, sito no termo de San*arem assim da maneira que os possue e
1 A capitania autonómica de S. Paulo só foi creada 55 ann os depois, em 1709, e ins-
tallada a 18 de Junho de 1710, dia em que tomou posse o primeiro capitão general
António de Albuquerque Coelho de Caryalho.
A. DE Toledo Piza.
— 153 -
lhe pertencem por qualquer via que seja, o não bastante todos os ren-
dimentos tudo o que faltar para o cumprimento dos duzentos mil réis,
e elie dotador é contente se prefaça dos sessenta mil e quinhentos e
oito réis de juro que tem na alfandega desta cidade. B porquanto
Sua Magestade t.m concedido a elle Dom Diogo de Faro que possa
dotar estes ditos duzentos mil reis de renda cada anno no morgado
de Vimieiro, se obriga elle Dom Diogo de Faro a haver a apostilla
no dito Alvará do dito Senhor para a consignação dos ditos duzentos
mil reis em todos os rendimentos do dito íuorgado de Rio-Maior e
sessenta mil quinhentos e oito reis de juros na dita alfandega em-
quanto se não alcança a dita apostilla, é contente elle dotador que
fiquem sempre seguros os ditos duzentos mil reis de renda do dito
morgado de Vimieiro o Alcoentre na forma do dito Alvará, que ao
deante esta inserto nesta nota e seus traslados, com declaração quo
a todo o tempo que elle dotador ou succesores da dita casa e mor-
gado quizerera remir os ditos duzentos mil reis e seu valor ou derem
renda bastante equivalente, que bem os valha, o poderão fazer ; e
outro sim por morte da dita Dona Marianna, fallecendo ella e
seus descendentes, ficarão os ditos duzentos mil reis livies aos
ditos morgados conforme ao dito Alvará e este contracto, o assim
mais dá e dota o titulo de Conde da Ilha do Frincipe, que elle Conde
Luiz Carneiro tem em sua vida, o qual titulo, e assim dota, houvera
por Alvará de duas vidas mais nos descendentes deste raatriomonio,
estimadas as ditas duas vidas do dito titulo de conde em outros dez
mil cruzados, porquanto elle dotador tem já alcançado Alvará do
titulo em uma vida. Das duas promettidas e dotadas e também
adoante ora trasladado para os descendentes deste motriraonio, esti-
mados nos ditos dez mil cruzados, declara elle dotador que nao al-
cançando Alvará da outra segunda vida para neto e descendente deste
matrimonio dentro do tempo de cinco annos, começados do effeito do
dito matrimonio em deante, elle do.ador se obriga a dar no fim dos
ditos cinco annos a quantia de cera mil reis cada anno de renda em
bens livres, ou de morgados que bem os lenda, estimados no valor
de cinco mil cruzados, que ó a respeito dos ditos dez mil cruzados
dotados por titulo de conde das ditas duas vidas, e para a dita renda
dos ditos cem mil reis elle dotador obriga desde logo todos os seus
— 154 —
tens e rendas livres, havidos e por haver, e os rendimentos de seus
morgados, para o que haverá Alvará de Sua Magestade para segu-
rança dos ditos cem mil reis de renda, e a todo o tempo que elle do-
tador ou seus successares alcançarem o dito Alvará da dita segunda
vida da mercê do titulo de condo ficará cessando a obrigação dos di-
tos cem mil reis de renda, e desta maneira se entenderá e competirá
esto dote que elle dotador dota á dita Dona Marianna, sua irmã, nos
ditos quarenta mil cruzados que leva comsigo, porque nesta quantia
o valor elle Conde a acceita sem poder allegar lezão, erro ou engano
algum, porque neste valor das ditas causas estão conformes, e é mais
declaração deste contracto que todos os adquiridos que se adquirirem
durante o matrimorio, assim por qualquer maneira, ou por doação,
herança ou contracto, ou por outra qualquer via, a titulo lucrativo
ou oneroso, que por qualquer delles so adquirirem ou por outro qual-
quer que seja, se houveram por adquiridos communicaveis e partes
entre ambos (i), e no tocante á Capitania de S. Vicente dotada elle
dotador se obriga a entregar as contas de doação e titulos delia para
por elles a dita Dona Mariauna tirar carta de successão em sua cabeça
ou para os descendentes deste matrimonio, conforme o Alvará de Sua
Magestade ao deante trasladado o mais declaração deste contracto,
que todos os bens deste dote que a dita Dona Marianna de Faro e
Souza leva comsigo terão e seguirão a natureza dos bens dotaes sem
se poderem divertir, traspassar, vender, alienar, nem obrigar por ne-
nhuma via que seja, e este dote promette e obriga elle dotador fazer
sempre bom aos ditos dotados assim de maneira que neste contracto
so contem, de tal maneira que o hajam e logrem e possuam assim e
do modo que nesta escriptura se contem, pela qual tira e aparta de
(1) Este trecho e alguns outros do manuscripto são mal redigidos e obscuros. A
doação feita cm Lisboa em 1654 teve uma copia trazida para Conceição de Itanhaen e
aM registrada no livro da camará, desta se tirou uma copia que foi levada para Angra
dos Reis e aili registrada no livro da camará; desta foi tirada uma nova copia por or-
dem de Balthazar da Silva Lisboa, que esteve em Angra dos Reis fazeno correição em
1797, como juiz de fora; desta foi tirada a copia que tenho em meu poder, da qual ex-
trahi outra para o prelo. E' provável que grande parte das phrases obscuras e erradas
sejam productos dos copistas. A letra deste manuscripto é boa e muito legivel.
A. T. Piza.
— 155 —
si e seus herdeiros e descendentes todos os ditos bens que toda e todo o di-
reito o acção que até agora nelles teve e adiante podia ter e haver o todo o
procedo e traspasse nos ditos dotados o successores deste matrimonio e per
elle Condo foi dito que acceita este doto dos ditos quarenta mil cru-
zados da mão delle Dora Diogo de Faro com auctoridade do dito
Dora Affonso do Faro, seu tio, tutor e curador, na forma dita, e que
a respeito dos ditos quarenta mil cruzados assim de todos se obriga
elle Conde a dar a torça parto do arrhas, conforme a ordenação, á
dita Dona Marianna de Faro, sua tutora mulher, consignados o cons-
tituídos a provimento destes dotadoies era bens seguros e abonados,
porquanto conforme a este contracto elle Conde promette e dá era
norae de arrhas e doação á dita Duna Marianna de Faro a terça
parte dos ditos quarenta mil cruzados do dito dote, que são trezo
mil, trezentos e trinta e três cruzados, consignados e constituidos era
bens equivalentes seguros á satisfação delles dotadores ; e outro sim
se obriga, soluto matrimonio, a segurar o dito dote que peceber e des-
tas arrhas a raetade dos ditos adquiridos ; o por elle Conde foi mais
dito que a dita segurança e lostituicção e consumamento do dia des-
de quo lhe fora entregue, e assim mais das ditas arrhas promettidas
obriga todos os seus bens assim livres quo por qualquer maneira lhe
pertençam como do morgado patrimonial e quaesquer outros que
houver em particular para as ditas arrhas, as borafeitorias do seu
molde sitas nesta cidade por detraz da egreja de S. Paulo, que im.
portam em muito mais, as quacs borafeitorias consignadas ao paga-
raento das ditas arrhas são livres e sem vinculo algura como está
declarado em uma sentença quo se deu no juizo do eivei desta cidade
pelo licenciado Manoel Tenreiro de Gouvea, de que é escrivão Do-
mingos Rodriguez, a que se refere, e sempre elle Conde as fará li-
vres e desobrigadas com todos os seus rendimentos equivalentes aos
treze ditos mil, trezentos e trinta e três cruzados de arrhas e rendi-
mentos do todos os mais seus bens e pelo melhor parado de sua fa-
zenda, livres rendas, e para esta obrigação e hypotheca de bens de
morgado haverá para mais segurança Provisão e Alvará de Sua Ma-
gestade, conforme aos que por sua parte houveram os dotadores para
a obrigação deste, e uns e outros assim livres como do morgado,
como a dita licença que for necessária para a sua validade e segu-
— 156 —
rança jlquem desde logo era seu vigor, com mais declaração que fal-
lecendo a dita Dona Marianna com filhos deste matrimonio ficarão as
ditas arrhas vinculadas ao morgado do filho e successor deste ma-
trimonio para accrescentaraento delle ; e é mais declaração deste con-
tracto qne sendo caso que elle Conde falleça primeiro que Dona Ma
rianna de Faro ella ficará em posse e cabeça de casal com todos e
quaesquer bens que ficarem de qualquer sorte e seus rendimentos até
com effeito ser entregue do todo o seu dote, arrhas e a metade dos
adquiridos inteiramente ; emquanto lhe não forem pagas as ditas ar-
rhas haverá cada anno duzentos e cincoenta mil réis dos rendimen
tos de todas as casas do dito molde, que é a quantia que vem a ser
a razão de juros os ditos treze mil, trezentos e trinta e três cruza-
dos das ditas arrhas e a mais condição e declaração deste contracto,
que vencendo em dias a dita Dona Marianna do Faro a elle < onde
ella logrará e comerá as ditas arrhas em sua vida e assim mais os
ditos duzentos mil réis de renda consignados nos ditos bens e rendi-
mentos dos ditos morgados ; assim as ditas arrhas como os ditos du-
zentos mil réis comerá em sua vida, quer fiquem filhos e successores
deste matrimonio quer não, e é mais declaração desta escriptura que
cada um delles partes assim dotadores como dotados poderá haver de
Rua Magestade a licença e Alvará que forem necessárias para a validade
deste doto e contrancto delle, e para tudo elles partes dotadores e
dotados assim cumprirem todo e cada cousa disseram que obrigavam,
e de feito logo obrigaram, todos os seus bens e rendas livres, havi-
dos o por haver, de juro e de morgado e melhor parado delles, e
por elles Dora Aflonso de Faro, tutor e curador, e doutores Pedro
Paulo de Souza e Francisco da Cruz Freire, curadores, e o doutor
Francisco Ferreira Encerrabodes. Juiz dos orphãos da dita repartição,
foi dito que elles approvaram e ratificam este contracto de dote e
dam a elle sua outorga e consentiraento para que fique firrae e va-
lioso e tenha seu real e curaprido effeito, assim e da maneira que
nello se contem e pela melhoria que em direito possa ser, e outor-
garam de responderem elles dotadores e dotados por todo o aqui
constituido nesta cidade perante os corregedores da Corte, corregedo-
res e juizes do eivei delia, onle e perante quem este instrumento for
apresentado e se pedir e requerer seu curapriraento ahi se obrigam
— J57 —
a responder e de se fazer todo o cumprimento de direito o justiça,
citadas por suas cartas citatorias precatórias e sem ellas, para o que
disseram que renunciavam e cada um renunciava juiz de seu foro e
da terra e logar onde ao tal tempo estiverem e morarem, e todos os
mais privilégios, liberdades, leis, direitos, ordenações, distincções, fe-
rias geraes e espeoiaeg, e tudo o mais que por si e ora seu favor
allegar possam, que de nada se poderão valer, salvo tudo cumprir
pelo modo sobredito ; e declaram elles partes que no que toca ao
pagamento dos cinco mil cruzados, em que está estimada a segunda
vida de titulo de conde no caso em que este Dom Diogo o nâo haja
de sua Magestade nos ditos cinco annos pagará a elle Conde os ditos
cinco mil cruzados dos bens livres que tiver e pelos rendimentos e
rendas de seus morgados sem. . .(1). . .mais nos ditos morgados este
que assenta sobre as rendas e nos rendimentos delles, e que para isto
se haveriam as licenças necessárias, como atraz fica dito e declarado,
que esta se outorgou em nove dias do dito mez de Janeiro posto que
continuada em cinco do dito mez, e em testemunho da verdade assim
o outorgaram tedos elles outorgantes e pediram que se fizesse este
instrumento nesta nota e que se dessem os traslados necessários, que
acceitaram, e eu tabellião o acceito em nome de quem tocar ausente
como pessoa publica, estipulante e acceitante. Testemunhas que foram
presentes : o dr. Thomó Pinheiro da Veiga, Procurador da Coroa de
Sua Magestade e sou Desembargador do Faço, e Manoel Rodrigues
creado delle Dora Affonso de Faro, e Amador de Abreu, creado delle
Conde Luiz Carneiro e todos conhecemos a elles partes outorgantes,
dotador, Conde dotado, tutor, curadores e juiz serem os próprios aqui
conteúdos, que na nota assignaram com as testemunhas. António Pinto
de Lemos, tabellião, o escrevi. — Conde da Ilha — Dom Diogo de Faro
e Souza — Dom Affonso de Faro — Pedro Paulo de Souza — Francisco da
Cruz Freire —Francisco Ferreira Fncerrabodes -^ Ihome' Pinheiro da
Veiga -Manoel Rodrigues Cabreira— Amador de Abreu.
\
1 Aqui havia no mannscripto de Balthazar da Silva Lisboa um trecho que o eopia-
ta não entendeu e qua copiou do seguinte modo: <e.sem fuir ou'ro grasa minha mais...»
tudo com letra boa e muito legivel !
A. T. Piza
— 158 -
1.0 Alvará* de que atraz se faz menção (1)
Eu El-Rei faço saber aos quo este Alvará virem que havendo
respeito ao que por sua petição mo enviou a dizer Dom Diogo de
Faro e Souza, por seu tio e tutor Dora AíFon o de Faro, pedindo-ma
lhe concedesse licença para dotar a sua irmã Dona Marianna de Fa-
ro e Souza, que está contractada para casar com o Conde da Ilha do
Príncipe com as loO léguas do terras que tem na costa do Brasil,
com suas povoações e titulo de capitão e governador, com suas juris-
dicções o rendimentos, e que lhe passo carta de successão era nomo
da dita sua irmã na forma que a elle lho está mandada passar, sup-
prindo-lhe o ser menor para fazer o dito dote, e vistos os casos que
allega e as informações que se houve pelo dr. Pedr o Paulo de Sousa,
Desembargador dos Aggravos o da Casa da Supplicação, de que consta
que ouvira o supplicante e seu tutor o imraodiato successor do mor-
gado que é a dita sua irmã dotada que o juiz de Orphãos lhe dera cu-
rador lettrado por ser menor, o todos consentem no dote referido, e a
resposta que sobre tudo deu o Procurador de rainha Coroa, hei por bem
e me praz que, tendo feito o dito casamento, se passe carta a Dona
Marianna de Faro e Souza das cora léguas de terras de que se trata,
na forraji que está raandada passar ao dito Dom Diogo, a quem hei por
èupprida a idade para poder fazer o dito dote, tudo corao em sua pe-
tição podo, e este Alvará se cumprirá como nello se contem e valerá
posto que o seu effeito haja do durar mais de um anuo, sem embargo
da Ordenação do livro segundo, titulo quarenta, em contrario Manoe' da
Costa o fez em Lisboa a deseseto do Setembro de mil seisentos o
clnconta c três annos . Jacintho Fagundes Bezerra o fez escrever. — Rei.
(l) Para ficar completa a prova sobre o parentesco de D. Diogo e D. Marianna re-
produzo um dos alvarás régios, relativo a doação por aquelle feita a esta, e também
porque iutHressa a historia da donatária de S. Vicente. O outro alvará trata do dote
de duzentos mil reis anunaes tirados do morgado de Vimieiro e uao interessa a historia
de 8. Paulo.
A. T. Piza
^.r7>;; .<?/« -"« .
Relação dos Capitães loeo-tenentes que
governaram a Capitania de S. Vicente,
uns nomeados pelos verdadeiros do-
natários e outros pelos intrusos.
1.0
Gonçalo Monteiro :— Era sacerdote quando veiu na armada de
Martim Affonso e aqui flcou por vigário do S. Vicente e depois por
vigário de Santos. Quando era vigário de S. Vicente governou a
capitania como loco-tenente de Martim Aftonso por nomeação de sua
mulher e procuradora, D. Anna de Pimentel, segundo coasta da car-
ta de sesmaria das terras de Iriripiranga que o dito Gonçalo Mon-
teiro concedeu ao meirinho João Gonçalves, em S. Vicente, aos 4
de Abril de 1538, na qual attesta o capitão António do Valle estar
registrado no livo do tombo um instrumento de poderes escripto em
Lisboa pelo tabellião António do Amaral, pelo qual D. Anna Pimen-
tel constituo seu procurador e loco-tenente, em seu nome e do seu
marido, a Gonçalo Monteiro.
Deste capitão, que fui o primeiro, existem muitas sesmarias.
A mencionada sesmaria vera na escriptura de troca que o meirinho
João Gonçalves foz com António do Valle, e é o titulo das terras de
Santa- Anna que foram de minha mãe D. Anna de Siqueira e Men-
donça. O mesmo consta da sesmaria que concedeu a João Ramalho
aos 20 de Dezembro de 1500 e tantos (1). Já governava.no ultimo
de Dezembro de 1536 porque nesse dia passou a sesmaria de Este-
vão da Costa.
(1) o escriptor deste trabalho é Frei Gaspar da Madre de Deus, apesar do manus-
criptD não trazer assignatiira, nem data. E' curioso que elle cite a data do mez e não
saiba com certeza o anno da concessão feita a João Ramalho.
- 160 «^
2.0
António de Oliveira : — Cavalheiro fidalgo; por provisão de D.
Anna Pimentel, passada em Lisboa aos 16 de Outubro de 1538. Já
governava no primeiro de Setembro de 1539. Ha muitas sesmarias
deste capitão.
3.0
Christovam de Aguiar de Altero : — Cavalheiro fidalgo, creado
por D. Anna Pimentel em Lisboa aos 20 de Dezembro de 1542. To-
mou posse em S. Vicente aos 28 de Março de 1543 ; consta do livro
1.0 das vereações da camará de S. Vicente, na vereação do dia.
Noto-so que não aponto as folhas por não serem numeradas (l).
4.0
Br\z Cubas:— Cavalheiro fidalgo, creado por provisão de D.
Anna Pimentel, passada em Lisboa aos 26 de Novembro do 1544.
Tomou posse em S. Vicente aos 8 do Junho de 1545. Consta do
livro citado, na vereação desse dia ; e supponho que houve alguma
duvida a respeito da sua posse porque não se achou presente o ca-
pitão que acabava, como era estylo. beu antecessor tomara posse
em Março de 1543 e como ainda lhe faltavam muitos mezes para
ajustar o trionnio, pode ser que Braz Cubas tomasse a posse mais
cedo do que devia e que por isso não lh'.a quizesse dar Crhristovam
de Aguiar.
5.0
António de Oliveira, 2.» vez :— Por provisão de Martim Affon-
so aos 28 de Jan-iro de 1549. Apresentou a sua carta em Santos
aos 27 de Maio de 1549, donde infiro que tomou a posse alguns dias
antes, porque costumavam tomal-a na camará de S. Vicente e ao de-
pois se registrava a patente em Santos. Tudo consta de uma certi-
dão passada pelo escrivão da camará de Santos, B'rancisco Lopes, aos
2 de Abril de 1562. Archivo do Carmo de Santos— maço 15, n. 6.
(1) o costume de não numerar as folhas era geral nos séculos passados e o auctor,
que disso se queixa, também não numerou as paginas deste manuscripto. Christovam da
Aguiar era capítâo-mór das duas capitanias, de S. Vicente e Santo Amaro.
N. da R.
— 161 —
6.0
Braz Cubas, 2.a vez : Foi creado por Martim Affonso segundo
attesta o escrivão, mas não declara quando lhe passaram a provisão,
nem o dia da posse. A primeira sesmaria que tenho visto, passad*
por elle, tem a data de 2i de Janeiro de 1555 e a ultima a de 2 de
Março de 1556. ^
7.»
Jorge Ferreira :— Cavalheiro fidalgo (1). Declara nas sesmarias
qne era capitão em ausência de Braz Cubas, com poderes do gover-
nador geral D. Duarte da Costa. Passou uma sesmaria aos 20 de
Julho de 1556. Passou outra sesmaria aos 9 de Agosto de 1557 sem
fazer menção alguma de Braz Cubas ; nem elle podia estar ausente
nesse tempo porque a carta de 9 de Agosto foi registrada no livro
da Fazenda Real nesse raez pelo escrivão Alberto, que o con&tatára
com o provedor Braz Cubas. Jorge Ferreira ainda governava em
primeiro de Fevereiro de 1558, com poderes do governador geral,
porque nesse dia passou um* sesmaria na qual declara a fonte de
onde manava a sua jurisdicção.
8.0
Francisco de Moraes Barreto : — Da carta que lho escreveram os
camaristas de S. Vicente para o e*fteito de o depor com o fundamento
de ter concluído o sou triennio, consta que Martim Aíionso o provera
por três annos, que tomara posse aos 30 de Abril de 1558 e que tinha
governado até o 1." de Maio de 1531, dia em que lhe escreveram a
carta, a qual so acha registrada no archlvo da camará, livro das ve-
reações, que piincipia em 1561, a íls. 16. Avisaram ao Capitão que
si tinha outra provisão a mostrasse para lho darem cumprimento ;
aliás, fariam sua obrigação, a qual era juntarem-se com os camaris-
tas de Santos e elegerem capitão.
(1) Era casado com Joanna Ramalho, filha do portuguez João Ramalho e neta de
Tibiriçá, caciçLue goyaná de Piratínínga no tempo de Martim Affonso N. da R.
— 162 —
9.0
Pedro Collaço :— Cavalleiro fidalgo ; consta do livro citado, fls.
17, quG aos 11 de Maio do 1561 estevo presente na camará desse dia
o capitão Pedro Collaço. Nâo se acha o auto de sua eleição, nera o
de sua posse ; mas infere-se da carta citada que as duas camarás o
elegeram logo depois O0 notificarem a Francisco de Moraes que tinha
acabado. Vi sesmarias suas de 18 de Junho, 26 de Agosto o 28 de
Novembro do 1533.
10.0
Pedro Ferraz Barreto : — Cora poderes do Martira Affonso passou
sesmarias aos 5 de Outubro do 1562 e aos 20 de Janeiro de 1567.
11.»
Jorge Ferreira, 2.a vez : — Passa sesmaria aos 19 de Junho do
1567 e manda cumprir outra, sondo ainda capitão em 1571. Em todas
declara que governa com poderes do Martim Affonso.
Ou este capitão governou muito tempo
ou não ha memoria de seus successorcs, por-
que vai muito tempo do anno do sua posse
até o tempo de Jeronymo Leitão.
12.0
Jeronymo Leitão : —Irmão de Domingos Leitão, fidalgo da casado
Sua Magestade. Foi provido pelo segundo donatário Pedro Lopes de
Souza, filho de Martim AíTjnso de Souza. Isto consta de muitas ses-
marias. Não apparece a sua provisão, nera o auto da sua posso ;
consta, porêra, do termo da vereação de S. Vicente, em 3 de Novem-
bro de 1579, que elle já era capitão nesse dia, o do termo da verea-
ção de 22 de Março de 1592 consta que ainda governava nesse dia por-
que derara posse ao tabellião Francisco de Torres, nomeado por elle (i).
(!) Aqui traz o manuscripto a seguinte nota :
«Si Jeronymo Leitão governou até Maio de 1592, como podiam nomear por seu suc-
cessor em Março desse mesmo anno ?»
Para se entender esta nota é preciso suppor que o termo de vereação, mencionado
no texto com a data de 22 de Março de 1592, tenha a data de 22 de Maio, que o auctor
corrigia para 22 de Março para combinar com o que adeante se diz do capitão-mór Jorge
Corrêa. Em sub-nota so diz que J. Leitão tomou posse a 14 de Agosto de 1580 em t.o-
me de Pedro Lopes. (A\ ãa E.)
— 163 —
Daqui por deante é escripto oeatalogo pelo doutor juiz de fora
Marcellino Ferreira Cleto.
13.0
JoiíGE Corrêa : — Consta do livro 6.» da camará de S. Vicente que
foi nomeado por Lopo do Souza, terceiro donatário, o tomou posse
aos 33 de Março de 1592. Serviu ató 14 de Março do 1595, segundo
consta do livro 7.o, no aceordam desse dia.
14.0
João Pereira, de Souza:— Tomou posso aos 14 de Março de 1595.
Foi nomeado peio governador D. Francisco de Souza para servir o
cargo de capitao-mór com os adjunctos Simão Machado e João Ba-
ptista (1), mandando suspender a Jorge Corrêa e cha-
mando-o á cidade da Bahia por capitules que de cá deram contra ello,
dos quacs mandou devassar. Consta do livro T.» da camará de S.
Vicente.
15.0
RoauE Barreto : — Nomeado por Lopo de Souza ; apresentou-se na
camará do S. Vicente aos 19 de Outubro de 1598.
16.0
Diogo Árias de Aguirre : — Tomou posse de capitão de S. Vicente
aos 18 do Dezembro de 1598, por provisão do governador geral do
Estado, D. Francisco de Souza, na qual determinava que governaria
somente emquanto f»lle governador não chegasse a esta capitania, para
a qual íicava de partida, suspendendo interinamente ao capitão e loco-
tenente legitimo, som culpa, Roque Barreto, como consta do livro 8.».
17.0
EociUE Barreto, 2.» vez : — Consta do livro 8,o que Roque Barreto
servia outra vez do capitão aos 13 de Julho de 1600, porque nesse
dia concedeu foros de villa á povoação de S. João de Cananéa em
nome do donatário Lopo de Souza.
(1) o terceiro nome está devorado por traças. {^- <?« -H.)
— 161 —
18.0
Diogo Lopes de Castro : Cavalheiro fidalgo ; aos 24 de Feve-
reiro de 1602 fez registrar uma provisão do governador geral pela
qual o creava capitao-mór de S. Vicente. Consta do livro 8.» Foi
suspenso.
19.0
Roque Bahreto, 3.» vez : — Aos 27 de Julho do 1603 registrou
uma provisão do governador geral Diogo Botelho, pela qual o creava
capitao-raór de S. Vicente, suspendendo ao dito Diogo Lopes.
20.O
António Pedroso:— l'oi nomeado por provisã-o de Lopo de Souza,
passada em Lisboa aos 30 de Outubro de 1602, para capitão com a
clausula de que, não querendo ou não podendo servir este posto, ser-
viria seu irmão Pedro Vaz de Barros. Resta saber si tomou posse
nesta occasião o dito António Pedroso de Barros. {^)
21.0
Pedro Vaz de Barros : — Consta do livro 8.o que aos 18 de Agosto
de 1603 servia de capitão e ouvidor por Lopo de Souza, o qual ainda
servia em 24 de Fevereiro de 1605.
22."
Pedro Cubas :— Moço da camará de Sua Magestade e alcaide-mór
das capitanias de S. Vicente e Santo Amaro ; em 11 de Julho de 1605
foi chamado pela camará de S. Vicente para servir de capitão-mór da
capitania, segundo consta do livro 9.o. Parece que não o reconhecia
por capitão a villa do Santos e isto pouco carece de exame.
(1) Parece haver contradicçSo entre os §§ 19 e 20, ou então havia conflicto entre o
donatário Lopo de Sonza, que nomeava qualquer dos dois irmãos António Pedroso e Pe-
dro Vaz de Barros em Outubro de 1602, e o governador geral, que nomeava Roque Bar-
reto em Julho de 1603.
íiT. da B.)
- 165 -
•23.0
António Pedroso pe Barros: — Tomou juramento para servir de
capitão das capitanias de S. Vicente e Santo Amaro aos 20 de' De-
zembro de 1606, por ter sido nomeado por Lopo do Souza, segundo
consta do livro 9.«> Ainda servia aos 9 de Setembro de 1607— livro
citado. Resta examinar si antes desta posse tinha governado. (1)
24.0
Gaspar Conquero -.—Tomou posse e juramento para servir de ca-
pitão e ouvidor da capitania de S. Vicente aos 6 de Outubro de 1607,
por estar nomeado pelo donatário Lopo de Souza. Consta do livro 9.»
Passou uma sesmaria a 20 de Fevereiro de 16... (2) a António Fer-
Qiva,— livro 2." de registro de sesmaria, pag. 86. Manoel Antunes
passou duas sesmarias como capitão e loco-tenente de Lopo de Souza,
uma aos 2 de Outubro de 1611 e outra aos 20 de Dezembro dó dito
anno, que se acham registradas no livro 3.o delias ; porôm o escrivão
na margem pôz a nota de que não tinham effeito porque o dito nun-
ca fora capitão. (3)
(1) Aqui traz o manuscripto a seguinte nota :
«Consta do mesmo livro que deram posse dos logares de capitão e ouvidor a Antó-
nio Pedroso aos 21 de Dezembro de 1606, em virtude de uma provisão de Lopo de Souza;
constando do mesmo livro que tinham dado posse de ouvidor a Zuzarte Lopes aos 20 de
Dezembro de 1606 por cas que nelle fizera o dito António Pedrosb, a quem tinham
dado posse de capitão nesse mesmo dia 20 de Dezembro, A' margem vinha uma cota
que dizia não valer o termo da posse dada a Zuzarte Lopes. Do requerimento, a fls.
300 do mesmo livro, que fez o procurador da camará de 8. Vicente aos 20 de Janeiro de
1607, consta que na villa de Santos não reconheciam por capitão, nem por ouvidor, a
António Pedroso e que alli servia de ouvidor Sebastião Peres e de capitão Gonçalo de
Pedrosa.» Ha nesta nota uma palavra devorada por traça, que vai com pontinhos.
(2) resto da data está devorada por traças.
(3) Aqui traz o manuscripto a seguinte nota:
«Conservo as pecias confusas de ter achado gue o donatário lhe concedera a facul-
dade de passar sesmarias no termo da Ilha Grande. Capitão nunca foi, como cora razão
advertiu o escrivão».
Esta nota, mal redigida e obscura, está bem conservada e tem a letra bem legível.
Parece que o auctor ficara perplexo por ter verificado que o donatário facultara a Antu-
nes conceder sesmarias sem ser capitão-mór. (-^- da M.)
— 166 —
25.0
Lmz DE Freitas Mattoso : — Era capitão em 3 do raez de Julho
de 1612, nomeado por D. Luiz do Souza, governador geral da Repar-
tição do Sul, por morte de seu pae D. Francisco de Souza. Neste
dia passou Freitas provisão de meirinho da correição a Belchior Ro-
drigues, cuja provisão se cumpriu na camará de S. Vicente aos 5 do
Agosto do dito anno, segundo consta do livro 11 das vereaçuoá de S.
Vicente-
26.0
Nuno Pereiea Freire:— Fidalgo da casa de Sua Magestade, no-
meado capitão da capitania de S. Vicente por D. Luiz de Souza por
provisão de 15 de Julho de 1612. Consta do livro 11.°
27.0
Francisco de Sa' Sottomaior -.—Nomeado capitao-mór da capita-
nia de S. Vicente por D. Luiz de Souza aos 6 de Junho de 1613, a
qual foi cumprida aos 19 de Junho do dito anno. Livro 11.^
Nota : — Este D. Luiz assistia nesta
capitania epor isso estava nomeando capi-
tães annuaes contra o estylo antigo, cujas
provisões eram por três annos.
28.»
Domingos Pereira J a come :— Tomou passe de capitão da capita-
nia de S. Vicente aos 5 do Setembro de 1613, por nomeação do de-
sembargador Munoel Jacome Bravo, cora poderes bastantes que para
isso e outras cousas lhe havia concedido o governador geral do Es-
tado, Gaspar de Souza, por provisão passada aos 24 de Agosto do
dito anno. Domingos Pereira Jacome nomeou para o substituir, aos
28 de Fevereiro de 1614, a Pedro Cubas, moço da camará, alcaide-
móT e provedor da Fazenda Real, durante a ausência que desta ca-
pitania fazia em serviço de Sua Magestade. Teve para o mesmo ef-
feito provisão do desembargador Manoel Jacome Bravo, passada aos
4 de Maio do dito anno, e tomou posse Pedro Cubas aos 31 do dito
mez e &mio— livro 11.*
- 167 -
29.0
Paulo da Rocha e Siqueira: — Cavalheiro íidalgo ; foi nomeado
capitão da capitania de S. Vicente por provisão do governador geral
Gaspar do Souza, datada do 18 de Setembro de 1614. Tomou ho-
menagem nas mãos do governador geral aos 25 de Setembro do dito
anno. Serviu até ser suspenso e preso por provisão do mesmo go-
vernador geral, datada de 12 de Julho de 1615, que se cumpriu na
camará de S. Vicente aos 13 de Novembro do dito anno— livro lO.o
30.«»
Bâlthazar de Seixas Rabello :— Foi nomeado capitão e ouvi-
dor da capitania de S. Vicente por provisão do governador geral
Gaspar de Souza, passada aos 12 de Julho de 1615 e cumprida aos
Vó de Novembro do 1615 na camará de S. Vicente. Tomou posse
nesse dia— livro IO.»
31.0
Gonçalo Corrêa de Sá:— Fidalgo da casa de Sua Magestade,
nomeado per D. Luiz de Souza, governador geral do Estado, por pro-
vis^:o passada em Olinda aos 4 de Fevereiro de 1617. Tomou posse
no 1.0 do Julho dito anno -livro 12.* (1).
32.-
Martim Corrêa de Sa':~ Fidalgo da casa de Sua Magestade, no-
meado capitão da capitania de S. Vicente por alvará de Sua Magestade
de 2 de Fevereiro de 1618, com a expressa clausula de que serviria
por três annos, si tanto durasse o litigio que havia entre os donatá-
rios. Foi cumprido e mandado registrar o dito alvará na camará de
S. Vicente aos 11 de Novembro de 1620. Consta do livro 12°.
Pedro Cubas,, moço da camará de Sua Magestade e alcaide-môr
da capitania de S. Vicente, foi nomeado capitão da dita capitania por
Martim de Sá durante o tempo da sua ausência por provisão do 20
(1) Ai^ui vem a seguinte nota :— «Ausentando-se para o Rio de Janeiro passou pro-
visão a Pedro Cubas para governar, na sua ausência, as villas da Marinha.»
Esta nota não é de juiz de fora Pereira Cleto, mas do dono do manuscripto, que
assim o declara. Vide § 1.» sobre Gonçalo Monteiro, (N. ãa R.)
- 168 ~
de Dezembro do anno de 1620, a qual foi cumprida e registrada no
dito dia e anno na camará da dita villa (l).
(1) Vem aqui a seguinte nota, com palavras devoradas por traças e substituídas
por pontinhos :
«Pedro Cubas nâo tinha dado juramento na camará de S. Vicente, quando a ella
veiu Manoel Rndrigue? de Moraes tomar a injusta posse da capitania de S Vicente em
nome do conde de Monsanto. D. Luiz de Souza, com a provisão que por elle mandou,
ordenando aos camaristas de 8. Vicente e mais justiças que lhe dessem posse, escreveu
á camará de S. Vicente que nada alterasse a respeito do governo da capirania.
"Porem, não obstante pretendeu Manoel Rodrigues tomar posse de capitão-mór sem
provisão do conde de Monsanto, nem do governador geral, e com o único fundamanto de
que o constituinte e o constituído faziam uma só psssoa; e como El-Reí, na confirmação
da sentença, dizia que o conde. . . (a) . . .capitão e lhe dariam
.,.{b)... sua procuração com este argumento persuadir ao vereadores que sendo elle
procurador devia ser capitão. Replicaram os ditos veredores que o governador geral
mandava conservar tudo como estava. Respondeu que a provisão de Martim de Sá tra-
zia a clausula já referida e ermo com a posse do conde cessara o litigio estava concluí-
do o tempo da sua jurisdicção e governo. Mais assegurou aos camaristas que o gover-
nador gera' mandara a dita ordem por comprazer com Martim de sá, que elle não podia
fazer os negócios do conde sem ser capitão, que lhe dessem a posse e elle acommodaria
ao governador geral.
« Com effeito, foi-lhe dada posse de capitão-mór e, fazendo a camará aviso a Mar-
tim de Sá, que se achava no Rio de Janeiro, e elle ao goveremador geral, este ordenou
que depuzessem a Manoel Rodrigues de Moraes e obedecessem a Martim de Sá. Em
consequência desta ordem foi chamado Pedro Cubas á camará de S. Vicente, onde deu
juramento e ficou governando com grande sentimento de Manoel Rodrigues, que preten-
deu que o conservassem e por lhe não fazerem o gosto alterou razões com tanto furor
que chegou a empunhar a espada na camará, desordem pela qaal o autuaram os cama-
ristas, cujos autos remetteram ao governador geral e ao donatário. Tudo consta das
cartas que os ditos camaristas escreveram a D. Lniz de Souza e ao conde de Monsanto.
No mesmo livro, onde vem as ditas cartas, acha-se um requerimento de Manoel Rodii-
gues, no qual elle se queixa de que, indo fazer um requerimento a Martim de Sá, este
o tratara mal de palavras e lhe dissera que o não reconhecia por procurador do dona-
tário.
«Disse bem Martim de Sá, porque a capitania de S. Vicente não pertencia ao donatá-
rio de quem elle era procurador. Isto pensava o governador, a meu ver, o qual, se-
ia) Aqui está estragada uma palavra que acaba em ia, parecendo ser daria ou teria
ou seria, de poucas syllabas porque o espaço é pequeno.
(b O manuscripto aqui está roto e faltam diversas palavras, de modo que o que se
segue não faz sentido, nem parece ter ligação com o que vem de traz.
N. da R.
- 169 ->
33.-
João de Moura Fogaça : — Toraou posse de capitão e ouvidor da
capitania do S. Vicente por ter sido nomeado pela condessa de Vi-
miero, D. Marianna de íSouza, donatária perpetua da capitania,
aos 22 de Outubro do anno de 1622. Consta do dito livro IS» (i).
34.0
Álvaro Luiz do Valle : — Era 24 de Jullio do 1624 era capitão
de S. Vitiente pelo conde de Monsanto e como tal nomeou Lucas Ro-
drigues de Córdova alcaide-raór da capitania de S. Vicente. Consta
do dito livro 12^ (2).
gando eu supponho, mandou conservar o governo no me^ mo estado, temeroso de que o
capitão-mór, dito Martim de Sá, se oppuzesse á posse injusta, e. . .(a).. . de. . .(b). ..si o
depuzessem do governo. O dito Martim de Sá nomeou para o substituir em sua ausên-
cia a Fernão Vieira Tavares, por provisão datada no Rio de Janeiro aos 9 de Abril de
1622. Cumpriu-se e registrou-se na camará da villa de 8. Vicente no dia l.«> de Maio
de 1622— livro 12o,»
(1) Aqui vem esta outra nota :
« E' necessário examinar este livro, porque nelle achei uma provisão do governador
geral Furtado, na qual diz que provera á Fogaça. E' certo que a condessa o mandou
por seu procurador, com o cargo de capitão, e supponho que elle usou da industria de ir
á Bahia e pedir provisão ao governador geral Mendonça Furtado, porem apresentaria na
camará a provisão da condessa. O dito governador levantou a homenagem a Martim
e mandou que Fernão Vieira lhe entregasse o governo (c). Este Fernão Vieira se consti-
tuiu requerente do conde de Monsanto, cujo direito foi solicitar á Bahia, e vindo de lá
feito provedor da Fazenda Keal fez as partilhas por ordem da Relação cbmo lhe propa-
zeram o seu ódio e desejo de vingar-se».
(2) Aqui traz o raanuscripto a nota soguinte :
« Este foi o primeiro capitão nomeado pelo conde de Monsanto, e o que entrou a
governar depois que Fernão Tavares repartiu as duas capitanias pela terceira barra
mais austral, fundando-se em que este era o rio de S. Vicente».
a) Falta uma palavra devorada por traças em parte e também estragada por agua.
b) Idem, idem, que entretanto parece ser D. Luiz.
c) A expressão levantou a homsnagem a Martim e mandou que Fernão Vieira lhe
entregasse o governo está contradictoria, porque não se levanta a homenagem de um de-
legado na occasião de entregar- lhe o governo. A provisão do governador Furtado de
Mendonça é de 16 de Setembro de 1622, levanta a homenagem a ambos, Martim q Fer-
não, e manda entregar o governo por três annos a João de Moura Fogaça. Vide Nota
n. 40, adeante. (N. da R.)
— 170 —
35.0
PEDI13 DA MoTTA Leite ' — Cdado do conde de Monsanto, alcaide-
mór e capitão-mór, loco-tenente da capitania de S. Vicente, nomeado
por D. Álvaro Pires do Castro, conde de Monsanto, por provisão de
18 de Abril de 16:^8. Veja-se o...('l). ..79. Assignou sesmarias em
26 de Julho de 1637.
36.0
António de Aguiar Barriga : — Capitão-raór da capitania do S.
Vicente era... (2)... de Maio de 1640. Foi creado por provisão do
conde do Monsanto, D. Álvaro Pires de Castro e Souza, de 'Zl de
Outubro de 1639, como consta da provisão de João Luiz Mafra.
37.0
João Luiz Mafra :— Cavalleiro fidalgo da casa de Sua Magestade,
foi creado capitão-mór, governador e loco-tenente do conde de Mon-
santo por provisão delle D. Álvaro Pires de Castro e Souza, de 21 de
Outubro de 1639 (3), com 300 cruzados de ordenado cada anno, si
tanto rendesse a dita capitania ao seu donatário. Cumpriu-se, e de-
ram-llie posse em S. Vicente aos 7 de Outubro de iQàO. Na provi-
são declarou o conde que serviria por trez annos e que tomaria posse
de governo depois de António de Aguiar Barriga ter coEcluido o tri-
ennio por que o tinha provido.
38.0
Gaspar de Souza Ulhoa : — Cavalleiro professo da ordem de
Christo e fidalgo da casa de Sua Magestade ; foi nomeado por provi-
são do governador geral António Telles da Silva, passada na Bahia
aos (6, 16 ou 86) de Outubro de 1643, a qual se cumpriu e registrou
na camará de S. Vicente aos 7 de Dezembro do dito anno. Este
1) Aqui faUam uma palavra e parte dos algarÍÊmos, estragados per agua e Iraças.
2) A data do raez foi devorada por traças.
3) Ha evidente Ci.nti-adicção entre os §§ 36 e 37, que dão a mesma previsão de 21
de Outubro de 1639 como nomeando os dois capitães-móres mencionadcs. Em relação ao
§ 36 essa data está sublinhada para ser excluída. N. íío K.
t
- 171 -
capitão estava provido por outros três annos pelo condo do Monsanto,
de que se lho tinha passado despacho ; porem, queixando-se a camará
do S. Vicente ao dito conde do sen mán governo pelos procuradores
que foram a Lisboa tratar dos negócios respectivos aos jesuítas (^),
mandou o conde que se lhe não observassem os despachos, quando
os apresentasse, e em seu logar proveu em capitão a Francisco da
Fonseca Falcão, segundo consta de uma carta do mesmo conde es-
cripta no dia 1.° de Dezembro de 1Ô42, que existe no archivo da
camará de S. Vicente.
39.0
Francisco da Fonseca Falcão :— Foi nomeado por provisão do
conde de Monsanto passada aos 12 de Dezembro de 164.2. Tomou
posse aos ^4 de Junho do 1643 e foi deposto pelo ouvidor geral aos
14 de Setembro de 1643.
40.O
Gaspar dk Souza Uleoa : — Tinha sido capitão-mór da capitania
do S. Vicente antes de Francisco da Fonseca Falcão ; deposto este
polo ouvidor geral aos 14 de Setembro de 1643, tornou por determi-
nação do dito ouvidor a servir de capitão-mór dia por... (2).
40.O
Francisco Pinheiro Raposo:— Foi provido em capitão-mór da
capitania de S. Vicente por carta. . .(^). . .do governador geral, pas-
sada aos 24 de Maio de 1643 e principiou a servir no l.o de Feve-
reiro de 1644.
Jacomo Coutinho (^j.
1) Quando os jesuítas foram expulsos de S. Paulo em 1640, os paulistas enviaram
a Lisboa dois emissários, Luiz;da Costa Cabral e Balthazar de Borba Gato, com as queixas
que tinham contra a ordem. E' a estes emissários que se faz aqui referencia. Vide a
Eisíoria da JixpuJsão dos Jesuítas, no vol" III desta 'Revista.
2) Falta uma palavra devorada por traças, que devia ser patente,
3) Falta uma palavra escripta em breve, devorada por traças.
4) Este nome apparece aqui isolado e sem nenhuma explicação ; é conservado para
ser mantida a integridade do manuscripto. N. <ía R.
- 172 —
Francisco da Fonseca Falcão, a quem o ouvidor havia deposto
no principio de seu governo, conseguindo que o governador geral pu-
zesse o — curapra-se— na provisão que lhe havia passado o conde de
Monsanto, em virtude delle tornou a governar e tomou nova posse
em S. Vicente aos 3 de Outubro de 1644.
41.»
Manoel Pereira Lobo :— Professo na ordem de Christo ; foi pro-
vido em capitão-mór pelo donatário marquoz de Cascaes em carta da-
tada no 1.0 de Fevereiro de 1647. Cumpriu- se e tomou posse no l.«»
de Junho de 1648.
48.0 (1)
Bento Ferrão de Castello Branco : — Foi provido em capitão
raór de S. Vi tente por provisão do governador e capitão-general pas-
sada aos 16 de Outubro de 1651; cumpriu-se na camará de S. Vi-
cente aos 3 de Março de 1652.
49.0
Gonçalo Couraça de Mesquita : — Consta que foi capitão-mór por
uma provisão sua datada aos 15 de Setembro, na qual confirmou a
André Fernandes de Araújo no posto de ajudante da capitania de S.
Vicente.
50.O
Manoel de Sousa da Silva : — Foi provido em capitão mór da ca-
pitania de S. Vicente por patente de Sua Magestade de 25 de No-
vembro de 1656, a qual se cumpriu e registrou na camará de S. Vi-
cente aos 23 de Abril de 1657. Sendo capitão foi se metter frade,
segundo consta de uma carta sua escripta aos camaristas de S. Vi-
cente. Não consta em que religião.
1) a numeração dos capitães-móres salta de 41.° a 48.<» sem motivo algum appa-
rente, tanto mais que não ha intervallo de tempo que faça presumir a existência de al-
guns intermediários. Entre o 41.o e o 48.» ha o espaço de três annos que era o da ju-
risdicção ordinária dos capitães-móres daquelle tempo. N. da R.
\
— 173 —
51.0
Jerónimo Pantoja Leitão : — Tendo sido nomeado por nraa pro-
visão do governador geral do Estado, Francisco Barreto, de 6 de Ou-
tubro de 1657, para que vagando na capitania de S. Vicente qual-
quer dos cargos de capitáo-mór, provedor da Fazenda Real ou sar-
gento-raór, elle entrasse a servir por virtude desta provisão, que apre-
sentou na camará de S. Vicente e se cumpriu aos 6 de Janeiro de
1658 ; nesse dia tomou posse de capitão-mor.
52.0
António Ribeiro de Moraes (i) • —Por provisão de Salvador Cor-
rêa de Sá, governador geral das capitanias do Sul, passada aos 4 do
Outubro do 1659, cumprida e registrada na cismara do S. Vicente
aos 19 de Dezembro de 1659. — Archivo da camará de S. Vicente, li-
vro 14.'».
53.0
Cypriano Tavares (2) :— Capitão- mór loco-tenente da capitania de
S. Vicente por provisão de Salvador Corrêa de Sá e Benevides, go-
vernador geral das capitanias do Sul, datada no Rio de Janeiro aos
31 de Dezembro de 1661. Fez homenagem pela dita capitania nas
mãos do dito governador no l.» de Janeiro de 1662. Cumpriu-se e
registrou-se a provisão em S. Vicente aos 29 de Janeiro do dito
anno e tomou posse no mesmo dia. Continuou a servir no mesmo
posto por outra provisão que se passou aos 22 de Junho de 1665, a
qual se cumpriu e registrou na camará de S. Vicente aos 18 de Ou-
tubro do mesmo anno.
54.0
Ag stinho de Figueiredo :— Por carta patente de Sua Magestade
passada aos 29 de Maio de 1665. Tomou posse em 31 de Dezembro
desse anno.
1) Era casado em S. Paulo cora Catharina da Ribeira, filha de Amador Bueno da
Ribeira —o acclamado, e nâo deixou descendência.
2) Era natural de Pernambuco, onde combateu contra os hollandezes e depois da
expulsão destes veiu se estabelecer em Santos, onde casou-se com Anna Siqueira de
Mendonça, da lllustre família dos Leme. N. áo R.
— J74 —
Sebastião Velho de Lima serviu do capitão em ausência deste
proprietário, emquanto elle andou na deligencia de procurar minas, e
foi provido pelo dito Agostinho de Figueiredo, o qual estava já pre-
sente quando tomou posse Thomaz Fernandes, a quem elle mesmo
entregou o governo.
55.0
Thomaz Fernandes de Oliveira : — Por carta patente do Sua Al-
teza (1), passida aos 8 de Julho de 1673; tomou posse aos 17 do
Fevereiro de 1675.
56.0
Diogo Pinto do Rego : — Por carta patente assignada pelo Prín-
cipe Regente aos 4 d^ Novembro de 1677. Tomou posso aos ~S de
Dezembro de 1678.
Pedro Taques de Almeida, por provisão do governador geral, pas-
sada aos 8 de Outubro de 1683, a qual se cumpriu na camará do S.
Vicente aos 4 de Março de 1684, e tomou posse no mesmo dia.
Pedro Person Hostel foi provido na capitania-mór do S. Vicente,
porem não tomou posso por morrer antes disso, e foi continuando
Pedro Taques.
57.«
Thomaz Fernandes de Oliveira, 2.» vez :— Capitão -mór por pro-
visão do governador geral do Estado do Brazil, passada aos 5 de Se-
tembro de 1687 ; tomou posso aos 15 de Fevereiro de 1688. Teve
nova provisão.
58,0
Manoel Pereira da Silva: — Por patente do governador geral
passada aos... de... br." de 1690; tomou posse aos 11 de Fevereiro
de 1691. Morreu ejaz na egroja de S. Braz da villa de Santos, com
1) Affonso VI, tendo sido deposto do throno portugaez em 1667, o príncipe D.
Pedro, seu irmSo, foi proclamado regente e como tal governou o reino até 1683. Neste
anno morreu o deposto Affonso e D. Pedro foi proclamado rei com o nome de Pedro II.
E' delle que aqui se fala. N. da R.
— 175 —
campa pequena, de pedra, Junto ao altar de Nossa Senhora do Pilar.
Consta que já era morto aos 'M de Janeiro de 169.2 (i).
59.0
Manoel Peixot > da Motta :— Por carta patente de Sua Mages-
tade passada aos O de Dezembro de 1691 ; tomou posse aos 5 de Abril
de 1692.
60.O
D. Simão de Toledo Piza : — Por patente do governador geral pas-
sada aos 3 de Agosto de 1695 ; tomou posse aos 7 de Abril de 1693.
61.0
Pedro Rodrigues Sanches :— Por carta patente de Sua Magestade
passada aos 13 de Dezembro de 16%, a qual se registrou em S. Vi-
cente aos 8 do Jullio de 1693.
1) Aqui vem a seguinte extensa e curiosa nota:
«Por morte deste capitão houve grandes duvidas entre a camará de S. Vicente e o
sargento-mór Domingos de Araújo, meu bisavô materno, a respeito da successão ao go-
verno (a),
«A camará de S. Vicente, apossada pela família dos Guerra, teimava que a ella, como
cabeça da capitania, competia o governo, tanto militar como politico, de toda a capitania.
Domingos de Araújo, a quem seguia a maior parte da capitania e a família de seu genro
José Tavares de Siqueira, nunca consentiu que a dita camará se intromettesse no go-
verno militar, que suppunha pertencer-lhe pela razão de ser elle o prin;ieiro ofBcial de
guerra depois do capitão-mór governador.
«Foi o caso por aggravo á Relação da Bahia, na qual se decidiu que o governo mi-
litar, na falta do capitão-mór, pertencia ao sargento-raór pago da capitania e o politio
a cada uma das camarás nos d'strictos respectivos.
«O governador geral reprehendeu severamente aos camaristas de S. Vicente. Tudo
consta da sentença e carta do governador, de que tenho coplas.
«Domingos de Araújo, pela razão de ser sargento-mór da capitania, tomou posse do
governo militar aos 24 de Janeiro de 1692».
a) Domingos de Araújo foi pae de Isabel Maria da Cruz, esposa de José TavarCg
de Siqueira ; deste casal era filha Anna de Siqueira de Mendonça, esposa de Domingos
Teixeira de Azevedo e mãi de Fr. Gaspar da Madre de Deus, que era, portanto, bisneto
de Domingos de Araújo. E' mais uma prova de que Fr. Gaspar é o auctor deste ma-
nuscripto. A', ãa B.
— 176 —
62.0
Thomaz da Costa Barbosa : — Nomeado por carta patente do go-
vernador geral do Sul, passada aos 20 de Agosto de 1700. Cumpriu-
se e registrou se na camará de S. Vicente aos 7 de Outubro do mes-
mo anno.
63.0
António Corrêa de Lemos: — Foi capitão- mór da capitania de S.
Vicente por patente passada aos 2 de Março de 1703. Succedeu a
Thomaz da Costa Barbosa.
64.0
José de Godoy Moreira : — Por carta patente de Sua Magestade
passada aos 25 de Novembro de 1704 ; tomou posse na camará de S.
Vicente aos 2 de Novembro de 17i)7 (i).
65.0
Joio DE Campos e Mattos : — Por carta patente de Sua Magestade
passada aos 22 de Outubro de 1707 ; fez homenagem nas mãos do
governador do Rio de Janeiro.
Francisco do Amaral Coutinho : — Por carta patente do governa-
dor geral do Eio de Janeiro, passada aos 5 de Fevereiro de 1709;
tomou posso no dia l.o de Março do dito anno (2).
FIM
1) E' para extranhar que houvesse o longo espaço de três annos entre a nomeação
deste capitão-mór. em 1704, e a sua posse, em 1707, exactamente um triennio que repre-
senta o período ordinário da jurisdicção desta classe de funccionarios. E' provável que
António CoiTêa de Lemos tivesse as suas funcções prorogadas de 1703 até 1707 para que
a capitania não ficasse acephala.
2) Neste anno de 1709 foi instituída a capitania-geral de São Paulo e Minas e foi
nomeado para seu governador e capitão-general António de Albuquerque Coelho de Car-
valho. Desappareceram os capitães-móres, loco-tenentes, taes como existiam até então e
surgiram os novos capitães-móres, delegados directos dos capitã es-generaes, que eram os
supremos governadores da capitania. Com esta alteração desappareceram também a li-
berdade individual e grande parte da autonomia municipal, que foiam substituídas pelo
violento e incontrastavel despotismo dos capitães-generaes. k- ^f* ^'
Catalogo dos Governadores da Capitania
de Itanhaen
FBITO PELO
JUIZ DE FORA MaROBLLTNO PeEEIRA ClBTO
Por alvará de Julho de 1645 entrou na administração do morga-
do do Alcoentre, que vagou por morte da condessa de Vimieiro, ao
qual morgado pertencia a capitania de S. Vicente, seu filho D. Affonso
de Faro, por se achar ausente nos Estados Hollandezes D. Sancho de
Faro, seu irmão, a quem pertencia o dito morgado, cujas rendas es-
tavam sequestradas, dando cada anno para as despesas da guerra
420)^000 ; cujo alvará se acha registrado no livro, que serviu para
lançar os accordams da villa da Conceição do Itanhaen desde o anno
de 1646.
1.0— D. Affonso de Faro, em razão deata administração, nomeou
seu procurador ao capitão Manoel Carvalho, morador na Ilha Grande,
aos 31 de Março de 1646, e este era virtude dessa procuração nomeou
capitão-mór e ouvidor da capitania de itanhaen a Valério de Carvalho
aos 9 de Novembro de 1646, cuja nomeação se cumpriu em camará
na dita Conceição de Itanhaen aos 28 de Novembro de 1643.
2." — D. Affonso do Faro, já como tutor nomeado por Sua Mages-
tade de seu sobrinho D. Diogo, nomeou capitão-mór e ouvidor da ca-
pitania de Itanhaen a Dionizio da Costa por provisão de 4 do Novem-
bro de 1648, o qual tomou posse aos 3 de Abril de 1649. Consta do
livro que serviu na dita camará desde o anno de 1648, a fls. 2.
D. Affonso de Faro desistiu da posse que se lhe havia dado da
capitania, por pertencer a seu sobrinho D. Diogo de Faro e Souza,
aos 8 de Novembro de 1648; consta do dito livro.
— 178 -
3.0— D. Aífonso de Faro, como tutor de seu sobrinho D. Diogo do
Faro o Souza, nomeou para capitão-raór e ouvidor de Itanhaen a Jorge
Fernandes da Fonseca por provisão de 31 de Janeiro de 1651 e cUe
tomou posse no dia 1." do Maio de 1652, segundo consta do dito livro^
a fls. 34.
4.<' — For provisão de Sua Magestade, foi confirmado Roque Leitão
Eoballo em capitão-raór da capitania de N. Senhora da Conceição do
Itanhaen por João Blau ter acabado o seu tempo. {^)
5.0— Por provisão do dito D. Aífonso Faro foi confirmado João
Blau por capitão-mór da capitania do Itanhaen, por ter sido nomeado
pelu condessa da Ilha do Príncipe, D. Marianna de Faro. era sua pro.
Yisão de 31 de Janeiro de 1662, a qual se cumpriu na camará da
villa da Conceição aos 15 de Agosto de 1662. Consta do livro que
serviu de registro da dita camará desde o anno de 1659, a fls. 18.
Por provisão de sua Magestade foi confirmado Roque Leitão Ro-
ballo em capitão-raór da capitania de Itanhaen por João Blau ter aca-
bado o seu tempo (2), e por D. Diogo de Faro e Souza, tutor do sou
sobrinho menor Francisco Luiz Carneiro, filho de sua irraã, a condessa
da Ilha do Príncipe, ter nomeado para o dito logar três sujeitos para
Sua Magestade escolher um na forma das ordens, por provisão de 3 de
Dezembro de 1666. Tomou posse aos 26 de Janeiro de 1669 ; consta
do livro que serviu na dita camará desde 1654, a fis. 13 cí 14. {^)
6 o— Por provisão de D. Pedro, Príncipe Regente, foi da mesma
sorte confirmado Henrique Roballo Leitão, nomeado por D. Diogo de
Paro como tutor do seu sobrinho, filho da condessa da Ilha, por pro-
visão passada aos 18 de Julho de 1669 ; tomou posse aos 18 de Maio
de 1670. Consta do dito livro, a fls. 23 et 24.
1) Esta ch.ronica está confasa e obscura ; níío deu a data da provisão, nem men
tíonou antes o nome deste João Blau como capitão-mór.
2) E' repetição do § 4.o que se toruou anachronico. Os §§ 4.» e 5.» devem trocar
da logar para se evitar o anochronismo.
3) Esta citação de livros está um pouco confusa porçtue os factos mais recentes
constam de livros mais antigos. O auctor não distingue os livros de refiistros dos li-
vros de vereações e dahi é que vem esta apparente contradicção. X. de R.
— 179 —
7/ — Por provisão do Príncipe D. Pedro foi na mesma forma con-
firmado Luiz Lopes de Carvailio por capitão -mór, nomeado pelo conde
da Ilha do Príncipe por provisão do 28 de Abril de 1677 ; tomou posso
em l.o do Junho do 1679. Consta do livro que serviu na dita ca-
mará desde o anno de 1673, a fls. 36, 37 e 38.
8.0— Provísào do dito D. Pedro, Regente de Portugal, loi da mesma
sorte confirmado Felippe Carneiro de Alcáçova por ter sido nomeado
pelo conde da Ilha do Príncipe pela provisão de 9 de Dezembro do
anno de 1684; tomou posse aos 3 de Junho de 1685. Consta do li-
vro que serviu na camará desde o anno de 1685, a fls. 2 eí 3.
9."— Por provisão do dito D. Pedro, Regente de Portugal, foi da
mesma forma confirmado Miguel Telles da Costa por ter sido nomeado
pelo conde da Ilha, por provisão de 17 de Janeiro do 1701. Consta
do livro que serviu na dita camará desde o anno de 1695, a fls. 33
et 34. Tomou posse no anno de 1702.
10. — Por provisão da senhora D. Catharina, Rainha da Inglaterra,
Escossia, Irlanda e França e infanta de Portugal, como regente no im-
pedimento do Rei D. Pedro (i), foi da mesma sorte confirmado Ma-
noel Gonçalves Ferreira por ter sido nomeado pelo conde da Ilha do
Príncipe por provisão de 28 de Março de 1705. Tomou posse na ca-
mará da Conceição aos 7 de Janeiro de 1706. Consta do livro que
serviu na dita camará desde o anno de 1695, a fls. 44 et 45.
FIM
1) D. Catharina era filha do rei João IV e ii-mã dos reis AiTonso VI e Pedro II;
íoi casada com Carlos II, rei da Inglaterra, Escossia e Irlanda, e giiardou depois de
viuva o titulo de rainha destes paizes. A inclusão da França no seu titulo de rainha é
uma excrescência sem justificação. Voltando a Portugal, foi regente do reino em 1704
—1705 por doença do seu irmão Pedro II.
N. ãa R.
Notas Avulsas
1.»
D. Diogo de Faro e Souza, com auctoridade de seu tutor, D. Af-
fonso de Faro, fez procurador a Jorge Fernandes da Fonseca aos 29
de Novembro de 1651, declarando na provisão que assistiria á medi-
ção da sua capitania, fazendo citar para ella o procurador da coroa,
confrontando as medições peia doação, de que poderia appellar e ag-
gravar, e quo poderia desforçar- se de qualquer violência que lhe hou-
vesse feito o governador do Rio de Janeiro, Salvador de Brito, a
fls. 35
Registro de uma provisão de Rodrigo Homem de Albernaz, pro-
curador do conde da Ilha do Príncipe e de uma provisão de Sua Ma-
gestade, a fls. 12 et 13. — Registro do Quartel do capitão-raór Luiz Lo-
pes de Carvalho, a fls. 39.
2.»
Por carta de 22 de Janeiro de 1698, escripta a Arthur de Sá e
Menezes, separou Sua Magostade do governo geral do Estado do Bra-
zil, que existia na Bahia, a capitania do S. Paulo, ou S. Vicente,
sujeifcando-a ao governo do Rio de Janeiro pela grande distancia que
havia delia á Bahia. Consta do livro que serviu de registro na ca-
mará de S. Vicente desde o anno de 1684, a fls. 98.
3.a
Além das villas que que actualmente existem, houve entre S.
Sebastião e Ubativa a villa de Santo António de Caraguatatiba, co-
mo consta do duas sesmarias registradas no livro 11^ delias, — uma a
fls. 93 e outra a fls, 99, dada a primeira aos 3 de Janeiro de 1;)55
por João Blau, capitão da capitania de N. Senhora da Conceição de
Itanhaen, de que era donatária a condessa de Vimieiro, na qual se
— 181 —
trata a dita villa corao nova, e a segunda aos 22 de Junho de 1666
por Agostinho de Figueiredo, capitão loco tenente do marquez de Cas-
caes.
4.a
Estando injustamente empossado da capitania de S. Vicente, de-
ram posse ao conde da Ilha em virtude de uma provisão de Sua Al-
teza e carta de diligencia do ouvidor geral. Desta posse aggravou o
procurador do conde de Monsanto o alcançou sentença de desforço-
proferida pelo desembargador syndicanto João da Rocha Pitta. Não
apparecem os autos do aggravo e sentença ; porém o sobredito con-
sta de uma carta do 'conde de Monsanto escripta á camará de S. Vi-
cente em 2o de Janeiro de 1382, a qual existe no archivo daquella
camará:
5.»
No livro ll.o do registros da camará de S. Vicente, que princi-
pia na era de liilO, está registrado no principio um regimento ou ca-
pitulo de correição do dr. Sebastião Parvi de Brito, ouvidor geral e
provedor dos defunctos e ausentes e resíduos das capellas da Repar-
tição, no qual determina que, visto ter achado por costume que em
todas as quatro villas, de que constava a capitania de S. Vicente não
se cumprir nellas provisão alguma sem primeiro lhe porem o « cum-
pra-se » na camará de S. Vicente e roglstrar-se nos livros delia»
assim se obversasse e de outro modo se lhes não desse cumprimento,
Os taes capítulos foram asslgnalos em S. Vicente aos 22 de Junho
de 1610.
6.a
Aos 2(5 de Junho de 1611 apresentou Luiz de Freitas uma pro-
visão de D. Luiz de Souza, governador da Repartição do Sul, para
temar posse do governo em nome do seu constituinte, o qual com
effeito tomou posse no tal dia e deu juramento nella.
D. Francisco de Souza trouxe no seu regimento a concessão do
nomear successor por sua morte e elle, estando para morrer em S.
Paulo, ordenou no seu testamento e codlclllo que depois de chegar
este D. Luiz, o qual era seu filho e estava ausente, ficasse governan-
do. — Livro supra.
— 182 —
7.a
Aos 17 do Outubro do 1612 assignou o governador D. Luiz do
Souza uma provisão, cm S. Paulo, na qual diz que por chegar á sua
noticia que muitas pessoas da villa de Santos queriam despovoar a
terra e ir viver no Rio de Janeiro e Ilha Grande, mandava que ne-
nhuma pessoa desta capitania sahisse a morar fora delia o quem o
contrario fizesse fosso preso e embargada a sua fazenda e perdida
para a coroa. — Livro supra (').
3.a
Aos 22 de Janeiro do 1614 o desembargador Maneei Jacome Bra-
vo ordenou, em capitulo do correição, que em todas as villas da ca-
pitania de S. Vicente se não cumprisse patente -provisão, ou esta res-
peitasse a justiça ou fazenda, sem primeiro ser cumprida o registra-
da na camará de S, Vicente, cabeça da capitania, que se não con-
sentisse tirarem Índios de.^^ta capitania por ser contra o foral e que o
capitão desta capitania fizesse descer uma aldeia do Índios para o
Cubatão. — Livro supra.
Acha-se registrada uma provisão do governador geral D. Gaspar
do Souza, passada em Olinda aos 10 de Janeiro do 1614, ao desem-
bargador Manoel Jacome Bravo, na qual, em razão do ter noticia que
var as pessoas desta capitania vão ás terras o aldeias dos gentios e
Índios Carijós resgatar com elles e os captivam, lhe manda que tire
devassa a esto respeito e proceda contra os culpados, e que todos os
annos na devassa do Janeiro se pergunte pelos culpados neste crime.
— Livro supra.
1) Aqui traz o manuscripto a seguinte importante nota :
«Contra esta provisão protestaram o povo e a camará de S. Vicente aos 2 de No-
vembro do dito anno, com o fundamento de serem livres e po lerem ir viver com suas
mulheres e filhos onde melhor òs pudessem sustentar, porquanto nesta terra o não po-
diam fazer por lhes prohibir o dito governador, com penas, que não pudessem procora-
seu remédio, e outi"o sim com excommunhões não podiam os moradores ir aos resga-
tes. Consta do accordam da camará do dito dia.»
N. ãa R.
- isn —
lO.a
Por provisíio passada cm Olinda em 39 do Maio de 1614 publi-
cou o governador geral, Gaspar do Sousa, o capitulo de uma carta de
Sua Magestado, escripta ao governador antecedente com data de 16
de Outubro do 1609, pelo qual proliibia fundar-se conventos de qual-
quer ordem sem sua licença.— Livro supra.
11 .a
Por uma provisão do governador geral D. Luiz do Souza, passa-
da em Olinda aos 27 de Setembro de 1618, se pruhibiu a extracção
de índios da capitania de S. Vicente para se evitar a devassidão com
•que se tiravam e o ficarem captivos os mais delles, o por serem ne-
cessários na capitania de S. Vicente pela pobreza dos moradores e
para trabalharem no beneficio das minas da dita capitania. — Livro 12.
12.a
Aos 2 de Janeiro do 1619 se cumpriu e registrou na camará de
S. Vicente um alvará de Sua Magestade, assignado em Madrid aos
22 de Fevereiro de 1618, pelo qual nomeou a Mart m de Sá para de-
fender a costa do Brazil, das capitanias do Sul, dos inimigos o acau-
telar as piratarias o desembarques, que tinham feito os inimigos nos
annos antecedentes ; que se não fortificassem em porto algum, re-
commendando- se-lhe muito Cabo Frio, para o que poderia fazer desce-
rem aldeias do índios para a marinha ; que de duas delias seriam ca-
pitães os índios christãos Manoel de Souza e Amador do Souza, para
o que se lhes passariam provisões e se pediriam ao principal da Com-
panhia dois religiosos para assistirem nas ditas aldeias ; que os capi-
tães das ditas capitanias do Sul assistissem a Martim de Sá cora em-
barcações e o mais de que precisasse para a defensão da costa, e
que elle ficaria subordinado ao governador geral tão somente, o qual
também lhe assistiria de sua parte com o necessário para defender a
costa. — Livro 12 citado,
13.»
Aos 2 de Janeiro de 1619 se cumpriu e registrou uma provisão
do governador geral Gaspar de Souza, passada em Olinda aos 10 do
- 184 —
Outubro de 1618, pela qual mandava ao desembargador Antão de Mes-
quita de Oliveira, desembargador dos Aggravos da Relação do Sul,
que andava em diligencias nas capitanias do Sul, que na de S.
Vicente tirasse residência aos capitães que haviam servido nos déz
annos precedentes, perguntando especialmente ?oLre n aterias do ser-
tão pelo escândalo e devassidão que delias tinham resultado. Orde-
nou que, no caso de estar a capitania governada pelo donatário, le-
levasse o desembargador 12^000 por dia e o seu escrivão 6^000 á
custa da fazenda do donatário {1).— Livro citado.
14.-
Aos 29 de Junho de 1619 registrou se uma provisão do capitão-
mór Gonçalo Corrêa de Sá, datada em S. Paulo aos 25 de Junho do
dito ann(*, na qual ordenou a Sebastião Fernandes Corrêa (2) que
fosse no navio S. Boaventura aos Patos tomar um navio que sahira
do Rio de Janeiro sem estar para ir resgatar aos Patos mandou
prender toda a gente e que não deixasse branco algum nos Fatos.
15.-
Depois deste registro acha-se cutro de uma provisão, da qual
não se sabe a data por faltar folha, pela quhl D. Luiz de Souza
governador geral do Estado, lefeie-se á iníoiraação que teve da ca-
mará de S. Vicente da licença a Pedro de Cáceres para que pudesse
ir povoar o rio de S. Francisco e a ilha de Santa Catharina, com
declaração que não poderia obrigar os Índios a trabalhar no seu ser-
viço, nem servir-se delies sem lhes pagar o seu estipendio. A infor-
mação da camará para esse fim foi dada aos 13 de Julho do 1619.
1) Estes salários para o tempo eram exorbitantes, pois a moeda de entSo valia tal-
vez qnarenta vezes mais do que a de hoje e 12$000 daqaelle tempo valeriam hoje mais
de 400ig000: mas era á cnsta do donatário e não da Fazendo Real!...
2) Foi provedor da Fazenda Real e sogro de D. Simão de Teledo Piza, fundador
da família deste nome, e avô do capitão-mór D. Simão de Toledo Piza, citado acima com
o D,o 60.
N. da R.
-^ 185 -
Aos O de Julho do 1620 loi registrada a carta pela qual Sua Ma-
gestade nomeou a Amâncio Rebello ouvidor geral das três capitanias
do Sul, assignada aos 29 de Maio de 1619. — Livro citado.
Aos 7 do dito moz de Julho de 1620 se registrou um alvará de
D. Felippe, passado aos 20 de Agosto de 1619, no qual determinava
que, além da alçada e regimento que tinham os corregedores das
comarcas, usasse mais do r3giraento seguinte, etc. — Livro citado.
I8.a
Aos 8 de Julho do dito anno registrou-se outro alvará de regi-
mento do mosmo ouvidor (1), passado em Lisboa aos 5 de Junho de
1619. Os capitules mais notáveis deste regimento são os seguintes:
a) — Tirará devassa aos culpados em fazer entradas ao sertão e
Patos a resgatar gentios.
b) — Sendo o dito ouvidor doente ou impedido de maneira que por
si não possa servir o dito cargo, poderá o capitão nomear outro que
sirva em<|uanto durar o tal impedimento, e fallecendo o dito ouvidor
servirá a pessoa pelo dito capitão nomeada até o governador geral do
Estado prover a dita serventia, e serão obrigados os ditos capitão e
governador a me avisar por viés do falleciraento do dito ouvidor nos
primeiros navios que partirem para este reino.
c) — Era ausência do capitão poderá prover as serventias dos offi-
cios, avisando logo da sua vacatura para eu prover as propriedades.
•—Livro citado.
19.0
O ouvidor geral Amâncio Rebello Coelho, em correição na villa
de S. Vicente, ordenou aos 9 de Setembro de 1620 que se não deixas-
1) o alvará era do rei Felippe e continha o regimento para nso do ouvdor, e
como ouvidor e corregedor são a mesma pessoa aqui se diz do mesmo ouvidor, que é equi-
valente a do mesmo corregedor. Fazemos algumas destas notas para não se suppor que
houve erro de copia.
N. da R.
- 186 -
sem sahir os moi adores da villa de S. Vicente para povoarem outras
torras debaixo da pena de 200 cruzados e degredo para o Elo Grande
até Sua Magestade mandar o contrario. — Livro citado.
20.a
Aos U df» Novembro de 1620 mandou a camará cumprir o Alva-
rá do 22 de Fevereiro do 1618, pelo qual Sua Magestade nomeou a
Martim Corrêa do Sá por capitão-mór da capitania do S. Vicente por
três annos, se tanto durasse o litigio pendente entro os donatários.
— Livro supra.
21. a
Aos 30 de Março do 1523 requereram os officiaes da camará da
villa do S. Vicente a ^vlanoel Rodrigues de Moraes, procurador do
conde do Monsanto, fundidos na utilidade da capitania o nos reque-
rimentos das mais villas delia, feitos a Martim de Sá, capitão-raór
da capitania, que porquanto elle Martim do Sá tinha feito descer,
por ordem que dizia ter do El-Roi certa copia do gente da Laguna
e villa de Santa Catharina, que orara dos limites desta capitania,
nossos comarcãos, amigos e companheiros, mandasse fornecer com o
dito gentio essas barras e portos para defensa delles, porque não ti-
nham outra ; e do contrario elles protestavam a elle capitão todo o
prejuízo que pudesse haver nesta capitania no caso de a mvadirem
os inimigos.
22.''
Pelo requerimento que Manoel Rodrigues de Moraes fez á cama-
rá aos 28 de Março de 1622, consta que esse capitão gentio não íi-
cou na capitania, e que o Martim de Sá o mandou para outra parte. —
Livro citado.
23.a
No 1.0 de Maio de 1622 se cumpriu e registrou na camará de
S. Vicente uma provisão de Martim de Sá, superintendente nas ma-
térias de guerra na costa do Sul, administrador geral no tocante ás
minas, e capitão-mór de Cabo Frio e da capitania de S. Vicentcs,
passada na cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro aos 9 de Abril
- 187 -
fio 1622, pela qual proveu a Fernando Vioiía Tavares era capitão da
capitania de S. Vicente eraquanto durasse a sua ausência, sem em-
bargo da provisão que havia deixado a Pêro Cubas, c o serviria jun-
tamente com o logar de ouvidor da dita capitania em que esta\a
provido pelo governador geral. — Livro sujara.
24.a
Aos 22 de Outubro de 162.2 se deu posse em S. Vicente a João
de Moura Fogaça — Ibidem
25.»
Aos 30 de Outubro de 1622 se cumpriu a provisão do governa-
dor geral Diogo de Mendonça, passada na Bahia aos 16 de Setembro
de 1622, pela qual levantavam as homenagens que pela capitania de S.
Vicente haviam feito Martim do Sá e Fernão Vieira Tavares por ter
feito homenagem pela mesma o capitão João de Moura Fogaça — Ibi
20."
Aos 31 de Janeiro de 1627 se cumpriu e registrou nraa provi-
são de Álvaro Luiz do Valle, capitão-môr da capitania do S. Vicente
pelo condo de Monsanto, na qual nomeou alcaide- mór da capitania
aos 24 de Julho de 1626 a Lucas Rodrigues de Córdova, excluindo
a Fedro Cubas que servia este posto por nomeação de Lopo de
Souza. — Ibi ...
27.»
Aos 14 de Abril de 1639 se cumpriu em camará e registrou-se
uma provisão de Salvador Corrêa de Sá e Benevides, passada no Rio
do Janeiro aos 18 de Março do dito anno, na qual vinha ircorporada
outra do conde da Torre, D. Fernando Mascarenhas, governador ge-
ral do Estado, passada na Bahia aos 3 de Fevereiro do dito anno,
em que o governador geral determinava ao dito Salvador Corrêa que,
pela razão de se ter entendido que os filhos da terra eram de gran-
de effeito e utilidade nas facções militares por terem mais uso e ex-
periência nas entradas do sertão, e ter noticia que nas capitanias do
Rio de Janeiro, S. Vicente e S. Paulo se podiam levantar ató 30O
homens, os mandava alistar, perdoava aos criminosos que não tives-
— 188 —
sem parto, menos os de crime de lesa-raagestade divina ou humana,
sodomia e moeda falsa, e perdoava degredos, alistando-se com pro-
messas de grandes prémios de Sua Magestade de serem seguros, fin-
da a guerra, e de se lhes fazer mercê dos officios de justiça ou fa-
zenda, que nelles coubebsem. Para alistar essa gente na capitania de
S. Vicente mandou Salvador Corrêa pela dita provisão ao capitão
D. Francisco Rendou de Quevedo (1), e na mesma determinava que
aas Índios desta capitania que quizessem ir á dita guerra os deixas-
sem ir livremente.— JCm-o 13.
Íí8.a
Nos seus Apontamentos diz o dr. juiz de fora que Pedro Lopes,
donatário das 50 léguas, era morto aos (2) de 1547, conforme
a escriptura de doação de terras feita por Jorge Ferreira e sua mu-
lher, na qual escriptura se diz que era donatário Martim Affonso,
filho de Pedro Lopes.
Diz o mesmo dr. que Lopo de Souza, terceiro donatário de S.
Vicente, morrera aos lõ de Oiitubrj de 1610.
29.a
Jacques Felix, condestavel da fortaleza da Bertioga, era flamen-
go segundo consta de uma escriptura lavrada aos 20 de Dezembro
de 1600, que se acha na archivo do Carmo. Este foi pao de outro
Jacques Felix, a quem o capitão Balthazar de Seixas Rebello aos 30
de Junho de 1616 concedeu uma sesmaria para fazer um moinho.
Era nesse tempo morador em Santos e a sesmaria está no livro 3.»,
a fls. 99.
30.«
De uma sesmaria concedida por Gonçalo Corrêa de Sá, aos 30
de Abril de 1619, a João de Barcellos e Paschoal de Barcellos, cons-
1) Fidalgo hespanhol residente em S. Paulo e aqui casado com Aana da Ribeira,
filha de Amador Bueno da Ribeirar— o acclamado.
2) O logar da data do mez está em branco no manuscripto.
3) André Fernandes foi o fundador de Parnabyba, Balthazar Fernandes fuhdou
Sorocaba e Domingos Fernaudes fundou Ytú; todos três eram filhos de Manoel Fernan-
des Ramos, fidalgo portuguez, e de Suzana Dias, neta de João Ramalho e bisneta de
Tebiriça. N. da R.
I
- 189 -
ta que Iguape nesso terapo era povoação. Vem a sesmaria no livro
4.0, a íis. 11.
De outra sesmaria, concedida a Manoel Peixoto polo mesmo ca-
pitão aos 4 de Maio do mesvuo anno, consta ser villa no anno de
1612 e que o dito Manei Peixoto fora povoador delia. Consta do
dito livro, a fls. 17 et sequcntibus. Este apontamento é do dr. juiz do
fora; porem, houve engano em alguma destas datas porque se fôra
villa em lbl2 não estaria na inferior classe de povoação muito de-
pois, era 1619.
31 a
Parnahyba, sendo ainda do termo de S. Paulo, irincipiava a po-
voar-se no anno de 1629. O descobrimento de minas ciiamou para
aquelle logar muitos povoadores. André Fernandes {^) pediu sesmaria
allegando (pie era lavrador de posses, que andava em serviços de
Sua Magostade no descobrimento das minas e que tinha necessidade
de terras junto a ellas. Concederam-lhe duas léguas aos 23 de Se-
tembro de l6l^. Balthazar Fernandes, allegando os mesmos serviços,
pediu no ineamo logar uma légua, que se lhe concedeu no mesmo
dia e anno. Clemente Álvaro, pelas mesmas e idênticas razões, pe-
diu no dito logar, junto as minas, sesmaria em Bituruna, aguas ver-
tentes para o rio Anhemby, e lhe concederam duas léguas aos 23 de
Setembro do dito anno. Todas estas sesmarias foram concedidas por
Gonçalo Corroa e fazem já menção de alguns moradores no dito lo-
gar. As minas eram de Bituruna e acham-se as sesmarias registra-
das no livro 4.0, desde fls. 24, 28 até 80.
32.a
Martim do Sá e filhos, Salvador Corrêa de Sá e Benevides e D.
Felícia de Benevides de Mendonça, e assim João... {^) ... e Diogo
Martins, Índios com seus parentes, que Sua Magestade mandara ajpre-
1) André Fernandes foi o fundador de Parnahyba, Balthazar Fernandes fundou So-
rocaba e Domingos Fernandes fundou Ytú ; todos três eram filhos de Manool Fernandes
Ramos, fidalgo portuguez, e de Suzana Dias, neta de João Ramalho e bisneta de Te-
biriçá.
2; Está estragado o resto do nome. N, da R,
— 190 —
sentar ondo estavam, pecUrara do sesmaria, para fazerem engenhos,
as terras de luna, começando onde acabam as dos padres da Com-
panhia, correndo pela costa adeante para o Sul a entestar com a
ponta de Mangaratiba, que está defronto de uma ilha, com todas as
aguas, campos o sertão da dita data ; a qual lhes concedeu o capitão
de S. Vicente Gonçalo Corroa de Sá aos 4 de Janeiro do 16.20 e se
acha registrada no livro 4.^, a fls. 35. O mesmo capitão concedeu a
Martim de Sá outra sesmaria, no dito dia e anno, de duas léguas»
nos campos de Itaqiiitá ou Quaquitá.—Lívro citado, a fls. 37.
33.a
Da villa de San'a-Anna de Mogy foi povoador Gaspar Vaz e da
dita villa para a Bertioga havia caminho (^). Tudo consta de uma
sesmaria concedida por Álvaro Luiz do Valie, capitão do condo de
Monsanto, ao padre Gaspar Sanches, vigário da dita villa, aos 9 do
Novembro de 16'25, a qual se a"ha registrada no livro tí.«, a fls. 38.
Que Gaspar Vaz povoou esta villa consta por outra sesmaria
concedida ao mesmo pelo dito capitão, na qual este confessa ter elle
sido o primeiro povoador delia, e por este serviço lhe deu de sesma-
ria as terras que pedia aos 8 do Outubro do lo25, a qual se acha
registrada no livro 7.o, a fls. 9.
34.
D. Martha Borges, Martim Corrêa Vasqueanes o Salvado r Corrêa
Vasques, mulher e filhos que ficaram do governador Duarte Corrêa
Vasqueanes, o qual em sua vida antes do seu fallecimento, fez consi-
deráveis serviços a Sua Magestado com grande dispêndio de sua fa-
zenda por muitos annos, assim na cpitania do Rio de Janeiro, muito
antes de a governar, como na capitania de S. Vicente, sendo nella
capitão, ouvidor r3 provedor das minas, e seus avós foram os primei-
ros conquistadores e povoadores destas capitanias, pediram por esta
razão a António do Aguiar Barriga, sesmeiro e procurador do mar-
1) Esta viila de Santa Annn ãe Mog^j é a cidade de Mogy das Cruzes ds hoje. O
que so segue a seu respeito não está de accordo com o que diz Azevedo Marques nos
seus Apontamentos Históricos, baseado em outros documentes. N. da R.
— 191 —
quez de Cascaes na capitania do S. Vicente, 10 léguas de terras de
sesmaria, por costa desde a barra da villa de Paranaguá para o sul
e pelo sertão dentro por linha direita do uma e outra parte até en-
testar com a demarcação dos castelhanos, e sendo dadas algumas das
ditas terras correriam da ultima demarcação para deante, as quaes
lhos concedeu o dito capitão por sesmaria passada aos 3 do Outubro
de 1658 e registrada no livro 12, a fls 26.
35.a
Aos mesmos implorantes supra foram dadas por Jeronymo Lei-
tão (1), capitão-raór de S. Vicente e provedor da Faaenda Real e Al-
fandega, 30 léguas de terra por costa, começando onde acabam as
capitanias do conde de Monsanto o condessa de Vimieiro, para o sul
e pelo sertão dentro por linha direita, por uma e outra parte, até
entestar com os castelhanos, e sendo algumas terras dadas principia-
ram as ditas 30 léguas da ultima data até se preencherem, cuja ses-
maria foi concedida aos 23 de Outubro de 1658 e registrada no dito
livro, a fls. 28.
36.a
D. Francisco Eendon de Quevedo, aos 7 do Setembro de 1665,
allegou, para se lhe conceder uraa sesmaria, que havia quarenta an-
nos que tinha vindo ao Estado do Brazil, servindo de soldado com
três escudos de vantagem cada mez, além de sua praça ordinária, na
armada de que fora general D. Fradiquo de Toledo Osório, que res-
taurou a cidade da Bahia occupada pelos hollandezes, em cuja res-
tam ação se achava, que depois se passara á villa de S. Paulo, onde
se casou, e como soldado o capitão de ordenança, que fora alguns
annos, procedera com inteira satisfacção dos seus maiores e que ulti-
mamente levantara uma companhia a sua custa para a restauração
de Pernambuco, e que agora vivia na villa de Angra dos Reis, pedia
terras por traz da serra em cujas fraldas está o engenho de Itacii-
1) Aqui traz o manuscripto esta nota •
«Falta à palavra Pantoja, porque nesse aiino eracapitão-mór Jeronymo Pantoja Lei-
tão» .
- 192 -
ruça, quo foi do general Salvador Corrêa de Sá e Benevides o ao
presente era de seu irmão D. José Rendon de Quevedo (i). Dea-
lh'a João Bláu, capitão-raór da Conceição (^} pela condessa de Vi-
mieiro, aos 7 de Setembro de 1665. — Livro l2.o de Sesmarias, a
fls. 84.
37.«
A villa de N. Senhora da Conceição do Parahyha {^) é tratada
como villa era uma sesmaria concedida por Diogo Pinto do Rego, aos
28 de Fevereiro de 1680, a Bartholoraeu Bueno Cacunda, a qual se
acha registrada no livro 13.°, a fls. 111.
Pindamonhangaba intitulava se villa aos 22 de Abril de 1713*
Consta de uma sesmaria concedida por Domingos Martins da Guerra,
sargento-mór da capitania da Conceição, procurador geral e sesmeiro
do conde donatário, a Manoel da Costa Leme e outros, a qual se
acha registrada no livro 14.o, a íls. 28. Esta villa era somente fre-
guezia aos 11 de Fevereiro de 1704, segundo consta de uma sesmaria
dada por Miguel Telles da Costa, capitão e loco-tenente da Conceição
pelo conde da Ilha, no mesmo dia, a Domingos Velho Cabral, par-
tindo as terras com seu irmão António Cabral da Silva.— íúto 14,^»
fls. 35.— Rodrigo César de Menezes (*) a trata por villa em uma ses-
maria dada aos 10 de Janeiro de 1724 —Livro 14.o, fls. 54.
38.0
Aos 8 de Março de 1771, encontrando a expedição que comman-
dava o capitão Francisco Lopes da Silva na barra do rio a que dou
1) Eram quatro irmãos, João Matheus Rendon, Francisco Rendon de Quevedo;
Pedro Matheus Rendon e José Rendon de Qrrevedo ; os primeiros três vieram na armada
de D. Fradique , os primeiros dois vieram se casar em 8. Paulo com fllíias do Amador
Bueno .
2) A capitania primitiva de Martim Affonso compunha-se de duas partes, uma de
S. Vicente para o sul até além de Cananea e outra do rio Jaqueryqueré, em S. Sebas-
tião, para o norte até Macahé ; a villa da Conceição de Itanhaen era a cabeça dessa ca-
pitania em 166Õ e daM vinha o capitão-mór João Bláu conceder sesmarias na costa aa
norte de S. Sebastião.
3) Hoje cidade de Jacarehy, sobre a margem direita do rio Parahyba.
4) Capitão-general de S. Paulo de 1721 a 1727. N. rfa R.
— 193 —
o nome de Mourão (^), umas bananeiras e larangeiras, persuadiu se
que aquelle era o sitio onde existira aulguma das povoações caste-
lhanas destruidas pelos paulistas e, procurando vestígios de povoado,
achou- os a 10 de Março do dito anno ; e por julgar que as ruinas
eram da Villa Rica destruída pelo referidos paulistas, fez alli um pe-
queno estabelecimento com o nome de Villa Bica.
39.a
A freguezia de N. Senhora da Esperança de Capivaruçú teve
principio aos 21 de Julho de 1774, dia em que principiou a exercitar
as funcções de parocho o padre Pr. José de Santa Brígida, religioso
capucho da província de N. Senhora da Conceição do Rio de Janeiro
com provisão do diocesano de S. Paulo (^j.
40.»
S. Luiz de Guaratuba se levantou em villa aos 30 de Abril de
1771, na presença do tenento-coronel Affonso Botelho de Sampaio e
Souza, do ouvidor de Paranaguá, do capitão-mór e ofíiciaes da dita
villa e da camará do Rio de S. Francisco. No termo desta villa se
erigiu a Villa Nova {^).
41.a
A freguezia de Santos, a qual comprehende a villa e seu termo,
tinha, no anno de 1783, pessoas de confissão e communhão de toda
casta de gente — 3 1 23 pessoas ; a de S . Vicente— 726, a da Conceição
1) Pequeno affluente da margem esquerda do rio Ivahy. Eram as ruinas de Villa
Rica, destruída pelos paulistas de António Raposo nos annos de 1629 — 32 ; vide Explora-
ção do Tihagy, no vol. IV do Archivo do Estado de S. Paulo, e vol. IX, pags. 92 e se-
guintes. Azevedo Marques confunde esta Villa Rica, do hoje Estado do Paraná, com
outra Villa Rica, no Paragnay.
2) Este bispo diocesano foi Fr. Manoel da Resurreição, que governou o bispado de
1774 a 1789.
3) Villa Nova do Príncipe, lioje Lapa, fundada no interior do território de Guara-
tuba, que flca na costa. N. da R'
-- 194 -
de Itanhaem — I0'3o o a aldeia do S. doão, entre grandes e pequenos
—207 {!}.
42. a
Roquo Barreto, capitão e ouvidor da capitania do S. Vicente por
Lopo de Souza, estando em Cananóa, passou uma provisão, dada na
villa do Cananóa aos 13 do Julho de 1600 o nella diz: <Que achan-
do-se na povoação do S. João de Cananéa c sendo necessário levan-
tar nella pelourinlio e insígnias de villa, e não levando era sua com-
panhia, escrivão para fazer as ditas diligencias, provia no officio de
escrivão a Francisco Viegas para o dito effeito o para escrivão das
datas {-) declarou que passava a provisão de sua mão por não haver
escrivão c que dera juramento ao dito Francisco Viegas para esse
efifeito de fazer a villa que bom e íiolmento íizesso seu ofíicio>, e que
este assignára com clle aos 13 do dito mez. Abaixo vera um despa-
cho que diz : Registre-se esta provisão no livro dos Registros desta
camará, hoje 30 de Setembro de IQOO.— António Pedroso — António
Afonso— João Caldas.*
43.a
Piogo de Mendonça Fnrtado, por uma provisão, passada na Ba-
hia aos 3 3 de Setembro de 163:2, levantou a homenagem a Martim de
Sá e a Fernão Vieira Tavares ; diz assim : «Fa^o saber a Martim de
Sá, fidalgo da casa de Sua Magostade, capitão-mór que foi da capita-
nia de S. Vicente, o a Fernão Vieira Tavares, que hoje está servindo
os ditos cargos, que eu provi agora nelles a João do Moura Fogaça
para que sirva por o tempo de tros aunos, de que lhe passei provi-
são, e porque fez homenagem e preito pela dita capitania e pelos
castellos e fortalezas delia a Sua Magestade em minhas mãos, por
esta hei por levantada a que os ditos Martim de Sá e Fernão Vieira
Tavares prestaram pela dita capitania, castellos c fortalezas e os hei
por desobrigados. Esta se trasladará ..., etc.>
1) S. João áe Peruhybe, pequena povoação na costa, cerca de CG kilometros ao sul
de Itanhaen, a, cujo município pertence ainda hoje.
2) Datas de torras ou sesmarias.
N. da. R.
- 195 -
Os doze primeiros capitães-móres de S. Vicente foram : '})
1 Gonçalo Monteiro — vigário da parochia
2 António da Oliveira — duas vezes
3 Christovam de Aguiar do Altero
4 Braz Cubas — duas vezes
5 Jorge Ferreira — duas vozes
6 Francisco de Moraes Barreto
7 Pedro Collaço
8 Pedro Ferraz Barreto
9 Jeronymo Leitão
10 Jorge Corrêa
11 Roque Barroto (2)
A António Pedroso de Barros
( Pedro Vaz de Barros (•^)
I
1) Esta lista é também cie Fr. Gaspar e abrangs os capitães mores de S. Vicente
até o anno de 1603.
2) Antes de Rogue Barreto Iiouve um outro capitão-mór de nome João Pereira do
Souza; porém, como este Joáo Pereira fora nomeado pelo governador geral do Brasil
D. Francisco de Souza, não é aqui considerado porque a lista é dos capitães-mores no-
meados pelos donatários. Vide §§ 14 e 15 da primeira lista
3) l^idalgos portuguezes, com enorme descendência que figura em S. Paulo até
iioje, eram irmãos e figuram como um só capitão-mór porque foram nomeados por uma.
só provisão, que estabelecia que qualquer delles serviria na falta do outro.
{K da E.)
A primeira phase da questão de limites
entre S. Paulo e Minas Geraes
Na collecção de documentos relativos á secular questão de limi-
tes entre S. Paulo e Minas Geraes que, de combinação com o dr.
António Piza, organizei, em 1896, para o volume XI da série cDocu-
mentos interessantes para a historia e costumes de S. Paulo» que
©stá sendo publicada pelo Archivo do Estado, vêm muito incompletos
os que se referem ao começo do conflicto nos annos anteriores a 1748,
quando a Provisão Régia de 9 de Maio veiu alterar completamente os
termos da questão. Ultimamente vieram-rae ás mãos vários docu-
mentos que escaparam á busca feita naquella occasião, e que escla-
recem alguns pontos que ficaram obscuros no resumo histórico quo
então fiz dos acontecimentos dessa épocha.
Sendo de bastante interesse histórico as origens deste conflicto,
parece conveniente apresentar ao Instituto Histórico estes documentos
como additamento aos já publicados no referido volume XI do Ar-
chivo, referentes aos pontos essenciaes da historia.
Nesta nova série de documentos avulta pela importância um que
já foi publicado em 1865 no Almanack administrativo, Civil e Indtis-
trial da 'provinda de Minas Geraes, Devemos, o dr. Piza e eu, o
conhecimento deste documento a uma obsequiosa carta do distincto
investigador da historia mineira, o dr. Francisco Lobo Leite Pereira.
A circurastancia de haver este documento também escapado á attenção
dos defensores, tanto modernos como antigos, dos direitos mineiros, *
(*) Depois da leitura deste trabalho perante o Instituto Histórico soube que o refe-
rido documento tinha sido reproduzido e devidamente apreciado no Almanaak de Muni-
cípio de; Campanha correspondente ao anno de 1900,
- 197 —
nos collocará, espero eu, a coberto de qualquer suspeita de suppressáo
proposital. Os outros documentos foram encontrados num maço do
papeis avulsos referentes a outro assumpto, e que por esto motivo
nâo foi examinado na occa«ião da busca.
Quando nos últimos annos do século XVII houve o rws/i (para em-
pregar o expressivo termo inglez consagrado a este typo de movi-
mento) para as minas de ouro então denominadas «de Cataguazes», a
ultima villa organizada na única estrada que dava accesso á região
era Guaratinguetá, e, nominalmente pelo menos, as novas povoações
creadas deviam pertencer á sua jurisdicção . As primeiras villas crea-
das no novo território, Ribeirão do Carmo, Villa Rica e Sabará era
1711, e S. João d'Bl-Rei em Dezembro de 1713, não tiveram, ao que
parece, limites marcados na occasião da sua creação. A 6 de Abril
de 1714 reuniram-se, por ordem do governador d. Braz Balthazar da
Silveira, os procuradores das quatro villas mencionadas para trata-
rem deste assumpto, sendo lavrado o termo seguinte :
«Aos 6 dias deste mez de Abril do anno de 1714, nas casas em que
está a secretaria deste governo se achavam presentes os procuradores
das camarás de Villa Rica e Villa Real, e desta de N. S. do Carmo,
por lhes ordenar o exrao. sr. D. Braz Balthazar da Silveira, governa-
dor e capitão general deste estado, viessem a esta secretaria conferir
e ajustar a repartição das terras que devem tocar a cada uma das
três comarcas, e porque entre os ditos procuradores poderia haver
duvidas que impedissem a conclusão do ajuste, resolveu o mesmo sr.
governador e capitão general que o sargento mór engenheiro Pedro
Gomes Chaves e o capitão mór Pedro Frazão de Brito assistissem a
elle para que, pelas noticias que ambos têm da situação e distancia
das comarcas, desfizessem as duvidas que se offerei-cssem entre os
ditos procuradores, e porque o da camará da ViUa de S. João d'Bl-Rei,
cabeça da comarca do mesmo nome, não assistiu, sem embargo de se
lhe haver feito aviso de ordem do dito sr. para que viesse, e ser
muito conveniente ao serviço de S. M . i> conveniência de sua real fa-
zenda que a repartição das comarcas se fizesse com á maior brevida-
de para se principiar logo em cada uma a diligencia da cobrança das
30 arrobas de ouro que os povos destas minas prometteram a S. M.
pelos quintos deste primeiro anno, resolveu o exmo. sr. general quo
- 198 —
Tisto a camará da Villa de S. João d'El-Rei nao haver mandado pro-
curador a tempo opportuno, como se lhe avisou, e ser mui prejudi-
cial toda demora nesta repartição pelos motivos acima considerados, os
^procuradores presentes repartissem á dita comarca as terras que lhe
deviam tocar: e sendo por todos conferido e debatidas as repartições
das três comarcas, e referido por parte de cada um dos procuradores
as razões que se lhe ofiereceram, se ajustou unanimente entre elles
cue a comarca da Villa Rica se dividirá daqui em deante da de Villa
Eeal, indo pela estrada de Matto Dentro, pelo ribeiro que desce da
Ponta do Morro, entre o sitio do capitão António Ferreira Pinto e o
do capitão António Corrêa Sardinha, e faz barra no ribeiro de S.
Prancisco, ficando a egreja das Catas Altas para a villa do Carmo, e
pela parte da Itabira se fará divisão no mais alto do morro delia, e
tudo que pertence aguas vertentes para a parte do sul tocará á dita
comarca de Villa Rica e para a parte do norte tocará á comarca de
Villa Real ; o ribeiro das Congonhas junto do qual está um sitio cha-
mado Casa Branca servirá de divisão entre as comarcas de Villa Rica
e de S. João d'El-Rei, devendo tocar a Villa Rica tudo que se com-
prehende até ella, vindo do dito ribeiro para as Minas Geraes, e do
mesmo pertencerá á comarca de São João d'El-Rei tudo o que vae
até a villa do mesmo nome, a qual so dividirá com a villa de Gua-
ratinguetá pela serra da Mantiqueira, e nesta conformidade se ajus-
taram as repartições das comarcas pelos ditos procuradores a contento
deiles por entenderem que nestas repartições se destinou a cada co-
marca as terras que se justamente lhe deviam tocar, por haverem
procedido ás mais certas informações e ás consideiações necessárias
para o acerto do ajuste. E os procuradores se obrigaram e obrigam
por este termo que abaixo assignaram em nome das camarás que os
constituíram a que ellas e os oíFiciaes que nolla succederem para o
futuro não contravirão ao referido ajuste, antes o reputarão por va-
lioso, e como tal darão inteiro cumprimento ao que nelle se conven-
cionou, e de como assim convieram e se ajustaram eu Manoel de Aífon-
seca secretario deste governo fiz este termo por ordem do exrao. sr.
general, que assigno junctamente com os ditos procuradores e dois
assistentes. — Braz Bàlthasar da Silveira — O secretario Manoel de Âf-
fonseca—Frei António Martins Lessa—BajpTiaél da Silva e Souza—An-
— 199 —
torno M'nães Teixeira— Manoel da Silva Miranda — S. Mór Fedro Go-
mes Chaves— S. Mór Pedro Frazão de Brito» .
O que interessa a São Paulo neste termo é a fixação do limite
entro São João d'El-Rei e Guaratingiietá pela Serra da Mantiqueira,
visto que cora a creação da Capitania do Minas Gcraes, em 1720, a
divisa entre o território destas duas villas fleou sendo nesta parto a
das duas Capitanias. Ainda que o procurador da villa de São João
à'Bl-Rei não comparecesse á reunião e, ao que parece, o de Guara-
tinguetá nera_citado fosse, este termo, tendo recebido a assignatura
do governador, '3ra ura acto perfeitamente acabado e legal. Não cons-
ta si foi ou não communicado á camará de Guaratinguctá, senda
porém de presumir que não, visto como poucos raezes depois, em Se-
tembro do 1714, praticou ella ura acto visivelmente nullo, isto é,
um auto do posse no morro de Caxambu, algumas léguas dentro do
limite estabelecido pelo termo de Villa Rica (ArcMvo, vol. Xí, p. 5).
A camará do São João d'El-Roi era epocha indeterminada, mas pro-
suraivelraente pouco tem.po depois deste auto, destruiu o raarco no mor-
ro de Caxarabií e collocou outro no alto da serra da Mantiqueira. B*
para notar que sendo mais tarde accusada pelos paulistas de ter as-
sim procedido ob e subrepticiamente, a camará de São João d'Bl-Rei,
pelo menos nos document 'S á mão, não tratou de se defender cora a
citação do termo de Villa Rica, com o que podia ter dado uma res-
posta cabal. E' de suspeitar que, quando uns 30 anncs depois houvo
discussão sobre o assumpto, a própria existência deste documento ti-
vesse ficado esquecida. Que esta liypothesenã) é tão improvável como
á primeira vista parece, fica provado com o exemplo do auto do pos-
se da comarca de Guaratinguctá que custou a apparecer quando, era
174J, houve occasião de cilal-o [Arclnvo, Vol XI, p. 17).
Ao que parece, não hou^e durante alguns annoa questão seria
entre Guaratinguetá e São João d'El-Rei a respeito do limite que
permaneceu determinado na única via de comraunicação entre as duas
villas pelo raarco collocado pela caraara de São João d'El-Rci na gar-
ganta da serra da Mantiqueira, onde hoje passa a estrada de f.rro
Minas e Rio. A camará de Guaratinguetá ainda ambicionava o territó-
rio até ao morro de Caxambu, e, era 1731 obteve por meio do uma
representação do governador António da Silva Caldeira Pimentel uraa
— 200 —
parcial satisfacçâo dos seus desejos na expedição da Provisão Regia
de 23 de Fevereiro de 1731 [Archivo, Vol. XI, pag. 7) mandando re-
partir com mais egualdade o território entre as duas villas. Com re-
ferencia a isto, porem, nada consta além do convite para entiar num
accôrdo dirigido pelo governador de S. Paulo ao de Minas Geraes
{Archivo, XI, p. 8).
Neste tempo e por alguns annos dopois o território ao lado da
estrada estava completamente despovoado e desprezado, e a única coisa
que poderia servir de assumpto de uma contenda era a posse de alguns
ranchos á beira da estrada. B' verdade que já era I7k: O os paulistas, en-
trando de Pindamonhangaba na região, tinham descoberto ouro a oeste
desta estrada {Archivo, XI, pag. 12), e houve um começo de minera-
ção, mas as miuas eram dadas como <bromadas>, e se pôde duvidar
que se estabelecesse uma povoação permanente, ainda que o Diccio-
nario de St. Adolphe afflrme que a freguezia da Campanha data de
1724 (1). Seja como for, a região não despertou grande cobiça até
1735, quand * houve um rush para as lavras da Campanha do Rio
Verde que foram repartidas pelas auctoridades de São João d'El-Rei ;
então formou se ou deu-se novo impulso ao arraial de Santo António
da Campanha do Rio Verde, hoje cidade da Campanha (2).
Alguns annos mais tarde, em fins de 1742, as descobertas se es-
tenderam para o oeste passando do vaíle do Rio Verde para o do Sa-
(1) No já referido Almanack do Município da Campanha vem transcripto das Ephe-
meredes Mineiras um interessantíssimo cfficio datado de 9 de Dezembro de 1737 em
que o Ouvidor da Comarca de São João d'El-Rei, Dr. Cypriano José da Rocha, dá conta
da sua recente viagem na Campanha dos rios Verde e Sapucahy. Encontrando o distri-
cto occupado por aventureiros e fugidos da Justiça elle fundou um arraial em forma de
villa com o nome de São Cypriano, deixando determinado a construcção de uma egreja.
Ao que parece este nome foi substituído pelo de Santo António que provavelmente já
tinha sido adoptado pelos moradores da nascente povoação. ouvidor chegou até
a margem do rio Sapucahy passando ao outro lado em canoa que mandou construir e
mandou explorar este rio até as suas cabeceiras.
(2). Por um documento conservado na Bibliotheca Nacional, e publicado mais adian-
te, neste mesmo volume, vê-se que ainda antes da reputada descoberta de Arzão na re-
gião do Rio Doce, o padre João de Faria, de Taubaté, com os seus parentes tinha des-
coberto ouro na região do alto Sapucahy e Rio Grande.
~ 201 —
pocahy, e d. Luiz Mascarenhas, recemchegado de Goyaz, onde passou
os primeiros annos do seu governo, entendeu tomar posse, era nora-
da capitania de S. Pauio, destas novas descobertas ; mas, ao que pa-
rece, não da Campanha do Rio Verde. Nomeou, a 21 de Dezembro de
1742, um superintendente na pessoa de Bartholomeu Corrêa Bueno, na-
tural de Atibaia ; e como na carta de 10 de Maio do 1743 {Ârchivo, XI,
pag. 18), elle refere ás vizinhanças de S. João da Atibaia, paroce ter
considerado o districto como pertencente a este arraial, donde prova-
velmente já havia uma picada aberta (1^. Com o apparecimento do
offlcial paulista nas minas a camará de S João d'El Rei poz-se em
movimento e dirigindo uma repres-entação a d. Luiz Mascarenhas obte-
ve uma resposta conciliadora datada de 4 de Março de 1743 (2).
Em quanto esperava resposta á sua representação ao governadoí*
de S. Paulo, a camará se transportou a Santo António da Campanha
do Rio Verde, onde a 25 de Fevereiro lavrou ura auto de ratificação
de posse. Dahi passou para o valle de Sapucahy onde, em três pon"
tos diversos, Santa Catharina da Pedra Branca, S. Cronçalô e mar-
gem do rio Sapucahy, repetiu o rae^mo processo nas datas de 28 de
(1), A portaria de nomeação que vem estampada no vol. XXII do Archivo, pag.
177, é a primeira datada de 8. Paulo no respectivo livro de ordens de d. Luiz Masca-
renhas. O titulo dado ao novo official é «Superintendente e Intendente Commissionario
das minas de Sipocahy» (Sapucahy), e nos documentos oflBciaes paulistas elle é chamado
superintendente ; mas é de presumir que entre os mineiros fosse reconhecido pelo titulo
mais familiar de «Guarda-mór» que lhe foi applicado pelo seu contemporâneo Alexandre
Luiz de Souza Menezes, comm andante da praça de Santos, na sua carta de 25 de Agosto
de 1765 (Archivo, XI, p. 97). O districto da sua jurisdicção é determinado na portaria
como sendo «na paragem chamada Sipocahy», sendo assim claramente delimitado da
Campanha do Rio Verde, com a qual os mineiros da epocha e os historiadores paulistas
subsequentes o confundiram
(2). Estes dois documentos são ainda desconhecidos, salvo por vagas referencias.
A camará de S. João d'El-Rei na sua representação de 1746, abaixo reproduzida, cita a
carta de 4 de Março como reconhecimento de seu direito, interpretação esta que o seu
auctor expressamente repelle na sua resposta (Archivo, XI, pag. 23). O certo é que a
carta foi escripta, mais ou menos, na occasião em que o seu delegado estava sendo ex-
pulso do districto e que, informado desta circumstancia, d. Luiz Mascarenhas expediu, a
10 de Maio, ordem peremptória para o repor (Archivo, XI, pag. 18), embora na dita carta
tenha consentido na sua retirada pacifica. Não se sabe porque esta ordem não teve
execução, visto haver falta completa de documentos até que, em 1746, a questão surgiu
de novo ao outro lado do Sapucahy.
— 202 —
Fevereiro, 2 e 4 de Março, sendo para notar que esta nltima data co-
incide com a da carta de d- Luiz Mascarenhas consentindo na retirada
do superintendente. Este, conforme rezam as chronicas paulistas (Âr-
chivo, X', pags, 50 e 52), foi intimado para dentro do prazo de duas
horas sahir do districto para o outro lado do rio Sapucahy (1). Chegan-
do a S. Paulo a notícia destes acontecimentos, o governador deu or-
dem ao ouvidor para ir ás minas de Sapucahy c "achando qu9 ellas
e sua campanha estão dentro dos marcos desta comarca, faça restituir
a superintendência delia a Bartholomeu Corrêa Bueno, ctc." [Ai-cMvo,
XI, pag. 10). Do que houve eni seguimento desta ordem só se sabe
que a camará do S. João d'El-Rei íicou do posse do districto em
litigio.
Nos quatro autos de posse lavrados nesta occasião, a camará de
São João d'Bl-R8Í definiu muito clara e espontaneamente o seu modo de
entender os seus limites e a situação do território de que se decla-
rou possuidora. Eelativamente bem informada a respeito da geograpliia
da região ella não entendeu, como julga um escript r recente, que
a divisa pela Serra da Mantiqueira podia ser extendida indefinidamen-
te pela cordilheira a ambos os lados da estrada onde se tinha collo-
cado o marco. No caso contrario o que ficaria para S. Paulo, o o
que mais importava para Minas, cora quem ficaria a assim chamada
Matta de Minas ? Reconhecendo a necessidade de marcar um limite, a
camará o fez no auto do posse do arraial do Santo António, declarando-se
possuidora **não só deste arraial e seus districcos, mas ainda de todos
os sertoens ató o rio Sapucahy" — fórmula es^-a que com pouca varia-
ção foi repetida no auto de São Gonçalo e do rio Sapucahy. Neste
ultimo ponto a phrase ó— "por razão de serem estas paragens perten-
ças das suas posses antigas do arraial do Santo António da Campa-
nha, por este se estender, como dito fica, até o Llto da Serra da Man-
tiquira, que inda fica muito mais adiante ató a este rio da outra
banda." Conforme as chronicas paulistas o acto foi celebrado sobra
(1) Uma das narrativas eecriptas em 1765 diz qne esta intimação foi dada no
arraial de Santo António da Campanlia, onde Bartliolomen Coriêa Bueno tinha tomado
posse alguns dias antes. 61 assim foi, elle excedeu as suas instrucções que claramente
determinavam a paragem chamada Sapucahy ; e foi talvez por este motivo que d. Luiz
Mascarenhas desistiu da sua resolução de o repor. ■
t
— 203 —
lira giráo no meio do rio {Archivo, XI, pag. 50), como para indicar
que a divisa ora o fio da correnio e não a margem direita sómente-
Do accòrdo com esta tradição o a declaração da camará, três annos
mais tarde, que devido ás inclemências do tempo somente no «animo >
passou para a outra banda do rio.
E' para notar que nestes autos a camará de S- João d'El-
Eei nenhuma referencia faz ao termo do G de Abril do 1714 que lhe
teria fornecido um argumento melhor do que o que empregava. Como
teremos era breve evidencia que a camará soffria de falta de memo-
ria, é provável que houvesse aqui esquecime-nto do documento, já um
tanto vetusto, e não ignorância do son conteúdo.
E' uma particularidade desta secular contenda que os documentos
perfeitamente acabados e de termos claros, como o termo de 6 de
Abril de 1714 o a Provisão Régia de 30 de Abril de 1747, tenham
sido deixados por ambas as partes no olvido, em quanto se debatem
cegamente sobre actos incompletos ou de termos dúbios.
Seccgado, não se sabe bom como, o conílicto de 1743, os ânimos
descançavara até os primeiros mezes de 1746, quando, annunciada a
descoberta de ouro a oeste do rio Sapucaby, o governador de S. Paulo
entendeu nomear um guarda-mór para esse districto na pessoa de Fran-
cisco Martins Lustosa que, sendo um dos signatários do auto de posse
de arraial de Santo António em 1743, parece ter sido então morador
daquelle logar. Em Maio a camará de S. João d'El-Rei sahiu outra
vez a campo e, nEo podendo cassar o rio por ter Lustosa retirado as
canoas e recusado passagem, recolheu-se á Campanha donde dirigiu a
seguinte communicação ao governador de S. Paulo :
<Illmo. e Exmo. Sr. Bera entendia esto Senado, q. havia de
conservar a sua jurisdicção nestes destrictos, não só pela pacifica, e
legal posse, en q. se acha a tantos annos ; mas yinda attendendo ao
q. V. Ex.a lho certificou en carta de quatro de Março de quarenta e
três, mandando retirar delles a Bartholomeu Corrêa Bueno, para ef-
feito do continuar na administração da justiça sem oppressão deste
Povo, nem dezasocego deste Senado ; porem como, não obstante
aquella attenção, q. mereceu a V. Ex.» no reconhecimento, de q. de-
via ser conservado na sua posse, em q. estava sem contradicção alguã,
agora novamente hé perturbado com a violência, q. lhes fas em nome
- 204 -
de V. Ex.a hú Francisco Martins Lustoza, por huâ Provisão, q. al-
cançou de Guarda Mayor da parte de lâ dt> Sapucahy, talvez por in-
tbrmaçoens obrepticias e subrepticias ; pois se persuade este Senado,
q. V. Ex/ não liberalizaria tal graça, a ser informado verdadeira-
mente da realidade da posse, en q. se acha : Por acordam, q. se fez
en camará se detriminou dar-se a V, Ex.^ conta dos desmandos, e
pertubações, con q. se tem portado o tal Lustoza, não sô empedindo
cora armas, a esta Camará a passagem a outra banda do Sapucahy ;
mas tirando as canoas para q. não pudesse fazer operação judicial, e
executar varias deligencias do serviço de S. Magestade perturbando-a
na sua jurisdicção, com tal excesso, que pouco, ou quazi nada falta
para um levanto tão sem fundamento, como a V. Exc." lhe será notó-
rio ; e como não ó justo, que estes distúrbios sirvão de insentivo para
mayores arojos, nem q. este Senado não tenha com V. Exc.^ aquella
attenção, que se lhe deve pelo esclarecido da sua pessoa ; segunda
vés representa a V- Exc." a violência, q, se lhe fas ua usurpação da
jurisdissão para que V. Exc», a qm. pertence o sucego dos Povos, lhe
dê a providencia necessária para q. asim se conserve esta camará
na sua antiga, pacifica e legal posse se ponha termo a estes tumul-
tos, q. não servindo de validade a Sua Magestade, servem de deza-
socego a Republica.
cPela certidão Let.* A. (l) verá V. Exa. a inegável, e jurídica
posse, en q. se acha esta Gamara ; e ficará V. Exa. inteirado das se-
nistras informaçoens, con q. o tal Lustoza pertende a Guardamoria
daquelle continente ; pois como foi huâ das testemunhas, qne assigna-
rão o termo da posse não pode condecurar o ser intento, mas q. con
appetulancia, con q. pertende incivilmente ivadir, e escapar as execu-
çoens da justiça desta comarca em ódio talves dos seus credores,
cuja posse se ratificou no anuo de quarenta e três, como se vê da
certidão Let." B, que ainda, q. pelas inclemências do tempo não se
pudesse passar a outra banda ; como a posse se conserva no animo,
(1) E' o auto de posse do arraial de Santo António da Campanha de Rio Verde publi-
cado a fls' 10 do vol. XI do Archivo. A menção da assignatura de Lustosa serve para
identificar este documento. O da lettra B deve ser o auto da posse do Rio Sapucahy da
pagina 15 do mesmo volume. Os outros documentos mencionados nesta representação não
têm sido encontrados.
— 205 -
e aquelle acto era ractiflcaçao do passado, não pode haver duvida,
para q. a haja na tal posse, q. tem adquirido este h^enado, ainda q.
senão pasasse a outra banda, porque não era precizo.
«Sendo q. ainda q. não contase, corao a V. Exa. se faz manifesto
jelas certidoens juntas, a tal posse ; os actos judiciais, q. naquelles
destrictos se tem opperado desta comarca por tantas vozes, assas
evidencia davão de q. a eíla pertencia a jurisdissão, sem a mais leve
controvercia ; porq. alem dos ofiiciaes de Ventena lâ terem feito va-
rias deligencias e prizoens, e de algumas mortes q. da parte de lâ
tem socedido, se tem tirado cã as devassas ; como a que se tirou da
morte de hú João Angelo, e da de hú Paulo de Araújo corao consta
das certidoens Let.» C. e D. e por parte do juizo dos doíuntos e
abzentos desta comarca se mandarão buscar os bens dos tais defun-
tos q. se arematarão na hausta publica : como também se tem co-
brado os dizimos por parte dos contratadores desta capitania com
qm. se tem avançado os moradores daquelle continente, eomo o mos-
tra a certidão dos créditos dos avançados Let.a E. se cobram os quin-
tos não sô das cargas, e escravos, que entrão dessa ( apitania por
parte dos contractadores desta, mas se tem cobrado as capitaçoens na
Real Intendência desta comarca.
«E quando não ouvesse aquella posse q. consta das primeiras
certidoens, alem de a ter já tomado o dr. Ouvidor Gl. q. foi desta
comarca; quando veyo asistir corao superintendente das terras mine-
rais, logo, q. se descobrirão estas minas, mandando á outra banda do
rio fazer aquelles actos, q. estão con direitos estabelecidos para ac-
quizição da posse, como se acha nos livros da superintendência desta
mesma comarca; bastavão aquelles actos, para q, se conservase na
mesma tranquilidade, en q. thô agora tem insistido sem contradicção
alguâ administrando justiça, sem q, agora se perturbase a sua juris-
dição com tal violência, q. a forsa de armas se empedio a esta ca-
mera o desforçarse, tomando por escudo q. V. Exa. asim o ordenava,
e daquella sorte o resolvera.
«V. Exa. não pode duvidar q. os certoens, que se achão incultos
pertencem sem contradição a qm. primeiro entra, e aquoUa comare*
q- nelles primeiro fas pre venta a sua jurisdicção, o havendo esta pre-
venção desta, e tantos actos para acquizição da posse sem contradic-
^ 206 —
ção alguâ; parece direito solido, e incontestável não se poder, não sô
usurpar a jurisdição desta comarca mas nem ainda privarse da sua
posse a Gsta camera: Sendo, q. ainda q. por ordem de S. Magestade,
esteja detriminado, q. os descubertos novos íiquera pertencendo aquel-
la comarca, e Governo, en q. se derem ao manifesto, nem ainda asim
merecia violência tão desmarcada este Senado; porq. aquella Real
Resolução parece se deve entender naquelles certoens, q. ainda não
estiverem sugeitos a este, ou aquelle Governo, a esta, ou aquella co-
marca, alem de senão poder já chamar novo aquello descub&rto; pois
o Guarda Mayor deste destricto, ainda muito para diante, tem feito
varias repartiçoens, como se vô da certidão Let.a F. e ao mesmo Lus-
toza lhe couberão algumas terras como se vô da certidão Let.a G.
«E se a esta comarca não pertence aquelle continente pelas cir-
cunstancias, q. representa a V. Exa. este Senado, com mayor res-
peito não sendo, como não he já novo aquelle descuberto, e estando
já nelle preventa, posse tomada, e ratificada por tantos actos destin-
títos, como pode pertencer a Caraera de S. Paulo, não havendo mais
q. esto violento acto, con q. o tal Lustoza em nome de V. Exa, per-
turba a posse desta Camera, e uzurpa a jurisdicção ordinária a esta
Comarca a forsa de armas; e som embargo q. o desforço ho prome-
tido en direito, sendo solido o deste Senado, como todos somos vasalios
da mesma M., assentou não fazer opperação, sem primeiro dar a V.
Bxa- esta conta, esperando q. V. Exa. lhe dê a providencia preciza
para se evitarem: n o sô tantos toraultcs, o mutins, mas para q. não sa
continuem na perturbação do socego publico deste Povo, a posse legal
deste Senado, e se izente esta Camera de procedimento tão violento ;
«Certificando a V. Exa. q. o tal Lustoza se determinou a fazer
esta operação pellas varias dividas, q. tem contrahido nesta Comarca
o ivitar a requerimento dos seus credores varias execuçocns, q. lhe
estavão imminetes: e o descobridor Jozé Pires Monteiro capitara do
Matto por viver com mayor socego, evitando as pressiguiçoens justas
da justiça pellas varias mortes, en q. está culpado em algumas de-
vassas, q. se tirarão nesta comarca; e hii Bento Corrêa do Mello por
se eximir de vários crimes de q. actualmente se está livrando: e hú
Joseph Manoel montanhês verdadeiramente chamado Fernando Perei-
ra Soares de Albergaria, por lhe parecer, q. estando daquella parts
— 207 —
teria mais descanço no temor das justiças deste Governo, pelo crime
de caaa de Moeda, en q. saliio com o Escrivão do tal Lustoza culpa-
do, e criminozo.
«E como todos estes tenhão estes delictos, parecendo-lhes q, asini
capiharião mais os seus insultos, sem mais atenção q. ao seu sucego,
levantarão cabeça amutinandoce para effeito de se exemirem das jus-
tiças desta comarca perturbando a jurisdicção e pacifica posse desta
Camera. com o pretexto de q. V. Exa. assim o mandava, incumbin-
do-lhes defendessem o posto, eu q. se achão armados, não consentin-
do q. entrace justiça deste Governo, ainda q. expuzesscm as suas
vidas a todo o risco.
cEstes são, Ulmo. e Exrao. Sr. os motivos, q. ao Senado desta
Comarca obrigão a liir a prezença de V. Exa. a pedir, o requerer da
parte de S. M. q. V. Exa. mando logo desestir de tal violência, para
q. não nasção mayores distúrbios, nem haja insentivos para q. te-
nha mayores despezas na conservação da sua posse esta Camera, q.
espera polia detriminação de V. Exa. para se evitar tanto dezasoce-
go, em q. S. M. não tom lucro, antes o mayor prejuízo, por não
querer perturbaçoens, e motins nos seos Povos, mas sim q. se con-
serve em tranquilidade os seos vasallos, sem q. haja entre elles os
mais leves dezasocegos; e sem embargo q. esto Senado os experi-
menta nas perturbaçoens injustas na sua posse, o esta comarca da
jurisdicção ordinária, asentou não sahir deste destricto, sem esperar
(para melhor rezolução do seu desforço) a de V. Exa. motivado não
tanto pellos documentos jurídicos cm q. fuudamentou a sua posse, e
jurisdição, quanto por atentar q. V. Exa. não tem dado cooperação
alguâ para tantos arojos, nem concorrido para tantos insultos.
«Deus guarde a V. Exa. muitos annos. Campanha do Rio Verde
em < amera 23 de Mayo de 174ô. E ou escrivão da Camera Joaquim
Joseph da Sylvoira o sobscrevy.
«Illruo. e Exmo. Sr. d. Luiz Mascarenhas. De V. Exa. Os mayo-
res e mais reverentes veneradores, Francisco de Mendona de Saa, Ve-
ríssimo Giz. Ribeiro, Pedro do Valle e Sylva, António de FinJio Mon-
teiro, Luiz de 'Souza.»
Para o presente estudo o que ha do mais interessante neste do-
cumento é a confissão, do accôrdo com as tradições paulistas já cita-
— 208 ~
das, que a camará de 1743 não passou para a margem esquerda do
rio, e que o auto de posse, que ó evidentemente o documento Lettra
B da representação, fui lavrado na margem direita ou talvez, confor-
me a tradição já referida, no meio da corrente. Feita esta confissão,
a camará de 1743, composta de outro pessoal, procurou desfazer o
seu pffeito declarando que «ainda que pelas inclemências do tempo
não se pudesse. passar á outra banda, como a posse se conserva no
animo, etc, não era preciso.» Assim a camará dá á phrase do auto
de 1743 <até a este rio da outra banda> a significação de incluir a
outra banda do rio Sapucahy, quando todas as circumstancias indi-
cam que a verdadeira intenção era declarar que,— a nossa posse an-
tiga se extende até a Serra da Mantiqueira de uma banda e até este
rio da outra. A favor desta interpretação da phrase ura tanto equi-
voca militarn : o facto confessado da camará de 1743 não passar para
a margem esquerda do rio; o costume do tempo, provado por diver-
sos autos de posse, de lavrar estes actos no extremo do território
reclamado; e, mais do que tudo, a declaração categórica oito dias an-
tes, em Santo António (remettida sob Lettra A pela camará de 1746)
e dous dias antes em São Gonçalo, da mesma camará que a sua pos-
se se extendia «até o rio Sapucahy.»
Os outros argumentos da representação, baseados numa carta do
governador de São Paulo, em actos de jurisdicção exercidos no terri-
tório litigioso e accusações contra Lustosa e os seus companheiros,
não offcrecem actualmente pontos de interesse para o presente
estudo. São pontos que hoje não podem ser verificados, e, em vista
do espirito inventivo revelado no tópico acima discutido, as afiBrma-
ções da camará não podem, na ausência de confirmações, ser accei-
tas como absolutamente concludentes.
Ao receber a representação da camará de São João d'Bl Rei, d.
Luiz Mascarenhas já se achava informado dos aconterimentos por
uma carta de Lustosa que não tem sido encontrada e pela seguinte
carta de Verissimo João de Carvalho (*)
(1) A letra e a redacção de<4ta carta, como as da de Lustosa reproduzida mais
adeante, indicam que os seus auctores eram pessoas de instrucção pouco vulgar naquelld
epocha.
— 209 —
<Ilmo. e Exmo. Snor. Assim que vira da cidade cora resposta
do Dor. Ouvidor Reraety hura propio a toda a pressa para a Carapa-
nha do Sapucahy que ontora ou hoje o faço chegado lá, e neste
mesmo dia Recebi carta do Goarda Mór em que me dis vie ão os of-
flciaes da Caraera do Ryo dos mortos e o que com eles pasou ; e
como escrevo a V. Exa. rae parece lhe dará tarabem corata cora em-
deviduaçara, e corao nâo forão satisfeitos se pode teraer tornem com
outra prevenção e que nesta possa aver alguma mina o que não per-
raitta, e por ser preçizo remeto a V. Exa. a carta pois me não he
possível hir posoal, e a Camera desta villa se acha com animo de hir
socorrer aquelle descuberto e tomar posse dele sendo que V. Exa.
assim o haja a bem ficando lhe tributário o d.» descuberto e alguns
mais rendimentos que lhe possão tocar para ajuda das despezas que
fas este Cone.» visto ter nele poucos rendimentos e V. Exa. desculpe
esta confiança pois falo neste matéria orateressado no bera e aumento
desta villa pois lhe fica na fronteira do seu terrao aquela Campanha.
Deos guarde a V. Exa. para seu agrado corao pode. Vila de Mogy
e de maio 1 de 1746. (1) De V- Exa. O mais omilde servo Veríssimo
João de Carvalho. >
A resposta de d. Luiz Mascarenhas á representação da camará e
as ordens expedidas para manter a jurisdicçáo da capitania de Sâo
Paulo já tem sido, por varias vezes, publicadas ; mas, para maior
clareza, convém roproduzil-as aqui :
cRecebo as Cartas de Vossas Mercês, de 23 do mez passado, em
que me representão o intento cora que se achão de estender os Limi-
tes da sua Comarca, e jurisdicção, mettendo dentro delia o novo des-
cuberto de que he Guarda Mór com Provisão rainha Francisco Martins
Lustoza, e de como este lhe disputara a Passagem do Rio Sapucahy
para a banda desta Comarca ; e porque a conjunctura em que pre-
sentemente me acho occupado, não só com a expedição dos Quintos
de Goyaz para o Rio, mas cora outras do Real Serviço, me não dão
(1) Esta data se acha claramente escripta no original, mas é evidentemente errada
visto que a carta se refere aos acontecimentos que tanto a camará como Lustota noti-
ciaram com a data de 23 de Maio e que deviam ter sido da véspera. A verdadeira dat»
desta carta devia ser maio 31 ou jtinJio 1.
- 210 —
tempo para responder positivamente ás diffiísas razões cora que Vos-
sas Mercês pertendem justificar a sua intenção, só o tenho para lhes
segurar, que hei de defender de toda a sorte a posse que por parte
desta Comarca e Capitania tem tomado, e está sustentando o dito
Guarda Mór, pois já parece ambição desordenada quererem Vossas
Mercês com passo lento introduzir-se por toda esta Comarca, pretex-
tando este attentado com posses clandestinas e suprepticias, que não
podo produzir offoito jurídico, com prejuízo das justiças desta Co-
marca, auzente, e ignorantes dessas chamadas posses tomadas a sur-
dina. Sei muito bem que Sua Magestade não quer motins entro os
seus povos, mas também sei que o mesmo Senhor não quor que huns
se introduzão pelas jurisdicções dos outros ; e para o evitar he que
foi servido mandar demarcar os Limites de cada hum, para cada qual
saber o que he seu, e o que lhe toca : o como este descuberto incon-
testavelmente se acha dentro da demarcação desta Comarca e Capi-
tania, e as suas terras já repartidas pelo Guarda Mór com ordem
minha, a mim me toca defendê-lo, o que protesto fazer em pessoa
ao primeiro aviso que tiver de qualquer operação que Vossas Mercês
intentem contra o dito Guarda Mór, e nenhum embaraço me fará a
mim a minha Carta de 4 de Março de 1743, com que Vossas Mercês
me allegão, porque se neste tempo condescendi com a supplica de
Vossas Mercês mandando retirar a Bartholomeu Corrêa Bueno, foi
por evitar maiores desordens, e por se ter tomado posse primeiro por
essa Comarca, sem embargo de reconhecer que pertencia a esta ; mas
como vejo que Vossas Mercês abusando da tolerância que então tive
continuão na sua ambição, querendo espoliar-nos da posse que já te-
mos, não posso agora usar de outro procedimento mais do que de
defender o que toca a esta Comarca, e de dar para isso todas as
ordens e auxilies necessários; e reconhecendo Vossas Mercês a sua
sem razão, e parando cora suas conquistas, sem entenderem, ou in-
tentarem pertubar o dito Guarda Mór, e mais ministros do dito des-
cuberto, he que farão o que Sua Magestade quer, e poupar-me-hão
huma jornada desta Villa á essa Campanha.
« Ao Doutor Ouvidor de S. Paulo ordeno passe logo a esse ar-
reia! a dar as providencias necessárias, não só para a administração
da Justiça, mas para a cobrança da Fazenda Real, por ser o único
— 211 —
Ministro de Sua Magestade, que reconheço com jurísdicção nesse dos-
cuberto. e estou certo que nem a Fazenda Real, nem a dos particula-
res, lia de ter o raininio prcjuiao em ser esse descuberto governado
nesta Comarca, porque Saa Magestade tem nelles Ministros escolhi-
dos e mui zelosos, que hao de cuidar muito da arrecadação de huma,
e distribuição de outra. Deos Guarde a Vossas Mercês muitos an-
nos. Praça de Santos, 8 de Junho de 1748. D. Luiz Mascarenhas,^
Com a mesma data foi dirigida ao guarda mór Francisco Martins
Lustosa a seguinte carta :
« Na carta que Vossa Mercê me escreve, de 22 do Maio, vejo a
noticia que me dá do attentado que cometterao os ofiaciaes da Ca-
mará do Rio das Mortes, e o louvável modo com que Vossa Mercê
lhes rebateo o animo com que vinhão de espoliar a Vossa Mercê, e
a esta Capitania, da posse era que está desse descuberto : em tudo
obrou Vossa Mercê cora tanto acerto, que novamente lhe recommen-
do a mesma constância no caso que olles voltem a querer insistir na
sua teima, e ainda que entendo o nâo farão, baldando segunda vez
a sua viagem ; porém no caso de o fazerem, Vossa Mercê sustentará
a todo o custo as ordens que lhe tenho dado, não lhes consentindo
que facão acto algum possessorio, ou de jurisdicção, antes me fará
logo aviso, porque quero ter o gosto de ir pessoalmente a esse des-
cuberto com alguns soldados desta praça, e fazer conduzir presos
para a fortaleza da Barra Grande, não só as justiças, e officiacs pos-
tos pelas Geraes, mas também o mesmo Ouvidor do Rio dás Mortes,
se ahi vier, o que infallivelraente hei de executar ao primeiro aviso
que Vossa Me. cê me der. Pelo que respeita ao mais em que Vossa
Mercê me falia da administração da justiça, escrevo nessa matéria
ao Doutor Ouvidor desta Comarca para dar as providencias necessá-
rias, o ir a esse districto pessoalmente. Deos Guarde a Vossa Merco
Praça do Santos, 8 de junho de 1746.— D. Luiz Mascarenhas. >
Ao Ouvidor Geral da Comarca de S. Paulo, dr. Domingos Luiz
da Rocha, foram dadas as seguinte ordens :
« Remotto a Vossa Mercê as Cartas inclusas do Guarda Mór do
novo descoberto da Campanha de Sapucahy, e também o que me es-
creveo a Camará do Rio das Mortes nas quaos verá Vossa Mercê o
que de parte a parte se tem passado, e a renitência desses homens
— 212 -
das Geraes era se introduzirem por esta Comarca e Capitania, e pelo
que vou vendo, se lhe nao acudimos a cortar o passo, em pouco tem-
po chegarão a dizer, que também essa cidade lhes pertence, e assim
torao a resolução de dizer a Vossa Mercê da parte de Sua Magestade
que logo passe ao dito descuberto e dar as providencias necessárias
não só para a boa administração da Fazenda Real, procurando que o
Juiz Ordinário que se eleger seja pessoa de contidencia e satisfação
porque como nos arraiaes pequenos são os Juizes os que acostumão
a cobrar a Capitação, he preciso que soja pe«soa capaz, a quem Vos-
sa Mercê deve encarregar essa diligencia, nomeando intendente do
descuberto, e instruindo-o no raodo cora que deve fazer a arrecada-
ção dos quintos de Sua Magestade na Capitação dos pretos, e para
esse effeito levará Vossa Mercê os bilhetes, que era caria particu-
lar lhe mando tirar dos caixões que trazera as sobras de Goyaz para
com elles se fazer a Capitação no tal descuberto ; e no caso que
Vossa Mercê queira soldados para o acompanharem nessa diligencia,
com aviso de V. Mercê os farei pôr promptos, e tarabera eu o açora-
panhára se rae não achasse tão occupado, como estou, com a expe-
dição dos quintos, e outras diligencias do Real Serviço para irem na
frota ; mas em caso de necessidade estou prompto a ir pessoalmente.
Vossa Mercê fará o que entender he de razão e justiça, com o seu
costumado acerto, obrando em tudo cora prudente accordo, e procu-
rando evitar todo o género de turaulto, ou desordera, entre os povos,
o que muito lhe recoraraendo ; e se a Vossa Mercê se lhe offerecer
alguma duvida contra minha resolução. Vossa Mercê, como Ministro
de Sua Magestade, rae participará cora toda a brevidade, porque o
meu animo he somente obrar com acerto, e o que fôr a bera do ser-
viço de Sua Magestade e de seus povos. Levará Vossa Mercê dessa
('idade dous Livros, que rubricará, e pagará a despeza dellòs o Dizi-
raeiro dessa Cidade, de que se lhe passará conhecimento para nelle
se matricularem as Loges. Deos Guarde a Vossa Mercê, 8 de junho
de 1746. D. Luiz Mascar enho s .■»
cCorao era outra carta ordeno a Vossa Mercê passe ao novo des-
cuberto do Sapucahy para nelle dar as providencias necessárias para
a administração da justiça, e cobrança da capitação, e fazenda de Sua
Magestade, e para esse effeito julgo conveniente levar alguns bilhetes»
— 2:13 —
que me parece bastarão 500, e nessa cidade se achão ainda os caixões
que trazem os oilhetes, que sobejarão em Goyaz, 'Vossa Mercê, na
presença de seu escrivão, com as solemnidades que Vossas Mercês
costumão em semelhantes actos, fará abrir um caixão^ e tirando 500
bilhetes os guardará para os levar para o dito descuberto, passando
conheciraen o era fórraa ao cabo que conduzio de Goyaz os quintos, o
qual se acha nessa cidade para se remetter para a Côrte, do que me
fará aviso. Deos guarde a Vossa Mercê. Praça de Santos, 8 de Junho
de 1746. — D. Luiz Mascarenhas».
O ouvidor da comarca de S. Paulo, tractou de dissuadir o gover-
nador da sua resolução na carta seguinte :
*lllmo. e Exmo. Sr.—óa. a V. Bxa. insinuey a iraport^- delig.» era
q. me acho p.» ver se de alguá sorte posso roçarsir o furto q. a S.
Mage. se fes de sinco ou seis arrobas de ouro era q. não cesso com
a exaçara divida p.a na frota, q. está a chegar, dar conta como se
rae recoraenda do que tenho obrado, e q^o. v. Exa queira continuar
na deliga- do Sapucahy mo parece não estar em termos disso, refle-
ctindo na representaçam q. a V. Bxa. fes a Cara*- do Rio das Mortes
com os docum^cs. q. juntou, os quaes a m». prez?* não pode desva-
necer, não tendo outros q. os convença, poys huã posse tomada paci-
flcamte. sem contradiçam algua e rateticada tantas vezes com actos
possessórios, senão interrope pello adversário só ordinariamte. conven-
cido, poys o dirto- só perraite desforçarce o espolliado ; e não o espollia-
dor, e nesta certeza ja a Cama- não cede da sua posse, e ficam evi-
dentes as desorííens q. poderão resultar em dezaçocego dos povos : o
como a mesma Cara»- alem das certidoens q. a V. Exa. fes patente
corroborar com a carta de V. Exa, de 4 de Mço. de 743, em q. V,
Exa. mandou retirar do mesrao descuberto a Erm^u. Corrêa Bueno,
pa. q. aquella comca. concinuaco na adrainistraçam da just»-, logo como
se podem desvanecer estas realidades p^^- corar as violências de q. se
queixão obradas por criminozos só a izentarençe de serem punidos
pellas justas- onde existem as suas culpas e como a estas desejarão
acomular mais fiados era puder mayor, deve V. Bxa. atender a esta
infalivilide. e q. S. Mage. não raanda a forsa de armas decedir as du.
vidas, q. se movera entre jurisdiçoens, poys se deve recorrer ao raesrao
Sr. a qm. toca o decedillas como tributo anexo a sua soberania, e
— 214 —
qd.o V. Bx.a assim o haja por bem, cora esta rezoluçam ficará suce-
gada aquella Cam.^ ficando tambô conscrvandoçe a inteyreza da carta
de V. Ex.a, de que também se vallem para a just.-^ q. lho assiste : E
suposto se pertenda tomar posse por p^. desta Capitania, havendo q"i-
a encontre fica sem eííeyto algum na censura dedir^o. e dispoziçam da
ley e posto na prezí-^^- do S. Mage., contra a sua Real Rezoluçam não
ha de haver q™- se atreva, e sem aquella suposta em termos em q*
as couzas se achão, ííiio infaliveis as consequências perniciosas, q. o
mesmo Sr. não ha âc haver por bem, pertencendolhe o docldillo como
Sr. das jurisdiçoens : Isto ó o q. se mo offerece dizer a V. Ex.a, q.
mandará o q. for mais conv^e. p.a sucego dos povos, e q. S. Mage.
determine o q. for servido. Deos gf^^- a V. Ex.a mtos. annos.
Sam Paulo, 17 de Juuho de 1748. — O Ouvor. e Corcr. da ComC'*^-
Dr. Domingos Luiz da Bocha*.
A segunda carta do guarda-mór Lustosa dá uma interessante no-
ticia de vários actos da camará durante o mez pouco mais ou menos
em que permaneceu (mas não em completa ociosidade) no arraial da
Campanha, esperando resposta não somente á carta que tinha dirigido
ao Governador de São Paulo, como também ao da sua própria Capi-
tania, que na occasião era Gomes Freire de Andrade.
Eis o teor da carta :
<Illmo. e Exrao. Sr.—Hontem que foy dia de S. João, por noutc,
Rce. a de V. Exa., de 8 do junho ; e com ella motivos de render a
Deos. e a V. Exa. muitas graças ; N. Sr. me ajude para que sempre
obre em seo servisso, e no do V. Exa. a soo gosto :
<Depois que partio o próprio, fes taes extremos o Senado da Ca-
mará do Rio das mortes, que me precizava cá minha obrigação, a que
logo mandace outro propio ; porem acentey commigo dar parte de tudo
no fim de tudo o que rezultace de soos inquietos ânimos ; e agora o
faço na extenção desta :
«Intentou aquelle Senado por apayxonados o com cores de ami-
zades fazer sahir deste estabelecimento todos os que mais calor me
podiam fazer; e vendo que por este caminho o não conseguiam, pu-
zeram o edital induzo em varias partes para que o temor fizece com
que mo dezamparacera : a isto acodi eu cora erapedir a passagem aos
de pouco ser e discurço, quo os que o tom, sempre me assestiram,
— 215 —
inda qu9 cora algam dispêndio seo : entraram a erapcdir os manti-
mentos para que faltandonos, a necessidade os persuadice a sahirem ;
e vendo que do nada Uie surtia effeyto, mandaram carpinteiros a fazer
canoas para nellas passarem á força do armas, para o que vieram era
companhia delles oyto ou dés capitães do mato ; depois de estarem
nesta deligencia os carpinteiros, com a dita escolta, que por todos
faziam 22, hum delles me mandou dizer, que trazia ordens p.» fazer
dospropozitcs, como hera embargar e prender a q™- viece com man-
timtos. ou sem elles, e isto hera no cara.» muy perto do porto prin-
cipal do Rio onde cu estava cora a raayor p^e. dos homens deste des-
cuberto. Dou louvores a Deos por me dar prudência neste movim^o-'
q. o mais q. íis, foy escrever a carta q. induza remeto, a hum dos
carpentroâ. que lie morador naC:amp.a do E.o verde e veyo obrigado:
Com a tal se retiraram logo e deyxaram o caminho franco. Tirou o
senado huma devassa como se foce de hum levantamento, e como a
taes nos apelidavam. E nos tem criminado em suas devaças ; e não
deixo de temer q. se acazo lá apanharem alguns os prendam ; porq-
he muy próprio de quem obra loucuras semelhantes não se deixar da
openiam q. julga acertada.
«Agora Ulmo. e Exmo. Sr. pondera o raeo fraco discursso q. com
mais cauza se pode devassar deste Senado, pois está claro, q. reque-
rendo lhe eu da pte. dEl Eey e de V. Exa. mo não perturbacem no
servisse de El Eey em q. estava ; e fazendo-o elles tara mal, q. com
orgulhos e tudo o q. tenho mencionado não só me perturl?aram e ao
povo ; mais inda foram de grande prejuízo á Eeal fazenda, porq. es-
tavão com despachos p.=^ fazerem suas bandr^s. e cora as referidas
revoluções se deyxaram de suas pretenções por gastarem o surtimto-
q. tinham : e outros não lavravam as terras q. por mira lhe foram
concedidas, timoratos de abrirem ob servisses p^- outrem, o q. seria
q<io- elles cá ontracem, q. diziam haviam de fazer nova partilha ; e
os q. heram de fora estavão com decignio de so estabelecerem se
retiraram emthe ver em q. paravão as couzas finalmente muitos dey-
xaram por estes motivos, de pagar a real capitação e todos tiveram
grandes prejuízos ; sendo eu o q. no meo tanto o exprimentey mayor .
porq. aliem de gastar cora a guarnição q. pus nos três portos do Rio
mais de duzentas oytavas, deyxey de extrahir mais de outras tantas
- 216 —
cora a falta da minha assistência e dos escravos q. levava commigo
qdo. hia, vinha, ou estava, q. hera o mais do tempo ; esta devassa
me parece tam justo o tirarce p»- exemplo das camarás mal adverti-
das na sua obrigaçaií como he justo tiralla de qm. move hum levan-
tamento ou civilidade ( q. movida estava se Deos me não favarecece
com prudência) e cazo q. seja penozo ao dr. Ouvidor o vir tiralla, e
me queyram honrar cora a comissam pa- a tirar, prometo fazello tam
bem, como q°i- dezeja acertar.
«Achavace naquella Camp.a cobrando a capitação o fiscal Fran-
cisco de Crasto Costa e hera tara apayxonado, q. vendo q. não entrou
a Cam.a aonde queria, odiou do tal sorte os assistentes neste pahis
na occaziara, q. hindo a pagar lhe alguns q. inda não tinham pago e
estando cora a matricula aberta, lhes não quis aceytar o ouro, nem
capitar, era forraa q. foy nessecr.» meterem lhe valimtos. p.a q, o
aceytacem, e o aceytou por grande indulto a alguns, e a outros não ;
dizendo q. todos os denunciava era chegando á villa ; deste e de alguns
apayxonados raais q. cora o senado araotinavão e arguyara me parece
precizo devassarce.
«Tambera rae parece precizo q. V. Ex.» se digno ensinuarrae a
forma, era q. hey de livrar de susto, aos q. tera particulares, e le-
tigios naquella villa ou Comca. do Rio das raortes onde todos esta-
mos crirainozos pela devassa q. tirarara como assima digo, e consta
do seo Eiital; porq. bera ou mal se os prenderem ham de cuydar
era os destroir.
«O Govor. (jas rainas respondeu lhe o que elles lhe escreveram
pedindo lhe favor, q. S. Magde. o não punha naquelle logar p».
fomentar cívilid^s-, mas sim, p». acomodação dos povos; e que visto
terem dado pt^. a V. Exa., lhe mandacem a resposta q. tivecera
com a devaça que haviam tirado, p». a mandar a S. Mag^e. ; espe-
raram erathe q. chegou o propio q. lá mandaram, e com a chegada
delle se retiraram p". a villa a 21 do corrte., pareceme q. mais
envergonhados q. satisfcytos. Mais houvera de dizer; mas receyo
ser tam erafadonho e molesto a V. Exa., q. lhe cauzo fastio, e em
outros p'ios. falarey a seu tempo. Era todo prospere Deos a V.
Exa. cora duplicadas felicidades pa. meo amparo e deste estabeleci-
— m -
mento, e o Ge. ms. as. S. Anna de Sapucahy, 2õ de Junho de 1746;
—Criado de V. Exa., Fraru^o. Miz. Lustoza:*
A este respondeu d. Luiz Mascarenhas na seguinte carta, já pu-
blicada á pagina 911 do Archivo, vol. XI :
«Pela que presentemente recebo de V. Mcô. venho no conheci-
mento de q;íe tudo quanto tom obrado nesse novo descoberto do Sa-
pucahy tem sido comtudo o acerto e muito principalmente em fazer
conservar a posse, que por parte desta Capitania tomou do mesmo
descoberto, visto se achar indubitavelmente dentro dos scos Icmites,
e jurisdiçam, o que se comprova pela copia da Real Ordem, que com
esta remetto a V Mcê. na qual foi R. Magestade servido determinar
athé onde se devia extender a demarcaçam desta come»- com a das
Minas Geraes, em cuja conformide, e observância tenho por obrigaçam
de meu cargo a providenciar e acudir nao deixando perder a mais
minima pt^. do q' me toca, e assim novamente recomendo a V. Mcô.
q' a todo custo não consinta q' as justiças das geraes entre nesse
descoberto a fazer acto algum, no cazo de quererem neste tornar a
introduzirse. Pelo que respeita a devassa em q' me falia escrevo ao
Dr. Ouvor. Geral desta Comca., e sobre esta matéria seguirá V. Mcô.
o que Obte lh'ordena, e assim nesta como em outra qi- qr. q'. se lhe
oferecer, flco certo q', V. Mcô. se ha de haver com prudência, e
acerto. D^. G^. a V. Mcô. 17 de julho de 1746.— D. Luiz Mas-
carenhas. Sr. Guarda Mór do novo descoberto de Sapucahy, Fran-
cisco Miz. Lustoza.»
Segundo esta carta de Lustosa, o conflicto terminou píovisoria-
mente a 21 di junho com a retirada da camará de Sao Jofto d'Bl-Rei
á espera da solução que, conforme a judiciosa determinação do go-
vernador de Minas, devia ser dada pelo governo de Lisboa. Ao que
parece, houve durante um anno paz no districto até que os ânimos
foram de novo perturbados com a noticia da próxima chegada da
esperada resolução, conforme se vô da seguinte correspondência, já
publicada no vol. Xí do Archivo, á pag. 912:
< Ulmo. Exmo. Sr.— Haverá des dias se me deu a noticia de
ser chegada ao Rio de Janeiro numa náu que partiu do Lisboa na
conserva da frota, e logo depois outra, de estar com effeito toda re-
colhida: cujas novidades acredito pela razão do tempo, que como
oste logar fica reraoto, tarde se sabe aqui o que já nas mais partes.
so faz velho. Hontera receby uraa carta da Campanha na qual se
me pede viva acautellado porque infalivelmente conspiram contra mim
os do partido das Minas Geraos por ordem de S. Magestade e supos-
to não ignoro que V, Exa. teria resposta do conselho sobre os fun-
damentos com que lhe escreve que a não o fazer este assim, so deve
prezumir obrou apaixonado; se me fa/ preciso dizer a V. Exa. que
alguma perplexidade me causa esta contumácia, e necessariamente ca-
roço de que V. Exa. me ordene o que hei de obrar ou o como me
devo portar nesta matéria, no caso que ponhão em execução o seu
dezejo; devendo V. Exa. juntamente supor que vivo com uma gente
inconstante que invejozos das honras com que V. Exa. me trata
receyo, me maquinem o que o meu aífecto lhe não merece, porque
me sei fazer lembrado das recomendaçons que V. Exa. me fez.
cFico esperando a certeza de que V. Ex. está asestido da mais
perfeita saúde. Deos Guarde a V. Bx. muitos annos. Sapucahy 11
de Agosto de 1747. — Criado de V. Es..— Francisco Martins Lustoza»T>
A julgar pela seguinte resposta, esta carta acha- se truncada.
«Recebo a carta de V. Mc6. de onze deste mez era que me par-
ticipa o aviso que se lhe fez da Campanha para viver acautellado a
respeito dos moradores das Geraos, por terem estes decizão de S.
Mage. na prezente frota em que o dito Snr. por ordem Sua adjudi-
cou esse descoberto ao destricto o jurisdiçam daquelle Governo, e os
receyos que V. Mc6. tem, de que com armas queirão os das Geraes
expulsal-o, servindo de corroborar esta conjectura alguns Dragoens
que se achão já na dita Campanha sem se saber o fim a que se di-
rigio a sua vinda, e o mais que V. Mcé. me expende na sua carta.
Porem cu me não posso, nem deyo persuadir a que os ditos mora-
dores entrem em algum procedimento, ou esbulho contra V. Mcô. sem
ordem pozitiva do seu Governador e que este a não dará para V.
Mcô. ser attacado por Dragoens não só porque este raeyo he alheyo
da razão e contra a mente do Soberano que não quer que os seus
vasallos se destruão, ou contendão com armas, mas também porque o
dito Governador me não tem participado athé o prezente ordem al-
guma de S. Mage. relativa a esta matéria cuja parti cipaçam devia
preceder a qualquer acto que se ha de obrar contra a posse era que
^ 219 —
V. Mcô. se acha por parte deste G-ovorno, o muito mais havendo
nelle a ordem de que remetto a V. Mcô. a copia para conferirem os
Governadores sobre a divizão das Capitanias por esta mesma para-
gem. Mas ainda assim cazo que por parte das Geraes se entre com
mão armada neste dcstrito, V. Mcé. do nenhum modo faça rezisten-
cia, e somente fará hura protesto de que se retira pelo acommette-
rem com armas mostrando ao Oííicial Militar ou Ministro das Geraes
a ordem inclusa e requerendo lhe que eu estou pronto para conferir
com o Governador das Geraes sebra a diviza das duas Capitanias em
observância desta ordem, ou de me compromettor com elle era pes-
soas idóneas que a faço; podindo-lhe juntamente o ordem que tem
de S. Mage. para o novo incidente dizendo lhes a quer para com ella
me dar parte antes de lhe ceder o território, e cazo que elles insistão
V. Mcê. depois de feito o protesto lhe deixará, vindo, ou raandandome
dar parte de que sueceder, porque obrandose a absoluta de attacar a
V. Mcô. sem se me participarem as ordens de Sua Mag^. primeiro
hei de hir, ou mandar infanteria desta Praça a sustentar com armas
a posse deste Governo, porque he licito repellir huma força com ou
tra. Deos G®. a V. Mcô. mt^^. annos. Vil la o Praça de Santos, 25
de Agosto de 1747.— Dom Luiz Mascarenhas— Snr. Regente e Guarda
Mór do descoberto de Sapucahy, Francisco Martins Lustoza.»
Se effecti vãmente chegou nesta occasião alguma resolução do go-
verno a respeito da questão de limites, esta não era de natureza a
renovar o conflicto. A Provisão Regia de 30 do Abril de 1747, que
devia ter chegado mais ou menos neste tempo, determinou a divisa
pelo Sapucahy; e d. Luiz Mascarenhas, tendo mantido a posse pau-
lista na margem esquerda daquelle rio. nenhuma providencia tinha
de tomar a respeito. De outro lado, a camará de S. João d'El-Rei,
não encontrando nesta Provisão Régia apoio para as suas pretenções,
só tinha de ficar calada ou, quando muito, faaer novas representeções,
como é de presumir que fli.esse, visto que no anno seguinte o governo
de Lisboa expediu outra provisão— a de 24 de Agosto de 1748— abolindo
a capitania de S. Paulo e auctorizando Gomes Freire de Andrade a
traçar uma nova divisa -
Para a completa elucidação das diversas questões que se pren-
dera a estas duas provisões é necessário conhecer os documentos de
- 220 _
origem mineira, e é muito para desejar que oUes algum dia appare-
çara. No omtaato, ha alguma esperançA de poder encontrar as
consultas do Conselho Ultramarino que precede am as duas provisões
e neste caso terei de voltar ao assumpto. Já, porém, se pôde afiQr-
mar que a resolução de extinguir a capitania de S. Paulo nao era,
como querem alguns escriptores mineiros, uma lembrança do momento
destinada principalmente a punir d. Luiz Mascarenhas pela insistência
cora que defendia o que elle julgava ser os direitos da sua capitania.
Conforme se vô á pagina 253 do volume XXIV do Archivo, já em
1738 Gomes Freire de Andrade tinha suggerido uma redistribuição
das capitanias do sul do Brazil e o governo tinha desde então o
assumpto em consideração. A provisão de 17 18 dava preferencia á
linha divisória pelos rios Sapucahy e Grande, defendida por d. Luiz
Mascarenhas e estabelecida pela provisão de 1747, e o ex-governador
de S. Paulo longe de ser punido recebeu logo uma importante com-
missão na índia.
S. Paulo, 17 de Fevereiro de 1900.
Orville a. Derby.
Auetoridades eoloniaes na raia de São
Paulo e Minas Geraes durante o
século XVIII.
Francisco Martiíís Lustosa. — Verisslmo João de Carvalho.
Jeronymo Dias Ribeiro. — Valério Sanches Brandão.
MEMORIA LIDA NA SESSÃO DE 5 DE FEVEREIRO DE 190l DO INSTITUTO
HISTÓRICO DE S. PAULO.
Ao prep.irar a collecção de documentos relativos á questão de
limites entre S. Paulo e Minas Geraes, que constituo o volume XI
da serie publicada pelo Archivo do Estado, tive occásiâo do t^ mar
algumas notas a respeito de diversas pessoas que, tomando parte
mais ou menos saliento neste conflicto, tiveram notável influencia so-
bre uma ou outra phase deste litigio e assim sobre a historia da re-
gião litigiosa. Offerecendo estas toscas notas ao Instituto Histórico,
é meu intuito prestar homenagem á memoria de alguns dos obreiros
esquecidos do progresso desta parto do Brazil, na esperança de que
alguém que tem accesso a outras fontes de informações possa algum
dia completar os traços biographicos aqui ligeiramente esboçados com
os dados encontrados no Archivo do Estado somente.
Nas primeiras phases deste longo conflicto quatro commandantes
dos postos avançados de um ou outro lado da linha litigiosa exerce-
ram uma influencia decisiva sobre a marcha dos acontecimentos, as-
sim merecendo que os seus nomes e feitos sejam lembrados na his-
toria. Foram Francisco Martins Lustosa, Veríssimo João de Carva-
lho, Jeronymo Dias Ribeiro e Valério Sanches Brandão. O primeiro,
embora vencido, salvou paia S. Paulo o direito do se oppór á ex-
222
pansão indofinida^de Minas ao oesto do rio Sapiicahy, o segundo era
um dos factores principaes desta expansão, que teria ido mais longe
so nao fosse a vigilância e tenaz resistência do terceiro o o quarto
segurou num momento critico para Minas a posse da região do Jacuhy.
Francisco Martins Lustosa
Este nome apparcce pela primeira vez, nos documentos consulta-
dos, no auto de ratificação de posso lavrado a 25 de Fevereiro de
1743 pelos officiaes da camará do S. João d'El-Rei, no arraial de
Santo António, hoje cidade da Campanha. Tendo havido no anno
anterior certa aííluencia de mineiros para as novas descobertas do
ouro nas campanhas dos rios Verdo o Sapucahy, o governador de
São Paulo, d. Luiz Mascarenhas, entendendo que estas, ou pelo me-
nos a ultima, pertenciam ásua capitania, tinha nomeado um superin-
tendente, ou intendente commissario, das minas do Sapucahy, na pes-
soa de Bartholomou Corrêa Bueno. O apparecimento deste na região
levantou a camará de São João d'El-Rei que reclamou a região para
a sua comarca e para a capitania de Minas Geraes, motivando assim
o referido auto de posse. Entre as assignaturas das pessoas que as-
sistiram ao acto, vem logo em seguida ás dos officiaes da camará a
de Francisco Martins Lustosa, donde se pode concluir que era ello
um dos mais graduados dos moradores do arraial. Dos documentos
consultados nada consta dos seus antecedentes, senão a sua nomea-
ção em 1732 de tabellião na villa de Mogy das Cruzes.
Conforme rezam chronicas paulistas, escriptas uns vinte annos
depois {Archivo, XI, p 51), o delegado do governador de São Paulo
— 223 ^
foi intimado a so retirar iucontincnti do districto, passando clle para
o outro lado do rio Sapucaliy, onde, porém, não so encontra outra
referencia a seu nome nos documentos relativos aos acontecimentos
subsequentes .
Três annos mais tardo Lustosa recebeu do governador de S.
Paulo a nomeação do guarda-raór da nova descoberta de Santa Anna
do Sapucahy, situada ao oeste do rio Sapucahy. Sobro a historia da
fundação deste nascente arraial só temos as afiirmaçues da carta di-
rigida a 23 de Maio de 1746 a d. Luiz Mascarenhas, pela camará de
S. João d'EI-Rei. Segundo esta carta, a região tinha sido occupada por
foragidos da justiça da sua comarca, sendo a descoberta de ouro de-
vida a João Pires Monteiro, capitão do matto o criminoso do morte.
Entro estes foragidos achava-se Lustosa, que se tinha tornado o
chefo do movimento para a incorporação á capitania de S, Paulo do
novo arraial, alcançando para si a nomeação do guarda-mór, sendo o
motivo dotte procedimento o desejo do escapar aos seus credores.
Logares novos o de jurisdicção duvidosa são sempre pontos pre-
dilectos para aventureiros e foragidos e, uns dez annos antes, o ar-
raial do Santo António tinha sido descripto em termos quasi idênticos
pelo Ouvidor de S. João d'El-Roi. Assim ó possivel que as affirraa-
ções da camará, embora visivelmente apaixonadas, fossem verdadeiras.
Do outro lado, porém, Lustoea e os seus companheiros podiam res-
ponder que tendo a própria camará declarado, em 1743, que o seu
limite era o rio Sapucahy, nenhuma duvida podia haver. sobre a recti-
dão do sou procedimento denunciando a nova descoberta ao governa-
dor de S. Paulo.
Aííirmi raals a cimara (esto vol. pig. 221 ) quo no districto da
nova descoberta tinha havido repartição das minas feita pelo guarda-
raór de Campanha, sendo o próprio Lustosa um dos contemplados, donde
parece quo a sua mudança do Campanha para Santa Anna teve logar
entre 1743 o 1746, mas algum tempo antes do começo dos distúrbio?,
E" provável que uma vez ai li estabelecido tivesse ido a São Paulo con-
ferenciar com o governador e otferecer os seus serviços para o esta-
belecimento do dorainio paulista, recebendo em troco o posto do guarda-
mór c a promessa do apoio.
^ 224 -
Inforraada da disposição do governo de São Panlo ora firmar os
seus direitos na região, a caiuara de São João d'Bl-Rei poz-se em
campo, mas, ao chegar ao rio Sapucahy, encontrou Lustosa disposto
a disputar pelas armas a sua passagem, aliás diíRcultada peh retirada
das canoas que serviam para este fim. Retirando-so para Campanha
/ a caraara mandou a d. Luiz Mascarenhas a referida carta e indubi-
tavehuente deu parte do occorrido ao governador de Minas. A res-
posta do governador de São Paulo era uma declaração categórica do-
seu propósito de manter a jurisdicção paulista e, no mesmo dia, 8 de
Junho, elle escreveu a Lustosa applaudindo o seu procedimento o or
denando-lhe que não consentisse em nenhum acto possessorio por parte
da caraara e ofterecendo-se a ir pessoalmente, caso fosse necessário^,
prender os ofiBcae^ mineiros que se apresentassem no districto.
Conforme as testemunhas ouvidas em 1789 pelo Ouvidor Velloso
o Gama {Archivo, XI, pp. 378-395] Lustosa achava-se nesta occasião &
testa de uma força de mais de 200 homens armados, inclusivo um
destacamento de soldados, e raanteve-se por alguns mezes em pé de
guerra. E' provável que haja alguma exaggeração nestas noticias, co-
lhidas quarenta annos depois. Conforme elle próprio contou, na sua-
carta de 25 de Junho, a guerra mal durou ura mez e consistiu prin,
cipalmente em tiros de papel, oditaes, devassas, etc, tendo a guarni-
ção dos três portos do rio lhe custado mais de 2 O oitavas de ouro.
O que houve de mais sério foi a tentativa da parte da camará de-
preparar i.ma frotilha de canOas para a passagem do rio, que Lustosa
conseguiu frustrar com uma carta, dissuadindo ou amedrontando os
carpinteiros encarregados deste serviço. Finalmente, a 21 de Junho,
a camará não recebendo e esperado ap io do governador de Minas,
Gomes Freire de Andrade, retirou- se deixando a solução do conflicto-
ao governo de Lisboa, conforme ordenou este governador.
Pelos documentos conservados, relativos a este conflicto, Lustosa
raostrou-se nesta occasião difflcil, homem intelligente, enérgico o pru-
dente. A sua proposta de responder ás devassas da oamp.ra, que de-
claravam crimino-os elle e todos os seus companheiros, com uraa
contra-devassa, era de bastante espirito e mostrava uma confiança,
era si de poder luctar no terreno da chicana tão bem como no das-
arraas. As suas cartas, das quaes algumas são coi.servadas no orí-
— 225 —
•ginal, têm muito bôa lettra e são bem redigidas, indicando nma cul-
tura intellectual quo naquella épocha devia ter sido pouco vulgar nos
sertões das duas capitanias.
Durante dois annos a região de Santa Anna doSapucahy ficou em
paz e, debaixo do mando de Lustosa, auxiliado, depois de outubro de
1746, por diversos offlciaes de uma administração regular annexa á
da villa de Mogy das Cruzes, tomou um certo desenvolvimento. Foi
«onstruida nma egreja não somente no arraial como na povoação
nova de Ouro Fino, o que não quadra bem com a denominação de
«quilorabo> que os mineiíos da épocha, como a raposa da fabula, ap-
plicaram a este districto. Em Agosto de 1747, Lustosa, em caria di-
rigida a d. Luiz Mascarenhas, mostrou-se apprehensivo sobre boatos
que correram a respeito de ordens esperadas de Lisboa, mas como
então nada houve de notável é de presumir que os boatos eram fal-
sos, ou que as ordens recebidas não eram conforme os desejos da
camará de São João d'Bl-Rei, sendo talvez referentes á provisão
regia de 30 de Abril de 1747, quo devia ter chegado por este
tempo e que provavelmonto era expedida em consequência do con-
flicto anterior de 1743, e que, confoimo procurei demonstrar no
referido volume do Archivo, resolvia o conflicto anterior da cam-
panha do Rio Verde dando o rio Sapucahy como limite das duas ca-
pitanias.
A 24 de Agosto de 1748 chegou ao Rio de Janeiro a provisão
regia de 9 de Maio do mesmo anno, annexando a capitmiia do São
Paulo á do Rio de Janeiro e auctorizando o governador desta, Gomes
Freire de Andrade, a estabelecer os limites com Minas Geraes. A 27
de Maio de 1749 Gomes Freire de Annrade expediu instrucçõcs ao
ouvidor da comarca do Rio das Mortes, dr. Thomaz Rubim de Barros
Barreto, para a demarcação desta comarca com a de S. Paulo. Me-
zes depois, a 19 de Setembro, o dr, Thomaz Rubim be apresentou no
arraial de S^nta Anna do Sapucahy, acompanhado por uma numerosa
comititiva de S- João d'Bl-Rei, inclusive as principaes auetoridades
da comarca. Conforme uma versão escripta alguns annos depois,
Lustosa, com a gente do arraial, se oppôz á passagem do rio até que
Thomaz Rubim, passando sósinho, conseguiu com boas palavras des-
armar a resistência. Outra versão ó que, cnamado á Campanha,
— 226 —
Lustosa aprosentonso com uma força armada o recusou assistir á
demarcação ou acccitar as compensações que o ouvidor prometteu
obter para elle do governador {Ârchivo, Xí, pg. 50-55). Nenhuma des-
tas versões parece ser rigorosamente exacta, visto quo Gomes Freire
do Andrade ua ordem do prisão quo expediu contra Jjustosa [ArcMvo^
XI, p. 49) só declara quo esto tinha desrespeitado a sua auctoridade
recusando-se a receber a sua carta e retirando-se cora os seus se-
quazes pare o quilombo de Ouro Fino. O informante de Gomes
Freire era Thomaz Rubira que, sem duvida, contou a historia a seu
modo. O mais provável é quo se passou alguma coisa de caracter
puramente pessoal, que o ouvidor por conveniência própria entend2u
nSo contar. Lustosa ainda no tempo em que tinha o apoio de d.
Luiz Masc;irenhas teve instrucções para protestar, mas do não fazer
resistência. Tendo-se antes mostrado intelligento o prudente, é pouco
provável que com a mudança radical das circurastancias tivesse proce-
dido de outro modo. Elle devia ter sido prevenido do golpo que lhe
estava preparado e muito provavelmente do teor das instrucções da-
das ao ouvidor, as quaes tinham sido raezes antes communicadas ao
governador da praça do Santos. Sendo assim, é presumível que, em-
bora com má vontade, elle se sujeitasse ao inevitável, mas que se
permittiu algumas observações ao ouvidor sobre o modo porque es-
tava executando a sua commissão — apresentando-so armado de penna
em Santa Anna do Sapucahy, quando devia ter ido armado do instru-
mentos geodésicos ao alto da Sena da Mantiqueira — que, ofíeudendo
ao amor próprio deste, podiam facilmento ser representadas como des-
obediência ao governador.
Seja como fôr, Thomaz Eubim não encontrou resistência mato-
Tial e recebeu a adhesão á nova ordem das coisas da maior parte da
população do arraial, retirando-se Lustosa cora os descontentes para
Ouro Fino. A 25 de Novembro do 1749 Gomes Freire de Andrade
expediu ordem de prisão contra Lustosa, accusando-o não somente de
desobediência á sua auctoridade como também do ter retido algum
dinheiro das capitações, sendo esta ultima accusação motivada pela
falta de prestação de contas por parte do substituto do intendente
que acompanhou o ox-guarda-mór na sua retirada para Ouro Fino.
A 29 de Junho do anno seguinte as novas auctoridades de Santa Anna
do Sapucahy tomaram posse da egreja de Ouro Fino, donde se pode
presumir que pouco antes desta data Lustosa tinha abandonado o
districto, retirando-se, conforme consta, para o sertão de Curitiba.
O nome de Lustosa apparcco de novo num auto de posse toma-
da em 1755 pela camará de Curitiba, no sertão do Tibagy {Archivo,
XXIII, p. 4.22). O local designado com o nome de Pedra Branca
parece ter sido nas visinhanças da actual cidade de Palmeiras. Entre
os nomes dos que assignaram, depois dos oíílciaes da camará, vem em
segundo logar o de Francisco Martins Lustosa e adeante o de Antó-
nio Martins Lustosa que deve ser filho do ex-guarda-mór de Santa
Anna d; Sapucahy. Annos depois, em 1169, estando já restabelecida
a capitan a de São Paulo, o governador d. Luiz António de Souza
mandou explorar os rios Tibagy e Iguassú e os campos de Guara-
puava, sendo o tenente-coronel Aflfonso Botelho de Sampaio e Souza
o official encarregado deste serviço. Este, conforme os documentos
publicados no volume IV do Archivo do Estado, confiou a missão de
explorar os campos de Guarapuava a Lustosa que, nos documentos,
vem sempre tractado com o seu titulo antigo de guarda-raór. A ex-
pedição comnosta de 18 camaradas partiu a 23 de Julho de 1770 de
Carrapato, na estrada nova para o registro do Iguassú e próximo ao
rio Guaraúna, donde se podo concluir que Lustosa tinha se estabele-
cido nestas immediações e que era um dos mais importantes fazen-
deiros desta região. Não podendo a expedição chegar até os campos,
por causa da estação das aguas, foram plantadas três roças para fa-
cilitar a entrada no anno seguinte. Partindo de novo a 7 de Março
de 1771, e desta vez com 60 homens, incluindo soldados pagos, Lus-
tosa conseguiu subir a serra da Esperança e sahir nos campos a 21
de Abril. D alii voltou para o pé da serra da Esperança para plantar
roça e esperar o tenente-coronel Affonso Botelho que em Dezembro
foi dirigir em pessoa a exploração dos campos, chegando até o rio
Jordão, sempre acompanhado pelo antigo guarda-mór.
Dahi por diante não se encontra mais no archivo referencias a
Lustosa, sendo, porém, de presumir que deixasse descendência no Es-
tado do Paraná. Ainda ultimamente estava empregado no serviço do
levantamento topographico do Estado de Minas ura engenheiro de
nome Lustosa, que se pôde presumir ser descendente do guarda-mór;
— 228 —
e se assim for, é para notar como curiosa coincidência que trabalhou
na mesnra região defendida contra os mineiros por seu antepassado.
Assim, na historia de S. Paulo, Francisco Martins Lustosa re-
presentou um papel saliente, prestando relevantes serviços á sua ca-
pitania mas, por um capricho da sorte, em territórios que ulterior-
mente passaram ao dominio de cutros Estados. O movimento de
Santa Anna do Sapucahy por elle levantado e capitaneado até ser
vencido pela intervenção da auctoridade do governo de Lisboa {inter-
venção esta que na execução loi desviada do seu primitivo intento),
teve, por bera ou por mal, effoitos decisivos sobre o desenvolvimento
histórico da capitania de São Paulo. O effeito mais immediato foi
levar o governo a acceitar o alvitre proposto uns dez anãos antes
por Gomes Freire do Andrade, da supressão da capitania. B' possível
que sem este movimento não se tivesse dado esta suppressão, mas
neste caso os mineiros, obtendo pacificamente a desejada posse deste
districto, não teriam encontrado barreira alguma para a sua expansão
no sertão que é hoje a parte mais rica do E&tado de São Paulo, e
na redistribuição das capitanias, que ora inevitável, S. Paulo teria
sido, talvez, ainda mais sacrificado do que foi em favor das capita-
nias auríferas de Minas Goraos, Goyaz e Matto Grosso, ficando, como
Rio de Janeiro, limitado a uma estreita facha junto ao littoral. Ain-
da que seja attribuido directamente a este movimento o desmembra-
mento da antiga capitania de S. Paulo, a parte tomada nclle por
Lustosa era perfeitamente legitima, sendo do accordo com as deter-
minações do governador de S. Paulo, cujo direito era incontestável
até que foi derogado pela execução, contraria ao seu espirito sinão á
sua letra, dada á provisão regia de 9 de Maio de 1748, desmembran-
do a capitania de S. Paulo. O effeito benéfico da acção de Lustosa
foi o de firmarem S. Paulo a idéa do seu antigo direito pelo Sapu-
cahy que, embora não vencedora, tem sido seiopro uma barreira á
expansão indefinida de Minas Geraes, que por pouco não se apoderou
de todo o valle do Mogy-gua£sú e Rio Grande.
— 229 —
Veríssimo João de Carvalho
Uma outa figura saliente na historia dos limites entre S. Paulo e
Minas Qeraes é a de Veríssimo João de Carvalho, por algum tempo
companheiro de Francisco Martins Lustosa na administração do dis-
tricto de Santa Anna do Sapucahy. O seu nome appareco pela pri-
meira vez nesta historia numa carta escripta ao governador de São
Paulo, d. Luiz Mascarenhas, dando noticia da tentativa da camará d©
São João d'Bl-Rei de tomar posse do arraial de Santa Anna do Sa-
pucahy o ooraraunicando que a camará de Mogy das Cruzes estava
disposta a ir em soccorro daquella descoberta e tomar posse delia.
Dahi se pode concluir que Veríssimo João, como era geralmente conhe
eido, era vereador da camará de Mogy das Cruzes e auctorizado a
falar no seu nome.
Depois de passado o período agudo do conflicto com a retirada,
era fins de Junho, da camará de São João d'El-Eei, d. Luiz Masca-
renhas tratou de organizar o governo regular do novo arraial, que
foi annexado á villa de Mogy das Cruzes. Nas nomeações de offl-
ciaos, feitas a 16 de Julho de 1746, cabia o primeiro logar a Veris
simo João de Carvalho, na qualidade de intendente. A 30 de Outu-
bro do mesmo anno foi lavrado um auto de posse do arraial e, no
dia seguinte, da margem do rio Sapucahy, era que figuram os nomes
dos novos ofiaciaes, sendo do presumir que tivessem chegado poucos
dias antes.
Na occasião em que o ouvidor de São João d'Bl-Rei, dr. Thomaz
Eubim, tomou posse da região de Santa Anna do Sapucahy, a 19 do
Setembro de 1749, Veríssimo João o diversos outros moradores a«-
signaram u auto, achando, sem duvida, que sendo o confiicto termi-
nado por ordem superior não havia motivo para acompanhar o guarda-
mór Lustosa no seu protesto platónico, significado pela sua retirada
com os seus adherentes do arraial. Sendo o homem mais importante
— 230 —
que ficou no arraial e o representante da antiga administração pau-
lista, ó do presumir que as novas auctoridades mineiras tractaram de
não o deixar descontente com a mudança o não seria justo censu-
rai o por ter acceitado francamente a nova situação.
Desta data em deante as chronicas paulistas fazem poucas refe-
rencias a Veríssimo João, sendo certo, porém, que ello se toi'nou uma
das maiores, sinão a maior influencia na região conquistada pela ca-
pitania de Minas, em cujo archivo devem existir muitas referencias
a elle. Consta que a descoberta das minas de Cabo Verde e a fun-
dação do arraial do mesmo nome foram feitas, ou pelo menos pro-
movidas por elle o no mappa do itinerário de Luiz Diogo da Silva,
governador de Minas, em 1764, encontra-se o seu nome entre os dos
arraiaes de Cabo Verde e Ouro Fino, nas immediações do Eio Pardo,
onde é de presumi? que tinha estabelecido a sua residência. Cabo
Verde era nesta epocha uma povoação quasi perdida no meio de ura
vasto sertão, estando, conforme diz o governador, quasi tapada a pi-
cada pela qual se tinha feito a primeira entrada pelo lado de Ouro
Fino. E' de presumir que na occasião da passagem do governador
fosse dada uma administração regular debaixo da direcção de Veris-
simo João, visto que annos depois elle era commandante do districto,
apesar de morar muitas léguas distante e mais próximo de Ouro Fi-
no do que de Cabo Verde.
Em 1778 o commandante do registro paulista Jeronyrao Dias Ri-
beiro attribuiu as tentativas de avançar a fronteira por parte dos
mineiros ás instigações de Veríssimo João, a quem dava o titulo de
capitão. Annos depois, o mesmo commandante referiu que Veríssimo
João tinha estabelecido uma tranqueira numa cabeceira do rio Pardo>.
próximo á estrada de Ouro Fino a Cabo Verde e que veiu lhe mos-
trar uma ordem recebida do governador de Minas do não permittir
aos paulistas avançar um só palmo nem os mineiros uma só polle-
gada adeante da dita tranqueira. Esta curiosa ordem foi dada por
d. António de Noronha, e, ao que parece, foi lealmente executada
por Veríssimo João até a sua morte, que parece ter sido antes de
1785, quando os distúrbios começaram de novo. Em carta de 23 de
Novembro de 1788 Jeronymo Dias Ribeiro refere que Veríssimo João
já era fallecido.
- 231 —
Como assistente da demarcação de Thoraaz Rubim, Veríssimo
João era considerado pelos mineiros como auctoridade no assumpto
de divisas e a interpretação por elle dada aos termos equívocos do
auto do 19 de Setembro de 1749 parece ter sido por muitos annos
acceita por elles como a verdadeira e ter determinad:) os esforços
que fizeram na manutenção do que julgaram ser o seu direito. A
descripção da linha entre o Morro do Lopo e o Rio Grande «acompa-
nhando por ura lado a estrada de Goyaz», prestou-so a uma infinidade
de traçados por estarem vagos o modo de acompanhai* a dita estrada,
o ponto do encontrar com ella e o modo de ligar este ponto com o
Morro do Lopo. Conforme um documento de 1771 (nesta Revista, vol.
III, pag. 271) Veríssimo João dava a divisa como indo em linha recta
do Morro do Lopo até um ponto da estrada de Goyaz, situado duas
léguas ao norte da vilia do Mogy-guassú e dahi seguindo pela mesma
estrada até o Rio Grande. E' evidente a intenção de designar como
ponto de encontro com a estrada o registro paulista de Itapeva, col-
locado de três a quatro léguas ao norte da villa de Mogy-guassú.
Como pela redacção do auto de Thomaz Rubim o ponto de interse-
cção podia ter sido escolhido muito mais perto da cidade de S. Paulo^
é evidente a intenção por parte do auctor deste plano do divisão do
respeitar a posso paulista da estrada até onde esta posse fosse as-
signalada por um estabelecimento offlcial. Assim, é justo reconhecer
que, ao projectar este traçado para a divisa, Veríssimo João revelou
ura certo espirito de justiça, bera como uma alta dose do bom senso
no modo de ligar o Morro do Lopo cora o ponto escolhido por meio
de uma linha recta. Certo ó que em toda a longa contraversia não
se encontra outra definição clara do limito que os mineiros preten-
deram nesta paragem, o embora não conseguissem chegar até esta
linha na sua totalidade, devera a Veríssimo João de Carvalho grando
parte do território era que flrmarara a sua posse effectiva. Pelos
mineiros elle deve ser considerado como um benemérito, e pelos pau-
listas um adversário feito pela força de circumstancias alheias á sua
vontade, o qual, embora contribuindo poderosamente para reduzir o
território da sua antiga capitania, parece ter procedido sempre com
lealdade e boa fé.
- 232 -
Jeronymo Dias Ribeiro
jjf-
Quando era Julho de 1765 d. Luiz António de Souza tomou posse
do governo da capitania de Sao Paulo, restabelecida depois de ter
estado por 16 annos reduzida á categoria de uma comarca da capi-
tania do Rio do Janeiro, ello achou aberto ura novo conflicto cora Mi-
nas Geraes a respeito de minas de ouro descobertas na região do Rio
Pardo, no dlstricto das actuas cidades de Caconde e Mococa e partes
adjacentes do Estado de Minas. A carta communicando a descoberta
e a disposição das auctoridades mineiras de tomar posse delia foi di-
rigida ao commandante da praça de Santos, era data de 20 de Agos-
to, pelo sargento Jeronymo Dias Ribeiro, commandante do registro de
Itapeva, próximo á villa de Mogy-guassú. Desta data em deante até,
1807 encontra- se este nome nos documentos relativos aos limites e,
conforme a sua própria declaração, o portador delle já em 1765 ti-
nha passado longos annos na guarda e defesa da fronteira da capi-
tania de São Paulo.
Num inquérito feito em 1789, Jeronymo Dias Ribeiro declarou
que era natural da freguezia de Cotia e que ^linha então 62 annos,
pouco mais ou menos. Declarou mais que tinha estado com Francisco
Martins Lustosa no conflicto de Santa Anna do Sapucahy (em 1746
quando devia ter estado com 19 annos de edade) e que estava com-
mandando, havendo chegado ha pouco, o destacamento de Jacuhy,
quando, em 1764, o governador de Minas, Luiz Diogo Lobo da Silva
tomou posse daquelle arraial. Ao que parece, Jacuhy era o ponto
avançado do systema de fiscalização das estradas, mantido pela então
comarca de São Paulo e depois da occupação deste ponto pelo go-
vernador de Minas o registro foi recuado para Itapeva, poucas léguas
— 23B —
adeante da villa de Mogy-guassú e próximo á actual estação de Matto
Sêcco, na estrada de ferro Mogyana. Alli estava no anno seguinte o
sargento Jeronyrao Dias Ribeiro, donde coraraunicou ao comm andante
da praça de Santos uma nova descoberta de ouro na região do Rio
Pardo, lembrando a conveniência de medidas urgentes a flra de as-
sugurar a posse para São Paulo, era cujo território estava.
Sendo esta noticia transmittida a D. Luiz António de Souza, re-
cemchegado governador da capitania restaurada de S. Paulo, ura dos
seus primeiros actos foi mandar o capitão Ignacio da Silva Costa ao
novo districto, onde foi eíRcien te mente auxiliado por Jeronyrao Dias
na solução da questão, que foi resolvida paciíicaraento pela retirada
dos faiscadores e a interdicção do districto pelo governador de S-
Paulo, que pela sua promptidão de acção, antecipou a posse que as
auctoridades mineiras tencionavam tomar das novas minas. Soguiu-se
uma longa correspondência entro os governadores das duas capitanias
a respeito da posse deste districto até que afinal, era principies do
anno 17d6, foi convencionada uma espécie de convénio de statu quo
ficando provisoriamente sujeita á jurisdiccão de S. Paulo a região
que, durante alguns annos, permanecia em paz.
Era 1770 parece ter havido accusações de extravios de dinheiro
contra Jerouymo Dias visto ter o governador expedido ordens de o
prender e para o sequestro dos seus bens. Devia ter sido accusação
falsa da qual elle se justificou, visto que no anno seguinte, estava
outra vez em serviço tomando parte nos conflictos dos annos de 1771
a 1773. Nesta occasião um destacamento mineiro veiu pôr marco e
estabelecer registro nas margens do Rio Pardo, no districto da actual
cidade de Mocóca, e passando o rio chegou até perto da actual cidade
do Casa Branca. Durante o periodo agudo desta questão houve um
ofíicial superior em commando por parte de São Paulo, mas aca-
bada a lucta (sem notável modificação das posições primitivas) Jero-
nyrao Dias voltou a coraraandar o registro, que tinha sido reraovido
para o centro do districto questionado.
Por titulo de 2o de Março de 1774 D. Luiz António de Souza,
estando a organizar ura contingente de tropas para mandar ao Rio
Grande do Sul e sentindo falta de ofiaciaes subalternos; promoveu
Jeronyrao Dias ao posto de alferes, mas sora os vencimentos do
— 284 —
posto, dando assim uraa prova de apreciação dos seus serviços na
defesa da fronteira. Parece, porem, que não seguiu para o Rio
Orando do Sul visto que, era Agosto do mesmo anno, teve ordem de
repartir as datas do descoberto do Rio Pardo, cnjas minas eram
então desimpedidas.
E' para notar que o governador Martim Lopes Lobo do Saldanha,
que cancellou muitas das nomeações do seu antecessor, sempre se
dirigiu ao <coramandanto do rcgistro>, evitando assim dar a Jeronymo
Dias o titulo militar de alferes ou do sargento.
Era 1775 Jeronyrao Dias Ribeiro estava era commando do um
registro que ello denominava « Descoberto de Nossa Senliora do Bom
Successo das cabeceiras do Rio Fardo» mas, que pelo governador era
chamado indifferentemente < Registro do Caconde> ou «Registro do
Rio Pardo >. O antigo registro de Itapeva tinha sido mudado era
Maio de 1772 para o lado norte do Rio Pardo e, ao que parece, nas
margens do ribeirão das Canoas na vizinhança da actual cidade de
Mocóca. De 1780 em deante o registro, talvez depois de uraa outra
mudança, ficou definitivamente com o nome de São Mathous, sen-
do a sua posição nas iraraediaçõos da actual cidado de Cacon-
de. Alli Jeronyrao Dias teve de se oppôr durante algura tempo
ás tentativas de avançar a fronteira, feitas pelo povo de Cabo Verde
capitaneado por Vorissimo João de Carvalho, até que, era 1778, este,
era obediência á ordem de d. António de Noronha, governador de
Minas, estabeleceu uraa tranqueira nura affluento do Rio Pardo quo
parece sor nas iraraediações da actual cidade de Caldas, com ordem
de não perraittir aos paulistas avançar um só palrao para deante e,
da sua parte, de não avançar uraa só pollegada.
Em 1781 foi descoberto ouro no próprio Rio Pardo e no ribeirão
Bom Jesus acima do registro de S. Matheus, sendo a repartição das
datas feita por Jeronymo Dias Ribeiro, sem notável opposição por
parto dos mineiros. Mais ou menos nesta epocha foram estabelecidas
algumas fazendas de criar nos campos dos Poços de Caldas na es-
trada que da villa de Mogy-guassú ia ao registro de S. Matheus o
em sesmarias concedidas polo governo de S. Paulo. Estas minas e fa-
zendas tornaram-se objecto da cobiça dos povos do Cabo Verde e
Ouro Fino, e era 1785, presumivclmcnto depois da raorte do Vcrissi-
r
— 235 —
mo João de Carvalho, houve uma tentativa de tomar posso delias
que foi frustrada pela vigilância de Jeronymo Dias, Renovada esta
tentativa em 1787, na occasiáo de uma interinidade no governo de
S. Paulo, a denuncia do commandante do registro não foi attendida
com promptidão pelo então governador, e os mineiros conseguiram se
estabelecer durante alguns mezes nos campos dos Poços de Caldas,
mas, ao que parece, tiveram no anno seguinte de se retirar ou de se
submetter á jurisdicçãj de S. Pauio. Resultou deste movimento a
abertura de uma nova estrada para Cabo Verde e Jacuhy que redu-
ziu muito a importância da que passava no registro de S. Matheus,
do qual dahi em doante ha poucas noticias alóm das da falta quasi
absoluta de trafico na estrada. Continuava o velho Jeronymo Dias
Ribeiro no commando e ainda em 1807 elle dava com a costumada
promptidão noticia de um projectado movimento que não teve conse-
quências, pedindo ao mesmo tempo exoneração do cargo por causa da
sua edade avançada, sendo esta concedida a 2l de Agosto do mesmo
anno. Desta data em deante não existe no archivo mais noticia sua
e estando então com 82 annos de edade c do presumir que a sua vi-
da laboriosa o útil se extinguisse logo depois.
Ao sargento Jeronymo Dias Ribeiro, São Paulo deve quarenta o
trcs annos de vigilante actividade na sua fronteira de Mogy-guassú
para doante, o justamente na opocha mais critica para a defesa do
limite que lhe tinha sido deixado durante o poriodo da suspensão do
seu governo independente. Felizmente nesta epocha os governadores
paulistas eram vigilantes e tenazes na defesa dos direitos de sua ca-
pitania o foram auxiliados por subordinados do quilate de Jeronymo
Diaí? Ribeiro. Esto velho servidor da cypitania de São Paulo teve a
satisfacçã3 de fechar os olhos deixando a parte da fronteira confiada
á sua guarda essencialmente nas mesmas condições em que estava
quando elle primeiramente appareceu nesta historia como comman-
dante, em 1765, do registro do Itapeva. Si nesta epocha elle e os
seus companheiros de lucta tivessem sido menos activos o vigilantes
ou os governadores menos promptos e llrmes nas providencias recla-
madas, os mineiros se teriam infallivelmente estabelecido na antiga
estrada de Goyaz, o S. Paulo teria perdido os importantes districtos
de Casa Branca, S. José do Rio Pardo, Mocóca, Caconde, Cajurú, São
Simão, Ribeirão Preto, Batatacs e Franca.
I
- 236 -
Apesar do seu posto humilde e da sua vida, desde muito moço,
de soldado Jeronymo Dias Ribeiro parece ter tido instrucçao regular
para aquelle tempo, escrevendo com bôa lettra e redacção soffrivel as
suas coraraunicações ao governo.
Valsrio Sanches Brandão.
Durante os conflictos na região do Rio Pardo, e.r. 1771 e 1772,
brevemente referidos na nota precedente sobre Jeronymo Dias Ri-
beiro, o commandante do destacamento mineiro no arraial de Jacuhy
era o alferes Valério Sanches Brandão, com quem se deu um inci-
dente, escassamente documentado, que revela um interessante episodio
da historia local desta parte da fronteira entre as duas capitanias de
S. Paulo e Minas • Geraes .
Este ofiacial, preso por ordem do conde de Valladares, governa-
dor de Minas, fez uma longa representação ao governo de Lisboa pe-
dindo soltura o sendo esta representação remettida, em 1774, a d.
Luiz António do Souza, governador de S. Paulo, para informar, elia
ficou registrada no archivo de S. Paulo. Com este documento, com-
binado com os factos já conhecidos do conflicto, podo-se restaurar
nos seus traços geraes a historia de uma tentativa de revolta em
Minas que, si não fosse frustrada pelo então commandante do arraial,
muito podia ter influído na historia subsequente das duas capitanias.
Neste tempo, conforme se vê pelo escripto estampado na Revista
do Instituto Histórico, em 1852, do desembargador José João Teixeira
Coelho, que ora então magistrado em Villa Rica e conselheiro do
governador da Capitania, era ofiBcialmente acceita em Minas a inter-
pretação dada por Veríssimo João de Carvalho á demarcação de
Themaz Rubim, isto ó, que o limite devia alcançar a estrada de SSo
Paulo a Goyaz no registro paulista de Jtapeva e acompanhar esta
estrada até o Rio Grande. Para alcançar esta divisa o condo de
Valladares, rompendo o convénio de statu quo, estabelecido em 1767
com o seu antecessor, deu ordem ao commandante de Jacuhy para
estabelecer uma guarda e um registro na margem do Rio Pardo. Na
execução desta ordem o alferes Brandão mandou, em Setembro de
1771, uma guarda de soldados á passagem do Rio Pardo, na estrada
- 237 -
para Jacuhy, no sitio denominado do «Bezerra> que parece ser no
districto da actual cidade de Mocóca. Esta guarda, passando o rio,
começou a rondar a estrada de Goyaz até próximo ao sitio, hoje
cidade, de Casa Branca. O governador de Sâo Paulo reforçou as
suas guardas nesta paragem e, emquanto aguardava resposta ao pro-
i;esto dirigido ao governador do Minas, parece ter dado ordem de não
;permittir aos goralistas, como então se chamavam os mineiros, passa-
rem o Rio Pardo, mas a deixar era paz as suas guardas na margem
■direita daq-telle rio.
Em Janeiro de 1772 o conde de Valladares, em nome da junta
da fazenda de Villa Rica, mandou de novo estabelecer a guarda e
registro no Rio Pardo o de cobrar desde o 1 do Janeiro os direitos
de entrada que até então tinham sido pagos no registro do Sao Pau-
lo. No começo de execução da ultima parte desta ordem deu-se um
incidente que bem demonstra o estado dos ânimos por ella produzi-
do. Em princípios de Fevereiro, estando em Jacuhy o cobrador dos
impostos por parte de São Paulo, José Pinto Gomes de Almeida,
chegaram dois negociantes que já tinham pago os direitos em Mogy-
guassú. Sendo-lhes exigido o pagamento de novos direitos o cobra-
dor protestou e entrando a discutir com o commandante, este o
ameaçou de morte e mandou prendol-o no tronco.
Com admirável teimosia o cobrador escreveu uma carta datada
de «Prisão de Tronco de Jacuhy» contando os acontecimentos e de-
clarando que pretendia não sahir do tronco «ainda que me queiram
soltar > até que fossem dadas as providencias que reclamava.
A cobrança de direitos duplicados produziu em ..'acuhy um movi-
mente de revolta contra o domínio mineiro que, estabelecido havia uns
sete annos apenas, não estava, ao que parece, ainda bem consolidado
por ser o arraial de origem paulista e ter as suas relações coramorciaes
exclusivamente com a praça de São Paulo. Conta o alferes Brandão,
na ííua petição de graça, que animada por boatos da intenção dos
paulistas de vir tomar posse do próprio arraial, grande parte da sí;a
população, capitaneada por algumas auctoridades locaes, se declarou
francamente em favor Ar passagem do districto para a capitania de
São Paulo. A 23 de Maio de 1772 d. Luiz António de Souza deu
«ordem de remover o registro de Itap^^-va para a margem do Rio Pardo
h
— 238 —
na passagem (Ia estrada do Goyaz ou, si fosso mais conveniente»
para um riboiráo na estrada do Jacuhy, o qual parece ser o ribeirão
das Canoas, nas proximidades da actual cidade do Mocóca. Ao que
pareço foi esto ultimo o p^nto escolhido, sendo provavelmente este o
registro que por algum tempo foi conhecido com o nome de Nossa»
Senhora do Bom Successo o que em 1780 foi removido para o ribei-
rão de Sao Mathous. Na mesma occasião o governador de São Paulo
dirigiu um enérgico protesto ao commandantc de Jacuhy, remettcndo-o
por um soldado de Mina?, quo tinha sido preso por Jeronyrao Dias
Eibeiro por tentar estabelecer um registro mineiro na margem do
rio Pardo.
A noticia deste protesto e do estabelecimento do novo registro
paulista produziu, como era natural, grande sensação em Jacuhy o
espalhou-se o boato falso de que os paulistas tencionavam vir cora
força apoderar-se do próprio arraial. Em vista deste boato os des-
contentes de Jacuhy se prepararam para o levanto, mas por um acto
de energia, prendendo as cabeças da revolta inclusive o juiz da
terra e o alraotacel, o commandante Brandão conseguiu dominar o
movimento. Alguns mczos depois, em Outubro ou Novembro, cessou
o conflicto, provavelmente por desanimo por parte do governo de Mi-
nas, demasiado distante para liday com a necessária força e prompti-
dão contra a energia e prudência de d. Luiz António do Souza.
Era consequência destes acontecimentos o alferes Valério Sanches
Brandão foi punido com prisão e confisco dos bens, ostensivamente
por abuso de auctoridade em prender auctoridades de Jacuhy, mas
provavelmente, como elle insinua na sua petição, por não ter conse-
guido exei*utar o plano de avançar a fronteira até o Rio Pardo c a
estrada do Goyaz. Não era usual naquello tempo punir com tanta
severidade os abusos do auctoridade e si a resistência da parte do
S. Paulo tivesse sido menos forte e tenaz, é quasi certo que os pre-
sos do Jacuhy teriam em vão reclamado justiça. O alferes Brandão
foi vencido por força superior na execução das ordens que lhe foram
transraittidas, mas na sua fó de oflacio devia ter sido reconhecido o
importante serviço do ter firmado, numa occasião critica, a jurisdic-
çao dí^ Minas nos districtos de Jacuhy e Cabo Verde.
— 289 —
Conforme as inforraações graciosamente prestadas pelo Dr. Júlio
Brandão, Inspector Agrícola da parte actualmente paulista da região
então em litigio, o Alferes Valério Sanches pertencia á importante
familia Brandão, que até hoje tom sido sempre uma das mais influen-
tes na região sul-mineira e que desde os acontecimentos de Jacuhy,
aqui referidos, tem sempre representado papel saliente em questões
de divisas. No Archivo Publico Mineiro e em poder dos actuaes re-
presentantes da familia devem existir muitos documentos referentes
a este personagem.
Orville a. Debby.
Os primeiros descobrimentos de ouro
em Minas Geraes.
Nas escassas referencias e tradições relativas ás primeiras explo-
rações, ou entradas, effoctuadas durante quasi século e meio no vasto
sertão que hojo constituo o Estado de Minas Geraes, das quaes se
tem conservado notioia, vem quasi sempre uma sobre descobrimentos
de metacs ou pedras preciosas. Em parte imaginários, era parto ver-
dadeiros, estes descobrimentos nao lograram o effeito de chamar para
o território em questão nenhum morador permanente até que, nos
últimos annos do século XVil, descobriram-se as ricas jazidas do
ouro dos córregos da vizinhança da actual cidade de Ouro Preto-
Houve então uma d-íslocação da população, ou na phrase inglcza, um
rush, que, — guardadas as relações do terapo, de facilidade do commu-
nicações o de outras circumstancias, — foi talvez mais notável do quo
os do século presente provocados pelos descobrimentos de ouro na
Califórnia, na Austrália e no Transvaal. Uma vez dado o primeiro
^mpulso, o vasto planalto mineiro ficou dentro de muito poucos annos
desbravado e povo do. Uns trinta annos depois veiu o descobrimento
dos diamantes completar a realização dos sonhos dos primeiros explo-
radores, bem que na forma do ouro e diaraant^ís era vez de prata e
esraeraldas com que durante quasi dois séculos se sonhava.
Antes de considerar detalhadamente este notável acontecimento,
que tanto influiu na historia do Brazil, ijonvem estudar rapidaraente
e á luz dos documentos até hoje conhecidos as entradas que o pre-
cederam .
A primeira entrada de que se tem conservado noticia foi orga-
nisada, em 155? ou 1553, polo governador Thomé do Souza e com-
raandada, conforrae as investigações do sr. Capistrano de Abreu
( tEphemerides Minewas», vol. I, pag. 372 ), por Francisco Bruza de
— 241 ^
Spinosa. E* raosmo do presumir que esta entrada fosso a primeira
de todas, a nao str que penetrasse, como ó muito provável, no terri-
tório mineiro a mal conhecida expedição mandada do Rio de Janeiro
por Martira Affonso em 1531. O motivo para esta expedição, dado
por documentos contemporâneos citddos pelo historiador Varnhagen
^Historia do Brasil, 1.» ed. vol. I, pag. 215), era a vaga esperança de
alcançar uma região mineral em prolongamento da do Peru, vagas
noticias dos Índios sobre a existência de ouro (que os ditos Índios não
conheciam) (i) e informações positivas sobre jazidas do pedras verdes
que os indioã tinham em alta estimação e que aos portuguozes pare-
ceram ser esmeraldas. Acompanhou a expedição o padre jesuita João
de Aspilueta Navarro que, numa carta datada de Porto Seguro em
24 de junho de 1555, dá as únicas informações até hoje conhecidas
a respeito delia. Da carta do Padre Navarro apontamos as partes
seguintes essenciaes para o presente estudo í^).
«Caríssimos irnalos : Passa de anno e meio que por mandado
do nosso P. Manoel de Nóbrega ando em companhia de doze homens
christãos, que por mandado do capitão entrarão pela terra dentro a
descobrir se havia alguma nação de mais qualidade, ou se havia na
terra cousa porque viessem mais christãos a povoal-a, o que summa-
mente importa para a conversão destes gentios. Esta não é senão
(1) E' de preâumir que antes como depois desta epocha os indios tivessem dado in-
formações a respeito de ouro, prata e outras cousas avidamente procuradas pelos euro-
peos, mas em respostas snggestionadas peias próprias perguntas. Exemplo frisante destas
respostas suggestionadas é a tão falada carta de 20 de Julho de l'>50 em que Felippe
Guelhem conta ingenuamente que os indios depois de confirmarem a existência de pedras
amarellas (ouro na imaginação dos ouvintes) acrescentaram por sua conta o detalhe que
se costumava fazer dessas pairas gamellas para dar a comer aos porccs! Os indios do
Brazil conheciam e trabalhavam admiravelmente em pedras coloridas por elles consideradas
como preciosas, mas nada indica que tivessem qualqner conhecimento dos raetaes. Com o
argumento plausível, mas fallaz, enunciado por Thomé de Souza que «esta terra e Peru é
tola uma» os Portuguezes difficilraente se convenceram de que não existiam no seu ter-
ritorÍ3 tribus com riquezas accumuladas, como os Incas, para serem saqueados, e uma vez
deõeaganados a este respeito ainda mais difficilmente se conveiiCeram de que a riqueza
argentifera do Peru não se estendia ao Brazil.
(2) A carta vem estampada por extenso na primeira edição da Historia do Brasil
(vol. I, pag. 460) de Varnhagem e nacoUecção das cartas jesuíticas avulsas de 1519-1568
cuja publicação foi começada em 18^7 por Valle Cabral e Capistrano de Abreu.
_ 242
para lhes dar conta como depois do tempo que disse voltei com todos
os doze companheiros, pela graça do Senhor, salvos o em paz que
era o pafa que o padre mo enviara com elles.
«Dar-lhcs conta do caminho em particular, soria nunca acabar ;
mas como sei que com isso lhes vou dar consolação, direi em geral
alguma cousa do que passamos o vimos. Saberão, irmãos caríssimos,
que entramos pela terra dentro 350 léguas, sempre por caminhos
pouco descubertos, por serras mui fragosas que não tem conta, e
tantos rios que em parte no espaço de quatro ou cinco léguas passa-
mos cincocnta vezes contadas por agua, e muitas vezes se me não
soccoí^rerara me houvera afogado. Mais de três mezes fomos por
terras mui húmidas e frias por causa das muitas arvores mui gros-
sas 3 altas, de folha que sempre está verde. Chovia muitas vezes ;
e muitas noites dormíamos molhados, especialmente em legares des-
povoados ; assim todos em cuja companhia eu ia, estiveram quasi a
morte de enfermidades, uns nas aldeias, outros em despovoados, e sem
ter outra medicina que sangrar-se de pó, forçando a necessidade a
caminhar : e sem ter outro mantimento as mais das vezes que fari-
nha e agua, não perigou nenhum ; porque nos soccorreu N. S. com
sua misericórdia, livrando-nos também de muitos perigos de indio>
contrários que muitas vozes determinavam matar-nos ; principalmente
em uma aldeia grande onde estavam seus feiticeiros fazendo fei-
tiçarias, aos quaes, porque andam de uma parte para outra, fazem os
Índios grandes recebimentos, concertando os caminhos por onde hão-
de vir e fazendo grandes festas do comer e beber.
«No outro dia nós fomos e passamos muitos despovoados espe-
cialmente um de vinte o três jornadas por entre uns Índios que cha-
mam Tapuyas, que ó uma geração de Índios bestial e feroz ; por que
andam pelos bosques, como manadas de veados, nus, com os cabellos
compridos como mulheres ; a sua fala ó mui barbara e elles mui car-
niceiros ; trazem frechas ervadas e dão cabo de um homem num
momento. Para passar entre elles juntamos muitos dos que estão
em paz comnosco, e passamos com espias adianto com grande perigo-
«Os dias aqui eram calorosos e as noites frias, as quaes passa-
Tamos som mais cobertura que a do céo. Neste ermo passamos uma
— 243 —
serra mui grande, que corro do norte para o moio-dia o nolla acha-
mos rochas mui altas do pedra mármore Desta serra nascera mui-
tos rios caudaes ; dois dellos passamos que vao sahir ao mar entre
Porto Seguro e os Illiécs ; chama-so ura Rio Grande, e o outro Rio
das Orinas- Daqui fomos dar com uma nação do gentios que so
chama <Cáthigucú». Dahi partimos e foraos até um rio mui caudal
por nome <Pará>, que segundo os Índios nos informaram é o rio de
S. Francisco, e ó mui largo. Da parte donde estávamos sao os Ín-
dios que deixei; da outra se chamam Tamoyos. inimigos delles; o
por todas as outras partes Tapuyas. Vendo-nos pois neste aporto,
pareceu a todos que ordenássemos barcos cm que fossemos pelo rio ;
e assim começou cada ura fazer o que entendia porque nao tinharaos
carpinteiros; e assim nos assentamos cm uma aldeia junto da qual
passa um rio por nome «Monayb, quo vai dar no outro, e isto para
sermos sentidos dos contrários quo estariam dahi três léguas. Cor-
remos mui grão perigo, porque os índios quo estão da outra banda
do rio souberam do nós, e passaram de nos impedir a viagem ; o fo-
o perigo tão grando que mo raetti na hermida, e mo puz diante do
um Crucifixo, quo levava commigo. Foi N. Snr. servido que ainda
quo alguns foram mal tratados, nenhum perigou, o eu os curava com
mel silvestre c os índios foram mal tratados ; pelo que nos embarca-
mos com muito cuidado, o fomos pelo rio abaixo ; mas não podemos
continuar a navegação o assim foi necessário tomar conselho do novo
acerca do nosso caminho por ser toda a terra, povoada em derredor
do diversimas gerações de índios mui bárbaros o cruéis. As terras
que cercara esto rio era trinta léguas ou mais são mui planas o for-
mosas. Sabidos do Rio fizemos nosso caminhiy por terra volvendo-nos.»
Coníorrae os próprios terraos desta narrativa, a expedição foi guida
por Índios Tupiniquins do littoral e seguiu por caminhos já existen-
tes ligando as aldeias destes Índios, ou dos sons parentes o alliados,
do cujo território so sahiu n-iraa travessia de vinte três dias. Cora
esta indicação tão positiva podemos tomar como extremamente pro-
vável, se não absolutamente certo, que. era regra geral forara feitas
as primeiras entradas no sertão por carainhos preexistentes, de modo
quo o roteiro do uma, uma vez conhecido, podia ser aproveitado para
•esclarecer os pontos obscuros das outras. Com esta consideração eni
— 244 —
Tista e, acceitando como certas a identificação dos rios Grande
(Jequitinhonha) e Pará (S. Francisco) é possivel reconstruir de modo
relativamente satisfactorio o itinerário desta entrada.
O districto das pedras verdes, como se sabe pelas explorações
subsequentes, é na lombada entre os valles dos rios Doce e Jequiti-
nhonha e especialmente na região em redor das cabeceiras dos lioií
Mucury e Cricaré (São Matheus). Sabe-se também pelas explorações
referidas adeante que para alcançar esta região do littoral havia polo
menos dois caminhos de Índios, um pelo valle do rio das Caravellas,
seguido por Adorno, e outro pelo do rio Cricaré pelo qual voltou a
expedição de Martim Carvalho. B' provável que houvesse também
outros caminhos pelos outros valles que neste trecho da Rerra do Mar
descem para a costa, entre os quaes o do rio Mucury ofterece a gar-
ganta mais favorável, hoje aproveitada pela estrada de ferro Bahia e
Minas. B' também possivel que, como na viação moderna, a entrada
pela barra do rio das Caravellas fosse para ganhar esta garganta. Na
hypothese de serem os dois caminhos conhecidos os únicos então exis-
tentes, é mais provável quo o seguido pela expedição fosse pelo rio
das Caravellas, não somente por mais próximo ao ponto da partida,
Porto Seguro, como também por ser presumivelmente mais seguro,
visto que o caminho pelo Cricaré acompanhava o linaite entre os Tu-
pinaquins e uma outra nação, a Guaitacá.
Uma vez no planalto, provavelmente no disti-icto da actual cidade
de Philadelphia, e fora do matto da Serra do Mar e das suas imme-
diaçõos, a expedição parece ter continuado pela região campestre ao
sul do rio Jequitinhonha até encontrar a Serra do Espinhaço, na
secção que depois ficou conhecida pelo nome de Serra do Frio, que
se diz ser tradueção do nomo indígena, Hyvituray ou Ibitutuy {Ibiti-
roig Ibitirohy), á qual talvez se refira á observação do padre Na-
varro sobre as noites frias.
Foi talvez nesta travessia que se encontrou o território dos Ín-
dios hostis. Tapuyas. A referida secção da Serra do Bspiníiaço corre,
conforme a descripção, de norte para sul e é caracterizada por picos
de quarzito branco quo facilmente se confunde com mármore. Dos-
dois rios que correm desta serra um foi identificado, e é provável
que correctamente, com o Rio Grande ou Jequitinhonha, e neste caso.
— 245 —
o outro denominado Rio das Urinas não pode ser senão o Arassuahy
em cujas margens Sebastião Tourinho encontrou depois uma aldeia
de Tupinaquins. A donomin çEo de «caudaes», dada a estes rios nos
pontos era que foram atravessados indica as iramediações da actual
cidade de Minas Novas, ou peio menos ura ponto de passagem bastante
para o norte da actual cidade de Diamantina, em cujo districto o nome
do rio Caetliê-mirim talvez conserve a tradição da tribu Cáthigusú
{Caethé-guassú'?).
Estando ao norte do Jequitinhonha é de presumir que a expedi-
ção seguisse polo valle do Itacarabira e por elle alcançasse o alto da
Serra do Espinhaço, donde desceu para a margem do S. Francisco.
Esta hyhothese acha, de certo modo, confirmação na derrota de Fer-
não Dias í^aos Leme que, mais de um século depois, subiu ao norte
até o Itacarabira para voltar ao sul até o Itamarandiba, apparente-
mente no intuito de ganhar este mesmo caminho antigo dos Tupina-
quins. Si, como ó provável, foi por ahi o roteiro da expedição de
1553, o ponto alcançado no rio S. Francisco deve ser a barra do al-
gum rio maior, fronteiro a esta secção da Serra do Espinhaço, Isto ó,
o rio Jequetahy ou o rio das Velhas (1) que servia de fronteira en-
tre os Tupinaquins, ou seus alliados, e os Tapuyas, tendo do outro
lado do S. Francisco os Tamoyos ou Tupinambás, ahi conhecidos pelo
nome de Amoipuios, isto é, os de outro lado. Com esta supposição
combina, de algum modo, o facto de ter a expedição de 1602 de S.
Paulo encontrado Índios hostis na região do rio das Velhas e próxi-
mo ao rio S. Francisco.
1 o mappa de Coronelli de 1688 representa dois affluentes orientaesdoS. Francisco
com os nomes de Geta Caig e Ouibuig, que se pode presumir serem Jequetahy e Guaicuhy
(Rio das Velhas). O mais oriental destes rios figura sem nome no mappa de Sanson de
16.Õ0. Dahi se pode concluir que o valle do rio Jequetahy representava papel importante
na viação primitiva do sertão do São Francisco e de facto este valle dá o accesso mais
fácil ao São Francisco a partir da secção da Serra do Espinhaço cruzada pela antiga
estrada indigena. A supposição, baseada nos mappas de Sanson e Coronelli, de ter sido
o Jequetahy conhecido e frequentado pelos europeus antes do Rio das Velhas está de
accôrdo com a affirmação do padre Navarro de na barra do seu rio «Monayl» haver
Índios amigos dos Tupinaquins e outros hostis por toda a vizinhança.
— ^m —
Dosta expedição não so encontrou noticia alguma a respeito de
descobriraontos niineracs ; entretanto, é de presumir que trouxesse
alguma indicação que servisse do base para as outras entradas que
se lhe seguiram com curto prazo de tempo.
Poucos annos depois desta expedição, era looO conforme a ins-
cripção no tumulo de Braz Cubas, referida por Fr. Gaspar, se desco-
briu ouro no districto da villa de S. Paulo, m.as, ao que parece, esto
facto pouca influencia teve no desenvolvimento da colónia.
Alguns annos depois houve outra expedição, cm epocha incerta
raas, provavelmente, anterior a 1570. Desta dá noticia o escrjptor
Pêro do Magalhães, no seu Tradado da Terra do Brazil, offerccido
^0 príncipe Henrique, provavelmente era lõTO, o publicado ora 18 ?5
na Collecção de noticias para a historia e geogrophia das nações ultra-
marinas. Conformo declaração do auctor, foi offorecido, poucos dias
antes, ao rei ura outro escripto sobro o Brazil que provavolraente era
oste mesmo trabalho com a falta do capitulo abaixo transcripto, quo
se declara ter sido accroscentaio no ultimo momento á cópia desti-
nada ao príncipe. Pouco tempo depois, em 15TC, Pêro de Magalhães,
accreseentando ao seu nome o opitheto de «Gandavo» (natural do
Gand) pelo qual ó geralmente conhecido, publicou com o título de His-
toria da 'provinda de Santa Cruz: a que vidgarmeute chamamos Brazil
«ma obra que é essencialmento uraa edição do sou tratado, destinada
ao publico e redigida cora mais desenvolvimento o pretenções littora-
rias, mas cuidadosamente mutilada do tudo que tinha caracter de da-
<los estatísticos, inclusive o capitulo sobro descobrimento de minas.
Este capitule do «tractado» é o seguinte :
«A esta capitania de Porto Seguro, chegaram certos Índios do
Sertão a dar novas de umas pedras verdes, quo havia numa serra
muitas léguas pela terra dentro e traziam algumas delias por amos-
tras, as quaes eram esmeraldas, mais não do muito preço ; o os mes-
mos índios diziam que aaquellas haviam muitas, e que esta serra era
mui ferraosa o resplandoscente. Tanto que os moradores desta capi-
tania disto foram certiflcados, íizeram-so prestes cincoenta ou ses-
senta Portuguezes cora alguns índios da terra o partiram pelo Sertão
dentro, cora determinação de chegar a esta serra onde estas pedras
— 247 —
estavam. Hla por capitão desta gento um Martim Carvalho, (1), qiio
agora lio morador da Bahia do todos os Santos; entraram pela terra
algumas duzentas o viiito léguas, onde as mais das serras que acha-
ram o viram eram do mui tino cristal, o toda a terra cm si
muito fragosa, e outras muitas serras do uma terra azulada, nas
quaes aSirmam haver muito ouro, porque — [neste ponto ha algumas
palavras illegiveis no mamiscripto)— entro duas serras ; desta maneira
foram dar num ribeirão que pelo pé do uma delias descia, na qual
acharam entre a areia uns grãos miúdos araarcllos, os quaes alguns
homens apalparam com os dentes, e acharam-nos brandos, mas não
se desfaziam ; finalmente que todos assentaram ser aquillo ouro, nem
podia ser outro metal, pois o mesmo ouro desta maneira nasço nas
partes onde o ha. Apanharam destes grãos entro a areia do ribei-
rão quantidade de um punhado, oíi quaes acharam muito pezadôs
que também era prova do ser ouro, deste não flzcrão experiên-
cia por ser aquilo no deserto o haver muitos dias que padecião
grande fome ; nem comião outra cousa so nao somente hervas e
alguma cobra quo raatavão ; passarão adiante determinando a vin-
da tornar por ali apercebidos de mantimentos, para buscar a serra
mais de vagar, donde aquelle ouro descia ao ribeirão. Acharão pelos
matos muita canaflstula, por esto caminho acharão muitos meraes que
não conhecerão, nem podião esperar pelas guerras dos índios que so
levantarão contra elles. Alguns índios lhes dcrão noticias, segundo
a menção que fizerão, que podião estar cem léguas da serra das pe-
dras verdes que hiáo buscar, e que não havia muito dali ao Peru,
finalmente quo com os inimigos que reciavão o pela gente que adoe-
cia tomarão-se outra vez em alraadias por um rio que se chama Cri-
caré, onde se perdeu numa cachoeira a canoa em que vinhão os grãos
de ouro que trazião para amostra.
« Nesta viagem gastarão oito mezes, o assim desbaratados chega-
rão a esta Capitania de Porto Seguro>.
(1) Naquelle tempo, conforme informação do si. Capistrnno de Abrea, haviam dois
Martim Carvalho : um possuía eageaho na Bahia, como se lê em Gabriel Soares, e
outro serviu de guarda de fazeada nas guerras de Parahyba, como se lê no Summario
■das Armadas.
— 248 —
Por esta noticia parece que a expedição de Martira Carvalho se-
guia até ura certo ponto o mesmo caminho da de Espinosa, mas que
para chegar á desejada serra das esmeraldas, que não conseguiu al-
cançar, penetrou no território de uma tribu de Índios hostis na região
do alto rio Cricaré — pelo qual voltou para o littoral. O mais impor,
tante desta noticia é que se julgou ter descoberto ouro e pelos de-
talhes dados (grânulos amarellos, pesados, ameigáveis aos dentes e
encontrados nas areias dos córregos) é evidente que a descoberta foi
verdadeira e que houve na expedição o que faltava á maior parte
das Bandeiras, isto é, uma pessoa que soubesse onde o como se devia
procurar o precioso metal Quanto ao local desta descoberta, indu.
bitavelmento a primeira que se realizou )io território de Minas Ge-
raos, nada de positivo se pôde deduzir da narrativa ; mas não será
desarrazoado presumir que fosse no districto da actual cidade de Phi-
ladelphia, ou talvez no de Minas Novas. A distancia de 220 léguas
e a referencia a serras de «mui fino cristal» fazem suppôr que a ex-
pedição pudesse ter penetrado até a Sena do Espinhaço, na região
de alto Jequitinhonha, na secção que depois ficou conhecida pelo no-
me de Serra do Frio.
Muito interessante nesta noticia é o apparecimento da lenda in-
dígena que deu para origem das pedras verdes uma serra «mui fer.
mosa e resplandecente», a respeito da qaal o illustre dr. Theodoro
Sampaio recentemente aventurou, numa memoria lida no Instituto
Histórico de S. Paulo, uma hypothose tão plausível quão perspicaz.
A designação «Serra resplandescente» na lingua tupi seria Itaberaba
ou, com o augmentativo, Itaheraba-bussú, que facilmente dá a corru-
ptella Ituberá-bussú (forma dada por Pizarro) e finalmente Sabará-
bussú, a fabulosa montanha de thesouros que por cerca de dois sé-
culos encheu a imaginação dos colonos europeus e seus descendentes
e deu motivo para diversas entradas no sertão, ora na região entre
os rios Doce e Jequitinhonha, onde esta lenda a coUoca, ora na do alto
S. Francisco.
Nesta ultima região o nome foi finalmente applicado a uma serra
perto do rio das Velhas, que não o conservou, sendo conhecida cor-
rentemente pelo nome de Serra da Lapa, ou Serra da Piedade. A cir-
cumstancia de ter Fernão Dias Paes Leme andado á procura da le-
— 249 —
gendaria serra e de seu genro Borba Gato dpraorar-se por muitos
annos quasi na sombra da Serra da Lapa (além disso só identificada,
ao que parece, cora a serra da iexida indígena depois da descoberta
do ouro no rio quo a fraldêa e que ainda conserva o nome de Saba-
rá, ou Sabará-buss^), indica que esta designação lhe foi dada pelos
brancos e não pelos Índios (1).
Logo depois da expedição de Martim Carvalho, e indubitavel-
mente em consequência delia, vieram as entradas de Sebastião Fer-
nandes Tourinho e de António Dias Adorno, referidas por Gabriel
Soares nos seguintes trechos do seu Tmctado descriptivo do Brasil e
attribuidas pelos histor adores aos annos de 1572 a 1576:
«Este rio (o Rio Grande ou Jequitinhonha) vem de muito longe
e traz sempre muita agua e grande correnteza, pelo qual vieram abai-
xo alguns homens dos quaes tbraru a serra das Esmeraldas com An-
tónio Dias Adorno, os quaes vieram em suas embarcações a que cha-
mam canoas, quo são de um pau, que têm a casca muito dura e o
mais muito molle, o qual cavam com qualquer ferramenta, de maneira
quo lhe deitam todo o miolo fora, e fica somente a casca ; e ha des-
tas arvores algumas tamanhas, que fazem delias canoas que levam
de vinte pessoas para cima.
< Sebastião Komandjs Tourinho, morador em Porto Seguro, com
certos companheiros entrou pelo sertão, onde andou alguns mezes á
ventura, sem saber por onde caminhava, e metteu-se tanto pela tona
dentro, que se achou era direito do Rio de laneiro, o que souberam
pela altura do sol, quo este Sebastião Fernades sabia muito bem to-
mar, e por conhocerora a serra dos Órgãos, quo cae sobre o Rio de
Janeiro ; o chegando ao carapo grande acharam alagoas, e riachos
que se metúam neste Rio Grande ; o indo com rosto ao noroeste, de-
ram era algumas serras de pedras, por onde carainharara obra de trinta
léguas, e tornando a leste alguns dias deram em uma aldeã de Tu-
pinaquins junto a um rio, que so chama Razo Aguipe ; e foram por
elle abaixo cora o rosto a norte vinte e oito dias em canoas ; em as
quaes andaram oitenta léguas. Este rio tem grande correnteza, e
(1) Sobre este ponto veja-se o triballio subsequente entitulado «Os primeiros des-
cobrimentos de ouro nos districtos de Sabará e Caethé.»
— 250 —
entrara ncllo dois rios, ura da banda de leste, e outro do locste, com
os quaes so vera ractter esto rio Razo-Aguipe no Rio Grande:^. (Cap.
XXXIII).
< Esto rio (Rio das Caravellas) vera de rauito longe, e polo sertão
6 povoado de gentio bera acondicionado, que nao faz raal aos homens
brancos, que vão por elle acima para o sertão. Aqui neste rio foi
desembarcar António Dias Adorno cora a gente que trouxe da Bahia,
quando por mandado do governador Luiz Brito do Almeida foi ao ser-
tão no descobrimento das esmeraldas, e foi por este rio acima cora
cento e cincoonta home as, e quatrocentos índios de paz e escravos,
o todos foram bem tratados e recebidos dos gentios, (que) acharam
pelo sertão deste rio das Caravellas. (Cap. XXXVII). >
«Este Rio Doce vem do muito longo corre até o mar quasi leste
oeste, pelo qual Sebastião Fernandes Tourinho, de quem falíamos, fez
.uma entrada navegando por elle acima, até onde o ajudou a maré'
cora certos companheiros, e entrando por um braço acima, que se
chama Mandi, onde desembarcou, caminhou por terra obra de vinte
léguas com o rosto a loeste sudoeste, e foi dar com uma lagoa, a
quo o gentio chama boca do mar, por ser muito grande e funda, da
qual nasce um rio quo so metto n'cste Rio Doce, e leva rauita agua.
E.sta lagoa cresce as vezes tanto, que faz grande enchente neste Rio
Doce. D'osta lagoa corre este rio ao leste, e d'eila a quarenta lé-
guas tem uma cachoeira : o andando esta gente ao longo d'osto rio»
que sahe da lagoa mais do trinta léguas, se detiveram alli alguns
dias ; tornando a caminhar andaram quarenta dias cora o rosto a
loeste; e no cabo delles chegaram, aonde se mette esto rio no Doce,
e andaram nestes quarenta dias setenta léguas pouco mais ou menos.
E como esta gente chegou a este rio Doce, e o acharam tão possante,
fizeram n'elle canoas de casca, cm que crabarcarara, o foram por elle
acima, até onde se raetto n'esto rio outro a que chamara Aceci, pelo
qual entraram o forara quatro léguas, e no cabo delias desembarca-
ram o forara por terra com o rosto a noroeste onze dias, o atraves-
saram o Aceci, e andaram cinquenta léguas, ao longo delle da banda
do sul trinta léguas. Aqui achou esta gente umas pedreiras, umas
pedras vordoengas, o tomara de azul, que tem que parece turques-
coas, e affirmou o gentio aqui visinho, que no cimo deste monte se
~ 2Õ1 —
tiravam pedras muito aziíos, e qiio havia outras que segundo sua in-
formação tem ouro muito descoberto. E quando esta gente passou
o Aceei a derradeira vez, d'aHi cinco ou seis léguas da banda do
norte acliou Sebastião Fernandes uma pedreira do esmeraldas o outra
de safiras, as quaes estão ao pó do uma serra cheia de arvoredo do
tamanho de uma légua (1) o quando esta gente ia do mar por este
Rio Doce acima sessenta ou setenta léguas do barra acharam umas
serras ao longo do Rio de Arvoredo, e quasi todas de pedra, cm que
também acharam pedras verdes : e indo mais acima quatro ou cinco
léguas da banda do sul está outras serra, em que aflirma o gentio
haver pedras verdes e vermelhas tão compridas como dedos, o outras
azucs todas mui rosplandescentes.
Desta serra para a banda do lesto pouco mais do uma légua es-
tá uma serra, que é quasi toda de crystal muito íino, a qual cria era
si muitas esmeraldas, e outras pedras azu es. Com estas informações
que Sebastião Fernandes deu a Luiz do Brito, sondo governador,
mandou Antanio Dias Adorno, como já fica dito atraz, o qual achou
ao pó dosta serra da banda do norte as esmeraldas, e da de leste as
safiras. Umas outras nascem no crystal, d'onde trouxeram muitas o
algumas muito grandes, mas todas baixas ; mas presume-se, que de-
baixo da terra as deve haver finas, porquo estas estavam á flor da
terra. Em muitas partes achou esta gente pedras desacostumadas de
grande pezo, que afflrraam terem ouro c prata, do que não trouxeram
amostras, por não poderem trazer mais que as primeiras e com tra-
balho ; a qual gento se tornou para o mar pelo Rio Grande abaixo
como já fica dito. E António Dias Adorno, quando foi a estas pedras,
se recolheu por terra atravessando pelos Tiqnnaes e por entre os Tu-
pinambãs, e com uns e outros teve grandes encontros, e com muito
trabalho e risco do sua pessoa chegou a Bahia e fazenda de Gabriel
Soares de Souza.» (Cap. XL.)
Estas noticias, especialmente na parto referente ás explorações attri-
buidas aTourinho, são muito confusas. Sendo isto, provavelmente, de-
(1) A phrase «do tamanho de unia légua» que vem na edição do Instituto Histórico
parece ser eiTo de cópia. Simão de Vasconcellos, que talvez consultasse uma outra cópia
tio raanuscripto de Gabriel Soares, diz «junto a uma alagoa».
— 252 —
vido, era parte, a erros ou omissões nas copias do oscripto de Ga-
briel Soares, cujo original não é conhecido, e era parte tarabem a
uma confasâo no escripto deste ou de quem o inforraou a respeito
destas exploraç5es. Para a parte relativa a Adorno, este informante
foi o próprio Adorno, e ó bem possível qae- ao redigir, alguns annos
depois, a sua obra, Gabriel Soares tivesse attribuido a Tourinho al-
gama parte das descobertas do seu successor, que certamente andou
na região do alto Mucury e Criciiré, onde provavelmente se acham as
quatro serras de pedras verdes e azúes mencionadas, ao passo que a
narrativa detalhada da viagem de Tourinho só indica a sua passa-
gem pelos rios Doce, Jequitinhonha e seus affluentes. Seja como for,
a noticia do Gabriel Soares indica explorações tao completas que so-
monte depois do povoamento dofiaitivo do território mineiro houve
outras que mais contribuíram para o conhecimento goographico e
mineralógico da região. Parece pouco provável que a exploração de
uma região tão vasta e tão difficil fosse obra das duas expedições
mencionadas, o é licito presumir que a viagem do Tourinho deve sor
desdobrada em duas ou mais.
Considerando a noticia de Gabriel Soares como o conjuncto das
informações por elle obtidas de todas as explorações eftectuadas na
região, podemos dividir estas em quatro grupos, a saber : 1.» as do
littoral o baixo Rio Doce ; 2," as dos cursos dos rios Doce e Jequiti-
nhonha e os seus aífluentes ; 3.o as da região do Rio Doce, e 4.o as
da região ao sul do mesmo rio.
A parte mais confusa da noticia ó a que se refere á região do
baixo Rio Doce, na qual certamente ha erros e omissões nas cópias
publicadas do manuscripto de Gibriel Soares. A lagoa chamada Boc-
ca do Mar, ou Bocca de Mandij, conforme a versão de Simão de Vas-
concellos, não pôde ser outra sinão o lago Juparaná. (l) Neste caso,
porém, o roteiro— entrando pela barra do rio Doce até onde ajuda a
(1) Varias tentativas para traduzir graphicamente este trecho de Gabriel Soares
encontram-se nos mappas de 1700 em deante. Assim o de Guillaume de L'lsle (1703) traz
uma lagoa com o nome de Bouche de la mer, com um rio correndo ao oeste para des"
aguar no rio Doce logo abaixo do rio Acecy: Nicolas de Fer (1717) traz a mesma lagoa
e nome, mas figurando como cabeceira do rio Paraná.
- 2Õ3 -
maré e depois caminhando vinte léguas por terra a oeste-sudocste —
é incoraprehonsivol e só pôde ser acceito na supposição de que a en-
trada fosse pela barra do Cricaré (São Mathous). A referencia ao rio
que sai da lagoa, ao longo do qual se andou trinta léguas, é tam-
bém incoraprohensivel. Para se conciliarem as incongruências da no-
ticia pode-se suppor que houve uma primeira exploração em que, en-
tra ]do-so polo Cricaré, foram descobertos o lago Juparaná e o trecho do
rio Doce entre este lago e o mar, sendo este trecho considerado como
o desaguadouro do lago. Si depois uma segunda expedição, entrando
pela barra do Doce, já descoberto, e continuando para cima do lago,
verificou que o rio vinha de muito longe e que a quarenta léguas do
lago (ou setenta, pouco mais ou menos, do mar) havia a cachoeira das
Escadinhas, a noticia torna-se comprohensivel. Mesmo assim, porem,
a narrativa não fica muito clara e as phrases <chegaram onde se
mette este rio no Doce* e «e como esta gente chegou a este rio Do-
ce e o acharam tão possante» ficam sem explicação.
O segundo grupo das explorações feitas pelos rios Doce, Jequiti-
nhonha e os seus tributa- ios é mais clararae to definido e, sem gran-
de risco do errar, podem se acceitar as identificações do sr. Capis-
trano de Abieu (l) do rio Aceci com o Sassuhy e do Raso-Aguipe
cora o Arassuahy. Nesta hypothese foram explorados os rios Doce e
Sassuhy até as cabeceiras deste ultim), nas proximidades da actual
cidade de Serro e nas da secção da serra do Espinhaço, que depois
ficou celebre com a denominação de Serro do Frio. Assim as serras
de pedras, entre as quaes se andou trinta léguas para depois, voltan-
do a leste, encontrar o rio Arassuahy, poderiam ser as do Districto
Diamantino, onde de facto se encontram «pedras verdoengas» (quart-
zitos com mica verde) e o mineral lazulite, ou klaprothina, que facil-
mente se confunde cora *urqueza, sendo para notar que a raelhor lo-
calidade actualmente conhecida deste ultimo mineral é a própria ci-
dade de Diamantina. Uma outra interpretação seria que, em logar
de seguir pelo tronco principal do Sassuahy, indo em direcção de
Serro, a expedição subisse pelo seu affluente, o Urupúca, que a levaria
(1) Artigos na «Semana», de 1887, citados nas «Ephemerides Mineiras", vol. 1, pag.
372.
— 254 —
á serra que depois flcou conhecida como sondo rica em pedras ver-
des e que foi alcançada por Marcos do Azeredo indo pelos rios
Doce, Guasisi (Acoci), Guasisi-rairira o Una ató dar numa lagoa. (1)
Esta hypofchese tom contra si a affirmação de andar acompanhando
o Aceci em rumo de noroeste ; mas, por outro lado, concorda melhor
cora os detalhes dados sobre as diversas serras nas quaes foram eu-
c )ntrailas pedras verdes e com a referencia a um rio de Avoredo, que
devia ser próximo á sorra < cheia de avoredo» e que, conforme aversão
de Simão de Vasconcellos, se achava juncta a uma lagoa que talvez
30 pode identificar com a lagoa Vupabuçú {Upauabussú, Lagoa Grande)
de Marcos de Azeredo e a lagoa da Agua Preta dos mappas modernos.
Cora esta hypothese concorda a circurastancia de que Adorno, indo
verificar as descobertas do Tourinho, entrou pelo rio das Caravellas,
ou Mucury, polo qual havia de dar na mesma serra. Se for assim,
é provável que a sahida fosse pelo Itaraarandiba o não polo tronco
principal do Arsssuahy, sendo este ultimo então o affluente da banda
do oeste e desapparecendo assim uma outra difíiculdado do interpre-
tação que vera a ser quq, devido ao pouco espaço entre elle e o Je-
quitinhonha, o Arassuahy não recebe tributário importante pela sua
margem esquerda.
Conforme a redacção da noticia, as serras descobertas por Tou-
rinho na região entre os rios Doco e Jequitinhonha deviam ser próxi-
mas ao primeiro e ao longo do uramysterioso rio de Avoredo. Sendo
certo, porém, que a serra das Esmeraldas dos exploradores subse-
quentes (Adorno, Marcos do Azeredo, Fernão Dias e os mineiros do
século XIX) acha-se situada na região das cabeceiras dos rios Cricaré,
Mucury, Itaraarandiba e Urupúca, ó possível que haja confusão na no-
ticia e que fosse nesta raesraa região a exploração de Tourinho, sendo
este ultirao rio, ou ura dos seus affluentes, o seu rio de Avoredo. Neste
caso é de prosarair que a lagoa mencionada (no caso de ser certa a
versão de Simão de Vasconcellos) fosso a mesma que depois se tornou
legendaria cora o norae de Vupabuçú e que, provavelraente, é a conhe-
cida hoje cora o noiue de lagoa de Agua Preta.
(]) «Razão do Estado do BrazU no governo do Norte— até o anno de 1612» citado
pelo dr. Francisco Lobo Leite Pereira no seu excellente estudo «Em busca das Esmerall-
das» na Revi&ta do Archivo Publico Mineiro, vol. IT, p. 519.
Cora rofôrencia a explorações ao sul do rio Dòco, pareee extre-
mamente duvidoso quo as houvesse. As explorações já mencionadas
dao muita coisa para uma ou mesmo duas expedições nas condições
de então, e, sendo accrescentada uma viagem ao sul ató a latitude
do Rio do Janeiro, ellas se tornam fabulosas. E' para notar quo a
noticia tão minuciosa, embora confusa, com referencia ás outras regiões
sú dá a respeito desta supposta viagem os detalhes de uma tomada
do sol e o reconhecimento da serra dos Órgãos. O primeiro pode fa-
cilmente ser um erro do observação ou uni exaggeio de quem contoa
a historia, e o segundo é simplesmente impossível para quem nunca
tinha visto a serra dos Órgãos pelo lado de traz. Serras denteadas,
que de algum modo se assemelham em aspecto a dos Órgãos, abundam
era toda a região explorada o é de presumir que a que foi assim
denominada ficasse bastante distante da bahia do Rio de Janeiro. Se
realmente houve alguma exploração ao sul do Rio Doce, esta, prova-
velmente, foi uma entrada pelo Rio Manhuassú acima, até avistar uma
serra que erradamente se identificou com a Serra dos Órgãos 0-).
Quanto a descobrimentos do mineraes ó certo que tanto Tourinh»
€omo Adorno acharam aguas marinhas e turmalinas verdes (as sup-
postas esmeraldas), turmalinas de duas cores (as pedras verdes o ver-
melhas tão compridas como dedos) e provavelmente turmalinas ou to-
pázios azues (as suppostas saphiras), e, talvez, lazuUto, ou klaprothina (as
suppostas turquezas), sendo todos estos mineraes mais ou menos
abundantes e caracteriscos em diversas partes da região explorada . A
respeito de raetaos, porém, estas duas expedições foram menos feli-
zes do que a de Martim Carvalho, visto não se poderem considerar
(1) Uma carta inédita do padre Ignacio de Tolosa, datada do collegio da Bahia cm
7 de setembro de 1575, refere a viagem de dois padres acompaniiando uma entrada quo
pela épocha, numeio do gente e ponto de partida, parece ser a de Adorno. A partida
íol em fevereiro de 1574, e a volta em abril de 1575. Além destas datas a carta não
contém dados geographicos ou históricos quo adiantem, a não ser a affirmação que a
expedição chegou ató o rio São l^rancisco. Gabriel Soares, informado pelo próprio Adorno
Eão menciona esta circumstancia e é de suppor que o bom do padre Tolosa ficou tão
pasmiido com historias de indios com pés para traz e que davam a mamar aos íUhos, que
introduziu nas noticiai da viagem dos seus contemporâneos as informações que tinha ro-
ce-údo da do padre Navarro, na expedição de 1553.
— 256 —
como descobrimentos as informações de índios (que não conheciam
ouro ou prata), nem a suspeita da existência destes metaes baseada
no peso das pedras.
Bm 1584, Gabriel Soares de Souza, de posse de um roteiro de
uma viagem á região do alto rio São Francisco, feita por seu irmão
João Coelho de Souza, foi á Europa a fim de requerer concessões
para a exploração de minas. No seu preciosíssimo "Tractado Descri-
ptivo do Brasil", escripto durante a sua estada na Europa, elio decla-
ra que de ouro e prata "esta terra da Bahia tem delle tanta parte
quanta se pode imaginar, do que pode vir a Hespanha cada anno
maiores carregamentos do que nunca vieram das índias occidc^ntaes".
Procurando, porém, o fundamento desta opinião, que se acredita geral-
mente ter sido baseada era descobertas feitas por João Coelho de Souza,
nada se encontra que a justifique. Pelo contrario, eni toda a parte
da obra que tracta da região do São Francisco se nota a falta com-
pleta do minudência e de precisão das informações que caracterizara
a descripção das outras regiões o que tornam tão notável este escri-
pto. Era logar destas inforraações, que er^m de esperar si realmente
existissem, ha referencias vagas á lendária tribu das Amazonas, e
a outro gentio que não communlcava com os {'ortuguezes. que < se
atavia com jóias de ouro e vive em redor de uma lagoa Grande »
que indicam antes sonhos peruvianos do que noticias de uma ver-
dadeira exploração. Tendo João Coelho de Souza morrido no sertão,
parece que Gabriel Soares só teve as informações de quem não sou-
be contar o que elle tinha observado e, talvez nem por onde tinha
andado. O próprio Gabriel Soares na expedição que emprehendeu em
procura da mesma região perdeu a vida sem conseguir coisa aiguma
em referencia á mineração a não ser, conlorme pensa Caplstrano de
Abreu, dar origem á famosa lenda das minas de prata de Rooerlo Dias.
Durante a administração de d. Francisco de So' za, a lenda do
nraa sorra de Sabarábussú, rica em prata, parece ter tomado forma
a ponto de levar este governador a vir a S. Paulo para de lá orga-
nizar uma expedição á sua procura. Conta o hoUandez Guilherme
Gliraraer (1) que d. Francisco de Souza recebeu na Bahia de um bra-
(1) Piso e Marcgraff, "Historia Naturalis Brasile", p. 262; "Revistado Instituto Histó-
rico de 8. Paulo", vol. IV, p. 333.
— 257 •-
sileiro um «certo metal extrahido, segundo dizia, dos montes Sabaroa-
son, de cor azul escura ou celeste, salpicado de uns grânulos côr de
ouro. Tendo sido examinado pelos entendidos em mineração, reco-
nheceu-se que este metal continha «em um quintal trinta marcos de
prata pura». Por esta descripçao não é muito arriscado identificar o
supposto minereo com as pedras azues da região das esmeraldas, son-
do, presumivelmente, uma rocha crivada de beryl, ou lazulite, e mi-
ca. O resultado do exame feito por entendidos na mineração não é
necessariamente contrario a esta identificação, porque ainda hoje,
apesar de todo o progresso que se tem feito em laboratórios e ensa-
iadores, pódem-se citar analyses análogas em pedras completamente
destinadas de metaes preciosos. O facto é que até hoje não se
tem verificado em parte alguma do Brasil a existência de minereo
azul (ou de outra qualquer côr), com teor em prata, que se approxime
a este. A pedra em questão foi talvez uma das trazidas por Touri-
nho ou Adorno, ou, mais provavelmente, trazida da mesma região
por um dos seus successores Diogo Martins Cão ou Marcos de Azere-
do. Conforme refere Balthazar da Silva Lisboa {Ánnaes do Rio de
Janeiro II, p. 200 ), este ultimo trouxe á Bahia, em 1596, amost as
da serra das Esmeraldas, mas como bem ponderou o dr. Francisco
Lobo Leite Pereira no seu interessante estudo intitulado « Em Busca
das Esmeraldas >, no vol. II da * Revista do ArcMvo Publico Mineiro»,
é mais provável que o explorador desta épocha fosse Diogo Martins
Cão. Assim ha toda a probabilidade de que esta seja a primeira re-
ferencia impressa á famosa serra de Sabarábussú. Apenas deu-se a
substituição de4e nome pelo de «Serra resplandecente» da lenda india
citada por Gandavo, conforme a identificação jà referida do dr. Theo-
dõro Sampaio.
De passagem para São Paulo, d. B^rancisco de Souza mandou
de Espirito Santo uma expedição em busca das esmeraldas mas esta,
como a de Martins Cão, nada parece ter adeantado geographica ou
mineralogicamente sobre as de Tourinho e Adorno.
Chegando em São Paulo, em 1599, d. Francisco de Souza en-
ontrou era plena actividade a mineração de ouro em diversos pontos
próximos á villa. Consta por tradições e noticias colhidas por Pe-
dro Taques que esta mineração foi iniciada em 1589 (provável mento
— 208 —
em continuação das descobertas de Braz Cubas, era 1560) por Aífonso
Sardinha., que em testamento feito em 1G04 (Azavedo'Marquos, ob. cit.
pag. 3), declarou possuir 80.000 cruzados de ouro em pó. Menric-
na também o inglez António Kncivet que do assalto de Santos por
Cavandisli, om 1591, os piratas levaram muito ouro do um certo
logar chamado Mutinga que é provavelmente a garganta de Tutinga,
ou Itutinga, na íáerra do Mar, que dá accesso ao planalto do São
Paulo, onde se acharam as minas. Esta referencia podo ser inter-
pretada como significando que o ouro vinha pelo caminho que passa-
va em Tutinga o de algum ponto adcante, isto é, das vizinhanças de
Sâo Paulo. Si assim fôr, temos aqui uma indicação da posição da
primitiva estrada partindo de São Vicente para o planalto e passan-
do pela garganta do Tutinga no valle do Rio das Pedras. O ouro
do São Paulo era, porem, <ouro de lavagem», o as lavras não pare-
cem ter sido bastante ricas para satisfazer os desejos dos que so-
nharam com minas do prata rivalizando com as do Peru.
Era busca das rainas de prata do Sabarábussii foi organizada uma
expedição que, coriformo ura manuscripto inédito de Pedro Taques,
existente na Bibliotheca Nacional, foi commandada por André do
Leão e recebeu intrucções a 19 de Julho de 1601, sendo de pre-
sumir que partisse logo em seguida. Azevedo Marques (ob. cit. II,
pag. 224), bascado no inventario do Ascanso Eibeiro, di2: que o
commandante era o capitão Nicolau Barreto, tendo entre outros, co-
mo companheiros, Simão Borges Cerqueira, Ascanso Ribeiro, Pedro
Leme, Manoel Pinto o Francisco de Alvarenga, e que a partida foi
em Agosto de 1602. Como d. Francisco de Souza já tinha deixado
São Paulo antes desta ultima data (em Junho do 1601), é provável
que a primeira data seja a verdadeira. E' provável que acompa-
nhassem também a expedição o mineiro Jaques de Palte e o enge-
nheiro Geraldo Bf>tink, allemães que, conformo o mesmo Pedro Ta-
ques, tinham vindo da Bahia em companhia do governador. Para a
historia, o personagem mais importante desta comitiva foi o hollandez
Guilherme Glimmer, residente cm São Vicente, a quem se deve um
precioso roteiro impresso em 1648 na obra de Piso e Marcgraff. Por
esto roteiro, é possível reconstruir de modo relativamente satisfactorio
o itinerário, como ha pouco tentei fazer em um trabalho que saliiu
— 259 —
no vol. IV da Revista do Instituto Histórico de São Paulo. Para
o fim do presente estudo basta constatar que a expedição, acompa-
nhando caminhos de Índios, atravessou a região do alto Eio Grande
e penetrou quasi ató o São Francisco, onde identificou cora a serra
do Sabarábussú uma montanha que presumivelmente é a Sena de
Pitanguy, e que nada descobriu de motaes ou pedras preciosas. E'
provavelmente a esta expediyão que se refere frei Vicente de Salva-
dor na noticia dada «por um soldado de credito que indo de Sáo
Vicente com outros, entraram muitas léguas pelo sertão donde trou-
xeram muitos Índios».
Depois desta expedição mallograda cessaram por muitos annos
os esforços officiaes em procura de minas, mas por parte de particu-
lares houve diversas entradas, mal conhecidas, que na opinião de ura
contemporâneo* Frei Vicente do Salvador, tiverara como pretexto a
exploração de minas, mas como motivo verdadeiro a caçada de ín-
dios. Delias não se conserva contribuição alguma para conhecimento
geographico ou mineralógico da região a não serem os nomes de
Lagoa Vupabuçú e rios Guassisi-guassú, Guassisi-mirim e Una regis-
trados por Marcos do Azeredo (antes do 1612), os quaes, como, já foi
referido, provavelmente se applieam a feições topographicas descober-
tas por Tourinho e Adorno (1). No sul de São Paulo já se minerava
correntemente, no districto de Iguapo, conforme se vê de uma interes-
sante carta, datada de 1635, que vem estampada na *Revista do Ins-
tituto Histórico de São Paulo», vol. II, pag. 102. A mineração nesta
região e na de Paranaguá parece ter sido alguns annos mais antiga
e, provavelmente, continuou sem interrupção, mas sem attrahir a
attenção ofíicial ató que, era 1684, e ainda com sonhos de prata, esta
despertou repentinamente cora grandes esperanças nas minas de Pa-
ranaguá o nas da serra das Esmeraldas. O governador Salvador
(1) A affirmação em um memorial dos filhos de Azeredo, em 1643, de que este tinha
descoberto diamantes, não merece grande credito. Para os exploradores daquellaépocha
(e por muito tempo depois), todas as pedras verdes eram esmeraldas e todas as azues
saphíras, mas nem todos chamaram "diamantes" qualquer pedra tranca lustrosa porque
a ídéa de diamantes não tinha sido ainda suggestionada. Depois, e ainda até hoje, este
ultimo erro tornou-se hastante commum.
- 260 —
Corrêa de Sá e Benevides passou algims mezes cm Paranaguá em
1660 e ficou completamente desenganado a respeito da prata naquella
região. Ha noticia também que este governador mandou uma expe-
dição para a serra das Esmeraldas, em que o seu flliio João de Sá
perdeu a vida, mas isto não pareço exacto, visto que Salvador Cor-
rêa na longa exposição feita na reunião do Conselho Ultramarino, de
3 de Maio de 1677, nenhuma referencia faz a explorações nesta re-
gião e nesta épocha.
Em 1684 houve uma recrudescência de interesse na exploração do
sertão, mas sempre com a preoccupação de prata e esmeraldas. A
19 de Maio daqaelle anno foi expedida carta patente a Agostinho Bar-
balho Bezerra para descobrir e beneficiar «as minas de Paranaguá e
da Serra das Esmeraldas, que se diz, ha no sertão da Capitania do
Espirito Santo, de que já tem vindo a este reino alguÃias amostras> .
A 27 de Setembro do mesmo anno foram expedidas cartas regias
á Camará de São Paulo e a diversas pessoas importantes dessa
villa, incitando as a auxiliarem Agostinho Barbalho nestas explorações.
Este entrou pela Capitania do Espirito Santo em busca das esmeral-
das e perdeu a vida sem nada conseguir.
Mallograda a expedição de Barbalho, Fernão Dias Paes Leme,
uma das pessoas que tinham recebido as cartas de 27 de Setembro,
resolveu tentar a exploração a sua custa. Ja em edade avançada,
mas provavelmente não com os 80 annos que lhe dão alguns histo-
riadores (1), elle fartiu com numerosa comitiva a 21 de Julho de
1674, e sete annos depois, voltando com as suppostas esmeraldas en-
contradas nos próprios sovacações deixados por Marcos de Azeredo,
morreu antos de chegar a São Paulo.
Para a manutenção da expedição e como provisão para a volta,
Fernão Dias estabeleceu postos, ou pelo menos plantou roças, em di-
versos pontos que vem ennumerados pelo historiador Southey, ba-
1 Pedro Taques diz simplesmente que não estava em edade de penetrar sertões ;
dSo dá a data do seu nascimento, mas dá a da morte do pai em 1633 e a do nascimento
da mulher em 1642. A representação da Camará de Parnahyba, transcripta por Azevedo
Marques (ob. cit. I, p. 148) é attribuida ao irmão de Fernão Dias, o padre João Leite da
Silva, diz somente «em tempo que os seug annos pediam a contínuação de socego».
- 26i —
seado num escripto de 1757 do Pedro Dias Paes Leme, neto do ex-
plorador. Estes pontos sâo : Vituruna, Peraopeba, Sumidouro do Rio
das Velhas, Roça Grande, Tucambira, Itaraerendiba, Esmeraldas,
Matto das Pedrarias e Serra Fria, e por elles 6 possível restaurar de
modo relativamente satisfactorio o seu itinerário. Vituruna é eviden-
temente Ibituruna, no Rio das Mort s, perto da sua confluência com
o Rio Grande, e presumivelmente no ponto onde a expedição de 1601
encontrou uma grande aldêa de Índios que fraternizaram cora os de
S. Paulo (l). Neste caso ora ura ponto sobro ura caminho índio, e
a sim t rna-se provável que ató alli Fernão Dias seguisse o mesmo
caminho da expedição de 1601, o qual depois, no essencial, tornou se
a estrada geral de S. Paulo para as minas. Sabe-se pelo roteiro do
Glimmer que havia um caminho para o S. Francisco em rumo de
noroeste e provavelmente pelo esjigão entre os rios Pará e Parao-
peba, o que esto cruzava um outro «largo e trilhado» que devia ir
para o norte. E' de presumir que Fernão Dias, seguindo por este
ultimo caminho, estabelecesse o seu segundo posto de Peraopeba (S.
Pedro do Paraopeba o Parahybipeba, em documentos paulistas anti-
gos), na pasííagera do Rio Faraopeba, e o terceiro era ura lugar cha-
mado Sumidouro, perto do Rio das Velhas. Este ultimo norae indica
a região calcarea que se estendo do Lagoa Santa, perto da actual ci-
dade de Santa Luzia, ató Sete Lagoas, ou além. Dos sumidouros nesta
região um dos mais notáveis é o do desaguadouro da própria Lagoa
Santa ; e é certo (como será provado adiante) que não foi muito longe
deste ponto que Fernão Dias demorou se uns três ou quatro annos,
deixando allí parte da sua comitiva com o seu genro Manoel de Bor-
ba Gato.
O quarto posto. Roça Grande, não pode ser identificado ; mas
sendo o quinto, Tucambira, no valle do Rio Itacarabira é de presumir
que o caminh » continuava para o norte fraldeando o grande paredão
Occidental da serra do Espinhoço até enfrentar com este valle. A
grande volta para o norte até Itacarabira, para depois tornar ao sul
ató Itamarandiba (ítamenendiba), provavelmente indica que se andou
(1) Esta Revista, Vol. IV, p. 335. A hypothese de que esta aldêa, ou uma outra na
região campestre do alto Rio Grande fosse a alcan(^ada pelos emissários de Martim Af-
fonso, mandados do Rio de Janeiro em 1531, não é de todo despropositada.
— 262 —
procurando a antiga estrada dos Tupiniqnins pela qual a expedição
de 1553 tinha alcançado o rio Sao Francisco cruzando a serra do
Espinhaço. Do posto de Itacambira é do presumir que a expedição
descesse pelo valle deste rio até o Jequitinhonha e, atravessando este
e a lingua de terra entre elle e o Arassuahy, subisse pelo Itamarandiba,
em cuja margem se estabeleceu outro posto, até as suas cabeceiras con-
tra vertentes com as do Urupúca, onde se achava a Lagoa Vupabuçú
de Marcos de Azeredo. Se assim for, como faz crer a grande volta
em U feita para passar pelo Itacambira, o caminho desde um ponto
ao oeste da serra do Espinhaço devia ter sido essencialmente o mes-
mo que o da expedição de 1553 e, cm parte menor, também o mes-
mo que o de Tourinho e Adorno.
Dos três últimos postos estabelecidos por Fernão Dias, os dois
de Esmeraldas e Matto das Pedrarias foram provavelmente pontos de
residência cmquanto se exploravam as pedras verdes, e o ultime da
Serra Fria parece indicar que na volta se procurou um atalho por
Sumidouro, passando no districto da actual cidade do Serro, onde
talvez fosse plantada uma roça como provisão para futuras entradas
por este caminho mais curto.
Quanto a descobrimentos mineralógicos é certo que esta expedição
nada mais conseguiu do que verificar os das pedras verdes, feitos
por Tourinho o Adorno, cem annos antes. O espolio mineralógico de
Fernão Dias, cuidadosamente cosido e lacrado em um saquinho, foi so-*
lemnemente aberto pela camará de S. Paulo em 11 de Dezembro do 1681,
e do auto que se lavrou nada consta além das suppostas esmeraldas. (1)
A expedição transitou por muitas léguas por terrenos que depois foram
reconhecidos como ricamente auríferos, mas, com a preoccupação de pra-
ta e pedras preciosas, parece que não foi lembrado o expediente de levar
na comitiva alguns faiscadores de ouro de lavagem, que nesta epocha
não faltavam em S. Paulo. Assim esta expedição, tão demorada e
tão custosa, pouco ou nada adeantou aos conhecimentos já ha muito
tempo adquiridos. O seu grande serviço foi iniciar o systema de es-
tabelecer celeiros de modo a dar maior permanência aos caminhos
abertos, incluindo um ponto, pelo menos, de occupação permanente, o
(1) Azevedo Marques. II, p. 242,
— 263 —
do Sumidouro, onde ficou Borba Gato com parto do pessoal da expe-
dição. A estrada aberta do S. Paulo até o rio das Velhas nunca
mais se fechou aos brancos o o resto, si por algum tempo esteve
abandonado, nao tardou a ser aberto de novo logo que si divulgou a
noticia da verdadeira descoberta de ouro.
Uma questão interessante a investigar é a de saber se a identi-
ficação da lendária Sabarábussii com uma serra nas vizinhanças da
actual cidade de Sabará, foi obra desta expedição ou dos mineiros^
que depois descobriram ricas lavras de ouro no valle que corre ao pé
e que ainda hoje conserva o nome na forma abreviada de Sabará.
Seja qual for a verdadeira posição do sitio do Sumidouro, este não
podia ser distante da dita serra, si é que não a tinha á vista. Na
região do Santa Luzia e Lagoa Santa existe um antigo arraial cha-
mado Sumidouro e próximo um outro que, como o córrego junto, tem
o nomo de Fidalgo. Este ultimo nome, conforme uma tradição refe-
rida por uma das testemunhas do processo Tiradentes, coramemora a
morte violenta do um fidalgo o governador que não pode ser outro'
sinão d. Rodrigo Castel Blanco, morto polo pessoal de Borba Gato
perto do seu posto do Sumidouro.
Si o verdadeiro nome indígena da serra fosse Sabarabussú, ó in-
crível que Fernão Dias e Borba Gato não tivessem sabido desta cir-
cumstancia e não a tivessem explorado minunciosamente. A carta re-
gia de 4 de Dezembro do 1677 (1) respondo ás cartas de Fernão Dias,,
que deviam ter sido escriptas durante a sua longa residência no Su-
midouro, pelas quaes o príncipe ficou entendendo «como tracteis do-
descobrimento da Serra de Sabarabussú e outras minas deste sertão,,
de que enviastes as mostras de crystal e outras pedras». Dahi so
conclue que estando no Sumidouro, Fernão Dias considerava Saba-
rabussú ainda longe e provavelmente na região das esmeraldas. E^
mesmo de presumir que, tendo afinal descoberto as esmeraldas, elle-
comraunicasse á família que tinha acertado com a serra procurada, visto
que o sou irmão, o padre João Leite da Silva, em um protesto diri-
gido á camará de São Paulo em 1 de Setembro de 1684, fala das
minas de esmeraldas em Sabarabussú {2). E', portanto, extremamente
(\) Pedro Tagues na ,,Eevisfa do Instituto Histórico", vol. 35, p. KG.
(2) Azevedo Marques, ol), cit. II, p. 241.
— 264 —
provável que o rio Sabará ou Sabarábussú, que ainda conserva o nomo,
e a serra da Lapa ou de Piedade, que era conhecida por este nome
peios primeiros mineiros mas que nâo o tem conservado, nao foram
assim denominados por Fernão Dias, nem peios Índios que elle encontrou
na visinhança. Com a descoberta de ouro ao pé da se ra, e pela pró-
pria gente que por tanto tempo tinha andado atraz delia, é natural que
se exclamasse «ahi está o nosso Sabarábussú», sem se importar com a
circumstancia de que não correspondia pela riqueza em prata nem pela
denominação índia á lendária serra.
Intimamente ligado com a expedição de Fernão Dias está o
triste episodio de d. Rodrigo Gastei Blaiico que, nada tendo adeanta-
do sobre descobrimentos de minas, não precisa ser considerado aqui.
De passagem, porém, póde-se dizer que nada prova que elle mereceu
o desprezo com que os historiadores, seguindo o exemplo de Pedro
Taques, costumam tractal-o. Foi commissionado como perito na mi-
neração de prata para descobrir minas deste metal onde não as ha-
via, e o facto de condemnar as que outros julgaram eriadamente que
tinham descoberto prova que não era um simples pretencioso. A
accusação de querer apropriar- se dos fructos dos trabalhos de Fernão
Dias cai perante o sou procedimento correcto na remessa da parte
das amostras entregue pelo lllho deste, Garcia Rodrigues.
No mesmo anuo da partida de Fernão Dias foi dirigida, a 23 de
Fevereiro de 1674, a Lourenço Castanho Taques uma Carta Regia que
é interessante por conter o nomo Cataguaies, destinado poucos annos
depois a se tornar celebre. O texto desta carta não toi conservado,
e conforme alguns escriptores se falou de «minas de Cataguazes»,
mas Fedro Taques, que deve sor a auetoridade mais segura, diz que a
carta era a patente de governador para o «sertão dos, Índios Cataguazes».
Em outra Carta Regia, dirigida á mesma pessoa, se fala no "sertão
do Caethê.,. Apparontemente só se tractava de caçadas de Índios eas
cartas só tem interesse por indicar a recrudescência desta Industria
e a região para onde então se dirigia. O mesmo facto é indicado
por um ofacio do governador da Bahia, em 1693, representando contra
o procediraent) das Bandeiras Paulistas que, <com pretextos de anda-
rem aos Tapuyas de corço, captivam os da língua geral».
Em 1693, conforme uma tradição apanhada cerca de meio século
— 265 —
depois (O, uma destas expedições atraz dos Índios do sertão do Rio
(1) A tradíçáo da descoberta de ouro por Arzão, que parece ter sido corrente tanto
era Minas como em 8. Paulo, teve entrada na historia escripta por intermédio do poeta
Cláudio Manoel da Cogita, que a dá na introducção intitulada Fundamento histórico, do seu
poema Yilla Rica, que parece ter sido acabado no anno de VITÒ.
Conforme a declaração do auctor, as suas informações relativas ás primeiras descober-
tas eram em grande parte devidas ao coronel Bento Fernandes Furtado de Mendonça,
fallecido poucos annos antes, mas confirmadas por correspondência com o historiador
paulista Pedro Taques de Almeida Paes Leme. Esta ultima circnmstancia da troca de
informações entre Cláudio Manoel e Pedro Taques explica a concordância relativamente
perfeita entre os escriptos dos dois historiadores. Recentemente appareceram nas pagi-
nas da «Revista do Archlvo Publico Mineiro> (vol. II, pag. V1& e voi. IV, pag. 83) dois
escriptos inéditos que também estão em quasi completo accordo com os dois acima cita-
dos. O primeiro, sem data nem nome do auctor, tem sido attribuido ao engenheiro José
Joaquim da Rocha, com a data approximada de 1778 , mas, pela identidade da lingua-
gem em muitos paragraphos como o «Fundamento Histórico" de Cláudio Manoel e pela
discordância no modo de contar as longitudes com o mappa de 1778 (publicado sem data
ou nome do autor na "Revista do Instituto Histórico" em 1852), que é indubitavelmente de
José Joaquim da Rocha, conforme se vê pelo original assignado no Archivo Militar do
Rio de Janeiro, é antes de presumir que este seja também de Cláudio Manoel. O esty-
o da memoria attribuida ao coronel Bento Fernandes accusa antes um litterato do que
um sertanejo, e, tendo em vista as relações conhecidas entre o velho mineiro e o poeta,
é de suspeitar que a relacçjlo deste documento fosse também de Cláudio Manoel. Seja
como fôr, é qaasi certo que a fonte de informações dos quatro documentos concordantes,
a saber: a «Memoria» de Bento Fernandes, o «Fundamento Histórico» de Cláudio Manoel,
a «Memoria» attribuida a José Joaquim da Rocha e a «NobiliarchiaJPaulistana» de Pedro
Taques, seja a mesma, isto é, as reminiscências do velho mineiro Bento Fernandes, escriptas
ou dictadas por elle, uns cincoenta f>u sessenta annos depois d os acontecimentos relatados.
Debaixo deste ponto de vista a ,. Memoria" de Bento Fernandes assume um interesse
histórico extraordinaiio. Conforme a própria narração, o auctor estava em 1702 em edh-
de de se pôr á testa de uma exploração e, portanto, as suas recordações desta data em
deante (ou um pouco mais cedo) são as de um assistente. As de data anterior devem
ser de informações recebidas provavelmente de seu pae. Salvador Fernandes Furtado de
Mendonça, e a circumstancia de que estas, como no caso dos incidentes da expedição de
Fernão Dias, não estão em pleno accôrdo cora outros documentos conhecidos não destróe
o valor das que são propriamente pessoaes ou de familia. Outra circumstancia que au-
gmenta o valor histórico deste documento é a ausência de tentativas de engrandecer a
importância da sua própria familia, como teria sido fácil nos incidentes da transmissão
da primeira amostra de ouro por intermédio de seu pae Salvador Fernandes. Comtudo'
com referencia as datas que vêm na ..Memoria" de Bento Fernandes, é preciso lembrar
que estas sâo as recordações de um velho escriptas muitos annos depois dos aconteci-
mentos. Pena é que a ,. Memoria" publicada seja um resumo e não a transcripção fiel
deste importantíssimo documento.
— 2m —
Doco sahiu na capitania do Espirito Santo, onde o sen chefe, António
Rodrigues Arzão, apresentou ao capitão-mór e á camará três oitavas
de ouro, das quaes foram feitas duas medalhas, íicando uma com o
descobridor e a outra com as auctoridades locaes. Na correspondên-
cia offlcial da épocha, aliás incompleta, conservada na Bibliotheca Na-
cional, nenhuma referencia se encontra a esta descoberca que, de
certo, não era de natureza a despertar grande interesse ou enthusias-
mo. Não obstante, é possivel que a tradição tenha o seu fundamento
e que as auctoridades do Espirito Santo ou deixaram de communicar
<5sto facto ao governador, ou que este não o julgou do suflScicnte
importância a ser communicado ao governo. O certo é que a corres-
pondência interna do governador da Bahia da épocha, que parece ser
completa, nada contém a respeito, e que até a data do 15 de janeiro
<Ie 1693, em que foi nomeado António Paos do Sande governador da
capitania do Eio de Janeiro, com ordem de proceder a averiguações
das minas de ouro e prata de Paranaguá, l'abaiana, (Itabaiana) e Sa-
"barábussú, o governo de Lisboa não tinha informação de outras o
ainda estava sonhando com as possibilidades do prata em Paranaguá
e Itabaiana o com a lenda já secular da Serra de Sabarábussú. De-
mais, os escriptos, abaixo referidos, do Bento Corrêa de Souza Couti-
nho, que resumem as noticias sabidas no Eio do Janeiro ato meados
de 1695, nenhuma referencia fazem a Arzão (*). Mesmo sendo verda-
deira esta descoberta, nenhum indicio ha de ter ella influído sobro os
descobrimentos subsequentes.
(*) Carta de Bento Corrêa de Souza Coutinho escripta do Rio de Janeiro ao G.ofD.
João de Lancastre g:.°'' e cap.™ gl. deste Estado ; e tado remetei; a corte para ser visto.
'•Sr.
"Meu Sr. Depois de haver escrito a V. S.» chegou a esta Cid." o vigr.» de Taubaté
João de faria assis
co;n algas dos moradores desta terra e dos campos
geraes como dar -çM das novas minas de Oure, que tem descoberto com algus parentes,
cuja amostra deste trouxe para se ver, e mandar aver, e por sermos conteraporanecs e
amigos de muitos annos me revelou alguns particulares de mais, e me deu hu roteyro,
<l' o estimey para o mandar a V, Z.^ q.' o veja e quando V. S.»
campos geraes donde me dizem ha informações.... moradores. Creyo não lhe faltarão
exploradores sertanistas para darem (conta destas minas ?) e tratarem de extrahir o mais
q.' está prometendo aquelle território
~ 267 —
Por este tempo parece ter havido uma recrudescência de anima-
ção na já antiga mineração da zona do littoral de São Paulo, cujas
minas, sendo de «ouro de lavagem», eram consideradas de pouca va-
folgarei mxiito ponha V. Sr. em execução p. q.' Sua Mg.© q.' Deos Gd.^ tenha mais que
lhe agradecer e V. S. a gloria de fazer este serv.» ao d.o S.'" se eu subir assim segare-
se V. S.* que hei de as minas, e q,' pessoalmente hey
de assistir ncllas afira de q.' se crie hua nova officina; em q.' S. Mg." tenha mais os
seus reaes qJ°^.
"Como foiibe era V. S. sahindo da Corte tratei de ver se podia descuhrir-lhe alguns
saguis p.» irem a tempo que V. S- os podesse mandar na mesma frota, mas como a
gente que veio nos prim.os navios do comboy, havifio comprado os que acharão quan-
do chegou Bernardo Ramires não havia nenhu'.
"Honte me veyo de fora esse q.' por não perder tão boa occasião vac só, que o ofte-
reço a V. S. com a confiança de seu mochiUa, e p.» q.' chegue bem tratado o entre-
guei as P." João Vaz de Carv.» sujeito q.' me disse ia assistir a V. S.» sendo religioso
da Corap.* Veja V. S.» o que me manda faça destas partes, q.' as suas ordens estou
certo, e muito obediente, Gd.« Deus a V. S. como dezejo. Rio de Janr.» 29 de Julho
de 694. Humilde creado de S. S.í"— Bento Correia de Souza Coutt.»"
{Os eepaços em branco são illigiveis no registro conservado na Bihliotlieca Nacional.
O referido roteiro vem reproduzido no texto acima.)
No anno seguiate e evidentemente antes da carta de 16 de Junho de Sebastião de
Castro Caldas annunciando a descoberta de Carlos Pedroso da Silveira e Bartholomeu
Bueno de Siqueira, Bento Correia escreveu outra carta ao rei, que ficou registrada em
Lisboa a 31 de Outubro de 1695. Nesta carta alem do roteiro do Padre Faria ( com al-
gumas variantes na redacção notadas no texto acima) vem os seguintes trechos inte-
ressantes para os fins do presente estudo.
« Governador António Paes de Sande, com quem tinha ajustado quando fôs-
semos a S. Paalo em serviço de Vossa Magistade passarmos por estes ribeirões (Guari-
tiba, Angra) por ficar em caminho, e como fallecau naòa teve effeito.»
« Estas são as noticias que tenho desde a era de 83, em que passei aquellas partes
em serviço de Vossa Magestade, e supposto não fosse aos longes dos certões, explorei
todo o povoado da Serra para cima, vendo com particular cuidado todo aquelle territó-
rio, e depois fiz a mesma diligencia por toda a costa por terra, assistindo em muita
parte de ribeirões do minas afim de tormar verdadeiro conhecimento, e tomando informa-
ção dos mais fidedignos homens de tudo o que ignorava, a fim de que havendo occa-
sião a empregasse no real serviço de V. Mag.*", té que chegando o governador António
Paes ao Rio de Janeiro, tendo noticias passava as ditas Capitanias por ordem de V.
Mag.«, o vim buscar e de tudo lhe dei parte para que com mais clareza e conhecimenfo
fizesse o que mais convinha ao real serviço de V. Mag.», a quem prostrado aos seus
reaes pés offereço estes arbitrics, e os mappas quo fiz tanto sobre as minas, como o ou-
tro das terras de Angra dos Reis, para que V. Mag.« tenha uma verdadeira noticia o
toahecimeato daquellas conquistas. V. M. mandará o que for servido ".
- 268 -
lia, mas onde, conforme se vê de diversas referencias, havia esperan-
ças de descobrir minas de prata rivalizando c(»ra as de Potosi. Um
oflScio do governador António Luiz Gonçalves da Camará Coutinho,
datado da Bahia em 19 de junho de 1693 accusa o recebimento de
uma carta régia transmittindo uma representação da camará de S.
Paulo « sobre não ser conveniente que os índios das aldôas de Vossa
Magestade se abalassem ao descobrimento dos ribeirões».
Informa o governador que se tratava de serviços de ouro em
pios tão doentios que os paulistas tiravam Índios das aldôas para
poupar os seus próprio» ; mas nada refere sooro a situação dos ditos
ribeirões. Esta vem revelada num escripto, do 1H95, de Bento
Corrói de Souza. Coutinho, tratando das minas e do corte de ma-
deiras na zona do littoral, que indica que se trata da região de ^Pa-
ranaguá e Guaritiba.
O roteiro referido nas cartas de Bento Correia está ura tanto dam-
niflcado nas copias consultadas existentes na Bibliotheca Nacional,
mas pela comparição das duas poude ser restaurado do modo se-
guinte :
< Roteiro das minas de ouro que descobriu o revdmo. vigário João
de Faria e seus parentes e do mais que tem em sy os Campos.
«De frente da villa de Taubaté quatro ou cinco dias (a outra
cópia diz «três ou quatro») de viagem se acha estar o rio de Sapu-
cahy, e descendo da dita villa para a de Guaratinguetá tomando a
Gstradi real do sertão, dez dias de jornada para a parte do norte
sobre o monte de Amantiquira, quadrilheyra do mesmo Sapucnhy,
achou o padre vigário João de Faria, seu cunhado António Gonçalves
Vianna, o Capt. Manoel da Borba (I) e Pedro de Avos vários ribei-
ros com pintas de Ouro de muita conta (a outra versão diz «era 3
ribeiros pinta muita boa, e geral de ouro de lavagem de que trouxe
a amostra delle a esta cidade>) ; e das campinas de Amantiquira
cinco dias de jornada, correndo para o Norte, estrada também geral
(1) Será Maaoel da Borba Gato que, conforme Bento Fernandes, depois da morte
violenta de d. Rodrigo de Gastei Branco, andou feito cacique entre os Índios do sertSo
do Rio Doce até que voltou para a villa de Pindamonhangaba, donde "retirou-se logo
para um canto entre a serra do mar e a povoação de Paraitinga" ?
- 269 -
do sertão íica a serra da Boa Vista, donde começara os campos ge-
raes té confinar com os da Bhia; e da serra da Boa Vista thé o rio
grande são quinze dias de jornada, cujas cabeceiras nascera da serra
de Juruoca, de frente dos quaes serros té o rio dos Guanlianhans
{Gmjanas na outra cópia) e ura raonto d3 Ebitipoca tera dez léguas
pouco raais ou menos de circuito, toda esta planície cora cascalha
•formadí de safiras e de frente do mesmo serro de Juruoca para o
parte da estrada, caminho de Oeste pouco mais ou raenos, estão
umas serras escalvadas, na qual achou o dito Padre vigário safiras
nativas era vieiros de pedras cavacadas : (1) entre esta distancia es-
tão muitos montes escalvados pelos campos e muitos rios, e em um
■destes montes que se chama o Baependi se suspeita haver metal
pela informação que deixou o defuncto Bartholomeu da Cunha, e
adiante passando o rio de Igaray («Yrigahi» na outra cópia) se achara
uraa carapina dilatada de rainas de christaes flnissiraos, o indo fa-
zendo a raesraa derrota se acharão muitos morros escalvados e cam-
pos geraos, cujos morros mostrão terem haver para muitas expe-
riências que se tem feito que por falta de mineiros se não sabe o
•que é, sendo os ditos campos muito férteis de toda a caça.»
A outra cópia deste documento, a de 1694, diz, depois da referencia
á falta do mineiros : <esta quantidade de campos e capões ó regada
de muitos rios, uns grandes outros pequenos, em que não pôde fal-
tar ouro de lavagem que por não ter Jogar não fiz exame, e são os
ditos campos fertilissimos de caça e fructas agrestes» o depois de
algumas palavras illegiveis «e da Resaca de Catagoas e serra de Ju-
Tu ca que tudo confina hua cousa com outra, ha de vir sahir dos
campos geraes o caminho para o Rio de Janeiro.»
Por este documento se vê que já em meados de 1694 estava
conhecida regularmente a região do alto Sapucahy e Rio Grande,
'bem como a existência de ouro nella. A descoberta feita por uma ou
mais expedições, provavelmente nos annos de 93 ou 94, organizadas
para este fim especial e evidentemente acompanhadas por gente pra-
(1) Talvez disthenio azul que abunda em muitas partes de Minas Geraes. Os mine-
raes azaes a que se referem as suppostas saphiras da região dos rios Jequitinhonha •
•Doca não são conhecidos nesta parte do Estado, talvez por falta de explorações.
— 270 -
tica das lavras do littoral, fora mais positiva e provavelmente mais
importante pela quantidade de ouro extrahido do que as attribuidas a
Arzão o Bartholomou Buono. Entretanto, parece ter passado quasi
despercebida, provavelmente porque o ouro era «de lavagem > e não
«m quantidade sulB cientemente deslumbrante, para fazer desapparecer o
antigo preconceito contra esta qualidade de minas, em comparação com
as sonhadas minas de prata cora que se esperava coUocar a colónia
portugueza a par das de Hespanha.
Não sendo conhecida a correspondência de d. João de Lencas*
tro com o governo de Lisboa, não so podo saber cm que termos cllo
deu conta desta descoberta do padre Karia, mas é provavelmente a
ella que o governador se refere na carta do 15 de setembro de 1694,
dirigida ás camarás de S. Paulo, S. Vicente e Santos, ordenando a
construcção de uma nova fortdoza em frente de Santos, «porque
agora quo é tão grande a fama do muito ouro que de novo so tem
descoberto, poderá a mesma vilia excitar desejo do alguma nação
inimiga, e ainda de alguns corçantes ou piratas,» E' para notar que
o chefe da expedição, o padre João de Faria (Fialho), se tornou de-
pois ura dos mineiros mais importantes da Villa Rica, onde deixou o
seu nome ligado a um bairro da cidade e onde ainda so apontam as
ruínas da sua residência. E' também para notar o nomo de um ex-
plorador, Bartholomeu da Cunha, anterior ao padre João de Faria.
O ultimo cscripto do Bento Corrêa, era que vera, pela segunda
vez, o roteiro do padre Faria, não traz data ; raas, polo registro em
Lisboa, era Outubro de 1695, e pela referencia á morte de António
Paes do Sande, que teve lugar era Fevereiro do mesmo anno, podo
ella ser fixada rauito approximadaraente. Era evidenteraente pouco
antes da denuncia das minas de Cataguazes, a que se refere a seguinte
Carta Régia, citada por Pedro Taques na Revista do Instituto Histórico,
vols. 34, 2.a parto, pag. 16.
«Governador da Capitania do Rio de Janeiro. Amigo. Eu, El-Rei
vos envio muito saudar. Viu-se a carta que escreveu Sebastião de
Castro Caldas, a cujo cargo estava esse governo, a 16 do junho deste
anno ; om que me deu conta do uraas novas minas, que se haviam
descoberto no sertão da villa de Taubaté, o de que haviam trazido
cinco oitavas de amostras, quo reractteu, com a noticia do que ainda
- 271 -
se haviam descoberto mais ribeiros, como lhe haviam representado
em suas petições os descobridores Carlos Pedroso da Silveira (l) e
Bartholomeu Bueno do Siqueira, a quem proveu nos officios delias,
por ficar dusentas léguas das de Parnaguá, e não poderem os officiaos
delias acudir as novas minas chamadas de Cataguazes, ctc, 16 de
dezembro de 1595».
Pelos termos desta Carta Régia se concluo que foi somente depois
de receber os requerimentos dos descobridores das minas chamadas
de Cataguazes que o governador do Rio do Janeiro ligou importância
ás descobertas do padre Faria, conhecidas desde o anno anterior. Dahi
se pode presumir que não se enthusiasmou muito com qualquer das
duas noticias e que a sua communicação ao governo e os actos qné
praticou a respeito foram dictados mais pelo desejo de satisfazer os
dois pretendentes do que por interesse no assumpto.
De facto as cinco oitavas (resto, conforme a tradição, de uma
apuração original de doze oitavas ) entregues ao governo não era quan-
tidade sufficiente para despertar grande enthusiasmo sinão entre pessoas
ignorantes da mineração pratica. A versão que attribue a expedição
de Carlos Pedroso e Bartholomeu Bueno á primeira descoberta de Ar-
zão é puramente tradicional, mas nem por isso ó inteiramente inaccei-
tavel.
Entre o povo do interior também o despertar do interesse parece
não ter sido immediato, visto que, conforme as noticias mais fidedi-
gnas, somente alguns annos mais tarde é que se iniciou o riish para
o sertão. E' do presumir que o resultado mais immediato desta pri*
raeira descoberta fora que as subsequentes bandeiras para a caçada de
Índios tiveram o cuidado de levar alguns mineiros práticos das lavras do
littoral, e que incidentalmente foi feito exame nos córregos por cnde
passaram, dando assim occasião a alguma descoberta mais deslum-
brante da qual não se tom conservado noticia minuciosa, mas que
provocou o rush, francamente estabelecido em 1698, on talvez um
pouco antes. De accôrdo com osta supposição está a noticia de An-
(1) Conforme Pedro Taqnes {Rei: do Inst. Hist. n. 34, II, p. IG) Carlos Pedroso da
Silveira tinha sido ouvidor por paite do donatário e foi nomeado provedor de uma casa
<le fundição estabelecida em Paraty e depois removida para Taubaté.
— zl2 —
tonil que attribue a primeira descoberta a ura mulato que tinha es-
tado nas minas do Paranaguá e Curitiba. Este, acompanhando uma
bandeira era busca de Índios, lavou numa gamella as areias do ri-
beirão de Ouro Preto, juncto á serra de Tripuy, e tirou granitos de
ura mefcal pesado eôr de aço, que nâo sondo reconhecido como ouro
foi vendido em Taubató a Miguel de Souza por meia pataca a oitava.
Era o famoso «ouro preto» da região ; p, nas circurastancias aponta-
das, ó de presumir que fosse ajunctada quantidade sufflciente para
causar maior impressão do qno a produ?ida pela descoberta anterior
de Bueno e para dar era resultado que as futuras bandeiras fossem
effectivaraento era busca de ouro.
A respeito da bandeira de Bueno e das primeiras descobertas
substquentes temos, alóm das informações já citadas de Bento Fer-
nandes, as seguintes, dadas em 2 de janeiro de 1733 ao padre Diogo
S ares por José Robello Perdigão, que, tendo ido, em 1700, como se-
cretario do governador Arthur de Sá, tornou-se mineiro e, em 1711»
era o vereador mais raoço da primeira camará da villa de Ribeirão
do Carmo {Revista do Archivo Publico Mineiro, II, pag. 81.)
«Os primeiros sertanistas de S. Paulo informam qu^ um Duarte
Lopes, fazendo experiência num ribeirão que desagua no Guairanga
com uma batoa tirou ouro, de que no povoado fez varids peças la-
vradas para uso de sua casa.
<Sairara rauitas bandeiras á busca da casa da Casca no verão do
1634 trazendo por seus primeiros cabos Manoel de Camargo, seu cu-
nhado Bartholoraeu Bueno, seu genro Miguel de Alraeida, e João Lopes
Caraargo, seu sobrinho João Lopes de Camargo, que ainda existe*
Fizeram as primeiras experiências em Itaberaba, descobrindo o pre-
cioso ouro.
«Sendo pouco o lucro, proseguiu Manoel de Camargo com seufllho
Sebastião na derrota da casa da Casca, sendo morto pelo gentio, e
retrocedendo o fllho com alguns negros.
«Miguel Garcia descobriu na foz da Serra de Itatiaya ura ribei-
rão, que agora se chama Gualacho do Sul ; mas recusando os paulis-
tas dai' partilha aos taubateanos, estes fizeram uma bandeira tendo
por cabo Manoel Garcia e em breve desc br irara o celebre Ouro Preto.
Accudiu tanta gente que nâo coube a cada pessoa mais de três braças
- 273 -
de terra, e nova bandeira lançou ura António Dias, quo descobriu o
ribeirão de seu nome. O padre João de Paria fez então sua tropa e
descobriu o ribeirão de seu norae.
«Outra bandeira descobriu e socavou o ribeirão do Bento Rodri-
gues, norae do cabo, este tanto produzia que de algumas bateiadas
tirarara-se duzentas e trezentas oitavas, sendo a pinta gorai de duas
e três, e tanta gente accudiu que em 1697 o alqueire de milho valeu
64 oitavas.
«João Lopes de Lima, morador em Tibaya (Atibaia), cora o padre
Manoel Lopes, seu irmão, de alcunha o Buâ, descobriu o ribeirão do
Carmo, que Arthur de Sá mandou repartir estando já em S. Paulo,
nomeando guarda-mór Manoel Lopes de Medeiros. O ribeirão do Car-
mo se repartiu em 15 de Agosto de 1709, Passados dois annos se
descobriu só nas cabeceiras o ribeirão de António Pereira, norae do
descobridor, o qual chamam hoje Gualacho do Norte; descobriu-o no
rceio Sobastão Rodrigues da Gama ; a barra descobriu João Pedroso
descobridor também do B rumado e do Sumidouro, que não crão
menos ricos. Estes rios doserabocão ambos no Miguel Garcia ou
Gualacho do Sul e todos no ribeirão do Carmo juneto ao Furquira.
No mosrao desemboca o Bom Successo, descoberto pelo coronel Sal-
vador Fernandes Furtado, ura anuo depois do mesmo ribeirão ; foi
repartido por ordem de Arthur de Sá. Outros seguiram ribeirão
abaixo, sendo o primeiro o capitão António Rodovalho, a 10 léguas
pouco mais ou menos de Ouro Preto, onde então esiava situado Per-
digão. Mais abaixo passou João Lima Boníante, que situou-se na
freguezia de Bora Jesus do Monte ou Furquim ; mais abaixo foi o
padre Alvarenga. O ultimo de todos foi Francisco Bueno de Camar-
go, na barra deste ribeirão, no Guapiranga. Todos estes descobri-
mentos se fizerara de 1700 para diante».
Nos pontos essenciaes, para os flns do presente estudo, as noti-
cias de Bento Fernandes e de Perdigão estão substancialmente de
accôrdo. Ambos attribuem o descobriracnto effectivo á banddra de
que fez parte Bartholoraeu Bueno, a quora, ao que parece, os cora-
panheiros da bandeira e outros, por cujo intorraedio a prirauira
amostra foi transraittida, não disputaram as honras de primeiro des-
cobridor, sendo de presumir que a idéa de tirar proveitos oflficiaes da
— 2Ti —
descoberta fosse primeiro snggerida por Carlos Pedroso da Silveira.
O logar deste descobrimento era nas iraraediaçõos da Serra do Itabe-
raba, qne se acha situada no caminho mais natural de passagem da
bacia do Rio Grande para a do Rio Doce, sendo do presumir que ser-
viu de balisa para as bandeiras de caçadores de Índios. Dabi os
descobrimentos se extonderam progressivamente para as imraediaçõos
da Serra de Itatiaia e de Itacoluray, ou de Ouro Preto, seudo de pre-
sumir que somente depois do alcançar esto ultimo ponto fosse que se
estabeleceu o riish, que transformou as bandeiras caçadoras em mi-
neiras. Estando as serras de Itatiaia e do Itacolumy fora do cami-
minho de caçadores e sendo de difficil accesso, é quasi certo que as
primeiras explorações feitas foram com o flm especial do reconhecer
a existência de ouro : mas 6 provável que, no principio pelo menos,
este fim fosse ainda subordinado ao do escravisar Índios.
A divergência mais importante entre as duas noticias está na data
de lf)97, dada por Perdigão á descoberta de Bento Rodrigues, que
certamente foi posterior ás de Ouro Preto, as quaes, conforme Bento
Pernandes, tiveram logar em 1699. Uma carta de Arthur de Sá e
Menezes> de 29 de Abril de 1698 (1), indica que neste anno o riish
(1) «Beiihor:
«A conta que Sebastião de Castro Caldas deu a Vossa .Magestade das minas de Tau-
Tjaté são as chamadas dos Cathaguazes, que distão de Taubaté mais de cera léguas.
Continuadamente se v5o descobrindo novos ribeiros de grandíssimo valimento, como ja
tenho dado conta a Vossa Magestade em carta de vinte de Maio ; o ouro é excellentis-
Bimo e dizem os ourives que é de vinte e três quilates.
«AS diligencias que achei que o sobredito Sebastião de Castro tinha feito para a boa
an-ecadação foi ter creado um provedor em Taubaté e uma ofiScina sem officiaes, e agora
fico cuidando se convém ao serviço de Vossa Magistade o conservar aquella officina,
pelas duvidas que se me offerecem prejudiciaes a boa arrecadação dos quintos, porem
sobre este particular não tenho disposto nada contra o que Sebastião de Castro deixou
ordenado, porque quero ver primeiro o que a experiência me ensina examinando estes
negócios maduramente.
«E nestas mesmas minas tinha provido Sebastião de Castro a um guarda-mór que é
o ministro que reparte as datas aos mineiros e tem cuidado de cobrar o dinheiro que
S9 dá por aquella que toca a V. M. a qual se pôe em praça, e como este provimento
foi sem conhecer o sujeito, o qual era incapaz do tal cargo pelo seu máo procedimento
e tyranias que usava, e de mais não dando conta nenhnma do que tocava a V. M., rou-
bando tudo para si, o mandei depor do ofiS^cio e provi nelle a pessoa benemérita que en-
tendo ha de servir bem a Vossa Magestade ; e mandei ordem ao antigo guarda-mór a
— 275 —
estava francaraonto estabelecido, mas pároco indicar também que no
intervallo entro a carta do Sebastião de Castro Caldas do 16 de Ju-
nho do 1695 c aqiiella data o movimento explorador, embora conti-
nuado no sertão, pouca attonção tinha recebido das auctoridados no
Kio do Janeiro.
Considerando todas as circumstancias, ó de presumir que o pri-
meiro descobrimento potencial contado por Antonil fosse em 169i) ou
1697, dando assim tempo para a transmissão ao Rio de Janeiro da
primeira amostra do extranho metal que foi reconhecido como ouro
preto. Assim devia ter sido de 1695 a 1696 a bandeira de Miguel
Garcia no districto da serra de Itatiaia.
Os incidentfcs da bandeira de 1694, contados por Bento Fernan-
des, mas não referidos por Perdigão, nada têm de inverosímil, salvo
na importância dada á supposta descoberta de Arzão como causa de-
terminativa da expedição. A interessante tradição do ter a primeira
amostra do doze oitavas de ouro passado por diversas mãos sem quo
estos successivos possuidores disputassem ao primeiro o credito do
primeiro descobridor denota grande lealdade da sua parte, ou, talvez,
indiffercnça ou ignorância da importância da descoberta.
Uma vez começado o movimento immigratorio, toda a fralda
oriental da Serra do Espinhaço, correspondente a bacia do Rio Doca
até a Santa Barbara ao norte, ficou dentro de muito poucos annos
desbravada e cheia do centros activos de mineração. Até o anno da
1704 parecera terem sido descobertos o povoados todos ^ os districtos
:iiais ricos desta encosta, que tomou o nome de Minas Geraes de Ca-
taguazes para distinguir esta região mineira das vizinhas do Rio das
Velhas e do Caethé, que se desenvolveram quasi simultanearaonto
como resultados indirectos das descobertas determinativas do rush na
vizinhança do Ouro Preto. Conforme Antonil, as descobertas na re-
gião de Caethó foram anteriores ás do Rio das Velhas, ou de Sabará,
o neste caso é do presumir que fossem feitas por mineiros de Ouro
Preto passando para o oeste das cabeceiras do Santa Barbara, ou tal-
quem chamão Joseph de Camargo Pimentel que logo viesse dar contas dos que pertence-
rem a Vossa Magestade. Como me não tem chegado respostas destas ordens, não posso
dar conta a V. Magestade com aquella individuallde que é justo. Vossa Magestale nesta
particular como em tudo mandará o que mais convier a seu real serviço.
«Rio de Janeiro, 29 do Abril de 1G9?».
— 276 —
vez por bahianos vindos do norte. A importância que tiveram cer-
tos bahianos nos acontecimentos de 1709 e a referencia de Antonil ao
capitão Luiz do Couto, «que da Bahia foi para esta paragem com três
irmãos, grandes mineiros>, favorecera esta ultima hypothese (1) que^
aliás, está em desaccôrdo cora as informações de Bento Fernandes,
que dá a fundação de Caethé como tendo sido feita de Sabará por
Leonardo Nardes. O que parece certo é que ('aethé foi o ponto de
encontro de três movimentos raaif ou menos independentes, isto ó, o
de Orro Preto, o do Rio das Velhas ou de Sabará, e o do norte pelo
sertão da Bahia e talvez pelo littoral de Espirito Santo, sendo todos
estes movimentos provocados pelas descobertas de ouro no districto
de Ouro Preto na épocha de 1694 a 1699.
A fralda occidental da serra do Espinhaço, na região do alto Rio
das Velhas, começou a ser explorada logo em seguida á oriental e
provou ser egualmente rica. O movimento por este lado foi iniciado pelo
capitão Manoel da Borba (-fato, genro de Fernão Dias, que com a
promessa de descobrir ou revelar ricas minas alcançou perdão do
crime da morte de d. Rodrigo de Castel Branco, em 1681, que
lhe foi attribuid». Julgam diversos historiadores que a descoberta
já tinha sido feita antes da retirada precipitada de Borba Gato do
sitio de Sumidouro {.?) aa vizinhança do futuro districto mineiro.
Como já ficou referido, porôm, é extremamente duvidoso que a gente
(1) Esta hypothese e a do paragrapho seguinte ficaram plenamente comprovadas pelos
docamentos apresentados num trabalho subsequente relativo aos primeiros descobrimentos
nos distrjctos de Sabará e Caethé.
(2) Dois nomes locaes servem para identificar a posição approximada, sinão exacta,
deste sitio. O de Sumidouro, pequena e antiga (figura num mappa de 1767), povoação
próxima á Lagoa Santa^ não é, em absoluto, determinativo visto a frequência de sumi-
douros nesta região. Existe, porém, na vizinhança um ribeirão e povoação antiga com o
nome de Fidalgo, a que se refere uma das testemunhas do processo Tiradentes, em 1789,
dizendo ter ouvido «que se tinha morto um general no sitio a que se chamou Fidalgo,
na comarca de Sabará, cujo successo deu nome ao dito sitio (Norberto Conjuração
Mineira). A referencia á morte de Castel Branco é clara e assim se torna quas»
certo que o nome de Sumidouro na vizinhança vem do tempo da expedição de Fernão Dias.
A versão corrente que a introducção de gado no valle do Rio das Velhas vem da
dispersão das comitivas de Borba Gato e de Castel Branco parece sem fundamento. Não
é de presumir que estas expedições tivessem levado gado, e é certo que neste tempo
a occupação do sertão de S. Francisco pelos creadores bahianos já se tinha eífectuado
até bem próximo, sinão dentro do valle do Rio das Velhas.
- 211 -
da expedição de Fernão Dias tivesse identificado a serra do districto
de Sabará com a lendária Sabarábussií, ou que tivesse entre si
pessoal apto para a descoberta de ouro cora que, estando preoccupa-
da cora a idéa de prata e esraeraidas, pouco ou nada se importava.
E' tarabera de extranhar que, no caso de ter feito esta descoberta,
nada se coraraunicasse a S. Paulo na occasião da remessa do espolio
mineralógico da expedição, feita por mão de Garcia Rodrigues, fliho
de Fernão Dias e cunhado de Borba Gato. O mais provável é que a
confiança de Borba Gato foi devida a ura palpite feliz baseado, tal-
vez, no conhecimento que elle tinha da analogia entre as regiões do
alto Rio das Velhas e a do alto Rio Doce.
No principio o único accesso para a região mineira era pelo an-
tigo caminho dos Índios, passando do valle do Parahyba ao do Rio Gran-
de G dahi para os do São Francisco e Rio Doce. Poucos annos de-
pois da descoberta foi aberto, por Garcia Rodrigues, um novo caminho
em direcção ao Rio de Janeiro, e indubitavelmente houve entradas
pelos lados da Bahia e Espirito Santo, das quaes não se tem conser-
vado noticias minuciosas. Estando já occupada por creadores de gado
grande parte do sertão da Bahia, o accesso pelo lado do norte era
relativaraente fácil, e é quasi certo que logo nos priraeiros annos de-
pois da descoberta esta via era aproveitada. De entradas pelo lado
do Espirito Santo não se encontrara noticias publicadas ; mas pela
correspondência dos governadores da Bahia, conservada na Bibliothe-
ca Nacional, vê-se que já era 1700 houve projectos de explorações e
que era 1702 se fala de rainas era trabalho. No principio de 1704 o go-
verno de Lisboa, a pretexto de guerra no sul e de piratas, raandou
retirar a gente das minas e impedir a entrada de raais. Nas ordens
expedidas para este efifeito se fala das rainas da Serra Fria e To-
carabira, donde se pode concluir que o movimento do littoral da Bahia
e Espirito Santo tinha seguido o antigo caminho dos Índios e desco-
berto ouro nos districtos de dois dos postos de Fernão Dias. Não é
muito arriscada a hypothese que houve a redescoberta dos córregos
auríferos da expedição de Martim Carvalho. Subsequenteraente o dis-
tricto de Serro foi occupado por mineiros vindos de Caethé, Sabará e
Ouro Preto, aos quaes geralmente se attribuera as priraeiras desco-
bertas no districto do Serro do Frio, destinado a se tornar celebre corao
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a Demarcação Diamantina. Conformo parece, a occupação effectiva
deste districto, que já tinha sido percorrido por grande parte das ex-
pedições para o sertão, teve logar antes de 1714.
Em carainiio do S. Paulo para as Minas Goraes os aventureiros
íivorani do passar por uma grande extensão de terreno aurífero já
assignalado polo padre João de Faria, o indubitavelmente na passa-
gem iam fazendo pcsquizas nesta região. Nos primeiros tempos, po-
rem, era necessário que o rendimento fosso fora do commum para
attrahir mineiros, e nestas condições só foi encontrado, em 1703, um
íogar no Rio das Mortes que deu o igera a ura centro de mineração
rivalizando com os já estabelecidos mais ao norte. As lavras mais
pobres nas regiões do alto Rio Grande o Sapucaby, já conhecidas
peia exploração do padre Faria, tiveram, ao que parece, {ArcMvo de
S. Paulo, vol Xí p. XÍjI), cerca de 1720, um começo do exploração
effectiva, sendo dadas por «bromadas», e somente mais tarde, cerca
de 1743, é que foram definitivamente occupadas e trabalhadas.
Também não tardou muito, (antes do 1713), a ser explorado o
.caminho da expedição do 1601, dando logar á crcaçao do importante
centro de Pitanguy, na região onde, presumivelmente, esta bandeira
julgou encontrar a lendária Sabarábussú.
Assim, dentro dos primeiros dez ou quinze annos, depois do pri-
raeiro descobrimento effectivo, ficou conhecido e povoado, como por
encanto, todo o vasto sertão que durante século e meio tinha sido percor-
rido pelas mallogradas bandeiras em busca de prata e pedras preciosas.
No principio as lavras eram exclusivamente nos leitos dos rioc
^ córregos, mas não tardou muito a descoberta (em 1707, conformo
Bento Fernandes) que os terrenos marginaes eram também auríferos
e dignos de attenção. Mais tarde, em 1707, conforme a mesma au-
ctoridadc, se começou a lavrar as betas nas suas partes superficiaes,
raas por mais de cem annos este typo de lavras conservou mais ana-
logia com as do couro de lavagem > do que com as minas em rocha
propriamente ditas. A mineração subterrânea, conforme as regras do
arte, foi iniciada em 1815 por Eschwege {Piluto Braãlensis, pag. 271),
gendo este primeiro ensaio seguido pelas operações das companhias
iaglezas que começaram do se estabelecer em 1825.
Orville a . Derby.
Os primeiros descobrimentos de ouro
nos distrietos de Sabará e Caêthé.
No estudo s'»bre os primeiros descobrimentos do ouro no territó-
rio de Miaas Geraes, que apresentei o anno passado neste Instituto,
«Dnsiderei o descobrimento do districto de Sabará como sendo poste-
rior ao do districto do Ouro Preto o como uma consequência natural
deste. Esta opinião, baseada mais em hypotheses do que em docu-
mentos comprobativos, era contraria á de alguns escriptores que, era
vista da prévia residência na região do descobridor das minas de
Sabará, Manoel do Borba Gato, admittera a possibilidade de ter ello
voltado á região em consequência de descobertas feitas durante essa
residência. Na occasião não tive elementos para estudar devidamente
este ponto e outros rehtivos á historia da parte mais, septentrionat
úa. região aurífera; mas hoje me acho habilitado a fazol-o, graças á
obsequiosidade do dois amigos e consócios neste Instituto, os srs.
Capistrano de Abreu e Eduardo Prado, dos quaes o primeiro fez, a
meu pedido, uma busca nos documentos inéditos da Bibliotheca Na-
tjional e do Arehivo Publico do Rio de Janeiro e o segundo mo cedeu
«ópias de uma preciosa massa de manuscriptos encontrados na Biblio-
íheca Real da Ajuda, em Lisboa.
A historia corrento, baseada em documentos da família Paes Lemo
consultados era Lisboa pelo historiador Southey, e nos escriptos de
Pedro Taques, membro da mesma família, é que Manoel de Borba
Gato, genro de Fernão Dias Paes Lemo e membro da expedição de
1674 era procura das minas do esmeraldas e da lendária serra de
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Sabarábussú, ficou no sertão depois da raorte do sogro, mira sitio cha-
mado Sumidouro, que teve do abandonar por ter ficado envolvido na
morte trágica de d. Rodrigo Gastei Blanco, que lhe foi attribuida, e
que alcançando, annos depois, indulto do governador Arthur de Sá e
Menezes, elle voltou ao sertão e conseguiu logo descobrir a procurada
serra de Sabarábussú, fundando a actual cidade de Sabará, que lhe
tirou o nomo. Da historia assim contada diversos escriptores tòm de-
duzido duas conclusões importantes, a saber;— em vista da facilidade
da descoberta, Borba Gato já a tinha feito antes de abandonar o ser-
tão, cerca de 1681, e que a introducção do gado na região do alto
São Francisco e rio das Velhas era devida á dispersão dos habitan-
tes da nascente povoação do Sumid >uro em consequência das desor-
dens que resultaram na morte de Gastei Blanco .
No escripto já referido identifiquei entre as numerosas localida-
des designadas (ou que podiam ser designadas) com o nome de Su-
midouro, o sitio estabelecido por Fernão Dias e abandonado por Bor-
ba Gato com a que ainda conserva este nome, situada próximo ao
Rio das Velhas, a algumas léguas ao norte de Sabará. Esta identi-
ficação acha-se confirmada pelo nome de <Fidalgo» dado a um ria-
cho e antiga povoação na vizinhança que, conforme uma testemunha
no processo Tiradentes, commemora a morte, neste logar, de um fi-
dalgo e governador que não podo ser sinão d. Rodrigo Gastei Blan-
co. Aventurei também a hypothese de que o nome de Sabarábussú
tenha sido dado pelos brancjs depois e em consequência do descobri-
mento de ouro, não sendo verdadeiramente a legendaria serra dos Ín-
dios, e citei um escripto de Bento Fernandes Furtado de Mendonça
em que se refere que Borba Gato, em logar de andar refugiado en-
tre os Índios do Rio Doce, estava encostado num sitio na vizinhança
de Pindamonhangaba, tornando possível que fosse elle o Manoel Borba
que acompanhou o padre João de Faria na expedição de 1093 ou 1694
ás regiões do alto Sapucahy e Rio Grande.
Seja qual íôr o escondrijo de Borba Gato durante o tempo em
que temia a acção da justiça, certo ó que soube aproveitar a febre
da mineração provocada pela descoberta de ouro no districto de Ouro
Preto e inculcar-se ao governador Arthur de Sá e Menezes como
pessoa apta para extender as descobertas e, presumivelmente, para
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realizar o grande sonho a respeito de minas do prata e esmeraldas.
Conseguido o seu intento, e naturalmente ao mesmo tempo o perdão
do seu crime supposto ou real, obteve, em fins de 1698, a seguinte
carta-patento.
«Paço saber aos que esta minha carta-patente virem que haven-
do respeito ao muito que convém ao serviço de sua magestade que
D. G. e ao bem commura desta capitania e das da repartição do Sul
que se descobrara minas a cujo negocio me mandou o dito senhor a
(stas partes, e pelas noticias que tenho que na paragem a que cha-
mam Sabarábussú haverá mina de prata, a cujo descobrimento man-
do Manoel de Borba Gato para que com sua actividade e zelo que
mostra no serviço d'el-rei Nosso Senhor explore os morros e serras
que horver naquellas partes, o por esperar delle que neste particular
se haja muito cuidadoso, fazendo-se digno das honras e mercês quo
sua magestade que D. G. liberalmente pela minha mao conceda aos
que descobram minas, hei por bem de o nomear e eleger como por
esta o faço, nomeio e elego por tenente general desta jornada de
Sabarábussú— e pode ser que o capitão-mór Garcia Roiz Paes faça
jornada para a mesma parage ao seu descobrimento das esmeraldas,
encontrando-se com o dito tenente G. se ajudaram ura ao outro par^
mais promptaraente Sb fazer o real serviço, o quo tudo flo do zelo de
ambos obrando com aquella paz e diligencia que se requer em om-
preza do tanta consideração.
«Dada no Rio do Janeiro a 15 (quinze) de Outubro de 1698».
Nota-se neste documento a preoccupação com minas de prata e
de esmeraldas e coni a famosa serra de Sabarábussú, e também a
falta do indicação de conhecimentos exactos a respeito da posição
desta serra. A fama da serra do Sabarábussú já se tinha espalhado
na Europa tanto quo eila vem represen'ada (como o nome de serra
de Sarabassú e em posição proximamente da serra da Canastra) no
mappa de Coronelli de 1688. Ao quo parece, tanto Borba Gato como
Garcia Rodrignes foram coramissionados para continuar as explora-
ções de Fernão Dias e, naturalmente, na região onde este tinha en-
contrado esmeraldas, isto é, no espigão entre o curso médio dos rios
Doce e Jequitinhonha.
— 282 —
Dois annos dopois Borba Gato estava do volta a São Paulo, tendo
descoberto ouro (e, conforme ello julgava, indícios de prata) na re-
gião do alto rio das Velhas, conforruo se ve na seguinte carta coK-
sorvada na bibliothoca real da Ajuda.
«COPIA DA CAUTA QUE ESCREVEU PEDRO TÂQUES DE ALMEIDA AO SP.. D,
JOÃO DE LANCASTRO»
«Obedecendo a ordens de v s., no particular do informe deste
sertão que agora se frequenta pelas lavras de ouro ; digo que muitos
annos ha estava já versado jelos nossos naturaes paulistas polo inte-
resse do gentio, e ao depois pelo governador Fernão Dias Paes que
esteve do assento alguns annos com plantas no sumidouro Cabeceiras
desse rio dos corraes dos moradores dessa cidade na diligencia da
prata do serro de Sabarábassú, o qual uns modernos deste tempo nãe
conhecem i elos muitos serros que se implicavam huns aos outros e a
falta de mineiro, nada surtiram aquellas diligencias. Este é o mes-
mo districto em quem se tem dado com o ouro, o para essa banda
se extendem us des^cobrimentos como se vô nos ribeirões que tem
novamente reconhecido o tenente general Manoel do Borba Gat3>
com pintas de consideração do que trouxe amostras : e por falta de
mantimentos não fez a diligencia necessária, a qual fará agora com
as plantas que tem e por esta mesma causa e falta se dosempararara
as minas e agora começara a sahir as tropas para ella com maior
concurso .
«Notáveis acertos tiveram os últimos mineiros que vieram, os
quaes lavraram em um ribeirão descoberto de novo onde em menos
de um mez saíram a arroba ; e cm um delles com tros que nesta of-
flcina o quintaram e se acham de quintos reaes nolla sete arrobas ;
o na do Taubató que é a primeira a que chegaram os mineiroè, di-
zem passam de cinco. Com que nesta froia se reraetteram de quin-
tos reaes do'/e arrobas e se v. s. cá viera é sem duvida que iria
muito mais, porque só no zelo, vigilância e cuidado de v. s. poderá
evitar os seus descaminhos, no que ficava lucrando então grossos in-
teresses a fazenda real.
«O capitão mor Garcia Rodrigues Paes tem aberto uma picada
por ordem do general Arthur do Sá e Menezes, do Kio de Janeiro
até a rosaca do donde começara os campos geraos confinantes cora 03
corraos da Baliia, quo ha mais do vinte annos que os moradores do
Eio de Janeiro procuram conseguir a dita picada que nao teve efieito
porque se duvidava poderse abrir pelas difficuldades dos serros. O
dito se tera recolhido á sua casa e certifica ser muito capaz para a
conducção de gado e cavalgaduras carregadas que serão seis dias do
jornada do Rio de Janeiro até a resaca, e desta até as minas oito.
A picada foi aberta em ordem a criar gado os interessados mo-
radores do Rio do Janeiro, e para estas minas ó muito conveniente,
porque até bois mansos os mandam para elles dizem os homecs que
têm andado este sertão, que será e ó mais fácil conduzir gado dcs
corraes dessa cidade para as minas, que loval-os destas capitanias, o
quo verificou a experiência nas boiadas dos moradores dessa Bahia
que V. s. fez conduzir para as ditas minas, pois nesta conducção fez
V. s. um muito particular serviço á sua magestade dando grande lu-
cro a sua real fazenda, o bem commum dos vassalos que alli se
achavam, porque na remessa das boiadas que vieram ás minas soc-
correu os mineiros, porque destas villas não é possível fazer-se, por-
que sendo 20 já perecem os povos, nem se vende poso de carne, o
valendo uma rez dois mil reis, promettem os mineiros oito, pelo que
interessam nas minas, porque o preço geral atô presente foi 50 oita-
vas e em alguma necessidade cem.
«Tem-se ordenado que as boiadas que chegarem dos moradores
dessa cidade dos seus corraes, se registem nas minas onde chegarem,
e cora a mesma obrigação os escravos que levarem para darem conta
do precedido do uma e outra coisa, para não haver descaminho nos
quintos reaes, havendo pessoa ora todos os descobrimentos que tinha
isto a seu cargo. O quo só v. s. poderia fazer vindo pessoalmente
dar forma a esta airecadação com o seu costumado acerto, pois nop
consta o grande zelo de v. s. e as acertadas disposições com que
descobriu as minas do salitre, e estabeleceu a sua fabrica, o nisto
faria v. s. um particular serviço a sua luagestade com muita facili"
dado, porque como andou por sertões agrestes não ha de estranhar a
aspereza destes, por estar hoje já feito grande sertanista.
«E' opinião commum dos mineiros mais experimentados em minas
de ouro que tem continuado todo esto sertão, segundo as disposições
- 284 -
dos serros e ribeiros, que o temos visto ató o presente são indícios
de grandeza que o tempo mostrará com a continuação para a parte
das esmeraldas que distara destas minas um mez do viagem por cam-
pinas e serras fragosissimas, pela mesma aspereza lia esperança de
muito ouro e pedras preciosas, de que lia indicies de saphiras pela
raaita escoria que se acha na superfície d» terra e com esta frequên-
cia descobrir-se-ão esmeraldas finas, e tudo o mais que se considera
haver naquelle serro, que por falta de mineiro de profissão, se não
animam os paulistas a trilhar estes desertos, o que afíirmo só com a
presença de v. s., pois temos e achamos os paulistas que por v. s.
faremos milhares de impossíveis, e como temos todas as sobreditas
noticias de que v. s. foi aos sertões dessa Bahia ao descobrimento do
salitre, e por caminhos tão ásperos animando a todos os que acom-
panharam a V. s. e facilitando- lhes os carinhos, descobrindo por todas
estas circumstancias v. s. o salitre, que havia tantos annos estava
occulto, por cujas razões e pela grande benevolência e honra que v. s.
faz a todos deste Brasil, tenho por sem duvida que os meus patrícios
descobririam e se fariam em pedaços por dar gosto a v. s. para des-
cobrimento das riquezas que nestes sertões estão occultas.
«Se continuarem os rendimentos do ouro de lavagem como se
certifica, e se descobrirem as pedras de valor, seria muito conveniente
mandar sua raagestade povoar no sumidouro a nas esmeraldas por
que era ambas estas paragens são os campos capazes de criar gados
continuando cora os corraes até chegar aos do raestre de campo Mathias
Cardoso, ficando tudo comraunicavel por terra e pelo rio, por que das
minas do sumidouro até os priraeiros corraes, pódera haver quarenta
dias até dois mezes de distancia.
«De grande utilidade seria para os quintos reaes a conservação
da casa da moeda no Rio de Janeiro ou nesta villa, porque ambicio-
sos os moradores destas capitanias e muitos do Rio de Janeiro e tam-
bém dessa cidade cora o valor de 17 tostões, vencera impospiveis por
fazer jornadas ás minas deixando suas casas irapossibilitadas por lo-
grar os interesses e seus descobriraentos, e cora a falta da casa da
moóda estaraos receosos não tenha valor que os raova ao excesso
cora que de presente se erapenham, e será o preço e valor tão ínfimo
que não passará a 8.* de ouro erabarretada de dez tostões e menos,
— ^>85 —
e virão os paulistas a depor esta conveniência geral, continuando de
novo as entradas ao sertão a buscar Índios cora que se sirvam.
<B tendo effeito a continuação da casa da moeda de ouro com
valor do 8,12 e 16 tostões em cunho geral para todo o reino se con-
servará o valor dos 17 tostões, e o fervor dos mineiros nunca es-
friará.
«E deferindo s. m. a casa da moeda necessitara estes povos de
negros para minerar, e fora muito conveniente ordenar ao governa-
dor da Angola era cada anno mandasse ura navio cora peças ao porto
de Santos para conservação das rainas, e flcarera para sempre esque-
cidas as entradas dos sertões.
«O tonente-general Manoel do Borba Gato trouxe agora ao gene-
ral Arthur de Sá e Mene-ses umas folhetas limitadas que parece fo-
ram douradas, que me certiflou o dito general, era prata achada en-
tre ouro das quebradas, em que algans dos serros daquelle território
afocinham, porque raspando o dourado mostra prata, e neste mesmo
sitio se descobriu ouro que os raineiros lhe puseram o nome de
prateado, porque é mais prata que ouro ; razão porque o não lavra-
ram por não ter valor; e sem mineiro será difflcil descobrir-se prata.
«Affirraam os raineiros que era todo aquelle território das rainas
se achara pintas de ouro de mais ou menos consideração fazendo so-
mente caso das pintas do raeia 8.» para siraa que segundo o rendi-
mento do ribeiro tirara bateadas de meia libra como tera succedido
em alguns descobrimentos; e no dia lava ura negro 40 até 50 bateas
de terra.
«Isto é o que me pareceu noticiar a v. s. em execução de sua
ordem sobre o estado, sertão, rainas de S. Paulo e quintos reaes. V.
s. disporá o que fôr mais conveniente ao serviço de s. m., que Deus
guarde e a bem destas capitanias.
«Esse par de grãos de ouro que trouxe um paulista das minas
das cabeceiras da capitania do Espirito Santo, districto dessa Bahia,
remetto a v. s. para que veja o que tem na sua jurisdição, que afiBr-
mam os que lá vão, quanto raais para a Bahia são raais abundantes
G de maior quantidade. Deus guarde a v. s. muitos annos.— S. Paulo,
vinte de março de 1700. — Pedro Taques de Almeida.-»
286 —
CERTIDÃO
< Certifico eu Antão do Faria Monteiro, sacerdote do habito do S.
Pedro, o commissario do Santo Officio e da Bulia da Cruzada nesta
cidade da Bahia, que eu reconheço o sinal posto ao pé da carta
atraz, sor de Pedro Taques de Almeida, capitão-mór que foi nas vil-
las de Santos e S. Paulo ; por rae corresponder com o dito, o tem
vários sinaes sous ; e assim o juro aos Santos Evangelhos Bahia e
de agosto dez de mil o setecentos. — Antão de Faria Monteiro. >
Por esta carta se vê que cm alguma região não especificada Bor-
ba Gato tinha feito descobertas de curo e que julgava também ter
descoberto prata ora um typo especial de ouro que elle considerava
como prata dourada. Esta ultima era indubitavelmente o ouro pal-
ladiado que se apresenta frequentemente na região de & abará e em
que uma mistura com o ouro de uma pequena quantidade do metal
palladio dá á liga uma côr esbranquiçada. Neste tempo o único me-
tal branco conhecido do grupo dos metaos chamados preciosos era a
prata, não estando conhecida a platina, descoberta em 1748, e o pa-
lladio descoberto eni 1803. Nestas circii instancias era natural a sup-
posição de Borba Gato que é interessante por mostrar a sua constante
preoccupação cora prata e consequenteraento cora a serra de Saba-
rábussú, sendo poréra de notar que não parece ter pretendido haver
descoberto a dita serra, da qual não ha menção nesta carta de Pedro
Taques, nem na patente cora que, a 6 do Março de 1700, Arthur
de Sá, que estava então era São Paulo, recompensou a rua desco-
berta do ouro numa região nova. A parte essencial desta patente é
a seguinte :
< . . . e para o districto do rio das Velhas se necessita um guar-
da raór, vendo eu que o tcnent^-general Manoel de Borba Gato além
dos grandes merecimentos que tem por sua pessoa, prudência e zelo
do real serviço, é pratico no dito sertão e pela muita experiência e
do que desta fio, dará enteiro comprimento ao que lhe foi ordenado
e ao regimento que mandei dar aos guarda mores das minas, hei
por bom de o nomear uo cargo de guarda mor do districo do rio das
Velhas, principiando do sitio do capitão Sebastião Leme para o nas-
cente, o qual cargo servirá havendo sua magistade por bem...>
- 287
Dois dias depois, a 8 do Março, Arthur do Sá nomeou Garcia
Rodrigues Paes, o moço, escrivão das datas das minas do rio das Ve-
lhas.
No anno seguinto Arthur do Sá esteve no districto da guarda-
moria do Borbp. Gat', ondo concedeu a esto uma sesmaria era carta
datada do «Sitio do Rio d^s Velhas*, a 18 de Abril de 1701, o que
descreveu «uma sorte do terras que corro entre o rio Parahypeba e
o rio das Velhas, chapadas da serrania de Itatiahy mixta e continua-
da a do Itapucu, começando da parto do Norte e correndo a rumo do
sul entre um o outro serro acima declarado até ir a entestar com a
-eachoeira de Itapeveramirim».
O nome Sabarábussú, ou antes uma variante que faz desconfiar
que ainda não se tinha feito a identificação com a serra da lenda,
appareco numa provisão de Arthur do Sá, datada do ribeirão de Sa-
barávaassâ a 3 do Janeiro de 1702, em que se lê :
«...minas do prata, em cuja deligencia mandei andar com o mi-
neiro ao tcnento general Manoel do Borba Gato, guarda mor desta
repartição do rio das Velhas, o por não poder actualmente assistir
na dita occupação do guarda-mór.. . emquanto o dito tenento-general
andar occupado nas diligencias do quo o tenho encarregado... no-
meio gua>da-raór o capitão Garcia Rodrigues Paes Moço».
Uma outra provisão datada do «S. António do Bom Retiro do lio
das Velhas em 9 de Junho do 1702>, diz entro outras coisas: «tenente-
goneral Manoel de Borba (fato sorvo S. Magestade andando pelos ser-
tões para haver do descobrir prata», dando a entender que a celebro
serra da prata era considerada como bastante distante do arraial qne
depois tomou o nome de Sabará. A forma da palavra « S abará vaassú»
pareço favorecer a hyputhose do dr. Theodoro Sampaio, quo o nomo
Sabarábussú é corruptella de Itaverava-assú, nomo indígena applicavel
a pedra reluzente da lenda. B possível que a forma Sabaravaassú.
soja lapso de penna do quem escreveu a provisão de 3 do Janeiro, mas
isto parece pouco provável visto quo em outros documentos de Ar-
thur de Sá a serra lendária vem designada com o seu nomo proposto
de Sabarábussú. O nome Itaverava— serra resplandescente— estava
muito em moda entro os exploradores paulistas deste tempo, que em-
pregavam correntemente a Lingua Geral e a nenhuma feição topo-
— 288 -
graphica podia ser applicado cora mais propriedade do que ao gran-
de raassico de minereo de ferro que domina todo o horizonte desta
parte do valle do rio das Velhas e que é actualmente conhecido pelo
nomo de «Serra da Piedade». O mais provável é que o nome fosse dado
na forma de Itavoraya-assú e sem referencia á serra da legenda e
que depois por uma natural associação de ideias passasse para Saba-
rábussú.
Até ahi não temos nenhuma referencia ao nome de Sabará como
designação do arraial ou do districto, que parece ter sido introduzido
depois. A obra de Antonil, intitulada «Cultura e Opulência do Brazil>,
publicada em Lisboa em 1711, faz diversas referencias ás minas do
rio das Velhas e ao «arraial do Borba», mas uma só á serra de Saba-
rábussú, na seguinte nota sobre as referidas minas :
«Além das minas geraes de catagnas, descobriram-se outras por
outros paulistas no rio que chamam das Velhas ; o ficam, como dizem,
na altura de Porto Seguro e de Santa Cruz. E estad são as do Ri-
beirão do Campo, descoberta pelo sargento-mór Domingos Rodrigues
da Foaseca : e a do Ribeirão da Roça dos Penteados : a de N. S. do
Cabo, da qual foi descobridor o mesmo sargento mór Domingos Ro-
drigues da Fonseca : a de N. S. de Monte-serrate ; a do ribeirão do
Ajudante, e a principal do rio das Velhas e a do serro de Seborabnçú,
descoberta pelo tenente Manoel Borba Grato, paulista, que foi o pri-
meiro que se apoderou delia e f\o seu território».
Os nomes mencionados nesta nota e na carta de sesmaria só po-
dem ser identificados por quem tem conhecimentos mais minuciosos
da geographia da região do que os que se obtém pelo estudo dos
mappas existentes. B' certo, porém, que poucos annos depois da
volta de Borba Gato para a região, o nome de Sabarábussú tinha
áido introduzido, mas que tão pouca significação se ligava a elle que
logo ficou abreviado em «Sabará», que assim mesmo sô se conservou
para o rio era cuja fóz foi situado o arraial. No terrao de 17 de
Julho de 1711, elevando o arraial a villa com o nome official de Villa
Eeal de N. S. da Conceição, o sitio é deseripto como sendo «neste
Arraial e Barra de Sabará». Por sen lado a serra ficou, em data que
nâo se pode para o momento determinar, rechrismada cora o de «Pie-
dade», que ainda conserva. Numa descripção de um mappa da Capi-
^89
tania de Minas, que apresentei ha tempos a este Instituto e que sahiu
publicada no segundo volume da sua Revista e que parece ter sido
escripto entre 1717 e 1721, o nome Sabará só apparece cora applica-
ção ao rio, sendo, porém, mencionado um Riacho da Prata, que tal-
vez recorde a supposta descoberta de Borba Gato com a sua prata
dourada. Ao illustre investigador da historia da mineração era Minas,
o Dr. António Olyntho, devo a informação que este riacho ainda con-
serva o nome e desagua no Rio das Velhas do lado direito junto ao
antigo arraial do Raposos.
O nome de Borba Gato continuou a apparecer na correspondên-
cia do governador da Bahia até 1705, dando a entender que até esta
data ou talvez ura tanto mais tarde, a jurisdicçao do districto' estava
em litigio entre as capitanias da Bahia e Rio de Janeiro. De facto,
com data de 22 de setembro do 1700, o governador da Bahia, d. João
de Lancastro, dirigiu ao do Rio de Janeiro, Arthur de Sá e Menezes,
uma carta em que se lê :
«. . .me pareceu advertir a v. s. como seu amigo que o rio Verde,
o Dosse, o Pardo, o Das Velhas, etc, as cabeceiras do Espirito Santo
estão no districto da Bahia para que v. s. evite pelo caminho que
melhor lhe parecer que de nenhuma sorte excedam as pessoas que
andarem nos taes descobrimentos os termos que inviolavelraente devera
observar, não passando de uraa capitania para outra, porque tenho
já mandado a estas partes a fazer os taes descobrimentos por ordera
que tenho de s. m. que Deus Guarde e como tão ambicioso do dito
Senhor lhe quero fazer mais este, etc».
No catalogo do livro da correspondência de d. João de Lancastro
vô-se que na mesma data elle dirigiu a uma auctoridade do Espirito
Santo uma carta relativa a uma exploração projectada nas cabeceiras
desta ultima capitania por Joseph Cardoso de Azevedo, de cujo resul-
tado não se tera encontrado noticias.
A 14 de Maio de 1701, d. João de Lancastro tornou a escrever
a Arthur de Sá, nos seguintes terraos :
«Nesta occasião tive ordera de sua raagestade que Deus guarde
para que raandasse suspender a communicação que havia pelo caminho
que mandey para as minas de Caheté e Tocambira, districtos desta
— 290 —
capitauia geral, por se entender poderiam resultar delia muitos incon-
Tenientes a seu real serviço : e como v. s. mo diz nas duas cartas
que me escreveu do rio das Velhas era 30 de novembro do anno
passado que reraettia algumas pessoas que vieram para esta praça, e
outras que íorara aos carraes desta capitania que quintassem o ouro
que traziam por entender que se ficariam assy evitando melhor os
descaminhos que nelle poderiam haver o que por falta do mantimen-
tos se haviam retirado muitos mineiros para a montaria para terem
com que sustentar a sua gente, o outros para suas casas para voltar
em março assy pelos mantimentos que já deixavam plantados como
pelo gado que haviam mandado buscar aos curraes da Bahia e Per-
nambuco, o que será grande adjutorio para se poderem lavrar as ditas
minas, com que nestes termos me é preciso sabor de v. s. se teve
alguma ordem de sua magestade sobre esto particular, e resolução
■qno determina seguir para que com mais acerto me saiba resolver em
um negocio de tantas consequências, e de que se pódora seguir ou
deixar do seguir outras utilidades a sua Real Fazenda».
O que ha de mais interessante nesta carta ó a referencia ás minas
de Cahetó e Tocambira (Itacambira) como sondo já descobertas, Acha-
se assim confirmada a hypothese que aventurei no referido eseripto
que as minas de Cahetó para o norte, na região do assim chamado
Serro do Frio, foram primeiramente descobertas do lado da Bahia e
não do do São Paulo, sendo a data, porém, anterior á que eu tinha
imaginado. A carta seguinte mostra que estas descobertas foram, pro-
vavelmente, obra não do acaso, mas de uma exploração em regra
planejada por um administrador do vistas largas e que ura dos explo-
radores era de origem paulista.
«Copia que vae somente pela Secretaria do Estado.
«Senhor. — Sabendo eu com toda a individuação que as cabeceiras
dos sertões da capitania do Espirito Santo, onde novamente se desco-
briram as minas de ouro, confinam cora os da villa de S. Paulo, Rio
de Janeiro e os desta Bahia, e desejando que todas as terras do Bra
sil se convertessem em ouro, para que delias resultassem grandes
angmentos á fazenda do v. m. despachei o capitão João do Góes de
Aranjo, que a esta praça tinha vindo da mesma villa de S. Paulo
donde 6 natural, e filho de Fedro Taques de Almeida, nm dos princi-
- 291 —
pães moradores daquella viJla, para que fosse cora trinta homens
(que voluntariamente se offereceram para o acompanhar) pela parte
do Norte do rio de S. Francisco, das serranias donde tem a nascença
os rios Pardo, Doce, das Velhas e Verde ; os quaes distam (pelas in-
formações que me deram) vinte e cinco léguas,, pouco mais ou me-
nos, das mesmas minas donde os paulistas se acham cavando ouro a
presente ; e pela parte do Sul a Pedro Gomes da Franca, natural
desta cidade, neto do Mestre do Campo Pedro Gomes, o capitão de
infanteria de ura dos terços pagos desta praça, o qual mandei coni
mais de cem homens moradores nestes recôncavos e cidade, que tam-
bém se ofíereceram voluntariamente, para o acompanharem á villa de
S. Jorgy, capitania dos Ilheos, distante desta cidade sessenta léguas,
para fazer de alli a sua entrada pelo rio Patippe assima, a donde
varias vezes se tera já achado ouro, e se vem juntar os ditos quatro
rios. B pelas noticias que me deram algumas pessoas practicas dos
mesmos sertões, se presume que do rio Patippe até as ditas serranias
haverá oitenta léguas ; e se tem por infíilivel haver nellas ouro com
a mesma abundância que nas novas minas se acha. E aos ditos ca-
pitães ordenei também se ajuntassem infallivelmente nas cabeceiras
dos ditos quatro rios, e explorassem nellas tudo quanto se pudesse
achar de mineraes ; donde e das minas já descobertas viriam ambos
descobrindo caminho e mais breve para esta cidade, observando por
todo elle tudo o que houvesse, fazendo mappas e roteiros com toda
a clareza e distincção ; que de tudo iam bem prevenidos, como man-
pei fazer no descobrimento do caminho do Maranhão. Entendo, (Sen-
hor,) que deste que agora mandei fazer, terá grandes conveniências o
serviço de V. Magestade e espero em Deos que o tempo assim o
mostro : e V. Magestade se dô por satisfeito desta minha diligencia.
Estas duas entradas mandei fai.cr sem despendio algum da fazenda
de V. Magestade. A real pessoa de V. Magestade guarde Nosso
Senhor como seus vassallos havemos mister. Bahia, 7 de janeiro de
1700. — Dom João de Lanmstro.y
Como se vô peia carta a Arthur de Sá, já citada, o governo do
Lisboa não approvava os projectos e esforces de d. João de Lanças-
tro, que teriam concentrado na Bahia, cm logar do Rio de Janeiro, o
movimento commercial das minas, modificando assim extraordinária-
- 292 -
monte o curso de historia mineira, e em Junho do anno seguinte este
governador foi substituído, sendo quanto foi possivol desmanchada a
grandiosa obra que eiie tinha encetado. Foi ató prohibido o movi-
mento do gado dos curraes da Bahia para o supprimento da popula-
ção mineira ; mas esta prohibição era táo contraria ás leis naturaes
da permuta commercial que se manteve, apesar delia, um activo com-
mercio de contrabando, e sem duvida também um activo movimento
de população e de exploradores de minas. Sendo interdictas as en-
tradas pelo ladn da Bahia procurou-se, mais ou monos favorecido
pelo governador da Bahia, abrir e conservar communicações com os
districtos mineiros via Espirito Santo. Oá documentos relativos a este
movimento espiritosantense sao deficientes e obscuros ; mas parece
fora de duvida que até 1705 o houve de certa importância, sendo
claras as referencias ás minas de Itacarabira o Serro do Frio, isto é>
á região entre as immediações da actual cidade de Serro e as de
Grão Mogol, incluindo o futuro districto diamantifero. Em 1705 houve
prohibição formal deste movimento, cessando o trafico legitimo entre
as minas e as praças da Bahia e do Espirito Santo. Poucos annos
depois os districtos desbravados e abertos por iniciativa de d. João
Lancastro e dos bahianos íoram occupados de novo pelos paulistas»
que nas versões correnies da historia mineira passam por ser os seus
primeiros descobridores. O que poriam parece certo pelos termos da
já citada carta a Arthur de Sá é que a exploração ordenada por d.
João de Lancastro foi bem succedida dando em resultado a descoberta de
ouro e o inicio da sua mineração em Caethé e Itacambira e a abertu-
ra do uma estrada passando por estes pontos para a Bahia.
Intimamente ligada com as questões relativas ao Sumidouro e a
Borba Gato é a do estabelecimento de fazendas de crear, ou de cur-
raes, na região do alto S. Francisco. A carta de Pedro Taqnes de
Almeida, escripta em Í70C, dá a este rio o nome do <Rio dos Cur-
raes» e refere a existência de um arraial de Mathous ('ardoso. Por
ura outro documento sem data, mas evidentemente escripto pouco de-
pois de 1705 e conservado no mesmo masso na Bibliotheca da Ajuda
e que s^rá opportunamente offerecido ao Instituto, se vé que este ar-
raial era situado na margem do rio, no ponto em que desemboccava
um caminho vindo da Bahia e que dahi para cima até a barra do rio
- 293 -
das Velhas os curraes eram tão frequentes que a viagem podia ser
feita sem se dormir ao relento. Era sem duvida o actual arraial de
Morrinhos uma tapera no meio da qual se ostenta uma egreja de pro-
porções e aspecto monumontaos, que attesta a antiga importância do
logar. O Diccionario GeograpMco de St. Adolpho dá esta como sen-
do a povoação mais antiga de ambas as margens do S. Francisco e
attribue a sua fundação a «Januário Cardoso, em 1704, o qual, acom-
panhado dos seus, de seu filho Matheus Cardoso e de seu sobrinho
Manoel Francisco de Toledo, fugiram da cidade de Ouro Preto, onde
haviam morto o principal agente do governo no paiz das Minas».
Sendo o arraial conhecido já em 1700 pelo nome de Matheus (e não
de Januarioj Cardoso, a data da fundação é evidentemente errada, po-
dendo-se suppôr que seja também o logar do crime, isto é, que haja con-
fusão cora a morte de d. Rodrigo de Gastei Branco no Sumidouro.
Do outro lado afBrma Azevedo Marques, nos seus Apontamentos
Históricos da Província de S. PauZo.baseaio em parte nas informa-
ções de Pedro Taques, em parte nas suas próprias investigações, que
um Matheus Cardoso de Almeida acompanhou d Rodrigo de Castel
Branco na sua mallograda expedição e que depois tornou se conquis-
tador dos Índios do senão de Ceará, etc, e, finalmente, estabeleceu-se,
pelos annos de 1694, com grandes fazendas de crear nas margens de
S. Francisco. Como este Matheus Cardoso mostrou, por diversas com-
raunicações feitas á camará de S. Paulo, uma certa indisposição con-
tra d. Rodrigo, é po^sivel que elle ficasse envolvido no crime de Su-
midouro e que assim ambas as versões acima referidas tenham um
fundo de verdade. Soja como fôr, é certo que os curraes do alto
S. Francisco foram estabelecidos com gado trazido dj» norte e não
do feul A historia corrente da missão de d. Rodrigo de Castel
Branco no Brazil foi tirada dos escriptos de Pedro Taques, que mos-
tra forte indisposição contra elle e ó, portanto, suspeito. Os docu-
mentos relativos a este personagem da historia mineira existentes na
Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro devem fornecer material para
uma historia menos apaixonada e é de esperar que sejam algum dia
estudados.
Embora não tenha relação directa com o assumpto aqui tractado,
julgo conveniente juntar mais um documento dessa época, assignado
— 294 —
por d. João de Lancastro, que dá uma interessante apreciação do
caracter dos paulistas daquelle tempo.
< Cópia que vae pela Secretaria do Estado e polo íJonsellio Ultra-
marino.
«Senhor : — Pelas noticias que do Rio de Janeiro mo deram nas
cartas que me escreveram o governador Arthur de Sá Menezes, o dr.
Miguel de Siqueira Castello Branco, syndicante daquella capitania,
José Ribeiro Rangel, juiz da casa do Moóda da mesma cidade cujas
copias reraetto com esta a V. Mag.^, lhe será presente o grande ren-
dimento que tem as minas de ouro que novamente se descobriram
nos sertões das capitanias de S. Vicente e S. Paulo, e das que se es-
peram descobrir, nas quaes se considera, serem com excesso mais
rendosas ; e porque a praça do Rio de Janeiro se acha sem guarnição
competente e pela banda do sul sem as fortificações necessárias que
a possam defender de qualquer nação pouco affeita, ou muito ambi-
ciosa que a pretenda invadir, obrigado da fama, que presentemente
se ha de espalhar por toda a Europa, da abundância do ouro das di-
tas minas ; e o porto da villa do Santos, quo é o principal de toda.
aquella costa e o de mais consequências, se acha ainda cm peior es-
tado, sendo o único adonde só entram navios e a que precisamente
ha de vir a maior parte do ouro que se tiram das ditas minas e todos
os fructos e géneros da capitania de S. Paulo e das mais circumvizinhas,
para dalli se embarcarem para as mais partes do Brazil : me pareceu
representar a V. Mag.f' com a submissão devida, que para segurança
daquella praça e da dita villa, é muito conveniente e seu real serviço
mandar V. Mag.® levantar logo n.ste estado dois terços de infanteria
e duas tropas de cavallos para assistirem de guarnição, uma tropa
com um terço no Rio de Janeiro o um terço com outra tropa na
villa de Santos, fortiflcando-se a sua barra de maneira que possa de-
fender a entrada daquelle porto o qual está hoje de sorte que qual-
quer pirata pôde entrar por ella, sem a menor resistência, não só a
saquear a villa, se não também senhorear-se delia, por estar quasi
desamparada de seus moradores, dos quaes anda a maior parte deiles
nos sertões occupados em cavar ouro e descobrir minas : também me
parece, é muito conveniente que se levante outro terço de infanteria
e um esquadrão de dragões, para so mettcr na villa de S. Paulo com
— 295 —
o pretexto do que 6 para segurar a mesma villa e delia se poder
soccorrer facilmente a de Santos ; sendo o íim particular deste nego-
cio, segural-a de seus mesmos moradores, pois estes tem deixado cm
varias occasiõos, suspeitosa a sua fidelidade, na pouca obediência com
que observam as leis de V. Mag.c e ser gente por sua natureza abso-
luta o varia e a maior parte delia criminosa ; e sobretudo amantís-
sima da liberdade, em que se conservam ha tantos annos quanto tem
da creação a mesma villa ; e vendo-se hoje com opulência e riqueza
que a fortuna lhes offereceu iio descobrimento das ditas minas, me
quero persuadir sem o menor escrúpulo, são capazes de appetecer
sujeitar-so a qualquer nação estrangeira, que não só os conserve na
liberdade e insolência com que vivem, mas de que supponbam podem
ter aqucllas conveniências que a ambição costuma facilitar a seme-
lhantes pessoas, sendo a principal o a que elles mais suspiram a da
escravidão dos Índios.
«No caso que V. Mag.^ seja servido mandar formar os ditos ter-
ços e tropas, mo parece deve V. Mag.» mandar vir dessa corte, assim
os mestres de campo, sargentos mores e mais ofBciaes, como também
os capitães do cavallos, para servir aquelles postos.
<E sem embargo, de que supponha não faltará a dar esta noticia
a V. Mag.e o governador do Rio de Janeiro, Arthur do Sá e Menezes,
pela parto que lhe toca (ao qual mandei ofíerecer gente, armas, mu.
nições e tudo o mais que lhe fosse necessário, para defensa aquella
capitania) a mim me pareceu sou também obrigado a fazel-o como
governador e capitão general de todo o estado, alem do zelo que me
obriga a fazer presente a V. Mag.« estas razões, pelas experiências
que hoje tenho do Brazil. V. Mag.^ resolverá o que mais convier a
seu real serviço, que sempre será o mais acertado. A Keal pessoa
de V. Mag.« guardo Nosso Senhor como seus vassallos havemos mis-
ter.— Bahia, 7 do Janeiro do 1700.— Dom João de Lancastro.o
Orville a. Derby.
Discurso do Dr. Manoel Pereira de Gui-
marães, fazendo o elogio histórico
dos sócios falleeidos.
Excmos. srs.
Conta-nos Aulo Gellio nas Noites Atticas que, durante a sua per-
manência era Athenas, costumavam os jovens romanos, attrahjdos á
Grécia pela eloquência de Herodes Atticus, reunir- se em uma sober-
ba quinta por este possuída nas cercanias da cidade.
Em derredor, entrajada de formosíssimos bosques e de ensombra-
das avenidas, que offereciam abrigo, donde impunemente eramaffron-
tados os calores do estio e os devorantes fogos da ardente canicula,
prolongava-se bellissima cerca. Sobrepondo-so aos ténues suspiros dos
zephyros, portadores de delicioso frescor, alçava se vasto pórtico.
Convidando ao refrigerante banho, amplas bacias enchiam-so de
límpidas e archi-crystallinas aguas. E, dominando tudo isso, uma en-
encantadora vivenda, ininterruptamente alegrada pelo ruído das mor-
murosas fontes e pelos concertos do gárrulo passaredo.
Nessa seductora paragem de Cephiso eram discutidas as mais
árduas questões de historia, de philosophia, de geographia, de náutica,
etc, etc. B aquelles que tinham trocado o brilhante vaguear no Fórum
romanum pelo remançoso estudar na cidade de Minerva, não raro,
algo tinham que accroscer aos seus conhecimentos e ao cultivo do
seu espirito {^).
A' noite, desfraldadas as velas de ligeira embarcação, que doce-
mente vogava em demanda do Pirêo, reuniam-se todos á popa, e ahi,
sob o sereníssimo c6o azul, onde tremeluziam as constellações do
Carro c das Ursas, embalados pelo cadencioso ondear de um outro
cóo liquefeito, cujas nuvens são ilhas de esmeraldas, occupavam-se
(1) Aul. Gel.— Noct. att. L. 1. Capitulo II.
- 297 -
todos era considerar a esplendidez dos astros, até que algruem, versa-
do nas artes da Grécia, entrasse a dissertar sobre astronomia.
Hoje, quasi vinte centenas de annos depois, sob este magnifico
céo da America, que semelha um jardim, cujas flore» são estreitas, si
durante o dia não vos reunis era saudosos retiros, á noite, não sobre
G tombadilho de uma galera, raas nuraa raodesta sala ante donosa
praça bordada de suraptuosissiraos palácios, ataviada de umbrosos car-
valheiros e de artística fonte ; á vista dessa extensa e formosissiraa
várzea, que parece um Mediterrâneo de verduras, nas visinhanças
dessa selvática Cantareira e dessa celebrada Paranapiacaba
< Da força assombroso emblema,
< Que tens o oceano por throno
« E as nuvens por diadema!». (2)
desse poético Tamandoatehy, que contorna as nossas collinas e ser-
peja pelos nossos prados, e desse soberbo Tleté por onde se partiam
era doraanda do desconhecido e da gloria os intrépidos filhos de Pira-
tininga, cujas façanhas se av/íntajara ás dos celebrados Argonautas ;
alumiados por outras constellações, entre as quaes se destaca á di-
reita o retorcido Escorpião, cujo coração — Anta7'é- — brilha, rebrilha
avermelhadamente como para indicar que o sangue de ura povo ju-
venil referve nas nossas veias ; á vista ou na visinhança de tudo isso
o mesrao araor da historia e das mais sciencias costuma vos agrupar
E nós, que temos sede de saber, deix mos o estrépito das ruas, o
agradável dos divertimentos, para vir aqui, attento, ouVir os vossos
lábios redizerem a historia do nosso S. Paulo, historia que, no dizer
do Visconde de S. Leopoldo, será tarabera a historia geral do Brazil.
No raeio, coratudo, desses passatempos, tão nobres e tão santos,
brota como uraa lagryma a entremeiar-so cora sorrisos, ura bom e
divino sentimento que, diz G . Sand, causa ainda maior prazer a quem
o experimenta, do que a quem delle é objecto : a Piedade, essa divina
irmã da Esperança. B os nossos peitos como que se desfazem em
suspiros, e os nossos olhos como que se humedecera de pranto ao
relembrar aquelles que no dia de hontera aqui traziara o seu po-
(2). C. de Menezes— A Serra de Paranapiacaba.
— 298 —
deroso contingente de trabalho, e que, no dia de hoje, dormem o
somno tranquillo do scpulchro.
Não fostes, porém, felizes nobres consócios, na escolha daquclle
que deve redizer aqui, perante todos, o que foram em vida os com-
panheiros cujo elogio cabe-lhe fazer.
Bera sabe elle que necessitaria para bom desempenho da missão,
que lhe irapuzestes, de ser orador, isto é, falar, como diz Tácito, com
elocução pura, brilhante e persuasiva, conforme a dignidade do as-
sumpto e as necessidades do tempo, encantando sempre o ouvido do
auditório ; que necessitaria do eloquência, mesmo de muita eloquência,
da magna eloquência, que é como a flamma ; a matéria alimenta-a, o mo-
vimento excita-a, e, ardendo^ alumia.
A magna eloquência, diremos nós, como a ílamma, cncandila, crysi-
taliza.
As orações de Demosthenes não são mais do que acontecimentos
encandilados pela lava ardente do seu cérebro. O verbo do Miraboau
não é sinão uma torrente de ílamma a crystalizar factos.
Quanta a nós, já que nos falta envergadura para ascender tão
alto, pediremos vénia para tracejar um levo esbocoto de critica artística.
Verdade é que não desconhecemos, com Bougot (3), que— «pour
bienjuger uue ouvre d'art, il faut la considerer tour a tour avec les
yeux d'un phisosophe, d'un artiste, d'un poete et d'un historien.
Da magica paleta de J. F. de Almeida Júnior, um dos consócios
cujo passamento hoje rememoramos, tentaremos desenthesourar algu-
mas cores com que iUuminemos as nossas palavras, já que nos falta
calor para encarecer as suas telas.
Estudar a obra de tão conspícuo artista não é coisa fácil, culti-
vando como o fez, todos os géneros de pintura. — •Quantos homens
num só homem! quantos talentos em um só talento! quayitas facetas
em só um espirito ! quantos méritos em um só mérito /.» (4)
A sua sagração coma artista, pode-se dizer, data de 1874, epocha
em que foi pintada a — Besurreição do Senhor.
Não se sabe o quo mais ahi admirar ; si a expressão bem defi-
nida da cabeça, onde inscreve-so a divindade, os detalhes da muscu-
(3) Bougot
(4) Alves Mendes— /?crcM/ano
299
latiira, o lididimo colorido da pelle, quo pareço ceder á pressão do
dedo, si aquelle manto de illibada alvura, que se torce, que so do-
bra, que transparece, que íluctua, ou si alíira aquelle alrao diadema
de luz que resplende sobre a cabeça do Christo.
Bougot aconselha, para examinar uma obra d'arte, fazer sobre a
mesma convergir a esthetica, a historia o a teclinica. Com essas três
luzes, a primeira coisa a fazer será indagar qual a intenção do ar-
tista, quo sentimento ou idéa propoz-se o mesmo nos despertar. O es-
tampado na tela está do pleno accôrdo com o quadro da Rosurreição
que nos delineia Klopstock : «O Messias paira por sobre o scpulchro
aberto e vazio. A sua cabeça, que, durante o supplicio, inclinava-se
sobro o peito, recinge-so agora de uma auréola celestial. Como elle
transluz ! Como deslumbra ! Uraa nuvem, descida do throno do Eterno,
restituiu todo o esplendor aquelle cujo nome é três vozes santo, aquelle
que nasceu em Bethléra, que soffreu em Gethsemani, que morreu sobre
a cruz, e que o tumulo acaba de restituir.»
Na tela, aquelle rosto, onde ainda se vislumbram signaes de sof-
friraento ; aquelles estigmas das chagas, signal da crucificação ; aquelle
corpo nú, meio encoberto por um lençol br anco, signal de que acaba
de sahir do supulchro; aquella gloria, signal de divindade; aquellas
nuvens que o devem occultar aos olhos dos discípulos, até que suba
á presença do Eterno, nao estão patenteando que o artista conseguiu
optimamente realizar a idéa que se nos propoz despertar?
No — Derrubaãor brazileiro—^á. falha a intenção. A esthetica po-
derá dizer que aquella figura de homem é desenhada com toda a cor-
recção ; que não foi descurada a paysagem; que os planos foram bem
tractados. Entretanto, aquelle personagem do descompassada complei-
ção que alli repousa, não é o nosso caboclo; aquellas arvores do mes-
quinho aspeito não são a luxuriante vegetação das nossas raattas,
repassadas de seiva.
«X« séve, debordant d^ábondance et de force
Sortail en gouttes d'or des fentes de Vecorce (5)
A razão da não realização ó quo, deslembrado pela distancia, es-
tiolado pelos estudos de atelier, Almeida, como o Antôo da fabula.
('>) Lamartne— Joce/ín.
- 300 -
devia (como o fez nos Caipiras negaceando) tomar forças no seio da
terra pátria, inspirar-se nos nosbos opulentados bosques. O americano
Longfellow tomou para conseliioiros do seu rude Hiaivatha as arvo-
res seculares das florestas americanas.
No — Remorso de Judas— ^á Almeida nivella-se cora os maiores
pintores da actualidade.
Junto a uma parede de pedras colossaes está sentado o trahidor,
de cabeça inclinada para o hombro esquerdo, cabellos negros, appa-
recendo de sob parte do manto ireto, sobrecenhos contrahidos, olhos
fixos, nariz recto. O rosto, carregado, é oraraoldurado por negrabarba.
A mao direita dobra-se sobro o joelho esquerdo, emquanto que a
esquerda espalmase sobre a testa. Alpercatas apresilham-se por cor-
reias de couro aos pés. Veste vermelha, de amplas mangas com
aberturas, deixa-lhe á mostra o peito e parte da espádua direita. O
manto sobre os joelhos, cahe-Ihe dos lados. No chão uma bolsa e,
junto delia, moedas espalhadas. No plano immediato dnas mulheres.
Ao longe o Calvário, onde rodeadas de povo, duas cruzes começam
de ser levantadas. Sobre a scena: céo fortemente carregado.
c A noite escura, triste e tenebrosa,
€ Que já tinha estendido o neqro manto
€ De escuridade a terra toda enchendo ...»
Senhores ! Em Janeiro ultimo vários amigos dedicadíssimos de
Almeida Júnior reuniram-se era coraraissão e repetiram nesta porção
da America um facto extraordinário, que na cultissima Paris tinham
em 1882 praticado amigos de C. Courbot — uma exposição geral dos
quadros do nosso infeliz consócio. Ao penetrarmos numa das salas
dessa exposição, acharao-nos de improviso era írente de tão soberba
tela. Não nos pejamos em dizer- vos que a impressão causada foi
tão extraordinária que mudo quedámo-nos ante ella. Paltava-nos
expressão para definir a nossa sensação !
Desde aquelle muro colossal, que bem pudéramos com Castellar
dizer que «são ossos de uma raça vencida pelos raios do céo e anni-
quillada pelas maldições de Deus» (6), ató aquelle firmamento escureci-
^6) Castellar— J. Capella Sixtina.
- 301 -^
do ; desde aquella raaltidáo que apinha-se era roda da cruz, até aquel-
le precito de physionoraia raivosa, de veias salientes era que o san-
gue parece escaldar, e que era breve irá habitar nas trevas exteriores
onde ha o ranger dos dentes, tudo é traçado cora tal vigor de pincel,
com tal energia de tintas, que bera se pudera considerar sabido das
mãos de Ri bera.
A figura de Iscariotes avantaja-se muito á natural. Teria o pin-
tor tido em vista a tradição referida por Papids : que ao trahidor
tinha-se augraentado desraesuradaraente o corpo ?
Aquelles olhos fixos não raais fechar-se-ão ao sorano. <Tic não
mais dormirás ! mataste o somno, o somno da innocencia ! o doce som-
no, que apaga no cérebro os t^-aços dolorosos dos cuidados, que cadx dia
revoca o homem á vida ; esse bálsamo que conforta as almas sofredo-
ras, esse segundo agente da poderosa natureza, que repara e renova
os sentidos para os prazer esi . (7)
Quantos milhões de ideias não remoinham por aquelle cérebro ?
Figura-se-nos atravcz do seu envoltório estar lendo as seguintes pa-
lavras: — Morre, miserável! os teus tormentos acabarão com a vida,.»
O Deus de Moisés disse : Tu não matarás . . , Que importa a mim o
Deus de Moisés ? já não mais o conheço /. . . O desespero, eis o Deus
do trahidor ! ordena-me que morra !. , . morre, pois, vil !. . . Tremes !
o amor da vida desperta em ti, tu queres viver, tu, infame assassino !
Viver, quando uma sepultura, cavada por tuas próprias mãos, rodeiate
de todos os lados ! ... E tu minKálma, que ousas revoltar- te, te julgas
immorlal /. . . Não ! não espera viver depois de minha morte para per-
petuar-me os soffrimentos ; tu morrerás commigo !.. . Um ultimo crime
vai votar-te ao nada. (8)
Entretanto essa alma de Iscariotes não morrerá ! vive hoje ! !
Viverá por toda a eternidade ! ! ! Aquelle que nos extendo a dextra,
emquanto na sinistra brande o punhal— Judas ! Aquelle que entrega os
seus irmãos á ferocidade do algoz — Judas ! Judas ! Aqueile que rece-
be o ouro do extrangeiro para entregar-lhe o solo sacrosanto da pá-
tria— Judas ! Judas 1 Judas ! E o Iscariotes trahiu mais 1 Trahiu Deus I
(7) Shakspeare— iíacòcí/i,
(8) Klopstock.
— 30£ —
Nossa tela indizível o pintor deixa es domínios do bello para
alcandorar se nas regiões do sublimo. O belio tem sempre forma de-
terminada, medida o proporções fáceis do discernir-se ; ao contrario
CO sublime são só apparentes a forma e a medida : é illiraitado e in-
definido (9). Com a morte do Christo a natureza convulsiona-se, a
terra tremo, os astros detém -se na sua marcha. — E' o sublimo.
— La fiiite en Egijpte. A Virgem, montada num jumento, segu-
ra cora a mao direita as rédeas do animal ; com o braço esquerdo
sustenta o menino Jesus, para o qual olha attento S. José, que so
acha á direita da Virgem, era pé á beira do ura regato, era cuja
lympha, de admirável transparência do crystal, sacia-se o ani!r.al.
O menino com a mâo esquerda levanta ura véu que a Virgem traz
sobre a cabeça.
Devendo a analyse do quadro começar pelos corpos vivos, para
seguirmos os preceitos de Taine, vamos, desde o principio, fazer-nos
cncontradiço com os desprimores da obra. Não foi feliz o artista
com as figuras da Virgem e de Jesus. A' primeira falta grandeza ;
ao segundo nao só isso, mas correção no desenho. Para modelo da-
quolla escolheu uma burgueza de physionomia vulgarissima, esque-
cendo-se de que nas veias de Maria corria o sangue mais puro de
Israel, o sangue de David. Cahiram da memoria ao artista as licções
de G. Planche a todo aquelle que se propõe tirar qualquer assumpto
dos magníficos poemas da Biblia, o que vem a ser, obrar ousada-
mente, fazel-o amplamente, mas cora simplicidade ? «Milton, Klop-
stock, Raphael, M. Ango poetisent et agrandissent les paroles de la
Bible, mais s'ils vont plus haut, c'est en suivant la memo route. lis
ii'ont pas lo malheur d'enjoliver ou d'embourgeoiser le drame biblique
en essayant de le renouveler et de rhablller en costumo moderno.» (10)
Não levamos a exigência ao ponto do querer que o pintor fosso
agrllhoar-so por completo á tradição do passado o desse -nos um typo
do Virgem do rara e oxquisita perfeição de Leonardo do Vinci.
Não ! Para nós temos que o submotter o presente ao passado
Importará em abdicação da vontade. Mas umas tautas tradições
existem, transraittidas de bocca era bocca pelos mestres, que «resu-
(9) Galli — Es'etica delia Musica.
(10).— G Fla,nche—E'iuá S7ir Yecole française.
— 303 —
mcnt íoutes las manières classiques d'envisager la beautc», diz Vé-
ron. E' a isto que so chama estylo. Para adquiril-o e exprimir a
bolleza, basta estudar as tradições clássicas, ensina esse escriptor.
A essas tradições devera apegar-se um pouco mais Almeida Júnior.
Não o fez, porôm. Tomou paia modelo a primeira burgueza judia,
sabida talvez de Frankfort a M., esquecendo- se da tradição, emhour-
geoisant le arame hibliqiie. Olvidou-se do que diz B. de Bury (11)-.
«II no faut pas prendre le premier modele et ie reproduire. 11 faut
marquer cette figure de Terapreinte typique et Tamener à vivre dans
la sphère des creations idéales.» Na tela de Almeida o ar da Virgem
é distrahido, parecendo pensar era qualquer outra cousa que não a
scena representada.
Será, porventura, a visão terrível do Calvário que divisará nas
penumbras do presentimento ? Ou, quem sabe
Serão saudades das infindas plagas
Onde a oliveira pr'Q Jordão semolina ?
Parece-nos mais natural que esse olhar, olhar de Mãe amantís-
sima, viesse cahir era cheio sobre o divino Filho. Esses olhos, que
mais tarde araaram-se-lhe de lagrimas, não devera desviar-se do obje-
cto pelo qual são soffridas as agruras do deserto.
S. José, ura velho calvo, de olhar estupendamente lançado, na-
riz aquilino, nú da cintura para cima, tom explendida carnadura, te«
eido de veias saliente, á mostra, arrijados músculos, piptados por mão
de mestre, que conhece todos os segredos da technica, O braço di-
reito, dobrado, segura ura páu que repousa sobre o hombro do mes-
mo lado e ao qual prende-se uma trouxa. Os pés, nús, estão cuida-
dosamente feitos e poderiam servir de modelo. O todo da figura é
um conjuncto do linhas harraonicas, sera um só defeito, quer quanto
ao desenho, quer quanto ao colorido.
A Virgem traja vestes de côr vermelha, muito bem ajustadas:
sobre a cabeça um véo, de um acabamento tal que por si só bastara
para recommendar o quadro. Ao pescoso ura lenço branco, tratado
cora suraraa perícia, corao o é ura manto azul, brilhante, posto sobre
o animal.
(11). — Bury — Tableaux romanfiques
Bis-nos de repente chegados a um dos pontos mais ielieados da
pintura, o matiz, que é como que a cúspide a que procuram repon-
tar-se os artistas. A combinação das cores, diz Taine, é um elemento
capital na pintura; é para as figuras o que o acompanhamento é
para a musica.
O azul e o vermelho são cores que se repellem, que jamais
poderiam betar-so. Entretanto Almeida conseguiu harmonisal-as por
meio de artiflcios : Attenuando-as, equilibrando as. E' cousa ensinada
pela Esthetica que, á medida que a luz augmenta, as côres se atte-
nuam, se desbotam. Pois bem ! O artista deu bastante luz ao qua-
dro, e dahi o abrandamento e harmonia das côres. Quanto ao equi-
líbrio : A S. José, além de ura a túnica preta, deu um manto verme-
lho escuro, enrolado na cintura e atado na frente. Estando o Santo
á direita da Virgem, a coUocação das côres é a seguinte : 1,° me-
tade do manto azul ; 2.o vestido vermelho da Virgem ; 3.» outra
metade do manto ; 4.» manto vermelho de S. José Ainda outro ar-
tificio : ura raio de sol, batendo nas vestes da Virgem, faz cem que
dahi se desprenda ura raio que vai tingir de vermelho as pernas de
S. José. E' a applicaçãu do que ensina Véron «les cbjects colores
doivent leur teinte précisément a la faculte qu'ils cnt d'absorber cer-
tains rayons e: d'en renvoyer d'autres. Un étoflfe rouge, par ex, ren-
voie les rayons rouges et absorbe les autres.>
Com o vermelho das pomas do Santo está completado o equilibrio
e conseguida a harmonia das côres. Nos tecidos dos vestuários ha o
mesmo cuidado e attenção, como no debuxo do jumento. A agua do
regato revela que quem a fez é um mestre que um dia pode rivalisar
com Corot nas paisagens. Parece qae ouvimos sussurrar essa agua
tão crystallina. — Voi sussurranti eliquidi cristalli — como exprimia-se o
Paterno. Espelhenfca, refiecto as pernas de S. José e o animal. A pai-
sagem representa um logar árido. A' direita da Virgem uma esphinge,
no plaao immediato ; ao longe uma montanha verde. A' esquerda uma
pyraroido e ura obalisco. Por sobre a scena um cóo limpido e quente.
Céo oriental. Aqui esmalta-se de amarello, de laranja, d'oiro e de
purpura A lera, de azul esverdeado. Côres seductoras, magicas, bri-
lhantes ! Soberbissirao espectáculo ! Luz puríssima, luz radiosa, luz
diaphana e esplen dida ! Bem se pudera dizer com o florentino Dante :
— 30Õ —
Una melodia dolce
Correva per Vaer luminoso.
Quanta harraonia, quanta grandeza, quanta imponência, meu Deus 1
Só Loti pudera exprimil-as.
iiLuz, luz, tanta luz, que admirados, pasmos ficamos, como se, sa-
hidos de uma espécie de meia noite, os olhos se abrissem de mais, vendo
mais claro, mais claro sempre .. , Cada vez maior claridade! Real-
mente os olhos se dilatam e pÕem em estado de enxergar mais raios e
mais cores . . . Que festa é esta de clarões brancos, de clarões doirados
que, silenciosos e de sorpreza, parecem surgir por toda a parte?. . . Nem
uma nuvem ; do zenith ao horizonte a mesma limpidez maravilhosa :
eil'0, pois, desvendado, tanto quanto alcançar podem os nossos olhos,
este vácuo intérmino, onde os desconformes universos tombam por my-
riades, tombam, tombam céleres como gotticulas de incessante chuva de
fogo». Viagem á Índia.
Quanto ao desonJio : apesar da rná escolha do modelo, a figura
da Virgem está bem traçada, cora correcção. A figura de S. José é
um pouco maior do que o natural. Isto, porém, não prejudica o qua-
dro. Igual defeito aponta Bougot no (jorregio : < Le Corrège est in-
corret ; il outre souvent les formes ; mais quelle entente du clair obs-
cur et de rharmonie des coulours ! Or c'est bien là un secret du mó-
tier, perdu pour les autres pout-être, mais decouvert et pratique avec
uno incomparable superiorité par le maltre>.
As cores obedecem ás prescripções dos mestres. Figuras com
formas humanas, meio viventes, tão bera dispostas que é fácil á vista
achar desde logo onde poisar. Horizonte ondulado, de encantadora
poesia. Óptima perspectiva ! Tudo isto está como que assellando o
pintar correctíssimo do futuro autor dos Caipiras negaceando. E' uma
obra d'arte notável, uma das melhores dj Almeida Júnior.
Passemos a um novo género de pintura. '^o—Pendant le repôs—,
desde o torso do modelo, tratado cora bastante elegância e com admi-
rável precisão; desde os braços debuxados com rara verdade; desde
aquella bocca, donde parece se ouvir a modulada gamraa de uma
risada crystallina, até os moveis e estofos de encantadora côr; até
os pequeninos bibelots, com suas imperceptíveis delicadezas, tudo ó
pintado cora maravilhosa destreza, com graça inimitável.
— 306 —
De outra tela— O Tmpoituno — bem poderamos dizer cora G. Plan-
che que á medida que o olhar mais attentamente se fixa, mais riquezas
descobre, de mimito em raimito, riquezas de que não teria suspeitado.
Ex. : nas paredes duas miniaturas dos quadros Caçando o Louvre;
aquella estupenda minuciosidade com que é pintada a golla da camisa
do modelo ; aquclle tapiz, brincado do arabescos ; aquoUe reposteiro,
cujo original todos vimos no seu atelier.
Si passarmos á pintura de costumes, ainda mais aprimora- se o
pincel do artista. Desaprcsado das convenções artísticas, ahi Almeida
superioriza-s8. Onde, porém, o Gautier, o Froraentin, o Euskin, que
analyse essas notabillissimas telas ? Só o tentar da nossa parte im-
portara em imperdoável ousadia.
E aqucllas sobordas marinhas ! Numas, agua azul, brilhante,
transparente, cuspida do espuma. Á noite, talvez que a noctiluca vá
recamai a de faiscas de luz. Que praia tão formosa, onde parecem
jazer conchinhas que representam a cor das nuvens, quando nasce o dia
E essa aguinha que corta-a não transparece como o rocio?
Noutra aquella agua verde e agitada. Inclinemo-nos, são os ver-
des mares, bravios da terra natal de Iracema, onde canta a jandaia
nas frondes da carnaúba.
Mas, porque se agita e escuma esse mar tão verde que pareço
um ferver de esmeraldas ? É que se levanta contra o vento, que vem
continuamente açoital-o de rijo, para v6r se consegue roubar-lhe das
entranhas o appetecido segredo de fabricar a pérola formosa.
Luctaram hontem, luctam hoje e luctarão sempre os dois titans :
o vento e o mar, — as duas imicas expressões sublimes do verbo de Deus,
escriptas na face da terra, quando ainda élla se chamava o cahos...
Viram nascer o género humano, crescer a selva, florescer a primavera ;—
e passaram e sorriram se. E, depois, viram as gerações reclinadas nos
campos do sepulchro, as arvores derribadas no fundo dos valles, seccas e
carcomidas, as flores pendidas e murchas pelos raios do sol do estio; —
c passaram e sorriram-se. (12)
Si acompanharmos Almeida na paisagem, achamo-nos em faço
ão— Trecho de estrada, do— Eio das Pedras, áo— Trecho do Tietê',—
Caçando, etc.
( 12) Herculano —Eurico.
— H07 —
Em nonhuraa delias esqueceu-so o artista dos conselhos dos mes-
tres. A agua, fel- a como deseja G. Planche : — Transparente e liquida,
tremo, enruga-so. Nas arvores seguiu o conselho do 'Jh. Rousseau: —
Vos arbres doivent tcnir au terrain, vos branches doivent venir en
avaut ou s'enfoncer daus la toile ; le spectateur doit penser qu'il
pourrait fairo le tour de Farbre. Ou esfoutro de Planche — «un peu
d'air doit jouer libremcnt dans les branches».
Uma pequenina paisagem, que Corot nao desdenharia assignar,
merece coratudo que a destaquemos das outras — um tanque, — que tal-
vez algum critico comparasse a uma egloga do Virgílio ou a um idylio
de Theocrito.
Parcce-nos estar lendo este trecho de Garcilasso:
Fuente clara y pura
Que como de crystal resplandecia
Mostrando abiertamente su Jiondura
El arena que de oro 2}cirecia
De Mancas pedrezuelas variada...
Arholes que os estais mirando en cilas
Yerde prado de fresca sombra lleno. (13)
Sobro aquella agua como quo revoam moscas-dragao ou libellinhas
do hyalinas azas ; pendem flexíveis tufos de bambus, quo vâo debu-
xar-se no fundo delia, emquanto as nymphéas vogara sem rumo, os-
tentando aos caprichos da briza os seus pavilhões róseos ou azues
bordados d'oiro
(2ue alegre campo e deleitosa praia !
Quam saudosa faz esta espessura
A formosura angélica e serena
Da tarde amena ! Quam saudosamente
A sesta ardente abranda, suspirando
De quando em quando o vento alegre e frio !
JVo fundo do rio os mudos peixes saltam ;
Os Céos s^esmaltam todos d'ouro e verde,
E Febo perde a força da quentura. (14)
(13) Garcilasso— £V7%as.
(14) Camões— /;<7%as.
— 308 -
B, acceitando o amoravel convite da natureza, o pae de Mirtillo
ahi dormitará, sem que os ventos frescos da noite e o húmido orvalho
façam-lhe damno algum. (15)
Causa bem á alma contemplar uma tela dessas, que podíamos
chamar— wn ahri delideux, un rendez-vous de repôs et de fraícheur
dans Varidité de la route. Toutes les plus caressantez melodies de la
nature y ont eté captées pour notre usage par un genie Uenfaisant et
fraternel. (16)
Na pintura histórica Almeida deixou-nos a assombrosa — Partida
da Monção.— O que ora a Monção dil-o o artista nas poucas linhas
com que apresentou o quadro. A monção ! Quantas idéas nâo des-
perta essa tela em que o mestre vasou o melhor do seu espirito !
<Onde está, porém, o Goethe que faça esse poema? Apparecerá hoje?
É cedo, multo cedo ainda. (17)
Dai-me licença para que antes do terminar vos lembre as dua&
ultimas producções de Almeida Jr. : — a Mendiga e a— Saudade, duas
telas extraordinárias que os olhos do corpo já não vêem, mas que
os d' alma ainda estão remirando.
Aquelle olhar esmaecido de velha pedinte, de enrugado rosto,
como que ainda nos está fitando, em quanto extende-nos a mão em-
raagrecida, rematada com unhas descuidadas.
Planche, esse grande demolidor, não estaria de accôrdo comnosco :
<Je sais bon gró a Taucteur de nous aví ir epargnóes les ongles noi-
res des femmes du pays ; c'est un trait d'exactitude dont la peinture
peut se passer.» « II n'y a pas rien de commun entre la tache de
pointre et Toffice de greffler. Los gerçures des lèvres, les rides et
les verrues ne sont pus et ne seraient jamais la partie importante de
la peinture.>
Responderemos, com Biaze de Bury, que nos é tão impossível
pensar com o cérebro do nosso próximo, como 6-nos impossível tirar
proveito para a nossa nutrição da alimentação que o sustenta.
E aquellas unhas crescidas, aquelle rosto cheio de rugas serão
por nós tão admirados, como aquella bocca despojada de dentes, como»
(15) Gessner—Idí/Jios.
(16) A. M.iche\—L'u:ure de Corot (Rev. des D. Mondes).
(17) Luciano Cordeiro —^síros e Palcos.
— 309 -
aquelle vestido rnstido no joelho esquerdo, que por baixo se advinha
ou o lenço azul e côr de rosa, que cobre a cabeça da figura, dei-
xando apenas apparecer, sobre a orelha direita, uma pequena raa*
deixa de cabellos grisalhos. É um perfeito espécimen da escola hol-
landeza.
Saudade !
Gosto amargo de infelizes.
Delicioso pungir de acerbo espinho.
Saudade ! Que tocante e pathetica elegia !
Junto a uma janella aberta, uma mulher, ainda moça, contempla
uma photographia, que acaba de tirar de um bahú ao lado. A physio-
nomia traduz um sentimento de dôr real, verdadeira, profunda, des-
sas dores que não acabam nunca.
«Fleurs, rochers, vallons, solitudes si chères,
«Un seul être vous manque et tout est depeuplé.» (18)
Saudade !
Para nós essa tela, sabendo a um immortal soneto de Petrarcha
no Trionfo delia morte, excede-o ainda. <Baro um discurso rivalizará
uma tal pintura, porque raríssimo o poder da palavra rivaliza o poder
do pincel quando este, embebido pelo génio no iris da inspiração, con-
vertendo cores bem combinadas em seres maravilhosos, torna um qua-
dro poema e faz d'um movimento de tintas um deslumbramento de
ideas.»
Saudade !
A alma do artista dil>uiu-se em pranto e com este dissolveu a
tinta com que pintou uma admirável lagrima que se deslisa pela fa-
ce direita da figura, que tenta enxugal-a com o chalé seguro com a
mão esquerda.
«Que fora a vida si nella não houvera lagrimas?... A dor mais
tremenda do espirito quebrantam-na, entorpecem-na as lagrimas» —
Meu Deus, meu Deus ! — Bemdido seja o teu nome, porque nos deste o
chorar.-*'
(18; h^vcíKvXme—Meditationi.
- 310 —
E, como não bastasse ter animado a figura, Almeida foz o seu
feracissirao, dulcíssimo pincel descer a minúcias, como os arabescos
da ronda que cobre o albura, donde sahíu a photographia, os enfei-
tes de pregos amarellos do bsliú, ctc. Por sobro tudo uma mirífica
iuz que Fromentin nunca jamais poderia assaz encarecer,
ExcelsoTartista ! Aureolando o teu nome no extrangciro, nobili-
taste o nome da pátria I Honra, pois, a ti ! Esmaltando a tela cora um
canto dessa Eneida sublime, cujo prologo traçou João Kamalho, escre-
veste um trecho da historia de S. Paulo ! Honra, pois, a ti ! Espiritua-
lizando na tola o sentimento da saudade que deixaste nos teus con-
sócios do Instituto, elevaste, cora o teu nome, o nome da pátria aos
domínios da gloria. Honra, pois, a ti ! E ciosa de possuir-te, a gloria
fez que to adormecessem na vida, para mais cedo despertares em
íseu seio !
Permitti, Snrs., que termino com as palavras do A. Houssaye, ao
sor levantada em Tournus uma estatua ao insigne Crcuie: — A grande
voz de bronze de Bossuet perp'iuava a lembrança dos mortos até os
confins da immortalidade. Mas hoje quem falará ião alio para ser
ouvido por tanto tempo? A oração fimebre, por mais eloquente que
se]a, perdc-se no 7'uido yniversal. A cada immortal deve-se uma esta-
tua; é a licção do passado ao futuro; é pelo mármore que a imtria re-
compensa^ é pelo mármore que ella diz ao rccem-vindo: «E tu tambem-
UM DIA PODERÁS DESPERTAR SOBRE UM rEDESTAL>.
Si tão grande perda softreu a arte com a morte de Almeida Jr.,
não menor causou á historia de S. Paulo o passamento de outro distincto
consócio e fundador do Instituto o Snr. António Augusto da Fonseca.
Si aquelle estampava na tela a Partida de Monção, este pela
imprensa, em linguagem castiça, espalhava historias dos nossos maio-
res. O 2.» volume da nossa Revista nos apresenta bollissimas e elo-
quentes paginas sabidas da sua bera aparada penna. Corao ?iuetomo,
elle substituo a historia pela biographia. E' exacto qae—ainsi com-
prise, Vhistoire per d sans doute quelque chose de sa d'gnité majesteuse
et de sa beauté artistique.
Aqui dá-nos a biographia do P. Jesuino Monte Carraello, escri-
pta em estylo correctíssimo, deixando transparecer o seu amor pro-
fundo pela tradição, pelo que nos legou o passado.
— 311 —
Como rcvolta-se contra aquelles quo mutilaram a egreja do Pa-
trocínio !
Muitos, por esse e outros factos idênticos, accusavara-no de mi-
santhropia. Também o tem sido Tácito. Mas, com Piclion (19), dire-
mos: — II rfest pas misanthrope; car il renconnait et salue la vertu
chaquo fois qu'il Ia recontre, et so vant d'écrire pour la preiserver de
i'oubli— «c virtutes sileatur.
Não é raisanttiropo quem reconhece, apregoa e louva aquelles
ílois sacerdotes, idolatrados pelo povo ytuano pelas suas virtudes tao
apuradas, Fs A. Pacheco e P.« Miguel Correia Pacheco.
Si rcvolta-se ao narrar os excessos comraettidos por D. Bernar-
do, é devido a um requinte do sensibilidade quQ—agita-se e oj^avxo-
na-se ao contacto das sccnas que observa. — Exsequi sententias haud
institui, nisi insignes per honestum aut notabili dodecore, dizia Táci-
to. Como este, Fonseca era um psychologista. Nas biographias de Al-
vares Machado, de Feijó e de D. A. de Mello muitos factos históri-
cos interessantes, mas desconhecidos, são narrados. Ahi o escriptor
faz a veidadcira historia, isto é uma resurreição, pois fazer a histo-
ria é refazer a vida.
B não era só na imprensa que luzia esse velho sabedor. Na con-
versação, se lho désseis um theraa qualquer de S. Paulo antigo,
aquelles lábios do prompto se descerrariam, e o commentario profun-
<do do saber surgia como por encanto. Nelle a chronica se encarnara.
E o que é a chronica sinao a historia ainda por lapidar, a historia
som cncaieiamento, uma narração de factos, sem indicação de cau-
sas ? Valerá menos por isso ?
For Deus que não ! Amanhã surgirá um Thierry, que a apuro
210 cadinho de philosophia, ou da critica. E, escoimada do lendas o
«de tradições fabulosas, sabidas das tumbas do passado, deslumbrante
<íomo um resurrecto, apparecerá a historia verdadeira, elo que nos
liga ao pretérito, elo que prenderá a nós o futuro.
E, quando por sobre uma intelligencia tão culta como a de Fon-
seca, reluz um conjunto de virtudes acrisoladas, então melhor se aqui-
lata a magnitude da perda soôrida. Então a dôr se avoluma. Então
("19) Pichon— 7//s^ de la litteratiirc latòie
— 312 —
um desejo de seguir tal exemplo apodera-se de todos. Então os elo-
gios dictados pela gratidão tornara-se um tributo ou, para servir-me
-da expressão feliz de Voltaire, num delicioso perfume, que se con-
serva para o embalsamento dos mortos. Então cada um de nós pa-
rece, paraphraseando enternecido as suas palavras, dizer com aquelle
velho de Riba-Douro: Companheiro illustre, és morto! JSôs todos
quantos aqui somos, não tardará que sigamos.
Era vida, bem mereceste do Instituto. Por meu intermédio envia-
te elle o tributo de sua gratidão. Repousa em paz, conspícuo consócio 1
Sao Paulo, 1.0 do Novembro de 1900.
Dr. Manoel Pereira Guimarães.
Actas das sessões
DO ANNO DE 1900
Sessão ordinária, em 25 de Janeiro de 1900
PRESIDÊNCIA. DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO
A's sete e meia horas da noite, no prédio n. 2 do Largo da Sé,
na sala destinada ás sessões, presentes os sócios srs. Duarte de Aze-
vedo, Carlos Reis, Pereira Guimarães, Miranda Azevedo, António Piza,
Orville Derby, Thcodoro Sampaio. Dionysio Fonseca, Bernardo de Cam-
pos, João Florindo e Arthur Goulart, foi aberta a sessão.
Foram approvadas as actas das sessões do 25 de Outubro e 1 de
Novembro de 1899.
Foi recebido por uma commissão e introduzido na sala das ses-
sões, onde tomou assento, o novo sócio sr. dr. João César Bueno
Bierrenbaoh, que proferiu uma bella allocução.
EXPEDIENTE
Officios
Do sr. A. L. Garraux agradecendo a sua admissão como sócio
correspondente.
Do sócio sr. Alexandre Riedel pedindo exoneração do cargo de
2.0 secretario, visto não poder continuar a exercei- o. — Subraettido á
deliberação, foi acceito o pedido de exoneração, em vista das razões
apresentadas, devendo proceder-se, na ordem do dia, á eleição de 2.»
secretario .
— 314 —
Do sr. dr. Álvaro A. da Silveira, do teor seguinte, que passa
para a ordem do dia, afim do ser discutido : «lUms. Srs. Membros do-
< Instituto Histórico de S. Paulo. — Polo muito que merece qualquer
< noticia dada pelos orgams da impresa da capitai paulista, níio posso-
« deixar passar despercebido o sem formal contestação o que foi do-
< ticiado pelo Commercio de S. Faulo, sob o titulo Instituto Histórico
* Conta o apreciado jornal que «o dr. Eduardo Prado clumou a at-
< tenção do Instituto para o notável acontecimento que era a publi-
« cação da primeira folha da Carta Geographica de S. Paulo, fazenda
« ver a honra que havia para o Brazil e para S- Paulo em ter a
< primeira carta rigorosa feita na America do Sul.>— Quero crer qne-
t tenha havido qualquer engano na transmissão da noticia, pois me
« parece que o Instituto não ignorará, em assumptos do tanta impor-
< tancia para elle, o que se passa, mesmo em um Estado visinho — o
« de Minas Geraes. — Com etteito, antes ua publicação da primeira fo-
« lha ainda provisória da Carta Geographica de S. Paulo, folha cuja
< publicação se fez este anno de 1893, já o Estado do Minas tinha
c publicado, em 1895, duas folhas definitivas da sua Carta Geogra-
« phica, na escala de 1:100.000, a mesma da de S. Paulo ; consecu-
< tivamente foram sendo publicadas outras, de sorte a attingir hoje
< o seu numero a dez, que tôm por titules: (1) Barbacena, (2) S. João
« d'El-Rey, (3) Ibertioga, (4) Carrancas, (5) Ayuruoca, (6) iluminarias,,
« (7) Baependy, (8) Lavras, (9) Lima Duarte e (10) Rio Preto. — As-
« sim, a primeira folha do uma carta rigorosa publicada no Brazil
< não foi, como pensa o Instituto, a de S. Paulo e sim a folha n. !„
< Barbacena, da Commissão Geogranhica e Geológica do Estado de
« Minas Geraes.— Não tenho poupado esforços para tornar conheci-
« das as folhas da nossa carta o ainda assim, mesmo em Minas, ondo
« a sua disseminação deveria ser grande, ha muita gent^í instruída
« que ignora em absoluto a existência desse precioso trabalho. —Dou
< parabéns ao Estado de S. Paulo por saber manter serviços que in-
« felizmente são pouco apreciados o conhecidos no nosso paiz, a não
< ser apenas por uma parte insignificante da população. — Eis o que^.
« para orientar o Instituto Histórico do S. Paulo ou para desfazer o
« effeito desagradável de uma noticia inexacta, julguei conveniente
« dizer- vos.— Com estima e consideração, subscrevo-me, etc. (assig-
« nado) Álvaro A, da Si7veim— Engenheiro de Minas e Civil.»
— 315 —
Offeutas
As constantes da relação ora appcndice, as quaes sao recebidas
com especial agrado.
Por proposta do sr. Dr. Manoel Pereira Guimarães, foi unani-
mente deliberado inserir na acta um voto de profundo pesar pela
morte trágica do distincto consócio José Ferraz de Almeida Jutiior.
Igual deliberação foi tomada, por proposta do sr. Arthur Goulart,
pelo fallecimento do sr. Dr. Américo de Campos, seudo também re-
solvido, por proposta do sr. Dr. Miranda Azevedo, que por offlcio so
aprosoatassem condolências à familia do illusfre morto.
ORDEM DO DIA
Entra em discussão o offlcio do sr. dr. Alyaro da Silveira. Usa
da palavra o sócio sr. dr. Orville Derby, que faz diversas considera-
ções a respeito do assumpto, accrescentando que, como chefe da Com-
missão GeograpMca e Geológica deste Estado, não pode deixar passar
sem reparo a ^hrasQ— folha provisória, empregada pelo sr. dr. Álvaro
Silveira como equivalente a^edição yreliminar — que so encontra na
folha publicada da Carta Geographica deste Estado, o que não podo
ser adraittido nem pelo sentido etymologico nem pelo sentido technico
desta expressão ; a edição, concluo o sr. dr. Derby, comquanto pre-
liminar, não deixa do ser também definitiva : foi chamada pre-
liminar, porque ainda tôm de ser traçadas as linhas divisórias entro
os municípios, o que se pretende fazer com toda a exactidão ; é, po-
rém, definitiva, porque o trabalho gcographico está completo, rigoiosa
e definitivamente concluído, nada havendo a alterar, a modificar, a
emendar. O l.o secretario, obtendo a palavra, declara que o Instituto
não recebeu de qualquer repartição do Estado do Minas folha alguma
da carta do que so tracta, não sendo, pois, do cxtranhar que se igno-
rasse a existência dessa carta na nossa associação, quando no pró-
prio Estado de Minas, ondo a disseminação deveria ser grande, ha
muita gente instruída que ignora em absoluto a existência desse pre-
cioso trabalho. O sr. dr. Miranda Azevedo propoz o foi approvado
que fossem transcriptas na acta as integras do offlcio do sr. dr. Ál-
varo Silveira o da resposta ao mesmo.
— 316 —
Em seguida, o sr. presidente declara que vai-se proceder á elei-
ção para preenchimento do cargo de 2.° secretario. Por proposta do
sr. dr. Miranda Azevedo foi unanimemente acclamado 2." secretario o
sr. dr. Manoel Pereira Guimarães, que agradeceu a eleição e tomou
posse do cargo.
Pelo 1.0 secretario foi aprascntada e fundamentada uma proposta
creando dois logares de supplente^ do 2.° secretario, a qual flca so-
bre a mesa para ser discutida e votada na próxima sessão.
Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente levantou a sessão.
Lavrada por Carlos Eeis, l.® secretario.
INTEGRA DA RESPOSPA DIRIGIDA AO SR. DR. AlVARO A. DA SlLVElRA
<0 Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo, ao qual foi
< presente, era sua sessão de 25 do corrente mez, o offlcio de V.
c S., cujo recebimento tenho a honra de accusar, tomando na maior
< consideração o assumpto do mesmo constante, deliberou responder
« a V. S., encarregando-me de o fazer. — Hm primeiro logar, cumpre
< notar e V. S. o comprehende perfeitamente, que ao Instituto nèn-
< huma responsabilidade pôde caber pelas noticias relativas aos tra-
< balhos de suas sessões dadas pelos jornaes, pois não é ello quem
« as fornece a estes, mas os respectivos redactores ou seus auxilia-
< res que, assistindo ás sessões, tomam suas notas e as organizam. —
< Em relação á noticia do Commercio de S. Paulo, a que V. S. se
« refere, não podemos cousa alguma afflrmar de modo positivo, visto
* achar-se ausente o digno consócio àr. Eduardo Prado, único que
« pôde elucidar o caso- A maior parte dos membros deste Instituto
< ignorava a existência da Carta Geographica do Minas Geraes, não
< tendo tido o mesmo Instituto a honra de receber uma folha si quer
« das publicadas. Não havendo no nosso archivo esse trabalho, não
« se tendo ouvido falar delle, fácil ora suppor-se que a Carta Geo-
< graphica deste Estado era a primeira que se publicava com o ca-
« raeter de rigorosamente exacta, visto ter eila de facto este caracter
< e desconhecer-se a existência da de Minas. — Por taes motivos, quan-
« do qualquer asserção monos ftindada fosse avançada por algum so-
< cio em relação a este trabalho, merecia sem duvida relevação,
< sendo certo que o Instituto, como pessoa moral, no seu caracter de
— 317 —
< conectividade, não é, não pode ser responsável pelos juizos eraitti-
* dos individualmente pelos sócios, que tém a liberdade de suas opi-
< niões.— Isto posto, julgamos necessário fazer algumas considerações
< sobre um tópico do officio a que respondemos. Diz V. S. no allu-
« dido tópico : «Com effeito, antes da publicação da primeira folha
« ainda provisória, da Carta Geographica de S. Paulo,...» A 1.» fo-
< lha desta carta, assim como a 2.* ultimamente publicada, não ó
« provisória e sim definitiva. Talvez fosse V. S. levado a consido-
« ral-a provisória pelo facto de constar delia a declaração áe— edição
« preliminar ; mas perfeitamente sabe V. S. que não só pelo sentido
« etymologico como pelo technico dos vocábulos preliminar o prrvi-
< sot'io, não pode nem deve ser este considerado equivalente ou syno-
« nymo daquelle. A presente edição da Carta de S. Paulo foi cha-
« mada preliminar, porque tem de ser feita uma outra, na qual serão
< indicadas as linhas divisórias dos municípios cora a precisa exacti-
< dão e que actualmente não era possível representar, por falta de
c dados seguros ; mas não deixa, por isso, de ser definitiva, pois o
< trabalho geographico está completo e rigorosamente exacto, nada
< havendo a alterar, modificar, emendar. — Aproveito a oppcrtnnidade
< para, em nome do Instituto, felicitar na pessoa de V. S. a Coramls-
« são Geographica e Geológica do Estado de Minas pela publicação
€ das 10 folhas da Carta desse Estado, e ao mesmo tempo sohcltar de
« V. S. a fineza de obter a remessa daquella carta para o nosso ar-
< chlvo, pois multo prazer teremos em possuir tão importante o pre-
< cioso trabalho. — (Assignado) Carlos Reis, 1 » secretario.
Sessão ordinária, era 5 de Fevereiro de 1900
PRESIDÊNCIA DO SB. CONSELBEIRO DUARTE DE AZEVEDO
A's oito horas da noite, na sala das sessões do Instituto, presen-
tes OS sócios srs. Duarte de Azevedo, Carlos Reis, Pereira Guimarães,
António Piza, Orville Derby, Alberto Lõfgren, Jorge Krichbaum, Dio-
nysio Fonseca, Theodoro Sampaio, Arthur Goulart, Domingos Jagua-
ribe, Alfredo de Toledo e Miranda Azevedo, foi aberta a sessão-
Foi appiovada a acta da ultima sessão.
— 318 —
EXPEDIENTE
O 1.0 secretario communica o recebimento das offertas constantes
da relação era appendice, as quaes são recebidas com especial agrado.
O sr. Presidente communica que a Directoria resolveu dispensar,
a 1.^ do corrente mez, a sala que ora occupada cem a colleeção nu-
mismática, que foi accommodada na saleta da secretaria, realizando-
se assim a economia do 60^000 mcnsaes.
ORDEM 00 DIA
Entra em discussão e é sem debate approvada a proposta relativa
á creação de dois supplentes de secretario. Em seguida foram no-
meados pela Mesa, por delegação da Assembléa, para esses legares
os sócios srs. Dionysio Caio da Fonseca e Arthur Goulart.
O Sr. Dr. Pereira Guimarães, como relator da commissão encar-
regada da revisão do quadro social, submette á consideração da Assem-
bléa uma proposta para a transferencia dos sócios cujos nomes indica
da classe dos correspondentes para a dos eftoctivos. Submettida á
discussão e votação, é approvada a proposta, passando para a cate-
goria de sócios effectivos os seguintes srs. que foram adraittidos como
sócios correspondentes: Dr. Francisco de Paula Rodrigues, Dr. Fran-
cisco de Paula Santos Rodrigues, João Vieira de Almeida, Dr. João
António de Oliveira César, Dr. Pedro Augusto Carneiro Lessa, Dr.
Raymundo Pennaforte Alves do Sacramento Blake, Dr. Josó de Cam-
pos Novaes, José Hippolyto da Silva Dutra e Dr. Alfredo de Toledo.
Nada mais havendo a tractar, levantou-se a sessão.
Lavrada por Carlos Reis, l.o secretario.
Sessão ordinária, em 20 de Fevereiro de 1900
PEESIDENCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO
A's oito horas da noite, presentes os sócios srs. Duarte de Aze-
vedo, Carlos Reis, Orville Derby, Alberto Lõfgren, Luiz Leme, Alfredo
de Toledo, Eugénio Franco, Bernardo Morelli, Thaodoro Sampaio, An-
tónio Piza e Barão Homem de Mello, foi aberta a sessão.
Foi approvada a acta da sessão antecedente.
— 319 -
o sr. Presidente congratulou-se com os consócios pela presença
do sr. Barão Homem do Mello, a quem saudou como ura dos homens
mais notáveis do Brazil actual, declarando ser a sua presença na
nossa sessão um grande estimulo para o trabalho. O sr. Barão Ho-
mem de Mello, agradecendo as palavras do sr. Presidente, disse serem
dignos de francos elogios os grandes serviços que este Instituto temi
prestado ao Paiz, concorrendo com o seu subsidio importante para o
estudo da geographia o da historia do Brazil ; disse mais que, quando
comparece, como hoje, a este Instituto, sonte-se rejuvenescer ao con-
tacto de espíritos cultos e elevados que cora tanto zelo e dedicação
trabalham pela prosperidade da associação ; terminou saudando cor-
dialmente os membros do Instituto.
EXPEDIENTE
OFFICIOS
Do sr. Dr. Bernardino de Campos agradecendo as condolências
pela morte do Dr. Américo do Campos.
Do sr. Dr. Raymundo P. A. do Sacraraento Blake agradecendo a
sua transferencia para a classe dos sócios eftoctivos.
OFFERTAS
As constantes da relação era appendice, as quaes são recebidas
€ora especial agrado.
ORDEM DO DIA
E' dada a palavra ao sr. Dr. Orville Derby, que faz a leitura de
um seu importante trabalho intitulado — O começo da questão de limites
€]itre S. Paulo e Minas Geraes, o qual foi muito apreciado o applau-
dido.
Tem em seguida a palavra o sr. dr. Alfredo de Toledo, que lô a
introducção do seu trabalho — Uma reivindicação improcedente. Termi-
nada a leitura, que foi muito apreciada, ó o trabalho entregue á me-
sa, devendo ir á Commissão do Historia do Brazil.
Nada mais havendo a tractar, levantou-se a sessão, no correr da
qual compareceram mais os sócios srs. Dionysio Fonseca, Alexandre
Kiedel e Arthur Goulat.
Lavrada por Carlos Reis, l.» secretaiio.
- 320 -
Sessão ordinária, em 5 de Março de 1900
PRESIDÊNCIA DO SR. DR. MlRANDA AzEVEDO
As oito horas da noite, presentes os sócios srs. Miranda Azevedo,
Carlos Reis, Pereira Guimarães, Eugénio HoUander, Alfredo de Tole-
do, Orviíle Derby, António Piza, Jorge Krichbaura, Souza Franco,
Dionysio Fonseca, Horace Lane e Barão Homem de Mello, foi aberta
a sessão.
Foi approvada a acta da sessão antecedente.
Foi introduzido na sala das sessões e tomou assento na Assem-
bléa o novo sócio sr. Dr. José Vieira Couto de Magalhães Sobrinho.
EXPEDIENTE
OFFICIOS
Do sr. Dr. José de Campos Novaes accussando o recebimento do
oflacio era que lhe foi comraunicada a transferencia para a categoria
de sócio effectivo e declarando offertar um volume do seu estudo so-
bre as Origens cháldeanas do judaísmo. 1.^ secretario informa que
o volume ofterocido ainda não foi recebido.
Do sr. Alberto F. Rodrigues agradecendo a remessa do S.» vo-
lume da Revista do Instituto e enviando um exemplar do Almanack,
Popular Brazileiro para 1900.
OFFERTAS
As constantes da relação em appendice, as quaes são recebidas
com especial agrado.
O sr. Presidente, lembrando os predicados que ornavam a pessea.
do dr. Augusto de Souza Queiroz, paulista distincto e brazileiro illus-
tre, ha dias fallecido, subraettou á consideração da casa a indicação
de ser consignado na acta um voto de pesar pelo seu passamento e
de se dirigir á familia do egrégio morto um offlcio de condolências
O sr. dr. Couto de Magalhães, em additamento, propoz e foi appro-
vado que fosse nomoada uma comraissão para assistir ás exéquias
que se vão celebrar a 27 deste moz ; em consequência foram nomea-
I
- 321 -
dos os srs. drs. Pereira Guimarães e Alfredo Toledo para constituírem
a referida commisâo-
O sr. Eugénio Hollender porpoz e foi unanimemente approvado
que se collocasse na sala dos sessões o retrato do primeiro presiden-
te do Instituto dr. Cesário Motta Júnior.
O sr. dr. Peieira Gaimarães, lembrando a approxiraação da época
em que deve ser commemorado o 4.o centenário do Brazil, acha que
se deve tractar da execução do respectivo programma. O sr. dr. Mi-
randa Azevedo dá explicações a respeito.
Foi proposto e approvado que o Instituto se representasse nas
festas promovidas em Lisboa pela Sociedade de Geographia para a
commemoração do 4 o centenário do Brazil.
ORDEM DO DIA
Foram apresentadas, lidas e enviadas á respectiva commissão
propostas para a admissão dos sr^'. dr. Augusto Carlos da Silva Tel-
les, Horace E. Williams e João Vampró como sócios eflectivos.
Obteve a palavra o sr. dr, Alfredo de Toledo e occopou-se de um
artigo publiacado na «Cidade de Santos», em sua edição de 22 de
Fevereiro ultimo, relativo ao trabalho— Z7ma reivindicação improce-
dente, que leu na sessão passada, explicando a origem, marcha e fim
de uma polemica sustentada pelo orador com o Major Codeceira.
Em seguida o sr. dr. Orville Derby apresentou um mappa em
relevo da região entre esta Capital e Santos, a respeito do qual fez
algumas considerações. Este trabalho, que é feito em gesso, foi mui-
to apreciado pela precisão scientifica e grande aomma do paciência de
quem o organizou.
O sr. Presidente, era nome do Instituto, congratulou-se com os
srs. Barão Homem de Mello e Orville Derby pelo mappa que acaba
de ser apresentado, porquanto foi o sr. Homem de Mello o primeiro a
salientar a importância das altitudes do systema orographico de S.
Paulo e o sr. Derby o primeiro a realizar proficientemente o seu es-
tudo ; congratulou-se também com o Estado de S. Paulo por ser a
pátria do primeiro e o theatro do estudos do segundo.
Nada mais havendo a tractar, o sr. presidente; levantou a sessão.-
Lavrada por Carlos Eeis, 1." secratario.
- 322 -
Sessão ordinária, em 20 de Março de 1900
PRESIDÊNCIA DO SR. DR. MIRANDA AZEVEDO
A's oito horas da noite, presentes os sócios srs. Miranda Azevedo,
Carlos Reis, Pereira Guimarães, Eugénio Hollender, Orville Derby,
e Alberto Lofgren, foi aberta a sessão.
Foi approvada acta da ultima sessão,
EXPEDIENTE
OFFICIOS
Da Sociedade Comraemoradora do 4.o Centedario do Brazil, de,
S. Vicente, convidando para assistir á inauguração do monumento que
será erigido naquella cidade a 22 de Abril vindouro.
Do sr. dr. José de Campos Novaes, communicando que o livro —
Origens chaldeanas — que offereceu será entregue pelo sócio sr. Alber-
to Lofgren.
Do sr. dr. Virgílio Cardoso de Oliveira, Director do Instituto Ci-
vico-Juridico <Paes de Carvalho», em Belém do Pará, agradecendo a
remessa da Bevista e enviando diversos folhetos relativos áquelle
Instituto.
OFFERTAS
As constantes da relação em appendice, as quaes são recebida.s
com especial agrado.
O sr. dr. Miranda Azevedo communicou quf^ entendeu-se com o
sr. Presidente do Estado sobre o auxilio para a festa do 4.'^ centená-
rio e que o mesmo lhe declarou não poder o Governo attender.ao
appelio do Instituto ; outrosim participa que é provável que o sócio
sr. Arcsdiago dr. Francisco de Paula Rodrigues se encarregue de
proferir o discurso offlcial na sessão soelnne de 3 de Maio.
O sr, Eugénio Hollender envia á mesa a lista das pessoas que
subscreveram para a acquisição do retrato do dr. Cesário Motta, que
dentro de poucos dias será entregue e poderá ser inaugurado.
O mesmo sócio communica que o sr. commendador Alfaya Ro-
drigues o encarregou de patentear ao Instituto a satisfacção que terá
a Sociedade Commemoradora do 4.o Centenário, de S. Vicente, si o
— 323 —
Instituto tomar parte nos festejos que alli se realizarão, cujo pro-
gramma apresenta ; declarou mais que a dita Sociedade resolveu con-
siderar seus membros honorários os sócios deste Instituto. O sr. Pre-
sidente declarou que a mesa tomava em toda consideração o que
acabava de ser exposto e communicado pelo sr. Hollender e que, era
nome do Instituto, agradecia as gentilezas da Sociedade Commemo-
radora de S. Vicente.
ORDEM DO DIA
Foi lido e ficou sobre a mesa o parecer da Commissão de Ad-
missão de Sócios relativo ás propostas apresentadas na sessão ante-
cedente.
O sr. Dr. Manoel Pereira Guimarães procedeu á leitura de um
seu artigo critico sobre o quadro— Fugida para o Egypto— do pran-
teado pintor paulista Almeida Júnior, trabalho que foi muito apre-
ciado.
Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente levantou a sessão.
Lavrada por Carlos Reis, l.*' secretario.
Sessão ordinária, em 5 de Abril de 1900
PRESIDÊNCIA. DO SR. DR. MÍRANDA AZEVEDO
A's oito horas da noite, presentes os sócios srs. Miranda Azevedo,
Carlos Eeis, Pereira Guimarães, Dionyzio Fonseca, Arthur Goulart,
Orville Uerby, Domingos Jaguaribe e Alfredo de Toledo, foi aberta a
sessão.
Foi approvada a acta da sessão antecedente.
EXPEDIENTE
OFFICIOS
Do sr. Dr. Álvaro Astolfo da Silveira enviando Boletins e folhas
da Carta de Minas.
Do sr. Dr. F. A. de Souza Queiroz Netto agradecendo os pesa-
pcla morte do Dr. Augusto de Souza Queiroz.
- 324 ^
OFFERTAS
As constantes da relação em appendice, as quaes são recebidas
com especial agrado.
Foi introduzido na sala das sessões, e torraou assento na Assem-
bléo o novo sócio sr. Dr. Francisco de Panla Santos Rodrigues.
ORDEM DO DIA
Foi lido, posto em discussão e sem debate approvado o parecer
da Commissão de Admissão de sócios que ticara sobre a mesa na ses-
são passada sendo proclan^ados membros do Instituto os srs. Dr. Au-
gusto Carlos da Silva Telles, Horace E. Williams e João Vampré, na
qualidade de sócios effectivos.
Foram enviados á respectiva Commissão as propostas apresenta-
das para admissão dos srs. Augusto Álvaro de Carvalho Aranha,
como sócio eífectivo, M. Pio Corrêa e António Ferreira Neves Júnior,
como sócios correspondentes.
O -2.0 Secretario, Dr. Manoel Pereira Guimarães, offerece um offi-
cio do Conselheiro Avellar Brotero ao Conselheiro Chrispiniano Soares
relativo á revolução de 1842. Em seguida communica que no dia 4
do corrente, desmanchado-se três cellas que existiam sobre a sacris-
tia do convento do Carmo desta cidade, numa viga do telhado foi
encontrada uma inscripção datada de 1000, parecendo, á vista disso,
que quando Frei Gaspar, Azevedo Marques e outros dizem que o
Convento foi fundado por Frei António de S. Paulo no anno de 1598,
querem roferir-se ao inicio das obras.
Nada mais havendo a tractar, foi levantada a sessão.
Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2.o secretario.
Sessão ordinária, em 20 de Abril de 1900
PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO
Ás sete O meia horas da noite, presentes os sócios srs. Duarte
de Azevedo, Pereira Guimarães, António Piza, Dionysio Fonseca, San-
-^ 325 —
tos Rodrigues, João Monteiro, Eugénio Hollendsr, Orville Derby, Eu-
génio Franco e Tullio de Campos, foi aberta a sessão.
Foi approvada a acta da sessão anterior.
Foi recebido na sala dos sessões e tomou assento na Assembléa
o novo sócio sr. João Vampré.
EXPEDIENTE
OFFICIOS
Do Club Gymnastico Portuguez convidando o Instituto a assistir
a sessão solemne que realiza a l.o de Maio, em coramemoração ao
4.0 centenário do Brazil. Para representar o Instituto foram nomea-
dos srs. Drs. Carlos Reis, Eugénio Alberto Franco e João Vampré.
Da Sociedade Commemoradora de S. Vicente enviando o pro-
gramraa dos festejos do 4.» centenário e convidando o Instituto a
comparecer. Foram nomeados em commissão os srs. Drs. Theodoro
Sampaio, António Piza e Orville De»'by.
Do soeio sr. Dr. Domingos Jaguaribe communicando a sua par-
tida para a Europa.
ORDEM DO DIA
Foi lido e íicou sobre a mesa o parecer da Commissão do Admis-
são de Sócios relativo ás propostas apresentadas na ultima sessão.
Foi lido, posto em discussão e approvado o parecer da commis-
são incumbida de estudar o trabalho apresentado pelo sócio sr. Dr.
Alfredo de Toledo.
O sr. Df. João Monteiro oífereceu, em nome do si. Dr. João Ba-
ptista de Moraes, residente em Pirassununga, diversos autographos
de homens notáveis do Brazil, promettendo outros de grande valor e
interesse para o Instituto.
O sr. João Vampré leu a introducção de um seu trabalho sobro
festas nacionaes braziieiras, o qual foi muito apreciado.
O sr- Presidente declara que vai ser inaugurado o retrato do
pranteado Dr. Cesário Motta Júnior o, em phrases sentidas e inspira-
das, rememora a vida do 1." presidente o um dos fundadores do Ins-
titututo, vida essa que foi um modelo das mais acrysoladas virtudes.
— 326 —
Em seguida levaritou-se, assim como todos os sócios presentes, e ães
vendou o retrato que se achava velado pela bandeira da Republica*
Obteve a palavra o sr. Dr. Santos Rodrigues e leu um bellissim©
elogio histórico do Dr. Cesário Motta Júnior, sendo muito applandid©-
e felicitado.
Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente levantou a stssãa^
Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2.° secretario.
Sessão Solenne Commemorativa do 4.*^ Centenário da
Descobrimento do Brazil, em 3 de Maio de 1900
PRESIDE.VCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO
A's oito horas da noite, no salão onde o Instituto celebra as suas
ísessões, no prédio n. 2 do Largo da Sé, em presença de grande nxt-
muro de sócios, presentes o Dr. Carlos Reis, repretentando o Exro-
Sr. Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, Presidente do Estado, ft
Dr. António Cândido Rodrigues, Secretario da Agricultura, Commen-
dador Bernardino Monteiro de Abreu, Cônsul de Portugal, o Padre L^
Sangirardi, representado o Sr. Bispo Diocesano, commissões do Seo».-
do e da Camará dos Deputados do Estado, da Associação Comiiaercial,
do Club Gymnastico Portuguez, do Instituto Forense e do diversas
outras associações, exmas. senhoras e pessoas gradas, o »r. Presi-
dente declarou aberta a sessão, proferindo um bello e notável discur-
so, em que fez a synthese histórica da nossa pátria, salientaHdo os
principaes acontecimentos que concorreram para a formação da Dossa.
nacionalidade. Terminada a sua oração, deu a palavra ao sr. Dr^
Theodoro Sampaio para pronunciar o discurso official.
Subia então a tribuna o laureado consócio Dr. Theodoro Sam-
paio, sendo acolhido com uma salva de palmas, e leu um consciente e
substancioso trabalho, onde ainda uma vez demonstrou seus conheei-
raentos profundos na historia e chorographia do nosso paiz . Ao ter-
minar o seu discurso, foi muito applaudido e cumprimentado.
Foi era seguida dada a palavra ao 2.o secretario sr. Dr. Manoe5
Pereira Guimarães, que passou a ler um discurso commeraorativo d».
— 327 —
data quo ora nos cangrcga, sendo este importante trabalho histórico
do nasso consócio attentamente ouvido, muito apreciado e applaudido
com uma salva do palmas.
Usou também da palavra o sócio sr. Dr. Tullio do Campos que,
em brilhante improviso, congratulou-se com o Instituto e com a pá-
tria, sendo applaudido.
Ninguém mais desejando a palavra, o sr. Presidente agradeceu a
presença das pessoas que vieram abrilhantar a solennidado e levan-
tou a sessão.
Lavrada por Dionysio Caio da Fonseca, l.» supplente do secre-
tario .
Sessão ordinária, era 19 de Maio de 1900
PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO
A's sete o meia horas da noite, presentes os sócios srs. Duarte
de Azevedo, Miranda Azevedo, Pereira Guimarães, Dionysio Fonseca,
Arthur Goulart e Alfredo de Toledo, foi aberta a sessão.
EXPEDIENTE
OFFICIOS
Dos srs. Dr, Gabriel Piza, Capitão Pedro Arbues e Dr. Miranda
Azevedo enviando offertas ao Instituto.
OFFERTAS
As constantes da relação em appendice, as quaes são recebidas
com esoocial agrado.
ORDEM DO DIA
Foi submettido ã discuss ão e approvado o parecer da Commissão
de Admissão de Sócios, que ficara sobre a mesa na sessão de 20 de
Abril, sendo proclamados membros do Instituto os srs. Augusto Ál-
varo do Carvalho Aranha, M. Pio Corrêa e António Ferreira Neves
Júnior, o primeiro como sócio effectivo e os dois últimos como cor-
respondentes-
— 328 —
Achando-se na sala iramediata o novo sócio sr. Carvalho Aranha,
foi o mesmo convidado a tomar parte nos trabalhos, sendo introduzido
na sala das sessões e tomando assento na asserablea.
Foi proposto que se conferisse o diploma de sócio honorário ao
Sr. General Conselheiro Francisco Maria da Cunha, Enviado especial
de Portugal para represental-o nas festas do centenário celebradas no
Rio de Janeiro. Foi a proposta approvada e nomeada uma commissão
composta dos srs. Drs. Mira)ida Azevedo, Bueno de Andrada e Aze-
vedo Marques para fazer entrega do diploma.
^ O sr. dr. Miranda Azevedo apresentou informações sobre o pro-
dueto da subscripção para as festas do 4.o centenário, declarando que
a quantia angariada foi despendida com a parte litteraria do pro-
gramma, cuja nota comprobativa em breve a commissão exhibirá;
informou mais que as Cartas de Anchieta já estão publicadas e no
prelo a obra de Hans Staden, que será annotada pelo dr. Theodoro
Sampaio.
Nada mais havendo a tractar, o sr. presidente levantou a sessão.
Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2.o secretario.
Sessão ordinária, era 5 de Junho de 1900
Presidência do sr. conselheiro Duarte de Azevedo
A's sete e meia horas da noite, presentes os sócios ^rs. Duarte
Azevedo, Pereira Guimarães, Dionysio Fonseca, António Piza, Aquiao
e Castro, Augusto Cardoso, Theodoro Sampaio, Eugénio Hollender,
Alberto Lõfgren, Orville Derby, Alfredo de Toledo, João Vampré e
Carvalho Aranha, foi aberta a sessão.
Foram lidas e approvadas as actas das três ultimas sessões.
EXPEDIENTE
OFFICIOS
Dos srs. conselheiro Aquino e Castro, padre Miguel Foglino e
Bernardo de Azevedo da Silva Ramos enviando oflertas para o In-
stituto.
— 329 —
OFFERTAS
As constantes da relação era appendice, as quaes são recebidas
com especial agrado.
O sr. Alberto Lõfgren offoreceu, em nome do sr, Hermann A.
Eeipert, coraraerciante era Santos, os objectos constantes da dita re-
lação agradecendo o sr. presidente tão valiosa offeria.
O sr. João Varapré communicou ter desempenhado a coraraissão
junto ao Club Gymnastico Portuguez.
ORDEM DO DIA
Foram apresentadas e enviadas á coraraissão respectiva propos-
tas para admissão dos srs. dr. José do Mesquita Barros e Bernardo
de Azevedo da Silva Ramos, como sócios correspondentes. Por deli-
beração da assembléa foi dispensada a audiência da coraraissão quan-
to á proposta do sr. Bernardo Ramos, a qual foi subraettida á dis-
cussão e votação, sendo unaniraeraente approvada e proclamado
membro do Instituto o sr. Bernardo de Azevedo da Silva Ramos.
O sr. Carvalho Aranha procedeu à leitura do seu trabalho —
Teias, que foi apreciado.
Nada mais havendo a tractar, levantou-se a sessão.
Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2.o secretario.
Sessão ordinária, em 20 de Junho de 1900
Presidência do sr. dr. Miranda Azevedo
A's sete o meia horas da noite, presentes os sócios srs. Miranda
Azevedo, Pereira Guimarães, Dionysio Fonseca, António Piza, Theo*
doro Sarapaio, Orville Derby, Carvalho Aranha e Alfredo Toledo, foi
aberta a sessão.
Foi approvada a acta da sessão anterior.
EXPEDIENTE
Offlcio do sr. Bernardo A. S. Ramos agradecendo a sua admis-
são como sócio do Instituto.
330
OFFERTAS
As constantes da relação em appendice, as quaes são recebidas
com especial agrado,
O sr. dr. Miranda Azevedo entregou, por parte do deputado fe-
deral sr. dr. Luiz Adolpho, importantes manuscriptos relativos a
Matto-Grosso nos tempos coloniaes.
Foi proposto e approvado que se lançasse na acta um voto de
pesar peb fallocimento dos notáveis brazileiros drs. Silva Araújo e
Annibal Falcão e jornalista Paulo Ariuda.
ORDEM DO DIA
Foram apresentadas e enviadas á commissão respectiva propos-
tas para admissão dos srs. At>tonio Alexandre Borges dos Reis, co-
mo soeio effectivo, Henrique Raffard e dr. Thomaz Garcez Paranhos
Montenegro, como lienorarios, e para transferencia do sócio Bernardo
A. S. Ramos para esta classe.
Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente levantou a sessão.
Lavrada por Manoel Pereira Uuimarães, 2.o secretario.
Sessão ordinária, em 5 de Julho de 1900
PRESIDÊNCIA DO SR. DR. MANOEL PEREIRA GUIMARÃES
As sete o meia horas da noite, presentes os sócios srs. Pereira
Guimarães, Theodoro Sampaio, Orville Derby, Santos Rodrigues, Sa-
cramento Blake, Jorge Maia, Arthur Goulart, Eugénio Hollander, An-
tónio Piza e Dionysio Fonseca, foi aberta a sessão.
Foi approvada a acta da sessão antecedente.
EXPEDIENTE
Foi coramunicado o rebebimento dos jornaes que costumam í5cr
enviados, que são recebidos com especial agrado.
Pelo sr. Eugénio Hollender foi offerecido um minúsculo dicciona-
rio francez-inglez, sondo a offerta agradecida pelo sr. Presidente.
— 331 —
Pelo sr. dr. Santos Rodrigues foi lembrada a conveniência de se
adquirir uma obra sobre o Brazil escripta pela princeza Thcreza da
Baviera era 18^6, pois contem coisas que muito nos interessara. Pelo
«r. Engenio Hollander foi declarado que faria oílerta desse livro e de
4»iitro ao Instituto.
Foi proposto e approvado que se inserisse na acta um voto de
pesar pelo fallecimento do philologo sr. Santos Saraiva. Foi também
^provado que se consignasse na acta um voto de lembrança á me-
inoria do illustre brazileiro e cultor das lettras pátrias Castro Alves,
ido cujo passamento é amanhã (6) annivcrsario.
ORDEM DO DIA
Furara lidos os pareceres da Commissão de Admissão de Sócios
capinando pela approvação das propostas apresentadas na sessão pas-
sada, os qiiaes, por deliberação da asserabléa, foram submettidos á
discussão e votação e approvados, sendo proclamados membros do
lastituto os srs. Bernardo Azevedo da Silva Ramos, Henrique Raftrad
« Dr. Thomaz Galcez Paranhos Montenegro, como sócios honorários,
-e Aiiíonio Alexandre Borges dos Reis, como sócio effectivo.
Foram apresentadas o enviadas á commissão respectiva propostas
para admissão dos srs. Dr. João Baptista de Moraes e Major Paulo
Pinto Auto Rangel como sócios effectivos.
Nada mais havendo a tratar, o sr. Presidente levantou a sessão.
Lavrada por Dionysio Caio da Fonseca, l.» supplento do secre-
tario.
Sessão ordinária, em 20 de Julho de 1900
PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO
Ãs sete «. meia horas da noite, presentes os sócios srs. Duarte
•io Azevedo, Pereira Guimarães, António Piza, Dionysio Fonseca, Tui
lio de Campos, Theodoro Sampaio, Alberto Lofgron, Paula Souza,
OrviUe Derfey, Alfredo Toledo o Carvalho Aranha, foi aberta a sessão.
Foi approvada a acta da seseão anterior.
— 332 --
EXPEDIENTE
É coraraanicado o recebimento das ofifertas constantes da relação
em appendice, as quaes são recebidas cora especial agrado.
ORDEM DO DIA
Foram lidos e ficaram sobre a mesa os pareceres da Commissâo
de Admissão de Sócios opinando pela admissão dos srs. Dr. João
Baptista de Moraes, Major Paulo Pinto Auto Rangel e Dr. José de
Mesquita Barros.
Foi enviada á respectiva commissâo uma proposta para admissão
do sr. Dr. Dinamerico do Rego Rangel na qualidade de sócio corres-
pondente .
Pelo sr. Dr. Theodoro Sampaio foram lidos dois capitules do tra-
balho que está escrevendo — O tupi na geographia nacional, sendo
muito apreciado e applaudido.
Nada mais havendo a tractar, levautou-se a sessão.
Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2.o secretario.
Sessão ordinária, em 4 de Agosto de 1900
PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO
As sete e meia horas dá noite, presente os sócios srs. Duarte de
Azevedo, Pereira Guimarães. Orville Derby. António Piza, José Vi-
cente, Theodoro Sampaio, Alberto Lofgren, Bernardo Morelli e Diony-
8Ío Fonseca, foi aberta a sessão.
Foi approvada a acta da ultima sessão.
EXPEDIENTE
Ofiacio do sr. Conselheiro Francisco Maria da Cunha agradecendo
a sua admissão como secio honorário.
OFFERTAS
As constantes da relação em appendice, as quaes são recebidas
eom especial agrado.
— 333 —
ORDEM DO DIA
Foram subníettidos á discussão e votação e approvBdos os pare-
ceres que ficaram sobre a mesa na sessão anterior, sendo proclama-
dos membros do Instituto os srs. dr. João Baptista de Moraes e Ma-
jor Paulo Pinto Auto Rangel, como sócios eftectivos, e dr. José de
Mesquita Barros, como sócio correspondente.
Achando-se na sala iramediata os novos sócios srs. dr. João Ba-
ptista de Moraes e Major Luiz de Vasconcellos, foram elles convida-
dos a tomar parte nos trabalhos e receb dos na sala das sessões, on-
de tomaram assento.
Pelo sr. dr. Jorge Maia foi oíferecido o l.» fasciculo impresso do
seu Diccionario da lingua Nheengatú.
O sócio sr. dr. Theodoro Sampaio continuou a leitura do seu tra-
balho — O tupi na geographia nacional, sendo, como sempre, ouvido
com agrado e muito applaudido*
Nada mais havendo a traotar, o sr. Presidente levantou a sessão.
Lavrada por Dionysio Caio da Fonseca, !.<> supplento do secre-
tario .
Sessão ordinária, em 20 de Agosto de 1900
PRESIDÊNCIA DO SR. CARLOS REIS
As sete e meia horas da noite, presentes os sócios srs. Carlos
Reis, Pereira Guimarães, António Piza, Dionysio Fonseca, Arthur
Goulart, Theodoro Sampaio, Orville Derby, Alberto Lofgren, José Vi-
cente, Jorge Maia, Tullio de Campos, Santos Rodrigues e João Moraes
foi abarta a sessão.
Foi approvada a acta da sessão anterior.
EXPEDIENTE
Foram recebidas com especial agrado as offertas constantes da
relação em appendice.
Foi proposto e approvado que se consignassem na acta votos de
pesar pelo fallecimento do auctor das «Bphemerides Mineiras» Josó
Pedro Xavier da Veiga e do notável homem de lettras Eça da
Queiroz
— 334 —
o 2.<» secretario entregou, por parte do sou auctcr e sócio sr.
Coronel A. Borges Sampaio, uma interoFsante noticia histórica sobre
o Capitão João Baptista Macliado, a qual foi remottida á Commissão
ão Kodacçâo da Revista*
ORDEM DO DIA.
Foi enviada á respectiva comralssão uma proposta para admissão
do sr. José Jacintho Ribeiro, como sócio effectivo.
Pfoseguiu o sócio sr. dr. Thoodoro Sampaio a leitura do seu in-
teresante trabalho — O tupi na geographia nacional.
Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente levantou a sessão.
Lavrada por Manoel Pereira Guimaaâes, 2.o secretario.
Sessão ordinária, em 5 de Setembro de 1900
PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO
As sete c meia horas da noite, na nova sede social, á Rua Ge-
neral Carneiro n. 1 A, presentes os sócios srs. Duarte de Azevedo»
Carlos Reis, Pereira Guimarães, Dionysio Fonseca, Theodoro Sampaio^
Alberto Lofgren, Soares Romeo, Jorgo Maia, Gomes Cardim, Santos
Eodrigues, Alfredo Toledo, Getulio Monteiro, Araújo Macedo, José Vi-
cente, João Vampré e Orville Derby, foi aberta sessão.
Foi approvada a acta da ultima sessão.
EXPEDIílNTE
OFFICIOS
Do sócio sr. dr. Santos Rodrigues enviando uma lista demappas,
documentos e livros relativos ao Brazil.
Do Lyceu Littorario Portuguez, do Rio de Janeiro, enviando um
iivro para o Instituto.
Da Academia Litteraria de Lisboa communiçando a eleição do
sua nova directoria.
OFFERTAS
As constantes da relação em appendice as quaes são recebidas
com especial agrado.
— 335
ORDEM DO DIA
Foi subraottido á consideração da assembléa ura requer .mento do
Centro Espiritual do Brazil pedindo a sala do Instituto para ser cele-
brada uma sessão fúnebre cm homenagem a Eça de Queiroz e Fer-
reira do Araújo ; ficou a mesa auctorizada a resolver a respeito.
Foram enviadas á commissão respectiva propostas para admissão
dos srs. drs. Arthur Vautier o António Cândido Rodrigues, na quali-
dade de sócios correspondentes.
Foram lidos os pareceres da Commissão de Admissão de Sócios
opinando pela admissão dos srs. dr. Dinamerico A. do Rego Rangel
o José Jacintho Ribeiro, os quaes, em virtude do deliberação da as-
sembléa, foram submettidos á discussão e votação e approvados, sendo
proclamados membros do Instituto os ditos srs. dr. Dinamerico Au-
gusto do Rogo Rangel, como sócio correspondente, e José Jacintho
Ribeiro, como sócio effoctivo.
Achando-se na sala iramediata os novos sócios srs. drs. José Aris-
tides Monteiro o Dinamerico Rangel, foram os mesmos convidados a
tomar assento na assembléa, sendo recebidos com as formalidades do
estylo.
O sócio sr. dr. Theodoro Sampaio continuou a leitura do seu tra-
balho sobre o lupi.
Nada mais havendo a tractar, levantou-se a sessão.
Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2." secretario.
Sessão ordinária, em 20 de Setembro de 1900
PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AzEVEDO
A's sete c meia horas da noite, presente os sócios srs. Duarte de
Azevedo, Carlos Reis, Pereira Guimarães, Eugénio HoUender, António
Piza, Orville Derby, Theodoro Sampaio, Dinamerico Rangel, Bernardo
de Campos, Alfredo Toledo, Alberto Lofgren, Santos Rodrigues, Ho-
race Lane, Miranda Azevedo o Dionysio Fonseca, foi aberta a sessão.
Foi approvada a acta da ultima sessão.
— 836 -
EXPEDIENTE
OFFICIOS
Do Centro Espiritual do Brazil convidando a assistir á sessão fú-
nebre em homenagem á memoria de Eça de Queiroz e Ferreira de
Araújo.
Do sr. M. Pio Corroa agradecendo a sua admissão como sócio
correspondente.
Do sr. José Jacintho Ribeiro agradecendo a sua admissão como
sócio effectivo.
Do sr dr. Couto de Magalhães Sobrinho offerecendo três jornaes
antigos.
OFFERTAS
As constantes da relação era appendice, as quaes são recebidas
com especial agrado.
O sócio sr. Dr. Santos Rodrigues, obtendo a palavra para fazer
uma proposta, fundamentou -a do seguinte modo : < Sr. Presidente.—
< Proponho que na acta desta sessão seja lançado um voto de pro-
« fundo pesar pelo fallecimento de Ernesto do Canto, notável biblio-
« philo e bibliographo, e que foi sem duvida um dos homens de mais
< saber e competência era questões geographicas no presente século.
< Como bibliophilo, possuia Ernesto da Canto uma das mais raras e
< ricis bibliothecas e o celebre archivo da casa Canto e Castro, nos
€ Açores. Como homem de lettras, ligou o seu nome a trabalhos de
* grande erudição e assignalado merecimento. Como bibliographo, era
« versadissimo e conhecia e discorria fundamente sobre todas as obras
« importantes, antigas e modernas, de historia e geographia. Foi elle
< o creador do «Avchivo dos Açores», trabalho extraordinário de com-
« pilação dos materiaos que existiam dispersos e inéditos, respeitantes
« á historia daquelle archipelago, e para a publicação do qual, feita
< exclusivamente á sua custa, montou e manteve especialmente uma
« typographia. Foi nestas continuas investigações, neste insano labu-
< tar em prol da sciencia e da verdade histórica, que Ernesto do Canto
< teve a felicidade de encontrar os documentos com os quaes conse-
.< guiu a certeza histórica do que elle e muitos tiuham a certeza mo-
c ral : que a prioridade da descoberta da Araerica pertence aos por-
— 337 -^
« tuguezGs, que precederam Colombo de muitos annos. Baseado nestes
« iraportantissiraos documentos, publicou uma Memoria, era resposta
« aos livros de Henry Harrisse sobre Colombo e os Corte-ReaoF, e na
« qual poude sustentar aquella prioridade. Esta memoria veiu trazer
< completa luz sobre o assumpto e confirmar o que sobro elle já era
€ conhecido pelas obras de Bnéas Silvius. Petrus Matife, dos notáveis
< Celarius e Jeronymo Bençon e ainda outras da época da descoberta ;
* e também o que a respeito ha descripto na encyclopedia de Cham-
« ber's, nos trabalhos dos afamados historiadores Cartier, Harnin e
« Petterson, que defendem calorosamente esta gloria portugueza, que
« podemos dizer nossa, e justificam as nossas reivindicações. Na
« sessão solenne da Real Sociedade de Geographia do Londres, em
« 5 de Março de 1894, um professor da Universidade de Cambridge
€ aproveitou a occa ião de ahi estar reunido o mais escolhido audi-
< tório, entre o qual figurava o corpo diplomático e a que presidia
« um príncipe da casa reinante ingleza, o duque de York, para dar
« conta do notável estudo do historiador geographo portuguez, Er-
« nesto do Canto, e da revolução histórica que elle envolvia, pois que
« provava fi evidencia que, antes de Colombo, os portuguozes tinham
« chegado á America aportando ás terras do Labrador. Este famoso
< trabalho de Ernosto do Canto, que, naquella sessão, como nas de
< outras sociedades congéneres, foi devidamente apreciado e caloro-
< sãmente acceito, tem a grande vantagam. de nacionalizar precisa-
« mente o navegador que precedeu Colombo e de tirar, todas as du-
« vidas sobre quando e por quem foi descoberta a terra do Labrador,
c porque é fundado em documentos da época absolutamente inéditos,
€ encontrados no archivo da casa Canto e Castro, da Ilha Terceira.
< da qual os chefes andaram por muitos annos investidos do cargo
« de provedores das armadas roaes. Estes documentos de tão elevado
< alcance vieram, como disse, justificar a opinião de muitos eruditos
< acerca di prioridade dos portuguezes na descoberta da America.
* Era tal e tão reconhecida e acatada a competência de Ernesto do
< Canto em assumptos historico-geographicos que era elle amiúde-.
« mente consultado sobre estes assumptos pelas mais notáveis sumrai-
« dades de todos os paizes e entre estas o próprio Harrisse, Ferdi-
« nand Dénis, Réclus, Lenormand, Miln Edwards, Soeley e os príncipes
— 338 —
« do Mónaco e Napoleão Bonaparte. Podemos avaliar o grande sen-
< timonto de que so acha possuída a Sociedade de Geographia do
< Lisboa pela perda irreparável do seu 'illustrissimo o prestimoso raem-
« bro Ernesto do Canto ; pelo que, sr. Presidente, proponho mais quo
« do nosso voto de pesar se dô conhecimento áquella instituição nossa
< irmã » . Submettida a proposta á discussão e votação, foi a mesma
sem debate unanimemente approvada.
ORDEM DO DIA
Foi lido o parecer da Commissão de Admissão de Sócios opinan-
do pela approvação das propostas apresentadas na sessão antecedente
Q qual, em virtude da deliberação da assembléa, foi submettido á
discussão e som debate approvado, sendo proclamados membros do
Instituto os srs. Drs. A.rthur Vautier e António Cândido Rodrigues,
na qualidade de sócios correspondentes.
Achando-se na sala immedinta o novo sócio sr. Dr. Arthur Vau-
fier, foi elle convidado a tomar assento na assembléa, sendo recebido,
cora as formalidades do estylo.
O sócio sr. Dr. Orville Derby procedeu á leitura do sua memo-
ria intitulada — Os primeiros descobrimentos de ouro em Minas Geraes
a qual foi ouvida com a attenção e o interesse que o Instituto liga
aos trabalhos do digno consócio Dr. Derby, que foi felicitado por
mais esta sua importante producção.
Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente levantou a sessão»
Lavrada por Carlos Reis, !.« secretario.
Sesíàão ordinária, em 5 de Outubro de 1900
PRESIDEMCIA DO SB. DR. CARLOS REIS
A's sete e meia horas da noite, presentes os sócios srs. Carlos
Reis, Pereira Guimarães, Dionysio Fonseca, Thoodoro Sampaio, Soa-
res Romeo. Gomes Cardim, Orville Derby, Arthur Vautier, Dinamori-
co Rangel e Manoel Tapajós, foi aberta a sessão.
Foi approvada a acta da sessão anterior.
-- 339 —
EXPEDIENTE
OFFICIOS
Do sr. Barão de La Barro agradecendo a collecção da Revista
do Instituto-
Do Centro Espiritual do Brazil agradecendo a concessão da sala.
Do sr. Coronel Carlos Teixeira do Carvalho, Cônsul Hespanhol,
lembrando a conveniência do Instituto representar-se no Congresso
Hispano-Latino que se realizará era Madrid no próximo mez de No-
vembro—Ficou a mesa auctorizada a resolver a respeito.
OFFERTAS
As constantes da relação em appondieo, as quaes são recebidas
com especial agrado.
Foi recebido na sala das sessões o tomou assento na asscmbléa
o novo sócio sr. José Jacintho Ribeiro.
ORDEM DO DIA
Foi enviada á comraissão respectiva nma proposta para admis&âo
do sr. Dr. Carlos de Arruda Sampaio, como sócio offectivo.
O Sr Dr. Theodoro Sampaio continuou a leitura do seu notabí-
lissimo trabalho sobre o tupi na geographia nacional.
Nada mais havendo a tractar, levantou-se a sessão.
Lavrada por Manoel Pereira Guimarães, 2.» secretario.
Sessão ordinária, em 20 de Outubro de 1900
PRESIDÊNCIA DO SR. COXSELHEIIlO DUARTE DE AZSYEDO
A's sete e meia horas da noite, presentes os sócios srs. Daarto
de Azevedo, Carlos Reis, Pereira Guimarães, Theodoro Sampaio, Go-
mes Cardim, Dinamerico Rangel, Arthur Goulart, Alfredo Toledo, Ar-
thur Vautier, Dlonysio Fonsei-a, António Piza, Santos Rodrigues, Joaa
Moraes e JacinthD Ribeiro, foi aberta a sessão.
Foi approvada a acta de sessão antecedente.
- 340 -
EXPEDIENTE
Officio do sr. coronel António Borges Sampaio agradecendo a sua
admissão como sócio effectivo.
As offertas constantes da relação em appendice, as quaes são
recebidas com especial agrado.
Foi deliberado consignar um voto de pesar pelo fallecimento do
Dr. César Augusto Marques e apresentar condolências por officio ao
Instituto Histórico Brazileiro, do qual o finado era digno e prestimo-
so membro.
ORDEM óO DIA
Foram enviadas á commissão respectiva propostas para admissfto
dos srs- Dr. Luiz Porto Moretzsohn de Castro, como sócio effectivo,
Dr. Galeno Martins de Almeida o Dr. Sérgio Meira, como sócios cor-
respondentes.
O sr. Presidente participa que a sessão para encerramento dos
trabalhos deste anno, apresentação do relatório da directoria e eleição
da administração realizar-se-á a 25 do corrente mez. Outrosim convida
os sócios a elegerem o orador ofiacial para a sessão magna de 1.^ de
Novembro ; foi unanimemente acclamado o sócio e 2° secretario sr.
Dr. Manoel Pereira Guimarães para nessa sessão proferir o discurso
offlcial, agradecendo o Dr. Guimarães a prova de confiança que lhe
era dada.
O sócio sr. Dr. João Baptista de Moraes, procedeu á leitura de
um seu interessante trabalho— Guerras do Sul, que foi muito apre-
ciado, offerecendo com oUe documentos relativos ao assumpto.
Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente levantou a sessão.
Lavrada por Carlos Reis, l.«> secretario.
Sessão extraordinária, em 25 de Outubro de 1900
PRESIDÊNCIA DO SR. DR. CARLOS REIS
As oito horas da noite, presentes os sócios srs. Carlos Reis, Pe-
reira Guimarães, Dionysio Fonseca, Arthur Vautier. Alexandre Rie-
del, Eugénio Hollondor, Theodoro Sampaio, Manoel Tapajós, Jorge
~ 341 —
Krichbaum, Alfredo Toledo, João Vampré, Arthur Goulart, Dinarae-
rico Rangel, José Vicente e Santos Rodrigues, foi aberta a sessão.
Foi approvada a acta da sessão anterior.
EXPEDIENTE
Foram recebidas com especial agrado as offertas constantes dí»
relação em appendice.
Foi proposto e unanimemente approvado que se consignasse na
acta um voto de profundo sentimento de pesar pelo passamento do
erudito sócio fundador deste Instituto António Augusto da Fonseca.
ORDEM DO DIA
Foi lido, posto em discussão e approvado o parecer da Commis-
são de Admissão de sócios opinando pela admissão dos srs. Drs. Car-
los de Arruda Sampaio e Luiz Porto Moretzsohn de Castro, como só-
cios effectivos. Galeno Martins de Almeida e Sérgio Meira, como só-
cios correspondentes, sendo os mesmos nessas qualidades proclamados
membros do Instituto.
Foi apresentado e lido o relatório dos trabalhos e occorencias do
Instituto no presente anno, acompanhado do balanço da receita e des-
pesa e annexos respectivos. Submettidos o relatório, balanço e con-
tas ao exame e discussão da assembléa, propoz o sr. Eugénio Hollen-
der que fosse consignado um voto de louvor á directoria pelo zelo e
dedicação com que se houve no desempenho do seu mandato. Em
seguida, propoz o sr. Dr. Theodoro Sampaio que fossem approvados
o relatório e contas da directoria ora apresentados. Ambas as pro-
postas foram sem debate approvadas, abstendo-se de votar os mem-
bros da directoria.
Passandose a tractar da eleição da directoria, foi deliberado re-
eleger por acclamação a actual directoria. A assembléa, attendendo
ás razões apresentadas, concedeu a dispensa pedida pelos srs. Drs.
Carlos Reis e António Piza dos cargos de l.» becretario e thesoureiro
e procedeu á eleição dos legares vagos. Terminado o acto, o sr.
Presidente declarou ficar constituída do seguinte modo a administra-
ção do próximo triennio :
PRESIDENTE
Conselheiro Dr. Manoel António Duarte de Azevedo.
- 342 -
Vice-presidente
Dr. Augusto César do Miranda Azevedo.
1.0 SECRETARIO
Dr. Manoel Pereira Guimarães.
2.0 SECRETARIO
Dionysio Caio da Fonseca.
Thesoureiro
Dr. Carlos Reis.
1.0 E 2.0 SUPPLENTES DO 2.o SECRETARIO
Arthur Goulart o dr. Dinamorico Augusto do Rego Rangel.
Foi dada a palavra ao socio sr. Dr. Thoodoro Sampaio, que pro-
cedeu á leitura do capitulo 4.» do seu trabalho — O tupi na geographia
nacional, sendo ao terminar applaudido e felicitado.
Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente' declarou encerra-
dos os trabalhos do presente anno e convidou os srs. sócios a com-
parecerem á sessão magna de 1.° do Novembro próximo vindouro.
Subscripto por Manoel Pereira Guimarães, 2.» secretario.
Sessão magna de anniversario da fundação do Instituto, era
1 de Novembro de 1900
PRESIDÊNCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO
A's oito horas da noite, ro salão do Instituto, no prédio n. 1 a.
éa, Rua General Carneiro, presentes grande numero de sócios e pessoas,
convidadas, entre as quaes cônsules, representantes de institutos, as-
sociações, estabelecimentos públicos e da imprensa desta capital, fo.
ram recebidos e acompanhados até á mesa, onde tomaram assente, os
Srs. Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, Presidente do Estado, o
seu Ajudante de Ordens Capitão Jayme Marcondes, Dr. Bento Bueno,
Secretario do Interior, e Dr. Josó Vicente de Azevedo, representante
da Çamara dos Deputados. O sr. Presidente do Instituto, declarando
— 343 —
aberta a sessão, congratulou se cora a associação polo coraparecimen-
to dos membros dos poderes públicos do Estado a esta festa, fez di-
versas considerações sobre o desenvolvimento do Instituto nos seis
anrios de sua existência, deu por empossada a nova directoria e agra
<ieceu, era norae delia, a confiança dos consócios.
Foi communicado o recebimento do um telogramraa do sr- Cora-
mendador Alfaya Rodrigues, Cônsul Argentino em Santos, agrade-
cendo o convite para assistir á presente sessão, e oíBcios dos Srs.
Drs. Thomaz Garcez Paranhos Montenegro o Luiz Porto Moretzsoim
do Castro agradecendo a sua admissão como membros do Instituto.
Dada a palavra ao orador official Sr. Dr. Manoel Pereira Guima-
rães, subiu este á tribuna e, em brilhante discurso, salientou os mé-
ritos o trabalhos dos sócios fallecidos José Ferraz de Almeida Júnior
<) António Augusto da Fonseca, sendo muito applaudido e felicitado
peia sua importante oração.
Em seguida o Sr. Presidente do Instituto, interpretando os sen-
timentos dos sócios, mandou inserir na acta desta sessão um voto de
agradecimento ao governo e povo argentino pela maneira brilhantis-
siraa pela qual receberam o Sr. Dr. Campos Salles o sua comitiva
naquella nobre nação, sendo redigido e transmittido para Petrópolis
o seguinte telegramma : «Exm. Sr. Ministro da Republica Argentina.—
« O Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo, era sessão magna
< de 1.0 do corrente, resolveu lançar na acta um voto de reconheci-
« mento pela gentileza com que o governo e o povo da Republica
« Argentina receberam o chefe da nação hrazileira e os membros da
« sua comitiva na recente visita feita á nobre Republica.— Dwaríe ãe
< Azevedo — Presidente do Instituto. >
Nada mais havendo a tractar, o sr. Presidente agradeceu a pre-
sença dos membros do governo e illustres cavalheiros, que vieram
abrilhantar a modesta solennidado commemorativa do 6.0 annivcrsario
da fundação do Instituto, e declarou encerrada a sessão.
Relação
DAS
OíTsrtas de livros, revistas, mappas, jornaes, etc.
feitas ao Instituto durante o anno de 1900
Sessão de 25 de Janeiro
Carta qeographica de S. Faulo, 2.^ folha ; Estudos historie o—poli
ticos, por Estevam Ribeiro de Souza Rezende (Barão de Rezende} ;
Revista do Archivo Publico Mineiro, fase. ns. 1 e 2 de 1899 ; Relató-
rio do Ministério da Industria, Viação e Oiras Publicas, 1898 ; Re-
vista do Instituto Geographico e Histórico da Bahia, fase. de Setembro
de 1899; Boletim Postal, ns. 8 a 12 de 1899; Boletim de Estatistica
Demographo- Sanitária, tis. 68 a 72 ; Boletim do Instituto Agronómico
do Estado, ns. 5, 9 e 10 de 1899; Revista Pharmaceutica, ns. 53 a
55 ; Revista Agricoia, ns . 51 a 54 ; A Ceciliana, n. 25 ; Diário Offl'
ciai do Estado ; Correio Paulistano ; O Commercio de 8. Paulo ; Diário
Popular ; A Platéa ; Lavoura e Commercio ; Gazeta de Uberaba ; Cor-
reio do A.mparo ; Verdade e Luz ; A Estrella ; Vicentino ; O Império,
até 12 do corrente; Tribuna Paulista, n. 1 ; Capital Paulista, n. 5;
A Aurora, 5.o fisciculo.
Sessão de 5 de Fevereiro
Almanach de Piracicaba para 1900; Almanach da Platea para
1900 ; Mappa da viagem do revolucionário Gumercindo Saraiva e lo^
gar de sua morte; Medalha commemorativa do 4° centenário do Bra-
zíl, mandada cunhar e offerecida pelo sócio sr, Julins Meili ; Capital
Paulista, O Império e jornaes que costumara ser enviados.
— 345 —
Sessão de 20 de Fevereiro
Homenagetn ao Dr. Augutto Teixeira de Freitas pelo Tribunal de
Appellação da Bahia ; Revista do Archivo do Manicipio da Capital do
Estado da Bahia, n. 1 ; AllegaçÔes finaes, pelo Dr. Alfredo de Toledo;
A crise e o seu remédio, pelo Dr. Francisco de Toledo Malta ; Revista
Agricola, n. 55; os jornaes que costumam ser enviados.
Sessão de 5 de Março
Medalha commemorativa da inauguração da estatua do Duque de
Caxias; Proclamação dirigida aos paulistas em 1842 pelo Brigadeiro
Raphael Tobias de Aguiar ; Almanach Popular Brazileiro para 1900 ;
Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, n. 52;
Capital Paulista, n. 9 ; os jornaes que costumam ser enviados.
Sessão de 20 de Março
Carta do recôncavo da Bahia, pelo Dr. Theodoro de Sampaio ; As
origens chaldeanas do judaismo, pelo Dr. José de Campos Novaes;
Regulamento e Relatório do Instituto Civico-Juridico *Paes de Carva-
lho ; O Instituto Civico-Juridico, artigos do Dr. Virgílio Cardoso de
Oliveira ; Almanach do lavrador brazileiro, pelo Dr. Germano Vert ; O
gado e a lavoura, pelo mesmo; Boletim Postal ; Revista Agricola, n.
56; os jornaes que costumam ser enviados.
Sessão de 5 de Abril
Boletins ns. 4, 5 e folhas ns. 3, 4, 5, 6, 8 e 10 da Carta de Mi-
nas publicadas pela Commissao Geographica e Geológica desse Esta-
do ; Os precursores da Republica do Srazil, pelo Major José Domin-
gos Codeceira ; Boletim Postal ; Capital Paulista ; os jornaes que cos-
tumam ser enviados.
- 346 -
Sessão de 19 de Maio
Questão de limites entre as Bepublicas de Costa Rica e Cohimbia,
por M. Peralta; Medalha da campanha do Paraná; Jornal do Com-
mercio, de 3 de Maio ; Relatórios do Secretario da Agricultura^ 1898 e
1899 ; Mensagem do Presidente da Republica, 1900 ; Revista Agrícola;
Boletim Postal; os jornaes que costumam ser enviados.
Sessão de 5 de Junho
Medalha de prata distribuída pelo Instituto Histórico Brazileiro
na sessão corameraorativa do 4.o centenário ; Brazil, por Zeferino
Cândido, idem ; Quadro commemorativo do 4° centenário, trabalho da
typographia do Lyceu do Coração de Jesus desta cidade ; Catalaga
da collecção numismática do Amazonas: Medalha cunhada no Rio do
Janeiro para coraraemoração do 4.^ centenário ; Relatório sobre a E.
de Ferro de Avanhandava ; Discurso proferido pelo Dr. M. Po? eira
Guimarães na sessão do Instituto a 3 de Maio ; Revista do Instituto
do Ceará ; Boletim Postal: os jornaes que costumam ser enviados.
Collecção de 4 medalhas, 4 cédulas, 22 moedas de prata, 81 do cobro
©2 do nickel, ofiferecida pelo Sr. Hermann A. Reipert.
Sessão de 20 de Junho
Revista do Instituto Geographico e Histórico da Bahia, numero
de Dezembro de 1899; Revista do mesmo iDstituto commemorativa do
4.0 centenário ; Chorographia do Brazil, por António Alexandre Bor-
ges dos Reis; Discurso sobre Evaristo da Veiga, pelo Dr. Tullio de
Campos ; Almanach de Piracicaba ; Relatório dos Secretários do Inte^
rior e da Justiça, 1898; Terras devolutas; Gazeta Juridica, Maio dô
1900; Annuario Estatístico, 1899; Revista Agrícola; os jornaes quo
costumara ser recebidos.
— 347 —
Sessão de 20 de Julho
Revolução Franceza, por Michelet ; Historia do Braiil, por Joilo
Armitage ; Carta de Pedro Vaz Caminha ; Em Guararapes, pelo Dr.
Martim Francisco; No lar, pelo sr. Álvaro Guerra; Flor de neve;
Informações sobre a ponte do rio Pardo, pelo Dr. Ignacio Coehranc;
Boletim do Museu Paraense ; Boletim de Agricultura : Revista da So-
ciedade de Geographia do Rio de Janeiro ; os jornaes que eostiiraam
ser enviados.
Sessão de 4 de Agosto
Relatórios do Secretario da Fazenda e do Inspector Geral do En-
sino, ambos do anno do 1899; os jornaes (jue costumam ser enviados.
Sessão de 20 de Agosto
Diccionario hibliograpJiico, pelo Dr. Sacramento Blake ; Annaes da
Bibliotheca Nacional, vols. 20 e 21 ; Revista Agrícola-, Boletim Pos-
tal; Boletim de Agricultura ; Boletim de Estatística Demographo- Sani-
tária ; os jornaes que costumara ser enviados.
Sessão de 5 de Setembro
Historia topograpJiica e bellica da colónia do Sacramento : Duas
estampas, em seda, embarque e desembarque de Colombo ; Phytograpkia
e herborização, pelo sócio Alberto Lofgren ; Arte da guerra; Boletim
de Estatística Demograplio- Sanitária; os jornaes que costumam ser
enviados.
Sessão de 20 de Setembro
Organização naval. Quatro séculos de actividade marítima, pelo Al-
mirante Arthur Jaceguay ; Historia do Paraná, pelo sr. Romario Mar-
tins ; Primícias, por Joaquim Gil Pinheiro; O Farol Paulistano, n.
500, de 21 de Junho de 1831; O Paulista Official, n. 4, de 29 de No-
vembro de 1834 ; O Novo Farol Paulistano, n. 357, de 19 de Agosto
de 1835; Boge-.i und pfeil ín Central— Br asilien, pelo Dr. Hermann
— 348 —
Meyer ; Collecção de mappas relativos â guerra com o Parayuay ; Mappa
do Estado de S. Paulo, folha de Campinas ; Capital Paulista ; Revista
Agrícola ; os jornaes que costumara ser enviados.
Sessão de 5 de Outubro
Revista do Instituto G. e Histórico da Bahia ; Diário Offidal de
Amazonas ; Feira dos Anexins : Regulamento da Repartição de Terras
do Amazonas; Questão de limites do Amazonas; Relatório da Inten-
dência de Obras de S. Paulo ; Diccionario de nomes próprios ; Theses
de concurso ; Doutrina christã em nheengatú ; Revista da Escola Poly-
technica e 50 folhetos e jornaes diversos oflerecidos pelo sócio sr.
Dr. Manoel Tapajós; Boletim de Agricultura; Boletim Postal; os
jornaes que costumam ser enviados.
Sessão de 20 de Outubro
Revista do Instituto Histórico, Geographico e Ethnographico do
Pará, n. 1 ; O descobrimento do Brazil, por José Feliciano de Olivei-
ra ; Apontamentos genealógicos, pelo Dr. Luiz Porto Moretzsohn deCas
tro ; Boletim da Agricultura, n. 4 ; Boletim Postal ; Illiada de Homero
(em grego), tomo I, 1828 ; Viagem ao Brazil, por Spix Martins ; Do-
cumentos interessantes, vols. 29 e 30 ; Revista Brazileira, 1897 a 1899 ;
Annuario da Escola Polythechnica de S. Paulo para 1900 ; Capital
Paulista, serie 2. a, n. 4; Revista Agrícola, n. 63; os jornaes que
costumam ser enviados.
Sessão de 25 de Outubro
Arte de fabricar o vinho, pelo Dr. Luiz Barretto ; Carta de apre-
sentação do Padre António Luiz Braz Prego para vigário de Santa
Cruz, em Goyaz ; Carta de nomeação do mesmo para cavalleiro da
Ordem de Christo ; Medalha comraomorativa do anno santo ; Memo-
ria sobre navegação aérea, pelo Dr. Domingos Juguaribe; Litteratura
infantil, por Arthur Goulart; Diccionario geographico do Brazil, por
Alfredo Moreira Pinto; os jornaes que costumam ser enviados.
I
Relatório
DOS
TRABALHOS E OCCORRENCIAS
DO
iDstitnto Hísloríco e GeograuMco de Sâo Panlo
NO ANNO DE 1900
Apresentado pela Directoria na sessão de encerramento,
em 25 de Outubro de 1900
Srs. membros do Instituto Histortco e Geogra.phico de S. Paulo.
Cumprindo o dever que lhe é imposto pelo § 5." do artigo 12 dos
estatutos, vem a directoria apresentar-vos o relatório das occorren-
cias do expirante anno social de 1900.
ADMINISTRAÇÃO
Da directoria por vós eleita era 20 de Outubro de 1897 e cujo
maniato ora termina, obtiveram dispensa dos respectivos cargos, por
motivos justos, os srs. Alexandre Riedel, 2.o secretario, e dr. Domin-
gos José Nogueira Jaguaribe, thesoureiro. Para substituil-os, foram
eleitos os srs. dr. Manoel Pereira Guimarães, para o cargo de 2.o se-
cretario, e dr. António de Toledo Piza, para o de thesoureiro, fun-
cção que exercia interinamente.
— 3Õ0 —
Em scíssEo de 5 de Fevereiro, approvastes a proposta do creação
do dois Jogares do supplentcs de 2.» secretario o elegestes para esses
cargos os srs. Dionysio Caio da Fonseca o Arthur Goulart.
Do conformidade com o artigo 41 dos estatutos, tendes de pro-
ceder, na presente sessão, á eleição da directoria do Instituto para o
triennio entrante.
SESSÕES E TRABALHOS
Durante o anno eftoctuàram-se vinte (20; sessões, sendo uma so-
lenne, a 3 de Maio, commeraorativa do 4.o centenário do deseobri-
raento do Brazi!, dezoito (18) ordinárias e a pesente extraordinária.
C)mo se vô o é grato consignar, o- Instituto celebrou com toda a
regularidade as suas sessões ordinárias, tendo sido em quasi todas
apresentados e lidos trabaliios pelos srs. sócios.
Eis a sumraa dos trabalhos lidos :
Na sessã ) do 20 do Fevereiro : — tf começo da questão de limites
entix S. Paulo e Minas Geraes, pelo sr. dr. Orvillo A. Derby, e —
Uma reivindica çcA) improcfdentc, pelo sr. dr. Alfredo de Toledo.
Na sessão do 20 do Março :— Estudo critico do quadro *Fvgiãa
liara o Eg]jpto> de Almeida Júnior, pelo sr. Manoel Pereira Guimarães.
Na sessão de 20 do Abril : — Festas nacionaes Irazileiros, pelo sr.
João Vampré, e — Elogio histórico do dr. Cesário Motta, pelo sr. Fran
cisco do Paula Santos Rodrigues.
Na sessão solonno do 3 do Maio : — Discurso offlcial commemora-
tivo do 4fi centenário do dcscobrimentj do Brazil, pelo orador sr. dr.
Theodoro Sampaio, e — Discurso sobre o d€s>:ohrimcnto do Brazil^ pelo
2.0 secretario sr. dr. Manoel Pereira Guimarães.
Na sessão de õ de Junho : — Teias, pelo sr. Carvalho Aranha.
Nas sessões de 2D de Julho, 4 e 20 de Agosto, 5 do Setembro e 5 do
Outubro :— O tup'- na gcographia nacional, pelo sr. dr. Theodoro Sampaio-
Na sessão de 20 de Setembro : — Os primeiros descobrimentos de
ouro em Minas Geraes, pelo sr. dr. Orville A. Derby.
Na sessão de 20 do Outubro : — Guerras do Sul — Rcproducção de
i(m período histórico, pelo sr. dr. João Baptista de Moraes.
Na sessão do hoje, o sr dr. Theodoro Sampaio deve proceder á
leitura do ultimo capitulo do seu trabalho sobre o Tupi relativo á
inter2)retação.
— 351 —
BÍBLÍOTHECA E ARCHIVO
Á bibliotlicca o o archivo do Instituto foram augraontados com
donativos de livros, mappas, jornaos, medalhas, moedas, quadros, etc.
Sacontrareis annexos os respectivos catálogos.
A directoria julga do seu dever cousignar aqui um voto de agra-
decimento a todas as pessoas que espontânea e genorosaraento con-
tfifauirara com as suas offcrtas para o augmonto c riqueza das col**
iecçõos do Instituto.
SÓCIOS
Durante o anno foram accoitos dezoito (18) novos sócios, sendo
4 íia qualidade do honorários, 8 na do cffectivos e () na do corres-
^ottdentes, estando depeadentes de vossa deliberação 4 propostas
para a admissão dos srs- Drs. Carlos de Arruda Sampaio, Luiz Por-
t) Morctzsohn do Castro, Galeno Martins do Almeida e Sérgio Meira,
isobVQ as quaes já emmittia parecer favorável a respectiva commissão.
Do accordo com a vossa deliberação, em sessão de 5 do Favo*
rí5iro, foram transferidos da classe du sócios correspondentes para a
de effectivos os srs. Dr. Francisco de Paula Rodrigues, Francisco do
Paula Santos Rodrigues, João Vieira de Almeida, Dr. João Antónia
ílo Oliveira Ccsar, Dr. Pedro Augusto Carneiro Lessa, Dr. Rayraundo
FcHuaforte Alves dj Sacramento Blako, Dr. José de Campos Novaes,
José Hlpyoiyío da Silva Dutra o Dr. Alfredo do Toledo.
O Instituto teve a infelicidade de perder mais dois illustres mem-
bros fundadores— José Ferraz de Almeida Júnior, morto era Piracica-
ba a 13 de Novembro do anno passado, e António Augusto da Fon-
seca, lallocido nesta capital a 22 do corrente mez.
Diversos sócios estão em debito de suas annuidades, assira como
lia alguns que ainda não satisfizeram a jóia e 1." annuidado.
CENTENÁRIO DO BRAZIL
Pelos motivos que conheceis, não poude o Instituto executar com-
pletamente o programma que organizara para commemorar o 4.^ cen-
tenário do descobrimento do Brazil. Todavia, além da sessão solon-
no que celebrou a 3 de Maio, publicou com os recursos de que dis-
pauha a respectiva commissão executiva, um folheto com cartas da
~ 352 -
padre José de Anchieta, já distribuído, e a obra de Hans Staden tra-
ctando do suas viagens e captiveiro entre os selvagens do Brazil.
REVISTA
Foi publicado e distribuído o volume 4." da Revista do Instituto
referente a> anno do 1899. Para o volume relativo ao presente an-
:po, está a Comraissão de Redacção colligindo e respectivo material,
afim de ser opportunamente enviado á imprensa.
FINANÇAS
Diminuto foi o recebimento de contribuições de sócios, estando
por arrecadar não pequena somma respeitante a annuidades e jóias.
E' de esperar que no anno vindouro este serviço fique regularizado ©
seja normalizada esta fonte de receita social, contando o Instituto
com a boa vontade dos srs. sócios.
No projecto do orçamento da receita e despesa do Estado, ora
em discussão no Senado, foi consignado o auxilio de 6:000$000 á nos-
sa associação e incluída a auctorização para a impressão da Revista
na typographia do «Diário Ofacial do Estado». Acredita a directoria
que o patriótico Congresso Legislativo, convicto da utilidade desta
instituição continuará a auxilial-a, como o tem feito, impulsionando
assim o seu desenvolvimento e garantindo a sua estabilidade. Em
nome do Instituto Histórico e Ge graphico de S. Paulo, a directoria
consigna aqui o testemunho do mais profundo reconhecimento aos
illustres e dignos membros de ambas as camarás do Congresso Le-
gislativo do Estado.
Do balanço annexo, apresentado pelo sr. thesoureiro, e docu^
mentos que o acompanham, constam especificadamente as verbas da
renda arrecada ia e despesa effectuada, cujo resumo é o seguinte:
Receita 10:866)^760
Despesa 10:643^760
Saldo . . . 223g000
Sendo :
Em conta corrente no Banco de
Credito Real de S Paulo . . . 14p00
Em mão do thesoureiro. . . 208^700 223ÍJ000
I
*
— 353 -
Ao vosso exame e deliberação submette a directoria o balanço e
•contas do presente anno, fechadas nesta data.
CONCLUSÃO
Attendendo aos desejos manifestados pelos srs. sócios, a directoria
transferia a sede social do 2.o andar do prédio n. 2 do Largo da Sé
para o l.o andar do sobrado da rua General Carneiro n. 1 A, onde
desde 1.» de Setembro está funccionando o Instituto, que, parece,
acha- se agora melhor installado. O preço do aluguel actual, inclusi-
ve a illuminação, é de 230j?000 mensaes, havendo nesta verba de des-
pesa a economia annual de 240$ 000, pois era de 250^000 mensaes o
aluguel que o Instituto pagava pelas salas do prédio que anterior-
mente occupuva.
Taes são, srs. membros do Instituto Histórico e Geographico de
S. Paulo, as informações que a directoria julgou de maior relevância
e traz ao vosso conhecimento, promptiflcando-se todavia a vos forne-
cer quaesquer outros esclarecimentos que vos pareçam necessários.
Ao concluir esta modesta exposição, cumpre a directoria o grato
dever de patentear-vos os seus cordiaes agradecimentos pela confiança
com que honrastes a administração que ora termina o &eu mandato.
S. Paulo, 25 de Outubro de 1900.
Dr. Manoel António Duarte de Azevedo, presidente-
Carlos Reis, 1.» secretario.
Manoel Pereira Guimarães, 2.° secretario.
António de loledo Piza, thesoureiro.
(Deixa de assignar o vice-presidente, sr. dr. Augusto César de
Miranda Azevedo, por estar ausente desta capital).
Instituto Histórico e Geographieo
de São Paulo
MOLIOTHEC^IL
CATALOGO DOS LIVROS, IMPRESSOS, MANUSCRIPTCS, MÁPPAS K
JOENAES EXISTENTES EM 25 DE OUTUCRO DE 1900
LIVROS E IMPRESSOS
Abafioênga (Apontamentos sobre o) — O dialogo de Li?ry — por
B. O. do A. Nogueira 1
Abastecimento de carne (Parecer [sobre o), pelo Dr. J. P. da
Veiga Filho • . . . 1
Abba Daniel do Mosteiro de Scetó (Vida do), por Goldschimidt. 1
Accidcnts du travail (Congrés international des)— 3 e session, 1894 1
Acontecimentos do Matto-Grosso ( Os ] — Discursos pelo Deputado
Luiz Adolpho Corrêa da Costa 1
Actas das sessões da Camará Municipal de S. Paulo 1898 e 1897 2
Actas das sessões da Camará Municipal do Santos— 1899 . , 1
Actividade raaritiraa (Quatro séculos de), por Arthur Jaceguay. 1'
Actos executivos da Intendência de Finanças do município do
Sao Paulo 1
Adamastor — Discurso pelo Dr. Brazilio Machado 1
Adquisiçâo da posse por intermediário, pelo Dr. Duarte de Aze-
vedo 1
355 -
Agricultura brazileira (Reforraa da), por A. Gomes Carmo . .
Aguas Piineraos (Guia de viagem para as), por Maximino Scr-
zedello
Aguas raineraes do Fervedouro (Breve noticia sobre as) . . .
Alargamento da E. do Ferro Central do Brazil, por Ozorio de
Almeida
Alfandega de S. Paulo — Representação da Associação ('ommeroial
Alfredo Ellis (Escorço biographico do Dr.), por Libero Braga .
Alistamento eleitoral (Novíssimo guia do), por A. A. Moreira de
Toledo
Aljamía portugueza (Texto em), por David Lopes
AllocuçOo proferida na Egreja da Boa Morte polo Cónego Ma-
noel Vicente da Silva
Almanach do ..Diário de Taubaté" — 1899
Alraanaeh do Estado de S. Paulo— 1895
Almanach do ..Estado de S. Paulo" (jornal)— 1896 ....
Almanach Iguapense — 1899 (2 exemplares)
Almanach do lavrador brazileiro, pelo Dr. Germano Vert — !.<>
anno, 1900
Almanach paulista — 1898
Almanach paulistano— 1857
Almanach de Piracicaba— 1900 (2 exemplares)
Almanach da ..Platéa" — 1900
Almanach popular brazileiro— 1894 a 1900
Almanach do Rio Novo— 1888
Alraanaeh Sul-Mineiro — 1874
Almirante do mares orientaes (O), por Joaquim Leitão . . .
Alumnos matriculados e diplomados pela Escola Normal do São
Paulo -1880 a 1897
Amazonas — Conferencia pelo Dr. Oscar Leal
Amazonas (A coutribution t© the geology of the lower), pelo
Dr. Orville A. Derby
Amazonas (O Estado do)
Amazonas (Estudos sobre o)— Limites do Estado— pelo Dr. Tor-
quato Tapajós ^
Amazonas (Noticia económica e financeira da província do); por
— 356 —
Cavalcanti do Albuquerque 1
Amazonas (Província do), pelo Dr. Torquato Tapajós ... 1
Amazonas (Relatório sobre alguns logares da Província do), por
J. M. da Silva Coutinho 1
Amazoniara upper carboniferous fauna ( The), pelo Dr. Orville
A. Derby 1
Amazzoni (Nel paese delle), por Vincenzo Grossi 1
America meridional y septentrional, pelo Dr. Manoel Martins
Bonilha 1
Anchieta, as raças e línguas indígenas— Conferencia pelo Gene-
ral Dr. Couto de Magalhães (3 exemplares) 3
Annaes da Bibliotheca Nacional— 1876 a 1899 22
Annaes da Camará dos Deputados do Brazil — 1823 a 1888 . . 74
Annaes da Camará dos Deputados do Estado de S. Paulo — 1891
a 1897 7
Annaes do Congresso Constituinte do Estado de S. Paulo — 1891 1
Annaes da Província de S. Pedro, por José F. F. Pinheiro . 1
Annaes do Senado Brazileiro— 1861 a 1888 33
Annaes do Senado do Estado de S. Paulo— 1891 a 1897. . . 6
Anuo biographico brazileiro, por Joaquim Manoel de Macedo . 4
Anuuario do ensino— N. 1 (10 exemplares) 10
Annuarío da Escola Polytechnica de S. Paulo — 1900 (2exemp.). 2
Annuario estatístico da Secção de Demographia de S. Paulc—
1897 a 1899 2
Annuario medico brazileiro, pelo Dr. Carlos Costa— 1895 . . 1
António Conselheiro (Relatório sobre), por Fr. João Evangelista 1
António Ferreira Viçoso (Vida de D.), por D. Silvério Gomes
Pimenta 1
António Joaquim de Mello (Vida de D.), pelo Cónego Ezechias
G. da Fontoura. 1
António Leite do Canto (Major) — Homenagem d^4 Imprensa —
Mogy-mirim 1
Apontamentos genealógicos, pela Dr. L.P. Moretzsohn de Cas-
tro 1
Apontamentos históricos da Província de S. Paulo, por M. B.
de A. Marques 1
- 357 -
Apreciações sobre o livro do Dr. Guilherme Studart intitulado
"Notas para a historia do Ceará 1
Archipel Indien (L' ), por Louis de Backer 1
Archivo do districto Federal — 1894 a 1897 4
Archivo do Estado de S. Paulo — Documentos interessantes —
Vols. 1 a 30 30
Archivo litterario — N. 6, 1867. 1
Arte christan (A), por Monsenhor Camillo Passalacqua ... 1
Arte de fabricar o vinho (k), pelo Dr. Luiz Pereira Barretto . 1
Arte da guerra (A) — Poema — por Frederico II 3
Arvores do Rio Grande do fíul (As), pelo Dr. H. von Ihering. 1
Assignaturas dos governadores da Capitania e Provinda de São
Paulo desde 1555 até 1889 (Fac siraile das), por Jules Martin 1
Assistência judiciaria ( Projecto de organização da) ... ' 1
Astronomie appliquée (Traité d'), por Emm. Liais .... 1
Atlantide, por Patrokle Kampanakh 1
Atlas histórico da guerra do Paraguay, pelo 1.» Tenente E. C.
Jourdan (2 ex.). 2
Attentado de 5 do Novembro— Artigos publicados por Caneca . 1
Atentado de 5 de Novembro — Relatório pelo Dr. Vicente Neiva 1
Autonomia municipal — Conferencias pelo Dr. Domingos Jaguaribe 2
Auxilies á lavoura, por J. R 1
Bahia (Memoir of the Stat of), peio Dr. F. V. Vianna ... 1
Bahia (Memoria sobre o Estado da), pelo Dr. F. V. Vianna. . 1
Bibliographie brésilienne, por A. L. Garraux 1
Boletim da Agricultura — 1.» serie — Ns. 1 a 4 4
Boletim da Commissão Geographica e Geológica de S. Paulo
Ns. 1, 2, 4 ,5, 7 a 12 10
Boletim de estatística demographo-sanitaria do Estado de Lão
Paulo (monsal)-Ns. 3, 4. 7 a 78 74
Boletim de estatística demographo-sanitaria do Estado de São
Paulo (semestral) — 1." semestre de 1894 e 1895 .... 3
Boletim de estatística demographo sanitária do Estado de São
Paulo (annual)— 1894 (2 exemplares) 2
Boletim do Instituto Agronómico do Estado de São Paulo (Cam-
pinas) •. 14
— 358 -
Boletim do Mnsou Paraense-— N. 1 do vol. 3.o j
Boletim Postal do Brazil— 1889 a 1900 4
Boletim da Sociedade do Medicina de S. Paulo— Ns. 10, 21,27,
28, 32 a 39 13;
Bonds de Santa Veridiana (Questão dos) —Memorial pelo Dr.
Pedro Lessa 1
Brasile ai Congresso d'ígiene di Budapest ( 11 ) (2 exemplares) . 2í
Brasiiianisclie Geldwesen (l)ãs), por Julius Meili 1
Brazi!, pelo Dr. António Zeferino Cândido 1.
Brésii (Le), por Levasseur (2 exemplares) 2,
Busca das esmeraldas (Em), pelo Dr. Francisco Lobo Leite Pe-
reira (2 ex.) 2
Camará Municipal e seus impostos (A), pelo Dr. Rodolplio Faria
(2 exemplares) 2
('ambio (O), por Duaite Rodrigues t
Campinas (Monographia do município de), por Christiano Volkurt 1
Campos Salles (Perfil biographico do Dr. Manoel Ferraz de), por
António Joaquim Kibas 1
Canções ridentes, por Carlos Moraes 1
Cantos populares do Brazil, por Sylvio Romero — 1.» e2.ovols. 1
Capital do Estado de Minas Geraes (Exposição sobre a nova),.
por Aarão Reis » . . 1
Carlos Naudin—Perfil biographico— pelo Dr. A. C. de Miranda
Azevedo 1'
Cármen soeculare, por Speridiono de Mediei Dilotti .... 1
Carta geograpliica do Rio Grande do Sul (Notas para a), por J.
Arthur Montenegro l^-
Carta Jurídica, por Eugénio Teixeira "1
Carta do Pêro Vaz de Caminha, por Francisco Augusto Pereira
da Costa i.
Cartas do Padre José de Anchieta t
Cartas politicas, por Américo Bra'/iliense 1
Cartas do Solitário, pelo Dr. A. C. Tavares Bastos .... t
Catalogo da collocção numismática do Bernardo A. da Siív»
Ramos 4
Catálogos da bibliotheca da Escola Polytechnica de S. Paulo . 1
-- 359 ~
Catálogos da bibliothcca do Instituto Histórico o GGCsraphico
Brazilciro 1
Catochisrao constitucional, por J. Borges Carneiro (2 exem-
plares) 2
Catochisrao constitucional do Estado do Rio do Janeiro, por J.
Borgos Carneiro l
Catochisrao contitucional do Estado de S. Paulo, porj. Borges
Carneiro 1
Catochisrao municipal, pelo Dr- Domingos Jaguaribo (10 Exemplares 10
Catochisrao brazilico (Publicado por Padres Jesuítas)— 1685 . . 1
Catechismo historico-Historia sagrada, polo Abbado Fleury . . 1
Centenário brazileiro, por Leopoldo do Freitas 1
Centenário da India-Discurso polo Dr. Braz do Amaral ... 1
Central— Brasilion (Bogen und pfoilin), pelo Dr. Herrraann Meyer 1
Chile e Brazil— Sessão do Instituto Histórico e Geographico Bra-
zileiro era horaenagera á nação chilena 1
Chorographia do Estado do S. Paulo, por M. Ortiz Monteiro . 1
Chorographia o historia do Brazil, por A. A. Birges dos Reh . i
Chorographia do município do Serra Negra, por Silvino A. de
Oliveira (.2 Exemplares). , 2
Christovão Colombo (Sessão solonne do Instituto Histórico e Geo-
graphico Brazileiro em homenagem á raomr-ria de) ... 1
Christovara da Gama (Dos feitos de D.), por M. de Castanhoso. t
Christu mulienyáua çuriraaan-uára arama nhihingatú rupi, por
Costa Aguiar ^
Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Brazil, polo Padro
Simão de Vasconcellos "^
Chronica dos reis do Bisnaga, por David Lopes 1
Chronicas do paiz do Atlantido, pelo Dr. Domingos Jaguaribo . 1
Chronologia paulista, por José Jacintho Ribeiro— l.» volume. . 1
Cinco annos numa academia, por Hinckmar 1
Cincoenta annos de existência — Memoria pelo Dr. M. A. de S.
Sá Vianna 1
Civilisation en Europe (Histoiro de la), por Guizot 1
Classificação das agencias postaes da Republica 1
Classifluação dos criminosos -Dissertação pelo Dr. Cândido Motta 1
— 860 —
Código do processo criminal, por Josino do Nascimento Silva . 1
Colheita e preparo das plantas para herbarios (Da), por Alberto
Lõfgren (3 Exemplares) 3
Colombo— Poema — por M. de A. Porto Alegre (2 Exemplares) . 3
Colónia do Sacramento (Historia topographica e bellicada nova),
por Simão Pereira de Sá 1
Colonização e immigração, pelo Dr. Torruato Tapajós (3 Exemplares) 8
Colonização dos morpheticos (A), pelo Dr. José Lourenço. . . 1
Companhia de obras hydraulicas, por M. Buarque de Macedo . 1
Compromisso da Irmandade de N. S. das Dores da cidade de
Avaré • 1
Conde de Porto Alegre, Tenente General Manoel Marques de Sou-
za — Perfil histórico, por Alfredo F. Rodrigues. .... 1
Conferencias populares — N. 3, Março de 1878 1
Conflicto de jurisdicção administrativa, por António Sabino do Monte 1
Conheçamos nossa pátria, por Menezes Vieira 1
Conquôtes et décou vertes de ia Republique des Pays — Bas, por
Jules Geslin — 2.e partie — En Asie, en Afriquo, en Amerique. 1
Constants of nature (The), por F. W.Clarke— 1.*> supplemento á
parte I, partes II e III 1
Constituição do Estado de S. Paulo— Projecto doDr. Américo
Braziliense de Almeida Mello (2 Exemplares) 2
Constituição do Estado de S , Paulo— Publicada por decreto do
Governador Dr. Jorge Tibiriçá 1
Constituição do Estado de S. Paulo — Promulgada a 14 de Julho
de 1891 1
Constituição dos Estados Unidos (Commentarios á), por Joseph
Story 2
Constituição do Município de Santos 1
Constituição da Republica dos Estados Unidos do Brazil— Promul-
da a 24 de Fevereiro de 1891. ......... 1
Constituinte perante a historia (A), por F. LM. Homem de Mel-
lo (2 Exemplares . . ..... . ... . , . 2
Consultor do commercio, por João Cândido Martins .... 1
Contabilidade, por Horácio Berlinck . ..... . . . 1
Contes indiens du Brésil, pelo General Couto de Magalhães » , 1
- 361 —
Contractos da Intendência Municipal de Belém (Pará). . . .
Contractos para introducção de iramigrantev no Estado de S. Paulo
Contribuição para a canalização do rio S. Francisco ao rio Ja-
guaribe, pelo Dr. Domingos Jaguarlbe (2 Exemplares) . .
Convenção de 20 de Fevereiro (A), por José Maria da Silva Paranhos
Convenções postaes diversas, seus regulamentos e instrucçõos .
Cortezãos e a viagem do Imperador (Os), por L. M
Cosmographic atlas (The), por W. e A. K. Jolmston ....
Costa Rica y Costa de Mosquitos, por D . Manoel M. de Peralta .
Costa Rica (Bxposé des droits cerritoriaux de la Republique de),
por D. Manoel M. de Peralta
Costa Rica (Republique de) — Replique à Texposó de la Republique
de Colômbio -por D. Manoel M. de Peralta
Cousas animadas e inanimadas (Lições d)e, por A. B. Zaluar ,
Cousas brazileiras, pelo Professor Romão Puiggari
Cousas da China— Costumes e crenças — por J. Callado Crespo .
Criação no Brazil /A), por Mário Gambarone ,
Crime de Araraquara — Parecer medico— legal .'....
Crise e o seu remédio (A), pelo Dr. Francisco de Toledo Malta .
Criticai and histórica! essays, por Lord Macaulay
Cultura dos campos, por J. F. de Assis Brazil
Curso de processo civil (Programma do), pelo Dr. João Monteiro
Vol. I
Dados climatológicos— 1891 a 1892
Dai — Nippon (O grande Japão), por Wanceslau de Moraes . .
Declaração da maioridade (A)
Depuração pelo solo dos productos de exgottos, pelos Drs. Erailio
Ribas e Theodoro Bayma
Derivação na serra da Cantareira, por Saint— Clair de Miranda.
Descoberta da America — Discurso pelo Dr. Manoel^Pereira Gui-
marães
Descobrimento do Brazil — Discurso pelo Dr. Manoel Pereira Gui-
marães
Descobrimento do Brazil (O), por José Feliciano de Oliveira. .
Desinfecções em Santos— Relatório pelo Dr. Tolentino Filgueiras
Diário de um soldado, por Ambrósio Richshoffer
— 362 —
Diário fie viagom do Dr. Francisco José do Lacerda o Almeida 1
Diccionario bibliograpliico brazileiro, pelo Dr. A. O. A Sacra-
mento Biak • O
Diccionario chorographico, histoiico o estatístico de Pernambuco,
por Sebastião de Vasco ncollos Galvão — Vol. 1 1
Diccionario goog aphico do Brazil (Apontamentos para o\ polo
Dr. Alfredo Moreira Pinto 3
Diccionario gcographico da província do Paraná, por Nivaldo
Braga — l*» F 1
Diccionario das minas do Brazil, por Francisco Ignacio Ferreira 1
Diccionario nheôngatú ou abánhcô, por Jorge jMaia — 1.° Fascículo 1
Diccionario de nomos próprios de homem e de mulher, por F.
E. do Horisonte Brazileiro 1
Diccionario portuguez e brazileiro, por * * * 1
Diccionario dos verbos irregulares da língua portugueza, por C.
do R . . ^ • 1
Dictionnaire géographiquo, historiquc et critique (Le grand), por
B. de La Martinière — Vols. 1 a 5 — A a S 5
Dieu dans la nature, por C. Flammarion 1
Direito internacional (Apontamentos para o), por António Pereira
Pinto 4
Direito de intervenção, por Leopoldo de Freitas 1
Discurso na abertura das aulas do Seminário Episcopal do S.
Paulo, cm 1882, pelo Cónego Manoel Vicente da Silva . . 1
Discurso na entrega das cartas aos normalistas— 1887 e 1888,
pelo Cónego Manoel Vicente da Silva ...... 2
Discurso nas exéquias de D. Maria José de Barros Lcssa, pelo
Cónego Manoel Vicente da Silva 1
Discurso na inauguração do Centro dos Operários Catholicos, pelo
Dr. Duarte de Azevedo 1
Discurso perante a Academia Nacional do Medicina, p3lo Dr.
Torquato Tapajós (3 Exemplares) 3
Discurso aos professorandos da Escola Complementar em 1898,
por Gabriel Prestes 1
Discurso pronunciado em Madrid por Eugénio Teixeira ... 1
Discursos, pelo Dr. João Monteiro— 1890— 189G 1
Dlsti-letos postaes 2
Divisão judiciaria e administrativa do Estado de S. Paulo . . 1
Divisão judiciaria, municipal e policial do Estado do S. Paulo,
por Sebasttão Moreira (5 Exemplares) 5
Documentos escolares — Publicações do Pcdagogium Brazileirô . 1
Educação ensino — Revista do Pedagogium Brazileirô ... 1
Egreja do Collogio — Acção possessória — Editoriaes do "Correio
Paulistano" 1
Electricidade em relação á arte de curar (A), pelo Dr. Marcos
Arruda , . . . 1
Elcetrolyso da agua do mar (A), pelo Dr. Torquato Tapajós . . 1
Eleição do 1.» districto do Ceará (A), polo Dr. Domingos Jagua-
ríbc 1
Elemento servil (O), por Joaquim Floriano de Godoy .... 1
Emancipação dos escravos — Parecer pelo Dr. Ruy Barbosa . . 1
Empire du Brésil (Situation sociale, politique et economique de 1')
por J. M. Pereira da íilva 1
Ensaios do philosophia e scioncia, polo Dr. Estcllita Tapajós . 1
Ensaios do scioncia— N. 2, Julho do 1876 1
Entre i'Eurjpo et TAsic, por Prince de Puklor Muskau ... 2
Bphcníorides Mineiras— 1654— 1897— por José Pedro Xavier da
Veiga 4
Esboço histórico, pelo Engenheiro Constante Affonso Ccelho. . 1
Exeavações archeologicas em 1895, peio Dr. Emilio A., Goeldi . 1
.Bselavage (Do Ij, por W. E. Channing 1
Esclavage et liberte (Influence de 1'), pelo Dr, Domingos Jaguaribe 1
Escola do engenheiros mechanicos e constructorcs, pelo Dr. H.
Gorceix ^
Escola. Polyteclinica (A reforma da), por A. Ennes de Souza—
1830 o 1893 '^
íBseola Publica (A)— Revista de pedagogia pratica (S. Paulo;. . •>
Escola Superior de Guorra-Discurso pelo Major Alfredo de Mo-
raes Rego 1
E -colas do 1-0 e 2.o graus (Relatório sobre as), pelo dr. A. Caeta-
no do Campos ^
Escravatura na Europa e na Africa (A), porF. S. Leitão o Castro. 1
— 364 -
Estadistas e parlamentares, por Tiraon
Estado de S. Paulo (Estudo exconoraico e financeiro sobre o),
pelo Dr. J. P. da Veiga Filho
Estados perante o Estado Federal (Posição jurídica dos) — Dis-
sertação pelo Dr. Reynaldo Porchat
Estatística agricola do município do S. Carlos do Pinhal . . .
Estatística e apontamentos, pelo Dr. Franco da Rocha — Ns. Ia 6. 3
Estatística industrial e agrícola do Estado de Minas Geraes — 1890. 1
Estatutos das seguintes associações :
Arcádia Normalista
Associação Luso-Araericana Financial
Congresso Brazíleíro
Club Republicano «Campos, Salles>
Instituto Forense
Instituto Goographico e Histórico da Bahia — 1894 (2 Exempl.)
Instituto Histórico e Gcographico Braziloiro— 1890
Sociedade Commemoradora do 4.» Centenário (S. Vicente)
(2 Ex.)
Sociedade Educadora «13 de Maio»
Sociedade Pharmaceutica Paulista 12
Estrada de ferro do Amazonas á Venezuella (Memoria justifica-
tiva de um projecto de), pelo Dr. Torquato Tapajós. . . 1
Estrada de ferro do Avanhand^va, por A. <;ambraia (2 Exem-
plares). 2
Estrada de Ferro de D. Pedro II— Vistas dos pontos mais impor-
tantes e plantas de pontes
Estrada de ferro entre o Tietê e Paranapanema
Estrada de Ferro S. Paulo e Rio de Janeiro e suas condições eco-
nómicas (A Companhia), por I. W. da Gama Cochrane . .
Estrada de Ferro S. Paulo e Rio de Janeiro (Resgate da), por
I. W. da Gama Cochrane
Estrada de Ferro S. Paulo e Rio de Janeiro (Companhia)— Liqui-
dação em virtude do resgate, por I. W. da Gama Cochrane.
Estrada de Ferro Sorocabana (Melhor directriz da)— Da Botuca-
tú a Tibagy, por Manoel Marcelino de Souza Franco. . .
Estudos históricos, pelo Dr. António da Cunha Barbosa . . .
- 365 —
Estudos históricos brazileiros, por F. I. M. Homem de Mello. . 1
Estudos histórico— politicos, pelo Barão do Rezende .... 1
Etnologia Centro- Americana— Catalogo de los objçtos arqueoló-
gicos de la Republica de Costa Rica por Manoel M. de Peralta. 1
Evaristo Ferreira da Veiga— Discurso pelo Dr. Tullio de Campos 1
Exgottos de Santos (Relatório sobre o serviço de), por I. W. G.
Cochrane l
Expedição de correspondência e malas (Guia para a), por A. F.
da Costa 1
Exploração do rio S. Francisco, por H. G. F. Halfeld. ... 1
Exploração dos rios Itapetininga e Paranapanema, pelo Dr. T.
Sampaio , 1
Exposição de geographia Sul-Americana realizada pela Sociedade
de Geographia do Rio de Janeiro em 1889 (Catalogo da) . 1
Exposição de Philadelphia (Exposição justificando a exhibição de
productos do Brazil), por J. Cordeiro da Graça .... 1
Exposição de trabalhos jurídicos realizada pelo Instituto da Or-
dem dos Advogados Brazileiros a 7 ;de Setembro de 1894 —
Catalogo e Relatório, pelo Dr. Deodato C. Vilella do Santos. 2
Fabricação de tubos polo processo Mannsmann, por F. Releaux. 1
Fabulas do La Fantaine, pelo Barão de Paranapiacaba ... 2
Fabulas de Loqmán, por José Benolíel l
Factos históricos da politica republicana braziloira— Discursos
pelo Dr. A. C. de Miranda Azevedo (2 Exemplares). . . 2
Fala dirigida á Assembléa Legislativa de S. Paulo era 10 de
Janeiro de 1883 pelo Presidente da Provinda Cons. Soares
Brandão • 1
Fazenda Gandarella (Relatório dos trabalhos na), por Guimarães
e Calogeras . 1
Febre amarella (Conferencia sobre a), pelo Dr. Domingos Freire. 1
Febre amarella (!.» e 2.» relatórios sobre a) 1
Febre typhoide em S. Paulo (A), pelo Dr. Clemente Ferreira
(3 Bxempl.) 3
Feira de anexins, por D. Francisco Manoel de Mello .... 1
Ferro nativo de Santa Catharina, por L. F. Gonzaga deCanpos. 1
Ferro-yia de Piracicaba a Vilia-Araericana, por Bu^irque do
— 366 —
Macedo 1
Festa das crianças (A) — Comraeraoração da lei do 13 de Maio . t
Festas naoionaes, do Rodrigo Octávio 1
Fute brésilienne célóbréo à Koucn cn 1550 (Uno), por Ferdinand-
Denis 1
Finis patrioe, por Guerra Junqueiro 1
Flor do neve, por Eurico do Góes 1
Fiora do Goa e Savantvadi, polo Dr. D. G. Dalgado .... t
Floriano Peixoto — Discurso pelo Dr. Alfredo Pujol .... 1
Floriano Peixoto — Discurso por Horácio de Carvalho .... 1
Fronteira Sul do Amazonas— Artigos publicados por Manoel Ta-
pajós (2Ex.) 2
Fronteira Sul do Amazonas — Questão de limites, por Mauoei Ta-
pajós (6 Ex.) (>
Fundador do Ceará (Documentos para a biographia do), pelo Dr.
Guilherme Studart 1
Gado e a lavoura (O , pelo Dr. Germano Vert (3 Exemplares . 3
Geographia — Atlas, por Monsenhor C. Couturior 1
Geographia elementar, por Tancredo do Amaral 1
Geographia do Estado do Minas Geraes, por F. Lentz do Araújo t
Geographia geral (Noções de) por Alfredo Moreira Pinto ... 1
Geograghia geral— Curso superior, por Alfredo Moreira Pinto . 1
Geographia physica do Brazil, por J. E. Wappa?us .... 1
Geographia primaria, pelo Dr. Carlos Novaes 1
Geographia da Província do Paraná (Compendio de), por L. de F. 1
A. e Sá 1
Géographie historiquo, ecclésiastique et oiviie, por D. Joseph
VaisseteT. 11 o 12 t
Geologia elementar, por Nereo Boubéo . . * 1
Geometria pratica (Primeiras noções de,) por Olavo Freire . . í
Geometria superior, pelo Dr. A. F. de Paula Souza .... 1
German grammar (A compendiou s), por W. D. Whitney. . . t
Gigante Adamastor (Episodio do), por Josó Benoliel .... 1
Gomma elástica da mangabeira sylvestre, por A. B. de Uchoa
Cavalcanti (2 Exemplares) 2
Grammatica do economia politica, por W. F. Marriott ... 1
— 367 -
txparaniatica das escolas— Poriodo médio por Miguel Alves Feitosa 1
Graraniatica da língua do Brazil (Arte da), pelo Padre Luiz Fi-
gueira , 1
Gramniatica da língua brazilica da nação Kiriri (Arte do), polo
padre Ij. V. Maniiani 1
Graraniatica portugueza, pelo dr. Augusto Freire da Silva . . 1
Grararaatlca portugueza ( Introducção ao estudo da), por J' Ma-
theus do A, Cardoso 1
Grandes pensadores (0.-^, por Tullio de Campos . » . . . 1
Grèee (La), por Louis Combes 1
Guararapes (Em)— Conferencia pelo dr. Martim Francisco . . 1
Guarda Nacional (Guia pratico para o official da), pelo tenente
coronel Benevenuto Magalhães 1
Guerra do Oriente ^Historia da), por José da Silva Mendes Leal
Júnior 1
Guerra do Faraguay, por Juan Sllvano Godoi 1
Guia das estradas de ferro dos Estados do Rio de Janeiro, Mi-
nas Gsraes e S. Paulo, por Gustavo Koenigswald (4 exem-
plares) 4
Harpa d'ísraol, por F. R. dos Santos Saraiva 1
Hematozoario do beribéri e seu pigmento, pelo dr. F. Fajardo. 1
Herdeiros do Caramurú (Os), polo dr. Donúngos Jaguaribo (íi
exemplares) 6
Heroes (sonetos), por Wenceslau do Queiroz. ...... 1
Hespanhoes no Rio Grande (Os), por Alfredo F. Rodrigues . . 1
Histoire du Brésil, por A. de Boauchamp 3
Histoiíe politique des Papes, por P. Lanfrey 1
Histoire romaine — Republique — por Michelet 2
Histoire uni versei! o, por César Cantu 19
Historia da America Portugueza, por Sebastião da Rocha Pitta. i
Historia da America Septentrional e Meridional 1
Historia antiga, por João Ribeiro 1
Historia antiga do Oriente, por J. M. da Gama Berquó. . . 1
Historia do Brazil (Epitorao da), por A. Moreira Pinto ... 1
Historia do Brazil, por Felisbello Freire 1
Historia do Brazil, por Francisco Solano Constâncio .... 2
— . .%8 —
Historia do Brazil, por João Arraitage . 1
Historia do Brazil, (Bpit^rae da), por José P. Xavier Pinlieiro . 1
Historia do Brazil (Lições de), pelo padre Raphael M. Galanti . 1
Historia do Brazil (Compondio de), peio padre Raphael M. Ga-
lanti— T. 1 1
Historia do Brazil, de Roberto Southey 6
Historia do Brazii, por Sylvio Ronióro 1
Historia da Capitania de S. Vicente (Memorias para a), por Fr.
Gaspar da Madre de Deus 1
Historia do Ceará (Dados e factos para a), pelo dr. Guilherme
Sludart 3
Historia da Fundação do Império do Brazil, por J. M. Pereira
da Silva , . . . 7
Historia e geographia das nações ultramarinas dos domínios
portuguezGS (Noticias para a) 7
Historia da Grécia e Roma, por J. M. da Gama Berquó. . . 1
Historia nacional (indicações sobre a), p r T. de A. Araripe . 1
Historia natural (Noções de), por Felisberto de Carvalho. . . 1
Historia pátria (Episódios da), pelo dr. J. C. Fernandes. Pinheiro 1
Historia da Republica dos Estados Unidos do Brazil (Aponta-
mentos para a), por M. B. de Campos Porto 1
Historia de S. Paulo, por Tancredo do Amaral (4 exemplares) . 4
Historia universal (Compendio de), pelo padre Raphael M. Ga-
lanti 1
Historia universal (Noções de), por A. Moreira Pinto. ... 1
Historia universal (Noções summarias de), por J. M. da Gama
Berquó 1
Historia universal (Resumo da), por * * * 1
Homem no século (O), por Monsenhor Caraillo Passalacqua . . 1
Homens de bem (Arte de formar), pelo^dr. Domingos Jaguaribo
(6 exemplares) 6
Homens e idéas no Brazil, pelo dr. Domingos Jaguaribe. . . 1
Hommes de bien (L'art de former des) pelo dr. Domingos Ja-
guaribe 1
Horace Greeley (The life of), por James Parton 1
Horácio Mann, por Ed* Laboulaye 1
— 369 —
Hospital de Misericórdia de Uberaba (O)— Discurso por António
Boiges Sampaio
Hugonianas—Poesias de Victor Hugo—por Mucio Teixeira . .
Hydrographie de Haut San-Francisco et du Rio das Velhas, por
Eram. Liiais
Hyrano do Centenário da índia, por Fernandes Costa. . . .
Idéa republicana no Brazil (A), pelo major J. D. Codeteira. ,
Idealismos, por Bento Athayde
Ilias, de Homero— T. l — Rhapsodia 1 — XII
Império do Brazil (Historia financeira e orçamentaria do), pelo
dr. L. de C. Carreira
Imprensa em Portugal nos séculos XV e XVI (A), por Brito Aranha
Indicador da capital de S. Paulo— 1895
índice das leis e decretos do Estado de S. Paulo, por Alexandre
Riedel '
índices da lei e regulamento da organização municipal do Esta-
do de S. Paulo, por José Jacintho Ribeiro
índios do Brazil (Principio e origem dos), por Fernão Cardira .
Inseri pçoes em rochedos do Brazil, por Carlos Frederico Hartt .
Institutions de la France (Histoire des), por Paul Bondeis . .
Instituto Civico- Jurídico «Paes de Catvalho> — Artigos publicados
por Virgílio Cardoso de Oliveira
Instituto Histórico e Geographico Brazileiro (O) — Memoria pelo
dr. Olegário Herculano de Aquino e Castro
Instrucçáo moral e civica (Elementos de), pelo dr. J. D. Este-
ves da Silva
Instrucção publica (Lei sobre) — Estado da Bahia
Instrueções para execução do regulamento postal de 1865 . .
Insfcrucções para permutação de fundos (Serviço postai^ . . .
Instrucções sobre serviço telegraphico
Integridade do território Pernambucano (Em prol da), por F. A.
Pereira da Costa , . .
Infeelligencia e moral do homem, pelo dr. Dominges Jaguaribe .
Irmandade do SS. Sacramento da Candelária, por F. B. Mar-
ques Pinheiro
Irmandade do SS. Sacramento da Gloria, por F. B. Marques
- 370 -
Pinheiro 1
Itanhaera {\ villa dc^ por Benodicto Calixto 1
Itinerário das malas terrestres, por Alexandre Ferreira da Costa 1
James A. Garfield (The Life of), por Edmund Kirke .... 1
Jocelyn — Poema de Laraartine — por J. C. de Menezes g Souza. 1
Jornacs Pernambucanos— Do lS2l a 1898— por Alfredo de Car-
valho (2 exemplares) 2
Justiça criminal na capital do Estado de S. Paulo (À), pelo dr.
Cândido Motfca 1
Larvas-Primeiros versos, por Cardoso Júnior l
Lavoura (Em prol da), pelo dr. M. F. Garcia Podendo. ... 1
Lavoura (Pela)-Reforma do Banco de Credito Real-pelo dr, Mi-
randa Azevedo 1
Legislação postal brazileira (Repertório da), por Paulo Orozimbo. 1
Legislação sobre o serviço sanitário do Estado de S. Paulo (Re-
pertoriG da), por Carlos Reis 1
Lei federal n. 35 de I89.i--Estabelece o processo das eleições fe-
deiaes 1
Leis do Brazil-1822 a 1825, 1830 a 1830, 1857, 1863, 1866 a
1870 e 1877 • 24
Leis da Camará municipal de Lorena— 1895 1
Leis e decretos do Estado de S. Paulo— 1889 a 1899 .... S
Leis e posturas da Camará Municipal de Santo António da Boa
Vista 1
Leis o resoluções da Camará Municipal de S. Paulo— 1892 a 1895 . t
Leis e resoluções do Município de Casa-Bran.ia — 1392 a 1891 . 1
Lembrança da festa do Coração de Jesus, pelo cónego M. Vi-
cente da Silva 1
Lendas e canções populares, por Juvenal Galeno 1
Levante na Ribeira do Jaguaribe (Inéditos relativos ao) pelo dr.
Guilherme Studart 1
Libello do povo (O), por Timandro 1
Liberdade profissional (A), pelo dr. A. C. de Miranda Azevedo (4
Exemp.) 4
Lições de coisas de Calkins, pelo dr. Ruy Barbosa 1
Limites entre os Estados do Amazonas e Matto-Grosso. por R.
— 371 —
A. Figueira 1
Limites da Republica com a Guyana Ingleza, por Sylvio iscnior . 1
Litteratura brazilcira (A), por Sylvio Romcro 1
Litteratura infantil, por Artliur Goulart 1
Livrí> pensador (O), por Arcesiláo 1
Livro do democrata (O), por Arcosiláo 1
Livros do leitura, por Felisberto de Carvalho — l.o a 5.«5 . . . 5
Luiz Lasagna (D) — Noticia biographica pelo dr. M. A. Duarte do
Azevedo 1
Lusiad (The;, por W. Julius Micklo 2
Lusíadas (Oa), por Luiz de Camões — Grande edição autographica. 1
Magnetite ore districcs of Jacupiranga and Ypauema, S. Paulo,
Brazil, por Orvillo A. Derby • . • . 1
Manifesto ao Estado do S. Paulo, pelo dr. Campos Sallcs. . . t
Manifesto politico, pelo^dr. Manoel Victorino Pereira .... 1
Manifesto do presideato da Republica Rio-Grandense .... 1
Manifesto republicano parlamentar (2 exemplares) 2
ManoelJosó Alves Barboza (Contra Almirante)— Esboço biogra-
phico 1
Manual do empregado da Intendência de Finanças, por Paulino
Guimarães 1
Manual of metallurgy (A), por W. H. Greenwood 1
Manuscriptos sobre a historia do Ceará— CoUocçao do dr, Gui-
lherme Studart— 2.0 fascículo (2 exemplares) ..... 2
Marquez de Barbacena (Vida do), por António Augusto do Aguiar. 1
Marselheza da paz (A) — (Hymno) 1
Matto-Grosso ao litteral (De), por M. P. Torres Neves ... 1
Máximas o pensamentos, por Benedicto Xavier 1
Medico da primeira infância (0^ por António Ferreira Pinto. . 1
Meio circulante— ('onferencia polo di-. Mattoso Camará . . . t
Memorias de Madame Dorothéa Duprat de Lasserre, por J. Ar-
tliur Montenegro 1
Mensagem ao Congresso do Estado do Amazonas, pelo Governa-
dor Dr. Eduardo Ribeiro— 1893 e 1894 2
Mensagem ao Congresso do Estado do Amazonas, pelo Governa-
dor Dr. Filete Pires Ferreira — 1897 , - 1
— 372 —
Mensagem ao Congresso do Estado do Pará, pelo Governador
Dr. Lauro Sodré— 1892
Mensagem ao Congresso do Estado de S. Paulo, pelo Vice-Presi-
dente Dr. José Alves de Cerqueira César — 1892 ....
Mensagem ao Congresso do Estado de S. Paulo, pelo Presidente
Dr. Bernardino do Campos— 1894 a 1896
Mensagem ao Congresso do Estado de 8. Paulo, pelo Presidente
Dr. Manoel Ferraz de Campos Salles — 1897
Mensagem ao Congresso do Estado de S. Paulo, pelo Viee-Presi-
dente Dr. Francisco A. Peixoto Gomide— 1898 (3 exemplares) .
Mensagem ao Congresso do Estado de S. Paulo, pelo Presidente
Coronel Fernando Prestes de Albuquerque — 1899 e 1900 (4
exemplares)
Mensagem ao Congresso Nacional, pelo Presidente da Republica
Dr. Manoel Ferraz de Campos Salles— 1899 e 1900 . . .
Metallurgy of iron (A treatlse on the), por H. Bauorman. . .
Meteorito de Bendegó (Estudo sobre o), por Orville A. Derby .
Meteoritos brazileiros, por Orville A. Derby
Metrificação portuguoza (Tractado de), por A. F. de Castilho
Minas Geraos e Goyaz (Viagens pelo iaterlor de), pelo Dr. V.
M. de Mello Branco
Minhas crenças e opiniões (As), por Francisco Cunha. . . .
Ministério da Justiça e Negócios Interiores (Noticia histórica dos
serviços,' instituições e estabelecimentos pertencentes ao) .
Minuta de Aggravo, por Argemiro A. da Silveira
Miranda Azevedo (Professor Doctor Augusto César de} — Delegir-
ter der regierung der veroinigten Staaten von Brasilien auf
dem International en Congresse fiir Hygiene und Demographie
Budapest— 1894. (2 Exemplares) 2
Miscellaneas religiosas, por Monsenhor Joaquim Pinto de Campos . 1
Misericórdias (As), por Costa Godolphim 1
Missão de Christo, por Monsenhor Joaquim Pinto de Campos . . 1
Moeda do Brazil— 1645 — 1888 — por João Xavier da Motta . . 1
Moléstia da canna em Pernambuco (Relatório da commissão do
estudo da), por Daniel Henninger ...•,... t
Monographia-do "município da cidade de de S. Paulo, pelo Dr.
— 873 >-
Jeão Mondes de Almeida Jimior 1
Movimento politico de Minas Geraes em 1842 (Historia do), pelo
Cónego J. A. Marinho 1
Mudança da capital federal do Brazil, pelo Dr. D. Jaguaribe
(2 Exemplares) 2
Mudança da capital da Uniao-Resposta ao Dr. Domingos Jagua-
ribe — por L. Cruls 1
Município e a Republica (O), pelo Dr. Domingos Jaguaribe . . 3
Nahuatlismos de Costa Rica,fc>por Juan Fernandez Ferraz. . . 1
Nao-Simples resposta a uma consulta-porEstevam Leão Bourroul.
Nápoles á China (De), por Adolpho Loureiro 1
Narrationes excerpta res memorabiles,de Tito Livio .... 1
Narrativa de serviços no libertar- se o Brazil da dominação por-
tugueza, pelo Almirante Condo de Dundonald 1
Navigation aérienne (Memoire sur un appareil pour la), pelo Dr.
Domingos Jaguaribe . 1
Nepheline rocks in Brazil, por Orville A Derby 2
Ninhos e ovos das aves do Brazil, por H. von Ihering ... 1
No lar, por Álvaro Guerra 1
Numismática (Collecçáo), por A. J. dos Santos Leitão. ... 1
Observações criticas, pelo Padre Senna Freitas 1
Occurrence of Xenotime as an accessory element in rocks, por
Orville A. Derby 1
Olinda conquistada, pelo Padre João Baers (2 Exemplares) . . 2
Or à Minas Geraes, Brésil (L'), por Paul Ferrand 1
Orationos selectae, de M. T. Cicero 1
Orbe seráfico brazileiro (Novo)— ou Chronica dos írades menores
da província do Brazil, por Fr. António de S. M. Joboatam. 2
Orçamento do Estado de S. Paulo (Leis do)— 1897 a 1901 . . 5
Organização judiciaria do Estado de S. Paulo— Discursos pelo
Deputado Dr. Cândido Motta 1
Organização naval— Artigos publicados por Arthur Jaceguay. . 1
Origens chaldeanas do judaísmo (As), por José de Campos No-
vaes ' ^
Origines du christianisme (Histoire des), por Ernest Renan . . 1
Ornithologia paulista, por Gustavo Koenigswald 2
- 374 -
Oyapock (O)- Divisa do Brazil com a Giiyana Franccza—polo
Barão Homem do Mello 1
Pacificação dos Crichanás, pelo Dr. João Barbosa Rodrigues (2
Exemplares) 3
Padres Capuchinhos (Historia da missão dos), pelo Padre Cláu-
dio D'Abboville t
P^rá (Estudos sobro o,, por A. O. N. Vianna 1
Fará e Amazonas — Questão do limites— por José Veríssimo . . 1
Paraguay (La República dei), por Carlos R. Santos 1
Parahyba (Notas sobre a), por í. JoíRly 1
Paraná ( Notice about the State), pelo Engenheiro M. F. F.
Corroa • 1
Paraná (Noticia sobro a Província do) 1
Parteiro (O), por Oscar Leal 1
Pátria, por João Vieira de Almeida 1
Paulista (O), por Austo Easec 1
Pedagogia e methodologia, pelo Padre Camillo Passalacqua . . 1
Pedro, Alvares Cabral— (Poemeto)— por Cardoso Júnior ... 1
Pedras da bexiga (A questão das), pelo Dr. Luiz Pereira Barretto 1
Pedro n (Homenagem do Instituto Histórico e Geographico Bra-
zUeiro á memoria de) 2
Percussão e escuta (Compendio de), pelo Dr. Pires do Almeida. 1
Pestilência da bicha ou males (Documentos para a historia da),
pelo Dr. Guilherme Studart 1
Pétalas, por Arthur Goulart 1
Phonologia portugueza, por Fernando Martins Bonilha Júnior o
Luiz Cardoso 1
Physica (Lições do^, por F. X. O. de Menezes 1
Physics (liossons in elementary), por Balfour Stewait. ... 1
Fhytographia, por Alberto Lofgren 1
Picos altos do Brazil (Os), por Orville A. Derby 1
Planalto central do Brazil — Relatório e Atlas — por L. Cruls. . 2
Plantação, cultura e preparo do chá, por Fr. Leandro do Sacra-
mento 1
Plantio da amoreira no Ceará, pelo Dr. Domingos Jaguaribe. . 1
Politica e os politicos (A), pelo Dr. Domingos Jaguaribe (2 Exem-
~ 37Õ ~
piares) 2
Ponte do S. José do Rio Pardo — Informações e Relatório— pelo
Di\ I, W. da Gama Cochrano 2
Posologia dos medicamentos mais empregados, por J. F. Soares
Romeo 1
Precursores da Republica do Brazil (Os), pelo Major José Do-
mingues Codeceira 1
Presidio do Rio Grande (0). por Alfredo F. Rodrigues. ... 1
Primieias — Poema dos principaes factos da historia do Brszil,
por Joaquim Gil Pinheira 1
Príncipes des societés {Bssais sur les premiers), por P. Garreau. 1
Producção e consumo de café no mundo, por Joaquim Franco de
Lacerda 1
Programraas do ensino da Escola Normal do S. Paulo ... 1
Programmas do ensino do Gymnasio de S. Paulo 1
E'rojocto do Código Penal (Parecer sobro o) — Instituto da Ordem
dos Advogados Brasileiros 1
Iromptuario commercial, civil e militar, por L. do F. Almeida
e Sá 1
í^rotostantes da França (Historia dos), por G. do Félico ... 1
Prova de consideração (Uma) — Lever de rideau — por P. A. Go-
ra-os Cardira 1
Província do Rio Sapucahy (A), pelo Senador Dr. J. Floriano do
Godoy . . 1
Psyclioses, por Carlos Coelho "í-
Quadro histórico da Província de S. Paulo, pelo Brigadeiro José
Joaquim Machado do Oliveira. . 1
Quadros históricos da guerra do Paraguay. — I — O combato naval
de Riaehuelo. II— A rendição de Uruguayana 1
í^ucra descobriu o Brazil?— por Cândido Costa 1
Questão de limites brazileira — Argentina, pelo Barão de Rio
Branco ^
Questione italiana ai Brasile (La) por Ausonio Latini .... 1
Questions contemporaínes, por Ernesto Renan 1
Qíiio/iO de Novembro (O), por Sacramento Macuco 1
Eamal de Agua Vermelha da Companhia Paulista 1
— 87d -
Rapport aunuel fait à la Societé Asiatique, por Ed. Chavannes. 1
Razões flnaes, de appellação, embargos, etc, por diversos . . 28
Recorda(,'Ões da Alleraanhã, pelo Dr. A. Las Casas dos Santos . 1
Recuerdos, por Francisco B. O' Connor 1
Reflexão e refracçao da luz.— Saes. AfiQnidade— pelo Dr. Ed-
mundo Xavier 1
Regimento interno da Escola Polytechnica de S. Paulo ... 1
Regimento interno das Escolas Complementares do Estado de
S. Paulo 1
Regimento interno das escolas publicas do Estado de S. Paulo . 1
Regiões araazonicas (As), pelo Barão de Marajó 1
Róglement des postes de TEmpire du Brésil 1
Regulamento dos Correios do Brasil 2
Regulamento da Escola Normal de S. Paulo 1
Regulamento da Escola Polytechnica do S. Paulo 1
Regulamento da Estrada de Ferro de Bragança ÍPará) ... 1
Regulamento dos U-ymnasios do Estado de S. Paulo .... 1
Regulamento dos hospitaes de isolamento do Estado de S. Paulo 1
Regulamento do Instituto Civico — Jurídico <Paes de Carvallio>
(Pará) ._ 1
Regulamento para obras publicas do Estado de S. Paulo. . . 1
Regulamento da Repartição de Terras do Estado do Amazonas . 1
Regulamento da Secretaria do Interior do Estado de S. Paulo . 1
Regulamento do Serviço Sanitário do Estado de S. Paulo . . 1
Regulamentos sobre instrucção publica do Estado de S. Paulo
(Leis e) 2
Reise in Brasilien, pelo Dr. J. B. von Spix e Dr. C. F. von Martius 2
Relatório da Associação Commercial de S. Paulo — 1900 ... 1
Relatório do Banco União de S . Paulo — 1891 1
Relatório da Caixa Económica da Capital Federal 1
Relatório da Caixa Económica de S. Paulo— 1896 a 1899 . . 4
Relatório da Camará Municipal da Parahyba do Sul — 1895— por
L. T. Leite 1
Relatório á Camará Municipal de S. Paulo — 1893 e 1894— pelo
Dr. Pedro Vicente de Azevedo 2
Relatório da Camará Municipal de S. Paulo— 1897 — por A. P.
— 377 —
Rodovalho
Relatório á Caraarar Municipal de S. Paulo — 1898 — por A. F.
Rodovalho (2 Exemplares) .
Relatório da Camará Syndical dos Corretores de S. Paulo-— 1895
Relatório da ( hefia de Policia de S. Paulo — 1878— pelo Dr. Joa-
quim de Toledo Piza Almeida
Relatório da Chefia de Policia de S. Paulo-— 1893 e 1894 — polo
Dr. Theodoro Dias de Carvalho Júnior
Relatório da Chefia de Policia deS. Paulo— 1895— polo Dr. Ben-
to Bueno
Relatório da Commissão Geographica e Geológica de S. Paulo—
1894— pelo Chefe Dr. Orviile A. Dorby
Relatório da Commissão de Saneamento do Estado de S. Paulo
—1897— pelo Chefe Dr. Alfredo Lisboa
Relatório da Companhia E. de Ferro Leopoldina — 1897 . . .
Relatório da Companhia Melhoramentos de S . Simão — 1893 . .
Relatório da Companhia Sorocabana — 1890
Relatório da Companhia Viação Paulista— 1898. ....
Relatório dos Correios do Brazil— 1880 — pelo Director Wilkens
de Mattos
Relatório dos Correios do Brazil— 1889— pelo Director Dr. L. B.
Paes Leme
Relatório dos Correios do Brazil — 1892 e 1893— pelo Director Dr.
D. Silveira Lobo
Relatório dos Correios do Brazil — 1894— pelo Director Dr M. F.
Vieira de Mello
Relatório dos Correios do Brazil — 1895— pelo Director Dr. E.
Victorio da Costa
Relatório dos Correios do Brazil— 1899— pelo Director A. Pires
de Souza
Relatório do Departamento das Finanças do Estado do Amazo-
nas— 1897— pelo Secretario Dr. A. J. da Costa ....
Relatório do Departamento da Industria do Estado do Amazonas
— 1897— pelo Secretario J. M. Ribas
Relatório do Departamento da Industria do Estado do Amazonas
—1898— pelo Secretario A. de C. Palhano
- 378 -
Relatório do Departamento do Interior do Estado do Amazonas
— 1897— p3lo Secretario Major Pedro Freire í
Relatório da Directoria do Seerviço Sanitário do Estado do S.
Paulo— 1894— pelo Dr. .1. J. da Silva Pinta Júnior. . . t
Relatório da Escola da Bella Cintra (Capital), pelo Professor João
Francisco Bellogarde 1
Relatório da Escola Normal de S. Paulo — 1895 — pelo Director
Gabriel Prestes 1
Relatório da Fazenda do S. João da Montanha (Piracicaba) . . 2
Relatório da Inspoctoria do Ensino do Estado da S. Paulo — 189I>
— polo Inspector Geral Dr. Mário Bulcão 1
Relatório da Inspectoria de Terras e Colonização do Estado do
Minas Gcraes — 1898 — polo Dr. Carlos Prates t
Relatório do Instituto Cívico— Jurídico "Paes de Carvalho' '(Pará>,
peio Dr. Virgílio Cardoso de Oliveira t
Relatório do Instituto da Ordem dos Advogados Brazileiros— 1894
a 189 j— pelo 1.° Secretario Dr. M. A. do S. Sá Vianna . 3
Relatório da Intendência de Finanças do Município de S. Paulo
— 1897 — pelo Intendente A. P. Rodovalho 1
Relatório da Intendência Municipal de Ribeirão Preto — 1896— pelo
Intendente Dr. J. Estanislau da Silva Gusmão .... t
Relatório da Intendência de Policia o Hygieno do Município de
S. Paulo — 1898 — pelo Intendente Dr. J. A. do Siqueira Bueiio. 1
Relat(;rio do Ministério da Fazsnda — 1893— polo Ministro Dr. Fran-
cisco de Paula Rodrigues Alves 1
Relatório do Ministério da Fazenda— 1897 o 1893 — pelo Ministro
Dr. Bernardino de t'ampos . 4z
Relatório do Ministério da Industria, Viação o Obras Publicas- —
1893— pelo Ministro Dr. António Francisco de Paula Souza. 2
Relatório do Ministério da Industria, Viação e Obras Publicas —
1895 o 1895 -pelo Ministro Dr. António Oiyntho dos Santos
Pires ^
Relatório do Ministério da Industria, Viação o Obras Publicas —
1897— polo Ministro Dr. Joaquim Murtinho 2
Relatório do Ministério da Industria, Viação o Obras Publicas—
1898— pelo Ministro Dr. Severino Vieira 1
— 379 —
Relatório do MinUterio da Justiça— 1837— polo Ministro G . A . A.
Pantoja 1
Relatório do Ministério da Justiça e Negócios Interiores— 1893—
pelo Ministro Dr. Fernando Lobo 1
Relatório do Ministério da Justiça e Negócios Interiores — 1895 —
pelo M inistro Dr. António Gonçalves Ferreira .... 1
Relatório do Ministério da Jusjtiça e Negócios Interiores— 1896 —
pelo Ministro Dr. Amaro Cavalcanti 1
Relatório do Ministério da Justiça o Negócios Interiores -1899 —
pelo Ministro Dr. Epitacio Pessoa 1
Relatório do Ministério das Relações Exteriores— 1890 — 1891 ~
pelo Ministro General Quinttno Bocayuva (2 Exemplares) . 2
Relatório do Ministério das Relações Exteriores — 1895 — pelo Mi-
nistro Dr. Carlos A. de Carvalho 1
Relatório do Ministério das Relações Exteriores — 1897 e 1898 pelo
Ministro Dr. Dionísio E. de C. Cerqueira 3
Relatório da Repartição do Estatística e Archivo do Estado de
S. FauIo--1893 a 1897— pelo Director Dr. António do Tole-
do Piza 5
Relatório da Reqartiçao Geral dos Telegraphos— 1894— pelo Di-
rector Geral F. M. de Souza Aguiar 1
Relatório da Repartição Geral dos Tolegrapbos — 1898 — pelo Di-
rector Geral Álvaro Joaquim do Oliveira 1
Relatório da Secção do Deraographia do Estado do S. Paulo —
1896— pelo Director Dr. Jaymo Serva 1
Relatório da Secção do Obras da Intendência Municipal de S.
Paulo- 1894— por J. F. Ortiz 1
Relatório da Secretaria da Agricultura, Commercio e Obras Pu-
blicas do Estado do Minas Geraes— 1898 o 1899— pelo Se-
cretario Dr. Américo Werneck 2
Relatório da Secretaria da Agricultura, Commercio o Obras Pu-
blicas do Estado de S. Paulo 1892 a 1894 pelo Secretario
Dr. Jorge Tibiriçá ^
Relatório da Secretaria da Agricultura, Commercio e Obras Pu-
blicas do Estado de S. Paulo 18.^5 o 1893 pelo Secretario
Dr. Theodoro Dias de Carvalho Júnior 2
— 880 —
Relatório da Secretaria da Agricultura, Coraraercio e Obras Pu-
blicas do Estado de S. Paulo— 1898— e i899 pelo Secretario
Dr. Alfredo Guedes (2 Exemplares) 4
Relatório da Secretaria da Agricultura., Industria, Viaçáo e Obras
Publicas do Estado da Bahia I89ó polo Secretario J. A.
Costa 1
Relatório da Secretaria da Fazenda do Estado deS. Paulo— 1897
a 1899 pelo Secretario Dr. João Baptista de Mello Peixoto. 3
Relatório da Secretaria de Finanças do Estado do Rio de Janeiro
—1898 a 1900 — pelo Secretario Dr. João Rodrigues da Costa 3
Relatório da Secretaria do Interior do Estado de S. Paulo — 1894
—pelo Secretario Dr. Cesário Motta Júnior 2
Relatório da Secretaria do Interior do Estado de S. Paulo — 1895
-pelo Secretario Dr. Alfredo Pujol 2
Relatório da Secretaria do Interior do Estado de S. Paulo— 1896
— pelo Secretario Dr. António Dino da Costa Bueno (8 Exem-
plares)] 3
Relatório da Secretaria do Interior do Estado de S. Paulo — 1897
—pelo Secretario interino Dr. João B. de Mello Peixoto . 1
Relatório da Secretaria do Interior do Estado de S. Paulo— 1898
-^pelo Secretario Dr. José Pereira de Queiroz 1
Relatório da Secretaria do Interior e Exterior do Estado do Rio
Grande do Sul— 1898— pelo Secretario Dr. João Abbot . . 1
Relatório da Secretaria do Interior e Justiça do Estado do Rio
da Janeiro — 1898 — pelo Secretario Dr. M. A. Silva Campos, 2
Relatório da '^.ecretaria do Interior e Justiça do Estado do Rio
de Janeiro — 1899 -pelo Secretario interino Dr. Hermogenio
P. da Silva 1
Relatório da Secretaria da Justiça do Estado de S. Paulo— 1894
— pelo Secretario Dr. João Alvares Rubião Júnior ... 1
Relatório da Secretaria da Justiça do Estado de S. Paulo — 1896
—pelo Secretario Dr. Carlos de (Jarapos 1
Relatório da Secretaria da Justiça do Estado de S. Paulo--1897
— pelo Secretario Dr. Josó Getulio Monteiro (5 Exemplares) 5
Relatório da Secretaria da Justiça do Estado de S. Paulo — 1898
— pelo Secretario interino Dr. José Pereira de Queiroz . . 1
— 381 —
Relatório da Secretaria de Obras Publicas e Industrias do Esta- 1
do do Rio de Janeiro— 1899— pelo iSecretario Dr. Hermogenio
P. da Silva 1
Relatório da Secretaria de Obras Publicas e Industrias do Estado
do Rio de Janeiro~l900— pelo secretario Dr. Virgílio Fran-
klira de Almeida Liraa 1
Relatório da Sociedade Portugueza de Beneficência de S Fualo
- 1899— pelo Conde de Joaquim 1
Relatório do Tribunal de Contas (Federal)— 1899— pelo Presidente
Dr. Didimo Agapito da Veiga. l
Religiões da Lusitânia, por J. L. de Vasconcellos — Vol. 1 . . 1
Religions (Histoire pittoresque des), por B. T« B. Clavel. . . 2
Repertório jurídico do mineiro, por Francisco Ignacio Ferreira . 1
Repertório das leis de S. Paulo — 1876 a 1889, por Alberto Souza
e Josó Jaclntho Ribeiro 1
Repertório da Revista do Instituto Histórico e Geographico Bra-
zileiro relativo aos volumes 1 a 59 1
Republica federativa no Brazil (A), Por A. F de Paula Souza . 1
Resgate do papel-moeda, por Alexandre Góes (3 Exemplares) . 3
Retraite de Laguna (La), por A. d'EscragnolleTaunay. ... 1
Revelação histórica (Uma), por Benedicto G. de Moura Lacerda. 1
Revista da Academia Cearense- T. 11—1897 1
Revista Agrícola (S. Paulo)— 1895 a 19oO 4
Revista do Archivo do Município da Capital da Bahia — N. 1 . . 1
Revista do Archivo Publico Mineiro— 1895 a 1899 4
Revista Braziloira— 1879 a 1881 10
Revista Brazileira— 1895 a 1899 19
Revista Contemporânea— \nno 1, N. 8-9, 1900 1
Revista da Escola Polytechnica (Rio de Janeiro) 24 fascículos) . 24
Revista de Estudos Livres — Anno I e II 2
Revista Industrial (New-York — Vol. 1 a 5 2
Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano. 4
Revista do Instituto do Ceará 1
Revista do Instituto Geographico e Histórico da Bahia ... 6
Revista do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro ... 53
Revista do Instituto Histórico, Geographico e Bthnographico do
— 382 —
Pará— N. 1 1
Revista da Instituto da Ordem dos Advogados Brazileiros— 1862
a 1893 5
Revista do Jardim da Infância (S. Paulo) 1895 e 1898 ... 2
Revista do Museu Paulista — Vol. I a IV 4
Revista Pedagógica— 1890 a 1893 4
Revista Pharmaceutica (S. Paulo)— 1895 a 1899 5
Revista da Sociedade de Geographia do Rio de Janeiro — 1885 a
1900 8
Revista Util, pelo dr. Domingos Jaguaribe — Vol. II e III (2
exemplares) 4
Revolução de Minas Geraes em 1842 (Historia da) 1
Revolução do Pernambuco em 1817 (Historia da), por F. Muniz
Tavares 1
Rcvolution françaiso (Histolro do la), por J. Micholet .... 9
Rhipsalis megalantlia, por Alberto Lõfgren 1
Rio Grande do Sul, por Gustavo Koenigswald (2 exemplares) . 2
Rio de Janeiro (A cidade do) — Estudos de hygicnc — pelo dr. T.
Tapajós t
Rio do Janeiro (O), pelo dr. Moreira do Azevedo 2
Rio de Janeiro et Minas Geraes (Voyage dans los provinces de),
por A. de Saint-Hilaire 2
Rivista delia Massonoria (S. Paulo)— N. 1 1
Rochas nepholinas do Brazil, por Orvillo A. Derby .... 1
Romola, por George Eliot 1
Rozas, Francla y Melgarejo, por Thomas 0'Connor. .... 1
S. Paulo e Minas Geraes (Limites entre), por Orville A. Derby . 1
S Paulo o Minas Geraes (Questões de divisas entre), por A. P.
(10 exemplares; 10
Saint Paul, por Ernest Renan l
Salinas no Estado de S. Paulo (As), por Ad. Ovidi (3 exemp.) . 3
Saneamento da cidade e porto do Santos, por E. A. Fuertes —
Relatório (2) o Atlas 3
Saneamento do porto o cidade de Santos, pelo dr. I. W. da
Gama Cochrane 1
Saneomento de S. Paulo, pelo dr. I. W. da Gama Cochrane. . 1
— 383 —
Saneamento de S. Paulo, polo Dr. Torquato Tapajós (2 Exem-
plares 2
Saneamento de Santos, pelo engenheiro F. S. Rodrigues Briío . 1
San Paolo, por Gustavo Koenigswald (3 Exemplares) .... 3
Santos, pelo Dr. Alfredo Moreira Pinto 1
São Paulo, por Gustavo Koenigswald 1
São Paulo (Era) — Notas do viagem— por Junius 1
Saraeens (The), por Ed. Gibbon e S. Oekley t
Saúva ou Manhii uára, por A. G. de Azevedo Sampaio ... 1
Scioncias naturaes e physicas, polo Di. F. R. Fernandes ... 1
Serzedello Corrêa (Biographia do Dr.)— Homenagem do povo pa-
raense 1
Silva Jardim — Apontamentos biographicos— por José Leão. . . 1
Eocicdado Brazileira para Animação da Criação e Agricultura —
Actas e estatutos o relatório de 1896-1897 2
Sociedade Cooperativa do Bom Estar, pelo Dr. Dominp:os Jagua-
ribe. * 1
Sul de S. Paulo (O) — Contribuição para o estudo da geographia
desta zona, pelo Dr. Domingos Jaguaribo 1
Systcma métrico— Tabeliãs para conversão 1
Tabeliã das gratificações aos agentes do Correio para 1895 a 1897. l
Tabeliãs destinadas aos engenheiros, por Alfredo Lisboa ( 4
Exemplares 4
Tachcometria (Elementos de) — Cleps— por A. F. de Paula Souza. 1
Tarifas da Estrada de Ferro de Bragança (Pará) 1
Tejo a Paris (Do), por Oscar Leal 1
Telegrapho óptico da cidade do Santos (Novo roteiro do). . . 1
Ter as devolutas do Estado do S. Paulo (Leis sobre) .... 1
Terras do propriedade do Dr. Domingos Jaguaribe, por Theodo-
ro Sampaio t
Théatre antique d' Aries (Monographie du) por Louis Jacquerain. 2
Thcse do concurso á cadeira de portugucz da Escola Normal
do S. Paulo, pelo Dr. J. Thomaz de Aquino 1
Theses par.» conferencias nos districtos escolares do S. Paulo
(2 Exemplares) 2
Traç(;s biographicos, por Amâncio Pereira 1
- 384 -
Trechos clássicos para versões 1;
Três grandes capitães da antiguidade (Histiria dos) — Alexandre,
Annibal o César, pelo Dr. César Zama 1;
Três grandes oradores da antiguidade (Traços biographicos e po-
líticos dos) — Péricles, Deraosthcues e Cícero, pelo Dr. Cezar
Zama 1
Tribí.litas do grez de Ereré e Maccurú (As), por John M. Clarke. 1
Tro! icale (Le)— Canti araericani — por Alessandro Sfrapíini . . 1
União municipal - Conferencia pelo Dr. Domingos Jaguaribe . . 1
Uorainí e cose dei Brasile, por Alessandro d'Atri 1
Urina do doente de febre amarella (A), pelo Dr. J. Bonilha de
Toledo 1
Várzea do Carmo (A) — Pareceres (2 Exemplares) 2
Vasco da Gama— Discurso pelo Dr. João Monteiro 1
Vasco da Gama e a Vidigueira, por A. 0. Teixeira de Aragão. 1
Velhice de Camões (A), por G. de La Landelle 2
Viação do Brazil (Indicador geral da) — 1898 — por J. Cateysson. 1
Viagem a um paiz de selvagens, por Oscar Leal 1,
Viagem ao redor do Brazil, pelo Dr. J. S. da Fonseca ... 2
Viagem á roda do meu quarto, por Xavier de Maistre. ... 1
Viagens e captiveiro entro os selvagens do Brazil, por Hans
Staden 1.
Vida domestica (Noções de), por Félix Ferreira 1'
Videiras americanas, pelo Dr. E. A. Goeldi ,1
Villa Americana (Questão de), por António de Moraes Barros . t
Villa Jaguaribe nos Campos do Jordão 1
Villa Rica— Poema — por Cláudio Manoel da Costa t'
Vocabulário brazileíro, por Braz da Costa Rubim t
Vocabulário Sul Rio-Grandense, pelo Dr. J. Romaguera Corrêa. 1
Voyage au Brésil, por Madame e M. Louis Agassiz .... 1,
IMPRESSOS AVULSOS
Alvará de 10 de Março de 1732 ordenando que de todo o Estado do-
Brazil não vão mulheres para Portugal sem licença do rei.
- 385 -
Alvará de ^5 de Janeiro de 1809 ordenando que se nao passem car-
tas de concessão ou confirmação de sesmarias sem preceder me-
dição e demarcação judicial.
Biograpliia do marechal Floriano Peixoto— Homenagem do povo pau-
lista.
Decretos de 1821 sobre soldos e etapas a officiaes e praças do exer-
cito do Brazil (5 decretos).
Demonstração do movimento commercial e marítimo da Republica
Argentina com o porto de Santos durante o anno de 1897.
Lei de 20 de Março de 1735 ordenando que na navegação para o
Brazil das ilhas adjacentes ao reino de Portugal se não exceda
o numero de navios que só lhes é permittido por seus privilégios
e estabelecendo regras e penas.
Mappa genealógico, histórico, chronologico, diplomático e litterario do
reino de Portugal e seus domínios antigos e actuaes.— Pariz, na
Typographia de Casimir, Rue de la Vieille Monnaie, 12 (10 exem-
plares).
Petição ao rei de Portugal por D. Luiz Amónio de Souza sobre pro-
cedimento da Companhia de Jesus, acompanhada dos Alvarás re-
lativos ao asdumpts — 1765.
Privilégios concedidos aos mamposteiros e pedidores da casa e igreja
de Santo António de Lisboa— 1760.
Privilégios que gosam os ministros, ofiBciaes, thesoureiros mores e me-
nores 4a bulia da Santa Cruzada— 1692.
Proclamação do Brigadeiro Raphael Tobias de Aguiar aos Paulistas
em 1842.
Programma dos festejos promovidos pela Sociedade Commemoradora
do 4.0 Centenário do descobrimento do Brazil de S. Vicente— 1900.
Projecto apresentado ao Senado Brazileiro em Agosto de 1880 pelo
Dr. Joaquim Floriano de Godoy estabelecendo as divisas entre
S. Paulo e Minas Geraes.
Regimento para os confederados na devoção da adoração perenne do
SS. Sacramento, instituida na Bahia em 1693, por occasião da
epidemia da bicha.
- 386 —
MANUSCRIPTOS
Breve noticia do Capitão João Baptista Machado, polo Coronel Antó-
nio Borges Sampaio.
Carta imperial apresentando o Padre António Luiz Braz Prego na
na Igreja parochial de N. S. da Conceição da villa de Santa Crnz^
Provinda o Bispado de Goyaz. — Passada aos 3 do Junho do 1856.
Carta imperial nomeando Cavalloiro da Ordem de Christo o Padre
António Luiz Braz Prego, Vigário coUado da parochia do Santa
Cruz, na Província de Goyaz. — Passada aos 20 de Agosto dr» 1873
Chronicas do Cuyabá ou Relação chronologica dos estabciecimentos,
factos e successos mais notáveis que aconteceram nestas minas
do Cuyabá desde o seu estabelecimento por ordem da rainha
Notsa Senhora, expedida pelo seu Tribunal do Conselho Ultra-
marino em 20 do Julho de 1782— por Joaquim da Costa Siqueira.
Edital da Camará Municipal de Sorocaba, de 6 de Dezembro de 1817,
sobre eleição de dois juizes ordinários e um procurador da Ca-
mará para o anno de 1818 e sobre correição no municipio.
Expulsão dos Jesuítas e causa que tiveram para ella os Paulistas
desde o anno de 1611 até o de 1640 em que os lançaram fora
de toda a capitania de S. Paulo e S. Vicente.
Livro de assignatura dos visitantes do Club Republicano de S. Paulo,
Ojficio, de 2 do Maio ne 1759, assignado por Sebastião Joseph do
Carvalho e Mello, na ausência de D. Luiz da Cunha, enviando
a Pedro da Costa Salema a carta regia dirigida ao Papa a res-
peito dos Jesuítas.
Officio, de 8 de Junho de 1842, do Director da Academia do Direita
de S. Paulo, Dr. J. M. de Avellar Brotero, ccmmunicando ao
Lente Dr. João Chrispiniano Soares que poderia ler no dia 11,
visto retirar- se daquelle estabelecimento a tropa que ali se achava
aquartelada.
Officios, notas, informações, respostas a questionários, etc. enviados
ao Dr. Alfredo Moreira Pinto por auctoridades e raunicipalidados
do Paiz.
Oração fúnebre á memoria do Padre Diogo António Feijó, por Cân-
dido José da Mottá.
Panegyrico de Pombal.
- 387 -
Papois e planta sobre a descoberta da pedra corameraorativa da de-
claração da Independência do Brazil, na collina do Ypiranga.
Plano para a remessa de tropas para o Sul, de Martim Lopes Lobo
de Saldanha— 15 de Abril de 1777.
Processo instaurado em S. Paulo contra os implicados na revolução
do 1842. (Autos originaes — 4 volumes).
Processo instaurado contra o Senador Diogo António Feijó por mo-
tivo da revolução de 1842. (Traslado — 1 volume).
Relação geral da diocese do S . Paulo, suas comarcas, freguezias, côn-
gruas, usos e costumes, pelo Bispo de S. Paulo Fr. Manoel da
Ressurreição, em 14 do Setembro de 1777.
Successos da Provincia de Santa Cruz que vulgarmente se chama
Brazil.
Viagem do Capitão António Dias Baptista Prestes e seu irmão Manoel
Dias Baptista Prestes desta Provincia de S. Paulo á Provincia
do Cuyabá, em 21 de Abrii de 1851.
MAPPAS
Carta da Bahia organizada pelo Engenheiro Theodoro Sampaio (Tre-
cho da) -Extractado pela Superintendência de Obras Pnblicas do
Estado de S. Paulo— 1897.
Carta chorographica da Capitania de S. Paulo em que se mostra a
verdadeira situação dos logares por onde se fizeram as seteprln-
cipaes divisões do seu Governo com o de Minas Geraes— 1766.
Carta gcographica que comprehendo toda a comarca do Rio das Mor-
tes, Villa Rica e parte da cidade de Marianna do Governo de Mi-
nas Geraes.
Carta geographica do Estado de Minas Geraes—Organizada pela Com-
missão Geographica e Geológica do dito EStado-Folhas ns. 1 a 6,
8 e 10.
Carta geographica do Estado do S. Paulo— Organizada pela Coramissão
Geographica e Geológica do dito Estado — Folhas do S. Paulo,
Barra de Santos, Campinas, Jundiahy e Atibaia.
Carta do Recôncavo da Bahia-Org,anisada pelo Dr. Theodoro Sam-
paio -1899.
- 388 —
Carta topographica da Colónia de Surinara (Guyana Hollandeza), por
A. A. Von Lavaux— 1715.
Chart of the < oast of Brazil frora port Santos to the River riate (A
new) — Drawn from the iatest surveys, by J. W. Norie— 1834.
Chart of the River la fUata from its raouth up to Buenos- '^yres — Sur-
veyed by order of the king of Spain ( \ new)— 1832. Additions, 1852.
Chart of the Western Coast of Africa extending from Sierra Leone
and the Isles de Los to the Cape of Good Ilope — 1834. Addi-
tions, 1844.
Map of British Colurabia, showing the Klondike, Cariboo, Kootonay,
and other goLiflelds (Special).
Map of China, Korea and Japan (Special).
Map illustrating the Spanish-American war (Special).
Map of the Nile from its moiith to Kartum (New) — Illustrating the
operations of the Bgyptian Arniy in the Sudan.
Map of the North-Western Frontier— With a map showing the over-
land routes to ludia, and a military map of the índia Empire— 1897.
Mappa da Capitania de Minas Geraes com a devisa de suas comar-
cas-1778.
Mappa chorographico da Província de S. Paulo, pelo Marechal Daniel
Pedro Muller-1837.
Mappa chorographico cie parte da Província de S. Paulo, organizado
em vista do resultado das explorações mandadas fazer pelo Barão
de Antonina em 1844 e 1845.
Mappa dos Estados Dnides do Brazil — Desenhado e gravado sob a
direcção do Barão de Rio Branco— 1895.
Mappa geral da America do Sul Organizado por Henrique o Ricardo
Kiepert e revisto na parte relativa ao Brazil o publicado por
Gustavo Koenigswald-1893.
Mappa geral da viação férrea dos Estados do Rio de Janeiro, S.
Paulo e Minas Geraes, por Gustavo Koenigswald-1893.
Mappa da guerra no Rio Grande de Sul — Suas principaes operações —
pelo Tenente Francisco Rath e Coronel Bento Porto.
Mappa indicando a situação de cidades, villas e distinctos de paz do
Estado de S. Paulo até o fim do anno de 1897— Organizado por
Canuto Thorman— 1898.
~ 389 -
Mappa parcial dos Estados de S. Paulo e Minas Geraes com indica-
ção de todas as estradas de ferro era trafego e em construcção,
etc— Organizado pelo Engenheiro Arthur H. 0'Leary— 1893
Mappa terrestre e marítimo— Paraná, S. Paulo e Eio de Janeiro— por
Jules Martin.
Mappa do theatro da guerra do Paraguay, pelo Dr. Carlos Daniel
Rath.
Mappa topographico da Província do Paraná— Organizado pelo Enge-
nheiro Carlos Kivierre — 1876.
Mappa dos trabalhos preliminares para o traço ue um tramroad entre
as colónias de Cananéa e Assunguy, pelo Engenheiro Raymundo
Pennaforte A. do Sacramento Blake.
Mappa da viagem de ida e volta nos três Estados do Sul do Brazil
do revolucionário Gumercindo Saraiva e logar de sua morte, pelo
Capitão José Scutari— 1894.
Mappa da zona do rio Ribeira, pelo Dr. Ernesto Guilherme Young.
Planta da cidade de S. Paulo levantada pelo capitão de engenheiros
Rufino José Felizardo e Costa em 1810 — Reproducção de Jules
Martin.
Planta da cidade de S Paulo, por Hugo Bonvicini— 1895.
Planta da cidade de S. Paulo com indicação do eixo dos encanamen-
tos para o serviço de illuminaçâo a gaz e dos limites da decima
urbana — 18i:)(j.
Planta geral da capital do S . Paulo — Organizada sob a direcção do
Dr. Gomes Cardim— 1897.
Planta geral da cidade de Minas— Organizada pela Commissão Cons-
tructora da nova capital do Estado de Minas Geraes sob a di-
recção do engenheiro Aarão Reis.
Planta da parte urbana, da cidade de Minas designada para 30.000
habitantes — 1895.
Planta indicando o logar, na coUina do Ypiranga, onde foi assentada
a pedra commemorativa da independência do Brazil, pelo Dr.
Carlos Daniel Rath.
Planta de Villa Boa, capital da capitania de Goyaz, levantada no
anno de 1782 pelo Governador e capitão general Luiz da Cunha
Menezes. (Reproducção photographica) .
— 390 —
JORNAES
Aurora (A)— Sorocaba.
Brazilian Bevieiv {The)— Rio de Janeiro.
Brim (A)— S. Paulo.
Capital Paulista — S. Paulo.
Ceciliana—S. Paulo.
Cammercio de S. Faulo [O) — S. Paulo.
Correio do Amparo,
Correio do Avare.
Correio Faiilistano — S. Paulo.
Diário Offlcial do Estado de S. Paulo
Diário Popular — S. Paulo.
Diário de Santos.
Diário de Taubaté.
Ensaio (O) — Pindamonhangaba.
Estado de S. Panlo (O) S. Paulo.
Estreita (A) — Corityba .
Farol Paulistano [0} — S. Paulo.
Folha do Braz — S. Paulo.
Gazeta de No íícías— Rio de Janeiro.
Gazeta Fopalar — S. Paulo.
Gazeta de Uberaba.
Governista (O) — S. Paulo.
ImiJerio (O) — S. Paulo.
lyistrucção Popular— S), Paulo.
Iracema — S. Paulo.
Jornal do Oommercio — Rio de Janeiro.
Jornal de Taubaté,
Lavoura e Commercio — S. Pauio.
Madrugaria (A) — Lisboa.
Municipio (O) — S. Paulo.
Isação (A) — S. Paulo.
Noite (Ay— S. Paulo.
Novidades — S. Paulo.
Novo Farol Paulistano— S. Paulo.
Observador Constitucional — S. Paulo.
Ondma-^S. Paulo.
— 391 ^
FauUsta Offkial (Oj— S. Paulo.
Flatca (A)— S. Paulo.
Folichinello — S. Paulo .
Repórter (O) — Ribeirão Preto.
Repnblica — Rio de Janeiro.
Revista do P«míuí— Corityba .
Santos Commerciul—Sa.ia.tos .
Temps (Le)— Paris.
Thema (O)--S. Paulo.
Verdade e Luz — S. Paulo.
Vicentino — S . Vicente.
AUCIllVO
Retratos, estampas e photographias existentes em 25 de Outu-
bro de 1900.
RETRATOS
Arcebispos da Bahia.
Cariot) Gomes.
Cesário Motta Júnior (Dr.)
Euzebio de Queiroz CM. Camará.
Floriauo Peixoto (Marechal).
Germano do Annecy (Frei).
Jean Maurice de Nassau.
Libero Badaró.
Luiz de Camões.
Luiz Gama.
Pedro de Souza Holstein (D.) -Marquez do Palmella.
Prudente José de Moraes Barros (Dr.)
Tiradentes— J. J. da Silva Xavier.
Visconde do Rio Branco.
William Ewart Gladstone.
ESTAMPAS E PHOTOGRAPHIAS
Aerostato de invenção do Dr. Domingos Jaguaribe.
Antiga Gloria (Cam>3ucy).
— 392 —
Colombo embarcando era Hespanha e desembarcando na America.
Ediflcios da cidade de S. Paalo em 1810 (Alguns).
Esquadra hollandeza em Pernambuco— 1628.
Exterior e interior da Bgreja do Collegio fS. Paulo).
Fachada, entrada e salas da Bibliotheca Publica de S. Paulo.
Monumento commemorativo da independência da Bahia (Bahia).
Monumento a Gonçalves Dias (Maranhão).
Monumento á memoria de Varnhagem (Morro Araçoyaba em Ypane-
ma— S. Paulo).
Ponte de S. José do Rio Pardo (S. Paulo).
Quadro commemorativo do centenário do Brazil — Trabalho das offlci-
nas do Lyceu do Sagrado Coração — S. Paulo.
Quadro commemorativo da inauguração do Viaducto do Chá (S. Paulo).
Quadro da correspondência das horas entre as capitães dos Estados
do Brazil e a cidade do Rio de Janeiro.
Ruinas da antiga villa de Santo André (S. Paulo).
MEDALHAS E MOEDAS
RECEBIDAS NO ANNO DE 1900, QUE ACCRESCEM AOS CATÁLOGOS PUBLICADOS
Offerta do sr. Hermann A. Reipert:
4 Cédulas.
4 Medalhas.
81 Moedas de cobre.
2 Moedas de nickel. ^
22 Moedas de prata.
Oflfertas de diversos :
Medalha commemorativa do anno santo.
Medalha commemorativa da campanha do Paraná.
Medalha commemorativa do centenário do Brazil— Cunhada no Rio
de Janeiro.
Medalha commemorativa do centenário do Brazil— Distribuída pelo
Instituto Histórico e Geographico Brazileiro.
Medalha commemorativa do centenário do Brazil — Distribuída por
Julius Meili.
Medalha commer^orativa da inauguração da estatua do Duque de Caxias.
Moeda portugueza de cinco róis.
393 —
Quadro
DOS SÓCIOS ACCEITOS NO ANNO DK 1900
NOMES
CATEGORIA
DATA
DA
ACCEITAÇÃO
Dr. Augusto Carlos da Silva
Telles
Horace E. Williams ....
João Varapré
Augusto Álvaro de Carvalho
Aranha
Manoel Pio Dias í^ereira Corrêa.
António Ferreira Neves Júnior .
General Conselheiro Francisco
Maria da ('unha
António Alexandre Borges dos
Reis
Henrique Raffard
Bernardo de Azevedo da Silva
Raraos
Dr. Thomaz Garcez Paranhos
Montenegro
Dr. José de Mesquita Barros .
Dr. João Baptista de Moraes .
Major Paulo Pinto Auto Ran-
gel
José Jacintho Ribeiro.
Dr. Dinamerico Augusto do Re-
go Rangel
Dr. Arthur Vautier ....
Dr. António Cândido Rodri-
gues
Dr. Carlos de Arruda Sam-
paio
Dr. Luiz Porto Moretzsohn de
Castro
Dr. Galeno Martins de Almei-
da
Dr. Sérgio Meira
Effectivo
5
Correspondente
19
Honorário
fi
Effeí^tivo
Honorário
5
>»
)i
,,
Correspondente
EíTectivo
4
M
>>»
"
5
Correspondente
20
>»
t*
Eftectivo
>>
25
»»
Correspondente
»
Abril
Maio
M
J»
Julho
»
Agosto
Setembro
>•
Outubro
RELAÇÃO GERAL
DOS
MEMBROS DO INSTITUTO
EM 31 DE DEZEMBRO DE 1900
SÓCIOS FUNDADORES
Sócia fundador benemérito
1 Dr. Orvillo A. Derby.
Sócio fundador honorário
2 Dr. Prudente José de Moraes Barros.
Sócios fundadores effectivo3
3 Alberto Lofgren.
4 Dr. Alexandre Florindo Coelho.
.5 Alexandre Riedel.
6 Dr. Alfredo Ellis.
7 Dr. Alfredo Rocha.
8 Dr. António Carlos R. de Andrada M. e Silva.
9 Dr. António Dino da Costa Bueno.
— 395 —
10 Dr. António Evaristo Baceliar.
11 Dr. António Francisco do Araújo Cintra.
12 Dr. António Francisco de Paula Souza.
13 Antanio Moreira da Silva.
14 Dr. António Pereira Prestes.
15 Dr. António da Silva Prado.
18 Dr. António de Toledo Piza.
17 Prof. Arthur Goulart.
18 Augiísto César Barjona.
19 Dr. Augusto César de Barros Cruz.
20 Dr. Augusto César do Miranda Azevedo.
21 Dr. Augusto do Siqueira Cardoso.
23 Dr. Benedicto Estellita Alvares.
23 Dr. Bento Bueno.
24 Dr, Bernardino de Campos.
25 Dr- Braulio Gomes.
2S Br. Cândido Nazianzeno Nogueira da Motta.
27 Dr. Carlos do Campos.
28 Dr. Carlos Reis.
29 Dr. Cincinato Braga.
30 Dr. Clementino de Souza e Castro.
31 Dr. Constante Aftonso Coelho.
32 Dr. Domingos José Nogueira Jaguaribe.
33 Eduardo Carlos Pereira.
34 Sranianuel Vanorden.
35 Dr. Ernesto de Moraes Cohn.
36 Dr. Eugénio Alberto Franco.
37 Eugénio HoUender,
38 Dr. Fergo 0'Connor de Camargo Dauntre.
39 Dr. Fortunato Martins de Camargo.
40 Dr. Francisco Ferreira Ramos.
41 Francisco Ignacio Xavier do Assis Moura.
4'i Dr. Francisco Martiniano da Costa Carvalho.
43 Dr. Francisco de Paula Ramos de Azevedo.
44 Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves.
45 Dr. Gabriel Osório de Almeida.
— 396 —
46 Tenento-coronol Gabriel Prestes.
47 Dr. Gabriel de Toledo Piza e Almeida.
48 Dr. Gustavo Koenigswald.
49 Tonente-coronel Henrique Aftonso de Araújo Macedo.
50 Henry White.
51 Dr. Herraann von Ihering.
52 Dr. Horace M. Lane.
53 Horácio de Carvalho.
54 Dr. Hyppolito de Camargo.
55 Dr. Ignacio Wallace da Gama Cochrane.
56 Dr. Jayme Serva.
57 Dr. João Alvares Rubião Júnior.
58 Dr. Joáo Neporauceno Nogueira da Motta.
59 Dr. João Nogueira Jaguaribe.
60 Dr. Joáo Pedro da Veiga Filho.
61 Dr. João Pereira Monteiro.
62 Dr. João Ribeiro de Moura Bscobar.
63 Padre Joaquim Soares de Oliveira Alvim.
64 Dr. Joaquim de Toledo Piza e Almeida.
65 Coronel Joaquim de Toledo Piza e Almeida.
66 Dr. Jorge Tibiriçá.
67 Dr. José Alves de Cerqueira César.
68 Dr. José Alves Guimarães Júnior.
69 José André do Sacramento Macuco.
70 Dr. José Baptista Pereira.
71 Dr. José Cardoso de Almeida.
72 Dr. José Eduardo de Macedo Soares.
73 Dr. José Estacio Corrêa de Sá o Benevides.
74 Dr. José Ferreira Garcia Redondo.
75 José Francisco Soares Romeo.
76 Dr. José de Sá Rocha.
77 Dr. José Valois de Castro.
78 Dr. José Vicente de Azevedo.
79 Dr. Jullo César Ferreira de Mesquita.
80 Dr. Luiz de Anhaia Mello.
81 Dr. Luiz de Toledo Piza e Almeida.
I
— 397 —
82 Dr. Manoel Álvaro de Souza Sá Vianna.
83 Dr. Manoel António Duarte de Azevedo.
84 Dr. Manoel Ferraz de Campos Salles.
85 Dr. Manoel Ferreira Garcia Redondo.
86 Manoel Marcellino de Souza Franco.
87 Dr. Manoel de Moraes Barros.
88 Dr. Manoel Pereira Guimarães.
89 Dr. Manoel Pessoa de Siqueira Campos.
90 Dr. Martim Francisco Ribeiro de Andrada Sobrinho.
91 Dr. Martinho Prado Júnior.
92 Dr. Mathias Valladão.
?'3 Dr. Oscar Schwenk d'Horta.
94 Dr. Pedro Augusto Gomes Cardim.
95 Dr. Pedro Vicente de Azevedo.
93 Dr. Raymundo Fartado Filho.
97 Dr. Rodolpho Pereira.
98 Tancredo Leite do Amaral Coutinho.
99 Dr. Theodoro Dias de Carvalho Júnior.
100 Dr. Theodoro Sampaio.
101 Theophilo Barboza.
102 Comraendador Thoraaz Paulo do Bom Successo Galhardo.
103 Tiburtino Mondim Pestana.
104 Dr. Vicente Liberalino de Albuquerque.
105 Dr. Virgílio de Rezende.
106 Dr. Viriato Brandão.
107 Dr. Wencesláu de Queiroz.
— 398 —
SÓCIOS HONORÁRIOS
N O M E S
Data da admissão
1 Barão Homera de Mello
2 Bellarmino Carneiro
3 Barão de Paranapiacaba
4 Barão do Rio Branco .
5 Dr. Georges Ritt.
6 Dr. Alexandre J. de Mello Moraes Filho .
7 Dr. Sylvio Romcro
8 Dr. Tristão de Alencar Araripe ....
9 Dr. Tristão de Alencar Araripe Júnior. .
10 Dr. Joaquim Francisco de Assis Brazil
11 Dr. Frederico Augusto da Silva Lisboa .
12 Dr. Augusto Freire da Silva
13 Dr. Olegário Herculano de Aquino o Castro
14 Dr. Affonso Celso Júnior
15 Jules Martin
16 Padre Raphael M. Galanti
17 Dr. Manoel Duarte Moreira de Azevedo .
18 Cons.» Augusto Carlos Teixeira de Aragão
19 Jalius Meili
20 D. Martin Garcia Mérou
21 Dr. Joaquim Aurélio Nabuco do Araújo .
22 Dr. João Capistrano de Abreu ....
23 Dr. João Barbosa Rodrigues
24 Dr. Jolm C. Branner
25 General Francisco xMaria da Cunha . .
26 Bernardo de Azevedo da Silva Ramos. .
27 Henrique Raffard
28 Dr. Thomaz Garcez Paranhos Montenegro
Junho
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Maio .
Fevereiro
Março .
Setembro
Abril .
Julho .
Outubro
Julho .
Outubro
Maio .
Julho .
1895
1895
1895
1895
1895
1895
1895
1895
1895
1895
1895
1896
'897
1897
1897
1897
1898
1898
1898
1898
1898
1899
1899
1899
190o
1^00
1900
1900
— 399 —
SÓCIOS EFFECTIVOS
NOMES
•Data da admissão
9
10
11
12
13
14
15
W
17
18
19
20
21
h
24
25
x'6
27
29
31
:^2
33
34
35
:-!6
37
38
39
40
41
42
Dr. Jorge Maia
Dr. Ernesto Guilherme Young . . .
Dr. Luiz Pereira Barrotto ....
Dr. Alfredo de Toledo (*)
Dr. Raymundo P. A do Sacramento Blake(*
Dr. Alfredo Pujol
Dr. Eduardo da Silva Prado. . . .
Dr. Álvaro Augusto da Costa Carvalho
Dr. Francisco Eugénio de Toledo .
Dr. António Augusto xMoreira de Toledo
I>r. Francisco Franco da Rocha. . .
Bencdicto Galvão de Moura Lacerda .
Dr. José de Campos Novaes (*). . .
Dr, João Baptista do Oliveira Penteado
Dr. Luiz Frederico Rangel de Freitas .
José Hippolyto da Silva Dutra (*) . .
João Vieira do Almeida (*) ....
Arcediago Dr. Francisco do Paula Rodrig. (*
Cónego Manoel Vicente da Silva . .
Dr. António Gomes 1'armo ....
Monsenhor Caraillo Passalacqua. . .
Dr. Ji sé Getulio Monteiro ....
Professor Christiano Volkart. .
Dr. Affonso Arinos do Mello Franco
Dr. José Vicente do Azevedo Sobrinho.
Dr- Tullio de ( ampos
Dr. Brazilio Augusto Machado de Oliveira
Dr. Pedro Augusto Carneiro Lossa (*) .
Dr. Francisco de Faula Santos Rodrigues (*
Dr. João António do Oliveira Cosar (*).
Dr. João Diogo Esteves da Silva .
Coronel António Borges Sampaio . .
Dr. Augusto Carlos da Silva Telles. .
Horaco E. Williams
João Vampró
Augusto Álvaro de Carvalho Aranha .
António Alexandre Borges dos Reis. .
Dr. João Baptista de Moraes. . . .
Major Paulo Pinto Auto Rangel. . .
José Jacintho Ribeiro ......
Dr. Carlos de Arruda Sampaio . . .
Dr. Luiz Porto Moretzsohn de Castro .
Junho
Agosto
Setembro
Outubro
Março
Abril
>>
Agosto
Abril
Maio
Julho
Março
Abiil
Junho
Agosto,
Setembro
Abril
Maio
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
1895
1895
1895
1895
1895
1895
1895
1897
1897
1897
1897
1897
1807
1897
1897
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1899
1899
1899
1899
1899
1899
1899
1899
1899
1899
1901)
1900
lU30
190O
1900
190O
1900
1900
1900
1900
(*)— '"«s sócios cujos nomes estão seguidos deste signal foram admittidos no Instituto
como sócios correspondentes nas datas mencionadas, tendo sido transferidos para a cate-
goria de effectivos em sessão de b de í^evereiro de 19U0.
— 400 —
SÓCIOS CORRESPONDENTES
NOMES
Data da admissão
I
^
3
4
n
f)
7
8
9
10
11
V2
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
2Í)
30
31
32
33
34
35
36
37
H8
39
40
41
Dr
Dr
Dl"
Dr Ernecito Goulart Penteado . .
Francisco Corrêa de Almeida Moraes
Dr. Luiz Gonzaga áa. ^ilva Leme .
Uionysio Caio da Fonseca . .
Coronel Agostinho José Moreira Rollo
Dr. José Estanlslau de Arruda Botelho
Dr. João Alves Corrêa do Amaral.
Cândido de Carvalho . . .
Amadeu Amaral ....
Dr. Bernardo Morelli.
Álvaro Augusto de Toledo
Joaquim Monteiro de Mello
Manoel Dias de Aquino e Castro
Dr. José Roberto L^^ite Penteado .
Ur. Joí>é Pereira do Queiroz. . .
Dr. Euclydes da Cunha ....
Camillo Cresta
Josô Honório de Sillos ....
Dr. Francisco Marcondes de Gouvêa
vidade
Dr. Bernardo de Campos. . . .
José Gomes dos Santos Guimarães.
Dr. António Augusto Gomes Nogueira
Dr. 4oâo Baptista de Mello Peixoto
Dr. Francisco de Toledo Malta . .
Dr. Rodolpho Viiranda
Dr. João Francisco Malta Júnior .
Dr. Aristides Salles
Victor da Silva Freire Júnior .
António Manoel Bueno do Andrada
Dr. António Alves de Carvalho
Dr. Arthur M. Cortines Laxe
Francisco Nicolau Baruol. .
Dr. Carlos Augusto de Freitas Villalva
Dr. José Maria Bourroul.
Jesuino da Silva Mello ....
Dr. Luiz Felippe Gonzaga de Campos
Dr. Manoel Pedro Monteiro Tapajós
Dr. Eugénio de Andrade Egas . .
Dr. José Maria Lisboa Júnior . .
Dr. Carlos Ekman
Dr. Llantidio T. de Figueiredo Bretãs
Nati
Dr.
Dr.
Junho .
Outubro
Maio .
Junho .
Fevereiro
Março
Abril
Maio
Julho
Julho
Agosto
Outubro
Abril
Maio
Julho
1895
1895
1896
1896
18^6
1896
1897
1897
.897
1897
1897
1897
1897
1897
I8w7
1897
1897
1897
1897
1897
1897
1^97
1897
1897
1897
1897
1897
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
401
NOMES
Data da admissão
42 Dr. Jorge Krichbaura
43 Dr. Mário Bulcão
44 Dr. Delfim Carlos Bernardino e Silva . .
45 Paulo Orosirabo de Azevedo
46 Dr. Luiz Augusto Nogueira
47 fJoão Vieira da Silva
48 Dr. .íosé Calmou Nogueira ValledaGaraa
49 Dr Carlos Augusto Pereira Guimarães .
50 Professor Aprigio Carlos de Macedo .
51 Dr. Alberto Carlos de Assumpção .
52 Dr. Virgílio do Sá Pereira
53 Dr. ')osé Custodio Alves Lima ....
54 Cons.o Bernardo Avelino Gavião Peixoto .
55 Dr. Fernando de Albuquerque ....
5(5 Commeddador Eugénio Leonel Ferreira .
57 Professor João von Atzingen
58 Dr. Samuel das Neves
59 Dr. Estevam Ribeiro de Souza Rezende (Ba-
rão de Rezende. .
60 Dr. loaquim Campos Porto
61 Dr. Manoel ' orrêa Dias
6*2 Dr. Pedro Arbues da Silva
63 Tobias António Rosa .
64 Dr. Uladislau Herculano de Freitas .
65 Dr Affonso Regulo de Oliveira Fausto .
66 Dr. António de Paria Tavares . . - .
67 Dr. António Martins Fontes ríunior. . .
68 Dr. ( arlos Ribeiro do Moura Bscobar . .
69 Dr. Firmiano de Moraes Pinto ....
70 Dr. Ignacio Pereira da Rocha ....
71 Dr. ioão Alves do Lima
72 Dr. Ioão ' esar Bueno Bierrenbach. . .
73 Dr. Ioão Eboli
74 ioão Florindo
75 Dr. José Maneei de Azevedo Marques . .
76 Dr. José Pinto do Carmo Cintra. . . .
77 A. L. Garraux
78 Dr, José Marcondes de Andrade Figueira
79 Professor Alfredo Bresser da Silveira. .
80 Dr. José Aranha
81 Dr. 'osé Vieira Couto de Magalhães Sob.o
82 Malachias Ghirlanda
83 Dr. António do Pádua Salles ....
84 Dr. Cleofano Pitaguary de Araújo . . .
85 Dr. Eduardo da Cunha Canto ....
Julho .
Setembro
Outubro
Outubro
Março
»»
Abril
>>
i>
Junho
Julho
Agosto
I)
Setombri
>>
Setembro
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
1898
!8'r)9
1899
1899
1899
1899
1899
1899
1899
1899
1899
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— 4Ò2 —
NOMES
Data da admissão
86
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88
89
90
91
92
93
94
95
95
97
93
99
100
Dr. Joaquim Álvaro de Souza Camargo .
Dr. José Aristides Monteiro
Dr. José Leito de Souza
Dr. José Rodrigues Peixoto
Dr. Oscar do Almeida
Tenente-Coronel Felicio de Campos Cintra
Major Luiz de Vasconeello?
António Ferreira Neves Junior ....
Manoel Pio Dias Pereira Corrêa. . . .
Dr, .'osé de Mesquita Barros
Dr. Dinamerico Augusto do Rego Rangel.
Dr. António < andido Rodrigues..
Dr. Arthur Vautier ......
Dr, Galeno Martins de Almeida. . . .
Dr. Sérgio Meira
Outubro
20 1 Setembro
áo;
20Í
20
20
25
25
19: Maio .
I9j "
4j Agosto.
5 'Setembro
201 " .
20| " .
25: Outubro
25|
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1900
190O
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1900
190(>
190o
1900
RELAÇÃO DOS SÓCIOS FALLECIDOS
Dr. Severino de Freitas Prestes . . .
Dr. Aureliano do S. Oliveira Coutinho
Dr. Martinho de Freitas Vieira de Mello.
Dr. Cesário Motta Junior
Dr. Joaquim José de Menezes Vieira.
Dr. Carlos Daniel Rath
José Ferraz de Almeida Junior
António Augusto da Fonseca ....
Fundador
Honorário-
Fundador
Honorário
Fundador
BALANÇO
DA
RECEITA E DESPESA
DO
Insliluto Histórico c Gcographico de S. Paulo
FECHADO EM 25 DE OUTUBRO DE lOOO
RECEITA
Saldo (leraonstrado no balanço apresentado cm 25 do
Oatubro de 1899 fíuá^SQO
Annnidades de sócios— 4l a 24^000 984^000
Jóias e annuidades~13 a 74$000 962g000
Sabvençáo do Estado, votada pelo Congresso Legislativo
para este anno 6:000j?C0O
Frodueto da venda em leilão de um mostrador envidra-
çado 17^00
Idem de venda dos apparelhos de luz eléctrica da casa
do Largo da Sé 150^000
Idem do 1 exemplar da Revista 8$000
10:836jJ7!3n
— 404 —
DSEPBSA
Aluguel da casa do Largo da Sé (Outubro a Dezembro
de 1899 e Janeiro de 1900)— 4 mezes a 310)^0000. . 1:240$000
Idem idem (1 de Fevereiro a 31 de Agosto de 1900)— 7
mezes a 250JS(000 1:750^000
Gratificação ao zelador (Outubro a Dezembro de 1899 e
Janeiro a Outubro de 1900)— 13 mezes a 60^(000. . 780$000
Encadernação de 12 volumes do Jornal do Commercio e
Gazeta de Noticias e de diversos volumes de livros,
talões para recibos, carimbos e outros objectos para
a secretaria e thesouraria 488P00
Impressão do 4.o volume da Revista 4:150)^000
Porcentagem ao cobrador pelo recebimento de jóias e
annuidades I94j$!600
Flores, lavagens da casa, vassouras, espanador, sólios
para a correspondência, estampilhas e despesas miú-
das I05j${000
Importância de diversas contas pagas á Companhia Agua
e Luz, Companhia Industrial, EspindoU, Siqueira &
Comp, Pinto, Leal & Comp., Estado de S. Paião,
Camará Municipal, Casa Garraux, Cardoso, Maga-
lhães Barker & Comp., etc, pelos fornecimentos fei-
tos, panno para a mesa, escarradeiras e moringas,
aluguel de cadeiras e tapetes, etc, 1:601^460
Transporte de livros e moveis da casa do Largo da Só
para a actual sede social 56$000
Conta de Caetano Apostólico, importância de serviços e
materiaes por occasião da mudança para a casa
actual 283j5!700
10:643$760
— 405 —
RESUMO
Receita 10:866$760
Despesa I0:643jt;760
Saldo nesta data '. Z 226^000
Sendo :
Em conta corrente no Banco de Credito Real de S. Paulo. 14P00
Em mao do thesoureiro . . 208$700
Somma ........... 223pÕÕ
S. Paulo, 25 do Outubro de 1900.
O thesoureiro,
António de Toledo Piza.
Balancete da receita e despesa de 1 de Novembro a 31
de Dezembro de 1900
RECEITA
Saldo demonstrado no balanço apresentado pelo
ex- thesoureiro em 25 de Outubro p.p. .
Jóias e l.as auMuidades dos sócios :
Professor Christiano Volkart ....
Dr. Joaquim Álvaro de S. Camargo . .
Annuidades dos sócios :
Dr. Francisco de F. Rodrigues Alves— 1900
Dr. José Alves Guimarães Júnior— 1900.
José Francisco Soares Romeo — 1900 .
Dr. José E. de Macedo Soares — 1900. .
Dr. Theodoro D. de Carvalho Júnior— 1898 a
1900
Alexandre Riedel— 1899
Tiburtino Mondim Pestana— 1899 e 1900.
Dr. Fergo 0'Connor de C. Danntre— 1899 e
Dr. Cândido N. N. da Motta— 1900 . .
Dr. Álvaro Augusto de Toledo— 1899. .
1900
223^000
74^000
74j$(000 148)5(000
24jS(000
24S000
24$000
24j$(000
I20í$(000
24p00
4Sj$(()00
48j$(000
24 55(000
24g000 384^000
755gÕÕÕ
— 406
DESPESA
TTelegrarama ao Ministro Argentino
Aluguel de cadeiras para a sessão magna do 1 de No-
vembro
Aluguel das salas onde funcciona o Instituto e respectiva
illuminação, no prédio n. 1-A da rua General Carnei-
ro, relativo aos mezes de Setembro e Outubro de 1900
Gratificação ao zelador relativa aos mezes do Novembro e
Dezembro de 1900
Porcentagem ao cobrador
Estampilhas para dois requerimentos ao Governo, sellos
para a correspondência e expedição da obra de Hans
Staden a jornaes, associações, estabelecimentos, etc.
16^20
430;gOOO
1.20$00()
31^18^
697^700
RESUMO
Eeceita" 7õ5$^000
Despesa 697^700
Saldo nesta data òTpQO
Sendo :
2so Banco do Credito Eeal do S. Paulo . . . 14^300
Em mâo do abaixo assignado 43^000 òlpOO
S. Paulo, 31 de Dezembro de 1900.
O tliesoureiro,
Carlos Rei&,
I'