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Full text of "Revista do Instituto histórico e geográfico de São Paulo"

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VOLUME XI 



1906 




SAO FAULO 

TYPOGRAPHIA DO DIÁRIO OFFICIAL 
1907 



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índice do volume XI 



A Revolução de 7 de Abril de 1831 e seu alcaisCe Pag, 
POLITICO — pelo dr. J. C. Gomes Ribeiro. ... 3 

O 7 de Abril — pelo dr. Eunapio Deiró. .... 15 

O ESTADO DO Direito entre os autochtones do Brasil 

— pelo dr. Carlos Frederico Philippe von Martius . 20 

Reminiscências hístoricas Período Regencial— pelo dr. 

João Baptista de Moraes 83 

Geographia astronómica — Determinavão do meridiano, 
da latitude b da longitude do Observatório 
Astronómico na Avenida Paulista n 215 e da 
orientação geographica do Mappa da Capital 
DO Estado— pelo dr. Eduardo Loschi ... 106 

Município de Iguape — Estudo «cientifico jior M. Pio Corrêa 117 

Índios do Itarari — por M. Pio Corrêa. . . ... 155 

Parecer sobrhj o trabalho do sr. Leôncio A. Gurgkl 
— Genealogia do dr. Manoel Ferraz i*e Campos 
Salles — pelos drs. Luis Gonzaga da Silva Leme, 
Alfredo de Toledo e Augusto de Siqueira Caidoso 157 

Viagem ao interior do Brasil nos annos de 1814-1815 

— pelo naturalista G. W. Freireyss 158 

A ETHNOLOGiA DO Brasil Meridional - pclo piof. dr. Her- 

mann von Ihering . 229 

O General Couto de Magalhães e a proclamação da 
Rv publica — pelo dr José Vieira Couto de Maga- 
lhães 237 

O Padre Feijó— pelo dr. Estevam Leão Bourroul. . 249 



— 11 — 

Um programma politico em 1834— redigido pelo revd*. pa- Pag, 
d re Diogo Feijó e e dr. Miguel Archanjo Ribeiro, de 

Campinas . . 261 

Descobrimento do Brasil — Noticia sobre o livro 
impresso mais antigo que existe, descrevendo este 
acontecimento — pelo dr. José Carlos Rodrigues. 268 
A Ethnographia da America do Sul ao começar o 

SÉCULO XX— pelo dr. Paulo Ehrenreicb .... 280 
Documento imp rtantb — Sobre a Anselmada» • . . 306 
A Bandeira do Brasil — pele dr. Eurico de Góes. • 315 

Ratificação histórica — pelo coronel Henrique A . de 

Araújo Macedo • . . . 369 

Memoria qur mostra a origem da villa de Santos e seu 
estado presente (1809) — pelo Capitão inór Francisco 

Xavier da Costa Aguiar 386 

A Bandeira Nacional (Notas db uma conferencia) — 

pelo prof. José Feliciano 390 

Discurso do orador dr. José Torres de Oliveira, na 

sessão anníversaria 407 

Necrologia. • 419 

Conselheiro Aquino e Castro 421 

Dr . Martinho Prado Júnior 424 

Dr. Paulo Egydio 429 

Actas das sessões realizadas durante o anno de 1906 433 
Relatório dos trabalhos e occurrencias no anno de 

1906, apresentado pela Directoria 457 

Balancete da receita e despesa de Abril a Dezembro 

DB 1906 . 460 



REVISTA 



DO 



Instituto Histórico e Geographico 



DE 



SÂO PAULO 



_ 4 — 

Para estes, o único e verdadeiro patriota, naquella jornada 
gloriosa, foi o monarcha que renunciou a coroa para poupar o 
derramamento do sangue brazileiro, tão pouco poupado aliás 
pelas celebres commissões militares por elle próprio creadas ! 

Admira ver~se entre os sustentadores da espontaneidade da 
abdicação o dr. J. M. de Macedo, que, em seu «Anno biogra- 
phico» (vol. S." pag. 234), diz textualmente : «Não ha quem 
ponha em duvida que, si o imperador quizesse a 6 de Abril, 
resistir á revolução e combatel-a, teria de seu lado, pelo menos^ 
uma parte dos corpos militares ; e ninguém havia então, nem 
houve depois, que não desse testemunho da coragem e da bra- 
vura de d. Pedro I, elle porém não quiz appellar, nem consen- 
tiu que se appellasse para o emprego da força armada, e não 
honra pouco sua memoria o ter poupado o sangue que se der- 
ramaria, na capital do Impeiio e nas províncias» . 

O conselheiro A. N. Menezes V. de Drummond, antigo 
diplomata, amigo de José Bonifácio e contrario como este, á 
revolução de 7 de Abril, diz, em suas Memorias, o seguinte : 

« Si o Imperador d. Pedro I foi constrangido a abdicar ou 
si foi elle mesmo quem voluntariamente e muito de proposita 
provocou essa abdicação, é isto o que não está bem esclarecido». 

Refere depois um facto que se passou em Londres, em No- 
vembro de 1830, do qual coUige a seguinte illaçào : 

« O imperador enganado e illudido por falsos amigos (que 
planejavam a união de Portugal e Hespanha, dando -lhe o throna 
peninsular) precipitou elle mesmo um acontecimento, que não 
podia deixar de ser deplorável para elle e para o Brazil». 

O sr. M. A. Porto Alegre, em sessão do Instituto Histórico 
e Geographico Brazileiro, fazendo o elogio do conselheiro Manuel 
António Galvão, refere que, em fevereiro de 1831, indo aquelle 
conselheiro para Minas, e encontrando-se na viagem com o im- 
perador, que seguia o mesmo destino, neste lhe fez a conúdencia 
da resolu(, ão de abdicar a coroa, logo que voltasse a capital» . 
{Rev. do Inst. H. Tomo 15. pag. 540). 

Outros allegam que d. Pedro concebera de ha muito o plana 
da abdicação, aproveitando o movimento para realizal-o, com o 
íito de dedicar- se á defesa dos interesses dynasticos de sua íilha^ 
ameaçados por d. Miguel. 

A' vista de tão desencontradas versões, como justificar-se a 
espontaneidade da resolução de d. Pedro ? 

Foi o seu movei, a generosidade e o amor ao povo brazi- 
leiro, ou íbi a ambição de uma dupla coroa, que realizaria o sonho 
grandioso da União Ibérica, ou foi apenas ura rasgo de amor 
paternal que assegurasse no throno portuguez a dynastia de 
Bragança ? ! 

E' impossível resolver-se esse problema psychologico, for- 
mulado pelos idolatras de Pedro I, para deturparem o caracter 
e o patriotismo dos vultos eminentes da épocha, rehabilitando e 



— 5 — 

«endeusando o auctor criminoso da di>solução da Constituinte, esse 
attentado inexpiavel e sem exemplo, na nossa historia ! 

Em contrario a tão extranhas affirmações, que deprimem o 
■caracter brazileiro e instam por uma rectificação completa e fun- 
damentada, passamos a demonstrar a nossa these inicial, e para 
isso, estul aremos, por partes, cada uma daquellas affirmações. 

A revolução de 1830 em França, que, como se sabe, apeou 
do tbrono a dj^nastia hourbonica, na pessoa de Carlos X, reper- 
cutiu profundamente em toda a Europa, fazendo surgir em muitos 
Estados a reacção liberal contra os principios e instituições da 
Tetrogada Santa AUiança, a filha querida e acalentada por Met- 
ternich, em ódio á hegemonia da França no continente 

O abalo do movimento democrático propigou-se sobretudo á 
Hespanha, Portugal e Itália; como pois, não chegaria elle ao 
Brazil, cuja situação politica interna atravessava uma crise te- 
merosa e intolerável na èpocha ? 

A velha metrópole abria afinal os braços aos politico» influ- 
enciados pelas idéas victonosas em França, e o próprio d. João 
VI jurava a constituição liberal de 1822, bem a contra^-osto. 

Pedro I, consciente dos graves erros e attentados que com- 
mettêra contra o paiz, trahindo o seu compromisso solenne no 
Ypiranga, pela dissolução da Constituinte, pela creação das com- 
missões militare-', pela manutenção do «Gabinete secreto» pelo 
favoritismo dos auíicos cumulados de distincções e pela conser- 
vação dos corpos de soldados extrangeiros mercenários e muitos 
outros attentados idênticos, deliberou uma excursão a Minas, 
para tentar reconquistar a popularidade perdida, confiado na se- 
ducção de suas maneiras cavalheirosas e no seu porte de fidalgo 
complacente e accessivel ao povo do interior, não affeito ao brilho 
fátuo dos ouropéis da realeza. 

W notório o insuceesso de tal tentativa : os dobres a fina- 
dos, pelas exéquias, em muitas cidades mineiras celebradas, era 
memoria de Badaró, e a derrota do ministro Silva Maia vieram 
convencer d. Pedro que os tempos do suggestivo brado : In- 
depenchncia ou Morte com as reservas mentaes da impatriotica 
união futura com Portugal, já haviam passado, não podendo 
voltai mais, perdida de uma vez, como se achava, a confiança 
nas promessas de um constitucionalismo sempre ludibriado e 
mentido, por parte do cDefens^r Perpetuo do Brazil». 

A volta ao Rio de Janeiro em Fevereiro de 1831, foi o 
pretexto para as maiores violências contra os brazileiros de to- 
da a classe, aos quaes a facção dos aulicos e a população luzi- 
tana da capital denominavam, com intuito deprimente, os ca- 
bras, os mulatos. 

Na reacção natural e irreprimível contra taes attentados 
de extrangeiroí* ingratos victimando os filhos do paiz, desam- 
parados do apoio das auctoridades e até mesmo por estas per- 
seguidos, foram presos três officiaes brazileiros ! 



_ 6 — 

A irritação dos finiraos, a indignação mais profunda explo- 
diu, como era natural, entre os i)roprios representantes da na- 
ção, que, reunidos em casa do padre J. Custodio Dias, em 
numero de 23 deputados e um senador, fizeram redií^ir por 
Evaristo Ferreira ca Veijça, a celebre representação ao impera- 
dor, que ó um documento histórico de elevado valor politico, 
pois revela a solidariedade de vistas de seus signatários, a co- 
ragem, a moderação e a simultânea energia com que todos el- 
les se propunham a debellar a crise, salvando o paiz. 

Foi esse documento o manifesto eloquente e leal da revo- 
lução. 

Com a entrega delle ao monarcha foi de facto iniciada e 
declarada aquella revolução ! 

Contém elle, entre outros trechos significativos, estes : 

«Senhor, os sediciosos, á sombra do augusto nome de V. 
M. Imperial e Constitucional, continuam na execução de seus 
planos tenebrosos, os ultrage^ crescem, a nacionalidade sofiVe, 
e nenhum povo tolera, sem resistir, que o extrangeiro venha 
impor-lhd no seu propno j^aiz, um jugo ignominioso. , . 

Esta linguagem, senhor, é franca e leal ; ouça-a V. M. I. 
e C, persuadido de que não são os aduladores que salvam os 
impérios, sim aquelles que têm bastante força d'alma para di- 
zerem aos principes a verdade, ainda que esta os não lisongêe. 

A ordem publica, o repouso do estado, o throno mesmo, 
tudo está ameaçado, si a representação, que os abaixo assignados 
respeitosamente dirigem a V. M. I. e C, não fôr attendida e 
os seus votos completamente satisfeitos». 

Faz recordar-nos essa peça politica o manifesto da impren- 
sa liberal de Paris, em 1830, publicado no Nacional^ por Thiers 
e Armand Carrel, e que foi o toque de clarim, que levantou o 
povo em massa contra o governo de Carlos X. 

As adhesões ao manifesto dos deputados foram se genera- 
lizando ; as forças militares foram pouco a pouco se confraterni- 
zando com aquelles, tendo á sua frente os brigadeiros F. de 
Lima e Silva, J. J. de Lima e Silva e Manoel da Fonseca 
Lima e Silva, officiaes patriotas e de prestigio. 

O novo ministério de 19 de Março, frouxo e tibio, compro- 
metteu ainda mais a situação, pois desagradou a todos, e nada 
conseguiu fazer em bem da ordem, pelo que Pedro I, encora- 
jado á ultima hora pela chegada de um batalhão mercenário 
de caçadores, vindo de Santa Catharina, demittiu, na tarde de 
5 de Abril, o ministério de 19 de Março, e nomeou o denomi- 
nado na historia Ministério dos Marquezes, comjjosto de sena- 
dores retrógrados e absolutistas, entre os quaes o conhecido 
marquez de Paranaguá, Villela Barbosa, o violento ex-ministro 
do Império do gabinete de 10 de Novembro de 1823, execu- 
tor do acto nefando da dissolução da Constituinte ! 

Como era fatal, a nomeação desse ministério foi recebida 



\ 



— 7 — 

como uma provocação aos brios da Nação, e desde logo começon 
a aíiluir o povo ao Campo de Sant'Anna, para onde também foram 
convergindo forças que adberiam ao movimento. 

E' sabido que, á ultima bora, Pedro I quiz acceder aos 
desejos dos revolucionários, tentando organizar ministério por 
intermédio do senador Vergueiro ; este, porém, não foi encontrado. 
Era, aliás, muito tarde, como acontecera a Carlos X e, mais re- 
centemente, a Pedro II ! 

Qiiasi isolado na Quinta, receioso dos acontecimentos e talvez 
aconselbado também pelo ministro da França, presente, que teria 
bem fresca recordação dos acontecimentos de 1830, em sua pátria, 
D. Pedro abdicou a coroa, e nesse acto, dizem os bistoriadores, 
que elle se mostrara lacrimoso e penalizado em extremo. 

São factos bistoricos esses conbecidos, maximé no seio deste 
Instituto, mas referimol-os, para melbor fundamentar a demon- 
stração de nossa tbese. 



Desde o golpe de Estado da dissolução da Constituinte em 
1823, começaram a accumular-se as queixas e a indignação contra 
o procedimento insidioso e antipatriótico de D. Pedro. 

Elle, que até então procurara aparentar o empenbo de fazer 
esquecer o seu vicio de origem, cada dia mais, depois disso, jus- 
tificava sua fidelidade, no cumprimento do conselbo derradeiro 
de D. João VI, ao reembarcar para Portugal — « Toma para ti 
a coroa do Brazil, antes que algum aventureiro a usurpe ! » 

JSo norte, as commissões militares, no sul o assassinato de 
Badaró e a guerra de Cisplatina, no Rio de Janeiro, os soldados 
mercenários extrangeiros, o Gabinete Secreto, o fausto insolente 
da Corte, e os escândalos da vida particular do principe, afron- 
tando o decoro da própria família imperial, o corpo diplomático, 
os ministros e o povo era geral são os episódios tenebrosos e 
lamentáveis da queda no abysmo, pelo plano inclinado da insen- 
satez e da protervia, do monarcba que a nada respeitava. 

Documento eloquente e nobre de todas essas aífirniações, 
que a bistoiia imparcial consagra, é a carta dirigida a D. Pedro, 
pelo lionrado Marquez de Barbacena, a 15 de Dezembro de 1830, 
vaticinando-lbe a queda em prazo curto, e cujos trecbos princi- 
paes pedimos vénia jiara reproduzir, pois são pouco conbecidos.: 

«Um dos tios avós de V. M. I. acabou seus dias em uma 
prisão em Cintra. V. M. I. poderá acabar os seus em alguma 
prisão de Minas, a titulo de doido, e realmente só um doido sa- 
crifica os interesses de uma nação, da sua familia e da realeza 
em geral aos capricbos e seducções de creados. 

Eu retiro-me para o Engenbo, mas não posso encetar a 
minba viagem, sem supplicar a V. M. I, que pondere no abysme 
em que se lança. 



— 8 — 

Reflicta V. M. que foi identificando-se com os brazileiros 
que proclamou a mdpendencia, fundou o Império e conseguiu o 
seu reconhecimento pelas nações extrangeiras. 

Nessa épocha nem os ataques oxternos, nem as subleva- 
ções internas puderam triuraphar de V MI., pelo contrario, 
quer fosse V. M. em pessoa, quer mandasse as suas ordens para 
qualquer ponto do Império, a sua auctoridade foi sempre respei- 
tada e a tranquillidade restabelecida ; ao passo que o nome de 
V. M. era repetido pelo que havia de melhor na nação, como o 
?ymbolo da integridade do Império e felicidade geral do Brazil. 

Apenas V. M. I. mudou de comportamento, volvendo as 
antigas aífeições e á camarilha, começou o seu prestigio a de- 
clinar e era fouco mais de dois annos quasi desappareceu de 
todo. Tanto puderam José Clemente Pereira e Francisco Gomes 
da Silva. 

Não faltará, senhor, quem diga a V. M. I. que a excessiva 
ambição, ou inveterado ódio aos portuguezes, são os únicos agen- 
tes desta representação, derradeiro, e pode ser que inútil tes- 
temunho de amor á minha pátria ; mas, a verdade é, que nem 
tal ambição, nem ódio existem. 

No mesmo dia em que o thesouro declarar o resultado do 
exame das contas, que dei, cuidarei de procurar navio para dei- 
xar o Brazil, e preferirei Cintra a qualquer outro ponto da 
Europa para minha residência, si então já houver segurança de 
pes-oa e bens, tendo substituído ao actual tyrannico governo do 
senhor d. Miguel, outro mais conforme ás luzes do século e ás 
justas aspirações da humanidade. 

Si eu nutrisse ódio aos portuguezes, ou abrigasse ambições 
de empolgar os primeiros legares, por certo que V. M. I, pelo 
seu comportamento, offereceria a mais lisonjeira perspectiva. 

Unindo-me eu á facção republicana, pouca duvida poderia 
haver de successo, ao menos temporário; mais longe disso, cortei 
as communicHcções com toda a gente, recusei entrar para as socie- 
dades existentes, e si por desgraça do Brazil e de V. M. , sobre- 
vier similhante mudança, o que infallivelmence acontecerá se 
V. M. não operar em si uma reforma im mediata de comporta- 
mento, sua ruina é certa, mas eu continuarei, sem ser molesta- 
do, a viver na mesma obscuridade, a que ora me condemnei, 
contemplando, porem, talvez com desconfiança, como membro 
das antecedentes administrações, que serão todas confundidas 
pelos auctores da revolução, militando ainda contra mim o facto 
da minha recusa, agora, de acceitar as doutrinas republicanas. 

A posteridade se encarregará de fazer discreta separação ; 
porem, no momento em que V. M. cahir, os titulos de nobreza 
serão titulos para a prescripção, ou pelo menos de nuUidade. 

O theatro continuará a ser o mesmo mas os actores, intei- 
ramente outros e novos. 



Ainda lia tempo, senhor, de raanter-se V. M. T. no throno 
como o despja a maioria dos brazileiros; mas si V. M. , indeciso, 
continuar com as palavras de constituição e brasileirismo na 
bocca, a ser portuguez e absoluto de coração, neste caso a sua 
desgraça será inevitável, e a catastrophe, que praza a Deus não 
seja geral, apparecerá em poucos mezes; talvez não chegue a 
seis. 

A extincção de ministérios secretos ; separação absoluta de 
creados ou confidentes portugiiezes ; linguagem e comportamen- 
to de um genuino brazileiro ; ainda podem reconciliar a V. M. I. 
com a nação e salval-o da catastrophe, que está imminente. 

Não posso mais, sinto-me doente e nervoso, mas com a cons- 
ciência pura. Deus se c<mpadeça do Brazil e fira a V. M. como 
feriu a S. Paulo com um toque de sua graça para que o impé- 
rio e a ftimilia de Bragança se perpetuem de século em século 
com progressiva prosperidade, e sempre unidos, na observância 
e goso da constituição que juramos. 

Rio de Janeiro, 15 de Dezembro de 1830. — Marquez de 
Barbacena». 

Nem se diga que Barbacena nessa carta era inspirado pelo 
despeito, em razão da demissão acintosa que soffrêra pouco antes, 
de ministro da fazenda ; os antecedentes desse nobre servidor 
do Estado, seu caracter altivo e independente tantas vezes de- 
monstrado, sua defesa brilhante provam que elle se mantinha 
superior sempre ás intrigas e injustiças da pequena politica 
da epocha, entregue aos Chalaças e Domithildas. 

Assim é que a 7 de Abril, quando poderia elle assumir com 
vantagem um dos primeiros postos da evidencia, no movimento, 
nada disse, nada fez para isso, antes procurou occultar-se, não 
tomando parte alguma nos aconteeimentos ! 

Os actos do príncipe aventureiro foram poib causas efficien- 
tes da revolução, que a pouco e pouco ia se impondo ao espirito 
publico e que teve sua consagração final positiva a 7 de Abril. 

Pouco importa que o povo e o exercito, mandatários tácitos 
da nação, não previssem no momento, e não pretendessem mesmo 
na realidade, o acto violento da abdicação. 

E' facto histórico incontestável que as revoluções quasi 
sempre excedem, em sf^us effeitos, os planos e intenções dos que 
as dirigem ou encetam. 

Assim o diz um escriptor francez : 

«Os parizienses, tomando a Bastilha, em 1789, não preten- 
diam certamente nem a prisão, nem o processo, nem a morte 
de Luiz XVI ; os mesmos, em 1830, clamando « viva a carta ! » 
não cogitavam da queda de Carlos X e nem da successão no 
throno, do duqu^3 de Orleans ; em 1848, quando elles bradavam 
« Viva a Reforma ! » não pretendiam nem a queda de Luiz 
Felippe e nem a Republica. Em 1789, queriam uma Consti- 



— 10 — 

tiiiçrio, em 1830, a renovação das Ordenanças : em 1848, a 
mudança do ministério, a reforma eleitoral» (1). 

Entretanto, todos sabem quaes as consequências g-ravissimas 
e importantes, de todos esses acontecimentos, para a França» 

Nas revoluções, como já o disse alguém, «os factos cami- 
nham mais depressa que as ideias». 

Seria, porém, a revolução de 7 de Abril uma aventura de 
mallo^TOS, uma journée de dnpes, como o disse T. Ottoui e 
repetiu J . Nabuco ? 

Antes de tudo, precisamos accentuar a impropriedade da 
applicação dessa denominação histórica ao 7 de Abril ; o similo 
não foi absolutamente feliz e adaptável. 

Como se sabe, é na historia da França, qualificado Journée 
deR dupes — o dia 11 de Outubro de 1630, do reinado àò Luiz 
XIII. Após rudo campanha, por parte de Maria de Medicis, 
dos ministros e cortezãos, para conseguirem do rei a demissão- 
do cardeal Richilieu, foi afinal esta obtida por occasião de uma 
enfermidade daquelle monarcha. 

No mesmo dia, porem, 11 de Outubro, quando os adeptos^ 
da rainha mãe já tinham partilhado entre si os despojos do 
poder, o rei arrepende-se e fazendo vir a sua presença o cardeal,. 
o reintegra no cargo, lo^Tando os seus inimigos. 

Diz Michelet : — «Esse dia ficou chamado — Journée deu 
dupes. Foi uma comedia. O cardeal preparou as malas de 
manhan e os seus inimigos prepararam as suas á noite. A peça, 
porem, teve o seu lado trágico (3). 

Não ha pois, analogia alguma entre os dois factos históricos. 

Não houve cardeal reintegado, entre nós...,. 

O 7 de Abril foi um acontecimento real, consequente e 
lógico, cujos eftVitos prolongaram-se até 1840, isto é, por 9 an- 
nos ; o golpe manque de Luiz XIII, teve a duração da rosa de 
Malheròe. 

Ottoni dá, porem, a entender, em sua circular aos Mineiros,, 
que esperava que a revolução proclamasse o governo do povo 
pelo povo — isto é, a Republica^ estando isso nos iniuitos dos 
seus auctores, e accrescenta que os Moderados acceitaram a re- 
volução, somente á ultima hora, e assumiram entretanto sua di- 
recção. 

A Historia contesta tudo isso. 

Não é verdade que os auctores da Revolução quizessem en- 
tão a Republica. Nem mesmo os denominados exaltados, á ex- 
cepção de dois ou três, como os deputados J. Custodio Dias, 
Carneiro da Cunha e Barata, pretendiam a mudança de regi- 
men, e nem a nação o queria então. 



íl) M. A. Dumas, La vie politique et privée ãe Louiz Philipe. Pariz 1:52. 
(2; Pr. L. T. da Veiga. O primeiro reinado. Rio, 1877, pag. 4_0. 
(3; Histoire moãerne. Bruxellas, 1837, pag. 208. 



— 11 — 

E a prova é que neiílium movimento accentuadamente re- 
publicano se deu no período regencial. 

K^alizouse, sim, mais uma vez, a lei sociológica, que attri- 
búe aos exaltados a obra da demolição e da reacção, pelos fa- 
ctos, nas grandes commoçõcs politicas ; e só aos moderados, aos 
bomens de ordem, a missão da reconstituição do poder publico, 
a orientação do movimento, para que produza ella os seus effei- 
tos benéficos e duradouros para o paiz. 

Isso já fez ver o genial tribuno da Hespanba, E. Castellar, 
em 1868, em face dos demagogos o dos extremados do federa- 
lismo puro, com aquella eloquência arrebatadora e patriótica 
que o sagrava principe dos oradores tribunicios do século! 

A Republica, proclamada em 1831, no Brazil, seria a de- 
cretação do regimen do caudilhismo bispano-americano entre nós, 
seria o espbacellamento do collosso, em ridiculas republiquetas, 
sem vida, sem paz e sem futuro. 

Mas o dr. J. Nabuco insiste na applicação da locução fran- 
ceza ao 7 de Abril, articulando allegações que é mister sejam 
debatidas. 

Antes de tudo, folgamos em prestar aqui a mais sincera 
homenagem de admiração, ao talento peregrino, á vasta illus- 
tração e ao patriotismo nunca desmentido desse illustrc homem 
de lettras. 

Como litterato, como parlamentar, como diplomata o dr. J. 
Nabuco não tem superior no paiz ; como historiador, porém, 
s. exc. nãc satisfaz aos espiritos calmos e imparciaes, que con- 
sideram a historia, como a photographia nitida dos aconteci- 
mentos. 

Colorista insigne, imaginação ardente de poeta, espirito ar- 
gucioso e fecundo, erudição extensa dos factos e praxes politi- 
cas, s. exc, escrevendo a historia arrebata, a attenção dos seus 
leitores, com todos esses dons brilhantes, mas o eífeito dissipa-se 
ou atenúa-se depois, pela reflexão mais detida. 

No seu livro notável — Um Estadista do Im-joerio, monumen- 
to de amor pátrio e de amor filial a um tempo, o dr. J. Nabu- 
co affirma que o 7 de Abril foi um mallogro para o exercito, 
para os revolucionários e para a própria Nação ! E isso é re- 
petido por J. Ribeiro em seu Compendio de Historia Pátria ! 

Allega elle que Pedro I era amigo sincero do exercito, o 
qual, com a revolução, porém, só teve decepções a soffrer ! 

Basta abrir-se a historia do primeiro Reinado, para se ver 
que Pedro I favorecia e prestigiava, ultimamente sobre tudo, 
não o exercito brazileiro, mas sim os corpos mercenários extran- 
geiros, que por mais de uma vez se sublevaram impunemente . 
Só ao voltar de Minas, em 1830, é que elle resolveu dissolvel-os, 
coagido pela indignação da opinião publica. 

Como, pois, o nosso exercito podia estimul-o e ser-lhe 
grato ? ! 



— 12 — 

A família Lima e Silva, por seus chefes, officiaes superiores, 
não recebeu delle sinão justiça aos inestimáveis serviços pres- 
tados ao paiz e á coroa, e quando pelos seus crimes divorciou-se 
Pedro I da nação que o acclamára, os Lima e Silva collocaiam- 
se ao lado desta, cumprindo, antes de tado, o seu dever de 
cidadãos armados . 

Como m^interem elles o juramento de fidelidade prestado, 
quando o próprio monarcha fora o primeiro a violar o seu de 
fidelidade á Constituição ? (l) 

Por outro lado, si a Regência teve de reagir contra a in- 
subordinação dos militares, insuflados pelos demagogos, em con- 
luio com os restauradores^ é i?so um dos maiores títulos de 
gloria dos patriotas, que salvaram então o paiz da anarcliia e 
do ariiquillamento politico. 

Demais, a parte sã e consciente do exercito estava com 
Feijó e com o governo. 

Como, poi?, dizer-se que o exercito foi logrado pela revo- 
lução? ! 

Não é verdade que os auctores da revolução fossem bur- 
lados em seus planos; e aqui reportamo-nos ao que dissemos 
com relação a T. Ottoni. 

Pelo orgam da Astréa e da Aurora Fluminefise, pela voz 
dos deputados patriotas e de alguns senadores, a revolução 
vinha- se impondo, como um facto inevitável, ha muito, e sua 
orientação segura e moderada vinhd-se accentuando nos espí- 
ritos (2) 

Si meia dúzia de jacobinos inconsideradí s queriam, em 
1831, a subversão da ordem publica, para tentativa de expe- 
riências politicas ou de utopias, não deveria ser isso razão, para 
um espirito elevado e nobre como o do dr. J. Nabuco dar o 
facto como prova do mallogro dos revolucionários, subtrahindo 
das mãos limpas e firmes dos moderados, o fio director e sal- 
vador dos acontecimantos, dando-os como aventureiros de ul- 
tima hora, que só visavam os despojos da victoria alheia! 

Basta, para a refutação de tão falsa asserção, o documento 
politico já referido da representação ao príncipe trahidor firmada 
pelos 13 deputados da nação, os quaes, em grande maioria, 
pertenciam ao partido moderado. 

Como pois foram elles revolucionários da ultima hora? 

Foi, porém, um mallogro para a naçào o 7 de Abril, como 
o quer o dr. J. Nabuco? Não ha espirito sensato e conhece- 
dor da nossa historia que o diga. Ainda bem, que o não 
qualificou de crime politico ! 

O dia 7 de Abril foi a consequência do 12 de Novembro de 
1823 (3) e representa a independência politica do nosso paiz do 



(1) Dr. F« da Veiga. Obr. cit. pags. 396 e 397. 

(2) Dr. J. J. da Rocha. Acção, reacção, transacção. Rio 1855 pag. 14 e outros. 

(3) Barão Homem de Mello. Á constituinte perante a Historia. Rio 1868. pag. 49. 



— 13 — 

extrangeiro, pois que o 7 de Setembro apenas simboliza a in- 
dependência administrativa ou burocrática. 

Basta isso para salientar a importância benéfica dessa re- 
volução para a nação brazileira. 

Articular- se as medidas enérgicas, postas em execução pela 
Regência, para garantir a ordem e a paz no paiz, em seguida 
á revolução, no intuito de desprestigiar a esta, calumniando-a, 
não é acto de patriotismo, revela apenas ausência de critério 
histórico, indispensável, j^ara o julgamento dos factos 

Limitamo-nos aqui, para a defesa do glorioso periodo re- 
gencial, esse noviciado da democracia entre nós, essa épocba de 
gigantes e de heróes, limitamo-nos, dizemos, a citar aqui as pala- 
vras do honrado e criterioso Paula Sousa, em 1834, no Senado: 

«O que é que vemos? A industria renascer, o commercio 
activar-se as rendas crescerem, os fundos públicos subirem, os 
direitos respeitarem-se e a sociedade marchar. Si houve epochas 
de terror no Brazil, foi em outros tempos : foi depois da metra- 
lhada da praça do commercio, em Abril de 1821, quando ninguém 
se julgava seguro e as deportações ferviam em quasi todas as 
províncias ; lei na occasião da dissolução da assembléa consti- 
tuinte, quando a vimos, apesar de inerme, cercada de immensa 
tropa, quando vimos peças com morrões accesos, para ella apon- 
tando de todos os lados, quando vimos militares armados pene- 
trarem seu santuário, seus membros presos, conduzidos á masmorra 
e deportados, e, o que é mais ainda, cobertos de injurias e de 
insultos ; foi quando se cobriu o Brazil de commissões militares, 
e se deceparam tantas cabeças de patriotas, cujo crime era não 
annuirem ao convite de abraçar a nova constituição offendida ; 
foi quando em 1828 vimos as ruas desta cidade ameaçadas por 
extrangeiros revoltados, e em 1829 os deputados ameaçados com 
gritos e terrores das galerias. 

«Si algum tempo no Brazil appareceu o silencio do escra- 
vo, foi então, quando não podia soar uma voz que censurasse 
taes actos, que não tivesse por premio a violência, a deportação 
ou a ameaça... Si se apresenta como prova de terror o que 
houve aqui em 5 de Dezembro, errada idéa se dá de uma epo - 
cha de terror . . Scenas muito mais violentas do que essa ap- 
parecem ainda nos Estados mais civilizados e prósperos.» (1) 

Essas palavras sinceras e vibrantes não tiveram contestação 
e o testemunho desse homem publico, de quem disse Homem de 
Mello que «-convicção e o patriotismo falavam por seus lábios \» (2) 

Basta-nos pois elle para a defesa da Regência. 

Seria possivel, porém, a contra volução a 7 de Abril, como o 
assoalharam os aulicos ou os calumniadores ambiciosos da grande 
revolução ? 



(1) F. Franco de Sá. A Reforma da Constituição. Rio 1880. Transoripções do 
Correio Official de 1 de Agosto do dito anno. 

(2) Biographia da Cons. F. de Paula Sousa. Rio 1862. pag. 13 



— 14 — 
t 

Pelas palavras já ciladas do conselheiro Drummond, éco ali- 
ás das opiniões e sympathias dos Andradas, vultos eminentes 
da nossa historia, mas alheios aos ncontecimentos de então, vimos 
que elle não responde satisfactoriamente á pergunta. E isso 
basta para um suspeito de restaurador, como elle o fora. 

Sem. força moral, pela succesí-âo de erros e attentados com- 
mettidos, sem força physica, j^ela defecção da quasi unanimidade 
dos corpos militares, inclusive o batalhão do Imoerador e a 
Guarda de Honra, como poderia "Pedro I reagir contra o movi- 
mento, que era apoiado pelas provincias ^ tinha á sua frente 
homens decididos e patriotas? 

Si elle o tentabsse, seria apoiado pela facção portugueza e 
por alguns dos mercenários dissolvidos, mas seria esmagado, si- 
não logo após a declaração do movimento, em curto prazo. (1) 

D. Pedro, aliás só tinha a coragem physica, que não é a 
melhor para taes casos; sem dignidade, sem ideal, sem patrio- 
tismo, elle não se animaria a arrostar as iras do povo, desenca- 
deadas contra si. (2) 

Era Portugal, sim, venceu porque se abraçou á bandeira 
liberal, e teve o apoio extrangeiro ; as novas correntes de opinião, 
partindo da França, tinham golpeado fundo o absolustismo e 
seus adeptos, em Portugal. 

No Brazil, porém, elle era um simples trahidor e perjuro, 
que teria fatalmente de ser eliminado do throno. 

O movimento de 7 Abril foi, pois, uma verdodeira revolu- 
ção politica, pelas suas causas, pelos seus episódios concomitan- 
tes e pelos seus fffeitos no pciz; foi uma revolução gloriosa, 
porque emancipou, real e positivamente, o Brazil do elemento 
extrangeiro e iniciou a vida politica autónoma da Regência. 

A Republica actual, eííeito remoto e indirecto, mas lógico, 
daquella revolução, foi cruelmente ingrata para ella, não decre- 
tando a solennização de sua data gloriosa, como complemento 
fatal e patriótico do 7 de Setembro, quando aliás decretou a 
data franceza de 14 de Julho, como data festiva de nosss pátria ! 

Oxalá, em tempo, se reparasse essa injustiça, demonstrando-se 
por factos ao paiz, qtie a Repubica não surgiu de súbito a 15 
de Novembro de 1889 da cabeça de B, (Jonstant, armada e 
forte, como Minerva da cabeça de Júpiter, mas foi elaborada 
lentamente no cérebro de todos os patriotas, desde Tiradentes 
até Silva Jardim e B. Constant, e preparada pelos fortes heróes 
das cortes portuguezas da Constituinte, do dia 7 de Abril e da 
Regência, por uma lei evolutiva, que a sciencia reconhece e 
consagra. 



(1) Dr. J. J. da Eocha-Obra 'clt. 

(2) Oliveira Martins. Brazil e colónias. Lisb:a 3.» Kd. pags. 116 e 117. 



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o 7 DE ABRIL n 



Na vida dos povos iiotam-se datas, nas quaes estão vincula- 
das as manifestações dos vicios, ou das virtudes ; da grandeza, 
ou da pequeninez: da pusilianimidade, ou da coragem; da bai- 
xeza, ou da perversão da alma humana. 

Nessas datas as nações, como que vestem a forma individual : 
de collectivas, tornam-se unitárias e singulares, sentindo, pen- 
sando e agindo sob uma só inspiração; illuminadas por uma só 
idéa; impellidas por vontade única, irresistivel e suj)rema. 

Em 7 de Abril de 1831 era esse o especto da nação brazi- 
leira, que manifestava as energias e as virtudes de um só homem, 
que pugna pela reivindicação da cpusa sagrada do patriotismo, 
da liberdade, do direito e da justiça.. 

Nessa data, também, vibrou na monarchia golpe, que não 
destruiu a feitura da ncc]ama(.ão de 13 de Maio, nem desfez a 
obia da independência, porque o Império sobreviveu ao movi- 
mento democrático dos patriotas do Campo de SanfAnna; ape- 
nas a Coroa passou da cabeça do pae para a fronte infantil do 
filho. 

A monarchia, transplantada para terra americana, procedia 
de dupla origem: uma tradicional, que remonta á miraculosa 
victoria do campo de Om-ique e venera']a na successão de uma 
série de séculos. A outra origem, começada nas margens do 
Ypiranga e consagrada pela revolução da independência nacio- 
nal, não se sustentava e firmava-se em outra força, senão a da 
vontade soberana dos povos brazilicos. Era essa a base e o 
poder da nossa monarchia, tão joven, como a nação que regia. 

D. Pedro quebrou esta base e provocou a reacção da von- 
tade nacional contra as praxes arbitrarias do seu governo. 

Do que modo se operou essa transformação? E' um dos 
pontos da historia politica interpretado ao sabor de cada um ; 
explicado segundo as ideas dominantes no espirito do narrador. 

Para estes a revolução de 7 de Abril tem corelação intima 
com a dissolução da Assenibléa Constituinte ; é a punição, não 
tardia e justa, do decreto de 12 de Novembro de 1823, consi- 
derado o maior e mais grave erro do primeiro reinado. 



(*) Ext. do Jornal ão Brasil, anuo XVI— 7 de Abril de 1906. 



— 16 — 

Para aquelles, entre a dissolução da constituinte e o 7 de 
Abril, não ha nenhum liame absolutamente necessário, como a 
de causa a certa ordem de effeito, os elementos, que constituem 
a situação de 7 de Abril, — homens, interesses, motivos — não são 
os mesmos. Diversas sã'> as causas, vários os motivos, que pro- 
duzir.Mm a abdicação do 1.° Imperador ; entre estes motivos alguns 
avultam como pessoaes. Os sectários desta opinão pensam que 
a dissolução da Constituinte não foi erro — o maior e grave — ao 
contrario, uma medida salvadora da obra laboriosa da indepen- 
dência, que aquelle congresso incapaz compromettia. A facili- 
dade, com que os próprios membros da Constituinte continuaram 
a servir o poder imperial, demonstra que a dissolução foi con- 
siderada como um recurso indispensável. 

Não é uma prova induetiva, mas affirmativa, porque os 
membros do Congresso dissolvido incumbiram-se de f rmar a 
Constituição de 25 de Março e quasi todos foram ministros do 
Imperador. E' claro que não se julgaram victimados pelo decreto 
de 12 de Novembro. 

O povo deu prova irrefutável de desinteresse; viu — indi- 
ferente e zombeteiro — os granadeiros vindos de S. Christovam, 
expellir do recinto da Cadeia Velha os representantes das pro- 
víncias. 

Estes representantes não inspiraram, siquer, sentimento de 
cammiseração. 

O povo até legitimou, applaudindo-o, o acto de força, de 
prudíincia e sabedoria do governo imperial, segundo attestam 
numerosos testemunhos dos contemporâneos ; segundo assellam 
documentos escriptos. 

Finalmente, não houve um só protesto em favor da consti- 
tuinte, nem de algums deputados presos e deportados, dos quaes 
o povo nunca se lembrou durante o tempo em que estiveram no 
exilio. Elles não faziam falta nem bem mereciam da nação. 

A dissolução parece ter sido cousa de pouco alcance, só os 
fanáticos a exaggeraram. 

Ella produziu resultado apreciável ; livrou o paiz cCun tas 
de bavards, conforme Napoleão I se expressava a respeito da Ca- 
mará dos Cent Jours. 

Alguns entendem que a existência da Constituinte não inte- 
ressava a nação, que, portanto, não podia sentir-lhe a falta ; 
porque não tinha capacidade de prover de remédio os males, que 
affligiam o paiz, nem corrigir os excessivos rigores da legislação 
despótica, que herdávamos da metrópole e adoptada pela assembléa. 

Em verdade, o que fez de bom no largo espaço de sete 
mezes ? Qual a lei da verdadeira utilidade geral decretada pela 
nossa primeira assembléa legislativa? 

Os espíritos calmos poderão dessaprovar o apparato do acto da 
dissolução, porém, não levarão á exiggeração a importância dos 
serviços da constituinte, por que ella não tem nem os sabia fazer 



— 17 — 

Muitos raciocinam desta maneira : — «Si D. Pedro estava 
de facto e de direito, investido de todos os poderes ; si era um 
poder anterior, delegado da soberania pelo acto da proclamação 
do Império, orgam da vontade nacional (como a própria assem- 
bléa reconhecia e o dizia alto e bom som); si elle promulgou o 
decreto de convocação, tinha esfual direito de expedir o decreto 
de 12 de Novembro ; um e outro cabiam nas faculdades, que a 
soberania nacional lhe havia conferido. Demais, dissolver uma 
Camará é um dos meios de estabelecer o equilibrio, ou uma das 
molas para o bom e efficaz meneio do mechanismo do regimen 
de governo constitucional representativo ». 

A historia não pode considerar o acto da dissolução, sr b o 
mesmo ponto de vista, acceito pelos admiradores e somente fica 
sorprehendida, vendo certos escriptores distinctos encarecer mé- 
ritos, que nunca teve uma assembl-^a, cuja maioria se compunha 
de mediocridades. 

Causa pasmo que tal assembléa tenha sido reputada a re- 
presentante da dignidade, da honra, do caracter da nação ; isto 
poderia ser tolerado em 1823; isto hoje demonstra que o estado 
intellectual, moral e politico da sociedade brazileira, no tempo 
da independência, era deplorável e estava muito abaixo da cul- 
tura e das idéas — mesmo da primeira phase do século XIX. 

Si a génesis dos eventos de 7 de Abril não vem da disso- 
lução da Constituinte — quaes são, j)OÍs, os factos, que os ori- 
ginaram ? 

A matéria contém outras muitas interrogações, cujas re- 
spostas e desenvolvimento não se poderiam fazer aqui em peso: 
daremos uma rápida resenha, que habilitará aos nossos leitores, 
que não forem lettrados, a formar uma idéa, mais ou menos 
ajustada do valor histórico e politico desta data, que ainda hoje 
é celebre nos fastos da nação brazileira. 

A historia politica de um povo, certamente, não pode ser 
apreciada e narrada segundo as sympathias ou antipathias de 
cada escriptor ; deve ser a expressão fiel dos factos, sob todas as 
relações moraes, intellectuaes e lógicas — de causas e effeitos ; 
deve mesmo elevarse acima dos interesses e das cóleras dos 
partidos, porque estes não contêm a vida total da nação. Infe- 
lizmente, a revolução, que representa a data de 7 de Abril, tem 
sido julgada diversamente, mas á critica pertence fixar a atten- 
ção dos leitores sobre um movimento que procedeu não só de 
causas anteriores, como das de momento. 

Um exame consciencioso demonstraria, si fosse dado fazei o 
agora, que a dissolução não acha na revolução de 7 de Abril a 
justa e necessária punição e resposta. 

Quem fez esta revolução? Onde as suas causas? Quaes as 
suas consequências? Resumamos em brevissimo quadro; não nos 
sobeja espaço para largas investigações. 



— 18 — 

A revolução de 7 de Abril é, prÍDcipalmente, obiva do Im- 
perador D. Pedro, da lucta parlamentar e da repercussão dos 
acontecimentos, que em França desthronaram Carlos X. 

A psychologia dos personagens é indispensável para expli- 
car ou dar a compreliensão de certa ordem de phenomenos so- 
ciaes. D. Pedro, no vigor da mocidade, mal educado (como elle 
próprio confessava), sem experiência e sciencia da politica e do 
governo da liberdade moderna, habituado á pratica e ás máxi- 
mas do regimen da monarcliia absoluta e tradicional, era dotado 
de animo audaz, de temperamento impetuoso, de intelligencia 
vivaz, de uma ambição ávida dos applausos, dos arroubos de en- 
thusiasmo e da popularidade, que o levara a dizer — Entrei sem 
receio, porque conheço que toio o povo me ama. — A estas dis- 
posições de sua natureza ajuatavam-se outras, como a paixão 
violenta de exercer o poder absoluto, irresponsável — sem limites 
e contrapesos das theorias e praxes do governo parlamentar 
inglez. 

Governou, como poder absoluto, quando regente e quando 
defensor perpetuo ; continuou a governar, a administrar, legis- 
lar e imperar desde 1821 até 1826, quando se reuniu a Camará 
da 1.* Legislatura. 

O Imperador era homem, que não estava preparado a amol- 
dar-so ás necessidades do regimen do governo limitado, consti- 
tucional e representativo. 

A' camará de 1826, que lhe pede uma conta, ou exposição 
do estado dos negócios públicos, manda, por intermédio do mi- 
nistro, responder — que a Assembléa Legislativa nada tinha que 
ver com isso, nem com os actos do governo. 

Dahi em deante a luta subterrânea, ou ás claras, j^atente 
e perenne, perdurou entre os dous poderes. 

Os ministérios succediam-se ao bel-prazer imperial, até que 
o marquez de Barbacena organizou o gabinete de 4 de Dezembro 
de 1829 com ares e tendências parlamentares. 

Em breve a paixão do poder sem limites irapelliu o Soberano 
a despedir brutalmente o ministro, que o servia com consciência, 
dignidade e dedicação. 

Ao ministério Barbacena succede o de 19 de Março, que é 
substituido pelo de 5 de Abril de 1831, ministério dos marquezes» 

Agora o campo de batalha estava aberto. 

O povo, muito prevenido contra o Soberano, que, indo á 
província de Minas, lá íôra recebido com dobres funerários dos 
sinos das egrejas. 

Os eleitores mineiros derrotaram acintosamente o conselheiro 
Maia, candidato protegido francamente por D. Pedro. 

As cóleras e as decepções do animo impetuoso assoberbaram 
a vontade e a razão do Imperante, que desde então se lançou 
ás aventuras da lucta. 



— 19 — 

Logo que appareceu o ministério dos marquezes — o povo e 
a tropa, reunindo se no campo de Sant'Anna, mandaram supplicar 
a Sua Magestade — que demittisse taes ministros, contra os quaes a 
nação se revoltava. Ora, a repercussão dos acontecimentos da 
revolução de Julho em França exercicia nimio influxo na alma 
popular, que parecia coagir a Coroa a submetter-se á vontade 
nacional, como o povo francez procedeu com Carlos X a respeito 
do ministério Polignac. 

D. Pedro não attendeu á mensagem incumbida ao major 
Frias, que regressou, trazendo o acto da abdicação. 

Aqui transluzem duas ordens de motivos que influíram na 
resolução do Imperador — os pessoaes e politicos. 

Quanto aos pessoaes, não se ignora que D. Pedro anbelava 
partir para Portugal, para repor sua filha no throno, usurpado 
por D. Miguel Quanto aos politicos, D. Pedro, desmoralisado 
em Minas, affrontado pela reunião da tropa e povo no Campo de 
Sant'Anna, convenceu-se da impossibilidade de manter-se no 
throno imperial, dadas as condições psychologicas de sua natureza. 

Sustentam uns que seria momentâneo o divorcio, si o Impe- 
rador tivesse querido reconciliar-se com a nação e continuar a 
imperar no Brazil. 

Opinam outros que os acontecimentos não só tornaram im- 
possível a reconciliação, mas que ao Imperador não restava outra 
taboa de salvação, sinão a abdicação. 

Como verificar a procedência, ou improcedência destas opi- 
niões contrarias ? Não nos é dado tental-o aqui. 

Estes graves eventos, que influíram profundamente nos des- 
tinos da nação brazileira, são representados e recordados pela 
data de hoje — 7 de Abril. (*) 

EuNAPio Deiró. 



-•XSSX*- 



(*) Reproduzimos este artigo, escripto a 7 de Abril de 1906, como o melhor com- 
plemento ellacidativo do trabalho de um illustre consócio— dr. Gomes Ribeiro. Todo o 
Brasil conhece quanto é proficiente o preclaro dr, Eunapio Deiró na historia contempo- 
rânea nacional, e nestas paginas ainda está a demonstração disso. N. da R. 



o estado do Direito entre os Autoehtones. 

do Brazil 

PELO 
DR. CARLOS FREDERICO PHILIPPE VON MARTIUS 



^Traduzido pelo dr. Alberto Liifegren e revisto pelo dr. A. C. de Miranda Azevedo> 



No meio das creações da civilização e dos costumes europeus, 
que no Novo Mundo triumphalmente se espalharam do littoral: 
para o interior do continente, o indigena desta terra continua 
qual enigma obscuro, que ninguém ainda comprehendeu. Si 
feições singulares do corpo os differenciam de todos os outros 
povos da terra, mais ainda se diversificam pela natureza do seu 
espirito e do seu caracter. Permanecendo em grau inferior 
da humanidade, moralmente, ainda na infância, a civilização, 
não o altera, nenhum exemplo o excita e nada o impulsiona 
para um nobre desenvolvimento progressivo. Assim parecendo 
estar ainda na minoridade, a sua incapacidade para o progressa 
assimilha-o a um velho estacionário; reúne, pois, em si os poloa 
oppostos da vida intellectual . Este estranho e inexplicável 
estado do indigena americano até o presente, tem feito fracassa- 
rem todas as tentativas para concilial-o inteiramente com a Eu- 
ropa vencedora e tornal-o um cidadão satisfeito e feliz. E é 
exactamente nesta sua natureza dupla que a sciencia encontra a 
maior difficuldade para esclarecer a sua origem e determinar as 
épocas da historia antiga a que elle, ha milliennioiá, pertence sem,, 
comtudo, ter progredido. 

Quem, de perto e sem prevenção, observar o homem ame- 
ricano, deve concordar que o seu estado actual está muito 
longe de ser o natural, alegre e infantil, que uma voz interior 
nos diz deve ter sido o começo da historia humana e que o do- 
cumento mais antigo nos confirma como tal. Si o estado actuai 
daquelles selvagens fosse o primitivo, daria-nos elle uma ideia, 
attrahente, ainda que um pouco humilhante, da marcha evolutiva 
da humanidade ; teríamos que reconhecer que a raça de homens 
vermelhos não partilhara do beneficio da origem divina, ma& 
que unicamente instinctos bestiaes os conduziram até a actualidade 
contristadora, através de um passado obscuro e em marcha im- 



— 21 — 

perceptível Mas, por outro lado, muito ha que faz suppôr que 
•a humanidade americana não está mais no primeiro passo do 
simples desenvolvimento que eu denominaria ^ o ría sua historia 
natural». Ella já, sem duvida, passou por outras sendas, diversas 
daquella simplicidade, e o seu estado actual não é o primitivo, 
representa um estado secundário, degenerado. Nesta raça unem-se, 
portanto, como nos sonhos, as imagens mas variegadas; traços 
de uma vida natural innocente e pura, ahi se misturam com 
outros em que a hamanidade parece uma imitação do animal e, 
finalmente, outros ainda que rt^flectera a natureza espiritual e 
elevada do nosso ser attingindo á consciência perfeita e, quaes 
harmonias de conciliação, nos irmanam com uma raça decahida, 
que pelas muitas desgraças quasi se deshumanizára. 

Mas, quem ousaria arriscar-se a interpretar tão diversas e 
emmaranhadas manifestações de união e de anhelo intimo ? 
Quem queriria aventurar-se a esclarecer as obscuras phases do 
processo histórico pelo qual pa^-saram aquelles homens? A so- 
lução de tal problema certamente seria mais attrahente e mais 
fértil do que a investigação da grande cópia de admiráveis pro- 
ductos naturaes que se escondem no seio do Novo Mundo porque, 
-como diz um grande poeta nacional : « o homem é sempre o 
objecto mais interessante para o homem » . 

Uma razão de outra ordem é que nos convida á investiga- 
•çõ s sobre a humanidade americana, qual o triote facto de estar 
a raça vermelha, de alguns séculos para cá, diminuindo numa 
progressão assustadora, de modo a subtrahir-se cada vez mais ás 
investigações futuras e arriscada a desapparecer talvez comple- 
tamente . 

Todas estas considerações determinam-me a tentar uma ex- 
posição do estado do direito entre os indígenas brazileiros, pelo 
•que pude observar por mim próprio durante muitos annos e pelo 
que pude saber pela narrativa de outros. Espero para essa ten- 
tativa obter indulgência, observando ser um leigo que, arriscan- 
do-se num terreno para elle extranho, apenas pode allegar as 
«ondiçõe» favoráveis em que observou e interrogou. 

Antes, porem, de entrar no assumpto especial desta investi- 
gação, devemos lançar um golpe de vista sobre o estado social 
^os selvagens que habitam o Brazíl porque, um direito e con- 
dições jurídicas, presuppõem uma historia e um estado especial 
que delia deriva. 

O que são, pois, estes homens vermelhos que habitam as 
deusas mattas brazileiras, desde Amazonas ao Prata, ou que em 
bandos desordenados vagueiam pelas campinas solitárias do ter- 
ritório interior ? Formam elles um povo, são elles partes dis- 
persas de um todo primitivo, são povos diversos, vizinhos um do 
•outro, ou são finalmente, tribus fragm^,ntadas, hordas e famílias 
de vários povos differeuciados pelos costumes, pela moral e pelas 
linffuas ? 



— 22 — 

Estas interrogações compre liendem mais ou menos te dos os 
enygmas da etlinograpliia brasileira. A resposta satisfactoria der- 
ramaria uma luz intensa sobre a historia passada e sobre o es- 
tado actual deste grande paiz. Innumeras diííiculdades, porém, 
apresentam-se a cada passo para o investigador. 

Encontramos no Brasil uma população indigena pouco nu- 
merosa tí irregularmente distribuida, de aspecto physico, tempe- 
ramento, inclinações, moral, costumes e modo do vida mais ou 
menos idênticos, mas, que em suas linguas apresenta uma diver- 
sidade eftectivamente surprehendente. Não somente grupos mai- 
ores e extensas tribus destes selvagens se assimilham na lingua 
ou se approximam nos dialectos mas, muitas vezes, uma lingua é 
limitada a poucos individuos apparentados, sendo uma verdadeira 
instituição familiar que isola aquelles que a usam de todos os 
outros povos, próximos ou distantes, e isso tão completamente, 
que exclue toda a possibilidade de uma comprebensão reciproca 
por seu intermédio. Na embarcação em que nós, o Dr. Spix e 
eu, exploramos os rios do Brasil, contamos muitas vezes entre 
20 remadores Índios somente 3 ou 4 que podiam communicar-se 
numa mesma lingua. Tivemos, pois, diante dos nossos olhos o 
triste esjjetaculo de um completo isolamento de cada individuo 
relativamente a todos os interesses além dos das primeiras ne- 
cessidades. Em silencio carrancudos manejavam os remos e em 
commum faziam todos os trabalhos da embarcação e do preparo 
das refeições mas, mudos e indiííerentes ficavam um ao lado do 
outro e isso durante viagens de centenas de legoas que em geral 
costumam aproximar os homens. Que phenomeno nygmatico essa 
diíferença de linguas, sendo todos os costumes e hábitos os mesmos \ 
Só esta difíerença ou similhança entre as linguas fornecer-nos-ia 
um padrão da independência das hordas, tribus, nações ou qual- 
quer que seja o nome que lhes demos, si não fosse a difficulda- 
de que tal investigação encontra e que torna esse padrão bas- 
tante incerto. Foi assim que os portuguezes consideraram espe- 
cialmente a natureza da lingua, no seu julgamento da iiidepen- 
cia dos povos ou tribus. 

Os Índios que podiam comprehender-se reciprocamente foram 
classificados como pertencentes a uma e mesm.a nação, si bem 
que de tribus ou hordas diversas. Mas, é da própria natureza do 
assumpto que a simples opinião sobre o numero, a distribuição 
e o parentesco de taes grupos humanos, unidos pela mesma lin- 
gua ou por dialectos apparentados, nem antigamente nem hoje 
pode ser considerada definitiva ou admittida como uma verdade 
geral. As observações dos immigrantes europeus a esse respeito, 
não foram sufficientemente extensas nem feitas com o necessário 
critério ou sciencia, para poderem ter dado um resultado seguro. 
Acontecia também que as tribus, em constantes mudanças de 
logar, por perseguições e guerras, transformavam as suas linguas 
e dialectos caracterisados, aliás, por uma grande instabilidade. 



— 23 — 

Assim foi que muitos dos povos anteriormente assignalados, foram 
efíectivamente destniidos ou, pelo menos, subtrahiram-se ás in- 
vestigações dos europeus e do mesmo modo, ainda hoje, surgem 
da escuridão das mattas virgens, povos ainda não conhecidos 
para dentro em pouco desapparecerem, quer porque voltam aos 
sertões, quer porque succumbem nas luctas entre si ou com 
outras raças. Num dos mais antigos documentos portuguezes so- 
bre o Brazil, do fim do século XVI (1), não existem enumerados 
mais do que três povos, entre os quaes os tupis são divididos 
em nove tribus ou hordas. Em 1633, Laetius (2) enumera 76 
nomes de diversas nações e século e meio depois, Hervas (3) acre~ 
dita poder admittir pelo menos 150 linguas e dialectos e, por- 
tanto, igual numero de povos e tribus. 

Uma coordenação conscienciosa como a que tenho baseado 
sobre o todo o material a meu alcance e sobre todas as noticias 
que pude colher durante as minhas viagens, eleva acima de 250 
(4) o numero de todos os agrupamentos (hordas, tribus e nações), 
que debaixo de nomes diversos são conhecidos no Brazil. 

Mas aqui não devemos perder de vista que estes agrupa- 
mentos não se equivalem em relações ao numero de individuos, 
nem em nacionalidade (si posso usar desta expressão), ou em in- 
dependência de linguas. Acontece que cada enumeração de 
Índios, segundo os nomes agora acceitos, não raras vezes com- 
prehende hordas inteiramente idênticas ou separadas apenas por 
diíferenças insignificantes, do mesmo modo como reúne debaixo 
de um só nome outras, completamente diversas. As denomina- 
ções dos vários grupos Índios não pertencem a uma e mesma 
língua, ora são designações verdadeiras ou estropiadas que certas 
hordas adoptaram, ora pertencem á língua tupi que é a mais 
espalhada no Brasil, ora são até portuguezas. Finalmente, podem 
ser nomes pelos quaes uma tribu em contacto com os descendentes 
europeus, designa uma outra tribu e estes nomes são então mal 
interpretados ou appellídos e alcunhas transformados. 

Por isso, as divisões dos autochtones brasileiros, pelas suas 
diversas denominações não são de valor idêntico. Muitas delias 
são de povos inteiramente separados pela língua e certos cos- 
tumes ; outras designam apenas tribus que se differenciam por 
dialectos, ou hordas de origem mixta que crearam uma língua 
análoga a esta sua formação, e, finalmente, podem ser apenas 
famílias destacadas que por uma longa separação, adulteraram e 
transformaram até torna-la irreconhecível a sua lingua primi- 
tiva, tendo-a amalgamado com uma nova por elles formada. 

Esta enorme confusão babyloníca é um phenomeno con- 
tristador para o philan tropo e alarmante para o investigador. O 
passado remoto da humanidade americana apresenta-se-nos como 
um abysmo insondável. Nenhum raio de uma tradição, ne- 
nhum monumento de força íntellectual anterior esclarece essa 
escuridão profunda, nenhum som de uma humanidade elevada, 



— 24 — 

nenhum eclio e nenhuma elegia escapa deste tumulo para che- 
gar aos nossos ouvidos attentos. Millennios sem resultado pas- 
saram por esta humanidade e o único testemunho da sua alta 
antiquidade é exactamente esta completa dissolução, esta fra- 
gmentação total de tudo quanto estamos acostumados a saudar, 
como energia vital de um povo, representada ahi pela ruina 
absoluta. Nem ao menos o singelo e modesto musgo que como 
um symbolo da melancholia cobre as ruinas das grandezas an- 
tigas romanas e germânicas se estendeu sobre os restos daquel- 
la antiguidade sul-americana : — ahi (como por exemplo em Papan- 
tla) escuras e antigas mattas virgens esconderam debaixo do 
húmus e dos detrictos mortos os monumentos dos povos de ha 
muito desapparecidos e tudo que a mão do homem de oiitr'ora 
creára está coherto por camadas de uma decomposição incalcu- 
lável. A própria raça que desde tempos immemoriaes se sal- 
vara deste desapparecimento, traz agora, na sua infantil velhi- 
ce, o cunho de uma degeneração continuada por millennios. 

Foi em tal estado que os descobridores do Brazil os en- 
contraram. Pasmados da rudeza selvagem, quasi animal, destes 
autochtones maculados pelo peccatum nefandum e pela antro- 
pophagia, quasi duvidaram que fossem homens que tinham en- 
contrado (5) e, por isso, nao é de admirar que elles, não pre- 
parados para um tal espectáculo e não acostumados á critica 
das investigações, deixassem de deslindar os fios emmaranhados 
que conduzem á historia daquella gente. Em vez disso rece- 
beram ideias certamente erróneas que espalharam e que de 
modo nenhum correspondem a verdade em relação á vida, 
ao ser e as particularidades ethnicas destes Índios. E' deste 
valor, entre outras, a opinião corrente durante muito tempo 
que admittia a independência de certos povos que apenas eram 
tribus da extensa nação dos Tupis e que havia um povo pode- 
roso e bravio que denominavam lapuios, quando é certo que a 
palavra Tapuia na lingua tupi, primitivamente era a designa- 
ção coUectiva para todos os povos ou tribus que não pertenciam 
aos Tupis (6) e significava um inimigo (como hostis no latim) e 
actualmente quer dizer o indio livre ainda não civilizado. (7) 

Como um dos factos mais certos está provado que os Tupis 
(ou Tupinambás) encontrados pelos portuguezes, estavam domi- 
ciliados em quasi todo o littor^l e naquella época ainda forma- 
vam um povo numeroso e forte, apenas fragmentado em muitas 
hordas e subhordas que se guerreavam reciprocamente mas tendo 
no essencial os mesmos costumes e a mesma lingua apenas ma- 
tizada em diversos dialectos. Provavelmente originarias das re- 
giões dos rios de Paraguay e La Plata espalharam-se para o norte 
e nordeste até Amazonas e margens do oceano . Isso, porém não 
quer dizer que só elles occupavam todo este território, fixaram- 
se por entre tribus estranhas, resultando d'ahi que certas palavras 
da sua lingua pas^aram para a de seus visinhos. (8) 



— 25 — 

A lingna dos Tupis, por causa da sua distribuição tão ge- 
ral, tornou-se o vehiculo para as relações entre os europeus e 
08 Índios. Empregada de preferencia pelos missionários elles a 
desenvolveram e especialmente no Paraguay e no sul do Bra- 
zil, tornou-se ella a lingua Guarany ou dialecto mais puro e 
sonoro, ao passo que no resto do Brazil permaneceu como Tupi 
ou Lingua Geral. Esta ultima conservou-&e até agora somente 
nas províncias de Pará e Rio Negro onde serve não somente 
para as communicações entre as outra raças e os Índios mansos, 
(9) como constitue também a união destes entre si e para as 
relações com os índios livres, entre os quaes não é raro propa- 
gar- se. 

Deve-se considerar porém os Tupis como o povo predomi- 
nante entre os autochtones do Brazil. Em relação á grande 
distribuição da sua língua que se perpetuou por todo o Brazil 
nos nomes de numerosas localidades, podem elles ser compara- 
dos com o povo Cariba (Caoibes, Carina, Calina, Calinago) (10) 
no nordeste da America do Sul e com aquellas hordas no Peru 
superior e Chuquísaca que faliam a lingua Aimará. Mas assim 
como aquelles índios no Peru que primitivamente servíam-se da 
lingua Quicliuá, perderam a sua independência pela mistura 
com os hespanhóes, também não se encontram mais Tupis puros 
nas partes cultivadas do Brazil. Os chamados índios do líttoral 
que ora sós, era em communídades habitam desde Espirito San- 
to até Pará, são quasí exclusivamente descendentes dos antigos 
Tupinambás, porém, pela maior parte esqueceram a sua lingua. 
Somente bem no centro do Brazil, entre os galhos principaes 
do rio Tapajós, sem contacto com os europeus e nunca visitados 
pelf s viajantes, ainda vivem os Apiacás e Cahahyvas, como res- 
tos de um povo outr'ora forte e de larga distribuição. 

Estamos, pois, no caso singular em que as nossas descri- 
pções das relações jurídicas entre os autochtones do Brazil, no 
que respeita ao povo principal deste paiz, obrigam-nos a voltar 
até as narrações dos tempos anteriores. O que podemos apre- 
sentar de observação própria, relaciona-se especialmente com 
outras tribus e hordas no estado livre e cuja origem ou paren- 
tesco são totalmente desconhecidos ou, pelo menos, em muitos 
casos bastante duvidosos. Reina, comtudo, no modo de vida, 
costumes e horizonte intellectual de toda a gente da raça ver- 
melha, uma correspondência tão grande que, apezar de serem as 
observações feitas por entre tribus isoladas, esperamos, que a 
nossa exposição tenha apanhado os traços mais geraes e com- 
muus da vida intellectual da humanidade americana, si é que, 
de algum modo, conseguirmos dar conta da tarefa. 

Actualmente nenhum povo existe tão numeroso nem occu- 
pando tamanha extensão no Brazil como antigamente os Tupis, 
Notável é também que as fortes tribus de agora que merecem 
o nome de povo ou de nação, são encontradas no sul ou no 



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— 26 — 

centro deste paiz. Assim moram r.o Paraguay os Guaycurús 
{Mbayas-homens ?) denominados pelos brazileivos «os cavalleiros », 
calculados em 12.000; em Goyaz os CaiujDÓs e Cher entes, cada 
uma com cerca de 8.000 individues e nas margens de Tapajoz 
os Mauhés com 16.000 e os M^mãrucús i^om 18.000, Ao norte 
do rio Amazonas encontra-se um extraordinário numero de pe- 
quenas hordas e tribus com os mais diíferentes nomes, como si 
aqui por migrações ainda mais frequentes, guerras e outras ca- 
tastrophes, os povos primitivos tivessem desapparecido, dissol- 
vendo-se e fragmentando-se em grupos pequenos e fracos. Alli 
povos ha que compõe-se de uma só ou poucas familias, comple- 
tamente isoladas de todas as relações com os vizinhos, vivendo 
escondidas na escuridão das mattas virgens d'onde são expellidas 
só por causas exteriores e falando uma lingua paupérrima e 
atrophiada. E' esse o quadro contristador do estado desgraçado 
em que o homem, sob o peso da maldição da sua existência, 
parece evitar os seus irmãos, para fugir de si próprio. 

As tribus numerosas dividem-se em hordas e familias ; es- 
tas consideram-se então como communidades estreitamente unidas. 
E' evidente que muitas destas separações têm por base e cara- 
cter de parentesco, outras, porem adoptam as relações sociaes. 
Certos nomes destes grupos humanos são patrony micos que de 
conformidade com a tenacidade própria dos selvagens americanos 
foram continuamente herdados de pães ou de chefes (11) durante 
muitas gerações ; outros provêm de qualidades phyèicas ou de 
defeitos (p. ex. de orelhas alongadas, como nas hordas dos Caia- 
pós, membros adelgados, dos Crans etc.) ou do logar ou, final- 
mente, escolhidos arbitrariamente e inconscientemente transmit- 
tidos e conservados pelos descendentes. Também os colonos 
designaram muitas tribus por taes caracteres como p. ex. ore- 
lhudos, coroados, botocudos. Deste modo distinguem-se 7 famiias 
dos Guaycurús na margem oriental do Paragay e assim os Índios 
das tribus dos Gés, Crans e Bús na província de Maranhão, 
antepunham estas palavras aos nomes principaes, para designarem 
a horda. Uma secção dos Manáos no rio Negro superior cha- 
ma-se Ore ou Eré — Manáos isto é, Manáos ligitimos. 

Pela estatura, pela physionomia e especialmente pelo gráo 
de coloração epidérmica de taes hordas, mesmo quando resi- 
dem distantes, pode-se notar uma certa semelhança de famí- 
lia. Taes grupos parecem eôectivamente mais ligados por causa 
deste parentesco, porque guerream-se menos do que é habitual 
entre outros grupos formados de membros mais differentes, mui- 
tas vezes até de tribus diversas e com nomes que era são esco- 
lhidos pelo fundador ou chefe do grupo, ora arbitrariamente 
derivados de certos animaes ou plantas. Desta categoria são as 
duas hordas dos Miranhas que habitam o Yupurá superior e que 
differem na lingua, os Índios Passara Grande e os Cobras. E 
é deste modo que a tribu dos Uainumas, já pobre em pessoal, 



— 27 — 

se fragmentou em varias famílias, adoptando nomes de diversas 
palmeiras, de onça etc. (11). 

Em geral concordam todos os membros de uma tribu em 
usar certos ornamentos ou insígnias que lhes servem de distin- 
ctivo, escolhendo para isso as diversas espécies de ornatos de 
'pennas na cabeça, discos de madeira, palhas, pedras, cylíndros 
de resina e conchas que trazem nas orelhas, nas narinas e nos 
beiços e, sobretudo, as tatuagens (13) que com o maior cuidado 
praticam no rosto e em todo o corpo, desde a infância, de con- 
formidade com o costume dos parentes e sempre com a mesma 
regularidade. Talvez nào seja inexacta a minha opinião já 
externada (14) de que taes distinctivos nacionaes sirvam ao mesmo 
tempo de signaes permanentes principalmente para reconhe- 
cerem-se de longe como amigos ou inimiges. 

O que, porém de modo especial estabelece e regula a forma 
das relações reciprocas entre os diversos povos, tribus ou hordas, 
é a lingua. Uma lingua commum ou pelo menos idêntica, ge- 
ralmente irmana esta gente bruta e apesar de que, não raras 
vezes se guerream, taes brigas, todavia, são transitórias, ao passo 
que outras tribus, cuja lingua nenhum parentesco apresentam, 
são inimigas permanentes, em eterna perseguição reciproca. 
Uma inimizade constante e hereditária entre certas tribus está 
intimamente ligada com o seu nacionalismo. Pedindo a um sel- 
vagem o nome da sua tribu, elle quasi sempre e sem disso ser 
interpellado, dá também o nome da tribu que é sua inimiga 
mortal. Assim cada Mundrucú entende como inteiramente na- 
tural, até como dever sagrado para com o seu povo, de perse- 
guir por toda a parte o pobre e fraco Parentintim, cortar-lhe a 
cabeça e mumiíical-a para figurar como um tropheu horrível. 
Desta forma quasi toda a tribu tem um inimigo declarado e 
ambos se consideram reciprocamente proscritos. 

A conservação do sentimento de uma origem idêntica ou 
apparentada, por meio de uma lingua igual ou parecida, arma 
as partes de um povo ou de uma tribu contra os inimigos com- 
muns. Ao mesmo tempo e de diversos logares, organizam- se 
os ataques contra o inimigo, segundo certas convenções e au- 
xilio mutuo. A inclinação innata para a caça e para a guerra, 
o sentimento vingativo facilmente despertado e a poderosa 
força da ambição, unem-se para conduzir toda uma communi- 
dade a uma expedição armada e nenhum homem valido, de 
livre vontade, se exime de acompanhar taes empresas guerreiras. 
As relações mantidas entre as tribus de um e mesmo povo ou 
entre as hordas da mesma tribu, representam, pois, uma tacita 
alliança offensiva e defensiva. Taes allianças, porém, não limi- 
tam-ae aos indivíduos da mesma tribu ou povo, varias circum- 
stancias determinam não só a união entre communidades difíe- 
rentes mas causam também fragmentação entre outras, gene- 
ricamente apparentadas ; assim, por exemplo, parecem quasi que 



— 28 — 

expulsos de toda e qualquer communidade os Muras que habi- 
tam as margens do Madeira e do ttolimões de onde, como ciganos, 
emprehendem expedições de roubo e de latrocinio. Desprezados 
e perí^eguidos por todas as outras tribus, são elles talvez os 
pobres rectos de um povo outr'ora forte e poderoso que em 
expiação das crueldades e roubos praticados sem distincção 
alguma, por guerras sem tréguas dos visinhos, perdeu o domi- 
cilio fixo e fragmentou-se completamente. Em condições intei- 
ramente contrarias apparecem outros povos poderosos que, como 
os Guaycicrús e os Mundr^icús, ganharam a hegemonia entre 
os visinhos ; acomodam as brigas entre os fracos e são os garan- 
tidores da paz ; solicita-sel-hes a alliança, e por meio de convites 
ás festas e por presentes oííerecidos aos chefes, procura-se obter 
a sua protecção. Em outros tempos, as tribus de origem raraiba 
tinham alcançado igual supremacia sobre os Índios do Kio Branco, 
Rio Negro e Solimões que guerreavam, principalmente para fazer 
escravos, e ainda hoje nota-se grande medo por certas hordas 
caraibas que se fixaram entre outros povos que habitam os aflu- 
entes do Solimões (15), 

Os vestígios de allianças baseadas sobre o direito das 
gentes, são muito insignificantes, as-sim como relações com- 
merciaes de povo a povo, de caracter publico. E' verdade que 
muitos objectos passam de mão em mão até distancias grandes, 
porem, estas relações de permuta de certos objectos fabricados 
por uma outra horda, nunca são negócios da conimanidade. Só in- 
divíduos determinados, especialmente os chefes, que a par da 
influencia maior unem mais experiência, experteza e actividade, 
sustentam tal commercio Assim encontramos no Rio Tapajós 
um chefe dos Mavhés que queria barganhar arcos de madeira 
vermelha e pasta de guaraná para bebida contra ornamentos de 
pennas dos Mundrucús. O velho Juri-tahóca que mostrou-me 
a fabricação do veneno das flechas (16), negociava com este 
artigo entre os povos amigos que moravam mais para o sul, 
onde a influencia da civilização européa já se manifesta, a tribu 
se congrega para commerciar sob a direcção do chefe ; assim os 
chefes d' s Mundrucús e dos Mauhés vendem farinha de man- 
dioca e salsaparrilha, produzidas jiela communidade inteira, aos 
negociantes de Santarém e Óbidos . 

A submissão dos mais fracos, mais covardes e mais pregui- 
çosos, debaixo de um individuo que se lhes avantaja era força 
physica e intelligencia, está bem arraigada no caracter humano. 
E é nisso só que se baseam a importância e a posição de um 
chefe entre os autochtones brazileiros ; somente as qualidades 
pessoaes elevam (17) a chefe ou director da horda, da tribu. 

Costuma-se geralmente dar o nome de Cacique aos chefes 
de todos os selvagens americanos, ligando a este nome a idéa de 
um déspota poderoso que, sem restricção alguma, dispõe da vida 
e da propriedade de seus companheiros da tribu, que determina 



- 29 - 

e dirige tudo que a ella diz respeito. Mas os conquistadores 
hespanhoes não podiam dar a essa denominação tal sentido, em 
relação aos chefes dos mexicanos, em cuja língua a palavra Ca- 
cique quer dizer « O NenAor », e ombor^i alli tivessem encontrado 
uma monarchia assente sobre as columnas de uma aristocracia, 
porque certamente os chefes de cada uma dessas hordas não go- 
zavam de uma autoridade tão firmada, nem poderio tão extenso. 
Com esses caciques dos mexicanos, os Curacas dos antigos pe- 
ruanos estavam em mesmo plano. Estes governavam as diversas 
hordas e tribus que tinham sido subjugadas pelos Incas, ao prin- 
cipio, exclusivamente como os chefes nas Antilhas e no Brazil 
governavam os seus povos. 

Somente depois de um desenvolvimento maior do poder so- 
berano da famiiia dos Incas, aquelle Curaca tornou-se um grande 
do rnino e sendo da família do governador Inca, assumiu a qua- 
lidade de chefe de horda. Muito frequentemente tem- se exag- 
gerado a natureza das relações sociaes entre os autochtones 
americanos, por tel-as comparado com muitas da» instituições 
dos mexicanos, que talvez fossem introduzidas posteriormente pelos 
conquistadores (19^ 

Entre os autochtones brazileiros, a distinção e o poder dos 
chefes estavam em gráo inferior, fundamentada por circumstan- 
cias transitórias, e pessoaes. 0^ chefes dos tupis chamavam-se 
Tupixaba (contrahido em Tuxana, também Morubixaba) e assim 
são denominados ainda hoje ; em purtuguez se chamam Principal 
ou Capitão. 

Força physica, agilidade, coragem, sagacidade e principal- 
mente a ambição, tão rara entre os Índios que não se dão ao 
trabalho de pensar pelos outros para os guiar ou commandar, 
são as qualidades que constituem o chefe. Um dos mais antigos 
e curiosos documentos sobre a geographia e ethnographia do 
Brazil f20), afíirma a respeito dos Tupinambás que elles, após a 
morte de um chefe, escolhiam novo chefe considerando especial- 
mente a famiiia do fallecido. Os Macamecrans, no norte de 
Goyaz, com cerca de 3 mil indivíduos, assevera-se (21), tinham 
um chefe hereditário e mais 7 chefes de guerra, provavelmente 
commandantes das diversas communidades. Em gerai, porém, 
informaram-me, taes escolhas se fazem sem ceremonias e sem 
considerar a famiiia do morto. Parece-me que o chefe deve 
essa sua alta posição entre os seus companheiros, tanto á força 
e o valor da sua personalidade, como á escolha por parte da 
communidade. A imbicilidade e a indolência da turba fazem- 
na submetter-se á maior intelligencia e actividade de um indi- 
viduo. Em taes circumstancias é natural que a distincção de 
chefe seja antes a consequência de uma convenção tacita, do 
que por accordo. Elle não se sujeita a deveres (22) determina- 
dos e os outros em sua sujeição, não lhe conferem um grau de- 
finitivo de soberania. 



— 30 — 

Além disso os serviços dos chefes em tempo de paz são 
limitados a poucos serviços públicos. Elle ouve-as, aliás, raris- 
simas queixas de partes em briga, juls^a-as como bem lhe pa- 
rece, geralmente de accordo com o feiticeiro, e medico {Pctgé) ; 
preside ás conferencias da communidade ; regula as relações com 
as trib'is vizinhas cujos emissários de preferencia se hospedam 
com elle ; fixam allianças com elles ; trata da caça em commum 
etc. No caso da communidade já estar em relação com os nego- 
ciantes brazileiros é elle, como o mais esperto e experiente, quasi 
sempre o intermediário, que fecha o negocio, fornece e recebe os 
artigos de permuta, abastece os emissários com mantimentos, dá 
escolta de segurança quando devem atravessar todo o território 
da sua soberania e cuida no transporte de suas mercadoria (23). 

O grau da sua auctoridade, em todos estes casos, diverge 
bastante conforme as suas qualidades pessoaes, todavia, ha em 
geral uma grande submissão a todas as opinões e desejos desta 
personagem. A's vezes tem elle familia numerosa, ou outros 
amigos valentes á sua disposição para fazer cumprir as suas or- 
dens, e, como além da indolência innata desta gente, também ha 
o medo, reina elle á descrição e com um poder que seria insup- 
portável, si a sua ambição ou mania do poder o impellisse a 
grandes excessos contra os seus patrícios. Onde já existem 
relações com os brancos, o espirito emprehendedor de taes chefes 
tornados dictadores, é aproveitado principalmente para caçadas 
humanas, porque a venda de escravos conquistados é uma fonte 
de enriquecimento. Quasi por toda a parte nas províncias do 
interior, onde ainda moram numerosas hordas de índios, floresce 
este vergonhoso commercio de carne humana, sendo um dos 
princípaes motivos do rápido decrescimento do povo indio. 

Para a própria tribu o chefe dictador torna-se um flagello 
si elle, preso ao vicio da polygamia, sem respeito pelo direito, 
transforma a sua cabana em harém. Este caso, porém, é bas- 
tante raro por causa do temperamento inerte do indio. No Rio 
Negro contaram-me muita=í historias das crueldades do Tupixaha 
Cocui, dos Índios Manáos, no curso superior deste rio. Este 
chefe não se contentava com o rapto das mulheres dos seus 
companheiros ; tendo saciado nellas os seus instínctos, engorda- 
va-as e comia-as. Taes excessos de poder, o chefe muitas vezes 
paga com a morte, porque o ciúme e o espirito de vingança são 
poderosos motoras para o índio americano, talvez até as únicas 
emeções da sua alma embotada, capazes de o arrancar do seu 
entorpecimento indolente. 

Onde o chefe possue escravos ou familia numei'03a, pode 
elle, com este contingente, entregar-se a uma lavoura mais ex- 
tensa do que é costume. Assim não lhe faltam alimentos e 
esta opulência permanente contribue muito para conservar-lhe a 
estima dos seus súbditos. Quasi sempre tem elle alguns hospe- 
des e na sua grande cabana, ou no quintal, o espaço que a 



circunda, realizam-se a maior parte das orçias e mais reuniões 
da communidade. As suas mulheres e escravos trazem as be- 
bidas e comidas e servem aos hospedes, fazendo elle próprio as 
honras da casa. Assim encontrei os costumes, durante a demo- 
ra por umas semanas na cabana do chefe dos Miranhas, cani- 
baes do Yupurá superior. E' verdade que aUi não reinavam a 
civilisação e a moral hellenicas, porem, muito lembrava-me da 
simplicidade natural do Kir dos heróes homéricos. 

A gravidade taciturna do chefe daquelles Miranlias não o 
permittia de mostrar-se com as insígnias da sua dignidade du- 
rante as festas, ás quaes chegavam velhos e moços ornados de 
vários enfeites para assistirem ás danças e aos banquetes. Em 
outras occasiões, porém, apparecem os chefes enfeitados de ri- 
cos ornamentos de penas ao redor da cabeça, nos hombros e nas 
virilhas [Araçoyaòa), pintados de vermelho e com armas bella- 
mente esculpidas na mão (24). Os chefes dos Índios Gsz em- 
punham um machado de pedra de cabo curto como distinctivo 
da sua posição. Os chefes Mandrucús tem um sceptro de pen- 
nas fabricado com muita arte e os Twpixahas das tribus Tupy 
parecm ter como emblema de sua cathegoria a Tocacaba, uma 
grande taquara. Foi por isso que o ministro Pombal, para agra- 
dar os chefes índios subjugados e reunidos em aldeias, fez dis- 
tribuir entre elles bengalas de junco com grande castão e bor- 
las. Eu ainda as alcancei nas mãos de alguns priucipaes que, 
juntamente oom casacas fora da moda e cabelleiras, oífereciam 
um espectáculo ridículo. Qiie os chefes de certas tribus selvagens 
cortavam os seus cabellos em coroa e deixavam crescer as unhas, 
conta-nos um auctor antigo (25). 

O dever do chefe é convocar reuniões para discutir os ne- 
gócios públicos. Entre os descendentes dos antigos Goiatacazes, 
os Coroados, que moram no limite entre Minas e Rio de Ja- 
neiro, faz-se hoje a convocação por meio de uma busina (Boré) 
feita de um chifre e entre os Caiapòs e Botucudos (26) por um 
instrumento similhante feito da cauda*do grande armadillo (tatu) ; 
entre os Crans por businas fabricadas de purungas ; entre os 
Mundrucus por um instrumento de taquara e entre os Miranlias 
e outros povos ao norte do Amazonas, por tambores de madeira 
{Uapy) (27) que, tocados de difPerentes modos, como um telegra- 
pho acústico espalham as noticias. 

A's mais das vezes estas reuniõe=í se eífectuam de noite. 
Cada chefe de família tem o direito de assístil-as, (28) appare- 
cendo em geral só os mais velhos. Moços nunca lá vi, porém 
muitas vezes meninos e crianças que importunamente se moviam 
entre os oradores, sendo supportados com uma paciência que 
admira ao europeu. Antes de começar a discussão ouve-se um 
murmúrio ou conversa baixa entre a multidão quieta. Todos 
ahi faliam de um modo monótono e ao mesmo tempo sem se 
importarem si alguém lhes ouve ou não. Unicamente o j9«^é 



— 32 — 

ou um ou outro que quer fazer partido, s« move com alguma 
yivacidade, conversando. Logo que o chefe apparece — e raras 
vezes elle se faz esperar — a reunião fica silenciosa. Em geral 
de pé, ou sentados sobre os calcanhares, formam um circulo ao 
redor do chefe. Os que vêm de longe tem as armas na mão 
ou encostam -nas a parede. Si a reunião é poueo numerosa, ef- 
fectua-se ella, sem distincção, nas redes da grande cabana e a 
discussão tem logar nesta posição indolente. 

Conforme ouvi durante a minha estada entre os Puris e 
Miranhas, o assumpto de taes conferencias eram os seguintes : 
tempo e logar de caçadas em commum (de pássaros migratórios) 
e pescarias ; participação rm expedição para colher salsaparrilha 
ou capturar tartarugas ; venda de redes de dormir ; ferimento de 
companheiros e a necessidade de satisfação. Também discutem-se 
nessas reuniões as expedições guerreiras ou ataques para vingar 
derrotas ou capturar prisioneiros ; mas, com accôrdo prévio de 
cada um. 

O chefd expõe o assumpto e deixa cada um fallar a seu 
turno, raras vezes interrompem o orador, e a conferencia tem um 
caracter de calma, paciência e sangue frio incomprehensiveis ao 
europeu. Parecem examinar o assumpto de todos os lados e como 
o Índio não hesita em mudar de opinião, a deliberação é quasi 
sempre unanime. Uma simples palavra como: «está bom», ou 
«acontecerá» etc, da bocca de todos, muitas vezes com tran- 
sposição das palavras e repetição emphatica, traduz o consenti- 
mento geral. E' sabido que nas reuniões de Índios Norte- 
Americanos mantem-se uma fogueira, (29) porém este costume 
nunca observei entre os selvagens brasileiros. 

A execução do que foi deliberado é conferida ao chefe, só 
ou com auxiliares. Uma outra reunião em que devem dar conta 
do acontecido fica fixada para um dia determinado. Levantada 
a sessão ergue-se o chefe dizendo «vamos» ; cada um repete o 
«vamos» com gravidade e a reunião dissolve-se. 

Em muitas destas conferencias é interdicta a entrada para 
as mulheres que, eomo em geral se observa, gozam de muito 
pouca confiança dos homens. Retiram-se para as cabanas pró- 
ximas onde se occupam no preparo das bebidas para a orgia 
que auecede a quasi todas as reuniões. Entre os povos que têm 
escravos, são estes prohibidos de testemunhar as conferencias. 

Quando o chefe funcciona como juiz entre indivíduos ou 
familias, o que, segundo a nossa opinião acontece mais em causas 
civis do que criminaes, o julgamento é feito na sua cabana sem 
que os outros habitantes a desoccupem. Ambos os partidos appa- 
recem pessoalmente e em casos importantes, trazem toda a fa- 
milia e parentes. Também o page e, ás vezes, testemunhas 
trazidas pelos interessados, ahi figuram. Que o juramento exista 
como prova nunca ouvi. Taes julgamentos são em geral feitos 
á tarde. 



-- 33 — 

Na guerra, a auctoridade do chefe aug-menta ; ordena então 
com poder absoluto, geralmente de accôrdo com alguns amigos 
ou com o page e é obdecido cegamente ; tendo o direito de vida 
e morie sobre cada um dos seus guerreiros. Uma v z atrav»^s- 
sando uma matta em companhia do chefe dos Mirnnhas e meu 
interprete, deparamos com um esqueleto amarrado a uma figueira; 
rindo-se, disse-me então o indio : « estes são os restos de um 
companheiro que mandei matar a flecha das, porque desobedeceu 
á minha ordem de chamar uma tribu amiga em auxilio contra 
os inimigos vagabundos da tribu Umauá)^. 

Si varias communidades se reúnem para uma guerra, o com- 
mandante em chefe é eleito pelos outros chefes, sem consumarem 
os guerreiros, e si a eleição vacilla entre dois chefes, o duello 
decide entre elles ou, a palavra do prgé ou, finalmente, a voto 
da communidade. Os Guaycurús em guerra elegem o mais moço 
de seus chefes e os mais velhos o acompanham como conselheiros. 
No d a da sabida, o eleito, assentado na rede, recebe os guer- 
reiros que, um por um, apresenta os seus respeitos á mãe ou 
educadoura do chefe. Esta então, em voz alta, e com lagrimas 
nos olhos, conta todos os grandes feitos dos antepassadas e instiga 
08 guerreiros a imitar-lhes a antes morrer do que fugir (30). 

Em marcha o chefe occupa a frente e peleja nas primeiras 
fileiras A instigação dos outros chefes das hordas alliadas, 
muitas vezes incita-o a praticar os mais heróicos e arriscados 
actos e, não raras vezes, no ardor da peleja, o commandante 
perde completamente a sua acostumada calma. Sórnente entre 
os Mundrucús que. aliás, possuem uma constituição militar com- 
plicada, o commandante em chefe se conserva por detraz dos 
combatentes de onde lhes communica as suas ordens por meio 
de grandes businas. Ao contrario de todos os outros é elle 
rodeado p^r numerosas mulheres que com grande destreza pro- 
curam desviar delle as flechas que contra elle arremessam (31). 
O exercito todo é que determina si haverá perdão ou não, 
passando o chefe a executar a decisão. 

De modo nenhum o chefe locupleta-se com presentes ou 
impostos ; pó do saque recebe elle uma parte maior, geral- 
mente de escolha própria. Toda a espécie de contribuição é 
desconhecida entre os índios brasileiros ; não ha entre elles do- 
mínios, nem fiscaes (32). Bi para uma expedição de guerra são 
necessárias maiores quantidades de mantimentos, cada uma das 
familias contribuo em relação ao numero de seus membros guer- 
reiros ou mesmo conforme a boa vontade. Sendo a expedição 
para logar muito distante e não havendo quantidade sufficiente 
de provisões de boeca, a communidade toda reune-se para prepa- 
rar um terreno para o plantio, especialmente da mandioca Estas 
culturas em commum entre os selvagens brasileiros, é o único 
ónus que em relação a serviços para o bem geral pode ser com- 
parado com o trabalho do vassallo europeu antigo (33). 



— 34 — 

Em muitíis tribus certos indivíduos lia que, apesar de va- 
lidos, não são obrigados a acompanhar os outros á guerra. Este 
facto é evidentemente um vestígio de privilégios hereditários 
entre estes povos. Os escravos aqui como entre os antigos;, não 
são couíiiderados dignos de trazer armas e, nas tribus em que os 
prisioneiros de guerra são misturados entre os outros e permit- 
tidos de procrear, desenvolve se desta íorma uma casta de gente 
escrava e ftarticularment?» inferior. O Guaycurús, Mundvíicm e 
Mauhés, assim como os Botuciidos (3-1:) no Brazil oriental, raras 
vezes concedam a vida a seus prisioneiros masculinos adultos. 
As crianças, ao contrario, levam comsigo para serem educadas 
por suas mulheres. A casta de escravos (35) assim formada, é 
bem tratada pelos Guaycurús; é considerada como pertencente 
á familia e toma parte em todos os negócios e todus as festas 
da casa. Mas, apezar desta benevolência, é tida como rebaixa- 
mento a união de um homem livre com uma escrava (36). Os 
escravos que vi entre os Mundrucús e Mauhés não tinham li- 
cença para tatuagens como os seus vencedores e senhores, nem 
para trazer ornatos eguaes. Tão pouco podiam conserv^ar os or- 
natos e distinctivos da sua própria tribu (37). Entre outras tri- 
bus, como nos numerosos e guerreiros Timhyras de Maranhão os 
prisioneiros de guerra são escravisados, j)orém, não são tratados 
com tanta differença. 

Os Guaycurús, além disso, distinguem no seu povo ainda 
duas categorias (ou castas?): os guerreiros livres e os nobres 
(38). Estes últimos são denominados capitães pelos portuguezes 
e as suas mulheres são tratadas de dona, por polidez européa. 
Estas familias mais nobres e mais poderosas conservam com 
ciúme uma espécie de primazia entre o povo, principalmente 
pelo casamento de seus membros entre si, todavia, não são pro- 
hibidas as uniões com indivíduos femininos da categoria dos 
guerreiros.' E' dos nobres que se elegem os chefes. 

Entre os Miranhas, Uainumás, Júris, Passes e outras tri- 
bus no Yupurá, que também escravisam os seus prisioneiros, 
tratam-se menos humanamente as crianças. Como ahi nào existe 
um despotismo individual, também não prevalei^e a observação 
geral de que a sorte dos escravos entre povos de governo des- 
pótico seja relativamente melhor. As mulheres aprisionadas se 
tornam muitas vezes concubinas dos vencedores mas, apezar 
disso, vivem os escravos alli na maior miséria, condem nados a 
todos os trabalhos a que são forçados por meio dt5 pancadas e 
cruelmente abandonados quando doentes e fracos. Por si mes- 
mos têm de prover as suas necessidades, ou os habitantes livres 
das cabanas lhes jogam os restos que sobram das refeições. Aqui 
não vivem como entre os Guaycurús e Mundrucús nas condi- 
ções mais suaves de subordinados protegidos mas, em qualidade 
de escravos despresados. Geralmente não são aqui, como alli, 
educados desde a infância, mas de ordinário, aprisionados já 



— 35 — 

adultos e, em occasião opportuna, vendidos aos brancos. A mi- 
séria e a falta de reciiráos em que observei famílias inteiras de 
Júris entre os Miranhas, teria revoltado os sentimentos dos 
bravos e generosos M.undrucús, ao passo que era nada impres- 
sionava os brutos e bestiaes Miranhas. Nào distante deste povo, 
entre o rio de Yupurá e o alto Rio Negro, liabita uma tribu 
selvagem, ainda dada á antro popliagia, os Uaujjés, que mantêm 
differenças de casta. Distinguem entre chefes nobres e plebeus 
e indicam a casta pelo comprimento maior ou menor de um cy- 
lindro farado que cada um traz pendurado no pescoço. A razão 
histórica desta divisão talvez seja, como entre Guaycumis, a 
conquista de muitos escravos. Pelo menos os Uaupés eram outr'- 
ora uma nação muito guerreira que atacava os visinhos e os 
escravisava (39). O escravo entre todos estes povos, não 
é, além disso somente o servo exclusivo do seu dono, por- 
que os seus serviços são reclamados pela communidade toda, 
principalmente pelos habitantes da cabana onde elle se acha. 
O mesmo costume tinham também os antigos Lacedemonius (40). 
De manumisRÕes dos escravos, em parte alguma tive notisia. 

Além disso, não ha entre os Índios brazileiros circumstancia 
alguma que restrinja a liberdade individual, especialmente do 
homem; só o facto de ter sido preso na guerta, o priva delia. 

Nisto diíferem essencialmente dos negros, entre os quaes 
não somente os prisioneiros de guerra, como também os assassi- 
nos, os adúlteros, os feiticeiros, os traidores e os devedores per- 
dem a sua liberdade em paga de seus crimes. O poder pátrio e 
o predomínio do marido sobre a mulher permittem, é verdade, 
ao índio americano de vender a mulher e os hlhos, como mais 
tarde teremos occasião de mencionar, porém, isso acontece raras 
vezes, ao contrario do que se observa entre os povos africanos, 
onde é facto frequente o pae procrear filhos unicamente para 
servir de mercadoria. 

A Africa, onde em consequência de uma força procreadora 
assombrosa, a vida de cada um quasi que desapparece está, além 
disso, em contraste singular com a America, paupérrima em po- 
pulação e cuja humanidade primitiva, no triumpho das forças 
naturaes brutas, não somente se acha intellectualmente deprimida 
e obscurecida, «como também pbysicamente desorganizada e al- 
cançada pela maldição da esterilidade. 

Como casta es])ecíal entre os Giiajjcurús, certamente não se 
pode considerar aquelles homens que se vestem como mulheres 
e se entregam exclusivamente a occupações femininas como : fiar, 
tecer, fabricar potes, etc, e que o povo denomina «Cudinas», 
isto é castrados (^41). Tal costume, de homens, assim deformados 
e que pela primeira vez foi observado entre os Índios Sioux e 
outros em Louisiana, Florida e Yucatan, torna a apparecer tam- 
bém no sul do Brazil, tão longe d'aquellas terras, o que é tanto 
mais curioso, porque a significação e o destino destes androgynos, 



— 36 — 

constituem um enygma na ethnographia americana. Além disso^ 
todas as narrações parecem accórdes em affirmar que os andro- 
gynos entre os Índios gosam de pouca estima. Nào ha vestígio 
algum, de culto especial ou de qualquer espécie de confraria. E'^ 
por isso, mais provável que este costume esteja ligado á enraizada 
corrupção moral dos Índios, do que derival-o de uma s^^ita de 
abnegados e voluntariamente humildes ou, como fez Lafitau^ 
reconhecer nelles servidores da «Dea syria»,si bem que na maior 
degenerescência (42). 

O philantropo, de bom grado, veria um laço que une mesma 
esta humanidade inferior a um mundo espiritual superior, nestes 
costumes singulares e enygmatícos; porquanto, baseados em certas 
ideias de um ser espiritual, de um culto e de uma casta de 
padres que o professam, mas, como actualmente esta raça ver- 
melha se nos apresenta, não nós é permittido esta consoladora 
opinião. Todos os fios de uma ligação entre um tal estado espi- 
ritual anterior e o triste presente estão rotos. Os índios não tem 
padres, têm somente feiticeiros que ao mesmo tempo empregam 
remédios e exorcismos para exercerem influencia sobre a super- 
stição e o medo de phantasmas do povo bruto. Podemos perfei- 
tamente comparal-os com os Schamanos dos povos norte-asiaticos. 
(43) Como aquelles, são estes, além disso, não só feiticeiros, fa- 
bricantes de fetiches, prophetas, explicadores de sonhos, exor- 
cistas, visionários e curandeiros mas, a sua acção tem também 
um caracter politico, porquanto excercem infl ciência sobre as de- 
terminações dos chefes e da communídade nos negócios públicos 
e funccionam nas causas privadas como juizes, procuradores e 
testemunhas, tendo nisso uma autoridade superior á de todos os 
outros. 

Os pagés de uma tribu parecem formar mais ou menos uma? 
espécie de confraria. Eftectivamente, têm elles um interesse 
commum em conservar o povo na maior superstição, para com- 
isso poder chegar á maior distincção, fortuna e influencia. Já 
desde a mocidade de>tínam-se os pagés a esta confiaria do em- 
buste. Os velhos ladinos íncumbem-se de educar os discípulos, 
reclusos na maior solidão e de instruíl-os. O jovem feiticeiro 
habita só no alto de uma montanha, ao pé de uma cachoeira 
ou em qualquer outro logar apropriado. Pelo mjenos apparen— 
temente (44) jejua elle durante dois annos até que, finalmente 
e debaixo de certas ceremonias, os outros o conduzem como 
page á sua horda. De volta ahí, procura elle impor-se pelo- 
silencio, reclusão com gravidade, penitencia e tratamento char- 
latão dos doentes e, pouco a pouco, adquire a.ssim uma espécie 
de confiança um mixto de medo e de admiração. Seria in- 
exacto admittir que elles são inteiramente hypocritas. São como 
tantos ourres impostores, er>ganado8 pela sua própria superstição e 
suppõem-se effectivamente com poder directo sobre forças oceul— 
tas, suas inimigas. Apezar disso não ha duvida que a maior 



— 37 — 

parte de seus actos são guiados pela ambição e pelo egoismo. 
Sabem alliar-se aos chefes que, sendo os mais ladinos e de 
menos <«revenções, acceitam-nos com as suas astes 

Muitos destes pagés têm entre as hordas visinhas a fama 
•de especial santidade. Tanto elles como a sua cabana e mais 
propriedade são respeitados mesmo na guerra e no saque, ao 
passo que outros são tratados como inimigos vulgares. Para o 
page, como para o chefe, tudo depende da força da sua perso- 
nalidade. O feiticeiro que a horda não mais teme, pode estar 
certo do seu mais ardente ódio e perseguição que vae até a morte. 
O page benze amuletos (madeiras e ossos, pedras, pennas, etc.) 
para arredar a infelicidade da cabana ; estes objectos são su- 
persticiosamente guardados e adorados. Onde elle funcciona 
^m qualidade de juiz, interdiz certos objectos com exorcismos 
diversos, de modo que o ex-proprietario se convence mais do 
«eu direito sobre elles, ou perde-o, geralmente a favor do page 
•ou de um í^eu protector. Incutindo a crença de feitiçaria, li- 
mita, amplia ou assegura elle muitas vezes a uma commun idade 
inteira a posse de propriedades, direitos ou faculdades. Assim, 
por exemplo, determina o page os limites de certas zonas para 
caça etc, ou que uma mulher sobre a qual ha diversas pre- 
tençÕes, deva de ser cedida ou recebida por quem elle indicar. 
Também para allianças, guerras ou jaz, os pagés aconselham 
com grande auctoridade. Para este fim allegam ter tido appa- 
rições nocturnas, ouvido vozes terriveis cu terem tido conver- 
sas com fallecidos eic. A apparição de um animal como a Jiti- 
raiiaboia, de certas corujas ou gaviões, os movimentos de cobras 
domesticadas, são invocadas como signaes de suas relações com 
os ?eres sobrenaturaes. (45) 

De modo similhante, directamente ou por insinuações e no 
interesse do page. actuam também as feiticeiras. E', portanto, 
^ ideia obscura da relação das cousas terrestres com uma força 
occulta que as domina — preoccupação a que nunca é totalmente 
extranho o homem mais bruto — que constitiie o laço com o 
que o astuto page fomenta a cegueira indolente de seus com- 
panheiros. Assim actua este embusteiro enganando, directamente 
por si ou em connivencia com o chefe, allegando o mandado de 
um mundo de espiritos superiores, incomprehensiveis, consti- 
tuindo-se legislador, juiz e executor (46), 

Descobrimos o triumpho destas tentativas primitivas de 
uma theocracia, na eleição de um page pelo voto da maioria 
de seus collegas, para o posto de eremita santo e invulnerável 
que, longe dos homens e no monte mais inaccessivel da região, 
habita sem nutrir -se e em communicação ininterrupta com seres 
«uperiores. Nas margens do Yupiirá ouvi falar de um destes 
homens milagrosos que os Índios mencionavam com toda a ve- 
neração. Diziam que elle morava nas montanhas fulgurantes 
■de ouro e de prata ao pé do rio Uaupé, apt^nas acompanhado 



— 38 — 

por iim cão que com seus latidos o avisíiva da aproximação dos 
eclipses. O feiticeiro então transfbrmava-=e em um grande pás- 
saro voando, por entre os povos até que, pela volta do brilho 
do sol, elle podia regressar á sua habitação. E' curioso como 
esta lenda lembra as dos montes de ouro de Parimá e o costume 
dos antigos peruanos que, por occasião dos eclipses, com pan- 
cadas faziam latir os cães (47) ; assim como das forças magicas 
que muitos indios attribúem a pássaros do género da águia (48). 

Quando as magicas e as feitiçarias são praticadas no intuito 
de molestar ou prejudicar, são consideradas por esta gente feroz 
como as maiores offensas ao seu estado social. Ameaçam a 
segurança das pessoas e da propriedade dum modo duplamente 
terrível por terem o poder imaginário de praticar o mal por 
meios sobrenaturaes e clandestinamente. Dahi tamhem o ódio 
e a perseguição, por parte de todos, áquelle que incorreu na 
suspeita de praticar sortilégios sem, ao mesmo tempo, como os 
pagés médicos, produzir um beneficio. Muitas vezes é o pró- 
prio page que por meio de castigos inflingidos por outro conse- 
gue livrar-se de um riv?l perigoso. Nào sendo feliz no tra- 
tamento de um doente, attribúe a culpa disso ao feitiço de um 
inimigo do enfermo e, não raras vezes acontece, então que os 
parentes do doente se livram do pretendido inimigo, matando-o. 
Além disso é o caso apresentado ao chefe ou a toda a commu- 
nidade para conferencia. Entre os selvagens brazileiros é mais 
frequente sacrificar mulheres (49) do que homens a taes ideias 
supersticiosas. O indigitado culpado é morto a pancadas ou 
flechado. Nestes costumes os iudios do Brazil não differem de 
todos os outros aborígenes americanos e, especialmente dos Ca 
raibas que são dominados pelas mesmas prevenções (50). 

Por inferior que pareça a civilização dos autochtones bra- 
zileiros por estes traços de seus costumes em relação ao direito, 
todavia, não lhes é desconhecida a ideia da propriedade, tanto 
em relação á communidade como ao individuo. O engano cor- 
rente de que não possuem propriedade immovel, certamente provem 
da opinião errada de que os selvagens sul-americanos não tinham 
lavoura e nem a exercem ainda, o contrario é que é exacto ; pois 
só conheci povos que possuíam lavoura, por pequena que 
fosse, excepto os vagabundos Muras, que não tinham domicilio. 
Nómades como os ha nos esteppes asiáticos, cuja existência 
depende exclusivamente do seu gado, não existe em toda a 
America do Sul onde, sem excepção alguma, não se conhecem 
os lacticínios. Em toda a extensão que as familias de uma horda 
occupam numa certa região, é esse território considerado pro- 
priedade da communidade. Esta ideia está clara e viva na alma 
do índio e elle comprehende a propriedade commum como cousa 
inteiriça da qual porção alguma pode pertencer a um individuo só. 
Por isso elle não concede ao um outro índio da horda vizinha, 
sinão por medo, a licença de domiciliar-se neste terreno, apesar de 



— 39 — 

considerar o sen valor tão diminuto que, muitas vezes e sem razão 
alguma, eWe o abandona para, oonfórme o capricho, ir habitar 
outro, no que também nenhum dos seus companheiros o impede. 
Esta ideia nitida de uma propriedade determinada da tribu 
toda, baseia-se principalmente na necessidade de possuir uma 
certa região de rnatta para terreno exclusivo de caça porque, 
ao passo que poucos hectares de terreno cultivado são sufficien- 
tes para prover á subsistência de uma communidade numerosa, 
a caça move-se em um território muito maior. A' vezes exten- 
dem-se taes territórios de caça até além do terreno occupado 
pela tribu. Os seus limites são rios, montanhas, rochas, cachoei- 
ras e grandes arvores ; (50) estes limites baseiam-se ora em 
tradições, ora em verdadeiros tratados. Nas occasiões das de- 
marcações os ])agés também representam um papel, fazendo toda 
espécie de palhaçadas, chocalhando os maracás, communs a to- 
dos os selvagens americanos, batendo em bumbos e soltando fu- 
maça de grandes ci^iarros. A's vezes penduram-se cestos, trapos 
ou pedaços de casca de arvores nos marcos. As incursões nos 
teritorios alheios é uma das mais frequentes causas de guerra. 
Cessões veluntarias são feitas tacitamente, retirando-se uma tri- 
bu para deixar entrar outra. 

Pelo que foi dito, dêmos a entender que o selvagem, de 
certo modo, considera como propriedade da tribu o terreno que 
elle cultiva mas, em sentido restricto torna-se, todavia, immo- 
vel privado, tal como acontece com a cabana, sendo estes dois 
immoveis considerados mais como propriedade de toda a familia 
ou familias que moram nelle, do que propriedade individual ex- 
clusiva. Nisso reconhece-se uma certa similhança dos costumes 
com os de direito dos antigos gregos e dos cintepassados ger- 
mânicos (52). Taes bens de raiz também são adquiridos so- 
mente em commum e por isso, com mais direito ainda, consi- 
derados propriedade de todos. Uma ou mais familias reunidas 
desbravam um pedaço que cultivam com mandioca, milho, ba- 
nanas, algodão etc. (53). Sem machados de ferro, as difficulda- 
des são muitas e por isso são taes cultivados sempre muito pe- 
quenos (nunca vi uma roça de Índios que tivesse extensão maior 
do que o trabalho de um dia). Os trabalhos de lavoura são 
executados pelas mulheres de uma ou mais familias que habi- 
tam juntos. Emquanto conservam a mesma habitação, conti- 
nuam a lavrar annualmente o mesmo terreno, porque para des- 
bravar outras porções de matta e abandonar as velhas, que é o 
systema dos colonos americanos, seria muito trabalhoso. Por es- 
te cultivo continuado durante annos, o terreno e os seus pro- 
ductos se tornam propriedade da familia (54). Os vizinhos re- 
conhecem o direito do proprietário sobre ambos, deixando de 
reclamai o para si, nem se utilizam delle depois da colheita. 
Havendo abundância de terrenos sem producção e sem valor, 
pode-se dizer que a posse de terrenos é desconhecida pelos in- 



— 40 — 

dios e que elle apenas adquire um direito de propriedade su- 
bordinado, ou de uso-fructo do território todo do sua tribu e 
dos co-pioprietari s, em virtude do desbravamento parcial da matta. 
T«-riamos, portanto, aqui o primeiro esboço de um «dominium 
divisum directo et utile». A acquisição da propriedade para 
uso-fructo se efíectúa por tomada de posse directa ou depois de 
abandono por outro. As ideias do indio sobre este assumpto 
são, aliás, muito pouco claras. Utiliza-se simplesmente do ter- 
reno que occupa, sem enxergar nisso um empréstimo nem um 
bem heriditario que lhe fosse conferido pela comunidade toda. 
Todo e qualquer traço ou vestigio que pudesse leuibrar, mesmo 
de longe, • s princiopis do systema feudal é, não só aqui 
como provavelmente na America toda, inteiramente desconhecido. 

Ainda que o conjuncto do systnma administrativo dos Incas 
no Peru, applicado pelos Curacas, instituídos por elles e fisca- 
lisados por pessoas de sua familia, à primeira vista apresente 
uma certa similhança com as instituições feudaes, veriíica-se, 
todavia, por ura exame detido que delias differe radicalmente mas, 
que pelo successivo dssenvolviraento do poder dos Incas sobre 
numerosas tribus, eguaes em bruteza ás brazileiras, era a única 
forma de administração ali possível. 

Raras vezos ouvi falar entre os Índios brazileiros, de fur- 
tos de productos agrícolas (55), como de roubo e de furto em 
geral ; tão pouco encontrei cercas ou outros signaes de divisa 
entre as roças. Dos selvagens de Cumana refere-se (56) que 
elles cercavam as suas roças com uma cordinha de algodão ou 
com um cipó collocado a dois pés acima do cbão e que com 
ispo estavam plenamente garantidos, porquanto teria sido um 
alto crime o transpor tal fecho e, havia a crença geral de que 
quem rompesse aquelle fio logo morreria ; o mesmo é corrente 
entre os indi( s do Amazonas. Nos Punis não vi roças inteiras, 
porem, partes das divisas das roças, onde o fecho cahira, cerca- 
das por uma só linha de algodão. 

Na Europa é somente nas poesias que a bella princeza 
Crimhilda, em signal de soberania suprema, cerca o seu mara- 
vilhoso jardim de rosas com um fio de seda (57) ; para a pro- 
priedade real, a nossa civilisação necessita de garantias mais 
fortes. Depois da morte do chefe da familia, os bens de raiz 
ficam para ella. Este modo de herança directa não é resultado 
de disposição testamentária, nem tem por base tratados de he- 
rança mas, exclusivamente um costume de direito tácito. 

Além de taes terrenos cultivados podem as casas ou caba- 
nas ser consideradas bens de raiz entre a maioria dos povos, 
desde que sejam de certo tamanho e edificados com certa soli- 
dez. O misero Mura, sem tecto nem abrigo, contenta-se muitas 
vezes com uma rede de embira, extendendo-a entre duas arvo- 
res frondosas. Ao Patacho satisfaz uma espécie de esteira de 
junco e de folhas de palmeira que o abriga contra o sol, o or- 



— 41 — 

valho ou a cLuva; e os Botucudos não são muito mais exigentes. 
Mas, fora destes, quasi todas as tribus constróem as suas cabanas 
tão solidas que duram uma porção de aunos. As cabanas sem 
janellas nos rios Negro e Yapurú, onde se procura abrigo con- 
tra as motucas, são de barro, muitas vezes de pedras e trans- 
mittifias por herança de uma geração á outra. 

Quando varias familias habitam o mesmo edifício, pertence 
a cada uma o logar onde tem aimado a rede e onde accende a 
sua fogueira. Neste logar, geralmente demarcado por postes na 
parede, cada familia trata de seus negócios particulares, sem que 
as outras tomem parte nelles. Sobre o giráu ao pé da parede, 
logo por baixo do tecto, ca-la familia guarda o que é seu e, 
como o logar da fogueira è essencial para cada familia, o índio 
brazileiro regula o tamanho da cabana pelo numero de fogos 
que dsverá c< nter, tal como é costume entre os Índios norte ameri- 
canos. Estas moradias, e também a cabana do chefe onde tem 
logar as reuniões, são consideradas propriedades dos moradores, 
embora que toda a tribu ou várias familias vizinhas ajudassem 
para a sua construcção. As portas communs a todos os mora- 
dores são cerradas durante a noite ou fechadas por escórífs. De 
dia estão abertas ou, na ausen -ia dos habitantes, fechadas com 
uma tranca ou uma cordinha de algodão. A primeira vez que 
encontrei este modo confiante de fechar as portas nos Júris, 
entrei curioso na cabana e vi num giráu uma criança morta. 

Mais tarde encontrei muitas cabanas fechadas assim, de forma 
que a significação da cordinha de algodão, como uma espécie de 
interdicção me parece pouco provável. Em geral techam as 
cabanas unicamente para as motucas não entrarem. 

Esta confiança absoluta na probidade dos vizinhos só en- 
contramoa egual entre os povos escandinavos no norte da Europa 
e constitue um bello traço do caracter do selvagem americano. 
O seu merecimento não é diminuído pelo facto de possuir elle 
apenas poucos objectos e de fácil acquisição. Armas, ornatos de 
pennas e utensílios domésticos têm para elle grande valor, pois 
apezar de elle mesmo os fabricar todos, custa-lhe trabalho e 
tempo. A circumstancia, porém, de que todos estão nas mesmas 
condições para obter o que precisam e que, aqui não existe como 
nos paizes civilizados, ricos e pobres, parece ser o palladio da 
probidade do indio, porque no indio também se accende a cubica 
daquillo cuja posse, sò casualmente e com diíficuldade alcança, 
de forma que também aqui a occasião faz o ladrão. 

Commettido um furto, é isso immediatamente communicado 
ao chefe que então, em companhia do page ou de outros conse- 
lheiros, trata de descobrir a criminoso. Grandes, porem, não s^ão 
os castigos por este delicto. A entrega do objecto, pancadas ou 
até um ferimento praticado no braço ou na coxa, são as penas 
mais communs, dictadas pelo chefe e immediatamente applicadas- 



— 42 — 

Entre os outros selvagens americanos, o furto e o roubo eram 
mais severamente punidos (58). 

Também esta g-ente primitiva conhece diversas espécies de 
valores: elles distinguem propriedades que lhes facultam utili- 
dade material, de outras que trazem comsigo por orgulho e que 
lisongeiam a sua vaidade. Entre os Miranlias que mandei reunir 
por meio do bumbo para comprar delles armas e ornatos, um 
trazia um collar de dentes de onça, os maiores que eu tenho 
visto. Em vào offereei-lhe vários machados, porem o seu orgu- 
lho resistiu a toda a tentação, porque aquelle trophéu, de uma 
caçada arriscada e feliz, o elevava aos olhos de seus companhei- 
ros. E nincuem da sua tribu teria tido a coragem de lhe roubar 
este ornato, como na Europa, ás vezes, são roubadas as insígnias 
de uma distincção. Taes objectos de um valor inteiramente 
estimativo, talvez idêntico ao do «annulus» da arrha romana, 
constituem a única espécie de penhor que o selvagem entrega 
v^uando se trata de reconhecer uma divida proveniente de pro- 
messa. Assim, em vez da sua palavra de honra, penhora elle os 
signaes raateriaes da sua coragem, taes como a caveira de um 
inimigo por elle morto, o seu ornato de dentes de animaos ou 
de gente, ou a pedra que costuma a trazer no beiço (59). 

Antes das relações com os europeus, os objectos mais valio- 
sos que possuíam os autochtones brazileiros, eram talvez a canoa 
difficilmentc construída com o machado de pedra e a fogo, e o 
veneno para as flechas, fabricado com plantas que não crescem 
por toda a parte. Depois da invasão européa, os utensílios de 
ferro e outros productos da civilização, estimularam as tentações 
para o roubo mas, estes objectos europeus ainda são tão raros e a sua 
posse é tão preciosa, que a descoberta do furto pela simples falta 
do objecto é quasi sempre inevitável, e dahi provavelmente a 
pouca frequência do farto entre vizinhos. Outro, porem, é o 
costume na guerra quando a propriedade do vencido é conduzida 
como presa legitima ou destruída no calor da peleja. 

Consideram-se como objectos de propriedade privada : as 
armas e os ornatos dos homens, os ornatos e as as roupas das 
mulheres quando as tiverem. Tudo mais, como redes, vasilhame, 
apparelhos para o fabrico da farinha etc. constitue propriedade 
da família — hona vita. Quando varias famílias moram na 
mesma cabana, é raro que taes utensílios sirvam a todos, porque 
cada família tem os seus e não precisa da dos outros. Não posso 
porem dizer si na língua ha on não expressões especiaes para taes 
distincções de propriedade familiar ; parece-me, comtudo, pro- 
vável que os membros da família, especialmente o marido e a 
mulher designem os utensilios de cada um por meio de certos 
pronomes., Somente o marido pode dispor desta espécie de pro- 
priedade. 

De tudo isso deprehende-se que j)ara a conservação da 
propriedade, a melhor garantia está na identidade e similhança 



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de todos os objectos e no pouco valor que representem para 
os outros. Raríssimas vezes o indio deposita na mào de chefe 
alí^um objecto que não lhe parece em segurança sufficiente na 
cabana, como acontece especialmente em relação a objectos rou- 
bados, principalmente de ferro. Observei um caso destes em 
que o chefe dos MiranJias declarou acceitar o depo^ito de um 
machado de ferro — provavelmente roubado — cora a condição de 
ter a metade da posse. Entre os Coerunas e os Caretas é cos- 
tume que os chefes nas suas cabanas guardem os ornatos e en- 
feites dos dançarinos, provavelmente por ser em frente destas 
cabanas que as daiisas são mais frequentes. De penhores ou 
de fianças nenhum vestígio ha entre os índios. 

Onde já existe alguma civilização ha producção em quan- 
tidade de certos objectos para negocio. Assim os Mauhés fa- 
bricam arcos de madeira vermelha e pasta de guaraná. (60) Os 
Mundurucús fazem enfeites de pennas e entre as Miranhas as 
mulheres tecem annualmente um numero considerável de redes 
de fibras de palmeiras que são vendidas até aos Índios de Su- 
rinam e Essequibo. Varias tribus fazem criação de gallinhas e 
fabricam farinha para vender. Todos estes objectos, porém, 
não são vendidos, mas trocados j)or outros. Nas tribus brazi- 
leiras só se conhece o valor relativo, mas o dinheiro lhes 
é desconhecido e onde elles possuem metal, serve este 
somente para enfeites. No México, no tempo dos Aztecas, as 
favas do cacaoeiro faziam as vezes de moedas (61), tal como os 
cauris na índia e na Africa. No rio x\mazonas os índios co- 
lhem taes favas, como colhem salsaparilha, baunilha, cravos 
etc. para o commercío de permuta com os brancos mas, a uni- 
dade não representa um valor certo. Esta ausência completa 
de toda espécie de moeda caracteriza o grau de civilização do 
indígena americano. «Si, diz Montesquieu, tu chegares a um 
povo extranho, podes ficar tranquillo si enxergares uma moeda, 
porque estás num paiz civilizado». 

Por causa dessa falta total de ideias determinantes de um 
valor definido dos objectos, a acquisição de bens ou do proprie- 
dades é possível somente por permuta, visto que comjjra ou ou- 
tros modos de adquirir são desconhecidos, e por isso as dadivas 
ou presentes são muito raros e a natureza do indio nada tem 
de generosa. Os seus presentes são unicamente de objectos 
secundários. Nas permutas ha promessas e contractos. A re- 
cusa de cumprir obrigações contrahidas, muitas vezes dá logar 
a queixa perante o chefe. Entre os Coroados e Camacans fui 
testemunha das mulheres dirigirem- se ao chefe para rece- 
berem a sua parte da colheita do milho e da pescaria. Entre 
Miranhas o chefe teve de intervir na briga entre duas íami- 
lias, das quaes uma reclamava uma parte das ferramentas que 
eu tinha dado, allegando uma divida de redes fornecidas á ou- 
tra. As réplicas e as tréplicas dos dois partidos duravam bas- 



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tante e pareciam cançar muito o juiz, pcrém, chegaram a um 
accôrdo que satisfez a todos. 

Já mencionamos que a acqnisição directa de bens de raiz por 
morte (por testamentí> ou legado) ahi nã" existe. O mesmo 
se dá também em relação á propriedade movei, porque o indio 
não conhece legados nem testamento. Tudo que o pae de fa- 
mília deixa é repartido egualmente entre os parentes. Si as 
suas armas e enfeites não forem depositados sobre o tumulo ou 
enterrados com o cadáver, passam para os filhos (62) e si estes 
se separam, formando novas famílias, a casa do pae fica perten- 
cente ao primeiro casado. 

Além disso não encontrei vestígio de privilégios de pri- 
mogenitura entre os Índios brazileiros, pelo menos em relação 
á propriedade (63). Os outros pertences do fallecido não são 
distribuídos egualmente entre os herdeiros, em geral passam 
para os filhos, segundo accôrdo reciproco. A ideia de parentes- 
co talvez é entendida de modo a auctorizar a herança, mas não 
sei até onde se extende o parentesco de sangue, communidade 
sexual de parentesco paterno ou materno. 

O direito sobre a propriedade alheia não se salienta na 
vida rude desta gente. Provavelmente manifesta- se na forma 
de retenção de um objecto quando um individuo julgar-se lo- 
grado por outro. Tão pouco vi vestígios de condições contra- 
ctuaes, comparáveis com as nossas em qualquer das suas formas 
(direito de retenção, penhora, i referencia ou revenda, uso-fru- 
cto, servidão etc ) As relações dessa gente são tão restrictas 
e a sua mentalidade tão simples e fraca que não chegam para 
crear taes condições e ainda menos desenvolvel-as em forma 
de um direito Possuindo cada individuo o pouco que con^ti- 
túe a sua estricta necessidade, o próprio empréstimo de obje- 
ctos é uma raridade. Os moradores de uma e mesma cabana, 
não se acham mais aproximados do que si fossem vizinhos. Ahi 
pertence, o que já mencionamos, á communidade a utilização 
do escravo. Entretanto não desconhecem a forma mais antiga 
dos contractos Os empréstimos consistem geralmente em ali- 
mentos e, ás vezes, os objectos preciosos são entregues em depo- 
sito . 

Quando os selvagens do Brazil querem negociar entre si, 
depositam primeiro as suas armas num mesmo logar. Sendo 
concluído o negocio, o que se patenteia por certas palavras re- 
petidas por ambos os negociadores, retiram immediatamente e 
ao mesmo tempo as armas do logar Constitúe isso claramente 
um symbolo de direito e talvez uma promessa de amizade e paz 
emquanto negociam. Na retomada das armas, feita militarmen- 
te e como por commando, pareci am-me as expressões dos con- 
trahentes traduzir uma gravidade selvagem, como si quizessem 
com isso significar que saberiam obrigar á força o cumprimento 
do negocio e não é esta a única acção symbolica que observei 



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entre os Índios. E' até provável que todos os diversos negó- 
cios sejam acompanhados de similliantes acções ou manifesta- 
ções, quando baseadas numa relação com o direito, si é que os 
symbolos sejam a linguagem juridica da humanidade selvagem. 
Mas como para encontrar e decifrar estes traços longinquos e 
meio apagados, seriam necessários uma longa estada no meio 
dos Índios, conhecimento da sua lingua e uma observação ati- 
lada, pod-rei consignar aqui somente as poucas manifestações 
de symbolismo juridico que, mesmo sem as mencionadas condi- 
ções favoráveis, me foram dadas observar. 

O índio não conhece o juramento (64) ; assim mesmo reforça 
elle as suas asseverações por meio de uma acção ou j^esto, por 
exemplo: mergulhando uma mão no cabello (65) ou cnll candc- 
as sobre a cabeça. Os cabellos desta gente selvagem constituem 
uma parte importante do corpo. Ao passo que extirpam os pellos 
da cara e do resto do corpo, conservam-nos na cabeça e os tra- 
tam, amarrando-os, trançando-os ou cortando de diversos modos. 
Os Tupinambás e outras tribus parentes deixam crescer os ca- 
bellos em signal de lucto e pintam o rosto de preto. Muitas 
outras tribus para mostrar lucto cortam-nos parcialmente ou de 
todo, como os antigos greg( s e romanos, (66) o que outros só 
praticam com os seus prisioneiros ou escravos. 

Em geral o índio bra/ileiro considera uma farta cabelleíra 
como ornamento e a calvície (aliás muito rara), é ridicularizada 
como vergonhosa. O cabello é tido, portanto, entre est<-s povos 
na mesma consideração q"e a barba entre os nossos antepassados 
que, pelo simples tocar nella ou cortando-a, symbolizavam cer- 
tos actos jurídicos. Quando o índio ergue a mão sobre a cabeça 
para reforçar a palavra, equivale ao nosso gesto quando a enten- 
demos para um juramento, ha para base deste symbolo talvez o 
temor supersticioso do ente desconhecido que no trovão e no re- 
lâmpago paira sobre a sua cabeça. Apesar da profunda indo- 
lência desta raça pude sempre observar nos me^is camaradas 
índios um certo receio, mal contido, durantf. as trovoadas (67). 
Para confirmação o índio muitas vezes toca na ponta de suas 
armas, tal como fazem os Kalmucos (68) ; ou nos seus collares 
de dent» s humanos ou de anímaes. 

O índio não usa dar a mão em signal de confirmação. Para 
cumprimento usam-no com a expressão amigável «camaradas», 
ambos imitação d s portuguezes. Algumas vezes também obser- 
vei que em signal de uma deliberação c<»llectiva e para mostrar 
alegria ou contetamento, batiam nas mãos com os dedos espa- 
lhados. O beijo, este symbolo elevado do sentimento, é-lhes 
inteiramí^nte desconhecido. Como signal de cumprimento amigável 
e de hospitalidade aconteceu-me a mim (69), e vi fazer o outros, 
que o dono da cabana esfrega o seu rosto ao do hospede e dizem 
que os Botucudos cheiram-se reciprocamente as munhecas (70), 

Um symbolo commum a todos os índios no Brazil é que o 



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dono de umi cahana, ou ?i esta tiver mais inquilinos, todos re- 
cebem a visita deitados na rede. Logo que enxergam alguém 
dirigindo-se á cabana, correm para se deitarem e muitas vezes o 
faz toda a familia, de modo que o recem-cliegado é o único a ficar 
de pé, até que se lhe oftereça um log-ar ao fogo ou numa rede 
especial que armam para elle. Não ha duvida que com isso o 
Índio quer documentar o seu incontestável direito de senhorio e 
protecGor. Este costume jurídico parece ter um motivo mixto : 
de um lado o medo que alguém pudesse contestar-lhe o seu di- 
reito de propriedade e, do outro, benevolencencia com que elle 
offecerece ao hospede a protecção da cabana sob seu mando. 
Quando o hospede, de ordinário por um signal tácito, fôr 
convidado a tomar parte na refeição e tendo o dono da casa lhe 
ofíerecido o Feu cigarro acceso, a hospitalidade está firmada e 
nunca é quebrada. Si, porem, o hospede não for recebido assim 
tem elle tudo a receiar. Acontece muitas vezes que enviados de 
outras tribus são oft*endidos nos seus direitos de hospedes, quando 
são mensageiros de más novas. 

A maioria dos symbolos de direito que chegaram ao meu 
conhecimento, parece-me pertencer ao direito internacional destas 
raças e podem, em parte, ser comparados com idênticos da 
antiguidade clássica e germânica. Ahi pertence também o costu- 
me dos l^loridanos e dos Carcãhas de declarar a guerra por fle- 
chas ou lanças arremessadas ao território inimigo, ou fincada no 
chão nas divisas. 

O chefe do Júris asseverou-me que na viagem de sua aldeia 
até os Miranhas em companhia da sua gente, nenhuma hostili- 
dade tinha eu que receiar, porque aquelles vizinhos «já tinham 
arrancado as Iança> das divisas»». Repete-se, pois, aqui o anti- 
quíssimo costume da lança carbonizada e ensanguentada que os 
romanos arremessavam para o território inimiga, como declaração 
de guerra. (71). Certamente tal declaração não é muito commum 
entre os selvagens cujo caracter covarde e ardiloso prefere at- 
tacar os inimigos desprevenidos. Os guerreiros dos Miindrucús 
obrigam se a expediçõ^^s por meio de um ris''-0 que gravam num 
pedaço de madeira enviado pelo chefe de cabana em cabana e 
ninguém, que por esta forma declarou-se prompto a seguir, é 
capaz de subtrahir-se a este compromisso symbolico. Talvez que 
a circulação deste pedaço de madeira, que lembra a lança cir- 
culante dos escandinavos o dos escossezes (72), só tenha por fim 
fazer o chefe conhecer o numero de seus guerreiros disponíveis. 
E' o mesmo que o cavaco (la hucliette) (73) que circulava entre 
os Iroquezes e que pelos guerreiros que o acceitavam era en- 
feitado de pennas, cordões multicores, etc. O calumet (74), um 
cachimbo grande de pedra, enfeitado com pennas e pellos, que 
os selvagens Norte-americanos ofíerecem em signal de paz ou 
guerra e nas conferencias passa de bocca em bocca apparece, 
ainda que menos desenvolvido, também entre os indígenas bra- 



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zileiros. Nas suas reuniões fumam um grande cigarro que pas- 
sam a todos como symbolo da paz e da confiança. Não acceitar 
o cachimbo ofFerecido é, não somente uma ofíensa, como uma 
declaração ímnca de inimizade. A's vezes o page, acompanhando 
com moraices, especialmente soltando fumaça e cuspindo para o 
lado, oííerece-o á visita, parecendo com isso invocar uma pro- 
tecção para esta visita ou proceder á sua purificaçfio. Não ouso, 
porem, o chefe dos Miranhas, quando voltava de uma expedição 
e com seriedade ceremoniosa oííereceu-me um Filices curiosa — 
Schizaea pacíficans — quiz com isso praticar um symbolismo de 
direito reconhecido. 

Quando toda uma communidade quer offerecer a paz e a 
amizade a uma outra, envia-lhe uma commissão, festivamente 
enfeitada e com armas especialmente delicadas que, depois de 
muitas dansas. e longos discursos, deposita na mão do chefe. Os 
Caiapós, Guaycurús^ Mundrucús e muitas outras tribus com as 
quaes o governo portuguez entrou em verdadeiras negociações 
Je paz, costumavam significar a sua submissão ao Grande chefe 
{Bea ou Tupixava-açú) pela oíferta de arcos e flexas ricamente 
escupildos. 

Um symbolo que se encontra entre quasi todos os povos 
selvagens, é jogart^m-se os prisioneiros ao pé do vencedor, col- 
locado o pé delle sobre suas cabeças, e vi mulheres e crianças 
dos Júris testemunhar desta maneira a sua submissão ante a mu- 
lher do chefe triumphante. Os Tujns vencidos significavam a 
submissão arremessando as suas armas e collocando as mãos na 
cabeça. Já falíamos do modo symbolico de garantir o direito 
da propriedade por meio de um fio de algodão ao redor do ter- 
reno. Entre muitos povos a mudança do nome dos individues 
era corrente para varias occasiões, porém, não sei si isso é ba- 
seado em algum symbolismo de direito. Conta-se (75) dos velhos 
Tupinamhás que depois de ter morto um inimigo, o guerreiro 
que o fez, addiciona mais um outro nome (76) e ao mesmo tempo 
risca a sua pelle com um dente afiado e embebe a cisura com 
tinta. Inteiramente similhante costume encontramos na Ame- 
rica do Norte quando um CMpway é acceito nas fileiras dos 
guerreiros (77). 

Extremamente curiosas são as diversas cercmonias que acom- 
panham a emancipação dos moços e talvez que certos symbolos 
de direito tôm-nas servido de base. Principalmente a bravura, 
o arrojo, a coragem de enfrentar dores physicas e ódio contra 
os inimigos da tribu, devem ser postos á prova (78). ^o% Passes o 
filho do chefe é por elle declarado guerreiro depois de ter-se-lhe 
praticado uma longa ferida no peito com um dente agudo ou 
com o bico de um gavião. Esta ceremonia lembra o modo pelo 
qual o filho do chefe Caraiha ganha as suas esporas. O pae 
quebra-lhe na cabeça o craneo de uma ave de rapina e dá-lhe 
de comer o coração do animal dilacrado (79). E' muito restricta 



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a série de casos nos quaes o autoclitone brazileiro podo fazer 
valer os seus direitos contra outros que não pertencem á 
família ; entre elles, mencionaremos principalmente os toscos 
vestiiiios de um direito venatorio. De ordinário, cada caçador 
vai só, e a caça morta por elle não é considerada propriedade 
exclusiva delle, mas de toda a familia. Por isso o caçador não 
se jnlga obrigado, sinão por excepção, de carregar a caça para 
a casa ; esconde-a no matto e deixa que a mulher, que os velhos 
ou ás crianças vá buscal-a. Si vários caçadores se encontram 
quando uma caça foi morta, é só quem realmente a matou que 
tem direito a ella, porém, muitas vezes um dos outros re- 
cebe uma parte com a obrigação de conduzir o resto para a casa. 
O caçador não pode utilizar-se de armas alheias ; especialmente 
os índios que empregam a sarabatana, affirmam que esta arma 
fica estragada si for utilizada por quem não é seu dono, pelo 
que nunca deixam-na hwar por outrem. Não raras vezes um 
entope a sarabatana do outro para impedir que mate a caça que 
deve ficar para elle . . Caçadas em commum são feitas contra 
animaes perigosos como a onça, ou no intuito de fazer provisões. 
Principalmente macacos e aves migratórias são assim mortos em 
quantidade, preparados e moqueados. A partilha é feita na volta 
destas expedições que, ás vezes, duram semanas e aquelles que 
forneceram o veneno para as flexas recebem uma parte especial. 
O roubo de caça cabida nos laços é considerado um grande crime 
e a queixa é levada ao chefe. Este, aliás, não tem previlegio 
cyn^getco algum e as caçadas em commum tem logar em dias 
convencionados, porém, não passa além dos limites determinados 
entrw as diversas hordas, como já temos dito. Entre os Botu- 
cudos as infracções são julgadas p' r meio de duello, cora grande 
bordoada e no qual tomam parte vários membros de cada partido 
(80). As pescarias, ás mais das vezes, são também feitas em 
commum e sobre a partilha ent^ndera-se com tant . mais facili- 
dade quanto em geral são muito productivas. Si tiverem a fe- 
licidade de apanhar um lamantim, um golphinho ou um grande 
jacaré, qua?i todas as famílias da cabana, até da aldeia, partici- 
pam desta presa que, a não ser asb-im, estragar-se-ia muito antes 
de ser consumida. 

Si voltarmos agora deste pouco desenvolvido direito indi- 
vidual, até a fonte commum donde emana, como todas as rela- 
ções de direito do individuo, da familia e da coUectividade, 
achamnl-a no matrimonio que, apesar de diíferente do dos povos 
civilizados, todavia, é uma união regular dos dois sexos ; achamos 
direitos e obrigações do esposo, o poder paterno e os diversos 
graus de parentesco. E' um privilt^gio da natureza humana o 
de erguer a base de toda a sociedade sobre o terreno do senti- 
mento e do amor e, por mais embryonarias que sejam as relações 
entre estes Índios, parcialmente quasi irracionaes, têm todas sempre 
a mesma orig-m elevada, baseada na inclinação e na escolha. 



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Não podemos considerar taes uniões cf-mo pactos religiosos 
nem actos civis. Contráe-se ella sem sagração religiosa algii- 
ma; o impulso espiritual ou intellectual está inteiramente subor- 
dinado ao corporal e a encolha parte unicamente do homem (81). 
Tão pouco pode uma união assim ser considerada um contracto 
civil, em virtude do Ínfimo grau de civilização desta gente e, os 
direitos que delia emanam para os dois cônjuge?, só p' r elles 
mesm. s podem ser garant dos ou suspensos. Em todas as even- 
tualidades desta união a collectividade permanece passiva e afas- 
tada. A horda ou tribu nào acceita queixa nenhuma dos es- 
posos, nào dá a nenhum dflhs uma garantia pela duração da 
sua u- iào e não lhes assegura direito a gum. E' lhe int«^iramente 
indifferente até o ultimo giáu que os direitos ou os deveres das 
partes tenham sido usurpados ou negligen iados, a collectividade 
nào toma disso conhecimento e s-i chegar á contenda e a um jul- 
gamento jurídico, acontece isso unicamente porque os parentes 
ou amigos se declaram em favor cu contra um dcs esposos, to- 
mando a si a briga. Si, portanto, essa união, análoga ao ma- 
trimonio, como tal escay)a t( talmente ao poder e julgamento do 
chefe e da c(>llectividade, tem ella toda a feição de uma auto- 
cracia interna e incondicional. 

O caracter desta autocracia, fortifica a supremacia natural 
do homem que domina a sorte da mulher. Esta é entregue pelos 
próprios pais, sem indef>endencia, condição ou garantia e acceita 
pelo homem sem contracto algum. Assim, de facto, fica a mu- 
lher qual criada submissa, a escrava do homem, num rebaixa- 
mento que se harmoni/a no mais com o estado fero do selvagem 
brj.zileiro. Forçadas, tem as Uíulheres de sujeitar- se a todos os 
trabalhos agrícolas e domésticos e, sem a menor independência, 
sofiPrem todos os caprichos e todas as arbitrariedades do homem. 

à monogaroia é predominante e parece fundada no tem- 
peramento indolente dos homens. Os descendentes dos antigos 
Goytacazes, Mundrucús e de quasi todos Oê Índios, só tomam uma 
mulher mas com o diretio de a repudiar e tomar outra o que, 
porém, raras vezes acontece. (82) Nos Botocudos, fortes e extre- 
mamente brutos, um homem geralmente tem mais mulheres, ou 
tantas quantas pôde alimentar. Os seu numero por vezes chega 
até doze (83). Também muitas outras tribus, principalmente no 
norte do paiz onde um sol mais quente parece excitar mais o 
temperamento, conforme os caprichos e desejos, vivem em poly- 
gamia irregular De ordinário são os homens mais poderosos, 
especialmente os chefes, que tomam varias mulheres ao mesmo 
tempo (84) 

A estima e os direitos destas mulheres não são eguaes; o go- 
verno dfs assumptos domésticos nem sempre pertence á mais moça e 
por isso a mais estimada, de ordinário é exercido pela primeira, a 
mais antiga delias. Entre Júris, Passes, Uainumás, Miranhas e 
muitos outros, a primeira das mulheres que c marido tomou é con- 



— 50 — 

siderada superior (85): a sua rede fica mais próxima á do marido. 
O poder, a influencia sobre a conimunidade, a ambição e o tempe- 
ramento do homem são motivos que mais tarde o determinam a 
augmentar o numero de suas subesposas ou concubinas até cinco 
ou seis, raras vezes mais, porque a posse de muitas muiheres é 
considerada luxo para satisfazer a vaidade. Cada uma delias tem 
Siia rede e em geral também a sua fogueira, principalmente 
quando têm filhos. A mais velha ou superiora, apezar de ciúmes 
e brigas exerce a sua influencia nos negócios domésticos, muitas 
vezes chega a tal ponto essa intervenção que leva novas mulheres 
ao marido quando seus próprios encantos declinam. O mesmo 
conta-se dos antigos Tupinamhás (87j. A superiora nada tem com 
a educação dos filhos das outras. O marido é temido por todas 
as suas mulheres até edade avançada e, o maior numero das 
vezes conquista a sua apparente paz domestica á custa de rigor 
extremo ; sempre é elle o juiz em todas as contendas do seu 
harém. 

Na maioria dos casos as uniões são de membros da mesma 
tribu, porém, entre alguns povos menores do Amazonas e Rio 
Negro, apparece uma certa tendência de unir-se com mulheres 
de outras tribus mais fracas, muitas vezes, muito distantes. Isso 
acontece, especialmente no intuito de ampliar o conceito em que 
é tido e augmentar a sua casa pelos parentes da mulher que de 
boa vontade a acompanham ; já disse que as mulheres prisioneiras 
são feitas concubinas. 

Entre os Guaycurús e muitos outros povos encontramos o 
phenomeno curioso de ser a lingua das mulheres inteiramente 
ou em parte diíferente da dos homens (88) ; este facto singular 
foi notado pela primeira vez nos Caraíbas. Nas Antilhas originou 
isso o mytho de que este povo, vindo do continente, matou toda 
a população masculina, propagando-se em seguida com as mu- 
lheres. Por isão, contam, que ali as mulheres nunca chamam o 
marido pelo nome e nunca o olham quando está comendo (89). 
Em todo o caso parece que esta differença de lingua dos sexos, 
também entre os povos brazileiros, poderia ser attribuida a uma 
origem mesclada. Raptos de mulheres não são raros. O chefe 
dos Miranhas, de quem eu era hospede, tinha raptado a sua, de 
uma tribu vizinha. Consta que os Mundrucús tinham raptado 
as moças e mulheres dos Parentintins e deste facto originara-se 
o ódio mortal que existe entre estes dois povos. Os Tecunas 
frequentemente raptam as tão afamadas beilas dos Maranhas, 

Além deste modo violento, o selvagem brazileiro pôde adqui- 
rir a sua companheira por consentimento pleno do pae, de duas 
maneiras : por serviços prestados na cabana do sogro ; esta ma- 
neira é geral nas tribus ou povos maiores, de domicilio fixo ; ou 
por compra. O moço, qual novo Jacob em casa de Labão, serve 
ao sogro e com a maior diligencia, muitas vezes por annos, em 
todos os trabalhos e occupações domesticas. Vae por elle á caça 



— 51 — 

e á pesca, auxilia-o na constriicção da cabana, na derrubada, 
em buscar lenha, fabricar canoas, armas e rodes etc. Elle mora 
com os parentes, mas passa o dia cm casa da «escolhida» (90). 
Muitas vezch encontram-se ali mais pretendentes. Entre os 
pequenos povos de Amazonas já durante este tempo g-osa elle 
do chamado «direito do peito», como é o caso entre vários povos 
da Sibéria (91). Entre outros povos predomina mais rigor e o 
pae castigaria com a morte toda a tentativa de antecipação 
marital (92). Tendo, finalmente, a felicidade de alcançar o con- 
sentimento do pae, começa elle por ter um logar á fogueira na 
cabana dos sogros ou arranja uma própria, separada da 
dos pães. Entre Giiaycurús, o genro permanece na casa dos 
sogros, porem, desde o casamento, estes evitam de fallar lhe (93). 
A's vezes ajusta-se o pretendente á familia de uma borda ex- 
tranha, até tribu diversa. Eífectuado o casamento, continua elle 
muitas vezes entre elles, sendo esta uma das causas da grande 
mistura das linguas. 

Esta maneira empregada entre muitos povos para adquirir 
a mulher, refere-se principalmente á primeira cu superiora. De 
posse desta, o indio adquire outras, as concubinas por meio de 
presentes, offerecidos aos sogros. E', portanto, o mesmo costume ' 
que na Ásia e alguns paizes da Europa oriental, de comprar a 
noiva por preço matrimonial (94). Sendo o pretendente chefe 
ou individuo de certa influencia, basta muitas vezes o simples 
pedido. Entre alguns povos compra-se também a primeira mu- 
lher. Encontramos este costume de com.prar a mulher por um 
Kalym, geralmente nos povos polygamistas e naquelles onde a 
mulher è obrigada a serviços de escrava, e representa 
uma mercadoria. Não é extran havei portanto encontrar tal 
costume legal entre os indigenas brazileiros. O preço da noiva 
não é regulado por lei, como entre os Tártaros (94), também 
não é elevado como naquelles povos nómades ricos, onde camel- 
los, caviíUos e centenas de carneiros são offerecidos ao ^me de 
una moça nobre e bonita. Antes é este preço pequeno e ade- 
quado á vida bruta do simples selvagem. Tão pouco diíferem 
os direitos ou obrigações do noivo com os diíferentes preços da 
noiva, como é costume entre os Malayos na Sumatra (96). Nos 
povos mais ferozes dos Puris, Coroados e Coropós (97), consis- 
tem unicamente em caça e fructas e são offerecidos immediata- 
mente antes do casamento, mais como um symbolo de que o 
marido pode alimentar a mulher, do que como precioso presente 
de troca pela filha da casa. Nos povos mais civilizados este 
«kalim» consiste em armas, enfeites, provisões de farinha e caça 
secca, objectos adquiridos dos europeus, principalmente ferra- 
mentas e, finalmente, em cavallos, como nos Guaycurús (98), 
num escravo ou escrava. De ordinário é offerecido antes do 
casamento, ás vezes pouco a pouco. Com estes presente o pre- 
tendente tem saldado todas as suas obrigações para com o sogro 



— 52 — 

(99) e dahi em deaiite nào precisa prestar-lhe mais serviços e- 
ainda menos terão os seus filhos alguma obrigação para com a 
familia dos avós (100). Presentes de núpcias nào são de costume 
ea vontade da mulher não é consultada em todo o negocio, si ella 
não pode fazel-a val^r em relação a seu pae que é o seu senhor 
absoluto, i-^romessa de casamento em relação a menores não ha. 
A's vezes, entre os antigos Tupis, determinava-se para mulher 
do chefe uma menina impúbere e este então levava-a para a sua 
casa, onde a educava para sua mulher. (101). Uma outra ma- 
neira, pouco frequente, de adquirir a mulher, é corrente entre 
08 Chavantes (102). Os moços que pretendem a posse de uma 
bella, sujeitam-se ao resultado de uma espécie de duello. Quem 
por mais tempo puder carregar um pesado bloco de madeira, ou 
em corrida levant«il-o e jogai- o mais longe leva a moça e é- 
curioso encontrarmos similhante costume na antiguidade grega,, 
jonde a encantadora Atalante entrega-se ao melhor corredor (103). 

A uica condição para o casamento por parte da mulher é- 
ter entrado na puberdade. Antes deste periodo a união é im- 
pedida por muitas superstições dos Índios. Por isso mesmo, é 
esta entrada na puberdade ("104), geralmente aos doze ann' s, de 
considerável importância e por toda a parte festejada. Acompa- 
nham-na entre todos os povos brazileiros com muitas e curiosas 
cerimonias, reclusão da familia, flagellações, fumigações, sangrias, 
incisões sangrentas na pelle etc. (lOÕ). Entre os antigos Tupis 
a donzella, em signal de púbere, trazia cordões de algodão ao 
redor das coxas e parte superior dos braços, que de pois de per- 
dida a virgindade tiravão ; o mesmo costume, disseram-nos, têm 
os Júris Corretús e Coerunas. 

Somente em poucas nações fazem caso da virgindade, como 
entre os Chavantes (106) que procuram preserval-a com especial 
vigilância dos moços, não das moças. Os antigos Tupinambàs 
ligavam-lhe tão pouca importância, como os primitivos moradores 
de Cumaná (107) e como a maior parte dos povos actuaes do 
Brazil. Em geral os indigenas americanos, neste ponto, formam, 
um contraste curioso com os povos asiáticos e slavos (1C8). A. 
seducção violenta entre os selvagens é considerada oôensa gra- 
ve á familia da seduzida e cruelmente vingada (109). 

Os selvagens brazileiros que medem a superioridade mas- 
culina pelo estoicismo que mostra nos soffrimentos physicos, re- 
commendam uma certa abstinência por parte do homem. Assim 
quero interpretar o costume de muitas tribus que na noite das 
núpcias, manda o noivo, separado da noiva, fazer sentinella 
com as armas na mào em companhia de sf-us amigos ou, sem to- 
car na noiva, ficar toda a noite ao pé delia na cabana do sogro.. 
O primeiro foi-me contado àoè Mundrucús, cnisi mocidade guer^- 
reira, passa a noite numa espécie de caserna commum (110); o*, 
outro rftfere-se dos Guaycurús (111). Entre muitos selvagens 
norte-americanos esta abstinência é praticada per mais tempo» 



5 o 
o — 

(112). Certamente, porem, não terá este costume de abstinência 
do noivo, aliás considerada meritória, a sua origem naquelle uso 
singular que confere o Jus primae noctis ao paqé. Vigora no 
Brazil entre outros nos Cíãinos (113) nos Júris cnjo page disso 
gabava-se a mim, nos Pam e no^ antigos habitantes de Cuma- 
ná (^114), sendo provavelmente baseado na prevenção commum 
entre vários povos brutos contra a impureza da mulher. Fecun- 
didade não é recommendaç^o especial para o casamento, como 
•entre os Laponios, os Made^assos e muitos povos africanos. 

O pedido em casamento é sempre feito verbalmente, ora só, 
ora acompanhado dos parentes. Neste ultimo caso o grupo todo, 
festivamente adornado e com presentes, principalmente cachos 
de bananas, dirige-se de tarde á casa do futura sogro onde fes- 
tejam e danspm a noite toda. Appparecendo então o pae da 
desejada, acceitando o cigan o do parente mais graduado do pre- 
tendente e tirando algumas fumaradas que com gravidade sopra 
para o ar, é isso signal de ter acceito a preten-ão. Entrega 
então immediatamente a noiva ou, si assim fôr convencionado, 
um pouco mais tarde. 

O dote da mulher consiste unicamente nas suas riquezas 
de toilette como collares e brincos de conchas, sementes, péro- 
las de vidro, etc, e em potinhos de tinta com o vermelho uru- 
•cú e o preto genipapo, quiçá algumas vestes. (115). Nos Ouay- 
curús as filhas casadas, egualmente ás outras, conservam o di- 
reito à futura herança paterna, que este deixar, dos cavallos, 
•escravos, etc. Mas como os povos do Amazonas raras vezes ou 
'nunca possuem ou conhecem taes objectos e os prisioneiros que 
o guerreiro deixa são levados pelo chefe, não existem alli taes 
heranças para as filhas casadas. Presentes de núpcias nunca 
são dados pelos parentes nem pelos amigos ou companheiros da 
tribu, tão pouco existem arrhas. A comitiva nupcial reune-se 
numa grande festa em que muitas vezes centenas de pessoas 
tomam parte e celebra-se sem re na casa ou quintal da mais 
poderosa e rica da^ duas famílias dos nubentes, vindo as comi- 
das e bebidas de toda a parte Muitas vezes os selvagens bra- 
zileiros mudam de nome quando casam, mas ignoro as circum- 
-stancias especiaes em que isso se dá. Nos Caraíbas, nas Anti- 
lhas, ambosos nubentes mudam de nome (116). 

Certos casamentos são tidos como prohibidos, porém, as 
disposições de direito a respeito são muito diversas nos diffe- 
rentes povos ♦? tiibus. Em geral é considerado escandaloso de 
unir-se com uma irmã ou sobrinha e a este respeito os costu- 
mes são tanto mais severos quanto maior fôr a tribu. Em hor- 
das e familias pequenas e isoladas é frequente que o irmão 
viva com a i mã, e entre tribus que neste sentido têm princi- 
pios bem laxos, indicaram-me os Coerunas e Uainumás, próximas 
a extinguir se. Póde-se aííirmar como regra geral que o in- 
•cesto em todos os seus graus é bastante commum entre as nu- 



— 54 — 

merosas tribus e hordas do Amazonas. Nos territórios mais 
para o sul os hábitos são mais puros. Conta-se dos antigos 
Tujmianibás que taes uniões só existiam clandestinamente (117). 
Os Yaméo.s, uma tribu no Amazonas, não permittem união en- 
tre pessoas que pertencem á mesma casta, ainda que nenhnm 
parentesco entre elles exista, porque sendo da mesma casta ou 
categoria são considerados parentes (118). E' esta uma das 
mais curiosas disposições na vida de povos tão brutos e parece 
indicar um caracter outr'ora mais elevado. 

Em contraste singular com as uniões nos vários graus de 
parentesco, estão certas uniões forçadas. Assim é habito rigo- 
roso entre quasi todos os selvagens brazileiros que, depois da 
morte do marido o seu irmão mais velho ou, em falta deste, o 
seu mais próximo parente, se una com a viuva e o irmão delia 
com a íilha (119). Entre os Mimdruciís, Uainumás, Jiiris, 
Mauhés, Passes e Coerunas ouvi fallar deste costume. Dos an- 
tigos Tapinambás consta o mesmo, com o accrescimo de que o 
irmão, ou o mais próximo parente carnal da viuva, tem direito 
legal sobre sua sobrinha, podendo leval-a e educal-a ainda em 
vida do cunhado (120). Não querendo desposal-a, tem, todavia, 
direito de pae sobre ella e pode casal-a com quem lhe parecer. 
E' fora de duvida que as uniões entre parentes tão próximos, 
são uma das causas da degeneração physica e ainda mais da 
intellectual desta raça vermelha. 

Os exemplos até agora expostos demonstram sufficiente- 
mente que nestas uniões dos selvagens, comparáveis ao matri- 
monio, do lado do marido o ])oder e o capricho predominam so- 
bre o direito, ao passo que as condições da mulher são intei- 
ramente passivas, como consequência, dispõe o marido até do 
corpo de sua companheira. As narrações de muitos viajantes 
de que o selvagem americano, em signal de amizade offerece 
a sua filha, até a sua mulher ao hospede, por mais que se du- 
vide, não podem deixar de ser verdadeiras e qualquer que pe- 
netrar no interior do novo continente até encontrar aquellas 
tribus ferozes, em pouco contacto com os europeus, terá occa- 
sião de certiíiear-se, deste costume que tanto repugna aos nos- 
sos sentimentos Acontece, ás vezes, entre os pequenos povos 
do Amazonas e Yapurá que o marido por paga pro&titiie a mu- 
lher ou, por tempo determinado cede-a a um outro homem. Era 
todas as tribus brazileiras pode o marido expulsar a mulher 
sem motivo e tornar outra, e nestes casos não é j^ermittido á 
parte passiva de reivindicar os seus direitos perante o chefe 
ou a communidade e é somente por influencia ou intervenção 
da própria familia que ella os pode alcançar. Entre os Mira-' 
nhãs e outros povos pode o marido vender a mulher, porém, 
tal facto è extremamente raro, ao contrario do que se dá com 
os negros (121). As opiniões a respeito da fidelidade conjugal 
são mais ou menos eguaes entre todos os indigenas brazileiros 



- 55 — 

e inteiramente a favor dos homens. Estes consideram a vio- 
lação do seu leito como uma oííensa pessoal e vingam-se nos 
dois culpados, quasi sempre com mais crueldade na mulher do 
que no homem (122). Talvez que os homens em geral tenham 
mais motivos para ciúme do que as mulheres que são domina- 
dos por ura temperamente muito mais fogoso. 

C ciúme innato e intimamente arraigado no espirito destes 
homens, arma-os como juizes em causa própria, e a culpada 
provada, mesmo a innocente suspeita, não raras vezes é execu- 
tada, sem que o chefe ou a communiriade a pcssa salvar. Prin- 
cipalmente ríá-se isso entra as tribus ferozes dos Mureis, Puris^ 
Coroados, Patachos, Aimorés, ete. As mulheres destes últimos, 
dizem ter permissão, na ausência do marido, de unir-se a outro 
homem que tem feito uma grande caçada. Sendo, porém apa- 
nhadas em flagrante, pagam isso com pancadas ou feridas que 
se lhes praticam nos braços e nas pernas (123). Vi uma hoto- 
cuda que por adultério tinha sido amarrada a uma arvore por 
seu marido que a feria a flechadas ('•24). A raiva brutal do 
offendido vira-se então egualmente contra o cúmplice em ata- 
ques abertos ou ciladas, porém, nem sempre chega ao assassí- 
nio. Entre outras tribus, especialmente do rio Amazonas e nos 
Munãriicús e Guaycurils, o castigo do adultério não é tão ri- 
goroso. Também ahi, ás vezes, chega a julgamento pelo chefe, 
quando é solicitado pelas famílias dos interessados. Si o marido 
quer vingar pela morte a violação do seu leito, recorre elle 
frequentemente ao pretexto de bruxaria em que é apoiado pelo 
page. O caso mais commum é então a expulsão da adultera. As 
crianças, especialmente as meninas, seguem a mãe, porém não 
ha disposições determinantes a respeito, porquo ás mulheres não 
assistem o direito de uma appellação ao chefe ou á communi- 
dade. Geralmente subtráem-se ao marido pela fuga para casa 
dos parentes. Da exposição dessas condições fica patente que 
entre os indios não se pode falar de um divorcio formal, por 
intermédio de um poder judicial. Frequentemente acontece ha- 
ver separação por accôrdo mutuo, ás vezes, até os maridos tro- 
cam as mulheres . 

Communidade de mulheres e polyandria são contrarias ás 
condições intellectuaes e espirituaes do indio, nunca vi disso 
vestigio (125). 

A grande dependência das esposas obriga as a serem sem- 
pre submissas ao marido. Dahi provém o crime corrente em 
muitas tribus de provocar o aborto. Entre os Ouaycurús é 
muito commum que as mulheres só depois da edade de trinta 
annos parem e educam filhos (126). Ainda que não seja isso 
costume nacional, é esta pratica deshumana bastante frequente- 
te, assim com as consequentes moléstias da mulher entre mui- 
tos povos do Amazonas e do Yupurá, os Júris, Uainumás e 
Coerunas. Consta que os Guanás do Paraguay enterram vivos 



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os filhos femininos (127). Também o abandono do recem-nascido 
pela m^e é consequ-*ncia do estado de extrema inferioridade em 
que se acham. Como padrão da miséria desta submissão, basta 
dizer que o coração da mãe está exempto de todos os senti- 
mento-^ delicados. 

O mesmo poder sobre a mulher que por sua força lhe as- 
siste, é lhe conferido também sobre os filhos, sem restricção al- 
guma, nen fiscalização, porém, este poder paterno illim t«do, 
du a apena até a maiorid/ide dns crianças (128j Entre-n^-ios, 
porém, o pae, que aliás é um extranho para os filhos e nunca 
cuida delles, pode permittir-se todo castigo, todo capricho. Logo 
que a criança pode assentar-se (129j, o pae lhe dá um nome de 
parente, (de um animal ou de uma planta) e outro quan'io é 
declarado púbere. Ainda outros nomes recebe depois por dis- 
tincção na guerra, o que elle mesmo se dá, Entre as tri- 
bus que usam tatuagens, a tomada «ie um nome novo é aco'n- 
panhatla de augmento da tatuagem, cono nos Mundrucús ('130). 
A declaração da puberdade não é um acto de poder paterno, mas 
da coUectividade que assiste ás provas pelas quaes f>assa o me- 
nino ; este acto tem logar no decimo quarto ou decimo quinto 
anno. Como o futuro moço desde então por si pode prover ás 
suas necessidades e servir muito á casa paterna, as violências 
do pae c^s^am pouco a pouco. Em relação ás filhas, porém, con- 
tinuam ainda até que pelo casam n to a ellas se subtraem (loí). 
O selvagem brazileiro, ás vezes, vende os filhos — infelizmente 
tenho que confessai -o — quasi sem[)re aos brancos e raramente 
aos homens da própria côr. 

O gr-inde, até absoluto poder que o pae excerce sobre os 
filhos menores, nada mais é do que a expressão dia prepotência 
physica, ao passo que muitos povos da antiguidade, como os 
gregos (132), basearam-na nos ensinamentos puríssimos de uma 
moral rigorosa. Educação dada pelo pae não ha. O pae atura 
os filh s, á mãe prestam serviços e, si quizermos dar como pro- 
vado que o poder paterno se funda»nenta no principio moral de 
educar os filhos para humanidade, os limites deste principio são 
aqui estreiíissiraos, Ri^speito e obediencii são extranhos ás crian- 
ças. A relação do filho para o pae p^^rdeu aqui o sentido 
sagrado que se basêa nos sentimentos mais nobres da natureza. 
Entre os chins o poder paterno é a fonte derradeira e mais 
pura da qual emanam todas as relações politicas e civis e em 
relação a isso não é possível achar maior contraste do que en- 
tre os principies que desenvolvera n o direito dos autochtones 
brazileiros e dos do povo asiático referido. A fraca extensão do 
poíer paterno entre aquelles, corresponde á falta de todas as 
noções superiores sobre o direito. Basta este traço na historia 
moral dos dois povos para de certo destruir a opinião da^uelles 
que, nos ferozes habitantes da America, querem enxergar os 
descendentes retrogados de raças asiáticas. Por mais extraordi- 



— 57 — 

naria que a degeneração de chins emigrados pndesse ter sido 
pela influencia de uma natureza completamente differento, nun- 
ca teriam elles chegado a tamanho contraste na com{)rehensão 
das bases de todas as relações sociaes, civis e juridicas. 

Será egualmente difficil admittir que as mulheres dos sel- 
vagens brazileiros pela uniào com os homens, assumissem certas 
obrigações para com o marido depois de morto, como isso é co- 
nhecido ser Tão frequente entre os Hindus. Das mulheres dos 
Ciiraíbas antilhanos e no Peru, dos Incas e dos chefes mais no- 
bres, consta que eram obrigadas a enterrar-se vivas com o ca- 
dáver do marido (133), porém, era ibso excepcional e por vontade 
própria. Também entre os selvagens norte-americanos os escra- 
vos e as mulheres do chefe, embriagando-se primeiro com grandes 
bolas de fumo que engoliam, deviam queimar-se vivas em honra 
do seu senhor. 

Sacrifícios análogos de abnegação não se encontra entre 
povo algum brazileiro, porque o costume de exhumar os mortos 
queridos (134), para limpar os ossos, e a conservação total ou 
parcial dos cadáveres mumificados, como se encontra aqui e acolá 
em toda a America (135), de modo algum se relaciona cora 
ideias de direito. 

Parece egualmente que a união, análoga ao matrimonio, 
entre os selvagens não obriga á manutenção das crianças ou 
parentes. Não raras vezes as crianças menores succumbem á 
fome ou morrem de outras causas provenientes de negligencias 
deshumanas. Entretanto não ha vestigio de sacrifício de crianças, 
tão communs entre os Mexicanos como entre aquelles p^vos 
antigos, ferocissimos, que habitavam o Peru (136). Uma diffe- 
rença legal entre os filhos da primeira mulher ou verdadeira e 
os das concubinas não existe ; são todos talvez eguaes (137), e 
nma espécie de tutella sobre orphams tão pouco se conhece. 
Muitas vezes morrem, abandonados na máxima negligencia^ depois 
de fallecidos os pães; ás vezes, porém, os vizinhos ou parentes 
os adoptam, mas o chefe nada tem com isso. Egualmente não 
ha obrigação alguma para com os velhos doentes e decrépitos. 
Todos aquelles laços sagrados que prendem o coração humano 
ás gerações passada e futura, são aqui laxos e fraquissimos e 
muitas tribus chegam a matar os seus próprios parentes enfermos 
que os incommodam, allegando que sem caçadas, guerras e festas, 
nenhum prazer mais pode havf^r para os velhos. Nos antigos 
lupis acontecia, ás vezes, que um doente, de cujo restabeleci- 
mento o pogé duvidava, era simplesmente morto e comido (139). 

Si o assassinato dos parentes enfermos nada de criminoso 
ou escandaloso tem aos olhos da c mmunidade, póde-se também 
esperar que a communidade como collectividade não ache os seus 
direitos oífendidos si da briga de dois dos seus membros resultar 
nma morte ou, si uma inimizade terminar por um assassinato. 
Em taes casos nenhuma punição ha, apenas vingam-se do assas- 



— 58 — 

sino só a familin interessada. Por isso encontramos alii, como 
entre muitos povos da índia, até da Europa (Sardenlios, Corsos, 
Bósnios, Valacliios etc), a instituição denominada venãetta, 
Substitue isso de algum modo um julgamento penoso, mas a sua 
influencia é tanto mais triste, quanto perpe tia o ódio e a perse- 
guição durante gerações e a vingança do indio não adormece 
facilmente. Também é devido mais a esse sentimento pessoal 
do que á ideia de que a negligencia de vendetta seja uma ver- 
gonha, que mantém tal costume. Si o assassinato por vendetta 
é praticado por membro da mesma tribu ou borda, é somente 
a este que depois se procura vingar. Outro porém é o caso 
nas oíFensas graves ou assassinatos por membros de outra horda 
ou tribu. Torna-se então de interesse commum e em confe- 
rencias presididas pelo chefe trata-se do caso. Como, porém, a 
ideia da vendetta entre os selvagens brazileiros é preponderante 
e forte, segue-so que nestas conferencias fica ella determinada 
como indispensável, quer executada unicamente pela pessoa in- 
teressada na pessoa do culpad:, quer pela communidade sobre a 
familia toda, até a tribu inteira e é isso o assumpto da confe- 
rencia. A deliberação depende de successos anteriores obtidos, da 
fraqueza ou da força da tribu e do espirito guerreiro ou medo de 
cada um dos chefes. Em geral fica determinado que a causa seja 
considerada commum e a guerra começa, com ou sem declaração 
prévia. 

Os parentes próximos do assassinado apresentam- se sempre 
como os vingadores directos ; procuram salientar-se na guerra e, 
quanto possivel, matar pela própria mão o culpado e sua familia. 
Outros parentes e amigos acom[)anham-nos para esse fim e, du- 
rante a guerra, os taes vingadores distiguem-se por pinturas 
pretas no corpo, outras cortam os cabellos. Antes da sabida á 
guerra, organizam festas especiaes, nas quaes era cantos selva- 
gens exaltam as virtudes do parente morto que querem vingar. 
Os mais obrigados a exercer a vendetta são os filhos, os irnãos 
ou os sobrinhos. Pratical-a é caso de consciência e nem medo, 
nem difficuldade de qualquer espécie podem impedil-os. 

No caso referido do assassino ser de tribu diversa, a ven- 
detta se extende até toda a familia do assassino. O vingador 
não perdoa um só membro e não exceptiía os velhos, nem as 
crianças de peito. O chefe dos Miranhas que hospedou-me du- 
rante semanas, regosiiava-se de um tal acto e accrescentou que 
incendiara a cabana do seu inimigo com tudo que havia dentro. 
Como neste caso acontecia, a vendetta não tem forma definida 
e depende somente das circumstancias, geralmente por emboscada 
ou ataques nocturnos. O caracter do indio salienta-se ahi em 
toda a sua força infame. Ardiloso e taciturno, dissimula elle 
durante annos a sua raiva, até que rompa numa vingança brutal 
e sangrenta, victimando o inimigo debaixo dos mais horrososos 
soífrimentos. Consta que o vingado i' procura praticar na sua 



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victima as mesmas fendas a que siiccumbiu o assassinado. E', por- 
tanto, um credor de sangue, qual Goel dos antigos hebreus. 
Não raras vezes o vingador mata o seu inimigo, amarrando-o a 
uma arvore e despedaçandoo com faca e flechas. O victimado 
supporta os seus sofíVimentos com estoicismo e desj)rezo da morte, 
até com escarneo e orgulho, de forma que é difíicil dizer si 
devemos ahi admirar esta força de vontade quasi sobrehumana 
em supportar soífrimentos physicos ou, si devemos lastimar este 
espirito humano, chegando a tal grau de ódio e de raiva que 
faz desapparecer até as dores physicas. 

Os prisioneiros de guerra dos antigos Tupynamòàs e actual- 
mente também de muitas tribus guerreiras, como os Apiacch, 
Mundrucús, 31aiihés, Araras, Aymorés etc, devem ser conside- 
rados como taes victimas da vendetta de uma tribu inteira. Entre 
03 primeiros eram conservados presos e amarrados a cordas com- 
pridas (140), bem nutridos e até providos com mulher para, final- 
mente, depois de engordados e debaixo de escarneo e soífrimentos 
de toda n espécie, serem mortos para o seu corpo fornecer o mate- 
rial para um festim (1-il). Os Major unas, Aymorés e muitos outros, 
ainda hoje praticam o mesmo. Dos outros mencionados, e mais 
alguns que não são mais considerados antropophagos é todavia, 
certo que praticam a vendetta pelo mesmo modo apurado (142). 

Si o assassinato de um individuo de uma communidade recla- 
ma a vendetta por parte do resto, estci no poder do chefe 
permittil-a ou impedil-a. Em geral, porem, não intervém nestes 
negócios privados, excepto si amizade ou parentesco o inclina 
para uma ou outra das partes. Também pode elle, como qual- 
quer outro, quando não ha parentes do morto, tomar a causa a 
si e perseguir o assassino, porém, leis especiaes a respeito não 
ha e tudo depende das circumstancias . Principalmente nas 
hordas e tribus pequenas ao norte do Amazonas, cujos costumes 
eão mais brandos e, por causa da fraqueza da communidade dão 
maior valor á vida de um homem, é frequente arvorar-se o 
chefe em conciliador. Neste caso trata de estabelecer uma espé- 
cie de indemnização (142). Entre Miranhas soube de dois destes 
casos de conciliação pacifica ; num delles o assassino entregou o 
seu machado de ferro e no outro dous prisioneiros novos que 
immediataraente foram vendidos a um branco que estava presente. 
Ahi, porém, os vingadores eram apena? parentes aífastados do 
morto e é provável que a indemnização não é possível quando 
os vingadores são parentes próximos. 

Que a vendetta não tem forma definida, já mencionámos. 
O Goél procura alcançar o perseguido pelo modo mais commodo 
e seguro, muitas vezes de emboscada, sem arriscar enfrental-o 
em lucta aberta, nem o chefe, nem outrem é convidado paia 
testemunha da lucta. As formalidades de um duello, com fisca- 
lização pelos padrinhos de ambas as partes, são inteiramente 
desconhecidas. 



— 60 — 

À guerra que resulta de uma vendetta tem forçosamente o 
caracter pessoal. Alem disso, é hoje mais frequente fazel-a para 
obter escravos que são vendidos a outras tribus, aos colonos 
portujruezí^s (144) ou para livrar prisioneiros e, raras vezes para 
expulsar o inimigo do dominio da caça ou da pesca. 

Oífensas menores são vingadas immediatamente após feitas, 
começando por br ga verbal entre os dois e acabando por vias 
de facto. As brigas em geral começam nas bebedeiras e sào 
solvidas pelo direito do pulso. Somente raras vezes a queix é 
trazida ao chefe, porque é tido por vergonhoso não tomar satis- 
facção por si mesmo e um pulso forte e dextro é considerado o 
melhor mediador em difíerenças. Nisso o selvagem brasileiro é 
até inferior ao Esqui máu que num canto expõe a sua queixa 
perant^í toda a communidade. salientando satyricamente os defeitos 
e erros do seu contendor, ridicularizandoo, e a satisfação con- 
siste nos applausos com que o auditório reconhece a sua supe- 
rioridade intellectual (14o). 

Esta comparaçã» lembra-nos aquelle povo que, sendo o 
mais boreal em toda a America, vive debaixo da influencia de 
uma natureza extremamente avara. 

Na vida deste povo muito ha que parece indicar que des- 
envolveram uma certa nitidez nas suas opiniões, o que em geral 
falta ao selvagem americano, porém, esta superioridade relativa 
de cuitura intellectual, talvez seja apenas a consequência dos 
exercicios mais intensos da intelligeneia a que o groellandez tem 
sido obrigado na lucta com o meio inhospito em que vive. De 
resto, é applicavel também a este povo polar, de uma raça diífe- 
rente, que faltam-lhe aquelle esclarecimento e aquella elevaçã) do 
espirito que, com razão, consideramos o ornamento e o attributo 
essencial da nossa raça. Todos os autochtones, não somente se 
approximam no mesmo grau de civilização mas, também e, por 
differentes que sejam as condições da natureza em que vivem, 
é idêntica á totalidade do estado intellectual em que se reflecte 
a sua humanidade, especialmente na sua concepção religiosa e 
moral, esta fonte de todos os mais estados internos e externos. 
Si, pois, nas outras partes do mundo, ao mesmo tempo e paral- 
lelamente, sào representados os mais difíerentes graus de desen- 
volvimento e estagnação intellectual — o resultado variegado da 
diversidade das respectivas histmas — toda a população primi- 
tiva da America, pelo contrario, jaz numa pobreza intellectual 
monótona e dura, como si nem as commoções internas, nem os 
impulsos do exterior tivessem tido a força ncessaria de lhes 
accordar desta lethargia moral ou modifical-a. O homem verme- 
lho, por toda a parte apresenta somente um e mesmo destino 
monótono e, por toda a parte a sua historia é egualmente pau- 
pérrima. Um tal estiado f rçosamente deve extranhar, tanto 
mais si considerarmos a variedade das influencias exteriores a 
que elle está sujeito como habitante de paizes que avizinham os 



— 61 — 

poios e dahi extendem-se até o equadrn-, com montanhas e valles, 
sobre ilhas e no continente. Admittindo ainda e, certamente 
com razão, qne as forças intellectuaes em lucta com uma na- 
tureza madrasta se fortalecem e sh multiplicam e que, pelo 
contrario, um ambiente de exhuberancias attrahentes encerra 
um veneno que corióe a fibra da humanidade teremos, todavia, 
de procurar as causas da degeneração dos íiutochtones americanos 
ainda mais profundamente do que na influencia da natureza 
que agora os rodeia. Não foi somente nos valles cal lidos 
e pujantes deste continente, onde o índio está cercado de uma 
natureza prodigamente rica, que elle decahiu até a presente 
brutalidade animal ; nos rochedos áridos e estéreis e nas frias flo- 
restps da Terra do Fogo habita uma r^ça na qual deparamos 
com a Índole característica dos americanos ampliados até a 
proporção de um horrível pauperismo intellectual ; mesmo nos 
planaltos do México, Cundinamarca e Peru, onde impera uma 
natureza primaveril e alegre, apropriada para desenvolver as 
forças humanas na mais bella harmonia, outr'ora, séculos antes 
da invasão dos conquistadores hespanhóes, já pesava sobre a 
população a mesma brutalidade, um estado acima do qual as 
instituições tbeocraticas mal e mal elevaram os seus reformado- 
res, um Quetzalcohuatl, um Bochica e um Manco Capac (146). 
Comtudo, este triste estado de selvagem, sem duvida, não é 
o primitivo em que se acha a humanidade americana, é uma 
degeneração e um abaixamento. Muito além e separado por uma 
obscuridade de millennios, está um passado mais n bre e que 
escassíssimos restos ainda permittem adevínhar. Edificações 
collossaes, comparáveis ás dos antigos Egypcios, taes como as 
de Tíahuanacu no lago Titicaca e que os Peruanos já no tem- 
po da invasão hespanhola admiravam (147] como restos de uma 
população antiquíssima que a lenda fazia desapparecer como por 
encanto numa só noite. Estas e similhantes ruínas disseminadas 
sobre as duas Américas, dão testemunho de que os seus habi- 
tantes em remotos séculos dispunham de uma força moral e uma 
civilização que hoje se acham completamente perdidas. Somen- 
te um écho de uma tentativa de reanimar aquelles tenqjos, de 
ha tanto sumidos, encontramos no reino e nas instituições de 
Montezuma e dos Incas. Estes reinos, porém, estavam tão pouco 
de accôrdo com a vida e o modo de pensar dos índios degene- 
rados que, pela influencia da conquista hespanhola e, antes de 
decorridos quatro séculos, todo o edificio daquellas monarchias 
tbeocraticas ruiu como de um sonho. No Brazil, até hoje, não 
se descobriu um só vestigio de uma tal civilização e, si elle ti- 
vesse existido, teria isso sido num passado extremamente remoto. 
Assim mesmo, o estado da população brazíleira, como o de to- 
dos os povos na America, parece attestar, de outro modo, que a 
humanidade deste chamado Continente Novo, de modo algum se 
compõe de povos novos, e tão pouco ser-nos-á possível avaliar a 



— 62 — 

sua edade ou feu desenvolvimento liistorioo, pelo mesmo metliodo 
que empregamos para a nossa era cliristà. iLste attestado indis- 
cutível é fornecido pela própria natureza apresentando-nos os 
animaes domésticos c que constituem um capitulo essencial na 
sua historia evolutiva. O estado em que foram encontrados estes 
animaes, demonstra que a natureza americana já por millennios 
sofírera a influencia transformadora e modificante da mão huma- 
na. Nas Antilhas e no continente os primeiros conquistadores 
encontraram o cão mudo (148) em estado domestico e compa- 
nheiro na.s caçadas, assim ccmo cm S. Domin2:os o porquinho 
da índia já estava perfeitamente naturalizado (149). Muitas es- 
pécies de aves como o perii, o jacami, vários hoccos e outras 
(lõO) eram criadas pelos Índios. No Peru o llama já desde tem- 
pos immemoriaes era empregado como animal de carga e já não 
existia mais em liberdade. Até o guanaco e a vicuna também 
não pareciam mais bravos, si bem que vivessem numa certa liber- 
dade restricta, porque eram soltos logo depois da tosquia (151). 
A antiguidade das relações com estes animaes resalta ainda 
mais do facto de que os llamas por muitos peruanos eram con- 
siderados sagrados e tinham o seu culto (152). Em toda e qual- 
quer parte que um tal culto é observado, remonta elle sempre 
aos mais remotos tempos roythicos. Assim os moradores da pro- 
víncia peruana Huanca adoravam também o ídolo de um cão, 
e outros adoravam o milho (153). O cultivo desta planta da 
qual os peruanos extraíam o assucar, é antiquíssimo e tão pouco 
encontra-se ella em estado selvagem como a banana, o algodoei- 
ro, a quina e a mandioca ou os nossos cereaes na Ásia, Euro- 
pa ou Africa. Muitos mythos dão estas plantas oomo presentes 
de benévolos génios. Assim, segundo a lenda de Odjibica, um 
moço devoto e bondoso de nome Wunzh, durante um jejum de 
sete dias, luctava com o Mog-daw-mim (é o nome da planta), o 
divino amigo dos homens e subjugando-o viu a planta brotar 
do tumulo do vencido (154). A única palmeira que os índios 
cultivam (155) perdeu nesta cultura o seu grande caroço que 
muitas vezes está reduzido a algumas fibras, outras vezes com 
pletamente desapparecido. O mesmo observa-se na banana, cuja 
introducção na America nunca poude ser historicamente demons- 
trada é sempre sem sementes. Sabe-se, porem, que immenso 
tempo seria necesario para imprimir á planta o ssllo da força 
transformadora da influencia humana e, certamente também na 
America as plantas úteis indígenas devem ter prestado os seus 
serviços á humanidade desde tempos incalculáveis. Somente duas 
hypotheses são ahi imagináveis : ou estão estas plantas ao con- 
tacto com o homem tão transformadas que não é mais possível 
reconhecer os seus prototypos que ainda talvez existam ou, tal 
tem sido a influencia humana que perderam a capacidade de 
manterem-se por si sendo susceptíveis unicamente de uma vida 
artificial, mais nobre ao lado dos seus transformadores, O pen- 



— 63 — 

sador profundo que no seu « Sf/stema das edaães do mundo » 
procurou estudar todas as diversas direcções da consciência e 
percepção humanas, como outros tantos actos necessários de um 
processo único de intimo entrelaçamento, reconhece nisso uma 
certa magia exercida pela humanidade sobre o mundo vegetal 
nos tempos preliistoricos, quando ella, sauindo do estado de 
liberdade irrequieta e fixava-se em moradií^s, separava-se e 
evoluía para povos distinctos. Tal ideia que encaminha as nos- 
sas vistas para a obscuridade remotíssima da prehistoria da nos- 
sa raça, está de pleno accordo com a minha convicção de que 
os primitivos germens e evoluções da humanidade americana, 
não devem ser procurados em parte alguma fora deste conti- 
nente. 

Para fundamentar essa opinião, alem dos vestígios de uma 
civilisação antiquíssima, mais que prehistorica e idêntica relação 
do homem americano com a natureza, podemos mencionar tam- 
bém a base do estado do direito entre elles naquelles tempos. 
Quero com isso referir me á já mencionada fragmentação enig- 
mática dos povos numa variedade, quasi incalcuhivel, de maiores 
e menores grupos humanos : a reclusão e repulsão reciproca e 
quasi total em que esta humanidade nos apparece na forma de 
uma immensa ruina. Para este estaao não encontramos analo- 
gia alguma na historia dos outros povos da terra (156J. Os 
americanos, por isso, devem ter sido victimas de uma sorte que 
jamais attingiu aos outros. 

Pede-se dizer que os povos do mundo antigo, quaes as for- 
mações orographicas que constituem a crosta do nosso planeta, 
acham-se extratificados, um por cima do outro. E ao passo que 
o génio da humanidade os empilhava assim em massas maiores 
ou menores, muitos desappareceram tão completamente como si 
tivessem sido soterrados pelos successores ; outros apparecem- 
nos como uma mescla de elementos que primitivamente desi- 
guaes, combinaram-se de diíferentes modos, evoluindo em segui- 
da para tornarem a entrar em novass combinações. As lendas 
e historias mais antigas referem-nos poucas grandes massas 
humanas : quanto mais nos approximamos dos tempos modernos, 
mais apparecem ellas dentro de limites delineados, individuali- 
sadas em lingua, moral e localidade. Na decifração de taes evo- 
luções históricas, o historiographo é obrigado ao mesmo methodo 
que o naturalista porque, como este investiga a edade e a suc- 
cessào das formações geológicas pelos restos dos organismos 
desapparecidos, aquelle recebe indicações preciosas sobre a es- 
sência e o estado da humanidade anterior, pela lingua e vários 
costumes e hábitos que, de um passado remoto, puros ou alte- 
rados, tem-se transmittido na vida de povos posteriores. Si 
considerarmos os autochtones americanos sob este ponto de vis- 
ta, notando aquella extrema fragmentação em pequenos povos, 
tribus e hordas, em completo isolamento, apparecem-nos elles — 



— 64 — 

para continuar a serviímo-nos da mesma comparação physica 
empregada — como uma formação de homens desagregada por 
forças volcanicas em actividade inceessante. E deante deste 
espectáculo assiste-nos certamente o direito de attribuir a esse 
primitivo estado social e jurídico do homem vermelho — que nào 
passa de uma insociabilidade irreductivel — um alto interesse ge- 
ral humano. Essa dissolução de todos os laços de uma comuni- 
dade ethnica anterior, acompanhada e ampliada por uma confusão 
babylonica da lingua, do direito brutal da força e continua guer« 
ra surda de todos contra todos como resultado desta mesma dis- 
solução, parecem- me o essencial e o mais importante para a his- 
toria do direito dos brazileiros, até de toda a primitiva popula- 
ção americana Um tal estado não pode ser o resultado de 
catastrophes modernas ; com irrefutável seriedade indica a acção 
de millennios. Também parece que o período em que um tal 
estado teve começo, deve achar-se tanto mais affastado quanto 
mais geral foi o impulso pelo qual a humanidade norte e sul 
americana, por modo ainda ignorado, foi impellida a tal des- 
truição completa de primitivos povos e para uma confusão de 
linguas tão lamentável. Emigrações demoradas de povos e tri- 
bua ií^olados tiveram sem duvida logar atravez de todo o conti- 
nente americano e especialmente a ellas se deverá attribuir a 
causa da fragmentação e da perda das linguas com a conse- 
quente cerrupção , E' verdade que este estado actual da huma- 
nidade americana, tem sua explicação admittindo que somente 
poucos povos principaes, do mesmo modo porque demonstra- 
mos para o povo 2\ipy se fragmentassem radicalmente mistu- 
rando-se entre si e dissolvendo-se por atritos reciprocos e, 
que as migrações, divisões e transfusões duraram desde tempos 
incalculáveis ; porem, a causa d«-ste singular retrocesso histórico 
não fica por isso mencs igeorada ou enigmática. Terá por aca- 
so havido um extenso terremoto convulsionando terra e mar — 
tal como a lenda atribue como causa do desapparecimento da 
decantada ilha Atlântida, ou desprendendo gazes mortíferos que 
ali asphyxiassem toda a população ? Teião os sobreviventes 
talvez sofírido tal terror que, transmittido de geração em gera- 
ção, obstruio a intelligencia é empedernio o coração, segregan- 
do aquella gente em fuga constante de todos benefícios da so- 
ciabilidade ? Teriam talvez incêndios ou immensas inundações 
ameaçado a toda a raça vermelha de um periodo de fome me- 
donho, armando-a com o sentimento de inimizade brutal para 
que, perdendose na horrorosa pratica da anthropophagia, de- 
cahisse do seu destino divino até a miséria actual? Ou será 
esta deshumanização uma consequência de vicios inveterados 
e brutaes com que o génio da nosí^a raça castiga tanto o ino- 
cente como o culpado e cuja severidade para com toda a 
natureza, para o observador superficial, parece uma cruel-dade 
incoherente? 



~ 65 — 

Ao tratar de considerações taes nào é possível afFfistar 
totalmente a ideia de nm d^^feito ^eral na organisaçã-t desta raça 
vermelha poique ella traz já viztvel o gérmen do desappareci- 
mento rápido, como si apenas estivesse destinada a representar 
um papel automático na grande engrenagem do mundo, mais 
importante que activo, um simples degráo na escala evolutiva 
humana. E nào ha duvida: o americano está prestes a desap- 
parecer. Outros povos viverão quando aquelles infelizes do 
Novo Mundo já dormirem o somno eterno -- O que restará delles 
então? Onde estão as creaçõ-^s do seu espirito, oude os seus 
cantos, suas epopeas, onde estão « s monumentos da sua arte, 
de sua sciencia ; onde os ensina nentos da sua fé ou os exem- 
plos de feití s heróicos de íilelidade a uma pátria «mada ? Já 
agora estas perguntas ficaram sem resposta porque taes frutos 
esplendidos talvez nunca am durecesem entre aquella raça e 
quaesquer que sejam as inerrogações da posteridade, um triste 
écbo as repetirá sem as satisfazer 

Os cantos d'estes povos já emmudeceram e de ha muito a 
immortalidade de seus monumentos se decompoz ; nenhum espi- 
rito elevado delles tem-se nos revelado em ideias brilhantes. 
Irreconciliados com os h 'mens do oriente e com a sua própria 
sorte, definl)am, parecendo até que não lhe esteja res-rvada outra 
satisfação além de despertar a nossa compaixão, como si tivessem 
apenas a inactiva importância de causar nos surpreza pela célere 
decomposição em vida, de toda uma raça humana, habitante de 
um grande continente* 

E de facto, o presente e o futuro destes homens vermelhos 
que, nús e sem lar vagueiam na pmpria pátria e que o mais 
ardente amor fraternal desespera em lhes conservar um a^ylo 
(157), constituem um destino assombroso, trágico e maior do 
que jamais um canto de poeta pode desenrolar diante do no-iso 
espirito attonito. Uma humanidade inteira a morrer diante 
dos olbos do mundo compassivo; nenhum brado dos pricipaes da 
pbilosophia, do christianismo é capaz de arredar a sua obstinada 
marcha para a dissolução certa e geral. E das suas rumas 
eleva- se em mi^ttura variegada uma raça nova e leviana, ávida 
a desapegar da nova pátria conquistada o seu primitivo dono, o 
mais depressa e o mais pos-ivel . O oriente traz sangue e ben- 
çams, sociabilidade e ordem, industria, sciencia e religião atravez 
do oceano mas, egoisticamente, só para si ; elle e lifica um mundo 
novo e a humanidade que outr'ora aqui reinava, foge, espavo- 
rida como um phantasma do circulo da vida. 

Grandiosos até esmagadores são estes ensinamentos pari a 
historia da posteridade. Mas o homem ergue-se alegre no 
pensamento sublime que como um relâmpago ao longe existe 
também na alma obscura do selvagem : uma justiç-i eterna guia 
os destinos dos mor taes ! 



— 66 — 

NOTAS 



os NUMEllOS CORRESPONDEM AOS NÚMEROS NO TEXTO 

1. Noticia do Brazil, Descripção verdadeira da Costa da- 
quelle Estado que pertence a Coroa do Reino de Portugal, es- 
cripto por ura aúctor desconhecido mas que depois foi verificado 
ser Gaspar Soares de Lisboa. Impresso na Colleccão de Noti- 
cias para a Historia e Geographia das Nações ultramarinas que 
vivem ncs Domínios portuguezes etc. Lisboa 1825. Tom. HL 
pars 1. 

2. Laetius, Novus orhis 16S2>. p. 554. squ. 

3. Hervas, Idea delV Universo 1784. Tom. XVIL pag. 29. 

4. Veja o annexo deste trabalho. (7/ossa?'/a Lzn^/iíaritTTi^ras. 

5. Foi até precisa uma declaração terminante do Papa 
que estes Índios eram gente. [Âttendes Indos ipsos utpote ve- 
ros homines etc.) na bulia do Papa Paulo III. 4 de Junho 
de 1537. 

6. VasconcelloSy Chronica da Companhia de Jesus do Es- 
tado do Brazil. Lisb. foi. 1663. pag. 95, 

7. Bárbaros na concepção antiga dos gregos e romanos, 
certamente não era para o Tupi os Índios de outras naciona- 
lidades, porque oppunha-se a elles mais pelo ódio do que pelo 
desprezo. Mais orgulho ha na resposta que dá o Caraiba quando 
perquntado pelo Cumilla sobre a sua nacionalidade: Ana Ca- 
rina rote, só nós somos gentes. Os portuguezes recemchega- 
dos, por causa do seu traje, eram chamados por zombaria Em,- 
boabas os calçados, um nome que designa os pássaros de pernas 
emplumadas. Os colonos por sua vez chamamavam os Índios 
de — bugres — escravos ou caboclos, os calvos ou depilados, por 
causa da falta de barba e pelo costume de arrancar os pellos. 

8. Martins, Reise in Brazilien HL pag. 1093 — 1097 , 

9. Até o aano de 1775 foram assim chamados do púlpito. 

10. As mulheres chamam o seu povo de Caliponam. Bre- 
ton, Dict. Caraibe — Française. Auxerre 1665. p). 105. — Co- 
lômbia, Relacion etc. Lond. 1822. L pg , 543. 

11. Assim os Aimopiras e Potyuáras, tribus àosT upis, te- 
riam os seus nomes dos chefes Amoipira e Potgudra (Noticia do 
Brazil. pg . 310. Vasconcellos. Chronica jjg. 91.); os Azte- 
cas, uma das sete tribus do povo de Anahuac, os Nautlacas ou 
Anahuatlacas, foram chamados mexicanos do seu chefe Mexi. 
Acosta. Hist. Natural y Moral de las Índias. Sevilla 1590. 
pg. 454 e 460. 

12. Martins, Reise HL pg. 1208. Os Iliirons eram di- 
vididos em 3 tribus, a do lobo, do urso e da tartaruga e em 
geral a maioria das tribus dos chamados povos de Canada su- 
perior, tinham nomes de animaes. 




— 67 — 

13. As tatuagens já eram praticadas pelos antigos, como 
os babaros britannicos {Solin c. 22) que isso tinham o nome de 
Pictens (Grimm. Rechsalterth.), os Trados (Diod > Fragm. Wess. 
XXXIII. 9 pg. 87 et (Bipontina) os Sarmatos {Plin- XXII. c 3) 
6 OS Assyrios e Hierapolis também (Lucian , de dea syr. adfin.) 

14. Reise III pg. 1279. - ■ . . 

15. Assim também ha grande medo pelos Oafinas que mo- 
ram no Rio Yuruá. '^ "^^ 'MM^fP') f.i.r.í íhs 

16. Martins Búchners repertorium. Vol. 36 fase. R. Reisse 
III. pg. 1237. ^ndiv oxnoí> 

17. Duces ex-virtute sumunt, como os nossos antepassados 
{Tac. Germ. 7. ,us\s;.\>) .'■^-av 

18 Garcilaw de la Vega, Commeiítarios reales, Madtiã^ 
1723. I pg. 50,276 etc. ■ * -■ • 'm' 

19 Entre os Mexicanos, e talvez sómeiiteí 'entre elle^;'^:)^ 
conquistadores hespanhoes acharam uma constituição bastante 
desenvolvida. O México tinha uma monarchia electiva que go- 
vernava vários estados pequenos como partes de uma confedera- 
ção. No principio o rei era eleito por todos mas durante o go-^ 
verno de de Izcoatl, o quarto dos reis, foram nomeados quatro* 
eleitores aos quaes uniam-se os príncipes subordinados de Tezcuco' 
e Tacuba. O rei devia pertencer a uma das quatro ordens supe- 
riores, os Ditados que eram : Tlacohecalatl, principes da lança,; 
Tlacolicatl, esquartejadores de gente, EzuahuacatI, derramadores 
de sangue, Tlilaqualqui e senhores da casa negra. Estas quatro 
dignidades formavam o conselho superior do remo. Acosta livro 
VI' cap. 24:,25pg» 440 etc, ,>\ov\-Ã'tA 

20. A já referida Noticia do Brazil etc- p. 504. Entre 
os Caraibas em Haiti o cacicado era herdado pelo filho primo- 
génito, qualquer que fosse a mai. Quando o chefe morria sem 
descendente, a chefia passava para o filho da irmã, e só depois 
para o do irmão. Charlevoix. Histotre de St. Domingue, Ames-' 
terdam 1735. I. pg. 65. de Oviedo, Historia General de las Indiaè 
1Ò47 Livro v. c. 3. foi 49, h. '^ ^^^'> ..:..•*] 

21. Patriota. Set. 1813. pg . 63. -^ííf'"»'> «-'^'í^ 

22. Entre os selvagens chilenos elege-se para chefe su- 
perior aquelle que por mais tempo pode carregar nos homhros' 
um tronco de arvore. Os Carrabas nas Antilhas e Guiana con- 
ferem essas distincções somente depois de muitas provas de per- 
severança e de força em suportar dores e fadigas. Rochefó'ri^ 
Histoire Morale des Antilles II . pg. 538. Laútuu, Morurs des 
Americans I. p- 400 etc* Entre os Índios em Daria o ferido no 
combate era nobilitado e gosava de grandes prerogativas* Go- 
mara. Historia de las índias. Anvers. 1554. caj). 78. C cacique 
lhe dava casa e, serviço e para distinctivo o nome de Cavra 
(Ilerrera Dec. II, livro 3. c. 5. p. 84t') No Peru os principes 
de sangue do sol, que somente por descendência masculina 
herdavam a coroa, passavam por provas de jejum, sede, vigília, 



-es- 
corridas etc. Garcilaso I. IV. c. 9, 10. O mesmo conta-se do» 
reis mexicanos. 

23. Que o chefe tinha também deveres de agente sanitá- 
rio, nunca observei. Gumilla conta de um cacique dos Gúamô» 
que por occasião de uma epidemia, tirou do seu próprio sangue 
para com isso fomentar os ventres dos seus companheiros. 

24. Uma das insignias mais communs dos chefes parece 
ser nma espécie -de diadema de pennas (Acanguape). Encontra- 
86 este enfeite tanto nos Índios mais brutos (p. ex. Botocudos) 
como nas tribus mais civilisaHas (Mundrucús, Coerunas) e em 
todos os outros povos americanos : Peruanos, Mexicanos^ Carai-^ 
bas. Chileno^i etc. O ornamento principal dos Incas do Peru, 
além do cabello cortad<» curto, era uma borla colorida (Llautu) 
que como uma franja espalhava-se sobre a testa. O principe 
herdeiro a tinha de cor amarella. Esta insignia já foi introdu- 
zida por Manco Capac, Garcilaso. Cornmentariox I cap. 23 pg^ 
28. Os grandes do reino peruano traziam a borla n'um lado. 
Acosta VI c. 12-\-p. 416. Também placas enormes de 3 pol- 
legadas eram penduradas nas orelhas e pertenciam ás distinc- 
ções peruanas. Estes fidalgos, chamados «orejones» pelos hespan- 
hoes, eram destinados para as mais altas posições. Gomara c» 
120-\-p. 177. c. 124-\-p. 161. No México a coroa era uma es- 
pécie de mitra. Acosta VI. c. 24. p. 440. Entre muitas tri- 
bus brazilniras uma espécie de tonsura, como nos franciscanos^ 
pertence ás distincções das pessoas. Quando um Ahipove é ele- 
vado a nobre, uma velha corta-lhe o cabello deste modo. Dj-- 
brizhofer, II. p. 497.. 

,y: 25. VasconcelJos. Chronica. p. 91. 

26. Maximiliano Principe de Wied. Reise in Brazilien IL 
p. 10. 

27. Já Oviedo. Historia General de las índias 1547^ F". 
c. J. p. 46 b menciona este instrumento como commum entre os 
Caraíbas. E' um pedaço de tron<*o óco, pendurado entre dois 
postes ou deitado no chão, defronte da cabana do chefe ou na 
praça commum (ócard). 

28. Tíies reuniões da cemmmunidade não são comparáveis 
com as assembléas de conselho ou de julgamento que os Incas 
indroduziram no Peru. Ali cada uma das quatro províncias do 
reino tena tido uma assembléa de guerra, de justiça e de fi- 
nanças, cujos membros eram distribu dos em subcategorias de 
gráo, até complexos de 10 visinhos (decuriones). Provavelmen- 
te é esta descripção de org^aiisação tão complicada bastante 
exagge^ada por Garcilaso. 

29. Lafitau, Moeurs des Americ. I. p. 478. 

30. Francisco Alves do Prado. Historia dos Índios cavai- 
leiros, no Jorrial O Patriota, Rw de Janeiro 1814. N. 3 p. 30. 

31. Taes mulheres que acompanham nas guerras, originaram 
talvez a lenda das Amazonas. 



— 69 — 

s. 

32, Os Incas dos Peruanos parecem ter tributado, ainda 
que em pequena escala, os seus subdictos. Compare Garcilazo 
L. V. c. ò p. 136 e mais. Acosta. Rist. Nat, y Mor. de las 
índias l VI. c. 15 p. 4 21 Também entre os Mexicanos hou- 
ve contribuição era roupas de al2:odão, fardos, cacào, ouro prata, 
ornatos de penna, cava, peixes e frutas. Acosta l, VII, c. 
16. p, 491. Entre os Índios da Daria havia uma espécie de 
prestação de serviços para o amanho das terras e edificação de 
■cabanas. Durante o tempo destes serviços, os contribuintes eram 
alimentados pelo chefe. Herrera, II. l. 3 c. 5. p. 84. 

3o. Estas instituições estavam muito mais desenvolvidas 
■entre os Incas do Peru Toda a terra cultivada estavo por par- 
te destes déspotas dividida em trez partes, das qnaes duas ( as 
Capellamas ) eram destinadas ás necessidade dos logares sacros 
■{Guacas), dos padres e do serviço domestico dos Incas \ a ter- 
ceira parte, a menor (Gnachallama), pertencia á communidade. 
As contribuições dos Índios consistiam em lã, metaés e outros 
productos de cada província [Acosta L. V. c. 15.); e em tare- 
fas que differiam segundo as qualidades pessoaes e officios de 
-cada um e que nunca exediam a dois mezes por anno. Garcilaso 
l .V. c. i4. Livres de contribuições eram os homens acima de 
•50 annos, mulheres, moças, dr entes cegos e coxos. Garcilaso 
L. V. c. 6. p. 138. Os Incas, além disso, procuravam assegu- 
rar-se a sujeição dos diversos povos subjugados pela mudança 
de grandes massas de gente para logares distantes onde rece- 
l)iam terrenos. Estes emigrantes (i¥zízmae.S') serviam como uma 
«specie de milícia ou janitscharos para reprimir qualquer mo- 
vimento subversivo dos outros. Prado de Cieça, Chronica dei 
Peru. Anvers 1554. c. A4. p. 106 etc. Garcilaso L. III, c, 
19. L. VII c. 1 p. 221. v> 

34. Neuwied. Reise II, p, 44. Pretende- se ter visto os 
escravos dos Botocudos em Belmonte empregados em vários tra- 
l)alho8. 

35. Si o termo <i. casta-» significa um direito hereditário 
pelo ' angue, poder-se-ía nos selvagens brazileíros admittir castas 
unicamente onde ha escravidão hereditária, porque o previlegío 
da nobreza perde- se logo onde não ha distincção pessoal. 

36. Prado. pg. 17. 

37. Entretanto os escravos dos selvagens brazileíros não 
se distinguem por sígnal algum como conta Gomara (Historia, 
cap. 68), dos índios em Daria que pintam os seus rostos da 
bocca para baixo e o dos escravos da bocca para cima, arran- 
<iando-lhes também um incisivo. (O arrancamento de dente» 
parece um castigo vulgar entre os velhos peruanes. Inca Huayna 
Capac m.andou arrrancar os dentes do cacique de uma nação re- 
belde e ordenou que este castigo devia ser applicado também aos 
decendentes. Garcilaso L. IX. c. S.) Estes índios, segundo 
o mesmo auctor, teriam maltratado os seus escravos . Os nobres, 



~ 70 — 

como entre os mexicanos, eram conduzidos em liteiras pelos es- 
cravos. Os Caraíbas das Antilhas costumavam cortar os cabellos 
dos seus escravos, mesmo das mulheres com que se casavam. 
Du Tertre, Histoire General des Antilles, II, p. 179. 
.!v!i.'38., Assim também valem certas categorias entre os Ahi- 
poneÉ^ A admissão entre es nobres (Ilõcherl) que depende não 
somente de oriíí^em como de disHncçâo, é sempre acompanhada 
de accrescimo de um nome novo que termina em «in» para os 
homens e em «en» para as mulheres. Dohrizhofer de Ab^pon 
II. p. 294. Estes Hõcheri faliam então um outro dialecto (O 
mesmo, )iíí)a':>b diníti olistm íímív, 
-•íi; 39, Martins Reise III, p. 1302. 
rA\ 40. Aristóteles, Republica^ III. c. ô, 

<r 41 Prado, p. 25-, .u Lembra os Galloi, padres castrados dos 
Kybeles e os £^enQxo?,o% Kombabus exa vestes de mulher etc. 
hucianus . de Dea syria. 

^ r, 42 Compare Lafitau. Moeurs des Americains I. f. 52 etc. 
— Jul. Firmic. Mader. de trrore prof rellg . c 4. - Synesii 
Encomium caluitii in ejus Opêr^' Par. 1663. foi. 83,, segundo 
o qual, já na antiguidade, aquelles homens vestidos de mulhe- 
res eram tidos por Kinaedos; compare além disso Sstrabo L, 
XII, c. 2- § 3. Edtt, Tschuke Vol. V. p. 17. E' curioso 
que as noticias deste assumpto também apontam o hermaphroditis- 
mo que, especialmente entre os Floridanos teria sido muito 
commum. Ens. Hist. Ind. Occid. Cólon. 1612. p. 163 ; compa- 
re Paute, sur les AmtricainÉ. Vol. II. p. 89. des hermaphrodites 
de la íloride, — Que os americanos se entregaram ao peccato 
nefando, já contam os auctores mais antigos : Hernandes Ovie- 
do. Hist. Gen. L. V. c. 8, segundo o qual El que dellos es pa- 
ciente trae naguas (um manto de algodão) como muger. — Ge- 
mara c. 65 ^p. 82. b. c. 68. c. 87 b. Mais Ilerrera, Hist. 
Qen. de los Hechos de los Castellanos etc. etc. Madrid 1601, 
Decas prima L. III. c. 4 p. 88. Pedro de Cieça, Chronica dei 
Peru. c. 49. p. 134. — Noticia do Brasil p. 282. Cojitam esta 
bestialidade por proeza, e nas suas aldeãs pelo certão ha alguns 
que têm tenda publica a quantos os querem como mulheres pu- 
blicas. — ^^Em Esmeraldas eram punidos estes criminoros. Gomara 
c. 72 p. 93. — Em Nicarágua o castigo consistia em apedreja- 
mento. O Tnesmo c. 206 p. 264. otniiíf>'íífiCÍ .Tb 
.i' 43. Como prova de relações anteriores entre os povos Ín- 
dios das Antilhas, terra firme, Guaiana e Brazil, póde-se men- 
cionar que não somente todos os negócios, costumes e occupa- 
^ões mostram a mesma influencia dos feiticeiros que até tem o 
mesmo nome de page em toda a parte {Piaché, Piaccé, Boyé, 
com as formas caraibas Boyaicou e ^iboyeri) com que se desi- 
gnava estes exorcistas. A descripção que em 1552 Gomara fez 
áos Piachés de Cumana, Hist. c. 83y dá uma ideia verdadeira 
destes impostores, como elles ainda são em todas as partes da 



— 71 — 

America. Vide Acosta p. 372. Garcilaso L. I. c. 14 -\- Her- 
rera Dec. II. L. III. c. í) _p. 84. Traços iguaes dos Groen- 
landezes da o Angekok delles. Cranz Historie IV. p. 268 etc. 

44. Estes exercícios e outros nas praticas destes visioná- 
rios lembram os fakirs da índia. Compare Bohlen. Das alte 
Indien, I. p. 182 etc. 

45. Compare Spix e Martins. Reise I. 379. 

46. Tal união do terrestre com o sobrenatural e uma de- 
pendência daquelle deste, encontramos muito desenvolvida entre 
os povos da Polynesia para servir a fins sociaes e expressa na 
Instituição do Tahbu, pela qual objectos e pessoas ficam inter- 
dictos para sempre ou periodicamente e cuja quebra importaria 
em oftensa e vingança dos espíritos. Langsdolff. Bemerkungen 
auf eine Reine um die Welt. I. p. 113. 

47. Garcilaso. L. II. c. 25-\-p. 62 -\- O mesmo conta-se 
dos Groenlandezes, Cranz Hist. v. Grõnland IV. p. 295, onde 
as mulheres durante os eclipses beliscam os cães para que 
ladrem. 

48. Ahi pertence também a Garuda, dedicada ao Vishnu 
na antiga mytbologia indica. Bohlen, Das alte indien. I. p. 



49. Assim também entre os Groenlandezes, as velbas, sus- 
peitas de bruxaria são apedrejadas, apunhaladas, esquartejadas 
ou jogadas no mar. Granz. I. p. 217. 

50. Compare Charlevois, Hist. S. Domingue, I. p. 75. 
Elles aleijam e matam os seus pagés si o doente que trataram 
morre e quando julgam ser culpa do medico, Herrera. Dec. 1. 
L. III. c. 4. p. 87. Os chilenos costumam queimar os seus 
feiticeiros e toda a sua propriedade para que nada reste do ma- 
lefício. Marcgrav. Chile, p. 30. iil conhecido que os negros são 
muito rigorosos para com os feiticeiros. A sua culpa ou inno- 
cencia deve ser provada por um ordeal pelo veneno da casca ou 
sementes de uma leguminosa. Christison, Ordeal — Bean of Old. 
Calahar, in Lond. Pharm. Journ. March. 1856. 

51. Desta espécie são as seis grandes arvores, de pelo me- 
nos 6000 annos de idade, de um género de Magnólia mexicana 
que serviam de marcos do território do rei Etla dos Zapotecas e 
que ainda são admiradas em Etla, Teosacualco, Zaniza, Saniya- 
gito e Totomachapa. Carta do Barão vou Karwinski. 

52. Aristóteles de republica, II. c. 5. Xenophonte. De re- 
publica Lacedemoniorum, c. Tacitus Germânia c. 20.Lex. Salica, 
Sachsenspiegel etc. Uma das formas básicas da propriedade, a 
propriedade commum da horda no território onde caçam ou, onde 
cada um faz uma roça de certo não permanente, lembra da 
propriedade commum da sociedade de Mark na Allemanha, a 
Almanda (O Mark commum), apezar de que lá também o modo 
do approveitamento differe, porque o selvagem brazileiro não man- 
tém gado no pasto e ninguém pensa na distribuição da utilisa- 



— 72 — 

ção da lenha. A outra forma básica, poiem, a propriedade com- 
mum da ftímilia (ou cohabitante^ da cabana) na roça feita differe, 
não somente da propriedade particular do germano livre, cuja 
família ^ó t*-m direito á herança mas não codireito ou copartici- 
pação durante a vida do proprietário, como também da proprie- 
dade particular ^regd, da qual a taniilia apenas tem a herança 
garantida. A forma indiana, não desenvolvi «ia, é tanto mais 
curiosa, quMnto nelle se reconhece claramente a transição da 
proj-riedade c- mmum do povo, da tribu, da communidade, para a 
pr< priedade individual. Ja é prop-iedade privada mas, ainda na 
forma de propriedade familiar. Quando cada família tem a liber- 
dade de escolher uma propriedade familiar dentro da proprieda- 
de da communidade cessa, portanto, esta de ser parte da pro- 
prieda'e commum, isto é, o aprove ta mento por parte da horda 
acH^a niante do ceicado, dentn. do qual só se permitte o apro- 
veitamento por parte dos cohabnantes. Dahi segue-se que 
também não p< de haver uma divisão em propriedade geral e 
propriedade de uso-fruto, o que para as ideis jurídicas do indio 
é p< r demais artificial. 

53 Entre os peruanos a posse de um bem de raiz era 
garantida }>or demarcação (?) ordenada pelo Inca Pachacutec 
e os SHUs súbditos cultivavam em « ommum, não sómmente estes 
terrenos privados, como também os que eram destinados ao ser- 
viço do s<'l e da familia do n berano. Garcilaso L. VI. c. 55. 
p. 211. 2. Os productos coibidos eiam guardados em granjas 
communs. Acosta L. 6. c. 15. p. 422. 

54. Como bens de raiz da família e não individual, são 
estes benx lidos também nos antigos selvagens da Nicarágua. 
Aquelle que dalli se retirava ou mudava de logar não podia 
dispor livremente dos bens de raiz mas tinha que deixal-os aos 
parentes mais próximos. Gomara. C. 206. p. 264. 

55. D. s Índios de Daria diz Gomara : Como crime maior 
tem-se o furto e cada um pode punir aquelle que furtou milho, 
coit!indo-lhes os braços, dependurando-lh'o8 ao pescoço. Goma- 
ra. C. 68. p. 88. 

56. Gomara. C 79. p. 103. 

57. Canto do Jardim das rosas, estrophe V. 

58. Em Haiti, entre os Caraíbas, os ladrões e os salteado- 
res são esi etados. sem qne alguém intervenha por elles. Oviedo 
L. V. c. 3. p. 50. Charlevo?x, S. Domingue I. p. 64. Os antigos 
Índios de Tuz-o furavam-lhes os olhos Gomara c. 124, Os 
Incas puniam os salteadores come» incendiários e assassinos, en- 
forcando-os. Acosta L. VI. c. 18. Garcilaso. L. IV. c. 19. 
Entre os chilenos eram punidos com a morte, si grandes prote- 
cções não os salvassem. Os indii s de Daria puniam os salteado- 
res, assassinos adúlteros e até mesmo mentirosos com a morte, 
Herrera Dec. II. L. III c õ. p. 84. Em Esmeraldas os crimi- 
nosos eram amarrados a postes e açoitados, nariz e orelhas cor- 



— 73 — 

tados, ou eram enforcados. Aos nobres cortavam-se os cabellos 
e abriram-se-lhes as mau^^as dos vestidos. Gomara, c. 7 2. 
p. 92. 6. 

ô9. Vasconcellos . Chronica do Brazil. p, 84. 

60. Remédio e refresco fabricado das sementes da Paul- 
linia sorbilis e que em muitas formas apparece nos mercados 
de todo o Braxil. 

61. ílumholdt. Essai polit, surla Nouv. E.^ipagne, II. p, 
436, Assim, também em Nicarágua (Gomara c. 207, p. 264:, 6.) 
e em Guatemala l. c. c. 209. p. 268.) 

62. Entre os selvagens Norte-americanos a viuva nada 
herda do espolio do marido. Os presentes que d'elle tem recebi- 
do, suas vestes, sua cabana, seus ornatos, tudo é distiibuido, 
até saqueado e nada fica para os filhos Volney, Oeuvres. Paris 
1821. VII, p. 409. 

63. Os antigos Incas legavam a coroa e suas propriedades 
de conformidade com a iei da primogenitura mas os cnciques e 
os súbditos se regulavam por outros usos legaes nas provineias. 
Garcilaso, L. VII, c. 8. Segundo Gomara, c. 124, p. zez, c. 72, 
p. 93. b. nào eram os filhos mas os irmãos e os sobrinhos que 
herdavam em Cuzco e em Esmeraldas. Em S. Domingo os bens 
moveis dos cacique eram distribuidos entre os participantes que 
vinham de longe assistir as esequias de 20 dias. Oviedo, L. F, 
c. 5, p. 48, b. 

64. Entre os antigos peruanos o juiz perguntava á teste- 
munha: «Promettes ao Inca de dizer a verdade»? A affirmação 
valia por um juramento. Garcilaso, L. I, c. 3, p. 36. 

65. Lembra o juramento antigo allemão das mulheres que 
«juravam «no peito e na trança» em confirmação de ter rece- 
bido o presente de núpcias. 

^6. Compare Saubert de sacrificiis veterum, p. 227 etc, 
A moça grot^nlandeza que é pedida em casamento mas não quer 
acceitar, corra o cabello em signal de repugnância e dor. Granz. 
Historie v, Grõnland J, p. 209 . 

67. Os antigos peruanos viam no relâmpago e na trovoa- 
da servidores do sol e tinham por encantado e mau o logar 
attingido Os quartos attingidos por raios eram fechados com 
pedras- Garcilaso, L. II, c. 1, 33, c. 23, p, 62. 

68. Palias, Reise durch verschiedens Provinzen des russis- 
chen Reiches, 1116, I, p. 266. 

69. Spix e Martius Reise, III, p. 1216. 

70. Sellow. com Maximilian Principe de Wied, Reise nach 
Brasilien, I, p. 332. 

71. Livius I, c. 32. Virgil, Aen. II, V. 52-53, 

72. Jac Ghnmw . Deutsche Rechtsalterthumer p. 164, 
Compare também p. 174. 

73. Lafitau. Moeurs des Americains II, p. 185. 

74. Lafitau L. c. p. rzc seq. No Brazil nunca encontrei 



— 74 — 

vestig-io de mais dois objectos symbolicos dos Norte-americanos, 
o Wampum e o Tamaliaicli. O wmnjjum é uma facha ou cinta 
feita com pequenas conchas e que, como os Qu/ppos dos anti- 
gos peruanos, por meio de desenhos e cores diversos, desiíi-na 
diíferentes actos históricos e de direito; nas transacções entre 
tribus passa de uma para outra e no fechamento de tratados, 
ambos os contrahentes o tocam. (Long, Voyoges and Traveis p. 
46). Os Uerequenas no Rio Negro superior {Martins, lieise III, 
1302) dizem ter cordões como os quippos dos peruanos (Nudos 
dos hespanhoes, cordões de lembrança com nós, feitos de pen- 
nas multicores, pedrinhas e grãos de milho. Acosta, L. VI, c. 
8, p. 410. O tomahaick ou machado de guerra, é erguido no 
fim de uma deliberação, circulando depois na dansa. A's vezes 
recebe esculpturas commemorativas de episódios de guetra e é 
mais comparável a uma espécie de bandeira do que a uma maça 
de guerra (Tamarana dos brazileiros, Butii dos Caraíbas) na 
qual também ha signaes esculpidos ; si de significação symbolica, 
ignoro. 

75. Noticia do Brazil, p. 298. 

76. O mesmo vale para os Caraibas. Rochefort II, p>. 614. 
Nos Índios de Daria tinha o nome de Cavra que talvez tenha 
relação com os Cavres ou Caveres, uma, tribu dos Gvjanas. Si- 
gnificará o vencedor? 

77. J.Long. Voyages and Ttravels, p. 45 etc. 

78. Spix e Martins, Reise III, p)- 1320., sobre os Mauhés. 

79. Du Tertre II, p. 377. 

80. Maximilian, Principe de Neuwied, Reise II, p. 42. 

81. Que assiste as moças ou mulheres o direito de esco- 
lher o marido acontece na America mas, somente raras vezes. 
Gomara, p. 2263 b. conta que em Nicarágua nas povoações 
sem cacique, as moças podem escolher os seus maridos entre os 
solteiros que tomam parte nos festins. 

82. Prado, p, 21. 

83. Principe Maximiliano de Neuivied, Reise II, p. 38, 

84. Também, entre os Coraibas havia polygamia irregular. 
Um chefe Caraiba em S. Domingo tinha trinta mulheres. Ovie- 
do L. V, c .3, Cliarlevoix, Histoire de Visle Espangnole I, p. 159, 
Um cacique em Esmeraldas tinha quatrocentas mulheres. Go- 
mara c. 72, p. 93. 

85. Nos antigos peruanos também só uma companheira do 
leito tinha as prerogativas de esposa, as mais eram concubinas, 
Aquella era declarada legitima, calçando-lhe o marido a Otoja, 
uma espécie de chinello que, sendo noiva virgem era de lã, si- 
não era de palha. Acosta L. VI, 18, p. 428. O próprio Inca tinha 
uma mulher legitima (Coya), concubinas do sangue dos Incas 
(jPííZías) e, finalmente outras de outras famillias (Mamacunas). So- 
mente os descendentes das primeiras mulheres eram ligitimos e 
herdeiros do throno. Garcilaso L. IV, c. 9. — Em Daria os homens 



— 75 — 

tinbara mullieres superioras e inferioras, os filhos das primeiras 
eram herdeiros e podiam ser caciques, os outros estavam debaixo das 
ordens da superiora. Ilerrera Dec. 119, L. 3, c. õ, p. 84. Também 
entre os Caraíbas polygamistas só uma mulher era superiora. 
Oviedo L.V,c. 3, p. 49, a. — Assim cambem em Nicarágua. Abi a 
tomada da superiora era acompanhada de ceremonias. O padre 
pegava os noivos nos dedos pequenos, (em Hindostão o padre 
conduz a mulhsr pelo dedo pequeno : /S'on?2erflí J, p, 81), fechan- 
do-se num quarto, com um discurso . Quando o fogo ahi acce- 
so se apagava, estavam casados. Gomara c.2 e 6,p. 263, jo. Quem 
tomava mais que uma superiora era banido e a sua propriedade 
confiscada a favor da primeira superiora, {Gomara)- Nrs anti- 
gos Cumaes es mulheres cantando cercavam a noiva e homens 
o noivo ; de ambos cortava-se o cabello na frente e quando se 
deixava os noivos darem-se as mãos, a união estava feita e a su- 
periora eíFectiva. Com as concubinas nenhuma ceremonia ha-^ 
via. Go7nara c. 79, p. 102, h. 

86. Nos Caraibas nas Antilhas cada mulher recebia uma 
cabana separada. Rocliefort I.p. Õ93. Isso não se dá entre os sel- 
vagens brazileiros. Nos Tupis é costume que algumas familias 
morem junto numa cabana que tem trez sabidas para a praça. 

87. Naticia, c. 152. p. 277, 

88. Prado, p. 28. 

89. Eochefort. Histoire des Antilles, Toin. II. p. 143 etc. 
— Lafitau, Moeurs des americains I. p. 55. — Labat, Voyage. 
aux Isles de V Amerique II. p. 9ú. — Yater, Mithridates III Parte 
IL p. 677- 

90. Os Índios de Quito tem os mesmos costumes. Cha- 
mam a essa vida em comum « o acostumar-se » : El Ama- 
7iar-.se. Ulloa, Relac. hist. Parte I. 2 orno 2. p. 556. 

91. Palias. Reisen I. p. 305. [iios. kalmukos): Lepekins 
Reisen I. p. 111.) nos lartaros), II. p. 92 etc. (nos Baschkiros). 

92. Entre muitos selvagens da America do Norte, segundo- 
Charlvoix, o noivo, gozando de todos os direitos de marido, con- 
tinua na casa do sogro até que lhe nasça um filho ; retira~se 
então e constroe cabana propia. 

93. Prado p. 27. Este costume singular que pela vida toda 
ergue uma separação entre os sogros e o genro, existia também 
entre os Caraibas. Quando as duas partes por força maior tinham 
que fallar-se, viravam os rostos para, pelo menos, não se verem. 
Du Tertre, Histoire Generale des Áttilles II. p. 378. — Nos 
groenlandezes os casados habitam com os avós do sogro e a mai 
deste adiministra a casa enquanto vive Granz I. 215. 

94. E conhecido que o direito alemão antigo também reco- 
nhecia a compra da noiva. Grimm Reclietsalterthumer j^- 612. 

95. Lepeliin, Reisen I. p. 111. etc Palias, Reisem I. p. 
305 etc. 



- 76 — 

96. Marsdem, Beschreibung van Sumatra, p. 279, foi 285. 

97. Spix e Martins, Heise I. p. 381. 

98. Nos Abipones no Paroguay o preço da p.oiva consiste 
em pérolas de vidro, quatro cavallos, um vestido, uma lança e 
muitos uten?ilios domésticos. Dobrizhofen, Abipon. II. p. 214. 

99. Como nos Indús onde o Bramino presente declara, 
e depois o sogro também; « o dinheiro é meu e a noiva é tua». 
8onnerat, Voyage I. p. 75. 

100. Na União denominada « Ambera-Ana » e na qual não 
ha kalyin, os Sumatranos geram assim escravos para acasa do 
sogro. Marsden. 

101 Noticia do Brazil, p. 278. Nisso os selvagens brazi- 
T9[ros estão em vivo contraste com os Parsi no Indostão, os 
Javanezes e muitos povos negros ; em partes para que os chefes 
déspotas não possam apoderar-se das crianças e em partes porque 
os pai-* da jovem noiva racebem então presentes. Compare Mei- 
ners em Gõtti7igschen histor. Magazin, III. p. 674. 

102. Martins, Reise II. p. 514. 

1^3. Herodot. Appollod. III. 9. 2. 

104. Segundo Gartilaso {L. III. c. 8.) Os Incas peruanos 
não costumo vam dar as suas parentas em casamento antes do 
decimo-oitavo ou vigésimo anno. Casavam os membros da fami- 
lia entre si, davam jpulheres em paga dos serviços prestados e 
anualmente os caciques faziam casar os solteiros de seus districtos. 

105. Por uma prova especialmente dura passavam as filhas 
dos n< bres de Cumana; dois mezes antes do casamento eram re- 
clusas e durante todo este tempo não podiam cortar os cabellos. 
Gomara p 79. 

106 Martins, Reise II. p. 574. 

107. Noticia do Brazil. p, 278. Gomara c. 79. E' sabido 
que tanibem no Peru as virgens não eram preferidas para o casa- 
mento. Garcilas L. II. c. 19. — Panw, Recherches sur les Ame- 
ricnins II. p. 217. As Hertarais peruanas {Pampayrunas) eram 
muito desprezadas. As mulheres não podian fallar com ellas sob 
pena de terem os. cabellos cortados publicamente e serem decla- 
radas infames e, si eram casadas, serem repellidas pelos maridos. 
Garcilaso L. V. c. 14. O Inca Pachacutec tinha feita uma lei 
especial para os seductores de virgens. Garcilaso L. VI. c. 36. 
< Jkt ccijerdo, de que in cierta parte de de la provinda de Car- 
tagena, quando casan las hijas y se ha de entregar la esposa 
ai novio, la madre de la moça. en presencia de algunos de su 
linagem, la corrúpe con los dedos. Cieça, c. 49. p. 133. b. 
— Da indifferença dos actues Índios em relação á virgindade falia 
XJlloa, Relacion Hist. dei Jiage etc. Farte I-]-T. II. p. 554. 
O mesmo se da nos selvagens Norte-americanos. Carver p. 246r 
— Em contraste grande com isso está a raridade de commercio 
entre pessoas solteiras do povo mais boreal da raça americana, 
os Groenlandezes, onde uma moça já se julgaria offendida si 



— 77 — 

nm solteiro lhe offerecesse do seu rapé. Giranz : Hist. v. Grõn- 
land. I. p. 208. 

108. Que até exi^-iam os signaes da virgindade (Michaelis, 
Mosaiscbes Reclit II. p. 143 ete.) e ainda os exigem ('Sonnerat, 
Voyage I. p. 67. Georgi, Beschreibung der russischen Vólker. 
p. 140) 

109. Nos antigos habitantes de Nicarágua prevalecia a 
disposição de que, quando a victima se queixava o ofíensor era 
condemnado a escravidão ou, tinha que fornecer o dote. O es- 
cravo ou servo que violasse a filha do seu senhor, era enterra- 
do vivo com ella. Gomara c 206. p. 263. b, 

110. Martins, Reise III, p. 1313. 

111. Prado p. 20. 

112. Charlevoix, Journal d' un voyage V. p. 422 

113. Segundo Spix na. wiagem delle e Martíus, III, p. 1189. 
114 ^egniK^ o Gomara c 79. p i02. b. e Coreal, Voya- 

geSf I, p. 11 e Í40.— Segundo estes nào eram somente «s pagés 
que tinham esse dipeito, mas os caciques até sollicitavam->e re- 
ciprocamente isso e os subordinados pediam-nos que o accett as- 
sem. Entre os habitantes da província peruana Manta, todos os 
amigos e parentes do noivo, presentes ao casamento, 'inham o 
mesmo direito. Garcilaso L IX, c. 9. p. 312. Esse costume 
jurídico recordo o que herodot L. IV, c. 173 conta Hos Nas- 
samonios. um povo africano e, também da prostituição das mulhe 
resda Bahylonm Herodot I. c. 189., Strabo, Editio Izschuke Vol, 
VI p. 283. L. IQ. c. 1 20 e Vol. V. p. i38. L. VIL c 3, 
§ 5H. Vol. V. p. 17. L. XII., c. 1. §3.) e das habitatites de 
Byblos (Lucian, de Dea syria.) Si o principio daqu^^lle rosrume 
tivesse tido uma base religiosa parece, todavia, ter d^ «.-enerado 
em verdadeiro desbragamento das mulheres. Assim a libeidade 
licenciosa entre os peruanos se:á talvez ainda um rest" Hh um 
culto antiquíssimo. — Em Nicarágua (uma terra povoada de me- 
xicanos e com os mesmos costumes quasi, Gomara c. 207, p. 264 
h ) tinham as mulheres permissão de entregar-se a outros ho 
meus durante certas festas. Gomara c. 206, p. 263, 6. e o noivo 
muitas vezes aonít^via, slo cacique o Jus primae noctú , Em outros 
logares da Tierra firme, os amigos e parentes ficavam ccn? esse 
direito. Pedro de Cieça c. 49, p. 133. 

115. Assim também, entre outros, nos Groenlandezes. Granz, 
Rui. 1 , Grõnl, I, p. 208. 

lie Du T^rtre, II, p. 378. 

117. Especialmente a união com irmãs, tias e filhas. No- 
ticia do Brazd, p. 282. Nisso, portanto, os Tupis era-u mais 
civilisados do que os Caraibas das Antilhas, nos quaes o homem, 
ao mesmo tempo, podia estar unido com duas irmãs e afé ■ om 
a mãe e filha. Du Tertre, II, p. 'i78. Nos índios de S. Do- 
mingos eram prohibidos somente os casamentos em primeiro grau 
de parentesco. Estes Caraibas acreditavam que tinham de 



— 78 — 

morrer si unissem-se com a mãe, a irmã ou a filha. Oviedo L. 
V. c. 5, p. 49. Charlevoix, /, p. 61. — No Peru os Incas tinham 
prohibido sob pena de morte as uniões em primeiro grau de 
parentesco, ascendente ou descendente. Acosta L. VI, c. 18, 
p. 428 ; e a mesma pena havia para incesto com mãe, avó, filha, 
ou neta ou irmã, (1. c). Também na familia dos Incas, se^rundo 
o mesmo auctor, eram prohibidas as uniões com irmãs, até que 
o avô de Atahualpa casou com a irmã. Pelo contrario conta o 
pwàteriar Inca Garcilaso L. I. c. 21, que Manco Capac recom- 
mendava uniõss com parentes, assim como, que (L. IV. c, 9 -\-) 
desde este fundador da dynastia, cada herdeiro da coroa unia-se 
com uma irmã ou uma parenta até o quarto g*ráu, ])ara que os 
descendentes do sói se conservassem sem mescla no trono. Muito 
mais brutal parece isso nas narrações de Gomara, c. 124. Este 
auctor, anterior aos referidos, diz que era Cuzco a polygamia 
era habito e que os soldados uniam-se até com as irmãs. 

118. Veigl, em v. Murr. lieisen eniiger Missionar ien, p, 
72. — Os Iroquezes e os Hurons que vivem em mono^çamia, são 
rigorosos na observância dos graus de parentesco, ao passo que 
os Algonquinos polygamicos, são nisto muito mais levianos. La- 
fitau, I, p. ÕÕ8. Charlevoix, Journ. d'un Voyage, V, p. 419 
etc. Nos Groenlandezes são raríssimas as uniões mesmo entre 
primos, até pessoas acceitas como filhos adoptivos sem parentesco 
algum, não se unem com alguém da casa da adopção. Pelo 
contrario, se bem que raro e mal visto, ha exemplos de homens 
unidos com duas irmãs ou com a filha de um casamento anterior 
de sua mulher. Cranz. íli&t. v. Grõnl. I, p. 209. 

119* Lembra casamento Levirata dos judécs. S. Michaelis. 
Direito Mosaico IV. Õ7 . 

120. Noticia do Brazil p. 283, Thevet em Lafitau I. p. 
557 . Vasconsellos p. 81' — Os Caraibas das Antilhas casavam-se 
de preferencia com as suas primas, mesmo porque era isso de 
direito. Eochef^rt II. j^ 595; etc. — Du Tertrell. p. 377 . Os 
Apalacldta tiuhão o casamento fora da familha por pouco decente 
Rocliefort p. 330. 

121. Os Índios de Daria que tomavam tantas mulheres 
quantas queriam e nisso faziam questão de igualdade (de catego- 
ria?), podiam deixal-as, trocal-as e vendel-as, especialmente as 
estéreis (Gomara c. 68- p . 82 . h.) . Nelles havia separação 
immediataraente que suspeitavam de gravidez ao mesmo tempo 
que havia menstruação. (Assim pelo menos entendo a passagem ; 
Emhero es el devorcio y apartamiento estando ella com su cami. 
sa por la sospecha dei prennado) . Era Nicarágua expulsavam as 
adulteras devolvendo-as cora o dote. Não podiam tornar a 
casar. O marido vingava-se no seductor a pulso e os parentes 
da mulher consideravam-se offendidos* {Gomara p, 203 b.) 

122. Das narrações hespanholas mais antiga não se pode 
deprehender si as disposições do direito peruano eram igualmen- 



— 79 — 

te favoráveis para os homens. Em Gomara le-se somente {cap, 
124:): o adultério nos Índios de Cuseo era punido com a morte; 
em Acosta {L.VI. c. 18 p, 427,): também a mulher é punida 
com a morte e, mesmo que o marido perdoe ainda ha punição 
posto que menor. O legislador peruano Pachacutec fez uma lei 
especial a respeito do adultério. Garailaso L . VI. c.36. Nos 
Índios de Camará havia expulsão depois do adultério e o ma- 
rido ofíendido procurava, além disso de vingsr-se no seductor. 
Giimara c. 70. — Também os direitos romano e antigo allemão, 
tratam o adulteiro da mulher com mais rigor do que o do 
homem. 

123 Neuivied II p. 38. Emntre os Miamis na America 
do norte o marido ofiPendido tem o direito de cortar o nariz da 
mulher que fugiu. Charlevoix Voy . V. p. 420. 

124. Reis in Brasilien II ^j. 480. 

125. Parece especialmente de accordo com o temperamen- 
to e costumes dos povos brutos da Ásia oriental. Os vestigios 
mais antigos encontram-se talvez entre os antigos Massagetos . 
Herocl. 1.216. 

126. Prado p. 21. Secundo Azara, Voyage II p. 116, 
costumam matar os seus filhos com excepção de um casal ; e os 
LingoaH e Macliicuyos deixam de viver somente o ultimo filho (?). 
Azara, p. 152-156. 

127. Azora, p. 93. 

128. E' conhecido que segundo o direito allemão, o casa- 
mento do filho liberta-o do poder paterno. 

129. Segundo a observação de Spix (Reise III p. 1186) 
nos Passes o page dá o nome ao recemnascido. — Os antigos pe- 
ruanos davam o nome quando desmamavam a criança e nesta 
occasião os parentes, cada um por seu turno, cortava-lhe um pouco 
de cabello. Garcilaso L. N. c. 11. Talvez origine-se daqui 
o costume dos visinhos Tecunas de arrancar os cabellos do re- 
cemnascido. Martins, Reise II, p. 1188. Costumes inteiramente 
idênticos em relação a dar • nomes tinham entre outros também 
os Caraibas. Rochefort II, p. 611 etc. Nesta occasião furavam- 
se os beiços e as orelhos das crianças, o que também se faz 
entre muitos dos povos brazileiro — (O corte do cabello das crianças 
como uma cerimonia também ha entre os Kalmukos. Palias, 
Reise I, p. 305). 

VòO. Os Majorúnas que desfiguram horrivelmente os rostos 
com talhes etc, festejam o acto de furar os beiços, as orelhas e 
as faces. Rei^e III, p. 1188. 

131* Entre os antigos peruanos o poder paterno durava até 
o vigésimo quinto anno. Esta idade precisava ser attingida 
pelos moços que tinham de ser providos com mulher pelo Inca 
ou, em nome delle, pelos Curacas. Garcilaso L. V c. 15, L. IV 
c. 19 L. VI c. 36. — Os Incas restringiam o poder paterno pelo 
instituto dos Decuriues. Era que um dos pais de familia tinha 



— 80 — 

a superintendência sobre nove de seus visinlios ; elle fiscalizava 
todos os seus negócios e em questões domesticas funccicnava 
como juiz. Castigava as crianças pelas travessuras, mas também 
os pais quando nào educavam e ensinavam os filhos. Garcilaso 
L. II, c. 11, 12. Pelo Inca Roca, que probibiu os saerificios de 
crianças, foram fundadas escolas. L. VI c. 19, L. VII c. 10. 
Um systema de educação ainda mais desenvolvido, de pensões 
publicas, parece introduzido entre os Mexicanos. Acosta Lib. 

VI, c. 27. 

132. ' Segundo as leis dadas por Romulus, o pai, pelo con- 
trario, podia vender os seus filhos três vezes, expol-os e até 
matal-os. Dion. Halicam. LII, c. 26. O Potestas paterna ro- 
mana era inteiramente análogo ao poder do senhor sobre o es- 
cravo. 

133. Hern. Oviedo L, V, c. 3 p. 48-b. Oharlevoix. His- 
toire dfi St. Domingue, /, p. 59. Herrera Dec- II, L. 3 c. 5 
p. 84. Garcilaso L. yi, c. 5, p. 177. Depois da morte do 
Guayanacapac mais de mil pessoas teriam sido sacrificadas. Acosta 
L' V, c. 7, p. 319. As viuvas estavam de luto durante um 
anno e não tornavam a casar. Acosta L. V, c. 18, p. 427. 

134. Nos Índios de Cumana a superiora recebia o craneo 
do esqueleto de seu marido exhumado. Gomara p. 83 p. 108-b. 

135. Eeise II, p 692, III, p. 1319. 

186. Garcilaso L. I c. 11 p. 13, 14. Também mais tarde 
faziam aqui saerificios de criançis, por exemplo, para o resta- 
belecimento de um pai doente e na investidura do novo Inca. 
Acosta L. V. c. 19. p. 349. 

137. Tal differença parece ter existido também no Peru 
no tempo dos Incas mas somente em relação ás crianças de pu- 
ro sangue dos descendentes do sói ; por isso os bastardos não 
tinham direito á successào nem á herança. Garcilaso L. IV, 
c, 9. L. IX c. 36. — Em Daria os filhos da supe^riora alimen- 
tavam as inferioras, quando o pai tinha fallecido. Herrera Dec, 

II. L. 3. c. 5. p. 84. 

188. Por exemplo os Majorunas os Mundrucús etc. Reise 

III. 1195 e 1310. Nota-se este horroroso costume entre os Huro- 
nes, Algoquis e outras tribus no Lago Superior. Volney, 0'^uvres 

VII, p. 403. Segundo a lei dos Incas os velht s que riáo presta- 
vam para outros serviços tinhão que espantar os pássaros nas ro- 
ças e eram em compensação mantidos a expensas publicas, com 
os mudos e os aleijados. Garcilaso L. VI. c. p. 217. 

139. Vasconcellos Chroiiica, p. 87. 

140. Os IroquBzes e outros povos norte-americanos guar- 
dam de noite os seus prisioneiros, conservando os deitados e 
amarrados a postes com cordas. Lafitau II. p. 262 ect, 

141. Noticia do Brazil, c. 171-113. Vasconcellos L. I, 
p. 78 etc. Uma descripção completa destas relações encontra- 
se em Lery, Hans Stade, Thevet e nos mais auctores antigos 



— 81 — 

sobre o Brazil. Os selvagens norte-americanos queimam os 
seus prisioneiros a f g-o lento. Lafitau II. p. 274 etc. Os 
Mexicanos, os Índios d^ Nicarágua e os peruanos faziam guer- 
r^s para capturar victinias para os sacrifícios. Veja entre ou-i 
tros Gomara c. 206 p. 264. (de quem nos citamos sempre a 
edição de J.' Steels, níio a contemporânea de M. Núncio.) 

142. Compare Martins Rei.se III. p. 1310. 

143. Nos Índios de Nicarágua podia-se sem difficuldades 
matar um escravo ; quem, porém, matasse um homem livre, 
tinha que indemnizar o filho do morto ou outros parentes. Go- 
mara, p, 264. 

144. A venda dos prisioneros americanos aos colonos de 
descendência européa, tinha tanto maior influencia sobre os cos- 
tumes dos autochtones r« mo tornára-se corrente, logo depois da 
vinda dos europeus. Os hesf-anhoes que nas Antilhas encontravam 
antropophagos, de c« stunies immoraes, julgavam no seu direito 
de reduzil-os á escravidão. {Varnhagen, Historia do Brazil 
I p. 54 ) Também os primeiros armadores portuguezes, cujo 
negocio principal era o páo-brazlil, parece tel-o mudado em ne- 
gocio de escravos para o Portugal e suas colónias africanas. O 
governo prohibiu este cornmercio, temendo represálias contra as 
primeiras e fracas factor as portuguezas. Aí>sim mesmo encon- 
tramos (Varnhagen. p. 431.), que em 1511 um navio com 5000 
toros de páo-brazil e anim es vivos, pricipalmente papagaios, 
levava também 36 Índios dos dois sexos, de cujo valor, como do 
ouro e dos escravos negros, o rei recebia o quinto. 

145. Grans. Hist. Gi^ônland I. p. 231. 

145. Assim descrevem Gomara, Cieça, Acosta, Inca Garcilaso 
e outros, os antigos habitantes de México e Peru. 

147. Pedro de Cieça c 105. Inca Garcilaso L. III. r, 1, 
Ulloa, Relacion, IV. Besnmen Histórico 34. 

148. Perro gosque mudo, Oviedo L. XII c. 5. 

149. Ali chamado Lori, segundo Oviedo L. XII c. 4. 

150. Humòcldt, Es.^ai sur la Nouv. Espagne, II p. 451, 

151. Inca Garcila&o, L. VI. c. 6. p. 79. 

152. O mesmo L. I. c. 10. L. II. c. 19. 

153. O mesmo L. VI. c. 10. p. 184. L. I. c. 10. 

154. H. R. Schoolcraft, Algjc Researches, New-York, 1839, 
I. 122. Longfellow, Hiawaiha Canto V. 

155. Guilielma speciosa Mart., na Guiana hespanhola cha- 
mada Gachipés, no Brazil Buhunha ou Pupunha. Apparece 
actualmente em grande distribuição o que as palmeiras em geral 
nào tem ; e em muitos logares constitue a principal alimentação 
dos indígenas. Na língua de Chile, Pupun que dizer, qualquer 
carne ou fruta. 

156. E' verdade que exactamente na Caucasia, a terra onde se 
encontram as mais antigas raízes de uma hmanidade nossa amiga, 
é que se tem verificado uma grande variedade de nacionalidades 



— 82 — 

e de línguas, ambas muitas vezes em g-rande isolamento. Não 
se pode, porém, deixar de considerar que esta região, lia millenios, 
tem sido a ponte sobre a qual incessantes migrações passaram e 
que sempre deixaram vestigios da sua língua e do seu typo 
e que está bistoricamente demonstrada a passagem successiya 
de, pelo menos, de cinco nacionalidades : Os Lesghios, os Ghasa- 
zos, os Mongolos, os Árabes e os Tártaros. Na America não tem 
sido possível até boje determinar os pontos de passagem das 
antigas migrações com o seu séquito. 

157. Ainda ba pouco o presidente dos Estados livres Norte- 
americanos fallava neste sentido aos deputados do povo. Men- 
sagem do Presidente Jackson na abertura do vigésimo segundo 
Congresso. Allg. Augsb. Zeitung. 1832. N. 10. p. 38. 



Reminiscências históricas 



período REGENCIAL (*) 

Ricard, prefaciando a traducção das Vidas de Plutarcho, 
diz-nos, que um dos grandes méritos daquelle celebre liistoria- 
dor foi, o ter-se demorado mais em descrever factos da vida in- 
tima, do que as acções brilhantes de seus homens celebres. 

As acções brilhantes, narradas circumstanciadamente por 
todos os escriptores, tornam-se conhecidas do mundo inteiro, 
mas sem factos da vida intima nào se conseguiria jamais apre- 
ciar o caracter e o costume dos homens das gerações passadas. 

Os feitos brilhantes na maior das vezes, nada mais signi- 
ficam do que esforços, paixões, não occupando sinão alguns in- 
stantes da vida, ao passo que os actos Íntimos, são a continua- 
ção do natural e indicam quaes os nossos hábitos. 

Dando publicidade a autographos inéditos, dos brazileiros 
notáveis que tomaram parte nos movimentos políticos e revolu- 
cionários, tem sido o fito de quem escreve estas linhas, tornar 
conhecido o pensamento intimo que os animava e dirigia, para 
que, ao se escrever a historia, possam as escriptores deante des- 
ses documentos firmar seu juizo sobre o caracter daquelles bra- 
zileiros illustres. 



(1) Com anctorização do seu auctor nossr» illustre consócio Dr. Joio Moraes trans- 
crevemos para as paginas da Revista este interessante estudo que publicou no jornal 
S. Paulo em mezes de Março e Maio de 1906. Noticiando esses artigos— escreveu aquel- 
Ja folha no seu numero 149 e 26 de Março. 

« Começamos a publicar hoje interessante trabalho de um dos nossos mais presti- 
mosos collaboradores que se occulta sob o pseudonymo de Erasmc, o qual nada tem 
de commum com o celebre escriptor do século XVl, amigo de Thomaz Morus, e que 
Luthero não conseguiu converter, nem com o humorístico auctor da Conferencia dos 
Divinos . 

«O Erasmo actual já deve ser conhecido da imprensa de S. Paulo, na qual varias 
vezes tem apparecido com importantes pesquisas sobre nossa historia politica. O es- 
cripto de Erasmo, cuja publicação encetamos, é uma curiosa exposição do nosso pe- 
ríodo regencial de 1831 a 1836, em que a nacionalidade brazileira custou a se formar, 
tão angustioso era o movimento anarchico do tempo. 

" Nessa época sobresae, mais do que todas, a figura altiva de Feijó, primeiramente 
como ministro da Justiça a impor condições ao governo, e depois como regente do Im- 
pério, posto que já mais debilitado em sua energia. 

"Além da resenha fiel dos factos. Erasmo publica varias cartas dos homens daquella 
situação politica, algumas inéditas até agora, conservando-lhes a ortographia viciosa 
com que foram escriptas. 

Chamamos a attenção dos leitores para o trabalho consciencioso do nosso distincto 
collaborador, a quem dirigimos agradecimen"os". 



— 84 — 

Publicando novos autograplios inédito?, procurarei enfeixar 
em estreito cyclo o momento lii>torico a que elles se referem, e^ 
para facilitar que sejam apreciados pelos que percorrerem estas 
notas despretenciosas, reproduzirei alf^uns dos já publicados. 

Um dos pontos da nossa historia que mais tem prendido a 
attenção dos curiosos e dos competentes é incontestavelmente o 
período re^encial, que se extendeu de 1831 a 1836. 

Victoriosa a revolução, parecia natural que o paiz, entrasse 
em longo periodo de paz, o que infelizmente não aconteceu.. 

Assumindo o Governo, a Regência Provisória teve de arcar 
com grandes dificuldades occasionadas pela indisciplina do exer- 
cito, exaltamento das idéas libfraes, pelas consequências do ódio 
que se infiltrara nas classes ignorantes contra os portuguezes 
que haviam figurado na politica imperial nos últimos tempos da 
reinado de D. Pedro 1.° 

Tumultos, aggressões, assassinatos se reproduziam quasi to- 
das as noites nas ruas do Pio de Jan*âro, aterrorizando a po— 
pulação laboriosa, e obrigando o commercio a cerrar as portas ao 
pôr do sol. 

Tão difficil éra a situação que não foi possivel reunir- se a 
Camará dos Deputados, extraordinariamente convocada, e, quando 
começou a sessão ordinária, os dt-putadas não discutiram ns gran- 
des acontecimentos que se haviam desenrolados no paiz ; os que 
usavam da palavra eram tão somente para reclamar do governo 
medidas rápidas e enérgicas, para fazer cessar a anarchia, cada 
vez mais desenfreada. 

Os homens que juntos haviam contribuído para a victoria de^ 
7 de abril passaram a formar dois grupos de idéas accentuadas. 

Os exaltados, na Nova Luz Brazileira, Jurujuba e outro& 
periódicos, sustentavam que não podia prevalecer a constituição 
outorgada, porque era presente de senhor a escravos — que as 
reformas deveriam ser proclamadas pelo povo, sem o que a re- 
volução só teria servido para uma simples mudança de imperador. 

Os moderados, que habilmente souberam aproveitar-se da 
situação creada pelo 7 de abril, visto como è hoje sabido que 
os que se foram collocar á frente desse partido não desejavam a 
abdicação de Pedro 1.** mas unicamente obrigal-o a ser mais^ 
hrazileiro e constitucional, no Independente, Astrea e na Aurora 
pela pena diamantina de Evaristo da Veiga, sem desconhecerem 
a necessidade das reformas, sustentavam que era desnecessária 
nova eleição de depiitados, e que a Gamara podia realizal-as 
legalmente com estudo, prudência e patriotismo. 

Era esse o estado do espirito publico quando foi discutida 
a lei estabelecendo a regência de três membros, para governar 
o paiz até a maioridade de D. Pedro 2.** 

Votada sob a impressão de um periodo agitado, para satis- 
fazer as idéas dominantes, commetteu a Gamara imperdoável 
erro — retirando da Regência preciosas attribuições, concorrendo 



— 85 — 

assim para enfraquecer ainda mais o governo, facilitando a 
permanência do espirito revolucionaria, que no Rio de Janeiro 
se foi alastrando a todo o Império. 

Comprehendeu o governo que não podia permanecer inerte, e 
que era chegado o momento de enfrentar com vigor os elemen- 
tos dissolventes, e restabelecer a ordem na sociedade anarchizada. 

Onde porém encontrar quem tivesse animo desassombrado 
para arcar com tão grande responsabilidade? 

Pela p< sição que havia assumido nas Cortes de Lisboa, de- 
fendendo os interesses do Brazil, pela energia com que aconse- 
lhava á Regência o dever de reprimir a anarchia, era apontado 
pela opinião publica, como o único capaz, o nosso conterrâneo 
Diogu Anronio Feijó. 

Convidado pela Regência para occupar a pasta da Justiça, 
não titubiou um só momento. 

Conhecendo porém a fraqueza do governo, estabeleceu con- 
dições que foram acceitas. 

Esse contracto tem sido tão poucas vezes reeditado que 
vem a propósito reproduzil-o, para que a nova ge''ação, por 
•esse documento intimo, possa avaliar qual o patriotismo, decisão 
e energia, daquelle que mais tarde foi alcunhado o Cavaignac de 
JBatina. 

CONDIÇÕES COM QUE ACCEITO O MINISTÉRIO DA JUSTIÇA 

1.* Conservarem-se os membros da Regência na maior ar- 
monia, sem outras vistas em suas resolusões, que a prosperid.® 
-do Brazil. 

2.* Tomarem-se todas as resolusões relativas á escolha, e 
demisâo de Empregados; á medidas geraes, e acasos particula- 
res em conselho de ministros, presidido pela Regência; ficando 
livre ao Ministro da Repartisão, a que o negocio pertencer, qd.* 
seja disidente, faser o que entender; ficando porem os mais 
dezonerados de defender seu acto; e autorisado mesmo a sen- 
suralo em qualquer das Camarás qd.** nele setoque. 

As ordens tendentes a mandar eizecutar as leis, pedir escla- 
recimentos e proceder adeligencias para propor afinal resolusão 
em Cons.'' poderão ser dadas por cada Min.** indepen.** de conselho. 

3.* Dentro de um ano, se por motivo demoletia me for 
indispensável largar a Pasta por algum tp.", será esta interi- 
nam.^ substituída, ou ocupada pelo Min.^ que eu indicar á Re- 
gência; mas se o encomodo durar mais de 4 meses; em depois 
deste pr.° ano, a Regência nomeará outro Ministro, se quiser. 

4.* Se for neces." demitir alguns dos ministros actuaz; o 
•que só terá logar quando estes opesão, ou a verdadeira opinião 
publica se declare contra eles ; os que os substituírem serão da 
da aprovasão do concelho pela maioria de votos dos ministros e 
fegentes . 



— 86 — 

5.* Averá um periódico dirigido por mim. Eisposição de 
modo porque me pertendo conduzir no Ministério persuadido 
deque em todo otp.** eprincip.** nos convulsivos só aíirmesa de 
conduta, a energia e a justiça podem sustentar o Governo, fa- 
seio amado, e respeitado; e certo que a prevaricasão, emais que 
tudo a inasão dos Empregados é acausa do justo queixume dos 
povos serei rigoroso, e inílessivel em manda-los responsabilisar. 
As leis são a meo ver, ineficases, e o proceso incapaz de por 
ele conseguirse o fim desejado ; mas a eisperiencia dezenganará 
os Legisladores, salvará o Governo da responsabilid'' moral; e o 
arbitrará p°' propor medidas salutares que remo vão todos os em- 
barasos. 

Como o Governo livre é aquele em que as leis imperão, 
ou as farei eizecutar mui ristricta, e religiosam.*" sejam quaes 
forem os clamores, que posão resultar desua pontual eizecusão; 
não só porque ese é odever do Eizecutor, como por esperar que 
depois de algum tp.** cesado oclamor dos queixosos anasão aben- 
soe os que cooperarão para sua prosperid''. 

ADVERTÊNCIA 

A m."" maneira devida : omeu tratamento pesoal não sofrerá 
alterasão alguma: om.° que atéqui. 

Para que a todo otempo, ou me reste a consolação, de 
qd.** infelis nos resultados, tersido porem fiel ameus principios e 
am/ consciência ou me enxa devergonha por aver faltado ao 
que nesta prometo, asinome, rogando á Regência queira tãobem 
asinar entestemunbo de que aceita, e concorda com o eisposto. 

Rio de Janeiro, 4 de Julho de 1831. 

Diogo António Feijó. 

* 
* * 

Assumindo o posto difficil, Feijó correspondeu plenamente 
ás esperanças dos que confiavam na sua inquebrantauel força de 
vontade. 

O partido exaltado recebeu-o com grande irritação, e resol- 
veu apressar o movimento revolucionário para não Ibe dar tempo 
de organizar a resistência. 

Em 14 e 31 de Julho promoveram revoltas que foram de 
prompto esmagadas. 

Previdente, soube aproveitar-se da sua fácil victoria. Sem 
perder tempo, dissolveu o corpo de policia, removeu batalhões 
de linha, e fez submetter a conselho de guerra grande numero 
de officiaes. 

Dois ministros reclamaram moderação, e tanto bastou para 
que fossem demittidos. 



— 87 — 

Receioso de que os perse^çuidos encontrassem apoio nos 
juizes, por aviso, suspende as cartas de seguro. 

Essas violências, e mais que tudo a inimizade tenaz que 
lhe votavam os Andradas, a que elle sabia eo^ualmente corre- 
sponder, deram causa a que se formasse a opposição parlamentar. 

Montezuma, logo no começo da sessão, sustentou a necessidade 
de ser processado o ministro da Justiça, por ter attentado contra o 
habeas-corpus, suprema garantia individual. Era, porém, tão gran- 
de o prestigio de Feijó, que o projecto apenas reuniu 13 votos. 

Votados os orçamentos, a commissão apresentou o projecto 
das reformas constitucionaes, compromisso assumido pelos re- 
sponsáveis do 7 de Abril. Esse projecto remodelava toda a 
constituição, apresentando medidas radicaes, que transcrevo 
para tornar bem conhecido o espirito dominante — Império Fe- 
derativo, abolição do poder moderador e do conselho do Estado, 
reducção á metade do numero dos deputados, creação das assem- 
bléas legislativas provinciaes, com funcções politicas, regência 
de um sò membro durante a menoridade do imperador. 

Iniciada a discussão, emendas mais radicaes foram justifi- 
cadas: — suppressão da religião do Estado, provindas regidas 
por constituições de suas assembléas provinciaes, magistratura 
electiva, abolição da monarchia pela morte ou impedimento de 
D. Pedro II, convertido o governo em republica, etc. 

Setenta e cinco annos são decorridos e grande parte da- 
quelles principies figuram na nossa constituição ! 

Já se achava muito adeantada a sessão, quando foi remet- 
tido ao senado o projecto votado pela camará, já expurgado da 
maior parte das emendas apresentadas. 

Deante da excitação popular, e não querendo legislar sob 
a pressão da opinião revolucionaria, nomeou o senado uma com- 
missão para estudal-o e dar parecer, afim de ser discutido na 
seguinte sessão. 

Encerradas as camarás, surgiram novas alterações da ordem 
publica, a primeira no theatro S. Pedro, a segunda na Ilha das 
Cobras, ambas dominadas pelas rápidas providencias do ministro 
da Justiça. 

Embora esmagados na lucta material, os partidos revolucio- 
nários não cessavam a propaganda de suas idéas. 

Os amigos de D. Pedro I, que haviam desapparecido da 
scena politica depois do 7 de Abril, aproveitando-se da anar- 
chia geral, surgem em campo e, no Diário do Rio de Janeiro 
e Caramurú, começam a sustentar a necessidade da restau- 
ração, como único meio de fazer cessar a anarchia e voltar o 
j)aiz aos tempos que precederam o 7 de Abril. 

Bem depressa aquelle partido deixou a propaganda pela 
acção. Logo após a tentativa do major Frias em o de Abril, 
vieram a campo os restauradores. Commandados pelo official 
allemão Barão de Bulow, na manhã de 17 de abril, organizam- 
se em S. Christovara, e dirigem-se para a cidade. 



^ 88 — 

Estava Feijó a i-ar do movimento, mas, espirito de lucta, 
adoptara como principio, que os movimentos revolucionários não 
devem ser prevenidos, mas esmagado-;. 

Bem depressa reuniu os elementos para a resistência, e, 
percorrendo as fileiras, o enérgico pauli>ta incitava os s» Idados 
d cumífrirem os seus deferes. 

Delineado o ataque, ao atravessaram o aterrado de Mangue, 
foram os restauradores surprehendido^ pelas forças legaes e, de- 
pois de pequena re-istencia, soldados e general procuraram >db\- 
vação em vergonhosa fuga. 

Quando a Câmara começou a funccionar, era enorme o 
exaltamento dos ânimos, contidos apenns pela energia do minis- 
tro da Justiça, cuja decisão e firmeza mais se accentuavam nos 
momentos críticos. 

Quan^lo Feijó leu á Camará o seu relatório, com rude fran- 
queza apontava as causas do mal e pedia a<< legislador os meios 
que entendia necessários para restabeler a paz na sociedade 
anarchizada. 

Leis coercitivas exigia elle, e tão violentas que um depu- 
tado perguntou-lhe : 

«Tem V. exa. 40 mil homens para sustentar seu relatório ? 

—Não, retorquiu-lhe Feijó. Tenho 4 m-l guardas nacionae?*». 

Convencido de que o movimento restaurador fora dirigido 
por José Bonifácio, propoz para quR lhe fo-*se retirada a tuto- 
ria. Acceita a medida pela Camará, foi repellida pelo Senado, 
por maioria de um voto. 

Despeitado com esse resultado, ped • Feijó demissão, e os 
moderados reunidos na casa do padre José Custodio Dias na 
celebre chácara da Floresta, para impe ir a retirada do minis- 
tro da Justiça, combinam o golpe de E-^tado de Julho de 18 2, 
cujo fim era fazer votar pela Camará, com exclusão do Senado, as 
medidas exigidas por Feijó. 

A inesperada opposição de Honório, cuja adhesão havia si- 
do previamente reclamada, impediu que fosse avante aquelle 
movimento revolucionário. 

A pedido da Camará, permanece a Regência, que tamb*^ra 
havia pedido demissão, e, tendo-se Feijó recuí^ado a voltar atrás, 
retira-'^e todo o ministério. 

dm diffieullade organiza-se novo ministério com elementos 
hecter geneos, figuran'^o nelle um d<»s Hollandas, já notável |>elas 
suas excentricidades. Esse ministério teve vida ef>hemera, e ficou 
conhecido na historia pelo nome de ministério dos 40 dias. 

Derribado pelo esforço de Vasconfello-, voltam os mode- 
rados, indo occupar a pasta de justiça Honório Hermeto. Essa 
escolha foi mal recebida pelos moderados que não lhe perdoa- 
vam ter impedido o golp-^ de Estado Sua posição tornou-se 
difficil. ao rebentar em Minas a revolução capitaneada por Ma- 
noel Soares do Couto, seu cunhado e amigo. 



— 89 — 

Começou-se a duvidar da sua lealdade politica, e acreditar- 
86 na sua ligação aos restauradi>res. Não fora elle que por fra- 
queza deixara que aquelle partido ganhasse as eleições no Rio 
de Janeiro ? 

A politica tibia e irresoluta que seguia trouxe-lhe a oppo- 
sição de todos os moderados, cujo chefe envia a um membro da 
Regência o seguinte autographo, que reproduzo : 

IlJmo. e Exmo. Sr. J. da C. Carvalho. 

O descrédito do nosso amigo Honório he inteiro, e o seu 
nome está em execração aos imoderados. CoUocou-se em tão des- 
graçada posição que se tornou bandeira dos Caramunis, e alvo 
do ódio dos liberaes. Se não se dimitte, a audácia de huns cresce 
e os outros infallivelmente succumbem. 

Já os Caramurús, como em 13 de Setembro, ameação de, 
fazer correr rios de sangue, caso não seja elle conservado no 
ministério. Conheço o caracter e probidade do Honório, mas as 
vacillações e o sistema politico, não prestam para nada. 

Queira mostrar estas linhas ao nosso am.° Braulio. 

S. C. 6 de Março de 1833. 

De V. Ex^ 
Am^ Vner^'- e Obr.' 
Evaristo F. da Veiga (1) 

Repellido pelos deputados mineiros, combatido vehemente- 
mente por Evaristo e Vasconcellos, viu-se Honório na contigen- 
cia de dirigir ao Regente Costa Carvalho, o seguiete autographo 
da colleção que possuo : 

Exmo, Sr. Costa 

Não pude dormir esta noite um quarto de hora ; V. Ex.* por 
quem é me restitua a tranquilidade e a paz do espirito, que não 
poderei achar em quanto ver pastas em m.* casa. 

Q' lucro pode receber o publico de que eu seja reduzido ao 
estado do Lúcio p.^o homem orgulhoso que se julga offendido por 
mim, e pela sua clientela? queria V. Ex.* ler as acertadas re- 
flexões ao Indepente. 

De V. Exm.* 

a 11 de Março Am." e Cr." 

de 1833 H. H. Carneiro Leão (2) 



\\) Já lida no Instituto Histórico de São Paulo. 
(2) Idem. 



— 90 



Dous dias após esta carta, retirava-se Honório do Governo, 
scindindo-se o partido moderado, o que veiu ainda mais concor- 
rer para enfraquecer a Regência. 

Pouco depois, retirava-se Costa Carvalho para Piracicaba. 
Espirito culto, tolerante e superior, não podia conformar-se com 
as luctas degradantes da época. 



* 
* * 



Nese tempo a imprensa politica tornara-se realmente abjecta. 

No Jurujuba, Matraca dos Farroupilhas, Enfermeiro dos 
doidos, Dois Compradores Liberaes, Doutor Tira- Teimas, Medi- 
co dos Malucos, Biiscapé, Brasil Affiicto, etc, em lingnagem vil 
e degradante eram atacados os Kegentes, os Ministros e seus 



amigos . 



Nada era respeitado, nem mesmo a honra do lar. 

Em um autographo do Regente Lima e Silva, de 12 de 
Setembro de 1833, dirigido a Costa Carvalho, então em Piraci- 
caba, e já lido no nosso Instituto Histórico, encontrava-se o se-, 
guinte tópico : 

« O exm. sr. conde Valença, portador desta, dirá a v. exa o 
desgosto por que ora passo com o acontecimento de meu filho 
Carlos. Eis o resultado da liberdade ou licença da imprensa!? 

« Tenho estado a abdicar a Regência, meus amigos e paren- 
tes tem-se opposto, porém não sei ainda o que farei». 

Apesar de todos os esforços, não encontramos narrado em 
chronica aL^uma o acontecimento a que se referia a carta de 
Lima e Silva. 

O illustre escriptor dr. Vieira Fazenda, na curiosíssima 
chronica intitulada — Largo da Carioca — deu-nos a conhecer o 
facto que allude a carta, nos termos que para aqui trasladamos 
d'^ Noticia do Rio Janeiro: 

« Entre os escriptos ultimamente publicados destacarei um : 
a excellente memoria, do sr. João de Moraes, na «Revista do 
Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo», recentemente 
distribuído. Nesse consciencioso trabalho encontra-se uma carta 
do regente Francisco de Lima e Silva, datada de 12 de Setem- 
bro de 1833, e dirigida ao seu collega Costa Carvalho, então, 
por motivo de moléstia, afastado do governo e residindo em 
Piracicaba . 

« Nessa missiva existe ligeira referencia a triste facto de 
que foi theatro o Largo da Carioca.» 

Depois de transcrever a carta, diz-nos o dr Fazenda qual 
era o desgosto que acabrunhava o Regente. 



— 91 — 

« Da uma cousa, além do mais, tinha razão de qiieixar-se 
Lima e Silva: a linguagem cáustica, ferina, desabrida e immo- 
ral das folhas da opposição. Nunca a imprensa entre nós desceu 
tão baixo, não poupando a vida intima dos moderados, gover- 
nantes ou não, e até invadindo o lar de familia de uns e outros! 

« Excedia a todos, porém, no desbragamento de linguagem, o 
Brazil Afflicto, redigido por um certo Clemente Oliveir , o qual, 
não contente de insultar as pessoas dos Regente, em máo dia 
lembrou-se de atacar a honestidade das senhoras pertencentes 
á familia Lima e Silva. 

« Carlos Miguel de Lima e Silva, filho do Regente, Briga- 
deiro Francisco de Lima e Silva, guapo mancebo de 18 annos, 
entendeu de fazer justiça por suas mãos, inutilizando o mise- 
rável insultador dos entes que lhe eram mais caros. Havia sido 
alferes dos extincto batalhão do Imperador. Caminhava fardado 
pelo largo Carioca, quando viu entrar em uma botica dessa 
praça, no quarteirão entre Gonçalves Dias (antiga Latoeiros) e 
Uruguayana (Valia) o desabusodo Clemente. Não posso dizer 
se essa botica seria a mesma onde se deu o facto do David 
Pamplona. Dirigindo-se para o local, Lima perguntou si Cle- 
mente era auctor daverrina. 

«Obtida resposta afíirmativa, acompanhada de riso sarcástico, 
Carlos, desembainhado a espada, de um só golpe mata o pam- 
phletario. A morte foi instantânea. Dentro do chapéu de co- 
pa alta foram encontrado» vários exemj^lares do jornaleco que 
Oliveira se propunha naturalmente a distribuir. 

«Satisfeita a vingança, o filho do Regente entrega-se á prisão, 
soífre processo regular, e é submettido ao jury (que então tinha 
outra organização.) Esse tribual reconheceu nào haver matéria 
para a accusação.» 

Este acontecimento, por si só, era bastante para acarretar dif- 
ficuldades ao governo regencial, que naquelle tempo era de dous 
membros 

Em Setembro de 1834, escreve um dos regentes a Costa 
Carvalho, chamando-o para ir tomar o seu logar na regência. 

Não posso deixar de reproduzir a publicação desse autographo, 
porque perderia muito de seu valor si fosse extratado. 

Ill™, e Ex"\ Snr. 

Pelos papeis públicos V. Ex*. estará ao facto do que tem havi- 
do por aqui, e de q.*** tem sido o Governo a obrar por sirconstan- 
cias extraordinária, q. dos mesmos papeis V. Ex*. terá colegido. 

Hé do meo sagrado dever pedir a V. Ex*. efficizmente que 
venha quanto antes tomar o seu logar na regência, pois em este 
sacrificio V. Ex*". faz o maior serviço a sua Pátria, pois eu luto 



~ 92 — 

com immenpas difiSlcufiad.''^ com exigências de partido, com a 
pouca firmesa de alguém; sertifinando por esta occasiào á V. Ex*. 
que ou ambandono este lugar, que tenho, psr que não sei in- 
fringir a Constituição, ou tomarei uma accitude inteiramomnte 
militar, e verei se assim posso salvar-me com dignidade. Eepero 
que V. Ex,* tomará em muita cosideiação o que assima digo 
nascido da cenciridade do meo coração, e lembrando-se que não 
lia sacrifício algum q'. não deva fazer pela Pátria 

A continuação da regência de dois menbros hé impraticável 
6 se CONTINUAR arrasta infalivelmente funestas consequências de 
. que Brazil >e recentirá . 

Sou com a mais alta consideração e particular estima 

De V. Ex.* 
Am* e Col. Obr** 
Francisco de Lima e Silva. (1) 
Rio, 11 de Janeiro de 1834. 

Os acontecimentos se incubiram de modifícar a posição des- 
agradável e difícil em que se achava Lima e Silva. 

Primeiramente, a attenção publica voltou-se para a discussão 
das reformas eonstitueionaes. 

A quem comf)etia votal-as? á camnra ou ao Senado. 

A discussão a respeito foi uma das mais notáveis que se 
encontram nos Annaes do Parlamento, e deu occasião para que 
refulgissem os talentos de Bernardo de Vasconcellos, Evaristo e 
Limpo de Abreu. 

Sententa votos contra onze resolveram que era da compe- 
tência da Camará votar e decretar as reformas constitucionais. 

Seguiu-se a discussão do projeto da reforma constitucional, 
interessantis-imo, prendendo a atten(.ã« de todos os grupos po- 
liticos, dando assim tréguas aos movimentos revolucionário^. 

Com a morte inesperada de D. Pe-lro I, extinguiu-se o par- 
tido restaurador, cessando a agitação poderosa por elle promo- 
vida. 

Mais do que esses fa*tos, a grave moléstia de que foi ata- 
cado o regente João Brazilio MunÍ55 veiu facilitar a que Lima 
e Silva concluísse o governo da regeu-ia trina, o que fez com 
dedicação e lealdade. 

Executou as reformas, uma das qaaes foi a eleição do re- 
gente que devia governar por quatro annos, que por maioria 
de votos recahiu em Feijó. 

Si, por um lado, esses aconteciment s faciliaram o governo 
de Lima e Silva, por outro lado deram inicio a novos movi- 
mentos . 



íl) Ja lida no Instituto Histórico de São Paulo. 



— 93 - 

Nenhum clironista poderia hoje julgar os homens da época 
e reproduzir com mais vida os acoutecimentos do anno de 1835, 
do que o extenso e precioso autographo inédito, que vamos 
transcrever, escripto por um paulista notável, que tomou parte 
activa em todos es acontecimentos políticos daquelle period\ e 
foi posteriormente um dos mais activos chefes da revolução da 
maioridade. 

Do meio irrequieto em que se achava, Alvares Machado 
dirigia a Costa Carvalho, que abandonara a regência e se reco- 
lhera a Piracicaba, o importante documento que vai ser devida- 
mente apreciado pelos que se interessam em reviver as me- 
morias do passado., tào úteis e tão cheias de ensinamentos. • 

« Ulmo. Exmo. Senhor Doutor José da Costa Carvalho. 

<0 seo colega Braulio axa-se nos últimos paroximos da vida, 
e eu suponho q antes dn um mes ele morrerá. O que deve 
faser-se depois d sua morte? O Lima deve ficar governando só 
té q o futuro Regente tome as redias do Governo? Deve a As- 
semblea Geral nomear um membro para a Regência em logar 
do Braulio? Será bastante xamar ao S."* D."" Costa Carvalho 
para vir preenxer o seo encargo actualm.® indispensável? eis o 
q ocupa a todos, eis o q fas o objecto d todas as conxersasoens. 
Os ómems mais sensatos, mais zelozos do bem publico, os ómems 
onrados d todos os partidos se declarào pelo expediente d seo 
xamamento ; e ja sabe q eu, não tanto pela espécie d idolatria 
em q o tenho, mas pela verdadeira idolatria em que tenho o 
meu Paiz desejo a sua vinda; e no momento em que o Braulio 
expirar, requererei na Camará que se recomende ao Governo o 
seu xamamento; si a saúde d V. Ex."" for tal q não permita o 
comparesimento, ao menos eu fis o meo dever.. 

«Não meto em linha d conta sua circonstancias domesticas, por 
q também V. Ex.* nunca as cauculou diante do interese do Paiz. 

«Quantas coizas agora me não vem ao pensam.**, e q eu não 
posso confiar do papel ! quantas dificuldades eu não aplanaria 
se nos axase-mos agora conversando no Munjolinho ! eu daria 
tudo q posuo para poder agora continuar a conversasão sobre 
o m.""* objfcto q ocupou-nos no ultimo dia q paseamos em sua 
xacra da Cidade I meu Am.** e S'". um paso disizivo q asegure o 
futuro da Família real; dado ele logo, bem breve se restable- 
cerá a pas, e armonia entre os principes cristams. 

«V. Ex.* fica com raiva qd** eu falo lhe obscuram®, paciensia, 
eu não fio do papel, e confio d sua prespicacia. 0'ra vamos ao 
estado do Paiz : Fizerão-se as eleisoens para Regente te no 
Pará, Feijó obteve maioria, ja está fora d duvida Feijó sae 
eleito Regente, e por consequência temos nova elesão para 
Regente, por q Feijó não aseita: não aseita por q ja dise q 



— 94 — 

não aseitava, e por q está convensido q ele nâo pode obter 
meios d governar, o q outro qlq'' poderia obter. 

«O partido Glandes tendo perdido a batalha na Urna Elei- 
toral apela p* a intriga : ele está em maioria na Camará dos 
Deputados, e quer-servir-se desta maioria para dar um golpe 
de estado, para faser uma espécie d 30 de Julho : querem faser 
pasar uma medida legislativa q julgue maior a Prineesa D. Ja- 
nuaria, e lhe confira a Regência do estado durante a minoridade 
do Imperador : ganhada que seja esta batalha farão pasar ime- 
diatamente uma outra medida Legislativa pela qual se confie a 
tutoria dos Augustos pupilos a D. Amélia na conformidade da 
verba testamentária com q faleseo o eis Imperador. A nova 
Regente governará com um conselho de três membros; e esperão 
os Olandezes governar a Nasào por meio das intrigas d Palácio, 
uma vez q o não puderão faser pelo voto Nasional. 

«A Camará dos Deputados conia em seo ceio 97 deputados ; 
destes 53 fasem a maioria Olandeza, 44 são o núcleo da antiga 
moderasào ; e no entanto estes 44 esperão faser recuar a maioria 
diante da dtscusão; q será vehemente, calorosa, e do ultim interese; 
estes 44 unidos em falange serrada, fortes pela superidade intele- 
ctual, escudados pela Constituição do estado esperão derrotar aos 
facciosos, e venser. ou para milhor diser dezoglomerar uma maioria 
vacilante, fraca, desunida por pretensoens particulares, e composta 
de anarquistas, de republicanos ; e absulutistas . Não sabemos 
o dia q se apresentará na Camará aquele projecto, ele tem sido 
demorado por que os Fransas ezitão em aderir, mas logo q elles 
asinem aparecerá; o projecto aparecerá asinado por todaafacsão 
e isto é mais um meio insidioso q os Olandezes axarão para 
ilaquear gente flutuante, tímida, e mal unida. O Ramiro da 
Bahia levantará a lebre. Os Olandezes tem empregado todos 
os ardis para xamarem ao Lima as suas vista, querem-no con- 
solar como a seguransa d q elle fará parte do Conselho triun- 
viral da Regente, mas o Lima não se deixou iludir, antes deo 
gd.^ cavaco; mas o Lima está rodeado de Ministros traidores 
o único omem de confiiansa é o Castro e S.* por q o Alves 
Branco alem de ser doutado d um caracter timido, fluctuante, é 
concunhado do Ramiro, parente de m*"** olandezez, e m'"** nunca 
teve uma fisionomia politica bem pronunciada. Ten-se querido 
m^"** agitar a população da cidade e faseia espozar as preten- 
soens dos olondezes, mas a população da Cidade ainda esiá en- 
joada das ruzgas, e mostra se dezeijosa d sosego e pas : diserão 
aos eizaltados q o ensejo era próprio, e o meio vantajoso para 
irem a Republica; diserão aos caramurus p o meio era óptimo 
para resiaurar os principos, e o resto do pessoal derribado em 
7 de Abril; porem nem eizaltodos, nem caramurus se querem 
meter em nova caravana, á m™** fome d ordem ; a tudo isto acrese 
q a Guarda Nacional ainda se axa com óptimos xefes ; Manoel da 
Fonseca Lima comanda aforsa d primeira linha, Luiz Alves de 



— 95 — 

Lima está a testa do corpo de perraanentes, e por este lado es- 
tamos seguros, apezar de contar-se com a traisão dos Ministros de 
Marinha e Guerra; o Ministro do Império é um ente nulo. 

«Alguns disem que é mister mudar ao menos os Ministros 
da Narinha e Guerra. Este é o estado em q. as as coisas se 
axão ; e para nada ocultar-lhe devo diserlhe q. o Vasconcellos 
está unid aos Olandezes, e poriso m.^" desacreditado; a maioria 
do Senado é contra o projecto dos Olandezes, e para isto m.^** 
contribuio o saberem que anda nisto o dedo do Vasconcellos ; se 
bem que ainds, ontem o Vasc.'''* negou q. ele andase declarará 
/asegurao-me/ contra o projecto de Lei. 

«Vensida q. seja afacsão olandeza pode a actual Regência 
seguir em s^/as funsões, e provera aos Ceos q. ela mantivesse 
té q."' sabe? tudo pode ser: mas a Regência nào pode per- 
manecer com um só membro; si V. Ex*. não vem fica só o 
Lima, e dorá azo a diser-se que sesou a Regência por q. ese 
corpo colectivo não tem mais sua maioria, e podem tentar com 
sombra d razão dar ao Lima sua despedida e deixar o Governo 
ao Ministro do Império. 

«Oje si V. Ex*. aparecsse aqui seria bem recebido por todos 
os Omens d. todos os partidos ; e se axaria na felis pozição d 
governar no enteresse da justiça e não no enteresse deste, ou 
daquelle partido e ate m.""* V. Ex"^. seria um bão meio de con- 
silliasão quer descançar. 

<iO q' lhe digo não sou eu só g' lhe digo. 

«A Deos sr. dr. Costa Carvalho, não se enfade com seo A'*. 
— Rio 25 de Julho de 1935. — Franc." Alvares Machado e Vasc*'^» 

Os receios de Alvares Machado não se realizaram. O par- 
tido Olandez não leveu avante o projecto da maioridade de D. 
Januaria por motivo que será explicado em outro autographo 
inedicto, e, apesar, da prolongada moléstia de Braulio, e de sua 
morte, e corpo sem cabeça chegou ao fim de sua missão, repre- 
sentado apenas por Lima e Silva. 

O que, porém, se deprehende das retiscencias da carta que 
acabamos de ler, é que já naquelle tempo se planejava novo 
movimento. Qual outro seria «o paso disizivo que assegure o 
futuro da Familia real», a não ser a revolução da maioridade? 

Foi tão acitiva e vehemente a intervenção de Alvares Ma- 
chado naquelle periodo, que somos levados a crer que aquella 
idéa não éra extranha á conversa havida na fazenda do Monjolinho 
(Campinas) entre elle e o futuro Marquez de Monte Alegre. 

Pelo autographo que acabamos de lêr e pelos seguintes, 
vê-se que houve um momento governamental diflScil, e que os 
amigos de Custa Carvalho disso se aproveitaram para obrigal-o 
a abandonar Monte Alegre, para onde se retirara como já disse- 
mos, fugindo ás luctas deprimentes da época, tão contrarias á 
sua Índole cultivada e tolerante. 



— 96 — 

Depois de Alvares Machado, em 30 de Junho de 1835, M. 
Odorico Mendes, o poeta, o traductor da Illiada, e que se acha- 
va ligado a Costa Carvalho por amizade tão sincera e cuja tra- 
dição veiu até á actualidade, dirigia-lhe o seguinte auto- 
grapho : 

«Costa 

«Eu uno a minha voz a tantas outras, que supponho la te 
chegarão O Braulio está por instantes a morrer ; e isto fica 
a matroca : e os ambiciosos estão em campo, ambiciosos (enten- 
des ?) de todas as cores, de todas as seitas. Vem tu ; que a 
tua assistência na Corte é reclamada pelo bem publico. Não 
me extí^ndo mais porque te creio ao alcance das nossas cousas. 

«Estimo que estejas bom, e todas as pessoas que te pertencem; 
e fico às tuas ordens. 

«Rio de J.^ 30 de Julho de 1835 

Do teu am** obr.'"° e cr.° 
M. Odorico Mendes.» 

Poucos dias depois, recebia novo pedido e desta vez do 
Senado, por intermédio de seu presidente. 

«Ulmo. e Exmo. Sr. 

«Tendo o Senado noticia de haver V. Ex.* melhorado dos 
encommodos que o obrigarão a retirar-se pêra essa província, e 
achando-se gravemente enfermo o rejente sr. João Braulio Mu- 
niz, cuja morte pode trazer cons^ quencias serias á tranquilidade 
do Império. Resolveu que em seu Nome eu convidasse a V. 
Ex.* a vir quanto antes encorporar-se a Rejencia esperando de 
seu reconhecido Patriotismo que se haja de prestar ainda mes- 
mo com algum sacrifício seu a este convite. 

«Ao governo recommenda o Senado a breve remessa deste 
para ser dirigido onde quer que V. Ex.*. se ache. 

«Deus G.de a V. Ex.*. 

«Paço do Senado, 4 de Agosto de 1835. 
«Dr. José da Costa Carvalho. 

Conde de Valença» 

Mal chegava este convite a seu destino, nova carta de Al- 
vares Machado é recebida por Costa Carvalho, e nesta, dando a 
razão pela qual não foi por deante a idéa tentada pelos hol- 
landezes, para ser decretada a maioridade de D. Januaria. 



- 97 — 
«Ulmo. e exmo. sr. Doutor José da C( sta Carv.** 

«O Braulio ainda vive : puzerào-lhe uns visicatorios nas per- 
nas, tem desorado muito porém, infelizmente aquillo m.™** lhe 
abreviará os dias. No q. cmdaes cuidamos: qA^ eu me prepa- 
rava para requerer o seu xamamento, eis que o senado o tez, e 
a Camará dos Deputados o faz: milhor, vem V. Ex.* debaixo 
dos mais felizes aospicios : não vem xamado por um partido, nem 
xamado pela Nasão ; e pode ser que esta vinda o milbore da 
melancbolia : o velho não é para o mato. 

«O projecto da nomeasão de D. Januaria para Regente, não 
apareceo : apenas o Vasc.*" e Luis Cavalcante puderào arranjar 
19 assinaturas na caza emfim não tratão mais disso. 

«Mesmo na Camará dos Deputados á oje uma certa comuni- 
casão entre os diversos lados, já nos comonicamos, nos tratamos, 
enfim a coisa não vae mal. 

«Não pense que é forsa de amisade a que meleva o desejar 
ardentem* a sua vinda : dezeijo p rq V Ex* ade ser bnlant^m® 
recebido por todos, pode faser m^° bem ao Paiz : os meos deze- 
jos são os dezeijos de todos os Paulistas q aqui nos axamoS; em- 
fim é o dezeijo da Nasão. 

Sou se o am° obr" cr" 

Franc° Alvares Machado e Vasc*" 
Rio de Janeiro 6 Ag.*° 1835.» 

Deante de pedidos tão respeitáveis e insistentes, recusaria 
Costa Carvalho assumir ^eu logar na Regência, sem concorrer 
para aggravar ainda mais a situação difficil em que se achava o 
paiz ? Ou, sua permanência em Piracicaba justifica-se pelo auto- 
grapho que adeante publicamos? 

«111.*"" Ex.'"*» Sr. 

«Tendo escrito a V Ex* pelo próprio q ja ahi deve ter che- 
gado, cumpreme dizer-lhe agora que o Ex.™** Snr. Braulio me- 
diante a grande suporação que lhe sobreveio as pernas, apre- 
senta algumas melhoras evai dando esperanças derezistir a grave 
infirmidade q o tem atormentado : elle continua apoder asignar 
os papeis deserviço. Sou com mu.** consideração. 

De V Ex» 
R.° 8 de Ag/* Colega m**» obr*> 

de 1835 

Franc° de Lima S.* 

Si Braulio melhorara, si podia continuar a assignar os pa- 
peis de serviço, si o Regente não reclamava sua presença, des- 
sas circumstancias Costa Carvalho se aproveitou para continuar 
a permanecer afastado do poder. 



— 98 — 

As melhoras de Bríiulio foram ephemeras, vindo a fallecer 
depois de dolorosos e prolongados soffrimentos. Ficou a Recen- 
da trina reduzida a um só membro, Lima e Silva, que levou a 
termo a árdua e diffieilima missão, na qual, sem ser dotado de 
illustração, nem mesmo de intelligencia acima da vuls^ar, soube 
entretanto g-uiar-se com firmeza, lionra e patriotismo. Quando em 
12 de outubro de 3835, entregou a Feijó a Regência, desceu as 
escadas do poder com a consciência tranquilla, por bem haver 
cumprido seu dever. A camará, ao encerrar seus trabalhos, sa- 
bendo o pobre, decretou-lhe uma pensão de 4 contos, e mais tar- 
de o Rio de Janeiro incluiu-o na lista triplice, tendo sido es- 
colhido senador. Nas festas da maioridade, foi agraciado com 
o titulo de Barão da Barra Grande, que elle recusou, como havia 
Feijó, antes, recusado a nomeação de Bispo de Marianna, com 
que o distinguira Lima e Silva no ultimo despacho do seu go- 
verno . 

Joaquim Manoel de Macedo diz-nos, no Anno Bíograjyhico, 
que Francisco de Lima e Silva, general, ex-regente. Senador do 
Império, Gran-Cruz do Cruzeiro, morreu pobre, tendo sido en- 
terrado á custa da Irmandade de Santa Cruz dos Militares. 

* 
* * 

Assumindo a Regência, Feijó organiza ministério, vindo oc- 
cupar a pasta da Justiça, e interinamente do Império, Limpo de 
Abreu, já então considerado como notável estadista. 

Um dos primeiros actos do novo governo, foi nomear Costa 
Carvalho director da nossa Faculdade de Direito. 

O autographo que segue do ministro da Justiça e interino 
do Império, deixa bem clara a estima em que era tido Costa 
Carvalho pelo novo governo. 

«lUm. e Exm. Sr. 

«V. Ex.* tem bastante bondade para desculpar-me de não ter 
respondido immediatamente á sua carta de 9 do corrente mez. 

«Alem de incommodado ainda, são tantos os trabalhos, q não 
exagero, qd." affirmo a V. Exc* q algumas vezes me falta o 
tempo até para comer. Não tenho expressões p.* agradecer a 
V. Ex.* o obsequio e serviço de acceitar a Directoria, perten- 
cendo-me a honra de ter referendado o Decreto, q. pôz á testa 
do Curso Juridico de S. Paulo uma notabilidade litteraria. Com 
auspícios tão favoráveis pôde contar-se q. tudo marchará em 
regra, e nesta parte creio q. todas as pessoas sensatas pensão de 
accôrdo. V. Ex.* pôde estar certo q. eu annuirei a tudo, q.*** 
expõe na sua carta: cumprindo-me faser especial menção da 
condição, com q. V. Ex.* se resignou acceitar o Cargo, de poder 
ir ás suas Fazendas, todas as veses q. isto lhe fosse preciso. 
Se ender q. alem desta declaração necessita de licença, eu não 



^ 99 — 

tento a menor duvida em mandar passar-lha. Pelo q. pertence 
a substituição no cargo de Director eu pretendo conversar amahã 
ou depois com o Sr. Kegente e communiearei a V. Ex.* aquillo 
e^ q. se assentar. 

«Espero que V. Ex.* nos coadjuve na forma dos Estudos; 
num espirito como o de V. Ex.* as dificuldades augmentarão a 
perseverança e a energia. 

«Ainda vivo adoentado, porem assim mesmo prompto como 
sempre ao serviço de V. Ex.* dispor francamente da vontade de 
quem m.^^ presa ser com o maior respeito e consideração. 

De V. Ex.» 
am.** m.*** affectuoso e obrg."" 
A. P, Limpo de Abrêo. 
Rio de Janeiro, 26 de lObr." de 1835». 

Desde que o novo Regente tomou posse do governo, desap- 
pareceu como por encanto as moléstias que haviam arredado 
Costa Carvalho da Regência, desde julho de 1833. 

Entrando na politica activa, prestou ao paiz serviços inolvi- 
dáveis, como teremos occassão de rememorar nestas toscas remi- 
niscências. 

* 
* * 

Quando Feijó assumiu a Regência, em 12 de outubro de 
1835, achava-se o paiz em completa desorganização, consequência 
das reformas ultra liberaes que haviam sido adoptadas. 

E' certo que muitas vozes auctorizadas se haviam opposto 
áquellas reformas, demonstrando que um paiz atrazado, sem 
instrucção, como era o Brasil naquella época, não podia compor- 
tar tão extensas liberdades, e que bem cedo a licença anarchi- 
zaria o paiz. 

Esta previsão realizou-se completamente. 

Em Pernambuco, Maranhão, Minas, Ceará, ainda não se 
achavam adormecidos os ódios determinados pelas revoltas havi- 
das. Malcher, Vinagre, Angelim, ensanguentavam a infeliz Pro- 
vincia do Pará, e no Rio Grande do Sul extendia-se a revolução. 

Em 1835, Alves Branco assim descrevia e estado do paiz: 

«Eu concluirei repetindo o que uma vez já vos inculquei, e 
é, de que agora mais do nunca apparece a urgente necessidade 
de um poder inaccessivel ás intrigas locaes, imparcial e forte 
contra o q.^ nada possam os chefes irregulares nas minorias tur- 
bulentas. 

«Desenganae-vos, não é a força da civilização e do progres- 
so, que mina as entranhas de um governo de tyrannos. Não ? 
Ao povo do Brazil não é negado algum direito. As nossas re- 



— 100 — 

Toluções actuaes não têm nada de ideialismo o de pliilantropÍ8- 
mo, o seo caracter é somente o das paixões ferozes, de vicios 
infames, de bruta estupidez e de barbara insolência». 

A fala de tbrono, em 1836, descreve a anarcbia que avas- 
salava o Império, nestes termos : 

«A falta de obediência e resepito ás auctoridades, e a impu- 
nidade, excita universal clamor em todo o Império, é a ^an— 
qrena q. actualmt/ ataca o corpo social. A nação de vós espera 
gue diques se opponhâo a torrente do mal. Nossas instituições 
vacillão, o cidadão vive receo>o e assustado. O governo con- 
some o tempo em vãs recomraendaçôes. O vulcão da anarchia 
ameaça devorar o Império applicae a tempo o remédio». 

O mal era conhecido, denunciado, mas nem o governo pro- 
punha medidas, nem a Camará as iniciava. 

Pelo autographo inédito, que em Fevereiro de 1836 o Re- 
gente dirigia a Costa Carvalho, vê-se que a acção do governa 
era secundaria, nada deliberando sobre os graves acontf^cimentos 
que atormentavam o Pará e o Rio Grande do Sul, limitando-se 
a enviar mantimentos e pequenos reforços para o Norte e es- 
cunas para o Sul. 

Eis o documento : 

«Sr. Costa. 

«Tenho presente A sua ultima a q.® respondo; que talvez, 
impossível seja obter da assembléa a autorisasào para reformar 
um Estabelecimento cientifico, sendo cada Deputado um D"'', 
iminente, porem, VEx.* enviando ao Gov.° os seus Estatutos, 
e m.™" lembransas, ou representasâo sobre os pontos de reforma 
que julga conven.*^^ o Governo o levar á As. e então escudado 
na autoridade do Diretor facilitar-se-á o conseguir-se ao menrs. 
em p*^ a reforma ; pois bem sabe que danosa a Ass*. nada sae 
que não seja imperfeitíssimo. 

«Sobre a autorizasão p.* nomear q™. o substitua interinam.** 
axo mui conven.*^ e verei se os E-tatntos não assignão Suplente, 
lhe ira a Comisão. 

«Sobre onegocio de Franc." Alves ; te oje nenhum req'" tem 
sido aprensetado, como eleprometeume faser, e por iso ainda 
nada se tem feiío. 

«Consebemse esperansas do Pará Cametá tem resistido alguns 
ataques dos rebeldes, e só d'uma vez lhes matou mais de lOO 
Eduardo estava quazi abrasos com o preto Virisimo dentro da 
Cid.^ que vai se tornando s^u rival : as bexigas tem morto 
am.*"^ delles ; e a 11 de Desbr.** foi já encontrada á ei^pedisão 
de Pernambuco junto a Salinas : Só este reforso e m.** man- 
timento que daqui se tem remetido desde Bbr." reanimará aqueiles 



— 101 — 

^esgrasados abandonados a todo género de desgrasas pela incú- 
ria e ineisplicBvel inaptidão de M.*l Jorge, que sem sair da 
Fragata quer que a Provincia se entuziasme, eraq.*'' ele deixa 
morrer nos Barcos prisioneiros 125 — e talvez 200 de Mar e Tropa 
« isto defome, bexigas e outi*as moléstias. 

«Jesé de Ar.° Ribr". querendo tratar o B. G. (1) deploma- 
ticamente vai levando o negocio a inevitável guerra civil um 
pouco mais de presa, um pouco menos de temor teria d'uma vez 
acabado com a sedisão ; mas ele toma posse codtra alei no Rio 
grande, qd.* é instado pelo ViceP. AsP. para o faser na Cap.*^ 
a vista da certesa da Amnistia, e apesar de B. Gonsalves lhe 
pedir q.** forsa pode p.* q' não tomasse pose no R. G. (2) não 
quer que se lhe mande tropa e sim Vazos : lá vai nesta Semana 
mais 3 Escunas. A. D*. Sr. Costa. Desejolho todo o bem. Rio 
21 de Fevereiro de 1836 

De Seu Am-** cobr.*» S,% 

Feijó». 

A leitura reflectida deste autographo demonstra que a ener- 
gia do ministro da Justiça do gabinete de 7 de Abril de 1831 
já se achava em declinio. 

Si Manoel Jorge era inepto, si, sem sahir da fragata, dei- 
xava que a marinhagem e tropa morressem de fome e de bexi- 
gas, emquanto a Provincia se estorcia agonizante, porque moti- 
Yo deixava o governo que elle permanecesse no importante cargo ? 

Qual a razão que lhe impedia ordenar a Araújo Ribeiro, 
quts fosse empossar-se do cargo em Porto Alegre e não no Rio 
"Grande, quando já estava contractada a amnistia entre o gover- 
no e o vice-presidente e a Assembléa Provincial? 

Uma phrase do Regente, no autographo inédito que segue, 
talvez nos responda. 

Em 18 de março de 1836, escrevia elle a seguinte carta: 

«Sr. Costa 

«Por acaso agora vejo o accrescimo da sua carta em q' par- 
ticipa a morte de Monteiro e a pertensão do P^. Luiz Lobo. 
Eu bem desejava descobrir algum emprego para ele meo antigo 
am." é provável esteja não pouco esquecido de matérias de sua 
natureza esqueiciveis, mas que facilm.*® se recordão : ele é ta- 
lentoso, e se ouver alguma indulgência, é provável q\ ensinan- 
do, em pouco tempo se torne abil : emquanto p.™ se desempe- 
nhará bem o lugar, nào sei. 



(It Bento Gonçalve», o chefe do movimento revolucionário. 
(2) Rio Grande. 



— 102 — 

«Já vivo cansado de errar em pensar bem dos Omens : será 
o que for : a eisperiencia o dirá. A t>.\ Rio 18 de M.Ç» de 1836. 

Do seu afect.*^ e obr."*' Cr.** 

Feijó.» 

Cangado de errar em pensar òem dos Omens; será o que 
fòr, exclamava Feijó naquelle período doloroso, como mais tar- 
de o fez Paula Souza, quebrando o remo! 

* 
* * 

Foi deante desse desanimo do governo, que Vasconcellos, 
proclamando a necessidade do regresso, organizou o partido eon- 
servador, arregimentando não só os que entendiam que a anar- 
cbia era devida ás reformas liberaes que o paiz não podia com- 
portar pelo seu atrazo intellectual, como também os antigos 
membros do extincto partido restauradoi. 

Sem a calma precisa, recebia Feijó os ataques do novo par- 
tido, e vingava-se da Camará dirigindo-lhe as seguintes phrases 
ao encerrar a sessão de 1836 : 

«Seis mezes de sessão não bastavam para descobrir remé- 
dios adequados aos males públicos. EUes infelizmente foram em 
progresso. Oxalá que na futura sessão o patriotismo e a sabe- 
doria da Assembléa Geral possam satisfazer as urgentíssimas ne- 
cessidades do Estado». 

Em 1837 era enorme o clamor publico contra o governo, 
accusado de manter a lucta no Rio Grande, visto ser favorável 
aos rebeldes. 

Não fora demittido Araújo Ribeiro, por um accôrdo entre 
o governo e Bento Gonçalves, quando aquelle se achava pela 
segunda vez quasi a terminar a revolta pelas acertadas medi- 
das postas em pratica ? 

Os prisioneiros de Bento Manoel na batalha do Fanfa onde 
se achavam? 

Onofre e Corte Real haviam-se evadido da fortaleza de 
Santa Cruz, e Bento Gonçalves, recolhido a um forte da Bahia, 
dalli mais facilmente fugia para se reunir a seus amigos. 

Esses factos não indicavam que Feijó era cúmplice dos re- 
voltosos ? 

Eram essas as accusações violentas que por toda parte eram 
ouvidas. 

Em 1837 inicia-se a lucta. 

A commissão da resposta á fala do throno, demonstrando 
que o parlamento não era responsável por falta de medidas que 



— 103 -- 

não eram pedidas nem indicadas, terminava com as seguintes 
palavras : 

«Si a epocha da reunião do corpo legislativo é sempre es- 
perançosa para a nação, é porque esta reconhece que só da mu- 
tua e leal cooperação dos poderes políticos pode provir o remé- 
dio eíiicaz aos males que a affligem. 

«Mas esta cooperação, senhor, a camará dos deputados fal- 
taria a seus mais sagrados deveres si a prestasse a uma admi- 
nistração que não gosa de confiança nacional. 

«No nosso século, e com as instituições que possuimos, o 
primeiro dever dos ministros é governar conforme os interesses 
e necessidade do paiz, e aq.^^s q^e o desconhecem ou menospre- 
zam não podem dirigir os negócios públicos.» 

Esse documento, depois de discussão celebre, pelos princí- 
pios que foram sustentados por Vasconcellos, Rod»igues Torres, 
Honório e outros, foi approvado por maioria de 15 votos. 

Da commissão nomeada para apresentar a Feijó o voto da 
Camará, fciziam parte Limpo de Abreu, Araújo Eibeiro, Vas- 
concellos, Rodrigues, Torres e Honório. 

Recebendo a resposta, Feijó lhes dirigiu as seguintes pala- 
vras, em 6 de Junho de 1837 : 

* 

«Como me interesso muito pela prosperidade do Brasil e 
observância da Constituição, não posso estar de accôrdo com o 
principio emittido no sétimo período da resposta, e sem me im- 
portar com os elementos de que se compõe a Camará dos De- 
putados, prestarei a mais franca e leol cooperação, esperando 
que ao menos desta vez cumpra as promessas tantas vezes re- 
petidas de tomar em consideração as propostas do governo.» 

Era de praxe fazer constar da acta que a resposta da co- 
roa merecia especial agrado. 

Como, porém, figurar essa phrase, em vista das palavras de 
Feijó? Depois de longo debate, resolveu a Camará não consignar 
na acta o acolhimento que tiveram as palavras do Regente. 

O ministério pede demissão, e só com immensa difíiculdade 
consegue-a. Organiza Feijó novo ministério, o de 16 de Maio 
de 1837, tirado da minoria. 

Não contente, faz publicar um artigo, por elle redigido, 
declarando que, si a Camará continuasse a querer influir no 
governo, este a dissolveria, muito embora não fosse dada essa 
attribuiçào á Regência. O poder executivo não podia ficar su- 
jeito ás maiorias das Camarás, varias e caprichosas. 

Foi nessa occasião que chegou a noticia da fuga de Bento 
Manoel. A Camará e o povo accusam ao governo de ter facili- 
tado aquella fuga. 



— 104 — 

Feijó, desanimado, mas não querendo sujeitar- se a gover- 
.nar com a maioria das Camarás, em 19 de Setembro de 1837, 
renuncia o cargo, «convencido de que sua continuação na Re- 
gência, não podia remover os males públicos, que cada dia se 
aggravavam por falta de leis apropriadas». 

Veriíicou-se um tópico da carta de Alvares Macbado : «Feijó 
não acceita a Regência porque está convencido que elle não pôde 
obter meios de governar o que qualquer outro poderia obter». 

O grande luctador, em 1837, retira-se para sua provincia. 
No anno de 1838 não compareceu ao Senado. Nesse anno, no 
Justiceiro, com a sua proverbial franqueza, veiu declarar que 
espontaneamente, receioso de haver errado, apesar de suas boas 
intenções, revogava e se desdisia de tudo quanto, em escriptos 
ou em discursos, pudesse directa ou indirectamente oflender a 
disciplina ecclesiastica. 

De S. Paulo, retirou- se para Campinas, onde adquiriu uma 
propriedade agricola, e de lá escreveu elle o precioso autogra- 
pho inédito, que transcrevemos ao ter conhecimento da resolu- 
ção do Senado, de 20 de Maio de 1840, que, por 18 contra 16 
votos, repellira o projecto da maioridade que alli fora apresen- 
tado por Hollanda, Alencar, Paula Albuquerque, Ferreira de 
Mello, Costa Ferreira e Mello e Sousa. 

Eis o autographo, no qual o Senado é tão maltratado, di- 
rigido, como se vê do sobrescripto, ao 

«R.™" S". Cónego 

«Vigário, Senador e P* José Bento Leite F. de Melo. 

«José Bento AD". ^ , 

Corte. 

«Além de outras já vos escrevi desta, partecipando-vos de 
m." mudansa e pedindo-vos que ate 7br** me aprontases 1 conto 
e 700, e tantos mil reis para ultimar o pagamento do sitio quo 
comprei por 8 contos e 200 mil reis a vista. Ora esta quantia 
é o premio e mais 600$ do voso credito, ficando devendo so- 
mente 6 contos, e eu vos offerecia por este favor o ficarem os 
pr.**' 4 contos a lÒ p"*, lucrando assim vós anualmente 80$ e 
como não tive ainda resposta, e isto importa a eu ficar mal por 
isso torno a pedirvos este favor, e que me respondais seposo 
contar com esa quantia de 7br.° p." asim assegurar a q™ me 
emprestou igual p.* o dito pagamento do sitio. 

«Emfim o Senado sem contrariar matou o projecto da maio- 
ridade. Nada á tão miserável como ese Senado, vil escravo de 
quem-quer que governe e o quiser aliciar. D* me livre dele, 
ainda que não dos 9 mil erusados que p.* o ano os vou ganhar. 
AD* Saud^ a João Dias e dize a Alencar, e Olanda que lhes 
escrevi em Abril, e não sei se receberão, q vos digão ao menos. 

«S. Carlos 8 de Junho de 1840. 

De voso am.° e obr.° — Feijó.» 



— 105 — 

Conforme consta da nota lançada pelo senador José Bento, 
essa carta foi respondida em 22 de Junho de 1840. Em Cam- 
pinas, alquebrado de corpo, mas sempre forte de espirito, se 
achava o velho paulista, quanto rebentou a revolução de 42. 
Não quiz conservar-se inerte deante daquelle acontecimento, e 
com grande difficuldade seguiu para Sorocaba, que era o foco 
do movimento revolucionário, 

Dominada a revolta, Feijó foi preso e conduzido ao Rio de 
Janeiro. 

De lá, tran8portaram-n'o para a província do Espirito Santo, 
onde permaneceu até Dezembro de 1842, quando voltou ao Rio, 
para occupar a cadeira no Senado, e responder ao processo po- 
litico por ter sido um dos chefes da revolução. 

Regressando a S. Paulo, aqui falleceu em 10 de Novembro 
de 1843, com 59 annos de edade. 

Naquelles tempos, os enterros eram feitos á noite. Os 
amig^os e as irmandades, uniformizadas, precediam o féretro em- 
punhando longos tocheiros. 

A noite em que se realizou o enterro foi de grande calma- 
ria. As duas immensas serpentes luminosas, chamaram densa 
nuvem de coleopteros, que, procurando a luz, tornou impossível 
que se conservassem accesos os tocheiros, caminhando o enterro 
em plena escuridão. No dia seguinte era tão grande a quanti- 
dade de insectos nas ruas por onde passara o cortejo fúnebre, 
que se tornou necessário removel-os em grandes balaios. A 
forte manga d'agua que cahiu durante o dia, concluiu aquelle 
serviço. 

Estes factos durante muito tempo serviram de commenta- 
rio ás velhas de S. Paulo, que consideravam o natural pheno- 
meno como tendo sido uma manifestação do espirito do mal. 

Após o percurso de 63 annos estão apagadas as lembranças 
das luctas e dos ódios vehementes, e a nova geração não pro- 
nuncia sem profundo respeito o nome do homem que no seu 
tempo e no meio dos embates revolucionários soube ser enér- 
gico e patriota. 

Dr. Joio Moraes 



Geographia astronómica 



Determinação do Meridiano, da Latitude e da Longitude do 
Observatório astronómico na Avenida Paulista n. 215 e 
DA orientação geographica do Mappa da Catita l do 
Estado pelo engenheiro Eduardo Loschi. 

Nas epliemerides astronómicas «Nautical Almanac» que se 
publica em Greenwich e «Connaissance des temps», que se pu- 
blica em Paris, que são as mais usadas pelos navegantes, pelos 
astrónomos e pelos engenheiros, figuram para os respectivos me- 
ridianos do observatório real de Greenwic he da sala central do 
Observatório de Paris, as coordenadas geographicas (latitude e 
longitude) de muitas capitães e mesmo das de alguns Estados 
da União do Brazil, mas as de São Paulo, capital deste Estado, 
ainda não estão registradas. 

Para preencher esta lacuna, que me tem parecido injusti- 
ficável, pois que, indiscutivelmente. São Paulo merece ser 
conhecido também pela sua posição geographica, que o torna 
tão favorecida pela natureza, procedi a uma serie de observa- 
ções astronómicas que me deram resultados satisfactorios . 

Si meu fim fosse unicamente communicar ao Instituto 
Histórico e Geographico de São Paulo o valor das coordenadas, 
poderia fazel-o desde já e dar o meu trabalho por concluido, 
como, porém, desejo dar-lhe toda a importância que geographi- 
camente merecer, julgo necessária a descripção dos instrumentos 
usados e a narração dos processos empregados. 



Em frente da casa n. 215 da Avenida Paulista, num dos 
pontos mais elevados da capital (m. = 832.00 sobre o nivel do 
mar) está situado o meu modesto observatório com cúpula 
gyrante de onde se descortina o horizonte completo : a cidade 
e todos seus arrabaldes. Neste observatório tenho conveniente- 
mente installado um instramento, cujo nivel de cinco segundos 
de sensibilidade, accusa sua sufficiente estabilidade. 

O instrumento destinado ás observações é um «universal» 
fabrica Salmoiraghi de Milão, que goza de certa reputação, pois 



— 107 — 

a cominissão internacional encarregada de medir o comprimento 
de um ç^YSLU de meridiano europeu, a designou para construir 
dois «universaes», cuja leitura directa aos microscópios dava um 
segundo, podendo a estima chegar até meio segundo. 

A luneta é astronómica e excêntrica : fazendo-se a leitura 
dos 4 microscópios, com a luneta á direita e á esquerda, conse- 
gue-se eliminar os pequenos erros instrumentaes, caso existam. 

As leituras sobre os tambores dos parafusos micrometricos, 
applicados aos microscópios, dão directamente os cinco segundos 
de arco, podendo ser levada a approximação muito facilmente 
até um segundo de arco, tanto no circulo vertical como no hori- 
zontal. 

Os niveis destinados a tornar vertical e horizontal os 
respectivos eixos, têm a sensibilidade necessária para accusar 
o afastamento da vertical e da horizontal, de um angulo egual 
ao da leitura directa dos microscópios, isto é, de cinco segundos 
e, por estima, até de um segundo. 

Este universal, permitte, então, determinar-se o meridiano 
e a latitude com o erro provável limitado a cinco segundos 
(m." 154'o2), com a possibilidade de reduzil-o a um segundo, 
isto é, com o erro provável em latitude de ± tr 30'86 

O chronometro que usei na determinação do tempo, é do 
estimado auctoi* Dent, é regulado a «tempo médio», e bate duas 
pancadas isócronas num segundo ; para a determinação do 
instante da passagem, me servi de um bom conta-segundos, que 
pode apreciar até uma quinta parte do segundo de tempo, redu- 
zindo assim o erro provável em longitude á 0.^20 ''/^ de tempo 
ou 3 segundos de arco, que na nossa latitude 23.°33'35'' é egual 
ám.' 85.00. 

O barómetro é um aneróide compensado da fabrica Sal- 
moirae^hi de Milão. 

O thermometro tem a graduação sobre o mesmo tubo que 
contem o mercúrio. 

O observatório é illuminado a luz eléctrica e também são 
eléctricas as lamparinas que illuminam os microscópios para a 
leitura dos ângulos e o campo de luneta para se encontrar e 
coUimar exactamente as estrellas. 

Estou convencido, portanto, que os apparelhos dos quaes 
disponho em meu observatório, satisfazem as exigências reque- 
ridas para se determinar o meridiano, a latitude e a longitude 
com a aproximação sufficiente, afim de merecerem figurar nas 
ephemerides astronómicas, pois o limite de exactidão instru- 
mental é de cinco segundos na leitura dos circules e de meio 
segundo batido pelo chronometro, ou 7'^ 50 de arco. 

C(^meçarei a exposição dos processos empregadas nas deter- 
minações pelas «Observações preliminares». 

* 



— 108 — 
Determina<,»no approximada do meridiano geocfrapliico 

No dia 12 de Junho de 1905, observei o Sol, em alturas 
correspondentes, antes e depois do meio dia civil, fazendo as 
seguintes leituras no circulo horizontal: 

ÍA= 65** 51^ 5'^ 
B_245o 51 r 5rr 

depois de meio dia aos microscópios j B ^^ 235*' 16' 35" 

A media das leituras para os microscópios A = 60° 33^ 50'^ 
e para os microscópios B = 240* 33' 50" indica a direcção do 
meridiano geographico. 

Collimando em seguida ao para-raios da torre da estação da 
Lu^;, li no circulo horizontal; 

microscópio A=: 80° 35^ 00" 
» 6 = 260" 35' 00" 

donde deduzi que o angulo que faz o meridiano com a torre da 
estação da Luz, tendo o vértice no observatório, é de 20" 1' 10" 
approximadamente . 

Determinação approximada da Latitude 

Na noite do mesmo dia 12 de Junho de 1905, dispondo a 
luneta na direcção do meridiano que tinha determinado appro- 
ximadamente ao meio dia, lendo no microscópio A do circulo 
horizontal 60" 33' 50" observei a estrella da 1.* grandeza P da 
constellação do Centauro, quando passava pelo primeiro traço 
vertical do reticulo, fixei os parafusos dos circules e li os mi- 
croscópios do circulo vertical: 

T ^ ' j- -i i microscópio N. 1 = 53' 31^ 35" 

Luneta a direita . j ^ ^ ^ 2 = 53" 31' 35" 

T , , . ( » :^ 1 = 126" 13' 50" 

Luneta a esquerda | ^ ^ g == 126" 13' 50" 

Observei o barómetro marcava mm, 687 
» » thermometro marcava -|- 19" 

Pelas 4 leituras dos microscópios calculei: 

1." O zenith do instrumento ( o circulo é reiterader ) era 
.89» 52' 18" 75 "/„. 

2.** A altura apparente do astro em 53" 38^ 51" 25 "/«. 

Pela altura apparente do astro e pelas observaçães do baró- 
metro e do thermometro, calculei a refracção em 40" sendo, por 
tanto, a altura verdadeira do astro = 53° 38' 11" 25 7o- 



— 109 — 



A declinação Sul da ^ do Centauro, naquella hora, era de 
Õ9« 55' 8'' 55 7„ donde a Latitude approximada de 23° 33' 20". 



Determinação cuidadosa do meridiano geographico 

Dia astronómico 25 de Junho de 1905. 

Ephemeride adoptada: Nautical Almanac, 1905. 

Estiella a ohservar-se : a do Octanto (grand.* 5. 8). 

AK da a =: 19 1^ 10 - 10 « 38 7o. 

S Sul a = 89° 14' 33" 67 7o. * 

Latitude approximada = 23° 33' 20 Sul. 

Pelos dados acima calculei : 

1." O angulo horário da estrella na sua máxima digressão 
para Leste = 5 ^ 58 "^ 7 « 

2.° O azimuth da estrella na sua máxima digressão para 
Leste = 0° 49' 34". 

3.° A hora local media astronómica da passagem da estrella 
pelo vertical da sua máxima digressão para Leste = 6 ^ 56 °^ 18 " 

A's cinco horas visei para o ponto de referencia (pa^^'-raios 
da torre da estação da Luz), fiz a leitura do circulo horizontal, 
da qual subtrahindo o angulo de 20° 1' 10" resultou a dire -ção 
do meridiano para o Norte ; gyrei a luneta sobre f-eu eixo e 
visei ao polo Sul: deduzi o azimuth da estrella calculado em 
0° 49' 34", resultando- me a direcção do vertical pela qual devia 
tangenciar a estrella a do Octanto, na sua máxima digressão 
para Leste. 

Dirigi a luneta na altura do polo Sul em 23° 33' 20" ap- 
proximudo e ^sperei a hora da passagem calculada. 

As 6*^ 40™ apresentaram- se, no campo da luneta, cons^er- 
vado escuro, duas estiellas muito pequenas e a mais próxima 
do polo ainda menor de que a outra ; a maior era a a do Octanto 
e a menor (grand.* 6. 7.) era o B da mesma constei la(,ão 

Illuminei o campo e o reticulo da luneta e aconipanhei o a 
em seu lento movimento de azimuth até chegar a tange ciar o 
traço vertical do centro do reticulo. Fixei a alidade e li aos 
microscópios : 

T ' j- -^ \ microscópio A= 59° 43' 15" 

Luneta a direita . j ^ ^ A =239° 43' 15" 

T , , j S » A— 239° 43' 15" 

Luneta a esquerda, l ^ g _ ^^o 43 r ^p^n 

Dispondo novamente a luneta á direita e augmentada a lei- 
tura do microscópio A do azimuth da estrella, obtive a direcção 
do meridiano geographico, lendo no microscópio A -== 60° 32' 49" 
e no mic-roscopio B= 240° 32' 49". 

Collimando um lampião a gaz que se achava a 4 kilome- 
tros, mais ou menos, do observatório, muito fácil a se reconhecer 



— 110 — 

e não muito afastado do meridiano, fiz a leitura do microscópio 
A em 38° 9' 30^', resultando-me o azirauth para Leste, do lam- 
pião de 22" 23' 19^'. 

Este lampião me serviu de ponto de referencia nas noites 
de observações para dispor a luneta na direcção do meridiano 
geographico que passa pelo observatório referido. 

Em 12 de Julho de 1905 verifiquei novamente o meridiano 
geographico com operações análogas ás precedentemente feitas, 
observando porem a estrclla d da constellação Octanto, em vez 
da a, que não era mais visivel. porque passava á sua máxima di- 
gressão para Leste no crepúsculo, e encontrei que, visando para 
o lampião de referencia, o azimuth para Leste era 22° 23' 17", 
isto é, com a diíferença de 2^' da primeira determinação. Dei- 
me por muito satisfeito e na noite de 28 de Julho procedi a 

Dcterininaçno tia Latitude com o maior cuidado 

possivel 

Dia astronómico — 28 de Julho de 1905. 

Ephemeride usada : Nautical Almanac. 

Estrella observada : s do Escorpião (grand.* 2. 3). 

AR = 16 1^ 44 ^ 3 ^ 25 7^ S Sul = 34° 1' 16" 50 V^. 

Barómetro m/m 69 L Thermometro -|- 17** centig. 

Hora média local approximada da passagem 8 ^ 20 «^ 15 ^ 

Depois de ter rectificado inteiramente o instrumento, dispuz 
a luneta no meridiano, visando ao polo Sul, servindo-me do 
azimuth do ponto de referencia. Pela declinação da estrella, 
dirigi a luneta para a altura desta e esperei que entrasse no 
campo da luneta. 

Quando o astro passou pelo primeiro traço vertical do re- 
ticulo, fiz as leituras dos microscópios do circulo vertical, obtendo : 

T , ' ^' '. S microscópio N. 1 = 80° 37' 15'' 

Luneta a direita . ^ ^ ^ :. 2 = 80° 37' 15" 

Dispuz a luneta á esquerda, visei para o polo Sul, collimei 
o astro e quando passou pelo ultimo traço do reticulo, fiz as lei- 
turas dos microscópios do circulo vertical : 

T , . , ( microscópio N. 1 = 101° 44' 15" 

Luneta a esquerda. ^ ^^ ^ ^^ 2= 101^45' 15" 

Pelas leituras acima calculei a altura ap^jarente do astro em 
79.° 26' 30". 

Tendo em conta a altura do astro, a temperatura e a pres- 
são barométrica calculei a refracção em 9" 60 **/°, obtendo a 
altura verdadeira do astro = 79.° 26' 20" 40 %. 



— 111 — 

A declinação do Sul do astro era de 34.° 7^ 16'' 50 e a 
latitude resultou de 23." 33' 36" 90- 

* 

Dia astronómico 28 de Julho de 1905. 

Epliemeride : «Nautical Almanac», 1905. 

Astro observado : B do Opbiocus (grand. 3 4.) 

AR = 11^ 16™ 13' 16 V, 6 Sul = 24.° 54' 13" 35 V,. 

Barómetro mm. 691. Thermometro + !'<'•'' centi^. 

Hora media local approximada da passagem = 8^ 52™ 13", 

Feitas as verificações do instrumento e disposta a luneta no 

meridiano e na altura do astro, quando esse passou pelo primeiro 

traço vertical do retículo, fiz as seguintes leituras no circulo 

vertical : 

j ■/.••, ( microscópio N. 1 = 89.*' 50' 15" 

Luneta á direita . | ^ ^^ ^^ ^ ^ 3^ o ^q, ^^rr 

Dispuz a luneta á esquerda, visei para o astro, fazendo as 
seguintes leituras no circulo vertical, quando passava pelo ultimo 
traço vertical ; 

T . ' 4 ( microscópio N. 1 = 92." 31' 30" 

Luneta a esquerda ^ ^ » 2 = 92.** 31' 30" 

Pelas leituras feitas calculei a altuaa apparente do astro em 
88." 39' 22" 50 7o' Tomando em conta dita altura, a pressão 
barométrica e a temperatura, calculei a refracção em 1" 20 7o» 
obtendo a altura verdadeira do astro = 88.** 39' 21" 20. 

Sendo a declinação Sul do astro 24.° 54' 13" 35 7o resul- 
tou a Latitude Sul = 23.« 33' 34" 65 7„. 

* 

Dia astronómico 29 de Julho de 1905. 

Epliemeride usada: «Nautical Almanac», 1905. 

Astro observado: £ do Escorpião. 

AR == 1611 44 3^ 24 7, 5 Sul = 34.« 7' 16" 60 7«. 

Barómetro m/m 688. Thermometro -f" 16 centig. 

Hora média local approximada da passagem = S^ 16'" 19*. 

Feitas ao instrumento as verificações de costume e disposta 
a luneta para visar ao astro quando passar pelo meridiano, aguar- 
dei que passasse pelo primeiro traço vertical do retículo e fiz ao 
circulo vertical as seguintes leituras : 

-r , . j. ., i microscópio N. 1 = 80.° 37' 5" 
Luneta a direita . j ^ o 80" S7' 5" 



— 112 — 

Girei a luneta á esquerda, coUimei o astro quando passava 
pelo ultimo traço do retículo e li no circulo vertical: 

, ( microscópio N. 1 = 101.*^ 44' 10" 
Luneta a esquerda j ^ ^ » 2 ^ 101 " 44' 10" 

Calculei a altura apparente do astro em. 79.° 26' 29" 50 

Calculei a refracção do astro em. . , 9" 57 

Obtendo a altura verdadeira do astro em. 79." 26' 19" 93 

Sendo a declinação Sul do astro . . . 34.** 7' 16" 60 

Resultou a latitude Sul em . . . . 23.«* 33' 34" 53 

* 
* * 

Dia astronómico ; 29 de Julho de 1905. 

Ephemeride usada : «Nautical Almanac», 19" 5. 

Astro observado : © do Opbiocus. 

AR = 11^ 16™ 13« 12 V„ 5 Sul =. 24." 54' 13" 30 

Hora média local da passagem approximada = 8^ 48°" 17' , 

Barómetro m/m 688. Theimometro -f- 16.** centig. 

Feitas ao instrumento as verificações de costume e disposta 
a luneta para collimar os astro quando passar ao meridiano, 
aguardei que passasse pelo primeiro traço vertical do retículo e 
fiz as leituias seguintes ao circulo vertical : 

T X ' j- •. i microscópio N. 1 = 89." 50' 10" 

Luneta a direita . j ^ ^ ^ 2 = 89 " 50' 10" 

Inverti a luneta e collimei novamente o astro, quando pas- 
sava pelo ultimo traço vtrtical do reticulo, li: 

j . . , ( microscópio N. 1 = 92." 31' 25 
Luneta a esquerda I ^ « 92 " 31' 25 

Deduzi a altura apparente do astro 
Correcção da refracção 
Al tuia verdadeira do astro . 
Declinação Sul do astro . 
Donde a Latitude Sul 

A média das quatro determinações feitas isoladamente a 
cada estrella é de 23*» 33' 35" 17. 

Sempre dentro do erro provável de cinco segundos de arco, 
em conformidade da Initura directa que offerecem os microscó- 
pios, penso qurt o observatório do n. 215 da Avenida Paulista 
está em 23*» 33' 35 de Lattitude Sul. 



. — 88." 


39' 


22" 50 
1" 20 


. — 88." 


39' 


21" 30 


. — 24.'' 


54' 


13" 30 


. — 23." 


33' 


34" 60 



— 113 — 

Deteriiiiina<;íÃo da lonf|iiude do observatório pela pas- 
sagem da Lua ao meridiano 

Dia astronómico — 11 de Setembro de 1905. 
Ephemeride adoptada — «Connaissance des temps». 
Estrellas de culminações á Lua : 

6 Capricórnio cuja AE=21ii. AV 50« 75 Vo- ^^ecl. Sul^lG*» 34' 
42 do Aquarium AR=22h. 11- 45« 56 7„: Decl. Sul=13° 18' 
Longitude calculada approximadamente antes =3^. lò*" 58'. 

1.") Calculo da hora média local da passagem pelo meri- 
diano do observatório da 6 Capricórnio AR =^21^. 41"". 50^ 75 7o 
Tempo sideral ao meio dia em Paris: ^^lli^. 19^". 18". 97 7o 

Tempo sideral a se transformar em 
tenpo médio ......... =^10^ 22*". 31«. 78 7, 

Long. Oeste de Paris appr.= 3^. 15*". 58^ 
Tempo sideral o tronsformar 10^. 22". 31'. 78 

Correcção pela tab.* VI Eph.* 

por 1311. 38"^.29^ 78 == 2". 14'. 09 



Hora média local da passagem .... =10^1. 20°*. 17'. 69 

Quando a 5 Capricórnio passava pelo me- 
ridiano o cbronometro marcava , . lO^^. 16*". 11'. 40 



Atrazo cbronometro = 4". 6'. 20 °/, 



I 



2.*^) Calculo da hora média local da passagem do 1.** bordo 
da Lua pelo meridiano. 

Quando o 1." berdo da Lua passava pelo meridiano o cbro- 
nometro marcava =^W^. 40"". 37'. 

O cbronometro tem o atrazo constante 
de 2'. 80 7o em 24 boras e por interpolação : 

4*". 6'. 29 4- —^ X ^^' 2^"- 25^ 60 7o 4"». 6'. 33 



Hora média local da passagem do l.** 
bordo da Lua pelo meridano r^ lO^^. 44°". 43'. 33 

3.') Calculo da bora média local da passagem pelo meri- 
diano da estrella 42 do Aquarium. 



Oi 



Ascenção Recta 22^11*". 45'. 56 7, 

Tempo sideral ao meio dia médio ci- 
vil a Paris 11^^. 19". 18'. 97 7 



Tempo sideral a transformar em tempo 
médio '. . 10b. 52"". 26'. 59 



— 114 — 

Longitude a Oeste de 
Paris, do meridiano local ap- 
proximadamente . . .3^. 15"". 58^ 
Tempo sideral a transformar 10^ 52»". 26^ 59 

Correcção tab. VI das Eph.* 

por 1411. 8™. 24". 59 = 2™. 19«.04 



Hora local média procurada ==10\ 50"^. 7". 55 "/o 

O chronometro, quando a estrella pas- 
sava pelo meridiano, marcava .... =10^. 46™. l^ 20 

Portanto : Atrazo chronometro , . , = 0^. 4"'. 6\ 35 **/ 



4."*) Calculo da hora sideral local da passagem do Centro 
da Lua pelo meridiano. 

Tempo sideral do meio dia médio em 
Paris . . • llM9M8%97 7o 

Hora média da pas- 
sagem do 1.** bordo da 
Lua pelo meridiano . = lO^i. 44"*. 43^ 33 

Correcção pela ta- 
beliã VI Eph. por IQi». 
44"\ 43«. 33. . . . = 1™. 45«. 92 

por ^K 15*". 58« long. 
Oeste approximado . = 32^ 20 =10\ l?'". 1\ 45 

Hora sideral local da passagem pelo 
meridiano do 1." bordo da Lua .... ==22ii. 6"^. 20". 42 

Tempo sideral empregado na passagem 
do semidiametro da Lua pelo meridiano, 
Ephemeride pag. 193 e calculado por in- 
terpolação 1*". 3". 67 

Hora siderei (A. R.) da passagem do 
Centro da Lua pelo meridiano local . . 22^. 7™. 24". 09 



Calculo definitivo da longitude local 

Hora sideral {AW} do Centro da Lua 
na passagem do meridiano local , , , =22^. 7"". 24^ 09 

^R do Centro da Lua 
do meridiano 3^. (Epheme- 
ride pag. 193) .... 2211. 6™. 52". 32 

Correcção em AR por New- 
comb. Ephemeride pag. 726 e por 

1 - 1BQO 1''82 — 1^79 
interpolação 1"82 — 

a4: 



~ 115 — 

XlOM4"'43«33 .... V79 

Ascenção Recta do Centro da Lua ao merid.'' 3^ = 22^ 6.™ 50.^ 5B 
Differença entre o merid.** 3^ e o merid." local = 0^ 0.'" 33." 56 

Variação da^i? em 1."" do 3." meridiano (Eph.) 2.^ 09940 

» » » » > » 4.** » > 2.« 09590 

Differença em uma hora =0." 00350 

Interpolação por 15.*" 58 (das 3^ 15.»" 58). 

^ X 15.™ 58 I . . = 2.« 09847 

Longitude Oeste de Paris 

RESUMO 

O observatório da Avenida Paulista N. 215 está em 23." 33.' 
35'^ de Latitude Sul, e tomando como base o Observatório de 

Longitude Oeste de Paris . . 3^ 15."» 59.^ 55=48.*» 59' 53^' 25 

» » » Greenwich. S^ 6."» 38.^ 65=46.'' 37' 59'^ 75 

» Rio de Janeiro. O^^ 13.- 57.^ 15= 3.° 29' 17'' 75 



ORIENTAÇÃO DO JÍAPPA DA CAPITAL DO ESTADO 

Em 1905 foi editado um mappa da Capital de São Paulo, 
compilado pelos illustres engenheiros da Commissão Geographica 
e Geológica, senhores Alexandre Mariano Cococi e Luiz Fructuoso 
F. da Costa, na escala de 1:20000. 

Pela acceitação que mereceu da exm.^ prefeitura municipal, 
julgo que este mappa seja o mais completo até hoje publicado, 
portanto o escolhi entre os muitos que se encotram no commercio, 
para oriental-o de conformidado com as determinções que acabei 
de apresentar. 

Pelo meridiano do referido observatório determinei o azimuth 
da torre do Sagrado Coração de Jesus em 7." 40' 25" Oeste e, 
tomando a distancia arbitraria de 8.000 m^, calculei as coorde- 
denadas rectangulares, em cuja intersecção deve passar o meri- 
diano do observatório. Fixei no mappa os pontos occupados pelo 
observatório e pela torre do S. C. de Jesus e tracei o meridiano 
geográfico. 

Perpendicularmente a este meridiano, que se acha a 0^ 13™ 
57* 15 °/o longitude Oeste de Rio de Janeiro, tracei passando 
pelo observatório, o parallelo 23.° 33' 35" latitude sul. 



— 116 — 

Calculei o comprimento daquelle parallelo, resultando -me o 
comprimento de: 

V =m. 101.991.15 

V = » 1.699.85 
V'= » 28.33 

Calculei o comprimento de um grau de meridiano na proxi- 
midade do parallelo 23.*' 33'' 35, resultando-me de ms. 111,228. 

Por meio de interpolações, tracei sobre o mappa os parallelos 
de minuto em minuto e e os meridianos de 4 segundos em 4 se- 
gundos de tempo ou de minuto em minuto de arco. 

Neste meu trabalho apresento o resultado de observações 
astronómicas, repetidamente feitas com todo o cuidado, sendo os 
cálculos verificados diversas vezes ; tenho, portanto, plena confi- 
ança nelle, todavia venho trazei- o ao Instituto Histórico 
Geographico de São Paulo para ser archivado, afim de ser con- 
sultado e verificado pelos collegas que se dedicarem a similhan- 
tes determinações, servindo-se de apparelhos superiores ou, pelo 
menos, eguaes aos por mim usados. 

Eduardo Loschi. 



município de iguape 



E8XUOO 8CIEIVXIFICO 



POR 



M. Pio Corrêa 



Dentre os municípios do Estado de S. Paulo, é o de Iguape 
um dos mais vastos em território, um dos mais ricos em matérias 
extractivas próprias para impulsionar muitas e rendosas indus- 
trias e um dos mais interessantes para o homem de sciencia, 
seja qual fôr o seu ramo predilecto. 

A fauna é muito bem represfntada (designadamente os 
simiae, cheiropteros e ferse, e, sobretudo, por aves de rapina, 
trepadores, incessores, pernaltas e aves aquáticas); a flora, pela 
situação geographico-botanica da zona (Dryades), offerece nos 
seus bosques montano-nemorosos largo campo para estudo de 
dois dos mais importantes typos de vegetação brasileira; a con- 
stituição geológica, interessantissima ao primeiro golpe de vista, 
é promissora do larga contribuição scientifica e de consideráveis 
riquezas mineraes, decerto oecultas naquellas rochas massiças e 
crystalinas, montanhas graníticas sublevadas pelo melaphyr-basalto. 

O município de Iguape, como toda a zona banhada pelo 
rio Ribeira (zona esta tão grande como o Estado de Massa- 
chusetts, da America do Norte), tem sido visitado, á excepção das 
bacias do Juquiá e S. Lourenço, por homens notáveis no mundo 
scientifico, que, sem espalhafatos, hão augmentado os conheci- 
mentos das sciencias naturaes e enriquecido as collecções dos 
museus do velho mundo, de modo que podemos aíErmar que 
quem quizer informaçõos positivas, posto que incompletas, sobre 
a zona iguapense, deve ir procural-as nos institutos scientificos 
da Austria-Hungria e da AUemanha. 

Não fora a industria do arroz, aliás ainda praticada, quasi 
em geral, pelos processos velhos e sem capricho ; não fora a 
industria do arroz, dizíamos, e, sobretudo, a sua excellente qua- 
lidade, sem rival nos mercados nacionaes, e o municipio de 



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Iguape seria menos conhecido do resto do Estado e completa- 
mente desconhecido do resto do Brasil ; e, mesmo assim, aquelles 
que o conhecem como productor de arroz, suppÕe-no, por tal 
motivo, um brejo immenso, uma grande várzea alagadiça, um 
pântano horrorosamente paludoso, que para nada mais serve! 

Entretanto, acompanhando -o na sua direcção natural (N-S) e 
percorrendo-lhe as bellas praias, subindo-lhe os innumeros cursos 
de agua, medindo-lhe as formidáveis cachoeiras, estudando -lhe 
as immensas florestas, analysando-lhe os variados crystaes, como 
a gente pasma de tanta ignorância e tanto olvido... E, sobre- 
tudo, como entristece vêr obstruidas pela arêa as três barras 
que ligam o centro do município com o Atlântico . . . 

E' por uma destas barras, a do rio Una do Prelado, tam- 
bém chamado rio Comprido, que o município de Iguape divide 
com o de Conceição de Itanhaen. Outr'ora, deu ella accesso a 
pequenas embarcações, mesmo a vapor, que seguiam para o 
porto de Santos ; mas, motivos de ordem económica forçaram 
alguns estrangeiros emprehendedores que alli haviam ido esta- 
belecer serrarias e desenvolver outras industrias, a abandonar 
tal campo de acção. Vae isto ha mais de trinta annos, e da 
passagem, por lá, desses homens, ainda restam vestígios; porém, 
a barra do Una, cada vez mais assoriada, hoje acha-se reduzida 
a estreita passagem, entre extensos arêaes, não alcançando, nas 
melhores marés, mais de 2,"*60 de agua, assim mesmo só apro- 
veitáveis quando o banco de arêa movei estaciona a sueste, 
porque, nas outras posições, torna-se aventurosa a sua entrada. 

Entretanto, subindo-se este rio, cuja largura média é de 
cincoenta metros, que extenso território iguapense se visita ! 
Comprimido entre as montanhas feldspathicas da Juréa e a cor- 
dilheira cuprifera dos Itatins, nos seus sessenta kilometros de 
extensão, francamente navegáveis, porque é fundo e limpo, devido 
a não ser correntoso, vae recebendo, successivamente pela es- 
querda, as aguas do Pogoçá-mirim, Pogoçá, Descalvado, Gui- 
lherme, Engenho, Botelho e Pequeno, todas descendo das mon- 
tanhas da Juréa e cortando terras inferiores, arenosas ; e pela 
direita, todas descendo da serra dos Itatins e irrigando terras 
fertilissimas, geralmente argilosas, o Itinga Pequeno, o Itinga 
Grande, o Cacunduca (que traz as aguas do Palhal, do Mineiro, 
do Casqueiro e do caprichoso Canella), o Forquilha, o Carvalho 
e o Pirassununga, sendo que o Carvalho communica por um 
furado com aguas tributarias do Una da Aldêa, affluente do Ri- 
beira e, como este, navegável por vapores até vinte e dois 
kilometros de sua foz. 

Si, porém, da foz do Una do Prelado seguimos para o sul, 
beirando o oceano, encontramos successivamente a praia de Cara* 
jauna, na falda do morro do mesmo nome; depois o rio Verde, 
onde o viajante curioso pode apanhar pequenos rubis ; subimos 
o promontório da Juréa, notável por figurar nas cartas marítimas 



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e pertencente á serra de que toma o nome (24° 30' 40" lat. S. 
6 4° 51 18" long. O. do meridiano do Rio de Janeiro) ; segui-, 
mos pela formosissima praia da Juréa e pela praia do Ribeira, 
até á barra deste magestoso rio, que alli termina o seu percurso 
de cerca de quinhentos kilometros ; e subindo-o até ao Una da 
Aldêa e entrando por este rio até encontrarmos o pequeno rio 
Carvalbo, que o liga com o rio Una do Prelado, como já disse- 
mos, teremos feito um percurso de muitas léguas e um circulo 
que alcança jçrande parte de terras de óptima qualidade, com 
extensas mattas e muitas cachoeiras, mas exactamente as mais 
deshabitadas, devido a serem difficeis as suas communicações, 
quer com a cidade de Iguape, quer com a sede do districto de 
Feruhybe, já no municipio de Conceição de Itanhaen. 

Devemos agora encaminhar para o noroeste este estudo, 
procurando primeiramente as divisas de Iguape com Itapece- 
rica. Ha duas vias de communicação, ambas partindo do rio 
Una da Aldêa e ambas penosas : uma sobe este rio e entra no 
rio Itingossú ; sobe este até ao rio das Pedras, fraldeia a serra 
dos Itatins, desce o rio do Peixe e entra no rio Itariry, que 
desce até á sua confluência com o S. Lourencinho, sobe este 
rio e o seu Bracinho, e depois, por estrada regularmente con- 
servada pelo governo, vamos encontrar a divisão no espigão da 
Serrinha, onde existe uma lagoa, a 505 metros de altitude. (1) 

O outro caminho é o que, partindo do Una da Aldêa, vae 
procurar o no Itimirim (onde consta ter-se feito já extracção 
de minério de cobre), sóbe-o até á fralda das serras da Almece- 
ga e Boa Vista (aliás serra do Pouso Alto) e atravessando o rio 
Bananal segue por terra até á sede do referido districto da 
Prainha, que vae occupar-nos a attenção por alguns momentos ; 
devemos antes, porém, dizer que da confluência dos rios Itariry 
e S. Lourencinho, já descripta, se forma o rio S. Lourenço (do 
qual são navegáveis por pequenos vapores cerca de quarenta 
kilometros) ; e descendo-o dezoito kilometros, encontra-se a Prai- 
nha, edificada á sua margem esquerda, na altitude de 160 me- 
tros e a 24*'20' de latitude S. e 4*^15' longitude O. do meridiano 
do Rio de Janeiro. Daquella confluência até á Prainha, ha 
também bôa estrada. 

Data de 16 de março de 1873 a creação da freguezia de 
Nossa Senhora das Dores da Prainha, mais conhecida pela deno- 
minação de Prainha de Iguape, a qual occupa uma grande exten- 
são de terras, com situação especial, que, acreditamos, hão de vir 
a constituir um prospero municipio, quando a sua população attin* 



(1) Parece que Iguape contesta esta divisa, achando que o sen território se es- 
tende até ao morro do Chiqueiro, por ser este o divisor das aguas que vão para o 
Kibeira (Juquiá) e das que vâo para o Tietê. Em verdade, é a melhor divisão natu* 
ral, mas da mais absoluta inconveniência para o povo.— Tanto pela Serrinha como pelo 
morro do Chiqueiro, passa a estrada que desfarte liga, em quarenta horas de viagem, 
a sede do districto da Prainha, no municipio de Iguape, com a capital do Estado, pas- 
sando por Itapecerica e Santo Amaro, com a extensão de 173 kilometros. 



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gir o numero exipdo pela lei ; o que, aliás não occorrerá logo, 
visto que hoje ainda não deve exceder de duas mil almas (1). 

Ligada a Itapecerica e á capital do Estado pelo caminho 
já descripto, a Prainha poderia estar ligada a Iguape pela es- 
trada antiga, hoje num estado vergonhoso, devido ao abandono 
a que as ultimas camarás, por capricho politico, a votaram ; en- 
tretanto, a sede da freguezia tem também fácil communicação 
com Iguape, pois descendo o rio S. Lourenço, em cuja margem 
demora, entra se no Juquiá e depois no Ribeira, que leva suas 
aguas pelo Vallo Grande ao porto da cidade, percurso e^-se de 
cento e setenta e seis kilometros, que já foi feito regularmente 
por vapores e que para continuar só exige que sejam limpos 
uns vinte kilometros entre a sua foz no rio Juquiá e a Prainha, 

Cumpre-nos ainda frisar a circumstancia de que neste tra- 
jecto se passa pela sede da freguezia de Santo António do Ju- 
quiá, e que da barra do Juquiá, subindo o Ribeira, se encontra, 
a cincoenta e seis kilometros, a cidade de Xiririca. 

Dissemos que a Prainha gosa de condições especiaes ; e, 
em verdade, se considerarmos nas já citadas e também na hy- 
drographia desta parte do municipio, logo nos convenceremos 
da justiça de tal affirmativa. 

As aguas que cortara as terras do districto vêm das encos- 
tas occidentaes das serras de Paranapiacaba e dos Itatins. Da 
primeira vêm o S. Lourencinho, que em seu longo percurso 
recebe diversos affluentes, entre os quaes, pela esquerda, o ri- 
beirão do Areado (que tem ura pequeno afflaente, o Theodoro, 
onde consta existir uma jazida de mica) ; e, pela direita, suc- 
eessi vãmente, o Braço de Cima ; o Bracinho (que a estrada para 
Santo Amaro atravessa com o nome de Pedreado) ; o Braço 
(também chamado Braço Grande e que na mesma estrada é 
mister atravessar quatorze vezes em uma légua de percurso) ; 
o Bocca- para -cima (que tem um afflu-^nte, o Relógio, onde 
existe uma jazida de mica, da qual já tivemos diversas amos- 
tras, com O™, 47 de comprimento) e o Sobe-e-Desce (nome allusivo 
ás suas muitas e violentas voltas). 

Da mesma serra, suppõe-se, desce o rio Guanhanhan, que 
conhecemos desde a foz do ribeirão do 01 eo, seu importante 
affluente pela direita. E' neste ponto um grande volume de 
agua, que vae augmentando desde que recebe successivamente 
o ribeirão do Wright, pela esquerda ; o rio Areado e o ribeirão 
Bocca- para-cima pela direita. Houve nelle mineração e vimos 
lá, ha pouco, boas amostras de minério de ferro. 

O Guanhanhan é rio bonito, muitíssimo correntoáo e de 
aguas crystalinas. Entre os seus saltos mais notáveis figuram 
08 de nomes Figueira, perto da sua foz ; Pio Corrêa, primeiro 
abaixo da foz do Areado ; Doutor Cardoso, primeiro acima da 



(1) 1.284 habitantes em 1886; e 1.507 em 31 de dezembro de 1890. 



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foz do mesmo rio ; e Doutor Joào Mendes, o único entre aquelle 
e a foz do ribeirão do Óleo. Todos estes saltos têm um desni- 
velamento médio de quatro metros. 

A foz do Guanhanhan, pf^la direita, encontra-se com a foz 
do rio do Azeite, pela esquerda, e desta confluência origina-se 
o rio Itariry. O rio do Azeite desce da serra do mesmo nome 
(contraforte da de Paranapiacfiba) e em todo elle ha lavras aurífe- 
ras Kecebe pela direita o córrego Benedicto Mirim e o ribeirão 
do Areado, grande e com moradores ; e pela esquerda os ribei- 
rões da Anta Gorda e das Pedra»*, o primeiro dos quaes navegá- 
vel. Perto da foz, a uns cem metros, está o grande salto Publio 
Ribeiro, magnifica queda de agua intransponivel pela navegação. 

O rio Itariry que, como vimos, é formado pela confluência 
daquelles dois nos Guanhanhan e Azeite, é um curso de agua 
que não excederá de trinta kilometros. Também muito corren- 
toso e de aguas crystalinas, apresenta a particularidade de que 
08 seus saltos e cachoeiras são na parte inferior, ao passo que 
a parte superior, desde a íoz do seu affluente rio do Peixe até 
á confluência já descripta, offerece franca navegação. 

Descendo, pois, o Itariry, vpmos encontrar alguns córregos 
antes da foz do ribeirão Arêa Branca (também chamado Tea- 
gem e Bulha), pela direita ; abaixo, o córrego Bento Cyrino, 
pela esquerda ; e ainda por esta margem o rio do Peixe, que 
vamos subir, por ser uma agua importante e que, apesar de 
conhecida, ninguém descreveu até agora. 

O rio do Peixe, que conhecemos desde a foz ás nascentes, 
pode ser dividido em duas secções : a primeira, comprehende 
desde a foz até ás Três Barras, logar onde se reúnem o ribei- 
rão do Peixe, o Braço de Cima e o Braço do Meio do rio do 
Peixe. E' a mais importante e a mais extensa, com muitas ca- 
choeiras e saltos ; destes destacam-se, por sua imponência, os 
de nomes Presidente Fallières, com mais de cem metros de ex- 
tensão e quarenta e cinco de largura ; e o Argélia, num magni- 
fico cotovello, tendo um desnivelamento de quatro metros, porém 
extenso, e uma largura de quarenta metros ; e das cachoeiras as 
de nomes Barra, que é antes uma série delias ; Fig-ueira, Porco 
do Matto, Torcida e Lageado. Nesta secção só conhecemos dois 
afíluentes : os ribeirões Lageado e Fortunato, este pela esquerda e 
aqnelle pela direita. 

A segunda secção é constituída pelo ribeirão do Peixe até 
ás suas nascentes. Comprehende um curso talvez de vinte ki- 
lometros até á confluência que lhe dá origem e corre entre as 
serras do rio do Peixe e do Gracuhy, esta com uma altitude 
que varia de 600 a 734 m. A confluência que dá origem a es- 
te ribeirão é formada por três córregos de nomes Melania, An- 
na Justina e Flavia, os quaes teem suas nascentes na serra do 
rio do Peixe, fazendo contravertentes com o rio Despraiado, 
tributário do Una da Aldêa. 



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A parte inferior do rio do Peixe foi trabalhada pelos anti- 
gos mineiros. São terras óptimas, onde o governo fez demarcar 
ha uns cincoenta annos as terras do aldeamento de Índios ^ua- 
ranys, geralmente conhecido pelo Aldeamento do Itariry. Estes 
autochtones, ao contrario do que se suppõe, não são restos dos 
antigos povoadores destes sertões, mas sim dos de Matto Grosso, 
de cujo Estado vieram, selvagens e bárbaros, na primeira me- 
tade do século findo, fazendo depredações e praticando tantos 
crimes que foi necessária uma expedição militar, a qual tendo 
morto a quasi totalidade, incutiu nos sobreviventes um tal terror, 
que jamais tiveram energia para qualquer novo ataque. O seu 
numero está hoje reduzidíssimo : cinco famílias apenas, que vi- 
vem da pesca e caça pelo systema primitivo, habitando casas 
sem paredes e desprezando absolutamente as magnificas terras 
de que são senhores, mas que não querem arrotear. 

Voltando á foz do rio do Peixe, e continuando a descer o 
Itariry, encontramos, além de outras aguas pouco importantes, o 
córrego do Tanque, pela esquerda ; o ribeirão dos Bugres, nave- 
gável e com moradores, pela direita; outro ribeirão do Tanque (1) 
e o ribeirão Bocca-para-cima, pela esquerda ; e o ribeirão 
Alferes, pela direita. Neste percurso é que são encontradas as 
cachoeiras, dentre as quaes destacamos as de nomes Mandote, 
Piririca, Funil, Caracol e Quebra-canôa. A do Funil tem quatro 
canaes : do Velho, do Meio, da Mochita e do Mandote. A ca- 
choeira do Caracol tem dous canaes : Carreiro Grande e Cara- 
murú. 

O rio Itariry, que desce pela esquerda, vae encontrar-se pela 
com o rio S. Lourencinho, de que já Paliámos, e o qual desce 
direita ; é desta confluência que se forma o rio S. Lourenço (2), 
todo navegável por pequenos vapores, como em outro logar 
referimos, e que recebe, antes de chegar á Prainha, o ribeirão 
do Valle e o rio Faú, pela direita ; e o ribeirão dos Leites (ou- 
tr'ora chamado Limeiro ?), pela esquerda. 

O rio Faú, onde existe mica e onde dizem terem sido en- 
contradas esmeraldas, é navegável até ao salto grande que pre- 
tendem aproveitar para a producção da força necessária á pro- 
jectada estrada de ferro entre a capital e Santo António do 
Juquiá. Subindo o Faú, a primeira agua que se encontra é o 
ribeirão que denominam Entre-ambas-as-aguas, porque se com- 
munica com uma lagoa da qual parte o ribeirão do Valle, affluen- 
te do S, Lourenço, em que acima falíamos, e que a torna muito 
curiosa. Continuando, porém, a subir o Faú, encontramos suc- 



(I) E' frequente, aqui, a donominação— rí6etr«o do Tanque— q sempre applicavel 
a aguas sem nome que, represadas, servem para mover os engenbos de fabricar aguar- 
dente e farinha e de pilar arroz, etc, etc. 

^2) O rio 8. Lourenço, de que aqui se trata, nada tem com o de egual nome que 
nasce era Itapecerica e que é tambam affluente do Juquiá, mas que neste se despeja 
antes mesmo de descer a serra. 



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cessivamente os ribeirões seguintes : Desvio e Agua Preta, pela 
direita ; Guapuronga, pela esquerda ; Tanque, pela direita ; Ri- 
cardo e outro cujo nome ignoramos, pela esquerda ; um outro, 
também de nome ignorado por nós, pela direiti ; Jordão, pela 
esquerda ; Tanque, pela direita ; outro sem nome e o Braço 
Grande, pela esquerda; Bracinho, pela direita ; Sumidouro, pela 
esquerda; Vallo, pela direita; Moniz, pela esquerda; e Bulha e 
Grillo, pela direita. 

Descendo um pouco o S. Lourenço, a partir da barra do Faú, 
logo se chega á sede da freguezia da Prainha, numa situação 
encantadora e a 24" 20' latitude S. e 4** 15' longitude O. do me- 
ridiano do Rio de Janeiro. E' uma pequena povoação, com 
capella, alguns prédios bons e bastantes casas pequenas, todas 
caiadas exteriormente, respirando limpeza ; quando se a visita 
logo se comprehende que se está num logar do trabalho e de 
ordem. 

Continuando a descer o rio S. Lourenço, encontramos ainda 
mais dois affluentes seus ; primeiro, á direita, o Bigoá (de onde já 
vimos amostras de mica muito bôa), e depois, á esquerda, o Bananal, 
esse rio que é o mais encantador e encachoeirado de todos e 
completamente desconhecido, desde o seu affluente Braço Grande 
para cima, até ha pouco, quando em missão scientiíica e parti- 
cular o percorremos descobrindo grande parte do seu curso, cheio 
de corredeiras e saltos e com dous sumidouros notáveis (1). 

Vamos, portanto, subir o Bananal, um dos maiores aftluentes 
do S. Lourenço. Três kilometros acima de sua foz recebe elle 
o ribeirão do Engenho e tem diversas cachoeiras e saltos, das 
quaes se destacam a cachoeira do Espelho e os saltos Grande, do 
Meio e de baixo e de cima da Agua Parada. Este ultimo corre 
a 190 m. de altitude e é constituído por quedas successivas, pre- 
fazendo um desnivelamento de cinco metros, no meio de uma 
paysagem lindíssima, com o rio largo e, ao centro, um deposito 
de cascalho alluvional, já em parte coberto de vegetação, pare- 
cendo uma ilha. Neste mesmo percurso, affluem ao Bananal 
algumas aguas, entre as quaes o grande ribeirão Taquarussú, pela 
esquerda, que tem, perto de sua foz, ura pequeno salto ; os dois 
córregos Dois Irmãos, que correm parallelamente ; e os ribeirões 
do Cedro e da Matriz, este nascendo na serra do mesmo nome e 
afíluindo ao Bananal quando o rio corre a 203 m. de altitude. 
Temos mais duas aguas, o córrego do Soco e o ribeirão do Man- 
tico, antes de chegarmos ao salto do Travessão, abaixo do qual 
afflue, pela direita, o ribeirão do mesmo nome. 

Subindo ainda, chegámos a uma outra paysagem deliciosa, 
com uma ilha de formação recente, mas estável— a ilha do Al- 
moço, situada logo abaixo da foz do ribeirão da Forquilha, que 



(1) Expedição de que, além do auctor deâte trabalho, fizeram parte o cav. Oli- 
vier de Lachèvre de Teulle, consal de França em 8. Paulo; capitão Diogo Martins Ri- 
beiro Júnior e J. B. Raschlero. 



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afflue pela esquerda. Dahi pouco caminliamos para encontrar as 
primeiras grotas do sumidouro, que raros haviam visto até então, 
sem aliás se approximarem muito, com o receio supersticioso pró- 
prio dos naturaes da zona. E a verdade é que nós mesmo, 
apezar de termos o espirito disposto para o estudo desse sumi- 
douro, pouco vimos, tendo-o aliás atravessado! Lembramo-nos, 
por exemplo, que depois de costearmos o rio por entre immensos 
bosques de chusqueas e colossaes massas graniticas, chegamos á 
cachoeira de baixo do sumidouro (348 m. de altitude). Acima 
dois metros de altitude, afflúe um córrego pela esquerda e logo 
depois começa uma grande ilha^ formada á esquerda por enormes 
rochedos cobertos de musgos, dentre os quaes emergiam alguns 
fetos e begónias, rochedos aquelles que mostram terem sido, 
em época bem distante, lavados durante centenas de annos pelas 
aguas que agora comam subterraneamente; o outro lado da 
ilha é muito mais alto, coberto de vegetação espessa e commum. 
Tem o nome de Ilha do Cônsul, e constitúe a parte inferior do 
sumidouro do Bananal, que é agora denominado Sumidouro 
Velho. A uns cem metros acima da ilha do Cônsul descobrimos 
o leito primitivo do Bananal, completando desse modo uns tre- 
zentos metros de extensão, que nós consideramos interessantissi- 
mos, dignos de ura estudo que muito sentimos não haver feito. 

Da serra de Sumidouro desce o córrego da Figueira; e da 
serra do Moraes, que a continua, desce o Lageado, que afflúe 
ao Braço Grande do Bananal, ribeirão este que encontramos já 
bem largo a 482 m. de altitude. 

Aqui termina a parte mais ou menos conhecida do curso do 
Bananal, e começa o longo trecho que nós fomos os primeiros a 
percorrer, porque, mesmo nos tempos coloniaes, os mineiros tra- 
balharam apenas nas pequenas aguas que affluem na parte baixa 
do rio. 

O primeiro córrego que encontramos é o Raschiero, pela 
direita, o qual sáe de uma lagoa de cento e cincoettta metros 
de comprimento e trinta de largura e que corre na direcção N. 
A lagoa está situada no alto de um serrote que separa na di- 
recção L — O, o ribeirão Braço Grande, do rio Bananal. 

Neste ponto, o rio, vindo de N — NO, forma um tanque, 
desce dois degraus de um metro cada um, forma novo tanque e 
volta-se violentamente para S O, depois de passar por uma 
garganta de pedras baixas. O córrego afflúe justamente no co- 
to vello, perto de um aleixo e tendo defronte, sobre as rochas, 
uma outra arvore, a penitencia. O córrego, na sua foz, tem 
um pequeno poço, á frente do qual está, como a enquadral-o, 
uma pedra de um metro de con primento. A cachoeira Raschiero 
é constituida por nove degraus; a sua garganta tem três m^-tros 
de fundo e nella a agua corre com a velocidade de seis kilo— 
metros sendo de dez metros o desnivelamento. 

Daqui para cima, o Bananal recebe diversos affluentes, ainda 



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sem nome, e tem algumas cachoeiras antes de chegar ao córrego 
do Félix e outras depois deste, fazendo então um assentado até 
ao salto Lachèvre, bonito e muito extenso e onde as aguas 
correm na direcção NE. 60, fazendo uma volta para N. 

Logo acima do salto, afflúe ao Bananal o ribeirão Lachèvre, 
vindo da direcção SE. 125. E' verdadeiramente aprazivel este 
ribeirão e a uns cem metros da foz tem o pequeno salto Helena. 
Subindo irais o Bananal, chegamos ao ribeirão Violeta, que 
afflúe na direcção NE. 10, pela margem direita. A tresentos e 
cincoenta metros do ribeirão Violeta, está o magnifico salto 
Violeta, constituido por cinco degraus bem separados uns dos 
outros ; ahi a agua do Bananal corre entre rochedos na direcção 
SO 269. Acima deste salto o rio faz um assentado de doze 
metros de largo e lindíssimo, ao cabo dos quaes se chega á 
corredeira Esmeralda. 

Pouco distante está o salto Coronel Diogo, constituido de 
rochas graníticas com veias de quartzo limonitoso, indicio seguro 
da presença de ouro e o qual também haviamoâ encontrado já 
no salto Violeta. O salto Coronel Diogo é muito bonito, tem 
diversos degraus e um desnivelamento apparente de quatro metros, 
correndo as aguas na direcção N 19 E, direcção esta modificada 
acima, no assentado de cento e cincoenta metros de extensão e 
dez a quinze de largura, que ahi faz o rio e onde elle corre na 
direcção N. 340 O. No fim deste assentado encontra-se o salto 
Presidente Tibiryçá, o maior até então descoberto por nós. E' 
muito extenso e deve ser interessantíssimo sob o ponto de vista 
scientifico, como adiante espomos. Havíamos visto apenas o ultimo 
degrau, de cerca de três metros e de um effeito surprehendente; 
como estávamos um pouco longe, quizemos approximar-nos para 
photographal-o, mas o caminho era difficil, e então desviamo-nos 
um pouco para N . 70 E, convictos de ir encontral-o a uns cem 
metros. Fez-se a picada por entre chusqueas, no morro Tiby- 
riçá, e quando, finalmente, a picada descobriu um valle e nelle 
sahimos, a nossa surpreza não podia ser maior : o Bananal havia 
desapparecido ! Em vez do magnifico salto, com a agua a correr 
vertiginosa e ruidosamente, encontrávamos, illuminados pela meia 
luz do sol poente coada por entre as folhas dos grandes vege- 
taes, enormes rochedos, de um aspecto magestoso e triste, quasi 
apavorador. 

A impressão em nós produzida pelas numerosas cachoeiras 
6 saltos cujas aguas espumantes jamais haviam espelhado olhos 
humanos e também a que recebêramos no Sumidouro Velho, des- 
appareciam para dar logar a uma outra impressão, completa- 
mente diversa, mixto de admiração e terror, ante a magestade 
daquelles blocos graníticos, a solidão do logar e a melancholia 
da paysagem deste segundo sumidouro, chamado Sumidouro Ca- 
pitão Diogo, E' neste que se encontra, num morro á direita, do 
leito do Bananal, o explendido salão granítico Pio Corrêa, cuja 



— 126 — 

entrada se faz por uma porta constituída por uma lage tão for- 
temente inclinada, que é perigosíssimo descel-a de pé : nós o fi- 
zemos sentado, escorregando cautellosamente ; e só quando nossas 
pernas se suspenderam e nos consideramos seguro, é que passeia- 
mos a vista por aquella caverna granítica, um verdadeiro salão 
de trinta metros de comprimento, dividido em duas secções, 
uma mais estreita, a superior, outra mais larga, a inferior. As 
paredes têm seis a sete metros de altura, constituídas por blocos 
graníticos, cada um dos quaes cuba dezenas de metros. Toda a agua 
do Bananal cáe, por duas aberturas, neste salão, com uma vio- 
lência tão inaudita, que todo elle fica um deposito de espuma ; 
e quasi te da essa agua desapparece por duas aberturas subter- 
râneas, existentes na parte inferior do salão, uma ao centro e 
outra à direita. A' esquerda ba, comtudo, outra sabida : é a que 
conduz a pouca agua que corre entre os rocbedos. 

Na parte superior deste sumidouro ba um salão de quatro 
metros de largura, com três degraus de um metr^ cada um. A 
agua segue pela direita, fora do leito natural, e cáe no salão. 
O salto, também cbamado do Capitão Diogo é o começo do sumi- 
douro; o salto Presidente Tibiryçá deve ser o ponto em que 
o rio Bananal, após trezentos a quatrocentos metros de curso sub- 
terrâneo, irrompe do seio da terra e retoma o seu curso natural. 

Acima do salto Capitão Diogo, cerca de cem metros, o rio 
faz uma grande curva, que Ibe modifica a direcção de E. 110 
S. para E. 92 S. Mais acima, encontra-se, pela esquerda o cór- 
rego Brasilino. O rio descreve aqui a grande curva e é assen- 
tado até um novo e magnifico salto, cora um desnivelamente de 
alguns metros, e cuja ultima queda tem dois metros: — é o salto 
Campos Salles. 

Entre o córrego Brasilino e o dito salto, afflue ao Bananal 
o ribeirão Lisboa Júnior, de três metros de largura, com agua 
abundante e crystalina, tendo a direcção geral N. 340 O, pelo 
que é de suppôr desça da serra dos Itatins. Do salto Campos 
Salles para cima, o rio Bananal contínua sendo desconbecido, 
pois de lá não o subimos mais ; entretanto, o rio indica abi ser 
ainda bem extenso ; as suas aguas devem, no percurso de alguns 
kilometros, ondear nas pirirícas, ferver nas cacboeíras, tombar em 
brancos lençóes nos saltos, até ás suas ignoradas nascentes, pre- 
sumidas nos Itatins e presumidas no Azeite, mas jamais verificadas. 

Voltemos á foz do Bananal, deste bello rio cujas aguas irri- 
jam sempre e somente terras de primeira qualidade, e desçamos 
o rio S. Lourenço até á sua foz no Juquiá. Neste percurso, elle 
não recebe alguma agua notável. 

Está, portanto, descripta uma vasta área do município de 
Iguape, desde a foz do Ribeira á foz do Una do Prelado e o syste- 
ma fluvial deste ultimo ; bem como a bacia secundaria do Ribeira, 
que podemos cbamar com mais ou menos propriedade — bacia do 
rio S. Lourenço. 



— 127 — 

Assim, pois, vimos já o território da Prainha irrigado por 
innumeros cursos de agua, mais ou menos notáveis e importan- 
tes. Si a abundância das aguas se harmonisa com a qualidade 
das terras, evidentemente é privilegiado aquelle pedaço da zona 
iguapense. Ora, é certo que a Prainha produz indistinctamente 
café, arroz, milho, feijão e canna, e ha também plantações em pe- 
quena escala de cacau e batata ingleza, com excellente resultado. 

A creação de gado bovino e suino acha-se já bem desenvol- 
vida, e pela estatistica, feita ha tempos, ha no districto cerca 
de duas mil cabeças, entrando também o gado cavallar ; o fabri- 
co de aguardente é feito com capricho e também o Hg vinho 
de laranja, embora este seja em pequena quantidade. O fabri- 
co do queijo, já ensaiado, pode dar razoável lucro. 

Tudo aqui promette remuneração segura: a uberdade do 
solo, a doçura do clima (isento das febres tão persistentes em 
outroâ logares da município) e a cordura dos habitantes, cons- 
tituem boa garantia para quem naquellas paragens quizer em- 
pregar capitães; posto que, é mister dizei o neste estudo, quer 
a agricultura, quer as grandes riquezas naturaes existentes, só 
poderão ser bem aproveitadas, desde que se lhe restabeleça a 
navegação fluvial, se lhe dê a projectada estrada de ferro para 
a Capital e se abra na zona uma barra accessivel a navios de 
grande calado. A situação topo-geographica da Prainha exige, 
antes de tudo, os dois primeiros melhoramentos. 

II 

Continuando a descripção, reatal-a-emos na Serrinha, limi- 
te convencional com Itapecerica, e proseguiremos no rumo de 
sudoeste pelo cume da sena de Paranapiacaba, e cordilheira ri- 
quíssima em schistos e quartzitos, afim de beirarmos as divisas 
com a Piedade, Pilar e Sarapuhy (1), e descermos pelas verten- 
tes de encosta oriental da mesma serra até o rio Juquiá, pelo 
qual corre parte da divisa com o município de Xiririca. 

A serra Negra, também chamada serra Preta, divide as 
aguas do rio Itapetininga das do rio Verde, ainda no muni- 
cípio de Sarapuhy. As deste rio Verde descem para o município 
de Iguape por um leito pedregoso, cheio de cachoeiras e saltos, 
correndo entre blocos graníticos e por sobre barros ochraceos e 
aífluem para o Assunguy, ou quasi o formam, porque até áquelle 
ponto a sua agua é pouca ; mas, dahi em deante, torna-se um 
rio navegável por canoa em extensos trechos que altercam com 
os seus saltos tão ruidosos, que se ouvem a kilometros de dis- 
tancia, com as suas cachoeiras tão magestosas que, quem as vê, 
jamais pode esquecel-as! 



(1> Não conhecemos "bem as divisas já estabelecidas e sabemos que falta ainda 
estabelecer algumas. Acreditamos, porém, que já não divide com. Itapetininga, embora 
trabalhos recentes dêm este município como confinante com o de Iguape. 



— 128 — 

Mas de todos estes saltos o mais maravilhoso é o que, come- 
çando uns quatro kilometros antes- da foz do Assunguy, no rio 
Juquiá, tem três kilometros de extensão, em linha recta, com 
uns vinte metros de largura e uma queda de cem metros I O es- 
pectáculo deste salto (1), ou série ininterrupta de saltog, magnifico 
e uma das grandes attracções da zona, para os seus visitantes. 

Nascendo da mesma serra Negra e affluindo ao mesmo rio 
Assunguy, de que vimos de nos occupar, vêm os ribeirões 
Pereiras, Paiol, Jacintho, Araribá, Corujas, Costas (parece que 
também chamado Arêas) e Claro, o segundo é uma pequena 
agua, mas muito curiosa : corre sobre silex, e, ein bôa parte, por 
debaixo da serra, que dizem serauriferae carbonífera, ffiltando- 
nos, comtudo, os necessários dados para o justificar. Só o que 
sabemos é que tem crystal de rocha. O dos Costas, é navegável 
por canoas. 

Quando o Assunguy se despeja no Juquiá, já este, parece- 
nos, traz as aguas do Bracacheta, Pirahy e S. Lourenço ( de 
cima da serra); depois (?) recebe mais as aguas do Fartura, do 
Quebra-cabeça, do Serra e do Cornelio^ além de outras, cujos 
nomes não nos occorrem. 

Mais para sudoeste, ha um contraforte da serra Negra que 
tem o nome de serra das Fornalhas ; é aqui que nasce o Area- 
do, ribeirão cheio de saltos e cachoeiras e cujo leito, desviado 
pelos antigos mineiros, ainda fernece boas amostras de ouro. As 
terras que elle banha, mostram largas veias de manganez, ar- 
gila, cal e ferro ; e, ha quem o assevere, de carvão. O Areado 
despeja suas aguas no Ipiranga, ou antes forma este rio, des- 
de a confluência com o ribeirão Temivel, que despeja as suas 
aguas, depois de um desnivelamento de cento e cincoenta me- 
tros, num salto que excede de trinta de altura ! Descendo o 
Ipiranga, encontrámos diversas aguas antes de chegar ao Porto 
de Cima, e entre ellas o Travessão, pela direita, correndo sobre 
o novo leito que os exploradores do ouro lhe determinaram ; 
entre o dito porto e a foz no Quilombo, ainda o Ipiranga (rio 
aurifero, outr'óra muito trabalhado nos seus cem kilometros de 
extensão, e que possue cachoeiras bellissimas na primeira me- 
tade de seu curso), recebe diverso? affluentes, e entre estes, pela 
direita, os ribeirões Preto, Tamanduá e Onça Parda. 

Ainda mais ao sudoeste, do alto da serra de Paranapanema, 
quasi do alinhamento da garganta de Irapoá, descem os ribei- 
rões da Barroca Funda e do Berésino, que confluem, dando ori- 
gem a um ribeirão, cujo nome desconhecemos, mas que váe des- 
pejar suas aguas no ribeirão do Poço, já depois deste haver 
recebido, pela esquerda, os ribeirões Taquarussú e do Meio ; o 
ribeirão do Poço pela direita, e o ribeirão do Azeite, pela es- 
querda, confluem, entre as serras Queimada e do Quilombo, e 



(1) Lemos que este salto tem trezantos metros de queda. E' inexacto. 



— 129 — 

dão assim origem ao grande rio deste n^me, que recebe diver- 
sos aífluentes, dos quaes apenas recordamos o de nome Barro 
Branco e, pela direit«, o ( otuçá e o Areia Branca; e, abaixo, 
pela direita, despeja no Ipiranga, de que falámos ba pouco. 

As aguas que acabamos de mencionar, nào ob^tanle irriga- 
rem os valles do Quilombo e do Juquiá, correm todas pnra este 
ultimo : o Assunguy afflu- quando elle ainda é ebamad Juquá- 
guassú e o Ipiranga qumdo elle é simplesmente Juquiá (1), que 
é também a sua denominação no município de Itapecerica, onde 
elle nasce e o temos visto, estreito e vadeavel, bem diíferente 
daquella grande artéria fluvial que os vapores singram e que 
antes de despejar-se no Ribeira, por entre elevados morro? gra- 
níticos, já tem mais de cem metros de largura. 

Todos os rios e ribeirões descriptos, e innumeros cursos de 
agua que nào podemos descrever, retalbam, banham e fertilizam 
essa região montanhosa por excellencia, e que é, sem contesta- 
ção, a mais rica do municipio e a segunda da zona sob o pon- 
to de vista mineralógico (2) Embora não f çamos caso das 
vagas noticias que correm da existência de carvão no Areado 
e de lignite no Quilombo ; desprezando os vehementes e fre- 
quentes indicios do ferro e do manganez ; desaproveitando mes- 
mo as jazidas de ar^iilas preciosas, como até hoje não foram en- 
contradas em outra parte do Estado, — fica ainda o ouro, que, 
confessamol-o, em nenhum ponto da zona promette mais larga 
e mais segura recompensa aos capitães que se aventurarem, na 
sua exploração. 

Entretanto, esta valiosis?ima área, sobre cuja excepcional 
riqueza em ouro não nos queremos deter para que não nos cha- 
mem de vision^^rio, vive tão abandonada, que o próprio rio Ju- 
quiá, que a corta em sentido longitudinal, ainda não é conhe- 
cido em todo o seu percurso ! Sem excepção, os rios, ribeirões 
e córregos seus aífluentes, foram revolvidos, incommodados no 
seu curso pelos antigos mineiros ; as largas fitas de cat s que 
08 margeiam attestam ainda hoje o labutar dos tempos coh.niaes, 
quando a ambição humana passava várzeas enormes e leitos de 
extensos rios pelo fundo das batêas de cauella preta . E hoje, 
que as ambições são ainda maiores, ao homem da época e do 
paiz, já não bastam os filões de quartzo aurifero, onde o bi- 
sulphureto de ferro se apresenta conjunctamente sob a forma 
prismática da promissora pyrite bran'a (mispikel) e sob a forma 
cubica da enganadora pyrite amarella ; elle quer mais do que 
estes crystaes, quer o filão de ouro massiço, mesmo que seja 
apenas de dezoito quilates , . 

(1) Circumstancia extraordinária, talvez nnica nas denominações geographicas 
do Estado : o rio Juquiá deixa de chamar-se Juquiá-guassú exactamente quando recebe 
o considerável volume das aguas do rio 8. Lourenço. Dahi para baivo, que é muito 
mais largo, chama-se simplesmente Juquiá ! 

(2) wob o ponto de vista mineralógico industrial, reconhecemos na zona três re- 
giões privilegiadas:-!.») iporanga : chumbo, tendo como auxiliares a prata e o ouro; 
—2.») Juquiá: ouro;— 3.») Ribeira baixa (margem direita): ferro. 



— 130 — 

Porisso, nada se tem aproveitado. As concessões de no- 
vembro de 1878 e de julho de 1887, para nada mais serviram do 
que para dar algum trabalho aos funccionarios do ministério pelo 
quaes corria esse serviço. Requeridas por individuos sem re- 
lações no exterior com as pessoas que costumam tratar estes 
melindrosos negócios e mesmo sem competência technica, ellas 
nem siquer tiveram como resultado o levantamento da planta 
da região ! Conhecemos apenas um mappa, delineado por enge- 
nheiro que nunca a viu e que teve o cuidado louvável de o 
declarai*; refere-se a uma quadra, da qual foi proprietário um 
norte-americano, hoje septuagenário, ex-colono, quasi analpha- 
beto, f> sobre as informações do qual o citado engenheiro chegou 
a fazer a discriminação dos terrenos sob o ponto de vista geolo- 
ffico, indicando com precisão os depósitos ou alluviôes auríferas ! 
Uma phantasia bem condemnavel ! 

Sabemos, entretanto, que nos últimos mezes foram ali feitas 
diversas pesquisas que produziram os melhores resultados, e 
que os novos proprietários de extenso terreno aurífero esperam 
ver ali estabelecida a mineração do ouro, numa época mais ou 
menos distante. Si a estes trabalhos juntarmos umas explora- 
ções de mica, realizadas ha poucos annos e em pequena escala, 
teremos feito o histórico mineralógico do Juquiá, um dos pri- 
meiros logares de onde foi extrahido ouro e evidentemente um 
daquelles onde existe maior quantidade para ser extrahida. 

O solo é argiloso, avermelhado, proveniente da decompo- 
sição de rochas feldspathicas. Produz tudo : o café, o milho, o 
feijão, a araruta, a canna, o arroz, a mandioca, de que ha im- 
portantes culturas, e outros géneros, apenas ensaiados ; porém, 
pertencendo esta região á cordilheira marítima, formada em sua 
maior parte de rochas cry8ts,linas, ella será pouco adaptável á 
agricultura mechanica. O seu futuro reside principalmente na 
mineração e na hulha branca; comtudo, devemos declaral-o, o 
baixo Juquiá, desde a foz do Assungui á sua foz no Ribeira, é 
francauioAte utilizável, sobre tudo para o arroz ; várzeas bem 
extensas e bem irrigadas, cortadas também pelo ribeirão Fundo, 
em que ainJa não tivmos occasião de fali ar, mas que afflue ao 
Juquiá pela sua margem direita, entre a povoação e o Quilombo ; 
e também lagoas consideráveis, como a do Mimoso, já perto do 
Ribeira, dão ás terras a humidade necessária para que possam 
ser aproveitadas com real vanta2:em. 

Todo o baixo Juquiá tem importantes pa-^tos naturaes de 
capim nobre, que podem ainda servir para desenvolver a criação 
de gado, ao que as terras do Juquiá se prestam magnificamente. 
E a industria pastoril daria aqui bom lucro, desde que fosse 
exercitada por pessoa hábil e que dispuzesse de transporte fluvial 
próprio e rápido para o porto de Iguape ou para o porto de Ca- 
nanéa, e lá o trasbordasse para vapores maritimos, previamente 
ajustados. Não poderia talhar. 



— 131 — 

Resta-nos ainda falar da povoação, freguezia de Santo An- 
tónio de Juquiá (24.° 24' de latitude S. e 4.'* 26' de longitude O. 
do meridiano do Rio de Janeiro), a qual tendo sido fundada em 
29 de fevereiro de 1829, nào progrediu muito : tem oito casas, 
ou seja uma para cada dez annos de existência. 

Nos primeiros tempos, consta-nos, os governos provinciaes 
interessaram-se por esta nova povoação ; porém, nada poderam 
conseguir, porque o povo, em vez de melhorar e prolongar as 
estradas existentes, as deixou obstruir ; e hoje dispõe apenas de 
uma picada que segue até á Prainha. As demais communicações 
são feitas pelos ri< s, inclusive com Iguape, de cuja cidade dista 
uns cento e quarenta e cinco kilometros, servidos pelos vapores 
da Empresa de Navegação Fluvial Sul- Paulista, subvencionada 
pelo Estado. E' dos districtos do municipio o que apparenta maior 
decadência ; entretanto, quer a população quer a lavoura, são 
maiores que as da Prainha. 

Mas... desçamos mais o rio : chegámos á barra do Juquiá, 
limite do districto ; eis-nos nas margens do magestoso rio Ribeira, 
no caminho para as principaes povoações da zona : Iguape, a 
noventa e oito kilometros e Xiririca, a cincoenta e seis. A barra 
do Juquiá é um dos pontos mais importantes da zona, e também 
um dos mais pittorescos, sobretudo vista da capella de Santa Lu- 
zia ; entretanto, é pequeno o numero dos seus habitantes : cre- 
mos que tem quatro casas, embora grandes. Convém attribuir este 
despovoamento á circumstancia de todos os terrenos pertencerem 
a particulares, que só mediante boa indemnisação cederiam logar 
para concorrentes. 

Talvez o Ribeira tenha aqui mais de duzentos metros de 
largura ; e vendo descer as suas aguas com extraordinária vio- 
lência, já batidas nos saltos e cachoeiras dos primeiros trezentos 
kilometros de seu curso, ficamos pensativos e admirados de que 
uma estrada tão comprida e tão laiga seja tão pouco conhecida 
dos paulistas... 

Recebendo o Juquiá, o magnifico rio Ribeira modifica o seu 
curso de noroeste para o sueste ; e, descendo, o primeiro logar, 
digno de nota que se encontra á margem da importante estrada 
fluvial, é O sitio da Bôa Vista, á esquerda, onde existe um en- 
genho de beneficiar arroz, pelo velho systema de pilões, movido 
pela agua do ribeirão do Tanque, navegável por pequenas canoas, 
acima da represa, algumas horas de viagem. Mais abaixo, na 
outra margem, existe um ribeirão, navegável em idêntico percurso 
e cujas aguas movem, egualmente, um engenho de beneficiar arroz 
do mesmo systema. E' também chamado de Tanque. 

Nesta mesma margem, á direita encontram-se mais dois ri- 
beirões : o Taquaral e o Registro. Este ultimo merece especial 
referencia, porquanto, além de per muito habitado e navegável 
por canoa durante dez horas, produz bastante arroz e tem caminho 
por terra para a povoação de Jacupyranga. Historicamente, tam- 



— 132 — 

hera. merece menção; era na sua foz que residia o funccionario 
colonial encarregado de fazer o registro do ouro que se extrahia 
de toda a região. 

Ainda mais abaixo, na margem esquerda, encontra-se o ri- 
beirão da Ponta Grossa, que dá o nome a uma fazenda ora em 
ampliação, e a qual tem excellente engenho de beneficiar arroz 
(systema mechanico) e a melh«r distillaria de a«:uardente de 
todo o município. Esta fazenda mereceria mais ampla referencia, 
si a necessidade do adiantar um estudo, por sua natureza moroso 
e delicado, não nos forçasse a desprezar incidentes; entretanto, 
diremos que nella existe cemitério e uma capella sob a invocação 
de S. Miguel, construída pelo actual proprietário da fazenda. 

Chegamos agora ao Carapiranga, ponto do Ribeira, onde o 
rio se torna bem razo, devidos aos muitos furados que tem para 
baixo, o que constitue o maior obs^taculo para a navegação flu- 
vial a vapor, sobretudo no inverno, época em que é forçada a 
tomar práticos nesta paragem, perigosa pelos bancos de arêa 
inovei existentes. O balisamento, em tal estação do anno, é 
feito diariamente com canna de ubás (gynerium parvijlorum)^ 
pelos práticos, cujos serviços os mais pequenos vapores têm de 
utilisar. O nome Carapiranga, dado a este local, advem-lhe de 
um affluente, que despeja suas aguas pela margem direita 

Vencida esta perigosa passagem, chegamos ao Jurumirim^ 
ribeirão que afílúe pela esquerda e tem bastantes moradores ; depois^ 
o sitio do Guaviruúva, assim denominado porque delle spí fez, 
em tempo communicação com o rio do mesmo nome, affluente 
do Piroupava, communicação essa que ainda hoje, em certas 
épocas do anno, serve aos moradores daquelle rio para virem á 
margem do Ribeira vender arrtz e comprar aguardente ao en- 
genho que aqui ha. 

Deste logar para baixo, até á barra do Jacupyranga, nada 
DOS recordamos que exista digno de ser mencionado. E' pos- 
sível que nesta rápida descida do Ribeirão tenhamos omittido 
alguns pontos em nada inferiores a outros accaso descriptos, não 
obstante sermos mais minucii so do que quantos nos têm prece- 
dido em trabalhos desta naturezH ; isso, porém, não nos desgos- 
tará, si os pontos referidos o e> tiverem com aquella exactidão 
irreprehensivel que se faz mister. 

Quem tiver lido os nossos artigos terá reparado na impor- 
tância especial que consagramos aos rios. E' tal o papel que 
elles representam na geographia physica e é tal o papel que 
elles {)odem ser chamados a representar, quando a zona, total- 
mente aproveitada, carecer de um systema de viação fluvial que 
dispense estradas de ferro custosas ou quando as necessidades da 
agricultura exijam a irrigação de terrenos, cuja constituição geo- 
lógica tornou presentemente estéreis, que não hesitamos em dar 
á hydrogra hia do Ribeira o primeiro logar entre os objectos 
do nosso estudo. 



— 133 — 
III 

Agora deixaremos por algum tempo o rio Ribeira e eubiremos 
um dos seus principaes aíiluentes, o rio Jacupyranga, que du- 
rante alguns annos gopou do beneficio da navegação a vapor, 
mhs que actualmente regressou ao systema dos autochtoiies, a 
canoa. Neste ponto, como em todos os outros idênticos, a culpa 
é attribuida aos governos; nós, porém, áuppomos conbecer a zona 
sufiScien temente para só responsabilizarmos os governos pela falta de 
íiscalisação no aproveitamento das largas soramas votadas pelo poder 
legislativo e das concedidas pelo poder executivo e também pela 
falta de estudos preliminares dos melhoramentos pedidos, para ver 
«i elles bem correspondiam ás necessidades do momento ou si 
não seriam inúteis, desde que outros não fossem realizados simul- 
taneamente. 

O rio Jacupyranga é, como dissemos, um dos principaes 
aíiluentes do rio Ribeira; e, cumpre sempre que impregnemos 
de toda verdade as nossas affirmativas, o mais abandonado, o 
mais negligenciado, o mais sujo delles ! O Jacupyranga, nave- 
gado ba alguns annos por pequenos vapores, dif&cilmente, em 
tempo de sêcca, dá passagem a canoas de grandes capacidade, 
tão obstruído elle se acha, tanto desleixo hão manifestado as 
íiuctoridades em comp^llir o povo á observância da lei, justa 
ou injusta, que o obriga á limpeza dos rios ! E a parte desta 
artéria fluvial. outr'ora navegada a vapor, tem a extensão de 
cento e três kilometros . . . 

Subamos, porém, o rio, e prestemos attenção aos seus aíHuen- 
tes e logares mais importantes. Daquelles, o primeiro que se 
encontra é o lodoso Bamburral, a que alguns chamam Mambural, 
e o segundo o Quilombo, onde diz-se existir lignite, mas duvida- 
mos que assim aconteça. Ambos aííluem pela esquerda; o Bam- 
burral tem na sua foz um engenho de pilar arroz e o Quilombo 
tem outro no interior, o qual Ibe desvia a agua, pelo que hoje 
não dá mais accesso a canoas, como outr'ora. 

Acima encontra-se a Praia Redonda, que é a divisa entre 
os districtos de Iguape e Jacupyranga. Continuando a subir o 
rio, chegamos ao Capinzal, cuja foz constitue bonito esteirão. 
Este curso de agua é navegável cinco horas, por canoa, e os 
seus habitantes, que são numerosos, dedicam-se de preferencia 
á cultura de arroz. 

Subindo mais, á direita, apparece-nos a fazenda Larangei- 
rinha, propriedade agrícola bem cuidada, com alguns milhares 
do pés de café, extenso cannavial e apreciável pomar de laran- 
geiras e jaboticabeiras. Ha alli ene:enhos de fabricar farinha 
« aguardente e beneficiar café. Desta propriedade á sede da 
«x-colonia de Pariquera-assú, gastam-se duas horas. 

Continuando a subir o Jacupyranga, onde, é bem sabido, 
existe, entre as suas arêas, magnetito e pyroxenito passando 



— 134 — 

para magnetite, e cujas margens, guarnecidas de cascalho lavado, 
mostram quão grande foi alli, no tempo da extracção aurífera, a 
actividade dos batêadores, chegamos ao pequeno e pedregoso 
Mandihy, que vem pela esquerda, e logo acima, do mesmo lado, 
apparece-nos o Padre André, rio navegável, por canoa, durante 
quatro horas, ao cabo das quaes está um salto de 0,"'òO de al- 
tura. Os saltos e cachoeiras proseguem dahi até ás suas nascen- 
tes. Na foz do córrego que em ultimo logar afflúe ao Padre An- 
dré, ha um engenho de pilar arroz, que é a principal lavoura dalli. 
Este rio Padre André recebe o ribeirão Braço de Gado, mas não 
podemos precisar o ponto exacto em que isso occorre. 

Vem agora o Turvo, innegavelmente o mais importante dos 
tributários do Jacupyranga, rio em cujas margens se encontra 
abundantemente ferro titanado e apreciáveis indicios da exis- 
tência de chumbo. O Turvo é francamente navegável por canoa 
e recebe muitos ribeirões, entre os quaes e successivamente, o 
Maneco Dias, pela direita ; Agua Parada, pela esquerda ; Lemos, 
pela direita. Joelho, pela esquerda ; Parafuso, pela direita ; e 
Alegre, pela esquerda. 

Quer neste trecho, quer acima do Alegre, o Turvo recebe 
muitas aguas cujos nomes ignoramos ; entre o Lemos e o Joelho, 
encontra-se a ilha do Turvo ; na foz do Parafuso existe amianto ; 
e tanto do Lemos, como do Agua Parada, ha caminhos por terra 
para as minas de ferro, ditas do Jacupyranguinha e Turvo. 

Este ultimo caminho segue também para Xiririca e Jagua- 
ry, passando na Tapera do Faria, onde existe cornalina, situada 
no ribeirão da Arêa Preta, cujo leito é formado por alluviões e 
corre entre grés e schistos com augito Daqui á conhecida mina 
de ferro é perto. 

O importante rio Turvo, apezar do volume de suas aguas, 
é pouco correntoso, permittindo ser navegado em canoa cerca de 
dois dias. Tem innumeros moradores, que se dedicam principal- 
mente á lavoura do arroz e da mandioca. 

Retomando o rio Jacupyranga, encontramos logo acima uma 
pequena agua, aproveitada por um engenho de beneficiar arroz, 
pelo velho systema de pilões, como todos os precedentemente 
descriptos : é o Carapuhy. Vem pela direita, assim como o rio 
Canha, mais acima, o qual é navegável por canoa cerca de oito 
horas até a divisa dos municipios de Iguape e Cananaê, e atra- 
vessa de N. a S. as terras da ex-colonia de Cananêa. 

O Canha tem muitos moradores que se dedicam á cultura 
do arroz, milho, mandioca e algum café ; as suas aguas correm 
com regular velocidade e o leito apresenta algumas piriricas. 

Eis-nos agora na sede do districto de Jacupyranga, antiga- 
mente freguezia de Botujurú, nome este de um morro situado 
próximo e á margem direita do rio (alguns geographos têm in- 
genuamente asseverado que do morro sáe um calor morno!), 
situada acima da foz do rio Canha, á margem direita do rio que 



— 135 — 

lhe dá o nome e em logar alto e aprasivel, a 24** 40' latitude 
S. e 4° 49' longitude O. do meridiano do Rio de Janeiro. 

Foi começada a edificação em 18G0, ou pouco depois, e já 
em 1870 (lei de 5 de abrilj, era elevada a freguezia. Hoje 
tem umas cincoenta casas distribuidas por diversas ruas e no 
largo, onde se acha a matriz, templo este construido per ordem 
do governo, pouco antes do advento da Republica e o qual tem 
sido bem conservado, sendo actualmente o melhor e maior de 
toda a zona, exceptuadas as matrizes de Iguape e Xiririca, esta 
ultima ainda em obras. 

O Jacupyranga constitue um districto de paz, que, em 1898, 
já tinha 307 eleitores. A população, que, em 1886, era de 
4.198 individues, subiu em 1890 (31 de dezembro), a 4.416, 
divididos em 2.241 do sexo masculino e 2.175 do sexo femini- 
no, dos quaes 3.268 solteiros, 1.086 casados e 62 viúvos. 
Actualmente é bem maior o numero dos habitantes. 

Da povoação ha quatro sabidas e a todas ellas vamos refe- 
rir-nos : a que já percorremos, rio abaixo ; a que segue, rio acima, 
até ás cabeceiras do Guarahú e Jacupyranguinha e seus affluentes ; 
a que se dirige a Xiririca (via terrestre) e a que vem para o porto 
de Sabaúma, passando pela ex-colonia do Pariquera-assú. 

Principiaremos pela segunda, isto é, continuaremos a subir 
o Jacupyranga, ao qual, logo acima da povoação, afflue, pela 
esquerda, o córrego do Garcia, cujas aguas vêm das cabeceiras 
do Turvo ; mais acima, pela direita, vem o ribeirão do Casimiro 
e pela esquerda um outro ribeirão sem nome, ambos procedentes 
de lagoas. Começam perto daqui as terras da Fazenda Velha, 
hoje lastimável tapera, e as quaes são cortadas por dois córre- 
gos, vindos pela margem direita, primeiro o Pirraça e depois o 
Boa Vista. Segue- se-lhe o bairro Guamiranga (IJ, situado á 
direita e por cuja margem vem o ribeirão do mesmo nome. 
Pouco acima encontra-se a vasta quadra conhecida pelo nome 
de Itapubussú ( talvez devesse ser Itapébussú ), a qual começa 
pela tapera Domingues, onde se acha a barra do ribeirão Des- 
viado ; ao centro da quadra, mais ou menos, afflúe ao Jacupy- 
ranga, pela esquerda, o ribeirão do Itapabussú, que lhe dá o 
nome e o qual tem muitos moradores que se servem de cami.ihos 
por terra, visto o ribeirão não ser navegável; e logo adeante, 
pela direita, vem o córrego da Lagoa, cuja agua move um en- 
genho de beneficiar arroz. Chegamos, finalmente, á confluência 
do Jacupyranguinha com o Guarahú, onde se forma o Jacupy- 
ranga, cujo percurso total calculamos em cento e vinte kilo- 
metros e cuja descripção fica concluida, visto que desta confluen- 



01 Ha ra zona diversos logares que o povo denomina indistinctamente, Guamiran- 
ga e Vamiranga. O esclarecimento desta corruptela sáe dos moldes do noíso estudo e, 
porisso, empregaremos para cada logar o vocábulo geralmenta acceito entre os seus mo- 
radores. 



— 136 — 

cia para cima passa a ser chamado Jacupyranguinha e sob este 
nome o descreveremos opportunamente. 

Vamos agora subir o Guarahu, que vem pela direita e 
nasce nas vertente* do Paraná. Logo acima de sua foz recebe, 
pela direita, o ribeirão do Soldado; mais a ima, a uma hora de 
viagem da foz, recebe o Pindaúva navegável por pequenas 
canôíis e que tem uns quatro metros de largura. Corrt^ por 
elle e pelo Pindaúvinha, que afflue ao Guarahu pela mesma 
margem, um pouco adeante, a divisa por este lado, entre Iguape 
e Cíin^tHêa, e ambos nascem neste ultimo município e cortam 
as terras da ex-colonia do mesmo nome. 

O Guarahu é um rio cheio de aceidentes violentos, que lhe 
fraccionam a nav^^gabilidade. Desde a sua confluência com o 
Jacupyranguinha até ao Salto Grande é navegável: são quatro 
a cinco horas. Este Salto Grande é constituido por cinco que- 
das com um desnivelamento de trez e meio a quatro metros. En- 
tre o Pindaúva e o Pindaúvinha, já menc onados, conta o Gaa- 
rahú sete saltos, trez dos quae,« são denomiinados Çattete, Pedra 
Molle e Furnas ; em outros logares tem muitos saltos, mas só re- 
cordamos os de nomes Pilões e Pilõesinh* s. 

Continuando a subir o Guarahu, desde a foz do Pidaúvinha, 
encontramos primeiramente, pela esquerda, o ribeirão das Antas; 
acima, está o Salto Grande e adeante a forquilha (1), seguindo 
o Guarahu para a direita e a agua que vem pela forquilha para 
a esquerda, ambos em direcção ao vis'nho Estado do Paraná. 

Como referimos, a navegação é feita por pequenos trechos; 
e o curso superior do Guarahu e o da forquilha^ acreditamos 
serem completamente desconhecidos (2). 

Retrocedamos agora á confluência do Guarahu com o Jacu- 
pyranguinha e comecemos a subir este interessante rio, que ba- 
nha uma região destinada a um grande futuro pela sua exce- 
pcional e comprovada riqueza em ferro, o precioso metal por 
cujo consumo hoje podemos avaliar sem erro o grau de civili- 
sação dos povos. Reservaremos, porém, os detalhes para mais 
adiante, quando chegarmos ao ribeirão da Arêa Preta, a que já 
alludimos de pas-sageni. 

O Jacupyranguinha corre sobre talschisto e por entre morros 
de grés antigos, metamorphorseados com augito : a analyse das 
arê«s denuncia a riqueza mineralógica das montanhas de que 
ellas provêm; o solo, quasi virgem nas suas margens e a pouca 
distancia coberto de florestas gigantescas, promette a mais larga 
remuneração aos lavradores. Entretanto, desde a confluência 
com o Guarahu, contam-se, successivamente, três taperas: Feli- 



(1) A' confluência de dois cursos de aguas, o povo chama forquilha. Da confluência 
o nome estende-se an curso menor, sempre que este não tenha denominação especial, 
como no caso presente. 

(2) O rio Garahu, da foz do Pindaúva para cima, não deveria ser descripto neste 
artigo, por pertencer ao munlcipio de Cananêa, : flzemol-o, porém, porque o município de 
Iguape alli exerce jurisdicção. O Congresso vae, aflnal, decidir a contenda. 



— 137 — 

zardo, Maria Ramos e José Bueno; entre a primeira e segunda, 
vem, pela esquerda, o ribeirão do Ramos, e á terceira vem dar, 
pela mesma mirgem, o ribeirão do Barro Branco. 

Três taperas! Confrage se-nos o coração ao escrevel-o ; três 
taperas, três propriedades abandonadas e situadas todas na terra 
mais fértil da zona, a caminho do Paraná e numa das três re- 
giões de mais brilhante futuro! O defeituoso systema commercial 
daqui, a incapacidade de substituir o braço escravo pelo braço 
livre, a indolência, gerada, em parte, pelo baixo salário e que 
repousa na variedade dos fruetos e na abundância da caça, fez 
a zona de Iguape regressar ao que era ha cem annos, quando 
a mineração cessou e a lavoura foi iniciada 

E, francamente, vivendo no maior analphabetismo e sem es- 
colas para os filhos; desconhecendo absolutamente as commodi- 
dades que o dinheiro proporciona e passando a vida, por mais 
longa que ella seja, sem receberem, por uma só vez, cem mil 
réis; derrubando mattas, queimando coivaras, plantando arroz e 
colhendo-o á thesoura, para, nos povoados, o permutarem, como 
no interior da Africa, por aguardente, algodão e fumo das mais 
inferiores qualidades e escandalosos preços — qual é o estimulo 
para o trabalho que lhes leva o homem civilisado, o commer- 
ciante, o arauto da civilisação ? 

Não basta accusar de indolência determinada fracção de um 
povo; é preciso verificar si o meio Ih' a não acoroçôa, como se 
observa aqui, onde, por um lado, a facilidade de alimentar- se 
e, por outro, a degradante remuneração concedida ao trabalho, 
levam o homem a nada fazer mais do que o strictamente indis- 
pensável para garantir lhe a conservação da existência. 

Poderiamos agora entrar em considerações de ordem ethno- 
logica e climatológica; abstemo-nos, porém, de o fazer, para não 
alongar demasiado este estudo. Convém, todavia, frisar que, no 
verão, a temperatura média, tomados os últimos oito annos, foi 
de 21** centígrados, não excedendo de 15" a oscillação diária, 
quando, em alguns logares da Europa, ella chega a ser de 45**. 
Assim, pois, nem a zona tem as oscillações elevadas e brutaes 
que tanto prejudicam a saúde publica, nem tampouco o calor 
excessivo, que enerva o individuo, inhabilitando-o para o tra- 
balho. 

Verifica-se, portanto, que os factores da indolência são os 
que primeiro mencionamos, e independem da climatologia. E 
como podem ser accusados de indolentes os que se levantam ao 
remper do dia e logo vão, mal alimentados, para o ingrato ser- 
viço da lavoura, vergados sob o peso dos machados demolidores 
das mais possantes e maravilhosas florestas virgens, para nunca 
verem uma moeda que lhes atteste o trabalho? 

Mas, não avivemos chagas. . . Continuemos a descripção. 
Depois : do ribeirão do Barro Branco, a primeira agua que se 
encontra é o córrego do Agostinho Domingues, nome do proprie- 



^ 138 — 

tario de um sitio annexo, situado á esquerda; subindo, á direita, en- 
contramos o Baguassú, que constitue pequeno bairro; acima afflue, 
pela esquerda, o ribeirão da Saracura, que tem um engenho de 
pilar arroz. Mais acima, pelo mesmo lado, ha um ribeirão, cre- 
mos que sem nome. 

Apparecem-nos agora cinco ribeirões, que pela ordem as- 
cendente, são os seguintes: Matbias, á direita; Quilombo, á es- 
querda; e Silvestre e Jucá de Lima, á direita; e pela esquerda, 
o ribeirão da Aièa Preta, já mencionado mas cuja excepcional 
importância nos for(;a a ampla referencia, porque, em verdade, 
é nelle que está a parte até agora reconhecida principal da mi- 
na de ferro do Jacupyranguinha e Turvo; e porque foi alli que 
fizeram, em 1S89, o forno e diversas edificações, cujas ruinas 
ainda hoje podem ver-se, apavorando o capital, já de si tão re- 
trahido. 

Deste logar á sede da freguezia ou districto de Jacupyrança, 
gastam-se, a cavallo, duas horas e em canoa, seis horas, tendo já 
sido feito esse percurso por lancha a vapor. Daqui ao Turvo e 
suas cabeceiras, a distancia é pequena e as communicações rela- 
tivamente fáceis. 

Para o histórico desta mina, poucos dados possuimos. Sa- 
bemos apenas que, por decreto de 26 de novembro de 1872, foi 
ella concedida a cavalheiro que, mais tarde, a transferiu a outro ; 
este, com audiência do gDverno imperial, também a transferiu a 
uma companhia, no anno de 1881. O ultimo decreto a respeito, 
parece-nos ser o de 24 demarco de 1883. A concessão caducará, 
definitivamente em 1931, mesmo que esteja em actividade a sua 
exploração. 

A mina occupa uma área de 49130400,00 metros quadrado?, 
e nella existem três qualidades distinctas de mineral: o primei- 
ro, é negro, dá pó preto, tem fractura concoidal e é massiço; o 
segundo, é egual, mas com alguma ganga; o terceiro, é caver- 
noso, escuro, com pequenas veias de quartzo (ferro oxydado hy- 
dratado). Nenhuma delias contém enxofre ou phosphoro e todas 
pertencem á cathegoria dos minereos ricos, porque, segundo 
analyses, o ferro puro está na proporção de 54,36 a 58,40 "f^. 

Como já dissemos algures, o leito do Arêa Preta é alluvio- 
nal e corre entre montanhas de grés e schistos com augito, al- 
guns metamorphisados; e aqui e alli apparece calcareo puro. 
Foi nesta área, tão vasta, bem irrigada e geologicamente inte- 
ressante e promissora de riquezas, que, em 1889, uma companhia 
iniciou os trabalhos, guiada apenas pelos lisongeiros resultados 
de analyses feitas no Bureau avessais, de Paris, e nos laborató- 
rios Metallurgico e do Saint-George Hospital, de Londres, e fas- 
cinada pela abundância do mineral que se vê na supertície do 
solo. 

O capital da companhia (500:000$000) desappareeeu sem que 
fosse feita uma sondagem, de modo que ainda hoje se ignora a 



— 189 — 

extensão e a espessura da jazida ! O dinheiro foi absorvido em 
construcções dispensáveis e até em bondes para a gerência, lan- 
çando, aíinal, o descrédito sobre a mina e afugentando aquelles 
que accaso esperavam o resultado daquellas explorações, para 
iniciarem outras nesta mesma zona. 

Tem sido accusada a companhia por haver mandado construir 
um alto forno, em vez de preferir o methodo catalão ; nós, porém, 
achamos essas accusações, sinão infundadas, pelo menos pouco 
judiciosas. Em nossa opinião, uma empresa nova que queira 
explorar o ferro desta mina, deve pôr de lado tudo quanto a outra 
companhia fez. Ella não deixou nada aproveitável. Só depois de 
estudos beih feitos, é que póie preferir se o methodo de extracção. 

Não ha duvida que o italiano ou catalão, sendo menos dis- 
pendioso e próprio para aproveitar o carvão vegetal e, como 
força motriz, as quedas de agua, seria preferivel ; porém, tal 
methodo exige mineraes fusiveis, de reducção fácil, e a esta 
classe não pertencem os mineraes quartzosos, como os desta mina, 
porquanto das três amostras mencionadas e analysadas, resulta que 
a primeira apresenta vestígios de quartzo, a segunda, 5,60 "/^ e 
a terceira 35,50 *'/^ (incluindo alguma argila). Podemos asseve- 
rar que o quartzo está associado a todo o minério da Arêa Preta. 

Outra circumstancia digna de ser considerada, é que o metho- 
do catalão não convém aos minereos calcareos, por causa do acido 
carbónico que, desenvolvendo-se, tiraria muito calor; e das três 
amostras, duas apresentaram vestígios àe cal e a terceira 0,30 7**» 

Convém, pois, não illudir ninguém. O ferro desta mina é 
magnético, e até muito é também magnético polar ; a sua quanti- 
dade parece ser extraordinária, immensa, á vista do que se nos 
depara sem sondagens. O oxydo de manganez, cuja importância 
nenhum profissional desconhece, anda associado ao minereo desta 
jazida. Seja, pois, qual fôr o capital necessário para bem aprovei- 
tar esta mina, acreditamos que elle obterá largos juros. E' simples- 
mente extranhavel que até hoje não tenha apparecico um syndica- 
to que tome o encargo de utilizar tão grande riqueza natural. 

Agora que já dissemos algo de elucidativo acerca do ferro, 
retrocedamos ao Jacupyranguinha e continuemos a subil-o desde 
a foz do Arêa Preta. Primeiro deparam-se-nos successivamente 
os logares Cachoeira, Furado e Pouso Alto, vindo dar a este ulti- 
mo, pela direita, o ribeirão do mesmo nome ; acima, pela esquer- 
da, o cónego do Bento Rodrigues; e, ainda acima, pela direita, 
uma outra agua, o ribeirão da Serra. 

Chegamos agora a um dos principaes aífluentes do Jacupy- 
ranguinha: é o Bananal, rio que vem pela esquerda e serve de 
divisa aos municipios de Iguape e Xiririca. E' navegável du- 
rante seis horas, parecendo não ter cachoeiras ou si as tem é já 
perto de suas nascentes, muito longe. Recebe diversos riberões, 
entre os quaes, a partir de sua foz o Moreira, pela direita, e o 
Pito, pela esquerda. 



._ 140 — 

Acima da foz do Bananal, encontra-se, pela outra margem, 
o ribeirão da Onça Parda que tem bastantes moradores ; 
depois, pela esquerda, o ribeirão do Benedicto, e logo depois 
pela direita, o ribeirão do Maueco Antunes. Vêem ainda, pela 
esquerda, um córrego cujo nome ignoramos ; pela direita, o ri- 
beirão das Cortezias, nome que lhe foi dado pelos antigos por 
ter alli um pau que obrigava os viajantes a se abaixarem ; pela 
esquerda, o córrego do António Ribt^iro e o ribeirão do Manuel 
Gomes, este ultimo com boa agua, mas cujos innumeros e vio- 
lentos torcicclos não permittem a navegação; e ainda, pela di- 
reita, um córrego cujo nome olvidamos. Chegámos agora a duas 
barras de ribeirões, uma situada em frente á outra : é o Cotia, e 
não conhecemos na zona uma agua em tão curiosas condições. 

Quatro horas acima da foz daquelle ribeirão do Manoel Go- 
mes, afflue ao Jacupyranguinha, pela direita, o rio do Azeite, que 
corre por entre a serra do mesmo nome e o do Guarahú. Tem 
muitos fifíluentes e saltos : é bem habitado, dedicando-se de pre- 
ferencia os seus moradores á lavoura do milho e á criação de 
porcos. 

Um pouco acima da foz do Azeite, apparece-nos o magni- 
fico salto do Jacupyranguinha, cora doiá uetros de altura; e 
vencido elle, ainda o rio é navegável por canoa durante algumas 
horas, até o porto da Lavra, na foz do riquíssimo e extenso ri- 
beirão do mesuíO nome, de onde, nos tempos coloniaes, se ex- 
trahiu considerável quantidade de ouro. 

Dahi para cima conhecemos apenas o ribeirão Queimado, ou 
Braço Queimado, já perto das nascentes do Jacupyranguinha, nas 
contra vertentes do Estado do Paraná. Passa, então, ao lado, do 
vasto Faxinai, grandes florestas de herva matte e immensos pas- 
tos naturaes, julgados sufficientes para dua? mil cabeças de 
gado bovino, tudo occupando uma área de 43560000,00 metros 
quadrados, concedida pelo governo em 1892, e até hoje, treze 
annos volvidos, completamente abandonada e deshabitada! 

Do Azeite para cima, o Jacupyranguinha não tem apenas 
os dois affluentes que indicamos; muitas outras aguas nelle se 
despejam, mas não lhe sabemos os nomes, e raríssimas pessoas 
indicariam siquer um terço das que vimos de mencionar. Esta 
zona é difficil de descrever, já o dissemos algures; são tantos os 
morros e até serras, os córregos, ribeirões e rios que teem o 
mesmo nome, e ás vezes no mesmo município, que é preciso 
reflectir bem na situação delles, para não darmos á estampa erros 
como aquelles que inçam trabalhos idênticos. 

O Jacupyranga e Jacupyranguinha (este, como vimos, é aquelle 
a juzante da foz do Guarahú, onde é menor), cuja descripção 
acabamos de concluir, é um dos grandes affluentes do Ribeira e 
ha de opportunamente ser conhecido em todo o Brasil. Alem 
de muitas outras circumstancias que deixaremos de enumerar, 
garantem-lhe tal situa<^ão as de cortar as terras mais férteis 



— 141 — 

mima zona de terras férteis e de emquadrftr, com o ribeirão da 
Aréa preta e o Turvo, uma mina de ferro que promette produzir 
o metal necessário, durante largos annos, para todo o sul do \ aiz. 

Todas as principaes aijuas mencionadas nascem na serra 
geral, a que melhor cabe o nome de Guarahú, e que juntamen- 
te nas cabeceiras do rio deste nome emitte um ramal p^ra O S O. 
no Estado de Santa Cathanna, o qual tem diversos nomes e vae 
acabar no Uruguay. As m< nt^mhas da bacia do Jacuj)yranga 
são do typo francamente volcanico e as rochas caracter) sam-se 
pela nephelina e leucita. 

Voltando agora á sede da freguezia, e tomando o caminho 
de terra que segue para Xuirica, encontramos primeiro o sitio 
do Garcia, onde existem engenhos de pilar arroz e de fabricar 
aguardente; e, depois», o rio Turvo, logar perigoso, que obriga, 
por vezes, na época das chuvas, a pousar ás margens no rio 
os viajantes. Finalmente, chegamos, por este lado, á divisa 
com Xiririea, que corre pel»> ribeirão Braço de Gado, affluente 
do rio Padre André. 

Si, porém, quizermos seguir para a ex-cf lonia de Parique- 
ra-assú. encontraremos logo ao começo o rio Canha, que é por 
ella atravessado ; e logo adeante a fazenda Esperança Agricola, 
excellente propriedade, dotada com aprazivel vivenda e ligada 
telephonicamente á sede d<- districto. Esta fazenda tem uns 
12.000 pés de café e bastante gado tourino, cuja creaçào con- 
stitue a sua especialidade. 

Ao termo de dezoito kilometros, acha-se a ex-colonia de 
Pariquera-assú, uma das teitativas, todas dispendiosas e mal 
determinadas, de desenvolver a zona, postas em pratica pelos 
antigos governos. 

Ha, porém, ainda um outro caminho : é o que de Jacupy- 
ranga vae ao porto do Cubatão, em Cananêa, atravessando a 
ex-colonia deste nome. H je acha-se em lastimável estaco, mas 
cremos que se cogita da su.i reconstrucção, beneficiando as^im 
os moradores daquelle trecho da zona. 



IV 

A sede do ex-colonia de Pariquera-assú, acha-se situada a 
cincoenta e oito metros de altitude e a dezoito kiL metros da 
foz do rio que lhe dá o nome, no rio Ribeira de Iguape. 

Devemos ocoupar-nos um pouco com esta parte do municí- 
pio que em suas diversas phases attesta bem a V''CÍllaçà,. do 
governo e a incapacidade da maior parte dos funccionario» por 
elle nomeados para a administrarem. Vem de 1854 a idéa da 
fundação da colónia; em 1856 era demarcado o território; em 
1857 nomeado o director e só quatro annos depois, em 1861, 
tentada a colonisação. Pode dizer-se que até 1887 a vida de 



— 142 — 

Pariquera-assú foi mais devida aos esforços do fundador de Ja- 
cupyranga, de que aos benefícios do governo; entretanto, nesta 
época, não havendo ainda uma regular delimitação de lotes e 
sendo estes occupados desordenadamente, o núcleo era consti- 
tuido por duzentos e noventa e três habitantes, dos quaes ape- 
das vinte e cinco extrangeiros . Em 1888 foram medidos mais 
vinte e sete lotes, de vinte e seis hectares cada um, e imme- 
diatamente occupados sete. 

Em 1887, pois, as cousas mudaram de rumo, mas ainda 
deixando muito a desejar. Entretanto, graças á nova orientação, 
a colónia mostrava, dez annos depois, isto é, em 1897, um ca- 
pital accumulado em bens das diversas naturezas de mais de 
1.000:000$000, ou seja mais de 2:800$000 por familia, tendo 
ainda produzido nesse mesmo anno 4Õ4:000§000, ou seja mais 
de 1:280$000 por familia. 

Nu anno de 1898, a população do núcleo compunha-se de 
trezentas e cincoenta e quatro familias das quaes somente cento 
e cincoenta e uma eram extrangeiras . Esta superioridade nu- 
mérica dos nacionaes tem sido sempre mantida: em dezembro 
de 1899. sobre 1.771 individuos, 956 eram nacionaes; em 31 de 
dezembro de 1900, sobre 1.613, 1.141. Faltam-nos dados sobre 
a população actual, mas podemos asseverar que o numero de 
extrangeiros diminiu consideravelmente, não sendo este anno o 
de menor emigração. 

Em 11 de janeiro de 1901, o Congresso do Estado eman- 
cipou diversos núcleos coloniaes, entre os quaes o de Pariquera- 
assú. E' mesmo nos relatórios dos secretários da Agricultura que 
encontramos escriptos, com a mudez eloquente dos algarismos, 
os resultados daquelle acto legislativo e que decerto são bem 
contrários aos que os legisladores esperavam. Os algarismos de 
1900 alcançam o núcleo sob a administração do Estado; os de 
1901, sob a administração politica da edilidade de Iguape: 





1900 


1901 


Allemães 


63 


24 


Austríacos 


149 


99 


Dinamarquezes 


õ 


2 


Hespanhoes 


3 


1 


Inglezes 


7 


4 


Italianos 


390 


226 


Polacos 


127 


87 


Portuguezes 


18 


3 


Sueccos 


24 


16 


Suissos 


28 


9 




816 


471 



— 143 — 

Esta difíerença, repetimos, foi observada no curto e exacto 
período de doze mezes! Nem uma só das nacionalidades que 
povoavam o núcleo deixou de diminuir; e boje o núcleo é ainda 
menor, e só mesmo o governo poderá evitar o abandono total, 
intervindo e novamente chamando a si a sua direcção. Ha agora 
no núcleo uma legitima esperança, derivada da bôa impressão 
que nelle recebeu pessoalmente o actual secretario da Agricultura 
e também de algumas providencias governamentaes, já decorren- 
tes da viagem daquelle membro do Governo. 

Continuando agora pela estrada que daqui segue para o 
porto do Sabaúma, encontramos primeiro o rio Pariquera-mirim; 
depois o ribeirão Vermelho e adeante o morro da Arataca, emi- 
nência notável, cuja encosta occidental já pertence á proprie- 
dade agrícola ainda conhecida pelo nome de— Humaytá. Um 
pouco adiante achamos a bifurcação da estrada que conduz á 
importante fazenda, hoje denominada da Vista Alegre e consti- 
tuída pelas antigas fazendas Tabacoára, S. Pedro, Laranjeiras e 
Cedro, occupando uma área de mais de vinte léguas quadradas, 
em sua quasi totalidade situadas já no município de Cananêa, 
mas que, para não alterar o plano esboçado, descreveremos ago- 
ra minuciosamente, como merece; e, fazendo-o, não somos le- 
vados pela grande área territorial que ella occupa, mas, sim, 
pela circumstancia de nella estarem encravadas as únicas mat- 
tas virgens e mattos fechados do littoral, que, em linha recta, 
desde o pico do Tapanhúapinda á foz do rio Momuna, nos dão 
uma ideia exacta da flora desta região, quer quanto á sua varie- 
dade, quer quanto ao seu crescimento máximo. 

Em verdade, a flora da parte baixa desta zona e a da en- 
costa da serra do Mar, na parte alcançada pela recta acima di- 
ta, é variadíssima, mas os exemplares que a constituem não 
attingem grande corpulência, devido, decerto, á constituição 
geológica do solo, no qual abundam as rochas vivas; porém, 
na Vista Alegre, como a propriedade contém muito granito no 
estado de desagregação e ella se estende num plateau de regu- 
lar elevação entre as cordilheiras do Canta gallo e do Cordeiro, 
ramificações da serra geral, destas certamente, no correr dos 
séculos, foram descendo os fragmentos feldspathicos, graníticos 
e syeniticos que dão ao solo aquella cor e nquelle aspecto ca- 
racterístico, que valem tanto para o mineralogista ou geólogo 
como para o lavrador a presença da nryrtus tenella, da termi- 
nalia acuminata ou dos enterolobium, que aliás são aqui abun- 
dantíssimos e apresentam um desenvolvimento anormal para esta 
faixa de terra. 

Outra anormalidade é a da variedade da flora. Agassiz 
conta com admiração que, no norte do Brasil, encontrou, em 
setenta e cinco hectares de terras, cento e dezesete espécies de 
madeiras preciosas ; pois essa mesma quantidade encontraria 



— 144 — 

alli o illustre sábio, ou mais ainda, si tratasse simplesmente de 
madeiras em geral. 

Ha ainda uma circumstancia digna de mencionar-se : é a de 
existirem alli varias plantas, como o couratari estrellensis, que 
não se encontram nas terras baixas dos municípios de Iguape e 
Cananêa; e é por causa destas anormalidades que affirmamos 
serem dignas de visita e de observação as mattas da Vista Ale- 
gre, como as únicas, em toda a f ixa já citada, que apresentam 
simultaneamente com a grande variedade de plantas, um perfeito 
conjuncto e typo intertropical ' 

Desde os lycopodins, araceas e fetos que revestem e quasi 
escondem os penhascos das grotas, até ao scbizolobium excelsum 
que disputa á euterpe edulis o império das florestas, temos largo 
campo de estudo. Só quanto a madeiras, ha umas dezeseis ou 
dezoito lauraceas, quatro machserium, diversas meliaceas, apo- 
cynaceas, clusiaceas, vocbysiaceas, myristicaceas, sapotaceas, cse- 
salpiniaceas, mimosaceas, mais de vinte myrtaceas e outras, pre- 
fazendo um total de cerca de trezentas espécies, próprias para 
todas as applicações indu^striaes, desde a marcenaria de luxo á 
caixoteria, e ostentando todas as cores naturaes e combinações 
de cores, com desenhos, ondas, aguas, que não raro causam admi- 
ração mesmo aos entendidos 

Nesta parte da zona predominam as myrtaceas, em quanti- 
dade de milhões de arvores, especialmente dos géneros psidium, 
eugenia e myrtus ; e só o psidium pomiferum que vimos na fa- 
zenda é snificiente para as exigências de uma dessas fabricas 
que tanto contribuem para a economia do Estado do Rio e que 
de um ao outro extremo do paiz e mesmo ao estrangeiro levam 
o nome da cidade de Campos. 

Para a cultura do cacau que, neste Estado, só na zona de 
Iguape encontra todas as condições naturaes favoráveis, vimos na 
Vista Alegre uma immpnsa várzea de terra escura, ligeiramente 
arenosa e perfeitamente abrigada dos ventos do sul e do norte 
pelas serras próximas, a qual comporta muitos milhões de pés 
da preciosíssima buettnerea, incontestavelmente um dos vege- 
taes que hoje se cultivam com mais segura e elevada remunera- 
ção. Também não faltam as mattas de cecropias e melastomaceas, 
indicio de terras boas para mandioca, nem as de anonaceas, in- 
dicio de terras boas para arroz ; quanto ao café, nos muitos mi- 
lhares de pés que. abandonados ha longos annos, resurgem agora 
das capoeiras velhas com uma vitalidade surprehendente, temos 
a prova de que elle se adapta egualmente a este clima. 

O systema hydrographico não é dos mais complicados, por- 
que uma parte das aguas corre para o Ribeira e outra para o 
Aririaya-mirim, sendo a principal das que irrigam a Vista Alegre, 
a do rio Cordeiro, que tem sua foz no mar de Iguape, cinco léguas 
ao norte do porto de Cananêa, mas já em tervas deste município, 
pelo que só mais tarde as descreveremos. Comtudo, convém di- 



— 145 — 

zer que as principaes aguas que cortam a fazenda e que são 
todas tributarias do Cordeiro, se chamam Cordeirinho, Cedro, 
Jacu, Laranjal, Paraná Caçu, Desespero, Portão, Major, Marcelino 
e Antune^, em sua maioria córregos. 

Orographicamente, só temos a accrescentar que as serras 
do Cordeiro e do Cantagallo, a que já nos referimos, são con- 
stituídas, a primeira pela que tem o mesmo nome e pelas do 
Laranjal, Itinga e Aririaya, e a segunda por uma série de morros 
chamados successi vãmente Momuna, Morre te do Sabauma, Botu- 
jurú, Maciel e Arataca, mas nem todos pertencem á Vista Alegre, 
embora lhe enquadrem os terrenos. 

Voltando á estrada no ponto em que a deixamos ha pouco, 
isto é, na bifurcação, e continuando o trajecto cerca de cinco 
kilometros, chegamos ao porto do Sabauma, no rio do mesmo 
nome, que desagua no mar de Iguape, ao qual se chega ao 
cabo de quinze minutos de viagem tendo de um lado e do 
outro bosques de arvores viviparas, especialmente rhizophora- 
ceas, por entre as quaes se pode navegar longas horas, perdido 
como num labyrintho, para ao cabo voltar quas^i ao ponto de 
partida. 

Na foz do Sabauma ha diver-*os destes pequenos bosques, 
a que, geralmente, dão o nome de ilhas '^ logo acima está a 
pedra de Nossa Senhora, ou pedra do pouso, onde, nos tempos 
coloniaes, be fazia o tombo das aguas (entre ambas aguas) que 
entravam pelas barras de Cananêa e Icapara. 

Ainda acima, e bem perto, começa a coroa da Ilha Grande, 
coroa essa que tem uns dois kilometros e a qual dentro de 
annos, será coberta de veo:etação como o restante da ilha, a 
qual é cortada transversalmente por um riacho sem nome. 

Convém relembrar que este mar de Iguape, também conhe- 
cido pelo nome de Mar Pequeno, a partir do Sabauma tem de 
um lado o continente e de outro a ilha do Mar, um e outra bor- 
dadas de cyperaceas preciosas e abundantes em cellulose purís- 
sima. 

Pouco depois de passada a ilha Grande, encontramos do 
lado do continente a ponta de Sorocaba, onde desagua o rio 
deste nome, cujas nascentes ignoramos, bem como as do seu 
affluente Sorocaba-mirim, mas ambos não tem importância al- 
guma, sob qualquer ponto de vista. Em seguida apparece, do 
mesmo lado, a foz do vallo do Ribeira, ou Vallo Grande, essa 
obra condemnavel, que tantos incommodos e despezas tem acar- 
retado aos governos federal e estadoal. 

Devemos agora ir procurar a foz do rio Jacupyranga, no 
rio Ribeira e descer este até á sua barra no Atlântico, para 
afinal nos occuparmos da cidade de Iguape e da barra de Ica- 
para. Descendo, pois, o Ribeira, só nos lembramos do Jacupy, 
á direita; abaixo apparece-nos logo o Parquerri-assú, em cuja 
foz se encontra um bom estabelecimento agrícola e commercial; 



^ 146 — 

logo acima afflúe, pela direita, o Pariquera-mirim, que antes 
tinha s^ua barra directamente no Ribeira; e ao Pariquera-mirim 
afflúe, pela direita, o Braço Preto, navegável por canoa duran- 
te três horas e que na?ce perto da colónia. O percurso de de- 
zoito kilometros, que já em outro logar dissemos ser o do Pari- 
quera-assú desde a sua foz á povoação, poderia ser feito por 
lancha a vapor. Tal navegação, dispensando os colonos de trans- 
portarem as suas mercadorias em animaes até ao porto do Su- 
bauma (dezoito kilometros), seria uma excellente medida e um 
valioso factor para o resurgimento daquella colónia. 

Descendo aiuda o Ribeira, eucontrámos os seguintes ribeirões: 
Caputera, á esquerda, que cremos nascer no morro do Caiobá, 
destacado já, mas ainda pertencendo á serra dos Itatinis ; Guami- 
ranga, á direita, parecendo vir do mesmo morro ; e já na grande 
curva do Ribeira, chamada Enfadonho, o Caeté-mirim, á es- 
querda. Esta volta do Enfadonho é evitada pelos viajantes, no 
tempo das chuvas, passando por um furado. Temos ainda o lo- 
gar Esteirinho e á esquerda o ribeirão Jupuvura, que vem do 
morro do mesmo nome; e, mais abaixo, do mesmo lado, o Rio- 
sinho, ribeirão com affluentes, e á direita o rio Momuna, muito 
lodoso, navegável por canoa durante oito horas, apezar da^i ilhas 
de capim que nelle se formam até onde chega a maré. O Mo- 
muna nasce perto do Sabauma, a uma légua mais ou menos do 
porto deste nome no mar de Iguape, divisa deste munieipio 
com o de Cananêa. 

Depois passámos pela foz do Paricó, á esquerda ; pelo sitio 
do Arapongal, Campo Largo, Morretes, onde ha grandes pastos e 
um furado que encurta a chegada ao Pastinho e logo abaixo se 
encontra a grande curva do Satyro, o navegável ribeirão do Ruivo 
e a bocca do Vallo Grande, que segue para a cidade de Iguape. 

Continuando, porém, a descer o Ribeira até á sua barra 
natural no oceano, encontrámos o Piroupava, rio importante, que 
vamos subir na direcção da serra do Pouso Alto, onde elle tem 
suas nascentes. Além de outros pequenos affluentes, conta este 
rio os seguintes: o Capivary, pela direita, que nasce no morro 
Caiobá, de cuja lagoa sae também o ribeirão do mesmo nome, 
que desagua no Brejaytuba, tendo aquelle Capivary muitos mo- 
radores e sendo navegável uma hora, talvez metade do seu curso ; 
pela esquerda, o Tucum, que na^ce no morro das Áreas e é na- 
vegável umas dua^* horas, até o bairro de^te nome ; e pela di- 
reita, os ribeirões Vermelho, agua regular que vem de uma lagoa; 
Umboacica, em condições idênticas ; e o rio Guaviruúva, cuja 
foz pode ser considerada o limite da navegação regular do Pi- 
roupava, visto como este rio, dahi para cima, fica sempre trans- 
formado num immenso capinzal fluctuante. 

Por seu turno, o Guaviruúva é navegável e habitado, tem 
alguns affluentes, de entre os quaes nos lembra o Bigoá pela 
direita, que tem um affluente, o Braço. Ha ura ponto em que 



— 147 — 

o Guayiruúva, que nasce no Serrote, passa a menos de cem me- 
tros do sitio Cabral, no rio Ribeira, como já tivemos oceasião 
de dizer, tanto assim que, em certas épocas, os moradores do 
grande rio vêm ao Piroupava e os deste vão áquelle, e já, em 
tempo, se cugitou de regularisar esta communicação, o q;|ie não 
foi levado a eííeito por haver receio' de que toda a agua do Ri- 
beira SB encaminhasse para o Piroupava. 

Voltando á foz do Guaviruúva e continuando a subir o Pi- 
roupava, encontrámos, pela esquerda, o ribeirão Itupamirim e o 
rio Preto, sendo que este tem um afíluente -pela direita, o ri- 
beirão do Coveiro; mais acima, também pela esquerda, ainda o 
Piroupava recebe o rio Branco, importante, com muitos mora- 
dores e que também tem aíHuentes, sendo um delles pela direita, 
o Braço do rio Branco. E' navegável cerca de cinco horas. 
Daqui para cima nada mais sabemos, mas parece-nos que bem 
perto estão já as nascentes. 

Tornando á foz do Piroupava, no rio Ribeira, e descendo 
mais este ultimo, até á ilha dos Papagaios, vemos defronte a foz 
do rio Una d'Aldea, de agua muito escura, em que falíamos já, 
mas que não descrevemos como elle merece, e, por isso, vamos 
consagrar-lhe ainda algum espaço. 

V 

O rio Una d'Aldôa constitúe importante bacia fluvial, que 
descreveremos superficialmente. E' elle uma das grandes artérias 
do municipio, navegável por vapores, faixa outr'ora bem agricul- 
tada. E' seu primeiro aífluente o rio Pequeno, pela direita, que 
nasce no morro das Arêas (contra vertentes do Tucum, aífluente do 
Piranjava) c permitte a navegação dos vapores durante quatro 
horas. 

Acima da foz do rio Pequeno encontramos, pela direita, o 
rio Sapotanduba, ou talvez melhor Itapisantuba, onde ha por- 
phyro purpúreo com feldspatho e que tem diversos affluentes, 
de entre os quaes destacamos o Miqueiro, pela esquerda, e o 
Saputá, pela direita, muito rico sob o ponto de vista mineraló- 
gico, pois é fácil colher alli boas amostras de ferro hydratado 
e outros mineraes preciosos. Aquelle Miqueiro tem um afíluente, 
o Joca. Ainda acima do rio Itapisantuba, vem pela direita o 
Itimirim, grande rio navegável por canoas e onde parece já ha- 
ver sido explorado cobre e que tem pelo menos dois affluentes, 
sendo um delles o Preto e o outro talvez denominado Cayubi, 
nascendo o primeiro na serra do Pouzo Alto e affluindo pela di- 
reita. O Itimirim nasce na serra dos Itatins, o que concorre 
para dar maior valor á supposição de que esta inexplorada e 
attrahente serra contenha aquelle metal, cuja exploração foi re- 
querida em 1891, mas nunca iniciada pelos concessionários. 
Acima do Itapisantuba vem, pela esquerda, o ribeirão da Aldêa 



— 148 — 

Quasi pode dizer-se que o Una d'Aldêa é formado pela con- 
fluência dos rios Itimirim e das Pedras, porque no log-ar onde 
estes confluem forma se uma ampla bacia á qual aftlue o Cam- 
bixo. Cremos que quando fôr estudado o curso destas aguas, 
assim ficará comprehendido ; e nesse caso o Itimirim, acima des- 
cripto, *não afluiria pela difeita, mas sim seria o g:alho direito 
da forquilha e o rio das Pedras o seu galho esquerdo. Subin- 
do o Itimirim, encontramos os rios Preto e Branco, seus aífluentes 
pela esquerda ; subindo o ri» das Pedras encontramos, pela es- 
querda, o Guapihú, prolongado até ao rio Carvalho, affluente do 
Una do Prelado, e mais conhecido pelo nome de furado do- 
Carvalho; e pela direita, o Itingossú, que recebe, também pela 
direita, as aguas do rio Despraiado, que nasce na serra do rio da 
Peixe, fazendo contra vertentes com o rio de igual nome, e no seu 
longo curso, recebe aguas das serras dos Itatins, do Paulo, do Pica 
Fino e do Botucavaru, o que verificamos em parte pessoalmente. 

Effectivamente, o Despraiado, pouco abaixo de suas cabe- 
ceiras, recebe os ribeirões do Pico Fino, vindo da serra do 
mesmo nome, pela direita; e o Itaimbê Queimado, vindo do Bo- 
tucavaru, pela esquerda. A' bacia do Una d'Aldêa pertencem 
ainda outras aguas, cuja situação exacta não podemos indicar 
agora, e entre estas as de nomes Branco, Preto, Cerrado, Claro, 
Forquilha, Jaboticaba, Umbéva, Nhundiahy, Onça e Itajubá. 
Neste ultimo, que talvez afflua ao Una pela esquerda, foi desco- 
berto ouro em 1724. 

Já que fallam<iS no Botucavaru, não deixaremos de dar a 
seu respeito alguns esclarecimentos. Tantas versões que correra, 
umas impre$!sa8 e outras de geração para geração, é difíicilimo 
hoje afíirmar qaal o facto que serviu para dar ao Botucavam 
um renome tão grande, augmí^ntado constantemente pela supers- 
tição, que, aliás, é bem desenvolvida na zona. Não entraremos- 
em investigações philologicas, mesmo porqu*^ para isso nos falta 
competência; mas a traducção mosca a cavallOj tão combatida 
por alguns estudiosos da lingua indígena, é por nós acceita sem- 
reserva, visto que em uma das faces do morro, a que defronta 
em linha recta, ò morro mais elevado da serra do Pico Fino, 
mostra distincta e clara um cavallo; — capricho da natureza gra- 
vado no granito. Quanto á mosca, nunca a vimos, talvez por 
ser um insecto bem pequeno, . . 

Dissemos já ignorar o que deu causa a uma tão grande con- 
vicção popular de existência de riquezas naquelle morro, mas 
para isso deve ter concorrido muito a incerteza até do logar em 
que o morro se acha Expliquemos isto com melhor cuidado, 
visto que até agora ninguém quiz habilitar-se a fazei- o ou aquel 
les que o tentaram foram mais infelizes; antes, porém, trans- 
crevamos aqui uma publicação feita ha muitos annos pelo barão 
de Piratininga, porque a sua leitura disporá melhor o letior a 
comprehender e julgar os nossos argumentos. Eil-o: 



— 149 — 

«Nòs vastos e incultos sertões que se estendem como um 
mar de verdura entre a cidade de Iguape e as villas de Una e 
Piedade se ergue, áquem da serra da marinha, o celebre morro 
de Botucavarú, ao qual a tradicção de séculos attribue riquezas 
fabulosas. Regatos crystalinos serpenteam sobre palhetas de 
ouro e pedras diamantinas; lagos encantados em cuja superfície 
lisa e dormente surge ás vezes, aos últimos clarões do dia, uma 
nayade gentil, deslumbrante de belleza c(»mo as madon?is de 
Raphael, (u as virgens pallida-, melancholicas e celestiaes, que 
a mente ousada do poeta entrevê nos rozeos horisontes do futuro, 
atravez das sombras de ridentes s(>nhos de illusào que nos en- 
ganam, e tem miragens íascinadoras e doces, no sentir de Cha- 
teaubri.nnd. 

«Os cabelhs de ouro da formosa nayade pe desprendem sobre 
espáduas alabastrinas que lhe velam o seio puro e virgineo, re- 
flectindo con.d raios de nos-o sol inter-tropical nos diaphanos 
crystaes do grande lago. A' noite, os génios do deserto, tran- 
sformados em meteoros inflamraados, descem ao palácio de crystal 
para visitar a dama do lago ; e algumas vezes os seus gritos 
agudos como os dos phantasmas de Ossian, nas falias mysteriosas 
e incomprehensiveis, segiedadas por ^mtre nuvens alvacentas, 
confundem- se com o sibilar dos ventos da meia noite, e que 
vam a solidão augusta do deserto . . . 

«Pondo, porém, de lado essas e mil outras lendas romanes- 
cas e phantasticas, a existência da montanha aurífera do Botu- 
cavarú está na consciência de todos. Sabe-se que todo o o.uro 
empregado no douramento da egreja de MBoi foi trazido dali 
pelos indígenas que lhe sabiam o caminho. 

«Ha talvez 40 annos que o alferes João de Deus partiu de 
S. Roque á frente de numerosa caravana em direcção dessa mon- 
tanha, e no fim de 4 mezes, acabadas as suas pr< visões, e fati- 
gado de inúteis trabalhos, voltou sem ter podido chegar ao 
Botuca-vará, que pretendia ter avistado por vezes. 

«No archivo da câmara de Itapetininga e de outras villas 
antigas ha descrijoções do caminho de Botucavarú e de suas 
immensas riquezas, A essas descripçôes dão o nome de roteiro 
■e aranzel. 

«Em época recente encorporou- se em Sorocaba uma compa- 
nhia para a exploração do Botucavarú, e os sertanejos empregados 
nessa exploração nada conseguiram senão muita fadiga e grandes 
•despezas para a associação. 

«O hábil engenheiro dr. Porfírio de Lima, explorando por 
-ordem do governo a direcção de uma estrada que ligasse o sul 
da província com o porto de Iguape, pretende ter visto de longe 
o Botucaravú, em cujo cimo, auxiliado por um óculo de alcance, 
avistou duas pedras superpostas, sendo a debaixo com a confígu- 
ração de um cavallo, e a superior com a de uma mosca com 



— 150 — 

duas «^randes azas abertas, o que justifica o nome de Botucavani, 
que lia lingua guarany quer àizer— mosca a cacallo.-» 

Affirma-se aqui a existência da montanha aurífera, e a in- 
certeza da sua situação topograpliica, comquanto por vezes ella 
tenha sido avistada pelos que tão ardorosamente a procuravam. 
Parecerá que a transcripção daquelle escripto do barão de 
Piratininga r^ão está nos moldei do nosso estudo ; porém, assim 
não succede, como veremos. Após o desaparaciraento dos antigos 
mineiros e de seus descendentes immediatos, perdeu-se a noção 
exacta do Botucavarú, jamais explorado, mas conhecido ; e boje, 
si não fosse o indicio seguro do cavallo de granito não poderia 
descobrir- se. 

Posteriormente ás expedições descriptas, muitas outras têm 
sido organizados com o mesmo fim ; entre estas mencionaremos, 
de passagem, uma que partiu de Conceição de Itanhaen e cujo 
cbefe foi durante uma noite casualmente morto por uma anta 
perseguida por uma onça ; a de um tal Fagundes, do Despraia- 
do, ha talvez um anno ; a de dois norte-americanos ha pouco 
tempo ; e a de diversos moços mineiros, entre elles um pa- 
rente próximo do presidente eleito da. Republica, ha uns três 
annos . 

Quem é que tem partido de qualquer ponto, absolutamente 
certo do logar a que se destinava, isto é do ponto em que se 
encontra o Botucavarú? Ninguém. Temse escripto sobre o 
Botucavarú como pertencendo á cordilheira dos Itatins ; e real- 
mente, visto de longe, o parece; mas elle é, em verdade, um 
morro isolado, que poderá ser considerado um de seus contra- 
fortes. De longe só pôde avistar-se a serra dos Itatins, visto 
que o morro tem deante de si, para nordeste, serras altas, como 
seja a serra Carlos Botelho, que impediu que se aviste o Bo- 
tucavarú. Do lado do leste e do sul não é possivel avistal-o ; 
e do oeste, só já de muito perto. 

Julgando o Botucavarú na dita serra dos Itatins, e alguns 
até julgando-o o pico mais sito da mesma, todos se encaminha- 
vam na diiecção daquelle e por isso todos perderam o tempo. 
Para a destruição da lenda, como mesmo para a verificação 
scientifico-mineralogica do morro, deveriam outros fazer como 
nós fizemos : saher qual o morro em que se vê um cavallo : este 
morro, alto ou baixo, é o Botucavarú. 

Devido á sua collocação é difíieil avistal-o de longe: está 
perto de uma alta elevação dos Itatins, na direcção O. 261 S. 
e qualquer pequeno desvio o faz perder de vista, concorrendo 
para isso a Serra do Pico Fino, aquém, e a dos Itatins, além. 
Esta illusão é uma das causas prin árias do insuccesso dos ou- 
tros expedicionários. 

Vê-se, pois, que todos quantos tentaram chegar ao Botuca- 
vani pela encosta oriental da serra dos Itatins emprehenderam 
uma empresa árdua e problemática e dahi o seu insuccesso. O 



— 151 — 

melhor, o iiiiico camiiilio, é procurar nas cabeceiras do rio Des- 
praiado, aftluente de Una da Aldêa, o ribeirão Itambé — Quei- 
mado e siibil-o : este nasce justamente no Botucavarú. 

Quanto ás riquezas que dizem elle conter, nós oppomos 
as mais fortes duvidas : é certo que as suas rocbas granítica?, 
rigorosamente egaaes a outras que conhecemos com veias de 
quartzo aurífero, podem conter ouro, mas de lá não foi tirado 
ainda, porque no Itambê — Queimado não vimos vestígios de 
antiga mineração. O mesmo, porém, não succede nas cabecei- 
ras do Despraicdo, que fraldeia o Botucavarií, e que p: rece ter 
sido desviado pelos velhos pesquizadores de ouro : daqui é pos- 
sível ter í-aido o que foi empregado no douramento da egreja 
de MBoy, no que aliás não acreditamos, apezar da affirmativa 
que transcrevemos. 

Devido a um desarranjo do aneróide, não podemos affirmar 
a altitude do Botucavarú sobre o nivel do mar: a que verificámos 
foi de 1.115 metros; entreranto, -o que podemos affirmar é que 
tem 775 metros de elevação sobre o terreno. Tornando, porém, 
para este aquella altitude de 1116 metros, descrevemos a nossa 
ascensão: encontramos a cachoeira Conselheiro Amaral, no ri- 
beirão Itambé Queimado, a 420 metros; subimos depois até 480 
metros por uma picada de varação de canoa ; chegamos ao pri- 
meiro p/ateau, a 502 rn.; segundo plateaii, 5õ5 m.; primeiros ro- 
chedos, 585 m.; segundos rochedos, 608 ; fralda do terceiro 
plateo.n, 675 m ; quarto plateau, onde ha uma enorme pedra 
isolada, 682 m. Daqui descemos até 645 m. para logo subirmos 
até 822 m. e a um quinto p/aiÇea?/, a 905 metros. 

Até este ponto seguimos pela picada de caçador e descan- 
çamos junto de um rancho, onde almcçaraos, sob frio intenso: 
ás 11 horas da manhã o thermometro marcava lo° centímetros. 
Ha neste ponto um psidium no qual gravamos a lettra P. Con- 
tinuando a subir, fomos até 941 metros, mas já abrindo a pi- 
cada, por tratar-se de terreno jamais visitado: de 941 a 1115 
metros, subimos um rochedo, — ascensão perigosíssima, que não 
é aqui o logar de descrever. A' 1 hora da tarde, naquella al- 
titude, sob um céu sem nuvens e um bello dia de sol, a 28 de 
Maio, o theiínometro marcava 19° centigrados.. 

Quando chegamos a tão elevada altitude, ficamos dupla- 
mente surprehendidos: por nos vermos separados da cordilheira 
dos Itatins e por nos encontrarmos no meio de flora própria das 
baixas altitudes, da beira-mar ! De facto, da cordilheira sepa- 
ravamnos uns duzentos metros, mas que magnífica vista se nos 
deparava! De N. para S. a bellissima serra de Itatíns, capri- 
chosamente recortada como nenhuma outra; de E. parji, N. a 
serra Carlos Botelho. E entre uma e outra as grandes várzeas 
do Itimirim, ou melhor dizendo do Una da Aldôa, perpetuamente 
irrigadas, perpetuamente fecundadas. 



— 152 — 
VI 

Descemos rapidamente o rio Una d'Aldêa e varando o Vallo 
Grande, chegamos á cidade de Ig-uape que, como se sabe, está 
edificaria na ilha do rnesmo nome, occupando uma aréa de 70.(00 
(?) metros qundr^dos, retalhada em dezenove ruas, cinco praças 
e duas travessas, com oitocentos prédios, intercalados cora cen- 
tenas de outros já desmonorados ou que nunca cheiraram a ser 
concluidos, o que llie dá o aspecto de uma cidade morta, de uma 
cidade em ruinas* 

O nome indígena Iguape, ainda não foi sufficientemente ex- 
plicado por aquelles que se têm dedicado ao estudo da lingua 
dos aborigines* Cada um desses mestres decompõem os vocábu- 
los a s^^u bel-prazer ou mesmo de accôrdo com suas investiga- 
ções, dando-lhe- accepçÕes e significações diversíssimas e augmen- 
tando a confusão existente, de modo que nos parece inútil 
aprender uma liniiu?i que a isso se presta, por mais útil que a 
reconheçamos aos naturalistas. 

A cidade de Iguape, dizíamos, está assente ?obre uma ilha, com 
bellos morros graníticos dos qnaes descem excellentes aguas potá- 
veis, aproveitadas para abastecimento da cidade e para rodas hy- 
draulicas do» engenhos dn beneficiar arroz, situados na contracosta. 

Como em toda a zona e até como em todo o litoral do Es- 
tado, os iguapenses não souberam ou não quizeram substituir 
pelo braço livre os 440:000í!^000 de braços escravos que lhes 
foram tirados a 13 de Maio de 1888, e dahí data o segundo 
período de decadência de Iguape, decadência deplorável, que 
nos mostra sem movimento, sem vida, a sede de um município 
que, pela área, é um dos maiores do Estado, pelas yrrandes rique- 
zas naturaes que contém um dos que deviam mostrar maior 
prosperidade, além de que, yn-la sua situação geographíca, é o 
interposto commercial forçado para outros municípios ! 

Eis ao v^ue está reduzido um município três vezes secular, 
e que sempre dispôz de communícações com as demais terras do 
paiz, quer pela s- xta estrada Oyenhasen, quer por meio de na- 
vios de vela, alguns pertencentes á própria praça de Iguape, 
quer por meio de vapores que, mais ou menos regularmente e 
desde pelo menos quarenta annos, frequentam o seu porto, hoie 
estuário insalubre e lodoso, sal])icado de ilhas de graminaceas e 
cyperaceas, que são as elevações dos bancos alli fcrmados pelos 
despejos do vallo e que tornam a grande navegação capichosa 
como as curvas de um rio, coleada como a marcha de uma serpente ! 

Ao lado, a cidade, defronte, na ilha do Mar, o porto de 
Sernamby, revolvido pelos fabricantes de cal e pelos investiga- 
dores de sambaquíí^, porto sem exportação, no meio de um ter- 
reno, devastado na extensão de mais de uma légua pelos lenha- 
dores, que deixaram aqui e além um ou outro cocos acrocomioides, 
para prova de que aquelle deserto é obra da civílisação. 



— 153 — 

Seguindo para a barra, passamos ao lado do morro da Vigia 
e do monte Gejava, este ultimo o mais alto e o mais agudo dos 
que visinham Iguape e ambos, bem ccmo da Piíixão, batidos pelas 
aguas do mar, ao sul; de todos elles nos occuparemos mais tarde. 
Ao fundo» a barra do Icapára. tom os seus bancos e as suas 
lendas, á espera de que o governo mande fazer grandes estudos 
e t.abalbos para vêr si, effectivamente, el^a poderá dar sabida 
aos prodnctos desta magnifica e abençoada zona de Iguape... 

A barra de leapara é um eterno pesadello dos igua penses ; 
fecbada ba largos annos, condemnada por p^ofi^sionaes, continua 
ainda a cf-nsumir Ibes as energias e a incommodar os governos 
A única barra que ba de servir á zona para o commercio ex- 
terno e directo, será a de Cananéa, explendidamente situada e 
com um bom abrigo. A de leapara (34" 42' 7" lat. S. e 4° 18' 
24" long. O do meridiano do Rio de Janeiro) «é desabrigada 
inteiramente dos ventos que mais reinam naquellas paragens, o 
que faz com que o movimento das vagas combinada com o fluxo 
das marés a obstruam constantemente. » 

Os ventos que predominam sào E 3 E, NNW, N, SSE e E ; 
a cbuva em alguns annos nào tem cbegado a 1200 00 mm, ; 
geada não cae e o calor nunca é tanto que produza insolação. 

As principaes lavouras do município são o arroz e o café. 
Desta rubiacea ba, dizem, mais de 600 000 pés; quanto ao arroz, 
é mais positivo ver a estatística da exportação do que outras 
quasquer estatísticas... e sendo elle o principal género de pro- 
ducçào do municipio, vamos consagrar-lbe algumas ilhas. 

Esta graminea é, de certo, originaria da Ásia, que lhe deve 
a sua antiga civilisação. Na Europa foram os gregos que 
a conheceram primeiro e os árabes que primeiro cultivam. 

Parece que a cultura do arroz apresenta a singulari- 
dade de se haver sempre dirigido para o oeste : no século 
XIV era o principal alimento em Zanzibar, de onde pas- 
sou para Madao-ascnr. Desta grande ilha africana foram, em 
fins do século XVII, remettidas para as Carolina» as primeiras 
sementes que alli germinaram. Este facto, documentado por no- 
tável historiador, destroe a supposiçào de que as primeií^as se- 
mentes que entraram em Iguape vieram daquellas Ilhas da Ocea- 
nia, pois é, certo que havia em Iguape lavoura de arroz antes 
de a haver nas Carolinas Sendo a lavoura de arroz exercitada 
em Portugal desde o século XI, não vemos necessidade de ir 
buscar mais longe a origem do arroz de Iguape. 

Quanto á qualidade, o arroz igua pense é sobejamente co- 
nhecido e justamente reputado, mas a sua producção, mesmo 
quando as sementes não estavam degeneradas, nunca attingiu a 
lÕO^x^l, ao passo que em muitas paizes americanos é de 200 a 
300X1 e nas Philippinas chega a ser de 400X1- Entietanto, si 
a cultura fôr feita racional e scientificamente, e attendendo ao 
constante augmento de humidade causada pela vapor de agua 



— 154 — 

que se levanta do mar, não será diffieil elevar aqnella producção 
que tem descido lastimavelmente a 30^1 ! 

A população do município era, em 1872, de 16.005; em 1886, 
de 17 638; e em 1890, de 18.141, dos quaes 10.614 pertenciam 
ao districto da cidade e 1.030 viviam dentro desta. Ha pouco 
dèram-nos, porém, nma nota de 3.000 habitantes na cidade, a 
qual apresentamos com as necessárias reservas. 

Vê se, pois, que a natalidade não é crande, ou que então o 
é a mortalidade, o que não tivemos occasião de averiguar, mas 
que pomos em duvida, porque a verdade é que não obstante a 
profunda miséria do povo, a absoluta falta de byg-iene e de tra- 
tamento medico e os pântanos e lagoas existentes na parte baixa 
do território de Iguape, este pode ser considerado salubre. 

Vamos concluir. 

Dos vários ramos que nos foi dado abordar, ba um em que 
apenas ligeiramente tocamos— a fauna; reconhecemol-a estraor- 
dinaria, mas faltam nos em absoluto os conhecimentos necessá- 
rios para delia nos occuparraos. Outrotanto não succede com a 
liydrograpbia e a botânica, em que fomos bem extensos, e mesmo 
com a orograpbia e geologia, da qual se encontram neste estudo 
algumas informações talvf^s novas. A botânica, isto é, a ílora do 
município, seria ainda mais desenvolvida, se quizessemos aqui 
intercalar os nossos estudos especiaes, resultado de dois annos de 
labor e investigação, das plantas mais convenientes para o fa- 
brico dos ácidos vegetaes, designadamente o acido tannico e o 
acido acético ; das fibras textis ; das plantas tinctoriaes e aro- 
máticas e das que produzem cellulose abundante, incluindo-se 
neste numero arvores colossaes. 

Das plantas com applicações ^terapêuticas poderíamos tam- 
bém occupar nos desenvolvidamente, porque o município de Igua* 
pe produz desde a legitima Sacra vitce anchora ao elegante cipó 
que, associado a magnifica arvore, realisa o ideal dos neo-mal- 
thusíanistas, porque suavemente chama a menstruação retardada 
sem que as pacientes corram perigo ou soífram dores fortes ! 
Poderíamos ainda inserir a relação das quinhentas essências flo- 
restaes que realmente são encontradas, e então verificar-se-ia o 
quanto diíferem daquellas que o estudo theorico da botânica e 
mesmo a leitura das obras especiaes sobre a flora paulista, nos 
dizem que allí encontraremos. 

Finalmente, poderíamos juntar o diccionario geographico da 
zona, que confeccionamos sem divagações philologícas, apenas 
com o fito de indicar concisamente a situação exacta de legares 
é riachos geralmente ignorados na própria zona : porem; como 
o nosso gracioso contigente, no largo estudo que ora terminamos, 
não nos parece pequeno, deixaremos que outrem, cora mais ca- 
bedal scientífico e com mais tempo disponível, preste ao Estado 
de S. Paulo esse serviço. 

M. Pio Correia. 



índios do Itariry (*) 



Só ha poucos dias tivemos occasião de lêr no X volume, da 
Revista do Instituto Histórico e Geographico de 8. Paulo, cor- 
respondente ao anno findo, o trabalho alli inserto sob o titulo 
— Os primitivos aldeiamentos indigenas e Índios mansos de 
Itauhaen, firmado pelo sr. Benedicto Calixto, que de ha muito 
consagra a investigações históricas o tempo quie não emp^^^ega 
em enriquecer as bellas-artes nacionaes com o seu tão justa- 
mente apreciado pincel. 

Já pelo nome do auctor, já porque o trabalho se acha pu- 
blicado numa revista que contribúe com informações valiosas 
para o melhor conhecimento da historia e geographia de S. 
Paulo e do Brasil, e que ha de sempre ser consultada pelos 
futuros historiographos e geographos, prestamo-lhes toda atten- 
ção e com surpreza lemos o seguinte : 

«Os terrenos onde actualmente se acham aldeiados os índios 
mansos, estão afastados das terras de S. João Baptista pelo rio 
Castro. Esse aldeiamento é nas cabeceiras do rio Preto no lo- 
gar denominado Bananal e Tariruhú. 

«O outro aldeiamento de Índios mansos é no rio Itariry, 
affluente da Ribeira de Iguape, no municipio de Itanhaen, con- 
forme explicaremos no cap.tulo immediato». 

E no capitulo immediato explica : 

«A tribu indigena que habita o municipio de Itanhaen es- 
tá dividida hoje em dois pequenos aldeiamentos : um no rio 
Itaririj, nos sertões de Peruhybe, a dois dias de viagem desta 
povoação e o outro no Bananal, dois dias de viagem da villa 
de Itanhaen». E mais adiante, referindo-se ainda ao primeiro 
dos aldeiamentos supra mencionados escreve : 

«A outra fracção dessa tribu errante havia anteriormente 
emigrado para o littoral, indo formar o aldeiamento do Itariry, 
perto do rio Juquiá, no municipio de Itanhaen». 

Da leitura daquelles trechos resulta que o sr. Benedicto 
Calixto está convencido : 

a) que o rio Itariry é affluente do Ribeira. 

b) que o rio Itariry corre perto do rio Juquiá ; 



(*)• Publicado no Diário Popular de 8 de Junho de 1906. 



— 156 — 

c) que o rio Juquiá corre no município de Itanhaen bem como 

d) o rio Ribeira ; 

e) e finalmente, que o aldeiamento do Itariry se acha si- 
tuado em terras pertencentes ao município de Itanhaen. 

Pedimos licença ao auctor daquelle e»tudo, para rectificarmos 
os erros geograpliicos que nelle se contêm. E nào o fazemos para 
desgostar tào distincto e estudioso escriptor, mas como homenagem 
á verdade, que cada um de nós deceito procura e venera. 

Resumindo: 

l.** — O rio Itariry é confluente com o S. Lourencinho e os 
dois formam o importante rio S. Lourenço; este é afíluente do 
Juquiá; e o Juquiá, finalmente, é aífluente do Ribeira. O Ribeira 
está a oitenta kilometros mais ou menos do Itariry. 

2.° — O aldeiamento de índios do rio do r eixe (aífluente do 
Itariry), acha-se situado era terras do districto da Prainha, mu- 
nicípio de Iguape, a mais de vinte kilometros ew linha recta^ 
da divisa dos dois municípios. 

3.° — Nem o rio Juquiá, que nasce perto de Itapecerica, nem 
o Ribeira, que vem desde o Paraná atravessam terras de Itanhaen; 
e nem o mais ténue fio de agua nascido em terras de Itanhaeu 
verte })ara o rio Ribeira ou para qualquer de seus tributários. 

Cremos que o município de Itanhaen nunca pretendeu exer- 
cer jurídiscção nas terras do rio do Peixe, que aliás, tendo por 
origem os córregos Melania, Anna Justina e Flavia, na serra 
do mesmo nome, nem siquer tem por contravertentes f^guas que 
vão para a município de Itanhaen... O rio do Peixe faz con- 
travertentes com o rio Despraiado pertencente á grande bacia 
do Una da Aldeia, affluente do Ribeira. 

E si isto occorre com o rio do Peixe, vindo de uma serra 
cujas faces peitencem inteiramente ao municipio de Iguape, o que 
poderemos dizer do rio Itariry, para onde fazem fundos as terras 
do aldeiamento, quando a divisa é pm face ao ribeirão da Teagem, 
seu afíluente pela direita, pouco acima da fós do rio do Peixe? 
Reflicta-se apenas no seguinte: o Itariry é formado pela confluên- 
cia dos rio Azeite e Guanhanhan, e do ribeiro da Teagem até 
lá sào alguns kilometros; pois bem nem até allí, nem em todo o 
curso dos dois refiridos rios, cabeceiras do Itariry, o municipio de 
Itanhaen exerce jurisdicçâo alguma! 

Não ha a menor duvida que o aldeiamento de índios do Ita- 
riry se acha situado no centro do districto da Prainha, municipio 
de Iguape. E, francamente, bem desejaríamos conhecer as razões 
que induziram o sr. Benedícto Calixto a affirmar o contrario. 

Tal é a rectificação que ofí'erecemos, suppondo-nos a isso au- 
ctorizado pelo conhecimento pessoal dos terrenos aldeiados e dos 
índios nelles residentes, bem como dos cursos de agua aqui men- 
cionados. 

S. Paulo, 6—6—906. 

M. Pio Corrêa. 



PARECER 



A' Commissão nomeada para dar parecer sobre o trabalho 
do sr. Leôncio A. Gurgel e que se intitula — Genealogia do dr. 
Manuel Ferraz de Campos Salles, foi presente o referido estudo. 

N'elle o sr. Leôncio A. Gurgel relata a ascendência do il- 
lustre paulista e ex- presidente da Republica dos Estados Unidos 
do Brazil nào só referindo seus progenitores brazileiros até Fran- 
cisco de Arruda e Sá, natural da villa de Ribeira Grande, ilha 
de S. Miguel, e residente em S. Paulo desde 1654, e seus avo- 
engo"* europeus em Portugal, Itália e França até o terceiro chefe 
dos Francos Salios, anno 411, como ainda narrando succinta- 
mente em relação, a cada uma das relações lembradas os acon- 
tecimentos em que tomaram parte. 

A ascendência brazileira foi referida de accôrdo, saho pe- 
quenas modificações, com o que escreveu um dos membros da 
commissão nos volumes 4.° e 8." da Genealogia Paulistana, Pedro 
Taques em sua Nohiliarchia publicada peio Instituto Histórico 
Brazileiro e Azevedo Marques em seus Apontamentos, e a ascen- 
dência européa de conformidade com os Apontamentos Genealó- 
gicos do dr. L. P. Moretzohn de Castro e outras fontes indicadas 
na bibliographia com que auctor encerra o seu livro. 

A narraç.ão histórica pela qual é illustrada a referencia de 
cada uma das gerações, ou tem como garantia de seu acerto os 
escriptores mencionados na citada bibliographia, ou diz respeito 
a factos hodiernos e, neste caso, as luzes e probidades do auctor 
lhe servem de plintho. 

O livro com que o sr. Leôncio A. Gurgel acaba de brindar 
as letttras pátrias, é assim uma valiosa contribuição para o ramo 
de conhecimentos de que em S. Paulo foram cultores abalisados 
Pedro Taque*s de Almeida Paes Leme, o Padre mestre José de 
Mascarenhas, o Dr. João Mendes de Almeida, José Mendes de 
Almeida Prado e o dr. Ricardo Gumbleton Dauntre e o são na 
actualidade alguns outros. 

A commissão assim pensando depois de examinar o trabalho 
submettido a seu estudo, o julga diirno do apreço do Instituto. 

Sala das sessões do Instituto Histórico e Geographico de S. 
Paulo 5 de Junho de 1906. 

Luiz Gonzaga da Silva Leme. 

Alfredo de Toledo. 

Augusto de Siqueira Cardizo. 



Viagem ao interior do Brazil 

NOS ANNOS DE 1814 — 3815 

PELO NATUTALISTA 
TRADUZIDO PELO DR. ALBERTO LÕFGREN (1) 



INTEODUCÇÃO 

A intenção de conhecer o Brazil sob o ponto de vista da 
Historia Natural levou-rae em 1813, de S. Peteràburgo áquelle 
paiz, onde meu emprehendimento foi sempre coroado do melhor 
êxito, apezar da execução do meu projecto se tornar mais diffi- 
cil do que eu tinha previsto, obrigandome a modificar profun- 
damente as ideias que, segundo o testemunho de outros via- 
jantes, eu tinha formado. Os meus leitores, certamente, terão 
também de mudar varias vezes as suas opiniões preconcebidas. 

Ha, por exemplo, grande differença entre o littoral e o in- 
terior do Brazil, apezar de que, geralmente, se julga o paiz 
todo pelo littoral, que têm servido erradamente de padrão. Acre- 
ditava-se que em todo o Brazil deviam-se encontrar as mesmas 
rochas de gneiss homogéneas que acompanham o littoral e & 
mesma vegetação exuberante e virgem, com suas paizagens bel- 
lissimas ; mas, quem emprehender uma viagem ao Brazil com 
esta esperança, ver-se-á pouco agradavelmente surprehendido. 

Desde o tempo de Marcgraf o Brazil têm sido o objecto 
da attenção dos naturalistas e isto ainda quando .faltavam os 
meios de obter informações. Agora, j)orém, não existem, mais 
os impedimentos que, durante séculos, mantiveram fechado um 
paiz no qual o extrangeiro tanto podia apprender^ e neste mo- 
mento já por elle viajam alguns sábios cujo exclusivo escopo é 



(i; No S.o vola-ne desta Bevista de pag. 236 a 1252. foi publicado ura capitulo des- 
te manuscripto traduzido pelo nosso consócio Dr. A. Lofgrea luátituto <á vista do 
interesse do trabalho deliberou mandar tirar uma cópia do manuscripto que perten- 
cia á bibliotheca particular de 8. M. o Rei da tíuecia que gentilmente concedeu esse 
favor. Hoje publicamos na integra essa curiosa viagem que offerece muitos esclareci- 
mentos inéditos. N R. 



— 159 — 

o de enriquecer os seus conhecimentos. O sr. Wilhelm von 
Esehwege, tão conhecido como mineralogista e a quem devo 
as observações altimétricas, está ha annos estudando o reino 
mineral e fornecerá, certamente, interessantes dados sobre este 
ramo de sciencia. Assim também o sr. Sellon, discipulo de 
Willdenon e laborioso investigador, distinguir-so- á, sem duvida, 
no estudo da flora do Brazil. 

Não se pôde, pois, extraahar que eu mencione' apenas al- 
guns dos mais importantes objectos de historia natural por mim 
observados na viagem, tanto mais que já era esta minha inten- 
ção ao fazer a publicação destas poucas paginas. Sobre os 
pontos em que as minhas observações não são sufficientemente 
concludentes, mas sobre os quaes esperava completal-as, calo- 
me ou menciono apenas o facto, sem commentarios. Porém, em 
relação á escravidão ou ás tribus selvagens, julguei dever ser 
mais extenso, porque sobre a primeira fiz durante dois annos 
estudos que, sinto prazer em dizel-o, estão de accôrdo com os 
de Mendes (1), e sobre as ultimas espero que todas as observa- 
ções que fiz entre ellas possam ser de valor para o leitor, visto 
que não hesitei deante de fadigas, nem de perigos, para pro- 
curar estes autochtones brasileiros nas suas mattas e observal-os 
no seu estado natural. 

Como estou resolvido a continuar esta» minhas viagens 
pelo Brazil, dar-me-ão ellas occasião de publicar ainda outras 
observações sobre este importante paiz, se tiver a felicidade de 
ver que estas minhas investigações são recebidas com indulgên- 
cia, visto que as realizei nas mattas brcizileiras e com uma lit- 
teratura auxiliar extremamente exigua. 

Rio de Janeiro, Maio de 1815. 

O AUCTOR. 



(1) Lniz AntoDÍo Mendes, ifiMoria* Económicas da Academia dasScieacias de Lls]K>a 
1812, tom. IV. 



IIVDSCE 



CAPITULO I 

Viagem do Rio de Janeiro á villa Rica. 
Noticia sobre as lavras de ouro, sobre a exis- 
tência de ferro e do grés flexivel, etc. 

CAPITULO II 

Viagem de Villa Rica aos districtos dia- 
mantinos dos rios Abaete e Indaiá. 

CAPITULO m 

Viagem de Villa Rica ás aldêas de varias 
tribus selvagens. Descripção de seus costumes 
e modas. Amostras da linguagem, 

CAPITULO IV 

Descripção de outros habitantes do Brazil, 
da agricultura, etc. 

CAPITULO V 

Noticia sobre o trafico de escravos e des- 
cripção da escravidão no Brazil. 



CAPITULO I 

VIAGEM Á VILLA RICA. NOTICIA SOBRE AS LAVRAS DB OURO, SOBRE 
A EXISTÊNCIA DO FERRO E DO GRÉS FLEXÍVEL, ETC. 

Depois de uma demora de nove mezes deixei, no dia 29 de 
Junho de 1814, a nova capital, Rio de Janeiro, e tomei na 
praia dos Mineiros uma das barcas que mantém o trafego com 
o Porto da Estrella, ponto de deposito para tudo o que é desti- 
nado para Minas Geraes ou que de lá vem. Ao levantar-se o 
vento do mar, ao meio dia, desatracámOs e depois de uma hora 
de viagem, com vento fresco, a cidade, com suas numerosas 
torres, suas pequenas ilhas e innumeras embarcações de todos 
os paizes, desapareceu por detraz da ilha df» Governador. Ape- 
nas alpgra o viajante o espectáculo majestoso da barra, com 
seus navios entrando o Fahindo; mas isso também logo cessa, 
escondido por novas ilhas, emqiianto a barca sulca as turvas 
aguas do br«-joso rio Inhomirim, que serpeia por entre riban- 
ceiras baixas e lodosas, cobertas de arbustos e tabôa, e onde 
pequeninos mosquitos (Culex) molestam o viajante, que nem é 
protegido pela fumaça do fogo acceso na barca. 

O Porto da Eatrella é um logarejo miserável, com umas 
cincoenta casas, situada a hora e meia de viagem acima da barra 
do Inhomirim. Falta ahi todo o conforto para o viajante e, 
como raras vezes se chega antes da noite, preferi pernoitar no 
meio do caminho, na fazenda do ministro de Estado, sr. de 
Araújo, deixando a minha bagagem seguir para deante. No dia 
seguinte continuei a viagem em companhia do meu amigo Co- 
ronel de Souza, em cuja casa tinha pernoitado. Ainda não eram 
3 horas quando deixámos a fazenda, para seguir por um péssimo 
caminho que colleava por entre campos cultivados. A lua iUu- 
minava sufficientemente o trilho e os objectos á margem e de 
todos os lados chegavam-uos os gritos de animaes desconhecidos, 
dos brejos próximos sabia o silvo do jacaré (Lacerta Alligator, 
L.) (1), que chega a ter 15 pés de cumprimento, mas que não 
é perigoso para o homem. Ao despontar da aurora no horizonte 
cessaram as vozes dos animaes nocturnos; muitos pássaros alguns, 
com plumagem esplendida, appareceram então nas arvores vizi- 
nhas, emquanto outros, de cores mais modestas, saudavam com 
seus cantos o romper do dia. 



(1) AUigator sclerops Bchneid. 



— 162 — 

O reino vegetal imprime á paizagem um ciinlio especial 
tanto mais extranho quanto as formas dos vegetaes differem das 
das zonas boreaes. A maior diversidade é produzida pelas pal- 
meiras, bananeiras, fetos arborescentes, cipós e cactaceas. 

Três horas depois alcançámos, num valle, uma estreita lagoa, 
onde um único indio, que ha neste logar, nos deu passagem 
numa canoa. Nas margens desta lagoa floresciam muitas plantas 
desconhecidas para mim e sobre um galho uma espécie de Al- 
cedo (1) espreitava os peixes que nadavam debaixo delle. Che- 
gados a outra margem entrámos na freguezia de Inhomirim, que 
tira o seu nome do rio e onde passa a estrada para Minas Geraes 
que seguimos, por ser a única, até a raiz da serra da Estrella. 
Esta estrada está inundada durante quasi todo o anno e mesmo 
na estação secca é raro que as aguas delia se retirem completa- 
mente. Ao meio dia chegámos á Mandioca, situada na própria 
raiz da serra que devíamos subir e, apezar do grande calor, não 
quizemos adiar a viagem. 

Até o cume da serra da Estrella, que, pelas observações 
barometricas, tem cerca de o. 000 pés de altura, a estrada é ex- 
cellento, larga e bem calçada, porém bastante sinuosa, de forma 
que não tem menos de l^^gua e meia de extensão. Antes da 
construcção desta útil obra d'arte, perderam- se neste cantinho 
íngreme muitos animaes e homens. Nas beiras da estrada e na 
altitude de cerca de 2.000 pés, achei a Cyathea inodularis 
Willd (2), com 20 pés de altura. 

Do cume da serra da Estrella a vista é incomparável quan- 
do o tempo está claro. Deante de nós extendia-se a esplendida 
bahia, com suas innumeras ilhas, limitada ao sul por alta mon- 
tanha, em cuja base se enxerga a cidade do Rio de Janeiro. 
No fundo e por baixo de nossos pés os morros e valles verde- 
jantes embellezavam a paizagera. 

A primeira fazenda que se encontra na montanha é o Cór- 
rego Secco, que dista do alto da serra apenas meia légua. Um 
arroio insigniíic*ante passa perto e nelle os caçadores do logar 
costumam matar antas {Tapirus AmericanuSf Linn.). Ainda daas 
pequenas lavouras são atravessadas antes de se chegar á do padre 
Correia, que mora duas léguas distante do Carrego Secco. Os 
rochedos escarpados e os abysmos, que desviam a directriz da estra- 
da, as moitas espessas de cipós, que revestem as arvores, até as 
mais altas, de um manto verde, e os córregos encachoeirados com- 
municam á paizagem uma incomparável e selvagem belleza. 

Finalmente, ás 4 horas alcançámos a fazenda do padre, em 
cujas terras havia plantações de milho, alg:odão, marmelleiros, 
pecegueiros e macieiras. O solo e o clima são muito favoráveis 
a estas culturas e o padre, que annualmente manda cinco mi- 

(1) Martinho Pescador. 

(1) Provavelmente Cyolthea vestiia. Martms—Samamhaia-imú. 

A. T, 



— 163 — 

lliões de pecegcs pana o Rio de Janeiro, faz com isso um alto 
neí;ocio; mas nem assim aííhou elle imitadores. O café e as ba- 
nanas alii nào se dão bem, porque softrem muito com as gea- 
das do m<z de Junho. 

Um pássaro muito commum na raiz da serra da Estrella é 
o que os indigenas chamam Anú {Crotophaga ani, Linn.); é 
comido por elles porque a sua carne, aliás muito secca, tem fa- 
ma de ser um poderoso especifico contra a syphilis. 

Na manhan seguinte, 1.° de Julho, o meu companheiro des- 
pediu-se de mim e voltou: eu continuei a minha viagem para 
Sumidouro, uma fazenda que fica duas léguas distante da do 
padre Correia. Na sua maior parte o caminho acompanha o rio 
Piranha, cujas aguas, leves, deslizam entre barrancos altos e 
formam varias cachoeiras. 

No tempo das aguas, como aqui se chama a estação chu- 
vosa, a população apanha neste no muito peixe saboroso, que, 
como creio, sobem do rio Parahyba, no qual o rio Piranha des- 
embocca, umas dez léguas abaixo. A natureza estava ahi em re- 
pouso e por toda a parte a geada tinha produzido estragos ; até 
as folhas de muitas arvores indigenas, como a C terapia peltata 
(embaúba) estavam seccas e pretas. 

Com satisfação geral fui recebido no Sumidouro e ainda mais 
pelo bom Bernardo e sua familia quando lhe communiquei a 
minha resolução de esperar alii pelo meu companheiro Wilhelm 
von Eschwege. Eu já devia hospitalidade a essas boas pessoas 
e ainda uma vez deramme a mais bella prova desta virtude, 
porque, apezar de ter-me demorado alli durante um mez inteiro 
nada quizerara acceitar pelos mantimentos, lavagem de roupa 
etc. Em geral a hospitalidade é própria dos brazileiros ; porêra, 
nas estradas de rodagem, como a que conduz a Minas Geraes, 
não ha mais vestígio delia e o extrangeiro é muitas vezes su- 
jeito ás mais exhorbitantes exigências nos logares em que pousa. 
Para quem quizer evitar isto não ha outro meio sinão o de levar 
comsigo o trem de cosinha e, onde quizer pernoitar, mandar a 
sua gente preparar a carne secca e o feijão preto. Estes são os 
comestiveis quotidianos e, em vez de pão, usa-se no Brasil de 
farinha de mandioca (Jatropha Manihot) (1), excepto no planalto 
e em toda Minas Geraes, onde se usa da farinha de milho. Nas 
casas da roça despejam- se simplesmente alguns pratos de farinha 
sobre a mesa ou num balainho, donde cada um se serve com os 
dedos, arremessando, com um movimento rápido, a farinha na 
bocca, sem que a minima parcella caia para fora. 

A carne, secca ao ar e levemente salgada, vem especialmente 
do Rio Grande do Sul e, como o consumo é muito grande, con- 
stituo uma das mais importantes industrias daquella capitania. 

Talvez nenhum paiz do mundo dê ao homem tanta facilidade 
de sustento e conforto como o Brazil. Aqui o lavrador laborioso 

(\) Manihot u'ilissima. L\m. N. T- 



— 164 — 

não precisa esperar metade do anno para colher; nenhum aque- 
cimento, nem uma só das centenas de medidas de precaução que 
nós, no norte, empregamos contra o rigor do clima, sào neces- 
sários e mesmo assim o nosso homem do povo, em seu paiz 
desfavorável, vive melhor do que & brazileiro da mesma classe. 

As mulheres dos europeus ou de seus descendentes são 
assombrosamente férteis e não é raro verem-se mães com quinze 
até vinte e. quatro filhos. O meu hospede já tinha doze filhos 
adultos, os quaes, todos com suas famílias moravam nas terras, 
que, ha cerca de vinte annos, elle comprara por mil cruzados e 
tinham uma área de duas léguas quadradas. A simplicidade dos 
costumeá, a franqueza e obsequiosidade são as qualidades cara- 
cterísticas destes habitantes das montanhas. O velho Bernarda 
era o oráculo do bairro e o melhor herbaiiario ; por isso senti 
muito que a estação fosse tão desfavorável á vegetação e nesse 
tempo sem flores. Limitei-me, pois, á zoologia e, effectivamente, 
colleccionei em um mez, auxiliado pelos filhos do Bernardo, cerca 
de 900 mamiferos e pássaros e uma porção de insectos. A caça 
é alli muito abundante, apezar de serem muito perseguidos os 
veados as antas, os porcos do matto, etc, sem que se notasse,, 
segundo o testemunho dos habitantes, uma diminuição destes 
animaes. A carne dos papagaios, dos tucanos e até dos pica- 
páus come- se alli, como em Minas Geraes, mas não pode ser 
comparada com a do jacu [Penélope cumarensis e cristata, L.). 
Estes últimos pássaros, que os selvagens domesticam, como con- 
tarei mais tarãe, perfilham na prisão e devera ser uma excellente 
acquisição para a Europa. 

O meu hospede e fc.ua faroilia e os tropeiros que diariamente 
passam eram a minha única dis^tracçào neste paiz montanhoso» 
quando as tempestades não me permittiam fazer explorações. 

Todos os dias pa&savam 220 a 250 mulas que, em lotes, 
vinham de Minas Geraes, carregadas com toucinho, algodão^ 
queijos, café e assucar ; outras, vindas do porto de Estrella, car- 
regavam sal, ferro e mercadorias inglezas de toda a espécie. 

Sem as mulas este commercio seria impossivel, porque os. 
cavallos não resistiriam. A carga de cada animal constuma ser 
de 250 a 300 libras e é arrumada dos dois lados, sobre uma 
cangalha formada com capim. Com este peso o animal aguenta 
uma marcha de 5 a 8 horas. Nos pousos tiram-se-lhe as cangalhas, 
que são empilhadas nos muitos ranchos abertos que existem á 
beira da estrada, próximas das casas dos fazendeiros. Estes lu- 
cram com isso, porque os tropeiroi têm de comprar delles o mi- 
lho de que precisam. Os animaes são soltos em um pasto, si a 
chegada for cedo, porque á tarde elles voltam por si para comer 
o milho, que se lhes dá em um saquinho (1) adaptado ao pes- 
coço e no qual mergulham o focinho. Depois desta refeição, em, 

(l) Bornal. N. do T. 



— 165 — 

geral ás Ave-Marias, tornam a ir para o pasto, onde pa«sam a 
noite. Como estes pastos são ab-rtos por todos os lados, os tro- 
peiros no dia seguinte perdem muitas horas na procura dos ani- 
maes, que s»* escondem nas moutas ou voltam para o pouso an- 
terior, ás vezes léguas distante. Dahi resulta ficarem os viajantes 
parados durante dias; mas se nenhum incidente sobrevem, que 
atraze a viagem, continúa-se esta na manhan seguinte, depois de 
tratados os animaes. 

Estas viagens são sempre boas quando os animaes são man- 
sos ; porém, si entre elles houver alguns mais ou menos chucros, 
o tropeiro tem de tomar com elles muito cuidado, porque ás 
vezes disparam ; mas, como sempre correm para deante, são en- 
contrados outra vez e não ha prejuízo sinão no caso de haver 
na carga objectos frágeis. Por isso aconselho ao viajante, prin- 
cipalmente extrangeiro, que não viaja em animaes seus, que não 
se fie na afíirmação do tropeiro de que os animaes são mansos 
porque, na minha volta, perdi quasi toda a minha collecção de 
insectos por causa disso. 

O viajante no Brazil tem de luctar com tantas difficuldades 
occasionadas pela falta de estradas e de população e, em muitas 
logares, por causa dos selvagens, que não ha necessidade de 
accresceníar ainda as exaggeradas mentiras sobre animaes terozes 
e cobras venenosas ; de forma que quem quizer visitar o interior 
<3o paiz só deve occupar-se com aquellas, sobre as quaes darei 
algumas indicações. 

Para uma viagem pelo interior é indispensável ao viajante 
arranjar animaes que, si elle tiver a intenção de fazer collecção 
de historia natural, não devem ser menos de quatro, para os quaes 
é necessário escolher um bom tropeiro, que não somente saiba 
lidar bem com as bestas de cargas, do que tudo depende, como 
também que já tenha feito viagens. Além da bagagem indispen- 
sável, é preciso lembrar -se de ter sempre um animal de sobrecel- 
lente, porque, cbegando-se a,*^s logares desertos do interior, pre- 
cisa-se delle para carreijar as provisões comprada-^ na ultima 
povoação. Poivora, chumbo, boas espingardas, trem de cosinha, 
uma rede e as ferramentas necessárias para ferrar os animaes e 
concertar os arreios são objectos indispensáveis. Egualmente são 
muitos objectos que não podem ser encontrados no interior e 
que devem ser comprados na capital ou em outra povoação 
grande. Uma bôa espingarda de dous canos tem sempre grande 
valor, ainda que só sirva para intimidar os selvagens, que, vendo 
sahir dous tiros sem ter se carregado de novo, imaginam que se 
pode atirar sempre sem carregar, o que lhes causa grande medo 
« no começo, antes de eu ter captivado a sua confiança, muitas 
vezes foi-me útil. 

E' sempre melhor fazer viagens curtas, nunca de mais de 3 
a 4 léguas não somente para poupar os animaes, como para 
poder fazer mais observações, Seguindo este preceito ver-seá 



— 16G — 

o viajante obrigado a pernoitar algumas vezes ao relento, mas 
o proveito é maior. Quando se pousa fora das povoações é pre- 
ciso escolher nm pouso de bom pasto para os animaes. As car- 
o-as são empilhadas e cobertas com os mesmos couros de boi, 
que vcin amarrados por cima d ts cangalhas. De três paus uni- 
dos pelas pontas e fincados no chão, faz-se uma tripeça, em cujo 
centro dependura-se o caldeirão, com fogo por baixo, e a rede 
é atada a duas arvores. 8uppondo que pode haver chuva du- 
rante a noite, extende-se um couro de boi sobre uma corda por 
cima da rede, de modo a cahir de ambos os lados em forma de 
um teihado sobre a rede, que assim fica resguardada da chuva. 

Em geral conserva se uma fogueira accesa durante toda a 
noite, mais para aquecer do que para afastar animaes ferozes, 
visto que as noites são sempre frescas e até frias. Ao redor do 
fogo deiram-se o tropeiro e os criados. Sabendo-se com certeza 
que na vizinhança não ha selvagens nem negros fugidos, não é 
necessário fazer sentinella á noite, porque os roubos são extre- 
mamente raros no Brazil. Não ha duvida que é muito preferivel 
escolher uma fazenda para pouso, porque as noites, por causa 
das tempestades e trovoadas nas mattas, são ás vezes medonhas, 
como descreverei mais tarde. 

Uma outra difficuldade para os viajante está nos muitos 
rios, sem pontes, que cortam as estradas e «muitas vezes são 
fundos de mais para serem atravessados a váo. Assim perdem-se 
muitas vezes dias e dias em procurar um logar mais raso ou 
uma canoa, que, em regra, se acha na margem opposta, estan- 
do o dono ausente ou longo de mais para ouvir os gritos do 
viajante, e feliz será elle si alguém o vier tirar do embaraço, 
atravessando o rio a nado, no caso em que elle ou alguém da 
sua comitiva não se anime a fazel-o por medo ou por não 
saber nadar. 

O viajante deve emprehender a sua jornada nos mezes de 
Maio a Outubro e Novembro, que é o tempo secco, e fará me- 
lhor em deixav-se ficar parado durante o tempo das chuvas em 
algum logar onde possa trabalhar, do que viajar sem poder fa- 
zer observações . Além. disto, a maior parte dos rios estão cheios 
e não podem ser atravessados sinão com grandes perigos. 

Nestas montanhas e em toda Minas Geraes não se conhece 
outro meio de viajar a não ser com tropa, mesmo porque os 
terrenos impossibilitam as viagens em carro ; empregam se tam- 
bém cavalios para montaria e quasi todos os mineiros são bons 
cavalleiros . Até as senhoras, que montam frequentemente, tam- 
bém merecem este conceito. Elias montam como os homens, o 
que as obriga a usarem calças, sobre as quaes vestem uma larga 
saia de montar. 

A uma hora de viagem do Sumidouro e para o norte, ro- 
deadas de todos os lados de rochas altas e mattas, estão situa- 
•<ias as casas de dois irmãos que na maior harmonia habitam 



— . 167 — 

esta região, que parece ter sido outrora ponto de reunião dos 
Índios, porque encontram-se alli, alem de cacos de suas panellas, 
três grandes potes circulares de 40 pés do periplieria, cheias de 
ossos e, portanto, provando ter alli havido enterros communs, dos 
quaes, porém, nunca encontrei vestigios entre os índios que visitei. 

Apezar de estar espalhado por todo o Brazil o bicho do pé, 
{Palex penetrans), nunca o encontrei em tão grande quantidade 
como alli no alto da serra da Estrella, até ao rio Parahyba, 
Muitas vezes, affirma-se é este bicho, a causa de feridas e ul- 
ceras persistentes no pé, — razão por que vou descrê vel-o neste 
logar. O tamanho do bicho do pé, não é a quarta parte do de 
uma pulga vulgar, á qual elle ^e assemilha na côr, na forma e 
no saltar. Por sua natureza, que o leva a pôr seus ovos de- 
baixo da pelle do homem e dos animaes, torna-se elle muito 
incommodo. Para este fim prefere os logares por baixo das 
unhas dos dedos e na planta dos pés a todas as outras partes 
do corpo, apezar de ser encontrado também nos dedos das mãos 
e nos braços. Somente a fêmea é que entra na pelle, onde põe 
os seus ovos, que pouco a ]30uco vão augmentando de volume 
e, finalmente, revelam a sua presença pela comichão que cau- 
sam. Este é o momento próprio para abrir o logar com uma 
agulha e espremer es ovos, que são brancos e pesam de 400 a, 
500 vezes mais do que a mãe. Em geral não se encontra esta 
viva, mas ainda fixa ao sacco membranoso que parece ter side 
feito por ella e contem os seus filhos. O buraco resultante da 
operação enche-se, de ordinário com rapé ou com uma pomada 
qualquer. A extracção não causa a mínima dôr e é um erro 
suppôr que o bicho do pé penetra profundamente na carne. Em 
poucos dias está curada a íerida, quando conservada limpa ; 
porém uma demora prolongada ou pressa de mais na extracção 
do» ovos são, em geral, prejudiciaes. Uma vez tirei mais de 
vinte bichos do pé, de vários logares, sem que sofíress.e a míni- 
ma consequência. E' interessante a affirmação dos índios de 
nunca serem atacado.-* por elles. 

No dia 29 de Julho tive, finalmente, o prazer de ver o 
sr. von Eschwege, chegado do Rio, e no dia seguinte continuá- 
mos a viagem juntos, depois de ter eu expedido as minhas col- 
lecções para aquella cidade. No nosso caminho encontramos 
mais plantas do que esperávamos, porém pouco cultivo. Raras 
vezes alegra va-nos um passarinho com o seu canto e quando isso 
acontecia a sua plumagem éra insignificante. 

A fazenda maior que encontrámos foi a Zaholla (1) a cerca 
de duas léguas do Governo. Cebollas tem uma egreja e está 
situada á margem de um grande tanque, cujas aguas são utili- 
zadas para mover um moinho. Esta fazenda se destingue pela 
sua bella situação e, apezar das grandes montanhas lhe limíta- 



(l) Naturalmente CeioUas, iV. F, 



I 



— 168 — 

rem o horisonte por todos os lados, o grande tanque, um pouco 
de culturas e as boas edificações causam uma bja impressão. 

Em CeboUas encontrei uma « preguiça » com três dedos 
« Bradypus tridoctylus. L. \ que vagarosamente caminhava á 
beira d-4 estrada e, «p^zar de estar patente que se esforçava 
para fus-ir, pouco se adeanrava ; matei-a com umas pauladas na 
nuca. Às grandes folhas de Cecropia peltata (embaúba) servem 
de alimente a esta singular creatura, qu^^ não deixa esta arvore 
emquanto não tem devoraio todas as f. -lhas, depois do que y>õe a 
eabeça entre as pernas e deixa-se cahir. Quando agarra alguém 
com as auas fortes e cortantes unhas não o larga mais, sendo 
necessário cortar-lhe as pernas. Os portuguezes affirmam que, 
eomendo-se a carn*. da preg liça s^^b -eve a o somno, mis os ne- 
g-ro-; a quem dei a preguiça a comer ficaram accordados. Mata- 
se este animal sóraeate por causi da p^lle, que serve de manta 
para selins. Encontrando-se um animal deste numa arvore der- 
ruba-se esta e mata-se o bicho, atiral-o com com espingarda 
nada adeanta, poro(UPs ainda que se mate o animal, este se agarra 
á arvore e continua nessa posição, mesmo depois de morto, e é 
aeeessaáo de^-rubar a arvore para apinhal-o. Ha lugares onde 
a preguiça não existe, não obstante haver embaúba em quanti- 
dade, e em outros loirares ella é muito commum 

Ao logar denominado Gwerno, situado a 6 léguas do Sumi- 
d^0uro, che«j:ámos á tard-nha. A fazenda não é pequena, mas 
a hospedagem é pés^^ima : o proprietário e-tava descmtente com 
a licença que faculta ao extrangeiro a entrada no Brazil e fez- 
me sentir iss ), princip ilmente, em uma viagem anterior, na qual 
a mim e «o meu jovem e cançado companheiro foi negada até 
uma esteira para dormirmos Ní'ssa occasião deu-nos elle o peór 
quarto, ííobre cujo soalho tivemos de nos deitar, ao pé de um 
monte d^ milho e sem c-ia. Como a casa estava cheia de ratos, 
<|ae durante a noite tinham de passar sobre nós p tra chegar 
ao mdho, quasi não pudemos dormir ; agora recebeu-nos elle 
Tim pouco melhor, porém ficamos bem contentes qunndo deixamos 
a fazend.i a traz de nój*. 

Encruzilhada é outra fazenda, a três quartos de hora de 
viagem de Parahyba e a duas horas do Governo ; tira o seu 
nome de uma outra estrada que vem do Rio de Janeiro, rodeando 
a bahia, e ahi cruza com a que passa pela s^rra da Estrella. 
Com o tempo chuvoso esta outra estrada não é transitavel. 

A's 10 horas chegamos ao rio Parahyba, que. por causa da 
seeca, estava muito estreito, e ahi esperámos a chegada da tro- 
pa, em cuja companhia atravessámos o rio em uma balsa, alli 
estabelecida. Neste logar o Parahyba tem cerca de 150 passos 
de largur.i, mas, como todos os rios brazileiros, é de profundi- 
dade variável e cheio de cachoeiras, o que o torna innavega- 
vel. O rio alli está a 1590 pés acima do nivel do mar, no 
qual se lança depois de um curso de 30 léguas, motivo porque 



— 169 — 

a sua correnteza não pode ser ^rrande. Na sua margem es- 
querda ha um Resisto (registro) ou casa da guarda real para 
impedir o contrabando de oaro e diamantes. Os viajantes que 
seguem para Minas Geraes e alli devem passar as divisas da 
capitania, tem de mostrar os seus passaportes, o que, entretan- 
so, não nos demorou. Dahi continuámos a nossa viagem para a 
Farinha, uma pequena fazenda que dista duas léguas do Pa- 
rahyba. A região era agora ma^.s de>erta e inculta do que 
a quem do rio e a observação de que no Brazil ha falta de 
mãos laboriosas resaltava cada vez mais. A natureza compensa 
de ceito modo isto pela sua fí^rtilidade. O milho produz alli 250 
vezes mais e assim é relatisamente ao pouco que pertence à 
minguada lavoura, como feijão, mandioca, canna de assucar, al- 
godão e arroz. 

As onças estavam causando grandes estragos no gado da 
fazenda onde estávamos hospedados e lhe tinham matado até 
um burro, o que aliás raras vezes acontece porque estes carní- 
voros preferem, em geral, os veados, os porcos do matto e os 
bezerros. Ha quatro diíFe rentes espécies de felinos que no Bra- 
zil são, indistinctamente designados por onças : Félix pardalis, 
Félix discolor, Félix concolor e Félix onça (Linn ). Um via- 
jante moderno, o sr. Beyer, suecco, conta entre elles também o 
tigre real (Félix tigris). As mencionadas espécies de Félix são 
perigosas para o homem unicamente quando feridas ; e sei de 
casos em que o caçador pagou com a vida o tiro falho. 

A caçada passa-se do seguinte modo : Descoberto o rasto 
de uma onça, é ella procurada por cães ensinados para esse 
fim ; á vista dos cães a onça costuma trepar a uma arvore ou, o 
que raras vezes acontece, esconder-se atrás de um grosso tronco. 
Este caso é raro, mas custa, em regra, a vida a muitos cães, 
porque, quando o cão avança, ella o pega com as unhas, das 
quaes r^ras vezes escapa vivo, e o caçador perde assim os cães, 
um depois do outro, sem conseguir atiral-a. Mas, si ella sobe 
a uma arvore, tudo depende de acertar bem o tiro ; pois si o 
caçador o erra e está sem companheiro ou sem espingarda de 
dous canos, que ainda são muito raras no Brazil, a onça, salta 
em três pulos sobre o caçador, que então, está perdido ; e ha 
até exemplo do caçador de-astrado, que, apezar do companheiro, 
foi agarrado e despedaçado pela onça. Um caso bem triste deu-se 
na vizinhança do Sumidouro : Dous irmãos seguiram uma onça 
que, havia algum tempo, estava infestando o logar. Encontra- 
da a onça, o irmão mais moço teve a infelicidade de ferir o 
animal, antes do irmão mais velho ter tido tempo de atiral-o, 
por causa de uma moita esta precipitou-se sobre o caçador; o 
irmão matou-a, porém, já era tarde, pois a fera tinha cortado a 
garganta do infeliz, que morreu logo. A caçada da onça se 
faz, especialmente, por causa do couro, que é comprado a 10 
sehth (thaler allemão) ; mas como é perigosa, fazem-se armadi- 



— 170 — 

lhas com espingardas que, com os tiros, matam-na quando vem 
devonu- a carne usada como isca. 

Os porcos do matto são muitos preferidos pelas onças, que 
os esperam deitados sobre gallios baixos ; mas, como os porcos 
costumam vir em vara numerosa, a onça espera até que os úl- 
timos passem, e sobre estes se precipita. Não conheço caso al- 
gum em que a onça atacasse um liomem sem que estivesse fe- 
rida, e eu próprio tive occasião do certificar-me disso nos sertões 
de Abaete: Na sabida de um caminho do matto a minha ca- 
valgadura se espantou ; consegui, felizmente, leval-a para deante 
ao campo limpo, onde, a menos de 20 passos de mim appareceu 
uma onça tao grande como nunca vi. O meu animal se mostrava 
muito assustado, mas a onça voltou-se e desappareceu em uma 
restinga de matto. Mais tarde, onde eu tinha de pernoitar no 
matto, os seus urros me encommodaram muito, especialmente no 
tempo do cio, mas nunca ellas se approximaram, nem mesmo 
quando o fogo se apagava Os contos espantosos que os via- 
jantes, em geral, costumam publicar sobre estes animaes são 
invenções para embellezar as suas narrativas. 

Deixamos a Farinha, onde tinhamos sido bem tratados, no 
dia 1." de Agosto, ás 7 horas da manhan, e ás 11 horas chega- 
mos no rio Parahybuna, que, segundo as medições barometricas 
está a 900 metros acima do nivel do mar. O rio estava então 
bem estreito e não media mais de 100 passos de largura. Todos 
os viajantes e mercadorias, que vôm de Minas Geraes com des- 
tino ao Rio de Janeiro, são ahi bubmettidos a uma rigorosa 
inspecção, para o que existe neste logar um outro registro, com 
uma porção de empregados. São poucas as casas de Parahybuna 
além das da Coroa. Paga-se ahi também pela passagem do rio, 
cujo imposto foi estabelecido sob o pretexto de servir para a 
continuação, em linha recta, da bella estrada sobre a serra da 
Estrella. A verdade, porém, é que estão ])aradas as obras ha 
mais de dous annos e a importante receita do registro de Para- 
hybuna é empregada em outros misteres. Do rio tinhamos 
ainda dua^s hora'^ de viagem para chegarmos á Patrulha da Ro- 
cinha, que se acha distante duas léguas e onde resolvemos per- 
noitar. 

O caminho que até então tinhamos percorrido era pouco va- 
riado : as mattas impenetráveis, as montanhas escabrosas, os 
riachos encachoeirados, o que peorava ainda as estradas, já 
ruins ; poucos homens e animaes, — tudo isso tornava a viagem 
desagradável. De uma alta montanha, que nesse dia atravessamos, 
enxergamos mais uma vez as serras da E-trella e dos Orgaras, 
com outras montanhas mais próximas, por nós já atravessadas, numa 
distancia considerável de muitas léguas, onde a vista só divisava o 
sertão. Lembramoscom pezar que em tal extensão de terra fértil haja 
tanta falta de cultura e de gente e isto em um clima que é o me- 
lhor do mundo, quando no nosso desventurado paiz, jíor causa de 



— 171 — 

pedaços de terra que nào valem nem a centésima parte o ódio e a 
inimizade surgem entre os principes e os próprios povos. 

Estava ahi a chamada patrulha, composta de soldados e um 
commandante, que costuma ser capitão. O dever dessa patrulha 
montada é revistar todos os viajantes, o que também fazem com 
o maior rÍ2:or, visto receber dous terço« dos diamantes e do 
ouro em pó que confiscam. Não tem um posto certo, de forma 
que pode ser encontrada desde alli até o rio Parahyba. O com- 
mandante destes vigilantes era conhecido do meu companheiro 
e nos hospedou, tratando-nos com deferência, o que não pouco 
estimámos visto que, por causa de um encommodo do meu compa- 
nheiro, tivemos de falhar uns dias. 

Na volta encontrei outra vez a patrulha em farinha, onde 
prohibiram-me de continuar a viagem e procederam á uma rigo- 
rosa revista, contra a qual protestei porque os meus passaportes 
ordenavam que todos me deixassem passar. Mandei esse passa- 
porte ao novo commandante; porém, emquanto elle o despachava, 
não podia impedir que descarregassem as minhas espiugardas, 
que revistassem até á pelle o jovem indio que eu trazia commi- 
go e que me maltratassem. Tudo isto, porém, cessou quando 
o commandante o ordenou e polidamente pediu desculpas, con- 
vidando- me para a sua mesa, o que acceitei com tanto maior 
gosto, quanto nada podia obter do dono da casa pelos muitos 
hospedes que tinha então. 

Depois da refeição e para retribuir esta fineza e, especial- 
mente, para não deixar pairar mais duvida a meu respeito, por 
causa da rarissima excepção de não ter sido revistado, — o que 
devia ao obsequio do Ministro do Estado d'Araujo, mostrei as mi- 
nhas collecções, o que pareceu dar tão grande prazer a todos que 
no dia seguinte, separamo-nos do modo mais cordial possível. 

Por mais rigorosas que sejam estas resvistas, não ha duvida 
que muito contrabando de ouro e diamantes lesa a coroa. Os 
diamantes, apezar do maior perigo que oíferecera, são comtudo 
mais fáceis de passar porque são pequenos e sem difficuldade, 
escondidos onde não podem ser decobertos. Assim mesmo não 
faltam exemplos de ter-se descoberto contrabando de diamantes, 
Actualmente os contrabandistas usam de um meio facílimo de 
passar diamantes : utilizam-se de pequenas obras de arte de cera 
e de bordados fabricados pelas mulheres ociosas de Minas Ge- 
raes . Estes trabalhos, com diamantes escondidos em si, são collo- 
cados em uma caixa de vidro, bem fechada, que é mostrada ao 
encarregado de visitar, a quem se diz que são presentes para o 
rei ou algum grande da corte, resultando dahi que o respeito 
impede a profanação dos objectos. 

Na vizinhança da Patrulha vive um velho, habil caçador 
de onças, que, quando tem noticia de algum destes animaes nos 
arredores, vende o couro de antemão; em poucos dias entrega-o 
effectivamente e tem tanta certeza disso, que determina até o dia. 



— 172 — 

No dia 3 de Agosto despedirao-nos do amável dono da casa, 
continuando a viagem até a uma grande fazenda situada duas 
leo-uas distante, da qual uma parte é arrendada pela coroa para 
os empregados que levantam o imposto de transito sobre as 
mercadorias que passam para cima. Este imposto é elevado, 
mesmo sobre os artigos mais necessários á vida. Assim paga o 
mineiro — é este o nome dos habitantes de Minas Geraes — por 
arroba, — a arroba tem 32 libras — 1$125 e por sacca de sal 8(X) 
réis. Cada escravo, quando levado para cima, paga alli novo 
imposto real na importância de 7$000; porem não é marcado de 
novo. Os viajantes, que trazem cartas fechadas, têm de deixal-as 
alli e pagar o porte, e, egualmente, são obrigados, sob pena de 
confiscação, a dar a relação de todas as barras de ouro que 
passam para a capital, onde devem immediatamente ser levadas 
á casa da moeda. As piastras hfspanholas, que em Minas Geraes 
valem 960 réis, perdem nas outras capitanias 160 réis, pelo que 
não se deve esquecer de trocai- as neste logar, assim como a 
moeda-papel de Minas Geraes, que não tem valor em outro lo- 
gar. Os passaportes devem também ser mostrados ; porém não ha 
revista pessoal na volta, excepto si a patrulha, por acaso, se 
achar alli. 

A' uma hora depois do meio dia atravessámos uma montanha 
bastante alta, em cujo cimo, de ambos os lados do caminho, havia 
uma porção de cruzes fincadas no chão. Observámos que todas as 
pessoas que encontrávamos trazia na mão cruzes eguaes para fin- 
carem na terra ; provavelmente queriam com isso obter que algum 
santo os protegesse na montanha. Nesse dia tivemos por varias 
vezes o Parahyba ao lado e ás o horas chegámos a um logar bem 
selvagem, onde o rio forma uma cachoeira ; porém a zona era já 
mais baixa e encontrámos algumas planícies. A's 4 horas alcançá- 
mos a fazenda Juiz de Fora, 6 léguas distante da Patrulha, onde 
tínhamos pousada. Essa fazenda está situada em um logar aberto 
e bonito, onde o rio Parahybuna passa em um dos lados. A maior 
fazenda que nesse dia encotrámos foi a da Viuva, uma légua dis- 
tante de Mathias Barbosa. 

De Juiz de Póra até Chapéo de Uvas são seis léguas e no dia 
seguinte chegámos a esta grande fazenda. O caminho era ainda 
egual, mas os habitantes brancos eram mais raros, ao passo que os 
mulatos e os negros tornavam- se mais numerosos. As mulheres 
brancas e as suas filhas moças quasi nunca eram vistas, de modo que 
podia se acreditar que os fazendeiros só tivesí^em filhos com as ne- 
gras ; pí>rêm isso era consequência do costume da mãe-patria (Por- 
tugal), que prohibe expor aos olhos dos extranhos as esposas e as 
filhas o que, no interior do Brazil, é observado com todo o rigor. O 
ciúme é um verdadeiro característico nacional e conduz muitas ve- 
zes á pratica de assassinatos. O brazileiro poucas vezes se torna 
criminoso por furto ou roubo ; quasi sempre o motivo do crime é o 
ciúme, ofifensas, demandas e brigas no jogo. Uma vez irritado, ó 



-- 173 — 

difficil apazigual-o; mais cedo ou mais tarde ha vingança e, em 
regra, morte por emboscada. 

No mesmo dia encontrámos á beira do caminho uma cabana de 
palha, na qual morava um negro morphetico, que pedia esmola aos 
viandantes. Esta repugnante moléstia já cão é rara e parece au- 
gmentar-se, provavelmente em consequência do modo de vida ou 
talvez pelo immoderado uso da carne de porco, que em toda Minas 
Geraes é prato quotidiano. Tenho até encontrado gente que de- 
clara que toda outra carne é insalubre e se nutre exclusivamente 
com a de porco. A moléstia é infecciosa no Brazil e contaram-me 
o triste caso de que n'um logai muitos foram infeccionados por uma 
meretriz. Na vizinhança do Rio de Janeiro ha um eiceilente hos- 
pital para os morpheticos. 

No dia seguinte (5 de Agosto) continuámos a viagem, e pouca 
variedade encontrámos ; o caminho continuava ainda serra acima, 
serra abaixo, somente as altitudes eram menores do que no co- 
meço da viagem Por toda a parte a geada produzira estragos, 
mais nos valles do que nos altos, por causa da maior humidade 
naquelles do que nas montanhas. Sào 6 léguas do nosso pouso 
até Maritiqueira, situada num logar deserto, fechado por alta 
serrania. Perto desta fazenda, bem á beira do caminho, está 
uma alta cruz de madeira, testemunha de terrriveis assassinatos 
commettidos ha cerca de dez annos por um bando de salteadores. 
Naquelle tempo o caminho passava peU serra da Mantiqueira, 
uma serra visinha que o viajante, conhecedor daquella historia, 
não enxerga sem arrepios. AUi os assassinos esperavam as vi- 
etimas, que eram os individues que elles sabiam que traziam 
dinheiro. Depois de cercados e ama rados, eram elles levados 
para o mais denso da matta, perto de uma cova funda, onde 
eram lançados depois de assassinados e despojados. Os escravos 
seguiam os seus senhores e até os burros e os càes, providencia 
esta que facultava aos assassinos de continuar por longo tempo 
o seu nefando offico. Sumiam-se tropas inteirassem deixarem 
o menor vestígio. Felizmente adoeceu seriamente um dos fasci- 
noras, que confessou a um padre os assassinatos todos. E', po- 
rém, provável que elle nesta confissão não fosse bem verdadeiro 
no denunciar os .'•eus companheiros, porque somente dous foram 
encontrados, um paulista e um cigano, que foram enforcados 
no Rio de Janeiro. 

A grande casa da morada em Mantiqueira está deshabitada, 
mas as dependências estão occupadas por um bando de mulatos 
ferreiros. Foram elles que nesse dia nos hospedaram. 

A par de uma brutalidade extraordinária, tinham as mais 
accentuada physionomias de bandidos, pelo que instincti vãmente 
nos suggeriam a ideia de que eram legitimos descendentes dos 
assassinos cujas façanhas acabo de narrar. 

Tanto para sahir o mais de pressa da Mantiqueira, como 
para não soffrer outra vez do forte calor do dia, deliberamos 



— 174 — 

continuar a viagem ao raiar do dia, o que foi coramunicado aos 
tropeiros. Estes, porém, enganaram-se na hora, tomando o pri- 
meiro canto do gallo pelo segundo, de íbrma que quando nos 
accordaram, depois da meia uoite, já estavam promptos com os 
animaes e tivemos de seguir. A lua estava clara, mas o frio 
era tão intenso que de vez em quando era preciso apeiar, para 
nos aquecer, andando. O thermometro marcava 4 graus Reaumur 
(5 graus centigrados) a cima do zero. Logo, á sabida da matta 
está situada Batalha e, meia legoa adiante, a grande fazenda 
Porto do Campo, da qual fala Mawe. 

O dia já tinba começado e vimos o scenario mudado : morros 
chatos e mis, cobertos apenas por capim baixo e de arvores e 
arbustos atropheados, até perder de vista, formavam um con- 
traste notável com as densas matas virgens que ha pouco dei- 
xáramos. Que diriam aquelles que acreditam nas narrações dos 
viajantes anteriores, que só falam de mattas, de kirangeiras e 
regiões onde a caça de toda a espécie se atropella, e onde as 
mais extravagantes flores enchem a athmosphera com os seus 
aromas ? Que diriam, si lhes mostrassem o cam^ío ? A difíerença 
era agora ainda maior, porque a geada tinba crestado até as 
poucas plantas que habitam os morros e o capim estava todo 
secco. Somente nos valles, entre os morros, exergavam-se as 
copas das arvores reunidas ao redor de uma aguasinha e davam 
uma ideia de matta. Sabe-se de um extremo a outro; desde a 
Serra d'Estrella somente matta impenetrável, aqui morros calvos. 
Também são outros os animaes que aqui vivem E, como des- 
crevo agora a região, assim continua ella até a Villa R:ca, pelo 
que fico dispensando esta descripção para o futuro. 

Na entrada do campo a criação começa a ser a industria 
da população, e a monotonia do extenso planalto é interrompida 
por grupos de gado, cavallos, burros, cabras e poucos carneiros, 
pastando. Todos estes animaes, que são entregues a si mesmos 
nestas immensas pastagens, estavam extraordinariamente magros, 
por faltar-lhes alimento, o que não se dá no tempo das aguas, 
de Novembro a Abril. O maior resultado que se tira do gado 
provêm da fabricação de queijos, que podiam ser muito melho- 
res si houvesse maior cuidado no tratamento, o que Mawe tam- 
bém mostrou, ridicularizando tudo. O toucinho é outro artigo 
lucrativo que mandam para o Rio de Janeiro. Criações espe- 
ciaes de cavallos são raras, e a própria criação do gado é também 
insignificante. 

De Mantiqueira á Barbacena, um logar agradável, ha seis 
léguas. As casas são bonitas, e parece reinar alli certa abas- 
tança. Principalmente por causa do trafego do interior com o 
Rio de Janeiro, este logar lucra muito, porque em Barbacena 
reunem-se as muitas estradas em uma só que conduz á capital. 

Os objectos mais singulares que hoje prenderam a nossa 
attenção, foram os montículos cónicos de barro que havia ao 



— 175 — 

laío da entrada e que são feitos por uma espécie de formiga 
{Termes aedificator mihi). Encontramos destes montículos, que 
raras vezes passam de 2 1/2 a três pés de diâmetro, alguns 
com uma altura de 12 pés. São interesRantes também por causa 
do emprego que o homem inventivo lhes dá. Praticam nelles, 
a qualquer altura, um buraco e obtcm assim um forno duradouro, 
cujos habitantes, gerahuente, por occasião do primeiro fogo são 
victimas da sua industria; acontece, porem, que as formigas 
(cupim), ás vezes, continuam o seu trabalho paia baixo. 

Em Barbacena cobra-se caro ao viajante, o que é difficil 
evitar-se, porque quando, na minha volta, nesta intenção per- 
noitei numa pequena casa de pa>to fora da cidade, verifiquei 
que tinham triplicado a minha conta. 

A's 6 horas da manhã (7 de Agosto) continuámos o cami- 
nho atravéz do campo e, depois de 5 horas e meia, chegámos á 
Gramma, o mesmo lugar onde o inglez Mawe pretendia ter encon- 
trado o ideal da belleza feminina nas filhas do dono da casa. 
O pai das bellas tinha morrido e el]a=!, com a viuva estavam 
agora no goso de liberdade que, como já tenho mencionado, 
não é vulgar no Brazil. Vimol-as e lhes falíamos, mas achá- 
mos que as ideias inglezas, relativamente á belleza, não corres- 
pondem ás allemãs. 

A industria principal dos habitantes, entre este logar e 
Barbacexa., é a pastoril; o terreno não é aurifero e por isso os 
homens são mais felizes. A mania do procurar ouro aqui não 
arruinou ninguém 

líontem, até alta noite, tinham dançado e feito barulho por 
cima do nosso quarto, de que resultou que nós, sem termos 
dormido nem almoçado, tivemos de continuar a nossa jornada 
assim mesmo porque ás 7 horas estavam todos ainda dormindo. 
A's 2 horas da tarde, alcançámos na Bandzirinha que deve 
estar a 6 léguas de Gramma, Dahi continuámos no dia seguinte, 
mas, como tomamos um atalho para Congonhas do Campo, 
separámo-nos da bagagem que foi mandada para Villa Rica* 

Antes de Congonhas do Campo chegámos á egreja de Nosso 
Senhor de Matozinhos, que dizem ffizer milagres admiráveis e a 
quem todos os portuguezes de Minas trazem as suas promessas 
em productos tristíssimos. Diante da entrada para esta egreja, 
que se acha num morro, estão os doze apóstolos em tamanho 
natural. 

Logo em seguida alcançamos a margem do Rio Parahyba 
que passa perto de Congonhas e que avistamos do outro lado. 
O rio é aqui pequeno e a agua tem uma côr amarella, o que 
fazia suppor que tinha chovido rio acima, mas esta côr lhe vem 
das lavras de ouro, nas quaes enxergamos vários escravos occupa- 
dos na margem do rio. 

Continuamos ao longo da margem do Parahyba, onde os 
montes de pedras lavadas (cascalho trad.) e os morros trabalhados 



— 176 — 

por toda a parte nos mostravam que aqui houve grande actividade 
na procura do ouro. Somente ás 5 horas da tarde chegamos á 
fabrica de ferro que fica apenas a uma légua de distancia de 
Congonhas, Esta fabrica fornece semanalmente 50 arrobas de 
ferro regular e foi organizada pelo sr. W. voii Eschwege e dois 
outros allemães por conta de uma sociedade. 

A existência de ferro no Brasil é tào importante que não 
posso deixar de estender-me um pouco sobre isso. Em Minas 
Geraes e, principalmente, na Capitania de S. Paulo ha serras 
inteiras e cadeias de montanhas de ferro oligoghisto, magnético 
e especular, de forma que o Brazil pode, não sórr.ente supprir-se 
de todo o ferro de que precisa, como também, segundo o meu 
amigo sr. von Eschwege, fornecel-o a todas as nações quando no 
velho mundo as minas já estiverem exgottadas. Hoje, porém, 
ha pouca probabilidade de poder o ferro ser um artigo de ex- 
portação brasileira e, apezar de não ter faltado animação por 
parte do governo, a escolha dos meios não tem sido muito feliz. 
Assim, por exemplo, um estabelecimento em S. Paulo, para o 
qual se mandaram vir operários suecos e um director, com ex- 
traordinárias despesas, acabou por causa de intrigas do director. 
Uma outra fabrica organizada pelo conhecido Camará, em Serro 
Frio, tem feit<» poucos progressos em seis annos por ter fal- 
tado a Camará bons operários. Por isso a fabrica de Congonhas 
é agora a única e como 50 arrobas não são sufficientes os povos 
do norte da Europa terão ainda occasiào à^ trocar o seu ferro 
pelo ouro brasileiro. Mas ha também muitas forjas onde o ferro 
é fundido em fornos pequenos. Si, porém, é exacto o que diz 
von Eschwege, que, foram os escravos que ensinaram os processos, 
não me foi possível verificar. Uma das difficuldades da minera- 
ção do ferro no Brasil consiste em que nos Jogares onde appa- 
rece o minereo costuma não haver mattas. Mas si ao contrario, 
Beyer aífirma que as madeiras brasileiras não se prestam para 
fazer carvão, elle engana- se, somente é inevitf^vel que entre tantas 
differentes madeiras usadas ao mesmo tempo, algumas hajam 
que contribuem para que o fe:ro brasileiro seja de dureza tão 
desigual. Na fabrica de Congonhas havia 50 escravos que tra- 
balhavam, sem que um só fosse casado. 

Depois de termos continuado a nossa viagem no dia seguinte 
durante cinco horas, chegamos de novo á estrada de Villas Rica 
sem termos sido atacados pelos negros fugidos, dos quaes, mais 
tarde, fallarei detalhadamente. Ahi chegamos aos legares onde 
se procuravam topasios, sendo o mais afamado o Capão, cujo 
dono possúe as mais ricas minas desta gemma. Póde-se asseverar 
que annualmente aqui e na visinhança de Villa Rica, são 
achados para mais de 20.000 cruzados de topasio. O schisto 
chloritico, que os contêm é, em geral, totalmente decomposto, o 
que muito facilita o trabalho, visto que costumam ser encontra- 
dos em nodulas de pedra, crystal de rocha e areia branca fina 



— 777 — 

onde estão irregularmente distribuídos. De ordinário acham-se 
topázio crystallizado ou em pedaços de quinas vivas, raras vezes 
ligados ao crystai de rocha. Os topasios comrauns tem todos os 
matizes do amarello, raras vezes tem a côr do rubim e mais raros 
ainda são os verdes. Perto das 2 horas, alcançamos a fazenda 
Capão e como continuamos a viagem chegamos ás 7 horas da 
noite á Villa Rica. 

A Villa Rica, que hoje não merece mais esse nome, não 
impref^siona bem. Por cau?a de ser logar muito montanhoso, 
onde cada um edificava onde queria, é este logar o mais irre- 
gular possivel. As edificações são mal feitas, excepto o palá- 
cio e algumas egrejas, que se distinguem agradavelmente. Por 
toda a parte foram os morros explorados e immensas riquezas 
sahiram d'aqui e, antigamente, decerto, mereceu o logar o no- 
me de Villa Rica. A opera (theatro) começou outra vez a 
funccionar por impulso de Dom Manoel de Portugal e Castro, 
porém o edifício é pequeno, os actores são medíocres e todos 
mulatos, porque os brancos desdenham este meio de vida. An- 
tigamente era peior ainda, porque não se admittiam actrizes 
em scena e o actor, que um dia representava de galan, no dia 
seguinte representava de amante. Hoje, porém, ajuntou-se meia 
dúzia de mulheres de vida alegre que achavam ridiculo o cos- 
tume velho (.u que o venceram. 

A permanência em Villa Rica tem muito de desagradável 
para o extrangeiro. Nenhuma sociabilidade ahi se encontra e 
nenhum logar talvez haja onde «xista mais a calumnia do que 
aqui, apezar dos seus 10.000 habitantes. E' necessário conhe- 
cer bem os costumes exteri(»res da vida, da religião, etc, para 
viver bem com a população. Não se pode afastar da Villa sem 
se estar bem armado por causa dos negros fugidos, que prati- 
cam os seus assaltos até ao pé da villa, e as minhas excursões 
botânicas fiz sempre bem armado. 

Também aqui nota-se a grande falta de escolas para ap- 
prender a ler e escrever e a moral, constituindo isso um dos 
importantes obstáculos ao progresso do Brazil. 

Quando, na edade madura, comprehendermos que uma boa 
educação, não só da intelligenc-ia, mas também do coração, é a 
única que dá ao homem o seu verdadeiro valor, a sua completa 
felicidade e, quando considerarmos que a virtude vale mais do 
que todos os thetíouros do mundo, não admira que achemo-nos 
infinitamente mais felizes do que os habitantes destes montes 
e valles, cheios de ouro, mas obrigados, como estão, a deixar 
os seus filhos crescerem na ignorância. 

Talvez nenhum logar, haja no mundo onde se extraia mais 
ouro do que ao redor de Villa Rica, razão porque quero dizer 
aos meus leitores alguma cousa em relação a e:*te metal, ainda 
que não esteja de accôrdo com as idéas que já se fizeram a 
respeito. A enorme massa de ouro, que até hoje sahiu da ca- 



_- 178 — 

pitania de Minas Geraes, pôde, considerando também o que sa- 
hiu por contrabando, com alg:uma certeza ser avaliado em 
40.000 arrobas (1), porém, seria muito mais ainda si, na extracção, 
não se tivesse deixado de attender a todo e qualquer processo 
aperfeiçoado, contentando-se com o que ha de mais primitivo 

e sem arte. 

Em parte alguma erapregou-se até lioje macbinismos para 
economizar os braços ou augmentar a extracção. Ganância, fal- 
ta de conhecimentos technicos e medo de despesas são os mo- 
tivos destes processos. Antigamento o terreno devia ter sido 
mais rico, visto que o quinto que El-Rei agora recebe é apenas 
de 20 íirrobas, quando em 1753, com população menor, este 
quinto era de 118 arrobas. 

Quando pela primeira vez em Minas Geraes vi os rios tur- 
vados pelas lavras de ouro, eu phantasiava grandes estabeleci- 
mentos ; enorme, porém, foi a minha surpreza quando aqui e 
acolá mostraram-me dous negros nús, cujos instrumentos para 
esta importante operação consistiam em uma enxada, uma ga- 
mella redonda de madeira e uns pedaços de flanella A pri- 
meira servia para tirar a terra do leito do rio das barrancas, 
que, por meio da gamella era levada a uma espécie de calha, 
sobre a qual extendiam os pedaços de flanella, e nestes o ouro 
se prende depois de ter sido tratado com agua, que leva com- 
sigo a terra lavada. O ouro mais fino perde-Ae deste modo e, 
assim mesmo a calheita diária de um homem é de 24-40 x™ (2) 
Milhares de negros livres e mulatos arranjam em Minas Geraes 
a sua subsistência pela lavra de ouro nos rios e córregos. No 
centro da Villa Rica, no rio que a atravessa, vêm-se muitos 
occupados deste modo, porém o trabalho é penoso, porque os 
operários têm de permanecer na agua até o joelho e estão sem 
abrigo do sói ou da chuva. 

O único modo pelo qual transparece um pouco de intelli- 
gencia na extracção do ouro, é o seguinte: em differentes 
alturas do morro, e parallelos entre si abrem-se regos compridos, 
muitas vezes em beiras de caminho. Nestes regos correm as 
aguas da chuva e outras junto com as partículas de ouro, até 
os tanques collectores, depois de terem sido precipitadas sobre 
montículos de terra rica em ouro. Antes, porém, de chegar aos 
tanques collectores, passa a agua sobre uma grade que prende as 
pedras, ao passo que a agua, com as finas partículas mineraes, 
entra nos tanques, onde as mais peòadas vão ao fundo e a agua 
é conduzida para fora. O que ficou no fundo é levado de novo 
em calhas. Este methodo, que acabo de descrever, é muito 
remunerador e abaixa, em poucos annos, até montanhas altas ou 
muda a sua forma, sedimentando e aterrando, muitas vezes os 
lugares situados mais abaixo. 

(1) A arroba tem 15 kilos : 40.000 arrobas dâo 600 toneladas. 

^2) Provavelmente ãrachmas. (N. ão T.) 



— 179 — 

O ouro é encontrado em veeiros ou camadas, mas também 
em jçrandes extensões de rochas sedimentarias e em sedimentos 
dos rios. As covas feitas a procura do ouro, não merecem o 
nome de minas e somente mais tarde é possível que a capitania 
de Minas Geraes mereça o seu nome. 

Foi mais ou menos em 1692-95 que os paulistas, entrando 
em Minas para escravisar os selvagens, descobriram o ouro, de 
que resultou um progresso rápido da população mas também 
aagmentou a necessidade de ter escravos, que nas condições do 
Brasil representavam papel importante. Perto de um milhão 
destes infelizes foram de certo precisos para extrahir aquellas 
40.000 arrobas mencionadas. 

A existência do chamado grés elástico (1) no Brazil pertence 
as muitas maravilhas deste interessante paiz. Na capitania de 
Minas Geraes não são raras as rochas de grés e é alli que prin- 
cipalmente o tal grés apparece, apesar de ter sido encontrado 
também em outros lugares. Em Villa Rica estão estas rochas 
de grés, assentadas sobre schisto chloritico e contêm veeiros 
ricos de quartzo aurífero. Encontram-se camadas deste grés de 
todas as espessuras, e que acompanham as serras de leste a oeste 
com uma inclinação de 50-75** para o sul. O seu cimento é 
chloritico e a causa da sua elasticidade consiste na sua compo- 
sição de lamellas soltas entre os grão de areia. Esta elasti- 
cidade, porém, não é sempre igual em uma e mesma lage, como 
tive occasião de verificar nas pedreiras de Villa Rica. Geral- 
mente são as camadas superiores as mais elásticas, augmentando 
essa qualidade em proporção á decomposição. Alcançando, porém, 
um certo grau de decomposição, desagrega- se a pedra e torna-se 
areia fina e brilhante. Mas não é somente o ar e os agentes 
atmosphericos que influem sobre a maior ou menor elasticidade 
do grés brasileiro, porque vi nas pedreiras blocos grandes que 
em poucos dias perdiam interamente esta elasticidade, 

CAPITULO II 

VIAGEM DB VILLA RICA AOS DlSTRICTOS DIAMANTINOS DOS RIOS 

INDAIÁ E ABAETE 

A demora em Villa Rica tornou-se-me especialmente des- 
agradável, ainda mais porque os arredores são muito pobres de 
objectos de historia natural. Procurei, por isso, abreviar o mais 
possivel a minha estada, de modo que a 2 de Setembro pude 
sahir para o sertão de Abaete em companhia do sr. von 
Eschwege. O nosso caminho passava outra vez por Congonhas 
do Campo e tornou-se agora um pouco mais agradável porque 
aqui e acolá já havia flores e o capim já tinha recuperado o 



(1) E o itacolumito. N. da 



— 180 — 

seu vigor pela chuva que acabava com a grande secca. Para 
obter melhores vantagens para o gado, costumam os portuguezes. 
queimar o campo na epocha da secca. 

Várias ordens, que o meu companheiro tinha de dar numa 
das l-wras de ouro por elle organizada, nos fez demorar durante 
o dia 3, que aproveitei para uma excursão naturalista nos arre- 
dores e que foi bem compensada pela acquisição de várias 
plantas novas de animaes, pássaros e insectos havia, porém, 
pouco, e somente codornas havia em quantidade, e delias ma- 
támos muitas. Na cor, parece-se com a nossa, mas é maior e 
08 seus ovos são pardos e brilhantes. Em parte alguma achá- 
mos culturas neste dia, apenas um pouco de couve, mandioca e 
milho era tudo que cultivavam. 

No dia 4 continuámos a viagem, que fizemos por cima de 
uma montanha muito alta, cuja crosta era de minério de ferro. 
Karas vezes hoje encontrámos aqui e acolá uma habitação,, 
porém, em muit^^s lugares estavam fazendo roças, queimando as, 
arvores e derribando os arbustos; como a secca este anno tinha 
durado muito em quasi todo o Brazil, o fogo, em muitos lugares 
penetrou na matta, devastando-a em léguas inteiras. As ma- 
deiras brasileiras não ardem facilmente, o que é uma vantagem 
na lavoura barbara que tão prejudicial deve ser para as gera- 
ções futuras. Um terreno lavrado assim deve ser muito fértil,, 
porque o milho dá geralmente 300 a 400 por um; serve, porém, 
apenas um anno para depois descançar durante 5 a 10 annos, 
tornando-se então caapuêra, que torna a ser derrubada e quei- 
mada. A segunda colheita e as seguintes já não são mais tão 
abundante como a primeira, em roça de matta virgem. A's 4 
horas, mais ou menos, chegámos a Grotte {Grota?), uma fazenda 
importante a 5 léguas de Congonhas do Campo e onde delibe- 
rámos pernoitar. 

A hospitalidade dos brasileiros salientava-se cada vez mais 
ao passo que penetrávamos no interior e as despesas diminuiam 
dia por dia. Verifiquei então a verdade da phrase russa que 
«os povos civilizados são menos hospitaleiros do que os povos 
atrazados»- 

No dia segainte (5 de Setembro) continuámos para a Ponte 
de Almoreiras (?) e por muito tempo nos acompanhou o riacho 
Paraopeba, com as suas aguas turva* das lavras de ouro. A região 
não era de todo despovoada, mas a maior parte dos habitantes 
estavam deformados por immensos papos. Si os sábios tentaram 
explicar esta moléstia pelo uso de agua ferruginosa ou gelada 
e si isso foi verificado com relação a alguns povos eu'*opeus,. 
com certo viso de verdade, não o pode ser, porém, em relação 
ao Brazil onde não ha montanhas de neves eternas, nem durante 
um dia. O sr. Gustavo Beyer attribue esta moléstia ao cos- 
tume de carregar pesos na cabeça, porém neste caso deviam 
todos os escravos no Brazil ter papos, visto não conhecerem outro- 



— 181 — 

modo de carregar. E os brancos que nada carregam, donde 
terão elles estas excrescências ? 

A fazenda Ponte de Almoreiras está a 5 léguas de Grotte 
{Grota f), no cónego de Paiaopeba e num logar muito bonito. 
O nosso caminho, hontem e antebontem, atravessava uma matta 
baixa, porém hoje sahimos de novo no campo, onde encontrámos 
a mesma vegetação que em Coiigonhas. A' uma hora alcançamos 
a importante fazenda Bicas e de tarde Vargmha. O logar é 
bonito e offerece uma vista alegre, embellezada por algumas 
casas de campo. Como não poderiam estar felizes estes habi- 
tantes si elles somente o soubessem ! porém é em vão que a 
natureza lhes offerece os seus thesouros. Pela preguiça tor- 
nam- se os brazileiros sóbrios e sabem passar até com os meios 
os mais primitivos, ou substituir pelo mais fácil qualquer de 
suas necessidades. Assim é com o pão, que todos podiam ter 
pela facilidade da cultura dos cereaes nestas regiões, mas que 
quasi nunca se encontra apezar de nem haver necessidade de 
«construir os fornos que, como já mostrei, são construídos pelos 
cupins. Nem de cordas precisa esta gente, porque os diversos 
cipós as fornecem. Muitas das abelhas, que fabricam o mel de- 
licioso, nem ferrão tém para que o homem com mais facilidade 
possa utilisar-se desta producção? 

Neste logar pernoitámos em casa de um mulato que tinha 
uma loja, cheia de ociosos que empregavam o seu tem do no jogo 
de cartas e a tocar viola, emquamo (S escravos lhes preparavam 
as roças e o sustento. Uma grande desvantagem resulta, pois,' 
da escravidão e seria para desejar que nunca fosse introduzida 
no Brazil. Os mulatos augmentam cada dia e tomo a liberdade 
de exarar aqui algumas observações a respeito. 

Pesssôas defeituosas e fracas são, as mais das vezes, falsas, 
debconíiadas e vingativas e mais propensas a vicios do que o 
homem bem conformado. A razão disso está, segundo os me- 
lhores pedagogistas, no facto de que taes pessoas defeituosas, 
•desde a sua primeira infíincia, são o alvo das zombarias e até 
de desprezo e desta forma quasi que impellidas a tornarem-se 
más, sem culpa própria. Por isso devem os pães prestar attenção 
dobrada aos seus filhos que por infelicidade soffrem de algum 
defeito. O que foi dito é applicavel também aos mulatos. 

O vicio do orgulho razas vezes acompanha o verdadeiro 
mérito, é antes companheiro do tolo, e no Brazil faz muitas 
victimas. Uma das causas é a côr. Somente o branco julga- se 
superior, talvez pelo costume ridículo de pintar-se o diabo de preto. 
Como entre nós se zomba do defeituoso, aqui o mulato é o alvo 
das zombarias dos brancos, seus companheiros de brinquedos. 
'Ódio e vingança são, pois, os sentimentos que desde a infância 
lhe são incutidos e como os brancos o tratam, trata elle os pretos, 
de onde resulta o desejo de dominar que é característico dos 
mulatos. Aqui elle é servil, acolá, porém torna-se tyranno e 



— 182 — 

assim representca elle continuamente o papel de cameleão, collo- 
cando-se moralmente abaixo do negro. E' verdade que o mulato 
serve para tudo: Nas províncias é elle o comediante, porque o 
branco tem vergonha de o ser; elles são os intermediários em 
todas as orgias e são elles, finalmente, que se alugam aos co- 
vardes para assassinar o inimigo. Bravura, sangue- frio e grande 
capacidade distinguem os mulatos, mas, como estas qualidades 
não são unidas á mora], tornam-se perigosas para os outros. 
Também as mulatas são incluidas nesta apreciação e devem na- 
turalmente sel-o, visto que são tratadas como os seus irmãos. 

Na manban seguinte continuámos o nosso caminho, que ora 
atravessava campos, ora mattas baixas. Os pajoudos diminuiam 
cada vez mais e ás 3 horas chegámos á Lagoa, que dista 4 1/2 
legoas da Ponte de Almor eiras. Daqui até S. Joãoica (S. Joa- 
nica f) tínhamos 6 legoas para andar no dia seguinte. Por toda 
a parte encontrávamos mattas em fogo e num logar tivemos de 
atravessar as chamas. A nossa viagem de hoje foi a mesma 
que a de hontem. Mattas de arbustos, campo e casas destacadas 
e miseráveis se alternavam. Em parte nenhuma encontrámos 
abundância de pássaros ou de outros animaes. Chegámos hoje 
a um valle onde vimos centenas de montes de terra de cupins, 
variando de 6 a 12 pés de altura, porém é preciso muita phan- 
tasia para confundir taes montes, mesmo de longe, com uma 
aldeia, como outros viajantes costumam contar. 

S. Joãoica (?) é uma fazenda importante, com egreja, e 
pertence a dois celibatários que nos trataram regularmente bem, 
apezar de terem a fama de grandes sovinas. O logar é muito 
bonito e curioso por seus muitos cegos. O nosso hospede não 
tinha menos de 10 escravos sem vista. Em parte nenhuma te- 
nho encontrado tantos cegos como no Brazil, especialmente na 
capitania do Rio de Janeiro. 

Notável tamhem é a riqueza em prata que se encontra por 
toda a parte em Minas Geraes ; mesmo gente pobre tem geral- 
mente garfos e colheres deste metal. O costume de comer vários 
pratos com as. mãos e o habito de nunca andar sem faca, que é 
commum em Minas, talvez sejam a causa de haver, em geral, 
apenas colheres e garfos na mesa. Em casas de brazileiros nobres, 
porém, os convidados recebem também facas. Ha ainda alguns 
costumes que o extrangeiro nota no começo : um é o de apre- 
sentar agua para lavar as mãos depois das refeições, e o outro é 
o de mandar ao hospede um escravo com uma bacia com agua 
quente porá lavar os pés. O primeiro costume provém talvez 
do habito de comer com os , dedos e o outro de andar a pé e 
descalço e são conservados não obstante a abastança ter intro- 
duzido tanto a faca como o calçado. 

E' notável que encontrasse tão poucos insectos na minha 
viagem e acredito a causa ser o modo de lavrar o terreno por 
meio do fogo. E' natural que, onde, em grandes extensões, todo 



— 183 — 

o capim e todas as arvores etc, são queimados, também as larvas 
6 ovos de milhares de insectos fiquem destruidos. 

No dia 9, ás 10 horas mais ou menos, continuamos o ca- 
minho para Pompeu, que dista dahi umas 7 legoas ; a uma Ieg'oa 
de 8. Jocioica (V) começa o que chamam sertão, todavia encon- 
tramos ainda alí^umas habitações e o terreno não tinha maia 
aspecto de deserto do que aquelle por onde já passávamos ha dias, 
de maneira que desta forma póde-se chamar o Brazil todo de 
sertão. Certos indivíduos possuem aqui varias léguas quadradas 
de terras, de que elles mesmo tomaram posse, das que o governo 
lhes concedeu. Porem nisto houve grandes abusos porque cada 
um se esforçava para obter a maior porção possível, sem incom- 
modar-se com a falta de meios de cultivar ás terras todas. Mas 
como o governo tem estipulado que si o proprietário não culti- 
var as terras dentro do praso de 3 annos, voltam ellas para a 
coroa, elles cultivam um pouco de milho ou soltam uma meia 
dúzia de bois para revalidar a posse. 

O sitio onde estávamos não era muito saudável, apezar de 
ser tão accidentado como aquelles que tínhamos deixado, mas 
em muitos valles havia grandes tanques com agua estagnada, 
chamam a estes tanques — lagoas. Nesta occasião estavam quasi 
seccos, mas no tempo das chuvas tornam-se importantes e são 
então, certamente, a causa das maleitas que reinam naquella 
época. 

Nestas lagoas mora a cobra gigante que, segundo as des- 
cripções que me fizeram, parece ser a Boa constrictor, L. 
Dizem ter sido encontradas cobras destas, que chamam Sucuriú, 
de mais de 40 pés de comprimento. Costumam caçar estas cobras 
não somente por causa da pelle, que curtem para empregar como 
cobertas impermeáveis para canastras, alforges e mantas para 
cavallos, como também porque esta cobra devora as rezes que 
vêm beber no tanque. Este monstro nutre-se também de veados 
e outros animaes pequenos, porém, não achei um só exemplo de 
que ella tivesse atacado gente, nem de que tivesse engolido 
um boi inteiro. 

Nas margens e nadando na lagoa encontramos muitas aves 
aquáticas e pernaltas, entre as quaes se distinguia especialmente 
o jaburu {Mycteria americana, L.) O modo pelo qual estes pás- 
saros arranjam a sua nutrição, consistindo pela maior parte em 
peixes, merece ser contado. Numa das margens collocam-se os 
jaburus em linha, um ao pé do outro e assim marcham para 
dentro do tanque, deixando entre si o espaço justo para poderem 
bater com as azas ; desta forma alvoroçam os peixes que fogem 
para deante, até a outra margem, onde chegam ao raso -e são 
facilmente apanhados pelas aves. Além destes encontramos também 
a anhuma [Parra), garças (Ardéa), um pernalto ''talvez o Soco) 
(Podicejjs), e uma espécie de pato. Entre elles havia varias 
espécies novas. Também varias espécies européas lá estavam, 



— 184 — 

como, por exemplo : Scolapax média (Meyeri), Tringa variàbilis 
e Tringa Glareola, o que naturalmente não esperávamos, por 
quanto até entào bó tinha encontrado no Brazil uma única ave 
européa, a Alauda pratensis^ L. 

Por toda a parte no caminho os tatus ou armadillas tinham 
cavado buracos redondos que era necessário transpor com muita 
attenção e mais de vagar. Finalmente apanhámos um destes 
singulares animaes, que estava parado no caminho; era a espé- 
cie que Linnéu denominou unicinctus, mas que na realidade 
tem 10 cintas e que se distingue dos outros por não se enrolar. 
Até então pude reconhecer quatro espécies. A carne destes ani- 
maes come-se e é, com excepção do unicinctus, de bom sabor. 
Em geral se assa a carne sobre fogo e dentro da própria casca 
córnea, que assim serve de panella. Os brazileiros chamam a 
este bicho de tatu. 

Si as numerosas formigas do Brazil muitas vezes se tornam 
uma praga, ha aqui uma que os habitantes chamam Tanaschura 
(tanajura) e a que dei o nome de Formica edulis, porque serve 
de alimento á gente. Em Outubro estas formigas, que dese- 
nhei (fig. 8), têm azas e abandonam então os formigueiros velhos. 
Esta é a época em qne milhões são consumidos pelo homem 
e pelos pássaros. Torram-se com gordura os grossos abdómens 
das fêmeas, cheios de ovos, que segundo a opinião de todos é 
um verdadeiro petisco. O thorax com o cabeça e azas, joga-se 
fora. Cada uma das formigas fêmeas é a fundadora de um no- 
vo formigueiro e na volta encontramos por toda a parte estas 
formigas occupadas em cavar buracos redondos no chão, para 
tíscoí) derem a sua progenitura. 

Talvez nenhum paiz do mundo conte um tão grande nu- 
mero de espécies de formigas como o Brazil e ellas, de ha mui- 
to, teriam tomado conta de tudo, si a natureza não tivesse posto 
limites á sua demasiada propagação, creando outros animaes que 
se nutrem exclusivamente delias ou que, a par de outros ali- 
mentos, também as comem. Aos primeiros pertencem, especial- 
mente, os lamanduás, dos quaes ha três espécies no Brazil 
(myrmecophaga didactyla, m. jubata e m. tetradactyla, Linnéu). 
Estes são armados de grandes e fortes garras, principalmente 
nas pernas dianteiras, que lhes servem para abrir os formiguei- 
ros ; o couro grosso e os pellos sedosos os livram das mordedu- 
ras das formigas. Introduzem a sua lingua comprida no formi- 
gueiro e, recoihendoa com um movimento rápido, engolem cada 
vez milhões destes insectos. Muitas vezes encontrei no estô- 
mago do myrmecophaga jubata (Tamanduá bandeira) uma úni- 
ca refeição de mais de uma libra de formigas, de onde se pode 
calcular a porção immensa que estes animaes destroem anual- 
mente. Mrts tariibera o tatu (Dasypus Linnéu) e os muitos j92ca- 
páus, juntos com outros pássaros, auxiliam para impedir o gran- 
de augmento das formigas. Muitas tribus dos indígenas comem a 



— 185 — 

formiga mencionada e ó provável que os portuguezes apprendes- 
sem cora elles. O naturalista se vê, muitas vezes, roubado nos 
seus esforços de colleccionar, pelas formigas, varias espécies de 
Blatta (barata) e pela humidade.. 

Ficámos em Pompeu durante os dias 10 e 11 e fomos mui- 
to bem hospedados, porém, no dia 12 ainda nos fizeram ficar 
para tomarmos pwrte numa festa, para a qual mandou-se vir 
musica e comediantes de Pitangui, i. 8 léguas dalli. A proprie- 
tária de Pompeu queria festejar a sua reconciliação com o seu 
filho, que tinha casado contra a vontade delia, e ao mesmo tem- 
po dar-lhe uma prova de consideração. Seriamos então pouco 
cortezes si não tivéssemos satisfeito ao pedido de todos para 
ficarmos. O acaso contribuiu para embellezar a festa, porque o 
fogo de uma queimada tinha passado para os campos, de modo 
que á noite todo o hoiizonte estava em chammas e offerecia um 
espectáculo deslumbrante. Quando o vento mudava, afíastava-se 
6 voltava o fogo, mas, como as casas estavam todas isoladas, na- 
da tinhamos a receiar, somente 50 escravos tiveram ordem de 
ir com agua para a capella, onde o fogo podia chegar. Em 
todos os corações reinava a alegria e somente muito depois da 
meia noite separaram-se os convidados. 

Na manhã seguinte, seguimos viagem, depois de uma des- 
pedida cordial. O modo de despedir-se tem entre os brazileiros 
algura cousa de particular ; tanto ao despedir-se, como ao cum- 
primentar, os amigos e conhecidos abraçam-se. A's 4 horas da 
tarde chegámos ao rio 8. Francisco. Estava raso, por causa da 
prolongada secca, mas tinha mais ou menos 200 passos de lar- 
gura. E' este o único rio de Minas Geraes que é navegável por 
barcos maiores e canoas, apezar de que também aqui a profun- 
didade desigual, especialmente abaixo da grande cachoeira Paulo 
Affonso, embaraça muito as viagens. Este anno as febres tinham 
poupado os ribeirinhos, o que era um caso extraordinário A 
familia de pescadores, que dá passagem do rio no logar onde 
pernoitamos, contou com alegria que, este anno, ninguém tinha 
tido a febre. Attribúe-se esta moléstia á agua do rio e dos 
córregos durante o tempo das chuvas, em que a febre reina. A 
força transmissora da febre do rio S. Francisco, dizem ser tão 
grande que basta lavar-se com a sua agua naquelle tempo para 
cair doente. O meu companheiro de viagem, sr. von Eschwege, 
acredita ter observado que, especialmente nos rios em cujos 
leitos existem schistos argilosos, as febres são endémicas. Leva- 
se a bagagem comsigo na canoa, para atravessar o rio, que é 
bastante correntoso ; os cavallos seguem nadando ao lado. 

Os morros tornam-se agora mais suaves e a vista divisava 
unicamente logares deshabitados . Sem a menor variação che- 
gámos á 1 hora depois do meio dia a uma miserável cabana 
chamada Alage {a Lage), que dista 5 legoas do rio S. Francisco. 
Pela maior parte são os habitantes do sertão, criminosos que 



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fuo-iram da justiça e se localizaram aqui, ou são descendentes 
de criminosos. As suas habitações, como a» suas terras, estão 
no estado mais miserável e muito poucos procuram tornar a vida 
mais ao^radavel pela diligencia e pelo trabalho. O milho é quasi 
o único género que elles plantam. Assim mesmo, viaja-se com 
toda segurança no meio delles e os furtos são desconhecidos. 
Deram-nos para pernoitar um grande gallinheiro, no qual en- 
trámos por não haver outro logar ; mas, como era aberto por 
todos os lados, sentimos frio á noite, apezar de estarmos envol 
vidos nas nossas mantas. 

Ao' sahir do sol sahimos nós também do gallinheiro para 
continuar o nosso caminho, que hoje também, em nada variava, 
até a fazenda do coramandante de Indciá . Poucas cabanas mi- 
seráveis encontrámos hoje. Verifiquei também, cada vez mais, 
como é errónea a affirmação dos viajantes de que quanto mais 
longe de povoado, maior è a quantidade de animaes, pássaros, 
etc. Eu, pelo menos, tive occasião de observar durante as mi- 
nhas viageiíó no Brazil que, quanto mais se afíasta dos legares 
habitados, mais diminuem também os animaes e que, finalmeute, 
aquelles sertões deshabitados são egualmente desprovidos de 
outros seres. 

No caminho nada de especial aconteceu ; atravessámos um 
deserto interminável, que de vida mostrava apenas aqui e acolá 
um passarinho ou, alto no ar por cima das nossas cabeças, de 
vez em quando, um urubu solitário. A natureza não poderia ter 
creado um animal mais útil para os paizes quentes do novo con- 
tinente, do que este urubu [Vultur aura, L. (1^. Dotado de ol- 
facto finissimo e peculiar ao género, fareja a carniça a léguas 
de distancia, devorando-a com a maior gulodice, sem que a 
atmosphera chegue a ficar infectada. 

Entre o rio S. Francisco e Indaiá vi um apanha-moscas, 
que desenhei por causa da^ forma particular da cauda do macho 
(fig. 3), e cuja descripção segue : 

Muscicapa alector Milii. ffigura 5). A iris é branca xcigena- 
da ; os pés são pardos e o bico avermelhado ; a extremidade 
do bico é preta. As narinas são abertas e o angulo buccal mu- 
nido de 6 cerdas duras. O alto da cabeça, a garganta, as faces, 
o peito, a barriga, a nuca e uma faixa larga de cada lado do 
peito e as costas são pretas. As azas são pardas, acinzentadas e 
todas as pennas remiges, excepto a 2.* e a 3.*, orladas de branco 
no lado de fora, mas não até a extremidade. As grandes pennas 
exteriores são pardo acizentadas e as costas pretas. As 12 pennas 
caudaes são da ultima côr, as 2 centraes têm o dobro do com- 
primento das duas immediatas, as exteriores são as mais curtas. 
Todas são perpendicularmente dobradas e dão, com effeito, ao 



(l) Hoje Cathartes foeieus. (N. do T.) 



— 187 — 

pássaro um aspecto de gallo que, especialmente no voar, torna-se 
mais notável porque a cauda não está então espalhada. 

A fêmea, (figura 4.) A côr da íris, do bico e dos pés é a 
mesma que no macho ; mas a forma da cauda e a côr do corpo 
são inteiramente differentes. A cauda é horizontal como de cos- 
tume e não tem 12, mas somente 10 pennas. As partes que no 
macho são de côr branca pura, são branco sujas na fêmea, exce- 
pto o anus, que é amarello. As azas, as pennas exteriores e as 
caudaes têm a mesma côr que no macho, mas o resto, que no, 
macho é preto, é pardo na fêmea. 

Este pássaro é raro e apanha a sua comida do mesmo modo 
que as outras muscícapas, 

Megarhyncus similis Mihi (figura 6.) O Bemtevi {Lanius 
Pitangíia Satli) tem uma similhança extraordinária com este 
pássaro de um género novo, tanto em tamanho como em con- 
cordância e distribuição das cores. 

Este novo pássaro tem o bico triangular, curvo desde a 
base. Poucas cerdas duras se acham por cima das ventas abertas 
e redondas, outras se acham nos ângulos da bocca e são mais 
compridas. Os pés, em relação ao tamanho do pássaro, são fracos 
e o dedo exterior um pouco ligado na base com o médio. A lin- 
gua é franjada nas margens e lancelada na extremidade. A iris 
è cinzenta como os pés. A garganta e uma linha sobre os olhos 
que se unem, são brancas. O peito, a barriga, o anus e as pen- 
nas medias do alto da cabeça são claro-amarellas . As faces e a 
parte de traz dos olhos são de côr pardo-escura* O alto da ca- 
beça é verde-azeitonado; das costas são mais claras. As azas e a 
cauda são azeitonadas e tanto as pennas reimyes come as da 
cauda têm listras transversaes vermelhas. 

O ninho è muito diíferente do do Lanius, Pitangua; efeito 
de raminhos, sem arte alguma e acha-se entre galhos , Em geral 
contem dous filhotes. 

Nas ultimas noites deste mez de Junho manifestou-se um 
phenomeno altamente curioso ; segundo o testemunho de todos as 
houve uma fina camada de gelo sobre todas as aguas estagnadas. 
Os peixes dos córregos e pequenos rios nadaram de manhan meio 
mortos na superfície, levados pela correnteza e sem força para 
resistil-a. Muitos dos vizinhos que tinham sal fizeram apanhar 
por seus escravos 200 a 400 destes peixes para salgar, outros os 
seccaram-nos ao ar, mas todos viram-se como num conto de fadas 
providos de mantimentos que eram tantomais apreciados , quanto 
por causa da secca, o milho, o feijão etc, começavam a faltar. 
Caso igual não se tinha produzido em memoria do homem e cada 
um procurava adivinhar a sua causa; porém todos eram, unani- 
mes em declarar que de certo tinha sido o frio. Entretanto, e 
todo o homem de estudos o sabe, não podia ser o frio a causa 
directa, apezar de ser diíEcil conhecer a verdadeira causa. Pare- 
ce-me, todavia, que o seguinte é o mais provável : penso que nas 



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margens dos rios e dos córregos haviam plantas cujas folhas 
cahiam por causa do frio na agua e que estas plantas têm 
o poder de atordoar os peixes. Isto torna-se ainda mais plausivel 
pelas seguintes razões : porque em primeiro logar conhecem os 
os selvagens muitas plantas que tèm essa propriedade e podiam 
ter sido estas, ou outras por elles desconhecidas : depois estavam 
os rios e os córregos cheios de folhas e os peixes não estavam 
inteiramente mortos, apenas atordoados e, finalmente, os peixes 
dos grandes rios nada tinham sofírido, apezar de ter havido 
gelo também nelles, mas, sendo a quantidade de agua muito 
maior, a propriedade das plantas não era tão forte que chegasse 
a atordoal-os. Lastimo que não estivesse lá na occasião, pois 
talvez tivesse agora certeza, quando apenas posso aventar hypo- 
theses . 

Ficámos um dia em Sant^Anna, em casa do commandante 
que nos forneceu abundantes provisões de viagem. 

Somente no dia 17, ás 8 horas sahimos, chegando final- 
mente ao deserto, porque, em todo o caminho de 5 léguas, não 
encontrámos uma única habitação. Numa descida por entre al- 
tos barrancos os nossos aniraaes davam signaes de medo e, lá 
mesmo, descobrimos os rastos de uma grande onça. Estes ani- 
maes são muito frequentes neste logar. 

Na volta e quasi no mesmo logar encontrámos uma casca- 
vel (Crotalus horridua^ L.), cujo guizo tinha 7 anneis. A co- 
bra tinha mais ou menos 4 pés de comprimento e a grossura, 
onde o corpo era mais gro>so era de 4 pollegadas. Esta cobra, 
a mais venenosa de todas, é extraordinai lamente preguiço^a, ra- 
zão porque nos foi fácil matal-a. E' curioso que também aqui 
se affirme que pequenos animaes como esquillos, ratos, sapos, 
etc, ficam magnetizados pelo olhar desta cobra, perdem o mo- 
vimenio até, afinal, cahirení na sua bocca aberta. 

Considero grande exagero o que viajantes anteriores nos 
contaram de cobras venenosas, de que o Brazil devia estar 
cheio, porque não as ha em tal quantidade, nem em tão grande 
numero de espécies, como geralmente se acredita, e por cir- 
cumstancias que nós, europeus, não conhecemos, são muito me- 
nos perigosas do que se diz. Contam-se 6 espécies de cobras 
venenosas no Brazil, excepto a cobra coral (coluber corimerij 
Lin.), que em Minas Geraes é considerada uma das peiores. 
Além da cascavel, temem- se como venenosas a urutu, a jarara~ 
ca, a surucucú e a cobra de duas cabeças. A ultima tem o seu 
nome sem razão, poique não ha a menor similhança entre a 
sua cauda e a sua cabeça. Esta cobra, cujo desenho aqui dou 
— fig. 7)--vive dentro da terra ou na superfície, como provam 
as sabidas das suas moradas subterrâneas. Ella é lisa e sem 
escamas e tem mais ou menos 230-235 anneis. Os olhos são 
pequenos e salientes, por baixo de uma pelle córnea e trans- 
parente. 



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A pequena bocca, na qual não lia vestígios de dentes de 
veneno, deixa suppor que esta cobra não pode ser perigosa ; 
entretanto, os portuguezes e os selvagens concordam em que a 
sua mordedura é muito venenosa e os últimos até affirmam que 
é sempre mortal ; os primeiros, porém, perturbam a historia na- 
tural do Brazil também com este reptil, dando-lhe duas ca- 
beças. 

Já Marcgraf menciona esta cobra, e as suas observações, 
que pela maior parte concordam com as minhas, são uma nova 
prova da grande exactidão deste incansável investigador, a quem 
a historia natural do Brazil tanto deve. 

As cobras venenosas são differenciadas das não venenosas 
ao primeiro golpe de vista : uica cabeça curta, larga e chata ; 
uma cauda curtíssima que dá ao corpo um aspecto grosseiro, 
especial, e a preguiça que caracteriza todas as cobras veneno- 
sas, são os signaes das primeiras. Nunca são ellas que atacam e 
servem-se do seu veneno unicamente para matar os animaes que 
ellas comem. Estes são principalmente sapos, rans, ratos, sere- 
lepes, macacos, etc. Também nenhuma das cobras venenosas é 
temivel por seu tamanho ou sua força ; as grandes cobras do 
Brazil não são vetienosas. Mas mesmo a mordedura das cobras 
venenosas não é sempre perigosa e, ás vezes, não offerece pe- 
rigo algum, de que tenho vários exemplos. Isso provém de que 
não têm veneno em abundância e parece necessário um certo 
periodo para renovar o veneno perdido ao morder. Admitte-ee 
que uma cobra venenosa seja muito mais peçonhenta de ma- 
nhan do que de tarde, porque tem acontecido por varias vezes 
e, tem-se disso muitos exem})los, que pessoas mordidas á tarde 
por cobras reconhecidamente venenosas nada soíFreram, apezar 
de não usar de remédio algum ou apenas, por simplicidade re- 
ligif sa, se confiarem á uma imagem de santo que traziam ao 
pescoço. Em geral são estas cobras especialmente venenosas 
quando alguém chegar-lhes perto do ninho, que nem sempre 
se acha por baixo de folhas seccas, mas as mais das vezes, por 
cima, porém, mesmo ahi póde-se chegar bem perto sem ser mor- 
dido. Pisando-se-lhes ou tocando-se-lh^s de qualquer forma, 
mordem quasi sempre. O melhor remédio a empregar neste 
caso é amarrar, logo acima do logar mordido, chupar a ferida e 
queimal-a ; o chupar costuma ser sufficiente. Os selvagens co- 
nhecem remédios infalliveis do reino vegetal, mas que não me 
communicaram. Segundo experiências do conhecido Velloso, a 
mordedura da cobra mais venenosa, a cascavel, mata um cão em 
3 horas. E', porém, mais raro s^er se mordido por uma cascavel do 
que por outra cobra, porque os gui/os costumam avsar a tempo. 

A uma hora chegámos ao rio Indaiá, cujo leito, até a sua 
aífluencia com rio S. Francisco, forma pequeninas cachoeiras. 
Também aqui passa-se o rio em canoa, mas póde-se, quando a 
agua está baixa, passar a cavallo, atravez de uma das próximas 



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cachoeiras. Na sua margem, no chamado Quartel dos Pintoras, 
moram dous soldados para guardarem os diamantes que o rio 
contêm, mas que não são extrahidos, visto ser a extracção no Serro 
DO Frio mais certa. Os diamantes são um producto tão impor- 
tante do Brazil que obrlga-me a ser um pouco mais extenso. 

O logar mais importante para a extracção dos diamantes do 
Serro do Frio, que, actualmente, também é o único logar onde 
são extrahidos, sob a administração do conhecido mineralogista 
Gamara e por conta do Governo, que ahi gasta annualmente 
300 mil cruzados (mais ou menos a mesma somma em thaler), 
com um lucro de 100 por cento. Na média póde-se admittir que 
o peso dos diamantes extrahidos por anno seja de 250 LoíA, (4265 
gr.), porém não é conhecido quanto tem sido extrahido desde a 
descoberta em 1730, apesar de que o seu valor pode ser cal- 
culado, inclusive o contrabando, em 20 — 30 milhões de cruza- 
dos. Mais ou menos 2.000 escravos são occupados na extracção 
dos diamantes dos rios e córregos, que vem das rochas de grés. 
Antigamente empregavam se maior numero de escravos, que por 
varias vezf^s chegou a 6.000; porém, apezar disso, extrahem-se 
hoje diamantes em valor egual por causa dos melhoramentos 
introduzidos por Gamara e especialmente pela applicação de 
machinismos de conducção, não obstante serem as rochas mais 
pobres e os braços em menos quantidade. 

Os districtos diamantinos de Indaiá e Abaete são maiores 
que o de Serro do Frio, mas a extracção é aqui muito mais 
incerta porque encontram-se arêas inteiramente isentas, o que 
não í contece em Sem) do Frio, onde se conhece com seguran- 
ça que uma determinada quantidade de terra fornece uma quan- 
tidade determinada de diamantes. 

Os diamantes do Serro do Frio são também muito mais 
bonitos de forma e de agua, apezar de que os de Indaiá e de 
Abaet^ se distinguem pelo tamanho. O grande diamante que 
pertence a Portugal, o maior conhecido, foi achado em Werra, 
que antes se chamava Abaete do Sul. As serras do sertão de 
Abaete e Indaiá são pela maior parte de schiste argilloso e 
somente nos cumes encontra se grés, 

A coroa reservouse o direito exclusivo da extracção dos 
diamantes e mesmo os que são encontrados por acaso tem de 
ser entregues a ella. Para impedir o contrabando decretou-se 
cedo o confisco de toda a fortuna e o banimento para as coló- 
nias africanas pela infracção, e assim foram estabelecidos os 
muitos registros nas margens dos rios e das estradas; porém, 
como é possivel achar objectos tão pequenos como são os dia- 
mantes, mesmo pelos guardas mais práticos, quando a astúcia 
empregada pelos contrabandistas está em relação directa com o 
tamanho do perigo que correu? 

Na volta achámos em Indaiá um pescador com o seu filho, 
que, segundo o costume da terra, matavam os peixes com fie- 



— 191 — 

chás. Empregam para isso um arco de 4 pés de comprimento e 
uma flecha feita de taquara, em cuja extremidade ha um ferro 
redondo. Nesta ponta com ferro ha uma cordinha que serve para 
puxar o peixe em terra quando estiver enfraquecido pela perda 
de sangue. E' necessário ter a vista bem exercitada para en- 
xergar o peixe naquella agua turva. Esta caçada é geralmente 
feita em canoa, que é guiada vagarosamente por um homem, col- 
locado na popa, emquanto o atirador, em pé na proa, espreita 
o peixe. Esta gente é muito destra neste exercicio e raras ve- 
zes perde o tiro. A caçada de hoje foi muito feliz porque apa- 
nharam uma grande porção de peixes, deste modo, que os por- 
tuguezes parecem ter apprehendido dos selvagens, mas que não 
encontrei em nenhuma das tribus que visitei. E' curioso que o 
ferro da ponta da flecha é obtuso e que os pescadores affirmam 
que um ferro pontudo não penetra tão bem. 

De Indaiá desdobrava se outra vez deante de nós ura de- 
serto a perder de vista, até a uma choça de palha, 5 léguas 
distante, que o sr. von Eschwegc tinha mandado construir no 
aano anterior e ao qual deu o nome de Rancho do Jacu, 
O preparo do nosso almoço que consistiu em um palmito, não 
levou muito tempo e, cedo, na manhã seguinte, continuámos 
até Werra, a 4 léguas dalli. Neste lugar, na margem opposta 
do rio, espera va-nos outro rancho, igual ao do Jacu e onde 
pernoitámos. O nosso somno porem toi interrompido pelo barulho 
de um dos pretos que aftirmava ter sido puxado pelo braço por 
uma onça, mas, como não estava ferido, pareceu-me o caso 
pouco provável. 

Ao amanhecer a viagem continuou, sendo hoje pela maior 
parte por matta densa, até que á uma hora chegamos á Real 
fabrica de chumbo. Antes, porém, tínhamos de passar o Puída, 
que os portuguezes, do mesmo modo que o Werra, pensavam 
ser um braço do Abaete, dando-lhe o nome de Abaete do Norte, 
O meu companheiro rectificou este engano, dando a estes dois 
rios os nomes de dois rios de sua pátria (Hessen), os indepen- 
dentes Fulda e Werra. Ha, porem, pouca similhança entre 
aquelles dois rios allemães e os seus charás brasileiros, excepto 
talvez na largura, porque ao passo que as margens daquelles 
são povoadas por milhares de homens diligentes, com suas lavou- 
ras de cereaes regadas pelas aguas tranquillas do rio, são as 
aguas aqui interrompidas por centenas de cachoeiras baixas e 
as suas mattas virgens marginaes habitadas unicamente por 
animaes bravios. 

A Fabrica de chumbo dista 80 legoas de Villa Rica e deve 
a sua existência ás levas de gentes que subiram o córrego á 
procura de diamantes. Fazem agora uns 20 annos que se desco- 
briu o mineréo, porem ha só 3 annos que se lembraram disso 
e, que os trabalhos começaram. O meu companheiro, sr. von 
Eschwege, foi encarregado destes trabalhos e nomeado director 



— 192 — 

do estabelecimento. Existe porem, uma porção de embaraços 
para o seu descobrimento e ba toda probabilidade de ser aban- 
donado em breve. O legar onde se encontra o cbumbo está no 
meio do matto rodeado por todos os lados de morros e muito 
insalubre, o que se observa logo pelo esterior pallido e doente 
da gente. Curioso é que todos aqui morrem da mesma doença, 
a bydropesia, que de 25 pessoas matou 7 em 3 annos. Com 
um numero de escravos tão pequeno, sem uni único administra- 
dor instruído e por causa das difficuldades de extração do cbumbo, 
que se acha especialmente perto do campo, onde a agua impede 
a mineração, é fácil comprebender que não tem sido muito o 
metal produzido até agora. 

O cbumbo apparece aqui em forma de galena argentifera, 
mas encontram-se também terras plumbiferas de côr vermelha, 
amarella e verde. 

A demora aqui não era agradável, mas compensadora para 
as minhas collecções. Até agora tinha atravessado uma região 
onde, antes de mim nenhum naturalista tinha pisado, e que todos 
os dias fornecia- me objectos ainda não descriptos. As minhas 
collecções já eram consideráveis e especialmente tive occasião 
de fazer grandes colheit-is entomologicas, porque no córrego, 
que passa perto da casa de morada, havia dous logares onde 
immensos enxames de borboletas se ajuntavam. Estes logares 
estão mesmo a beira d'agua e é alli que se lavam os trens de 
cosinha. Borboletas, que em vão se procuram apanhar na matta 
ou no campo, assentam aqui, espécie ao lado de espécie, e com 
delicia vão chupando a terra húmida. As borboletas crepuscula- 
res substituem as diurnas e são por sua vez seguidas pelas no- 
cturnas. Mas a humidade athmospherica é aqui tão grande que, 
o que antes nunca acontecera, até os corpos das borboletas 
diurnas apodreciam, pelo que perdi mai»* da metade dos meus 
insectos colleccionados e, infelizmente, muitos exemplares que 
eu não tinha em duplicata. 

Havia aqui em quantidades enoi-mes varias expecies de 
moscas mutucas (C^.nopx), a qua-i não se poder supportal-as ; 
especialmente as pernas da gente eram alvo dos seus ataques. 
O mesmo acontecia aos nossos animaes de carga, que muitas 
vezes corriam do pasto a casa como se quizessem procurar auxilio 
contra estes importunos insectos que aqui são chamados mutucas. 

Muitas vezes a natureza conduz o homem sem que elle 
perceba a sua omnipotência e mais vezes ainda queixa-se elle 
dos efPeitos delia sem cogitar da sua utlidade; aquelles enxames 
de mosquitos que atacam o homem nos logares baixos não existem 
ou, pelo menos existem em mnito menor quantidade nas regiões 
altas. Não será isso utna indicação para procurar estes logares 
e fugir daquelles? 

No dia 11 de Outubro deixámos este triste logar e come- 
çámos a nossa volta. O Fulda e o Werra não tinham agora mais 



- 193 — 

agua, de modo que passámos este a cavallo. Peito das 3 horas 
chegámos á Assumpção, onde mora o soldado, guarda dos dia- 
mantes no Werra, com a sua fíimilia, no meio do deserto. An- 
tigamente quando 50 a 100 aventureiros, tem armados, appare- 
ciam em procura de diamantes, os soldados perdiam, em regra, 
a vida. 

Também hoje fizemos uma caçada no rio, que subimos cerca 
de uma meia legoa em canoa, até uma cachoeira. Todos os rios 
brazileiros são similhantes, por isso que são muito encachoeira- 
dos e muito sinuosos, correndo por entre altos barrancos cobertos 
de matta virgem. Estes altos barrancos, as cachoeiras e a pro- 
fudidade desigual, podem servir de base para a hypothese dos 
scientistas modernos de que o Brazil e toda a America são de 
origem recente. Porque aqui o tempo não tem sido suíEciente 
para permittir aos rios alargarem as suas margens no terreno 
formado pelas terras levadas dos morros, nem igualarem a sua 
profundidade. Parece-me isso mais ajuizado do que querer avaliar 
a idade de um paiz pela sua civili&ação ou pela sua população (1). 
Estarão os negros, por acaso, mais altos do que os brazileiros^ 

Faz-se em geral uma ideia errónea a respeito da riqueza 
do Brazil em animaes, como já por mais de unia vez mencionei. 
Aqui, nas margens dos rios, devia ser o logar delles, porém as 
suas densas mattas são desertas e quietas ; raras vezes se ouve 
um som que se parece com o rir humano: Hahaf produzido por 
um jacii {Penélope cristota, L.), ou se vê um mergulhão mudo 
precipitar- se na agua em giande distancia diante de nós. O 
único animal que aqui apparece em quantidade é a capivara 
(Cavia capybara, L.). De dia porém, são muito raras e somente 
de noite é que se ouve a sua voz Aos nossos hospedes causa- 
vam grande prejuizo nas roças de milho maduro. 

O Werra é muito piscoso e nenhum dos seus peixes é no- 
civo. Nas suas margens encontrámos fragmentos das panellas 
de barro dog indigenas, que se distinguem a primeira vista das 
dos portuguezes pela fineza de barro. Porém os indigenas já 
desapareceram desta região e nem na ida nem na volta encon- 
trei outros vestígios delles, apezar de não ser provável que na 
grande extensão de 80 legoas, que percorremos, não os houvesse. 

CAPITULO III 

VIAGEM A VARIAS TRIBUS DOS AUTOCHTONES DA CAPITANIA DE MINAS 
GERAES. DEMORA ENTRE ELL AS . ~ NARRAÇÃO DE SEUS USOS 
B COSTUMES. 

Apenas 5 dias de viagem á leste de Villa Rica, já viveu 
varias tribus dos habitantes primitivos do Brazil que, rechassados 

(1) Theorie ães nouvelles découvertes de physique et de chimie pour servir de sup- 
plement á la théorie des etres senstbles, etc, de Mr. L'abbé, Paris, 1786. 



— 194 — 

áe sua antiga habitação no littoml j^elos portuguezes, parecem 
ter-se refugiado nas densas e impenetráveis mattas dahi e da 
Bailia, até poucas léguas da costa. 

Havia já muito que era meu desejo observar estes selva- 
gens e para este fim deixei Yilla Rica, depois de uma perma- 
nência de um mez, que em.preguei em descobrir os mais impor- 
tantes objectos da Historia Natural. Parti no dia 22 de Dezembro 
de 1814. 

O nosso caminlio passava logo abaixo da cidade de I^Iarianna, 
que é muito menor do que Villa Rica, mas que é Buperior a 
esta pela sua posição plana e suas edificações. E' sede do bispado 
e distante de VillA Rica apenas 2 léguas. 

Immediatamente depois de Marianna, começa a subida da 
serra que se encberga de Villa Rica e cujo ponto culminante 
parece ser o Itacolorni. Esta palavra, na lingua dos indígenas que 
que antigamente aqui moravam, quer dizer o filho da pedra, por- 
que o ponto mais alto é constituído por uma rocha grande e 
outra pequena. A subida era péssima, não obstante estar o ca- 
minho em parte calçado. No logar mais alto tinhamos uma 
vista extensa, porém pouco bella, parecendo que a terra aqui ha 
pouco sahira do cháos ; milhares de morros e entre elles outros 
tantos valles profundos e estreitos geravam esta ideia. 

Logo em seguida encontrámos uma fazenda denominada 
Ourives, situada do outro lado da montanha e a 2 léguas de 
Marianna. o caminho passava pela maior parte abeirando 
mattas impenetráveis, escondrijo dos negros fugidos, como de- 
monstravam uma porção de cruzes á borda do caminho e que 
indicavam outros tantos assassinatos. Ha aqui o costume de le- 
vantar uma cruz em cada logar onde se encontra um cadáver, 
qualquer que seja a causa da sua morte, com o fim de fazer os 
transeuntes completarem o numero dePadreNossos necessários para 
resgatar do purgatório a alma de quem aqui morreu sem absolvi- 
ção. Geralmente o caminho está encostado a uma matta num lado 
ao passo que o outro abeira um precipício, tanto mais j^erigoso 
quanto as chuvas muitas vezes levavam a metade do caminho, 
ameaçando fazer em breve o mesmo ao estreito resto "que ficara. 

De Ourives até Meinard, uma fazenda importante, ha uma 
légua e o caminho é aqui muito melhor. Mas, sobre o rio que 
corre ao pé da fazenda, ha uma ponte que deixa o viajante em 
duvida si não seria melhor arriscar a passagem pela agua a 
nado do que cahir com a ponte e tudo. Encontrámos neste logar 
uma boa casa de pasto, onde, porém, sabiam cobrar bem. 

Na manhã seguinte continuámos a viagem e o primeiro 
objecto que attrahiu a nossa attenção foi uma installação ao pé 
do rio, onde o padre, em cuja casa pernoitámos, tirava ouro com 
uns 20 escravos. Toda esta região que hoje atravessámos era 
especialmente aurifera e em muitos logares encontrámos pretos 
occupados em sua tiragem e de espaço em espaço se achavam 



is 



— 195 — 

bonitiis e importantes fazendas. A uma delias, denominada Sanf^ 
Anna, chegámos ao anoitecer e fomos muito bem recebidos. 

Do nosso amável hospede e sua íamilia despedimo-nos cedo. 
Também hoje o caminlio abeirava muitas e grandes fazendas. 
Lavras de ouro, porém, não encontrámos hoje. A's 2 horas, de- 
pois de termos caminhado quatro legoas, atravéz de uma região 
florestal, chegámos á aldeia de SanVAnna dos Ferros, na barra do 
Bacalhau O rio ao pé deste legar é bastante largo, porém, como 
quasi todos estes rios, navegável apenas em certas extensões por 
causa das cachoeiras. 

SajifArina dos Ferros parece nm antigo presidio contra os 
iudigenas ; consta lioje de uns 40 fogos e o seu districto está 
calculado em 6 ^/o legoas por 4 legoas de largo. Não ha mais 
de 3000 habitantes. 

Na proximidade de Sant^inna, do outro lado do jío, que é 
atravessado por uma parte, vagueiam Índios da tribu dos Furis, 
mas parece que não são muito perigosos para os fazendeiros, 
porque contava-se como caso extraordinário que havia 18 mezes 
que tinham morto 2 escravos á flexadas. Os portuguezes. todavia, 
pareciam ter medo destes Índios e o nosso hospede, que era ca- 
çador apaixonado, confessou que elle nnnca caçava no outro lado 
do rio. 

Os habitantes de SanfAnna também não mostravam grande 
amisade a estes pobres indio» porque, numa das suas conversas, 
o commandante nos contou que o director dos índios já tinha 
amansado 500 Puris e os domiciliados em logares determinados, 
fazendo-os acabar com todas hostilidades contra os portuguezes 
e seus amigos ; mas accrescentou, cem uma risada diabólica, que 
se devia levar-lhes a variola para acabar com elles de uma só 
vez, porque a variola é a doença mais terrivel para essa gente, 
como mais tarde demonstrarei. 

No dia seguinte, cedo, continuamos a viagem e depois de 
termos passados a grande ponte sobre o rio correntoso e mais 
algumas fazendas, estávamos completamente fechados por raattas 
de todos os lados, que apenas aqui e acolá se achavam inter- 
rompidas por algumas roças de milho e fazendas espaçadas. Si 
bem que os Puris de vez em quando se achem também nestas 
mattas, é especialmente numa outra floresta densíssima, á cerca 
de o legoas de SantAnna, que elles costumam estar e que por 
isso se chama a <i<7natta dos Purisy> , Logo na entrada desta 
matta duas cruzes, próxima uma da outra, commemoram o assas- 
sinato de dois escravos que estavam colhendo algodão para os 
seus senhores . Por causa disso era com visível medo que muitos 
dos nossos companheiros ahi entravam ; mas, felizmente, parece 
que os Puris tem mais medo ainda dos portuguezes e suas armas 
do que estes o tem delles ; e si os Índios eííectivamente fossem 
o que se diz, estas mattas estariam ainda por muito tempo im- 
penetradas pelos invasores e ninguém as poderia atravessar ou 



— 196 — 

então centenas de cruzes dariam testemunho das mortes havidas 
Destas moitas densas e escuras, os Índios invisiveis facilmente- 
atirariam as suas flechas sobre os viajantes, na certeza de nàa 
serem perseguidos, e nenhuma arma pode aqui prestar auxilio 
efficaz, como verificamos. O melhcr meio são cães amestrados. 
a procurar bugres e dar aviso do perigo próximo. Por isso re- 
presentam estes animaes um papel importante quando os por- 
tuguezes vão á caça de gente, o que agora, porém, acontece 
apenas quando se trata de Índios hostis, como por ex., os Puris. 
Mas QS selvagens se vingam nos cães, que matam sempre que 
os encontram, caso este que nos aconteceu hoje quando atraves- 
sávamos uma matta, morrendo flechado o cão do nosso caçador 
e isso bem ao pé do dono. 

Como hoje era dia santo, encontrámos muitos íazendeiros^ 
que, com suas familias, iam á missa ou que já voltavam delia. 
Esta gente nada tinha de attractivo e a sua apparencia doentia, 
causava má impressão. 

A's 3 horas chegámos a Santa Rita, uma aldeia a 5 legua& 
de SanVÂnna e a uma da matta dos Puris. Ahi estavam todas 
as casas cheias de gente que tinham vindo assistir á festa, da 
modo que só havia o meio de dirigirmo-nos á casa do padre, na 
esperança de encontrar abrigo, porem, isso não foi possivel. Ti- 
vemos, pois, de continuar o nosso caminho até uma fazenda a 
um quarto de légua mais adeante. Fomos muito bem recebidos^, 
porem, não tivemos descanço por causa dos muitos escravos que 
se tinham reunido no terreiro da casa, onde dançaram a noite 
toda, com uma musica infernal e uma gritaria insupportavel, tal 
qual Langsdorff o tinha descripto em Santa Catharina. 

A's 7 horas da manhan do dia seguinte sahimos dalli e de* 
pois de cerca de três léguas chegamos ao alto da Serra de S^. 
Beralde (?), em frente da Serra da Onça, mais alta ainda. Am- 
bas limitam uma região baixa, cheia de morros, na qual está 
situado o Presidio, que alcançamos ás ties horas da tarde. Alli 
fomos hospedados na casa do director geral dos Índios, capitão 
Marlière, nascido em França. Este logar devia ser o ponto de 
onde faríamos as observações sobre os indígenas brazileiros nes- 
tas paragens. Na entrada do valle vimos grandes extensões 
inteiramente cobertas pela Asclepias curassavica {official da salay. 
mata-olho, cega-olho, falsa ipecacuanha), cujo cultivo é recom- 
mendado pela pennugem sedosa que cobre as sementes. 

O Presidio de S. João Baptista, como todos os presidies^ 
teve sua origem no estabelecimento de vários criminosos fugidos. 
da justiça, que solicitaram do governo protecção contra os selva- 
gens. Dessa protecção, por mais fraca que seja, pois, raras vezes- 
consta de mais de dois soldados, não teriam precisado, si elles, 
desde o começo, não tivessem violado os mais comesinhos do«. 
direitos humanos. Foram elles mesmos os primeiros conhecidos 
dos índios e foi o seu comportamento que lhes trouxe o ódio- 



— 197 — 

«dos indígenas, que depois se estendeu a todos os brancos. Os 
primeiros conquistadores do Brazil eram exactamente eguaes aos 
fundadores dos presídios actuaes e é a elles que cabe a culpa 
'da infelicidade dos selvagens e não a todos os portuguezes. 

Na vizinhança do presidio de S. João Baptista vivem, ps- 
palbadas numa superfície de 20 léguas quadradas, varias tribus 
de indígenas brazileiro-. A mais poderosa delias é a dos coroa- 
dos que, incluidas mulheres e crianças, chega a 2.00'> indivi- 
duos ; em seguida vêm rs Piiris que, como já fci dito, contam 
500 indivíduos dímiciliados em um só logar ; a terceira tri- 
bu é a dos Carajás, que ha mais de 50 annos estão em relação 
-aTr>istosa com os portuguezes, tendo por isso perdido muito de 
suas particularidades. Não passam de 200, que moram nas mar- 
gens do rio Pomba, onde têm uma egreja ou capella. Com elles 
habitam 2 Paraíbas e 1 Pacajú, cujas tribus ficavam na barra 
•do rio Parahyba. 

Por mais numerosas que sejam as tribus brazileiras e por 
unais que deffi>am as suas linguas, acontece, todavia, que ha 
grande analogia e os mesmos fundamentos em todas ellas, como 
mostrarei pela lista dos vocábulos, annexa. 

Todas estas tribus sãc nómades no seu estado livre e co- 
mo nenhuma criação tem, nutrem se de caça, de raizes e de 
fructas sylvestres. A caça e a occupação dos homens é a pes- 
«a e a colheita das raizes e frutas pertencem ás mulheres. Co- 
^mo o clima é muito favorável, o indio, sábio como é, poucos 
«cuidai-los tem pelo passadio e, totalmente ignorante dos gozos 
e das vantagens da civilização, está elle, por isso, também li- 
vre das mil necessidades que ella acarreta. 

Em consequência da absoluta igualdade no modo de 
"vida da^ tribus indígenas no Brazil, que, segundo minha 
opinião, todas têm a mesma origem, também pouca ou nenhu- 
ma difft-rença ba no exterior delles e apenas algumas tribus 
antropo[>hag^iS se distinguem por artificio das outras porque no 
lahio inferior e nas orelhas, que furam, coUocam pedaços de 
madeira que pendem até sobre o peito e sobre os hombros. 

Os indígenas são geralmente de estatura média e a sua 
•côr é pardo-amarellada (não côr de cobre como se acredita); 
os cabellos são lisos e pretos e o olho, um pouco obliquo, tam- 
bém é pardo escuro. O caracter principal é formado pelos ossos 
zygomaticos salientes. As formas do seu corpo não são gra- 
ciosas porque o ventre é geralmente saliente, a cabeça grande 
e as pernas magras. São tidos por imberbes porque arrancam 
todos os p* lios que apparecem na cara, nos genitaes e nos so- 
vacos, costume este que praticado de geração em geração aca- 
bou por formal- os eífectivamente imberbes, como provam aquel- 
les que foram educados pelos portuguezes sem a pratica do 
referido co^^tume. 

O indígena bravo anda completamente nú. Em algumas 



— 198 — 

tribus os homens costumam amarrar o prepúcio por fora da 
glande, alle.f^ando que isso impede a entrada dos insectos. 

As mulheres raras vezes tem mais de 4 filhos, o que é 
tanto mais surprehendente quanto as de origem européa ou 
hespanhola são geralmente muito proliferas no Brazil. Logo 
depois de nascida uma criança a mãe corre para a agua próxi- 
ma, rio ou riacho para proceder á necessária lavagem. A co- 
nhecida observação que o pae nesta occasião se finge doente, e 
permanece deitado durante dias, achei aqui confirmada por 
varias testemunhas oculares. 

Entre todos os povos incultos a mulher é ?empre mais ou 
menos escrava; é ella que se occupa com trdos os trabalhos 
domésticos ; aqui é ella quem carrega a caça, que o marido 
matou, e o producto da colheita das raizes e das fructas, mui- 
tas vezes até sobrecarregada, ao passo que o homem, mais forte, 
a acompanha apenas com o arco, e algumas flechas. Na ca- 
bana têm ella que preparar a f^omida, ir buscar lenha e agua 
e bem condescendente é o marido que se dignar de cuidar no 
fogo acceso ao pé da rede onde se balança. 

Em geral tem-se o indígena brazileiro por falso, máo e 
traidor e como prova se aífirma que elle sempre assassina de 
emboscada ; porém não se considera que esta pobre gente vive 
exclusivamente na matta. Alli são os índios molestados pelo 
branco e a experiência os ensinou a serem pendentes : razão 
porque elles ahi andam sempre cautelosos, usando de mil arti- 
fícios para se aproximarem do seu iainiigo, que elles não con- 
vidam para uma lucta aberta, mas que matam com uma flexada 
certeira. E'-lhes, porém, mais fácil matar assim os portuguezes 
do que os seus patrícios, porque estes têm a mesma força e as 
mesmas maneiras e muitas vezes estão igualmente dispostos para 
a lucta. 

Estávamos, pois, perto destes indígenas tão interessantes 
para o investigador e era natural manifestar-se era nós, o desejo 
de visitai 03 nas mattas, no meio próprio. 

Para este fim, o sr. vou Esehwege, o director dos índios 
o valente sr. Marlière, um soldado do presidio e eu, sahimos no 
dia 29 de Dezembro. A nossa intenção era visitar uma das 
próximas aldeias, si é que assim se pode chamar umas 3 ou 4 
cabanas baixas, de palha. Todas estas aldeias estão collocadas 
em mattas virgens e apesar de conterem raras vezes mais do 
que uma família, comporta mais de 30 a 40 indivíduos, estão, 
ás vezes horas de viagem distantes uma da outra. O accesso a 
ellas é por um trilho estreito por onde o pequeno índio facil- 
mente passa, mas onde nós por toda a parte enroscávamos as 
roupas. 

O caminho atravessava a matta virgem, por onde já tinha 
mos penetrado umas 2 léguas sem perigo algum quando de 
repente encontrámos uns índios que voltavam da caça, com arcos 



— 199 — 

e fleclias de diversas espécies como armas. As mulheres quasi 
succumbiam debaixo do resultado da caçada que se compunha 
de carne de porco do matto, macacos e de papagaios vivos. 
Além de um panuo que cobuia os órgãos genitaes, nada mais 
vestiam estes Índios cujo aspecto nada tinha de agradável. 
De estatura abaixo da média, os seus cabellos pendiam em 
estrigas das cabeças, Depois de ter comprado delles um macaco, 
os acompanhámos até ás cabanas; porém era necessário deixar 
os nossos animaes porque o caminho ou trilho ia se tornando 
tão estreito que era com diíSculdade que nòs avançávamos, mas 
assim mesmo era muito comprido e tão direito como s\ tivesse 
sido traçado á bússola. Os nossos guias, que deviam estar 
cançados da caça, caminhavam, comtudo com tal facilidade que 
nos deixavam sempre para traz. Finalmente divisámos, no meio 
da mavta, uma roça de milho e no meio delia, varias- cabanas 
de palha, baixas e em forma de barraca, que estavam escondidas 
pelo milharal de 1 a 9 pés de altura. Eram estas as habita- 
ções primitivas dos nossos guias. O espaço interior era natu- 
ralmente acanhado, porem havia 5 redes armadas. Deitados 
nellas e balançando-se, receberam -nos os Índios conforme o seu 
costume. Pouco a j)ouco sahiram deixando-nos apenas o chefe 
da casa que nos mostrou as cabanas dos seus filhos, situadas na 
mesma roça de milho. Todas eram construídas da mesma ma- 
neira: uma vara alta firmada no chão forma o centro e da 
parte superior delia partiam outras varas obliquamente para o 
chão e sobre as quaes amarrava-se a palha formando assim um 
cone. Os arcos, as flechas e alguns potes de barro constituíam 
toda a mobília. Tinham, porem, muitos animaes domésticos, 
como cães, pequenos porcos do matto, macacos, papagaios, pene- 
lope cristata e cumanenais Lin. (1). Além dos grosseiros tipitis 
das niulhereS; encontrei varias bonitas cestinhas, cuja forma e 
trançado tinham uma similhança surprehendente com a dos 
Índios da Polvnesía. 

Depois desta visita fui muitas vezes á mesma aldeia du- 
rante as minhas excursões para collecionar objectos de historia 
natural. Umas vezes fui só e outras vezes em companhia de 
um menino da tribu Coropó, porém ainda não me tinha arris- 
cado a pernoitar entre elles, até que, uma tarde, quando voltava 
para o presidio, uma tremenda borrasca surprehendeu-me na 
matta, perto da cabana dos índios. Trovoadas e tempestades 
como aquellas são perigosas na matta, especialmente por causa 
das milhares de arvores coUossaes que o cyclone derruba, tanto 
por serem já muito velhas como por estarem era geral mal 
enraizadas, segundo observações feitas sobre arvores brasileiras. 
Accresce que estes gigantes estão quasi sempre presos ás ou- 
tras arvores por meio de milhares de cipós e, quando cahem. 



(1) Jacu e Jacutinga 



— 200 — 

arrastam tudo na queda e quebram uma porção de outras arvores. 
Imaginando mais a es^iuridão completa, interrompida apenas 
pelos relâmpagos, e a trovoada a roncar incessantemente, impe- 
dindo o ouvido de escutar o barulho das arvores que cabiam e 
verdadeiras cataratas de cbuva a se despejarem das nuvens, 
fazendo crescer num momento os riachos e os córregos, tem-se 
n situação perigosa e difficil da permanência na matta durante 
uma t*^mpestade. 

Foi, pois, uma tempestade destas que me obrigou a pedir 
abrigo entre os meus amigos Índios. Acompanhado do menino 
Coropô, cheguei ás cabanas totalmente molhado porque, além da 
cbuva, tive de atiavesi-ar a váo vários córregos engrossados de 
modo a chegar-me a agua at ao peito. O primeiro cuidado 
naturalmente foi o de tirar a minha roupa ensopada, potêm, com 
qae hav3a eu de cobrir-me, pois nenhuma camisa existia na 
cabana? Os Índios estavam todos nús e zombavam do meu em- 
baraço até que uma índia, de cerca de 16 annos, compadeceu-se 
e por mímica offereceu a ^ua tanga, único vestuário que possuía. 
Como era natural recusei, visto que todas as mulheres presentes 
eonservavam as suas tangas e só me restava unir-me áquella 
soCíCdade núa ao redor do fogo. Mas por muito tempo continuava 
eu objecto de sua curiosidade por ser a minha pelle dififerente da 
delles. Percebendo isso. e na supposição de que nunca tinham 
yisto europeos nú^, aproveiteí-me desta curiosidade em meu favor 
porque, conhecendo o seu ódio aos portuguezes, fiz o meu Coropô, 
gue entendia a língua delles, contar-lhes que eu não era portu- 
^ez, mas sim de uma gran ie nação que existia para o Norte. 
Deste momento em diante crescia a sua confiança que eu, ai ás, 
já tinha procurado ganhar com pequenos presentes. A mais 
Telha das mulheres recebeu então ordem — provavelmente do 
marido, que parecia da me-sma edade — de cosinhar um pouco 
de milho para mim, mas, como não havia milho no cabana, nem 
lenha, oppuz-rne a esta generosidade, porque a trovoada ainda 
roncava e a chuva ameaçava-nos com outro diluvio Mas nada 
adiantei. A pobre mulher teve de sahir e somente depois de 
uma bôa meia hora voltou com a lenha, agua e milho. Este 
ultimo ainda não estava maduro, o que entretanto não importa, 
porque os índ»os só comiam milho verde feito mingau. Regalei 
áepois os meus hospedes com um pouco de agua-ardente que 
tinha commigo, o que muito lhes agradou, pois, esta bebida tem 
para elles um valor inestimável e torna-se fa ilmente o ídolo 
tto qual sacriíiíara o ganho de suas caçadas e de seu trabalho. 
Felizmente a minha provisão, desta vez, chegava apenas para 
dar-lhes um pouco de alegria, sentimento este que raras vezes 
©bservei em selvagens no Brazil. 

Tinha chegado a noite e si eu não quizesse dormir no chão, 
precisava pedir que me cedessem uma das redes na cabana, mas 
notei que os velhos estavam com pouca vontade de dar-me uma 



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das suas. Finalmente uma india moça tirou-me do emb^iraço, 
cedendo-me a sua, cuja fineza retribui com alguns anzóes. Pouco 
depois o meu joven companheiro Coropó estava também deitado, 
roncando numa outra rede, cedida pola irmã da minha bemfeitora. 
Assim mf^smo fiquei n editando si eta prudente entregar-me ao 
somno que imperiosamente me invadia. O que valia, porém, ficar 
eu accordado si os Índios tivessem deliberado eliminar- me? 
Minha pólvora estava acabada, apenas tinha para 3 tiros e fsta 
mesma estava estragada pela chuva. Adormeci, pois, mas duvidas 
e receios acordaram-me repetidas vezes durante a noite. Fiz 
entào a observação de que o Romno dos Índios é desigual e 
interrompido porque os vi varias vezes pôr lenha no fogo durante 
a noite e, ás duas horas da madrugada, alguns se levantaram 
para assar milho. 

Na manhan seguinte, ao raiar do dia, deixámos esta gente 
simples, depois de tel-a presenteado com algumas agulhas e 
anzóes. Teríamos caminhado cerca de meia légua quando um 
dos índios da cabana, onde tínhamos pernoitado, nos alcançou, 
todo arquejando, e entregou-me umas folhas de papel que tinha 
usado para prensar plantas e que fiear;im esquecidas num canto. 
Por essa e outras acções idênticas, ganharam os índios a minha 
estima. 

Muitas outras, não menos interessantes aventuras, passei 
durante as minhas visitas aos outros Coroados, porem seria pro- 
lixo contar tudo, pelo que prefiro expor alguns res^ultados das 
minhas observações. 

A tribu dos Coroados, como já foi dito, é a mais numerosa 
e conta cerca de 2.000 almas. E' bem notável o facto que o 
numero de mulheres é igual ao de homens, secundo uma esta- 
tística official, facto este que não justifica a polygamia entre elles. 

Os Coroados são muito guerreiros e temidois pelos visínhos, 
os Paris, com os quaes vivem em constantes brigas e, apezar de 
não serem antropophagos ha, todavia, um costume tendente a 
isso. Quando matam algum inimigo, de ordinário um Puri, 
levam comsigo para a cabana um braço do cadáver, como uma 
espécie de trophéu da victoria. Chegados em casa arranjam uma 
festa na qual se regalam com a bebida predilecta que fabricam 
fermentando o milho e que é servida em grandes potes de barro, 
cujo fundo pontudo está enterrado no chão. Neste pote collocam 
o braço do inimigo morto e cada um, por sua vez, tira-a de vez 
em quando do pote para chupar a extremidade cortada. 

Taes costumes bárbaros provam o grau baixo da civilização 
desta gente, aliás tão boa. Como entre quasi todas as tribus, 
reina entre elle? ainda o costume de se vingarem cada vez que 
alii-um membro da sua família foi assassinado e, como o assassino 
quasi nunca é entregue pelos seus, matam, logo que podem, 
qualquer outro da família do assassino, uma mulher pelo marido, 
uma irmã pelo irmão, um filho pelo pae e assim sempre o ínno- 



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cente pelo culpado. Conseguindo isso, cessara as hostilidade e a 
amizade antig-a reina de novo entre elles. Medo, o indio não 
conliece, pelo menos não o modo da guerra, e entre elles lia o 
provérbio de que o homem foi creado para morrer na peleja 
e a mulher para dar novos homens. 

Oá logares habitados estão sempre muito distantes um do 
outro, até a varias horas de marcha, e nunca são inteiramente 
fixos, spezar de que os Índios, ás vezes, cultivam o milho. Mesmo 
onde isso é o caso, deixam elles as suas cabanas para viajarem 
durante raezes em caçadfís pelas mattas, único logar que elles 
amam. Essas viagens são muito penosas para as mulheres que 
tem de carregar todo o mobiliar, redes, potes, ete. , acomraodando 
tudo numa cesta sobre as costas e presa por uma facha de panno 
que passa ao redor da testa, e mais os filhos pequenos e os 
animaes domosticos. 

E' a caça que lhes fornece a alimentação principal; menos 
importante, pelo menos neste logar, é a pesca. Nas caçadas pouco 
rendosas, nutrem-se elles de varias fructas do matto, fazendo até 
provisão de algumas e entre estas está em primeiro logar a 
«Sapucaia» em cuja colheita servem-se dos cipós para subir 
nas arvores que são muito altas. Um costume bastante singular 
e que, f .rçosamente, ha de contribuir para conservar-lhes uma 
certa sociabilidade, observei entre os Puris, que acreditam ser 
prejudicial para o caçador a caça que elle matou e por isso tem 
de dai-la aos outros. 

As- únicas armas usadas pelos Coroados são o arco e as fle- 
chas, como por quasi todos os Índios brasileiros. No manejo 
destas possuem uma habilidade admirável e para alcançar este 
desideratum praticam 5 a 6 incisões profundas no lado de den- 
tro do antebraço esquerdo, porque assim, dizem, adquirem mais 
firmeza no armar o arco. Tem-se visto Índios atiraiem as suas 
flechas quasi que perpendicularmente e ua quedada flecha acer- 
tar em qualquer objecto determinado de antemão. A 50 passos, 
raras vezes erram o alvo, ainda que seja pequeno e vi um me- 
nino flechar uma fructa na distancia de 30 passos e isso depois 
de ter estado ao meu serviço durante vários mezes em que elle 
nunca manejou o arco porque eu lhe ti: ha ensinado o uso da 
espingarda. As mulheres são em geral menos dextras e tem 
arcos menores. Quando um indio é flechado e a flecha fica 
na ferida, como quasi sempre acontece, quebra elle a ponta e 
tira da ferida o cabo torcendo-o. 

Para pescar, os Coroados empregam uma espécie de lança, 
feita de uma qualidade de canna de grossura de uma pollegada 
e cerca de 9 pés de comprimento. Na extremidade amarram 
duas pontas farpadas de madeira de 8 pollegadas de compri- 
mento. Esta lança seguram debaixo da agua e quando um pei- 
xe se approxima, espetam-no com grande habilidade. A esta lan- 
ça de pescar chamam «tschenmãt. 



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O uso do ferro ainda lhes é pouco conliecido e todas as 
armas mencionadas, por temíveis que sejam, são feitas de ma- 
deira. Parecem ignorar o envenenamento das fleclias. 

Quando a noite surprehende os Índios que andam caçando, 
suspendem as suas redes, que, como as cordas dos arcos, são 
fabricadas de eaibira, e nunca deixam de accender fogo, no 
que empregam varias madeiras. O fogo produzem com um pau- 
sinho de madeira dura, de comorimento e largura d3 um dedo. 
Este páusinho fixam no cabo de uma flecha, cuja ponta tiram. 
Collocam depois em cima de uma pedra um outro pedaço de 
madeira, no qual praticam um orifício e neste assentam o páu- 
sinho que fixaram no cabo da flecha. Tomam ent<ão o páusinho 
entre as duas mãos abertas e conservando a extremidade no 
orificio imprimem-lhe ura movimento de rotação rápida até que 
o pó de madeira, que se forma pela fricção, se accenda por al- 
guma fagulha produzida por este attrito rápido. Mas este pro- 
cesso empregam somente em caso de necessidade porque ó obri- 
gação das mulheres conduzirem sempre uma braza. 

Os Índios que costumam estar em contacto com os brancos 
tem a colheita da ipecacuanha que os faz sahir para as mattas, 
6 são muitos os portuguezfs que fazem bons negócios com o 
commercio desta droga, proveniente das partes subterrâneas ou 
raizes ca «Cepliaelis ipecacuanha-» hoje do género «Uragoga» . 
Em cpochas certas reúnem para este fim a maior porção possível 
de índios e atravessam cora elles as mattas. Nestas excursões 
levara sempre mantimentos e especialmente aguardente, que van- 
tajosamente vendem em troca das provisões de ipecacuanha que 
os índios fazem, por um pequeno cálice de aguardente — uma 
mercadoria cuja venda aos índios é prohíbída — recebera, muitas 
vezes, 1/4 de libra da valiosa raiz. Estava agora em flor esta 
interessante planta, razão porque a desenhei e ajunto (Estampa 9). 

De religião não ha vestígio entre elles, pelo menos no que 
diz respeito a praticas externas. Não adoram Deus algum bom, mas 
temem um génio máu que elles se figuram existir na trovoada, 
sem comtudo importarera-se mais com elle. Que, porém, entre 
elles exista uma vaga idéa a respeito da iramortalidade da alma, 
como entre todos os povos na sua infância, não ha duvida, por- 
que deixara aos mortos as armas no tumulo para, como dizem : 
«usar lá em cima» . 

Ura enterro entre os Coroados apresenta certas singularida- 
des. Primeiro quebram todos os ossos do cadáver e depois col- 
locam-no assira nos grandes potes de barro em que preparam a 
sua bebida de milho fermentado. Si foi um chefe de ícimi- 
lia que morreu, enterram-no no meio da cabana que elle 
habitava em vida e em seguida abandonam o logar. Voltando 
por acaso e durante as suas caçadas para o logar onde os seus 
mortos estão enterrados, testemunham a sua lembrança delles 
por altos gritos e lamentos. 



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Cora o mesmo silencio com que um Coroado abandona este 
mundo, faz elle também a sua entrada nelle ; nenbuma cerimo- 
nia ou festa reúne os visinhos por occasião de um nascimento 
e até os casamentos se eífectuam em silencio. O noivo leva 
comsigo a noiva que comprou dos pães. Acontece, porém, mui- 
tas vezes, que a mulher deixa o marido depois de poucas sema- 
nas, um costume que é tanto mais extranho por isso que em 
todos os outros casos é ella tratada como escrava. Este aban- 
dono do marido é tão frequente que se encontram muitas jo- 
vens Índias que no espaço de um anno, e por simples capricho, 
mudaram de marido 5 a 6 vezes. 

Taes costumes encontram-se de preferencia entro os Coroa- 
dos não baptizados, mas os baptizados conservam também muito 
os seus costumes e especialmente difficil é desacostumal-os da 
polygamia. O mesmo acontece com alguns outros costumes. 
No começo queriam que os portuguezes lhes pagassem para ro- 
sar na egreja aos domingos e como não havia vontade nem 
meios para satisfazer essa exigência, os Índios convertidos dei- 
3 avara de frequentar a egreja no presidio. Também são muito 
acanhadas as idéas do christianismo ministradas aos indios e 
como exemplo pode servir a seguinte anedocta : Num passeio o 
sr. Marliére tinha levado um cãosinho . Este foi atacado por 
uma porção de porcos famintos que o teriam matado se o Sr, 
Marliére não tivesse acudido, mas já estava num estado lastimoso. 
Como era longe para voltar á casa, o sr. Marliére deixou o cão 
a um Coroado para ser curado. Dois dias depois veio o indio e 
contou que o cachorrinho tinha morrido, «mas» accresceutou elle 
«como o cão era de um amigo, enterrei-o e puz uma cruz no 
tumulo>. E, effectivamente, o indio tinha levado o cão a uma 
encruzilhada onde o enterrou e coUocou uma cruz alta. 

Uma boa prova da sua reflexão, deram-rae estes indios 
numa occasião. Tinha-se contado aos indios baptizados ha pou- 
co a historia de S. Manoel, não poupando as narrações dos mi- 
lagres. Ao mesmo tempo estava-se construindo uma egreja no 
presidio e no dia da inauguração da capella provisória a imagem 
de S. Manoel devia ser alli derositada. Curiosos por conhecer 
o milagroso Santo, muitos indios tinham chegado, mas, quando 
viram que a imagem era de madeira, voltaram todos para as 
suas mattas. Acreditavam que se fazia caçoada delles e diziam 
que o Santo era de páu e que páu só era páu e não tinha ac- 
ção alguma. Este caso é uma prova de que estes indios não 
conhecem a idolatria nem admittem a presença de entes supe- 
riores nas imagens mortas e que possuem bom Fenso. 

Pode-se tirar um selvagem brasileiro de suas mattas e tra- 
tal-o do melhor modo, que elle sempre estimará, acima de tudo, 
poder voltar para os seus patricios. Esta observação tão conhe- 
cida, fiz eu também quando trouxe para o Rio de Janeiro um 
pequeno indio, que voluntariamente me acompanhava. Procurei 



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fazer tudo para tornar-lhe a sua estada agradável, não só por 
causa da confiança que elle tinha em mim, seguindo-me, como 
também por ser um moço muito intelligente que íallava as lin- 
guas de 4 tribus differentes e era caçador habillissimo que po- 
dia ser-me de grande utilidade nas minhas futuras excursões. 
Porém, divertimento algum o impedia de todos os dias pedirme 
que fizesse uma nova viagem, especialmente para os Índios. Por 
uma casualidade, a estada no Rio tornou se ainda mais odiosa 
para o moço desconfiado. Tinha pensado proporcionar lhe um 
grande prazer levando o ao theatro, mas felizm.ente, escolhi uma 
peça com muitas transformações. Nunca tinha visto o meu sel- 
vagem mais contente do que no começo da comedia; quando 
porém, no segundo acto, houve uma fingida decapitação, muito 
\)em representada, o meu joven indio levantou-se e fugiu ater- 
rosisado e poi nada pude obrigal-o a acompanhar me outra vez ao 
theatro. 

Uma prova ainda melhor de quanto é forte a sua saudade 
do lar e do modo de vida livre e bruto das mattas, foi-me for- 
necida pela historia de um padre na communidade do Rio da 
Pomba Este padre era Coroado nato que, em creança tinha 
vindo para o bispo em Marianna, que o educou no intuito de dar 
aos Índios um padre da sua própria raça, um pensamento qne 
merece todo o applauso. Effectivamente, o nosso Co7'oaí/o, che- 
gou a ser padre e, condecorado com o habito de Christo, foi 
mandado para a communidade converter os seus patrícios Du- 
rante muitos annos, cumpriu elle ahi o seu dever para grande 
satisfacção da egreja, quando, repentinamente, accordou-se nelle a 
vontade de mudar a sua vida de padre para a que elle tinha 
levado em creança. Despiu a sotaina, deixou o habito de Christo 
e tudo mais e fugiu em procura dos seus patrícios nús, entre os 
quaes começou .a viver como elles, cíisou com varias mulheres 
e até hoje ainda não se arrependeu da mudança. 

E' innegavel a grande pers^picacia que os índios revelam no 
modo seguro com que curam as suas moléstias que, felizmente, 
não são muitas. Todos os seus remédios buscam no reino vege- 
tal e nós teríamos de apprender delles muitos segredos em prol 
da humanidade, como aliás já devemos a elles o conhecimento 
de varias experiências na medicina. Assim, por exemplo, o in- 
dio não tem medo das mordeduras de cobras venenosas porque 
conhece folhas que curam infallívelmente e, si o contacto com 
os portuguezes trouxe-lhes o contagio venéreo, elles o curam 
também com vegetaes, sem que vírus algum lhes fique no corpo. 

Os Coroados empregam também a sangria e para isso utilí- 
zam-se de um arco pequeno de umas 10 pollegadas de compri- 
mento e uma pequena flexa, cuja ponta é feita de uma lasca de 
vidro ou, em falta deste, de uma lasca de pedra que lapidam, 
até que sirva para o fim proposto. A um míllímetro, mais ou 
menos, da ponta desta lasca, enrolam algodão para que não en- 



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tre mais do que deve. Ha índios extremamente hábeis neste gé- 
nero de sangria?, que podem por isso ser tidos come os cirur- 
giões destas nações. Mas parece que não é somente em caso de 
doença que os Coroados se sangram porque o sr. Marliére ob- 
servou um dia que uma porção de mulheres e moças, que esta- 
vam tomando banho num córrego, sujeitaram-se todas a esta 
operação e o ciurgiãq nunca faltava de acertar a veia com a 
flecbinba. ]?arece-me isso mais idausivel ainda pelo facto de o 
mesmo Coroado-ciriirgião querer por força sangrar-me a mim 
também,, apesar de que eu constantemente lhe declarava que era 
são e não precisava disso. 

Em casos de constipação, os Puris servem-se de um curativo 
que muito se a?simillia aos banhos de vapor da Rússia. Uma 
moça que tinha-se constipado fortemente, fizeram transpirar do 
seguinte modo : do córrego próximo transportaram uma pedra 
que foi posta no fogo até ficar bem quente, depois fizeram a 
moça debruçar-se, com as mãos e os pés no chão, por cima de 
pedra, mas sem tocar nesta; então as mulheres cercavam-na e 
com a bocca cheia de agua despejavam ou cuspiam esta na pe- 
dra. Os vapores que assim se formavam pelo contacto da agua 
com a pedra quente, effectivamente, provocavam uma transpira- 
ção copiosa e no dia seguinte estava a moça curada. 

Mas por mais felizes que os Índios sejam no curar quasí 
todas as suas doenças, acham- se entretanto absolutamente inde- 
fesos deante de uma das epidemias introduzidas — a varíola. A 
culpa disso talvez se encontre no próprio modo de vida que le- 
vam. Acostumados a banharem-se nos córregos ou rios próximos 
muitas vezes por dia e principalmente quando sentem calor, 
correm logo para a agua a refrescarem-se. Deste costume é im- 
posFÍvel tiral-os, apezar de que tantos já foram victimados pela 
varíola. Seduzidos pelo calor da febre, correm para a agua fria 
do rio, onde j^ermanecem durante horas, do que resulta recolher- 
se a erupção e o pobre contagiado morre, victima de sua im- 
prudência. A simples noticia de que ha varíola na vizinhança 
é bastante para despovoar mattas jmmensas. 

Nunca se encontram indivíduos fracos ou doentios entre os 
Índios, o que se tentou explicar pela simplicidade no seu modo 
de viver. Pode issso muito bem ser, mas fortemente contribue o 
costume que elles têm de matar toda a creança recemnascida 
com signaes de doentia ou que tiver qualquer defeito physico. 
Assim, ha pouco, o sr. Marliére impediu que um índio matasse 
o seu filho que nascera com dois dedos tortos, porque, dizia o 
pae, não prestaria para armar um arco. 

Os festejos são verdadeiras orgias e caem principalmente 
no tempo em que amadurece o milho. As mulheres assentam-se em 
circulo e mastigam com grande presteza o milho que depois de 
bem triturado é cuspido dentro de um pote grande em pé no 
meio delias. Durante um a dois dias contínua esta mastigação 



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até cpe a quantidade pufilcientc esteja preparada. Neste millio 
mastigado e misturado com a saliva, põem ainda agua e dei- 
xam tudo fermentar, depois do que decantam o liquido que se 
parece com cerveja fraca e começa a festança. Para augmento 
da feita saccodem uma puranga com pedrinhas dentro, produ- 
zindo assim uma musica, quasi egual á dos kamtschndcãos 
cnjo instrumento consiste numa porção de bicos de alço en- 
fiados numa corda. O instrumento dos Coroadoa cliama-se gri- 
gine e a bebida verú. Nem sempre ftibricam a sua bebida 
com milho, também a fazem cora raizes, como os Índios que não 
conhecem os portuguezes. Dizem que nestas bebedeiras ha can- 
tos e dan?as, mas nunca o pude verificar porque não ó prudente 
estar jiresente nestas festas que quasi sempre acabam com zan- 
gas e brigas. Numa delias, ha bem pouco, foi morto um portu- 
guez, apesar de ser casado com uma india e ter vivido 10 
annos entre elles, sendo ás mais das vezes o ciúme a causa das 
desavenças. 

As linguas que falam os Coroados e os Pitris ?ão tão pouco 
difíerentes que só isso parece indicar uma origem commum e ha 
entre elles a lenda de que, ha muito tempo atraz, formavam 
uma só nação. Naquelle tempo duas famílias importantes sepa- 
raram-se com os seus fieis e começaram a briga que perdura 
ainda hoje, assignalada por constantes assassinatos. Notável é 
que os PuiHs são sempre os mais fortes do que os Coroado^^ 
apesar de serem da mesma origem. O arco de um Piiry, ne- 
nhum Coroado pôde armar. Serão os poucos annos de contacto 
com os brancos que lhes teriam diminuído a força ou será inex- 
acta a lenda desta origem commum? 

Não obstante terem os Coroados, já por mais de 40 annos, 
mantido relações amistosas com os portuguezps, não mostram, 
absolutamente, amizade por elles, pelo contrario, existo um ódio 
inveterado, como consequência dos maus tratos que lhes foram 
infligidos pelos brancos. Por todos os modos imagináveis enga- 
naram sempre a estes pobres selvicolas e grande foi a impres- 
são produzida pela manobra ardilosa inventada em 1811 para 
civilizar os Puris. Com ^^romessa de dar -lhes ferramentas e 
armas, 2000 Puris foram attrahidos á Villa Bica. Chegados 
eram logos agarrados e distribuídos entre os portuguezes para 
os quaes deviam trabalhar, naturalmente sem ser em qualidade 
de escravos, mas unicamente para tornarem-se cidadões presti- 
mosos. O plano era sem duvida bom e o meio empregado tal- 
vez tivesse sortido effeito, mas os autores do plano não conhe- 
ciam os seus patrícios e além do mais commetteu-se o erro de 
não deixar os Índios viverem em familia ; marido e mulher, pães 
e filhos foram separados e mandados a legares diversos. A con- 
sequência foi que, mal tinham os Puris trabalhado uns 8 dias, 
logo todos os homens fugiram, tanto por causa das pancadas 
recebidas, como amor á liberdade e saudades da famialia. Fer- 



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Yendo de ódio por terem sido obrigados a abandonar mulheres 
e filhos na mão de seus algozes, estavam estes poucos outra vez 
nas suas mattas, mattando todos os portuguezes que podiam e, 
entre elles, aquelles que os enganaram a vir para Villa Rica. 

O Sr. Marlière, como era o seu dever, teve que reunir por 
tuguezes e Coroados contra estes Puris, apesar de confessar que 
julgava justa a vingança dos Puris. Mas nesta occasião os por- 
tuguezes mostraram tão pouca coragem que afinal os Coroados 
tiveram de marchar sós, para vingarem os brancos, porem ex- 
tremamente descontentes por causa da- cobardia e falsidades re- 
veladas para com os Puris. 

Si, desde o começo, os portuguezes tivesse feito distincção 
entre os Índios e os escravos africanos, o Brazil teria tido um 
bom lucro, mas assim perdeu-se tudo, querendo tudo ganhar. 
Ainda hoje seria possivel tirar destes selvagens mais partido do 
que se faz porque, especialmente como soldados, serviriam admi 
ravelmente, apenas com a condição de formarem batalhões es- 
peciaes e com as suas armas próprias. Não se pôde imaginar 
soldados mais ligeiro? ; como um veado o indio desliza pela 
matta mais espessa e effectua marchas de 15 a 10 horas segui- 
das 

Mas a desconfiança dos portuguezes contra o simples indi- 
gena data de sempre e quando este ultimo em consequência 
dos maus tratos se vinga de vez em quando, a fama deste acto 
augmenta-o e pinta o selvagem como um ente horrível . Somente 
aquelles portuguezes que fugiam da justiça procuravam um asy- 
lo entre os Índios e como elles. pela maior parte não passavam 
de assassinos e de salteadores, que não deixavam os seus vicios, 
formavam elles com os seus descendentes communidades horro- 
rosas onde haviam muitos que praticavam o e 4 assassinatos. 
Também os habitantes do presidio de S. Joào Baptista perten- 
ciam a esta classe si quando Marlière foi nomeadc director dos 
Índios e foi-lhe confiado o policiamento. Poucas semanas a poz 
a sua chegada aconteceu o seguinte : Três irmãos estavam em 
briga por causa da herança do pai ; os dois mais moços estavam 
contra o mais velho, do qual exigiam a entrega de um docu- 
mento, recusado por elle. Um dia, e sem que tivesse precedido 
qualquer altercação, o ira ão mais moço abrasou o mais velho que, 
admirado por este facto, lhe perguntou o que isso segnificava, 
quando no mesmo instante o terceiro irmão o atravessou com 
uma faca, por de traz. E' de notar que um anno antes o assas- 
sinado matara um outro homem. 

Havia, pois ahi taes monstros que chegam até a distribuir 
entre os indiís as roupas dos mortos de varíola, causando assim 
a extincção completa de famílias inteiras 

Pouco antes da minha chegada a Minas-Geraes deu-se um 
facto que em crueldade excede a tudo quanto conheço e cuja 
veracidade pode ser attestada por meu companheiro de viagem, 



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sr. Von Eschweere. Uma porção de soldados portuguezes, com- 
mandados por ura capitão, tinha sido mandada em procura de 
uns Botucudos que, havia pouco, tinham coramettido alj^um 
excesso no Rio Doce e a ordem era de afu^ental-os ou matal- 
os. Marchando com prudência, encontraram logo o paradeiro 
destes antropophagos e cercaram-nos durante a noite Quando 
os Índios viram-se surprehendidos, procuraram salvar- se, exten- 
dendo-se no ch'^o, iing-indo estar mortos e suspendendo a res- 
piração. Naturalmente não lograram enganar os seus persegui- 
dores, cujo coramandante foi a cada um delles, baptizou-o e em 
seguida m^^rgulhou-lhe a faca no coiação De manhan os ven- 
cedorf^s regressaram e próximo ao logar da victoria encontraram-se 
com uma batucada que, com os seus dois filhinhos no cnllo, 
estava acocorada ao pé de uma marmita, sobre um fogo Im- 
mediatamente foi ella immolada pelos cruéis heróes, alcançada 
por uma bala. Aproximando-se a ella, já com os olhos velados 
pela morte, indicou ella a marmita que continha a carne de um 
macaco, deixando a triste entender que dessem de comer as crian- 
cinhas. Somente então alguns sentimentos humanos pareciam 
accordar nos peitos destes heióes que deixaram as criancinhas 
viver, um beneficio que estou inclinado a attribuir mais ao 
egoismo porque ha uma lei que assegura ao vencedor o direito 
por 10 annos sobre cada indio que prender em guerra. 

Por mais satisfactorio que seja para o philanthropo o pen- 
samento de civilizar os selvagens que ainda existem, forçoso é 
convir que a sua realização esta muito distante. Um motivo 
poderoso se acha no modo pelo qual os portuguezes procedem 
para com Oé Índios, cuja desconfiança nunca cessará e será 
egual mente difíicil para os portuguezes de acostumarem-se a 
enxergar no indio um similhante seu e não uma espécie de ani- 
mal. 

A civilização de um povo não pode ser obra de pessoas 
isoladas: toda a nação que o circumda deve contribuir para isso. 
Mas aquelles que estão mais próximos dos Índios são exacta- 
mente a escoria dos portuguezes, igualmente ignorantes e muito 
peiores que o próprio indio. A intenção de Marliére é a me- 
lhor do mundo e elle faz tudo para que os Coroados olvidem 
as offensas recebidas e para evitar novas ; porem elle preciza de 
muitos annos para ver furctificarem os seus esforços, e aconte- 
cerá talvez que depois delle virá outro que num momento des- 
truirá tudo isso que elle edificou com tanto trabalho e tanto 
amor . 

E' um carecteristico notável dos Índios mostrarem a máxi- 
ma indifferença j)or tudo, mesmo por objectos que lhes são intei- 
ramente novos Este traço costuma ser laro entre selvagens 
em geral, mas o índio brasileiro nada admira e parece não 
conhecer a alegria nem a dor. Podia se mostrar aos Coroados 
o que quízesse, permaneciam sempre impassíveis nas suas redes 



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e, infelizmente, é esta immobilidade dos sentimentos que consti- 
tuft iim dos maiores obstáculos para a civilização. Um povo, 
tão pouco inclinado a transformar-se, não dá esperanças de 
ser ganho pela cultura. 

Milhares de exemplos da historia deviam ter provado ao 
conquistador corso, ignorante do génio da nação moscovita, que 
as suas promessas de acabar com a escravidão russa seriam ridi- 
cularisadas, ainda que não se queira lembrar da frequência com 
que elle mentia aos povos, o que finalmente lhe fez perder toda 
a sua magestade e poderio. Todas as tentativas dos portuguezes 
para ganhar os indigenas brasileiros hão de fracassar j)or este 
mesmo motivo. 

Antes de terminar as minhas observações sobre o selvagem 
brasileiro, seja-me permittido confessar que a hypothese da 
America ter sido povoada pelos povos asiáticos não me parece 
philosophica. Si a Ásia deu origem á humanidade, porque então 
a America não teria feito o mesmo ? A pretendida similhança 
entre as raças americana e mougolica não somente não é tão 
grande, como não se deve também esquecer que não convém 
considerar tanto a influencia do modo de vida do homem para 
disso tirar partido em favor de uma hypothese arriscada. 

E, todavia, é essa influencia tão grande e sempre observa- 
da- Não será mais plausivel admittir que a America produziu 
gente igual aos daquella parte da Ásia, mormente quando o modo 
de vida e os costumes contribuíram para tornar a similhança 
tão grande. 

Continua, todavia, a opinião que houve emigração da Ásia 
para America, porém nem por isso é necessário acreditar que 
estes immigrantes encontraram desertos deshabitados porque não 
ha ob&ervação de que a America seja mais povoada para o lado 
da Ásia, nem que não esteja povoada por toda a parte. Onde 
sempre houve guerras entre as tribus, o povoamento não podia 
progredir. Além disso, vemos que aquelles territórios, para o 
lado da Ásia, tinham maior população e é alli que se encon- 
tram os primeiros vestígios da benéfica agricultura. Gente in- 
teiramente diversa foi encontrada no México pelos hespanhóes e 
os indigenas nas possessões russas na costa noroeste são poucos 
numerosos. 

O clima não deve por isso ser tão considerado como o modo 
de vida. 

E' uma asserção errónea que o Brazil tivesse sido mais po- 
puloso antes da vinda dos portuguezes. Si assim fosse, os indi- 
genas devem ter sido expulssos de uma grande parte do seu 
território para os districtos cobertos de floresta onde hoje vivem 
e diviam ser mais numerosos. Ma'=i, segundo observações fidedi- 
gnas, não se pode contar mais de 150 indivíduos por légua qua- 
drada e não conheço aliás um paiz com tal população e cujos 
habitantes estivessem em tal inferioridade de cultura como es 



— 211 — 

selvagens no Brazil. Quando um paiz é bem povoado, tem elle 
sempre uma civilização superior porque são as necessidades que 
obrigam os homens a inventar, mas onde aquellas faltam, não se 
pode esperar de encontrar esta. 

Seria capaz de colher ainda mais observações sobre os indíge- 
nas do Brasil, sobre Coroados^ Puris e Coropós, si as circumstancia 
não tivessem obrigado a volta para o Rio de Janeiro, de forma 
que tive de sahir de Villa Rica no mez de Janeiro. Antes, 
porém, tive a satisfação de receber do meu amigo Marlière pre- 
ciosas confirmações das minhas observações e do vocabulário, que 
foi assim augmentado. (Estampa 5.) 

Charadiscus armatus mihi . , 

A naturesa deu a vários géneros de pássaros do continente 
novo, esporas nas azas para a sua defesa, porém até hoje não 
conhecia nenhum Charadiscus, razão porque o desenhei. A iris 
deste bello pássaro é castanho escura; as pálpebras avermelhadas; 
o bico verde de azeitona escura ; os pés e as azas côr de tijollo : 
O alto da cabeça, por baixo do bico, a garganta, um annel ao 
redor da nuca, o ventre, o anus e as penas curtas da cauda são 
brancas. O pescoço posterior, a frente da cabeça, o peito e os grande 
remigios com a ponta da cauda branca, são pretos. A cabeça por 
dentro do annel branco, as costas e as pennas que cobrem das 
azas são pardo escura ; as grandes pennas da azas tem pontas 
brancas. Este pássaro é raro nas margens dos rios do interior do 
Brazil* 

CAPITULO IV 

DESCRIPÇÃO DOS OUTROS HABITANTES DO BRAZIE , DA AGRICULTURA, ETC. 

No capítulo precedente procurei dar uma descripção do pri- 
mitivo indígena, convém agora escrever uma noticia dos outros 
habitantes do Brazil. 

No Brazil encontram-se as raças mais ou menos puras ou 
misturadas uma com out^-a. Estes cruzamentos dão ao povo bríizi- 
leiro uma diversidade extraordinária e é aqui o logar onde as 
difíerenças da civilização e de côr são postas em contacto e por 
mais atfastadas que as divergências das raças puras, sejam 
pode-se, todavia, distinguir três raças j)ricipaes que são : 

1". — a raça proveniente do cruzamento eatre a caucasica e 
a ethiopica, ou os mulatos ; 

2*. — a proveniente do cruzamento da caucasia com a ame- 
ricana, ou os caboclos, e 

3\ — o cruzamento dos mulatos com a raça ethiopica, que 
apezar de se approximar muito a esta ultima, traz, comtudo, o 
cunho da raça caucasica. 



— 212 — 

As inmimeras variações que resultam do cruzamento conti- 
nuo destas três raças são designadas pelos nomes delias conforme 
a côr se approxima de uma ou de outra. 

Mulato (feminino, mulata) chama-se aquelle cujo pae ou 
cuja mài era da raça caucasica, sendo raro, porém não sem 
exemplo, de ter sido a mãe. Si os mulatos se crazam com os 
brancos denominam-se os filhos mulatos claros. Estes últimos, 
casados com brancos, produzem filhos muitos clros e apenas o 
crespo do cabello ainda accusa a origem ethiopica. Raras vezes 
perdem estes cabellos crespos antes da quinta ou sexta geração, 
se não houver antes disso approximação á raça caucasica por 
casamento com branco. O casamento com preto, mulato, caboclo 
ou cabra, interrompe o desaparecimento do característico e fixa-o 
atè numas das raças mencionadas. O nome mulato é até offen- 
sivo e emprega- se por desdém ou para designar inferioridade ; 
diz-se então é este ou aquelle pardo ou parda. 

Caboclos são os filhos gerados com os selvagens, ainda que 
estes se unam depois aos brancos até a terceira geração. Pode 
também haver cruzamento com mulatos ou negros. E' facto 
muito notável que os filhos provenientes do cruzamento entre 
a raça americana e a caucasica ou ethiopica sempre se parecem 
mais com a primeira e que os característicos da origem ameri- 
cana se conservam tenazmente. 

Um cruzamento considerável têm logar entre os mulatos e 
os pretos e cujo producto se denomina cabra. A côr destes cos- 
tuma ser um pardo amarellado. 

Denominam-se Índios os filhos de pães pretos, natos no 
Brasil. (1) 

Na denominação dos cruzamentos diverge Marcgraf. 

Com o tempo hão de augmentar estas differenças de côr e 
de civilização, porém acabarão por se fundirem e formar uma 
raça especial e bella como a que já se manifesta nos mulatos 
claros. Esta fusão presuppõe, porém, a terminação da escravi- 
dão e seu trafico, pois, desde que não houver mais introducção 
de escravos, estou convencido que em menos de três gerações 
não haverá mais gente preta no Brasil. A medida anti-politica 
de introduzir mais homens pretos do que mulheres certamente 
contribuirá também. 

Como já mostrei em outro logar, resulta uma porção de 
males da diversidade da côr e entre elles o orgulho offendido 
é um dos maiores. Acima de todos coUoca-se o branco e o 



(l) Maregrraf— i)e Incolis Brasilice : 

Denique ah misturam variarum nationum, alice quinque distincta hominum species 
reperiuntur : nimérum qui ab Europaeis parentibus, paire atque maire, hic natus est, 
«ippella'ur Mozombo ; ' 

qui natus est ex patre Europaeo, et matre Brasiliana, nominatur Mameluco. 

natus hec ex utrisqu^ parentibus nigritis, appellatur CRIOLO. 

natus ex paire europaeo et matre xethiopissa, vocatur MULATO. 

natus e paire brasiliense et maire athiopissa vocatur CURIBOCA. Á CABOCLO. 



-• 213 — 

mulato julga-se melhor do que o caboclo, do que o cabra e o 
negro ; o cabra, por sua vez, quer ser mais do que cabra e 
este, quando nascido no Brasil, olha com desdém o africano re- 
cem-chegado. 

O poítuguez, salvo algumas mudanças insignificantes, con— 
servou-se o mesmo no Brasil; prefere- se, porém, e com razão, 
o brazileiro. Este é vivo, mais emprehendedor e em geral de 
«spirito extremamente intelligente, que, porém, por falta de es- 
colas, não chega a ser devidamente cultivado. 

O corpo do brazileiro é bello, muito resistente e forte, e 
a sua cór muitas vezes não é tão trigueira como a do portu- 
guez. Os cabellos costumam ser pretos, mas, como em Minas 
óeraes, os louros não são raros. Os olhos são castanhos e os 
traços physionomicos intelligf^ntes. Ainia que entre as mulhe- 
res não se encontrem bellezas como no norte da Europa, não 
se pode negar que as brazileiras se distinguem pela belleza da sua 
figura, do ^ieu brilhante cabello preto, do seu olhar fogoso e 
pela sua grande vivacidade. Ambos os sexos têm tendência 
para a corpulência, o que certamente provem do seu caracter 
indolente e amor á commodidade. 

O brazileiro não é tão desconfiado como o portuguez, é 
mais cordial e muito menos traiçoeiro ; é orgulhoso, mas amá- 
vel para com os extrangeiros, excepto quando julga encontrar 
um inimigo da sua nação. Por isso um allemão, um sueco ou 
um russo é geralmente melhor recebido do que um hespanhol, 
iim inglez ou um francez. Excessivas são, porém, as promessas 
dos brazileiro» e não se deve acreditar em tudo quanto dizem, 
mesmo depois de ter- lhes prestado algum serviço ; pelo menos 
corre-se o risco de ser tido como pessoa sem maneiras. E' 
também mais por cortezia do que por boa vontade que o bra- 
zileiro ofíerece ao extrangeiro a sua casa e tudo quanto possue 
ou quando elle diz ser «Vosso criado» ou «estou ao Vosso ser- 
viço para tudo e para sempre» . Esta cortezia excessiva torna- 
se até ridieula porque vê-se-o muitas vezes offerecer objectos 
que nem lhe pertencem. 

No modo de viver e mesmo em religião o brazileiro é 
muito mais tolerante do que o portuguez ; encontram-se, porém, 
relativamente ao ultimo ponto, especialmente nas villas e nos 
povoados do interior, muitas excepções. Ahi o extrangeiro faz 
bem em seguir os costumes do logar. A superstição torna isso 
muito necessário como tive de verificar um dia num povoado. 
Era por oceasião da sahida de uma igreja onde eu tinha as- 
sistido á missa. Um patrício meu queria mostrar-me a sua 
amizade e, como de costume, espargir-me com agua benta. 
Infelizmente, pnrém, eu não tinha comprehendido a sua inten- 
ção, de modo que eu recuava bruscamente quando senti a agua 
fria no meu rosto ardendo. Como eu era o único extrangeiro 
no logar, todos reparavam em mim e immediatamenta espalhou- 



— 214 — 

se o boato de que eu, por causa do medo que tinlia mostrado, 
estava possuído de um espirito maligno, a quem a agua benta 
liorrorisava. O caso chegou a tal ponto que de tarde manda- 
ram-me um padre para salvar a minha pobre alma, preferindo 
eu, porém, abandonar para sempre e de noite aquelle legar. 

A imaginação vivíssima do brazileiro leva-o muitas vezes 
ao exaggero e é egualmente frequente que elle explique o 
que não conhece, por simples phantasia. Assim, p. ex., ha 
uma porção de pássaros cuja voz elle acha parecida com a sua 
lingua. Isto é muito exagerado, apezar de haver alguma razão 
para isso, porque existem effectivamente pasí^aros que «falam» 
algmas palavras distinctas, de modo a parecer que a Providencia 
desde o começo destinou o portuguez para ser senhor do Brazil. 
Seja isso, porém como fôr, verídico ou não, a verdade é que 
os seguintes pássaros têm a habilidade de falar palavras por- 
tuguezas : uma ave nocturna (caprimulgus) diz destinctam ente, 
João corta páu ; uma pomba pequena, columha squamosa [MiJii\ 
canta no mais ermo da floresta, muitas vezes horas inteiras, iiin 
só-fico ; o Bemtevi (Lanius Pitangua Lath.) grita o seu bem-te-vi 
na approximação de alguma pessca ; o Jacu {Penélope cristoJa\ 
fugindo, parece caçoar com o caçador que errou o tiro, quando 
solta seu estridente ha-ha. Especialmente o JBemteii, muitas ve- 
zes dava pacto á superstição, porque tem o costume de fazer 
ouvir o seu grito quando enxerga alguém, do que muitas vezes 
elles se utilizavam quando procuravam escravos fugidos, sendo 
o facto interpretado como cousa inteiramente sobrenatural. 

Dar regras geraes para usos e costumes ou observações sobre 
isto, emparte alguma é mais difficil do que aqui, onde elles são 
mais diversos ainda do que as cores da população. Ha, porém, 
dous extremos na vida em que os homens peuco divergem entre 
si, os quaes são a alegria e a dôr, as festas e o lucto. Entre as 
festas merece menção a dansa brazileira a Batuca o [batuque). Os 
dansadores formam roda e ao compasso de uma guitarra (viola) 
move-se o dansador no centro, avança e bate com barriga a na 
barriga de outro na roda, de ordinário pessoa de outro sexo. No 
começo o compasso da musica é lento, porém, pouco a pouco 
augraenta e o dansador do centro é substituído cada vez que dá 
uma embigada ; e assim passam noites inteiras. Não se pode 
imaginar uma dansa mais lasciva do que esta, razão também 
porque tem muitos inimigos, especialmente entre os padres. As- 
sim, p. ex., um padre negou a absolvição a um seu parochiano, 
acabando desta forma com a dansa, porém, com grande descon- 
tentamento de todos. Ainda ha pouco dansava-se o batuque em 
V1LLA-E.1CA numa grande festa e na presença de muitas se- 
nhoras que applaudiam freneticamente. Raro é ver outra dansa 
no campo, porém, nas cidades as dansas inglezas quasi que 
substituíram o batuque. 

O brazileiro é serio, e raro é vel-o alegre ; de noite, porém 



— 215 — 

ao som da guitarra, mo^^tram os homens o seu grande talento 
para a musica e as mulheres para o canto. Raras vezes, porém, 
ajuntam- se os vizinhos e mesmo neste caso não se observa 
aquella cordialidade que tanto embelleza a nossa sociedade. 

Além dos trabalhos para a subsistência, que nos brazileiros 
abastados são effectuados exclusivamente pelos escravos, occu- 
pa-se o brazileiro especialmente com a caça e poucos paizes ha 
onde existam tantos e tão apaixonados amadores delia, como 
aqui. E' preciso observar o brazileiro j)ara formar uma idéa ver- 
dadeira da sua resistência á=i fadigas. Dias inteiros atravessa 
elle as densas florestas das serras, onde, geralmente, a cada passo 
é necessário abrir caminho a fíicão e isto sem outro alimento 
mais do que um pouco de farinha e carne secca. 

Esta paixão pela caça é de algum modo útil para o Brazil, 
porque resulta dahi excellentes atiradores, que na occasião em 
que o Brazil precisar da sua milícia, á qual todos os brazileiros 
pertencem, terá delles o maior auxilio e utilidade. 

O brazileiro é sóbrio, mais ainda no beber do que no co- 
mer e, com eíFeito, talvez em nenhum outro paiz haja tão pou- 
cos bêbados como no Brazil. Outros vicios são, por isso, mais 
frequentes. 

Os trabalhos das mulheres, que pouco se preoccupam com 
os arranjos da casa, entregues ás escravas, são de costura, bor- 
dados 6 a confecção de flores artificiaes e artefactos de casa. 
Em todos estes mostram não só bom gosto como muita habili- 
dade. Póde-se, muitas vezes, censural-as do pouco amor que re- 
velam pelos maridos ou filhos. Distinguem-se, porem, pela gran- 
de fecundidade e raras vezes succumbem no parto, o que de 
certo depende do clima e do traje. O vestuário delias é muito 
preferível ao das nossas mulheres, porque visa mais á commo- 
didade do que á forma e, de facto, poucas brazileiras ha que 
conhecem o espartilho e menos ainda as que usam delle. 

Nas cidades o vestuário dos dous sexos é o europeu, po- 
rem, sem tantas modificações como no nosso paiz, em consequên- 
cia da moda. No campo o vestuário é, ás vezes original : um 
g-rande chapéu de feltro, as botas pardas afiveladas acima do 
joelho, com grandes esporas de prata, e o jaquetão curto dão 
ao mineiro abastado do campo uma certa importância. Os po- 
bres em Minas Geraes vão sempre descalços e, qaando montam 
a cavallo, amarram as grandes esporas de ferro directamente 
nos pés. 

No campo as habitações são tão uniformes como o vestuá- 
rio. As casas são pela maior parte de um só andar e com mui- 
tas portas, mas poucas janellas em relação, e quasi sempre sem 
vidraças. E' muito commum haver uma varanda aberta na fren- 
te da casa, onde se tomam as refeições. Ha também varias de- 



— 216 — 

pendências para o fabrico do assucar e da ae^ua-ardente, con- 
struidas de tijolos. Não é raro í^ncontrar-se uma capella para a 
missa, principalmente nas fazendas gaandes. Os escravos moram 
em casinhas de barro, perto da casa da fazenda. 

Nos lo^í-ares da capitania de Minas Geraes onde o terreno 
não é aurífero, encontram-se aqui e acolá os benéficos vestígios 
da ao-ricultura, infelizmente num estado rudimentar, porque nem 
ao menos emprega se o arado. A par da carência de conheci- 
mentos, ha falta também de braços activos. O resultado ó por 
isso também muito pequeno, porque todos os productos são man- 
dados para a Capital e a viagem de 6 semanas absorve quasi 
todo o lucro da fertilidade da terra. Os principaes artigos que 
elles exportam para o Rio de Janeiro são o café, o assucar e o 
algodão. Milho, feijão e arroz não valem a pena plantar mais 
do que para o gasto. Si os rios de Minas Geraes fossem nave- 
gáveis, a agricultara podia então florescer, o que as grandes ri- 
quezas que até agora se tirou da terra não puderam occasionar. 
O terreno do Brazil é geralmenie muito fértil e somente algu- 
mas poucas baixadas arenosas á beira-mar fa2!em disso excepção. 
As hortaliças, que em nosso paiz se colhem uma vez por anno, 
plantam-se e colhem-se aqui pelo menos 4 a 6 vezes, como cou- 
ve, feijão, alface etc. Porem, o seguinte prova mais ainda o 
quanto é fértil a terra deste paiz: o café, que hoje é um dos 
mais importantes artigos de exportação, era ainda importado ha 
40 annos. Somente em 1773 o Vice-Rei de então recebeu 2 ar- 
vorezinhas que foram plantadas no Rio de Janeiro e estas fo- 
ram a origem dos milhões de cafeeiros que constituem a maior 
parte das plantações daqui. 

A capitania de Min&s Geraes, por occasião do recenseamen- 
to em 1803, tiuha uma população de 407.000 almas, das quaes 
5/6 são escravos. Havia então uma cidade, Marianna, 13 villas 
e 66 freguezias, porém, daquelle tempo para cá não somente a 
população augmentou, porque póde-se com toda a segurança 
admittir que ella recebeu annualmente mais de 4.000 escravos, 
como também fundou-se maior numero de freguezias. No recen- 
seamento acima não são incluídas as tribus dos indígenas que, 
calculando se pela área que habitam, certamente chegam a uns 
10 — 15 mil indivíduos. O Brazil pertence aos paizes mais sau- 
dáveis da zona quente e Minas Geraes é talvez a mais saudável 
do todas as capitanias, porque de facto encontram-se aqui mui- 
tas pessoas com mais de cem annos. 

A criação de gado em Minas Geraes é tão favorecida pelo 
clima e pelo terreno que não pode deixar de dar lucro em um 
e outro logar. Grandes manadas de gado seguem annualmente 
daqui para a capital e para outras províncias. Além disso o 
queijo e principalmente o toucinho salgado e a carne de porco 
são importantes objectos de negocio para Minas Geraes.. Car- 
neiros ha poucos, porque não se explora esta industia e muitas 



— 217 — 

pessoas consideram Dociva a sua carue. Ha, porem, muita cria- 
ção de cavallos e a raça é muito bonita. Onde agora pastam 
20 animaes, facilmente podiam-se ter mil. 

Como já mostrei sào necessários grandes melhoramentos na 
mineração, na agricultura e na industria pastoril, se ellas tive- 
rem de chegar ao desenvolvimento que têm na Europa. Isso, 
porém, não obsta de admirar o grande progresso que tem feito, 
o Brazil, sendo tão vasto e tão pouco popuL so. Não sào, porem, 
os indigenas que ajudavam nisso, são os milhões de escravos 
que elevaram o Brazil á altura em que está e em que progride, 

CAPITULO V 

OBSERVAÇÃO SOBRE O TRAFICO DE ESCRAVOS E DESCRIPÇÃO DO 
ESTADO DA ESCRAVIDÃO NO BRAZIL 

Já na historia antiga encontram-se vestígios da escravidão 
e até a Europa inteira a possuia antigamente. Naquelles tem- 
pos idos, em que a força predominava, ninguém defendia o di- 
reito do homem. As guerras geravam a escravidão e o victorioso 
que não matava os seus prisioneiros, julgava-se com o direito 
de fazer delle o que entendesse . Mais tarde aconteceu até que 
a escravidão era a causa da guerra, não que fossem os escravos 
que se revoltassem, mas no intuito de procurar mais escravos, 
como Ds romanos e outras nações que guerreavam os seus vizi- 
nhos por esse motivo. Assim fazem ainda hoje os negros na 
Africa e admitte-se que a maior parte dos escravos na costa 
d'Africa sejam prisioneiros de guerra. Mas, além deste modo de 
adquirir escravos, ha outros pelos quaes os guerreiros livres, no 
seu próprio paiz, se tornam escravos : 

l.'* por indemnização, em virtude de crimes ; 

2.^ por trahição, pelos próprios vizinhos, que os roubam e 
vendem, ou 

3.** como ás vezes acontece, por haver pães que vendem os 
filhos, ou maridos que, por castigo, vendem as mulheres. 

Não é, pois, raro que os escravos recebidos em troca pelos 
portuguezes já tenham sido escravos de seus próprios patrícios, 
em virtude de alguma das três causas referidas. 

Não se pode, todavia, negar que a occasião de poder vender 
os seus patrícios fosse um verdadeiro incentivo para isso, pois, 
é até muito provável que somente depois de ter a cubica dos 
europeus, logo após a descoberta da America, iniciado este tra- 
fico, o negro começou a ir á caça de seus irmãos, o marido a 
vender a mulher e o pae o filho. Isto é contado por muitos 
centos de escravos 

Para instigar os negros a praticar isso, augmentaram-se- 
Ihes as necessidades com objectos que antes não conheciam e 
que não havia na terra delles ou que não sabiam adquirir. 



— 218 — 

Ensinou-se-lhes o uso do ferro e seu valor somente no intuito 
de obter delles os amigos, mulheres e filhos. Não eram, po- 
rém, somente objectos úteis que se davam para estragar estes 
ingénuos ; também carregamentos inteiros de quinquilharias fo- 
ram para a Africa com este fim, especialmente quando o mi- 
serável traficante de carne humana observou que por meio des- 
tas inutilidades podia augmentar o seu lucro. Pequenos espe- 
lhos e coraes falsos produziam a maior impressão sobre esta 
gente s«imples ; boje, porém, são especialmente espingardas, te- 
cidos grosseiros de algodão do Malabar e agua ardente as mer- 
cadorias a troco por que dão o seu marfim e seus j^atricios. Nas 
guerras entre as diversas tribus matam- se todos os prisionei- 
ros velhos, porque os portuguezes não os querem comprar. 

Os paizes de onde vêm os escravos para o Brazil estão 
situados a 8 graus de latitude norte e ao norte do Equador e 
são os seguintes : Mina, Cabinda, o reino de Angola, Novo Re- 
dondo e Benguela. Também do Promontório Verde levam-se 
escravos para o Pará. Raras vezes vêm magros das ilhas Fer- 
nando Pó, Ilha do Principe, S. Thomé, Anno Bom, etc , visto 
ser o numero aqui insignificante e mal dá para as próprias ilhas. 
Do lado opposto da Africa, de Moçambique vêm, porém, cerca 
de 3,000, annualmente. 

Segundo Mendes (1) o qual sigo em todos os outros pontos, 
quando estão de accôrdo cora as informações que colhi em outras 
partes, o negro no seu paiz só trabalha quando a necessidade o 
obriga a isso. Elle planta pouco milho e é a caça e a pesca 
que principalmente lhes fornecem o alimento. As relações do 
negro livre, no interior, com os portuguezes que habitam a costa 
são pouco conhecidas, mas parece qne nem sempre foram pacificas, 
visto terem instituido alli, como no Brazil, presídios nos quaes 
os soldados devem velar pela segurança da população. E' para 
estes presidies que os negros trazem amarrados os escravos que 
querem trocar e, alli é, que os traficantes os recebem. Assim, 
vão de um presidio para outro, até que tenham o numero sufíi- 
ciente para seguirem á costa. Ao mesmo tempo carregam-se os 
escravos com o marfim e a cera que compraram dos seus patricios 
e também com as provisões de bocca necessárias para a volta. 
Já nesta viagem succumbem muitos dos infelizes, por falta de 
cuidados e muitas vezes por falta de alimento, e apezar de que 
o lucro dos traficantes diminúe com isso, fica ainda bastante para 
enriquecerem. Muitos escravos chegam doentes ao porto, onde 
passam de um para outro traficante, mas isto não melhora a sua 
sorte porque estes traficantes de carne humana são insensíveis 
pela miséria humana e só animados pela cubica. Os alimentos 



(1) Luiz António Mendes. Nas Memorias económicas da Academia das Sciencias' 
Lisboa 1812. Determinar com todos os seus symptomas as moléstias agudas o chro- 
nicas etc, etc. 



— 219 — 

peiores e até já estragados, o pouco espaço em que são fechados 
durante a noite e o nenhum cuidado para com os doentes, são 
a& causas de que a metade dos pretos já aqui são libertados pela 
morte. Mendes admitte também que de 12 mil escravos que 
annualraente chegam á Loanda, muitas vezes apenas 6 cu 7 mil 
alcançam o Brasil. 

Apoz todos estes soffrimentos e depois de milhares delles 
terem succumbido pelas fadigas da viagem, chegam os escravos 
finalmente a ser entregues aos capitães dos navios, para serem 
embarcados para o Brazil. Mais infeliz ainda se torna a sorte 
do desventurado preto ; para augmentar o lucro procura cada 
navio carregar a maior quantidade que caiba a bordo, de modo 
que um navio de 300 tons (150 toneladas) raras vezes leva menos 
de 700-800 destes infelizes. Por um motivo mais infame ainda 
o capitão providencia sempre no Brazil para ter mantimentos 
para a volta, por serem alli mais baratos ; por isso estão esses 
mantimentos mais ou menos estragados, o que custa a vida a 
muitos escravos. Arrumados todos num espaço insufficiente, estão 
elles quasi sempre empilhados por baixo do tombadilho, cujas 
estreitas aberturas não lhes facultam a entrada do ar nem a 
sabida das emanações de tantas pessoas, que numa zona quente 
se tornam verdadeiramente pestíferas e mortaes. Os alimentos 
estragados contribuem por sua vez para que em poucos dias de 
viagem já se produzam mortes. Mais terrivel ainda se torna 
quando os ventos contrários atrazam a viagem e a falta d'agua 
começa. Um caso destes tristissimo, aconteceu ha anno e meio 
num barco que vinha de Angola, tornando necessário jogar fora 
toda a carga humana, que tinha morrido. O capitão ordenara 
ao contra-mestre de bordo que enchesse com agua doce todas as 
barricas trazidas do Brasil para conservarem-se estanques. Esta 
ordem, porem, por negligencia não foi executada sinão em parte 
e somente 12 barricas tinham agua doce quando a viagem come- 
çou. Havia já dez dias que o barco se achava no mar, quando, 
ao abrir uma barrica, se verificou que esta continha agua salgada, 
mas já era tarde e apenas uma só barrica de agua doce ainda 
existia para uma viagem que devia levar varias semanas. Si as 
chuvas não tivessem salvado a vida do capitão e de alguns 
homens da tripolação, talvez esta triste historia nunca tivesse 
sido conhecida. 

Nestas viagens marítimas morrem milhares de escravos e 
podem- se considerar felizes aquelles que chegam com vida ao 
Brazil, posto que a morte talvez lhes seja antes um beneficio, 
porque os livra da miséria. 

Mas estes escravos ainda não são christãos e somente depois 
de serem vendidos no Brazil é que os seus novos senhores cos- 
tumam leval-os ao baptismo. Em Angola e Benguela, porem, 
são elles baptisados antes de embarcarem. O processo é muito 
especial : ajuntam-se todos, muitas vezes em numero maior de 



— 220 — 

cem, e o padre, os baptisa em massa e com um só nome. Como 
o padre recebe pagamento por cada escravo pode -se imaginar 
que sendo tantos rs escravos que embarcam, os servidores da 
eo-reja têm nisto uma bôa renda. A bordo, por cccasião de tempes- 
tade ou outro perigo, o padre do navio baptisa todos que ainda 
não o foram, espargindo sobre todos, de uma vez, um pouco dagua. 

A chegada ao Brazil e especialmente o dia em que são 
vendidos e têm de acompanhar o novo dono, são por muitos 
motivos o momento mais importante na vida dos escravos. 
O traficante brazileiro, porem, já os trata um pouco melhor 
porque a viagem e o imposto do governo tem quadruplicado o 
valor dos pretos, de modo que com a perda de uma vida perdem 
também uma boa quantia. Levam-se os escravos á casa do tra- 
ficante, para alli serem expostos como uma mercadoria qualquer. 

No Rio de Janeiro, a rua onde os escravos são vendidos 
chama-se Vallongo e offerece um espectáculo interessante ao 
extrangeiro. Quasi todas as casas aqui têm nos baixos um compar- 
timento espaçoso ondt^ em geral varias centenas de pessoas podem 
ser alojadas e para ahi conduzem-se os escravos. Um lenço de 
côr ou um pedaço de panno de lan que esconde os organs que 
não devem ser vistos é todo o vestuário que possuem. Os ca- 
bellos encarapinhados são cortados por causa da hygiene e, effe- 
ctivamente, um negro assim, nú e que com a curiosidade do 
macaco tudo observa, parece muito mais próximo ao orangotango 
do que o europeu e accredito que assim seja. (1) 

E' uma sensação especial a que se apodera de quem pela 
primeira vez visita uma casa destes traficantes de carne humana, 
e é pena que tão poucos alli entrem sem outros sentimentos 
mais do que aquelles com que se entra numa feira de gado. 
Para rebaixar ainda mais a humanidade marcam-se os escravos 
na Africa quanHo são pagos os impostos da coroa. Esta marca 
é feita com ferro quente sobre a pelle ; vi varias moças nas quaes 
tiveram a crueldade de pôr a marca no seio, ainda não formado 

Mas não são somente estas marcas que servem para os donos 
reconhecerem os seus escravos, porque ha também tatuagens, 
costume esse que se acha introduzido entre todos os povos da 
terra. Desde o polo do norte até o do sul, desde o occidente 
até o oriente, encontram-se veatigios deste costume, que existe 
mesmo nas ilhas isoladas do Oceano Pacifico. Sendo tão vulgar 
este costume, são entretanto tão differentes as opiniões a re- 
speito da sua origem, que eu também quero expor o meu modo 
de pensar. 

O selvagem no estado primitivo não conhece leis nem re- 
gras para a sua vida além das que emanam do seu instincto 
de conservação e nisto procede como o animal porque falta-lhe 
a verdadeira razão. Começa por destruir o que encontra ao 



(1) Viagem de Thumberg. 



— 221 — 

redor de si e, não contente em ser o senhor da creação, ataca 
a fera mais bravia e até o seu similhante. Assim começam as 
guerras e com ellas a ideia de valentia, talvez a primeira vir- 
tude que o selvagem aprei-ia ; porqfue a coragem e a valentia 
protegem as suas habitações dos ataques dos inimigos e conti- 
nuam a matar as feras e a guerrear os visinhos. Procurou-se 
conservar a memoria dos feitos excepcionaes de bravura e o 
melhor meio consistia nas cicatrizes das feridas adquiridas na- 
quellas occasiões e era uma honra poder mostrar muitas, resul- 
tando d'ahi que aquelles que nenhuma ferida traziam da guer- 
ra talvez se ferissem a si mesmos, o que parece demonstrado 
pelo facto de que os Nukahivos, depois de cada grande acção 
ou feito, se deixam tatuar. (1) Com a ideia do direito da pro- 
priedade acontece com estes signaes de honra o mesmo que com 
muitas commendas, porque o rico tem sempre occasião de as 
adquirir e tanto mais entre os selvagens onde riqueza e honra 
eram adquiridas pela bravura. Começaram a ter ideias espe- 
ciaes a respeito da forma das cicatrizes, de conformidade com o 
sentimento de belleza de cada um alguns alcançaram a maior 
perfeição em produ/ir taes cicatrizes pela tatuagem e fizeram 
disBO uma et^pecie de officio pago. Quando mais tarde as na- 
ções, que antes viviam da caça e da guerra, se tornavam em 
agricultores, continuou-se a tatuagem como uma espécie de or- 
namentação do corpo, como um signal de distincção. Essa 
ideia de distincção- prevalecia tanto mais quanto o augmento 
da civilização e o cuidado pela propriedade, ameaçada pelas 
guerras com os vizinhos, faziam a bravura ser ainda mais apre- 
ciada. Neste ponto acham-se ainda milhões de homens e entre 
elles também os negros da Angola, Gabinda, Benguela, etc. 
As ideias desta gente a respeito da riqueza não estão, porém, 
inteiramente de accôrdo com as nossas e acham-se, de ordiná- 
rio, unidas ás ideias de valentia e de bravura. Não é, por isso, 
talvez sem razão que se afiirma serem preferíveis os negros ta- 
tuados e afiançaram -me que quanto mais a pelle de um negro 
for tatuada, tanto mais alta tinha sido a sua posição, e isto 
mesmo entre os outros negros tatuados, sendo provavelmente 
um chefe ou filho de chefe de tribu que tinha sido capturado, 
com outros, e vendido aos portuguezes. 

Annualmente entram no Rio de Janeiro 20.000 escravos, 
dos quaes 12.000 seguem para Bahia, 6.000 para o Pará e Ma- 
ranhão H outros para o interior do paiz. 

Póde-se admittir que a população brazileira augmenta an- 
nualmente de 40.000 escravos, mas destes escravos introduzidos 
três quartas partes são homens, porque empregam-se de prefe- 
rencia homens nas fazendas e por isso ha delles maior procura. 



(1) Circumnavegação de Kruseastem. 



099 

Tive disso notáveis provas durante as minhas viagens, encon- 
trando muitas vezes fazendas onde só haviam escravos masculi- 
nos. Em geral a relação entre os homens e mulheres escravos 
é de 4 para ura e em nenhum logar achei numero egual de 
ambos. Por maior que seja o erro representado por este facto, 
a ganância impede ainda que os escravos se casem. 

Sabe-se por experiência que um escvavo nascido no Brazil 
fica mais caro do que o importado da Africa, razão porque se 
impede por todos os modos que as escravas se casem, principal- 
mente no littoral. No interior do paiz, onde os impostos reaes e 
outros farzem augmentar muito o preço do escravo, é mais raro 
encontrar escravas solteiras. Também nisto a humanidade lucra- 
ria com a abolição do trafico dos escravos porque pela falta da 
importação ver-se-iam obrigados a augmentar o seu numero pelo 
casamento. 

Entre os escnivos importados ha, portanto, três quartas 
partes mais homens e entre os 40.000, admittidos como impor- 
tação annual, ha penas 10.000 homens e mulheres adultos ; todos 
os mais são crianças em diversas edades, muitas vezes até nasci- 
das durante a viagem; geralmente, porem, de 8—10 annos. 
Acontece também haver entre elles mulatos, filhos de pães bran- 
cos na Africa. 

Sendo certo que os negros selvagens trocam os filhos por 
espingardas, machados, facas, etc. , como não se torna então 
horroroso quando se pensa, que ha christãos tão desgraçados que 
vendem por algumas moedas os filhos que tem com as suas escra- 
vas e, todavia, este facto é tão vulgar, que no Brazil e para 
vergonha da humanidade se reproduz diariamente. 

Os negros se distinguem de ordinário por grande belleza de 
formas, o que ás vezes também acontece com as negras. O sr. 
Langsdorff, porem, segundo a minha opinião, excede-se quando 
acredita ser fácil encontrar entre as negras a Vénus de Mediei 
e teria certamente de perder muito tempo si elle a procurasse 
sem a cabeça da Vénus e da cor inimitável da mulher europea (1). 

As negras tem geralmente peitos flácidos e pendentes e 
somente as moças muito novas os têm de uma forma que satis- 
faz até as nossas ideias de belleza, e não é ao clima que se 
pode attribuir isso mas sim ao vestuário solto que raras vezes 
se compõe de mais do que uma camisa e uma saia. Nunca vi 
um só caso, como contam os viajantes, de que as mães ama- 
mentassem os filhos que traziam nas costas com o peito jogado 
por cima do hombro : porém muitas vezes vi que, mesmo duran- 
te o trabalho, a criança se enfiava por baixo do braço da mãe 
para mamar. 

Nem todos os infelizes que vêm da Africa sabem resignar- 
se á sua sorte ; muitas existências tristes acabam no suicidio e 



(l) Viagem de Langsdorff. 



— 223 — 

muitos definliam pela nostalgia antes de chegarem ás plagas 
brazileiras. Por isso, quando um navio conta de 50 ou mais 
mortos, o que não é raro, póde-í-e admittir que uma terça parte 
foi victimada pelo extremado amor á pátria. 

A mulher se acostuma com mais facilidade á escravidão. 
Em todas as partes do mundo é ella mais ou menos escrava e 
suspira debaixo do peso do trabalho. Assim o Kamtschadalo, o 
Tunguso, o Laponio e o selvagem norte-americano etc, dei- 
xam todo o trabalho para a mulher e apenas consideram a caça 
como a sua obrigação. De volta da caçada, entregam-se elles 
ao repouso e não cuidam em mais nada. Da mesma forma pro- 
cede o selvagem brazileiro e o mesmo encontramos nas tribus 
negras. Não é extranhavel por isso que as escravas trabalhem 
com mais gosto e menos queixas e se acostumem com mais fa- 
cilidade á escravidão, que já conhecem de casa , 

Não ha melhor nem mais certo padrão para o conhecimento 
de um povo do que as suas festas, os seus divertimentos. Assim 
uma única tourada nos faz conhecer num momento o hespanhol 
muito melhor do que uma estada de mezes naquelle paiz e 
uma corrida de cavallos ou uma briga de gallos nos revela o 
caracter typico do inglez. Por isso, o negro selvagem, coiji a 
sua alegria barulhenta e o cómico meneio do seu corpo, indica 
o verdadeiro grau em que se acha na escala social, que, con- 
forme as nossas ideias de belleza, está muito baixo, sendo sin- 
gular que as dansas dos negros sejam exactamente o contrario 
das nossas, porque ao passo que nós procuramos mostrar o nosso 
corpo na luz mais favorável e os nossos professores de dansa 
se esforçam por dar aos seus discípulos uma posição exacta e 
elegante, os negros procuram dar ao seu corpo as mais extra- 
vagantes posições, contrariando do modo mais desnaturai possí- 
vel o jogo de todos os seus músculos, e quanto mais elle o 
consegue maiores são os applausos que lhe são dispensados. 
Basta entrar numa das espaçosas salas de um traficante na Ca- 
pital, para ver uma porção de negros recera-chegados diverti- 
rem-se á moda do seu paiz, o que o traficante lhes permitte, 
porque sabe que a fcilta de movimento e a nostalgia lhes di- 
minuem o infame lucro. Encontramos ahi alguns centos de 
negros nús e rapados, diversos tanto na edade como no sexo, 
que formavam uma grande roda, batendo palmas com toda a 
força, acompanhadas com os pés e com um canto gritado e de 
3 notas ajoenas. 

Da roda saáe do repente um delles, pula para o centro 
onde gyra sobre si mesmo, movendo o corpo em todas as dire- 
cções, parecendo destroncar todas as articulações, e aponta jjara 
um outro qualquer, que por sua vez pula para dentro, fazendo 
o mesmo que o anterior e assim, sem mudança nenhuma, con- 
tinuam até serem vencidos pelo cançaço. Esta dansa ás vezes 
dura horas, com grande descontentamento dos vizinhos. 



— 224 — 

Porem, estes armazéns de escravos se esvasiam muitas vezes 
em poucos dias, visto nunca haver falta de compradores. O preço 
dos recemchegados é mais ou menos constante ; pelo menos é 
pequena a differença entre um menino de 10 annos e um ho- 
mem feito. Somente as criancinhas pequenas são mais baratas. 

Paga-se geralmente por um negro 125 moedas hespanholas, 
muitas vezes mais e raramente menos, e o sexo não faz grande 
differença. Pode -se admittir que o lucro do traficante é de 100 
por cento, tornando-se, porem, muito maior se ha poucos doentes 
entre os desembarcados. E' raro isso, e muitas vezes 
os navios chegam com a quarta parte da sua carga doente 
emquanto outros, que trazem comsigo o gérmen da moléstia 
succumbem poucos dias depois da chegada Por ter experiência 
disso, os traficantes procuram vender a sua mercadoria o mais 
depressa possivel, de onde vem provavelmente o costume de 
venderem os escravos a praso, maior ou menor, conforme o com- 
prador, o que parece vantajoso para ambas as partes, mas que 
quasi sempre o é somente para os traficantes, que vendem uni- 
camente os escravos ruins a prazo. Um escravo comprado desta 
maneira é eííectivamente mais caro, porem também para o com- 
prador tem isso a sua vantagem, especialmente no interior, 
onde é mais raro que os negros adoeçam logo e morram, porque 
até chegar ahi elles se acostumaram ao clima ou os symptomas 
da doença já se manifestaram. Não morrendo o escravo, a 
instituição do praso é vantajosa para o comprador porque em 
3 annos o trabalho do negro já pagou o gasto com a compra. 

As doenças destes recemchegados são numerosas e parecem 
estar em relação com as fadigas e misérias que soffreram e de 
que são consequ^^ncias. Muitos morrem de febres infecciosas, 
desyntheria, escorbuto, nostalgia etc, antes de chegarem ao 
novo senhor, mas também muitas vezes logo depois. A variola 
victima também annualmente uma grande porção destes infeli- 
zes, não obstante, porém, ser vaccinados gratuitamente, para o 
que o governo mantém postos vaccinicos em muitos legares. 
A indiffe^ença, porem, dos traficantes pela vida dos escravos é 
tão grande que não se utilizara destes postos úteis e até aquel- 
les que conduzem os escravos para o interior saem da capital 
sem terem vaccinado um só preto. Não se pode negar, todavia, 
que a maior parte succumbe por falta de cuidados e bens 
médicos. 

Próximo á rua Vallongo está o cemitério dos que escapam 
para sempre á escravidão. Em companhia do meu amigo dr. 
SchaefPer, que chegou aqui a bordo do navio russo Suvarov^, 
em maio de 1814, em viagem ao redor do mundo, visitei este 
triste logar. Na entrada daquelle espaço, cercado por um muro 
de cerca de 50 braças em quadra, esrava assentado um velho 
com vestes de padre, lendo um livro de resas pelas almas dos 
infelizes que tinham sido arrancados da sua pátria por homens 



— 225 — 

desalmados, e a uns 20 passos delle alguns pretos estavam 
occupados em cobrir de terra seus patrícios mortos e, sem se 
darem ao trabalho de fazer uma cova, jogam apenas um pouco 
de terra sobre o cadáver, passando em seguida a sepultar outro. 
No meio deste espaço Lavia um monte de terra da qual, aqui 
e acolá, sabiam restos de cadáveres descobertos pelas chuvas 
que tinham carregado a terra e ainda havia muitt s cadáveres 
no chào que não tinham sido enterrados. Niís, estavam apenas 
envoltos numa esteira, amarrada por cima da cabeça e por baixo 
dos pés. Provavelmente procede se ao enterramento apenas uma 
vez por semana e como os cadáveres facilmente se decompõem, 
o máu cheiro é insupportavel. Finalmente chegou-se a melhor 
comprehensào, queimando de vez em quando um monte de cadá- 
veres semi -decompostos. . 

Os sobreviventes chegam afinal ao seu novo dono, que os 
comprou, baptisaudo -os e dando-lhes roui as. Começa então o 
segundo período da vida dos escravos. Não é raro, porém, que 
as suas condições não melhorem, mas em geral não é máu o 
tratamento delles e o trabalho muito menos duro do que se 
costuma contar. O mais feliz é aquelle que é destinado ao 
serviço domestico, sendo o trabalho da fazenda de canna e das 
minas o mais penoso. Ás relações entre os donos e os escravos 
são reguladas por lei e o escravo criminoso é julgado pelas leis 
do paíz. Por faltas pequenas, o próprio dono pune o escravo, 
mas deste poder abiisam muitos, sendo muitas vezes o motivo 
de vinganças ou de fuga por parte dos escravos. Não é raro o 
escravo saciar-se no sangue do seu tyranno e pode se aqui to- 
mar a palavra «saciar» no seu sentido próprio, porque, em 1813, 
na proximidade do Rio de Janeiro, vários escravos, que tinham 
assassinado os seus senhores, misturavam o sangue de suas vi- 
ctimas com a aguardente que bebiam. 

As fugas não são raras, porem, pelos signaes ou marcas en- 
contram-se os escravos, que não acham abrigo em parte nenhuma 
visto haver multas e penas fortes para aquelles que os escondem. 
Em geral é a fome que os leva a voltar para o dono, acossan- 
do-os4 das mattas onde se escondiam. 

Isto, porém, tem exepeções e em muitos logares onde se 
reúnem negros fug:idos tornam-se elles perigosos para a tranquil- 
lidade social. Assim, p. ex. na proximidade de Villa Rica são 
temidos os quilombos, pois os negros fugidos vivem de roubo e 
do auxilio de sociedades que em Villa-Rica mantém. Vivem ar- 
mados de arcos e flechas e praticam as suas façanhas até nas portas 
da cidade. Raras vezes matam es seus prisioneiros, mas costu- 
mam mutilal-os depois de os terem despojado, cortam-lhes as 
orelhas ou rasgam-lhes a bocca de uma orelha á outra ou, o que 
mais commum ainda, castram os homens e violentam as mulheres. 
Amarram os mutilados a uma arvore, armordaçam n'os e assim 
deixam os desgraçados sofPrerem durante dias, até que outros via- 



— 226 — 

jantes os livrem. Do logar de suas façanhas retira m-se em se^íui- 
da. Greralmente depois de taes excessos o governo manda dar-lhes 
caça e num dia determinado cerca-sel-hes o esconderijo com solda- 
dos e voluntários, matando a todos que não querem entregar-se. 
Dos mortos cortam-se as cabeças que são levadas para a cidade. 
Como, porem, os negros fugidos atacam e roubam os seus pró- 
prios patricios, é diíficil attribuir estas fugas ao seu trato rigo- 
roso pelos donos. Estes negros fugidos são ladrões muito covardes, 
pois iia exemplos de um homem corajoso, armado de um sabre 
afugentar 10 ou mais delles . Uma vez, de noite, na vizinhança 
de Congonhas, quando me tinha perdido no matto, dirigindo-me 
a um fogo que avistava, fui cercado por um bando de negros 
fugidos, sem esperança de poder escapar delles. Armei então os 
cães da minha espingar^ía de dois canos e recuando, de costas, 
perguntei-lhes em tom de mando onde estava o caminho e, che- 
gando-me a elles, ameacei-os de atirar o primeiro que me se- 
guisse. 

O escravo não tem propriedade nenhuma, salvo si o seu 
senhor lhe dá um pedacinho de terra cujo rendimento, mesmo 
com a maior economia, não chega para o resgate. E como ao 
mesmo tempo não ha preço estipulado por lei pelo qual o escra- 
vo se possa resgatar, dependendo isso exclusivamente do dono, 
é raro o caso de um escravo alcançar a liberdade por este modo, 
especiamente si tiver alguma habalidade especial. Fica então escravo 
por toda ávida, podendo considerar-se folizsi o senhor lhe permittir 
casar e construir para si e sua familia uma cabana, onde assim 
mesmo elle a todo momento deve estar prompto para qualquer 
serviço. 

O trabalho, porém, não é sempre tão pesado como se cos- 
tuma acreditar e nós, europeus, fazemos mal em affirmar que 
os escravos estão sempre incitados ao trabalho pelo chicote do 
feitor, pois isso é até muito raro. Também na sua manutenção 
tem-se muito mais cuidado, do que se acredita, e na roupa ; está 
claro que quem possuir muitos escravos, naturalmente cuida em 
cada um delles, por ter-lhe custado muito dinheiro, e que não 
o deixa correr peiigo sem motivo grave, porque a diminuição 
da vida do escravo diminue egualmente a fortuna. São aquelles 
traficantes que arrancam os infelizes escravos da sua pátria que 
merecem o desprezo e a reprovação do mundo inteiro. A abo- 
lição do trafico será, por isso, ainda mais desejável pelo philan- 
thropo do que a da própria escravidão. 

Com toda a razão admira- se a grande fidelidade dos escravos 
aos seus donos o a sua compaixão pelos seus irmãos de infortú- 
nio ; com estes partilham elles pezares e alegrias e ha disso os 
mais notáveis exemplos. Vi escravos dos quaes se queria arran- 
car a confissão de crimes praticados por seus companheiros, mas 
nem as maiores torturas eram capazes de tornal-os delatores. 
Muitas vezes passam-se semanas sem que o negro possa satisfa- 



— 227 — 

zer o seu grande desejo de beber um copo de agua-ardente, 
porên], quando chega a occasião, si tem patrícios presentes, 
não deixa nunca de partilhar com elles. Ha mais de cem exem- 
plos de escravos que economizaram a metade do seu parco sus- 
tento para dar a um patrício e que isto fizeram durante mezes. 

O numero de negros livres no Brazil já não ó insignificante 
e pode ser calculado na proporção de 1 para 10. A maior parte 
destes negros foram libertados, porque é raro morrer uma pessoa 
abastada que no testamento não deixe livres um ou mais escra- 
vos, em pagamento de serviço fiel. Estes negros livres gozam 
de todos os direitos, como qualquer outro cidadão. Em relação 
aos filbos de escravos segue-se o direito romano ; si a mãe fôr 
escrava, a criança também o é, quer o pae seja livre, quer não, 
quer europeo quer negro. Si, porém, a mãe fôr livre, a criança 
também o é, ainda que o pae seja escravo. 

A possibilidade da abolição da escravidão é um pensamento 
que encanta a todo o philanthropo ; porém, por mais desejável que 
seja, tem este pensamento conduzido a opiniões não somente erró- 
neas, como até injustas. Accreditava-se que o melhor seria 
alcançar de uma só vez e ao mesmo tempo a liberdade dos nossos 
pretos e também eu era, parcialmente, da mema opinião. Minha 
estada no Brazil, porém, ensinou-me o contrario, porque obser- 
vam diariamente que os negros libertados eram muito mais infe- 
lizes depois de terem deixado os seus senhores. Pela escravidão 
perderam o sentimento da conservação própria ; havia annos que 
já não tinham de cuidar das suas necessidades e as ideias de 
prosperidade, já bastante resumidas uo negro, estavam comple- 
tamente apagadas. E' verdade que não falo aqui dos poucos 
que por deligencia e trabalho próprio alcançaram a sua liberdade, 
mas da parte muito maior dos que pela morte dos seus senhores, 
por promessa ou por philanthropia um tanto tardia, na hora da 
morte, tinham sido libertados. 

A liberdade é a grande mola que acciona todos os seres e 
no mais alto grau ao homem ; é por isso também extremamente 
raro que o escravo, verdadeiramente bem tratado, abandone a 
casa do senhor morto. Em geral sem conhecimentos, quasi sem- 
pre sem dinheiro e no turbilhão de suas paixões, que accordam 
mais fortes na liberdade, por terem sido reprimidas por tanto 
tempo, entra agora o libertado no mundo e em poucos dias está 
elle completamente mudado. Agora trabalha elle somente quando 
a mais extrema necessidade o obriga e o ganho serve-lhe apenas 
2)ara satisfação do desejo de beber; permitte-se egualmente toda 
espécie de vicios, imi vicio segue o outro e, finalmente, doente 
e sem amigos que o soccorram, está elle reduzido á miséria. 
Até a tranquillidade publica é muitas vezes perturbada por estes 
libertos, do que são testemunhas as cadeias. 

A abolição de uma só vez no Brazil não é exequível. Que 
se poderia esperar, depois desta descripção, de uma massa de gente 



— 228 — 

assim e que decerto é 8 vezes mais numerosa do que a dos brancos ? 
Também não se pode negar que a introdueção desta gente 
foi indispensável para povoar este paiz e que, apezar de não ser 
inverdade terem os portuguezes afugentado os indigenas, não- 
é exacto que o Brazil estivesse bem povoado, quando os portu- 
guezes chegaram, e isso posso aqui publicamente attestar depois 
de ter percorrido o interior, onde me convenci disso. A minha 
estada entre os indigenas, para os quaes volto por este dias^. 
dar-me-á occasíão de augmentar as minhas observações a respeito, 
e pretendo publical-as quando voltar. 

FIM 



A ethnologia do Brazil meridional 

PELO 

PROF. DR. HERMANN VON IHERING 



Na literatura não pequena sobre os indígenas do Brazil 
"temos a distinguir os trabalhos isolados ou contribuições para o 
conbecimeato de uma ou outra tribu dos índios, dos estudos 
geraes e comparativos. Neste ultimo sentido ainda hoje a base 
■da ethnologia do Brazil é a admirável obra de C. F, v. Mar- 
tins. (1) Nos últimos decennios são os estudos e explorações 
de C. v. den Steinen, P. Ehrenreich, Th. Koch-Griinberg e de 
outros que tem contribuído para o progresso deste ramo da 
sciencia. 

Ehrenreich tem-se encarregado de completar e continuar 
a obra de Martins e devemos a elle também os mappas refe- 
rentes á distribuição geographica dos índios do Brazil. 

Tanto estes mappas como as publicações dos auctores acima 
mencionados adiantam muito mais o conhecimento ethnologico 
do Brazil central e septentrional do que o do Sul do paiz. 

Ehrenreich indica para os quatro estados meridionaes do 
Brazil, além dos Guaranys e Cayuás, apenas e como únicos re- 
presentantes dos Tapuyás, os Caingangs, dizendo ainda, que em 
S. Paulo, por abuso, tratam as vezes os Caingangs de Cha- 
vantes. Na realidade a ethnographia desta parte do Brazil é 
■muito mais complicada. 

Da familia Guarany só temos a mencionar os Guaranys, 
•os Cayuás, semi-selvagens, e os Ares do Paraná ; mas na se- 
gunda familia, a dos Tapúyas ou Gês, a diversidade dos typos 
é grande. O nome antigo destes Tapuyas era o de Guayanás 
•e este nome se tem conservado até o século passado para os 
Caingangs de Itapéva no Estado de S. Paulo, bem como para 
uma tribu de índios do Paraguay e do sertão do Estado do 
Paraná, que até agora têm conservado este nome de Guayanás. 
A lingua desses últimos Índios e a dos Ingains do Rio Paraná 
é difiPerente da dos Caingangs. Esta denominação introduzida 



(l) Martius, Cari Friedericli Phil. von. Zur Ethnographie Américas, zumal Brazi- 
aiens. Leipzig. 1867. 



— 230 — 

na literatura por Telemaco Borba é agora geralmente usada 
na sciencia em vez da de Coroados, que induzia a suppôr que 
os Coroados do Brazil meridional fossem idênticos aos ver- 
dadeiros Coroados de Minas. No anno passado descobri ainda a 
existência de uma outra tribu de Tapuyas no Estado do Paraná, 
onde são conhecidos por Botocudos. 

Com os verdadeiros Botocudos do Estado do Espirito Santo 
não têm relações de parentesco, sendo as línguas de ambos bem 
differentes, razão esta porque llies dei o nome de Notobo- 
tocudos. 

Tendo exposto os resultados destes meus estudos na minha 
publicação sobre Anthropologia do Estado de São Paulo (1) 
deixo de entrar na discussão deste assumpto. 

A minha intenção hoje é apenas a de proceder a uma revi- 
são dos principaes resultados até agora obtidos e chamar a at- 
tenção a novas descobertas e publicações que para nós são de 
grande importância. 

Uma matéria que só agora começa a ser estudada, mas já 
com grande successo, é o estudo comparativo dos mythos e das 
lendas indígenas. 

Sabe-se desde muito tempo que as lendas e mesmo as fabulas 
populares e antigas da Europa têm vasta divulgação também 
na Ásia, donde provavelmente são originarias, mas o que é novo 
é que lendas idênticas são encontradas também na America. 
Foi o dr. P. Ehrenreich, (2) que, como já o disse, enriqueceu a 
nossa literatura com varias publicações valiosas sobre a. anthro- 
pologia do Brazil, que agora publicou o interessante estudo so- 
bre os mythos da America meridional, do qual em seguida vou 
participar alguns dos resultados mais importantes. 

A respectiva literatuta em quanto se refere ao Brazil é pe- 
quena ; Barbosa Rodriguez colligiu numerosas lendas na Amazónia, 
Telemaco Borba participou-nos as que se referem ao Estado do 
Paraná. Attenção especial ligaram ao assumpto nas suas respe- 
ctivas viagens ao Norte do Brazil os drs. C . von den Steinen, 
Ehrenreich, e Kock-Grúnberg . Telemaco Borba contou-nos a 
cosmogenia dos Caingangs e dos Ares, que são Guaranys do Estado 
do Paraná. Trata-se particularmente do diluvio por occasião 
do qual parte dos indígenas se refugiou num morro alto subindo 
as palmeiras, tendo sido salva afinal, pelas suracúras, que trous- 
seram no bico a terra necessária para dar sabida aos índios. 
Não entro neste assupto por ter publicado por extenso o tra- 
balho respectivo na Revista do Museu Paulista. (3) 



(i; Ihering. H. von, The Anthropology ot the State of 8. Paulo, Brazil, SSo Pau- 
lo, IQOfi (Diário Official,) 

2) Ehrenreich, dr. Paul, Di© Mythen und Leg^índen der Siidamerilcanischen UrvSlker 
und ihre Beziehungen zu denen Nordamerilias und der alten Welt. 

Bupplemei.t zur Zeitschritt fur Ethnolofrie. Berlin, 1905, 

S) Telemaco Borba. Observações sobre os indígenas do Estado do Paraná— Tíetúía 
do Museu Paulista vol. VI, 1903 p. 63 ss. 



— 231 — 

Em geral estas cosmogeniíis dos Índios não tratam de uma 
creacrio completa do Universo, mas de uma transformação, pela 
qual os que viviam no centro da terra ou no céu, chegaram aos 
seus domicilies actuaes. Na mytbologia tupy, Monan desconten- 
te dos homens, causou o incêndio universal, que afinal foi apa- 
gado pelas chuvas, a pedido do feiticeiro Irinmagé. 

Na lenda dos Makusis e Cayapós os primeiros homens des- 
ceram do céu por um buraco que nelle se abriu, ao passo que 
os Caríijás e Mundurucús affirmam que os seus antepassados sur- 
giram do interior da terra por uma fenda. 

Esta ultima lenda tem vasta distribuição também entre os 
indig-enas da America do Norte, onde também é encontrado, par- 
ticularmente no México, o mytho do incêndio universal. 

Com referencia á descida dos homens do céu á nossa terra 
um ponto de interesse especial, que reappavece nos mythos das 
diversas tribus, mesmo das mais distantes, é o de que uma pes- 
soa muito gorda, ás vezes uma mulher gravida, ficou parada no 
buraco e obstruindo assim a passagem. 

O mytho peruano da creação do género humano segundo 
o qual ella se deu por três ovos, de ouro, de prata e de cobre, 
dos quaes nasceram os chefes, suas mulheres e o ])0V0, parece- 
me ser mytho mais novo e feito pelos regentes, para provar a 
superioridade da sua casta. 

Uma analogia notável existe também entre os mythos re- 
ferentes aos heroes ou descendentes destes, mas com a differen- 
ça de que na lenda dos Tupys o primeiro homem personifica 
também o heroe, ao pa?so que o heroe dos Peruanos ó um ente 
sobrenatural, com attributos divinos. Em geral, porém ha plena 
concordanc a quanto á forma em que são narradas, entre os 
'J upys e os Peruanos, as lendas referentes ao nascimento dos 
dous irmàos mythicos, quasi sempre descendente* do sol 

Especialmente é a myst^riosa acção de emprenhar que volta 
fm quas' todas as lendas. Na dos Tupys eífectua-se a mesma 
por um peixe, na dos Peruanos por um fructo impregnado de 
sperma, que são dados de comer á mulher em questão, ponto ao 
qual voltaremos mais adiante. 

Também a morte da mãe dcs heroes gémeos, que morre antes 
do parto, despedaçada por um jaguar, emquanto que os filhos são 
salvos, é a mesma na lenda Tupy e na dos Peruanos. Adultos os 
filhos, estes tomam vingança, matando o assassino de sua mãe e 
aos parentes delle ou então t-ansformaon-ros em pedras. Este 
episodio falta na America do Noite ; em compensação as tradi- 
çções sul e norte-americanas ^a parecem grandemente quanto ás 
provas dos dous irmãos, por exemplo na narração tegundo a qual 
os irmãos atiram flechas ao ar, que se encravam no céu e formam 
successivamente uma cadeia, em que uma flecha se pegava na 
extremidade da outra. 

Um episodio de grande divulgação no^ mythos dos dous 



— 232 — 

gémeos é a brigi entre ambos, depois de terem cumprido a sua 
missão. Como na mythologia do mundo antigo Cain e Abel, 
Romulus e Reraus, confronta-se-lheí no novo mundo Tamen- 
duaré e Arikute entre os Tupys e Pachacamac e Wichama entre 
os Peruanos. 

Se no precedente foram expostos particularmente os traços 
communs en re as lenads das diversas nações da America meri- 
dional, examinaremos era seguida a concordância entre os mythos 
da America e da Ásia. 

E' a seguinte a lenda peruana de Kouiraya. 

Este, o creador do mundo, costumava vestir-se de modo 
simples e pobre, de modo a parecer antes um mendigo immundo. 
Apaixonou-se da bella moça Kovillaka e apoderou-se delia do 
moio seguinte. Quando Kovillaka estava assentada debaixo de 
uma arvore de Lucma formou elle do seu sperma um fructo 
que lançou no coUo da namorada, tendo-se antes transformado 
em pássaro. Depois de ter comido o fructo, a moça ficou gra- 
vida e deu á luz um filbo. Passado um anno convocou ella 
todo 5 os deuses para averiguar o pae. Todos anresentam-se 
ricamente vestidos, menos Koairaya que, como de costume, appa» 
rece em seus andrajos. Como ninguém confessa ser o pae, ella 
incumba a criança mesma de procural-o, que então se dirige a 
Koniraya. 

Kovillava envergonhada e enraivecida, foge do deus vestido 
agora de ricas vestes de ouro, sendo afinal junto com seu filho 
transformada em pedra. 

* * 

No Siam encontramos a mesma lenda em forma pouco dif- 
ferente . 

Um leproso, cujo corpo todo estava coberto de apostemas 
e feridas, ginhava a sua vida com a cultura de fructas. 

Ao pé de uma micieira costumava elle urinar, de modo 
que o seu sperma subiu pela arvore, impregnando os fructos. 
A filha do rei ficou gravida comendo umt destas maçãs e deu 
á luz. Quando a criança chegou á edade de um anno, o rei 
procurou indagar quem fosse o pae. Todos os habitantes com- 
pareceram, trazendo por sua ordem bolos e fructas nas mãos. 

O menino foi levado pelas fileiras e passando pelo leproso 
que tinha comsigo somente um bolo de arroz, abraçou-o e co- 
meçou logo a comer do bolo, reconhecendo-o as4m como pae. 
O rei enraivecido mandou expôl-o numa balsa juntamente ora 
a princeza e a creança. Por intervenção divina sào salvos, fi- 
cando o leproso transformado num bello jovem. 

* * 



— 233 — 

Uma lenda parecida existia entre os Tupys do littoral do 
Brazil, que em seguida vamos narrar. 

Maire Poxi servia como escravo em casa de uma pessoa 
nobre. Não obstante ser feio era bem visto por todos, por co- 
nhecer e saber applicar os seg-redos de Maire Monan. Um dia 
elle trouxe a casa um peixe, do qual comeu a filha da casa e 
de que ficou gravida, dando a luz um filho. 

Afim de averiguar qual o pae os parentes fazem comparecer 
os homens da aldeia e apresentar- se um por um ao menino, ar- 
mados de arcos e flechas. Seria considerado como pae aquelle 
em cujas armas o menino tocasse. 

Todos são rejeitados, até que afinal Maire Poxi se apre- 
senta, sendo reconhecido pelo menino. Em seguida Maire Poxi 
transformou diversos parentes de sua mulher e alguns de seus 
inimigos em aniraaes, e, tendo tomado a apparencia de um dos 
mais bellos homens, ascendeu ao céu. 

Outra lenda, da mais vasta divulgação entre os Índios ori- 
entaes é a seguinte. 

O príncipe Sringabhuja pediu a mão da filha de um prin- 
cipe dos demónios, Rakshasa, e este, para livrar-se do genro, 
que não lhe agradava, o incumbiu de diversas tarefas das mais 
difficeis e que lembram os de Janson em Colchis; manda-o afi- 
nal ao seu irmão Dumasabha, anthropophago. 

O principe escapa felizmente á perseguição deste e, seguindo 
o conselho de sua noiva, lança atraz de si, na fuga, terra, agua, 
espinhos e fogo, que se transformam em montes, rios, raattos 
etc, obstáculos ao perseguidor. 

* * 

Também no Japão é conhecida esta lenda, sendo provavel- 
mente esta forma da lenda a mais antiga. Trata-se também de 
pessoas que cahem em poder de «ogres» ou demónios, que na fuga 
lançam atraz de si certos objectos como pentes, pedras de amo- 
lar, cinza, etc, que de modo magico se tranformam em montes, 
espinheiros, rios, fogo, etc, outros tantos obstáculos, que retêm 
os perseguidores. 

Também na America do Norte encontramos esta lenda em nu- 
merosas modificações. Limitar-nos-hemos aqui a mencionar a 
lenda como ella é contada entre os Bilchulas da costa do Pa- 
cifico. 

Uma moça entra na casa de um demónio anthropophago, que 
a obriga a catar-lhe os piolhos. 

Achando porém até rãs entre os cabellos, ella se assusta e 
foge. Consegue pôr-se a salvo jogando atraz de si, a conselho 
da mulher do demónio, vários objectos como pente, pedra de 



— 234 — 

amolar e azeite de peixe, dos quaes nascem obstáculos ao per- 
seguidor, como montes, mattas e lagoas. 

* 
* * 

Na America meridional a mesma lenda é conhecida, com pe- 
quenas variantes, a diversas nações. Deixando de lado a do Peru, 
vamos narrar aqui apenas as respectivas lendas dos Mundurucús 
6 dos Carajás. A dos Mundurucús conta que o demónio Yuru- 
pari conseguiu fazer entrar numa gruta três moças, que procura- 
vam frúctas no matto, apparecendo-lhes na forma do tio delias. 
O demónio matta as duas primeiras, chupando-lhes o sangue, ao 
passo que a terceira foge com o auxilio de um pássaro, a cujo 
conselho ella joga atraz de si ossos, sal e cinza, dos quaes nas- 
cem, como obstáculos, fumaça, espinheiros e um rio. 

Em forma mais perfeita ainda a lenda é conservada entre 
os Carajás. 

Muitos peixes Pirarucus haviam matado os habitantes mascu- 
linos de uma aldeia e, tomando-lhes as figuras juntaram-se ás 
mulheres das victimas ; estas realmente se deixaram enganar, jul- 
gando-os seus maridos. Uma das mulheres, porem, descobriu a 
fraude quando o marido falso pedira catar-lhe os piolhos, occasião 
em que a mulher viu, na nuca delle, as escamas de peixe. Em 
seguida ella foge em companhia de sua irmã, jogando atraz de 
si cinzas, carvão e sal, que se tornam em nuvens, fogo e um 
rio, de modo que o perseguidor, a quem a lenda imagina fu- 
mando, é forçado a voltar. 



* * 



A vasta distribuição que tem estas lendas e mythos entre 
os povos do velho e do novo continentes é uma prova das an- 
tigas relações e migrações que em tempos prehistoricos introdu- 
ziram elementos culturaes da Ásia no continente americano. 
Esta conclusão parece uma das mais simples e naturaes, mas, em 
realidade, nesta matéria o progresso é lento e a reluctancia con- 
tra ideias ligadas com as origens da cultura americana é forte 
e inveterada. 

A organização do espirito humano, da sociedade, c da fa- 
mília ; as relações em que o homem primitivo se aeha com a 
natureza, particularmente com os elementos meteorológicos e as- 
tronómicos ; a necessidade que elle tem de se abrigar e de se 
defender contra inimigos e feras ; a lucta pela existência ; tudo 
isto é mais ou menos egual para os homens primitivos, mesmo 
nos paizes mais distantes e diíferentes entre si. Explica-se as- 
sim a analogia que observamos na cultura material e intellectual 
entre povos distantes entre si, e entre os quaes não existem re- 
lações directas e provavelmente nunca existiram. E' a idea da 



— 235 — 

uniformidade do pensamento humano, largamente fundamentada 
por Adolf Bastien, que tem dominado os ânimos e se tem op- 
posto á hypothese de relações directas entre as culturas asiá- 
ticas e americanas. Accresce ainda que as hypotheses muitas 
vezes realmente das mais temerárias, quanto ás relações culturaes 
entre os povos asiáticos e americanos, sempre foram reconhecidas 
falsas, de modo que no correr dos últimos decennios como por 
convénio tácito, os americanistas mais comj)etentes não tocaram 
mais nesta grande questão da origem das raças americanas e de 
sua cultura. 

Por este motivo parece-me ser um progresso notável se 
agora na base de estudos sérios de especialistas competentes 
esta matéria começa de novo a ser discutida. 

Ha nos mythos acima contados momentos que são tão es- 
peciaes, que excluem a supposição de uma origem independente 
entre diversos povos. 

Assim por exemplo nas lendas da fuga mysteriosa, acima 
referidas, é commum a quasi todas as versões não só a entrada 
da victima na casa do demónio e a creação magica de obstácu- 
los para impedir a perseguição, mas também a intimação diri- 
gida pelo demónio anthropophago á victima de catar-lhe os 
piolhos ou outra immundicia. 

A mythologia dos Tupys bem como toda a sua cultura 
afastam-os por largo tempo dos Tapúyas do Brazil e põem-os 
em relação intima com os Arauaks, Caraibes e Peruanos. Com 
OS' primeiros os Tupys têm commum a cultura da Mandioca e a 
aite aperfeiçoada de fabricar panellas e outros objectos cerâmicos. 
Evidentemente todas estas nações são oriundas do alto Amazo- 
nas, particularmente, do Peru. 

Desta região começaram os Tupys suas expedições bellicas 
ao longo do Rio Amazonas e dos seus affluentes, bem como ao 
longo da costa brazileira até os Estados do Rio de Janeiro e 
S. Paulo. Os Guaranys, que nada são sinão um ramo meridio- 
nal da mesma familia Tupy, devem por conseguinte ter tido 
domicilies perto dos Tupys primitivos e mais ao Sul. 

E' esta conclusão que vemos confirmada por novas desco- 
bertas. Trata-ge de explorações archeologicas de E. Boman. (1) 
pelas quaes, no território do extremo Norte da Argentina, ficou 
provada a antiga existência de Guaranys, em regiões para as 
quaes pelos documentos históricos nada consta da antiga occor- 
rencia de Guaranys. 

Estas provas consistem em igaçabas ou urnas funerárias, 
tapadas por outra urna inversa, como só os Guarany e provavel- 
mente os Tupys as usavam. Refiro-me á descoberta de cemi- 
térios prehistoricos de Guaranys nos valles de San Francisco e 



1 Boman, Eric. Migrations précolumbiennes dans le Nord-Ouest de TArgentine — 
Journal de la Societé des Américanistes de Paris, II Série, Tomo 11 1905 p. 91-108. 



— 236 — 

Lerna, no Estado de Jujuy, isto é perto da fronteira boliviana. 
Içaçabas idênticas foram descobertas successivamente no sul do 
Brazil, de São Paulo até Rio Grande do Sul, nas mis^^ões argen- 
tinas e no Paraguay. Provavelmente serão descobertas ainda 

na Bolivia. 

Estes factos são completados para sua explicação por outros 
de ordem archeologica e que também demonstram a influencia 
que a cultura dos povos subandinos da Argentina exercia sobre 
o Brazil meridional e particularmente no Estado do Rio Grande 
do Sul. Refiro-me neste sentido ao uso de cachimbos, que era 
tão communs entre os indigenas prehisto ricos do Rio Grande do 
Sul. Sabemos que os Tupys só fumavam charutos, mas que os 
Calchaquis usavam de caximbos. Objectos de metal particular- 
mente chapinhas de prata e machados de cobre foram também 
introduzidos da mesma região andina no Paraguay e até no Bra- 
zil meridional. 

Não entro aqui neste assumpto do qual tratei em outro lugar. 

* * 
* 

Todos estes factos nos levam á convicção de que o habi- 
tante primitivo do Brazil meridional era o Tapuya. A nação 
prehistorica, que nos sambaquis enterrou os seus mortos, perten- 
cia, segundo toda a probabilidade, também aos Tapuyas. Inva- 
sões posteriores rechaçaram os primitivos habitantes da costa 
do Brazil. 

Foram os Tupys que occuparam a costa do norte do Brazil, 
extendendo-se até Santos, ao passo que os Guaranys conquista- 
ram o Brazil meridional e as republicas platinas, tomando conta 
da costa, desde o Rio La Plata, até ao sul do Estado de S. Paulo. 
Assim no littoral de nosso Estado encontraram-se de novo as 
nações irmãs, os Tupys e Guaranys, que antigamente moravam 
juntos na região pemviana-boliviana do alto Amazonas. 

Os Tupys degappareceram completamente ao menos no Bra- 
zil oriental ; mas dos Guaranys, bem como dos Tapuyas, conser- 
varam-se restos isolados no Brazil meridional, até os nossos dias. 

São Paulo, 17 de Maio de 1906. 



o General Couto de Magalhães e a Proclamação 

da Republica (*) 



Eesposta a «o melt papel no advento da Republica, em São 
Paulo», trabalho do sr. coronel Henrique Affonso de 
Araújo Macedo, lido no Instituto Histórico a Geogra- 
PHico DE S. Paulo. 

iLxmo. snr. presidente, 
Meus senhores. 

Afastado muito tempo, e com pesar, da convivência pro- 
veitosa deste Instituto, não estive presente á sessão em que o 
nosso venerando consócio sr. coronel Henrique Afíonso de Araújo 
Macedo leu o artigo, estudo, ou conferencia, a respeito do « seu 
papel no advento da Republica em S. Paulo » . 

Creio que até agora, ao que me conste, ninguém inqueriu 
da conducta de s. s. como commandante, que era então, do Corpo 
de Permanentes, o que não impediu ao bravo militar de, por 
sua própria conta e sem que fosse perguntado, vir perante esta 
sociedade dizer umas tantas cousas, que eu teria refu:^ado in- 
continenti, si só agora não tivesse conhecimento delias, pela 
Revista do Instituto, vol. X, pag. 506 a 515. 

O sr. coronel Macedo, não querendo esperar pelo juizo da 
posterioridade, antecipou-se-lhe, fazendo o seu próprio elogio, 
Chama-se patriota, chefe militar com pleno conhecimento de causa, 
mas incomprehendido, fala da sua bravura no Paraguay e com- 
para-se immodestamente a um «moderno Stilicon, que procurava 
suster nas bordas do abysmo a pátria que se derruia». Por 
pouco que se não compara também a Sei pião, a Annibal ou a 
Alexandre. Mas contentou-se com o parallelo do general de 
Honório, que soube defender a Itália contra a invasão dos bár- 
baros, ao passo que s. s. por occasião do 15 de Novembro em 
S. Paulo, se limitou a ensarilhar a armas no quartel dos Per- 
manentes, a contar as estrellas, a vêr si o Cruzeiro do Sul es- 



(*) Lido na sessão do Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo, em 20 õ» 
Junho de 1906. 



— 238 — 

tava no seu logav e, finalmente, a invocar o Divino Espirito 
Santo, dessa vez, como de outras muitas, não quiz entrometter- 
se nas vis cousas terrenas, e com pesar do sr. coronel Macedo, 
e meu também, se proclamou a Republica uo Brazil. 

Não nego ao sr. coronel o cireito de ir preparando a Tjío- 
"•raphia com que futuramente entrai á para a Historia, e julga- 
ria até muito louvável o seu propósito, si s. s., adulterando 
factos de liontem, não tivesse, no referido artigo, construído o 
por emquanto pouco firme pedestal de suas glorias com as pe- 
dras com que irreverentemente quiz alvejar e denegrir a me- 
moria do general Couto de Magalbâes. Não escreveu um tra- 
balho hist( rico, nem depoz sobre os acontecimentos como teste- 
munha imparcial; esvurmou, antes, uma diatribe contra o então 
presidente da província, cuja memoria eu me apresso em defen- 
der, não tanto como portador do seu nome illustre, mas no inte- 
resse que nos reúne a todos nós neste Instituto — o da verdade 
histórica. 

O artigo de s. s., sobre ser serôdio, mais parece uma cati- 
linaria de inimigo rancoroso do general Couto de Magalhães, 
que, entretanto, parecia estimai- o e o favorecera até muitas 
vezes. Não paira s. s. na região serena dos que, investigando 
pontos de historia, recalcam sentimentos inconfessáveis, para 
considerar apenas a verdade dos factt s ; faz seu próprio elogio, 
á custa de aggressões a outrem, e, com muito pouco respeito á 
memoria de um morto, chama ao general fraco, doente e pu- 
siLLANiME. Não acompanharei s. s. nesse terreno: — certas 
expressões, não logram nunca attingir o alvo e voltam a meio 
caminho para quem as profere, ou escreve. 



O meu pajjel no advento da Republica em 'S. Paulo é como 
se intitula o trabalho do sr. coronel Macedo. S. s., que era, a 
15 de Novembro de 1889, coronel-commandante do Corpo de 
Permanentes nesta capital, affirma, em resumo, o seguinte: 

1 — O general Couto de Magalhães não era o homem pró- 
prio, na occasião, para ^Dresidir S. Paulo; 

II — Fraco, doente, pusillanime, não soube o que fazer, 
deante das graves noticias que chegaram do Rio annuncíando 
o levante n ilitar de 89 ; 

III — Dispunha de bons elementos de resistência, que não 
quiz aproveitar. 

São estes os pontos capitães do artigo do ex-commandante 
do Corpo de Permanentes. 

A contestação é fácil; os factos são de hontem e estão ain- 
da na memoria de todos quantos em S. Paulo presencearam os 
acontecimentos. 



— 239 — 

I_0 general Couto de Magalhães, antes de ser presidente 
de S. Paulo, havia presidido a três províncias do Império: — 
Goyaz, Pará e Matto-Grosso, Rejeitara a presidência de mais 
duas : — de Minas e do Rio de Janeiro. 

Não tinha ainda trinta annos, quando acceitou a presidên- 
cia de Matto-Grosso, num periodo em que a administração da- 
euella província constituía pesadíssimo encargo, de tremendas 
responsabilidades: — Solano Lopes acabara de cortar as relações 
com o Império e operava a invasão daquelle vasto território 
brazileiro. Era urgente desalojar os inimigos e impedir por to- 
dos os meios que da Bolívia viessem soccorros ao dictador do 
Paraguay. O general Couto de Magalhães, escolhido presidente 
de Matto-Grosso, partiu para Cuyabá e, dentro de poucos mezes, 
conseguia expulsar os invasores e derrotal-cs em Corumbá, Ale- 
gre e outros pontos. Dessa expedição se occupou minuciosamen- 
te o relatório do Ministério da Guerra, de 1868. O governo im- 
perial concedeu-lhe as honras de brigadeiro. 

O experimentado administrador e chefe militar de Matto- 
Grosso, o explorador incançavel dos fertões de Goyaz, o industrial 
emprehendedor da navegação do Araguaya, o incançavel presi- 
dente da provinda do Pará, o brasileiro, em summa, que já havia 
prestado ao Brazil, durante mais de vinte annos, o concurso de 
sua actividade, servindo com lealdade as instituições — «não era o 
homem próprio — diz o sr. coronel Macedo — para presidir S.Paulo». 

Debalde procuro atinar com as razões que levaram o ex- 
commandante de Permanentes a essa affirmativa. Não era o ge- 
neral Couto de Magítlhães um moço inexperiente; tinha cincoenta 
annos, e quasi a metade elle a passara em actividade publica; 
já havia presidido a três províncias e para a administração de 
S. Paulo vinha apparelhado com as licções da própria experiên- 
cia. Onde encontraria o governo imperial administrador mais 
próprio para S. Paulo, mais honesto, mais activo, mais enérgico, 
mais emprehendedor e mais fiel á causa da Monarchia? 

II — Seriam apenas muito engraçados, sinão fossem também 
revoltantes de inverdade e inverosimilhança, os trechos em que o 
sr. coronel Macedo nos conta o que se passou no palácio presiden- 
cial, ás primeiras noticias do levante militar no Rio de Janeiro. 

No dia lõ de Novembro de 1889, pouco depois do meio-dia, 
achava-se s. s. no quartel de Permanentes, quando foi chamado 
com urgência a palácio pelo presidente da província. 

«Ao chegar ás escadas do palácio — escreve s. s. — topei com 
o chefe de policia, dr. Leão Velloso, o qual, visivelmente ner- 
voso e extremamente pallido, deu-me o braço, dizendo : « Com- 
mandante, sabe o que ha? Rebentou no Rio uma revolta muito 
séria e já assassinaram o Maracajú, ministro da Guerra. ( Veri- 
ficou-se no outro dia que o facto sanguinolento se dera com o 
barão de Ladario)». 

Esta explicação final do sr. coronel é peior do que o sone- 



— 240 — 

to, pois por ella parece que o barão de Ladario foi assassinado 
pelos revolucionários. 

O o-eneral Couto, que esperava impaciente o sr. coronel Ma- 
cedo, disse a s. s. : — não sei o que fazer; o senhor que pensa? 

E, pouco depois: «Entre os militares, que se faz quando 

HA UM FACTO DESTES? QuE FAREI?» 

Muito me merece a palavra do ex-comandante de Perma- 
nentes, mas ha de permittir que o conteste da maneira mais 
formal e terminante; o fieneral Couto não lhe dirigiu, nem po- 
dia ter-lhe dirgido similhantes perguntas. A mesma contes- 
tação, estou certo, farão commigo, por amor á verdade, todas as 
pe&sôas que conheceram o general, incapaz de, mesmo em tão 
grave emergência, ter perguntado ao sr. coronel Macedo : que se 

FAZ ENTRE MILITARES QUANDO HA UM FACTO DESTES? 

Não era o presidente da provincia um militar também, por- 
ventura com muito mais serviços de campanha do que o ex-co- 
mandante de Permanentes, ou, peio menos, tendo mais do que 
s. s. exposto a vida pela pátria? Quando presidente de Matto 
Grosso, accumulando as funcções de administrador com as de 
commandante em chefe das forças expedicionárias contra os pa- 
raguayos, o general se vira diversas vezes em emergências mais 
graves por certo do que no palácio* do governo de S. Paulo, a 
15 de Novembro de 1889, e não consta que, em Cuyabá, onde 
organizou a expedição de defesa ; em Corumbá, donde desalojou 
os invasores, e nessa marcha verdadeiramente épica de retrocesso 
á capital, através de cento e cincoenta léguas de sertão, dizi- 
madas as suas forças pela guerra, pela fome e pela peste, — não 
consta que em situações assim tão graves tivesse elle dado pro- 
vas de hesitação, de fraqueza, ou, muito menos, de covardia. 

O relatório de Ministério da Guerra de 1868, referindo-se 
á epidemia de variola que o general Couto de Magalhães con- 
seguiu debellar em Cuyabá, «graças ao critério e promptidão de 
suas medidas», assignalou: «Foi mais um importante serviço 
prestado por tão distincto funcionário, que já havia bem mere- 
cido do paiz, conseguindo superar immensas difficuldades na or- 
ganização da força de 2.000 homens e de uma flotilha de 5 
navios, a cuja frente se collocou, alcançando, por suas acertadas 
combinações e incançavel actividade, assignalados triumphos. E 
é ainda a seus e-forços que se deve achar hoje a capital da pro- 
vincia em condições de resistir a qualquer aggressão do ini- 
migo e de haver alli, prompta a marchar ao primeiro aviso uma 
força disciplinada de cerca de 3.000 homens». 

Portador, assim, de uma brilhante fé de officio, o general 
Couto de Magalhães, si quizesse, poderia ter organizado a de- 
fesa da provincia contra os republicanos. Mas haveria conve- 
niência em tentar essa defesa ? 

Ill — Em primeiro logar, no dia 15 de Novembro, nada havia 
a defender em S. Paulo; as primeiras noticias qae chegaram da 



— 241 — 

revolução no Rio de Janeiro eram contra dictorias ou, pelo menos, 
obscuras ; só á tarde se soube, positivamente, do que havia oc- 
corrido na Corte. A' noite, no Club Republicano, o dr. Amé- 
rico de Campos acclamou uma junta de três membros, composta 
dos srs. Prudente de Moraes, Ranj^el Pestana e Major Souza 
Mursa, para assumir o governo de S. Paulo. 

Nessa mesma noite, os srs. Campos Salles, Rangel Pestana, 
Martinho Pradii Júnior, Lopes de Oliveira e outros firam a pa- 
lácio dar conta disso ao General Couto de Magalhães, para que 
este entregasse á junta provií^oria a adiministração da { rovincia. 

O pre idente respondeu- lhes que alli estava por ordem de 
um governo legal, e só por ordem de um outro governo legal 
sahiria, deixando o seu post . 

E, effectivaraente, só entregou o governo á junta revolu- 
cionaria no dia seguite, depois de confirmada a noticia de que esta- 
va triumphante a revolução e depois de, nesse sentido, receber 
communieação do Rio de Janeiro. 

A amigos que na véspera lhe perguntaram o que faria si 
atacassem o palácio, respondera — que saberia m->rrer no seu 
POSTO. E desde logo começaram por isso a correr insistentes, 
mas infundados boatos, de que o pre>5Ídente não abandonaria 
o cargo e resistiria a qualquer movimento revolucionário. 

Mas devera o presidente resisiir? E resistir a que, si os re- 
publicanos, então em reduzidíssimo numero, nem sequer cogita- 
ram de tomar pela força o palácio e, ao contrario, concordaram 
em que o presidente da província devia aguardar, do Rio, ordem 
expressa para lhes entrr^gar o governo? 

E, depopta a familia imperial, preso o Ministério, victoriosa, 
em summa, a revolução , — inefficaz e imprudente seria qualquer 
resistência por parte do presidente, que, além do mais, deante dos 
factos consummados, não podia leval-a a effeito com vantagem, 
á falta absoluta de elementos. 

-Affirma, porém, o sr. coronel Macedo que, ao contrario, o 
governo dispunha de bons elementos de defesa. 

Admitto, por hypothese, que, neste ponto, a verdade esteja 
com o ex-commandante de Permanentes. Mas, si assim era, e si 
o general Couto de Magalhães lhe dera, como diz, carta branca 
para agir — «faça tudo o que achar bem, pois confio na sua 
HONRA E capacidade » — porque s. s. não organisou essa resis- 
tência, s. s. que, na qualidade de commandante da força poli- 
cial de S. Paulo, tinha sob suas ordens todos os soldados, armas 
e munições ? 

S. s., longe disso, apegou-se ao Divino Espirito Santo 
e aguardou os acontecimeutos. 

Proclamada a Republica, «continuou, como confessa, a comman- 
DAR o corpo ainda MUITO TEMPO» — que quer dizer que adhe- 

RIU, POIS CONTINUOU NA REPUBLICA A PRESTAR SERVIÇOS NO POS- 
TO QUE occuPÁRA NA MONARCHiA. E tão fieis se conscrvaram os 



— 242 — 

seus officiaes e soldados ás instituições decaliida?, que a 16 e 17 
de Novembro, quando s s. era commandarte, seus subordinados 
adheriam sem excepção alguma á Republica, arrancando publi- 
camente das fardas e atirando com desprezo ao pó das ruas 
os emblemas da Monarcliia. 

Qaào diversa, entretanto, a attitude digna e nobre do pre- 
sidente da província ! Ao passo que o commandante de Per- 
manentes deixava de prender, como era do seu dever, dous 
revolucionários que no dia 15 foram ao quartel pedir a sua 
adhesão,— o general Couto de Magalhães respondia á junta re- 
volucionaria que só entregaria o governo depois de ordem ema- 
nada do poder constituído ; ao passo que o commandante de 
Permanentes, depois de proclamada a Republica, continuou ainda, 
por muito tempo, a dirigir o mesmo corpo de policia, o general 
Couto de Magalhães deixava para sempre o palácio, para nunca 
mais lá voltar, fiel até a morte á causa da Monarchia. 

Contam os jornaes do tempo como o ultimo presidente da 
província deixou o palácio : — entre alas respeitosas de popula- 
res e acompanhado pelo venerando sr. Prudente de Moraes. 

Convidado pelo sr. Leôncio do Carvalho a adherir ao novo 
regimen, á imitação de outros conselheiros da Monarchia, o 
o-eneral Couto de Mag-alhães nobremente se recusou a fazel-o : 
«Tendo sido a pouco tempo funccionario de alta confiança do 
governo decahido, julgo que a minha ida a palácio, para cum- 
primentar officialmente o governo provisório, não teria outro 
efieito além de augmentar de mais um nome á longa lista da- 
quelles que os republicanos antigos devem considerar como 
pretendentes importunos dos proventos e honras de uma situa- 
ção que não ajudaram a crear » . ( * ) 

Não engrossou o general Couto de Magalhães a onda dos 
adheios e, desde 1889 até terminar a sua trabalhosa e utillissi- 
ma existência, no hotel Vista Alegre, do Rio de Janeiro, a 14 
de Setembro de 1898, conservou-se fiel ao Throno a que tão 
dedicadamente servira. 

Nào podem attingir, pois, a respeitável memoria do velho 
servidor da pátria. as aggressões do sr. coronel Macedo; brada 
contra ellas, além de tudo, como mostrei, a verdade histórica, 
que s. s. adulterou. 

A existência do general Couto Magalhães é, em summa, — 
escreveu um dos seus biographos — um bello exemplo de amor á 
sciencia, de perseverança ao trabalho e de nobreza e de civismo ; 
exemplo que cada vez mais raro se torna neste descalabro ge- 
ral das consciências, nesta perigosa desintegração moral, nesta 
bancarrota dos caracteres, que constituem a uota característica 
do Brazil contemporâneo.» 

(1) Artigo puljlicado no Diário Popular, de 13 de Dezembro de 1889. Em Annexos, 
ac reproduzidos, na integra, os dous artigos d'«0 brigadeiro Couto de Magalhães ao 
sr. conselheiro Leôncio de Carvalho». 



— 243 — 
ANNEXOS 

O brigadeiro Cdito de Magalliães ao sr. consellieiro leoocio do Carvallio (*) 

S. Paulo, 13 de Dezembro de 1889 
Ulmo. exmo. snr. 

Eecebi hontem a circular em que 'v. exa. mo convida para, 
no caracter de membro da directoria do Lyceu de Artes e Of- 
ficios, ir hoje, ÍDCorporado, cumprimentar o governo provisório. 

Si eu julgasse que esse meu cumprimento valia alguma 
■cousa para restaurar a confiança nas garantias do direito á li- 
berdade, á segurant;a e á tranquillidade de que gosámos até ao 
dia 15 do passado, e que não sei si continuamos a gosar agora, 
por mais repugnacia que eu tenha de figurar em "manifestações 
publicas, certamente que eu aproveitarei a bôa companhia e 
sombra de v. exa. para fazel-o. 

Tendo, porém, sido ha pouco funceionario de alta confiança 
do governo decahido, julgo que a minha ida a palácio jDara 
cumprimentar officialmente o governo provisório, não teria outro 
■effeito além de augmentar de mais um nome a longa lista da- 
•quelles que os republicanos antigos devem considerar como pre- 
tendentes importunos dos proventos e honras de uma situação 
que não ajudaram a crear. 

De republica, por emquanto, temos apenas o nome; a rea- 
lidade, porém, é que estamos com governo tào sem garantias 
<iomo era o governo do Paraguay, salvas as boas intenções dos 
homens que governam, que eu sou o primeiro a reconhecer. 

As garantias, porém, que tínhamos de nos governar a nós 
mesmos, de não sermos presos sinão por mandado do poder ju- 
^diciario, de não sermos. deportados sinão de conformidade com 
a lei votada por nossos mandatários, de evitarmos a tyrannia 
por meio do habeas-coiyus, de não sermos, em resumo, privados 
■da nossa fortuna, de nossa liberdade e de nossa vida sinão era 
virtude de lei conhecida, estão hoje substituídas pela vontade 
discricionária dos agentes do poder executivo, que, assim como 
é hoje bôa, pode ser amanhan má, e, si o fôr, nem iim recurso 
legal temos agora contra ella, depois da abolição pratica do Jia- 
heas-corpus. 

Eu sei que homens muito talentosos e a quem m.uito respei- 
to sustentam que é isso o que convém, até que completemos 
nossa educação republicana. Esses homens, porém, nunca tive- 
ram a experiência e a responsabilidade de governar; e assim 
■como não inspiraria confiança o medico que nunca tivesse cu- 



(*) Publicado no Dtario Popular, 49 Í3 de Dezembro de 1889. 



— 244 — 

rado um só enfermo, não podem inspiral-a estadistas que nun- 
ca experimentaram na pratica as difficuldades de governar um 

Monarchista convencido até ao dia 16 i^.o passado, em que 
deixei a presidência desta pr<.vincia, e monarchista, não por 
fetichismo ou interesse, pois não ha quem aqui não saiba que- 
eu tenho meios bastantes para viver independente de posições 
officiaes, ma-i por estar persuadido de que a Republica podia 
trazer o despotismo nas condições atrazadas da sociedade em que- 
vivemos, eu não posso eítar convencido do contrario em tãa 
pouco tempo, e nem ser reputado sincero, emquanto os factos 
não desmentirem as minhas previsões. 

Nosso exercito, que fez a revolução, reconheceu e assim foi 
declarado na proclamação do chefe do governo provisório que a 
nação tinha o direito de ser consultada em Constituinte e de- 
fixar definitivamente sua forma de governo. 

Si isso houvesse prevalecido, hoje estaria fixada a época 
em que a nação seria convocada; o governo teria augmentado 
a confiança e sympathia com que foi recebido, e, a esta hora^ 
estaria formado um grande partido para nomear o general Deo- 
doro nosso primeiro presidente dos E-tad' s Unidos do BraziL 

Parece, porém, que prevaleceu a opinião daquelles que pen- 
sam que o melhor meio de fixar a Republica é addiar a restau- 
ração do regimen legal, addiando a fixação da época em que a 
nação será consultada. 

Os sectários da doutrina que nada mais é do que a resurrei— 
ção, sob nome novo, do despotismo por direito divino, desconhecem 
a natureza humana e os antecedentes da raça a que pertencemos,, 
quando julgam que a confiança ha de vir da incerteza em que 
havemos de ficar emquanto não fôr fixada o época da Consti- 
tuinte ; citam em apoio de suas previsões o facto de que os. 
Estados Unidos tiveram uma dieta lura de nove annos, o que é 
falso, absolutamente falso, pois, desde os primeiros 150 inglezes. 
que aportaram ás suas costas, em 1607, até hoje, nunca aquelle 
grande povo foi governado por dictadura, seja militar, seja civil. (*) 

Se addiarem a fixação da época em que a nação deve ser 
consultada, a sympathia com que a revolução foi recebida ha de 
ser substituída pela incerteza, e é lei da natureza humana que, 
quando estamos incertos do futuro, sempre presumimos o peior. 

Aquelles, pois, que aconselharem esse adiamento promoverão 
a anarchia, que, se chegar a declarar- se, hade derramar muito 
sangue, o que julgo que ninguém deseja em nosso pacifico paiz. 
Sendo este o meu modo de pensar, eu ainda não posso ir 
cumprimentar ofíicialmente o governo provisório, por mais estima 
particular que me mereça o cidadão que desempenha essas fun- 
cções ; aguardo, para fazel-o, que elle esteja legalizado por 



(*) Stoby, Qonstitution of fhe United States, Caps. 16 e 17; Tocqdeville Demo- 
cratie en Amerique, Cap. 2.o, 



— 245 — 

manifestação da Constituinte, que o próprio governo provisório 
proclamou como único poder capaz de dar-lhe existência defini- 
tiva. 

Já vê, pois, V. exa., que si não o acompanlio a palácio, 
para diiiair aí^ora cumprimentos que eu tanto desejo fazer quan- 
do elles forem expressão de regimen legal, não é por oro'ulho, 
é sim por julgar que elles se oppôem aos deveres de cidalão 
brazileiro, que eu entendo ter a obrigação de guardar, sobretudo 
«m vista da posição que tão recentemente occupei no regimen 
■decahido. 

Deus guarde a v. exa. 

Exmo. snr. Conselheiro Leôncio de Carvalho, D. D Pre- 
sidente da Directoria do Lyceu de Artes e Oíii-ios de S. Paulo. 

J. V Couto de Magalhães, 
Brigadeiro Honorário do Exerciío 



II 

fl brigadeirn Conto de Magalhães ao sr. conselheiro Leôncio de Carvalho (*) 

Se V. exa. entendeu que, com a carta que publiquei a 13 
do corrente, eu pretendia que o seu procedimento fosse pautado 
pelo meu, fez-me injustiça. 

Tenho muito respeito pelas opiniões de meus compatriotas 
illustrados, para suppôr que, deante de phase tão grave e me- 
lindrosa, qual a que agora atravessamos, procedam por motivos 
que se não conciliem com o patriodsmo, que é, em resumo, o 
desejo de viver em um paiz onde esteja garantida a liberdade 
ãe quantos nelle habitam 

Recu-^ei acompanhar v exc. a palácio. Isto, para mim, si 
•é queda da Monarchia, ainda não é estabelecimento da Repu- 
blica, sinão em nome, ainda não estou certo si caminhamos 
|)ara ella ou se nos afastamos. 

Nos acontecimentos do dia 15 de Novembro pretérito, o 
povo não tomou parte : assistiu a elles bestificado, como quem 
-assiste a uma parada^ segundo o testemunho insuspeito do 
íictual ministro do Interior, o sr dr. Aristides Lobo, em carta 
publicada neste mesmo Diário Popular, 

Portanto : o governo formou-se a si mesmo, e formou-se 
•com sectários de doutrinas oppostas, a saber ; 

1." Sectários da democracia, is^to é, :— daquelles que pensam 
•que, como governo é cousa que custa muito dinheiro e muita 



(I) Publicado no Diário Popular, de 18 de Dezembro de 1889 



— 246 — 



gente para o exercito, e como o dinheiro e a gente são forne- 
cidos pelo povo, o povo é que tem o direito de estabelecer o 



seu governo. 



2.** Sectários da doutrina positivista, isto é : — daquelles que 
pensam que, como o governo é cousa que custa muito dinheiro, 
muita gente, o povo que é estúpido, qu^ò não tem a tal investidura 
da sciencia, deve pagar uma e out.a cousa sem bufar, afim de que 
elles positivistas ftxçam na sociedade experiências, como as que 
os médicos fazem in anima vili. Estes últimos ficam irritados 
toda a vez que se lhes fala em Constituinte ou Constituição, a 
ponto de dizerem que quem o faz é petroleiro ! 

Ora, deante destas duas forças, que é que sahirá dos acon- 
tecimentos do dia 15 de Novembro ? 

Sahirá a Republica, isto é, o governo da nação pela nação, 
ou sahirá o despotismo de poucos, isto é— o governo da nação 
por uma seita de philosophos que julgam ter a investidura da 
sciencia por direito divino, por haverem lido algumas obras 
francezas, muito boas como poesia, mas que nunca deram pro- 
vas de haver governado cousa alguma, nem bem, nem mal ? 

O dr. Francklin, a quem Washington chamava o avô da 
liberdade norte-americana, dizia que nunca elle encontrava mais 
perigosa classe de politicos do que aquelles que se julgavam in- 
vestidos da missão de fazer bem á nação, contra a vontade ou 
a despeito da vontade da mesma nação. 

Esses desconhecem o principio fundamental de toda demo- 
cracia, synthetizado no aphorismo romano : não se faz beneficio a 
quem não o quer receber, ou, em latim, invito benificiíim non 
datur. 

Fazem lembrar a historia do israelita que, quando ia ser 
queimado vivo para purgar seus j^e^.cados o ir para o céu, ao 
frade capuchinho que o exhortava, disse, apontando para a fo- 
gueira : — meu pae, si para ir para o céu é necessário ser quei- 
mado vivo, eu, si tivesse a liberdade da escolha, preferia ir para 
o inferno . . , 

Estas duas correntes de idéas que, segundo dizem do Rio, 
estão luctando no governo provisório, parecem estar reveladas 
nos seguintes factos : 

E' evidente que os auetores mais preponderantes da revo- 
lução queriam uma republica federal, unionista e representativa. 

Não duvido confessar que isso, revelado nos primeiros actos 
do governo provisório, foi recebido muito bem aqui em S. Paulo. 

Nestes primeiros actos declarou-se que o governo central 
só nomearia governadores para as províncias que não houvessem 
constituído seu governo. 

S. Paulo constituiu com pessoal qu^ inspirava toda con- 
fiança ; todos ficaram tranquillos e satisfeitos, com poucas ex- 
cepções . 



— 247 — 

No entretanto, esse governo foi demittido ; é certo que o 
triunvirato escolhido aqui na capital foi substituído por um 
governador que fazia parte delle. Mas não é menes certo que 
esse acto firmou, mesmo para aqui, o principio de que o povo 
não tem direito de intervir na formação do seu governo. De modo 
que, si por qualquer circumstancia, o sr. Campos Sallf^s se reti- 
rar do ministério, e os srs. Prudente de Moraes e Bernardino de 
Campos fizerem o mesmo, como os obrigará a lei da solidarie- 
dade, podem mandar-nos como governador um segundo tenente 
de artilheria, que conheça isto como eu conheço a China, e 
esse disporá dos collossaes interesses de S. Paulo, com o poder 
discrecionario, que nunca teve nenhum presidente da Monarchia, 
de lançar os impostos que quizer e de despendel-os como bem 
lhe parecer... Dizem os positivistas que isto é a diciadura 
sei mtijica, o prologo para chegarmos á federação ; equivale a 
dizer — que o melhor meio de ensinar alguém a caminhar é 
por -lhe aos pés uma barra de chumbo com a qual elle não 
possa mover-se do logar. 

Além deste, ha outros factos que fazem suspeitar que os 
positivistas ganharam do ministério, ascendente que a principio 
não tinham. 

Citarei, entre outros, os seguintes : 

Constou aqui que o marechal Deodoro queria a continuaçãe 
da bandeira nacional, com eliminação apenas da coroa. Isto é 
o que seria razoável. No entretanto, prevaleceu a bandeira com 
o lemma positivista — ordem e progresso ; somos a única nação 
do mundo que tem nisso um letreiro, o que é tão supinamente 
ridiculo, que o povo aqui a denominou — bandeira marca cometa ! 

Como facto, em si, a cousa é apenas grotesca; como, porêuL, 
demonstração do systema positivista, procurando governar uma 
nação, onde não ha talvez um cento de sectários dessa doutrina, 
o menos que se pode dizer da cousa é que ella é provocadora 
da maioria que não segue tal systema. 

Que nos fez a nossa velha bandeira, que nos levou victo- 
riosos aos campos do Uruguay, da Republica Argentina e de 
Paraguay, que era a representação da nossa já longa historia 
de luctas e victorias nacionaes, para ser substituída pela divisa 
de uma seita, embora respeitável, mas pouco numerosa, de uma 
rua escura e suja da capital de França? 

Outra cousa que egualmente chocou o orgulho do povo foi 
a Marselheza substituindo o nosso Hymno Nacional. Pois, em 
verdade, seremos cousa tão desprezível que não possamos appa- 
recer em nossas festas nacionaes sem um hymno francez, que 
recorda medonhas hecatombes de uma das mais lúgubres epochas 
da historia da humanidade, o que não pode ser o ideal de 
nenhum filho dos últimos annos do secnlo XIX, seja elle embora 
republicano, positivista ou monarchista? 



— 248 — 

Outro facto, que está descontentando aos que comprelipndem, 
e este é o mais grave de todos, é a noticia, espalhada pelos 
amigos positivistas, de que, durante dois ou mais íinnos, não 
teremos nem Constituição outorgada, nem Constituinte, porque 
o ideal de A. Conte é a dictadura pura e simples, a tal inves- 
tidura da ficiencia, sem o voto da nação, porque, esta, segundo 
elles, nào tem capacidade para escolher o melhor. 

Si a nação não está preparada para a Republica, quem é 
que vos deu procuração paia estabelecei -a e para gastar os 
dinheiros do thesouro, fructo do imposto, que é pago por todos? 

Fuja o g >verno provisório de ouvir a taes amigos ; pois, 
qualquer que seja a boa intenção que nelles exista, esse regimen, 
sem Constituição escripta, para que cada um de nós saiba em 
que lei vive, só era possivel, pacificamente, em nossas fazendas 
de café. 

A Constituição escripta devia ter sido proclamada, quando 
se proclamou a Republica. 

Já que o não puderem fazer então, façam-no agora, e, quanto 
antes marquem a época da Constituinte, embora a espacem do 
tempo neces-ario para os trabalhos preparatórios. 

Concorra v. exa. com sua bella intelligencia para que o go- 
verno promulgue já uma Constituição e fixe a época da reunião 
da Constituinte, e com isso terá prestado á sua pátria e ao pró- 
prio governo muito maior serviço do que levando a palácio este 
seu inútil correligionário, que actualmente não pode querer outra 
cousa, sinão vêr o seu paiz levado á liberdade pelo caminho da 
paz e da ordem, sem que elle intervenha nisso. 

S. Paulo, 16 de Dezembro de 1889. 

Couto de Magalhães 



o PADRE FEIJÓ O 



Em geral, pensara os historiadores, ou historiographos, que 
o padre António Diogo Feijó nasceu em Ytú. E' esta a versão 
corrente na Europa. 

Larousse, o indefectivel Larousse, dá-o como nato em Ytú 
em 1780. Monsenhor Paul Guérin, no sen muito mais consci- 
encioso Dictionnaire des Dictwnaires, dá-lhe também como berço 
a Fidelissima Cidade, no mesmo anno de 1780. Outro fal-o 
filho de S. Carlos (Campinas), pela éra revolucionaria de 1789. 

Entre nós, alguns escriptores opinam que o grande liberal 
nasceu em Ytú, outros em S. Paulo. Estes é que têm razão, 
Feijó nasceu nesta Cidade. 

Offereço ao São Paulo a sua certidão de baptismo, 

€ Aos 17 de agosto de 1784, ne-^ta Sé, baptisei e 
« puz os Santos Óleos a Diogo, filho de pais incogiâtos, 
« exposto em casa do revmo. Fernando Lopes de Ca- 
« margo ; o mesmo foi padrinho e Maria Gertrudes de 
« Camargo, viuva, todos desta freguezia ; do que para 
« constar fiz este assento, que assigno. — O coadjuctor 
« José Joaquim da Silva. 

O illustrado e erudito homem de letras, que tem abrilhan- 
tado estas columitas com as fulgurações de seu talento, e se 
esconde modestamente sob o pseudónimo de erasmo, nos descre- 
veu o enterro do velho patriota. 

Jaz Feijó sepultado em uma carneira do jazigo da Vene- 
rável Ordem Terceira de S Francisco da Penitencia, sob um 
cômoro de tijoh), sem Cruz, nem epitaphio. 

Libero Badaró, um pamphletario cujo titulo de benemerência 
é ter cabido sob os golpes de um sicário, instrumento de uma 
vindicta particular, tem o seu tumulo no cemitério municipal, 
erigido pela admiração de seus compatriotas, filhos da bella e 
culta Itália. 



(•) Do 8. Paulo de 27 de Julho, e dias seguintes transcrevemos o interessante 
estudo que ora publicamos, devido ao illustre escriptor dr Estevam Leão Bourroul, um 
dos lltteratos que melhor conhece as tradições históricas paulistas. 

Apenas foi modificada a redacção era um ou outro trecho, para adaptação desta R»- 
vista, e corrigidos os enganos e erros de composição. 



— 250 — 

Quando é que « hoaestissimo liomem, padre austero, exí- 
mio patriota, que soube e poude salvar a ordem, a integridade 
e a monarclija do Brasil», quando é que Feijó terá o seu mo- 
numento na terra de seu berço, erguido pela gratidão dos 
Paulistas? 

Sabendo existir em Campin?;S o testamento com que falleceu 
o Padre Feijó, tratei de averiguar ; e, de facto, encontrei o 
precioso documento, que abaixo offereço á corsideração dos 
leitores, verho ad verbum. Mandei tirar uma cópia, que enviei 
ao Instituto Histórico e Geographico Brazileiro, a cujo grémio 
me ufano de pertencer. 

«António Duarte Pimentel, serventuário vitalicio do officio 
de primeiro Escrivão da Provedoria e Annexos da Comarca de 
Campinas, Estado de São Paulo, na Republica dos Estados 
Unidos do Brazil 

Certifico em razão do meu officio e por esta me ser pedida 
pelo Excellentissimo Senhor Doutor Estavam Leão Bourroul, 
que revendo em meu cartório os autos de inventario dos bens 
deixados pelo padre Diogo António Feijó, n'elles a folhas vinte 
e duas usque vinte e quatro, encontrei o testamento e termos 
dos teores seguintes : 

TESTAMENTO 

Em nome da Santíssima Trindade dou principio a meu 
testamento pela maneira seguinte: Sou natural desta cidade, 
filho de pães incógnitos, de mais de 50 annos de edade (1) quero 
ser enterrado sem acompanhamento, nem officio e de loba somente. 
Sou e sempre fui Catholico Romano (2). Tudo quanto tenho 
dito e escrito sobre a disiplina da Igreja, tem sido por zelo, e 
afecto a mesma Igreja, e desejo qne se removão os obstáculos que 
a éísperiencia mostra averem na mesma á salvação do Fieis. De- 
sejo se digão no dia da minha morte, ou no seguinte vinte 
Missas, pelas quaes se dará a esmola de mil réis por cada uma. 
Não reconheço erdeiro, e por isco instituo minha erdeira a D. 
Maria Justina de Camargo, e quando acontesa ser esta fallecida, 
antes da minha morte, a D. Margarida, filha de D. Manuela 
Fr.* de Jesus Feijó. Possuo uma Xacra, e alguns bens moveis. 
Dese credito ao meu caderno incadernado, e a minha carteira, 
e deles, e de créditos consta o que me se me deve e eu devo; 
mas estamos de contas justas com meu compadre Raimundo Alves 



(1) Nascido em Agosto de 1784, contara Feijó 52 annos em 1835, data desle des- 
tamento. 

(2) De uma severidade Inaudita. Vejam a rag. 124 d*"» volume d»s Decisões do Go- 
verno, no anno de 1832,, o Aviso do Ministério da Justiça dirigido a todos oâ Prelados 
do Império. —Feijó abjurou a Maçonaria e retractou o seu íollieto contra o Celibato do 
Padres, como veremos em tempo. 



— 2Õ1 — 

dos Santos Prado, e meu amigo Padre Geraldo Leite Bastos (1), os 
quaes nada mais me devem. Deixo forros todos os meus escravos 
crioulos de maior edade e a Evaristo e sua njulher, a Eustáquio, e 
Euzebio ; e as mulheres destes Querubina, e Antónia ficarão forras 
da datadesta a cinco annos. Todos os mais escravos ávidos e por 
aver serão forros logo que completem vinte cinco annos de idade. A 
todos dará minlia erdeira no momento de sua liberdade cem mil réis ; 
e aqueles, que ainda tem de esperar o prazo aqui marcado dará 
além dos cem mil réis, o premio de dois por cento annual desa 
quantia. Os que ainda ficam escravos só poderão estar em 
companhia, e serviso do minha erdeira; e somente serão aluga- 
dos, ou emprestados á pessoa da escolha dos mesmos da qual 
ainda assim poderão retirar-se para outra, se esa os maltratar. 
Esta mesma disposição terá lugar depois da morte da minha er- 
deira, quando ainda algum escravo tenha de preenxer o prazo 
para libertar-se. Declaro, que qualquer filho de escrava, ainda 
depois de minha morte, e antes de libertarse a mae, será livre 
desde o seu nacimento, e os pais terão todo o cómodo, e tempo 
necefsario para o criar, e poderão conservalo depois de criado, 
onde quizerem. Declaro mais, que só o carpinteiro Benedicto 
fica eiscluido dos cem mil reis por ter já meios de subsistência. 
Fica pertencendo á minha erdeira os serviscs drs que ainda 
ficam escravos, e todos os mais bens que possiío. Declaro que 
a liberdade, que dou aos escravos não é benefisio, é obrigasão 
que me impuz, prometendo á muito, e aos mesmos que aceitaram 
a liberdade prometida á eles a seus filhos. Rogo a mesma minha 
erdeira e ao Dr. Padre Miguel Arcanjo Ribeiro de Camargo 
queirão ser meus testamenteiros e dar eiseiução a esta minha 
ultima vontade dentro de dois anos da data deste. Roe:o as Jus- 
tisas queirão asira fazer cumprir. S. Paulo três de Março de 
mil oitocentos e trinta e cinco. Diogo António Feijó. 

Conservo a ortographia peculiar de Feijó. E' a sua conhe- 
cida ortographia usada em papeis públicos e na imprensa. 

Feijó foi um polemista notável. Foi o porta-vóz da Rehel- 
lião de 17 de maio de 1842 installada em Sorocaba, que teve 
como orgam O Faulisia. O jornal official dos rebeldes publicou 
4 números; o 5.** ficou composto, mas não sahiu á luz. Deste 



(3) o Cónego Geraldo Leito Bastoá foi um dos mais íntimos amigos de Feijó, 
'depositário de todas as suas particularidades, como homem privado, e como homem 
politico, em vista dos documentos comprobatatorios" 

"Era este intimo amigo e confidente do Regente Feijó, escreve-me o Exmo. iS'r. 
Barão Homem de Mello, tanto que a biugraphia por elle escripta ó uma verdadeira 
Memoria intima, do maior valor histórico. Isto é positivo, ea elle mesmo onvi. O 
Cónego Geraldo era ura ardente liberal, e serviu até morrer o cargo de oflBcial-maior da 
secretaria do Senado. Era muito amigo dos Senadores Deputados liberaes de 8. Paulo." 

Em 1842 foi elle preso, a 19 de junho, e deportado para a Europa, com Limpo de 
Abreu, dr. França Leite, dr. Joaquim Cândido Soares de Meirelles, José Francisco 
Guimarães, e dr, Francisco de Sal es Torr> s Homem. Embarcaram todos os prosos po- 
líticos no dia 3 de Julho para Lisboa, a bordo da fragata Faraf/tiassu Regressaram ao 
Rio a .5 da junho de 18-13; e falleceu na Corte a 15 de julho de 186:^ estimado por quantos 
tiveram a ventara de o conhecer. 



— 252 — 



numero inédito é o artigo que set,^ue, e que traz a numeração 
IV, todo da lettra e redacção do grande paulista. 



«O GOVERNISTA 



» 



€ A folha d.0 Govt-rno continua as suas mentiras. 

Não se esqueceu de nós: muito teria que dizer talvez com 
verdade ; mas para desempenhar o conceito que dela se forma, 
lansou mão somente ie falsidades. E entre outras que calamos 
notaremos unicamente o avansar descaradamente que requeremos 
uma pensão a S. M. I. por não podermos ir ao Senado; quando 
nôs apenas eín uma carta particular ao S. António Carlos, a 
qual andou impresa, lhe rogamos, que obtivesse da generosidade 
do Imperador uma pensão de 600 mil reu, porque aviamos ven- 
dido o pequeno estabelecimento que tinhamos em S. Paulo, e 
que antes de aprontarmos outro em S. Carlos fomos atacados 
do parlesia, e que por esa causa pouco progresso podia ele ter ; 
e mostramos que a nassão non tinha prejuiso ; porque deixando 
de receber o subsidio de 3:600.000 reis uaaa vez que não pude- 
semos acumular, ainda o Tesoiro lucrava. Esta é a verdade; 
bem como S. M. concedeu-no^ não 600.000 reis porem 4 coutos 
6 sem a eisclusão, que lembrávamos, e não só em atensão aos 
servisos prestados, e notese, que nunca alegamos servisos, como 
por axarmonos enfermo. 

Lembramos isto não ao Redactor, mas ao publico para que 
saiba o como obtivemos a dita pensão, que tanto molesta alguém. 

Desde 1821 servimos ao Brazil por ser noso dever e não 
para pedirmos paga deses poucos servisos que prestamos.» 

A typographia onde se imprimia o Paulista era de propriedade 
6 composição de Hercule? Pl^rence, genro de Alvares Machado. 

Voltemos, porém, ao testamento. 

Fechado o parentheàis no Testamento do Padre Feijó, va- 
mos á. 

Approvação 

Saibào quantos este publico Instrumento de approvação de 
testamento virem, que sendo no Anno do Nascimento de Nosso 
Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e trinta e cinco e aos 
cinco dias do mes de Março de dito anno, ne ta Imperial Cidade 
(1) de São Paulo e casa de morada do testador o Reverendo 



(\)'0 Decreto de 2-3 de Fevereiro de 1R'-'2 concedeu á cidade de 8. Paulo-- e Ti- 
tulo de— Imperial Cidade de 8. Paulo -e a Villa Rica o Titulo de— Imçerial Cidade de 
Onro Preto —« porque muito especialmente se tèm distinguido &s Providencias de 8 Pau- 
lo e Minas Geraes, como primeiras na resolução de sustentar, ainda á custa dos maiores 
sacrifícios, os direitos inauferiveis dos novos do Brasil contra os seus declarados inimigo» 
e algumas de suas povoações se avantajaram em testemunho de denotado patriotismo...» 

Este Decreto, referendado por José Bonifaoio de Andrada e Silva, concedeu tam- 
bém ás Comarcas de Ytú e Babará o titulo de -Fidelíssimas— ; e á Villa de Barbacen» 
o de -Nobre e Muito Leal Villa de Barbacena 



. — 253 — 

Diogo António Feijó, onde eu Tabellião ao diante nomeado fui 
vindo, e sendo ahi o mesmo presente que o reconheço pelo pro- 
piio de que dou fé, e egualmente de se achar com saúde e em 
■eu perfeito juizo e entendimento, segundo o meu parecer e das 
testemunhss ao diante nomeadas e assignadas; perante as quaea 
por elle me foi dito que este era o seu solenne testamento que 
havia escripto por seu próprio punho, e porque estava a seu gos- 
to, e era sua ultima e derradeira vontade queria lhe o appro-. 
vasse, pois por elle revogava outro qualquer testamento ou codi- 
cillo que antes deste houvesse feito e só queria que o presente 
vallece e tivesse fcrca e vigor e para o que requer ás Justiças 
de Sua Magestade Imperial dêem e façào dar o seu devido cum- 
primento ; e, para sua maior validade aqui as havia por expreças 
e declaradas todas as clausolas da- em dir^ ito precisas, como se 
de cada húa fizece clara e destinta mensão: e tornando-lhe eu 
de sua própria mão pelo achar limpo sem vicio nem borrão ou 
entrelinhas, escripto em húa pagina inteira e a segunda com 
nove linhas, no fim assignado o dito testador pelo seu próprio 
punho supra declarado, o numerei e rubriquei com minha rubrica 
que diz — Barboza — e approvo tanto quanto posso devo e me é 
permittido em razão de meu officio, em fé e testemunho de ver- 
dade de como assim o disse outorgou me pediulhe lavrasse o 
presente Instrumento que sendo-lhe lido aceitou e assignou cóm 
as testemunhas presentes António Beneditco Falhares, Luiz Fer- 
nandes Ferreira, José J?cintho de Medeiros, e Reverendo Fidelis 
Alves Sigmaringa e Joaquim Bened cto da Trindade, reconheci- 
dos de mim Francisco António Barbosa, Tabellião interino o 
escrevi e assigne em publico e razo. Diogo António Feijó. — 
António Benedicto Palhares de Camargo. — Luiz Fernandes Fer- 
reira. — José Jacintho de Medeiros. — O padre Fidelis Alves Sigma- 
ringa de Moraes. — Joaquim Benedicto da Trindade. — Em teste- 
munho (signal publico) da verdade, Francisco António Barboza. 

Despacho 

Cumpra-se e registe-se, salvo os direitos de terceiro, São 
Paulo, 11 de Novembro de 1843. Luz. 

Abertura 

Aos onze de Novembro de mil oito centos e quarenta e 
trez, nesta imperial cidade de S. Paulo, em casa de morada do 
juiz municipal José Joaquim da Luz a onde fui vindo ahi com- 
pareceu o padre Fidelis Alves Sigmaringa de Moraes que reco- 
nheço pelo próprio e por elle foi apresentado o testamento pre- 
sente ao dito juiz, pelo qual sendo o mesmo aberto por haver 
fallecido o Testador, poz nelle o seu « Cumpra-se > e deferiu o 
Juramento dos Santos Evangelhos ao dito apresentante, encar- 
regando-lhe que sob cargo do mesmo declarasse o dia e hora 
do fallecimento do testador e se além deste haveria algum ou- 



— 254 — 

tro testamento ou Codicilio que devesse ser aberto. E recebido 
por ello o dito juramento declarou que — o testador Senador 
Diogo António Feijó (1) falleceu no dia de bontem ás onze 
boras da noite (2) e que além deste testamento não se Ibe acbou 
outro algum ou Codicilio. 

E de como assim o disse lavrei o pre&ente que assigna com 
elle juiz. Eu Fortunato José da Silva escrivão interino o es- 
crevi. — Luz. — Fidelis Alves 8i(jmaringa de Moraes. 

Termo de Acceitação 

Aos quinze de Dezembro de mil oito centos e quarenta e 
trez, nesta Imperial Cidade de S. Paulo, casa de morada de 
Dona Maria Justina de Camargo (3) aonde fui vindo, sendo abi 
a mesma presente que reconbeço pela própria por ella me foi 
dito perante as testemunbas abaixo assignadas que acceitava os 
encargos do presente testamento (4) visto ser a primeira testa- 
menteira nomeada e que protestava prestar contas do mesmo no 
tempo aprazado. E de como assim o disse lavrei este termo 
que assigna. Eu, Fortunato José da Silva, Escrivão inteiino 
que o escrevi. Maria Justina de Camargo. — Francisco Suria- 
no dos Santos Cardins. — Francisco Liaii. — Tab. Mil oito centos 
e quarenta e trez. 

Registo 

Registado no livro competente, a folbas 136, verso. São 
Paulo, 20 de dezembro de 1843. Silva. Registo : mil oito centos 
e sessenta reis. 

Custas 

Custas deste testamento : 

Para o juiz : Abertura 1 . 200 réis 

Para o escrivão : Termo de Abertura .... 375 » 

» » : Autuação ....•,. 225 » 

» » : Abertura ....... 75 » 

» » : Reg.** 1.860 » 

C. que pagou . , 750 » 

Somma . . 4.485 réis 
Despendido pela testamenteira: Distribuição . 150 » 

Somma tudo . . 4.635 réis 

(1)— Feijó foi nomeado Senador pela provinda do Rio de Janeiro por carta Imperial 
de 5 de Fevereiro de 1833. AnnuUaram-llie a eleição. Foi reeleito, e nomeado em 
l.o de Julho: e tomou assento a 16. Outro grande Paulista o Mirabeau Braziieiro, An- 
tónio Carlos, não representou 8. Paulo na Camará Vitalícia: foi eleito per Pernambuco 
O Patriarcha, este, nunca foi Senador. 

(2)— Data certa de sua morte: 10 de Novembro de 1848, ás 11 horas da noite. E 
não 9 de Novembro como erradamente asseveram Innocencio Francisco da Silva (Dicc-), 
Texeira de Mello EphemeridQs e outros Historiadores. 

rS)- Morava na antiga rua da Freira, hoje Senador Feijó, casa da esquina com o 
largo de S. Francisco. Tinha outra casa á rua hoje do Riachuelo, esquina. 

(4)— Pelo que se vê, os Escrivães do tempo não eram muito pródigos de pontuação. 



— 255 — 

— Cardins. N. 5840. Pg. 480 léis de sellos.— Campinas, 
22 de agosto de l^^i.— Brito. — Alves. 

Segue-se o encerramento, sellado, do prestimoso sr. major 

António Duarte de Pimentel, 1.° escrivão de Campinas e tabel- 

lião da comarca, de saudosa memoria. 

* 
* * 

Para bem documentar o ponto em que jaz sepultado o grande 
paulista citarei um opúsculo que encerra testemunho contem- 
porâneo. 

Dou a palavra ao maior amigo de Feijó, o cónego Geraldo 
Leite Bastos, que escreveu na sua preciosa e ravaNecrologia, (1) a 
paginas 52-54 : 

«Embalsamado o seu cadáver, foi a 14 conduzido para a 
egreja dos terceiros de Nossa Senhora do Carmo, sendo o seu 
enterro o mais pomposo, que até então se tinha visto na capital 
de S. Paulo, não obstente haver elle no testamento com que fal- 
lecêra, declarado o seguinte: cquero ser enterrado fem acom- 
panhamento, nem officio, e de loba somente». Todas as corpo- 
rações religiosas, grandes e pequenas de todas as classes e de todos 
os credos politicos o accmpanharam ao seu ultimo jazigo, vindo 
muitos seus amigos e affeiçoados, de mais de vinte léguas de 
distancia, para tomarem parte nesse acto de piedade e religião. 
No seguinte dia, depois de findo o officio de corpo presente, a 
missa solemne e encommendações do estylo, subiu ao púlpito o 
Rev. Padre Pedro Gomes de Camargo, e em um elequente e 
pathetico discurso, de tal modo descreveu as virtudes do varão 
de quem havia sido um dos discipulos, que fez mu ita^ vezes derra- 
marlagrimas aos seus numerosos ouvintes. Terminadas as cerimo- 
nias religiosas, ao dar-se o corpo á sepultura, foram feitas pela 
tropa de todas as armas, que se achava postada nas immediações 
do templo, as honras militares que lhe competiam, como Gram- 
Cruz da Imperial Ordem do Cruzeiro. 

Alguns ann s depois, entenderam os seus parentes que lhe 
deviam dar um jazigo perpetuo na egreja da Ordem Terceira de 
S. Francisco, de que era então commissario, o seu particular 
amigo, o honrado brigadeiro Kafael Tobias de Aguiar, e para ali 
particularmente foi transladado no mesmo caixão de chumbo ; 
conservando- se ainda hoje, o seu cadáver em perfeito estado, 
assim como o seu coração, também na mesma redoma de vidro 
em que havia sido collocado». 

Não é só o culto pela Verdade histórica que me dieta esta 
rectificação, sinão também o amor fervoroso que consagro á Ve- 



(1) Necrologia do Senador Diogo Feijó, escripta por *** e publocada pelo dr. 
Mello Moraes vA..1. de).— Rio de Janeiro, TypograpMa Brazileira— Edictor J, J. do Patro- 
cínio, rua das Violas n. :í9. — 1861.— Um folheto de 54 paginas A Necrologia é illns- 
trada com um retrato exellente de Feijó, lithographado por 8. A. Sison, rua do Cauo. 45, 
Rio de Janeiro. 



— 256 — 

neravel Ordem Terceira de S. Francisco da Penitencia, á qual 
pertenço ha 30 annos, e a quem, — o mais humilde dos servos 
de Seraphico de Assis — dediquei, como Secretario, os meus me- 
lhores esforços e de cujas glorias e tradições de piedade e pa- 
triotismo procurei sempre ser o pregoeiro, em todas as phases 
de minha vida. 

Eis o Aviso do Padre Feijó, qnando Ministro da Justiça, 
expedido ao Episcopado Brazileiro, e ao qual alludi em a Nota 2 
deste escripto. 

«Exm. e Revm. Sr. 

Si a religião Catholica é mantida pela Constituição por ser 
a religião dos Brasileiros, de cujas verdades estão convencidos : 

Si a sua Moral, tão pura e santa, tanto concorre para dar 
vigor ás Leis, tornar mais sólidos e permanentes os Princípios 
sobre que repousa o Systema Constitucional; 

E' também inegável que a Superstição, a Hyjiocrisia e me- 
ras exterioridades religiosas s-ó servem para desacreditar a verda- 
deira Religião tornarem-n'a ridícula aos olhos do homem sensato, 
e um objecto de curiosidade e divertimento para com a multidão 
que não pen^a; 

Não podendo dissimular-se que a causa principal da irreli- 
giosidade que, com magoa dos verdadeiros crentes, se observa em 
todo o Império, é devida á má escolha dos Ministros da Religião ; 

á negligencias dos Prelados em regular o Culto pelas Leis 
da Igreja, consentindo que nelle se introduzam tantos abusos, 
tolerando que nos Templos as Festa se façam até de noite, onde 
se desenvolve com escândalo notável, a perversidada d'aquelles 
que nenhum caso fazem da celebração dos Santos Mysteriís; 

á nenhuma importância que deo às queixa dos Fiéis contra 
seus Parochos que, recebendo do thesouro Publico e dos Paro- 
chianos não pequenas contribuições, contentam-se em praticar 
esteriormente certos actos sem importar-se com a mais útil, a 
principíil de suas obrigações, que é plantar a semente dos bons 
costumes e promover assiduamente, com a palavra e o exemplo, 
a pratica da Moral Evangélica; consentindo que por pretestos 
visivelmente falsos os Vigários se retirem e se conservem fora 
de seus benefícios onde ainda enfermos, poderiam prestar grandes 
serviços, si estivessem animados do espirito de seu Sagrado Mi- 
nistério : 

querendo a Regência, em nome do Imperador, remover taes 
embaraços, que tanto damno causam á Religião e á Moral publi- 
ca, confiada aos seus Ministros. 

Manda recomendar a V. Exc. Revma. a mais escrupulosa 
escolha das pessoas destinadas ao serviço da Igreja que, por suas 
moralidade e instrucção, sejam capazes de lhe servir de ornamen- 
to ; a severidade em punir canonicamente os que se desviarem 
das regras; o extermínio de tantos abusos que se têm introdu- 



— 257 — 

zido no cul;o publico, fiualmente, o exacto cuprimento de seus 
deveres. 

Esperando que V. Exc. Revraa. será o primeiro em mostrar, 
por seu exemplo, quanto respeito consagra aos princípios reli- 
giosos que professa, e quanto se empenha em manter intacto o 
deposito da Fé e da Moral, que lhe foi confiado; e que obrando 
desta sorte evitar-se-hão as repetidas queixas contra os Paro- 
chos que em geral, tão mal desempenham o seu Ministeiro. 

Deus Gurde a V. Exc. Revma. 

Paço do R.o de Janeiro, em 12 de Março de 1832 — Diogo 
António Feijó.» 

A liguagem de Feijó causa hoje não ppquena extranheza. 
Cumpre, porem, nos reportamos a uma época em que as con- 
dições do cl«-ro eram muito diversas; em que o Regalismo e o 
Gallicanismo imperavam quasi soberanamente ; em que tudo no 
Brasil se resentia da anarchia que avassalava todas as classes 
da sociedade. 

A Abolição do Celibato encontiava ardentes propugnadores 
entre sacerdotes illustr.-.dos e rec «me n dáveis pelas suas virtudes 
e austeridade de costumes. 

Em S. Paulo, Feijó e Manuel Joaquim do Amaral Gurgel 
deixaram- se prender nas malhas de capciosos argumentos e at- 
trahir pela miragem de doutriras %nestas, herdadas do clero sui 
generis qu floresceu em Purtugal, em fins do século XVIII e em 
França apÓ5 a Declaração dos Direitos do Homem. 

Os «Falsos Dogmas de 1789» , como denomi a o insigne 
Le Play ao conjuncto de doutrinas oriundas do abalo revolucio- 
nário que sacudiu a França e a Europa to fia, maxime a raça 
latina, obscureceram a intilligencia e o critério de Feijó, a pon- 
to de o tornar auctor de uma Demonstração da necessidade da 
abolição do Celibato Clerical pela Assembléa Geral do Brazil (1). 

Esta representação do deputado Feijó traz a data de 9 de 
Julho de 1828 

O Conselho Geral de S. Paulo, invadindo alheias attribui- 
ções, agitava-se mais tarde impulsionado pelo mesmo falso objecti- 
vo. E Amaral Gurgel (2) levava á tribuna da Camará dos Depu- 
tados e á imprensa o concurso de seu grande talento, pondo -o 



i^)— Demonstração da necessidade da abolição do Celibato Clerical pela Assem- 
bléa Geral do Brasil e da sua verdadeira e legitima competência nesta matéria, pelo de- 
putado Diogo António Feijó, 1828. 

Feijó retractou tudo quanto escreveu neste opúsculo de combate. 

Pois bera: era 1887 este folheto foi reimpresso em 8. Paulo, na Tj^pogropMa 
protestante e yankee de Leroy King Bookwalter. Os edictores ousaram ainda dedicar 
esta edicção fiaudulenta e sacrileca,— pois o seu auctor abjurara publicamente os erros 
nella contidos -«aos admiradores do grande Feijó e aos amantes da liberdade e do pro- 
gresso » 1 

(2)— E' hoje raro o opúsculo, Analyse ãe resposta do Exm. Arcebispo da Bahia 
sobre a questão da dispensa do celibato, pedida pelo Conselho Geral de. S, Paulo, pelo 
dr. Manoel Joaquim do Amaral Gurgel, 'ente do curso jurídico de 8. Paulo. Bio de 
Jeneiro, 1831. 



— 258 — 

ao serviço da má cansa, como o seu amigo politico e collega 
de habito, Diogo António Feijó, 

O preclaro Arcibispo da Bahia, D. Romualdo António de 
Seixas, mais tarde Marquez de Santa Cruz, e o padre Luiz 
GoQçalves, entre outros, rebateram vietoriosamente a propagan- 
da contra o Celibato e destruíram por completo as objecções 
que «a bem da moralidade publica» adduziam os apologistas da 
da reforma. 

O projecto subversivo, patrocinado embora por tão vigorosos 
talentos, n?io vingou e nunca mais resurgiu no seio do clero. 

O ultimo acto da Regência Permanente, então representada 
somente na pessoa do general Francisco de Lima e Silva, fora 
nomear a Feijó — Bispo de Marianna. E ao tempo em que, no 
dia 9 de Abril de 1835, era o grande Paulista convidado a to- 
mar posse como Regente reeem-eleito, recebia também o offieio 
em que o ministro da Justiça, com as expressões mais linsongeiras, 
lhe communicava a sua elevação ao sólio eipiscopal. Ao que 
elle respondeu do modo mais polido, significando a sua gratidão. 

«O sr. Feijó, porém, logo que assumiu o poder, determi- 
nou que o decreto de fcua nomeação ficasse guardado na Secre- 
taria, e nenhuma das participações do estylo se fizessem.» (1) 

Tendo renunciado voluntariamente á Regência em 19 de 
Setembro de 1837, o padre Feijó regressou a esta Província; e 
pouco depois recebia um offieio do governo para mandar cuidar 
das Bulias de sua confirmação ao Bispado de Marianna. 

Haviam surgido difficuldades e desavenças entre a Santa Sé 
e a Regência, per causa da confirmação do Bispo, eleito para o 
Rio de Janeiro, dr. Moura. 

Entretanto, dizia-se geralmente que Sua Santidade o Papa 
Gregório XVI havia de tudo mudado a opinião em que estava 
a respeito do Padre Feijó, depois que o Núncio Apostólico, Arce- 
bispo de Tarso, tendo encontrado em s. exa., quando Ministro da 
justiça, a franqueza e prompta í^olução nos negócios da Santa Sé, 
que nunca encontrara em nenhum dos Ministros deide o tempo do 
sr. D. Pedro I, offieiara á sua Corte, fazendo Justiça ao seu modo 
de pensar, espirito religioso e justiceiro ; e que em consequência 
disso, tinha o Santo Padre a maior consideração por s. exa, (2) 

Instado para acceitar o Bispado de Marianna, ou permutar 
este pelo do Rio de Janeiro, Feijó deu grande exemplo de hu- 
mildade christan e obediência á disciplina da Egreja. 

Não só respondeu que não havia aceitado Mitra, mas, fez 
publicar no Observador Paulistano a seguinte declaração : 

* Tendo eu escripto alguma cousa sobre differentes 
pontos de disciplina ecclesiastica, havendo também pro- 



(:) Cónego Geraldo Leite Bastos. h'ecrologia, á pag, 29. 
(2) Cónego Geraldo Leite Bastos, ob. cit. á pag 34. 



— 259 — 

nunciado alguns discursos na Camará dos srs. Depu- 
tados sobrd o mesmo objecto ; ainda que tudo isto fizesse 
persuadido que zelava da mesma egreja catliolica de 
que sou filho, e ministro, e que attentava a bem da 
salvação dos fieis ; comtudo, constando-me que algumas 
pessoas não só extranhpram as minhas opiniões, como al- 
gutcas expressões pouco decorosas á mesma egreja e ao 
seu chefe; não querendo em nada separar-me da egreja 
catholica, e ainda menos escandalizar a pessoa alguma: 
por esta declaração revogo e me desdigo de tudo quanto 
pudesse directa ou indirectamente ofíender a disciplina 
ecclesiastica, que a mesma egreja julgou dever ser con- 
servada, ou a pessoa alguma. 

Esta minha declaração é espontânea, filha unica- 
mente do receio de haver errado, apesar das minhas, 
boas intenções; e é tanto mais desinteressada, que a 
pouco acabei de declarar ao governo de S. M. Imperial 
de que eu nunca acceitei a nomeação de Bispo de Ma- 
rianna, nem a carta de apresentação, que então se me 
quiz entregar. Deus queira, que se algum escândalo 
hei dado por causa de taes discursos e escriptos, cesse 
elle com esta minha ingénua declaração. 

S. Paulo, 10 de Julho de 1838. 

Diogo António Feijó». 

Escusado é dizer, escreve o seu historiador, a viva impressão 
que produziu esta declaração e limitar-nos-emos a repetir as 
ultimas palavras do artigo dos redactores em seguimento á mes- 
ma declaração : 

«Possam os seus gratuitos detractores, cobeitos de pejo, 
convencer-se da honra e desinteresse desse benemérito brazileiro, 
desse digno paulista». 

O Oheservador Paulistano fora fundado nesta capital em 
1838 pelo chefe do partido liberal, brigadeiro Raphael Tobias 
de Aíjuiar, para sustentação das idéas liberaes. 

Era seu principal redactor o conselheiro Manoel Joaquim do 
Amaral Gurgel. (1) 

Como o amigo a quem seguira os passo?, e cujas idéas tão 
brilhantemente defendera, veiu talvez levado por motivo idêntico 



(\)- -«A fundação do Observador em 8. Paulo veiu marcar a época de renascimento 
da imprensa politica na Província. Os máximos interesses da sociedade, as mais altas 
questões da administração, a marclia dos negócios públicos as conveniências do partido 
e as necessidades reclamadas pela opinião, vinham achar campo livre cá discução e ao 
debate no acreditado orgam do liberalismo, sempre recommendavel pela moderação de 
sua linguagem e critério de suas apreciações. 

Nunca as nobres aspirações do patriotismo, da justiça e da liberdade, tiverem na 
Província mais fiel e denodado interprete do que quando foi a imprensa dirigida por tão 
illustrado pubUcista". — Dr. Olegário Herculano de Aquino e Castro, O Conselheiro 
Manoel Joaquim do Amaral Gurgel, A'I1. (1871)- Feijó também collaborou assiduamete 
no Observador; este era jornal bi-semanal. 



— 260 — 

subscrever a retractação de Feijó, e com elle, protestar em pu- 
blico, pela pureza de suas intenções, só procurando rurgar seus 
passados erros e mostrar-se filho digno da mãe commum de todos> 
os catholicos. (!) 

Este episodio da vida sacerdotal de ambos estes verdadeiros^ 
paulistas honra a Feijó, que deu o exemplo, e a Amaral Gurgel, 
que seguiu a rota traçada pelo amigo, mestre e chefe querido. 
e idolatrado. 

«Sublime exemplo de abnegação e de humildade emvagelica l! 

Elle é o prototypo das mais acrysoladas virtudes, confessan- 
do-se culpado por invuluntarias culpas, commettidas na mais 
san consciência e inconstestavel bôa fé ! Deus que prescruta o. 
coração dos homens e lê no mais profundo dos pensamentos^ 
ha de ter benigno acolhido os votos do penitente sacerdote, qufr 
tão sinceramente lavou com as lagrimas do arrependimento as- 
culpas que por ventura houvesse commettido ! > 

E. Leão BourrouLi 



-»*-Of>£X*- 



O) -id. vni. 



Hm programina politico em 1834, redigido pelo revd. padre Diogo Feijd e dr. Miguel 

ArchaDJo Ribeiro, de Campinas (i) 



GOLPE DE VISTA SOBRE O ESTADO ACTUAL DO BRAZIL 

A confrontação do passado com o presente é que nos porá 
ao alcance de formarmos juizo seguro sobre o estado em que 
•ora nos achamos. 

Até Maio de 1826 foi o Brazil governado pelos capitãeB- 
:generaes nas provincias, e pelos capitães-mores nas villas e seus 
termos. Elles exerciam a parte policial da nossa legislação 
cumulativamente com os corregedores e juizes ordinários, e por 
abuso, ha séculos tolerados, prendiam arbitrariamente a quem 
queriam ; e chamava-se a isto — prender de potencia, — e muitas 
vezes deportavam para fora da provincia ou do termo . Se taes 
■arbitrariedades e despotismos eram praticados com a classe pobre, 
nenhum outro recurso restava que o sofFrimento Se porem o 
Taio cahia sobre o homem rico ou que contava protecção na ci- 
<lade ou na corte, encetava-se a carreira das representações sem- 
pre apoiadas nos empenhos pela maior parte dispendiosos, e depois 
de mil soffrimentos, respostas, e eternas delonga?, se a injustiça 
era clamorosa, se os patronos eram fortes, algumas vezes se 
mandava soltar o desgraçado, passados mezes e annos de ineom- 
modos, trabalhos, despezas e sofírimentos. 

O recrutamento perpetuo era um meio fecundo de vexações 
■e despezas. Esta provincia sem commercio, porque lhe eram 
fechados todos os portos, á excepção dos de Portugal, como 
acontecia a todo o Brazil, pobre e despovoada, ainda assim con- 
servava em armas constantemente mais de dois mil homens, a 
quem se não pagava soldo se não dois ou três mezes noanno. 



()) Como documento curioso e bem relacionado com estudo acima publicado 
transcrevemos este Golpe e vista— A.0 n. 1 do Justiceiro, periódico redigido pelo Padre 
Diogo Feijó e d. Miguel A. Ribeiro, impresso em 8. Paulo e que não teve longa 
duração e cujos números são raros. 

Em tempo foram reproduzidos na Republica, dt) Rio de Janeiro, em Março de 1878, 
quando era aquella folha redigida pelos drs. José Maria do Amaral, Aristide Lobo, Miranda 
Azevedo, Luiz Leitão e Ubaldino do Amaral. (N R) 



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Os capitães mores qiierend-j vingar- se de qualquer inimigc, ou 
de quem quer que tractasse menos bem ao seu compadre, imme- 
diataraente remettia o filho para a praça : e eis o pobre pai 
mendigando favores e protecção na capital, e depois de bem 
la""rimas àevi'Simsiàa9, Jmmilhando-.se perante os validos do general, 
e de suas concubinas, levava o filho resgatado por cem e du- 
zentos mil réis, segundo suas possibilidades. 

Enfim não é tão remota a época do despotismo para que 
careçamos contar a nós mesmos, que o vimos, que o presencia- 
mos, que o sentimos o que então se j^assou : basta recordal-o 
para fazer o contraste que se pretende. 

Em 1821 proclamou-se a liberdade, e a constituição que a 
devia garantir. Agitaram-se os ânimos, e o povo sem saber o 
porque, só ao anniincio da liberdade, do alivio da oppressão, 
saltou de contente, e firme acompanhou aquelles, que lhe deram 
tão feliz noticia. O chefe do governo tinha sido alimeotado como 
leite do despotismo: o ar que respirava, os conselheiros que es- 
cutava todas as antigas recordações oppunliam-se ao enthusiasino, 
que o magico nome de liberdade lhe inspirava. A mocidade do 
principe deixava-se arrastar um pouco pelo amor da gloria, con- 
templando-so fundador de um império livre, e objecto das es- 
peranças de um povo novo, que emprehendia a conquista de sua 
independência., acto que antecipava a epoclia de sua elevação ao 
throno. Os que o rodeavam, aquelles que mais império tinham 
sobre o seu coração, tinham demasiado amor á liberdade para 
poder repartil-a com os seus patricios, elevados ao poder, livres 
de toda a sujeição não encaravam com bons ollios uma assem- 
bléa nacional que se tornasse omni])otente, vigiasse sua con^ 
ducta, e punisse seus desvios. A obediência cega nos súbditos ; 
tima representação acanhada e sempre curvada ao monarcha : 
uma constituição dictada por elles : instituições, que formassem 
uma monarchia forte sobre formulas represeritativas, eis o que se 
meditava, e tractava-se de p)or em p)ratica por fas ou por nefas. 

Imbuido o principe em taes principios, que não houve 
habilidade em occultar, deixou de ser o idolo do povo, e a ser 
olhado como a bandeira do despotismo, a que se refugiavam con- 
selheiros ambiciosos , 

Accordou, mas por momentos. Abandonando seus antigos 
conselheiros, tornou-os seus incarniçados enimigos : estes mu- 
daram de bordo, temendo o seu monarcha forte, voltaram a prc- 
clamar a necessidade de instituições democráticas, ameaçando 
sem rebuço ao chefe do governo se ousasse contrafazer suas 
vontades. 

O monarcha já se tinha familiarizado com as doutrinas favore- 
cedoras do despotismo achava-se industriado nos planos anteriores, 
para poder facilmente mudar de conducta, e acostumar-se com 
linguagem, que outr'ora se lhe fez parecer tão insolente : dessol- 
veu a Assembléa Constituinte : deportou deputados, que lhe eram 



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suspeitos ou temíveis : fez retirar para fora desta provincia ci- 
dadãos pacificos que nenhuma relação tinham com esses seus 
antigos privados : tomou imia attitude militar e ameaçadora. 
Debalde offcreceo uma constituição mais liberal que a projectada 
no Apostolado, e mil protestos com sua constitucionalidade : o 
ATTENTADO 3DRA HORROROSO para que O Brazil deixasse de estre- 
mecer á vista delle ; Pernambuco proclamou sua Federação do 
Equador : o sul do Brasil adoptou a constituição offerecida 
receiando ficar sem nenhuma : todos estavam coactos, e bem pouca 
esperança restava de ver reunida a assembléa. Mas fosse pelos 
continuados revezes das nossas armas na caprichosa e malfadada 
guerra do sul, fosse pelo receio de j^^^oclamar-se as claras o des- 
potismo, fosse emfim porque o monarcha tivesse ainda alguma 
inclinação á gloria de ser chefe de um povo livre em 1826 sa 
installou a assemléa legislativa do império do Brazil. 

Desde então os brasileiros divisaram um crepúsculo de li- 
berdade. Alguns, poucos deputados mais corajosos, a medo /o- 
o^am deixando escapar na tribuna expressões que bem encommo- 
davam ao governo acostumado a ouvir somente a linguagem 
doce, mas suja da lisonja. Um ou outro escriptor animado com 
este exemplo começou a emittir suas oppiniôes sobre os negó- 
cios da pátria, sendo porem immediatamente alvo do ódio e da 
desconfianaa do monarcha, e seu governo. 

O imperador não duvidava ser constitucional comtanto que 
se respeitassem os seus actos mandados praticar pelo seu minis- 
tério, os quaes nem sempre estavam de accordo com a consti- 
tuição. Creou-se uma aristocracia fantástica despida de todos 
aquelles atavios que ornam os titulares da Europn. Faltava- 
Ihes dinheiro, grandes acções, vasto saber, e prestigio avoengo: 
apressaram a queda do mornacha, pois que todos foram creados 
contra a constituição. 

A assembléa tornou-se livre; nella falou-se com summa 
liberdade. Ministros inhabeis nem souberam nella formar pai tido ; 
não o julgaram mesmo necessário : instrumentos cegos da vontade 
do imperador, deram sempre motivo a justas censuras. 

A administracção publica de dia em dia peiorava pelo 
descuido do governo : a justiça era pessimamente administrada sem 
que os ministros com isso se importassem, as despesas supérfluas 
cresciam: a arrecada ;ão das rendaò estava quasi abandonada : os 
empregados públicos quasi todos eram filhos do 7nais vergonhoso 
patronato. A corte prostituia- se miseravelmente diante de jjessôas 
desprezíveis, que obtinham as graças do monarcha. A divida 
publica crescia corn espanto, já pelos emj)restimos já pela emissão 
enorme de nottas do banco, já pelo cunho indefinido de péssima 
moeda do cobre. Emfim a corrupção lavrava em todos os ramos 
da administração publica, e symptomas de mui ^^^roxzwia gan^ 
grena já se divisavam no estado. 

O imperador destituído de confiança; cbjecto do ódio uni- 
versai, sem um só ministro, ou conselheiro, que pudesse accor- 



— 264 — 

dal"0, nem tivesse forças para suster o collosso a pricipitar-se, 
tomou melhor partido, abdicou. Nova épocha para o Brazil, 
Não concordamos com aquelles que, hoje dizem que devera-se 
imitar a França, já alterando a constituição, já purgando o se- 
nado de membros oppostos á vontade nacional. A queixa uni- 
versal era contra o monarcha, e seus ministros: o clamor publico 
era contra as frequentes feridas da constituição, e violação das 
leis. Na mesma assembiéa nunca se pretendeu alterar a consti- 
tuição, sempre pugnou-se afincadamente pela sua litteral obser- 
vância. Verdade é que bem se conheciam seut deffeitos ; porem 
o receio de alteral-a para peior, como pretetídia o monarcha, 
aconselhava não tocal-a; mas isto mesmo era bastante obstáculo 
para ju-tificar perante a nação qualquer mudança ainda não de- 
sejada. 

O senado é de eleição popular; não tem numero excessivo, 
nem illiraitado; com o tempo far-se-á a limpeza necessária: 
outro tanto não podia acontecer na França, 

O senado alli não é reformavel sinão pela vontade do rei; 
seu num ro é illimitado, e de propósito foi augmentado para 
hostilizar as liberdades publicas. A sua ccnstituição era péssima, 
dada pelo único arbítrio do rei, contra o voto de França. De 
mais alli houve uma perfeita revolução : o rei foi expulso : uma 
nova dynastia se elevou: tudo quanto o povo reclamava devia 
ser concedido. 

Em verdade, muito pouco ainda se fez. 

No Brazil o monarcha abdicou espontaneamente porque os 
remorsos o ralavam: a opinião publica o abandonou: não vio 
mais meio de conservar-se; descoroçoou e teve razão. A reunião 
do d' a 6 de Abril no campo da honra appressou talvez somente 
algums dias a abdicação : ella já a muito estava projectada, como 
affirmam, testemunhas auriculares; por tanto o que convinha 
fazer é o que se fez. Nomeou-se uma regência patriótica ; esta 
nomeou ministros populares: algumas providencias deram-se para 
que a constituição e as leis fossem executadas: fizeram talvez 
quanto podiam, mas deixaram de fazer muita coisa necessária e 
indispensável ás circumstancias. 

Reuniu- se a assembiéa; delia tinha o Brazil direito, a tudo 
esperar; mas se fallarmos com franqueza, confessaremos que em 
nada desempenhou a expectação publica. 

Propuzeram-se alguns artigos de reformas á constituição, e 
posto que mesquinhos, ainda assim nem todos foram approvados, 
faltando o essencial, «qual a extincção da vitaliciedade do se- 
nado que em quanto for perpetuo será uma barreira insuperável 
aos mais importantes objectos», principalmente em matéria de 
refórmns constirucionaes. A nossa legislação toda em retalhos, 
sem methodo, sem systema, obscura e contradictoria em muitos 
legares, não foi nem compilada, nem retocada. O código crimi- 
nal tão desproporcionado nas penas, tão cheio de lacunas nos 
delictos, tão inconsequente na applicação dessas mesmas fracas 



— 265 — 

penas aos differentes crimes, não foi alterado apezar de ser tão recla- 
mada essa providencia. O que aconteceu? A soldadesca sem 
disciplina, aliciada por qualquer estouvado, por vezes poz em 
alarma a capital do império e das provincias; e certos individuos 
sem titulo algum emprehenderam, confiados na força bruta, depor 
a regência, e alterar a forma de governo estabelecida. 

Creou-se uma regência sem torça, e um ministério cheio de 
responsabilidade, e sem meios de cumprir os deveres que )he 
foram impostos. A imprensa deu o exemplo da mais escanda- 
losa licença. O mal estava na legislação, não porque esta de 
antemão fosse feita para enfraquecer a administração passada, 
como muitos tem asseverado, n as porque é producção de legisla- 
dores noviços na arte de legislar, e que longe de fundarera-se 
na experiência, tem lançado mão de theorias mal entendidas e 
ainda mais mal applicadas. 

Appareceu na Camará dos Deputados uma forte opposição 
organizada do partido que não concorreu para a formação da 
regência e seu ministério, composto de grandes « ambiciosos que 
julgavam ter direito aos altos empregos do Estado». Esta apoi- 
ando os facciosos por três sessões consecutivas embaraçou algumas 
taes e quaes medidas propostas pela maioria, que nunca soube, 
por pusilânime, reunir-se para dispor da própria força. Um dia 
porem (em 30 de Julho de 1832) reconheceu, que só com um 
golpe decisivo poder-se-ião curar radicalmente os males da 
pátria. A opinião publica estava formada sobre a necessidade 
de reformar-se uma constituição que foi acceita por conveniência 
e capitulação, reforma em grande parte já approvada por ambas 
as camarás. A nação cançada com tantas rusgas e boatos de 
novas, instava por medidas enérgicas capazes de conter as facções, 
e firmar a tranquilidade publica tantas vezes perturbada ; deli- 
beraram alguns membros da maioria e resolveram usar de suas 
forças, e por um acto revolucionário salvar o Brazil; mas recuou 
em fim, á vista do seu próprio projecto, e temeu da sua mesma 
sombra. 

Tudo ficou e se conservou como dantes, á excepção das 
reformas, sobre que fallaremos em outros números. 

Eis o estado em que se acha o Brazil. 

Não soffremos as injustiças e vexações do despotismo. Res- 
piramos desafogados depois da abdicação, porem temos uma 
legislação má, incompleta, iuefficaz, insufficiente : o governo fraco, 
sem attribuições, sem meios para fazer effectivas as que tem : 
auctoridades mal organizadas, quasi todas de eleição popular, 
sem a menor ingerência do governo, todas destacadas, sem centro 
sem unidade : os cidadãos sem estimulo para interessarem-se no 
serviço da pátria : o povo sem educação sem religião, sem moral', 
uma assembléa pouco cuidadosa de curar estes males, pensando 
mesmo pouco nos remédios mais convenientes a elles ; a magis- 
tratura como apostada a fazer ainda peiores as leis pela má 
appli cação, que muitas vezes lhe dão : o governo heterogéneo ; 



— 266 — 

uma regência incompleta, e por sua triplic'cLade, incapaz de 
promover o bem publico, não obstante as melhores intenções: o 
meio circulante por sua variedade e descrédito, ameaçando uma 
calamidade desastrosa. Entretanto, ex stem dois partidos ambos 
poderosos, o dos restauradores, e dos moderados : aquelle por suas 
riquezas, condecorações, e antigas influencias, contando por chefe, 
ao menos osten'feivo, ao ex-imperador, escorado na trifete narração 
de nada havermos feito a bem da pátria depois da abdicação, 
espreita o momento favorável aos seus intentes, quando bem 
ponderado, alguma coisa se tem feito para que o mal que nos 
legou a administração passada não tenha produzido todos os seus 
terriveis eífeitos. 

Quando a sociedade toca o ultimo da corrupção, não é um 
dia que ainda o mais hábil politico pode leorganizal-a. 

Este partido, o dos moderados, é poderoso por seu numero, 
porque conta com a nação, cujos votos e opiniões representa ; 
pela santidade da causa que defende, que é a propriedade na- 
cional, e ainda mesmo por seus principies, porque detesta ex- 
cessos; porem, em honra da verdade, não tem sabido aproveitar-se 
das circumstancias. Semelhante aos médicos de medicina expe- 
ctante, este partido não obra, pisa sempre o mesmo terreno : teme 
de todas as medidas : elle não enxerga em tudo quanto se lhe 
propõe senão fraqueza, ou energia em excesso: sempre e?perando, 
sempre irresoluto, contenta-se no momento da crise com um acto 
de ')neia medida^ que só se encaminha a acobertar o mal, e 
deixal-o criar profundas raizes. Como existe hoje, julga ter 
direito a existir amanhan; e a sua prova favorita é lançar em 
rosto aos que presagiam mal de sua apathia. 

— « Assim se nos dizia o anno passado, mas nós chegamos 
a este » — Verdade é, que quando se desfeixar a tormenta não 
será com tal systema que os moderados salvarão a pátria: elles 
então cheios de susto e de vergonha, nos dirão : — Tal não 
pensávamos — como nós não a julgamos mui distante, porque 
vemos o jjrogresso que faz a immoralidade, a apathia geral dos 
cidadãos para os negócios públicos a indifferença da assembleia 
para casos urgentíssimos e de vital interesse do estado. Como 
não está em nossas mãos accudir á pátria ameaçada da restau- 
ração, ou da anarchia, e de em ambos os casos de perder a li- 
berdade, resolvemos tomar sobre nossos hombros a pesada tarefa 
de escriptor publico, dando uma folha jjor semana, e mais, quando 
a afíluencia de negócios de interesse publico. 

O nosso plano é censurar os actos do governo, da assem- 
bleia geral, das assembléas provinciaes, dos magistrados, dos ju- 
rados, dos eleitores, erafim de toJa a casta de empregados pú- 
blicos. Ninguém tema a nossa penna : a justiça presidirá a 
todas as nossas censuras : conhecemos a fra queza humana, para 
deixar de dar os necessários descontes. A vida privada será 
religiosamente respeitada, mas aquelle que com escândalo atacar 
a moral publica, mofar da religião, a ponto de seduzir com seus 



— 267 - 

exemplos os incautcs, ou os innocentes, será por nós severa- 
mente profligado. Não irritaremos a ninguém ; nós somente os 
procuraremos envergonhar para que se tornem melhores, e não 
damnem a sociedade. 

Apontaremos tudo quanto nos lembrar que possa aprovei- 
tar á nação, e com especialidade a esta provincia, nossa 2^<^ii'ici. 
O governo e a assembleia terão em nós um censor dos seus 
desvios e um admirador de seus bons serviços. 

Os litteratos terão algumas noticias de descubertas interes- 
santes, que nos forem communicadas por nossos correspondentes. 

O commercio achará em nossa folha uma coadjuvação, pe- 
los preços correntes, que lhe annunciaremos, quer dos nossos 
géneros, como estrangeiros nesta cidade, em Santos, no Rio de 
Janeiro, e bem assim o estado do cambio. 

Os curiosos e applicados saberão as noticias nacionaes e es- 
trangeiras, que pudermos obter, de algum interesse. Em uma 
palavra procuraremos ser útil a todas as clasces. 

Advertimos já aos nossos leitores que nÓ3 não escrevemos 
para os sábios ; a esses j)ertence a tarefa de criticar-nos somen- 
te. Escrevemos para o povo : sempre zelamos pouco de lin- 
guagem e do estilo, gostamos de ser entendidos e isto basta 
Se formos felizes em ser lidos ; se formos attendidos em nossas 
reflexões, teremos mais esse estimulo para cumprirmos com 
gosto este dever á pátria. Não occultamos nossos nomes : 
sempre nos foi suspeito o periódico encapotado. Os abaixo 
assignados são os únicos redactores, respondendo cada um pelo 
artigo que escrever. Nenhuma correspondência se acceita, mas 
quem tiver motivos de queixa contra empregados públicos, pode 
enviar-nos pelo correio (porte pago) que inseriremos a denuncia 
em nossa frase e estilo, ficando responsável o correspondente, 
para o que deverá fazer reconhecer a sua firma pelo tabellião 
desta cidade. 

Qualquer pessoa que nos queira coadjuvar com lembranças 
úteis ao publico, faz-nos particular obsequio em communical-as, 
que serão inseridas em extractos ou por inteiro, como mais 
convier. 

S. Paulo, 7 de Novembro de 1834. — Diogo António Feijó — 
o ãr, Miguel Archanjo Ribeiro de Castro Camargo, 



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DESCOBRIMENTO DO BRASIL 



NOTICIA SOBRE O LIVRO IMPRESSO MAIS ANTIGO QUE EXISTE, 
DESCREVENDO ESTE ACONTECIMENTO. 

A Collecção de Noticias para ã Historia e Geographia das 
Nações Ultramarinas, publicada pela Academia Real das Sciencia 
de Lisboa, em 1818, publicou pela primeira vez em Portuguez, 
esta Navegação de Pedro Algares Cabral (1) que prefacia com 
uma «Introducção» explicativa. Ahi se vê como atè a sábia 
Instituição, que tanto honra Portugal, se achava atrazada nestas 
pesquizas históricas. 

O editor começa por dizer que a descripção ó obra de um 
piloto Portuguez, — tal qual como o affirmára Ramusio. Tão pouco 
era ella conhecida que até o erudito Barbosa Machado na sua Bi- 
bliotheca Lusitana a attribue ao próprio Cabral. A verdade, diz 
o referido editor é que Cadamosto recolheu as suas navegações 
num volume publicado em Vicenza, em 1507 e que logo no anno 
seguinte foi esta obra traduzida em Latim e impressa em Milão, 
segundo afíirma Tiraboschi, de onde Grynêo fazendo em 1532, 
em Pariz, a sua colleção de Viagens intitulada Novus Orhis 
inserio nella a versão latina, aliás muito defeituosa, ajuntando- 
Ihe depois outras viagens, até que, 18 annos depois, Ramusio a 
traduzio para o Italiano e metteu-a na sua collectanea de Na- 
vigationi et Viaggi, donde o escriptor a traduzio (2), «visto ter- 
se perdido provavelmente o antigo original». 

Ora, tudo isto tem andado errado e é tempo de restabelecer 
a verdade dos factos. E, para começar, notaremos o equivoco de 
affirmar-se que Cadamosto publicou esta Colleção de Viagens que 
o IntroQuctor das Memorias nunca vio, mas que diz que primeiro 
appareceram em 1507, muitos annos depois da morte daquelle 
celebre Veneziano que morreu em 1480, aos 48 annos de edade. 

Nem é exacto que «está provalmente perdido o antigo ori- 
ginal» destas viagens em que, pela vez primeira, foi impressa 
a narrativa da descripção da nossa terra. Não só não tem an- 
dado pnrdida, mas a collecção tem sempre existido em algumas 
bibliothecas, apezar de sua extrema raridade. A descripção de 
Grynêo e de Ramusio é traduzida naqnelle copiada neste (com 



1 N. Ill, Vol. 2», pags. 102—136, da 2» e 3», 

2 Veja- se também a Introducção ao N. 1. 



— 269 — 

modificações no dialecto veneziano) do celebre livro Paesi nuo- 
vamente ritravati de que o presente escriptor tem a felicidade 
de possuir um exemplar (1). Descreveremos primeiramente o pre- 
cioso volume com todas as indicações bibliographicas, antes de 
darmos a sua genealogia e de estudarmos a própria descripção 
do descobrimento da Terra da Santa Cruz. 



titulo do livro é este: 

Cuiii Príiítlegio 

{em caracteres gothicos, tinta vermelha. Segue -se então este titulo 
nos mesmos caracteres e taita, nas dobras de uma fita fluctuante 
na pagina e envolvendo, no centro, um globo encimado por uma 
cruz, as palavras estando collocadas irregularmente para o leitor, 
mas obedecendo ás voltas das fitas :) 

^ Paesi novamente retroiiati. Et Novo Mondo da Alherico 

Vesputio ilorentino intitulado. (No fim :) (£ Stampato in Vin- 

CENTIA rN LA IMPRENSA DE MGTO H ENRICO VlCENTINO : & DILIGENTE 
CURA & INDUSTRIA DE ZÃMARIA SUO FIOL NEL MCCCCCVIÍ A Dl III 

DE NovEMBRB. CuM gratia e privilegio d'am. X. como nella sua 
Bolla appare : che p'soa dei dominio Veneta nõ ardisca i pri- 
merlo. à^ -f"^^cdefghiklmno pqrs t v x^ z ? R 

A B C D. Tutti sono duerni excepto la tavola che e terno, 
(Maria do Impressor que consiste de dois circulos concêntricos 
encimados por uma cruz que se levanta do diâmetro, e no semi- 
circulo inferior as iniciaes R. V.) 

Este volume, publicado ba 397 annos, é em quarto pequeno. 
Tem seis folhas preliminares inclusive a do titulo cujo verso 
está em branc<^. Seguem-se trinta quadernos de quatro folhas 
cada um ou 120 folhas, caracteres romanos e 28 linhas por pagina. 
Nos registros que, conforme se costumava fazer então, eram as- 
signalados no fim, notamos a omi^são, por erro, do quaderno 
marcado-&-parecendo pela conta das marcas que a obra tem 30 
em vez de 31 quadern* s, como tem. 

A obra é dedicada a Giovanni degli Angio Elli. Verifi- 
camos que f i um grande viajante, guerreiro e auctor de biogra- 
phias de Mahomet II e de um dos Reis da Pérsia (2); e a dedi- 
catória uccupa o verso da 6*. folha preliminar e o compilador 
lastima ahi que as viagens colligidas sejam escriptas no rude 

1 Comprado a Quátrich de Londres por £ Í69, conjtintamente com muitos outro» 
livros. O preço que elle pedia era de £ 22b. 

2 Quglielmo Berchet, Narrazione Bincrone, vol. II: da Scoperta dei N. M. 



— 270 — 

Italiano e Portuguez e não no «pingue e florido estylo latino». 
Vem antes a taboa que occiípa cinco paginas, que com as duas 
do titulo e a da dedicatória formam a j)rimeira folha. 

Seguem-se então as Viagens que occupam seis livros e 142 
capitules. (Ha uma tiragem posterior, aliás com a mesma data, 
com 143 capítulos ou duas paginas mais.) Eis aqui os titulos 
e conteúdo das seis principaes divisões. 

Libro Primo : In comensa el libro de la prima Kavigatione 
per loceano a l terra de Nigri de la Bassa Ethiopia per comman- 
damento dei Illst. Signor infante Don Hurich fratello de Don 
Doiirth Re de Portugallo. — Cotem este Livro a viagem de 
Codamcsto a Cabo Vorde e Senegal, entre Agosto de 1454 e 
Junho de 1455; e occupa os caps. I a XLVII. 

Libro Secondo de la navigatione de Lisbona a Callichut de 
lengua Portogallese intaliana. Vai até o cap. LXX e contem 
a viagem de Pedro de Cintra ao Senegal em 1462 escripta por 
Cadamosto, até o Cap. L; a viagnn de Vasco da Gama, do cap. 
LI ao cap. LXI, e de Pedro Alvares Cabral á índia, quando 
descobriu o Brazil (Caps. LXII a LXX). 

Libro lertio, de la navigatione de Lisbona a Callichut de 
la lenga Portogallese intaliana; — continuação da viagem de Ca- 
bral que vai até ao cap. LXXXIV. 

Libro Quarto, Inoomenza la navigatione dei Re de Castiglia 
dele Isole & Paese novamente retrovati. — Até o cap. CVii inclu- 
sive, contem as três primeiras viagens de Colombo ; de CVIII 
até CXI, a viagem de Alonso Negro (sic) ; de CXII a CXIII a 
viagem dePinzon. Este livro reproduziu o celebre Libretto di 
Tutta Navigatione, obra de quasi absoluta raridade e de que 
apenas são conhecidos dous exemplares, um, incompleto na Bibli- 
otheca de S. Marco?, Veneza, e que Harrisse descreve nas Ad- 
ditions, n. 16. Foi impresso em Lisbona, em 1504, ainda era 
vida de Colombo. 

Libido Quinto, de lengue Spagnole interprefato in Idioma 
Ro. Contem do Cap. C. Xiiii a CXXiiii a terceira carta de 
Vespucio: «Alberico Vesputio a Lorenzo patre de i Mediei, Sa- 
iu tem». E' a editio princeps em Italiano, desta celebre carta. 
Berchet {Funti Italiane, Roma, 1893) opino que a traducção é 
feita não no Hespanhol como diz o c^^mpilador, mas que é evi- 
dente ter sido trabalhada da versão latina do architecto Giocou- 
do, que possuo. 

Libro Sexto de le cose da Calichut cõforme ala Navigatiõe 
de Pedro Aliares nel, ii & iii libro leq le se hãno neriessene 
Perle Copie d^alcuna Lte segundo lordene de li inilesiimi in 
questo idtimo racolie, — O Cap. CXXV traz a ccopia de uno 
capitulo di lettere de D. Creticho nontio de la illastíússima si- 
gnoria de Venetia in Portogallo, data a di XXVII. Inglio 
MCCCCCI». E' uma carta sobre a viagem de Cabral quo Cre- 
ticho enviou ao «oratore» Veneziano Domenico Pizani, e que 



-- 271 — 

este enviou á senhoria de Veneza. — O Cap. CXXVItl (que 
segue ao CXXV) traz a copia de uma carta recebida dos neg-o- 
ciantes de Hespanlia a seus correspondentes em Florença e Ve- 
neza sobre o tratado de paz entre os Reis de Portugal e de 
Calicut, — O Cap. CXXVI contem uma carta de P. Pasqualigo 
«oratore de la illustri^sima signoria in Portogallo» escfipta a 
seus irmãos em Lisboa a 28 de Outubro de lÕOl. Versa sobre 
a viagem de Côrte-Real. — O Cap. CXXVi trata da expedição 
de J. da Nova á índia, numa carta de La Saita a Pasqualigo 
então na Hespanha. E' datada de Lisboa, a 16 de Sept. de 
1Õ02.— Finalmente os Caps, de CXXVIIII a CXXXXII contêm 
varias narrativas de José índio, de Carangoror, Calicut, Cambai?, 
Ormuz, etc. 

Vô-se, pois, que o que mais nos interessa no volume é o 
Livro 11. Mas tudo nelle é precioso. Abi são publicadas pela 
primeira vez as duas viagens de Cá da Mosto a Cabo Verde e 
Senegal, ao serviço de Portugal ; era a primeira vez que via a 
luz a narrativa da viagem de Vasco da Gama e a da de Pedro 
Alvares Cabral á índia e ao Brazil ; era também ^ ijrimeira vez 
que Fe editava em Italiano a terceira viagem de Américo Ves- 
pucio, que tanto nos interessa a nós Brazileiros ; era a primeira 
vez que se editavam os curiosos documentos que compõem o 
Livro VI, pelos representates venezianos em Lisboa, em alguns 
dos quaes se faz referencia directa ao Brazil. E, além de tudo 
isto, as três primeiras viagens da Cliristovam Colombo, e de 
Alonso Nino e a de Pinzon tinh^im alii a segunda edição. Não 
é uma jóia o livro, mas uma constellação de jóias. 

Esta obra tem sido assumpto de vários estudos, entre elles 
por Harrisse (l), Zurla (2), Baldelli (o), Tiraboschi (4), Brunet 
(5), Humboldt (6), Camus (7) e outros. Depois de dizer que é 
muito rara, Brunet diz que a maior parte dos escriptores que 
delia se occuparam ou não puderam decifrar-lhe o titulo ou 
fizeram com exemplares truncados. E' por isso que annunciam o 
livro, ora como sondo de Cadamosto, ora sob titules que não são 
o seu. Esta recolta de viagens foi a primeira do typo seguido 
depois por Grynêo e Ramusio. 

Quem foi o seu compilador ? A dedicatória o revela : foi 
Francanzano Montalboddo, natural de Monte Alboddo, homem 
culto e professor de litteratura em Vicenza. Bercuet (8) pensa 
que elle se estabelecera em Vicenza em 1502 e que gozou de 
muita fama. Humboldt cahio no erro de attribuir esta compilação 



1 Bihliot. Amer. Yetuilissima, n. 48. 

2 Marco Polo, 11, 109. 

3 // Milione, I, XXXII. 

4 Btoria, VH. 216 e 213. 

h Man. du Lib,, Vol. IIF, pag. I.Í55. 

6 Examen Critique, IV, 79 e seg. 

7 Memoires des Grands Yogages, Pariz 180?, pag. 4, 

8 Ob. cit., pag. 209. 



— 272 — • 

a Alessandro Zorzi, bem conhecido desenhista de mappas em Ve- 
neza. No exemplar do Paesi que o grande sábio examinou na 
Bibliotheca Magliabecchiana, Humboldt vio uma nota manuscri- 
pta di/endo que um irmão de Colombo dera um exemplar desta 
obra a um cónego do Laterano, que a seu turno deu-a a Zorzi, 
«compilador desta recolta», — fundamento de certo muito ténue 
para fazei- o desprezar a propia dedicatória da obra. 

A grande popularidade da obra de Montalboddo é demostra- 
da pelo grande numero de edições e traducções que teve. Já 
nos referimos a uma segunda tiragem com mais um capitulo, 
mas sob a mesma data, o capitulo addicional, consistindo na 
carta do Rei D. Manoel ao Rei de Castella, jà publicada em 
1505 em Roma e Milão. O Paesi foi novamente impresso em 
Milão em 1508, 1512 e 1519; e em Veneza em 1517 e 1521. Sob 
o titulo Itinerarium Portugalence foi mal traduzido por Madri- 
gnano em latim e publicado em Milão em 1508; foi traduzido 
em AUemão por Jobst Ruchamer sob o titulo Neue Unhekanthe 
Landte, e publicado em Milão no mesmo anno de 1508 (1) e 
traduzido por Redover em 1515 e reimpresso em 1516, 1521 e 
1528 ; novamente publicado em Latim nas duas edições de 
Grynêo de Pariz e Basilea, em 1532 e nas muitas que se lhes 
succederam. De facto poucos livros daquella épo'*a tiveram 
tamanha saida como esta pequena collecção de viagens em que 
se descrevam os grandes descobrimentos do fim do século XV e 
principio do XVI, 

II 

Como já ficou dito, o livro IV do Paesi é a transcripção 
de um folheto já publicado em Veneza em 1504. Ora, como a 
fonte da narrativa do descobrimento do Brazil no Paesi é a 
mesma da deste folheto, aliás de importância capital para a 
historia do descobrimento da America, precisamos examinal-o 
detidamente 

Harrisse (2) cita-lhe o titulo com duas variantes e o sup- 
punha perdido. Ha, porem, dous exemplares delles, um na Bi- 
bliotheca de San Marco, em Veneza, já descripto no supplemento 
daquelle auctor, e o outro, annunciado á venda em Florença em 
1904 e logo vendido não sabemos ainda a quem. Thatcher (3) 
dá um fac-simile do exemplar de San-Marco. 

E' intitulado: 

Lihretto de Tutta la Navigatione de Re de Spagna, 

De Le Isole et Térrene Nuauaments Trouati. 



1 o escriptor destas linhas também possne estas duas edições preciosas de Ma- 
drignano e Ruchamer. 

2 Oh. cit., n 32. 

8 christofer Columbus, cap. 96. 



— 273 — 

Consiste em 29 paginas impressas, não numerada*?, a Tabula 
começando á pagina 28, tendo no fira da pagina 29 : 

Stampato in Venezia per Albertino Vercellese de Lisona 
a di X de aprilo, MCCCCCIV. 

Pois bem ; foi esta celebre obra e&cripta nestas circumstan- 
cias, que muito nos importam também. 

A Republica de Veneza tomava o maior interesse nas na- 
vegações e descobrimentos dos Hespanhóes e Portuguezes. 

O primeiro historiador conhecido do descobrimento da Ame- 
rica, além dos próprios Colombo e Vespucio em suas cartas, foi 
realmente Pedro Martyr de Anghiera, o celebre italiano que 
se pôz ao serviço dos Reis de Castella e Aragso, preceptor dos 
seus filhos, seu Embaixador no Egypto e homem cuja illustra- 
ção extraordinária lhe dera vasto circulo de admiradores, ami- 
gos e correspondentes. Por occasiào do ultimo anniversario do 
descobrimento da America o presente escriptor publicou nestas 
columnas (l) extractos do seu Opus Epistolarvm, — algumas 
cartas de Pedro Martyr dirigidas a personagens celebres refe- 
rindo noticias de Colombo á proporção que as tinhí^, — e elle as 
tinha todas completas, graças á sua posição na Corte, e suas 
relações pessoaes com o próprio Colombo, Vespucio, e toda a 
gente de valor. Mais tarde Pedro Martyr escreveu uma narra- 
tiva seguida das três primeiras viagens de Colombo e, como se 
fazia naquelle tempo em que a imprensa ainda era difficil e pouco 
generalizada, fez naturalmente tirar copias do seu manuscripto 
latino, talvez para offerecel-as a amigos seus da própria Itália, 
com 08 quaes mantinha sustentada correspondência. 

Ora, uma destas cópias cahio em mãos de Sérvulo Angelo 
Trevigiano, que servia então de secretario do oratore ou em- 
baixad- r veneziano junto aos Reis da Hespanha. Pertencia á 
ordem dos secretários que vinha logo após á dos patrícios e 
eram admissíveis á ordem de Malta como se fossem nobres. 
Fora «segretario e pifaro» do Almirante Domenico Malipiero, 
o celebre historiador da Republica de Veneza, e depois também 
secretario do oratore Dom. Pisani, em Hespanha, em 1501, e de 
1503 a 1505 do oratore Vicenzo Quirini, em Castella, ao qual 
acompanhou nos seus passeios pela Inglaterra, Bélgica e Alle- 
manha. Falleceu em 1508, exercendo então o cargo de secre- 
tario da çhancellaria ducal. (2). 

Foi em mãos deste Trevigiano que cahio o manuscripto de 
Pedro Martyr que consistia então de três Décadas. Trevigiano 
recebia cartas de Malapiero, seu antigo patrono e amigo de sua 
familia, pedindo-lhe instantemente noticias por menor de todos 
estes novos descobrimentos : que melhor autoridade do que a de 



1 Veja-se o Jornal do Commercio do Rio de Janeiro de 12 de Outubro de 1904. 

2 Estes dados são txtrahidos da nota (1^ da pag. 46 dos Carteggi Diplomatiei de 
Brechot . 



— 274 — 

Pedro Martyr ? EUe escreveu ao Almirante que ia traduzir no 
veneziano vulgar esta auctorizada narrativa. Em carta, a Ma- 
lipiero dirigida, datada de Granada a 11 de Agosto de 1501, 

diz Trevigiano : 

« Cirea ai tractado dei viazo dei dicto Columbo, 
uno valentuomo Tha composto, et é una dizeria 
molto longa, Tho copiato et ho la copia apresso di 
me, ma e si grande che non ho modo de mandaria 
se non a pocho a pocho ». 

E para mostrar o interesss que tinlia em servir ao Almi- 
rante, Trevigiano annuncia-lhe que o próprio Colombo, (que 
então, diz elle, cabira em desgraça e estava sem meios de vida), 
Ibe promettera mandar traçar em Paios um mappa dos novos 
descobrimentos para que o Almirante melbor acompanhasse as 
descri pções. 

Completa pouco a pouco a traducção e enviada para Ve- 
neza, a cujo Senado Malipiero a offertara, cabio o M. S. em 
mãos de Albertino Vercellese, de Veneza, que o fez imprimir 
em 1504, como se vio. De modo que, annos depois, quando 
Pedro Martyr publicou a sua primeira Década (1511) já o seu 
assumpto era conhecido; e no Livro II, Dec. II, da 1.* edicção 
das suas três Décadas (Alcala, 1516) elle protesta contra Ca da 
Mosto por se ter apropriado das suas lucubrações ! O pobre Cada 
Mosto já havia fallecido antes de romper o século XVI, e Pedro 
Martyr muito provavelmente nunca vira o Libretto (que bem 
pudera ter sido impresso particularmente em edicção limitadís- 
sima) e só deparara com a sua narrativa no livro que exami- 
namos, o Paesi, em que foi transcripto daquelle, na sua quarta 
divisão, e que, como já vimos, começa pelas viagens de Ca da 
Mosto. 

Conhecidos estes dados, podemos agora approximarmo-nos 
do assumpto que mais de perto nos interessa. 

O Almirante Domenico Malipiero não se contentava com 
pormenores das viagens de Colombo. Elle pediu ao seu joven ex 
Secretario que lhe munisse fambem de dados sobre os descobri- 
mentos portuguezes. A correspondência deste com o Almirante, 
por este offerecido ao Senado de Veneza, foi dalli passar as 
mãos de Soranzo patricio veneto, e depois delle, ás de dous ou 
três possuidores, até que cahio em poder do Eev. Sneyder, de 
Londres, sendo hoje propriedade de seu filho. Estes manuscri- 
ptos não dão a génesis da descripção do descobrimento do Bra- 
zil de que nos occupamos. (1) 

Na mesma carta de Trevigiano a Malipiero, a que nos refe- 
rimos acima, datada de Granada, a 21 de Agosto de 1501, o 
secretario, depois de falar na cópia de Pedro Martyr, que come- 
çara a fazer, accrescenta : 



1 V. Bercher, ob. cit. pag. 46 e seg. 



— 275 — 

« 

«Ulterius aspetiamo di zorno in zorno da Lysbona 
el nostro doctore, clie lasso li el nostro magnifico am- 
bassator el qual a mia instancia lia facto iin'opereta 
dei viazo dei Calicut, de la qual ne faro copia á la 
magnificência vostra de cana de qual viazo non è 
possibile haverne clie el Re ha messo pena de vita á 
chi la dà fora questo e quanto posso íar adesso per 
servitio de la magnificência vcstra». 
Assim, Malipiero insta com Trevigiauo por informações dos 
descobrimentos dos Hespanhóes e Portuguezes, e Trevigiano 
manda-lhe da Hespanha o que pode — inclusive um mappa man- 
dado fazer em Paios pele próprio Colombo, — e de Portugal insta 
a seu turno com o embaixador veneziano que, para servil-o, 
compõe um opúsculo sobre a viagem de Pedro Alvares Cabral, 
que em tempo Trevigiano mandaria ao Almirante, ao qual, po- 
rém, avisa desde já que não pode supprir de um mappa da 
viagem, pois o Rei de Portugal comminava a pena de morte a 
quem o fornecesse para fora. 

Este embaixador veneziano em Lisboa era o que tem sido 
conhecido por Lorenzo Cretico, mas cujo nome verdadeiro era 
OiovANNi Hattbu Cretico (Ij. E' elle, por conseguinte, o 
traductor cu compilador desta primeira descripção impressa do 
•descobrimento da nossa terra. 

Escrevendo novamente a Malipiero, poucos dias depois, diz 
Trevigiano : 

«Circa el desiderio ha la magnificência vostra de 

intender el viazo de Calicut, io li ho scritto altre fiate 

che aspetto de zorno in zorno Messer Cretico, qual me 

scrive averne composto una opereta. Súbito ch'el sia 

zonto, faro che la magnificência vostra ne haverá parte». 

Eis ahi, pois, a confirmação de que Cretico preparara um 

opúsculo que, assim que o trouxesse á Hespanha, onde era 

esperado, Trevigiano mandaria ao Almirante. 

Escrevendo ainda uma carta de Exigia a 5 de Dezembro 
■do mesmo anno de 1501, nella occorie esta passagem ; 

«Messer Cretico etiam aviscerato perlial et servi- 
tor de la magnificência vostra, la rengratia che la se 
habi degnato per sue lettere salutarlo cosi amorevol- 
mente, et molto se recomanda, congratulandose ex intimo 
cordis de le felicita sue el vene de Portugal fino questo 
Setembre molto informato de viazo de Calicut, et tuta 
via compone uno tracíato che sara molto bello et grato 
à chi se delecta do tal cose». 



1 Tiraboschi, Foscarini, Humboldt, Harrisse e Varnhagen o chamam de Lourenço, 
todos segnindo a Tiraboschi. Segundo documentos, porém, da Universidade de Pádua 
(onde foi professor e da Bibliotheca Marcianna seu nome é Giovanni Matteo.-É'' também 
cbamado Zuane (João) no titulo de nomeação como Secretario de Pisani, orador em 
€astella. 



_ 276 — 

A relação da viag'em de Pedro Alvares, assim um tanto- 
demorada, só cliegou a Veneza depois da publicação do Libretto^ 
para sahir dahi a 2 1/2 annos no Paesi 

Os herdeiros de Sneyd, na Inglaterra, conservam o valiosa 
código tal qual Trevigiano o mandara ao Almirante Malipiero,. 
e segundo a reproducção que do m. s faz Berchet, a cópia do- 
Paesi é fidelíssima, o que não se pôde dizer da de Ramuzio. 

III 

Demos agora a traducção litteral da celebre narrativa da 
Paesi 

CAPITULO LXIII 

ONDE EM PESSOA O REI MANOEL CONSIGNOU ESTANDARTE REAL. 

AO CAPITÃO. 

No anno de MCCCCC mandou o sereníssimo Rei de Por- 
tugal por nome chamado Dom Manoel uma armada sua composta 
de náos e caravellas para as partes da índia ; na qual armada 
havia XII náos e caravellas e a qual tinha por Capitão-geral 
Pedro Aliares Cabrile, fidalgo : as quaes náos e caravellas par- 
tiram bem aprestadas e providas de tudo o de que precizasse por 
anno e meio : dessas XII náos ordenou que descarregasse X em 
Calicut e que as duas restantes fossem a um lugar chamado Za- 
fala para procurar contractar mercadorias no dito logar : o qual 
lugar de Zafala acha-se estar no caminho de Calicut. E assim 
as outras X náos levassem mercadorias que para a dita viagemi 
lhes fosse necessário. E aos VIII do mez Março do dito millesima 
ficaram promptos e naquelle dia, que era domingo, sahiram desta 
cidade á distancia de duas milhas, a um logar chamado Rastello, 
onde ha uma egreja chamada Santa Maria de Baller, e ao qual 
logar o sereníssimo Rei foi em pessoa própria entregar ao Ca- 
pitão o Estandarte real para a dita armada. 

(Itera. Na segunda-feira que foi aos IX dias de Março 
partio a dita armada para sua viagem, com bom tempo. 

(Item. Aos XIV do dito mez passou a dita armada pela 
Ilha da Canária. 

(Item. Aos dias XXII passou pela Ilha do Cabo Verde. 

(Item. Aos dias XXIII estraviou-se uma náo da dita armada, 
de sorte que não mais se recebeu noticia, nem até o presente, 
disso se pôde saber. 

CAPITULO XLIV 

«COME SCORREVANO LE NAVE PER FORTUNA» 

Aos dias XXIV de Abirl que foi a quarta-feira na oitava 
da Pasehoa teve a dita armada vista de uma terra ; com o que 
houve grande prazer. E arribaram a essa terra para verem quês 



— 277 — 

terra era ; a qual acharam terra muito abundante de arvores e 
g-ente que alli andavam pela praia do mar. E lançaram ancora 
á foz de um peqneuo rio. E depois de assim lançadas as ditas 
ancoras o capitão mandou arriar um batel ao mar pelo qual 
mandou ver que gente era aquella, e acharam que era gente de 
côr parda entre o branco e o preto ; e bem dispostos, com ca- 
bellos corredios e vão e vêm nús, como nasceram, sem vergonha 
alguma; e cada um delles trazia seu arco com settas, e como 
homens que estavam em defesa do dito rio : na dita armada ne- 
nhum havia que entendesse o s^u idioma e visto isto os do batel 
voltaram ao capitão e nesse instante se fez noite : na qual noite 
fez grande temporal. Item. No dia seguinte pela manhã levan- 
tamos ancora e com grande temporal andávamos discorrendo a 
costa para o lado do Norte : o vento era &uéste, para vermos se 
achávamos algum porto aonde se abrigasse e surgisse a dita ar- 
mada : finalmente acharfim um porto aonde lançamos ancora e 
ahi achamos daquelles homens que andavam em suas almadias 
pescando; e um de nossos bateis foi aonde taes homens estavam 
« seguraram dous delles aos quaes levaram ao Capitão para sa- 
ber que gente era esta e, como é dito, não se ent^ndiampor falia 
nem mesmo por acenos, e naquella noite o Capitão os reteve 
comsigo ; e no dia seguinte os mandou vestidos com uma camisa 
« um vestido e uma carapuça vermelha e por este vestir ficaram 
muito contentes e maravilhados das cousas que lhes foram mostra- 
-das ; depois daquillo mandou deital-os á terra, 

CAPITULO LXV 

HAIZ DE QUE FAZEM PÃO, COM SEUS OUTROS COSTUMES 

Naquelle mesmo dia que era a oitava da Paschoa a XXVI 
tle Abril determinou o Capitão-mór ouvir missa e mandou armar 
xima tenda naquella praça na qual tenda mandou armar um altar 
f) todos os da dita armada foram a ouvir a missa, e a pregação. 
Aonde se ajuntaram muitos daquelles homens bailando e tangendo 
os seus chifres. E subitamente quando foi dita a missa todos 
partiram para os seu*i navios: e esses naturaes da terra entra- 
Tam no mar até abaixo dos braços e fazendo prazer e festa. B 
depois do jantar, o Capitão tendo así^im resolvido, voltou á terra 
«, gente da dita armada, colhendo recreio e prazer com aquellea 
homens da terra ; e começaram a tratar com os da armada. B 
davam-lhes arcos seus e settas por signaes : e folhas de papel 
•e peças de panno. E todo esse dia tiveram prazer com essas 
<5ousas, e achámos naquelle lugar um rio d'agua doce ; e de 
tarde voltamos para os navios. 

Item. No dia seguinte ordenou o Capitãc-mór que trouxes- 
■sem agua e lenha e todos os da dita armada foram á terra e 
«esses homens daquelle logar nos vinham ajudar na dita lenha e 



— 278 — 

ao-ua e alguns delles foram á terra donde são estes homens ; 
que seria III milhas distante do mar e trouxeram papagaios e 
uma raiz chamada igname que é o pão delles e que os árabes 
comem ; os da armada lhe davam campainhas e folhas de papel 
em pagamento das ditas cousas. No qual logar estivemos V ou 
antes VI dias. Quanto aos costumes desta gente, são pardos © 
vão nús sem vergonha e seus cabellos são corredios e trazem a 
barba pellada, e as pálpebras dos olhos ; e os sobre-cilios eram 
pintados com figuras das cores branca e negra e azul ; e ver- 
melhes trazem os lábios da bocca, isto é, o de baixo é furado e 
no buraco põem um osso grande como um prego e outros tra- 
zem alli uma pedra azul e ver Je e longa : e assobiam pelos 
ditos buracos. As mulheres egualmente vão sem vergonha, e 
são bellas mulheres de corpo: e os cabellos compridos. E suas- 
casas são de páo, mas cobertas de folhas e ramagem de arvores 
com muitos esteios de páu no meio dás ditas casas ; e dos ditos 
esteios ao muro põem uma rede de fios de algodão ; e entre uma 
rede e outra pode ficar um homem. Fazem (assim) um fogo^ 
de modo que em uma só casa estão 40 e 50 leitos armados a 
modo de teares. 

CAPITULO LXVI 

PAPAGAIOS NA TERRA NOVAMENTE DESCOBERTA 

Naquella terra não vimos ferro, nem menos outros metaes. 
E talham o páo como pedra. E ha muitas avos de muitas 
sortes, especialmente papagaios de muitas cores, entre elles- 
alguns do tamanho de gallinhas, e outras aves mui bellas. Das 
penas das ditas aves fazem chapéos e barretes que usam. A terra 
é muito abundante de muitas arvores e de muita agua e milho,. 
e ignames e algodão. Nestes legares não vimos animaes nenhuns. 
A terra é grande e não sabemos se é ilha ou terra-firma ; mas 
pela sua extensão acreditamos que seja terra-firma. Ha muito 
bom ar e estes homens fazem redes e são grandes pescadores e 
pescam varias espccies de peixes, entre os quaes vimos ura 
peixe que apanharam, que teria o tamanho de um tonel, mas 
mais comprido e redondo ; e sua cabeça era como a do porco e 
os olhos pequenos, sem dentes, com as orelhas longas como um 
braço e de meio braço de largura. Embaixo do corpo havia 
deus furos e a cauda era comprida, um braço e outro de tanto 
de largura; e não tinha pés de qualidade alguma; a sua pelle 
era como a do porco. A pelle tinha um dedo de grossura e 
suas carnes brancas e gordas come a do porco. 

— Item. Nestes dias em que ficámos ahi determinou o 
capitão a fazer saber ao uosro Sereníssimo Rei o achamento 
desta terra e de deixar ahi'dou3 homens bandidos e condemnados 
á morte que para tal eífeito tínhamos na dita armada e logo o 



— 279 — 

Capitão despachou um navio que tinha comsigo e com manti- 
mentos e isto além das XII náos sobreditas. O qual nayio 
levou cartas ao Rei nas quaes se continha quanto havíamos 
visto e descoberto. E despachado o dito navio, o Capitão foi á 
terra e mandou fazer um cruz muito grande de madeira e man- 
dou chantar no espaço aberto, assim como também o dito 
(Capitão) deixou os dois bandidos no dito logar, os quaes come- 
çaram a chorar. E os homens daquella terra os confortavam e 
mostravam ter delles piedade. 

CAPILULO LXVII 

TEMPORAL TAMANHO QUE SE PERDEM QUATRO NÁOS 

« 

No outro dia, que foi o II de Maio do dicto anno, a 
armada fez se de vela em seu caminho para fazer a volta do 
Cabo da Boa Esperança . . . 

* 
* * 

Vê-se bem que ainda que nos não tivesse ficado a incom- 
parável carta de Pêro Vaz de Caminha, graças ao Almirante 
Malipiero, a Angelo Trevigiano e a Giovanni M. Cretico, tería- 
mos esta narração fiel do descobrímento da nossa terra, impressa, 
mais de três séculos antes de ser conhecida a narrativa de 
Caminha. 

Donde colheu Cretico os seus dados? Resumio elle a carta 
de Caminha, ou traduzio alguma das dos outros Capitães, além 
de Cabral, que, no dizer do próprio Caminha, «escreveram a 
vossa Altesa a nova do achamento desta vossa terra nova?> 

Eis o que impossivel nos é saber. Basta que fique averi- 
guado que a narra'^iva de Cretico é fiel, parecendo até seguir a 
de Pêro Vaz de Caminha, excepto num equivoco na data de 24: 
em vez de 22 de Abril, e a historia do peixe-monstro (1). 

Em todo o caso, ahi fica descripto como se publicou este 
venerando documento da Historia Pátria. 

Rio, 30 de Abril de 1905. 

José Carlos Rodrigues 



l Simão de Vasconcellos na sua Tntroducçãi também refere esta historia do 
peixe-monstro, que em Vaz de Camioba, não passava de um tubarão.— Diz o Padre Simão ; 

«11. — Aqui no meio destes applausos, quiz também o elemento domar sahir com o seu 
e foi, oua vomitou a praia ura monstro marinho não conhecido e portentoso, recreação 
dos Portuguezes, por causa insólita, e mui aprazível aos Índios, por parte de seu gosto. 
Tinha de grossura mais que a de um tonel, e de comprimento mais que o de dons : a ca- 
beça, os olhos, a pelle, eram como de porcos e a grossura da pelle era de om dedo. Não 
tinha dentes, as orelhas tinham feição de Elephante, a cauda de um covado de com- 
prido,' outras de largo. Mostrava já desde aqui a novidade deste monstro, as muitas 
quo andados os tempos, se descobriram tnesas regiões do Brazil! 



A Sthnographia da America do Sul ao começar 

o século XX 



Introdticção. — Princípios da divisão ethnographica. — Computo 
systematico das mais importantes tribxis b famílias lin- 
GUISTICAS.— PovOS DO Brazil, Paraguay, Guyana, Vene- 

ZUBLA E BAIXADA DA COLOMBIA, PerÚ B BoLIVIA. 

A importância singular da ethnographia americana consiste, 
como uma vez Ba^tian salientou de modo excellente, em que «o 
hiato entre a prehistoria e a historia, cobr^rtc por theorias no 
velho rnundo, é preenchido realisticamente, em consequência de 
continuarem aqui vivazes aquelles troncos nataraes de que bro- 
taram as raizí^s cuja flor são os povos históricos» . 

Isto appliea-se de modo muito particular á metade meridio- 
nal do continente, que é o que depois da Africa asyla ainda 
hoje o maior numero de taes povos naturaes. Comparado cora 
a das tribus norte- americanas sua investigação scientifica acha- 
se infe-lizmente por demais atrazada . Ha apenas dous decennios 
que recebeu novo impulso, depois que a travessia ousada da 
parte mais desconhecida do planalto brazileiro e a exploração 
do rio Xingu por C. von den Steinen e seus companheiros pa- 
tentearam a existência de numerosas tribus vivendo ainda na 
situação precolombiana da idade de pedra. Seu estudo mais apro- 
fundado, feito por outras expedições, não só tornou possivel a 
classificação racr nal das tribus sul-americanas como torneceu 
nova base para o juizo das condições primitivas de cultura em 
geral . 

Mas, além do ensejo, hoje em dia raro, de observar homens 
ainda intactos do periodo de cultura pétrea ou premetallica, 
ainda outras ftrças concorrem para á investigação destas tribus 
dar uma importímcia que transcende muito o interesse especial 
dos Americanistas . 

Em primeiro logar a dependência em que as formas de 
cultura estão de natureza ambiente e das condições geographi- 
cas revela-se com singular transpareneia aqui, onde tribus pri- 
mitivas estão distribuídas por todo um grande continente, que 
mostra as mais variadas formas de configuração superficial, de 
articulação vertical e de vida orgânica. 



— 281 — 

Aecresce que não só o mundo cultural autocthone, já ex- 
tinct'^ dá ainda a conhecer por toda a parte em seus restos e 
tradições a ligação com as tribus selvagens como também a po- 
pulação mestiça, sujeita á civilização moderna, salvou até o 
presente muita cousa da lingua, dos costumes, dos haveres cul- 
turaes da era primitiva, que aliás não lhes ficava muito aquém. 

E' além disso ifr.portante o facto dos povoH naturaes da 
America do Sul, ao contrario dos fias outras partes do mundo, 
terem certo gráo de profundidade histórica (no sentido de Ratzel). 
Nosso conhecimento delles, coi.stando de informaçõ^^s exactas, al- 
cança muito mais para traz do que no velho mundo Sobre 
alguns como os Fueguinos (Ona), Araucanios, lupis orientaes e 
certos Aruak (Tainos) di^^pomos de uma serie de observações 
que vão de 350 a 400 annos. 

Isto é de importância primeiramente para se julgar da 
persistência dos signaes linguisticos, pois o erro da idéa, outr'ora 
tão vulgarisada, de que rapidamente se alteravam as linguas não 
escriptas, ficou provado, graças á comparação entre espécimens 
antigos e recentes. Além disso ap?inhamos aspectos interessantes 
do processo de acculturação, realizada em muitas tribus s-elvagens, 
muito tempo antes de sua sujeição ao jugo dos brancos, graças 
á importação de haveres culturaes, especialmente de instrumen- 
tos de ferro e animaes domésticos. 

Assim, a introducção do cavallo entre as tribus meridionaes 
durante o primeiro século de conquista, levou á transformação 
completa de todas as condições de vida. 

Em outras passou por uma elaboração singular a arte de te- 
cer, graças á introducção de apparelhos aperfeiçoad» s, como entre 
os Guaycurús, Machicuis, Camés\ entre as tribus peruanas orien- 
taes, chilenas e as do Pampa a metallurgia, particularmente o 
valor da prata, combinou as influencias peruanas com as do 
Velho Mundo. 

Anthropologicamente não ha separar os Sul-Americanos das 
tribus do continente septentrional. Aqui como alli existe grande 
multiplicidade de typos quanto á formação do rosto, á forma do 
cra-ieo e ás proporções, que apresentam imagens em parte mon- 
golóides, em parte mais afinadas, quasi caucaseas. 

Quasi não ha forma do Sul, que não tenha sua análoga do 
Norte. Consiste a differença apenas em que ao Sul apparecem 
epidermes mais claras, estatura* maiores e o cabello encrespa 
com mais frequência. As diíferenças, porêra, são menores que 
as apresentadas pela raça mediterrânea e até pelo seu ramo 
indo-europeu. 

Do mesmo modo que podemos considerar uma raça ame- 
ricana, independente de misturas ulteriores, ao Noroeste, pro- 
cedentes da Ásia, devemos considerar a America do Norte sua 
pátria primitiva, isto é, theatro de sua difíerenciação. Ao con- 
tinente meridional só chegou mais tarie : a todos os naturalistas 



— 282 — . 

que estudaram a zona tropical tem-se imposto a observação de 
que o homem aqui se apresenta como forasteiro e intruso pe- 
rante a natureza, e isto ã 2^i'iori, tornam em alto gráo verosimil 
os factos geológicos e biológicos deste continente. 

A unidade de raça oppõe-se á separação completa dos cara- 
cteres etbnographicos, de linguas, de haveres sociaes, não demar- 
cados, porém, pelo isthrao, e sim por uma linha que atravessa 
o sul de Nicarágua, onde começam aquellas tribus, cuja ligação lin- 
guistica com o circulo de povos da Colômbia as investigações 
mais modernas deixaram patente. Também as ilhas do mar das 
Antilhas foram habitadas por tribu de affinidade sulamericana, 
que provavelmente, como ensinam novos achados, estiram suas 
avançadas até á costa de Florida. 

Não devemos, pois, imaginar uma immigração continua de 
povos através do isthmo. para o Sul ; ao contrario, a formação 
de povos, isto é, a diíferenciação linguistica, só começou longo 
tempo depois da dispersão da raça, de modo que a incursão das 
tribus sul-americanas para o Norte até certo ponto deve consi- 
derar-se uma remiírração. 

A dispersão das raças e a formação dos povos devem con- 
siderar-se aqui mormente de todo independentes um de outro. 

* 
* * 

Do que fica dito resulta que só com precaução podemos 
usar dos caracteres corporaes para a classificação ethnologica, 
isto é, apenas nos casos de coincidirem typos anthropologicos 
determinados com grupos linguisticamente connexos e também 
affins de sangue, como, por exemplo, podemos apural-os nos 
grandes povos isolados dos Bororós e dos Carayás, assim como 
nas nações Gés do Brazil oriental. Ao contrario, devemos ter 
sempre em mente que tribus amplamente disseminadas de grupo 
linguistico egual como os Caraíbas, os Aruaks e os lupis, apre- 
sentam consideráveis ?ariedades somáticas. Também peculiari- 
dades de um meio egual dão cunho similhante a povos de 
troncos differentes como é o caso dos habitantes do Puna nas 
Cordilheiras. Em todo caso é anti scientifico querer reunir em 
sub-raças tribus hecterogeneas, fundando-se em caracteres esco- 
lhidos arbitrariamente, como por exemplo, os Índices cephalicos. 
Assim merece a mais áspera repulsa a tentativa de Denniker, 
seguida por Verneau e outros, de construir uma espécie de pre- 
raça com os Fueguinos e Botocudos, Patagões e Bororós, leva- 
dos por esterioridades somáticas superfieiaes que nem siquer são 
incontestadas, — repulsa tanto mais necessária quanto esta ameaça 
já passou para os compêndios. 

Uma orientação até certo ponto satisfactoria no enredo das 
innumeras pequenas tribus só se pôde lograr baseado na lin- 
guistica. Em principio a única difficuldade consiste no conhe- 



— 283 — 

cimento deficiente destas iinguas, de que apenas pequena parte 
esta grammatical mente elaborada, ao passo que para a maioria 
temos de nos contentar com vocabulários mais ou menos indi- 
gentes. Apurou-se, porém, que os vocabulários, desde que con- 
tenham uma série de palavras-fio (Leitit-oerter), muito constantes 
conforme a experiência, particularmente as designações das partes 
do corpo, também possuem considerável força demonstrativa. 

Muitas vezes ligações suspeitadas deante de escassas listas 
de palavras são mais tarde brilhantemente confirmadas quando 
sobrevem material mais abundante. 

Em muitos casos o mero nome da tribu, quando é realmente 
indigena, já aponta o caminho directo. Assim, por exemplo, os 
nomes de tribus terminados em oto indicam sempre aííinidade 
carahiòa, e os que terminam em Jann, kling, Meng aííinidade gé. 

Outro bom auxiliar exterior fornecem as tatuagens das tribuus. 
Assim, por exemplo, a tatuagem peculiar do rosto, praticada entre 
os Âpiacás do Tocatins, pertecentes ao grupo carahiba, encon- 
trou-se também entre os chamados Araras do Madeira e do Xingu, 
de cuja lingua nada se sabia até modernamente Coudreau mostrar 
a identidade linguistica de ambas as tribus. 

A nomenclatura das tribus sul- americanas andou até a éra 
moderna na maior confusão que se pode imaginar. Apenas de 
pequena parte delias conhecemos os verdadeiros nomes iadigenas, 
e quando isto se dá em geral não podem supplantar os nomes 
vulgares uma vez introduzidos. Não seria grande o mal si ao 
menos empregassem consistentemente as designações dadas ptúos 
Europêos e não se reunissem sob o mesmo nome tribus ás vezes 
de todo heterogéneas. Quando tirados de Iinguas europêas taes 
nomes são muitas vezes designações arbitrarias e triviaes de 
certas particularidades externas dos indigenas. Assim chamavam 
de Coroados as tribus que usavam de tonsura. Lenguas os que 
tinham o lábio inferior perfurado, Botocudos os que traziam no 
lábio ou nas orelhas um ornato semelhante batoque, Orejones 
eram sujeitos de longos lóbulos auriculares pendentes, Encabellados 
os que usavam de cabello comprido. Depois que se ficou saben- 
do que os Carahibas comiam gente, costumou-se chamar Carahihas 
todas as tribus que obedeciam a este costume. Em compensação 
parentes, mesmo tendo uma denominação commum, receberam 
designações diversas. Assim ha no Chaco tribus e hordas que 
apparecem na litteratura sob vinte nomes diversos. 

Outra fonte de confusão fornecem os próprios nomes Índios, 
especialmente quando se chamam muitas tribus com os nomes 
que lhes deram outros visinhos, pertencentes talvez á famílias 
de Iinguas inteiramente diversas. Além dos enganos habituaes, 
são registados nomes de mofa e alcunhas, e confundidas as desi- 
gnações de parentella e classe, especialmente os nomes de ani- 
maes totemicos, com os nomes herdados da tribu. Pela retra- 
ducção dos nomes em Iinguas europêas, apparecem tribus com 



— 284 — 

• 

os nomes de auimaes, como Araras, Gaviões, Caracará, Antas, etc. 
O que mais atrapalha, porém, é que deste modo a tribu extran- 
ffeira muitas vezes obtém uma designação pertencente a ling-ua 
inteiramente differente, dest'arte fingindo um parentesco de tribu 
que talvez não existe. Assim d^^pois que no Brazil o tupy tor- 
nou-se lingua geral, vehiculo de communicação entre es brancos 
e os índios, impuzeram nomes tupys a tribus que nada tinham 
de tupy. Destí» modo tribus selvagens, allophylas e inimigas dos 
tupys, foram reunidas sob a designação geral de tapuias, isto é, 
inimigos, de modo que a Este da America do Sul dividio-se 
tudo nrs dous grupos de lupys e Tapuias. 

Este modo summario de divisão ccnservou-se até muito pelo 
século XIX a dentro e salienta-se particularmente em Orbigny. 

Mesmo Martins, que, formando o grupo Gé, assentou a base 
de nova classificação, estava sob o peso da tupimania que ainda 
domina no Bras-il, cousa análoga ao que foi entre nós a celto- 
mania. Em sua obra ethnographica esforça-se a cada passo 
para explicar pelo tupy todas as espécies de nomes de tribus, 
muitas vezes da maneira mais violenta, com as etymologias 
mais aventurosas, não raro de eífeito cómico. Todas as suas 
interpretações devem ser acolhidas sempre com a máxima des- 
confiança. 

Em condições inteiramente similhantes estão os nomes em 
outras partes do continente, como por exemplo no Perii oriental 
e no Equador e particularmente no Chaco, onde a confusão só 
era parte foi remediada nos últimos annos. Dentre os inúmeros 
nome^ de tribus, transmittidos do periodo da conquista e éra dos 
missionários que se seguio, apenas pequena parte pôde ser iden- 
tificada com os nomes hodiernos. Grande numero é absolutamente 
fabuloso, como os Morcegos, de que faz menção Ralei gh e par- 
ticularmente os Acephalos, figurados ainda no século XVIÍI no 
Atlas de Lafiteau. Os Pygmeus arbóreos, desde muito tempo 
desmascarados, são verdadeiros macacos Coata. De resto ainda 
hoje domina geralmente a crença em taes tribus entre índios e 
a população mestiça civilizada. Quantas tribus têm perecido 
desde o descobrimento, nem approxiraadamente se pôde estimar. 

As Bertraege zur Ethnographie de Martins, de resto, con- 
tém uma boa collecção da maior parte dos nomes usados no 
Brazil e na Guayana desde os primeiros tempos: para o Ore- 
noco é de importância o Fest-schnft da Sociedade de Geogra- 
phia de Hamburgo sobre as expedições dos Welser. Para toda 
a região araazonica Marklam organizou em 1864 e 1893 ura re- 
gistro bastante deficiente. 

Empregando expressões como povo e tribu, cumpre não es- 
quecer que aqui nunca se chegou propriamente a uma formação 
de povos. Defrontamos antes por toda parte uma co"juncção 
de tribus e hordas, que ou existera inteiramente sem cohesão, 
ou apenas se unen occasionalmente para empresas communs. 



— 285 - 

Entre as tribus Ínfimas como os hotocudos e- seus parentes 
Guahibos, Guayakis, Fueguinos etc, as unidades politicas são 
apenas representadas por gràs-familias e parentella. Uma re- 
união de taes hordas e parentellas formando unidades organizadas 
de tribus, taes quaes conhecemos de maneira typica entre os 
Pelles Vermelhas da America do Norte, parece só ter occorrido 
de modo muito excepcional, como entre os Goajiros, Araucajiios^ 
e quiçá algumas tribus do Chaco. Em compensação deparamos 
com frequência communidades de aldeias, ligadas por nomes 
communs^ desenhos de tatuagens, formas de ornato, signaes de 
proveniência como em flexas e outras armas ; em geral, porém, 
não possuem organização commum mais estreita e muitas vt-zes 
são entre si inimigas, como os Impurinâs e outras tribus dos 
affluentes occidentaes do Amazonas, os Jivaros e muitas outras 
tribus do Chaco. 

Por nomes como Carahibas, Aruaks, Tupis, Gés, entendemos 
tribus linguisticamente aparentadas cuja connexão foi primaria- 
mente apurada pela analyse scientifica Podem ser refe- 
ridos a um hypothetico povo primitivo, do mesmo modo que as 
chamadas tribus indo-germanicas do Velho Mundo. 

Como taes tribus de egual familia lingustica estão muitas 
vezes dispersas por territórios enormes e suas linguas, graças ao 
isolamento ou a acções extranhas, muitas vezes apresentam gran- 
des divergências no vocabulário, em regra, entre estas, não se 
conservou a consciência do parentesco. 

Para Martius tem ainda valor o conceito de uma colluvies 
gentium, isto é, bandos aggregados de índios de tribus differen- 
tes e linguas diversas, usando entre si uma espécie de giria. 
Formações destas era parte alguma se têm apurado com segu- 
rança, e caso tenham occorrido, devem ter sido phenomenos in- 
teiramente ephemeros, provocados pela , influencia de aventurei- 
ros brancos. 

Quando muito poderia ser considerada tal uma nova for- 
mação, sem duvida ethnographicamente muito notável : a dos 
quilorabolas do Surinam, compostos de bandos organizados de 
negros fugidos com seu dialecto particular de trapos africanos, 
inglezes, hollandezes, francezes e indio». 

* 
* * 

Regiões ethnographicas. — Os grandes systemas fluviaes da 
America do Sul que determinaram a dispersão e encaminharam 
as migrações dos povos e tribus dão-nos também a primeira ba- 
se para a repartição ethnographica . Póde-se assim distinguir 
três grandes territórios como regiões ethnographicas. 

A primeira e maior comprehende as bacias unidas do Ama- 
zonas e do Orenoco, que hydrographicamente formam uma uni- 
dade, com o planalto de Goyana que fica entre as duas. Eth- 



— 286 — 

nographicamente inclue também ao norte as ilhas das Antilhas : 
para o Sul transpõe a divisora das aguas do planalto brazileiro, 
alcançando o rio Paraguay e o rio do Prata. Ao Sudoeste a 
linha limitrophe atravessa a Bolivia por cerca de 16" Sul, deter- 
minada em sua parte essencial ])elo Guaporé e pelo alto Mamoré , 

A segunda região pega dahi até a ponta meridional do con- 
tinente, abarcando todo o território situado á margem direita do 
Paraguay. O limite ethnographico para Oeste não coincide porém, 
como na primeira zona, com os Andes, que transgride no Chile 
meridional. 

A terceira região é naturalmente constituida pela cadeia 
dos Andes e pelos planaltos nelles iocluidos ouaelles annexos. 
Sò ao Sul, como fica dito, o limite ethnographico vai se obliteran- 
do para o Oriente. 

Cada uma destas zonas raparte-se numa porção de subdivi- 
sões ou províncias gcographicas de caracteres ethnographicos 
específicos. Na primeira distinguimos os dous planaltos de 
Goyana e do Brazil, o valle do rio das Amazonas que demora 
entre ambos, a bacia do Orenoco, a baixada dos tributários 
septentrionaes do Amazonas que ficam a Oeste do rio Negro, a 
baixada meridional do Amazonas e Oeste do Madeira, na qual 
por sua vez as bacias do Juruá e do Purús constituem uma 
subdivisão particular. 

A segunda zona reparte-se de Norte para o Sul no chamado 
Grão Chaco de Guaporé ao rio Salado, na planície dos Pampas 
até o rio Negro, no planalto patagonico até a terra do Fogo. 

Na região andina, terceira zona, a membração ethnographica 
é determinada pelos três circules de cultura dos povos Chibcha^ 
Kechua, Kolya (Aymará). As relações primitivas foram natural- 
mente transformadas pela obsorpção gradual da maioria das 
tribus naturaes. Como também a antiquíssima cultura dos Kolya^ 
do mesmo modo que a dos Chimu, abrolhou nas costas do im- 
pério incasico dos Kechua, na pratica só se pode fallar de um 
circulo de cultura da Colômbia e de um circulo de cultura do 
Perií ; este inclue também Equador e Bolivia. 

Como cada um destes territórios menores inclue dentro de 
limâtes bastante claros seus grupos característicos de tribus, 
poderíamos realizar o agrupamento ethnographico guiados uni- 
camente por pontos de vista geographicos, si alguns povos, dei- 
xando suas sedes primitivas, se não houveram derramado pelos 
territórios vizinhos, alcançando até recantos muito afastados. 
Assim encontramos seus traços insertos entre tribus de outra 
espécie inteiramente diversa, muitas vezes rodeados como ilhas 
de povos allophylos, com que então entraram em uma cultura 
commum . 

Isto se dá principalmente com tribus que constituem as 
grandes famílias linguisticas dos Tuins, Aruaks e Carahibas, que 
por isso teremos de considerar separadamente das outras. 



— 287 — 

Tupi -Guaranij— 'Esta, família abarca as tribus bistoricamente 
mais importantes do Brazil e do Paraguaj?-, sendo agora repre- 
sentadas de modo considerável na Bolívia e na Giiayana. Já 
no primeiro período do descobrimento foram mencionados e 
descriptos com grande frequência. As relações clássicas de Hans 
Staden, Léry e Tbevet no século XVI, assim como a de Yves 
d'Evreux, no século XVII, são com vantagem as melhores de- 
scripções etbnograpbicas daquelles período. 

Tribus tupis occupavam então toda a costa brazileira desde 
a latitude de 30" Sul até o baixo Amazonas . Viviam em gran- 
des aldeias fortificadas ; exerciam, além da caça e pesca uma 
agricultura não insignificante, e nas costas da Bahia e do 
Maranhão praticavam até a navegação. Eram ao mesmo tempo 
cannibaes guerreiros, envoltos em continuas lutas de tribus. 

Mais pacíficos e de costumes mais brandos eram seus compa - 
nheiros de tribus ao Sul do Brazil e no Paraguay, os Guarani'^, 
entres os quaes primeiramente começou a obra das missões. 
No Paraguay têm continuado até hoje em massas compactas, 
guardando sua lingua, muito corrompida embora ; os restos dos 
Tupis orientaes (Tupinambá, TupiniJdn, Tupinaé e Cabeté) levam 
vida de de pobres pescadores em aldeias dispersas pela costa, 
desde Espirito Santo até o Maranhão. 

A ligua tupi-guarani, o ahaneenga, primeiro e do modo mais 
completo elaborada pelos missionários, cujos ambos dialectos 
apenas apresentam pequenas diíferenças, tornou-se com o tempo 
vehiculo geral de communícações entre brancos e índios e entre 
os próprios índios, para o que concorreram essencialmente as 
correrias dos chamados Mamelucos ou Paulistas no século XVII . 

Assim formou-se paulatinamente uma gíria simplificada, a 
chamada língua geral. Fora do Paraguay é usada ainda boje 
DO rio das Amazonas, entre a população india meio-civilizada 
alli existente, composta de gente procedente das missões dissol- 
vidas ha cem annos, originaria das tribus mais variadas. 

A ampla divulgação deste idioma concorreu em primeira 
linha para a ídéa errónea, mas geralmente dominante no Brasil, 
de qup os Tupis ainda hoje formam a principal massa das tri- 
bus indígenas, ídéa de que foram dominados quasi todos os pri- 
meiros vífijantes, especialmente Orbigny e em parte também 
ainda Martius. 

Ficou provado que a ídéa é insustentável; entretanto ve- 
rificou-se a existência de alguns povos de línguas tupi bastante 
pura no interior do Brasil, como os Apiacá no alto Tapajós, os 
Camaytirá descobertos em 1887 nas cabeceiras do Xingu, os Ta- 
pirapés de Goyaz, os Temhés no interior do Estado do Pará, os 
Gitajajaras, do Maranhão e Piauhy a Oeste do Tocantins. 

Além dos limites do Brasil pertencem a esies: na Guayana 
oriental os Oyampis e iLinerillons e Trios, na fronteira peruana 
oriental, os Omaguas ou Cambeba, no Solirnões^ os Cocamas; na 



— 288 — 

Bolívia oriental, nas cabeceiras dos affluentes do Madeira, os 
Guaranis e Tapus, em parte inteiramente selvagens ainda, e os 
Chiriguanos que em parte se conservam ainda independentes, 
mas já são accessiveis ás missões; sobre estas tribus, dentre os 
novos trabalhos são importantes os do dr. Domenico Campana. 
No Paraguay oriental e no baixo e médio Paraná devem cha- 
mar-se Tupis puro-» os Cainguas ou Cayuas, conhecidos com mais 
exactidão graças a Ambrosetti, e os Apitere descobertos recen- 
temente . 

Além destes chamados Tupis puros devemos arrolar rintre os 
Tupis uma porção de tribus maiores do interior do Brasil por causa 
do seu parentesco linguistico, e cujos idiomas devem ser conside- 
rados linguas irmãs independentes. A estes pertencem os bellico- 
sos Mandurucús e Mauhés no Tapajós, os Yurunas e seus parentes 
Mani-Sauár no médio Xingu e os Auetês nas cabeceiras do Xingu. 

Interesse considerável despertou recentemente a descoberta 
ou redescoberta da antiquíssima tribu dos Guayaki, caçadores 
que em plena edade de pedra habitam as florestas ao sueste do 
Paraguay, cuja língua, até onde se tem podido apural-a até 
agora, é dialecto guarany bastante puro. Teríamos assim Tupis- 
guaranis no estftdo natural primitivo : a isto oppõe o testemu- 
nho dos missionários, conservado em Hervas, do tempo em que 
08 Guayaki estavam em contacto mais frequente com os brancos : 
diz-se ahi expressamente que sua lingua diíFere do Guarany ^ 
mas muitos guaranis fugidos das missões aorgregaram-se áquel- 
les selvagens nas mattas. Com isto concordaria o facto que to 
dos os vocabulários até aqui reunidos contêm palavras inexpli- 
cáveis pelo guarani. 

Defroiftamos aqui talvez um daquelles casos notáveis de 
mudança de lingua, que também por vezes encontramos alhures, 
onde tribus ínfimas ficam rodeada* de outras supeiiores em des- 
envolvimento. Assim por exemplo os Veddah de Ceylão falam 
um syngalez deturpado, os Pygmêos africanos a lingua de seus 
visinhos. os Negritos de Luzoo o tagalo, embora pertençam a 
raça inteiramente outra. Também o haver social dos Guayakis 
concorda muito com o das tribus inferiores do littoral. E' prin- 
cipalmente notável a falta de rede para dormir e a forma das 
flexas. O estado actual da questão dos Guayakis foi criticamente 
investigado por Vogt e Koch (Z. f. Ethn., 35, pag., p. 30 e 
seg., 1902). 

A distribuição singularmente salteada dos Tupis está indican- 
do vastas migrações que radiam quasi em forma de leque de 
um centro de dispersão. 

Taes migrações parecem ter occorrído não só na era pre- 
colombiana, como ainda até pelo século XVII a dentro. Os por- 
tuguezes repelliram as tribus costeiras cada vez mais para o 
Norte, onde do sertão estavam de posse as tribus Gés, mais bel- 
licosas e numericamente mais fortes ; os hespanhoes por sua vez 



-— 289 — 

em suas expediçôfs pelo Paragaay acima foram empurrando os 
povos guaranis cada vez mais para Noroeste, para o actual ter- 
ritório boliviano. Sede primitiva dos Tupis parece ter sido as 
terr{:.s situadas entre o médio Paraná e o alto Paraguay. Já na 
era prehistorica uma corrente alastrou desde o Sul do Brazil 
pela costa até o Amazonas e mais tarde penetrou mesmo na 
Guayana oriental. 

A occupação do baixo Amazonas parece só ter se dado em 
época posterior, pois o íidedig-no Acuna, em sua famosa viagem 
com Teixeira, em 1637, diz que achou a ilha de Tupinambarana 
habitada por povos tupis, que para aqui emigraram do Mara- 
nhão nào havia muito tempo, para escapar das oppressões dos 
portuguezes. 

A linha occidental de destribuição dos Tupis é dada pelas 
tribus bolivianas deste grupo, os Chiriguanos e Gruarayos, talvez 
também pelos Omaguas. 

Martius pende á identificar os últimos com a tribu do mes- 
mo nome, muitas vezes mencionada em tempo mais antigo, ao 
norte de Jujuhy na fronteira boliviana, e admitte que também 
elles fugindo dos hespanhoes attrahirara as tribus peruanas 
orientaes para o rio S. limões. Talvez, porém, estes Omagnas 
do sul sejam povo inteiramente diverso. Com bons fundamentos 
Brinton impugnou sua filiação ao grupo Kechua, com o que 
concordam também os dfldos antigos relati^fs á sua cultura. Em 
todo caso existe a ])ossibilidade de mudança de nome, pois tam- 
bém são confundidos os Omaguas septentrionaes com os Uniana 
do alto Japurá. Waitz suspeita são os Amanhuacas pertencentes 
ao gru| o dos Panos, mas apezar disto podem ter recebido in- 
fluxo peruano. 

Terceiro caminho foi o Tapajóz, onde, além dos Apiacás puros, 
conhecemos os Muudrucús e Mauhés como principaes representantes 
dos Tupis impuros. Pr- vavelmente são apenas seus parem es no 
médio Xingu, misturados com elementos estranhos, o galho que 
mais cedo se separou, cujas linguas se desenvolveram de m« do 
particular e independente. 

Que o Xingu fosse caminho de migrações é inverosímil, pois 
uma das principaes tribus deste grupo, os Yurunas, vai subindo 
o rio, sem nada saber das tiibus que vivem lá em cima, de que 
estão separados por caxoeiras difficeis. Por outro lado, como se 
pôde demonstrar, ha séculos que aqui estão segregadas as tribus 
das cabeceiras do Xingu. Os Manitsauás desta região, sem duvida 
são parentes dos Jn runas, mas apresentam relações claras com as 
tribus do Tapajoz pelo facto de possuírem cachorros (1). 

Parece, pois, que, sendo o Tapajoz a via própria de distri- 
buição para o Norte, começou mais tarde uma remigração Xingu 
acima, que ainda agora não está terminada. 



I) Cf. C von den Steinen; Durch Centraf-brasilien, p. 324. 



— 290 — 

Dos lajnrapés, situados no rio de egual nome, aííluente do 
Ai-iiguayca, conhecidos só por informações, não se pôde agora dizer 
se estão em relação com os lupis orientaes ou com os do centro. 
E' possivel que sejam aqui avulsos, procedentes do Pará ou 

Maranhão. 

Como 03 antigos Tupis costumavam guardar seus mortos em 
possantes urnas de lavor tosco, chamadas igaçauas'^ os achados 
desta ordem são um bom auxi iar para determinar-se a destribuição 
antiga destas tribus. 

Com mais frequência apparecem no Estado de S. Paulo, em 
todo o littoral, no baixo Amazonas e no Paraguay. Modernamente 
foram também encontradas nas cabeceiras do Xingii. 

Das linguas do grupo tupi conhecemos com exactidão apenas 
os dous dialectos principaes, segundo o material dos missionários 
do século XVI ao século XVII, em cuja reimpressão, como é 
sabido, Platzmann, recentemente finado, conquistou mcrito im- 
mortal. Os auctores mais importantes são para o tupi oriental An- 
chieta, para o guarany Montoya e Restivo. A elaboração scien- 
tifica mais importante deve-se a Baptista Caetano de Almeida 
Nogueira [Ann. da Bih. Nac. do Rio, vols. 6 e 7). 

Para a lingua geral Barbosa Rodrigues principalmente tem 
trazido contribuições preciosas ; faltam, porém, de todo investi- 
gações dos dialectos dos Tupis selvagens, ainda intactos. 

Aruaks — Tribus desta familia foram as que os primeiros 
descobridores encontraram nas ilhas Lucayas e nas grandes Anti- 
lhas. De sua lingua, o Taino, passaram para as linguas européas 
numerosas palavras designativas de productos naturaes e utensí- 
lios, como tabaco, hamaca, kanaua, mahis. 

Taes palavras i3Óde-se em parte acompanhar muito pelo con- 
tinente sul-americano a dentro, e são importantes para se conhe- 
cer as distribuições das plantas cultivadas e a influencia aruak 
em geral. 

Das pequenas Antilhas que occuparam na era precolombiana, 
foram gradualmente rechaçados por Carahibas salteadores. Cha- 
mavara-se aqui AUouages ; os restos que se conservaram indepen- 
dentes nas serras eram denominados Inyeri, 

Como os Tupis os Aruaks do continente andam também 
derramados por espaço enorme. Sua pátria primitiva deve ser 
procurada no Orenoco, na baixada venezolana e na Guyana se- 
ptentrional, onde estão ainda hoje representados por numerosas 
tribus. Na região do Orenoco as mais importantes são os Maipures 
do curso médio ; os Piapocos e Banivas no Guaviare, os Bares 
no Caura, os Mituas no Imrida, os Yaviteros no Atabapo, os 
Achaguas no rio Meta, outr'ora mencionados com frequência e 
agora quasi extinctos. 

Conheceraol-os principalmente pelas informações antigas dos 
missionários, dentre as quaes as de Gumilla e P. Gilij têm valor 



— 291 -^ 

clássico. Informações mais modernas deu Cliaííanjon, UOrénoque 
et Caura, Pariz, 1889. 

Na Guayana os missionaiios moravios descreveram aprofun- 
dadamente os Aruaks do Surinam e investigaram sua lingua. O 
trabalho mais moderno contendo muitos pormenores desconhecidos 
sobre os Aruaks já meio civilizados da costa foi publicado por 
Van Coll nos Bijdr. to taal land en \ olkevkunde van Neerl, 
Indie, em 1903. 

As tribus aruaks do interior, quasi independentes, Atoi^ai, 
J.ariima e outros, ficaram conhecidas graças aos irmãos Schom- 
burg e E. Im Thurm. 

Acompanhando a costa, as tribus aruaks estenderam-se até 
a embocadura do Amazonas, onde não ha muito que se extin- 
g-uiram os Aruãs da illia de Marajó. Os restos magnificas de an 
tiga cerâmica, encontrados aqui e modernamente também na costa 
septentrional (região do Cuyuni) devem ser a elles referidos. 

Chronologicamente importante é a occurrencia das chamadas 
jyerolas de Aggri, artigo importado depois do descobrimento, que 
se tem achado nas excavaçôes. 

A avançada mais norte-occidental desta familia formam os 
Goajiros ainda independentes, na peninsula do mesmo nome, única 
tribu sul-americana que transformou-se em pastores meio nómades 
<ie rezes. A melhor descripção recente desta tribu interessante 
deve-se a Candelier, lUo llacha, Pariz, 1893 ; as communicações 
de Brettes no Tour du Monde devem ser lidas com cautela. 

O caminho dos Aruaks para o médio Amazonas é assignalado 
pelos Banivas no alto e pelos quasi extinctos Manaos no baixo 
rio Negro, sobre cuja lingua Brinton descobrio materiaes. Daqui 
póde-se acompanhar uma larga cáfila de tribus aruaks^ que ])enetra 
para Sudoeste pelos rios Purús e Juruá até as Cordilheiras. 

As tribus mais importantes do Purús são os Paumaris, 
Yamamadis e es Ipuruõs, divididos numa porção de tribus — 
Maneteniris, Catianas, Cannamaris, Canawairs, etc. — que se es- 
tende no território do Acre (1). 

No Juruá habitam o^Arunas mais apparentados aos Paumaris, 
e os Catoquins, que apresentam forte influencia tupi e talvez 
•com elles se misturam ; na fronteira peruana seguem-se no 
Huállaga e no Ucayali os Antas ou Campas, também chamados 
Machigangas, assim como os Chontaquiros ou Piros, agora insi- 
gnificantes. 

Na Bolivia os mais importantes são os Moxos ou Musus e 
Bauros, agora meio civilizados, sobre os quaes pos&uimos excel- 
lentes noticias antigas, principalmente do Eder. Em Matto Grosso 
finalmente os Páreas, na região do Diamantino, formam o mem- 



T Minhas communicações sobre est^s tribTis, Beitraege zur Voelkerknãe Berlim, 1891, 
foran ha pouco essencialmente completadas pelas observaçées de J. Sstecre do Roporn 
of iht U, S. Nation for 1901, p. 359—398, Washigton, ie03. 



— 292 -^ 

bro ha mais tempo conbecido desta família. Entre elles conser- 
vou-se a tradição de uma immigraçào vinda das terras Jo Norte. 
Bastante isolados têm-se conservado nas cabeceiras do Xingu 
os Mehi7iakus, Kust naus, Xanlcqjitis e Wauras^ descobertas pelas 
expedições allemãs daquelle rio; sobre elles iiiforma aprofundada-^ 
mente Carlos von den Steinen. A avançada mais meridional dos 
Aruaks formam no alto Paraguay os Guanás, Terenos e Layanos 
que receberam múltiplos influxos por parte dos visinlios Guay-^ 
curús. (C mmunieaçõés recentes do M. Schmidt, Z. f. E., 33^ 
p. 336 e seg , 1903) 

Também o grupo aruak apresenta uma série de tribus, cujas 
línguas mostram divergências consideráveis do caracter das tribus 
restantes desta família. Sào os Jumanas, Passes, Uainu7uas, Caui-^ 
xanas, primeiramente deí-criptos por Martins, todos na região da 
baixo Iça ou Japurá, sobre os quaes não existem informações 
mais recentes. 

O desenvolvimento cultural dos Aruaks varia muito. 

Na éra antiga attingiu a culminância nas grandes Antilbas^ 
onde, além das relações dos primeiros descobridores, numerosos 
achados archeologicos revelaram notáveis esculpturas em pedra. 
Estas, do mesmo modo que as idéas religiosas relativamente 
desenvolvidas dos Tains, indicam influencias exercidas pel^s cul- 
turas central-americanas. Sua rígida organização politica sob 
caciques políticos lembra quasi as condições da Polynesia» 

Também os Aruaks septentrionaes do continente occupana 
uma posição cultural bastante elevada ainda, pois industrial- 
mente sobrelevam a seus contemporâneos. Foram provavelmente 
os inventores da rede de dormir, os príncipaes propagadores da 
cultivo do tabaco e do milho, assignalaram-se na olaria, que 
em vários pontos, como na embocadura do Amazonas, assumiu 
desenvolvimento extraordinário, verdadeiramente artístico; por 
toda parte os Aruaks apparecem como votarios da arte cerâmica^ 
cujos productos viajaram de tribu a tríbu como artigos commer-. 
ciaes e levaram outras nações a imítal-os. 

Em estádio bastante primitivo quedaram ao contrario as 
tribns que mais se internaram pelas solidões da Amazónia ocei— 
dental, no Purús, no Juruá, no Ucayale, os Ipurinãs, YamamadiSf 
Paumaris e Araunas, que em sua segregação não passaram do 
estado de ínfimos caçadores e pescadores com pequena agricultura^ 
Entre elles os Paumaris e Araunas apresentam por sua vez um_ 
typo singular, pois levam vida de puros pescadores, alimentan- 
do-se principalmente de tartarugas e jacarés, morando em balsas 
nas lagoas que acompanham os rios. 

Os Ariiaks do Peru oriental, como o^ Antis {Campa) e seus 
parentes foram em compensação indubitavelmente i ifluenciados 
pela cultura incasica. Observaram até uma metallurgia grosseira, 
que pela acção dos brancos se estendem até a arte de fundir 
ferro. 



— 293 — 

Dê modo em tudo diveri^entfi os Ooajiros tornara m-se ao 
Norte um povo pastoril criador de rezes, e assim loe^raram aô 
mesmo tempo 0'ganizaçào politica mais firme, que tem concorri- 
do essencialmente para a conservação de sua independência. 

Grammaticalmente f^ao conhecidos até aj^ora as seguintes 
línguas aruak: Aruak de Guayana Baure, Moxo, Ariti, ManaOy 
Ooajfro e Ip urina. 

Carahibas — Já ao descobrirem-se as grandes Antilhas 
constaram aos Hespanóes as correrias dos CaraJiihas cannibaes, 
Calinas, Callinagos, como a ?i próprios chamavam, que desde as 
costas do continente e das pequenas Antilhas, onde aniquilaram 
ou submetteram os iniigenas aruaks, talaram as outras ilhas do 
archipielago. Visavam principalmente ao rapto das mulheres, por 
terem ficado no continente a maior parte das suas mulheres. As 
Aruaks raptadas conservaram sua língua vernácula, de modo que 
fim suas ilhas Martinica, Guadalupe e Dominica houve completo 
dualismo linguistico, oppondo se aos homens que falia vam carahiba 
as mulheres qne faltavam aruak. Não se trará, pois, aqui de 
mera variedade dialectal, como entre algumas tribus sul-ameriea- 
nas, Carayas, Chiquitos, Cuaycurús, Carahibas e suas linguas são 
bem conhecidos, graças aos missionários francezes do século XVII, 
-Rochefort, Bréton, Labat, du Tertre; esváem-se, porém, com a 
colonização crescente durante o século XVIf. Onde mais tempo 
«e conservaram com forte mistura de negros foi nas ilhas 
Dominica e São Vicente, donde os Inglezes transportaram a 
maior parte de seus restos pai'a a costa de Belise. Sobre estes 
'Carahibas negro< fez Sapper interessantes communicações no 
Int. Archiv. fuer Ethn. 10, 1897, e no vol. 84, n. 24 do 
Globvs. 

Estes Carahibas insulares não vieram, como mais tarde se 
affirmou simplesmente, da Florida, ao Norte, mas sim do conti- 
nente sul -americano, onde ainda hoje assistem em grande nu- 
mero os seus parentes. Angariados desde muito cedo pelas mis- 
sões, os Carahibas da Venezuela septentriooal, Chaymas, Cumana- 
^otos, Tanamacos, foram por isso extinctos ou incorporados na 
•população moderna, ao passo que ficaram até certo ponto in- 
•dlenpendpntes nas Guyanas britânica e franceza. Suas tribus 
mais importantes são os Oalibis, Caribisis, na Guyana franceza, os 
Macuxis, Acawoios ; Ipurukotos, Arekumas, Arukuyanas na parte 
britânica daquella região, mas alcançando também Venezuela e 
'O Brazil. Na Guyana propriamente brasileira, ao Sul de Tumuc- 
;Humac, nos afíluentes septentrionaes do baixo Amazonas, habitam 
os Rucuyennes, corrupção provável de Arukuyana, primeiramente 
•descript^s por Crevaux, e os Apalais-^ desde os rios Paru e Jary 
« Oesfe delles, no alto Trombetas e no Jamundá, assistem os 
'Pianokofos, visitados por Coudreau, provavelmente emigrados da 
'Guyana septentrional para aqui em éra moderna. No alto rio 
IBranco soguem-se os Marikitarés, e finalmente oò Kirichanás ou 



— 294 — 

Jauaperis no affluente deste nome, que desaf^ua no Rio Negro. 
Até o comda era de 80 do século XIX viviam estes na edade 
de pedra, mostmndo-se liostis aos moradores; porém g-raças a Bar- 
bo-a Rodrio-ues em 1884, estabolam-se relações mais amistosas. 
A descripçko deste auctor em sua obra Pacificação dos Cricha- 
nás é também fonte importante pira outras tribus desta região 
sobre a qual depois não têm hivido mais descripções exactas. 

A questão da sede primitiva e do centro de sua dispersão 
só modernamente foi levada á solução até certo ponto satisfacto- 
ria, graças á descoberta de grande população carabiha ao Sul 
do Amazonas, nas comarcas ceotraes do continente. Já Martins 
derivara do Sul os Carahihas ; punba-os, porém, em connexão 
estreita com os Tupis orientaes, procurando demonstral-a com 
etymologias inteiramente fcdhas, principalmente interpretações 
de nomes. Cada nome de tribii contendo as syllabas kaVy 
karif kara, parecia-lhe indicar affiiiidade carahiba. Mais tarde, 
com melhores fundamentos linguisticos, Lucien Adam procurou 
ao Sul do Amazonas os parentes dos Carahihas das Guyana-s : 
alli já os Pimenteiras do Piauhy e os Palmellas do Matto Grosso 
Occidental accusavam claramente sua filiação a esta familia. 

Mais tarde, as duas primeiras expedições allemans ao Xingií, 
chefiadas por C. vou den Steinen, tiveram a felicidade de ave- 
riguar outras tribus carabibas nas cabeceiras deste rio e nas do 
Paranatinga, Os Bieaeris e oò Nahiiqucis, achados aindi no pri- 
mitivo estado precolombiano : a lingua e as tradições dos ^^Cfle- 
ris foram estudadas acuradamente. Apurou-se de tudo que an- 
tigamente assistiam mais ao norte, approximadamente entre 9* 
e 12" S. no Xingu e no Paranatinga e descendo o rio para o 
Norte foram procurar seus avós. Os Nahuquas, ci\]simn?,sB, \n'ixi- 
cipal não demora no Culiseu, onde primeiro foram descobertos 
mas em seu affluente oriental, o Culnene, foram mais tarde, ena 
1896, visitados e estudados pelo Dr. Herrmann Meyer: faltara, 
ainda informações mais precisas sobre o assumpto. 

De resto, descobriram- se os membros intermédios que ligam 
os Carahihas do Sul aos do Norte. Primeiramente eu próprio 
consegui em minha viagem pele Tocantins, em 1888, estabelecer 
que não se devem os Ajnacãs, chamados também Apingiii por 
algiins, estabelecidos na margem esquerda do baixo Tocantins, 
confundir com os Tupis de egual nome, habitantes do alto Ta- 
pajós ; os Apiacás do Tocantins são linguisticamente muito pró- 
ximos dos Bacaeris o só em meiado do século XIX, repellidos do 
território do Xingu pelos Siiyás, emigraram rumo do Norte para 
o Tocantins. 

Depois H. Meyer demonstrou a indentidade destes Apiacás 
com uma tribu até ent\o desconhecida do alto Xingu, os Aruma^ 
ou Yarumas. de que apenas puderam ser estudados alguns indi- 
víduos avulsos entre ouras tribus. 

Finalmente, dos vocabulários do viajante francez Condreau 



— 295 — 

que em 1896 subio Xingií acima, resultou que os hostis Araras, 
tribu muito derramada entre o médio Xinaú e o Madeira, são 
idênticos a estes Ainacás e Arumas, o que se demonstra aj mesmo 
tempo pela tatuagem commum a todas estas tribus, — uma linba 
azul de ambos os lados do rosto, desde o olho até o canto da 
boca. 

Os Bonarh e Japiis da embocadura do rio Negro e do baixe 
Amazonas, hoje extinctos, vão depois directamenta aos Caralii- 
has do Norte. 

Assim, está demonstrado agora que uma larga facha de 
grandes tribus caraJiihas vae desde o centro para NE. até a 
Guayana, e deve-se considerar como seu ponto de jmrtida a 
região entre 10** e 12** S. Os Panellas fcram sua avançada 
sul-occidental, os Bacaeris o meridional, os Pimenteiras a avan- 
çadada mais oriental. 

Muito pouco conhecidas são algumas tribus carahihas, sal- 
teadas, de Noroeste, ao Norte do Amazonas, como os Carijonas e 
Uitotos do alto Japurá, primeiro visitadas por Crevaux, e os 
Motillons da fronteira entre Venezuela e Colômbia, extremamente 
inimigos dos brancos. 

Dentre as linguas carahihas têm sido até agora cuidadosa- 
mente estudadas desde muito tempo : o Carahíba das ilbas, por 
Bréton ; o Cumanagoto e seus dialectos, por Tauste, Blanco e 
Tapia, e modernamente o Bacaeri, per C. von den Steinen, Die 
Baharrisprache, Leipzig, 1893. 

O grau de cultura destas tribus em geral é egual aos do« 
Tupis e Aruaks ; característicos dos Carahihas são as lêdes de 
algodão e o costume de apertar com cordas de algodão os braços 
e as pernas, acima do cotovello e abaixo do joelho, de modo que a 
carne fica sahida. Encontra-se também com frequência entre as 
tribus carahihas o costume singular do choco (couvade). 

Estão assim derramados estes estes três grupos sobre o enorme 
território que acima assignalamos como a primeira zona ethno- 
graphica principal. Dominam por assim dizer exclusivamente 
dois grandes territórios, a Guyana e o valle do Amazonas. 

1. Na Guayana, no sentido mau lato, isto é a terra entre o 
Orenoco e o Amazonas, desde o rio Negro até a costa, incluindo 
também o archipelago das Antilhas, os Aruaks habitam parti- 
cularmente o Norte e o Sul, os Titjns, o Oriente, e os Cararahi- 
has o centro. 

De tribus allophylas apenas duas têm aqui importância. 
Primeiramente os Warraus ou Guaraiuios, excellentes constructores 
de canoas, residentes nos banhados de delta do Orenoco, descripto« 
cuidadosar.-.ente, além de Schomburgk, modernamente por Crevaux, 
Ch^fíaiijon e Im Thurm : Lucien Adam lançou um esboço de sua 
lingua, que está inteiramente isolada (Congresso dos America- 
nistas, Stockolm, 1894). Além disso os Guahibos, povo nómade 
das cabeceiras do Orenoco, cuja pátria provável deve procurar-se 



— 296 — 

a Oeste, nos rios Meta e Vichada : quem os observou com mais 
exactidião foi Stradelli. 

2. O Valle propio do Amazonas, incluindo o curso inferior 
de seus tributários, é dentro do território brazileiro quasi exclu- 
sivamente habitado por tribus aruaks e tupis, de que as primeiras 
occupam ou occuaram á matgem esquerda e os segundos á 
marg-fm direita- Entretanto, do Purús em toda sua extensão, e 
do Juruá no curso mélio apossaram se tribus aruaks. 

São dignas de mencionar nesta comarca as tribus não classifi- 
ca Ví-i^ doB Muras na embocadura do Madeira e do Purús, assim 
como entre o baixo rio Negro. Martins observou-os em estado 
selvagem, em grau muito inferior de civilisação ; boje estão intei- 
ramente ao serviço dos seringueiros. As communicações mais re- 
centes provêm da Princeza Thereza de Bavi ra, infelizmente sem 
dadob linguisticos. Estamos quanto á sua lingua, limitados sempre 
ao succinto vocabulário d«^ Martins, pois as amo trás de Teza em 
seus Saggi inediii publicados sob o nome de Mure pertencem a 
lingua totalmente diversa, que provavelmente deve ser procurada 
na Bolívia. 

3. O planalto brazileiro mostra condições ethnographicas 
bastante complicadas. Em sua metade occidental até o Madeira 
8 o Paraguay é occupado inteiramente por tribus daquelles três 
grupos. Assim, os Aruaks residem no planalto de Matto Gros'-o 
nas CHbeceiías do Xingu e Tapajoz, do mesmo modo que no alto 
Paraguay. Tupis i-ão representados nos três rios, quasi em toda 
sua f^xtensào, como Guaranis avultam em massa compacta na 
margem esquerda do Pa»'auuay e projectavam-se em épocha mais 
antiiía por toda a costa brasileira oriental para o Norte até o 
Amazonas ; tribus carahihas emergem essencialmente em Matto 
Gross© como Palmeias no Xinsrú, como Bacaeris, Nahuquas, Aru~ 
mas ou Araras ; avulsos e modernam mte apparecem também no 
angulo norte-oriental do planalto do Tocantins. 

A tribu allophyla mais intere sante desta comarca são os 
ainda indecifráveis Irumiis, nas cercanias em que confluem as 
cabeceiras do Xingu : com elles entraram em contacta fugaz 
as duas p'imeiras expedições allemãá de 1884 e 18-^7 ; mais tarde, 
em 1896, Hermann Meyer conversou com elles mais de perto. Sua 
lingua Hpresenta-se de todo isolada e mesmo phoneticamente 
destaca-se de modo golpeante das tribus aruaks vizinhas. 

Gés. — Na metade oriental do planalto brazileiro domina até 
a serra do Mar um grupo de povos ethnographicamente muito 
singulares, que, de cara -ter sobremodo archaico, mais que todos 
os outros desta região, merecem ser considerados autochtones. 
São as chamadas tribus 6reí, a que pertence a massa principal 
dos Tapuyas^ como antigamente chamavam t''dos os índios do 
Brazil oriental não pertencentes aos Tupis e assignalados por 
especial selvajaria e hostilidade. 

Martins, que primeiro constituiu este grupo, ainda os apa- 



— 297 — 

-nhou de modo i or demais estreito. Seus Gés são essencialmente 
idênticos ás hodiernas tribus dos Cayapós e Akuens em Goyaz, 
nas vizinhanças do Pará, Maranhão e Piauhy, cujos nomes de 
tribus terminam em parte na syllaba gé^ como Apinagé, Krika- 
tagé, Amanagé. Comtudo salientou como distinctivo geral deste 
grupo o caracter phonetico das linguas, o costume de botoques 
ou rolos de folhas no lábio inferior ou nos lóbulos auriculares, 
a falta das redes de dormir, a ignorância da olaria e da nave- 
gação, assim como Cí^rtas peculiaridades nas armas. 

Sabemos hoje que as tribus Gés esta o ou estiveram derra- 
madas por toda a metade oriental do planalto brazileiro, de?de 
o seu declive ao Norte mfircado pelas ultimas cachoeiras do 
Xingu e do Tocantins até cerca de 30" S., para o Poente até 
o alto Xingu: nào alcançaram em compensação ao valle do 
Amazonas. 

Devem ser especialmente alistadas no grupo gé as hordas 
e tribus primitivas das mattas da ladeira oriental da serra do 
Mar e seus rios costeiros desde o Pardo até o Doce, e mais para 
o Sul, nos territórios de S. Paulo, Paraná e Santa Catharina, 
os poviléos que habitam a Oeste desta serra, nos affluentes do 
Paraná e do alto Uruguay. 

Á elles pertencem antes de tudo os chamados Botocudos 
ou Buruns do Espirito Santo, Minas oriental e Bahia meridio- 
nal, numerosos sobretudo nas bacias dos rios D'»ce e Mucury, ain- 
da independentes em parte Devem considerar-se seus anteces- 
sores prováveis os ^z//iorá'?, tão mencionados e tem dos nos séculos 
XVI e XVII. Conhecem-se principalmente pela monographia 
clássica do Príncipe zu Wied, no segundo volume de sua via- 
gem. Material moderno foi communicado por mim na Z. f. E, 
p. 1 e 49 e seg., em 1887. 

Delles são mais ou menos aparentadas uma porção de na- 
ções menores, quasi todas extinctas hoje, em Minas Novas, nos 
altos Pa* do e Jequitinhonha, como os Malalis, Machakalis, Me- 
nien, Patachos, Rotochós, observados ainda em liberdade ao co- 
meçar o século XIX por Eschwege, Príncipe zu Wied e Au- 
tíuste de Saint-Hilaire. 

Fiiialireute, entram também aqui os chamados Bugres de 
Santa Catharina, de mau nome atÁ pouco tempo pelos assaltos 
dados aos colonos, situados principalmente nas mattas das cabe- 
ceiras do Uruguay, mas não visitados ainda por viajante algum. 
Da sua língua nada se conhece; entretanto Shokleng (Xocren), 
seu nomrt tribal, comparável á tribu uxekrin dos Cayapós, in- 
dica connexão com os Gés. 

Todas estas tribus estão em grau Ínfimo de cultura, infe- 
rior até á dos Bushraen e Australios e apresentam assim, até 
certo ponto, a camada primitiva do grupo inteiro. 

Um pouco superiores mostram -se entre os Gés orienta s os 
Camacans de Ilhéos, descriptos pelo Principe zu Wied, assim 



— 298 — 

como os Camés e Cainqangs distribuídos pelas comarcas occiden- 
taes dos Estados de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul: 
destes os mais meridionaes podem considerar se meio civilizados; 
os do Pequiry, Ig-uassu e Ivaliy, afíiuentes do Paraná, conser- 
vam-se quasi independentes, mas não são hostis aos brancos. 
Também a elles se applica o nome collectivo de Coroa los, tão 
vulgarizado no paiz. Contrastando com os outros Gés orientaes 
prpticam a agricultura e, í^raças a influencias extranhas, desen- 
volveram a cerâmica e a tecelagem. De uma espécie de embira 
fazem roupa semelhando camisa, de modelos singulares que lem- 
bram 03 do Peru Oriental. Em época moderna íoram descriptos 
especialmente por Hensel (Z. f. É. 1, p. 124, 1869) e Telema- 
cho Borba (Rev. mens. da Soe. de Gaog. de Lisboa no Brazil, 
2, 1883): também Taunay e Ambrosetti forneceram contribui- 
ções recentes. 

Graças ao ultimo destes investigadores ficamos conhecendo 
a tribii dos Ingains do Paraná nas proximidades de salto Guairá, 
evidentemente idênticos nos Giiai/anàs, os Waigannas de Hans 
Staden, sobre os quaes até agora havia apenas escassa'* noticias. 
Parecem remotos ^jarentes dos Camés ou ao menos fortemente 
influenciados por estes. 

Os Guanaliaes visitados por Aug. de Saint Hilaire são in- 
dubitavelmente Cainganges (Ambrosetti, no Boi. Ac.de Córdoba. 
14 V. 331, e Ihering, Eev. do Mus. Paulista, 1902). 

O gráo mais elevado occupam os Gés centraes de Goyaz 
com os territórios comarcães de Matto Grosso, Pará, Maranhão, 
Piauhy, divididos em dous grupos, os Cayapós e os Acuens. 

Ao começar o século XVIII tribus cayapós habitavam o Sul 
de Goyaz, onde oppuzeram a mais violenta resistência aos im- 
migrantes portuguezes. Parte dos indigenas recuaram finalmente 
para o Sul ao Paranahyba ; no principio de século XIX Lan- 
gsdorlf e Auguste de Saint-Hilaire, mais tarde também Kupífer 
vizitaram suas aldeias. Jazem nas cercanias de Sant'Anna do 
Paranahyba, do onde ainda hoje os Cayajjós fazem viagens com- 
merciaes aos estibelecimeutos próximos de S- Paulo. Os que 
ficaram em Goyaz foram parcialmente aldeiados em Mossamedes, 
onde Pohl os visitou. A maioria, porém, reuniu-se aos parentes 
septentrionaes, na margem oriental do Araguaya. Aqui desfru- 
ctam inteira independência as tribus de Kradahos, CaraJios e 
Uchikrins, que vivem em lucta acesa com os Carayas assistentes 
á margem esquerda do rio. 

Modernamente, segundo informações de Coudreau (Vogage au 
Tocantins et Araguaga, Paris, 1887) conseguiram missionários 
"italianos chegíir a algumas de suas aldeias e chamar os mora- 
dores a trato regular com os brancos. E' de esperar não fosso 
sem proveito este excellente ensejo de investigar ethnographica- 
mente genuínos povos naturaes. 

Como a avançada mais occidental destes Cayapós do Norte fcão 



— 299^ — 

dig-nosde mencionar os Siivas, descobertos pela primeira expedição 
de Carlos von den Stennen no alto Xingií, acima da cachoeira 
de Martins: ling-nisticamente muito se approximam dos Ajoinagés. 
Graças á influencia dos vizinhos, apprenderam a servir-se das 
rêies de dormir e das canoas de casca. Infelizmente não se con- 
seguiu mais depois travar relações com elles. Sabe-se apenas 
que uma expedição de aventureiros americanos foi por elles des- 
troçada no anno de 1896. 

Próximos j)arentes das tribus Cai/após a Este do Araj^uaya 
são os Ajnnagés, já aldeiados em Boa-Vista, no médio Tocan- 
tins, sobre que o botânico italiano Buscaleoni trouxe as noticias 
mais recentes. Em compensação, pouco conhecidos são os Ga- 
viões ou Cricatagés, já assistentes em território paraense, e os 
Acohus ou GamellciH, Bocohus ou Temembns, for mando prova- 
velmente uma divisão dos Bus, e o subgrupo dos Crans, Poca- 
mekrans, Macamekrans, Aponegfkrans, a Sueste do Maranhão 
descriptos por Pohl e Castelnau. Também são mencionados Cara- 
hos nesta região comarca. Enfeixam as tribus gés do Maranhão 
sob a denominação collectiva de Gamella, limbira ou CanelL:. 

A segunda divisão dos Gés centraes íórraam as tribus dos 
Akuens, assignalados pela côr clara da pelle, grande estatura e 
feições regulares, distinguidos pelos Brazileiros em Xavantes e, 
Xerentes : estes não são mais que Xavantes meio-civilizados, que 
permaneceram no médio Tocantins, sede originaria desta tribu; 
os Xavantes livres refluiram para a margem esquerda do Ara- 
guaga, na bacia do rio das Mortes, onde até hoje não penetrou 
ainda viajante algum scientifico. Paulistas, á cata de ouro ou 
a caça de escravos, navegaram frequbntemente neste rio, haverá 
cento e cincoenta annos, guerreando e anniquilando os Araés alli 
residentes. 

Devem considerar-se parentes dos Akuens os Xicriabas e 
Jaicós entre o Tocantins e o rio S. Francisco, assim ccmo os 
Acroás no rio das Balsas. Desde a viagem de Pohl não ha in- 
formações exactas sobre todas estas tribus. Tribus gés extinctas 
do sertão da Bahia são de mencionar os Massacaras, Pontas e 
Aracnjas, de que Martins encontrou ainda restos. 

Com grande verosimilhança devem contar-se entre os Gés 
os chamados Tapugas do sertão de Pernambuco e Maranhão: 
durante o século XVII auxiliaram as tentativas de Mauricio de 
Nasau nos ensaios de colonização hollandeza contra os Portu- 
guezes. Quanto a seus costumes e modo de vida, estamos bem 
informados, graças a auctores contemporâneos, ])articularmente 
Piso, Margraf , Barlaeus e Roulox Baro. Numerosas imagens, entre 
as quaes retratos em tamanho natural, conservam-se nas collec- 
ções de Kopenhagen e nas bihliothecas de Berlim e Dresda : en- 
tre seufc objectos ethnographicos destaca-se a palheta com que 
jogavam flechas, pois era-lhes desconhecido o arco, facto ethno- 
logicamente interessantíssimo. Os motivos que nos determinam 



— soo — 

a contar entre os Gés estes Tapuyas ou Othushukayana, foram 
por raim expostos num artigo do Globus, vol. 66, p. 81 e seg. 

Os mais antigos restos anthropologicos dos povos géssão os 
conhecidos cranens descobertos por Lund nas cavernas de Lagoa 
Santa em Minas Gerae-*, cuja synclironici-iade com os restos de 
mammiíeros exnnctos alii exeavados affirmou se mas não se pro- 
vou. Sua formação de rosto é absolutameni^e a dos hodiernos 
Butucudos e Cayapós, com os quaes também concordam na extru 
etura da caixa craneana. 

As línguas Gés são-nos conhecidas principalmente por voca- 
bulários,. Dados grammaticaes possuimos apenas dos dialectos bo- 
tocudos e uxikrim entre o dos Cayapós e dos Camés (cf. particu- 
larmente Lucieri Adam, Cong. des Americ, de Paris, pags- 317 
e seg.). Entretan-o, sobre e-* ta ultima lingua o material é dema- 
siado inverosimil, para ser possivel uma elaboração grammatical 
completa. 

Inseridas entre as nações gés ha ainda no planalto brazileiro 
tribus allophylas, que em parte se acculturam com seus vizinhos. 

Kiriris — Ao Norte do S. Francisco, no território de Pernam- 
buco e Piauhy, devem mencionar-se como grupo particular, vizi- 
nho dos Pimenteiras carahibas e dos mencionados lapayos os 
Kiriris e Sabityas, hoje extinctos, cuja lingua nos transmittiram 
Mamiani e Bernard de Nantes. O Kircheria num em Roma 
possue objectos ethenographicos seus. Ao Sul, no baixo Parahy- 
ba, existia durante o século XVI a tribu selvagem dos 

Goytacazes (Waitaka), muito temidos, mas já extinctos ao co- 
meçar o século XVII. Seus parentes ou descendentes são con- 
siderados os Coroados, Puris e Coropós, assistentes do Parahyba 
para o Norte ató Minas e Itapemirim Os viajantes da primeira 
metade do século XIX, Eschwege, Príncipe de Wied, Martins, 
Auguste de Saint-Hilaire descreveram-nos aprofundadamente. 
Gf também minhas observações próprias Z. f. È. , 18 pags. 184 
e seg. , 1886, 

Estas tribus possuem redes mas quanto aos outros costumes 
e modos de vida a»similham-se inteiramente aos Botucudos. O 
nome de Coroados tem levado a confusão frequente entre Camés 
e Bororós. 

Carayas . No meio do^ Gés centraes encontramos Goyaz a 
grande nação dos Carayás, moradores namargem direita do Ara- 
•guaya. E' provável que antigamente se estendendessem mais 
para o Sul, pois já no século XVi Léry, dá uma tribu deste 
nome como visinho ao Norte dos Tupis da costa e linguistica- 
mente diíferentes. Suas condições ethnographicas indicam, entre- 
tanto, uma immigração de Norte ou Noroeste. Dividem-se em 
três trotjcos principaes. São os Carayahys, no curso navegável do 
Araguaya até ponta septentrional da ilha do Bananal, ao 10° S, 
qne negociam com os moradores, e dão-se com as tribus dos 
Tapirapés que moram a Oeste ; os bellicosos Xambioás ainda 



— 301 — 

independentes na região encaxo^^irada para o Norte ; os Yavahés 
dento da grande illia do Bananal, nào vizitados nestes 
cento e cincoenta annos. Ein 1888 eu próprio achei os Carayás 
quasi nas mesmas concli(;ões que Castelnau quarenta annos 
antes,— povo laborioso de pescadores e lavradores, altamente de- 
senvolvido, e muito superiores, quanto ao teor ^eral da vida, aos 
vizinhos civilizados. (Chminhas Beitraege zilr Voelkerkunde Bra- 
siliena. Berlin, 1891. Em c mpensaçào já em 1896 Coudreau an- 
nunciava a decadecia da iribu, o que está pedindo com urgên- 
cia confirmação. 

Também na margem direita do baixo Xingu mencionam-se 
Carayás como tribu hcstil ^o^Yurunas. Sào talvez idênticos aos 
Assurins mencionados por Coindreau. Descripção mais acurada dos 
Carayás seria um dos desideratuns mais urgentes pai a o futuro pró- 
ximo, pois especialmente suas dansas mascaradas, com vestuários 
e mascaras magnificamente ornadas, indicam opulenta elabora- 
ção de idéas animisticas de mythos tribaes . 

Bororós — No centro de Matto Grosso, a divisa das aguas 
entre o Xingu e o Araguaya, é habitada por uma tribu de ca- 
çadores nómades e bravios, os Bororós, já mencionados nesta re- 
gião durante a primeira metade do século XVIII, quando os 
PortuguezeK s*^ rviram se do seu auxilio contra os Cayapós de Goyaz 
meridional. Parte de?tes i^orords estabeleceu-se mais tarde no alto 
Paragauy, os chamados Bororós de Cabaçal, onde foram visitados 
pela expedição de LangsdorfF, e mais tarde p.-r Castelnau, 
Rhode, Koslowski e outros. Seus irmãos independentes no pró- 
prio planalto, que até a era de 80 no século passado fizeram 
correrias e assaltos para Oeste até as cercanias da i idade de 
Cuyabá e para Este até o território goyano, foram conhecidos 
durante dezenas de annos pelo nome collectivo de Coroados, até 
em 1888 a segunda expedição allemão ao Xingu provar sua iden- 
tidade com os antigos Bororós genuinos. Seu centro parecia en- 
tão permanecer entre as cabeceiras do S. Lourenço e o Cayapó- 
grande, nas cabeceiras do Araguaya. 

A colónia Thereza Christina, no S. Lourenço, conhecida 
pelas descripções de C. von den Steinen, onde muitas centenas 
de Bororós que se sujeitavam voluntariamente ficaram sob inspe- 
pecção militar, parece ter-se dissolvido, segundo as noticias mais 
recentes. Muitos dos Índios entraram para o serviço domestico 
em Cuyabá. Os Bororós, assignalados pelo notável tamanho do 
corpo, são povo puramente caçador sem agricultura, que em 
muitas feições lembram os Gés, como estes, sem canoas nera 
redes, mas peritos na factura de armas e ornatos de pennas. 
Sua organização social parece, em compensação, achar se muito 
atrasada. 

4. A baixada NW. do Orenoco ate os Andes. — Aos poviléos 
aruaks e caraliihas do território do Orenoco prende -se a Oeste 
entre Apure, rio Meta e Vichada, uma série de tribus, que, nas 



— 302 — 

informações mais antigas dos missionários jesuitas alli chegados 
por cerca de 1730, particularmente de Gumilla e Gilij vem fre- 
quentemente mencionadas, mas bem pouco conhecidas são. 

Merecem ser mencionados os : 

Fiaroas, no Vichada e Mataweni ; os Charujas no alto Meta 
e Guejar (cf. Z. f. E., p. 336, 1876) e os restos agora in^gni- 
ficantes dos Otomacos, Salivas e Jaruros. 

A' lingua destes últimos Guilherme von Humboldt consagrou 
estudos aprofundados, mas parece jerdido o material original de 
que se sérvio 

Betoyas — O grupo Betoya, primeiramente estabelecido por 
Brinton (Studies in S. Am. natiue langiiages, p. 62, Philadelphia, 
1892) abarca grande numero de tribus da baixada colombiana 
oriental entre 7'' N 3** S., alcançando desde o Sul até o Japurá 
e para o Oriente até o rio Negro. Também entre o alto 
Napó e o Putumayo estão ainda representados . Brinton escolheu 
])ara designar o grupo a mais septentrional de suas tribus, os 
Betoya, que antigamente habita\iam nas abas do morro de Begoaa, 
entre Apure e Meta, principalmente em Casanare. Das outras 
nações deste grupo os Uaupés, no grande aílluente do rio Negro, 
sào relativamente os melhores conhecidos pelas viagens de Wal- 
lace, Stradelli, Coppi e Pfaíf. A elles pertencem os Uaupés pro- 
priamente ditos, os lucnnos ou Daces, que se subdividem nos grupos 
duplos dos Jupiias e Koretiis e nos Jaunas e Koheus do ou*ro. 
Estão ao mesmo tempo em contacto intimo com tribus allophyla'", 
como os Trianas aruaks, e os Arekumas, carahibas, no Içana, de 
modo que desenvolveu-se uma espécie de aculturação entre estas 
tribu?, que obscurecem um pouco o quadro ethnographico. 

De outros membros deste grapo cumpre mencionar os Des- 
sanas no Apaporis, os Coregayes e Tamas no rio Yari, affluente 
do Yapura, que foram visitados por Crevaux. 

Os Pioyes no Napó e Piitumaio são provavelmente idênticos 
aos antigos Encabellados, tão referidos em outro tempo. Os Umauas 
no alto Yapura, que Martins dá como inimigos dos Miranhas, 
foram talvez pela semelhança do nome confundidos com os Orna- 
guas do grupo tupi. 

Tiradas as breves communicações de Crevaux não ha noticias 
recentes sobre todiís estas tribus. Convém, porém, esperar ás de 
Th. Koch, que actualmente se occupa nos rios Maupâ e Içana. 

As linguas do grupo Betoya são pouco conhecidas, mas 
Brintrn deu com material moderno o esboço de um dialecto co^ 
reguaye ou p)^oye {Am, ph. ass. 7 Philadelphia, 1892). 

Entre as singularidades ethnographicas das tribus Maiipts 
cumpre mencionar o cylindro de pedra perfurado que orna o 
peito do maioral, assim como as mascaradas peculiares, cujo centro 
forma um demónio personificado como heróe solar ou cultural. 

Chamam-no geralmente Yiiritpari, designação tcmada á lingua 



— 303 — 

eeral e falsamente identificado cem o diaLo pelís missionários, 
Devemos a Btradelli uma exjDOsição aprofundada do mytho e dos 
usos antiquados desta festa, que, entretanto, está pedindo com 
urgência novo exame. (Bui. Soe. geog. italiana, 95 p. 223 o 
seg. 1890). 

Ha também communiáações importantes de Collini, segundo 
informações do padre Coppi, na mesma revista de 1884 el889. 

No médio e no baixo Yapura, Martins menciona os Mininlias 
ou Júris como tribus de filiação não clara. Os Miranha eram 
então um povo de corço, bárbaro, aífeito á antbropopbagia, 
caracterizado exteriormente por botoques nas narinas que assim 
ficavam monstruosamente alargadas, e cinto particular de embira 
semelhando funda hemiaris. Apezar da rudeza de seus costu- 
mes, não ba testemunhos desfavoráveis a seu caracter e é afamada 
sua perícia nas artes de tecer e trançar. Desde a visita de Martins 
em 1820 são apenas mencionados ligeiramente por outros viajantes. 

Sua lingua, rica de ásperos sons gutturaes, é conhecida 
apenas por vocabulários de dous dialectos. Por ora não se pode 
subordinal-a a algum grupo maior, mas ha affinidades phoneticas 
com a lingua dos Júris, que moravam rio abaixo e cm tempo de 
Martins eram seus inimigos. Destes apontara-se como caracte- 
rísticos a tatuagem negra da boeca e o uso de escudos de pelle 
de anta. Também sobre elles faltam noticias frescas. Ligação das 
duas tribus com o grupo dos Betoyas, que admitti em 1891, é sem 
duvida possivel, mas até agora absolutamente indemonstravel. 

Nas solidões do Equador oriental, desde as abas dos Andes 
até os rios Napó e Maranon, são mencionadas numerosas tribus 
que, ao parecer, podem ser reunidas nos dous grupos principaes 
de Zaparos e Jivaros. Alguns, com os Kototos e Tautapishitos, 
parecem parentes dos Pioyes, são portanto Betoyan ; outros, como 
03 Amishiris e Lagartocaehes, mencionados por Hervas, devem* 
se contar entre es Iquitos. 

Como os ZaparoSy chamam-se também Xeheros, têm sido 
muitas vezes confundidos com os Jivaros, 

Os Zaparos, de que Brinton dá não menos de cincoenta 
e sete r.omes de tribus, habitam em região bastan'e baixa entre 
o Napó e o Pastassa, estendem se também pelo Morona atè dar 
no rio Maranon. Foram descriptos por Osculati em 1851 e mais 
tarde por Simpson. 

Em plena independência e geralmente hostil vive ainda o 
grande g upo dos Jivaros, dividido também em numerosas tribus. 
Entre o Pastassa e o Morona, de 2.** até 4.° S. As subdivisões 
mais importantes são os Muratos, Antipas, Aguuranos, Aynlis, 
itucaUis e outros. 

Também ao Sul do Maranon Herudon indica ainda tribus 
Jivaros, cuja affinidade não está, porém, apurada. 

Já ao expirar o século XVI os Hespanhóes tentaram de- 
balde sujeital-os : comtudo ainda hoje existe uma estação em 



— 304 — 

Macas no alto Pastassa, donde viajantes europeus têm penetrado 
até elites (Cf Reis^, Verh. d. Ges. fur Erdkunde zu Berlin, 1880). 

Sua peculiaridade ethnographica mais importante sào seus 
trophéos, cabeças de inimigos preparadas com refino, que depois 
de retiradas as partes ósseas reduzem-se pelo encolhimento ao 
tamanho de um punho. 

De sua lingua Brinton lançou um esboço {Studies, p. 21), 
segundo materiaes recentemente publicadas. 

5. Território do Maraííon e de seus affluentes meridionaes. 

No alto Maranon, no baixo Huállaga vive ainda uma por- 
ção de tribus avulsas, de affinidade indeterminada, que em parte 
já nos séculos XVI e XVII estiveram sob a influencia das mis- 
sões, ma- nem um passo deram quanto á cultura. 

A elles pertencem os Ticunas, conhecidos por suas dansas 
mascaradas descri ptas por Spix e Martins, e também como pre- 
paradores de frechas envenenadas ; 

os Yahuas, que, segundo Brinton, reunem-se em grupos aos 
extincros Pebas e Canauris\ 

08 Lamas e James, descriptos por Poeppig ; 

no baixo Huállaga os Cholous e Hibitos, de cuja lingua 
tratou Brinton, segundo material inédito em seus Studies, p. 30 ; 

e finalmente os Lorenzos, nomeados pela primeira vez em 
1880, segundo Ordinaire são restos dos Amages e Carapochos, 
encontradas no século 18.*' por missionários no valle de Pozuzo . 
Vivem ainda era pura idade de pedra nos rios Palcassú, Pichis 
e Chuchurras, Sobre sua lingua nada se sabe. 

Panos. — O grupo dos Panos compre hende uma porção detri- 
bus da matta per lana oriental, principalmente no Ucayale e Ja- 
vary, mas também derramados pelo alto Juruá, o médio Madeira, 
assim como o Beni e Madre de Dios Entre elles assistem em 
território peruano Aruakes, Campas e Piros, em território boli- 
viano os Taça nas e seus parentei. 

As tribus mais essenciaes sào : 

no Ucayale os Conibos, entre osquaes já houve missões no 
século XVII, que pruco lograram para civilisalos : usa-se entre 
elles uma espécie de circumeisão barbara dr.s raparigas ; 

os Cassivos, selvagens e cannibaes, no Aguaitea e Pssqui, e 
08 Setibos e Sipilos entre o Huállaga e o Ucayale, seus parentes ; 

no Javary os Majorunas, egualmente selvagens, que furam o 
canto da bocca e as azas do nariz para introduzir conchas e 
ornatos de pennas, e usam grandes lanças de arremeço, mas 
também a zarabatana. 

Dos Panos que habitam o alto Juruá só modernamente che- 
garam-nos noticias. 

No extremo de sua memorável viagem, Chandless chocou-se 
com os Nauas, armados de escudos. Desde a penetração dos 
seringueiros por aquellas devesas ficámos conhecendo nas cabe- 
ceiras do Juruá, do Tarauaca e do Emvira outros representantes 



— 305 — 

deste grupo, os Caxinanas, Xanindanas, Jaminaiias, de que chega- 
ram também objectos ao Museu de Berlim. Também estas tribus 
usam escudos de couro de anta, como os muitas vezes mencio- 
nados entre as tribus orientaes no tempo da conquista {Glohus^ 
vol. 93, p. 335) Estes territórios estão pedindo uma inves- 
tigação o mais breve possivel, pois o commercio da borracha e 
a pega de encravos já estão implantados nestes territórios lon- 
ginquos, depravando os indígenas e ameaçando-lhes a existência. 

Pouco sabemos sobte os Hustxipazis ro alto Punis, os Siria- 
niris, no Madre de Dios e os Caripunas, no alto Madeira, com 
quem, entre outros, entrou em contacto Keller-Leuzinger 

Pasí-am por meios civilizados os Paca gtiaras, no hãixo Beni. 

Boas descripções das tribus dos Panos e do seu habito eth- 
nographico devemos a Lucioli e Colini (Bui. Soe Geog. Ital,. 
1883), a Ordinaire {Rev. de Efhn., 1887). Das lingua? Panos 
tratou B. de la Grasserie. Cong . des Americanistes, de Berlim, 
p. 435 

6. Baixada boliviana e cabeceiras do Beni i Madeira. 

Tacana. — As tribus do giupo Tacana, entre os rios Beni, 
Madeira e Acre, foram visitadas por missionários desde o século 
XVII, mas só modernamente, depois de devassados os seringaes 
dalli, foram sendo conhecidas, graças ao Americano Heath, ao 
Brazileiro Coronel Labre e ao missionário boliviano Armentia, 
Brinton tratou linguisticamente do grupo em seus ^tudies. Além 
de algumas tribus extinctas, dá como principaes representantes 
os Araonas, Cavinas, Equino, Isanamas, Maropas, Taca.no, Sa- 
bipocomas, e Pucapacuris. de que grande parte já estava con- 
vertida ao christianismo em tempo de Orbiny 

Por selvagens pa?sam ainda os Toromonas e Araona. Cons- 
ta que, em vez de jangadas, usam de balsas. Labre e Armentia 
faliam em seus templos ou casas de meisinha, em que estão ex- 
postos Ídolos feitos de madeira ou pedra, assim como do seu 
culto dos espíritos da natureza. Informações mais exactas seriam 
desejadas com soffreguidào E' possivel que se contenham aqui 
restos de antigo culto peruano, pois está provado que os Incas 
avançaram postos para es-ta banda. 

A Bolivia oriental hospeda, além de tribus aritaks e tupis, 
ainda uma série de poviléos de espécie particular, de que, porém, 
só dous têm alguma importância, isto é, os Yurakarés e os Ch~ 
quitos . 

Dr. Paulo Ehrenreich. 

Po Ârch. f. Ânthropologie, de Brsxinschweig) . 



DOCUMENTO IMPORTANTE 



SOBRE A ANSELMADA 

Ulmo. e Exmo. Senhor: — A camará municipal da Franca, 
com |>lena satisfação, leu o officio de v. exa. de 5 de Dezembro 
em solução ao seu de 23 de Novembro, do qual coUige por 
suas cândidas expressões quaes os bons sentimentos de v. exa. 
a respeito de toda a provincia, mencionando este municipio, o 
qual, com o devido respeito, tem chegado a tão lamentável pon- 
to como se levou ao conhecimento de v. exa., pelo abandono 
em que esteve pelos antecessores de v. exa., ou por illudidos 
ou por darem azas aos aggressores primeiros da boa ordem e 
tranquillidade, prestando-lhes escandaloso apoio. 

Louvores incessantes deveremos dar de hoje em deante 
se a influencia da auctoridade de v. exa. cooperar constante 
em que só a lei se observe aqui e não como d'antes, arbitrarie- 
dades de empregados e de particulares mal intencionados, in- 
fluentes nestes por seus ardiz, imposturas e liberalidades do que 
possuiam ou do alheio que administravam. 

Vamos cumprir com a ordem de v. exa. de informar sobre 
os pormenores dos próximos acontecimentos, os quaes, tendo pro- 
fundas e antigas raizes, são chronicos; e como será preciso re- 
montar á sua primeira origem, estudando em tudo resumir o 
mais possivel, não poderemos evitar ser extensos e causar enjoo 
a V. exa. ; mas este se suavisará com o sincero desejo de v. 
exa. de sanar radicalmente nossos males e felicitar nosso des- 
venturado solo. 

Povoado este sertão de gentes agricolas, a boa harmonia 
por annos habitou nelle, as dissensões eram pequenas e poucas 
entre os habitantes e com facilidade se conpraçavam (1) e só 
forasteiros prófugos, que aqui paravam algum tanto, é que pro- 
duziam alguma inquietação e alcunhavam a Franca de re- 
voltosa. 

Para desgraça e atrazo do paiz, que muito ia florescendo, 
entra na cabeça de alguns inexpertos elevar este logar á cate- 



(i) Povoação fundada á beira da antiga estrada de S. Panlo a Goyaz, tinha seu 
eommercio e lavoura e foi erecta etn freguezia em 1P04, com o nome do Franca, em 
bonra ao capitão general de então, António José da Franca e Horta. 



— 307 — 

goria de villa (1), para que nem ainda nestes quarenta annos 
será capaz porque, tendo muita gente boa, lhe falta os predica- 
dos de civilização e instrucção para entrar em cargos e empre- 
gos públicos. 

Cria-se a villa e attrabem-se tratantes de subtis ardiz, 
afftíctando conhecimentos de chicanas judiciaes, embrulham os 
povos, intrigam-n'os, absorvem os seus cabedáes, desgostara-n'os 
e muitos se auzentam, e vae a população minguando, o com- 
mercio definhando e o termo cahindo em pobreza. 

Um Thomaz Carlos de Souza, velhaco e capa de velhacos, 
encarregado pelo ouvidor Freire, que veiu criar esta villa, da 
direcção delia, lhe dá o provimento de escrivão da camará pa- 
ra melhor influir (2). Principia a ter aqui uma voz activa, a 
que todos se submettem por ignorantes, condescendentes e tí- 
midos ; sobe a melhor fortuna, é nomeado collector, deixa o oífi- 
cio, cobra sem livros de assentos, gasta do que lhe vem á mão 
com profusão, compra amizades com os seus donativos, entra em 
todos os negócios bons e máos com triumphcx, aggrega mal in- 
tencionados e quantos dispostos a serem agehtes de suas iní- 
quas vontades, e são só elles e este os que tem cabida nesta 
villa; violam as leis, praticam hostilidades, violências e toda a 
sorte de desatinos, e se algum ha que queira resistir e oppor- 
se, por ser recto e justo, a calumnia e perseguições desabam 
sobre elle e ou ha de ausentar-se ou permanecerá com evidente 
perigo de vida, para o que bem poucos têm coragem e, des- 
animados, se desterram. 

Eis, Exmo. Senhor, a doutrina trilhada no paiz e eis a 
máxima dos sectários daquelle sanguinário, que as caballas delle, 
do ex-23refeito, seu intimo commensal, e de outros fizeram en- 
trar em cargos, como se fcz saber ao Exmo. Governo, mas sem 
efíeito algum, e muitos outros casos graves e horrendos de cada 
um deste? déspotas, também debalde (3). 

Permitta-nos, Exmo. Senhor, a sinceridade de aífirmar que 
também os gvovernos transactos são cúmplices nas desgraças do 
nosso município. Pombo e Cursino (4), aquelle juiz de paz e 
este de direito interino, creaturas de Thomaz e ex-prefeito, seus 
íntimos amigoís e discípulos, homens sem nascimento, sem edu- 
cação, sem alguma instrucção mais que adquirir por todos os 
modos, se entresram á direcção de um Luiz Gonçalves de Lima, 
de péssimas qualidades, porque foi este attrahido por aquelles 



(!) Foi elevad<a á villa em 1824 por Pedro I e dahi veio tomar a freguezia o 
nome de Franca do Imperador. Constituído o mnnicipio, cora as suas auctoridades lo- 
caes, parecia que os negócios públicos e particulares deviam melhorar, mas deu-se o 
contrario e a narrativa que segue demonstra de sobra os males que dahi resultaram. 

{!) Foi escrivSo da camará e depois fez-se vereador de lf<27 em diante, crescendo 
a, sua influencia na localidade. 

(3) Aqui se referem factos sem determinar o anno, tornando a narrativa um tanio 
obscura . 

(4) Manoel Rodrigues Pombo, juiz de paz e José Cursino dos Santos, juiz de di- 
reito interino ; aquelle foi assassinado e este tugiu. 



— 308 — 

dois donos da terra, dito Thomaz e ex-prefeito para também os: 
coadjuvar nas suas manobras abomináveis ; mas, ausentando-se- 
um e encolhendo-se o outro na sua fazenda por ter decabido. 
do cargo com triste nota, ficou aquelle Lima só influindo e 
conseguiu ser director de todos os juizes da villa, de todas as^ 
repartições. 

Insuflou erróneas máximas e desgraçadas naquellas estúpi- 
das cabeças, tanto para sustental-o como para perseguirem aos 
que a elle e estes detestavam e não bajulavam ; praticam tor- 
turas e ab-?urdos, procedem sem causa e por vingança, calum— 
niam, insultam e prejudicam. Recorre-se ao Governo ; irritam- 
se com isto os despostas e não respiram senão vinganças, muito 
especialmente contra Anselmo Ferreira de Barcellos e seus ami- 
gos, por elle e estes procurarem no seu manancial a boa ordems 
e a observância exacta das leis vigentes. 

De tudo mofam os sobreditos ; requerimentos contra elles^ 
feitos e a que se ordenou respondessem, elles não só não res- 
pondem, se não os consomem a ponto de mais se não saber 
delles. Não satisfeitos com isso, machinam assassinar aquelle 
Anselmo e outros e já quasi sem rebuço não falam senão em. 
matar, e convocando uma familia de Freitas, bomens notoria- 
mente facinorosos, moradores na extrema da provincia das Ge- 
raes, de nós próxima, alguns da familia de Barbosas, aqui re- 
sidentes, cuja primeira figura é António Barbosa Sandoval, que 
se diz rico e que só por esta qualidade e nenhuma outra, pois. 
nem sabe escrever, nem ler e por isso já pela camará transacta 
foi excluido da sua corporação, e nem tem morigeração alguma^ 
mas comtudo, por milagre do suborno ainda obteve grande nu- 
mero de votos não só para vereador, como juiz de paz, este 
bomem tão babil tudo abarcou e bem lhe custou abrir mão da 
juizado de paz e ficar só na vereança, tendo por vezes servido^ 
de presidente da camará e nestas occasiões desempenhando a 
seu modo o que se tem oíferecido. Com taes malucos e outros 
facinorosos por aqui dispersos infestavam ba muitos mezes as 
estradas, as visinbanças da fazenda de Anselmo e mais sitios 
para o matarem, e com estes dispendiam grossos dinbeiros entre 
os três, Pombo, Cursino e Barbosa, os quaes tinbam frequentes 
entrevistas com elles nas casas de algum dos três, e estes cur- 
savam pela villa de noite e de dia, encbouriçados de armas, 
pois eram os valentões dos senbores juizes e de Lima, seuL 
director. 

Temos tocado o ponto que deu causa a Anselmo, despe— 
rado, pois se viu limitado ba muito tempo a viver recluso em 
sua casa para evitar a morte, a fazer entrada nesta villa com 
gente armada e de dia, com o projecto de vingar- se de taes 
prevaricadores das leis divinas e bumanas e cuja força só outra, 
força podia repellir, como era opinião de todos. 



— 309 — 

Ora nesta reunião de setenta e tantos homens (1) não era, 
'«orno affirma o cel^^bre juiz de direito interino, a maior parte 
'Criminosos, mas somente três pronunciados bem ou mal por 
suppostos ou leves crimes, e nem houve morte alguma, mas 
sim um tiro em um temerário, que com o enthusiasmo de fiscal, 
digna escolha dos sentimentos do ex-prefeito, quiz fazer cara 
'(2); está vivo e só ficou alguma cousa estropeado, e isto a con- 
itento de poucos que antes o desejavam morto por ser ma) visto. 

Sobre o resultado disto por não sermos mais extensos, re- 
mettemos a representação dos povos, que a confirmamos exa- 
■ctissima. 

Depois da conciliação, solicitada pelo traiçoeiro Pombo, tudo 
-quanto era sincero ficou tranquillo e socegado, mas não assim 
as duas boas almas do dito Pombo e Cursino e talvez algum 
«lais da sua panella. Pombo, casando uma filha rnuito á capucha, 
só se lembrou de mandar convidar o Anselmo, a titulo de ami- 
-izade para as bodas por uma carta e dispoz ciladas pura na vinda 
o matarem, o que é constante, e elle evitou esse perigo recu- 
san-io vir. Pombo, Cursino e seus aaí^eclas, saudosos do seu 
mandonismo, de que se demittiram (3), aproveitam a chegada 
Áo memorável José Ferreira Alvares, poucos dias depois, e como 
arado para toda a sorte de despropósitos, com a lejjalidade só 
na bocca e a arbitrariedade no coração, como tem dado muitas 
provas em todos os cargos que tem servido, se contrastam com 
-elle, vóz publica, por 800$00(', para outra vez os metter no 
•exercício de seus deixados cargos. 

Que fará tal tresloucado ? — Desatinos. 

Começa a bradar contra o procedimento de Anselmo, do 
«poucamento dos scelerados juizes que se demittiram, aturde os 
simples com horrorosa exposição da gravidade deste facto (4), 
<íoncita aqui e acolá para seduzir gente que lhe faça costas, 
illude criminosos com promessas de livramenio dos seus crimes, 
para virem desaffrontar a lei, calcada por isto aos pés, e com 
«ó esperança de vencimento de 1$000 diários aggrega os Frei- 
tas, que de pouco neste termo tinham feito três mortes, o que 
apezar de ser publico os não tolhia da entrada nas casas dos 
dois bons juizes de dia e de noite, armados; não faltam também 
^ coadjuvar alguns dos Barbosas, especialmente Manoel Barbosa 
e seu filho Lucas Barbosa, ao lado de Chico Ribeiro e António 
Joaquim, dois malfeitores públicos, e com este luzido povo 6 
alguns rústicos, que fizeram avultado numero no dia 31 de Ou- 
tubro, dão vivas ás duas auctoridades • reintegradas nas suas 



(1) Estes setenta e tantos homens eram sectários de Anselmo e com elle entraram 
■na villa a 27 de Setembro de 1838. 

(2) Na occasião houve só esse ferimento na pessoa do fiscal, que se chamava Cle- 
anentino José de Oliveira ; mas antes e depois houve mnrtes. 

(3) Haviam-se demittido anteriormente por accôrdo feito com Anselmo. 

(4) Havia realmente certa gravidade no tacto das auctoridades se demittirem por 
Imposição de Anselmo, em accôrdo feito sem liberdade para os emissionarios ; mas se o 
-accôrdo tivesse sido observado ter-se-ia evitado a desordem. 



I 



— 310 — 

fiincções, caturdem a villa com rumores assustadores, vao ao 
quartel com gente armada arrancar o tenente commandunte e 
soldados para se reuuirem a elles e sem respeito algum tomam 
as armas e correame lá depositados e logo partem a entrar pe- 
las casas de todos, a saquear todas as armas de qualquer quali- 
dade, que achavam, chumbo e pólvora que encontravam, ou 
ameaçavam de morte para se lhes denunciar e entregar, não 
escapando nem as casas de negocio, demais do mais pobre par- 
ticular. 

Feito isto se entrincheiram em um sobrado de António Bar- 
bosa Sandoval : para lá recolhem, á força de armas, quantos 
encontram, homens velhos, moços e doentes que sejam ou pas- 
sageiros, empregados e auctoridades, munições e armas appre- 
hendidas, e o digno chefe do motim, o Teixeira, exhortava a 
todos a prestarem-se valorosos, assegurando -lhes assim a victoria 
*' e ser delles o saque. 

Nestas expressões que queria significar aquelle cabo de 
gueria nulla e sem inimigos á frente V 

Que despovoada a villa, como ia ficando, pelo terror incu- 
tido, se saqueariam as casas sem perigo e elle e alguns delles, 
cujas fortunas estavam banidas, se afortunariam assim. 

Foram principaes agentes nesta galante scena o chefe Tei- 
xeira, Pombo, Cursino, Barbosa, dono da casa-quartel, Simão 
Ferreira de Menezes, commandante interino do batalhão, Jacob 
Ferreira de Menezes, capitão da guarda nacional, o notável 
Manoel António de Azevedo, capitão de policia e creatura do 
ex-prefeito, António Francisco Lopes, por curioso, pois nada é e 
será sempre, Manoel Barbosa Sandoval e seu digno fiilho Lucas, 
o musico Manoel Francisco Corrêa do Lago, que se tem feito 
muito distincto naquillo em que tem muito mal servido e que 
então se empregava em secretario da camará, por estar o actual 
enfermo, e poucos outros do povo, mal intencionados, que os 
bons não perdiam occasião de desvairar e fugir delles até os 
deixar quasi no todo sós. 

Foi exquisita a lembrança que teve aquelle atordoado chefe 
de convocar a camará, qne, dizia, estaria em sessão permanente 
para deliberar o que se devia obrar a bem seu, como despachar 
partes a v. exa. e aos municípios visinhos, até de extranhas 
províncias e para defesa; mas não se realiza contra quem, pois 
nenhuma opposição tiveram. 

Também é digno de muita attenção ponderar quaes os ve- 
readores daquella extemporânea camará nocturna e diurna : — 
. Teixeira, Simão Ferreira, Pombo e Barbosa, voluntários e An- 
tónio Joaquim da Silva, Manoel de Meiíelles Freire e José Luiz 
Cardoso, forçados; e forçados e cercados de homens armados 
deliberavam, annuiam e assignavam quanto se lhes apresentava, 
fechados dentro da sala em que se aquartellavam e permane- 
ciam os sediciosos, disparando armas sem precisão, voseando em 



— 311 — 

tumulto e distribuindo ordens para se ir buscar este ou aquelle, 
com pena de morte se repugnasse, e dizia o celebre Manoel 
António que de lá o queria ver cabir, como depoz José Luiz 
Cardoso na ultima sessão á qual foi convocado e consta da sua acta. 

Que bravo guerreiro ! 

Em todos estes factos não podemos negar o supposto de 
ter o dr. José Innocencio de Campos, então aqui residente, al- 
guma parte, pois entrou logo com um aferro escandaloso a pres- 
tar-se aos dois juizes, por quem era assalariado a assessoral-os 
e a mettelos em boas, como foi na reunião do jury a que pre- 
sidiu Cursino e elle assessorou, condemnar á perda da metade 
da fiança, por não comparecer na primeira cbamada, o sargento- 
mór José Joaquim do Carmo, a quem elles tinbam má vontade, 
e tendo depois comparecido sentenciar elle o não ter logar o 
julgamento daquelle auto nc jury por ser incompetenttfmente 
accusado pelo promotor, mas permanecendo sempre a pena da 
perda da metade da fiança, de que o não absolveu ; e logo findo 
o jury foi o dito Carmo, á ordem do juiz de paz Pombo, con- 
duzido com escolta á sua presença, apresentou-se José Ferreira 
Telles de Menezes para lhe ser parte no mesmo crime fantásti- 
co e o sobredito dr. Innocencio por seu procurador, onde disse 
e fez o que quiz e alli mesmo assessorou a Pombo para o pro- 
nunciar, e immediatamente foi recolhido á cadeia, de onde sò 
sahiu prestando nova fiança e se conserva até agora criminoso. 

E' espantosa e incrível a marcha tortuosa da Franca e 
muito mais extranha quando em taes actos se vê um homem que 
se diz doutor ! 

Exmo. Senhor, rão tantas as circumstancias aggravantes e 
tresloucadas de tal caterva que mencional-as todas seria um 
nunca acabar; v. exa. teria um immenso trabalho em correr 
por ellas os olhos e com nojo e enjoo as veria, sendo factos 
verdadeiros praticados por individuos que, com altas vozes, di- 
zem, mas só dizem, serem constitucionaes, liberaes, cidadãos bra- 
sileiros, amantes da lei, etc, etc, etc. 

Vamos esclarecer a v. exa. sobre a segunda entrada de An- 
selmo na villa, com gente armada, ponto importante e melindroso. 

Resj^irando dias antes a agitação dos desordeiros e seus 
esforços para ajuntarem gente, maliciaram alguns ser para car- 
regar com insultos sobre Anselmo e vários o avizam se prepare 
para repellil-oR. Assim o faz, convocando gente á sua compa- 
nhia e, corajoso, espera os bravos sandêos em sua casa; porém 
elles não eahem na esparrela e só projectam guerra menos pe- 
rigosa, qual foi o de atterrarem immensoraveisa madeiros que 
figuravam Anselmo, e por muitas vezes gritando como ébrios ou 
realmente taes: 

«Morreu o Anselmo, espedasse-se o Anselmo, esfole-se o 
Anselmo» e outras parvoíces, que applaudem e fomentam os 
cidadãos por alcunha legaes-, mas traspassados de medo de ver 



— 312 — 

na realidade Anselmo, nao lhes escapam segurança e cautela 
que não tomem e até têm a miserav^^l lembrança de, vindo elle, 
encerrarem se no sobrado, a que chamavam «Passo da legalida- 
de», e de lá fazer fogo de portas e janellas ^chf-das, para o 
que furaram as paredes da casa por todos rs lados para mette- 
rem as armas a corpo coberto ; e é exhibição ter sido o mesmo 
dono da casa, António Barbosa, quem com uma zagaia apontava 
o logar onde fizessem os furos e a cada volta protestava que 
não queria violnr a concórdia que tinha feito com Anselmo. 

Que camel^'ão ! 

Ao cabo de cinco dias perdem de todo o animo de mais 
esperar com risco e se salvam com dispersão em fuga, o que 
deu logar a dizer-se que foi por acabar se o espirito da eanna 
que os animava, e só permanecia uma quadrilha vagante de 
Manoel Barbosa e seu filho Lucas, Chico Ribeiro e António 
Joaquim, que insultam quantos encontram na villa e seus arre- 
dores, a ponto de dar logo a recear-se que pretendiam, despo- 
voando tudo, roubar a seu salvo 

O juiz de direito interino, que também se tinha occultado 
para escapar a insulto ou morte, constando-lhe tudo e o perigo 
e sobresalto dos povos, certo de que Anselmo tinha gente prom- 
pta, lhe dá um portaria, cuja cópia se ouvia, para vir guarne- 
cer a villa e defe-ndel a, visto que tudo estava aterrado e as 
auctoridades todas sucumbidas e dispersas. 

Entra no dia 9 de Novembro, pela madrugada, na villa ; 
com sua chegada se lhe unem os habitantes delia, gostosos, e 
no mesmo dia se abre as casas e negócios e em carradas se vem 
a ella rec<'lhendo a-5 famílias fugitivas. O socego e satisfação 
principiam a reinar na villa e em todo o termo e neste estado 
se CO serva até ao presente, que elle tem continuado com sua 
gente a manter a boa ordem, dia e noite, patrulhando gente 
armada para conter os traçoeiros em ciladas, dispostos a empe- 
cer a quanto deile fosse (1). 

Foi raro o caso acontecido no dia 11 do mesmo mez : Logo 
depois do meio dia, estando Anselmo e parte da sua gente no 
seu quartel, apparece Chico Ribeiro, matador de profissão, á 
porta do quartel, tendo antes de chegar inquirido muito por 
Anselmo a vários, de espingarda já armada, pistola no cinto, 
ferro e faca núa nos coldres, e perguntando por disfarce por 
um tal homem; mas, sendo reconhecido quem ei:a e sabendo se 
o fim a que vinha, um camarada lhe deu um tiro, e chegando 
a este tempo Anselmo á porta, vendo o elle e já indo cahindo 
do cavallo, ainda bateu para a sua parte o cão da espingarda, 
que &ó rebentou a espolota e negou fogo, pelo que lhe deram 
outro tiro, com que espirou logo., ; 

(1) A redacção está obscura; parece que deve ser «procurando empecer a quantos 
áelles tossem», isto é, a quantos fossem do numero dos traidores . 

, • ) N. do C. 



— 313 — 

Também man'íou-se dar caça á guerrilhita dos três que 
restavam, Manoel Barbosa, Lucas Barbosa e António Joaquim, 
que pelos espigões de campo perseguiam aos que encontravam, 
perguntando qual partido seguiam, sendo encontrados, também 
a tiro morreu este António Joaquim, também matador famoso ; 
Lucas foi ferido, mas consta que não perigou e está de fuga, e 
seu bom pae nada teve por se ter na occasião separado deli es. 
Desde então nada mais alterou a tranquillidade e socego, 
nem dentro nem fora da villa, e todos bemdizem a Anselmo por 
sua coragem, vigilância e energia de providenciar. As aucto- 
ridades exercem livremente as suas funcções e cada um do povo 
suas occupações úteis. Este é o quadro actual da villa da Fran- 
ca, que toda nestes gosos, torna-se a dizer, bemdiz a Anselmo 
e sua gente, de que não só não tem recebido damno, mas antes 
benefícios. 

Resta-nos inteirar a v. exa., como exige, quaes os cidadãcs 
empregados e de que maneira. 

E' juiz de direito interino o padre João Teixeira de Oli- 
veira Cardoso, que, occupando o cargo de juiz municipal e re- 
cebendo a 28 de Setembro oííicio do juiz de direito interino 
Cursino, que estava impedido para continuar naquelle cargo, 
que a elle por lei competia, o começou a exercer e na sessão 
de 1.** de Outubro assim o participou a esta camará para no- 
mear juiz municipal que lhe succedesse, o que se fez e foi 
eleito o sargento-mór Verissimo Prado de Arantes, a quem se 
(fficiou, e acceitando, mas não podendo vir logo tomar posse e 
juramentar-se por incommodos domésticos, veio dias depois, quan- 
do poude, e como o presidente da camará está auctorizado para 
em casos taes elle só dar esta posse, pois é diífí il a reunião de 
camará por estarem os vereadores dispersos e desgraçadamente 
estando já Teixeira na terra e ser elle por mais votado o pre- 
sidente, apresentando-se-lhe, este já de animo disposto á desor- 
dem, com pretextos frívolos, se negou a dar lhe posse, e os que 
o tem substituído no seu impedimento, conhecendo que elle não 
tinha impedimento algum, também se negaram a isso, de ma- 
neira que tomou o dito sargento-mór a resolução de recolher-se 
á sua fazenda até ser de novo chamado, e sendo o na sessão de 
22 de Novembro tomou posse e está exercendo, como já temos 
a v. exa. participado a 23 do dito mez. 

E' também preciso que v. exa. saiba que Cursino desap- 
pareceu daqui ao mesmo tempo com os seus comparsas. De 
juiz de paz está servindo Matheus Ignacio de Faria, a quem 
compete por morte de Pombo e impedimento de outros. Pro- 
motor é interinamente Joaquim Pedro de Gouvêa. 

Aííirmamos a v. exa. termos dado as providencias que nos 
recommenda para o bom commodo da guarnição das praças que 
nos envia e com tanto gosto quanto temos de reconhecer nisto 
um penhor, que nos dá, de que termos de agora em diante a 



— 314 — 

ventura de ser este município olhado com benignas vistas pelo 
nosso Exmo. Presidente, bem de que ha muito estamos priva- 
dos e por isso a nossa decadência tem subido a ponto alto e 
nossos males se tem tornado cancerosos. 

Firmado o nosso juiz de direito nesta certeza de v. exa. 
pôr aqui uma guarnição imparcial e com brevidade, determina 
despedir Anselmo e sua gente para irem cuidar dos seus inte- 
resses e apenas ter postado a sua ordem alguns dos guardas 
nacionaes do logar, só para evitar algum excesso que possa sur- 
gir dos mala fectos. 

Agora, sim, estamos esperançados de que só as leis serão 
o norte das auctoridades, e ellas não exorbitarão, nem saltarão 
seus limites, e os caprichos, ódios e vinganças mais nunca terão 
ascendência sobre algum e as ordens de v. exa. serão por todo 
este município observadas e cumpridas com fiel rerpeito. 

O Céo nos conserve a v. exa. nesta província por muitos 
annos no goso de todas as prosperidades. Villa da Franca do 
Imperador, em sessão extraordinária de 20 de Dezembro de 
1838. — Ulmo. e Exmo. Sr. Presidente da Província. — João Luiz 
Affonso Salgueiro. — Francisco António da Costa, — João Garcia 
Lopes da Silva. — José Bernardes da Costa Junqueira, — José 
Luiz Cardoso' — António Francisco Junqueira, — António Ferreira 
da Rocha, 



•«oOO^o«- 



A BANDEIRA DO BRASIL 



\ 



i 



«Em qualquer assumpto é livre a manifestação de pen- 
samento pela imprensa, ou pela tribuna, sem dependên- 
cia de censura, respondendo cada um pelos abusos que 
commetter, nos casos e pela forma que a lei determinar. 

Não é permittido o anonymato». 

Constituição dos Estados Unidos do Brazil, de 24 de 
Fevereiro de 1891, art. 72, § 12. 

«Nós somos republicanos e uma das virtudes da re- 
publica deve estar no amor á verdade e á justiça» . 

Sylvio Roméro, A historia do Brazil ensinada péla 
hiograyhia de seus herdes, liv. V, cap. IV, pag". 97. 

«^'allég-orie tue le symbole, la prose la poésie » 

Jean Micbelet, Histoire de France, tom. 4.**, liv. V; 
cap. IV, pag. 100. 

«Diz-se que uma das mais bellas missões da imprensa é 
defender a boa razão, a arte, e a honra e gloria da pátria.» 

Alex. Herculano, Opúsculos, tom. 2°, pag. 5. 

«Ce n'est pas un droit, c'est un devoir, étroite obliga- 
tion de quiconque a une pensée de la produire et mettre 
au jour pour le bien commun . La vérité est tout á tout. 
Ce que vous connaissez utile, bon á savoir pour un 
chacun, vous ne le pouvez taire en conscience. 

«Car, si votre pensée est bonne, on en |)rofite : mau- 
vaise, on la corrige, et Ton profite encore.» 

Paul-Louis Courier, (Euvres completes, tom. 1.**, pag. 
425 e 426. 

I 

Segundo consta (pelo que, opportunamente, noticiaram jor- 
naes), ora se pretende, mais uma vez na republica, substitutir 
ou modificar a bandeira do Brasil. Tendo em vista esse fim, 
bem como a regulamentação de matéria congénere, ha tempos 
foi apresentado, á Camará dos Deputados Federaes, um projecto 
de lei, o qual ainda alli se acha, á espera da «ulterior delibe- 
ração» (1). 

1 Veja-se o Diário ão Congresso Nacional, annexo ao Diário Offici&l da União, de 9 de 
Julho de 1905. 



— 316 — 

Ao nosso ver, similhante assumpto, verdadeira e intrinse- 
camente nacional, é da mais viva relevância e dum especia- 
lissimo interesse. Para decidíl-o, o Congresso, si lhe não pode 
consagrar a attençâo, deveras preciosa, de ordinário malbaratada 
nas improfícuas e tumultuosas questões individuaes, também não 
deve conceder-lhe, apenas, o soberano e lamentável pouco- caso 
com que, numa azáfama prejudicial, soe votar os orçamentos de 
ultima hora . . , 

E' que se trata do nosso pavilhão, suprema synthese da 
Pátria, «palladio í^acrosanto do patriotismo» (1). á cuja sombra 
todos nós, os brazileiros. nos abrigamos, sem distincção de par- 
tidos e de crenças, no cultuar do mesmo symbolo querido ! Por- 
que a bandeira nacional (preciso é que se proclame) não repre- 
senta, privativamente, o estandarte da republica, mas sim, uni- 
versalmente, a bandeira do Brasil! Dean te desse lábaro sagrado, 
todas as paixões se livelam, todos os ódios se arrefecem ! E' como 
a própria imagem da Pátria, que ^e eleva, suspensa, no alto... 

Com ser o auctor deste escripto um brasileiro nato (sem 
duvida obscuro, pouco importa, mas naturalmente devotado ao 
seu paiz, para o que lhe assiste um direito, sinão, antes, um 
dever), julgou, de bôa vontade, algo transmittir sobre o oppor- 
tuno thema, que interessar pudesse aos demais compatriotas. 
E eil-as seguem, desprentenciosamente, essas considerações que 
lhe occorreram, fornecidas umas por estudos fáceis, resultantes 
outras de conceitos próprios, na supposição de que, attendendo á 
importância da matéria, as ideias, que por ventura este trabalho 
contenha, não cahirão assim como as sementes na terra safara... 

Quanto ao motivo que nos induz á publicação destas linhas 
(para uns, talvez, demasiado francas, mas, para todos, em ver- 
dade justas), convém se saiba não nos acaricia ou embala ne- 
nhuma velleidade enganadora, e apenas nos domina a gratíssi- 
ma satisfaeção, que sincera e vivamente sentimos, de exprimir- 
mos aquillo que entendemos jamais dever calar, quando se olha 
ao bem geral do povo brasileiro ! E, apresentando este modesto 
resultado do 'nosso esforço, vem de molde reproduzir o pensa- 
mento do poeta ; 

«Eu desta gloria só fico contente, 
Que a minha terra amei, e a minha gente. > Çl) 



A historia da bandeira nacional é, por assim dizer, a histo- 
ria do Brasil. Quem conhece a historia pátria, sabe que o nosso 
paiz, na sua evolução politica, desde o descobrimento, ha passado 
por diversas phases especiaes, que se reduzem a estas : Brasil- 
colonia, Brazil-reino, Brasil-imperio e Brasil-republica. E, du- 



1 Eduardo Prado, Ã bandeira nacional. São Paulo, 1903; introd. pag. é, 

2 António Ferreira, Poemas lusitanos, Lisboa, 1829, tom. l.*, pag 3. 



— 317 — 

rante essas quatro phases características, que, assim, também con- 
stituem verdadeiras épocas synthetizadoras dos nossos annaes, 
vejamos as insígnias que o Brasil tem tido, através dos tempos, 
na perpetuação desse uso convencional dos povos cultos (1). 

1.* PHASE. (Brazil- colónia). — No perirdo colonial, a ban- 
deira que primitivamente se arvorou, no Brasil, foi a bandeira 
branca, em que se estampava a bellissima e suggestiva cruz 
vermelha, da mui famosa ordem portugueza de Christo (2). Tal 
o symbolo glorioso que, antes de qualquer outro, Cabral hasteou 
em nossa terra, ao lado do altar erguido para a primeira missa, 
no ilhéo de Porto Seguro, na justa occasião de desnublar-se a 
encantadora plaga aos olhos ávidos do mundo, e que assas poe- 
ticamente nos evoca os romanescos e scintillantes episódios, tão 
celebrados nesses maravihosos tempos de Vera Cruz e de 
Santa Cruz (3) 

Não só no Brasil, como outrosim nos novos domínios de 
ultramar, simultaneamente com essa bandeira (a da ordem de 
Christo) e com aquella em que se via a esphera armillar ma- 
nuelina, usava-se uma outra, de egual modo branca e constituída 
pela coroa portugueza superposta aos escudos de Portugal e 
Algarves — armas essas que formavam o emblema antigo e supre- 
mo da metrópole. 

Quasi um século e meio depois do descobrimento, já feita a 
restauração em Portugal (1640) e apôs a batalha das Tabccas 
(1645), d. João IV conferiu a seu filho Theodosio o titulo, adrede 
creado, de «príncipe do Brasil» — denominação honorofica essa 
que, a partir dahí, se foi trasmittindo aos primogénitos dos reis 
e, além disso, herdeiros presumptivos da coroa portugueza. Des- 
de então, por esse acto, se elevou o Brasil á categoria de prin- 
cipado, muito embora honorário, na verdade (4). E ficou sen- 
do a sua bandeira particular : em campo branco, a áurea esphera 
armillar de d. Manuel — divisa que a este príncipe fora dada por 
el-rei d. João II, «quando lhe ordenara casa» (5). 

Taes foram, no deccorrer dos tempos do Brasil- colónia, as 
três príncipaes insignias que os nossos maiores viram tremular 
nestas aventurosas paragens, sem aqui nos referirmos (é claro) ás 



1 Neste trabalho, apenas apreciamos as bandeiras effectlvas e offlciaes que têm ha- 
vido no Brasil, durante as diversas phases politicas normaes, e não nos referimos ás transi- 
tórias ou imaginadas que appareceram adventiciampnte, como, por exesiplo : as da Inconfl- 
âencia Mineira, da Confederação do Equador, da Republica Rio-Grandense, etc. 

2 A noticia subre a Ordem de Christo vae publicada á parte. 

3 «Aly era com o Capitam a bandeira de Christos com que sayo de Belém, a qual 
esteve sempre alta aa parte do avamjelho.»( Carta de Pêro Vaz de Caminha a el-rei d. Ma- 
nuel, edição para o Instituto Histórico e Geographico da Bahia, pelo 4. o centenário da des- 
coberta do Brasil, Bahia, i9Ui). versão no portuguez da época, pag. 7). 

4 A respeito do principado brazilico, encont^a-se uma nota em separado . 

5 D. António Caetano de Sousa, Historia genealógica da casa real portuguesa, Lisboa, 

1737, (0 1.0 vol. é de 1735), tom. 3.°, liv. IV, cap. V, pag, 243; idem, ibidem, tom. 4.o, 

1738, liv. V, cap. IV, pags. 193 e 194; e Damião de Góes, Chronica do sereníssimo' se- 
nhor rei d. Manuel, Lisboa, 1749, l.a parte, cap. V, pag. 6. 



— 318 — 

bandeiras de outras nações que, de alguma sorte, dominaram no 
Brasil, nem tampouco ás bandeiras secundarias, como as navaes, 
mercantes, coloniaes, etc. (1). Todavia, consoante o nosso en- 
tender, é a bandeira da ordem da cavallaria de Christo — «signal 
de nossas spirituaes e temporaes victorias», na phrase do histo- 
riador João de Barros (2) — a que melhor caracteriza essa 
idealista e abnegada época da nossa historia, em que se procura 
estabelecer uma nova conquista e infundir uma outra fè... 

2.* PHASB (Brasil-reino) . — Quando Napoleão I, esse heróe- 
tyranno,' a esplender como um astro portentoso, preponderando 
em quasi toda a Europa e ameaçando o mundo com os seus so- 
nhos de conquista, fez invadir Portugal pelo exercito chefiado 
por Junot, viu-se a familia real, então pertencente á dynastia 
de Bragança, na contingência de abandonar Lisboa e acolher-se 
ao Rio de Janeiro, onde se installou o governo (1808), O prin- 
cipe-regente, ulteriormente d. João VI, comquanto viva a rainha 
mãe (aliás considerada incapaz de reinar), era, de facto, o rei, 
deixando o nosso paiz de ser colónia, a bem dizer, desde que, 
em boa hora para nós, chegou a corte ás plagas brasileiras. 
Apenas mais tarde porém (como se sabe), é que foi o Brasil pu- 
blicamente proclamado reino, pela carta de lei expedida do palá- 
cio do Rio de Janeiro, em Dezembro do mesmo anno (1815) (3) 
em que Napoleão I fora vencido e aprisionado em Waterloo... 

Em 1816, fallecida a rainha d. Maria I, elevou-se d. João 
VI, agora não só de facto, mas também de direito, ao throno do 
«reino-unido de Portugal, Brazil e Algarves» (A). A bandeira 
commum, que se adoptou para a nação assim constituída, foi 
ainda branca e de um tríplice brasão, com a coroa real sobre- 
posta : figurava, primeiro, o escudo portuguez. propriamente dito ; 
em seguida, o escudo dos Algarves ; e, por fim, a esphera armil- 
lar brasílica, sobre a qual se apoiavam esses dous (ò). Foi essa 
a bandeira que o Brasil usou, até á occasião da Independência. 

o.* PHASE (^Brasil-imperio). — E' geralmente conhecido csse 
período illustre dos nossos fastos, que começa com assignalar. 
perante os povos, a nossa emancipação politica. Também mui 
conhecida é a bandeira imperial, outr' ora tão celebre em Monte 
Caseros e Paysandú, em Riachuelo e Tuyuty, em Humaitá e 
Aquidaban, e cuja imagem o poeta, revivendo essa quadra que 
se foi, arrebatadoramento invocava nos versos populares : 



1 Relativamente ás armas de Portufral, lê-se uma pequena memoria destacada. 

2 João de Barros, Décadas da Ásia, Lisboa, 1752, vol. 1.°, liv. V, cap. I, foi. 86. 

3 Visconde de Porto Seguro, Historia geral do Brazil, cit., tom. 'i.", secção LI, pag. 
1103. Nessa mesma pagina, em nota. diz: «Dando-lhe por armas a esfera armillar ma- 
nuelina, com as quinas ; armas que jà encontramos no século anterior ; v. gr. em moedas 
da Africa portugueza de 1770 (l/i de macuta;. 

4 Carta de lei, de 13 maio de 1816. Veja-se António Delgado da Siva, Collecção 
de legislação portuguesa, Lisboa, 1825, vol. G.o, pags. 442 e 443. 

õ Vide nota, no ãm do trabalho. 



— 319 — 

A uri- verde pendão de minha terra, 

Que a briza do Brasil beija e balança, 

Estandarte que á luz do sol encerra 

As promessas divinas da esperança... 

Tu, que da liberdade após a guerra 

Foste hasteado dos heróes na lança, 

Antes te houvessem roto na batalha, 

Que servires a um povo de mortalha!...» (1) 

Essa foi a triumphante bandeira de Pedro I, o nosso eman- 
cipador politico, e de Pedro II, o imperador constitucional e 
defensor perpetuo do Brasil (2). A justa visão das cousas de- 
monstra-nos que ella possuia, antes do mais, dous méritos segu- 
ros e brilhantes: além de estheticamente apreciável, era logica- 
mente histórica. Porque, evocando a nossa natureza esplendida 
e fecunda, como o ouro exuberante do nosso sol e o verde glo- 
rioso da nossa flora, expressiva e conjuntamente representava: 
o Brasil-colonia, na cruz da ordem de Christo; o Brasil-reino, na 
esphera armillar de d. João VI; e o Brasil-imperio, na coroa 
imperial e no escudo respectivo, em que symetricamente se 
dispunham, em torno da orla azul, as estrella de prata, symbo- 
lizadoras das províncias de então. Cora respeito aos ramos de 
café e tabaco, que se viam unidos pelo laço imperial, melhor 
fora não os houvessem inscripto na bandeira ; porém elles sig- 
nificavam, nessa época (é sabido), uns dos principaes objectos 
do commercio brasileiro (o). 

Tal insígnia, como symbolo da Pátria, venerámol-a até ao 
dia 15 de Nevembro de 1889. 



II 

4.^ PHASE (Brazil-Republica) . — Com a proclamação da 
republica, evidentemente se justifica a mudança de bandeira, no 
sentido de serem abolidas as armas imperiaes, restrictamente 
consideradas, pois que ellas, por principio, não poderiam per- 
manecer. Eram como oráculos mudos, symbolos desvanecidos, 
emblemas abandonados. . . 

Fora mister, porém, dar ao Brazil uma bandeira, como a 
outra, eífectivamente nacional, modelada pelo mais puro patrio- 
tismo e consubstanciadora dos critérios neces^sarios á sua própria 
existência: isto é, uma bandeira que se baseasse na utilidade 



1 Castro Alves, A cachoeira de Paulo Ãffonso, Rio de Janeiro, parte dos « Manus- 
criptos de IStenio», poesia O navio negreiro, -^9,^. "léQ. 

2 Os decretos relativos aos symbolos e distinctivos imperiaes do Brasil acham-se 
publicados na Collecção de leis do Brasil, de 1822, Rio de Janeiro. 1887. 

3 O escudo das armas imperiaes do Brasil, ao tempo das dezenove províncias, vem 
descripto na obra de Victor Bouton, pintor heráldico e paleographo, intitnlada Nouveau trai- 
té des armoiries ou la science et V art du blason expliques, Paris, I8ri7, pag. õ06. 



— 320 — 

pratica, que possuísse esthetica, que tivesse bom-senso, que fosse 
justa, que se mostrasse amora vel para todos ! 

Ma«, não : começou, alii, uma serie de bandeiras curiosas, 
espécies de seres, por assim dizer, teratologicos, cujos caracteres 
pbysicos estão a pedir uma classificação, assim com ares de 
naturalista. . . Sinão, vejamos. Em dezesseis annos e pouco 
de governo, teem apparecido já, nem mais nem menos, três typos 
de bandeira, na verdade exóticos, os quaes nos produzem a ex- 
quisita obsessão de relembrar certas monstruosidades da natureza; 
um, extincto de vez, como o pliantasmagorieo pterod-ctylo ou (si 
quizerem um simile menos remoto) o clássico mammuth : outro, 
em via de desapparecer ; e o ultimo, prestes a revelar-se inteira- 
mente . . . 

Quero referir-me, em primeiro logar, á bandeira, por demais 
epbemera, adoptada pelo governo (talvez com ser elle provisó- 
rio), durante alguns dias, apenas, depois de proclamada a Repu- 
blica, até publicar-se o decreto n . 4, de 19 de Novembro de 
1889 ; em segundo logar, áquella que, irmã gémea desse decreto, 
se desfralda ainda na actualidade ; e, finalmente, á nova, que se 
nos pretende ofíerecer e que outra não é sinão a do projecto, 
organizado na Camará dos Deputados da União. 

A primeira, a que morreu dum mal de sete dias, sem, ao 
menos, completar uma sei ana de nascença, de listras horizontaes 
verdes e amarellas e com estrellas a um canto, era, de modo pa- 
tente, macaquen da dos Estados Unidos... E, nesse momento algo 
delirante e pinturesco, havia uma preoccupação decidida ou, antes, 
certa m^mia aguda de imitar os Estados Unidos ! Em consequência 
de similbante origem (e sem aspirarmos a ser nenhum Linneu ou 
Cuvier, está claro), poderemos dar a es!=a primitiva classe de ban- 
deiras pseudo-nacionaes (num latim apropriado, já se vê) o signi- 
ficativo nome de provisória plagiata .... 

A segunda espécie ainda existe, até agora, e por ahi vive 
a reproduzir-se e a expor-se, já no paiz, já no extrangeiro, E' 
a tal creação di rodella azul, povoada de estrellas tantas, oriundas 
de um céo pelo avesso, e com a torta legenda positivista, que o 
po o, rimando, inverte a seu modo: «Ordem e Progresso»... 
Essa bandeira- prodigio denominal-a emos, a caracter: astro- 
legendaria positiva (?). . Mau grado a venérea ção por ijÓs devida 
ao heróico symbolo da Pátria (o qual não pode e não deve ser 
esse), peza-nos confessar, com a precisa e doloro^a fianqueza, 
que tal bandeira — verdadeiro aborto escandaloso — é um dos 
maiores, sinão o maior monumento de ignorância e pedantismo, 
de mau gosto e injustiça que o Brasil jamais ostentou perante 
p mundo ! 

Quem pensar o contrar o (e são tantos ainda, na verdade!), 
digne-se de ler A bandeira nacional, esse valioso e relativa- 
mente quasi desconhecido t,rabalho de Eduardo Prado, compa- 
triota emérito, que, comquanto monarchista (honra lhe seja!), pos- 



— 321 — 

suia mais orientado e são patriotismo do que muito mandarim 
republiquete. Nesse livrinho, verdadeiramente patriótico porque 
amoroso e recto, escripto em linguagem natural e com erudição 
documentada, como que palpita, no irromper dos sentimentos, 
que contrastam, a alma vibratil e espiritualista do brasileiro : 
ora indolente, mas viva ; ora impetuosa, mas poética ; ora simples, 
mas veraz ; ora apaixonada, mas magnânima ; ora zombeteira, mas 
contemplativa! 

Com a só leitura dessas paginas interessantes, fica-se sabendo, 
entre outras cousas, que, na organização da bandeira actual, 
liouve o seguinte : 

«1.® Desprezo, ou ignorância da tradição histórica. 
2.° Erro capital de astronomia. 
3." Grave menoscabo da esthetica.» (1) 

No tocante ao primeiro reparo, sabemos que, na bandeira e 
nas armas da Republica, foram abolidos ou pervertidos os velhos 
e sagrados symbolos da nossa nacionalidade ! 

Com relação á segunda censura, cuja veracidade é, por certo, 
das mais tristes consequências, provou Eduardo, á evidencia, que 
a bandeira está errada. «Está errada na direcção da Ecliptica, 
nas posições das estrellas, de todas as estrellas, sem exceptuar 
uma só.» (2) E' que o astrónomo official pintou o aspecto do 
céo, não da maneira por que o devora fazer, isto é, reprodu- 
zindo-o de uma carta celeste, mais sim, tirado de um globo ce- 
leste, o que, afinal, deu um céo ás avessas, meio apocalyptico, 
meio truanes 'O, qual ninguém jamais o viu ! (3) 

Ora, si queriam organizar uma bandeira positivamente certa 
('e não positivamente errada, como a actual), «pontuada por vinte 
e uma estrellas, entre as quaes as da constellação do Cruzeiro, 
dispostas na sua situação astronómica, quanto á distancia e ao 
tamanho relativos, representando os vinte Estados da Republica 
e o Municipio Neutro» (4), — por que não c« nstituiram ou no- 
mearam uma commissão de homens capazes e responsáveis, para 
esse fim, como, por exemplo, fez a França, com a organização 
do systema métrico, e como nós mesmos temos feito, mais de 
uma vez, com assumptos de importância ? Ou, melhor ainda 
(afim de acoroçoar e desenvolver a emulação, justiceira e van- 
tajosa para todos), por que não promoveram um concurso livre 
e serio, cuja discussão fosse publica, julgado por homens re- 
conhecidamente notáveis e competentes, ou approvado por um 



1 Edaardo Prado, A bandeira nacional, cit., pag. 5 e6. 

2 idem ibidem pags, 44e45. 

3 Vej«-se, especialmente, essa cariosa parte do livro de Bdnardo Prado, em qae elle 
expende a« suas demonstrações, assas concludentes, pag. '^2 e seg. 

4 Ex|jres6Ões do dec. n. 4, de Ití do Novembro de i889. 



— 322 — 

plebiscito, estabelecendo-se, como recompensa, um premio que 
estimulasse e estivesse á altura do objectivo ? Lon^íe disso, po- 
rém ! Os nossos governante», em logar de empregarem o maior 
zelo e a maior ponderação nessa matéria, andaram desastrada- 
mente, resolvendo a questão as«im de afogadilho : porque o re- 
sultado foi o sequipedal portento que ainda se vê . . 

Relativamente á geograpbia, pfira não nos referirmos mais 
á astronomia (ambas sui generis, percebe-s ), o erro da bandeira 
é palmar : abi, o Brasil é figurado como si tivesse, apenas, uvi 
estado ao norte do equador, quando não ba coUegial que ignore 
que dous estados — o Amazonas e o Pará — se prolongam 
acima dessa linha ! Mui censurável também é a dis paratis. da re- 
presentação dos Estados por meio de estrellas desconformes e 
dispersas. 

Com r( ferencia à legenda comtista, rotulada na supposta 
faixa rí^presentativa do zodíaco, acbannl-a pascasiamente inerte 
e decorativa. E' uma fórmula vã, como muito bem foi consi- 
derr.da por um reputado sábio extrangeiro que nos estudou, 
E'lisée Reclus (l). A ordem e o progresso não são as únicas 
aspirações nacionaes, nem constituíam privilegio algum nosso, 
visto como essas idéas, e também as de liberdade e egualdade, 
amor e união, paz e concórdia, dever e direito, soberania e Jus- 
tiça, tradição e gloria, etc, devem ser communs a todos os 
povos : e nem por isso precisam elles de inscrevel-as nas ban- 
deiras! Demais, similhante letreiro, que algo tem de reclamis- 
ta e contraproducente — manifesto produ^to da pequena facção 
positivista — , além de extravagante e desa^^trado, não merece 
firme repulsa em face da Constituição que nos rege ? {2). 
Não attí^nta elle, de um modo permanente, com mais ou menos 
insolência, contra os sentimentos religiosos da maioria dos bra- 
sileiros? Porventura não são esses sentimentos bastante susce- 
ptíveis e, em t^da jarte, muifissimo respeitáveis? Onde, pois, 
a necessária e expressa liberdade de cultos, solennemente pro- 
clamada e garantida pelo nosso estatuto principal? Acaso não 
representa esse distico, entre o governo e o positivismo, certa 
dependência vexatória ou certa alliança escandalosa ? Como se 
poderá manter assim, no paiz, efficazmente, a « união perpetua 
e indissolúvel», que serve de pedra angular ao pacto fundamen- 
tal ? fS) Constituirá esse pavilhão, na verdade, um symbolo 
nacional, como pretendem os seus obstinados defensores, ou, antes, 
um symbolo revolucionário ? Em caso de guerra, si ainda sub- 
sistir essa bandeira partidária e odiosa, será dado a todos os bra- 
sileiros combaterem juntos, unidos qual ura só corpo, o inimigo 
commum, sem o menor apoucamento de animo? 



1 E'lisée Reclas, Estados Unidos do Brazil, trad. da Ramiz Galvão, Rio de Janeiro, 
1900, cap, XI, pag. 463 

2 Veja-se a Constituição dos Estados Unidos do Brasil, art. 72, § § 3.» e 7.o 

3 Idem, ibidem, art, I,o 



— 323 — 

Quanto ao lado artístico, deve-se considerar a bandeira actual 
como nm verdadeiro aleijão heráldico (e as bandeiras são tam- 
bém objecto da heráldica), em que as regras mais elementares 
dessa arte foram excessiva e desvantajosamente desprezadas (1). 
O aspecto daquelle circulo ou (ú quizerem) daquella esphera 
azul, que se observa alli, sem gosto, no losango pallido, o rótulo 
estapafúrdio e ?imilhante combinação de cores superpostas, ora mui 
carregadas, ora mui desbotadas, causam uma desgraciosissima im- 
pressão, logo ao primeiro olhar. Considerando a esthetica do con- 
juncto (si desse modo nos podemos exprimirj e a significação dos 
symbolos, é natural comparemos o estandarte, que nos deram 
com o das outras nações : e não sei si, mesmo entre os paizes 
de civilização mais atrazada, haja um que possua bandeira assim 
tão infeliz! A da Pérsia, com o seu sol cheio de raios e o 
leão espadachim; a da Birmânia, com o pavão arrogante, a osten- 
tar o leque aberto, no meio do rectângulo branco; a de Sião, 
com o régio elephante socegado; a da Coréa, com aquella espé- 
cie de bacillus- virgula bicolores, dispostos num circulo exquisito 
(cuja figura, no emtanto, parece expressar uma alta idéa da 
theogonia chineza), — devem ter, naturalmente, o seu valor sym- 
bolico ou histórico (2). A bandeira do Brasil, porém, com as 
feuas impgens mallogradas, que significa, que tradições perpetua, 
além das cores verde- primavera e amarelio de ouro, nem sem- 
pre bem representadas, que sentimentos nos desperta?! E' um 
pensamento falho, displicente, insensato, cruel, teratologico. . , 



ni 

Mas ainda não é tudo. Trata-se, agora, de nos dar novo 
pavilhão — o terceiro da republica — ,o qual (presume-se) não será 
definitivo e não durará muito! Afinal, que dirão de nós, mor- 
mente no extrangeiro?! De nós, que ora passamos desperce- 
bidos, aos olhos dos senhores de além-mar, ora somos, as mais 
das vezes, tão mal julgados?! Vem a propósito recordar a de- 
sembaraçada e subitanea phrase, attribuida a um dos nossos mais 
famosos parlamentares, que: «Não se muda de bandeira como 
se muda de camisa» . . . Quanto a isso, não ha duvida ! Mas, 
nesse caso, que substituam ou modifiquem, duma feita, a actual 
insignia (mais positivista que republicana, mais peregrina que 
indígena, e, alem dis o, demasiado confusa, desgraciosa, errada, 
injusta e irritante) por uma outra, simples, agradável, duradoura, 
equitativa, satisfactoria ! 



1 Consultem-se as respectivas regras fra Gourdon de Genouillac, rart héraldique. 
Paris, cap. I, pag. 22, e em Felice Tribolati, Grammatica uraldica, Milão, 1904, cap. 
XIV, pag. 176 e seg. 

2 Apud gravuras das seguintes obras : Bandiere delle principali potenee dei mondo, 
Milão ; A. L Hickmann, Atlas Universel, Paris, i9Uõ ; Die flaggen der Kriets-und 
Eandels-Marinen aller Staaten der Erder, Leipzig. 



— 324 — 

Entretanto, isso já se não consiguirá com a bandeira official 
planeada no projecto (1). Tem estrellas demais: dá na vista: 

a) as cinco estrellas caprichosas e mal figuradas do Cruzeiro (2); 

b) as vinte e uma da orla azul, entre os circules concí^ntricos ; 

c) a estrella magna, de quatro cores, triplicemente formada (verde 
e amarello no centro, depois vermelho, e dourado era volta), em 
que aquellas se conteem ; d) a estrella solitária, de uma extranha 
côr escura (sic), que se vê abaixo das outras, sobre o gladio, a espa- 
da ou o que quer que seja ; e) a grande estrella dourada, de in- 
numeros rait-s, em forma de resplendor, a qual envolve todas ! 

Em summa, vinte e nove estrellas visiveis a olho nu e 
assim distribuídas, sem contar as que são formadas pelas varia- 
ções de cores, em que se triplica a estrella principal. De modo 
que, ropresentando-se a Re})ublica par es.-a ultima e os Estados 
por outras tantas estrellas quantos são elles, ha uma sobra de 
nada menos de sete estrellas, as quaes só servem para sobrecar- 
regar e eomprometter o pavilhão... Hão de conc( rdar, pois, em 
que tal bandeira (que não é mais do que uma leve alteração das 
armas nacionaes, usadas nos reposteiros das secretarias), antes de 
realmente nascer, bem merece o adequado nome de stellaria 
maníaca, e formará, assim, a terceira serie da classificação... 

Em particular, pelo que diz respeito ao Cruzeiro do Sul, 
sò se deve attribuir a um capricho curioso e a um academismo 
exaggerado o facto de quererem, a todo o transe, arrancal-o 
das alturas do céo e collocal-o, arbitraria e insuladamente, na 
bandeira improvisada, uma vez que tal constellaçào não perten?e, 
apenas, ao nosso firmamento, nem das que nelle brilham é, de- 
certo, a principal. Ella paira, mai-; ou menos na» mesmas cir- 
cumstancias e indubitavelmente originando idênticos direitos (si 
é que, porventura, assim existam elles), sobre todos os povos 
que habitam o hemispherio austral... 

Tomando-se por base a maior grandeza, ou, antes, o maior 
brilho apparente das estrellas, entre cerca de vinte consideradas 
de primeira grandeza peL s astrónomos, vemos (segundo os qua- 
dros de Humboldt e de Flammarion, por exemplo) que a es- 
trella de Magalhães, ou Aljyha do Cruzeir:-) do Sul, que é a 
principal dessa constellação, occupa o decimo quarto logar na 
lista respectiva — um dos últimos, por conseguinte (3). Deixe- 



1 Veja-se o modelo d. 1. annexo ao projecto n. 50, apresentado á Camará dos 
Deputados da União. 

2 Convém notar, alem da má posição da constellação, no modelo da bandeira, o 
tamanho defeituoso das estrellas, relativamente nmas ás outras Por exenplo a Alpha 
desse grupo, que é a principal em grandeza ou em brilho, está representada como si 
fosse uma das inferiores, o que não se deve admittir. (Vejam-se os modelos n. 1 e 2, 
annexos ao projecto) . 

3 Entre os astrónomos, como se sabe, varia o numero das estrellas chamadas de 
primeira grandeza : assim Humboldt (Cosmos, tom. 3. o, cap. II, pags 106 e li(»a 111) 
classifica 17: Moedller, cit por Humboldt i idem, ibidem, paer. íif)), menciona 18: Flamma- 
rion {Merveilles celestes. Paris, 1í^97, cap. V, pag. 98) dá uma lista da !'.>, e, na sua obra 
Les étoiles et les curtosités du ciei, Paris, 18»2, 1 » parte, pag. 764, apresenta uma rela- 
ção de 20 ; Rumker (Humboldt, idem, ibidem) também estabelece este ultimo numero. 



— Hé.4 — 

mos de lado as constellações boreaes, que, para a nossa tliese, 
nâo nos interessam, e (como o Brasil está situado parte na zona 
equatorial, parte na região do sul) examinemos, de um vôo, as 
constellações zodiacaes e austraes, em que lia estrellas superiores 
em brilho ás do Cruzeiro. 

Comecemos pela mais brilhante estrella do céo, a esplen- 
doroí-a Sirio, justamente admirada como a rainha miri6ca do fir- 
mamento. E' a ^ZpAa da constellação do Cão Maior. Era a Sothis 
dos egypcios, o astro radioso^ que regulava as estações e o ca- 
lendário e que apparecia, outr'ora, no solsticio do verão, quan- 
do as aguas fecundantes do Nilo principiavam a encher (1)... 
A data do seu conhecimento mergulha-se nas mysteriosas noites 
dum passado millennar ; innumeros monumentos do vetusto Egy- 
pto a representam dum modo symbolico e expressivo ; os an- 
tigos astrónomos orienraes, os poetas gregos e latinos, que tam- 
bém a denominavam Canicula, a ella se referem com frequência; 
nos pinturescos raappas primitivos, povoados desses imaginosos 
hieroglyphos que tanto nos fazem sonhar, vem essa constellação 
figurada sob a forma clássica dum cão vigilante... Comquan- 
to Ptolomeu, no célebre Alniagesto, catalogue Sirio entre as 
estiellas côr de fogo, e alguns escriptores latinos lhe chanfem 
vermella, ella «é hoje (no dizer de Humboldt) duma brancura 
perfeita» (1*). A luz intrínseca dessa estrella gigante é tão in- 
tensa e o seu volume é tão con>ideravel, que ella excede, mui- 
tas vezes, o próprio Sol, o qual, em relação a Sirio, não passa 
dum astro secundário! E, apesar de nos afastarmos dia a dia 
dese mundo portentoso, ainda assim podemos phptographar a sua 
luz e observar que o thermometro se mostra sensivei ao seu calor ! 

Depois de Sirio, segne-se Canopo ou Alpha da constella- 
ção do Navio Argo ou simplesmente do Navio, que é a segunda 
estrella do cèo, por ordem de brilho. Essa constellação, que foi 
chamada «o regosijo do céo austral» (3) é, talvez, a mais vas- 
ta da abobada celeste». A esse grupo de estrellas, que concebe- 
mos como um extra- rdinarjo navio phantastico a singrar, a 
singrar pelo infinito, se liga a lenda heróica dos Argonau- 
tas, que da Grécia, um dia, se partiram, mar em íóra, para a 
Colchida famosa, em busca do encantado vello de ouro . . . No 
meio da grande nebulosa que se ex tende nessa região da Via- 
lactea, dum esplendor tão fora do commum, acha- se a estrella 
Eta de Argo, mui celebre pela sua variabilidade. 

Continuando a série, numa ordem decrescente, destaca-se a 
mais bella estrella dupla do céo austral, Alpha de Centauro, no- 
tável por ser a mais próxima da Terra e por geralmente servir 
de unidade aos cálculos astronomi cos. A sua distancia do nosso 



1 Humboldt, COSMOS, cit. , tora. 3.°, notas, pags. 61.^ e 614. 

2 Idem, ibidem, tora. 3.», pag. H2, e notas, pag. 6J0 e 611. 

3 Idem, ibidem, tom. 3.», 1.» parte, cap. IV. pag. 207. 



^ â26 - 

globo é calculada em quarenta trilliões de kilometros (Ij. 
Essa constellação, da qual fazia parte, antigamente, a do Cru- 
zeiro do Sul, vem desenhada, nos mappas antigos, sob a figu- 
ra dum centauro que, as mais das vezes, empunha uma 
lança e mata um lobo. . . de estrellas. Pertence também a esse 
grupo a estrella conhecida pela denominação de Beta de Cen- 
tauro, de primeiro brilho, superior às do Cruzeiro, embora in- 
ferior a outras que ainda não foram discriminadas (Rigel, Pro- 
cyon e Betelgeuse). E' na constellação do Ceiltauro que se en- 
contra a magnifica nebulosa circular ou esplierica, formada pela 
mais rica e bella agglomeração de pcntos luminosos do firma- 
mento, o que constitue, Cno expressar poético de Flammarion) 
«um formigamento de milhares de soes», «um desses universos 
longínquos mais próximos de nó&» (2)... 

Somos chegados á luminosissima e encantadora plaga do 
gigante Orion, esse Nemrod maravilhoso do? espaços, que vive 
a errar, a errar pelas alturas. . . Ahi se esconde e ao mesmo tempo 
se revela o mais fulgurante eldorado imaginável ! Ahi se encontra 
esse magico archipelago de estrellas rebrilhantes, aonde se vai 
perder a imaginação mais arrojada ! E', incontestavelmente, a 
mais esplendida, a mais famosa, a mais arrebatadora constella- 
ção do céo ! Não ha quem, tendo-a visto, se não sinta logo 
attrahido pelos seus encantos ! Não ha quem não conheça as 
suas três estrellas do Boldrié, Talabarte ou Cinto de Orion, ao 
menos pelos nomes populares de Três Marias, Três Reis Magos, 
Bastão de Jacob ou Ancinho — nome este pelo qual as denomi- 
nam os camponezes da Europa ! A sua celebridade vem de longe: 
na fabula dos povos levaníinos, sabe-se que Orion houvera sido 
um gigante caçador de immensa fama, muito alto e muito bello, 
que, depois de morto, fora metamorphoseado em constellação... 
As cartas antigas figuram-no como um homem de porte athle- 
tico, tendo, quasi sempre, numa das mãos, uma forte clava; na 
outra, uma pelle de animal, á maneira de escudo; e, pendente 
da cintura, uma espada embainhada... Os poetas de todos os 
tempos o têm decantado com amor: ha alguns mil annos, a elle 
se referiu Job, conforme se lê no respectivo livro da Bíblia 
(3) ; delle também fala Homero, na lliada (4) e na Odysséa 
(5) ; e Camões, nos Lusíadas, chama-lhe «o ensifero Orionte» (6). 
Essa esplendorosa constellação apresenta a particularidade de es- 
tar situada metade acima, metade abaixo do equador, com a ca- 
beça voltada para o norte, numa attiiude olympica, de modo que, 
assim, algo parece, mysteriosamente, querer escalar o céo e do- 



1 Flammarion, Merveilles celestes, cit. pag. 97. 

2 Idem, Les étoiles et les curiosiiés du ciei, cit. l.a parte, cap. XIX, pag. 574. 

3 Bihlia, livro de Job, cap. IX, vers. 9. 

4 Homero, Ilíada, canto XVIII. 

5 Idem, Odysséa, canto V. 

6 Camões, Os Lusíadas, canto VI, estr. 85. 



— ^21 — 

minar o inundo . . . Outro facto singular, que nos faz admiral-a 
de preferencia a todas as outras, é o modo grandioso por que 
ella reproduz a imagem do homem, que é a synthese de todas 
as imagens! Olhando-a, é preciso sonhar, de olho abertos, e evo- 
car a vi^ão dum heróe crente e valoroso, que, armado para a 
lucta, pretende realizar um i^éal eterno e fugitivo... Nessa 
constellação ha duas estrellas de primeiro brilho, Rigel, ou 
Beta de Orion, que é dupla e composta de um sol branco e 
outro azul; e Betelgeuse, ou Alpha de Orion, que forma uma das 
espáduas do gigante (a direita) e, com ser variável, oscilla en- 
tre o vermelho, que era a sua côr desde o tempo de Ptolomeu 
segundo Humboldt (1), e o amaiello laranja, que é a sua côr 
actual, segundo Flammarion (2). Nesse prodigioso grupo de 
soes, veem-se muitas estrellas duplas, esplendidamente coloridas 
e uma estrtlla sextupla, Theta de Orion, que forma o celebre 
trapézio existente no coração da phenomenal nebulosa, desco- 
berta por Huyghens, em 1656, onde ha movimentos levoltos e 
continues como o mar (3). 

Passemos, de relance, pela pouco extena constellação do 
Cão Menor, que já era conhecida como um dos asterismos cata- 
logados no tempo de Hipparcho e Ptolomeu. Os antigos cha- 
mavam-lhe Procyon, que significa precursor do Cão, porque 
essa estrella, com ser mais boreal, annunciava, no cèo, o appa- 
reeimento de Sirio, tão anciosamente esperado pelos egypcios. 
Procyon, ou Alpha do Cão Menor, é hoje o nome da estrella 
principal, inferior em brilho a Rigel, mas superior a Betel- 
geuse. 

Vejamos, em seguida, o Eridano, que é uma constellação 
austral, cujo nome provêm da antiga denominação dum rio da 
Itália e que é hoje o Pó. Nos fastos mythologicos, a sua ori- 
gem explica-se pelo desastre sobrevindo a Phaetonte, o qual, 
não sabendo guiar o carro do Sol, que, um dia, lhe confiara 
ApoUo, o casionou uma grande desordem o foi precipitado nesse 
rio, onde morreu, sendo após transformado em constellação. 
Serpenteando em curvas alongadas, extende-se no céo esse rio 
phantastico de tstrellas, a partir do pé esquerdo de Orion 
(Rigel), e vae terminar ao sul, com o seu maior luzeiro, Alpha 
do Eridano, ou Achernar, cuja etymologia árabe quer dizer o 
fim do rio... Segundo relata o notabilissimo viajante Alexandre 
de Humboldt, na sua fulgida obra capital, essa linda e me- 
rencória estrella era uma das varias conhecidas, egualmente com 
outras mais notáveis, pelos Índios selvagens da America, de pro- 
ft*rencia os velhos, os quaes as designavam, nas suas ingénuas 



1 Humboldt. Cosmos, cit.. 1.» parte. cap. IV. pag. 144. 

2 Flammarion, Les étoiles et les curiosités du ciei, cit.. 1.» parte. cap. XV^II* 
pag. 454. , •: 

3 Idem. Merveilles celestes, pag. 89. 



^ 3-28 — 

contemplações patriarcliaes, em meio á tribu serena e descuidosa , 
pelos nomes entre elles consagrados (1) . 

Examinemos, agora, a celebre constellação zodiacal do Touro, 
que passa por ser o mais antigo dos signos do zodiaeo — esse 
caminho circular e lumiuoso que abraça a terra, através do espaço 
6 cujas doze divisões o 8ol pontualmente percorre, ou parece 
percorrer, todos os annos, com o seu cortejo triumplial de as- 
tros ... A sua estrella mais importante é a vívida Aldebaran, 
ou Alpha do Touro, a qual fórtna, com Antares do Escorpião, 
Régulo do Leão e Fomalbaut do Peixe Austral, a curiosa série 
das quatro estrellas reaes, ou quatro «guardas do céo», assas 
veneradas nos tempos antigos, pois se distinguem pela qualidade 
particular de serem diametralmente oppostas e dividirem a es- 
pbera celeste, mais ou menos, em quatro partes eguaes. Alde- 
baran é uma bella es^rella avermelhada, que apresenta a cir- 
cumstancia de se achar situada no caminho da Lua, de r..odo 
que, quando, através do espaço, se encontram os dous astros, o 
primeiro parece, ás vezes, penetrar o disco do segundo, originan- 
do um interessantissimo phenomeno, em que se casam os raios 
vermelhos da estrelia com a esmaecida luz do nosso pallido 
satellite. Não longe dessa estrelia soberana, rebrilham as Hyadas 
tristonhas e as Plêiadas lendárias... 

Resta-nos, apenas, tratar da rutila Antares, estrelia de pri- 
meiro brilho, quf' é, ao mesmo tempo, a Alpha da constellação 
do Escorpião. É vnia das mais bellas estrellas duplas do céo, 
formada por um disco vermelho-laranja, que é o de Antares 
propriamente dita, e outro verde-esmeralda, que é o da sua 
companheira. Antares significa rival de Marte : de facto, esse 
planeta, cujo nome provêm do deus guerreiro, ostenta a sua 
cor similhante á daquelle sol longinquo, que além vemos palpitar 
no coração do Escorpião. Facilmente se descobre no céo, á 
vista desarmada, Antares e o seu systema, por causa da forma 
peculiar ao animal que deu o nome ao conjunto e cuja cauda 
recurva se desenha nas alturas, como um grande ponto de in- 
terrogação. Esse. grupo estellar tem atravessado os séculos 
extinctos, sob uma tama supersticiosa, de constellação funesta. 
Affirmavam, antigamente, que um ódio implacável e eterno havia 
entre Orion e o sinistro Escorpião (que uns julgam ser o occa- 
sionador da morte do varonil gigante mallogrado, rival, um dia, 
da poderosa Diana), pois, ainda hoje, quando uma constellação 
surge no horizonte, a outra se occulta, e vice -versa (2).., 



1 ' Hnmboldt, Cosmos, cit., tom. 3.», 4.» parte, cap. IT, pags. 93 e 94. 

2 Hamboldt, Cosmos, cit. tom., 3. .o, i.a parte, cap II, pag ICB *e JIO a 111, 
colloca Antares em egualdade exacta de condições com a Alpha do Cruzeiro do Sul, 
quer cm grandeza ordinária, quer em grandeza pbotometrica, quer em> quantidade de 
luz. Plarainarion, Les étoiles et Its curiosités ãu ciei, pag. 763, e Merveilles celestes, pag. 
9b, e outros astrónomos mais modernos classificam Antares acima da Alpha dessa cons- 
tellação. 



— 329 — 
IV 

De volta dessa longa digressão, aonde nos levou o complexo 
e, para nós, ag-radavel estudo da matéria, volvamos ao Cruzeiro 
do Sul. Depois do que ficou dito, parece estar demonstrado 
que o Cruzeiro, apesar de ser considerado, em 1517, pelo floren- 
tino Andrea Corsali, como uma cruz maravilhosa ( « cr(>ce mara- 
viííliosa » (1), não é a principal das constellaçôes que abrilhan- 
tara a nossa abobada estrellada. Pelo contrario, existem, entre 
os grupos zodiacaes e austraes do nosso céo, nada menos de 
dez estreitas superiores em esplendor ás do Cruzeiro. 

A seu respeito, escreve Flammarion : « A grande celebridade 
des?a constellação provêm, sobretudo, da sua forma e da sua 
situação no céo austral, porque, na realidade, ella é menos majes- 
tosa, menos vasta, menos bella e menos rica que a de Orion» (2). 

Demais, em que pese aos espíritos fanáticos, e comquanto 
seja, de facto, uma linda constellação, o Cruzeiro já não é uma 
cruz perfeita; e, com o andar do tempo ( conforme obseiva Hum- 
boldt), elle « não conservará sempre a s^ua forma característica, 
porque as suas quatro estrellas caminham em sentido differente, e 
com velocidades deseguaes » (3). O que nos consola, e aos lyris- 
tas que alli vão ins|>irar-se frequentemente, é que essa desloca- 
ção lenta e progressiva, que também se ha de dar nas outras 
constellações, não será, porém, para os nossos dias. . 

Em todo caso, repetimos : não vemos motivo de privilegia- 
damente figurar na bandeira do Brasil o gru])0 do Cruzeiro do 
Sul, com exclusão de outras constellações poi ventura mais bellas 
e importantes, as quaes tornam este céo tão seductor e pinturesco, 
a ponto de produzir na alma de Humbcldt — o sabio-poeta que 
viajou o mundo e concebeu o Cosmos — «uma impressão (^como 
elle mesmo diz) immorredoura» (4)! E' que as constellações 
foram feitas para r^^splandecerem, vivas, no infinito, e não para 
se amortalharem, tristes, nas bandeiras... Além disso, para que 
respresentarmos a noite no pavilhão nacional, quando temos 
idéas mais felizes, outros symbolos mais apropriados?! Deixe- 
mol-a onde está, no firmamento, para universalmente attestar a 
extraordinária magnitude da Natureza e para goso das almas 
sonhadoras . . 

Também não ha motivo de figurarem, hoje em dia, na ban- 
deira, os ramos de café e tabaco (os quaes, de novo, nella pre- 
tendem incluir agora, segundo o projecto), uma vez que esses 
productos não são nem exclusivos, nem os únicos, nem, só elles, 
os principaes do Brasil. Quanto ao café, ainda é o primeiro 



1 Humboldt, Cosmos, cit. , tom 2 •, 2.» parte, cap. VI, pag. 3.53, 

2 Flammarion, Lts étoites et les curlosités du ciei, cit,, 1 » parte, cap. XIX, pag. 
ft63. 

3 Humboldt, Cosmos, cit,, tomo 3, o, 1,» parte, cap. V. pag. 215, 

4 Idem, tomo \°. 1.» parte, pag. 91. 



- 330 -. 

producto nacional; mas, quanto ao tabaco, ou ao fumo (como 
vulgarmente se chama) occupa elle, quando muito, o terceiro 
logar, porque acima delle se deve classificar a borracha, confor- 
me a nota de estatistica que abaixo transcrevemos (1). De 
mais a mais ( como muito bem pondera Joaquim Norberto de 
Sousa e Silva, na sua memoria epigraphada A bandeira nacional, 
inserta na Revista Trimensal do Instituto Histórico e Geographico 
Brasileiro (2) « os ramos da necociana (3) e do cafeeiro, 
empregados como emblema de commercio, não sào apropriados , 
Representa um delles um vicio, e outro uma planta exótica, em- 
bora nos tenha enriquecido » (4) . 

Com respeito á disposição das cores e á representação dos 
symbolos, carece a bandeira do projecto, como a actual ( para 
me servir das apropriadas expressões attribuidas a um illustrado 
professor ). de «condições physicas de durabilidade» e de ^legi- 
timidade heráldica » (5), De modo que a sua futura existên- 
cia e o seu mérito artístico ficarão prejudicados, não só ante o 
que expuzemos, como deante das competentes regras, ahi por 
demais infringidas, entre as quaes devemos destacar este frisante 
principio enunciado por um heraldi^ta italiano : < Le arme piú 
semplici e meno caricate sono le piú belle, in virtú di un antico 
provérbio araldico che chi ha piú ha meno » (6) . 

Por essas razões, é que não podemos concordar cora os respecti- 
vos tópicos dos arts. 1.", 3.** e 4.** do alludido proj«cco de lei, apre- 
se-ntado á camará da União, em princípios de julho do anuo 
findo. E oxalá não fossem elles irremissivelmente approvados, 
em beneficio geral do povo brasileiro! No que se refere ás dis- 
posições constantes desses e dos mais artigos, em que se esta- 
belece uma bandeira « para uso commum > e se regula o toque 
do hymno nacional, admittindo-o somente nas solennidades offi- 
ciaes e nas nossas festas commemorativas, além de as abraçarmos 
plenamente, ao mesmo tempo as louvamos, muito da alma, num 
applauso de viva e digna sinceridade (7). Convém, por certo, 
haja mesmo uma legislação especial sobre o assumpto, como, por 



1 A nota de estatistica vae pnblicada á parte 

2 Veja-se o tom. 53. parte 1.», pag. 250. 

3 Aliás nicciana, antigo nome (lo tabaco, derivado de Nicot, diplomata francez, 
nascido em Nimes, que introduziu o tabaco era França, no século XVI. Dahi o substantivo 
nicotina, e os adjectivos nicotino, a, etc. 

4 Quanío ao ramo de fumo está elle com as folhas tão mal de^enhada^ na bandeira do 
projecto que não ha quasi diferença entre ellas e as do café ( Vide modelo lesppctivo^. 

ft Osr. José Feliciano. Veja-se «esboço basetido nas lições» desse professor. Revista, 
de Ensino, São Paulo, 190:^ pag. 147. 

6 Felice Tribolati, Grammatica araldica. cit . cap. XIV. pag 177 

7 Esse mesmo projecto ainda pretende crear um segando typo de bandeira, 
«para uso commam» Cmodelo n. 2), o qual não é mais do que o parallelogi'ammo verde 
com o losango amarelio, tendo, no centro, dous circulos estrellados, num dos qoaes se 
acha o Cruzeiro, e similhantes aos que se vêem no verso das nossas moedas de nickel 
de 200 réis (padrão maior;. Apesar de, com justiça, reconhermos as vantagens dessa 
idéa, em geral posta em pratica na maioria das nações, força é censurar o mau gosto 
do modelo Para que, demais, inscrever symbolos na bandeira commum? 'Não seriam 
bastantes o parftUelogrammo e o losango, para esse fim ? 



— 33Í — 

exemplo, tem a Argentina (1); e não apenas para a bandeira 
e para o hymno, mas para todos as sagrados syrabolos da Pátria 
(2). Porque, asbira, não mais impunemente veremos os nossos 
pavilhões iiacionaes ostentatem-se nos kiosques das loterias, nem 
as armas da Republica figurarem nas bolas de borracha, nem 
ouviremos o glorioso hymno brasileiro tocado nas pantomimas dos 
circos de cavallinhos, etc... 

Não obstante, si forem approvados, sem discussão séria, os 
pontos censuráveis e defeituosos desse projecto, ireuios ter, no- 
vamente (para falar duma só) outra bandeira illogica, inestheti- 
ca, complicada, ridícula, deseloquente e, portanto, indefinitiva 
ainda! E tal decisão, si for posta em pratica, virá patentaar, 
mais uma v z, o caracter pueril com que agimos, a opinião 
caprichosa que n- s dirige, a precipitação imponderada que nos 
arrasta, a mania reformista que nos atropela, o processo falho 
a que recorremos, a transitoriedade paradoxal das nossas leis, 
em summu, a insubsistência exquisita e funesta de alguns actos 
públicos de agora ! Para que tanta pressa temerária ou tanta 
indifferença incomprehensivel ? Não fora melhor delongar e es- 
tudar um pouco mais a solução comtanto que o resultado se 
tornasse, para todos, definitivamente acceitavel, nobilitante, satis- 
factorio ? Por que não adoptar, para esse intento, os meios sim- 
ples e racionalií^aimos, referidos acima, os quaes, si bem não 
constituam nenhuma novidale, hão provado sempre tão bem: o 
de nomear-se uma commissão de homens de mento, ou o de esta- 
belecer-se um concurso justo e publico, dignamente julgado por 
um grupo escolhido, ou mediante um plebiscito especial ? Nós, 
de nossa parte, quer«^mos crer (e comnosco, decerto, crerá muita 
gente bôa) que, si se escolhesse um desses alvitres, se evitariam 
ou removeriam, com fructo, as passadas difficuldades. 

Em todo caso, ainda que o Congresso persistisse em dar 
á Republica, em terceira gestação official, uma bandeira por elle 
mesmo gerada com todas as honras do estylo, naturalmente, 
havendo mais cuidado, seria provável exhibir-se, alfim, um pro- 
ducto menos monstruoso e desarrazoado... Para isso, bastaria, 
unicamente, um poucochinho mais de amor ás cousas pátrias, de 
reflexão e de bôa vontade. Os srs. membros do poder legislativo 
não deveriam, certamente, sem exame nem estudo meditados, 
appmvar o primeiro projecto que surgisse : pelo contrario, fora 
mister sujeitarem-no a uma critica rigorosa, confrontarem-no 
com outros existentes, architectnrem planos mais perfeitfs, pro- 
moverem o estimulo geral, no justíssimo afan de condignamen- 
te solver-se, para sempre, tão alevantado assumpto ! 



í Veja-se a eícellente raonographia do erudito escriptor argentino dr. Estanisláo 
B. Zeballos, £1 escudo y los colores nacionales. extrahida da Revista de derecho. histo- 
ria y letras e publicada em Buenos-Aires. 1900. notas ao cap. III. pags 9 a 12. 

2 Nota em separado. 



^ 3^2 — 



V 



Porque similhante problema — da approvaçao definitiva duma 
b.indeira nacional — é (como já o tízemos notar) muito mais im- 
portante do que, á primeira vista, possa parecer. O sentimen- 
to que dahi promana profundamente se radica (ou, pelo menos, 
deve radicar-se) na alma inteira duma nação, definindo-lhe, 
corporiíicando-lhe, revivend )-lho perennemente o ideal ingenito 
e soberano. E' que a bandeira constitúe sem duvida, um alto, 
um forte, um significativo symbolo : e o symbolo, no apreciar 
philosophieo de Giovanni Marchesini, «é uma necessidade hu- 
mana» (1). «Tudo é symbolo em tudo» (2). Quer|con8Íderem 
a bandeira como um symbolo mystico, segundo a classificação 
de Guglielmo Ferrero (3), quer como um symbolo emotivo, 
quer como um symbolo representativo, segundo outros, ella é toda- 
via e sempre um symbolo, por assim dizer, de caracter univer- 
sal. E, por isso que ella é a suprema affirmação do ideal po- 
litico de um povo, de um modo particular a veneram, do con- 
vivio das nações, como a própria encarnação da pátria que el- 
la exprime . . . 

Ora, si a bandeira é iim objecto assim tão innegavelmente 
importante, que chega a inspirar um verdadeiro culto enthusi- 
asta, segue-se que ella deve reunir os elementos necess;irio.s 
pira se perpetuar, inalterável e enraizadamente, no sentimento 
vivo de um povo. Já se vê, pois, que a inscripçào de symbolos 
ou emblemas não é cousa tão secundaria, conforme julga o pro- 
jecto apresentado á Gamara. Muito pelo contrario : uma vez 
que elles figuram ou teem de figurar na bandeira, convém se- 
jam de tal natureza, que não díípreciem, nem apouquem, nem 
siquer empallideçam o conceito que se faz de pátria. Taes em 
blemas hão de claramente falar, com bastante eloquência ás 
três faculdades da alma de um povo (para assim me exprimir) 
— á sensibilidade, á intelligencia e á vontade. Taes emblemas 
devem abranger, numa synthese luminosa e constante, o passa- 
do, o presente e o futuro desse povo. Taes emblemas precisam 
indicar, na sua impassibilidade augusta e inspiradora, a; s filhos 
duma mesma terra venerável, donde estes filhos vêm, o que são 
e para onde vão , , 

E>se fim altíssimo e vibrante, porém, só se consegue com 
o culto da Tradição, que, no admirável expre?<sar dum saudoso 
brasileiro «é a força, a luz, o ensino e a manifestação mais sa- 
grada das raças, a cadêa que assegura a solidariedade das gera- 
ções» (4). Assim como se vincula tudo na Natureza, no viver 
dos povos tudo se vincula ! Sem procurarmos manter esse flui- 

1 Giovanni Marchesini, II simbolismo nella conoscenzn e nella morale, Turim, 
1901, parte 1.', cap. I, pag. 7. 

2 Sentença occultista. 

3 Guglielmo Kerrero, / simboli, Turim, 1*^93, cap. VI, pag. 9íi. 

4 Eduardo Prado, Discurso, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geo- 
graphico de São Paulo, vol. Ill, 1898, pag. 527. 



>- 333 — 

do raysterioso, que nos deve sempre e sempre unir e estimular 
— a tradição — , poderemos ser tudo o que quizerem, menos 
brasileiros ! 

Uma das causas do nosso relativo atrazo e da nossa possí- 
vel decadência, apesar dos lampejos de vida que, de vez em 
quando, nos convulsionam, é, sem duvida, a falta de culto e de 
uniformidade das nossas tradições ! 

Só sào grandes povos aquelles que possuem e sabem honrar 
um grande passado. Venerar ao passado é um dever sacrosanto, 
é uma condição de existência indispensável para as massas. 

Um povo que renuncia ao seu passado é como uma creatura 
que repelle as mais caras reminiscências, ambos não vivem pro- 
priamente : porque, na vida, não são, apenas, as esperanças que 
nos attraem ; são, também, as rt^cordações que nos avigoram... 

E' sabido que os povos, como as familias, possuem os seus 
foros de nobreza. O que estabelece, nesse ponto, a distincçào 
entre elles sào as suas insignias, os seus brasões de armas. O 
Bra^il também tem, naturalmente, os seus emblemas... E, uma 
vez que se pretende (e não é mal occunida a idéa) substituir 
ou modificar a nossa bandeira, fazendo com que nella se ins- 
crevam as armas nacionaes, é conveniente e opportuno verifi- 
quemos si as armas actuaes — as armas da Republica — pleuí^mente 
corres})ondem às exigências mui legitimas. 

Com desafogo e, antes de tudo, com justiça, é mister obser- 
var que não. E })or que V Porque essas armas, além de apre- 
sentarem os mesmos e respectivos defeitos a^)ontados na ban- 
deira do projecto, incorrem na visível e inqualificável pecha de 
nellas se haver desprezado, sem motivo serio, a tradição 

Com efftito: possuindo o Brasil, quando se ])roclamou a 
re|»ublica, um escudo de armas, reunidas e determinadas, ao 
tempo da independência, com o (iuplo fim de se conservarem e 
exprimirem os symbolos representativos da sua historia e do seu 
ideal politico ; sendo a nova forma de governo a evolução ou a 
successão daquelles estados anteriores; e, demai<, attendendo á 
vida intima do paiz, em que não conviria houvesse rompimentos 
bruscos, nas ligaçõe» suaves, — parece obvio que se deveriam manteros 
symbolos primitivos, compatíveis com a novaphase, e apenas rejeita- 
dos aquelles que fossem contrários á republica. Entretanto, assim nào 
aconteceu: o espectáculo, que nos salteou, foi deveras contristadorl 
Sob a impiedade crua de desatinados iconoclastas, acabrunhadora- 
mente vimos então rua-em muitas lembranças, ainda vivas e amáveis, 
do nosso passado glorioso ! Esse facto faz-nos recordar as bellas 
e sentenciosas palavras escriptas por Michelet, acerca dos mo- 
tivos que occasionaram a abolição da ordem dos Templários : 
«Tal acontecimento não é mais do que um episodio da guerra 
perpetua que manteem um contra o outro o espirito e a letra, 
a prosa e a poesia. Nada é tão cruel e ingrato como a prosa, 
t^uando ella nào reconhece as velhas e vejieraveis formas i)oe- 



- 334 - 

tica-, sob o amparo das quaes se desenvolveu » (1). No em- 
tanto, compare-se o que succedeu em França, paiz que tantas 
vezes procuramos imitar : «No palácio do Eliseu, a habitação 
dos presidentes da republica, conservam-se ainda boje nos ricos 
reposteiros o monogramma de Napoleão III, p nas respectivas ga- 
lerias a coroa imperial, symbolo da monarchia. E' que aqui 
ninguém julga necessário destruir estas reminiscências bistoricas 
e estas obras d'arte, para garantir a republica ou dar provas de 
bom republicanismo». Sáo palavras textuaes do dr. Camj os 
Salles, nas suas Cartas da Europa (2), que convidam á pon- 
deração. 

Mas existem, porventura, symbolos taes que a Tradição nos 
legou e que a Posteridade tem obrigação de conservar? Incon- 
testavelmente I E quaes foram, em summa, os symbolos pátrios 
abolidos ou, antes, desprezados, sem razão plausível, pela re- 
publica? A cruz da ordem de Christo e a esphera armillar 
de d . João VI . . 

E por que, com o advento da republica, foram esses emble- 
mas eliminados, ostensivamente, das armas, da bandtira, emfim, 
de todos os novos documentos e monumentos officiaes? Talvez 
por uji capricho momentâneo, talvez por má comprehensão das 
cousas, talvez por intolerância politica e religiosa (as mais ne- 
fastas das intolerâncias, cujos turbilhões, de vez em quando, se 
agitam e se engolfam na Historia), talvez por inconsciência, talvez 
por ingratidão . . . 

Relativamente á esphera armillar, os creadores e defensores 
da bandeira actual não fazem muito cavallo de batalha, para ex- 
plicarem a suppressão de tal symbolo. Do que por ahi consta 
sobre a matéria, deve-se chegar á indiscutível e sabia conclusão 
de que a esphera foi supprimida, simplesmente porque,. . foi sup- 
primida! 

Quanto á cruz da ord^^m de Christo, então sim! Hoc opus, 
hic labor est. , O singello emblema idplatrado, esse, foi expres- 
samente excluido, porque (declamam) não era possivel tolerar-se 
numa republica federativa, onde é preciso haver plena liberdade 
de cultos! E' «um symbolo de divergência» (apostoliza um es- 
tienuo paladino da Religião da Humanidade)! (3) E' «um 
ponto de divergência» (doutrina um outro estudioso diseipulo de 
Comte)! (4). A differença (como se vê) é apenas de meras pa 
lavras, mas a causa da repulsa permanece a mesma . . . Mas por 
que similhante censura dialéctica, que, afinal, degenera em birra 
franca, em decidido combate a ferro e fogo ? Porque a cruz é um 



1 Jean Michelet, Histoire de Franee, cit., tom. 4.«, liv. V, cap. IV, pags. 97 e 98- 

2 Campos Salles, Cartas da Europa, Rio de Janeiro, 1894, 3.» carta, pae: 76. 

3 Teixeira Mendes, artigo publicado no Diário Official da Uniáo, de 24 de 
Novembro de .889, 

4 José Feliciano, apud artigo assignado pelo prof. Augusto R. de Carvalho 
e publicado na Revista de Ensino, cit., pag. 148. 



— 335 — 

syrabolo christão? Nesse caso, a prevalecer tal argumento, nào 
será também um symbolo, um ponto ou um letreiro de diver 
gencia, com muito maior razão, o lemma positivista « Ordem e 
Progresso?, adoptado na bandeira? Não- exprimirá «ssa legenda 
o esbulho inadmissivel de uns, que representam a maioria e um 
direito adquirido, em favor de outrcs, que const túem uma di- 
minuta aggreniiação revolucionaria ? Que privilegio exquisito 
é esse, em prol dos positivistas em particular, e que violenta ex- 
torsão é esta, feita aos brasileiros em geral? 

VI 

Ainda assim, com referencia á figura da cruz (e os pos«iti- 
vistas, com certeza não o ignoiam) é boje um facto sobejamente 
compiovado, á luz das rigorosas pesquisas archeologicas, que 
similbante symbolo não pertence, exclusivamente, ao cbristianismo, 
e sim a povos e cultos differentcs. E' «o mais antigo e universal 
dos symbolos religiosos», na phrase de Gustavo Lejeal (1). O 
abbade Ansault, que escreveu um estudo acerca do culto da 
cruz antes de Christo, citado por aquelle escriptor, diz : «Este 
signal que, á primeira vista, pode parecer um simples mo- 
tivo de ornamentação e que ás vezes não é outra cousa, é 
ordinariamente, aos olhos dos archeologos crenten ou descrente-, 
um symbolo religioso, o primeiro, o mais universal, o mais an- 
tigo dos symbolos religiosos ; elle encerra o sentido de vida, 
de vida divina, de vida eterna, de salvação e também de salva- 
dor» (2). Em qua4 todas as regiões do mundo teem sido 
profusamente descobertos signaes cruciferos ou hieroglyphos 
cruciformes : em casas e templos, em túmulos e ornatos, em 
baixoii-relevos e estatuas, em vasos e armas, em pedras gravadas 
e moedas, emfim, numa enorme série de monumentos e objectos 
variados. Ainda hoje, principalmente nas ruinas dos povos que 
passaram e nos museus da Europa, se fódem admirar algumas 
e pecies de cru /es seculares, as quaes, pela sua forma e dispo- 
sição, despertam a curiosidade. 

No Egypto, por exemplo, é de vêr-se a original e antiquis- 



sima cruz ansata, jj , que frequentemente se encontra ora isolada, 

ora na mão, ora pendente do pescoço de entidades do pantheon 
egypcio (3) : é o symbolo da vida, da vida sã e forte, representa 



1 Gustavo Lejeal, Le cuUe de la croix avant Jésus-Chritt, artigo publicado na Revue 
encyclopédiqae, Paris, 1892, tom. 2. o, pag. 108. 

2 Idem, ibidem, pag. )09. 

3 Entre outras obras, veja-se a de Lejeal, cit., a de G. Maspero L'arehéologiê 
egyptienne, Paris, e a de Gustavo Le Bou, Les Prémiêrei civiliiaiion», Paris, onde se en- 
contra, facilmente, a cruz ansafa. 



— 336 — 

o Lomem (1). O deus Serapis ou o Osiris-Apis (que dizem 
não ser outra cousa, no fundo, que o sol mystico, a alma 
universal de que as almas humanas sào scentellias ) tinha, 
na sua attitude hierática, sobre a cabeça, a figura da cruz se- 

rapidiana , — a mesma cruz grega — , que symboliza a vida 

que vem. Na Grécia juvenil e buccolica, dos encantados sonhos 
mythologicos e da vida livre e prazenteira, o festejado Baccho- 
Dionisyo trazia a fronte guarnecida de cruzes gtegas ou bacchi- 
cas, uniformes e graciosas (2), 

No Museo Britaanico existe um estélio ou monolitho assyrio, 
que é um precioso typ > no género, onde se vê o rei Samsi-Ra- 
man III, de pé, adorando os symbolos planetários e tendo uma 
bella cruz, simllhante á moderna cruz de Malta, pendida sobre 
o peito. Nos lados desse inestimável monumento, que antecede 
mais de oito séculos a Christo, encontram-se inscripções cunei- 
forme*, que relatam, anno por anno, as façanhas militares desse 
jDrincipe (o). 

Mas não precisamos ir tão longe, para demonstrarmos que a 
cruz é um symbolo universal e que surge em civilizações ainda 
extremes do christianism >. Aqui, neste continente que habita- 
mos, muito antes do descobrimento da America, os aztecas — esse 
povo singular e valoroso, duma civilização relativamente assas 
luzida, cujos chefes infeliz-^s Fernando Cortez e os hespanhoes 
tristemente supplantaram, á força de ambiciosa -< crueldades — , os 
azt^-ca-i também conheciam e empregavam o signal cruciforme. 
Para exemplo di»so, basta lembrar que o deus supremo desses 
antigos mexicanos ( Vitziiputzli), cuja veneração se fazia, ao 
tempo da conquista, no mais esplendido santuado da sumptuosa 
capital, era solennemente representado, sob a forma dum homem 
sentado í-obre um globo azul, tendo, na mà3 direita, uma serpe 
ondeíuite e, na esquerda, um escudo com quatro pennas brancas, 
dií-postas em cruz (4). O emblema de Teutl (deus, em mexi- 
cano) é uma regularissima cruz artistica, perfeitamente similhan- 
te áquella que adorna o monolitho oriental, descripto ha pouco. 
Na^ extranhas e monumentaes ruinas, algumas das quaes subter- 
râneas, perdidas em meio á sombria e evocadora flore-ta que 
avulta no4 aredijres da pe<]|uena cidade de Palenque (America 
Central), onde outr'ora esplendeu um povo que se foi, acham-se 
varias formas cruciaes, que hão despertado a attenção dos sábios 



1 Gustavo Lejeal, obr. cit., pag. 10,), Maspero, obr, cit., cap. V. §. pag. 274, 
e Eraesto Bosc, Diclionnaíre d'orientaliisme, d' occullisme et de psychologie. Paris, 1896; 
tom. í.o, pag. 270. 

2 Lejeal, obi* . cit., pags. 111 e 112. 

3 Ernesto Babeloa, Manuel d^archéologie orientale, Paris, cap III, § 1 o, pags. 99 e 
100, flg m. 

4 Cérémottifi reliqieuses de fous les peuples du monde rapresentées par des figures 
dessínées et gravées par Uernard Piçard et aulres habites artistes. Paris, 17f?3, tomo 
Z.o, ílg, 87. 



— 337 — 

» 

e viajantes. Entre ellas se destaca o mui famoso baixo-relevo 
da cruz, cuja forma se approxima da latina e sobre o que se teem 
feito as mais imaginosas conjecturas: segundo uns, seria essa 
cruz um objecto de supplicio, usado pelos })rimitivos habitantes 
do paiz; segundo outros, era o emblema da chuva, no qual se 
adorava um symbolo original, no culto tolteca e mexicano (1). 

De accôrdo com o testemunho presencial e fidedigno de Gar- 
cilasso de la Vega, que nasceu no Peru e refere o facto em 
1560, os incas, seus compatriotas, possuíam em Cuzco, desde 
tempos immemoriaes, uma bella cruz de mármore ou de jaspe 
crystallino, muito bem feita e polida, que elles guardavam numa 
das suas casas reaes, num comj)artimento aliás tido como sagrado e 
denominado Huaca. Quando os hespanhóes, capitaneados per 
Pizarro, conquistaram o Peru, foi essa cruz encontrada e, depois, 
collocada na sacristia da cathedral de Cuzco (2). Na mesma 
cidade, deante da porta da egreja de São Sebastião, existe um 
bloco de granito monumental, anterior á conquista, onde ha uma 
abertura, talhada em forma crucifera, em que muitos vêem um 
instrumento das «altas obras», destinadas ás execuções capitães, 
que se faziam em frente ao palácio incasico de Colcampata (3). 
Nas ruínas de Tiaguanaco (Bolivia), deparam-se pedras grava- 
das cora figuras cruciaes regulares, conforme se observa na obra 
do conde de Castelnau, sobre a sua excursão a esta parte da 
America (4). A estampa 35 representa um vaso de argilla 
avermelhada, onde se vê uma cruz geometricamente desenhada 
6 suspensa do pescoço duma figura humana — o que, de algum 
modo, faz pensar nos egypcios. 

No Brasil, emfim, neste nosso torrão abençoado (quem, á 
primeira vista, supporia?) também se ha encontrado a cruz en- 
tre os melancólicos destroços desse nativo povo selvagem, que 
a onda humana repelliul Conforme se pode verificar pelo vol. 
VI dos Archivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro — publi- 
cação feita por nomes applaudidos — muitos productos da cerâ- 
mica indígena, encontrados em Marajó (vasos de barro, Ídolos 
etc), encerram interessantissimos signaes crnciformes, gravados, 
esculpidos ou pintados. Esses artefactos, que, sem duvida, re- 
velam uma industria e uma arte adeantadas, são, alguns, duma 
belleza original e primorosa, e, outros, apresentam analogias 
com os antigos e congéneres productos gregos, etruscos, etc. Uma 
dessas variedades cruciaes lembra a curiosa nandavartaya ou 
nandyavarta — variante da cruz mystica de Buddha — cujo fiel 



1 Abbade Brasseur de Bourbourg, Histoire ães nations civiUsées, du Mexique et 
ãe VAmérique cenirale, Paris, 1867, tom. l.o, livro l.o, cap. 3 o, pags. 89 e 90, e La- 
renaudière, Mexique et Guatemala, P»ris, 1843, pags. 308 a 326. 

2 Qarcilaso de la Vega, Eistoire des Incas, róis ãu Perou, 1830, tom. l.o, 
livro 111, cap. 111, pags. 153 e seg. 

3 Carlos Wiener, Pérou et Bolivie, Paris, ISRO, 3.» parte, 723 e 724. 

4 Francis de Castelnau, Expédition dans les parties centrales de VAmérique ãu 
Suã, Paris, 1851, tom. 3. o, cap. XXXVIII, pag. 394. e vol. das Antiquité des Incas, 
estampas 2 e 8. 



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sentido quer dizer circulo feliz (1); outros se assimilbam a 
emblemas cruciferos usados pelos primitivos mexicanos e pelos 
povos do Oriente, em civilizações extinctas. No capitulo VII, 
pag'. 454 a 465, dessa apreciável revista nacional vem uma 
série de quadros comparativos, enriquecidos de gravuras, de 
caracteres symbolicos empregados no Brasil, em parallelo com 
os do México, da Cbina, do Egypto e da índia, no qual a cruz 
se destaca em formas varias e analógicas. 

Uma cruz perfeita e singular, pela disposição no objecto 
em que se acba e pelos symbolos que a rodeam, é a que se 
observa no particularissimo amuleto amazonense, de argilla cota, 
da qual se occupa o eminente scientista Barbosa Rodrigues, na 
sua erudita obra O Muyrakytà e os Ídolos symbolicos. Esse 
objecto, que (segundo a competente opinião do seu descobridor) 
devia ter sido feito para usar-se ao pescoço, foi encontrado 
numa urna mortuária, desenterrada dum cemitério outrora per- 
tencente á tribu dos Aroakys. Tanto numa, como noutra face, 
o amuleto apresenta desenhos que Barbosa Rodrigues filia á sym- 
bolica asiática (2). 

Não é só isso, porém. A cruz apparece, ainda, em innu- 
meras e curiosíssimas inscripções liieroglypbicas, desenhadas ou 
incisas em pedra (rochedos talhados a pique, as mais das vezes), 
em diversos pontos do Brasil. Nem todas essas inscripções, na- 
turalmente, se devem acceitar como authenticas, sem mais exame; 
e, pelo contrario, o rigor da critica preceitua que as reputemos, 
de preferencia, apocryphas. Algumas ha, todavia, que têm sido 
mencionadas por viajantes e naturalistas respeitáveis e, o que ó 
mais, reproduzidas em trabalhos de merecimento. 

Em relação ao assumpto, aliás incidentemente tratado por 
algumas notabilidades extrangeiras (Spix e Martins, Augusto de 
Saint-Hilaire, Koster, Debret e outros), o conselheiro Tristão 
de Alencar Araripe escreveu uma substanciosa memoria, acom- 
panhada de desenhos, com o titulo Cidades petrificadas e in-' 
scripções lapidares no Brazil, a qual foi publicada na revista 
do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro (3). 

Quanto ao uso e á representação da cruz entre os primeiros 
proselytos do Christianismo, até existe uma circumstancia ver- 
dadeiramente notável. Como medida de prudência contra as 
perseguições officiaes e afim de evitar os escarneos e a profa- 
nação das suas imagens mais queridas pelos pagãos, os adeptos 
da nova doutrina tinham de recorrer a figuras adrede simuladas 
e symbolicas, que encerravam um sentido secreto, incitando-os 



1 Archivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1885, vol. VI, 
cap, IV, pag. 352. 

2 J. Barbosa Rodrigues, O MayraTiytã e os iãolos symlolicos, Rio de Janeiro, 1889, 
vol. 1.0, cap. v'i, pags. 96 e seg 

3 Revista trimensal do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Rio de Janeiro, 
1887. tom. 50, parte l,a, pags. 2i3 e seg.; Ferdinand Denis, Brésil, Paris, 1837, pags. 
279 a 280; Cândido Costa, Ás duas Américas, Lisboa, 1900, cap. I, pags. 42 e seg. 



— 339 — 

ao culto. Ass>im, nos seus loirares de reunião, nos seus monu- 
mentos, principalmente nas recônditas e solennes catacumbas, 
viam-se decorações caracteristicas, pintadas ou gravadas, nas 
quaes a cruz se revelava aos olhos dos fieis, sob as seguintes 
formas : a ancora, ora simples, era com uma peça collocada trans- 
versalmente á haste; o mastro de navio, atravessado por uma 
antenna; o tridente, em que ás vezes havia um peixe suspenso, 
« o mais perfeito symbolo do Crucifixo », na phrase de André 
Pératé, auctor da Arclieologia Christã, (1) ; e figuras dispostas 
em cruz, como o orante, (2) etc. 

Também surgiam, mas raramente, nos primeiros tempos, repre- 
sentações mais próximas: o tau grego, imagem da cruz commissa 

ou patibulata, | , que lembra, de facto, um patíbulo ; a cruz equi- 

lateral ou immissa, vulgarmente chamada cruz grega, —l—; a 



singnlãvhúmsiCYivz gammata ou sicastika, ■, — j , de origem orien- 
tal; e, por fim, a cruz decicssata, X> ^m forma de X, hoje co- 
nhecida pelo nome de cruz de Santo André. 

Começam, depois, a apparecer os diversos monogrammas 
formados pelas letras gregas do nome de Jesus e as respectivas 
siglas cryptographicas, das quaes a mais importante foi, sem 
duvida, a que se perpetuou no assas conhecido lábaro de Con- 
stantino, em que o chrismon-resch, expressão occulta do Christo- 

Deus, )*Ki occupa o logar principal. 

Nesse famoso emblema, celebrizado pela tradicional legenda 
do imperador romano — In hoc signo vinces — , Minucio Félix, 
apologista christão do III século, reconhecia o symbolo da cruz (3). 

Depois da paz do Egreja e após a divulgação da verda- 
deira cruz por Santa Helena, é que a cruz começa a apparecer 
destacadamente, adoptando-se, porem, doravante e mais em geral, 
a sua forma definitiva, como é usada ainda hoje, isto é, a cruz 
latina ou, por outra, a cruz catholica, na sua feição mais simples 

e mais perfeita, 

«Quaesquer que sejam as cousas antigas que se analyzem 
(monumentos, moedas, armaduras, veFtuarios, alfaias, manuscriptos, 
móveis, brasões de armas, esculptura, pintura) durante dezeseis 



1 André Pératé, Varchéologie chrélienne, Paris, pags. 142. 

2 Para André Pératé, obr. cit., pag. 76, o orante é «a imagem da alma se- 
parada do corpo»; Theophilo Beaudoire, porém, entende que essa figura, que se vê re- 
presentada na altitude de invocação, nada mais é do que a substituição da sigla do 

p 
lesmon-resch, "9"t e, por conseguinte, representa a cruz (Theophilo Beaudoire: Gé- 
nese de la cryptograpliie apostoUqtie et de V architecture rituelle, Paris, 1902, pag. 186). 

3 André Pératé, obr. cit., pag. 145. 



— 340 — 

séculos, o facto é que os diversos monogrammas de Jesus, Christo 
e Jehovah, desenhados, reunidos, de tantos modos differentes, 
pelos artistas christãos, formaram a auréola rutilante e gloriosa 
das artes maiores e menores» (1). 

Taes sào as mais simples e, incontestavelmente, as mais 
primitivas formas cruciaes. E dizemos mais sim])les, porque a 
cruz (como se sabe) facilmente pôde apresentar-se sob os mais 
variados aspectos: basta dizer que os modernos beraldistas con- 
tam alem de duzentas espécies (2). Emilio Burnouf, o sabia 
orientalista francez, entende (e com elle concordam muitos ar— 
cbeologos) que a mais antiga forma da cruz é a denominada 
swastika — nome sanskrito quer dizer signal de salvação — , cujo 
uso remonta aos brahmanes da mais alta antiguidade. Ella é 
uma figura monogrammatica, de quatro ramificações eguaes e juxta- 

postas, cujas extremidades se dobram em ângulos rectos 

— ' ' 
A sua origem provêm do arani, original e venerável instru- 
mento, cujo attrito áspero fazia apparecer Agni — o sagrado fog» 
dos patriarchaes aryanos (o). 

Para os occultistas, o tetragramraa crucial é um signal kab— 
balistico do mais alto valor; é um pantaculo hermético duma 
grandíssima influencia ; é o Lingam Sagrado, através de cujos 
traços bipolares palpitam, completando-se, as forças geradoras do 
universo ; é a imagem do Absoluto (4) ; « é o symbolo ineffavet 
da Sciencia Secreta, do ensinamento e do poder dos iniciados ; 
é a unidade potencial; é tudo» (5)! E, de feito, nessa synthese 
magica de tudo quanto existe, que lembra o homem e os pon- 
tos cardeaes, o levante e o pôr do sol, o zenith e o nadir; nessa 
chave mystica da vida eterna, que atravessa os tempos e re- 
vive sempre, na visão comtemplativa da Humanidade, algo não 
haverá de eminentemente occulto e soberano ? . , . 

VII 

Mesmo como symbolo religioso, seriam bastantes as eloquen- 
tíssimas e elevadas qualidades moraes da cruz, a sua simpleza 
ideal e afagadora e a sua incomparável universalidade ,para quô 
não houvesse motivos de supprimil-a da bandeira. Mas a cruz, 
para o nosso objectivo, é, antes do mais (e sem o menor sophis- 
ma), um symbolo histórico ou patriótico (poderemos dizer, até» 
politico) — o primeiro, um legitimo e, quiçá, o mais valioso e 
expressivo dos symbolos nacionaes! Ella recorda e representa, 



1 TheopMlo Beaudoire, obr. cit., pag. 261. 

2 Felice Tribolati, Grammatica araldica, cit., cap V, pag. 95. 

3 Emilio Burnouf, La science de» rehgions, Paris, 1876, cap. IX, pags. 239 e 240'. 

4 Papas, Traité élémentaire de science occulte. Paris, 1903, pag. 108. 

5 Horácio de Carvalho, O kaf, "" ^ , de J- ão Ramalho, publicado na R»vi»ia do. 
Instituto Fistorico e Geographico de São Paulo, vol. 7. o, pag. 361. 



— 341 — 

o descobrimento do Brasil, o sen primitivo e doce nome — Vera 
Cruz e, mais tarde, Santa Cruz— e toda a phase do Brasil-colonia. 
Comquanto muitis>imo devamos ac christianimo e, particular- 
mente, ao catholicismo, força é concordar em que a cruz da or- 
dem de Christo, já sobremaneira celebrada desde o alvorecer da 
nossa civilização, entrou a fazer parte efiPectiva das armas do 
Brasil, qundo se fez a independência, «para rememorar o primei- 
ro nome que lhe fora imposto no seu feliz descobrimento» (con- 
forme a expressão textual do dec. de 18 de setembro de 1822, 
assignado pelo Principe regente e por José Bonifácio) (1), Ahi 
se acha pois, categoricamente explicada, nesse decreto, patriótico 
entre ( s mais patrióticos, a razão histórica e politica de existir 
a cruz da ordem de Christo nas armas e na bandeira do Brasil. 
A mesma idéa claramente se nota ao iu?tituir-se a Imperial Or- 
dem do Cruzeiro, creada pelo dec. de 1 de dezembro de 1822, 
para assignalar a acclamação, sagração e coroação de D. Pedro 
I: a cruz d;^s honrosas veneras, formada pelas dezenove estrellas 
esmaltadas de branco, sobre o o fundo azul celeste, symbolizava, 
ao mesmo tempo, o conjunto das dezenove províncias, e (diz o 
decreto) a «memoria do nome que teve sempre este Império, des- 
de o seu descobrimento, de— Terra de Santa Cruz» (2), A 
bandeira da revulução de Pernabuco, de 1817, também ostentava 
uma cruz, para exprimir o mesmo pensamento (3) . Por conse- 
guinte, á vista desses positivos documentos (a não ser com uma 
preconcebida má-vontade), é obvio qne se não pode taxar essa 
memorabilissima cruz — rara e consagrada reliqaia da nossa 
nacionalidade e que tantas e tão graias recordações nos desperta 
— de symbolo ou de ponto de divergência! 

A continuarem com esse raciocínio, os nossos positivistas 
deveriam vêr um motivo de divergência, tanto nessa cruz, quanto 
na do signal J» das suas operações mathematicas , . . Com 

franqueza : qual a pessoa que, de bôa-fé e sem a menor preoc- 
cupação de contrariar systematicamente, será capaz de descobrir, 
no primeiro decreto (que nos deu ou, antes, confirmou a cruz da 
ordem de Christo como symbolo histórico) e no segundo (que se 
Tefere á cruz da ordem do Cruzeiro), a mais leve imposição ou 
a menor oftensa á crença religiosa de quem quer que seja ? 
Por ventura esses decretos se pronunciam acerca do christi- 
anismo ou alludem, siquer, ao sentimento religioso da nação ? 
Não transparece, ahi, perfeita e puramente definido, o insophis- 



1 Veja-se o dec. refeiido, na CoUecção das Leia do Brasil, cit. pag. 47. 

2 Veja-se o decreto de 1.» de dezembro de J822 na CoUecção das Lets do Brasil, 
«it, pag, 98. 

3 Veja se a respectiva memoria, publicada na Revista Trimensal do Instituto Histó- 
rico e Geographtco Brasileiro, tom. 56, parte 2.» pg. 119. Annexa a essa memoria vem 
representada a bandeira da revolução de 18n, cnjo desenho, aliás, foi encontrado nnm 
dos archivos públicos norte-americancs e remettido ao Instituto, em 1886, pelo nosso 
ministro em Washington nessa occasião, com os seguintes e frizantes dizeres em inglez: 
«Flag of the Republic of Pernambuco (Explanations) The cross allude to the name of 
©anta Cruz fthe Holy Cross; given to the Brasil at the epoch of this discovery». Etc. 



— 342 — 

mavel pensamento do legislador, de relembrar o primeiro nome 
que ao Brasil fora dado, por occasião do descobrimento ? Por 
que se ha de querer, a todo o transe, mal interptetando ou con- 
trafazendo a verdade, que sirailhante emblema, em vez de ser 
um symbolo histórico e patriótico, como realmente é, seja um 
symbolo religioso e (no expressar de um diligente positivista) 
traduza «crenças que não são mais partilhadas por todos os ci- 
dadãos ?» (1) Argumentado com as próprias palavras opportu- 
nadamente escriptas pelo sr. Teixeira Mendes, em defesa da fór- 
mula «Ordem e Progresso», e admittindo, por hypothese, que a 
malsinada cruz figurasse na bandeira como symbolo filiado ao 
christianismo, rematemos? «A acceitação da» cruz da ordem de 
Christo « implica tanto a conversão » ao Christianismo, «como 
a acceitação da lei da gravitação universal descoberta por New- 
ton implica a adopção das theorias metaphysicas do emi- 
nente pensador inglez, ou o reconhecimento da supremacia do 
amor proclamada por S. Paulo implica a acceitação do Catho- 
licismo» (2). 

Mas a cruz da ordem de Christo não symboliza, apenas, o 
descobrimento, o primeiro nome e a phrase colonial do Brasil : 
ella abrange, com os seus braços abertos para os pontos oppos- 
tos do espaço, um resumo de cousas brilhantes e imortaes: a 
época em que foi descoberta a nossa terra, «época de enthu- 
siasmo, de ideial e de lucta em que tudo se representava por 
symbolos» (3) ; a civilização a que nos filiámos, isto é, os usos, 
costumes, a lingua, a crença e as tradições dos nossos antepas- 
sados ; a fé ardorosa que primeiro se infiltrou em nossas almas e 
produziu os colonizadores e os guerreiros, os missionários e os 
martyres ; o ideal supremo da maioria dos brasileiros ! A sua 
idéa está intimamente ligada a Portugal, essa outra pátria coroa- 
vel, que nos acalentou no berço : e, portanto, ella nos abre os 
horizontes das descobertas e das conquistas ; da Renascença pujante 
e esplendorosa ; das cruzadas devotadíssimas e tumultuarias ; da 
Edade-média senhorial e cavalheiresca, rica de aventuras e mys- 
terios ; do solenae mundo romano, tempestuoso e varonil, tronco 
da nossa raça alviçareira ; do Oriente, emfim, dessa paragem 
maravilhosa donde brota a fonte viva do sol e da civilização !... 

A cruz de Christo, como symbolo, vem de longe e, por as- 
sim dizer, nos acompanha pari passu, desde que nascemos para 
a vida civilizada, qual si fora um génio protector . . . 

O nosso pensamento a descortina : nos mais gloriosos e ma- 
gníficos monumentos de Portugal — verdadeiras epopéas de pedra 
— (no convento de Christo, em Thomar, na Batalha, nos Jerony- 



J Teixeira Mendes, artigo publicado no Diário Official da União, de 24 de novem- 
bro de 1«89. 

2 Idem, ibidem. 

3 Faustino da Fonseca, Á descoberta do Brasil, Lisboa, 1900, cap, VI, pag. 48. 



— 343 — 

mos, na torre de Belém e em tantos outros) ; em armas de ci- 
dades e villas desse paiz (1); nas bandeiras coloniaes portu- 
g-uezas; nos lados e nas velas das naus aventurosas dessas arro- 
jados e modernos phenicios; nos marcos solitários, que esses la- 
jboriosos navegrantes iam deixando pelas praias longinquas, afim 
de authenticar a posse, assim como servir de remotos padrões da 
sua fé e do seu valor (2); nas antig-as moedas e medalhas por- 
tuguezas e nos sellos reaes (3); nas nossas moedas coloniaes, 
lavradas no Brasil, as quaes continham a cruz de Christo e a 
esphera aimillar manuelina, ora juntas, ora destacadas, como de 
visu podemos observar nos nossos museus públicos, etc. 

Vemol-a, ainda, numa inteira galeria de vultos immortaes 
para nós, aliás todos membros da nobilíssima ordem de Christo: 
o porfiadissimo infante D. Henrique, o abnegado vidente de 
Sagres, o incansável sonhador do Mar Tenebroso e o insigne 
precursor da espantosa «obra de reconhecimento e vassallagem 
de todo o globo», na phrase crystallina e synthetica de Oliveira 
Martins (4) ; a figura cyclica de D. Manuel, o rei deveras ventu- 
roso, em cujo brilhantíssimo reinado foi descoberta a nossa terra; 
Vasco da Gama, o Ínclito almirante, assas enaltecido no poema 
nacional dos Lwiiadas, pelo seu grande feito de conseguir do- 
brar o cabo Tormentório e vencer o caminho das índias ; o des- 
afortunado, mas inolvidável Pedro Alvares Cabral, o sereno des- 
cobridor do Brasil, cujo precioso arcabouço distante e melancoli- 
camente repousa na piedosa e velha egreja da Graça, em Santa- 
rém; o rei mystico D. João III, iniciador da colonização do 
Brasil; o varonil fidalgo e famoso capitão Martim Affonso de 
Sousa, primeiro donatário da capitania de S. Vicente; o mar- 
quez de Pombal, superior e inquebrantável estadista e acti- 
visssimo e opportuno reformador, cujos provados e zelos sensí- 
veis beneficios, em prol da nossa pátria, se não podem apagar; 
o complacente monarcha D. João VI, que elevou o Brasil á ca- 
tegoria de reino e o dotou de importantíssimos melhoramentos; 
José Bonifácio de Andrade e Silva, o laureado patriarcha da In- 
dependência e o grande espirito que presidiu á formação do ca- 
racter nacional ; D. Pedro I, o galhardo e glorioso proclamador 
da nossa emancipação politica; D. Pedro II, esse magnânimo a 



1 J. Vilhena Barbosa, As cidades e villas da monarchia portuguesa que teem bra- 
são de armas, Lisboa, 186U e 1862, 2 vols. 

2 Um desses marcos, de cantaria, lavrado em quina viva, se encontra ainda hoje 
era Porto Seguro. Vide Salvador Pires, A Bahia Cabralia e Vera Cruz, Bahia, 1900, 
cap. VHI, estampas entre as pags. 50 e 51. João Pinto Ribeyro (Obras «árias, Coimbra, 
1729, Relação feita ao Pontifice, parte 2.», pag 2-13) consigna o íacto de costumarem os 
capitães portuguezes erigir cruzes, com as armas de Portugal, nos logares recem-des- 
cobertos . 

3 Veja-se D. António Caetano de Sousa, Historia genealógica da casa real por- 
tuguesa, cit., tom, IV, parte relativa a sellos e moedas : e um trabalho, sobre moedas 
portuguezas, de Manoel Bernardes Lopes Fernandes, publicado nas Memorias da Acade- 
mia Real das Sciencias de Lisboa, Lisboa, 1857, tom. 2,», parte 1.» 

4 Oliveira Martins, Historia de Portugal. Lisboa, 18t;6, tom. l.o, liv. III, cap. 
I ,rag. 167. 



— 344 — 

preclaro soberano, por muitos títulos venerável, a quem Victor 
Hugo chamou neto de Marco Aurélio e cujo reinado syntheti- 
za a mais luminosa e fecunda época da nossa historia, tão cheia 
de patriotismo e de progresso, apesar dos juizos em contrario, 
que surgir possam, entre os suspeitos e mesquinhos detractores 
desse grande homem! E, finalmente, vemos a cruz de Christo a 
honrar uma serie conspicua e numerosa de brasileiros dignos, 
que se illustraram nos mais nobres feitos do valor humano ! 

Eil a, a cruz, como symbolo, através de quasi toda a nossa 
hi teria — hontera, hoje e amanhã! 

Eil-a, no passsado: foi ella o primeiro monumento, erguido 
na plaga atlântica— aquella cruz de madeira (extraordinário sym- 
bolo \), chantada em Porto Seguro — por esses mensageiros da 
civilização do novo mundo; foi ella a imagem peregrina e con- 
stante, á sombra da qual se edificaram, em meio a esse risonho e 
forte idealismo dos tempos coloniaes, as esperançosas e singellas 
povoações nascentes; era ella a companheira tutelar e compassi- 
va, que os audacíssimos e tena7.es bandeirantes (como olvidal-os, 
esses impávidos leões das nossas brenhas?!), na sua ambição fe- 
bril e impetuosa, qual si fossem attrahidos pelas esphinges das 
solidões impérvias, iam deixando ao longo da carreira, «plantada 
como um padrão no pontal dos rios navegados »(!)!... 

Eil-a, no presente, (nessa época de relativo desamor e in- 
qualificável desprezo das cousas pátrias) : ao commemorar-se o 
4.** cf^ntenario do descobrimento do Brasil, é ella que se levanta, 
imponente e evocadora, no scenario theatral e magnifico onde 
se desenrolou o primeiro canto da nossa epopéa histórica, domi- 
nando o remanso agreste e pinturesco da bahia Cabralia ; é 
também ella que se observa no expressivo monumento erigido em 
S Vicente, ao fundo da merencória e languida enseada, embu- 
tida, com o seu recorte de concha caprichosa, na poética moldura 
de rochas e arvoredos, ahi, nesse retiro scismador, cujos primi- 
tivos e selvagens habitantes viram, outr'ora, chegar a frota ex- 
pedicionária e colonizadora de Martim Affonso de Sousa ; é ella, 
enfim, que se alteia em todo o immenso território deste paiz 
gigante, a partir dos nemerosos planaltos equatoriaes da Guyana 
adusta, onde a vida referve qual a pororoca indomável, até ás 
suaves campinas temperadas do extremo sul, onde o gaúcho ca- 
valga ás soltas, como um heroe arrebatado; desde as levantinas 
e alongadas praias do Atlântico rumoroáo, cheias de movimento 
e de saudade, aos recantos bravios e profundos das irrigadas 
terras de oeste, cheias de silencio e de pavor, — a cruz, sempre 
a cruz, por toda a parte, a surgir, aqui e além, na sua sereni- 
dade meiga e triumphante, como um psalmo de amor que se 



1 Theodoro Sampaio, IV centenário do descobrtmcnto do Brasil, discurso publicado 
na Revista do Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo, tom. VI, S. Paulo, 1902, 
pag. 104. 



— 345 — 

fez symbolo, pelas estradas, pelas cidades, pelas necropoles!. . . 
Eil-a, no futuro: será ella (queiram ou não queiram) a flor 
para todo o sempre viçosa da nossa gloria immarcessivel ; a fina 
jóia aformoseadora da nossa grandeza moral, que não se abate; 
a estrella rutila e aftavel, que ha de illuminar as almas tole- 
rantes e honestas dos brasileiros merecedores desse nomo, no aliás 
bemdito e muito nobre afan de superiormente amarem e servirem 
a Pátria e conhecerem os seus fastos principaes ! , . . 

VIÍI 

E por que haveria o Brasil de repellir a cruz das suas armas 
e da sua bandeira, quando a maioria dos paizes cultos syste-. 
maticamente adopta esse symbolo ? ! Em todos os estados da 
Europa, propriamente ditos (sem nos referirmos ás republique- 
tas de Andorra e de S. Marinho, e apenas com excepção da 
França e da Turquia), a cruz é empregada, sempre, nos brasões 
de armas e, quasi sempre, nas bandeiras: nos brasões quando ella 
não se acha nos respectivos escudos, restrictamente considerados, 
vemol-a (o que se nota as mais das vezes) encimando as corqas; 
nas bandeiras, quando ella não apparece nos pavilhões de guerra 
e nos de commercio, figura, porém, noutras espécies — navaes, 
imperiaes, reaes, etc, secundo a nação a que pertencem. Con- 
vém notar que os symbolos que compõem as armas dos diversos 
paizes também se encontram, muitas vezes, nas suas handeiras 
de guerra e, do mesmo modo, nas de commercio. Além desses 
exemplos da Europa, aliás sobejamente numerosos e expressivt)S, 
ha o de outros povos do mundo, em cujas signas se encerra a 
cruz. O f^ystema internacional de signaes maritimos egualmen- 
te consagra diversas formas e disposições da cruz, entre as suas 
flammulas peculiares (1). O nosso próprio Brasil, apesar de 
tudo, ainda felizmente consigna essa figura (tão sem motivo 
guerreada!), constituída por uma cruz de estrellas symetricas, 
nos lindos pavilhões azues e brancos dos commandos superiores 
da armada. 

Não nos deteremos nessas minudencias, por evidentemente 
supérfluas. Todavia, si a suppressão momentânea desse univer- 
salisimo emblema, na bandeira do Brasil, foi um facto produzido 
pela intolerância religiosa e pelas apregoadas excellencias do 
positivismo, então é necessário registemos as seguintes observa- 
ções que podem servir de parallelo, na apreciação equitativa do 
assumpto, . . 

A vibrante e encantadora Itália, o paiz da vida romântica 
e das bellas artes, que realizou a fórmula da «Egreja livre no 
Estado livre» e onde ainda perduram certos resentimentos po- 



1 Joaqnim Pedro Parente, Código internacional de signaes, (trad. do inglea), 
Lisboa 'i901. 



— 346 — 

líticos e religiosos, pública e solennemente ostenta a imagem da 
cruz, que è, por assim dizer, domestica, no brasão nacional e 
nas bandeiras. Na respeitável e insulada Suissa, das montanhas 
alpestres e dos lagos idyllicos, onde outr'ora pregaram Zwinglio 
e Calvino e onde nasceu um dos grandes precursores da Revo- 
lução Franceza, João-Jacques Rousseau ; e, demais, terra em que 
convivem povos de raças e de cultos differentes, o mesmo em- 
blema se mostra, estampado no escudo vermelho das suas armas 
e na bandeira federal da republica. 

A intellectual e agitada França, tão cheia de ciises e de tem- 
pestadesv donde irradiam as primeiras luzes para os povos irmãos 
que a admiram, a qual, um dia, acclamou a deusa Razão e de- 
clarou os direitos do ho mem ; a França, essa, apresenta um 
facto duplamente curioso: si, por um lado, com ser na maioria 
catholica, esqueceu a cruz, por outro lado, com ser pátria de 
Augusto Comte, jamais teve a idéa de officialmente perfilhar a 
legenda «Ordem e Progresso»... 

Na libérrima e poderosa Inglaterra, «mãe das liberdades 
modernas» (na conhecida phrase dum notável publicista (1), 
nesse admirável Reino-Unido, providencialmente isolndo da Eu- 
ropa, o qual conseguiu vencer Napoleão; paiz que foi berço de 
Wiclef, um dos piecursores da Reforma, e onde pullulam as 
mais contradictorias seitas religiosas, — palpita a cruz nos pavi- 
lhões serenos, como si elles próprios fossem verdadeiramente 
cônscios do seu bom vaior. . . 

Na severa e industrialisssima Allemanha, paragem essa que 
algo inda conserva de medieval, e através de cujos campezinos 
castellos assombreados se aninham as águias vigorosas dos guer- 
reiros e dos sonhadores; nesse theatro onde viveu Luthero e o 
protestantismo tomou corpo, originando acerbas luctas, e onde 
hão doutrinado tantos philosophos materialistas, — a cruz impera, 
como um symbolo sagrado 1 

Na idealista e nevada Scandinavia, dos lendários Eddas, 
dos pinheiros eternamente verdes e da baleeiras que se partem 
para longe, nessa região formada por duas pátrias gémeas, que 
a Natureza uniu numa só península e que a vontade dos homens 
não ha muito separou; ahi onde Gustavo Wasa, depois de 
vencer Christiano II, da Dinamarca, impôz a religião protestan- 
te, que ainda perdura, — deparam-se-n( s, não uma cruz, porém 
varias cruzes, nítidas, amplas e solenues, em cada uma das ban- 
deiras nacionaes! 

Resumindo (e para não diexarmos de alludir ás duas gran- 
des potencias européas que são a Austria-Hungria e a Russiaj, 
apenas faremos notar que ambas se consideram officialmente chris- 
tãs, sendo a primeira catholica e a segunaa grega orthodoxa. 



1 Soriano de Sousa, Principios geraes de direito puilico e constitucional, 1893, 2.» 
parte, cap. XXI, pag. 427. 



— 347 — 

e, por conseguinte, facilmente se concebe que ellas inscrevam 
a cruz nas suas armas e nos seus pavilhões, embora não em todos. 

Passemos á Ásia e não deixemos de lado o Japão, que, com 
ser uma das oito consideradas grandes potencias mundiaes, oc- 
cupa hoje um dos melhores logares na vanguarda das nações. 
Nesse originalíssimo e vulcânico archipelago do Sol Nascente, 
que a nossa imaginação concebe como um pinturesco scenario 
curioso, cheio de matizadas plantas exóticas, de extravagantes e 
infinitos objectos de arte e de carecteristicas e populares casas 
de chá, onde ha gueixas reverentes e graciosas, que se penteam 
e se adornam a capricho ; nesse admirável paiz de Nippon, das 
eminências cobertas de arvores sagradas, em meio ás- quaes de- 
moram templos sombrios e quietos, dos singulares bonzos con- 
templativos e dos tradicionaes symbolos incomprehensiveis, — 
verdade é que, com os principaes cultos abraçados pelo povo 
(xintoista, buddhista e confucianista), a cruz não pode appare- 
de egual maneira por que apparece nas civilizações cccidentaes. 
Comtudo (e não se diga que andamos a esmiuçar factos), si me- 
rece inteira fé um tratado italiano de bandeiras, o qual possui- 
mos, ahi vamos descobrir a cruz, sinão nos pavilhões principaes, 
que ostentam, de preferencia, o sol symbolico, ao menos na ban- 
deira official adoptada para os pilotos (1) . • . 

Volvendo á (America e em conclusão a estes exemplos), fir- 
çoso é falar dos Estados-Unidos, paiz donde o Brasil reproduziu, 
mais ou menos fielmente (como se sabe), a constituição por que 
nos regemos. Nessa nação enérgica e portentosa, cujos titânicos 
emprehendimentos deveras assombram o mundo ; onde a activi- 
dade febril e pratica do homem como que soberanamente empol- 
ga a Natureza, parecendo não encontrar obstáculos que se não 
possam vencer, — não obstante a liberdade religiosa assegurada 
pela constituição, se venera e se cultua a Religião muito mais 
do que ordinariamente se pensa ... A prova disso está em que, 
na grande republica norte-americana, a abertura das sessões do 
Congresso Nacional é precedida de cerimoniosas preces ; e, annu- 
almente, quando se celebra a tradicionalíssima festa denominada 
Thanksgivingday, na ultima quintafeira de novembro, o presidente 
da Republica e os presidentes dos Estados dirigem um appello 
ao povo, exhortando-o a dar graças a Deus, pelos beneficies der- 
ramados sobre a pátria ! Ainda mais (e invocamos um trecho do 
nosso familiar Soriano de Souza): «Alli os poderes públicos não 
declaram guerra ao sentimento religioso do povo, e todos os par- 
tidos o respeitam. Nenhum destes, alternadamente no poder, ja- 
mais Fe lembrou de mandar apagar as sentenças bíblicas escriptas 
em letras maiúsculas nas paredes do Capitólio, sede «do Congresso 
Nacional» (2). Pelo contrario: os três poderes públicos, o exe. 



1 Bandiere delle pricipali potenze dei mondo, Milílo. 

2 fcjoriano de Sousa, obr. cit., 2.» parte, cap. XXI, pag. 425. 



— 348 — 

cTitivo, O legislativo e o judiciário, tratam, o mais posssivel, não 
só de acatar o legitimo e predominante sentimento religioso da 
coramuaidade, como ainda de cultivar similhante sentimento, que 
é, por assim dizer, o solido alicerce sobre que repousa a socie- 
dade. E' que, para isso, afluem «razões de Estado», em vista de 
de considerar-se essa crença mais geral — o Christianismo — como 
fazendo parte da common laiv (segundo aJguns interpretadores) 
e de a julgarem, não na letra, mas no espirito, verdadeira <dei 
suprema do paizi> e «matéria de ordem moral» (1), deante do 
que todos hão de pautar os seus actos, procurando não offender 
essa mesma crença. 

Isso tudo já é muito mais signficativo e muito mais directo, 
para uma republica federativa, onde se proclama e observa a li- 
berdade de cultos, do que a simples conservação (note-se bem), 
nas armas e na bandeiía nacionaes, duma simpes cruz, que, 
além de tudo, concretiza um gennino e insubstituível symbolo his- 
tórico e patriótico de todo um povo (aliás profundamente religio- 
so, em sua quasi totalidade), como é o brasileiro. 

IX 

Com relação á esphera armillar de d. João VI, parece que 
não existe assim tão grande má vontade como contra a cruz da 
ordem de Christo... Não ha mesmo, que nos conste, nenhuma 
objecção positiva formulada a seu respeito. No emtanto, o caso 
é que também esse outro emblema, aliás muito expressivo, do 
nosso amável passado — a esphera — foi, sem mais nem menos 
e, o que é mais, sem razão declarada, supprimido da bandeira 1 
Ahi (creio) não procurarão ver, com tanto afan, um symbolo ou 
um ponto de divergência, mesmo porque a esphera armillar, em 
these, é um objecto mais scientifico do que outra cousa. 

A julgarmos pelo que diz a Grande encyclopedia franceza, a 
invenção desse interessantíssimo instrumento deveria attribuirse 
a Anaximandro, philosapho grego do IV século anterior a Christo, 
que o imaginara para dar uma idéa dos movimentos apparentes 
dos astros (2J. Todavia, a esphera nem sempre foi composta 
do modo por que hoje o é. Segundo Letronnio, citado por Hum- 
boldt, a introducção do zodiaco, na antiga esphera dos gregos, 
data da época da tyrannia dos Pisistratidas, e Eudemo, de Rhodes, 
discípulo de Aristóteles, attribúe essa introducção a Enopide, de 
Chio, contemporâneo de Anaxágoras. A idéa, porém, de identi- 
tificar a zona dos planetas e das estrellas com a orbita solar, e a 
da divisão da ecliptica em doze partes eguaes ou dodecatemorias, 
provêm da antiguidade chaldaica, donde passou directamente á 



1 Idem, ibidem, pag. 423. 

2 La grande encyclopédie. Paris, vol. 80. pag. 3fc3. 



— 349 — 

Grécia (1). Os e^ypcios também conheciam e empregavam o 
zodíaco, á imitação dos gregos : haja vista, por exemplo, na 
época ptolomaica, a celebre representação do zodiaco circular do 
templo de Denderah, cuja gravura podemos ver, no tratado de 
Archeologia egypcia, de Maspero, (2). 

Na índia, comquanto Schlegel verifique esse facto, de haver 
sido conhecido o zodiaco pelos primitivos habitantes do paiz, e 
o refira á mais alta ajitiguidade, baseando-se em algumas passa- 
gens, aliás claras, das leis de Manu e do poema Ramayana, 
resta ainda provar si essas passagens são puramente authenticas 
ou si não constituem interpolações ulteriores (3). 

Mas deixemos o lado as ronomico ou geographico, por que se 
pode estudar a esphera, cuja estructura è vulgarmente conhecida, 
e encareraol-a sob o aspecto symbolico e, sobretudo, histórico, 
que é o que, mais particularmente, nos interessa. 

O auctor do moderno Diccio7iario dos symbolos, emblemas e 
attributos, M. P. Verneuil, tratando da esphera ou do globo e 
discriminando, por ordem alphabetica, as cousas que assim podem 
ser symbolizadas, entende que essa figura representa, entre outras 
idéas : o dominio scientifico da Astronomia (globo celeste) ; a 
Auctoridade ; Clio, a musa da historia, porque essa matéria 
abrange todos os tempos e todos es paizes ; Deus, em allusão a 
ser elle o creador e o senhor do universo ; o Império, a Pere- 
grinação (globo terrestre); o Poder: Soberanos; Terra; etc. (4), 

Mecoy de la Marche, no seu tratado de sigillographia, quando 
se occupa dos sellos d&s soberanos europeus e analysa as espécies 
que começão a apparecer com Carlos VIII, de França, referin- 
do-se ao globo de ouro, diz que elle symboliza « o supremo 
poder » (5) . 

Além dessas representações symbolicas, que se nos afiguram 
assas expressivas, temos conhecimento, pela observação mais 
commum, que, entre as nações monarchicas, é quasi geral a 
adopção do globo crucifero, sobre as respectivas coroas (dos 
brasões nacionaes, etc), as quaes, por sua vez, constituem o 
emblema da realeza. 

Isso quanto aos symbolos, para não nos alongarmos muito. 

Sob o ponto de vista histórico, a primeira ligação que existe 
entre a esphera armillar e as nossas origens, está em haver sido 
essa a figura symbolica escolhida, em boa hora, pelo príncipe 
perfeito, el-rei d. João II, nessa occasião reinante, para empresa 
de d. Manuel, que ainda era solteiro e não possuia divisa, se- 



1 Humboldt, Cosmos, cit., tom. 3.o, pag. 132, e notas da 1.» parte desse tomo, 
ns. 93 e seg , pags. 602 a 604. 

2 G. Maspero, Larchéologie égyptienne, cit.. cap. 111. pag. £8. fig, 102. 

3 Humboldt, Cosmos, cit.. tom. 3. o. 1.» parte. cap.. 111 pag. 134. e notas da 
1.» parte, n. 96. pag. 604. 

4 M. P. Vernenil, Ditionanire des symboles, embUmes, et attributs, Paris, verbo 
globe, pag. 82. 

5 Lecoy de Ia Marche, Les sceatix, F&ris, ap. V. pag. 136, 



— 350 — 

gundo o costume, aliás, usado pelos príncipes. Damião de Góes, 
no seu primitivo e clássico expressar, mostra-se um tanto admi- 
rado, achando que foi de bom augúrio haver-se estabelecido um 
tal symbolo para emblema do entào príncipe d. Manuel, em vista 
dos relevantes feitos, de descobrimentos e conquistas, que, mais 
tarde, durante o seu reinado, se realizaram uo mundo, « com 
muito louvor seu, e honra destes Regnos» (1). D. António 
Caetano de Sousa, o auctor desse monumento impresso, que 
Oliveira Martins denomina «.colossal compilação» (2) — a Historia 
genealógica da casa real j^ortugueza, — referindo-se a uma moeda 
que d. Manuel, quando já era rei, mandara lavrar, a qual tinha, 
de um lado, a esphera e, do outro, uma coroa com a palavra 
*Mea», diz que este soberano «parece quiz denotar, que a Es- 
phera, que El-Rey d. João lhe dera por empreza, alcançou elle 
por obra, descobrindo e conquistando a Índia e o Brasil : de 
maneira que ficarão sendo sua Coroa as quatro partes do mundo 
que comprohende a Esphera» (3). 

Penetrando na historia do Brasil, propriamente dita, depa- 
ra-se-nos a esphera armillar no próprio drama encantador do 
descobrimento, ao mesmo tempo que apparece a cruz, como si 
ambas na verdade fossem, ha muito, companheiras inseparáveis! 
Leiamos a ingénua e dulçorosa carta de Pêro Vaz de Caminha, 
o singelo chronista presencial do facto, quando, descrevendo as 
solennidades para a segunda missa, realizada a 1 de maio, na 
terra firme de Porto Seguro, diz : «Chentada a Ciuz com as 
armas e devisa de Vosa Alteza que lhe primeiro pregarom, ar- 
maram altar ao pee delia» , etc. (4). Ora, a «divisa de Vosa 
Alteza» (d. Manoel) não podia deixar de ser a esphera armillar. 
Tanto assim que o historiador Roberto Southey, alludindo á mes- 
ma cruz de que fala Caminha, é ainda mais explicito : «Prega- 
rão nella as armas de Portugal e a esphera, que era a diviza 
del-rei D. Manoel» (5). Deante disso, pois, se comprova que 
também a esphera armillar já começa a apparecer desde a oc- 
casião do descobrimento do Brasil. 

Pode dizer-se, até, que a esphera armillar se encontra em 
quasi todos es logares onde se encontra a cruz da ordem de 
Christo, principalmente nos monumentos de Portugal. 

Em o nosso paiz, considerado á parte, e durante o perío- 
do colonial, ella se vê, de preferencia, nas bandeiras particula- 



1 Damião do Góes, Chronica do sereníssimo senhor rei D. Manuel, cit. cap. V, 
pag. 6. 

2 Oliveira Martins, Historia de Portugal, cit.. tom. 2,», appendice TIT, pag. 323. 

3 D. António Caetano de Sousa, Historia genealógica da casa real portuguesa, cit., 
tom. 4.0. liv. V, cap. IV, pags. 193 e 194. 

4 Pêro Vaz de Caminha, Carta a el-rei d. Manuel, cit., pag. 13. 

5 Roberto Southey, Historia do Brasil, Rio de Janeiro, 1862, tom. l.", cap. II, 
pag. 33, 



— 351 — 

res do Brasil, depois dum certo tempo (desde a elevação do 
Brasil a principado em 1645?), nas moedas, nos sellos, etc. 

Quando d. João VI houve por bem crear o reinado do Bra- 
sil e «incorporar em um só Escudo Real as Armas de todos os 
três Reinos» (1) (Portugal, Brasil e Algarves), á imitação do 
que fizera Affonso III, com as armas daquellas duas partes in- 
tegrantes da metrópole, foi expedida a carta de lei de 13 de 
maio de 1816, na qual se estabelece : «1. Que o Reino do Bra- 
sil tenha por Armas huma esfera Armillar de Ouro em campo 
azul» (2). Essa decisão régia manda, outrosim, u?ar taes em- 
blemas, por similhante forma reunidos, «em Estandartes, Ban- 
deiras, Sellos Reaes, e Cunhos de Moedas e em tudo mais» (3). 

Por outro lado, sabemos que, na bandeira imperial, desde a 
Independência até á queda da monarchia, foi mantido esse sym- 
bolo, de par com o da cruz da ordem de Christo, que, aliás, não 
figurava nas armas do Brasil-reino. 

Joaquim Noberto de Sousa e Silva, na sua referida memoria A 
bandeira nacional, entende que «foi mal collocada no escudo a es- 
phera armillar de ouro em fundo azul, que (diz elle) nenhuma signi- 
ficasão tem para nós» f?!). Não obstante a consideração que o nome 
do escriptor nos inspira, e comquanto seia a nossa opinião desaucto- 
rizada, parece-nos que, deante da verdade histórica, da expressão 
do symbolo e também do merecimento esthetico, se acha a esphe- 
ra armillar muito bem collocada no escudo imperial, e que assas 
importante significação tem ella para nós. . . Quando, acaso, não 
a quizessem venerar, por haver sido ella a divisa de el-rei d. 
Manuel — o ditoso monarcha sob cujo reinado se descobriu o Bra- 
sil — ; quando, porventura, se apagasse a memoria desse expres- 
sivo symbolo, que nos foi transmittido com a cruz alteada no 
littorai da bahia Cabralia, a 1.° de maio de 1500; quando, si 
fosse possivel, se viessem a desprezar esses innumeraveis mo- 
numentos do nosso passado, ainda ha pouco indicados de relance, 
os quaes falam, com sobeja e affectuosa eloquência, ás nossas almas 
de patriotas, — bastaria o facto de ter d. João VI escolhido essa 
mesma esphera afim de formai, como formou, o emblema das 
armas do Braí-il-reino, para que a reverenciassem e a conservas- 
sem religiosamente, com ura continuo zelo. Cumpre, entretanto, 
advertir que, em favor dessa decisão do soberano, devia ter con- 
corrido a circumstancia de ja estar essa figura extraordinaria- 
mente divulgada e perpetuada entre nós. E, mutatis muiandis, 
com referencia á esphera armillar de d. João VI, que symboliza 
o Brasil-reino, podemos applicar as mesmas palavras que Lecoy 
de la Marche escreveu acerca da flor de liz, que ficou sendo 
(como se sabe) o emblema da realeza em França: 



1 Expressões da carta de lei de 13 de Maio de 1816. Vide CoUecção de legislação 
port. cit, 

3 Idem, ibidem. 

2 Idem, ibidem. 



352 



« Assim, pois, ella não foi, na sna origem, o symbolo inten- 
cional e excluvivo da realeza » no Brasil ; «porem se tornou, 
por uma adopção quasi involuntária e pelo assentimento univer- 
sal, a mais gloriosa insígnia dessa realeza e da nação que ella 
governou > (1). 



X 



Deante do que ficou dito, acerca da cruz da ordem de 
Christo e da esphera armillar de d. João VI, parece que a rei- 
vindição histórica e patriótica desses dous symbolos nacianaes 
se impõe, mormente quando se trata, agora, de organizar nova 
bandeira do Brasil. E, uma vez que o assumpto não se acha, 
ainda, satisfactoriamente resolvido (como julgámos ter provado) 
e ha o pensamento de se inscreverem symbolos na bandeira, é 
obvio que outros quaesquer se não podem substituir por esses, 
com o fim de representar as phases do Brasil-colonia e do Bra- 
sil-reino, respectivamente. 

Em relação á phase do Brasil-imperio, que abrange, na 
continuidade histórica, aquelles dous symbolos e, por conseguinte, 
aquellas duas phases anteriores deve-se consideral-a expressa, 
particularmente, pela zona estrellada dos circulos concêntricos, 
em que se acham distribuídas as estrellas de prata, symbolizadoras 
das divisões do território brasileiro e feliz imagem da nossa 
independência e da nossa organização politica. 

Essa representação, aliás, é mantida nas armas da Republi- 
ca e, portanto, vem figurada na bandeira do projecto, apenas 
com alteração do numero de estrellas, que, hoje em dia, é de 
21, ao passo que, na primeira bandeira do império, era de 19. 

Resta a symbolização do Brasil-re publica, que é fácil ima- 
ginar e como que se revela, por um symbolo assas característi- 
co e, por assim dizer, já firmado — a estrella magna, ou principal 
das que formam as armas nacionaes actulmente em uso. 

Ora, sendo, os Estados da federação representados por es- 
trellas menores, e sendo a Republica, ou a União, um estado 
em ponto grande, ou o conjunto de todos os Estados, parece ra- 
cional, além de justo e evidentemente expressivo que se adopte, 
para esse fim, uma estrella maior, em que se contenham todas 
as demais. 

Deve-se ainda notar que essa figura tem sido por tal forma 
empregada com symbolo, na phase actual da nossa evolução po- 
litica, em tudo e por tudo, e a tal ponto se identificaram idéa 
e imagem, estrella e republica, que, hoje, quasi não mais se po- 
dem separar... Similhante observação constitúe um facto publi- 



1 Lecoy de la Marche, Les sceaux, cit.., cap. VI. pag. 199. 



— 353 — 

camente manifesto e pode ser verificado por quem quer que seja. 
Basta lembrar, no momento : as três bandeiras que o Brasil tem 
tido, após a republica, inclusive a semi-oííicial do projecto, as 
armas nacionaes de agora, decorações de edifícios publico^i, tim- 
bres de papeis do governo, sellos, moedas, etc 

Assim, pois (e simj.lesmente para exemplificar e estimular, 
6 jamais por vaidade exbibitiva, que, no caso, nem teria razão 
de ser, porque os symbolos não são inventados e apenas aprovei- 
tados por nós), de algama sorte, não se avantajaria, um tanto, 
ao do projecto e não se approximaria, um pouco, do ideal o mo- 
delo de bandeira que, eil-o, vai descripto, nos seus lineamentos 
mais gera es ? 

V»-j:ímol-o: o mesmo campo «verde de Primavera» do impé- 
rio e actual, circumscrevendo o losango «amarello de oun» (1) 
(e não amarello açafroado); no centro desse quadrilátero, de 
accôrdo, em parte, com o projecto submettido á Camará, uma 
grande estrella de cinco raios — idealização da Republica — , si- 
milhante á principal das que formam as armas nacionaes ainda 
usadas, mas constituida somente pc-r uma estrella unicolor, nu 
bicolor (com os traços necessários ao relevo), e não por outra de 
quatro cores, como aquella que se vê nas armas nacionaes e no 
modelo do projecto ; inscriptos nessa estrella, do mesmo modo 
que no esv'.udo e na bandeira imperiaes, assim como nas armas 
da Republica e na bandeira do projecto, dois circulos concêntri- 
cos, com tantas estreilas de prata, eguaes e equidistantes, situa- 
das entre elles, num espaço azul, quantos são os Estados do 
Brazil: e, por fim, adaptadas á área do menor desses circulos (tal 
como se ve nas armas e na bandeira do império e em innumeros 
monumentos do nosso passado), a esphera armillar manuelina ou, 
melbor, de d, João VI, e a cruz da ordem de Christo. Unica- 
mente isso, sem nada mais : nem cruzeiros privilegiados, nem 
estreilas inexpressivas, nem gládios (?) semiencobertos, nem laços 
carnavalescos, nem legendas frívolas, nem ramos anachronicos, 
nem resplendores allegoricos. . . Apenas isso! 

Desse modo, e numa ordem lógica e, ao mesmo tempo, chro- 
nologica, seria a nossa Pátria representada: o Brazil-colonia, na 
cruz da ordem de Christo ; o Brasil-reino, na esphera armillar 
de d. João VI : o Brasil-imperio, na faixa estrellada dos circulos 
concêntricos ; e o Brazil-republica, na grande estrella principal. 

Quanto ás cores, ouro e verde (embora alguns critiquem a 
sua combinação e a sua escolha), também devem ser mantidas pela 
Tradição, porque ambas constituem, por assim dizer, as p'-oprias 
cores symbolicas da Pátria, desde que sobreveio a Independência. 
Além disso (e por uma extraordinária coincidência si é que d. 



117 Expressões do dec. de 18 de setembro de 1822. Yiãe a CoUecção das leis do 
Brasil, cit., pag. 47. 



— 354 — 

Pedro I não as escolheu de caso pensado, como parece (l), cilas 
])Ossuem uma intensa e verdadeira côr local, pois tão bem cara- 
cterizam os variados aspectos da nossa paizagera, duma perpe- 
tua c adorável primavera ! 

E' que, ahi, impressivamente se destacam os alegres tons auri- 
verdes da flora admirável, de cujo seio emergem, de onde em 
onde. aqui e além, pelas encoitas e pelas planuras, numa 
grande gloria triumpbal, as majestosas palmeiras tutelares, com 
lazào acclamadas princezas dos vegetaes pelos botânicos, e os gar- 
ridos ipê5 evocadores, agridoccmente celebres no viver primitivo 
dos selvagens . . . 

Nesse conjunto da bandeira e dos quatros symbulos pátrios 
(03 quaes, delia destacados, constituiriam, ao nosso vei, as armas 
idéaes do Brasil), foram observadas, o mais possível, as prcscripções 
heráldicas e, ao mesmo tempo, respeitadas a lógica das cousas e 
a. nossa tradição histórica, isso não somente quanto aos symbolo, 
mas ainda quanto a cores e ao arranjo respectivo. 

No conceito daquelles, que aliás possuam capacidade e pa- 
triotismo, não se afigurará essa uma combinação harmónica o a- 
dequada, que, aproveitando e reunindo elementos nacionaes, his- 
tóricos e sobremaneira eloquentes, symbolica e congh.badamcnte 
abrangeria, numa disposição intuitiva, tradicional e simples, as 
quatro phases, já referidas, do evolucionar politico da nossa terra? 
Nessa bandeira, assim imaginada, não palpitaria, vibrante e in- 
destru^ítivel, a rápida e luminosa synthese de toda a nossa 
historia, desde o descobrimento até á actualidade, num encadea- 
mento continuo e ininterrupto de épocas symbolizadas, em que, 
successivamente, o primeiro symbolo se ligaria ao segundo, este 
se ligaria ao terceiro e abrangeria o primeiro, o terceiro se li- 
garia ao quarto e conteria os dois anteriores, e o quarto, afinal, 
abraçaria todos os demais ? Esse esboço, além disso, para formar 
uma bandeira que se destinasse ao Brasil, acd^^o iria de encontro 
(como, por exemplo, a que ainda vigora) aos cinco fundamentaes 
e necessários critérios do útil, do bello, do verdadeiro, do justo e 
do bem, que integram o eterno e amplo ideal de todo um povo? 

Taes cousas não è anos que compete julgal-as : cutros, mais 
autorizados, que o façam. Não obstante, com a devida impar- 
cialidade, parece-nos que se lhe não podem recusar estes re- 
quisitos essenciaes : bom-senso e expressão de symbolos, além 
do respeito ao passado, que esse plano de bandeira encerra. 
Não S6 notam, ahi, emblemas de mais ou meuos, nem represen- 
tações supérfluas, nem pensamentos que careçam de ser traiu- 



1 Segundo Joaquim Norberto de 8on>a e Silva, o primeiro imperador, conversando, 
um dia, com Eniilio Taunay, acerca da bandeira imporia', de cuja factura estava encar- 
regado JoSo Baptista l)ebret, não quiz ceder, absolutamente, ás inptanci:is do seu inter- 
locutor, sobre a substituição das cores nacionaes ; o que vem conlirmar, ainda mais. as 
nossas supposições. (Veja-se a citada memoria de Joaquim Norberto, no vol. 53, pai te 
1..», da Recisia irimental do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro) ^ 



— 555 — ' 

zidos : todos os symbolos significam alguma e uma só cousa. 
Em o nosío entender, e discorrendo com a precisa franqueza, 
essas qualidades já se não encontiam nos três typos irregulares 
de bandeira, apparecidos nesses tempos alluviaes da republica, 
inclusive o recemnado do projecto... 

Em todo caso, é de esperar que a <ulterior deliberação» a 
que foi remettido o projecto, na Camará dos Deputados fede- 
laes, não resolva, desta vez. o assumpto assim de afogadilho. Mes- 
mo porque (principalmente si os poderes públicos tiverem em 
maior consideração o caso) é provável surjam outros tentamens, 
porventura mais elevados, mais perfeitos. Oxalá assim aconte- 
ça, e a questão consiga despertar a critica sensata e desapai- 
xonada dos homens competentes, porque, desse modo, veremos 
as sementes fructificarem e, o que é mais, lucraremos todos 
nós ! 

Seja como for (ou nomeando- se uma commissão especial, ou 
por meio de concurso, sujeito ou não a plebiscito, ou provenien- 
te do Congresso), preciso é que a Pátria possua um pavilhão 
condigno e estável, que, affirmando a soberania nacional perante 
os povos, sobranceira e veneradamente fluctue, já entre nós, já 
no extrangeiro, ora n<is solenmdades civicas/' ora no commercio, 
asssim na paz como na guerra ! E' mister, é absolutamente 
indispensável que o nosso futuro symbolo supremo possa per- 
durar com efíicacia, que para todo o sempre inspire o amor e o 
respeito ao povo, que superiormente consiga vibrar a idealidade 
intrínseca das almas brasileiras, cuja vida (digam o que disse- 
rem, façam o que fizer. m) ainda, e muito, se alimenta desses 
altos sentimentos ! 

Os romanos — ese povo irrequieto e valoroso, muitas vezes 
celebrado, que, no pensamento a um tempo imaginativo e eru- 
dito de Olivrtira Martins, realizou o sonho da «nação por ex- 
cellencia» (1), cuja civilização «é um typo incomparável e 
único» e cuja historia deve ser encarada «como prototypo da 
historia social humana» (2) — os romanos consagravam ás insígnias 
da sua nacionalidade uma veneração, por assim dizer, religiosa, 
a ponto de, nos acampamentos, as guardarem numa tenda espe- 
cial, que se tornava, por isso, sagrada. Aquelle que perdia ou 
profanava uma das signas heróicas vinha a soffrer severíssimas 
penas, pagando muitos, com a vida, tamanha infelicidade ! Por 
que não havemos de ter, ^inão o lustre febricitante dos romanos, 
ao menos o seu espirito de nacionalidade?... 



1 Oliveira Martins, Quadro das instituições primitivas, lAihoa, 189?, liv. \\^, c;xp. 
111, pag. 268. 

'Z idem, ibidem, cap. II, pag. 214. 



— 356 — 
XI 

Ao terminarmos esta memoria, conferencia (ou que outro 
nome se llie dê), não nos podemos furtar ao desejo, que senti- 
mos, de manifestar o nosso pensamento acerca dumas certas, 
cousas, cuja apreciação nos parece de propósito Trata-se ainda 
(e não nos causaremos nestes assumpto) de desenvolver, cada vez.: 
mais, o culto das nossas tradições, visando o eng-radecimento moral 
e material da Pátria, de modo a mantermos, efíicazmente, os nossos, 
direitos de povo livre e civilazado, em face dos outros paizes . 

Ora, si é uma verdade que a Tradição encerra o manan- 
cial perenne onde se a vigoram incessantemente os povos; e si 
é um facto que a vida constitue uma lucta constante, na qual 
o fraco é dominado pelo forte, o que leva as nações a armarem— 
se para se defenderem, força é reconhecer que o que temos feito,, 
até a^ora, nesse sentido, absolutamente não corresponde á nossa, 
immensa necessidade. A prova disso está, principalmente, na 
maneira por qae se pratica a instrucção entre nós e em que muito-, 
longe estamos de ser uma potencia militar 

Por um lado, já que somos um paiz de immigração, comi 
extensíssimas terras a povoar, vemos a onda extrangeira (quando 
não retrocede levando o ganho adquirido) avolumar-se e esprai — 
ar-se em nosso solo, constituir-se em proliferas familias, esta- 
belecer-se em consideráveis núcleos, sem se ministrar, ao menos. 
á infância, o ensino geral e obrigatório da lingua, da geogra-- 
phia e da historia nacionaes ! 

Por outro lado, basta um ligeiro relancear de olhos pelo 
espectáculo que nos cfferecem as naçõe? contemporâneas, mor — 
mente as chamadas potencias civilizadoras, para se incutir a solen- 
nidade duma lei a este enunciado algo alarmante de Gus^lielmo 
Ferrero, que é, como se sabe, um dos mais vividos e robustos, 
espíritos da Itália moderna : « Todas as formas sociaes jovens ten- 
dem para o gigantismo; alimentam em si uma tal lebre de- 
grandeza, que as impelle quasi a violentar as leis nataraes» (1). 

Verdade é que já somos um paiz gigante, pelo menos na, 
proporção geographica : que não precisamos de territórios, porque 
os possuímos em prodigalidade ; que a nossa missão não é, como^ 
nunca foi, a de esbulhar ninguém, e apenas de cons<^rvar inta— 
ctoB o nosso pundonor e o nosso património ; que o ideal que 
acalentamos é de Pax et Concórdia ; etc, etc. 

Ma^, deante da expansão á fina, á finíssima força das nações, 
imperialistas e da probabilidade, sempre imminente duma guerra, 
inesperada, qual será o nosso papel ? ConBar no Deus-darárj. 
presumir que, pelo facto de respeitarmos os demais Estados, tam^ 
bem elles, sempre e sempre, nos haverão de respeitar a nós'?. . . 
Pura chimera ! Então que fazer? Devemo-nos resignar, quiçá^. 



1 Guglielm3 Perrero, L'Europa giovane, Milão, 1903, eoncl., pag. 419. 



— 357 — 

<íom aqiiella semiprophecia, imaginosa e triste, ào sonhador de 
^hanaan, ao inferir que: « Ha nma tiaoi^edia na alma do brasi- 
leiro, quando elle sente que não se desdobrará mais até ao infi- 
nito» <!;? Ou. ainda, no dizer vigoroso e cortante do colorista dos 
Sertões, continuaiemcs «vivendo paiasyíariamente á beira do 
Atlântico dos principies civilizadores elaborados na Europa» (2)? 

O mais elementar patriotismo, o próprio instincto de con- 
servação demonstram que uma iniciativa qualquer, da nossa 
parte, é necessário, no sentido dn gssegurarcLOS, dum modo não 
ephemero, as condições primordiaes da nossa vida ! E não se 
teime tm objectar que somos uns espirites visionários e pessi- 
mistas e que andamos a sofírer da mania de perseguição, quan- 
do o telegrapbo e os jornaes, de tempos a tempos, vivem a 
annunciar-nos uns tantos p'anos mais cu menos indiscretos e 
mais ou menos adiáveis... Todavia, aos que ironicamente emit- 
tem aquellas opiniões, pi deriamos retrucar, não sem certa van- 
tagem, que elles, ao contrario, é que sofFrem da mania das 
grandezas e que o seu optimismo, deveras exquisito, si por ven- 
tura não traduz falta de amor á Pátria, indubitavelmente enco- 
bre a mais obtusa e dolorosa imprevidência... Poderão ainda 
redarguir que aa nessas relações, cem os demais Estados do 
globo, são as melhores possiveis e que, não obstante isso, tam- 
bém estamos cuidando, no limite das nossas forças, da defesa 
nacional. Não ha duvida : mas convém observar, com o mais 
ingénuo d(>s phiL sophos, que as boas relações existem sempre 
até ao dia em que se rompem e que os homens nem sempre 
são alimentados das mesmas intenções, tanto mais quanto os que 
hoje governam não serão os de amanhan. . . Eígualmente urge 
concordar em que, si se tem feito alguma cousa, ou muita cou- 
sa, ainda se não fez metade do que fora preciso fazer ; mormen- 
te quando estamos vend^^, dia a dia, que, nos altos mysterios 
da politica teriaquea, o respeito e o direito se conservam, em 
geral e eífecti vãmente, pela força armada... 

Deante da norma quasi geral e dos desejos que se não po- 
dem chamar latentes, mantidos pelas poderosas nações hodiernas, 
as quaes, numa atribulação febril, parecem querer disputar a 
supremacia material no mundo, lembrámo' nos da pacifica Suissa 
— exemplo da Ordem — e do victorioso Japão — exemplo do Pro- 
gresso—, paizes que (note-se de passagem), si bem não houves- 
sem adoptado lemmas, próprios ou emprestados, nas bandeiras, 
nos devem servir de estimulo e por ventura de modelo. 

A Suissa— esse pequeno paiz que um notável sociólogo (não 
^sei si com absoluta justeza) classifica de «rudimento de nação 



1 Graça Aranha, Chanaan, Rio de Janeiro, cap. I, pag. 43. 
-2 Euclydes da Cnnha, Os Serlces, Rio de Janeiro, 1903, not. prelim., pag., VI. 



— 358 — 

insulado em montanhas» (1) — apesar de ser tida como um 
paiz neutro e declarado inviolável pelo Congresso de Vienna, 
de 1815, não se descuida, um só instante, de promoA^er, com a 
maior utilidade, não apenas a instrucção em todas as classes, 
mas ainda a perfeita seguiança nacional. 

Para se avaliar o grau de desenvolvimento a que cliegou 
a instrucção nesse paiz, consulte-se, por exemplo, o magniíico 
annuario intitulado Vfducation eu Siiisse, correspondente ao 2,° 
anno (1905 — 1906) e editado em Genebra. Por alii ^e vô que 
«é a Suissa, incontestavelmente, o ^ríz que faz os maiores sa- 
criíicios pela sua instrucção publica» (2). «Instrui o povo» — 
é a sua divisa (3). Os esforços geracs consiste em formar lio- 
mens pbysica e moralmente fortes. «Presentemente, e desde 
muito tempo, não existe aldeia, ainda que pobre, perdida nos 
recônditos des Alpes, que não tenlia a sua escola» (4). Diz 
I. Revercbon : «A escola encontra-se por toda a píirte. Sua luz 
irradia sobre o povo, sobre a mulher. Mais esclarecido, o in- 
dividuo sente biotar em si uma energia productiva mais consi- 
derável, ao passo que a massa, menos cega, attinge o critério 
da solidariedade que estabelece a concórdia entre as classes »(5). 

A instrucção primaria sabe-se que é gratuita e obrigatória. 
Qunnto ao ensino, nos diversos graus o nos diversos ramos, é 
ministrado, com vantagem, em excellentes escolas infantis ( jar- 
dins da infância ); em escolas primarias, secundarias (das quaes 
algumas dão, outras não, accessos aos estudos universitários); 
em escolas normaes, profissionaes, technicas, industriaes, de com- 
mercio, de agricultura, de musica, de economia domestica e in- 
strucção profissional da mulher ; em estabelecimentos de beni- 
ficencia, para cegos, surdos, mudos, creanças fracas ou retarda- 
tárias, orphams, desamparados ; em gymnasios, coUegios, pensio- 
natos e instituições particulares para ambos os sexos ; em acade- 
mias, universidades, etc. «Nenhuai paiz possue tantas instituições 
que correspondam ás exigências de cada situação» (6). 

Vejamos alguns dados estatísticos. 

Jardins da infância. — Comquanto o plano das escolas in- 
fantis ainda esteja em organização na Suissa, já existem estabe- 
lecimentos desse género nos 22 cantões. Em 1901, havia 804 
escolas, ao todo, com 972 professoras e 41.624 creanças. 

Escolas primarias. — Segundo o annuario citado, contam-se 
4.667 escolas, com 10,539 professores e 472.607 ahimnc s, de 
ambos os sexos. 



1 Oliveira Martins, Quadro das insliíuiçues primilivas, liv. ]V, cap. VI, pag. 304, 
nota . 

2 Védncation, en Sziisse, 2. o anno 0995-19í'6), Genebra, pag. 35. 

3 Idem, ibidem, pag. 60. 

4 Idem, ibidem, pag. .50. 
••> Idem, ibidem, pag, 7?! 

6 Idem, ibidem, pags, 75 e 76. 



— 359 — 

Escolas profssíonaes (de trabalLos manuaes). — Fundadas ha 
pouco tempo, desenvolvem-se de dia para dia e já contam mais 
de 15.000 aprendizes. 

EacoJas secundarias. — Ha cerca de 600, com 50.000 alum- 
nos, aproximadairicnte. 

Escolas normaes . — O numero é de 36, sendo 27 officiaes e 
9 livres, com 1.365 moços e 962 moças. 

Universidades. — Ha 7 universidades : Genebra, Lausanne, 
Neuchâtel, (que ainda conserA\a o nome oííicial de scademiaj, 
Friburgo, Berna, Basiléa e Zurich. Sào dirigidas por 350 a 400 
professores e frequentada por uma njultidão de cerca de 5 OCC 
estudantes o que é um resullado eloquentissimo para uma po- 
pulação de 4.0C0.000 de habitantes. A universidade de Basiléa, 
a mais antig-a e venerável de todas, fundada em 1460, possits 
um património próprio, de 1.355.000 francos, o que faz com que 
ella onere menos as finanças cantonaes. 

Segundo es cálculos feitos em 1901, sabe-se que os cantões 
e as communas gastaram 51.700.000 francos com a irstrucção 
publica, ou seja uma media de 15,50 por habitante. Veriíicou- 
sft que 03 cantões dispendem 20 **/„ e 30 7o' lespectivamente. 
E sabido, oiitroslm, que a Confederação auxilia os cantões, com 
subvenções proporcionaes ás despezas por elles feitas, em favor 
do ensino. 

A instrucçao militar, que è progressiva, começa logo que t) 
menino tenha edade sufficiente. 

De medo que o suisso incipicLte se vae habilitando, ao mesmo 
tempo, a ser um bom cidadão e ainda um bom soldado. E isto 
se obtém com certa facilidade, porque, ahi, a instrucçao civil e 
a militar, alem de simultâneas e obrigatórias, são pratica e agra- 
davelmente feita'. No emtanto, com todos esses resultados, a 
divida publica na Suissa, si hoje existe, é quasi nuUa, e ainda 
mais em parallelo com a de outros paizes, que, apesar de muito 
maior riqueza e muito maior população, teem a instrucçao as?ás 
inferiormente organizada e diífundida e são pessimamente apja- 
ralhados para a defesa (já não dizemos para o ataque). 

O ideal da incomparável confederação é não haver um 
único homem analphabeto, entre es seus ordeiros e patrióticos 
habitantes, os quaes entretanto, são de três raç«s e faliam, prin- 
cipalmente, três línguas diíferentes (a franceza, a italiana e a 
alleman). E também, sem embargo de haver aquellas affirmaçôes 
de neutralidade e inviolabilidade e de ser o seu território facil- 
mente defensável, insiste a Suissa em estar sempre prompta 
para manter illesa, em qualquer emergência, a sua cioça inte- 
gridade. Para tanto, a Suissa (onde cada cidadão valido é um 
soldado), dispõe, além da tropa regular e landivlier, duma valiosa 
reserva, o que, com essas forças referidas, forma um total de al- 
gumas centenas de mil homens, perfeitamente aguerridos e dis- 
ciplinados ! E' que o pequeno paiz, que Júlio César outrora 
conseguiu submetter ao poderio romano, e que o duas vezes 



— 360 — 

heróico e hoje lendário Guilherme Tell contribuiu a libertar 
do jugo austriaco, é verdadeiramente grande, no pat)iotismo e 
no vaíor. . . . 

XII 

O Japão, esse é hoje um exemplo forçado, uma espécie de 
logar-commum inevitável, quando se trata de medir a capaci- 
dade emprehendedora e a energia progressista de um povo. No 
emtanto, não ha muito tempo, era tido como quasi bárbaro, 
mesquinho, estiolado e insignificante, do que é prova o mui co- 
nhecido livro de Pierre Loti, Madame Chrysanthème, no qual 
esse escriptor, «da Academia Franceza», aliás frivolamente pre- 
tendeu julgar o paiz, através dos mundanos e mal empregados 
oci s duma curta estação naval em Nangasaque ! 

Depois da celebre revolução do Meiji, em 1868, para cá, 
que transformação rápida, que renovamento prodigioso! Não só 
supplantou a China, donde recebeu a velha civilização, através 
da Coréa, como actualmente, está instruindo e militarizando a 
primeira e se pode considerar o senhor da segunda... E, o que 
é mais, distinguiu-se, entre as potencias alliadas, na repressão 
dos boxers, venceu a Rússia e deixou a distancia, em varias 
cousas, muitas nações occidentaes, que, ainda ha pouco, lhe es- 
tavam na deanteira ! 

E tudo isso por que? Porque o Japão possúe, em alto grau, 
talvez como nenhum outro povo da terra, o carinhoso culto do 
Passado, que é o fundamento do edifício social, e o elevado sen- 
timento do Patriotismo, que é uma verdadeira religião. Ahi, o 
passado se liga, fortemente ao presente, num longo e vivo elo 
inquebrantável I As almas japonezas vão transmittindo, de pães 
a filhos, os lances mais suggestivos e gloriosos das suas bellas 
tradições. O culto ancestral, a veneração, por assim dizer, ri- 
tual dos mortos e dos heióes achase por tal forma fundida no 
sentir do povo, que, sobre ser uma lei básica e uma necessidade 
iraprescindivel, 23roduz a impressão perfeita, e aliás agradável 
para elles, de que os mortos convivem entre os vivos. , . O 
grande espirito feudal (e o feudalismo, no Japão, durou até uma 
época mui próxima e pode se dizer de hontem) anima, valoro- 
samente, os corações abnegados dos guerreiros e de todo c povo 
e faz vibrar o seu intimo, qual uma enthusiasta e í-eductora 
canção nativa! O symbolismo, ahi, é tão desenvolvido, e o 
culto da Tradição é tão profundo, que, ha tempos, pretendendo 
o governo imperial aproveit* r uns robustrs e antiquissimos ce- 
dros, do enorme bosque de Uyeno (1), para empregar a ma- 
deira eiíi construcções navae?, teve de desistir do projecto, de- 



1 Logar celebre, onde se travou uma memorável batalha, que derrlvou os Toku- 
gaua. 



-- 361 — 

ante dos clamores populares e das considerações da imprensa 
(Ij! E' que, paia os affectuosos japonezes, as veneráveis e 
soberanas arvores, alem de lhes proporcionarem a meiga delicia 
de verdura e sombra, aninham uma airra e, pois, têm direito á 
vida como nós, principalmente quando adquirem ancianidade, 
tornando-se queridas como l^ymbolos sagrados,.. 

Transmitte a impressão duma adorável felicidade o respe- 
ctivo reparo de Oliveira Lima, no seu modo de escrever tão 
fino e penetrante, quando diz que o Japão conserva «o perfume 
das cousas idas- nas que restam» (2). E, mais adeante ; «Em 
parte alguma, os mortjís governam mfis os vivos e o passado 
explica mais o presente do que ri o Oriente» (o). 

Vejamos agora, de relance, o que fez o Japão afim de at- 
tingir o nivel moral em que hoje se acha. Um olhar retrospe- 
ctivo para o seu pas-sado nos mostrará como isso foi. Conquanto 
visitado, no século XII, pelo famoso veneziano Marco Polo, que 
atravessou a Ásia e, depois de regresso á Europa, deu publici- 
dade ás suas extraordinárias Viagens, só entrou o paiz era re- 
lações directas com o Occidente quando os portuguezes o foram 
descobrir, por mar, entre os annos de 1534 a 1542, segundo as 
diversas referencias de mais nota. E, não obstante os arrojados 
feitos de Hideyoshi ou Taikosama, o chamado Napoleão japonez, 
que fez invadir e dominar a Coréa; os devotadíssimos esforços 
de São Francisco Xavier, aliás coroados de êxito, de par com 
as aspirações dos portuguezes, afim de christianizar e civilizar o 
Japão; e a agitação relampagueante da vehemente época de 
Yeyasu Goghensama, o vencedor da monstruosa batalha de Se- 
kigahara, o qual expulsou os portuguezes e perseguiu o christia* 
nismo; não obstante tudo isso, além de outros arrancos de vi- 
bração intf rna, — o império do Sol nascente como que de propósito 
adormecia, para o resto do mundo, numa estacionaria e mys- 
teriosa penumbra e numa politica extranha e rotineira. O pró- 
prio mikado nào governava desafogadamente e, não ha muito 
tempo, o paiz se podia considerar privilegio dos taicuns ou an- 
tes, xoguns (conde.-taveis do império, generalíssimos das tropas, 
directo es políticos do paiz, imperadores mascarados, ou cousa 
que o valha), dos daimios (senhores feudades (U t^rritoriaes) e 
da classe nobre e militar dos homens que traziam as duas es- 
padas, denominada samurais. 

Mais tarde, porém, começou a despertar. Em 1854, quando 
apenas Nangasaque, a antiga Decima ou Deshima dos portugue- 
zes e dos hoUandezes, era o único porto japonez aberto ás na- 
ções extrangeiras, entrou o commodoro norte- americano Perry, 
sem a menor cerimonia, na cidade de Uraga, e, com alguns 
fortes naviosde guerra e com os canhões promptos a fazerem 



1 Pedro Gastão Mesnier, O Japão, Macau, 1874, cap. IX, pag. 234 a 237, passim- 

2 Oliveira Lima, No Japão, Rio de Janeiro, 1905, cap. I, pag. 4. 

3 Idem, ibidem, pag. 6, 



— 362 — 

troar a voz humanitária, exig:iu a asdgnatura amigável de ura 
tratado de commf^rcio entre o Japão e o sen paiz... O Japào, 
inerme, depois de reclamar contra a violência, teve que ceder 1 
Dez annos após, tendo imi daimio atirado &obre uns navios ex- 
trang-eiros, em Ximoneseki, as nações ccUigadas, C(ano represália, 
íizeram bombardear a cidade por uma poderosa esquadra, e, 
concomitantemente, exigiram uma indemnização de guena, que 
o Japão foi obrigado a pagar ! 

Esses e outros factos, que fundamente feriram o amor na- 
cional — cousa que es japonezes possuem era alto grau, — natural- 
mente baveriam de contribuir, e muito, para jruvocar uma rea- 
cção qualquer no animo do povo, cujo ideal ardente era : verse 
livre ca tutela extranba, nào depender de ninguém, contar com 
as suas próprias forças e, ainda mais, elevar- se á mesma altura 
dos que, até então, lhe pautavam o pro;:eder! Foi isso o que estu- 
pendamente realizaram os políticos do Meiji — esse ultra benéfico 
movimento revolucionário, a Eenascença japoneza, que, derribando 
e abolindo o xogunato, concentrando a acção governativa nas mãos 
do imperador, fortalecendo o throno, afinal transformou o paiz. 

Reconhecida a necessidade de se adoptar a civilização Occi- 
dental, no que ella possuía de mah utíl e imitavel, (diz o auctor 
do Jajjco por dentro), « o paiz escolheu a fina flor de seus filhos 
e organizou-os em numerosas missões que se espalharam por todo 
o mundo, encarregados de estudar os assumptos que a cada uma 
foram designados». (1) «Pela efíicacia destas missões que no 
regresso apresentavam ao Micado o relatório dos seus estudos e 
observações, responde o actual estado de civilização a que o im- 
pério do Sol nascente chegou» (2). Não se pense, j^orém, que 
o Japão foi assim adoptando cegamente, sem selecção nem ada- 
ptação, os melhoramentos europeus : pelo contrario, sujeitou-cs 
a uma analyse rigorosa, e, o que é mais, nacionalizou os, japcni- 
zou-os, isto é, fel-os de accôrdo com a Índole do povo, infundiu- 
lhes o caracter nacional. De modo que a civilização occidental 
se transplantou no solo uipponico facihiiente, reflectidamente, mas 
de todo em todo sem prejudicar as muito enraizadas e prezadís- 
simas tradições populares ! Isso vem pôr em relevo algumas das 
principavis qualidades características desse povo sui generis'. a 
sua malleabillidade, mas, também, a sua impenetrabilidade ; o seu 
espírito progressista, mas, ao mesmo tempo, o seu espirito con- 
servador; a sua faculdade de assimilação, mas, de outro modo, a 
sua força de resistência ! 

O ensino, aliás obrigatório, que, a principio, era feito por 
uma chusma de professores extrangciros, hoje o está sendo, na 
maioria, por milhares de professores japonezes. Ha uma infini- 
dade de escolas primarias (26.322, até pouco tem]io), 174 jardins d-e 



1 Ladislau Batalha, O Japão por dentro, Lisboa, 1900, cap. VIII, pag. 69. 

2 Idem, ibidem, pag. 70. 



o r> o 

obo 



infância, muitas escolas secundarias c normaes, 2 universidades 
do governo e um sem numeio de escolas complemetares, te- 
elinicas e aunexas e de instituições particulares, paia ambcs os 
sexos. Como na Suissa, a instrucção physica se ministra simul- 
taneamente com a intellectual, e a militar juntamente com a 
civil. Nesse ] outo, lia uma circumstancia verdadeiramente notável: 
o estudo da historia nacional e feito com um tal carinho e um 
tal cuidado, que adquire uma nota muito á parte: ahi se fazem 
patrioticamente vibrar, nas esperançosas almas dos jovens japo- 
nezes (inclusive as mulheres, cuja educação também deve abranger 
esse curso), os mais brilhantes episódios dos fastos do paiz, e se 
mostra qnal tem sido o papel das nações extrang eiras no Ori- 
ente . . Quanto ao ensino militar (obrigatório, já se sabe), ex- 
cusado será dizer que começa desde os mais verdes annos, com 
imaginável e enormissima vantagem ! Para se ver em que con- 
sideração o governo e o povo japonez lêem o ensino, basta citar 
ura trecho do rescripto imperial, de 1872, cujo pensamento se acha 
em via de realização : « O nosso objectivo é que a instrucção 
deixe de ser privativa de alguns, para se derramar a tal ponto 
que não haja mais uma aldeia com uma iamilia ignorante, nem 
uma familia onde exista um membro ignorante» [1). 

O esprito de imitação acompanhado do desejo de produzir 
sempre melhor, a habilidade, a diligencia, a perseverança, o 
sentimento da honra nacional chegam a tal ponto, principal- 
mente entre os adminstradores do Japão, que es;e povo (que, 
ainda bisonho, apprendeu a fabricar as primeiras espingardas com 
os portuguezes, e os primeiros navios, sem incluir os seus pri- 
mitivos juncos, com o piloto inglez William Adams), alem de 
hoje dispor de um exercito realmente modelo e duma esquadra 
homogénea e admirável, tem armamentos seus, dos mais aper- 
feiçoados, e estaleiros de primeira ordem, arsenaes importantissi- 
mos e magnificos portos de refugio, carvão nativo e explosivos 
próprios (como o inventado pelo dr. Ximose), as excellentes es- 
pingardas e canhões Arisaca e os torpedo-minas Oda ! Per ahi 
se ve que os japonezes não possuem, apenas, a grande faculdade 
assimiladora e imitativa, que tanto os distingue, mas ainda um 
extremamente pratico e assas vigoroso poder de crear. 

Ccmquanto seja, porventura, o povo mais cortez do mundo 
(talvez em excesso mesureiro), porém jamais servil, eminentemente 
cultiva, na sua alma pundonorosa, com uma paixão fanática, o 
sentimento do civismo e do orgulho nacional. E' por isso que 
de bom grado se comprehende que elle houvesse realizado, na 
expressão de Oliveira Lima, «o maior milagre da intelligencia 
humana que a historia registra», o qual «resplandece coieo um 
prodigio de esforço e um ensinamento para a humanidade» (2). 



; Idem, ibidem, cap. V, pag. 49. 

2 Oliveira Lima, No Japão, cit., cap. I, pag. 15, e idem, ibidem, cíip. IX, pag. 303» 



— 364 — 
XIII 

Foi dando curso a esses pensamentos, e a propósito da idéa 
contida e expressa na baudeira do Brasil, que, recolhidamente, 
affectivft mento, volvemos o espirito para o scenario intimo da 
Pátria, afim de examinarmos os seus elementos de vida e resis- 
tência, em face do moderno imperialismo e das paixões mal con- 
tidas das nacionalidades. E, occorrendo-nos logo a sediça, mas 
eterna comparação do reverenciado discípulo de Sccrates e di- 
vino preceptor de Aristóteles, de que o Estado ó o homem em 
ponto grande, somos levados a crer que, para se operar o func- 
cionamento normal desse organismo, para estabelecer um perfei- 
to equilíbrio entre a acção da alma e do corpo, de modo a ga- 
rantir-lhes a vida serena e forte,— seria mister desenvolver, o 
mais lúcida, pratica e energicamente possível, a instrucção geral 
e obrigatória (abrangendo, necessariamente, o culto da Tradição) 
e a força material offensiva e defensiva. Da consecussão e im- 
mediata regularização desses dous principies vitaes por excellen- 
cia (os quaes dependem, naturalmente, do factor económico), 
elevados, progressivamente, a um alto grau de aperfeiçoamento 
metbodico e intelligente, nasceria, por certo, no céo da Pátria, 
a auro a propicia e esplendorosa desse justo e sacratíssimo ideal, 
com tanta e tanta anciã desejado — a nossa integridade perfeita- 
mente garantida, a nossa soberania posta a salvo de qualquer 
ataque ! 

Vira isso, um dia, a converter-se luma bemdita e positiva 
realidade, ou não passará, unicamente, de pura aspiração acari- 
ciada ? 

Vem a pêlo relembrar o velho e popular proloquio : «O fu- 
turo a Deus pertence»... Todavia, a elevada noção de patrio- 
tismo (que não é, ou não deve ser uma utopiaj, e o frisa ntissi- 
mo exemplo de outros povos, que, afinal, não são mais capazes 
do que nós, j elo menos em principio, induzem-nos a jamais es- 
morecer! Este paiz, que ha fornecido ao mundo tantos vultos 
consagrados e ha cooperado, com os mais nobres elementos, para 
a larga realizaçãa do ideal humano, este paiz (repetimos) não 
tem absolutamente o direito de recolher- se á sombra dos louros 
conquistados : o seu fim é expôr-se á plena luz ! Pode, portan- 
to, confiar em si... Tudo é possrivel conseguir-se, quando, na 
terra, existem homens de boa-vontade . . , No Brasil (justiça é 
confessal-o), embora ainda perdurem certos hábitos egoístas e 
estreitos, que precisam acabar, a bem geral, nota-se, de facto, 
sinão em toda a parte, ao menos em alguns centros, uma sen- 
sivel e salutarissima reacção, um louvável e nobilíssimo desejo 
de acatar a opinião publica, de algo fazer de elevada e dura- 
douramente útil e bom em prol da Pátria! A segura e brilhan- 
te orientação da nossa actual politica externa e os rápidos e 
importantíssimos melhoramentos que se iniciam no paiz são um 



— 365 — 

sobejo e fecundo exemplo disso ! Parece que uma nova era, de 
pujança e de esplendores, alvorece para nós, desvendando-nos, 
não longe, horizontes até então desconhecidos . Abençoado 
movimento, ditosis-^imo designio ! Oxalá se generalize e se en- 
carne essa idéa de tal modo, no sentimento j^opular, que pro- 
duza, como a dos japonezes, a nossi immarcessivel Renascença ! 
Por que não faremos como a Suissa e, particularmente, como 
o Japão, isto é, por que não haveremos de imitar e aperfeiçoar 
o que os extrangeiros têm de imita vel e aperfeiçoavel, porém 
conservando, sempre, as nossas tradições ? Desenvolvamos as nos- 
sas industrias, acoroçoemos as nossas artes, diífiindamos os mais 
vantajosos conhecimentos, procedamos com justiça, combatamos 
pelo bem, mas sem jamais perder de vista a felicidade parti- 
cular da Pátria e o fim geral da Humanidade. Numa palavra, 

NACIONALIZEMO'-NOS 6, UO mesmO passo, UNIVEKSALIZEMO'-NOS ! 

Porém, primeiramente, nacionalizemo'-nos, porque disso depende 
tudo o mai^ ! 

Unifiquemos as nossas tradições, que não são das menos 
bellas e gloriosas ! Pelo contrario : reservam muitos e muitos 
exemplos civicos de poesia, de nobreza e de heroicidade ! Ahi 
estão : as primitivas e encantadoras passagens do descobrimento 
e da conquista-, as scenas impressionantes e evangélicas da ca- 
techese abnegada ; os briosos e imperterritos impulsos, outrora 
felizmente postos em pratica, afim de repellir o extrangeiro, por 
varias vszes e em diversos pontos, do torrão natal ; os quadros 
dramáticos e grandiloquentes da epopéa pernambucana, durante 
a invasão hollandeza, os quaes terminaram com a apotheo-e da 
memorável batalha dos Guararapes ; o arrojo temerário e perti- 
naz dos sertanistas, impetuosamente arrastados ao Desconhecido, 
pela faina intensa da-< bandeiras ; os episódios sonhadores e tris- 
tonhos dos revolucionários de Minas, cujo remate foi o martyrio 
de Tiradentes e o degredo de seus cúmplices ; o inesquecível e 
digno trabalho patriótico dos beneméritos emancipadores políti- 
cos de 1822 ; o devotamento, tantas vezes sagrado em sangue, 
do heroes do Prata, nas três guerras consecutivas, em que o 
pavilhão auriverde sempre triumphou ; a provada philanthropia 
e o ardor atheniense dos incansáveis paladinos da campanha 
abolicionista ; a anciã de ideal e o vigor de convicção da infati- 
gável propaganda republicana. . . E tantos e tantos lances pi- 
cturaes e impressivos, amortalhados aquelles nas brumas frias do 
Passado, ainda palpitantes e«tes nos circuitos tumultuosos do 
Presente ! 

E como o ensino da historia é um dos factores mais pro- 
veitosos para a formação do caracter nacional, parece incrível 
que pudesse um ministro, que, ainda ha pouco, dirigia a ins- 
trução publica em no>sa terra, qual o dr. José Joaquim Seabra, 
manifestar o pensamento (a ponto de pretendel-o converter em 
lei) de banir-se tal matéria do curso primário e secundário, 



— 3G6 — 

achando quo ella «dsve ser re-ãervada para iirn curso superior 
de letras» ! ! ! De modo que os brasileiros quo não pudessem 
fazer similhante curso (e sào elles, na verdade, em ampla maio- 
ria) ficariam perpetuamente ig-norando os factos principaes da 
sua terra ! No emtanto, como já vimos, no Japào se adopta 
uma therria diametralmente opposti, a qual tem produzido os 
mais benéficos resultados, de que o estado actual da civilização 
nipponica é uma satisfactoria prova. E' que esse desamor ou 
essa indifferença oHidial das cousas pátrias, entre nós, nào vem 
de agora : vem da proclamação da Republica. Piu-a attestado 
disso, alam da suppressão dos symbolos históricos e de outros 
factos conhecidos, basta reparar na data em que actualmente se 
commemora o descobrimento do Brasil, isto é, a 3 de maio 
(quando a frota de Cabral já ia longe, caminho do Oriente) , e 
não a 22 de abril, como devera ser! Entretanto, alguém, que 
nos conste, a pretexto de modificações de calendário, jamais se 
lembrou^ acaso, de, alterando o passado a bel-prazer, substituir 
as datas do descobrim^^nto da America, a 12 de oitubro de 1492, 
ou a do caminho marítimo da índia, a 20 de maio de 1498 ?. . . 

Por outro lado, emquanto se de">cuida assim da inbtrucção 
publica, a ponto de haver ella, em muitas cousas, retrogradado 
do systema do Império (1); emquanto essa importantis-ima 
base do engrandecimento nacional se vicia e se rebaixa, com a 
desorganização mais patente e prejudicial, pezarosamente vemos 
multiplicarem-se, em nossa Pátria, principalmente nos Estados 
do Sul, as escolas extran gruirás, subvencionadas e até mantidas 
por associações européas, que se podem chamar semi-ofiiciaes, 
porque recebem o bafejo dos respectivos governos ! 

Não será isso tudo, juntamente com o continuo fluxo de 
immigrantes entregues a si mesmos, um dos maiores passos, que 
estamos dando, para a nessa provável desnacionalização ? ! 

E' por esses e outros factos que, resolutamente, nos levan- 
tamos e havemos de gritar bem alto, para que nos ouçam : 
NACioNALTZKMO'-NOS ! Façamos o ensino homogéneo e salutar- 
mente patriótico. Assimilemos os elementos cxtrangeiíos, e não 
favereçamos a infiltração dominadora, o abandono criminoso, a 
conquista progressiva, embora lenta ! Somos um dos paizes mais 
vastos e privilegiados do mundo e o mais vasto e populoso da 
America do Sul. Pois bem : emquanto parece uma simples 
utopia a paz universal, sonhada pelos philosophos, emquanto 
fazem a guerra aquelles que pregam a paz, armemo'-nos ! Pro- 
paguemos a verdadeira instrucção do povo e estabeleçamos o 
serviço militar obrigatório, como se faz noutros paizes ! Res- 



1 Veja-se a resumida mas clarividente 'analyse, com proficiência feita pelo Rai-ão 
do Loreto, no seu criterioso trabalho, extraliido da Década liepublicana e publicado sob 
o titulo A instrucção a cargo da União e da tnunicipalidade do Disíriclo Federal, Rio de 
Janeiro, 1899. 



— 367 — 

guardemos as nossas immensas costas, fortifiquemos os nossos 
principaes portes, guarneçamos as nossas dilatadas fronteiras, 
reconstruamos a nossa gloriosa marinlia, fortaleçamos o nosso 
devotado exercito ! Nào para fazer a guerra, mas para manter 
íi paz! Não para disputar hegemonias mais ou menos odiosas, 
nem para provocar tnsceptibilidades mais ou menos irritáveis ; 
mas para garantir a nossa posição no continente e a nossa so- 
berania perante o mundo ! 

Si, por um lado, não devemos nutrir o doce optimismo dos 
que nos julgam em pleno mar de rosas, por outro lado não 
devemos alimentar o triste pessimismo dos que vivem a predizer 
a nossa ruina inevitável ! A razão, em geral, sempre está com o 
meio termo... Nada de exaggeros ! Precisamos de mais patrio- 
tismo intelligente e de menos politicagem pequenina; de mais 
acção pratica e de menos contemporizações i etard atarias ; de 
•mais trabalho conscienciusa e de menos exhibições ridiculas . . , 
Acima do interesse particular, que é egoista, devemos sempre 
collocar o interesse geral, que é altrui^ta: desse modo todos nós 
participaremos do bem coirimum, e somente com esse critério se 
poderá realizar, segunanente, o ideal da Pátria. 

Que não nos sirva a consideração destes assu-r.ptos para 
motivo de parlapatices pedantescas! Precisamos agir, e dum 
modo serio, afim da levantarmos o nivel espiritual e material da 
Pátria à altura a que ella faz jus, e afim de salvaguardarmos, 
iuilludivelmente e com os nossos próprios recurso?, a valiosa 
herança adquirida á custa de borbotões de cavalheiroso sangue 
derramado e dos inquebrantáveis esforços duma digna e pre- 
clara diplomacia! E' meditando nesse trabalho colossal, que vem 
de longe — , fructo de tanto chofrar de armas e de tantos lam- 
pejos de talento — que, ainda mais, nos batemos, e acima do 
resto, por que o nosso futuro se escude, principalmente, na In- 
strucção encouraçada pela Força... E' què (como já fizemos 
fnotar) a Instrucção é a alma, e a Força é o corpo... 



* 

t 

A nossa trajectória está traçada, pela ordem naiiral das 
cousas... Resta sfguil-a. 

E, admirando a acção desses nobres vultos da nossa historia 
-e comparando a nossa vida intima com a. de outros paizes, não 
podemos deixar de exclamar afim de contribuir a converter em 
realidade a au^-piciosa idéa que, ha muito, paira, vibrante, no 
espirito do povo : tenhamos o culto dos grandes homens ! Fun- 
demos um pantheon — templo civico imperecivel — , onde a 
nossa bandeira se eleve soberana e onde jiossamos ir, de tempos 
•a tempos (como o praticam outras nações), retemperar a alma na. 
^ional, junto ao tumulo sagrado dos heroes! 



— 368 — 

E, com essa outra e futura bandeira, que tivermos, e em 
que veremos, por certo, nas cores ouro e verde, a feliz idealiza- 
ção da nossa natureza e, nos seus symbolos amáveis, a suprema 
synthelização do viver pátrio, — oxalá plenamente se expanda 
no Brasil essa época que ora ainda amanhece, e se realize esse 
anhelo honroso e meritório, afim de, duplamente apparelhados, 
pelo saber e pelas armas, estarmos sempre em guarda contra as 
felinas pretençòes do Ódio e da Cubica, e mantermos sempre, de 
pé e inatacável, o edifício monume ntal e radioso da nossa na- 
cionalidade!. , . 

Eurico de Góes 



rx73s«Kg 



RATIFICAÇÃO HISTÓRICA 



( ORAÇÃO LIDA NA SESSÃO DE 5 DE SETEMBRO DE3 1906 ) 

Vitam impenãere vero. 
J. J. Rousseau. 

Ex."'" sr. Presidente. 

Digníssimos Consócios. 

Fui dos enthusiastas criadores ou fundadores da benemérita 
associação que, se denominando Instituto Histórico e Geogra- 
phico de São Paulo, t«^.m, além de outros fins, o principal de 
difundir a verdade sobre factos importantes da nossa bella His- 
toria, aclarando os acontecimentos, afastando quaesquer duvidas, 
fazendo indagações, esquadrinhando o passado, rompendo as nu- 
vens, as trevas mesmo que muita vez de^:figuram e alteram os 
factos E o Instituto, creado, ganhou raizes, medrou; e, gra- 
ças á boa orientação que a elle destes, tem hoje a sua reputa- 
ção bem firmada, 

Perseveiando nesse intu'to tenho de miuha parte feito o 
possível para bem servir á esta digna aggremiação ; novo Areó- 
pago da nossa Athenas : — S. Paulo. 

Eu nunca ousaria levantar a voz neste respeitável recinto, 
abrilhantado com a vossa presença agradável, luminoso pela 
sciencia que espargio em vossos trabalhos, attrahente com a elo- 
quência que arrebata e electriza a quem vos ouve, si a voz do 
amor pátrio e sobretudo a da verdade, não me compellissem a 
abandonar a penumbra em que vivo e romper o silencio. 

Tenho um resto de vida ; quero aproveital-o ; e na vossa 
salutar convivência o meu espirito cria alentos e rejuvenesce. 

Confiado na benevolência característica dos homens de saber 
que aqui têm assento, e instado, mais de uma vez, tomei a pa- 
lavra ; agradeço de coração, registrando como um titulo de glo- 
ria, o facto de minhas incorrectas e desataviadas phrases terem 
merecido a sua impressão nos annaes do Instituto ; tal a indul- 
gência que tivestes para com o velho e obscuro soldado paulista. 

Agora, tendo sido o meu testemunho invocado por illustres 
consócios sobre assumpto relevante da geração actual em que to- 
mei parte e onde ha muito que elucidar para apurar responsa- 
bilidades a bem da verdade histórica, quebrei o silencio e des- 



— 370 — 

vendei alo-uns mysterios aclarando factos cuja autlienticidade e 
veracidade o sr. Couto Sobrinho procura conculcar, neste mes- 
mo recinto, com ambag-es, contradicções e doestos. 

Para a victoria, porém, da verdade que é o único escopo do 
Instituto, eu peço o vosso valioso concurso, concedendo mais 
uma vez indulgência para a minha intenção e benevolência para 
o meu escripto. 

O juizo seguro sobre minha palavra, sobre meu depoimen- 
•to, sobre minha conducta, houtem, hoje, amanhã e sempre, o 
veredictum que ambiciono, não é o da multidão ignara, nem o 
do partidário interesseiro, nem o do individuo inconsciente : mas 
sim o vosso : o do Instituto Histórico e Geographico, funccio- 
nando regularmente e melhor informado. 

Nestas condições, o vosso gesto, o vosso applauso, é um 
ensinamento nobre, um estimulo honroso que acceitarei cheio 
de justa altivez. 



Entro em matéria. 

Quando eu estudava latim, no Seminário Episcopal, donde 
tenho tão gratas recordações, lia na grammatica um exemplo 
que por ser salutar, me ficou gravado na memoria ; é o seguin- 
te : — Epaminondas adeo veritatis diligens erat ut ne joco qui- 
dein meutiretur — que em vernáculo quer dizer : Epaminondas 
era tão amante da verdade que nem brincando mentia. 

— Porque seria, dizia eu, que nem brincando esse grego- 
mentia? — E' porque, — me ensinaram os provectos mestres da- 
quella bemfeitora casa, — o homem que se habitua nos brincos e 
jogos a mentir, nunca mais se corrigirá desse defeito terrível, e, 
quando em publico tratar de coisas serias, será victima do seu 
máu habito, e delle se dirá De ore tuo te jiidico : 

O sr. Couto Sobrinho, em seu trabalho O General Couto 
de Magalhães e a proclamação da republica, lido neste Instituto, 
declara que não esteve p)^'^sente á sessão do Institudo em que eu 
li o meu escripto sobre o 15 de Novembro (loc. cit. pg. 237) ora, é 
incrível que o sr. Couto Sobrinho, tão moço como é, tenha já com- 
pletamente obliterada a sua memoria, pois da acta daquella sessão 
consta a sua presença no Instituto, sendo assim, provavelmente 
um dos que muito me applaudiu terminada a leitura do meu 
trabalho. 

Vou lêr alguns trechos daquella Acta... «presentes os sócios; 
drs, Miranda Azevedo, Couto de Magalhães, Carlos Reis,» etc. : 
e mais adiante : Passando-se á segunda parte da ordem do dia 
foi dada a palavra ao sócio inscripto tenente-coronel Araújo 
Macedo que leu e oíferecen ao Instituto o trabalho em que jus- 
tificava o seu procedimento como commandante do corpo de 
permanentes nesta capital, bem como o da força publica, no 
dia lõ de Novembro de 1889, apresentando documentos, que 



— 371 — 

foram lidos a pedido do dr. Domingos Jaguaribe, sendo ao ter- 
minar muito applaudido» etc, Revista do Instituto Histórico e 
Geograhhico de São Paulo, vol. 9.** pg. 60õ). 

E nem era possivel que o sr. Couto Sobrinho faltasse a 
essa sessão em que se ia tratar de uma data notável em que o 
seu illustre tio representava um papel qualquer. 

Assim, pois, me é licito duvidar da sua pialavra quando 
diz que não esteve 2^^'^sente á sessão, ijois do contrario teria re~ 
pellido incontinente o rneu estudo (cit. pg. 237) e que, como 
vimos, fui muito applaudido. 

Está, portanto, esmagado o exórdio do t» abalo do sr. Couto 
Sobrinho. 

Continuando, aíSrma elle, que ninguém inqueriu de minha 
conducta naquella memorável jornada de 15 de Novembro (loc. 
cit., pg. 237). 

Nada de censurável haveria si eu viesse a publico ecc-pro- 
2:>7'io Marte, contar o que se passou commigo e com a briosa 
corporarção que commandava, pois que, uão me é isso vedado 
por lei alguma; pelo contrario, a moral social impunha-me o de- 
ver de explicar os acontecimentos, porque elles foram importan- 
tes, e men papel, sem que eu o quizcsse e provocasse, foi sali- 
entissimo, como é publico e notório. 

Além de que, pergunto eu: — Acaso preciso de licença de 
quem quer que seja, nesta terra que tenho defendido com a 
minha penna e com a minha espada, desde a mocidade, para 
vir a publico? 

Entretanto, ainda alii, asseverando o sr. Couto Sobrinho 
que eu não fui convidado a vir a liça, foi infeliz ; porquanto, 
em sessão solemne foi o meu nome declinado e pedido o meu 
depoimento, mais de uma vez, com adjectivos elogiosos, que 
muito agradeço, pelo dr. João de Moraes, digníssimo e illustre 
consócio, conforme se vê do seguinte trecho do brilhante discurso 
de s. exc. que passo a ler e que se acha publicado na Revista 
deste Instituto, tomo 8.^* pg. 209 e 210... «o sr, coronel H. 
Araújo Macedo, que era então o commandante da Força Publica, 
com a lealdade que é inherente aos bravos que deramaram seu 
sangue nos campos de batalha, em defesa da Pátria, nos dará 
a conhecer o que se disse, o que se passou, o que se tentou, nas 
espheras oíficiaes, naquelles momentos de surpresa» , 

Portanto, o sr. Couto Sobrinho não lê, e não sabe o que 
se passa neste sanctuario onde repousa o saber». 

O sr. Couto Sobrinho é ainda infeliz quando irreverente- 
mente, cita por duas vezes (cit. pg. 237 e 241), procurando en- 
cher-me de ridículo, o ponto em que mo refiro á invocação que 
fiz, como christão fervoroso, mercê de Deus, ao Divino Espi- 
rito Santo para que me alumiasse nas trevas daquelle dia 15. 

Em seu trabalho diz o si*. Couto Sobrinho que eu pedia 
pela Monarchia, quando tal não fiz, como se vede pgs, 508 do 



— 372 — 

tomo 10.0 da Revista. Eis o que alli se lê -.— «Invoquei ao Di- 
vino Espirito Santo para que com suas luzes me guiasse naquelle 
transe, naquelle dia de perturbação geral; e me indicasse qual 
o caminho que devia trilhar, apontando-me o dever !» 

Pelo que ficou dito se avaliará com que amor á verdade 
histórica escreveu o s^. Couto Sobrinho o tal minusculus mus. 

Seja-me entretanto permittida uma pergunta : — Quando é 
que o escrcriptor está com a veidade? 

Agora, quando me increpa pelo simples facto de ser eu fiel 
no histórico dos acontecimentos de 15 de Novembro, interpre- 
tando com verdade o papel que o seu finado tio ahi represen- 
tara, ou quando em Novembro e Dezembro de 1899 enchia, 
como director do Commercio de São Paulo, as columnas desse 
diário — de encómios, elogios e louvores á minha pessoa ? — 

Ignorará o sr. Couto que — Amicus Plato, sed magis arnica 
veritas f 

Vou ler aos meus illustres consócios alguns dos elogios a 
que acima me referi, para que apreciem devidamente as oscil- 
lações do sr. Couto Sobrinho : 

«Foi elle— refere-se ao presidente — nessa emergência, leal- 
mente servido pelo valente, brioso e honesto official do exercito» 
que então, em commissão, exercia o commando em chefe da 
força policial da Província». 

(Commercio de São Paulo, 25 de Novembro de 1899. Pro 
veritatef U). 

« Esse brilhante official, cujo nome é de justiça, para glori- 
ficação do dever lealmente cumprido, declinar aqui, era o então 
tenente Henrique de Macedo, hoje, desgostoso e retrahido, affas- 
tado do serviço activo do exercito e reformado com as honras 
de Coronel». (Idem ib.) 

. . . «immediatamente se avistou com o honesto e in- 

telligente official que a commandava, — refere-se á força publica 
— em cuja lealdade e bravura podia confiar inteiramente comO' 
de sobejo o mostrou a nobre conducta desse official e de todos 
os seus subordinados», etc. 

(Id. de 10 de Dezembro de 1899. Pro veritatef III). 

. , . « conhecedor da intelligencia, bravura e tino militar 
do brioso commandante da força policial ; seguro da sua absolu- 
ta dedicação e da fidelidade de todos os seus offlciaes e solda- 
dos ; etc. (Id. ib.) 

Voltemos, porém, a • trabalho do sr. Couto Sobrinho, onde 
faz allusào a minha bravura militar em tom irónico, e diz que 
me jactei delia no meu escripto sobre o 15 de Novembro. 

Como resposta a esta asserção do sr. Couto Sobrinho convi- 
darei aos illustres consócios a que leiam o que escrevi nas paginaa 
da Revista do Instituto, pois logo verificaram mais uma inexa- 
ctidão attribuindo-me uma immodestia; sem embargo é sa- 
bido que eu fui promovido por actos de bravura em campo dô 



^ 373 — 

batalha ; que sou condecorado com a medalha de mérito e bra^ 
vura 7nilitar que sempre a tra<?o ao peito, alèrn de outras con- 
decorações de guerra dadas pe^as Republicas Argentina e Orien- 
tal ; que sou cavalleiro de Aviz, por serviços sem nódoa, sem 
falar na cruz de bronze — medalha geral da campanha do Pa- 
raguay etc. etc. 

Refere a historia que Scipião — o africano — sendo um dia 
accusado por seus inimigos, convidou-os, como única defesa, a 
c[ue fossem com elle ao Templo agradecer aos deuses os dias 
gloriosos que dera á Pátria. 

Sem me comparar ao illustre general romano, lemb rarei 
ao sr. Couto Sobrinho que justamente neste mez de Agosto' nós, 
os veteranos, celebramos as victorias de 4 e 5 em Sapucahy, 
7 em Valensuela, 12 assaltos e tomada de Peribebuhy e 16 a 
clássica batalha de Campo Grande (Naú-guassú) ; e que por 
todos esses feitos d'armas, da celebre campanha das Cordilhei- 
ras, fui galardoado com a venera da Rosa. Eil-a! 

Mas o sr. Couto Sobrinho que our,r'ora me qualificava em seu 
jornal áò bravo, valente, brioso, honesto, intelUgente e brilhante 
official (vid. serie de artigos Pro Veritate !), hoje suggestionado, 
em tom de mofa diz que — por occasiào do 15 de Novembro em 
S. Paulo, limitei-me a ensarilhar as armas no quartel de Per- 
manentes ! ! 

Ensarilhar armas é justamente a posição observada por 
uma força militar de pre enção, em descanso e em espectativa 
de aggressão, prompta para qualquer eventualidade. Assim pois 
essa attitude symbolizava e synthetizava cabalmente a resisten- 
'"Cia offerecida pelas forças sob o meu commando. 

Por ignorar isso é que o sr. Couto pensa fazer espirito da- 
«quillo que nem um cabo de esquadra o faria. 

O ercripto do sr. Couto teria alguma razão de ser si 
fosse para defender a memoria do seu illustre tio, que aliás 
ninguém atacou ; pelo contrario, na opinião de illustres conso- 
■.cios, até foi ella por mim tratada com muita benevolência ; mas 
declara elle que não vem defendel-a como mero portador de 
•seu illustre nome, e sim pelo interesse da verdade histórica (loc. 
'cit., pg. 238). 

Entrando propriamente era assumpto, um dos paragraphos 
■de meu modesto trabalho contra o qual mais se mostra abespi- 
nhado o snr. Couto ó o seguinte: — «Quem ignora que o general 
'Oouto de Magalhães, apezar das bellas qualidades que ornavam, 
não era, entretanto, o homem próprio para, naquelles dias, pre- 
sidir São Paulo ? » 

It' vista do Instituto, tomo 10, pag. 514. 

Para destruir o que eu disse, então empresta ao general 
dotes administrativos muito contebtados, qualiiades militares 
sempre postas em duvida, ao ponto de dizerem que era o único 



— 374 — 

'brigadeiro que nunca brigou, sendo fantásticos os feitos milita- 
res com que enfeita o seu escripto. (Vide cit. pag. 238 e 239). 
E' admirável o aplomb com que elle assevera que So- 
lano Lopes acabava de invadir Matto Grosso, quando seu tio 
foi para alli nomeado presidente, expelliu os Paraguayos, e im- 
pediu que a Bolivia os soccorresse ; (1), bem como ó arrojo pre- 
tender attribuir a seu tio a tomada de Corumbá, a victoria na- 
val de— Alegre e a celebre rrarcha épica de cento e cincoenta 
léguas que diz feita pelo mesmo seu tio ! 

V * « 

Citarei primeiramante algumas referencias sobre as quali- 
dades do general como administrador para que se veja qual 
a verdade histórica e que, tem verdadeira idiosyncrasia contra 
leitura dos livros que tratam desse assumpto, e conhece algu- 
ma cousa do que se vem dizendo desde muitos annos do seu 
illustre tio: 

. . , «nomeação (desastrada, na opinião dos cuyabanos) do sr. 
dr. Couío de Magalhães para a presidência daquella localidade,» 
ete. 

Noticia sobre a provinda do Matto Grosso, por Joaquim F. 
Moutinho, pag. 9). 

«Onde bebeu esse jovem conhecimentos da arte da guerra^ 
Onde a experiência, que unida a conhecimentos theoricos deve- 
ria ser a única arma capaz de combater uma situação deses- 
perada ? 

«Colheu já a província as consequências da imprudência 
desta nomeação; poquanto, bem cedo, viu-se arruinada, devendo 
os seus males á inexperiência do sr. dr. Couto de Magalhães e 
a sua desenvolvida bossa de distruição.» 

(íd ibi. pag. 9), 

«Como presidente (2), Deus que lhe dê coragem para le- 
vantar a província do cahos em que a deixou o sr. dr. Couto 
de Magalhães» . 

«O déspota, que — como Nero tocando uma flauta, ao 
clarão do incêndio de Roma, — nos dias mais calamitosos em 
que a variola fazia milhares de victimas (o), divertia-se em cor- 
ridas de veados e pescarias, foi demittido felizmente, e hoje 
occupa o seu logar o mesmo que elle havia tentado submetter 
aos seus caprichos.» (Id. id. pag. 94.) 

«Não tenta porem justiíicar-se . , , 



1 A Bolivia nada poderia intentar contra nós devido aos grandes desertos, á im- 
mensa distancia e aos pantanaes que lia entre as fronteiras; mas, quem verdadeiramente 
desviou qualquer tormenta e inimizade que daquelle Paiz podesse provir foi a fina di- 
plomacia do grande brazileiro cons.» Lopes Netto, e não os presentes do senhor C. de 
Magalhães ao Cacique de Santa Cruz de la Sierra. 

u Refere-se ao Presidente nomeado -Dr. Murtinho. 

3 Quinze mil. 



— 375 — 

Os mortos sepultados em Cae-cae, quaes phantasmas ameaça- 
dores, íar-lhe-ão morrer nos lábios as palavras, e apontarão a 
s. exc. milhares de túmulos onde, em lettras negras, está escri- 
pta a historia nefanda da sua administração fatal ! » 

Id. id. pags. 208 e 209). 

«No Pará sustentou ardente contenda com o illustre Prelado 
D. António de Macedo Costa». (1) 

[Alhiim Imperial, anno I, n. 15, pag. 2). 

Em S. Paulo, lê-se a pags. 591 da Revista do Institvto, o 
seguinte trecho que põe bem em relevo as suas qualidades 
administrativas : 

«Preocupado o Presidente com a senha eleitoral de derrotar 
os republicanos, nada fez em beneficio da Província.» (2) 

Tratemos agora dos feitos d'armas a que alude o sr. Coute 
Sobrinho, que diz á pag. 234 desta Revista que o seu tio 
«quando acceitou a presidência de Matto Grosso, — Solano 
Lopes acabara de cortar as relações cem o Império e operava 
a invasão daquelle vasto território brazileiro» . 

A verdade é a seguinte: 

A invasão Paraguaya se deu em Pezembro de 1864 ; em 
consequência delia foi nomeado o Visconde de Camamú para 
pre&idente de Matto Grosso ;depois deste o coronel Manoel Pedro 
Drago que voltou do Rio dos Bois em Goyaz; mais tarde o Briga- 
deiro José António da Fonseca Galvão que falleceu no Rio 
Negro, em Matto Grosso e finalmente o dr. Couto de Magalhães 
que quando lá chegou ('fins de 1866) jà achou todos os elementos 
de resistência e desaífronta da Província organizados pelo jjro- 
vecto e illustrado Marechal Albino de Carvalho, que a governava 
interinamente e pelo Commandante das Armas, o sábio e bavo 
chefe de Esquadra A. Leverger. 

Quanto á tomada de Corumbá, ideias e planos do coronel 
engenheiro José Joaquim de Carvalho, (3) foi ella realizada pelo 
denodado major António M. Coelho, achando-se o dr. Couto de 
Magalhães dahi a 30 léguas, em Dourados, donde só desceu para 
Corumbá muitos dias depois, quando soube do successo, indo 
mesmo assim, bem resguardado com 1.000 homens. 

Quanto ao combate naval do Alegre foi obra e gloria do 
capitão tenente Balduino José Ferreira, não o tendo siquer o 
general assistido. 



1 N3o preciza— pôr niais nada na carta—, 

2 Os jornaes da epocha muito censuravam os pagamentos avultados e indébitos que 
o Presidente mandava fazer. 

O Correio Paulistano em artigo de fundo dizia : 

«Se neste paiz houvesse juizes para certos homens, se o Supremo Tribunal de Jus- 
tiça tomasse ao serio as attribuições á seu cargo, quanto aos altos funccionarios pas- 
sari