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Full text of "Revista do Instituto histórico e geográfico de São Paulo"

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SÃO PAULO 



"VOLUME] XIII 



1908 



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TYP0r,8Al'Il!A DO DIÁRIO OKSV 
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REVISTA 



DO 





DE 

SÃO PAULO 



VOLUME ZXIII 



1908 



8ÃO PAULO 

TYP0GBAI'I1'A DO DIABIO OFFICIAL 

1911 



* 



ÍNDICE DO VOLUME Xlll 



PAG. 

A typographia e a lythcgrapbia no Brazil pelo dr. Es- 
te vam Leão Bcurroul 3 

A Imprensa Regia pelo coronel Ernesto Senna . . . 41 
Francisco Adolpho Varnhagem (Visconde de Porto Se- 

guroj pelo dr. M. d« Oliveira Lima .... 61 
Biographia de F. A. de Varnhagen pelo conselheiro 

José Caries Rodiigaes 93 

Os limites da Capitaria de 8. Thomó dos Campo j dos 
Goytacazes ; os primeiros povoadores da Capitania ; 
paulistas sesmeiros e fundadores da villa da Praia 

pelo dr. Alcibíades Furtado 107 

O Padre Feijó pelo dr. Eugeoio Egas 113 

O primeiro caminho para as minas de Cuyabá paio dr. 

Gentil de As-i4 Moura 125 

O Corpo de Bombeiros de S. Paulo pelo msjor Pedro 

Dias de Campos 137 

Os Gusmões por Afíonso A. de Freitas 159 

O caminho do Paraguay a Santo Andrá da Borda do 

Campo pelo dr. Gentil de As:is Moura . . 165 

Os indígenas primitivos de 8. Paulo (Guayanazes, Ta- 
peias ou Tupis?) pe'o dr. J.C. Gomes Ribeiro. 181 
A propósito dos Guayanazs da Cap tania de S. Vicente 

pelo dr. Theodoro Sampaio 197 

Identificação de S. André pelo dr. Luiz Piza • • • 203 
A villa de Santo André da Borda do Campo e a primi- 
tiva povoaçBo d« Piratitiaga por Benedicto Calixto 209 
D. Amélia (2. K imperatiz do Brazil) pelo dr. Eugénio 

Egai 229 

Braz Cuba3 (O fandador de Santos) pelo dr. Eugénio 

Egas 241 

Saldanha Marinho (O immottal) pelo dr. Eugénio Egas 251 
Independência ou morte pelo dr. Eugénio Egas. • • 259 
Treze de Maio (Natalício de D. Joào VI) pelo dr. Eu- 
génio Egas 277 

Factos e Festas na tt dição — O S. João e a Procissão 

de Corpus Cbristi em S. Paulo por Joào Vampré 285 
Zonas gec.nvaphicaB brazileiras pelo dr. Arthur Orlando 311 
Miscellanea Indígena pelo dr. Jorge Maia .... 329 
Extracto das Viagens de François Pyrard, de Lavai, re- 
lativo á estada deste navegante no Brazil, em 
1610, pelo dr. Affonso d'Escragnolle Taunay . 341 



II 



PAG, 



Os Gaayanás de Piratininga por Affjnso A. de Freitas 359 
CuTytiba (Histórico da sua fundação) pelo coronel Ro- 

mario Martins ........... 397 

Elucid»çã9 histO)ica pelo dr. J. Vieira Fazenda • • 400 

Heleodoro Eobans pelo dr. Ermelino A. de Leão • • 415 

Dr. Gustavo Beyer pelo dr. Gõran Bjõrkman • • • 435 

Actas das sessões de 1908 441 

Discurs * do orador official dr. Rapinei Conêa de Sam- 
paio na sessão anniversaria 461 

Relatório dos trabalhos e occurrencias durante o anno 

de 1908 477" 

Directoria 483 

Presidentes honorários .......... 483 

Sócios beneméritos . . . . 4S4 

Sócios honorários . . . 484 

Sócios correspondentes domiciliados fora do Estaio de 

São Paulo 486 

Quadro dos sócios eleitos em 1808. • 489 



REVISTA 



DO 



E 



DE 



SÃO PAULO 



A TYPOGRAPHIÂ E A LYTHOGRAPHIA 

NO 

BRAZIL 

PELO 

Dr. Estevam Leão Bourroul 

Sócio Honorário do Instituto Histórico e GeograpMco 
de São Paulo 



A TYPOGRAPHIA NO BRAZIL 



Annunciam o* jornaes que — a Associação Typographica 
Fluminense promove a commemoração, a 13 de maio de 1908, 
da introducção da Impiensa no Brazil. Deseja accrescentam 
es noticiaristas, quee<sa data seja festejada em todo o território 
da Republica. 

Foi, de facto, o decreto de 13 de maio de 1808, anniverEario 
de sua alteza o Principe Regente, posteriormente o senhor d. 
João VI, que mandou estabelecer na Corte a Imprensa Regia, 
para nella se imprimirem, exclusivamente, toda a legislação e 
papeis diplomáticos, que emanassem de qualquer repartição, bem 
como quaesquer obas; e permittindo-se aos administradores 
receberem aprendizes de compositor, impressor, batedor, abridor 
o mais ofihiaes que fossem prec sos. (1) 

O que é certo, poiém, é que, desde o domínio Hollandez, 
o Brazil possuiu a arte typographica. 

O notabilisrimo Conde Maurício de Nassau, quando á te. ta 
tio governo Hollandez em Pernambuco, lançou mão da Imprensa 
como um dos meios mais fecundos de sua administração. 

Ouçamos, neste particular, o benedictino dr. Alexandre José 
de Mello Moraes, fonte inexgottavel de consulta para tudo quanto 
se prende ao Brazil Colonial e aos prodromos da Iode pendência. 

— Pelos conhecimentos que tinhamcs da Historia Pátria, 
sabiamos vagamente ter tido Pernambuco, durante a oceupação 
Hollandeza. a arte typographica, porém não tinhamos visto ne- 
nhum documento impresso daquelle tempo em Pernambuco. 

Em 1857, indo nós á Bibhotheca Fluminense examinar o 
seu copioso archivo, nos communicou o sr. Francisco António 
Martins, zeloso conservador deste utilissimo estabelecimento li- 
terário, existir nelle trinta e duas brochuras em hollandez, que 
custaram quatro centos mil e trezentos réis ao estabelecimento, 
sendo uma delias impressa em Pernambuco no anuo de 1647. 
Que só esta brochura custou vinte e cinco dollars (cincoenta 
mil réis), e realmente nol-a mostrando, observámos ter ella vinte 



(l) Vide «Collecçfto de Leis», tomo !.• 



— 6 — 

e oito paginas impressas em caracteres gothicos, em papel antigo, 
cujo titulo é — Brasilsche Gelt — Waer indct claerlyck wirtoont 
wordt ivaer dai de Participaten van de we%t — Indische comphaer 
Gelt ghebvlen is — Quedruct in Brasilien op't. Recij} in de Bree 
—Byl. Anno de 1647 in 4.°. 

O que quer dizer: — Bolsa do dinheiro brazileiro, em que 
se mostra com clareza o que foi feito do dinheiro dos accionistas 
da Companhia das índias Occidentaes : impresso no Brasil, na 
cidade do Recife, e na typographia de Bree, no anno de 1647 (1). 

Por mais que se queira determinar o anno em que se es- 
tabeleceu a arte typographica em Pernambuco, nào se pôde 
com segurança affirmar, e por isso devemos conteatar-nos com 
a épocha da publicação que o dr. Mello Moraes teve á vista. 

Em 1750 organizou-se no Rio de Janeiro uma Academia, 
que se denominou dos Selectos, e fez a sua primeira sessão no 
dia 30 de janeiro. 

A esta sociedade permittiu o vice -rei Gomes Freire de 
Andrada, conde de Bobadella, estabelecer uma typographia no 
Rio de Janeiro, sob a direcção de António Isidoro da Fonseca (2). 

Esta typographia, uma espécie de — orgem ofncial — da Aca- 
demia dos Selectos e da doa Felizes — celebrou em poesia latina 
e vernácula os méritos do Bobadella, como se vê pelas obras 
que correram impressas sob o titulo — Júbilos da America (3). 

Foi, porém, de curta duração : o governo de Lisboa mandou 
desmoutal-a e queimar, afim de que se não espalhassem por este 
meio idéas contrarias * o regimen colonial , extranhando a Go- 
mes Freire de Andrada, por haver permittido a Forneça uma 
tal industria, bem como o ter de3pendido os rendimentos do erá- 
rio real com o encamento das agaas da Carioca para o abasteci- 
mento da cidade. 

Na typographia de António Isidoro da Fonseca imprimi - 
ram-se varias obras scieatificas, como o Exame de Bombeiros 
e o Exame de Artilheiros, escriptoa pelo general José Fernandes 
Pinto Alpoim ; a Relação da entrada que fez D. Irei António 
do Desterro Malheiro, Bispo do Rio de Janeiro ; e mais algumas 
composições de pouco mérito. 

Editou também uma collecção de onze epigrammas e um 
soneto (sobre idêntico asstimpto ao precedente), — obras estas pu- 
blicadas todas em 1751. (4) 

A Imprensa Regia foi estabelecida na rua dos Barbonos, 
casa que tazia quina com a rua das Marrecas. Alli se imprimiu 
a primeira gazeta, que tinha por titulo — Gazeta do Rio de Ja- 
neiro. — e foi publicada no sabbado, 10 de setembro de 1808, 
em pequeno formato; contendo o 1.° numero noticias da Eu- 
ropa, e três annuncios, dizendo o primeiro que a Gazeta do Rio 
de Janeiro «devia sahir todos os sabbaios pela manhã ; que se 



(1) Mello Moraes, «Historia da Trasladação da Corte Portugueza para o Brazil. 

(2) Desembargador António Ribeiro dos Santos, «Memoria» Inserta nos Annaes 
da Real Academia da* Sciencias de Lisboa. 

(3) Oeneral J. J. de Abren e Lima, «Synopsis». 

(4) J. A. Teixeira de Mello dá estas obras publicadas om 1747. Deve ser en- 
gato: pois a typographia de António Isidoro da Fonseca data de 1752. 



« vendia nesta corte em casa de Paulo Martins, filho, mercador 
« de livros no fim da rua da Quitanda, ao preço de 80 róis. 
« Que as pessoas que quizessem ser assignantes deverião dar 
« os seus nomes e moradas, na sobredita casa, pagando logo os 
c seis primeiros mezes a 1$900 ; e lhe3 serião remettidas as 

< folhas ás suas casas no sabbado pela manhã: qae na mesma 
€ gaz°ta se porião quaesquer annuncio3 que se quizessem fazer; 
« devendo estes estar na quarta-feira, no fim da tarde, na im- 
« prensa regia. N. B. Esta gazeta, ainda que pertença por pri- 

< vilegio aos cfficiaes da secretaria de Estado dos Negócios 
« Estrangeiros e da Guerra, Dão é comtudo offisial ; e o governo 
« somente responde por aquelles papeis, que nella mandar im- 
« primir em seu nome». 

Em seguida vem a noticia das duas primeiras obras, que 
88 imprimiram na imprensa, com permissão regia que são : 

— Memoria histórica da invasão dosF/ancezes em Portu- 
gal em 1807 ; e as 

— Observações sobre o commercio franco do Brazil, por 
José da Silva Lisboa; sendo esta a que primeiro se imprimiu. 

No 2.° numero annunciou-se que a gazeta appareceria duas 
vezes por semana ás quartas e sabbaios, pagando os assignantes 
o duplo do seu custo. 

Depois foram •apparecendo números extraordinários, que 
continuaram pela affluencia das matérias, e interesse que se 
tomou pelo progresso das letras; chegando se mesmo, para dar 
vazão ás impressões, a construir-se um prelo, obra perfeita da 
arte, e pelo que se imprimiu um quadro para perpetuar a lem- 
brança desse prelo com a legenda seguinte : Â immortalidadb 

DO REAL H SEMPRB AUGUSTO NOME DO PRÍNCIPE REGENTE NOSSO 
SENHOR, E' DEDICADA A ESTRUMA DO PRIMEIRO PRELO, CONSTRUÍDO 
NA AMERICA DO SUL, NO RIO DE JANEIRO, NO ANNO DE MOCCCIX 

(1809). (1) 

Quando o commendador de Araújo, — depois conde da Barca, 
— se passou com a familia real para o Brazil, trouxa a bordo 
da nau Medusa — (de 74 peças, commandada pelo capitão de 
mar e guerra Henrique da Fonseca Souza Prego) — uma typo- 
graphia que mandara vir de Londres, em cujo prelo sahiu o 
1»* numero dtfGazeta do Rio de Janeiro, 

Para administrar a Imprensa Regia em 1808 foram escolhidos 
o desembargador José Bernardes de Castro, José da Silva Lis - 
boa (depois visconde de Cayurú), Mariano José Pereira da Fon- 
seca (depois marquez de Maricá), Silvestre Pinheiro Ferreira, 
Manuel Ferreira de Araújo Guimarães e o cónego Francisco 
Vieira Goulart. 

Escreve José Silvestre Ribeiro que a Gazeta do Rio de 
Janeiro era «modelada pelo teor da rachitica e magríssima 
Gazeta de Lisboa, contendo os actos, decieòes e ordens do go- 
verno, a commemoração dos auniversarios natalícios da família 



(1) Vide o «Correio Brasiliense», tomo 2. o pag. 474, cf. Mello Moraes, obra 
cit. muito preciosa e única para o assumpto. 



— 8 — 

real e das festas na corte, odes e panegyricoB ás pessoas reaes, 
e por descarga de consciência dos redactores, a noticia doB 
principaes acontecimentos da guerra peninsular, que lá iam 
resoar aos ouvidos da corte, longe dos perigos e das calami- 
dades de Portugal», 

Qae mais queria o rabugento Silvestre trouxesse a Gazeta 
official ? 

Que mais trazia La Gazette de Irance, ao ser fundada em 
1631 por Theophraste Kenaudot? 

Que mais traziam as variegadas Gazettes de Hollande? 

Que mais se poiia exigir da sua redacção e da sua admi- 
nistração, a cuja frente estavam f ei Tiburcio Jcsé da Rocha 
e h mens do valor de Cayurú, Maricá, Silvestre Pinheiro e Araújo 
Guimarães ? 



c Em 1808 no Rio de Janeiro, fugindo ao inimigo que 
lisonjeara, tentando enganai o até á ultima hora. desembarcava 
um homem menos que alto, gordo, semi-obaso, olhar suino, 
queixo distendido e faJar embaraçado. 

Era d. João VI: João Burro na indelicadeza acintosa dos 
mexericos da época. Vinha acovardado. 

Via francezes e maçons em toda a parte. Carregava para 
a colónia todos os haveres que, no momento da partida, lhe 
haviam ficado ao alcance da mão. (1) 

Pret ndia ficar definitivamente no Brazil. Para o seu meio 
o espectro do Bonapartismo ti ha, na Europa, a perennidade das 
moléstias incuráveis. 

Pois, senhores : de 7 de março de 1808 a 14 de abril de 
1821, esse mediocre quasi repellente, essa majestade que anga- 
riava a tolerância pela commiseração que a sua fraqueza parecia 
requerer, esse corpo qus só tomava banho quando o medico lhe 
ordenava a lavagem como remédio inadiável, esse rei fugitivo 
de um paiz invadido e decadente, manteve na cabeça a *ua 
coroa, obrigando Napoleão Bonaparte a exclamar em Santa 
Helena : — íoi o único que me enganou ! 

De feito : emigrando para o Brazil no pleno uso dcs seus 
direitos majestáticos, impelindo que a coroa lusitana fosse parar 
á cabeça de algum dos ambiciosos generaes do Napoleão, o 
nosso ve!ho rei mereceu do maior guerreiro do feculo o reco- 
nhecimento do tino politico que essa amarga exclamação reve- 
lava ! 

... D. João VI defendeu, sem concessões, sem arbitra- 
mentos, sem Judibrios galhofeiros, todo3 es limites territorif.es, 
todas as fronteiras da nossa pátria. Erigiu a defesa, então pos- 



ei) De riquezas, o príncipe regente só mandou embarcar o chefe dos diaman- 
tes e o tnesouro da capella Rea!. Todos os cofres públicos ficaram continuando os 
seus pagamentos.- (Mello Moraes, Vasconcellos Drummond, Gabriel d' Azambuja e outros 
Mstonadores) 



— 9 — 

sivel, das mil e duzentas léguas do nosso litoral. Abriu os 
nossos portos ao commercio extranjeiro. Fundou a E^coU Mi- 
litar, a Escola de Marinha, a Escola de Cirurgia, a Esc Dia de 
Bellas Artfls e o Museu. Crocu o Desembargo do Paço, o Con- 
selho de Fazenda, a Junta do Commercio, o Arsenal de Guerra 
e a Fabrica de Polvcra. Fez publica a sua bibliotheca parti- 
cular. Elevou o Brazil á categoria de Ríiino. Deu aos seus sú- 
bditos o PasFeio Publico e o Jardim Botânico. Cuidou da cana- 
lização de agua no Rio de Janeiro. Edificou quatteis. Installou 
o Banco do Brasil, Protegeu as letras. Ouviu Sampaio, admi- 
rou S. Carlos, applaudiu e animou Mont/Alverne. Meticuloso, 
progressista sem espalhafato, mandava praticar em S Paulo, a 
vaccina obrigatória quando, ainia em Lisb a, eram repetidos e 
applaudidos, em escara' o á sciencia do nosso patrício Mello 
Franco, es veraes alas engraçados, de nm palhaço de batina (1). 

Os treze annos do Feu governo no Brazil supprem cinco - 
enta annos de actividade util.de administração legal, invejável, 
criteriosa. • . (2) 

Fez ma s o cjoão Burro> : o Príncipe Regeute, lego após 
a sua i hegada e a installação das Secretarias de Estado na 
capital do Brazil -Reino, teve como um de seus principaes cui- 
dados montar a Imprensa Régia e fundar o primeiro jornal que 
viu a luz no Rio de Janeiro 

Cercára-se de ministros intelligentes e activos : entre estes 
o conde da Barca (António de Araújo de Azevedo), Thomaz 
António de Vil!anova Poitugal eo marquez de Aguiar (d. Fer- 
nando José de Portugal). 

O fasto por si só, de escolher o príncipe pessoas de pro- 
vado mérito, demonstra o seu alto critério e o desejo que tinha 
de contribuir realmente para a civilização do nosso paiz. (3) 

Thomaz António de Villanova Portugal, desembargador do 
paço e fiscal do real erário, foi o primeiro chanceller qu3 teve 
o Brazil e um dos que mais contribuíram para a trasladação da 
corte portugueza para a America. (4) 

Conhecedor dos homens, appellou para um monge, fr. Ti- 
burcio José da Rocha, official da Secretaria de Estado, latinista 
e hellenista, alguns afnrmam — htbraisante versado nas literaturas 
occidentaes e, em nome de S. A R , commetteu-lhe o encargo 
de direjtor e único redactor da Gazeta do Rio de Janeiro. 

Não foi sem relutância que tr. Tiburcio accedeu ao pedido 
de seu amigo, cujos rogos feram secundados por d. Rodrigo de 
Scuza Coutinho, conde de Linhares, o admirador e desvelado 
protector de José Bonifácio de Andrada e Silva. 



d) 

8Í 



José Agostinho de Macedo . 

Martim Francisco, «Em Gaararapes». 

(3) Max Kleinss, «08 Centenários do Brazil», V. 

(4) «Póde-se, sem ter receio de errar, diser qne, si em i807 n&o se achasse no 
conselho privado do sr d. João VI nm homem tilo illnstre e perseverante, como foi 
Thomaz António de Villanova Portugal, talvez aqnella occasi&o de transferencia da 
corte portugneza para o Brazil se n&o effectuasse, e ninguém poderia prever qual 
fosse a sorte de Portugal, naquella épocha . 



— 10 — 

Fr. Tiburcio, embora dedicado de coração á Monarchia e á 
pessoa de d. João VI; era um espirito liberal e independente 
e conciliava o seu amor ao Throno com as suas aspirações. 

De 1808 a 1812, a Gazeta do Rio de Janeiro viveu pla- 
cidamente. Em principios de fevereiro de 1812 deram- se os 
primeiros attrictcs entre o redactor e os officiaes da Secretaria 
de Estado que, sem escrever biquer um linha no periódico flu- 
minense, figuravam todos como collaboradores. 

As cartas originaes pertencentes ao archivo do conselheiro 
Drummond, mais tarde em poder do dr. A. J. de Mello Moraes, 
lançam bastante lnz sobre o desacordo entre o ministro conde 
das Galvêas (d. João de Almeida de Mello e Castro), ou antes, 
entre a Secretaria deste e fr. Tiburcio, «que, desejando a liber- 
dade do pensamento, mesmo nos tempos compressores do gover- 
no arbitrário, não se quiz escravizar, por reconhecer que o pen- 
samento ó livre, e não reconhece outro soberano que a Suprema 
Intelligencia de Deus>. 

Fr. Tiburcio, sentindo- se peado em sua autonomia, e já 
adoentado, escreveu a Pedro Francisco Xavier de Brito, cfíicial- 
maior da Secretaria de Estado dcs Negócios do Reino nos se- 
guintes termos : 

- Ulmo. sr. Pedro Francisco Xavier de Brito. — Da carta ou 
recado incluso, verá v. s. que ?. exa. (1) rejeita a mensagem 
do presidente para se inserir na gazeta. Eu declaro que a não 
posso supprir com outros artigos, por me achar com febre, e 
realmente doente. 

S. exa. quer artigos diversificados, e eu não os tenho. 

S. exa. reprehende-me por não ter introduzido artigos da 
Repertory of Arts, quando eu pelo sr. Lage lhe mandei pedir 
espera, que elle me concedeu por moléstia. 

A conclusão de tudo é que não posso fazer a gazeta de 
modo algum (por ora) attendendo a que me acho gravemente 
doente, do que apresentarei mil certidões si as exigirem, e não 
acreditarem em minha palavra de honra: portanto mando as gaze- 
tas e traducções que tenho, e v. s. dará as providencias. Sioto 
muito que a minha moléstia me impossibilite de cumprir com 
os meus deveres, e cause incommodo a alguém, em razão do 
pouco tempo ; porque deve estar amanhã na imprensa pelas 2 
horas da tarde. 

Na imprensa ha um sobejo de original approvado por s. 
exa, que pode servir. 

De v. s. súbdito muito attento e obrigado — ir. Tiburcio 
Joié da Rocha, S. C. 6 de março (á3 10 horas da noite)>. 

O conde das Galvêas, ante a recusa de fr. Tiburcio, orde- 
nou-lhe procurasse quem o substituisse . Ora, o illustrado frade 
acceitára o dnro encargo de redigir a Gazzta por instancias do 
conde de Linhares, e indicação de Thomaz António. 

Respondeu dest'arte á imposição : 



(1) Conde das Galvêas 



— 11 — 

«Ulmo. sr. Pedro Francisco Xavier de Brito. — S. exa. 
manda qua procure eu um homem que me substitua para fazer 
a gazeta : declaro, por tudo quanto ha de mais sagrado, que 
não posso, que estou febricitante, e em uso da remedias, nem 
sei de pessoa alguma hábil para esse íim- 

Não sei também o motuo por que me toque o procurar 
este horrem : a gazeta é de todos os officiaes, eu recebj tanto 
delia como qualquer outro, e fazia-o porque mandava o sr. 
conde de Linhares, (1) nem fui nomeado para a Secretaria por 
ter sido gazeteiro, nem a minha nomeação reza isso. 

Eu fui feito official pelo bom prazer do Principe Regente 
Nosso Senhor, e porque mais de dois annos lhe fiz as tra- 
ducções, sem o mais leve interesse. 

Feço pois a v. 8. que manda dizer a s. exa. que cão posso 
cumprir com as suas ordens por doente- Kemetto a v. s. os 
papeis tcdo-, porque na minha mão não servem para nada. 

Quando estiver bom, tcraarei a fazer a gazata com a me- 
lhor vontade. 

Sou com o devido respeito, de v. s. súbdito muitfa attento 
e venerador — Frei liburcio José da Rocha } S C, 10 de ir arco 
de 1812. 

P. 8. De tarde mandarei uma certidão a s. 8., e o mais 
tardar amanlã». (2/ 

Ácépbala a redacção da Gazeta pela persistência de fr. 
Tiburcio, outro official da Secretaria, Simeão Estellita Gomes da 
Fonseca, official papelista do couselh) da Fazenda, participou o 
occorrido ao conde das Galvêas, em crdera a se tomarem pro- 
videncias. (3) 

O frade a nada cedeu. A correspondência continuou. Por 
fim, em 12 de março, Pedro Francisco Xavier de Brito escreveu 
a um teu collega da Secretaria : 

« Meu collega e particular amigo. — Remetto a única carta 
que fr. Tiburcio me escreveu a respeito do negocio da gazeta, 
á excepção da ultima que remette para subir à presença de s. 
exa., e é esta a que s. exa. me entregou na casa do despacho 
marítimo : ao resto da desagradável correspondência, que teve 
a este respeito, respondeu elle só de palavras. 

Sou com toda a verdade e afíecto, 

De v. s. collega fiel amigo e obrigado súbdito — Fedro 
Francisco Xavier de Brito. S. C, em 12 de março de 1812. 



(1) Foi o conde de Linhares que referendou o decreto de 13 de maio, creando a 
Imprensa «Régia . 

(2) Mandou, de facto, um attestado do dr. José Corrêa Picanço : celebre me- 
dico pernambucano, discípulo e genro do dr. «abatier, em Paris; professor de anato- 
mia e cirurgia na Universidade de Coimbra, primeiro cirurgião da casa real, e cl- 
rurgi&o-mór do Reino ; passou-se para o Brazil com a famila real. Conselheiro e barão 
de Goyana. 

(3) Estas cartas, o conselheiro Drummond as confiou ao seu intimo amigo dr. 
Mello Moraes, que publicou parte delias em sua notável e ji citada obra. 

Escasseiam pormenores sobre frei Tiburcio, de quem nos occuparemos em es- 
tudo especial, dependente de consultas e do manusear de mannscriptos, que nao te- 
mos resentes, de momento. 



— 12 — 

Si pre»eate estivesse então na corte Thomaz António, talvez 
a sua intervenção houvesse evitado o conflicto, e consequente 
retirada de Ir. Tibnrcio. 

Fr. Tiburcio José da Rocha foi o redactor da Gazeta do 
Rio de Janeiro desde 10 de setembro de 1808 até 27 de fe- 
vereiro de 1 8 ! 2. 

Substituiu o o coronel Manuel Ferreira de Araújo Goima- 
rães, natu ai da Bahia, mais tarde lente da Academia de Mari- 
nha do Rio de Janeiro, e deputado á Constituinte. Redigiu a 
Gazeta até 1821, quando lhe succeieu o cónego Francisco Vi- 
eira Goulart. 

Ambis eram membros da junta directora da Imprensa Régia 
desde 1808, com o ordenado annual de duzentos e quarenta 
mil réis. (1) 

A typ' graphia continuou a fun cionar no pavimento térreo 
do prédio onde residia o Conde da Barca. 

III 

O camtico e hostil Armitage disse da Gazeta do Rio de 
Janeiro : 

«Não se manchavam essas paginas com as effervecencias 
da democracia, com a exposição de aggravos. A jalgar-se do 
Brazil pelo seu único periódico, devia ser consideralo como 
um paraiso terrestre, onde nunca se tinha expressado um tó 
queixume. > 

Em compensação a imprensa de ha um século não conhe- 
cia o cano de exgotto das aôrontosas mofinas da — Secção livre ; 
e de-conhecia completamente os testas-de- ferro a tauto por 
linha para mas-acrarem as alheias reputações. Nào existia 
ainda o que, sessenta annos mais tarde, Luiz Veuillot deno- 
minou — le journal bandit. (2) 

Nào havia pois, liberdade de imprensa, exclama o illus- 
trado sr. dr. M:reira de Azevedo: — quem desejava imprimir 
qualquer manu3cripto o apresentava antes com um requeri- 
mento á junta directora, e só depois do despacho é que o podia 
imprimir. (3) 

Si o manuscripto dizia respeito á religião, á legislação ou 
á politica, era a junta auetorizada a mandai o rever porlpessoas 
de profissão competeate, dirigindo lhes para esse effe.to offino 
em nome de sua alteza real, e exigindo seu juíza e appro- 
vação por escripto, á vÍ9ta da qual se mandava imprimir com 
as correcções necessárias, precedendo lhença da Secretaria de 
Estado. 



(1) O tbesoureiro da junta, que era Mariano José Pereira da Fonseca, tnha 
maia cem mil réis «pro-labore». Na vaga deste entrou José Saturnino da Costa Pe- 
reira, que, como revisor de provas, recebia, além do ordenado de 240$O00, uma gra- 
tificação. 

l±) L. Veuillot, «Poasies completes» ed. V. Balme, 1878, a pags. 6-12ÍL' 
Arétin Le Journal Bandit» . 

(3; Dr. Moreira de Azevedo, «Origem e Desenvolvimento da imprensa no Rio da 
Janeiro», 1865. 



— 13 — 

A real of6cina typographica, como já dis.emrs, recebia 
aprendizes, qu« entravam ganhando cento e sessenta ré s diários; 
no fim de seis mezes e a eleva-lo o salário a duzentos e qua- 
renta réis, e no fim de um auno a quatrrcentos réis. O aprendiz 
que não dava nem uma faHa na semana, tinba uma grati- 
ficação. (1) 

Possuía a rffi;ina typog aphica uma fundição de typos, e 
para se melhorar esse trabalho foi tnviado á Baropa um pen- 
sionista do Estado qoe estucando a arte de fundir typos, voltou 
mestre Mas, como lhe quizerara dar um ordenado mesquinho, 
não se sujeit< u ao trabalho e retirou- se pa r a Lisboa, onde es- 
tabeleceu uma of6cina de fundição 

A provisão de 14 de outubro de 1808 ordenara aos juizes 
df s alfandegas que não admittissem a despa ho livn s cu pa- 
peis alguns impressos sem que lhes fosse apresentada a com- 
petente licença do Desembargo do P^ç"», ao qual deveriam en- 
viar uma relação de quan*os entrassem e sahissem das alfan- 
dega-. (2). 

Eitas medidas não eram propriamente tyrannicas; e obde- 
ciam ao influxo do tempo. Mas, a typographia existente no 
Rio de Janeiro era uma só ; e, fiscalizada pela juata directora, 
aparava as azra dos publicistas cujo vôo tentava alcar-se a'èm 
da licença regia. 

Na Inglaterra forflm os amigos da liberdade da imprensa 
assentar a sua tenda de trabalho. Hippolyto José da Costa Pe- 
reira Furtado de Mendonça fundou em Londres em 1808 (3) 
o Correio Brasiliense, ou Armazém Literário, impresso por W. 
Lewis, em oitavo grande. 

As^im fundamentava H ppolyto a razSo de ser de sua re- 
vista mensal : 

«\ diffiiuldaie de publicar obras periódicas no Brazil, já 
pela censura prévia, já pelos perigos a que os redactores se 
exporiam falando livremente das acções dos homens poderosos, 
fez cogitar o expediente de imprimir semelhantes obras em 
paizes extrargeiros. A França e a Inglaterra foram princi- 
palmente os pontos de reunião dessas publicações desde a é.ocha 
em que a família real pafscu a ter a sua ieside:cia no Rio de 
Janeiro. Aberto este canal, pode diz^r-se que se estabeleceu a 
liberdade de se imprimir para o Brazil, posto que não no 
Brazil». 

Não era um homem vulgar este Hippolyto José da Costa 
Pereira Furtado de Mendonça. (4) 

Na«cido em 13 de agrsto de 1774 na Colónia do Sacra- 
mento, então díminio de Portugal, graduou- se em direito e 
philosophia na Universidade de Coimbra e foi nomeado em 



(1) «Id.» e maii o nosso «Estudo sobre a Imprensa Colonial» em numero 
d' «A Comarca» de Mogy-mirim, de 1903. 

(2) «Id ibidem». Beta é ainda hoje a praxe de toda a imprensa offlcial 

(3) B' a data perfilhada por M. de Azevedo, J. M. de Macedo e 6. d> 
bnja. Teixeira de Mello, porém, aceita a data de 1 de jnnho de 1807. " m 

(4) E nfto Hippolyto José Poares da Costa. 



_ 14 .. 

1798, aos 25 annos, encarregado de Negócios nos Estados 
Unidos, Jogar que occupou em Philadelphia até fins de 1800. 

Foi em Portugal um dos directores literários da Imprensa 
Régia, onde foi seu companheiro o celebre naturalista mineiro, 
o franciscano fr. José Mariano da Conceição Velloso, auctor da 
famosa Hora Fluminense. D. Rodrigo de Souza Coutinho (conde 
de Linhares), aproveitando uma sua viagem a Londres, incum- 
biu-o de serviços do Estado. 

«Hippolyto gemeu três annos nos cárceres da inquisição : 
mas por fim conseguiu fugir delles. Estsve occulto em Lisboa 
por alguns mezes, e com o disfarce de criado de Felippe Fer- 
reira de Araújo e Castro passou com este ao Alentejo, e dahi 
conseguiu chegar a Hespanba, seguindo para Gibraltar, de 
onde passou para Londres. > (1) 

Uma velha Historia da Maçonaria Portugueza, que temos 
á vifta, sem nome de auctor, sustenta que foi á Maçonaria que 
Hippolyto deveu a sua evasão. Seja como íôr, o padre Joaquim 
P. de Cerqueira, m*çon portuguez do tempo, affitmaque aquella 
seita, então quasi exclusivamente politica, não foi extranha ao 
segredo de sua estada em Lisboa, occulto em casa de outro 
«beneficiado», e lhe proporcionou recursos para sua retirada 
para o rochedo de Gibraltar e dahi, num bergantim levantino, 
para a capital da Gran-Bretanha. 

Hippolyto fixou residência definitiva em Londres. O Cor- 
reio Brasiliense adquiriu grande importância E ao passo que 
a Regência de Portugal prohibia a sua introducção e leitura 
na metrópole (2) e mandava refutar as suas doutrinas pela im- 
prensa, a revi-ta era francamente adtnittida no Brazil o até 
indiíectamente protegida prr Ei-Rey que lia o Correio Bra- 
siliense e o Investigador Portuguez para ter noticia do que 
occoma. [o) 

A publicação dessa revista durou até 1822. Consta de 
vinta e nove volumes ; e é um piedoso repositciio histórico 
para o período do governo de d. João VI até á Independência, 
de cuja causa foi o mai< eloquente pregoeiro no extrangeiro e 
orgam das nobres aspirações de uma nacionalidade. 

Proclamada a independência, o primeiro imperador o cha- 
mou para o Brazil a6m de occupar cargos importantes, como 
seu irmão, o conselheiro José Saturnino da Costa Pereira, qus 
foi presidente de Mato Grosso, senador do Império, ministro 
da Guerra na Regência de Fe\jó, lente da Escola Militar, raa- 
thematico, naturalista e romancista. (4) 

O illiíste publicita não quis abandonar a Inglaterra; ac- 
ceitou, porém, a missão de agente do governo- imperial junto á 
corte de Londres. «La mesmo recebeu do imperador do Biazil 
honras e uma pensão pecuniária, que lhe foi paga até 11 de 



0) G. (TAzambnja e Macedo, 
♦««i. {2 l A £ ircul *Ç ft0 d0 "Correio Brasiliense» foi prohibida por actos de 17 de se- 
tembro de 1811 de 2 de março de 1812 e de 25 de junho de iHi7. 

YA Via Q ,íD,cc ''- de Innocencio Francisco da Silva. 

(4) Vide o nosso «Hercules Florence», de pags. 231 a 231. 



— 15 — 

setembro de 1823», dia em que a morte o apanh.u em Ken- 
sington, em toda a força da edade e na plenitude de suas po- 
derosas faculdades. (1) 

O Investigador Portuguez appareceu em Londres em 1811. 
Acabou em fevereiro de 1819 : deu 92 números em cadernos 
mensaes. 

Diz o dr. Moreira de Azevedo que foi fundado pelo dr. 
Bernardo José de Abrantes e Cast.ro, que se associou cem 
o dr. Vicente Pedro Nolasco Pereira da Cunha, e com o 
dr. Castro, também brazileiro, formado na Universidade de 
Edinburgo, cujas honrosas tradições o dr. Ricardo Gumbleton 
Daunt, formado pela mesma Universidade em 1841, lá encon- 
trou ainda não apagadas. Era um original misantropo. Bom 
linguista e pouco cuidadoso no trajar. (2) 

Foi publicado o periódico sob os auspicio* do Conde de 
Funchal, então embaixador na corte de Londres, que ílcançou 
para etsa publicação o subsidio annual de c^nto e tantas sub- 
scripções equivalentes á scmma de mil e sessenta francos pages 
pelo governo do Rio de Janeiro, que nantinba em Londres esse 
jornal para combater as doutrinas do Correio Brasiliense, até 
certo ponto hostis a Portugal. 

Em 1814 passou a redacção do Investigador a José Li- 
berato Freire de Carvalho, que pouco a pouco foi se afastando 
da influencia do conde de Funchal e dando ao periódico cor 
mais liberal. O governo do Rio achou acertado suspender então 
a pensão, mas, ainda assim, o Investigador viveu até 1819, 
anno em que suspendeu a publicação. Os drs. Castro e No- 
lasco, brazileiros. receberam do governo do Brazil-Reino a in- 
demniiação de 400$000 cada um. 

Este periódico tornou-s^ notável não só pelos seu3 artigos 
políticos, sinão pelo quadro synoptico que apre£entava cada 
anno, descrevendo a situação dos diversos paizes da Europa. (3) 



(\) Cf. lnnocencio F da 8. 

(2) Manuscriptos do dr. Ricardo G, D.— A. R. Saraiva «Echos» e «Revistas», 
Londres. 1877. 

(3) Nilo ha duvida qce o dr Moreira de Azevedo inspirou-se, ao tratar do 
«Correio Brasiliense» e do «Investigador Portuguez», dos «Echos e Revistas» o famoso 
pamphleto mensal do exylado miguelista António Ribeiro Saraiva, editado em Lon- 
dres.— Desse grande Portusuez escreveu o P. Benna Freitas: «Visitei por algumas 
vezes António Saraiva em Londres, na sua rua Nottingbau, 21. Encontrava-o sempre 
só, com os seus milhares de livros, as suas meditações, a sua penna e seu gato preto 
Dava-me que rir a philosophia de tal viver, apenas em geral devassada por aquelle 
pacifico representante da raça felina, mas logo em seguida se me apertava o coração, 
não que o illustre portuguez mal.-inasse a sua sorte, pois o achava de ordinário 
tilo prazenteiro e alegre como Lucullo ou Cicero nas suas «villas» de Tusculum ; 
mas porque, altentando no isolamento daquella immensa solidão povoada em que ia 
desbagoando, ha um quarto de século, os dias da vida, naquelle quarto Foturno, hú- 
mido, meios, cujas paredes mais ou menos enfurnadas delimitavam o circulo do seu 
mundo solitário, e através de cujas janellas o sol só emittia uma réstia de luz in- 
decisa ; attentando, digo, naquelle estado de expatriaçáo voluntária e penosa a que 
as suas convicções politicas o haviam condemnado, roubando-o ao solo natal, aos 
amigos, aos conterrâneos, aos Jogares que quasl lhe completavam a existência, á 
posição social que oceupava, etc, não podia convencer-me de que não se achasse 
maia «chez lui» e foese mais prezado, prestimoso e feliz entre nós. R sentia que o 
paiz que absorve constantemente o teu pensamento longínquo de verdadeiro portu- 
guez não possuísse também a sua pessoa.» 



— 16 — 
IV 

Não c nsta aos raros escriptores que se têm occupado das 
occurrencias de 1808 que em nenhurxa outra cidade do Brazil 
se tivessem cieado neste mesmo annn jcrnaes para a diffusão 
das luzes, mais do que a Gazeta do Rio de Janeiro . 

Francisco de Souza Martins diz que na m^sma épocha se 
principiou a escrever na Bebia cutio periódico, no mesmo 
fomat^, com c titulo de Idcde de Ouro do Brazil, que via a 
luz duas vezes por semana. (1) 

Mello Moraes, porém, rectifica que — na Bahia o conde dos 
Arcrs promovfU o estabelecimento de uma typographia, anis 
mando psra este empenho ao negociante Manoel António da 
Silva Serva, para nu ntar uma ofEcina : para o que conseguiu 
do príncipe regente a permissão, pela Carta Régia de 5 de 
yaafiro de 1811, começando a funecionar a imprensa pela 
publicação da gpzeta denominada Idade de Ouro, e depus por 
um Jornal de Variedades em 1812 (2) 

Foi em 1813 que o brigadeiro Manoel Ferreira de Araújo 
Guima ães, que fora nomeado em 1808 membro da Junta Di- 
rectora da Imprensa Eégia e, como vimos, suecedera a Frei 
Tiburcio José da Rocha na redacção da Gazeta do Rio de 
Janeiro, começou a publicar uma revista de cem paginas, em 
jjequeno formato, intitulada O Patriota, cujo 1.° numero ap- 
pareceu em janeiro e durou até dezembro de 1814, impresso 
na Typographia Régia. Foram seus collaboradores Domingos 
Borges de Barros (depois Visconde de Pedra Branca), o dr. 
Bernardino Anti nio Gomes, Diniz, J. Bento da Fonseca, dr. 
J. Godoy Torres e outros literatos de então. Apresentando em 
suas pagi as n ticias curiosas e memorias interessantes, prestou 
serviços valiosos ao paiz. O Patriota estampou, entre outras, 
uma Mtmiria sobre o descobrimento da coxonilha no Brazil, 
escripta por um doa irmãos Paiva e apresentada no tempo do 
marquez do Lavradio á Academia Scientifica do Rio de Janeiro, 
e a Memoria sobre o carvão de pedra de Portugal, da lava 
do crnselheiro José Bon fieio de Andrada e Silva, trabalho 
importante e-cripto em LUboa em 1809 e lid > em uma das 
sessões da Academia Real das Scitncies, da qual era Andrada 
o secretario perpetuo e, certo, o mais bailo ornamento, (d) 



'â- 



Progresso do Jornalismo no Brazil, 1845. 

Historia da Translad. da Côrt. Port. 
($) — Vide a nossa série de artigos sobre José Bonifacto (O Velho), no 8ão 
Paulo de abril do corrente anno Este estado sobre o o Patriarcha está presente- 
mente imprimindo-se na Revista do Instituto H, e G. de São Paulo. 

—Neste trabalho sobre as Minas de carvão de pedra, depois de fazer vêr quanto 
a lavra das minas é de summo interesse para os paizes que as possuem, depois de 
enumerar as causas que tanto concorreram para a decadência das minas portuguezas, 
Jo»ó Bonifácio passa a descrever as localidades onde se acham em Portugal as minas 
de carvão de pedra, o estado delias, quaes foram as exeavações feitas pelos romanos 
quaes as novas e quaes as mandadas executar por ordem sua. No conteúdo deste 
escripto também se v6 que elle descobriu veios novos de uma grande abundância, e 
que as exeavações methodicas por elle alli empregadas mostraram a toda a evidencia, 
que as minas de carvão de pedra do Porto e de Buarcas eram mui ricas do preoioso 
combustível. 



- 17 — 

Em 1808 publicou José da Silva Lhb a as suas Obser- 
vações sobre a abertura dos portos do Brazil, impressas na Im- 
prensa Régia. — Como demostrar mos opportunamente, não se 
pode negar ao pabio visconde de Cayuiú a parte capital por 
elle tomada no notável acto de d. João VI abrindo os nossos 
portos Á% nações marítimas. A Carta Régia de 28 de janeiro 
de 1808, aliás mal recebida no Rio, tanto por alguns conse- 
lheiros de Estado como pelo corpo do commercio, porque a 
5 te não lhe fazia conta, foi da exclusiva inspiração de José 
da Silva Lisboa. 

Em 1810 o mesmo sábio bahiano imprimiu as Observações 
sobre a franqueza das fcbricas e industria, e as Refutações 
das declamações contra o commercio inglez. 

Silva Belfort deu ao prelo o Roteiro da cidade do Mara- 
nhão ao Rio de Janeiro. 

Não podemos traçar uma resenha completa do movimento 
literário a que deu impulso a cresção da Imprensa Régia; nem 
isto entra no quadro destes siDgelos ap(ntarjoentos. 

Em 1811 appareceu o Roteiro da cidade de Santa Maria 
de Belém do Gram Pará pelo rio Tocantins, por Oliveira 
Bastes. 

A Imprensa Régia, além de decretes e alvarás e outras 
peças officiaes, imprimiu : 

Á Choupana Índia, novella : O Despertador ou único meio 
de salvar a Hespanha, por um patriota hespanhol, versão ver- 
nácula de «Um amigo do throno» ; Veital, tragedia; Surriada 
a Masséna\ a tragedia Nova Castro; a obra prima de Ber- 
nardin de Saint Pierre. Pa\£o e Virginia; O Cor, o, em oitava 
rima; O Uruguay, de Joseph Basílio da Gama-, O Consorcio 
das Flores de Bocage ; a Carta Pastoral do Illm. e revmo. 
bispo capellão mor, de 8 de abril de 1811 sobre a dispensa 
de varies dias santos. 

E' bem de vêr, por esta nomenclatura, que a Imprensa 
Régia, sob os olhares benignos de d. Jtão VI, praticava em 
alta escala o ecletismo literário . . . 

Em 1812, «gemeram» os prelos da typographia real, e 
brindaram as letras pátrias com as seguintes producções : 

Epicedio ao illm. e Iam. sr. Conde de Linhares, por Ma- 
nuel Ferreira de Araújo Guimarães ; 

Elementos de Álgebra, por Lacroix, transladados para ver- 
náculo, por ordem de S. A. R., por Francisco Cordeiro da Silva 
Torres ; 

Ensaios sobre os perigos das sepulturas dentro das cidades 
e nos seus contornos, por J. C. P. ; 

Philosopho por amor, ou Cartas de deis amantes apaixo» 
nados e virtuosos, em 2 volumes : 



Jssé Bonifácio foi, em Portugal, além de desembargador, intendente geral daa 
minas, lente de geognosia e metallargia, cadeira expressamente creada para elle na 
Universidade de Coimbra, etc , etc. 



— 18 — 

Epicedii d deplorável morte do Sereníssimo sr. Infante D. 
Pedro Carlos de Bourbon e Bragança, almirante general junto 
á real pessoa do Príncipe Regente Nosso Senhor, por Paulino 
Joaquim Leitão ; 

Observações sobre o cravo da índia, com um prologo do 
dr. José Bonifácio de Andrada e Silva ; 

Observações sobre o capim de Angola, ultimamente trazido 
e cultivado no Rio de Janeiro ; 

Plano de organização de uma escola medico- cirúrgica que 
por ordem de S. A. B , traçou e descreveu o dr. Vicente Na- 
varro de Andrade ; 

Patriotismo Académico, por Ovidio Saraiva de Carvalho e 
Silva ; 

Os Jardins, poema de M. M. B. du Bocage, e os actos 
officiaes. 

As Prelecções Philosophicas sobre a theoria do discurso e 
da linguagem, de Silvestre Pinheiro . Ferreira, s&o de 1813, e 
deste anno também um opúsculo de Francisco Gomes Brandão 
sobre Apologia da Medicina. Este Francisco Gomes Brandão 
passou depois a chamar-se Francisco Gê Acayaba de Monte- 
zuma, e morreu visconde de Jequitinhonha. 

Ao passo que o Rio de Janeiro ostentava este desusado mo- 
vimento intellectual, de Portugal, observa um escriptor, não 
se remettia coisa valiosa : apenas a folhinha de cada anno, o 
livro de Carlos Magno, ou o Almocreve de Petas. «Mas não 
nos admiremos dessa antiga pobreza literária do Rio de Ja- 
neiro, pois até 1800 era a Gazeta de Lisboa o único jornal po- 
litico que se imprimia em Portugal». (1) 

O prior do Crato imprimia na Corte em 1817 a sua, até 
hoje consultada e estimada. Corographia Brasílica. — Cabe posto 
proeminente na historia literária do nosso paiz a Ayres do 
Casal. 

O eminente fr. Francisco de S. Carlos editava em 1819 o 
seu poema Assumpção. 

Em 1820, monsenhor José de Souza Azevedo Pizarro e 
Araújo publicava as Memorias Históricas do Rio de Janeiro 
e das provindas annexas a jurisãicção do vice-rei do 
Estado do Brasil, obra verdadeiramenta monumental pela in- 
tensa luz que derrama sobre muitos acontecimentos obscuros 
ou ignorados. (2) 

O movimento constitucional de 1820 em Portugal não 
podia deixar de repercutir no Braizl. 

E, como vamos vêr, influiu grandemente sobre a imprensa 
e sobre os destinos da typographia neste paiz. 



(1) —Moreira de Azevedo, obra cit.-Cf. os nossos Apontamentos sobre a im- 
prensa caiholica no Brazil e na collecção d'4 Comarca, o excellente bi-semanario de 
Mogy-mirim dos aunos de 1903 a 19u5, as nossas Ephemerides sobre Imprensa, pastim. 

(2)— Monsenhor Pizarro pertenceu â Arcádia Ultramarina. 



— 19 — 
V 

O movimento constitucional de Portugal, repercutindo in- 
tensamente no Brazil, despertou os brios do povo, sequioso de 
liberdade, si bem concedesse o paternal governo de d. João VI 
a somma de franquias compatíveis cim o tempo. 

Surgiram as publicações periódicas, «como instrumento o 
mais efficaz e operativo para electrizar as massas, excital-as 
em favor das novas doutrinas politicas e reformas sociaes com 
que se pretendia regenerar a nação.» (1) 

O &r. Balbi dá existentes no Brazil em 1821 os seguintes 
jornaes : 

No Rio de Janeiro — Amigo do Rei e da Nação, Sabba- 
tifia Familiar, Patriota, Conciliador do Reino Unido, Consti- 
tucional, Reverbero, Malagueta e a Gazeta do R. de J. 

Na Bahia — Edade de Ouro, Semanário Civico e Diário 
Constitucional. 

Em Pernambuco — Aurora Pernambucana e O Segarrega. (2) 

Eram portanto 13 os jornaes existentes ao seguir el-iei 
para a Metrópole, deixando o principe real d. Pedro como re- 
gente do Brazil. 

O decreto de 8 de maio de 1821 permittiu nas alfandegas 
o despacho de livros dê qualquer natureza, não sendo obscenos. 

O decreto de 28 de agosto do mesmo anno, considerando 
quanto era injusto encontrarem os auctores ou editores inespe- 
rados estorvos á publicação dos escriptos que pretendessem im- 
primir, mandou que se não embaraçasse por pretexto algum a 
impressão que se quizesse fazer de qualquer escripto, devendo 
unicamente servir de regra o que ap Cortes Geraes Extraordi- 
nárias e Constituintes tinham ordenado sobre estes objectos. 



Em 1822 começou a se publicar o Diário do Rio de Ja- 
neiro, impresso na Typographia Régia, em mau papel almasso 
e em formato de 4.* Fora creado por Zeferino Victor de Mei- 
relles, que obteve do principe regente d. Pedro a permissão 
de imprimir o seu periódico, durante seis mezes, na Imprensa 
Nacional e, findo o piazo, estabeleceu Victor Meirelles uma 
typographia á rua dos Barbonas n. 72. 

Foi esta a segunda typographia creada no Rio de Janeiro. 

Foi o Diário do Rio de Janeiro o primeiro periódico que 
se occupou em publicar annuncios e not cias locaes : pois, até 
então, quando se tinha de annunciar qualquer coisa ou novi- 
dade, pregava-se o annuncio manuscripto nas esquinas das 
ruas ou nas portas das egrejas, ou apregoava se pelas ruas o 
que 89 queria vender, alugar ou comprar. 



(1) Francisco de Eouza Martins, ob. cit. 

(2) Balbi, Estai Statittiqtu du Royaume dê Portugal. 



— 20 — 

Custava o Diário do Rio quatrocentos e oitenta réis por 
mez e era publicado todos os dias, menos aos domingos, vindo 
cada numero a valer vinte réis, e por isso recebeu o periódico 
o nome de — Diário do Vintém, que lhe dava o povo ; assim 
como o de — Diário da Manteiga, porque foi o primeiro jornal 
que se occupou em publicar o preço dos géneros e outras no- 
ticias particulares. (1) 

Victor de Meirelles f)i a primeira victima, entre nós, da 
liberdade da imprensa. Conservando um individuo de fa- 
milia importante a sua filha em cárcere privado, veiu no Diá- 
rio um annuocio denunciando esse crime. No dia seguinte, 
ao abrir a porta da officina, recebeu Meirelles um tiro na face, 
que o deixou ferido : restabeleceu-se, porém, vindo a falecer 
algum tempo depois. 

Supprimida a censura prévia pelo decreto de 28 de agos- 
to de 1821 a 1 de setembro desse anno, a Junta Directo- 
ra da Imprensa Régia, ante esse decreto e o art. 6.° da 
lei (regulamento) da i prensa, publicou uma declaração fazendo 
ver ao administrador d&quella officina — que não fizesse impri- 
mir manuscripto ou impresso algum que não viesse assignado 
pelo auctor ou editor, sendo o nome reconhecido pelo tabellião 
publico, declarando este ter visto fazer a dita assignatura. (2) 

A portaria à* 15 de janeiro de 1822 insiste para que «a 
Junta Directora da Typographia Nacional não consinta jamais 
que se imprima escripto algum sem que o nome da pessoa que 
deve responder pelo seu conteúlo se publique no impresso; e 
constando a S. A. R. que no escripto intitulado Heroicidade 
Brazileira se lêm proposições não só indiscretas mas falsas, em 
que se acham extranhamente alterados os successos ultima- 
mente acontecidos, ha por bem que a referida Junta suspenda 
já a publicação do dito pap3l e faça recolher os exemplares 
que já estiverem impressos, para que não continue a sua cir- 
culação». 

Não era cere ar a liberdade da imprensa, mas sim tornar 
effectiva a responsabilidade legal do auctor ou do editor : prin- 
cipio reconhecido e acatado em todas as legislações cultas. 

Entretanto, o conselheiro José Bonifácio de Andrada e 
Silva, nomeado a 16 de janeiro ministro do Reino e Estran- 
geiros, fez baixar a 19 uma portaria, explicando o acto de seu 
antecessor : 

«Porquanto algum espirito mal intencionado poderia inter- 
pretar a portaria expedida em 15 do corrente pela Secretaria 
de Estado dos Negócios do Reino á Junta Directora da Typo- 
graphia Nacional em sentido inteiramente contrario aos libera- 
lissimcs princípios de S. A R. e á sua ernstante adhesão ao 
Bystema constitucional, manda o príncipe regente, pela mesma 



(1) Moreira de Azevedo, ob. cife. 

(2) Vide a ColUcção de Lei* de 1822. 



— 21 — 

Secretaria de Estado, declarar á referida Junta que não deve 
-embaraçar a impressão dos es;riptos anonymos, pois, pelos 
abusos que contiverem, deve responder o auctor, ainda que o 
«eu nome não tenha sido publicado e na falta deste o editor 
ou impressor, como se achi prescripto na lei que regula a 
liberdade de imprensa.» 

O Senado da Gamara do Rio de Janeiro, por orgam de 
seu presidente, José Clemente p ereira, dirigiu a S. A. Real 
om data de 4 cie fevereiro uma carta, proflig*ndo os abusos da 
líber Jade absoluta da imprensa e representando a necessidade 
de mandar pôr em execução a lei respectiva, com a creação 
«do juízo dos jurad. s, exequível sem inconveniente na cidado, 
attenta a muita população de que se compõe e as muitas luzes 
que já possuo.» (1) 



Era o decreto de 18 de junho de 1&22, firmado pelo prin< 
cipe regente e referendado pelo patriarcha, para o qual appel' 
lavam os senadores da Gamara. 

Eis o seu preambulo : 

«Havendo-se ponderado na Minha Real Presença, que 
Mandando Eu convocar huma Âssembléa Geral Constituinte e 
Legislativa para o Reino do Brazil, cumpria-Me necessaria- 
mente, e pela Suprema Ley da Salvação publica, evitar que 
ou pela Imprensa, ou verbalmente, ou de outra qualquer ma- 
neira, propaguem e publiquem os Inimigos da ordem e da 
tranquillidade, e da união doutrinas incendiarias e subver- 
sivas, princípios def moralizadores e dissociáveis, que, promo- 
vendo a anarchia e a licença, ataquem e destruão o Systema, 
que os Povos deste grande e riquíssimo Reino por sua pró- 
pria vontade escolherão, abraçarão e Me requererão, e que Eu 
annui e Proclamei, e a cuja defeza e mantença já agora Elles 
e Eu estamos indefectivelmente obrigados : ,E considerando Eu 
quanto pezo tenhão estas razões, e Procurando ligar a Bon- 
dade, a Justiça, e a Salvação Publica, sem r frender a Liber- 
dade bem entendida da Imprensa, que Desejo sustentar e con- 
servar, e que tantos bens tem feito á Causa Sagrada da Li- 
berdade Brazilica ..» 

O decreto estabelece as jurisdicçõea para ob delictos por 
abuso de imprensa, e um conselho de juizes de facto de 24 
cidadãos, «escolhidos dentre os homens bons, honrados, intelli- 
gentes e patriotas, para conhecerem da criminalidade dos Es- 
criptos abusivos.» 

«Ob Réos poderão recusar destes vinte e quatro nomeados 
dezeseis ; os oito restantes, porém, procederão ao exame, co- 
nhecimento, e averiguação do facto, como se procede nos con- 
selhos militares de investigação, e accommodando-se sempre ás 
formas mais liberaes, e admittindo-se o Réo á justa defeza, 



(1) Vide n'A Comarca, n. 666, de 18 de Junho de 1905, um noeso estado sobre 
«•tas leis. 



— 22 — 

que ha de razão, necessidade e uso. Determinada a existência 
de culpa, o juiz imporá a pena. E por quanto r.s Leis antigas 
a semelhantes respeitos são muito duras e impróprias daB 
idéas liberaes dos tempos em que vivemos : os juizes de di- 
reito regular-se-ão para esta imposição pelos artigos 12 e 13 
do titulo 2. c do Decreto das Cortes de Lisboa, de 4 de junho 
d* 1821 que Mando nesta única parte npplicar ao Brazil. Os 
Réos *ó poderão appellar do Julgado para a minha Real Cle- 
mência.» 

«E para que o Procurador da Coroa e Fazenda tenha co- 
nhecimento dos delictos da Imprensa, serão todas as Typogra- 
phias obrigadas a mandar-lhe um exemplar de todos os papeis, 
que sp imprimirem.» 

«Todos os escriptcs deverão ser assignados pelos escripto- 
res para sua responsabilidade : e os editores ou impressores, 
que imprimirem e publicarem papeis anonymos, são responsá- 
veis por elles.» 

«Os autores, porém, de pasquins, proclamações incendia- 
rias, e outros papeis não impressos serão processados e punidos 
na forma prescripta pelo rigor das leis antigas t. 

«José Bonifácio de Andrada e Silva, do Meu Conselho de 
Estado, e do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima El-Rei 
o sr» D. João VT, e meu Ministro e Secretario de Estado dos 
Negócios do Reino do Brazil e Extrangeiros, e tenha assim 
entendido e o faça executar com os despaixos necessários.» 



Diz Teixeira de Mello que o decreto de 18 de junho de 
1822 foi transcripto, na integra, pelo sr. conselheiro João Ma- 
nuel Pereira da Silva, na sua Historia da JEundação do Impe- 
rio, tomo 6.° documento n« 1 do livro XII. 

Fomos á fonte limpa. 

Transcrevemo*l-o das paginas 493 e 494 do volume 3,° da 
Collecção das Leis Brazileiras «desde a chegada da Corte até 
á época da Independência, 1817 a 1822, com um supplemento 
geral», edição (hoje rara) de Ouro Preto, na typographia de 
Silva, 1837: 

Em 1822, «neise anno de enthusiasmo, de patriotismo, de 
vida e gloria para o Brazil», surgiu grande numero de perió- 
dicos advogando a causa da Independência e da Liberdade. 

Citaremos alguns, de que nos lembramos de prompto : 

Regulador Brasilico-Luso, Republicano Liberal, Papagaio, 
Annaes fluminenses, Volantim, Periquito da Serra dcs Or- 
gams, Macaco Brazileiro. Reclamação do Brazil, Correio do 
Rio de Janeiro, Semanário Civico, Memorial Apologético, Com- 
pilador Constitucional. 

Esta lista se augmentou em 1823 com os seguintes: 

Diário do Governo, Espelho, Regulador Brasilico-Luso. 
Malagueta, Sylpho, Semanário Mercantil, lamoyo, Diário do 



- 23 — 

Commtrcio, Diário da AssemWéa Geral e Constituinte do Bra- 
zil, Brazileiro Resoluto, Estrella Brazileira, Diário do Rio de 
Janeiro. 

— «Permittira a portaria de José Bonifácio muita liberdade 
na imprensa, e, receando que se tornasse mais Jivre e vehe- 
mente a linguagem dos periódicos, tratava o Senado da Camará 
de cohibir os abusos que pudessem apparecer ; e eram bem 
fundados os receios daquella corporação, como mais tarde 
veremos. 

Pedindo a Camará que se executasse a lei de liberdade 
de imprensa, prestava um serviço ao paiz ; e naquelle anno 
assignalou-se a municipalidade pelo amor e dedicação que 
manifestou pela causa publica...» 

€ Usavam estes periódicos de uma linguagem exaltada e 
vebemente; inflammados os espíritos com as idéas de liber- 
dade e independência, não mediam o excesso da liguagem e, 
receando que dessa agitação da imprensa resultasse alguma 
explosão, andava acertada a Camará pedindo ao príncipe ie- 
gente puzesse f m execução a lei de liberdade de imprensa.» 

— Completámos a moncgraphia de Moreira de Azevedo 
no nosso S. Paulo Histórico, em 1895, annotado pelo visconde 
de Taunay. 

O dr Mello Moraes (pae) dá a «relação dos jornaes que 
têm havido no Brazil desde 1808 até 1862», por províncias. 
Infelizmente, não assignala a data da publicação. Diz o emi- 
nente historiador : 

«Não mencionámos os annos em que estes jornaes appa- 
receram, porque, de muitos, apenas vimos um numero, e por 
conseguinte, ignorando o tempo de sua duração, contentámo- 
nos em mencionar-lhe o nome e a localidade. O mesmo fa- 
zemos crm os redactores, porque alguns, tendo sido demagogos 
furiosos, mudaram a casaca, e tomaram o burel do arrependido. 
Tal é entre nós o caracter da maior parte dos políticos do 
Brazil, de que temos conhecimento». (1) 



Havia na Corte em 1824 cinco typographias, sendo quatro 
particulares. 

Em 21 de maio o Diário do Gcverno passou a denomi- 
nar- se D ario fluminense A' já longa lista dos jornaes cumpre 
accrescentar os que appareceram nesse anno, a saber : 

lolha Mercantil, Caboclo, Despertador Constitucional e 
Spectador Brazileiro. 

Affirma o erudito dr. Moreira de Azevedo que «o francez 
Emílio Seignot Plancher, dono de uma typographia sita á rua 
do Ouvidor n. 203, emprehendeu em 1824 a publicação do 
Spectador Brazileiro, periódico noticioso, que apparecia três 
vezes na semana, tornando se, porém, diário, quando trabalhava 
a Assembléa Legislativa. O periódico de Emílio Plancher foi 



(1) Mello Moraes, ob. cit. 



— 24 — 

recebido com benevolência pelo publico, o que animou o editor, 
que de anuo para anno foi aperfeiçoando a sua folha, cada 
vez mais procurada e apreciada dos leitores.» 

Antes de rectificar o erro em que labora o distincto pu- 
blicista, detenhnmo-nos um pouco ante a curiosa individuali- 
dade do fundador do Spectador Brasileiro, qne depois passou 
a ser o Jornal do Commercio, ainda hoje o mais importante 
diário da America do Sul. 

VI 

O Spectador Brazileiro deve ter sido publicado em 1825 e 
não em 1826. Da collecção existente na Bibliotheca Nacional 
o numero mais antigo é o CCXIX, de 1.° de jaaeiro de 1826, 
segunda-feira. A indicação do local da impressão é a seguinte : 
«Rio de Janeiro. Na Imperial typographia de Plancher, im- 
pressor-livreiro de s. m. o imperador, rua do Ouvidor n. 95». 

O Spectador Brazileiro foi subst.tuido pelo Jornal do Com." 
mercio, cujo 1.° numero appareceu a 1.° de outubro de 1827 e 
e não a 1.° de abril, comi affirmam Macedo e Teixeira de Mello : 
este, na 2.* edição de sua obra, rectifica a data, e dá interes- 
santes esclarecimentos sobre as duas tolhas fundadas por Pedro 
Seignot Plancher, e não Emilio, como rezsm todos os auctores. 

Si, por um annuncio de livros á venda, inserto no Specta- 
dor de 22 de setembro, se verifica que o Plancher, editor da 
gazeta, era Pedro e não Emilio, temos uma base mais solida 
para tal afnrmar: é o testemunho de Hercules Florence, que, 
chegando ao Rio ie Janeiro em princípios de 1824, pouco do- 
peis entrava na casa do sr. Plancher oomo empregado de con- 
fiança. Hercules, sempre que em seus manuscriptas se refere 
ao livreiro-editor, escreve Pedro e não Emilio. 

Annexa ao jornal tinha Seignot Plancher uma livraria, a 
que Macedo denomina «ruim e pequena» como a typographia, 
sita á rua dos Ourives ; e «teve a abençoada fortuna de ver 
sahida da sua acanhada i fncina typcgraphica uma das mais an- 
tigas, e por certo a mais espalhada e numerosa edição da Con- 
stituição Politica do Império do Brazil, jurada a 25 de março 
de 1824». 

Seignot Plancher, de nacicn3lida 7 efranceza, não era consti- 
tucional nem inconstitucional : «imprimiu a Constituição, cal- 
culando com a procura e com a venda foceis e certas do livri- 
nho — pacto fundamental do Imperi ».— Ora, Hercules FJorence, 
amigo e companheiro de Seignot Plancher, e grande admirador 
de Napcleão I, era, to chegar ao Brazil, bonapartista até ame- 
dulla d(s rss 8; e esse sentimento communicára elle ao obscuro 
livreiro. Bonapartista equivalia a liberal. 

Quanto ao «livrinho», vimos o exemplar que pertenceu a 
Hercules : não destoava no papel e nos typos das impressões do 
tempo; e ó superior á edição de Ouro Preto, da typographia 
de Silva, e á de Pouso Alegre, mandada fazer pelo padre José 
Bento Leite Ferreira de Mello. 



— 25 — 

Propunha-se também Plancher a publicar um Almanach dcs 
Negociantes ; idêa que não realizou. 

* 
* * 

Foi, pois, a 1.° de outubro de 1827. uma segunda-feira, 
que sarru á luz o 1.° n. do Jornal do Commercio (1). Idêa lu- 
minosa! exclama um biographo cujo alcance, desenvolvimento 
e futuro evidentemente sua fraca intelligencia não comprehen- 
deu : lembrou-se do interesse que os negociantes da praça do 
Rio de Janeiro tomariam prr noticia* de entrada e sahida de 
navios, portanto do movimento do perto, de annuncios de leilões 
e de outros relativos ao commercio. 

Não era diário: gesse ramente impresso, apenas com duas 
paginas em meia folha do peior papel, em papel de embrulho, 
contendo apenas noticias do movimento do porto, e outras as 
mais communs. 

Ainda assim o jornaleco foi bem acceito pelo commercio da 
capital do Império, «O mais rude, o msis incompleto, o menos 
digno orgam do commercio foi o melhor, porque era o único». 
Seignot Plancher andou para deante. Explorou a mina dos 
annuncios dos escravos* fugidos e por vender; depois as casas 
a alugar ; depois tudo quanto podia falar aos interesses mate « 
riaes da população, e checou ao grande melhoramento de dar 
ás vezes noticia dos principaes acontecimentos políticos da Eu- 
r< pa ! (2). 

Em 1832 o Jornal do Commercio tirava 3.200 folhas, a 
edição maior da imprersa daquelle tempo. Passara a ser diário, 
em 4 paginas, cem a impressão muito melh-rada. E a 9 de 
junho daquelle anno Seignot Plancher vendeu a empresa a Ju- 
nius Constâncio de Villeneuve & Mouginal por 52:6641000, 
edeixando em 6 annos ao seu primitivo projrietario e credor 
esse hoje colosso da imprensa, fortuna que satisfaz sua ambição, 
pois se retirou para a França, onde foi gosar delia». 

A data da venda do Jornal do Commercio, acima referida 
por Mello Moraes, Macedo, T. de Mello e outn s. sofíre entre- 
tanto contestação ; pois temos á vista um opúsculo editado por 
Pedro de A cantara Bellegarde, intitulado — Noticia Histórica, 
Politica Civil e Natural do Império do Brazil, em 1833, — que 
foi impre-so, como nelle se declara, na Typ. Imp e Const. de 
Seignot Plancher & Comp., rua do Ouvidor n. . c 5 : — o que pa- 
rece significar que a esse tempo ainda peiteccia ella a Seignot 
Plancher. — Com efíeito, ai- da em 30 de dezembro de 1835 era 
ella de Seignot Plancher & Comp. Já porém, no I o de julho 
de 1836, t az a drclarsção de pertencer a Junius Villeneuve & 
Comp suecessores de P, (Pedro) Seignot Plancher (3) 



(1) Cf. Mello Moraes (pae), na 3.» série do Brcuil Htttorico. 

(2) J. M. de Macedo. 

(3) T. de Melle.addíwáa. 



— 26 — 

Seignot Plancher quiz associar á sua empresa Hercules 
Florence, e mesmo vender-lhe a typographia e a livraria. Mas, 
embebido nas suas cogitações scientificas, Hercules, com pouco 
mais de 20 annos de edade. preferiu seguir como desenhista na 
expedição do cônsul geral da Rússia, o barão de Langsdorff. . , 
Kxpoz o seu projecto de viagem ao sr. Plancher e outros ami- 
gos, que trataram de o dissuadir de sua temerária empresa ; 
uma viagem pelo rio Tietê, em demanda dos sertões de S. Paulo, 
Mato Grosso, Pará e Amazonas — se lhes afigurava um em- 
prehendimento egual ao dos Argonautas. 

PJancher fez- lhe as propostas mais vantajosas : nada o de- 
moveu da idéa de acompanhar o cônsul geral da Rússia ; e, 
uma semana depois de contractado pelo sr. barão de Langsdorff, 
Hercules deixou a livraria repelliu para bem longe de ri a 
fortuna, e a felicidade de ser proprietário do Jornal do Com- 
mercio e incorpon u- se á expedição, 

«O sr. Plancher ganhou depois disto trezentos mil francos 
em 6 annos, pondera Hercules, e quando se retirou para a França 
vendeu o seu estabelecimento, sem nada receber á vista, a moços 
que se tornaram ricos e que tiveram successores não menos fe- 
lizes. Si eu tivesse ficado em casa do sr. Plancber, não me 
teriam sido precisas muitas aptidões para fazer minha fortuna 
antes dos trinta annos» ... (1) 

* 
* * 

Sob a nova direcção de Junius de Villeneuve o Jornal to- 
mou um impulso extraordinário. Em 15 de julho de 1834 Vil- 
leneuve ficou o único proprietário, recebendo Mouginal pela sua 
parte a quantia de 25:765$000 ; a sua firma, porém, ficou con- 
servada até 1 de janeiro de 1836. 

Villeneuve nascera em França em 1804, no mesmo anno 
em que, em Nice, nascia Hercules Florence. Como este, tinha 
21 annos quando veiu para o Brazil. Foi official de marinha, 
como Etienne Bourroul, o companheiro do almirante Dumont 
d^iville e o intimo amigo de Hercules ; como Augusto Lever- 
ger, mais tarde chefe de divisão, vice -almirante e barão de 
Melgaço, .. 

O Jornal do Commercio tinha um competidor temível no 
Diário do Rio de Janeiro, superiormente dirigido e redigido. 
O facto é que o Diário morreu ; e o Jornal . . . ainda hoje é 
— o Jornal do Commercio, 

A' farta e rendosa, si bem que immoral, secção dos A pe- 
dido, e aos annuncios, fonte de renda colossal, o Jornal addi- 
ctou a publicação dos debates das Camarás Legislativas, o Fo- 



H) Manuscripto de Hercules Florence.- -Conflra-se o que escrevemos em nosso 
Hercules Florence, edic5o.de 3901, a pagina 48-51 e a nossa Memoria apresentada ao 
Centro de Sciencias, Leiras e Artes de Campinas, no dia 29 de Fevereiro de 1904, na 
sessão magna anniversaria do l.o centenário do geDial scientista franco-brazileiro, e 
lida pelo illustrado dr. Henrique de Barcellos, então secretario geral daquelia douta 
corporação. 



- 27 — 

IJietim, a Parle Commercial ; e cercou se de collaboradores idóneos, 
qmes o dr. Picot, o commendador Maneei Moreira de Castro, 
Justiniano José da Rocha, Francisco Octaviano, Paranhos (Rio 
Branco) e outros de egual estatura. 

Juniua Constâncio de Villeneuve seguiu para a França em 
1844 para cuidar da educação de seus filhos. Succumbiu victi- 
ma de um ataque de apoplexia cerebral, em Soutltzmatt (Ilaut- 
Rhin). Tinha 60 annos incompletos (5 de agosto de 1863). 

Seus restos moitaes descancam ao lado dos de seu primo- 
génito, o heróico Edmundo de Villeneuve, natural do Rio de 
Janeiro. 

E*te bravo brazileim morreu gloriosamente, escalando as 
muralhas de MalakofT no dia da tomada de Sebastopol. 

Edmundo fora um do3 primeiros na investida da formidável 
fortaleza da Criméa, a chave da guerra. 

Mac-Mahon escreveu o magnifico elogio fúnebre — em com- 
movente ordem do dia 8 de setembro de 1855 — do illustre bra- 
zileiro, filho do director proprietário do Jornal do Commercio. 

VII 

O primeiro jornal que se publicou em S. Paulo foi o Farol 
Paulistano. 

Temos em nossa colleccão alguns números.— Quatro paginas 
de texto, impressas a duas columeas, com a divisa : La liberte 
est une enclume qui usera touts les marteaux. 

Foi seu verdadeiro fundador o dr. Joseph da Costa Carva- 
lho, que foi deputado, senador, ministro, regente do Império, 
director da Faculdade de Direito de 8. Paulo e marquez de 
Montalegre (1). Foi também presidente desta província em 1842, 
durante a rebelliâo de Rafael Tobias de Aguiar (2), Dicgo An- 
tónio Feijó, Gabriel José Rodrigues dos Santos. Com a espada 
de Caxias, estrangulou o movimento. 

O primeiro numero sahiu a 7 de fevereiro de 1827. A 
folha, a principio semanal, depois bi-semanal, do custo de 80 
réis o numero, durou até 1832. 

Em suas officinas foram impressos o Justiceiro, o Novo Fa- 
rol Paulistano e o Observador Constitucional. 

Do Justiceiro (1834) foi redactor o padre Feijó. 

O Observador Constitucional (1829-32) foi dirigido por Gio- 
vanni Battista Libero Badaró, notável medico da Liguria, fora- 
gido em 8. Paulo, onde leccionou mathematicas aos estudantes, 
captando dest'arte as B*mrathias delles. Dizemos, muito de in- 
dustria : foi dirigido.. . E não fundado: outros é que custea- 
vam a folha e assopravam o génio de seu redactor, a quem 
faleciam recursos pecuniários para, por si só, manter um jornal 
que, não raro, se convertia em verdadeiro pasquim e causou a 



(4) E MontaUgr» e não Montt-Alegrt nem MonVAUgrt : temos á vista a assigna- 
tnra antogr»pha. 

(2) E' Hafatl Tobias e Bio Raphcul Tobias. 



— 28 — 

morte violenta do clinico liguriano e bom mathematico de pre- 
paratórios. 



Foram estas as primeiras folhas publicadas na capital da 
província. 

S. Paulo era então muito acanhado em sua área e de po- 
pulação limitadissima. — Teria a capital da então província ama 
população de quatorze mil a mas, quando muito, — escreve douto 
e original publicista. Abundavam-lhe os pretos e os mestiços 
indiscutíveis. Exiguo era o elemento estrangeiro ; esse, por- 
tuguez quBsi todo. 

A população da província, inclusive a do futuro território 
do Paraná, talvez attingisse a quatrocentas mil almas. (1) 

Os largos de S. Bento, Carmo e ladeira eram o fim da ci- 
dade « o começo dos arrabaldes ; nt stes, raras vezes duas casas 
avizinhavam -se por completo. Os muros abusavam do direito 
de não pagar imposto. 

Fora da cidade, só a Consolação, caminho dos viajantes que 
demandavam Ytú ou Campinas ou dalli chegavam, revelava al- 
guns traços de vida própria. Junto á ponte de Lorena — nome 
do govrnador que a mandara reconstruir por sub3cripção po- 
pular em fins do século dezoito, e nome que foi trocado pelo 
do Piques, do de um morador que, reza a legenda, foi rico, 
faustoso e esmoler — occupava a preeminência commercial o alie - 
mãi Lotkel, sério e activo, cujas filhas eram geralmente nota- 
das ; uma pela gagueira, outra pela belleza. 

C&ro tem pago a Consolação essa importância relativa de 
que gosou ha meio século ! Cançada, parece que estacionou. 
O lago da Memoria, esse então é cora imperceptíveis alterações 
o mesmo que eu conheci coroo estudante de preparatórios em 
1870; o mesmo paredão desenxtbido, os mesmos \ès de cicuta 
encostados, sem poder trepsr, á pyramide desconsolada, e até 
alguns dos moradores que eu comprimentava quando menino ! 
Lá adeante sim, tem havido sofíriveis modificações : augmentou 
o numero de prédios e o antigo collegio Berthó está transfor- 
mado em palácio que mal lhe mascara o excessivo peso da con- 
struo ção. 

Essa casa veiu a pertencer ao boticário Lúcio Manoel Fé- 
lix dos Santos Campello, homem de illustração pcuco vulgar, 
collaborador e um dos fundadores do íarol Paulistano em 1827, 
alumno na aula de philosophia que um dos patriarchas da in- 
dependência abrira nos últimos tempos colcniaes (onde o idea- 
lismo era pregado ás escancaras, segundo apostillas que enri- 
quecem o meu arehivo), amigo intimo do dr. João Baptista Ba- 
daró, cujos derradeiros momentos presenciara e me narrou, e 
liberal exaltado que se retirou inesperadamenre da politica, e 
quasi que da sociedade, em consequência da aggressão material 
que scffreu após uma tentativa de casamento mal succedido. A 



(1) Isto de 1880 a 1850. Em 1872 em B. Paulo não passava de 25.000 habitantes. 



— 29 - 

casa de Lúcio era o orgulho da gente da Consolação. Apon- 
tavam-na como emula da do coronel Rafael Tobias, na rua 
Alegre (1), da da marqueza de Santos, na actual rua do Carmo 
(2) da do cadete Smtcs (3), já então o homem mais rico de 
S. Paulo, e só lhe reconheciam inferioridade quan io c mparada 
á já hoje esquecida chácara do Arouche. (4) 

A regularidade das procissões era quasi sempre peiturbada 
pelos estudantes. E' exacto que não ia além de duzentos, in- 
cluindo os do curral (curso de estudos preparatórios), o numero 
dos académicos, mas significavam estes um agrupamento rela- 
tivamente importante em uma população diminuta como era a 
da capital da provincit. Eram convidados indefeciveis a todas 
as festas: haviam organizado — e mantido, o que é sempre mais 
diffiiil— uma companhia dramatici onde (alguns então, outros 
mais tarde) gosavam dos applausos da multidão e da curiosidade 
das moças, representando os Sete Infantes de Lara % a Pobre das 
Ruinas, e deliciando a platéa com os versos do Meirinho e da 
Pobre, jovens que depois tiveram de representar, na vida po- 
litica, papais riais eminentes, emb ra tã> lucrativas como a 
que desempenharam nos dois theatrinhos da capital : o do salão 
dos bains do pai- cio do governo, e o theatro novo, qu^ por 
edoso foi d rrubado em 1872, e cujos ratos foram arrematados 
por 100$00O pelo Chumbinho, velhinho especialista em peque- 
nas cobranças, que provavelmente não os p?gou. A entrada era 
grátis, mas os convites custavam muito empenho e constituíam 
uma elevada prova de cons ; deração. Martim Franc sío, Gavião 
Peixoto, Aguiar de Andrada, Paulo do Valle (este era o ponto, 
e interrompia constantemente es ensaios corrigindo e discutindo 
a prosódia dos actores), o moço João Soares e outros muitos se 
assignalavam, nesse tempo e no palco, como talentos esperan- 
çosos e de apreçáveis tendências literárias. 

As fr milias iam a pé ao theatro. Carruagens, apenas duas 
existiam : a da marqueza de Santos e a do bispo, puxadas por 
parelhas de burros; guiavam- nas cocheiros pretos escravos, com 
chapéus altos, paletots quasi sempre verdes com botões amarellos ; 
traziam os nomes dos patrões. 

A viagem para Santos durava dois dias : parava -se no 
Ponto- Alto e só se chegava ao prrto de mar no dia seguinte. 
Para ir á corte tomava-se a barca. A barca ou era o Itambê 
ou o Ypiranga t vapores cuja marcha parecia uma previsto da 
tranquilidade da celebre canhoneira Traripe, que andava três 
milhas por hora. Tanto como eu e menos do que o Bargcssi. (5) 



(1) Hoje ra» Brigadeiro Tobias. Paz quina com a rua Episcopal, e perdeu, o 
antigo e sympathico feitio 

(2) Passou depois ao commendador Pelicio Pinto de Mendonça e Castro. E' boje 
Palácio Episcopal. 

(3) Hoje residência dos exmos. barões áe Tatuhy. Foi cortada pelo Viaducto : na 
rua 6. José boje Libero Badaró 

(4) Poi residência do dr. António Pinto do Rego Freitas: mais tarde Collegio. 
Hoje perderam-te os vestígios da morada do tenento-general José Arouche de Toledo 
Bendon .. 

(6) Nino, (Dr, Martim Francisco Júnior,) 1000. 



— 30 — 

* 
* * 

Além de Costa Carvalho, seu principal fan dador, o Xarol 
Paulistano teve camo redactores António Mariano de Azevedo 
Marques (O Mestrinho); António Manoel de Campos Mello e 
Manoel Odorico Mendes, o eximio latinista e hellenista, laurea- 
do traductor de Virgílio e Homero. 

Já aos 15 annos, António Mariano leccionava latim aos 
moços do coro da Sé Cathedral e aos que sa destinavam ao 
estado eccle3Íastico : dahi o seu appelhao de Mestrinho, pelo 
qual foi sempre conhecido. Regeu cem talento a cadeira de 
latinidade na Academia e matriculou -se no curso jurídico, que 
abandonou no 4.° anno. Dedicou-se á advocacia, e nesta nobre 
profissão adquiriu grande nomeada, sendo tido como um dos me- 
lhores causidicos da província e consultado de longas comarcas. 

Os seus pareceres são luminosos e, a par da copiosa eru- 
dição í jrensa, encantam pela vernaculidade dos conceitos. Poeta, 
compoz uma Ode ao anniversario da promulgação da lei que 
creou es cursos juridicos de S. Paulo e Olinda, recitada por 
entre applausos no dia 11 de agosto de 1828. 

Esta poesia ainda hojj figura em anthologias como das me- 
lhores no género. 

Jornalista, era argumentador vigoroso e a delicadeza de 
suas phrases, a moderação de seus raciocínios contrastavam com 
a aspereza maledicente de seus companheiros de redacção. — An- 
tónio Mariano, si não fora a sua modéstia e o ser mais homem 
de gabinete do que de tribuna, mais homem de estudo do que 
de lueta e agitações, teria feito condigna figura ao lado de seus 
collegas d'imprensa, que galgaram os postos mais eminentes na 
politica do paiz. — Falleceu precocemente no Bio de Janeiro em 
1814, na edade de 47 annos. 

Caracter fogoso e combativo era António Manuel de Cam- 
pos Mello, natural de Porto Feliz, formado em direito em S. 
Paulo, em 1833. 

Após haver collaborado de modo efíectivo no larol Pau- 
listano, fundou O Solitário em 2 de Maio de 1840, no mais 
acceso das luetas pala Maioridade. O Solitário era impresso em 
duas columnas, formato pequeno, na Typographia Imparcial, de 
dilva Cabral. 

Fora creado especialmente para combater o illustre bispo 
diocesano, d. Manuel Joaquim Gonçalves de Andrade, que já 
tinha sido uma das victimas predilectas da penna tão ferina 
quanto incorrecta de Libero Badaró em 1829-1830. 

D. Manuel Joaquim era natural da ilha da Madeira ; e os 
nativistas de então não paup ram o venerando prelado, que, 
além de príncipe da Egreja, era um dos chefes mais prestigiosos 
do partido conservador, denominado então absolutista. 

O Solitário allegava que — d. Manuel Joaquim se tornara 
«o génio tutelar das cabalas, em redor do qual giravam e dis- 
putavam prefdrencia os pequenino i chefes de aivibscão extran- 
geira, que então dominavam a província» 



— 31 — 

Assumindo a presidência de S. Paulo, em 12 de julho de 
1839, o desembargador da Relação do Maranhão, dr. Manuel 
Machado Nunes, a sua administração desagradou a >s liberaes ; 
e O Solitário rcmpeu em violenta opposição. Ao presidente in- 
crepava de cNortista r- etulaute, e atrevido» ; ao bispo de «Gal- 
lego sem vergonha». Essa3 eram as «aves de arribação» que 
infelicitavam d. Faulo. Entretanto, José da Costa Carvalho, o 
fundador do Farol Paulistano , era bahiaDo da gemma ; Giov» 
Batt. Libero Badaró, seu principal redactor, era italiano ; Ma- 
nuel Odorico Mendes era Maranhense : o elemento paulista era 
apenas representado no larol pelo Mestrinho e Campos Mello. 

Suppoz-se a principio que era redactor d' O Solitário o 
arciprefcte da Sé de S. Paulo, o eminente pregador cónego Joa- 
quim Anselmo de Oliveira. O redactor quasi único do fogoso 
orgam liberal foi o dr. Campos Mello, maia tarde deputado 
provincial, deputado geral em duas legislaturas (1845 e 1848) 
presidente de Alagoas em 45 e ministro da Justiça no gabinete 
de 31 de maio de 1848, organizado pelo senador Francisco de 
Paula Souza e Mello. 

Nem um semestre logrou vingar O Solitário — jornal aliás 
muito bem escripto (1). O se a ultimo numero traz a data de 
29 de setembro de 1840. Isto explica-se : o desembargador Ma- 
nuel Machado Nunes deixara a presidência a 4 de agosto, buc- 
cedendo-lha no governo o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar 
o chefe mais prestimoso do partido liberal. A opposição já não 
tinha razão de ser. A 6 de outubr) do mesmo anno, Campos 
Mello foi nomeado inspector da Thesouraria da Fazenda. 

* 
* * 

No próximo artigo concluiremos, ao tratar da lypographia 
Oficial em S. Paulo, osti série de já enfadonhos rabiscos, pe- 
quenino contingente para a projectada commemoraçào do Cen- 
tenário Josephino de 1808. 

VIII 

Em 1830 já o Conselho Geral se occupára do assumpto, 
como se verifica da seguinte proposta, que copio do original: 

Proposta para a creação de uma Typograihía Nacional 
nesta Província. 

cA publicidade em todos os seus actos é da essência do 
Governo Representativo. Esse principio, que não se pode pôr 
em duvida, pir muito sabido, faz ociosa qualquer demonstração 
da utilidade da Proposta, que o Conselho Geral tem a honra 
de levar á Augusta Presença de Vossa Majestade Imperial, 
cuja sancção supplica e espera. (2) — 



(1) Cremos que vimos em mitos do illastre paulista dr. Brasilio Machado uma col- 
leçç&o completa, de certo a única existente, d'0 Solitário. 

(2) Conselho Geral, estatuído pelo capitulo V da Constituição Politica do Impé- 
rio, constava em 8. Paulo de vinte e um membros. As resoluções dos Conselhos Ge- 



— 32 — 

Artigo I 

Haverá na capital da Província de S. Paulo huma Typo- 
graphia Nacional, qu« sirva para a regular publicação dos actos 
da Administração, trabalhos do Conselho Geral e Camarás Mu- 
nicipaes. 

Artigo II 

O Governo da Província fha authorisado a despender a 
somma preeisa para a compra e mais despesas necessárias da 
mencionada Typographia. 

Paço do Conselho Geral de São Paulo, 8 de fevereiro de 
1830. 

Manuel Joaquim de Ornellas, 

Diogo António Feijó»* 

Porque não recorreu o Conselho Geral á typographia onde 
se editava o famoso Observador Constitucionc l de Giovanni 
Battista Libero Badaró, de propriedade do dr. Joseph da Coâta 
Carvalho ? 

E' o que nos não dizem os interessantes debates travados 
no seio daquella corporação, cujas Actas vamos publicar, anno- 
tadas qusnto cumpre. 

A primeira lei votada pela Assembléa Legislativa Provin- 
cial de S. Paulo foi a de 9 de março de 1835, cauctorizando o 
o g vemo a despender o que fôr necessário para a impressão, 
redacção e distribuição de uma fjlha diária» em que se trans- 
crevam todos os actos officiaes (que não exigirem segredo), 

«Quando a folha dê logar, o governo poderá nella fazer 
inserir qua'quer declaração de seus actos, que iulgar necessário 
e qualquer outra de interesse publico.» 

Esta lei foi sanccionada pelo brigadeiro Rafael Tobias 
d' A guiar e referendai a pelo secretario da Província, Joaquim 
Floriano de Toledo. 

A lei n. 121, de 31 de março de 1838, sanccionada pelo 
dr. Venâncio José Lisboa, sendo secretario da Província o dr. 
Joaquim Firmino Pereira Jorge, revogou a autorização confe- 
rida ao governo pela lei de 9 de março de 1835. 

«O governo poderá arrendar a typographia como lhe pa- 
recer mais conveniente, uma vez que o p azo do arrendamento 
não exceda ao tempo do contracto que, para a impressão das 
instrucções, regulament03 e actos do governo, que forem ur- 
gentes, e da aseembléa legislativa provincial, é auctorizado a 



raes de Província eram remettidas directamente ao poder executivo, por intermédio 
do presidente da província. 

Acto Addicional supprimiu os Conselhos Gcraes (Lei de 12 de agosto do 1834), 
8Ubstituiudo-os pelas Assembléas Provinciaes. 

Temos em nosso poder documentos, apontamentos, estudos e reminigcencias que 
nos habilitam a escrever a Historia completa do Conselho Geral e a do Conselho do 
Governo. Já publicamos abundantes extractos. 



— 33 - 

celebrar em virtude do determinado na lei do orçamento do 
anno de 1838 para 1839; ficando o arrendatário obrigado a to- 
mar a si dita impressão, quando necessário seja, devendo em 
todo o ciso restituir o material da mesma no estado em que o 
receber, salvos os gastos, ou deterioramentos, que forem effei- 
tos naturaes do serviço, e acção do tempo». 

O período final do § 2.° do art. 1.° da citada lei de orça- 
mento reza o seguinte : 

«O presidente da província fica aucto rizado a contractar 
com qualquer impressor as referidas impressões por espaço de 
três annos comtanto que o seu preço não exceda annualmente 
á quantia de oito centos mil réis, e o impressor se obrigue a 
declarar no fim dos dois primeiros annos, si, findo o prazo do 
contracto quererá continuar, devendo declarar-* e em dito con- 
tracto uma multa, á qual se tujeite o impressor, caso deixe de 
preencher as condicçõe*.» 

O orçamento de 1838 — 39 consignava a despesa de 
10:250$000 com a Assembléa Legislativa Provincial, a saber: 

Subsidio a seus membros (3S200 diaics) durante a 
sessão ordinária, e sua prorogação, indemnização 
de vinda e volta 'aos que morarem fora da ca- 
pital (3$200 por dia de viagem, contando -se 6 
léguas por dia) 8:200$000 

Ordenado ao porteiro e gratificação ao cfficial da 

Secretaria, amanuenses e contínuos . . . . 1:0508000 

Expedieate da Secretaria 200*000 

Impressão dos balanços, orçamentos, actos legislati- 
vos, projectos e mais papeis da Assembléa, que 
costumam ser impressos, inclusive as instrucções 
e mais actos do governo que demandarem im- 
pressão 800J000 

E' verdade que o orçamento da Província era então de 
813:284$960, e o da Camará Municipal da capital de 8:304$930 ; 
o da villa de S. Carlos (Campinas) 2:286$620 ; o da villa de 
Santos, 6:670$240; o da villa de S. Vicente, 181$020, etc. 

A lei orçamentaria n. 311, de 16 de março de 1846, san- 
ccionada pelo marechal de campo conselheiro Manuel da Fon- 
seca Lima e Silva, posteriormente barão de Suruhy, sendo se- 
cretario da província Manuel Joaquim Henriques de Paiva, de- 
termina em seu art. 23 quaes as publicações que deverão ser 
immediatamente exaradas na Folha Ofticiàl, incluindo todo o 
expediente das Collectorias, Registos e Barreiras, os balancetes 
trimensaes da Thesouraria. 

«A mesma folha official publicará, além disso, em extracto 
os actos officiaes do governo, e, por extenso, unicamente os que 
contiverem explicações sobre intelligencia de leis e aquelles que 
por sua importância o mesmo governo o julgar conveniente ; e 



— 34 — 

continuará a ser distribuída peios juizes de direito, munieipaes, 
de paz, delegados, subdelegados, camarás munieipaes e deputa- 
dos desta província, geraes e provinciaes. O governo dará as 
precisas providencias para que a remessa para todos os pontos 
da província seja feita sem falta por todos es correios. > 

A lei n. 333, de 27 de fevereiro de 1847, sanecionada pelo 
mesmo presidente, sendo secretario Francisco Gomes de Al- 
meida, auetorizou o governo a contractar a impressão da Folha 
Official, três vezes por semana a quinhentos exemplares, con- 
tinuando, quanto á publicação dos actos do governo, a vigorar 
a disposição da citada lei de 1846. 

Estabelece outras condições e impõe diversos ónus ; pelo 
que foi elevada a verba de publicação da folha e impressões a 
4:000$0CO 

Não cabe no quadro destes resumidos artigos o histórico da 
Typographia Official daquella data até nossos dias. Diremos 
apenas que, mais tarde, o governo firmou contracto com o pro- 
prietário do Correio Paulistano, Joaquim Roberto de Azevedo 
Marques, para a publicação de todos os actoi officiaes, (1) con- 
tracto que foi innovado pela lei orçamentaria n. 693, de 19 de 
maio de 1862, sanecionada pelo dr. João Jacintho de Men- 
donça, sendo secretario o dr. João Carlos da Silva Telles, in- 
cluindo o expediente e os debates da Assembléa Provincial, 
publicação dos Annaes a 300 exemplares, as leis e Posturas 
Munieipaes até 1.000 exemplares. 

O empresário passou a perceber annualmente por esse ser- 
viço a quantia de quinze contos de réis, em prestações mensaes 
durante cinco annos, contados do 1.° de julho de 1862. 

A Typographia do Governo funecionava em Palácio, como 
se deprehende da declaração in fine das Actas das sessões da 
Assembléa Legislativa da província de S. Paulo, do anno de 
1849. As Actas da sessão de 1851 trazem a menção — Na Typ. 
arrendada pw A. L. A.. (2) 

As Actas da l. a sessão ordinária da 3.* legistatura, 1840, 
foram impressas na Typographia Imparcial, de Silva Sobral 
rua Nova de S. José n. 41 ; bem assim as do anno de 1841» 

Outras foram impressas na Typographia 2 de Dezembro, de 
António Louzada Antunes. O trabalho typographico das Actas 
impressas na Typographia Imparcial, de J. R. de Azevedo 
Marques, á rua do Rosário n. 49, apresenta notável melhora- 
mento. 

A mesma variedade depara- nos a impressão das Collecções 
de Leis Provinciaes e Posturas Munieipaes. O sr. Joaquim 
Roberto, porém, reimprimiu o conjunto da obra legislativa pro- 



(!) v i d e e excellente a primorosa Memoria Histórica sobre o Correio Paulistano, por 
Alberto Souza.— Nos nossos Annaes Paulistas Tem a matéria amplamente desenvolvida 
com as copias dos contractos. 

(2) António Louzada Antunes arrendara a Typographia ão Governo: alli feram im 
pressos diversos relatórios da Presidência. 



— 35 — 

vincia!, ab-angendo largo psriodo ; e este trabalha Be recom- 
menda pela relativa nitidez e pela escrupulosa correcção do 
texto. 

O mais que diz respeito a este assumpto, o leitor curioso 
e investigador encontrará no Archivo da Assembléi Leg slativa 
Provincial, hoje Congresso do Estado : no da extincta Secre- 
taria do Governo, na Bibliotheca da Faculdade de Direito e 
por ventura em mãos de dois ou trc-s paulista* da velha tem- 
pera, fieis ao culto do passado e amantes das nossas sacras tra- 
dicções de patriotismo e independência. 

Antes de concluir. 

Embora nãj tomasse parte na rébelSião de 1842, e até a 
condemuasse, Alvares Machado, o maior tribuno liberul da 
Maioridade, amigo e companheiro de Rafael Tobias e de Gabriel 
Rodrigues, foi obrigado a se homiziar para escapar á vindicta 
da legalidade triumphante. 

Hercules Florence acompanhou a sorte de seu illustre soerro. 
Fora elle o fundador da typographia e da imprensa em Cam- 
pinas e no interior. A typographia que elle possuia, teve de 
enterrai- a na estrada de Sorocaba. 

Naquella pequena typographia haviam sido publicados os 
quatro números do jornal official da revolução, O Paulista. Era 
uma folha de pequeno formato esta imprensa do goverao liba— 
ral em armas, inatallado a 17 de msio de 1842. em Sorocaba. 
Redigia-a o senador Diogo António Feijó. (1) O primeiro nu- 
mero sahiu a 27 de rraio, o segundo a 31, o terceiro a 8 de 
junho e o quarto a 16 de jurho. Nas vésperas de ser publi- 
cado o n. 5, deu- se a debandada dos revolucionários, ao se 
aproximarem de Sorocaba as forças ao mando do Barão de Ca 
xias. E a typographia do qoverno deixcn de existir. . . 

Hercules Florerce comprará por 850$COO, na Corte, o prelo 
e ca typos, com dinheiro fornecido per Alvares Machado: quantia 
que, mais tarde, restituiu. 



\X) Cf. Américo BrasiHen^e, Manutcripto» do ex-Regente Feijó, no supplemento ao 
temo 51 da Reiisia Trimtnsal do lmtituto H. e O. Brasileiro 21 de outubro de lb88, 
á pag. 141. 



A LYTHOGRAPHÍA NO BRAZIL 



O dr. Mello Moraes (pae), auctoridade incontestável sem- 
pre qu9 se trata de nossas origens, diz que — no Brazil «a ly- 
thographia, ou a arte de gravar c^m um corpo gorduroso, e 
imprimir sobre pedias, appareceu em 1827. sendo o priaceiro 
estabelecimento lythograpnico montado no b3co de Manoel de 
Carvalbo n. 2, e dirigido por J. Iteinmaa. Destes p imeiros 
trabalhos nada conbecemos». (1) 

Ha aqui um engano. Já em J809 ou 1810 exUtiam na 
Babia e em Olinda artistas lythographos, como se evidencia de 
uma memoria de Jacques Arago. que aqui esteve em 1818, 
apresentada á Âcadémie des Sciences. Arago não entra em 
pormenores; mas aseignala o facto. 

Nem a prioridade no R o de J neiro cabe a este Iteinman, 
cujos trabalhos problemáticos perdem- se na noite dos tem- 
pos». (2) 

Ainda neste particular tem glorisa primazia o immortal 
scientista franco- paulina, Hercules Plorence, nonn en vedette 
nos acontecimentos scientificos de 1825 a 70. 

Vários trabalhos gravados sobre pedra (3) fez elle para o 
estabelecimento typographico de Seigiot Plancher, o fandador 
do Jornal do Commer io ; e isto em princípios de 1825 : por- 
tanto, dois annos antes de Steinman. Em 1825, em S Paulo, 
luctando embora com a escassez de meios e a falta de ingre- 
dientes apropriados, executou elle trabalhos notáveis, entre os 
quaes um retrato do futuro sogro, o grande medico e maior 
patriota, Alvares Machado ; e outros retratos do então barão 
de Congonhas do Campo, do dr. Nicolau Pereira de Campos 
Vergueiro, do padre Diogo António Feijó e, mais tarde, do 
infeliz doutor Libero Badaró a quem conhecera na fazenda 
do lbicaba. O sr. José Vergueiro, em Santos, a quem Her- 
cules communicára vários processos de impressão lythographi- 
ca, ficou surprehendido pelo talento do j ven sábio. Mas... 
o homem põe — e Deus e o cônsul Langsdorff dispuzeram : 
lançaram o nosso heróe para os sertõas do Tietê, Paraná, 
Cuyabá, Amazonas... (4) 



(!) Mello Moraes, Eist. da Trasladaç. da Corte Portuguesa. 

(2) Dr. Ricardo Gumbleton Daunt, citado por Joaquim Corrêa de Mello. 

(3) Vide nosso Hercules Florence, 4 » parte, cap VIII, Memorial apresentado 
em 26 de julho de 1870, ao dr. Manuel Ferras de Campos Salles, advogado em Cam- 
pinas. Cf. dr. Joaquim António Pinto Júnior, n'0 Ypiranga, de outubro de 1850. 

(i) Hercules andou na Expedição Lançsdorff pelo espaço de 4 annos, 6 mezes e 
10 dias. Percorreu 2.165 léguas brazileiras, sejam treze mil kilometros. 



— 37 — 

Veio depois de Iteinman (diz Mello Moraes) o sr. Luiz 
Aleixo Boulanger (1), que principiou em 15 de agosto de 1829, 
-com estabelecimento montado. 

eEste incansável e intelligente artista, a quem por muitas 
vezes temos recorrido, para nos ministrar notas dos seus tra- 
balhoB, conta hoje muitas obras importantes pelo engenho, e 
pela perfeição». (2) 

Ás obras mais importantes do sr. Luiz Aleixo Boulanger, 
•que conhecemos, tão : 

Calendário perpetuo allegorico, dedicado a s. m. sr. d. 
Pedro I. 

Modelo de apólice para o Thesouro Nacional (1828). 

Desenho e lythographia da Imperial Ordem da Rosa. 

Mappas diversos (1829). 

Quadros figurativos das camarás dos Senadores e Depu- 
tados (1830). 

Systema craneoscopio do dr. Gall e nomenclatura dos ór- 
gãos do cérebro (1830). 

Mappas em branco authcgraphados, para estudo da geo- 
.graphia (1831). 

May pa do distrícto de Nova Friburgo (1833). 

Modelo de cédulas e de notas de banco, para o Thesiuro 
Nacional (1834). 

Allegoria do faustissimo dia 23 de julho de 1840 (Pro- 
clamação da Maioridade). 

Modelo de passaporte para o Ministério dos Negócios Ex- 
trangeiros (1842) 

Incêndio de gal ra auericana Ocean Monarch, com texto 
<1849). 

Cem retratos de senadores e deputados, que tem em Paris 
para lithographar (1651). 

Batalha dos Santos Logares (1852). 

Dois quadros da Nob eza do Brazil (1854). 

Quadro logometro dos discursos do Sanado, quadro com- 
parativo do Senado com a Camará dos Deputados (1856). 

Ministros e secretários de Estado, desde a Independência. 

Tabeliã dos dias de gala, para a Secretaria dos Negócios 
•do Império (1857). 

Biographia de Arthur Napoleão, em um quadro. 

Quadros figurativos das Camarás dos senadores e depu- 
tados (1S58). Dos senadores de 1830 ficará um tó : Ver- 
gueiro. 

Donativos e esmolas de S. M. Imperial na viagem ao 
Norte (1860). 

Quadro de exportação do Brazil. 



(1) Nota pessimista do dr. Mello Moraes; «Admire-se o leitor dos desconcertos 
•de tudo nosso, qao chegando ao Kio de Janeiro o sr. Luiz Aleixo Boulanger, não 
•talando correctamente a língua portuguesa, foi no dia U de setembro de 18(1, no- 
meado mestre do primeiras letras, graramatica desta língua, escripta e geographia 
de 8. M. o Imperador e de suas augustas irmãs! I ... 

(2) Mello Moraes, ob. cit. 



— 38 — 

Mappa-mundi do Império do B azil (1861). 

Além destes, tem teito o sr. L. A. Boulanger muitos tra- 
balhos de merecimento, desde 1829 até á data de sua morte. 
Compoz armas para es nevos titulares. 

Estatísticas sobre a mcrialidàde no Rio de Janeiro e so- 
bre o preço da carne. 

Mappa dos diplomatas brazileiros e extrangeiros, com in- 
dicação dos tratados principais. 

Listas dos deputados de todas as legislaturas. 

Listas dos Fonadores, officir.es generaes, preiidentes de 
provincia e bispos diocesanos. 

Muitos desenhos da álbuns (1), de maehinas, paysBgen3 e 
outros. 

Principiou em 1840 a fazer retratos de particulares : até 
1856 tinha desenhado mais de mil e quinhentos. Pez 03 re- 
tratas de SS. MM. II, das princesas d. Januaria, d. Francisca 
e do principe d. Affonso. Em um catalogo existíato na Bi- 
bl otheca Municipal Fluminense constam entre outros, retra- 
tos de Junins de Villineuve, do cônsul fra^cez H. Gestas, do 
navegante Etienne Bourroul, mais tarde negociante em S. 
jcfaulo, e um dos patriarchas da colónia franceza (franceza de 
trança e não cosmopolita); e outros que se lêm no mesmo 
catalogo, mas que Dão vimos ainda. (2) 

Em 1860, fez o Atlas do Império do Brazil, bem como os 
mappas estatístico, geológico e mineralógico (60 folhas). Em 
1861 a planta cadastral do Rio de Janeiro (vol. in folio). Na 
exposição de 1861 tinha um armoriai brazileiro, em um quadro. 

Mappa de todas as notabilidades do Império, cam a Con- 
stituição sobre uma mesa redonda de ires palmos de diâmetro. 

As poesias avulsas de José Bonifácio do Andrada e Silva, 
1 volume de 156 paginas, escripta3 na decima parte de uma 
folha de papel de peso. 

O Pater Noster, a Ave Maria, o Credo, o Conflteor, os 
Actcs de Fé, Esperança e Caridade, a Contrleção, os Manda- 
mentos de Deus e da Igreja, e a Salve Rainha, escriptoâ na 
superfície de uma moeda de 1/4 de franco. (3) 

Diz Charle3 Ribeyrolles (4), — conhecedor das coisas do 
Brazil, literato eminente que aqui viv«u annos bastantes, e 
aqui morreu, que este Louis Alexis Boulanger, litcgrapho e 
gravador, era irmão de outro Louis Boulanger . 

Esto foi amigo intimo de Victor Hugo. 

Vigor Hugo dediecu a este companheiro inseparável de 
sua gloriosa mocidade não poucas das mais suaves poesias da 
primeira phase, — a mais luminosa — de seu talento. 



(1) Deveríamos escrever alba e não álbuns ; assim como memoranda e não me- 
morandiins. A Academia Brazileira de Letras resolverá como convier em sua alta 
sabedoria e colossal competência. 

(2) A este catalogo e a estes retratos se refere o commendador Henri Raffard, 
de saudosa memoria. Procuraremos taes estampas, preciosas duplamente para nós, 
quando formos ao Rio de Janeiro. > 

(3) Mello Moraes, obr. cit. 

(4) Ch. Ribeyrolles, Mémoires d'un Proscrit. 



— 39 — 

Mais tarde, — morrendo o Louis Boulanger das Odes et 
Ballades, das Vtix Intérieur, das Chants du Crépuscule e de 
Les Haycns et les Ombres, — o poeta foi devorado pela Politi- 
ca, — essa megera atroz que inutilizou Lamartine, — a ponto de 
ficar desesperado e possesso, quando, em outubro de 1849, o 
príncipe Luiz Napoléon Bonaparte, então presidente da Repu- 
blica, não quiz de prompto obedecer á sua intimação de no- 
mear o «grande pceta bonaparti ta» — ministro da Instrucção 
Publica em logar do illustre catholico liberal, conde de Fal- 
loux. (1) 

Si 

Vamitiè d\m grand homme est un bien-fait des dieux, 

não ba negar que 

La haine d^un poete est un cadeau du diable. 

De facto : ainda hoje ha gente que tó conhece Historia 
Contemporânea ao clarão sioistro dos relâmpagos dos Chati- 
ments... 



(1) Para este curioso incidente, vid. A. Granier de Cassagnac, Souvenirs du 
Second Empire, tomo I, cap. IX. 

C. f. Emile Olivier, V Empire Liberal, tomo II, Louis Napoléon et le coup SEtat, 
paisim. 



A IMPRENSA REGIA 

PELO 

CORONEL ERNESTO SENNA 

Sócio correspondente 
do Institpto Histórico e Geograpnico ■ 

de São Pado 



A IMPRENSA REGIA 



São muito deficientes os trabalhos £té hoje publicados re- 
lativamente á fundação da Imprensa no Brazil e bem assim 
quanto aos antecedentes desse facto. 

Dentre o« escriptores brazileiros, só um tratou especial e 
attentamente da matéria e est<* foi o fioado Alfredo do Valle 
Cabral, a quem devemos uma «Historia da Imprensa Nacional», 
constituída mais da deácripção das obras publicada) na Imprensa 
Regia e depois Nacional, desde 1808 até 1822, do que pro- 
priamente do estudo minucioso e completo das primeiras publi- 
cações impressas typographicamente no Brazil. 

Que antes da erecção da Imprensa Regia diversos traba- 
lhos foram publicados clandestinamente, é um facto, e o próprio 
Valle Cab ai pondera no teu trabalho : 

«Convém dizer que no meiaio do século XVIII no Go- 
verno de Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadella, e por 
autorização sua, António Izidoro da Fonseca estabelecera uma 
typographia no Rio de Janeiro, da qual sahiram ai seguintes 
obras : 

Relação da entrada que fez o Excellentissimo e Reveren- 
díssimo Senhor D. Frei António do Desterro Malheyro, Bispo 
do Rio de Janeiro, em o primeiro dia deste presente anão de 
1747, havendo sido seis annos Bispo do Reyno de Angola, 
donde prr nomiação de Sua Majestade e Bulia Pontifícia, foy 
removido para esta Diocese. Composta pelo doutor Luiz Antó- 
nio Rosado da Cunha, Juiz de Fora e Provedor dos defuntos, 
e ausentes, Capellas, e Resíduos do Rio de Janeiro. Rio de 
Janeiro. Na segunda Officina de António Izidoro da Fonseca. 
Anno de M DGC.XLII. Com licenças do Senhor Bispo. In 4 o 
de 20 pp. num. e 1 ri. de licenças. 

Em Aplauso do Excellentissimo, e Reverendíssimo Senhor 
d. frey António do Desterro Malheyro, Digníssimo Bispo desta 
cidade. Romance heróico. S. 1. n. 1., in foi. de 5 ff. impr. so- 
mente pela frente. 

Epigrammas em latim e um soneto em portuguez. 3. 1. n. 1., 
in foi , de 12 ff. um, impr. somente do um lado. Contem 11 epigr. 

A Corte, porém, logo que teve noticia da fundação do esta- 
belecimento, mandou- o fechar, acto esse que confirma eviden- 
temente que o Governo Portuguez pr.hibia com tenacidade a 
introducção e propagação da imprensa no Brazil. Passa, porém, 
como certo que dessa mesma typographia sahiram clandestina- 



— 44 — 

mente a< duas seguintes obras com indicações suppostas do 
lugar officina e anno de impressão : 

Eiame de artilheiros, que comprehende geometria e arti- 
lharia cem quatro appendices. . . Dedicado a... Senhor Gomes 
Freire de Andrade... Por José Fernandes Pinto Alpoym... 
Sargento mor Eagenheiro e do novo Batalhão da Arti liaria : 
lente da m^sma... na Academia do Ro de Janeiro. Lisboa, 
na Nova Officina de José António Piates 1744 in 4 o de 11 ff. 
pielim., 359 pp. num., com taboadas e est. 

Exame de bombeiros . . . 

«A occasião, diz Valle Cabral, não é opportuna para se 
averiguar se de facto estas duas obras de Alpoym saturam da 
officina de António Izidoro da Fonseca, pois ora se trata da 
historia da Impressão Regia e não da imprensa no Brazil. 
Fique, porém, consignado aqui este facto como mais uma feição 
característica daquelles nebulosos tempos». 

Sobre esta questão diremos incidentalmente algumas pa- 
lavras : 

O Sr. Dr. J. C. Rodrigues, que possue na sua esplendida 
Bibliotheca um exemplar do Exame de Bombeiros, autoriza- nos 
a transcrever o que disse sobre elle no seu Catalogo , ainda 
manuscripto, da segunda parte daquella collecção, — pois a 
acquisição do Exame foi recente, depois da publicação da pri- 
n eira parte, no anno próximo passado. 

Eis aqui o que diz integralmente : 

Alpoym. J. F. P. — Exame de bombeiros que comprehende 
dez tratados : o primeiro de Geometria, o segundo de uma nova 
Trigonometria, o terceiro da Longo metria, o quarto da Alti- 
metria, o quinto dos Morteiros com dous appendices... Obra 
nova e ainda não escripta, de autor portuguez, utilíssima para 
se ensinarem os noves soldados bombeiros por perguntas (sic) 
e respostas. 

Dedicado ao UlustradisBimo e Excellentissimo Senhor Gomes 
Freire de Andrada, do Conselho de Sua Majestade, Sargento- 
Mór de Batalha de seus Exércitos, Governador e Capitão Geral 
do Rio de Janeiro e Minas Geraes, por José Fernandes Pinto 
de Alpoym, Cavalleiro Professo da Ordem de Christo, Tenente 
de Mestre de Campo General, com exercício de Engenheiro, e 
de Sargento Mayor, no batalhão de artelharia de que he Mestre 
de Campo Andié Ribeiro Coutinho, Lente da mesma por Sua 
Majestade, que Deus guarde, na Academia do Rio de Janeiro. 
Em Madrid. En la officina de Francisco Martinezabad, Afio de 
MDCCXXXXVIII. Com todas as licenças necessárias. In 4.° 
Ante- rosto e rosto, 2 fla. (titulo a duas enres), retrato de Gomes 
Freire de Andrade, em cobre, grav. em 1747 por O. Cor., 1 fl. ; 
dedicatória a G. Freire, 3 fia. n. num., duas vinhetas em cobre 
na primeira delias : Ao Leitor Malévolo, 3 fla. n. num. ; Ao 
Leitor Bombeiro, 3 fls. n. num.; carta de André Ribeiro Cou- 
tinho ao A., 7 fls. n. num. ; duas outras cartas ao mesmo, 1 fl. 
n. num.; licenças, 2 fla. n. num. (ao todo 21 fla. ou 19 sem 
ante-rosto e titulo); texto, paga. 1 — 444. Com vinte estampas 



— 45 — 

(erradamente dezoito em Innocencio, sendo que ha II* e XI*) 
gravadas por «J< zé Franc. Chaves». — Encad. de vit. antiga. 
— Exemp. em perí. estado de conservação. — Custo no Rio de 
Jau eiró, 50$. Raríssimo. 

Pasta esta obra por ser uma das cinco primeiras publica- 
ções impressas no Brazil. Gomes Freire, sem duvida, estabele- 
cera typographia co Rio de Janeiro por volta de 17 47. Com 
a indicação do logar, typograph a e anno ió se conhece um 
opúsculo : 

cRelação da Entrada, que fez o excellentissimoe 
reverendíssimo senhor d. fr. Antcnio do Desterro Ma- 
lheyro, Bispo do Rio de Janeiro, em o primeiro deste 
presente anno de 1747... Ccmposta pelo Doutor Luiz 
Antcnio Rosado da Cunha, Juiz de Fora, e Provedor 
dos defuntos e ausentes, capellas e resíduos do Rio 
de Janeiro. Rio de Janeiro. Na segunda officina de 
António Izidoro da Fonseca. Anno de M DCC XLVII. 
Com licenças do Senhor Bispo». (In 4*, 20 page. num. 
e 1 ti de licenças). 

Appareceram logo depois, mas sem indicação de local ou 
editor, dous folhetos, um Applauso do mesmo Bispo «Romance 
heróico, em 5 fls. n. o*num. ; e uns Epigrammas em Latim e 
um soneto em Portuguez, 12 fls. in foi. impressas só de um 
lado. O estabelecimento da imprensa no Rio de Janeiro, diz 
Jnnocencio, V, 221, «foi de curtíssima duração, indo logo oriens 
da Corte para ser desfeito e abolido : sem duvida porque as 
conveniências politicas ou rszões de Estado obstavam a que se 
permittisse nas colónias o uso da imprensa e com elle tal ou 
qual diffusào de luzes, que então se julgava nociva aos inte- 
resses da metrópole, e perigosa para o seu domínio >. 

Entretanto, continua Innocencio, parece que, «apezar da 
prohibição aquella imprensa tabalhara ainda por algum tempo 
clandestinamente, ou talvez com o consentimento ta-ito do 
Vice- Rei e G vernadcr do Estado : presumindo- se que alli se 
estampara, quando menos, o Exame de Bombeiros que appare- 
ceu impresso sob indicação de Madrid». 

E' de notar que o douto Barbosa Machado que collocou o 
opuscalo, acima citado, do Dr. L. A. Rosado da Cuoha no 4 o 
vol. supplementar, da sua monumental Bibliotheca, cita esta 
obra do Exame do Bombeiro como manuscripta ; isto é conhe- 
cia a imprensa no Rio em 1747 e não sabia que estava im- 
pressa esta de 1748, o que prova como foi clandestina a sua 
impressão e limitada, no tempo, a sua circulação. 

Que é suppotiticia a indicação do lugar de impressão, 
«Madrid», não se pode duvidar Examinando- se cuidadosamente 
as 460 pags. do Exame, como fiz, não se encontra uma só pa- 
lavra portugueza com a forma hespanhola, — o que seria tão 
natural. Entretanto das quatro linhas em Hespanhol, que se 
encontram no titulo, e únicas no livro, vê- se, numa delias, 
•com iodas as licencias necessárias», — além de que não ha 



— 46 — 

nenhuma licença hespanhola e, demais, a forma hespanhola, 
quesi universal, era «Cem privilegio», e não aquella. Ora, con- 
siderando o assumpto do livro e a posição do autor, afamado 
engenheiro do seu tempo, só havia um único motivo de occul- 
tar-se a eua procedência typcg-aphica, — o facto de tev sido 
prohibida a typographia. Trata- se de um manual pratico pelo 
lente de Artilharia na Aula do Rio de Janeiro que traz nome 
de impressor rão do mesmo Rio cu de algum de Portugal, mas 
de um desconhecido de Madrid. 

A outra obra de Alpoym que se suppõe impressa no Rio 
de Janeiro é o seu «Exame de Artilheiros, que comprehende 
Ari thrr ética, Geometria e Artilharia. . . Lisboa, na Nova Offi- 
cina de José António Plates, 1744». E' um 4 o de 11 fls. e 
259 rags. ílém do Índice, e com estampas. Varnhagen (2* ed. 
pag 887) diz que este Exame «foi mandado recolher, por Carta 
Regia de 15 de jolho de 1744, ao corregedor da Alfama de 
Lisboa, sob o pretexto de não se cumprir nelle com a pragmá- 
tica dos tratamentos». O Exame de Artilheiros tornou- se, pois, 
também muito raro, mas duvido que tivesse sido impresso no 
Rio de Janeiro : pelo menos traz o nome do seu editor de 
Lisboa e tanto foi regularmente publicado, que a sua supressão 
é devida a outra causa. Ainda mais : a data do livro é de 
1744, ao passo que a única publicação genuinamente e indis- 
cutivelmente impressa no Rio de Janeiro é a supradita Relação 
da Entrada, datada de 1747 ; não havendo publicação alguma 
conhecida do Ro antes desta, como Eiippôr que aquelle Exame, 
impresso três annos antes com o nome do seu eiitor de Lisboa, 
seja produeto do prelo do Rio ? Pelo menos não é vemsimil. 
O Exame de Bombeiros, ao contrario, com a data de 1748, e 
de um supposto editor hespanhol, tem toda a apparencia rral 
de um livro publicado no Rio de Janeiro. 

— Se pudesse haver duvida do que o Exame de Bom- 
beiros tivesse sido impresso co Rio de Janeiro, nenhuma existe 
quanto a ter sido ahi escnpto. No seu prologo, Alpoym refe- 
re- se ao facto que «a distancia das Praças desta Capitania, em 
que estão destacados muitos soldados que não podem frequentar 
Aula, foy o me moveu a dalla ao prelo». E-se prologo «Ao 
leitor malévolo» não traz data. Mas todas as quatro cartas, 
que lhe foram dirigidas sobre o livro, e que publica, estão da- 
tadas do Brazil, três do Rio de Janeiro a 4 9 e 10 de outu- 
bro de 1746 e de Santa Catharina, 25 de julho de 1747. A 
do advogado Manoel Antunes Serrano, de 9 de outubro, rego- 
zija-se de que «estando esta terra conquistada e povoada ha 
mais do dous séculos, tendo sempre Militares e necessidade de 
defeza», estivesse a arte militar tanto tempo sepultada na igno- 
rância. — A carta de André Ribeiro Coutinho, de 10 de ou- 
tubro de 1746, agradece o autor de ter- lhe mostrado a obra 
«antes de sahir a publico». — A do Brigadeiro José da Silva 
Paes, Governador de Santa Catharina é datada nove mezes 
depois, — a 25 de julho de 1747, — já depois das licenças 
para imprimir, concedidas pelo Santo Officio a 17 e 18 de março, 



— 47 — 

do Ordinário, de 6 e 10 de abril, e do Paço de 18 de abril 
de 1747. E como o livro é datado de 1748 parece que a sua 
impressão foi effectuada depois de junho ou jul:o de 1747, 
sendo nesse entretanto abolida a imprensa no Rio de Janeiro, 
cuja primeira obra impressa, reconhecida como tal, data de 1747, 
e que assim devia ter durado menos de dous annos. 

— Vejamos agora o que existe sobre Alpoym. No próprio 
titulo da obra se dá como cavalleiro professo da Ordem de 
Christo, Sargento-Mór do batalhão de Artilharia e lento na 
Academia do Rio. Innocencio àiz que chegou depois ao posto 
de Brigadeiro, e sabe- se que ainda vivia em 1765. — Esta 
«Academia» do Rio era realmente, neste caso, a «aula de Ar- 
tilharia» creada em 1738, — um anno antes da creação do 
Seminário de S. José. — Barbosa Machado diz, como mcstrou- 
se, que era um engenheiro illustre, e mais nada ; e Innocencio, 
que checou a Brigadeiro. 

— E', porém, na Carta que André Ribeyro Coutinho, 
Mestre de campo de Terço de Artilharia da Praça do Rio de 
Janeiro, escreveu ao Autor, «e que este imprimiu em frente 
ao seu Exami de bombeiros, que se vê que a José Fernandes 
Pinto Alpoym muito deve o Brazil Considerada a época, foi 
um homem extraordinário pelo seu talento pratico, eoorme 
actividade e espirito dé progresso, — digno coadjutor de Bo- 
badella. Depois de lhe elogiar o Exame e também o zelo com 
que nos exercícios de campo e de fogo dirigia os trabalhos do 
seu terço, o Mestre de Campo Ribeyro Coutinho enumera alguns 
outros serviços de Alpoym no Brazil entre elles : «delineou, 
repartiu e condecorou um palácio nesta cidade, para distinctiva 
residência dos Governadores desta Capitania ; — na d&s Minas 
fundamentou, erigiu, enobreceu e (como diutissimo engenheiro^ 
fortificou outro em Villa Rica, para o seguro descanso do Go- 
verno e tribunaes daquelle domínio ; que se na liba das Cobras 
constituiu V. M. a engenhosa Maquina de querenar os mais 
corpulentos navios, vencendo com as regras da Estatística as 
forças da Natureza, no Arsenal sem diminuir as forças da Na- 
tureza, diminuiu o peso da matéria e o excesso da despesa na 
corte dos reparos ; que V. M. tem mostrado a mais liberal e 
primorosa idea da civil. Architectura no magnifico Pantheon 
(fegunda vez consagrado á Virgem Noesa Senhora) para vir- 
tuoso Claustro das Religiosas Franciscanas; no Real Hospício 
dos R R. P. P. Missiona ios italianos; e no tão nob;e ccmo 
dilatado Edifício com que o generoso animo de António Telles 
de Menezes quiz concorrer para a regalar symetria da Praça 
Militar forense desta cidade... A Alpoym se devem também 
os planos para a Sé Nova (no local onde se elevou depois a 
actual Escola Polytechnica), em substituição aos que tinham 
vindo de Lisboa, que tornariam a obra por demais custosa. 

Ainda até hoje seria esta lista muito honrosa para o me- 
lhor e mais conceituado architecto e engenheiro. Mas a tudo 
isto se preciza ajuntar que o seu livro era o primeiro, na lín- 
gua portugueza, que se occupava do assumpto. De facto, ó de 



— 48 — 

suppôr até que aborrecido com a suppressão do seu Exame de 
Artilheiros em 1744. Alpoym fosse o prcprio introductor da 
imprensa no Rio de Janeiro para ali imprimir o seu Bombeiros, 
tendo previamente induzido o typographo Izidoro da Vonseca, 
de Lisboa, a vir montai- a aqui sob o patrocínio do seu Mecenas, 
Gomes Freire. Em todo o csso, Alpoym nào tem sido honrado 
por nós, como merece : os seus importantes e variados traba- 
lhos em nossa Pátria dão -lhe direito ao reconhecimento da sua 
Historia.» 

E' evideDte que a Corte portngueza temendo que a devo- 
lução e uso da imprensa favorecesse os anhelos de indepen- 
dência e pudesse acarretar a perda das colónias ; Dão admira, 
pois, que Isidoro da Fonceca tivesse sido levado a empregar a 
fraude nas suas impressões, alterando a data das edições da 
typographia, afim de escapar á perseguição governamental. 

O padre Luiz Gonçalves dos Santos nas suas Memorias do 
Braz diz que até 13 de maio de 1808 não se conhecia no Brazil 
a typographia. 

Tendo d. João VI embarcado para o Brazil, tempos depois 
vieram na náo portugueza Meduza diversos prelos e typos que 
foram recolhidos á Secretaria de Estado dos Negócios Extran- 
geiros e da Guerra. 

A 13 de maio de 1808 o Príncipe Regente, instituindo a 
Impressão Régia no Brazil, fez baixar o decreto seguint3 : 

«Tendo Me constado que os prelos, que se acham nesta 
capital, eram destinados para a Secretaria de Estado dos Ne- 
gócios Extrangeiros e da Guerra, e attendendo á necessidade 
que ha da Officina de Impressão nestes meu* Estados : 

Fui Servido, que a casa onde elles se estabeleceram sirva 
interinamente de Impressão Régia, onde se imprima exclusiva- 
mente toda a legislação e papeis diplomáticos, que emanarem 
de qualquer Repartição do Meu Real Serviço ; e se possam im- 
primir todas e quaesquer outras Obras ; ficando interinamente 
pertencendo o seu governo e administração á mesma Secreta- 
ria. Dom Rodrigo de S uza Coutinho, do Meu Conselho do 
Estado, Ministro e secretario de Estado e Ministro do Extran- 
geiro e da Guerra, o t^nha assim entendido, e procurará dar 
ao emprego da officina a maior extensão e lbe dará todas as 
Instrucções e Ordens necessárias, e participará a este respeito 
a todas as Estações o que mais convier ao meu Real Serviço 
— Paço do Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1808. — Com 
a rubrica do Prinripe Regente». 

A marinha de guerra também se orgulha de ter contri- 
buído para o desenvolvimento da imprensa no nosso paiz. 

Para attender á falta de operários que conhecessem a arte 
typographica, logo que foi installada a Impressão Régia man- 
dou o Príncipe Regente que fossem dispensados do serviço di- 
versos solda os da Brigada Real de Marinha, que se achavam 
embarcados na náo Príncipe Real, para rer virem de composi- 
tores e alguns grumetes da náo Meduza, por terem pratica do 
serviço de typographia, para servirem naquelle estabelecimento. 



ém 49 — 

A expressão do decreto que omeça tTendo-ms constado» 

Sarece fazer acreditar que d. Joio VI não tinha conhecimento 
o embarque daquelles prelos em Listna, na náo Meduzz, tra- 
zidos por António de Araújo de Azevedo, depois Conde da Barca. 
Entretanto os mesmrs prelos e typos foram mandados adquirir 
em Londres pelo Governo e ficaram encaixotados em Lisboa, 
vindo para aqui pouco depois de haver a monarchia portugueza 
transferido a sua sede para o Rio de Janeiro. 

A d. Rodrigo de Souz* Coutinho se deve pois a creação 
da Impressão Regia. D. Rodrigo não era um homem vulgar; 
tinha illnstração e gostava das artes. 

O Governador de S. Paulo, Luiz António de S.uza, diri- 
gira ao Marquez de Pombal em 30 de julho de 1765 uma 
carta, na qual, entre outras considerações, dizia : «Nestas Amé- 
ricas tudo é grande ; ss províncias, os rios, as montanhas, as 
campinas, as matas, as arvores excedem extraordinariamente 
ao que se costuma ver no Reino, sobretudo as bahias e ensea- 
das são amplíssimas. 

D. Rodrigo leu talvez es?as palavras e entendeu que um 
paiz immenso como este carecia de uma imprensa que levasse 
a todos os pontos do seu vasto territ rio o brado da liberdade, 
do progre so e de civilização, como bem disse Valle Cabral. 

Em 10 de setembro de 1808 começou a apparecer a Ga- 
zeta do Rio de Janeiro, de propriedade dcs officiaes da Secre- 
taria de Estado dos Negócios Extrangeiros e da Guerra e im- 
pressa na Impressão Regia. Essa data de 10 de setembro, sim, 
pode ser considerada como o centenário do jornalismo brazileiro. 

Era em 4.° e sahia ás quartas feiras e sabbados. A prin- 
cipio foi regida por Frei Tiburcio Jcsé da Rocha e depois pelo 
Coronel Manoel Ferreira de Araújo Guimarães e Cónego Fran- 
cisco Vieira Goulart. 

Constava a publicação unicamente de actos, decisões e 
ordens do Governo, das noticias relativas á família real e as 
da Corte, acontecimentos da guerra de Napoleão, panegyricos e 
odes ás pessoas reaes. 

A primeira admnistração da Impressão Régia era consti- 
tuída de uma junta directora composta do Desembargador José 
Bernardes de Castro, Jofó da Silva Lisboa, mais tarde Visconde 
de Cayarú, Mariano José Pereira da Fonseca, mais tarde Mar- 
quez de Maricá, Silvestre Pinheiro Ferreira, Manoel Ferreira 
de Araújo Guimarães e do Cónego Francisco Vieira Goulart. 

No mesmo dia da fundação da Impressão Regia foi publi- 
cada em homenagem ao anniversario natalício do Príncipe Re- 
gente a primeira obra com o seguinte titulo : 

Relação / dos / despachos publicados na corte / pelo expe- 
diente / da Secretaria de Estado dos Negócios / Extrangeiros 
e de Guerra /no/ faustosíssimo dia dos annos de S. A. R. 
/o/ Príncipe Rhgbntb N. S. 

E de todos os mais, que se tem expedido pela mesma 
Se / cretaria desde a feliz chegada de S. A. R aos Esta / dos 
do Brazil até o dito dia / No Fm: Rio de Janeiro em 13 de 



— 50 — 

maio de 1808 / Na Impressão Régia / Vende-se na Loja de 
Manoel Jorge da Silva, Livreiro na Rua do Rczario / In foi. 
de 27 pp. num. 

Estabelecida a Impressão Régia, quem quizesse fazer pu- 
blicar qualquer trabalho tinha de apresentai- o primeiro á Junta 
Directora para obtsr a necessária autorização, e se o trabalho 
tratava de assumptos de legislação, religião ou politica, a mes- 
ma Junta mandava revel-o por profissionaes competentes, aos 
quaes dirigia um officio em nome de sua Alteza Rea', exigindo 
o juizo e approvação por eicripto. Ainda assim se mandava 
imprimir com as correcções necessárias, depois de obtida licença 
da Secretaria de Estado. 

A Impressão Régia foi estabelecida provisoriamente no 
prédio de um £Ó andar da rua do Passeio n. 44. No mesmo 
prédio também residia o Conde da Barca. 

A officina admittia aprendizes da arte typographiea, que 
começaram ganhando 160 réis diários, e recebiam ao fim de 
seis mezes 240 réis e depois de um anno 400 réis. 

Além desse salário dispensava-se uma pequena g atifhação 
aos aprendizes que durante um anno não tivessem falta ou que 
se tivessem portado bem. 

Da rua do Passeio foi a Impressão Régia transferida para 
a rua dos Barbonos, esquina da das Marrecas, onde existia uma 
officina do cartas de jogar de propriedade de Jaime Mendes 
de Vanconcellos, a qual foi depois incorporada áquella impres- 
são por decreto de 31 de outubro de 181 L. 

Já então pcssuia a Impressão Régia uma pequena fundição 
de typos, mas, para melhorar este trahalho, teve depois de 
introduzir nas officinas outrcs aperfeiçoamentos, mandando ad- 
quirir material novo na Europa. 

Até 1818 sahiram da Impressão Régia vários impressos, 
mas sempre com restricçõas severas e escrupulosas por parte 
do Governo, que não consentia na fundação de qualquer offi- 
cina particular. 

A liberdade de imprensa era de tal forma scffreada que 
es primeiros jornalistas que tivemos imprimiram as suas folhas 
no extrangeiro, taes como o Correio Brasiliense, o Investigador 
Portuguez e outros. 

Em 1818 foi publicada a seguinte Provisão: 

«D. João por Graça de Deus, Rey do Reino Unido de 
Portugal e do Brazil e Algarves d' A quem e Alem Mar em 
Africa, Senhor de Guiné e da Conquista, Navegação e Com- 
mercio da Ethiopia, Arábia, Pérsia e da índia, etc. Faço saber 
a vós, Governador, e Capitão General da Capitania de Minas - 
Geraes--Qae Eu Fui Servido Prohibir a entrada e publicação 
do Periódico intitulado — O Portuguez — e Ordeno que nenhum 
dos meus vassallos re3Ídentes neste Reino e Dominios Ultrama- 
rinos o receba e venda, ou retenha em seu poder o mesmo, o 
espalhe por qualquer modo, que seja debaixo das penas impos- 
tas pelas Leis contra os que divulgão cu retém Livros, e Pa- 
peis sem Licença ou prohibidos pelas Minhas Reaes Determi- 



— 51 — 

nações, e Fui outrosim Servido mandar remetter Editais aos 
Ouvidores das Comarcas para os fazerem affixar fazendo 
logo apreheader es exemplares, que do tal Periódico existirem 
em seus Districtos para M'os remetterem. O que tudo Mando 
participarvos p*ra vossa intelligencia, e para que o façais exe- 
cutar pela parte que vo3 toca. El Rey Nosso Senhor o Mandou 
por Seu Especial Mandado pelos Ministres abaixo assignados 
do Seu Conselho e Srs. Desembargadores do Paço. — Jcão Pe- 
dro Maynard d'Aflonseca e Sá a fez no Rio de Janeiro a 9 de 
julho de 1818. Bernardo Jcsé de Souza Lobato a fez escre- 
ver... Bernardo Gusmão de Vasconcellos, António Felipe 
Soares de Andrade de Brederode. Por aviso expedido pela 
Secretaria de Estado dos Negócios do Reino em 25 de junho 
de 1818 e Despacho da Meza do Desembargo do Paço a 10 
de julho do mesmo anno» 

Em outubro de 1819 foi ainda expedida a seguinte 
Provisão : 

«D. João por Graça de Dôus, Rey do Reino de Portugal 
e do Brazil e Algarvea d' 2 quem e Aiém Mar em Africa, Se- 
nhor de Guiné e da Conquista, Navegação e Commercio da 
Ethicpia, Arábia, Pérsia e da Índia, etc., a vós. Governador 
da Capitania Geral da Provinda de Minas Geraes. Que Eu 
Fui servido Prohibir a «ntrada e publicação do Periódico com 
o titulo Campião ou o Amigo do Rei e do Povo — e ordeno 
que nenhum dos Meus Vassallos residentes neste Reino, venda 
ou retenha em seu poder o mesmo ou espalhe por qualquer 
mod » que seja, debaixo das p?nas impostas pelas Leis contra 
os que divulgam ou retenhão Livres e papeis sem licença ou 
prohibidos pelas Minhas Reaes Determinações. E Fui cutresim 
Sorvido Mandar rerretter Editaes aos Ouvidores das Comaicas 
para os fazerem affixar fazendo logo aprehender os Exemplares 
que do tal Periódico existirem em vossos Districtos para M'os 
remetterem. O que tudo mando participarvos para vossa intel- 
ligencia e para que o facaes executar pela parte que vos toca 
El Rey fios) Sr. o Mandou por Seu Especial Mandado pelos 
Ministros abaixo assienados do Seu Con&elho e Seus Dessnibar- 
gaderes do Paço. Hemique Anastácio de Novaes a fez no 
Rio de Janeiro a 6 de dezembro de 1819. Bernardo José de 
Souza Lobato a fez escrever — Bernardo José da Cunha Gusmão 
e Vasconcellos. António Felipe Soares de Andrade, Brederode 
Por avito expedido pela Secretaria de Estado dos Negócios 
do Brazil a 14 de outubro de 1819. — Despacho da Mesa do 
Desembargo do Paço de 8 de novembro do dito anno. 

Em novembro daquelle anno foi expedido o Edital seguinte: 

«A Meza de Desembargo do Paço baixou o Real Aviso do 
teor seguinte: Iilmo. e Revm. Sr. Tendo apparecido um novo 
Periódico escripto em tortuguez e publicado em Londres, com 
« titulo de Campião, ou o Amigo do Rei e do Povo, cujes 
discurses visivelmente mostrão o damnado Projecto de destruir 
a confiança que os Vassallos de S. Majestade têm no Seu 
Governo, e nos seus Ministros: 



— 52 — 

He o mesmo Senhor Servido que seja prohibida a entrada 
e publicação de tão perigoso e perverso Escripto, ordenando 
que a Meza do Desembargo do Paço faça expedir as compe- 
tentes ordens para que se não introduza ou corra neste Ktino 
e Seus Dominios o sobredito Periódico, debaixo das penas im- 
postas pelas Leis ou Impressos prohibidos. O que V. Illma. 
fará presente na mesma Meza para que assim se execute. Deus 
Guarde a V. II 'ma. Paço em 14 de outubro de 1819 Thomaz 
António de Villa Nova Portugal. Sr. Pedro de Miranda Ma- 
lheiro. E li i Sua Maejstade Servido, que toda a pessoa que 
tenha em seu poder algum exemplar do referido Periódico comi 
titulo de Campião ou o Amigo do Rei e do Povo, o vá entre- 
gar nesta cidade ao Ouvidor da Comarca dentro do termo de 
oito dias, e nos mais lugares da mesma Comarca e de rutros 
do Reino aos respectivos Ouvidores dentro de sessenta dias, de- 
baixo das mencionadas penas. E para que chegue a noticia a 
todos se monda afixar o presente. Rio de Janeiro quinze de 
novembro de 1819. — Bernardo José de Souza Lobato.» 

Por vezes o Intendente de Policia teve de proceder a 
busca e apprehensão de impressos, prelos, typcs e utensílios» 
proprios para impressão adquiridos e usados clandestinamente. 

Em 1821 appareceram mais duas typographias a de Mo- 
reira e Garcez e a Nova Ofíicina Typographica e em 1822 as 
Beguintes : Imprensa do Diário, fundada por Zeferino Victor 
Meirelles que em 1 de abril do mesmo anno publicou o pri- 
meiro numero do Diário do Rio de Janeiro ; Officina de Silva- 
Porto & C. de Manoel Joaquim da Silva Porto : Typographia 
de Santos e Souza ou Officina dos Ànnaes fluminenses dfr 
Viclorino José dos Santos e Souza; lypographia Torres e Costa 
e Typographia Meirelles. 

Affluiam os trabalhos para a Imprensa Régia, que mono- 
polizava, por assim dizer, o serviço da impressão typographica. 

Construiu- se um prelo de madeira, sendo perpetuado este* 
facto com a seguinte e curiosa inscripção: 

A' immortalidade do Real e sempre 

Augusto nome do Prineipe 

Regente, nosso Senhor, é dedicada a estréa 

do primeiro prelo construído 

na America do Sul, no Rio de Janeiro, 

no anno de MDCCCIX, 

Em 1820 começou a ser publicado o Diário do Rio de- 
Janeiro, t-ndo o formato in-4.° impresso a principio na Im- 
prensa Résria e seis mezes depois em typographia própria, que 
ficou sendo a segunda estabelecida no Brazii. excluída, es»á claro, 
a que cerca de meio século untes possuirá Izidoro da Fonseca. 

E™ 1821 um aviso do Governo ao administrador da Im- 
prensa Régia ordenava que não se fizesse imprimir manufcripto 
ou íd presso algum que não fcs3e assignado pelo seu autor, com 
a firma reconhecida legalmente. 



— 53 — 

O receio de excesso» de linguagem deu logo no principio 
do mez de janeiro de 1822 pretexto para a expedição do se- 
guinte decreto : 

c Manda Sua Alteza Real, o Príncipe Regente, pela Se- 
cretaria de Estado dos Negócios do Reino, que a Junta Dire- 
ctora da Typcgraphia Nacional não consinta jamais que se 
imprima escripto algum sem que o nome da pestôa que deve 
responder pelo seu contfúdo Be publique no impresso; e c n- 
stando ao mesmo Senhor que no escnpto intitulado Heroicidade 
Brazileira se lêm proposições não só indiscretas, mas falsas, em 
que se acham estranhamente alterados os successos ultimamente 
acontecidos. Ha por bem que a referida Junta suspenda já a 
publicação do dito papel e faça recolher os exemplares que já 
estiverem impressos para que não continue a sua circulação. — 
Palácio do Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 1822. — Francisco 
José Vieira » 

Nomeado José Bonitacio de Andrada e Silva Ministro do 
Reino, expediu logo os seguintes decretes: 

«Porquanto alguns espíritos mal intencionados poderiam 
interpretar a portaria expedida em 15 do corrente, pela Se- 
cretaria de Estado dos Negócios do Reino á Junta Directora 
da Typographia Nacional, em sentido inteiramente centrario 
aos liberalissimos principios de Sua Alteza Real e á Fua con- 
stante adhesão ao systema constitucional, Manda o P.incipe 
Regente pela mesma Secretaria de Estado declarar á referida 
Junta que não deve embaraçar a impressão dos escriptos ano- 
nymoí, pois pelos abusos que contiverem deve responder o 
autor, ainda que o seu nome não tenha sido publicado, e na 
'falta deste o editor ou impressor, como ee acha prescripto na 
lei que regula a liberdade de imprensa. — Palácio do Rio de 
Janeiro, 19 de Janeiro de 1822. — José Bonifácio de Andrada 
e Silva. » 

«Sua Alteza Real o Principe Regente — Tomando em con- 
sideraçfn a utilidade que rezultará a este Reino do Brazil da 
circulação dos Periódicos e ontros escriptos nos quaes não só 
otierectrào ao Publico elementos de instrucção e armas para 
se destruírem os abuzo3 conhecidos até aqui na Educação pu- 
blica, mas também se confundem com argumentos enérgicos e 
patriotas os principios deiorganizadoies, e oppostos aos verda- 
deiros interesses da Grande Causa do Brazil e reconhecendo-se 
ter entre elles um logar muito distincto o novo P«ricdico de- 
nominado « Regulador Brazileiro- Luz o > — publicado nesta cidade, 
Manda pela Secretaria de Estado dos Negócios do Reino re- 
metter ao Governo Provisório da Província de Minas Geraes os 
exemplares inclusos do 1.° e 2.° nurceros do referido Periódico 
afim de que o mesmo Governo, ficando inteiessado dos impor- 
tantes objectos que nelle se tratão, dirigidos ao estabelecimento 
de uma Monarchia Constitucional, como firme penhor de se- 
gurança publica e a sustentar a Dignidade e os Direitos deste 
Reino, não só facilite a sua circulação pelos Povos da dita 
Província, mais próximos, pela parte que lhe toca a sua subscri- 



— 54 — 

peão voluntária na forma annunciada nos respectivos Prospectos. 
Paço do Rio de Janeiro, em 5 de agosto de 1822. — José J5o- 
nifario de Andrada e Silva.-» 

Nesse fim do anco de 1822 a Typograpbia Nacional mu- 
dou-se para o prédio occupado então pela Secretaria do Im- 
pério na rua do Passeio e a Gazeta do Rio foi em 1823 sub- 
stituída polo Viário do Governo. 

Nesse mesmo anuo Martim Francisco Eibeiro de Andrada, 
então Ministro da Fazenda, mandou installar um estabeleci- 
mento typographico na província de S. Paulo, remettendo prelos, 
accessorios, deus officiaes typographos, um impressor, etc. Essa 
determinação, porém, só foi cumprida em março de 1824. 

Nesse mesmo anno foi o Deputado Francisco Vieira Goulart 
encairegado pela Junta Directora da Typograpbia Nacional da 
organização das folhinbas de algibeira e de parede, calendário 
ecclesiastico para o Bispado do Rio de Janeiro, São Paulo e 
Minai. 

Per portaria de 30 de janeiro de 1826 foi concedido á 
Typrgraphia denominar-se Nacional e Imperial. 

A Impressão Régia, depois Imprensa Nacional, já possuía 
desde 1808 gravadores que illustraram as obras publicadas pelo 
estabelecimento. Muitcs desses gravadores eram na verdade 
superiores a alguns que por abi andam. 

Extincta a Junta Directora em dezembro de 1830, foi dada 
á Typograpbia Nacional uma nova regulamentação, passando 
ella a ser dirigida por um director ou administrador. 

Em 1831 foi transferida a Typograpbia para algumas das 
salas da Academia de Bellas-Artes e em 1835 já possuía o 
estabelecimento dez prelos. 

Em 23 de abril daquelle anno foi a Typograpbia estabe- 
lecida no pavimento inferior da Camará dos Deputados. 

Em 1837 foi creada a cfficina de fundição de typos, cujo 
material seria mandado vir da Europa, melhoramento este que 
não foi levado a effeito, e em setembro de 1845 foi também 
adquirido o primeiro prelo mecânico. 

Tinba o estabelecimento em 1850, além desse prelo me- 
cânico, seis prelos de ferro francezes, seis inglezes e o pessoal 
das oficinas compunha- se de 18 compositores, 15 aprendizes, 
um mestre, um guarda- typos, cito impressores e 12 aprendizes 
destes. 

Em 1859 foi definitivamente creada a officina de fundição 
de typos. 

Data desta época o inicio dos grandes melhoramentos in- 
troduzidos na Typograpbia Nacional, sendo ella provida de 
novo material e augmentado o numero de seus operários. 

Em outubro de 1860 mudou- se a Typographia para o 
prédio contíguo á então Secretaria do Império, boje Lyceu de 
Artes e oflBcios, na face que dá para o becco Manoel de Car- 
valho. 

Foi o então Ministro Silva Paranhos, o benemérito brszileiro 
Visconde do Rio Branco, quem mandou levantar um novo edi- 



— 55 — 

ficio para a Typographia Nacional, com as indispensáveis con- 
dições para o fim a qne se destinava. Deve- se, pois, ao 
Visconde do Rio Branco a construccão da edifício de estylo 
gothico qae boje se ostenta na rua Treze de Maio. 

Para commemorar-se a construccão desse estabelecimento, 
lê-se em uma lapide na entrada da ofíicina de impressão a se- 
guinte inscripç&o: 

« Sob o Reinado de S. M. o Senhor D. Pedro II foi co- 
meçado este edifício a 26 de agosto de 1874, sendo Ministro 
da Fazenda o Visconde do Rio Branco. Continuado o concluído 
a 31 de dezembro de 1877, sendo Ministro da Fazenda o Barão 
de Cotegipe. Segundo o plano e sob a direcção do Engenheiro 
Dr. A. de Paula Freitas.» 

O edifício importou, com machinas, mobiliário, etc, em 
1.000:592$982. 

Em fevereiro de 1885 passou a denomiuar-se o estabe- 
lecimento Imprensa Nacional e desde essa data começou o seu 
grande desenvolvimento, adquirindo-se os mais modernos ma- 
chinismos, dilatando-ee as diversas officinas, emfím, tornando-se 
um estabelecimento completo, preparado para executar com 
toda a proficiência os mais artísticos trabalhos de typographia, 
encadernação, lithogranhia, gravuras de toda espécie, impres- 
sões a cores, etc. 

Possue ainda o estabelecimento dous prelos antigos, dignos 
de registro, comas seguintes marcas: Columbian Prels, n. Õ64 t 
Clymer's patent : Clymer & Pixon, Manufactures 10, Finsburg, 
8te., 1838, London: e outro — Rua Traverse 21 & 23 á Paris. 
Maison Gaveavx, 1852. 

Foram administradores e directores da Imprensa Nacional 
depois de extincta a antiga Junta Directora es Srs.: Cónego 
Januário da Cunha Barbosa, Braz António Castrioto, Francisco 
Chrispiniano \aldetaro, Dr. Manoel António de Almeida, João 
Paulo Ferreira Dias, António Nunes Galvão, Dr. José Marques 
Acanã Ribeiro, Júlio Veríssimo de Moraes, Dr. Mário Nunes 
Galvão, Manoel Alves da Silva, engenheiros António Bernar- 
dino Lopes Ribeiro Júnior e Raymundo Floresta de Miranda e 
o Dr. Alfredo Augusto da Rocha, a cuja administração iníel- 
ligente se devem os grandes e utilíssimos melhoramentos in- 
troduzidos no estabelecimento, já no que concerne á variedade 
e artística execução dos seus trabalhes, já creando suas officinas 
augmentando as dimensões do edifício, apparelhando as officinas, 
com os mais moderar s roachinismos, installando a illuminação 
eléctrica e contratando profissionaes de reconhecido mérito ar- 
tístico, de sorte a affirmar o elevado credito de que hoje gosa 
a Imprensa. 

Até hoje tem obtido a Imprensa Nacional es seguintes 
prémios : 

Exposição Nacional de 1881 — Quatro diplomas de mérito, 
sendo: um a typos e vinhetas, um á typographia, um á ste- 
reotypia e um á encadernação. 



— 56 — 

Exposição de Chicago de 1892-1893 — Diploma de mérito 
á stereotypia e á gravura medalha de bronze. 

Exposição de S. Luiz de 1904-1905 — Uma medalha de 
ouro e um diploma e mais duas medalhas de ouro e dous di- 
plomas, sendo : 

Um á typographia, lytographia e gravura e um á enca- 
dernação de livros, livros e publicações. 

Nestes últimos annos têm tido grande desenvolvimento os 
trabalhos da Imprensa Nacional, de forma que actualmente ó 
bastante elevado o seu pessoal, como se observa nesta esta- 
tistica * 

1900, 479 empregador 1901, 668; 1902, 709; 1903, 859; 
1904, 929 ; 1905, 955 ; 1906, 966 ; 1907, 1080. 

Juntando-se a este numero os 34 empregados da tabeliã 
permanente e mais os 14 da Secção Central e da redacção da 
Diário Official, o pesscal deite estabelecimento se elevou em 
1907 a 1.128. Dispensado, porém, no fim do anno o pes?oal 
extraordinário que serviu durante as sessões do Ctngresso Na- 
cional, em numero de 92, passaram para 1908 apenas 1.037. 

O pessoal está assim distribuído : 

Imprensa — Secção de Artes 22, Revisão 31. 

Composição : jornaleiros 89, obreiros 86, obreiras 61. 

Impressão: jornpleiros 85, obreiros 15. 

Serviços accessorios: jornaleiros 72, obreiros 40, obreiras 74. 

Serviço interno e externo: correios 7, mandador 1, serventes 38. 

Diário Official— Revisão, 33; composição, 119 , stereotypia, 
11; impressão, 12; expedição, 26; contínuos, 2; serventes, 2. 

Pessoal extraordinário que trabalhou no Diário Official — 
Revisão, 33 ; composição, 53 ; stereotypia, 2 ; impressão, 2 ; ex- 
pedição, 2. 

A officina typographica possue actualmente o seguinte ma- 
terial ; 4 machinas Marinoni de dous cylindrfs; 5 ditas Alau- 
zet, idem ; 7 ditas Alauzet, de um só cylindro ; 4 ditas Marinoni, 
idem ; 1 dita S. Bertier & Durer (n. 1), idem, denominada «La 
Velo Typo» ; 5 ditas Marinoni, chamada «Minerva» ; 4 ditas 
Liberty, também do mesmo typo ; 2 ditas Old Style Garden; 2 
ditas Phoenix (allemã); 1 dita Hogeníort (allemã); 2 ditas Alauzet 
para impressão a duas cores ; 1 dita rotativa Marinoni ; 1 ma- 
china, denominada «Victoria» dos fabricantes Rechsticch & 
Schneider, systema Minerva, e das mais aperfeiçoadas, especial- 
mente destinada á impressão de trabalhos de chromcs, gravuras 
etc. ; 1 cutra de dous cylindrr s, de Marinoni, muito aperfeiçoada 
e própria para trabalhos de luxo, e 1 cortador de papel, do fa- 
bricante Karl Krause. 

Foram agora encommendadas mais as seguintes : 6 de im- 
pressão a branco, diversos tamanhos, do fabricante Marinoni; 1 
rotativa, de Marinoni, também para as obras e illustrações, com 
osciltação na cortagem de papel para ser applicada em diversas 
fórmulas de expediente : e 2 ditas para impressão de envelop- 
pes, denominadas «Velo Typo». 



— 57 — 

A officina de estamparia e g r avara está também cuidado- 
samente montada e nella se executam três espécies destes tra- 
balhos — lithographia, xilographia, e a photo-gravura-chimica ; 
e possuo para esse fim, além de outras machinas, as seguintes : 
1 apparelho photographico de Goerz Amhutz do foi mato de 
0.1feX0,24 ; 1 objectiva microscópica, de W. Henngfí, cobrindo 
chapas de 0,50X0.50: 1 vidro quadriculado com 200 linhas por 
pollegada, no formato de 0,13X0,24 ; e 2 prensas para copiar 
os clichés no zinco, forma 0, 30X0.40* 

Á ( fficiua lithographica possuo as seguintes machinas, appa- 
relhoR e utensílios ; 2 de impressão, de Marinoni, formato «Dou- 
ble Raisin», imprimindo na extensão de 100X0>68 ; 4 de Alau- 
ict, formato «Grand Soleil», imprimindo na extensão de 0,84X0,62; 
1 de Alauzet, formato «Grand Jesus», imprimindo na extensão 
de 0,76XO'»>6 ; 1 de cortar papel, de Karl Krause ; 1 de moer 
tinta, de Khmsch & C. ; 4 prensas manuaes para os serviços de 
transporte e pequenas tiragens ; 1 apparelho para reducção de 
gravuras ; 2 balancins para estampar em relevo ; 710 pedras com 
gravuras de differentes processos. 

Para dar maior desenvolvimento a esta importante cfficina 
foram encommendadas na Europa duas machinas de impressão, 
uma do formato «Grand Aigle» e outra «Grand Soleil», e bem 
assim uma para bronzear impressos, na extensão de 100X0|98, 
todas do fabricante Marinoni, e uma machina, intitulada «Pro- 
gresso», de Klimsch & C, e mais quatro prensas, sendo três 
manuaes para o serv-ço de tiansportes e uma com movimento 
a vapor. 

A officina de encadernação, além dos trabalhos que lhe são 
próprios, executa a restauração de livros e documentos antigos, 
que a maior parte d s vezes são executados nas respectivas 
repartições. 

A secção de dcuração é, como o seu nome indica, a que 
se encarrega de dourar os titulos, rótulos e ornatos em pastas, 
dorsos de livros e outros trabalhos delicados. 

A officina de encadernação dispõe do segu nte material ; 2 
machinas de aparar, de Karl Krause e Alauzet ; 2 tesouras para 
ccrtar papelão, de Poirier e Karl Krause ; 3 prensas grandes 
para endossar ; 2 machinas de numerar ; 1 dita para cortar en- 
veloppes-memoranda, rótulos, etc. ; 1 dita de tirar cravação ; 2 
ditas de fazer encaixes em livres impressos, de L. Hachée & C. 
e Karl Krause ; 3 machinas, para a douraçào, sendo uma, nova, 
de Harrild and Sons e duas de Karl Krause. 

Tem esta officina mais as seguintes machinas ; 3 machinas 
de aparar, de Poirier, sendo duas grandes e uma pequena ; 1 
dita de aparar, de Karl Krause ; 1 dita de gommar, de Bia- 
çosch Brandan ; 2 prensas : 1 tesoura de apurar papelão, de 
Poirier ; 3 machinas de numerar ; 1 dita de cortar cartão ; 1 
dita de dobrar enveloppes ; 5 ditas de coser; 1 machina de 
aparar ; 2 ditas de dobrar folhas ; 4 ditas de picotar ; 2 ditas 
de numerar ; 2 ditas de coser arame ; 1 prensa de Alauzet, etc. 



— 58 — 

A officina de pautação dispõe de 9 machinas de pautar e 
riscar com pennas e rodinhas, das mais aperfeiçoadas, do fabri- 
cante E. C. H. Will. 

A cfflcina de fundição de typos, cujo material ó aperfei- 
çoado e moderno, consta do seguinte : 10 machinas «Univer- 
saes», typo I, de fundir de corpo 6 ao corpo 14 ; 1 dita, typo 

II, de fundir do corpo 16 ao 28 : 1 dita especial, de fundir 
brancos do corpo 6 ao 14, e 1 dita própria para fundir escri- 
pta, tendo sido augmentada com outra grande «Universal» typo 

III, que funde do corpo 30 ao 72, com todas as peças para typos 
direitos, typos de duas pontas e brancos ôccs, com matrizes re- 
entrantes de aço. 

Estão trabalhando effdctivamente na officiDa 14 machinas 
de fundir typos, dous laminadores de entrelinhas e um de fi- 
letes, quatro cortadores de typos e um de filetagem, uma forma 
de fundir entrelinhas por meio de placas, uma outra de fundir 
guarnições systematicas, uma cutra de fundir filetes, uma ma- 
china de cortar espaços e diversos pequenos apparelhos. 

Possue grande quantidade de matrizes de três espécies, no 
importante numero de 29.558, sendo, matrizes vindas da Europa 
13.949, feitas na cfficina pelo systema «Lima», 9.822 e pelo 
systema antigo 5.787, incluindo neste numero as que vieram da 
Europa em 1906. 

O preparo dos caracteres typographicos é actualmente feito 
com as machinas aperfeiçoadas de Foucher, as quaes offerecem 
a vantagem de fundir na altura justa, sem necessidade, portanto, 
do emprego da plaina. 

A officina do sterectypia e galvanoplastia está montada 
com os apparelhos os mais aperfeiçoados para esse género de 
trabalhos. 

Das secções de machines da Imprensa, que comprehendem os 
motores e transmissões, carpintaria, etc, a mais importante é a 
de electricidade, composta das seguintes dependências : 

A casa das caldeiras, contendo duas caldeiras multitubula- 
res, sytema Steinmuller. com superfície de aquecimento de 81 
metros quadrados cada uma, para 1.500 kilos de producção de 
vapor por hora de trabalho e de 10 atmospheras de pressão e 
a tubagem com válvulas de communicação para o funcciona- 
mento de qualquer unidade motora e com qualquer das duas 
caldeiras de vapor. 

A gala das machinas motoras dispõe de : uma machina a 
vapor, systema «Compund», vertical, para 100 cavallos eôectivos 
e 10 atmospheras de pressão, fazendo 220 rotações por minuto; 
duas machinas a vapor, do mesmo systema citado, verticaes. de 
50 cavallos eôectivos cada uma e 10 atmospheras, fazendo 265 
rotações por minuto : uma machina eléctrica para corrente con- 
tinua, ainda do mesmo .tystema das outras precedentes, de 220 
volts, da capacidade de 75 kilowatts, fazendo 220 rotações por 
minuto, directamente conjugada com a machina a vapor de 100 
cavallos ; duas outras eléctricas para corrente continua, ainda 
do systema «Ccmpcund», de 220 volts, de 55 kilowatts. fazendo 






— 59 — 

cada uma 265 rotaçõ 38 por minuto e conjugadas com as michinas 
a vapor de 50 cavallos : um quadro de distribuição, de ferro e 
mármore, com três painéis e contendo apparelhos para distri- 
buição, medição e regulação ; uma machina a vapor, unifixo, sys- 
tema cPatin», com 25 cavallos, 95 a 100 rotações por minuto 
e gastando 300 kilos de carvão em 8 boras de trabalho ; uma 
gazmotora com scentelha eléctrica, de Société Suisse Winther- 
thur, da torça de 12 cavallcs, despendendo cinco metros cúbicos 
de combustivel por hora de trabalho e fazendo 200 rotaçõ ís por 
minuto. 

A producção de trabalho da Imprensa Nacional, desde 1898 
até o »nno próximo passado foi a seguinte : 

1898— Impressos avulsos 9 964.369, talões 120 193, obras 
impressas 420 665, livros em branco 5.523, enveloppes 2.615.050 
e encadernações 2 394. 

1899— Impressos avusos 10.154.596, talões 34 204, fibras 
impressas 446.467, livros em branco 3,306, enveloppes 534.000 
e encadernações 3.632. 

1900— Impressos avulsos 11.164.970. talões 56.419 obras 
impressas 386 612, livros em branco 5 617, enveloppes 225.150 
e encadernações 3.807. 

1901— Impressos* avulsos 11.540-640, talões 110.533, obras 
impresas 3 r 503. livros em branco 7.169, enveloppes 117.390 
e encadernrções 2.895. 

1902— Impressos avulso* 20 993.000, talões 344 391, obras 
impressas 543.391. livros em brancc 10.104, enveloppes 1.127.180 
e encadernações 3 878. 

1903— Impressos avulsos 30.465.555, talões 173.272, obras 

impresas 451 701, livros em branco 25.638, enveloppes.» 

1.237.054 e encadernações 6.909. 

Não estão incluidos neste quadro os trabalhos cem o pie- 
paro de estampilhas, de chapas de stereotypia e galvanoplastia 
e de typos. 

De 1835—1836 a 1879—1880 (45 exercícios) a receita im- 
portou em 4.711:745$999 e a despeza em 4.675-.533S744 resultando 
um saldo de 36:207$225 ; de 1889—1881 a 1892 (12 annos) a 
receita foi de 7 396:330S826 e a despeza de 6 509:385$560. dando 
um saldo de 886:945$266; e finalmente, de 1893 a 1902 (10 

annos) e receita monteu a 5.422:324$411 e a despesa em 

3.968:361$580 tendo um saldo de 1.453 963$231. 

PosBue o acreditado estabelecimento a bel la e benemérita 
instituição de benificencia creada em 1889, tendo por objectivo 
garantir pensões aos operários e empregados e installada defi- 
nitivamente em agosto de 1880, por iniciativa do então admi- 
nistrador António Nunes Galvão, denominado Caixa de Pensões 
dos Operários da Imprensa Nacional e Diário Official. 

Do balanço relativo ao 1.° e 2,° semestre do anno passado 
vê- se que o capital em dezembro de 1906 era de 633-.443S667, 
contribuições recebidas 52:486$918, multas recebidas 4:976*500, 
empréstimos extraordinários 199:O0O$00O, juros de empréstimos 
recebidos, quer ordinários, quer extraordinários, 27:526$492, juros 



— 60 — 

de apólice» de 1907— 11:090$; sorteio de 11 apólices de juros de 
6 °[ 11:000$; títulos recebidos de 11 pensionistas 11$000. 

Á despesa é assim discriminada no ultimo relatório de..«. 
1907: Pentões de dezembro de 1906 até novembro de 1907 
31:168$104 ; gratificações 5:016$651, restituições 92^100 empré- 
stimos extraordinários 199:000$ sorteio de apólices 11:000$, juros 
das aprlices 180$, funeraes 180$6OO, capital 692:139$122. 

A publicação destas informações acerca da Imprensa Na- 
cional não tem outro fim senão commemorar a gratíssima data 
do primeiro centenário da sua creação e fazer inteira justiça a 
todos aquelles que com desinteressado patriotismo tem concor- 
rido efficazmente para o seu progressivo desenvolvimento e para 
a grandeza das artes gra pilicas brazileiras. 



Francisco Adolpho íarnhagen, 

Visconde de Porto Seguro 



PEL1 



Dr. M.*ãe Oliveira Lima 

Sócio honorário do Instituto Histórico e Geo- 
graphico de S. Paulo 



Francisco Adolpho Varnhagen 



Cabem-Qos certamente alguns dos defeitos por que somos 
aeoimados. Como raça e como povo — latinos pela cultura, por- 
tuguezes pelo sangue, brazileiros pela nacionalidade — do que 
nào podemos entretanto ser íacilmeute accusados é de ser min- 
guada a noèsa admiração pelo talento, pelo valor e pelo suc- 
cesso. Ella é antes fácil e ruidosa. O peior, porém, ó que, 
constituindo a admiração, quando consciente e fundamentada, a 
projecção do epicurismo intelectual, os que procuram a har- 
monia das faculdades %spirituaes tanto quanto Jo equilibrio da 
vida material, podem, pelo efíaito de uma conhecida lei physica, 
ser naturalmente levados a incurtar o reconhecimento, que é a 
projecção da ternura do coração. Não creio, comtudo, incom- 
patíveis as suas manifestações, e se, como para alguns soe 
aconieser, a admiração é característica dos talentos inferiores 
e o reconhecimento distinctivo das almas pusillanimas, aceito de 
bom grado uma e outra qualificação para dizer-vos, Srs., quanto 
me alegra e quanto me honra vir hoje expressar-vos meu maior 
reconhecimento pela minha eleição para membro da Academia 
Brazileira e dar largas á minha admiração pelo mais notável 
dos nOBSOB historiadores, porquanto foi o maia valente traba- 
lhador da historia nacional* 

Quando, muito novo ainda, eu estudava paleographia na 
Torre do Tombo, de Lisboa, tendo por mestre José Basto, um 
dos auxiliares de Herculano na obra grandiosa doB Portugália 
Monumento Histonca t costumava ancioso esquadrinhar nos maços 
de papeis bolorentos, de caracteres semi -apagados debaixo da 
poeira dos séculos, algum documento que na minha prosápia 
juvenil julgava dever ser decisivo para a solução de qualquer 
dos enigmas da nossa historia, que os tem, comquanto date de 
hontem. Ora, era com viva sorpreza e não menos vivo desa- 
pontamento que, em quasi todos aquelles papais, se me depa- 
rava a marca discreta do lápis de um pachorrento investigador 
que me precedera na faina, e que verifiquei não ser outro senão 
Francisco Adolpho de Varnhagen. Attribuindo o seu nome il- 
lustre á cadeira que a vossa benevolência aqui me concedeu, 
escolhendo-o, pois, para meu patrono — mais carecera de um pa- 
droeiro, para usar da linguagem tradicional, que t&o bem cor- 



— 64 — 

responde ao personagem e até ao espirito começo de século — 
celebrando sgora sua memoria, faço mais do que instinctiva- 
mente recorrer a um modelo, traduzo uma saudosa impressão 
da primeira mocidade, além de prestar uma das mais merecidas 
homenagens que reclamão os fundadores do nosso património 
intellectunl 

Modelo também poderia chamai -o, como diplomata e ho- 
mem de letris qne foi, e mais prezando esta qualidade do que 
aquella, no que alias revelava o bom senso germânico que her - 
dára, porque, ao passo que a literatura se torna cada vez mais 
árdua pela somma de conhecimentos que requer, a diplomacia 
torna-se cada vez mais fácil pela somma de predicados que dis- 
pensa. Não é maldizer da diplomacia lembrar que, mercê da 
maravilhosa facilidade de communicações, do devassamento da 
vida politica pelos jornaes, da virtual cessação de todo sigillo 
de Estado, da collocação dos cargos públicos ao alcan- e de to- 
dos os cidadãos, não mais permanecendo privilegio de uma 
casta, de outras circumstancias ainda, ella deixou de ser uma 
arte para tornar-se uma profissão. Os diplomatas dependem 
agora tão de perto e des canção tanto sobre o chefe da sua cor- 
poração, gozão assim de tão pouca iniciativa e autonomia, que 
já forão irreverentemente tratados de meros tocadores de certo 
instrumento anti-musical que Rossini tinha em horror, e que a 
gravidade académica me dissuade de mencionar. Pelo contrario, 
o historiador moderno carece de ser, além de um erudito, um 
artista ; de descobrir elle próprio as fontes, analysar-lhes o valor, 
saber aproveitar o manancial que delias brota, quando ainda 
livre de impurezas, e arrecadal-o em vaso do mais puro crys- 
tal por elle mesmo facetado. 

Nas paginas eloquentes dedicadas por um académico fran- 
cez, o Duque de Broglie, a Victor Duruy, lê- se o que deve de 
ser hoje o historiador, como tem de combinar a sagacidade da 
verificação com o talento da exposição, alliar a circumspecção 
do pesquizador á habilidade do narrador, o que, demandando em 
rigor para applicar-se á evolução de um povo ou de uma na- 
cionalidade tempo mais que o de uma vida e intelligenciamais 
do que a humana, convida á elab ração das monographias e, 
como consequência, produz a dispersão da matéria histórica. 
Náo ha, com effeito, quem não esteja convencido de que o sé- 
culo actual será irremediavelmente o século dos especialistas* 
Aquell s palavras de Broglie são tanto mais dignas de medi- 
tação quanto ó bem verdade o que antes affirmàra Augustin 
Thierry, um dos mestres da moderna historia franceza, que a 
direcção intellectual dominante no século XIX seria a necessi- 
dade da historia. 

O século em que ha pouco entrámos encontra bem apro" 
veitados todos os recantos desse campo, cuja vastidão com" 
tudo desafiava a das savanas immensas por onde va- 
gueou o espirito errático de Chateaubriand, que foi o primeiro 
a tornai -o pittoresco. Âpplicando ao próprio génio o aphorismo 



— 65 - 

baseado na curiosidade mental da sua época, revelou-se o mes- 
mo Thierry um magistral conhecedor dos tempos sumidos, um 
conhecedor como na lingua portugueza só se encontra análogo 
em Alexandre Herculano — sóbrio vigoroso, animado, apoiando 
directamente nos texto \ primitivos e nos documentas o iginaes 
as suas informações precisas; até liberal intransigente de Julho, 
como foi Herculano em politica um ferrenho cartista. 

Caberia Vamhagen dentro da categoria delineada pelo 
illustre Duque ? Teria sido um erudito e um artista, um Nie- 
bahr e um Beulè ? Se não, approximar-se-hia elle sequer da- 
quelles representantes eméritos do género severamente histórico, 
quo não faz concessões extraordinárias á- galas do estylo, ena 
consciente gravidade põe seu maior encanto ? Na forma aca- 
démica, tal como a consagrarão os francezes, é inevitável o 
gasto de leves e mal disfarçadas ironias. Nó), porém, não es- 
mos empenhados neste momento na recepção de um novo mem- 
bro da nossa Companhia nem no elogio de um companheiro de 
hontem, cujas fraquezas de escriptor - quem deixará de têl-as? — 
ou cujas antipathias de gostos literários estejào presentes e 
vivas. Gloriíi amos um morto de longa data, que já a ninguém 
faz sombra e não mais é discutido. Não se trata de um pre- 
decessor a criticar, mat de um padroeiro a canonizar. Serião 
assim inconvenientes as ironias sobre serem descabidas. Lem- 
brados de que Vamhagen foi sem contestação o creador da 
historia pátria, senão em syntheses luminosas, pelo menos na 
comprovação essencial, é tão somente com respeito que deve- 
mos encarar essa figura saliente da nossa literatura, posto se- 
jamos forçados pela justiça a salpicar das reservas indispen- 
sáveis em todo estudo a nossa legitima admiração perante 
ella. 

O facto é que os fastcs literários se não ufanão entrenós 
de um hi-toriador parecido com qualquer dos espíritos superio- 
res de cujos nomes fiz menção. Francisco Adolplr de Vamha- 
gen foi por certo o mais notório e o mais merecedor dos estu- 
diosos do passado brazileiro : foi um ardente investigador, um 
infatigável resuscitador de chronicas esquecidas nas bibliothecas 
e de documentjs soterrados nos archivos, um valioso corrector 
de falsidades e illustrado collecionador de factos. Porém o dom 
adrxiravel de communicar vibração ás turbas de?ap parecidas, 
que caracteriza um Michelet, ou a extrema habilidade de re- 
constituir com um agglomerado de pormenoreg um caracter hu- 
mano, ou delle deduzir uma lei da evolução, qu« particulariza 
um Taine, os não po^suiu o autor da Historia Geral. Faltava- 
lhe para isto, mais do que uma faculdade psychologica aguçada 
por solida e moderna preparação scientifica, a ingente obra cri- 
tica que aquelles outros escriptores contavão a amparai- os. 

Remontando mesmo mais lonçe, dentro do secilo fiado, do 
que a Michelet e Taine, Taier y escudara se com os pacientes 
trabalhos dos Benedictinos e com os resultados das pesquizas 
das Academias, e Alexandre Herculano, ainda que abrangendo 
a sua producção um longo esmiuçar de monumentos históricos, 



— 66 — 

sentia se arrimado aos faustosos, mas excellentes fractos da acti- 
vidade da Academia de Historia e da Academia das Sciencias. 
No Brazil, apenas hoje, graças justamente ao laboç. indefesso 
de Varnhagen, a estudos especiaes como os de Norberto de 
Souza sabre a conjuração mineira, do dr. José Hygina sobre o 
periodo do domínio hallaadez no Norte e do sr. Lúcio de 
Azevedo sobre 03 Jesuítas no Grão Pará, e ao impulso pres- 
tado ás monographias, dissertações e comparações de documen- 
tos palas associações de que são modelos o Instituto Histórico 
do Rio de Janeiro e. em menor escala, os Institutos de Per- 
nambuco, Ceará, Bahia, S. Paulo, etc, poderá um syncretisador 
tentar firmar numa vista de conjuncto a sua concepção parti- 
cular do desenvolvimento pátrio. 

O traço dominante da individualidade de Varnhagen é a 
paixão da investigação histórica, á qual subordinou todas as 
suas manifestações de escriptor. Elle traz-nos á memoria o 
faiscador attrahido pelas palhetas do ouro ou o garimpeiro hy- 
pnotisado pelos diamantes, esquecido da balieza da paizagem 
em que labuta por descobrir os thesouro3 di terra, cego diante 
da formosura da perspectiva e da transparência da atmosphera 
que 8eduziriáo o pincel de um pintor, surdo ao sussurro das 
folhas e ao canto das ave3, que acordarião o estro de um poeta. 
Se compunha um drama como o Amador Bueno (1), Varnha- 
gen escolhia um ponto controverso ria historia pátria, apro- 
veitando em sua plenitude a legenda que a sua critica não 
podia acolher sem resalva (2). Se esboçava uma novella como 
a Chronica do Descobrimento do Brazil (3), fazia- o, segundo 
declarou (4), para vulgarizar o primeiro documento histórico 
relativo ao Brazil, que foi a carta descriptiva de Pêro Vaz de 
Caminha : por cachar que a forma do rcmance era o melhor 
meio de adaptar ao gosto de todos a historia do paiz.» Se 
reeditava os nossos épicos, Basílio da Gama e Durão (5), ou 
outro dos nossos poetas no Florilégio, buscava sobretudo um 
pretexto para escrever- lhes as noticias biographicas — as melho- 
res que até agora temos — e recheiar as publicações de notas 
eruditas. Se traçava algumas paginas sobre architectura a pro- 
pósito da egreja de Santa Maria de Belém, não o impulsiona- 
vam tanto sentimentDs de arte como o desejo de aproveitar 
mais uma contribuição para fixação de épocas histaricas. 

A carreira diplomática, da qual percorreu todos os gráos, 
offereceu-lhe principalmente ensejo para indagações as mais 
valiosas em archivos e livrarias. Da Torre do Tombo, em Lisboa, 
extrahiu documentos sem numero e sem par. Dos de Simancas 
está cheia a primeira edição da sua historia do Brazil, (6) ser- 



(t) Lisboa, 1847. 

(2) Historia Geral, 2» ed. tomo II, pag. 693. 

(3) Panorama, It40. 

(4) lnnocencio, Diccionario BilUcgraphico, tomo II, pag. 320. 

(5) Lisboa, 1«45. r!»T"? 

(6) Publicada em Madrid em 1854— 57. 



— 67 — 

vindo-lhe aquelles de que então se não aproveitou para, quando 
na America do Sul, preparar o ensaio sobre a occupaçio hol- 
landeza do norte do Brazil e escrever a famosa defesa de Ves- 
pucio. Em Vienna delineou a historia da Independência, ainda 
medita e actualmente em mãos do nosso consócio Sr. Baião 
do Rio Branco, em grande parte sobre as informações diplomá- 
ticas do Ministro Austríaco no Rio de Janeiro, admiravelmente 
collocado para seguir a trama intima das acontecimentos como 
representante de uma corte parente, e possuindo no próprio 
seio da familia real portugueza uma natural informante na 
pessoa da Archiduqueza Leopoldina. Ninguém contestará que este 
rói de serviços seja superior ao que podem apresentar muitos 
diplomatas, mesmo sahidos de fresco do torvelinho de negocia- 
ções espinhosas. Mais vale em todo o caso escrever historia com 
autoridade do que ajudar a fazê-la sem capacidade. 

Varnhagen é um exemplar precioso, para a justificação da 
celebre theoria de Taine, da raça, do meio e do momento, que 
os exaggeros dos discípulos não lograrão desacreditar. 

Nascido em S. Paulo, era, porém, filho de um allemao, mi- 
neralogista distincto que restaurou e administrou a conhecida 
fabrica de ferro de Ipanema e que com Eschwege, Debret, os 
Taunay e tantos outros, fazia parte ^do grupo de europeos do 
Norte, ao qual o Brazil deveu um inestimável concurso íntel- 
lectual nos começos da sua existência de nação independente. 
Da raça germânica recebeu elle em legado o amor ao trabalho 
aturado, a paciência na elaboração de uma obra, o cuidado na 
exactidão dos resultados, que a sua educação de engenheiro só 
podia ter fortalecido. Vindo para Ptrtugalaos oito annos, criou- 
se entre aquella geração do Panorama, ávida de regeneração 
mental, seduzida pela evocação do longiquo passado nacional, 
dominada pela grande corrente de curiosidade histórica de que 
fallava Thierry. Os primeiros ensaios de Varnhagen, depois das 
Reffexoena criticas encontrão- se precisamente no mencionado 
órgão da propaganda romântica — tomando esta expressão no seu 
sentido mais largo e mais levantado — collaborado por Hercu- 
lano, Oliveira Marreca, Rebello da Silva e tantos illustres es- 
criptores do tempo. O meio e o mom c nto, portanto, não podião 
ser mais propicios ao desabrochar dessa vocação de historiador, 
cuja corolla ainda desmaiada se volvia, sequiosa de luz e da 
calor que lhe avivassem as cores, para o sol magnifico que doura 
cada dia o píncaro do monte Paschoal. 

A educação literária em Portugal, nas condições apontadas, 
não impedio, antes contribuio para que «a pátria de nascimento 
e de opção» (1) lhe occupasse exclusivamente o espirito desde 
que encetou a carreira das letras. Não filiando já das Ilejle- 
xoens criticas á edição pela Academia das Sciencias do Roterio 
do Brazil, de Gabriel Soares, do qual elle daria mais tarde 



(8) Replica apologética dt um etcriptor calumniado. 



— 68 — 

nova e correcta ediçào (1), o primeiro trabalho que lhe devemos 
foi em 1839, aos 23 anãos de idade, a publicação do Diário da 
navegação ao Brazil de Martim Affonso de Souza, essripto pelo 
irmão Pêro Lopes, enrique ;idt com curiosas annotações. Depois 
contio-se por dezenas os manuscriptos referentes ao Brazil que 
salvou da destruição os papeia hiscoricos que livrou do esque- 
cimento. Desde a Narrativa epistolar do padre Fernão Cardim 
até á Deicipçãi do Maranhão de Henarte (2), é um nunca 
acabar de subsidios valiosos fornecidos por Varnhagen ao estudo 
dos nossos tre3 séculos de vida colonial. Era como se elle ti- 
vesse avocado, para cumpril-a, uma tarefa que de ordinário se 
reparte por uoaa porção de sociedades de descanço mutuo. 

A fundação do Instituto R storico do Rio de Janeiro, no 
próprio anno da sua estréa na literatura histórica, veio a pro- 
pósito para estimular lhe o zelo e provocal-o a redobrar seus 
esforços de excavador, já recompensados pela Academia de Lisboa 
com a admissão para sócio. Também o seu espirito era perfei- 
tamente o de un académico do se ulo XVIII, com a compre- 
hensão mais larga das cousas da intelligencia dada pela cultora 
moderna, Nem lhe íaltavão aquellas birras literárias, aquelles 
melindres profissionaes tão característicos, e que nelle derão 
nascimento a varias conhecidas e intructivas polemicas, azedas 
umas, urbanas a maior parte, com Abreu Lima, com o Vis- 
conde de Santarém, com D'Avez^c, com Richard, Major, com 
João Francisco Lisboa, com Netschar, cora António Henriques 
Leal. Não havia competidor que lhe inspirasse receio, nem 
summidade que o fizesse recuar. O seu talento de polem<sta era, 
comtudo fraco sob o ponto de vista literário : nada do sarcas- 
mo crú de um Camillo ou da ironia alada de um Octaviano. 
Varnhagen tinha a falta de espirito de qualquer privatdocent 
de Bonn ou de Heidelb»rg, que não possuísse sombra da sci- 
encia de escarnecer de Heine ou do penetrante talento de mo- 
tejar de Schopenhauer. A zombaria era-lhe extranha. Quando 
tentava ter graça, mettendo alguém a ridículo, nada mais con- 
seguia do que fazer-nos sorrir da sua insipidez. Esgotando a 
argumentação sem nunca fulminar o adversário com um raio de 
indignação ou submerg l-o numa tempestade de galnofa, des- 
cendo ás ultimas minudencias pelo habito de insistir nos deta- 
lhes, os seus ataques e defesas tornfto-se enfadonhos pela au- 
sência de todo cunho artístico mais pa r ecendo desenxabidoB 
arraz ados de praxista que vibrantes desabafos de escnpror. 

Varnhagen era não só susceptível e de índole combativa, 
como atreito a apaixonar se por uma these e especialmente por 
um pers nagem. Na Historia das lutas do$ Hollandezes no Bra 
zil extensa monographia de real merecimento, constituio Vidal 
de Negreiros o objecto do seu louvor, mostrando para com João 



(1) Tomo XIV da Revitta Trimensal 
09 VIenna, 1S74. 



— 69 — 

Fernandes Vieira uma viva antipnthia. A sua grande, absor- 
vente e mais antiga afíeição histórica foi, porém, Américo Ves- 
pucio, cuja importância de navegador, seriedade de correspon- 
dente e fidelidade de narrador defendeu com grande cópia de 
argumentos históricos e geographicos, citações de texto e com- 
parações de roteiros no trabalho geral sobre historia do Brazil, 
em trabalhos especiaes (1), e Da resposta á analyse critica con- 
tida no parecer do eminente Mr. D'Avezac sobre a Historia 
Geral (2) «Vespucci que cheg*do ao acaso da vida começara 
emfim a viver socegadamente, foi dppois de morto alvo de ata- 
ques injustos e acrimoniosos. Sua memoria tornou -se a victima 
innocente da própria fama que de principio lhe /era dispensado. 
N&o sigamos mais este miserável systema que consiste em vi- 
lipendiar a honra dos pequenos para exalçar a gloria dos grandes 
e, esclarecendo a hietoria das viagens de Vespucci, advoguemos 
uma questão a um tempo de justiça e de moralidades». (3). 

E se bem o disse melhor o fez. Os dous trabalhes especi- 
aes dedicados ao navegador florentino são incontestavelmente 
de errande valia pelo intuito com que frrão elaborados, pelo 
methodo que seguirão e peia riqueza de erudição que ostentão. 
Em nenhum dos seus livros talvez existe tanta abundância, um 
tal lnxo de illustração histórica. Percorrendo- se esses dous vo- 
lumes esguios tem-se a* impressão perturbadora de uma floresta 
dos trópicos, densa e perfumada, onde tudo se nos afigura estra- 
nho, cujas arvores parecem formar umi trama continua ponti- 
lhada de orchideas exquisitas, mas onde acabássemos por ori- 
entar-nos perfeitamente. São elles extensivamente aproveitados 
«»m obras monumentaes como a de Justin "Windsor (4), pois que 
Varnhagen e" um dos raros brazileiros cujas opiniões gozão de 
incontestável autoridade fora do nosso mundo intellectual (4), 

Apezar de, por um eftvito seguramente de sympathia reflexa, 
interessar- me vivamente pelo bom nome de Vespucio, não me 
aventurarei a decidir do pleito em que o nosso historiador se 
empenhou unguibus et rostro. Li muitas das peças do processo 
e, se fosse juiz chamado a proferir a sentença diria em since- 
ridade que a questão da authenticidade das primeiras navega- 
ções de Vespucio. particularmente da viagem de 1497 com a 
consequente descoberta da terra firme, rarece-me uma destas 

SuestÕes aventadas para nunca serem decididas. A nossa Aca- 
emia poderia em peso tertar a solução desse problema do sé- 
culo XV 8fm conseguir encontrar- lhe o X O famoso Diccio- 
nario da Academia Franceza ainda pode antever sua terminação, 
dada a perpetuidade da instituição que o está executando. A 
questão Vespucio, entretanto, mais se complicará com o andar 
dos tempos : pela sua perplexidade, ella é uma das muitas que 



(D Lima, 1F6S e Vlenna, 1869-70. 

(2) Examen de quelquee pointt (Thittoire grographique du Brèttl. Paris, 1859, 

(31 Le premier toyage de A. Vespucci.. Vieona, 1869, no Prefacio. 

(4) Narrative and Criticai Hittory of America, 8 vols, 

(b) Vide a nota A do flm deste trabalho. 



— 70 — 

noa fazem duvidar da veracidade das premissas de que a his- 
toria costuma tão soleomemente tirar suas conclusões (1). 

Em Varnhagen superabuadava em erudição o que escas- 
seava, como disse, em espirito propriamente philoscphico. Qual- 
quer orientação que a sua intelligencia pudeese ter manifestado 
de começo para a consideração das causas dos acontecimentos — 
e por algumas paginas dos seus primeiros trabalhos vê -se que 
tal preoccupação Ice não foi alheia — desviou-se na continuação 
pela insistente pesquiza de documentos para o restabelecimento 
da verdade dcs <ffeito3 cu factos. Durante sua longa residência 
em Portugal, ao tempo da sua convivência cem Garrett, José 
Estevão, Frei Francisco de S. Luiz, que lhe dispensava uma 
paternal i fíeição, e os outros corypbeus da grande geração por- 
tugueza da primeira metade do século, o ainda depois da sua 
transferencia diplomática para Madrid, foi que elle mais se de- 
votou a estudos propriamente literários. Data de 1849 (Madrid) 
a edição das Trovas e Cantares ou mais provavelmente o livro 
das cantigas do Conde de Barcellos, a qual Innocencio qualifica 
de «innegavel e valioso serviço á literatura em geral e mui 
particularmente á portugueza» (2). Em Lisboa e em Madrid 
publicou (1850 e 1853J os três tomos do Florilégio, cuja intro- 
dueção é julgada excyllente. ao ponto de a considerar um cri- 
tico da autoridade do Sr. José Veríssimo «a fonte da nossa 
historia litteraria á qnal teria Varnhagen ahi assenado o cri- 
tério gerah. E' verdade que sobre aquellas paginas reveladoras 
repousão os trabalhos criticos posteriores, mais avultados e mais 
acabados, que retomarão o fio abandonado pelo grande trabalhador 
no seu prurido de deBcobnr novas informações, nelle mais forte 
do que o deleite de enfeixa-las com garbo. 

Dir-se-hia que mais tarde lhe roubou tidos os momentos 
a pura investigação, até extendida aos domínios dá prehistoria 
americana, da qual já se hnvia ligeiramente oceupado no opú- 
sculo Sumé, lenda mytho -religiosa, anteriormente publicada no 
Panorama. Para ser comtudo um archeologo cu um ethnogra- 
pho de valor igual ao do erudito histórico que era, faltava lhe 
a base que só podia haver-lhe fornecido uma instrucção especial, 
compatível aliás com o meio e o memento em que se educou a 
sua intelligencia, mes que ficara um tanto fora da esphera pe- 
culiar de attração do seu espirito. As suas informações sobre 
os selvagens são por via de regra fidedignas, porque se apoião 
no testemunho dos antigos autoras que te continuo manuseava; 
porém as suas reflexões sobre ethnogenia brazileira, c r ndensadas 
no livro L 1 Origine Touraniennt des Améncains Tupis • Caribes 
et des anciens E'gyptiens indiquées principal ement par la phi- 
lologie comparée, não passão de divagações de dilettante. Var- 
nhagen possuía todavia uma condição vantajosa para uma se- 
rena e despeoceupada observação dss hypotheses que censti- 
tem ainda hoje o melhor do haver desse ramo dos conhecimentos 



(1) Vide a nota B no flm deste trabalho. 

(2) Voí. cit„ pag. 320. 



— 71 — 

humanos. Único talvez entre os escriptores brazileiros da sua 
geração, nunca revelou sympathia pelos indígenas. 

Conta elle na Replica Apologética que, ao ser aprefentado 
em Portugal pelo pai a D. Pedro I, entrevista da qual resul- 
tou o alistamento do joven Varnhagen nas fileiras liberaes na 
campanha do Duque de Bragança contra D. Miguel, o ex-Im- 
perador do Brazil reparara na sua elevada estatura, ajuntando 
«que era do sangue paulista». O sangue dos bandeirantes e o 
sangue allemão, que de mistura lhe corrião nas veias, não podião 
gerar o sentimentalismo sobre qne assentou em boa parte a corrente 
indianista da nossa literatura. E como teve sempre a coragem 
das suas opiniões, mesmo se apodadas de pouco humanitárias, 
sustentou -as com convicção quando vinha a propósito, e com 
vivacidade ao travar a tal respeito com o illustre prosador ma- 
ranhense João Francisco Lisboa a polemica de que ficou por 
memoria o folheto — Os índios Bravos e o Sr. Lisboa. (1). 

Varnhagen era francamente anti indianista, ccmo logo o 
notou D'Avezac, estranhando que em vez de começar sua His- 
toria pela dos aborígenes, elle a começasse pela de Portugal, 
da terra dos colonisadores, da qual o Brazil assim formava o 
mero desdobramento peculiar no ultramar. Era antiindianista 
em tudo, menoB na linguagem, na qual dava caloroso abrigo 
aos termos americanos, # ao passo que accusava os negros de ha- 
verem estragado no Brazil a lingua portugueza. Os indics no 
estado selvagem lhe não merecião, porém, sympathia alguma : 
todos os encantos de Âtala cão quebrarião sua frieza. Sem 
odiá-los como raça nem pretender extermina-loa como parte pouco 
desejável da população nacional, nenhuns direitos lhes reco- 
nhecia que valessem perante as exigências da civilisação euro- 
péa, aquillo que o poeta Rudyard Kipling com tanto successo 
denominou o White Marís burden. Devera antes ter naicido 
Anglo-Saxão quem tão firmemente exhib a o orgulho do bianco, 
tão gostosamente lhe zelava es fores, tanto lhe enaltecia es 
serviços. 

No seu intimo Varnhagen não acreditava nos brandes es- 
forços da catechese para amansar os índios, eleva-los á vida 
social, «rehabilita-los» ccmo dizia a espécie do Romantismo qua 
não preferia o puro estsdo natural. No chamado Discurso Pre- 
liminar (os Os índios perante a nacionalidade brazileird) elle 
o declara mesmo: contava tão somente cem a força para coDte- 
los, «ava3saIla-os», repellil-os quanto preciso, obriga-los a ter- 
narem-so úteis trabalhando em beneficio dos invasores para o 
progresso material, que por fim lhes aproveitaria também. Não 
podemos, no emtanto, accusa-lo de inabalável esciavocrata. 
Sujeição dos índios era para elle equivalente a reducção na 
importação dos Africanos, cuja emancipação lenta e gradual 
acabou per advogar com animação, após ter pretendido substi- 
tuir a servidão indígena á escravidão negra. Para combater o 



(1) Lima, 1865. 



— 72 — 

sen desprezo fundamental pelas raças inferiores actuava o fer- 
mento da sua fé, visto haver elle sido um crente num meio em 
que o voltairianisrro estava na moda, assim como se revelou um 
conservador esclarecido e adiantado num tempo em que o epi- 
theto de liberal andava commummente attribuido aos que affi- 
xavão idéaa revolucionarias A sua ascendência e^a assas fidalga 
para permittir-lhe essa postura meio reaccionária ; a sua natu- 
reza assa* altita para dispensa-lo de cortejar uma fácil popu- 
laridade, baseada no esquecimento das suas tradições de familia 
e das suas predilecções moraes. 

Como objecto de estudo, entretanto, em sua expressão como 
origem dos «mythos dos tempos heróicos da nossa historia», os 
índios nunca deixarão de attrahi lo. A creação no Instituto His- 
tórico da secção ethnographiea é-lhe devida, e bem assim sus- 
tentou a convenienc ; a de fundarem- se cadeiras da lingua tupi. 
Dando elle próprio o exemplo, adquirio no campo da linguistica 
americana, como em todos que cultivou, uma solida competência, 
que a outros bastaria para satisfazer a ambição de saber, se 
bem que nadp houvesse ahi levado a cabo de notável ou de singu- 
larmente interessante. Comtudo, escreveu Richard Furton na 
introducção sobre Índios brazileiros da sua traducção de Hans 
Stade, que foi Varnhagen o primeiro a esclarecer a confusão 
ethnologica que reina nas obras dos escriptores anteriores, de 
quem dependera Southey. 

Se não era um homem de sciencia como Humboldt, tão 
pouco era Varnhagen um estylista como Renan. Escrevia com gra- 
vidade, com correcção, por vezes com fluência, mas sem ele- 
gância nem brilho Quando mais apurada, isto, ó quando se eleva 
ou mesmo se empola para condizer com o assumpto, ou para 
traduzir os sentimentos nobres que a animão, a sua linguagem 
perde toda agilidade sob o peso dos atavios que, embora 
pouco graciosos, não serião ainda assim julgados excessivos e 
de máo gosto se por causa delles não ficasse emperrada a ex- 
pressão do autor. Nos tempos da collaboração no Panorama^ 
particularmente na Chronica do Descobrimento do Brazil, en- 
xerga- se na sua forma a preoccupação dos termos apropriados, 
novos ou obsoletos, mas concretos e directos, que distiugue a 
linguagem sua contemporânea, e foi particular objecto da escola 
romântica no tocante á exposição. Pode até apodasse de exces- 
siva essa tendência no referido trabalho de mocidade, obscure- 
cendo ou antes embaraçando por momentos a narração, tal é a 
cópia dos vocábulos technicos usados, peculiares á navegação 
de outr'ora. 

Como o trabalho incessante o tornava um progressivo, al- 
guns senões do escriptor corrigir se-hião pelo tempo adiante e 
aperfeiçoar- se-hia a sua redacção, ganhando em distincção. De 
resto, a f equencia da leitura cos clássicos desde a juventude, 
ajudada pelo constante folhear, durante toda a vida, de docu- 
mentos dos séculos de portuugez mais castiço, e igualmente pelo 
natural effeito da reacção devida ao esforço que sobre si próprio 
exercia para se não deixar influenciar pelos outros idiomas em 






— 73 — 

que compunha, conservou ser/pre á sua linguagem uma boa 
vernaculidade que a resommenda, mesmo nas occasiõas em que 
a forma se torna mais frouxa. E como poderia deixar da se.- 
puri-ta. de desvelar-si pela dignidade d o estylo mediante a 
autonomia do vocabulário, um discípulo do Cardeal Saraiva, 
cujo amor á lingoa portugueza foi tanto que, julgando desairosa 
a sua tão próxima descendência de um idiomi comparativamente 
novo como o latim, com grave escândalo dos philologos lhe foi 
procurar ascendência entre os idiomas célticos fallados na Lu- 
8Í ania, posto que enriquecidos com a quisições do latim culto 
ou das línguas neo romanas ? 

Varnhagen tinha entretanto, em si a melhor das condições 
para ser um escriptor — tinba idé»s No panegyrico do eminente 
physiologista Claude Bernard, a quem succedeu na Academia 
Franceza, Renan aventa que um grande pensador é sempre um 
grande escriptor, porque a bella e adequada expressão dos pensa- 
mentos levantados é por assim dizer instinctiva. Ora, Varnhagen 
é mais do que um chronista erudito. Entra de direito na cate- 
goria dos escriptores da variedade a que os Allemães dão o 
nome de historia pragmática a saber, a historia que não é pro- 
priamente a philosophica, ou que doa acontecimentos deduz as 
leis que gove não na sua marcha as sociedades humanas, mas 
que vai além da simples exposições dos factos, acompanhandoos 
de reflexões e consideração sociológicas. Historia geral da civi- 
lização do Braiil intitula-se no prefacio o seu trabalho de con- 
juncto, ajuntando o autor que tal civilização era no seu entender 
fructo da invasão européa e heroe nacional nenhum outro senão 
o invasor (1). 

Nas próprias polemicas Varnhagen guardou sempre certa 
elevação de linguagem porque nelle era natural a elevação das 
idéas, que mm buscava divulgar mediante o sacrifício das suas 
convicções ás inclinações ou caprichos do momento entre a 
roairria. à( spindo-as, portanto, de originalidade; nem tão pouco 
procurava revestir de singularidade c m formulas impraticá- 
veis e fxc«ntricas« Suas idéas erão praticadas e ãs. para o que 
de certo ínfluão, não só disposições hereditárias — o fundo an- 
cestral de bom sen* o allemão '* que já fiz allufão, tão predo- 
minante que ia por vezes de encontro ao meio — como as lições 
bebidas na larga residência em paizes estrangeiros, longe dos 
enredos políticos, e em dilata das viagens feitas ao serviço di- 
plomático do seu paiz ou com o fito de realizar indagações his- 
tóricas, dando-lhe ininterrupta oc asião de exercer sua faculdade 
de observador intelligente. 

Sobre agricultura, sobre commercio, sobre industria, exarcu 
a meio de seus escriptos um sem numero de ponderações sen- 
satas e aproveitáveis. No domínio agrícola cccupou se em pe- 
quenas monographias dos meios de melhorar a industria do 



(I) «A historia gtral da civilização do Brazil, deixaria de ser lógica com o sen 
próprio titulo, desde que aberrasse de sympathisar mais com o elemento principalmente 
civilizador», (pg. XXV do Prefacio, no tomo II da 1.» edição, MLCCCLVI1). 



— 74 — 

assucar, o tratamento do fumo e o fabrico dos charutos, e bem 
assim do cultivo do café e do do trigo. No terreno politico, uma 
ponderação sua me acode agota, na qual corajosamente insiste 
repetidas vezes e que na rotação dos acontecimentos volveu á 
actualidade, como no tempo da mocidade de Varnhagen, decor- 
rida ao som do echo persistente das revoluções movidas pela 
chimera separatista, excrescência do ideal federalista que inflam- 
mava os corações: a da necessidade da imnolaçào do sentimento 
de provincialismo ao de patriotismo. «Ao proviccialismo, escre- 
veu elle (1) associar -se apenas idóas de interesses provinciaes 
quando principalmente as de gloria andão annexas ao patrio- 
tismo, sentimento tào sublime que faz até desapparecer no homen 
o egoismo, levando-o a expor a própria vida pela pátria, ou pelo 
soberano que personifica o seu lustre e a sua gloria> . O seu 
centralismo chegav» a frzd-lo aconselhar fortemente a fundação 
de uma Universidade Central B:a2Íleira no centro de Minas, 
no intuito certamente de unificar o sentimento nacional. 

Esmaltadas de idéas, não podem jamais ler monótonas as 
suas producçoes. A grande copia da conhecimentos históricos e 
literários que Varnhagen possuia e da qual elle mais do que 
ninguém estava capacitado, por outro lado impede a sua obra 
de ser alguma vez banal ou enfadonha. A sua probidade pro- 
fissional levava-o não só a informar- se de quanto existia publi- 
cado e inédito sobre um determinaoo assumpto, como a indagações 
locaes, topographicas, para urra mais apurada percepção e ex- 
planação dos factos* Foi assim que visitou os montes Guarara- 
pss e tercorreuos pontos mais notáveis da prolongada luta com 
os Hollandezes, que segu ; o no encalço dos bandeirantes até os 
frescos planaltos de Goyaz e os abafados pantanaes de Mato 
Grosso : não ia como Chateaubriard á Palestina e a Granada 
em busca da sensação águia do extincto, nem como Flanbert 
ao Egypto em soffrega busca da cor kcal, mas como um sizudo 
chronista militar e politico em procura da ccmprehensão com- 
pleta do terreno, para mais exacta reconstituição das scenas da 
guerra e das aventuras colonisaccrss, E não só possnia elle 
saber e consciência, como o f»ro, ■ intuição que precede a err- 
roboração, e que é mais do que a plenitude, é a pedra de tcque 
do talento do historiographo. Nr mencionada Ghronica do Des- 
cobrimento do Brazil por exemplo, Varnhagen, muito antes d«p 
recentes e pouco conclusivas inquirições neste sentido, confessa 
repugnar- lhe imputar ao mero acaso a descobena das terras 
de Satta Cruz, abordando frarcamente os motivos postei iormente 
invocado3. 

O profundo amor ás letras, amer que lhe absorvia tedo o 
tempo além do dedicado á rotina cfãcial e vicissitudes diplo- 
máticas nas varias capitães do Pacifho e da Europa em que 
eEteve acreditado, janto talvez com aquelle intenso íentimento 
da própria valia, o qual, conforme aponta Joaquim Manoel de 
Macedo no curto e indifferente necrológio proferido no Instituto 



(«) Pag. 17, d'0j índios Bravos e o Sr. Lisboa. 



— 75 — 

Histórico do Rio, se convertera por fim num orgulho intolerante 
e irritável qne não admittia oppoBição (1), combinarão- se para 
afasta Io constantemente do campo seductor da politica, tão ac- 
cessivel ao seu mérito e tão sympathico á grande maioria dos 
seus, dos nossos compatriotas. Tão longe delia se conservou 
Varnhagen que, sendo um laborioso e um polygrapho, o qual 
até sobre caca discreteou, apenas escreveu em 1849 e 1850 
duas magras brochuras p->liticas, e em 1856 alguma cousa sobre 
colonização agrícola, questão de preferencia serial. 

Poupou-se desfarte algumas decepções, posto que delias 
n?o houvesse ficado isento. Nos últimos tempos da sua vida — 
não posso infelizmente dizer na velhice porque Varnha^en mor- 
reu com 62 annos — queixava-se de ter «o animo quebrantado». 
Já notastes, Senhores», como é familiar esta phrase entre nós, 
onde os efcriptores têm poucas pugnes a sustentar para abrirem 
seu caminho, e a estima dos entendidos e es favores do Estado 
quasi sempre os recompen?ão ? O desanimo não é só devido á 
escassa resistência do nosso temperamento. E' que alguma cousa 
existe de peior do que a hostilidade: é a apathia da multidão, 
a frieza do meio, a impossibilidade de chegar á grande massa, 
de grangear a verdadeira popularidade, a que é trazida pela 
acção do intellecto. 

A energia e a paixão que no emtanto residião em seu ca- 
racter e que deixava de malbaratar nas discussões partidárias, 
reservou-as Varnhagen para a defesa de algum thema histórico 
que soffresse contradita e para a apologia cu o vitupério que 
algum personagem hhtirico que, em sua opinião, não oceupasse 
o devido lugar no juizo da posteridade. Mais do que Vespucio, 
mais do que qualquer figura humana amou elle, porém, a terra 
que lhe foi barco, o seu Brazil, e tanto mais o estremecia quanto 
lhe não fora mui fácil seguir a nacionalidade da sua predilec- 
ção. Filho, como sabemos, de estrangeiro eDgajado no serviço 
da colónia, depois nação independente, levado menino paia 
Portugal, ahi tendo seguido todos es cursos, bavendo-se alistado 
no exercito pertuguez e estando até prestes a ser nomeado ca- 
pitão de engenhpiros, parecia que a pátria de nEscimento lhe 
devera ser indifferente. Não assim — re:vindiccu-a pela intelli- 
gencia e pelo coração, eftertoulhe as primicias do seu talento, 
e a custo de muito esforço pessoal logrou, aos 25 annos, fazer- 
se reconhecer como Brazileiro (20). O que para tantos outros 
fora pudo presente do acaso, para elle foi uma árdua conquista, 
que mais lhe fazia querer os despojos da victoria, a saber, a sua 
carta de naturalisação e o lugar diplomático que immediata- 
mente deveu á generosa protecção do Imperador D. Pedro II, 
sempre prompto em animar o culto das letras. 

Também ao Brazil e só ao Brazil consagrou Varnhagen o 
melhor da sua immensa actividade intellectual. Abrazandose na 



(1) Revista Trimental, tomo XLI, parte II, 1878. 

(2) Decreto de 24 de julho de 1841. 



— 76 — 

exaltação patriótica promovida pela realização da Independência, 
ao ponto de proclamar horror ao cosmopolitismo que devia ser 
a consequência da sua educação, e até querer transportar a 
Capital para o interior, afim de não se desnacionalisar pelo 
contacto inevitável de um porto com os estrangeiros, ao Brazil 
levantou num movimento de sincero enthusiasmo o monumento 
— o termo não é hyperbolico — da Historia Geral. Os caboucos 
encheu-os com essas dezenas de publicações nas quaes se com- 
prazia, como D'Avezac, Harrisse e outros historiadores de de- 
talhes e descobridores de fontes, em trasbordar o excesso da sua 
erudição, esclarecendo cqni um ponto, rectificando alli outro, 
além discutindo uma hypothese, aventando nova, ou defendendo 
uma opinião. Dir-se-hia que o perseguia a idéa de terderseus 
apontamentos nss constantes remoções a qne o com;ellia ávida 
diplomática; tanta era a prfssa de communicar ao publico o 
que lhe occorrera, tanto o dominava um constante destjo de 
conversar com os seus leitores. 

Com aquellas publicações avulsas, sempre úteis e sempre 
interessantes, organisa-se a mais curiosa das bibliothecas, com 
volumes de todos os formatos : bulindo em não Bei quantos as- 
sumptos, escriptos em portuguez, em hespanhol, em francez, em 
allemão, pois que elle conhecia e redigia em uma porção de 
linguas vivas e mortas, impressos nos mais variados lugares, em 
Lisboa, em Stockolmo, em Madrid, em Caracas, em Vienna, em 
Lima, na Havana em èantiago. Seja-me licito entrar em todos 
estes pormenores bibliographicos, já que delles era tão amigo o 
escriptor de que, mercê da vossa insigne benevolência, me estou 
occufaodo. 

A feitura da Historia das Lutas com os Hollandezes foi 
primeiro emprehendida por um movei de patriotismo, para rea- 
nimar algumas coragens desfallecidas ante as difficuldades com 
que se apresentava a guerra com o Paraguay, rememorando a 
lição admirável do século XVII, que é ainda hoje a pagina mais 
pura e mais tocante da nossa historia. Que melhor prova de 
patriotismo podia outrosim Varnahgen dar, do que concentrar o 
vigor menal de que fora dotado, sobre a resurreição graphica do 
passado de sna terra ? O amor do pas ? ado é commum ás na- 
ções que farejam sua decadência, para as quaes constituo um 
regresso a tempos melhores, aos tempos da grandeza e da epo- 
péa, e bem assim ás nações em via de progresso, para as quaes 
representa a necessidade da unidade, da continuidade histórica, 
dos antec -dentes próprios, da tradição. O réveil napoléoniste 
correspondeu em França á primeira orientação : a segunda en- 
contra nos Estados Unidos o seu exemplo mais frizante. 

O estudo da historia pátria é, pois, muito mais do que 
uma tarefa sympathica e agradável : é a satisfação de uma ten- 
dência da alma nacional. O passado não só envolve a tradição, 
como gera o incentivo da acção pela lembrança dos teitos glo- 
riosos de outras gerações, que com a distancia do tempo perdem 
as asperidades e imperfeições, e mais gloriosos parecem ainda 
na sua idealisação vaporosa não se lhes conhecendo as sombras 



— 77 — 

nem os defeitos. Assim, na pintura, por efíeito da. perspectiva, 
esfumao-se os contornos, esbatem-se as cores, ccrrigem-se as 
desigualdades e uniformisa-se a visão. Além disso, o passado 
pesa com todo o seu peso sobre o presente, engrinaldando -o 
com a messe das suas virtudes e manchando-o com a recorda- 
ção dos seus crimes. O historiador que, exalçando-as, evoca 
as primeiras e, vilipendiando* os tenta corrigir os segundos, faz 
obra de moralista e merece mais do que a admiração, tem jus 
á veneração publica. 

Os sentimentos de honestidade profissional e de equidade 
social eram em demasia arraigados no caracter de Varnhagen, 
para que elle se esquivasse a tão bella mis3ão, cujo cumpri- 
mento empresta relevo ao seguimento da sua sábia narração. 
Nas próprias palavras delle a historia deve ter por intenção 
«formar e melhorar o espirito publico nacional», e foi sem ter- 
giversações que desempenhou este papel de moralista, na acce- 
pção mais elevada da palavra, a saber, do historiador que faz 
servir a historia de ensinamento para os seus contemporâneos, 
porque, como Varnhagen disse algures, o presente não é mais 
do que a repetição do passado. 

O escriptor que se segrega da sociedade para na solidão 
do seu gabinete chamar de novo á vida o passado, com os seus 
personagens, os seus dramas, os seus horrores e as suas glorias, 
e com esse encantamento visa a realizar não só uma prím< rosa 
reconstrucção artística mas uma nobre tarefa de pensador, corre 
muito o risco de falsear sua missão pela ignorância em que for- 
çosamente cabe das necessidades moraes do presente. Para pre- 
venir este mal, é mister conservar o interesse ligado ao mando 
exterior e não se isolar na torre de marfim da especulação mental. 
Varnhagen não podia soffrer das consequências de semelhantes 
circumstancias, porque a sua vida intellectual é inseparável da 
sua vida publica. Com eôeito, não podemos esquecer que se 
foi principalmente, essencialmente um homem de letras, elle 
foi oficialmente um diplomata. Soa actividade neste campo 
não pôde, portanto, ser passada sob silencio. 

A primeira nomeação na carreira veio-lhe em 184.2, de 
addido á Legação em Lisboa, donde passou em idêntica cate- 
goria para a Legação na Hespanha em 1847, sendo no mesmo 
anno promovido a secretario e em 1851 a encarregado de ne- 
gócios. Em Madrid demorou- se até 1858, o que perfaz deze seis 
annos de serviço nas duas capitães da Península, que empregou 
no revolver dos archivos e no preparo da primeira edição da 
Historia G*ral % coroando um monte de pequenos trabalhos Nin- 
guém, penso, se queixará de que durante esse período Varnha- 
gen occupasse seu tempo mais nos cartórios que na chancella- 
ria, ou por outra, que combinasse e mesmo preferisse os estudos 
históricos á fofice diplomática, e os ensaios literários á ociosi- 
dade burocrática; pois não me consta que houvesse então outra 
questão pendente entre as cortes de Madrid e do Rio de Ja- 
neiro, além de umas tediosas reclamações hespanholas por apre- 
samentos de navios, e outras não menos tediosas reclamações 



— 78 — 

brazileiras por fornecimentos não satisfeitos e effectuados por 
particulares a forças estaciom das noRio da Prata, datando todas 
de dezenas deannos e affectas a uma commissão mixta, soado as 
negociações a ellas pertinentes conduzidas pelo ministro hespanhol 
no Brazil. 

Eu bem sei que a diplomacia não se compõe só de nego- 
ciações importantes, felizmente raras ; que o ramerrão é muito 
mais natural, e que o trato constante dos agentes de uma na- 
ção com os representantes políticos e sociaes da outra nação se 
impõe como um dos meios de fomentar as relações internacio- 
naes, de desmanchar quaesquer attritos supervenientes, de tor- 
nar mais intimo o conhecimento dos dois paizes e conseguin- 
temente mais enraizada sua reciproca estima. Vamhagen era 
por demais intelligente e bem educado para descurar esta parte 
necessária do officio, a chamada representação, começando por 
facilmente ganhar pelo seu merecimento de escriptor as boas 
graças dos cultores mais insignes das letras castelhanas de então, 
e granjeando depois entre a aristocracia madrilena a nomeada 
de perfeito homem de salão, a qual tem que ser apanágio com- 
mum dos diplomatas e o é tempre que corre3ponda a uma con- 
dição nacional. 

Em 1859 começou a estada de Vamhagen na America do 
Sul com a promoção a ministro residente para o Paraguay, 
depois de restabelecidas as relações do Império com essa Re- 
publica e de cnncluido o tratado de 12 de fevereiro de 1858, 
pelo qual foi aberto a todas as bandeiras o rio Paraguay «sob 
condições eguaes e mui favoráveis ao commercio geral». Como 
prova de boa amizade acabava outrosim o Governo Imperial de 
interpor seus bons officios para não degenerar em séria diver- 
gência a dissidência aberta entre o Paraguay e os Estados 
Unidos da America, que foi amigavelmente ajustada. Curta foi 
porém a residência de Vamhagen em Assumpção. Abafando 
na atmosphera de sangue e de pavor, qual a produzida pelo 
despotismo do primeiro Lopez, abandonou certo dia o posto, 
sendo em Janeiro de 1861 acreditado em Venezuela, Nova 
Granada e Equador. 

A nossa diplomacia entrara francamente na quadra da sua 
maior expansão. Fechado o cyclo das revoluções que durante 
mais de meio quarto de século tinhao embaraçado o firme es- 
tabelecimento da monarchia nacional, e iniciada a politica de 
desenvolvimento material que pediao o aproveitamento dos 
nossos recursos e a capacidade da nossa producção, o Governo 
Imperial procurava pelo impuípo de ministros como Uruguay, 
Abrantes, Rio Branco, geração de homens de Estado de que 
Cotegipe foi o ultimo grande representante, solver nossas ques- 
tões de fronteiras e assegurar nossa hegemonia no Rio da Prata 
Á applicação de semelhante politica implicava nossa hegemonia 
em todo o continente meridional, e o seu abandono só poderia 
coincidir com o desprestigio e abatimento do Brazil. No pro- 
seguimento dessa tarefa de estreitar os vinculos internacionaes 
na America Meridional, assignára-se com a Republica de Ve- 



— 79 — 

nezuela, a 5 do mato de 1859, um tratado 8 -bre limites e na- 
vegação dos rios Amazonas e Orenoco. O objecto principal da 
missão confiada a Varnhagen era porém «promover a demarca- 
ção da fronteira entre os doas paizes e, para complemento do 
tratado, celebrar o accordo conveniente á navegação fluvial, o 
qual ficara dependente de regulamentos íiscaes e de policia (1).> 
Tendo demais chegado a ajustes com as Republicas limitrophes 
do Peru e Venezuela, pretendia com boa razão o Governo Im- 
perial negociar também um tratado com a Republica de Nova 
Granada (hoje da Colômbia), baseando-?e no uti possidetis e não 
indo mais adiante das questões que tinha a Heapanha com Por- 
tugal per esse lado da fronteira de seus dominios (2), 

A proficiência de Varnhagen em tudo quanto se relacio- 
nava com a goographia histórica e colonial, exarada mesmo em 
algumas memorias sobre nossas questões de limites (3), tor- 
nava- o singularmente apto para a tareia de que fora incum- 
bido. As negociações com Venezuela foram comtudo adiadas 
por circumstancias alheias á sua boa vontade no desempenho 
da missão ; as com Nova Granada, semelhantemente, não 
tiveram andamento, e em 1864 já o encontrámos residindo em 
Lima e acreditado simultaneamente no Peru, Equador e Chile. 

Tinham surgida ppuco antes algumas dificuldades com o 
Governo de Lima sobre a applicação da convenção fluvial de 
22 de outubro de 1858, resultantes da subida do rio Amazonas 
por dou? navios de guerra peruanos empregados também no 
transporte de mercadorias. O incidente fbára resolvido com a 
justa interpretação de que em semelhantes casos es navios de 
guerra se não prevaleceriam das suas immunidades, nem fica- 
riam isentos das medidas fiecaes e de policia, applicaveis, com 
as devidas deferências nacionaes, aos navies mercantes, aos 
quaes, de nacionalidade peruana, era entretanto desde logo 
franqueada a navegação do Amazonas, mesmo não estando 
ainda accordado o systema de policia fluvial e de fiscalização 
previsto no acto internacional. (4) A indiscriminada abertura 
do Amazonas aos pavilhões de todas as nacionalidades, alcan- 
çada mormente pela admirável campanha, ca imprensa, de Ta- 
vares Bastos, cujo saudoso nome vai aqui ser tão justamente 
glorificado, a breve trecho simplificaria muito a natureza e re- 
duziria consideravelmente a importância destas questões, por 
tanto tempo saliente? em nossas discussões internacionaes. Neste 
caso prendiam-sa ellas especialmente com o receio nutrido pelo 
Governo Imperial de que as facilidades concedidas pela Re- 
publica do Peru ao commercio estrangeiro dentro do seu pró- 
prio território, interferissem com a afirmação da soberania na- 
cional no território brazileiro por causa do transito nos rios 
que decorrem das regiões andinas para o Atlântico. Ainda 



(1) Relatório do Ministro de Negócios Estrangeiros, Conselheiro Magalhães 
Taques, 1862, p. 3 

(2) Relatório do Ministro de Negócios Estrangeiros, Conselheiro Bá e Albn- 
qnerque, 1861, pag. 16. — 

(S) Encontram-se inéditas na Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro. 
(4) Relatório do Ministro de Negócios ^Estrangeiros, Marquez de Abrantes, 1864. 



— 80 — 

conservava um resto de vitalidade a politica dos tempos de 
isolamento colonial. 

A's questõe* de facilidades commerciaes na região ama- 
zonica juntaram- se para dar pasto á actividade diplomática de 
Varnhagén ao tempo da sua residência effectiva em Lima ques- 
tões na fronteira e questões de fronteira ; sem que no emtauto 
se mostrasse apparentemente tão absorvente o seu conjancto 
que o impedisse de alli publicar a sua primeira grande defesa 
de Américo Vespucio, conhecida entre oa bibliographos pelo 
Vespucio de Lima, para differençal-o do de Vienna, isto é, da 
ulterior defesa mais detalhada e comprovada. Quando mesmo 
porém ignorássemos as negociações melindrosas que aquelles 
incidentes motivaram, se não poderiam inferir deste facto que 
a vida official de Varnhagén no Peru fora sem graves cui- 
dados, porque, do que se vê em sua vida, elle tinha o privi- 
legio de interessar- se sempre pelos seus queridos assumptos his- 
tóricos a meio das maiores preoccupaçõ s politicas, e até dis- 
trahia-se com o prazer de taes estudos daa contrariedades que 
os outros assumptos pudessem acarretar- lhe. 

No Chile, igualmente o encontramos por esse tempo, em 
plena ebullição determinada pelo conflicto destas Republicas com 
a Hespanha, publicando a sua contribuição, mais tarde reedi- 
tada em allemão (1), para a fixação da verdadeira Guanahani de 
Colombo, memoria apresentada a >* acuidade de Humanidade da 
Universidade de Santiago. O conflicto hispano- pacifico -americano 
daria ensej ■ a que Varnhagén, de ordinário refractário a pôr-se 
diplomaticamente em evidencia, estrieto posto que não passivo 
cumpridor das instrucçoes do seu Governo, se tornasse notável 
por uma communicação official que hinra o seu espirito de 
justiça, confirma a sua independência de caracter e lança viva 
luz sobre o seu americanismo, mas que foi julgada pouco op- 
portuna, incorrecta cu demasiado expansiva — qualquer destes 
três termos parece-me apropriado ao ponto de vi&ta adoptado 
— pelo nosso Ministério de Estrangeires. A nota estava, é quasi 
escusado dizer, concebida nos termos mais cortezes : a lingua- 
gem diplomática dos nossos representantes fora afeita a zelar 
as tradições de polidez e timbrava em seguir os bons modelos. 
O principio alli contido é que não era consoante a politica im- 
perial. O enviado do Governo de Washington, que veio ao 
Rio de Janeiro com o único fim de saudar o Governo Brazi- 
leiro por essa manifestação de fervor americano, achou -se 
frente a frente com uma reprovação delia, e teve de deglutir 
Buas congratulações. 

Consideremos em particular este episodio, o mais inte- 
res>ante certamente da longa carreira de Varnhagén. Acreditado, 
como estais lembrados, nas três Republicas do Equador, Peru 
e Chile, o Ministro do Brazil resolveu mudar sua residência 
para Santiago no momento em que o conflicto cem a Hespanha 
para alli se estendeu da sua primitiva sede. Fora esta em 



(I) Vienna, 186». 



— 81 — 

Lima, sendo occupadas e desocsuradas pelas forças navaes da 
nação purpi'a as ilhas de Chincha, sob o pretexT, tão extra- 
ordinário, que foi desapprovado pelo Gabinete de Madrid, de 
não h«vM- ainda o Governo de S. M. Catholica solemne mente 
reconhecido a independência do Peiú. O Governo Imperial 
declarou então que cfferecena cem prazer a sua mediação aos 
governos dissidentes, e por isto mesmo goardára rigorosa neu- 
tralidade, em suas próprias expressões, não indagando sequer 
de que lado estava a justiça. Do contiicto com o Peru, sere- 
nado e directamente ajustado entre os dous paizes, surgiu 
comtndo o conflicto cem o Chile. 

Varnhagen chegava a Valparaiso no momento em que, 
apresentado pelo almirante hespanhol ao Governo Chileno um 
ultimatum, acabava o corpo diplomático de pôr todo o seu em- 
penho em evitar hostilidades e promover as negociações. A' sua 
chegada communicou lhe o decano daquelle corpo (o Ministro 
Norte- Americano T. H. Nelson) as notas trocadas com o al- 
mirante.» (1) A resposta pela qual Varnhagen se associou ao 
pensamento dos seus collegas, expresso em três notas collectivas, 
é que foi redigida em termos que o nosso Governo entendeu 
não perfilhar, sendo esta espontânea d esappr ovação recebida 
pelo Governo Hespanhql cemo uma prova de não equivoca im- 
parcialidade — de certo adivinhastes que esta phraue de cau- 
telosa redundância é da presa cfficial. O nosso historiador 
tinha qualidades negativas em diplomacia: era um impulsivo 
com rompantes de colérico e que se deixava irstgar por con- 
siderações de equidade e de pundoror. Pira elle a diplomacia 
não era a arte suprema de engulir desfeitas e dirfarçar desaires. 
Achava-a compatível com a franqueza e a honestidade. Repu* 
gnava-lhe mentir, mísmo por couta de outros, e o que era 
justo não via muito bem porque devesse occultal-o. Numa lingua- 
gem mais directa e portanto mais tensa condemnou, como já 
os seus collegas haviam cond- mnado em termos mais emolien- 
tes, porém bastante expressivos, o proceder do Almirante Pa- 
reja em não dar comprimento á letra das suas instrucções, 
procurando um ajuste amigável das difficuldades pendentes 
antes de chegar a um rompimento* (2) 

A referida tentativa dos representantes diplomáticos das 
nações neutras ficou frustrada, e bem assim uma segunda a que 
igualmente se associou a Legação Brazileira, propondo depois 
de rotas as hostilidades a negociarão de um armistício afim de 
convencionar se um ai bit amento. Não terei o máo gosto de 
escolher a occasião não remota em que a Hespanha foi despo- 
jada dos restos ainda dourados do seu opulento património co- 
lonial e para todo o sempre excluida da America como nação 
soberana, para ensaiar nevas variações sobre o conhecido 
thema do bombardeio de Valparaiso. Quiz apenas, em com- 
plemento do elogio ce Varnhagen, recordar a sua attitude 



(1) Relatório do Ministro de Negócios Estrangeiros, José António Saraiva, 1SC6. 

(2) Vide no fim deste trabalho (Nota C) o texto da nota em qnestio, datada de 
9 de Outubro de 1V65. 



— 82 — 

nessa questão, uma das que maior interesse levantarão no nosso 
continente, mesmo porque, na phrase da nota collectiva de 24 
de setembro de 1865 (anterior á chegada do Ministro do Brazil), 
deu-se o caso novo em lei internacional de ser apresentado um 
ultimatum antes de entaboladas quaesquer negociações. Bastará 
accrescentar, para melhor comprehensão dos factos citados, que 
a disposição do Governo Imperial, enxertando-se nas suspeitas 
levantadas e propaladas com a declaração de guerra ao Para- 
guay, se viu habilmente explorada pelos adversários da nossa 
pátria, sendo o seu systema politico culpado de nimia conde- 
scendência para com a monarchia européa, em detrimento da 
solidariedade americana e do bom direito internacional. 

Augmentada a nrssa representação diplomática além dos 
Andes, ficou Varnhagen exclusivamente acreditado no Peiú, 
onde ainda o occupárão os cfferecimentcs de bons cfficios e 
depois os protestos dessa Republica contra o tratado da Tríplice 
Alliança além das queixas motivadas pela forma por que o 
Brazil cumpria a neutralidade na guerra sustentada contra a 
Hespanha pelo Peru e pelo Chile. Por seu turno teve Var- 
nhagen de protestar contra as sympathias mencs discretamente 
testemunhadas em fovor do Paraguay pelo Presidente do Peru. 
Do bulício do Pacifico, a bem da 1 ter atura, fi i o illustre his- 
toriador destacado em 1868 para Vier»na, a substituir Araújo 
Gondim, que pouco antes succedêra a Domingos de Magalhães. 
As lettras e a diplomacia fazião naqnelles tempos como hoje 
muito bom consorcio, e da mesma forma que presentemente 
apontamos para um Joequim Nabuco e um Rio Banco, na 
representação exterior brazileira de então erão numerosos os 
homens como Varnhagen, Ponte Ribeiro, Joaquim Caetano da 
Silva, Azambuja, que se aproveitavão das facilidades oferecidas 
pelos cargos que exercião para estudar nas fontes a nossa his- 
toria e reivindicar nossos direitos territoriaas. 

Na Áustria as questões diplomáticas eram nullas, e Var- 
nhagen pôde empregar o melhor de seu tempo e os dez ulti- 
mes annos da soa vida numa febril producção puramente in- 
tellectual. De Vienna acham-se datadas muita3 das suas c:n- 
tribuições pa:a a elucidação da cartographia medieval e da 
Renascença e da Hist< ria des primeiíos descobrimentos no Novo 
Mundo, que já sabemos quão respeitado o tornarão entre os 
americanistas, não sendo possível escrever hoje a respeito da- 
quelles assumptos sem torrar em consideração suas t bservações, 
sempre valiosas por origiraes, provindo sempre de pesquizas 
pessoaes e não da utilisação do trabalho de outrem. Em Vienna 
preparou as segundas e mais completas edições das Lutas e da 
Historia Geral, e o seguimento desta. Entremeando o exame 
dos antigos globos e portulanos com o compulsar dos velhos 
cancioneiros, que na sua mocidade o havião impressionado ao 
D(nto de extorquirem do seu talento pouco poético o romance 
hútorico em verso por titulo Ccramurú (1), em Vienna forão 

(!) Escripto em quadras de redondilha de 6 syllabas, segando o Diccionario Bi- 
qliogra^hico Brazileiro, 



— 83 — 

publicados o Cancioneirinho coliigido do códice do Vaticano e 
os opúsculos sobre a literatura dos livros de cavallaria. Em 
Vienna finalmente, como se já não bastasse para preenchimento 
de uma vida tão grande succeseão de trabalhos, (1) dirigiu cui- 
dadosamente a reproducção dos rarissirros trabalhos philolo- 
gicos do jesuíta Montoya — Arte, Vocabulário y Tesoro de la 
légua guarani (2) — sobre a qual FerdiDand Denis escreveu 
um dos seus ultimes lúcidos pareceres apresentados á Société 
Américaine de France (31). 

Eis como cooperava para o bom renome da nação que re- 
presentava o Ministro do Brazil na Austra, cuja benemerência a 
tocante a t tença o do monarcha galardoara com o titulo de Barão 
e depois Visconde de Porto Seguro, assim commemorando o 
facto fundamental da b storia brazileira, a descoberta que ac- 
cordou para a vida civilisada o nosso formosíssimo paiz, na- 
quelle que erm tão profundo conhecimento descreveu as phases 
da sua evolução. Repito, é como homem r^e letris mais do 
que como diplomata que Varnhagen será conspícuo para a pos- 
teridade e relembrado na sua pátria, da qual foi o historiador 
até hoje sem rival. 

Num discurso necrologico, pronunciado no Instituto Histó- 
rico e Geographico Brazileiro, dizia o Snr. Joaquim Nabuco do 
nosEO íallecido consoc*io. Snr. Pereira da Silva, que fora um 
aperitivo para o estudo da historia : ao que acerescentava com 
malícia muito académica o Snr. José Verissimo que aperitivo 
sim, mas com a condição de não se ir até o fundo do copo. 
Proseguindo estas comparações suggeridas pela gastronomia, 
poderíamos dizer que Varnhagen foi e continua a ser a peça 
de resistência da nossa refeição histórica, o assado solido, gordo, 
appetitoso na sua simplicidade, pois é cozinhado á velha meda 
portugueza. sem adubos nem temperos francezes, c< m um molho 
leal e nenhum acompanhamento. Desta pe,a, um artista me- 
nos escrunuloso ou mais destro corta uma lasca, condimenta-a, 
guarnece-a de tubaras e do cogumellos e apresenta um novo 
prato, menos substancial, porém grati ao paladar e falsamente 
leve para o estômago. O abuso de taes prates, dizem, todavia, 
os mediccs, que predispõe á gotta, a qual para os dilettantes 
do espirito se chama a impotência creadora. Áquelle que se 
alimenta de comidas nutrientes, mas singelas e sãs, tem mais 
probabilidades de resisti aos annos co m saúde, cemu resistiu 
Varnhagem ás innovações literárias, aos caprichos do estylo, 
ás variações da forma, porque nelle primava a preoceupação do 



(1) E' quasi impossível >rganizar uma relaç.lo perfeita dos livros, folhetos e 
outras publicações de Varnhagen, tantos e tao variados silo seus trabalhos, muitos 
editados j.vqIsos e outros impressos em jornaes e revistas A lista mais completa 
que conheço encontra-se no Diccionario de Sacramento Blake, obra que em muitos 
pontos supre e corrige a delnnocencio, denotando da parte de seu auetor muita consciên- 
cia e rara perseverança. 

(2) Nao deve confundir-se esta reedição de Vienna, 1876, com a que no mesmo 
anno foi feita em Leipzig sob a direcção de Júlio Platzmann. 

(3) < Témoin em quelque sorte des efforts reiteres de ce dernier éditeur pour 
arriver à une parfaite correction de textes, nous aimons à rappeler ici qu'aucun soin, 
aucune démarche n'a été épargnéa par lui pour obtenir une pureté complete dMmpres- 
sion». (Rapport, etc, pg. 14o de 1'Annuaire de 1876). 



— 84 — 

fundo, e porque resolvera manter- se firme á sua concepção 
histórica, que era a indagação do ponto verdadeiro, e obediente 
á ÍMM norma literária, que procedia pela verificação da opinião 
aventada. 

Relevai- me, Senhores, semelhantes comparações culinárias. 
Varnhagem m'as perdoaria, estou convencido, elle que era um 
excellente cozinheiro justamente porque era um coDgummado 
amador da bca meza. Referiu- me um dos secretários que com 
elle servirão na Legação de Vienna que, quando fatigado de 
redigir, nada lhe assentava melhor para espairecer do trabalho, 
que bater um pudim ou compor um pastellão. Note-se que 
os seus pastelões não erão daquelhs cuja concepção e execução 
Mark Twain diz rer um escuro e sangrento mysterio, mas 
producções que Carême perfilharia. Até neste gosto apparece- 
nos elle como a encarnação de ira académico de passados tem- 
pos, porque nós, os de hoje, vivemos tão depresra, andamos tão 
entontecidos pela successão dos acontecimentos e tão ferretoados 
pela ambição de conservarmo-ncs em dia com a evolução das 
ideás e modo de sua expressão, que não temos mais tempo 
para taes desenfados. 

Alexandre Dumas pai, que não foi académico, porém tinha 
em si panno para meia dúzia delles, ainda podia amimar que o 
DitcionaHo de Cozinha que escreveu era o digno remate do 
seu milhar de volumes, e, chagada a ocasião, deleitava-s9 em 
pousar a penna para a f ar o avental branco e tentar a expe- 
riência das suas receitas. Como imaginarmos um Paul Bourget 
ou um Pierre Loti, com todas as suas proceupações p ycholo- 
gicas e perplexidades sentimentaes, entregando-se a uma tão 
des*nnuviada tarefa? Para se achar prazer nesta como em 
outras distracções manuaes, não a exemplo dos gentishcmens, 
francrzes do século findo que por luxo aprendião um officio, 
mas meramente por desfastio como o fazia Varnhagen, o qual 
segundo par:ce, se dava a vários misteres, sendo um habili- 
doso, requerem-se uma alta dose de satisfação profissional, per- 
feito desprendimento de snobismo e ausência de inquietação 
intellectual. Todos estes predicados possuia o autor da Histo- 
ria Geral ; era um orgulhoso, um simples e um forte. Não o 
esqueçamos, nós, os da geração contemporânea, cuja vaidade 
nem sempre é contrapesada pelas duas outras qualidades. 

Tão pcuco devemos esquecer agora, Senhores, que com tão 
louvável afan acabamos de festejar no limiar do século XX o 
quarto centenário do descobrimento do Brazil, e de dar ba- 
lanço ao que temos realizado como contribuição para a hitoria 
da humanidade, que foi, sessenta e quatro annos ha, o dignís- 
simo homem de lettras cuja physionomia moral procurei enal- 
tecer esta noite, quem descobriu jubiloso e piedoso apontou á 
gratidão brazileira o tumulo de Pedro Alvares Cabral, esquecido 
e já ignorado na capelia do i onventD da Graça de Santarém. 
Como não bateria apressado o coração de Varnhagen decifrando 
na lousa gasta pelo perpassar de gerações de crentes, o sin- 
gelíssimo epitaphio do illustre navegador á cuja vista attonita 






— 85 — 



primeiro se desvendarão as opulências da terra de Santa Cruz, 
e agora dorme o ultimo somao na terra que Garrett chamou 
cpatria dos rouxinóes e da* madresilvas, cincta de faias bellas 
e de loureiros viçosos». Recordando com o poeta «que não 
parece senão que a paz, a sauie, o sonego do espirito e o re- 
pouso do coração devem viver ai li, reinar alli um reinado de 
amor e benevolência» (1), é para consolar que a acção terrivel- 
mente niveladora da morte haja confundido as ossadas do na- 
vegador e de pess as da sua tamilia; pois que de outro modo, 
apezar de ser quasi uma impiedade, não poderia resistir a ex- 
primir o voto que me acudiria aos lábios neste momento, de 
que, algum dia, quando formos verdadeiramente grandes, va- 
lorosos, tolerantes e bons, os restos de Pedro Alvares Cabral 
acompanhassem em uma nova peregrinação além Oceano a 
trasladação, reclamada pela voz de um nosso consócio que foi 
um propagandista da Republica, do corpo do Monarcha magnâ- 
nimo que tanto preze u as cousas do espirito e a nação que 
governou, e do da sua santa companheira de throno, modelo 
de to -ias as virtudes. 

Menos do que em Santarém o coração de Varnhagen. não 
exulta neste instante o meu coração, com poder associar o no- 
me do descobridor ao do historiador do Brazil, cuja memoria 
deve ser particularmente cara aos que respigão no mesmo cam- 
po, e a cuja vida honrada e tão exclusiva nente proveitosa, me 
coube prestar o tributo que elle consideraria, posso jurar, a sua 
melhor recompensa porque, ouvindo -o, o acceitou e referendou 
o mais escolhido collegio eleitoral qua poderia devanear um 
reformador do suffragio — um collegio que é a fina flor da in- 
telligencia nacional ! 

A Academia Brazileira vive ainda sem mobília, em casas 
«generosamente emprestadas. Não nos procre u a munificência 
de um carieal-ministro, n»m nos perfilhou o carinhj de algum 
ministro secular, mas amimárão-nos as promessas da represen- 
tação nacional. 

A Academia espera algum dia morar em casa própria • • • 
em um próprio do Estado, que a tanto monta. As bellas letras 
não pjdião decentemente definhar á mingua de protecção offi- 
cial, sob a Republica, na terra que prodigalizou o teu ouro e 
os seus diamantes a D. João V, o inventor da Academia Por- 
tngueza; que agasalhou D. João VI, o fundador da Academia 
de Bellas Artes, e que foi governada durante meio século por 
D. Pedro II, o creador do Instituto Histórico e imperante que 
mais se ufanava de ser eabii do que de ser monarcha. E' ver- 
dade que passámos da soberania constitucional de um só para 
a soberania c> Uectiva e absoluta do Povo. O numero dos pro- 
tectores não deve porém ter feto mais do que crescer na razão 
directa do numero dos reinantes. 

Ficando nós a dever gratidão a tão crescido rol de pa- 
drinhos dispersando-se portanto esse sentimento naturalmente 



(I) Viagem na minha t*rra. vol I 



-86 — 

fluido, corre menos o risco de perier-se a bella independência em 
que vivíamos, e na qual, como Cyrano de Bergerac, podiamos 
exclamar: 

...moi, lorsque j'ai fait um vers, et qua je 1'aime. 

Je me le paye, en me le chantant á moi-même! 

Também seria um mal o excesso opposto. Chega se a certo 
gráo em que o abuso da independência se converte em impro- 
dutividade, em que o espirito tanto blasona de livre que se 
torna anarchico. A convivência nas Academias é, aliás, o re- 
médio mais efficaz para tal perigo, porque reduz os exaggeros 
individuaes de opinião fomentando a solidariedade pelo concurso 
de mutuas concessões. Quando nisto se cifrasse a acção acadé- 
mica já não teria sido inútil nossa organisaçào. Ella, comtudo, 
visa a fins mais positivos. 

Conta Léon Gozlan ou um dos outros satellites que, des- 
pindo Balzac das suas chinelas, da sua bengala, do melhor do 
seu guardo-facto, são os verdadeiros responsáveis da nudez dis- 
forme mal disfarçada pelo famoso rouo&o qua Rodni amassou, 
que na casa das Jardies o granda romancista marcara a giz nas 
paredes os lugares para os quadros de mestres e as tapeçarias 
de preço, nas quaes, uma vez paga a divida torturante, ae trans- 
formarião os milhões produzidos pela publicidade dada ás crea- 
ções da sua imaginação prodigiosa. Esta é, pouco mais ou me- 
nos, nossa situação. Temos planos de grandes trabalhos collecti- 
vos, um programma soberbo para ser levado a cabo por nós... 
e por nossos successores. Ahi raside toda a differença. ttalzac suc- 
cumbiu debaixo da faina gigantesca da Comedia Humana. As 
academias não podem succumbir, mesmo quando trabalhem 
muito, por que os obreiros nunca faltão. Seguem-- e uns aos ou- 
tros, concatenados pela tradicção e pelo ideal commum. Não 
descuremos, porém, o nosso quinhão de trabalho, sch pena de 
sermos em excesso maltratados pelos académicos do futuro. Ca- 
nonizando nesta data o meu padroeiro, a Academia Brazileira 
cfferecsu-se a si própria o exemplo de um labor ininterrupto 
que, como quasi sempre acontece, os poste: 03 recompensarão da 
maneira mais liberal, dispensando a Francisco Adolpho de 
Varnhagen, primeiro e ultimo Visconde de Porto Seguro, o 
merecido epitheto de reformador, no Brazil, dos estudos histó- 
ricos e dedicando -lhe, como diria a linguagem do seu tempo, 
um vistoso altar no templo da Minerva Americana. 



NOTAS 

A 

Ferdinand Denis appellidava Varnhagen por occaisão dos 
seus primeiros trabalhos — -jeune savant, un des p l us laborieux 
et instruits Brésiliens de notre temps. D'ázevac ss3Ím se ex- 
primiu no luminoso parecer sobre a Historia Geral: 

«O livro do sr. Varnhagen é seriamente, conscienciosa» 
mente escripto por um homem que lhe consagrou todo o seu 



— 87 — 

tempo, todas, as suas arTeições, todo o seu estudo ; força era to- 
mar a serio um tal livro... Eis porque revelamos, sob o pouto 
de vista geographico, to ias as imperfeições que nos pareceu 
descobrir neste trabalho, certos de que o autor tem seus estu- 
dos em estima bastante para preferir, ao elogio banal e fácil, 
paginas de critica at tenta como as que traçamos e das quaes 
resalta um testemunho indiscutível do valor que ligamos ao 
fruto das suas vigília*... 

... O Sr. Varnhagen merecia qus assim nos demorássemos 
com o exame do seu trabalho : o primeiro a desejar corrigir-lhe 
as imperfeições, elle revê os capítulos escriptos á medida que 
compõe novos, e emquanto tinhamos em mãos o seu volume, 
mandou-nos uma folha de 16 paginas compactas, formando um 
supplemento inteiramente repleto de annotaçoes rectifícativas ao 
mesmo volume, prova admir&vel do seu amor sincero aos estu- 
dos conscienciosos, tão de molde a despertar em nós para com 
o autor a mais verdadeira estima e a mais real sympathia.» 

Referindo-? e especialmente ás monographias sobre Vespucio 
diz Winsor vol. II, pg 156 da sua obra — Narr. and Crit. 
Hist, of \America : «Os esforços de Varnhagen para eluci- 
dar a carreira de Vespucio forão ardentes, senão a todos os res- 
peitos decisivos.» 

Tratando longamente do mesmo assumpto escreveu o pro- 
fessor John Fiske na sua — Discovery of America: — «The only 
intelligent modem treatise ou the life and voyages of this na- 
vigator is Varnhagen's collection of monographs... Varnhagen's 
book has made every thing else antiquadet, and no one who 
has not mastered it in ali details is entitled to speak about 
Vespucius. In the English language there is no good book on 
the subject.» 

B 

Eis em resumo as contribuições de Varnhagen para a his- 
toria das viagens não só de Vespucio como de Colombo. No 
Bulletin de la Societé de Géographie de Paris (Janeiro de 1858), 
publicou elle as suppostas notas de Christovão Colombo, também 
attribuidfts a seu irmão Bartholomeu Colombo á primeira edi- 
ção da Imago Mundi do Cardeal Pierre d'Ailly. Essas notas 
forão escriptas nas margens do livro, cujo exemplar é conser- 
vado na Biblotheca Colombina de Sevilha. A referida publica- 
ção de Varnbagen offerece tanto mais interesse quanto Pierre 
Margry pretende, para lustre da sciencia franceza, provar a 
inteira influencia exercida pela leitura daquella obra para a 
descoberta do Novo Mundo, com tal intuito antedatando a pri- 
meira edição, ou por outra opinando que existe uma edição 
anterior á geralmente aceita como a primeira. 

No mesmo anno de 1858 publicou Varnhagen em Valência 
debaixo do pseudonymo de Volafan e numa tiragem mui limi- 
tada, uma carta escripta por Christovam Colombo, datada da 
ilha de Santa Maria a 18 de fevereiro de 1493, de regresso 
portanto da sua primeira viagem á America, e dirigida a Ga- 



— 88 — 

briel Sanchez. Voltando a este assumpto em 1869, publicou 
em Vienna um folheto sobre «uma carta de Colombo enviada 
de Lisboa a Barcelona em março d« 1493». Sobre a identidade 
dessa carta com outras variantes conhecidas e coaformidide de 
todas com o original, existe grande diversidade de opiniões e 
levsntou-se desde então controvérsia, sustentando Varnhagen 
e como elle pensa Harriss?, que a carta publicada em Valência 
é o texco que serviu para a traducção latina de Ccsco em 1493, 
a qual serviu por seu turno de texto para as subsequentes edi- 
ções e traducções em differentes linguas que divulgarão o feito 
do navegador genovez. 

Tendo-se occapado de Colombo como annotador e de Co- 
lombo como corresp ndente, Varnhagen não deixou de laio a 
a muito disputada questão da primeira terra em que elle de- 
sembarcou. Segundo sua opinião, a verdadeira Gaanahani é, 
no grupo daí Bahamas, a ilha de Ma iguana. J£' diffieiJ no 
entender de muitos dar-lne razão neste ponto tendo em vista 
o que Gol >mbn escreveu no Diário, que a ilha tinha abundân- 
cia de agua e uma lagoa muito grande no centro dei a, es não 
possuindo Mariguana agua interior. Verdade é que Varnhngen 
não deixa de citar o mesmo Diário em abono da sua hyp<these. 
O resumo por elJe utilisado desse perdido e precioso documento, 
do qual já Las Casas se teria apr>veitado na forma resumida, 
exiBte na bibliothec i dos Duques de Osuna em Madrid. O texto 
de que se serviu Varnhagen é difíere ite do de Navarretn, idên- 
tico este ao de Las Casas, se é que, como pretende Harnsse, 
este nltimo escriptnr não empregou o texto completo. 

No tocante a Vespucio a questão reside era *aber-se se 
elle fez ao Novo Mundo as quatro viagens que são apontadas 
e nas datas alienadas A data da primeira viagem, so retudo, 
é impirtante, porque delia depende o verificar-se o florentino 
foi realmente o primeiro descobridor da terra firme americana, 
quatorze mezes antes de Colombo e uma ou duas semanas an- 
tes dos Cabots. A convicção, não superficial e empirica, mas 
muito estudada, de Varnhagen sobre a veracidade d ssa viagem 
de 1497 é, entre outros, fortemente partilhada e defendi ia com 
grande cópia de valiosos argumentos pelo historiador americano 
John Fiske. Deve mesmo dizer- se que a opinião de Varnhagen 
é actualmente reconhecida de preferencia como a correcta. 
Segae-a também Gaffare (Histoire de laDécouverte deV Amêrique.) 
e a este respeito escreve Fi ke, o qual no seu enthusiasm p^a 
rehabilitação do florentino chega a encontrar novas razões para 
confirmar-se na sua asserção, que foi o gigantesco saber de 
Alexandre de Huaboldt que fez raiar a primeira «luz ciara» 
nas trevas que obscureciam as viagens de Vespucio, mercê de 
um erro typographic > ou alteração ignorante na traducçào de iaint 
Dié, de uma falsificação bem intencionada de Bandini no sé- 
culo passado, e de outras ciivumstancias, mus. Coube, no em- 
tanto, a Varnhagen, desvendando a não authenticidade dessa 
carta de Bandini e deslindando o erro da traducção cie Saint 
Dié, tornar tudo perfeitamente intelligivel. Pode- se, ajunta Fiske, 



— 89 — 

não aceitar todas as conclusões de Varnhagen, mas já não 
existe sombra de duvida sobre a integridade de Vespucio. Em 
verdade, nada ha que prove absolutamente a negativa, como 
nada ha que prove conclusivamente e ifnrmativa, além do tes- 
temunho do principal interessado. O Visconde de Santarém 
baseia sua argumentação em contrario á realidade da viagem 
de 1497 no facto de se não encontrar nos documentos contem- 
porâneos dos archivos a minima referencia ao acontecimento • 
grandes resultados delle derivados. Isto quando Ve3pucio affirma 
na sua carta a Soderini, de 1504, publicada na integra em St. 
Dié em 1507 e cujo original nem se sibe bem em que lingua foi 
escripto — suppondo-se com bons fundamentos que o foi em 
italiano meio adulterado pela residência na península, sendo o 
folheto editado na Itália em 1505-6 — , que a expedição se le- 
vara a cabo por ordem do Rei e que a este apresentou elle, no 
regresso, seu relatório, de que ninguém dá fé. Humboldt, apezar 
de afie coado a Vespucio, também quiz provar, com a autoridade 
de Mufuz e Navarrete e dos documentos por estes publicados, 
que de abril de 1947 maio de 1498 Vespucio, que era sócio da 
casa commercial Berardi, de Seviloa, estava muito ocupado com 
os aprestos da frota, com a qual Colombo realizou sua terceira 
viagem. No justo dizer # de ôydney Gay, este caso tem de ser 
julgado sobre prova circumstancial e é todo de probabilidades 
moraes, variando a sentença segundo as convicções e disposições 
dos juizes. 

A ida de Vespucio em 15<U— terceira das allegadas via- 
gens— occupando uma posição subalterna na expedição man- 
dada por d. Manuel de Portugal a descobrir a passagem Occi- 
dental para as ilhas das Especiarias do Oriente, é que está fora 
de toda a duvida. Essa viagem foi das mais importantes, pois 
explorou a costa oriental da America Meridional desde 5 o até 
38°, e chegou mesmo no mar alto a 52° de latitude sul. De 
semelhante viagem e não das duas anteriores é que resultou 
o ser dado, por proposta de Waldseemuller na Cosmographia eln- 
troductio, impressa em St. Dié em 1507, o nome de America ao 
mundo novo descoberto e percorrido por Vespucio, continente 
desconhecido ao sul do Equador e que para vários entendidos na* 
da parecia ter de commum com as índias, com as quaes permane- 
ciam identificada, as descobertas de Colombo. Na quarta viagem 
Vespucio, em commando de dous navios da expedição, chegou 
até alturas do Cabo Frio, ahi levantando o forte, primeiro es- 
tabelecimento europeu nas terras do Brazil, que no dizer de 
um historiador americano, deveras merecião por esse facto o nome 
de America. 

Varnhagen sustenta que, além das quatro citadas viagens, 
Vespucio fez duas viagens mais á costa norte da America do 
Sul, o que em parte Harrisse quer confirmar. No que Varnha- 
gem discorda de todos os outros prévios commentadores, mesmo 
favoráveis a Vespucio, é quanto ai> ponto onde o navegador abor- 
dou á terra firme por occasião da sua primeira viagem Em seu 
entender foi no cabo Graças a Dios, em Honduras, de onde 



— 90 — 

Vespxicio teria navegado para o Norte até a bahia do Chesa- 
peake tocando na Bermuda no regresso para Sevilha. Desde 
1839 até 1874 Varnhagen mais ou menos directamente escre- 
veu sobre este assumpto, não devendo ser omittidas referencias 
a um folheto cuja tiragem foi apenas de 100 exemplares (Vienna 
1872) sobre a influencia dos cosmographos Schõner e Apianus 
na adopção do nome de America e contendo a noticia dos pri- 
meiros globos e mappas-mundi com esto nome, e a outro fo- 
lheto impresso em S. Petersburgo no mesmo anuo de 1872 
(edição de 40 exemplares,), reimprimindo uma carta de João 
Schoner, de 1523, relativa ao seu globo. O original desta carta 
em latim, encontra-se apenas nas bibliothecas de Vienna e 
Londres. 

C 

« Com os mais expressivos agradecimentos por 

essa attenta remessa (das Notas collectivas), devo em resposta ma- 
nifestar-lhe que, se aqui me achasse, houvera eu tido a maior 
satisfação em associar a minha fim a á de meus nobres colle- 
gas nas ditas três notas. E aproveito esta occasião para accres- 
centar que, havendo resolvido passar da residência do Peru á 
desta Republica apenas me constou, por certas conversações 
havidas em Lima e nas aguas de Calláo, que chegarão ao meu 
conhecimento, que as questões entre o Chile e a Hespanha ião 
provavelmente a complicar-se, jamais concebi a possibilidade 
de uma ruptura em tão poucos dias. Pelo contrario, nunca pensei 
que semelhante ruptura teria lugar antes de se haver o coin- 
mandante da esquadra de S. M. C. feito acreditar devidamente 
como plenipotenciário, por meio da apresentação da carta cre- 
dencial autographa da S. A. Soberana, nem antes de proceder 
de novo a discutir as antigas queixas, já que um decreto e uma 
real ordem havião ante o mundo posto em duvida o bom cri- 
tério do Ministro publico que as havia suscitado, formulando 
reclamações exageradas até contra os meninos dos collegios ; e 
isto no momento em que todo o Chile se alarmava com razão 
ao ver proclamados no território visinho direitos de reivindica- 
ção ; proclamação que envolvia uma verdadeira ameaça de ag- 
gressão, não motivada, á sua independência nacional, e que o 
Governo de S. M C. não tardou em desapprovar. 

Se, porém, cheguei tarde para me associar aos meus col- 
legas no seu nobre empenho em favor da paz e em defesa dos 
direitos da civilisação moderna, resta-me a esperança de que 
os nossos bons officios, ou os dos nossos respectivos Governos, 
quer collectivos, quer parciaes, poderão ainda Eer aproveitados 
logo que o Governo de S. M. C. seja melhor informado, por 
juizes imparciaes e desprevenidos, de tudo quanto recorreu, e 
chegue a reconhecer que esta guerra, que por ora nesta paiz 
mais prejudicial está sendo ao commercio e mbditos estrangei- 
ros que aos próprios Chilenos, decididos, segundo vejo, a sus- 
tentar a todo o transe a sua honra e os seus direitos, poderá 
vir a causar notáveis perdas e damnos á considerável marinha 



— 91 — 

mercante hespanhola, não no Pacifico, mas nas costas da Eu- 
ropa e nos marea das Antilhas. 

Assim o passo a informar mais minuciosamente ao meu 
Governo, que aliás conhece bem os meus sentimentos a respeito 
da mesma Hespanha, onde residi onze annos, durante sete dos 
quaes fui seu representante em Madrid, dando sempre paten- 
tes provas de intentos conciliadores e benévolos e do mais sa- 
grado respeito pela verdade e pela justiça. 

Tenho a houra, etc. 

(A) írancisco Adólpho de Varnhagen, 

(Relatório do Ministro de Negócios Estrangeiros José A. 
Saraiva, 1866, pags. 118 e 119.) 






Biographia de F. A. de Yarnhagen 



PELO 






CONSELHEIRO JOSÉ CARLOS RODRIGUES 

Sócio honorário do Instituto Histórico e Geographico 
de São Paulo 



A Commissão de Redacção reproduz aqui do 
Novo Mundo, jornal illustrado publicado em Nova 
York e que hoje é raramente encontrado, a se- 
guinte biographia do venerável historiador F. A. 
de Varnhagen, quando ainda Barão de Porto Se- 
guro. Esta biographia foi escripta pelo redactor 
daquelle periódico em seu numero de 23 de abril 
de 1873, segundo datas que lhe foram suppridas 
pelo próprio Varnhagen e cem a biographia a 
Commissão reproduz egualmente algumas cartas do 
illustre paulista ao redactor daquelle mesmo pe- 
riódico sobre assumptos interessantes, inclusive esse 
mesmo esboço biographico. 



F. A. de Varaliagen 



Não ha recanto no Brazil com alguma cultura intellectual, 
onde rão seja familiar o nome do historiador nacional por 
excellencia, — de quem até o seu fogoso adversário, o finado 
J. F. Lisboa, escrevia que era «op»i denotsa historia». En- 
tretanto, tendo pcssado quasi todos os seus dias nas outras ter- 
ras da America e na Europa, muito pouco cu pcuco se conhece 
no paiz da própria pessoa do Sr Varnhagen, e nao mais, tal- 
vez, das variadas espheias de suas aturadas investigações lit- 
terariís. 

Não sendo esta periódico exclusive nem especialmente li- 
terário, o pequeno esbcço que vamos traçar, não tem a mira 
em apresentar aos leitores um estudo critico dos trabalhos do 
escriptor. O nosso fim único é despertar a attenção dos cu- 
riosos para esses mesmcs trabalhos e pagar um pequeno tri- 
buto de respeito ao que, mais do que qualquer outro, tem con- 
tribuído para a elucidação da historia do nosso paiz e da do 
Ncvo Mundo, e que, também mais do que qualquer outro nestes 
últimos tempos, tem concorrido a que na Europa se respeitem 
os estudos e investigações literárias e scientificas dos brazi- 
leiros . 

O Barão de Porto Seguro foi o terceiro filho do Coronel 
de Engenheiros allemão Frederico Luiz Guilherme de Var- 
nhagen, que foi quem restaurou as fundições nacionaes de S. 
João de Ipanema, Província de S. Paulo. Ahi nasceu elle a 
17 de Fevereiro de 1816, e não em 1819 como por engano se 
tem pscripto. 

D? pois de começar as primeiras letras no Rio de Janeiro 
passou o joven Francisco Adolpho a estudar em Portugal. 
Ainda residia nesse Reino quando o ex- Imperador do Brazil, 
D. Pedro I, procurava estabelecer a restauração constitucional 
em Portugal. O joven Varnhagen, posto que ainda menor, 
alistou-se como voluntário nas fileiras que sustentavam esta 
causa, e bó depois (1840) foi concluir os seus estudos de enge- 
nheiro militar. Antes, porém, de deixar as aulas académicas, 
já o Sr. Varnhagen revelara gosto decidido pelos estudes ts- 
peciaes sobre o Brazil. Tcmbem aos 22 annos de idade antes 
de concluir o curso, escrevera umas «Reflexões criticas sobre 



— 96 — 

o escripto do século XVI. impresso scb o titulo de «Noticias do 
Brazil», — obra de Gabriel Srares de Souza, publicada em 
1825 pela Academia Real das Sciencias de Lisboa : era tal a 
erudição deste trabalho, e a uovidade e variedade de suas in- 
vestigações, que a mesma Academia admittiu o autor como sócio, 
approvando-o para assnastres classes, sendo que para sua ad- 
missão bastava a approvação para uma delias. 

Um dos cenfores do trabalho foi o celebre literato Conde 
D. Francisco de 8« Luiz que exprimio-se desta forma no seu 
parecer : 

« Este trabalho, que por sua natureza seria importante em 
qualquer outra obra, he de muito maior interesse na presente: 
porquanto sendo ella uma des melhores e mais estimada* que 
no tempo antigo se escreveram acerca do Brazil, e, sendo por 
isso mesmo consultada e citada a cada passo pelos sábios mo- 
dernos que se teem occupado da historia geographica, natural 
e civil daquelle paiz ; cumpre ao próprio credito e honra da 
Academia (já que a sua ediçam sábio tam incorrecta) emendar 
os principaes defeitos que nella se encontram e firmar a-» mesmo 
tempo o genuino titulo, a verdadeira data e o legitimo autor 
da obra, circunstancias que, todas devem concorrer para lhe 
cone liar a ié e autoridade que convém* Isto he o que faz (so- 
gundo e meu conceito) o erudito autor das «Reflexões criticas», 
com bom juizo e discernimento, com estilo claro e conciso e 
cem erudicam curiosa, opportuna e nsm enfastiada». 

Três mezes depois, ainda escrevia o mesmo sábio ao joven 
Brazileiro a seguinte carta, participando -lhe sua admissão : 

«Ulm Sr* — Venho da sessam do Conselho da Academia, 
aonde tive o gosto de onvir ler as censuras das três classes 
feitas á Memoria ou Reflexoens criticas de V. S., todas de uni- 
forme approvaçam. O meu mesquinho louvor ficou a perder tíe 
vista, e eu nam desgostei de me ver excedido em tal matéria. 

Duvidou-se em que classe deveria V. &• ser proposto. Eu 
limitei-me a reflectir que V. S. tinha estudos em diferentes 
classes e que todas as três da Academia estavam pobres de 
gente e todas ganhariam com a sua admissão. Resolveu se que 
devia ser proposto pela classe a que se reputava pertencer 
«particularmente» a sua obia. Consequentemente ficará V. S. 
na classe das Sciencias Moraes e Bellas-lettras nam sei se á 
sua vontade, mas certamente á minha ; que muito estimei que 
V. S. ficasse na minha clasee para illustral-a e enriquecel-a» . 

A referida obra «Reflexoens Criticas» e t8mbem a publi- 
cação do «Diário de Pe--o Lopez» (\ 530-1532) abriram-lhe 
igualmente as portas do Instituto Histórico e Geographico do 
Brazil que pouco antes havia sido fundado. 

Surgiram algumas difficuldades acerca da nacionalidadee a 
que pertencia o ór Varnh;.gen; apenas, pois, concluiu os seus 
estudos, seguiu para o Brazil, afim de sdvel-as de uma uez. 
Chegando ahi, porém achou o espirito publico muito commo- 
vido com a revolução que arrastou a maioridade têmpora do 
Sr. D. Pedro II ; e, não sendo occasião opportuna, seguiu para 



— 97 — 

o interior, onde se achava em 1841, quando, tendo noti ia de 
que seu pai se achava perigosamente doente na Europa, apres- 
sou -se a partir para lá. vqu sào da sua nacionalidade b azi leira 
foi dep- is decidida pelo decreto de 24 de setembro de 1811 e jus- 
tamente nesse dia do anno seguinte, termiaou seu wlh > pai 
uma vida de tanto prestim ) ao B azil. 

Em 184 í o sr. Vcrnhagen entrou na carreira diplomática 
do seu paiz e ao mesmo tenpo f i aduittdo como otficial re- 
gular do corpo de engenheiros, de cuj > posto sedeoaittiu no7e 
annos de róis, por occ*sião de se reorganizar o Corpo Diplomá- 
tico em virtude de dispôs ç\o legisl t va. 

Como Addido e Secretario de Legação o Sr Varnhagen 
foi por seu g. verno encarregado de varia-» commlssõ s nos Ar- 
chivos da PeninsuJa ibérica, o objecto de quasi todf.s elLs, Fendo 
a pesquiza de documentos ác rca drs limites do Brazil. Ao 
mesmo tempo que desempenhava cabal nente estes delicados 
encargos, elle colligiu muitos esclarecimentos historie .>*, que lhe 
deviam ser tào úteis no futuro e também obteve es dados para 
o seu «Florilégio da Poesia Brazileira», de que publicou três vo- 
lumes (1850 1853) em L sboa e Mad id. Esta obra é uma «Col- 
lecçao das mais notáveis composições dos poetas brasileiros fa- 
lecidos, contendo as M ^raphias de muitos delles, tudo prece- 
dido de um Ensaio II s ■•(•rico sobre as Letras no Br zil». 

Antes, porém, de publicar esta rbra, bem como outrt, menor, 
do mesmo género e intitulada «Épicos Brazileiros», o Sr. Var- 
nhagen deu á estampa muitos trabalhos, entre os quaes sobresahem 
uma «Narrativa Epistolar» do Padre Fernão Cardam, Jesuita e 
Missionário no Brazil ; um drama histórico «Amadcr Bueno» e 
o importantíssimo volume das «Trovas e cantares de um Có- 
dice do XIV século», que éo celebre «Cancioneiro do Collpgio 
dos Nobres» editado e illustrado por elle, com muita) observa- 
ções explicativas. Tambam apresentou (cremos que em 1845) 
ao Instituto Histórico Brazileiro uma «Memoria» intitulada «O 
Caramurú erante a Historia», — trabalho este pouco conhecido 
dos criticos, mas cuja importância se pode aferir pelo fruto que 
foi premiado pelo Instituto com um* medalha de ouro do valor 
de 4 r 0$000 — premio, todavia, que o autor cedeu em troe» de 
outra remuneração de ordem mais literara. 

A literatura e a historia não tioham absorvido inteira- 
mente a sua attençào. Ni verdade, no mesmo anno em que o 
Sr. Yarnha en publicava em Madrid as suas «Trovas e Can- 
tares», e desta maneira fac lit>va immensamente o estudo das 
primeiras épocas da literatura portuguesa, elle não se esquecia 
da sua própria pátria, mas dedicava lhe estudos sérios e pr< findos 
sobre o seu prrgresso, governo e administração interna Assim, 
elle cogitou uma nova divisão de prov ncias, e a necessidade 
da mudança da Capital; oceupou se da questão do trafico de 
africanos, qm então ainda exstia, e da «?cra vidão. O resul- 
tado destas locubraçõís se acha consignado em dous pequenos 
folhetos publicados em Madrid em 1849 e 1850 sob o titulo 
«Memorial orgânico», que foi depois transcripto no «Gaanabara» 



— 98 — 

do Rio de Janeiro. Esta3 66 paginas in-8 dos dois folhetos 
reunidos partiram evidentemente do intimo do coração do autor. 

Alguém soggeriu nessa época que a Capital do Brazil de- 
via ser transferida para a Bahia. O Sr. Varnnagen combateu 
esta idéa infeliz : a Capital do paiz, sustentou elle, deve ser 
localizada no interior, como as da Inglaterra, França, Prússia, 
Áustria, Ru>sfa Hespanha e cutros paizes. A situação da Ca- 
pital na costa do mar expõe a Nação a muitos vexames e hu- 
milhações que passam á historia e que bem se podiam evitar, 
estivesse ella no interior do paiz. iíím conclusão, o autor, sem 
lembrar uma cidade para a Capital, instou que se devia desde 
então ir ensaiando qual o local que se poderia escolher em vez 
do Rio de Janeiro. 

Quanto a uma nova divisão das províncias do Brazil, não 
admira que 03 seus limites actuae3 tivessem evocado um forte 
protesto do illustre Brazileiro, então em Madrid. «As provin- 
das do sertão», diz- nos elle mesmo, «foram se creando á me- 
dida que se iam descobrindo mais minas de ouro, e era neces- 
sário por autridades para a cobrança dos quintos ou para pro- 
teger uma n.va casa da moeda... Depois da Independência, 
por vergonha nossa, quasi que não se tem pensado a respeito 
da tão necessária divisão do território». (Pags. 6 e 7, primeira 
parte). Entre outras anomalias, que o Sr. Varnhagen cita, no- 
tamos que ha no Brazl uma povoação chamada c Pedras de 
Fogo», da qual a m*sma rua partence a duas províncias, as 
casas de um lado a Pernambuco, as do outro a Parabyba. A 
.linha di norte do Espirito Santo ainda é exactamente a me^ma 
do primeiro donatária E como estes, ha cutros exemplos. Este 
mal é grsve, e o autor propõe as bases de uma reforma: — Uada 
província devia ter uma extensão de território proporcionada á 
das outras e suficiente população e riqueza para que gozasse 
proximamente de igual importância, — um plrno de certo pa- 
triótico, mas, a nosso vêr, inteiramente irrealizável como é, por 
exemplo, n s Estados Unidos. 

A' cerca da escravatara dos Africanos as opiniões do au- 
tor não podiam ser menos generosas e nobres do que sobre o 
mais que forma o asèumpto do seu «Memeriab. «A escrava- 
tura dos Africmos», diz elle com summa verdade, «torna o 
paiz essravo de si próprio ; pois, como diz o Marquez de Ma- 
ricá, o captiveiro apostema e tortura os escravos e seus se- 
nhores». O remédio que o Sr. Varnhagen propoz para se era- 
dicar este mal ó o mesmo que eó vinte e dous annos de- 
pois f<i adoptado no Brazil depois de muita opposição. Eis 
o que escrevia o illustre Brazileiro em 1849 : — «Cumpre, 
pois, que uma lei declare já quando ficam livres todcs os filhos 
de escravo.» Se naquelle tempo se tivesse adoptado esta idéa 
que tinham os verdadeiros patriotas, estaríamos hoje talvez sem 
um só escravos. O nosso povo, porém, nunca deixou de pro- 
crastinar não só nesta magna decisão, como em quasi todas 
que conduz il-o-hiam a seu maior bem-estar, como por exemplo, 
a reforma religiosa, a da guarda nacional e tantas outras. 



— 99 — 

Continuando agora este curto esboço biographico, vemos o 
Sr. Varnhagen fazendo uma visita á pátria em 1851. Neste 
anno foi eleito Primeiro Secretario do Instituto Histórico e 
Geographico ; quando, porém, prestiva-lhe eminentes serviços, 
reorganizando a bibliotheca, o museu e o archivo, foi despa- 
chado Encarregado de Negócios em Madrid. 

Em 1854 publicou n-nta ultima cidade o primeira volume 
da sua importantissima «Historia Geral do Brazil», cujo se- 
gundo e ultimo volume íjí pub içado, também alii, em 1857. 
Esta obra foi recebida com geral applauso, e deu entrada ao 
autor nas principaes sociedades scieat.ficas da Europa. Algu- 
mas propoBÍ;Õas emittidas nesta obra foram sustentadas depois 
em dous opúsculos. O primeiro, oublicado em Pariz em 1858, 
sob z titab «Examea..., de 1'Histoire Geographique du Bró- 
sil». etc, ó uma aualyse circum3tancuda do parecer que sobre 
a «Historia Geral» foi apresentido á Sociedade de Geographia 
de Paris por M. d'Abezac. O segundo, imprenso em Madrid em 
1867, intitula-se «Os Índios bravos» e c resposta a algumas 
observaçõ3R no «Jornal do Timon» do Sr. J. F. Lisboa, o qual, 
todavia, numa da suas cartas ao autor, o chama de «pai da 
nos : a historia», («Ind. bravos», pag. 63). 

Em 1859 voltou o Sr. Varnhagen á America, sendo no- 
meado Ministro R9sideut9 na Repuolica do Paraguay. Reinava 
então Lopez, o Primeiro, que fez pasmar o representante bra- 
zileiro por suas crueldades e pe a mi-eria que iaflingia a seu 
paiz. O Sr. Varnhagen ficou tào exasperado que preteriu su- 
jeitar- se a uma demissão vindo ao Rio de Janeiro sem licença, 
a continuar a viver em Assumpção. O Governo ouviu a sua 
exposição dos negócios paraguayos com certas duvidas vagas, 
transferiu-o para a Venezuela, Nova Granada e Equador, e o 
instruiu a visitar as províncias do Norte do paiz e as Antilhas 
e dahi mm dar todo o género possivel de informações sobre o 
progresso agricola dessas regiões. A este respeito o Sr. Var- 
nhagen escreveu ao Ministério da Agricultura varias cartas 
sobre o café, tabsco e assucar. 

Ha dez annos, passou no mesmo caracter de Ministro ái 
Republicas do Peru e Chile, e, nessi qualidade, coube lhe a 
gloria de protestar contra a piratica brutalidade tradicional dos 
Hespanhóes. então em hostilidade com esses Governos. Além 
disto, o Sr. Varnhagen protestou em Lima conra o modo por que 
Prado, o Presidente do Peru defendia o Governo do Paraguiy á 
custa da estrieta cortezia que lhe campria guardar para com o Brazil. 

O seu successor, deu. por isso, a mais completa satisfação. 

Na mesma Capital peruana o sr. Varnhagen começou a 
publicação de suas investigações, muito curiosas e originaes, 
acerca do Florentino Américo Vespucci, investigaçõ3s que de- 
pois disso tem proseguiio em Vieana d' Austiia. Estes pro- 
fundos estudos acerca de Vespucci teem feito uma revolução 
no mundo scientifico da geographia e dos descobrimentos. 
Como nossos leitores sabem, por longas eras os Hespanhóes accu- 
saram Vespuc:i de ter querido roubar a gloria de Colombo no 



— 100 — 

descobrimento do Novo Monio. As muito conscienciosas inves- 
tigações do n^sso historiador por excelência, não só em Flo- 
rença, mas na própria America, levaram -no a crer que Ves- 
pucci é um vulto entra o qual a histeria tem sido até aqui 
muito injusta. 

Em uma de suas cartas o navegante fl trentino fala de 
sua viagem á America em 1497 e 1498: ora esta viagem tem sido 
considerada como uma mera ficção, e Humbol lt que já tio fa- 
vorável foi a Vespucci, a ciê muito problemática. O sr. Var- 
nhagen fez uma aualyse escrupulosa dessa carta, e está hoje 
convencido que Américo Vespucci com eff-ito esteve na Ame- 
rica naquelles annos, nas costas de Honduras, Iucatão, do Golfo 
do México e da Florida ; que a sua expedição demorou-se no 
cabo Caíiaveral, aos 28 e 1/2 gr. de lat, n.;qu^, pelacircumna- 
vegação da peninsu'a da Florida e pela rota que seguiu para 
continuar sua viagem para a Europa, aportou nas Bermudas, 
então habitada* por antropi hagos, com qu j m teve de lutar ; e 
finalmente que o acompanharam nesta expedição Vicente Y-.rVz 
Pinzon e Jnan Disz de So'is que eran elles mesmos os che- 
fes da expedição. 

Além disto, prova o s*\ Varnhagen que Vespucci fez mais 
qiat'o viagens á America Na prime ia desta*, ou na sua se- 
seginda viagem em 1499-1500 elle teve p r companheiro- 
Alonzo de Hojeda; então tocaram no Brazil, no moderno Rio. 
Grande do Norte, donde vieram até a foz do Maracaib:>. 

A sua terceira viagem occorreu em 1501-1502 Então 
visitou elle os cabos de S. Roque e Santo Agostinho, a B*hia, 
Rio de Janeiro e entrada do Pratx. Nesta viagem, Vespucci 
ficou convencido que to^as essas t rras eram pai te de um con- 
tinente diverso dos da Europi, Ásia e Africa. A sua quarta 
viagem foi em 1503 sob o commando de Gonçalo Coelho, que 
perdeu doi de seus sei* navios na ilha de Fernando de No- 
ronha e Vespucci então foi tarar ao Cabo Frio e d>hi pas^ou- 
te a Lisboa, onde chegou em maio de 1'04. Final oient^, a 
sua ultima viagem foi cm 1505 quando explorou a esta ame- 
ricana iesde o dit i cano Can iveral até além do Da iano « do 
Atrat . AlêTi destas, o sr Va^nhagen ainda admitt^ a hypc- 
these de uma sexta viagem acompanhado de um Cosa. 

Qaasi todos os críticos como dissemos, não teem acredi- 
tado na primeira viagem, cuja historia por Vespucci o sábio 
Humboldt considerava com uma cópia pervertida da ul- 
terior e v rdadeira narrativa da He 1499 com Hojeda O sr» 
Varnhagen não só prova a veracidade intrínseca dessa narração 
da prime ra viagem, como tampem prova que três annos depois 
da sua publicação, appareceram traducções suecessivas em ita- 
liano francez e latim ; que, por perto de um século, não se 
duvHava de sua authenticidade, até que o historia ior do Rei 
de EU-panha, Herrera, lembrou se de acoimai a de impostura. 
Além d sto o próprio Tolornb) julgara Américo como digno de 
to^a cr fiança ; as honras que Portugal e a Hespanha lhe con- 
feriram em vida eram demasiadas rara um meio subordinado» 



— 101 — 

de expedições, como se prtteade. que foi; e Fedro Maityr, 
PFC-«vmdo a 0« lombo »obre a Bí-hia de Honduras, admitte que 
ja havia sido visitada per outr g, o qm é também confirmado 
por Oviedo na soa «Historia ca' hid a*» 

E?tas inve*t : gaçõ**s do Brazileiro repet mos, teem sido muito 
debatidas na Euroj a, e, talvez mais do que qualquer outro 
trabalho teu t em concorrido para tornar o seu nome ainda 
mti- conhecido. 

Em 1868 o sr. Varnhagen foi tram ferido para Vienoa na 
categoiia de Enviado Extraordinário e Ministro v lenipoteociario, 
posição que ainda hoje preenche com grande honra para seu 
paiz. Nes-a cid de continuou o* seus estudes sobre Vespucci em 
dous opuculos, «NoLvelles R*»chercbes sur les Derniers Voyages 
du Navig teur Flor^ntin, etc.» e «L« premier Vryaga de 
Américo Vespucci définitivement txflqué dans ses détails». 
Além destes dois trabalhos também imprimiu em Vienna, 1869, 
um em língua italiana, Sull' importanza d'un manoscritto iné- 
dito.. . per verificare quale fu la prima I*ola scopeita dal Co- 
lombo, etc». Já no Chile publicara em 1864 nos «Ánales de 
Chile» uma memora sobre «La verdadeira Guaniihani de Cólon» 
(depois traduzida para o AUenâo), provando que a Mayaguana 
e não nenhuma ^as outç*s Lrjoyas imaginadas por Navarrette, 
W. Irvirg, Humboldt e Becker era a Guananani de Colombo. 

Ultimamente o sr. Varnhagen tem estado preparando uma 
segunda edição melhorara da sua «H storia Geral». Em julho 
do aono passado foi fe:to Barão de Porto Se goro. um titulo 
que, recordando o berço da historia do Brazil, lhe apiesentaria 
muito bem, se o distincto Brazileiro Dão tivesse ainda maior 
titulo no s< u próprio nome, já tão amplameLte conhecido de 
todo o muDdo civilizado. 



ALGUMAS CARTAS DE VARNHAGEN 

CARTA DATADA DB SANTOS, 6 DE JANB1RO DB 1841 

«Ulmo. Amigo Firme. Jà lá terá sido entregue duas 
cartas que lhe escrevi; uma de Paranaguá e tutra de Curitiba. 
— Agora vai esta por termo de meu giio. Nada lhe conto a 
este respeito, porque inclmo remetto abertas duas cartas em 
que alguma conta dou emquanto não sou maia extenso para o 
notso Instituto e para o Púbico. — Delias veia que me vejo 
obrigado a ir me embora sem o tornar aLtes a ver e a sua pá- 
tria. — Por isso o pedido que de Curitiba lhe fiz de algumas fruetas 
è agora que ainda tem uai» logar. — Fóde mandal-as entregar no 
Beco dos Barbeiros ao sr. Rodrigues, que elle tem outras cousas 
que me remi ter e vem tudo jui to— Xa Cananea fui examinar 
o Padrão de que fallo a pag. 90 do Diário de Pêro Lopes. 
— E' falso o que diz Cazal de 3e ler ali certo anno, do que elle 
tira um argumento. Não teve nem tçm anno algum especi- 
ficado. Eu fiz disso lavrar um auto com testenuihas que 



— 102 — 

algum dia apresentarei. Parece-me que vou tomando alento 
para o futuro Curso de H storia Pátria. — Dizem-me que a via- 
gem do Bispo Capellão mor está impresãa. — Se assim for rogo 
me arrange algum exemplar ; porque em quanto o não tiver 
visto não me animarei a apresentar ao nosso In:- tituto descripção 
alguma — qdo, já exista imprensa na mma. lingua outra melhor 
e mais exacta. E' por isso q. por em quanto cingir-me-hei a 
escrever p\ Paris uma carta meio gpographica por Via do 
Visconde de Santarém Nisto mesmo ainda estou irresoluto. Já 
ahi chegaria o Bulletim em q. vem a noticia das m' 8 . publi- 
cações ? — Como serão feitas pelo meu rival Visconde não es- 
pero nellas muito favor — No mar pequeno da Cananea vi vá- 
rios sambaquis com caveiras e ossos — ainda meio inteiras cuja 
forma conforma-se em tudo com a deâcripção do tal Elliot de 
Ph ladelphia. Só parece q. foi casualidade o elle encontrar ali 
ossos de homens de maiir estatura — Não sei se terei em S. 
Paulo cartas de V. S\, por isso reservo-roe a per mais extenso 
p a . o correio seguinte. — Não esqueça a carta p\ o Attayde — e 
a outra p\ o Paranaguá do — De V. S a . Amigo Firme. F. A. 
de Varnhagen». 



CARTA DIRIGIDA AO DR. J. C. RODRIGUES — DATADA DE VIENNA, 
1.° DE MARÇO DE 1873 

« DepoÍ3 de haver estado hontem no correio a assegurar a 
m a . carta, com data de ants- hontem, e a franquear o maço de 
documentos impressos e o retrato, que não ponde ser assegurado, 
me occorreu que talvez não possua V. S a . nes?a grande cidade 
nenhum exemplar da m*. Hist. Ger. do Brazil, em cujo 2.° 
vol. dedico uma secção — a 53 a . — aos serviços de meu pai no 
Ipmema, que talvez V. S. deseje conhecer. — Lembrei-me pois 
de enviar a V. S. por empréstimo as folhas adjuntas (já pre- 
paradas para as addições da 2 a edição) que contêem essa secção; 
e as quaes rogo a V. S. me devolva apenas as possa dispensar. 
— Devo aqui acrescentar que em 1858 se gravou prr Csquet 
em Pariz uma medclha de bronze, com a effigie de meu pai e 
a inscripção — Varnhagen Restaurador do Ipanema — á roda, e 
no verso — *Ao dia 1 de Novembro de 1818» etc. — Também 
me esqueceu de advertil-o que o folheto ps. Schorner e P. 
Apiames vae embrulhado em um jornal de Milão, onde V. S\ 
encontrará um folhetim a respeito da nova opera de Carlos 
Gomes — Fosca — que o Comm. dor Lopes Netto me escreve haver 
visto logo em 3 a representação e m tj . applaudida. — E' noticia 
que poderá V. S\ aproveitar p. a o seu inters.' jornal. — Creia 
escusado dizer a V. S. a que do numero onde publique o meu 
retrato e as suas linhas, desejaria eu ter uns 20 exemplares ou 
pouco menos — Sibe V. S. a que fico ás suas ordens como 
Obrg. ... B, do Porto Seguro. 

P. S. Creio ter dito na outra corresp. que em Ag. do 
anno p. p. fora eu aclamado um d^s Vice«Pres. e8 do Cong.° 



— 103 — 

H.co d e g # Petersburgo. — Devia dizer Vice- Presid. c honorário. 
A estampa do Ipanema não requer devolução. Deseulj:e-me V. 
S. ge tomo a liberdade de lh« recommendar que est.* ja preve- 
nido contra os juízos de Adolpbo Coelho e TheophiJo Braga 
contra Castilho e outros seus am. c ". sáão todos apaixonados e 
só p. Bm fazer mal. Eu estive em Port. al , no anno passado e co- 
nheci tcdas essas misérias..*» 



CARTA DIRIGIDA AO DR. J. C. R. — DATADA DE VIEN8A 12 DE 
MAIO DE 1873 

« Illm. Sr. Em meio dos afazeres e apures em que mo vejo 
metido, com a Vice-Prpsid.* da Com.*' Brasil.* na Exposição 
desta cid. e , nomeado á ult.* hora e com os productos enviados 
também á ult. a hora (e que por mercê de Deus deixaram de 
vir no Daufragado vapor Gambie, como havia já sido resolvido) 
recebi as finezas de V. S. patenteadas ao mundo no seu bello 
jornal n. 31 e resumidos lucidam c na sua favorecida de 25 
de Abril. Acredite V. S. Sr. Dr. Rodrigues, que por tudo lhe 
ficarei eternam. e grato. Os ligeiros descuidos que e.-caparam Da 
biographia, o principal ds quaes se reduz a uma data errada 
talvez por falta de compositor, (isto é a de se dizer que fui 
prose guir depois da guerra os estados em 1840, ém vez do ge 
dizer 1834) são de p^uco mom. to para uma comp * periódica. 
O q. não ha duvida ó que devo á V. S. o ter abarcado por 
1.* vez um resumo dos meus disseminados trabalhos. — Com esta 
receberá V. S. o meu rehtorio sobre o Congresso Statistico em 
São Petershurgo no qual tive a honra de representar o Brazil, 
sendo eleito um dos Vice-Presid." O retrato nã r podia sair 
melhor. Fui até logo reconhecido pelo meu filho menor de 4 
annos de idad. e . Preferia que tivesse sido com o brazão, pois 
deve ser reformado em confi rmid. e das regras heráldicas depois 
do ftulo que me deram; mais assim mesmo deverei a V. S. 
novo favor se me puder dar a gravura, pcis a darei na 2.* 
edição da m.* Histor.V — A resp.° desta rego a V. S. que se 
não esqueça do cap.° com margers, que lhe mandei a resp.° de 
meu pai; pois é o em q destino por os assentam. 08 p. a servir 
a compor a 2.* edição. Repito a V. S. es meus mais sinceros agra- 
decim c " t e peço que creia q. terá em mim um grato patr.. V. de Perto 
Seguro 

P. S. — Creio escusado dizer que me constituo, per pra- 
zer e per gratidão, assignante do seu import. e Novo Mundo 
pmqu. to elle dure. Mas não tenho agora tempo de dar provid." 
e, a os pagamentos. Não poderei fazel-o em Hamburgo?» 



CARTA DIRIGIDA AO DR. J. C. RODRIGUES. — DATADA DE VíBNNA 
9 DE ARRIL DE 1874 

< Meu caro Sr. Redactor : Espero que me desculpará a 
resolução que tomei de preferir confiar a V. S. a publicação 



— 104 — 

da m. a desafronta coi tra os taes pseudc-critícos portuguezes, a 
qual com esta lhe lemetto. — Por pouco q V. S. a se entregue 
ao estudo da questão, reconhecerá que tenho carradas de razão, 
que n*ceesito, de*de já, de um protesto justificativo, e que este 
protesto, a não ser um livro, que agora não posso escrever, não 
pode ser senão no es-tylo em que vae. Inteire-se V. S. a das 
gratuitfs e ingratas accusaçõ-»s que recebi, da minha l. a resposta 
(Provarás), para o caso bast. te cortez e moderada, da iosana 
violência com q. depois disso fui aggredido e medará toda a 
razão. Não chego, poiém, a pedir q.e m'a dê nas suas linhas 
de cabeçalho, se preferir manter se fora d* questão; mas a 
publicar a minha carta, porq.to ba não a acompanhe de ( ensura 
contra mim. Então antes não a publique. Creio que poderia 
manter um te» mo me io informando os seus leitores da verd.* 
e lamentando os preced. tes que me obrigam a essa carta Nos 
aoontameDtos juntos reuno algumas frases que penso poderão 
satisfazer a esias condições; mas tudo quanto vier de mais a 
meu favcr aceitarei com o maior reconhecimento. — Em todo o 
caso, de novo peç » a V. S. a que se ponha em guarda contra 
es artigos dos taes dois sujeitos, coo forme creio que já em outra 
occasião lhe escrevi. Na literatura portugueza um e outro quasi 
não têm por si mais que a si mesmos, elogiando o Sr. Coelho 
as obras do Sr. Brag* e o 8r. Braga as do Sr. Coelho, tó se 
não veja a tal Bibliograj hia Câtica que parece já morreu. 
Requiescatin pace. A minha carta não lhe occupará qd. muito 
mais que uma columna do Novo Mundo. A m. a letra, p. a sair 
um pouco mais clara, como pede a imprensa, alarga muito. — 
Da l. a Ed. da Hist< ria das lutas com os Hollandezes (1630-1654), 
que acaba de fazer se em Lisboa em bom typo e papel, volame 
grosso de 8 gd. e , ainda tão recebi nenhum n" e lhe manda- 
rei um q. do cheguem: o mesmo q. do se apromptem as ntvas 
pags. acerca de Américo Vespucct O mais promettido irá tudo 
acompanhando esta, em pacote separs do de impressos. — Tenho 
continuado a lêr com interesse o Novo Mundo, e em prcva de 
interesse, vou expor-me ao desagrado dando-lhe um conselho 
amigável Evite V. S. a no seu aliás claio e bailo estylo, tanto 
quanto puder, o demasiado emprego dos pronomes pessoaes e pos- 
sessivos, ruçando na minuta tod* s os que se poderem dispensar; 
e ainda mais a repetição frequentíssima (á franceza) do pronome 
um, p. ex. : Fulano de tal, um homem de raro talento, etc. 
Porque não simplesm. 6 — homem de raro, etc. ? — Perdoe o atrevi- 
mento de um velho, que se confessa de V. S. a m. t0 reconhe- 
cido e O CP. S guro.» 

Acompanhada da carta a que se iefere acima, a qual con- 
fcta de 6 pags. grandes. 

CARTA DIRIGIDA *0 DR. J. C. RODRIGUES — DATADA DB VIBNNA, 
31 DB OUTUBRO DB 1876 

« Illm mc> Am. e Sr. Tenho demorado a resposta da sua 
ult.*, poTq. o meu enquadernador, ou antes brochador, me esteve 



— 105 — 

continuamente enganando a resp.° do pr^zo em que daria uma 
nova porção de exemplares brochados que agora promette para 
esta semana sem falta — SatisfazenHc a t-ua pergunta direi que 
eu me referia a 6$ fracos cada exemplar do papel oid°, pago 
á vista, ou 8$ do mais fcrte e tino. Mhb como os livreiros que- 
rem sempre ganhar pelo menos 33 c / y p * o publico não se 
poderão dar a menos de 1?»$ os finos e 10$ os menos incorp*dcs, 
como o que lhe mandei. — Assim espero me eh guem os exem- 
plares, prepararei deles uma pequena caixa que lhe remetterei, 
p.* ahi os vender de uma vez ru os fazer por á venda. Como 
ahi se dá tanta impcit ao p pel e luzimeoto das edições irão 
só d' s de papel incorpado, de a 18$ avulsos, e por conta da 
venda futura lhe p j ço tenha a bondad. de mandar abinar as 
quota» de transporte: mas não admitto que seja V. S.' quem. • 
es ex. e " que lembra ermo os de con... cfferecer aos Srs. Whi- 
tney e Rohrig e á Nation, para concorrerem á venda cada um 
com um artigo pelo menos. Rogo a V. S.* tenha a bsndade de 
côerecer esses três ex e " da m.* rarte. Espero que com o pro- 
dueto da venda de alguns exemplares me ficará ahi com V. S.* 
credito para as assignaturas do Novo Mundo nos anni's seg " — 
Por esta ocetsião lte mando pxra este seu vlioso jornal dois artigos 
que creio poderão c noerrer favoravelmente ao desenvolvimento 
de duas industrias importantes do nos?o paiz. Um é respectivo 
ao segredo acercada sementeira das plantas do matte: e ooitro 
aconselha que se fxper. mente entre rosa cu tura do vinho nos 
sertões do norte, onde ch r »va menos « h»ja menos orvalhos. 

Na Rússia fei o imperador recebido cem enthusiasmo não 
menor que nessa Republica : urrah» e arcos triumphaes au roi 
citoyen. Nem sei como a policia c^nsen tio 

8aba V. S.* quanto sou seu ven. ir , am.° e obr.° — Porto 
Seguro. 



Os limites da Capitania de S. Thomé dos Campos dos 

Goytacazes; os primeiros povoadores da Capitania; paulistas 

sesmeiros e fundadores da villa da Praia 



PELO 



Dr. Alcibíades Furtado 



Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geographico de São Paulo 






Os limites da Capitania de S. Time dos Campos dos Goytacazes; 

os primeiros povoadores da Capitania; 

paulistas sesmfiros e funda dares da Tilla da Praia 



A capitania de S. Thomé ou da Parabyba do Sul foi uma 
das primeiro concedidas, s a ndo controversa a data da sua cou- 
ce são ao donatário Pêro de Góas da Silveira, irmão íe Gabriel 
e de Luiz de Góes, fundadoras do seguado engenho de a?sucar 
que houve na capitania de S. Vicente. 

Tem-se fixado a data da concessão em 10 de outubro de 
1532, 28 de agosto de 1535, 10 de março de 1534; conforme 
o primeiro parecer, Martim Affonso, qie tinha alvará com au- 
toridade para conceder sesmarias, terit concedido uma a Pêro 
de Góes, antes de seguir para o Rio da Prata, e portanto, antes 
das que concedeu a Ruy Pinto e a Francisco Pinto. Exste, 
porém, a Carta Regia de 28 de janeiro da 1536 e a qnal se 
reporta a um alvará de lembrança de 10 de março de 1536 e 
os f»raes de 29 de fevereiro e de 1 de marco desse mesmo 
anno, mercê de D. Jcão III. 

Pêro de Gó s, de volta da índia, para onde fora em ja- 
neiro de 1530, conforme o testemunho de chronista de D. João 
III. veio em 1531 na segunda armada que velejou no Brazil, 
com Martim Afionso. Tornando esta á Eu -opa, ficou no Brazil 
o dito Pêro, como se deprehende da carta de doação passada 
na data acima indicada. 

Os qne deram a ccnces-ão da sesmaria de Góes oriunda de 
Martim Aftmso fundam-se em Gaspar da Madre de Deus, que 
refere a assignatura de concessões de sesmarias feita nos cam- 
pos de Piratininga. 

Félix Azara menciona a presença do commandante Pêro 
de Góes em 1534, em Igua, a 24 léguas de S. Vicente num 
combate com Rui Mosquera e outros hespanhoes que ali se ti- 
nham estabelecido, depois de abandonarem o force do Rio da 
Prata. 

Como qner que sej«, a data da concessão foi a da Carta 
Régia e a mercê de 30 léguas de terras, começadas a 13 le- 



— 110 — 

guas de Cabo Frio para o N. até o baixo dos Pargos, como 
remate e fxtrema da capitania do Espirito Santo. 

Os limites de3ta capitania de Vasco Fernandes Coutinho 
com a de Góes foram accordados pelos dois donatários. A de- 
marcação foi approvada pelo rei ; carta de Almeirim, em 12 dé 
ma*.ç3 de 1543. 

( em que concordaram e accordaram que a terra do 

dito Pêro de Góes começa donde acaba a terra de Martim Af- 
fonso de Souza pela sua demarcação, correndo para a banda do 
norts até vi<* entestar com a terra do dito Vasco Fernandes e 
que partem ambos por um rio que tem na bccoa á entrada de 
umas ilhotas de pedra e de baixa mar e dahi cobre um outra 
ilhota mais pequena, o qual rio se chamava na lingua dos Ín- 
dios Tapemery, e os dites Vasco Fernandes e Pêro de Góes 
lhe puzeram o nome de Sanía Cathsrina e esti em altura de 
21 graus e obras de duas léguas pouco mais ou menos de uma 
terra do dito Vasco Fernandes que se chama Aguapé, e fica 
todo o dito rio com o dito Pêro de Goe?, e cortando da banda 
do dito rio pelo sertão a dentro parte o dito Pêro de Góes com 
o dito Vasco Fernandes Coutinho, segundo a forma das suas 
doações ficando todo o dito rio com o dito Pêro tie Goe3 como 
dito é, tomando para a banda do sul, e o dito Vasco Fernan- 
des fica da banda do dito rio para a parte do norte, segundo 
tudo mais inteiramente é conteúdo e declarado em uma Minha 
provisão e Apostilla que está ao pó da doação que o dito Pêro 
de Gces de mim tem da dita sua Capitania que é feita a vinte 
e seis dias do mez de Março do armo de quinhentos e trinta e 
nove ; e ora o dito Pêro de Góes me apresentou um assignado 
do dito Vasco Fernandes que é do theor seguinte; etc. ...) 

Temes neste documento ritmado pelo rei na data teima 
dita o acordo pelo qual as partes fixaram o rio Tapemery, que 
passaram a chamar de Santa Catharina para limite das suas 
capitanias', limite que era pela carta de doação de Pêro de Góes 
o baixo dos Pargos. 

A carta regia de confirmação da demarcação de Vasco Fer- 
nandes Coutinho e de Pêro de Góes é datada de Almeirim a 
12 de Março de 1543, e foi registrada no Liv. 6, fls., 51, v., 
da Chanc. de D. João 3. 



O rio Itapemerim, figura no mappa que acompanha o. Rasão 
do Estado do Brazil com a sua orthographia antiga Tapemery ; 
como adminiculo do gutural. Ai características indicadas no 
documento acima transcripto dão a distancia de duas léguas que 
era a do rio ao lugar Aguapé e a altura de 21 graus. Ha um 
morro denominado Agá, morro de forma arredondada perto de 
Itapémirim. Quatro léguas ao norte de Itapémirim ha uma angra 
e povoado actuai chamado Aghá. 

(Aguapé ou ig-uapê. significa) (rio de uapô) ; ig,-agua, rio 
etc; uapê, ninféa, cujas folhas sobrenadam nos rios e lsgos, 



— 111 — 

Segundo o padre Figueira, pé, pê, corresponde a lugar 
onde, ao in latino, com ablativo, nos verbos de quietação). 

Os portugueses contavam o grau em 18 léguas ou 72 mi- 
lhas, correspondendo três léguas a dez minutos. 

Pêro de Góes estabeleceu-se na foz do Cabapuana ou I(a- 
bapoana, que, então, se chamava Managé e que no mappa da 
Int. ria delle guerre dei Brasile (1698) se vê escripto Manaié» 

O rio de Managé. segundo Gabriel Soares, era a 21 graus 
e a cinco léguas de Tapémirim. 

Na carta de Fernão Vaz Dourado (^1571) se vê o Rio de 
Managé e mais ao sul delle o nome de Pêro de Góes, o que tem 
induzido alguns a snppor, que no Parahyba ó que se estabe- 
leceu o donatário ; erro manifesto, porque então, outra era a 
configuração da foz deste rio, cnde seria impossível navegação 
differente da que, durante muito tempo, usaram 03 moradores 
do Parabyba, que re:ebiam na barra do Assuzinho as cargas 
transportadas da Barra Sêcca pela Valeta. 

As canoas ficavam nos alagados ou Brejo de Dentro. 

Ora, era esse o lugar mais impróprio para um estabeleci- 
mento agrícola ; e nem poderia corresponder semelhante lugar 
ao que descreveu Pêro de Góes numa das suas cartas. 

* 
* * 

Vaga que foi a capitania pela deixação de Gil de Góes, (1) 
como te exprimiu a Carta Régia de 17 de julho de 1674, con- 
cedeu D. Pedro II dez léguas de terras a João Corrêa de Sá, 
general do Estreito, e vinte ao seu irmão Martim Corrêa do Sá, 
primeiro visconde de Assêza, na antiga capitania de Pêro de Góes. 

A sesmaria dos Assêca?, pois que, por merte de João Cor- 
rêa de Sá, o suecedeu na sua sesmaria o visconde herdeiro do 
morgado, teve os mesmos limites da primitiva, dos Góes; aoS. 
o campo de Iriry, isto é, treze léguas contadas das pescarias de 
Cabo Frio, remate da capitania de Manim Affonso, e ao N. o 
lugar dos Pargos, ou o Rio de Itapémerim, que os primeiros 
donataiios chamaram de Santa Catharina. 

Já anteriormente tlgamas terras tinham sido concedidas 
pelos procuradores de Gil de Góes e de João Gemes Leitão (2); 
assim, deu-as o governador Mart m de Sá. (7.° governador) aos 
índios do Cabo Frio, a 1 de agosto de 1630. 



No mappa do Padre Jacintho Domiogos Capassi (1731), 
vê -se a linha divisória e os marcos da sesmaria do visconde de 



(1) Vide a NOBILIARCHIA PAULISTANA de Pedro Taques DE ALMEIDA PAES 
LEME, na Revista do Instituto HUt. e Geographico do Rio. vol. XXXIV sobre Affonco 
Gayas. pags 68 e 69 — J0S0 Gomes Leitão era filho de D. Cecília de Góes, casada 
com Domingos Leitão. Era elia filha de D. Catharina e de Luiz de Góes, irmão de 
Pêro e de Gabriel de Góes, e tendo viuva Ca dita D. Cecília) se recolheu i Lisboa, 
em 1580. 

Também o pai dos Góes, Pêro, Luiz e Gabriel tivera o nome de Gil, como so 
vê na Chronica de D. Joilo III, de Dami&o . 

(2) Vide nota acima. 



— 112 «r 

Assêca. Nesse anno, por determinação de Luiz Vahia Monteiro, 
governador do Rio de Janeiro, o ouvidor e corregedor geral da 
comarca, dezembargador Manoel da Costa Mimoso, procedeu a 
medição e demarcsção e tombo da capitania, fazendo por essa 
occasião remover o marco divisório do sitio Carapebú*, onde o 
encontrara, para o sitio do rio Macahé; e assim, extremou-se a 
jurisdicção do visconde da que assistia ás justiças de Cabo 
Frio. 

Por ser difficil collocar o marco no seu verdadeiro ponto 
que tra ao fim da medição das terras de Cabo Frio, que era no 
Campo do Iriry, firmou se o marco dentro da fazenda de Bant' 
Anta, ao S. do rio denomirado dis Bagres (Macahé), confronte 
á igreja da dita fez n da. 

Segundo Baltbazar Lisbca, desde a p^s?e de C«nstantino de 
Menelau os campos dos Goytacazes até Gurapémerim, uaquelle 
tempo Santa Catbarina de Mós. até o anno de 1675 estiveram 
sujeitos á jurisdicção de Cabo Frio e o vice rei D Vasco de 
Mascarenhas, em 1639, expediu o regimento que se observou 
até aqnelle anno de 1675 

Os tab9lliães iam á Santa Catharina de Mój, na quelle tem- 
po, lavrar efcriptuias. 

Por ordem do ouvidor do Rio de Janeiro, em 24 de de- 
zembro de 1674, creou-se um Juiz para os Campes. 



Entre os primsiro3 povoadores e sesmeiros dos Campos en- 
contram se paulistas 

Como se disse, a capitania de Martim Affonso fi:ava-lhe 
vlsinha. 

A Carta Régia de 14 de março de 1702 ordenava que se 
repartiãfe igualmente entre os paulistas e os moradores do Rio 
de Janeirr os campas geraes doa Goytacazes. 

Em 1711 estabeleceu -»* na villa da Praia (hoje S. João 
da Barra) Francisco BICUDO, chefe duma bandeira que andava 
a captivar gente nas Minas. Casou-se na dita villa e ahi deixou 
descendência. Ignacio BUENO FEIO, originário de S. Paulo, 
onde nasceu em 1681, também casou nesta villa e deixou lu- 
merosa família. 

Deparamos em Itapémirim os BUENO Caxangas, (Caxan- 
gas do nome da sua fazenda) Domingos de Freitas BUENO 
Caxanga foi o que primeiro" estabeleceu engenho no Itapémi- 
rim. Pedro BUENO fundou a igreja de N. S. do Amparo da 
antiga povoação do Caxanga. hoje Itapémirim. 

Pessoas desta íamilia exploraram es minas do Castello e 
fundaram os núcleos de povoaçcns daquelles sítios, entre os qu&es 
o de N. S. da Conceição, cuja matriz elevaram 

As minas do Castello ou do Caxanga são situadas a 30 
k'lometros de Itapémirim ao N. dos Campos dos Goytacazes. 

Para aqiellas paragens levaram paultistas o primeiro gado 
que ali houve o qual foi de Uabo Frio e provinha de Piratin- 
ga ou S. Paulo. 



O PADRE FEIJÓ' 



PlULO 



DR. EUGÉNIO EGAS 



Sócio effectivo do Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo 



O PADRE FEIJÓ' 



(ESTUDO PRELIMINAR) 

A 5 de julho de 1842, o padre Diogo António Feijó era 
intimado netta capital paia. dentro de três dias, retirar-se para 
Santos e alli aguardar o primeiro vapor, que o conduziria ao 
Rio de Janeiro. A notificação fora feita em termos ásperos e 
positivos. Feijó deu -lhe» resposta altivíssima e resolveu obede- 
cer. Seu companheiro de viagem e de infortúnio, o senador 
Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, embora vulto proemi- 
nente de nessa historia, não possuis, entretanto, aquella cora- 
gem, aquella energia formidável, aquelle desassombro incrível, 
aquella tenacidade indomável, que fizeram de Feijó o notável 
ministro d» Justiça de 1831 e o dedicado e patriótico regente 
de 1835-37. 

Feijó fortalecia a independência de seu caracter e a fir- 
meza de sua3 resoluções no teu estado tacerdotal. Só, sem fa- 
mília, fem fortuna, sem ambições, resignado á sua sorte, co- 
nhecendo a fundo rs homens e as coisas, tendo chegado aos 
mais elevados postes da politica, o padre Feijó reunia em si 
qualidades excepcionaes de lutador. 

Campes Vergueiro, chefe de numerosa e preclara família, 
proprietário abastado e capitalista conaiuerado, era obrigado a 
transigir e a encarar os hemets e as ccisas sob outros aspestos. 
Fci provavelmente no vapor «Ypiranga», que então fazia a 
carreira de Santos ao Rio, que os dois senadores e amigos, 
cem pemamentos diversrs, seguiam rumo do n^rte para soffrer 
a punição imposta aos chefes da sedição de 1842. Feijó, velho 
e alquebrado, paralytico, quasi tem poder caminhar, viajava 
recostado em sua careirinha. Vergueiro, forte, sadio caminha- 
va de um lado para outro no cm vez da pequena embarcação. 

E todas as vezes, que passava junto do Eeu companheiro, 
parava e exclamava : 

— «Que será de nós, Feijó?» 

O paralytico ouvia, sem lhe dar resposta; mas, cemo a 
pergunta se tornasse impertinente, por assas repetida, o velho 
sacerdote, num f ssomo inesperado, exclama : 



— 116 — 

— «Não rei. Se eu fosse governo mandaria enforcar os 
chefes da rebellião.» 

E ambos recolheram-se a completo silencio. . . 
E quem era este padre que, velho e paralytico, ainda tanto 
receio infundia ao govrno g*ral, e, principalmente, ao gover- 
no provincial, então confiado ao barão de Monte Alegre ? 

Era o grande paulista Diogo António Feijó, nascido em 
dias do mez de agosto de 1784 nesta catital, na freguezia da 
Cotia, na fazenda denominada — Sitio Grande — , que foi con- 
fiscada aos jesuítas e depois pertenceu a Bento dos Santos 
Pereira. 

Foi na Sé de S. Paulo que o vigário coadjutor o baptiaou 
a 17 de agosto do mesmo anno de 1784. 

Feijó ordenou- se em 1803, leccionou latim, rbetorica, phi- 
losophia e moral em Parnabyba, Itú e Campinas. 

A sua vida sacerdotal foi exemplar, e as suas )içõe3 eram 
ministradas ars moço? e rapazes das melhoras famílias do 
tempo. Foi em Itú que teve inicio a carreira politica daquelle 
que, mais tarde chegaria a ser o chefe supremo da nsção 
brasileira Em 1821 foi eleito denutado ás c r rtes p^rtugruezas, 
tomou assento em fevereiro de 1822 e fez a sua estréa [na 
sessão de 25 de abril. 

Antes de partir para Lisboa consultou ao governo brasi- 
leiro qual deveria ser a attitude dos deputados nacionaes se, 
porventura, no parlamento em Lisboa se discutissem assumptos 
que interessassem á independência do Brazil. 

De Lisboa fogiu com seus companheiros de deputação 
para Falmouth, fuga originada pelas graves des^ríerse amea- 
ças de morte que os prrtugueze* desenvolveram contra os bra- 
zileircs a propósito de vibrante e atrevida apostrophe que 
António Carlos atirou em pleno parlamento á fac^ do povo 
portuguez Em Falmouth os deputados baaileircs pubHcaram 
um manifesto explicando o seu procedimento. 

Proclamada a nossa independência, Feijó foi eleití depu- 
tado á constituinte e teve egualmente assento na Assembléa 
Geral na primeira e na segunda legislaturas. Foi em 1827 
que se apresentou n celebre projecto abolindo o celibato cleri- 
cal para os padres brazileiros. Ecq 1831 Feijó foi ministn da 
Justiça, revelando grande energia, enorme actividade, cmmo- 
vente desinteresse pessoal, conseguindo elle próprio, em pessoa, 
na praça publica abafar um d<s graves motins que se deram 
no Bio de Janeiro. 

Teve assento no Senado como representante da província do 
Rio de Janeiro. Foi eleito Kegente do Império, elevado cargo 
que exerceu de 12 de outubro de 1835 a 19 de setembro de 1837. 
Renunciou espontanei e corajosamente a Regência, declarando 
cque a sua continuação no poder não podia remover os males 
públicos, que cada dia se aggravavam por falta de leis apropria- 
das». Em 1842, para salvar amigos, toma parte na revolução 
chefiada pelo coronel Rafael Tobias de Aguiar, saindo de sua 
fazenda em Campinas para Sorocaba, onde chega, assume a 



— 117 — 

direcção do m< vimento, em cujo triumpho não acreditava, e 
pratica actos de indomável coiagem, dando ao mesmo tempo 
conselhis de inestimável valor. Quando o barão de Caxiaa 
cerca Sorocaba e lan ;a sua ordem do dia decretando a depo- 
sição das armas e a capitulação sem c x-di^òes, o povo em massa, 
os chefes tem exiepçao, os guardas mcionaes em peso, cjrrem, 
escondem- se, fogem espavoridos, em absoluta desordem, por 
todas as ruas, de to tas as casas, para todas as es i raias livres, 
num medo irresistivel. . . E' o aalve-ge quem puder! .. Feijó, 
calmo, sereno, firme em seu posto voluntário debruçado na ja- 
nella da casa da rua das Flórea, residência do alferes João Ne- 
pomuceno de Souza Freire, cimo uma sentinella perdida no 
meio daquelle deterto cm que Sorocaba se convertera, gritava 
acs que fugiam numa anca indescriptivel : 

— «Correi, correi, camba. a de sem vergonhas l Eu aqui 
fico para vcs defender !. • . » 

E quando as forças de Caxias desbarataram, na Venda Gran- 
de, a legião libertadora, o rebelde Reginaldo de Mo.aes SUles, 
homem valente e leal. recebeu dos seus «amaradas a arriscada 
incumbência de ir a Sorocaba dar a Feijó a triste noticia e 
pedir-lhe conselho?. 

O padre Feijó ouvej-o attentamente e diz: «O desastre 
da Venda Grande importa o tiiniquillamento completo da se- 
dição. Resta agora comprometi r o mui r numero possível de 
pessoas qualificadas para forçar uma pr.impta amnistia! • . 

— Ide. e transmitti o meu conselho aos nossos amigos l » 
Em julho de 1842 é dep rtado para o Rio, Dão desembar- 
cando porque o transferem pa-a o Esp rito Santo. 

Apresenta sua defesa ao Senado. Regressa pa a S. Paulo, 
cnde falleceu ás 9 horas e 20 minutos da noite de 10 de no- 
vembro de 1843, contando 59 annos de edade. Seu corpo foi 
embalsamado, seu coração guardado numa redcma de vidro. E 
recolhidos num caixão de chumbo, enter-ados a 12 do mesmo 
novembro de 1843 no jazido da Ordem Terceira do Carmo, de 
onde foram tão preciosos despojos transferidos para o con ento 
de S. Francisco, jazigo da Ordem Terceira de S. Francisco da 
Penitencia, corro se vê de>ti documento: 

«Secretaria da Ven. OrJem 3 a . de N. S. do Monte do 
Carmo 

Cidade de S. Paulo, as 25 de janeiro de 1908. 

Certifico de ordem do caríssimo Irmáo Prior, que revendo 
o livro de Termos das Resoluções das Mesas simples e Redondas 
sobre acontecimentos e negócios extraordinários da Venerável 
Ordem Terceira de Ncs.-a Senhora do Carmo do Sào Paulo, de 
1819 a 1853, a folhas 55 se encontra o seguinte : 

A< s nove dias do mez de novembro de 1852, em o Consis- 
tório da Venerável Ordem Terceira de Nvssa Senhora do Mon- 
te d > Carmo desta imperial cidad* da S. Paulo achirào-ae pre- 
sentes os irmãos abaixo assignados. o Revmu. Commissario desta 
Venerável Ordem 3.* e ahi compareceu António Benedicto Pa- 
Ihares de Camargo, apresentando um requerimento em que pe- 



— 118 — 

dia ao Exmo. Revmo. Sr. BÍ9po Diocesano a trasladação dos 
restos mortaes do Exmo. Senador Diogo António Feijó, que se 
achavão depositados no jizigo desta Venerável Ordem Terceira 
para a igreja da Venerável Ordem Terceira de São Francisso, 
cujo requerimento é do theor seguinte : 

Exmo. e Revdmo. Senhor. — Diz Ant.nio Beaedicto Palharas 
de Camargo que tendo de trasladar os re3tos mortaes do fallecido 
Padre Diogo António Feijó da Ordem Terceira de Nossa Se- 
n6ora do Carmo para a de São Francisco não pode fazer sem 
licença de V. Exa. por isso Pede a V. Exca. Revma. se digne 
conceder dita licença. E recebera mercê. — Despacho. — Como 
pede. S. Paulo, 25 de outubro de 1852. Aà3ignadc: — António, 
Bispo e em virtude do Despacho acima concordarão os Irmãos 
presentes que se entregasse os ditos restos mortaes j que neste 
mesmo dia foram entregues ao dito Palhares. 

E para constar mandara;) lavrar o presente termo em que 
todos assignão, e eu Lourenço Domingies Martins, secretario 
que o escrevi. António Benedicto Palhares de Camargo. — Pro 
Commissario, Fr. José de S. Babara Bitte. — António Simplício 
da Silva, Prior. 

Nada mais continha. Eu Sebastião Félix de Abreu e Cas- 
tro, 1.° Secretario da Ordem a escrevi». 

Em traços geraes aqui está a vida do padre Feijó, estu- 
dada pelos livros em voga, repetida, talvez, em palavras eguaes 
ás que se encontram por ahi. 

Sobre volto tão saliente, entretanto, é mister dizer mais e 
procurar em fontes menos conhecidas algo de impertante. 

A abdicação da d. Pedro I, arrancada por um movimento 
sedicioso, em que a tropa tomou grandissima, senão parte prin- 
cipal e exclusiva, foi acontecimento que. emocionou o paiz in- 
teiro e que dividiu os patriotas em dois campos oppostos. A 
luta travou-se depressa e faiscante. D. Pedro I, não querendo 
que houvesse sacrifícios de vida por sua causa, fechou-se em 
sua inabalável resolução e desde logo embarcou-se de viagem 
para Portugal, deixando o throno de herança a seu filho Pedro 
de Alcântara. Na celebre carta que a imperatriz d. Amélia 
endereçou ás mães brazileiras é possivel avaliar-se do momento 
politico que se creara com os factos de 7 de abriL A politica- 
gem queria muito, mas não chegava a querer a retirada de d. 
Pedro, nem da sua joven, bella, instruida e virtuosa consorte, 
essa imp2ratriz napoleonica, que a todos encantava pelos raros 
dotes de mulher e de soberana. D. Amélia tinha individuali- 
dade e d. Pedro, apesar de tudo quanto lhe quizessem censurar, 
nunca perdera o prestigio de ser o heróe grandioso do 7 de se- 
tembro. De modo que, quando se soube qie não houvera queda 
do ministério, mas sim abdicação formal do imparador, o povo 
sobresaltou-se e o murmúrio surdo e ameaçador de um descon- 
tentamento geral se foi alastrando pelas ruas, penetrando pela3 
casas, conquistando adhesões, tó que cresceu ao ponto de se 
converter em grites de sedição e explodir em formidáveis mo- 
tins. O partido da restauração não vingou, porqaa não só d. 









— 119 — 

Pedro I não era homem de voltar atraz como também porque 
a sua auseacia frustrava os planos dos seus adepto?. Travou- 
se então a luta em torno do berço de d. Pedro II, a criança- 
imperador, e de seu tutor que era José Bonifácio. A regência 
viu-ss ás voltas com embaraços quasi invencíveis. Por toda a 
parte motins, desordens, asias3Ínatos, discussões violentíssimas ; 
os pamphletos da época, escriptos numa linguagem aggressiva 
e indecorosa, nada respeitavam ; as provindas ameaçavam se- 
parar- S3, a anarchia com o seu olhar desvairado espreitava o 
momento propicio de subjugar, com seus braços ps antes, os 
últimos alentos da ordem, para dominar os destinos da nascen- 
te nacionalidade brazileira. Tornava -se indispensável que a 
pasta da justiça fos3e entregue a um homem de tempera for- 
tíssima, a um homem que, por sua coragem, sua energia, seu 
desprendimento, sua acçio íipida, seu acendrado patriotismo e 
sua inquebrantável altivez, estivesse fora do alcance das calu- 
mnias, supportasse os ultrajes e restabelecesse, f esse como fosse, 
a ordem que desertara do paiz. As vistas do goverao voltam- 
se para o padre Diogo António Feijó. 

Convidada, o grande paulista aceita a pasta que lhe era 
oíferecida em tão úifficil situação, e assume o cargo para que 
fora nomeado por decreta de 5 de jalho de 1831. Seu pri- 
meiro cuidado foi dar instrucçõeâ ao commandante geral das 
guardas municipaes do Rn de Janeiro, e basear o prestigio das 
autoridades e a ordem publica em corporações militarisadas, por 
elle escrupulosamente organisadas. «Dissolveu es corpos indis- 
ciplinados, anniquillou o movimento revolucionário de que foi 
theatro a Ilha das Cobras (7 de outubro de 1831). Abafou os 
motins de 3 e de 17 de abril de 1832». Numa das folhas da 
época — «Aurora Fluminense» — escreveu se o seguinte: — «No 
Brazil, um patriota conhecido pela firmeza de caracter e a re- 
ctidão de seu espirifo, de tal mérito que aos mesmos anarchistas 
foi impossível recusai o, não duvidando sacrificar-se pela pat-ia 
em perigo, tomou em circumstancias delicadíssimas a pasta da 
Justiça e tem ah' feito appar j cer uma força d'alnia, uma con- 
stância, que antes delle não fora conhecida entre dó-. Não se 
fizeram mais vergonhosas capitulado )g com o crime ufano de 
suas victorias. A maioria do* cidadãos interessados na ordem, 
elles ditão que é no sr. Feijó e na sua coragem civica que têm 
posto a ancora de sua esperança. 

«Serenou com sua attitude enérgica os ânimos exaltados 
que com as armas em punho dictaram a lei ao governo que á 
vista de seu olhar seguro e desassombrado depuzei amas armas». 

A regência, então composta de Francisco de Lima e Silva, 
José da Costa Carvalha e João Braulio Muniz, apesar do baço 
forte e da intelligencia brilhante e vivaz do Feijó, proseguia 
sua tarefa em meio de obstáculos de toda a espécie. O minis- 
tro da Justiçi dirige-se ao parlamento e diz: — «O governo ou 
obtém os meios precisos ou abandona j i o Logtt para eer sub- 
stituído por quem se julgue com valor de arrostar tantas diffi • 
culdades». Eitre as medidas que Feijó julgava nece sarias á 



— 120 — 

bôa marcha dos negócios públicos contava- se a remoção do tutor 
do joven soberano. E não tendo conseguido do parlamento 
tudo quanto queria, demittiu-se de ministro da Justiça em 26 
de julhi de 1832. A 5 de agosto do m smo anno parte para 
S. Paulo, tendo recebido no Rio, apesar de não ser divulgada 
a sua viagem, grandes e extraordinárias demonstrações de apreço 
por parte da população, que o victoriou e applaudlu entusias- 
ticamente. E quando chegou á sua cidade natal, repetiram- se 
as demonstrações de applauso e regosijo do povo, que via sem- 
pre no laureado lutador a mais secura personificação da ordem 
e a mais vigilante sentinella das idóas avançadas. 

A nomeada, o conceito elevado do ministro Feijó ficaram 
para sempre na lembrança dos povos da época. 

Foi elle quem mandou inscrever o nome do cidadão Este- 
vão de Almeida Chaves, no livro destinado a transmittir á Pos- 
teridade os grandes acontecimentos. Este Estevão cie Almeida 
Chaves foi »» prime ro guarda municipal, que no dia 7 de ou- 
lub o de 1831 deu a vida em defesa da lei, da Pátria e da 
Liberdade, atacando os r beldes na fortaleza da Ilha ^as Cobras. 

Fci Feijó quem suggeriu á Camará Municipal do Rio de 
Janeiro a voração de uma postura que providenciasse sobre a 
revisão das pevas th^atraes, 20 da julho de 1831. 

De 3 a 16 de abril de 1832 o Rio da Jauer > e- teve amo- 
tinado, e foi graças a Feijó que a ordem se restabeleceu tão 
promptamente. A 17 de abril de«se anno Feijó annunciava o 
restabelecimento da ordem. Accusado e atacado na C amara pela 
rpposição. Feijó disse estas palavras, que encerram pensamento 
profundo : 

— cPor mais simples e claro que seja qualquer negocio, sr. 
presidente, é desgraçadamente objecto sempre de grandes ques- 
tões». 

A 26 de julho de 1832, Feijó officiava ao commandante 
superior da Guarda Naci nal nos segcuntes termos : — Constando 
ao governo que as guardas nacionaes se estão reunindo em 
differentes pontos da cidade, que cresce a agitação publica, a 
tranquillidade da capital exige que v. s. retire se por algum 
tempo da Camará, e que usando da sua bem merecida influencia 
para com as ditas guardas, e reassumindo o commanio superior 
apresente-se ás mesmas para saber a causa da semelhante reu- 
nião, socegarlhes os anitms e assegurar lhes que o governo com 
o apoio de tão qualificados cidadãos manterá a todo o custo a 
segurança e tranquilidade da capital uma vez que se conservem 
como até agora obedientes ás autoridades civis». 

A 5 da favereiro de 1833 ó escolhido senador. 

E' annullada a sua eleição. Feijó volta ás urnas, e a pro- 
víncia do Rio de Janeiro reelege -o em memorável pleito. O 
eleitorado fluminense repeliiu a má vontade dos poder, ses do 
dia e impoz a sua vontade. Era Feijó que os fluminenses que- 
riam jor seu representante no Senado. Feijó tomou assento na 
Camará vitalicia em 15 de julho de 1833. 



— 121 — 

Em virtude de modificações legaes, a regência perarnente 
desappareceu, e, «m todo o paiz, procedeu se á eleição do Re- 
gente no dia 7 de abril de 1835. 

Foi eleito o padre Diogo António Feijó, que tomou posse, 
sendo acclamado pelo presidente do Senado. 

Ao sahir do paço, já empossado do seu elevadíssimo cargo, 
recebe do povo manifestações estrondosas. 

O paiz inteiro confiava que o aatiço ministro da Justiça 
saberia bem desempenhar o lugir de Regente. O seu desin- 
teresse, a sua provada abnegação, a sua dedicação pelo Brazil 
deram-lhe prestigio sem fgual. 

«Desde 1821 servir os ao Brazil por ser nrsso dever e nâo 
para pedirmos paga desses pouccs serviço que prestamos.» 

Assumindo o governo supremo da Nação, Feijó formou o 
seu ministério com es meihorts elementos da época. Dois dias 
depois de estar gevernando, isto é, a 14 de outubro de 1835, 
Feijó nomeou o seu primeiro ministério que ficou assim com- 
posto: — António Paulino Limpo de Abreu, Manuel Alves Branco, 
Manuel da Fonseca Lima e Silva, Manuel do Nascimento Casrto 
e Silva. 

E começou a governar. A situação politica, entretanto, 
tomava máu rumo. As» paixões explodiram e Feijó viu -se a 
braços com a guerra civil no Rio Grande do Sul ; com a se- 
dição conhecida por Sabinada, na B hia ; com a rebelião do 
extremo noite, Feijó lutou, lutou contra todos os elementos, 
que se lhe oppunbam .á marcha dos negócios publico?. E, 
afinal enojado de tenta coisa pequenina e interesseira, ele. que 
era tão altiv» e desinteressado, resolveu renuncar o pesto de 
Regente, retirando- se de novo para a sua província. Firmada 
a resolução da renuncia coevocou seus amiges intimes e in- 
flueutes para lhes participar a sua vontade. Attrahia, por 
ess e tempo, a attenção dos chefes o senador por Pernambuco 
— aPedro de Araújo Lima, chefe opposicionista. Fe jó sentia-se 
ab a ndonado dos amigos que não se resonheciam com forças de 
o cr mj anhar, afrontanto o parlamento ; mas, bem queriam que 
o poder não lhes escapasse... Feijó insistiu com seus amiges 
para que permanecessem á frente dos públicos negócios. Pela 
renuncia do Regente, a substituição se daria pelo ministro do 
Imprrio Paula Souza achava que Ar«ujo Lima daria um bom 
rei c nstitucional. 

Feijó guardou a obseivação, e silenciou eobre o esso. Eis 
como se conta a historia deste curioso incidente da nossa vida 
politica : 

«Nos últimos dias do governo de Diogo Feijó, c* nvocou 
este seus amigos intimes, e mais influentes no partido domi- 
nante. Paula Souza era um delles. Diogo Feijó con>ult« com 
elles a quem devia entregar o cargo de Regente. Discutiram 
os amigos na primeira conferencia e nada decidiram ; discu- 
tiram na secunda, e a iresma coisa suecedeu ; — na terceira 
tamberr nada ficou assentado. Depois desta terceira confe- 
rencia, Diogo Feijó, sem mais audiência de ninguém, chama 



— 122 — 

Pedro de Araújo I/nia e entrega-lhe o governo. Arguido então 
por haver dado o poder ao partido adverso, respondia o Re- 
gente denrssionario : — cChamei os amigos pedindo-lhes con- 
selho; e como não consultava se devia abdicar, porque isto 
estava por mim resolvido, mas sim a quem dev a entregar o 
governo, e Paula Souza disse na ultima conferencia que o Pe- 
dio de Araújo podia ser um bom rei constitucional, a elle en- 
treguei a Regência.» 

Imagine-se, portanto, o abalo, a surpresa que causaria nos 
arraiaes politicos o officio que Feijó dirigiu a Pedro de Araújo 
Lima : 

«Ulmo. exmo. sr. 

Estando convencido de que minha continuação na Reg an- 
ciã não pode remover os males públicos, que cada dia se ag- 
gravam por falta de leis apropriadas, e nâo querendo de ma- 
neira alguma sei vir de estorvo a que algum cdadão mais 
feliz seja encarregado pela nação de reger seus^ destinos, p3Ío 
presente me declaro demittido do lugar de regente do Iuperio 
para que v. exa., encarregando-se interinamente do mesmo lugar, 
como determina a constituição politica, faça proceder á eleição 
do novo regente, na forma por ella indicada. 

Exmo. sr. dr* Pedro de Araújo Lima. — Diogo Antcnio 
Feijó». 

Era o dia 17 de setembro de 1837. A 19 do mesmo mez 
Feijó publicava o seu man.festo ao povo, dando os motivos da 
sua renuncia. 



Diogo António Feijó foi espirito superior e estadista de 
largo descortino. E' de seu tempo o decreto de 7 de novenbro 
de 1831, que deu golpe profundo na escravidão; é seu o ce- 
lebre aviso de 15 de dezembro de 1831 em que se recommenda 
que «primeiro se obtenha por meios pacificos o consentimento 
de uma senhora para libertar uma sua e3crava ; e quando se o 
não possa conseguir, seja depositada para obter sua liberdade 
nos termos da lei, prestando-se-lhe toda a protecção que a hu- 
manidade e as mesmas leis outorgam aos escravos» ; foi Feijó 
quem, pela primeira vez, em seu testamento de 9 de março de 
1835, instituiu o ventre livre da mulher escrava, idéa que, 
em 1871, immortalisou o visconde do Rio Branco: — «declaro que 
qualquer filho de escravi, ainda depois de nvnha morte, e- antes 
de libertar-se a mãe, será livre desde o seu nassimeatj ; e os 
pães terão todo o commodo e tempo necessário para o criar e 
poderão conserval-o depoÍ3 de criado onde quizerem.» 

Esforçou se Feijó pelas eleições dstrictaes, pelo suffragio 
directo, pela abolição das condecorações; pretendia restringir 
a liberdade de imprensa quando, com insultos, atacasse a au- 
toridade e fosse obscena eu linguagem; bateu-se pela abolição 
do celibato clerical e. nesse sentido, publicou um folheto, que 
S3 tornou rarissimo. No prologo do folheto, Feijó doutrina : — 
«Sem probidade não ha execução de lei, sem execução de lei 



— 123 — 

não ha justiçi, sem justiça não ha liberdade legal, e sem esta 
não se dá felicidade publica». 

Feijó providenciou sobre execuções de sentenças de morte, 
quebrando-lbes a dureza e facilitando os deveres de humani- 
dade, 9 de março de 1837; concedeu privilegio á conpaohia 
de omnibus no Rio para transporte de passageiros, 14 de se- 
tembro de 1837 ; transferiu do ministério da Guerra para o da 
Justiça o serviço da repartição de telegraphcs, tae* como eram 
naquelle tempo, 10 de janeiro de 1837; celebrou com Tarrand 
Thomaz contracto acerca de uma empresa de paquetes a vapor, 
22 de abril de 1836 ; providenciou sobre a navegação por barca» 
a vapor, «ou outro melhor systema que se descobrir», não só 
do Rio Doce, como também directamente ás capitães do império 
e da Bahia, e principaes portos do norte ; mandou que a impor- 
tação do gelo foss3 livre a qualquer, nacional ou estrangeiro; 
isentou de impostos as embarcações que conduzissem colonos 
para o Brazil ; ordenou ás fortalezas que impedissem os navios 
nacionaes.de sair sem que levassem as malas do correio; 
trabalhou por todos os melhoramentos materiaes que o Brazil 
pudesse adoptar naquelles tempos: mandou vir trabalhadores 
da Suissa ; cogitou de um regular serviço do abastecimento de 
agua á cidade do Rio ; planejou o resgate do papel moeda ; 
empregou todos e os melhores eaforços para pacificar o paiz, 
tão rudemente convulsionado. 

O Brazil sempre foi das primeiras nações na accei tacão dos 
grandes melhoramentos filhos do progresso. Quando se criou o 
sello postal em 1840, o Brazil adoptou a medida log>eml842, 
19 de novembro, estampou, em 1843, o conhecido sello — olho 
de boi. Já se viu egaalmente que em 1836, a navegação ma- 
rítima a vapor era acoroçoada pelo governo brasilieiro. Mas 
ha um facto que não só nos deve orgulhar, como ainda vem 
dar mais brilho, maior realce e grande destaque ao espirito 
clarividente de Feijó 

Em 27 de setembro de 1825, George Stsphenson recebia, 
ni inauguração da primeira estrada de ferro, que houve, a 
consagração da Gloria pelo seu inganial invento : Darlin<rton e 
Sctokton estavam ligados por trilhos de ferro. Passaram-se 
pouccs annos, e Diogo António Feijó tinha a immorredcura 
ventura de promulgar a lei de 31 de outubro de 1835, auto- 
rizando o governo a conceder favores a um* ou mais compa- 
nhias, que fizessem estradas de ferro ligando a capital do Im- 
pério ás províncias de Minas Geraes, riio Grande do âul e Bahia ! 

Que mais dizer num estuio preliminar a propósito do padre 
Feijó ! 

Poder-se-ia ainda falar da revolução de 1842, mais isso seria 
repetir o que acaba de ser dito em completa monographia re- 
centemente publicada, e levantar polemica, o que se não quer 
nem se pretende a propósito de possíveis divergências de cri- 
tica. Feijó, num dos seus ultimo3 discursos no Senado, talvez 
o ultimo, referiu-se á su» prisão e deportação. O grande lu- 
tador estava nos seus últimos dias. Recolhendo-ie a S. Paulo 



— 124 — 

faleceu em sua residência á rua das F. eiras 11, hoje rua Se- 
nador Feijó, esquina do largo de S. Francisco. 

* 
* * 

Foi sentidíssimo o seu passamento. Os seus faneraes ti- 
veram grande imponência ; e o seu corpo, embalsamado não se 
Babe por quem, esteve exposto e foi guardado por toda a po- 
rulação da capital, cujo3 habitantes sentiam e reconheciam o 
dever de ir prestar a derradeira homenagem ao benemérito 
paulista, que Untos e tão extraordinários serviços prestou á Pátria. 

O enterro fez-se á noite, com enorme acompanhamento, 
sendo tão avultado o numero de te cheiros, que se ascender am 
e eram conduzidos, que o largo de S. Francisco e a rua das 
Freiras estavam claros, muito claros, fartamente illumínados. 
Já o corpo estava depositado ca egrrja do Carmo e o préstito 
não se havia de todo posto em movimento. 

Conta a tradição que foi nessa noite memorável, que ap- 
pareceu pela primeira vez netta capital, talvez attrthida pelo 
enorme clarão dos tocheiros, quantidade assombrosa de besouros. 
Carregava-se o caixão do padre Feijó com respeito e acata- 
mento tae', que a gente do tempo assegurava nada ter visto 
até então de mais triste e commovente. 

Era uma prpulação inteira a chorar o passamento do gran- 
de homem, exemplo de virtudes, orgulho de São Paulo, gloria 
do B-azil. 

«Toutes choses cessante?, je pleure et je jette les hauts 
cris de la rtort de Blanchefort, tout parfait, qu'on donnait pour 
exemple à teus nos jeunes gens». 



* 
* * 

Diogo António Feijó exerceu funeções majestáticas. Foi 
chefe da Nação, foi o Kegente em nome do Imperador. Em to- 
dos es paizes, homens taes de causam em lugares conhecidos, 
e os í-eus túmulos, embora simples e toscos e singelos podem 
ser vistos e venerados pelos patriotas ou pelos estudiosos, que 
despjem, na contemplação mystica do passado, aprimorar senti- 
mentos ou recolh' r inspirações. Pois bem. Os restos mortaes do 
senador, do regente Feijó, do extraordinário paulista, descansa- 
vam no jazigo do Carmo e foram posteriormente trasladados 
para o jazigo de S. Francisco. 

Existe alguém que possa dizer com segurança, apontando 
para determinado lugar: — este é o tumulo do padre Feijó? 

Até agora ninguém me soube indicar, com precisão, os 
sete palmos de terra paulista que gua dam o corpo e o coração 
embalsamados de um homem notável que exerceu o supremo 
poder publico do Brazil. Fe jó não tem sobre eeu corpo nem 
uma simples lapide 1. . . 

Será possivel que se perdessem tão preciosos despojos? 

Bella Cintra, agosto de 1908. 



O grileiro cainho sara as minas da Má 



PELO 



DR. GENTIL DE ASSIS MOURA 

Sócio effectivo do Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo 



O primeiro caminho para as minas de Cuyabá 



A chegada a S. Paulo de Antcnio Antunes Maciel, tra- 
zendo noticias da riqueza das minas que acabavam de ser des- 
cobertas no sertão dos Aripoccnés, devia ter enchido de satisfa- 
ção o espirito aventureiro dos paulistas daquella épcca. 

Bastou-lhe mencionar as três oitavas de cu; o. extrahidas 
em duas horas cora o auiilo do cano de uma espingarda, em 
falta de alavanca e de um prato de páu — á guisa de bateia — 
para mostrar a riqueza da região e engendrar os sonhos dou- 
rados que sabem ter c% ambicirsca 

Pouco importavam ao paulista desterreroso, o numero con- 
siderável e a biavura dos Aricoponés. cuja valentia sobrepu- 
jara a da bandeira chefiada por Paschoal Moreira Cabral qce 
ellfs derrotaram matando cinco pessoas e ferindo outras qua- 
toiz9 que foram conduzidas em rodes para o arraial recém fun- 
dado á margem da rio Cuyabá, se o paiz dourado mostrava a 
risonha figura da Fortuna tanto aos que já tinham abastança 
como acs que nada prssuiam. 

A febre da partida e o desf jo do desconhecido apoderaram- 
se de todos, dando lugrar ao êxodo de umajatte da p-pulsção 
da Capitania em monções que seguidamente partiam, chefiadas 
peles homens abastados e onde seguiam também os desprovidos 
de recursos, mas que em parceria cm os escravos dos ban- 
deirantes, iam aventurar sob sufs ordens. 

Braz Mendes, Antmio de Almeida Lara, Gtspar Moreira 
e Jacintho Lopes, cidadãos de foi tuna, consideração e prpg- 
tigio na Capitania, embarcavam para ir trabalhar junto a Fer- 
nando Dias Falcão, es irmãos Leme, Sebastião e M guel Sutil, 
Domingos Rodrigues do Prado e António Pires de Camp s, que 
sob a direcção de Paschoal Mo eira Cabral tinham sido os pio- 
neiros do descoberto e a quem num excesso de liberalismo con- 
trario ás normas coloniaes tinham eleto seu capitão mor. 

Não havia peia? que pudessem impedires intrépidos ban- 
deirantes no seu delírio de deicobrimentrs, no seu senho de 
conquista do oure — porque o ouro naquelle tempo, não bastava 
ser ganho, precisava ser conquistade — de seguir para o Eertão. 

A distancia a vencer, es males a soffrer, a impetuosidade 
dos rios a transpor e a valent a dos Índios a arrostar, não 
erfm bastar ts para atallar a febre da partida. 



— 128 — 

As monções compostas de grandes canoas com capacidade 
para quinhentas arrobas, largavam seguidamente de Ararita- 
goaba, cheias de gent^ e carg*, para depois de um percurso de 
cerca de quinhentas e trintn leguís chegarem em fim ao termo 
da jn-nad» 

Só o Tietê com o seu cutso tão cheio de embaraços, bas- 
tava ra^a desanimar outro que não o bandeirante cujo tem- 
peramento lutador estava enrigecido com dois séculos de c n- 
quistas ! 

Eram cento e cincoenta e duas légua* a vencer até a 
barra do Paraoá cu rio Grande como o chamavam, mas nessa 
extensão a viagem era a cada passo embargada por cachoeiras 
que em numero de trinta e Beis tinham de transpor e dois 
saltos a \arar. Era «o qu« se pôde dizer sem encarecimento, 
que todo elle é uma continua cachoeira, pois donde as não tem, 
suppõem as itaipavas, que são baixio» de pedrarias e alguns 
perigosos.» (1) Nesses passos, o trabalho além de insano era 
arriscadíssimo. 

Nas cachoeiras as canoas desciam presas por cordas que 
as desviavam dos rochedos para onde a impetuosidade da cor- 
rente as impellia, emquanto que as cargas eram carregadas 
pelas margens nos hombros dos tripolantes. Nos baixios, ar- 
rastadas por todo o pessoal que dentro dagua, após inauditos 
esforços consegu'a transpol os e onde não raro era ver se 
alguém ser arrebatado pola correnteza e perecer afogado ou 
então emborcar- se a canoa e perder- se toda a carga. 

Nos saltos era forçada a varação ; as canoas eram arras- 
tadas por terra em Avanb andava e Itapura 

Depois do Tietê, vinha o Paraná, sem outro flccidente senão 
o rebojo de Jupié, mas onde ás veies as canoas soffnam o risco de 
sossobrar nas ondas que o vento sul suspende quando sopra. 

No rio Pardo o trabalho redobrava, gastavam-se dois mo- 
zes inte ros em subil-o, o que na volta poderiam fazei- o em 
seis dias. 

Ahi já não havia auxilio da correnteza para impulsionar 
as embarcações ; as canoas tinham de subir á custa de zingas 
fincadas em un leito lamacento e pegajoso que dificultava o 
trabalho e cansava o \areiro. Depois de venc da a pute mansa 
do rio tinham de transpor as sirgas, depois as cachoeiras e os 
saltos que se succedem e se a' temam até a varação do Ca- 
mapuam . 

Nesse sitio, fundado em 1720, pelos bandeirantes, as ca- 
noas tinham de ser arrastadas por terra numa extensão de duas 
léguas, tal a distancia que medeia entre o porto do rio Pardo 
e o do Coxim, por onda tinha de descer. 

Era o rio mais accidentado da viagem ; tem só 40 léguas 
de extensão, mas no seu leito ha 24 perigosas cachoeiras a 
transpor. 



CU Brigadeiro Sá e Faria, Diário de Viagem-nos rios Tietê, Paraná e Iguatemy. 



— 129 — 

Depois de Coxim o Taquary, rio mais fácil, porém ainda 
trabalhe so; passada a cachoeira Béliago, a navegação eri franca 
até o Cuyabá. 

Era viagem em summula que durava quatro penosissimos 
mezes, não contadas as paradas quí faaiam no caminho, .ora 
para fazer canoas em substituição ás que largavam nos maus 
passos, (2) ora para plantaren rogas, com cujos prjductos S3 
abasteceriam na volta. 

Apezar de acostumados ás custosas e arriscadas excursões 
ao interior do paiz e de que a de Cuyabá não dava senão 
uma palh a idéa, cogiUvam os bandeirantes encurtar a via- 
gem por um caminho que se abrisse do ultimo povoado áquellas 
minas. 

Um dos primeiros a pôr em execução esse p'ano foi o 
capitão Barthi lomeu Paes de Abreu, cuia abastança e tena- 
cidade, alliadas ao conhecimento do paiz por ell« palmilhado 
em vários pontos, deixavam antever o feliz êxito da empresa. 

De posse de una pr. visão do Senado da Camará, tratou 
logo de metter-se em campo e iniciar o trabalho. 

Entrou então «pelas campanhas de matos que ha entre os 
rios Anhemby e Paranapanema, pelo districto de Sorocaba, com 
o fim de explorar a paçte mais conveniente pira fazer caminho 
p3ra as minas de Cuyabá. Fez a maior parte do caminho pas- 
sando o serro de Ibiticatú, pira diante da passagem do rio 
Jacory e buscou o rio Grame, entre o rio Aguapeby e Ugurany, 
onde fez roças de mantimentos e collocou 248 cabeças de gado, 
gastando nessa factura ce ca de dois mil cruzad s». (3) 

Achava -se Bortholomeu Paes a cerca de 80 léguas de 
distancia de Sorocaba portanto quasi nas proximidades do rio 
Paraná, (4) quando lhe chegou a noticia de que D. Pedro de Al- 
meida, conde de A«sumar, governador da capitania, havia con- 
cedido a Gabriel Antunes Maciel autorisação para abertura 
do caminho para as minas de Cuyabá, com o benefício da ex- 
ploração da passagem d< s rios por cinco annos. (5) 

Como era de suppôr, Barthe lomeu Paes trat u de defender 
o seu trabalho e a sua despesa e resolveu dirigir á Metró- 
pole uma petição defendendo seus direitos. 



(2) "Deve-se advertir que estes famosos Argonautas navegavam quando lhes 
fazia conta o navegar e largavam as canoas nos maus passos e as tornavam a 
fazer de novo quando necessitavam delias". Dr. Lacerda e Almeida, Diário de 
Viagem, pag 78. 

(8) No Archivo da Camará Municipal desta cidade existe uma representação 
dos offlciaes da Camará de Santos, datada de 1787 e dirigida ao governador da- 
quella cidade pedindo a abertura de um caminho para Cuyabá. Nella se apre- 
senta eomo um dos homens maia capazes de executar esse serviço Bartholomeu 
Paes de Abreu 

Ahi não se trata do caminho que faz objecto deste estudo, mas de outro que 
fora explorado pelo mestre de campo Manuel Dias da Silva e que devia partir 
de um ponto qualquer da estrada de Goyaz, atravessar os rios Veríssimo, Co- 
rumbá e Meia Ponte e sair no Camapuam. 

Acompanham essa representação três requerimentos, dos quaes dois são iné- 
ditos e onde colhemos a maioria das informações desta exposição . 

(4) Nos mais rigorosos mappas de S Paulo, a distancia em linha recta de 
8orocaba ao rio Paraná é de cerca de noventa léguas. 

16) Vol. XXXII pag. 819 das publicações do Archivo do Estado de S. Paulo 
e Archivo da Camará Municipal desta cidade. 



— 130 — 

Emquanto sau requerimento seguia para Lisboa, chegava 
a S. Paulo o governador e capitão general Rodrigo César de 
Menezes, em Setembro de 1721, ao mesmo tempo que Gabriel 
Antunes desistia de sua concessão, preferindo seguir para as 
novas minas. 

Deste incidente aproveitou -se Bartholomeu Paes, para re- 
querer concessão ao novo governador, propondo -se a fazer o 
serviço á sua custa, dal-o concluido no prazo de um anno e 
pedindo como única retribuição o privilegio por nove annos da 
introdução de gaio nas minas. 

Seu requerimento foi indeferido sob o fundamento de que 
já tendo sob o m^smo assumpto requerido á corte de Lisboa, 
devia esperar solução ao seu pedido. (6) 

Consta da representação que os officiaes da Camará de 
Santos enviaram ao governador daquella villa, em 17 de 
agosto de 1737, que ella foi indeferida por influencia e intri- 
gas de Sebastião Fernandes d) Rego, cujo predomínio e con- 
nivencia com o capitão general foi depois conhecida, além do 
interesse immediato que elle tinha na sua rejeição, visto ser 
também concorrente a esse serviço. 

Antes, porém, que viesse qualquer solução da Metrópole ao 
requerimento de Bartholomeu Paes e dos mezes depois da 
chegada do governador Rodrigo César, foi publicado em 23 de 
novembro de 1721 um bando chamando concorrentes para a 
abertura de um caminho para as minas de Cuyabá, em direi- 
tura pelo sertão. (7) 

Como era de esperar, este bando chamou uma boa con- 
corrência, apresentando-se nove propostas das quaes se conhe- 
cem trfis dos proponentes. Uma era firmada pela sociedade com- 
posta de Sebastião Fernandes do Rego, Manuel Gonçalves de 
Aguiar e Manuel Godinho de Lara ; outra de Luiz Pedroso de 
Barros e a tercei»' a dí Bartholomeu Paes. 

Para assistirem á abertura das propostas, foram convidados 
os ofncaes da Camará de S. Paulo, os ministros que aqui se 
achavam, o provedor dos quintos e o procurador da coroa e 
Fazenda. (8) 

Como era de esperar, a proposta dos associados de Sebas- 
tião do Rego foi a preferida, encarregando -se Manuel Godi- 
nho da execução, promptifi3ando-se a abril-a em seis mezes 
sob condição de lhe ser dada a passagem dos rios por seis 
annos. (9) 

Pelo requerimento que no dia seguinte Bartholomeu Pae3 
dirigiu ao capitão general, pedindo reconsideração desse acto, 
vê se que estes proponentes pretendiam atacar a estrada pelo 
lado do rio Grande, de modo a sahir no trahalho já feito pelo 
requerente e que nece.siriamente seria utilizado por elle3. 



(6) Vol. XXXn pag. 328 do Archivo de S. Paulo. 

(7) Vol. XII pag. 14 idem. 

(8 e 9) Vol. XII pag. 27 idem. 



— 131 — 

Nessa bem fundamentada exposição, iasiste no seu direito 
sobre ella, pedindo que lhe foíse dada com a mesta regalia 
com que a deram a Manuel Godinho, compromettendo se a abril- a 
em menos de seis mezes e abastecer de çado as minas pelo prazo 
de nove annos. 

Offerecia como garantia da execução desse trabalho a quantia 
de 500C0 cruzados, dando como fiadores o capitâo-mór Pedro 
Taqu^s de Almeida, d. Simão de Toledo Piza, Bento de To- 
ledo Piza, Diogo de Toledo Lara, António Pinto Guedes, José 
Alves Fidalgo e José Monteiro, todo3 m:>radore3 na cidade de 
S. Paulo. (10) 

Não se encontra nos documentos em que foram colhidas 
estas notas noticia se Manuel Godinho começou a abertura da 
sua estrada pelo rio Grande cu se tratou de abril- a parallela 
á já iniciada por Bartholomeu Pae?. 

Esta ultima hypothese parece mais aceitável, por ser mais 
fácil para a conduução de mantimentos e animaes para o ser- 
viço, partir de Sorocaba que daquelle centro de sertão. 

Bartholomeu Paes, não se conformando com sua preterição, 
fez novo requerimento á Metrópole, proaeguindo com seu tra- 
balho até que viesse a concessão. 

Isto se infere não só da segunda carca regia sobre esse 
assumpto, em data de 18 de abril de 1722 (11), como também 
do bando prohibindo a abertura de cutro caminho que não o 
que estava sendo aberto ror Manuel Godinho, sob pena de de- 
gredo para Ang la e multa de dois mil cruzados (12). 

O novo contratante não pôde, porém, dar conta do seu 
encargo. Exgotou o prazo que tinha pedido e allegou como 
excusas pela demora no prosegui mento a fuga e a morte de 
algumas pessoas que levava e a falta de mantimentos, o que 
fez com que fosse rescindido o seu contrato (13). 

Bartholomeu Paes voltou de novo á sua pretensão, ainda 
uma vez requereu, sendo sua proposta recusada, para se dar 
preferencia á de Luiz Pedroso de Barros, que pedia como único 
premio o perdão de seu crime, que consistia em ter tomado 
parte numa asãuada ao juiz pyndicante António da Cunha Souto 
Maior (14). 

Luiz Pedroso atacou logo em seguida o trabalho, voltando 
no fim de nove mezes a 3. Paulo, allegando como motivo da 
demora a falta de campos que facilitassem a tarefa e servissem 
de pistag^ns ao; animaes aa sua comitiva. 

Depois de dois mezes de descanço, voltou de novo ao ser- 
tão e ahi seguindo por campos qm lhe facilitaram o trabalho, 
podo, finalmente, chegar ao lio Grande ou Paraná, conforme 



(10J E' o requerimento a que alludimos na nota 8 e que não reproduzi- 
mos para não sermos extensos ; delles já demos copia no relatório que sobre a 
exploração do rio Feio apresentámos á Secretaria da Agricultura, em 1906 

(11) Vol XVIII pag 41 do Archivo do Estado de S. Paulo. 

(12; Vol. XII png 41. 

(18j Vol. XXXII pag. 82. 

(14) Vol. XXXII pag. 82. 



— ia-2 — 

se vê de duas cartes dirigidas ao vice -rei pelo capitão gene- 
ral (15). 

Como recompensa desse trabalho, teve o perdão do seu 
crime e recebeu a tença He 503000 réis por anno, além do ha- 
bito de Chrigto com que foi agraciado. 

O ponto em que esa e trada chegou ao rio Paraná, foi 
qu«si fronteiro á barra do rio Pardo conforme se identifica no 
mappa daquelle rio levantado pelo brigadeiro Sá e Faiia, em 177T. 

Além da convenção para estradas que elle traçou nesse 
ponto, traz a seguinte nota : Caminho que se abriu para Sorocaba. 

Parece que Luiz Pedroso aproveitou em grande parte a 
estrada iniciada por Bartholomeu Paes; só assim é aue se po- 
deria explicar a relativa rapidez com que ella foi aberta, quan- 
do é à* presumir que ella cm um desenvolvimento mínimo de 
10 por cento tivesse cerca de cem léguas, o que é muito para 
ser aberta num prazo relativamente pequeno como o em que 
elle o fez. 

Bartholomeu propunha- se a abril-a em oito mezes ou pouco 
menos do tempo que Pedroso gastou Além disso, aquelle que 
até então tinha sempre protesrad" pela concessão a Manuel 
Godinho e Gabriel Antunes, apresentando diversas petições e 
protestos, não eó ao capitão general como á própria coroa, ca- 
la-so com a concessão a Luiz Pedroso, primo irmão de sua mu- 
lher e a quem tnlvez pelos laço* de parentesso e amizade com 
que estava ligado, não quiz embaraçar. 

E' verdade que Bartholomeu Paes projectava a sua estrada 
para o rio Grande, entre o rio Aguapehy e Uguray (Sucuriú?) 
e a de Luiz Pedroso foi sair fronteira á barra do Ri<> Pardo, 
na hypothese de ser essa a estrada referida no mappa de Sá 
e Fí.na. 

Barthrlomeu também poderia se ter enganado sobre o ponto 
em que a sua estrada sairia no Paraná, o que não seria difficil 
supro-, visto elle não ter chegado á barranca do rio, mas nas 
proximidades deste. E' de presumir também que se o» gran- 
des alagadiços que existem entre o Aguapehy e o Peix*, ti- 
vessem obrigado Luiz Pedroso a pender á esquerda, e atraves- 
sando este ultimo rio, sa r nos campes da Laranja Doce para 
depoi? procurar o valle do Santo Anastácio, por onde seguiu 
até o Paraná. 

Não se pode também presumir que elle se tivesse apro- 
veitado do trabalho de Manuel Godinho pois, segundo se de- 
prehonde da carta do governador ao vic^-rei, (16) e te conti- 
nuou somente por capricho a ab ir o caminho 

A referencia ao primeiro contratante que nessa carta se 
faz, deve mais alludir a G- dinho que a Bartholomeu ; o pri- 
meiro não incorria n s penas estabelecidas no bando prohibi- 
tivo, por ser a sua conce são anterior a elle. o que se não 
dar a com o segundo se continuasse com o trabalho. 



(15) Vol. XX pags 183 e 161. 

(16) VoL. XXXII pag, 83. 






— 133 — 

Vejamos qual poderia ter sido o traçado dessa estrada, na 
hyprthese de ter tido aprovei ado o trabalho do primeiro ex- 
plorador. 

Saindo de Sorocaba e seguindo pelos campos que começhoi 
nessa região devia ter subido a perra ^e Botucatú, na fazenda 
d> Atalh , próximo a actnal villa de S Bom Jesus do Ribe rão 
Grande. Ahi pas*a o camioh» mais antigo de que ha noticia 
e fervia aos moradores decimada serra para se comn unicarem 
cim as povoações de Itapetininga e Sor* caba. 

A ferra foi transprs'a a'ém da ppssagem do rio Jacory, 
que parece ser o rio Jacu, affluente do rio 8. Ignacio, que por 
seu turno afflue para o Paraná pane ma. Depois, c ntinuando a 
aproveitar-se dos campos por que então tinha s* guido. prose- 
guiu pel^s campos de Lençóes, que se estendem até á? cabe- 
ceiras do Batalha ; dahi atrav» ss ndo a serra dos A gudes, ga- 
nhou o divisor do Feio e P*ixe, por onde proseguiu até ás pro- 
ximidades dos campos da Laranja Doce, para depr is ganhar 
pelo valle do Santo Anastacioaté o Parará. 

Não é de presumir que a estrada tivefse seguido pelos 
campos que se estendem nas zonas hoje occupad»s pelos mu- 
nicípios de Itapetiniopa, A vare, S. Cruz, Campos Novos e Con- 
ceição de Monte Alegre. Sei ia * ste o traçado mais fácil e mais 
curto, mas essa região tslveznào fosse conhecida naquella época. 
Demais se Bartholomeu Paes tivesse rábido da existoncia destes 
campos, não teria frito allusão á campanha de matas que 
existem entre o* rios Paranapanema e. Ti*té, como também 
Luiz Pedroso não se queixaria de tbundancia de mata que lhe 
dificultava o trabalho e da falta de campos, o que se não daria 
se ella fosse traçada por aquella zona, onde, é sabido, os cam- 
pos recupam toda a região, exceptuarias as dezoito léguas re- 
ocupadas telo valle do S. Anastácio, que são vestidas de expessa 
mata. 

Em um mappa que fxiste neste Instituto, trazido de Lis- 
boa pelo saudoso dr. Eduardo Prado, mappa cujo autor não 
posso identificar, vê -se uma estrada traçada nas cabeceiras do 
Aguapehy e dirigindo se para o sertão em ponto em que esse 
mappa acaba e com os seguinte dizeres : «camino que hizo el 
paulista Simão Bueno en 1730. 

Parece que ahi ha engano de nome e de data, fazendo 
referencia a Simão Bueno quando devia alludir a Luiz Pt droso ; 
no pequeno trecho em que ella é esboçada, vem traçada pelos 
pontos da nossa opção. 

Se e flecti vãmente ha eogano de nome e data e ella se re- 
fere á estrada de que vimos tratando, absordo seria detvial a 
dahi para os campos do A vare. 

Nosso traçado parece estar bem approximado á realidade. 

Além desses dois enganos, parece haver no alludido mappa 
um outro, mas esse é na representação topographica. 

As cabeceiras que ahi vêm designadas sob o nome de Agua- 
pehy devem mais se referir ao rio Batalha ou ao Dourados 
que a elle. As primeiras cabeceiras do Agupehy estão situa- 



— 134 — 

das a cerca de quinze léguas do ponto a^signaíado no mappa, 
extensão essa que é occupada pelo» valles destes dois rios. 

Attingida a margem do Paraná pelo lado de S. Paulo, 
podia-se dizer que a estrada estava aberta até as minas. 

Os extensos campos que começam na barra do rio Pardo 
e vão até o Campo Grande da Vadearia e Camapuam já eram 
caminho aberto para por elle enveredarem os viandantes. Hér- 
cules Florence, no Esbcço da Viagem do Ccnsul Langsdoiff, 
assim se refere sobre esse ponto : «rio Pardo celebre entre os 
Paulistas, de um lado pelos perigos e caiiceiras que abi espe- 
ram o viajante ao querer vencer a força das suas corredeiras 
e transpor numerosas cachoeiras e suas quedas ; de outro afa- 
mado pela belleza das campinas em que cone e que offere- 
cendo á vista já farta da monotomia de ininterrompidas matas, 
vastas perspectivas cortadas de outeiros, riachos e capões, faci- 
litam » viagem terrestre emquanto as canoas sebem lenta e 
custosamente o e3treito e tortuopo curio>. 

Da Vaccaria ou de Camapuam para diante, quer p3ra o 
lado do rio Paraguay, quer para o lado de Cuyabá, esses cam- 
pos se estendem alternadamente com matas ecerrades de modo 
que sem difficuldade poderia ser feita a ccmmunicação com as 
minas. 

Parece, porém, que essa e trada não foi utilizada senão em 
muito curto tempo, tendo servido tão somente para a coeducção 
de gado cuja primeira entrada foi feita pelo mestre de campo 
Manuel Dia? da Silva, sobrinho de Luiz Pedroso, segundo re- 
fere n governador Rodrigo Cefar em carta ao vice-rei (17). 

No governo de d. Luiz António de Souza Botelho Mourão, 
querendo este governador facilitar as ccmmunicações por terra 
com o Iguatemv, encarregou de reabrir es?a estrada a Jcsé de 
Almeida Leme, natural de Sorocaba. Elle a reabriu á sua 
custa, pelo que recebeu elogios por carta regia e obteve por 
esse trabalho o titulo de moço fidalgo da casa real. 

Ella outra vez fecheu-se continuando as communicações 
com Cuyabá a serem feitas pela via fluvial Tietó e Pardo. 

O motivo do seu abandono na primeira vez, talvez fosse 
originado pelas constantes correrias que na região dos rios que 
affluem para o Paraná, faziam os Cayapós e es Guayacunís 
(Índios cavalleircs) assim como no Paraguay os temíveis Poya- 
guá?, que tanto deram que fazer ás bandeiras paulistas. 

Apezar das continuas refregas que o governo colonial lhes 
mandou dar, apezar dos destroços que nelles faziam as bandei- 
ras paulistas, o seu numero parece que creFcia. 

Só em 1742, 16 annes depois da construcção da estrada 
e quando talvez já ella estivesse fechada, é que começaram 
os cayapós a se mostrar* m menos ousados, pelo verdadeiro ex- 
termínio que delles fez o coronel António Pires de Campos 
destruindo suas aldêas. 



(17) Vol. XXXII pag. 158, todos estes do citado Archivo de S Paulo, 



— 135 — 

Não será também sem fundamento a hypothese de que te- 
nham conccrrido para o seu abandono, os continues encontres 
dos paulistas com os hespanhóe3 que passavam do Paraguay 
para a Vaccaria e ahi vinham arrebanhar o prado bravio que 
existia nessa região. Diversas vezes elles collocaram padrões 
assignalando pertencerem aquellas tenas á Coroa de Castella, 
os quaes por seu turno eram derribados pelos paulistas, que 
em substituição eregiam outros em que se frisava o domínio 
portuguez, < orno ainda em 1732 o fez o mestre de campo Ma- 
nuel Dias da Silva. 

Se bem que tanto prececupasse o governo colonial e o 
governo independente do Brazil a ligação per terra de S. Paulo 
com Mato Grosso, e fendo essa communicação a que menor 
distancia e maior facilidade efíerecia, comtudo só em nossos 
dias e ha três annos atraz, em 1906, foi que se conseguiu de- 
finitivamente trafegar esse caminho. 

E' verdade que, ha quinze annos atraz, o governo de S. 
Paulo mandou abrir a estrada do rio Anastácio, mas esse ca- 
minho fechou-se por falta de viandantes. O trecho de Mato 
Grosso que se tinha combinado teria feito pelo governo da- 
quelle Estado não foi iniciado e a estrada ficou sem sabida. 

Cabe 8 gora essa gloria á empresa Diedericheen & Tibyriçá, 
concessionaria da estrada de São Paulo ao Mato Grcsso e que 
cruza o rio Paraná no mesmo ponto em que chegou a de Luiz 
Pedroso. 

Hoje ella 6 diariamente trafegada pelos boiadeiros e tro- 
peiros que estabeleceram um importante commercio entre os dois 
Estados e esta destinada a facilitar o povoamento da futuroia 
região sertaneja a que serve. 



O Corgo de Bombeiros de S. Paulo 



PELO 



MAJOR PEDRO DIAS DE CAMPOS 

Sócio effectivo do Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo 



O Corpo de Bombeiros de S. Paulo 



RETROSPECTO HISTÓRICO 

TURMA DE B0MBEIRO8 — 8ECÇAO DB BOMBEIROS — COMPANHIA DE 
BOMBEIROS — COBPO DB BOMBEIROS 

Fundada pelos jesuítas em 1554, a cidade de São Paulo 
de Piratininga somente três séculos depois tave as primeiras 
posturas municipaes, prevendo os sinistros causados por incên- 
dios e só em nossos dias conseguiu a definitiva organização de 
um serviço regular e methodico nesse sentido. 

A população da cidade até 1840 era insignificante. Exis- 
tiam nesse anno, conforme estatística municipal, 1843 prédios, 
localizados em 32 ruas, 2 largos, 10 travessas e 4 ladeiras. 
Poucos edifícios de certa importância nessa épcca ; — algumas 
caías de sotrado habitadas pelos principaes da cidade, a cadeia, 
a casa da ramara, o theatro, as egrejas e os conventos. A po- 
pulação pobre, que constituía naturalmente forte maioria, habi- 
tava casebres de construcção ligeira que se alastravam pela 
lombada da serra, não sendo raro encontrar- se ncs extremos 
da cidade ranchos de palha habitados pelos caboclos dos arre- 
dores. A população abastecia-se de agua no rio Taroanduatehy, 
no córrego Anhangabahú, que limitavam a cidade a leste e 
oeste, e em poços abertos nos quintaes das casss. 

Cidade do futuro, tendo vida latente, de senvolveu-se muito 
rapidamento no decennio decorrido de 1840 a 1650. Melhoraram- 
se as construcçoes; o commercio augmentou extraordinariamen- 
te, cresceu a população condensando-se dentro do triangulo ; 
um sopro bemfasejo de progresso, levantava do marasmo secu- 
lar em que jazia a velha São Paulo ! 

Com o incremento da população, do commercio. da vida 
emfim da cidade, deviam apparecer naturalmente flagelos, e 
dentre elles os incêndios não foram os menos temíveis ! 

Ate então, como não existissem linão casebres de ráu bar- 
reado e ranchos cobertos de palha, não se ligava grande impor- 
tância a um incêndio. Logo que se manifestava um desses 



— 140 — 

c8sos, aliás raro», os visinhos acudiam promptamente, retiravam 
os trastes mais necessários ou que tivessem mais valor, isola- 
vam a golpes de machado a caga incendiada das que lhe fica- 
vam contíguas e deixavam- na arder até o ultimo barrote. Isso 
consistia para a garotada impenitente um diverfrmetto sempie 
novo e *empre desejado. 

Si deixavam que ardesse a casa sem se commoverem, os 
homens de então, é por que inútil Feria tentar deter a impe- 
tuosidade das labaredas, que, encontrando na madeira secca, 
que constituia o esqueleto do prédio, elemento para se propa- 
gar, reduzia- o em pouco tempo a um montão de c nzas. Havia 
outros motivos para assim procederem: a dificuldade de trans- 
portar a agua, além do pouco valor que em geral representava 
a habitação atacada pelo fogo. 

Quando, porém, as construcções foram se tornando mais 
cuatt sas, necessário foi tomarem os governantes, medidas acau- 
teladoras dos bens e da vida dos habitantes, que não podiam 
ficar a mercê desses c ntingencias. 

Então, quando se declarava um incêndio, a população in- 
teira se abalava alarmada pelo desapoderado badalar dos sinos 
de todas as egrejis e conventos, pelo ruf*r d« caixas de guerra 
e soar das cornetas em todcs os quartéis e guardas, e pelo 
berreiro da molecada em alvoroço. 

Era fácil ao povo que em borbotão tffluia orientar-se. De 
dia, a íumarada e á noite o clarão do incêndio assignalava o 
ponto de convergência 

A íutoridade que accorria ao primeiro signal de alarme, 
acompanhada de trepa, estabelecia o serv ço de ordem e re- 
quisitava o auxilio do povo para extinguir o fogo. 

Este nem sempre se prestava sem relutância, porque pre- 
feria o papel passivo e commodo de simples espjctador. Não 
éra fácil á autoridade a frganização do serviço, ella não tinha 
acção para f< rçar o povo so cumprimento desse dever de so- 
lidariedade social e quiçá de humanidade. 

Basbaques postavam se nas proximidades do sinistro e im- 
pediam o serviço de extincção, áquelles que menos egoistas e 
indolentes, prestavam seu concurso á autoridade. 

Resultava disso que uns no afan de serem úteis, estabe- 
leciam com os vadios enornre balbúrdia e confusão, que se tor- 
nava prejudicial á ordem e ao serviço. 

A tropa sempre de fraquíssimo efiectivo, mal chegava para 
manter á distancia os que se constituíam elementos perturba- 
dores, não podendo por isso, ser de real utilidade nessa emer- 
gência. 

O primeiro cuidado da autoridade era estabelecer o «ccr- 
dãc» que consistia em uma linha de hoaens, mulheres e mesmo 
crianças, da proximidade do incêndio, ao poço ou tanque mais 
próximo. Uma vez obtido o cordão começava a ser atacado vi- 
gorosamente o fogo até sua completa extincção. A pessoa qne 
ficava junto ao poço retirava o balde cheio, que ia passando 
de mão em mã", até a agua ser lançada ás labaredas. O balde 



— 141 — 

voltando vasio encontrava com outro cheio que vinha de novo 
lançar sen conteúdo ao incêndio. Quando era possível, estabe- 
leciam se dois e as vezes mais cordões e muitas pessoas que 
não faziam parte de nenhum delles vinham, ind vidualmente, 
com bncias, potes e barris cheios, auxiliar a extincçao. Ainda 
hoje, em muita9 cidades do interior que não possuem serviço 
organiza lo de bombeiros, as>im se procede. 

Datam de 1851 as primeiras providencias tomadas para os 
casos de incêndios. 

Anteriormente, c^mo já foi dito, não existia regulamento, 
nem material de extincçao e muito menos pessoal technico e 
capaz de ter empregado nesse serviço. 

N*»sse anno, seido presidente da província o dr. J sé Tho- 
maz Nabuco de Araújo, foram apprr.vadas as primeiras postu- 
ras municipaes realmente previdentes para os casos de incêndio. 

Nem o governo provincial, nem o municipal, tinham cogi- 
tado até então nos mei s de defesa num caso possível de in- 
cêndio. 

Não possuíam s até aqu^lla éiosa, nenhuma bomba ou 
apparelho de extincçao. 

No doposito belheo exisia uma velha bomba manual, inu» 
tilizada que, convenientemente reparada, veiu const tuir o pri- 
meiro, porém pouco etficaz elemento material de defesa contra 
os incen ios. Mais tarde ainda no m^smo anno foi adqnirida 
uma peqnena bomba pertencente a um francez de nome Mar- 
celino Gerard, bomba e sa muito melhor e mais portátil que 
a manu 1 retirada do deposito* 

D j u origem a essas providencias uni grande incêndio occor- 
rido em Dezembr > d * 1850 na casa da rua do Rosário (Quinze 
de Novembro) canto da da Boa Vista Desprovidos de recur- 
sos, como se achavam o governo da província e a municipali- 
dade, o incêndio tomou proporções assustadoras, ameaçando 
devorar t< do o quarteirão. 

Aos esforços reunidos do* habitantes da cidade estimula- 
dos energicamente pelas auto idades, e c <m o emprega oppor- 
tuno de uma bomba emprestada por um particular, se deve 
não W havido maior perda a lamnntir, a não ser a casa in- 
cendiada oceupada por um armazém, que foi totalmente des- 
truída. 

Rela'ando esse pavoroso incêndio, diz o dr. Nabuco de 
Araújo: - cEra bem triste e repugnante a situação da autori- 
dade publica nestas circumstancias, destituída dos nnios inate- 
riaes os mais simples, para poder soccorrer aos cidadãos e as 
famílias, evitar o damno da propried de, eo perigo da cidade: 
era tanto mais triste e repugnante essa situação, quanto não 
tinha ella acção coercitiva para vencer e dominar o eg ismo 
e a ínerciH». 

Parecia, deante do despertar das autoridades responsáveis 
pela inqual ficavel imprevidência, que sérias efficazes medidas 
seriam tomadas tendentes a evitar que ellas tornas^m a ser 
surprehendioas por nm novo caso como 63se que mencionamos. 



— 142 — 

As3Ím não aconteceu. Não tendo havido, durante alguns annos, 
outro incêndio, esqueceram- se as autoridades dos apuros ante- 
riores, e não mais cogitaram de obter meios de defesa para o 
caso de um novo sinistro. 

Tendo occorrido em 1862 um começo de incêndio na rua do 
Carmo, pensou o governo de então em precaverse para o futuro. 

As bombas que figuraram no incêndio de 1850, jaziam 
atiradas em completo abandono, esquecida num canto da arre- 
cadação do corpo policial permanente. Verificou-se não poderem 
fauccionar sem passarem por sérios reparos e limpezas. Onze 
annos permaneceram sem receber o msnor cuidado esses appa- 
relhos de tanta utilidade! 

Um anno depois, em 1863, um grande incêndio causado 
pela explosão de uma barrica de pólvora, devorou uma impor- 
tante casa commerc ai e aterrorizou a população da cidade. 

As autoridades cogitaram então, de novo, em estabelecer 
medidas para os casos de sinistios pelo fogo. 

Eram communs incêndios occasionados por explosões de 
latas ou barris de pólvora. Convinha portan lo afastar a todo 
o custo esse perigo immiaente de incêndios, prohibindo a venda 
de inflammaveis e explosivos em estabelecimentos localizados no 
perímetro urbano e não mais consentir na existe acia de grande 
quantidade de pólvora nas casa3 de commercio. 

Existia Desse sentido uma antga postura muito deficiente 
e totalmente desconhecida e que nunca fora applicada e nem 
observada per parte dos negociantes. Essa postura datava de 
1832 ; regulava e prohibia a venda de inflammaveis sem licença. 
Como complemento dessa postura foi afíixado, nesse mesmo anno, 
um edital determinando logares da cidade onde eram permittidos 
o commercio e fabricação de pólvora, íegos e deposito de in- 
flamm aveia. 

Fora desses pontos, era vedada a vanda dessas matérias. 

Apesar disso, até o anno de 1863 continuava a ser livre 
o commercio de inflammaveis. No intuito de acautelar as 
casas commerciaes desses sinistros, causados por deflagração de 
pólvora, procurou a Camará Municipal pôr cobro a esse abuso 
ha mnito tolerado. 

Nesse mesmo anno, a policia e os commerciantes accor- 
daram em guardar a pólvora dos particulares na Casa. da Pólvora 
mantida pelo governo. Esses inflammaveis só poderiam ser dalli 
retirados em pequenas porções afim de satisfazer a ne:essidade 
do consumo. 

O tempo, porém, veio dissipar o terror produzido pelo 
grande inceadio, que deu causa a essa útil medida. 

«Reinam o desleixo e a indifferença até qu^ de novo 
sejam castigados», dizia em relatório apresentado á assembléa 
provincial em 1869, o presidente da província. 

Nova explosão havida numa casa de negocio em 1870, fe- 
lizmente sem consequências, determinou novo esforço da policia, 
no sentido de cragir os negociantes a se conformarem com o 
edital publicado. 



— 143 — 

Não existindo ainda um código de posturas não podiam as 
autoridades tornar effectivas medidas como essas que afastavam 
o risco de incêndios provocados pela possível explosão da pól- 
vora destinada á venda. Não se convenciam os teimosos com* 
merciantes que o insignificante lucro obtido com o commercio 
de tal artigo não compensava es?e risco. 

A Camará Municipal procurou também, dentro de suas at- 
tribuições, cooperar com a policia, para preencher tão sensivel 
lacuna, qual a da falta de um código de po3tura, fazendo appa- 
recer um provisório, mah tarde torando com algumas alterações, 
effectivo. (1) Entre as diversas disposições desse Código, en- 
contram-se as que se seguem : 

«Artigo 243. — E' prohibido dentro da cidade e suas po- 
voações o fabrico de fogos de artificio, salvo em casas com- 
pletamente isoladas. O infractor soffrerá a multa de 30$ e oito 
dias de rrúão». 

«Artigo 245. — As fab-icas de phosphoros e outras matérias 
inflamam veis, não serão permittidas tinão fora da cidade, e em 
casas estabelecidas nai condições do artigo 243, sob pena de 
multa de 30$000 e oito dias de prisão.» 

Artigo 246. — E' absolutamente prohibida a venda e con- 
servação de pólvora em barris, ou em qualquer porção, nas 
lojas e armazéns commerciaes da cidade, e suas povoações. 
Toda a pólvora, tanto do governo CO mo dos particulares, será 
depositada na Casa da Pólvora. 

Paragrapho 1.° Só é permittida a venda da pólvora fina 
em pequenas latas até o peso de 500 grammas, não podendo o 
negociante ter em casa mais de 25 kilos. 

Faragrapho 2.° E' absolutamente prohibida a conservação 
de matérias inflammaveis, em porção, nas lojas e armazéns da 
cidade. O infractor soffrerá a multa 3O$0O3, sendo obrigado 
a remove 1 as immediatamente. Para venda diária cada nego- 
ciante poderá conservar 10 caixas de formicida, 10 ditas de 
kerozene, 5 ditas de agua-raz e 10 ditas de phosphoros. 

E' absolutamente prohibido ter dynamite dentro da cidade, 
sob pena de multa de 30$, além de ser obrigado á immediata 
remoção». 

Em 1899, quasi trinta anãos depois da prophecia de 1869, 
deu-se o incêndio da casa de fogos da travessa do Braz e o 
da loja do Japão, na rua de S. Bento, cujo prédio foi total- 
mente destruido, causando grande pânico na população, por 
constar existir em deposito grande quantidade de pólvora e 
outros inflammaveis e explosivos. Esses incêndios deram causa 
a diversas providencias da policia e da municipalidade, que 
com louvável convergência de vistas, empregaram medidas 
acauteladoras e preventivas afim de evitar prejuízos ao com- 
mercio e o justo terror dos vizinhos das casas que ccmmerciavam 
em inflammaveis. Medidas de rigor contra abuso tão arraigado 
e quasi sempre tolerado, foram postas em pratica. 



(I) Publicado em 6 de outubro de Ib86. 



— 144 — 
TURMA DE BOMBEIROS 

Em 1874, o dr. Joaquim José do Amaral, zeloso chefe de 
policia, justamente alarmado com a frequência de incêndios 
havidos em 1873, na cidade, ponderava em brilhante exposição 
apresentada ao dr. João Theodoro Xavier, presidente da Pro- 
vinda, que es ta vamos faltos de recursos materiaes para casos 
de summa gravidade. 

Nessa época as casas antigas se amontoavam em diversas 
ruas estreitas. No centro, que hoje com bastante propriedade 
denominamos triangulo, agglomeravam-se as casas commerciaes 
mais importantes. Bem se comprehsnde que nessas circums- 
tancias, ura incêndio de certa importância, era em extremo pre- 
judicial e devastador. 

O dr. Amaral requisitou do governo autorização para manter 
um serviço legular com pessoal habilitado, t°ndo instrucção 
apropriada. 

Tornava-se também precisa a compra do material indis- 
pensável. Propoz que fosse adquirida uma bomba de recipiente 
mixtr, porque as bombas manuaes que existiam tinham muito 
uso e careciam de reparos. 

Solicitou também a compra de baldes de couro, machados 
e machadinhas, escadas mechanicas e um sacco salva-vidas. 

O dr. João Theodoro, attendendo ás justas ponderações do 
geu dedicado auxiliar, pediu e obteve do congresso legislativo 
provincial a lei n. 52, de 24 de abril de 1874, que autorizasse 
as despezas com a acquisição dos materiaes pedidos até a im- 
portância de dez contos de réis. 

Para se utilizar desse excellente material creou elle uma 
turma de 10 homens, annexa á companhia de urbanos e, com 
autorização do governo, engajou algumas ex-praças do corpo 
de bombeiros da Corte para servirem na turma. 

O íllustre paulista tencionava mandar praças de urbanos 
praticarem no serviço de extinção de incêndios na corporação 
de bombeiros do Rio. Por motivos talvez alheios ao seu lou- 
vável desejo, não teve execução essa ideia, que viria dotar a 
cidade de magnifico elemento de defesa concra os incêndios. 
Não tendo podido assim fazer, contractou competentes instruc- 
tores de gymnastica e de bombeiros para darem instrucção de 
Buas especialidades, não só ás dez praças affectas como também 
a toda a companhia de urbanos, tendo com isso obtido óptimos 
resultados. Pensava elle muito acertadamente que nada podia 
desculpar a imprevidência porque, pela proximidade em que 
a Provjncia estava da Corte, fácil seria obter recursos materiaes 
com a acquisição de modernos apparelhos, assim como preparar 
convenientemente os homens que se destinassem ao serviço de 
bombeiros • 

Infelizmente, o benemérito paulista não teve continuadores, 
e as dez praças destinadas ao serviço de extinção foram em- 
pregadas no policiamento da cidade. Dispensaram também os 






— 145 — 

instructores e não se cuidcu da conservação do mate. ial ad- 
quirido, que ficou a carsro da companhia de urbanos. 

Em princípios de 1877 de novo sa pensou em instruir no 
serviço de extincção de incêndios as praças dessa companhia, 
tendo mesmo sido engajado ou aprove, tado o serviço de um 
sargento que servira no corpo de bombeiros do Ro. 

A camará mucicipal não ficou também inerte durante esse 
tempo ; como sempre acontecia, ainda desta vez veiu em auxilio 
das Autoridades, organizando um código no qual incluiu dis- 
posições excellentes das posturas stbre incêndios de 1851, bas- 
tante augmentado e melhorado de accordo com o progresso da 
cidade. Eis as disposições sobre incêndios do Código de Pos- 
turas (1). 

«Artigo 248 — Todo o sineiro, fachristão cu encarregado 
de tocar os sinos das eg ejas, Irgo que tiver noticia de qualquer 
incerdio, é obrigado a dar o competente s?gnal, que será de- 
signado pelo chefe de policia em regulamento, de modo que 
se conheça em qual das fregiezias tem lugar o incêndio. 

Paragapho único — Todo aquelle que der á policia aviso 
falso fica sujeito á multa de 30$ e oito dias de pisão 

Artigo 249 — Todas as egrej^g repetirão o signal conforme 
fôr estabelecido, e dará© também signal de estar extincto o 
incêndio. 

Pela infracção, tanto deste como r*o artigo antecedente, 
será imposta ao infractor a multa de 10$000 cu 24 lij as de 
prisão 

Artigro 250 — O sineiro que em primeiro leg r der o signal 
de incêndio, será gratificado crm 5$C00 peles c» frea da Camará, 
mediante atteatado da autoridade do districto da egreja. 

Artigo 251 — O cfficial mechanico que primeiro se apre- 
sentar no logar do incêndio com ferramenta» pr< prias e prestar 
serviços, será gratificado pela Cama a em 10$ mediante o mesmo 
attestado. 

Artigo 252 — Os carrocein s ou vendedt res de agua con- 
servarão sempre as pipas cheias de agua durante a noite, e 
são obrigados a conconerem ao lugar do inceudio para forne- 
cerem agua ao serviço das bombas. 

Oi que forem encontrados durante a noite com as pipas 
vasia* ou não se apresentarem no lugar do incenjio, se ffrerão 
a multa de 10$ e ser -lhes-á cassada por um rnez a licença. 

Artigo 253 — O carroceiro que primeiro se apresentar ao 
logar do incêndio com a pipa cheia de agua, obterá o premio 
de 10$ pelo cofre municipal, mediante atestado da autoridade 
pelicial qne também primeiro te apresentar. 

Qaando comparecerem mais de um ao mesmo tempo, a 
gratificação será repartida eguslmente. 

A gratificação de que trata este artigo não se entende com 
as carroças e pipas que estão ao serviço publico. 



0) Bó foi publicado em 6 de outubro de 1386, tornande-se effecUvo. 






— 146 — 

Artigo 254 — Tcdo aquelle que tiver em sua casa, poços 
penas de agua e tanques, é obrigado a franqueai -rs para ex- 
tinção dos incêndios, quando o requisitar a autoridade policial, 
que tomará as precisas cautelas, afim de evitar abusos e prejuizos. 

O que a isso se oppuzer, soffrerá a multa de 30$. 

Artigo 255 — Os moradores dos predio3 são obrigados a 
mandar limpar de 6 em 6 mezes a chaminé de suas habitações, 
sob pena de multa de 30$. 

SECÇÃO DE BOMBEIROS 

Fazia-se no entanto necessário que medidas urgen*es e 
duradouras fcssem tomadas no intuito de que tão indispensável 
serviço tivesse definitiva e regular organização, tanto meia que 
os incêndios tornaram- se de tal modo frequentes, que punham 
as autoridades em sérios embaraçoa e alarmavam a população. 

A cidade continuava em rápido desenvolvimento exten- 
dendo-se por bairros novos, dilatando enormemente a sua área. 
Em 1878 existiam já 7987 prédios em 66 ruas, 4 largos, 11 
travessas, 5 ladeiras e 1 beco. 

Attento ao seu constante progredir, a consequente accu- 
mulação e importância dos prédios, e agglomeração dos ha- 
bitantes, era já tempo de estar o governo convenientemente 
preparado para impedir que casos de incêndios tivessem, como 
quasi sempre acontecia, lamentáveis consequências. 

Havia clamor geral contra a imprevi ão que deixava, por 
falta de machinas e apparelhos necessários, ca cidade exposta 
á devastação pelo incêndio quando este tomasse proporções que 
exigissem o emprego de machinas mais potentes que as bombas 
de jardim e deslocação de agua mais promptameme do que pelos 
baldes dos carroceiros». 

Não existia ainda, como se deprehende do que fica dito, 
canalização regular de 8gua para o abastecimento aesse precioso 
liquido á população da cidade. 

Não existia ou por outra, ainda não havia sido inaugurado 
o serviço de abastecimento de agua a cargo da Companhia Can- 
tareira e Exgotos (1). 

Essa companhia concessionaria, obrigou-se no3 seus con- 
tractos celebrados com o governo da Provincia em 1875, 1877 e 
1879, a conservar funccionando os chafarizes existentes em nu- 
mero de 5 e a localizar mais 6 em differentes largos. O go- 
verno com a mais opportuna e acertada previdência, fez incluir 
uma outra clausula no contracto pelo qual teve a companhia 
de collccar nos conductcras de agua, llO válvulas de incêndio 
em diversos legares, distribuídas de modo que ficasse estabe- 
lecido em toiloa es quarteirões «este primeiro recurso contra 
incendies», como diz a clausula. 

Essas providencias tomadas antes da creação do serviço 
regular de extinção, mestra que o governo tinha já cogitado 



(i) Inaugurada em junho de 1881 . 



— 147 — 

de estabelecer o apparelbamento necessário e próprio para o 
aproveitamento, em caso de sinistro, dts válvulas existentes. 

O que. porém, scbretudo contribuiu psra o estabelecimento 
da secção de bombeircs foi o grande incêndio havido em a 
noite de 15 de fevereiro de 1880 e que ccnsnmiu parte do 
edifício onde ainda boje foncciona a Faculdade de Direito 
e egreja de São Francisco, destruindo comi leiamente a bi- 
bliothe^a e o arcbivo da Faculdade. Essa violento incêndio 
que tantos prejuízos e damnos causou, consternou a população 
inteira de S. Pêulo, tendo repercutido dolorosamente fóia da 
capital e da província. 

O adeantado da hora em qu« foi feio rondante, presen- 
tido e c'ado o alarme di incêndio, 3 horas da msnbã, e a falta 
absoluta de material apropriado, dificultaram mui o o trabalho, 
de ex inção. O povo, que accorreu ao primeiro alarme dado 
peles sinos da egreja entigua assim ermo a prlicia, os urbanos, 
tropas de linha, trabalharam activamente, mas seus esforços 
foram quasi improfícuos para dominar a acção destuidora do fogo. 

As autoridades, uma vez extinto o fogo. procederam no 
local do sinistro, ás necessárias indagações, chegando á con- 
clusão de que elle fora ateado por mão criminosa. 

Haviam espargido p%troleo em tal quantidade, que ainda 
nas estantes da bibliotheca da Faculdade e assoalho da sala 
eontigua á egreja, não totalmente consumida, not*v*m-se man- 
ches produz ; das por essa substancia inflammavel Numa parte, 
do edifício poupada pelo fogo foi encoí trada uma janella ar- 
rombada de fora para dentro e signaes de pisadas no jardim 
de pessoa que entráa o sahira. 

No dia seguinte. 16, na Osmara, o illustrs do e operoso de- 
putado dr« Ferreira Br8ga justific u, na brilhante oração que 
abaixe vae transcripta, dois projectos: um -ara decrete r a 
criação ra secção de hembei'CB e out'0 para que a província 
contribuísse com o auxilio de 50 contes para a reccnstrucçâo 
do edifício : 

<0 sr. Ferreira Braga — A capital da província está ainda 
sob a mais dolorosa impressão, pelo rcrntecimento de que hon- 
tem, á noite, foi theatro narte do edifício da Faculdade de Di- 
reito e da egreja de S. Francisco. O pavonso incêndio ateado 
casual ru criminosamente naquellei do.s edifícios, coLstitue 
uma calamidade publica, quer para a província, quer para o 
paiz, e nos contrista o espirito. Não lastimam™ tanto a des- 
truição da parte material do edifício da Faculdade de Direito, 
quanto a do archivo académico; archivo ha tant) tempo exis- 
tente e que encerrando preciosidades ml, era a historia viva 
de tantas gerações, que se têm perdido umas, em a noite es- 
cura dos temprs, outras, que constituem as urns fulgidas cons- 
tellações da pátria, na actualidade ; historia em um momento 
sepultada nos destroços fumegantes daquellas ruínas que ahi 
se ficaram a m°io pelo denodo de uns, pela bravura de outros 
que procuravam fazer recuar, circumscrever, extinguir as on-las 
do fogo, que ameaçavam tudo invadir. 



— 148 — 

E' admirável, sr. presidente, vergonhoso mesmo, permitta- 
se-me a franqueza, que em uma cidaHe tão importante c mo 
S. Paulo, tâo rica quanto populosa, Dão exista um corpo de 
bombeiros perfeitamente organizado. Nào ha ciíade ou vjlla 
nos Estadrs Unidos da America que não teoha montado, sem- 
pre prompto a voar para onde quer que o incêndio se annun- 
cie um Corpo de Bonbeiros. 

Ou tem sido muita coD6a^ca na boa estrella desta pro- 
víncia, ou indisculpavel descuido. Entretanto têm- se gasto 
grossas sommas com o aformoseamento da cidade e não ?e cura 
de dar organizsção regular ao Corpo de Bombeiros, munindo- 
se a capital do material preciso para extinção de incêndios.» 

Urge, pois, cuidarmos do futuro, e nesse intento apresento 
os seguintes projectos : um tratando de habilitar o governo 
com a quota precisa para manter o Corpo de Bombeiros ann^xo 
ao de urbanos; outro p ra que a província concorra com 50 
contos para a reparação da egreja e Faculdade. 

Eis o projecto referente aos bombeiros, approvado em ter- 
ceira discussão em 27 di mesmo mez: 

«A assembléa legklativ» provincial decreta: 

Art. l.° — Fica o governo da província autorizado a or- 
ganizar desde já uma secção de bombeiros annexa á companhia 
de urbanos da capital e a fazer acquisição de machinismos. 
próprios para a extinção de incêndios. 

Art. 2.° — Para essa despeza ó o governo autorisado a 
abrir um credito de 20 contos » 

Revcgfidas as disposições em contrario* 

Paço da assembléa, 16 de feveieúo de 1880. Ferreira 
Braga. 

Coube ao esforçado presidente da província, dr. Laurindo 
Abelardo de Brito e ao chefe de policia, dr. Jcão Augusto de 
Pádua Fleury, posteriormente desembargador da Rlação de» 
Mato Grosso, a gloria de terem daio execução intelligeote e 
cabal á lei da Assembléa Legislativa Provincial, sob n. 6, 
publicada em 10 de mirço de 1880, autorizando a criação de 
uma secção de bombeiros com pessoal próprio, destinada ao 
serviço de extinção de incêndios, e autorizando operação de 
credito para esse fim até v ute contos de réis 

A secção criada por essa lei compunha-se de um alferes, 
commaodante e de 20 praças. 

No intuito de evitar possível confusão em circumst meias 
excepcionaes, foi dado ás praças e ao commandante da secção, 
uniforme differente do usado pelas praças da companhia de- 
urbanos e pelas praças de outras tropas. Esse uniforme era 
egual ao que usava a corporação de bombeiros do Rio. 

A secção f i organizada cem o seguinte material adquiri- 
do na Corte, onde também foi feito o alistamento de alguns 
voluntários, que constituíram a maioria dos engajados, pelo 
zeloso dr. Pádua Fleury, que com notável intelligencia e eco- 
nomia para es cofres da Provincia, desempenhou-se da missão 
que lhe fora commettida : — 2 bombas tina francezas ; 2 bom- 



— 149 - 

fcas chimicap, abafadoras ; 2 bombas v ennenses, uma das quaes 
foi ofterecida á província pelo gcverno imperial, por intermé- 
dio do commeudador Philadelpho de Souza Castro. 

As bombas chamadas viennense tinham força de projecção 
suficiente para mandar a agua á altura de um prédio de dois 
andares. Estas bombas prestaram poderoso auxilio pela simpli- 
cidade de seu systema. As bombas chimicas constituíam prom- 
j>;o soccorro nos pequenos incêndios. Todo material rodante, 
inclusive 4 pip.s, eram tirados por muares. 

O pessoal, muares e material da tecção foram accommoda- 
dos em uma das casas alugadas para a estação central de 
urbanos á rua do Quartel, huje Onze de Agcsto, exactamente 
onde funccionam actualmente as cfficínas do Diário Official, 
Era um velho sobrado pertencente ao Visconde de Vergueiro, 
adaptado pelo director de Obras Publicas sr. dr. Cândido Ro- 
drigues. 

Foi necessária também a organização de um regulamento 
pelo qual a secção se regesse. Ness» mesmo anno, em 7 de 
julho, foi baixado o primeiro regulamento privativo dessa 
instituição, organizado pelo commandante da secção, que o mo- 
delou pelo do Rio. 

Foi seu prime ro commandante, nomeado por acto de 24 
de julho, ainda de 1880, o alferes José Severino Dias. que, 
como official instruccor sei via no Corpo de Bombeiros da Corte, 
onde f i convidado para vir a S. Paulo, organizar e ccmman- 
dar a secção recentemente creada pelo então presidente da pro- 
vinda. Este offi-:ial foi pouco dtpoi*, pala Assemb éa Provincial 
elevado a tenente. Demorou-se pouco tempo no cargo em que 
foi investido, sendo dispensado por divergências que teve com 
o governo. 

Tem a data de 1 de março de 1883 o acto que o demittiu 
e que nomeou, para eubstituil-o, no commando interinamente, 
o tenente Manuel José Branco, do corpo de permanentes. 

Data, portanto, de 10 de março de 1880 a criação da 
£ecçào de bombeiros. Foi ella o inicio, ou melhor o primeiro 
núcleo de homens instruídos no serviço de extinção de incên- 
dios, ao redor do qual se rtuuiram pouco a pouco, outros ele- 
mentos, vindo a constituir a magni6ca corporação de bombeiros 
que hoje possuam os paulistas e que sem exaggero, podemos 
affirmar, é pelo menos egual á melhor corporação cocgenere 
do Brazil. 

AUGMENTO DA SECÇÃO 

A cidade continuava no seu constante progredir e o com- 
mercio desenvolvia se muito rapidamente devido em parte, ás 
estradas de ferro da provinc a que devassavam o* se' toes © 
criavam novas fontes de riqueza, e também ao incremento que 
ia tendo a immigração extrangeira que em parte, se estabele- 



— 150 — 

cia na capital Abriam-se novas runs em todos os lados da ci- 
dade, tendo sido collectad. s cm 1883, no perímetro urbano e 
suburbano, 9.702 prédios. 

Já se notava, quatro annos após a criação da secção, in- 
suficiência de mateiial e de pessoal. 

Não obstante, ella se des3mpenhava com promptidão e ga- 
lhardia das exigências impostas pelo serviço a seu cargo. 

Tornaram-ss efíectivas essas medidas tao insistentemente 
reclamadas pelas autoridades porque, em uma visita feita ao 
quartel por S. M. o Imperador D. Pedro II, que chegara a 
esta capital em 12 de novembro de 1886, externara-i»e sobre 
o que vira em termos poucos lisonjeiros e, por occasião do 
exercício da secção de bombeiros realizado em frente ao quartel 
de linha na presença de S. M. no mesmo dia de sua chegada, 
ás 5 horas da tarde, dissera: «Ainda está muito atrazado» e 
voltando -se para o tenente Araújo, commandante da secção, 
accrescentnu : «Quando eu vier segunda vez, quero ver isto 
melhor.» O Visconde de Parnahvba que acompanhava 8. M. 
tudo ouvira e promettera reorganizar a secção elevando -a á 
altura da civilizição e do progresso da prcvincia. 

Desde 1884 começaram os chefe3 a> policia a reclamar 
maior desenvolvimento para esse ramo de serviço, tanto em 
material como em pessoal. Apezar disso, somente em 1887 é 
que, diante da insistência densas autoridades, acoroçoadas pelas 
zelosas ponderações do commandante da secção, tenente Alfredo 
José Martim de AiauJD, que desde dezembro de 1885 se achava 
á sua testa, para cujo cominando fora ncmeado por acto dessa 
data, notando que o material existente não prehenchia cabal- 
mente ao fim a que era destinado, mandou o Visconde de Ptr- 
nahyba, então presidente da província, vir da corte apparelhos 
mais aperfeiçoados e já experimentados e adoptados no corpo 
de bombeiros dalli. 

O illustre presidente achou que não devia adiar por mais 
tempo essa medida, porque a existência da secção, cem o ma- 
terial de que dispunha, era completamente insuficiente. Com 
o novo material podia ella, então, dominar qualquer incêndio. 

Com as previdências tomadas faziam- se necessárias outras 
medidas complementares. Como poderia o pessoal ex stente, 
unicamente suficiente para trabalhar com o velho material 
continuar com o novo e moderno que demandava para sua con- 
servação e manejo maior trabalho e portanto maior numero de 
homens? O seu efíectivo bastava escassamente para manobrar 
com o material substituido. Estj estado de cousas não podia 
durar assim e requeria promptas providencias. 

Outros inconvenientes surgiam ainda exigindo urgette re- 
médio, dentre elles a exiguidade dos commodos afTectos á 
secção. Não havia espaço para acommodar os medernos appa- 
relhos e nem elles podiam pelo seu volume, transpor o estreito 
portão da Estação Central de Urbanos ! 

A sfeção transferiu -se, pois, com o pessoal e material, pir 
determinação do presidente, para um prédio da rua do Trem, 



— 151 — 

fronteiro á travassa do (Cartel, depois de construídos es com- 
modos e galpões indispensáveis. 

Com outros materiaes foi adquirida uma bomba a vapor 
«Greemoidi», a primeira qm veiu a S. Paulo. 

Quanto ao augmento do p««goal obteve o Visconde, da 
Assembléa Provincial, a lei n. 27 de 10 de março de 1888 ele- 
vando o effjctivo do secção a 30 praças, um primeiro sargento 
e um segundo. 

Apezar desse augmento de pessoal ainda elle continuava 
insuficiente para o serviço que lhe era cemmettido e as soli- 
citações dos chefes de polícia eram constantes. 

Sobrevindo a Republica e installado o governo provisório, 
appareceram de novo as representações sobre a exiguidade do 
effectivo da secção em relação ao augmento da população, até 
que em 15 de março de 1890 foi publicado o decreto do dr. 
Prudente José de Moraes Barros, governador provisório do Es- 
tado, augmentando de 30 para 50 bombeiros e criando 2 cornetas, 
3 maebinístas, 4 cab^s, 2 segundos sargentos, 1 primeiro sar- 
gento, 1 tenente-ajudante e 1 capitão commandante. 

COMPANHIA DE BOMBEIROS 

Eram incansáveis os chefes de policia, ainda na monarchia, 
e deoois, no actual regimen, nas suas tentativas para que a 
secção de bombeiros fosse elevada á categoria de companhia com 
quatro (fficiaes. Pediu o dr. Salvador António Muniz Barreto 
de Aragão em seu relatório apresentado em 31 de dezembro de 
1887, e em exposição feita posteriormente demonstrou essa ne- 
cessidade e fez uma proposta que não foi attendida. 

Também o desembargador Bandeira de Mello, quando chefe 
de policia, solicitou com interesse a aceitação dessa medda, 
que viria armar as autoridades de maio- somma de elementos 
na defesa da propriedade quando atacada pelo fogo. 

Reiterou ainda a sua primeira solicitação no relr tório que 
apresentou em 7 de janeiro de 1889. 

A insuficiência do pessoal de bombeiros, assim como do 
respectivo material, era geralmente conhecida. Sabia- se que 
com muita dificuldade se poderia attender ao serviço de extin- 
ção de incêndios na cidade e subúrbios onde já existiam col- 
lectados 14.500 prédios. 

Deante de3se estado lastimável de coisas, resolveu o dr. 
Bernardino de Campos, chefe de policia, representar ao governo 
provisório, em 1890, pedindo a elevação da secção á companhia, 
dotando-a ao mesmo tempo, de materiaes modernos, visto o 
existente já não poder satisfazer as exigências do serviço. 

Foi attendendo a essa solicitação que o dr. Américo Bra- 
siliense de Almeida Mello, governador provisório do Estado, 
baixou o decreto n. 139, de 14 de março de 1891, elevando a 
secção á categoria de companhia de bombeiros, com três secções, 
constituídas de 1 major commandante, 1 capitão ajudante, 3 



— 152 — 

tenentes, 6 alferes, primeiros sargentos, 6 segundos sargentos, 
10 cabos, 6 machinistas, 4 cornetas, 130 bombeiros e cocheiros. 
O m"8mi decreto determinou a acquisição de uma bomba 
a vapor Gremwich e accessorios ; 3 bombas manuaes Brigade 
de Londres ; um carro para a conducção de mangueiras ; 4.200 
metro? de mangueiras; 24 derlvantes diversos; 12 tubos de 
descarga; 3 bombas portáteis; 21 agarradeira^ para manguei- 
ras ; 24 chaves ; 2 ternos de escadas de assalto ; 24 machadas 
picaretas e 48 machadinhas. 

• Bem se nota que os governos acompanhavam com suas acer- 
tadas e opportunas providencias, a par e passo, dem nstrando 
a máxima solicitude parA com as coisas publicas, o progresso 
rápido da cidade, pois que em dez annos apenas, de um núcleo 
insignificante de elementos quasí sem organização, fizeram uma 
bem organizada companhia munida dos apparelhos mais moder- 
nos e perfeitos, para serem empregados com efficacia no3 casos 
de incêndios. Ainda assim, essa transf rmação radical por que 
passou a secção em companh a, com augmento em triplo do 
pessoal e material, não satisfazia cabalmente ao serviço a que 
se destinava. 

E' certo que em casos de sinistros sahia a companhia com 
seu exeellente material com uma presteza surprehendente ; mas 
não é menos certo aue a cidade se extendis vertiginosamente e 
que extenso» como eram os subúrbios, não podia o seu material 
at tingir um dos extremos em que por ventura fosse necessário, 
com tempo sufficiente para dominar e extinguir o incêndio. 

CORPO DE BOMBEIROS 

Fazia-se necessário o augmento urgente do pessoal e ma- 
terial ou então, o que seria mais pratico, transformar a compa- 
nhia «m corpo com duas c mpanhias . 

Era imp-escindivel também a localização de duas estações 
filiaes no centro do? dois bairros então mais populosos : Santa 
Iphigenia e Braz ; para isso, porém, o pessoal da companhia não 
bastava. / 

Nesse sentido apresentou o chefe de policia dr. Siqueira 
Campos, uma exposição detalhada do estado do pessoal e ma- 
terial de companhia, demonstrando a sua insuficiência e pedin- 
do as providencias que suggeriam. 

O governo do Estado, em mensagem apresentada ao con- 
gresso, apoi u calorosamente a exposição do chefe de policia. 
Dahi proveiu a transformação da companhia dò bombeiros em 
corpo de bombeiros na lei de fixação de Força Publica, n. Li, 
de 14 de novembro de 1891. Era o corpo criado por essa lei, 
dividido em duas companhias com o effectivo total de 240 hon eus. 

O estado maior do corpo, era const tuido por um major 
commandante, 1 capitão ajudante, 1 alferes secretario aceumu- 
lando as funeções de quart4 mestre e 1 capitão cirurgião. 

Cada companhia tinha um efíectivo de 118 homen3 assim 
discriminados : 1 tenente commandante, 2 alferes, 1 primeiro sar- 



— 153 — 

gento, 3 machinistas, 2 segundos sargentos, um (arriei, 12 cabes, 
90 bombeiros, 4 cornetas e 2 ferradores. 

Era pensamento do governo, ao que parece, concentrar nas 
mãos do commandante do corpo a administração das duas com- 
panhias e investir es tenentes, assim como es alferes, nos com- 
mandos de secções, por isso que as companhias foram divididas 
em três secções cada uma, cabendo portanto uma para cada offi- 
cial subalterno 

Para a organização do corpo, augmentado em duplo, foi 
necessário enganjar, sem a necessária escolha, todos os homens 
validos que se apresentavam sem se indagar do seu comporta- 
mento civil e moral. Deu esse facto em resultado que essa 
corporação que já havia justamente conquisado nome de dis- 
ciplinado visse escurecido o rom credito de que gesava. 

Logo depois de ser elevado a corpo, ainda antes de ter 
uma organização ulfmadi, começou lavrar irreprimível indisci- 
plina no seio da corporação, não sendo rares actos de verdadeira 
insubordinação. 

Às rixas e constantes connictos travados com praças do 
corpo de urbanos, quasi sempre provocadas pelos bombeiros, eram 
uma prova bem triste da patente desorganização em que se 
achava o corpo recententento criado. 

Commandantes e officiaes eram impotentes para fazer cessar 
esses desmandos. Faltava- lhes a forca moral indispensável para 
fazer valer a sua autoridade de superior e pôr cobro a taes actos 
que não poucas vezes alarmavam a população da cidade. Como 
era natural, esses factos deprimentes de nossos brios, essas con- 
stantes desordens, davam aos extrangeiros que nos visitavam, 
bem triste mostra da nossa falha cultura e civilização ! 

Mais de uma vez, em pleno dia, no coração da cidade, 
bombeiros amotinados, armados de machadinha, aggrediam e 
feriam os guardas no exercício de suas funeções de rondantes. 

Urgia, a bem da própria corporação e para tranquilidade 
do publico, fosse tomada uma medida enérgica que pozesse fim 
a tão lamentável espirito de indisciplina e insubordinação numa 
corporação criada para fins tão elevados e humanitários. 

Para fazer entrar em crdem a cor p ração de bombeiros, 
convidou o dr. Américo Brasiliense, presidente do Estado, ao 
illustrado engenheiro militar, capitão António Maria de Albu- 
querque 0'Conueil Jersey, que, investido no cargo de tenente 
coronel" commandante do corpo em 24 de outubro de 1891, o 
di solveu para em seguida reorganizai -o com melhores elemen- 
tos, visto não convir a permanência de parte do pessoal exis- 
tente, já muito viciado e por ter o commandante, conforme se 
lê em seu relatório, ccomprehendido ter eido por demais baixado 
O nivel moral daqueila instituição». 

O tenente-coronel Jersey, severo disciplinador, soube esco- 
lher elementos de escol, para reorganização do corpo, nos mol- 
des estabelecidos. Investiu os tenentes nos commandos de com- 
panhia e os alferes nos de secção. 



— 154 — 

Com a sua incansável actividade e acatada autoridade, 
conseguiu fazer desapparecer da corporação, a pratica de faltas 
de certa gravidade. O moral do pessoal elevou -se muito, du- 
rante essa criteriosa administração. 

Durante quasi um anno, elle commandou o corpo, demittin- 
do-se em 7 de outubro de 1892. 

Para preencher a vaga aberta no corpo, pela exoneração 
do capitão 0'Connell Jersey, lançou mão o governo, com o mais 
feliz acerto, do distincto militar, o engenheiro capitão Benedicto 
Graccho Pinto da Gama, nomeando-o tenentecoronel comman- 
dante, por decreto de 7 de outubro de 1892. 

O effectivo do corpo era ainda iasufficiente, para preencher 
03 fios de seu destino. Tornou- se necessário elevar o numero 
de praças. O governo do Estado, ao apresentar o seu projecto 
de lei de Força Publica, pediu e obteve a elevação do effetivo 
a 305 homens. A lei n. 27 B, de 21 de dezembro de 1892, 
que fixou a f. rça para o exercicio de 1893, trouxe esse au- 
gmento e permittiu que fosse criado, sem despesa para o Esta- 
do, e empregando somente praças do corpo, uma banda de mu- 
sica, como as que existiam então nos outros corpos de infantaria 
e cavallaria. 

A lei de fixação de força para o anno de 1894, publicada 
sob o n. 186, em 22 de agosto de 1893, trouxe ainda um pe- 
queno augmento para o effectivo do corpo, que foi elevado a 
323 homens, sendo accrescido de 1 mestre ferrador, 1 mestre 
coirieiro, 8 cabos e 8 segundos sargentos. 

Desde que o corpo de bombeiros, passou a ser parte inte- 
grante da Força Publica, regido pelas mesmas leis, tendo 
o mesmo commando geral dos outrcs corpos, teve de, necessa- 
riamente, ser como os outro-, militarizado, e de com elles, quando 
preciso, concorrer no serviço de infantaria. Assim foi que, ao 
declarar-se a revolta de 6 de setembro de 1893, estava já o 
corpo armado de fuzis Manuhcher e suficientemente instruído 
no seu manejo, do que deu brilhante e sobejas provas na guar- 
nição de parte do littoral da barra de Santos, para onde foi en- 
viado sob o commando do bravo tenente-coronel Silva Telles. 
O corpo não se limitou alli somente a serviço de infantaria : 
habituado ao rude trabalho de sua árdua profissão, foi também 
empregado no serviço de sapa, fortificando as posições occupa- 
das pelas tropas em operações. 

Terminada a revolta pela rendição da esquadra, regressou 
o corpo para esta capital, occupando de novo o seu quartel cen- 
tral á rua do Trem (1) onde ainda se acha. 

ALTERAÇÕES DO EFFECTIVO 

A lei n. 273, de 23 de junho de 1894, determinou que o 
effectivo do corpo para o exercicio de 1895, fosse o mesmo da 
fixação da lei anterior, isto é, de 323 homens. 



(1) Tem hoje o nomo de >Annita Garibaldi» 



— 155 — 

A lei n. 354, de 28 de agosto de 1895 conBervou o mesmo 
effectivo para o armo de 1896. 

A lei n. 478, de 24 de dezembro de 1896 que fixou a Força 
para o exercício de 1897, elevou o eftactivo a 373 homens, au- 
irmentando 4 alferes, 2 machinistas de primeira classe, 2 de se- 
gunda e 2 de terceira ; 1 telegraphista de primeira classe, 5 de 
segunda e 6 de terceira; 4 cabos, 20 bombeiros e 4 foguistas. 
Es e augmento foi determinado pela acquisiçào de novo mate- 
rial. 

A de n. 513, de 29 de junho de 1897, diminuiu no effe- 
ctivo para o ex rcicio de 1898, 11 foguistas. Ficcu por isso 
reduzido a 362 homens. 

A lei n. 590. de 29 de agosto de 1898, fixando a Força 
para 1899, reduziu ainda mais o effectivo do corpo. Foi-lhe 
attribuido somente 359 homens. Forau diminuídos 4 cabos e 
augmentado 1 foguista. 

A lei n. 652, de 16 de agosto de 1899, que fixou a Força 
para o anno de 19^0, produziu enorme corte no effectivo, corte 
que por algum t mpo trouxe desequilíbrio na marcha até entflo 
regular do serviço. Habituados a contarem com 359 homens 
para o serviço geral e conservação do magnifico material exis- 
tente, rodante o não rodante, a cargo do corpo, tiveram os orn- 
ciaes de organizar nova escala de serviço de til modo que, S9m 
entravar a sua marcha regular, fossem os bombeiros aquinhoa- 
dos com horas de necessário repouso. 

O serviço, graças á intelligencia e boa vontade dos officiaes 
existentes, correu como de costume, na melhor ordem possivel, 
dado o limitado numero de praças existentes marcado para o 
effectivo : 293 homens, apenas. 

Desappareceram do quadro o tenente coronel, — o corpo 
passou a ser comxaniado por um major, — 4 alferes, 4 cabos 
3 sargentcs mandadores e 118 bombeiros. Foram augmentadcs 
1 mestre pintor, 1 mestre carpinteiro, 50 conductores, 2 fdrra- 
dores e 10 foguistas. 

A lei n. 722 de 16 de outubro de 1900, conservou o mesmo 
effectivo para o anno de 1901 . 

A lei n. 780, de 10 de julho de 19 Jl, augmentou para o 
exercicio de 1902 1 alferes ajudante e 1 mestre cocheiro. Fi- 
cou assim elevado o effbctivo a 295. 

Esse mesmo effectivo foi conservado para 1903 pela lei n. 
851 de 22 de outubro de 1902 e para o de 1904 pela lei n. 878 
de 15 de outubro de 1903. 

O effactivo de 295 homens foi diminuído para 291, pela 
lei de fixação de Força para o anno de 1905, n. 911 de 20 de 
julho de 1904. Foram feitas as seguintes alterações : augmen- 
tou 1 sargento ajudante que até então não existia; diminuíram 
3 machinistas de primeira classe, augmentaram 5 de segunda e 
supprimiram 6 de terceira e criaram 6 de segunda classe. 



— 156 — 

A lei n. 957, de 20 de setembro de 1905 conservou o 
mesmo pessoal para o exercício de 1906. 

A lei r». 1027, de 30 de novembro de 1906, fixando a For- 
ça para 1907, attribuiu ao corpo o effactivo de 310 rumens, 
sendo portanto, augmentado com 21. Eis as alterações havidas: 
Foi dado o commando a 1 tenente coronel, supprimidos o ca- 
pitão-fiscal, o alferes ajudante, 4 segundos sargentos, 16 cabos, 
4 cornetas e augmentou 4 tambores. 

A lei n. 1.092, de 10 de outubro de 1907, elevou o effe- 
ctivo para 1908 a 337 homens, sendo augmentado, portanto, 27. 

A lei n. 1029, de 17 de setembro de 1908 conservou para 
o exercício de 1809, o mesmo effectivo. 

A lei n. 1.175 de 29 de outubro de 1909, que fixou o e fle- 
cti vo da Força rara 1910, deu. para este corpo o de 341, t>u- 
gmeutando no de 1909 um alferes ajudante e 3 telegraphistas 
de segunda classe. Foram criados 3 amanuenses, 2 ajudantes 
de corrieiros, accrescentando 18 bombeiros e 14 coraetas. 

Eís em resumo, o quadro dos e Afectivos determinados em 
leis desde 1680 até 1910. 



ANNOS 


: 


NUMERO DAS 


LEIS 


E DATAS 




EFFBCT1VOS 


1880 


Lei ] 


a. 6 de 10 de 


) ma ço 


• • 


21 


1888 


» 


► 27 » 


10 » 


» 


# 


33 


1890 


Decreto 


29 » 


15 » 


> 


• 


64 


1891 


» : 


► 139 » 


i4 » 


» 




173 


1892 


Lei j 


17 * 


14 » 


novembro 


Í891 


240 


1893 


» i 


► 27 » 


21 » 


dezembro 


1892 


305 


1894 


» 


186 > 


22 » 


agosto 


1895 


323 


1895 


» j 


273a » 


23 » 


junho 


lh94 


323 


1896 


» 


► 354 » 


28 * 


agosto 


1895 


ÍJ23 


1697 


» 


► 478 » 


24 » 


dezembro 


1896 


373 


1898 


» 3 


513 » 


29 » 


julho 


1897 


362 


1899 


> ] 


590 » 


29 > 


agosto 


1898 


359 


1910 


» ] 


► 652 » 


16 » 


» 


1899 


293 


1901 


» i 


► 722 » 


16 > 


outubro 


1900 


2b3 


1902 


» j 


► 780 » 


10 » 


julho 


1901 


295 


1903 


* z 


> 851 » 


*2 » 


cutubro 


1902 


295 


1904 


» 1 


878 » 


15 » 


» 


1903 


295 


1905 


9 1 


911 » 


20 > 


julho 


1904 


291 


1906 


» J 


957 > 


20 > 


setembro 


1905 


291 


1907 


» ] 


> 1.027 » 


30 » 


novembro 


1906 


310 


19(8 


» 1 


1.092a» 


16 » 


outubro 


1907 


337 


1909 


» . a 


> 1.129a» 


17 » 


setembro 


190 


337 


1910 


» a 


1175 » 


29 » 


outubro 


1909 


341 









— 157 — 

TENENTE JOSÉ' SEVERINO DIAS 

(1.° commandante) 

O tenente Jcsé Severino Dias, filho de João António Dias 
e de d. Rosa da Conceição Dias, nasceu em Paranaguá, no 
Estado do Paraná, em 20 de j miro de 1856. Na e-cila pu- 
blica daquella cidade fez o curso preliminar aos 11 annos de 
edade. Aos 18, já moço e activo, achando acanhado o berço 
de seu nascimeito pira desenvolver e expandir a sua activida- 
de, transferiu-ee para o Rio de Janeiro, em 1873. empregando- 
se na repartição de contabilidade da Armada Nacional. Pa sou 
para a da Fazenda em maio de 1874, sendo incorporado no 
quadro como fiel do couraçado cMariz e Barros», e em sesruida 
da corveta «Bahiana» e canhoneira < Forte de Cjimbra». Nesta 
desempenhou também o cargo de commissario. Em 1876 foi 
designado para servir no Estado d i Amazonas, sendo nomeado 
fiel da Fazenda. Não acceitando a designação, exenercu-se do 
cargo e entrou para o corpo de bombeiros do Rio, tendo as 
honras do posto de tenente, servindo como instructor contra- 
ctado . 

Foi desse posto que»o governo provincial o reti ou para 
organizar a secçãi de bombeiros de S. Paulo, cria la pela lei n. 
6 de 10 de março de 1880. O dire3tor geral do corpo, então, 
tenente- coronel e hoje general de divisão, João Soares Neiva, 
relutou muito para coosmtir que o tenente Dias acceitisse essa 
honrosa incumbência, por isso que tua retirada iria privar o 
corpo de bcmberos de um de seus melhores elementos. 

Comtudo, as instancias di preaidente da Província, conse- 
lheiro Laurindo de B ito, permittu que fosse deslig ido da cor- 
poração em 23 de junho, embarcando no dia seguinte para S. 
Paulo. 

Investido no posto de alferes commandante da secção, deu 
começo á pesada tarefa de organização. Tinha elle de attender 
a múltiplos arTazeres. Ao mesmo tempo que dava t s indicações 
para adaptaçlo d* casa particular que ia servir de quartel, an- 
gariava, escolhia e instruía os voluntários para a novel co-po- 
ração e dispunha o material fará prestar serviço no momento 
em que fosse reclamai- . Em 1882 a assembléa provincial, em 
lei de Força, elevou-o a tenente commandante. 

Foi exonerado do commando da secção em novembro de 
1883 pelo então presidente da província, conselheiro Francisco 
de Carvalho Soares Branda), por divergência suscitada na or- 
ganização do serviço de inspecção de vehiculos de que desin- 
teressadamente se incumbira, a pedido do governo. Prestou, 
elle, á província, relevantes e assignalados serviços. 

Presentemente o tenente José Severino Dias exerce eleva- 
das funcçôes na Recebedoria de Rendas de Santos. 



■^***^****»*+**m- 



OS GUSMÕES 



POR 



AFFONSO A. DE FREITAS 



Sócio effectivo do Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo 



OS GUSMÕES 



Não foram somente as qualidades bellicas dos paulistas 
qu* os tornaram conhecidos e respeitados nos tempos coloniaes : 
ao par e passo que as bandeiras, capitaneadas pelo3 Anhan- 
gueras, Brito Peixoto, João Amaro, Jorge Velio, etc, etc, 
enchiam a península sul-americaua com o rumor de suas ar- 
mas, grangeando para a raça a qie pertenciam, o justo reno- 
me de povo forte e conquistador, surgiam de um recanto da 
Capitania, poderosas mentalid das que, applicadas ao estudo 
dos múltiplos ramos do conhe imento humano, onqui tavam 
perante o velho mundo, os foros de sib.o, demonstrando serem 
os ccmpa ricios de Caiuby e Tebiriça, capazes de imperar, já 
naquelle t- mjo, em t das as manifestado ;s da inteligência. 

Santos, a então pequenina villa de Santos, fii o berço de 
quasi todos os paulistas que, duran e os séculos XVII, XVIII 
e XIX, se tornaram illuátres nos domínios da politica e das 
sciencias 

Alli nasceram José Bonifácio, sibio que se fez polrico 
para implantar a liberdade em sua pátria, seus irmãos e so- 
brinha Anto )io Carlos, Marti m Francisco e Costa Aguiar os 
jísuitas André de Almeida, Ignacio Rodrigues e Gaspar Gon- 
çalves de Araújo e, ai quizermos considerar a villa de S Vi- 
cente, arrabalde da de Saitos, frei Gaspar da Madre de Deus, 
monge benedict no que n> século se chamou Gaspar Peixeira 
de Azevedo, todos ilhntres nas letras, além dos irmãos Gus- 
mõei sobre os quaes ao adernte, talaremos mais detidamente. 

E não eram somente os paul stas que, ao tempo, honra- 
vam *ua pátria na velha Eurcpi : no ultimo quartel do século 
XVIII nada menos de três brazileiros, Vicente Coelho da Sil- 
va Tálles, Francis jo Villela Barbosa e Manoel Jacyntho Ni- 
gueira da Gama nascidos em outros pontos do Brazil, e todos 
sócios da Academ a Real de Sciencias de Lisboa, composta, se- 
gundo a chronica, somente dos homens mais eruditos do rei- 
no, regiam, ao lado de José Bojif icio, abil zado m°stre de 
metallurgia na Univeraidide de Coimb-a as cadeiras de mine- 
ralogia, botaiica e sg icultura daquela Universidade e as de 
mathematicas da Real Aaiemia de Marinha de LUboa. 

Do matrimonio dos illustres progenitores dos Gusmôes, o 
cirurgião-mór do presidio da villi de Santos, Francisco Lou- 
renço e d. Maria Alvares, nasceram sete fillns, doi quaes cin- 
co elevaram -se pelo sabjr acima do vulgo, ligando -nos a his- 
toria os seus nomes e fditOB. 



— 162 — 

Eram elles : 

Frei Simão Alvares, jesuíta, nascido em 1682, terceiro 
filho de Francisco Lourenço, pregador notável e escriptor de 
merecimento. 

Frei Particio de Santa Maria, franciscano, nascido em 
1690; estudou e ordenou-se na Itália, viajou a Ásia Menor e 
publicou cm latim diversas obras de controvérsia religiosa e, 
em 1742, as impressões de sua peregrinação aos Santos Lo- 
gares . 

Padre João Alvares de Santa Maria, carmelita, nascido 
em 1702, sétimo filho de Francisco L urenço : distinguiu- se 
como escnptor e orador sagrado. Assistiu aos últimos mo- 
mentos do padre Bartholomeu, seu irmão, vindo a falleeer em 
lisboa, em época incerta. 

Padie Bartholomeu Lourenço de Gusmão, nascido em 
1685, presbytero secular, doutor em çanone3 pela Universida- 
de de Coimbra, fidalgo- capellão da casa real e sócio da Aca- 
demia Real de Historia Portugueza ; foi o creador da aeros- 
tação, cfferecendo ao povo de Lisboa com o seu «Pássaro^, 
em 8 de agosto de 1709, o espectáculo, inteiramente novo, de 
uma ascensão aerostatica, o que lhe valeu uma serie dj per- 
seguições par parte do Santo Officio, obrigando-o a refugiar- 
se em Hespanha, onde falleceu em Toledo a 19 de novembro 
de 1724. Escriptor notável, publicou vários trabalhos de va- 
lor e hoje raris3Ím"»s. 

Alexandre de Gusmão, nascido em 1679 ; era doutor em 
direito civil, cavalheiro professo da Ordem de Chrisío, fidalgo 
da casa real, secretario particular de el-rei d. João Ve mem- 
bro da Academia Real de Historia Portugueza e do Conselho 
Ultramarino. 

Foi, ce facto, o negociador do tratado de M*drid de 1750 
e, no caracter de enviado extraordinário á corte de Rama, ob- 
teve do papa Benedicto XIII para os reis de Portugal, que 
ainda o u am, o titulo de «Fidelíssimo» em recompensa ao 
auxilio por duas vezes prestado na defesa da Itália pela ar- 
mada portugueza contra o poder ottomano, sendo por essa 
occasião agraciado por aqueJle pontífice com o titulo de prín- 
cipe romano, qae, todavia, não acceitou. A' sua influencia 
deve Portugal a creação do Cardinalato de Lisboa e o Brazil 
a dos Bispados de S. Paulo, Marianna e Pará. 

Sabendo tudo quanto um hcmem podia saber no seu tem- 
po, espirito fortemente impregnado das ideias philosophicas 
que deveriam um dia minar a vetusta organização social e 
j azei- a ruir com a queda do antigo regimen, era já um vol- 
tairiano antes de Voltaire e teria sido Pombal antes de Se- 
bastião José de Carvalho, de quem possuía a envergadura de 
estadista, menos a violência, si não fora, pela caturrice de d. 
João V, ultimo foberano da série doa reis portuguezes nullos 
a contar de d. Afíonso VI, obrigado a abater- se até os seus 
cortezões e hombrear com o Cardeal da Motta, sábio truanesco 
que pretendeu acabar com a3 trovoadas, cujo ribombar infun- 



— 463 — 



dia invencível pavor a Sua Majestade, riscando- as do . . . 
calendário. 

O quinto este illustre brazileiro estava deslocado na corte 
jogralesea de d. João V, dil-o a carta per elle dirigida a d. 
Luiz da Cunho, em resposta a em que este diplomata pedia 
seus bors inicies no sentido de cbter a intervenção do sobe- 
rano para o restabelecimento da paz na Europa, conflagrada 
desde a guerra da suecessão da Htspanba, carta essa escripta 
18 annos antes das famesas Cartas philcsophicas acerca dos 
Inglezes de Voltaire e que vale bem pela Óedipo com a qual 
o grande philcsopho francez iniciou em 1718, a sua lumincsa 
carreira litteraria. 

Publicada algures, essa carta vem transcripta na «Ohro- 
nologia Paulista>, de onde a trasladamos para aqui. 

Eis a carta : 

Exceli" ntissimo 8r. : — Ainda que eu sabia quando recebi 
a carta de V. Exa. que não havia de vencer o negocio em 
que V. Exa. se empenhou comtudo, por obedecer e servir a 
V. Exa. sempre falei a Sua Majestade e aos Ministros actuaes 
do Governo. 

Primeiramente o Cardeal da Motta me respondeu que a 
preposição de V. Exa. era* inadmitsivel, em razão de poder 
resultar delia ficar El-Reí obrigaco ao cumprimento do Tra- 
tado, o que não era conveniente. Errquunto falamos na ma- 
te ia, se entreteve o Secretario de Estado, seu irmão, em alpor- 
car huns craveiros, que até isso fazem alli fora do logar e tempo. 

Procurei falar a 8. Revdma. mais de três vezes, primei- 
ro que me ouvisse e o achei contando a apparição do Sancho 
a seu Amo, qte traz o Padre Caurino na sua Corte Santa, 
cuja hstoria ouviram com grande attenção o Duque de La- 
fões, Ferrão Freire e outros. 

Respondeu que Deus nos tinha conservado cm paz e que 
Y. Exa. queria metter-nos em arengas, o que era tentar a Deus. 

Finalmente falei a El-Rei (seja pelo amor de Deus!) que 
estava perguntando ao Prior da Freguezia quanto rendiam as 
escolas pelas almas, e as missas que se diziam por ellas 

Disse-me que a proporição de V. Exa. era muito própria 
das máximas francezas, com as quaes V Exa. te tinha com- 
naturalizido e que não prose guissn mais. Sa V. Exa. cahisse 
na materialidade (do que está muito livre) de querer instituir 
algumas irmandades e me mandasse falar nellas, havíamos de 
conseguir o empenho, e ainda merecer alguns prémios. 

A pessoa de V. Exa. guarde Deus, como desejo, para 
defesa e credito de Portugal. Lisboa, 2 de fevereiro de 1717. 
Alexandre de Gusmão. 

Tivesse d. João V a capacidade intellectual de seu filho 
d. José I ou de seu avô d. João IV e antecipada teria sido 
pelo notável tantista, a regeneração politico- económica de Por- 
tugal, mais tarde levada a effeito pelo grande Pombal. 



O Caminho do Paraguay a Santo André da 
Borda do Campo 

PELO 

DR. GENTIL DE ASSIS MOURA 

Sócio tffeetivo do Instituto Hhtorico e Ger graphico de S. Paulo 



O Caminho do Paraguay a Santo André da 
Borda do Campo 

Reconstituição do itinerário de Ulrich Schmidel em 1553 

(Trabalho lido na sessão do Instituto Histórico de S. Paulo de 
6 de Junho). 

 recoDstituição dos itinerários dos viajantes, das expedições 
e bandeiras que nos primeiros séculos da vida da colónia cor- 
taram o paiz em d fíerentea direcções, é um dos auxiliares que 
o estudo da historia reclama e da qual não pode prescindir. 

A vida dos nossos primeiros tempos estava presa ás ex- 
pedições e bandeiras qu«, internando-se pelo desconhecido, 
criavam es factos históricos e definiam o temperamento da na- 
cionalidade incipiente. 

Sua organização mostrava mais um arrojo que revelava 
um intento e por isso tinha consequências diversas. Umas vezes 
era para «saltear» índios e reduzil-os ao captiveiro ; outras 
para vencer fadigas e sustentar lutas com o fim de conquistalos 
pela fé e trazel-os ao seio do christianiamo ; ou então para 
descobrir as minas de ouro e pedrarias ; ou, ainda, sem mais 
interesse material, levados por esse amor que a pátria nunca 
paga, mas que o coração sempre sente, partiam através do 
sertão iDhospito e longínquo a expulfar do território o atrevido 
invasor da sua capitania. 

E' pela reconstituição desses itinerários e seu delinea- 
mento em mappas que se poderão elucidar os pontos histo- 
rices referidos nos roteiros e que se relacionam com a posição 
dos lugares onde os factes se deram; por elles é que se co- 
nhecerão os accidentes do terreno e as dificuldades stffridas 
para transpol-os. Será com seu auxilio que se conhecerá a 
localização approximada ou exacta assim como o histórico de 
lugares até agora ignorados, mas que por necessidade cu in- 
teresse foram forçados a fundar e que constituem hoje a ma- 
ioria das nossas cidades. 

Seguindo seu delineamento é que se poderá acompanhar 
a marcha conquistadora da civilização e da distensão territo- 
rial, já adquirindo terreno pela primazia no descoberto, já rei- 
vindicando -o das mãos des hespanhóes, que o minavam pelo 
interior, ao passo que os portuguezes se viam absortos na po- 
voação e defeza da costa. 



- 168 — 

E não srrá somente a historia que del!e trará proveito. 
Ganhará também a ethnographia, locando a posição das dif- 
fer entes alc'êas que, amigas ou adversarias, tiveram de lidar 
cem as bandeiras, concorrendo assim para a sui divisão em ir bus 
ou nações e para o conhecim°nto da área do seu território. 
A geologia ahi também tomará seus apontamentos. Poderá 
saber a situação das mina?, identificando assim o histo ico do 
seu des^nvol vime ato e o quantum da sua producção. 

Tanto, ou mais do que essas sciencias, a gecgraphia tirará 
dessa r constitu ção os elementos para o c< nhe cimento do paiz, 
atè então reproduzidos com grande atrazo nos documantos car- 
tcgraphicos cuja evolução também pode estuda \ 

E assim como estas, to 'as as rrais sciencias ramificadas 
cu relacionadas com a geographia, poderão ahi locar os ptntos 
que lhes i ateres sem. 

Infelizmente, ló na actualidade é que se tem tratado da 
reconstituição desses ro eir s, assignalaudo-se em mappas os 
pontos dãs suas travessias. 

Oá inçar saveh investigadores Orville Deiby e Theodcro 
Sampaio, a cr j s trabalhes se deve um gratde numero de iti- 
nerários recoLs ituides, foram em S. Paulo os iniciadores desse 
g-enero de estu* os . 

Historiadores consummados e geograihcs eméritos trataram 
de fazer a união de uma sciencia cem a outra, o que nem sem- 
pre se podia fazer, attenta a falta de mappas regulares do paiz. 
Sem esa concordância, impossível seria ff zer-se a recons- 
tituição ; — a geogra^hiaj como auxiliar da historia, tem de ser 
como eila a expressão da v- riade, porque as acenas da vida 
do homem não têm < utro palco senão a supeificie da terra; e 
por isso é primordial que a integridaie de uma corresponda á 
exactidão da outra. Dthi o não se conciliarem eilas, quando 
os elementos não se harmonizam. 

Entre nós não era a falta de documentos históricos nem a 
controvérsia dos factos que dificultavam a reconstituição do 
nosso passado; s» bia se que cida bandeira constituía um facto 
da nossa vida li s'oriea, mas faltava nos saber onde a oceur- 
rercia se deu; faltava a representação roguh r do terreno onde 
se pudesse descrever e as&ignalar o local do acontecimento. 

H< je, mercê dos caminhamentos das explorações, dts plan- 
tas das estradas de ferro, das expedições ger gr aphicas, dos tra- 
balhos de diversas commis ões sei ntificas, já postuimos menu- 
mentes cartrgraph cos que repr duzem com relativa correcção 
os accidfntes topographices e onde com approximação se podem 
calcar os itinerários seguidos atravéz do paiz. 

Sem esses elementos, difrbil seria reconstituir os lacóni- 
cos ro' eitos dos primeiros século?. 

Fa tos de orientação e de partes descriptivas, obscuros em 
extremo nos pontos de referencia proiixos por excelência nos 
feitos darmas e nss oceurrencias de vi gem Bem impor tan ia to- 
pographica, sua delineação só em marpas detalhado: é que tóie 
ser feita, aproveitando -se para isso um cu outro accidente. 






— 469 — 

E' de um documento desse?, primando pela tbscuridade e 
laconismo, com palavras baibaramente estropiadas, esoipto por 
um homem que durante vinte annos viv u no Pan gaay a vida 
de soldado e de aventureiro, que ros vamoi servir [ara recons- 
tituir o caminho por elle seguido. 

Neste cstulo trataremos do itinerário até á ah êa de P. 
André; o resto do percnr*o tentarem s esboçar quando tra- 
tarmos da reconstituição do ca m uno de PiratiniDga a São 
Vicente. 

A viagem de Scbmilel, escripta 10 ancos depois, fora do 
campo do acontecimento, é ainda rssim, considerado uma das 
melhores fontes de ii formação sob-e a crcquista do Paraguiy; 
porque descreve toda3 í& ocurrcncas havidas nas admin stra- 
ções r'e Fernão do Mendonça, Irala e & bpça de Vacca. 

Como peça descriptiva do can inho arguido não tem a menor 
impo: tancia. Passa rapidamente pelos lugares; evita o con- 
tacto com es im ios temendo eui atfques; cita qua'ro ou cinco 
nomes Ir cães qne escreve de tal medo que rara entendei- es ó 
preciso qua»i a ivinhar. e passa por uma região cheia de rios 
e serras que, toda v a não lhe merecem a mínima referencia. 

Entretanto, desde que e:se itinerário possa terá recorsti- 
tuido em mappa detalhado, o aeu valer cre: ce de :mpi rtaneia ; 
poique se poderão idei tificar alguns pontos obscuros da histeria 
dos dois prir. eiros séculos do descoberde. 

Assim, a densidede dasnleções des hespanhees residentes 
em Cananéa com seus ecnterrat e s residentes 10 Paraguay e 
cem 01 portuguez**8 de S. Vicente e Piratininga, quer enca- 
rando- os como illiadís ou ir inrgos dos primein s, quer como 
espias ou auxiliares d s segundos; a entrrda da civilizsção 
serra acima pela fundação da residência de Maniçoba e cir- 
cumseriíta até 1553 ás costas do Atli ntico ; o ettudo d< s mo- 
tivos que dividiram as hordas selvsgaot em três classes, uma 
que obedecia á direcção dos hespaihoes, cutra que era alhada 
acs portuguezes e uma terceira que não queria saber do com- 
mercio extrangeiro, são p ntes que tó depois de calcado esse 
caminho \ odem ser estudados. 

St bre essa via de comuna: cação, não se conhece (na re- 
gião de Piratininga), roteiro ou descripção antericr á que 8c h- 
midtl escreveu, a não ter a ibscura carta de Diogo Nunes a d. 
João III em 1539 e na qual se refere aos «sertões a onde se 
podia chegar atravessar do as terras de S. Vicente» e qce devia 
se refer.r ao caminho que ligava os portes do Atlântico (Ca- 
nanéa e 8. Vicente) aos portos io Pacifico no governo do Peru. 

Por elle deviam ter frantitado partindo de differentes 
pontos : 

De Camnéa. A expedição do Alexo Garcia; a comitiva 
crgiLizada por Martim Affonao para explorar a« minas de ouro 
iniormadas per Francisco Chaves: o pfdre Leonardo Nunes 
quando foi ás alcJêw pediras criança-» para cate chi zar ; os hes- 
panhoes que por inte medo doa jesuítas atravessa 1 am para o 
Paragu y, depois de aceommodados os Carijós pelos irmãos 



— 170 — 

Pedro Corrêa e João de Souza que nesse caminho firam as- 
sassinados *, o giupo de viajantes que levaram a Schmidel a 
noticia da estadia de um navio no porto de 8. Vicente e que 
deviam tel-o informado sobre esse caminho. 

De Piratininga : Diogo Nunes, na sua viagem ao Para- 
guay e ao Peru : o indio Miguel, christão convertido de São 
Vicente, que regressava do Paragrcay a sua reducção ; Braz 
Cubas e Luiz Martins que em 1562 se internaram pelo paiz 
em distancia de trezentas léguas. 

De Santa Catharina: Cabeça de Vaccas, os companheiros 
de Hans Staden que preferiram seguir por terra emquanto 
elle ia a S. Vicente pedir o auxilio dos portuguezes para a 
sua travessia e João Salazar que depois de ter vindo de As- 
sumpção por esse caminho para combinar com os Carijós sobre 
o plantio de mandioca para abastecer os navios que deman- 
davam o Paraguay, foi morto no sertão quando regressava por 
terra para aquelle paiz. 

Vejamos agora o que narra Schmidel da sua viagem. 

Djz aquelle viajante que depois de ter servido durante 
vinte annos aos conquistadores do Paraguay, recebera em julho 
de 1552 uma carta de Sebastião Nedhart chamando- o com ur- 
gência a Allemanha. Assim que a recebeu foi procurar o ge- 
neral Martim Domingos Irala a quem pediu baixa allegando 
em seu favor es serviços prestado?, o numero de perigos que 
arrostou e a sua fidelidade ao general. 

Depois de alguma relutância, Irala accedeu ao pedido, 
deu-lhe um fé de officio muito honrosa e o encarregou de uma 
carta pva o rei da Hespanba relatando o estado das coisas no 
Rio da Prata. 

Estava tratando dos aprestos da viagem quando chegaram 
do Brazil diversas pessoas que lhe deram noticia de se achar 
em S. Vicente um navio vindo de Lisboa, e seguramente o 
informaram da existência de um caminho, por terra, ligando 
esses dois pontos. 

O desejo de alcançar o navio fel-o partir no prazo de 
oito dias, saindo de Assumpção no dia 26 de dezembro de 1552, 
acompanhado de 20 índios carijós e tripulando duas canoas 
onde iam também os objectos precisos para sua onga viagem. 

Desceu então o Paraguay e a 46 milhas de distancia (cer- 
ca de 10 léguas) na aldeia de cJuberic Sabaie» foi alcançado 
por 4 dos seus companheiros (allemãesj e do;s portuguezes que 
também partiam de Assumpção, desertando das fileiras do ge- 
neral Irala. 

Depois de passarem pelas aUeias que elle denomina Ge- 
baretln e Birou, chegaram a Barede onde demoraram dois 
dias procurando provisões e canoas para subirem o Paraná, co- 
mo o fizeram na distancia de 100 milhas. 

Chegaram até a aldeia de Gingie, sendo que o paiz até 
então percorrido pertencia ao domínio hespanhol, oceupado 
outr'ora pelos Carijó?. Para diante começavam as terras de 
Portugal e que são habitadas pelos Tupis. 



— 474 — 

Em Gingie deixaram o Paraná e as canoas, proseguindo 
por terra durante seis semanas atravez de montanhas e matas 
espessas e sem poderem deseançar cem á noite pelo receio dos 
animaes ferozes. 

Em seguida se dirigem para uma aldeia chagada cCarieseba», 
habitada também pelos Tupis que faziam a guerra aos christãos, 
e de quem antes eram alliado*. 

Quatro milhas aquém dessa aldeia tinham encontrado uma 
outra onde o avisaram que se prevenissem contra os habitan- 
tes de Carieseba; entretanto dois dos companheiros, rsgotados 
de fadiga, desprezaram os conselhos e entraram na al;e;a onde 
foram mortos pelos Tup s Cerca de cincoenta índios sairam 
em seguida das choças vestindo alguns delles a rcupa dos 
companheiros mortos : avançaram a trinta passos dos viajantes 
tentando parlamentar. 

Estes, sabendo que era habito dos Índios f-izerem agres- 
sões emquanto distrairiam as victimas com as sms palavras, re- 
solveram evitsr o discurso e vender cara a sua vida. Pergun- 
taram então velos companheiros obtendo como resposta que 
estavam na aldeia, convidando-os a acompanhai- os até lá, o 
que os europeus :ecusr.ram conhecendo-lhes a perfídia. 

Os selvagens lançafam-lhes então algumas flexas e parti- 
ram correndo para a aldeia de onde tomarr.m em numero que 
Schmidel avaliou superior a seis mil. 

Só tinham para sua defesa uma mata para se esconderem, 4 
arcabuses para disparar n os 20 Índios Carijós para sustentar a luta. 

Acceitaram o primeiío alvitre e ee fortificaram na mata. 
Soffreram o ataque duraate 4 dias, resolvendo no quinto fugir 
atravez das florestas por onde andaram seis dias, atravessando 
lugares tão selvagens e caminhos tão ruins como nunca pas- 
saram em sua vida. Não tinham por alimento senão mel sil- 
vestre e raizeç; pois o receio dos índios nem sequer lhes per- 
mittia procurar caça. 

Em seguida chegaram a uma nação chamada «Biesaie» 
cujos índios forneceram viveras, mas onde não ousarrm entrar, 
attento o pequeno numero de pessoas de que a comitiva se 
compunha. 

O território dos «Besaie» é atravessado por um rio que 
elle denomina Urquan que deve ser o Tietê e onde viu um 
grande numero de serpentes que, descontados os exaggeroB da 
espessura, devem ser sueurys, mas a que elle dá o es tr; piado 
nome de cSchue-Eyba-Tuescha. 

Depois de um mez de marcha checaram a Jurubaluba, 
que elle chama Schebetueba e que diz ser a onze milhas (4 
léguas) adiante, (1) onde ficaram 3 di s para refazer a» forças 
exgotadas. 



(1) Não diz adiante do que, se do lugar do rio onde viu as sucurys ou da 
aldêa Biesaie. — Um mez de marcha, mesmo para quem tem de gastar o dia na 
procura de alimentação e Já está fatigado pelos trabalhos de uma viagem longa 
é muito tempo para fazer 4 léguas : por isto é de presumir que a distancia se 
refira ao lugar onde viu as suenrys, e o tempo de um mez tenha sido gasto para 
ir do Biesaie a Jurubatuba. 



- 172 — 

Havia muito tempo que sofíriam toda a acrte de misérias 
e estavam rrivados de viveres e até do somto; não tinham 
para com*r senão o mel tilvettre e para dormir mais que uma 
rede de ter o de 4 a 5 libras que cada um trazia ccmsigo e 
que armava ao r» lento. 

Derois de Jurubatuba chegaram a uma alceia at christãos, 
cujo eh» f e se chamava João «Reinveille» e a qual o viajaLte 
faz as peores referencias dizendo que lhe pareceu um velha* 
ccuto de ladrões. 

Apezar do b m acdhimento que teve, diz que rende ga- 
cas ao céu prr tel-o feito sahir são e sa'vo. Dahi naitiu para 
S. ViceDte aoade chegou a 24 de junho de 1553 e onde 
achíu nivio qre rove dias depois o transportou para Lúboa. 

Eis em resumo os pontes de re'erencia que SchmVel for- 
nece para a n c; nst tuiçào do s ; u itine ario, o que ai ás bem 
apurado íó pode» apreveitrr a dois contos; o da p^iti^a no rio 
Paraná a 100 m lhas da barra do Paivgmy e o da chegada ta 
alcêa de Jcío Baoaiho. 

Esses eh mentos meimo não têm grande vakr se quizer- 
mo8 tragar com rigor os pensos do itineraro. 

O lugar em que deixou as canoas no Paraná não está 
áqup-1'a distancia do P*rrgu>y, e a pisição de S. Andié até 
heje só fiçuia <m ep<,ões. 

Outros apontamentos q' e fornece, ermo os nomes estro- 
piados de duas alcêas indígenas e a gr. ph a de um rio «Ur- 
quan», unieos aliás que devúm elncidar o roteiro, não trazem 
ao primeiro es udo luz alguma á obscuridade a narração. 

Entretan'0, ha nelles a limões que, sem importância á pri- 
meira vista, são auxiliares poderosos da sua recenst tuição. 

Uma delias é a referencia acs portuguezes desertores do 
Paraguiy, que o alcançaram na aldêa Jtberic Sabaie. 

Confrontando-se o anno da viagem de Schmidel com os 
factos essigru alados na chronioa da Companhia de Je.us por 
Sktão de Vaeconcellos para 1553, encontram- se algumaB refe- 
rencias que muito aproveitaram ao nisso estudo. 

Diz' o chronista que Nobrfga, vendo que a conversão dos 
indios ia muito devagar, determinou partir para o sertão, em 
instancia de 100 léguas, com o fim de procunr lugar apro- 
priado e fundar uma povoe ção onde houvesse sin eridade, ver- 
dadeira religão e amor de Christo. Thomó de Souza, poiêm, 
resolveu oppor-se a essas intenções, allegando motivos de in- 
tereíse não fó da religião como da politica. 

Não podendo o superior dos jesuítas levar a efíeito o seu 
inttito, intentou comtudo fazer alguma cosa nesse sentido. 

Tendo recebido, havia pouco, por irmão a António Rodri- 
gues, c homem que havi* sido soldado nas partes do Paragusy 
e muito versado nrs costumes da gente Carijó enre as quaes 
estivera nuitos aurns» resolvru kval-o como c< mpanheiro e 
quiçá cemo guia para o sertão que pretendia conquittar. 

Mais adiante, na ebronica do anno de 1568, em o numero 
124 e seguinteB da noticia da motte do padre António Rodri- 
gues a 20 de janeiro desse anno, e nas netas da sua biogra- 



— 473 — 

phia diz: <Era este bom padre portuguz natural de Lisboa; 
seg tia no mundo as armas e embarcado em una Armada Cas- 
telhana passou as partes do Ru da Piata onle esteve alguns 
ânuos» 

«Voltiu daquelle paiz p-sr terra *té S Vicente, viajando 
duzentas léguas por caminhes s litari >s, aspérrimos e usados 
ió de firas ou Índios montanh -zes ende corria o perigo de ser 
devorado. Vinha com intenção de segur para Lisboa a pro- 
curar seu pae que ainda era vivo mas preferiu entrar pa-a a 
Ccmpanhis, o que fez no anno d ^ 1553 » 

cLgo que entnu foi levado cemo noviço para a região de 
Piratininga atravessa do descalço aqnellas seira nas e, como 
era perito na lingna e nos hábitos dos índios, deixou-lhe Nó- 
brega ao seu cargo trabalhar na sua catechese.» 

PeDetrcu o sertão cerca de 40 legues, fez egrej i, ca u .e- 
chizou e converteu índios e viveu cem elíes t'es ou quatro 
annoB. Dj Piratininga foi removido pira a Bih a attribum- 
do-se-lhe a conversão de cerca de 50 000 almas e a form ; ção 
das aldêas desde o Cana mu a dez ito léguas do sul da cida- 
de, até quasi o Rio Real, a quarenta léguas do lado do norte. 

«Di Bahia veiu em 1567 para o Rn> de Janeir em com- 
panhia de Mem de Sá, onde foi firmar d fiaittvameite as paz >s 
com os Tamoyos atá que, enfermando, ve u a fallcer no col • 
legio que a sua crdem tinhr naquella cidede» 

Tivesse ou não sido o paire Rjdrigues o soldado desertor 
que alcançara Schmidel no segundo dia da sua viagem, é in- 
negavel, porém, que elle c nhecia o cpminho dj Paragiay e 
poderia servir de gui* a Nóbrega e voltando atr z re pi ando 
as pegadas, mo-trj»r-lhe rs trech s por que passou e a aldêa 
que o seu companhe ro chamou de Biesaie, cuj »s índios Ih 3 
forneceram es viveres para a viagem, e onde talvez escolhessem 
o lugar para a sua primeira pcvoaç~o. 

A chronica, perém, o que narra é que Nob ega, partinlo 
em companhia do n«.viç- António Rodrigues e de alguns indies 
catechumenos de Piratininga, chegara até á aldêa de Japyhuba 
cu Maniçoba, onde tratou de realizar o que t nha em meute. 

Erigiu uma pequena egreja e começou a ensinar a dou- 
trina, dando assim principio a uma residência qu? durou annos, 
com grandes p oveitos para a religião. 

A fama de Nóbrega se estendeu p >r todo o sertão d>Pa- 
raguay (2) donde se abalara n g anie* leva* de v.arjó. em 
busca delle para S3rem dou^ri aios na nova aliei que Ih )s 
fi ava mais pe to. 

Uma cecasião, quandj uma dessa; c^eva*» de Carijós se 
achava nas proximidades da eg*eja, foi atacada á tração seado 
morto i muitos Índios por uma hordi de Tupis seus contrários 
e moradores em 1'araoaitú 

Entre esses Carijós vinham alguns hesoanhoe* que na oc 
casião do encontro se esconderam na mata e, depois de ter- 



(2) Era assim chamada toda a regiáo de Piratininga para diante. 



— 174 — 

minada a lata, foram ter, parte á aldêa de Maniçoba, parte á 
aldêa dos Tupis no Paranaitú qne os aprisionaram, mas que foram 
soltos per intervenção do padre Pedro Corrêa 

A dispersão e chegada áquella aldêa, bem como a facili- 
dade com que Corrêa obteve a liberdade, dão a entender que as 
aldêas eram próximas uma da outra. 

O nome Peranaitú é muito sugf estivo na sua significação 
de «salto de rio grande». Rio Grande era o primitivo appellido 
do rio que, ao depois chamado Anhembi, tem hoje o nome de 
Tietê. 

A denominação de Rio Grínd.) deve proceder da traducçlo 
immediata do nome Paraná, pelo qual parece ter sido conhe- 
cido antes da entrada dos portuguezes no Brazil. 

Paranaitú, «salto do rio Grande» ou salto do Tietê, não 
pode ser identificado com outro senão o salto de Itú, na villa 
da comarca deste ultimo nome, e que hoje ainda conserva a 
graphia da sua primitiva denominação ; traduz e repete a pa- 
lavra traduzida. 

Nas vizinhanças de S Paulo, cu nas 40 léguas de explo- 
ração qua ftz Nóbrega não ha outro rio Grande que dê um 
salto que mereça aquella definição. 

Maniçoba ou Japyuba é possível que seja o local onde está 
situada a actual cidade de Itú. Maniçoba não teve vida muito du- 
radoura, parecendo que pouco depois de sua fundação foi aban- 
donada. 

Simão de Vasconcellos diz que em 1554 os mamelucos 
filhos de João Ramalho foram até essa aldêa, perturbaram tudo 
e conseguiram que aquelles catechumenos abandonassem os 
padres conveccendo-os que os mesmos eram estrangeiros que 
foram degradados para a colcnia como gente tem oceupação 
e que seria mais honroso obedecer a quem fosse tão v lente 
no arco e na frecha como elles. Accrescenta em seguida «não 
£Ó disseram coco fizeram; porque os pobres indiof, suppo3to 
que rosnsos por natureza enganados da eloquência e eíficacia 
dos mamelucos, em cujos corpos par. ce falava a diabo, assim 
se foram embravecendo e amotinando que houveram os padres 
de deixai os em quando não esperava mais fruto. 

No testamento de Domingos Fernandes, se vê, nas dis- 
posições que faz com referencia á capeila que erigiu a Nossa 
Senhora da Candelária, nos Campos de Pirapitinguy, no dis- 
tricto de Iiú-Gu8S3Ú, allusSo ao povoado que ahi já tivesse 
havido na parte que diz «salvo se pelos meus peccados, Deus 
ordenar que isso se torne a despovoar» . 

Accrescenta ainda Azevedo Marques, nes seus Apontamentos 
pag. 205, e onde vem esse testamento na integra que a cidade 
de Itú está situada em logar onde se presume ter sido «al- 
deamento» de índios, visto ter- se encontrado em exeavações vasos 
de barro, contendo ossos humanos, como era costume indígena. 

O nome de Japy (japim ou guacho, pássaro da família 
cassidae é empregado para designar uma serra cujos contra- 
fortes se estendem até o districto de Itú e de onde é visível. 



— 475 — 

O mesmo motivo, que servia para a denominação da Serra 
pode' ia ter levado Nóbrega a designar aqnelle iocal, isto é, 
mos f rar a quantidade de japins que ahi encontrou. 

Além desses elementos e da excellencia das condições topogra- 
phicas locaes, Itú está situido em meio de uma vegetação baixa 
que devia ser naquella época uma r as condições excepcionaes 
para fundação de povoações. Demais, qual outro povcado pode- 
ria ter sido reconstruído sobre os escombros de Maniçoba? 

Parnahyba, Baruery. Araçariguama, Peito Feliz e Sorocaba 
são os povoados mais velhos que poderiam disputar a honra de ter 
sido a primeira residência de jesuítas construída serra acima (3). 

Qualquer delia», poiém, não só i ela distancia em que fi- 
cavam do Paianaitú, como por terem a sua origem bem his- 
toriada não poderia ter sido a erntinupção daquella aldeia. 

Seria interessante, na hypcthese de coDfirmar a roesa opção 
ver-se hoje, por obra de mero acato, figurar ainda como pri- 
meiro Luclro da Companhia de Jesus, e a maior casa da Com- 
panhia na Província, o Collegio dos jesuítas de Itú edificado 
nas proximidades ou quiçá no mesmo ponto em que Nóbrega 
Cor. ôa e António Rodrigues doutrinaram os índios antas da 
fundação de Pira tiniu ga. 

Referindo-se aos Carijós que se vinham doutrinar em Ma- 
niçoba, diz o chronista que elles eram acompanhados de alguns 
hespachoes, não sendo provável por isso que elles viessem de 
outro ponto que nã > fo-se Cananéa Ahi é que moravam os 
hespanhóes e era a habitação principal desses índios. 

Não é prssivel que a chonica se refira aos hespanhóas e 
carijós de Santa Catharina, porque no anno antecedente (1552) 
Thomé de Souza mandou obstruir o caminho de Saata Catha- 
rina ao Paraguay. E 1 provável que essa obstrucçao se esten- 
desse somente tté ás proximidades do Iguasiú porque o ca- 
minho de S. Vicente ao Paraguay por Santo André ainda con- 
tinuava frequentado. 

Dahi se infere que da aldêa de Maniçoba ou de Paranaitú 
o caminho deveria seguir, aproveitando quanto pcssivel a ve- 
getação de cer;adoB que veste a região de Itú, e que dahi 
para diante se definha em campos que se estendem por Sorocaba 
e Ssrãpuhy até a proximidade de S. Miguel Archsnjo, povoação 
situada na direcção de Cananéa, para onde deveria pro?eguir 
peio valle da Ribeira, 

Esses são os únicos apontamentos da chronica contemporânea 
que pudemos encontrar sobre o assumpto e que interessam a 
parte mais próxima de Santo André. 

Na região annexa ao Paraná os elementos que se encontram 

são pelo contrario de uma nitidez etechnica admiráveis. São mais 

próprios doB noss s dias do que da época em que foram feitos. 

A principal elucidadora é a descripção de viagem que 

Cabeça de Vacca íez atravessando o paiz de Santa Catharina 

até Assumpção. 



(3) Devemos recordar que S. André não era residências dos jesuitas. 



— 476 - 

Nomeado governa lor e encarregado de soccorrer os hespan- 
hóes qie, segundo noticias recebida» na cort 3, estavam em dif- 
ficuldade na incipiente Colónia do Rio da Prata, partiu Cab3ça 
de Vacca d*» Cadix em 2 de novembro de 1540 e em 29 de 
março de 1541 ihegou á ilba de Santa Catharina, depois de 
tir portado em Cananéa e na Villa de S. Francisco. 

Assim que aportou á ilba man lou desembarcar a sui geate 
e os 26 cav»l!o3 que tinbam sob tvivido dos 46 que trouxera 
da Hespanba, afim de rep usarem da longa viagem que tinha fáito. 

Bem acolhido pelos indígenas, soube p.r seu intermédio 
que na distancia de 14 léguas, em um lugar chamado Biaça, 
existiam dois í ades franciscanos, um chamado frei Bernardo de 
Armenti e cutro frei Affjnso Lebron, que dah: fugiram de medo 
dos indios que os queriam matar pelo facto de terem os frade 1 
queimado duas casas que lhes pertinceram e de que resultou 
a nnrtj de dois christâ>s. 

Um mez depois da sua chagada, mandou o contador Fe- 
lippe de Cáceres penetrar o Rio da Prata e alcançar a cidade 
d 3 Buenos Aires. Como era temp) de inverno, época pouso 
favorável para a Davegiç&o do ri), o encarregado da diligencia 
não poude penetrar per elle e regressou para Santa Catharina . 

A tse tempo também chegaram de Bueaos Aires, em um 
batel nove christâos hespanhóas que f jgiam ao mau tratamento 
dos capitães reside ates na província. 

Por elles soube o governador noticias detalhadas do paiz 
que ia g vernar e da situação (que diziam alrhcrissima) dos 
he-panhó s que ahi assistiam e a qiem fora encarregado de 
soccorrer. Determinou por isso fazer a viagem por trra para 
Assumpção, emquanto que os navios seguiriam para Buenos Aires. 

Com o intuito de reconhecer o caminho a seguir, mandou 
o feitir, Pedro D rantes f»zer a exploração por terra, afim 
de conhecer o melhor rumo a partir. 

Essa resoljção t*mou-a Cabeça de Vacca contra o parecer 
do contador Ftlippe de Cáceres e do piloto Aff nsj Lopes, 
que opinavam pela viagem fluvial. E' pos3ÍVril que na sua es- 
tidia em Cananéa o governador obtivesse dos hespanhóes ahi 
residentes inf rmaçõ. , s do camlnh > qu3 nessa época já ligava 
Assumpção com aquella 1 >calidade, e que elle pensava poder 
attingir partindo de Santa Catharina por uma picada q íe 
abrisse em normal á direcção geral daquelle caminho. 

O tempo qu3 durou p exeursào de Pedro DoranteB (voltando 
sónente no fi n de três mezes de partida para chegtr ao mBsmo 
ponto em que o governado ', acompanhado de grande comitiva, 
refazendo picadas, attingiu em um mez de mareba) parece con- 
firmar essa presumpção. 

Resolveu ir pegar o caminho além da barra do Itapocú 
(proximidades da Villa Paraty, em Santa Catharina), donde des- 
pachou tjdos os navi s para Bueaos Ayres. 

Nj segundo dia de novembro, inisioi a su* marcha levmdo 
omsigo 250 homens esjolhiios entn os melhores arcabu- 
zeiros e besteiros, dois frade j franciscanos, algaca indi s da ilha 






— 477 — 

e os 26 cavallrs. Durante 19 dias subir» m elevadas perras e 
a v rave*saram espe^ss mata?, chegando ao fim desse tfmpo ài 
primeiras pr voacões dcs índios situadas no campo e sob a di- 
recção do cacique An>rim. Cem mais um dia de viagem, che- 
garam a outio estabelecimento, cujo (b«fese chimava Oip( iahi 
e a!ém outra aldêa que pertencia ao chefe Tocanguaftú Por 
toda a parte p r onde passava era recebido com aff ibili^ade 
pelos índios que lhe tr/ziam presentes de viveres (mandioca, 
milho, gallinbas e p tns), que o governador comprava para re- 
faz ir as suas provisões ja exgotadss. 

Com doib d:'as de marcha da aldêa de Tocanguassú che- 
gou no dia primeiro de dezembo a um rio chamado Igua sú, 
onde os pilotos tonaram a altura Io ai e que pela continua- 
ção do roceiro deva ter ido entre o porto Amazonas e a villa 
de Araucária e mais próximo a e ta. 

Cí m mais dois dias de viagem passaram pelas cabeceiras 
do Tibagy em porto que corresponde hoje á estação de Lago 
na E. de F. São Paulo a Rio Grande, confirme se evidencia 
pela distancia <e íeis a oito léguas que poderiam percorrer no 
tempo que gaitaram. Pouco adiante chegaram á al^êadeTa- 
^ipirusiu rnde encruzilharam com a estrada que de Pirati- 
ninga e Cinacé* condi; zm ao Paraguay, prrque nes^e ponto 
<?e pediram os Índios c&tharinenses qu • tinham ajudado os h» g- 
panhófs a subir a serra, como também p r ahi encontraram 
um indio da costa do Brszil, cham»d> Miguel, recenteuente 
convertido e que i egressa va para a costa do Brazil depcis 
de t<r vivido muito tempo com os hespanhóes. 

Esre indio inform u sohre o estado em que se achatam 
es hBspanróes do P«ra ut>y e se (ffereceu p?a servir de guia 
á expedição o que foi aceito pelo governador. 

Ean seti de fetembro a expe icão eh gou a im rio que 
os ind:o3 chamavam Taqu^ y (Ivahy) cujas aguas eram volu- 
mosas e a corrente impetuosa. Nas suas margens habitava 
uma popuação d* Guaranys, cujo chefe se chamava Abanga- 
by ; vieram em massa ao tncentro do grvernsdor, trazendo vi- 
veres que foram comprados e p?gw como até então haviam 
feito Pela continuação do itinerário e inversão da orientação 
se conclua que o Iv*by 6o i atravessado entre o salto de Ubá 
e a cidade de Therrzina. , 

Da aldêa de Abangaby proseguiratn tm rumo de norceste, 
quarta de í orte, ttravess ndo na viagem diversas aldêas de 
guaranys, seguramente situadas nas cabeceirai do Curumbata- 
hy, indo parar um da na aldêa do chefe Tocanguir psra re- 
parar a« forças, e cnCe os pilotos observaram que a latitude 
era de 24 a e meio 

Do dia 16 ao dia 19 viajaram, s»m encentrar aldêa al- 
guma, por entre m merosos brejõas e rios que só num dia fi- 
zeram a comitiva construir 18 pontes fora a elevada serrr, 
que de e ser a serra da Esperança e o seu prolongamento a 
serra do Cantú, que t veram de traospir e onde o c micho 
teve de ser alargado por 20 homens que destacaram para iiso. 



— 178 — 

Depois chegaram a outra aldêa de guaranys, e de onde os 
índios tinham vindo, na distancia de duas léguas, esperar o 
governador. 

Nessa aldêa se demoraram até o dia 27 para dar descanço á 
tropa e dahi partiram no dia 28, tendo viajado toio o dia sem 
encontrar habitação alguma e atravessado com muita difíiculdade 
um rio profundo, muito largo e rapidíssimo cujas margens 
eram sombreadas de cyprestes, cedros e muitas outras arvores. 

Esse rio deve ser o Ivahysinho, que ó um dos galhcs do 
braço principal do Piquery que actualmente tem o nome de 
Cantú, e onde deixaram Francisco Arejon que íôra mordido 
por um cão e ma s quatorze hespanhóes que affrouxaram na 
viagem. Deve ser nossa região que construíram as dezoito 
pontes num só dia. 

Até o dia 31 de dezembro viajaram por planícies amenas 
atravessadas de regatos de agua pura, onde encontraram cinco 
aldêas de guaranys que os abasteceram de viveras. 

No dia 1 de janeiro de 1542, deixaram as aldêas e pro- 
seguiram através de moatanhas e sítios cobertos de cannaviaes 
(taquaraes) tão espessos que tornavam a marcha penosíssima . 
Até o dia 5 não viram aldêa alguma e, para refazer os vive* 
res já gastos, tiveram de se alimentar de vermes de taquara 
que fritavam na própria gordura das lagartas. Mesmo a agua 
escasseara ; para mitigar a sede tiveram de recorrer á agua 
das chuvas passadas que as cannas guardam por muito tempo. 

Atravessaram depois dois outros rios grandes, que correm 
para o norte e que devem ser outros galhos do Piquery (braço 
do norte), até que no dia 6 de janeiro foram parar á margem 
de um rio muito largo, rápido e cheio de numerosas toceiras 
de taquaras onde a tropa colheu as lagartas — e qua deve ser 
o veio principal do Piquery, que nos mappas modernos tem o 
nome de Cantú. 

Até o dia 14 atravessaram diversos rios, regatos e atoleiros, 
montanhas altas, outeiros e aldeãs de índios, que vinham ao 
seu encontro, trazendo grande abundância de mantimento, até 
que chegaram ao rio Iguatú que dizem os commentarios correr 
a 25' a oeste e ser da largura do Guadalquivir e pode ser iden- 
tificado com o braço principal do Piquery, curso da agua que 
nas cabeceiras tem o nome de Ccbre, nasce na serra da Espe- 
rança e contraverte com o rio Cavernoso. 

Desse lugar o governador despachou dois índios levando 
cartas pira os officiaes e hespanhóes de Assumpção avisando 
da sua viagem. 

Do Piquery avançou por terra, atravessando diversas aldeãs 
distantes umas das outras de um a dois dias de jornada, che- 
gando no ultimo dia de janeiro ao rio Iguas&ú. Antes, porém, 
viajaram oito dias consecutivos sem encontrar aldeã alguma. 

Pela latitude que encontraram, de 25° e meio, parece que 
o ponto da chegada deve ser correspondente ao meridiano de 
Catanduvas que nos mappas do Paraná corresponde mais ou 
menoB á barra do rio Cotegipe no Iguassú. 



— 479 - 

Nas proximidades desse rio souberam que elle se lançava 
no Paraná (também chamado rio da Prata) e que nas margens 
desses dois cursos de agua os indígenas tinham morto os por- 
tuguezes mandados por Martim A Afonso de Souza para desco- 
brir o paiz. Os indios assaltaram os exploradores e os mataram 
no momento em que atravessavam o ric em canoas. 

Alguns habitantes da margem do Paraná, que tinham morto 
os portuguezes, preveniram o governador, dizendo que os mo- 
radores de Pjquery eram #ente muito má e que poderiam apro- 
veitar a descida do rio para atacai- oà e matal-os. Cabeça de 
Vacca resolvea, para garantir as margens do rio, dividir a sua 
expedição em três turmas ; duas seguindo pelas margens a pé 
e a cavallo, e a terceira, onde ia o governador e qu<3 se com- 
punha de oitenta homens, embarcaria em canoas compradas aos 
indios do paiz. 

Ao chegar ao salto do Iguassú, vararam por terra as ca- 
noas até á jusante do salto, de onde desceram até a barra no Pa- 
raná. Ahi encontraram um grande numero de guaranys em 
attitude bellica ; mas só o aspecto da comitiva do governador 
os encheu de horror e a confusão se espalhou entre elles. 

Os hespanhóes parlamentares por intermédio de um inter- 
prete distribuíram donativos de grande valor aos chefes que, 
como eram ávidos e amicíssimos de novidade, se approximaram 
da comitiva, fizeram as pazes e ajudaram a passagem do rio. 

No lugar onde o atravessaram, o rio era de largura appro- 
ximada a de um tiro de besta, mas era muito fundo e corren- 
toso. Os pilotos tomaram a altitude que acharam ser de 24°. 

Nesse ponto a expedição de novo se dividiu: uma, com- 
posta de 30 doentes e cincoenta arcabuseiros e besteiros, des- 
ceu embarcada o Paraná e subiu o Paranaguá até Assumpção; 
e a outra, em que ia o governador, continuou por terra e che- 
gou a Assumpção ás 9 horas da manhan do dia 11 de março 
de 1542. 

Reconstituído o itinerário na zona entra o Tibagy e o Pa- 
raná, esboçada nossa opção na parte que se refere á região de 
Piratininga, vejamos com que elementos se poderia contar para 
ligar os dois caminhos. 

Refere Schmidel que, antes de chegar a Carieseba, esti- 
vera numa aldêa cujos indios o Aconselharam a se acautelar 
contra aquelles selvicolas que costumavam atacar os viajantes. 

Infelizmente o ex-soldado paraguayo não faz mais allusão 
a esses indios e nem mesmo cita o nome, contentando-se em 
dar a entender que era uma tribu de caracter pacifico e que 
talvez seja a mesma a que se refere o chronista da Companhia 
de Jesus, no livro I, n. 171 e seguintes, quando descreve com 
termos encomiásticos o temperamento e os costumes dos Ibi- 
rayaras ou Bilreiros, como os chamavam os portuguezes, e a 
quem o padre Corrêa anciava em levar a luz do evangelho. 

Sua proximidade dos indios que se oppunham á travessia 
dcs nobres hespanhóes, de que fala a chronica, e que cssassi- 



— 180 — 

naram aquelle padre parece identificai- os c(m os bons conse- 
lheiros de Schmidel, assim como os 8ggressores de Ccnêa pa- 
recem ser es indirs de Carie?eba. 

Tentemos agora, rectificando e reunindo os pontos descri*- 
ptos e esparsos que tentamos identificar, reconstiuir o itinerá- 
rio seguido por Schmidel. 

Partindo de Assumpção, desceu o Par8guay e subiu o Pa- 
raná até a barra do Iguassú; dahi seguiu pela margem direita 
até a altura do rio Cotegipe; em seguida atravessou es rios 
Piquery, Cantú e outros affluentes desses rios; transpoz a serra 
da Esperança; passou pelas cabeceiras do Curumbaty e foi cru- 
zar o Ivahy nas proximidades de Tceiezina. Depois, em rumo 
de sudoeste, foi passar nas cabeceiras do T.bagy onde deixou 
o caminho para S. Catharina, pelo qual subiu Cabeça de 
Vacca. Ahi, tomando á esquerda pendeu para as mBtas do valle 
do Assunguy, passou pela aldêa dos Bilreiros e de Carieseba, 
onde logo adiante encontrou a encruzilhada do caminho que 
descia para Cananéa. 

Preseguindo, poiém, sempre á esquerda, <?e'xcu o valle 
assunguy, e foi sair nes camp s de Faxina, Capão Bonito e 
Itapetininga, peles quaes sfguiu até ás proximidades de S. 
Miguel Arcbanjo, deixando outra encruz.lhada que servia para 
ligar Cananéa á região de PiíatiniDga. 

Desse ponto, passando pelos campos de Sarapuby e de 
Sorocaba, foi sair em Biesaie, mais tarde Maniçoba ou Japyuba 
e hoje Itú, donde procure u o rio Tietê por cujas margens se- 
guiu até ás pro? unidades do rio Jurubatuba. Descançcu três 
dias na aldêa desse nome até que finalmente chegou a S. André. 

E são esses os traços geraes da grande artéria indígena 
sul-americana, por onde talvez tivessem plmilhado os pers-oa 
nagens dís primeiras scenas da nessa vida e por onde Nóbrega 
subiu para estabelecer o primeiro edifício de doutrina e quem 
sabe se na volta, contemplando as bellezas das cimpinas de 
Piratininga, escolheu o ponto que no anno seguinte seria ex- 
plorado para ter assento a cidade de S. Paulo. 

Por elle também, mas em sentido oppoato, entraram mai& 
tarde es jesuítas hespanhóes que, fundando a Cidade Real e 
Villa Rica, iniciaram assim a oecupação da Gnayra; e talvea 
por elle seguira a bandeira de António Raposo que, arrazando 
aquellas missões reivindicara o território conquistado. 






€s indígenas primitivos de S. Paulo 

(Guayanazes, Tapuias ou Tupis?) 

PELO 

Dr. J. C. Gomes Ribeiro 

Sócio effectivo do Instituto Histórico e Geographico de São Paulo 






J 



Os indígenas primitivos de S. Paulo 

(Guayanazes, Tapuias ou Tupis?) 
(bxcbrpto inédito da historia do b, de s. paulo) 

«The classification of the aborigines mainly 
based on language». 

(A. H- Keane. «Ethnology» . Cambridge 1896, 
pag. 360,). 

Uma das questões mais árduas e complicadas da ethnrgra- 
phia brazilica tem sido, até aqui, a da class ficação ethuica e 
linguistica da nação indígena que habitava o litoral e os cam- 
pos de Piratininga, na occasião do descobrimento, e da qual 
procedem, directa ou inditectamente, muitas famílias paulistas. 

Varias circumstancias cu factcs concorrem para a dificul- 
dade do problema. 

A ausência de documentos escriptos ou architectonicos in- 
dígena s, a deficiência das informações dos expedicionários ou 
descobridores, pela ignorância das línguas ou dialectos, a va- 
riedade extraordinária daquellas e destes, a multiplicidade das 
denominações de cada tribu ou nação, ora adoptadas por 
ellas próprias, ora attribuidas por outras, amigas cu inimigas, 
era verrdadeiros calcunhas» ou appellidcs de diversas origens, 
suas migrações, e instabilidade de habitação delias, as guerras 
e Bcisões constantes entre as tribus, todos esses factrs lastimá- 
veis têm feito o tormento de investigadores competentes e 
sérios, como C. Hart, B. Caetano e outros, desanimando-os, 
na tentativa de uma classificação scientifica do gentio, antes 
da conquista, cu mesmo, logo após esta. 

E' sabido que a primeira leva de jesuítas só veiu ao Bra- 
zil com Thomé de Souza, em 1549, isto é, 17 annos depois do 
desembarque de Martim Affonso, em S. Vicente, que teve 
lugar em 1532. Ora, é claro que, naquelle periodo de tempo, 
muitas modificações Be teriam dado, attentos os hábitos instá- 
veis dos indígenas, quer na situação destes, quer em suas al- 
lianças ou sciEÕe?, quer em sua própria linguagem. O testemu- 
nho dos jesuítas não é, pois, decisivo ou incontestável, quanto 
aos factoB desse periodo e ainda mais, quanto acs anteriores. 

Por outro lado, H. Staden chegou a S. Vicente, também, 
em )549 ; A. Lery e A. Thevet chegaram ao Pio de Janeiro, 
com Villegaignon, em 1557; António Knivet só veiu ao Brazil 
em 1591; Gabriel Soares só escreveu em 1587, Gaudavo em 
1576. 



— 484 — 

E' claro, p is, que nenhum desces escriptores do século 
da conquista poderia ter dado noticia completa dos indígenas 
htb tadores da cesta — em 1532. 

Aliás nem da carta de Pedro V. de Caminha (1500), nem 
das de Américo Vespucio, (1501) ou da narrativa de Pigafetta 
(Expedição de Fernão Magalhães, 15' 9), nem do roteiro de 
Fero Lopes de Souza (1532), nem ^a «Memoria da navegação, 
de D^og) Garcia (1526), nem dos «Commentario^» de Cabeza de 
Vacca, (1541), &e podem obter noticias exactas sobre as origens 
ou ligÉções ethnicas dos indígenas do Sul do Brazil. 

Apenas Diogo Garcia ref «m- se aos indígenas d 3 S. Vicente, 
chamando -os cTnpis» e &os da lagoa dos Patos, denominando- 
08 «Carrioces» (Carijós), e Cabeza de Vacca allude aos Gua- 
rarys, em Santa Catharina e Uruguay. 

As rivalidades, odioi e guerra*, e tre es indígenas da costa 
não podem, a ncs30 ver, servir de critério para a classificação 
ethnogr*paic4 das tnbis, pois é sabido que estas, solicitadas e 
favorecidas pelos europeus, adventícios e inimigos entre si, se 
dividiram, aiói a conquista, em diversas facções, cada qual 
alhada c e um grupo de expedicionários de nacionalidade differente. 

Aítim os «Carijós» allisdcs dos hespanhoes, como guaranys 
de origem, tornaram se inimigos dos seus vizinh i», os «Tupi- 
nakis», allia os dos portuguezes ; por sua vez, esses «Tupina- 
kis» fizeram-se inimigos ^os «Tamcyos» ou «Tupinambís», por 
serem este? alliados dos francezes, do Rio de Janeiro, inimigos 
irreconciliáveis dos portugnezes, não só politica como religiosa- 
mente; por sua vez, mais tarde, os hollandezes alliaram-se, no 
norte, aos «Tapuias» de diversas tribus, e estes faziam guerra a 
todos os indige ia , amigos dos portuguezes. 

Dahi se \ê que um dos t finitos das lutas dos conquista- 
dores entre si, foi complicar ainda mais o problema ethno- 
graphico, fraccionando as tribus indgena3 da mesmi raça, nome, 
lingua e costumes, em varias nações, que se detestaram e mas- 
sacraram dahi por diante! Esse facto não tem sido devida- 
mente accentuado. 

O único critério acceitav^l, para una tentativa de classi- 
ficação é o do <u*o da lingna geral» (tupi guarany ou caba- 
n êoga», segundo a chama B. Caetano), assim qualificada pelos 
jesuitas, pois,e tendia o seu domínio por quasi todo o paiz, e a 
esse* missionários se deve o monumento graphico da sua con- 
servação até hjje. Se nao foram esses infatigáveis evange- 
l ; sadores des selvicolas as trevas mais profundas e irr pene- 
tráveis, reinariam ainda Loje, sobre o passado proto-histtrico 
do Brazil. (1). 

Firmados em tal citerio, vemos que todas as h(rdas e 
tribus biazilicas se dividiam, antes da conquista, em duas 
grandes colle< tividades : 

A dos «Tupis», falando a lingua geral ou seus dialectos, 
e a dos «Tapuias», usando de outras línguas cu dialec os, con- 



(i) Vide B. Caetano «Apontamentos sobre o Abaneênga» pag. 16 e seguintes. 



— 485 — 

vindo, porém, notar-se qae essas expressões «Tupis» e «Tapuias» 
como cbierva Hartt, não sãi au hsnticas isto é, de origem le- 
gitima indigona ; são nomes convenci* naes, empregados para 
difcrim nar as duas crllectividades linguisticas. Oj tupis cem 
geral», hsb tavam a costa, (i) 

Assim eram Tupis» — oa Tupinambás, es Tupinaés. os Tu- 
piDakis, Potyguáres, Cahetóa, TenimiDÓs, Ilatins, Ca-gó*, Ara- 
ehaiéi e outros muitos; eram «Tapuas» (também et amados 
«9és», por Von Steinen) — os Aymoréa, Ka irys, Goytacazea, 
Puris. Tremembés, Muiiamomis, Maca*ajás e muitos outro3. 

Ora, basta conhecer-se c s nomes das montanhas, ries, cam- 
pos e dos t ropríos indígenas, que habitavam o território d^ S. 
Vicente e Piratinirjga ia época da conquista para verificar-se 
que rs indígena i, alli moradore*, eram «Tupis-, isto ó, usavam 
da liogua geral O paire AnchVa que os ra^chisou, assim 
o faz certo, referiu do -se apenas aos «Muira Lomis», ci mo usa ido 
de lingua diferente. (2j. 

Sabe-se que o litora\ de Va^ahá até Cabo Frio, eia 
oceupaio pelos «G ytasazes» (Corredoras) e dabi até Ubatuba, 
dominavam os «Tamoyos» ou «Tup nambás». 

De C aaaaéa pa»a o sul habitavam o< «Canjós» ; entre S. 
Vicente e S. Será t ao, habitavam, a» tempo de An:hie a. os 
«Mui amrmis» (ou «Guayanom^s», tegundo a graphia do dr. T. 
Samia ). No sertão do Parabyba, hazia 08 «Tcem mbés» (Va- 
gabundos), sebre os quais ba poucas informações, sabendo se 
apeaas que f o a n depois encontra-los no Ma aihão (3), e que 
haviam tonado parte no asfalto a Pna^ininga. em 1562; os 
«Puris» considerados parentes dos «Goytacaz s» e es «Mara- 
cajás» (Gaos b avos), habitant s próximos da serra de Jagua- 
miinraba (Mantiqueira)e que alguns identitham com os «Goyaaás». 

Qaa\ porém, a najno ou Baçõe* qu« habitavam a costado 
S. Vicente e os rampes de Piratinisga? 

Que eram «Tupis» esses iodigenas, já o demenstramo s 
ligeiramente. Seriam porém, «Goyaiãs» ou seriam «Tupinakit» ? 

A taiiçao histórica, baseada no livro de Gabiel Soa e», 
escripto em 1587, e vol^ai^ada por Pedro Ta jues, Frei Gaspar 
da Madre de Deus, Machado de Oliveira, Azevedo Marques, 
Port > Seguro Couto de Magalhães e muitos cutros escnptores 
e autores de compêndios de historia ja^na, denomina -os — 
«G( yanás» (ou Grayacazes segundo a grapbia vulgar); e la 1 
tradição foi adoptada pelo dr. Ji ão Mendes de Almeida (4) 
dr. T. Samra o (5) e dr. H. von Ihering (6) estes três últi- 
mos muda-am de opinião, ermo veremos. 

Essa tradição assigcalava os Guayanazes (*ic) como babi- 



(i) M. Gandavo cit. por Gonçalves Dias. «Brazil e Oceania» pag. 26. 

(2) Pe. Pêro Rodrigues «Vida de Anchieta». 1607. Man. da Bibliothec* 
de Évora e S. de Vasconcellos «Vida de Anchieta», pag. 184. 

(3; P. Y. d'Evroux. «Viagem ao Norte do Brazil» 1613 — 1614. I, 81. 

(Á) «Notas Genealógicas» pag. 293. 

(5; «Rev. do Inst. Hist. Paulista» vol. 2. 

(6) «Rev. do Museu Paulista» vol. 1. 



= 486 — 

tantes dos campos de Piratininga, dando -os, como «Tupis», e 
firma\a-se, para isso, no seguinte trecho de G. Soares : 

« Já fica dito como 03 «Tamoyos» são fronteiros de outro 
gentio que se chamam os «Goaynazes», os quaes têm sua de- 
marcação ao longo da costa, por Angra dos Rei?, e dahi até o 
rio Cananéa, onde ficam vizinhando com outra casta de gentios, 
que se chama os «Carijós» . . . Não vive este gentio em al- 
deãs com casas arrumadas como os «Tamcyos», seus vizinhos; 
mas em covas pelo campo, debaixo do chão, onde tem fogo de 
noite e de dia, e fazem suas camas de rama e pelles de alimá- 
rias que matam. 

A linguagem deste gentio é difierente da de seus vizinhos, 
mas entendem- se com os «Carijós» ; são, na cor e proporção do 
corpo, como 03 Tamoyos e tem muitas gentilidades como o 
mais gentio da cesta» (1). 

Ainda diz elle, tratando da villa de S. Vicente : 

«Esta villa foi povoada de muita e honrada gente que* 
nesta armada (a de M. Afíonso) foi, a qual assentou em uma 
ilha, donde lançou os Goayaazes, que é o gentio que a possuia 
e senhoreava aquella costa, até contestarem com os Tamoyos (2). 

Até 1881, dominou, entre os indianologcs, esta opinião, e 
de accordo com ella, foram até denominados uma praça e uma 
rua desta capital, — «Largo e rua dos Guayauazes». 

Nesse anno, por occasião da Exposição de Historia e Geo- 
graphia de Braizl, organisada na Bihliotheca Nacional do Rio 
de Janeiro, o sr. Capistrano de Abreu, emérito cultor da His- 
toria Pátria, traduziu, da edição de Purchás, e publicou por 
iniciativa do dr. Ferreira de Araújo um manuscripto existente 
na Bihliotheca de Évora, sob o titulo : — cDo principio e origem 
dos índios do Brazil», escripto em 1584, e sem nome de autor, 
manuscripto esse depois reimpresso na Revista do Inst. Hist. 
do Rio (vol. LVII. 1894). 

Capistrano de Abreu attribue a autoria desse manuscripto 
ao jesuíta padre Fernão Cardim e dá -lhe grande importância. 
NelJe, assignala-se a distineção entre a; nações do grupo «Tupy» 
«que todos têm a mesma língua» e as do grupo «Tapuia», 
«que têm varias línguas» e incluemse neste ultimo os «Guaya- 
nàs>, dando -lhes, como «habitat», o sertão da Bahia ; aos ín- 
dios de S. Vicente chama o autor — «Tupinaquis9. (3). 

Com a publicação desse manuscripto, as referencias ethno- 
graphicas de Hans Stadden, A. Knivet e Lery, ainda que va- 
gas, relativas aos indígenas de S. Vicente, foram rememoradas 
pelos estudiosos, em corroboração da asserção do manuscripto 
auonymo. 

Com efíeito, Stadden affirma que os selvagens de S. Vicente 
eram «Tupininquis» e que os Guayanãs (ou «Wayganná», como 
elle os chama) habitavam a serra do Mar, não tendo moradias 



(1) «Trat. Descript. » cit. pag. 90. 

(2) Obr. cit. pag. 88. 

(3) Obr. cit. supra págs. 54, 55 e 52. 



— Í87 — 

fixas ; «estão em guerra com todas as outras naçõss e devoram 
os inimigos, diz elle. São também mais cruéis com seus ini- 
migos do que os inimigos com elles, p. ex. cortam-lhes os bra- 
ços e paraas, emquanto vivos, pela grande gula que os dis- 
tingue». (1) 

A Knivet diz que os «Waynasses» (ou «Wianasses», como 
também os chama, isto é, os Guaynazes) tinham pazes com os 
portuiruezes e habitavam sempre as proximidades do mar. Oc- 
cupa-se ainda dos «Waanawassous» (nome evidentemente alte- 
rado) e os dá como cannibaes. (2). 

Lery, em seu «Dialogo» retere, entre as nações indígenas, 
inimigas dos Tupinambás, os «Ouèanem» (nome, que Baptista 
Caetano interpreta per «âbá-anãm», mas que aígunB entendem 
ser uma corruptela do «Guayanã»), e os declara mais selvagens 
do que os outros indígenas, e habitando os mattos e as mon- 
tanhas. (3) 

O historiador argentino R. Diaz de Gusman diz ainda: 

«Este nombie (Guaianás) dan a todos los que no èon gua- 
ranis, puesto que tengan otro próprio». (4) 

Baseado em taes autoridades, o er. Capistrano de Abreu 
contestou fortemente, em 1896, a asserção do dr. von Ihering 
de pertencerem ao grupo» tupi- guarany os «Goyanás> (como elle 
escreve) de S. Vicente, e, declarando- os «tapuias,» deu- lhes 
por descendentes, os Coroados actuaes (isto ó os «CaiDgangues», 
do Paranapanema. (5) 

Reitirou elle essa contestação, em 1900, em sua Memoria 
sobre o «Descobrimento do Brazil» (6). 

O dr. H. von Ihering, aceeitando essa rectiBcação, «in to- 
tum», reconheceu a origem «tapuia» dos Guayanás e a des- 
cendência dellep, attribuida aos «CaingangueB» (7), acerescen- 
tando que a prova disso está na existência ainda actual, de 
«Guayanás» nos municípios de Itapéva e Faxina, com caracte- 
rísticos semelhantes aos Caingangaes. Dá entretanto, os Tupi- 
ninquis como predominantes, afinal, em Piratininga. (8) 

O dr. T. Sampaio, adherindo, em parte, á opinião do ar. 
Capistrano de Abreu, procura firmar se em uma phrase de An- 
chieta, relativa ao casamento de Caiuby com «uma Guayanã 
das do matto», para suggerir a hypothese da existência de 
duas tribus de Gusyanãs — 03 do matto e os do campo, sendo 
estes «tupis» e aquelles «tapuias», e portanto sem ofhnsa á 
opinião citada de Capistrano de Abreu ; reconhece em todo 
caso, que o gentio dominador no3 campos de Piratininga, do 
tempo da conquista era da nação «Tupi» e não «Guayanã». (9) 



(1) « Viagem » cit. pags. 20 e 128. 

(2) « Viagem», na « Rev. do Inst. Hist. Braz» vol. 41 pags. 211. 246 e 226. 

(3) B. Caetano. Apont. « sobre o Abaneènga » 1876 pag. 42. 

(4) Em sua «Argentina », escripta em 161S. 

(5) « Gazata de Noticias » do Rio, de 2 de maio de 1896. 

(6) « Livro do Centenário » nota 2 pag. 83. 

(7; « Rev. do Museo » vol. 2 pag. 3 e vol. 6 pag. 28 e vol. 7 pag, 216. 

(8) « Rev. do Museo » vol. 7 pag. 222. 

(9) « Rev do Inst. Hist ». vol. 8 pag. 168, 



— 488 — 

O dr. Washiagton Luis aiheriu egual mente á opinião de 
C. de Abreu, sustentando que es Tupiniquis e nào os Guayanás, 
dominavam essa região sendo Tibyáçá daquella raça ou na- 
ção (1) 

Do exposto vê -se a controvérsia a que tem dado lugar o 
assumpto, aliás de importância reil para a historia das origens 
ethnicas dos íaulista?. 

Antes, porém de Capistrano de Abreu, o illustradj e arguto 
dr. João Mendes de Almeida, em uma copf irencia realisada em 
em 7 de outubro de 1888, na «Sociedade dos II meus de Letras 
de S. Paulo», sustentara biseado em uma «Informação» exis- 
tente na bibliotheca de Evcra e attribuda ao padre Jtsé de An- 
chieta (terá o próprio manuicripto traduzido por C. de Abreu?) 
e em uma carta do padre Manuel da N< brega a Thomé de 
Souza, que os indígenas habitadores de S. Vicente eram «Tups ► 
e não, «Goianas», contrariando assim 6ua anterior epi ião, nas 
«Notas genealógicas», pela qual identificava es «Goianas» com 
os «Tupinak s» (como elle e£creve). 

Em resultado dessa discu?são, vê -se que a tradição «Goyaaã» 
está por terra e só autoridade valiosa e contemporânea da 
época da conquista ou próxima a el a. poderia fazel-a reviver, 
reivindicando a verdade do testemunho da tantos es^riptores 
insuspeitos e fidedignos, mas pouco explicitos sobre o ponto de 
d.rimir. (A) 

O ultimo es tido da questão consta da comnunieação, no 
recente Congresso dos Americanistas, celebrado emViema, em 
setembro próximo passado, feit* pelo illu tre ethnographo al- 
lemão, P. Ehrenreich, o antigo companheiro de von «ttinm, 
dando o problema como resolvido pelos trabalhos de Ih Brio g, 
Ambrose ti, Borba e Martinez e fi mando a seguinte conclusão: 

«Os Guayanás abrangiam, de facto, três tribus distinctai : 
— os Wi ganr ás, àò H. St .dden, provavelmente da fam- lia tupi - 
guarani, c m) toda a população da cota; es «Kaingangs» do 
interior de S. Paulo, Paraná e Rio Grande, inquestionavel- 
mente do grupo dos «Gês» (tapuias, segonio a tradição) ; e os 
«Ingain», do Salto do Guayra no alto Paraná o também do 
sueste Paraguay, egualmente do grupo dos «Gês» (2). 

Com a devida vénia a tão eminentes autoridades, que do 
assumpto se cccuparan, nusamos discordar de taes opin ões, em 
fi.ee de um test'mu< ho fidedigao e quasi contemporâneo da con- 
quista, o qual, a nosso ver, solve todas as dificuldades, res- 
tabelecendo a verdade da tradição. 

Esse testemunha, nÓ3 o achamos na raríssima e preciosa 
obra do padre Fernão Guerreiro, jesuita, publicada em Lisboa, 
em 1605, e reeditada em 16 j9, sob o seguinte titulo, cuja or- 
tograph a conservamos : 

«Relaçam annal das Covsas qve faseram os padres 
da Companhia c?e Jesvs, nas partes da índia OrientU, 

(1) Art. publicado no « Correio Paulistano «, em 5 julho 1903. 

(2) Resenha dos trabalhos do Congresso, pelo dr. Oliveira Lima. «Estado 
de S. Paulo », de 13 de outubro de 1908 corrente. 






— 489 — 

etc, em alguas otras da conquista d'este reyno... Ti- 
rada das cartas dos mesmos padres que de lá vieram». 

Só temes noticia de três exemple res desse livro: dois da 
Bibliotheca Nacional, do Rio e outro de propriedade do dr. J. 
Carlos Rodrigues ; é ebra muito estimada, tanto que o senador 
Cândido Mendes fxtractou d* lia, *em resumo», a parte concer- 
nente ao Bnzil em suas «Memorias para a Historia do txtincto 
Estado do Maranhão». 

Nenhum dos nossos historiadores, que o saibamrp, a cita 
no original; o próprio sr. Capistrano de Abreu, a despeito do 
seu infatigável zelo investigador, cita apenas o alludido resumo 
ou extracto de C. Mendes (1) e o mesmo o faz o dr. Hen- 
riques Leal, (2) 

Refere o padre F. Guerreiro, no L. IV do Tit. V, do seu 
livro que «o padre Fernão Caidim foi escolhido pelo provincial, 
para a rrisão dos «Carijós», que vivem na capitania de Santos 
em S. Vicente, para a banda do i ul, e leveu elle, por com- 
ia: heins, os padres João Lobato e Jerorymo R drigae6». 

Crnvém notar que este ultimo viera ao Brazil em 1575, 
como se vê da tynopse dos ánnaes da Companhia de Je3us», 
publicada pelo dr. A. H. Leal. (3) Essa missão devia ter 
sido reêlisada em 1C06 • 

Nesse livro, ed cão de 1609, diz ainda Fernão Guerreiro 
que, por uma carta do alludido missienario padre 'erorymo 
Rodrigues, prr elle citada, sabe -se que os «Carijós» dem mira- 
vam os «Gciará» de «Tupinachms» (-ic); tal denominação é claro 
que se identifica, com poua alteração, com a de «Tu: iniquins» 
ou melh r, «Tupini kis» . Isso não censta do resumo supra. 

Sem a Iludirem siquer a tal fonte, adoptaram essa identi- 
ficação o dr. Jclo Mendes de Almeida (4) e o dr. Diogo de 
Vasconcellos (5) ; o primeiro porém, na conferencia já alludida 
parece ter abandone do essa idéa, qualificando es indignas do- 
minadores de Piratininga de «Tupis» puros, e não, de «Tupi- 
mkis» ou «GoyanSs». 

O cónego R de Penmfort a adopta sem restricções, fir- 
mado no mesmo F. Guerreiro (6) 

A tradição gcyanã merece, pois, ser conservada; ao teste- 
murho de um livro sem mme de autor, e que só, por conje- 
cturas ou argumentos de analrgia, se atribue a Fernão Cardim, 
contra; õe-se, victí riosamente, o tertemunho authentico do jesuita 
Jerónimo Rodriguep, companheiro do próprio Fernão Jardim, 
em S Vicente e em Cananéa, id*nt ficando es «Goyarãs» com 
os «Tupinakis». 

Quer pela linguagem, quer pelos* costume *, quer pelas tra- 
dições, quer pela indcle, os actuaes «Coroados» do sertão do 



(l) P. Seguro. « Historia do Brazil » 8.° Ed. 1.» vol. nota á pag. 48. 

{2) « Apont para « Hist. dos Jesuitas * 1874 2.° vol. pag. 

(8) « Apont. » cit. pag. 234. 

(4) ■ Notas genealógicas » cit. pag. 293. 

(5) «Historia antiga das Minas Geraes ». BeUo Horizonte 1904 pag. 71. 

(6) « Brasil pre-historico ». Fortaleza 1900, pag. 328 nota i. Obra essa eru- 
ditíssima, embora contendo asserções fantasistas. 



— 190 — 

Paranapanema (Caingangues) não pedem ser considerados des- 
cendentes dos antigos «Goyanãs» de Piratininga. 

Sua ferocidade quan indomável, patente até no olhar e re- 
conhecida pelos próprios missionários, como frei Luiz de Ci- 
mitille e padre Chagas, por si mesma, está indicando que elies 
se distinguem radicalmente dos antigos indígenas de Piratininga, 
tão dóceis para os jesuítas e tão amigos dos europeus* 

Repelle tal dosceedencia o sr. Telemaco Borba, que, da 
língua «caingangue» cu «camé», publicou, nfto ha muito, um 
vocabulário, attestando profunda differença da lingun usada pelos 
indígenas de Piratininga e syst matisada pelos jesuítas. 

Esses Caingangues. erradamente denominados «Coroados», 
são um composto hyb ido de varies tribus nómadas, que, ha 
tempes percorriam es sertões do Parará. As?im diz L. Daniel 
Cléves. em interessante artigo, na «Re?. Paranaense», n. 5 : 

«Ha pouco mais de dois seculcs, que a província de Guayra 
ficou deserta, e se bem que, com o completo anniquilamento da 
grande republica jesuítica, no século XVII, voltaram algumas 
famílias á terra natal, jamais vieram estabelecer- se nas férteis 
terras, onde residiram seus antepassados; essas foram invadidas 
por algumas hordas (Caces, Dorins e Votorões, etc), compostas 
de destroços de antigas tribus que se mesclavam eom negros 
fugidos, (dos quaes, já dá noticia, «a?signalando-lhes por mo- 
rada, es fundos dos sertões do Paranapanema», o primeiro histo- 
riador argentino, Ruy Dia3 de Gusman), com mamelucos e ou- 
tros aventureiros, que, entre elles ficaram, adoptando seus bár- 
baros costumes, usos, lingua. Designam-se com o nome geral 
de «Coroados»; são n enos intelligente?, mais desleaes e têm 
in . tin r :tos mais ferozes que os guaranys puros, exclamando o vir- 
tuoso padre Chagas, depois de annos de insanos trabalhos e 
inaudites sacrifícios: «Eu os considero semi- bárbaros e difficeis 
de instrucção». (1). 

Ce mo affirmar-se, pois, que taes bárbaros, refractários a 
todos es meios de pacificação ou allisnça, sejam os descendentes 
dos indígenas, que acolheram João Ramalho, António Rodrigues 
e Martim Affonso, com demonstrações de agrado, e procedam 
de Tibyriçá, Cayuby e Piqueroby, que tanto se prestaram á 
grande obra catechista dos jesuítas e ás explorações remotas 
dos «Bandeirantes ?» 

Em contrario á am* mação do sr. Capistrano de Abreu, 
de que não eram Goyanãs oa selvagens habitadores de 
Piratininga e da costa, mas sim Tupimnkis, temos não só o 
testemunho do missionário jesuíta padre Jeronymo Rodrigues, 
seguido pelo padre H ernão Guerreiro, o qual identifica as duas 
denominações, como também os de Gabriel Soares, Simão de 
Vasccncellos e outros, entre os quaes o padre Anchieta que parece 
distinguir os Giyanãs do «matto» dos do «campo, como faz 
notar o dr. T. Sampaio (2 (B). Segundo G. Soares, também 

(1) S. Paraná. «Corographia do E. do Paraná» pag. 210. 

(2) « Rev. do Inst. Hist. Paul. » vol. 8 pag. 160. 






— 491 — 

eram «tupinak's» os indígenas que em Porto Seguro encontrou 
Pedro Alvares Cabral. 

Que esses Goyanãs eram Tupis, isto é, falavam a língua 
geral e tinham costumes eguaes aos dos Tupis, prova-se com 
os seguintes factos : 

1.° Os nomes dcs seus chefes ou «morubixabas» eram de 
origem etymclogica tupi, assim — «Tibiriçá», p. lavra que se de- 
compõe, segundo B. Caetano, em «Ty-by-yçá», com intercala- 
ção de um «r» euphonico, e até talvez de um «r» que serve 
de posposição a «ybi» e que significa chefe ou maioral da terra 
(1), interpretação mais acceitavel do que a do dr. T. Sampaio 
que dá, para esse nome, a traducção, — «Olhos eicovados, tor- 
vos» , (2) e do que a do dr. João Mendes : — «Irmão menor, 
aivore sem galhos (tibiriçá), isto é, chefe sem súbditos (3), ne- 
gando-lhe, portanto, a primasia hierarchica 

«Cayuby» devia talvez significar — pássaro verde («Guay- 
numby») cu «mulher velha», por corruptela de «Guaybi» (Mon- 
toya), do mesmo modo que «Cunhambebe» significava — «mulher 
gorda». «Pikercby», por corruptela de Pihiro-iby jóie signi- 
ficar — «libertou a terra, ou libertador da terra» (Montoya). 

Toios e ses romes são genuinamente tupis, e é claro que 
chefes não os teriam adaptado, se suas tribus não fizessem parte 
da collectividade tupi. 

2.° Todos os nomes locaes, quer do litoral quer dcs cam- 
pos de Piratininga, e mesmo, desde o Rio de Janeiro até Santa 
Catharina, são vocábulos «tupis», á excepção de muito poucos, 
notados pelo dr. T. Sampaio e Borba, no Paraná, como Xapecó, 
Xupin. Goyo-En, Xanxerê e mais alguns, qu» são «tapuias». (4). 

3.° Está provado que os primitivos indígenas de Pira- 
tinioga empregavam «igaçatas» ou «urnas de barro», para en- 
terrarem seus mortos, como o faziam os tupis, ao contrario dos 
tapuias, o que se verificou pela descoberta de taes «igaçabas», 
com ossos humanos, em 1896, por occasião de obras, no antigo 
cemitério do Braz, desta capital. (5). 

4.° Os «Tapuias», pelo próprio facto de não falarem a lín- 
gua geral e serem em regra fer<zes, eram mais ou menos re- 
fractários á catechese e inimigos dos europeus, o que se não 
dava com os Goyanãs. 

Estes foram-se com o tempo amalgamando per tal forma, 
com os portuguezes e seus descendentes, que desappareceram, 
sem deixar representantes ou suecessores directos, entre os in- 
dígenas actuaes, parecendo apenas que os «Cayguás» ou 
«Cayuás» do Paraná e de Itanhaem representam um ramo dessa 
antiga nação. 

Que os Caingangues actu&es do Paranapanema, impropria- 



(1) « Do Principio e Origem dos índios do Brazil » cit. nota á pag. J.16. 

(2) « Rev. do Inst- Hist. Paul. » vol. 6 pag. 502. 
(8) « Rev. » cit. vol. 7 pag. 454. 

(i) « Rev. » cit.. vol. 6 pag. 497 e T. M. Borba, na « Rev. do Museo Paul.» 
vol. 6 pag. 55. 

(h) Dr. H. Ihering. « Rev. do Museu Paul. » vol. 2-* pag. 10. 



— 192 - 

mente chamados — «Coroados», não procedem dos Goyanãs, de- 
monstra-o evidentemente o vocabulário da sua lingua, publi- 
cado ror T. Borba, de accôrdo com outro constante do Glos- 
sário de Msrtius, que lhe» dá o m me de «Camés» (1), voca- 
bulário ess*», em tudo, diverso dos vocabulários e léxicos da 
língua t jpi-guarai y e das tradições linguisticas locaes. (C) 

Os ccstumes dos Caingangues, feroz* s e retractarics a tcdo 
contacto crm os civilizado*, estão indicando a si íi origem «tapuia». 

Dos Gcyanãs {?) d& Faxina, não chegou a ter publicado o 
vocabulário do V. de Poito Seguro, e o de Saint Hilaire ó 
deficiente, como o reconheceu o próprio dr. lhering (2). Resta 
saber se eles tão mesmo «Gcyanã •», ou receberam e se nome 
ou o adoptaram, por mero appellido, ermo usavam os selvagens, 
no dizer de V. do Porto Seguro. Al:'á3, convém salientar que 
o alludido manuscripto, attribuido a f. Cardim, só fala em 
Guayanás», da Bihia. , 

Quanto aos «Guayaoãs» da Republica Argentina, é difficil 
classificai- os h je. (3) 

A verdade é que a denomiraçSo *G(yanà> não especifi- 
cava uma «tribu» ou «nação», mas sim, um ernjunto de tribus 
ou nações tupis cu que falavam o «ab*ncêcga». 

Assim, a melhrr etymologia, até h je, dada a esse nome é 
a do emitente dr B. Caetano, a mais elevada autoridade em 
questões de abanrêoga. Refutando o V. de Porto Seguro, que 
o interpretou — tGutyai — gente, «na> — estimada, isto é, «los 
outros, os estimadot», diz elle : — 

«Taes cicções, com taes signifierções não existem em Aba- 

iífênga O thema na forma «Guay», eu «Gusya» parece- 

me que não conduz a resultado, por ir ter a radieaes, que não 
efíerecem íignificaçào a-kquada. Veja- se no Tomo VII des 
«Ann. da B.bl. Nac», o que se diz no vccabulo «cunha» ; o 
composto cunha anbã — «tuyaanã» (parente da mulher ou pa- 
rentes da 5 * mulhere*), não parece impróprio para designar tri- 
bos alliadas, vizinhas ou appsrentadas. Deve-se lorem notar 
ainda, que apparece, c mo non e tribu, simplesmente «Gcya», e 
isto reporta se naturalmente a «c<i» («coi»), jadical de mecôi 
(do:*s, o que fiz par ou parelha) Ao radical «cô » (irmanar- se, 
unir-se emparelhar-se, etc), reporta se um particip o «coiá» 
(vide Tomo VI «Ann. da Bibl. Nac»), ou «coya» (unidos, liga- 
dos, alliados, etc.) O resto pode ser «oã» (misturado), ou ainda 
melhrr «ata» (parente) donde «C< y.*» — «ana» — «coyanã», «os 
parentes dos aliados» e até «os alliados parentes». (4) 

Por isso se \ê que também rão parece acceitavel a ety- 
mologia dada pelo dr. T. Sampaio : — «Gmyanã» — individuo 
parente, ou aqu<-lle que é parente ou irmão, como sendo «tra- 
tamento dado pelos Tupiniquins da cesta aos Guayanazes do 
campo». A radical é «Ooya» e não «Guay». (5) 

(1) « Rev. Paranaense » Tomo I e « Rev. do Inst. Hist. Brazileiro » Tomo LL 

(2) « Rev. do Museu» cit. vol. 6° pag. 29. 

(Ò) « Rev. do Museo » cit. vol. 6° cit pag. 15 Art. de B. Martinez. 

(4) « Do principio e origem dos índios » cit. nota á pag. 96. 

(5) « Rev do Inst. Hist. Paul. » vol. 6.° pag. 531. 









— 193 — 

Mais acceitave! é a etymologia, qu^ f z derivar de «Goiá» 
esse nome, decompondo- o em «Ooiá» e ná, isto é Goiá-parente 
eu parente Goiás, do mesmo modo que «Tupi-ná» é — Tupi- 
parente. E' a versão adoptada pelo Dr. João Mendes (a prm- 
eipio), pelo ccnego R. Pennafort e pelo dr. Diogo de Vagccn • 
cpIIo-, que, pa r a demonstrai a, ailudem a antigas ccnflctosdos 
«Garaiban» com es «Goyas» das GoiaDas, ao c uzamento deites 
com os Tupis, á tua emigração p ra o teritorio de Goyas e 
finalmente, rara Firatiiinga. Comquanto muito BUggestivas, 
essa interpretação e demonstração não têai entretanto, base se - 
gora, em autorida 'es antigas e competentes, não passa do de 
mais uma byprthese seduetora entre es muitas. qu i embargam 
o passo á etbnograpbia proto-bisterica do Brasil e que aguar- 
dam uma comprovação cabal (1) 

Em s mma, pensam' s continuar de pé a tradição paulista 
sobre a precedência dos Gryaaàa e sua orig m Tupi, e sobre 
a primazia de Tibiriçá, como cbefe sujremo da ccnfcdertçào 
Goynã attento o seu próprio ncmfl significando — «maioral da terra» . 






NOTAS 



A — A mais moderna classifica ç*o etbnograpbica des in- 
dígenas do Brasil é a de C. von den Steinen e P. Ebrenirecb, 
completada por Capistrano de Abreu. («Livro do centen». cit ) 
Eil-a : 

1.° «Tnpis» — es que usam da lingua geral; 

2° «Gês» — tam em chamadas «Tapuias» p»!o3 «Tnpis»; 

3.° «CaraiVas» — habitantes do Xngú Tocantins entre o 
S. r°ranciseo e Parnabyba, do Amizonas e Gcyina; 

i ° «Nu Aruaks» (ou Ma \ uresj, do Amazonas Goyana, 
Purú* e Xingu ; 

5° «Ca-riri?» cu «Kirirs», do Pa^aguassú, S. Francisco, 
Ceará e Parahyba ; 

«E' possível, diz Capistrano de Abreu (que foi quem ad- 
dicionou esa classe à divisão de Steinen) que os Guaynás 
representem rebentos meridienaes destes». Como vimos, porém 
devendo ser tidos por «Tupis» os Goyanãs, não podem s r in- 
cluídos ent e os Ktriris, que não são «Tupis», como se prova 
com a grammatica dessa língua aanotada pelo dr. B Caetano 
e da lavra do padre L. Mamiani. 

Escapam ainda á classificação os Boió.os, Carajás, Uaupés, 
Júris, Tckinas e Trumais. 

B — Para aquilatar-se a difficuldide da classificação etbno- 
graphica dos indígenas do Brasil, basta dizer-se que o vcc&bulo 
«Guarany» é interpretado por Moatoya e outros, como s gni- 



(í) « Notas Genealógicas » clts « loco » cit. ; « Brazil Pre-historico » cit. pag. 
823 nota 2 : « Historia antiga das Minas Geraes » pag. 70. 



— 181 — 

ficando «gcerreiro» ; entretanto, é considerado pelo dr. Barbosa 
Rodrigues, como significando exactamente o contrario, isto é, 
«o que não é guerreiro» — <Kara-ny>, não «Kara» ou nãc- 
guerreiro. 

O vocábulo — «Tapuia», ora se contrapõe a «Tupi», ora se 
confunda com «Tamoyo», «Tamuja» ; «Tupinanbá» também ás 
vezes £e identifica com «Tupiniquim». 

Não nos deve surprehender essa anomalia, em grupos hu- 
manes tão selvagens, pois sabemos que a descripção ethno- 
graphica das innumeras hordas, que invadiram o império rom.no 
no alvorecer da edaie média, apresenta-nos também dificul- 
dades quasi insuperáveis ; já o íazia sentir Tácito, em relação 
ás do seu tempo. 

(Vide: O «Muyrakitan» vol. 1.° cit. pag. 82; 

O. Hartt, «apud Rev». da Exp. Anthrop. pag. 75. 

C — Evidencia-se desde logo, inacceitavel a descendência 
dos actuaes Caimgangues ou pseudo-«Coroados> des sertões do 
Paranapanema, dos Guayanãs primitivos habitadores dos campos 
de Pitatinioga, comparando -se entre si os vocábulos -typos, ou 
«palavras -fio». (Leitwort), indicadas por von den Steinen, das 
linguas desses dois grupos indigenas. 

E' o que fazemos em seguida : 

«Agua», na lingua geral, isto é, na que era falada pelos 
indigenas de São Paulo (segundo o testemunho indirecto mas 
convincente de Anchieta), era Yo ; na lingua dos «Caingangues» 
— «Goic», segundo se vê do vocabulário de T. M. Barbosa, 
confirmado pelo do Martim, que denomina esíes indigenas — 
«Caaés» . 

«Fogo», ra lingua geral, «Tatá» ; no Caingangue ; «Pin». 

«Sol» na lingua geral, «Ku^rahy» ; no Caingaogue, «Aran». 

«Lua» (1. g.) « Jacy» ; (TJaing) «Quoxá», «Terra» (1. g.) 
«Yby» ; (Caing) «Ga». 

«Cabeça» (1. g) «Akang» ; (Caing) «Crm». 

«Cabellos» (1. g.) «Ab» ; (Caing) «Idram». 

«Orelhas» (1. g) «Nambi» ; (Caing) «Nigreim». 

«01hos> (1. g.) «Resá» ; (Caing) «Óanê». 

«Braços» (1. g.) «Giba»; (Caing) «Ypeu». 

«Pernas» (1. g.) «Retymã» ; (Caing) «Itfá». 

«Pó» (1. g) «Py». 

Pés (1. g.) (Caing) « Ipen ». 

«Mãos» (1. g.) (Ca ; .ng) «Ningué» 

Por mais amplitude que se queira efar á evolução lmor- 
phologica da lingua calingangue jamais se poderá filiaa-a a 
lingua tupy, á vista só desses vocábulos capitães. P ra a 
lingua geral, servimo-nos do vocabulário inserto no «DJa\°go», 
de JLery, pelo dr. B. Caetano e por elle correcto; é o que 
mais se conforma com as normas grammaticaes e graphicas de 
Anchieta, já que as de Montoya só se applicam ao Guarany 
puro. 

Aliás, o vocabulário da dos «Guayanãs», do alto Paraná 
pubUcado na Rev. do Museu Paulista já cit. por B. Martinez, 



— 495 — 

desfaea«se não eó da lingoa geral, omo também da dos Cain- 
gangues, como se \ê em seguida : 

Entre elles, «agua» diz- se «Ciam» ou «Praul» ; «fogo» ó 
«Upai» ; «scl» é «Roinhá» ; «lua» — «Pirihi» ; «Terra» (não 
vem expresso) ; «cabeça» — «Apare» ou «ancai» ; «cabellos> — 
«Namingai» ; «orelhas» — «Aminerá» ; «olhes» — «Apuitá» ; 
«braços» — «Água» ou «ammá» ; «percas» e «pés» (não vem 
expresso); «mães» — «Amincaminuita» ou «auiennda». 

Por esses vocabulcs vê- Be que os Guanãs, da Argentina, 
de que trata Martinez, eó podem lígar-se aos Guaynanãs de 
Piratininga, muito indirectamente, constituindo talvez um pe- 
queno grupo, emigrado em outros tempos, daqui para lá, e 
fundido com tribus não Gua*any?, cuja língua adoptaram. 

Como explicar- se, porém, a filiação Ge y anã de s «Caingan- 
gues> do Par ar. a pane ma, quando é sabido que, em toda a re- 
gião o norte do Uruguay, habitavam tribus Guaranys cu filia- 
das a estes como os Carijós, Arachanés, Cayguás, ele . exis- 
tindo de mais ahi, um centro de cultura tão absorvente e 
unificador da linguagem, como as Reducções jesuíticas ? 



A PEOPOS1T0 DOS GUAYANAZES DA CAPITANIA DE S. VICENTE 



PELO 

DR. THEODORO SAMPAIO 

Sócio effectivo do Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo 



A propósito dos Guayanazes da Capitania de S. Vicente 



A leitura, que o nosso illustre consócio, o sr. dr. Gomes 
Ribeiro, fez de um dos capítulos do seu estudo histórico sobre 
S. Paulo e referente aos indiginas primitivos que aqui habi- 
taram, me suggere as seguintes observações que espero, o Ins- 
tituto e especialmente o nosso illustre consócio receberão com 
a sua acostumada benevolência. 

O problema histórico da nacionalidade dos índios que, ao 
tempo da ccnquista, occupavam o littoral e o campo de Pira- 
tinicga, na capitania de S. Vicente, não está resolvido, nem 
creio que jamais o será de modo cabal e definitivo. Faltam-lhe 
os dados essenciaes, os documentos linguisticos, indispensáveis 
a questões desta ordem. 

Sabe-se que, ao tempo da conquista, os naturaes do paiz 
eram divididos, segundo os portuguezes, em duas grandes na- 
cionalidades : — cTupi» e «Tapuya». 

Eram «tupis» os que falavam a língua que desde então se 
chamou «geral», porque era falada ao longo da cesta do norte 
ao sul, tendo-se como pertencendo a uma «raça tupi» os povos 
que a falavam. Eram «tapuyas» os indígenas que não compre- 
hendiam ou não falavam essa «língua geral». 

Limitavam-se a ieso, a essa descriminação tão singela, os 
escriptores coevos. Historiadores, chronistas, missionários, via- 
jantes e exploradores daquella época, diante da ethnographia 
indigina, não distinguiam senão «Tupis» e «Tapuyas». Do «tupi», 
desde os primeiros tempos da invasão européa, se fizeram dic- 
cionario e grammatica ; compuzeram-se catecismos, e os missio- 
nários jesuítas puzeram-se a cultival-o cem esmero, tornando- 
se o «tupi», uma língua ccmmumente falada, não já nas aldeãs 
do gentio, mas nas cidades e povoações dos portuguezes. 

A língua «tspuya», mui varia, como vario e numeroso o 
gentio que a falava, não logrou jamais essa preferencia do mis- 
sionário, visto que o «tapuya>, considerado bronco e incapaz 
de civilisação, era desprezado e escorraçado para as brenhas dos 
sertões. 

O portuguez, invasor, superior ao gentio, não pelo nu- 
mero, mas pelas armas e por sua civilisação, julgou sempre 
de boa politica, alliar-se aos tupis para, com o concurso delles, 
dominar o paiz e, como alliado, esposou es ódios e preconceitos 
tradicionaes do selvagem amigo ; desprezou o tapuya e per isso 
mesmo, incorreu no ódio deste. 



- 200 — 

Esse antagonismo «Jurou sempre, e só mais tarde, quando 
a conquista do sertão penetrou mais fundo, no coração do paiz, 
é o que o tapuya deixou de ser uma fe a para tornar- se um 
catecbumeno p ssivel. 

Naqaelles primeiros tempos, d z?r-se «tupi» é como se dis- 
sesse gentio amigo, alliado accessivel á civilisação, apto paia 
a catechese; dizer-se «tapuyn» ó como apresentar-se inimigo 
a perseguir-se e a exterminar- se. 

Oj autcres de melh r conceito referem que na Capitania 
de S. Vice i te na região mais viziaha do mar, o gentio que a 
habitava era da raça «tupi», confinando elle ao norte e ao sul, 
ao loago do mar, com Tamry b e Carijós, *ambem tupis. 

Os jesuitas, a quem faito devemos na formação da nossa 
nacionalidade, não teriam assenaio os Beus arraiaes em S. Vi- 
cente, não lhe teriam dado tão manifesta preferi nc a, se o geLtio 
dessa capitania não fosse o tupi. Oi broncos «fcapuya-:» não se 
lhes mostraram nunca capazes de uma hm catechese. 

Eram, portanto tupis os indígenas da Ca:, itania de São 
Vicente, pelo m nos aquelles a quem os jesuita3 catechisaram 
e a cuja 1 ngua deram grammat ca e v< cabulario. 

C< mo se chamavam, porem, esses tups? Qialo seu nome 
particular omo naçã) ou tnbu ? «Tupinakim» tu «Guayanã»? 
O «Tupi fckim» é o mesmo «Guaynê» cu o «Tupinak m» é tnpi 
e o «Guayng» tapuya ? 

Re«p nder a isso é solver o prcb'ema histórico que consti- 
tuo o tbjecto destss ligeira? observações. 

N<* Capitania de H. Vicente, no trecho c"ella que serve de 
theatro aos primeiros ensaios da colonisacão, havia, segundo a 
relação do» viajante* de mais credito, Haas Staden e Aatonio 
Knivet. «Topmkins» á be ra-mar, dominan do a? c^tas, o 
«Gruayanãs», (Waiyanái ou Wainasses), nas nuttas da vertente 
marítima da Serra, logo por detraz dos Tupinakins. Uns e 
outros eram de costumes diffirentes, sendo estes últimos mais 
ferozes e cruéis para com os seus inimigos do que *q el!es. 

Muito é para notar que 03 jesuitas que nos relstam es feitos 
da catechese entre o gentio da Capitania de S. Vicente, nes 
primeiros annos, nao chamam «Guayanã?» aos Índios que elles 
prime ro reuairam no litto^al e depois transferiíam em grande 
parte para es campos de Piratininga. 

O padre Anchieta, na sua noticia sobre o casamentr» des 
indies faz a é suppôr que es Guaynãs não eram tupis, quando 
nos relata o acto de «Cayuby>, já velho, deixar a primeira mu- 
lher que era de sua nação e tomar tutra «que era Guayanã 
das do m«tto». 

Cayuby era, como Tibiriçá, da raça tupi, e tupis eram de 
facto os ín tigenas catecnisadoa por Ach:etae saus nobil ssimoa 
comjauhein s em Piratininga. 

Aquella ph ase de Anchieta serviu me todavia, em outro 
tempo, de argumento para provar que o «Guayanã» era também 
tofY, pis que del'a b m *«e iode iLferir que havia outr'era 
Guayanã do cam^o e «Guayanã» do n alto, sendo então Cayuby 



— m — 

nm «guayanã» do campo, mas da raça tupi. Foi essa a coe clu- 
são a qae cheg&moB qumdo, em con missão com « utrog dois con- 
sócios deste Instituí), tivemos de dar parecer eibre esta ques- 
tão tfto debatida. 

E' verdade que para quem não seguir como cós então a 
orientação que levávamos, o argumento, baseado naquel'as pa- 
lavras de Anchieta, podia ser outro, bana diverso, isto <*, Cayuby 
é da raça tupi como o sua primera mulher, mas a segund* qae 
elle t)mou é de outra raça, é *Guayaaã do matto», usando o 
santo m súcnario des*a explicativa, côí tamente perque havia 
«guayanã» do campo. 

Nefcta hypothese, a Guayanã que se podia encontiar, quer no 
eampo, quer na mata não ara da nação de Cayuby, não era topi. 

Mas, segundo Fernão Guerreiro, em sua relação de 1606, 
citada pelo nosso illu tre coasocio dr. Gomes Ribairo. «os Ca- 
rjjós chamavam os Guayauas de Tapineks», isto é, identifica- 
vam as denomioaçÕ38 num mesmo povo, e este povo «tupina- 
kim» era evidentemente tupi. 

Todavia, vem d< s' próprios jesuitis a classificação do «Guaya- 
nã» entra os povos tapuyas. 

Em um manuscrito de 15 Q 4, prr Capútrano de Abreu 
atribuído a Fernão CardTm, os «Guaynãs» do sertão da Hf lua 
ião classificados ent o os tapuyis. O jesuíta Simão de Vas- 
concellos, na sua ch:onica da companhia, faz o mesmo. 

Parece-no8 q e ha em tudo isso um» *contradiçção bem 
flagrante; a meu ver, pore*m, tão lomeute apparente, e isso 
porqae o nome «Gaaynã» não é um nome de naçã?, como não 
é o nome «Tapuya». 

«Guayanã» e não «Goiana», como prefere o nosso distíncto 
consócio, ó palavra tupi, empregada pelos tupis para designar 
um povo com que tinham relação de parentesco, ou com quem 
podiam se entender. «Guayanã» quer dizer: «aquelle que é 
parente». E pois nãi é de estranhar qu* os Carijó i chamassem 
ao gentio de á. Vicente «Gaaynã» ou Tupinakim. 

As denominações nacionaes iniiginas não são seguras. Ha 
a deaominção qie cada tuba dá a si mesma, denominação no 
geral traduzindo orgalho, valentia, força como ha denominação 
de precedência inimiga significando positivamente o contrario, 
cimo tanbem a denominação de procedência de localidade. 

«Guaynã» «Gaaytacá». «Guayamomis», «Guaycurú», cGuay- 
muré» que é como Anchieta por vezei e creveu o nome que o a 
grapham js «Áymoié», sài todos nomes ta pis applicados por nações 
tupis a outras nações não tupis, ou simple mente apaientadas. 

Entre es indígenas o p>rentesco não implicav* identidade 
de nação, sabido como é o costume que estes lei vagens tinham 
nas guerras incessantes, uns contra os outros isto é, o de tru- 
cidarem os homens, os guerreiros, e preservarem as mulheres 
e as crianças que, como captivos, ince rporavam á tr bu. Desse 
rarbaro costune p ocedia o cruzamento com out os poves de 
língua bem dive-sa e também intioducção de vocábulos da 
língua des vtncidcs na dos vencedores. Este ia: to tem sido 



— 202 — 

observado em mais de uma lÍDgja entre tantas que aqui se 
fallaram outr'ora. 

São estas as observações que submetto á consideração deste 
Instituto a propósito do excelente estudo que, sobre os indi- 
genas primitivos de S. Paulo, fez o nossa illustre consccio, o 
sr. dr. J. C. Gomes Ribeiro. 

S. Paulo, 20 de Março de 1909. 



Theodoro Sampaio. 



de S. André 



PBLO 



DR. LUIZ PIZA 

sócio efectivo do lostituto ILstorico e Gaographico de S. Pauto 



I 



Identificação de S. André 



«Aos 12 de junho de 1674, o padre Lourenço Craveiro 
obteve por despacho do juiz ordinário de 8. Paulo, a certidão 
«verba ad verbum» do titulo de conce são e do acto de demar- 
cação e p( 8?e pelos quaes Mart m Afíonso doou a Pedro de Góes 
a sesmaria de «Tapuarorira», com as terras de «Taperovira», 
em 10 de outubro de 1532 

Pedindo esses instiumentos coiso reitor do collegio de S. 
Ignacio (úc) e «por b.m da sua justiça> o padre Craveiro mos- 
tra ser interessado na propriedade a que elles se ref rem : se, 
pois, as ceitidõ s não podem ter postas em litigio, orno públi- 
cos documentos, os c(mmentarios do sacerdote, relativos á ex- 
tensão e limites dos mesmos, devem ser recebidos como de ori- 
gem suspeita. Aliás, o cffi.-ial publico, ao transcrever as peças 
originaes e reporta por fé que elles estavam em muitas partes 
<illegiveis de mal escriptos». Não entendo, por isso, que seji 
irreverência con iderar puramente fantástica a limitação da ses- 
maria com o rio Tietê e com terras da Cjnceição rbjact vos 
manifestos da data de Braz Cnbas, concedida em 25 de setem- 
bro de 153S. Antes paece evidente dever concluir-se do exame 
da concessão a Pedro de Giea e do seu confr<nt> crm a de 
Buy Pinto e a de B az Cubas, que o limite máximo da mesma, 
serra acima, è o rio Grande ; para chegar a esse resultado per- 
corramos as «etapas» da concesíão, invertendo a ordem seguida 
no documento primitivo. 

O rio Ururay por onde passa a linha divisória quasi no 
seu fim, é identificado de modo seguro na concessão a Ruy 
Pinto, de 10 de fevereiro de 1533, quatro mezas apenas depois 
da de Pedro de Góes, sendo verdade que ai três sesmarias, con- 
finantes nas linhas de Sal a Norte, extrenas da de Pedro de 
Góes, e communs com as de Ruy Finto e Braz Cubas, devem 
comprehender todas as terras da encosta sem solução dí con- 
tinuidade. 

Antes de chegar ao rio Uru ay, a data de Pedio de Gjes 
entesta com a serra geral— a que está sobre o mar; passando 
antes, poién, por uma ribeira, que vem pelo pé da serra, a 
qual chaman Marrré para depois penerar a serra Uru-ay e 
seguir o rio desse nome : entesta com a serra, segue pela ri- 
beira, corta a serra e segue pelo rio. A ribeira Maroré deve 
ser o afluente mais remoto do rio das Pedras O nome Ma-roré, 
quer dizer — o que «vem de longe», «o que está cansado»; se 
é, poiém, ma-iaré a melhor graphia, deve entender se «o que 
cava», o que «cottai. Ambas as traducções convém ao remoto e 



— 206 — 

«cancado» curso da agua, que corta a serra, a «qual como fe- 
nece e acaba neste lugar». Outros escrevem Mamoró. 

Para entestar com a serra e seguir tela ribeira a linha 
deixa o caminho de Piratininga, segaido na etapa anterior na 
direcção geral de Norte a Sul, do mesmo medo que a divisa 
de Ruy Pinto, cortando ambas, em pontos differentes e em di- 
recção opposta, o dito caminho. Antes de seguir o caminho de 
Piratininga, identificado pelas duis demarcações com a actual 
estrada Vergueiro, com pequenas variantes, a linha do períme- 
tro passava por dentro de um piuhal que fica na banda do 
campo Givapé (Jcá-peba- joasal rasteiro,); antes do pinhal, des- 
cia um rio e ia, por terra, «Ygoar» em outro. A palavra Ygoar, 
aqui empregada como nome próprio, è, segundo todas as appa- 
rencias, um verbo tupy e quer dizer «embeber- se>, misturar 
aguas», «banhar-se», «molhar»: é a approximação e confusão 
de dois rios pela confusão de afluentes que contravertem. Pode 
bem suppor-se que os erros e incorrecções do original fizessem 
apparecer, na certidão, o termo «Ygoar>, em vez do verbo «te- 
cuara», corrente na lingua geral, com aquelle significado. 

Acreditamos que o rio que a divisa vem entestar procu- 
rando -o para a banda do Norte, e pelo qual desce até Yogar 
por terra em outro rio, é o Grande hr je dos Pinheiros ; sendo 
o «outro» o Pequeno. Fica ao Norte para quem está em S. 
Vicente, ponto fixo para a orientação e outras referencias, me3- 
mo que os documentos sejam de Piratininga; além c T e que seria 
pouco lógico admittir, como quer o padre Craveiro, que, ten- 
do- se referido ao Tietê e ao Cabu;ú, o titulo passasse a des- 
crever a ribeira Maroré, deixando no olvido todas es demais 
aguas da região. 

Aliás o titulo de Braz Cub^s patente a a impraticabilidade 
da interpretação de Gonçalo Craveiro. Muitíssimo maior que a 
de Ruy Pinto, a sesmaria de Pedro de Gce3 era visivelmente 
menor que a £e Braz Cubas, a qual, tendo de frente duas lé- 
guas e meia ou três, só tinha por limites, no sertão, os limites 
das conquistas d'El-Rey« A sua data é de 25 de setembro de 
1536, em que ss concessões anteriores ainda vigorar am, mesmo 
que tivessem de incorrer em cemisso, pasados três annos sem 
cultura. 

Pelos documentos uniformemente rrferidos e acceitos, a 
sesmaria, de Braz Cubas, a oeste, cenfina com a de Pedro de 
Góes, assim como com a de Rny Pinto, também a oeste con- 
fina a segunda : Dum irrecusável documente edito que a pri- 
meira «parto com a segunda, «não chegando mais até á borda 
do campo, onde esteve a povoação de S. André e onde já teve 
João Ramalho «roçss>. Accrescenta que, saindo do dito pinhal, 
onde fenece e a: aba a data de Pedro de Góes, com quem é 
Braz Cubas meeiro, começará a partir pela banda de oeste. . . 
Isto em 3 de Agosto de 1567. o documento é judicial e au- 
thentico . 

O pinhal, a borda do campo, no documento de Braz Cubas, 
são os mesmos sitios, com nomes idênticos ou parecidos, da 



— 207 — 



concessão de Pedro de Góes, janto de uma e outra sesmaria 
63tava, pois, a villa de S. André : se a de Pedro de Góes n£o 
excede ao rio Grande, antes ahi fenece e acaba, é natural que 
S. André ficasse entre aquelle rio e o Pequeno — no angulo 
formado pelos mesmos, quasi idênticos ao das concessõos até 
a esse ponto limitropbes. Excluída das duas sesmarias vizinhas, 
S. André ficou a oeste da de Braz Cubas e ao norte, ou no- 
roeste, da de Pedro de Gocs. 

A data de Pedro de Góes, em vista do seu contesto e ao 
que rezam os documentos de Braz O abas, não attinge ao Ta- 
manduateby e muito menos ao Tietê, como quiz o padre Lou- 
renço Craveiro, devendo ser, forçosamente o mesmo o pinhal 
que na primeira apparece e ao qual a segunda foz detida re- 
ferencia (separados, como são, apenas por quatro mezes e feitos 
pelos mesmos officiaes e serventuários de justiça), o que se 
deve concluir ó que S. André fica mui próximo de Pedro de 
Góes e pouco distante de Braz Cubas. Deve ter tido o seu 
sitio entre o Rio Grande e o Pequeno, no divisor das respe- 
ctivas aguas e no ponto em que o afHaente de um tanto se 
approxima do de outro, que daquelle se vae por tsrra, cygoar» 
neste. 

Deixando de ser «mejeiro» de Pedro de Góes, Braz Cubas 
«parte» pela banda de oeste (por uma linha do sul a norte), 
seguindo o caminho que vae a Piratininga, corta o Taman- 
duat liy e procura, sempre pelo mesmo caminho, ao qual chama 
de Pequeiy, desde que «vae passando este rio», o sertão. Ca- 
minho que vem do fequery. 

Se pudermos fixar o aldeamento do tequery. abrangido 
todo elle na sesmaria de Braz Cubas, ser-nos-á fácil ajuntar 
um augmento novo ao da situação de S. André. Este alde- 
amento não podia ser cutr , senão o que deixou as ruinas, 
ainda hoje existentes, á margem do ribeiro Guapetuba, perto 
do sua fez no Tamanduateby. Ahi tinha Braz Cubas muito 
antes mesmo da sesmaria, uma fazenda de mantimentos e 
criação, casas fortes e uma ermida coberta de telhas sob a 
invocação de Santo António. Na demarcação Braz Cubas con- 
servou esses bens. 

A situação conhecida deste aldeamento e as ruinas ainda 
visíveis marcam precisamente o ponto de passagem de uma 
linha de Sal a Norte que, havendo deixado o rio Grande, tó 
tivesse de cortar o Tamanduatehy ; qualquer outra teria for- 
çosamente de aaâignalar accidentes geographicos anteB de at- 
tiogir ao rio. Parece que a divisa de Pedro de Góes segm a 
margem esquerda do rio Grande, emquanto o de Braz Cubas 
vae pela direita, e que o p;nhal, a cujo limite se acosta S. 
André, começa a ser cortado depois que a linha, tendo dei- 
xado o rio Grande, para «ygoar» no Pequano, segue pelo ca- 
minho de S. Vicente a Piratininga: S. André, estando perto 
do campo, provavelmente o de Givaré, deve estar egualmente 
perto de caminho de Piratininga — no trecho que vae do rio 
Grande ao Pequeno, ou, quando muito, ao Zauzalar. 



- 208 — 

«Caminho que vem de Piratminga, uaico existente na 
época, ea este; o novo, aprryaitan^o em parte o de Pequery, 
é considerado recente em 1560. Feito pelo Garibatubs, para 
servir int resses de Braz Cubas provavelme ite delle se não 
podia fazer menção na época das datas. S. Audré nãi deve ter 
estado á direita do rio Graode, liga lo como está o Feu sitio, 
ao pinhal que a divisa de Pedro de Góes, penet*a depois de 
ygoar no rio Pequeno, devem os seus signaea per eocontrados 
na parte interna do angulo formado pelos dois rios, logo abaixo 
do ponto em qae afflientes di um e outro quaú se conf andam. 
E' mais fácil que esteji á esquerda do rio Fequeio, que á di- 
reita do Grande % 

A analy?e dos documentes estudados ó inteiramente im- 
pessoal quando feita f ó a das influencias qu^ dominaram o 
padr) Lourenço Craveiro; s^ndo autênticos esses d ;cumentos, a 
deducção do sei exime é irrecusável: uão se pode, poi^, base ir 
vestígio* de S Aud^é longe do tereno supraindicado. E' pro- 
vável que o mme «Caveiras» dado a um sitio de cultura nesta 
região, seja o plaaal qie eruie o indicador feliz nesti pesqiiza. 
Des ceadas as humildes habitaçõ?s da época, apagadas pela 
erosão do solo os sulcos e mures das toscas trincheiras, avassa- 
la las pel ) matto e pelas relvas es signaes do trabalho huma- 
no... num ignorado cemitério de aldèi ficaran alguns ossoa 
algumas caveiras, apontando aos indagadores de um futuro re- 
moto, num riso sarcástico, o lug r que o poder pretendei fazer 
para tedo sempre esquecido!» 



«A villa de Santo André da Borda do Campo e a primitiva 
povoação de Piratininga» 

POR 

BENEDICTO CALIXTO 
Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo 



A villa de S. André da Borda do Campo e a primitiva 
povoação de Piratininga 



«O Diário de Pedro Lopes de Souza publicado por Var- 
nhagem» ua Revista do Instituto Histórico e Geographico Bra- 
sileiro é, realmente, um documento de summa importância que 
veiu esclarecer muitos pontos obscuros, nesse primeiro pericdo 
de nossa historia colonial, tem, entretanto, muitas lacunas e é, 
ás vezes da um laconismo lamentável, mesmo obscuro, nos pontos, 
justamente, onde se desejaria que elle projectasse alguma luz. 

Áo voltar dos mares do Sul a frota de Martim Afionso, em 
demanda do Porto de S. Vicente, foi, conforme relata o autor 
do «Diário», dado immediatamente inicio á primeira povoação 
do litoral: «Segunda -feira, vinte e um de Janeiro — 1532 — 
demos á vela, e fomes surgir numa praia perto da ilha do Sol, 
(Praia da Barra e Itararé, próximo a ilha Por chat) pelo porto 
ser muito abrigado de todos os ventos. 

Ao meio-dia veio o Galeão S. Vicente surgir junto com- 
nosco, e nes disse como fora não se podia mostrar as velas, com 
o vento sudoeste. 

Terça-feira pela manhã, (22 de Janeiro) fui num batíl da 
banda de 1'oeste da bahia e achei um rio estreito em que as 
náos se podiam correger por ser muito abrigado de todos os 
ventos. (E' o Porto das Náos, em Tumianí). 

A tarde metemos as náos dentro com vento sul. 

Como fomos dentro mandou o capitão, meu irmão, fazer 
uma casa, em terra para raetter as velas e enxárcias. 

Aqui neste porto de S. Vicent a varamos uma náo em terra. 

A todos nós pareceu também esta terra, que o capitão Ir- 
mão determinou de a povoar, e deu a todos homens terras para 
fazerem fazendas, e fez uma Villa na Ilha de San Vicente, e 
outra nove léguas dentro pelo sertão, a borda de um rio que 
se chama Piratininga, e repartiu a gente nestas duas Villas e 
fez nellas officiaes, e poz tudo em boa obra de justiça, de que 
a gente toda tomou muita consolação como virem povoar villas 
e ter leis e sacrifícios, e celebrar matrimónios, e viverem em 
communicação das Artes, e ser cada um senhor de seu, e ter 
todos e os outros bens da vida segura e conversavel . . . etc. ets. 

Muitas confusões e controvérsias têm provocado entre os 
escriptores este e outros pontos do referido « Diário. 



— 212 — 

Muitos chronista8 anti eros e contemporâneos têm procurado» 
demonstrar que as duas Yillas fundadas por Martim Affonso 
foram S. Vicente e Itanbaem. 

Nós mesmo, tr tando deste assumpto na pequena monogra- 
phia que escrevemos, «A Villa de Itanbaem», baseando-ncs na 
auto.izada opinião de Fr. Gaspar, Macbado de Oliveira e ou- 
troi auctores procuramos confirmar e sa asserção, isto é, — ser 
Itanbaem a segunda pro voa cão fundada relo primeiro donatário, 
depois da ie S. Vicente, pois que a Villa de São Paulo, criada 
unicamente) pelos jesuítas, em 1553, não pedia ser fundada por 
Martim Affonso que só permaneceu dois annos em sua colónia. 

O nosso humilde trabalho foi lido, revisto e emendado pelo 
sr. dr. António de Toledo Piza e pelo dr. João Mendes de Al- 
meida (b velho) ambos muito competmtes, pela sua erudição, 
em matéria de Historia Pátria, para dizerem se o nosso mo- 
desto trabalho estava ou não em desaccôrio com a verdade his- 
tórica, apesar de divergir sobre esse pento do «Diário» de Pe- 
dro Lopes». 

Para não cansar o leitor com a repetição dos argumentos 
que adduzimos nesse sentido, no referido livro, limitamo nos a 
transjrever para aqui, um ou outro trecho dos brilhantes ar- 
tigos publicados no Vol. XL da «Revista do Instituto Histórico 
e Geograpbico Brasileiro», pelo dr. Cândido Mendes de Al- 
meida, em 1877, os quaes se referem, em j ai t >, a este impor- 
tante assumpto. Eil-cs: ( . . . Antes da vinda e estabeleci- 
mento de Martim Affonso de Souza, João Ramalho vivia no 
littoral de S. Paulo entre os «Tupiniquins», na maior liber- 
dade, navegando pela costa do sul em bergantins que por si, 
os feus companheiros (genros) construía. Negociava com os 
navios europeos que demandavam a costa de S. Vicente e Ca- 
nanéa. e lhes vendia mantimentos e escraves, de ordinário 
«CarijÓ3», com quem lutavam os «Tapiniquin3>. 

Mas, organizada a colónia, forçoso lhe foi tomar outra po- 
sição e vida mais regular, receber as suas sesmarias e culti- 
val-as. Isto para Ramalho já não era possível. 

Tomou a deliberação de subir a serra e entender- se com 
os «Guayanazes», por meio de permutas com os géneros euro- 
peus. Estes indígenas vivendo no campo não tinham descido 
a marinha, já pela dificuldade da descida da serra, e horror 
que tinham, como todo o indígena campesino, a penetrar nas 
densas florestas de beira-mar. 

Eis a explicação que nos pareceu natural e obvia da neva 
vida de João Ramalho, forçado a deixar a marinha pela phy- 
lionomia differente que a terra ia tomando e a que elle não 
86 queria sujeitar, a ponto de preferir as terras na ilha de 
«Guybe» ou «Guymbê» (na ilha de Santo Amaro) do que em 
S. Vicente ou nas immediaç&es de Itanhaem, mui superiores, e 
para onde a colónia se estendia. 

Mattim Affonso de Souza demorou-se pouco tempo na Co- 
lónia nascente, um anuo e pouco mais, quando muito : — & 
nunca foi, nem podia haver fundado Piratininga (S. Paulo). 



— 213 — 

Basta ler o próprio «Diário de Pedro Lppes de Souza 
<parp, ainda com pouca reflexão, verse que as duas Villas em 
que elle estabeleceu sua gente outras não foram senão «S. 
Vicente e Itanhaem», e nunca Piratininga, nome que por des 
cuido, erro cu má fé foi encartado ou substituído. 

Constâncio, em sua «Historia do Brasil», reconhece este 
facto, acompanhado por frei Gaspar em as suas «Memorias», 
que muito se desviou da verdade, quanto á direcção da via- 
gem do fundador da Colónia. 

Gabriel Scares na sua <Ncticia do Brasil> , opina por S. 
Vicente e Santos, como primeiras povoações, no que è acom- 
panhado pelo autor da «America Portugueza», Rocha Pitta, 
mas basta a distancia das duas Villas, e o que se lê no «Diá- 
rio de Pedro Lopes de Souza» para excluir tanto a povoação 
de Santos, como a de Piratininga criações posteriores á entra- 
da de Martim Afíonso. 

Accreace qua esse nome de «Piratininga», significa lugar 
de Secca de pe xe, applicava-se no Brasil a muitos pontos 
que tinham e-se destino e industria. 

A Villa de Itanhaem que se chamou «Conceição», distava 
um pouco do seu porto, (1) na foz do rio «Capivary», á margem 
do oceano (2) era também um povoado que tinha aquella in- 
dusttia e destiao, e não seria maravilha que, na época, esse 
local se chama também «Firatinirga» sem ser o de S. Paulo, 
nas visinhanças do rio Anhemby 

E se esse local se chamava «Piranhen», synon'mo do pre- 
cedente, mais força teria nossa conjectura...» 

Ora, com te das estas provas e argumentes que pareciam 
irrefutáveis, julgava-se plenamente provado o engano do re- 
ferido «Diário de Pedro Lopes de Souza» quando diz — st a 
Villa de Piratinga (S. Paulo) a segunda fundada por Martim 
Àff.nso — entretanto em vista de outros documentos preciosos 
que posteriormente foram deecobartos, vê -se que a referencia 
do «Diário» é verídica nesse ponto 

Esses importantes document s, que vimos de referir, foram 
encontrados na preciosa collecç&o de manuscriptos antigos da 
cidade de Évora, em Portugal, e mandados copiar para a Revista 
do Instituto Histórico e Ge' graphico do Brazil 

Entre elles se acham 2 cartas authenticas do padre Manuel 
da Nóbrega, dirigidas uma a d. João III, e outra a S. Ignacio 
de Lcyoh, em Roma, ambas datadas de S. Vicente, uma do 
anno 1553 e outra de 1556. 

Essas cartas dizem o seguinte : 

«De S. Vicente — 1553 — a d. João III». 



(1) A povoação fundada por Martim Affonso em Itanhaen fa primitiva^ dis- 
tava duas léguas ao sul da fôz do rio onde era o porto. 

(2) Aqui ha engano do escriptor. O rio que tem a sua fôz próxima da actual 
Villa de Itanhaen, não se denomina « Capivary », mas rio Itanhaen. O rio «Ca- 
pivary* ou « Capivarú», atravessa parte do território de Santo Amaro e dirige-ee 
para o mar pela garganta, ou bifurcação da serra Paranapiacaba com a de Mo- 
ngaguá. Esse rio é o mesmo que toma o nome de Branco, e é tributário do Ita- 
nhaen. 



- 244 — 

«A graça e consolação do Espirito Santo seja com Vossa 
Alteza sempre, Amem. 

Por que mando este anno um padre de quá (l) a dar 
conta a Vossa Alteza e á Companhia das coisas desta parte, e 
por Thomé de Souza haver pouco, que se de quá partiu (2) 
pelos quaes de tudo será bem informado, não tinha eu para 
que escrever, mas para cumprir com a devoção de Vasea Alteza 
e com os desejos, qne em Nobso Senhor eu tenho destas partes 
sei em favorecidas delle, iómente lhe darei alguma conta desta 
Capitania de S. Vicente cnde a maior parte da Companhia 
residimos, por ser ella a terra mais apparelhada para a con- 
versão do Gentio, que nem uma das outras, per que nunca 
tiveram guerra com os Christãos, e é por cqui a porta e o ca- 
minho mais certo e seguro para entrar nas gerações do sertão 
de que temos bô?s informações. 

«Ha muitas gerações que não comem carne humana, as 
mulheres andam cobertas, não são cruéis em guerra como estes 
da costa, porque somente se defendem. Alguns tem um só 
principal (chefe), e outras coisas, mui amigos da lei natural, 
pela qual razão nos obriga Nosso Senhor a mais presto lhes 
soccorremos, maiormente que nesta capitania nos provém de 
instrumentos para isso, que são alguns irmãos linguas 
(3) e por e8ta3 razões nesta Capitania nos oceupamos mais que 
nas outrts. 

Está principiada uma «casa» na povoação de S. Vicente, 
onde se recolhem alguns crphams da terra e filhos do gentio, 
e outra «casa» do mar dez legoas, pouco mais ou meãos, e 
duas léguas de uma povoação de Jcão Ramalho (Santo André), 
que se chama Piratininga (lugar da ca3a), onde Martim Afíonso 
de Souza primeiro povoou, ajuntamos todos os que Ncs3o Senhor 
quer trazer a sua egreja e squelles que sua palavra o Evan- 
gelho engendra pela pregação, e estes de todo deixam seus 
costumes e se vão estremando de outros, e muita esperança 
temes de serem verdadeiros filhos da egreja. E vae-se fazendo 
(em PiratiniDga) uma formosa povoação, e os filhos destes são 
es que se doutrinaram no Colégio de S. Vicente. 

Na Bahia não se entende agora por falta de «linguas», 
que não temos (4) somente se sustenta aquella «casa», e se 
doutrinam alguns moços, e assim também porque andam elles 



(Z) Era o padre Leonardo Nunes — • o « Abare-Bêbé » — fundador do Collegio 
de S. Vicente. 

(k) Em Abril ou Maio de 1553, por quanto em 13 de Julho desse mesmo 
anno chegara a Bahia o outro governador, d. Duarte da Costa, que o substituirá 
na administração daquella colónia. (Gabriel Soares,) — « Noticia do Brasil» — 
parte II Cáp. b). 

(b) Nesta capitania havia abundância de «linguas », o que se explica pela 
forma porque comtçou o estabelecimento, ao contrario da Bahia, onde a lin- 
guagem portugueza manteve-se desde o começo pelo numero dos que vieram f un- 
dal-a; a ignorância do idioma Tupi pelos colomnos era quasi completa. 

Em S. Vicente obtiveram os jesuítas, desde logo para seu grémio os irmãos 
Pedro Corrêa, de extrema importância na colónia. Manuel de Chaves, e eram 
auxiliados ainda por António Rodrigues, Leonardo do Valle, Gaspar Lourenço, otc. 

(Q) Faz-nos suppor que nesta época já não existia Diogo Alvares, o « Cara- 
murú », que grandes serviços prestou áquella colónia. 



— 215 — 

todcs baralhados em tão cmeis gorras que v.' zinhos com vi- 
zinhes, e casas com casas se cernem, que é grande juizo de 
Nosso Senhor, etc...» 

Segunda carta 

«De S. Vicente — 1556 — a S. Ignacio de Lcyolla». 

«E cem ifcto («refere» se ao modo de manter o ccllegio da 
Companhia em S. Paulo), e com o mais que a «casa» tem, 
seria collegio fixo, por que já tem casas e egreja e cerca em 
muito bom sitio, posto o melhor da terra, de toda abastança, 
que a terra pode dar, em nceio de muitas povoações de Índios, 
e perto da Villa de Santo André, que é te Christãos, e todos 
os christãos desejam ir alli (em Piratininga) viver, se lhes des- 
sem licença (1). Alli (em Piratininga) foi a primei? a povoação 
de christãos, que nesse terra houve em tempo de Martim Af- 
fonso de Souza, e vieram (depoi?J ao mar por razão dos navios, 
de que agora todos se arrependem, (2) e todavia á alguns dei- 
xam la ir viver. Assim também ensina- se já alli grammatica 
a alguns estudantes nessos, e lições de casos a todos». 



Muitos historiadores e chrenistas que se têm oceupado, cem 
interesse, deste primeiro período da formação da importante 
Capitania de S. Vicente, têm demonstrado qte antes de re- 
gressar para a Europa, Martim i.fíonso determine u e fundou 
a povoação de ltanbaem que mais tarde progrediu e assumiu 
o predicamento de «cabeça de capitania de S. Vicente», e dos 
Condes de Vimieiros e Ilha do Príncipe. 

A villa de S. Vicente e a de ltanbaem, não foram entre- 
tanto as duas unica*B peveações fundadas pelo primeiro dona- 
tário, como nos afirmamos em nossa pequena «Monographia>, 
baseando* nos em documentos e opiniões abalisadas de notáveis 
historiadores e chronistas. 

O «Diário de Pedro Lopes de Souza» diz a verdade — A 
Villa de São Paulo de Piratininga foi lambem fundada por 
Martim Aficnso de Souza, — as cartai do radre Nóbrega vêm 
inteiramente confirmar essa atserção. 

O dr. Cândido Mendes de Almeida, lego que teve conhe- 
cimento dessas duas cartas, apressou- se a vir pela mesma Re- 
vista do Instituto, em uma — Adenda — retratar- se dos pon- 
tos que se aebavam em desaccordo com esta plena confii mação 
do padre Nóbrega. Nós também, cemo o illustre escriptor, no 



c 



(1) Martim Afíonso, antes de partir para a Europa, prohibiu que os colonos 
de 3 Vicente fossem á « borda do Campo » negociar com os aldeados in- 
dígenas. Esta prohibiçâo foi depois revogada por um alvará de d. Anna Pimentel. 

(2) Martim Affonso temendo o despovoamento do littoral com o êxodo para 
Piratininga, prohibiu, antes de regressar a Europa, que os colonos fossem sitiar-se 
em Serra-acima, para não abandonarem o porto de S. Vicente onde se achava an- 
corada a sua frota. 



— 216 - 

interesse da verdale histórica, e aproveitando a opportunidade 
deste rpusculo, vimos declarar ao publico que, retiramos as 
nossas conjecturas e afirmativas, neste ponto, acceitando, como 
verdade, o que affirmam essss documentos citados, e esmeramos 
qua uma vez por todas, fique sanado essa falta e bem patente 
esta nossa demonstração. 

A povoarão de Santo André da Borda do Campo foi ele- 
vada a cathegoria de Villa em 1553, no mesmo anno em que 
foram os jesuitas estabeleeer-se em Piratininga, no logar de- 
terminado e povoado por Martim Affonso de Souza, segundo a 
confirmação do citado documento. 

Essa povoação de Santo André, onde morava João Rama- 
lho, só começou a apparecer e a ser povoada apó? a retirada 
do primeiro donatário para a Iudia. e depois de ser revogada 
por d. Anna Pimentel a prchibição que seu marido Martim 
Aff nso, havia ordenado, — para que nem um colono europeu 
fosse sitiar-se nem «regatear» cem os Índios de serra acimi. 

E r sa Villa de Santo André teve curta duração, por que a 
Villa de S. Paulo a sobrepujou e o governo da metrópole foi 
forçado a mandal-a destruir e arrazar, em virtude da* sérias 
contendas e rivaHdades que sobrevieram entre 03 habitantes, 
das duas povoações, instigados por João Ram*lh:> e seus filhos 
que tinham decidido ódio aos jesuitas, como ó, aliás, bam co- 
nhecido. 

A mudança da Villa de Sa^to André para a de S. Paulo foi 
levada a effeito em 1563 ou 1564, quando o acto da mudança» 
promovido por Mem de Sá foi definitivamente approvado pelo 
donatário e pelo rei. 

Esse «8cto» é ainda fté hoje qualificado como injusto e 
violento por alguns chronistas, qae actusam os jesuitas como 
únicos causadores e responsáveis dessa mudança e destruição. 

Oà jesuítas, de facto, não eram amigos de João Ramalho 
e dos seus apaniguados por quem foram mais de uma vez hos- 
tilisados. segundo refere Simão de Vasconcellos na sua «Ohro- 
nica». Ha entretanto, testemunhas insuspeitas provando que o 
«acto» da demolição de Santo André e da sua mudança para 
S. Paulo, foi expontânea dos moradores da própria Villa de 
J(ão Ramalho, como prova este documento, do qual citaremos 
apenas algumas palavras por ser demasiado longo : 

E' uma carta á rainha d. Catharina, regente na menori- 
dade de d. Sebastião, com data de 1561 dirigida por dois mo- 
radores de Santo André, Jorge Moreira e Joannes Alves, ho- 
mens iliustre?, que mais tarde oceuparam o cargo de.officiaes 
da camará de S. Paulo. 

Eis o trecho : 

«E assim maniou que a Villa de Sinto André onde antes es- 
tava-mos (a carta é datada de S. Paulo) se passasse para a 
casa de S. Paulo que é dos padres de Jesus, porque nÓ3 todos 
lhes pedimos por uma petiçãe, assim por ser lugar mais forte 
e mais defensável, e mais seguro assim dos contrários (Tamcyos) 



— 2*7 — 

como dos outros índios, como por outras muitas coisas que a 
elle e a nó 4 moveram». 

No periodo final accrescenta •- 

«Outrcsim. conforme Vossa Alteza, a mudança e trespação 
da Villa que fez Mem de Sá, com todos os mais capítulos e 
liberdsde que lhe deu, dos quaes mandamos um traslado a Vossa 
Alteza (1)». Não pr demos e nem queremos n a gar ou obscurecer 
os grandes serviços prestados a colónia de Martim Aflmso por 
esse famoso aventureiro portuguez João Ramalho, cuja perso- 
nalidade e méritos tanto se tem discutido entre nó», mas não 
desej imos que se continue a propalar que — 1 má fama que delle 
se espalhou foi pura invenção dos jesuítas daquella época — aos 
quaes aliás o Brasil, e s. bretudo S. Paulo, taoto devem. 

Fermitta-no3 pois o leitor que exhibamos aqui um outro 
documento, firmado per um eatraogeiro, um protestante, que 
nada tem de commum com <s jesuítas. 

O que Simão de Vasioncellos diz em bu* «Chrcnica> sobre 
Ramalho ó cor firmado por e te testemunho insuspeito: o alle- 
mão Ulrico Schmidel, de Strasburg, pela sua — «Hstoria ver- 
dadeira de uma viagem curiosa ra America ou Novo Mondo, 
pelo Brasil e Rio da Prata, desde o anno de 1534 até 1554». 

Esta obra í i pela paineira vez publicada em Francfort*so- 
bre-o-Meno, em 1567. 

Schmidel acompanhou ao R o da Prata d. Pedro de Men- 
doza, e assistiu á fundação de Buenos Aires, tomando parte mui 
astiva nas expediçõ s hespanlnlas, desde a foz desse rio me- 
morável, até ao Paragury. Penetrou e fez a guena em muitos 
territórios, indo até a Bolívia e a região des Ande?. Nessa 
vida de curiosas e interessentes aventura? levou quasi vinte 
annos. Qaerendo voltar para a Europa, por 8. Vicente, em- 
prehendeu por terra, por inhospitas rpgões sertaneja?, uma via- 
gem sobremodo arrojada, com fraquíssimos recursos e poucos 
companheiros. 

Nessa época a Villa de S. Paulo ainda não existia. 

Partiu pois de As umpção em 26 de dez* mbro He 1552 e 
ch°gou a S. Vicente a 13 de junho de 1553, Beguindo a 24 
do mesmo mez para Lisboa em cm navio de Pedro Rossel, 
Agente de Erasmo Sch^tzen, de Antuérpia. 

Este intrépido viajante esteve na Villa de Santo André, 
alli se demorru pouco tempo, mas sempre diz alguma coisa do 
famoso João Ramalho, cujo nome germânica, chamando-o de 
João «Reimeille» fazendo o mesmo com S. Vicente que deno- 
mina «Vicenda» . 

Ora, ouçamos suas palavras : 

« Chegam s em fim a uma a 1 d ca hibitada por Christios, 
cuj ) chefe chamava-se João Reimeille. Felizmente para nós 

Íelle estava ausente, por quanto esta aldô 1 pareceu me um va- 
lhacouto de ladrões R malhi (Reimeille) tinha ido para onde 
: 



(i) Rev. do Instituto Histórico e Geographico do Brasil. Vol. XL , segunda 
prate pag. 84fc. 



— 218 — 

estavam outros christãos que habitavam em outra «aldêa» 
chamada Vicenda (S. Vicente) para terminar um tratado 
com elles 

Os indios deste paiz, assim como perto de oitocentos 
christãos, que vivem nessas aldeãs, são \assallos do rei de Por- 
tugal, mas são governados por João Reimeille. 

Elle (Ramalho) pretende que, havendo feito guerra por 
espaço de «quarenta annos» nestas índias (Brasil) e conquis- 
tado este paiz (S. Vicente), era mui justo que fosse elle o 
governador. 

Jcão Reimeille fazia a guerra aos pcrtuguezes que não 
queriam reconhecer os seus direitos. 

Elle é tão poderoso e tão considerado que pode por em 
campo até cinco mil indioF, ao passo que não se reuniriam 
dois mil sob o estandarte do rei de Portugal. 

Na aldêa (Villa de Santo André), não encontramos senão 
um seu filho, fomos mui bem recebidos, ainda que elle nos 
inspirasse mais desconfiança que os próprios indics, e deixando 
este lugar, rendemos graças ao céa termos podido sair sãos e 
salvos». 

No capitulo 53 diz ainda : 

« Continuamos no*sa viagem e chegamos a 13 de junho 
de 1553 a uma pequena cidade chamada Vicenda (S Vicente) 
situada a vinte milhas daquelle ponto (10). Achei ahi um na- 
vio portuguez que acabava de ser carregado de assucar, paus 
de tintura e algodão, por Pedro Rossel agente de Erasmo 
Schetzen, de Antuérpia. 

Depois de dizer que foi bem recebido por Pedro Rossel, 
que lhe arranjou uma passagem a bordo daquelle navio e de 
recommendal-o a tripulação, accrescenta : 

« Passei onze dias em S. Vicente (hão fala de Santos) 
para munir-me de todas as coisas necessárias para uma larga 
viagem. Cheguei alli, seis mezes depois de haver deixado 
Assumpção, a distancia é de 376 milhas). 



Ora, este intrépido viajante, habituado durante vinte 
annos a essa vida sertaneja, e a affrontar, sem medo, toda a 
sorte de perigos, não só por parte dos elementos como dos animaes 
ferozes e das tribu3 bravias de indios que povoavam toda essa re- 
gião immensa por elle percorrida, com quem teve de travar, 
combates, ió se atemorisou ao approximar-se dessa aldêa de 
Christãos onde habitava Ramalho e seus filhos!.... 

Já ve pois o leitor que a «fama» de João Ramalho, es- 
palhada já nessa época, por toda essa vasta região sertaneja 
desde S. Vicente, até o Rio da Prata, e que tantos receios 
inspirava ao viajante allemão, não podia ser obra dos jesuitas 
que acabavam de aportar ao Braz 1, e apenas encetavam o seu 
estabelecimento na Colónia de Martim Affonso de Sousa. 



(10) A milha alleman equivale a uma légua, e quasi um terço das nossas ] 



— 219 — 
II 

Como additamento ás argumentações por cós produzidas no 
Capitulo lido na sessão deste Instituto, no dia 20 de Julho, 
referente á Villa de Santo André e á Povoação de Piratini ga, 
somos forçados a vir trazer ainda, ermo supplemento, alguns 
esclarecimentos, afim de melhor ser discutido e julgado este 
importante ponto aioda tão obscuro, de nossa Listo: h, tanto 
mais agora que se pretende, nesta capita 1 , erigir um monu- 
mento aos fundadores da povoação de São Paulo de Piratiainga. 

Como bem sabem os nossos distinctos consócios, é bastan- 
te velha esta questão, que agora tentamos revivei — de ser ou 
n?o Mattim Afícnso de Souza o fundador da povoação de Pi- 
ratininga. 

Muitcs historiaderes antigos, bem como autores de Dícck- 
narios Geographicos publicados no estrangeiro no século XVI 
e, principalmente, o Diccionario de d. José Vaisette, historiador 
celebre, pertencente á Congregação Benedictina de São Mauro, 
em Fiança, ao referirem-se á dita povoação de São Paulo, 
dão-lhe sempre como fundador o donatário Martim Affonso. 

O chronista Fr. Gaspar, nas suas Memorias para a Histo- 
ria da Capitania de S.* Vicente, ao tratar deste ponto, pre- 
tende rebater e provar que eram falsas e infundadas todas essas 
referencias. «A cidade de São Paulo, diz elle, teve os princí- 
pios que agora direi, e não começou como escreveram os es- 
trangeires, nem deveu sua origem a Martim A Afonso de Souza. > 

Devemos desculpar estas e outras teimosias de Fr Gaspar, 
e concordar mesmo que, em parte, ellas eram leaes e sinceras, 
visto que na época em que elle escieveu as suas Memorias 
ainda nãc se cenheciam os importantes documentos que mais 
tarde vieram negar as suas afirmativas sobre esse e outros 
pontos da nessa historia. 

O Diário da Navegação da Armada que foi á terra do 
Brazil em 1530, sob a capitania -mór de Martim Âffonso de 
Souza, escripto por seu irmão Pedro Lopes de Souza foi, pela 
primeira vez, publicado por Vanbagem em 1817. Esse Diario x 
a que já nos referimos, bem cemo as cartas do padre Nóbrega 
citadas prr Cândido Mendes no Tomo XL, parle secunda, da 
Rev. do Instituto Histórico e Geographico do Brazil t á pagina 
370, eram inteiramente desconhecidos no tempo de Fr. Gaspar. 
O que não se pode e nem se deve permittir, entretanto, em 
nossos dias, è que se continue a ir respigar nesse mesmo campo 
os pontes de que carecemos para elucidar estes e outros tópi- 
cos de nossa Historia, ou que se pretenda ainda pôr em duvida 
a veracidade desses citados documentos que vêm elucidar essa 
tão velha quão controvertida questão. 

Já declaramos, ao fazer a nossa primeira leitura, que os 
documentos que nos serviam de base para tal rectificação já 
eram bem conhecidos, principalmente as cartas de Nóbrega, ci- 
tadas por Cândido Mendes. 



— 220 — 

Essas carta*, quaado o dito escriptor as consultou, em 1877, 
sâ colleccào dos manuscriptDs de Évora, copiadas então para 
a bibliotheca do Instituto, ainda não tinham sido publicadas, o 
que se efivctuou mais tarde, não só na respectiva Revista, 
como em filbetos sob o titulo Materiaes e Achegas para a His- 
toria do Brazil) publicados por ordem do ministro da Fazenda, 
em 1886. 

No fascículo n. 2 dessa importante publicação a cargo do 
sr. Va^le Cabral, vêm as cartas do Padre Manuel da Nóbrega, 
precedidas de uma nota explicativa e de dados biogn phicos 
desse missionário exemplar. 

Em uma das suas annotações diz o sr. Valle Cabral: c Al- 
guns rericdcs das cartas de Nobrfga não são bem claros; ás 
vezes, a questão de pontuação faz também mudar muito o sen- 
tido da plirase. Em algumas, além disto, nota-te evidentes 
cortes de períodos, que ou desfiguraram o sentido, cu tornam 
obscuros os que se lhes seguem.» 

Mais adiante refere-se ainda: «Annotei as presentes cartas 
tanto quanto me foi possível fazel-o; uns factos ficaram mais 
ou menos assentados outros devem ser estudados de novo, até 
sua completa elucidação » 

Este ultimo período dai notas do sr. Valle Cabral ó assas 
importante pela franqueza e sinceridade com qu^ foi dito e bem 
merece a attenção dos meus dignos e eruditos consócios. 

Nas cartas de Nóbrega, alguns dos factos que «devem ser 
estudados de novo até a sua completa elucidação», são, no 
nosso entender, esses que se referem a fundação da rovoaçôo 
de Piratininga, per Martim Afionso; e que ai melhor que o 
Instituto Histórico e Geographico de S» Paulo está ni caso de 
se interessar e elucidar esse ponto ? 

Eis, em resumo, o que, sobre este ponto diz, em Addendo, 
o sr. Ca adido Mendes : (Revista do Instituto Histórico e G» 
do Brazil tomo XL, parte 2. a J. 

«Depois de já estar no prelo a presente Memoria, tivemos 
occasião de consultar a preciosa collecção dos manuscriptos de 
Évora, copiados para a bibliotheca do Instituto, onde encon- 
tramos firma ios diversos factos, que contrariam algunas da? 
nosras conjecturas, e que no interesse da verdade histórica 
aqui registamos, etc. 

cDissemos a paga. 328 e 329 que Martim Afíonso de Souza 
nunca fora e nem pod a ter fundado Piratininga e que as 
duas villa3 de que trata o Diário de Pedro Lopes de Souza, 
não podiam ser outras sinão S. Vicente e Itanhaem, e nunca 
Piíatininga, hoje 8. Paulo. 

«Os manuscriptos da biblotheca de Évora, a que já nos 
referimos, vêm solver todas as duvidas que sobre este assumpto 
existia-r. Em verdade Martim Afíonso de 8ou?a subio a serra 
de Parar api acaba e fundou nos campos de Piratininga uma 
villa do mesmo nome, precisameute no local onde hoje se acha 
estabelecida a cidade de S. Paulo. Esta vilU com o tempo 
desappareceu : os portuguezes que alli viviam retiraram-se para 



— 221 — 

S. Vicense, ou para powaçoes marítimas, mecos João Ramalho 
que fundara um estabelecimento á borda do campo, conhecido 
na época por Campo de S. Vicente ou timplesmente campo. A ese 
«ninho» creado paia resguardo *eu, entre mattas, e mai» pró- 
ximo do littoral, impoz-lhe, desde principio, o nome de Santo 
André, etc, etc. 

O trecho da primeira carta de Nóbrega dirigida da capi- 
tania de 8. Vicente ao rei d. João III em 1554, cod forme vem 
publicada no folhet) do sr. Valle C ab ai, em 1886, que mais 
nos interessa è o seguinte: 

<-. . . Está principiada unca casara povíação ('e 8. Vicente 
onde se recolhe- am alguns orphãos c'a terá e filhos do gentio; 
e do mar dez légua;, p uo mais ou menos duas léguas de 
uma povação de J ão Ramalho, que se chama Piratininga, 
onde Maitim Affonso de ôau a primeiro povocu». 

Cindido Mendes, que alguns aanos antes, de Valle Cabral, 
em 1887, havia ccnsul a*o esse mesmo documento, que veiu 
contradizer as suas opiniões e conjecturas, interpreta-o 
d'outra forma additando mesmo a palavia — outra — afim de 
ser melhor comprehendido esse obscuro período, coiro se vae 
ver: «Está principiada j>ma ca a ca povoação de S. Vicente 
ond« se recolhei m alguns orphàos da terra filhos do gentio e 
outra no mar dez léguas pouco irais cu menos, duas !eguas 
de uma povoação de J ão Ramalho, que se tharxa Piratinin, 
onde Martim Affonso de Soma primeiro povoou . . . » 

Em nota abaixo explca ainda, que «a povoação que se 
chama Piretinin» e o local da outra ca<a (ou c llegio) á margem 
do Tietê e não a p--voa;ão de João Ramalho que sempre se 
denominou fanto André. A reconstituição mais cla-a deste pe- 
ríodo, se nos perm ttem, será ain <a esta: «Es'á principiada 
uma casa na rovosção ce S. Vicente, etc. e outra, que se 
chama Piratinin onde Martim Affonso primeiro povoou, do mar 
dez léguas, porco mais ou menos duas léguas de urra povoação 
de João Ramalho: 

Não nos consta, absolutamente, que Martim Affonso de 
Sousa fosse o creadc-r r'a Villa de Santo André ; o que rezam 
as chroricas é qu° o d< natario, quando subiu a serra de Pa- 
ran p a aba, ars 10 de outubro de 1562 conferiu a João Ra- 
malho o t tulo de Guarda-Mór do Campo. 

O titulo de Alcaide Mor de Santo André — foi conferido 
a Ramalho pelo Loco tenente de Martim Affonso, Ant nio de 
Oliveira, em 1553, quatdo esi-a pov< ação ttve foros de Villa. 

Não consta, tampouco, em do umentos authenncos, que 
essa Vila de Santo André, fosse conhecida por Piratinin como 
alguns querem suptô- pr- curando esclarecer o período citado 
da carta do Padre Nóbrega 

A proiiosito dessa denominação Piratinin ou Piratininga, 
que ira s tarde se estendeu por toda essa região do lieté, re- 
fere o chronista Fr Gaspar : 

. . . « Pelo dito campo dcs Ant gos fiz seu cuiso um rio 
famoso, a que os titulo» e cartas mais antgas dão o nome de 



— 222 — 

Rio Grande, as sesmarias do principio do século passado o de 
Anhambi — e hoje todos conhecem por Tietê. 

Nelle fas confluência num ribeiro, a que os Índios da ter- 
ra intitulavam Piratininga ou Piratinin, como acho escripto 
em alguns documentos antigos, e o logar dessa confluência fica 
longe da cidade, cousa de meia légua. Em huma das margens 
do tal ribeiro estava situada huma Aldêa cujo nome era Pira- 
tininga, onde residia Tibiriçá soberano dos Guayanazes : Ella 
tomou o norre do ribeiro o qual se communicou a todo o paiz 
(região) Accrescenta em nota o mesmo erudito chronista : 
«Que Piratininga ou Piratinin, hé um ribeiro, e se mete no 
Rio Grande dos Antigos, hoje conhecido pelo nome de Tietê, 
consta do acto de Demarcação das terras de Braz Cubas, feito 
em S. Paulo, no anno de 1663, por ordem do Provedor-Mó: 
Sisne, o qual se acha no archivo do Carmo de Santos. Mas, 
15 n. 68. O mesmo consta de uma carta de sesmaria passada 
por Jorge Ferreira, capitio mó: de S. Vicente, aos 9 de Agos- 
to de 1567, registrada no cartório da Provedoria da Fazenda 
Real, etc. etc » Fr- Gaspar não diz, nem prova que a aldêa 
de Ramalho se chamasse Piratininga. 

As duas cartas do Padre Nóbrega, a que nos referimos, 
isto é — a que vimos de citar, e a outra dirigida também da 
Capitania de S. Vicente, a Santo Iguacio de Loyola, em Ro- 
ma, da qual vamos ainda nos occupar, nem uma traz data, 
nem do dia nem do tnno, nem do 1 gar em que foram escri- 
ptas, onde apenas declara — Capitania de S. Vicente — que tan- 
to poderia ser— Santo André Piratininga ou Santos, S. Vi- 
cente ou Itanhaem. 

Valle Cabral dá ambas essas cartas como sendo escriptas 
em Piratininga (não sabemos qual a razão), datando a primei- 
ra de 1554 e a segunda, dirigida a Santo Ignacio, com data 
de 1556, ao passo que Cândido Mendes diz que a primeira, de 
S. Vicente, foi escripta em 1553. 

Quanto á segunda são concordes na data de 1556, mas 
assevera Cândido Mendes que foi escripta em S. Vicente e não 
em S. Paulo. 

Ora, examinemos com calma alguns dos tópicos dessa ul- 
tima carta de Nóbrega dirigida a Santo Ignacio de Loyola 
afim de vermos qual dos dois interpretes tem razão. 

Antes, porém, convém declarar que o Padre Nóbrega par- 
tiu de S. Vicente para a Bahia a 3 de Maio de 1556 e que, 
portanto, a carta só foi escripta em principio desse anno. 

Depois de occupar-se de factos referentes a outra3 capi- 
tanias, diz o grande missionário : . . • «Nesta Capitania de 
S. Vicente o Padre Leonardo Nunes fez o mesmo, ajuntou 
muitos meninos da terra do Gentio que se doutrinavam nesta 
casa, etc. etc. ...» 

«Esta casa (é sem duvida em S. Vicente) servia de dou- 
trinar os filhos e os pães e mães, e outros alguns, como pelas 
cartas dos quadrimestres vejo ; daqui se visitam outros logares 
do Gentio que estão em redor, etc. (Provavelmente em Ita 



— 223 — 

nhaein), cnesta casa se lê grammatica a quatro ou cinco da 
Companhia e lição de casos a todos, assim Padres como Ir- 
mãos, etc. • • •» 

«Desta maneira vivemos até agora nesta Capitania, onde 
estamos seis Padres de missa e quinze ou dezeseis Irmãos por 
todos ; e aos mais sustentava aquella casa de S. Paulo de Pi- 
ratinin com alguns meninos do gentio, sem se determinar se 
era collegio da Companhia, etc. • • •» 

Vemos que, para se fazer daquella casa de S. Paulo col- 
legio não têm mais que a grangaaria, etc. • • •> 

Ora, pela maneira por que está redigida esta carta, não 
precisa grande perspicácia para comprehender-se que não po- 
dia ser essripta de S. Paulo de Piratininga, roas sim de S. 
Vicente, e que, portanto, é o sr. Cândido Mendes que está 
com a razão, pois quando o auctor se refere a S. Vicente em- 
prega sempre as locuções «esta casa», «este cllegio», ao passo 
que, quando trata de S. Paulo, emprega sempre — iaquella ca- 
sa», o que prova não ser Piratininga o logar em que elle se 
achava quando redigiu esta carta. 

Note -se ainda que as transposições que estamos fazendo 
não é do vol. XV da Revista do Instituto, onde vem publi- 
cada a addenda do sr. Cândido Mendes, mas sim a do pró- 
prio sr . Cabral sob o titulo Materiaes e Achegas para a His • 
toria e Geographia do Brasil, pags. 111 e 115. 

Afim de bem esclarecer este ponto, damos o resto de 
transcripção da carta de Nóbrega, na sui integra, com a pon- 
tuação que n03 offerace o dito folheto do sr. Cabral. 

« Vendo-nos o Padre Luiz da Grã e eu, nesti perplexidade, 
dando conta aos Padres, que nos aqui achamcs. nó i pareceu escre- 
ver estas cousas a V. P. e ao padre mestre Ignacio, (provavel- 
mente Ignaúo de Azevedo) para que com o que lá se assentar, 
se tomar resolução nas causas seguintes: Primeiramente si nos 
convém que aquella casa de Piratinin seja de meninos ; a nós 
cá parecia-nos que não e que é melhor andai -o doutrinando 
por suas povoações a pães e filhos, e, te todavia El-Rei qui- 
zesse casa delles, e os quizesse manter, nós não teremos mais 
que a superit-ndencia espiritual sobre elles, e já que El-R ú os 
não queira manter, nem nos convenha teí-os, se será bom fa- 
zermos daquella casa collegio da Companhia ; e nisto o nosso 
voto é que si sua Alteza quizaase dar aquella casa alguns dí- 
zimos de arroz e miuças, \i que alli hào de estar Padres e 
Irmãos, applicando aquella casa para sempre, e tirar de nós 
toda a esmola que cá nos dão, que era muito bom fazer col- 
legio e se servia muito a Nosso Senhor delle, e a sua Alteza 
custaria menos do que lhe casta o que nos agora dá, e podia 
dar-nos alguns moios de arroz do dizimo, e o dizimo da man- 
dioqua da Villa de Santo André, que creio que tudo é menos 
do que nos cá dão; e a nós escusar nos-ia de mandarmos fazer 
mantimentos, nem termos necessidade de ter escravos, e com 
isto e com o mais que a casa tem, seria cllegio fixo, porque 
já tam casa e Igreja e cerca em muito bom sitio, posto o melnor 



— 224 — 

da terra de toda abtstança, que na terra pode la ver, em meio 
de muitas povoações de Índios, e perto da Villa de Santo An- 
dré, que é de christãos e todos os chiistÊos desejam ir viver, 
se lhes dessem licença; alli foi a prime) ra povoação de chris tão, 
que nesta terra houve em tempo de Martim Afíonso de Sousa 
e vieram a viver ao mar por razão dos navios, de que b gora 
todos se arrependem, e, todav.a, a alguns deixaram lá ir viver, 
assim também e sina se já ali grammatica a alguns estudantes 
nossos e lição de cases a todos, etc. 

Em resumo : creio aue não pode haver contestação a estei 
periedos que são bastantes claros! Quando Nóbrega diz: «ali 
foi a primeira povoação de christãos que nesta terra houve em 
tempo de Martim Affonso de Sousa» não se refe.e, está visto, 
á povoação de Santo André, mas sim á de Piratininga. 

« Assim também ensina *e «já ali» grammatica, etc», 
conclue elle, demonstrando que o i dverbio do lugar « ali > não 
se refere a Santo André, mas a São Paulo de Piratininga, 
«onde Martim Affonso primeiro iovcou» e onde «já está co- 
meçando o crllegio ». 

Ainda uma vfz dec'aramos que, nesta questão, não nos 
move cutro interesse que não seja o intuito do restabelecimento 
da verdade histórica. 

De forma alguma não des jamos empanar a gloiia dos 
abnegados e heróicos missionários da Companhia de Jesus, pela 
parte tão activa que tomaram na fundação e denominação da 
villa de S. Paulo de Piratininga; não desejamos, entretanto, 
que se exclua dahi o nome do primeiro donatário de São Vi- 
cente, que, de facto e de direito, bfm merece também o titulo 
de fundador d« São Paulo. 

A venerai ão que votamos aos missionários jesuítas, pelos 
grandes beneficies que prestaram á colónia de Martim Affnso 
e pela ingratidão que, c» mo rec mpensa, sempre receberam em 
nessa terra, e ainda petas injustiças de que hoje são victimas, 
nota- se, não é a mesma que nutrimos por esse valente e illus- 
trado capitão primeiro dona ario. 

Se este mereceu dos biographos os mais retumbantes elo- 
gios e Camões o immortaUscu no seu poema Os Lusicdas, com 
estes versos : 

Tanto em armas illustre e em toda parte 
Quanto no conselho sábio e bem cuidado 

não deixou por isso, receber dos historiadores de sua pátria 
as aceusações as mais terríveis, que muito depreciam e avil- 
tam o seu caracter. 

Pinheiro Chagas e outros modernos historiadores, nas in- 
vestigações que fizeram das administrações d s governadores 
da índia, dessa épcca, não são nada favoráveis a Martim 
Affonso, qua é considerado como um grande ambicioso e um 
déspota cruel. Não deixam, entretanto, de lhe fazer justiça a 
outras boas qualidades, como homem de energia e de grande 
sab.r. 



- 225 — 

« Um dcs capitães mais soífrego» que teve a índia Por- 
tugueza (diz esse historiador) foi, sem duvida, Martim Affonso 
de Souza; ua sua sede insaciável de ouro e de riquezas che- 
gou a praticar astos que deshonravam a ella e deshonravam o 
n»me de Portugal, mas não deixava, por íseo, de ser nfio to 
um drs mais valentes mas também um dos nossos mais illus- 
três capitães, verdadeiro homem de sciencia eíc » (Historia de 
Portugal, de Pinheiro Chagas, vol. IV, jag. 31.) 

Ao lançar-se um golpe de vista sobre a expedição desse 
famoso capitão ás terras do Brazil, antes de sua partida para 
a índia, não se deixa de notar que, ao partir de Portugal, em 
1530, Martim Affonso vinha ;á com o firme propósito de esta- 
belecer a sua primeira colónia no littoral de S. Vicente, cuja 
região era delle conhecids, não só pelas informações pessoaes, 
como pelos mappas que já existiam nesra época, de te da a 
costa do Brasil. 

Martim Affonso, sem duvida, tivera noticia da intrépida 
expedição, no nosso continente, desse portuguez Aleixo Garcia 
e do ouro e da prata que S9 havia espalhado, desde o Rio de 
Solis, que nessa occaeiào te mu o neme de Rio da Prata até 
8. Vicente, apÓ3 a morte deste audaz aventureiro luziu no, 
conforme referem os propries historiadores hespanlóes, que 
affirmam ter Aleixo Garcia galgado es Andes e attingido a 
terra dos Incas, no Peiú onde voltara carregado de ouro e 
prata, antes da conquista de Piz2arro. 

Martim Affonso sabia, pois, que a perta oz. a chave para 
penetrar nesse sertão onde, segundo as noticias, tanto abun- 
dava o ouro e a prata, era, depois do rio da Prata, esse outro 
famoso rio grande, Anhemby ou Tietê, e, portanto, procurou 
tomar, quanto antes, posse dessa chave ou dessa porta, E foi, 
de facto, o que elle fez, depois de ter cumprido as ordens de 
d. Jcão III — de percorrer e levantar marcos e padrões de 
posse no litteral do extenso dominio do seu rei. 

Se Martim Affonso viesse ao Brasil unicamente com o fim 
de o povoar e tratar da colonisação e cultura da terra, teria 
escolhido outros pontos mais apropriados a esse mister, e não 
as terras húmidas e baixas do littoral e porto de S. Vicente. 

Já ao aportar ao Rio de Janeiro, o denatarie, antes de 
cuidar de outras cousas, na demora de quatro mezes que alli 
teve, tratou de expedir alguns homens ao sertão, afim de se 
informarem se havia ou não indicios de minas naquella região. 

Em Cananéa, sabemos qual o intuit) dessa infeliz e de- 
sastrosa expedição — dos oitenta homens — que pereceram no 
sertão em busca de minas de ouro. 

Martim Affonso. como homem ambicioso, porém intelli- 
gente e perspicaz, não desanimava e sabia que essas historias 
de grandes riquezas e j zidas de ouro no interior do paiz não 
eram meras lendas, nem mythcs, e que, mais cedo ou mais 
tarde, essas minas deviam apparecer. 

Ao estabelecer« se em S. Vicente, o seu primeiro cuidado 
foi conhecer esse rio famoso t que já havia, sem duvidp, sido 



— 226 — 

percorrido por Aleixo Garcia, e que mais tarde deveria ser a 
ióta segura, a esteira luminosa que os intrépidos bandeirantes 
haviam de sulcar. 

Ao chegar, pois, á aldeia de Tibiriçá, em Piratininga, 
nessa et llina ribeirinha ao grande rio Anhembi, elle de certo 
não vacillou em lançar sobre tila os fundamentos da sua po- 
voação, que viria a ser a gvarda, a chave dessa porta do ser- 
tão, como bem qualificou vinte e quatro anncs depois o bene- 
mérito missionário Manuel da Nóbrega, que alli mesmo fez 
resurgir e levar a effeito a idéa do primeiro donatário. 

Por que motivo, pois, e com que fundamento, pretende-se 
ainda sustentar que a povoação de Piratininga, fundada por 
Martim A IV uso de Souza, não é a de S. Paulo, mas sim a de 
Santo André da Borda do Campo t i Não orecisamos adduzir 
mais argumentes para neg;ar que Martim Aííonso, com toda a 
sua perspicácia e tino militares, tivesse a idéa arandonar este 
magnifico ponto estratégico, onde ee achava a aldeia de Tibi- 
riçá, á margem do Tietó, para ir estabelecer a sua povoação 
longe desse grande rio e próximo ás florestas emaranhadas do 
alto da serra, sujeita aos ataques e emboscadadas traiçoeiras das 
tribus aguerridas dos tamoyos e mais Índios inimigos dos lusi- 
tanos. 

Nas demandas que mais tarde surgiram entre os herdeiros 
de Pêro Lopes de Souza e Martim Afíonso de Souza, quando o 
ouro, já explorado por Afíonso Sardinha, começava a pintar nos 
invios sertões da extensa capitania, vemos bem claramente que 
o motivo que impellia es herdeiros desses dois irmãos nesse 
renhido pleito nao eram as posses das areais e mangues dolit- 
toral e das ilhas de S. Vicente e Santo Amaro, que ambos dis- 
putavam, mas, sim, o direito de dominar no sertão aurífero e 
apossarem -se das cidades e viilas á margem do Tietê : S. Paulo, 
Ytú, Araritaguaba e outras, que guardavam a porta e possuíam 
a «chave desse sertão». 

Foi também por essa ecrasião que se comprehendeu o mo- 
tivo porque Pêro Lopes de Souza tanto empenho havia feito 
para que o rei d. João III lhe concedesse a permissão de in- 
tercalar dentro da capitania de S. Vicente — dez léguas das 
cincoenta que lhe tinham sido doadas em Itamaracá, no litoral 
de Pernambuco. 

K?sas dez léguas de Pêro Lopes, que depois tomaram no 
littoral o pomposo nome de Capitania de Santo Amaro, começa- 
vam no rio Juqueriquerê, em 8. Sebastião, e vinham até á 
barra de Bertioga. Nas ditas demandas, esse limite se foi dis- 
tendendo : primeiro até á barra grande, em Santos, ficando toda 
a ilha de Santo Amaro na posse de Pêro Lopes e, mais tarde, 
os referidos limites primitives de Bertioga vieram até á barra 
de S. Vicente, ficando as duas ilhas, St. Amaro e 8. Vicente, 
com suas duas viilas, dentro da capitania de Pêro Lopes. A 
posse dessa ilha de Ingáguassúf e Fobretudo o direito de do- 
minar na villa capital de Martim Affonso de Souza, S. Vicente, 
equivalia, para os condes de Monte Santo e Marquez de Cas- 



— 227 — 

cães, herdeiros de Pêro Lopes, o direito e posse do sertão, o, 
se brotado, da cidade de S. Paulo, á margem do Tietê, que breve 
iria assumir o predicamento de cabeça da capitania. 

Os condes de Vimieiro e Ilha do Príncipe, uma vez expo- 
liados da villa de S. Vicente, capital da donatária de Martim 
Affonso de Souza, de quem elles eram legítimos herdeiros e 
suceessores, foram fazer da villa de Nossa Senhora da Conceição 
de Itanhaem, também fundada pelo donatário, a capital das cem 
léguas da capitania de S. Vicente, como é, aliás, bem conhecido. 

Ao terminar essa intrincada e iníqua contenda, que durou 
perto de dois séculos, quando o governo da metrópole resolveu 
transferir a Eéde da capitania para a cidade de S. Paulo, e in- 
demnisar os proprietários dessas terras do littoral em que esta- 
vam as duas ilhas em questão e onde se achava situada a villa 
de S. Vicente, capital das te:ra3 de Martim Affonso, não foram 
os herdeiros deste primeiro donatário que receberam os qua- 
renta mil cruzados, mas sim os herdeiros de seu irmão Pêro 
Lopes de Souza. E l que, nesse tempo, como ainda hoje, te 
pretendia já esbulhar da villa de S. Vicente de S. Paulo o 
nome e o direito do seu legitimo fundador. 

Hoje, porém, que, pela acção do tempo, essss ânimos arre- 
feceram, é tempo que o viredictum calmo e justo da historia se 
pronuncie e que a justiça seja feita, com toda a evidencia, á 
memoria do nosso primeiro donatário. 

S. Vicente, Julho de 1910. 



D, Amélia (S/Imperatriz do Brazil) 

PELO 

Dr. Eugénio Egas 

«ócio «flectivo do Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo 



• (2.* IMPERATRIZ DO BRASIL) 

Viuvo, desde 11 de dezembro de 1826, D. Pedro I, o glo- 
rioso fundador da nacionalidade brasileira, sentiu a conveniên- 
cia de contrair segundas nupciaj. O a seus amigos e fieis con- 
selheiros, por sna vez, fizeram ver ao jovem imperador que, por 
todos os motives de ordem publica e por todas as razões de 
moral privada, impunha- se -lhe o dever de constituir nova fa- 
mília. D. Pedro I, reconhecendo a procedência das allegações 
apresentadas, assim se exprimiu em carta que escreveu ao mar- 
quez de Barbacena : — cHonrado marquez de Barbacena. Amigo. 
Eu o imperador vos envjo muito saudar, como aquelle que 
muito amo. Confiando de vossa fidelidade e inteireza o desem- 
penho do maior serviço que ora podeis faz ir tanti á minha 
pessoa e família, como á nação brasileira, mandei expedir pelo 
ministro competente as íastrucções necessárias, que devereis 
seguir á risca, emquanto alguma circumstancia imprevista vos 
não aconselhar a tomar outro expediente. E porque a distancia 
mui grande, e eu desejo accelerar quanto for possível o meu 
casamento, convém que vos habilite com instruecões amplas e 
positivamente minhas. O meu desejo e grande fim é obter uma 
princeza que por seu enascimento, formosura, virtudes e ins- 
trucção», venha fazer a minha felicidade e a do Império : — 
quando não seja passível reunir as quatro condições, podereis 
admittir alguma diminuição na primeira e qnarta, comtanto que 
a segunda e a terceira sejam constantes. Todos os meios que 
vossa sagacidade e zelo empregar para conseguir este fim, se- 
rão por mim approvados, e por isso vos incluo três assignatu- 
ras em branco, e ponho á vossa disposição a minha legitima. 
Estou certo que desempenhareis as íuneçoes de fiel criado tanto 
acompanhando minha filha e rainha de Portugal para Vienna, 
como minha augusta noiva para o Brasil. Nosso Senhor vos 
tenha em sua santa guarda. 

Escripto no palácio do Rio de Janeiro, aos 27 de junho 
de 1828. 7.° da independência e do império. — Imperador». 

E o marquez de Barbacena (Felisberto Caldeira Brantj deu 
principio á sua delicadíssima missão, confiando no apoio e au- 
xilio e conselhos que lhe quisesse dar a corte austríaca, pois 
o imperador da Áustria fora sogro de D. Pedro I. Mas a corte 
viennense era hostil a D. Pedro, porque lhe attribuia muitas 
das contrariedades e desgostos que tanto acabrunharam a pri- 



— 232 — 

meira imperatriz do Brasil, d. Maria Leopoldina Josepha Ca- 
rolina. O baião de Marechal, ministro da Áustria no Rio de 
Janeiro, durante a vida de d. Leopoldina, fizera, junto das 
cortes européas. propaganda desfavorável ao imperial viuvo, 
agora candidato a noivo. 

E foi por isso que seis pedidos de casamento tiveram res- 
postas negativas. Barbacena não era homem de desanimar, e 
bem sabia que um imperador moço bello, corajoso e attrahente, 
governando nação nova e futurosa nao era partido que se des- 
prezasse. 

Dirigiu, pois, as suas vistas para a Baviera; Eugénio de 
Beauharnai*, o valoroso general, enteado de Napoleão I, de 
quem a águia franceza dissera, ao voltar da infeliz campanha 
da Rússia: — «Dans cette gaerre, nous avons tous commis des 
fau f es; Eugene est le seu) que n'en ait pas fait>; havia falle- 
cido aos 44 annos de edade, deixando viuva e filhos. As prin- 
cezas de Beauharnais goeavam de um renome europeu como 
typos de helleza. Eugénio de Beauharnais, que fora arrastado 
na queda de Napoleão, retirou- se para a Baviera, e alli viveu 
crm o nome de Dnque de Leuchtemberg. Quando D. Pedro I 
fez o íeu pedido de casamento, já o endereçou á duqueza viuva: 
era fallecido o antigo vice -rei da Itália. 

Vencidos os obstáculos creados por Metternich, ou melhor, 
afastada a sua intervenção, que era muito fraca, senão, abso- 
lutamente nulla, em se tratando de princezas napoleónicas, 
Barbacena communicara a D. Pedro que as negociações se en- 
caminhavam bem, e que finalmente tinha encontrado facilida- 
des... E D. Pedro lhe respondia: — «Meu Barbacena. Muito 
estimarei receber cartas suas, principalmente pelo que nellas 
me diz relativo ao meu casamento, que pelas suas — facilidades 
muito fáceis — já deve estar feito. Deu3 o p^rmitta para saber o 
que é de mim.» E finalisava: «Tenha saúde e venha depressa, 
mas já se sabe acompanha ido a noiva, e bom será que já não 
receba esta, o que me fazem acreditar as suas — facilidades 
muito ff ceis Acredite que sou seu amo, que muito o estima. 
Rio de Janeiro, 6 de Março de 828. Imperador.» 

Passaram- se largos e morosos mezes . . D. Pedro I, im- 
paciente, resoluto, temerário, srffria horrivelmente com a mar- 
cha lenta das formalidades diplomáticas. 

E a distancia, e a morosidade dos correios, e a incerteza 
da navegação, tudo a lhe torturar o coração apaixonado ! Quantas 
vezes não lhe passariam pelo cérebro idéis de casar-se alli 
mesmo pelo Rio de Janeiro ou talvez por S. Paulo 1 . . Mas 
a sua imperial palavra? E a sua posição de chefe monarchico? 
E o sangue azul? Oh! Quanta coisa passada a comprimir o 
seu pensamento e a apertar o seu triste coração?! Bem se 
pode imaginar o que de alegria, o que de contentamento se 
apoderariam do organismo de D. Pedro, quando lhe foi pre- 
sente a duplicata do seu contrato nupcial, celebrado a 30 de 
Maio de 1829, que assim começa : 



— 233 — 

«Sut notoire à toas cear qui le pròsent contra et de mi- 
riage verront : que comme 8a Majestó 1'Empereur du Bréail a 
demande en mariage à la Sereníssima Du; ? ies»e de Leuchten- 
berg. Sa filie bien aimée, la Sareaissime Princesse Amélie 
Auguste Eugenie, Princeíse de Leuchtenb»rg et d'fiicbstaedt, 
et que la mission de stipuler et arróter las Conventious ma- 
matrimoaiales a é:è co fiée de la pirt de 8a Majesté Impe- 
riale au três illustre et trè? exellent Seigneur Felisberto Cal- 
deira Brant, Marquis de Barbacena, Senateur de 1'Empire, 
Gentilhomme de la Chimbre de Sa Majesté Imperiale, Marechal 
General de ses Arméea et Grand Cordon de 1'Ordre Imperiale 
de la Grande Croix du Sud ; et de celui de la Couronne de 
fer d'Au8triche ; et de la patt de Son Altesse Roya^ la Du- 
ehesse de L»uehteoberg à Mmsieur le Chevalier Niolas Louis 
Planat de la Faye, Lieutenant Colonel dans 1'Armée de Sa 
Majestó le Roi de Bavière, Gentilhomme de Cour de Sa dite 
Altesse Royale. Officier de i'Ord e de la Legion d'honneur, 
Chevalier ae 1'Ordre du merite civil de la Couronne de Ba- 
viè.-e et de 1'Ordre Royal de l'E ée de Suede» e depois, entre 
varias clausulas dispunha : — que o casamento B*ria celebrado 
em Munich entre a serenimma Princeza Amélia Augusta Eu- 
genia, Frinceza de Leucutenberg e d'E chstaedt e o repre- 
sentante de S. M. o Irope»adrr do Braz'l à conditioa qu'EUe 
(Sa Majes*é L'Emper. ur) ratifiera et accomplira en personne 
ce mariage», tegundo a fórma preseripta pelos sagrados câno- 
nes da egreja catholica apost* liça romana, logo que chegue 
sua augusta esposa ao Rio de Janeiro, ou para repetir as pa- 
lavras contratuaes, «au moment de 1'arrivée de Son Augusto 
Epouee à Rio Janeiro»: que celebrado o casameit) em Municb, 
d. Amélia tomaria o t tulo de Imperatriz do Brasil : que par- 
tiria para o porto de Ostend de onde embarcaria a bordo da 
esquadra que a conduziria ao Brazil : que d. Amélia teria um 
dote de 200-0C0 florins; que... 

O contracto rupcial celebrado em Oanterbury passou pelos 
tramites legaes e diplomáticos e a 2 de Agosto do mesmo amo 
de 1829 celebrou-se o casamento, em Munich, á 1 hora da 
tarde . 

No dia 3, d. Amélia despediu-se da família e a 4 partiu para 
Ostfnde, onde chegou acompanhada de seu irmão, o príncipe 
Augusto, pelo pessra! que c mpunba a soa Camará, além de 
muitcs fHalgos bavaros, que a levavam até Oa^nde e regres- 
saram a Munich depois da part da de d Amélia para rorts- 
mouth. Em carta de 11 de Agosto dizia Barbacena: — «Até 
aqui foi sobre o testemunho de rutr s que tenho dado a V. 
M. I. noticias de sua augusta noiva, h je dal-a-ei fundado no 
próprio e na minha convicção E' indubitavelmente a maia linda 
princeza e a mais bem educada que presentemente existe na 
Eurof a, e quando a vi emparelhada com as r rimas, que foram 
primeiramente pedidas dei mui aa graças a D.-us de haver V. 
M. I. escapado daquelles casamentos. A imperatriz é linda 
como V. M. I. verá pelo seu retrato que vae ne?ta occasiào, 



— 234 — 

mas a sua instrucção, as suas virtudes excedem quanto posso 
dizer em seu elogio. V. M. I. gosará do prazer domestico em 
maior grau, do que nenhum dos seus súbditos e isto é o que 
V. M. queria e quanto ccnvem ao Império». A esquadrilha 
que conduziria d. Amélia para o Brazil compunha-se das fra- 
gatas «Imperatriz Isabel» e corveta «Maria Isabel», sob o com- 
inando em chefe do almirante conde d* Louzel. D. Maria da 
Gloria, mais tarde a rainba d. Maria II de Portugal filha de 
d. Pedro I, aguardava em Portsmouth sua augusta madrasta 
para juntas viajarem. Eis o que se lê nos chronistas do tem- 
po : — «Reuniram-se na manhan de 27 de Agosto de 1829 a 
bordo da fragata braz' leira «Imperatriz» surta no porto de Por- 
tsmouth as duas augustas soberanas, (d. Amélia e d. Maria da 
Gloria) que estavam impacientes para se conhecerem, e juntas 
navegarem para o Brazil. 

No dia 30 ao meio dia seguiram barra fora as fragatas 
que conduziam estas augustas senhoras com as suas respectivas 
comitivas». 

* * 
* 

Pela corveta «Maria Isabel», que adiantara viagem, teve 
d. Pedro I, noticias da prcxirra chegada das soberanas, que 
vinham com o marquez de Barbacena e príncipe Augusto de 
Leuchtenberg. O imperador, no dia 16 de Outubro, quando 
teve aviso de que a esquadrilha estava á vista, lei ao seu en- 
contro fora da barra. Entrando a bordo da «Imperatriz», d. 
Pedro I &tira-se aos braços de sua filha d. Mara da Gloria, a 
joven soberana, a quem elle dedicava um estremecido affseto 
de pae e de súbdito. Abraça -a tão forte longa e commovida- 
mente; que é preso de violenta crise de nervos. 

D. Amélia que deslumbrara os olhos vivos de d. Pedro 
com a sua fasciuadora belleza ; e que empolgara o seu coração 
e o seu espirito com a distineção do seu p^rte elegante e com 
a fina fidalguia de suas maneiras, diz-lhe as primeiras pala- 
vras de aflecto e de carinhoso conforto. 

D. Pedro I tranquillisa se e beija-lhe a mão num transporte 
de reconhecimento, de estima e caloroso amor ! . , 

«Desde aquelle momento os noivos oceuparam-se um do outro 
como se fossam namorados de muitos annos ; e o reciproco en- 
tlmsiasmo tem subido a tal ponto, que neste momento eu con- 
sidero aquelles dois entes como os mais felizes do mundo». 
E o missivista com uma pontinha de malícia, terminava : «novus 
erum incipit ordo»... 

No dia 17 de Outubro de 1829, á tarde, ap^zar do máu 
tempo d. Amélia desembarcava no Arsenal de Marinha, com 
todas as honras e no meio de enthutiasticas acslamacões. For- 
mou -se o cortejo qne immediatamente seguiu para a Capella 
Imperial, onde os noivos receberam as bênçãos nupciaes. 

A' noite d. Pedro I, tendo á sua direita a imperatriz d. 
Amélia, em frente d. Maria da Gloria (rainha de Portugal) 
e ao lado desta o príncipe Auggusto de Leuchtenberg, que 



— 235 — 

trazia os alamarei de ajudante de campo do rei da Baviera, 
persorreu as raag prinoipaes do Rio de Janeiro. Ea deslum- 
brante o aspeito, a illuminação e a ornamentação da capital. 
Ás palmas, os gritos de enthusiasmo, as exclamações de con- 
tentamento ouviam-se a todo o momento e de toda a parte. 
D. Amélia pela sua rara e simpathica t rmusur*, e pelo apri- 
morado de sua distincção de maneirai, conquistara, com sorrisos 
doces e suaves o apreço dos braúlairos. No largo de São 
Francisco de Paula erguia- se uma linda columna imitando a 
de Trajano. D) alto desta columna subiam constantemente 
gyrandolas de fogo colorido, e em baixo, em coreto muito ar- 
tístico, uma banda de musica da marinba de guerra frsnceza 
tocava marchas escolhidas de trechos das operas em voga. 

Na rua Direit», grande arco de triumpho, fartamente il- 
luminado, e outra banda de musica. 

No Campo de Sant'Anna, mais outro arco de triumpho, 
ouvindo-se alternadanen f e bandas do exercito nacional. 

No largo do Paço cajá illuminação era a mais esmerada, 
duas bellas e originaes deccrações, representando uma, o templo 
do «Amor>, outra o santuário do «Hymineu». Era bem tarde 
quando os noivos se recolheram aos seus aposento?, reina ido 
sempre, na multiião a melhor ordem e o maior enthusiasmo. 

D. Pedro I criara, nesse dia a ordem da Rosa, prefaciando 
assim o respectivo decreto : — Querendo perpectuar a memoria 
do Meu faustoso consorcio com a princeza Amélia de Leuch- 
temberg e Eichstaedt por uma instituição ntil, que, assigna- 
lando essa época feliz, * consexve com gloria na lembrança 
da posteridade», fundara a nova ordem, na qual seriam ad- 
mittidos «os beneméritos tanto nacionaes como estrangeiros, 
que se distinguirem por sua fidelidade á Minha Augusta Pessoa, 
e serviços feitos ao Império». 

No dia 18, D.Pedro I concedia perdão aos militares in- 
cursos em deserção e fuiamentava assim o seu acto de de- 
mência : «Querendo dar ao exercito uma prova da Minha 
Imperial Clemência, na occasião do meu faustos sssimo consorcio 
com a Princeza Amélia...» 

A 5 de novembro, ao irmão de d. Amélia o príncipe Au- 
gusto, era concedido o tratamento de Alteza Real e ao mesmo 
príncipe, seu cunhado, foi conferido o titulo de duque de 3anta 
Cruz, por carta de 25 do mesmo mez de novembro, carta mui 
afíectuosa :— «Príncipe de Eichitaed, eduque de Leuch enberg, 
Amigo. Eu D. Pedro Imperador Constitucional e Defensor Per- 
petuo do Império do Brasil vos envio muito saudar, como áquelle 
que muito amo e prezo. Tendo- me sido extremamente grata a 
vossa vinda a este Império oa occasião afortunada do meu fausto 
consorcio com a Princeza Amélia de leuchtanberg, voisa irman, 
e hoje minha muito amada e prezada Mulher; e Desejando, em 
attenção ás altas qualidades que vos distinguem, mostrar, por 
um testemunha que dure na memoria dos homens, o puro 
affecto que vos consagro e a justa estimação que faço de vos- 
sos sublimes merit03 e virtudes :— Hei por bem e me praz con- 



— 236 — 

ferir- vos o titulo de Duque de Santa Cruz, com o tratamento 
de Alteza Real. Nosso Senhor vos haja em sua santa gmrda. 

IlMPERADOR. 

K, finalmente, a 3 de maio de 1830, D. Pedro I na fala 
do throno annuncia ao parlamento o seu casão, eu to com d. 
Amélia e a vinda para o Rio de sua filha d. Maria II, joven 
rainha de Portugal e Algarve s. «Pasmavam- se os dias e as se- 
manas e os mezes em constantes festas e demonstrações de ju- 
bilo. Festas e mais festas, tudo festas». 

D. Amélia era amada do povo. E' preciso, entretanto, sa- 
lientar a grande demonstração de apreço que a imperatriz re- 
cebeu na noite de 20 de janeiro de 1830: «pomposo baile, dado 
pela corte e criados do paç?, em app^auso á chegada e c nsor- 
cio da seguada imperatriz do Brazl». O palacete do conde dos 
Arccs soffrera crmpleta reforma e fora caprichosamente prepa- 
rado para a de slu obrante festa, qu« consistiu no «baile e sere- 
nata, que em sp lauso de S. M. a Imperatriz offerecem a corte 
e criados de 3. Al. o Impera ir r» A' entrada do Senado foi 
postado um forte contingente de tropas para a guarda de honra. 
Sentinellas, não só á porta, como ainda no topo das duas esca- 
da?, foram collocadas para melhor fiscalisação. Nas immedia^õss 
do Senado a policia era feita por patrulhas de cavallaria, e 
muitas bandas de mu ica tocavam alternadamente. Os convi- 
dados foram recebidos desde 7 1/2 até 8 3/4 da noite, trajando 
de segunda gala tão somente os que não tomas; em parte nas 
dansas. Quatro criados graves achavam- Fe postados desde a 
porta do Senado até á entiada do salão para receber fs c nvi- 
dados á portinhola das carruagens, e annunciar os seus nomes 
em voz alta ao mais próximo, e este aos que fossem seguindo 
até ao ultimo, que egualmente os repetia. 

Já os convidados se achavam reunidos, quando ás nove 
horas da noite uma girandola annuncicu a chegada da familia 
imperial. Eatão um dos mestr s de ceremonias chamou os doze 
convidados, previamente escolhidos, que. em duas alas, se pos- 
taram, com tochas, desde á portado salão até á da entrada, para 
receber e acompanhar suas majestades e princepes, atè o sa ao 
do baile. Adiante, vinham os mestres de cerimonia, em seguida 
os soberanos, depois as senhoras incumbidas das honras da casa, 
e fioalmeute os convidados, que conduziam a? tochas. Logo que 
este solemne e imponente c rtejo deu eatrada no salão, a or- 
chestra atacou o hymno composto por D. P*dro l, que f á can- 
tado em coro pelos artistas disso encarregados. Todas as pes- 
soas, que se achavam no salão, formrram alas à passagem dos 
soberanos que, com os princepes, occupnram as caieiras postas 
sobre estrado. Consultada pelo3 mestres de ceremoiia, d Amé- 
lia deu assentimento para que começassem o baile e serenata. 
Foi e*te o programma: 

1.° Terceto de Gasza Ladra (Rossini). 

2.° Serviço de refrescos. 

3.° Uma curta valsa de d*>z minutos. 

4.° Uma cavatina, ou ária de tenor. 



— 237 — 

5.° Contradansas francez s (20 minuto?). 

6.° Ária de Semiramis (Ah ! quel giorno) RoBsim. 

7 ° Perviço de Chá. 

8.° Contr*dança espanhola (30 minutos). 

9 o Quinteto da Gazza Ladra. 

10.° Segundo serviço de refresco». 

11.° Orntradansas inglezas (20 minutos). 

12.° Daeto de Matilde de dois sopranos (RoBeini). 

13.° Cêa, se S. M. o Imperador nào ordenar que seja antes 
ou depois desta occasião. 

Terminada que fci a ceia, os soberanos voltaram ao sa ! ão 
nobre. Executou, então, a orcbestra o tercetto de Elirabetta. 
Siguiu-se uma contradensa heepanhola, 30 m nutob, depois 
cantou -se o duetto da S miramis «Va superbo inquellaR^gia», 
dansaram-se ainda contradansas, que se alterna -a ti com árias 
de Maggiorarini, Salvatjri, Madame Fa ioti, Mademoiselle Pia 
ccentini. A serenata terminou com o tercetto de Ricardo e Zo- 
iaide (Rossini). Logo após *oas msgestades retiraram-se com 
as mesmas formalidad s da chegada. 

D. Pedro I traz ; a as insígnias da Ordem da Rosa:— est relia 
branca de seis p ntas, em valiosos brilhantes, rodeada de uma 
coroa de rosai esmaltadas em cor natural, sobre a quil se via 
a coroa imperial, em ouro, com a legenda em letras também 
de ouso, sobre o fundo azul celeste: — Amor e fidelidade. O fitio 
branco chamalotado, com larga listra rósea entre duas ma s 
estreitas também róseas, destacava-se harmonusimente sobre a 
farda do imperador. D. Amélia, trajando em grande gala, os- 
tentava toda a sua empolgante belleza, realçada pelas valiosís- 
simas jóias que trazia, merecendo especial attenção os brincos 
e o diadema, posto tom muiti arte e graça, no penteado alto, 
com caches presos aos lados, s.bre as orelhas, esmeradíssimo. 
Linda princeza!... Encantidoia mulher. 

Foi a melhor e mais fina homenagem que d. Amélia re- 
cebeu da alta sociedade fluminense. 

Quasi quinze mezes depois, dava -se o movimento de 7 de 
Abril de 1831 e d. Amélia, no pa<p de S. Christovam, á meia- 
noite, ao lado de seu apaixonado e amantíssimo esposo, assistiu 
á conferencia entre o imperador e o major Miguel de Frias 
Vasconcellos que eiprz a S. M. os graves factos, que se pas- 
savam no largo da Acclamação, nesse mesmo largo ond-s se 
erguia o palácio do conde dos Arcos, que encerrava para sem- 
pre, Eob S3us tectos, es ruídos sonorosos do baile e Berenata de 
20 de Janeiro. «O povo e tropa, disse o major Frias, querem 
de V. M. a demissão do actual ministério e a reintegração do 
de 10 de Mtrço » 

— Não póle ser, respondeu d. Pedro I. E dirigindo-se á 
tua mesa de trabalho, escreveu o seguinte, que entregou ao 
major : — «Usando do direito que a Constituição me concede, 
declaro que hei mui voluntariamente abdicado na pessoa de 
meu muito amad) e prez ido filho Pedro de Alcântara»* 

Ao entregar o acto da ablicação, D. Pedro I disse : 



— 238 — 

— «Penhor major: — aqui tem a minha abdiccção. Es- 
timo que sejam felizes. Eu retiro-me para a Eurcps, e deixo 
este paiz que muito amei e ainda amo». 

D. Amélia, nobre e ccrajosa, sempre ao lado do esposo, 
soube conter a sua emrçÊo, e com expressões meigas procurou 
suavísar o transe doloroso por que passavam ambos naquella 
memorável ncite. derramando do seu olhar affectuoso consola- 
ções inapreciáveis ao coração do heróe de 7 de Setembro, ago- 
ra tão rude e cruelmfnte ferido. 

Na madrugada de 7 de Abril, d. Pedro, d. Amélia, d. 
Maria II, os duques de Loulé e alguns criados retiraramse 
para berdo da nau «Warspite», que, dias depois, zarpou para a 
Europa. 

D. Amélia, antes de partir, escreveu ás mães brasileiras 
esta carta, sob o titulo — Adeuses da Imperatriz Amélia ao 
menino imperador adormecido : 

« Adeus menino querido, delicias da minha alma, alegria 
dos meus olhos, filho que meu coração tinha adoptado l Adeus 
para sempre ! Adeus ! 

O quanto és formoso neste teu repouso. Meus olhos cho- 
rosos não se podem fartar de te contemplar! 

A majestade de uma coiôa, a debilidade da infância, a 
innocencia dos anjes cinjam tua engraçadiísima fronte de um 
esplendor roysterioso, que fascine a mente. Eis o espectáculo 
mais tocante que a terra pode (fferecer. Quanta grandeza, 
qu.nnt . fraqueza a humanidade encerra representados por uma 
criança! Uma coiôa e um brinco; um throno e um berço! 
A purpura ainda não serve senào para estofo, e tquelle que 
commanda exércitos, e rege um império carece de todos os 
desvelos de uma mãe. Ah! querido menino, se eu fosse tua 
verdadeira mãe, se minhas entranhas te tivessem concebido, 
nenhum peder valeria para me separar de ti ! nenhuma força 
te arrancaria dos meus braços. Prostrada aos pés daquelles 
mesmos que abandonaram meu esposo, eu lhes diria entre la- 
grimas ! ! não vedes mais em mim a imperatriz; mas uma mãe 
desesperada. Permitti que eu vigie vosso thesouro. Vós o 
quereis seguro e bem tratado ; e quem o haverá de guardar e 
cuidar com maior devoção ? senão posso ncar a titulo de mãe, 
eu serei tua creada : ou sua escrava ! ! ! 

Mas tu, anjo de innocencia, e de formosura, não me per" 
tences senão pelo amor que dediquei a teu augusto pae, um 
dever sagrado me obriga a acrmpanhalo no seu exilio, atra- 
vés dos mares, ás terras estranhas ! adeus, pois, para sempre ! 
adeus! Mães brasileiras! vós que sois meigas e afagadoras 
dos vossos filhinhos a par das relas dos vossos bosques, e dos 
beija-flores das campinas floridas, suppri minhas vezes; adoptae 
o orphão coroado, dae-lhe todas um logar na vossa família e 
no vosso coração. Ornae o seu leito com as folhas do arbusto 
constitucional! embalsamae o com ís mais ricas acres de vossa 
eterna primavera ! 



— 239 — 

Entrelaçae o jasmim, a baunilha, a rosa, a 8ngelica, o 
cinamomo para core ar a mimosa testa, quando o pesado diade- 
ma de turo a tiver machucado. Alimentae-o com a ambrósia 
dos mais saborosos fruetop : a ata, o ananaz, a cana meliflua ; 
acalentae o á suave entoara das vossas maviosas modinhas* 

Afugtntae longe de seu berço as tvís de rapina, a subtil 
víbora, as cruéis jararacas, e também es vis aduladores, que 
envenenam o ar que se respira ias cortes. Se a maldade, e 
a traição lhe prepararem ciladas, vós mesmas armie em soa de- 
fesa vossos esposos com a espada, o mosquete e a baioneta* 

Ensinae á sua voz terna as palavras de misericórdia, que 
consolam o infortúnio, as palavias de patriotismo, que exaltam 
as almas generosas, e de vez em quando sussurae ao seu ouvi- 
do o nome de sua mãe de adopção. 

Mães brasileiras, eu vos confio este preciosíssimo penhor da 
felicidade de vosso p&iz e de vosso povo; eil-o tão bello como 
o primogénito de Eva, no paraíso* 

Eu vol-o entrego, agora sinto minhas lagrimas correr com 
menor amargura* 

Eil-o adormecido* Brasileiras! Eu vs conjuro que o 
não acordeis, antes que me retira. A boquinha molhada do 
meu pranto, ri-se á semelhança do botão de r. sa ensopado com 
o orvalho matutino. 

Elle se ri, e o pae e a mãe o abandonam para sempre. 

Adeus orphão imperador, victima da tua grandeza antes que 

a saibas conhecer* Adeus anjo de innocencia e de formosura ! 

adeus toma este beijo! e este... e este ultimo! adeus! para 

sempre ! adeus ! » 

* 
* * 

Contava então d. Amélia dezenove annos de edade ! 

Foi muito sensível a acção bemfazeja desta princeza nos 
costumes e na vida domestica do imperador* 

Ella soube moderar paixões, encaminhar tender c ; as, ttte- 
nuar costumes ásperos e dar á corte orientação diversa, adoptan- 
do praxes e medidas apropriadas á vida da alta sociedade, mais 
compatíveis com a civilisação. No paço, o primeiro ministro e 
o general em chefe, quando preíentes ás refeições do impera- 
dor, se'viam, como se fossem mordomos para o serviço da mesa. 
Muitas vezes, esses altos fanecionarios apresentavam os pratos 
em grandes e descompassados genuflexões, e muitos disputavam 
essa dutineção, que lhes parecia honra extrahordinar a. A 
ucharia abandonada occasionava imprevistas contrariedades á 
joven imperatriz, que com a Habilidades foi pondo tudo em or- 

kdem, afastaudo egualmente das refeições em família os altos 
funecionarios do império* 
— Mais pardon, messieurs, ça c'est pour les garçcns. 
Je soufTre de vous voir dans ce metier lá*** 
Pardon, excusez-moi. 
E á sua camareira: 
— 1 1 faut mettre en ordre, s'il vous plait, le service aux 
caves et au buôet. 



— 240 — 

Se a nobre e elegante estatu a da princeza de Leuchtem- 
berg seiuziu o imperador e os brasileiros, as suas maneiras af- 
iáveis, sua educação perfeita, a dcçura de seus pensamento?, 
manifestados com tanta graça, tornai amia em palácio o modelo 
da civilização européa, que imperfeita ainda era na côitn que 
veiu dirigir». «Soube pôr em ordem a sua casa, empolgru o 
coração de d. Pedro, que era apaixr nadissimo por ella e íez-se 
querida do povo brasileiro pelo exemplo constante que dava de 
amor conjugal, de carinhoso aflecto aos enteados, sem esquecer 
os pobres e os humide, que nella sempre enccntraram o socsorro 
de uma esmola espontânea e o conforto de um sorriso consolador. 

Entretanto, cimo diz um dos seus contemporâneos : «Es- 
ta inteiessante princeza Amélia de Leuch emtJerg parece 
não dever senão provar de leve tudo quanto teja felicidade na 
vid8. Jtvem, perde o pae, que fora arrastado na queda de 
Napoleão, abandonando, por seu caracter fiel, o throno de Milão; 
esposa e imperatriz aos 17 annos, é forçada a deixar a coroa 
brasileira, et mando tão ló&ente 19 annos, para acompanhar 
seu espojo á Frtnça, como duqueza de Bragança; meça, na 
exuberância da vida, com 23 annos, assiste á morte de seu de- 
dicado esposo; vê morrer a sua única filha d. Maria Amélia, 
que jaz na ilha da Madeira ; é testemunha da morte do seu 
irmão o príncipe Augusto, que dois mezes apems foi casado 
cem a sua enteada, d. Maria II, rainha de Portugal; scflre 
tantos e tão repetid( s crudelissimos golpes; e sempre nobre 
e generosa tanto nos dias felizes, como nos dias tristes dona 
AmeLa nunca desmentiu as virtudes de alma e de caracter que 
herdru cio brioso e dedicado e valente principe Eugénio de 
Beauharnais». 

Nascida em Munich a 31 de Julho de 1812, falleceu em 
Lisboa no p lacio da3 JanePas Verdes no dia 26 de Janeiro de 
1873, contando 61 annos incompletos. Pelo seu testamento, 
apieciando os conceitos e estudando os legados que proferiu e 
deixou, lóde-se bem vêr que o seu coiação nunca teve rancores 
e jáma's battu que não fosse pelo bem e pela virtude. 

Referindo-se aos seus enteados a virtuosa pricceza assim 
se exprimiu : — «Desejo que os filhos do impei ador meu rrarido, 
que tenho amado como se fossem meus, e bem assim os seus 
netos e bisnetos, encontrem aqui a expressão da ternura ma- 
ternal e a do meu vivo reconhecimento pelas provas de affecto 
que constantemente me deiam e que me foram de bem doce 
consolação . 

Na a mais justo que, no dia de hoje, em que rendemos 
homenagens devidas ao príncipe extraordinário que nos deu 
eíta grandiosa nacior alidade, tenhamos tedos um movimento de 
sympathia e de gratidão por aquella que, cem a nobreza do 
seu rascimento, com o exemplo de suas virtudes, com o es- 
plendor de ma ofluscante formusura, e cem os encantos de sua 
aprimorada educação, tanto concorreu para o aperfeiçoamento 
dos nossos costumes. 

Eugénio Egas. 



BRAZ CUBAS 



(O íurtdador de Santos) 

PELO 

DR. EUGÉNIO EGAS 

Sócio effectivo do Instituto Histórico e Geographico de 

São Paulo 



BRAZ CUBAS 



(O FUNDADOR DE SANTOS) 

Numa pequena e simples lapide de mármore, collocaia 
dentro da actual matriz da cidade de Santos, perto dos de- 
graus que levam ao altar mor, lê-se o seguinte: 

«8. de Braz Cubas, cavalleiro fidalgo, da Casa d'El Rey. 
Fundou e fez esta villa, sendo capitão, e casa de misericórdia, 
anno de 1543, descobriu ouro e netaes. anno de 60, fez for- 
taleza por mandado d'£l-Rey D. Jo&o III. Falleceu no anno 
de 1592. A.» 

Ahi está o esboço de uma biographia, da biographia de 
um dcs mais extraordinários portuguezes que, com Martim Af- 
fon:o de Souza, desembarcaram em S. Vicente, e foram os pri- 
meiros povoadores desta linda e riquíssima terra. 

Quem deu ao marmorista os dizeres da gravação, era, por 
corto, espirito alevantado, e, em simples quão poucas pala- 
vras, assignalou os traços mais salientes da vida preciosa do 
benemérito fidalgo, que, em 1531, contando cerca de 23 an- 
nos de edade, chegara ao Brazil com animo resoluto de não 
mais o deixar. 

Braz Cubas fundou Santos, orgauisou bandeira, fez forta- 
leza, instituiu o primeiro hospital que houve em nosso paiz, 
occupou todos os cargos de confiança, na colónia, entregou-se 
á agricultura e á industria pastoril, creando varias fazendas 
entre as quaes a de BogY, hoje Mogy das Cruzes. Foi um 
homem enérgico, audaz, corajoso, intelligente, dotado de acti- 
vidade pasmosa e de coração bdmfazejo. Verdadeiro fidalgo 
portuguez daquella velha e forte tempera, que reflectia, em 
seu temperamento e em seu caracter, os ímpetos terríveis de 
d. João II, a opulência e o arrojo de d. Manoel, o Venturoso, 
e o orgulho glorioso de d. João ill. 

Não se pode apreciar devidamente o typo clássico dos fi- 
dalgos portuguezes, tão atrevidos e emprehendedores, tão co- 
rajosos e humanitários, tão rudes e tão fieis, sem que se volva 
o pensamento para aquelles tempos privilegiados da historia 
portugueza. 

As tragedias de Évora e de Setúbal em que foi protago- 
nista o próprio rei de Portugal D. João II, o príncipe perfei- 
to, fazendo degollar o duque de Bragança, na praça publica, 



— 244 — 

e matando a punhaladas, por suas próprias mãos, o duque de 
Viseu; as descobertas e as navegações de Bartholomeu Dias,. 
Vasco da Game, Fernão de Magalhães e Alvares Cabral ; a 
opulência de D. Manoel, que deslumbrou o mundo com suas 
riquezas e com o seu luxo descompassado ; todos, todos esses 
factos repercutiam na alma dos fida'grs como exemplos e en- 
sinamentos, como preceitos a cumprir, como deveres a respei- 
tar. Ser fidalgo era ser corajoso e atrevido e sanguinário, 
como o fora D. João II; era ser emprehendedor e audaz como 
o foram Bartholomeu Dias e Vasco da Gama, que venceram o 
oceano e abriram novos caminhos por esses mares tempestuo- 
sos e desconhecidos, ou como o fora aquelle foimidavel ma- 
rinheiro Fernão de Maga>hães que,, após ter ligado por uma 
tira de agua o Atlântico ao Paeifico, viera morrer, como leão 
feroz, batendo «se á frente de pouccs marinheiros seus, contra 
quatro mil indígenas, cujo. chefe ousara recusar-lhe privsõeB- 
de bocca para bordo ; era ser generoso e opulento como o fora 

D. Manoel por o ocasião da celebre embaixada que envie u a 
Roma, «es^a embaixada estupenda, procissão magnifica, que- 
conseguiu deslumbrar a coite de Leão X, onde se reuniam os 
primores da civilização da Europa». 

Comprehender-íe-á agora, e facilmente, que um fidalgo 
de 23 annos, intelbgente e ambicioso de glorias, logo ao che- 
gar ás novas terras lusitanas, procurasse, como melhor lhe 
proporcionasse o meio desfav ravel dar expansão ás suas qua- 
lidades d stinctas de hdmem emprehendedor, arrojado, corajo- 
so, bom e fiel. 

Pois bem. Martim Affonso fundai a S. Vicente, e os pri- 
meiros povr adores, que para alli vieram, começaram a devassar 
a visinhança, entregando -se, cada qual ás fadigas que mais se 
adaptavam ao seu temperamento. Braz Cubas sentira que o 
porto de S. Vicente não podia ser o melhor daquellas paragens 
e que aquella nascente pov«ação não corresponderia ás neces- 
sidades de uma colrnia, que, por força dos seus elementos na- 
turaes, de sua terra ubérrima, de seu clima magnifico de suas 
cachoeiras alvíssimas e poderosas, de suss mattas sem egual, 
tinha futuro certo, (e quem sabe pensaria elle) não remoto* 

— «Exploremos o seitio, e os rios, reconheçamos o mar». 

E, partindo do porto das naus, pelos rios próximos, foi ter ao 
Casqueiro, foi ter a um belíssimo ancoradouro, de mar tranquillo, 
e de profundidade extraordinária, que ficava bem em frente de 
verdejantes outeiros — E lrgo a um desses outeiros quiz dar o 
nome de «Santa Cathar na». Fazendo toda a volta pelo an- 
coradouro, q le ficou reconhecido, navegou pelo largo rio, sempre 
costean o morrr?, até que de novo se achou com a barra de 
S. Vicente á vista, fazendo entrada por ella entrada festiva na 
villa onde Martim fímso fundara a grandiosa Capitania de 
S. Vicente. 

Conhecido o caminho marítimo, fez-se preciso explorar o 
o terrestre. — «Pois que se o explore o quanto antes». Ficou 
sabendo então que de S. Vicente ao outro porto, por terra 



— 245 — 

também se poderia ir, emb ra com viagem mais pesada, que 
seria menos longa, removidos naturaes obstáculos. 

Braz Cubas comprehendera, de relance, que o ancoradouro 
por el e deseoberto era magaifico era extraordinário, e que, 
alli, havia encontrado campo para exercitar a sua pasmosa acti- 
vidade, dar desenvolvimento aos seus projectos e ás suas am- 
bições de mando e de gloria, prestando, como pudesse, os seus 
serviços pe-soaes e dedicados á coiôa, ao seu Key. ao seu Deus, 
e, sobretudo, a esse tão amado Portugal, que era a sua Pátria. 

Além de que, isolado, prestando serviços per sua conta, 
serviços directos, serviços personalissimos, a sua figura ganharia 
-em destaque, e elle. sem sombra nem suggestões, afastado de 
S. Vii ente, seria p^rponalidade bem distincta. Apoio em Lisboa 
não lhe faltaria. Tinha o Rey, e junto do Rey os seus pa- 
rentes, todos fidalgos, todos da Corte, todos gosando de sym- 
pathia e da valiosa amisade de D. João III. 

— «Comecemos a executar o plano da fundação de melhor 
villa. em que sejamos primeiro e possamos mandar. ••» 

No logar em que Braz Cubas resolveu crear a nova po- 
voação, aebavam-se então Paschoal Fernandes e Domingos Pires. 
Era, portanto, necessário adquirir o terreno já oceupado. O 
fundador de Santcs comprou de um delles a parte de terra em 
que se encontrava o outeiro de Santa Catharina, e, próximo 
deste outeiro, «que ea de matto viagem fez-se a primeira ro- 
çada, dando-se começo á uova e futurosa povoação». 

«A priuieira casinha que teve tantos foi feita por Pascoal 
Fernandes, genovez, * Domingos Pires, os quaes ai ngando-se 
mais da villa de S. Vicente, cultivaram como sócios, o terreno 
que puderam, antes de terem carta de sesmaria ; um destes 
vendeo o terreno que lhe pertencia a Braz Cubas, e a sim foi 
crescendo Santos, conservando-se com o nome de porto, 
como da villa de S. Vicente, até que depois lhe chamaram de 
porto de Santos erigindo, Braz Cubas, o primeiro hospital, 
(com o nome de Santo*) e Misericórdia, que teve o Brazil, 
confirmada na villa de Almeirim a 2 de Abril de 1551, pelo 
Senhor Rey D. Joào III, dando- lhe todos os previlegios que 
seu Augusto Pay tinha dado ás ^Misericórdias de Portugal». 

Por muito tempo ainda S. Vicente gosou de supremacia 
sobre Santos. Mas a orientação dos propostos mais ligados a 
j\Urtim Afibns >, que deixara sua esposa D. Anna Pimentel en- 
carregada dos negócios da colónia, emquanto elle Martim Affonso 
continuava a serviço do Rey. per mares e terras distantes, era 
inferior á intelligente e sagaz direcção que Braz Cubas, moço 
e ardoroso, cheio de ambitsões nobilíssimas, amante de glorias, 
dotado de rara penetração e largo descortino, estava dando ao 
núcleo de povoação que acabava de fundar, e que seria o ali- 
cerce solido e indestructrivel da sua immortalidade. 

Os factos demonstraram logo o acerto de Braz Cubas : — Sãe 
Vicente deu de estacionar. Santos progrediu rapidamente, pro- 
tegido pelo anjo da Caridade. A 8 de junho de 1545 Braz Cubas 
era capitão -mor, e um dos seus primeiros cuidados foi dar fore 



— 246 — 

de villa ao porto de Santos, fins de 1546. Não ha certeza do 
dia em que Spntos foi ellevado á categoria d« villa. Esse 
facto, porém, Fegundo ob melhores istoriadore?, deu-3e entre 14 
de Agosto <?e 1546 e 3 de Janeiro de 1547. Ponderam muitos 
que, a principio, a povoação de Santos era conhecida pelo 
de Porto, simplesmente Porto, mas. que depcis da fundação do 
hospital que, á imitação dum que havia em Lisboa se chamara 
— Santos, começou a ser conhecida coto o nome de Porto de 
Santos. 

Não se pôde Euppor também que a elevação do porto á 
categoria de villa occorresse a 1 de Nobembro de 1546, e que, 
por ser esse o dia de Todos os Santos passasse o porto a 
chamar-se porto de Santos? Sã» detalhes de historia sem va- 
lor apreciável, mas que deleitam o espirito e alegram o traba- 
lho dos investigadores. Não ó hypothesa acceitavel ? Que Braz 
Cubas fundou Santos porque percebeu que o porto de S. Vi- 
cente não satisfazia aos progressos da colónia, em que elle, ao 
contrario de quasi todos, depositava confiança, não ha a me- 
nor duvida. A sua personalidade saliente não podia contentar- 
se com a vida monótona e retrograda qne já se nctava em 
S. Vicente, onde de bem muito pouco se faz' a e mais se cui- 
dava de aprisionar, escravizar e vender índios. 

Braz Cubas era um crente no progresso do Brasil, não se 
podia conformar com que o porto de S. Vicente, cujo ancora- 
douro ó pequeno, e que tinha Da sua entrada 20 palmos no 
baixo -mar e 25 no preamar, «com difncil passagem pela sua 
estreiteza e baixios» pudesse levar vantagens ao de Santos, 
que, imponente pelo seu ancoradouro e seguríssimo pela sua 
cellccação, tinha « 70 palmos de fundo na baixa-mar e mais de 
75 no preamar, mantendo em todo o seu vasto surgidouro», 
que é de toda a segurança, «a média de 60 a 70 palmos». 

S. Vicente poderia satisfazer a espíritos acanhados cu a 
homens sem energia e sem penetração. A Braz Cubas, não. 
Elle previa que a colónia seria importante, e que o seu com- 
mercio se desenvolveria, não só com a metrópole, mas também 
com o seitão para onde haviam de partir, subindo a serra de 
Paranapiacaba, os primeiros povoadores dos campos de Santo 
Andié e de Pira tin ingá. 

Enérgico, inteligente e corajoso, Braz Cubas, fortemente 
apoiado no reino por membros proeminentes de sua família, 
entre os quaes Pedro Cubas, que gcsava da intimidade e da 
confiança de d. João III, não descançava. Santos obtinha tudo 
o que precisava, e el-rei não deixava de prestigiarão seu no- 
bre cavalleiro e fiel Fubdito e servidor, que em longínquas e 
perigosas plagas tão alto erguia o nome e o pavilhão psrtuguez. 

Braz Cubas foi provedor da fazenda resl, cavalleiro fidal- 
go, capitão-mór, ouvidor, moço de Camará, Contador de Rendas 
e Direitos reaes, governador e alcaide mor da capitania de 
S. Vicente, organisou a primeira bandeira, que bateu os * ertõe3 
em busca de ouro, prestou todos os serviços públicos que ao 
seu rei pôde prestar, pieoccupcu-se da agricultura e das in« 



— 247 — 

dustrias, e não &e esqueceu dos enfermes e dos infelizes que 
imploravam a sua protecção. 

Fundou hespital e construiu egreja. Ccntribuiu eficazmente 
para a installação em Santo?, de três importantes engenhos: o 
de N. S. da Apresentação, de Manuel de Oliveira Gigo; o da 
Madre de Deu*, do fidalgo Luiz de Góes; o de S. J(ão, de 
José Adorno, nobre genovez. 

Braz Cubas não se cançava em pedir ao rei favores, auxí- 
lios e protecção á nascente colónia. 

E como soubesse que não era só com o coração e com pa- 
lavras doces que se governam os povos, o fundador de Santos, 
ao mesmo tempo que erguia egrejas e hospitaes, levantada pe- 
lourinhos e pedia á metrópole armas, pólvora e chumbo. «Mande 
vossa alteza olhar para esta terra, e mande-a prover de pól- 
vora de bombarda e pelouros e chumbo e bombardeiroF. E 
tenho receio que se perca se vossa alteza não prover logo e 
não mandar povoar o Bio de Janeiro, porque os francezes 
favorecem os contrários, dando- lhes muitas armas de fogo e 
muita pólvora, com que lhes dão muito animo para cemmette- 
rem o que quizerem, como fazem» • 

«O primeiro pelourinho erguido por Braz Cubas foi no 
logar onde se construiu a Casa do Trem Real, bem perto do 
outeiro de Santa Catharina; e, caindo, levantou-se outro entre 
a cadêa publica e o convento dos religiosos do Carmo, calçados, 
no qual se gravou (por ignorância) a inscripção— D. Pedro. 
1697.» 

Braz Cubas gosava de tal conceito em Lisboa, que quando 
«em 12 de Julho de 1552, o bispo Sardinha escrevia da Bahia 
a d. João III participando-lhe ter chegado na véspera um 
navio do sul trazendo a nova do descobrimento do ouro, em 
grande copia, noticia que fora confirmada em 1554 pelo padre 
Anchieta», o rei de Portugal se lembre u logo do seu fiel ca- 
valleiro, o fundador de Santos, «para a incumbência de verifi- 
car os achados annunciados, pondo sob suas ordens o mineiro 
pratico Luiz Martins.» «Em serviço do rei, á procura de ouro, 
Braz Cubas bateu ínvios sertões, acompanhado de Luiz Mar- 
tins. E, de volta dessa pesadíssima viagem, enviou, para o 
reino, em 1561-2, as amostras de ouro, que trouxera, e por 
duas vias:— directamente a elrei e por intermédio do governa- 
dor Mem de Sá.» 

A coroa pediu-lhe uma segunda bandeira em busca do 
ambicionado metal: — Braz Cubas enviou Luiz Martins ao ferrão, 
elle próprio tnão pôde seguir por velho e doente.» 

Se estes factos não bastassem para attestar a superioridade 
moral, a saliente personalidade, e a alta capacidade de Braz 
Cubas, ainda poderíamos citar e referir os vários embates em 
que se empenhou contra os Índios, dirigindo pessoalmente as 
forças portuguezas, e trazendo para o seu lado as palmas da 
victoria; a derrota que infligiu aos deis galeões inglezes que, 
sob o commando de Eduardo Feuton, atacaram a villa de 
Santos; os soccorros que prestou a Hans Staden, que estava 



- 248 — 

prisioneiro do? indígenas, dando instrucçõas acs portuguezes 
«que foram em busca do extrangeiro para que, primeiro, pro- 
puzesfem resgate, e que, recusado este, captivassem por qual- 
quer fóma, alguns índios paa imperem pela foiça o mesmo 
resgate, que não fosse acceito a bem.» 

Sob tolrs os pontos de vista, Brás Cubai foi um hemexn 
superiír, dotado de tjda3 es preciosas e raras virtude? que de- 
vem ornar os t-iumphadores da vida, es que a Historia abriga 
sob sei manto fulgurante Altivo e independente, quando 
fundou Santos ; intrépido, quando defendeu a sua nascente po- 
voação ; corajoso, quaado bateu os sertõ as em procura de ouro; 
audaz, qiando mandou resgatar Hans Staien ; severo, quando 
aprisionou e executou es marinheiros inglezes que desembar- 
caram em Santos; prepotente, quando era preciso querer; in- 
telligente e perspicaz, quando organisava e dirigia os negócios 
da colónia; Braz Cubas foi doca, foi meigo, foi bom, foi hu- 
mano quaido, para satisfazer os impulsas de seu grande co- 
ração, fundou esse hospital — Santa Casa de Mesericordia de 
Santos — primairo abr go que a caridade christan encontrou 
em nossa terra. 

Foi á sombra da protecção de Braz Cubas que os primeires 
infelizes e os primeiros enfermos e es primeiros desgraçados, 
que conheceram a terra brasileira, puderam encontrar um le- 
nitivo á sua dôr, um allivio aos seus males, um conforto á sua 
mis3ria. . • 

Portuguez, nobre, fiel, dedicado e bem, Braz Cubai tran- 
splantou paia o nosso meio essa instituição tão portugueza das 
Santas Casas de Misericórdia, cujas irmandades « para todos os 
males do corpo e da alma procuram bálsamos e allivio?, e assim 
consubstanciam numa instituição única e fundamental o inteiro 
idealismo christão de amor e caridade ». No reino, a triste e 
atribulada rainha, que fundou o hospital das Caldas e o con- 
vento de Xabregas, procurava repouso no exercicio da piedade, 
para « esquecer o desamor do esposo, a perda do filho, o assas- 
sinato do irmão, ás mãos do rei, no seu próprio paço e sob 
os seus olhos, o processo e morte do cunhado, a perseguição 
da família inteira, e mais que tudo, talvez, o valimento do 
bastardo e de sua mãe » ! 

Na colónia o fidalgo immigrado, que fundou a Santa Casa 
de Misericórdia de Santos procurava, no exerecio da caridade, 
dar maior brilho a^s s^us esforces, aí seu trabalho ingente, 
á sua obra de patriotismo, afim de que os humildes e es in- 
felizes bemdissetssm o seu nome e os seus serviços. Á rainha 
praticava a caridade pelo bem que desejava lazer e para esque- 
cer dô:es próprias O fidalgo praticava a caridade pelo berne 
para goso de sua alma boa e gloria e renome de sua povoação 
prospera e florecente. 

D. João III confirmou os privilégios e regalias de que ha- 
via de gosar a obra meritória de Braz Cubas — a Santa Casa 
de Misericórdia de Santos. 



— 249 — 

E para maior conforto e fatisfacçâo do fondador de Santos, 
foi Pedro Cubas quem fez em Almeirim, o alvará de confir- 
mação, no qual el rei outorgou ao priíreiro hospital brasileiro 
as mesmas prerogativas que augusto pae outorgara aos exis- 
tentes no reino. 

Em pouco tempo, numa das praçw de Santos erguer-se-á 
estatua de Braz Cubas. Nâo haverá qu a m por ella passe sem 
que num olhar carinhoso preste a homenagem devida ao grande 
homem que, fundando Santos, revelou a finura de seu enge- 
nho, o descortino do seu talento, a firmeza de seu caracter e 
a bondade de siu coração. 

Que o poeta, cuja familia è santista, d ; ga, em suas pa- 
la 7ras quentes, a gloria de Braz Cubas: 



« Hoje é seu ninho o sol ! Do leito ardente 
Avista ousado o gyro dos planetas ' 
Deus sorri-lhe na vatta e immensa altura* , 



A luz é o dia ; a eternidade o tempo,,. 
Eterna é a gloria,* eterna a formosura t, 



Eughnio Egas. 



SALDANHA MARINHO 

(O immortal) 

PELO 

Dr. Eugénio Egas 

Sócio effectivo do Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo 



SALDANHA MARINHO 



(O IMMORTAL) 

No banquete de 17 de fevereiro deste anno, cfferecido ao 
sr. presidente da Republica pela Companhia Paulista, na esta- 
ção de Visconde do Rio Claro, s. ex*ja. o sr. dr. Affonso Penna, 
resrondendo ao brinde que lhe dirigiu s. exca. o dr. António 
Prado, disse : 

«Tenho a grande satjs^acção em, terminando esta minha 
viagem tão proveitosa para os meus estudos, testemunhai* uma 
brilhante victoria da coragem do povo paulista. Eu era ainda 
estudante quando o immortal Saldanha Marinho autor isou a 
construcção da Estrada de Feiro Paulista, que os inglezes, homens 
mais práticos do mundo oão te haviam ai rojado a construir. 
Este emprehendimento trouxe ás estradas de ferro paulistas 
grande desenvolvimento de acção, coj os resultados só agora po- 
demos devidamente apreciar. Depois desta viagem circular rela 
Sorocabana, Noroeste, Paulista, que têm ligação cem a Mogyana, 
de que conheço uma pequena parte, e em seguida pela Ingleza 
é que posso, cem o meu testemunho, estimar o desassombro e 
o golpe r'e vista do operoso patriota Saldanha Marinho». 

O discurso do er. Affonso Penna é merecedor do registro 
especia?, porque s. exa falou como chefe da Nação e de um 
modo fora do commum. Os nossos estadistas, em regra geral, 
quando falam, são tímidos e banaes. O sr. Affonso Penna que- 
brou essa quasi tra ição e teve a coragem civica de declara*', 
alto e ferte, que Saldanha Marinho é immortal, qre Saldanha 
Marinho agiu com desassombro e largo descortino. S. exa. o 
sr. presidente da Republica soube ainda, e com felicidade, pedir 
á fulgente memoria do patriarcha Ha Republica palavras pa- 
trióticas para se dirigir á mocidade a propósito da lei do sorteio 
militar. 

Bel Io discurso, em que o velho presidente falou com tanto 
acerto e com tanto patriotismo, com extraordinária justiça e com 
immensa verdade ! 

Saldanha Marinho, falleceu em 27 de maio de 1895, no 
Rio de Janeiro, á rua Conde do Bomfim, 149- A, no exercício 
do man 'ato de senador pelo Districto Federal. A sua memoria 
recebeu do Senado e da Camará as mais tocantes homenagens, 



— -254 — 

Quintino Bocayuva, na sessão de 28, fez- lhe o elogio fúnebre ; 
na Camará pronunciaram -se muitos discursos de ultimo adeus 
ao velho e glorioso batalhador da Republica. 

E' intuito deste escripto falar de Saldanha Marinho quando 
preside ate de S. Paulo. Eis pelo que não se encontrarão aqui 
detalhes sobre factos culminantes da vida do intemerato jorna- 
lista, que de 3 de abril de 1873 a 22 de outubro de 1875, 
quasi diariamente discutiu a questão religiosa, que naquella 
época preoccupava a todos os espirito?, atacando o jesuitismo 
reaccionário em artigos que, reunidos em volume, sob o titulo 
— A Egreja e o Estado — tiveram divulgação, sem exemplo, em 
todo o paiz ; do extraordinário politico que assignou em pri- 
meiro logar o manifesto republicano de 3 de dezembro de 1870, 
manifesto que se tornou o evangelho dos propagandistas da Re- 
publica ; do popularissimo chefe maçónico que, em pleito memo- 
rável, derrotou, por 222 votes de maioria, o grande V. do Rio 
Branco, então grão mestre da Maçonaria Brasileira; de altivo 
representante da Nação que, instado pelo partido liberal ama- 
zonense para receitar um logar de deputado pelo Amazonas, em 
1878, declarou, positivamente, que acceitava o mandato, guar- 
dando intacta a sua inquebrantável fé republicana ; do veneran- 
do presidente honorário do primeiro congresso constituinte da 
Republica, que, trôpego e cambaleante, amparado, quasi carre- 
gado por dois amigos, ainda votou em Prudente de Moraes para 
presidente da Republica na celebre eleição em que Deodoro da 
Fonseca saiu victorioso. Cérebro de eleição, caracter imzcacula- 
do, trabalhador infatigável, patiiota fervoroso, Saldanha Mari- 
nho é um dos maiores homem do Brasil, é uma das mais ful- 
gentes glorias nacionaes. O sr. presidente da Republica, cha- 
mando-lhe immortal, praticou acto de justiça que muito o eleva 
e dignifica. 

* 
* * 

A 5 de outubro de 1867 o conselheiro Saldanha Marinho, 
do Rio, telegraphou ao então presidente de S. Paulo, nestes 
tarmos: — «Meus cumprimentos a v. exa. Só no dia 21 deste 
mez poderei sair daqui para ahi». 

De facto, a 22, o vice -presidente, coronelJoaquim Floriano 
de Toledo, resebia de Santos este aviso telegraphico : — S. exa. 
o sr. conselheiro Saldanha Marinho chegou e segue hoje ; na 
sua companhia vão cinco senhoras e mais pessoas da familia, 
ajudante de ordens e escrevente». 

Saldanha Marinho chegara a Santos, pela manhan de 22 
de outubro de 1867, vindo do Rio no vapor «Santa Maria», se- 
guindo para S. Paulo no mesmo dia, em comboio da Ingleza. 

A' tarde, o coronel vice-presidente telegraphou ao capitão 
do Porto : — «Rogo a v. s. que mande ver na estação da estrada 
de ferro, ou a bordo de «Santa Maria», um colchão do exmo. 
sr. presidente, e hum capote da sua ordenança». 

Este telegramma chegou a Santos no dia 23. 






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Neste dia 23, o próprio Saldanha Marinho perguntou ainda, 
pelo telegrapho, ao commandante do <3anta Maria» ee abordo 
não ficou uma caixa com a sua marca e um embrulho com col- 
chões e travesseiros», 

E como a 25 ainda não tivessem chegado a S. Paulo os 
taes colchões e travesseiros e o capote da ordenança, Saldanha 
Marinha perguntou ao commendador Forjaz, de Santos, por te- 
legramma, «se já tinha remettido os dois volumes que lhe foram 
entregues pelo commandanto do vapor «Santa Maria» e no caso 
negativo que os remettesse hoje (25)». 

A 23 de outubro Saldanha Marinho, de seu próprio punho 
escreveu, em bom papel marcado (letra gothica, tinta azul), com 
os dizeres — J. Saldanha Marinho, este telegramma : — «Ao exmo. 
marechal do exercito, Bitencourt, Campo da Acclamação (Sant' 
Anna) n. 24 — Rio de Janeiro. Saldanha Msrinho lhe commu- 
uica que aqui chegou hontem cem bca viagem. S. Paulo, 23 
de outubro de 1867. — J. m Saldanha Marinho. 

Este telegrama foi apresentado ás 5 horas da manhan e 
expedido ás 5 horas e 35 minutos e custou 360 réis. Avisada 
a família, de posse do* objectos, que pensava extraviados, feitos 
e recebidos os cumprimentos do estylo, Saldanha Marinho ati- 
rou-se aos trabalhos da publica administração, cem amor desusa» 
do, como que presentindo que aqui seria levantado o maior 
monumento á sua gloria. Chegado a S. Paulo, no dia 22 de 
outubro de 1867, assistiu á abertura da Abs mbléa Provincial, 
a 2 de fevereiro de 1868, apresentando então o seu primeiro 
relatório • 

No dia 24 de abril de 1868 passeu a presidência ao vice- 
presidente coronel Joaquim Floriano de Toledo e retirou-se para 
o Rio, afim de tomar parte nos trabalhos legislativos. Salda- 
nha Marinho dirigiu os destinos de 3. Paulo durante seis mezes 
justos. E como dirigiu bem, e como trabalhou! Recebeu o 
thesouro com cerca de cincoenta contos, entregando-o com cerca 
de cento e setenta, tendo pago sessenta de dividas. Não es- 
queceu ramo algum dos públicos negócios. 

A sua preoceupação primordial, porém, foram os melhora- 
mentos materiaes, sempre tão descurados no Brasil, durante todo 
o segundo império, e de que tanto necessitávamos e ainda ne- 
cessitamos. Saldanha Marinho sentia-se essa falha do nosso meio, 
e fez, cos limites estreitos dos recursos da época, muitíssimo 
mais do que era licito esperar. Quando o grande homem en- 
tregou o governo da província, já estavam preparados os papeis 
indispensáveis para legalisar a existência da «patriótica» Com- 
panhia Paulista de Jundiahy a Campinas. O preparo desses 
papeis fora confiado ao benemérito paulista dr. Clemente Falcão 
de Souza Filho, que, mais tarde, havia de crear a companhia 
Norte de S. Paulo, cujos trilhos ligaram esta capital a Cachoei- 
ra, fundindo-se na estrada D. Pedro II, hoje Central. Digam- 
8e já duas palavras em homenagem ao immortal e ao benemérito. 

Saldanha Marinho, escolhendo para seu braço forte a Fal- 
cãosinho, deu exemplo de grande tolerância e de superior cri- 



— 256 — 

terio. Foi procurar, em campo adverso, o homem que lhe pa- 
receu capaz de executar os seus planos. Falcãosinho, acceitando 
a pesada mas seductora tarefa, mostrou quanto era amigo de- 
dicado de sua terra, amizade e dedicação que te tornaram len- 
dária'' quando peregrinru por todo o norte de S. Paulo, de ci- 
dade em cidade, de villa em villr, de fazenda em fazenda, a 
pedir, a rogar, a supplicar, em tcd( s os tons e em todas as 
ceres, acço s, dinheiro, capital para a sua estrada de ferro do 
Norte, que agora acaba de ser inaugurada em bitola larga, tran- 
sportando no rre^rao carro da Cer trai á Luz o sr. presidente 
da Republica. Memorias bemdictas de Saldanha Marinho e de 
Falcão Filho! 

Nunca deixeis de inspirar e de guiar os filhos desta grande 
terra paulista, destinada a marchar Eempre na vanguarda de 
toda a civilisação brasilera, dando exemples constantes e repe- 
tidos de tudo que é iniciativa de trabalho e de progresso em 
bem e para grandezt da Pátria. . 

Saldanha Marinho fez abnr e melhorar mais de quarenta 
estradas de rodagem. Cogitou do estabelecimento de linhas te- 
legraphicas no interior da previncia, lembrando a necessidade 
de ligar a capital a Rio Claro, cm estações em Campints e 
Limeira. Enérgico mas delicado, sabendo prezar e estimar o 
auxilio e a critica dos adversários, e b?m avaliar o cencurso 
do funecionalismo e da imprensa, Saldanha Marinho dirigiu a 
todes sinceros agradecia e o te s, sem cogitar de idéas ou do con- 
vicções politicas. Especialisou em suas despedidas o concurso 
que recebe* a do inspector e do contador do thesouro provincial 
(dr. José Maria de Andrade e Francisco Martins de Almeida), 
do administrador dos correios (commen dador José Severino Fer- 
r andes), do director da casa de correcção da capital, (brigadeiro 
Francisco António de Oliveira) e do chefe de policia (dr. Daniel 
Accioli de Azevedo). 

Para poder organisar a companhia paulista de Jundishy a 
Campina-, Saldanha Marinho abriu luta com a companhia in- 
gleza Intimru-a a fazer a estrada até Campinas ou abrir mão 
da preferencia. E escreveu: — «qualquer que s^ja, porém, a res- 
posta, será agradável á província de S. Paulo. Se a ingleza 
fizer, a paulista irá de Campinas a L meira e Rio Claro». Por 
esse tempo, a ingleza trífegava msl. «Os esforços do superin- 
tendente estacavam ante a inércia da directoria em Londr s. 

«Dizendo que tive de autorifar um empréstimo de carvão 
á ccmianhia ingleza, para que não parasse o trafego, por falta 
de opportuna remessa desse género, tenho dito quanto basta a 
respeito do deEcuido e desaso, como que calculado da suprema 
administração dessa companhia infeliz». 

E num rasgo de descortino : 

E, E TaB TANTO, NENHDMA OUTRA ESTRADA DE FERRO BO IM- 
IERIO OPPHRECE MAIS VANTAQENS». 

A ingleza, por falta de carros, não dava vaeão ás cargas, 
encaminhadas do inferior para Santos. 



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Eram muito tema» ai relações da presidência da provinda 
com a companhia ingleza ; mas, o futuro formidável «Gaoga- 
nelli» venceu os obstaculcs levantados pela ingleza e fu- dou a 
paulista. Faldanha Marinho escreveu no seu relatório de 24 de 
Abril de 1868 estas phrases que são de estadista de largo e 
profundo golpe de vista : — «Esta prgv ncià tem dm futuro 

GRANDIOSO DBANTB DEJ 81». 

«Facilitem -se as communicações, propcrcicnem lhe meios 
de transporte, e o tempo, não muito remoto, lhe dará um doa 
primeiros legares no Império. Não me efqueci, um eó memento, 
do que a respeito me cumpria fazer». 

* * 

A 11 de agosto de 1872, Saldanha Marinho em compa- 
nhia de urra filha assistiu á inauguração da estrada de ferro 
paulista, tomando parte, em Campinas, em todos os extraordi- 
nários festejos, que por essa occasião ai i se re alisaram. O com- 
boio inaugural entre u na estação de Campinas ás três e meia 
da tarte. «Duas locomotivas galhardamerte enfeitadas com 
tcpBB, fitas, laços e bandeiras abriram caminho puxando deze- 
nove vagões, em qte vinham os deis grandes vultoB do dia — 
Saldanha Marinho e Falcão Filho — o iniciador e o executor 
do pensamento concebido na Companhia Paulista». 

Em Campinas Saldanha Marinho foi alvo das maicres at- 
tençõjs e gentilezas des fidalgos e generosos campineires. que 
ainda conservam e guardam com justis-imo orgulho as velhas 
e nobres tradições da nossa teria 

Saudado, Saldanha Murinho respondeu que se sentia muito 
penhorado pelas demonstrações de que eia objectivo, mas que 
nada mais fizera do que animar os paulistas, mostrando- lhes o 
caminho a srguir para a realisação da via férrea que se inau- 
gurava» . 

Oá letrados de Campinas cffereceram a Saldanha e Falcão 
ob seus retratos a óleo, que foram collocados na sala da estação. 

O barão de Atibaia, em nome da lauvora, offeieceu aos 
dois vultos do dia. bellssiaos al6netes de brilhantes. 

Foi nesse mesmo dia 11 de agosto, e commemorando o 
faustoso acontecimento da inauguração da Paulista, que Joa- 
quim Egydio de Sousa Ai a. ha teve conhecim nto de que fora 
agracia J o como o titulo de barão de Três Rios, e que o dr. 
Falcão Filho e o coronel Francisci Martins de Almeida egual- 
mente soubaram ter sido agraciados com a commenda da or- 
dem de Chiisto e com o oficialato da ordem da Kcsa, 

A munificência imperial já não podia chtgar a Saldanha 
Marinho. Desde 3 de dezembro de 1870 que elle se retirara 
dos conselhos da coroa. 

Mas, o povo de Campiras, por seus vereadores municipaes, 
prestou lhe notável homenagem, a que Saldanha Marinho cor- 
respondeu presenteando o municipio campineiro com um qua- 
dro em que estão fies do cabello do padre Diogo António Feijó. 



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Essa preciosa relíquia deve estar no taco da camará mu- 
nicipal de Campinas* 

Ahi fica dito o necessário para mostrar quão justo e me- 
recido foi o qualificativo que o sr. presidente da Republica deu 
a Saldanha Marinho. Si algum dia se prestar a esse extraor- 
dinário patriota homenagem naior e melhor do que a que se 
lhe prestou no ramal de Agudos, haptisando uma estação com 
o seu nome glorioso ; se algum dia se lhe erguer uma estatua, 
que £e não o deixe de representar olhando para o céste de 
S. Paulo, como que a exclamar : — cEsta província tem um 

FUTURO GRANDIOSO DFANTB3 DE SI». 

E que sobre os degraus do pedestal esteja a Pátria apontando 
aos que passarem a figura do «Immortal Saldanha Marinho». Se, 
porém, a Arte não perpetuar no bronze ou no mármore a fi- 
gura do grande pernambucano, pouco inporta : — o Progresso 
de S. Paulo, pelos trilhos de aço, que vão penetrando os ser- 
tões ; pelas baforadas de fumo, que &s locomotivas nervosamen- 
te atiram para o azul ; pelo silvo estridente de victoria, com 
que as machinas poderosas incitam ao Trabalho as populações 
adormecidas na inércia; irá apregoand), por todos os recantos 
do Estado, que a grandeza desta terra paulista recebeu impul- 
so e direcção, em seu despontar, do grande bemfeitor que, em 
seis mezes de fecunda e brilhantíssima administração, con- 
quiste u para si a mais deslumbrante das immortalidades. 

Eughmo Egas. 



Independejieia ou morte ! 



PELO 



DR. EUGÉNIO EGAS 

Sócio effectivo do Instituto Histórico e Geographico ,r de 

São Pauio 



Independência ou morte ! 



(viva o primkibo rhi do brasil !) 

No dia 29 de Novembro de 1871, ás 4 horas e meia da 
tarde, com 75 annc», falleceu em sua residência, ao largo de 
S. Gonçalo, nesta capital, o padre dr. Ildefonso Xavier Fer- 
reira, nascido em Curitiba a 19 de Agosto de 1795. Referem 
os chronistas do tempr, que o padre Ildefonso foi grande ora- 
dor sagrado, S€iilo ceito que deixou muitos dos seus melhores 
aermGes em manuscrípto, tendo sido impressos alguns delles. 
Foi paulista dos nais diatincto?, patriota caloroso e intemera- 
to. Occupou sempre logares e cargos importantes. Dotado de 
grande actividade e exemplar capacidade de trabalho, o padre 
Ildefonso achava tempo para tudo. Politico, attendia sempre, 
a qualquer hora e de br a vontade, os seus amigos leses e 
dedicados; sacerdote, não faltava aos deveres do seu sagrado 
ministério ; funecionario publico, causava inveja pela sua aus- 
teridade iutelligente e rigoroso cumprimento de mas obriga- 
ções, que sabia desempenhar com brilhantismo. E nem podia 
ser de outro modo corquistada, por el!c, a confiança que sem- 

Sre, em sua tão longa vida, mereceu dos governos e da socie- 
ade paulistana. 

Logo que recebiu as ordens sacras foi a Sorocaba, onde 
cantou a sua primeira missa. Depois, regressando a esta ca- 
pital nella se fixou definitivamente, residindo desde 1822 até 
1671, na mesma casa, ao largo de S. Gonçalo, heje praça João 
Mendes n. 10. Foi ofncial guar ia -livros da secretaria da Aca- 
demia e substituto da cadeira de philosophia. Bacharelou- se 
em 1834, defendeu theses em 1837. Lecionou theologia do- 
gmática e moral, latim, rhetor.ca e philosophia. Exerceu os 
cargos de arguidor e examinador dos candidatos aos logares 
ecclesias ticos e administrativos e de professores de primeiras 
ietias. Collabirou nas commistões do conselho gerai (1828) e 
do governo. Foi promotor do bispado, inspector da in&trucção 
publica e suecessi vãmente juiz de paz, vereador e deputado 
provincial. Secretariou o cabido desde 1841 até 1870. Em 
todos estes postos conquistalos pelo talento e por uma forte 
íl fluência pessoel e politica o padre Ildefonso revelou os seus 
«lotes moraes, que tão bem se uniam aos seus dotes physicos. 



- 262 — 

O padre Ildefonso era um homem bello. Alto, de altura fora 
do commum, hercúleo, proporcionado, muito claro, cabellos 
louros, ligeiramente crespos, olhos azues, grandes, rasgados, 
fulgurantes, derramando sobre a sua face uma luz serena de 
bondade, bocca pequena com dentes muito brancos, lábios fi- 
nos, que, em leve sorriso, deixavam perceber a doçura de um 
coração sempre aberto ao bem, distincto de maneiras, sempre 
esmeradamente trajado, attrahente, o padre Ildefonso não po- 
dia jamais dissimular a tenacidade, a energia e a coragem que 
lhe adornavam o impolluto caracter e o patriotismo audacioso 
e atrevido. Quem delle se approximas-e adivinhava em se- 
guida o talento e o patriotismo que nelle se fundiam. Era 
homem para agir e dominar. Tal o padre Ildefonso Xavier 
Ferreira em 1822. Pó^e-se muito facilmente comprehender, 
que um homem assim gozasse de funda influencia na rocieda- 
de paulista, que elle frequentava com assiduidade, encantando 
a todos por sua fina educação, agradabilíssima presença e va- 
riados conhecimentos, que sabia patentear com brilho e cem 
modéstia. 

S. Paulo, em 1822, não centava mais de dez mil alma?, 
incluindo-se no calculo a população escrava e os more dores 
dos bairros visinhos. Era uma pequena cidade : — a rua do 
Carmo, o largo do Collegio, a rua do Rosário, a rua de 
S. Bento, a rua Direita, o largo da Sé, constituíam o centro 
principal. 

Para os lados do largo de S. Gonçalo, a cidade termi- 
nava ao desembocar- se no largo do Pelourinho, existindo es- 
treita passagem entre a casa do padre Ildefonso e uma outra, 
que desappareceu, unida á egreja dos Remédios. Era neste 
ponto que se recebiam as alta* auetoridades, que vinham de 
Santos, e que se lhes entregava a chave da cidade, chave 
que era de prata, com relevos dourados. Dahi, era seguir 
quasi pelo deserta a rua da Gloria, Cambucy e Lavapés, en- 
contrando- se uma ou outra chácara entre ellas a da Gloria, 
rua José Bento, esquina da rua Climaco Barbosa, propriedade 
de d. Matheus Abreu Pereira, quart) bispo de S. Paulo, onde 
existia pequena capella sob a invocação de N. S. da Gloria, 
cuja imagem ó a mesma que se acha no templo do Cambucy ; 
a do coronel Amador Rodrigues de Lacerda Jordão, primeiro 
barão de S. João do Rio Claro .... 

Era nesta chácara, que ainda póle ser bem vista e exa- 
minada, com as suas duas estupendas paiaeiras a lhe impri- 
mirem o cunho secular e poético das tradições históricas de 
S. Paulo, que pernoitavam, quasi sempre, os grandes persona- 
gens, que vinham de Santos para no dia seguinte fazer sua 
entrada solenne na capital. Foi nessa mesma chácara que, 
em 1863, se hospedou d. Sebastião Pinto do Rego, sétimo bis- 
po desta diocese, quando veio assumir o seu alto cargo, pro- 
ferindo o barão de S. João do Rio Claro por occasião do ban- 
quete cffarecido ao digno prelado o brinde de honra, que ter- 
minava assim: — «Feliz a província que como esta, conti sa- 



— 263 — 

cerdotes na sua alta ad minis tracção politica e social : — o cxmo. 
sr. presidente da Província é padre, o exmo. sr. director da 
Accademia ó padre, o exmo. sr. bispo é padre... Presidia a 
província o padre Vicente Pires da Mctta. dirigia a Academia 
o padre Manoel Joaquim do Amaral Gurgel e era bispo o pa- 
dre Sebastião Pinto do Rego. Deixemos de parte a ingénua, 
mas profundamente sincera oração do coronel Jordão... 

Para o lado do Braz, o mesmo quasi deserto ; e os que 
do Pio vinham para S. Paulo, subiam a ladeira do Carmo, 
bem fronteira á qual ficava o palácio episcopal, que era na casa 
que agora tem a n. 20 da rna do Carmo. 

Pode- se dizer que a cidade terminava no3 largos de São 
Bento, ladeira do Acú, largo de 8. Gonçalo o largo do Carmo. 

A rua principal era a Direita, onde se encontrava o melhor 
prédio da cidade, propriedade do brigadeiro Manuel R. Jordão 
e hoje occupado pelo Hotel de França. 

Costumes muito simples e vida de trabalho exclusivamente 
intellectual. Raras casas de commercio. Artes, cfficios, serviço 
domestico a cargo dos escravos e dos mestiços libertos ou não. 
Os paulistas eram grandes patriotas ; e a causa brasileira, isto 
é, a separação do Brasil de Portugal, e a sua consequente in- 
dependência e constituição em nacionalidade distincta, preoc- 
cupava-os enormememte. 

O celebre fico repercutiu aqui de um modo extraordinário 
e a mocidade paulistana não era mais calorosa do que es ho- 
mens novos e velhos em se tratando da Independência. Na 
vanguarda, estivam o padre Ildefonso Xavier Ferreira, o padre 
Manuel Joaquim do Amaral Gurgel, o padre Diogo Autonio 
Feijó, que, eleito deputado ás cortes de Lisboa, pedira iostru- 
cções ao governo da província sobie a attitude que deveria 
assumir, si S3 tratasse da Independência, António Mariano de 
Azevedo Marques, (menrinho) os três irmão Andrada, Manuel 
Rodrigues Jordão, dr. Justiniano de Mello Franco (medico) 
Francisco de Paula Souza e Mello, André da Silva Goures, 
António Leite Pereira da Gama Lobo, Daniel Pedro Múller, 
Cândido Xavier de Almeida e Souza, António da Silva Prado, 
padre Vicente Pires, Joaquim Fioriano de Toledo (nomeado 
secretario do príncipe regente no dia 7 de Setembro de 1822), 
José Innocencio Alves Alvim, general José Arouche de Toledo 
Rendon, José António Pimenta Bueno (marquez de S. Vicente), 
Bernardo José Pinto Gavião Peixoto, dr. Gabriel André Maria 
de Paris (medico) e coronel José Joaquim César. E-tes eram 
os patriotas em evidencia, e que nenhuma reierva guardavam 
sobre o seu modo de pensar. Eram brasileiros antes de mais 
nada. O Brasil seria independe te, havia de ser uma grande 
nação. Queria um governo autónomo. Nada mais com Por- 
tugal nem de Portugal. 

Assim se expremiam elles. O partido contrario já não 
tinha coragem de combater a Independência, mas a julgava 
inopportura pretendia que se não a precipitasse. 



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Estss duas correntes oppostas, checaram- se violentamente 
em certa occasiào e houve a Bernarda de Francisco Ignacio. 
O príncipe regente entendeu então ser coovenient^ a sua pre- 
sença em S. Paulo e para aqui veiu, partindo do Rio de Ja- 
neiro a 14 de Agsto de 1822, entrando solennemente nesta 
capital no dia 25. (Vide annexo n. 1). 

Foi rec b do á meia ladeira do Carmo p?lo bispo, cabido, 
tropa autoridades e grande massa popular. 

Subiu a sob o pallio, ura parque de artilhara, pastado no 
largo do Carmo, deu as salvas da ordenança. 

S A. assistiu na 8é ao «Te-Deum» que se cantou, e, em 
segaida, recolheu- se a palácio. A cidade a^hava-se em festas, 
e o partido brasileiro esmerou-se na ornamentação da cidade, 
collocando arcos de triumpho, com inscripções patrióticas, no 
largo da Só, do Palácio e outros pontos. Em Mogy das Cruzes 
o príncipe não recebeu os emmiísarios do governo e da camará 
da capital «porque representavam um governo já dissolvido» 
p, no dia 26, em que houve beija- mão e cortejo em palácio, 
d. Pedco, ao apresentar -se o coronel Francis ao Ignacio (o chefe 
da bernarda) mrstrou-se muito c ntrariado, não lhe estendeu a 
mãr, e mandou que se retirasse, «un continente», pa^a o Rio. 
Já no dia 24, em que pernoitou na Penha, o princips ordenara 
que se retirassem da cidade muitos do<* que se haviam envol- 
vido no movimento subversivo de 23 de Maio. Foram no- 
meados goverraior das armas de S. Paulo, interinamente, o 
co onel José Joaquim César de Cerqueira Leme; e official de 
gabinete do príncipe, Joaquim Fl riano de Toledo, depois co- 
ronel e vice-presidente da província. D. Pedro foi hospedado 
pelo brigadeiro Manuel Rodrigues Jordão e capitão António ã& 
Silva Prado, depois birão de Iguale. No dia 5 de S-tembro 
o príncipe parciu para Sant s em visita á família Andrada, 
alli esteve o dia 6, e, no dia 7, ao alvorecer, regressou para a 
capital. No logar denominado — Moinhos — d. Pedro mandou 
que a sua guarda avançasse, e o fosse esperar perto da cidade. 

A guarda avançou, e fez alto na3 margens do ribeirão 
Ipiranga. 

Dentro de poucos minutos, seria entoada a epopéa da 
Iníependecia. 

Ne se me3mo dia 7, chegaram do Rio, trazendo correspon- 
dência urgente endereçala ao príncipe por sua esposa e pelo 
ministro José Bonifácio, o major Ant mio Ramos Cordeiro, da 
guarda de honra, e Paulo Bregaro, official do Supremo Tri- 
bunal Militar. 

Infamados de que S. A. se achava em Sant is, os men- 
sageiros para alli se dirigiam a t da a pressa. No Ipiranga 
encontraram a guarda de honra, descançando, nas proximidades 
da pequena venda do alferes Joaquim António Mariano ; e sa- 
bendo que o Príncipe nã podia estar longe, vão ao íeu en- 
contro. Eram 4 e meia horas da tarie do bellissimo sabbado 
7 de Setembro de 1822, quanio o príncipe surgiu no alto da 
collina do Ipiranga, no logar em que está o Museu, encon- 



— 265 - 

tranio o major Cordeiro e o official Bregare. Estes apeiam -ge 
beijam-lhe a mão e o major Cordeiro entrega a correspondência. 

S. A. montava um cavallo zaino, e trajava pequeno uni- 
forme : — farda azul, botas de \erniz justaB « altas, i hapéu 
armado com o tope azul e banco. ÀcompaDhavam-no nesse 
momento Joaquim Maria da Gama Freitas Berquó, João Car- 
lota, João de Carvalho e Francisco Gomes da Silva. O prín- 
cipe lê a correspondência: — a princeza e o seu ninistro com- 
muoicavam-lhe que as cortes portuguezas ordenam que S. A. 
regresse para Lisboa, ttirn de visitar incógnito as differentes 
cortes européas, e que o Brasil v Itasse ao regimen de colónia, 
sendo declarados nullos todcs es actos p atiça Ir s pela regência. 
D. Pedro sente -se *fflict rt , o seu peito atfa num movimento 
apressado; e com a mão esquerda comprime o coração que 
palpita dolorosamente. Depois, calmamente, entrega as cartas 
ao seu ajudante de ordens maior Francisco de Castro Canto e 
Mello e diz á meia voz: — «Tantos sacrificirs feitos por mim, 
e pelo Brasil intsir" ! E não cessam de cavar a nossa mina) . « 

Arranca a espada e grita : — «Independência ou Morte! >. 

3. A. esporeia o animal, e a grande galope avança para 
o logar onde se achava a guarda de honra, que era como: an- 
dada pelo coronel António Leite Pereira da Gama Lobo. A 
sentinella Miguel de Gndoy Moreira e Costa brada ás armas, 
a guarda forma precipitadamente, faz se es continências e 
ninguém ] ode dissimular a estranheza que cau»a a attitude do 
Príncipe e da sua guarda de pessoa : — todos de espadas des- 
embainhadas e annunciando, nas feições alteradas e nos olhares 
de um brilho offuscant*, a gravidade do que se estava pas- 
sando. O príncipe exclama : — «Camaradas ! as cortes de Por- 
tugal queiem mesmo escraviear o Brasil: cumpre, portanto, 
declarar já a sua Independência. Estamos definitivamente se- 
parados de Po tugal». 

E estendendo a espada repete com toda a força dos seus 
robustos pulrxões : — «Independência ou Moite !» — Este graú- 
do e glorioso grito é repetido, é jurado, á luz vibrante das 
espadas dos guardas de henra e de resso?, e a sagrada collina 
do Ipiranga o recolhe para transmiti 1- o nas azas da sua veloz 
viração aos mais recônditos pont< s do immenso território nacional. 

Dep:>ip, ordena S. A.: — «Laçcs fórat (e arranca do cha- 
péu o tope portuguez, que arroja ao chão) 

Todos os presentes arrancam, alguns cortam em pedaços 
os Jaçcs que tinham no braço esquerdo. 

«Póra avante traremos todos outro laço de fita verde e 
amarello. Serão as cores nacionaes». 

E mais uma vez o formidável grito da independência re- 
bocu per aquella collina abe I coada. 

D. Pedro e sua guarda de pessoa partiram para a capital. 

A guada de honra seguiu-o a certa distancia. Fram cerca 
de 5 e meia horas da tarde quando os sinos da Bôa Morte, 
depois os do Carmo, Sinta Theieza e Sé annunciaram a che- 
gada do Príncipe. 



— 266 — 

Quem vem do Ipiranga, pela estrada velha, ao chegar a 
uma eminência, vê, de repente, a cidade de S. Paulo, distin- 
guindo, claramente, a torre da egreja da Boa Morte á esquer- 
da, na frente ; a do Carmo, á direita ; ao fundo a de Santa 
Thereza, e, mais afastada, a da Sé. Era na torre da Boa Morte 
que ficavam, de vigia, quando se esperavam altos personagens, 
vindes de Santos, 03 encarregados de dar aviso á cidade. De 
modo que, como se sabia, que o principe voltaria de Santos, 
no dia 7, á tarde, os espias já se achavam na torre da Boa 
Morte, olhos fixos para as bandas do Ipiranga, á espera de 
de perceber, na iminência da estrada, o vulto da comitiva. 

Logo que a Boa Morte dava e signal de chegada, as de- 
mais egrejas o confirmavam, e a população, autoridades civis e 
militares, punham- se a postos para cumprimento de deveres e 
satisfação de curiosidade. 

Nesse dia, porém, entre o signal dado pelos sinos e ache- 
gada do Principe, foi menor o tampo decorrido, porque S. A. 
vinha rapidamente. 

Eis porque muitos não o viram chegar. 

D. Pedro, saindo da estrada do Ipiranga entrou no largo 
do Cambucy, seguiu a rua do Lava-pés, subiu a rua da Gloria, 
chegou ao largo do Pelourinho (Sete de Setembro) penetrou 
no largo de S. Gonçalo (praça João Mendes) desceu a rua de 
S. Gonçalo (Marechal Deodoro) passeu pela rua de S. The- 
reza, tomou a rua do Carmo e chagando ao largo do Collegio 
(do Palácio) recolheu-so ao paço. As pessoas, que viram o 
principe chegar, notaram logo que algo de anormal se passara. 
Na casa da rua do Carmo, actual n. 9, residia o capitão an- 
tonio da Silva Prado, que se achava á janella, em baixo, em 
companhia do padre Ildefonso. Fizeram signal ao major Fran- 
cisco de Castro, ajudante de ordens do principe, como pergun- 
tando o que havia. O major logo que deixou S A. R, voltou 
e narrou o cecorrido no Ipiranga aos seus amigos, dando-lhes 
a gratíssima noticia de que o Brazil estava independente. O 
capitão António Prado dirigiu se immediatamente a palácio, 
pondo-se á disposição do Principe e ao serviço da Indepen- 
dência, e o padre Ildefonso apressou -se em ir participar aos 
seus amigos a victoria da causa brasileira, que com tanto ardor 
defendiam. Já a cidade conhecia o grandioso acontecimento, 
quando, quasi noite fechada, deu entrada a guarda de honra, 
que vinha a galope, e erguendo' vivas ao principe, á indepen- 
dência, ao Brasil, a S. Paulo. O povo, que enchia o largo de 
S. Gonçalo, acompanhou a guarda de honra que, no meio de 
enorme alarido e dos gritos enthusia* ticos erguidos em honra 
a D. Pedro, desceu a rua de S. Gonçalo, atravessou o largo da 
Sé, fazendo altí no largo do Collegio, onde recebeu ordens 
para recolher-se. A cidade illuminou-se, a população affluiu 
em massa para a rua e todo o momento ouviam- se gritos de 
alegria Pequenos conflictos deram-se na rua da Boa Vista 
e na ladeira do Acú (de São Jcâo) sendo esbordoados portu- 
guezeB e inimigos da Independência. O principe ordenou que 



— 267 — 



se preparasse um espectáculo de gals, compoz o hymno da In- 
dependência, que foi partiturado e ensiiado pela orchest a do 
tenente-coronel maestro André Gomes da Òilva, mestre de 
capella da 8é, hymno que foi cantado na Opera pelo próprio 
príncipe e por distinctas senhoras da melhor sociedade paulis- 
tana, entre ella< a sra. d. Maria Alvim, sob a regência do 
referido maestro André da Silva. 

O príncipe «fez em papel um molde da legenda — Inde- 
pendência ou Morte — que foi executado pelo ourives Lessa, 
á rua da Bca Vista, apresentando- se no theatro já cm esse 
distintivo da legenda». Os demais espectadores, senhoras e 
cavalheiros, traziam laços de fita verde e amarello. E' de las- 
timar—e que tão extraordinário acontecimento não tenha sido 
longa e minuciosamente registado. 

De modo que 03 investigadores de agora são forçados a 
um trabalho penoso e a recorrer, repetidas veze&, á tradicção. 
8. Paulo agitou- se enormemente nesse memorável dia 7 de 
setembro, sabbado, e duranta os dias 8 e 9 ci festejos conti- 
nuaram com o mesmo euthusiasmo, retirando- se o princip9 para 
o Rio no dia 10 pela madrugada. 

E' fácil de imaginar a agitação que se alastrou por todo 
S. Paulc, quando se penla que, tendo chegado o príncipe ás 
6 horas mais ou menos da tarde, já ás 8 da noite o theatro 
estava repleto, achando- se todas as pessoas em vestidos de 
festa. O ourives Les3a trabalhou com frenesi até tarde; o 
padeiro irglez de nome Eduardo, estabelecido á rua de S. 
Bento, viu- se sem poder attender a muitos dos pedidos de 
fornecimento para o espectáculo: e as co&tareiras do tempo, 
entre ellas a Auna Perpetua, a Ritinha de Casua e a Domin- 
gas Xavier, foram insuficientes para servirem as senhoras e 
senhoritas, que se preparavam para ir á Opera. Os poetas e 
literat s escreveram e recitaram versos, nos intervallos do 
espectnculo e os músicos, sib a batuta de André da Silva, vi- 
ram-se obrigados a adviohar a partitura do hymno, que lhes foi 
apresentada á ultima hora. Mas o acontecimento era tão extra- 
ordinário, a victoria brasileira era tão grande, que não houve 
tempo para cuidar de senões nem opportunidade para esmiuçar 
detalhes. De resto, o espectáculo dessa noite, em que se repetiu 
o drama — «O convidado de pedra» — não era para applaudir 
cómicos, nem apreciar literatura, mas para reunir patriotas em 
torno do príncipe valoroso, que noa deu o Brasil. 

Eram quasi 9 horas da noite quando D. Pedro chegou ao 
theatro. A Opera (assim se lhe chamava) situada no largo do 
Collegio, no local em que se acha o thesouro estadual, dava 
frente para o acto ai jardim do palácio e fundos para a rua 
da Fundição. De construcção singela, o pequeno theatro pau- 
lista tinha três portas no rez do chão e três janellas no primeiro 
andar. No sagaão, viam-se duas escadas : — uma, de accesso 
ao camarim governamental ; outra, que conduzia aos camarotes, 
que eram 28, divididos por três ordens. A lotação do theatro 
era, normclmente, para trezentas e cincoeuta pessoas. A pia- 



— 268 — 

téa, mobiliada com bancos, e para 03 camarotes as famílias man- 
davam cadeiras, que eram retiradas no mesmo dis, ou, quando 
muito, no dia seguinte. Só havia mobilia permanente no ca- 
ma rt te governamental, e no camarote n. 11 da primeira ordem, 
camarote onde sb reuniam os exaltados do partido brasileiro. 
Era o « club > dos entusiastas da independência. Ás famílias 
mais commod stas pieferiam os camaiotes de terceira ordem, 
porque podiam ceiar tranquilamente as empadinhas e os cus- 
cús que lhes piepa avam as attraentes mucamas e peritas co- 
zinheiras. 

A illuminação da opera era de velas de cera, e de can- 
dieiros, mais ou menos acceiados, com azeite doce e mechas 
de algodão bem trançadas. Em noites de espectáculo de gala 
os empresários (advogado António Manuel de Jesus e Andrade,) 
major Francisco Jorga de Paula Ribeiro e Joaquim Freire, 
faziam a companhia Za^heli representar ou < D Joté II» ou 
o « Convidado de pedra » Na noite de 7 de Satembro re- 
presentou-se * O ccnvdado de pedra ». Os actores, (cómicos) 
pessoas humildes, pois a profissão era quasi ignominiosa e 
alguns delles analphabetos, encontravam séria dificuldade em 
estudar os seus papeis. Á propósito relembramos um facto in- 
teressante e que vem de molde para dar idóa exacta das coisas 
de tbeatro em S Paulo nos primeiros annos do século dezenove. 

Em 1819 o sargfnto mor, Bernardo José Pinto Gavião, 
responsabilisava o sargento nór Bordini « por o empresário do 
the tro (Joaquim José Freire) não cb ervar o trato que era dar 
quatro operas por mez, duas novas, cuss repetidas. Bordini 
defendeu se allegando que co empresário não dispunha de 
fendes precisos para manter este negocio com a regularidade 
promettida, como se achava empenhado com os empregados da 
casa e pessoas de íóra ; que havia figuras que não sabem ler» 
e não se deve apresentar peças mal estudac as ; e mesmo forque 
isso foi ordenado no dia 16 de maio, quando se apresentou — 
«O carvoieo em Londres > ; que tendo saido da ca?a três có- 
micos que são : — Maria do Carmo, Joaquim José do Espirito 
Santo e João Baptista, toda a repetição vem a ser como opera 
nova, relativo ao tempo pela dependência que ha dos novos 
intrusos estudarem os papeis, que aquelles faziam ». António 
José Bordini, uão muito satisfeito com a sua esperta defesa, 
terminava a sua informação, cem as seguintes palavras : — c A 
vista do ponderado v. exa. rr andará o que fôr do seu agrado, 
para eu executar como obediente súbdito >. 

Mas, eram quasi n< ve horas da noite, quando D. Peiro 
entrou no the atro. O príncipe trajava de grande gala, o que 
dava maior realce e imponência á sua bella figura de homem 
elegante e seduetor. Todos, na platéa e nos camarotes, já a 
postos, aguardavam anci sos a presença do grande princepe, 
que nos deu os fores de nac&o. Os que se achavam no largo 
do Palácio, na rua da Fundição, nas immediações e saguão da 
Opera ergueram os primeiros gritos e vivas ao principe e ao 
Bi\ zil. A guarda forme u, os clarins vibraram as notas agudas 



— 269 — 

do cominando em chefe, os tambores rufaram e D. Pedro, pre- 
cedido do seu ajudante de ordtns, major Francisco de Castro, 
ladeado pelo ministro itinerante Luiz Saldanha da Gama e 
coronel Gama Lobo, e seguido pelo brigadeiro Manoel Rodri- 
gues Jordão e capitão António da 8ilva Prado, subiu a escada 
que conduzia ao imperial camarim. 

Os vivas e os gritos de victoria, as acclamações eram con- 
stantes e alastravam se por toda aquella immensa onia de 
povn, que só sabia bemdizer o libertador do Bratil; quando, 
porém, o major Francisco de Ca tro afastou as cortinas do ca- 
marim imperial, e o príncipe appareceu, as acclamações attin- 
giram ao auge do delírio, e aquelles paulista», que enchiam o 
theatrinho, manifestaram tão ruidosamente, por gritos, palmas, 
aceno de lenço3 e vivas, o seu enthusiasmo, o seu apoio e a 
alegria, que, no dizer de um chronista, « nem era poseivel com- 
prehender-se o que se passava ». 

Feito um pouco de silencio, o príncipe entoou o hymno 
da independência, de sua lavra, e o publico, a todos os mo- 
mentos, cantava o estribilho : 

Por vós pela Pátria 
O sangue daremos ; 
Por gloria só temos 
Vencer ou morrer. 

Repetiram -se também muitssimo estes dois versos de uma 
poesia attribuida a D. Pedro : 

Será logo o Brasil mais que foi Roma, 
Sendo Pedro seu primeiro Imperador. 

Princiriara a representação do «Convidado de Pedra». 
O padre Ilfefonso entrou no camarote n. 11 e segredou, por 
algum tempo, com (eus fieis amigos e correligionários alli reu- 
nidos : — padre Manoel Joaquim do Amaral Gurgel, António 
Mariano de Azevedo Marques, José Innocencio Alves Alvim, 
padre JoEé António dos Reis, padre Vicente Pires da Motta, 
dr. José António Pimenta Bneoo, e outros salientes persona- 
gens do pa-tido brasílico. Até então es vivas que te ouviam 
eram : — Viva o príncipe regente, viva a Independência do 
Brasil, viva a Liberdade, viva o 7 de Setembro. Todos estes 
gritos não satisfaziam ao padre Ildefonso, que entendeu, e en- 
tendeu bem, que era necessário positivar melhor o fact) da 
Independência, comprometi 3ndo, ainda mais, se isto fos e pos- 
sível, a pessoa idolatrada do príncipe Assim, dopDis dessa 
conferencia no camarote n. 11, o padre Ildefonso voltou para 
a platéa, subiu numa cadeira, e, de frente para o camarim 
imperial, olhando fixamente para D. Pedro, estendeu o braço 
direito em diresção ao príncipe, e, com a sua grande e pode- 
rosa voz vibrante gritou, pulmõ38 cheios e por três vezes : 

Viva o primeiro rei do Brasil! Viva o primeiro rei do 
Brasil ! Viva o primeiro rei do Brasil! Estes vivas f ram es- 



— 270 - 

trepitoBamente correspondidos, Mas f quando D, Pedro se le- 
vantou, e num largo gesto de i ssentimento e de approvação 
agradeceu e acceitou a aclamação do padre Ildefonso, o en- 
thuaiasmo que envolveu e se apoderou dos presentes foi tal, 
que por muitos minutos aquella massa de espectadores delirou 
pela grandeza e faturò do Brasil, que elles victoriavam na 
pessoa do glorioso princide. 

O padie Ildefonso foi carregado em triumpho, e es seus 
leaes companheiros de lutas, agora todos reunidos no camarote 
n. 11, não se cançavam de abraçal-o e felicital-o. 

D. Pedro fizera a Independência, o padre Ildefonso pro- 
clamara- o primeiro rei do Brazil O brado que d. Pedro le- 
vantou nos camprs do Ipiranga teve no paiz inteiro repercussão 
egual ao grito que o padre Ildefonso erguera no theatrinho do 
largo do Palácio, Tinha o illustre paulista, o virturso e iutel- 
ligente sacerdote, ligado o seu nome, indissoluvelmente, his- 
toria deste paiz. Foi elle quem naquella memorável noitp, in- 
terpretando 03 sentimentos de um povo corajoso e bom, aclamou 
para chefa da meão o principe, que nos dera a soberenia. Im- 
moitalisou o seu nome, conquistando jara S. Paulo a gloria 
imperecível de ter sabido o pedido consolidar, aqui, a grande 
ebra iniciada na collina do Ipiranga «foi numa eminência, 
saindo da ponte do Ipiranga para o lado de Santos, na ext e- 
midade de uma linha de 184 braças, tirada da dita ponte, na 
direcção de dez graus de Norte a Este,» que d. Pedro nos 
deu a Independência. Foi no largo do Palácio, dentro do 
theatro — A Opera— que o padre Ildefonso Xavier Ferreira sa- 
grou a d. Pedro primeiro imperador do Brasil, 

Na fala do throno, em 1823, lê-se «Entrei na agradarei 
e encantadora província (8. Paulo) sem receio, porque conheço 
que todo o povo me ama. Dei as providencias que me parece- 
ram convenientes, a ponto, que a nessa independência lá f r í 
primeiro, que em parte alguma, proclamada no sempre memo- 
rável sitio do IpiraDga Foi na pátria do fidelíssimo e nunca 
assas louvado Amador Bueno da Ribeira, aonde pe'a primeira 
vez fui aclamado imperador. 

Quando d. Pedro, na madrugada de 10 de Setembro, re- 
gressou para o Rio, já não era o principe desobedieutõ e re- 
belde, que as cortes portuguezas queriam punir : era » im- 
perador do Brasil acclamado em S. Paulo pelo padre Ildefonso 
com o assentimento e retumbantes applausos dos pau istas. 
(Vide annexo, n. 2). 

< > dias 8 e 9 passaram -se em festss e constantes accla- 
mações ao principio e em todas as egrejas celebraram-se missas 
em acção de graças, sendo a de S. Bento ouvida por avultado 
numero de fieis e por tidos escravos do convento em numero 
de 120. 

Ausente o principe, com pequenas intrigas procuraram al- 
guns perturbar a alegria dos festejos da independência. E, 
numa das sessões da Camará, celebradas depois do dia 10, 
houve movimennto hostil ao padre Ildefonso, e tentaram atirar 



— 27i — 

das sacadas abaixo o corajoso sacerdote. Parece que a ag- 
gressào rartira dos inimigos da Independência, poique o padre 
teve que reagir energicamente e de repetir, cem egual calor, 
o grito de — Viva o primeiro rei do Brasil. 

Descançam os restos mnrtaes do padre Ildefonso no cemi- 
tério da Consolação, mausoléu da familia Xavier Ferreira. 

Os seus sermões, alguns impressos, ainda circulam nas 
rodas clericaes, e até agora são aj roveitados, por abundantes 
em apontamentos e indicações utilíssimas. O seu brilhante papel 
histórico, entretanto, apagou-te quasi que per completa da 
memoria da sociedade paulistana. Porque ? Porque talvez tenha 
sido demasiado modesto e bom e generoso, contentando- se em 
gosar, no seu foro intimo, a tranquilidade de consciência, que 
os grandes patriotas sentem quando podem ter a ceiteza de 
haver prestado serviços á sua Patri*, sem cogitar, nem de leve, 
de qualquer recompensa terrena O que, entretanto, não pa- 
dece a menor duvida, nem jamais poderá ser negado, é que o 
nome do padre Ildefonso X* v;er Ferreira ficou para todo o 
sempre ligado ao feito fundamental e mais extraordinário do 
nosso estremecido Brasil. Estudando- se a historia pátria, sen- 
te-se que os nossos antigos homens eram dotados de raro pa- 
triotismo e de inexcediveÍB virtudes cívicas. E, o exemplo de 
suas acçõas itflue de tal forma no espirito e no coração dos 
investigadores, que estes se tornam amantes e admiradores das 
coisas nacionaes, ao ponto de julgarem do seu mais restricto 
lembrar á mocidade que não ha patriotas, nem homens, de 
maior civismo e coragem, do que todos esses que nes deram 
esta grande, esta bel?a, esta Pátria estremecida, este Brasil 
extraordinário- 



NOTICIA DÁ ENTRADA QUE FEZ NA CIDADE DE S. PAULO, O SE- 
RENÍSSIMO SR. D. PEDRO DE ALCÂNTARA, PRÍNCIPE REAL 
DO REINO UNIDO DE PORTUGAL, BRAZIL E ALGARVE8, RE- 
GENTE E DEFENSOR PERPETUO DO REINO DO BRASIL. 

(ext. do— Espelho) 



Os paulistas, que sempre desejarão possuir na sua provín- 
cia o nosso soberano, o muito alto e muito poderoso sr. D. Jrão 
VI depois que a mais negra perfídia o a*rancou do augusto 
throno de seus incljtos avós, e que assim o supplicarão desde 
que Sua Magestade chegou ao Rio de Janeiro com sua real 
farailia, tiverâo agora esta honra e ventura em a pes ôa d^ seu 
augusto filh) e herdeiro, o heróe brasiliense o sr. D. Pedro de 
Alcântara, príncipe real do reino unido de Portugal, Brasil e 
A'garveF, regente e defensor perpetuo do reino do Brasil, ainda 
que eete prazer foi aígam tanta mingoaio por não vir S. A. 
Real acompanhado, como s<* esperava, de sua augusta consorte 
a Sereníssima Soa. D. Maria Leopoldina Josepha Ca olina, 
princeza real do reino unido, archiduqueza de Áustria, a ado- 
rada mãi dos brasileiros, e especialmente dos paulistas a quem 
honra, ch«mando-os — seus paulistas. 

Um momento de dilirio no mais dócil povo tinha feito ne- 
cessária a vinda de S. A. Real, que, annuicdo às supplicas do 
governo e de algumas das camarás da província, se pôz em 
marcha da sua cor e do Rio de Janeiro em o dia 14 de Agosto, 
e com a mesma celeridade com que per semelhante motivo ti- 
nha ido á província de Minas Gera s, em 10 dias chegou a esta 
cidade, onde entrou na manhã do dia 25, dia por certo muito 
memorável, não sò per que celebra nelle a igreja a festividade 
do terno Coração de Maria, da especial devoção do sr. rei D. 
João VI mas tambm a do santo rei Luiz IX de Franç?, as- 
cendente ds S A. Real pela Teinante casa de Bourbon, o que 
foi um feliz prés gio para es paulistas. 

Pela dilatada, enfadonha, e em grande parte monstruesa 
estrada de 96 léguas, veio sempre 8. A Real lesebendo as 
provas nais mcmtestaveis do amor e fidelidade que es brasi- 
leiros consagra > ás suas patê ma* s virtudes, principalmente de- 
pois que entrou no territerio paulistano, onííe este povo se 
esmerou, quanto cabia nas forças de uma provincia pobre, em 
fazer-lhe o mais pomposo reconhecimento e hospedagem, sobre- 
tudo nas villas de Guaratinguetá Taubaté e Jacarehy ; e por 
todas cilas S. A Real veio espalhando a beneficência e o mais 
terno agrado pelos seus súbditos 

S. A. Real pernoitou a 21 na freguezia da Penha, á vista 
da cidade, e delia sò distante légua e meia, muitas pessoas 
consorreram logo alli no mesmo dia para terem a honra de o 



— 273 — 

comprimentar, e quatro t?os nembros do governo, com dois aju- 
dantes de ordens, o secretario do governo para o expediente, e 
muitas rutras pesôas da primeira dist necào da cidade, e que 
nno tstavam nella cccupa ar, forem bcscar a S. A. Real na 
manhã do dito dia 25. 

S. A. Real, depois de ouvir missa ra Penha, montou a 
cavallo. acompanhado do Exm Luiz de Saldanha da Garra filho 
do Exm. conde da P< nte, veador da Sereníssima Sra Princeza 
Real, e que serve de min stro de Estado iiterinoa S. A. R«al, 
do Illm. Dr. Belchior Pinto de Oliveira deputado de cortes pela 
pri v ncia de Minas Gerses, de outros criadcs seu?, da Eua guar- 
da de hona em grande uniforme, e composta em grande parte 
de paulistas, e depois delia seguião-se os membros do governo 
e todo o numere sissimo acompanhamento. 

Apenas S. A Real foi avistado em distar cia de qnasi meia 
légua, amindadas gyrandolas vierão annunciando á cilade sua 
próxima chegada ; então principiou a salvar um parque de 6 
ptças de artilharia, ccllocado em bateria na frente da igreja do 
convento do Carmo; e os sinos da cidade, em festivo* repiques, 
annunciavão ao p?vo a ventura de que ia gozar. Ai passar 
8. A. Real o rio Tamandatahy, na ponte Franca, rara entrar 
na cidade, o secretario do expediente deu os primeiros viva?, 
que f< rão coriespondidcs por innumeravel povo que alli ee ti- 
nha apinha do. 

A tropa miliciana, ccmmandada pelo coronel do 3.° regi- 
mento de infantaria miliciana José Joaquim César de Siqueira 
Lima, fazia alas desde a dita ponte até á Sé e d*hi até o col- 
legio drs extinctos jesuítas, que serve de palácio do governo, 
aonde 8. A Real «stá hespedado. 

Este real Senhor, em cojo semblante sempre respeitável 
trans uzia a bondade de seu core cão, e não a severidade de 
Carlos V em Ga nte, apeou -se no cimo da caiçaca do Carmo, 
onde tazia as portas da cidade um magpst so arco, armado de 
diff^rentes estofos, ornada de galões e festões deflores, que de - 
notavão a alegria dos paulistas : em cima do dito arco estava 
collocada a figura de Paulicéa em attitude de jubilo, com os 
seguintes versos : 

«Acolhe affectos, que nas almas criap, 
«Honra- me a condição, meu tado emenda, 
«E olhos serenos, como sào teus dias, 
«Firrxem ingénua, respeite sa cff.enda». 

As lades do mesmo arco estavam personalisadas a verdede 
e a justiça; em cima dos pedestaes deus génios com as leguin- 
tes inscripçõea : 

«Corre a deosa de cem beccas 
«Pelo azul, filtrado mar; 
«N outra esphera n'out o clima, 
«Neves numes vai cantar. 



- 274 — 

«Nossos prados reverdejão ; 
«Já Ceres doura a campina 
«A' vista do par augusto, 
«Pedro excelso e Leopoldina. 

Neste arco se achava a camará da cidade com seu estan- 
darte, e presidida pelo juiz de fora pala lei o capitão Bento 
José Leite Penteado, e mais vereadores que serviâo antes do 
dia 23 de Maio próximo passado, conforme a ordem que da 
Penba tinha mandado S. A. Real. 

O Exm bispo diocesano D. Matheus de Abreu Pereira, 
respeitável por sua virtude e pela sua longa idade de 80 annos, 
vestido de pontifical com o seu cabido e clero, deu agua benta 
a S. A. Real, e, cantadas diante de um altar portátil as anti- 
phonas e orações determinadas no ritual para semelhantes cc- 
casiões, acompanhou em solemne procissão até á £é a S A. 
Real, que ia debaixo de rico pallio, em cujas varas pega vão a 
camará e outros cidadãos para esse fim convidados. 

As ruas, por onde S. A. Real passou, estavão bordadas de 
immenso povo, e as janellas ricamente ordadas de sedas estavão 
cheias de senhoras, que davam mil vivas ao nosso heroe, e o 
cobriam de rosas e outras mimosas flores. 

Ao entrar na praça da Sé passou S. A. Real por baixo 
de outro arco, que fingia ser de pedra e alludia á gloria do 
mesmo augusto tienhor ; sobre o centro da cimalha estava col- 
locada a figura de Minerva, que escudava as armas do reino 
unido; aos lados da mesma, sobre correspondentes pilas trás, as 
figuras da lei, da liberdade, da felicidade e da paz, viamse 
aos lados do arco dou? obeliscos, que, ornados de trophéos, 
palmas e louros, tocavam os nomes de S. A. Real o Sere- 
nissimo Sr. Principe Regente D. Pedro de Alcântara e de 
su- augusta esposi e Sereníssima Sra. archiduqueza D. Maria 
Leopoldina, os quaes se viam gravados na sobredita cimalha. 
De um dos lados do arco estavam as seguintes incripções : 

« Esteio do Brasil, Principe amável, 
« Se a pátria escudas, pacificas o orbe, 
« Se as ditas nossas dadivas são tuas, 
« Teu nome hombreará co'a eternidade. 

« Bem merece que a pátria lhe levante 
« Em fino jtspe, ou bronze, alta memoria, 
« Ou que peito, que inspira amor da gl* ria, 
« Em premio a seu suor seu nome cante. 

Cheganio á Sé, assentado S. A. Real em rico sitiai de 
damasco carmezim, com muitas palmas, festões e flores, que 
se lhe tinham preparado ao lado do bispo, e posto este na pai te 
da epistola, cantou-se um solemne Te-Deum em acção de 
graça, acompanhado da melhor musica do paiz, regida pelo 
hábil professor delia o tenente-coronel de milícia André da 
Silva Gomes, me3tre da capella da Sé, professor régio de gram- 



— 275 — 

matica latina e membro do governo provisório, o qcal cem outro 
membro do mesmo governo, o chefe de esquatra e intendente da 
marinha de Santos Miguel José de Oliveira Pinto, que servia de 
presidente interino, esperaram a 8. A. Beal na entrada da cidade. 
Acabado este solemne acto religioso se recolheu S. A. 
Real ao palácio entre os mesmos vivas e applausos de seus 
súbditos, não já debaixo do pallio, mas precedido da camará, 
acompanhado da sua guarda de honra e numerosíssimo acom- 
panhamento. Ao entrar nesta praça passou por entre duas 
columnas, sobre cada uma das quaes se via a figura é& Fama, 
annunciando a entrada de S. A. Real. e defronte do palácio 
havia uma galeria de ordem jónica, com dois coretos do mu- 
sica instrumental ; nelle estavam ao lado direito a figura da 
America, e ao esquerdo a da Europa; no centro, debaixo das 
armas do reino unido, estavam es seguintes versos <?e Virgilio: 

« Princeps, ó Princeps, quae te tam luet?, tulerunt 

« Seeola ? qui tanti Talen genuere Parentes ? 

«In freta dum íluvii current, dum montibus umbrae 

« Lustrabunt convexa, polus dum. sidera pascet: 

« Semper Honcs, Nomen que tuum, laudes que manebunt. 

Aos lados viam-se repetidas varias das próprias e patrió- 
ticas expressões d» 8. A. Real a beneficio do reino unido, e 
em particular do Brasil: — Contii com o vosso defen-or per- 
petuo. Brasileiros, firmesa, constância, intrepidez na grande 
obra começada ! — Eu pela minha nação estou prompto até a 
sacrificar a própria vida, que a par da salvação da pátria é 
nada — Viva o sr. D. Jtão ! 

Viva a assembléa geral brasiliense ! Viva a união Iuso- 
brasileira ! Em desempenho da minha honra e amor ao Brasil 
darei a vida pelo Brasil. — Advoguem a causa do Brasil ainda 
que contra mim seja. 

O palácio estava adornado da melhor tapeçaria que se pôde 
descobrir na cidade, e mobiliado com riqueza, tendo concorrido es 
seus moradores, a pedido do governo e por diligencia do tenente- 
coronel António Maria Qnart.n, almoxarife da fazenda nacional, 
para a mais pomposa hospedagem de S. A. Real e sua família. 

Na grande sala de audiência, debaixo de docel, estava o 
retrato de Sua Mage&tade, em meio corpo, e a par delia deu 
S. R. Real solemne beija-mão, que principiou pela camará, 
bispo e clero, e se seguio o governo e mais pessoas sem pre- 
cedência, como S. A. Real declarara ; este solemnissimo acto 
finalisou por três descargas da tropa miliciana, alternadas com 
salvas de artilharia e os vivas do estylo. 

A' noite se illuminaram a galeria que fronteava o palácio, 
es arcos e toda? as casas da cidade, cm a melhor elegância 
possível, e por três dias houve immenso fogo de artificio na 
frente da dita galeria. S. A. Real tem assistido á opera, onde 
sempre que entra ó recebido pelos espectadores com applausos, 
como nos merecem sua real pessoa e altas qualidades. 



O Espelho n. 87 de d 7 Setembro de 4822 

Dl CONTA DA CHEGADA DO PRÍNCIPE REGENTE Á CORTE 
NO DIA 44 Á NOITE 



Com o maior jubilo damos os mais sinceros parabéns aos 
honra d s habitantes desta capital pela felicissima chegada do 
nosso augusto Principe Regente na noite de 14 do corrente, 
depois de uma velocíssima viagem da cidade de S. Paulo em 
cinco dias, havendo ai li recebido as mais patrióticas demons- 
trações, de inabalável fidelidade dos fortes, e onstante? pau- 
listas, de que demos um esboço no precedente numero. E* inex- 
plicável o prazer, que reinou em todos es corações, em que 
um mez de saudade não tinha feito mais que arraigar senti- 
mentos de affecto os mais bem merecidos, e mais justamente 
tributadcs. 

Na seguinte noite (15), dignando-se Sua Alteza Real e 
sua augusta consorte honrar com suas re'e3 presenças o thea- 
tro de S. Jrão, apenas correu a cortira da tribun*, soltaram 
todos os espectadores os irais exaltados viva?, que difíhilmente 
continham no ancioso peito, e ajudando suas exprr s ões com o 
ondear dos lenços, e com uníver aes palmas, era unisono o al- 
voroça geral o applauso, e uma alegria tão fácil de experimen- 
tar, como diffieil de expressar, mostra as bem fundas esperan- 
ças do império Brasileiro no feu digno heróe e perpetuo de- 
fensor. 

O nosso coração era ainda agitado de tão forte abalo, quan- 
do no seguinte dia 16, pelas 9 horas da manhã, chegand* Sua 
Alteza Real o Prnaipe Regente, á praça do poço da cidade, 
resoáram os mesmos applaus s, vivas, e todss as mais respei- 
tosas demonstrações de amor e reverencia ás suas incomparáveis 
virtudes; a que Sua Alteza Re»l correspondeu agradecido, 
dando a beijar Sua Real mão a um grande concurso de pes- 
soas das classes mais distinctpp. 

Os fogos de artificio a illuminação espontânea, e todos os 
mais signaes (inda escassos) de tã • grande regosijo, acompa- 
nharam ambas as scenas que havemos apontado ; deixando á 
penna mais sublime objectos tão dignos de seu apuro. 

Entretanto desejaríamos pergunta" aos inimigos do Brasil 
no meio dos extáticos transportes que animavam a todos os 
espectadores : 

Malvados ? E' isto a facção ! Loucos ! Um Principe que 
é amado desta sorte, pode ser arrancado dcs braç:s dos bra- 
sileiros & 



Treze de Maio 

( Natalício de D. João VI) 

PELO 

DR. EUGÉNIO EGAS 

^Sooio effectivo do Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo 



TREZE DE MAIO 



(Natalício de D. João VI) 



No dia 13 de maio de 1767 nasceu em Lisboa o príncipe 
d. João, filho de d. Maria I, casada com seu tio d. Fedro III, 
e que, mais tarde, havia de ser o rei d. Jcão VI, de Portugal, 
casado com d. Carlota Joaquina, de Hespanha, e pse de d. Pedro I, 
o fundador do império do Brasil. 

D. Luiz da Cunha, em 1736, e o marquez de Pombal, em 
1761, pensaram em estabelecer no Brasil a eéde do governo 
portuguez. Foi um sonho, que desligou para o esquecimento, 
tem que alguém pudesse suppor, sequer, que em 1807 se tor- 
nasse realidade a transferencia, em condições excepcionaes, da 
corte portugueza de Lisboa para S. Sebast ão £o Rio de Janeiro. 
A águia franceza cujas azas poderosas cobriam a Europa inteira, 
decretara que se extinguisse o reinado e a djnastia doa Bra- 
ganças. Isto em 11 de Novembro de 1807. E como Napoleão 
reunisse á acção prompta uma decisão enérgica e firme, o ge- 
neral Junot, a frente de numerosas tropas invadiu o reino por- 
tuguez. Junot achava-se em Salamanca, quando recebeu ics- 
trucções para invadir Portugal. Ordenava Napoleão que 
marchasse sobre Portugal, «ainda mesmo que não contasse com 
provisões, porqua um exercito de vinte mil honvna pode viver 
em qualquer parte, mesmo no deserto». Junot obedeceu, pe- 
netrando em território portuguez (19 de Novembro) por Alcân- 
tara, e chegou a Castello Branco sem que o menor obBtacuío 
lhe tolhesse a marcha triumphal. 

Os moradores desses doía povoados soflreram muitíssimo. 
Os francezes e os hespanhóas, seus ali-dos, commetteram todaasor- 
te de excessos, praticando, contra os habitantes attcnitos, crueldades 
sem nome e barbaridades incm eia. Alcântara e Castello Brarco, 
conservam ainda tristes recordações desses dias tão negros epesadoa 
da invasão franceza. <A23 de novembro a vanguarda do exercito de 
Junot acampou á vista de Abrantes, vinte e cinco léguas distante 
de Lisboa Até esse mesmo dia nada de certo se se ube na corte 
de Lisboa (discuido imperdoável) sobre a violarão das fronteiras. 
Lord Strangford aconselhou ao principe regente que Ee reti- 



— 280 — 

rasse para os seus dominio3 do Brasil, onde a casa d' Bragança 
poderia ainda reinar com lustre. A resolução foi bem acolhida, 
e a 26 de novembro pubUcou-se em Lisboa o decreto annuu- 
ciando a disposição toma ia pelo príncipe regents de transladar 
sua residência para o Rio de Janeiro até á paz geral e a no- 
meação de uma janta de regência pa*a o g verm do reino, 
expedindo- se, entre outras ÍDstrucções, a que mancava quo se 
mantivesse o reino em paz, que as trepas franezas fossem bem 
aquartela ias e assistidas, e que se evitasse qualquer insulto 
que pudesse perturbar a harmonia entre os exércitos de ambas 
a? nações. A 27 embarcaram os príncipes, e a 29 fizeram-se 
de vela, coroadas as collinas e as torres de Lisboa de uma 
multidão enorme, que com lagrimas nos olhos e o coração trans- 
pa9sado de dôr contemplava a partida, até perder de visti o 
pavilhão real, dirigindo ao céu preces por uma feliz viagem 
Não era menor a dôr da família rear ai considerar que deixava 
o reino consternado, orpham e á mercê de invasores eutrangeiros» 

A's 9 horas da manhan de 30 de novemb o de 1807 Junot 
entrava em Lisboa, perc rr/a, acompanh»do de seu estado maior, 
av principaes ruas da cidade e hospedava-se com o barão de 
Qaintella. 

O desenvolvimento do Brazil, a sua independência, e todos 
os grandes factos, que a precederam, tinham origem nesse gran- 
dioso e ra^o espectáculo, que a Historia regista, de uma famí- 
lia real, que fogí, abandonando es seus súbditos á vontade e 
ao dejpotisno de um soldado brutal e malcreado como era 
Junot. Bem fácil é de comprehender-se o quanto de tristeza, 
de maguas. de sefírimentoa e de sacrifício* representa a mu- 
dança da família real portuguez», que veiu acompanhada de 
todo o pesscal da corte, de muitos íiialgos, de grande numero de 
creados e serventes e de immenso séquito de gente de t »da a classe, 
que, ou fugia ao invasor, ou vioha tentar fortuna em paiz novo e 
futuros). E toda esta colocai mudança feita em poucos dias, 
em poucas horas, sob a pressão do medo, sob o pavor assom- 
b-oso, que inspiravam as bayonetas napoleónicas ! Pob e D. 
João VI ! Espirito fraco, coração b mdi so, intelligencia clara, 
inclinado ao bem, mas sempre afflicto e torturado pela de- 
mência de D. Maria I, sui mãe em cujo nome governava, e 
pelo caracter intrigante e mald >so de sua consorte, D Carlota 
Joaquina, D. João VI foi um monarcha que muitissimo pa- 
dece», durante toda a sua vida, reservando- lhe o destino os 
seus mais atrozes dias para o seu regresso ao velho reino. 
L^ndc-se a h'stor a destw príncipe, que tanto bim fez ao Bra- 
sil, nâo se ?abe como teve elle forças para resistir e eoffrer 
tão resignadamente ás fundas contrariedades que o maltrata- 
ram durante longos annns, sendo as mais doida) as que lhe 
vinham da própria família. Mas, não nos desviemos do as- 
sumpto. Quando Junot oceupou Lisboa a f ota real já estava 
longe, navegando em alto mar, rumo do Brasil. E D. João, 
contemplando a immensidade do oceano, que es seus antepa- 
sados conqu : stuam para Pcrtugal, como que se consolava da 



— 281 — 

desgraça do reino, com a suave e acariciadora visão de fun- 
dar um novo impe.io, em que a casa do Bragança reinasse 
com brilho e fulgor. O oceano, em seus embates, nas suas 
phrnses de rumurosos mysterioB, cantava aos ouvidos de D. 
João a epopéa glorie sa daqoelles que entr« gente remota edi- 
ficaram impérios que tanto sublimaram. E, assim, olhando ao 
longe a vastidão dos mares, o azul dos céus, numa contem- 
plação extática, procurando cngaoar-se a si próprio, o infeliz 
príncipe, como que presentia que o invasor seria repellido, que 
Portugal Dão seria incorporado acs domínio* napoleónicos, e 
que elle, depois de contribuir para o despontar de uma forte 
e gloriosa nação nova, poderia voltar ao seu estremecido Por- 
tugal, ao qual daria leis liberaes. para logo apen, embora mal- 
tratado pela esposa e filhes, descansar no somno eterno ao la- 
do de s-us maiores, e sob os mesmes claustros, A sob os mes- 
rres monumentos, que no silencio sagrado da religião, da his- 
toria e do patriotismo, qua envolve os pantheons, guardam 01 
restos, verdadeiras relíquias, desses reis h fidalgos e clérigos e 
plebeus, que tão alta elevaram, sobre todo o mundo, o vene- 
ra ido nome portuguez. E D. João atirava per sobre as aguas 
inexgottaveis que se perdiam de vista um suspiro longo e sau- 
doso, que se bipaitia para «r morier em Lisbia que elle tanto 
amava, e no Rio de Janeiro que elle tant ■ queria amar!... 

E deste txtasis profundo, o r.rincipe era despertado pelos 
gritOB lacinantes de d. Maria 1, a rainha mãe, que, em altís- 
simos brados, perguntava: — «Para mde me lev*m ! Para onde 
me levam ! Eu nà ■» quero andar no mar. Eu nã> quero andar 
no mar! Para onde me levam ! Para onde me Lvaao !» 

Então, o príncipe regente, afnictissimo, depus de acrlmar 
a sua infeliz rainha e mãe, retirava- se aos seus camarotes e 
chorava copie sãmente, a sua triste sorte, as desgraças do seu 
povo abandonado, e presentia as maldições que lhe lançariam 
os seus vassallcs, habitantes de Lisboa, se fossem e?piogardea- 
dos pelo invasor ! . . • 

Rezam a* chronicas, que r>i com immensa alegria que 
d. João VI ouviu o grito de — «Terra» — lançado pelo gageiro 
da nau— «Principe Real, — a cuj » bordo estavam elle D. Jcão, 
a rainha D Maria I, e os príncipes D Pedro, D. Miguei e 
D. Pedro Carlos, infante da Hespanha. No dia 22 de Janeiro 
de 1808, ás 11 horas da manha a, a nau capitanea fundeou na 
Bahia, onde sua alteza desembarcou a 24, domingo, pelas 6 
horas da tarde. 

A frota que trouxe para o Brasil a família real portngaeza 
compunha-se de 19 embarcações de guerra, além de muitos 
navios mercantes, que a acompanharam Devido á tempestade, 
os navios separaram- se, de modo que alguns delles chegaram 
ao Rio de Janeiro, a 17 de Janeiro de 1808, domingo, onde 
aguardaram a vinda dos demais, que se achavam na Bahia, 
D. João VI permaneceu ca cidade da Bahia até 26 de Feve- 
reiro, quando embarcou para o Rio de Janeiro, onde chegou a 
7 de Março de 1808, indo para terra a 8. 



— 282 — 

Na Bahia, a 28 de Janeiro, foi promulgado o celebre de- 
creto, que declarou abertos ao commercio das nações os portos 
do Brasil. Foi o primeiro real e extraordinário serviço que 
D. João VI prestou ao paiz de sua nova residência, e pres- 
tou-o quatro dias após o seu desembarque na Bahia. 

Sobre o alcance deste acto, já muito se disse ainda agora, 
quando se commemorou o primeiro anniversa-io do grandioso 
commettimento. Relembre-se. porém, a seguinte estatística: 
«Em 1808 entraram no Pio 90 navics estrangeiros, em 1810 
entraram já 422. Em 1810, as alfandegas dos cinco portos aber- 
tos (Pará, Maranhão, Pernambuco, Bahia, Rio) produziram 1.600 
contos, e a receita geral attingiu a mais de 5.000 contos. Em 
1811 existiam no Rio 75 casas commerciaes importantes de 
subdit s ingleze:». 

O commercio, a industria, a agricultura, as artes e as scien- 
cias floresceram franca e livremente á sombra do decreto da 
franquia dos portos, e o Brazil pôde, em pouco tempo, ganhar 
posição segura no teu japido progresso. 

E agora que se não esqueça que foi o dia 13 de de Maio 
sempre de muito proveito ao Brasil. 

Em 1808, no primeiro anniversario natalicio que D. Jcão 
VI passou entre brasileiros, promulgou treze actos de governo, 
entre os quaes alguns de um alcance immenso. São de 13 
de Maio os decretos : creando o posto de almirante general da 
armada, junto á real pessca ; instituindo a nova ordem da es- 
pada; mandando fazer guerra aos indirs botucudos ; creando a 
guarda real para o serviço do principe regente; creando o 
primeiro regente de cavallaria do exercito ; creando a Im- 
prensão Régia ; fundando uma fabrica de pólvora, annexa á 
qual teve origem o Jardim Botânico. 

A Imprensão Regia, que hoje é a grande officina e a po- 
derosa instituição que se chama a Imprensa Nacional, também 
vae ter solenne commemoração. 

Foi o seu primeiro administrador geral D. Rodrigo de 
Souza Coitinho, ministro dos extrangeiros e da guerra, o qual 
procurou dar á nova repartição do seu ministério o maior de- 
senvolvimento pcssivel. 

 13 de Maio de 1809 providenciou- se sobre illuminação 
do Rio de Janeiro. 

A 13 de Maio de 1810 foi promulgado o decreto que isen- 
tou dcs direitos de entrada nos portos do Brasil as mercadorias 
da China directamente importadas pertencentes a vassallos por- 
tuguezes ; o que mandou contrair um empréstimo para fundição 
de peças do artilharia, o que creou o logar de Juiz de Fora 
da cidade de S. Paulo. 

Chamava- se Estevam Ribeiro de Rezende o primeiro Juiz 
de Fora ce S. Paulo, tendo feito brilhante carreira, posterior- 
mente na politica e aí ta administração do paiz. Casou-se com 
d. Lydia de Souza Queiroz, da qual deixou descendência, e 
foi o marquez de Valença. 






— 285 — 

No dia 14 de Julho de 1810 a camará municipal de S. 
Paulo recebeu este cfficio : «Ulmos. srs. Juiz Presidente e Ve- 
readores, e procurador do Senado da Camará de b. Paulo. 
Participo a vv. as. que per decreto de 3 do corrente mez foi 
8. A. R. servido despachar-me para ir creir o logar de Juiz 
de Fora dessa cidade, para onde partirei o maÍ3 breve que me 
íôr possível; porém, como pretendo ir por Minas Geraes, ape- 
nas ahi poderei chegar para o mez de Setembro. Estimarei 
que vv. es. recebam com prazer esta graça, que S. A. R. se 
dignou fazer-me e a esses povos, cujo afíicto saberei ganhar 
de cornmum accôrdo com vv. ss. pela boa harmonia, que espero 
façamos ; em prova do que desde já lhes offerto toda a minha 
contemplação e attencão és pessoas de vv. ss., a quem Deus 
Guarde por muitos annos. Rio de Janeiro, vinte e quatro de 
Maio de 1810. De vv. ss., muito attencioso, fiel venerador, 
Estevam Ribeiro de Rezende. 

A 13 de Maio de 1812 é creada a Relação de S. Luiz. 

A 13 de Março de 1813 é promulgado o decreto que pro- 
videncia sobre a administração ca justiça e eleva a alçada dos 
minis tros. 

A 13 de Maio de 1816 é promulgado o decreto que dá 
armas ao reino de Brasil e incorpora em um só escudo real 
as armas de Portugal, Brasil e Algarves. Pela primeira vez 
apparece em nossa vida politica a esphera armillar de ouro 
em campo azul, como symbolo do nosso poder publico. 



* 
* * 



E' muito juste, é homenagem absolutamente devida, lem- 
brar no dia de hoje o nome do príncipe illustre e bom, que 
tanto fez pelo nosso paiz, o que nes deu as bases fundamen- 
taes do nosso progresso. A memoria de d. João VI, está 
ligada a todes es grandes melhoramentos moraes e materiaes, 
qLe obtivemos desde 1808 até 1821. A cidade do Rio deve- 
lhe immenso, deve-lhe quasi tudo que de proveitoso vtiu do 
passado : — theatro, imprensa, escolas superiores, jardins, illu- 
micação, fabricas, bibliothecas, policia, torças militares, bellas 
artes... E, sem olhar detalhas, todos nÓ3 lhe devemos o pro- 
gresso que nasceu do decreto de 28 de Janeiro de 1808, e a 
instrucção e a independência, cujo berço, é sem duvida, o cele- 
bre decreto que, a 13 de Maio de 1808, creou a imprensa na- 
cional • 

Volveram- se os annes. O Brasil fez se nação. Entrou 
num largo periodo de agitações, derribou reis, guerreou contra 
vizinhos, foi vencido, venceu, exilou bemfeitores, recolheu-se 
de novo, desthronou famílias reaes, transtormou seu systema de 
trabalho, de retou que todos os que sob seu ceu nascessem se- 
riam livres, extinguiu a escravidão, proclamou a Republica, 
transformou completamente toda a sua vida politica, fez a nova 
cidade do Rio de Janeiro, melhorou os seis portos, engrande- 
ceu a sua Armada, fortificou o seu Exercito, e poz-se, resolu- 



— 284 — 

tamente, na m«*sma linha em que querem ser vistas as poten- 
cias dignificada? pelo traba ho e pelo progresso, e é hoje a 
terra mais hospitaleira, mais nobre, mais fidalga, mais bella, 
que se possa imaginar, onde o estrangeiro se sente bem, onde 
a Liberdade ampara e protege a todos os sinceros e leaes. que 
aqui vêm nos ensinar o que não sabemos, ou aprender aquillo 
que já conhecemos e praticamos, trabalhando comnosco pelo 
bam commum e grandeza de<te Brasil, que é o paiz mais lindo 
de todos quantos ha, e cujos filhos são tão nobres, t£o bons, 
tão valentes, tão capazes como os que melhor o sejam!... 

Já em 1888, oitenta annos após a creação da impressão 
regia, a illustre sra. condessa d'Eu, d. Izabel de Bragança, a 
redemptora, por um desses caprichos mysteriosos da Historia, 
extinguia a escravidão no Brasil, no dia do anniversario do 
seu bis -avô. Não era posnvel prever que a memoria de d. João 
VI recebesse de uma sua descendente tão extraordinária home- 
nagem, e nem que n nome de d. Izabel fosse acclamado e 
bemdito justamente no mesmo dia, em que se relembram todos 
estes centenários estupendos, que estão a despejar com tama- 
nha abundância e extraordinária força tanta, tantissima luz 
sobre a individualidade de d. João VI. 

E açora, que a Republica ó indcstructivel, porquanto é 
forta e justiceira e é estremecida pela Nação, não haja nenhum 
disfarce nem constrangimento em se proclamar em alta? vozes 
que a data de hoje é memorável não só pelo facto da emanci- 
pação dos escravos, em 1888, mas egualmente e talvez ainda 
mais por tcdos esses outros commettimsntos, que assignalam o 
natalício de d João VI. 

Data tantas vezes gloriosa em nossa historia, o dia lo de 
Maio syaibolisa o inabalável alicerce sobre o qnal os Bragan- 
ças fizeram descaoçar o nosso Progresso. Sem despresar o Pas- 
sado, antes orgulhoso delle, marchemos firmes á conquista do 
Futuro. 

Eugénio Eoas. 



FACTOS E FESTAS 



NA TRADIÇÃO 

S- João e a Procissão de Corpus Christi em S, Paulo 

POR 

JOÃO VAMPRÉ 

Sócio effeetivo do Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo 



Factos e festas na tradição 



A noite de S. João em S. Paulo 



«Colligite fragmenta ne pereant». 
Recolhei os fragmentos para que 
se não percam. 

(Joann.— 6-12;. 

O meu pensamento sente nm prazer intimo e por vezes 
delicioso em revolver as cinzas dos annos pretéritos. 

A rememoração do passado deve constituir para nó) uma 
como fonte perenne de confiança, de vigor, de claridade, de ale- 
gria, de resignação atravez das amarguras que nos assaltam, 
sob o peso de uma agglomeração adventícia e aventurosa, alhea- 
da do nosso convívio, cujos hábitos e sentimentos escarnece. 

Não ha efectivamente sensação esthetica, mais viva, mais 
dominadora e empolgante que a do chronista quando, com amor, 
exerce esse fakirismo sobre o passado, por um avatar que o 
restaura. 

«Não basta dizer do que foi e dos que viveram ; preciso é 
conseguir que elles tornem a ser, evocar a alma das pessoas e 
das cousas e restituir-lhes a vida primitiva, como se o tempo 
a não tivesse amortecido e demudado». 

Preciso é que haja nas vidas mais modestas e obscuras, 
dessas horas salientes, culminantes, em que a alma, abranja, 
dum olhar, longos annos do passado, — horas s lennes que são 
marcos milliarios, fixos, inabaláveis, no curso vertiginoso do 
tempo. • • 



Em toda a vasta triangulação da pátria não se regista data 
mais festiva, que mais docemente fale á nossa alma e mais 
suave perfume de pcesia espalhe dentro em rós do que a noite 
de tí. João. 

E\ por sem duvida, uma das mais queridas e que ainda, 
atravez dos tempos, se commemorEin orvalhando de ridente ca- 
ricia os fulgores tropicaes. 



— 288 — 

Quem tenha lido, nas paginas dos evangelistas, a historia 
de Jesus, a apotheose da sua missão celigena, e a coparticipa- 
ção dos seus collaboradores e discípulos, não pode deixar de 
reconhecer o amoravel influxo exercido pelo filho de Isabel no 
intimo das camadas populares. Nao é debalde que cão ha tam- 
bém santo roais popular, meigo e bem quisto. 

E sempre foi assim. Nas cidades e nos campos, sempre 
sobreviveu sympathica e gloriosa, a imagem austera de J< ão 
Baptista, na sua rouragem rústica de pastor peregrino e bíblico, 
servndo de guia ao Cordeirinho Santo • . 

Tão querido d s almas ingénuas e crentes, dos corações 
namorados, dcs velhos e das creanças alvo de um culto delicado 
e fino, como lhe deve taber bem lá do alto a rejubilarão dos 
povos ! 

Teu d''apara nós, ó sympathico precursor, é o que o Natal 
é para os povos do hemispherio Norte. 

Aqui como lá, não ha quem não sinta a alrxa dilatada, ex- 
pandida em ínsita manifestação de jubilo, quando se vem appro- 
ximando a noite caroavel e abençoada, em que, ao calor macio 
das estrellas acariciadoras se frsteja a flor humana da Judea, 
todo amor, todo perfume, todo meiguice, apesar da sua austera 
e meditativa physionomia. 

Não posuisse encanto de outra ordem, da ampla belleza da 
doutrina, da suavidade enternecedora da pratica, da suggestão da 
fé, da idealização serens dcs mysterios com esse typo de bon- 
dade e mansuetude, que percorre, ao menos entre nós, gerações 
successivas. firmandc-se, aureolado pela amor da tradicção, im- 
mareescivel, esplendente e milagroso, teria a nos prender a ella 
esse élo inestimável. 

Para o povo, S. João ficará sempre o eterno bambino afa- 
gando o cordeiro, como ncs quadros de Raphael ou de Leonardo 
de Vinci Quasi ninguém conhece nem quer conhecer, por 
certo, a hist» ria trágica do Precursor. 

Para o povo, é este o santo mais feliz, mais luminoso, mais 
alegre e namorado. 

E ó por isso que elle o festeja sem padres nem incenso, 
nem lamentos dorgam, nem más assombrações de caveiras, ser- 
mões tétricos e roncos de latim. 

Luminoso decerto ! A coincidência da festa do solsticio do 
estio para o cutro hemispherio faz com que se celebre no 
santo o sol fecundante dis velhos cultrs sideraes. 

Nas tradições esplendorosas das festas, nos cantares e nas 
superstições dessa noite, prendem-se floridamente as lendas eo 
encanto de mythologias dispersas. E as tyras crepitantes, em 
torno das quaes dansam, cantam e amam as meças, constituem 
o symbolo terreno e passageiro da grande fogueira astral — fonte 
admirável da vida e do amtr. 

Scintillaro as fogueiras e as róseas beccas das nessas mo- 
renas patrícias deixam voar como abelhas de um colmeal, can- 
tigas, onde ha o mel dos beijos e o coração parece bater numa 
alegria epithalamica • . . 



— 289 — 

A maior parte das superstições e lendas da noite de S. 
Jc&o assemelham- se áquella amphoia de que nos fala o velho 
Horácio, a qual conserva por muito tempo o aroma do primeiro 
licor que recebera. 

* * 

DifTandidos os velhos costumes e usanças coloniaes pelos 
núcleos primitivos do organismn nacional. S. Paulo como é 
fácil prever, não se podia furtar á doce influição dessas tradições. 

Modificações mesologica», sociológicas e psychicas que. para 
logo, se operaram no povo paulista (e do lulista em geral), im- 
primiram nas suas festas intimas notável diferenciação relati- 
vamente ás outras cellulas fundamentaes do Brasil e delias reu- 
nidas para as da antiga metrópole. 

Logo de principio, a vida arriscada e nómade do bandei- 
rante, a natureza mystericsa e opulenta, a soa alimente cão arry- 
lacea e pouco nutritiva, o convívio permanente com estrangeires 
indiíVe rentes ás suas emoçõep, não lbe permittiam arroubos de 
de sentimento?, que lhe avivasse a inspiração, a depurar se no 
erysol do mais puro idealismo. 

Juntem se mais a inconstância irritante do clima, sob um 
céu quasi sempre chumbado, garoento e frio, os rigores inteiri- 
çastes dos agrestes inverno?, os villancicos peninsulares dos 
emboabas, as monódias em hybridos e inintelligiveis dialectos 
dos índios e dos ethiopes, o influxo de uma religião tiiste e 
sombria, tendo sempre demte drs olhos o fantasma apavorado 
dos receados, sinos e musicas plangentes de «encommendeções 
de almas», escriptas em «fá menor», com phrasea iniciaes imi- 
tar tes a soluços todo este cortejo de circumstancias, concorreu 
para que o paulista se conservasse apathico, nerencoreo e ta- 
citurno. 

Como um rasif, do génio peninsular nos veio o gérmen 
desse lyrismo saudoso que aqui desabrochou, floriu e frutifi- 
cou na nossa natureza tão cheia de enraoto e de mysterio. 

Claro está que tudo era assas monótono, no tocante ás 
manifestações espirituaes. 

E ainda hr je, a despeito de todo o nosso progresso, in- 
vade-cos a sensação do tédio, esse bocejo da alua. que a for- 
tuna ás vezes deixa durar muito. 

A dualidade mesologica do Brasil concorre poderosa e de- 
cisivamente para a disparidade não eó das manifestações espi- 
rituaes, como do caracter brasileiro meridional e septentrional. 

Sendo embora as mesmas raças que se cruzaram, nos tem- 
pos cohniaep, não ha como inferir que essa diversidade se li- 
gará a uma acção eitranha á etbnica, desde quando as modi- 
ficações impressas pelo clima sobre o caracter divergem tanto 
nais, qufiito ás relações physicas não Be mantêm idênticas. 

«Numa extensão tão vasta, escreve o sábio Varuhagetn, e 
com tão differentes elevações sobre o mar como tem o Brasil, 
claro está que vários devem sei es climas». 



— 290 — 

Emqiaito que 03 habitante? do norte procuravam para 
suai habitações os logares altos, os pendores das serras, os pau- 
lista', pelo comuum, preferiam ás búxadas, as depressões do 
solo para a edificação de suas vivendas. Frequência de mon- 
jolo para pilar o milho secco, milho como alimentação habi- 
tual sob ai formas de cangica (no sentido do Sul), fubá, pi- 
poca e farinha farm°ntada ante3 da torrafacção primitiva, «tu- 
tu» de feijão, carne de porco preferid» á de boi, indicam a 
presença dos paulistas ou de seus descendentes, em virtude de 
uma lei atávica, que propende para a conservação do caracter, 
dos habitantes. 

Frequenca de moendas triplices, impal!ida3 quasi sempre 
á mão pelo escravo e paio muar, para moer a canna produ- 
ctora da garap*, dos «pães» de assacar, do mel «cabahú» ; o 
milho sob a3 formas de «mucunzá», de pamonha, de «manuê», 
de cangica com coco (m sentido do Norte) ; a «umbuzada», o 
requijão, a coalhada, o pirão e o escaldado de leite, a farofa, 
o «alua», a «gengibirra», os peixes e os mariscos, a «jabái, a 
carne de sol perfumada a «velam-5», preferida á de porco, co- 
mo alimentos habituaes, revelam a presença dos nortistas em 
geral e dos seus desceadentes, em virtude desta mesma lei 
atávica propansa sempre a con3eríar o caracter no que elle 
possue de mus hospitaleiro, prestativo e amoravel. 

Nas scanas joviaes das ctaipas» das casas, das ctrabalka- 
dis», da rapagem da mandioca no fabrico das farinhada 1 , dos 
beijús, da tapioca, representam ainda hoje dias de camarada- 
gem e cordialidade, em nagcanta contradicção com outros tre- 
chos do território nacional. 

Em geral todo o brasileiro eguala ao árabe no que en- 
tende com a hospitalidade. M;s nem todos somos egualmente 
afiáveis. O pernambucano, por exemplo, ó ma<s retrahido que 
o bahiano. Em Minas a affabilidade ó maior que em S. Pau T .o. 

Corroborando a nessa opiniãc, escreve o distincto parla- 
mentar e jornalista paulistano dr. Júlio de Mesquita: O bra- 
sileiro é, da Bahia ao Amazonas, alegre e exuberante ; no Rio 
de Janeiro afftvel e gentil; em Minas lhano e hospedeiro; no 
Rio G/ande, Santa Catharina e Paraná franco e accessivel. 

O estranho chega a qualquer daquellas estados e n .ta lo- 
go que estas são as qualidades mais salientes do caracter dos 
se as filhos. O paulista, ao contrario, ainda que intimamente 
seja um homem bom em todo3 03 sentidos, é frio, bisonho, ta- 
citiino, triste, retrahido, desconfiado e escabroso. 

E' um vicio de sangue, um vicio de temperamento». 

A licção que brota destes factos ainda vem corroborar a 
influencia mesologica. 

No ponto de viáta prychologico nota- se ainda no sulista 
uma tendência mais industrial, mais politica e philosophica, ao 
passo que no nortista observa-se uma orieitação accentuada- 
men f e histórica, erudita, sentimental e patriótica. 



— 291 — 

O illustre sergipano João Ribeiro, aureolado estudioso da 
nossa historia, em luminosa synthese, abrange todo esse «sys- 
teira de equaçõss differenciaea simultâneas». 

E com o exacto e perfeito conhecimento da historia, co- 
mo diria Du Bois Reymont, chega, a respeito das primitivas 
províncias, ás seguintes judiciosas conclusões: «Cada um des- 
ses fojos tem nm sentimento característico ; o da «Bahia» (Ser- 
gipe e Alagoas) é o da religião e da tradição ; o de «Per- 
nambuco» é o radicalismo republicano e extremo de todas as 
suas revoluções; o de «S. Paulo» (Minas e Rio) é o libera- 
lismo moderado (acclamaçfto de Bueno), «as províncias colliga- 
das» que sustentaram a independência com a monarchia etc. ; 
o da Amazona, demasiado inii&nc, é talvez o da separação co- 
mo o é no extremo sul o «Rio Grande» (a formação recentís- 
sima) demasiado platin\>. 

Não ha duvHar que estai conclusões têm irretorquivel in- 
fluencia nos diversos graus da nossa evolução emocicnal e 
mental. 

Como estamos vendo, o meio rege a differenciação, pela 
adaptação; a força ethnica preside á integração pela herança. 

Eis por que as festas e as tradições em S. Paulo não 
possuem aqueíle encanto* intimo, aquella espontânea jovialida- 
de, aquellas efiusõea lyricas, aquelles brin.os de imaginação 
tão próprios da zona equatorial. 

Faltam-lhe a radiação do eóI, a t ansparencia do céu sem- 
pre azul, o bafejo das brisas marinhas, as melodias dos passa- 
res de variegada plumagem, que imprimem a nota fundamente 
typica das reg.ões do Norte, cujos núcleos de população con- 
servam melhormente as tradições que o «folklore» ainda ex- 
prime com tanta pureza da expressão. 

II 

Foi no promontório de perfil imponente, fechado pela con- 
fluência do « Anhangabahú » e « Tamanduateby », ou « P rati- 
ninga », nas alturas sobranceiras do « Tietê », — o « Anhembi » 
de outrora, — e suas varges maiginaes, que irrompeu a primi- 
tiva povoação que devia constituir maia tarde a Paulicéa, na 
linguagem pitoresca e poética de seus filhos, 

Disposto3 os fundamentos, o antigo núcleo de S. Paulo 
de Piratininea cobriu a primeira lombada triangular, alastrando 
pelos pendores da encosta, as toscas e desgraciofas edificaçõep, 
que pouco e pouco firam baixando até á interferência de s dois 
córregos. 

Vemol-os, ainda hoje, a despeito das pre fundíssimas modi- 
ficações impressas pela civilisação, deslisarem tranquillamente, 
retratando, na claridade sonora e grave das suas aguas, aa cú- 
pulas e os toireões imponentes das aristocráticas habitações mo- 
dernas, erigidas ás suas margens tapisadaa de rotas e madresil- 
vas, de lianas e trepadeiras rm flor, ao affago drs aragens ma- 
tutinas. 



— 292 — 

Nesta encosta abrupta, que defronta com o « Tamandua- 
tehy » e os seus largos espraiados, dominaaa hoje pelo palácio 
do governo e suas. dependências, demorava a « Egreja do Col- 
legio >. 

« Exbibia neste tempo, escreve o eruditíssimo dr. Theodoro 
Sampaio, os desbarrancados vermelhos de grés e scbistos occuI~ 
tos pela moderna casaria. A encosta tinha resaltoB, curys e 
recortes, e nella formava profunda depressão a actual rua João 
Alfredo. Esta elevação que lembrava as acrópoles gregas, do- 
minava de vinte e cinco a trinta metros de alto toda a ex- 
tensa várzea alagadiça até o Tietê ou Ánhemby, distante meia 
legna do Norte». 

A' proporção que se afasta do « thalweg » da bacia do Pira- 
tininga o terreno vae-se erguendo em suaves ondulações, na 
direcção norte, até que no fundo do quadro se avistam, per- 
filadas no horizonte, as cumiadas da « Cantareira » onde res- 
plendem os picos de « Jaraguá ». 

A' medida que caminha o ascensionista, aos olhos se lhe 
vão desdobrando encantadores panoramas. 

E lá do alto, onde quer qui espraiemos a vista sempre a 
lhauura a abater-se e a pintar com os variados matizes que 
lhe emprestam as mutações de luz em dias nublados ou des- 
lumbrantes. 

A vegetação acanhada e pouco mais que pygméa dos cam- 
pos piratininguenses adquire de súbito na Cantareira a varie- 
dade fantástica, a corpulência, o vigor, o brilho vivíssimo das 
zonas tropicaes. Gurrupiazeirr s estendem como uma umbella 
suas franças espinhosas e embaraçadas, pelos troncos das pero- 
bas ; as lianas que descem das arvores altas, beijam o solo, pen- 
didas como reposteiros. 

E na eminência da serra, ao toque magico dos raios do 
sol cngestionante das tardes estivaes, as casas, as torres, os 
muros, os edifícios sumptuosos revestem- se dum tal brilho, de 
uma tal coloração e tons tão fantásticos, que tudo se avoluma, 
tudo assume formas estranhas, só concebíveis no pomposo sce- 
nario da nossa America. 

Para o sul, o plató em que assenta a gentil metrópole 
paulistana vae se prolongando em demanda da «Mantiqueira», 
através de povoações, mais ou menos triviaes, S. Bernardo, S. 
Caetano, Pilar, Ribeirão Pires, envolvidas hoje na nebulosa da 
indifferença, mas, de futuro, fadadas a melhores destinos. 

A velha Píratininga do cyclo primevo de Anchieta mal 
conserva actualmente uns vestígios longiquos e semi -apagados- 
da sua época inicial. 

As galas e louçanias da moderna metrópole, deixam-se re- 
alçar ainda mais, pelo poder magico das reminiscências, pela 
faculdade reflectora que de tudo se evola, formando alguma, 
coisa a que se poderia chamar o horizonte, a perspectiva da 
historia* 

Para que ella seja susprehendida numa vista de conjunto,, 
apta a dar idéa de sua grandeza, de seus dotes próprios, de 



— 293 — 

sua forma, de sua côr local impressa pelo genuíno paulista, e 
em summí, dessa vista «d'eneeinble», que a destaca em sua 
visualidade original, cumpre encaral-a antes de 1880, época 
das suas radicaes transformações. 

Descrever as sua? festas e os seus costumes em annos mais 
remotos Dão ó por certo cuma resurreição de que sempre es- 
-capa um bafio de morte, mas uma revivescência, como a da 
primavera que restituo o viço e o perfume, que o inverno em- 
murchecêra e dispersara» • 

E' docemente consolador esguardar S. Paulo, na sua pri- 
mitiva colHna quando não refulgia elle ao sol bemfazejo doi 
progressos hodiernos, ma* quando ostentava uma longa época 
de grandeza moral e de lances de heroísmo?, como não mais 
Be admiram, nem talvez se tornarão a reproduzir na lenda e 
na historia. Wl-o na vida recon centrada e tradicionalmente 
esquiva e arredia das famílias paulistanas, no que tinham ellas 
de mais original, de mais intimo, de mais fundamentalmente 
puro, na província ha uns trinta ou quarenta annos atraz, c ns- 
titue motivo de deliciosa rejabilação. 

Por ease tempo não havia ainda estradas de ferro, e era 
da torre da egreja da Bôa Morte que se avistavam os presi- 
dentes da província e os bispos diocesanos, quando vinham pela 
«estrada do Ypiranga em demanda da cidade, afim de tomarem 
posse dos seus respectivos cargos, dando os sinos da mes- 
ma torre o signal da chegada; em rtgosijo repicavam também 
festivamente os sinos das outras egrejas, durante três dias, ao 
meio dia e ao anoitecer, sendo as fachadas illuminadas profu- 
samente com globos ou por meio das tradicionaas lanternas. 

Ao tempo em que com efieito, a primitiva collina sup- 
portava o peso venerando, mas lngubre das casas de t*ipas, 
alapardadas, de abas collossaes, cem as suas janellas uuarae- 
«cidas de rotulas, ja avultavam as egrejas de is. Bento do Col- 
legio, do Carmo e S. Francisco, e outras branquejando na 
verdura das quebradas. Viam-se ruas estreitas, escassamente 
illuminadas a kerozene, mal empedradas, bêccos esconsos, ao 
lado dos quaes se aprumavam umas habitações clássicas, fuli- 
ginadas pelo hálito de muitas gerações, de apparencia soturna 
fria e a cujas rotulas quasi nunca assomava um rosto feminino. 

Por então as matronas pulisttnas poucas vezes saiam a 
publico ; levavam a maior parta do tampo em seus aposentos, 
ouvindo das mucamas historias de carochinha, ou bisbilhotices 
frescas, penteando o cabello, dando e recebendo cafunés, oc- 
capadas não raro na confecção dos doces e de outras vitualhas. 
Communicavam-se com as vizinhas pelos muros e quintaes; en- 
tretinham-se com as quitandeiras e beatas, abrigadas pela dis- 
creta rotula, procurando saber o que havia na rua. As moças 
solteiras scismavam no dia do casamento. Felizes as que 
•encontravam «casa de Gonçalo, em que a gallinha canta maia 
que o gxllo». 

Felizes tempos e costumes rotineiros . O' castas tradições 
«do biasileo berço. Afortunados tempos em que se viam beatas 



— 294 — 

de mantilhas, carros de bois chiando monotonamente pelas ruas 
emquanto na pupilla dos pacatos bovinos como que reflectiam 
a pureza, a mansidão e a suavidade dos costumes. Abençoados 
tempos aquelles, em que se viam as quitandeiras, os taboleiros 
nocturncs, com as suas chaleiras, nas qaaes fervia o precioso café 
a dez réis a chicara, acompanhado de fatias do infallivel «cus- 
cas de peixe», do «pinhão cozido», do «amendoim torrado», das 
«pipocas» dos bolos de milho socado ou de mandioca «puva», 
das empadas de piquira ou lambary, do quitungo (amendoim 
torrado e socado com pimenta cumari), do pé de moleque com 
farinha de mandioca e amendoim, do içá torrado, do «quentão», 
do «ponche» e quejandas guloseimas, provindas em linha recta 
da cozinha africana e da indígena !... 

Todas essas iguarias eram expostas á venda em pequenos 
taboleiros de madeira forrados com alvas toalhas. 

De noite a quitanda era illuminada com rolos de cera 
preta, pregados nas guardas dos alludidos taboleiros . 

Apregoavam- n'à em geral, escravas de varias familia3, que 
então Vi viam desse género de negocio. 

Por uma lei psychologica. es quairep da natureza, as sce- 
nas da vida humana, vistos de longe, cfferecem um conjunto 
mais harmonioso, um colorido mais suave. 

Nas festas de S. João quanto mais es annos passam e trans- 
correm, mais cresce o porte na objectiva popular. 

A festa joanense contituia, quer na véspera, quer no dia, 
os mais encantadores momentos da vida de 8. Paulo, já para 
os académicos, já para as famílias em geral. 

E esses folguedos eram tanto mais bellos e apreciáveis, 
quanto é certo que 03 paulistas são, por inJole atávica, es- 
quivos e parcimoniosamente reservados. 

Os f(3st?jos e folgares revestiam-ae de um caracter muito 
intimo e particular, que, em certo modo, os distingue das dos 
outros Estados da União. 

Sempre foi costume des paulista? de então, celebrarem nos 
arrabaldes, essrs fástejoá em homenagem ào Natal e ao São 
João, et;. 

Em taes occasiõas a cidade dir-se-ia deserta, a vida con- 
sistia no interior das chácaras e das vivendas campestres ; pa- 
rentas e íntimos affluiam pala attracção dos tradicionaes fol- 
guedos, cujos episódios no3 fazem bater commovido o coração. 

Na época a que nos referimos eram dos mais influentes 
na expansão discreta dessas folgares o banqueiro dr. João Ri- 
beiro da Silva e d. Maria Joanna da Luz, filha do coronel 
Gabriel José Rodrigues, influencia no governo dos capitães 
generae?, e cuja nobreza e energia de caracter seasham tão 
bem representados na illustre descendência dos Ribeiro dos 
Santos . 



— 295 — 

Mas em quasi todai as vivendas de S. Paulo, pr esse 
tempo, os oratórios , 03 nichos armavam-se vistosos. 

Refere nm distincto cbronista do «Diário Popular», que 
«na antiga casa térrea da rua da Liberdade, esquina da rua 
Corrêa e que ha já alguns annos foi demolida e construída no 
local a que ora existe e tem o n. 67, se realisavam pomp-eas 
festas em louvor a S. Joào Baptista, promovidas por João 
Manoel Floriano, valgarments conhecido por «Joào nba mãe», 
e fallecido a 24 de Junho de 1900. 

A festa consistia em bailes, ceias, rezas e procissão do 
glorioso S. João Baptista, saindo a mesma procissão, antes de 
meia- noite, daquella casa, e seguia por um caminho estreito, 
com matto de lado a lado e onde hoje estão os prédios per- 
tencentes ao conde de S. Joaquim, até ao tanque do mata- 
douro, situado na rua Humaytá, sendo alli tirado o ranto da 
charola, que era carregada por moças, dando- se então, o tra- 
dicional banho na pequena imagem de S. João, e, depois de 
concluída essa ceremonia, davam -se muitos vivas ao festejado 
santo, queimando-se, na mesma occasião, muitos foguetes, e 
voltava a procissão para a casa de onde havia saido, erguen- 
do- se, na trajecto, enthuaiasticos vivas ao santo e ao festeiro. 

Os convidados e os rapazes, que também acompanhavam 
a procissão, iam, cada um delles, em logar de lanternas, mu- 
nidos de <rolinhos», feitos de cera e breu, eguaes acs que são 
usados nos accendedores de vehs nas egrejas, os quaes tinham, 
mais ou menos, uns dois palmos de comprimento. 

O próprio festeiro com a maior seriedade e vestido com 
roupa preta, eri quem fazia a distribuição dos mesmos «roli- 
nhos> aos rapazes, recommendando a estes o maior respeito 
no trajecta da procissão». 

Á colónia portugueza da época, como era natural, também 
se expandia em grande manifestação de jubilo não só ao seu 
canonisado patrício S. António de Lisboa, como a S. Jcão, «o 
verde», comi lhe chama Gil Vicente, e ao velho S. Pedro, 
elaviculario do céu. 

Os costumes das festas de 8. João semp-e constituíram para 
e luso -brasileiros uma fonte inexgottavel de lyrismo : 

Oh ! 8. Jcão donde vindes, 
Pela calma, tem chapéu ? 
— Venho de ver as fogaeiras 
Que me fiíeram no còu. 



Vamos raparigas todas, 
Ao rosmaninho que cheira, 
Na noite de S. João 
A fazer uma fogueira. 



— 296 — 

O altar de S. João 
E' um jardim de flores, 
Enfeitado pelas moças 
Com sentido nos amores. 

Té os mouros da Moirama 
Festejam o S. João; 
Quando os mouros o festejam 
Que fará quem é christão ! 

A' tarde, após o jantar, procedia-se ao levantamento do 
mastm. 

Já no interior das casas fulgurava brilhante illuminação 
de candeia de azeite e velas nos pe-ados candelabros. Ao longo 
das varandas e dos terreiros forrados pela névoa fria do in- 
verno, viam-se os convidados e os donos da casa sentados em 
compridos bancos de pau, aguardando todos a ascensão do mas- 
tro, prece ii la de musida r jões, roqueiras que estrugiam no 
ar éjnanio de quebrada «m quebrada 

Nessa* occas ões o Martins f gueteiro e um empregado da 
chácara do João «Onça» no Cambucy, eram solicitados, dis- 
putados e a é requestados, pois eram habilissimos na confecção 
das roqueiras, busca-pés, rojões, pistrlas, etc. 

Ao redor do oratório, garridamente enfeitado, as moças e 
as mulatiohas reuniam- se, em amistosa eommunhão projectando 
para a serena imagem banhos no dia seguinte, confiantes em 
obterem um casamento. 

E demais : 

«São João tem um thesoiro 
Guardado no coração : 
Guarda para dar á moça 
Que lhe merece affeição.» 

A's 7 horas já o tição crepitava na fogueira, sempre muito 
alimentada pelas creanças e moleques, que em torno delia fa- 
ziam requebros e momices ao som descompassado das «punas» 
e dos «atabaques> grosseiros 

Africanos e creoulos, vestidos a caracter, simulando «caia- 
pÓ3», ensaiavam os seus «sambas» e «bate-pés». 

Os amadores de violões e vidas feriam os bordões em mi 
menor, fazendo tremer, prolongando-lhes a nota, sob a pressão 
do dedo inspirado,.. 

Interessante e grata devoção, acalentada a fogos de arti- 
ficio e dulci ficada a melado com cará e a cannas assadas na 
ara do incruento sacrifLio 

Ab nçnada tradição popuUr essa, como o Bão todas as 
outras, por isso que. como se exprimia Herculano, «as tadi- 
çõe3 são sempre veneráveis e, quem delias descrer, lá irá para 
onde o pague». 



— 297 — 

A Procissão de Corpus Christi em S. Paulo 

I 

«Colligit9 fragmenta ne pereant». 

Recolhei os fragmentos para que se não percam. 

fJoann.— 6— 32). 

Revolver papais velhos não ó, por sem duvida, agitar 
cinzas frias, que nas nossas mãos mais se dissolvem. Á chamma 
conserva-£e velada á gu sa de uma candeia que arde por en- 
tre o nevoeiro. 

De hnge assemelha-ae a um fantasma de luz, frio e mor- 
tiço. Ao approximarmo nos delle invade nos uma sensação de 
calor vivificanta e reeonfortavel. Os velhos e amarellecidcs pa- 
peis que conduzem o nosso espirito ájuellas épocas volvidas 
e remotas em que foram escriptos Para logo, circumda-ncs 
uma atmosphera ccéva. Ao rememorar factos passsdos, não ha 
quem não sinta a mesma impressão de religioso recolhimento 
pelas relíquias sagradas, não ha quem não sinta urra suave 
tristeza, uma como saudide indefinível. 

O novo substituo e iflati o antigo; mas, nem o novo ga- 
nha, no coração, o cantinho obscuro occupado pe a saudade in- 
definida do que se foi, nem este ultimo pode jamai?, reconsti- 
tuir se, em meio da infernal invasão de costumes e de coisas 
novas. 

Esgua-daias através do crystal dai distancias, as alegrias 
se esbatem, por ventura, menos vivas mas as dores afinam-se, 
amaciam se as arestas, como nas paisagens lanares em maio. 

Festas, tradiçõe? populares, costumes mcionaep, não sabe- 
mos se os ha verdadeiramente typicos, caracteristicc l e origi- 
naes de um povo, neste paiz immenso, mal povoado por varias 
raças, que ainda se eh cam. no dizer de Ourvello de Mendonça, 
na formação ethnologica na nacional daie brasileira. 

O pertuguez nostálgico trouxe para o Brasil estes costumes, 
que na sua pátria constituíam já uma tradição. Transplantados 
para aqui, adaptaram se um tanto modifi ados segundo a deter* 
minação do nosso meio e da nossa gent«, cujos sentimentos 
estheticos attestam a sua differenciíção flagrante. 

A germinação de sentimentos e costumei representam, pois, 
aqui uma aspiração da consciência, e ainda mais, uma conse- 
quência implícita na ordem das coisas, porquanto é a resul- 
tante natural do nosso cruzamento indo-luso-africano. 

Ferir esses sentimentos, a pretexto de que são antigos, 
ame6quinhal-op, attentar contra ellep, é arrostar-nos á condição 
de povo morto, é preparar inevitável ruina. 

E por isso gostaremos d* ver ainda hoje a procissão de 
cCorpus Chris^, a desfilar conjuntamente com a de S. Jorge, 
grotesca cerimonia, vestigios derraieiros dos mythos pagãos, a 
qual fazia deliciar o povo paulista ha uns bons quarenta an- 
noB atraz. 



— 298 — 

NÓ3 ainda gostaríamos de contemplar e ver reproduzido, o 
quadro pitoresco dos costumes simples e ingénuos com que os 
nossos ancestraes olhavam e confundiam, num syncretismo in- 
nocente, a f é e a alegria das suas boas almas ao mesmo tempo 
piedosa b e folgas onas. 

Dirse-iam olvidados do muud?, Da doçura daquelles ares, 
daquelle3 prados de toda aquella rural serenidade que os affa- 
gava e adormecia. 



Como legado dcs tempos coloniaes, como festividade po- 
pular, com a sua feiçãa vistosamente garrida e carnavalesca, é 
propriamente da procis-ão de S. Jorge, que nos vamos cc- 
cupar. 

A titulo de curiosidade, e para melhor concatenação de 
idéas, descrevamoF, em rápida summula, uma procissão do «Cor- 
pus Christi» em terras da velha metrópole, seguindo «pari 
passu» abalisados chronistas. Ver- se- á, mais uma vez, que 
Portugal não nos legou tão só esta opulenta e sonora língua, 
que a todas mais excelle, senão também a mais do direito, da 
maneira de ser nacional, os mesmos tradicionaes costumes, as 
mesmas lendas formosas, notadamente no tocante ao culto ex- 
terno da fé religiosa. 

«Data do reinado êe d. João II, consoante escreve Mello 
Moraes, a mais antiga noticia histórica das festas publicas, que 
celebravam em Portugal a instit lição da Eucharistia, festas ás 
quaes aquelle soberano permittiu se accrescentasse a procissão 
de S. Jorge, com o seu cortejo dos três reis Magos, a Serpen- 
te, S. Sebastião, uma Donzella, o Dragão, S. Miguel, Santa 
Clara e mais uma infia dade de personagens do martyrologio 
e do symbolismo chribtão, que no dia de Corpo de Deu?, per- 
corriam enfileirados as ruas lendárias da lusa metrópole». (1) 

Do transcripto, deprehende-se que entre as crenças chris- 
tans e as crenças pagans, havia, como ainda hoje, affinidade3 
grandes. 

Se a lenda ccnstitue a soberana descripção dá chimera na 
geração mythologica da historia, o próprio S. Jorge é um 
santo imaginário que os inglezes trouxeram para o nosso ca- 
lendário em tempo de el-rei d. Fernando. 

Relatam antigos documentos medievaes que indo ella fe- 
rir certa batalha, deparou-se-lhe em caminho o santo viatico 
e o acompanhara com as suas tropas. Razão por que coinci- 
de a sua festa com a do «Corpus Christi». 

Succintamente explicada a afinidade do simultâneo corte- 
jo, passemos a descrevei- o, no século XV, tempo em que el- 
ieí d. Jc&o veraneava em Setúbal. 

O relógio do sol coliocado num dos ângulos da praça da 
villa marcava quasi onze horas quando a procissão começou a 



(l) Vid. «Festas e Tradicções», pag. 229. 



— 299 — 

desfilar da egreja matriz, aonde el-rei tinha acabado de che- 
gar, acompanhado de toda a nobreza cortazan. 

Com a sua presença, pôe se para logo em ordem aquella 
agglomeração multiforme incorporando-se ao prastito. 

«Reunida em vários grupos, formava-se á porta, e ainda 
pelas naves da egreja, un chãos indizível de pendõe?, bandei- 
ras dansarincs, apóstolos, reis, foliõas, imperadores, músicos, 
cavalleiros, prophetas, diabos, santos, bogios, mulheres lascivas 
e rabbis veneráveis; cada qual vestido com os trajos e faaen- 
do ademanes próprios do papel que representava. (2) 

Aquella hora matutina as tabernas da visinhança de Se- 
túbal já haviam exgottado ai suas provisõss. O divino licor 
transluzia nas faces rubicundas dos alegres folio ?s e jograis, 
que a dansar e a fazer momices e vizagens, se ensaiavam com 
todo o esmero paia bem cumprirem os seus deveres no «mui 
devoto e angelical auto da procissão de Corpus». 

«Ginetes da guarda real. besteiros, e arcabuzeiros obrigam- 
o povo a formar alas, encstando-se, arrumando -3e, compri- 
mi nio-se contra as paredes das velhas casarias da cidade. Um 
atropelo aqui, uma praga acolá, e a multidão obedece afinal ás 
pranchadas dos soldados e ás manoplas brutaes e pesadas dos 
besteiros. Assim, ao longo das ruas e em redor das praças, 
ficam duas largas fitas multicores, variegadas, formadas pelos 
chapéus e pelos gorros, pelos mantos e pelas plumas, de peões 
e de burgnez*»s. 

Silencio ! Lá vem a procissão agora! 

A' frente, vem a «judenga», dansa de judeus, com o res- 
pectivo «rabbi», que leva nas mftos a «toura», livro da lei. Oá 
opposicionistas do christianismr, os descrentes tem alli o pri- 
meiro lugar. 

Vem agora os ferreiros, incorporados e com a sua bandeira. 
São mestres approvados no seu oflicio, e com elles surge o «sa- 
gittario», um frecheiro, com factos de cores vistosas, carregando 
guizos, como Eeria um polichenello dos nossos dias, fazendo 
tregeitos momices, esgares, qual folião do Carnaval. Nas mãos 
um arjo e frechas. 

Mas não vae só o «sagittario». Uma serpente de grandes 
dimensõas o segue. Essa serpente é formada por pannos pintados 
e collccades sobre um esqueleto de madeira, dentro do qual se 
mettem vários homens que põem o bicho em movimento. Por 
baixo do corpo da serpente divisan-se os péi pesados e suarentos 
dos carregadores que conduzem o falso reptil. 

A serpe ondula, como nos campos, seguindo todos os mo- 
vimentos do «sagittario» . 

Após 03 ferreiros, os carpinteiros. Acompanha estes uma 
dansa de «ciganas», esbeltas olhos negros luzindo no fundo d*s 
orbitas-, cabellos negros também, entrançados em ficas de cores 
variadas; nos pescoços nu?, collares de coralinas, enos pés pa- 



(2) Vid. «O Panorama», jornal literário de Lisboa, pag. 388— 2.* vol.— 1888. 



- 300 - 

queninos, chinelas vermelhas orladas do pellucia branca. E* 
a tradição mourisca que passa. . . 

Alguém recita versos... E' o entre mez, é o <auto»: lá 
vae um homem coberto de aço, granáe pluma solta ao vento, 
desprendendo- se do arnez, montando um ginete fogoso. Da cinta 
pende- lhe enorme espada reluzente, e o sol, batendo -lhe em 
cheio no peitoral prateado, fere a vista dos assistentes . • . 

Segue- o um monteiro, conduzindo um urso, um carro com 
homeos armados de lanças, tudo no rigor da época, que assim 
o manda o regimento da procissão. E' esta pai te a dos horte- 
lães com o «auto» da caçada ás feras bravas que lhes dizimam 
os campos e matam as crias novas e promettedoras ! 

Lá surge agora S. Pedro, protector dos pescadores e dos 
homens do mar. Ve como elle caoánha, sereno, com longas 
barbas brancas cobrindo-lhe o peito vasto. Na mão di- 
reita o bordão em que se apoia; na esquerda as grandes e pe- 
sadas chaves symbolicas da sua divina missão de porteiro do 
céu. Rodeiam n'o os arrais, espadeleiros, petintaes, galeotes, 
toda a gente do trato do mar, que em náos e caravellas, em 
anciãs de gloria, se aventura aos segredos do oceano, que ruge 
bem perto dalli. 

Agora vem os foliões e jograes, com esgares e tregeitos; 
depois os pedieiros e alvencis, trazendo nas mãos castellos de 
delicados lavores ; agora são as regateiras e peixeiras, rolando 
os quadris nos seus adernam s de mulheres do povo, dansando 
e cantando diante da multidão boquiaberta. Toques de pan- 
deiros e de «adufes» enchem os ares entrecortados pelos gritos 
das bacchantes e pela melodia das regateiras. 

Os barqueiros chegam por seu turno, rodeando a imagem 
de S. Christovão. 

Seguem- se doze pastores e doze macacos, e depois S. João, 
o Precursor, a que os sapateiros dão maiores parcellas de de- 
voção • 

Apparecem agora os velhos e as velhas com rosários de 
bugalhos nas mãos, dansando também, como se fossem rapazes 
e raparigas no verdor da mocidade. Já se vê que as cabelleiras 
que trazem são postiças, e falsas inquestionavelmente as barbas 
brancas que lhes cobrem os rostos. 

Lá vem apÓ3, o dragão infernal, vomitando sangue, e 
junto a elle a tentação diabólica, representada por uma mulher 
formosa qus sorri e dansa em requebros. 

S. Jorge, montado num cavallo ricamente ajaezado, ó pre- 
cedido pela sua escol», por um numero crescido de cavallos, 
entre os quaes vae o pagem do santo, um pequenito formoso 
e ingénuo, vestido como os antigos cavalleiros. S. Jorge mal 
se segura sobre o cavallo. e a ponta da lança que elle em- 
punha, repetidas vezes ameaça as cabeçss dos assistentes que 
se apprrximam mais audaciosos para admi arem o protect r do 
exercito lusitano, cujo nome, como estridente grito de guerra, 
é acclamaJo nos campos da batalha, em opposição a Santo Lago, 
patrono dos hespanhoes. 



- 301 — 

Pas*a *gora o bíblico Abrahào; após elle Juditb, com a 
cabeça de Holopbernes dentro de um sacco; segue- se o rei 
David num grande pagode de dansas e momices com seus pa- 
gens; e logo depois es tendeiros e merceiros, mais regateiras e 
irueteiras, taberneiros acompanhando um Baccho gordo e ver- 
melho, assentado sobre uma pipa, 1 -vando por comranbia a 
formosa Vénus semi -nua... 

A segunda parte do cortejo é iniciada pelos doze apóstolos, 
que caminham austeros e severos, senhores do teu papel, ven- 
ao-se apÓ3 elles o «aut.» da fuga de nossa senhora para o 
Egyptc, indo ella montada numa jumenta branca, caminhando 
ao lado B. Joté, a pé, seguido por um cortejo de aDJos O 
menino JeBus vae adiante de Nossa senhora, em um andor. 

Agora, seguem-se todos os santos do < Fios Santorum », des- 
tacando- se S. Sebastião, que, segundo o regimento de Coimbra, 
de 1517, deve ser «um homem bem alvo e bem dispo&t>». S. 
Sebastião vae nú, precedido por homens armados de frechas, 
que simulavam querer fazer do santo alvo das sua atinas afia- 
das... Só depois do desfilar de todas as cortes que acempanham 
os santos, vão as commnnidades religiosas, legiões de frades 
e de freiras, de cruzes alçadas, entoando ladainhas, e por fim 
a Hcstia Consagrada, conduzida em una «guayclla», isto e, 
uma machineta assente sobre uma padiola, após a qual vão o 
rei e es fidalgos da corte, levando bastões. ••> (3) 

Impo? sivel é imaginar espectáculo mais solenne e grandioso 
do que esse que então ©fíarecia o povo setubalense em home- 
nagem ao seu rei e seu senhor. 

Toda a divina poesia da religião e do paganismo, todo o 
pinturesco dos costumes feudaes, toda a animação dos grandes 
ajuntamentos populares, se reuniam e se harmonisavam nesse 
inusitado quadro. 

II 



Comquanto não possuísse as pomra? remotíssimas do velho 
reino, enfraquecida no turbilhão das correntes históricas, a pro- 
cissão de S. Jorge em 8. Paulo conservou todavia até a uns 
quarenta timos atraz, a sua belleza hereditária, o seu apparato 
magnifico. 

S. Paulo de 1870 pouca diflerença fazia do S. Paulo de- 
scripto por Saint Hilaire : Era a sombria cidade apenas saida 
da phase colonial : triste, monótona quasi desanimada, apesar 
dos estudantes, dessa «colmeia de abelhas doiradas que fabricam 
ao sol da juventude os primeiros favos da sabedoria e da scien- 
cia», no pitoresco dizer de Zaluar, 

«Teria a capital da então província uma população de qua- 
torze mil almas quando muito. 

Abundavam-lhe os pretos e os mestiços indiscutíveis. Exí- 
guo o elemento estrangeiro, esse portuguez quasi todo. 



(%) Vid. «Correio da Manhan • — bello resumo feito pelo ar. Eugénio Silveira, 
extrahido do « Panorama » por nós citado. 



— 302 — 

Os largos de S. Bento, Carmo e ladeira ersm o 6m da 
cidade e o começo dos ariabaldes; nestes, raras vezes, duas 
casas avizinhavam- Be por completo. 

— Os muros abusavam do direito de não psgar impostos. 

Fora da cidade, só a Consolação, caminho de s viajantes que 
demandavam Iui e Campinas cu dalli chegavam, revelava al- 
guns traços de vida própria. Junto á ponta do Lorena— nome 
do governador que a mandara construir por subscrirção popular 
em fins do século dezoito, e nome que tei trocado pelo de Pi- 
ques do de um morador que, reza a legenda, íci rico, faustoso 
esmoler — oceupava a preeminência ccmmercial o allemão Loskel, 
sério e activo, cujas ninas eram geralmente notadas : uma pela 
gagueira, tutra pela belleza. (o) 

O largo da Memoria, esse então é com imperceptiveis a'- 
terações de 1870: omesmo taredão desenxabido, eaté ha pouco, 
es mesmos pés de cicuta encostados, sem poder trepar á pyra- 
mide desconsolada ! 

O arruamento mal esquadrejado de então, quasi não differ a 
do de hoje senão em pequenos e insignificantes detalhes. 

À totalidade da cidade era por ventura mais sacra do que 
profana. Quasi todas rs casas eram protegidas, como acontecia 
em tempoa antigos, com os deuses lares, por imagens da Virgem 
ou dos santos, frequentemente collocaias na parce de fora, de- 
baixo de vidro, em nichos diante dos quaes ardia o azeite clás- 
sico das devoções. Procissões percorram a cada instante as 
ruas com grande fartura de irmandades e de crianças vestidas 
de anjinhos com saiotes entufados e azas de gaze, emquanto os 
foguetes estalavam no ar e es sinos faziam ouvir seus alegres 
carilhões ou seu triste dobre. 

Sob as nossas vistas se nes deparam ainda hoje algumas 
casinhis a relembrar priscas eras. Basta palmilharmos as ruas 
da Boa Morte, das Flores e descermos a ladeira de São Fran- 
cisco para descobrirmos a sua anciania mais que secular. <Qual 
alma errrnte, no dizer do eruditissimo Leão Bourroul, vagueia 
por esses sítios e contempla, com pungente saudade antecipada, 
estes restos da velha Faulicéa, que logo desapparecerãc». 

Por esse tempo o Palácio do Governo, antigo collegio dos 
jesuitas, compunha-se de deis corpes bem distinctos, consti- 
tuindo muito embora im só edifício. 

Até 1881, o vetusto casarão tinha á esquerda a egreja, 
franqueada ao culto divino, e com a qual se communícava por 
janellas ou tribunas interiores, donde os presidentes e suss fa- 
mílias assistiam ás cerimonias cenventuaes. 

Aos domingos e em dias solennes, assistiam á missa do 
meio-dia o «high-life» paulistano e a maioria do corpo académico. 



(a) Vide «Hercules Florence» pelo dr. Leão Bourroul, pag. 11 (Notas de 
Nemo— Martim Francisco,). 



— 303 — 



Emquanto no altar mòr ou num desvão do templo se ce- 
lebravam os ofíicios divincs, no coro ptalmodiavam -se hymnos 
litúrgicos, intervallados por marchas e partituras da orchestra 
do corpo policial de permanentes. 

Ao levantar da custodia ou da hóstia redonda e baça, re- 
boava lá fora, 2,0 toque vibrante de clarins, o bymno nacional... 

Em 1882, o presidente da província, dr. Florêncio Carlos 
de Abreu e Silva, senador do Império pela província do Rio 
Grande do Sul, demoliu a antiga ala perpendicular, á direita 
do corpo principal, na qual funccionavam as repartições publicas. 

Pouco mais tarde, em 1885 a 1886, o corpo central foi 
remodelado pelo presidente João Alfredo, recebendo um fron- 
tespicio de estylo moderno e outras modificações, como a feitura 
do jardim e da cascata ainda existentes, apagando assim os 
últimos vestígios da obra primitiva dos jesuítas. 

No corpo da frente, occupado hoje pelo palácio do governo 
demorava a residência provincial. 

Do lado esquerdo em pavimento térreo e no andar superior 
funccionava a Assembléa Provincial (histórica csalinha» e res- 
pectiva secretaria), aliás -muito reduzida. 

Naquelle memorável aposento ecoaram out'ora as vozes dos 
maiores parlamentares e estadistas paulistanos. 

| O vellho edifício constituía antes uma casa assobradada do 
que propriamente um sobrado. 

Aflectava uma apparencia soturna, quasi sinistra; era uma 
construcção afortalezada, á moda antiga, do estylo das edifica- 
ções jesuíticas, das quaes foi ultimo espécimen a Academia de 
Direito, também hoje inteiramente remodelada. 

Naquelle tempo es dois monumentos se envolviam no seu 
crepe venerando mas lúgubre : portas baixas, janellas estreitas 
e vidraçaria miúda ; pintados de amarello, e sem a menor 
elegância, no tocante á esthetica, a não ser o fundo tão saudoso 
da côr kcal, que se prendia a reminiscências históricas e a 
tradições venerandas. 

O largo do Palácio não possuía calçamento ; o cylindro 
do macadám nunca lhe comprimira a superfície ; e muito menos 
ostentara ajardinamento de desenhos caprichosos : — era liso 
como a terra que o cobria* 

No scenario melancólico destas ruas de outras eras, as 
festividades de caracter sacro e profano tinham qualquer coisa 
de empolgante pela doce ingenuidade de que se revestiam. 

Algnns dias antes da festa de cCorpus», a cidade já se 
achava exteriormente animada pelo concurso das famílias pro- 
cedentes das roças e dai chácaras circumjacen teF. 

No dia da procissão o borborinho começava cedo. 

De todos os ângulos da velha pauliíé a, algumas horas an- 
tes do saimento da procissão, já o povo acudia em na?sa ao 



— 304 — 

pateo do Collegio a passos in otfridos e desordenados, mas com 
a alegria visivelmente estampada no rosto. 

A multidão dcs homens conservados em pé, á entrada da 
egreja, com o chapéu na mão, dava ao longe a impressão de 
uma amalgama negra, pontuada, aqui e alli de opas verme- 
lhas, brancas e azues das diferentes irmandades. 

Ás cabeças cinzentas e as perucas eram numerosas; de 
espaço em espaço, luza ora branco, ora afogueado, um craneo 
calvo. E as phypionomías purpurisadas o lívidas, deixavam 
transparecer no seu enthusiasmo fe. tivo o traço de exultante 
jubilo ou de commoção profunda. 

Formavam -Be alli, em uniforme de grande gala para o 
acompanhamento da procissão e as continências do estylo, os 
corpo* de cavallaria da Guarda Nacional da comarca da capital. 

Com prévia antecedência expediam-se avisos, convocando 
os contingentes das fregueziai limitrophes, como Penha, Nossa 
Senhora do O', Santo Amaro, S. Bernardo, Itapecerica, Par- 
nahyba e do tradicional Pinheirís. 

Muitos dias antes já os offieiaes da «Briosa» poliam e re- 
poliam as suas virginaes espadas, para a arrumação, (b) 

Pressurosos, como se fossem a combate pelo salvamento da 
pátria, acudiam solícitos ao appello do commando geral, mo ■ 
vido desse sentimento religioso, que, não hesitamoB dizei- o, foi 
imprenso a feiro e a fcgo no sensível coração humano. 

Narram as chronicas que procissões de S. Jorge houve, 
nas que es se destacaram, por seu uniforme em tudo marcial, 
cerca de dois mil soldados, além da cffieialidade. 

Áo lado da autoridade diocesana, cabido, clero regu'ar e 
secular» tomavam parte no préstito o presidente da província 
com o seu ajudante de ordens e o chefe de policia, secretario 
do governo (trdos fardados), camará municipal, commandantes 
dos corpos de linha e da força policial, funccionarios públicos. 

O que, porém, imprimia á solemnidade uma nota sensf cio- 
nal era a presença de quasi todos os académicos empnnbando 
tochas accesas. Esta classe tão bohemia quanto generosa, por 
então, se esquecia das peraltices próprias da juventude, para 
se concentrar, com estudada gravidade, ao lado doj seus mes- 
tres revestidos de becca. 



III 



Nos festejos ao S. Jorge, o fidalgo e o plebeu, o rico e 
ò pobre partilhavam da mesma alegria, da mesma egualitaria 
communhão de pcsse. 



(b) Parada ou revista militar. 



— 305 — 

Bemvin'o são todcs es que chegam; a festa é para todos 
como o scl e o ar. 

NeBte dia es velhos paulistas, conservadores tenazes dos 
habites dos seus avoengos, lá estavam com os seus trajes do- 
mingueiros. "Uns envergavam o *ea «rabecão» (sobrecasaca 
comprida) de pano encorpado, calça de saragoça, de ganga 
amarella ou azul. Outros, ira s aflerradoB ás coisas do seu tempo, 
deitBvam o seu «rodaque» cu «rccaloró» de chita ramalhuda, 
anachronico trajar de 1842 consoante o testemunho do sr. 
Raphael Duarte, no seu bello livro «Campinas de Outió a». 

A matrona com seu vestido de sarja de Málaga, a sua 
tradicional mantilha de panno fino, orlada de larga renda de 
retr»z de Itália, bordada, (pucá), vestia com luxo. O seu traje 
caseiro consistia em saia de chita e camisa com crivo no peito. 

O lendário «balão», feito de arcos de arame ou de barba- 
tana, presos por uma infinidade do cadarços, representava uma 
das modas mais elegantes da época e, entufando as damas, as 
expunha, não raro, aos mais series riscos quando o noroeste 
sop-ava rijo. Ao vel-a3 assim tão rotundamente ve»tidas, po- 
der-se-ia interrogar como nas damas de Luiz XIV; «tudo 
isto sois vós, ou sois vqs tudo isto, snhora minha? 

A «macedónia», o «tafetá» legitmo, o «&etim macau», a 
«irlanda» a bretanha», a finissima «cambraia», taes as fazen- 
das que, por então, preferiam as donzellas para as suas «toi- 
letes» honestamente simples. 

As «caipiras», na sua simpleza nratuta, deitavam a sua 
elegância com alegres capas de baeta vermelha e azul, im- 
primindo- lhes uma nota singularmente garrida e ty^ica 

E assim tedos se adornavam para celebrar as glorias do 
Santo General. 

Já agora o seu cortejo. «Antigamente saia elle do velho 
Quartel de linha, mas depois do governo diocesano de d. An- 
tónio de Mello, foi tíão Jorge trasladado para a antiga e his- 
tórica egreja do Collegio, hoje demolida, onde tinhi o seu al- 
tar, o primeiro á d reita de quem entrava no templo». 

A imagem de S. Jorge lá estava bem posta no fundo do 
seu altar, armado de p'nto em branco, attrahindo a curiosi- 
dade publica a es era do branco corcel lindamente arreado e 
que dalli a momento o santo guerreiro deveria cavalgar com 
toda a imponência da um bravo. 

«Na véspera da revi* ta, á noite, saia o «bmdo», compôs t) 
dos clarins e timbores montados, do escudeiro ou «casaca de 
feno», do anjo da guarda, dos palafreneiros e dts ca vai los de 
moda, pertencentes ao estado maior do Santo». 

Este «bando», alumiado com a-chotes, percorri \ as ruas 
por onde, no outro dia, deveria passar o general em chefe». 

A esta primeira exhibição, á maneira de ensaii s, transeun- 
tes e curiosos paravam boquiabertos ; as vendedeiras ambulan- 



- 306 — 

tes de quitandas sentiam-se como chumbadas ao solo, e a« mo- 
lecoreba» vadia ao lobrigar o «casaca de ferro», delirava fre- 
mente . 

Ao amanhecer, um bimbalhar de sinos ciares annunciava gar- 
ridoso préstito festivo. 

As onze horas, quando o sol outonico batia quasi a prumo 
sobre casas, collinas e verduras, organisava-se o cortejo ra se- 
guinte ordem, rompendo a marcha a cavalgata de S. Jorge: 
cavalleiros negros, traiando calções amarellos, colletes verme- 
lhos e capas agallcadas da mesma cor. Ostentando vistoses 
chapéus de coloridas plumas, atroavam a multidão estupefacta 
com o clangorejar dos clarins e com o rufar descompassado de 
tambores. 

Mais atraz assomava o escudeiro pitorescamente apellidado 
pelo povo o « casaca de ferro » vergando armadura, fingindo 
aço e de capacete de papelão ao alto da cabeça, empunhava 
uma lança terminada em agudo pontaço, onde tremulava, a 
mêree do vento, uma bandeirola encarnada, com uma cruz 
branca como signo no centro. 

Após o «casaca de ferro», via- se montado num cavallo de 
patas doiradas um anjo impávido e sereno, de azas espalmadas, 
alçando uma lança e sobraçando um escudo brilhante. Era o 
«anjo da guarda », o proctetor do santo guerreiro. 

Seguiam-se os chamados « cavallos do Estado», que pagens 
vestidos a caracter conduziam pelas rédeas ornadas de fitas. 
Topes multicores pendentes das c audas contrastavam com pei- 
toris de galões polvilhado de guizos. 

Esses animaes>, comquanto fornecidos pelos poderosos da 
época, nada ofíereciam de extraordinário, nem qtanto á estampa, 
como se diz, nem quanto á raça, de modo que a sua medio- 
cridade havia de ser suprida por adordos exaggerados e des- 
lumbrantes. 

Vinha, por fim, a marcial imagem de S. Jorge cavalgando 
o seu branco corcel, ladeado de pBgens que o equilibravam 
sobre a sella. 

Que majestade de porte, que bravura nas pupilas dilatadas, 
que resolução em toda a sua physionomia arredondada e ru- 
bicunda ! 

Indescriptivel enthusiasmo sentiam as damas ao contemplar 
aquella ficura cingida de arnez, capa de velludo carmesim aga- 
loada, chapéu emplumado, a empunhar garboso uma lança em 
riste • 

Assim organisado e posto em movimento o cortejo diri- 
gia-se á Cathedral, onde 8. Jorge, precedido do seu « estado 
maior >, assistia em frente á egreja ao pcntifical, até a eleva- 
ção da hóstia. Dahi em diante o itinerário obedecia á seguinte 
disposição: demandava rumo do Carmo, atravessava a rua da 



— 507 — 

Boa Morte e pela rua da TahatiDguera seguia até alcançar o 
pateo da cadôa velha (hoje praça Jcão Mendes), onde a tropa, 
formada em linha de atiradores, esperava perfTada e aofom das 
fanfarras e clarins a passagem do general em chefe, que com 
certeza, se orgulhava da bisonha gente que commandava » Após 
a continência descia pela rua S. GcnçaJo (ao depois Imperador 
e actoalmente Deodoro) até ao largo da Sé novamente. 

Deste ponto desfilava pela rua do Rosário (hoje rua Quinze 
de Novembro) dava volta pelo largo do rosário, seguindo pela 
rua de 8. Bento até aos quatro cantos, e ahi tomava então pela 
rua Direita, largo de Misericórdia, largo da Sé, recolhendc-se 
em seguida. Este trajecto durava mais de duas horas. 

Fora eite o itinerário geralmente seguido; entretanto, al- 
gumas vezes scfíreu pequena alteração, qual a de passar (ela 
rua de Santa Thercza, em obediência a algum magnate da terra, 

Ás ruas e as praças por onde transitava o préstito eram 
enfeitadas; flores e folhagens tapisavam o chão; nas janellas 
as mais sumptuosas colchas de damasco o velludo contrastavam 
com modestos pannos de cores. 

Pavesavamse as casas de ricos artefactos de pennas bri- 
lhantes. As bandeiras e' flammulas desfraldavam se garbosas ao 
vento. As palmeiras e os bamtúi, abrindo se symetrica Tente 
dispo.-tos, como alas cortezanas, numa clareira, marginada por 
uma claridade po ychroni a de folhagem de flores de laranja, 
completavam o apparatoso scecario. 

Imagine se agora, o tfTeiío synthetico desse largo cortejo, 
de&lisando cem grave lenteza pelas terturosas ruas, já subindo, 
já descendo ladeiras a reflectir ao sol côr de topasio em dias 
de outono ! Todo esse variegado de trajes, todos esses scin- 
tillantes adornos, de jóias, casticae?, turibulos, instrumeLtes das 
bandas de musica, eJaiins marciaes, galloes, armaduns e sabres 
desnudos, dão a lembrar uma immensa serpente luminesa, um 
monstruoso boficonstiictcr de luz! 

A festividade não se limitava ao cfficio divino, com pane- 
gyrico do Santo do dia, per pregador afamado, nem tão pouco 
ao cortejo processional. 

A' tarde, o presidente da província reunia e congraçava, 
em torno á sua mesa, as autoridades ecclesiasticas, civis e mi- 
litares 

Nas casas das principies famílias, havia saraus, bailes e 
pantagruelicas ceiatas, nas quaes era neta predominante o ele- 
mento académico, que numa de suas boas horas de expansibili- 
dade, vivificava com a sua alegria perenne os folguedos tradi- 
cionaes do povo. 

«Eram convidados indefectiveis a tocas as festas : haviam 
organizade — e mantido, o que é lempre mais difficil — uma com- 
panhia dramática onde (alguns então, outro mais tarde) gosa- 
vam dos applausos da multidão e da curiosidade das meças, 



— 308 — 

»epre?entanlo os €Sete Iof mtes d i Lara», a cPobre das Ruínas»,, 
e deliciando a platéa com es versos do «Meirinho» e da «Po- 
bre», jovens q e depois tiveram de representar mvida politica, 
papeis mais eminentes, embora tão lucrativos como es que des- 
empenharam nos dois theatrinhos da capital : o do salão dos- 
baixos do palácio do governo e o theatro novo, que por edoso 
foi derrubado ena 1872, e cuj >s restos foram arrematados pDr 
100$000 pelo Chumb nho, velhinho especialista em pequenas 
cob ançis, que provavelmente não os pagou. A entraia era 
grátis, mas os convites custavam muito empenho e constituíam 
uma elevada prava de consideração». 

As famílias iam a pé ao theatro, porqurnto carros nâo o& 
havia naquel a época burguezmente pacata, «a não ser o da 
marqueza de Santos e o do bí&oo, puchadas por parelhas de 
burros. Guiavam-nos cocheiros pretos escravos, com chapéus 
altos, paletots quasi sempre verias com botões ama~ellcs ;-. tra- 
ziam o nome dos patrões >• 

Pela sua castidade tão rigida, tão antiga, tão reseq^ida, 
havia senhoras que deixavam de comparecer a^s espectáculos, 
porquanto ainda se escandalisavam com a representação de um 
drama em que estudantes vestidos de mulher faziam de Ignez 
de Castro e ou ias heroinas. 

As serenatas da Bohemia, em noit J s de luar, eram apre- 
ciadas recatadamente de alguma janella de rotulas, com o terror 
que as «republicas» inspiravam ái moças e ás matronas paulis- 
tanas. 

Além dos estulantes, outros amadores representavam en- 
tremezes, como o de «Esginarello», d» «Juiz de paz da roça», 
do «Manoel Mendes Enxúndia» e quejandas f arcas chocarreiras, 
assim como velhos e fintasticos drama)hõ?s de capa e espada, 
tão apreciados outr'oia, a deleitarem e a ccmmo verem as platéas 
embevecidas . 

Os estudantes mais bohemirs que, por virtude da sua bo- 
hemia, não desejavam tomar parte directa naquelles folguedos 
celebravam as glorias de S. Jorge, em ruidosas serenatas no 
rio Tietê e nes bairros afastados e então pittorescos do velho S.. 
Paulo e dos quaes nes fala Castro Alves nas sua3 poesias «Ver- 
sos da um viajante» e «Canção do bohemio»: 



«Que noite fria ! Na dese ta rua 
Tremem de medo os lampeÕ3B sombrios. 
Densa «garo/»» f*z fumar a lua 
Ladram de tédio vinte cã?s vadios. 

Si tu viesses... de meus lábios tristes 
Rompera o canto... Qie esperança inglória!.. 
Ella esqueceu o que jura '-lhe vistes 
O' »?aulicéa», ó «Ponte Gande», ó «Gloria» ! 



— 309 — 

Os pobres, a gente do povo, em summa, festejavam-no 
também a seu modo, improvisando «as ustadcs», em que as 
dansas, ao crepitar alegre das fogueiras, imperavam ardentes 
ao tinido das violas e dos violões afinados. 

O aturdid. t «batuque», o samba lascivo do negro osten- 
tava- se desenfreado no terreiro, de par com o «catereté» tão 
iro fundamente hontsto do «caipira», introduzido por Anch eta 
nas festas da Santa Cruz, 8. Gorcalo, Espirito Santo e outras. 

Os compassos das dansas, dos pares com os c&beHos em- 
pastados nas frontes, pelo Euor, alteavam-se claros, rompendo o 
rumor abafado de vozes e pé< batendo no chão aos sons dos 
pandeiros e das puitas, avelludados á distancia, imprimindo ao 
amb.ente uma nota uostalgicamonte siudosa. 

Ao toque da vola a mod nha do «caipira» deriva fluente 
e espontânea em redondil has Eonoras : 



«Ai! thathan, meoê não sabe 
Como está meu coração, 
Está como noite egeu a 
Na maior escuridão »• 



Mais distante, um bom trovador fe ia as cordas com ins- 
piração mais enttrnesida, banhando a alma de adormecedera 
caricia : 

Pinheiro, dá- me uma pinha, 
Roseira, dá -me um bitào; 
Mo: ena, da-me um ab:a;o 
Que te deu meu coração.» 

E a moiera retrucava assm: 

«Tenho um bem que me quer bem 
Um bem que me dá dinheiro 
Um outro que me dá pancada 
Esse é o meu bem verdadeiro.» 



A caninha do O' e o quentão» distribuíam -se em :'nter- 
vallos curt s, pois, o frio já é intonso e a «garoa» domina pe- 
sadamente la íó;a. 



— 3d0 — 

Da terra escura, por entre a sarenidade immota dos arvo- 
redos, subia, aqui e alli, de humildes tugúrios, um errante 
som de tambores e atabaques. Lumss, fachos, abafados rufos de 
psndeiretas lá se partiam dos arrabaldes próximos, celebrando 
amoravelmente o «Fidalgo» do «Collegio», que lhes recebia o 
amor e o preito, no fundo do seu altar, envolto em silencio e 
sombra . 

E assim, as horas corriam céleres para essa gente, num 
embríagante alvoroço ■ de festa e regabofe, interromp3ndo a mo- 
notonia do seu viver quasi roseiro em campos agrestes e tristes 
de Piratininga. 



ZONAS GEOGRAPH IÇAS BRAZI LEIRAS 

PELO 

DR. ARTHUR ORLANDO 

SÓCIO HONORÁRIO DO 

Instituto Histórico e Geographico de S. Paulo 



Zonas geographicas rrazileiras 



cHa cesta natureza, fala uma das personagens de Fjoern- 
8fD, a'gama cousa de extranho que existe em tos Tudo ó 
desmedido. Faz noite quasi todo o inverno e dia quasi todo 
o verão O sol permanece dia e noite no htriz nte. Não o 
viste á noite? N£o sabes que através da névoa el!e ap;arece 
trez vezes maior que em out a qualquer parte? E como elle 
tinge o céu, as montanha , o mar ! Reina por toda a p&rte a 
inquietação ; não cessam a* metamorphoses , 

E quantos outros prodígios ! 

«Essas immensas nuvens de pássaro?, esses bancos de pei- 
xes !. . . 

Não vês esses rochedos a piqu", sahindo do mar ? Elles 
não se parecem com os i uti os rochedos ...» 

No Brazil o sol não apparece três vezes makr do que em 
outra qualquer parte, permanecendo dia e noite no honzoi. te ; 
ma3 corre o Amazonas que, associando seus t fíeitos á e nergia 
capital e prep nderante do astro rei, dá a sensação de que em 
nosso globo tudo é movimento, vid.°, metamorphr se 

E:te labyrintho de rio?, furos e lflgos, escreve ^gassiz, 
não constitua propriamente uma rede fluvial, é antes um oceano 
de agra doce, cortado e dividido pela terra. Sem duvide, não 
\ ode ser considerada como terra firme uma zona que se estende 
de uma extremidade a outra do continente, qup, metade do 
anno, de appaie.e debaixo d'agui; e na qual, p<r conseguinte, 
não pôde haver nem caminhos de ferro, nem grandes estrada?, 
nem momo viagem a pé sobre uma extensão um p .uco consi- 
derável. 

E como se não battase o An azonas ran dar a impressão 
do grandiosa, ahi estão as immensas praias de viiaçào, cober- 
tas de tartarugas, ou as ii esgotáveis minas de ferrr, entremeia- 
das de metaes fiaos e pedras preciosas, o curioso pht-nomeno 
das piracemas com suas enxurradas de peixes ou o assoo broso 
espectáculo dos pombaes, submergindo os tertões do Ceaá num 
diluvio de cvoanUs 

Seria um lugar commum, muito bat do e repisado repetir 
que o solo brasileiro é de uma admirável exuberância em es- 
sências, resinas, fiutas plantas de toda espécie, desde as que 
são encontradas em eslado telvagem, a ó as que desapparece- 
r:am se não fossem cultivada?, como o milho e a mandioca, que 
formam a base da alimentação nacional. 



— 3d4 — 

Da mesma sorte, não dispensam cultura o feijão e o fumo, 
que até hoje não foram encontrados no estalo selvagem. 

Commungando a natureza inteira com o homem, no sen- 
tido da civilização, fazendo o território parte integrante da 
nacionalidade, cada paiz deve ser estudado não Fomente quanto 
ao seu clima, á sua constituição geológica, á sua estructura oro- 
graphica e hydrographica, mas ainda em relação ás suas pe- 
culiaridades mineraes, vegetaes e animaes, constitutivas de suas 
zonas agrícolas e industriaes. 

São, porém, as plantas que principalmente determinam não 
só o aspecto dos paizes, mas ainda as condições de existência 
dos animaes e ai manifestações de sctividade do homem. 

Dahi a idéa de classificar as zonas do paiz segundo as 
associações vegetaes nellas existentes, e então se comprehenderá 
toda a importância da classificação de Koppen, tomando por 
pedra de toque dcs climas certas plantas e animaes que cons- 
tituem, per ass m dizrr, a jiaizagem vegetal e animal do habitat, 
em que nascem e se desenvolvem. 

Uma planta cu animal não são seres desligados do meio 
em que vivem, pelo contrario, se acham subordinados a causas 
múltiplas, de cuja connexidade se podem dizer expressões. 

Toda associação de plantas e animaes revela condições de 
vi<?a, que imprimem a cada região physionomia própria. 

Assim é que ss zonas naturaes devem ser classificadas de 
acordo com as plantas e os animaes que as povoam e se as- 
sociam em funeções do solo, do clima e mais elementos am- 
bientes. 

Plantai e animaes constituem apparelhos registradores dos 
efíeitos accumulados dcs differentes factores mesologicos, e deste 
modo nos dão a entender de modo concreto as relações múlti- 
pla? e imperceptiveis existentes entre os difíerentes factores 
que constituem o meio. 

Uma classificação de zonas em taes termos é tanto mais 
importante e necessária a estudos uão somente agronómicos, mas 
ainda económicos e sociaes, quanto mais, ao lado dos factores 
physiologicos clima o solo, se toma em censideração o elemento 
humano, indispensável á cultura de certas plantas e á criação 
de certos animaes. 

E' preciso não esquecer que foi pela cultura de cerca de 
duzentas qualidades de plantas e pela domesticação de umas 
trezentas espécies de animaes que o homem dos tempos antigos 
imprimiu o cunho de sua genialidade á natureza e concorreu 
para o desenvolvimento da civilização, da mesma sorta que o 
homem moderno se faz valer pelo emprego dos mineraes e pelas 
applicações do vapor e da eleitricidade. 

Se por um lado o Brazil forma uma verdadeira unidade 
geographica, constituída pelo enorme espinhaço, que se estende 
de sul a norte, e pelos quatro immensos chapadões que o cir- 
cumdam, por outro lado pode ser dividido em varias regiões, 
bem distinctas umas das outras por seus caracteres physiogra- 
phicos. 



— 315 - 

De acordo com o meio phy.ico, comprehendendo esta ex- 
pressão o todo daí inflaenciaa atmosphencas (vento» e chuvas), 
das propriedades do solo e suh-sólo (terras e mineraes), das con- 
dições orologicas e hydrographicas (montanhas e rios), das di- 
versidades de flora e fauoa (plantas e animaes), divide o Dr. 
André Reboliças o Brazil em dez zonas agrícolas, a que acere - 
scentaremos o Acre, por força do tratado de Petrópolis 

São circumscripçõas naturaes, que se não confundem com 
as administrat vas, as quaes nem sempre reflectem o desenvol- 
vimento histórico e mnito menos a fdiçâo geographica do paiz, 
traduzindo antes a ignorância ou o favoritismo dos homens de 
governo, como suecedeu com as antiga \ capitanias, delimitadas 
sem critério, em desacordo com o meio pbyaico e até em des- 
proporção com as forças e posses des donatários, de torte que o 
maior numero delles teve de abrir não de taes concessões por 
falta de meios, quando não cansados de lutar contra os indí- 
genas, ou forçados por outros desa três ou infortúnios. 

Eis as diversas zonas natiraes em que o Dr. André Re- 
bouças divide o Brazil: 

I. A zona formada pelos Estados do Amazonas e do Pará, 
abrangendo uma superfície de 2.706 587 k lometros quadrados. 

Nesta região predominam o grés e a argila, com a qual já 
os indígenas fabricavam artísticos product03 cerâmicos. 

Seu principal género de exportação é a borracha, além do 
cacáo, da baunilha, do guaraná, do fumo, das pennas da pássa- 
ros e das chamadas castanhas do Pará. 

Entre as madeiras de construcção e marcenaria avultam o 
jacarandá e o cedro de divers-s espécies e variedades, o páo-r<si 
ou Sebastião de Arruda, o páo setim ou jequíá marfim, e entre 
as plantas trepadeiras lianas em grande quantidade. 

A tartaruga e o pirarucu formam a base da alimentação 
do povo, e, á guiza de bebidas refrigerantes, são usados o gua- 
raná o cupú e o aEsahy. 

II. A z na que comprehende os Estados do Maranhão e 
do Piauhy mede 623.372 kilometros quadrados articulados pelo 
Parnahyba. 

Prevalece nesta região, além do grés, a a r gi!a de todss ai 
cores, magnifica rara construcção de edifícios e fabrico de ob- 
jectos de cerâmica. 

Além do sal, para cuja producção se acha em condições 
especiaes pela rapidez de evaporação de suas aguas mirinha?, 
produz o Maranhão café, cacáo, assucar, algodão, tapioca e arroz, 
que por muito tempo constituiu seu principal género de ex- 
poi tacão. 

O Piauhy, famoso pelas suas fazendas de crisção, produz 
em grande quantidade gado bovino, que ó exportado para es 
Estados vizinhos. 

IH. A zona do Ceará, com 160.987 kilometros quadrados, 
de solo formado de granito e gaeiss, contendo minas de ferro, 
cobre e ouro por explorar, mármore em diversas localidades e 
argila exceUente para edificação e arte cerâmica. 



— 316 — 

E' a região nais prolifera do Brazil, crescendo sua popu- 
lação como em nenhum outro Estado. 

Atormentados pelas seecas, seus filhos jamais esmoreceram 
e, afinal, tcmaram a seus hombros a inestimável tarefa de auto- 
colonizar o Amazonas. 

IV. A zona ccnttitui' T a pelos Estados de Pernambuco, 
Parahyba Rio Grande do Norte e Aagôas, tendo uma tuper- 
ficie de 226.457 kilometros quadrados, cortada de linhas de 
ferro que ligam aqutlles Estados entre si, e circumdada por 
montanhas de invejável doçura de clima e extraordinária fer- 
tilidade, taes como as de Garanhun e Borborema. 

E' a região clássica do assacar e do a'grodão; nr s, infe- 
lizmente, como a do Ceará, está sujeita ao fia gel lo das seccas. 

Desde es tempos coíoniaes que p lo porto do Recife le 
faziam a fxpoi tacão e importação de toda a zona; mas actual- 
mente (a Estados da Parahyba, d) Rio Graade do Norte e das 
Alagoas tratam de negeeiar directamente com as t raças es- 
trangeiras. 

V. A zona da Bahia e Sergipe, articulada pelo S. Fran- 
cisco, com uma superfície de 559 378 kilometros quadrades, 
legião ao mesmo tempo agi icola e mineira, contendo risas ja- 
zidas de curo e diamantes ao la o de extensas plantações de 
canna, algodão, cacau, café, fumo, produz ainda borracha de 
n ar gabei ra e maniçoba, milho, feijão, mandioca, fruetas em 
grande quantidade, principalmente marcas, laranjas, arazaxis, 
óleos de varias espécies, de dendê, de baleia, de rícino e de 
côcr, fibras, grande variedade de plantas textis e medicinais 
em abandancia, madeixas de constiucção e marcenaria, sob:e- 
tudo jacarandás e vinhaticos. 

Na Eah a, sobre as margens do Paraguasíú, a rocha de 
maior fartura é o grés?, e em Sergipe, sobre as margens do 
S. Francisco, o granito e o gneiss. 

Nos arredores da Capital predomina o granitoide, conhe- 
cido, em virtude de sua côr e rijeza, por Coração de Negro. 

De grande fama gozam as talhas, moriogues e quartinhas, 
fabricadas na Bahia. 

Em Sergipe era Bahia a terra preferida p ra a plantação 
da canna ó a massapé, 

VI. A região que se estende peloa Estados do Espirito 
Santo, Rio de Janeiro e S. Paulo, além da Capital Federal, 
com uma área de 349.034 kilometn s quadrados, coberta de 
espessas matas, quer para as bandas da Serra do Mar, quer 
para as margens do Parahyba do Sul é abundante, como ne- 
nhuma outra, em rochas graníticas, sejam pgmatites e syeni- 
tep, d.oritfts ou diabases E' a região na que impera a terra 
roxa devido á deeomto*ição de dirrites e diabases, e tão pro- 
veitosa ao plantio do café. quanto o massapé á cu tura da canna. 

Entre os variados pr duetos fl resWs desta zona se sa- 
lientam a Peroba e a Canella, de grande U30 na marcenaria, 
o Itê e o Genipapo, tão apreciado* pela sua elasticidade e 
belleza 



— 317 — 

Não lhe faltam calcareos, nem marmres, nem argila» 
pia ticas. 

VII. A zona do Para-á e Fant* Catharina, tendo uma 
superfície de 30 2.084 kilcmetros quadrados, em qu« rstentam 
ostreiías cu sambaquás em tudo análogos tos Kjo\ktnmodings 
do Norte da Europa. 

Em vão buscar- se-hiam em t*do o paiz clima mais agra- 
dável e terrens irais ferteib que os dessa regiào, espécie de 
éden para os imigrantes eu r opeus. 

O ió o é de f rmação gran t ca, calcarea e argilrsa, con- 
tendo em varias localidades gruta» de stalactites e stalagmites, 
que *s tornam ainda mais p^ore-cas. 

Em Santa Catharina são irtivoís, além das minas de car- 
vão de pedra, os camoes de preducção vegetal e animal, e no 
Paraná as immpnsas fl restas de araucária, que com os hervaes 
de mate, o cbá do Brazil, ofereçam a indígenas e cokn s in- 
esgotável fonte de riqieza. 

VIII. A zona do Rio Grande do Sul compreende 239 187 
kilometr(s quadra los de superfície, oceupada em sua maioria por 
xarqueadas e fazendas de cr ação, e o resto empregado em cul- 
tura de cereaes, legumes» e futas da Europa. 

Exporta gado e os produetos connexos. como xarque, Eebo, 
couros, osács. etc, peixe, salpreso, vinhos, frutas, compotas. 

Abundante em giés e argilas plásticas, contendo maronores 
de toías is cores, calcareos de diverfas espécies, ouro, ferro, 
cobre, além de carvão de pedra, pos ue em profusa) topasios, 
granadas e turmaliuas 

Ctm a «indu tria do frio» tende a desapparecer a expor- 
taçã » do xarque e do peixe salpre o, sendo transp rtadas as 
carnes em camarás frigorificas. 

A principio os colonos allemâes não dema davam senão o 
Rio Grande do Sul ; mais tarde, porém, encaminhando-se para 
Santa Catharina, fundaram ali diversas col mias, ao pa ; so que 
es immigrantes italianos, diriginde-se para o Rio Grande, de- 
senvolveram novas cu taras, principalmente a da viuha em- 
quanto os allemães continuaram a plantar mandioca, milho e 
iejào. 

Além das vantagens colhidas com a cultura de legumes, 
cereses e forragens pelos immig antes italianos, a dupla cor- 
rente de colonos do Norte e do Sul da Europa, mesclandc -se e 
caMeando-se com os naturaes do paiz, tem produzido os ma : s 
bellos typos de raça cruzada. 

IX. A z na de Minas, com uma superfície de 588.547 ki- 
lometros quadrados, entre cuj s variados produetos não se sabe 
o que almirar mais, se es metaet finos e pedras preciosas, se o 
gado e tudo que diz respeito á industria pastoril, queijo, man- 
teiga etj. 

Produz anda em grande quantidale. café, asucar, algodão, 
vinho, olivei a, ameixas, maças, em geral as frutas do velho 
mundo. Almas comprehende duas regiõas agrícolas bem distin- 



— 318 — 

ctas e caracterizada? : a da mata ccberia de etseneias florestaea 
de toca espécie, jacarandá, cedros, vinhaticos, perobas, canellas, 
araucárias; a dos campos, revestida de gramíneas e destmfda 
á criação do gado. 

Ccmpõe-se o solo mineiro degiés, gneiss, granito, pegmttite, 
syenite, dyorite e diabas ; pcssue ao mesmo tempo terra roxa e 
«missapê*, e não lhe falta argila plástica para o fabrico de 
objectos de cerâmica. 

As gnitas ealcareas de Minas são verdadeiros tbesouros de 
paleontologia, celebres pelas notáveis descobertas de Lund. 

X. A zona de Goyaz e Mato-Grosso, campes, e ba. liada 
pelos mais possantes afíluenle.ã do Amazonas e do Prtta 

Goyaz cfferece a peculiaridade de valle simultâneo dos rios 
Tocantins e Araguaya, e Mato -Grosso a singularidade de du- 
plo plano inclinado, lançando suas aguas, ora para os affluentes 
do Amazonas, ora para o Prata por intermédio dos ries Parará 
e Paraguay. 

Muito mais extensa que a superfície de Minas, a região 
de Goyaz e Mato-Grosso apresenta uma estruetura geológica 
rão menos variada que o Estado aureo-diamantino. 

Goyaz e Mato-Grosso constituem uma das regiões mais 
ricas tm metaes finos e pedras preciosas, ea mais privilegiada 
zona em madeiras ce censtrucção e marcenaria, produzindo em 
grande quantidade a incorruptível aroeira e o perfumado páo 
santo • 

Seus terrenos passam como os mais férteis, e seus campos 
de criação como os mais proliferes do Brazil. 

Quanto ao fumo não ba superior em todo o paiz, mesmo 
o do Pará, preparado segundo o processo dos indígenas, não 
lbe leva vantagem. 

XI. A zona do Acre, com uma área de 175.375 kilo- 
metros quadrados, produzindo mais borracha que o Amazonas 
e o Pará, e maior receita que Pernambuco e Bahia. 

Nessa região não se conhece outra cultura que a do milho 
e feijão. A terra farta em riquezas naturaes, não impõe ao 
explorador outro trabalho que o da colheita. 

Mas a natureza physica por si só não é tudo: além do 
solo e do clima, dos ries e das montanhas, das temperaturas, 
das chuvas e des ventos, das plantas e dos animaes, ó preciso 
attender á actividade do homem, que cultiva plantas e domes- 
tica animaes, perfura montanhas, muda o curso dos rios, mo- 
difica os effeites reciprcccs das temperaturas, dos ventos e das 
chuvas, adapta mais e mais as energias do sol principalmente 
o vapor e a electricidade, ás suas necessidades pbysicas, mo- 
iaes e intel ectuaes. 

Que vale o trabalho intenso dos formigueiros e das espé- 
cies animaes mais activas em face da acção prodigiosa do 
homem, a qual se desenvolve e se multiplica variada e infa- 
tigável ? 

Tomando em consideração a natureza do trabalho dos 
diversos grupos, mais ou menos sedentários, mais ou menos 



— 3i9 — 

nómades da população brazileira, Silvio R mero, o mais douto 
professor em cousa do Brazil, apresenta a seguinte classificação: 
«Zonas geographicas, perfeitamente caracterizadas, que são 
sedes de outras tantas zonas sociaes» : 

1.* O planalto da Guyfina no alto norte dos Estados do 
Amazonas e do Pará, especialmente na região em que corre o 
rio Branco* E' a zona de criação de gados, industria, porém, 
incipiente, quasi toda por conta do Governo Federal; tudo 
desorganizado e mal dirigido. 

2. a Ás terras mais baixas, que immediatamente se seguem 
e vão entestar com a margem norte do rio Amazonas. 

E' regifio de matas e da cueillette de prcductoa espon- 
tâneos da natureza: borracha, castanha, salsaparrilha, copahxba, 
cravo, piassava, urucú, etc. A familia ahi nas claBses popu- 
lares é assas desorganizada, havendo quasi inteira promiscui- 
dade em mais de um sitio* 

Existe uma pequena lavoura rudimentar, em alguns pontoa, 
de cacáo, mandioca, canna de assucar e tabaco. Os dous pri- 
meiros daquelles productos : ão quasi de simples cueillette* 

3 * As terras marginaes do norte e euI do grande rio, 
comprehendendo também a parte inferior do curso dos seus 
affluentes. 

E' o valle do Amazonas no seu sentido mais estricto. E' 
região de pesca fluvial. 

Oè que se occupam nella estão no gráo mais inferior das 
gentes que vivem dessa espécie de industria. 

1* Z na das matas da região occidental, onde se acham 
os cursos dos rios Madeira, Punis, Acre, Jurcá, consti.uindo o 
núcleo principal do território do Acre, que com toda a razão 
aspira crganizar-se em Estado. 

E' também região da borracha e indmtrias extractivas 
congéneres. 

5. a O planalto central-mrte, comprehendido entre o 
Madeira, o Tocantins e o divisor das aguas do sjstema fluvial 
fcul-arnerieano. 

E' zona ainda quasi completamente inaproveifada. 
Contem bons campos para criação de g. dos. 
0.* O planalto interior desde o divisor das aguas até á 
região serrana do Rio Grande do Bui. 

Contém di verses variedades de terras de culturas, como 
sejam : campos de criar, terra3 de mineração, terias de lavoura, 
de café, tabaco, etc. 

Deve esta immensa região ser dividida pelo me los em 
quatro zonas d tferentes : a dcs campos de criar do norte de 
Mins s, Gtyaz e te ras altas de Mato Grosso; a de mineração, 
um pouco espalhada ror esses três Estados ; a de café, princi- 
palmente no sul de Minas, S. Paulo, terras altas do Rio de 
Janeiro; e da cr ação de gados em Paraná e Santa Catharina. 
Por toda a immensa região o typo de familia é instável, 
por causa da tranimissão parcellada das heranças, o que equi- 
vale dizer por cama de imposições retrogradas da legislação. 



— 320 — 

7. a A região dos valles dos rios Paraguay e Guapcré, com- 
prehendendo a* terras baixas e médias de Mato Gresso. 

Predc minam ahi a cueillette ca heva mat f e, alguma mi- 
neração e criação de gados em campo9 intercaladcs nas terra? 
médias. 

8* As regiões entre rs rios Gurupy e Parnatyba, eompre- 
hendendo o Estado do M ranhão e terras prox ; mas. 

Arrcz nas terras mais baixas, canna de as^ucar na região 
das matas e alguma criação de galo nos íer'ões de Oeste. 

9.* Oi sertões do Norte, denominados os Cariris na sua 
região central, limitados pelo citado Parnahiba do Norte e o 
Itapicu ú, ou melhor, o P*ragU8Ssú, no Estado da Bhia. 

E' uma faixa de terreno, que fica ao Leste do Brazil, en- 
tre os dous rios citados que lhes formam os limites de Norte 
e Sal, a região das matas, que se prolongam através da costa 
maritima pelo lado oriental e o alto placaUo do interior rei o 
lado ocidental. 

E' a clássica região das sec:as que a flagelhm periodica- 
m nte. 

cCriação de gidos, sujiita, porém, a grandes perdas nos 
periodos de seccas, cereaes nas regiões m8is frescas á beira de 
serras, etc. . são as industrias e o regimen do trabalh\ 

10. As terras da costa maritima, comprehendendo a citada 
faixa de matas, desde o Maranhão até o Espirito- Santo. E' a 
famosa região d)s cenganhos de assucar». 

As melhores famihas constituiram a patronagem natural 
das populações: mas a sua riqueza, que repcuz*va ni braço 
esc av , está quasi de todo anniquilada por causa da extinção 
da escravidão e da concurrencia da beterraba nos mercados 
mundiaes. 

Ahi nesta zona em sitios adequados cultivam também a 
mandioca, o tabaco e cereaes. 

11 A região do Espirito Santo ao Rio Grande do Sul. 
E' faixa estreita por cauea da approximação da Serra do Mar. 

Arroz, mandioca, cereaes em pontes vários. 

12 As terras que formam a descida do planalto para o 
lado do rio Paraná, onde se acha o celebre território das Mis- 
sões. E' zona da mata inaprovíttada em grande parte; mas 
se faz alli alguma extracçã) d* herva-matte em vários sitios. 

13 Os campos, pampas, e cochilh^s do Ro Grande do Sul; 
é a zona extrema do Brazil. A criação de gados por um sys- 
tema, que lembra em parte a dos «stippes» pobres da Agia e 
Africa, produz alli um typo social, que tem affiaidales com os 
daquellas zonas 

Recapitulando, posso dizer que existem as seguintes zonas 
sociaei mais notáveis no B.asll: iegião do gado no alto Norte ; 
região da borracha no valle do Amazonas ; região da pesca fl i- 
vial nesse grande rio e seus afflaeates ; região do gado nos se- 
toes seccos do Norte ; região do gado nos campos e taboleiros 
de Minas, Goyaz 8 Matc-Grosso; reg ão de assucar na cha- 
mada zna da mata, desde o Maranhão até o no te do Es ado 



— 321 — 

do Rio de Janeiro ; (faixas intermediarias nesta região existem 
próprias para o algodão, o fumo, a banana); região da mine - 
ração em Minas, Goyaz e Mato-Grosso ; região do matte nas 
mattas do Paraná e Santa Catharina e parte de Mato-Grosso; 
região do gado no planalto destes dons últimos Estados; região 
dos cereaes na zona serrana de 8a :t* Catarina e Rio G/ande 
do Snl ; região do gado nos campos deste ultimo Estado. 

E' a classificação de zonas que se nos afigura ( fferecer mais 
larga e solida base a qualquer investigação, ensaio ou reforma 
de caracter agrícola ou industrial. 

Nosso problema é o agrário, e para sua solução não devem 
poupar iniciativa, nem esforço, nem capital os particulares, as 
associações e sobretudo o E-tado, que devem curar da terra 
como o individuo trata de seu corpo. 

Depois dos trabalhos, de André Rebouças sobre zonas agrí- 
colas, e de Silvio Romero sobre zonas sociaes, já é tempo de 
se tentar ama classificação natural de zonas geographicas de 
acordo com a idéa de meio e a noção de optimum biológico 
ou maximum vegetal e animal, de conformidade cem os achado? 
da wcologia, e de harmonia com as vistas largas de Koppeu 
sobre climatologia, considere da em funcçâo da meteorolrga, da 
orographia, da hidrograptiia, da zoographia e da phytographia. 

O clima é um phenomeno complexo, que depende de múl- 
tiplas circunstancias, cujas variadss relaçôe3 difficuham a de- 
terminação das zoe as athmosphericas, que envolvem a super- 
fície da terra e exercem decisiva influencia sobre a vida das 
plantas e dos animaes. 

Á principio não se attendeu senão á temperatura como ele- 
mento capital, senão único, do clima, e dahi a divisão dos dou) 
hemispherios em cinco zonas. 

Zona glacial do norte; 

Zona temperada do norte ; 

Zona tórrida ; 

Zona temperada do sul ; 

Zona glacial do sul. 

Mais tarde, ao elemento temperatura se juntou o fpetor hu- 
midade e, ao lado da zona tórrida as zonas quentes e frias se 
subdividiram em zonas quentes húmidas e seccas, e zonas frias 
húmidas e seccas. 

Entre as zonas quentes, da me3ma sorte que entre as frias, 
se collocavam as zonas de transição, as chamadas zonas tem- 
peradas. 

Esta classificação se approximiva mais da realidade das 
cousas, mas ainda assim não era completa, até que se intro- 
duziu na determinação das zonas clima.ericas a noção de meio 
isto é, do conjunto das circumstancias que exercem influencia 
decisiva sobre esses «todos» orgânicos, que são as plantas e 
animaes. 

Mas não sendo possivel conhecer todos os elementos am- 
bientes que constituem o meio em que vivem as planta* e os 
animaes. dahi a necessidade de recorrer aos próprios seres vivos, 



— 322 — 

principalmente ás plantas, pre3as ao solo, para se estabelecer 
uma classificação natural das principies zonas climatéricas, de 
harmonia com a noção fundamental do meio physico, biológico 
e mesmo goaial. 

Tomando a seus hombros a tarefa de clcsãifícar as zcnas 
climatéricas segando o todo dos elementos, que constituem as 
condiçõas naturaes da vida vegt tal ou animal, Koppen imaginou 
a sua no cavei classificarão de climas, baseada sobre as forma- 
ções e 8S30ciações das plantas, e subsidiariamente dcs animaes, 
classificação que Flahaul resumiu no seguinte quadro synthetico : 

I. Tisnas megather micas : 

l. a Clima das lianas. 

2. a Clima das savanas tropicaes. 

II. Zonas xerofilas : 

1.* Clima da tamareira; 

2. a Clima do saxaul ; 

3 a Clima dos steppes herbáceos. 

III. Zonas mezother micas : 

1.* Clima da oliveira ; 
2.* Clima do milho ; 
3. a Clima da camélia ; 
4.* Clima das altas savaras. 

IV. Zonas microther micas : 

1.* Clima dos carvalhos, de folhas caducas ; 
2. a Clima das bétulas. 

V. Zonas hekistothermicas : 

1.* Clima da ra ;osa branca (tundraí árcticas); 
2.* Clima do pengmm (tundras antárcticas) ; 
3.* Clima do yak (Thibet); 
4. a Cima da camursa Alpes). 

No Brazil é a vegetação, acima de tudo, que dá feição 
especial ás diversa* zonas n&turaea. 

A floresta cobre a baixada do Amazonas como as margens 
dos rio3, que correm p lo interior do paiz, e as plantas das 
montanhas, que acompanham o littoral. 

Em contiaste com as flores a* estão os sertões, devido não 
tanto á natureza do solo quanto á raridade e incorstincia das 
precip taões. Servindo de meio termo entre as florestas hy- 
drophyla* e os sertões xerophylos se extendem os campos, onde 
predominau as plantas herbáceas, em substituição ás formações 
e £s;ociaçõ38 arbóreas. 

Mas a floresta, que enche a basia do Amazonas, não é a 
floresta, que acompanha o curso dos rios ou o flanco das mon- 
tanhas. 



— 323 — 

Para notar a differença entre a floresta da baixada ama- 
izcnica e a das Eerras ao longo da c sta, ba*ta obcervar a sub- 
vegetação de uma e de tutra: na primeira imperam as liana*, 
cuja tendenca é se apoiarem, se agarrarem e se enrclarem nas 
grandes aivores, em busca de ar e de luz; na segunda pre- 
dc minam as parazitas, que se alimentam á custa das espécies, 
que lhe dão hospedagem, e as epiphytas, que vivem sobre as 
arvores, sem nada mais exigirem que domicilio. 

O mais interessante é que os Esladts se distinguem pda 
peculiaridade de suas orchideas. 

Pernambuco possuo a catt leya labiata varnerii, a granulosa 
e a autumnalis em tão grande quantidade que de uma vez os 
xícllectores exportaram 60X00 exerrplares; Amazona?, de jar- 
ceria com Pará, as cattleyas superba e tldorado ; Bahia, as cat- 
tleyas aclandii e amesthysto globcssa e as lcelias flava e gran- 
ais ; Espirito Santo, as cattleyas schofieldiana, schilereriana, 
crispa, e a Jcelia xantina ; Rio de Janeiro, as cattleyas lobata 
e gutata, e a loolia perrini', que se estende a Minas e S. Paulo, 
Minas a cattleya walkeriana e a Jcelia jongheana; S. Paulo, a 
cattleya burlingtonia fragan?, e a loelia crispa, que também se 
encontra nas montanhas da Tijuca e da Gávea ; Santa Catha- 
rina, a cattleya Leopoldii, e as loelias pineti, dayana, purpu- 
rata e elegans ; Parará, a cattleya intermédia, commum a S. 
Paulo e Sanla Catbarina. 

Dá- se afgumas vezes que as cattleya? e as lcelias de um 
Estado se e tendem a outrop, .mas isto quando estes, de con- 
junto, com aquelle, forrram uma região natural, como sue sede 
•com a cattleya intermédia commum a Pa'aná, S. Paulo e Santa 
Catharita, e a loelia perrinii, commum ao Rio de Janeiro, 
Mines e S. Paulo. 

Na Serra do Mar é extraordinária a variedade dos onci- 
•diuns, cada qual mais interessante pela belleza das formas e 
combinação das cores. 

Se, porém, os oncidiuns não se prestam á cultura, as cat- 
tleyas e lcelias florescem mais vigorosamente qrar.do cultivadas. 

Por ahi se vê como as orebideas, extraordinariamente sen- 
síveis ás influencias de calir, luz, humidade e outros elemen- 
tos ambientes, podem servir de pedra de toque ao todo de 
condições, que formam os climas, e, portanto, es habitats, em 
que vivem as plantas e os animaes. 

As plantas cultivadas e os animaes domésticos não se pre- 
stam menos á determinação exacta dos differentes factores, que 
constituem a idéa fundamental de meio- 

A cultura das plantas depende tanto dos músculos do ho- 
mem qu*nto dos raios do sol, e nestas condições as plantas 
cultivadas, por sua vez, devrn ser ernsideradas um dos prin- 
cipaes elementos de classificação natural das zonas geogra- 
pbicas 

Mas as plantas cultivadas e os animaes domésticos indi- 
cam nã" somente meios differentes, mas ainda gráos diversos 
de civilização. 



- 324 — 

A cultura social filha do plautio do café não é a cultura 
proveniente da olheita do mate; a cultura social oriunda do 
fabrico do assucar não é a cultura resultante «la extracção da 
borracha. 

As antigas civilizações do Egypto e da China se caracte- 
rizam, a primeira pelo cultivo da cevada, do fomento, da vi- 
nha e do linho ; a segunda pel » cultivo do arroz do chá, da 
amoreira e do algodão, cultuias mais antigas que suas primei- 
ras dynastias. 

O grande ab lo produzido em todo orbe terrestre pela 
descoberta da Ameaça é devido s bretudo á aclimação das 
plantas cultivadas do antigo continente nas vastas regiões do 
Novo Mundo. 

A introducção das plantas americanas na Europa produziu 
maiores effditos sobre a civilização occidental que a invasão 
do império romano pelos bárbaros. 

Nem podia ser de outra maneirs r desde que o homem não 
cultiva as plantai s?não para se alimentar e vestir 

Da mesma sorte que as plantas cultivadas, os animaes do- 
me ticos ao mesmo t^mpo que estão subjrdinados ás condições 
naturaes, que constituem o meio devem ser considerados um 
importantissimo factor de civilização. 

A domesticação dos animaes é uma das mais bellas con- 
quistas da engenhosidade humana, considerando-a Payne a 
base de todo progresso social, a chave de toda interpretação 
histórica. 

O certo ó que no Brazil a criação do gado, que não po- 
dia tsr logar na região das florestas, constituo o principal ca- 
pitul i da histeria da vida colonial, povoando os campos e ?er- 
toe* e satisfazendo a tríplice necessidade fundamental do ho- 
mem, a alimentação, a vestimenta e a habitação. 

«De couro, escrere Capútrano de Abreu, era a porta das 
cabanas, o rude leito spplicado ao chão duro, e, mais tarde, 
a cama para os part s ; de couro todas as cordas, a borracha 
pira carregar agua, o mi có ou alforge para levar comida, a 
maca para guardar roupa, a mochila para milhar cavnllo, a 
peia para prendel-o em viagem, as bainhas de faca, as broacas 
e surrões, a roupi. de entrar no mat<, os banguét* para cortu- 
mes ou para apurar sal; para os açudes o material de aterro 
era levado em couros »uxados por juotas de beis, que calca- 
vam a terra com seu p3so; em couro pisava- se tabaco para o 
nariz». 

An la hoje os sertanejos se vestem de couro e de couro 
fabricam seus mais necessários utensílios domésticos. 

C« m as boiadas se conservaram abertas as estradas se co- 
briram de curraes as margens do S. Francisco, se multiplica r am 
as viagens pa~a Pe nambuco Bahia e Minas, se integram as 
feiras de f»rinhi, queijo e rapadura e surgiu o typo do sertã' 
nejo typo de activ* ade e intrepdez, em con>apoHçi»o ao 
matuto, tardo plantador de mandi c^ farinha e milho, o typo 
do vupueiro ou 6 iadeiro, typo original de subjuga ^or da força 



— 325 — 

■e do espaço, de vencedor de famosos barb^tões e imm.nssw 
distancias, figura obrigada do Filk-Lcre. 

Na «época do couro», de que tala Capistrano de Abreu, 
havia poucos cuvallcs, raras cabras e ovelhas e quasi nenhum 
muar. 

O que caracterizava, dava o tom á paisagem do sertão, 
eram a b iada e o boiadeiro. 

Incontestavelmente, as formações e associações de animaes, 
maxime quando estes, como succede com o boi, se deixam sen- 
sivelmente influenciar pelas condições do meio, devem prestar 
grande auxilio a uma classificação natural de zonas geogra- 
phi:as ; map, em todo caso, o estudo da geograph a animal é 
muito mais complicado e traz resultados muito menos rigorosos 
e exactos que o estudo da geographia vegetal pa:a o conheci* 
mento das condições climatéricas e edaphicas, que constituem o 
meio biológico. 

A razào é que as plantas não se locomovem e, pre?a3 ao 
solo, estão mais subordinadas ás influencias ambientes, das 
quae3 se pedem dizer escravas Sua* áreas de repartição são 
menos extensas, e, por isso mesmo, mais fixis. 

Por c nse^uinte, ó sobre as espécies, formações e socieda- 
des das plantas que con-vem insistir como bise fundamental, 
etiqueta reveladora, de uma classificação natural de zonaB 
geographeás. 

Os vegetaes, ensina J. Brunhes, constituem pequenos < todos» 
que revelam o effoito decisivo do meio, no qual vivem. 

Sãn principalmente as plantas (com todas as suas exigên- 
cias de calor, luz, humidade, electricidade e mais condições 
tBcologicas) que devem ser estudadas em funeção da aihmcs- 
phera e do selo para determinação exacta do habitat em que 
nascem e se desenvolvem os seres vivos. 

Infelizmente, bem escassos esupeificiaes são nosses coi bo- 
cimentos sobre as n ssas formações e associações vegetaes, pa a 
que seja possível estabelecer uma exacta e rigorosa classificação de 
zonas geogr-aphicap, de acordo com o todo das condições ambientes 
que sebre os climas * flereceni informações, pelo menos mais 
proveitosas que os difíerentes thermometres, barómetros e plu- 
viómetros. Mas podemos »ffirmar que o que cara teriza os sertões 
ó a vegetação arbórea, escassa, baix», enfezada, pouco variada. 

Nos sertões, as arvores são rachiticas, enfezadas e tortuosas, 
em consequência das precipitações raras ou irregulares. Em 
cah ndo, pirem, chuva, o capim resecado pelo ardor do sol, se 
transforma como por encanto, em viridente relva. O chão todo 
reverdece e as a vores garranchosas se cobrem de tantas folhas 
que se tornam frondosas. 

Os campos são em geral j lanic'os cobertsp, em sua maior 
parte ou qu si na totalidade, de gramíneas e de variaB outras 
plantas herbáceas, ordinariamente rasteiras, que constituem 
abundantes pastas para os animaes* 

Succede muitas vezes que os campos são entremeiados de 
-arvores, ca isoladas, ora agrupadas em capões, que quebram 



— 326= — 

a monotonia do descampado e abrigam dos raios do sol os ami- 
mães. 

São estas as differenças existentes catre as florestas, os 
campos e os sertões, difíerenças que se traduzem em tantos 
attrativos, em tantas situações económicas, em tantas manifes- 
tações de actividade intellectual para o palz inteiro; mas em 
todo esse variegado scenario, que vai desde os gigantescos 
madeiros até a rasteira relva, salpicada de mimosa* flores, não 
esqueçamos a ausência,, no? campos e sertÕ3s das lianas, pa- 
rasitas e epypbitas, que caracterizam e ao mesmo tempo or- 
namentam as florestas, cubram estas a baixada do Amazonas 
ou acompanhem as margens dos rios e as encostas das serra» 
ao longe do littoral. 

NOTA DA REDAÇÃO 

A propósito deste erudito trabalho do nosso distintíssimo 
consócio dr. Artbur Orlando escreveu lhe o illustre criticista 
brazileiro dr. Silvio Romero uma carta de que, com a devida 
vénia, transcrevemos o trecho principal: «...li o seu extraor- 
dinário cap. sobre as classificações das zonas brazileiras. Apre- 
ciando a classificação de Refeouças e a minha própria, faz V. 
avançar o assumpto com observações novas, profandas e curio- 
síssimas. Pel) que diz respeito á classificação das zonas pela 
planta útil predominante, planta de valor social, pelo ai mento 
que forneça ou pelo valor commercial que tenha, assuupto que 
V. declara, com toda razão, não estar estudado, janto lhe re- 
metto um esboço de classificação que V. poderá dar, em nota 
ao final do cap , quando o publicar em livro» . 

Graças á gentileza do nosso consócio, publicamos em se- 
guida o esboço, a que se refere a carta e elaborado pelo sr. 
dr. Silvio Romero. 



Esboço de classificação pelas plantas 

«Ao amigo Arthur Orlando, a propósito do seu admirável 
estudo das zonas geographicas brazileiras, offireç) este esboço 
de classificação pelas plantas úteis predominantes : 

A Zona da seringueira, terras do valleamazmico 

e confluentes, comprehendendo Pará, Amazona3, 
Acre e parte de Matto Gros30 ; 

B Zona da castanha e do assahy, terras infe- 

riores, principalmente, do mesmo valle amazonico; 

G Zona do bacory, terras do Pará e Maranhão,, 

entre o agreste e a cosia ; 



— 327 — 

D Zona do piquy, região sertaneja do norte — 

desde o Rio Grande do Norte a Piauhy e Mara- 
nhão; 

E Zona da carnaúba e da mucunan, região clás- 

sica das seccai do Noite; 

F Zona das catingueiras, mangabeiras e imbu- 

zeiros, região do agreste dcs Estados de Pernam- 
buco, Alagoas, Sergipe e Bahia, entre a matta e 
o sertão propriamente dicto ; 

G Zona do mangue nas costas marítimas alaga- 

das, por todo o paiz ; 

H Zona do cajueiro e da pitangueira, ncs tre- 

chos Eêccos da costa do sul do Rio de Janeiro até 
Maranhão ; 

I Zona da coqueiro, nai costas seccas da Bahia 

até Ceará e Viauhy ; esta se estende pelo interior 
das terras algum tanto e também paia norte e sul ; 

J Zona da mangueira, nas terras afastadas da 

orla marítima ircmediata, entre esta orla e a re- 
gião da matta, de Santos ao Pará ; 

K Zona das madeiras de lei ou da rratta virgem, 

por toda a depressão oriental do paiz, entre a 
costa e o planalto, desde o Rio Grande do Sul ao 
Pará, reproduzindo-se na depressão Occidental e 
na do norte ; 

L Zona do pinheiro, no planalto desde o sul de 

Minas até o Rio Grande do Sul; 

M Zona do matte, do planalto para o oeste em 

demanda da depressão cc:identa', desde as lom- 
badas de Paraná e S. Catharina ás regiões con- 
géneres de Matto Grosso. 

A esta? zonas de plantas indígenas, úteis á alimentação 
quasi todas, e outras úteis ao commercio, para construcções, etc. 
poder -se-ia juntar, a de pintai acclimadas utilíssimas: 

A 7 Z na da canna de assucar, nos Estados do 

Rio de Janeiro, E. Santo, Bahia, Sergipe, Per- 
nambuco, Parahyba, Rio Grande do Norte e até 
Maranhão, na? clareiras das mattaa ; 



— 328 — 

. B' Zora. do cacáo, especialmente no Sul da Bahia, 

podendo ser cultivado em todas as zonas quentes 
até o Amazonas ; 

C Zona do café, principalmente no Sul da Bahia, 

E. Santo, S. Paulo, Rio de Janeiro e Sul de Minas ; 

D' Zona do arroz, em todas as baixadas, princi- 

palmente em Maranhão, margens do baixo São 
Francisco, Iguape e suas cercanias. 

Poder-se-ia falar também na zona da mandioca; esta por 
todo o Brazil, nas regiões desbravadas da matta, desde o Pará 
ao Rio Grande do Sul. Idêntico é o caso da banana, que, po- 
rém, não desce tanto ao sul». 



MISCELLANEA INDÍGENA 



PELO 



Dr. Jorge Maia 



Sócio effectivo do Instituto Histórico e Geographico 
de S. Paulo. 



MISCELLANEA INDÍGENA 



Bem a contra gosto s u forcado a sair do silencio a qua 
voluntariamente me condemnei para não perturbar a impavidez 
com que uma serie de sábios se afanavam em escrever e dis- 
cutir sobre ethnographia e linguistica do3 aborígenes da America, 
nem expor- me ao dissabor de discatir com quem não possuía 
conhecimentos seguros da matéria de que se occupava Não ba 
nada mais desagradável, mais acabrunhador do que discutir 
qualquer cou*a com quem a não conhece. Instado por amigos 
a quem não posso recusar- me venho iniciar uma seria de me- 
morias com a denominação de cMiscellanea Indígena» onde 
irei tractando livremente daquillo que mais me convier ou 
venha a ser solicitado por uma clrcumstancia qualquer. Só 
tratarei daquillo que eu souber e poder dar uma definição ou 
solução racional, conscienciosa, mas nunca hypothnica nem fun- 
dada em dizeres alheios e balios de critério. E' possível, en- 
tretanto, que ilgumas vezes tenha de recorrer ao testemunho 
de escriptores ou autoridades que me mereçam fé ou tenha 
delias necessidade para corroborar ou jnstifhar o qie eu disser. 



I MEMORIA 

Tupy, Guarani ou Tupy -Guarani, Caraíba. etc. nunca 
foram línguas, nações, tribus ou cousa que os valha. A liogua 
falada pelo maior povo que habitou a America do Sul pela 
costa do Oceano Atlaitico e seus grandes afflientas, entrando 
até pelo interior, mas seguindo sempre as proximidades dos 
grandes rios, tem dous nomes : Abanhee. nga. ngi % lingua do 



— 332 — 

aborígene, em opposição a karaínhee nga. ngi, língua portu- 
guês, hespaahcla, etc. e Nhengatú, lingua-bôa, em opposição 
a nhengai. ba.bi, lingua-má (algaravia), línguas faladas por 
outros povos, também indigf nas, mas não comprebendidas por 
aquel!e povo. Povo sem cultura, sem sociedade homogénea, 
vivendo disperso por um território immenso, dividido em hordas 
ou tribus, ora numerosas e fortes, ora limitadas e fracas, em 
guerras quasi continuas pela posse de territórios, dos rios, etc. 
de onde tiravam dcs productos Datoraes, da caça e da pesca, 
seu sustento quotidiano, não podia ter, ou ao menos si teve, 
não podia conservar, um nome collectivo que abrangesse todo 
esse grande povo. Cada horda ou tnbu tinha seu nome. Mas, 
esses igenuos filhos desta immensa terra também tinham, como 
o eurrpfeu e outros povos, a vaidade da nobreza ou prioridade 
de sua origem ou descendência, por isto, quando se perguntava 
ou pergunta a um selvicola desse povo — o que elle é — responde 
logo xe typy sou dos primitivos, isto é, sou descendente dcs 
primitivos ou primeiros senhores, donos, povoadores, etc. desta 
terra. Daqui nasceu a denominação de tupy, que, não sendo 
verdadeiramente o nome collectivo daqu lie povo, não se o 
pode ccnsicerar de todo errado ou destituído de certa razão de 
ser, ao menos como denominação geral ou nacional. 

Guarani (de Guááa, part. prés de kó, v. int., ser, estar 
etc, adj , e sub., o que é, está, fica, rxanesce. permanesce, etc, 
e do adv Ni, certo, de certo, com certeza, certamente, etc), por 
sua vez, é uma denominação emphatica que davam e dão a si 
próprios daquelle povo os que também divididos em bandos ou 
tribus, habitavam e habitam o Paraguay, Mato grosso, Repu- 
blica Argentina, Rio Grande do Sul, etc, de onde provavel- 
mente vieram até S. Paulo. Perguntando -se a um individuo 
desses o que elle é — responde com certa emphase — Xe guarani, 
que equivale a — sou dos firmes, fixos, manentes, resistentes, etc. 
De modo que, ainda esta denominação, não é de todo errada, 
nem destituída de sua razão de ser. 

Tupy -Guarani, portant r , é uma denominação que fica 
abrangendo todo o conjunto de povos falando o abácheenga ru 
nheengatú, disseminados pela maior parte da America do Sul. 

lapuia, por sua vez, não é nome de povo, naçãc, cu cousa 
similhante , nem de língua falada em parte alguma ; é a cor- 
rupção de Tápyyi (de Tápy. ra ri, part. pac. de Tá tomado,, 
prisioneiro, etc e Yi, adj. e sub,, gentalha etc) denominação 
que davam os tupy-guarenis as seus prisioneiros de guerra, 
que escravisavam e appli avam a seus rudes traba lhos, ou con- 
servavam como tropheus, como reféns, ou como simples objectos 
de luxo, de go°"*, em cujo caso tinham então outras denomi- 
nações : Aguaçá, mboyá, iembyáay^u ou tembiay^ú. 

Káraí ba, bi (de kára, invasor, usurpador, etc e aí ba bi y 
mau, etc), foi a denominação dada tanto pelos tupys aos por- 
tuguezes como pelos guaranis aos hespanhoes pelas maldades 
praticr das por elles contra os íncolas, denominação que não 



— 333 — 

ficou limitada aos indivíduos daqoellas nacionalidades, mas 
passou a sinificar — christão, baptizado, europeu, branco, etc. e 
até lavado á sua língua (Káraínheeng*) e á< suas cousas sa- 
gradas, taes como : Kárai bebé (branco que vôa). anji : Itkárai 
agna benta; Yandy (nhady) kárai, santo i -óleos ; Yukykáraí t 
sal-bento ; Mongarai fazer christão, baptiza- e abençoar; Ikáraí 
eimbaé, ainda não baptizado, pagão, etc. lupa tapemongárai, 
Deus vos abençoe, e lupa tandemongnrai, Deus te abençoe 
locuções empregadas por Anchieta e seus companheiros de 
missão quando se dirigiam aos seus cathecumenos. 

Ora, si a deaominação Káráí. ba bi teve e tem tal applicaçâo 
(europeu baptizado, christão, santo, bento, braico, etc.) ermo é 
que os classificadores de nacionalidades, 1 nguas, etc , q ■« elles 
não coi.h j cem, nem tâm base alguma scientifica para essas clas- 
sificações, inventaram um grupo karaiba que nunca foi deno- 
minação indígena ? T das estas cias sfi caçoes caem logo pela 
base — falta de conhecimentos de todas as línguas falada» pelos 
diversos povos, única base scientifica para uma cia sificação 
seria, racicnal: 

Cada sábio europeu, toma essa serie de vocabulários, cada 
qual o peor, o mais estr» piado, tomadí s a galrpe e sem o menor 
critério por viajantes que passam, e quando se demoram não 
estud in o mechaai?mo gammntical das línguas de que tomam 
os seus mal amanhados vocabul irios, maia geralmente copiados 
uns dos outros, que não tem, portanto, valor nenhum scienti- 
fico. e com estes uniers elementos fazem as sua? manca di- 
visões e cl ssificações nas quaes sempre fica n fora povos e 
linguas que não sabem onde metter, e com isto procuram im~ 
panz ; nar os incautos e ignorantes da matéria, que, co> fiados 
na sap encia de taes sábios, repetem sem o menor exame e 
conscien ia o que elles escreveram e classificaram. 

No mesmo caso está Tapuia, que, como já vimos, não é 
n?m nun -a foi povo, nação, 1 ngua ou cousa similhante. Na 
Aed>z nia tapuio e tapuia são tidos os servicolas e seus des- 
cendentes, puros ou mestiços, civilizados ou não, tupis u de 
outras rfcç s. 

Em vista do expendido as classificações de Karaíbas o 
Tapuios são falsas com. letamente e não podem persistir como 
classificações ethnographicas. 

Voltarei sobre o assumpto. 

S. Paulo, 5 de março de 1910. 



II MEMORIA 

Já i imos em minha primeira memoria lida perante este 
Instituto em 5 de março p. p. que Taiuia não é norre e povo, 
nação nem cousa similhante. nem língua falada em pare al- 
guma — é simplesmente o ensurdecimento ou corrupção de Tápyyi, 



— 334 — 

derivarado de Tápy. ra-ri, part. pac. do v. tr. Tá. ra. ri, abso- 
luto de A. ra ri, tomado, aprisionado, etc. e Yi, adj. e sub. 
collect., gentalha, etc, denominação que davam os tupi- gua- 
ranis aos seus prisioneiros de guerra ; entretanto vemos men- 
talidades tão cultas como sejam os srs. drs. Alfredo de Carvalho 
e Nelson de Senna e outros, repetirem e perpetuarem o grande 
erro dos classificadores apressados. O sr. dr. Nelson de Senna 
extende este erro até ccnfundil-o e egualal-o com Tamoio, que 
diz derivado de Tamuya ou Tapuya — o avô. (Os índios do 
Brasil pag. 16). Sinto profundamente que uma tal mentali- 
dade descaísse tanto em matéria de linguistica aborigine. São 
as consequências da leitura do Glossaria Linguarum de Mar- 
tius e outros que taes livros que melhor fora tivessem sido 
queimados ao sair dcs prelos. 

Tamoio, Tamuia, Tamunha, etc. são corrup. de Támoin x 
Ta. ba. bi, aldeia e moi. na. rida ndi. ni (razer estar), fundar, eri- 
gir, etc, epor abreviação fundador, etc, e Támonhã, de Tá, taba, 
e Monhã, fazer, construir, etc, e como o precedente, também 
por abreviação, constructcr, edificador, etc. Ainda ha uma 
forma também empregada para designar — Avô, o erector, fun- 
dador, constructor, edificador, etc. da taba, que é Támyi, de 
Tá) taba. e Myi, (Figueira, Gratrjm. pg, 77 : Anchieta, Gramm. 
pg. 18 : Cat. Braz pg. 211\ lidador, da taba. Devo notar de 
passagem para conhecimento t?os que não são versados nos segre- 
dos das línguas dcs nossos selvicolas que as formas gramma- 
ticalmente correctas daquelles voehbulos seriam lámoindá. ra. 
ri, Támonhãngá. ra. ri. e Támyitá ra. ri, part. prés. adj. e 
sub. dos verbos fundar, construir e lidar a taba, mas p la lucta 
pelo mencr esforço, tão usada pelos nossos selvicolas, ve-se 
frequentemente elidir o suff. do part. prés. e deixar o verbo 
na sua forma infinitiva. 

E' deste sub. que vem o de Támoindárê. ra. ri. t preter. de 
Támoin, vulgo — Támandró. 

Fica, portanto, evidenciado que Tamoio e Tamunha (como 
se diz na Amazoniaj, avô, nada tem com Tapuia, prisioneiro, 
escravo, etc. E tanto é assim que ao3 negros escravos os 
selvicolas denominavam lápyyiuna, escravo negro ou negro 
escravo. 

O próprio sr. dr. Alfredo de Carvalho em seu tãa bem 
elaborado trabalho c Prehistoria Sul-Americana » também dei- 
xou se transviar por aquella fatal Sereia dando á denominação 
Tapuia es significados de — o etrangeiro, o inimigo, o bár- 
baro. Nenhuma destas accepções pod^m ser dadas ao vocábulo. 
Extrungeiro é Kúpeguára, Ybymarãndêê ■ guará. Tábamrãndêê- 
guara etc. Inimigo é Amotáreimbára Poroamotáreimbára, etc. 
Barbar, é Járckuábimbaé, Yakuábekóimbaé, Ka (Kaá) Yguára, 
Anãmin e outros. 

Já vimos também naquella primeira memoria que Catibai 
Cartyba, Cariba, kariba, etc. não é como diz o sr. dr. Nelson 



— 335 — 

de Senna « A grande nação » ("Os índios do Brasil, p. 17) nem 
tão pouco c A Familia Carayba» « A familia linguistica dos Ca- 
rahybas » (obra cit. pg. 22). Karai. ba. bi, de &ára. ri, gut- 
turalisaçâo de Tara. ri, sub. deriv. do v. t. A 1 ra. ri, apode- 
rar-se de alguma cousa ou pessoa, dahi — tomar, prender, etc. 
Yára, significa — dono, senhor, etc Kára, 8'gnifica — usurpador, 
invasor, conquistador, etc. Káral ba. bi, compõe- se, portanto, de 
Kára, usurpador, eto. e Aí ba. bi, adj., máu, ruim, perderão, 
etc. e significa — invasor, conquistador, usurpador, etc. máu, 
denominação dada tanto por tupis E03 portuguezes como por 
guaranis aos hespanhoes pelas atrocidades praticadas por estes 
europeus para com os pobre3 selvicolas que tão confiada e ge- 
nerosamente os receberam em suas terras, em suas tabas. Mon- 
to ya, o grande evangelisador dos sertões do Paranã do Para- 
guty e outros, que não pode ser suspeito, em seu tesouro diz 
— < Carai ò, astuto, mafioso. Vccabulo com que honraram a 
sus hechiceros universalmente : y assi lo aplicaran a los Epa- 
noles, y mui impropriamente ai nombre Cbristiano, y a cosas 
bendit&s». O aut r da tiaducção Guarani da Conquista Es- 
piritual, companheiro de Montoya, e que portanto não pode 
ser suspeito, uma infinidade de vezes emprega o vocábulo de- 
signando christãc, europeu, baptisado, etc. Indo 8 gora ao Norte 
vemos em Yves d'Evreux, sacerdote e missionário, e portanto 
também insuspeito, empregar frequentemente a palavra Kárai, 
designando — senhor, branco, chnstão, europeu, etc. No mo- 
numental Catecismo Brasílico composto por riedosos missioná- 
rios portuguezes, aperfeiçoado pelo padre António de Araújo e 
emendado pelo padre Berthclameu de Learr», que também não 
podem ser acoimados do suspeitos, encontra-se por diversas 
vezes, Kàraí. ba. bi, designando cousas sagradas. 

Ora, si como vimos na primeira memoria e agora nesta, o 
sub. Kárai ba. bi, significou e significa — senhor, branco, euro- 
peu, christão, santo, bento, sf grado, etc. como é que pode 
também designar « Grande nação » < Familia Carahyba » c Fa- 
mília linguistica dos Carabybas », como diz o Br. Nelson, em sua 
obra já citada. Até o illastre e operoso sr. dr. Alfredo de 
Carvalho foi levado na onda do caraibismo Quando podem a 
boa f é e a confiança ! 

O emérito botânico e observador conspícuo von Martiua 
apezar do afogo em classificar os selvicolas do Brazil em 8 gru- 
pes sem ter para isso elementos suficientes, precisos, a não 
ser a pequena serie de vocabulários insignificantes, cada qual 
o mais estropiado, ci piados de quanto viajante a galope pas- 
sou por uma ou outra zona deste quasi immensuravel paiz, 
sem a menor noção grammatical de línguas que elle não sa- 
bia, não teve o arrojo do sr dr. Paulo Ehrenreich, que, por 
ter sido companheiro e auxiliar de von den Steinen, em sua 
viagem ao Xingu, e uma ou outra viagem de passagem, jul- 
gou se habilitado a também fazer a sua classificação, também 
em 8 grupos, como Martins, conservando apenas 4 dai deco- 



— 336 — 

minajõe,3 daquelle, dando porém outros ncmes aos outros 4 
grupos, sendo um o de Crahyba, para fazer crer aos incautos 
que a obra era sua. De que elementos se serviu o sr. Eh- 
renreich para coordenar, comparar, estudar, fazer em fim a se- 
paração, grupamento e classificação de tão*grande numero de 
línguas faladas pelos selvicolas do Brazil ? Sem duvida dos 
mesmos de que se serviu Martins, accrescidos de mui poucos 
subsídios obtidos posteriormente. 

Estas classificações são feitas unicamente pa-a armar a 
effeito, para mostrar sapiência, não têm nada de scieatifico, 
não têm nada de serio. Emquanto não se possuir boas gram- 
maticas das linguas faladas por todas nações, povos, tribus- 
etc. que habitam o Br&zil, secundadas por diccionarios seria, 
mente organizados, qualquer classificação que se fizer cae pela 
falta de base — carência de estudes scientificamente feitos. 

Com o tempo karaí tornou se uma expressão respeitosa 
correspondente a— senhor, substituindo o Yára. ri. E' neste 
sentido que Montoya diz Vocábulo com que honraram a sus 
hechizeros. No caso vertente trata dos Paié, de Páí, vocat, 
respeitoso empregado para com os anciãos e pessoas gradas, 
respeitáveis e .ET, adj. e adv», differente, diverso, distincto, 
etc, conhecidos vulgarmente por Pajé. Simão de Vasconcel- 
los também diz: Tem grande canlha de feiticeiros agoureiros, 
& bruxos. Aquelles (a que chamam Payes, ou Caraybas,. No 
Praraguay é correntemente empregado nesta accepção. Em 
Tuyuty, na guerra contra o governo do Paraguay, quando pela 
primeira vez subiu ao ar um balão, mandado para la, a fim de 
se pider devassar o campo inimigo, o sentinella paraguay 
que se achava no mais alto mangrulho de observação, aterrado 
com o que via, e duvidando dos seus orgams visuaes, limpou os 
tanto quanto poude. A cousa era real; era de facto um mons- 
tro nunca por elle imaginado o que via. De ce apressado, 
e possuído de um terror que quasi lhe embargava a voz, corre 
á barraca do general em chefe e diz-lhe Kárai-guaçú. Mbaé 
mborubixá-guaçú okakuá-okakuá oú mêmê oú mêmêl Grande 
senhor. Uma cousa que contem em si a grandeza grande 
cresce -cresce, approxima-se approxima-se sempre sempre. O 
general não podendo de prompto comprahender ao que se re- 
feria o soldado corre ao mangrulho, observa e reconhece o 
objecto. 

Na Amazónia, onde o abánhee se acha tão profundamente 
corrompido e ensurdecido metaplasmaram o vocábulo em Ka- 
riua com a accepção. 

Além do já citado de Montoya apresento mais o seguinte : 
Kunhã-káraí , mulher espanhola, Anhemongyiká kárai upê, 
alugo-me ao branco. Káraí-ãngatúrã homem nobre. Kárai" 
nhemonhãngába, vereança, municipalidade e outros. 

Do Catecismo Brasílico es seguintes: Ykáraiba, agua ben- 
ta. Tanimbú-káraiba, cinza benta. NTiandy-káraiba^ santos 






— 337 — 

olecs Yuky káraíba, sal bento. Káraiba nde teu patrão, o 
ká cibo. pupê, para Beu senhor. Yande káraí bê é, nosso an- 
jo. Káraí poranga, anjo bonito, Káraí bebé acê rarõãna, nosso 
anjo da guarda. Káraímonhã, faaer chistão, baptizar e outros. 
Da Conquista Espiritu il cita ei : Icáraíeimbaé , n*o 
christão, pagão, Ikáraíbaé, já baptizado, cbristão. Káraí nhee, 
lingna do innzor, do b:anco, do europeu, bespaDhol. Ikáraí- 
pyaçúbaé, enrista*) novo. Káraíretã, patna do branco, do in- 
vazor, do europeu, Europa. Káraf-rubixá poderoso, potente, 
etc Káraí taba, povoação de christãos, villa, cidade, e ou- 
tros. Ina longe si quizesse citar outros escriptorss antigos. 

8. Paulo 5 de abril de 1910. 



III MEMORIA 

E' com o coração confrangido que venho hoje ler esta 
Memoria por ter de referir-me a um homem que já pertence 
á historia e não mais pode terçar commigo a arma da discus- 
são anrga. Refiro-me m> nosso nunca assaz pranteado compa- 
triota dr. João Barbosa Rodrigues, tão prematuramente rcuba lo 
á Pátria e á sciencia que elle tanto amava. Como sabei?, não 
venho tratar da individualidade intangível daquelle illuètre 
Ecientist?, mas sim das suas obras que são património nacio- 
nal, universal mesmo. Não venho tão poueo tratar dos seus 
memoráveis trabalhos botânicos perante os quaes me sinto pe- 
* queoo; venho apenas contestar factos da linguagem dos nos- 
sos selvicolas considerados por aquelle illustre sábio sob pontos 
de vista inezactos. 

Já vimos nas duas precedentes memorias que o sub. Kára. 
ri é legitimo e puro abánheea i pois provêm, como já demon- 
strei, do v. tr, Ara ri, do radie. Jir, apederar-se de cousas 
ou pessoas, e s gnifica usurpador, invasor, conquistador, etc. 
Entretanto, aquelle emérito scientista foi buscar em todas as 
linguas conhecidas homcgraphop, despendendo para isto uma 
somma de estado e esforço intellectual para provar ser elle 
exótico. Desculpem-me os illu^tres consócios insistir neste 
ponto que a alguns parecerá banal, mas que não é; t-ata-se 
de restabelecer a verdade sobre um pontj que, á força de ser 
repetido por homens notáveis, vai adquirindo f ros de verda- 
de. Como sabeis, na Amazónia o abáiheen está tão profunda- 
mente corrompido e ensurdecido que, mesmo na linguagem 
vulgar, é commum o enturJecimento do o pelo u. E' daqui 
que vem a phrase — «lá vaim uma canúa carr'gada d'cucus d' 
púpa a prúi» cem que costuma-se caçoar dos amazonenses. 
Devido a este vicio o sub. Moyrakytã-Mboyrakytã Poyrakytí 
acha se ensurdecido em Muyrakytã, etc , O sub. Ybirákytã, por 
sua vez foi corrompido e ensurdecido pel s tapuios da Amazo- 



— 358 — 

nia em Muyrákytã, dahi a facilidade com que se pode con- 
fundir um com outro e tomai- o um por outro. Foi aqui que 
cochilou o meu saudoso amigo. Moyrakytã, etc. é formado de 
Mboy, Moy Poy . ra. ri, toda a sorte de cousas (fructos, semente?, 
cocos caramujos, búzios, pedras, rezinas, etc.) duras que, furadas 
e enfiadas em series ou sós, serviam para trazer ao pescoço 
como adorno em forma de collar, e kytã, derivado de ky, molle 
e Tã, duro, significando uma cousa, que, sendo em sua origem ou 
essência, natureza, etc. molle, torna- se por qualquer circunstan- 
cia dura. A denominação de Mòoyrakytã, Moyrakytã e Poyra- 
kyrã foi dada aos amuletos de jade porque segundo a crença 
eram apanhados no fundo da agua onde eram trabalhados mo- 
les para se lhes poder dar as formas e feitios variados que ti- 
nham, e têm, visto ser uma rocha muito dura, e que ao serem 
trazidos para fora do meio liquido em que eram feitos endu- 
reciam e mccn tacto com o ar e adquiriam a consistência pétrea. 

Pela sua origem mysteriosa (para os nossos selvicolas) e 
pela sua raridade os moyrakytãs adquiriram qualidades em- 
prestadas rela fértil irraginação daquellas cre ancas adultas, 
cercando-cs de prestígios extraordinários e creando a seu res- 
peito lendas interessantes. Os moyrakytãs, não são poismuy- 
rákitãs (nós de madeira) como disse o sr. dr Barbosa Rodrí- 
gus por ter achado nelles similhança com nó de madeira. Quem 
já viu diversos moyrakytãs ha de concordar commigo que é 
só com o que elles não se parecem. Nó de madeira éybiáhytã 
e ymirákytã, de que fizeram Muyrákytã, 

Foi pois sobre tão falsos pontes de apoio que o sr. dr. 
João Barbosa Rodrigues assentou o eixo sobre que fez gyrar 
todo o seu monumental trabalho intitulado «O Muyrákytã eos 
ídolos symbolicos>. Quem lê esta obra fica realmente admira- 
do da enorme somma de esforço, trabalho e imaginação em- 
pregados por aquelle emnimente scientista. Mas quem conhe- 
cer o abánheen fica também surpreso pelo desembaraço com 
que el!e phantasiou tanta cousa. Assim vemos a pg. 202 linhas 
13-23 vol. II, Cy irá, Mãi de mel. Abstraindo do modo errado 
por que está escripto o sub. mel, que é Yra (assento sobre o 
y) e não irá, quem conhecer a índole da língua e tiver al- 
guma noção de grammatica verá logo que o selvicola não diria 
similhante barbaridade. Tal denominação não existe e si exis- 
tisse seria Ycy, porque quando concorrem dous sub para for- 
marem um composto o primeiro fica em genitivo, isto é, lê-ae 
o novo composto de traz para deante, como no caso verdadei- 
ro Yrú. ba. bi, Pae de mel, de Y. ra. ri, mel e Tú. ba. bi, pae. 

A pag. 215 linha I do II vol. lê-se *Takurú-uá ou Itá- 
kurú-uá, pedaço de pedra do céu, ou pedra divina». A forma 
correcta de escrever esta phraze, si fosse verdadeira, seria 
Itákurúbybá. ka. ki, de Itá, pedra, kurú. ba. bi, seixo, calhau, 
matacão, pedra rolada, etc. e Ybá. ka. ki, céu (o espaço side- 
ral). Mas, sobre ser pura phantasia similhante nome, si qui- 



— 339 - 

zessemos fazer um tal neologismo deveriamo sescrever Ybáki- 
tá-çui ou Ybákitá-receguá, ou simplesmente Ybákitá, pedra do 
céu, celeste ; ou Ytáháral. ba. bi, pedra divina, etc, mas este 
segundo já existe para designar a pedra d' ara. Pedaço de pe- 
dra do céu seria, correctamente, Ybákitá-pcenguê ra. ri, mas 
o sei vi cola não será capaz de dizer similhante disparate. Felis- 
mente o sr. dr. Barbosa Rodrigues disse que aquellas mons- 
truosidades são «pelo dialecto karaíba, dialecto que só elle co- 
nhecia». 

No mesmo vol. a pags XXIII lin. 25 e e Io7 lin. 14, de- 
para-se nos Itákamiába como nome de uma serra onde habita- 
ram as pretendidas Amazonas, portadoras das pedras verdes ou 
divinas e se compõe : «o nome Itákamiába, de Itá t e Ykamiá- 
ba, e significa serra das que não teem seio — porque Ikamiáòa 
é uma corruptella de y ellff, kam, seio, ny, não, eaba por aua, 
proposição verbal significando o vocábulo ciyado as que não 
teem seio, ou as teem pequenos, ou y, kam, leite, ny e aua a 
que não dá leite». E'-me realmente doloroso transcrever este 
período, onde se vê que da parte do autor ou houve muita 
confiança e boa fé em aceitar tudo que lhe disseram ou uma 
sem cerimonia em escrever inverosimilhanças que pasmam. Itá 
nunca significou serra, que é Ybyty, ra. ri, Quando mesmo 
por um grande esforço de phantasia se quizesse fazer de ltá, 
serra, ainda assim o nome estaria errado E si Ikamiába fos- 
se também um nome certo, a serra (a pedra) chamar-se-ia Ika- 
miábitá. A definição que dá de Ikamiába chega a ser irrisória. 
Quanto a I como pron. pess. da 3 pess. do sing., adj. posses. 
e relat. e suas enclit. não ha a menor duvida, bem assim quan- 
to a Kã. ma. mi, mamma ; mas quanto a nt, como adv., não, 
é pura creação do sr. B . Rodrigues : em abánheen não existe. 
Talvez se encontre no seu dialecto karayba. Mas não para 
aqui, ainda dá outra definição y, kam, leite, ny e auá Causa 
pasmo ler isto, nem parece escripto por um homem daquella 
estatura intellectual. Kã. ma, mbá mbi. mi, já vimos que si- 
gnifica mamma. Leite é Kãmby, liquido da mamma, a que não 
dá leite é Ikambyeimbaé, ou Ikãmyimbaé, que, a que, quem 
não dá, não tem, etc. leite ; não aleita, não amamenta. Que é 
de onde, talvez, provenha por corrupção o sub. Ikamiába. O 
suff. do part. nom. ába, não pode entrar em composição de no- 
mes de pessoas, por ser privativo de cousas e logares. Os sufi. 
que formam nomes de pessoas eâo baé, para v. int., prin. e adj, 
eára com sua variante ãna, para v. tr. 

O sr, dr. B. Rodrigues igaorava que a semi- vogal 7na- 
zaliza-se necessária ou facultativamente na dupla Nh, assim 
como pode gutturalizar-se em K, nazalizando-se depois em Ng 
e até transformar-se em X; que ella é também como I pron., 
art., adj,, enclit. etc. quando se lhe segue dicção começada por 
vogai, com a qual se assimila. Assim é que o pref. pron. da 
1.* pess. do plur. incl. — Ya % vem Nha quando concorre com 
dicção nazal. O pron. Yande % pode vir Nhande e até Xande. 



— 340 — 

O sub. Yaryi também se pronuncia Xaryi, de onde fize- 
ram Chariúi, e assim por deante. O 1 nunca foi naso-gut» 
tural como disse aquelle sr., nem Ya se pode transformar em 
niá, iná t vá t umá, uná. O rio Yamundá pode ser correctamente 
chama lo Nhamundá e até Xamundá t mas nunca Niamundá, 
etc; esta forma sim é que é uma corrupção. Muyrakyta vol. 
I pag. 19, linha 4;20, linha 4; vol. II pag. 127, linha 34. 

Voltarei ainda a tratar de alguns dos mais notáveis erro& 
linguisticos deBta obra, passando depois ao Mbiékaá do mes- 
mo autor. 

S. Paulo, 5 de junho de 1910. 



Extracto das Viagens de François Pyrard, de Lavai, 

relativo á estada deste navegante no Brazil, 

em 1610 

TRADUZIDO PELO 

Dr. Affonso cTEseragnolle Taunay 



Francisco Pyrard, de Lavai 



Nascido em Lavai, nas proximidades do anno de 1570, 
Francisco Pyrard que sempre faz acompanhar o nome da de- 
signação do logar natal, desde muito moço se affeiçoou ás via- 
gens e mostrou um caracter amigo de aventuras e sensações* 
Partido de Saint Maio, a 18 de Maio de 160], num navio cha- 
mado Le Corbin commandado por François Grout, senhor de 
Cios Neuf, embarcação fretada per nma commandita de nego- 
ciantes de Saint Maio, Yitré e Lavai, fundada para ensinar aos 
francezes o caminho das Índias e alli negociar, viajou Pyrard 
sem novidade até o cabo da Boa Esperança que dobrou a 27 de 
Dezembro. Na costa do Natal acanhou furibunda tempestade 
e a 23 de Maio de 1602 aportou numa das Ccmores. A pri- 
meiro de Julho naufragava o Corbin em uma das ilhas Mal- 
divas passando então os náufragos por mil padecimentos. Pyrard 
aprisionado pelos indigenai fui levado á presença do soberano 
da ilha de Malé que com elle sympathisou e o reteve junto de 
si, durante cinco annos, sempre lhe dando provas cie ami- 
sade, permittindo-lhe inteira liberdade de acção, d» que apro- 
veitou para enriquecer-se até que a ilha fosse atacada por tropas 
de um rei de Bengala que delia se apossaram matando-lhe o 
regulo . 

Os bengalezas levaram Pyrard para a índia e, vendo que 
era francez, trataram-no com muita deferência iestituindo-lhe, 
passado algum tempo, a liberdade. 

Aproveitou- se da concessão para visitar difíerentes locali- 
dades da peninsula indostanica: Chaly, Cananor, Calecut etc. 
Indo a Cochim, a conselho de dous jesuíta?, e com a esperança 
de obter meios de voltar á Europa, prenderam- no os portuguezes 
e o trataram com excessivo rigor, em duro cárcere, sob o pretexto 
de que era espião e lutherano. Deram-lho depois melhor tra- 
tamento quando aclarou sua posição no Oriente ; passados dous 
mezes foi á força embarcado, porém, num des navios de uma es- 
quadra que ia para Goa, e isso por ordem do Governador D. 
Francisco de Menezes. 

Algemado, com pesada grilheta aos pés, maltratadissimo 
durante a viagem pelo commandante da embarcação, enfermou 
gravemente-, chegando a Goa, baixou ao hospital ende esteve 
bastante tempo; ao convalescer encarceraram -n-> novamente 
até que a instante pedido do caridoso jesuíta francez Etienne 



— 544 — 

de la Croix, residente na cidade, no collegio de São Paulo, 
mandou o Viso Rey que o puzessem em libar dale; depois de 
muito reluctar ci mpelliram-nc, porém, a alistar- se como soldado 
e nessa qualidade serviu dous annos em diversas expedições por- 
tuguezas, tendo occanao de ainda na tndia, visitar o Dekhan 
Drs, Cambaza e a ilha te Ceylão. 

Da Ponta de Galles, paittu com a esquadrp, para Malacca, 
que acabava de repellir formidável assedio dos hoílandezes, au- 
xiliados p>r diversos régulos da reninsula. 

De Maiacca foi ter a Banton na ilha de Java, sobre o es- 
treito da Sonda, dalli á ilha de Madura e ás Mclucas, na ilha 
de Panda. 

De lá regi e sou a Goa, onde por ordem do Viso Rey Dom 
André Furtado de Mendonçp, foi novamente preso tendo-se to- 
mado a medida geral de encarcerar todos os estrangeiros á vista 
da suppcsta imminencia de nm ataque de hollandezes á cidade. 

A pedido de diversrs jetuitas de nacionalidade fraoceza 
ingleza e flamenga, foi Pyrard solto. A 30 de Janeiro de 1610 
obteve licema de jartir para a Eurrpa, na carraca Nessa Se~ 
nhora de Jesus, comraandante António Barroso, navio que viera 
de Portugal com três outros, commandados pelo celebre almi- 
rante e cosmographo mor D. Manuel de Meneze*, o con man- 
dante da e? quadra portugueza que cooperou na restauração 
da Bahia, em 1625, expedição de que deixou um diário muito 
conhecido, o desastrado general da grande frota que quasi toda 
de?appareceu no Oceano em 1627, nas costas de França. Correu 
a viflg m t9rmentosa; á cesta do Natal e3capou a Nossa Senh ra 
de Jesus, que levava enorme carregamento, de ir a pique: já 
em pleno Oceano Indico soflrera furibundo tufão ; muito maltra- 
tada teve de arribar á ilha de Santa Helena. 

A 14 de Julho de 1610, sahia o navio desta ilha cem rumo 
ao Brasil; a 10 de Agosto entrava na Bahia de Todos os San- 
tos, pe:dendose nuns baixios. 

Passou Pyrard na Bahia quasi deus me ze?, pcis a 7 de Ou- 
tubro voltava para a Europa com escalas per Pernambuco e 
Açors. A' entrada do goljho de Biscaia s< ffreu violento tem- 
poral e depois de tar feito uma peregrinação a S. Thiago de 
Cempostelja, em desobriga de solemne voto, jôde afinal v» ltar 
á cidade natal onde chegeu a 16 de Fevereiro de 1611, quasi 
dez ancos após a partida de São Maio. 

Immediatamente aprove tan do a impressão fres a dos acf n- 
tecimentos public u seu Discours du voyage des trançais cux 
Indes orientales suivi du traité et descriptien des animaux ar- 
bres et fruits des Indes (Paris, 1611 in 8.°). 

Esta obra alcançou grande suecesso ; ach&rim na os contem- 
porâneos escripta c« m clareza, sinceridade e profundo epp>nto 
observador Reeditaram- na f n quentementp, ainda no século XVÍL 

Em 1621 morreu o autor, em Pariz. O fxemplar de qne 
nos servimos para a presente traducção pertence á edi ão pari- 
siense de 1679, fm que o editor annexou ás viagens de Pyrard 
umas observações geographicas do Snr. Du Vai, «Ger g apho or- 



- 345 — 

dinario do Re» sobre «o estado actual das Ir d a?, e o que os 
Europeus ali possuem, diversos < aminhos de que se sei vem 
jara alli chegar, e cut-as matérias». O tom de ^viard éde quem 
relata simples e conscienciosamente rs cousas ; contradi^-sa rorém 
frequentemente No extracto que temrs a h«" ma de offerec* r ao 
Instituto Histórico e Oeographico de São Paulo verào os leito- 
res que depois de procurar m strar quarto o Brazil ó pobre 
passa a affi mar justamente o extremo otposto do que avanç ra. 
Grande valor não tem as suas paginas para a histeria do 
nosso paiz. nas nem por isso deixam de ser interessai. tes e 
curiosas. Passandc-as para o por.uguez, procurámos cingir-nos 
ao texto pittoresco do vnjante, fazer, quanto possível, uma tra- 
ducçào ao pé da lettra. 

8. Paulo, 20 de Abril de 1911. 

Affonso d'Escragnolle TàUNaY. 



CAPITULO XXV 

Partida de Santa Helena, accidente sobrevindo ao navio; o mer- 
gulhador Francisco: chegeda ao Brasil Perda do navio 

A oito de Agosto começámos a ver a terra r'o Brazil que 
é muito branca e parece lençóes e outres pannos que estejam 
a seccar; ou então neve; ó yor isto que os P< rtuguezes a ap- 
pellidaram terra dos sudários. Do legar em que pricc liames 
a avistíla ainda esUvamos a dez léguas delia. 

No dia nono lançámos íerro a quatio léguas mais ou rx enes 
da entrada da Babip, na qual não (.usames entrar ror não a 
conhecer, dize; do o nesso pil to que nella jamais estivera ; por 
isso mandou-se o batelão c m sete ou oito homens para avisar 
da no sa chegada ao Vice Rei, afim de que nos enviasse piloto 
que nos guiasse EmquaLto espe avamoa a volta de«se bate ão, 
estando tnci rado?, aconteceu nos por infrlidade que o cabo do ferro 
se ron p sse per tttrictar contra um r( cheio no mar, dando isso 
azo a que o vento quasi nes lançasse á costa pondo-nos em 
grande perigo. Observando que o navio se approximava da 
terra, detfer/ámos o panno e fizemo nos ao largo, á espera da 
volta do batelão. Na noite srguii te vimos vaiics figos como 
signtl de qte breve seriamos scccorriios por três caravellas 
encarregadas de r fresso e por pilt)S que nes dirigiriam. 
Afinal tendo estes ai pareci o, muito nos alegrámos tanto mais 
qutnto havia d»z m zt-s completos que jattiram s de Goa: e 
por esse motivo nos achávamos txtremamente cansados do mar. 
Restavam no navio quinhentas e cinecenta pesseas, das quaes 
a maioria enferma. 

Na manhã de dez entramos pe'a bahia a dettro, do lado do 
Norte. Alli existe uma linda igreja de Santo António com bom 



— 346 — 

numero de religiosos e que nos saudámos com as salvas dos 
nossos canhões. Á entrada desta bahia tem de largo dez lé- 
guas ou mais ou menos isso, no meio ha uma pequena ilha 
de cerca de quatro léguas, de perímetro, dos dois lados da 
qual os navios podem passar. 

Tomamos o do Norte e, havendo penetrado nelle cerca de 
três léguas, lançámos ferro e saudámos de novo a cidade e o 
Vice Rei com tiros de peça ; do mesmo medo deu-nos o Vice 
Hei uma salva com todos os seu3 canhões e mandou acender 
muitas fogueiras e soltar muitos fogos de artifício. 

No dia reguinte, ou decimo do mez, decidimos fazer o 
navio ficar mais perto porque não nos achávamos em segurança 
tanto por motivo do* Inglezes o Hollandezes como por causa 
da tormenta. Devido a isso suspendemos ferro para nos appro- 
ximar da cidade ; tendo ainda o navio o vel&me desferrado 
vieram visitar-nos o Vice Rei e sua n< breza. 

Quando quizemos abicar, poiem, aconteceu nos a infelicidade 
do navio encalhar sobre um banco de areia, isso porque esta 
bahia é muito perigosa por ter uma grande quantidade de 
areia; deste modo não podemos delles fugir embora comnosco 
tivéssemos dous bons pilotos do lugar. 

Vendo que não havia meio de salvar o navio por mais que 
houvéssemos trabalhado com o máximo esforço durante seis 
horas, decidimos para salvar o carregamento e a tripolação 
cortar o mastro grande. E incontinente fez o Vice Rei che- 
gar trinta ou quarenta caravellas e outros pequenos navios para 
receberem homens e mercadorias. Isso feito e as mer- 
cadorias transportadas para as caravellas, alliviaudose o navic, 
começou a fluetuar; apprcximamo-nos da cidade que se chama 
São Salvador, de uma distancia de tiro de peça: ainda nesta 
occasião grandes serviços prestou o nosso carpinteiro francez. 
Nesse intsrim despacharam uma caravella de aviso a Lisboa 
para dar noticia de nossa cbegada e saber o que se devia 
fazer comnosco. Viu se que o navio nada mais valia devido 
aos grandes trabalhos e tormentos porque passara e por isso 
foram es mercadorias que transportava inteiramente descane- 
gadas. 

CAPITULO XXVI 

Do Brazil e das singularidades deste e do que aconteceu 
emquanto o autor alli permaneceu 

A bahia de Todos os Santos no Brazil, lsrga de einecenta 
ou sessenta léguas, está situada á sltura de t:eza graus da 
equinoxial do lado do Sul ; nessa bahia ha varias pequenas 
ilhas e, entre outras, uma que chamam Ilha dos Franceses porque 
foram os francezes es primeiros que descobriram o Brazil e era 
alli que se retiravam para naior segurança e precaução contra 
as ciladas dos selvagens. 



— 547 — 

Desembarca nessa bahia bom numero de bellcs rics que 
dão calado a botes e barcas até lem nc interior das terras 
prcporcionando todas as commodidades ao paiz. 

A cidade de São Salvador é um lugar muito alto, no cume 
de alta montanha de difficil accessi e que do lado do mar é 
cortada a prumo. 

Tudo que para alli ou dalli se transporta sobe ou desce 
unicamente por meio de certa macbina ; carros não eâo usadoB 
por serem de emprego muito difficil e dispendioso emquanto 
por meio da machina pouco se gasta. 

Ao sopé desta montanha, por mais de um quarto de légua 
de comprido, ba casas bem edificadas de um e outro lado, que 
fazem uma bela e grande rua, bem guarnecida de toda a es- 
pécie de lojas e officinas. 

E' alli que se acham todos os depósitos e armazéns de 
carga e descarga de mercadorias. E só alam pela machina 
de que falei as raercad rias a medida que se distribuem e yen* 
dem, pois custa vinte soldos subir uma pipa de vinho e outro 
tanto para cerceia de modo que o preço de cada viagem é de 
40 soldos, porque para subir uma pipa ou qualquer cousa peeada 
de?ce cutra do mesmo peso, na mesma occasiao, tal qual como 
dous baldes que sobem e descem num poço. 

E>ta cidade é rodeada de muralhas e bem edificada; é um 
bispado e tem um collegio de Jetuitas, para os que estão nos 
campos um mosteiro de franciscanos, um de São Bento e um 
de Nossa Senhora do Carmo, te das essas igrejas bem feitas e 
bem construídas. 

Diariamente alli se convertem grande numero de pessoas 
á Fé Christã, comtudo não se conservam firmes na fé como os 
índios Orientaes, quando baptisados, e ficam sempre assaz le- 
vianos e biutaes. 

Ha um hospital nesta cidade, regido como os de Hespanba 
e França. Ha trmbem nua Misericórdia e uma muite bella 
Igreja Cathedral ou Assée com um Deão e cónegos : mas não 
ha inquisição o que é a causa de que aqui existe um numero 
tão grande de chistianos nuevos que são raça de Judeus ou 
raça de Judeus feitos christãos. D,z:a-se então que orei de Hes- 
panha deejava estabelecer uma, motivo pelo qual todos esses 
Judeus tinham muito medo. 

Aliás os Portuguezes que estão no Brazil em tudo se go- 
vernam c( mo em Portugal e não como nas índias Orientaes. 

O rei de Hespanha entretém na c dade de São Salvador, 
três companhias de infantes de cem homens cada uma; dia- 
riamente entra uma de guarda no palácio do Vice Rei ou go- 
vernador do Brazil. 

A costa do Brazil tem cerca de oito ou novecentas léguas; 
é um paiz bsstante rude e selvagem, quasi todo coberto de mattas. 
E mesmo até peito e nos arredores das cidades só ha quasi 
florestas cheias de macaco3 e maercas que fazem muitts ma- 
lefícios. 



— 348 — 

Eete jaiz é pouco rendoso e não dá para sustentar oa pcr- 
tuguezes e é por isso que lhe mandam toda a espécie de vi- 
verep, tanto de Portugal quanto dos Açores e Canárias. E hso 
de modo tal que se não fosse a glande quantidade de assucar 
que se fabrica no Brazil não haveria meios de alli se viver ; a 
libra de assucar se vende só por dois soldos e seis dinheiros e 
o que temes em França, em viveres ou roupas, pelo pieço de 
cinco soldos vale no Brazil trinta cu quarenta. 

A riqueza deste paiz está principalmente fm assucar com 
que, como já disse alhures, os portuguezes carregam os seus 
navios. 

Pcis cão penso que haja lugar no mundo onde se encontre 
tanto assucar como a li. Em França só se íala do assucar da 
Maceira e da í ha de São Thoncé o que não é na4a ao lado 
do Brtzil, pois na Ilha da Madeia não ] a seção sete ou oito 
engenhos de i-ssucar e quatro oú cinco na de São Thomé. 

Mas segundo o que se ; , no Braz 1, em cento e cinecenta 
léguas da costa ha peito de quatrocentos e a costa tem bem oito- 
centas léguas. Mas todo o resto ta cos a não tem tantos como 
essas cento e cincoenta léguas, situadas d< sde vinte e cinco 
léguas ah m de Pernambuco até vinte e cinco léguas além da 
Bahia de Todos os Santos. Cada um dessts eDg unos ou moinhos 
rende por annb cerca de cem mil arrobas de assucar e a ar- 
roba pesa trinta e duas hbias, e quatro arrtba3 fazem um 
quintal que pode custar uns quinze francos nohcal. Vendem 
n'o em França como a sucar da Madeira e elle é bom também 
mas por cá é depois refinado, tanto mais quanto por lá é pre- 
ciso quebralo e pilalo para o por nas caixts, pois que quando 
em pães não é pcssivel arrumalo, perdendo se mais da me- 
tade; es pciqufc é depcis refinado ; quem, porém, pudes e trazelo 
em jães o teria bem melhor pois estaria no stu estado natural 
pois os que o refinam por aqui fazem uma mistura na pro- 
porção da metade com alum e cal. 

O que os portuguezes tiram destes jaizes é a pratB, o as- 
sucar, conseivas, bálsamo e petum que os Portuguez s chamam 
tabaquo mas não pau Braz 1 que o Rei de Hesranha retém, 
como aliás já disse, visto como tendo o paiz mau para habitar 
se não cobia imposto algum e o fi.co retém todo o pau fa- 
zend -o vir paia cá. 

Delle ha grande abundância e ninguém ousa commerciar 
cem elle pois se em agum navio houvesse pouco ou muito, o 
Navio seria confiscado, *e a carga não fesse comprada do Rei. 

Este paiz do Brazil é pois tão mau que seria impossível 
habital-o e nelle permanecer muito tempo se não houve;se este 
trafico de a3sucar e pau brazil; e ainda assim o assucar se fa- 
brica com grande trabalho e despeza. Também confessam 
es poituguezes que os francezes o descobriram e povoaram 
em primeiro logar mas que nelle não puderam manter- se 
por ser o paiz muito desagradável e áspero, proporciocionando 
muito tabalho a elles que gostam de achar os bocados feitos. 



— 349 — 

E verdade é que a maioria dos PortugaezeB alli existentes 
se compõe de banidos, crim nosrs ou fallidos. 

Quando o rei de Hespanhi faz edificar alli uma cidade, du- 
rante sessenta annos não cobra impostos, direitos ou subsídios 
sobre qualquer mercadoria que seja que se venda a varej 1 no 
paiz. Além disso os locas das rasas nada custam nem pagam 
siza8 ou foros. A< mercaiorias que entram e sabem, eó pagam 
três por e^nto e todos os bens, tanto os assacares como os 
íruct03 que crescem no paiz, apenas pagam o dizimo que o 
rei de Hespanba obteve do Papa, pelo facto de haver paizes 
ricos e paizes pobrep, o que faz com que também Laja eccle- 
siaiticos ricos e outros pobres, embora tenham as mesmas fun- 
cções ; é por esse motivo que todos os ecclesiasticos tem o 
mesmo t atamento, entendesse cada qual segundo a sua pre- 
benda e posição, de modo que ninguém tenha motivo de queixa. 
Nunca vi paiz em que a prata seja tão abundante como 
neste lugar do Brazil ; vem ella do hio da PLta que dista 
quinhentas léguas desta bahia. 

Qaasi que não ha dnheiro miado apenas moedas de 
oito, quatro e dois réis; a metade desa vale cinco soldos ha- 
vendo em Potugal procura das mopdas de cinco soldos e o de 
seis brancos para trocal-as por dinheiro miuio, com o fim do 
lacro. Pois muit > pouco se usa de outras moedas que não 
sejam a» de prata. 

Neste paiz do Brazil os Portaguez38 não tem ba-tante 
gente para povoar e d< m n m toda a cott?, onde possuem muitas 
cidade?, fortalezss e bellas essas nr bre?, mais ou menos vinte 
a trinta léguas para dentro do paz, Ha Senhores que tem 
grandes d mimos entre outras c usas erjgenhos de atsuear, que 
o Rei de H spaoha lhes deu em recompensa de serviços e isso 
é erecto como titulo de honrarias, como Bircnato, Ce ndaío etc. 
Estes Senhores dão te ras aos que alli querem residir e 
plantar cannas de assucar, com a condição de as transportar 
ar s moinhos ou engenho dos Senhores que lhes pagam o justo 
preço. Dão-lhes tan bem licença de cortar madeiras para os 
fornos de astucar, pagando- lhes tanto quanto se proviesse de 
outras te -ras. Constroem casas com jardins e pomares de toda 
a casta de fruetos e criam muito gado, aves, e outros géneros 
como nas herdades do lado de cá. Plantam arroz, milho e 
raízes de Mandoc, batatas e outras cousas 

Aliás as rendas do Bazil são irai* que suficientes para o 
sustento de tod*s as guarniçõ p, do Vice Rei, Governadore?, 
Capitães, Soldados e Gente da Ju>t ça, em resumo de todas as 
categ- rias de Empregados do Rei sem que haja nece sidat?e 
de pedir dinheiro a Portngal para isso; alem do mais o Rei 
de llesranha tira dalli muitos proveitos annualmente tantiem 
pau brazil como em direitos sobre os assucares e outras mer- 
cadorias. 

Ffbrica-se também nesse paiz grande quautidade deaznte 
de baleia, espacialmente na bahia de Todos os tant<s, onde se 
f £ z grande commercio. 



- 350 — 

E' por isso que esse paiz é o que mais dinheiro tem de 
todos que visitei até hoje, prata vindo do Rio da Prata. Os 
que de cá sahem para Portugal carregam os navios com assu- 
cares e conservas seccas ou liquidas, como laraDJas, limões e 
outros fructos e principalmente gengibre verde, em conserva, de 
que ha. em taes regiões, prodigiosa abundância. E' prohibido 
porém faz^l-o secear e levai -o á Hespanha, «e não como con- 
serva pelos motivos que já expliquei. Carregam também 
Petum ou Tabaquo que, em toda a America, existe em abun- 
dância, além de tudo mais trazem grande quantidade de prata. 

Após uma estada de nove ou dez annos neste paiz voltam 
todos ricos; entre outros ha muitos desses christãos novos que 
são judeus baptisados, ricos de sessenta, oitenta e cem mil 
escudes e mais ; Dão se liga grande importância, porém, á 
gente dessa laia. Aliás, os Brazileiros assim como os Portu- 
guezes que alli vivem, para se alimentarem (pois o pão ó bem 
raro e bem caro e a farinha já vai prompta de Portugal) fa- 
zem certa farinha de uma raiz de arvore chamada Mandoc que 
comem e de que se sustentam; tem gosto agradável e se come 
em migalhas com carne e lembra a cast nha secca pilada. 
Delia me servi por espaço de seis mezes, em vez de pão, tanto 
alli como a bordo do navio, que não tinha bolacha na viagem 
de volta. Esta raiz tem curiosas propriedades a saber: comen- 
do- sh- a em pó secco é muito sã, quando verde, mata. Delia 
ha tal quantidade qus navios se carregam para levai -a ao 
Reino de Angola que está na costa de Guiné e de onde pro- 
cedem os eseravos que são levados ás índias Occidentaes. 

Quanto á carne, a mais commum ó a de porco, que é 
muito boa, os próprios médicos receitam-na de preferencia á 
de carneiro ou gallinha aos doentes. 

Verdade é que a vida é caríssima no Brazil, a libra de 
carne de leitão custa dez vinténs, a de vacca, sete vinténs e 
seis dinheiros, a de carneiro dez e uma gallinha como as 
nessas um escudo. Ha alli muitos perus valendo dous escu- 
dos cada um; dous ovos cinco vinténs, a canada de vinho das 
Canárias quarenta vinténs. Fazem vinho como sueco da canna 
que é barato, mas eó para os escravos e filhos do paiz. 

Ha muitas fruetas como laranjas, limões, bananas, cocos e 
outros 

Os Poriuguezes têm belhs jardins cheios de boas horta- 
liças como alface, couveflores. melões, pepinos, aipos, e outras 
hervas cultivadas. A vinha não pode dar alli porque as formi- 
gas, de que ha grande quantidade, comem a frueta. Alli cresce 
o arroz, milho ou trigo da Turquia mas deste cultivo só se 
utilisam para os animaes, o que não fazem os hespanhoes nas 
índias Occidentaes pois o misturam com o trigo para fazer 
pão. Ha muito boas pescarias de baleias e outros peixes; vi 
varias vezes matarem baleias de que obtêm azeite tão abun- 
dante que com elle carregam navios. 

Quanto aos brazileiros indigenas que vivem entre os por- 
tuguezes sustentam -se mais de peixe do que de qualquer outra 



— 354 — 

cousa e pouco se servem da caça, devido a que o paiz sendo 
florestal e cheio de anirraes ferozes não ousam ir ás mattas 
com o receio de serem devorados. 

O paiz ó muito habitado, os habitantes são de estatura 
media, tem a cabeça grande, es hombros largos e a côr aver- 
melhada; as mulheres são bem proporcionadas trazem os ca- 
bellos cumpridos ao passo que os homens os tem curtos não 
querendo usar a barba que as mulheres lhes arraDcam. Aliás 
andam nús como sahem do ventre materne; nús nascem, vi- 
vem e morrem nem sequer cobrindo as partes pudendas. Os 
que servem os portuguezes usam uma camisa. 

Não tem lã, nem linho nem sedr, também de nada disso 
precisam visto como *ndam nús. Aliás tudo entre elles ó 
indiviso, não possuindo terras patrimoniaes de espécie alguma: 
não tem a minima forma de casamento e entregam-se á las- 
cívia com a maior licenciosidade, sendo muito inclinados á 
luxuria. Podem ter quantas mulheres queiram e cohabitam in- 
diferentemente, sem levar em conta o parentesco, publicamente 
e sem pejo, tal qual como se fossem animaes selvagens. Tudo 
isso se refere aos que vivem no interior do paiz, pois os que 
residem perto dos portuguezes são msis civilisados. 

Não tem templo nem religião, não xdorando Deus nem 
ídolo, não traficam com ninguém nem conhecem dinheiro ai» 
gum: comtudo são afeiçoados á guerra sendo -lhes as armas as 
flechas, arcos e cajados de pau brazil feitas em forma de clava 
com que se matam e dilaceram, comendo-se e asseando- se uns 
aos outros como carne delicada: preferem a carne dos brancos 
a qualquer outra. 

Ouvi dizer de vários que se haviam baptisado (de que ha 
um grande numero convertido pelos padres Jesuítas) que haviam 
comido vários homenB e que es pedaços mais delicados eram 
os pés e as mães. 

Os portuguezes quasi não ousam sahir da cidade desar- 
mados, receioses de encontrar os selvagens que andam pelas 
mattas. 

Esses povos vivem muito tempo por causa dos bons ares 
do paiz ; dizem que chegam a viver cento e cincoenta annos. 
Também são muito sadios ; quasi que se os nft^ vê doentes e 
se se sentem enfermos medicam-se por si, tomando certas hervas 
cujo valor conhecem, não tendo médicos nem cirurgiões. 

Em torno da bahia são mu>to sujeitos ás moléstias venéreas 
de que não fazem caso pois tem o guaiaco que as cura prompta- 
mente • 

Ha uma outra moléstia que os portuguezes chamam bicha 
que causa dores na cabeça e nos membros que, se não são 
promptamente atalhadas, produzem uma ulcera, no anus, mortal; 
como remédio logo que apparecem os primeiros signaes toma- 
se um pedaço de limão e collocase-o no recto, até três e 
quatro vezes, dahi provindo fácil cura. 

Ha também uma espécie de pc st emas noa pés, que crescem 
com o tempo a ponto de se tornar tão volumosas quanto as 



— 352 — 

pontas dos dedos ; se não são extrahida3 a parecem grandes 
ulceras e depois a grangrena e apesar disso não causam dores. 
Vi gente que perdeu os pés embora os bichos se tirem facilmente 
por qum pode conhecemos. 

E' esta a razão que leva todos a revistar os pés de quatro 
em quatro dias, afim de es tirar. 

Es : es animaes nascem da terra e atacam os pè ; dos que 
andam descalços, mais sujeitos a elles do que os demais, porque 
esses bich.»s f ai iam como pulgas e gaJgam as pernas das pessoas. 

Aliás a cousa de que mais caso faz m os portuguezes no 
Brazil é a escravatura da cesta d'Africa e das índias orientaes, 
peio motivo de que não ousaria figr nen escond^r-se vist) 
como os indígenas prenderiam e devorariam os íugitivos : o 
que rão su:cede com os próprios indigenas que também não 
são tão b)ns trabalhadores como os outros. 

E' um grande pr z r todos os domingos e di s de festa 
ver tod )s os escravos juntos, homens e mulheres, dansando e 
folga ido em publico na- praças e ruas, po que nesses dias Dão 
estão sujeitos aos senhores Mas nãj me estenderei ainda 
acerca das origiDal dades desse paiz, nã > só porque a ella* me 
referi no capitulo d > trafico dos portuguezes no Brazil, como 
pelo facto de tudo ser muito sabido pelos nossos que já muito 
escreveram a esse re peito. 

Direi somente que qu/mlo alli chegámos tjdos os portu- 
guezes m stravam muito receio e susto pelo que lhes haviam 
dito que o nosso rei o grande Henriqie, preparava una expe- 
dição naval, cujas embarcações na maioria se aprestavam em 
II dlanda pa a guerreal-os E nã -• era só na bahia de Todos 
os Santos que o alarma reinava mas sim em todos os logares 
e praças das índias, onde havia súbditos do rei de Hstanha. 
E era maravilha ver -se a grande estima em que tinham o 
nosso Rei e os grandes elogios que lhe faziam á extrema bra- 
vura e tos outros merito=. 

Quiz o nosso mau fado, em princípios de Setembro que 
chegasse um pequeno navi>, expressamente despachado de 
Sevilha, trazendo a triste e deplorável noticia da morte e da 
desgraça do nosso bom Rei, qm Deus absolva. Isso lhes res- 
tituiu a confiança e os tornou muito anchos ; chegaram mesmo 
a nos relatar o caso a modos de remoque e como para nos 
causar despeito ; não sabismos o que crer e pensar a e?s9 res- 
peito; entre elles, porém, havia a'guns que mostravam bastante 
sentimento ; os bravos soldados e officiaes e todas as pessoas de 
sizo diziam ter grande pezar da perda desse rei que era o mais 
bravo e valente príncipe do mundo. E com effeito es Jesuítas 
e outros ecclesiasticos em sermões e officios fizeram rezar orações 
recommendando-lhe a alma a todo o povo, dizenlo que era 
um rei chrhtianissimo e muito catholico. 

Também encontrei no Brazil um francez natural de Nant3s, 
chamido Julten Michel, negociante muito rico e homem de b^m 
caracter. Associara-se a um portuguez que obtivera, por compra 
de doação, o contracto da pesca da baleia nesta bahia, pelo 



— 353 - 

perioío de sete annos, lugar do mundo onde se acha a mais 
rica pesraria de baleia para fazer olecs, e m tivo de enorme 
ccmmercio. Este ccmmerciante francez pastava por castelhano ; 
aliás era muito bem vi to pela corte hei pachola junto á qual 
servira de emissário do defunto Senhor c*e Menceur durante a 
Liga; d^sde tal tempo ficara se em Bilbau, ca B scaia ; creio 
que em troca dos bons serviçcs prestados ao Rei obtivera essa 
licença de pescar, tantj mais quanto a negam rigorosamente 
acs Francczes, Inglezes. Hollandezes e outros estrangeiror, 
sendo lhes prchibido, até, alli navegar, Bcb pena de morte. 
As sim pois faz am os deis secios a pesca que é um bello espe- 
taculo a ver se, por que de todos os lugares da cidade do lado 
mar, tem se o prazer de assistir a caçada e espura das baleias. 
Certo dia, por exemplo, uma dessas grandes baleias, vendo o 
filhote preso, investiu tão furiosamente com es rescadores e 
sua barca que a virou, salvando assim o filho ; os homens a cu«to 
conseguiram escapar. Nunca julguei que esse animal tivesse 
tão bellcs instinctos, tanta dextreza e habilidade. O resultado 
da petca cifra se ao cleo, porque nirguem come tal peixe a 
não ser quando se apanha alguns filhotes cu.a ca*ne é muito 
delicada. 

Para as operações dô pesca chegam annuahncnte dois navies 
bis cainhos cem alguns barcos, que passam por ser os mais hábeis 
nesse género de pesca. 

Quando chegámos um des dous navies ainda naquella anno 
já partira, hav a dous mezep, da bahia; apenas achámos o 
menor, cuja trip u'açã j se compunha em grande parte, de naturaes 
de Bayona e de entres lugares dos basce s de França. Travei 
grande amizade cem files fiequeutandu-rs constantemente. 
Quanto ao snr. Juli^n Michel, era domiciliado na cidade durante 
as suas pescarias e lá vivia como qualquer burguez dalli mesmo. 

Em todes os navi<s havia um capitão que commandava 
durante a vifgem. Ora, certa noite, o capitão do navio que 
ficara lembrou se de suspender o ferro e fazer-Be de vela, 
embora apenas tivesse meio carregamento desse) azsites de baleia. 

Partiu secretamente sem licença nem passaporte do Vice 
Rei o que é contra as ordenações e íóle provrear cenfijeo e 
castigos corporaes. A causa d sto foi uma cembinação secreta 
com csrto mercador que lhe dev a vender e entregar grande 
quantidade de pau brazil o que alli é expressamente prohibidc, 
devendo te maio a umas duzentas leguss da bahia, para os lados 
do sul : sciente do caso mandou o Vice Rei, a toda a pressa, 
gente por terra, com a ordem de capturar o navio e trazer 
tjdos os tripolantes prisioneiros; assim se fez, volteu o navio 
á bahia e o chefe e os cabecilhas foram mettidoâ na cadeia 
com algemas nos pés. Ao navio tiraram toda a enxárcia e 
apparelhos e nesse estado ainda se achava quando partimos. 

Muitos destes prisioneiros me deram cartas para levar e 
entregar a amigos e parentes. Encontrei depis navios de 
Baycna e de São João da Luz, quando me tchava na Galliza, 
cujos marinheiros fcarsm bem satisfeitos a? saber toxinas dos 



— 354 — 

seus e se encarregaram dessas cartes. Deram me lauto ban- 
quete em sna embarcação, onde dormi uma noite : era um 
porto da Galliza chamado Pontevedra. 

Quanto a Julien Michel não o prenderam, com o outro por 
ter abandonado o Capitío declarando que nata lhe encommen- 
dara. Feznos muitas cortezias e obséquios a até, quando es- 
távamos de viagem feita, nos presenteou com alguns viveres 
como farinha de mandioca, e outras c usas, entre outras carne 
de vacca salgada, proveniente do Rio da Prata. 

E' impossível ter- se carnes mais gordas e mais tenras e 
de melhor gosto. Verdade é que são os mais bellos e os maio- 
res bois do mundo; vêm do Peiú. Seus ccuroB são o objecto 
de grande tiarico; ha tanto gado que matam os animaes só 
para lhes tirar os couros. Salgam as carnes, cortam-nas em 
pedaços bastante largo?, mas pouco espessos, quando muito de 
dous dedos de espessura, si tanto. Quando estão bem salgadas, 
tiram- nas sem lavar, pondo-as a seccar ao sol; quando bem 
seccas podem conservar- se por muito tempo sem se estragar 
contanto que fiquem seccas, porque si se molham, e não são 
expostas logo e logo a seccar ao sol, corrompem se e enchem-se 
de vermes. 

Quando estava nesta bahia encontrei ainda um francez na- 
tural da Vrcvença, perto de Marselha, e que era creado de um 
dos maiores fidalgos da terra, chamado Mangue la bote, nome 
que os negros de Angola lhe haviam dado e significa o valente 
e grande capitão, paio facto de ter sido nc meado Vice-Rei. 

Este fidalgo havia guerreado tão valentemente contra 
taes Negros que deli es era muito temido ; passava por ter mais 
de trezentos mil escudos. 

Tirava grande renda de varies engenhos de as3ucar que 
possuía. O r= rancez que com elle morava era musico e tocador 
de instrumentos e o fidalgo o havia ajustado para ensinar a 
vinte ou trinta escravos, que todos juntos faziam um concerto 
de vozes e instrumentos que a todo o instante tocavam. 

Este fidalgo pediu-me muito que com elle ficasse ; pro- 
metia -me cem escudos de ordenado, boa alimentação; tudo 
isto só para governar um certo numero de escravos no traba- 
lho. Dizia-se que dentro de um anno, ao ma s tardar, iria a 
Portugal ; de facto construía para esse fim bellissimo e grande 
navio de quinhentas toneladas; fazia procurar e collecionar 
todas as raridades possíveis, tanto animaes quanto outras cousas 
que conseguia em outras terras para delles fazer presente ao rei de 
Hespanha. Entre outros possuía dois dei ses animaes chamados 
Esuro de que faço menção, no capitulo dos animaes. Por mim, 
de bom grado teria acceito a proposta que me fazia ; o mal é 
porém que quando a gente se piende a elles depois e quer 
deixal-cs, não consentem nisso. « 

Logo que chegámos á bahia e cidade de São Salvador, 
fomos, meus companheiros e ep, visitar o Vice-Rei, mostrando- 
Ihe nosso passaporte assigoado pelo Vice-Rei e pelo Veadorda 
Fazenda de Goa. 



— 355 — 

Lendoo, elle recebe u-nos assaz cortezmente, disee-ncs que 
viéssemos comer e beber em sua casa onde até podiamcs per- 
noitar si assim quizessemcs. 

Este Vice- Rei era um fidalgo muito distincto, não tinha a 
mulher comsigo e só dous filhos, um de vinte e cinco annos e 
outro de vinte ambos muito estimados. O pae chama- 
va-se Dom Francisco de Menaissa. Emquanto alli me achava 
foi o filho mais velho encontrado na cama com uma dama por- 
tugueza ; sorprehendido pelo marido que o feriu ligeiramente, 
fugiu. A mulher levou umas cinco ou seis espadadas das que 
a não mataram, comtudo ; não sei o que lhe aconteceu depois. 

Não quero porém esquecer-me de dizer o que me aconte- 
ceu neste logar : passeando certo dia só pela cidade, vestido de 
seda á portugueza e á moda de Gaa, que é diversa da da por- 
tugueza de Lisboa e do Brazil, encontrei uma escrava negra 
de Angola, moça, que me disse, sem maior apresentação ou 
cerimonia que a acompanhasse com toda a segurança que ella 
me queria levar a ver certo homem serio que me desejava falar. 
A vista disso fiquei a pensar um pouco se devia ou não se- 
guil-a; fiando-me no que me dizia, afinal resolvi-me a acompa- 
nhal-a para ver o que luccederia. 

Fez- me dar m;l voltas e reviravoltas por uma serie de 
vielas o que me assustava cada vez mais, fazendo- me tomar 
a resolução de não ir adeante; ella, porém, encorajando- me 
tanto fez que me poz numa casa que era muito grande e 
bella, bem atapetada e mobiliada, onde a ninguém vi senão uma 
joven dama portugueza que me fez exeellente acolhimento, 
mandando immediatamente preparar uma merenda bem 
boa; ao notar que o meu chapéu não valia grande cousa, com 
as próprias mãos tirou- m'o da cabeça dando um novo, de 
lã da Hespauha, com um bello cordão ; fez-me prometter que 
eu voltaria a vela dizendo que me ajudaria e me faria prazer 
em tudo quanto pudesse, o que não deixei de observar indo visi- 
tai- a habitualmente em quanto alli estive; fez-me ella infinito 
numero de cortezias e favores. Travei também relações de 
amizade com uma mulher portugueza, moça, natural do Poito, 
em Portugal, chamada Maria Mena que era estalajadeira e 
tinha bodega, tanto que para beber e comer nada me faltava, 
pois me dava quanto quizes&e, sem nada dizer ao marido ; dava- 
me dinheiro para pagar quando elle estivesse presente e cha- 
mava-me camarada. Afinal de contas ai mulheres alli são 
muito maiB accessiveis e mais amigas dos estrangeiros, do que 
os homens. 

Alli estando, tivemos um processo, meus companheiros e 
eu, contra uma estalajadeira que nos hospedava, e isso porque 
pretendia reter- nos as roupas; foi condemnado a nola restituir 
e pagar as custas. 

Aliás os portugueses daquelle paiz me mostraram uma forca 
onde, alguns annos anter, treze francezes haviam sido enforcados. 
Eram de La Rochelle e foram aprisionados com o seu navio; 
um dos capitães chamava-se Pain de mil e o outro Brifaut» 



— 356 — 

Alli vi ud ioglez, que fora preso c:>m os outros, e chegara a- 
ter a corda ao pescoço, prestes a ser enforcado coma os- 
outros, perdoaram-no, porem, porque 08 franze cas disseram, em 
altas vozes, que alli estava á força havendo-o aprisionado, em. 
alto mar, num navio inglez Este inglez, no meu tempc, ti- 
nha já mais de mil escudos e morava com um fidalgo. 

CAPITULO XXVII 

Partida do Brazil, de Pernambuco, das Ilhas dos Açores, das 
Berlengas, em Portugal; grande tormenta Ilhas de 
Baycna, viagem a São Ihiago. Regresso do Autor e 
sua chegada em França. 

Emfim, tendo estalo no Brazil pelo espaço de dois meze3, 
como me visse em difficuldaies para volttr para Portugal, trea 
fidalgos portuguezes que me estimavam muito prometteram me 
fazer embarcar em sua companhia. Esses três fidalgos eram : 
Dom Fernando de Sylva de Menaissa, que fora, como já disse- 
algures, general das galeotas do Norte, em Goa e dois de 
seus cunhados que haviam embarca lo no mesmo navio em que 
eu estava e me fizeram muitos obiequios durante a viagem. 

Haviam fretado uma caravelia para es conduzir, elles, 
bagagens, mercadoria?, direc'a sente a Portugal afim de obter 
mercês ou recompensas do Rei de Hespanha peVs feitos qne 
haviam obrado nas índias, como se faz, devendo depois voltar, 
pois todos eram caados nas índias. 

Achava- me pois em dimeuldades para encontrar alguma occa 
sião boa para voltar, pelo motivo de que a passagem custa de 
cem a cento e vinte libras e a canaca em que eu viera se 
perdera ; nada tinha com os do Navio como dizia o meu 
passaporte, de modo que cada qual procuraria o seu interesse: 
á vista disso esses distinctos fidalgos ofifereceram pagar-me a 
passagem que era de dez escudos, dando-me alem disso comida. 
Fiando-me em tal, quando sua caravella se aprestou querendo 
eu embarcar a minha bagagem, o mestre do Navio participou 
que me nâo levava, pois certa vez conduzira um francez que 
lhe dera, elle só, mais trabalhs do que todo os mais passageiros 
e que a vista disso jurara não levar mais nenhum. Por esse 
motivo houve grande disputa entre o Vice- Almirante e o Mestre ; 
o peior ó que era noite e estava prestes a zarpar. O 
Vice-Almirante encolerisado, dis3e-lhe que seutia muito que 
elle tivesse comsigo tão distinctos fidalgos a bordo, pris que 
nunca chegariam a pDrto salvo. Emfim, fez-lhe grandes amea- 
ças se acaso voltasse á Bahia. A recusa do mestre, no emtanto, 
foi a minha felicidade pois quando cheguei a Portugal a pri- 
meira noticia que tive foi que os três infelizes fidalgos tinhim 
sido aprisionados com a sua caravella, por corsários, e levados 
para os estados b rbaressos, o que me causou muito desgosto e 
desprazer pela grande amizade que me tinham. 






-- 357 — 

Vendo-me frustado deste lado, achava-me muito atrapa- 
Uhado para voltar, quando felizmente encontrei dous flamengos 
naturalizados poituguezes que ficaram muito satisfeitos de nos 
encontrar. 

Eram sócios e tinham uma bellisifma urc», feita em Dun- 
kerque, cujas armas traziam, do porte, de duzentas e cincoenta 
toneladas. Perguutaram-ncs ie desejávamos ir com um delles 
porque o outro ficava em S. Salvador, o que acceitámos de 
muito boa vont&de dizendo- lhes que serviríamos como mari- 
nheiros sem que nos dessem soldada : ficámcs muito satisfeitos 
com a passagem trabalhando, para as despesas ; elles 
ao mesmo tempo ficaram contentes com o encontrar- nos pois 
lhe serviríamos de manjes sem ganhar cousa alguma. 

Estando tedes de accordo disseram nos que tirássemos paí- 
saper tes e licença do Vice -Rei por escripto 

Assim fazendo embarcamo-nos netsa urca que estava car- 
regada de assucar e tem munida de artilharia, e de toda a 
espécie de armas e munições. Éramos cerca de sessenta passa- 
geiros, inclusive os meus companheiros e eu e partimos da Bahia 
a 7 de Outubro de 16 10. 

Tivemos vento contrario á partida, o que nos fez demorar 
vinte e cinco dias para dobrar o cabo de Santo Agostinho, dis- 
tante cem léguas da Bahia e situado na latitude de oito graus 
da Equinr xial para o sul. E no terce ro dia de Novembro do- 
brávamos este cabo com grande perigo por causa dos baixios e 
bancos de recifes de que nos apprcxioaámos muito. 

No mesmo dia vimos a cidade de Pernambuco, que per- 
tence aos portuguezes do Brazil: ó muito bem edificada e pos- 
suo bellas Igrejas. 

Dous dias depois vimos uma caravella que caminhava com 
todo o panno desterrado, o que á nossa gente metteu muito 
medo suppondo que te tratasse de ravio de corsários, de modo 
•que nós todes nos armámos; viu -se depois que era portugueza. 

A 5 d?) Dezembro passámos cie novo a linha Equinoxial 
•em direcção ao Pólo Árctico; atravessei-a <?ez ou deze vezes 
•durante a minha viagem* 






OS GDAYANAS DE PIRATININGA 

POR 

Affonso A. de Freitas 

Sócio effectivo do Instituto Histórico e Geographico de 8ão Paulo 



Os Guaynàs de Piratininga 

Breves considerações 



Maito re tem dito e e*cripto sobre a origem e raça dos 
fcb:rigenes do Brazil sem que, entretanto, se tenta ganido do 
terreno das hypotheíes mais ou menos acceitaveis : a ultima 
pala\ra 6cbre tal assumpto ainla não foi dita e provavelmen- 
te nunca o será, vifto as populações pre-cabralianas da nossa 
pátria nos não terem transmittido fonte alguma pcs tiva e di- 
recta para a reconstrueção da sua historia. 

Surprehendidos pefa conquista quando 8p9Das iniciados 
n - ) re iodo neolithico e portanto, immersos ainda nps bru- 
mas drs tempos pre-historiccs propriamente ditos, os primi- 
tivos brasileiros apenas nos legaram deficiente tradição oral, 
cuja mais notável particularidade é a de appTcxinoar a sua 
thergona da tradição bibl ca na ideia commum do diluvio 
universal, e a linguagem falaia, transmitidas até nós por seus 
legítimos descendentes. 

Documentes escriptos não foram até o presente encon- 
trados e, raio o reconhecido grau de atrazo inellectuai em 
que j*ziam os nossos ind»genrs antes da descoberta, parece- 
nop, jamais o serão. Os tyjiboos lapidares, suppostas ínscri- 
pções ou petroglypho 3 , encontrados por cei tenas no Brazil e 
considera iop, a principio, como primeiras manifestações de uma 
escripta ideographica, ou ai primícias da arte da transmissão 
graphica do pansamento, perderam, em que pese ás opiniões 
contrarias, de todo sua importanc a como tal, graças ás sabias 
e precú sas investigações de Martins e mais recentemente do 
dr. Theodoro Koch G úaberg, ambos perfeitamente accordes 
em considerarem taes symbolos mocumentes apenas da infan- 
tilidade e inexperiência dos povos que os produziu, sem outro 
valor que o de demonstrar o grau in ;ipiente e ru^e em qie 
se achava a arte re desenho entre elles. O que fica dito em 
relação aos indígenas do Brrzil em gera), tem inteira appli- 
caçào aos de 8. Paulo cujo estado tíe civilisação em nada dif- 
feria do daquelles. 

Para o estudo da origem e raça dos indígenas de Pi- 
ratininga, contemporâneos de Martim ifíonso de Souza e de 
Paire Jo é de Anchieta teremos, pois, de recorrer a duas fon- 
tes históricas unicamente : a linguagem fal!aia e a tradição 
oral 



— 362 — 

Do estudo da nomenclatura pelos senhores de Piratininga 
applicada á geographia da região que occupavam e conserva- 
da pelos portuguezes, e pelos nomes próprios individuaes e 
mais vocábulos introduzidos e conservados no dialecto paulista, 
chega-se, sinâo á convicção, pelo menos á hypothese bem fun- 
dada de pertencerem os piratiningos á mesma raça que do- 
minava todo o littoral do Brazil desde a lagoa dos Patos atá 
a foz do Amazonas, assim como do confronto dessss mesmas 
denominações geographicas com as de outras regiões da Ame- 
rica do Sal surge a persuasão de terem os ascendentes dos 
primitivos paulistas tido por habitat as alti- planuras do 3 An- 
des, uodendo-se-lhes applicar a?sim as tradiçõas tupyi relati- 
vas á dispersão dos autochtones americanoa, vista não nos 
terem elles legado reminiscência alguma dos seus antepas- 
sados. 

Seguindo essa orientação nos seus e3tudos sobre os nos- 
sos indígenas o auctor, a quem repugnou sempre a ideia aven- 
tada pelo dr. João Mendes de Almeida em sua conferencia 
de 7 de Setembro de 18S8 na «Academia dos Homens de Lat- 
iras de S. Paulo» e acceita por illusires indiaaologos, de se- 
rem os amoraveis e hospitaleiros Guayanás, tapuyai e não tu- 
pys, procurou no conhecimento o no confronto da linguagem 
fallada pela gente de Tebiriçá com a dos outros povos brazi- 
licos convisinhos, a verdadeira origem dos primitivos domina- 
dores de Piratininga. Os resultados dessas pesquisas qie ora 
apparecem em estudo preliminar levaram o auctor a acreditar 
que Tapy-Gu&yanis e não Tapuya3 eram os Guayanás. 



NTRODUCÇÃO 



Dada a impossibilidade da derivação, á luz da sciencia, 
das diversas raças humanas de um centro etimológico único, 
e regeitaáa a theoria dos milagres, visto representarem elles 
excepção ás regras geraes e immutaveÍ3 da natureza, impor- 
tando sua acceitação no tácito reconhecimento da imperfeição 
desta e, portanto, da falibilidade de Deus, seu omnisciente 
creador, de quem o homem, menos de átomo no mecanismo 
universal, suppõe ter a imagem e semelha iça — parece-nos per- 
feitamente admissível embora aceitando a or gem asiática do 
indígena americano, a hypothese do apparecimento simultâneo 
da humanidade sobre a terra. 

Esta, que já nos tem revelado grande parto dos seus se- 
gredos, entre os quaes o de ser o homem muito mais antigo 
nella do que a principio se suppunha, talvez nos demonstre 
um dia que em consequência de um phenomeno qualquer, os 
eternos gelos do pólo austral, fundindo-se, teriam cor ido para 



— 363 — 

o nor'tí, corroendo em sua impetuosidade os terrenos de mais 
fácil desagregação e inundando toda a ter;a até a altitude de 
cerca de 4.000 metros aiima do nivel actual das aguas, delias 
emergindo, quaes pequeninas ilhas na vastidão do immenso 
globo aqueo, além de outros, os montes Kilimandjaro e Kenia, 
na África, a serra do Himalaya e os montes Dapsang e Drin- 
gri na Ásia e os Ande?, na America do Sul e para onde, fu- 
gindo á invatao das aguas, se refugiariam os Noés das difle- 
rentes raças em que se subdivida a humanidade, já então es- 
palhada por toda a superfície da terra. 

Mais taide, gelados novamente os mares antárcticos, reto- 
mariam as aguas seu primitivo nivel, continuando, porén, sub- 
mersa a immensa planície limitada pela linha g^ral em semi- 
circulo, dique natural á irrupção das aguas, extremada pelo 
systema orographico do 3 Andes e do Chinçam, convertida hoje 
no oceano Pacifico e cujas elev&ções formam-lhe as innumeraB 
ilhas, hypoth-ses estas tanto mais admissíveis quaoto nos pa- 
recem provadas pela disposição d. s continentes os quaes, á 
proporção que avançam para o sul, se adelgaçam até a confi- 
guração de cabos, tal como as ilhas fluviais bat das pela cor- 
renteza das aguas. 



Posta de parte a doutrina datwiniana da transformação 
continua, e da geração espontânea ou equivoca, pela qual ar- 
bitrariamente prderia o homem nascer de ovo de uma ave ou 
de um reptil, por nos parecerem elias a negação da perfecti- 
bilidade de Deus, tão patente, porém, que basta olharmos em 
redor de nós para reconhecel-a inconteste, única, infinita, te- 
remos de, cedendo á evidencia, reconhecer que o homom ape- 
nas marca a perfeição da forma geral a que obedece a estru- 
ctura das diversas e múltiplas espécies do reino animal. 

De facto, se estudarmos a conformação dos diversos ani- 
maes, desde o reptil, por exemplo, até a bipede, notaremos que 
a forma rudimentar da serpente representada por uma rects, 
já se apresenta melhorada na própria ordem dos ophidiaaos pe- 
los vestígios subcutâneos de patas dianteiras nas giboias, e nas 
dos Saunos, Chelonio3 e Batrachios, pela projecção de braços 
e pernas como que iniciando a elevação do tronco do animal ; 
progredindo no aperfeiçoamento, apresenta -nos o quadrúpede 
de dorso elevado ainda que em posição horisontal, o quadru- 
mano que já ensaia a posição vertical, firmando- se, vacillante, 
nos membros anteriores, verdadeira transição entre o quadrú- 
pede e o bipede, com o qual está quasi que identificado, na 
família catarrhinia, quanto ás fossas nasaes e arcadas dentarias, 
e o homem, perfeitamente firmado na posição vertical, de in- 
telligencia susceptível de illimitado aperfeiçoamento, marcando 
o limite superior do reino animal, do qual o Monera é o in- 
ferior. 

Não implica, entretanto, esta theoria na acceitação do 
darwinismo^ pois a admittirmos ser o homem um catarrhinio 



— 364 — 

melhora Ir, teremos de concordar com sua mais remota ascen- 
dência no ente visicular simples animado quando ponto de 
partida da evolução animal, inanimado, ainda que íusceptvel 
de movimento, quando do vegetal e, assim, teríamos de accei- 
tar também a ascendência das gigantescas arvores das nossas 
florestas no simples arbusto, e a deste na humilde relva. 

Não ! Sem negarmos a evolução, que outra cousa não é 
sinão a vida que nos i óe em marcha ascelerada para a moita, 
isto é, para a desaggregação da matéria em seus elementos, 
logo aproveitados na reproducção de outros serei animaes ou 
vegetaes, ca mesma ou de outra espécie, ou dispersos, enri- 
quecendo o reino mineral, principal componente dos outrcs rei- 
nop, segundo o Génesis e a Seiencia, &upporro3 todos os seres 
creadcs pela intervenção divina (e nesíe ponto estamos intei- 
ramente de accôrdo com a Bibli* ) sem outra relação entre as 
espécies além da obediência a uma ó:ma geial em cada reino. 



Origem do Guayanà de S. Paulo 



Qut admittindo a emigração dos Simoyedas pelo estreito 
de Bhering e a dos Malaios atravez a região entre a Ásia e 
a America, antes do Diluvio ou, depois desce, pelo Pacitico, e a 
fatão destas duas raças produzindo um terceiro typo distincto, 
quer acee.tsndo a autochfania do indígena americano, o que 
parece certo, e nisso está accórde a maioria dos stbics, é ter 
sido a alto-pknicie Peru -boliviana o berçs da primitiva raça 
americana. 

Desse ponto, subdividida em numerosas tribus, partiria em 
busca de novas terras para o noite e para o sul, ao longo da 
cor d lhe ira dos Andes, e para o oriente, acompanhando o curso 
dos giaades rios. 

Si, porém, essa dispersão foi lenta cu brusc?, natural con- 
sequência de crescimento dos povo*, cu compt Ilida pelos mon- 
góes, que teriam assentado as bases da civi isação qui hua nas 
nargení do lago Titicac8, por efíaito da mesma expansão asiática 
que arremessou Attila e seus tártaros contra a Eur< pa, não o 
sabemos e ainda muito tempo descorrerá antes que a historia 
nol-o diga. 

Se-ja como íô-, o que parece certo é pertencerem os nossos 
tupy-gufeyaois á mesma raça que, do seu habitat no planalto 
peiú -boliviano se dilatou por toda a America do Sal, povo- 
endo-a desde o isthmo do Panamá tté o Rio da Prata 

Leva-nos a essa convicção o estudo das tradições dos 
nossos indígenas e da sua linguagem comparada com a dos 
outros povcs do continente, principalmente quanto ás deno- 
minações geographicas, que prevalecem até os nossos dias. 



— 365 — 

E' ro estudo comparativo da língua, mais do que nos ar- 
chivos, que os sábios conseguem descobrir o parentesco, ainda 
o mais remoto, entre es povos e adquiiem o conhecimento 
exacto dos pmtos maia interessantes de cada um celles. 

O idioma celta, falado pelos fnncezes da baixa Breta- 
nha e pelos inglezes do pa z de Gales é a prova cabal da 
existência, na antiguidade, do nobre e géneros > p^vo Gaulez, 
que a transfusão do sangue franco -romano fez desapparecer, 
assim como o vasonço ou biscainho comprova o assert i histó- 
rico de ter sido a península ire.ica cccupada ante< da invasão 
aryana por um povo cuja origem até hoje se desconhece. 

No idioma inglez, altamente subsidiado em suas reizes pelo 
latim através do francez, e pelo allen ão, mormente qunto á 
pronuncia, facilmente se descobre a fusão dcs 60 mil guerrei- 
ros de Guilherme da Normandia com as Anglc-Saxões, povos 
germanos por elle vencidcs no dcmioio da Inglaterra. 

O estudo das leis do idioma do Lacio nos leva á convicção 
de ser o latim um dia'ecto da língua aryana, da qual o sanskrito 
ó o ramo principal, sinão o próprio tronco, como dialetcs mais 
ou menos afastados são todas as línguas inio-européas, estando 
o parente co linguistico em perfeito parallelismo com o pa- 
rentesco consanguíneo dos povos que as faliam. 

No rastejamento da origem de um simples vocábulo, che- 
gamos muitas vezes é descoberta de afinidades jamais suspei- 
tadas entre os povos os mais diversos. 

Si, por exemplo, fizomos o vc cabulo pcrtuguez mãe ir de 
torna viagem á *ua maia remeti origem, encontrai -o-emos sob 
a forma mâtra, de mã, matéria, geratriz, no san krito, de onde 
pass.u para o grego, transformado em meter] para o latim em 
matr, com as ramificações madre, no italiano e no he?panh)l, 
emè-e no francez; para o polaco em matka; rara o russo 
em medi (mati) ; para o allemão em mutter, modificado no in- 
glez em mother e para o sueco em moder, etc, etc 

Mis, para estudarmos o parentesco dos nossos iniigenas 
com os outres povjs da America do Sul não temos necessi- 
dades de penetrar o ema au liado de taes minudencias. Surpre- 
hendidos pela conquista, quando apenas saliidos da pfaase bal- 
buciante das radicaes simples para a das agglutinadas, foram 
perseguidos e esmagaies por toda a parte, nãc tendo os seue 
rest s, s: brexistentes até hoje. conseguido attingir o periodo 
da il xão, emanante da necessidade de abst air, com a acqui- 
sicão, a cada passe, de novas ideias, progresso de que não ó 
susceptível o nosso indígena pe'a cendição de foragido em que 
se acha 

Relativamente hcil sei ia, entretanto, a identficação dos 
diferentes grupos indígenas, si o assumpto tivesse despertado 
o interesse capaz de levar os americanistas a colligirem os 
minguados materiaes linguisticos esparsos por todo o continente, 
indispensáveis a esse fim. 

O fallar paulista está repleto de reminiscências dos Guayanáf, 
os quaes concorreram em grande parte para a sua formação : © 



— 366 - 

que elle3 eram Guaynis e Dão Tapuyas, como querem illustres 
indianistas nacionaes, provam-no os vestígios do seu idioma 
notados na linguagem popular em confronto cem a língua dos 
Caáuás, nossos contemporâneos do valle do Paranapanema, 
incontestavelmente Guayanis. 

Entre os caipiras dos municipios limitrophes da capital e 
os de toda a região denominada norte de S. Paulo, onde a 
população teve por base os aldeamentos jesuíticos dos primi- 
tivos indígenas, frequentemente se empregam, além de innu- 
meros outrrs da mesma origem, os termos Jsguarehyva (ca- 
chorro ruim) Birú (mosca varejeira) Boi- tatá (cobra de fogo) 
etc,. termos estes que se encontram no vocabulário des Caáuás 
do Paranapanema de quem, por certo, os nossoss roceiros não 
os apprehenderam, poiF, como é sabido, aquelles indígenas, re- 
pellidos para oeste, logo spÓ3 a conquista, somente dois Eeculcs 
depois é que refluíram para o oriente, restabelecendose em São 
Paulo, cerca do começo do século passado, não se estendendo, 
entretanto, além da zona sul que ainda oceupam. 

Oa próprios vocábulos Oaáuá e Caapira (caipira,) têm 
origem commum no dialecto Guayanà. 

Definitivamente incorporados ao idioma portuguez fallado 
no Brazil e principalmente em S. Paulo, temos um sem nu- 
mero de palavras derivadas ( ; o Guayanà e cujas raízes vamos 
encontrar também no Caáuá. As palavras Capim, Giboia, Capão, 
etc, hoje prrtuguezas, foram retiradas da linguagem dos povos 
da raça de Tibiriçá, sendo as suas raízes encontradas também 
no Caáuá actual, sob as formas de Caa-pii, Gy-boia, Caa-puan, 
etc , perfeitamente idênticas ao tupy-guayani fallado pelos 
primitivos habitantes dos campes de Piratininga. 

Seguindo o mesmo piccesso de confronto dos elementos 
glotticos, chegaremos á convicção de que os Gus vacas foram 
a guarda avançada dos Guayanis que das fclti— planuras dos 
Andes desceram até as margens do Oceano Atlântico. 

Espalhados por toda America Meridional, na gergraphia, 
na fauna e na flora, encontram-se vestígios da Jingua Guayani. 
Os vocábulos Jaburu, Tapir, Tamanduá, Copahyba, Mandioca, 
etc.) (na Guyana Franceza, Jabiru, Tapir, Tamanoir, Copahú, 
Manioc, etc.) designam em quasi todos os paizes sul-ance- 
ricanos as mesmas espécies de animaes e plantas. 

A partir das praias do Oceano Pacifico, encontramos o vo- 
cábulo Guayá, legitimamente Guayani, pois é a radical do 
próprio nome cem que se nomeam os povos Guayanis, deno- 
minando uma das mais adeantadas províncias equatorianas, 
cuja capital ó Guayá-cpiil; mais para oriente encontraremos 
as Guaya-na& que parece terem adoptado o nome dos Guaya* 
unos, povo cujos restoj ainda subsistem na antiga Guayanà 
hespanhola, hoje Venezuela, e o encontraremos também no 
Brazil, de norte a sul, ora em denominações geographicss, ora 
na nomenclatura das sub-r^ças Guayanis. O grande Estado de 
Goyaz tomou o nome dos aborígenes Guayás, encontrados em 



— 567 — 

sen torritorio pelo Anhanguera : Guayanàs eram os paulistas do 
tempo da descoberta. 

Pelas afinidades glotticcs demonstradas, parece-nos perfei- 
tamente admissível suppormos serem os Guayanàs, Guayanis e 
não Tapoyas, ccmo se pretende, e serem Guayanis es povos 
que, emigrados dos Andes, 16 espalharam por tt do oriente ven- 
cendo es homens que por ventura alli encontraram e que per - 
tinceriam a outra raça. 

O êxodo dos Guayanis do phnalto jerú-boliviano, traçado 
pelo vocábulo Guayá, está em perfeito accôrdo com a tradição 
divulgada por Couto Magalhães, de que os poves emigrados 
das altas montanhas, onde o sol merre, tomaram as terras plainas, 
ende o sol nasce, ao grito da guerra : 

« Yá sò Pindorama koti, itamarána po arihantin % yara- 
rama ae recê» (*). 



Os Cainpngs de S. Paulo 



Á opinião unanime* dos pensadores nacionaes firmada na 
tradição histórica de serem Guayacàs os indígenas encontrados 
por Martim AtTonso de Souza, nos Campos de PiratiniDga, 
dividiu -se &\ói a hypothese apresentada pelo insigne indianista 
Dr. João Mendes de Almeida, o qual, baseado num documento 
manuscripto e sem aesignatura encontrado na bibliotheca de 
Évora, de auetoria attribuida ao padre José de Anchieta, s fir- 
mou em sua conferencia realizada a 7 de Setembro de 1888 na 
«Sociedade dos Homens de Lettras de S. Paulc», que Tebiriçá 
e a sra gente pertenciam á raça tupy-guayani e que esta na- 
ção senhoreou- se dos campos de Piratininga depois de bater e 
repellir para o interirr os tapuyas Guayanàs, primitivos habi- 
tantes daquella região, isto, em contrario á doutrina por elle 
adoptada e exposta no seu monumental trabalho «Algumas No- 
tas Genealógicas» publicado em 1886, pelo qual es Guayanàs 
seriam o produeta do cuza mento des Guayés, povo emigrado 
dat Antilhas, com os tupys e, portanto, um ramo detsa grande 
naçãc. 

Posteriormente o mesmo es?riptor, tratando da fundação da 
cidade de Taubaté em o «Diccitnario Gecgraphico da Provín- 
cia de S. Paulo» mantém ainda as mesmas ideias expendidas 
na «Sociedade des Homens de Lettras», porém, da sua argu- 
mentação ehega-Ee á illação contraria, isto é, de que tujy- 
gaayanis e não tapuyas eram os Guayanà§. 

Diz o illustre escnptor ás paginas 251 do citado Diccio- 
nario : «Taubaté.— Cidade situada em um planalto, á margem 
direita do rio Parahyba, dit tente deste 6 kilometros. 



(*) «Marchemos para a região das palmeiras, com a acha de armas na mào, 
e seremos senhores delia». 

7.* Conferencia — Couto de Magalhães. 



— 368 — 

Foi primitivamente uma aldeia de indígenas goiá nà, ou 
guayanazes, vencidis em Piratining?, e para lá fugidos. 

O nome desta povoe ção tem sido deturpado: Itaboaté, Ta 
boate. Tahubaté, Tabaté, e ora lauhaté. 

Dispersadcs es goia nà vencidos em Piratininga, muito 
antes tia vinda de Martim Afbnso de Souza, tomaram, em gru- 
pos numerosop, direcções» varas. A mór parte foi íazer taba no 
legar em que é hoje a cidade de laubatè. 

E, j-urque alguns daquelles grupos se deixaram escravizar 
pelos vencedores, e outros seguiram para os sertões do rio Pcí- 
ranepanema e da íerra Apucarana, aquella taba foi denominada 
pelos goiana qie fu daram-na, Tab a été, *tába legitima», de 
taba, «povoação, aldeia», été «legitima, verdaleirr, aitiga, 
superior». Allusivo a ser a taba piincipal e legitima. 

Poitanto, o nome laubaté é coirupte'a de lab-a été*. 

O qu a , porém, o illustre iodiacolrgo não explicou é o facto 
dos Gaaynàá do Parabyba, que elie suppõe tapuyas, irem bu car 
no idioma dos seus inimigos a denominaçã) da sua taba, fun- 
dada como um pre testo sd-mne e vebemente á usurpação que 
âiftbavam de soffrer e um baluarte levantado contra a expsmão 
ininrga, pois Tab-aété, povoação ou cidade principal, legiúma, 
como mu to bem traduziu o Dr. João Mendes, são vocábulos 
genuinamente tupys. 

Ort», si os Guayacà3 recorreram á linguagem tupy para 
denominarem o seu no«c habitat, era porque tupy e não outro 
era o idioma por elles f a liado, e se a sua linguagem era esea, 
claro está que á nação tupy e não á tapuya fertenciam elles. 

Durante 22 annos, de 1532 a 1554, os p^rtuguezes man- 
tiveram- se no littoral, onde fundaram S. Vicente, Iguapp, San- 
tos e I anhaem, sem que fofícessem a menor hostilidade por 
parte dos indígenas do interior. Em 1554, animados talvez pelo 
sogro de João Ramalho que aspirava o mando supremo dos 
Gaayanà*, os portuguezes installaram-se nos campos de Pirati- 
ninga sob a cjndição de apoiarem as pretensões daquel'e chefe 
indígena. 

Deu-se então a scisão entre os Guayanás : os que eram 
pelos hsrderos de Piqueroby c ntra o estabelecimento dos eu- 
ropeus em ser/ a acima e cmtra a chefia suprema de Tebirieá 
retiraram-se para o interior em direcções varias, indo o grupo 
maior estabel^cer-se nas margens do Parahyba onde fundaram 
lab-a-été, taba legitima, em opposição á taba de Piratininga 
ora em peder dos Guavacàj que se tinham «deixado es jravisar* 
pelos c nquistadores. 

Esta hypothese pare c 3- nos muito mais acceitavel que a do 
illastre auetor do «Diccionario», e a própria affirmatv* do pa- 
dre José de Anchieta de se ter o chefe Caauby casa lo com 
uma «Guayaná das do mtfto» serve para dar-lhe maior plau- 
sibilidade. 

Da própria dualidade dos nomes porque eram conhecidos 
os Guaynás, tiramos nova illação a favor da classificação tupy 
dos mesmos. 






— 369 - 

Em geral, as nações, e mesmo a? tribos em que ellas se 
subdividiam, tinhira dois nomes ; um com que ellas próprias se 
den mi itavam, exprimindo sempre suas bons qualidades e outro 
que Ih -s davam as n*çõe* ou tribu* inimigas attãbuindo-lhes, 
ao contrario, algum defnito ou qua idade inferior 

Assim, pois, Guayanà de Guayá ou Goiá, cnacão indígena, 
descida, das Antilhas e Guayanaa pelo Oronóio e que se cru- 
zaram com os tupys na regiào entre os rios Xingu e Tocan- 
tins, e nó, parente, isto é, Gwyá parente, segund » João 
Mendes f«Algumas Notas Genealógicas», paga. 292, 293j ou os 
€«lliados rarentes», segundo Bapnst» Caetano ftDo principio e 
origem dcs insios», neta ás pgs 96), ou tunda *Gente esti- 
mada (1) segundo Visconde do Porto Seguro (Hintona Geral 
do Brazil», vol. l.°, p*g. 100), serU o noma pelos Tupy-Gua- 
ym i| dos campos de Pirat ntnga adoptado para designarem ^ua 
ong m ou suas qualidade* e Tupynaki, de lupy, n< me da 
n»ção, nà, parente e ki espinho, c< m a significação de ruim, 
parente ruim (João Mendes, • bra citada, pag 298) ou Tupy- 
niki iki visinho, isto é, Tupy visioho, o nome que lhes da- 
vam os povos tupys e, segundo o padre Jeronymo Rodrigues, (2) 
os Carijós, também tupys, seui confr ntantes. 

E' sabido que divrs s nos e loga r es da região de Pira- 
tininga eram conhecidos, na época da descoberta, por mais de 

(1) O tbema Guayá ou Goyà, entra na composição de grande numero de 
palavras, as mais diversas, da lingua tupy o que difflculta sobremodo, tornan- 
do-o quasi um problema insolúvel, o estudo da sua significação no termo 
Quayaná. 

Compulsando o vocabulário da lingua geral ou tupy, podemos juntar ás 
traducções supra-mencionadas, as quaes de modo algum resolvem o problema, 
novos significados pelo menos com tantos visos de exactidão como aquellas. 

Da simplificação do termo ybytigoaià, valle, teremos goaiá; reunindo-se-lhe 
a partícula nà com a significação de gente, segundo Varnhagen, formaremos o 
termo Goia-ná, gente do valle, allusivo ao facto de habitarem estes povos de 
preferencia os valles de serra acima, em contraposição ás tribus que habitavam 
o littoral. Por extensão os tupys dariam a mesma denominação a todas as tribus 
Tupys-Guayanis ou Tapuyas, que habitavam também o interior do paiz, única 
hypothese pela qual poderemos admittir a denominação Quayaná, empregada 
actualmente para designar povos de raças diversas. 

Também de Gémeo, coia, e Parente, anama (Chrestomathia da Lingua Bra- 
sílica pelo dr. Ferreira França, pags. 73 e 100), por abreviatura, ná, faremos 
Coia-ná ou Goia-nà parente gémeo ou irmão; mas nesse caso teremos de con- 
cordar, contrariamente á nossa primeira hypothese, em que o nome Guayaná, 
foi tomado dos Tupis-Guaranis pelos Tapuyas dos quaes suppmos descenderem 
os actuaes Guayanás do Alto-Paraná, de que nos dão noticia otenente paraguayo 
D. Domingo Pattnho e o explorador Lista, para designarem o próximo grau de 
parentesco entre as diversad tribus em que se achava dividida a sua nação e não 
a elles dado pelos tupys. 

(2) Nas já citadas «Notas Genealógicas» ás paginas 298, o dr João Mendes 
dá a seguinte preciosa nota, cuja transcripçáo aqui é da maior opportunidade : 
«O padre Fernão Guerreiro, na obra supra-citada, (*) correspondente aos annos 
de 1606 e 1607, edição de Lisboa, — 1609, referindo-se a uma carta do padre mis- 
sionário Jerónimo Rodrigues, menciona a denominação tupinachins como dada 
pelos carijós ao» Gúiamá. Esaa denominação é a mesma tupy-n-ikie, que segundo 
alguns, significa «twpy visinho» ; e em tal sentido teria sido empregado. Mas não 
não é aquelle o significado j sim, o de 'Tupy parente ruim», porque gota-ná é 
produeto cximado eotm ivpy, assim, como twpy^na-ki. Ki «espinho». 



(*) Relação annual das corras» qne fizeram os Pa<fres da Compania de Jescm nas 
partes da india Oriental e no Brazil, Angora, Cabo-Verde, Guiné, nos annos de 
1«02 e 1603, Lisboa : 1600. Obra citada ás pags. 292. 



— 370 — 

um nome o que ó explicado pelo habito que tinham as nações 
indígenas de «exprimirem o signal da conquista, mudando aos 
logares os nomes anteriormente dados pela nação vencida, sem 
que todavia a esta deixassem de ficar em lembranças (João 
Mendes, obra citada, pag. 208). 

Os antigos nomes dos rios Tamanduatehy e Tietê, deno- 
minações estas incontestavelmente tupys e que, segundo todas 
as probabilidades, foram dadas pelos últimos occup&ntes da re- 
gião, eram Piratininga e Anhemby, dadas provavelmente pelos 
primitivos dominadores, os Guayax às, segundo João Mendes. 

Os termos Piratininga e Anhemby pertencem tanto ao 
idioma Nheengatú ou Brazilico como aquelles, e si foram em- 
pregados paios Guaycà?, é porque outro não era o idioma fal- 
tado por elles sinão a lingua geral ou tupy. (1) 

Demais, si os Guayacàs primitivos eram tapuyas e não 
tupys, (2) como explicar o facto de não ser encontrado o me- 
nor vestígio da coexistência tapuya com os tupys ou mesmo 
com 08 europeus na região de Piratininga? 

Porque sobrepor vagas afirmativas de historiadores que, 
salvo raríssimas excepções, o foram incidentemente e que nem 
siquer pertenceram á época a que se referem, de que os Gua- 
yanàs não pertenciam á raça ou nação tupy, quando os ma- 
teriaes todos até hoje encontrados nos antigos cemitérios in- 
dígenas de S. Paulo, aproveitáveis á reconstrucção da ethno- 
graphia indígena, nos atrestam a uniformidade dos usos e 
costumes das populações piratiningas anteriores ao domínio 
europeu e a denominação indígena da gecgraphia local, antiga 
e moderna, sem discrepância de um só termo, nos demonstram 
o uso commum e único da lingua tupy em todos recantos de 
S. Paulo, quer nos pontos occupados pela gente de Tebiriça, 
quer ncs domínios dos indígenas por ella ou per seus maiores 
expulsos de Piratininga? 

Entretanto a ideia aventada pelo dr. João Mendes de Al- 
meida na alludida sessão da «Sociedade des Homens de Letras 
de S. Paulo» encontrou apoio em mais de um homem de sciencia. 

O sábio sr. Oapistrano de Abreu, em publicação da Gazeta 
de Noticias do Rio, de 2 de Maio de 1896, criticando o artigo 
«A civilisação prehistorica do Brazil Meridional» do dr. H. von 
Ihering, inserto na Revista do Museu Paulista, anno 1.° de 
1895, pags. 35-159 em que este escriptor opina pela inclusão 
dos Guayauàs entre os tupy-guayanis, adaptou aos Guyanás de 
S. Paulo em 1532, as opiniões de Gusman, Leary, Knivet e 



(1) O termo caingang, Crôyó, por corruptela, Côyó; o termo Bororó, Butiára 
(pyrilampo^), com a accepção de — embriaguez — hoje correntes na giria popular 
e o termo chavante, Itòby (mosquito,), também introduzido na linguagem paulista, 
foram tirados recentemente da litteratura indígena e não transmittidos por con- 
tacto directo com os povos a cuja lingua pertencem. 

(2) Tapuya, termo de origem tupy, era a denominação geral dada pelos 
tupys-guaranis aos povos das diversas raças indígenas não aparentada com a raça 
tupy. Tapuyas eram, pois, tanto os Bororós como os Cha vantes ou os Cayapòs, 
tão extranhos entre si quanto o eram dos tupy-guaranis : nesse sentido è que 
adoptamos o termo. 






— 371 — 

ainda de outros sobre os Guayanás das diversas regiões da 
America do Sul, concluindo por sua classificação entre os tapuyas, 
dando-lhes por descendentes os Caingangs do Paraná e dos 
sertões de São Paulo. 

Sem embargos de reconhecermos no insigne scientista a 
maior ccmpetencia no assumpto, discordamos, entretanto, in- 
teiramente desse seu modo de pensar, regeitando em abjcluto 
a hypothese do parentesco dos antigos Guayanás de Piratininga 
com os Guayanás modernos espalhados pi r differentes pontos 
do Brazil e da Republica Argentina e com os caingangs os quaes, 
menos de uma nação primitiva, parece terem surgido do agru- 
pamento hecterogeneo de individues expurgados ou residuaes de 
raças indígenas diversas, uma Coluvies Gentium como affirma 
o dr. Frederico von Martius que es conheceu na sua viagem 
atravez da antiga província de S. Paulo em 1818. 

A crença de que os caingangs descendem dos Guaynàs de 
S. Paulo nasceu provavelmente da existência de agrupamentos 
daquelles indígenas, em meado do século passado, no município 
de Faxina e de cujos costumes e liogaa nos dá noticia o his- 
toriador Auguste de Saint-Hilaire que os visitou em o anno 
de 1820, por suppôr-se talvez serem esses indígenas, ora rele- 
gados pelo avançar da pepuleção civilisada para os sertões do 
Rio Feio, resíduos sobre- existentes dos primitivos Guayanás, 
de residência continuada e permanente nos arredores de Pira- 
tininga e que, contrariamente a todas as leis de absorpção, se 
tivessem subtrahido á força assimiladora da civilização, repre- 
sentada pelos centros de população que os redeavam. 

Também contribuiria para firmar essa opinião o facto de 
Martius referir- se aos Camés, « que a si mesmo se chamam 
Caingangs », encontrados pelo sábio allemão « no interior de 
S. Paulo » quando por aqui andou na segunda década do sé- 
culo pasfado. 

Mas a verdade é que o território sudoeste do actual Es- 
tado de S. Paulo, cortado em todas as direcções, desde os pri- 
meiros tempos da conquista, e, logo apÓ3 o estabelecimento dos 
portuguezes em serra acim*, pelos exploradores de ouro e pelos 
caçadores de indies, e invadida em 1628 pelo exercito de An- 
tónio Raposo que ao atravessal-o levaria diante de si as po- 
pulações indígenas irsubmissas até os con6ns do império de 
Guayra que destruiu no intuito apparente de captivar índios, 
porém, real e altamente politico e patriótico de restabelecer as 
divisas naturaes da Capitania de S. Paulo pelo Baixo-Paraná, 
ficou deserto de índios independentes e bravios (1) até o pri- 
meiço decennio do século XIX em que se verificou a irrupção 
naquella zona das hordas Caauás e Caingangs, aquellas per- 
seguidas por estas. 



(i) Segundo as chronicas e os documentos mais dignos de fé, os indígenas 
de Piratininga e cercanias foram aldeados pelos conquistadores, uns de motu- 
proprio, como a gente de Tebiriçá, os aldeados de Pinheiros, Carapicuyba, Santo 
Amaro, MBoy, etc, e outros, vencidos em combate e reduzidos, como os de 
Guarulhos, São Miguel e talvez mesmo, os de Taubaté. Os indígenas que se não 



- 372 — 

Diz Machado de Olivera que es índios da raça Gu* yani 
provindos da margem direita da Paraná e que foram a bas \ do 
povoamento de S. João Baptista do Rio Verde, hoje cidade de 
Itaporang*, do aldeamento d« Itarary no município de Igaape 
e de S. Lourenço em Itnnhaen, appareceram no munic pio da 
Itapeva de Faxina em 1845, acossados pelos Coroados das 
mattas de Goyoen (nome caingang do rio Uruguay) o de fo- 
ram carinh( sãmente acolhidos e aldeados pelo barão de An- 
tonÍDa. 

Conciliando esta valiosa informação com a tradição c< r- 
rente entre es caingaogs de S. Paulo de que os seus mai res 
emigra am do sul para a região em que se ach*m (C. Lacerda 
Fr*neo. artigos pubhcdos no Correio Paulistano em Janeiro 
de 1905) e com a semelhança do idioma dos caingagn de 8. 
Paulo com os do Paraná, tuja difíerençi dialectal é quasi nullp, 
chegamos á bem fundada hypothese de que osactuaes telesgens 



quizeram sujeitar ao domínio dos conquistadores viram-se obrigados a emigrar 
para pontos longínquos, fugindo ás bandeiras que os procuravam escravisar ; e 
nem é crivei suppôr-se que os bandeirantes deixassem junto ás suas fazendas, 
representando uma constante e imminente ameaça á segurança de suas famílias 
e bens, os trabalhadores de que careciam suas lavouras, indo procural-os no ín- 
vio sertão, por centenas de léguas, até os confins do Brazil 

Com a abertura do caminho entre a villa de S. Paulo de Piratininga passando 
por Carapicuyba, Sorocaba e local de Faxina, após a fundação de Paranaquá e 
Curityba em 1640 e 1654 a região sul de S Haulo, já bastante conhecida e visi- 
tada desde os primeiros tempos coloniaes, passou a ser frequentada quasi que 
diariamente, a partir do anno de 1728, por viajantes, mineiros e exploradores 
que se dirigiam para a comarca de Pernagoá, para as minas do Apiahy cuja 
fama de riqueza ainda não tinha sido empanecida pelas noticias maravilhosas 
que começavam a circular das minas de Goyaz, pouco antes descobertas, ou para 
o porto de Ararytaguaba em demanda dos sertões de Cuyabá 

Si pois, esta zona foi por mais de cem annos percorrida em todas as direcções 
sem que nunca se desse pela presença de indios insubmissos, é porque esses real- 
mente alli não existiam, não havendo, portanto, razão para descrêr-se dos factos 
e documentos que attestam uniformente o apparecimento simultâneo dos Caauás 
e Caingangas naquella região somente em princípios do século dezoito (*) 

Vem a propósito a tanscripção de um trecho sobre a fundação do aldeamento 
de S. João Baptista do Rio Verde, hoje cidade de Itaporanga, do relatório apre- 
sentado ao presidente da Provincia de S. Paulo, conselheiro Saldanha Marinho, 
pelo brigadeiro Machado de Oliveira, fecundo e consciencioso escriptor indige- 
nista, e o mais competente sobre o assumpto não só por seus conhecimentos 
especiaes, como pelo cargo official de Brigadeiro dos índios que exercia e por 
ser contemporâneo dos factos a que se refere. 

Diz aquelle illustre escriptor tratando do aldeamento do Rio Verde : « Os 
Índios deste aldeamento bem como os que se encaminham para o município de 
Iguape, suppõe-se provindos das tribus que habitam a margem direita do Paraná, 
e que, descendentes dos Guayanis, foram ao depois conhecidos com o nome de 
Caauáá . 

Os seus costumes sedentários e índole pacifica assim o indicam. Viveram 
da caça e pesca nos sertões que vão ter a margem esquerda do Paraná, até que, 
em 1845, acossados por um lado pelos Coroados, refugiados nas mattas do Goyo-en, 
e por outro, pelas hordas selvagens que vagueiam nos sertões de Araraquara e 
Botucatú, mostraram-se nos primeiros povoados do município de Itapeva com- 
manifestações de se quererem aldeiar, e com esse intuito internaram-se no mu- 
nicípio e foram ter á fazenda Pirituba do barão de Antonina, que a esse tempo 
a habitava. 

O bom acolhimento que tiveram os indios na fazenda Pirituba produziu-lhes 
a vontade de alli se aldearem: mas como hovesse terras desoecupadas entre os 
rios Itararé e Verde affluentes austraes do Paranapanema o barão de Antonina 
os fez encaminhar para alli, distribuir-lhes terrenos e organisar o aldeamente de 
S. João Bastista. 



(*) Auguste de Saint Hílaire quando em 1820 atravessou a Provincia de 
8 Paulo, já encontrou os Caingangs, aos quaes chama Guanhanans (Gu&y&nas) 
domiciliados no tenitorio. de Itapeva da Faxina. 



— 373 — 

de S. Paul) são um ramo dos chamados coroados de Paraná 
de existência jamais assignalada no actual território do S. 
Paulo, em época anterior ao século XIX. 

Scindida a nação caingang das margens do Ucuguay, uma 
faceai da mesma, talvez o elemento penr da collectividade, so- 
guiria para o no-te penetrando no trritorio paulista onde en- 
contraria os Caauás nos sertões do Pa^anapanema, levando- os 
então de vencida até o município de Faxina. 

Abrigados os caanás sob a protecção do barão de Antonina, 
tiveram em breve <s caingan^s de recuar, procurando as pro- 
ximidades do rio Paraná, perseguido) pala reacção dos civili- 
zados e, quiçá, sob a acção daquelle titular que no mesmo 
anno, em officio dirigi 3o ao preside 1 te da Província, se quei- 
xava das correrias e depredações daquelles selvagens tornados 
« formidáveis e temidos por sua ferocidade e contínuos actos 
de barbaridade ». 

A estes indios caingangí chama erroneamente o barão de 
Antonina Cuayaná o que não ó de admirar, pois, até o pre- 
sente ainda lhes não descobrimos o verdadeiro nome. 

Ainda que pertencentes á família Caingang, não podem 
ter elies esse nome que \ião existo no seu dialecto : os selva- 
gens de S. Paulo em vez de Caing-ang (gente do matto, entre 
os Camés de Martins e os Ciingangs de Telemaco Borba) dizem 
Vaichigang (de Vaichá, matto e ang ou gang, gente); qianto 
á denominação geral de coroado, basta dizer que elles costu- 
mam trazer os ca Sei los mais ou menos longos, ao con rario dos 
que es aparam em forma de coroa e de cnji uso tiram aquelle 
nome. (1) 

Quanto aos Camés de Martins, este não nos diz em que 
ponto do interior de S. Paulo os encontr. u ; é quasi certo, 
porém, que não o foi no território do actual Estado de S. Paulo. 
mas no do Paraná, ao tempo legitimamente paulista, pois, como 
é sabido, somente a 29 de Agosto de 1853 ó que se deu o seu 
desmembramento com a creação da Provinda do Paraná. 

Martins, annotando em seu Glossaria Linguarum Brasi- 
lientium o vocabulário dos Camés, no qual nos fornece a tra • 
ducção de cento e onze termos desse idioma, assim se exprime: 
«Estes Caméâ, conhecidos pelos colcnos do interior de S Paulo, 
sob os ntmes de bugre ou indi> do natto chamam-se a si 
mesmo Caing-ang, ou, quando domiciliados entre es biancos, 
como m nsos, Cai qui. 



(i) O meio mais seguro de evitar-se a enorme e lastimável confusão exis- 
tente na denominação das diversas noções indigenas do Brasil seria fã imitação 
do francez antigo que se dividia em lingua de oc e lingua de <mi, da diversidade 
morphologica do monosyllabo, sim, nos dois grandes dialectos mais tarde tran- 
formados no trancez propriamente dito, e no provençal) a sua designação por 
qualquer dos seus vocábulos capitães, como por exemplo, o termo, agua, que 
nos principaes idiomas indigenas tem-se conservado inalterado atravez dos In- 
numeros dialectos 

Assim, daríamos a denominação de — povos da lingua de ig — a todas as 
tribus da raça tupy-guayani ; — da lingua de Gran —aos guayanãs actuaes e aos 
ingains; — da lingua de Goio, — ás diversas tríbus dos Caingangs, etc- (Vide 
vocabulário na ultima parte deste livro,). 



- 374 — 

Também sua língua, na qual se encontrrm amalgamadas 
entoações das línguas dos Gés, Crens, dos Goyatacás, com pa- 
lavras das línguas dos tupys e dos idiomas dos negrrs, indicam 
ser uma Colluvies Gentium, cujas raízes seriam inutilmente 
procuradas numa direcção.» («Diese (1) Camés, den Ansiedlern 
im Innen von S. Paulo unter dem Namen der Bugre oder ais 
índios do Matto bekannt nennen sich selbst Caingang und 
wenn sie sich unter den Weissen, ais geráhmt, niedeilassen, 
Cai -qui 

Auch ihre Sprach, in der sich Auklánge an die der Gés, 
Crens, der Goyatacás mit Wõrtern aus der Tupy und aus Neger- 
Idioma verquicht finden Weisst sie ais eine Colluvies Gentium 
nach, derem Wurzeln vergeblich in Einer Richtung zu suchen 
Waren.») 

* 
* * 

Comparar os usos e costumes dos antigos indígenas de Pi- 
ratininga com os actuaes de S. Paulo ou de outro qualquer 
ponto do Brazil, seria trabalha escusado por improfícuo: o modo 
de viver dos povos selvagens e, em gera), de todos os povos 
atrasados na permuta do commercio internacional, factor pri- 
mordial da civilisaçao e do progresso, depende principalmente, 
sinão exclusivamente, dos recursos promanados da região de seu 
domínio e empregado na satisfacção de suas necessidades, e os 
indígenas dos campos de Piratininga que se refugiaram nas 
mattas, subtrahindo-se assim á influencia dos conquistadores, 
teriam necessariamente seus hábitos profundamente alterados 
pela diversidade da zona que passavam a habitar. 

Os Caingangs de S. Paulo, actuaes senhores das mattas dos 
rios Feio e do Peixe, são essencialmente caçadores, de accordo 
com os recursos que lhes fornece a região: não são canoeiros 
e tampouco pescadores, por se acharem ainda bastante distan- 
ciados do rio Paraná e não lhes permittirem o exercício conti- 
nuado desses mistére3 o pequeno volume das correntes de agua 
que sulcam seus domínios 

Entretanto, daqui ha alguns aunos, confinados na beira do 
Paraná pela vanguarda da civilisaçao representada pelas popu- 
lações extremas dos municípios do Rio Preto, Bauiú, Campos 
Novos e Monte Alegre que se vão projectando para occídente 
e que acabarão por suffocal-os num amplexo de ferro, es Cain- 
gangs de S. Paulc, ou mais propriamente os Vaichágangs, tor- 
nar-se-ão canoeiros e idhthyóphagcs, pela necessidade de tirarem 
do caudaloso rio os recursos indispensáveis á sua subexistencia 
que a caça não mais lhes fornecerá pela perda das mattas. 

Da mesma sorte, parece -nos, o estudo da anthropologia, 
principalmente em relação ao3 selvicolas do Rio Feio, não pro- 
jectará luz alguma sobre o assumpto: agrupamento originado 



(lj Ao distincto Pr. João Adolpho Schritzmeyer Júnior devo a traducção 
portugueza deste trecho do trabalho de Martius. 



— 375 — 



na fusão de representantes de raças diversas, (1) segundo a 
opinião de von Martius confirmada pelos elementos linguisticos 
componentss do seu idioma, e pela própria diversidade physio- 
nomica notada entre indivíduos da mesma thbu, é provável que 
entre elles se encontrem o brachycephalo tupy conjunctamente 
com o dolichocephalo tapuya. 



* * 



A noticia mais minuciosa que temos sobre os caracteres 
physicos dos Vuichagangs, é a que nos fornece o distincto en- 
genheiro dr Gentil de Assis Moura no relatório da exploração 
do Rio do Peixe apresentado ao chefe da Commissão Geogra- 
phica e Geológica de S. Paulo, acompanhado de preciosas re- 
producções de photographias de indivíduos daquella raça, da 
dos Cha vantes da margem direita do Paraná e dos Gupyanis 
do interior do Estado. 

De s revendo o typo dos Vaichagangs, estudado por elle em 
três índios mansos, assim se exprime o dr. Assis Moura : 

«Antes de terminar a nossa de&pretenciosa descripção, vamos 
descrever o typo dos Coroados, copiado de três índios mansos, 
um homem e duas mulheres, presos em uma dada ha annos, e 
residentes hoje em Campos Novos, na fazenda do Coronel 
Sanches do Figueiredo. 

São de cor fortemente bronzeada, de olhos grandes, rasga- 
dos, vivos e pretos, muito brilhantes, com a pupilla pequena. 

Sua altura é de l. m 60 a l. m 70, sendo o homem mais alto 
que as mulheres* 

No homem e em uma das mulheres o rosto é mais com- 
prido que largo, ao passo que na outra é mais arredondado* 

As mãos são de tamanho regular e bem formadas; os pés 
pequenos e largos. 

O tronco é comprido, as pernas curtas. 

O cabello é negro, grosso e abundante. Não tem barba 
nem p* lio algum no rosto, a não serem as sobrancelhas, 

A boeca é bem rasgada, os dentes muito ruins. 

Sào bem constituídos de corpo, têm os hombros largos e o 
thorax desenvolvido.» 

Como se vê da descripção do illustre explorador, a mixta 
geração doa Caingangs de S. Paulo, denunciada pelo 6eu idioma, 
apparece determinada pela conformação varia do rosto, oval em 
uns, e redondo em outros, differença que se não nota nas raças 
puras . 



(\) Não acreditamos, entretanto, que o agrupamento Caingang tenha recebi 
do elementos ethnicos ou de consanguinidade da raça negra como pretende 
Martius, e menos ainda que sejam uma cabilda de criminosos, banidos dos cen 
tros de civilisacão, como querem indianistas contemporâneos Entre os Caingangs 
de 8. Paulo não se notam vestígios, ainda que longínquos, de outro cruzamento 
alem do autochtone, assim como o baixo grau de civilisacão em que jazem, 
inferior mesmo ao das outras nações indígenas, leva-nos a acreditar na ausência, 
entre elles, de qualquer elemento civilizado. 



— 376 - 

Quanto aos demais cBracteri&ticcs, julgamol-os imufficieutes 
como ba*e da diferenciação que nos vem precccupsndo, por 
serem traços geraes e communs á maioria quasi absoluta doa 
indígenas sul -americanos : na estatura, por exemplo, os Cain- 
gangs appr< ximam-se muito dos guayanis actuaes que, ermo é 
sabido, tão de altura mediana, e d< s tupy-guayanis contempo- 
râneos da conquista. 

Segundo a medição por mim feita dos ossos do cbefe Te- 
biriçá, de accôrdo com a tabeliã de Orfilla, o patriareba de 
S. Paulo ticha a altuia de cerca de l. m 65: tratando- se domais 
nobre individuo de uma raça pura ou, si quizerem, mixta de 
duas outras originarias de um tronco commum, de caracteres 
pbysiccs perfeitamente idêntico?, esta Feria, pouco mais tu menos, 
a estatura geral dos primeiros povoadores indígenas da cidade 
de S Faulo de Piratininga. Ma?, da coincidência dos alga- 
rismos indicativos da estatura dos tupy-guayanis e dos Cain- 
gartgs c?e S. Paulo, não nos é licito inferir serem os tiy- 
gu8yanis, á cuja raça indiscutivelmente pertencia Tebinçá, 
taptyas cemo aquelles e não tupys, salvo se quizermos, remon- 
tando ás primeiras épocas da dispersão dos bomens sobre a terra, 
descer atravez da emmarauhada e, em muites pontos inextricá- 
vel ramagem, ao trone» piincipal e linieo dessa arvore que se 
cbama gen alogia da famil a indígena americana. 

£ssm, pois, sobre tal assumpto, temos pir única fonte de 
estudo digna de attenção, a linguistica dos Caingangs paulistas 
comparada cem os idiomas dos índios que habitavam o Estado 
de £. Paulo e os territórios da antiga capitania de S. Vicente 
que lhe ficam mais próximos : procurando conhecer qual o ele- 
mento glottico preponderante da naç&o ou agrupamento dos 
Caingangs de B. Paulo cu Vaichágangs, que o illustre sr Ca- 
pistrano de Abreu supjõe descenderem dos piratiningos de 1532, 
colligimos os vocábulos de diversas rações indígenas do antigo 
território vicentino, erganisandoos no estudo comparativo 8ppenso 
a esto trabalh 1 e pelo qual se verifica a di fferença radical entre 
os diversos dialectos da lingua typyguayani cu ge ai, e os 
idiomas Caingangs, Guayaná, Chavante e Boróro, todos diatin- 
ctos entre si. 

Por esse trabalho verifica- se a impossibilidade de gruparem- 
S9, pela linguistica, as nações Caingang, Gruayaná, Chavante ou 
Boróro, cu qualquer delia com o tupy-guayani, si bem que 
todas ellas tenham absorvido dementes linguisticos do tupy 
(nesse caso os Caingangs principalmente) como do próprio por- 
tuguez. 

Cf mr arando os vccabulos capitães, isto é, os que designam 
as cousas mais intimamente ligadas ao homem e indispensáveis 
á sua existência, e que elle teve necessidade de applicar muito 
antes de se sujeitar a influencias extranhas, dos idiomas dos 
Caingangs e dos Grusyaoás medernos, suppestos descendentes 
dos Guayanás de Piratininga, Guayanis acima de qualquer con- 
testarão, verificamos que o primitivo nncleo, a base que pre- 
valeceu na formação daguelles agrupamento, pertencia a raças 






— 577 - 

distinctas entre ai, e entre eV&t e os tupys e tupy guayania, 
ete. Si os Caingangs e es Guayanás modernos, receberam ele- 
mentoa de sangue e de linguagem dos Guayanás de Piratininga 
(e não contestamos que os recebes? em) assim como recebei am- 
no de outras nações tnpya e ainda de outras raças, seria esse 
contingente em tal parcella que, longe de absorverem os ele- 
mentos contrários, seriam por eíles absorvidos e assimiladoa. 

Comparando, per exemplo, o vocábulo, Y ou íg, da lingua 
geral e dos seus numerosos dialeetes, com oa termos, Goio, (i) 
Goio (2) ou Goió (3) dos Caingangs e Cran doa Guayanás mo- 
dernos (Guayaná da Argentina e Ingaim do Paraná) que todos 
significam — Agua — notamos a maia alta dissemilhança entre 
es trea grupos, salvo se quiz^rmos recorrer ao methedo cerebrino 
das approximações forçadas, aliás muito applicado para a fun- 
damentação de bypothetes fantasiosas sobre o assumpto: as*im, 
teríamos no exemplo dado, a approxiumcão do idioma Cúngaag 
do Tupy-guayani, fazendo- se o termo Goio, derivar do Guayani, 
Guay ou Goay, lagoa, enseada; mas, por esse syatemaccmmcdc, 
rapíio e sobretudo falso, chegaríamos facilmente ao estupendo 
?e ultado a que outros, aliás, já chegaram, de descobrir afini- 
dades básicas e accentua/las entre os diversos idiomas brazilicos 
e as iinguss turanianas e até mesmo arianas, 

E' digno ainda de observação o facto do vocábulo, Y, de- 
signar em tupy-guayani não só agua propriamente oito como 
também rio, ao passo que fará esBa designação os Caingangs do 
Rio Feio empregam o termo composto, Goiobuhy, es Carnes, 
Goio-bane e os Caingangs do Paraná Goio-en . 

Em tupy-guayani fogo é 2átá vocábulo que contribuo lar- 
gamente para a formação de muitos outros, introduzidos no 
fallar paulista, taes como Boitátá (lingua ou cobra de fogo; Ta- 
tarana ou Tatrrana, (lagarta de fogo) etc; em Caingarg ó 
Pin, em Guayaná do Alto Paraná, Upai, e em Ingaim, Pein, 
por onde se percebe que este ultimo grupo, Ingaim, si bem que 
Guayaná, sofireu a influencia do Caingang visto como Pein não 
ó sinão corruptela de Pin. Mães, Olhos. Orelba Veado, Terrp, 
etc., em tupy-guayani, Pô ou Ciepô, leçá, Namby, Çuaçú e 
Iby ; em Caingang, Ingué ou Ningué, Iconé ou Ccnê Nigrtin 
ou Inengré, Cambe e Ingá ou Gá, e em Ingaim, Amieammitá 
ou Amenguan, Apintá ou Ampan, Aminerá, Inbechá, etc. mos- 
tram o nenhum parentesco entre as nações Tupya, Cúngangs e 
Guayanás actuaes (Guayanás da Argentina elogaim do Paraná). 

Encerrando eBte capitulo, mencionaremos a particularidade, 
realmente notável, que apresenta o dialecto do3 Caingangs do 
Rio Feio, de se afastar muito mais da linguagem tupy guayani 
que os doa Caingangs do Paraná e doa Carnes de Martiui: 
assim, além de outros, o termo Peixe, Pirá em Tupy e cain- 



(1) Caingang do Hio Feio. 

(2) Caingang do Paraná. 

(3) Camé de Martius. 



- 378 — 

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gang do Paraná e Pirem, em Camé é Parengné naquelle dia- 
lecto, e Matto, Caing, entre os Caingangs e Camé3 (derivado ou 
corruptela de Caá t matto, em tupy) é Vaichá ) que parece ser o 
termo genuíno do idioma caingang, entre os caingangs do Rio 
Feio. 

VOCABULÁRIO COMPARADO 

de varias nações indígenas que habitaram ou habitam 
o território da antiga Capitania de S. Vicente 



INTRODUCÇÃO 

Para a organização do presente vocabulário comparado re- 
corremos, á excepção do vocabulário dos servicolas dos sertões 
do Eio Feio e dos Caauás de Itanhaen e Itariri, a diversos 
trabalhes que correm impressos sobre a matéria. O grupo tupy 
guayani foi extrahido da cChrestomathia da Lingua Geral ou 
Brazilica» do dr. Ernesto Ferreira França — edição de Leipzig 
— 1859 ; do vocabulário dos Caauás do Paranapanema do dr. 
Theodoro Sampaio — Boletim n. 4 da Commissão Geographica e 
Geológica de S. Paulo — 1890 ; do Caauá do Paraná e do Aró, 
este ultimo publicado na Revista do Museu Paulista — vol. VI, 
pag. 57, de 1902, por Telemaco Borba, e de apontamentos iné- 
ditos, fornecidos ao auetor pelo distincto patrício snr. João 
Gloria, de S. Vicente, por intermédio do notável artista e his- 
toriador Benedicto Calixto. 

O grupo Guayaná está representado pelo vocabulário das 
Guayanás do Alto-Paraná, organizado por D. Domingo Patino, 
e pelo dos Ingain? do explorador Juan B. Ambrosetti ambos 
publicados no supra- citado volume da Revista do Museu, pag. 51. 

O vocabulário Chavante foi extrahido da collecção de pa- 
lavras organisada por Telemaco Borba e Ewerton Quadros e 
publicada no vol. VII da mesma Revista, correspondente ao 
anno de 1908 e dos Bororós — Coroado?, do diccionario organi- 
sado pelo padre António Malan e publicado pela missão sale- 
siana de Matto Grosso em 1S08. 

Para a organisação do grupo Caingang valemo nos do vo- 
cabulário Camé, traduzido e extrahido do «Glossaria Lingua- 
rum Brasilientium» do dr. Carlos Frederico von Martins ; do 
vocabulário dos Caingangs do Paraná de Telemaco Borba, pu- 
blicado na «Revista» da Secção da Sociedade de Geographia 
de Lisboa no Rio de Janeiro, e do vocabulário dos Caingangs 
do Rio Feio, a meu pedido e por intermédio do meu distincto 
amigo e illustre intellectual dr. Gentil de Assis Moura, anno- 
tado de uma india daquella tribu pelo illus trado e prestante sr. 
João António Gonçalves, a quem reitero meus agradecimentos. 
Cremos ser este vocabulário o primeiro que se publica do dia- 
lecto dos caingangs paulistas. 



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CURYTIBA 

(Histórico da sua fundação) 



PELO 



CORONEL ROMARIO MARTINS 

Sócio correspondente do instituto Histórico e Geographico de 8. Paulo 



Gurytiba 



SÉCULO XVI 

Descobrimento dos campos de Curytiba — O indio 
e ouro. — Fixação de colonos 



O primeiro passo que os portugueses deram nos campos 
de Curytiba assignala na historia do Brazil o acontecimento 
mais notável depois do descobrimento de Cabral, porque foi a 
mais vasta exploração até então feita do interior do paiz. 

Confiante em informações que lhe ministrara Francisco 
Chaves, de haver no sertão do sul de Cananéa micas de ouro 
e prata, Martim AfTonso armou uma expedição cde 80 homens, 
40 espingardeiros e 40 besteiros a descobrir pela terra a dentro», 
ao mando de Pêro Lobo e direcção do icformante. 

Esta expedição eahiu de Cananéa a 1 de Setembro de 1531, 
e, galgando a Serra Geral abaixo da Serra Negra, no logar 
onde ficou sendo chamado a •'picada do trilho da Serra*, con- 
tornou a e sahiu nos campos de Curytiba — Jcsé de Vascon- 
cellos, — Datas celebres e factos notáveis do Brazil; e António 
Vieira dos Santos, Memorias de Paranagoá. 

Esta primeira bandeira que sahira com tão ambiciosas es- 
peranças á conquista da terra e descobrimento de minas, não 
conseguiu, entretanto, gczar das vantagens de um tão arrojado 
feito: pois batidos pelos Índios, os 80 exploradores foram sa- 
crificados junto ás nascentes do «Goyo-Covó», que é o «Yguassú» 
dos nossos dias. — Vise. de Porto Seguro — Ilist. Qe.r, do Bra- 
zil e outros. 

Quando a noticia de um tal fracasso chegou a S. Vicente, 
Martim Affonso de Souza se aprestava para voltar á Europa; 
mas ferido pela dura refrega sofiritía pelos seus numerosos 
compatriotas expediu ordens para que es capitães Ruy Pinto e 
Pêro de Góes (donatário da Parahyba do Sul) vieieem» tomar 
desforço contra os índios. 

Cremos com Varnbagem que os capitães portuguezes não 
poderam, pelo menos nesse anno, investir contra o sertão cu- 
rytibano, pois tiveram de ir defender Iguape e S. Vicente, 
atacadas vivamente pelos indios, e incitadas como estavam as 
duas populações por internas rivalidades — HisU Geral do Brazil. 



— 400 — 

Data, pois, ie 1531 a 1532, o descobrimento dos campos 
de Curytiba. Vejamos agora quando nelles se fixaram as pri- 
meiras populações* 

Além da Serra do Mar Paranagcá surgia, logo na primeira 
metade do século 16.° Em 1548 já Hans Staden confabulara 
com portuguezes em Superaguy, onde naufragara, e faz na sua 
obra adiante c ta da, referencias ao commercio que os tupyni- 
quins entretinham com Santos e S. Vicente ; e em 1555 era 
franco com esteí port s, o grande commercio dos carijós de 
Paranagoá. — Hans Staden — Viagens e captiveiro entre os selva- 
gens do Brazil em J649 — Ant. Vieira dos Santos— Mem. de 
Paranagoá, etc. 

A fixação de europeus no littoral ; as batidas que em des- 
força F03 indica de Curytiba provavelmente sa fizeram, pois 
que o povo de S. Vicente as reclamou; a affirmativa de Fran- 
cisco Chaves, logo confirmada, da existência demitas de curo; 
as bandeiras contra os Índios e na conquista do solo aos hes- 
panhoes do c ocidente ; o maravilhoso do local ; o entreposto 
que era entre as duas Américas ibéricas divididas pelo meri- 
diano de Tordesilhas; tudo leva a crer que nos campos de 
Curytiba se começassem a fixar os conquistadores portuguezes, 
ainda em pleno fastígio do século XVI. 

Ha duas tradições, que não temos razão para não conti- 
nuar a citar, na falta de melhor testemunho, que referem o 
inicio do povoamento dos campos de Curytiba por portuguezes 
e memelucos advindos de S. Vicente e S. Paulo. 

Uma, registrada pelos nossos mais antigos ebronistas, refere 
que as famílias de Soares do Valle, Seixas e Lourenço de An- 
drade, para aqui se removeram iniciando o povoamento. Este 
primitivo núcleo de população se estabeleceu á margem do 
Rio Atuba, no lagar chamado mais tarde Villinha, donde com 
o correr do tempo e com a alliança de um escique das tribus 
de Tindicuéra, foi a povoação originaria removida para o local 
onde a Curytiba de hoje amplamente se estende. — Ant. Vieira 
dos Sfnt s. — Mem. hist. de Paranagcá. 

Seriam, cm effeito, es3sas três famílias que a tradição 
indica, as primeiras que se fixaram em Curytiba? 



A outra tradição é a que corre pela palavra oral dss tri- 
bus dos Caingangs, e que refere a entrada dos prim iroâ con- 
quistadores que, tomando a phrase de commando Qury-timl 
(Vamos embora^) dos índios em retirada pela denominsção in- 
dígena do local, passaram a chamar Curytiba aos maravilhosos 
campos onde pela primeira vez se alojavam. 

Mas deixemos este ponto obscuro do nosso passado histó- 
rico ao estudo de mais aptos investigadores, e passemos a exa- 
minar o despertar da vida soei d curytibsna, já no empenho de 
conseguir a sua autonomia pelit ca. 



- 401 - 

SÉCULO XVII 

A população. — Ébano c Lara.— Elucidaoío histórica 



Si difficil, senão impossível, ó dizer quem primeiro habitou 
terras de Curytiba, fundando assim a povoação, não o é*, feliz- 
mente, a nomeação dos nomes dos que iniciaram a sua vida 
politica, armando aqui o mechanismo do seu primeiro governo 
e dirigindo a sua administ a;ão. 

Os nomes que primeiro surgem ao olhar percuciente do 
investigalor, são sem duvida o desse aventureiro tão famoso 
nas cavallanas que no se ulo XVII armou no sul da America 
Portugueza, o Uapitão de Canoas de Guerra Eleodoro I bano 
Pereira e o de Gabriel de Lara, figura de cavalleiro medievo, 
exhibindo títulos e insígnias e ostentando a sua venerável im- 
portância de empoado Alcaide portugaez, aos clhos pávidos dos 
bisonhos mameculos *das villas de quarenta legoas da parte 
do sul*. 

Em ambos estes propostos reaes tem o Paraná oa pioneiros 
da sua existência pclirica, que inegavelmente foimaram e pri- 
meiramente conduziram 

As suas missões, cem o pnrÓ3tos d'El-Rei, eiam bem diffe- 
rentes: — Ébano era o decobridor e assegurador das minas 
de ouro e prata, pondo a sua immensa actividade ao serviço de 
pontos os mais dilatados no sertão, a tudo attendeodo com 
desvello para que nenhuma pepita de ouro se desviasse des 
erários reaes. Lara era o organhador, o homem das soluções 
meditadas, o ponderado administrador que não arriscava um 
passo sem saber que dianta si o caminho era seguro e franco 
para dois. 

Ébano e Lara pois, se completavam, lucrando assim, á som- 
bra do serviço do Re : , o mais alto e mais justo e mais santo 
interesse do povo. 

Assim vemos nós Ébano Pereira fundando logares, isto é, 
dando ás populações, aos núcleos que os trabalhos de mineração 
iam formando pelo sertão a dentro, uma organização relativa á 
sua maior ou menor importância, ao que elle chamava fundar 
logares, na sua qualidade de capitão povoador .. . Tudo isso 
visava, da parte delle, o contentamento dos povos, para o con- 
seguimento do trabalho das minas em proveito do Rei. 

Mas o facto histórico a constatar é que o seu modo de 
agir foi também útil ás populações, pois rs mineradores iam fi- 
cando naquelles logares onde se lhes confiava o governo de si 
mesmos. 

Mas quem era esse Eleodoro Ébano, que punha e dispu- 
nha a seu talante das populações, lhes dando ou recusando 
privilégios ? 

Hans Staden, livro citado, publicado em 1554 em Marbnrg, 
(Allemanha) refere haver se encontrado em S. Vicente oom o 



- 403 - 

seu compatriota Heliodorus Eoban, que Dryander, prtfaciador 
da obra de Staden, diz ser «filho do sábio e muito famoso 
Eoban de Hessen, o qoal foi tido por morto». 

Simão de Vasconcellos. em sua Chronica da Companhia 
de Jesus, (1662), fala em Heliodoro Ébano dand;-o como por- 
tuguez, primo de Estacio de Sá. 

Destas duas fontes, nascem as divergências : — o Visconde 
de Porto Seguro na sua Histeria Geral do Brazil, segue a 
corrente provinda de Staden ; e Azevedo Marques nos Aponta- 
mentos históricos da Prov de 8. Paulo, — Machado de Oliveira 
nó Quadro historico t — Teixeira de Mello nas Ephemerides Na- 
cionaes t — Tancredo do Amaral na Historia de S. Paulo t etc, 
seguem a opinão opposta, isto é, que Eleodoro Ébano Pereira 
era portuguez. 

Agora pergunto: Helkdoro Eoban «compatriota de Hans 
Staden» , por conseguinte aliemão, seria o mesmo Eleodoro 
Ébano Pereira que a historia e a tradição são accórdes em 
affirmar ter sido povoador de Paranagoá, Curytiba e outros 
legares ? 

Vejamos. 

Diz Azevedo Marques e repetem todos os mais aueteres já 
citados, da sua opiniã > : — «Heliodoro Eoban, Natural de Por- 
tugal, primo irmão de Estacio de Sá, o fundador o defensor 
do Rio de Janeiro. Residiu por muitos annes em S. Vicente 
onde administrava uma fabrica de ss3ucar, a 1.' que houve no 
Bra2il. Em 1565 foi posto a frente de 300 homens, indígenas 
e mamelucos, que foram de S. Vicente ao Rio em seccorro de 
Estacio de Sá, etc Falleceu em Cabo frio t ríuma sortida con- 
tra os francezes, a 8 de Junho de I5b9*.— VicJe, egualmente, 
Sim. de Vasc Chron da Comp. de Jezus. 

Ainda Azevedo Marques (livro cit.) ao tratar de Hans Sta- 
den, noutro local, diz qu« os Índios o aprisionaram e o entre- 
garam *ao seu patrício Heliodoro Eoban». 

Que pensar desta contradição, sinão que Azevedo Marques 
também confundira os dois Eleodoros ? 

• E mais, si Heliodoro aliemão •falleceu, em Cabo frio em 
1569», para que insistir mais na prova de que só um outro 
Eleodoro (desta vez o portuguez) era o Capitão de Canoas de 
Guerra em Paranagoá desde 1648 a 1653 e o fundador de 
Iguape e Curytiba em 1654 ? 

Dennis, diga- se para terminar, que da estada de Hans 
Staden «com o seu compatriota Heliodorus Eoban em 8. Vi- 
cente* — (1553) à fundação de Cuiytlba por Eleodoro Ébano 
(1654) ha precisamente a distancia de um século! 

Eleodoro Ébano Pereira não foi, pois, o que morreu em 
Cabo Frio, mas o seu homonymo aliemão Heliodorus Hessus, 
filho de Eoban, de Hessen, que Dryandei constatou *que era 
tido por morto*. — Hans Staden — obr. cit. pags. 4 e 43. 

Assim cremos ter elucidado um ponto até aqui não des- 
trinçado de nossa historia, que ii tere sa ao exacto conheci- 
mento de uma destacada figura do Brazil colonial. 



— 4Ó3 - 
Conquistas do progresso. —O Pelourinho. — A Villa 



O Capitão das Canoas de Guerip, Elecdoí o Ébano Pereira, 
são estava ie*sa qualidacY, militar em Parar ag( á e mnito men< s 
em Carytiba, nus como administrador das minas de ouro e 
thesoureiro delias. — Ar eh. Municipal de Paranagoá' 

liada da mesma procedência vimos docnmeLto datado de 
1649 onde Ébano figura como ^General da armada das Cancãs 
das Cosias e Mar do Sul» em carta e3cripta a Gabriel de Lara, 
commmrcandolhe que S. M. o tirha encarregado do ctxime 
e entabolaimnt) das m nas que te dei cobriísem, cão lò* nesse 
districto como em qualquer outra Capitania do Sul». 

E mais esta referencia do chrennta Vieiía: 

«Theodoro c?e Ébano eff.tt vãmente andava em deli gen cias 
do real serviço na descoberta de minis de caro e pi ata e pe- 
dras preciosas, pelas cos' as maritimis e icrtõer, sob o con man- 
do de companhias de Índios nineins, sertanejos e gente írmaca 
que o acompanha vam en\ suas expedições, quer fessem maríti- 
mas ou terrestrer, pois te conhece que no momo anno de 1654, 
fundou as duas villas r^e Iguape e de Cuiytiba a que de\eria 
subir pela picada do trilho da serra , aberta peles jyrimetre s po- 
voadores vindos de Cananéa t e que sei via de címrr única cão dos 
pDTos centraes com os da marinha, pois que certamente ainau- 
guração da Villa de Curytiba mostrava então achar- se aquelle 
continente bastantemente povoado t %ela necessidade de levantar- 
se Villa», 

Curytiba eia, nesse tempo, toda a parte ao cec: dente da 
Serra Geral ; e a povoação dos Pinbaes a que Eleodoro Ébano 
e leu filho Tibaldo Pereira em 1654 dcclaiaiam jundada e 
incluíram nas relações officiíes das capitanias do sul, era o re- 
cueto do núcleo r*e população que surgia disperso na vasta 
co x 1 Ília contornada de pinheiraep, e para onde atHuiam, de toda 
a parte do sertão, aquellas turmas provindas das landeiras e da 
mineração aurífera. 

Desta data (1654) em diante Ébano desapparcce das chro- 
n:cas históricas; e ó Lara, ieu contemporâneo, quem reenceta 
a obras do povoador. 

Em 4 de Novembro de 1668 torra <l!e poise cfScial da 
« povoação dos Pinhaes de Curytiba» em nome do Maiquez de 
Cascaes, e eleva o pelourinho «mo padrão que eia da «cretção 
das justiças». 

A isto fora Gabriel de Lara movido por pedido do povo, 
que allegou « estar poveando nestes campos de Cuiytiba, em 
terras e limites do Marquez de GaEcaes, e assim lhe requeria, 
como Capitão -Mór e Procurador do dito Marquez, mandasse 
levantar relcurinho em leu nome, por cenvir asiim ao serviço 
à'El-Bei e acere scentamento doa d( natarioa > — Arch, Municipal 
de Curytiba. 



*. 404 — 

Desta data em diante já se ficou chamando Villa de Cu- 
rytiba, pois para isso só faltava que a metrópole, ratificando o 
acto de Lara, autorizasse a creaçáo da Camará. 

Um quarto de século, porém, se passoa, sem que os reaes 
senhores da terra se digoassenr dar a Curytiba o predicamento 
a que ella tinha direito, pelo seu já então avantajado cresci- 
mento. 

Lara morrera entre 1674 a 1690, e os curytibanop, forta- 
lecidos pelo prestigio das famílias dos Martins Leme, Seixas, 
Beis, Góe J , etc, lhe deram successor na pessoa de Matheus 
Leme, que ficou sendo obedecido como Capitão Povoador. 

Por duas vezes Leme solicitou sue e3sor legal, dos capitães 
mores de Paranagoá, pedindo a creação das justiças e a ina- 
tallação da Villa ; e por aqoellas autoridades lhe foi respondido 
que Gabriel de Laia as creara, e que assim sendo bas f ava as 
elegesse o povo. 

Foi o que se fez. 

Em Março de 1693 juntou* se de novo o povo, já então em 
numero superior a «noventa homens bons», dos quaes sessenta 
e três assignaram do próprio punho a petição ao Capitão Po- 
voador e dois o fizeram de cruz por nao saberem assignar. 

A 24 do mesmo mez e anno Leme despachou a petição, 
mandando que o povo se reunisse, o que aconteceu a 29, no 
pateo da Villa, hoje Praça Tiradentes* 

Com a chegada do velho capitão Leme, (digo velho p(r- 
que na petição elle ó qualificado de «decrépito») o povo se 
encaminhou para o adro da igreja da N. S. da Luz e Bom 
Jesus dos Perdões. (Demolida em 1876). 

O povo ahi pedio ao capitão Povoador *que se criasse a 
justiça* ao que Leme respondeu mandando •nomeassem seis 
homens de sã consciência» para se cousti turrem em eleitores, 
que escolhessem por sua vez os juizes e cffíciaes da Camará. 

Esses eleitores foram : 

1 — Agostinho de Figueiredo. 

2 — Luiz de Góes. 

3 — Garcia Rodrigues, o velho. 

4 — Jcão Leme da Silva. 

5 — Gaspar Carrasco dos ReiB. 

6 — Paulo da Costa Leme 1 

Foram escolhidos : 

juizes : 

António da Costa Velloso. 
Manoel Soares. 

VEREADORES ', 

Garcia Rodrigues, o velho. 
Capitão João Pereira Quevedo. 
António dos Reis Cavalleiro. 



- 405 - 

PROCURADOR : 

Capitão Aleixo Leme Cabral. 
escrivão : 

João Rodrigues Seixai, descendente dos primeiros povoa- 
dores de Curytiba. 

Eleitores e eleitos, prestaram juramento perante o Padre 
António de AlvareDga., assim se installando a Villa de Cary- 
tiba, na data que hoje com me moramos. 

Senhores. 

Nós não podemos fechar melhor este instante histórico que 
procurámos esboçar atravéz 213 ânuos, do que deixando que os 
nomes que acabamos de lêr, dos nossos avcenges, fiquem re- 
percutindo no ouvido deste selecto euditorio, como os nomes 
que são daquelles, vultos venera veie, que primeiro encaminha- 
ram a Nossa Terra na promissora senda das conquistas actuaes. 



DOCUMENTOS 



Acta do levantamento do pelourinho 

Saibam quantos este publico instrumento de posse e le- 
vantamento de pelourinho virem, em como aos quatro dias do 
mez de Novembro de mil seiscentos e sessenta e oito anno?, 
nesta villa d* Nossa Senhora da Luz dos Pinhaes, estando o 
capitão- mór Gabriel de Lara nesta diti villa, em presença de 
mim tabellião fizeram os moradores desta dita villa requeri- 
mento perante eUe dizendo todos á uma voz que estavam po- 
voando Deites campos de Curytiba em terras e limites da de- 
marcação do sr. Marquez de Caseies, e assim lhe requeriam 
como capitão-mór e procurador bastante do dito sr. mandassse 
levantar Pelourinho em seu nome, por convir assim ao serviço 
d'el-Rei e aesrescentamento do donatário ; e visto o requeri- 
mento dos moradrres ser justo mandou lego levantar pelou- 
rinho com todas as solemnidades necessárias, em paragem e 
logar decente nesta praça, de qua mandou passar este termo 
por mim tabellião, onde todos se assignaram commigo António 
Martins Leme que o escrevi. — Gabriel Lara, Matheus Martins 
Leme, Gaspar Carrasco dos Reis, Luiz de Góes, Innocencio 
Fernandes, André Fernandes dos Reis, Amaro Pereira, Mathias 
Martins, o moço, João Martins Leme, Frcncisco da (rama Paez, 
lhomaz de Castanheda, João da Gama, Manoel Cardoso, Do- 
mingos Rodrigues da Cunha, Domingos André, Manoel Mar» 
tins Leme, Angelo Nunes Camacho • 



— 406 — 
Requerimento para a creação das justiças 

St, Capitão Povoador. Os moradores todos assistentes 
nesta povoação de Nossa Senhora da Luz e Bom Joeus dos 
Fiobaes que, attendendo ao serviço de Deus e o de Sua Ma- 
jestade, que |Deus guarde, paz, quietação e bem commum des- 
te povo, e por ser já hoje mui crescido por passarem de noventa 
homens, quanto mais cresce a gente se vão fazendo mores de- 
saforos, e bem se vio nesta festa andarmos todos com as armas 
na mão, apelourou-se dou* ou treis homens, e outros insultos 
de roubos como é notório e comtsnte pelos casos que tem suce- 
dido ; e daqui em diaite será peior, o que tudo causa o estar 
este dito povo tão desamparado de governo e disciplina da 
ju tiça. E attendendo nÓ3 que ao diante será peior por não 
haver a dita justiça na dita povoação, nos occorremmos a Vrrc 
como capitão e cabeça delia, e por ser já decrépito e não lhe 
tbedecerem, seja servido permittir a que haja justiça nesta 
dita villa, pis nella a gente bastante para exercer os carpos 
da dita justiça que faz numero de três povcs. E pela orde- 
nação ordena Sua Majestade que havendo 30 homens se eleja 
justiça, e demais de que consta que L Vmc. por duas vezes 
procurcu aos capitães -mores das capitanies debaixo lhe viessem 
criar justiça no dita povoação, sendo que não era necessário por 
ter havido já aqui justiça em algum tempo criada pelo defun- 
to C8ptao-mór Gabriel de Lara, que levantcu pelourinho em 
nome do donatário o sr. Marquez de Csscaes — ; pelo que re- 
queremos a Vmc. pela parte de Deus e d'el-Rei que visto o 
que allegamos e o nosso peiir se jnsto e bem commum de todo 
este povo, o mande ajuntar e fazer eleição e criar justiça e 
camará formada, para que assim haja temor de Deus e d'el«Rei 
e ror as coums em caminho. E Receberá Mercê. 

Despacho 

Junte- se o povo. Deferirei o que ao que pedem Pinhaes 
24 de Março de 1683.— Leme, 

A escolha dos eleitores 

Aos vinte e nove dias do mez de Março da éra de 1693 
annop, nesta igreja de Nossa Senhora da Luz e Bom Jesus dos 
Pinhaes por despacho desta petição se ajuntou o povo todo 
desta villa e peb capitão delia lhe foi perguntado a que todos 
lhe responderam a vez alta lhe criasse justiça para c(m isso 
ver si evitavam rs muitos desaforos que nella se faziam, a que 
vendo o dito capitão-mór era jasto o que pediam-lhe re3pon- 
deo que nomeassem seis homens de sã consciência para faze- 
rem os officiaes que haviam de servir, o que logo nomearam 
para com o dito capitão povoador fazerem eleição, e como assim 
houveram todos por bem se assiguaram commigo António Ro- 



— 407 — 

drigues Seixas, em falta do escrivão, que o escrevi. Matheus 
Martins Leme, António da Costa Leme, António Martins Leme, 
Manoel Scares, Domingos Rodrigues Soares, José Pereira y 
Quevedo, João Leme da Silva, João Pereira de Âvellar, André 
Rodrigues Lami, Mignel Delgado, Diogo da Costa, Manoel de 
Carvalho, Manoel da Silva Bayâo, Agostinho de Figueiredo, 
Gaspar Carrasco dos Reis, Nicolau de Miranda Franco, António 
de Siqueira Leme, João Alvares Martins, Miguel Fernandes de 
Siqueira, Braz Leme de Siqueira, Francisco Mello, Manoel 
Alvares Pedroso, Manoel Dias Cortes, António Rodrigues Cid, 
Salvador Rodrigues, Amador Nunes de Bulhões, Salvador Mar- 
tins, António Luiz Tigre Lemis, Paulo da Costa Leme, José 
Leme. Matheus Martins, Luiz Rodrigues, António do Couto, 
Jcsó Martins Leme, Pedro Gonçalves Martins, Miguel Rodri- 
gues, Caetano Leme Cabral, José Rodrigues Cid, António dos 
Reis Cdvalleiro, Fructuoso da Costa, João de Siqueira, Gon- 
çalo Pires, Lourenço Pinto, Pedro de Moraes de Monforte, 
Bertolomeo Nunes, Domingos Andic, Pedro Rodrigues, Baltba- 
zar Carrasco dos Reis, Luiz Lemes da Silva, António da Costa, 
João Velloto da Costa, Garcia Rodrigues, Innocencio de Me- 
dina, Roque Fernandes, Vicente de Góes, Plácido de Ramos 
Duarte, Luiz de Siqueira, António Garcia de Góes, Domingos 
Ribeiro de Abreu, Luiz de Góea. 

Eleição da Camará e installaçío da Villa 

Memoria do que accordaram os seis eleitores, o capitão- mor, 
Agostinho de Figueredo, Luiz de Góes, Garcia Rodrigues, o 
velho, João Leme da S Iva, Gaspar Carrasco do Reis, Paulo da 
Costa Leme, os quaes debaixo de juramento que lhes foi dado 
pelo reverendo padre vigário desta villa, António Alvarenga, 
nomearam para juizes António da Costa Velloso, Manoel Soares ; 
vereadores Garcia Rodrigues, velho, o capitão José Pereira 
Quevedo, António dos Reis Cavalleiro, e para procurador do 
conselho o capitão Aleixo Leme Cabral, e para escrivão da 
camará João Rodrigues Seixas ; este é o nosso parecer, e como 
tal nos assignamos aqui. — Agostinho de Figueiredo, Luiz de 
Góe3, Garcia Rodrigues da Canha, João Leme da Silva, Gaspar 
Carrasco doa Reis., Paulo da Costa Leme, o padre António de 
Alvarenga. 



ELUCIDAÇÃO HISTÓRICA 

PELO 

Dr. J, Vieira Fazenda 

Sócio correspondente do Instituto Histórico c tíeographico de 8. Paulo 



ELUCIDAÇÃO HISTÓRICA 



Com o titulo supra publicou a Gazeta, de Noticias de hoje 
eiudiro artigo, tanto mais importante e curúso para mim quanto 
se refere a indivíduos que assis iram aos primórdios de3ta nossa 
boa cidade do Rio de Janeiro. 

Salientando os sei viç s prestados no povoamento do Paraná 
pelo capitão de canoas Eleodoro Ébanos Pereira e Gabrc! de 
Lara, o illustre investigador procurou destrinçar ponto confuso 
da nossa histora pelas inço '^mentes opiniões de vários histo- 
riographos. 

Ponto em confronto o que escreveram Dryander, prefacia- 
dor da obra de Ilans- Staden, publicada em 1554, o padre Si- 
mão de Va6cocce'los e Vieconae de Porto Sega o, Machado de 
Oliveira, Azevedo Marques, Teixeira de Mello e Tancredo do 
Amaral o articulista pergunta si pode haver confusão entre 
Eleodoro Eobanos, allemão companheiro de Staden e Eleodcro 
Ebinos que a histrria e a tradição concordam em affirmar ter 
sido o povoador de Paranaguá, Curityba e cutros logares ? 

«Diz Azevedo Marques, continua o precitado investigador, 
e repetem todos os mais auto 63 da sua opinião : — Heliodoro 
Eoban, natural de Portugal, primo irmão de Estagio de Sá, o 
fundador e defensor do Rio de Janeiro — Residiu por muitos 
annos em S. Vicente, onde administrou uma fabrica de assucar, 
a primeira que houve no Brazil. Eu 1565 foi posto á frente 
de SOO homens indígenas e mamelucos que foram de S. Vicente 
ao bio em soccorro de Estaco — . • Falleceu em Cabo Frio 
em uma sortida contra es fnncezes a 8 de junho de 1569. 
Ainda Azevedo Marqu s (Apontamentos hhtoriets da Província 
de S. Paulrj, ao tratar êe Hans Staden, n'outro local de sua 
obra, refere que os iedos o aprisionaram e n entregaram ao 
seu patrício Heleodoro Eoban.— Si este. concloe o autor da 
elucidação, falleceu em 1569, como confuudilo com o outro 
portuguez capitão de canoas em Paranaguá — 1648-1653 e o 
fundador de Iguape e Curityba (1654)? 

Depois de analysar tantas contradições chega o referido 
investigador á seguint9 afirmativa; o fallecido em Cabo Frio, 
foi o allemão Eleodorus Ilessus, filho de Eoban e nuuoa Eleo- 
doro Ébano Pereira. 



— 412 — 

Com a devida vénia peço permissão para apresentar alga* 
mas perguntas que me suggeriu a criteriosa Elucidação Histó- 
rica. A meu ver a confusão nunca se deveria ter dado entre 
dois indivíduos separados por tão longo espaço de tempo (quasi 
um século,), como bem notou o articulista. 

Entra o allemão e o nascdo no Brazil (na minha hu- 
milde opinião) houve um outro Eleodoro Ébano, portuguez de 
nascimento, aparentado ou não com Esticio de Sá? Que grau 
de parentesco exist9 entre aquelle e que rão usava do appel- 
lido Pereira e o outro povoador do Paraná? Seria o ultimo 
filho cu neto do primeiro ? 

Qae no Fio de Janeiro em tempos muito anteriores existiu 
um Eleodoro Ébanos ê facto inconcusso. Foi elle, d ; z o dr. 
Diogo de Va^ccncellos, casado com d. Maria de 8ouza, filha 
de João Pereira de Souza Bota togo (proprietário à\ sesmaria a 
que deu seu nome na praia de Botafogo) e de d. Maria da 
Luz Escossia Drummond, natural da ilha da Madeira. 

A realidade de?se Eleodoro que chamarei (primeiro^ ó 
comprovada por documentos existentes nos velhos livros do 
antigo Senado da Camará : a — Traslado da Provisão de Jiiz 
dos Orphãos desta cidade e seu termo passada a Ayres Fer- 
nandes. Nesse manuscripto e entre as assignaturas dos Verea- 
dores de 1569, figura o nome de H eleodoro Ébano, sem o i*p- 
pellido Pereira» 

o — Exerceu de novo o cargo de cfficiai do Conselho no 
anno de 1585, como se vô da provisão passada ainda a Ayres 
Fernandes para servir de Mamposteiro Mor dos Captivos em 
substituição do dr. António de Mariz Loureiro (o a António 
do Guarany) fallecido em 1584. Parece, pois, que Ebmo Pe- 
reira (o do Paraná) é filho desse outro e que juntou o appellido 
de Pereira tirado de seu avô materno. 

Mas ainda não é tudo. Em meus apontamentos encontro a 
nota de um requerimento dirigido ao Conselho em 13 de agcsto 
de 1614. O supplicante Leodoro (sic) Ébanos declarava não 
ter terras de sesmaria, nem do Conselho. Pedia a quantidade 
de terreno que houver pelo meio do outeiro e fraldas delle da 
sua banda e da outra o que houver devoluto onde acaba me> 
tre Bernardo Barbeiro aguas correntes para o mar. 

«Declare a terra que pede quanta é e quanta ha mister» 
tal foi o despacho dado pelos vereadores Pedro Gago da Ca- 
mará, Pedro Luiz Pereira, João Gomes da Silva e Manoel da 
Lo* ta. Eleodoro Ébano pediu cem braças que lhe foram con- 
cedidas depois de apregoadas em publico, mediante o foro de 
uma pataca. 

Iria longe e pouco lucraria com isso o leitor íi quizefse 
eu aqui explicar a situação dos terrenos do tal b-rbeiro e os 
concedidos a Ébano. Basta dizer, ficavam lá para as bandas do 
caminho de Botafogo ou da Lapa, como então se dizia, Os de 
Ébano passaram a Salvador Corrêa de Sá e Benevides em 28 
de fevereiro de 1636. 



- 413 - 

Muito me intriga o precitado requerimento. Seria o peti- 
cionário o antigo vereador ? Pois um homem que occupou car- 
gos da governança da lerra declarava em annos posteriores não 
ter terras para cultivar? E isto qaando outros indivíduos de 
menor importância como soldados, tambores e até o portairo da 
Camará as haviam obtido pagando diminuto foro ? 

Seria, repito, o supplicante de 1614, ja o Eleodoro Pereira 
aquelle que mais tarde dir giu a administração da futura Pro- 
víncia (hoje Estado) do Paraná V Nesse caso encetou 6lle sua 
gloriosa missão já entrado em annos. Eis pontos que eu dese- 
java ver esclarecidos. 

Seria elle o vereador Ebano3 que assigoou o auto de cor- 
reição feito por Ouvidor Geral, Diogo de Sá da Pocba em 3 
de março de 1638 ? Provado tal facto, poderemos afiançsr que 
Eleodoro Ebams Pereira, antes de seguir para o tu 1 , esteve no 
Rio de Janeiro Qaando partia? 

Peço, pois, ao articulista da Gaeeta t já conhecedor do as- 
sumpto, que tate de estabelecer as differenças não mais dos 
dois dos qinea se occupou ; mas dos dois homonymos, pae (?) e 
filho (?), motivo destas minhas netas. 

E prestaria um bom serviço. Grande é ás vezes a difficul- 
dade de discriminar factos da vida de sujeites que usaram dos 
mesmos nomes e figuraram em difierent?s épocas. Tal confusão 
provém de uso rxuito commum entre as nossas ant ; gas familias. 
Citarei, por exemplo, a dos Correia de Sá cujos descendentes, 
com es nomes de Salvador ou Martim, são numerosos. Os Aze- 
redo3 Coutinho?, os Marizes, os Rangeis de Masedo e tantos 
cutres, confirmam a regra. 

Agora mesmo ando atarefado, para satisfazer uma consulta, 
em discriminar três oo quatro Mart m Corrêa Vasques ou Vas- 
quesnes, militares, filhos, netos ou sobrinhos de outros que 
usaram dos mesmos appellidos e oceuparam postos nos exérci- 
tos do tempo da colónia ! 

Ainda hontem recebi do eminente artist» António Parrei- 
ras amável missiva de despedida. Nella, diz elle, contar com 
o apoio (sic) das minhas informações históricas para execução 
dos quadros que vae pintar em Paris. 

ura. preciso é estar preparado appellando para os enten- 
didos, afim de não fornecer a outrem dados amchronicos ou 
disparatados. 

Do referido resulta o interesse com que li o artigo da 
Gazeta, cujo illustre autor me desculpará a ousadia de querer 
ter exacto conhecimento dessas figuras destacalas, do Brazil 
colonial . 

Quem lançou o pequeno mas elucidativo estudo de hoje 
pôde c deve escrever coisas mais detalhadas e minuciosas em 
proveito dos que amam a nossa historia. 

Domingo 5 de janeiro de 1908. 



HELEODORO EOBANOS 



PB 4.0 



Dr, Ermelino A, de Leão 

Sócio correspondente do Instituto Histórico e Geographico de 8 P«ulo 



HELEODORO EOBANOS 



Si não actuasse o indeclinável dever de accorrer em defeza 
de opinião nessa, expressa em 1900 e reeditada, mais de uma 
vez, sobre a perst nalidaHe de Heleodoro Eobanos, filho do ce- 
lebre poeta e historiador tedesco Eobno Hessus e primeiro 
descobridor das minas e povoador das terras dos Carijós, não 
nos animaríamos a cruzar. Das nobres justas da historia, armas 
com dous eminentes b:azileiros, a um dos quaep, alem da grande 
admiração que tributamos a ambos, nos achamos ligado por 
afíectunars laços de conterraneidade e de sincera estima. 

Mesmo abroquelado p« la verdade, cemo nôs encontramos, 
receiamos que o nosso patriocinio ás asserções da monrg-aphia, 
A Fundação de Curytiba, que apresentámos ao Instituio Híe- 
torico e Geographico Brazileiro em 1904, por intermédio do 
saudoso e venerando Conselheiro Correia, redunde em damno 
para a verdade, pois dispares as condições dos patronos. 

No nosso despretencioso trabalho analysamcs as versões 
correntes sobre os primórdios de Curytiba ; e, salvo correcções 
de cc pia, escrevemos : 

«Helecdiro Etbanos, filho do notável poeta tedesco Eo banos 
Hessus, fixou sua residência em Bertioga antes de 1552. Nes*e 
anno, quando Hans StadeD, companheiro do Senabiio, nau- 
fragou nas costas de 8. Vicente, o encontrou alli como feitor 
de alguns engenhos de a6sucar pertencentes ao nobre genovez 
Giuseppe Adorno. (1) 

« Em 1555, os francezes calvinistap, fugindo das persegui- 
ções movidas na pátria, por motivos religiosos, tentaram lançar 
os fundamentos d» uma nova nação — a França Antárctica; e 
sob o commando d) almirante de Bretanha, Nicolau Durand 
de Villegaignon, aportaram á bihia de Nictheroy ; e na ilha 
de Bergipe (hoje Villegaignon) fundaram a* bases da nova e 
mallograda sociedade, construindo o forte Coligny. 

«Durante a longa campnba que os portuguezes mantive- 
ram contra os invasores, inteiveiu Heleodoro Eobanos, como 
nos contam Taqaes e Pizarro, a favor dos primeiros, conse- 
guindo pelo próprio valor, o posto de capitão de canoas de 
guerra dos mares do sul. 



(i) Viagens e captiveiro entre os selvagens do Brazil era 1549 de Hans e 
Historia do Brazil de Roberto Southey, pagina BI i.° volum. 



- 448 - 

i Vejamos em que época poderia ter o fundador de Ou- 
rytiba travado luti contra os fr&ncezea. 

cA histora narra que em 1562, o g vernador-geral do 
Brazil Mem de Sá chegou ao Bio de Janeiro, com o intuito 
de desalojal-os da bahia ; mas reconhecendo sefnco, f guardou 
refrrços para empenhar combate. 

€ O P. Nóbrega, superior dos jnsuitas, envie u d« S. Vi- 
cente, novos elementos que lhe foram solicitados. Fortalecido 
com o contingmte vicentino, Mem de Sá, em fevereiro da- 
quelle anno, logrou repellir os invasores do forte Coligny, que, 
na impôs dbilidadn de guarnecer, destru u. 

€ Parte dos francezes refugir u-se no continente e ali per- 
maneceu em tranquill idade até 1565. 

« Nesse ann*), o governo da metrópole, sciente da situa ,ão 
em que se encontrava a col n*a, enviou Estaeio de Sá, sobri- 
nho do governador, com uma frota, para desalojar o inimigo. 

Estaeio partiu de Todos os Santos para o Rio de Janeiro 
e aguardou os reforços que o seu tio preparava nas donatárias 
da Bahia e do Espirito Santo ». 

Ancorado no Rio, explorou as posições dos francezes, re- 
conhecendo, desde lrgo, que nada poderia fszsr de proveitoso, 
por falta de forças e embarcações de desembarque. 

Dirigiu-se a S. Vicente e em quanto aguardava es promet- 
tidos recursos, tratou de obter, em embarcações pequenas e 
gente, es que as duas villas dessa capit na poderiam fornecer. 

Assim pois, nesta cecasião (ou na primeira campanha de 
Mem de Sá) Iíeeodoro Eobanos foi envestido do posto de ca- 
pitão de canoas de guerra contra os francezes. (1) 

Fundada a villa de S. Sebastião do Rio de Janeiro, de- 
pois da victoria de 1567, que custou a vida de Estaeio de Sá 
e pacificado o recôncavo, Salvador Com' a de Sá, o velho, en- 
carregou a Heleodoro Eobanos de combater os eari]Ó3 e exa- 
minar si de ficto existiam, nestas bandas do sul, as famosas 
minas annunciadas a Martim Afionso pelo n&ufrago de Cananéa, 
Diogo Peres. 

Si é exacto, como affirmam Ta quês, Pizarro, Milliet e ou- 
tros, que Heleodoro Eobanos, capitão de canoas dn guerra, na 
luta contra os francezes (1555 a 1567) foi o fundador de Igua- 
pe, Curytiba e Paranaguá, temos de concordar que essas fun- 
dações tiveram lrgar poucos annos ajós á erecção da villa do 
Bio de Janeiro. 

Es, em resumo, o que affirmamos na invalioia monrgr; phia, 
apresentada ao Instituto Histórico, do qual st mos tbscuro sócio. 

O dr. Vieira Fazenda, emnentí cultor da histora ntcional, 
e o nosso grande Rocha Pombo, a pagina 565 e seguintes do 
terceiro volume da Historia do Brazil, este c ■ nUadit riamente, 



(l) Pedro Taques (no tomo IX da Revista do Instituto Histórico Brazileiro) 
diz que em Í560 chegaram ao Rio os soccorros de S. Vicente, Santos e « . Paulo, 
levando canoas de guerra, «com o general delias Leodoro Ébanos Pereira », 



- 449 — 

se oprõem as ncsias deducções, partindo de pr» missas falseadas 
para ccnchisões illogica?, como ttntarenos demonstrar, si a 
tanto nrs ajudar engenho e arte (que são pequenrs) em seb- 
sequettes artg e, cem o fubido acatamento que muito me ei em 
os dou* illustres vultos da mentalidade braíieira. 

Exposta, a nossa these : estabelecemos a identidade de 
Hel^odcro Eoban, de Hans Stad n, (1552) e^mo Li< doro cllamâo 
de Bules, (1559); ermo Leodoro Ébanos Pereira, de Taques 
(1560) «genf ral das canoas te guerra» de S. Vicente, Pantos e 
S. Paulo; erm o Leodoro (U Elecdoro Ebancs Pereira, fundador 
te Paranagrá fl572) e Curytira, do mesmo Taques; com o 
Theot nios Ébanos dts ca tas regias, erm o Theodoro Ebancs 
Pereirr,d*5 Pizzano (1560 a 1648) e finaluente com o Eli odoro 
Ébanos Pe' eira, do dr. Gorziga Lince. 

Arezar de tao avultado numero de deturpações do nome 
estrangeiro deste notai el volto ndtnial, fnsMstimrs em afli-mar 
que o filho do celebre poeta e historiador Eoban de Hestep, 
que o Diccionario de Larousie menciona, é o mesmo Heleodoro 
Eoranos da expul ão dos francezes e do eVccbrirrento de minas 
e povoamento das terras^dos Canjós, isto é, do oriente do Parará. 

Examinemos a queBtâo. 

Duas errrentes dividem historit dorr s e ebrenistas. Uma 
identifica o capitão rV • aoôas e d sc(bridrr das minas do sul, 
com o feitor i?e José Adorno qae Hans Stac^em, seu contem- 
porâneo e patrício, ene; ntnu em Bert oga, entie'ecdo com elle 
amistosas relações (1552). 

Para cm firmar a naturalidede do descobridor das reinas 
parsnáens • s, existe ainda um valioso docurxento contemporanec 
o depoimento de Boles, a vutirra da inquisição, prestado em 
LUboa, declarando qie em S. Vi ei'c foi hospede de Liodoro, 
cllamão. P<rto Segaro e Roberto Seuth^y seguem esta Vír^ão. 

Pedro Taqre*, po ém, no denejo de engrandeoer a gens 
paulistana, ratural : sou o catholico He'eodorr, que fugiiadatua 
pátria para evitar as perseguições dos «lutheri s>, emprestando- 
lbe o patroi ymico Pereirp, que pertencia á família lusitana da 
esposa do audaz ve:cedor dos francaze?. 

Seguindo esta venão encontramos es segaintes autores: 
Azevedo Marques, Machado de Oliveira, Texeira de Mello, Tan- 
credo do Amaral e outros. 

Escriptores vários ee referem a Heleodoro Eem cogitar da 
sua naturalidade. 

A questão gyra pv's, *m t« rno desta interrogativa: He- 
leodoro Eobanos, filho do Eobsn de Hesirjs referido per Hans 
e Boles, seus conterxpor/neos, é o mesmo Helecdoro cu Leo- 
doro Ébanos Pere ra, primo ^e Esttcio de l?á, feu vai eso au- 
xiliir nas lutas contra os francezes e dercebridor das minai 
paranaenses ? 

Responíemoa a ffirmati vãmente ; mas antes de transcrever 
os argumentes contrários, para posterior e detida analyee, pre- 
cisamos satisfazer uma interrogação que já um noiso amigo 
formulou. 



— 420 — 

Como um allemâo poderia estar residindo em S. Vicente 
naquella remota era, quando defesi a entrada das ná' s estran- 
geiras nos poitos do Brazil? 

Já dissemos que Elecdoro era catholico ; e deduzimos da 
noticia fornecida por Larousse sobre o seu progenitor, que 1'jí 
victima de teaazes perseguições religiosas dos lutheranos, que 
por esse mesmo motivo, abandonou a pátria, muito jovem, re- 
fugiando -se em Génova, de onde se dirigiu a Poitugal em uma 
náo que os irmãos Adornos puzeram ao serviço da coroa por- 
tugueza. 

E não foi o povoador de Paranaguá e Cuiytiba o único 
allemão que se estabeleceu na donataiia de Maitim Áffonso: 
os Erasmos, proprietários do engenho e do baluarte de S. Jorge 
dos Erasmos eram allemães como conta Taques, na Nobiliarcbia 
Paulistana. 

No cyclo das conquistas foi Portugal o mais vasto sceaario 
que a Europa ofieiecia para as aventuras da gloria edariqieza. 
De todos os pontos convergiam para as ocsidentaes praias lu- 
zitanas, homens audazes que não teuiam o desconhecido e que 
esperavam obter nas ignoradas e opulentas índias, rápida for- 
tuna ou imperecível gloria. 

Era natural que os tedescos, fieis ao antigo credo e ex- 
postas, portanto, ia iras dos reformistas, ao abandonar a pátria 
procurassem de preferencia as terras da Ibéria, onde facilmente 
encontrariam emprego nas grandes naveg&ções e nas dilatadas 
conquistas . 

E devido a estas causas, os Betins, os Taques, os Franças, 
os Adornos, os Fragozos e tantos outros estrangeiros procuraram 
Portugal e mais tarde se estabeleceram no Biazil. 

Examinemos, agora, os reductos dos nossos illustres ad- 
versários, cccupando-nos em primeiro legar dos valiesos apon- 
tamentos do illustre dr. Vieira Fazenda, o mais paciente e 
provecto pesquisador dos archivos do Rio de Janeiro, entre os 
nossos actuaes historiographos. 

O distincto escriptor traça as seguintes linhas que, com 
prazer, transcrevemos : 

«A meu ver a confusão nunca se deveria ter dado entre 
dois indivíduos separados por tão longo espaço de tempo (quasi 
um século), como notou o articulista. 

«Entre o allemão e o nascido no Brazil (na minha humil- 
de opinião) houve outro Eleodoro Ébano, portuguez de nasci- 
mento, aparentado ou não com Estacio de Sá? Que grau de 
parentesco entre aquelle (que não usava do appellido Pereira) 
e o outro povoador do Paraná ? Seria o ultimo filho ou neto 
do primeiro ? Que no Rio de Janeiro existiu um Eleodoro Ébanos, 
é facto inconcusso. Foi elle, diz o dr. Diogo de Vasconcellcs — 
casado com d. Maria de Souza, filha de João Pereira de Souza 
Botafogo (proprietário da sesmaria, a que deu seu nome na 
praia de Botafogo) © de d. Maria da Luz Escossia Drummond, 
natural da ilha da Madeira. 



- 421 — 

cA realidade desse Eleodoro (que chamarei primeiro) ó 
comprovada por documentos existentes dos livros velhos do 
antigo Senado da Camará: a) Traslado da Provisão de Juiz 
dos orpbams desta cidade e seu termo, passada a Ayres Fer- 
nandes. Nesse manuscripto, e entre as assignaturas dos ve- 
readores de 1569, figura o nome de Eleodoro Ébano*, sem o ap- 
pellido Peieira; b) Exerceu de dovo o cargo de official do Con- 
selho no auno de 1585, como se vê da provisão passada ainda 
a Ayres Fernandes, para servir de M ampr steiro- Mor do Capti- 
vop, em substituição do dr. Attonic de Mariz Loureiro (o d. 
António do Guarany), fallecido em 1584.» 

O dr. Vieira Fazenda possue ainda um apontamento rela- 
tivo ao anno de 1614 em que Heleodoro EobBno— sem Pereira 
pede terras para cultivar, extranhando que este vulto prepon- 
derante, que tinha exercido, mais de uma vez, o officio de ve- 
reador, não tivesse terras de sesmaria ou do Conselho para 
cultivar. 

Pe-gunta o illustre historiador : 

«Seria o potieionario o antigo vereador ? Pois um homem 
que occupou cargos da governança da terra, declarava, em annos 
posteriores, não ter terras para cultivar ? E isto quando in- 
divíduos de menor importância, como soldados, tambores e até 
o porteiro da Camará as haviam obtido, pagando diminuto foro? 
Seria, repito, o supplií».ant9 ce 1614, o Eleodoro Pereira que 
mais tarde dirigiu a conquista e povoamento da futura pro- 
víncia (hoje Estado) do Paraná ? Nesse caso encetou elle tua 
glori sa missão já bem adiantado tm anncs. 

Eis os pontos que eu desejava ver esclarecidos. Seria elle 
o vereador Ébanos que assignou o acto de correição feita pelo 
ouvidor-geral Diogo de Sá da Rocha em 3 de ooarço de 
1638 ? Provado este facto, poderíamos afiançar que Eleodoro 
Ébanos Pereira, antes de segair para o sul, esteve no Bio de 
Janeiro. Quando teria partido daqui?» 

Como se vc, o erudito historio^rapho nada conclue, aguar- 
dando posteriores esclarecimentos ; mas, embora partindo da 
falsa pemitsa estabelecida por Taques, que afastou o acm- 
tecimento de 1572 (pouco mais ou meãos) para o anno de 1648, 
o dr. Vieira lança tamanha e nova luz sobre o problema his- 
tórico, que poderemos affirmar, concorre eficazmente para o 
restabelecimento da verdade, dissipando as próprias duvidas que 
formula. 

Estes preciosos apontamentos, que, como dever de leal- 
dade e como recurso de defeza, reproduzimos, quasi na integra 
fe que somente conhecemos pela transcripçfto de Rocha Pombo) 
irão demonstrar que não commettemos um absurdo histórico 
estabelecendo a identidade dos lleleodoros . 
Analysemol-cs, pois. 

O primeiro encargo que se impõe, inilludivel, ao obscuro 
eicriptor destas linhas, na cY.fe.sa da these histórica em debate, 
consiste em determinar, mais ou menos, a data em que t3ve 
logar a conquista do paiz dos Carijós pelos colonos portugue- 



— 422 — 

zes e o descobrimento das afanadas mÍDas de curo desta re- 
gião. 

Fixada a data desse acontecimento, prderemos então con- 
cluir que o povoador de Iguape, Paranaguá e Cutytiba foi o 
filho do notável poeta e historiador de Erfurt ; e, talvez, primo 
por affinidade de Estacio de Bá. 

Vejamos quando poderia ter occtrrido tal succefso. 

Na no38a monographia — A Fundação de Curytiba— estabe- 
lecemos a era da 1572 como sendo aquella em que teve lugar, 
provavelmente, a conquista e descoberta das minas do paiz 
dcs Carijó 3 pelos portuguezes. 

Bi todos concordam que um Heleodoro Eobanos, capitão de 
^anoas na guerra centra os francezes de Villegaigncn, Pereira 
ou não, tedeseo ou minheto, onquisteu dos Carijós e dos cas- 
telhanos os territórios de Paranaguá e Curytiba, terão de con- 
cluir logicamente cornnesco, que o feito histórico debatido é 
muito anterior ao tnno de 1648 referido por Taques. 

Ccmo Heleodcro poderia ter, nesse anno, conquistado e 
po veado Paranaguá quando Monsenhor Pizarrr, António Vieiía 
dos Santos, este nas Memorias Históricas de Paranaguá, Ro- 
mario Martins e outros afirmam que já cm 1578 es mioas 
paranagnenses estavam em plena actividade? Porventura, po- 
deria elle descobrir urnas que já em 1578 cu 1580 enviavam 
ruro para d. Henrique — o rei cardeal, setenta annos depois 
de exploradas ? (1) 

Como poderia ter logar em 1648, esse descobrimento, 
quando já em 15 de agosto de 1603 a corte de Valladolid 
baixava um regimento para as» minas de Paranaguá, e nomeava 
Salvador Crrrea de Sá— o velho, seu administrador? (2) 

Que explicação poderá ter a exquisita descoberta que o ca- 
pitão de canoas «Leodoro Ébanos terei] a, seu filho Gibaldo 
(ou Tiraldo) e Sebastião Teixeiía fizeram das lavras douro de 
Paianaguá, as primeiras descobertas no Brazil, dando-se a data 
de 1648. quando o governo de Castella já em 4 de novembro 
de 1613 reformava o regimento das minas; e a 18 de agosto 
de 1618 auctorizwa os colonos de S. Vicente a disporem do 
metal das minas desço hartas, pagando o quinto á real fazen- 
da ? (3) 

Os que pretendem, como o illustie Rocha Pombo e outros, 
estabelecer a dualidade dos Heleodorosj deveriam, para ser con- 
cludentes, destruir todos estes documentes insophismaveis ; e 
provar qre além do allemão, houie outro que, na mesua épo- 
ca, com o mesmo nome, e ca ado com a mesma mulher, exer- 
ceu o cargo de capitão de cenoas e f i o descobridor das mi- 
nas e o conquistador das terras de Paranaguá e Curytiba. Não 
o fazem, porém, pois seria difficil dar como inexistentes leis e 
documentos, ainda cuvervados nos archivos. 



(1) Vieira dos Santos — Mera. Históricas de Paranaguá. 

(2) Obra citada^R. Martins— Paranagoá, pag. i2. 

(3) Vieira dos Santos- Obra citada. 



— 433 - 

Comtudo, alguns destes egcriptores, que tão tenazes se 
moitram contra as nessas asserções, ião os primeiros a declarar 
que as lavras d'ouro de Paranaguá já se achavam em plena 
actividade antes de 1578, isto é, mais de meio século antes da 
pretendida era do eeu descobrimento. 

Estamop, pois, a vista de um cano que puia os bois..* 

Mas, não precipitemos a argumentação. O que deixames 
eteripto nos paiece suficiente para demmstrar quão falsa é a 
data de 1648, mencionada por Taques e seguida, como um 
dogma, por grande numero de historiadores e chronistas. 

E esta data Dão seria um erro de cópia ou de impressão? 

ProsigamoB, pois cem calma, a analyte dos elementos col- 
legidcs nas nossas, ainda incompletas e inéditas, Annotações 
histori as e geographicas do Paraná. 

Antes de entrarmos na apreciação de outres pontos do 
problema liist'. rico em debate, reforcemos com um valioso ar- 
gumento, os que deixamos escriptes no anterior artigo. 

Seria um verdadeiro absurdo, ca rigoroia sigoifícação da 
palavra, admittirmos qce o território de Paranaguá fosse des- 
cobeito e povoado seis annos depois de ter logrado, pelo seu 
progresso, o predicamento de villa. Entretanto, os m sbos il- 
lustres adversos, insistem em declarar que Paranaguá foi con- 
quistada em 1648; e alguns delles concordsm que já a 6 de 
j ar eiró de 1640, por ordem do Governador do Rio de Janeiro, 
Duatte Correia Vasqueannes, o juiz syndicante Manoel Pereira 
Franco erigia o pelourinho em Paranaguá, como afirmam Viei- 
ra drs Santos e R. Martins, este á pagina 16 do opúsculo — 
Paranagoá ! 

Como ? Poit», então, Paranaguá antes de ser povoada já 
era villa, já tic lia capitão povoador e moradcrei? 

Examinemos, agora, o segundo ponto : Heleodoro Eobanos 
que conhecemos como feitor de engenho em Bertirga será o 
mesmo Leodoro, que figura na campanha contra os franceses 
(e que consta ter sido p.imo irmão de Esta tio de Sá) e noa 
descobrimentos de minas ào Paraná ? 

E' sabido que antes de 1552 residiam em S. Vicente vá- 
rios allemães que, comervando-fe fieis ao credo catholico, ti- 
veram de tomar o camioho do exilio para fugir ás persegui- 
ções dos lutheranos triumphantes. Eotre outros mencionare- 
mos es Erasmos, cita los por Taques, sem cceultar a naturali- 
dade dos que forem p-oprietarios do engenho de S. Jorge. 

E' provável que com estes seus patrícios, Heleodcro ti- 
vesse immigrado para o Brazil em uma das nauí dos nebres 
genovezes Adornos e que, chegado a 8. Vicente, ainda joven, 
fosse aproveitado nas emprezas daquella importante família. 

O que é inconcusso é que este Heleodoro já se achava 
em Bertioga em 1552, quando Hans alli aportou salvo de um 
naufrágio, pois expressivamente constam da sua narrativa as 
relações cordeaes que com elle manteve, quando Heleodoro, 
ainda joven, não passava de modesto feitor de engenho de 
assucar. 



— 424 — 

Dryander, piefac"audo a obra do companheiro de Sena- 
brio, diz ser esse Heleodoro, cfilho do sábio e muito famoso 
Eoban de Hessen* ; o nobre e desventurado Boles depõe que 
em S» Visonte esteve hospedado, em 1559, na casa do Leodoro 
allamão ; Pedro Taques ccnta que Leodoro Ébano, (aquém em- 
prestou o appellido de Pereira, que seus descendentes herdai am 
da familia materna) em 1560 seguio de S. Vic nte pa a o rtio 
com os secccrros das villas do sul; e o jroprio Rocha I\ mbo, 
no corpo da sua Historia do Brazil affhma que a 18 de ja- 
neiro de 1567 já Heleodoro se encontrava no Rio de Janeiro 
cm as forças que c A mmandava. 

Até aqui ha evidentf-rrente uma serie de suicessos oceor- 
ridos com um individua que, depois de morar em S. Vicente, 
passou para o Rio de Janeiro, cem muitos outros contemporâ- 
neos, a combater os francezes. O transcurso do tempo de- 
corrido de 1552 a 1567, — quinze annes apenas — não admitte a 
suppcgiçao da existência dts treis fíeleodcros, imaginados pe- 
los nossos illustres adversos. 

Passemos, agora, a demonstrar qui esse mesmo heroe da 
exonlsao dos fahcezes, não estaria em plena senilidade em 
1578 tu 1580 quando d. Heuriqne recebeu, das minas de Pa- 
ranaguá, as primeira? amostras de ouro remettidas do Brazil. 

Admttindo-Sfj que em 1552, quando feitor de engenhe, 
tivesse 20 a 25 annos de edade, em 1572, data provável da 
conquista d(s carijós estaria com 40 a 45 annos; e em 1578 
(data mencionada por Pizarro, Vieira dos Santos e Ronario 
Martins) teria 46 a 51 annos ; e, portanto, pleno vigor pbysico. 

Mas, objectarão, Paranaguá somente foi conquistada aos 
carijós e castelhanos em 1648 Esta opugnativa já está ple- 
namente destruída: es próprios escrirtores que a sustentam são 
os primeiros a rebatel-a, pulverisaodo-a. Conttariando esta 
versão, R. Martins (Paranagoé, pagina 8) diz que foi a expe- 
dição organizada por Jercnymo Leitão loco tenente de Pêro 
Lopo de Souza, a 1 de setembro de J585, a que descobriu Pa- 
ranaguá, affirmando mais que em 1609 e 1614 João Abreu e 
Diogo Unhatte, membros dessa landeira e primeiros povoadores 
do Paraná, obtiveram sesmarias aqui situadas. 

E este próprio chrenista, á pagiDa 7 da monographia — 
Curytiba — escreve: 

«Em 1548 já Hans Staden confabulara com portuguezes 
em Superaguy, onde naufragara, e faz na sua obra adiarjte 
citada, referencias ao commercio que os lupiniquins entretinham 
com Santos e S. Vicente; e em 1555 era franco com estes por- 
tos o grande commercio dos Carijós de Paranaguá». 

Ahi está como o povoamento do Paraná rehs portuguezes 
teve inicio em 16J8, quando em 16C9 já haviam moradorep, 
donos de sesmaria3 ; e ahi está como o Paraná foi descoberto 
em 1585 quando já em 1548 Hans Staden encontrava, nas 
nossas praias, colonos portuguezes ! 

Inccmprehensivel para nÓ3, obscuro cultor das letras his- 
tóricas, a conciliação de tão oppostas afirmativas. 



— 435 - 

Nâo pode, pois, haver duvida alguma que foi o amigo de 
Ilans quem conquistou dos Carijós e dos castelhancs, para os 
portuguezes, as terras paranaenses. 

Tejamcs, agora, si este notável guerreiro e povoador podia 
ser parente de £stacio de Sá. 

Pedro Taques de Almeida Paes Leme, na Nobiliarchia 
Paulista, na (Rev. Ti iro. do Inst. Hiit. tomo XXXIV, 2.* parte, 
pag. 21), referindo-se ao mestre de campo Carlos Pedroso da 
Silveira rrenciona Gibildo Ébanos Pereira, como pae da es- 
posa daquele notável raulista — d. Izabíl de Souza Ébanos 
Pereira e accrescenta : «Neta rela parte raterna de Eleoioro 
Evanos Pereira, natural da Villa de Viaona do Minho (pri- 
mo* irmão de Estacio de Sá eaa cuja companhia viera ra*a o 
R«o de Janeiro em 1568 em que falleceu E-tacio de Sá); e de 
sua mulher Maria de Sou2a Brito, natural do Rio de Janeiro 
e por ela bisneta de João d« 3 uza Pereira de Botifcg), 
natural de Elvas, e de sua mulher d. Maria da Luz Escorcia 
Drummond. filhi de Maneei da Luz Escorcio Drumond ; na- 
tural da ilha Madeira de onde viera para S. "Vicente com sua 
mulher, trez filhas e um filho e enviuvando em São Vicente, 
catou segunda vez o dito Drumond e fe recolheu para o Rio 
de Janeiro com seu genro João de Souza Pereira de Botafogo». 

Pa^a o profano, o que ahi fija é uma trapalhada de dif- 
ficil cooaprehensão ; nao assim para os qua se habituaram a ma- 
nusear livros genealógicos. 

Imaginem, agora, o que Beriam des poucos 1 iiilfl destas 
linhas, se fossemo? mostrar que nenhum des seis filhes do 
cónego Gonçalo Mendes de Sá, Franc sco de Sá Miranda, e 
notável preta, Mem, Henrique, Gaspar, Fernão e Manoel de Sá 
teve um filho com o nome de Eleodo o Evanos Pereira, natural 
de Vianna do Minho? Era um desfilar de n -mes desde Ro- 
driguenes de Sá até o seu ultimo tat-raneto, capaz de impa- 
cientar um Job. 

Foi em virtude deste parenthesis genealógico de Taques 
que nasceu a opinião contraria. E preciso net'r que o esforçado 
chronieta, esc evendo em 1783, um rascunho sujeito a correc- 
ção, como elle ir esmo affirroa, não v^rifíc u inventários do» 
BotafogiR. cujo titulo, embera annunc ; ado, Lão enerntramos na 
Reviata T.imensal, da qual nos falta um tomo. 

Examinemos si esta nota de Taques deve e pode prevale- 
cer contra a opinião do próprio historiador paulista. Vemcs 
ahi três afnrmaçõ s: 1* que Heleodoro Eobano era porlugi es ; 
2.° que viera ao Braz 1 em 1568; 3°queea primo de Estacio 
de Sá. 

Quanto á naturalidade cpponco3 á opinião do genealogista 
de 1783, as affii mações de Iíaos Staden, seu compatrício e 
amigo, de Dryander e do nobre e desventuado Boles, todes 
contemporâneas do cooquistadtr das terras dos carijós. 

Qaanto á chegada em 1568, em companhia de Estacio de 
Sá, diremrn não só que o próprio Taques o contradia, como se 
pode verificar á pagina 320 do tomo IX da Revista Trimensal 



— 426 - 

citada e em outro tópico da Nobiliarchia, quando narra que Leo- 
doro Ébanos Pereira, no anno de 1560, seguiu para o Rio de 
Janeiro, commandando os reforços de S. Vicente ; como também 
que era impossível ter vindo naquelle amo (1568) em compa- 
nhia <?e Eítacio de Sá, porque este era, desde 20 de fevere ro 
de 1567, morto em censequencia de ferimentos recebidos Da 
decisiva battlha de 20 de janeiro do mesmo anno, como dizem 
Joaquim Manoel de Maçado, no Anno Biographico e outros his- 
toriadores. 

Quanto á terceira affirmação — somos o primeiro a ad- 
mittir a possibilidade do parentesco próximo por laços affins, 
uma vez provada a consanguinidade dos Batafogos e Assecas, 
como lemos, não sabemos si no próprio Taques. 

Conclue — Fe do exposto, que o parenthesis de Tiques com- 
mette duplo absurdo em ponto essencial. 

Estudemos outras pravas. 

O illustre dr. Vieira Fazenda na sua erudita critica as- 
severa que foi H Jeod ro Enbanos (sem Pereira) casado com 
d. Maria de Souza, filh* de João Pereira de Souza Botafogo e 
d. Maria da Luz Escossia Drummond, estabelecendo assim plena 
identidade entre os dou- pretensos Heleodoros, que são de facto 
uma só pessoa 

E, no entanto, o paciente p squizador trata de mostrar 
(Trizando rem que este morador do Rio de Jaueiro não usava 
o aprellido de Pereha. que repetimos, os seus descendentes her- 
daram da foailia m. terna) não era o mesmo Eleodoro Ecbano, 
de Taques ! 

Para nós, o facto pode ser explicado: o genealogista pau- 
listano, contemporâneo dos Ébanos Pereira, entendeu que I Ie- 
leodoro deveria ter os mesmos nomes, ac3rescenttndo-lb.es o 
appellido de Pereira. 

Eis explicado, pois, que o es pitão de canoas de guerra 
Heleodoro Ecb»nos, d scíbidor das minas e conquistador das 
tarrai dos carijÓ3, hoje paranaenses, ccmquan^o poudesse ser 
parente affim de Estacio de Sá, não era portuguez e nem veiu 
para o Brazil em 1568, na companhia daquelle seu parente 
morto um anno antes ! 

Está, po.s, demonstrado que o capitSo L odoro Ébano Pe- 
reira, da Taques, é o mesmo Heleodoro Eobanos referido pelo 
dr. Vieira Fazenda, como vereador do RiodeJaneiío nos annos, 
de 1569 e 1585. 

Encaremos outra questão. 

O dr. Vieira Fazenda se d'z intrigado por um requeri- 
mfnto em que Inodoro Ébanos, a 13 de ag03to de 1614, pedia 
terras, allegando não possuil-as, nem de sesmaria, nem do con- 
selho De facto, precedente a extranheza, attendendo-se que 
um dos rxais notáveis fundadores de S. Sebastião, tendo exer- 
cido postos elevado3 no governo da terra, não tivesse terrenos 
47 acnos apói á fundação da cidade para a qual tinha concor- 
rido arriscando a própria existência, si circumstancias especiaes 
não occorressem para explicai- a. 



- 427 — 

S Heleodcro Eobanos, entro os annos de 1570 a 1614, es- 
teve em explorado e administração das minas de Iguape, Pa- 
ranaguá e Curytiba e na conquista dcs carijós, para que po- 
deria pretender terras no Rio de Janeiro? 

Vejamos agora a identidade deste peticionário com o des- 
cobridor de minas e vereador do Rio de Janeiro Já demcn»- 
trámos que em 1578, Heleodoro poderia contar de 46 a 51 annos 
de idade; e, consequentemente teria 82 a 87 annos em 1614, 
estando, portanto, incapaz de exercer a lude e aventurosa pro- 
fisrão de descobridor de minas. 

Eia natual que, recolhendo se ao Rio com es carijós es- 
cravizados, somente, então, pedisse terrenos para cultivar, pró- 
ximos á sesmaria do seu já fallecido srgro Botafogo. 

Convém observar que Vieira dcs Santos (Memorias Ili to- 
ricas de Paranaguá) òiz que «The:dtro Ébanos Fereira», foi 
administrador das minas de ouro ; e c i jecturamos que o tivesse 
side, por delegação de Salvador Conea de fá. o velho, no 
período de 1603 (epocha do 1.° regimento) a 1613 (data em qce 
foi promulgado o segundo) 

Admittida esta dedução (não obstante data em contrario), 
nada eitranbavel seria» que ao recclher-se ao Rio, somente en- 
tão, solicitasse terras para cultivar. 

O que fica expendido, desordenadamente tmbora, responde 
ás eruditas in'errogaúvas do illuste historiador dr. Vieira Fa- 
zenda . 

Ainda podemos acerescentar que o Ebancs que subscreve 
o auto de correição do 1638 não redia ser o descobridor das 
minap, m's, talvez, o seu íi bo Gb.ldo Ebanoa Pereira, que 
também tomou activa parte nos emprehendimentos paternis. 

Ao eminente mestre desnecessário evideociar quão gratuita 
uma hypotbese de larentes^ ernsangnineo entre o tedesco, 
natural de Erfart ou Nurenberg e Estscio de Sá provavel- 
mente coimbrão ; e cutrosim quão razoável a conjectura de pa- 
rentesco entre os nebres Botafogo, de Eivar, cuja fidalguia vem 
dês João Gonçalves Bitefo^o, da casa de d. Mairel I, que 
rruito bem poderia ser próximo parente d* J(âo Gonçalves de 
Miranda, avô de Mem de Sá e biavô de Estagio. 

Deixemos á margem conjecturas inúteis. 

Heleodoro Eobanos, primo cu não de Estacio, foi um vulto 
nctavel da historia do Brazil Colonial; audaz commandante das 
canoas de guerra que por duas vezes, decisivamente, agiu cen- 
tra es francezes; valente conquistador dos carijós e operoso 
descobridor de minas, elle bem merece uma detida apreciação. 

E' pois, chegado o momento de analyéaimos o parecer do 
eminente conterrâneo Rtcha Pombo, que tão b.°llo servi çj vae 
prestando ás letras nacionae» na Capital da Republica. 

O laureado autor da Historia do Brasil, o no ais fecundo 
dos intellectuaes paranaenses, cita as ligações de H«?lecdoro 
Eobanos com a família Botafogo, reproduzindo um trecho da 
Genealogia Paulistana do dr. Gonzaga Leme, no qual se depara 



- 428 — 

o me*mo parentbesis da Nobiliarchia de Taque3, jnr dós trans- 
criptn e auslysado. 

Depois de eruditas informações sobre o capitão de canoas 
de guerra dos mares do sul, conclue contraditoriamente: 

«â. solução íó podia ser uma e foi a que encontrou o la- 
boric so chronista : Heleodoro Eobaa não pode ser Eleodoro 
Ébano. N*m mesmo o Elecdoro portuguez, pi inço de Estacio, 
natural de Vianoa do Minho, pode s^r o Eleodoro povoador de 
Paranaguá. Não se segue, porém, que não baj* alguma rela- 
ção de parentesco entre 03 doi*. Os Ébanos Pereiras forma- 
vam extensa familia espalhada era S.Vicente e no Rio de Ja- 
neiro, e Dão é extranho que se pprpetuafse o meEmo nome de 
Heleodrro ou Eleodorc». 

Depois de transcrever a critica do dr. Vieira Fazenda, que 
acabamos de analysar, aecrescent : 

c Ainda assim, alguma* duvidas ficam de pá. O Heleodo- 
ius Ecban, de Hans Staden, vivia ainda em S. Vicente em 
1559, segundo o testemunho de B lés ; o out o ou que outro 
pe 8uppõe (Elec.d ro Ébanos Pereira) e que é tido como primo 
irmão de Estacio faleceu em 1569; e no emtanto o Eleod >ro 
de Paranaguá alli apparece em 1648. O; a, para que este seja 
neto de Eob?n de S. Vicente e filho do primo de Esfacio é 
preciso edmittir que quando fundou Paranaguá tinha mais de 
80 annos e ainda que rahva pelos 90 pelo aenos, quacdo creou 
Cu?ytiba e Iguape». 

Eis ahi a solução apresentada pelo ilustre Kistorlographo 
paranaense: que grande partidas proposições que avaoç» estão 
destruídas com o que temos dito em resposta ao dr. Vie ra Fa- 
zenda, parece-nos evidente. 

De tufo quaoto affirma, somente pc demos concordar com 
a pr?s bilidade da perpetuação dcs mesmos nome), do que to- 
mos nós conclude te prova como a quarta pessoa da mesma 
familia que traz os mesmcs nomes, embora transpostos. 

Fora dçsse prnto insignificante, o desaccordo é radical 

Pa a o distincto patrício, nem um neto do Eobanos pode- 
ria ser o defcobridor das minas de Paranaguá, porque desloca 
e*te facto, occorrido na ultima metade do século XVI, para o 
anno de 1648 ; e, nestas condições, somente, o amigo de Iíans 
seria um inadmissível crso de longividade. 

F/guremcs uma hyp tbese : si o Heleodcro Eobano (sem 
Pereira) casado cem d. Maria de Souza, como diz o dr. Diogo de 
Vasconcellos, provavelmente depôs da guerra e dafuudaçíodo 
Rio de Janeiro (15-8), tivesse seu prira>genito Gibaldo Éba- 
nos Pereira rm 1569, e*t3 eítiria em 1648, na pietensa era da 
conquista do3 Carijós e do descobrimento das minas de Para- 
naguá, com 79 annos; e portanto, com menor id*de, quando de 
pssagem para o sul tesctbriu as lavras de Igaape. dsnio ini- 
cio á povoação. Como, pois, o illustre historio grapho foi en- 
cont ar a idade de 80 a 90 annos, como Fendo a que poderia 
ter um neto de Eobanos quando o filho mais velho desse mesmo 
Eobanos, não poderia ter mais de 79 annos ? 



- 429 - 

E\ pois, inadmissível esta conclusão. 

O distinctD patrício, empenhado no eetudo das múltiplas 
questões da historia pátria, não deteve cuidadosa attenção sobre 
a these que contravertemos, pois, do contrario, não comnutieria, 
apój um absurdo, uma palpável contradicçào. 

E f assim que o illustre historiador affirma a dualidade d.s 
Ileleodoros — um de S. Vicente e outro primo de Estacio — e 
attribue a este, que tinha o appellido de Pereira, os feitos bel- 
licosoa contra os írancezes do Bio de Janeiro. 

Mas si concordamos com o que escreve nas notas elucida- 
tivas, ficaremos discordando com o que enuncia á mesma pagi- 
na da Histeria do Brazil, em nítido corpo 10, onde se lê: 

«Na Victoria enferma o Governador; mas as circumstancias 
apertadas impunham os maiores sacrifícios, e mesmo assim pro- 
seguindo, veiu elle entrar a barra no dia 18 de janeiro (de 
l.~>o7) t sendo recebido com as mais vivas acclamações por toda 
a sua gente. 

Já encontrou na bahia outros reforços que tinham vindo 
do sul, com Eleodoro Ébano Pereira, chefe das canoas de guerra 
daquellas partes» • 

Como ? Pois o Eleodoro Ébano Pereira nâo chegou ao Rio 
de Janeiro, com o seu primo Estacio, (já fallecidoj em 1568 ? 

Si chegeu nesta época, como poderia encontrar-se no Rio 
a 18 de janeiro de 1567 ? 

Oppomcs, pois, ao illustre Rocha Pcmbo o próprio emi- 
nente historiador Rocha Pombo. 

Pro si gamos. 

Afsigoaada a c ntradicção, bordemos ainda ligeiros com- 
mentarios. 

Por qre rrotivo não devemos admittir que o Helecdoro 
Eobanos, que Mem de Sá encontrou no Rio de Janeiro a 18 
de janeiro de 1567, não seja o mesmo individuo que Hana en- 
controu em S. Vicente em 1552, o mesmo que hospedou EL lés 
em 1559 e que partio de S. Vicente em 1566 á frente da* 
canoas de guerra dos vicentinos em soccorre de Estacio de Sá ? 

Pois o Eleodcro Ébanos Pereira não estava no Rio em 
1567 vindo do sul com os esforços pedidos ? 

Admitte o i lias trado patrício que um Hele odoro (bisneto 
talvez do feitor d? engenho) fosse o povoador de Paraiaguá ; 
e fixa a data de 1648, como sendo a do inicio desse povoa- 
mento. 

Já evidenciamos a incongruência de semelhante proposição ; 
mas vamos pedir ao applaudido patrício o auxilh valic sisai nn 
da sua opinião insuspeita para completo esclarecimento da questão. 

O notável escriptor param ense á pagina 61 d'0 Paraná 
no centenário affirma o seguinte : 

«Quanto a época exacta da entrada de Efcanona- 
quellas paragens (Paraná), nada sabemos de positivo. 
Apenas, por conjecturas, parece razoável collocar nos 
principos do século XVII, pois que por meiades já se 



- 430 - 

achavam estabelecidas muitas familus no local onde 
haviam sido lançados os fundamentos da primeira to- 
voaç&o formada em terr tório paranaense» 
tr 

Neste echo o iPustre historiador fe olvida que as pri- 
meiras povo a <;ce3 erectas no território paranaense foram Uvadas 
a effeito pelos castelhanis da Província de Veras, que então, 
em viitude da linha imaginaria do tritado de Tordesillas, se 
suppunham legítimos possu dores de tecla a reg ão ao si 1 de 
Cm&néa ; ma?, &hi mesmo, aimitta uma conjectura muito mais 
razoável do que a ultima, ifasando rara princípios do século 
dos Reiscentos o povoamento do Parará. 

Esta opinião nós a subscrevemos, uma vez que se distin- 
gam as operações da conquis a e explorações das que caracte- 
rizam o povoamento propriamente dita. 

O d ; gno mest e o que não poderia sustentar é que o po- 
voamento de Paranaguá teve inicio em 1648, quando já em 
1614 Diogo Unhatte e Jcão da Abreu obtinham sesmarias em 
Paranaguá, ernn affirmam Azevedo Marques, Mendes de Alm ida, 
Romano Martins, (este á pagins 9 do opúsculo, Paranagoá) e 
tantos outros escriptores. 

Como conciliar factos tão antagónicos ? 

Nenhuma duv.da p:da existir sibre a dita approximada 
em que tave Jogar, não a descoberta da teira, mts as ('as minas 
de Pa-an&guá por Heleodoro. Ha um documento valioso não 
ha muitos anoos desenterrado pplo illustre historiador dr. La- 
ftyetíe Toledo e publicado n) «Correio Paulistano» que de- 
monstra approximadamente a data dos acontecimentos de que 
tratamos. 

Este documento v m appenso ao citado opúsculo — Parana- 
goá — e tem a data de 1585. E' a petição dos moradores de 
S. Vicente e Saatos, que ao receberem a nova, já coi firmada, 
dos de cebúmeutos de Eobanos, teataram comparti c par das ri- 
quezas que anteviam ro paiz dos Carijós; e como sábia reso- 
lução do donato, io imped'a que os colonos fizessem entradas 
no settão, para evitar possíveis attrictcs com os selvagens, pro- 
curaram ladear a dificuldade, requerendo guerra oampal con- 
tra os Carijó 9 , allegando suecessos de mui*os annos atraz. 

Vejamos o que diz este valioso documento : 

«E outrosim requeremos ao sr. capitão que não 
consinta que os do Rio de Janeiro nos entrem no nosso 
sertão desta capitania a levarem o gentio delle para o 
dito Rio como agora levaram ha pGuco tempo, e nós 
que sustentt mos a terra com nossas pessoas e fazendas, 
a santos e chritãcs, não gozarms de outro fauto» ; 

Que IIeleod.ro esteve no Rio de Janeiro, onde se casou 
com a filha do Botafogo, affirmam Taques e Dugo de Vasccn- 
cellos e o comprovam es documentos referidos pelo dr. Vieira 
Fazenda. Portento, os taes do Bio de Janeiro que entravam 



- m - 

tios sertões da donatária (S. Amaro) governada por Jeroi.ymo 
Leitão, não eram outrcs senão o Ileleod ro Eobanos, capitão 
de can ai em 1567, vereador em 1569 e descobridor de minas 
no período de 1570 a 1584, o seu filho Q.baldo, Sebastião Tei- 
xeira e seu? companheiros. 

Como etti petição affinna. os serUnistas Uvaram par» o 
Rio índios eácravizad' s, pouco tempo antes; eo facto é que o 
illustre ^e quizador dr. V. Fazecdi foi, de novo, encontrar 
Eobeno, na governança da terra em 1585. 

Fiquemos, h' je, por aqui. 

Nenhum outro vulto da hittoria nacional ap esenta tama- 
nha variíbil dade de n me como esse Milaz guer eiró, vencedor 
dos francezsB e dos Carijós, descobridor de minas, official do 
c> nselho do Rio de Janeiro, povoador de Iguape, Paranaguá e 
Curyt bs, capitão de cancãs de gue ra e administr; dor das mi- 
nis do sul do Braz.l. 

Mas, apezir de taLt)8 e t5o glorioscs serviços, esse esfor- 
çado auxiliar dos po tiguezes jaz na penumb a do passado sem 
o merecido destaque 

Vej^nrs agora as adulteraçõei do nome des.e heoe quasi 
ignorado H.ns Stidea clama— o 111 odo u« Eobm ; R. S u- 
tley, Heleodoro Eobanus ; Taquei na Nobiliarchia, Eliodoio 
Evan s Peieira ; o meimo tutrr, na c<tada cb a e na Historia 
da Capitana i'e 8. Pa 1 lo, I eodoro Ébano Pereiía; P z*rro, 
Vieira dos Santis. Acácio Cuze ( utros, Theodoro Eb.no Pe- 
reira; Mulle"*, Heliodoro Ébano Pereira; o governador da me- 
trópole, Theot-n'0 Ebínos;R. Ma tin?, Heleodorus de Hessus 
e finalmente o dr. Gonzaga Ler e, Eleodaro Eb nos Peieira. 
Já Fa ; ntHilaire ext-anhou este facto verdsdeTamen e original ; 
e que soueo e pode ser exilicdo ;el» circumílancia de s^r 
um n< me estr» ngeiro pouco conhecido e fscil de ser ou adul- 
terado per arhérese (Leodoro por lleleodoru) íu naturalizado 
por cu v ro ; ubstsnti .o luztun semelhnite, como Theodcro. 

Na nossa humilde opinião, o ve^dadei o nome do desc bri- 
dor das minas do sul é Hei odoro Eobinos (com o Eo em dy- 
jhtorgo latino), em versão portugueza. 

Esclarecidos este» pentos, ('examjs á margem cutros dados 
r7as nossas Ann-taçõ s históricas e geográficas do Paraná, 
ainda inéditas. 

Diremos, cornudo, que entre os vultos estuíados por rói 
à luz dos doaiiient s e das chroncts, que figutam naquellajá 
i diantada obra, mode to tributo de amor á nesta terra, encon- 
tramos va ios descenden e» des e filho do sábio hi<torador de 
Hesei. Men ion m s alguns: Gilbaldo Ébanos Peieira. filho 
e companheiro r/e Heleodoro, cónego João da Veig* Crutinho, 
o fundador da c pella do Per Ião em Agufcf Bellas (3. José doi 
Pinhae»), e feiro de Souza Pereira, q: e foi inculpado pelos 
moradoies do Rio pela morte do m neiro Jayme Commere e 
que esteve preso por faltas commettidas no cargo de provedor 
dfs mmas de Paranaguá. 



- 432 - 

Este ultimo personagem é um typo curioso : teve contra 
si a revolta de duas populações — Rio de Janeiro e Paranaguá. 
Si existiu um administrador de minas de ouro no tempo de 
Gabriel de Lara (1G18) chamado Theodoro Ébano Pereira, co- 
mo Vieira dos Santos assevera, certamente era também des- 
cendente do descobridor e, quiçá, pela homonymia, causador 
de tamanho embrulho. 

Mas eobre a existência deese ultimo pretendido descen- 
dente sliment&mcs serias duvidas: si existiu em 1648 e si 
fosse filho do Eobanos estaria com 70 e tantos annos, o que 
não representaria boas condições para o officio de bandeirante 
de qu3 se achava investido, segundo aquele fecundo chronista 
paranaense. 

Demais temos á vista cr pia do termo de ajuntamento que 
o ccaDitâo Gabriel de Lara fez e o mais povo». 

Neste documento se diz que, depois do toque de caixa, 
accudiram todos e, no entanto, entre as assignaturas dos re- 
publicanos, não figura nenhum Heleodoro ou Thaodoro, ne- 
nhum Ébanos ou Evanos, nenhum Souza Pereira. (Vide — Pa- 
ranagoá — de Romario Martins, pagina 31). 

Como se explica o compare simento de todos os moradores 
e a ausência da assignatura do mais proeminente delles, como 
devia ser o administrador geral das minas d" sul do Brazil ? 

Os nossos chronistas se contra lizem : Taques, á pagina 
327 do tomo IX da Revista Trimensal, affirma que foi o ca- 
pitão de canoas de guerra da cesta de mar até o Rio de Ja- 
neiro, Leodoro Ébanos Pereira quem fundou a villa de Para- 
naguá em 1648, quando todes os documentos existentes de- 
monstram inilludivelmente o contrario : isto é que toi o capi- 
tão Gabriel de Lara o fundador da villa. 

A errónea versão de Taques não resiste ao confronto dos 
documentos de Vieira dos Sa/Jtos, reproduzidos no opusculo- 
Paranagoá — em addendo. 

Falta-nos finalmente um único ponta a elucidar : será o 
que faremos no posterior artigo. 

O mais palpitante argumento, o único apparentemente ra- 
zoável, que apresentam os nossos illustres e prove ctos adver- 
sos, reside na allegação de tar Heleodoro Eobanos fallecido em 
1569, em Cabo Frio, como affirma Azevedo Marques nos seus 
Apontamentos Hiãtoricos ; e então, humanamente impo3SÍvel 
que, depois daquelle anno, poudesse ter descoberto minas e 
commettido conquistas nestas bandas do sul. 

Esta allegação seria esmagadora si os nos«os illaatres op- 
pugnado es tratassem de evidenciar, que de facto o Heleodoro 
morreu em Cabo Frio e no anno referido. Não o fazem, po- 
rem e nem o poderiam fazer. 

Contra a opinião respeitabilissima de Azevedo Marque?, 
oppomos as seguintes considerações : 

a) que Heleodoro não morreu em Cabo Frio no 
anno de 1569, mas foi tido por morto, antes daquella 



— 433 — 

epcc», como afflrma Dryander no prefccio da obra de 
Hanp, amfcos coatemp* ranecs do glorioso povoador do 
Parará; 

o) que si Heleodoio fosse morto em 1569 não te- 
ria explicação o facto de existir outro individuo cfm 
o mesmi nome, c se da com a mesma mulher (d. Ma- 
ra de Sotza); genro do mesmo Botaf go, que o dr. 
Vieira Fazenda erontra firmando d* cumentoa nrs 
ínncs de 1585 e 1614; e que o dr. Diogo de Vas- 
concellos assevera ter as mesmas ligações que o pre- 
tendido Leodoro Ébanos Pe eir*, primo êe Estacio, 
natural de Vianra, morto em 1569 e mencionado por 
Tiques 

c) que, mesmo rdmittida a affirmativa de Aze- 
vedo Malques, dando cmo m rto im 8 de jui lio de 
1569, não re poderia admittir que já em 1585 tivesse 
um filho com o mesmo nome t levado ao posto de 
offiVrl do conselho, nois se tendo casado com a filha 
de Botafogo depois da fundação do Rio (1568) não 
taria seu filho, a ednde legal prra srmelhante inv« s- 
tduia : somente contaria 16 aanig ! 

O que ahi fica dito é o sufnciente para demonstrar a ine- 
xactidão de semelhante narr< tiva 

Eis-nos emfim chfgadro a feliz termino. 
CDEcluimcp, pois, afiirmando : 

1.° Que a conquista dos Car\jÓ3 e cg descobrimentos das 
micas de ouro de ígrape, Paranaguá e Cujtiba, tiveram lo- 
gar no penedo cr mprehendido entre os annos de 1570 a 1584 ; 

2.° que o ihefe da expedição conquistadora e descobridora 
foi o feitrr de fngeih:> de assrear de José Adorno, amigo de 
Hans e de Bi lés, que mais tarde, distinguido cem o pesto de 
capitão de canoís de guerra, se bat< u contra os irancezes cal- 
vinistas ; 

3.° que efta Heleor^oro Eobanos foi casado com uma filha 
de João de Sfuza Pereira — o Botafogo e que deste corsorcio 
provem os Ébanos Pereiras que figuram nas geoeanolcgiaa pau- 
listanas ; 

4 o que Helerdcro Eo 1 ano» não falleceu em 1569, em 
Cabo Frio, cemo diz Azevedo Marques, mas sim, como uffi ma 
Dryander, o prefaciador de Haos, foi tido por morto (prfvamn'o 
os documentos referidos p lo ii lustre dr. Vieira Fazenda); 

5.° que esse Heleodoro Ei banos fxerceu o cargo de < fficial 
da camará do Rio de Janeiro em 1569 e 1584; e ó prova- 
velmente o mesmo que, já veh3 e de reg ejso das expedições 
descobridoras de minas, rrquereu á Camará d:quella cidade, 
em 1614, terrrs próximas á sesmaria de Bctafcgo; 

6 o que, finalmente, 'stB Hnlecdoro Eobanos, filho de Eobau 
de Hfssen, nascido em Erfurt ou Nurenfcerg, onde seu pae 
exerceu o magistério e foi celebrado preta e histeriader, po- 



— 434 



deria ser, pelo casamento com d. Maria de Souza, parente affim 
de Estagio de Sá. 

Está finda a nossa árdua tarefa, em defeza ao que vimos 
sustentando desde 1900. 

A' apreciação dos dous provectos historiadores, Rocha 
Pombo e dr. Vieira Fazenda, submettemos estes ligeiros e des- 
sordenados artigos, esperando que, bem examinado o interes- 
sante ponto de historia nacional, verificarão que, longe de com- 
mettermos um a 'surdo inqualificável, registramos, sem brilho, 
a versão verdadeira, escoimada das contradições e incongru- 
ências que a tornavam confusa. 

Testemunhando a nossa grande admiração peloa dous lu- 
minares da mentalidade brazileira, rendemos á verdade o nosso 
sincero tributo. 



Dr. Gustavo Beyer 



Esboço biographico extrahido e vertido da Sveriges Lã 
Jcarehntoria (Hittoria dos Médicos da Suécia) de J, 
F. Sacklén. 



PBLO 



Dr. Goran Bjórkman 

sócio correspondente do Instituto Histórico e Geograpbico 
de São Paulo 



A publicação, eo volume XII desta Revista^ das Ligeira» 
Netas de Viagem do Rio de Janeiro á capitania de 8* Paula, 
em 1813, de Gustavo Beyer e que até então não eram conhe- 
cidoa dos nossos estudiosos, chamou a attenção para a indivi- 
dualidade desse viajante sueco e kgo Vieira Faztnda, Oliveira 
Lima, P.za e Almeida e Oiville Derby trataram de preceder 
á sua identificação e o fizeram com o êxito que se jóde ver 
nas paginas 665 e seguintes do mesmo tomo XII. 

Conhecedor do interesse que despeitara entre rós a indi- 
vidualidade de Beyer, o nosso illustre censoeio sr. dr. Gõran Bjõr- 
kman, residente em Stockholmo, se apressou em satisfazer a 
essa natural curiosidade remettendo para esta Revista as noticias 
biobibliographicas daquelle viajante por elle extrahidas da 
Historia dos Médicos da Suécia por J. F. Sacklén e pelo rr. esmo 
consócio vertidas do sueco para o poituguez. 

A esía tradução ó que ora se dá publicidade ms paginas- 
seguintes. 



Dr. Gustavo Beyer 



Nascido em 19 de agosto de 1775 na cidade de Ystad, 
^província de ScaDia, era filho do physicvs (medico) daquella 
cidade Georg Henric Bcevere su» mulher Msgdalena Krutmeyer. 

Bem cedo destinado ao estado das sciencias medicas já em 
1788 matriculara- se na Universidade de Lund. Em 1789 foi 
inseri pto na Sociedade Chirnrgica e, sendo chirurgice studiosus^ 
em 1792 f i nomeado medico adjnncto do Real Almirantado de 
Cari krena, cujo cargo exerceu elle durante os grandes arma- 
mentos marítimos em 1793, 1794 e 1795 e em cujo exercício 
foi encarregado de tratar das victimas da cntastrophe do navio 
de guerra Dygden (Virtude), que explodiu no porto de Car- 
lskrona . 

O Grande Almirantado nomeou-o em 1795 medico mor da 
expedição ao Império de Mirrocos. Durante a estadia dessa 
expedição nos portos inglezee, italianos e outros teve occasião 
de visitar mais cu menos detidamente vários grandes hospities 
e outras instituições notavei-, especialmente as da saúde ma- 
rítima, entre outra 3 cousas vendo as celebres collecções do prof. 
Fontena e sendo em Tanger encarregado de medicar o príncipe 
"Muley-Ali e o favorito Kaydan-Mahomet. 

De regresso á Suécia em 1796, defendeu no mesmo anno, 
sob a presidência do prof. Florman, a these — De controversa 
que&tione, an cor nervis areat? — continuando depois bou ser- 
viço em Carl.-krona até que na primavera de 1797 partiu para 
Lund, onde fez es exames melicos regulares e sustentou a 
thase de doutoramento, sob a presidência do sr. Engelhar t, 
medico -mor da Camará Real. 

Pouco tempo depois foi nomealo medico-mó: da esquidra 
que cruzou o Mar do Norte e que esteve ancorada em frente 
de Copenhague durante trez mezes, aproveitados por Beyer 
para visitar diariamente o hospital Frederico, daquella capital. 

Mais tarde, no outomno do mesmo anno, serviu na esquadra 
que, sob o commando do almirante Conde Wachtmeister, foi 
levar a rainha (posteriormente desthronada) d. Frederica Do- 
rothéa Guilherm na, de Pomerania a Carlskrona e em 2 de 
dezembro doutourou-se pela Universidade de Lund. 

No principio de 1798, sendo de então em diante sócio do 
Real Collegio Medico, frequentou o lazareto da Real Ordem 
dos Seraphins em Stockholmo, até que no mez de maio foi com- 
missionado para servir na qualidade de medico-mór na esquadra 



— 438 — 

que sfchiu de Stockliolmo 8cb o cominando do Barão O. H. Ce- 
derstrom, tendo elle antes servido na expedição dos cadetes a 
Gotiandia, que a) li for m fazer observações rstronomica*. Apre- 
zado pelo eommandante inglez Ommaney, perto de Nord- 
Fcrelard, o comboio < e^sa expedição, obteve licença para visitar 
os hospitaes de Londres, tornando depois á Suécia na fragata 
Ulla Fersen. 

Em novembro foi s rvir na ( squadra que conduziu um 
forte comboio para o lado do Norte da Inglaterra e nos ultimes 
dús de dezembro voltou com a esquad.a a Gothemburgo, sendo- 
lhe immediatamente ordenado que seguisse com as tropas para 
Carlskrona no caracter de medico-mór. 

Em 1799 durante dois mezes foi encarregado de servir 
como Primeiro Medico do Almirantado em Carlskrona e em 
1800 pediu sua demissão do Real Almirantndo partindo para 
Stockholmo, onde o Real Collfgio Medico o incumbiu doa cargos 
de medico dos pobres no arrabalde do sul da capital e v:ce- 
medico da proviDcia de Stcckholmo, da qual em 9 de junho de 
1801, por uma patente régia, foi nomeado medico ordinário. 

No mesmo anno a direcção de Sabbatsberg nomeou-o in- 
tendente da f ^nte de agua3 meiicinaes e neete cargo perma- 
neceu até 1803. 

/o ser introduzida a vacina na Suécia foi elle vacinado 
pelo assessor Gahu com a primeira limpha importada. Não 
deixou escapar nem uma opportunidade para difundir este pro- 
servativo e empregai -o cas creanças do povo, obtendo nisse 
tal suecesso que o numero de creanças por elle vacinadas, em 
1810, era de mais de cídco mil, pelo que o governo já em 
1805 ordenara ao Real Coliegio Medico lhe declarasse, em nome 
delle, o seu agrado. Depois, em 1807, 1808 e 1810 alcançou 
o grande premio de vacinação (no total de 241 riksdalers e 
32 skiliings banco) e em 1813 u'a medalha de prata. 

Desde 1801 tomou parte, a pedido dos interessados, na 
direcção do Instituto das creanças catholicas pobres, fundado 
no arrabalde do sul pelo padre Moretti e alguns membros do 
corpo diplomático acreditado juncto á corte. 

No mez de julho di 1806 acompanhou o príncipe real 
Gustavo (ao depois expulsoj a Scania no caracter de medico 
da Camará Real; mais tarde foi lhe também coafiado o trata- 
mento dos outros filhos d'el-rei, assim como da família dos 
príncipes de Brunswic depois à* sua vinda da Allemanha a 
Malmo e em 17 de dezembro foi -lhe conferida a patente de 
assessor. 

Em 1808 S. A. R. o Príncipe Regente de Portugal e 
Brazil nomeou-o cônsul geral na Suécia, reconhecendo-lhe o 
governo sueco esta qualitíade; em 3 de julho de 1809 foi no- 
meado cavalheiro da Real Ordem de Wasa e em 1 de abril 
de 1811 foi-lhe, a seu rogo, concedida a exoneração do cargo 
de medico provincial. 



- 439 — 

Afim de forirar um juizo seguro das bases necessárias para 
o estabelecimento de um commercio activo entre a Miecia e o 
Brazil emprehendeu, munido das mais amplas reccmmendações 
de S. M. el- rei, uma viagem no outonno de 1812, via Harwich, 
Londres e Madeira; visitou a celebre cidade da Bahia e de- 
morou- se vários mezes no R;o de Janeiro. Prcseguiu a via- 
gem até as esplendidas cascatas de Itú, percorreu a cavallo 
toda a província de S. Paulc, examinou as ricas minas de 
S João do Ipanema perto do rio de Sorocaba, et3. e fez umas 
bellas collecções de mineraes, insectos e caramujos, es quaes se 
perderam por ter sido apresado por corsários americanos o navio 
em que foram expedidas. 

Do Brazil á Europa voltou elle cm um navio de guerra 
inglez, demorando- se três mezes em Londres e chegando a 
Stockholmo em novembro de 1813. 

Pouco tempo depois entregou ao Real Collegio Medico 
varias observações, entre outras, sobre o estado sanitário nos 
paizes tropicaes e especialmente cem referencia a Gnadeloupe, 
então pertencente á Huecia. Entregou também to governo 
umas observações acompanhadas de tabeliãs, com este titulo — 
A economia em toda «a sua extensão nas frotas inglezas — e 
umas outras acerca do Rio Argênteo (?). 

Como encarregado de negócios e ao mesmo tempo cônsul 
g«eral esteve á frente dos negócios commercises e outros de 
Portugal e Brazil até 1821, quando iquelle cargo em Stockholmo, 
enforma uma resolução das cortes de Vortugal, foi confiado a 
um portuguez nato. Em 1823 toi de novo cônsul geral do Reino 
de Portugal, servindo até 1833. Já em 1824 S. M. Pcrtugue- 
za nemeou-o cavalheiro da Ordem da Tor/e e Espada, sendo a 
respectiva patente acompanhada de uma lisonjeira carta do 
Ministro dos Negócios Estrangeiros o Duque de Palmella. Em 
1835 a Rainha de Portugal investiu-o outra vez do cargo de 
cônsul geral de Portugal na Suécia e Noruega. Em 1837 o 
Real Governo da Grécia cenferiu-lhe cargo análogo em Stockhol- 
mo e em 1839 foi encarregado do vice- consulado de Frarça. 
Em 1845 foi nomeado cavalheiro da Real Ordem Greca cio 
8alvadcr com a cruz ce prata. 

Em 28 de novembro de 1818 casou-se cem Carlota Onch- 
terlony e teve as filhas seguintes : Carlota Joaquina Tereza 
Paulina, nascida em 1819 ; Emma Amália Maria, cm 1821; 
Hedwig Dorothea Geraldina, nascida e falecida em 1822; Aurora 
Eugenia, mscida em 11 de janeiro de 1825 e Eliia nascida 
em 8 de julho de 1827 e falecida em 1828 . 

Faleceu Beyer em Pellevue, perto do palácio retl de 
Tullgarn, cm 10 de junho de 1852, deixando filhos e Letes. 

* * 

Lista de seus trabalhes impressos : 

1 — Beikrifuingangaende vaccinen eller tkydds- 
kopporaa, Stockholm, 4.', 1804 (Descripçlo da vacina). 



— 440 — 

2 — Ca sus manioB, botad med Gratiola, tbserve- 
rad \i\ Amiralitets — sj kbuset i Carlskrona — uti Ve- 
tenfkiplig^ EUn^ltngar for Lákare rcb Faltskárer, 
utgifne of S?en H^din. Tomo 6, b. 4, sid 22 (Oa- 
su-i maniae, eurado com Gratiola, observação feita no 
bospital do Alm rantado em Carlskrona). 

3 — Historiscber Be:icbt uber das Medicinal — 
Wesen in Carhkrona — Dti Nordiscbes Archiv fúr 
Natarkan 'e. Artzney — w ssenscbafc uni Cirurgie, Band 
4, St. 1, 1804 (Relatório bistorico das instituições me- 
dicas em CarhkroDa). 

4 — Berãttelse tiil Kongl. Sundhets Collegium 
rõ ande topografiska oeh Mjdicinal verket in m uti 
Rio de Janeiro, dat. Rio de Janeiro 23 april 1813 — 
uti Inrikes TSduing s. ar N.° 102, 104 114, 115,116, 
117, 120 (Relatório apresentado ao Real Collegio Me- 
dico acerca da topographia e direcção medica etc . no 
Rto de Janeiro — publicado no jornal Inrikes Tiduing). 

5 — Strõdda antickmingar õfver ea resa frau 
Rio de Janeiro till Capitanian S. Paulo i Brasilien 
1813, med nâjra underrà.t^lser om Staden Bobia och 
on Cristan da Cunba — uti Allmanaa Jornalen 1814, 
n tB . 41, 43, 49, 51 51, 55, 62, 63, 64, 71, 72, 75 
(Varias notas acerca de uma viagem do Rio de Ja- 
neiro á capitania de 8. Paulo etc. — impressa? no 
jornal Allmã ma Jornalen). 

6 — Casus aí Hydrcphobise, botad med aderia - 
tning af Doktor Sbjolbred pâ Calcutta, med anmárk- 
ningar Trick-. uti Lákare? âllskapets Hindi. Band. 2, 
Háft 1, sid. 190 205 (Catus hydropbob se, cura lo com 
sangria pelo dr. Sboolbred em Calcutts, com anno- 
taçÕás) 

7 — Aíbandlíng uti den tropiska propbylaxia. 
Rec. uti Sv. Lák. Sállsk Arsber. 1814, sid 49 (En- 
saio sobre a prophylaxia tropical — critica). 



ACTAS DAS SESSÕES DE 1908 



ACTAS DAS SESSÕES DE 1908 



Primeira se são em 25 de janeiro 

Presidência lo sr. dr. M. Pereira Guimarães 

Acs vinte e cincn de janeiro de 1908, á Roa General Car- 
neiro 1-A, na sede do Instituto Histérico e Gergrapbico de 
S. P8ulo ás sete e meia horas da noite, sob a presidência do 
sr. dr. M. P. Gumaráes, fecretariaio p"los srs- dr. Torres de 
Oliveiía e Rodolpho von ILering e presentes cinda es sts. só- 
cios drs. Jcsó Joaqnim de Carvalho, DoroingoB Jagumbe, éggis 
Moura, Edmundo Krug, Luiz Piza, H. von Ibering, Alfredo de 
Toledo e J. Coelho Gomes Ribeiro, é declarada iberta a sessão. 
O sr. presidente, ao ininar os trabalhes do n>vo snno, faz vo- 
tos para que elle seja de egual prosperidade para o Instituto 
corno es anteriores e incita es seus comocies ao activo trabalho 
nos esíuios a que o Instituto é devotado. 

O sr dr. Torres de Oliveira apresenta á casa es escusas 
do presidente, conselheiro Duarte de Azevedo, impedido de 
comparecer. 

Em vista da grande abundância de expedierta sobre a 
meza, o sr. presidente pede à casa que se dispense a leitura 
das setas anteriores que não tinham sido lHa*, no que todos 
is srs. consócios concordam, dando-as ao mesmo tempo por 
ípprovadas. O sr. 1.° secretario em seguida dá conta do expe- 
diente que consiste em numerosos offieios, convites, oftvraa de 
livros e revistas, etc , que todos o sr. presidente agradece cimo 
offertas bemvind*s. E' lido ainda o Rlaforio dos trabalhos e 
cccurrencias do Instituto no anno de 1907, apresentado pela 
Diretoria e elaborado pelo sr. 1.° secretario ; nos diverses capí- 
tulos em que es*e trabalho está dividido estão registrados es 
principaes factos que interessam o Instituto, merecendo espe- 
cial menção o desenvolvimento dado á parte que diz rfspeito 
ás finanças e á construcção do edifício social. Como o sr. pre- 
sidente acrescentasse algumas informações quanto ao estarem 
incompletas as contas apresentadas pelo que não poderia o 
mesmo relatório ser sujeito á votação, isto suscita alguma dis- 
cussão em que vários consooioa tomam parte. Todos são con- 
cordes em elogiar es esforços e a correcção da Directoria «m 
sua gestão, fazendo a casa por fim questão qm apezar das 
objecções do sr. presidente, o mesmo relatório recebesse desde 
logo sua approvaçâo unanimo, o quj verificado, o sr. presi- 
dente muito agradece. 



__ 444 — 

A pedido do sr. presidente ó aprovado unanimemente um 
voto de pezar pelo falecimento do illustre dr. António Pereira 
Prestes, sócio fundador do Instituto 

Passando se á 2.* pirte da ordem do dia o sr. dr. Domin- 
gos Jeguaribe faz ver a conveniência que haveria em o Ins- 
tituto se assegurar dos art gos publicados peb sr. dr. Eugénio 
Egas nas columnas do Estado de S. Paulo por tratarem de 
interessantes questões relativas á declaração da independência 
do Brazil, no Ipiranga, e que os mesmos estuios deveriam 
figurar entre os trabilhos impressos na Revista do Instituto. 
O sr. presidente, julgando por sua vez b:>a a lenb rança cbama 
para ella a att nção dos srs men-bros da redacção da Revista 
O sr. dr. H. von Ihering pede ainda que a Directoria envide 
os seus esforces para conseguir que o mesmo sr. dr. Egas, aliás 
já outrora membro do Instituto, volte a comparecer ao grémio 
que tem em *lto apreço seus estudos históricos. O sr. presi- 
dente promete oceupar-se do assumpto. 

Tomando em seguida a palavra o sr. presidente, dr. M. 
Pereira Guimarêe?, faz varias considerações sobre os esf)rços 
que o Instituto tem empregado pira demarcar com exactidão 
o ponto preciso em que d. Pedro, a 7 de setembro de 1822, 
proferira o bralo de Independência ou Morte. Tal fji conse- 
guido graças ás pesquisas aturadas do saudoso dr. António 
Piza; agora, porém, terna se indispensável que esse ponto seja 
condignamente demarcado, que as aias adjacências recebam os 
cuidados necessários para o ^eu embellezamerjto. Graças á ini- 
ciativa d> exmo. sr. dr. Carlos Bjtelho, digao secretario d) 
Estado, fsz-se agora o jadin em frente do Monumento do Ipi- 
ranga, mas ainda a Avenida da Independência jaz descuidada 
e muitas outras providencias precisam ser tomadas para que se 
possa dizer que o local, em que se realizou um dos aconteci- 
mentos mais memoráveis da nessa historia, a proclamação da 
independência brazileira, no Ipiranga, recebeu dos Paulistas 
os cuidados de que é digno* 

O sr. dr. H. von Ihering applaudindo as justíssimas con- 
siderações do sr. presidente, esclarece ainda alguns pontes da 
mesma questão, acerescentando vários detalhes e termim pedindo 
a maior perseverança para a realização dessas ideia?. Tomam 
ainda a p. livra os srs. drs. Domingos Jaguaribe e José Joa- 
quim de Ca vaiho que applaudem o patriótico intuito e se 
promptiíicam a erigir no ponto histórico da Proclamação um 
marco, devidamente guarnecido. 

Para cudar desses as umptos que o Iastituto approva una- 
nimemente, o sr. presidente designa uma commissão que será 
composta dos srs. presidente e vice-presidente do Instituto, Do- 
mingos Jaguarib?, José Joaquim de Carvalho H. von Ihering, 
Carlos Reis e Luiz Piza. Deverá a me3ma commissão esfor- 
çar-se perante os exmos. srs. presidente e secretários de Estado, 
Camará Municipil e mais autoridades competentes para que 
se consiga com a possivel brevidade a realização destes melho- 
ramentos tão necessários quão patrióticos. 



— 445 — 

Tendo o instituto Eido convidado para presenciar a inau- 
guração solemne da estatua de Braz Cubas, envida em Santos 
pela Camará Municipal, o sr. presidente convida os srs. dr. 
Domingos Jaguaiibe e R.dolpno von Ihering para com elle 
em commisfão representarem o Instituto nessa festividade a 
realizar- se no dia 26 do corrente mez em Santos. 

Nada mais havendo a tratar, é encerrada a sessão presente, 
devendo realizar -se a próxima a 5 de fevereiro. Do que, para 
constar, eu, Rodolj ho von Ihering, em função de 2.° secreta- 
rio, lavrei a presente acta. 



Segunda sessão ordinária em 5 de Fevereiro 

Pbbsidekcia do sr. cons. Duarte de Â7evedo 

Aos cinco dias do mez de fevereiro de mil novecentos e 
oito, nesta capital, ás sete e meia horas da noite, na sala das 
sessões do Icstituto Histórico e Geographico de S Paulo, á 
Rua General Carneiro, 1-A, reuni; am se os sócios cens. Duarte 
de Azevedo drs. M. Pereira Guimarães, J. Torres de Oliveira, 
H. vou Ihering, Alfredo de Toledo, R. von Ihering, Rafael 
Ccriêa Sampaio, Silveira Cktra, Edmundo Krug e Couto de 
Magalhães. 

O sr. presidente coumuníca á casa que recebera a renun- 
cia apresentada pelo 1.° secretario do Instituto, sr. dr. Couto de 
Magalhães, pelo que na próxima sei são se deverá preceder á 
eleição para o preenchimento do mesmo cargo ; outro tanto se 
devei á fazer com relação aos cargos do 2.° secretario e orador 
cfficifcl que egualmente estão sendo exercidos por substitutes, 
em consequência de não comparecimento cu ausência dos srr. 
consócios para este .fim eleitos. Em seguida é lida a acta da 
sestão anterior e, depois de posta em discussão, approvada una- 
nimemente. 

O eipediente relatado pelo sr. l.° secretario consta de cre- 
scido numero de ofíerf as, livros, revistas e mais impressos, cons- 
tantes da lista annexa ; o sr. presidente agradece-as como va- 
liosas á bibliotheca do Instituto. 

Refeiindo-se á approvtcão unanime que teve o Relatório do 
Instituto referente ao anno de 1907, apresentado pela Dire- 
ctoria, o sr. presidente agradece aes seus consócios esta preva 
de confiança, frizando ao mesmo tempo que continuará com o 
maior afinco os trabalhos iniciados, especialmente com relação 
ao prédio em construcção, cujas obras vão adianíada3. 

Continuando com a palavra, o sr. presideníe diz que os 
acontecimentos lutuosos occorridos ha dia* em paiz amigo, o cruel 
assassii ato do monarcha e do príncipe herdriro de Portuga), 
que tão fortemente com torraram também a nós brazileiros, 
impedem- no a inicar es trabalhos do Instituto, tendo a certeza 
do que todes es consócios approvarão o voto de pezar que o 



— 446 — 

Instituto exprimirá ao mesmo tempo que pelo mesmo motivo 
levantará a sessão. Qunesquer que possam ter sido es fins que 
esse movimento de rebellião tenha tido em vista, nunca se 
porierá justificar tão execrando crime, para sempre luetuoso á 
nação prrtugneza. Pondo em discussão esta sua proposta, o sr. 
dr. M. Pereira Guimarães pade que o Instituto nomeie ainda 
uma commissão que deverá apresentar ao digno coosul de Por- 
tugal nesta capital as expressões do pasar do Instituto, bem 
como seja offieiado ao nosso ministro em Lisboa para que este 
transmita á família real portugueza a participação desta* reso- 
luções do Instituto Histórico e Geographico de S. Psulo. 

Postas a voto essas indicações, são as mesmas unanime- 
mente approvadas pelos srs. sócios e o sr. presidente designa 
os srs. drs. M. Pereira Guimarães, vice-presdente, e J. Torres 
de Oliveira e R. von Ihering, secretários do Instituto, para 
constituírem a commissão cujo encargo fora acima referido. 

E\ pois, encerrada a seEsão em testemunho de lezar e 
aprazado para o dia 20 de fevereiro a próxima sesBão. Do 
que, para constar, eu, Rodolpho von Ihering, em função de 2.° 
secretario, lavrei a presente acta. 



Terceira sessão ordinária em 20 de Fevereiro 

Presidência do sr. dr. M. Pbkeira Guimarães 

Aob vinte dias do mez de fevereiro de 1908, á Rua Ge- 
neral Carneiro n. 1-A, séie do Instituto Histórico e Geogra- 
phico de S. Paulo, ás sete e meia horas da noite sob a pre- 
sidência do sr. dr. Manoel Pereira Guimarães, secretariado pelos 
srs. engenheiro Eugénio Albarto Franco e Rodolpho vou Ihe- 
ring e presentes os srs. drs. A. Vautier, José Bonifácio de 
Oliveira Coutinho Rafael Sampaio, Souza Franco, Augusto Car- 
doso, Francisco Gaspar, Assis Moura, Gentil Moura, Carlos Vil- 
lalva, Ernesto Penteado, Ludgero de Castro, Domingos Jagua- 
ribe, José Getulio Monteiro, Luiz Piza e H. von Ihering, o sr. 
presidente declara aberta a sessão e que conforme o resolvido 
na sessão de 5 do corrente ia se proceder á eleição para pre- 
enchimento dos cargos da tesretarios e orador offíci&l. Lida a 
acta da sessão anterior, ó a mesma approvaca. Procedendo-se 
á eleição por escrutínio secreto e recolhidas as cédulas em 
numero ce dezoito, verifiecn-se o seguinte resultado: pêra 1.° 
secretario dr. Dinamerico Rangel com 14 votos — Para 2.° se- 
cretario Eugénio Alberto Frarco com 13 votos — Para orador 
dr. Rafael Corrêa Sampaio com 14 voto3 — Para supplentes 
de secretários dr. José Torres de Oliveira e Rodolpho Ihering 
com 8 votos. Os eleitos presentes tendo assumido seus cargos 
agradecem a honra de suas eleições promettendo cumprir os seus 
mandates com dedicação e amor. O expediente relatado pelo sr. 
l.° secretario consta de diversas efíertas de livros, revistas e 
impressos que são recebidos paio sr. presidente com especial 
agrado. 



— 447 - 

Nada mais havendo a tratar é en.erracU a presente sessão 
devendo realizar- se a próxima a 5 de março de 1908. Eu, 
Eugénio Alberto Franco, segundo secretario, lavrei a presente 
acta. 

Quarta sessão ordinária em 5 de Março 

Presidência do sr. cons. Duarte db Azevedo 

Aos 5 dias do mez de rra çn de 1908, á Rua General Car- 
neiío n. 1-A, sóde do Instituto Hstorico e Gtographico de S. 
Paulo, ás sete horas e meia da noite, sob a presidência do sr. 
conselheiro Duarta de Azevedr, secretariado pelos srs. dis. 
DiDamerico Rang4 e Eugénio Alb3rto FrancD, e presentes os 
srs. sócios drs. Alfredo de Toledo, Rafael Sampaio, Edmundo 
Krug, Domingos Jagaaribe, M. Pereira Guimarães, Rodolpho 
von Ihering e José de Campos Toledo, foi dechrada aberta a 
sessão. O sr. dr. Dinamarico Rangel, 1.° secretario, pede a pa- 
lavra e agradece a sua eleição para este cargo e devido estar 
superior a> su^s força3 pede exoneração. O dr. Rafael Sampaio 
pede a ca a que negue* a exoneração porque o dr. Dinamerico 
tem os requisitos necessários para occupar o cargo. A CBsa nega 
unanimemente o pedido. Pcssando-se ao expediente são pro- 
postos para sócios es srs. Júlio Conceição, commendador Alfaia, 
dr. José de Campos Toledo, dr. Rodclpho Jacob, dr. Nelson de 
Senna, dr. Alcides de Freitas Cru?: e José Maria Whitaker. Os 
srs. drs. M Pereira Guimarães e Alfredo de Toledo pedem dis- 
pensa de interstício de todes as propostas e são proclamados 
sócios os srs. Júlio Conceição, benemérito, Alfaia, dr. Campos 
Toledo, dr. Rodolpho Ja:ob ; dr. Nelson de Senns, dr. Alcides 
Cruz, correspondentes, e dr. José Maria Whitaker, effectivo. 
Achando -se na casa o sr. dr. José de Campes Toledo, o sr. 
presidente nomeia os srs. drs. Krug e Alfredo de Toledo para 
convidai *o e introduzil-o no salão afim de tomar pesse. São 
offcjrejidos ao Instituto diversas revistas, livro?, impressos, etc. 
que são recebidos pelo sr. nresi-iente com es ecial agrado. 

O sr. dr. Alfredo de Toledj pede a palavra e propõe á 
casa que seja inseridos um vet > de pezar pi j falecimento dos 
srs. conselheiros Bento de Paula Souza e Américo Marcondes 
de Moura e dr. Germano Vert. 

O sr. dr. Hermann von Ihering pede a palavra e tratada 
nos3a divida, sendo applaudido em sua prelecção. 

O sr dr. Edmundo Krug pede para falar na sessão de 20 do 
corrente. 

O sr. presidente congratula- se com o Instituto pela elei- 
ção dia 5 de esperando dos eleitos seus bons serviços em 
prol do Instituto e encerra a sessão ás nove horas convidando 
os srs. sócios para a seguinte sessão de 20 do corrente. Eu, 
Eugénio Alberto Franco, segundo secretario, hvrei a presente 
acta. 



— 448 - 
Quinta *essão ordinária em 4 de Abril 

PBESIDEKCIA DO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO 

Aos quatro dias do mez de ibril de ril novecentos e oito, 
á Rua Goneral Carneiro n. 1-A, sóde do Insti'uto Histórico e 
Geograthico c^e S. Paulo, ás sete e meia horas da noite» soba 
presidência do sr. conselheiro Duarte de Azevedo, secretariado 
peles srs. drs. Dinarr eriço Ra gel e Eugénio Alberto Franco, 
presente numero legal de sócios (coliforme o livro de presença) 
foi declarada aberta a sessão. L da a acta é a mesma appro- 
vada. Passandr-s» ao expediente que consta de officios dos 
srs. Júlio Conceição» Nelson de Senna e Rodo T pho Jacob 
agradecendo suas eleições para se cios do Instituto. Do dr. Cy- 
priano de Carvalho pedindo remes a da Revista. Pelo sr. dr. 
Alberto Loefgren foi cfferecido um trabalho publicado em alle- 
mão. Pelo sr. dr. Raphatl Sampaio um documento antigo e 
por outros cidadãos diversos jornre", boletins etc. que feram 
recebides com especial agrado. O sr. presidente communica 
que em nrme do Instituto apresentou ao sr. dr. Carlos Res 
condolências pelo falecimeito de i-ua veneranda mãi O mes- 
mo apre:enta proposta e pede dhpenBa de interstício para que 
i e confira o grau de sócio honorário ao grande orador sagrado 
dr. Júlio Marii». E acceito e aclamado, O mesmo sr. pre- 
sidente T en bra à Commissão angariadora de dem tivos a con- 
tinuar sua missão para ccnelusão do edifício do Instituto. 

O sr. dr Edmundo Krug pode dispensa do logar de fiscal 
das obras do edifício do Instituto. Sendo regada e o mesmo 
insittindo e apresentando razões de ordem superior o Instituto 
concede, nomeando em seu legar por indicação do sr. presi- 
dente para conjunctamente e cem o mesmo fim es srs. drs. Luiz 
Gonzrga c 1 a Silva Leme e Eugénio Albeito Franco. 

O sr. dr. Krug lê um trabalho sobre o Rio da Ri beira em 
Iguape. O sr. dr. Manuel Pereira Guimarães rede ao Instituto 
que faça lançar em sua acta um voto de pezar pelo faleci- 
mento do sócio Joaquim de Campos Porto. Nada mais ha- 
vendo a tratar o sj. presidente susrende a sessão as nove horas 
da noite e convida os sis. presentes para a sessão de 20 do 
corrente. Eu, Eugénio Albeito Franco, segundo secretario, la- 
vrei a preserte acta. 

Sexta sessão ordinária, em o de Maio 

PíESIDENCIA EO SR. CONSELHEIRO DUARTE DE AZEVEDO 

Aos cinco dias do mez de maio de 1908, ás 7 horas 
e meia da noite, á Rua General Carneiro n. 1-A, endetemsua 
sede o Institu'o Histórico e Geographico de S. Paulo, presen- 
tes os eonsecios censelheiro Duare de Azevedo, presidente, 
Dinamerico Rangel e Eugénio Alberto Franco, 1.° e 2° secre- 
taries, Carlos Reip, Manoel Pereira Guimarãep, Joíé Pinto da 



— 449 — 

S lveira Cintra, José Torres de Oliveira, Bapba 1 1 Cor: Ôa de 
Sampaio e Alfieio de Toledo, havendo numero legfcl é de- 
parada aberta a srsjão. O sr. 2.° secretario pucede á leitura 
da acfa fa. sessão antecedente^ que é apprcvada sem reclama- 
ção alguma. Achando se presente r-a aute-saJa o nov^ ecnso- 
cio sr. Neves Júnior (António Ferreira Neve3 Jun.oOosr. j;e- 
sid n e nemeou una cemmiscão cem) esta dos srs Alfredo da 
Toledo e Torres de Oliveira para recebel-o e int'cduzil-o na 
st la das segsõ?s. ntroduzido, assigna o livro de preserça e 
toma Essento o sr. Neves Júnior, que, por esta forma, toma 
pesse de membro do Inst tuto, sendo coinprimeuado jeltscen- 
socios presentes 

O sr. 1 ° secretario precede i lutara do expediente, que 
consta da ofí rta de livros, folheto?, revistai, jornre; etc. e 
notada men'e de um mappa do Estado de S. Paulo, de 19C7, 
peh fícníono sr. José Luiz Cjtlho, o que tudo o sr. prés dente, 
em nome do Instituto, declareu rect b?r com especial agrado. 

Píssardo-fe á primeiía parte da eidem do dia são lidas pro«- 
piitas apresentando para sócios do Instituto: na categoria de 
henoranes os srs. Visronde de Oaro Pieto e dr. Gustavo de 
01 veia God( y, ra de círresprndeute o cr. Luiz Gastão 
d' Escn gnolle Deri-i, e na de efíectivo o dr. Adolpho Aft nso 
da Silva Gordo. E sas proposas, a requerimento do dr. Pe- 
reira Guimarães, são dispensada» do par cer e interstício, sí ndo 
es propoãtos unanimemente acceitos e aclamados sócios do In- 
stituto • 

Em seguida o sr. l.° s cretario procede á leitura de» ( ffi- 
cios drs srs. J< ão Manoel AlfaU Rodrigues e coronel Geerge 
Earl Ohurch agradecendo sua admissão cemo sócios do Insti- 
tuto. Pede a ja^avra, pela erdeoa, o dr. Alfredo de Te ledo e 
diz que teu o vor ficado que da acta ra sessão de 25 de mar- 
ço próximo passado não constam es nemes dos srs. Lafajette 
Caetano >& Silva, e corenel GeoTge Earl Chu eh que roíam 
aclaE ades membros do Instituto, requer que fique si nada esta 
omissão; tendo de xado de frzer e ta recl* mação na ratai o an- 
terior, de 4 de abri), por não ter estado presente. O sr. p e- 
sidente mande u que da acta da prerente sessão contasse a re- 
ctificação do illustre consócio. Em seguida o sr. proicente dá 
noticia do grande adiantamento em que se abau as obra <o 
edifício sccial, e fazendo ver que o saldo fxistente im ca xa 
não é sufficiente para levar es ? as ebras a seu termo, cencita 
a commissão de donativos a não esmerecer <m seus esfcrçes, 
tendentes a cr ter os meios necessários para se conseguira cot- 
chi ão do edifício no mais breve prazo possível. 

Fassandc-se á 2.* prrte da ordem do dia, pede a pala- 
v a, pela ordem, o dr. Raphael Sampaio, qu*, reíerindo-f e, em 
phrases sei tirai», ao passam°nto do grande brasileiro e pau- 
lista dr. Jotqum de Toledi P za e Almeida, a ene a-níção mais 
pura da independência, da integridade e da elevação moral de 
magistrado, pediu que constasse da acta um vi to Ce profundo 
pezar e que se levantasse a sessão. O dr, Alfredo de Toledo, 



— 450 — 

Oliveira, supple