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*Éiriiii«* 



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V 



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ROMANCEIRO 



PBLa. 



V. DE ALMEIDA GARRETT 



I 



ROMANCES DA RENASCENÇA 



QUINTA EDIQiO 



LISBOA 

IMPABiaA If ACIONAL 



rA^A''^^^ 






1 



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• • •• • 

• • • • • • 



Publicamos emQtaf^ 
meira parle do roh&ncki 
perior ás antecedeDles, 
coniú pelosaiJtlicioname 
leva. 

A de Londres de 18^ 
Aduúnda e o Bernal-fra 
I8S3J3 lhe accresc«ntt| 
ces; na presente ha oía| 
docções em várias liogll 
taDo se lêem publicado | 
todas porém, e ja muit; 
versões apparecerara coi 
do terceiro rolnmo da j 
cado em 1851; outns ( 
pjndo juiictamente 



VI 

guezes primitivos que o nosso auctor recon- 
struíra. 

 sua predilecção por éslas relíquias da an- 
tiga poesia peninsular tem feito com que, 
desde a infância até hoje, lenham elias sem- 
pre sido a occupação das suas 'Horas de la- 
zer' — 'Hours of idleness' segundo a frisanle 
expressão de Lord Byron; um quasi mialheiro 
poético em que por interrallos, mas sempre, 
se vão deitando pequenas quantias até que 
chegam a formar um thesonro. Este é ja um 
verdadeiro thesonro para os que sabem ata- 
liar a riqueza de uma lingua e de uma litte- 
ratora. 

No meio dos trabalhos mais graves, das 
contrariedades mm apertadas da vida pA* 
btica, o andor i^ se tem esqoeckio do seu 
miaUieire, que, torfiáoMS a dízé-lo, para nós 
é thesouro riquíssimo. Se ainda asskn o nSo 
julga Portugal, saiba ao menos que essa 6 a 
opinião da Europa. 

Julho 8^ 4853. 

08 BBIT0BB8. 



ii\ sifinv^ iBiçXo 



Depois qae publiquei em LoDdres> em 1 828, 
omea romaneÍDlio a Adozinda que aqui vai na 
fineoie d^este volume, cheguei a ter uma basr 
taote collecçâo d'essas trovas e romances po- 
piriares, xãcaras e soláos — designações que, 
âoceruneiUe confesso, não sei ainda quadrar 
UcBí nas diversas .espécies e variedades em 
que se divide o género. 

Eram uns víotá". e tantos havidos pela tra- 
dição oral do povo, quasi todos collig^dos nas 
cicciímvi^mbancas de Lisboa pela indústria 
de amigos zelosos, e principalmente pelo ob- 
seq^íoso cuidada de uma joven senhora mi- 
nha amiga muito do coração. 

Por voltas do aaiio seguinte, 1839, os linha 
eu pela maior parte correctos, annotados» — 



>11I 



e collacioDadas as priDCípaes das ínQnítas va- 
riantes que todos trazem, porque cada rha- 
psodísta doestes que sabe a sua xácara, a re- 
pette a seu modo, e sempre differente em 
alguma coisa do que outro a diz. 

Cresceram logo mais os meus haveres pela 
contribuição de outro amigo também muito 
particular e muito prezado, oSr. Duarte Lessa, 
homem de raras e prestantes qualidades que 
amenizava a constante applicaçao a mais gra- 
ves estudos, cultivando a litteratura e as ar- 
tes, cujas obras appreciava com tacto finíssi- 
mo e zelava com fervor patriótico, porque 
intendia — e bem o intendia! — que ellas são 
o espírito, a alma, o in ipso vivimus et sumus 
de uma nação. Tinha elle adquirido em Lon- 
dres vários livros e manuscriptos que haviam 
sido do célebre portuguez o cavalheiro de 
Oliveira, aquelle que renunciou ao importante 
cargo de nosso ministro na Haya para abra- 
çar a communhão protestante, na qual viveu 
em Inglaterra os últimos annos da sua vida, 
quasi unicamente da charidade de seus novos 
correligionários. 



Ba?ia entre esses livros am exemplar da 
Bibliotbeca de Barboza^ íDqaadernados os to- 
mos com folhas brancas de permeio, e es- 
oiptas tetas, assim como as amplas margens 
do folio impresso, de lettra muito miúda, mas 
muito clara e legível, com annotações, com- 
moitarios, emendas e addições aos escriptos 
do nosso douto e laborioso mas incorrecto ab- 
bade. 

Yia-se por muitas partes que o longo tra- 
balho do Oliveira fora feito depois da publica- 
ção das suas Memorieis, porque a miúdo se 
referia a ellas, conQrmando e ampliando, cor- 
rigindo ou retractando o que lá dissera. 

Nos artigos D. Diniz, Gil-Vicente, Bemar- 
HmRibeiro, Fr. Bernardo de Brito, Bodri- 
gues-Lobo, D. Francisco-Monuel, e em vários 
outros que vinha a propósito, as notas manu- 
scríptas citavam, e transcreviam como illustra- 
çio, muitas coplas, romances e trovas antigas 
— e até prophecías, como as do Bandarra — 
fielmente copiadas, asseverava elle, de Mss. 
antigos que tivera em seu poder na Hollanda 
e em Portugal, franqueados uns por judeus 



XII 



occupaç5es e distracções, eo sempre voltava 
de vez em quando ao mea Romanceiro, e o 
tinha bastante adeantado, quando nos fins de 
1831 abandonei tudo o que eram cuidados 
de sciencia ou recreações iitterarias para me 
alistar no exercito da Rainha, e imbarcar para 
os Açores. Em Janeiro de 1832 sahi de Paris 
com praça de simples soldado, consegui 
por este modo tomar minha humilde parte 
n'aquella expedição, cujos avisados e caute- 
losos directores com tanto impenho afastavam 
toda a gente conhecida de verdadeira liberal, 
por todos os modos, por modos que hSode 
parecer incríveis, e que elles hoje negariam 
a pés junctos, se fosse possível negar o de qoe 
ha tantas testimunhas e tantas victimas ainda 
vivas, tantos documentos que hãode durar 
mais que ellas. 

A minha curta estada nas ilhas foi impre- 
gada quasi toda nos trabalhos de legislação e 
organização administrativa a que alli se pro» 
cedeu, e de que me encarregou a amizade e 
confiança de um amigo particular, então em 
grande valimento, ao qual e á dura necessi- 



xni 



dade de me achar eu udíco allt que tivesse 
estodado aqoellas matérias, teve de ceder for- 
çosamente a ciosa malevolencia dos accapara- 
dores qae ja na esperança estavam devorando 
as ruínas de Portugal a que almejavam chegar 
—pelos esforços e risco alheio — n3o por- 
certo para meditar sobre ellas como outros 
Manos — oh que Marios I — mas para as re- 
volver e basculhar como Âlaricos . . . 

Faziam-me a honra de me querer mal esses 
senhores: lisongeio-me de lh'o merecer: da- 
vam-se ao incómmodo de me intrigar; e era 
desperdício de tempo e de arte, porque não 
ha mister intrigas para tirar favor de príncipes 
a quem, como eu, os apprecia muito e se hon- 
ra muito d'elle8, mas não é capaz de fazer o 
mais leve sacríGcio para os conservar; jamais 
soobe, em tantas opportunidades, convertê-los 
em nenhuma consequência legítima; nunca, 
nem o mais indirectamente que é possível, 
tractou de os consolidar em nenhuma reali- 
dade utilitária e de proveito pessoal. 

Peço perdão da digressão : não a fiz eu mas 
as coisas, — que pelos tempos em que vive- 



XIV 

ttos iam baralhado aoifai todo, qee atè a Us- 
ioria litleraría e poelica se coDfrmde oom a 
1I06 soocessos e relações poUticas. 

Doesse tam poooo e tam occupado tempo 
permittiii comtiido o aocaso que alguDS in- 
staotes se podessem approveitar em beneficio 
do pobre Hontanceiro, qae alK ia tamben» o 
coítodo, na expedi^, incoihido e amarrotado 
na mocbilla de am triste soldado raso, sem se 
lembrar de aspirar á inaudita honra de sea 
ithistre predecessor, o Cancioneiro de Re- 
zende, que serviu de Evangetbo para jarar 
aqaeile rei gentio. — Havia pouco por alii 
quem lhe import2»se com Evangelhos e ju- 
ramentos. 

Foi o caso que ornas criadas velhas de 
minha mSe e uma mulata brazileira de mi- 
nha irman appareoeram sabendo vários ro- 
mances que eu não tinha, e muitas variadas 
licç5es de outros que eu sim tinha, porém 
mais incompletos. Assim se addítou copiosa- 
mente o meu RomoMeiro. 

Mas este achado fez mais do que inríque- 
cer, salvou-o : porqoe, ao partir para San']Ht- 



g«l, O deixei en Angni ^m BMntia mSe que- 
Ikm te«n en gléría, qoe desejava distrahir» 
eoiD essas ooríesíâadeB qae ella intendia e 
avriiava cem o latto perfeilo e a.seiisib!iidad& 
èlegafldissima^de c^era dotada, alguma iiora 
das famas em que }a Rie pesaram doramenite 
as moléstias éè ãltiffio quartel da vida . . • Mo* 
lenias aggravarias de muila aflEicçâo e coidadO' 
— neiítnnn qae seus filhos volunftariameuie 
Oie dessem — iodos a adorámos e honiimos 
sempre — mas que ttie davaoios, comtudo, 
pelas circvHBStánctas fataes da epocba e das 
ooufusiões politicas em que andávamos met- 
tidos. 

Os meus outros papeis, trabalhos de histo- 
ria considerareis, fructo de longas Tísítas ao 
Museu-Real de Londres e á riquíssmia livra- 
ria poitugoeea do mee amigo o Sr. Goodeen ; 
uma tragedia qoe linha sido folgada Taler al- 
guma c<Hsa pelos qoe a viram — era o assum- 
pto o lofante-Saucto em Fez; — vm iM-go 
poema com pretenç5es, antes desejos, de ser 
OrlaBdo, ja em tfmta e <an(os cantos— e pro- 
meltia crescer! — «ajo assumpto era o Ua^ 



XVI 



griço e os seus Doze; — o segundo volume 
do tractado Da Educação prompto a entrar 
no prelo : — quatro livros ou cantos de um 
romance on poema — cabia-lhe uma e outra 
designação — a que dava thema a interessante 
e romanesca legenda da fundação da casa de 
Menezes— pedido de miuba boa irman que 
decerto não tinha vaidade» porque sempre lhe 
sobrou o juizo, mas gosto sim, de que seus' 
filhos se honrassem com o nome illustre de 
seu pae: — uma quantidade immensa de es- 
tudos e trabalhos sobre administração pú- 
blica ; — tudo isso veio commigo para S. Mi- 
guel e ahi o deixei ao imbarcar, porque era 
defeso ao pobre soldado levar as suas mallas» 
e o logar era pouco para as bagagens dos que 
só eram bagagem. D'ahi me vinha, com outros 
valores mais subslanciaes, e se perdeu tudo 
em um navio que affundaram as bailas inimi- 
gas á entrada do Porto nos den*adeiros dias 
d'esso mesmo anno de 1832. 

Descancem em paz no amigo lodo do meu 
pátrio rio 1 N'outros iodaçaes peiores teriam 
de cahir talvez se escapassem: o da indiffe* 



XVII 

reoça pública que porventara mereciam, o 
de maitús odiosinbos e invejasinbas tolas qne 
ião mereciani decerto, porque eram íilbos 
de bom e innooente áoimo, como sempre 
téem sido os meus. 

Assim fossem todos I 

Desde 1834» que me voltoa a Lisboa o 
milagrosamente escapado Romanceiro, ainda 
Qio passei verão qae tbe não desse algumas 
das bnras descoidadas que n^aquella quadra 
oy se bãode dar a estas occupaçoes mais leves 
00 a nenhumas. E n'estes oito annos tem-se 
locupletado consideravelmente com as con- 
tríboiç^es de muitos amigos e benevolentes 
a tigons dos quaes nem posso ter o gosto de 
agradecer aqai o favor recebido, porque in- 
citados pela leitura da Adozinda, me remet- 
teraffl anoiymameole pelo correio o fructo 
de suas colheitas. A principal parte de um 
bello romance, um dos m»s bel los que ja- 
ma^ fí em coUecção alguma nacional ou ex- 
traogcira e que hoje inriquece o meu Roman- 
ceiro, assim me foi mandada, creio que do 
Minho. Outro fragmento ^oe vinha nos respi- 

YOL. I. s 



xnii 

gos ajunctados n'esta ceara pelo nosso insi- 
gne poeta o Sr. A. F. de Castilho, e que elle 
teve a bondade de oie confiar, veia dar-ihe 
o coniplemento que faltava e restituir á per- 
feição em que hoje está. É um romance de 
origem visivelmente franceza, se provençal 
ou normanda nâo me atrevo a decidir, em 
que se conta — um tanto diversa das chro- 
nicas antigas e do elegante poema de Mille- 
voixj a historia do secretario Eginard e da 
muito bondosa filha de seu senhor e amo o 
poderoso imperador Carlos-Magno. Os nossos 
Scaldos vulgares lem hoje... nSo lem tal, 
mas repettem Gerinaldo^ corrupção do que 
ao principio foi Eginaldo, adoçados em 11 os 
rr francezes, como se fez em Giraldo, Regi- 
naldo, antigamente em Bernal e Bemaldo, e 
em outros muitos nomes que de la vieram 
tam duros ou mais. 

Mencionei este exemplo entre muitos por 
cahír em coisa notável, e para se ajuizar dos 
outros. 

Mr. Pichon, bem conhecido em Lisboa, 
que foi ultimamente cônsul francez no Porto 



e agora creio qae em Barcelona, tinha come- 
çado a formar em 1832-33 uma pequena co* 
lecçâo de xácaras portuguezas de que tam- 
bém me approveitei. Mas o incançavel colle- 
dor a qaem mais obrigações devi em Portugal 
foi o meu condiscípulo o Sr. Dr. Emygdio 
Costa» advogado n'esta corte e ha pouco fal* 
tecido, que generosamente me conQou a sua 
larga collecção principalmente feita nas duas 
Beiras, ii'aqnelle verdadeiro coração e âmago 
do Portugal primitivo que occupa a região 
d entre Lamego e Serra d'Estrella. 

O Sr. Rivara, bíbliothecario em Évora, o 
meu velho amigo o Sr. M. Rodrigues d' Abreu, 
bibliotbecario em Braga, o meu antigo e fiel 
companheiro o Dr. J. Eloy Nunes-Cardoso, de 
M{mtemor-o-Novo, com assentamento dobra- 
do, como diria um bel esprit, um dos cultos 
de Seiscentos, na Casa Real d'Âpollo, por 
doutor e trovador também, — lodos estes 
caralheiros me téem ajudado com indicações, 
livros, folhetos antigos e cópias laboriosa- 
mente escríptas sob o dictar dos rústicos de- 
positários das nossas tradições populares. 



Os trabalhos e râcepilaçôes de D. Agustia 
Daran sobre os cancioneiros e romanceiros 
castelhanos, obra publicada em Madrid em 
48ã2, mas que só por aqoi chegou cinco ou 
seis annos depois, veiu illuâtrar-me em muita 
dúvida e ajudar-^me a classificar moita coisa 
diíGciL A nova e augmentada edição iê 
Sr. Ochoa, impressa em Paris em 1838, € 
que mais depressa nos trouxe a mais habituai 
conversaçio e commercio Ulterario que temos 
com a França, algum tanto me auxiliou tam- 
bém. A tradueçao elegante de Mr. Lockart 
que n'aquella tam linda e fastosa edição de 
Londres de 1841 dea á língua e á nação ia- 
gleza a mais poética e romântica idea que 
jamais será possível dar a um povo eitranho 
e em idioma exiranho das immensas riquezas 
do Nibeluogen peninsniiar,. mais que nenhu- 
ma coisa me inspirou e animou no meu traba- 
lho, porque é um documento, um monumea- 
lo grandioso da ex.traordittaria importância e 
^ia que esle ^enei») de coisa& eâtá mere- 
cendo á Eor^ culta. 

O Sr. Herculano» bibliotbecario da Bfial 



UUkHhect da Ajoda, com cuja provada ami- 
sade me heoro taoto qoaoto a na^o deve 
gtoríar-se de seas escriplos» também me tem 
ajodado nao poaco com os preciosos achados 
qae, DD seu mcessante lavrar das minas ar* 
cfeeologieas, tem meontí^o e repartído com- 
nigo. Por seo favor toroei a examinar, no 
Ms. orígíoal, o famoso caneioneiro ditto do 
Cídiegio dos Nobres, hoje na bibiiotbeca Real ; 
• com estas e com as collecções allemaos e 
francezas, e creio qoe com qaasi todas as dos 
povos do Norte, tenbo coHaciooado as nossas 
ibapsodias populares, muitas das qaaes, por 
este Biodo vim a ooohecer visivelmente, qne 
tiiliam a mesma comnnm origem. Os erudi- 
tos trabalhos de Mr. Haynonard sobre a Un- 
goa romance oo provençal me allumiaram 
Bmta vez n'esta obscura e inredada tarefa. 

A interessante econsctenciosa memoria do 
Dr. Benermann impressa em Berlim cm i 8 iO, 
e o oooheeim^to de ^se a sociedade allcraan 
para a reimpresSio dos Urros raros estava 
publicando em portoguez o nosso Gancio- 
ndro de Rezende; o interesse geral que hoje 



XXII 



se tem desenvolvido do inundo pela littera- 
ura popular das nações modernas e especial- 
mente das nossas peninsulares — interesse 
que, porflm e emfim, hade vir a reflectir em 
nós também, e despertar-nos para abrir os 
olhos ás riquezas próprias, ainda que não seja 
senão pelas ver tam prezadas de extranhos — 
os conselhos e rogos do meu particular amigo 
e quasí compatriota nosso, o sr. Jo3ò Adam- 
son, tudo isto me fez alargar mais o plano da 
minha obra e colleccio. 

Resolvi, sob nova denominação de Roman- 
ceiro e Cancioneiro-Geral S reunir todos os 
documentos que eu podesse para a historia ^ 
da nossa poesia popular, desde onde memo- 
rias ou conjecturas ha, até á epocha actual, 
acompanhando-os de explicações e giossas, 
que vão servindo de nexo, que sejam como a 
liaça, o nastro que áte estes pergaminhos. 

Quem não tem olhado senão á superficie da 
nossa litteralura, quem cego do brilho clás- 
sico das nossas tantas epopeas, seduzido pela 

■ * Alterou-ie este plano ; só le tracta por agora do Bawuautíro. 



xxin 



flaata magica dos nossos bucólicos, entbusias- 
maâo pelo estro tam rícco e variado dos íddq* 
meraveis poetas que, nos quartetos e tercetos 
sidiiaoos da elegia, da epistola e do soneto, 
rivalizam, e tantas vezes lactam de vantagem, 
com o próprio Petrarcha : quem, sobre tudo 
— porque n'esse género é a musa portugueza 
superior á de todas as línguas vivas — adora 
em Sá-de-Miranda, Ferreira, Diniz, Garção e 
Filinto o génio redivivo de Horácio e de Pin- 
daro — não cré, nio suspeita, hade ficar ma- 
ravilhado de ouvir dizer, como eu quero dizer 
e provar no presente trabalho, que ao pé, por 
b^o d'essa aristocracia de poetas, que nem 
'a viam talvez, andava, cantava, e nem com o 
desprezo morria, outra litteratura que era a 
verdadeira nacional, a popular, a vencida, a 
tyrannizada por esses invasores gregos e ro- 
manos, e que a todos os esforços d'elles para 
lhe oblitterarem e confundirem o cbaracter 
primitivo, resistia na servidão com aquelia 
ftftçi de inércia com que uma raça vencida, 
tom que a população aborígine de um paiz 
resiste a igual imponho de seus conquistado- 



XJUT 



res qoe lhe lasurparam a dominação» e que» 
séculos e séculos depois, quando esses já nio 
s3o, ou Dão cuidam ser, seião uma casta pri- 
vilegiada e palrician», reagem fortes aquei* 
Tootros coro o que seus próprios senbãres 
lhes insíDaraai, regenerados por seu longo 
mariyrio,^ extirpam moitas vezes, nets ge- 
ralmente se conlentam de avassaBar, os sen 
antigos oppressores. 

É a historia d& todos os povos, e per coo- 
seqnencia de todas as Utteraturas. 

É a historia Utteraria de Portugal no se*- 
gvndo quartel d'este século: é o que foi esta 
reacção vulgarmente chamada romaatica, mas 
que não fez mais do qme trazer a remtscínça 
da poesia nadonai e popular. Nenbuma coia 
pôde ser nacional se não é popular. 

Aqui está o porqud, o como e o paraqoô 
liz a coUecção de que este volume é a primeira 
parle, ou mais exactamente a introducção, e 
que apenas contém o que eu, á mii^ua de 
melhor nome, designarei com o titulo de Bo^ 
manees da renascetèçn: sio os que resuscitei 
e como qua traduzi das qitasi apagadas e mt^ 



tiladas inscrip^es que desínterrei da memo- 
ria dos povos. 

Os textos oríginacs d'esies, restituídos 
qaaQto é possível, os de muitos outros que^ 
appareceram meoos imperfeitos na mesma 
excavação, muitíssimos que se técm achada 
em livros e papeis desprezados hoje, e em 
collecções Mss., estão promptos, classifica- 
dos, annotados, e sahirSo em seguimento 
d'este volume, apenas o permittam as dífQ- 
caldades, sempre recrescentes em Portugal, 
de se publicar qualquer coisa. 

Eu lenho posto termo, ou pelo menos sus- 
pensão indeflnida a toda a occupação littera- 
ria propriamente ditta, para absolutamente 
me dedicar, em quanto posso e valho, á con- 
clusão de um trabalho antigo, mas interrom- 
pido muitas vezes, que agora jurei acabar; 
sio Vinte annos da historia de Portugal,. 
período que começa em 1820 e chega aos 
dias de hoje, mas que não sei se ja anda mais 
inredado e confuso do que o dos mais antigos 
e obscuros séculos da monarclna. 

Espero começar a publicá-lo no Dm d'este 



XXYI 



dDDO ^; 6 nenhum tempo oo logar me sobrará 
portanto para mais nada. O Romanceiro po- 
rém e Fr. Luiz de Sousa estão promptos a 
entrar no preio e, quanto è por minha parte, 
n3o farão esperar o público. 

Lisboa, 12 de Agosto de i84d. 



* Dez aooos sSo passados e a promessa nem eommeçoa a com- 
prir-se (1853). Sappomos o A roceioso de arrostar com a audaciosa 
responsabilidade de historiador contemporâneo. 



ROMANCEIRO 

UVBO PRIMEMO 



I 
AXX>ZINDA 



AOS]t.DDAlIElBSi< 



Eis-ahi vai, meu amigo, o romance em que 
Ibe fallei n^uma das miubas últimas cartas de 
PorUigai. Estava quasi todo copiado; e aqui 
jMBi paciência nem tempo me chegavam para 
as moitas correcções e alterações que elle 
precisava; por limar lhe vai, e por limar irá 
para a imprensa: tanto melhor para quem 
gostar de dizer mal, que não lhe faltará de quéu 

Creio que è esta a primeira tentativa que 
Itt dons séculos se faz em Portuguez de es- 

*SeiThi de preCuio i primeira ed. de Londres no anuo d» 



« ROMANCEIRO 

crever poema ou romance, ou coisa assim de 
maior extenção, n'esle género de versos pe- 
quenos, octosyllabos, ou de redondilha como 
lhe chamavam d'antes os nossos. No meu re- 
summo da historia da língua e da poesia por- 
tugueza, que vem no primeiro volume do 
Parnaso-Lusitano impresso ultimamente em 
Paris, — a so coisa minha que ha n'aquena 
collecção, porque assim na escolha das peças, 
como na ordem e systema da obra me trans- 
tornaram e me inxovalharam tudo com notas 
pueris, ridículas, e até malcreadas algumas, 
— n'esse resummo toquei de leve, e em tudo 
o mais, sobre a belleza doestes nossos versos 
octosyllabos, que nos s9o próprios a nós hes- 
panhoes, tanto portuguezes como castelha- 
nos, e, para certos assumptos e certos géneros 
de poesia, mais adequados do que nenhuma 
outra espécie de rhythmo. Boscan gaba-se de 
haver introduzido na Península os metros tos- 
canos : hoje está averiguado com certeza que 
nSo foi comeffeito elle o primeiro que nas duas 
línguas cultas das Hespanhas compoz dos taes 
versos hendecasyllabos; mas é certo e além 



M>OZINDA ^ 

de toda a dúvida qae do tempo de Boscan e 
de Garciiasso em Castella, e logo de Sá-de- 
Miraoda e Ferreira em Portugal, começaram 
aqueiies dossos metros primitivos a cahir em 
mais desQso, a não se impregarem .senão em 
certo género de poesia ligeira ou, segundo 
lhe os Francezes chamam, fugitiva. Francisca 
Rodrigues-Lobo e muito depois D. Francisco 
Manuel-de-Mello ainda n'elles fizeram roman- 
ces históricos; Violante do Ceo muitas das 
snas lindas e agora tam mal appreciadas poe- 
sias; ainda se fizeram posteriormente eglogas, 
e o que os poetas da Phenix-renascida e os 
eampanudos vates das mil e uma academias 
do secolo XVII e xvm chamavam romances 
—que certamente não eram o que hoje strí- 
ctamente sa intende por este nome. Em tem- 
pos mai posteriores felicissimamente os revi- 
veu o nosso grande e incomparável Tolentino 
Da satyra, c no tam faceto e delicadissimo seu 
próprio e privativo género da poesia de socie- 
dade. 

A nossa poesia primitiva e eminentemente 
oacional, a que do principio e, para assim 



< BOMAJIGHBO 

dizer, do primeiro balbuciar da nossa lingoa, 
DOS foi comi&um com todos os outi*os povos 
que mais ou menos tiveram communbao com 
a língua provençal, primeira culta da Europa 
depois da invasão seplentrional, foi segura- 
mente o romance histórico e cavaiberesco, 
ingénua e ruda expressão do enihusiasmo de 
um povo guerreiro. Logo vieram esses trova- 
dores de Provença e nos insinaram modos 
mais cultos porém menos origlnaes e menos 
cunhados do sêlio popular: era coisa mais de 
€Ôrte. E como tal não pôde absorver, senão 
modiGcar, o que brotara spontaneamente do 
natural da terra. Mas as duas feições ficaram 
^mbas, e deram assim á poesia portuguesa 
um character talvez único no mundo, — nas 
Hespanhas decerto. 

Em geral a poesia da meia-edade, singela, 
romanesca, apaixonada, deumaespecie lyrica- 
romântica que não tem typo nos poetas anti- 
gos, comquanto deiíLOtt seu cunbo impresso 
no caracter das linguas e poesias modernas 
•de todo o sul e occidente da Europa, não teve 
•comtudo imitadores nem se cultivou e apper- 



ADOZIMDA 



feiçoou nunca mais, quasi desde o completo 
tríampbo dos clássicos, senSío agora recente- 
mente depois que as bailadas de Btirger, os 
romances poéticos de Sir W. Scott e alguns 
outros ensaios ingleze.^ c allemâes, mas prin- 
dpalaiente os do ramoso es(U)cez, introduzi- 
ram este gosto e o fizeram da moda. Fatigados 
dogrepo e romano em archiíeclnraíi p pintu- 
ras, cotiieçdiuos a ulhar para as beílezas de 
Westminster e da Batalha; e oappetite im- 
botado da regular Tormosura dos Pantheons e 
Acropolis, começon, por variar, a inrlinar-se 
para as menos clássicas porém n9o menos 
lindas nem menos elegantes formas da archi- 
teetora e da sculptura gothica. 

Succedeo exactamente o mesmo com a 
poesia : ínfastiados dosOl} mpos e Guidos, sa- 
ciados das Vénus e Apollos de nossos pães e 
afõs, lembrámo*-nos de ver com que maravi- 
lhoso infeitavam suas ficções e seus quadros 
poéticos nossos bise tres-a vós ; achámos fadas 
e génios, incautos e duendes, — um stylo dif- 
fer^le, oatra face de coisas, outro modo de 
ver, de sentir» de pintar, mais livre, mais 



?0L. L 



ROMÂNGBIRO 



<ex€6nirko» mais de plianUâia, mais irregular^ 
{MDiréiB «eoi muitas coisas mais natural. O ati- 
4iiqiiado .(gradou por no^o» o obsotelo eoti^im 
^em moda : arte mais fioa, gosto maia delicada 
s de ingei>ho6 mais cultos o soube «npre- 
i;ar tiabilmante, ' decalcar n^outra civiUzacte/ 
A poesiaromuntíca, a poesia primiliva,^ nossa 
própria, que não herdámos de Gregos nem 
Âomanosoem imitámos deniiigaeoi* mas ^ue 
Dófi modernos creámos, a abasdoMia {leesia 
nacional das nações vivas resuscitou buaUa e 
remoçada, com suas antigas gatas poFèm me- 
Ihor talhadas, cchi) suas feições prhneJras -po* 
rém mais cowpustas. £ a mesma fielvslid^, 
ingénua, caprichosa e aeria virgem das iion- 
ítaobjQS que se a|)pra2 nas solidões ifioiílias, 
4|jae vai pelos campos allumiados do pailidp 
f efiexso da lua, inv^lta em veoséelranspareote 
alvora, folga oo vago e na ificerleza das ctees 
indisiiifictas que^iemocculta oem patenteia o 
iasiro da ooíiCr — a mesma beldade mgrste- 
niosotqiietfir^quaRia asfuioasdofiísteUo aban- 
4oDaû.« dâ iõiT^^deserta, do«i3latis4ffo.eokerlo 
de bera e muago, e folga 4e caalar soas ea*- 



ABOIIJ»A 9 

4Íeiits desgarradc-B á bôcca de caveroas fada- 
rias — por noite morta e boras aziagas* Ê a 
jUâMna sem dúvida : porém o gosto mais puro 
i^ fino de seus aiJoradores, sem ailerar a lí- 
ifaurgia, iiíeiliíicoa os ritos e os accomiaodou 
para espíritos e ouvidos costuatados aos by- 
moos, meuos variados porém mais cadentes» 
<la aiiligoidade clássica. Não ficou menos na- 
Uval nem menos nacional, porém muito mais 
imavel e incaaiadora a nossa poesia primitiva 
assim resuscitada agora. 

Muito anies do nomeado escocez ja tinha 
havido tentativas para aactonalizar a poesia 
moderna e a libertar do jugo da theogonía 
diiestodo: — mas a própria e verdadeira res- 
taura^ da poesia dos trovadores e menes- 
tréis, sem questão nem disputa, só W. Scott 
a fez pofmiar e gorai na £tiropa« — Com ella 
se ffestauraraoi também os metros simples e 
cwtos cpie mais naluraes sio ao sty lo cantavel, 
^aencial ás oompesiçôes d'aqoeile género. 

bepais de muitas totilalivBS, de exame 
kago e reãecAiát^ «eu por mim oonveocnme 
lie que o oulro próprio « aaturaá ide nossa 



40 ROlfANCRIRO 

lingaa para este género de poesia, e para to- 
dos os géneros populares, nao era o hendeca- 
syllabo, o que dizemos vulgarmente heróico. 
Os portuguezes são uma nação poética, a sua 
língua naturalmente se presta e spontanea se 
oITerece às formas e cadencias métricas; os 
nossos mais rudos camponezes improvisam 
em seus serões e Testas com uma facilidade 
que deve de espantar os extrangeíros: mas 
observe-se que o metro d'estes improvisos é 
sempre sem excepção alguma o de redondi- 
lha de oito syllabas, rara vez o da endexa; 
acaso farão os versos compostos visivelmente 
de dois metros, isto é, os alexandrinos ou 
dittos de arte-maior. A causa é óbvia ; aquella 
é a mediçSo mais natural que Ibes offerece a 
musica da lingua. 

Entre as canções antiquíssimas conservadas 
nosdoiscancioneiros,odoGollegiodosNobres 
(impresso por Sir Charles Stuart cm Paris) 
e o de Rezende, ha muita variedade de me- 
tros; mas outras poesias mais antigas, os ro- 
mances populares ou xácaras, que por tra- 
dição immemorial se conservam eolre o povo. 



ADOZWDA 



il 



príncipalmeDte nas aldeias, todos são no metro 
oetosyllabo ou em endexas. Logo direi aqoi 
algoma coisa mais de vagar sobre estas curio- 
síssimas, e tam desprezadas mas tam interes- 
santes, relíquias da nossa archeologia. 

O género romântico nâo é coisa nova para 
d6s. Não fallo em relação aos primeiros sécu- 
los da monardiía : restam-nos ainda specimens 
das canções que não serão talvez de Gonçalo 
Hermigues, de iSgas Moniz, d'elrei D. Fedro 
Cru, mas são antiquíssimos documentos de 
certo. As trovas dos Fiijneiredos, apezar do 
tam suspeito testimunho de Fr. Bernardo de 
Brito» creio, por convicção intima, que são 
das mais antigas composições poéticas da lín- 
gua que chegaram até nós. Não alludo porém 
a epochas tam remotas e incultas. Depois de 
introduzido o gosto clássico por Sa-Miranda, 
e Ferreira principalmente, depois de esque- 
cidas as graças singellas de Bernardim Kibeiro 
pelos mais ataviados primores de (^mões e 
Bernardes, ainda então houve quem de vez 
en quando deixasse a lyra de Horácio e a 
hinta 4Íe Theocrito para tocar o alahude ro- 



^> nOMMICBIlK) 

roantíca^dos menestréis. O propri(>aniKt«r dos 
Lusíadas nae caaçcíe^, cpne, éepm (ra^iiicttr» 
são sud meH)«r cenifiosicab, paraimen^gòsm^ 
n'es838 cançtíes iam hé\m e tnm profundai- 
mento seolidas, Iam repss^adtis de nteftiiik 
choHn 9ii9\wiiiia» em sAgmns efméio^ dos 
meamos Lusíadas, fui todo romaif!(4r(»v e fet^ 
cisdimofnenCe o foi. Pnmeísi^.o biodriijr«s4^o«' 
1)0, segtindo ja observen em muitas das p#^* 
quenas [leças que se inmfHpam dispersas^petoi 
Pmfoí^pereffrinOy pehr/^rffwfvern, c nm seos^ 
romances meiríscos e liisloricos, é emínertle»-- 
menle romani ieo. Tal é leronymo Corlereali 
no Nemfrof/iú-de-S^Hheda, quamloi o. dei^ 
xam cem «natui^exa elhopermitlemtw^mK»' 
connnum as loncuras mjrHiologícas eom qu& 
perdeu Iam bem escolhido assinlnfiio, tma 
bellas seenais. 

Deixando outros mnMos, dos quaes o me^ 
nor exome faeilmente mostrará o mesmo» evi- 
tarei aquello romanoossnho de'6aKve doreti 
Ramiro, que V. descobriu' en» Londres eom s* 
i^^ecioso actiuciO' dos papeis e livro» do^neseo' 
infeila Oliveira. 



afifem qM, na «xlineçio áos Jesoílas^ e 
pelo» esferçM d« benciMrita Arcádia se hbs^ 
tanrmiin» beilas^elrasfe a língua, e o^verda-- 
deiro gosto poético affiigentoiT o&<Mro$ticho9 
tmèab^níes sevscentislas, ogenero elasâico 
rasMeítoa «mis p«ro e ram^ bello nas lyras d« 
elegante apurei Garfílo, (to allis^nanHe Dinis^r 
do aoMíBie Filinto» do numeroso Doeage, do> 
dassw3oRibeiro*^os*SaDctio&y do ingenne^Ma-** 
xiiDiffioTõrreSrdogaiâffitissimoTolenlino, do* 
pMIosopbo Caldas; mas o* género romântico^ 
íRfaitai&eiite iiiTotvido na proscri p^io do seisn 
centisfna» esse desprezado e perseguido, vm» 
gwni curou â'eite, julg»rain^n'o sem o rntefH 
der, condcmnaram-iro sem o ouvir. 

No watm poemazinho do CainDcs aventarei 
algons toqoes, a^uAs longos de stylo e pen«* 
iwmi tog, Mmineier, pai*»a8&im áhev, atpos^* 
siMidarfe da restafuração d'este género, qua» 
faid^tem dfsputado^na Eurofa lilleraria com< 
aqwitratro, e que boje coroado dos lenros der 
Seolt, de Bynm e de Lamartine vai de^ar 
om eHe, 0, Hão direi vencedor,, mas também 
ni» veneiífo». 



^^ ROMANCSffiO 

D. Branca, essa mais decididamente entrou 
na lice, e com o aiahude do trovador desafinou 
a lyra dos vates; outros dirão, não ea, se com 
feliz ou infeliz successo. 

N3o é portanto, em nenhum sentido, novo 
boje para a litteratura portugueza o género 
romântico, nem me appresento agora com 
este meu romancesinbo ao público portuguez 
a pedir privilegio de invençSo ou patente de 
introducçSo. Se reclamo aqui prioridade é 
somente em ter instaurado as antigas e pri- 
mitivas formas métricas da língua em uma 
especia de poesia que também foi a primitiva 
sua, e ao menos a mais antiga de que tradição 
nos cbegou. 

De pequeno me lembra que tinba um prazer 
extremo de ouvir uma criada nossa, emtdrno 
da qual nos reuníamos nós os pequenos todos 
da casa, nas longas noites de binvemo, reci- 
tar-nos meio cantadas, meio rezadas, ;éstas 
xácaras e romances populares de maravilhas 
e incantamenlos, de lindas princezas» de ga- 
lantes e esforçados cavalleiros. A monotonia 
do canto, a singelleza da pbrase, um n2o-sei- 



AOOZHfDA <s 

qoé de sentimental e terno e mavioso, tado 
Boe fazia tam profunda impressão e me inle- 
vava os sentidos em tal estado de suavidade 
melaocholíca, que ainda boje me lembram 
como presentes aquellas horas de gõso inno- 
cente, com uma saudade que me dá pena e 
prazer ao mesmo tempo ^ 

Veio outra edade» outros pensamentos, oc- 
cupações, estudos, livros,prazeres, desgostos, 
afflicções — tudo o que compõe a variada tea 
da \ida, — e da minha tam trabalhosa e tra- 
balhada vida 1 — tudo isso passou ; e no meio 
de tudo isso, lá vinha de vez em quando uma 
hora de solidão e de repouso, — e as noites 
da minha infância e os romances incultos e 
populares da minha terra a lembrarem-me, 
a Iembrarem*me sempre. 

Lendo depois os poemas de Walter Scott, 
ou, mais exactamente, suas novellas poéticas, 



'O Sr. Duque de Riba», bera conheeido na Koropa hoje, (omoa 
fun rpiffâph> do sen Uvnhêtfotítú este paragnpho da presente 
carU: ate tm desvanece por mim» mas dá-me gdsto qne preeedes- 
os nosans viiinhos na re.<itaaraçAo da poesia popnlar das 
Má. ie 1843. 



as òãllúàs' ?mm\9m^ (te B6rger, » In^esis de 
Bdvns, comecei » ffensar qm aqoeUap» nid^' 

um fmrk) de exeeilents e Itudissima pec»i0: 
na€ion9(> e qm podiMV e ée? iam ser ^ro- 
veiladas. 

Em Paris fui ver o caneiènairO'A)*£oiteg!0) 
do9 Nobres M deffeituosa eóíçSo de Sir Charles 
Stiiarl; depois rolland^* a Poflugal lopoet a 
percorrer o (te Rezen^: no primeiro* oada, 
no segiifKto^pomo acli(^ do romance histopico 
00 mrratho. I>'é9ta óllfpm» espécie m^ ha 
impresso> mais (fiie esses (i«vi(ksii6^fragHieii« 
im cemservtrdos^fwr Fr; Beraarte de Brito e 
por Mt^rret LeitUo*. 

Rleeorrt á tradição: estavot entã^i^eir Kra de 
Portugal ; stimulava-met a leiiwa do9 moitosf 
efH»í6s exftnmgein^ qm n'esse genen» iam 
appar9eet)4(9 todos Oflr dias em tnglaterra e 
França, mas principalmente em Allemanha. 
Uma estimável cjoven senhora de minha par- 
tieohM* aittizade — a (fí^em por agiradeeida rei- 
tribuição é dirigida a rntrod acção do presente 
romance — foi quem se incumbi» dt roa. {»ro>» 



corar e»P6rllng9ta{$tifiMsr6pias das xiácara» 
e leoAss popnhir«s> 

Itepois de imivlos Inbalhos e indaga^^esv 
de cmfMr e eMvcFdr nFinitar cór>ia bnn*haita^ 
gne ^gnvifte ensío se arr»ncoti á ignorância 
e acai^imnfo de omoíf-géceús e li^vadeíra» 
e saloias velhas, boje firrncípai^s depositaiiasi 
. d'e9l9arcliefHoirían»CH)nal, — galantes corFes, 
ant íftm para descobrir i^onco qnc seja é ne^^ 
ecsnmesgi-sratar romo o pnUv» gaHhmcêm' 
de VhBèP9y — v^fiUdt coisa se põrie obter, 
Mi fc im » einvlirmi» pefo rudeza das^ mãos et 
DMnorras por onde pasmou; mas emfírn^era» 
algmw corsv, e R)r(050 (bi conlenliir-nw 
c(M0 o poaco q^ie rm^ ila^rarn o (]ue tsmio) 

CtMDO. 

AsBíii» eemegni nmm qnmze rhapsorfiM 
OQ, mais propriamente, Tragmenlos de romana 
ces exáearas que em geral' s9o visiVeimente 
d^ MWU O sijlo, mais^ decoohecifte dífTerenç» 
em antiguidade, todavia remotíssima em to- 
dos. Comecei a arranjar e a vestir alguns com 
que tn^raceí mais; e para lhe dar amostra do 
modo por que o fiz, shk«ite copio ma dos 



18 ROMANCBIBO 

mais curiosos ^ aiDda que n3o dos menos es- 
tropiados, e com elle o restaurado ou recom- 
posto por mim, o melhor que pude e soube 
sem alterar o fundo da historia e conservando, 
quanto era possivel, o tom e stylo de melan- 
cbõiia e sensibilidade que faz o principal e pe- 
culiar character d'estas peças. 

 minha primeira idea foi fazer uma col- 
lecçSo dos romances assim reconstruídos e 
ornados com os infeites singelos porém mais 
symetricos da moderna poesia romântica, e 
publicá-la com o titulo de Romanceiro-par^ 
tuguez, ou outro que lai, para conservar um 
monumento de antiguidade litteraria tam inte- 
ressante, e de que talvez só a lingua porlu- 
gueza, entre as cultas da Europa, careça ainda; 
porque de quasi todas sei, e de todas creio, 
que se n9o pode dizer tal*. 

Mas sobreveio tanta interrupção, tanta dis- 
tracção de tam variado género, mortificações. 



* È o do Bernal Francei, n'e$lc rol. — Vid. também o rol. u, 
pag. 121. 

* É o pensamento qtw agora se mliia. 



ADOZINDA '* 

coidados, trabalhos mais sérios; emQm de* 
sisti da impreza. 

Ja Unha decorrido mnilo tempo, e voltado 
ea a Portngal, lembrando-me sempre de vez 
em quando este impenho tam antigo e tam 
fixo; e a occasino a fugir-me. Uma circum- 
sláncia fatal e terrível me fez voltar ás minhas 
qoerídas antigoalbas. Lançado n'uma prisão 
pela maior e mais patente injustiça que jamais 
se ouviu S voltei-me, para occupar minha so- 
lidão edistrahiras amarguras do espiríto, aos 
meãs romances populares, que sempre com- 
migo téem andado, como uma preciosidade, 
qoe bem sei não avalia ninguém mais, de que 
maita gente rirá, mas que eu apprecio, e me 
poDho ás vezes a contemplar, e a estudar como 
am antiquário fanático a quem se vão as horas 
e os dias deante d*om tronco de estatua, d'um 



' o aoelor esteiv por ttpêiço áé três mexes preso sem mais prfr> 
Uxto que o de ler tido parte em uma publicação censurada e im- 
prensa eoiii todas as lioeoças necessárias. Não foi preso o censor, 
aea prohibída a publieaç&o, nem no fim de três meses so achou 
Btitef ia de coJpa I Ed, ie 1928.— O jornal era o Porluguez, cuja mo- , 

derarâo em doolrína, e orbanidade em estylo ainda nio foram imi- / 

udas. JSd. de I8i3. 



capilel ile coliimna, d'um pedaço de vaso 
etrusco, d'nin b^on^e ja carcomido e infúrme, 
desinterrado das ruínas defPooip^ ou deHer* 
Cttlaoo. Mas quantos DavUs e Caaovas iíi& 
Caz, quantos Rapbaeis e Mtguel-Aogelos bia 
íei oestudo d^esses rragmentoâ que desprega 
porqoe mais não inlende o vulgo ig«oranleI 
Assim passei muiias bonas de minba longa 
e amofinada prisão, suavizando mágoas e dis- 
Irahindo [)eusamenias. — Tánha eu começado 
a ageitar ontro ix)mance q«ie oirigtoalmente se 
intitula A SUoana, cujo as84unpto notavd e 
horix>fOfio exigia rsumiaa delicadeza fiara se 
tornar capaz de ser lido sem reptignanda iimi 
ifidecencia. Era aadn menos que uiaa nova 
Myrrha, ou antes o inverso da trágica, inte- 
ressante, m;i«^l>oiMnoâa histeria da mylbiíiiio- 
gia grega ; é um pae namorado de sua .própria 
filhai — A filha joven, bella» virtuosa, saneia 
emfim. — A difi&culdade do as&umpto irritou 
o desejo de hictar com etia e vencô-la se pos- 
fiivel fosae. Dava ilar^a o lempo^ pedia exten- 
çKo a natureza dos òbstacotos ; o que í&ra co- 
meçado para uma xácara, para ama .cantiga. 



ou, coitto lhe cbamam Allemaes e laglezes, 
parauma bailada, sabiu um poemeto de qua- 
irocanios^ paqueDOs sim, |)orém muito maio- 
res do que eu peaseí qua fossem^ e do que 
géralfloeote ^ãolaes coisas. Mudei-lbe o titulo 
e cbamei-llie Adozivda, que soa melhor e è 
poriaguez mais autigo. O fundo da historia, 
as circumstáncias do desfecho d'ella sao con- 
servadas do original ; o ornato, o mecbanis- 
no do flAaraviUu)30 é outio mas accommo- 
dado, creio eu, ao género e á indole do 
aisumpto* 

Hando-lhe aqui também uma cópia do ro- 
ttaoca origioaJ para ver e i:ombinar. É dos 
BXàia ttnUiad^s s desfigurados, mas certa- 
mmte dos que lêem mais visíveis síguaes de 
vetittUde quasi immemoiial ^. 

Ora «ei^aqui, mau amigo, a bistoria e ori- 
gem da minha Adozinda, gerada no exilio, 
nascida entre sustos, criada na miséria e pa- 
decimentos de uma prisão. Entre tudo o que 
lenho rabiscado de prosas e versos este ro- 

*Esti a psg. 1(M do II \o\, do &OMA.,cnBO, Ut. ii, part. i, rom 8. 



^ ROMANCEIRO 

mancesinho é a composição minba a que tenho 
mais amor pelas memorias que me lembra, 
pelas affecções que me desperta. — Que de 
coisas passaram por mim durante o tempo 
que o compuz, os iutervállos tam longos em 
que o deixei t — até o nascimento e a morte 
de uma íílha única» tam querida e para sem- 
pre chorada I... 

Adeus, meu amigo : não sei o que ahi vai 
escripto, nem como. São ideassem nexo, pen- 
samentos desatados, coisas á toa como o espi- 
rito de quem as escreve. Lea*as assim, e assim 
se imprimam se porventura estão em termos 
d'isso, — do que muito duvido, porque eu 
por mim, nem que me dessem os louros de 
Camões, ou me flzessem apotheoses como a 
Homero, me punha a corrigir, nem síquer a 
rever o que ahi vai escripto, quer prosa quer 
versos *. 

Londres, 14 (l'Agosto de 1828. 



' Corrígíu-M comtodo agora éita carta para a presente reim- 
pressão, porqoe escrípta maito á pressa em Londres logo ao chegar 
de Portugal, dSo tinha agora essa desculpa» qae ent&o podia Taler. 
Bd. de 1843. 



A ELTSA 



Otmpifiiie, f I d'A^tê iM7. 



Tlms, whilo I ape Ike inea«re wild, 
Of lalct thal rliarrocd mi> yet a rbild, 
Rude Ihoogli Ihey be, ftfll «i(h lhe ááme 
BilMB Ite thambls cfMrlsr «ioie; 
And feding*, roaied in tifes flrst day 
Gkm ia lhe line^ and proiopt the U|. 

Waltbr Scorr. 



<]aapo da lide é este; aqai lídaraiD» 
Elysa, os aoeioft quando os nofisos eran 
Udadores por gMiia»— aqui proelraraai 
SobertMM CMlelliaiiaii e — veaeenini; 
Qoe peio rd e pátria eorabateiido 
Jiimea fonoi Teoeidos Fortogiiezes. 
—Este tefieao é saaeto: inda estás vendo 

TOL .1. 4 



n 



ROMANCEIRO 



Alli aquelles restos mal poupados < 

Do tempo esquecedor, 

Dos homens deslembrados; 
Nobres roltqaías sao d'altas muralhas 
Forradas ja de lúcidos arnezes. 

De tresdobradas malhas. 
Talvez fluctuava alli ii*aqaelle canto, 

Suberbo o vencedor 
Das Quinas o pendão víctoríoso; 

Ejunctos ao redor 
D*esse paládio augusto e sacrosancto, 
Invencível trincheira lhe faziam 
Toda a flor dos mais nobres e esforçados; 
Que à voz da pátria (voz que nunca ouviam 

Sem sentir redobrados 
Do nobre coração os movimentos) 
Heroes sao todos, fácil a victoria, 
Fáceis as palmas que lh'infeixa a glória. 

Ah I— paremos aqui:— ve quaes na frente 

As artérias violentas me rebatem: 

Febril, descompassado corro e ardente 

E me angustia o sangue. . .— Aht sim paremos 

Aqui. . . Nao, aqui nao; esse onteirínho 

Depressa o desceremos. 
Faz-me bem ásta vista:— essas arcadas' 

Suberbas, elevadas, 

* Ruinat de fortíflra(iVi «nUf.it em Campolide. Víd. noUt no Sm, 

* Aquedoeto dat agvat IhTes. ~Vid. notas no fim. 



ADOmiDA 

Qoe niiínin monte a monte e serra a serra, 

Acaso nao serão 
Tam Alastres taWei,— nao lembram guerra, 
Glóría nao lembram; nem com sangue lívido 
A morte da víetoría cmnpanbeira 

Para o erguido padrão 

O cimento amassou. 
Um rei qoe amou as artes, rei paeífioo, 

A quem amor fadou 
Qoe seu fosse e das musas, — que fugidas 
Da pátria ha tanto, á pátria as volveria; 

Do povo à utilidade 
Este sublime monumento ergma. 

Para a posteridade 
bto só lhe appnrou e nome e a glória, 
E lhe ganhou as paginas da historia. 

fada é mnila oppressao; ioda me acanha 
Anta arte humana o coração no peito. 
Tam grandes massas» fábrica tammanha 
Absorto deixarão — mas satisfeito 
O uáno, os sentidos?. . Não, Eiysa, 
ySú satisfaz ao homem a arte humana : 

Por mais que ella se uffana, 
Qoe aoe abysmos o centro opprime e pisa 
Cos fnudameptoe de etemaes pyramides, 

Qa c'os enguidos vértices 
As miTens rasga o seio tempestuoso. 
5em assim :—á trístesa ou á alegrín, 



16 ROMANCefRO 

E âquelle esUido át innefítvel f Ô90 

Que entre a dor e o prazer a nima smpende 

Brandamente e^e ^ ntelanch^kt, 

Oht nada d*tsso o exefta. 
Oh! nada disso o <)oraçio intendei 
Oh! nada d*isso o espirito nos move 
Sc a natureza, a puranatureca 
Por sua ingeima aliraeção nosnio emnmive. 
Posso admirar o homem e a grandem 

De suas nobres feituras, 

Mas somente ^nfriítir; 

Mais não pôde excitar 
Mesquinha creaçao éa ereatnras. 

Vamos por essa ineosin 
Subindo.— Eu gosto do alto das raontanlun^ 
Dos picos das erguidas serranias, 
O avaro à terra mãe abra as intranhas, 
CjSL\e oiro e crimes, com que kienrie es aias 
Seus e dos seus, e a sombra da Tirtude 
Acabe de varrer da faee d*elta. 
Mas o que, em paz eommigo e eo'a existeMiay 

Ainda ama a iimoeeneis, 
Inda se apraz e o^a natureza bdU, 
A seus qnadros anrri, com seus dom goaa, 
Ohl esse venha ao tume do aHo wotítty 
Venha estender a vista saudeaa 
Pelo vaile que á falda lhe verdeja, 

A messe que lour^a. 



ADOEfyOA 

E a despealiada Í^Bte . . 

Qoe TU garrala e trepida aattaayda 
Té que se junta em cava pederneira. • 
Donde sai, o arco átm ioiikufido 
Na espadana da férvida iraeboeíra« 
Venha na solidão^— e e sádos OMiiles. 
É mais só que nenbon^— *0' sileae^oso 
Mais augnsto, seleaiiMi e Hiageitosal 

Yenha na ít^Uáio 
Comsigo conversar, foliar «inchara 

GoB o seu eora^Ow . 
—Quantos ba que aanoa longos bao vivido 
Cos ontros sempre» scAni^re ciosi de fora» 
Sem viverem comsigo nem um dia, . , 

Nem um momenio sót 

Tenhamos doMos d^ ; 
Tiyet nao. . « l^en apenua oKiitido. 

Tua meiga companhia 
É doce, Elysa; e sempre aa minbaaima 
Foi teu brando fállar — e quantas. veaesí.-^ 
Celeste orvalho quo abrainloi) a eaioui . . 
De paixões^ fue ado^u o agro a .roveees : 
Porém a minha solidão qperida. 
De vez em quando^, lá quando alm<t o pede,- 
Ob! uà» iD'a>' Ureni: que ó tirar-me advida. 
Agora conversemos :. eu ignoro 
A arte das vans palavras que bem soam^ 

Oiço-as, o ttiio. demoFOf • 
X) ouvido os sons qgo^do per si se oscoaoi- 



Á 



« ROMANCEIRO 

O sol declina;— temos largamente 

Hoje philosophado. 
Na viva flor da edade e da sande 
Nem de todos seria aeereditado 

Que tam soavemente 
Em austeras conrersas de virtude 
Nos fosse o tempo.— Cré-me, Eiysa amável, 
Tem muito mais prazeres a amizade 

E nkais doces que amor : 
Para todos os sexos» toda a edade, 
Em todo o tempo a mesma, sempre aflável. 

Sem o cancro roedor 
Do ciúme voraz que no mais puro 

D*amor, no mais seguro 
Suas raízes venenosas lança, 

E co*a mais branda flor 
Seus mordentes espinhos lhes intrança. 

Detestemos, Elysa, essa funesta 

Paixão brutal que a tudo e em tudo damna, 

Da virtude a tyranna : 
Nao nos illoda a tam commum cegueira; 
Detesta o crime quem amor detesta. 
Crimes 1 — vé a amizade prazenteira, 
Que nenhuns tem;— e amor, ail quantos, quantos! 
Honras perdidas, thalamos víoladofi, 

Os vincules mais sanetos 
Dos homens e de Deus, da natureza, 
Da própria natureza— espedaçados 



AOOZINDA 

For esse aaior, que sua tocha aeeesa 
Da yvro fogo trai do averiio imiDundo 
Ftfa de crimes abnzar o mundo. 

Hooesto^ justo, saucto, eoosagrado, 

Xada respeita:— o saogne, o altar em meio 

De seus desejos não é termo ou freio; 

?íâo lia pomo vedado 

No Éden da virtude 

Que a mão perversa e rude 
Tocar não ouse, — árvore da vida 

Que dos gryplios mordida, 
Bm peçonha de morte não converta, 
K a seiva salutar já corrompida 
Em Miai beneficio não perverta. 

Lembraste aqudla historia 
Que ingénuo o povo em seus trabalhos canta, 

£ de longa memoria 

Entre elles perpetuada, 
É síngella legenda de uma sancta, 
Que por brutal amor sacrificada, 

Desvalida virtude, 
Só do crime escapou no seio á morte? 

Eu a canção magoada 

Em verso menos rude. 
Mais moldado verti, dei novo corte 
Ao vestido antiquíssimo, á simpleza 

Que ha séculos lhe deu 
De WMSOB bons maiores a rudeza. 



%è 



90 ROIMU^KCEIRO 

— Sercoo está » ceo« 
Tranquillo o veaio, a oaliDA descabida; 

E, pois qae nào te iofada 

A singelia toada 
Do bardo alabude qae aem.affte mo- 

E a rJáy^na dcsganrada 
Da popular canç^ rustioo ifiloa, — 
Aqui t'a cantarei, ouvo : e ae ao prantd 
Te commover a saudosa eadei&a^ 

Na selvagem bouioa, 
Na campainha agreste d*essemato 

Arrociá-lo deixa; 
São lagrymas sineeraa^ própria fonle 
Para regar as innocentai, flores. 
Que arte nao sabem- nem conhecem víb;, 
Flores como os meua versomio i«iiaâ08r 

De reíiaadas cores» 
£m que alma só e coração (emparte,! 
Nâo por clássica musiea Mttdaladoe 
Ao graduado som de grega lyra». 

De ciihara romaaíi. 
A minha é melodia que s6 mana i 
Dos Íntimos aceordes só do peito; 

Nem ha corda, que Ara 

Em meu alabude rufliiee 
Tom menos natural» moistootcafeit^^ 

£m suberbos canaes» attolsipedrado» 
Por ingenboso bydi*aiilícOy 



t. it 



|M • 



1 



1 



ADOZTNDA 

.Ylo d'arte subjugados 
Os eandaes da torrente conduzindo 
Riquezas de preciosa mercancia : 
E o arroio, que serpeia entre pedrinhas 

Pela relva macia, 
Bordado em-tômo sinuosamente, 

Que pôde elle levar 
Em sua doce e trépida corrente? 
—Alguma folha de silvestre rosa 

Oue, ingénua divagando, 

Pastorinha formosa 
Lhe foi acaso à margem desfolhando. 



31 



ADOZIBiDA 



.ANTIGA PRIMEIRA 



Jfo, rilnotveep: 

I ha¥e fiill caoie of «eepiof ; bat thit beari 
Shftll break into ao bondred Ibousaad lUwt 
Or ere 111 ^iwt* • 

I 

Onde vas iam alva e linda. 
Mas tam triste e pensatiTa 
Para, celeste AdoziDda, 
Da còr da singella rosa 
Que nascea ao-pé do rio? 



34 



ROMANCEIRO 

Tam ingénua, tam formosa 
Como a flor, das flores brio 
tíue cm serena madrugada 
Abre o seio descuidada 
A doce manhan d* Abril ! 
— ROupas do seda que leva 
Alvas de neve que cega 
Gomo os picos do Gcrcz 
Quando em Janeiro lhe neva. 
Cinto Ci>r de violeta 
Que á sombrjji .(Ji^abrpchou; 
Cinlura mais déíicada " 
Nunca outro cinto apertou. 
Anneís louros do rabdlo 
Como o sol rcs^plandecentes 
Folgam hjH$^ dvih'e wqtg^ 
Dá no vco ligeiro e bello, 
Yeo por suas mHos bordado, 
De um sancto emrítSo fbdado 
Que vinha da Palestina; 
Passou pelo povoada, 
Foi*se direito ao castello 
Pediu pousada, e lira deram 
Porque intercede a menina: 
Que o pac suberbo c de&crída» 
— * N*essa gpuie perogriuAp 
Disse, quem sabe o qu^ vam?" 
—Mas pede Adozioda» bella. 
Tal virtude e loruu>sura, 



ADOntfDA 

Quem lh'o hade negar a eHa7 
Não pódc opaetnm ninguém. 

II 

Mas o outro dia á luz nada 
Houve quem visw Adeziada 
Debruçada em sen baleao 
Haver prática alongada 
Co* aquelle velho ermitão. 
Quem sabe o que lhe elle disse? 
— Ningaem no cisteNoiNiTin: 
Mas d*aqnel1a oecasão 
A alegria llie fegín 
Dos olhos c do seiaiHanle: 
Ficou triste, «empre triste; 
Mas cm seu rosto divino 
Fez-se formosa a tristeza. 
Onno olhos â*amor quebrados 
Disseras os ottios d*clta; 
Mas nào tem dTaoior coklaéM, 
Que a uingueM oanheee 4t bella. 

III 

Qual semente «vebatada 
Da flor de vergéí idíbmiso 
Pelos furacõM do QalMin», 
Vai no inoMo fadNgato 



ROXAKOURO 

Cahír de serra escalvada; 
Vem Abril» e a seu bafejo 
Brota e nasee a ]índa flor. 
De ningaem vista ou sabida, 
Nem de damas cubicada 
Nem de pastores colhida» 
E o vento da solidão 
Lhe bebe o perfume em vão. 

IV 

Quinze annos tem Adounda; 
E desd*a vez que o romeiro 
Do saio pardo e grosseiro 
Lhe fallou ao seu bal<»o, 
Faz três para o San-Joao. 



E Adozinda sempre triste 
Vai sosinha pelo eirado 
Pelo Jardim, pelo prado; 
Nem ja a divertem flores 
Em que punha o seu cuidado. 
Pelos sombrios verdores 
De sua espessa coutada 
Vaga à toa e derramada, 
Como a novilha perdida, 
Conu> 2^ ovelha desgarrada 



ADOZIKDA 

A qaem o tenro filhinho 
Lobo do mato levoa : 
— Desfaz-se a niae em balidos» 
Qoe de ninguém são oavidos, 
£ o filhinho nao tornou I 

VI 

Que tem Adozinda bella 
Que em tal desconsolo a traz? 
Seno saudades do pae 
Que anda co*os Mouros à guerra 
Por defendar sua terra 
Mais a saneia lei de Deus? 
Três annos ha que se foi; 
£ dous filhos que levou, 
A eadaqnal sua e^da 
Com Juramento intregou 
De ]h*a tomarem lavada 
No sangue mouro descrido : 
E asshn cada um jurou. 
Fizeram gente em suas villas, 
(Que preito muitas lhe dio) 
£ guiaram sen pendão 
Para terras de Moirama. 
Ja vejo chorar donzellas, 
Tejo carpir muHa dama, 
Que onde chega Dom ^nando. 
Com sua espada portugueia 



^ nOSÍAKGEIRO 

Não ha laDças nem rodéllas 
Que sirvam para âefesa. 

Vril 

Mas nâo sào*do pâe saudades, 
Quo sempre a lidar com armas 
Como ellas duro fie fez; 
Mais Ilic importam do que a filha 
Seus ginetes, seu àmez. 
E até— quem difla ta!1 — 
Quando a mãe, por dhnerti-^a, 
Lhe falia do -pae atisentc 
£ lhe diz que liade voltar. 
Parece qne «e lhe sente 
O coração apertar. 
—Suspira en sHeneío Aiisenda, 
Auzenda tara Mia aMa 
Que ao-pé da bella Ad^zioda 
Mais irman que inaie parece 
De filha tam moça e linda. 
Suspira cm eileneie a irieley 
Porque ««apira nio dn : 
— 'Filha a«iaMle de WB "pae 
Conceder-me -o eeo.nie quiel * 
~Ai! quesemnribfleftoral 
—Ai! Auzenda maNaâada, 
Tem de vir nmguaéa àora 
Que á MiinAia desgraçada 
Darás maia «ao q«B nfonu 



ADOZINDA 

vm 

Que tropel qae vai nos paços 
De Landim ao-pé dos riosf 
Sons de festa e sons de gaerra 
Em seos mnros e alta torre? 
Geme a ponte, treme a terra 
(To peso d'homens armados. 
Gávalios acobertados 
Trotam iigeiros;— e corre 
O alferes que tremolando 
Yai gniao de roxa ena... 
Ja cliegado é Dom Sisnando. 
Entre os cavalieiros todos 
Soa armadura reluz : 
E o pennacho fluetuante 
Das plumas alvas de neve 
Sobre o elmo rutilante 
De longe a vista pered». 

IX 

— íPortas do eastello, abri-vos. 

Correi, pagens e donzellas, 

Que é chegado meu senhor. 

Meu esposo e meu amort' 

Auzenda bradava e corre. 

Portas se abrem, soam vivas, 

E o echo da antiga torre 
voui. s 



Com o som festivo acordou. 

— *Viva, viva Dora Sisnando!' 

£ o tropel ^e dobra e oreisce, 

£ às portas <iDe chega o bando 

Dos guerreiros irhsmphaiileB. 

Do corcel soberbo desee 

£ aos braços affihohmles 

Da cara esposa tooq. 

Doce amor que os «perMm 

Nâo lhes delKoa mais flOnMis 

Que para se vcnr onidos, 

Ajuntar-se peito a peito, 

E em laço tam brando le esir^tlo 

Longa saudade aftigar. 

A Auzenda gotteja o pnâlto, 

Pranto que é todo alogria'; 

E o rosto que nunca infla 

Do esforçado lidador 

Também sentiu -^niais qne a dor 

Pôde o gôso! — descuidada 

Uma lagryma sensível 

De seus olhos escapada. 



Mas as lagryma« de gdsto, 
Como as de mágoa, lêem llm; 
Dom Sisnando hM^nga o Toslo, 
E tomando a mio à esposa: 



jo^msmk 



— 'D*onde vem, ]ài% d«» smAoib» 
Qae a jóia mais preciaaa 
Nao vejo d^eMesmeas paços^ 
D*onde Yera -que mm owus abramos 
Minha áUlu»?.. .* A mu MJa, 

Pasmada, ítréfflo ia» a» .um^Ioáo, 

Oi1MtO»BO ChilliillClilfido, 

Parecia humilde eatrelia 
Qae ao prioMíra^iaia tívo 
Do sol qae ao Ahmr -roluz 
Não fica, nãOyttmias-Miay 
Porém páilid» e sen kau 

Três anQos.iaisãOffNnaAdas 
Qae Dom^SiaMBdo aioáo via, 
PTessa joven, linda fhna 
Soa filha não eonfceekb 
—'£i-Ia aqui, aaniioc/ díaa 
A mãe, que d'am braço a trava,. 
'El-la aqui.'— Os olhos crava 

O pae i^ formosa filha, 

£ de assombro e maravilha 

Modo, estático ficou. 

Gora Adozinda, suspira, 

E— 'Pae! ' disse em voz tremente 

Sabmissa... — ; languidamente 

Ajoelha, oseulo frio 



j 



^> ROMAIfCBIRO 

Na paterna mio imprime: 
Pranto que atelli reprime, 
Corre agora em sôlto rio. 
— 'Qae tens to, filha qaerida, 
Que assim choras tam carpida? 
É teu pae, que bade querer-te, 
Que hade amar-te como eu te amo.' 
E tomou-a nos seus braços, 
E a levanta Auzenda bella. 
Pasma o pae, suspira ella; 
E a custo 08 doces abraços 
De pae, de filha se deram. 

xn 

Pouco alegre a companhia 
Entrou nos paços brilhantes; 
E os atabales soantes 
Pregoaram festa e alegria 
No castello de Landim. 



CANTIGA SEGUNDA 

Bnt yci thoo art my flesb, my blood, my daughler I 

I 

Oh! que alegrias que vão 
Pelos paços de Landim 1 
Que magnificos banquetes, 
Que sumptuoso festim! 
Juneto ao valente campeão, 
À cabeceira da mesa 
Ficou a bella Adozinda. 
A tam celeste belleza 
Estão todos admirando; 
E o imbevecido Sisnando 
Mio se farta de abraçá-la, 
De beijar filha tam linda. 



^ ROMANGEIBO 

Auzenda de gosto chora, 
E abençoa a feliz hora 
Em que tanto amor nasceu. 
— *Inda bem' diz *que a rudeza 
De tanto lidar com armas 
à ínnocencia, á beileza 
Da amada filha cedeu 1' 
Ella as caricias paternas 
Ja não ousa de esquivar-se; 
Gora, mas deixa abraçar-se; 
Ye-se que tantos afTagos 
A repugnância venceram 
Da timidez natural^ 
—Ou, se outra causa fatal, 
Mais incuberta ella tinha... 
Ao menos lh*a adormeceram. 



n 



Ja de cxquísitoa manjares 
Os convivas saciados, 
De folias e cantares 
Pagens, donzellas cançados, 
E dos brindes am^dmlos 
Finda a primeira aflegria. 
Doce repoiso pe^ 
Quanto esta míle cm Landii» 
Velou em baile e festim. 
A seus nobres apoeefltoe 



Âdounda retirada» 

Com permissão outorgada 

—A cuslo— do pae, se foi. 

Auzenda, em grave corlôjo 

De suas damas rodeada 

Deixoa ha maito o festejo, 

E em sea camarim deitada 

Espera o momento anciosa 

Em que a sós a amante e a esposa 

Nos braços de Dom Sisnando 

Se hãode em breve confundir. 

m 

Gomo un lapele mnoso, 
Juncto ao paço de Landim 
Se estende jardí» formoso. 
De boninas arreliado 
Da verde gramma e de floro» : 
Remata em bosque lroados(^ 
Cujos opacos vM^ores 
Eternas son^ras.acoitam. 
—De pesadoe sewtiinenlo» 
Oppresso o peito fKmente^ 
A respirar livremente 
O ar puro da noi^ fria 
Entrou insensivelmente 
Dom Sisnando em seu vergel. 
Jamais tam neodecel 



M ROMAMCEIRO 

De azul bordado d^estrellas 
Se estendeu por s6bre a terra 
Do estio nas noites bellas. 

IV 

Alta a lua vai no ceo, 
E as sombras leves e raras 
Não impedem ás florinhas, 
Nao tolbem às aguas claras 
De brilhar co*a luz nocturna. 
Menos resplendente e fúlgida, 
Porém mais suave e plácida, 
Mais amável que a diurna. 
Manso o vento, que murmura 
Entre as folhas brandamente, 
Convida suavemente 
A respirar, a bebé-la, 
Essa fresca viração, 
Das flores exhalaçao, 
Tam doce como o bafejo 
De dous amantes queridos 
Quando por amor unidos 
Se dao mútuo e doce bcjo. 



Na feiticeira belleza 

Da noite, do ceo, das flores 



ADOZUfDA ^7 

Várias d'aroma e de cores, 
Sisnando todo imbuído, 
No seio da natureza 
Do resto do orbe esquecido. 
Pouco a pouco a agitação 
D*al[na lhe foi abrandando, 
E o pesado coração 
Do aÃ5go desappertando : 
Ja pôde gemer,— suspira, 
E como que se lhe tira 
Um peso do sobre o peito, 
Que a suspirar foi desfeito. 

VI 

Porque geme, porque anceia 

Jkm Sisnando, o lidador? 

SIsnando, o tríumphador, 

Cujo alto pendão campeia 

Vktorioso e senhor 

Por tanta suberba ameia* 

De nunca entrado castello. 

De jamais vencida torrei 

—Dor que lhe nasce no peito 

É dor que no peito morre; 

Anciã que lhe ralla a vida 

IQo é para ser sabida. 

— E desde quando? ha tam pouco 

Fdiz e ditoso ainda, á 



\i 



Com tanta alegria e júbilo 
Festejada sua viadal.. 
Vassallos, esposa, filha... 
Filha! .. A filha é tam formosal 
Ohl essa Adozinda bella 
Nos olhos íncaatadores 
Tem com qae matar d^amores 
A metade dos humaaos! 
Nao, não é peito sensiTel 
Peito que lhe resistir: 
Mas o pael.. não é posai veL 

VII 

Não é, não é.— Mas Sisnando, 
Sem saber onde cnoiMíbav 
Melancholica e pesado, 
Insensível foi estrando 
Pelo bosque imniaraiikaéft 
Que ao jardim a\ieiiiha: 
E o silencio, que o seguiu^ 
Que no espesse c«t(e haMa, 
Nem um verde panu> af ita, 
Nem uma foUa kidia 
— Á toa por entare as ánroraa 
Sem seguir «arreim ou tt-iUiOj 
Nem guiado d*ani aó Mlbo 
DeÍMnqa estrella que eatrasa» 
Por tam medonliaespesanra, 



Ora lento 6 Tagaroso, 

Ora os passes aivessora^ 

Ja por camiDlK» liragoso, 

Ja por Tereda mada. 

Té qne n*uitt ekaro onde os troneos 

Escasseiam* de mpeite, 

E onde palM» e tremente 

Sea reflexo a lua infia, 

Sem o saber, foi parar. 

vm 

Agreste, não feio ó o sitio» 
Ifedonho, honi^et de Ter; 
Porém tem a natoreza 
Horrores qne são bellen, - 
Tristezas qm dàopnaevy, 
Mao d'arfa allr bío oiKgoa; 
A virginal aspereza 
Fieou em toda a mâeza 
Qne a creação ttie deixoo. 
De mn lado» eheapos aneiios 
Seus ramo» Mregoe pendem» 
E o vivo ttâo fendem 
Crespa» fones nodosas 
Das sovereims annosas 
Qne as cortiças remendadas 
Téem des estios lascada» 
A pedaços a cáhir. 



50 ROMANCBIBO 

—Do outro, altivos rochedos, 
Ck)mo do eco pendurados» 
Diffundem pallidos medos 
Que em funda gruta acoitados 
Dé espectros a povoaram. 
— ^Di-lo toda a vizinhança. 
Que ou são sombras de finados, 
Qu de negras bruxas más 
Alli ha nocturna dança. 
—Redobra ao sítio o pavor 
Um jorro alto que despenha 
Saltando de penha em penha, 
E os echos em deredor 
Vai temeroso acordando. 
Este único som d'horror 
Á callada solidão 
Da mudez quebra o condão. 
— Sísnando, o ardido Sisnando, 
O do forte coração, 
Sentiu soçobrar^he o ânimo : 
Uma voz dentro do peito 
Lhe diz que não passe avante; 
Mas outra voz mais possante, 
Outra voz que é voz do fado. 
Voz que ao mortal desgraçado 
Não deixa força ou razão, 
Lhe brada : Persiste, segue. . . 
—Ai do que a ella se íntregue, 
Que se intrega á perdij(^ol 



ADOZINDA ^ 

IX 



No seixo cavada gnitta 
Tem escassa entrada aberta, 
Qnasi de todo cuberta 
De festões d*hera lustrosa 
Que cingindo a rocha bmta 
Pende em grinalda ramosa.. 
Entre as folhas, qae meneia 
Ligeiro sopro de vento, 
Yin Sisnando— e alma lhe anceia- 
Um lampejar vago, incerto 
De hiz fhLca,— ouve nm aceento 
De voz doce mas gemente, 
Yoz qne se oave qae está perto, 
Qne intoa suavemente 
Uma angélica harmonia, 
Tam triste que faz ehorart 
E esta voz assim dizia 
Em sen languido cantar : 

—'Anjos do ceo, acudi-me, 
Yaki-me, sandos do oeo^ 
Que me rouha mais que a vida 
Quem só a vida me deu. 



'Saneto ermitio, qne me deste 
Aqnella esperança ainda 
Qne a desgraçada Adozinda 



^ ROH/JLNGBIRO 

Viria a ser vcnlure*a 
Appz de longo penar. . . 

Sorte que vieste 

Sobre mim doiíar, 

Sorte desastrosa 

Vem ver começar. 

'Anjos do eeOy aeudí-4ne, 
Valeí-me, sanotos 4» ceo^ 
Que me rouba aais qoe a vida 
Quem só a vida me deu. 

Mas abl tam imgro criare, 
Tam horalda imiai» 
D'um pae Boeortfioc .. 
D'um psie...^€omo é«possivdt 
Nao, não, nMidHHte eslrttr.* 



— Toís treme, liMiz,.e sabe 
Que essa horrovoaa fBktaú 
Aqui n'6ste conifMk.^.* 
Sisnando, a qiMtt ja ni» ealie 
No peito a angústia, o tormento 
De tam erimiuMe antv, 
N'estas vozes ^terror 
Rompendo, a 



XI 

Oh que pavoroso instante! 
Os anjos todos cubríram 
Seus rostos co'a aza brilhante; 
Sem vento os troncos d*emtòrno 
A ramagem sacudiram; 
A lua no ceo mais paliida 
Como de susto iníiou 
E para traz da montanha 
Foi correndo, e ae eclipsou. 

xn 

Quem hade a fiilia^ ^onr 
Que está nos^bragos patei«08.l 
Oh ! quem se Itade hÃnrerkar 
Dos beijos deões e lemos 
Que o aoM».. ^-«•ftufiamor é esse 
De ouvir tam medonha horror 
O próprio iníéino eolrameec, 
E9Ólá...liA4alamorl 

XUI 

Oht eomo heide eu cantar 

Se no peito a voz me treme! 

Historia que é de-chontr. 

Quem a dia wb «tma, femo. 

—Só nao genia iMoiiiiAa, 

Que toda aortay^pdada, y 



^ ROMANCBIBO 

Sancto Deus 1 —mais bella ainda, 
Na viva rocha, estirada 
Gomo um cadáver ficou. 

XIV 

E o pae ousou levantá-ia, 
E apertar juncto a seu peito 
Aquella morta belleza t 
—Repugnou a natureza; 
E, da paixão a despeito^ 
De si a aífasta, vacilla... 
O anjo da sua guarda 
Inda um momento o resguarda... 
Mas ha na terra ou no ceo 
Força maior que a paixão. 
Que subjugue um coração 
Que d*amor indoudeceu? 
Se a ha, nao lhe acudiu Deus^ 
Venceram peccados seus. 
Lembrou-Ihe fugir. . . ficou : 
Sim, lembrou-lhe a salva^... 
E á sua condemnaçio 
O infeliz se votou. 

XV 

Geme, chora; altos soluços 
Do peito lhe téem bradando; 
Porém (úgir de Adoiinda 
Nao pôde o triste Sisnando. 



ADOnMML *S 



Ella aeorda, e em vos 
—'Piedade, wm^qt^ piedaiet . . •' 
Só pôde éian*: po^didâ 
Nos echos da ecdedade 
Yai soando e BMuniDrand» 
A voz triste e eoadbiâa. 
Oure-a eUe; e o eoraçao 
No peito lhe esUreoMeea; 
Na execranda pMen^ 
Recua,— mas nã« oedeo. 

• 

XYI 

Palavras qne ]h'elle diese, 
Respostas que yi*ella deu. 
Oh ! não as contarei eu. 
Não as contará ninguém. . . . 
Qujz que lh'ella promettesse 
'E a terra alli não se abriu 
Quando tal a um pae ouviu I) 
Que para a noite seguinte, 
Quando tudo em paz Jazesse 
Em seu leito o recebesse. . . . 

xvu 

Chora a infeliz, chora, geme, 
De horror e de pasmo treme : 
Insta o perigo imminente, 

VOL. L 



M BOMANCBIRO 

A esperança na demora. • • • 
Com voz cortada e gemente : 
»< Senhor, não insteis agora, 
Deixae-me cobrar alento, 
E ámanban responderei.' 
— Tois solemne juramento 
Farás de que. . .'—'Sim, farei. . •' 
«^^Que ámanhan, antes que o dia 
Do horisonte despareça, 
Darás resposta final 
E ai de ti, ai do mortal 
A quem ousasses!. . .—Pereça 
O infeliz n'esse momento : 
Só a morte, só o inferno 
De meu cru resentimente 
O poderiam salvar.' 



V 
k- 



CANTIGA TEBCBIBA 



I flMtt a tale «iíòld v1km0 lisbtest word 

WUl harrow up thy lool; freeie Ihj blood; 

Ibke tby two ejet, lOu sUrt, Blart from their spharM. 

SlAIBIPIARl. 

I 

Qoe maa fado^ que hora má, 
Ob! qual agoirada estrella 
Levoa Adozinda bella 
A fadada gratta escara? 
Qae foi eUa fazer lá? 
Xo mais denso da espessara» 
A tão aziagas horas, 
Só, alta noite, a deshoras, 
Sem donzella ou escaddro. 
Como o pedia a decência, 
Sem leTaur mais companheiro 




58 



ROMANCEIRO 



Que sua débil innocencia, 
Que seu joven coração 1 



II 



Quem o sabe?— No castello 

Nem a própria mãe, que a adora, 

Que pela fiiha querida 

Dera tudo, dera a vida. . . 

Nem a própria mãe sabô-lo t 

E como é que Auzenda ignora, 

Por que incauto ou maravilha. 

Que ao pino da meia noite 

Todos os dias a filha 

O escuro parque atravessa, 

E tenteando a treva espessa 

Vai sosinha áquella grutta 

Que no mais claro do dia 

Ninguém a entrar casaria? 

—Mas vai; nS* o sabe Ameiída : 

N*esto segredo fatal 

Coisa sobrenatuni, 

Coisa medonha, tremenda 

Ha por certo« . . oh t qae inda mait 

m 

Desde aquclta madnigaâa 
Que Adozinda cm sen baksao 



ADOCOI»* 



9» 



Fallou e'o velho erroílao, 

De noite à gratUt fadada 

Sempre vai. Síbille o vento 

No bosque medontio e fdo, 

Ás nuvens o pardo seio 

Rasgue horrísono trovão. 

Nada teme; a passo lento, 

S6, para alll se íneaminha 

E em rezas, em peaitenda 

Horas lonps jaz sosinha. 

Talvez d'a(|aeiie romeiro, 

Por salutar providencia, 

Seu fado lhe Toi preditto; 

Talvez lhe fosse prescrítto 

Por tam saneio conselheiro 

Que passasse em oração 

Itraquellas medonhas fragas 

Certas horas aziagas 

Em que a fatal oonjuiiecao 

D'nm astro seu inimigo 

Maior Scene o perígo 

Da terrh«l makkcçâo 

Que a penefoe^-^ella iTmoeciitot«- 

Que tam injusta cabitt 

N^aquella votada frente. . . 

Has diz que nle ha «tmdão 

Peíor que oéã maldie^e! 

E quantas não attrabm . 

Sobre a faniiia inculpada /^ 

ã 



BQMAlfCBIBO 

VI 



— Tilha, flllia. .. a esta boraJ 

Quesuccedeu?...qaeteitttaf 
Callada Adozinha c1k)ku 
—'Ai, nao, não me chameê fiiliaf • 
Rompe em fim, a aoíuçar, 
Nadando n'um mar de pranto. 
Pasmo, terror, maravilha. 
Susto, medo, horror, espanto 

No peito da triste Auzenda 

Em conftMão estupenda 

De tropel foram quebrar. 

--Que será?-E esse tyranno 

De todo o socégo humano, 

J^Mda, % monstro fetal. 

Que até nos deixa a esperança 

Paraque do incerto mal 

Seja maior a pcyança, 

Venha mais fino o- punhal 

Quando n'alma se nos crava. 
Esse do peito ihe trava, 
E ao cruel padedoienía 
Dobra angustia» e tovmentoi 

Adozinda, ^^bada 

Juncto a^^iaito onde oanvujsa 



ADonnkà ^ 

Jaz a mãe auribolada, 
Do coração, que Ibe poisa 
Como se fora quebrar, 
Traz d'aiiiargo pranto um rio» 
Que dos olhos* Tem a fio 
As maternas mãos banbar; 
As mios que ella aperta e beja, 
E que o pranto que gocteja 
Ja não sentem derramar. 

vm 

Yolve a ti, mãe desgraçada, 
Volve, que p morrer agora 
Tammanba ventura fora 
Que da sorte diespiedada 
Concedido não será. 
Yem ouvir tua sentença 
De morte. . . peior que morte, 
Yergonba horrorosa, ofTensa. . . 
E de quemf . . . de teu consorte, 
Do pae monstro, monstro esposo. . . 
Aif para o tormento odioso, 
Para tammanba aiUícçao 
Não tem força o coração. 

IX 

Tudo lhe conta» Adosnida, 
Tudo. . . tudo,— interrompendo' 



M ROMANCEIRO 

A horrorosa narração 
Ora as lagrymas fervendo, 
Ora os soluços rompendo 
Do rasgado coração, 
Ora os lábios descorados 
De pejo e terror gelados, 
Sem poder nem balbuciar 
O que é força revelar. 



—'Irás* disse Auzenda emfim, 
£ a voz, que treme, assegura: 
Irás a leu. . .*--pae não disse, 
£ um som rouco lhe murmura 
Nos lábios onde a meiguice, 
Onde a maternal ternura 
Procuram em vâo surrír : 
'Irás, filha, a Dom Sisnando 
E lhe dirás que...' 

—'Senhora!' 
Interrompe ella chorando 
—'Que' torna a mãe 'quando a hora 
Da meia-noite soar, 
Em teu quarto o hasde esperar. 
Não temas, filha, não tremas, 
Não chores, minha Adozinda, 
Querida filha, não gemas. 
Que hasde ser feliz ainda. 
No angustiado seio 



ADOZINDA ^ 



GoardemoB ioda a esperança : 
Do ceo mandada me veio 
Uma ditosa lembrança 
Qne nos poderá salvar. 
No teu leito d*ouro fino 
Soa eu que me heide ir deitar; 
Toa eamiza do hollanda 
A meu corpo heide lançar : 
£ quando elle nos seus braços 
Ter Adozinda julgar. . . 
Ah! que o eeo hade abençoar 
Esle ingano virtuoso, 
£ a ser pae, a ser esposo 
Dom Sisnando hade voltar.* 

XI 

O dia em rezas passaram 
Em devotas orações; 
Mas quando as trevas poisaram 
Sobre as muralhas da torre, 
Voltaram as affiicções: 
E o tempo— que leve corre 
Pára todos os viventes — 
Só áquellas innoeentes 
Acdntoso parecia 
Qne da ampulheta fadada 
Bago por bago espremia 
Cada hora minguada. 



^ ROMMfCBIBO 

XIÍ 

Emflm meía-noite soa: 
Dom Sisnando, agaUfaoado 
Do torpe amor — do peccado, 
Impaciente ao praa> voa 
Que elle d*amor jalga dado. 
Gomo louco, arrebatado 
Corre ao leito de Adorinèa, 
Cego béja a face linda, 
Que decerto nm é d*eUa, 
Mas que não é menos bella; 
Ao convulso peilo aperta 
Aquelle peita formoso. . • 
—Desgraçado, é tempo ainda, 
Do cruel sonho desperta, 
Que ao precipício horroroso 
Ja te vai a despenhar! .. . 

xnr 

Dom Sisnando é criminoso 
Quanto o podia ficar ; 
Do intento abonunoso« 
Nada resta a ccMisanHnar. 
Ja tristemente acordou 
De seu delírio Calai, 
E surríndo anurgaawnte, 
Á infeliz assim Cailoa : 



AtOUWbk 

— 'E era por isto. . • iimoecmle I 

Que tanto se reeatava 

Taa virtude fingida ? 

Ah ! essa alna eorrompida 

Mais do qae Usa ooipo estava. 

Etu...* 

—Não pôde oavir mais 
A triste mãe; não lhe soffrem 
As intranhas mU&mm 
Ouvir a íilha adcMrada 
De tal modo eahmíniada, 
£ por quem, e ^a que momento ! 
G*mn saffocado lamento, 
Que do pdto rebentando 
Trouxe aos lábios akna e vida. 
Quebra o si1eneio:---'Ah, Sisnando! 
Ah, senhor, mattae-me embora; 
A desgraçada sou eu.' 
E a terra n*aqoeila hora 
Rasgada não soverten 
O infeliz, que meio morto, 
No abysmo do crime absorto, 
D'este golpe inesperado 
A violência cedeu! 

xnr 

^lencto largo, mental 
Foi a única expressão 



BOMANCBIRO 

Que por longa daração 
N*aqaeUe estado fatal 
Entre esses dous foi oavida. 
Porém no perdido peito 
DeSisnando atribulado 
Foi a vergonha vencida 
Pelo irritado despeito : 
Dos remorsos avexado, 
Porém mais pnngido ainda 
De seu crime mallogrado, 
Brada em cholera abrasado : 
— Tereça a filha descrida 
Que deshonrou seu. . •' 

— Píw não, 
Pae não ousa proferir. 
A palavra, suspendida 
Por fria, pesada mão 
De remorso insubjugado, 
Lhe voltou ao coração 
A lacerar-lh*o, a vingar-se 
Da mal-soffrida oppressão. 

XV 

— -'Ouvi-mo, senhor : culpada 
Sou eu só. • .' a triste esposa 
Lhe diz; mas não ouve nada 
Aquella alma furiosa, 
Ja n*este mundo rallada 



ADOZUCDA 

De quanta pena horrorosa 
lio inferno está guardada 
Para crimes eomo o seu. 

XVI 

Parte, corre;— o brado horrível 
Por todo o eastello soa 
Tam medonho como troa 
Ifedonho trovão d'oiitomno. 
Despertos do brando somno 
TodkM sio:— ordens que deu 
São taes, que de horror tremeu 
A gente absorta e pasmada. 
Tristemente obedecendo, 
Co'a face ao chão inclinada 
Se vão a medo, e mal crendo 
Que não seja sonho vão 
O que ouvindo e vendo estão. 

XVII 

Do eastello para um lado 

Uma antiga torre havia 

Cercada de largos fossos, 

Que é memoría haver (tmdado 

Um rei mouro que vivia 

Ha muito, de quando os nossos 

Mourísea gente regia. 

AUi uma eqiôsa sua. 

Que elle achou ser-lhe infiel. 



'^* IMnUIIQHRO 

Settc annos e Bit» um dia 
Fechada a teve o crad. 
Sozinha, a grilhões e mu; 
E só pão sécco lhe dava, 
Mas agua nâo conscnlia 
Que nunca magnem lh'a deese 
Para que á sóde morreaseu 
Valeu-lhc qsam tudo pôde. 
Que ao InfeltE sempre aocode: 
Vinha-lhe orvaUio do cee» 
De que os setle amos beben. 
E emíioi o septimo a&DO 
De tal milagre vencida 
Foi o próprio rei tyraono, 
Que a liberdade lhe deu, 
E do crime oommettido, 
Se o havia, se es(|iieceu. 

XVfll 

Para esta torre deserta. 
No verão ao sol CKposla, 
Que abrasado a queima e losta. 
No rigor da èiavemo aberta 
A chuvas, á fcntania, 
Sisnasdo— qnem tal diria! 
Mandou a filhinha Undig 
Que alli fechada gemesse^ 
A virtuosa Adodndalw 



ADOZINDA 71 

£ aí de quem agua lhe desse, 
Lhe desse vestido ou cama, 
Que da sede á morte crua 
—Qual o mouro a sua dama — 
Alií quer que morra nua. 
De todos desamparada. 
De seu pae amaldiçoada, 
Só da triste mãe chorada! 

XIX 

Sem dar somente um gemido, 

Sem se carpir nem queixar. 

Como a ovelhinha tremente 

Qoe sem dar nem um balido 

Se deixa á morte levar, 

Vai Adozinda innocente 

Para aquelia feia torre. 

Pranto que furtivo corre 

De quantos olhos a viam 

A acompanha tristemente. 

E o pae! . . . Anciãs que o remordem 

Ninguém as sabe nem vé. 

ITum aposento incerrado. 

Onde nem ao mais privado 

Concedido é metter pé. 

Só ficou, só permanece : 

Só! — antes acompanhado 

De quem os seus não esquece. 

Do remorso, — do peccado. 

vou I. 7 



CANTIGA QOARTA 



Toa do me wroog, to Uke me oot o^tbe-grave: • 
TboQ art 1 soai of bliis: ^otlam boond 
Upoo a vliMlof ire» lkhl«d&0««B teerr 
Do seald lilWMOlMiIfltá. 



1 

Sette aunos txamMA 
Foi a senlença cruel 
Que Adozinda compríria 
IfaqaeUa torre féeàada. 
E o tyranno bem sabúi 
Qoe nem tres^dlM MMnto* 
TiTer podia »kÊÊamsmiB' 
Com a âMe^4i*d«ni]d»* 
Uma semanaé poasida 
Rissado é^w^iMP e o«M mw; 



à 



7^ ROMANCEIRO 

Anno e annos decorreram; 
E os sette annos feneceram 
Sem que Adozinda formosa 
Em tal mingua perecesse, 
Sem que ao menos desmer*cesse 
Em seu rosto uma só rosa. 

II 

Veio um dia— n*esse dia 
O captiveiro acabava — 
No mais alto o sol ardia 
E a terra toda abrasava, 
Na torre uma voz se ouvia^ 
(E é esta a primeira vez) 
Era uma voz que pedia, 
Que supplicava piedade : 
—'Uma sede, uma só d*agua, 
Uma só por compaixão. 
Que me abraso n'esta fragua, 
«Que me estalla o coração.* 

III 

A voz de Adozinda bella 
Todos clara conbeceram; 
Cos olhos na alta jandla 
De toda a parte correram : 
—'Vive, inda vivei' bradavam, 
'A innocente! vinde ve-la.* 
E uns aos outros recontavam 



AOOZINDA 75 



Das virtudes, da paciência 
Faqaelle anjo d'innocencia 
Que, ha muito, morta julgavam. 
—Outra vez se torna a ouvir 
O mesmo clamor sahir 
Da torreada prisão: 
—'Uma sede, uma só d*agua, 
Uma só por compaixão, 
Que me abraso n'esta fragua, 
Que me estalla o coração T 

IV 

A todos se eommoveu 
O mais íntimo do peito. 
Mas não ousam a affrontar 
Do pae o sevo despeito. 
—Tem paciência, anjo do ceot' 
Com laipTmas responderam, 
1}ue ja não pôde tardar 
O pae que te vem soltar. 
Os sette annos decorreram, 
O dia está a acabar; 
Soffire mais este momento. 
Que hoje acaba o teu tormento.' 



—"(Hl ! como heide eu supportar, 
Amigos meus da minha alma, 
Se a vida sinto acabar, 



^^ ROMAMGBIBO 

Sinto abraaar-me da eakna? 
Sette annos me aceudíu Deus, 
Qae por milagre vivi, 
Dava-me orvalho dos ceo», 
De qae sette annos bebi. 
Do estio ardentes queimores 
No meu corpo os oao senti, 
Do hinverno os frios rigores 
Também esses não tremi. 
Mas ha três dias que a mão 
Do Senhor me abandonou. 
Tudo, tudo me faltou. . . 
Oh I tende de mim piedade! 
Uma sôde, uma só d'agua, 
Uma só por compaixão, 
Que me abraso n'esta fragua, 
Que ím OAtaUa o coração r 
—De nova alto ohèro ergueram, 
Lastimado pranto gemera; 
Mas de seu tyranno iFemem, 
Só a chorar »o atreveram. 

VI 

Soa a novia no casteilo, 
Vai correndo em derredor, 
De que porfim fora ouvido 
Aquelle ai^solEreior 
Soltar qttsixoM «^emiâo, 
Piedade omfím fmppUear. 



SÓ a Aoieada, que expiruido 
No leito da morte jaz, 
Para que morresse em paz 
Yao a noticia ooeohaiida. 
Mas soube todo Sisnando, 
E no dnro coração 
Já yadlla a crueldade, 
Ja Tislombra a compaixão : 
Dos seccos olhos corados, 
Que nispiravam medo e espanto, 
Gomo qae da mio tocados 
D'a]gnm anjo panidor, 
Salta repentino o pranto^ 
Qoal onda qae estalla em flor 
S^re o penedo onríssaáo. 
Todo em lagrimas sanguineaB 
O infeliz debulhado, 
Para aqaella fnfánsta torre 
Com incerto passo coire 
Em altos gritos bradando: 
— 'Àgoa! iraMi agoa, vinde, 
Acendi á desgraçada, 
A nma filba malfadada 
Qne por mãos de seu pae morre !* 

Assim correndo ^ gritando 
Chagint á horrivel prisSo 
Em que gemia Aiozinda : 



^ ROMANGBIRO 

—'Filha, âiha, é tempo ainda; 

Perdão, ó filha, perdão 

Para este algoz. . .*— Gortou-lhe 

O excesso da paixão 

Língua e força; a voz quebroa-lhe,. 

E por morto cai no chão. 

VIII 

Oh! que povo se ajuntava 

No casteilo de Landim! 

E com que horror que elie olhava 

Para aquelle trisle fim 

De tammanho cavalleiro^ 

Tam rieco e grande senhor^ 

Tam esforçado guerreiro! 

A Auzenda chega o rumor 

Do successo inesperado, 

Di-lhe força e vida amor ; 

O fio meio cortado 

Da existenda lhe atou. 

Ei-la se ergue, e em mal-firmado 

Passo corre >-e )á chegou. 

IX 

E ja por ordem de Auzenda 
Co*a porta negra e tremenda 
Investem da torre erguida : 
Range o ferro, os gonzos gemem, 
Parece que ja rendida 



ADOUNDA 79 



Vai de todo; — á roda tremem. 
Do Itmdamento aluída 
A torre, os sólidos muros. 
Mas em vão de centenares 
Dos mais rijos braços duros 
Se movem os instrumentos 
Que em muralhas mais valentes 
De castellos regulares, 
De mais sólidos cimentos 
Téem a miúdo triumphado. 



Parece incanto:— será? 
O povo maravilhado 
Já por tal, tremendo, o dá. 
CeaBam todos, incantado 
É o negro portão ferrado... 
E o povo desanimado 
Da impreza desiste ja. 

XI 

Arreda, arreda, iníánçoes, 
Cavalldros» dae logar, 
Gom licença, nobre dama, 
Que ahi vem um sancto ermitão: 
Gom as suas orações 
Este incauto hade quebrar, 



«o 



ROMAHGBIBO 

Ou, se do denmnio é trama, 
Gom o sea bento eondao 
Elle o hade desmanchar. 
— Ei-lo chega:— este semblaoste 
Não é aqui desconhecido. . . 
Esta barba, este vestido. . . 
É elle, o mesmo ermitão 
Que a noite de San^Joâo 
(Nao ha dez annos ainda) 
No casteilo pernofton, 
— Qae Sisnando o maltrattou. 
Mas, por a bella Adozinda 
Pedir muito, lá ficou. 

XII 

Com a cabeça* caherta 
Do seu agudo mpot, 
Os olhos de o6r Incerta, 
Pasmados, fixos. . . e a luz 
Que d^elles sai é tamTtra 
Que a espaços da vista priva 
Quem de perto os jquer fitar I 
As màos cruzadas no peito, 
Vagaroso sen andftr, 
Tam pesado e de «il getto 
Que faz um mlak tremend» 
Quand» «e passos vai movendo^ 
E como que a terra*e o ar, 
Com o pese vio femeiído. . . 



ABOQIfDA ^ 

—Foi seu casunho direito 

Da tôrre á porta ferrada; 

Sem attenáer a mais nada, 

Sem olhar nem para Auzenda, 

Qne em lagrymaa debulhada 

Sopplices mãos lh'esteodía. 

Chega à porta, e em voz horrenda 

—'Àbre-tel'— disse. Estallou 

O ferro medonhamente, 

E a porta se escancarou, 

—H^s elle subitamente, 

Yoltando-se para a turba, 

Que alto alarido alevanta 

E em derredor se perturba. 

Com gesto que aos nais ousados 

Todo o ânimo quebranta, 

— Immudeeei t ' fhee bradou. 

Ficaram todos callados; 

E^immudecei — re vibrou 

De echos em erbos dobradM 

Pelo eastello e jardim. 

Pelos soutos ao redor, 

Pelos campos dilatados 

Que a Dom Sisnando obedecem 

E por senhor reconhecen 

Ao ricco-homem de Ijaséim. 

—Depois estendendo a mSo 

Ao k^T onde jaiia à 

Por morto no frio chão 



^ BOHANCEIRO 

O desgraçado Sisnando, 

Estas palavras dizia 

Que em ouço som vão soando : 

— *Eu te eseonjuro, 
Alma perdida, 
Volta-te á vidai 

'Que o teu peccado. 
Abominado 

Do próprio inferno, - 
Só tem perdão 
Com longa vida 
De penitencia, 
De contrição, 
Que a alma perdida 
Salve do inferno. 
Da maldicção. 

'Eu te esconjuro. 
Alma perdida, 
Yolta-te à vida! 

K) anjo celeste 
Na hora última 
Te perdoou, 
E ao Pae Eterno 
A tua victima 
Por ti rogou 



ADOZINDA 83 



'Lazaro immundo, 
N*esta grande hora 
Volve-le á vida, 
Vem, surge fóral' 

XIII 

Em pé está Dom Sisnando : 
Vivo está, morto parece, 
Tam negro veo lh'innoitece 
O verde-paliido rosto. 
Onde o sen séllo ja posto 
Tinha o ardianjo da morte. 

xrv 

De joelhos o ermitão, 
Com a cabeça coberta, 
à porta da torre aberta 
Faz breve e baixa oração. 
Eis violento repellio 
A terra, tremendo, deu, 
E d^alto abaixo a muralha 
Largamente se fendeu. 
Yiram todos claramente 
O interior patente 
Em que jaaa Adozinda, 
D*onde ha poucas horas inda 
Soa voz se ouviu clamar. 



à 



^ ROHANCBIBO 



£ por uma sèáe d*agaa 
Ao seu algoz mppiicar. 

iv 

N'um leito de frescas rosas, 
Qae aromas do ceo recendem, 
Morta Adozínda jazia : 
Suas feições raais formosa^ 
Mais angélicas. mpieiíàniL 
Uma suave harmonia; 
Tam brandamente soavam 
Que ao coração poreeia 
Que por piedade o âílaiesva 
A quem saudoso gemia. 
—A alva frente, não tocada 
Pela mâo da morte livida. 
De lirios do ceo coroada 
Brilhava com luírtno vívida 
Que parecia toncaia 
De puros raios do soL 
As mãos postas sobre o peito 
Para o ceo se alevantavam» 
£ como que d-abaat joata. 
Para a morada apoiita«MB. 

XVI 

Oh! que vista, oh! qnemoseato 
Para a triste mie! — Paliava 
Só este último tomenie^ 



JãmOKDà, 9» 



A malfadada caidftva 
Qoe nenhum padeeimeaU) 
Rua gemer lhe sobrava! 
Era este.— E a dor ignora, 
liao sabe o qae ó padeeer 
Qoem o fiDúBào qoeadont 
IGo Tia ainda imcNow.*.. 

xrn 

Le?antoiHM'0 emílio 
B bndoa: — ^iiielhemMv 
E a mio de Deu» adorsnios/ 
—Submissa iwígiMKgo 
Pôde a Yoz tolJMiÁ âfliv 
liao tira do eocaçâo 
ow CTpMWHhpttPgiqory 
Qoe em siteacto^ oAíaeroAl^ 
Basga miiis^ejia.Arída. 
Mais acre derrama o feL 
A paeieneia soflnáa. 
Da triste Auienda «edeu; 
Nao exdamon» nio geoM^ 
B em tributo de rapeíto 
Soa mágoa tariíou, ao. peito» 

xvm 



B Sisnando?— O desgnpdo 
No pó dfttlem.hBnihad€^ 
Só se lhe conhece a vida 



ROMANCEIRO 

Na agitação comprimida 
Do convulso soluçar. 

XIX 

Para a ermida do castello 
Emfim o corpo levaram 
E n'um cofjre d*ouro fino 
Gomo relíquia o guardaram. 
— Muito a não carpiu Auzenda, 
Que a morte compadecida 
Cedo a libertou da vida. 
Porém a longa existência 
De remorso e penitencia 
Sisnando foi condenmaâo : 
Cuberto de horror e opprobrio 
Cumpriu seu mesquinho fado; 
Onde?— Ninguém mais o soube. 
Do castello aquella noite 
Com o ermitão se sumiu; 
Nunca mais d'eUe se ouviu. 
Mas à meia-noite em ponto 
Na capella de Landim 
Se ficou sempre escutando 
Gemer uma voz medonha, 
Que pede perdão bradando : 
E essa voz diziam todos 
Que era a voz de Dom Sisnando. 



I 

BBRKAIr^FRANOEZ 



fOL.1. 8 



Este romance é tirado de uma das mais co- 
nhecidas e provavelmente mais antigas xáca- 
ras qoeo povo canta. Sna contextura simples 
mas forte, a scena ião dramática com que 
abre, o fexo sublime com que termina dSo- 
Ihe todos os cbaracteres de poesia primitiva 
e grande de um povo heróico, de uma gente 
qne tomava as coisas da vida ao serio, como 
a nossa era. Estou que é originariamente por- 
togaez : não apparece em nenhum dos roman- 
ceiros castelhanos, nem na vasta collecçSo de 
Ochoa. — O texto, como o conservou a tradí» 
00 oral dos povos, da-Io-hei no logar compe- 
tente, segundo lh'o talhei no prefacio d'este 
volome^ e demandava o systema da minha 

* Ttã. MMA ccj^, lív. ir, pari. i, no tom. n, pag. 135. 



W BOMANCEIRO 

compilação : e ahi se vejam as coDjecluras que 
tenho feito sobre ésla preciosa relíquia da 
nossa poesia popular. 

Mr. Southey, o famoso poeta e historiador 
iDglcz, tendo lido a Adozinda e o Beraal, 
quando os publiquei a primeira vez em Lion- 
dres em 1828, escrevia ao meu amigo Mr. 
Adamson, o biographo de Camões : /que es- 
tes eram dois monumentos de mais remota 
antiguidade talvez do que nenhumas d*aqaidr 
las canções irlandezas que elle até alli tivera 
na conta de serem os vestigios mais antigos 
d6 toda a poesia popular das nações^ do oeste 
da Europa.' 

Communicaudo-me esta reflexão, taiu li- 
songeira para um collector entbusiasta de an- 
tígnalhas» mandou^me o Sr. Adamson.a tra- 
dpctfSo ingleza que pela primeira vez agora 
sai impressa, e o leitor achará logo adeante 
do texto portuguez ^ 

* Vid. loc cil. a DOTA tradocçSo por M. AdamsoD, lusitiiiu 
mxtmÃT., pirt. u. Pifeiveatile 1846. ÉiU fegmda versSo iii||iBa 
VM » |wg. 141 d« nfnMo ii vol. no MMAMmo. B a pag, iSi 
Ibid. a IradooçSo castelhana do Sr. Isidoro Gil| já tam conhecida 
6 appredada enira r6s. 



BERNAL-FRANGEZ 91 

No verão de 1840, quando aproinplei para 
a presente edição esta parte do volume, dedi- 
quei o Bernal-Francez a uma joven senhora 
que juntava a outras admiráveis qualidades a 
de possuir, no mais eminente grau que ainda 
incontrei, o sentimento do bello, do grande, 
do verdadeiro nas artes. Este romancinho era 
o seu valido d'entre todas as minhas escreve- 
duras poéticas: consagrei-lh'o. . . Hoje é um 
monumento ! bem pobre e mesquinho para 
memoria de tanta saudade 1 

Todavia o seu desejo e imponho era que eu 
fizesse uma verdadeira epopea, e me deixasse 
doestas coisas que iiurica podiam passar de bo- 
mtinhas. A perda de D. Sebastião em Africa 
era o assumpto que mo dava : dizia — e dizia 
bem — que devia ser o reverso da medalha 
dos Lusíadas, e quo podia ser o mais popular 
e nacional de todos os poemas portuguezes 
depois d'aquelle. Fonho isto a(|ui para com- 
meotarío dos versos que se seguem, e que 
alias não seriam intendidos. 

i5 de Ouliibro de i8ii. 



A ADÉLIA 



Ta queres, amiga, que eu deixe 

VinhA harpa no chopo do monte, 

Qoe neok sempre me chore e queixe, 

Que seja poeta. . . a cantar! 

Que da brava inculta deveza 

Ib nao fique pasmado á fonte 

A admirar só a natureza, 

Sem um brado de glória alçar f 

Na escarpada selvática brenha 

Mio se colhem senão rudes flores, 

Bem o sei— crescem-lhe hirtas na grenha, 



^^ BOMANCEmO 

São singellas 
De folha e de oôres, 
Nao se toucam as bellas 
Com ellas : 
Não se infeítem Jardins de formosas 
Com musquetas bravias e rosas I 

— 'Vô o nobre, magnifico traço i 
Do regrado edifício de Homero, 
Do mavioso Virgílio, do Tasso I 
(Dizes tu, maga musa d'amor) 

*E ora temo e mavioso, ora fero, 
Ja sublime, ja doce — o cantor 
De Ignez bella, feio Adamastor, 
Como erguendo, eampea, a alta frente 
Sobre todos os vates do Pindof 

— Vejo, oh I vejo, que esta alma ardente 
Ja nos voos andou seguindo 

Essas águias mais remontadas. . . 
Hoje é abellm, ahi anda zonMido 
Por entre agras, singellas fltíres, 

Desalinhadas : 
Mas são flores que naseetti na serra 
Onde todo o seu mundo se hicerra. 
Porque ahi tem— o ^eu 'beta— seus amores. 

Bemfica, 12 de maio d9è640. 
1 Vid.'»lBir«daeçio>Aito» {Mg. M. 



BERNAL-m^AlfCEZ 

I 

Ao mar se foi t). Ranrin), 

Galé formosa levava; 
Sen penifio terror do(s 'Mouros 

N*alta po^atlremolava. 

Oh que adeus na despedida 1 
De saudades vai rallado ; 

Com tantos annos de amores, 
Não tem um de desposado. 

Nem ba dama em toéa a-Heipanlia 
Tam bella como é Viotante ; 

Nio a houvera egnal no mundo 
Se ella fora mais constante. 



I 



96 ROMANCBIBO 

Bate o mar na barbaean 
Do castelk) alevantado, 

Só a vela i na alta torre 
Não cede ao somno pesado. 

Tado o mais repousa e dorme, 
Tudo é silencio ao redor ; 

Dobra o recato nas portas 
Com a ausência do senhor. 

Mas a certa hora da noite 
Se vé luz n*uma settei^a, 

E logo cruzar por porto 
Leve barca aventureira. 

Muitas noites que passaram, 
Manso esteja ou bravo o mar, 

A mesma luz, á mesma hora, 
A mesma barca a passar. 

£ isto ignora o bom Rodrigo, 
Que tam fiel prometteu 

De guardar a seu senhor 
Juramento que lhe deu? 

Saberá, nSo saberá : 
Mas a c*ravella ligeira, 

Que aopé da torre varada 
Jazia alii na ribeira. 

•VigU. 



BEBNAL-FRAMCEZ ^ 

Uma noite escora e feia 

Na praia menos se achoa. . • 
Quem n*ella foi nio se sabe, 

Mas onde foi não tomou. 

E o íarol qae no alto luz 

Á mesma hora a brilhar. . . 
Só a barca aventureira 

Nao foi vista hoje passar. 

E d*om lado aopé da rocha 

Havia um falso postigo : 
Só o sabem D. Bamiro, 

Violante e o flel Rodrigo. 

Mas alia noite, horas mortas, 
Gente que o postigo entrava, 
E á porta de Violante 
Manso bater se escutava. 

— ^nem bate á minha porta, 
Quem bate, oh ! quem 'stá ahi? 
—'Sou Bernal-francez, senhora, 
Vossa porta a amor abri.' 

Ao descer do leito d'oiro 

A fina hollanda rasgou, 
Ao abrir mansinho a porta 
A luz que se lhe apagou : 



96 



BOMANOnAO 

Pela mão tremente o toma, 
Ao seu apposento o gnía : 
— *Como treme, amor qtieriio, 
Esta mão, como está fria!' 

E com ósculos ardentes 

E no seio palpitante, 
Que lhe aquece as frias mãos 

A namorada Violante. 

— *De longe vens?— *De mui kmge.* 
—'Bravo estava o mar!'-— Tremendo.' 

— *Armado vens!*— Não responde. 
Vai-lhe as armas desprendendo. 

Em pura esseiieia de rosas 

O amado corpo banhou, 
E em seu leito regallado 

A par de si o deitou. 

—'Meia noite ja é dada 

Sem para mim te voltares, 
Que tens tu, querido amante^ 

Que me 'incobres t^s pesares I 

'Se temes de meus irmãos, 

Elles não virão aqui ; 
Se de meu canhado temes. 

Não é homem para ti. 



BSBNAL-FRANCSZ ^ 

%du& criados e vassallos 

Por essa torre a dormir, 
Nem de nosso amor aospeitam, 

Nem o podem descobrir. 

^ de mea marido temes, 

A kmges terras andoa: 
Por ià o deteabam Mouros, 

Saudades ea oao deixou.' 

— *Ett oâo temo os teus criados, 

Meus criados taoibem são : 
Irmãos nem cuabado temo, 

Sao meus cunhados e irmão. 

'De teu marido não temo 

Nem.t^bo de que temer. . * 
Aqui está aopé de ti, 

Tu é que deves tremer.' 



II 



E o sol ja no oriente eivuido 
Da tAire ameias dourava; 

Violante maítteUa que elle 
Para a mone caminbava; 



*^ ROMANCEIRO 

Alva tella áspera e dura 
Veste o corpo delicado, 

Por cintura rijo esparto 
Em grosseiro laço atado. 

Choram pagens c donzellas, 

Que a piedade o crime esquece; 
O próprio oflen\dido esposo 
Com tal vista se internece. 

Dá signal a campa triste, 
O algoz o cutcllo affia. . . 

— *Meu senhor mereço a morte' 
A mairadada dizia, 

T)e joelhos, D. Ramiro, 
Humilde perdíio vos peço, 

Perdoae-mc por piedade. . . 
A morte não, que a mereço : 

'Da aífronta que vos hei feito 
Por minha triste cegueira, 

Dae-me qAtaçâo eo*a morte 
N'ésla hora derradeira : 

'Mas só eu sou criminosa 
Do aggravo que vos fiz, 

Nao tireis, senhor, vhigança 
Doesse miscro, infeliz. . . * 



BBRIIAI-FRANCBZ 

Talvez ia perdoar-lhe 
O esposo eoinpaâeeido. • • 

Renovou-se-lbe o ódio todo, 
D^aqoeUe rogo offendido : 

O semblante roxo d'ira 
Para não vé-la torceu, 

E 00* a esquerda mão alçada 
O íatal aceéno deu. 

Sfítore o collo er^rstallino, 
Desmaiado, e inda tam bello, 

De golpe tremendo e súbito 
Cal o terrível eutello. 



101 



III 

Ohl que procissão que sai 
Da antiga porta da torre I 

Que gente que aoode a vé*la, 
Que povo que triste corre! 

Toebas de paillda cera 
Nas trevas da noite escura 

Vão dando luz baça e triste, 
Luz que guia á sepultura: 



Gubertos com seus cHHiiâs 
Rezam frades ao-redoTy 

A dobrar desíntoados 

Os siaos. causam terror.» . 

Duas noites sao passadas^ 
Já não ha ku na setteira» 

Mas passando e repassando 
Anda a barca aventareirai 

Linda barca tam liipsúra 
Que nenbom mar soçobroo, 
O farol que te guiava» 
Ja não lu2» ja se apagou. 

A tua linda Violante, 
O teu incanto tam bello, 

Teve por ti feia morte, 
Grua morte de sulello. 

Na egreja de Saa^GU 

Ouves a oaopa a dobrar? 
Ves essas tocbas aa longe? 

Ella que yai » ialarrar.. 

Ja se fez o intemmeiíto^ 
Ja cahiaa lousa ÍHa» 

S6naegniía.8olitaiia 
Um cavaUeíio se via ; 



BBBRáL-FaANGEZ iOt 

Vestido de dó tam negro, 

E mais negro o coração. 
Sobre a fresca sepultara 

De rojo se atira ao cbao : 

— ^'Abre-te, ó campa sagrada, 

Abre-te a mn infeliz! . • . 
Seremos na morte unidos, 

Ja que em vida o ceu não quiz. 

'Abre-te, ó campa sagrada 

Que esetmdes tal formosura, 
Esconde também meu crime 

Com a sua desventura. 

'Vida que eu viver não quero, 

Vida que eu só tinha n'e]b, 
Recebe-a, ó campa sagrada. 

Que não posso já soffiné-la/ 

E o pranto de correr, 

E os soluços de estallar, 
E a mão que leva à espada 

Para alli se traq>assar. 

Mas a mão gelou no punho 
Voz que da campa se erguia, 

Voz que ainda é suave e doce. 
Mas tam medonha e tam fria, 

TOL. I. 9 



iOi BOUAKCKmO 

Do sepalchro tão cortatâa, 

Que a9 carnes llie arripia 
E a vida deixou parada : 

—'Vive, vive, cavalleiro, 
• Vive tu, <pxe eu ja vivi; 
Morte qae me den meu crime, 
Fui eu só que a mereci. 

'Ai n'este géio da campa, 
Onde tudo é frio liorror, 

Só da existência conservo 
Meu remorso e meu amor! 

'Braços com que te abraçava 
Ja não teem vigor em si ; 

Cobre a terra húmida o dura 
Os olhos com que te vi; 



'Bôcca com que te bejava 
Ja não tom sabor em si ; 

Coração com quo te amava. 
Ai 1 só n^ease não morri ! 



* ■ 



'Vive, vive, cavalleiro, 
Vive, vive e sé ditoso; 

£ apprende em meu triste fado 
A ser pae e a ser esposo. 



BII«AI»-nàlfCBZ W 

'DcMuella com qaem casares 

ChaiBa-lbe também Yiolfnte; 
Mio amará mais do qae ea. . . 

Mas— que seja mais constante I 

'Filhas que d*ella tíTeres 

Ensinadas meltx)r que a mim. 

Que se nlo percam por tiomniB 
Como ea me pei^ por ti.' 



<06 ROMANCBIBO 



▼Bm«Â« IMCiLBEA 



I 



See, Don Ramiro'! galley ipeeds 

Acrott the heavy leas, 
His peonant irhich the moor n droads 

Now flnttert ia the breeie. 

Oh ! vhen he weDt, hii heart irat moTed 
With gríef that woold not hide . . 

To part irhiih her he long had lored 
ThOQgh ktely caUed hii bride 1 

Spain'* loTeliett maids or royal qoecQ 
In cfaarms coold not comparo 

With Violante, had ihe been 
Trne ai her form irai £Ur. 

Against the castie*! flanking tower 
Wild beati the loiging deep. 

And tbere a watch at midnigt bonr 
Woald not rabmit to sleep : 

AU elie lolied by tho breaker'8 jar 
In slamber caIm repoiod, 

And ai it's lord wai diitant far 
His casile gates irero doied. 

Bnt Io I a bark at dead of night 
Alone dolh swiflly glide 

BcDcath the tower from wheoce a ligh 
Sbines glimmering on lhe tíde. 



BBBRAL-FBAMCBZ ^^ 

And manj a daikiooM nigbt lhe baik» 

Al íalls tbat iioor, retorai; 
Ihitmgli wind and vare H*t path to nark 

TIm signal loith-liglit bons. 

BoderifO, rooie tiíee ap from slesp ; 

The oath nhidi Ukmi didst swaar 
To tfay good lord, how eansi thoo keep 

Wheo flnngen come so near I 

For kaoveti Um» not, irbore sofWit nrell * 

Tbe irafot aroood thy strand, 
WúÚk safl onrtrrtchad, a caraTol 

Bfloiaiiii apoii the sand 1 

Aht in a flonny night and daik 

It ncUeM left the ihore; 
Wbo vai il*! pilot nooe oonld mark 

Bot it eame back no more. 

Tei at lhe hov, the gnidfaig Ugbt 

On hifh begaa lo bom, 
Tvai Tam — DO eye obecrved, Ihia nifhl, 

TheUttlebarkrellim. 

Far dovn lho miggid rock Ihat spread 

lU naiíea nmnd lhe loirar, 
Was plaeed a leerel gale which kd 

To Yiotoate's bower. 

WUhm Ihis poiten, atept vere heard 

Al Bí^l ^iproaehiog near, 
Aid on her door lo fiimly barred 

A knock arromed ber ear; 

>1iLaiitB*te. 



^^ BOMAKGRmo 

~'0h I vbo en Uras, imlmova advaaaB 
And kDock ao boMIy tbenT— 

— *Tis B«nia1, Iftdy, tiiine of Fmoo : 
He seelfs tliy snilt to Aare.* 

f rom coQch of gold she reacbed the floor 
And rent har TOsUnenl gay, 

And ai Bhe gentiy opened the door 
It qnenched her taper*s lay. 

Hii clay cold Imid tbê leiíed bJm by 
And led hlm to her homtl 

— 'Lore, iremble not: wlthin onr tkf 
No cloads of sorrow lower.' 



Then on ber íkir and glowingB bnaft 
Tbat, heaving, tbrobbed the nora 

Sbe pressed bis bands : and fondly kifwd 
HU cold lipc o'er and o'er. 

— 'Far haw yon ooaer--' Ym veryiitf. 

— 'RoDgfa vai the ng^ aea t 
— * It was.'— «Why oonune yon anned for mr f 

NayteIlthylhoi«htaln 



She doffed hii amoir, and the dev 

Of roses, soentlBr ^ride, 
In liqnid drops sbe o*er bbn threw 

AndlaldliiaftyhertMe. 

— < Twekd honn bath nng the eastle béll; 

To her, ^o bves tbee, tnm 
Tby face, as tboa wert wont, and tell 

What gires thee canse to moam. 



BBBNÀL-FBANCEZ ^ 

'Oh ! i! mj brolhen thoa dosl fear, 

Thej «iU ooi €<NBe to me; 
Mj liiuband*s brolber, were be bera, 

Can nerer eofM wilh ibee. 

'Uj serfs aad rasnls, tiirongb tbe bilU, 

Wm akep til) morning ligbt; 
Nor ean tbey dêem tbat, ín mj iraDs, 

I ifeloome tacb a knigbt. 

'My faaband, fond of marlial fray, 

To fiilaat Indfl is gone, 
Aad may Ibe Moon fmloiig bit ttay, 

Regrei bfln left be noiíe.' 

— 'Ibey are my owo, I need nol fear 

Tboae teeelMf rfaw of «bine, 
Nor broÚMf», fN> lhe bftdfe tbey mar 

AboM tbair iMlae ie iM». 

'Ror do 1 dfead tby btuband'! wratb ; 

Kw. . p be-iepoiii ban. 
Em by bis Iady« «oéd «í CMtb» 

' Tis abe vho «ell aay ter. ' 



U 



Tbe aoD diipeUed jMun'a 4h»d0iri.dim, 
And OD ibecaMle abone, 

Wben Violanle, wm fiiir Ihan bim, 
To meet bflc4o(ttB Jbatb s<va : 



i 



lio 



fiOMANCSmO 

Uer lOTely form, i garmoit kmg 

And cotfse was wraped aroand, 

A knoltod rope, like cable stroog, 
Her gnoeftil penon boond. 

And gufhing tear drops blmd tbe eye 
Of page and maidn íair; 

Nor ara Ramiro'8 lasbes dry, 

Freah moístnre glistens ibere 

Pealed from the tower Uie signalibaU, 
Tbeaiewaaliftedbigh 

0*er Violante... Era itfell 

Sbe Mw her hosband nigb. 

— 'My lord* abe eried 'I marildettii» 
Yet on my bended knee, 

Bre from my bMom parU my bnalh, 
I pardon cnTe frun tbee. 

' Tf I not throQgli blighted yeart lo Un 
Lamenting o'er tbe past, 

Bot my offcnie to thee. íoifife, 
Tbis honr is nowmy laat 

* On me, for I bafe vronged tby bed, 
Alone let Tcngeaneo ligbt, 

Nor meck tby rage npon tbe bead 
Of Benial, bapleis kni^.* 

To grani ber imht Ramiro*i breait 
Witbriamgpitybomed, 

Bot wben tbe oiged ber last reqnesl, 
Hif iòrmer bate retoned. 



BBRNAL-niANCIZ <H 

Daik kmered Us farow, toe» iashed hit eye, 

As wben hít faolchioii bravo 
Repelled tbe lòe,— bis left band bigb 

Hm fiiUl lignal gave. 

TImd od Uiat nedL oí gnee and love, 

Wbose bine t6ím ibiBing teU 
Tbe porniMS oí Uw fkio abovc, 

Tbe beadsinan'1 neapon feU. 



m 



F«U ínm tiM eaill8*t aaeíMit gtt«» 
A draad proeewlOB ilow 

Adraneed, vlio moma&A Iba bappleM faie 
Tbat laid Meh baaslf low. 

Abora tben maaijr a wnm torcb, 

In daifaMS of tbe nigbt, 
8bed to tbe ebapel*e fdbic ponh 

A dim and mooníU ligbt. 

And booded doeely maaj a friar 
Song pnjwi Ibe bier anond, 

Ibe Baiiy bella «UbiB tbe qnre 
Ranf Ibrth an avfld «ndmI. 

Tvo BJi^tt bad pataed, no torefae*t my 
Dbnned tbe teeUen tide. 

Bot fleelly o*er tbe eaitle bay 
AgabitbeiktfdldgUde. 



AA* BOMANQBmO 

Swifl iMfk, ttqr piiol tmvMl llie with 
Of ocaaD^t vildeii mar, 

Bnl kDows not htm the daap of deaUí 
Has qnenched liUi«adng atar. 

Alas the fair vlwie beanty hmd 
His path aeroaa íIm va?», 

The headsman'! ttnke for him mdanâ 
To fiU a bloody frai«. 

Within the chapei of Samt Gil 

Intombed she ihimbert low; 

See, distant torches bming atill . . . 
Hark, bellt are pealiog slowl 

AJl now it pau— Iiee4i'«r the dea4 
The eold lepiilaiMai alsoé; 

And, aae: a kaliht iMh imariaia mnd 
The 



His robes are bbek, bil«n« ilQlh.eh«eiá 
His heart jn daite floon; 

And Io, he strelehaa, oihbByilona, 
His fona apon Jmt tomb. 

— * Oh t open, grafe, 193^ Jiaart iajjvn» 

I Usl»4alifliiw>>fl0ie» 
Lei death aoile msov, nhon he^vea 

loUfe 



' And hefvho aittâj úm^á hioaalb 

Againtome.reveal, 
That by her side, I aAjr, in deaih, 

My crime wjlh bar aottottl. 



BBUUL-rBAMCBZ i^ 



' It is Dot, lon «ilk mtPBTd ttiUè, 
Myirish to Jnfer flB, 

And lhe, vhn ^hM, tte vwy Ufé 
Of aUmyfctpw, togom.' 



Tboi Ml fes tMM&Aii liandt 

And iiMMiiiiiii«rdMpiir 
Bani from Uf heuft, hii Uid» l» gfiiped 

To stOl tbe 



Bot wby inaetiTe «d l»«laaát 
A voioBMMWtlilyffOte 

Oot of tho tonb, aid ilirtd Mi.kuid 
TflIootteUltil' 



Ukeliollov 

Ttai oonad» «pyrilíng, 
So dflop na i iwddw .0'1 

li deathlike 



— *LiTe, earaliar, tbongli I no mora 

SniTiTe, let life be thme, 
Sineo for my crime the stroke I bore 

The faolt alono was mine. 

'Gold horror dvoO» boneatb this itone, 

AjBd ill I know abore 
Of l^owing life Irom me is gooe, 

Exoepl ranorse and love. 

*Tbe arms shail elup thy neek no mora 
Whose sbape thon oft hast praisad, 

The eyes wilh eartb are ooTored o*er— 
Tbat kindly on thee gased. 



lli BOIIANGBIRO 

* The moQlh whoie lips did rarel firee 
On thiiie, is MiueleM oow; 

Bat that fond heart whieh bett for thee 
Death caoDot chiU iti glow. 

< IÀS9, lÍTe, Sir Knigbt; a MNil like IUbp 
To hononr ihonld aipire; 

Oh t learn to be, Oram ftle like míBe, 
A hnsband and a tiro. 

'And name the maiden after ne 

Whoee heart ihall thee adoro: 

Than I, moro fuilUess ihe may be, 
Bat eamiot loTe thee more. 

« And oh I faistraet bea dangfalen yomig 
That h>te may never may 

Their heaito to ill— think how I flong 
for thee myttléavay.* 



m 

Hotn Ds SAirJoio 



Este romance é e n9e) è da minba simples 
composiçio. Estatam^me na saodosamemoria 
as Tagas reminisoeneiaff d^qaelles cantares 
tam graciosos com que, na nrinba infância, 
oavia o povo do Minho festejar a abençoada 
noite de San'Jo3o ; estavashme as fogueiras 
e as alcachofas de Lisboa a arder também na 
imaginação; e ea era muito longe de Portu- 
gal, e mmto esperançado de me ver n'elle 
cedo: aqui está como e quando fiz esta cantiga. 

Foi em San^Mignel, as antenas dos nossos 
DaTios ja levantadas para sabir a expediçSo ; 
—soltámo-las ao vento d'ahi a horas . . . Isto 
escrevia-se na quinta do mea velho amigo, 
o Sr. José Leite, cavalbeiro dos mais distin- 
ctos, e velho o mais amável que produziu o 
archipelago dos Açores. 

Também alli estavam, para inspirar o poeta. 



tl8 ROMANCEIRO 

uns olhos pretos de quinze annos, que pro- 
metliam arder ainda tanta noite de San'Jo3o, 
fazer queimar tanta alcachofa por sua conta i.. . 
Ja os cubríu a terra. 

Faz boje dez annos que aquillo foi; e ainda 
nlo invelheci bastante para o esquecer. 

' O romance é tam feito dos ditos e cantares 
do povo, que nem uma idea nem talvez um 
verso inteiro tenba que seja bem e todo meu. 
Por este motivo, principalmente, lhe dei logar 
aqui. 

Lisboa, 23 âe Junho 1841 



Na collec{3o ja citada, a lusitania illus- 
TRATA, part. II, pelo Sr. J. Adamson appare- 
ceu a traducçSo ingieza d'este romance, que 
vai transcripta no appendíce ao uvro u do 
presente romancbiro. 

Sabe-se também de uma versão em Italiano. 
e de outra em AlIemSo, que não chegámos a 
ver ainda. 

Abril, 16— 1883. 

os EDITORES. 



NOTTE DE SANVOÂO 



Té 08 motíw da M dirami 
FMtqamaSuiUolo: 
StnJoio, San' Joio, San Joio 1 
Daa-oM paras do TOtio baloio. 

CANTia. POPUL. 
I 

—'Meia noite jà ó dada, 

San'loão, meu San'João, 
N*esta noite abençoada 

Oavi a minha oração! 

'Oavi-me, sancto bemditto, 

Ouvi a minha oração, 
Com ser eu moira nascida 

£ vós um sancto christão : 

TOL. I. 10 



iSO 



ROMANCEIRO 



' Que eu ja deixei a Mafoma 
E a saa lei do alkorao, 

E só quero a vós, meu sancto^ 
Sancto do meu I>om João. 



U 



'Como eu queimo esta alcachofa 
Em vossa fogueira benta, 

Amor queime a saudade 
Que no peito me rebenta. 

' Como arde esta alcachofa 
Na vossa fogueira benta, . 

Assim arda a negra barba 
Do moiro que me atormenta. 

'Como esta fogueira abrasa 
A minha alcachofa benta, 

Ao meu cavalleiro abrase 
A chamma de amor violenta. 

IH 

'Sacudi do alto do ceo 
Vossa capella de flores, 

Que n*este ramo queimado 
Renasçam por meus amores. 



NOITE DE 8AII*IOlO 1^ 

Orvalhadas milagrosas 
Que saram de tantas dores, 
!>reste coração, meu saneto, 
Acahnem os meus ardores. 

SanloiOy meu San' João, 

Saneto de tantos primores, 
N*esta noite abençoada. 

Oh! trazei-me os mens amoresi' 



IV 

la se apagava a fogueira, 
Ja se acabava a oração, 

Ainda está de joelhos 
*A moira no seu balcão. 

Os olhos tmha alongados, 
Batia-lhe o coração : 

Moita fe tem aquella alma, 
Grande ó soa devoção ! 

Onvin-a o saneto bemditto : 
Qne, por sua intercessão, 

D'aqneUe extasi acordava 
Nos braços de Dom João. 



IV 



o ASJO ■ A PBINCBZA 



o célebre erro commettído pelos Seltenta 
Da tradacçSo do v. 2 do cap. vi do génesis 
dea um poema inteiro a Tbomaz Moore, 'Os 
Amores dos Anjos — The Loves of the Angels' 
E d'este partiu o pallido reflexo da 'Chute 
d'uD Auge* que apenas animam as bellas pin- 
toras de paizagem feitas do vivo e natural, e 
como de mSo que as copiou nos próprios sítios: 
w tudo o mais o poema de Lamartine 6 in« 
feríor ao do Anacreonte d'Irlanda. 

Hoje lemos na Vulgata: — 'Videntes filii 
Dei filias bominum quod essent pulcbrae, ac- 
cqiemnt sibi uxores ex omnibus quas ele* 
gerant. 

O Padre António Pereira verteu: —'Vendo 
os filhos de Deus, que as filhas dos homens 



126 BOMANCBIRO 

eram fermosas, tomarão por soas mulheres 
as que d^entrellas lhes agradarão mais.' 

O Padre João Ferreira d'Almeida assim : 
— ^ Viram os filhos de Deus que as filhas dos 
homens eram fermosas, e tomaram para si 
mulheres de todas as que escolheram.' 

Mas os Setteuta Dão tinham intendido 
assim o texto hebraico, e em vez de — /E- 
Um de Deusj tradiuiraiQ -^Qnjc^ df Dws 
(qí hfydki TOO Geov) ; érro, que ajudado pelos 
commentos poéticos de Pbilon, e pel9S fiecQes 
do apocrypho livro de Enocb, a€«6n44U W 
imaginações meio pagaa9 de Teftyliaoo» á» 
LactUypiCJo» e até de San'GleiiieQte-Aleiwq4rv 
no. Seja ditto com o devido respeito a w(m 
Padres da Egreja : nem Hesioâo oflmOvÂ^ 
estenderam fábula alguma do poiytbeiflWíopiir 
maiores desvarios do qye ell^s poelíziímsi 
aetr^ â'esUi ficsSo. RejeítouT» todi^viM a 
maior parte dos Sanctos Padrw^ D^roiM 
Q«noabanrdeiSa&'jQio CbrysostQWQiaticMHh 
tizou-a de loucura San'Cyrillo. Segundo tHki 
as pjdavraan^/IMa« á^ 0<2<a-mjQQ6MR4iRer: 

í^áe$€mkiíH$ de Stíh par flme, pMqae 



o ANJO a A PUMCBZA IV 

fonm 06 primeiros qne invocaram o nome do 
Senhor. Assim por estoutras palavras — as 
fBkoê ios Ammiu— devemos intender : — as 
fUkas àa carrupia rafa de Cain. É opiniSo 
segBida sem disputa, na egreja catholica e 
qoaffi todas as outras, desde Sancto Tbo- 
itéiioie. 

O TABGim DEONKKLos» quo 6 a mais antiga 
das parapbrases dialdaieas, e a vers3o de Sy- 
madio traduziram ~o^ filkos dos nobres ou 
gnmdes; a versSo samaritana diz — os fUkos 
ias juizes. 
E parece que a palavra h^raiea, Ehhimj, 
itte todas istas tam desvairadas interpre* 



Sqa comalbr, d'aqiidHe desvio de texto e 
de iuaginaclo naseea mutta poesia para os 
ewiptans mystieos dos judeus* e doe chri* 
prioiitivM e dos gnostioos a de todas 
asilas do Oriente, e porfin, em noaaoe 
dias, para os poemas de dois vates, ambos 
ctoistiaDissimos hoje, ambos eminentaiaette 
oHholiooa^o francês Dlvet agera um tanto 
iaglea mniio mais, príMtpalmente 



tis BOMANGEIRO 

depois d'6ssa ultima sua obra philologoH)r- 
tbodoxa. 

Eu porãm d3o quiz fazer mais do que uma 
'lenda-romaoce' como a comporia um me- 
nestrel da edade-media em cujas coplas os 
donaírosos sonhos da mythologia» assim como 
os severos mysteríos da crença, tomayam 
sempre os hábitos sociaes do seu tempo. Jú- 
piter era Dom Júpiter, rei de coroa na cabeça 
e barbas até á cinta, rodeado de condes e de 
pagens, servido por nobres donzellas de es- 
partilho e toucas altas ; San*Miguel e o pró- 
prio Lúcifer dois cavalleiros de lança em pu- 
nho e escudo imbraçado, justando em mui 
leal batalha n'essas nuvens, com Legiões e 
Potestades por mantenedores do campo ; — o 
Olympo era um castello feudal, e o ceo uma 
roca-forte. Em summa, sem princezas e ca- 
valleiros nSo havia poesia para elles, nem a 
podia haver, porque essa era a vida que elles 
conheciam, o bello e sublime da vida que con- 
cebiam. 

Por isto o tom bíblico d'esta lenda ou le- 
genda necessariamente é modificado e predo- 



o ANJO B A PBIlfCSZA <^ 

Amado do ar cavalberesco ou romântico, 
próprio de um cultor da Gaya-Scieucia. Ve- 
ja-se DO Cancioneiro de Rezende como, ainda 
no século xv, o nosso João Rodrigues de-Sa- 
e-Menezes traduzia— não tanto do latim para 
portuguez, quanto do romano para romance, 
a epistola de Laodamia. Veja-se como o pró- 
prio Sa-de-Miranda na egioga iv reconta as 
clássicas aventuras de Cupido e Psychis, — 
verdadeira fonte também da muito romântica 
e trovada historia da carochinha, A Bella e 
a Fera, que toda a gente sabe — ou soube 
quaodo era pequeno. 

O fio da minha legenda é muito singelo. 
Era uma vez a Qlha de um rei, moça, linda, 
e uoica herdeira do throno. Fugia das diver- 
siies e grandezas da corte para se intregar á 
meditacio na soledade. Adoece mortalmente 
enquanto el-rei seu pae anda á guerra. Volta 
eOe trinmphante e vem-n'a achar na derra- 
deira agonia. O seu mal nSo o intendem os 
physicos. Lembra-lhes se será alguma secreta 
paixio d'amor. Elrei está prompto a tomar 
para georo seja quem for, comtanto que lhe 



viva a filha. Nem assim. Morre a pobre da 
princesa, e morre de mal tfamores. Mas como 
não havia de ser, se a soa fatal paixSo é por 
um espirito— um gnomo, umsylpbo, mn 
atqo — qoem sabe o quô I —talvez outro Ber* 
trand que se apoderou d'esla Rosália. — Ao 
menos, escapámos de segundo Roberto-do- 
diabo, porque a boa da infanta era de con- 
sciência, e morreu antes d'is80. 

E d'ahi, quem sabe? seria anjo bom o que 
ella amava. Segundo San^fiasílio, de veramr^ 
giniiaie, nSo pôde ser ; segundo Tertidiano 
e San^Glemente-Alexandrino ja se viu qae 
podia ser. 

Campolide, 5 d*Omabro i842. 



i lUOsnissiiA I ixduiRnssiiA amoRA 



mârqueza de fronteira 



Esta lenda-romaDce foi escripta no seu ál- 
bum, Minha-Senhora, para cumprir uma pro- 
messa feita ba tauto tempo, e por cujo des- 
impenbo tam retardado V.Ex.^tevea bondade 
de nunca ralhar commigo. Dedico-Ib'a agora 
que sai impressa ; e é a primeira vez na vida 
que offereço versos ou prosas minhas a pes- 
soa que podesse imaginar devê-lo á sua qua- 
lidade e grandeza. Será provavelmente a úl- 



13S ROMANCEIRO 

tíma, emquanto nSo fizer mais proselytos e 
imitadores o espirito verdadeiramente Dobre 
e as maoeiras verdadeiramente fidalgas que 
me obrigam a quebrar D*esta occasiSo o meu 
propósito tam firme e tam necessário n'esta 
terra. 

De V. Ex/ 

Criado e fiel captivo 

ALIISIDA-«A1IBITT 

Campolide, 20 de Oatubro 1841 



o ABUrO E A PUNCEZA 



. . -WaA me heoce to thy own sphcrf, 
Thy bea?6o or— ay, evea that irith thee. 

MooRBi LoTis or m angiu. 



Oh qae choros vao no paQO 
Oh <iae Inttos, qae tristeza t 

Morre, morre a cada instante 
A nossa linda prineeza. 

Os physicos nao se intendem, 
Yaose uns e outros vêem; 

■as o mal que ella padece 
Nao lh'o descerre ninguém. 

Nos dhos que se lhe inturvam, 
Ja treme a luz derradeira. 

Resa o offlcio da agonia 
Negro monge á cabeceira. 



^ R(»fANGBIBO 

Se inda chegará a tempo 
D'essa8 guerras d*aléin-mar 

O bom do rei, que inda possa 
A sua filha abraçar 1 

A filha que elle ama tanto, 
Única filha querida, 

A menina dos seus olhos, 
Boriio Aa «insadai vMai 



Pois chegou. Tanto captivo. 
Tanto despojo que traz ! . 

Com victorias o inganava 
Fortuna, que acinte o faz 



• • 



Pelas portas de palado 
O real cortejo entrava. 

Olha o rei a um lado e outro, 
Nem uma voz o acdamava. • . 

Pela filha, que não via, 
Não se atreve a perguntar. 

Mas ao quarto da princeza 
. Foi direito sem parar : 

—«Minha filha, minha filhai 
Que tens tu, filha querida? * 

E ella abria os olhos turvos 
Que ja não teem quasi vida. . * 



o ANJO K A PRINCBZA ^^ 

'Ametade do mea rdno» 

Da minba c*roa real, 
A qaem salvar a prineeza. 

Quem acertar c'o este mal' 

A estas palavras do pae 

Meneia a pattida frente, 
Como quem diz : — 'Nao o entendem, 

Nem eora o mea mal eonsente/ 

— 'Sao pezares. . . não se sabe. . .* 
Responde o physieo-mor, > 

'Outro mal lhe nao descubro . . . 
Só se for o mal d'amor.* 

Um rubor desfialleeldo 

Assomou na face lenta 
Qoe já do suor da morte 

Se cobria macilenta. 

Os olhos, que no pae tinha 

Cravados desde que o viu, 
Com mostras de péjo e medo 

Para a terra os descahiu. 

—'Não tenhas, filha, receio. 

Levanta os olhos^ querida; 
Seja quem for, será teu: 

Jurei-o por tua vida. 

vou I. II 



J 



<^ BOMANGEIRO 

^Seja elle ou rícco on pobre, 

Seja fidalgo ou peão, 
Desde já por genro o tóoio, 

£ aqui lhe doo tua mão.' 

Como quem o lUtimo eslêrço 

De doce mágoa fazia, 
Com ineffavel brandura 

Os oihea ao pae erguia ; 

Suave, longo suspiro 

D'entre oe lábios Hie fugiu. . . 
Era a vida qoe^ passava, 

Que sem dor se despediu. 

Foram para a amortalhar, 
No peito um signa) lhe aehavam 

De letras que ninguém )«u, 
Que estranhas formas tomavam. 

Sette sábios sio chamados 
Para haver de as dceiphrar: 

Cada-um sette línguas sabe. 
Não n'as podem soletrar. 

Só o mais velho d«s seue. 
Que andara na Falesiina, 

Disse:— 'Outras letras como éslas 
£u já vi n*uma ruína, 



o AHJO B A PROfCBZA ^^ 

'Janto dos cedros do Líbano» 
Ja meio entre a terra e os eeos, 

Do tempo que ás filhas do homem 
Paliavam anjos de Deus. 

'Mas le-las não sei nem posso: 

Nem qoe sonhesse^ o fizera : 
Segredes são d'oQtro mando 

Qae, B'este, Deus não tolera.* 

No alto d'aqaelle monte 

Ura ato cedro nascen; 
Oa anjos o seroeaoram, 

Ou foram aves do ceo, 

Qae ali crescea de repente, 

De uma noite para um dia; 
£ oatro igual em todo o reino 

Como aquelle não havia : 

Foi a noite qae a prínceza 

AIll veio a sepultar : 
Era um sitio seu querido 

Donde sohia de estar, 

Aonde horas esquecidas, 
Sósinha, de quando em quando, 

Com as estreitas do ceo 
Parecia estar fallando; 



<38 ROMANCEIRO 

E onde, uma noile sem laa 
Que as estrellas mais brilhavam, 

Houve quem visse nos ares 
Umas roupas que alvejavam, 

£ deseer a pouco e pouco, 
E aopé da infanta parar 

Um Milto. . . visão. . • ou sombra. . • 
Mas sombra de luz sem par : 

E foi desd^aquelia noite 

Que a não viu mais rir ninguém. 
Anjo era o que lhe fallava. . • 

Mas se de I>eus... ou de quem?... 



o GHAPIX mELREI OU PARRAS VERDBS 



Foi verdadeirameDte reoonstraida esta xá- 
ean dos firagmentos soltos da composiçio po- 
pular antiga, como boje se recoostruvia das 
pedras cabidas de orna torre Telha, — n2o exa- 
dameote omesmoediOcio, porque o cimenlo, 
e aignm iochome novo aqni ou alli^ seria mis- 
Mr inpregar — mas qoasi a mesma coisa ; na 
firma e nos materiaes a mesmíssima. 

Yierara-me de E? ora os fragmentos por 
iDterfencio do Sr^ Rívara, o hábil e zeloso 
bíUíaliíeeano d^^quelta ddade: slio porte em 
prosa, parte em verso» estado em que algaos 
d*estes fósseis se desinterrara is V8ze& Veri- 
S^ieí depois que pelas vizinhanças lie Lisboa 
80 iacoBlnivam na mesiaa forma e qiiasí os 



>^< ROMANCBIRO 

Deixeílhe com mais seguridade o titulo 
de xácara que trazem muitos outros de nossos 
romances populares, porque effeclívamente 
creio que quadra mais aos d'esta espécie de 
narrativa que é feita dramaticamente pelos 
dizeres de um e oulro dos seus personagens, 
emquanto o poeta pouco ou nada diz épica- 
mente elle mesmo. 

Nós temos, se me não ingano, no género 
narrativo popular as três espécies, romance, 
xácara, soláo : no romance predomina a forma 
épica, conta e canta principalmente o poeta ; 
na xácara prevalece a forma dramática, diz o 
poeta pouco, ás vezes nada — faliam os seus 
personagens muito : o soláo é mais plangente 
e mais lyríco, lamenta mais do que reconta o 
facto, tem menos dialogo e mais carpir: ás 
vezes, como no soláo da Ama em Bemardim- 
Ribeiro, nSo ba senão o lamento de uma só 
pessoa que vai alludindo a certos successos, 
mas qae os nSo conta* 

Apezar do que levo ditto no principio d*es- 
tas linhas, como nSo posso negar que ha bas- 
tante do meu cimento no ligar e assentar das 



o CHAPIM d'ELREI ^^ 

pedras velhas» e ellas eram tam poucas e tam 
soltas, escrupulisei de pôr esta peça no ii li- 
vro do ROMANCEIRO paraquo me não accosas- 
sem de macaquear as impostoras de Macpber- 
soD ou de Fr. Bernardo de Brito. 

A aoecdota, que eu deixei religiosamente 
como a refere o povo, parece dever ter sido 
algum facto que realmente acontecesse : — co- 
mo, quando e aonde? Não ppde encontrar ves- 
tígio. É o que diz o pobre do conde, scis- 
mando: 

o chapim aqni o tenlio, 
O chapim hem ii'o topei : 

mas CQJo é, 6 a que pé serve, só se voltar do 
outro mondo o dito rei para no-lo dizer. 

Lisboa, t7 de Março de 1843. 



No appendice ao n livro do rosiangeiro 
achará o leitor a versão ingleza doesta xácara, 
publicada pelo Sr. Adamson na sua lusitania 

nJLDSTBADA, part. II. 

AbrU, 17— i8S3. 

os KDrrORES. 



o CHAPIM tPWLMXl 



ou 



PAME^S TEBDBS 

I 

Verdes pms liiii a i^mIm^ 
Riccas OTM n*6lia ac^ei, 

Tam maduras, tâo coradas. . . 
Eslio dtoendo ^meít' 

—'Quero saber quem n'as gnaorda; 

Ide, mordODio, e sabei:' 
Disse o rei ao seu mordomo. 

Mas porqiue o dizia o rei? 

Porque yiu ii'ai|Belle nonte 
— E como elle o Tia bSo sei— 

Essa donna imparedada, 
Não se sabe por qpie lei, 



146 



ROMAMCRIRO 



Que por seu mal é condessa. 
Condessa de Yalderey : 

Antes ser pobre e villan, 
Antes pela minha feiM 



Verdes parras tem a vinha: 
Uvas que lhe vira el-rei 

Tam maduras, tão coradas, 
Estão dixendo 'comei!' 

n 

Veio o mordomo do monte: 
^ 'Boas novas, senhor rei t 

A vinha anda b^n guardada. 
Mas eu sempre lá entrei 

'O dono foi-se a outras terras, 
Quando volverá não sei ; 

A porta é velha, e a porteira 
Com chave de ouro a tentei. 

'Serve a chave á maravilha. 
Tudo porfim ajustei : 

Esta noite á meia-noite 
Comvosco á vendima irei.* 

* Fe, fee, fei. Víd. doU oo lim. 



o CHAPIll D'bLIIEI H7 

—'Valeis um reino, mordomo, 

Grandes mercas vos farei : 
Esta noite à meia-noite 

Riccas uvas eomerei.' 



A Tinha tem parras verdes. 
Madura a uva lhe achei; 

E tam madura, tam bella, 
Qoe está dizendo 'comeil* 



m 

Ao pino da meia-noite 
Foi mordomo e foi o rei : 

Doblas que deram á velha. 
Um conto que nem eu sei. 

— 'Ifordomo ficae á porta, 
Á porta que eu entrarei ; 
Nao me saltem ^es na vinha 
Em quanto eu vendimarei.' 

A porteira o que lhe importa 
É a dá-me que te darei... 

No camarim da condessa 
Yeis agora entrar o rei. 



Itô 



ROHANQBfiU» 



Levava oin eandil aeceso; 

Era de prata, sabei : 
Não ha senão prata e oiro 

Na casa de Valderey. 



Da vinha as parras são verde» 
As uvas maduras sei, 

São tão coradas, ta» bdias. . . 
D*eIIas — qaando oonerâl 



IV 

No camarim da condessa 
Tudo andava áimeema lei, 

Era o ceo d*aqaelle mio : 
Qae mais vos diga nao sei. 

Riccas sedas de Millio, 
Toalhas de ilourteBey . • • 

Tremia o rei-^se er»'Sasto, 
Se era de gosto bão seL 

Cortinas de seda Ywéi» 
Vai ergo não erguenii. •• 

Tal clarão lhe dea aa visto. 
Gomo não cahia nio sei. 



o CHAPilf 0*«UBI M 



Era uma tal lonnositta. « . 

Ora qpM mais vos âirei? 
Ontro primor eomaaqoeUa 

Não vistes nem ea vera. 



Verdes parras tem a vinha, 
Riceas uvaa Ih» a^íBlei, 

Tam formosas, iam maâoras, 
Estão dizeiíáii ^cMimel t ' 



Dormia tan dmançads 

Como eu ne eeo dormiiei 
Qoando f«r tdn innoeente. * . 

JesQsI se ea lá ehegarei t 

De joelhos trà» a néàe 
AUi fica o ham te rd. 

Pasmado a oNmt para elí» 
Sem bidir mm mão nem pei t. 

E dizia: — 'Senhor Deus! 

Perdoae-me o que já pequei, 
Mas este anjo de insoeeneia 

Não sou eu q«eo£RíDderei. 



'fé, pee, PM. Vid. Boiftaofln. 



<S0 ROMANGEIRO 

Tem verdes parras a vinha; 

Lindas uvas qae eu lhe aehei. 
Tenho medo que me travem. . . 

D'ellas, ait não comerei. 

VI 

Ja vinha arraiando o dia» 
E elle, como vos contei. 

Ouve apitar o mordomo. . . 
— 'Jesus, senhor, me valei t * 

Era o signal ajustado 
— Yíndo o conde, apitarei— 

Deixou cahir as cortinas 
Dizendo:-- 'Nao vendimeit' 



Lindas parras tem a vinha, 

Bellas uvas n'ella achei; 
Mas doeu-me a consciência, 

Das uvas nao comerei. 

vn 

Deita a correr com tai pressa 

Que voava o bom do rei: 
^'Ai que perdi um chapim. 

— 'Tomae, que um meu vos darei : 



• . 



'Mas nem mn iastante nrá. 
Que o conde ja avistei 

Descendo d'aqpieya attara; 
Se nos eoDÚrâ nip ftei. . / 

Era o medo do mordomo : 
Outro era o medo do rei. 

Qaal d^eUes tinha razão 
Agora To-lo direi. 



Parras Terdes via na vinha, 
Uvas maduras de lei; 

Foi travo da consciência, 
Diz: — 'D*ellas não comerei.' 



VIU 

Chega o conde à sua torre, 

O conde de Valderey, 
Topou n'um chapim bordado. . • 

Gomo ficou não direL 

Yai-se ao quarto da condessa: 
— 'Morrerá, mattá-la-hei.* 

Yitt-a dormir tão serena: 
—'Jesus! não sei que farei T 

VOL. I. li 



i 



'SS ROlUlfCBmO 

Corre a casa ao derredor: 
— ^Deus me tenha em soa lei. 

Que ou esta molher é broxa 
Ou eu c'o chapim sonhei 1 

'O chapim aqui o tenho, 
O eh^im bem n'o topei. . . 

Mas que durma assim tão manso 
Quem tal fez, não n*o crerei.* 

Entrou a scismar n*aquillo : 
— 'Yalha-me Deus! que farei? 

Por menos fica homem doudo; 
£ eu como o nao ficarei?' 



Minha vinha tão guardada! 

Uvas que n'eHa deixei 
Mu) é fructa que se conte. . 

Da que me falta não sei.* 



IX 

Foi-se fechar no mais alto 
Da torre de Valderey : 

— *Nao quero comer do pão, 
Nem do vinho beberei; 



o CHAPIM D*ELRR1 ^^ 

'Minhas barbas e eabellos 

Também mais os não farei, 
Qae esta verdade não saiba 

D*aqai me não tirarei.* 



Verdes parras d*essa vinha, 
Uvas qae ea não comerei, 

Picae-vos séecas embora, 
Que ou já'gora — morrerei. 



Por três dias e três noites 
Qae se guarda aquella lei; 

Ciama a triste da condessa: 
—'Ao seu mal que lhe farei V 

De qaem foi ella valer-se? 

Agora vo-lo direi. 
Poi lastimar-se a innocente. . . 

Onde iria?— ao próprio rei, 

~4de, condessa, ide embora, 
Qae eu remédio lhe darei; 

O segredo 4o seu mal 
Sei-o ea. • • Se o saberei? 



^9^ ROMANCEIRO 

Talavra de cavalleiro 
Em lealdade vos darei, 

Que ou elle hade ser qnem era, 
Ou ea, quem sou, nSo serei.' 



As verdes parras da vinhay 

As uvas que eu cnbicei, 
Elias a travar-me n*alma. . • 

E mais d^ellas não provei 1 

XI 

Fora d'alli a condessa, 

Nao tardou em ir o rei : 
—'Quero ouvir o que elles dizem, 

A esta porta escutarei.' 

Ouviu uma voz celeste 

Gomo tal nunca ouvirei. 
Cantando em doce toada 

Este triste vireley : 

— *Jà fui vinha bem cuidada, 
Bem querida, bem trattada : 
Como eu medrei I 

Ora não sou nem serei: 

O porquê nao sei 
Nem n*o saberei t' 



o CHAPIM D*SLREI 



Gom as lagrimas nos olhos 
Foi d*alli o bom do rei : 

—'Oiçamos agora o outro, 
E o que sabe, sabereir 



—'Minha vinha Iam goardadal 
Quando n^ella entrei 

Bastas do ladrão aobei; 

So me elle roubou não sei: 
Como o saberei?* 



Era o conde a lastimar-se. 

Surríndo di2fa o rei 
(Se era de si ou do conde 

Que elle se ria nâo sei) : 



—'Eu ftii que na vinha entrei, 
Rastos de ladrão deixei. 
Parras verdes levantei, 

Uvas bellas 

N'ellas— vi: 
E assim Deus me salve a mi 

Como d'ellas 

Nao comil* 




156 



BOMAKCKIRO 



XII 



A porta tinha uma fresta: 
Tirou o chapim do pei^, 

Atirou-]h*o para dentro, 
Disse-Ihe:— «Vôde e sabei/ 

Do mais que alli sncoedeu 
Para que vos contarei t 

O conde soube a verdade, 
E o rei soube— ser rei. 



Verdes parras tem a vinha, 

Riccas uvas lá deixei : 
Quem m'a guardou foi o medo. . 

De Deus e da sua lei. 



'Vid.iioUiioflai.| 



YI 

JtOSALIHDA 



É verdadeiramente siA>liÉle, tem toda a 
frescara viçosa das ímageed éa poesia primi- 
tiva, a com que termina este romance. Tado 
o que ba de asqueroso n'vmà sepultara des- 
apparece do tmnalo em que amor desfolhou 
os seus goivos: alli nao ba corrupção nem 
vermes: uma bella árvore, um rosal florido 
reproduzem em 'novas emudadas flãrnnas' os 
corpos de dois amantes. A vida nSo acabou, 
Mdoutsò; e nem.mudott taolo, qua^b vegetal 
sâva d^eases ramos não ferva aioda do mesmo 
«dor que ja animeu aqueUe saugue. Tendem 
Qinaa para as outras as apaixonada» vergou* 
te; coptam^^as e ellas reereacem, e vfio^se 
ahntar coflid duas palmeiras namoitadas. 

Sette^ae aqui o Bisue» seate^ qualquer 
porque è bello deveras. Assim se popularizou 
esta imagem e fez a volta. da. Europa, qua a 




AM BOMANCKIBO 

achámos nos romances e soláos de quantos 
povos entraram na grande communhSo ro- 
mano-celUca, romano-lheutonica, ou celto* 
theutonica : —talvez seja o modo mais exacto 
de dizer, este último. 

O romanca Prence Robert, publicado por 
Sir Walier Scott, da tradigio oral das raias 
d*EscociaS remata com estas coplas: 

The lane was boried in Marie'8 kirk 

The lothar in Mane*! qoiir; 
And oat o* the Une theie tpring a biifc, 

And oot o' the tolher a brier. 

And thae twa met, and Ihae twa plat, 

The birk bnt and the brier ; 
And by ihat je may nrj mA ken 

They were twa loTen dear. 

Cito estas coplas escocezas por serem as qoe 
mais se parecem com as do nosso romance : 
ha mnitosoutros parallelismos» mais ou menos 
approximados, nos romanceiros e cancionei- 
ros de quasi todas as linguas. NSo é possivel 
descobrir hoje onde nasceu a idea original ; 
no portuguez é onde ella está mais lindamente 

m 

* Minitrelsy of the SeotUih border ete. by Sir Walter SooU» 
Bihi, ed. de Paria 1838-S toI. pag. 115. 



ROSALINDA <0f 

expressada e com mais 'sentimento/ Na fa- 
mosa historia de Dom Tristam, apontada a 
^te propósito por Sir W. Scott, occorre a 
mesma imagem. 

' Ores veitil que de la iumbe de Tristam 
yssait une belle ronce verte et feuilkuse, qui 
aleaii par la chapelle, et déscendaií le baut de 
la rance sur la tumbe d'l8seidt, et entroU 
dedans.^ Três vezes cortaram a milagrosa 
planta, mas, continua o bom do historiador, 
Rostícien de Puise, ' le lendemain estoit aussi 
belle cornme elle avoit cydevant été, et ce mi' 
raele estoU sur Trislam et sur Ysseult à tout 
jamais advenir/ 

É um ponto himinoso para as indagações 
phílologicas na historia das linguas modernas 
— oa da sua poesia, qae é a mesma coisa. 
Ê para mais ainda; porque a historia do ha- 
mem, por aqui a bade começar a estudar 
qoem verdadeiramente a quizer saber. 

Eo fiz este romance de Ires fragmentos 
diversos, tam fragmentos que nenhum d'eUes 
per si se intendia bem. O primeiro appare- 
cen-me inserido no de Eginaldo, Reginaldo 



^^ BOMANGURO 

— ott Girinaldo, como diz em miútas partes 
o povo. O segundo e terceiro inyoltos com 
o de Glaralinda ou Clara-liodes, que o& caste- 
lhanos chamam Clara-nifla, e ao romance (f 
âo eonde Claros*. 

No logar competente do cancionein) darei 
esses romances que lioje tenho restiluidos 
pela collaçSo de oatros^ fragmentos e de me- 
lhores cópias que depois me vieram^* 

Campolide, 8 de Setembro 1843. 



Também na LusiTAmA iclustrata vem a 
traducçSo ingleza doeste romance qae vai eo^ 
piada no appendice á ii parte do uvrò u do 

nosso ROlTANCEtRO. 

Aqui dmnos agon o bello estudo e verão 
franceza de M. Edouard Foumierddbre a Ro- 
flaKnda, que se publicou em Paris em #8S3. 

Abril, I6-Í85a. 

osíDivoais. 

* Vej. no lifTO D» part. i, o romance xni, CUarêlinda, pag. ii9 
do %^ TOl. ; e na part. ti, o romanoa x?ui. Conde NUtc, piíg. 19 do 
3i« «Dl. j ibiá. o DonaMe xx a Peregtiin, pag. as« «Ce 



robaIíHIda 



Era por manhã de maio. 
Quando as aves a piar, 

As árvores e as flores, 
Tado se anda a namorar; 

Era por manbS de maio, 
Á fresea riba de mar, 

Quando a infanta RosaUiida 
AUi se estava a toucar. 

Trazem das flores vermelhas, 
Das brancas para a infeitar ; 

Tam lindas flores como ella 
Não n'as poderam achar : 



i 

I 



i^ BOMANGEIRO 

Qae é Rosalinda mais linda 
Que a rosa, que o nenaphar, 

Mais pura que a açucena 
Que a manban abre a chorar. 

Passava o conde almirante 
Na sua galé domar; 

Tantos remos tem por banda 
Que se não podem contar; 

Captívos que a vão remando 
A Moirama os foi tomar; 

D'elles são grandes senhores, 
D*elle8 de sangue real : 

Que não ha moiro seguro 
Entre Ceuta e Gibraltar 

Mal sai o conde almirante 
Na sua galé do mar. 

Oh que tam linda galera, 
Que tam certo é seu remar 1 

Mais lindo capitão leva, 
Mais certo no marear. 

— 'Dizei-me, o conde almirante 
Da vossa galé do mar, 

Sc os captivos que tomais 
Todos los fazeis remar t' 



B08ALWDA <M 



— 'Dizei-mey a bella infanta, 

Linda rosa sem egnal. 
Se os escravos que lá tendes 

Todos vos sabem toucar?* 

— ' Gortez sois, Dom Almirante : 
Sem responder, perguntar I ' 

—'Responder, responderei. 
Mas não vos heisde iníiadar : 

'Gaptivos tenho de todos. 
Mais bastos que um aduar; 

Uns qne mareiam as velas, 
Outros no banco a remar : 

' As captivas que sao lindas 
Na poppa vão a dançar, 

Tecendo alfombras de flores 
Para o senhor se deitar.* 

— 'Respondeis, respondo eu, 
Que é boa lei do pagar : 

Tenho escravos para tudo. 
Que Cazem o meu mandar; 

'D*eHes para me vestir, 
D*elles para me toucar. . . 

Para um só tenho outro iroprégo, 
Mas está por captivar. • . 



M ROMANCBIIIO 

•— 'Gaptivo eMá, Um eaqUlfO 
Qae se não qoer resgatar. 

Rema, a terra a terra, moiros. 
Voga certo, e a varar t ' 

Ja se foi a Rosalinda 
Com o almirame a folgar : 

Fazem sombra as lanuigeiraa, 
Goivos lhe dão osèeçal. 

Mas fortana, que lâo deixa 
A nenhum bem sem decar, 

Faz que um monleiro d*elrBi 
Por ailí veidia a paasar. 

— ' Oh monteiro, do que viste^ 
Monteiro, não váe contar: 

Dou-te tantas bolsas de ohi> 
Quantas tu possas levir.' 

Tudo o qae Tia o monteiro 
A elrei o foi contar, 

A casa da estudaria 
Onde elrei siava a estudar. 

— 'Se à puridade o disseras» 
Tença te havia de dar : 

Quem taes novas dá tam alto, 
Alto hade ir* . • a infoicar. 



ROSikLINDA <67 

'Arma, arma, meus archeiros 

Sem ebaramellas tocart 
Cavalleiros e piões, 

Tado á tapada a cercar.' 

Inda não é meio dia, 

Começa a campa a dobrar; 
Ioda não é meia noite, 

Yao ambos a degoUar. 

Ao toque de ave-marias 

Foram ambos a interrar: 
A infanta no altar mor, 

EOe à porta principal. 

Na cova da Rosalinda 

Nasce uma árvore real, 
£ na cova do almirante 

Nasceu um lindo rosal. 

Klrei, assim que tal soube, 

Mandou-os logo c(Nrtar, 
E que os fizessem «n lenha 

Para no lume queimar. 

Cortados e recortados, 

Tomavam a rebentar: 
E o vento que os incostava, 

E elles iam*se abraçar. 

TOL, 1. IS 




Nunca mm pâdd íollm*; 
A rainha, que tai dOttb^? 
Cahia logo martal- 

—'Não me chamftio mm mnh^i 

Rainha (doiFonlugi^l.*. 
Apartei dous ii^aocdnâes- 

Que Deus qaeiriaivitttaí ! ' 



ÉnfwmKm scr la rosalimba 



Le»»itp|R>rls entre ia líMâraliire írançftise et ia lil- 
tMMpoitQgnse, amuoyen-âge, farent plus grands 
et |les éireeto que l'éÍ(Hgnement des deux pays ne 
ie^domnrait à póiser. M. Ra5tiouard a été des pre- 
am à leramarqner; íl ne s^eat méme pas borne à 
one simpie consUtation da ftiit, il Ta appayé de 
tMte» WIÍ88 de tpreiíves. Ate méme de montrer 
eon^ètement eeiflÍÉíen la Imigive portugaise se rap* 
prodiait de la laogue rèi»u>e, W a été ju8qu'à tra- 
àámáiam la langue fáes^trottbafdomr», une petite pièee^ 
^ CaflM)0ne^. Épreove triomphante \ oar à qaejqaes 
s^Mes pi^g, les déui piècee, 1'original et Ia tradn- 
ctioQ, se sont tronrés lês máóies. li Ti'y a pas plns 
conf iHe identttó contre les Noei en paióis botirgui^ 
|DMi el la três faeito tradndkm françaíse qae tout 
^ msDde pent en faffe. Qq'(M1 en juge par Ia secònde 
^ den siroplies : 



LAMBK WS TROIBAOOQIIS 

lUhordev6fer MeHiorden 



ITole aTentarar En est aventarar 

Yer e nio gaardar Venr e no guardar 

Qae guardar e ver. Qoe guardar e vezer. 

▼cf e étkÊàer Tsier e defender 



Mailo boB aeria, Mok bon seria, 

Jfas quem poderia? ilas qoi poiria ? 

dti Trmáãdwrt, tom. n, pag. 383. 



4"0 ROMANG£IBO 

Dans tout cela, je le répète, il n'y a pas une syl- 
labc qui ne soit soBur de celle qui la traduit 

Les mots qui senraient à designer les diversea 
sortes de pièces de poésie étaient les mémes ponr les 
poè'tes portugais et pour les poèHes de la langue ro- 
mane. Ceux-ci, par exemple, avaient le íot qui coires- 
pondait directement au leod allemand et aa latd des 
Irlandaís; ceux-là, Portugais et Espagnola» avaient le 
loa. La méme chose sous le méme mot Une autre 
espòce de potfme s'appelait diet ehei les trouTèrea, 
et les Portugais le connaissaient aussi sons un nom 
presque pareil. Dans la Caria dei marquei d$ San- 
tuiana^, se lit cotte phrase par laquelie se trouTent 
indiques ces dicU en langue portugaise: 'Cantigas 
serranas, e dicire$ Portugueses e Gallegos.' Pmir ex- 
primer la rime dans toute sa prímitÍYité natíTe, mais 
mélodieuse, nous avions le mot asêomumei qui esl 
reste, et le yerbe aisonmr qui n'a malheureusemeiíl 
pas eu le méme sort Les Espagnob et les Portugais 
avaient de méme le verbe aêonar qulls étendaíeni jus- 
qu'au seus de Texpression 'tneUre em mMsiqueV £d- 
fin, il n*est pas jusqu'au mot troubadoitr qui ne se 
retrouve à peine modifié dans la langue portugaise. 
TantAt c'est tr€Òar, tantdt c'est trabador. Le piemier 
de ces mots se trouTe dans ce vers des Fragmentos 
de hum Cancioneiro inedUo^: 

Et por q«e jii*or» qoitey de trot>ar, 

et le second, aux foi. 9i et iOi du méme recueil. 

* Ap. Sanchei, tom t, pag. ltui. 

* Lo maiioscrU da Óandoneiro dnte du xni tiècla ol ]ci pièces 
qa'il cooticni sembkit pios aociennes. U a été publié k Paris ta 



ROSAUNDA 17t 

Ces similitudes ne se retrouvent pas seulement dans 
les idiomes» mais encore dans le génie des deux na- 
tioBs. On Toit par les OBarres qa'ont laíssées leurs 
poetes qae toutes deux puisent anx mémes sources 
et se reoToient mutnellement riospiration. Mais elle 
▼ient surtont des troubadours, il faut bien Je dire ; et 
qiiund Dous avons apprís que le roi de Portugal 
Diniz prít pour maitre en l'art des vers le tronbadour 
de Cahors» Aymeric d'Ebrard, qui lui apprit à faire 
méme des vers provençaux» et qui reçut en recom- 
pense rarchevéché de Lisbonne od il fonda la fa- 
meoae uniTersité transportée en 1308 à Coimbre; 
OOBS n*aTons pas été surpris. À cette époque déjà, 
toas les Iwns maitres venaient de France. 

PoQT prenve de la communautó dlnspiralion des 
peites portugais et des troubadours, nous citerons 
deux exemples. Une chanson portugaise que nous li- 
soos «u íòL 78 du recueil rarissime cite tout-à-rbeure 
sen le premier. On la trouva ainsi traduite dans les 
Pniéffominn de VHistoire de la Poésie seandinave, 
par M. Edelestand Du MériU. 

Tar Dieu ! 6 dame Leonor, notre Seigneur fut bien 
prodigue pour yous. 

'Vous me semblez si belle, ò dame, que jamais je 
D'en vis d'aussi belle et je vous dis une grande yé- 
ríté, telle que je n'en sais pas de plus vraie. Par Dieu, 

1SS3 par Sir Ch. Slaart of Rothsay et tiro scolement u 25 exem> 
piaifesy doot ancon D'a été mis dans lo commercc. Vid. a dot^ 
«d. do Sr. VarnhagflD. Sladrid 1851 . 
' Fas. 339, oote I. 




1^ ROMANISUO 

d dame Leonor, notre Seigneor fut bim prodlgue 
pour vous. 

'Et Dieu, qui yous tient en sa puissance, yons 
combla si généreusement de ses dons, qii'il n'est riaii 
au monde qui puisse ajouter à rotre méríte. Par Dieo^ 
ò dame Leonor, notre Seignenr fut bien prodigae 
pour vous. 

^En YOUS créant, Madame, sa puissance montra 
tout ce qu'ii était capable de reunir en une dame 
de mérite, de beauté et d'e8prít. Par Dien, d dame 
Leonor, notre Seigneur fut ben prodigue pour voos. 

'Comme briile le bon rubis au milieu des perles» 
vous briiiez entre toutes celles que j'ai jamais ytos^ 
et c'est pour moi qui suis épris de tant d'tfnour que 
Dieu vous a créée. Par Dieu, dame Leonor, noite 
Seigneur fut bien prodigue pour vous.' 

Notre second exemple será ce chant cbarmant de 
la Rosalinda. M. de Almeida-Garrett, avec ce tact ex- 
quis et cet haut goút archéologique qui le placenta la 
téte des poetes les mieux inspires et en méme tempe 
les plus érudits du Portugal, a retrouvé dans les 
vieilles tradilions du peuple lositain, et reeonstroit 
d^après trois différents fragments^ les meilleures ta<* 
ríantes de ce chant depuís si longtemps populure. 
Le poete se trouve à chaque vers de cette chanson 
telle qu'il l'a rétabiie, et Térudit à chaque ligne fle 
rintroduction historique dont il Vsl fait preceder. 
Jamais en n'a mieux prouve que dana cette pitláce 



ROSALIMDA '73 

savante, les rappoilji poéliqa<*8 qui existòrent au 
oioyea-âge entre ies races da midi et celles du nort. 
Oii M. Garrett trpuve-t-il, en e0et, le premiar germe 
de la poétique image qui couronne ia baliade portn- 
gaise? Dans les cbants écossais, dans la romance du 
Frínce Robert, lelle que la traditioii oralc Tavait 
transmise a Walter-Scott pour son Minstrelsy of the 
i<x)itídi border etc. *; ou bien encore dans cette fa- 
meuse histoíre de Tristam et de la beile Iseult, par 
Rnsticíen de Pulse, dont il cite, d^aprèsWalter-Scott, 
de trop courts fragments . . . 

Ces détaiis miraculeux de rhistoire d'I^eult se re- 
tronrent dans les demières strophes de la Rosalinda^. 
Oa le verra, du reste, par la traduclion coínplèle que 
Qous en avons tentée. Elle est en vers soovent inélé- 
gants et mal rimes, mais exacts, je crois, et serrant 
du plus prés qu'il est possible la strophe portugaise, 
bieo que dans un rbytbme différent. Pour nous ex- 
cnser des rimes insoflãsantes et des mots vieillis, nous 
diroos que s'il8 sont de mifle quelque paarêy c'est dans 
OD cbant popalaire^ etneus aMógneron^/ à qui ne 
nous le pardonnerait pas, Tentbousiasme du morosa 
Aloeste pour cette vieille eksiMon du roi*Henri, qui 
cependant est pleine ée ce» ra^iB» déftnfts. Ce qu'il 
dit pour les excuser devra nota jtií/tffiiãfr nbus-môme, 
et e'eBl Tun des vers que Molière fuipfétè que nous 
serrira d'épigrapbe. 



' Vid. sDte, pag. 161 d'este i do tomo do romã cnno. 

* Tíd, ibid. ; e tomo n do iiniSTEBLSY eir. 'dé^ln W> SMIl. 



ROBAUHDA 



BAixAftB romnjCAiêK 



La rioM n'eil pu ricbe M Ia itjk cn tst «Ites > 
Mouku, MiiãfUhrcpt, 



CéUil Qn Dialin de mai, 
Qilaod roiíeta dans la noée, 
L*arbre aa boii, la fleor ao pré, 
Chantent Famoor réTcilléc. 

Céiait nu malin de mai, 
Qnand Roealinda riofimte 
Sor le rirage embanmé 
Peígnait sa tA(e charmante. 

Blanches fienrs ou lai portait, 
Roof et flenit avee leor bnuiebe : 
Mais en gráee elle paisait 
Et la fleor rooge et la blanche. 

Ififlox que celle des épis, 
Mieox qoe la rose ooavelle, 
Le nAiapbar et le lis 
La belle infante était belle. 

Le comte amiral passait 

Atbc sa gaMre sombre 

Mainte rame b*7 pressait 

TtDt, qa'oB n'cn sait pas le nombre. 



I mupewliUtdDeltei 



B08ALI1VDA ^75 



Le8 capU/i sat Boin noieors 
II las prít ao pays More. 
Tons, tU Mmt de grands leignenri, 
Oa dn saaf royal eocore. 



Geota, pas no port 
(N na ndoate la guerra 
Qnand le oomte amiral sort 
Avee sa ootre galère. 

Vojezy comme elle feod Teao, 
Gomme ou y rame em mesure I 
Que lOD capitaioe est bean. 
Que sa maia est forte et súrel 

• 'Dites moi, comte amirai, 
Pour oes eaptift, rotre príse, 
Ltlalieor^est-il^galf 
Rament-ils toos^ soas la brísef 

—'Voos qoe je toU se ndrar, 
Belle infante, fleor d'éUte,. 
Savaslrfls, toos voos parer 
Ces esclares, Totre soiteT 

— ' L^amíral est peo galant, 
Poor ráponse one demande 1 
Qa'il parbs il se peot poortant 
Qoe sa repouse on loi rende.' 

— ' Ainsi qa'0D chef d^Adooar, 
Xai bien des captifs, madame. 
Do traTail toos ont leor part, 
L'an manceOTre et Taotre rame. 




176 HOitftncKmo 

'Lcs caplÍTei aa bean front 
Daosent, effeaillant la roM, 
Et de fleors joochent le pont, 
Poor qoe lear mattre j r^KMe. 

— * VoQs repondes, je roos dois 
Gomte, égale politesae: 

Tzi, dociles á ma voix, 
Esclares de toate espèce. 

'L'im est là pour m'atoanier 
Et oet autre me fait braye (belle). 
Un emploi reste à doiuier, 
Oà manque eocor on esdate . . . 

— * Cet esclave il est troará, 
U défend qQ'on le Ubère ; 

II ne veat qu'ètre arrife, 
Ramez vite, allón^ à tèrref 

EtRosalindapartit: 
Et le comle est aviM ell<r, 
Les fleors lear prètetatoiilít, 
L'oraDger sa Terte omlMlle. 

Mais le sort, —c^est lá sa loi— 
Ne Teut qa'an binisans mal 
Là, passe ao xrnno» ãú fOi% . . 
Cest ce dostin qai ratiiède. 

— * De iont ce tpil tu tIs là, 
Ne conte rien h pmoiÉ i», 
Veneor, on te doimera 
De for à picjrer im tMnib.' 



muRkuamk t77 



Mais ceqaele imtnr Mit. 
Prés do roi Títe ii i'en TSBte, 
Qoi dana soo palaif átait, 
Et qoi pensait à riofiuite. 

~ *En hoimeor dii chaqoc nioC 
Ta recerras recompense 
Mais qoi dlt baiit, ira hMt, 
Cett-à-dire à Ia potence.' 

'Vite, archers, vite elatrOBS, 
SoniKx, coiDBie pmir eombatlM, 
Nobles, caraliers, piétoM 
Yíte, alIoDS Ia forèt batlre.' 

Midi n'áiait pas frappé 
Que vmne un glas mortuaire, 
Minnit n'avait pas tinte 
Qoe lenr tête éCait par terre. 

Qnand TAngelos not après 
Dans lear fosse oa les emporte, 
EUe aa maitre-aolal, lai prés 
Das marciíes de la graod' porte. 

Yoilà qii'ao premier tombean 
Nait on noble et pníssant aii>re, 
Qaand nn rosier grand et bean 
Potuse anprès da seoond maibre. 

~ ' Ça qii*on les lie cn fagot 
Ponr en fure de la oeodre/ 
Cria le vieaz roi, sitdt 
Qoe la cbose il pat apprendre. 



178 BOMÀNGBIBO 

Mais OD eot bean tos nur, 
Ghacon à ]'enTÍ rapooiae; 
Même, ili lombleot se baiwr 
SoDi Ia bise qni les pooiíe. 

Au roi ron a révélé 
Gette aTntiire inooie. 
DeiNiis, il n*a pias parU; 
La rrine est évanod. 



D'eU6 OD a pa reteoir 

Ges mots : 'Je ne niii pliu reinei 

Diea Toolaii let rémiir, 

Nooi avona itMqNi tour ebalner 



vn 



xnuaAU 



j 



HiRAGAiA ; só agora porém vai restituída ao: 
SM émido ki^ a'òal& pfHDeim) Uwa do 
MMtfGBiMu P«i)lj«our0e pmaciiiraíQeQta no> 
'towldaâ BeUll$'«H88^' foi logO'^rtitdo em 
iQfieE Dio sai p«r (QueiDi e não me JMitoai 
em 4iue^Qblíca(3o flpjPBireceUk nemiOiAcho.. 

toiàímxHiiem Flqanocv&iiia cimioso.'; 6iqOo 
mê metto a appmciar a que elle modasta- 
naote chama 'imitaçãa' do meu rwoaiíee; 
doiha em app^Ddice*. 

Tnsbem sei qoei^xtste uma versão caale^ 
lhana pelo Sr. Isidqro/Gii» q mesmo que»n'e8se 
idúmia tnvliiura OnBsbnal-^ramgez. Grelo 
que se publicou em om jornal de Madrid^ 
mas não a vi mmcab 



*]lr. Zaoole que foi depois, em I84S-1849, addido á legação 



i^ ROlfANCBIRO 

Eu, qoando dei esta bagatelia aos Srs. edi- 
tores do 'Joroal das Belias-artes' para enche- 
rem algum y3o que lhes sobrasse D'aquella 
soa linda e elegante pubUca^o» escrevi, a um 
canto do próprio rascunho original que n3o 
tive paciência de copiar, as seguintes pa- 
lavras: 

'Este romance é a verdadeira reconstrução 
de um monum^to antigo. Algumas coplas 
s3o teitualmente conservadas da tradiçlo 
pc^ular» e se cantam no meio da historia 're- 
zada' ainda hoje repetUda por velhas e bar- 
beiros do logar. O conde D. Pedro e os chro- 
nístas velhos também fabulam cada um a seu 
modo sAbre a legenda. O auctor, ou, mais 
exactamente, o recopilador, seguiu muito 
pontualmente a narrativa oral do povo, e sdbre 
tudo quiz ser fiel ao stylo, modos e tom de 
contar e cantar d*elle ; sem o qoé, é sua ínti- 
ma persuasão que se nSo pôde restituir a per- 
dida nacionalidade á nossa litteratura.' 

O postscriptum, servindo de nota ao com- 
mento, sahiu impresso no referido jornal» e 
foi ampliado com algumas observações por 



eHieBio UsoQgnrad éos Srs. editores» a qimi 
mmto desejei auxiliar como elles mereoim 
per s» grâtH ioiprôza, que era a anis bella 
e das mais «Ms gM 'be teentonniMMidtfeii 
FcrtQgil. 

D0fo ao sev fetor, >ii9o só o tereoi adornir 
áo a minha iiiiia8aia eom as lindas gravuras 
em madmra que toáos admiraram, mas o per- 
flBiíltiram que se fisesse com eltas a pequena 
ediQ3o em separado com que quiz brindar 
alguns amigas, apaixonadas, como eu, de 
nossas aBlignrihas populares. 

Era mna foRia avulsa do meu noM angemo, 
e n*^le vai reposta agora que se oflfereoe 
tempo e logar cenfveniente. 

Foi das primeiras coisas d'este género em 
que trabaibei : e é a mais antiga reminiscência 
de poesia popular que me ficou da infância, 
porqaeenabrroeolhosáprimeira luz da razão 
nos próprios silfos em que se passam as prínci- 
paea seetiaa d'e9te romance. Dos cinco aos dez 
annoe de edède vtvi com meus pães n'uma 
pequena quinta, dmmaãa 'O dastello' que ti- 
nbaaios áquem Doif o, e que se diz tirar esse 

VOL. I. u 



^ BOMAHGBBO 

nome das ruinas qae alli jazem do castello 
mourisco. 

Na ermida da quinta se venerava uma ima- 
gem antiquissima de Nossa-Senbora com a 
mesma invocaçSo ' do Castello/ e com a sua 
legenda popular também, segundo o costume. 

Com os olhos tapados eu ím ainda boje 
achar todos esses sítios mareados pela tradi* 
ç3o. Moita vez brinquei na fonte do rei Ra- 
miro, cuja agua é deliciosa comefeíto; e te- 
nho idea de me ter custado caro, outra vez, 
o imitar, com uma gaita da feira de San'Mi- 
guel, os toques da bozína de S. M. Leoneza, 
impoleirando-me, como elle, n'um resto de 
muralha velha do castello d'elrei Alboazar: o 
que meu pae desapprovou com tam signifi- 
cante enei^ia, que ainda hoje me lembra 
também. 

Assim ólbo para esta pobre mibagaia como 
para um brinco meu de criança que me ap- 
parecesse agora; e quwo-lhe— que mal ha 
u'isso?— quero-lhe como a tal. N3o a julguem 
também por mais, que o nlo vale. 

Lisboa, S4 de Janeiro 1847. 




MIEAGAIA 



CANTIGA PRIMEIRA 



Noite escara tam fonmMay 

Linda noite sem loar, 
As tuas estrellas de oiro 

Quem n*as poderá contar t 

Quantas folhas ha no bosqae. 
Areias (joantas no mar?... 

Em tantas lettras se escreve 
O que Deas mandou guardar. 

Mas guai do homem que se fia 
N'essas lettras dedphnrt 

Que a ler no livro de Deus 
Nem anjo pôde atinar. 



íM romanceiro 

Bem ledo está Dom Ramiro 
Com sua dama a folgar; 

Um perro bruxo judio 
Foi causa de elle a roubar. 

Disse-lhe que pelos astros 
Bem lhe podia afflrmar 

Que Zahara, a flor da belleza, 
Lhe deviar á9 ttear. • 

E o rei veio de cilada 
D'além do Doiro passar, 

E furtou a U&da moira, 
A irman d'Alboazar. 

A Milhor, que á .tarra sua 
E está na beina do mar, 

Se acolheu eom sua dama. . . 
Do mais não sabe euidar. 

Chora a< Cristo da rainba. 
Não se pódfiooasoiar; 

Deixá-la por essa moira, 
Deixaria com tal dezar ! 

« E a noil^ ó.66Cttra tefrada, 

Noite ocKiia »em luar. . . 
Eila sósinba ak) balcão 
Assim se estava a qaeixar: 



MIRAGAIA ^ 



—'Rei Ramiro, rei Ramiro, 
Rei de muito mau penr, 

Em qae te errei d'alma oq eorpo, 
Qae fiz para tal penar? 

'Diz qae é formosa essa moira, 
Qae te soobe ioféitiçu'... 

Mas ta dizias-oie d'antee 
Qae ea era bella sem par. 

'Qae é moça, na flor da vida. . . 

Ea, se ainda bem sei oonlar,* 
Ha três qae tinha vinte anãos, 

Fi-los depois de easar. 

'Diz qae tem os oUms pretos, 
D*estes qae sabem mandar. . . 

Os meãs são azoes, coitados t 
Não sabem senão ehorar. 

'Zahara, qoe é flor, ibe cbamam, 
A mim, Gaia. . . Que aeertar 1 

Ea fiqaei sem alegria, 
Eila a flor lâo loma a aebar. 

' Oh t quem podéra ser homem. 
Vestir amas, cwalgmr, 

Qae ea me fora ja direita 
A esse moírv AH)00zar...* 



"^ BOBIANGBIRO 

Palavras nao eram dittas, 
Os olhos foi a abaixar. 

Muitos vultos acercados 
Ao palácio viu estar; 

— Teronella, Peronella, 
Criada do meu mandar, 

Que vultos serão aquelles 
Que por alli vejo andar?* 

Peronella nào responde; 

Que havia de elia fallar ? 
Ricas peitas de oiro e jóias 

A tmham feito callar. 

A rainha que se erguia 
Por sua gente a bradar, 

Setto moiros cavalleiros 
A foram logo cercar; 

Soltam pregas de um turbante, 
A bôcca lhe vao tapar : 

Três a tomaram nos braços. . . 
Nem mais um ai pôde dar. 

Criados da sua casa 

Nenhum veio a seu chamar; 
Ou peitados ou captivos 

Não n*a podem resgatar. 



MIBAGAU 

Sâo sette os moiros qae entranm 
Sette os estio a aguardar; 

Nao CaJlam nem ons nem oatros. . . 
E prestes a cavalgar! 

Só um, qae de ar^ a toma, 
Pareee aos oatros mandar... 

JoBctos Janctos» eertos eertos, 
Galopa a bom galopar! 

Toda a noite, toda a noite 
Yio Qorrendo sem cessar, 

Pek» montes trote largo, 
Por yalles a desfilar. 

Nos ribeiros— peilo n*agaa, 
Gtoípe, cbape, a iradear! 

Nas delíMas dos vallados 
Upl salto— e a galgar! 

Yaí o dia alYorocendo, 

Estio á beira do mar, 
Que rio é este tam íando 

Qae n'elle vem desaguar? 

A bôcca ja tinha livre, 

Mas nio acerta a fállar 
A paanada da rainha. . . 

Calda ainda de sonhar! 



iS» 



<9^ ROMANCEIRO 

Gozeram-se com a terra, 
Lá se. foram incostar ; 

Entre 06 ramos dos salgueiros 
Mal se podem divisar. 

Um homem saltoa na praia: 
Onde irá n'aqaelle andar? 

Leva bordio e esclanna, 
Nas contas yai a rezar. 

Inda a névoa tolda o rio, 
O sol ja vem a rasgar, 

Pela incosta do castelio 
Yai om romeiro a cantar : 

— 'Sanctiago de Gallisa, 
Longe flea o vosso altar : 

Peregrino qoe lá ehegae 
Nao sabe se ha de voltar.* 

Na ineosta do castelio 
Uma fonte está a manar; 

Donzella qne está na fonte 
Pôs-se o romeiro a escutar. 

A donzella está na fonte, 
A Jarra cheia a deitar: 

— 'Bemditto sejais, romeiro, 
E o vosso doce cantar! 



lOIUGálA m 



'Por estas terras de moiros 
É maravilha de aiar, 

Oavir caiiti|[as Um saneias, 
Cantigas do mea eriar. 

'Sette padres as cantavam 
Á roda de um bento altar; 

Cairos sette re^Kxadiam 
No coro do salmear, 

'Entre véspera e oompletae, 

E os sinos a repicar. 
Aí triste da minha vida 

Qae os nao oiço já tocari 

'E as rezas doestes moiros 
Ao demo as qojjsera eu dar/ 

Ouvireis ora o romeiro 
Resposta que lhe foi dar: 

— 'Deos vos mantenlú, donzelia, 
E o vosso cortez faltar : 

Por estas terras de moiros 
Qn^n tal soubera de achari 

'Fòr vossa tençio^ donzella, 

Uma reza heide rezar 
Aqui aopé d*esta fonte» 

Que não posso mais andar. 



Ohi qae fimea está a fonte, 
Oh! qae aâde de mattari 

Que Deus vos sal^, dameUa» 
Se aqai me daíxais sentar.' 

— 'Sente-se e bom do romeiro^ 
Assente^S' a éMoaniar. 

Fresca é a fontfi^ doce a agua. 
Tem virtade smgidar : 

D*oatra nio bsèo a rainha 

Qae aqai m^araanda bmcar 
Por manbanziíAa hem eôdo, 
Antes do o>iolafaeotar.* 

—'Doce agua deve de sor, 

De viFtttde singular: 
Dae-me vós uma vez d*eUa, 

Qae me foevooowoUir.* 

— 'Belia o peregrino, beba 

Por ósto fome real, 
Cântara dei>Ma vifgen. 

Tem mais valor que oiro tal.' 

— ^Dona Gaia qae dif ia, 

Qae Caria Aiboasar* 
Se visse o pobreremeiro 

Beber da fonte realt. / 



— 'Inda era noite feehada 
Meu senhor foi a eaçar: 

Hans jarardos o âotenbam, 
Que é bem mim de aturarl 



'Ifinba senhora^ 

Essa não tem qae faUar: 
Qnem ja teve fostes de ouro 

Prata nio sabe Miar/ 

—'Pois nm reeado, donieUat 
Agora lhe heisde levar; 

Qae o romeiro ohríscao. 
Lhe desQa de fáliar. 

'Da parte de nm que éja morto, 
Qae morrea por sen pezar, 

Qae á hora de sva morte 
Este aaoel lhe qniz mandar.* 

Tiroa o annei do dedo 
E na jarra o foi deitar: 

— 'Qaando eUa beber da agua 
No annel iiade attentar.' 

Foi-se d'aHi a donEeUa, 

Ia morta por Jállar... 
— *Anda ca, ó Peroaelia, 

Criada de maa mandar. 



^^ ROMAJiCnRO 

'Taa ama morrendo à sede 
E tu na fonte a folgar?* 
~ 'Folgar uao folguei, senhora, 
mas deixeí*me adormentar, 

' Que a moira vida que en levo 
Ja não n'a posso aturar. 

Ai terra da minha terra, 
Ai Miihor da beira-mart 

'Aquella sim que era vida, 
Aquillo que era folgar t 

E em saneto temor de Deus : 
Não aqui n*este peccar f * 

—'Cal- te, cal-te, Peronella, 
Não me queiras attentar; 

Que eu a viver entre moiros 
Me não vim por meu gostar. 

'Mas ja tenho perdoado 
A quem lá me foi roubar; 

Que antes escrava contente, 
Do que rainha a chorar. 

' Porte christandade aquella, 
Bom era aquelle reinar f 

Viver só, desamparada, 
Ver a moira em meu logarf . / 



MIRAOAU <^ 



Lembrava-lhe a sua ofiènsa» 
Está-lbe o sangue a queimar: 

Xa agoa fria da fonte 
A sede quiz ajMigar. 

A fonte de prata virgem, 

A bôcca foi a levar, 
As riccas pedras do aonei 

No Aindo viu a brilhar. 

—'Jesus seja eo'a minha alma! 

Feitiços me querem dar. . . 
O fogo a arder dentro n*aguay 

E ella fria de nevarl' 

— 'Senhora, comesses feitiços 
Me tomara eu imbruxar f 

Foi um b«mditto romeiro 
Que á fonte foi inecmtrar, 

'Que ahi deitou esse annel 

Para prova singular 
De um recado que vos trouxe, 

Com que muito beisde folgar.' 

— ' Veoha ja esse romeiro 
Que lhe quero ja íállar : 

Embaixador deve ser 
Quem traz presente real ' 



GANTIQA THSRafiJIHA 



>— 'Por Deus yos «digo, ronielro 
Que vos qaeirais levMilar; 

Minhas mios não Ão reliquiasy 
Basta de tanto bejarl* 

O romeiro nio se erguia, 
As mâôs não Aie qoer largar: 

Os bejos uns sobre os oalros, 
Que t^ra um nonoa acabar. 

Ia a infadar-^se a rainha, 
Viu que entrava a soluçar, 

E as iagrymas, quatro e quatro, 
Nas nâOB sentia roiiar : 

— ' Que tem o bom do romeiro, 
Que lhe dá tanto pezar ? 

Diga-me las suas penas 
Se lb'as posso alHviar.* 



1IIRA6AIA ^M 

—'Minhas penas nao são minhas. 
Que aos mortos morre o penar; 

Mas a vida que ea perdi 
Em vós podia incontrar. 

'Minhas penas nao sao minhas, 

Senão vossas, mal pezari 
Qae uma rainha chrlstan 

Feita moira vim achar...' 

—'Romeiro, não tomeis cuita 
Por quem se não quer cuitar : 

Do que fui ja me não lembro, 
O que sou não me é dezar. 

'Deus terá dó da minha alma, 

Que meu não foi o peccar; 
E a esse traidor Ramiro 

Ás contas lhe hade tomar.' 

—'Pois não espereis, senhora, 

Por Deus, que pode tardar: 
Dom Ramiro aqui o tendes, 

Mandae-o ja castigar.' 

Em pé está Dom Ramiro, 

ia nao ha que disfarçar: 
Aquellas barbas tam brancas 

Cahiram de um impuxar. 

TOL.I. 15 



VO ROMANCEinO 

O bordio e a esciavíDa 

A terra foram parar; 
Não ha ver mais gentilezas 

De meneio e de trajar. 

Qaem viu olhos como aqaelles 
Com que o eila está a mirari 

Quem passou ja transes d'ahna 
Como ella está a passar? 

Um tremor qae nao é medo, 

Um sorriso de inflar, 
Vergonha que nâo é pejo, 

Faces que ardem sem corar... 

Tudo isso tem no semblante, 
Tudo lhe está a assomar 

Como ondas que vao e vêem 
Na travessia do mar. 

A vingança é o praser do homem,. 

Da mulher é o seu manjar : 
Assim perdoa elle e vive, 

Ella não— que era acabar. 

Yingar-se foi o primenx^ 
E o derradeiro pensar 

Que entre tantos pensamentos, 
Em Gaia estão a pnllar : 



MiltAGAU 904 



Logo depois a vaidade, 

O gosto de triíimphar 
N*am coração que foi seu, 

Que seu lhe torna a voltar. 

£ o rei moiro estava looge 
Cos seus Qo moQte a caçar, 

Ella só n'aquella torre... 
Prudência e dissimular! 

Abre a bôcca a um sorriso 
Doce e triste — de mattart 

Tempera a eliamma dos olhos, 
Abaíá-a por mais queimar. 

Pôs na Toz aquelle ioeanto 
Que, ott minta ou não, é fatal; 

£ com o inferno no seio. 
Palia o eeo no seu íallar. 

ia os amaiigos queixumes 
Se imbrandecem no eborar, 

E em sua própria justiça 
Com arte finge afilrouxar. 

Protesta a bdeca a verdade: 
—'Que não bade perdoar...' 

Mas a verdade dos lábios 
Os olhos querem negar. 



j. 



102 ROMANCEIRO 

De joelhos Dom Ramiro 
Alli se estava a hamilhar» 

Supplíca, roga, promette... 
Elia parece hesitar. 

Senão quando, uma bozina 
Se ouviu ao longe tocar... 

A rainha mal podia 
O seu prazer disfarçar: 

— -* Escondei- vos, Dom Ramiro, 
Que é chegado Alboazar, 

Depressa n*este aposento... 
Ou ja me vereis mattar.* 

Mal a chave deu três voltas, 
Na manga a foi resguardar; 

Mal tirou a mão da cotia, 
Que o rei moiro vinha a entrar: 

—'Tristes novas, minha Gaia, 
Novas de muito pezar! 

Primeira vez em três annos 
Que me succede este azar! ... 

'Toquei a minha bozina 
As portas, antes de entrar, 

E não correste ás ameias 
Para me ver e saudar! 



MIRAGAIA 

'Maito mal fizeste, amiga. 
Em tam mal me costumar; 

Nao sei agora o que fazes 
Em me qaerer emendar...* 

No coração da rainha 

Batalha se estão a dar 
Os mais estranhos affectos 

Que nunca se hSode ineontrar: 

O que foi, o que é agora... 

E a ambição de reinar... 
O amor que tem ao moiro, 

E o gosto de se vingar... 

Venceu amor e vingança: 

Deviam de tríumpbar, 
Que era em peito de mulher 

Que a batalha se foi dar* 

'Novas tenho e grandes novas, 

Amigo para vos dar: 
Tomae esta chave e-abride. 

Vereis se são de pezar.' 

Com que ância elle abriu a porta. 
Vista que foi encontrar!.. 

Palavras que alli disseram. 
Não n'as saberei contar: 



SQ3 



^^ ROMANCBIRO 

Que foi um bramir de ventos> 
Um bater d^agaas no mar, 

Um confundir ceo e terra, 
Querer-se o mundo aeabar. 

Vereis poríim o rei moiro 
Que sentença veio a dar: 

—'Perdeste a honra, ebrietao; 
Vida, quero-t*a deixar. 

'De uma vez, qne me roubaste. 
Muito bem me âz pagar: 

Doesta basta-roe a vergonha 
Para de ti mè vingar.' 

Sentia-se eirei Ramiro 

Do despeito devorar; 
Com ar conCricto e aflitgido 

Assim lhe foi* a faliar: 

—'Grandes foram meus peccadoa^ 

Poderoso Alboazar; 
E taes que a mercê da vida 

De ti não posso acceitar: 

*Eu itto vim a teu easbe^lo 
Senão só por me intregar. 

Para receba a morte 
Que tu me quizeres dar: 



BHBAGAU M 



H}Qe assim me foi ordenado 
Para mtaka alma salvar 

Por nm saneto eoníessor 
A quem me fui confessar. 

'£ mais me disse e mandou, 
E assim t'o quero rogar, 

Qae, pois foi piibliea a oífansa. 
Público seja o penar: 

'Que abi n*essa praça d^armas 
Tua gente Caças junclar; 

Abi deanie de Mm 
A vida qvete acabar 

'Tangendo n*esta bozina, 
Tangendo até rebentar; 

Que digam todos que isto virem, 
£ Ibes fique de alembrar: 

■ Grande foi o seu peccado, 
No mundo andou a soar; 

Mas a sua penitencia 
Mais alto som veio a dar. > 

Quizera-lbe o bom do moiro 
Por força alli perdoar; 

Mas se a perra da rainha 
Jurou de á morte o levar! ... 



^Oà ROUANGBIRO 

Yeis na praça do castello, 
Toda a moirama a ajunctar; 

Em pé no meio da turba 
Ramiro se foi alçar. 

Tange que lhe tangerás, 
Toca rijo a bom tocar; 

Por muitas léguas á roda 
Reboava o bozinar. 

Se o ouTiiio nas galés 
Que deixou a beira-mar? 

Decerto ouviram, que um grito 
Tremendo se ouve soar... 



CANTIGA QUARTA 



— 'Sanctíagol.. Cem, eerraf 
Sanetiago, e a mattar!' 

Abertas estão as portas 
Da torre de par em par. 

Nem atalaias nos mnros, 
Nem roídas para as velar... 

Os moiros despercebidos 
Seatem-se logo apertar 

De um tropel de leonezea 
Ja portas a dentro a entrar. 

Deixa a bozína Ramiro, 
Mio á espada foi lançar. 

E de am s6 golpe fendente, 
Sem mais pôr nem mais tirar. 

Parte a cabeça até aos peitos 
Ao rei moiro Alboazar... 



208 BOMANXEmO 

Ja tudo é morto ou captivo, 
Ja o castello está a queimar; 

As galés com seu despojo 
Se foram logo a imbarcar. 

—Toga, rema! d'além Doiro 
Á pressa, á pressa a passar. 

Que ja oiço alU na praia 
Cavallos a relinchar. 

'Bandeiras »» 4e L^o 
Que lá vejo tremular. 

Yoga, voga, que além Doiro 
É terra nossa!... A remarl 

'D*aqui é moirana cerrada 
Até Ck)imbra e Ttioroar. 

Voga, rema, e â'alâm Doiro I 
D'aquem mo ha cpie fiar.* 

Á poppa vai Dom Ramiro 

De sua galé real. 
Leva a rainha á direita, 

Como quem a quer honrar: 

Ella, muda, os olhos baixos 
Leva n'agaa... sem olhar, 

E como qaera de outras vistas 
Se quer só desaífrontar. 



MIBA6À1Á 909 



On Dom Ramiro fiogia 

Oa não Tem nisso a atlentar; 
Ja vâo a meia eorrente. 

Sem um para o outro fallar. 

Ainda arde, inda famega 
O alcaçar de Alboaiar; 

Caia alevantou os oilios. 
Triste se pôs a mirar; 

As lagrymas^ uma e una, 
Lbe estavam a desfiar. 
Ao longo, longo das faees 
€orrem... sem alia as diorar. 

Olhou elreí para Gaia, 
Nao se pôde mais caUar; 

•Goidava e tan do mando 
Que era remorso e pezar 

Do mau termo atraiçoado 
Qae eom elle fòra usar 

^mmdo o intregou ao moiro 
Tam só para se vingar. 

Com a voz inlemecida 
Assim lbe foi a íailar 
—'Que tens. Gaia... míaha Gaia? 
Ora poisl não mais dierar, 



lio ROMANCEIRO 

'Que o feito é feito. . .'— 'E bem feito I* 
Tornou-lhe ella a soluçar, 

Rompendo agora n*uns prantos 
Que parecia estalar; 

'£ bem feito, rei Ramiro! 

Valente acção de pasmar I 
Á lei de bom cavalleiro, 

Para de um rei se contarl 

'Á falsa fé o mattaste... 

Quem a vida te quiz dart 
Á traição... que d'outro modo» 

Nao es homem para taL 

'Mattaste o mais bello moiro, 
Mais gentil, mais para amar 

Que entre moiros e christãos 
Nunca mais nao terá par. 

Perguntas-me porque chérol.. 

Traidor rei, que heide eu chorar? 
Que o não tenho nos meus braços, 

Que a teu poder vim parar. 

< Perguntas-me o que núrol 
Traidor rei, que heide eu mirar? 

As torres d'aquelle alcaçar. 
Que ainda estão a fumegar. 



MIRAGAIA ^* 



'Se eu fui allí tam ditosa, 
Se alli soube o que era amar, 

Se alli me fica alma e vida... 
Traidor rei, que heide eu mirar t* 

—'Pois mira. Gatai' E, dizendo, 

Da espada foi arrancar: 
'Jtftra^ Gaia, que esses olhos 

Nao terão mais que mirar.' 

Foi-Ihe a cabeça de um talho; 

E com o pé, sem olhar, 
Borda fora impuxa o corpo... 

O Doiro que os leve ao mar. 

Do estranho caso inda agora 

Memoria está a durar : 
Gaia é o nome do casteilo 

Que alli Gaia fez queimar; 

E d*além Doiro, essa praia 
Onde o barco ia a aproar 

Quando bradou— 'Mira, Gaia!' 
O rei que a vai degollar, 

Ainda hoje está dizendo 

Na tradição popular, 
Que o nome tem— -iiiítAGAiA 

D*aquelle fatal mirar. 



^' ROMANCEIRO 

I 

Nuit sooibre, mais si belic encor I 
Belle nuit, à lra\ers ton ombre, 
Ob ! qui de les étoiles J*or 
Poorra jamais oomptcr le nombro? 

Gompl»-t'oD Ics feoilles da bois? 
Ga de la mer les gnins des sables t 
De l'Etenicl telle cst la roíz 
Écrite en lettres ianombrables. 

Hélas I dros oe Kfi« dfrin 
Nul ne peot espérer de lire i 
Un aiige ressaierail en vain; 
Soa saroir nj pourrait sui&rc. 

Dom Ramiro, dans soo palais 
Virail heoraux aree b reino, 
Uo juif maudit troobla lear país 
El brisa leor tant doooe chaliM. 

II prédit aa roi, trop flatló 
Du beaa destin qa'oD lai déroilei 
Qae Zabart, fleur de beaaté 
Serait à Ini I . . . c'e8t SOD étoUe ( 

Le roi, qoe Tamoar tieat aa cosor, 
Va, pleio da fea qoi le dé>ore, 
D'Alboaur rarir la scsor 
Et fait arec la belle Mure. 



MIRAGAIA ^^ 



À Ifilhor, lieii rentpli daUraiU, 
Donl la iner hsdpie les rívain*^, 
Tons d«oi saiM iaucís, taa& n^relf 
Patiaioit Icivs jour* aempis d'oragrs. 

La iciae àe m eoop affreaz 
Géaút et picara et pteure eneoffo: 
Trahir aioii sct chastes feos I 
La délaistrr poar une Maoro t 

Triste et rènoãt, k sob bakQD, 
Seule» doraot la nuit obaewe, 
Victime d'tm Uehe abandon 
EUe soeeooibe à M Uenore : 

~'Roí Ramifel perfide roi, 
Poorquoime caiueroettapeíM? 
Moo ccear a-t'U trabí sa foi? 
Je faimaú tantl . . . poorqooi ta haiua? 

' On dil qQ'e]le a qoelqaes attnils 
Cette Maare, cette iaflOèle ; 
Tq m*as poortaot, qoaod la m'aiiDaii, 
Dit eent fois qiie j'étais plu beUa. 



'Oodit qa'elleaBiille 
Qii*elle est jeone, à la flenr da ráge. 
Moi, j'ai eompté ringt trais prialemps 
Après num triste mariage. 

'Ses jeu aont aoin I oe sool dat yeuz 
SI beaaz, si Hera, si pleiaa do chamesl 
Hélas I las miena ne soDt que blons • . • 
Et paia toojoannoipUade lamet I 



J 



914 ROMANCBraO 

*0n nomme Zahara U Fleur, , . 
Gaia c'est le nom qo'on me doune ! 
Gaia j'^ttii daDs moo booheor; 
Ploi ne le rais -* Too m'abaiidoiiDe ! 



* Oh I qae ne sals-Je on homme, héUt t 
Dans le tnniport qai me devore, 
J'irais rooUmèmo de ce pas 
TroDver Alboaiar le more.* 

Elle achevait oes moU : Miidaiii 
Toarnaot ses regards vers la terre 
Elle aperçoit dans le lointain 
Des cbevaux, dos hommos de gnerre. 

— • PeroneUe, rois-to là*bai 

Ces armes qaí bríllenl dans Tombre t 

Regarde. . . oe soni des soldais ; 

D'oò TieoDcot-ils ? qucl csl loar nombre 1 

La suivante, d'oo air surpris 
Parail écouler ce langage ; 
Des joyaax, des bijoux de príx 
Do son silenee éUient le gage. 

Ou sont ses aotres seniteursT 
En vain la reioe les appelle 
Sept cavaliers, malgré ses pleors, 
Bientdt se sont empares d'elle. 

De leors tarbans les plis soyeu 
Blindent ses yenx, fermeot sa boache ; 
Et irois dans lenrs bras vigoorenx 
La soulèvent d'uB air foroache. 



MUUâAU UA 



Os Mot entre* sept ao paiAii; 

Sept aatrca en seotiiielle. 

Pas DO DMt. . . tODs MmbieDt imieU« • • 

Et fil« en sellel . . . ils soot «o Mlle 1 

Co seol parait los eonunaoiler: 
Sor ioa conreier il tieol U nloè. . • 
—'ADons!' dit-íl 'il faotmardierr 
ToQâ ao galop feodeni la piam». 

Poiot de r^it, poiot de repoi» 
C3iaam stimole sa moolwe. 
lia coureat par mooU et par vãos, 
Dt eoareot taot que Ia ooit dnre. 

Daoj les t«mgta, poilrail daot Taaa 
—'A foé,' marclMMM I qoo Too avancei 
Ailleon, sor les fliae» d'an cdlcoo: 
— Eoap l en avant | que Voa Relance 1 

Le joor se lère radíeoi, 

Us soot prés de la mer profonde, 

Qoel est ce fleoTe sioneox ? 

Qoi ?ient «'eogooífrer dans soo onde? 

La Rine otnre ces yeoz enfio, 
Sa boDche est libre, elle respira : 
Las! elle sooge à soo deslin 
Et toot bas trísteoieot soapire. 

— ' Donro, fleave aox perfideB eau, 
Qm de daogers sèoies ta coorse, 
Ne veox-to donc pas do les flots. 
Me révéler qoelie est la sooreef 
TOL. I. 10 



i 



^< ROMAIIGSIBO 

* Je te diraí par qnel 100780 
Gette perle esl eo ma paissaoee : 
k qui in'a dérobé non bieo 
Xai dérobé mo eipéranee. 

'Cosi le sori qui le veol anui; 
Tool soii cette-peote lécrète. 
Par les eaox da torraot grosti, 
Le fleove daos la mor se jeiie. 

Aínsi chaotait le ransMor, 
Et Gaia lécootait sans balne. 
Bieotôt de too heoroox Tainqoeor, 
Gaia, to porterai la ehatoe. 

— * Mais qoo fMii oes barqoet sor Toao?* 
— ' EUes Tieooeot cbercher la reâoe. * 
— ' Qoel est ce soperbe cbftloao?' 
» ' D* Alboazar c'est le dooiaioe. ' 



Roi Ramiro, roi malheoreox, 
Á ta oaissanoe oo noir géoie 
Ta jetté qoelqoe sort IScheox 
Qoi deToit toormeoter ta vie. 

Peo satisíiiit de ce qQ'íl a, 
X d'aDtres bieos too crnor aspire. 
Ta fleor de beaoté, Zohara, 
Sor toi n'oxeroe pios d'empirei 



MIRAGAIA *A7 



La reine qii*OD t'a to efaérir 
El qni par toi ftit délasaée. . . 
Ta TMix aa more Ia ra?ir; 
Ceit là maintenant la peniée. 

QoBlIe eti O0tte barque qoi ftiit, 
Bt do Dooro va fendaoi Foiídet 
Le bmit det rames, de la ooit 
Tnoble à peine la paix profonde. 

EUe glifie war ies roManx, 
Elle est ddjjà prés do ri?age ; 
Les laiilet peãchée lor Ict eaox 
La caeboil looa leor vert JèoíUage. 



Ud boaune a^élaoee •«^«.w , 
D'ao bood U a looché la terre. 
II tkat oo boordon d'ane main. 
Et de raotre porte oa roeaire. 

BieolAt le soleil do matin 
Bápaod sa elarté sar la rive. 
Prés do eastel oo pélerin 
FaH cDlMiâre sa toíx plaiotíTe. 

— 'SaintdeGaliee, qo^àfBMiix 
Le paoyre pélerin implore, 
Foiír arrifv an reodes-voos. 
Qbb Un ntd eet loin «Doorel 

Ao pied de la loor do palaif 
Goide one ioorce daire et Tive: 
Une jeone filie est aoprès, 
Elle est li, deboot et pensiTe. 




SI8 BOMAMOOM) 

EUo écontait d'oQ air rèfenr 
Leau tontbant de sa Xioupe pMoe ; 
— ' Oh I votro voix, bon vcyagcyr, 
Ufa caaté la pias áoom paine. 

* Sur coUe lerre de asodiU, 

Cest poor moi biea pvade «endlle 
DVnlendre ces chanto d« pay», 
tíoi jadis frappaieol bmh OieiUe. 

'Sept prèlres, autoor de Tanlel, 
Chantaieot alors cette 
Sept aalres aa chaok 
RépondaicDt duaa voím. . 

*Le cboenr enlier psalnodiait. 
Toas priaienl d' une âme fenenle; 
Et la cloche retentíMatt 
Portant aa ciei ta votz bniyul*. 

'Ce son qní ribrail daos IM tári» 

' Qao ne pais-je lentend» eDe*rat 

Que ne pois-je ao fond des flnlért 

ÉtooflTer toos les chaato 4a non 1 

— * Qoe le boD Diei vciUe tm vomI 
Qa'il Toatb<^msse, jooveoeeUal 
Une telle laogage sembladon 
Oà règne cn matlre Tiniáilei 

* Je veax prior poor vooi, hélail 
Je soaflTre el me soolieaf à peine, 
II faol qae i*arrèleot mes pct 
Prés de celte claire foouine. 



HllAGâU U9 



*Ah l qo'oQ est bíen t qialle» frairkMrt 
Gomme cette eao me MoMe bel»l 
Laiísei aueoir )e Toyageor ; 
Diea f OQS le randra, jovvenMHs.' 



^'Asieya-Toas, boo 
— ' Asiejei-voos sor ceit» piw u ; 
L*nn qoi ooole daas ob baMin 
Eit dooce et fralch*, el dánMm. 



'La reine eo boil á aon rérail; 
J'CD fiens ehercher avaal l*aaron; 
Je TJens, aTant que le 
Ne rait pa réchauffer 



— ' Cette eao st pont Mfe avoír 
Une rerta parlícahèee; 
Ah t poDf jager de sen posfoir, 
Doonei m'eii, je vooi peie, m vene.' 

^'Bnrez, bovei, bonpélvin, 

X la foDtai&e do loi mon. 

TcDez ; ce nae â'9tpml fin 

Tast de Tor. . . il faat iamox nwof».' 

~*llais que dirait votre srigaear? 
Que dirait Gaia, ?olie reine; 
S*U8 royainit rii— èl» t^yjgeut 
Boire à la royale Sjtaiaef' 

" ' Alboazar, araaC le joor, 
A qoitté ee lieo soKlaiee. 
II est dans les bois drateatonr^ 
Anx saogUers faisút la gfaerre. 



-<0 BOMANCBIRO 

'Ma iiulitreiae da oe tritor 
Ne pent w moDtrar soneienw: 
Poar qoi posséda vant d*or, 
Gette eoope etl pm pféeieiíie.* 

— *DegnceI Encore mie Ai?earl 
DitM-lni, bonne joovMeelle, 
Qa'iin paovre chrétieo Tojragélir 
Désire ètre eoodiiil prts deile. 

*Dites-lQi bien qnra nalhaoreoi, 
Mort de ehagrio et de miière, 
L'a de oet aaneao préeieax 
Pail poQr élle, dépoiilaire.* 

n tire de soo doigt raaneM, 
Dam le fond do vase il le jette: 
-.'Qnand dle bolra de eetie ean 
Sa lorpríte len eonplèter 

Mais to jeone fllle a liiealAt, 
En eoaranti quitté to fontaine. 
— ' Poorqnoi ne pas TeBir pios tótt' 
Dit, d*Q& lon térèra, U reiíie, 

' JoyeoieBieot to folâlrait, 
Qoaad de soif moomit ta maltreiíe Y 
— 'Ohl non, tríslaneiit Je wi^oais, 
€ar je songeait ft ma jeaoeete. 

*Qoe moo deetin me tembte amer 1 
lei, poor moi qoeile existenee I 
ò Milhor que baipie to mer, 
Milhor, pays de moo eofaiicel 



*Li, duqoe joor eit na pUiiir, 
GttBMot M passe Ia bd âge; 
Cest là qnà Diea Too pmi oftir 
D'n saiõl amoar le por boouufel 

— 'Tab4oi, ParaneUa, tai^loi, 
Ne lévnila pas ma sonifranoe : 
Ttt sais bíen que ee n^esi pas moi 
déeinta eelte eustsnee. 



'Mais à noo raviseeiír enfia 
Xai panknná^ renda les arniM. 
Esdave, je vis sans chagria; 
Bfliae, je virais dans lea laimes. 

'Ge vain titra 4Uit pea ponr moi, 
Tnç pen poor tromper ma disgráce. 
Voir, aaprès d*ao époox sans foi, 
Une mora ooenper ma placa ! ' 

à es sonveoir, de rooffsar 
Soodain soo bean froot se oolore 
Paisse eette ean, par sa firalebeor, 
GaloMr la soif qne la d^ere t 

Bile picnd In vase d*affent, 
Le porte à ses lòrrea brftlanles» 
Bi toit loire ao méime moment 
De rameaa lee pieires bríllanles. 

— 'Cest on sort» lesos, moa sanvenr I 
Qns Ton veot jeiter sor mon àme: 
Gette eao glaee par sa fralchear, 
El daos le fond e*est de la fiamme.' 



à 



BOMANCBIBO 

— ' Voilà ce chanB6 BarvBilleax. 
Qni me tenait loio de I» reine. 
(Test au pélerín nalheareox 
Qoe j'ai Yu prèi de la itelaine; 

' Cest loi que daas l« ftnd de Teto 
A voola déposcr ce fage : 
De ses soahaits ee riche aoiieaii 
Derail wrvir de témoigaage.' 

. < Oh qa'il vienne ce Yoyaflear, 
Qo'il vleane icí I qoe je realcndet 
Gar jo Teu ruir rambanadeor 
Qni m'apporte nne lelle vBnaéè.* 



III 



— *Ne baíMi poínt aiosi ma maJn; 
De grftoe, je voui cn oanjore : 
Gesaex, ceoei, bon péleria, 
Et quíttez celto hmnble peaUiiv. * 

Mais le pélerin à ses veeax 
Resiste. . . il devient léméaãte. 
Et ses baisers vont, deni à deox, 
Toiíiber sar celte naia qn^iJ serre. 

La reine a pAlit eette fsis, 
Dans son cceur le eoarrooi fenmnter 
Soodain, elle soot sur ees deigti 
Goaler one lame brMaato. . . 



MIBAOàlA «3 



— 'Qai peot CÊO^am, boo pétorin, 
La dooleor que je vois paLnltraf 
Là, eontex-iDoi voln chagrâi ; 
le paia foas loolagar peol^tri.' 

— *0h I noa, oe ■'est pas dob dMgria; 
La inort foit eeswr la fosflinuiM: 
Maú ao TOOU j'aspérai« anin 
Betroorer ma dooee eii rt— w. 



'Ob I Don; ce o'ail pat awB deitiii, 
Cctt la vôtra qoa ja dápkire: 
La eompagne d'QB roi ebrélára 
Oemiir calle d'aD roí more I' 

~ * Ah ! ne me parlei pat aimi I 
La piUé peot «tn iodiíerèle. 
Do présent je «'ai dbí tomi, 
Et do pasw ríen ■» refrello. 

'Díeo m^aeoordera fao pafdoo ; 
Ce D'e8t pas moi qai fu eoopable. 
De cette lâche trahíieo 
Bamire doit ètre eomptaUe. 



— ' Le ciei, j osqit' ki Irop < 
Doit eo efiét ponir m tnltre. 
OnloDoei dooc lon cbátimeat, 
Bamire à yos yeox va pamllre. ' 



Bamire le lère 
Et laimant là toote impostore, 
De ta barbe de péleriB 
n a dépoaillé sa fifore. 



M romÀmgbibo 

Le boordoa qo'il ti6Di dJHit ta ntia 
Prèt de li Ta rouler k tanv; 
Et d*iia gMte plaia da dédain, 
II jette k wn píedi mo rotana. 



Qoi poQiTaii dira da quala yeu 
Le ngaidait la noble daaie, 
Qnels MPUmente impéloeu 
Ttoablaimt «i ca maneai m» áme? 

Elle IrOBble, mais noa da pear; 
Sani gatté, ia boaeha Mi riaota: 
EUe ett hoDleaie, taai podeor; 
EUe p&Ut. . . dia ect lirAlaato. 

Od Toii oei leotioMBU divan 
Se loceéder Mir toa vitafa, 
Comme lei floU, ao míb dai mera. 
Se benrter dani bd Jow d*aiage* 

X rhomme Ia vengeaaoe plait; 
Pour la femme e*est na dóliei ; 
L'on pardoooe, il ait latiiMl; 
L'aQlfa veol qo*élle •'aeeompUiie. 



SoQi lo poidi da ca i 
DoDt la reine a Fama oppiamée, 
Ce foi là MO promier déúr, 
Ge foi ia deniièn peaiée. 



El poii, paor eile qoel 
Combieo elle doit eira 
De poQTOír tríompher d^on eeior 
Qoi rarieoi npnãdra m cbalnel 



MIBAQAIA W 



Mais dana let forèu d*al«itoar 
OsuÊè m et momwt le roi iMn, 
EIte eat MQle dana eetie toar .. . 
D flm ae taín et íaindra cnoon. 

EUe aoarit, maia trialanail, 
fie ee iconfe qoi Ipmí râow, 
Et ToOe aoD rqgard chanouot 
Pnr Bieu eo tanpéier la flaaune. 

fie aa foii le aon anchaat— f 
fiédoit par mo poafoir foneale; 
Kt aí renfBr eat dana aoo eow, 
Sa paioto eat toQte eéleale. 

Ble |»afatt prèa de flécfair, 
Saa |»leDra oot calme aa coMre; 
San âme fmi de aattaodrir 
El aa douleor eat moina amèra^ 

EDe rápèle, cn aai^iottaBi: 
—'Pov pardoDoer, je ama trop fièra.* 
Maia aca yens, daaa ie mème ioatant, 
Semble diie loot le eooAraíre. 

fiom Raaiire eat à aea gBBOoi; 
fi'mM Toix éraue, il Timplora; 
n vent déaarmer mo coorrou; 
II aopplie. . • elle béaite ancora. 

Sondain, on «nland ratenlir 

La bmit do cor, li dana la plaine; 

La reine ae aent treaaaillir 

Bien phn de plaíair que de peine. 



^B6 aOMANOURO 

— 'G>6t Alboazar, e'efl le mi t* 
Dit^lle : * caclM»>TOiM, RaMlra : 
SUl Toas TOít, c'«ii est MC 4e mfíi; 
Vnju, oa, 80QS ¥M xBOi, j'«Kpira.* 

A peine elle a, d^oi lir troaMi, 
Fenné la porte, el par pradaoM^ 
Dans soa sein dépoaé la áé, 
QaeTenellelarQi ii 



— ' Tristes DOOTelIes, fe le «ois, 
NoDTeUes de maniraie augoiet 
(Test da moios, la premièfiB feis 
Qne m*arrÍTO octle armtare. 

' Arant d'eD(rer dans eelle«OBr, 
J*ai sonné du cor dans la ptalae, 
Et sur les créneaox de la teor 
Je o'ai pas tu \mtr la reine. 

'(Test mal à Toas, madiéie enraai, 
D'aToir manqné d'eiaetilode. 
Me faadra4-il dono maiotanaiil 
Renoncer à oette faaMtndef ' 

Une horrible perplesM 
A troablé Tesprít d» la teine; 
Soo triste cceorilolle afttd 
Entre rindolgence et la hatee. 

Le sooTeoir de les biin j««rt, 
DerambitioDridhGBca, 
Igí, de noavelles amows, 
UJedésirdeIt 



MRUGiUA S^- 



Bientòt la ▼ognat» «t Vãmom 
L^anront emporté dam loa áoM. 
Ne deTaient-iU pas, nw relow , 
Tiiomphcr dans on eflMir da famaa? 

— ' J^ai des noaveilM, «a eirt. 
Et d*étrangn à todí apjpraidfv. 
Eotm là, dans ce cabinct ; 
Voas Terrei de qaoi foat •orpnadn.* 

Alboatar ootto en tiaoMaat, 
Et neole, en Toyant Raain. 
Ce qní se dit dans cet ínstaBt, 
PoÍDl ne sanrais toqs la ndira. 



Ce ftit comme on f mt ww^ n —i 
Comme ooe lempéte su ToBde^ 
Comase si la terre et les eieia 
Lotlaient poor abimer le meade. 

A la raison enfin rando, 

Le roi proDooce la seotenee: 

— 'Chrétien, ton bansur att pwda; 

Je Tinx te laisser Texistenca. 



' J*ai p6 me payer larginenl 
Da mal dont ta m*as fait vietime; 
Ta hoBte snffit mainteBaai 
PMr eqaer ton nonrean erine.* 

Dom Ramire sentail tm coar 
fiooflé de dépsi el de rage; 
D^ air eontríti plein de caadeir, 
O bit enteodre ee laogafel 



BOMANCRmO 

— 'Bien grand, belas I ftil moo ftorfaitl 
Envert toi je fas irop ooapable ; 
Je ne veox pas d*iiQ tel bieofaU; 
La mort me lemble préÊénb}; 

' Ceit poor me metlre à ta narci, 
Ponr me livrar à ta vaBSoance 
Qoe je sais veno seal lei; 
Noa poar implorar ta déoMBca. 

* Cest poar raebeler moo eireor, 
SaoTer moa áme de Tablne : 
Cest Tordre d^on saini eonlbueor 
X qoi j'ai coofessé moo erime. 

' II fkot, m'a-t-il dit josteaient. 
Et c'est moo rsa, je te le jare^ 
Qoe poblíc soít le ebátiment, 
Poisqae pabliipie fot Hojare^ 

«Ordooae ici de tes soldats 
Qoe Ia troope se rêonisse, 
Et qoe soos lears yeox, moo trepas 
SatisAisse eofln ta jostiee. 

' Vite I qa*ils eoteodeot ao loin 
Le soo do cor qoi les appdle; 
Qoe cbacon, de ma mort témoio, 
Eb garde on sooTcair fldMe. 

<Qa*oo dise, en me T0|aiit moorir: 
— « Qoeiqoe brott qo^ait fkii soa 
«Uo broit pios fort ?a reteotir, 
« Et e'est eeloi de la Teogeaace I » 



MIRAGAU V» 



Le roi toDdké de toa remordi, 
Lm veol cooterver r«dstaioe; 
Mau la rdoe a jaré sa mort ; 
£Ue loppote à la clémence. 

Od Toit ks toldaU aocoorir; 
Le chátean preod on air da fête; 
Bamire debont, lans piliri 
Aesarde la norte qoi «'appriCe. 

— * SoDoei, trompettet et dairoot, 
Bt qa'an loin ca bmil retantisse I * 
Et rédio, répétant ces tooi. 
AiiiMB(ait llieare da rappliea : 

te flDteadit pria de la mer 
Ge bmit, d*iiii siniatre pr^aage; 
Et soQdain séléra dans lair 
Uo long cri, parti da rÍTage. 



IV 



— 'Da par tooa lea lalnta, en avantr 
!■ avant, allooa, do oooraga I 
Et biantdt Ia porte, eu tombant, 
Au anaUlaiita ourre paaaage. 

Sor lai oéneaoi point de aoidats, 
PMe daa mora potnt de aantinallea ; 
Biai na peot arretar leora paa, 
lUiQiitnaltraadaa 



02 



'Calme, m9âida,ia» 

Notre vengeanee^it «MéMla. 

Mais elle, 

— 'Ohl ooilaTt 



' De ce grana coBf inilaidiMdi i 
11 mérite biaiiqÉ^ni 1 adaire. 
11 eêi vraiment áÊgaeú^m jdí, 
D*uii cavalitr-MlqaB I 



' Tu vieofl de frapfer w^iral, 
Qai favai» úêêkí Í^BÊMmiob: 
íTcst-ce paa an «rait Wiii ioftk, 
Ud6 noble et bcMe tmigfeaMc t 

'Ta maio a frappé, iuumgwt, 
Le More l9«i«B faiCpoBr|>laére» 
Des cavaliert to pies paMíiit 
Qae jamais aíl porte la C«ra. 

' Tq demandes, ptirfldorui, 
D*oà me Ti«it ma vive Mofranoet 
Oh I qae n*est-il aiq^èsdemoi 
Ponr me sonUraire à U pOMauwcl 

' Tq reax savoir oà «ws rigards 
Ghercbenl & s'arrdter<DO0ro? 
Contemple d'ici oea ramparts, 
Vois la flamme ^ les défore. 

' Là tout cnliAre à mon boaiMnr, 
De Tamour j*AÍ coÊon roopiíe ; 
C*cst lài^oefai laissó «Mn corar. . . 
Coroprends-tQ bien ce qve je mtrv f 



MIRAGAU ^03 



— ' Contente done alors tes jbu ; 
Mire, Gaia, Mtrv, infidèla. 
£t Madain d'ini Iwat fariem, 
11 )èfB ton giatre sor elle. 

Cédant à d'hombJ6s traniports, 
0'iB Kol eoup, il tranche Miêle. 
Et da pied repooMe le oorps. . . 
Dana Ia mer le Dooro le jeite. 

De cet évèneaieai cruel 
Le «NiTenir ae farde encore : 
Gaia, c'es( le nora da caitel 
Qoi ftii Tasile da roi more. 

 ee cri qoe jette bien hant 
Le batelier eor cette plage, 
ifíra Qaia t loot anstitôt 
Se dresae one sang^aSite image. 

Le people, dit-on, consanra 
De ee fait la trace fidèle ; 
El la place oú Gaia mira 
Moía-Gàu depois «'appeUe. 



I, iO IwffNr 1647. 



VIII 

PO&BBM 
A8 PÈOAS DE aSTRA 



VIII 

PO&BBM 
A8 PteAS DE aSTRA 



Don aqui logar a esta composiçio cpne, mo- 
derna, como è, e minha, toda é feita de coisas 
perlares e antigas. Â anecdota devera ter 
sido celebrada pelos nfeoestreis do tempo : 
tíSú o foi, e eu procurei supprír o sea descaí^ 
(io. N9o apparece pois em me» nome, senão 
00 d'eiles, embora de longe os rastreie. 

Quando a primeira vez sabíct de mmha car- 
teira a presente bailada ibr para se imprimir 
QaiLLusniAÇÃo', jornal qoese pubHcafva em 
Lisboa em 1845-46. Reimpríiitreiíoomella 
aqui também a carta* que entSo escrevi ao re- 
dactor di^qaelle jorna), porqo» deveras con- 
tte a- historiai de sm eoiiipo8i(ao; 

*bLvmA0o^ fol. n, Q.* 5, 1 de Agosto 1846. 



i 



*^ ROMÂNCBmO 

Eis aqui a carta : 

' — Queria escrever-lhe um artigo, meu caro 
redactor, para a sua illcstração, que real- 
mente faz milagres do meio d'esta escacez de 
tudo, e doestes impedimentos para tudo que 
characterizam a nossa boa terra. É promessa 
velha e que eu devia ter cumprido ha muito. 
Mas como, mas quando? E que bade um bo- 
mem escrever que se leia — que se leia por 
damas bellase elegantes cavalheiros — quando 
lhe anda intallado nos bicos da penna o fatal 
fio da politica, que a faz espirrar e esgravatear 
em tudo o mais? 

' Ck)m as leis das eleições, e as questões da 
fazenda, e as organisações miuisteriaes, e nSo 
sei que mais coisas taes, foi -se-me detodo a 
derradeira reminiscência litteraria que ainda 
por cá bavia. Tenbo saudade d'ella, mas foi-se, 
' morreu pela pátria 1 ' 

' N3o sei se morreu bem ou mal, se fez bem 
ou mal em morrer; mas é certo que morrea. 

'Eu porém nunca prometti, que faltasse, a 
bomem nenhum — nem a mulher, que mais é ! 
O ponto está que me acceitem em pagamento 



PORBIM S^ 

aqQÍUo que eu posso dar. Qoe, ás vezes, o 
mia pagador não é máu senSo pelas absurdas 
e excessivas exigências do credor. Axioma de 
eterna verdade, especialmente quando appli- 
cado a tudo o que passa entre os represen- 
tantes de nosso pae Adão e as representantas 
de nossa mSe Eva . . . 

' Passemos adeante. Quer, senhor redactor, 
acceitar-me, em pagamento da lettra de minha 
pnnnessa, este papei que achei embrulhado 
entre mil rabiscos de projectos de lei, ten(Oes 
de autos, notas ao orçamento e outras coisas 
galantes do mesmo género? 

'Se quer aqui o tem, e disponha d'elle. 

' Deixe-me só dizer-lhe o que é, e como foi 
fcito. 

'Estava eu em Cintra, foi em. . . Que im- 
porta lá quando foi? Basta saber que nSo era 
Q'essa estação fashionavel em que a elegân- 
cia de Lisboa se vai infastiar classicamente 
para o mais romântico sitio da terra. Era na 
primavera; passeávamos dois sós, ou quasi 
ste, n'aqaelie Éden delicioso. Fomos ver o 
palácio; chegámos á sala das pegas. Pegas sio 




FOR BEM 



GnfiOf gaviio branco 

Vii íèrido e Tsd Toando; 
Más nio diz quem n'o feria. 

Gavião, gaviio branco! 

O gavião é callado, 

Vai ferido e vai voando; 
Assim fdra a negra pôga 

Que hade sempre andar pairando. 

A pega é negra ç palreira, 
O qae sabe vai contando. . . 

Multo paira, paira a pega 
Qae sempre hade estar pairando. 




^^ ROMANCEIRO 

Mas quer Deus que os chocalheiros 
Guardem ás vezes, faltando, 

O segredo dos sisudos 
Que elies não guardam callando. 

Era uma pega no paço 
Que el-rei tomara caçando; 

Trazem-n*a as damas mimosa 
Com a estar sempre afagando. 



Nos paços esa d0 

Onde estava el-rei poisando : 
A rainha e as suas damas 

Nb jardim andam folgando, 

Entre assucenasis rosas, 
Entre os.goivi» firebettiaiidD; 

Umas re^Bivitit » amos, 
Outras as ^vm apaHhtmdo; 

E a minha pega com elfcis 
Sempre, sempre palroanâo. 

Vinha el-rei atnii de todos 
Com Dona Móeia ftJlaiiâo. 



Era a mais formosa dama 
Que andava ii'aqueUe bando : 

No hombro de DonaUfécia» 
A pega vinha poisando, 



Qae ostandavm «ipNítiado. . . 
Golbéra el-rei MHir^toity 
▲iknia Méeia.a ia dando» 

Com um reqnálvo naaaUHM 
Tam Damorail»elMa»»JinHiái... 

Inda bem, flúnha rainha, 
Qae adíame te vaia^adaoáal 

Pegoa na rosa-a^domaUa» 
Hhtopida>a.a8lá»iplniriiriii. . . 

Senão qaandoia Bagnt pégR 
Qae lh.*a lira« tai vaiBdo. 

Deu amif^ Doiialiáaía«^. 

£ a TÊÔtàUí, ¥oItáiiâo, 
Dea com os •ibos'eaiaBibos. . . 

Ambos M eHio delatando. 

—'Foi por bani ' Ibe «títae o rei, 

Sea aeetedo mobraado : 
— 'Foi por beml '— 'Por bem* repefe 

A pega emtdmo Toando. 

— Tor bem, por bem I ' grasna a tonta, 

De má malieia ooidando 
Go'a cbocalbeira da lingoa 

Andar o caso inredando. 



M6 ROMANGHBO 

Mas quer Deus qae os chocalheiros 
Guardem ás veiee fkllaado 

O segredo dos sisados 
Qae eiles nio goardam callando 

Ria-8e a rainha da pega, 

E ficou acreditando 
Qae a innoeenda do caso 

N*eila se estava provando. 

Da pega mexeriqueira, 

Do bem qae fei, mal pensando, 
Nos reaes paços de Cintra 

A memoria está darando. 

E eis-aqui, senhora, a historia 
Da pega que ahi ves pahimdo, 

Da rosa que tem no bico, 
Da lettra qae a está cercando. 

A pega é negra e palreira, 
O que sabe vai contando: 

Mas quer Deus que os chocalheiros 
Guardem segredo fallando. 

O gavião, esse é outro; 

Vai ferido e vai voando: 
Mas n2o diz quem n*o feriu. • . 

Gavião, gavião branco I 



NOTAS 



TOL. I. 18 



NOTAS 



i:i//<Kn 



A Al 
Nota A 



o nmaam em qoe lhe Cillei n'iiaia das minhas úl li- 
mas cartas d» Fortogal pag. 3. 

A Adodnda foi começada em Campolide, ao-pé de 
LJaboa, no veríTo de 1827, coDcluida na cadeia do Li- 
moeiro no fim d'esse mesmo anno, e publicada em 
Londres no outomno de 1828, em i vol., i2.« sem 
nome do aactor, e com a seguinte breve advertência 
precedendo a carta ao sr. Duarte Lessa que era o 
verdadeiro prefacio: 

'AoYERTEKcu.— O auctor d'este romance, animado 
pelo lisongeiro favor que outras publicações suas 
teem merecido ao público portuguez e a distinctos lit- 
tentos extrangeiros, ímprehende esta nova publica- 
çSo, cujo assumpto é tirado da antiquíssima tradição 
popular e se refere aos mais remotos tempos e costu- 
mes de nossas epochas heróicas e maravilhosas. Es- 
pera elle que nHo desagradará aos amantes de um ge- 




*5^ NOTAS 

nero que fez a colossal reputação de Sir Walter Scott^ 
o restituiu á antiga Escócia — na republica das lettras 
— o nome e independência que ha tanto perdera na 
ordem politica. 

^Aindaque em pouco babeis mflos, a iingua portu- 
gueza sahirá mais uma vefz a' prova singular de bi- 
sarria com as mais cultas e gabadas linguas da Enr^ 
pa : c será culpa do cavalleiro, não sua, se o premio 
da belleza e valentia ttieiDai^lot a4Judicado por todo 
o juiz imparcial/ (Nota da segunda edição.) 

Nota B 

Rosununo da historia da língua e da poesia portuguesa, 
quo vem no i vol. do »ab«abo-i.<i6itano .... pag. 4. 

Foi O meu primeiro ensaio de critica litteraría, e 
muito iia que devo ao público reimprimi-lo emen- 
dando-o e additando-o, como tanto precisa. É traba- 
lho que demanda porém o vagar de outros cuidados 
o uma serenidade de espirito que náo tenho tido. 
líeido fazé-lo e breve. (Nota da terceira edição.) 

NotaC 

Uoàcan gaba-sc de liavcr inlroduzidc rui l'<.tiin$ul.-i on 
metros toscanos pafr. 4. 

A expressío é inexacta: os Toscanos houveram 
os nietros hendecasyllabos dos mesmos de quem nós 



M boQTeinos, dos lr<wadores. Yej. o Cancioneiro do 
Coilegio dos Nobres. (Noia da segunda edição,) 

Nota D 

A liiiKitt.piov90fal, iM-inein eolu da Evropâ, paf. 6. 

Generalizaram esta opinião no mundo os eruditos 
trabalhos de Mr. Raynouard : eu duvido hoje muih) 
d'enay isto é, formulada d'este modo. Estou inclinado 
a crer que houve uma lingua romance, que teve por 
base o Romano-rustieo fallado, e que geralmente pre- 
dominou nos paizes de dominação wisígothica desde 
a extrema Aquitanía até o que hoje é Algarve; e que 
esta Hngua quasi-latina ó o commum tronco do Pro- 
vençal que morreu á nascença, do Aragonez que não 
passou da infância, do Portuguez e do Castelhano 
que chegaram a perfeita maturidade, e de outros 
mais obscuros dialectos cujo desenvolvimento as cir- 
eaoQstancias politicas e topographicas annullaram. 
Nem julgo difficil demonstrá-lo; mas não é aqui o 
lo^r, nem (caberia m curto espaço de uma nota. 
(^da da .segunda edição J 

NOTA'E 

Logo vieram e$ses l^vadoreftdo Prove&(a. . . pag. tf. 

A simples leitura dos nossos eaMíoneíros mostra 
fae^àfMUa «ao- era a poeMa* popular: os seus re- 



^W NOTAS 

quebros, todos cortezãos e palacianos, desdizem da 
rada singeleza e enérgica originalidade do trovar do 
povo. E comparadas aqueiles cantares de saraus com 
os fragmentos das xácaras e soláos que a tradição 
oral tem conservado, aindaque pervertidos e viciados 
como elies andam, ve-se que estes é que sâo a pri- 
mitiva e legitima poesia nacional. (Nata da segufuUx 
edição.) 

NotaF 

A» bailadas de Biirger, os romances de Sir W. 
ScoU pag. 7. 

YeJ. na collecção intitulada iítfi<fre2sy ofthe SeoUish 
hordet' (cancioneiro das fronteiras da Scocia) a histo- 
ria da renascença do género popular na 6ran*Breta- 
nha contada pelo mesmo W. Scott. (Nota da segunda 
fdição.) 

Nota 6 

Ganãoneiro Jo GoUegio dos Nobres pag. 10. 

ila tempos que se designa com este nome o Can- 
cioneiro do tempo d'elrei D. Diniz que se guarda na 
livraria do que hoje é Escda Polytechnica, e era 
entáo Coliegio dos Nobres. Gopiou-o quando eateve 
mxMto em Lisboa Sir Charles (depois Lord) Stuart, 
e em Paris o imprimiu, 25 exemplares creio eu, quando 
alli foi embaixador. 

Descubriram-se, hapoucoe annos^ na Bibliotheca de 



MOTAS *» 

Évora algumas folhas que faltavam no manuscripto 
de Lisboa, e com este additameoto se reimprimiu em 
Madrid altímamente pelo zeloso cuidado do Sr. Yar- 
nhagem, ministro do Brasil n'aqQella ci^rte. (Noia da 
terceira edição.) 

NotaH 

CançSei que oio serio Uivei de 6oo(a1u Hrrmigue», 
ele i^^. il . 

Estas e todas as relíquias duvidosas do nosso ro- 
mance irSo todavia no logar e livro competente da 
actual collecçSo. (Noia da terceira ediçõa) 



Nota I 

Aqaelle romancestnho de Gaia e du rtM Kami* 
ro pag. 12. 

É um curioso e raríssimo exemplar, documento 
ootavd da litteratura portugueza do século dezesette. 
Intitnla-se Gaia, e é impresso no Porto em um folheto 
de 4.*, com 15 ou 20 paginas. Tenho hoje guinde 
pna de nSo ter tirado cópia inteira d'elle antes de 
o restituir ao meu amigo o Sr. Lessa, em cujo espó* 
Ho deverá estar : mas nâo pude obter mais noticias 
d'eHe; e outro exemplar nio o vi nem sei de quem o 
VMe. Começa com estas duas oitavas que agora in- 
eoBlro^ incompletas, entre os meus apontamentos. 
Todo o poema ó na mesma rhyma. 



i 



** vunÁS 

I 

Oaotemos de Rimiro rei <f Hespanfat 
K a« «1^ AkBançor 46 Berbéria, 
Oaapdo ftít dfltnvtorA UmifttiwlMi* 
No mais de Hespanha entio moqroa.)uivii» 
Com ânimo cniel, com crad sanha 
Gadaqoal ao onfra fWQ^dia 
Privar de soa fama, honra e efUdo, 
Com Iodas mas fiftrpaa o «ndado. 

II 

D esse Ramiro, digo, qealbrgido, 
Que d'Mte nome ti«i4om#llf jdUi.sido, 
0'ÍQiielle qne com Qa^a fçi, «^kfado 
Por qnem tantos trabalhos ha soffrído. . . 

(Nota da segunda edição,) 

Possuo hoje um exemplar completo que devo ao 
obsequioso cuidado do 8r. N. M. de Sousa Howa, dis- 
tincto e letrado o£Scial do nosso exercito, que, talves 
por isso, não oqcupa n'elle o Içgar gue Ibe p^iijteoce. 
(Terceira edição,) 

NotaK 

Adeante copio um dos mais curiosos (o do Berna]- 
francês) pag. 17 e 18 

O romance d'cste nome na ^priíaeira cdiçio dar^Aido- 
Mnáa' em Londres ia inserto* na 'praseste oaria :<por 
melhor olassificaçAoYai agora separado, £ o taâilo 
onfinai, aegundo'OcoMervea'a.tnidigto'áo6 |po«M, 
irá no logar compeliOle«do<f|loaianeeiio/ mgsnuliio 



■aitcofreclo e melliorado agora *pela <x>llaçio dw 
divwns venta» que tenho obtido. (Nota da tê§w^ 
edição,) 

NooaL 

Esta lOTTeno ò sancto : inda estás vendo 

Alli aq^elles rastos mal poi\pado8 pag. 33 e S4. 

Em Campolide e nas alturas que avitinham o eé- 
lâire aquedacto das Acuas iivres se ineontram muitos 
vestes de fortificações antigas e qae parecem de di- 
versas datas. O próprio nom^ de Campolide, abre- 
Tíaçáo de campo da-lide, ficou a este sitio da batalha 
que alli se deu nas guerras da acclamaçSo de D. JoSo I. 
Vej. Provas genealogic, Duarte Nnn. e^uasi todos os 
nossos historiadores. fNota da primeira edição.) 

. . . Essas arcadas, 
âtberbas, elevadas pag. fi, 

O aquedacto das Aguas-livres é o mais nobre e útil 
mooumento de Lisboa : edi^eou-o D. ' JoSo *V, que 
nem sempre impregou tam bem os immensos cabe- 
daei d^a tbesouros do estado, que ent^ riegurgitavam 
tom o ouro das minas do Brazil e de outras posses- 
tfaipoi4i]gfMn8^ D.Jofto^Vtodaiviaaivou, »o» monos 
pnlsgea, aB•art^8.« as-letilras;!^! eolpâ otfp taa<mas 
<la'i80iilo, aetda tem faoaa*f(Mo eiam a» letlras^que 



** NOTAS 

protegeu. O crepúsculo de nossã rehabilitaçfio lit- 
teraría luziu em seu reinado. A isto aliudem os 
versos: 

Um rei qoe ainoa u artet, rei paeifico 

A (piem amor ladoo 
Que 860 íôise e dai mosas, eto. 

Assim como aliudem também a seus bem sabidos 
amores e espiíito galaoteador. D. João V linha a am- 
bição de querer imitar Luiz XTV, seu contemporâ- 
neo — até nas fraquezas. (Noia da primeira edição.) 



NotaN 

Lembra-te aqoeUa historia 
Qoe iogenoc o poro noi seas trabalhos eanla. pag. 19. 

É a xácara ou lenda da 'Silvaninha', co]o texto 
original vai no logar competente do 'Romanceiro/ 
(Nota da iegunda edição,) 

Nota O 

É iingela legeoda de uma laala, 
Qm por bnilal amor sacriUcada, 

Desvalida virtude, 
Só de erime escapou do sdo i morte pag. 19. 

A tradição popular attríbue esta nefanda aventara 
a um rei que se namorou da sua própria filha, como 
a antiga Myrrha se namorara de seu pae. — Prova- 



NOTAS *W 

feimeote ambas as dnas anecdotas teem seu funda- 
menlo histórico ua chroniea escandalosa das famitias 
de alguns régulos oa senhores das diversas epochas. 
O observador curioso notará o diíTerente character 
de duas historias Iam similhantes, e colherá o essen- 
cial ponto em que o nosso maravUhoso moderno dif- 
fere da antiga mythologia, nâo tanto nos nomes de 
deuses e deusas e outros agentes sòbrenaturaesi mas 
príneípaknente no tom, na moral, na sensibilidade, 
e n'um certo não sei qué de ternura e melancholia 
que nos mais rudes e imperfeitos ensaios da poesia 
nacional se acha sempre como principal e dominante 
cdr do quadro. A differença náo está em chamar ao 
ad Apollo, ao amor Cupido, á guerra Marte ; sim na 
maneira de conceber, de pensar, de pintar, de mora- 
lisar as mesmas ideas, as mesmas coisas por diffe- 
reole modo. (Nota da primeira edição J 

NotaP 

Cantiga prímeír» pag. 33. 

Na primeira edição chamavam-se cantos as quatro 
partes d'este romance. Era dar-lhe uma pretençAo de 
epopea que o pobre não tinha. Demais, cantiga é o 
■ooe popular verdadeiro, e por isso lh'o mudei para 
eile. Oã antigos menestréis ingleses chamavam fUU — 
cono quem diria ofiMaos— os franceses ^ys^oomo 
<pm dia ramoê-^ÉA diversas secções em qoe par- 
tiam 06 seus romances mais longos. A partição h- 



aia-fle por causa do eanio : e etmtiga, *o que se pôde 
oentar de uma yez* parece portanto o mais próprio 
jmne. ,0 Caiiek>neir0do Gollegiofdoe-Nobres dúseon- 
tarês. fNoêa da M^tinda edição,) 

m 

Nota Q 

Vtoioulo em J[«ieiro U)9 neva pag. S4. 

O Gerez é serra aliisdima na província do Minho, 
de alpestres alc^ntis^ coberta de plantas alpinas de 
çuriosls9Í<na flora ; as summidades conservam quaai 
todo o anno resplandecentes massas de ^élo. Ha nas 
faldas da serra, as fom.Qsas aguas mineraes conhecidas 
palp nome do caldas do Gerez. (Nota da primeira 
edição.) 

NotaR 

Mas pedo Adozinda bella^ 

"M vir(p4e e formospra, 

Qum\ lh'o bade D^r a ella? 

»tffU^rM04 ]^«0si vnfMm pagvSi o AS. 

£ «unaoccnrvcoeia moito eoaimum nosioKaiioes 
piípflans, <e >de sincera kelieea «homenoa, <á|ta fie 
negir >p janiier do eastello a • poisada ao peragriae, 
■MBJceder depois iásialereestSes da filka oompa- 
deeida^jdoflDeUa iimooeate e raalfedada, que quaai 
sempre; veoi a ser <?i€lima de sua propria -tioadade. 



Assim na lenda tam sabida e tam nacional de Sancta 



Pedia poisada. 
Mm pae lh'a negava^ 
Mas ea tanto fiz 
Qq» porim entnvjk 

(Nota da segunda adição*/ 

NoTiiS 

E guíaiam seu nendlo 

Para t«rti â« HofMaiâ pd0>87t 

Moirama, na phrase do povo^ quer dizer terra de 
moiros. N'outro género de poesia é certo que não 
ficaria bem o vocábulo, mas n'este quadra. (Nota da 
primeira edição.) 

NotaT 

One tropel qoe rai nos paços 

De Laadini aopé dot rios paf. 89. 

Em minha imaginação puz a scena d'c8te romance 
em um dos sitios mais pittorescos da mais formosa 
provincia de Portugal, o Minho. Landim (haverá mais 
terras do mesmo nome ; esta é a que eu conheço) c 
uma povoação pequena em que houve, outro tempo, 
uma famosa casa e pingue possessSo de Jesuítas : fica 
perto dos rios Ave e Vizella, que nSo longe d'ahi se 
juntam para correr unidos a desimbocar em Villa- 
do«Conde e perder-se no mar. (Nota da primeira 
edição.) 



«•o NOTAS 

NotaU 

Qm oa sâo MíDbras de finados, 

Oo de DCgrtt braiai más 

Alli ha Doeiíinia dança. {Mf. 90 

Éfttas bóccas de cavernas, e oatros recessos — tssím 
de bosques, montanhas e que Ues, sSo em todos os 
paizes, pela ímaginaçSo do vulgo, povoados de entes 
mysteriosos e As vezes malfaiijos. Sombras de finados 
cantando seus hymnos terríveis, bruxas celebrando 
os torpes mysterios do sen ioi^bado, sSo cosmopolitas. 
A nossa mythologia popular tem roais outra e^ede 
de entes sobrenaturaes, que é privativa nossa. — Sfto 
as moiras ineantadas, que nem sio bruxas, duendes 
nem fadas, mas lindas e amáveis creaturasque se di- 
vertem a incantar, a excitar os desejos dos pobres 
mortaes — e As veies, tam boas sio I a satisfaiâ-k». 

Nfio é d'este logar o exame, que seria bem curioso, 
da mythologia nacional portugueza. Basta dizer, como 
o A. de D. Branca, que devemos explorar esta mina 
tam ricca, e tam pouco lavrada, de bellezas poéticas 
oríginaes e novas que, sem imprestímo nem favor 
alheio, podemos haver do nosso e de casa. (Ptota da 
primeira edição.) 

NotaV 

Sc a ba, nio Ibe acudia DenSi 

Vencerain peccados mui. pag. 54. 

O povo é geralmente fatalista ; e o nosso portuguez 
o mais fatalista que eu conheço. Jínlia desuceeder. 



NOTAS ••* 

cm eotM çHc o penegvia, e outras qoe taes nuUtes, 
tSo a explicação de todo o phenomeno estranho que 
os snrprehende. 

Aqui a eegaeira da ignorância leya peio mesmo 
caminho qoe os desvarios da sciencia. A coisa é a 
mesma ao cabo: vaidade e presumpçfto humana. 
fNoia da primeira êdiçãcj 

NotaX 

Mas dis qw dÍo ba eoodio 

Feior que o da maldifçSo paf . 59 

A maldioçáo do pae desacatado, ou do pobre mal- 
tntlado, passam entre o povo por ser as roais terri- 
veis e inevitáveis. Atéqai a moral de accôrdo com a 
aença vulgar, lias a maldicçHo, hereditária em seus 
eflèítos, é outra parte d'este dogma popular que em 
verdade repugna. — É certo porém que se é acaso, 
o acaso tem servido muito bem os fautores d'aquelta 
oença. (Neta da primeira ediçãoj 

NotaY 

Ab I Msa alma eorronpida 

Mais do qoe teo corpo estava pag. 67. 

O Idtor verá n'esta passagem, no conselho de Au- 
xenda á íilha, em tnuitos togares d'esta e da cantiga iv 
piineipabnente, quanto fiz por me conservar perto 



d« TomaBee- primitivo, assim no psnsameoto ooiim> 
aèéífia phrase e stjioy tanto quanto o permittia a de- 
cência, e outras vezes a correcçSo da phrase^ e ja 
também aindote úo ineaiomanee. fXoèã dã pri mê i i ^a 

Nota Z 

Setle aDOos e nm dU 
Foi a sentença cniel 
Que AdoiiQda cnipprirU pag. 7S. 

Sette annos e um dia é o período mysterioso de 
quasi todos os nossos contos de fadas, incaatamentos 
e coisas similhantes. 

No mui galajite romance do Caçador, que é um dos 
ntals queridos do povo, se diz : 

SetU fadas me fadaraiu 
Nos braços de mi' mádrinba, 
Qoo'estiv«is9e aqtif setto annos, 
S«tle annos e maia nm dia. - 

O numevo sette é mysterioso em todos os povoe, 
mas esta expressão algdbríco-negromantica de 7 -f- i 
creio que é só portuguesa. (Nota da primeira edição.) 

É de toda a peninsuia. Vej. os romanceros castelha- 
nos. (Nota da segunda edição,) 

Nota AA 

Arreda, arreda, infaoções, 

Gavalleiros, dae logar lUj^. 78 

Veja o glossário de S.*' Rosa para ampla explica- 
ção do q«e eram infanções entre nós. Para intelli- 



NOTAS *W 

gencia d*esta passagem basta saber-se que era uma es- 
pécie de vassaDos mais distinctos. (Nota da primeira 
edição,) 

Nota BB 

E pcv aenJior reconhecem 

Ao rícco-honiim de Landim pag. 80 

S^re ricco-homem, veja o mesmo glossário. A di- 
gnidade de ricco-horoem perfeitamente obsoleta em 
Portugal, ainda a mencionam os fidalgos castelhanos 
em seus titulos. 

Ricco-homem, naturalmente, quer dizer magnata, 
da primeira aristocracia, prócer, grande senhor. (Nota 
àa primeira edição.J 

Nota CC 

B essa toi diiiam todos 

Qoe en a TOI de Dom Sisnando l»ag. 85. 

Ésta espécie de vindicta-públicaj com que o povo 
stigmatisa a memoria dos malvados e grandes crimi- 
nosos, é muito provavelmente a origem das almas- 
do-oatro-mundo, dos revenanUj vampiros, etc, etc. 

Se se procurar bem a fonte primitiva de todas as 
íábolas, ver-se-ha que nSo ha credulidade mytholo- 
gica que nSo tenha por base o instincto da moral e 
da justiça, commum a todos os povos. (Nota da pri- 
^i^eira edição.) 

VOL. I. 19 




••* ROTAS 



AO BERNAl-Flt4NGEZ 

Nota A 

< Qaem bale i minha porta, 

Qnem bate, oht quem 'stiahi?* pàg. 97. 

Por estes versos começa o romance original, tradi- 
cionalmente conservado na memoria do povo, e so- 
mente impresso a primeira vez em Londres na pri- 
meira ediçáo da Adozinda em i8S8. Ja n'ou(ra parte 
se deram as razões por qne irá agora essé texto tio 
logar competente do Romanceiro, no segmido livro e 
segnndo volume d*el]e. (Nota da segunda éâiçSo.J 



Nota B 

For knowest thoa not, wbere softesl fwell . . pag. 107. 

A versSo iDgleza, quasi sempre litteral, afasta-se 
aqui do texto sensivelmente, mas sem alterar as pró- 
prias ideas, somente a forma d'ellas. (Nota da segun- 
da edição.) 



NOTAS •* 



à NOITE DE SAN^JOÃO 

NoTÁ A 

Té ot moin» na Uoinma 

Fettejam a Sao'ioio pag. ÍÍ9. 

É ama cantiga popular do Minho ainda hoje can- 
Uàã por toda essa noite de San'João, que n*aqaella8 
terras ninguém dorme, como é sabido. A superstição 
da aleaehofa é toda do Sui, toda lisboeta, talvez coir- 
man d'aqnellas de dia de Maio que o cathoiico sena- 
do municipal votou e prometteu a Nossa Senhora da 
Escada de acabar para sempre. Mas San'João fez-se 
mn santo de exemplar tolerância desde que lhe tira- 
ram a cabeça por elle nSo poder ver, sem ralhar, as 
desinvoltas pernas da baiadera Herodias. 

Nâo quero folgar com o que é serio : mas ó notá- 
vel que a devoção quasi universal dos christSos to- 
masse para patrono e orago de seus mais livres fol- 
gares e festanças, e lhe consagrasse a mais risonha e 
lasciva estação do anno, ao austero percursor do 
Cbrístp, o jejnador penitente do deserto, o severo 
censor da soltura cortezan, o protomartyr da morali- 
dade evangélica. 

Seria que a timida singelleza de nossos passados 
ídsse de propósito buscar aquelle austero e invisível 



 



*^ NOTAS 

inspector de seus ainda então innocentes brinquedos ? 
(Nota da segunda edição.J 



AO CHAPIM IPELREI 

Nota A 

Nós temos, se meo2o iDgano, no género namtiyo popu- 
lar as tres espécies, romance, lacara, soláo^pag. ti9. 

Ésta classificação é em parte conjectural, ou para 
fallar com mais propriedade, sim esta é a regra, mas 
com tantas excepções que chegam a fazer duvidar 
d'elia. Os que escreviam e compunham n'aqueUes 
tempos primitivos curavam pouco de cingir-se a re- 
gras ou classificações. D'ahi veio uma certa anarchia, 
constituída e fundada no exemplo, ou na falta d'elle, 
que se prolongou por muitos séculos depois. 

A respeito de soláos, por exemplo,.temos para abo- 
nar a defíniçSo que d'eUes se dá no logar annotado, 
a auctoridade immensa de Bernardim Ribeiro na Me- 
nina e Moça : ahi cap. 21 . 

Pondo-se a ama a pençar a menina saa criada como sohia, 
como pessoa agastada de algaa nooa dor, se qois tornar ás 
cantigas, e começou cila entam contra a menina qne estana 
pençando, a cantar-lbo om cantar á maneira do soláo, que 
era o quo nas coisas tristes se acostomava nestas parU's : e di- 
zia assi : utc. 



NOTAS *«7 

Mas por outra parte, temos o nâo menos grave 
pâso de Sá-de-Miranda na egloga 4 : 

Qoe le os Telbos uláos foliam rerdada, 
Bem sabe ella por prÓTa como Amor 
Magda, e aterá de mi piedade. 

Da primeira dtaçâk) parece conclair-se que o soláo 
é, como deixo ditto, um cantar todo lyríco, de triste- 
za e lamentos : na segunda considera-se como narra- 
tÍTo e usurpando propriamente a província do ro- 
itttnee. (Nota da segunda edição.) 

Vej. o que a este respeito se escreve no iiv. ii do 
lUQíANCEiRO. (Noia da terceira edição.) 



NotaB 

Antes ser pobre e Tíllan, 
Aotes, pela minhafei pag. 146. 

Nas províncias transtaganas e em muitas das ilhas 
adjacentes pronunciam-se as palavras fé, pé e simi- 
Ihantes — fei, pei, etc. Talvez seja devido á antiga 
ortfaographia que nas vogaes longas, a, e, dobrava as 
lettras em vez de as carregar com assento grave ou 
agudo. O povo, que sempre foge dos hyatos, preferiu 
mudar a última lettra, fazendo o som mais suave. 
^Sota da segunda edição.) 




** N0TA8 



NotaG 

Sem bulir nem mio Mm poi pag. 149. 

Vej. a nota antecedente. (Idem.) 



A ROSALTNDA 

Nota A 

Era por maohao 4e maio 
Qoando ai aves a piar. pag. 163. 

O meE de maio foi sempre o valido dos poetas po- 
pulares de todas as nações: wn sem-número de can- 
tigas dos trovadores provençaes, dos menestréis nor- 
mandos e saxonios, dos mmnmngen allemSes co- 
meçam com estas alegrias do mez de maio. Citarei 
dos minnesingers de que aqui incontro s^ntamen- 
tos, por serem os menos oonhecidos entre nós. Uma 
beUa cançfio do tyroles Steinmar começa: 

leh wUl fraan mit doriaft 
Dú 80 wmmeklichflii atat ; 
Ich wíl mit dien blaomen bloan, 
Und mit den Tobeling tíDgm : 
Ich ^1 loiriMD w der wait, 
Sam dú hoide sin cealalt : ele. 



NOTAS tW 

Oatra do margrave Othon de Brandeburgo : 

Uns kamt àber em Uehter meie 
Der macfaei manig hene finat, ele. 

Esloatra do duque de Breslan ó uma espécie de 
drama lyríco entre o poeta, Haio, as flores, o bosque 
e o prado: 

leh dage dir, meie» ieb elage dir, smoer vmmel etc 

HerzQg Heinrich yon Pressela, iv do nome, reinou 
de 1266 a 1299, e foi o objecto dos elogios de todos 
os poetas do sen tempo. A cantiga citada ó uma das 
mais bellas e extraordinárias composições d'aque]]es 
séculos. (Nota da segunda edição.) 



Pm DO TOLUMB FRIMSOtO 




índice 



Pag. 

ÍMTBODUcçio do6 Editores na terceira ediyâo.. v 

do A. na segunda ediçflo vii 

RoVAKCSmo, LIVBO L i 

I Adozinda 33 

n Bernal-francez 87 

m Noite de San7oao il5 

lY O Anjo e a Princeza 123 

V O chapim d'e]rei 139 

VI Rosalinda 137 

VII Miragaia 179 

Vin As Pegas de Cintra 235 

Notas 2i7 



TOL. I. *» 



OBRAS 



DO 



V. DE ALMEIDA GARREn 

XIV 



[SEeUROO DO ROMANCEIKO) 



z^ 



f^ 



k 



OBRAS 



DO 



V. DE ALMEIDA GARREn 

XIV 

(SE6UIID0 DO ROMANCEIIIO) 



OBRAS 



DO 



V. DE ALMEIDA GARRETT 

XIV 



(SE6CNDO DO ROMARCCIllO) 



ROMANCEffiO 



PELO 



V. DE ALMEIDA GAEEETT 



II 



ROMANCES CÂVALHERESCOS ANTIGOS 



TERCEIRA EDIÇilO 



LISBOA 

IMPRKN8A NAaONAL 

i875 



HTIOBDCÇIO 



Pretendo supprír nma grande falta na nossa 
litteratara com o trabalho que intentei n'esta 
ooliecção. Não qaero compor uma obra eru- 
dita para me collocar entre os phílologos e 
antiquários, e pôr mais um volume na estante 
de seus gabinetes. Desejo fazer uma coisa utíl, 
um livro popular; e para que o seja, torná-lo 
agradável quanto eu saiba e possa. As acade- 
mias que elaborem dissertações Chronologi- 
cas e críticas para uso dos sábios. O meu ofii- 
cio é outro: é popularizar o estudo da nossa 
litteratura primitiva, dos seus documentos 
mais antigos e mais originaes, para dirigir a 
revolnçSo litteraria que se declarou no paiz, 
mostrando aos novos ingenbos que est3o em 
soas fileiras os typos verdadeiros da naciona- 



VI 



1 idade que procuram, e que em nós mesmos, 
não entre os modelos extrangeiros, se devem 
incontrar. ^ 

É obrigação de consciência para quem le- 
vanta o grito de liberdade n'um povo, achar 
as regras, indicar os fins, apparelhar os meios 
d'essa liberdade, para que ella se nSo preci- 
pite na anarchia. Não basta concitar os ânimos 
contra a usurpação e o despotismo ; destruído 
elle, é preciso pôr a lei no seu togar. E a lei 
não hade vir de fora: das crenças, das recor- 
dações e das necessidades do paiz deve sahir 
para ser a sua lei natural, e não subsUtuíruma 
usurpação a outra. 

Eu, que ousei levantar o pendão da reforma 
litteraria n*esta terra, soltar o primaro grito 
de liberdade contra o domíoto oppressívo e 
antinacional da falsa litteratura, doe-me a con- 
sciência de ver a anarchia em que andámos 
depois que elle foi aniquilado; pêza-me ver 
o bom instinclo dos jovens talentos, desvai- 
rado em suas melhores tendências, procurar 
na imitação extrangeira o que só pode, o que 
só deve achar em casa. 



vn 



A revolução não está completa nem conso- 
lidaãsL Ê preciso iodicar-lhe o caminho naUir 
ral e legal, pô-la em marcha para os pontos 
a que lhe convém chegar; e ella se aperfei- 
çoará a si mesma no progresso regular que 
assim hade seguir para um norte fixo. 

Fiz para isso esta collecção de exemplares, 
de docammtos, de estudos e observações. 
N3o respondo nem por sua exacta classifíca- 
çio, nem por uma certeza em todos elles aci- 
Bia dos escrúpulos austeros da crítica, e das 
desapiedadas negações da chronologia. Bes* 
pondo pelo espirito, pela tendência, pela ver< 
dade moral do trahalho. Sente-se muitas ve- 
ies, vé-se clara a verdade e exacçSo moral de 
uma coisa cuja exacçSo material não pôde pro- 
var-se por falta de documentos de indisputável 
autbenticidade. 

Eu reuni, junctei, puz em alguma ordem 
muitos elementos preciosos. Trabalhadores 
mais felizes, e sobretudo mais repousados que 
eo de outras fadigas, virão depois, e emenda* 
rão e aperfeiçoarão as minhas tentativas. To- 
máramos eu já ver n'esse imponho. Então in* 



VIII 



tenderei deveras que fiz um grande serviço á 
minha terra e á minha gente. Sem vagar de 
tempo nem de cuidados para coisas tanto de 
meu gosto e tão fora de minha possibilidade» 
vou lançando no papel as observações que me 
lembram, as reflexões que me occorrem, sem 
curar ás vezes nem do fio que levam, nem do 
logar em que as ponho. Quizera poder fazer 
á língua e á litteralura portugueza serviço 
egual ao que fez M. Raynouard á dos seus 
provençaes. Mas nem posso eu, nem o resul* 
tado seria tam prompto como elle hoje se 
precisa. 

Tomara que estas paginas se fizessem ler 
de toda a classe de leitores; nSo me importa 
que os sábios façam pouco cabedal d'ellas, 
comtanto que agradem á mocidade, que as 
mulheres se não infadem absolutamente de 
as ler, e os rapazes lhes não tomem medo e 
tédio como a um livro professional. Eisaqui o 
que eu desejo, o em que puz fito, e o porque 
intersachei a prosa com o verso, a fábula com 
a historia, os raciocínios da crítica com as in- 
spirações da imaginação. 



IX 



Tenho alguma esperança no methodo. 

A primeira parte e volume do presente 
ROMANcniio deve ser considerada como a in- 
troducção d'esta segunda e das que se lhe se- 
guirem* 

Alli dei a traducçSo em língua e stylo mo- 
derno de alguns dos nossos romances popu- 
lares; aqui v3o os próprios textos d'esses e 
de muitos outros romances. 

Horácio, cuja arte poética hade sempre ser 
para a poesia de todas as edades, de todas as 
escholas e de todas as nações, o que s3o para 
a moral os 'Versos de oiro' de Pythagoras, 
mn código eterno de regras inalteráveis — 
Horácio louva, sobre todos, aos poetas roma- 
nos que ousaram desviar-se do trilho batido 
dos gregos, e celebrar emGm as acçOes da sua 
própria gente, deixando em paz as Medeas e 
Jasons, a interminável guerra de Tróia e essa 
perpétua familia dos Attrídas. 

Os nossos primeiros trovadores e poetas, 
que mal sabiam talvez, se tanto, o latim mu- 
sárabe dos bons monges de Lorvão ou de 
Cucujães, e que decerto nunca tinham lido 




Horácio — nem o intenderiam — seguiram 
comtudo melhor, por mero iosUncto do cora- 
ção, as doutrinas do grande mestre que nio 
conheciam, do que depois o fizeram os poetas 
doulos e sabidos que no século xvi nos trans- 
mudaram e corromperam todas as feições de 
nossa poesia. 
Longe de mim a ingrata e presumpçosa vai- 

• dade de desacatar as venerandas barbas dos 
nossos dois Boíleaus de Quinhentos, Ferreira 
e Sá-deMiranda i E qu «n ousará pôr os olhos 
fittos no sol de Camões para lhe rastrear al- 
guma leve mancha, se a tem? Todavia esses 
três grandes poetas, grandes homens, grandes 
cidadãos e grandes philologos, são os que, 
cheios de Yirgilio, de Ariosto e de I^trarcba, 

• com os olhos cravados no antigo Lacio e na 
moderna Itália, de todo esqueceram e fizeram 
esquecer os tons e os modos da genuina poesia 
da nossa terra. 

Os nossos vizinhos de Gastclla nunca che- 
garam, no século xvi, á perfeição clássica da 
litleratura portugueza; mas porisso ficaram 
.mais nacionaes, mais originaes; eporconse- 



XI 



qaencia, maior e mais perdurável emais geral 
Dome obtiveram e conservaram no mundo. 

Toda a Europa lé hoje os lusíadas: é ver- 
dade. E porque? Será pelas (brmas virgilianas 
do poema, pelos deuses homéricos do seu 
maravilhoso, pela belleza dos modos que s6 
nós sentimos bem? Não, é pelo que alii ha de 
poesia original, própria, primitiva: porquan* 
to, era o Camões poeta tam portuguez n'alma, 
que as mesmas harmonias homéricas e virgi- 
lianas, os mesmos sons clássicos se lhe repas- 
savam debaixo dos dedos n'aquella sincera e 
maviosa melodia popular que respira das nos- 
sas crenças nacionaes, da nossa fe religiosa, 
do nosso fanático — e inda bem que fanático I 
—patriotismo, da nossa historia, meio histo- 
ria, meio fábula dos tempos heróicos. Domi- 
noo-o, mas não pôde pervertê-lo a escbola do 
seu tempo. 

A poesia e a lilleratura portugueza preci- 
savam retemperadas nos princípios do século 
passado; que estavam uma coisa informe e 
laxa: eram cordas castelhanas em segunda 
mão, cordas italianas de má fábrica, as únicas 



XIX 

da lyra portugueza. Veio o Garção, o Diniz, 
Francisco-MaDuel, depois o Bocage, com todos 
os satellites d'estes quatro grandes planetas, 
c restauraram a lingua e a poesia — a prosa 
Tão — mas nos antigos modos clássicos, agora 
deduzidos pela reflexão franceza, bem como 
no secuio xvi o tinham sido pela reflexão 
italiana. 

Fallou portuguez e fallou bem, cantou alto 
e sublime a nossa poesia ; mas ainda não era 
portugueza. 

Estava corrido o primeiro quarto d'este sé- 
culo, quando a reacção do que se chamou ro- 
mantismo, por falta de melhor palavra, che- 
gou a Portugal. 

Vamos a ser nós mesmos, vamos a ver por 
nós, a tirar de nós, a copiar de nossa natureza, 
e deixemos em paz 

'Gregos, roroSos e Ioda a oiilra gnite.' 

Que se hade fazer para isto? Substituir Goe- 
the a Horácio, Schiller a Petrarcha, Shaks- 
peare a Racine, Byron a Virgiho, Walter- 
Scott a Delille? 



Xlll 



Não sei que se ganhe n'isso, senão dizer 
mais semsaborias com menos regra. 

O que é preciso é estudar as nossas primi- 
tivas fontes poéticas, os romances em verso 
e as legendas em prosa» as fábulas e crenças 
velhas, as costumeiras e as superstições an- 
tigas: le-ias no mau latim musárabe meio 
suevo ou meio godo dos documentos absole- 
tos, no mau portuguez dos foraes, das leis 
antigas e no castelhano do mesmo tempo — 
que até bem tarde a lítteratura das Hespanhas 
foi quasi toda uma. O tom e o espirito verda- 
deiro portuguez esse è forçoso estudá-lo no 
grande livro nacional, que è o povo e as suas 
tradições e as suas virtudes e os seus vicies, 
e as suas crenças e os seus erros. E por tudo 
isso é que a poesia nacional hade resuscitar 
verdadeira e legitima, despido, no contacto 
clássico, o sudário da barbaridade, em que foi 
amortalhada quando morreu, e com (jue se 
vestia quando era viva. 

Reunir e restaurar, com este intuito, as 
cao^s populares, xácaras, romances ou ri- 
mances, soláos, ou como lhe queiram chamar, 



XIY 



é um dos piimeiros trabalhos» que precisáva- 
mos. É o que eu fiz — é o que eu quiz fazer, 
ao menos. 

Para eolrar com alguma ordem, e com al- 
gum nezo, ainda que s^a apenas bypolhetíco» 
no ajunciare examinar dos documentos, veja- 
mos eresunmiamos em poucas palavras como, 
da litteraiura da civilização velha se fez, na 
chamada meia-edade, a transição para a nov^ 
e imperfeita, mas muito mais oríginal, muito 
mais creadora litteratura da sociedade du*i* 
stan, d'esta civilização que é tam outra e tam 
distincta d'aquella, e, por forçosa necessidade , 
tam diversamente tem de formuiar-se em sua 
mais natural expressão, a poesia. 

Roma e Grécia tinham cahido na segunda 
meninice, os bárbaros do norte entravam em 
vigorosa juventude de intendimento. Gha- 
mou-se a este período, tam notável e interes- 
sante na historia do espirito humano a Edade- 
media. Mas não foi elie, como ha três séculos 
se escrevia, e se cria sem mais ezame, não foi 
^ioa epocha de trevas em que toda a arte e 
^"«•noia pereceram, foi uma crise de transfor- 



xv 



macia e regeneração em que os elementos da 
sociedade, puriGcados no fogo de um grande 
incêndio^ começaram a tender para ordem 
QOTa, para orna organização qoe era extranba^ 
a Iodas as ídeas e concepções antigas. 

Ot)8erva um elegante escriptor contemporâ- 
neo que naiuraimente sao objecto de nossa cu- 
riosidaâe e nos excilam vivo interesse os cos* 
tmnes, os sentiaienlos, a litteratura d'aquella 
q>ocha singular em que, passo a passo, vemos 
e progresso do intendimcaito humano cami- 
abando paia a civilizaçio cbrístan, essa que* 
d^is iMnria de ceoftm^r-se com as reminis- 
cências da antiga, desvairar-se em seu cami- 
nho, retrogradar, parder-se tantas vezes na. 
senda, ch^ar a ser desconhecida e desconhe- 
eer-se eUa a si mesma. 

Abstraclaaiente consideradas as maneiras 
e as instituições daqu^a edade, pouco ha 
n'eUas deloavar, muito que reprovar: e to- 
davia as que mais pareciam deformidades na 
inianda dos povos» vieram a produzir resulta- 
dos tam benéficos, a amadurecer em fructos 
de tanta bençam, que hoje nos deleita e in- 



À 



i 



XVI 



teressa contemplar e examiaar essas mesmas 
aberrações. 

Saudável e reanimadora foi a inflaencia das 
tribus gothicas na politica e na litteratura da 
Europa. A antiga luz da civilização velha ardia 
ainda na caligínosa atmosphera de Constan- 
tinopla; e a ascendência que, de tempos a 
tempos, readquiria na Europa o crapuloso 
império do Oriente, por vezes fez sumir a Iqz 
nova e verdadeira que, sob o reinado deTheo- 
dorico, se tinha accendido na Itália, que de- 
pois, resurgindo de novo nas remotas regiões 
do norte, d'esses claustros da Islândia onde 
jazera latente, veio propagando-se atè nós. 
Um soberano theutonico, Garlos-Magno, sus- 
citou o génio nacional que deu existência, 
forma e cultura á lingua vernácula no centro 
da Europa para substituir a corrupta algaravia 
das fezes latinas, em que mal se pode dizer 
que ja faltava, senão que gaguejava a nossa 
decrepitude. Um rei saxonio, Alfredo, formu* 
iou, com os primeiros elementos da lingua» a 
primeira civilização ingleza. Os nossos reis 
godos, visigodos e asturianos crearam nas 



XVH 

Hespanhas estas línguas e estas litteratu- 
ras,— hoje resumidas em doas irmans gé- 
meas — tam cbaracterizadas e originaes ainda, 
apezar dos longos e teimosos esforços de 
oma reacção de cinco séculos que por todos 
os modos as qoiz desnaturalizar e fazer re- 
negar sua nobre e legitima ascendência, para 
emente as reconhecer bastardas e adulte- 
rinas de corrupção romana, quando ellas são 
legítimas filhas, havidas em um matrimonio, 
sim forçado pela conquista, mas útil e vanta- 
joso aos contrahentes e á progénie que d'elles 
veio. 

Durante todo o undécimo, duodécimo e dé- 
cimo-terceiro século os elementos de civiliza- 
ção da Europa estiveram fermentando, sepa- 
rando-se e moMando^se para receber nova 
forma; os princípios eram ainda crus e indi- 
gestos, mas os sentimentos fortes e vivazes. 
O fervor do zelo religioso transviava a miúdo 
o espirito e mflamma va as paixões ; mas essa 
reKgião era também o symfooio, e era o meio, 
o mstrumenlo mesmo da civilização; era o 
^jo Custodio que velava nos sanctuarios da 

YOL. II 3 



XX 



Vé-se quanto era o poder de tal influencia 
pelo modo com que a animavam os poíiticos 
imperadores de Allemanha, oppondo-a de bar- 
reira á superstição dos ignorantes e ás pre- 
tenções da cúria romana. A força com que eHa 
operava pode aTaliar-ae pela resistência de 
opinião pública que tantas vezes excitou. 

Todos os elefnenCos da sociedade, unidos 
assim por syrapatbias communs, tendiam si- 
HHiltaneamente a apperfeiçoar-se, temperan* 
do-se uns aos outros pela própria acçio e reac- 
ção de suas forças. Príncipes, senhores e povo 
rivalizavam no campo dascontendas poéticas ; 
as desigualdades de condicçãoeram mitigadas 
pela valia que se dava ao talento onde quer 
que efle apparecia. Então o Oriente patenteou 
as snas maravilhas, o mondO' foi incantado e 
a historia se fez romance. Foi a primavera 
do espirito, a estação da florescência d'alma. 
O coração do homem era mais arrojado, o seu 
braço mais firme do que nos dias da prosaica 
realidade. O espirito da aventurosa cavallaria 
abrandou-se em heróica gentileza e amoroso 
galanteio. A belleza da mulher foi estimada 



XXI 



como Ihesoiro, exaltada como Iriumpho, ado- 
rada como divindade. Chegou a hora própria 
de despontar a flor mais bella de toda a gri- 
nalda, a rosa que as coroa e domina a todas, 
aqoelle espirito de poesia ^ue desenferrujou 
e puUa o barbarismo accumulado das edades, 
que suscitou o espirito de emulação, que o 
preparou para as melhores coisas. Está aberto 
emfim o manancial dos sentimentos genero- 
sos e elevados, d'onde hade correr a civilização 
pelo mundo. 

A cavalleria e a poesia d'esses tempos foram 
pois inseparavelmente ligadas, sao fructos de 
nma grande revolução moral, nasceram jun- 
ctas, mutuamente se explicam e definem, os 
mesmos senões as maream, qualidades eguaes 
as íiliisCrain. 

Mas, tendo-se discorrido tanto sobre uma, 
não se estudoa ainda bastante a outra : e to- 
davia n'essa poesia da edade-media está a me- 
lhor explicação do estado da sociedade que a 
creou, d*essa pasmosa mistura dos sentimen- 
tos fortes, das associações religiosas, e do ga- 
lanteio metaphysico que revestia de uma fór- 



XXII 

ma angélica o objecto da adoração do poeta, 
e em seus olhos punha as estrellas em que o 
homem lia o seu destino, que abria o ceo aos 
amantes felizes, e fazia os bosques e os prados 
testimunhas e participantes de sua alegria. 
Com que expressão de temo contentamento 
começa aquella gentil canção do trovador Ar- 
naldo de Merveil: 

Ob que doce abril respira 
Qaaodo maio ve chegar i 
Pelas noilos aocegadas 
Se escola o doce cantar; 
E nas frescas manbans puras 
Brandas aves gorgeiar. 
Todo emtonio alegre folga. 
Todo ri, todo sospira: 
CooK) heide ea conter no peito 
AÍTectos qat amor me inspira I 

Que festivas alegrias não folgam n^essa ou* 
tra canção do velho minnesinger, o conde Cod- 
rado de Kirckberg quando, ao voltar de maio, 
chama pelas festivas cboreas que saiam ao 
campo. 

Seos Ibesoiros de alegria 
Todos maio derramou, 
Pebis seves que florece. 
Pelas sombras que copoa 
Onde roniinol amante, 



XXIII 

Em cada ramo quo praJci 
Em cada flor qae rec<*n<k*. 
Soa doce mellodia 
Fas ioar pela ecpotiura. 
Viode, maio é o mex d'amor. 
Da bdleza e da ternura ; 
CaotefflOf , viade, cantae^) : 
Dcos te 8al\e, lindo maio I 

A coíDcidencia de tom entre ti sociedade e 
a poesia do tempo observa-se tamt)em nas 
phantasticas instituições a que deu nascença 
a paixão reinante da galanteria. Âprazia-se, 
diz outro escriptor moderno, a sociedade, 
nova ainda, em formalidades ceremoniosas, 
que então eram signai de civilização e que 
boje mattariam de ínfado : é o mesmo chara- 
cter que se acha na língua provençal, na dif- 
ficuldade e no ínrevezado das suas rbymas, 
nas suas palavras femininas e masculinas para 
expressar o mesmo objecto, até no infinito 
Dúmero de seus poetas. Tudo o que era for- 
malidade e alinhamento, coisa hoje tam insí- 
pida, tinha entSo toda a frescura e sabor da 
novidade. 

Veja e examine com paciência os exempla- 
res que nos restam d'essa eschola entre nós, 



XXIV 



o cANCioNEiBO ditto do Collegio dos Nobres, 
o de Dom Dídíz, o de Rezende, e conhecerá 
quanto é exacta a observação. 

N'este período se observa também o fun- 
damento de uma das mais characteristicas dis- 
tíncções que separam a poesia moderna da 
antiga, a que vulgannenie se diz romântica, 
da que lambem vulgarmente se chama elas- 
£ica. Essa, a poesia grega e latina tinha um 
eharacter essencíalaiente masculino, a todos 
os respeiios : em seus mais ternos desafogos a 
mulher somente appareoe como subser\ient6 
aos caprichos e aos praieres do * sexo mais 
nobre.' A nossa poesia, ao contrario, deve os 
mais de seus incantos ao suave eharacter qae 
lhe infundia a dífferente posição da mulher 
na sociedade. Nos primeiros tempos este novo 
sentimento trasbordava extravagante e incul- 
to ; mas depois abrandando-se e eultí vando-se, 
veio a aquietar-se n'essas tranquillas pintoras 
de affeiçao social, de felicidade doméstica, de 
gõso ora sereno ora apaixonado, de que pouoo 
ou nada apparece na litteratura chamada clás- 
sica. 



XXV 

A poesia dos trovadores aíoda nSo foi im- 
pardalmente avaliada nem siquer por aqueiles 
(e poueos são) que a foram examinar nos pro* 
prios orígiaaes. Os mesmos que se extasiam 
com as rbymas de Petirarcba e de seus imita- 
dores, esses mesmos a Iractaram de resto. 
Os míDoesíDgers d'Aliemanba« eontempora- 
neos dos trovadores, apenas, se tanto, serio 
coDbeeidos de nome entre nós. De nossos vi- 
ziniios castelhanos, aragonezes e galiegos ha*, 
milito que se apagou a memoria, ja tam fami- 
liar á gente portugueza. Aos nossos próprios 
caotore» e juglares só ficou fiel a saudosa re- 
cordação do vulgo, da plebe que, de geração ^ 
em geração, foi traosmittindo, mas corrom- 
pendo também suas composições, delicias ou- 
tr'ora de damas bellas e de cortezãos cavalbei- 
los, boje intertenimeoto de alguma pobre 
veiba d'aldea que as caola ao serio aos esfar- 
rapados netos. 

O maior senão áe todas estas poesias 
primitivas é a sua uniformidade e monoto- 
nia. Responde a esta aecusaçao, por parte 
dos seus minnesingers, o erudito e ele- 



XXVI 



gaDte F. Schiegel: a defeza serve para 
todos. 

A accusaçSo de uniformidade, diz etle, pa- 
rece*me singular: é o mesmo que desdenhar 
da primavera pela multidão de suas flores. 
Certo é que em muita espécie de ornatos, 
elles agradam mais separados do que amcm- 
toados em massas. A própria Laura nio era 
capaz de ler, sem fadiga e fastio, todos os 
seus louvores, se lhe appresentassem de uma 
\ei quantos versos inspirou a Petrarcha no 
decurso de sua vida. — A impressão de uni- 
formidade nasce de vermos estes poemas re- 
unidos em volumosa s collecções que talvez nSo 
pensaram nem desejaram fazer seusauctores. 
Mas em verdade não é só canções d'amor, 
todo o poema lyríco, se elle realmente for flel 
á natureza e não pretender mais do que ex- 
pressar sentimentos individuaes, hade circum- 
screver-se a muito estreitos limites tanto de 
sentir como de pensar. A prova e exemplo 
está nos mais altos géneros da poesia lyrica 
de todos os povos. O sentimento badeoccupar 
o primeiro logar para poder expressar-se com 



XXVII 



poesia e força : e ODde o sentimento predo- 
mina, variedade e riquezas de pensamento s9o 
de importância muito secundaria. Grandes 
variedades em poesia lyrica nSo se acham se- 
não nas epochas de imilaçSo em que se capri- 
cha de trattar toda a casta de assumptos em 
toda a sorte de formas. 

Os trovadores do sul da França foram de- 
certo os primeiros inventores da nova arte e 
nova lingua poética que em breve se diffundiu 
por toda a Europa e se popularizou de tal 
modo que o seu alahude fez callar as harpas 
dos bardos theutonicos e quebrar a última 
desaflnada corda da lyra romana. Da brutal 
idolatria do norte, do profligado paganismo 
do meio-dia, a sociedade europea fugia para 
o spíritualismo chrístSo. Exagerados e falsos 
muitas vezes, os trovadores eram comtudo os 
poetas d'este culto, os formuladores d'essa 
ideia ; d'aquí sua popularidade e supremacia. 

De nenhum ponto na historia litteraria do 
mundo se fallou e escreveu mais do que d'este. 
E todavia os documentos necessários para 
julgar do verdadeiro mérito e character da 



XXVIII 



poesia dos trovadores eram, até ha pouco, 
tam mesquinhos que justamente observou 
Schlegel : ' todo o mundo fallava dos trova- 
dores e ninguém os conhecia/ Os críticos 
francezes, e JMillot specialmenle, occultaram 
com impeobo os poucos originaes que tinham 
consultado, manifestamente para (pieningurai 
pudesse ajuizar da fidelidade de suas traduc- 
coes e da justiça de seus conceitos. 

Guinguenéconientou-se com o trabalho que 
achou feito por Millot; rara vez se aventurou 
a traduzir por sí« e aigum fragmento original 
que por accaso appresenta, não o escolheu 
com o flm de mostrar o talento, o stylo ou 
o gosto da eschola poética que examinava ; 
foram tomados á sorte e offerecidos como 
simples exemplos de linguagem e de forma 
métrica : certamente nao conheceu, nao ava- 
liou nem a força nem a belleza d'aquella lín- 
gua, que, se a não julgarmos, como intendeu 
M. Rayaonard, continuada e revivenle na lin- 
goa portugueza, se pôde considerar uma lin- 
gua hoje morta. 

Seria absurdo e injusto assentar juizo sobre 



XXIX 

os trabalhos â'um auctor que pouco ou nada 
leu das obras que se metteu a julgar, e que 
confessa, como este confessou, e Sismondi 
também, que nos manuscriptos em que se 
achavam as poesias dos trovadores não estava 
para as ir ler, e se Qava descançadamente nos 
extractos e traducçoes de Millot. 

Sismondi comtudo ja na segunda edição da 
sua obra é mais extenso, e mudou de tom a 
respeito dos trovadores, porque tinha appa- 
reddo o primeiro volume dos trabalhos de 
M.Raynouard, que porfim veio esclarecer esta 
tam obscurecida parte da historia litteraria. 

ComeffeitoRaynouard ' fixou o vago doestes 
exames, reformou os antigos erros, suppriu 
as deficiências de seus predecessores, formou 
a grammatica da lingua, imprimiu correcta- 
mente os oríginaes e reuniu os principaes mo- 
numentosr da lingua e da poesia provençal* 
com diligencia, gosto e crítica. 

Póde*se dizer que só depois de apparecer 

* RicQHL MM PoisMS DM TROVBâDociit, poT M. Rajiioaard. 

* o primeiro conhecido d'es(e« poetas é Gnilherma, nono conde 
de PoitJen, nascido enf 1070 e nx)rlo em 1126. O elaborado de mq 



XXX 



o sea livro é que verdadeiramente começámos 
a conhecer a litteratura dos trovadores d^onde 
a nossa descende, ou com a qual se ligou 
estreitamente quasi desde o princípio da 
monarchia e pouco menos que o começo da 
língua. 

E viesse elia por Catalunha e Araglo, e, 
atravessando d'ahi a Castella, a Gaia-scíencia 
nos chegasse por Galliza, ou directamente 
no1a trouxesse o conde D. Henrique, o certo 
è que nos primeiros reinados da monarchia 
nós trovávamos ja á provençal ; e ahi está a 
carta do marquez de Santilhana para fazer fé» 
que primeiro e melhor que ninguém ò fizemos 
em todas as Hespanhas, e que na mesma corte 
de Castella o portuguez era a língua da poesia 
culta. 

Mas nao acharia essa poesia provençal quan- 
do ca chegou e se aclimatizou tam depressa 
como em chão seu próprio, n3o acharia ne- 
nhuns restos da poesia indígena que ja os 



stylo c a symetría ineiríca de suas cançOos mostram claramente 
que muito antos se devia ter formado c coUivado a língua para 
cbffrar a lai estado. 



XXXI 



itHnanos aqui acharam, que sempre foi vi- 
veado com elles e adoptou a sua língua, que 
nao consta que morresse, assim como n3o 
morreu a nova língua com o senhorio godo, 
nem era para acabar sob os árabes, — que 
antes esses lhe dariam de sua cõr oriental e 
phantastica, segundo em tudo os mais nos 
fizeram ? 

Estou convencido que sim; e que os vestí- 
gios d'essa poesia indígena ainda duram, des- 
figurados e alterados pelo contacto de tantas 
invasões sociaes e litterarias, nos singelos 
poemas narrativos que o nosso povo conserva, 
que ama com tanto affinco, e que não s3o nem 
mais queridos nem mais vulgares em nenhu* 
ma outra parte das Hespanhas. 

Como porém no século xiii começa a ap- 
parecer a língua portuguesa propriamente 
ditta, e n'esse tempo ja o stylo provençal 
tem o predomínio, as duas litteraturas da 
corte e do povo vistas boje d'esta distancia, 
se confundem aos olhos inexpertos: mas o 
observador illustrado bem depressa as estre- 
ma logo. 



XXXII 



Ás apalpadellas quanto aos períodos mms 
remotos, eu pareee-me achar que a poesia ori- 
ginal portugoeza— comprehendendo n-esta 
designação a aborígene, a provençal e a iniita 
— tem passado por oito phases differentes, 
cujas transições e duração constituem sette 
epochas naturaes. 

Na primeira coliocarei tudo o que, mais ou 
menos autbéntico, tem parecido ser anterior á 
predominação da eschola provençal, quasi ab- 
soluta no reinado de Affonso III e D. Diniz; e 
comprehende portanto as poucas e incertas re* 
liquias que se dizem existirdos séculos xi e xn. 
Na segunda epocha ja pisámos terreno históri- 
co, e somos alumiados por um grande e inques- 
tionável documento, o cai«€ioí\eiro ditto do 
€oHegio dos Nobres, e o chamado de D. Diniz 
que ultimamente se imprimiu em Paris peto 
manuscripto do Vaticano. Dura esta epocha 
até D. Pedro I. E afguma coisa portanto po- 
deremos também ja haver do gancioneiiio de 
Rezende. Mas certo e 6x0 todo é lyrico, s3o 
canções ou cantares. O pouco de épico ou 
de romance narrativo que se attríbue a esta 



xxzm 

epocba é a puro adivinhar, porque tudo é ha- 
vido da tradição oral, nada escripto. 

Começa a terceira epocha em D. Fernando 
com a introducçâo do gosto inglez, isto é, nor- 
mando; e por consequência com uma certa 
reacção a favor do género narrativo. 

Aqui triumpha a moda dos romances da 
Tavola-redonda; elrei Arthur é o typo de toda 
a cavallaria e de toda a poesia ; o condestavel 
o Mecenas d'esta eschola, e D. João I o seu 
Augusto. Ja na tradição oral apparecem mui- 
tos romances que, sem grande risco de errar, 
se podem attribuir a este período. Da rainha 
D. Philippa, de seu filho D. Duarte temos ver- 
sas escriptos e authenticos; de seu neto, o 
outro famoso condestavel, um cancioneiro 
inteiro. 

Nos reinados de D. Aflfonso V e D. João II 
predomina o género germânico. No cangio- 
NEiBo de Rezende e em outras coUecções te- 
mos exemplares bastantes no género lyrico, 
algum raro porém do narrativo. 

Reputo fechada a epocha com a terminação 
da edade-média, que todos collocam por esta 

VOL. II 3 




X3LXIV 

data, pouco mais ou menos, e que nós portu^ 
guezes positivamente devemos pôr no fira do 
reinado de D. João II. 

A quarta epocha é aberta por Bernardim- 
Ribeiro e Gil^Vicente. Agora o Palmeirim e a 
litteratura normando-bisantina tríumpham. 
Pouco depois ja é menor o sabor normando 
nos nossos romances ; e ja começam a ganhar 
influencia os romancistas italianos. Parte do 
CANCIONEIRO de Rezondo pertence também a 
esta epocha: é todo d'ella o mesmo Garcia. 

Logo após vem a renascença da litteratura 
clássica. A poesia culta e da corte per()etua* 
mente se separa da popular, toma as fórmag 
italianas e triumpha com António Ferreira. 
Sá-de-Miranda fica no meio das duas escholas ; 
Gamões populariza o género clássico repas- 
sando-o, quanto era possível, do gôslo na- 
cional. Temos muitos romances, lendas e 
canções doesta epocha, tanto escríptos como 
conservados pela tradição oral. Mas no rei- 
nado de D. Jo9o III a afiiectaçSo bucólica in- 
vade o próprio romance, que despe a malha 
e depõe a lança para vestir o surrío e impu- 



XXXV 



fihar o c-ajado de pastor. O gosto popular, mai 
satisfeito com a eschola clássica dominante, 
laoça-se no romance castelhano, cuja sinceri<- 
dade e rudeza épica lhe agrada mais. Muitos 
romanees castelhanos se nacionalizam entre 
oás. 

O geoío cavalheresco de D. Sebastião, a ca- 
lamine nacional da sua perda dão outra vez 
tom e vida ao romance histórico e aventureiro. 
CoDcIíie-se a quarta epocha com o fim do se* 
culo XVI e da independência nacional. 

O domínio castelhano e a mais forte influen- 
cia da sua litteratura formam a quinta e[>ocha. 
O género moirísco tinha tomado posse da 
poesia popular de Gasteila, e agora invade a 
de Portugal. Apparecem ainda hoje na tra- 
dição oral imitações e traducções dos roman- 
ces granadinos. Francisco Rodrigues Lobo e 
depois D. Francisco Manuel de Mello estão á 
fteole d'esta eschola. A Arcádia é comtudo 
mais forte do que Granada, os moiros são ex- 
pulsos do romance e da canção popular, e 
o g^ero pastoril triumpha. O povo fica es- 
pectador desinteressado n'estas luctas; nem 



XXXVI 

chorou pelos vencidos, nem sanccionou a vi- 
ctoria dos tríumphadores. Nem uns nem ou- 
tros fallavam ao seu cora(So, ás suas paixões, 
nem o consolavam em suas desgraças, nem 
lhe animavam as esperanças. Mas como ne- 
nhum povo vive sem poesia, o nosso povo foi 
achá-la onde nem os grandes nem os sabe- 
dores do tempo decerto imaginavam que ella 
estivesse, mas estava, a verdadeira, a única 
nacional d'ent3o, a das trovas e prophecias 
que lhe fallavam de um libertador, de um 
vingador, de um salvador que a Providencia 
tinha reservado á nação portugueza, e no qual 
se haviam de cumprir as imaginadas e suspi- 
radas promessas do Campo de Ourique. 

Sao d'este tempo as prophecias do Ban- 
darra e outras que em si resumem quasi toda 
a poesia popular da epocha, se exceptuarmos 
as lendas de milagres e as canções ao divino 
de que agora apparecem mais exemplares do 
que nunca. 

O romance porâm não estava morto, só des- 
considerado e sem popularidade. Na insipidez 
da vida pastoril, o povo desprezou-o, a corte 



xxxvn 

mostrou-lhe, ao princípio, agrado e protecção, 
mas íafastioií-se d'elle e abandonou-o. O in- 
feliz recorreu ao expediente commum dos 
baixos parvenus e dos nobres degenerados, 
fez-se truão e bobo ; os gracejos, os equívocos, 
as facécias burlescas foram as suas armas, e 
á força de ridículo conseguiu reconquistar al- 
guma attençâo do público. Tal o achámos no 
fim d'esta epocha, tal apparece nas.volumosas 
coUecçoes do tempo, de que na 'Phenix re- 
nascida' ha alguns exemplares curiosos. 

Sem melhorar ou talvez empeiorando de 
stylo, mas muito alterado o tom, torna o ro- 
mance a rehabilitar-se na opinião nacional, 
volta a ser quasi popular, porque se inspira 
do génio redivivo da nação para cantar os seus 
Iríomphos e a sua glória na expulsão dos cas- 
telhanos e nas contínuas victorias que sobre 
elles alcança. O seu enthusiasmo porém é sem 
dignidade, sem nobreza; não é o povo que 
conta as suas victorias, são os poetas que que- 
rem cortejar o povo no dia da sua glória e que 
o não sabem fazer senão com grosseiros mo- 
tejos aos inimigos vencidos. 



XXX VIII 



As prophecias e as legendas continuam ^ 
ser a verdadeira poesia nacional. Tudo o mais 
é corrompido pelo mau gosto dos culfos, que, 
arregimentados em uma inAnidade de aca- 
demias dos nomes mais extravagantes e incrí- 
veis, conseguem tirar toda a cõr á litteratura 
porlugueza de todos os géneros e fazer da 
lingua uma algaravia affectada e rídicula, van 
de toda a expressão, assoprada em phrases 
tam descommunaes, em conceitos tam oucos, 
que nenhum sentido sé lhe acha, se algum 
tiveram os que tam absurdas coisas escre- 
viam. 

E todavia ainda resurge, ainda brota, aqui 
alii, poi* entre estes matagaes, o antigo génio 
do romancepeninsular inspirando alguma rara 
composição menos desnaturai. Mas o gongo- 
insmo, a aiTectação, os conceitos presumidos 
incham, assopram, desfiguram tudo. PorBm 
até a metrificação natural e privativa é aban- 
donada, o romance faz-se a gralba da fábula 
para vestir as pennas do pavão da forma heií- 
decassyllaba ; e com este esforço de vaidade se 
torna absurdo, desprezível, é apupado por 



XXXDC 

todos os partidos lilterarios, e morre esque- 
cido e miserável. 

O tríumpho clássico foi completo : reina a 
Arcádia; o seu dominío académico oblem o 
coDseoso e o concurso geral : tammanho era 
o cansaço e fastio que os desvarios d'aqueiia 
anarchia sem sabor tinham causado. Popu- 
iaroam-se de novo as formas latinas e italia- 
nas, o stylo e o pensamento francez por tal 
modo, que ninguém se lembrava ja siquer de 
qne tivesse havido ou podesse haver outra 
com. 

Só o povo-po vo, o povo dos campos, as clas- 
ses menos iliustradas da sociedade protesta- 
raoi em silencio contra este injusto abuso de 
uaia justa victoria» guardando na lembrança, 
e rtpetttDdo entre si, como os bymnos de uma 
religião proscripta, aquelles primitivos canta- 
res das antigas eras que os doutos despreza- 
van e per^guiam^ eoofenâindo-os no an^h 
Ihraia gwri que só tinham merecido seus 
degenerados ímiuiâoria e corruptores. 

No reslo de Hesponha soccedia o mesmo. 
Madrid e Lisboa rlvaliza\'aiu a qual havia de 



XL 



proscrever e escarnecer mais a saa verdadeira 
poesia nacional. A falsa e ridícula imitação da 
antiguidade clássica, amaneirada pelas i^gras 
francezas, dominava tudo. Os escriptores do 
grande rei e os seus alumnos reinavam abso- 
lutos. E não só á península ibérica se extendia 
a sua auctoridade: a Itália, a AUemanha, a 
própria tam ciosa Gran'Bretanha se deixaram 
avassallar d'estes novos Roldans e Oliveiros 
que, em singular mas pouco leal batalha, 
pareciam ter vencido a todos os paladins 
trovadores do mundo, juglares, menestréis» 
bardos, minnesingers e tutti quaníi. A pró- 
pria religião de Camões esfriava em Portugal ; 
um mau Luthero — frade e graciano como o 
outro— chegou a ter a ousadia de proclamar 
o protestantismo contra a sua catholica aucto- 
ridade ! Galderon era quasi esquecido, quasi 
desprezado ás margens do Mançanares; ao 
Dante n3o o intendiam ja nem juravam por 
elle os seus; o próprio Sbakspeare esteve a 
ponto de succumbir ás traições de Dryden, e 
de ver Covent-Garden e Drurylane occupados 
exclusivamente pelas traducções e imitações 



xu 

dos clássicos de Luiz XIV ; Goethe nem Scbil* 
ler Dão tinham erguido ainda bem desfraldado 
o estendarte da reacção ; toda a litteratura da 
Europa era franceza, amaneirada, monótona, 
servil, e reduzida a uma estéril unidade rotl- 
aeira que nada creava, nada sentia, e nada 
oosava dizer senão por aquellas formas pau- 
tadas qae lhe impunha o fatal regimen da cen- 
tralização absoluta. 

Senão quando, a revolução se levantou no 
Itale; a Allemanba foi a primeira a sacudir o 
jugo; quasi ao mesmo tempo a Inglaterra; 
porfim a ItaUa ; e até na própria França se le- 
vantou um grande partido contra esse des- 
potismo que a não avassallava menos a ella 
do que ás nações extrangeiras. 

Nós luctavamos então contra a usurpação 
franceza e a tutella ingleza que, insinando-nos 
a combater mais regularmente e com mais 
certa fortuna, ao mesmo tempo comprimia o 
impulso popular em seus bons e maus effei- 
tos; apagou o incêndio que não queimasse, 
mas também o impediu de purificar e allumiar. 
A Aitadía ja não existia, mas a sua sombra 



XUl 

e o seu nome ainda reinavam. Bocage teria 
sido o poeta mais popular de Portugal» o ver* 
dadeiro restaurador da nossa poesia, se elle 
e os seus discípulos, que poética e litteraría- 
mente reinaram na segunda metade doesta 
epocha, n3o fossem dominados d'aqueUe te* 
mor, d'aquelle respeito, d'aquella deferência 
com que se inclinavam deante dos preceitos e 
exemplos da Arcádia em quem reconheciam 
a infaUibilidade ecuménica. 

Quasi se podia dizer destruída toda a na- 
cionalidade, apagados es últimos vestígios 
oríginaes da nossa poesia* quando no in do 
primeiro quartel d'este século essa inflneMia 
da renascença alleraan e ingieza se (xmm^oo 
a fazer sentir. 

N9o quero, por muitos motivos, e alguns 
d^elles personalíssimos, não quero entrar aepú 
eoa disputas de prefeneocia e prioridade com 
05 nossos vizíjibos c i)arentes mais pimimM : 
direi somente que em Hespanka portogoeros 
e castelhanos despertaram quasi ao nesaao 
tempo, e começaram a abrir os olho» sabre 
a triste figura que estavam fazendo na Eu- 



XUII 

ropa em renegar da Hdalga origem de soas 
belias lingaas e litteratoras, prostituiodoas 
em tam bamilbante servidão franceza que 
por fins tinham chegado a nem ja quasi ou- 
sar imitar os seus modelos: traduziam só, 
traduâam palavra a palavra; e da própria 
pbrase, do génio de seu idioma se invergo* 
nbavam. 

De^rtámos porém ; e commum nos foi o 
pensamento, quasi simultâneo o esforço, a 
castelhanos e a portuguezes ; foi uma verda-^ 
deira reacção ibérica; as duas iinguas cultas 
da península appQreeeram fmidas por um tá- 
cito pacto de família, animadas do espirito 
redivivo de seus avós communs na causa da 
restauração commum. 

Pede todavia a verdade histórica, a justiça 
manda que se faça uma grande e notável 
dístineçSo no appreciar do respectivo contin- 
gente de esforços com que cadauma d'ellas 
para esta guerra de independeu- 



como na resistência ao dominio da 
espada franceza, os portuguezes foram mais 



XUT 



ajudados pelos seus antigos alliados os iogle- 
zes, e o resto d'HespaDha luctou mais de pró- 
prio marte e por singular esforço seu ; tam- 
bém no sacudir o jugo académico extrangeiro 
e em proclamar a independência da littera- 
lura pátria, os castelhanos foram poderosa- 
mente auxiliados pelos inglezes e allemSes, 
especialmente e largamente pelos últimos : a 
nós ninguém nos ajudou, ninguém combateu 
a nosso lado, ninguém nos ministrou armas, 
munições, soccõrro o mais minimo. 

Seja-me permíttido tomar aqui, n'este ponto 
de historia litteraria ja contemporânea, a mes- 
ma liberdade de que para si usou, na historia 
politica, o illustre conde de Toreno. Historia- 
dor coevo, elle teve de fallar de si e de seus 
feitos como soldado e como homem público 
n'essas honrosas lides da guerra peninsular : 
eu forçosamente tenho de fallar de meus po- 
bres trabalhos de escriptor, trabalhos quast 
infantis, é verdade, mas com os quaes e por 
cuja voz tímida e balbuciante, rompeu toda- 
via a primeira acclamação da nossa indepen- 
dência litteraria. 



XLY 

Desde 1835-26, que foi publicada a dona 
BBANGA e o GAMÕES, dataiu as primeiras ten- 
tativas da revolução; em 1828 com a 'Ado- 
zinda' e o ^Bernal-Francez' se firmou o esten- 
darte da restauração. Separado, logo depois 
e por mais de dez annos, pelos cuidados e li- 
da^ politicas, de quasí todo o trabalho littera- 
río» tive comtudo a satisfação de applaudir 
aos muitos e iUustres combatentes que foram 
entrando na iice; vi lavrar milagrosamente o 
fogo sancto, e junctei o meu retirado clamor 
aos hymnos da victoría que derrotou para sem- 
pre os pi-etendidos clássicos, os zangões aca- 
démicos, os estrangeirados de todas as cores 
e feitios. 

Antes que, excitado pelo que via e lia em 
Inglaterra e Allemanba, eu começasse a im- 
prebender n'este sentido a rehabilitação do 
romance nacional, ja Grímm, Rodd, Depping, 
MuUer e outros vários tinham publicado im- 
portantes trabalhos sobre as tam preciosas 
quanto mal-estimadas antigas collecções cas- 
telhanas; ja M.°^® de Stael e Sismondi tinham 
exaltado sua grande importância litteraria. 



XLVI 



E todavia só muito depois d'ísso publicou em 
França o Sr. diique de Rivas o seu 'Moroex- 
po&ito' que foi o primeiro signal da reacção 
castelhana, e emrim em 1832 o Sr. Durão o 
seu ROMANGEAo Que a completou. 

D'aqui por deante é geral e ttoauime em 
toda a península o movimento liiterario. Bu8«> 
cam-se os códigos antigos, comparam-se, es- 
tudam-^e, reímprimem-se. 

O nosso cancioneiro passou sempre por 
ser o mais ricco; e é decerto o mais antigo, 
porque as citadas coilecções de Rezende, do 
Gollegio dos Nobres, e de D. Diniz vão até o 
século XHi e xiv. Romanceiro, tónio a dizar, 
não o colligimos nunca; mas na tradição oral 
do povo, e dispersos pelos livros de vaiios au- 
ctores e por alguns raros manuscriptos, anda 
uma grande riqueza que ainda se não trattou 
de ajuntar e apurar como ella merece e como 
tanto precisámos. 

Sobre isto trabalho ha muitos annos, con- 
forme ja o disse no primeiro livro d'esta col- 
lecção, o qual todavia, repitto, só deve con- 
siderar-se como introducíao a este que agora 



XtVII 

cbaoH) segundo» mas que em realidade vem 
a ser o priíaeiro do ROMANcemo. 

Não pude seguir a ordem chronologica, 
como era taoto para desejar, na coUoca^o 
d'e8tas antigas e preciosas relíquias; porque 
havidas, na maior parte, da tradição oral dos 
povos, tudo quanto de suas datas se possa di- 
zer é meramente conjectural. Tampouco não 
julgeei de^er adoptar inteiramente a classi- 
Scacão por assumptos do Sr. Duran, que á 
força de systematiea lhe dá ^n falso muita 
vez, e o obriga a subdivisões tam minuciosas 
que, por moitas demais, confundem em to- 
gar de elucidarem. 

Depois de muitas e variadas combinações 
que socceesivamente tentei e abandonei, re- 
solvi por fim limitar-me a uma divisão me- 
nos severa que a do Sr. Duran, mas que me 
parece mais natural porque é mais simples. 

Posta de parte poragora toda a idea de can- 
cioneiro, não contemplei senão o que é stri- 
ctamente matéria de romanceiro, e assim dis- 
tribui perfim a mintaa coUecção em cinco 
livros; a saber: 



XLTIII 

Livro I Romances da renascença, imita- 
ções, reconstrucções e estados 
meus s6bre o antigo ; 

Livro IL Romances cavalberescos antigosde 

aventuras, e que ou nSo teem 
referencia á historia, ou nio a 
teem conhecida ; 

Livro IIL Lendas e prophecias; 

Livro lY. Romances históricos compostos so- 
bre factos ou mythos da historia 
portuguesa e de outras. 

Livro V. Romances vários, comprehenden- 

do todos os que não s3o épicos 
ou narrativos. 

Por de leve esbocei as delineações d'estas 
epochas. Nem os perfeitos limites d'ellas, nem 
a exacta classificação de todos os documentos 
e exemplares que ajuntei, pretendo defender 
com certeza, porque é impossível té- la em 
taes matérias quem está de boa fe. 

Tal 6 o methodo que segui. E taes s3o os 
princípios, taes foram os sentimentos que me 
fizeram imprehender esta dífiScil tarefa, per- 



xux 

sevarar D'eUa tantos annos apesar de tantas 
difficQldades, abhorrecimeDtos e contrarie- 
dades sem númeFO. 

Tenho, ootra vez o digo, tenho a consciên- 
cia de fazer vm grande serviço ao meu paiz, 
e de contribuir com um contingente não des- 
prezível para a illnstra^ão da historia das lin- 
goas e das litteratmas da Europa. 



VOL. T 



I 



ROMANCEIRO 



UTRO SBGUHBO 



PARTB SMOHDA 



BELLA INFANTA 



Ésla è sem questão a mais geralmente sak 
bida e catada de nossas xácaras popidaiw» 
a 'Bella inteta*' 

Os critkos e eeUeeleres daoacio vizmhae 
parente coUocam alguns romaoeea* que sio 
visíveis fra^Mntos doeste, entre us seus mais 
antigos e maia populares, d'aqQeUe6 cq^ ^^ 
tuslade se p^de talvez nas treva^dodéeimo- 
leieeíro seeula. £ satrido que os romancas 
SKiis aniigo&equflndoada povo davam Ihama 
aoa poetas para tarevaremi sèbre eUes. ou oa 
applicarem aos factos do seu tempo. É oqoa 
sa.vA aos refwidoif bagmwtos* que se inflon- 
dana entoe es ppimeirm daa vastas coitoceaes 
defimpan edeiOfàea. 

Digo que esta è uasa vordadeíra aáaani^ 

9i, &t Odhoft« Pari*- im, pa9.ll e 9. 



porque, feita a introdacçSo, o poeta retira-se 
« deixa aos seus interlocutores contar a his- 
•toria toda. 

No quinto acto do 'Alfageme' introduzi, 
•tom algumas alterações indispensáveis, esta 
xicara, fazendo-a cantar por um coro de mu- 
lheres do povo, á hora do trabalho ; e obser- 
vei o sensivel prazer que tinha o publico em 
nr recordar as suas antiguidades populares, 
' que nem ainda agora deixaram de lhe ser ca- 
> ras. Mas por mais que fizesse, nSo consegui 
que as cantassem a uma toada própria e imi* 
Unte, quanto boje pôde ser, da melopea an- 
ttga com que ba séculos andam casadas essas 
trovas. Ainda em oima^ os cantores desaflbia- 
vam 6 iam fora de tempo na musica italiana 
e complicada que lhes pozeram. Apezar de 
tudo, os espectadores avaliaram a intenção e 
a applaudiram. 

NSo sei de outra alguma d'estas composi- 
'fiSes populares que tenha por assumpto um 
successo ligado com a guerra das cruzadas : 
até por isso é interessante. 

Ho corrigir do texto segui, como faço quasi 



MLLAINFAlfTA 9 



aenpre, a HeçSo da Beirabaka, que é a mais 
segura. Âs poucas licçSes várias dignas de se 
notar yío apontadas. 

Uma variante complelat que me enviou ha 
pouco uma senhora do Minho, merece com- 
tudo ser transcrípta por extenso: aqui a po- 
nho junctamente com os fragmentos castelha- 
nos, no appendice que vai no fim. 

Na estimada colleccão de antigas trovas e 
romances inglezes, pelo bispo Percy, vem uma 
bailada, que elle considera dos princípios do 
século décimosexto, em que ha visivel imi- 
ta(So d'esta. Sabe-se muito bem quanto a poe- 
sia ingleza, desde Ghaucer até Shakspeare, 
andou correndo aventuras pela romântica e 
ineantada terra das Hespanhas. A bailada in- 
glesa é um dialogo entre um viajante e um 
romeiro; começa assim: 

->' At je carne Aom lhe holy land 

OfbieMedWalili«liM!i. 
ô Bel yoa DOl my tnie love 

At by ibe vaj je eane t ' 
•— 'Hew ihovld I kiiov your troe lore 

Thal hafe omI nanj a ooeY. .' 

*9mtfi tÊÊMm» m áÊÊoaKt bwjm toan, Lmèm IHS, mA, t, kék^ 



iQtmêMtor:— O gMo eoii <|m fbtaai «ne- 
ihidos os materiaes, a extnmaMicidadteoiii 
que foram illQetraáe», a ríqnesa âe oooheci- 
BMiitos arebeotogleos, e de Ií6Qío*«Imsíoi em 
que' abonda t eoitec(^, toni^diflici imíMir, 
impossível eoMder, tymi olm fw pen sem- 
pre ha de ser tida como a primeira da soa 
classe em HierectmeBto. 



' W. Soott, WNsniLBT or tu mottih bordkm. 



)* 



WÊãAJlL nr AMTA 



Estava a bell» 
No sea íaiéiin wwnitait, 
Com a péMs âfoíM id» 
Seus eakeHofrptateava. 
DeiMi o» dbM a» flttr 
Viu vir uma nobre armada; 
CaiHâo qoe 0*eUa vkilui» 
Muito bem que a g dy enm rya». 
— * Dize-me, ó capiâo * 
D'e88a tua nobre armada. 
Se incontraste meu marido 
Na terra que Deus piívnk' 

Qw a guiava- LISBOA. 

Ol BgMêB. . . -lOBATBIO. 



8 

—'Anda tanto caTalleiro 
IiTaquelIa terra sagrada. . . 
Dize-me ta, ó senhora, 
As senhas qne elle levava.* 
—'Levava cavallo branco, 
Sellím de prata doirada ; 
Na ponta da sua lança ' 
A eruz de Christo levava.' 
—'Pelos signaes qne me deste ^ 
La o vi n*ama estacada 
Morrer morte dê valente : 
Eu sua morte vingava.' 
—'Ai triste de mim viuva, 
Ai triste de mim coitada! 
De três fllblnhas que tenho. 
Sem nenhuma ser casada I . . * 
—'Que darias tu, senhora, 
A quem n'o trouxera aquit* 
— 'Dera-lhe oiro e prata fina, 

* Nos ponhof dft toa <tpadi. *«BiTiiâi»i»>. 

* Pdos ligMNi qM Be daite, 
Lá o Ti morto ás Itoçidu, 
Qm a nait poqnena que Unha 
In A cabiÇA pinada. - tíbias. 

UaiomaáteDlilMat, 
Qm a maU poqnena qm iiaba 
Kra a eaboça eorta4a.— tábiai. 
iitat tariaitot tfo ambai noito flwaesi o taifH 
IM do qw o teilo qw adopIcL 



Qoanta ríqaesa ha por hi.' 
— 'Nao quero oiro nem prata, 
Mo n*08 qaero para mi : » 
Qae darias mais, senhora, 
A qnem n*o trouxera aqai?* 
—'De três moinhos qae tenho, 
Todos três t'os dera a ti ; 
Um moe o cravo e a canella ^ 
Outro moe do gerzeli * : 
Ricca farinha que faxem ! 
T(Hnàra-os eirei p'ra si/ 
--'Os tens moinhos não quero, 
Não n'os quero para mi : 
Que darias mais, senhora, 
A quem t'o trouxera aqui?* 
--'As telhas do meu telhado 
Que são de oiro e marfim.' 
—'As telhas do teu telhado 
Nao n'as quero para mi : 
Que darias mais, senhora, 
A quem n'o trouxera aqui?' 
—'De três filhas que eu tenho ^ 

* MHê T«o pelas toas allotOei se Tè qiM é Bodeno eonpars- 
; M iitrodiindo deeerto por Uopio imillo potiarior 

; o qw le ineoaln a mindo. 

* GandiM, «n anbieo JòMim, semente redonda e oleosa 

in pisau de qno se fas doce, o d*eUa moída também olso ns 
^panoeomsr. 
' ^ me aihas qne en tenho 
Todas três is liei de dar; 




10 



Todas lf6t le den a ti : 
Uma Ran te oaiQar, 
Oatra pant ta rõtÊkr 
A mais fNSiaaa de todas 
Para ooatfigo domiir.' 
—'As toas iltaas^ infaiiia, 
Não sao damaa para nt : 
DarUB entra eoísa^ senhora, 
Se queres 916 o traga aqoL' 
— 'Nâo tenlM mais que te dar. 
Nem ta maia qpiò me pedir^* 
— 'Todo^ aao^ senhora minha, 
Qae inda te não desta a ti.' 
—«CavaUaíro que talped^ 
Que âo iríUioé da si*. 
Por meus viUoes amatado 
O farei andar ahi 
Ao rabo de meu eawdlo ><^. 
Á volta do meu jardim. 
Vassalla^osmeiía vassaUos^ 



Outn para te calcar; 
A.BMa.|BnMiM ét ladM 

M • . 



ÉftU tariante aHás vulgaiiiada é watad» OBA^máiríé mê- 
ÓÊtm^éit Ifanaapn «w m inkoáoia viiMiMile fHM4a a kj- 
pociMto prfja^ te i âa m faUa g^ fatofâ ao» co t t i i M M 

* Qoanlo Unha ofléreci. -vibalta. 

* Qm pede e tona a pedir. ~i 
'* Ao rabo dó mea cavallo. - aiBATaiOb 



BBUA WrMfTA M 

Âcadi-me agora aqui!' 

Qve eu comtígo reparti. . . 
OiíMd é (l'aUa 1 0Qlça maude t 
Pois a mioha, vé-la ahiT 
— «Tantos aonos qjoe chorei ^\ 
Tantos sustos jpe tceimK. . 
Dmis te perise, iMrído, 
Qae me ias mattando aqoi.' 



■ Oi ■Hinos qnalro rernos. faliam na maior parte *is cópias, f 
Uhvi a^aa post^ot ; precisoi uão sào. 



i% BOMiuvamo 



VAmiAsm ^mminmmmmA 

Im pircce «N Tenit Btis Méina <• irífiMl atif • 

Dona Clara, dona fobiite * 
Sstava no mo Jardia, 
Pteteando tmçM dt abo 
Com MH ponto de marfim, 
ScoUda n*mna almoCida 
Do Tolodo cnuntiim. 
Botou of olhoa ao mar 
E avistOQ fbrmota amada : 
GapitSo qoe a gorenara 
Qoo bem a trai praparadat 
Saltou em terra dlo lò 
Com a viioira eallada. 
Vem saudar a dona infante 
Qoe assim triste lhe Miou : 
—'Visto tu o meu marido 
Que ba tempo que me deizooT 
—'Teu mando nSo eoohcço, 
Dia-me que signaes levou.' 
— 'Lerou sen cavallo braneo 
Com soa lolla dourada. 
Na ponta da soa lança 
Uma iitta encarnada; 
Um ooffdio do meu eabello 
Que lhe prendia a espada. 
Se porém o tu nSo Tiste, 
Catalleiro da crutada, 

* lolutlt ao fciuiuiiio é nin latinismo dos mciiIos xt c x\i qnt bumí M 
popular, mt penuado. 



vmjLkmnKtA i» 



Ó triste da BiP «oMaia I 

Dt tint illMíf fM t»«MlM» 

B MDbmiia ter catada.' 
~ ' Soa iDldado, aaéa M flMfim, 
Naneaten marido Ti: 
Jias qaaato deras, Maliora, 
A fum o mmmn tqÊàV 
— *l)ira-le UBio díabriío 
Qua aio tem eoalo mb fim ; 
B as laUiaa do omb talhado 
Qoa fSo de oiro a aatte.* 
— *Nlo quero oiro on dialMiro, 
Qne Bo nSo pertMoa a mi: 
Soo soldado, aado aa gama, 
Nmea tea marido tL 
Quanto darás mais, seoliefa, 
A quem o tromara aqalf 
— 'Derapte as minhas jóias 
Que Ido toem pèio e mádida ; 
Dcra-te o meo toar da oiro, 
Roca de prat| polida.* 
— 'Nio quero oiro aem prata : 
Com ferro minha mSo lida. 
Soo soldado, ando na guerra, 
Nmea tea marido Ti: 
Mas qoaoto deras, senhora, 
A qnem n'o troinara aqni T 
—'De três fUhaa qoe ea tenho, 
Bnfasderaaesoolber, 
Sio formosas como a loa, 
GoBo o sol a amanheesr.' 
— 'Eo nSo qaero toas filhas, 
NSo me podem pertencer. 
Soa soldado, ando na guerra, 
Nonea tea mando ti : 



■ 

I 



Mas quanto daraa^ 

A (fMBi n'o 

~*iao tente 

Nem ta maii qna ■• f9ik,' 

Nâo esUJiafl a m«Blir; 

Tflnt tea Mt» da «ívo in» 

Onda ea qniaméoarir.' 

-'GavaUeiro^paMléÍB 

Mereee iiiii iiiartaihi 

Em roda daafliji 

Aos pés de 

Vinde cá, 

Gastigae aftnioldadn.' 

~'Itto chimii i 

Qne criados sio 

--'Setaoa«Hi 

Porqoe me lirtlM 

-~'Por ver sa ■• «m laal 

É qoa disiMfné» râBb 

Lembras-te, 6 

Quando ea d'aqai 

O annel de salte padraa 

Qaecomtigaseiiafttt 

Se as toM ntopmlMle» 

As minhas ei-las nfd.' 

-«Vinde ca, ò miihaa Uma, 

Vosio pae é jádmndo. 

Abri-vos, poiao da jaap» 

Ha tanto temp» ÍMhad«! 

Poigae, folgae^ umh vaaialtoe, 

Oae ó dom fnteiM m mi lado/ 



BKLLA WFAlfTA i» 



^mãmmÊsmmm »■ ucf &• caateuiama 



SstalM lâ linda infaou 
K lâ Mmhrm de una fMfti, 
FBÍII0 d'oro eu iM RU manos, 
Los nu eabellot bien cria. 
Ahó rai ojof ai ctolo 
En contra do el sol salia, 
Vió nsúr nn Aula armado 
Por GoadaUjoitir arriba : 
DflDtro TMiia Alfimio Ramos, 
AlmirantadeGaittlla. 
—'Bien TOi^s, Alfonto Ramos, 
Bnena sea ta Tonida, 
Y 4 quá nneraa me traedes 
De mi flota bien gnamida? 
— 'Naeras te traigo, seSora, 
Si me aiegnras la Tida.' 
— ' Dedldat, Alfooso Ramos, 
Qae segnra te seria.' 
-«AlláiCastillalaUeTan 
Los moros de Berbéria.' 
— ' Si no me fliese porqne, 
La cabeta to cortaria.' 
—'Si la mia me cortases, 
La toya te oostaria *.' 



VOL. II 




i<i 



u 



' Caballero de lojas Uerras, 
Llegaos a cá, 7 fareU, 
Hinquedes la lanza en tierra, 
Vuosiro caballo arrendeis, 
PregDDtanM*]» pOfliOMva*. 

Si mi JDefMSOOQOMQMi; 

— ' V«Mli»jDiádiei swora*,. 
Decidi de qM sdMM?' 
— ' Mi maiida c» noM yUiltMD 
Gentil boDlm ytbÍM oeiAés^ 
Muy gnnijugaéopderliUM* 
Y lambioft dei ajedmij . 
EoelpoMO d»«i»ei|pda4» 
Armas trao de on nàsmàêfJ. 



' RúiuMEno^ Odioa, ptg. 9. 



II 



o OAÇAIX>R 



Os críticos d' Allemanha e de Hespanba cod* 
tam entre os mais antigos romances da Penín- 
sula este que os nossos vizinhos chamam da 
'Infantina' e nós do ' Caçador.' Também me 
parece o mesmo. Lockhart, o elegante tradu- 
ctor inglezS extasiasse na admirável belleza 
de sua poesia tam original e tam simples. 
Mais pasmara se o visse no texto portuguez 
C(Mno noMo conservou a memoria do povo, 
muito mais bello e muito mais original do que 
anda nas coUecçSes castelhanas d'onde elle 
Lockhart o traduziu. 

E todavia essas ^o dos meados do século 
deseseis. Três séculos depois, ainda a tradiçSo 

* AmaiifT iTArani mjlllâd^, hisiorical and romantie, translatttl 
'«Uh BO«M, hy J. 6. Lockhart Biq. Loodon, 1841. 



«o ROMANCBIRO 

porlugueza o tem n'esta perfeição. Forçosa- 
mente ou foi escripto no nosso dialecto qae» 
segundo o tantas vezes citado e não suspeito 
testimunho do marquez de San ti liana S era o 
preferido para se trovar na mesma corte de 
Castella, e fora o primeiro em que se fizeram 
versos ; — ou, o que me parece mais provaveU 
foi composto na linguagem ainda commum 
e pouco discriminada que prevalecia» ao prin- 
cípio da reconquista» na povoacio cbiistan 
das Heapanbas. 

Aocresce que o romance castelkano, firo- 
priamente dito, nunca se laaQou no marafvi- 
Ihoso das fadas e incastameatos qoe a eschola 
céltica de França e Inglaterra, e maia ainda 
a neo-gr€(ga de Itália fiaeram dqpois.tam íubíí- 
liar na Europa: Os severos ^esoendeotea de 
Maio nio tinham myHàolegà nos aeua poe- 
ans, cantados ao scsnda la(kça ao eBoado e a 
compasso das culilladas. O sobnsnatiiraliá'eala 
bisteria papeGe*«e mais com asiceeiíoaB, e su- 
peralições, ainda boje «aiateBles ao mbio 
povo, das moiras incantadas» das apparíções 

* Na coll(Vf5u do SanflfaM. MadrM, A790. 



o CAÇADOR ai 

da manban de San'João, e de outros mythos 
nacioDaes» tam bellos, tam queridos da gente 
portogueza, e tam desprezados — ainda malt 
— ateagora pelos nossos poetas. 

Seja porém como for, o romance do * Ca- 
çador' pertence á poesia popular portugueza, 
é de immemorlal antiguidade ; e como a tal 
Ibe dou aqui logar entre as relíquias mais 
originaes da nossa primitiva lilteratura. 

Ponho, além das variantes, a versão ou líc- 
çSo dos romanceiroscastelhanos, e a traducção 
ingleza, que é mais paraphrase ou imitação 
que tradueçSo. 

A moralidade da fábula — se permittem a 
palavra os escrupulosos — é a mesma que a 
da *Maré do carvoeiro' ; occasião perdida, oc- 
casiSo que não volta. A historia do ' Capote 
Qovo ' 6 outras muitas do ' Decameron popu- 
lar,' que 6 pena serem tam soltas e verdes que 
se d3(o podem escrever, illustram a mesma 
sentença e rifão. Bocacio e Lafontaine acha- 
riam nos contos tradicionaes do nosso povo 
com que inriquecer muito as ' Cem novellas 
novas ' de suas gaiatas coUecções. 



o CAÇADOA 



O eaçador foi á caça, 
Acaca,coino8oliiai; 
Os cies ja leva eançados» 
O fUcio perdido havia. 
Andando se llie fez noite^ 
Por Qa mata sombria, 
Arrímoa^se a mna ai^nlieiray 
A mais alta qae alli via. 
Foi a levantar os olhos, 
Vhi eoisa de maravilha : 
No mais alto da ramada^ 
Uma donxella tam lindai 

* Á ciça da Bootaria— Auninio. 

i Mfft di «Itamfa— nAt-of-iMMTU» 

* Fm*m BoiM no eamiBbo— nuuLTA. 

* Utmtiê pelo ajimUBicDto de ramot aatoriMaft BoaBa ànon 



i( ROMANCEIRO 

Dos cabellos da cabeça 
A mesma árvore vestia, 
Da luz dos olhos tam viva 
Todo o bosque se allumia. 

Alli fallou a donzella, 
Ja vereis o que dizia : 
—'Não te assustes, cavallelro, 
Nao tenhas tammanha fríma. 
Sou filha de um rei c*roado, 
De uma bemditta rainha. 
Sette fadas me fadaram, 
Nos braços de mi' madrinha. 
Que estivesse aqui sette annos, 
Sette annos e mais um ^a; 
Hoje se acabam n'os tnnoB, 
Áinanhan se fonta o«âla. 
Leva-me, por Devs t'«ip«çe, 
Leva em tua conpanlHa.* 
— 'Espora-ne aqui, dooMlIa, 
Té ámanhan, que é o>dia; 
Que eu vou a tomaarcmíBiiho, 
Conselho commhifaa tia.' 
Responde agara a donzella, 
Que bem que lhe HMpondia! 



CudDdo sombra e ahiifo, « a aigiHim^ap dawwi êmUÉnL N» 
Miobo cbamaoi ramada aos pirrahMt(« liliéu dewhiliféikM 



o CAÇABOB 

— 'Ob^ mal haja o cavaUeíra, 
Qae nao teve>jBonnia: 
Deixa a maúa no souto^ 
Sem lhe fazer jcompmhiar 

EUa ficou no seu ramo, 
Elle foi-se a ter co'a tia... 
Ja voltava o cavalleíro 
Apenas que rompe o dia; 
Corre por toda essa mata, 
A eozínha não descubria. 
Vai correndo e vai chamando, 
Donzella não respondia; 
Deitou os olhos ao longe. 
Viu tanta cavallaria, 
De senhores e fidalgos 
Muito grande tropelias 
Levavam n'a linda infanta, 
Que era ja contado o dia. 
O triste do eavalleiro 
Por morto no chão cabia; 



* Deiía a mouna no monte— bsi&abaixa. 

Stut» pareee mais minhoto; mas assim vem n'ama cópia da 
Kitnnadnn. 

* TnpèKê, on portognei casto e datsioo, é o tamalto que sa 
te MB tropel; e também a injúria qoe se fas a alguém, a algoma 

ttwfolmâfí direitos, posses, pessoas, rai9es oa conveniea- 
hqá está o derivado pelo original oa primitlTo; e para mim 
o p0T9 é também um clássico. 



ROMAIIGIIBO 

Has já tornava aos sentidos 

E a mSo á esiiada mettia: 

— ^Oh, qaem perdeu o qae eu perco 

Grande penar mereciat 

Justiça faço em mim mesmo 

E aqui me acabo eo*a vida.* 



o CAÇADOR S7 



AeawrfitlealMUflfo, 
AcaareoaMiolia; 
Los peiTOt Urat eaatadof , 
Kl fUeoD perdido kabU, 
Arrimáme A na roble» 
Alto et A manvllla. . 
In OBA fana aiat alta, 
l^era estar ma ÍBftÉtiDai 
Gabelloe de n cabeia 
Todo aqad rabio oabnaii. 
— 'Ro le o^MOlea eabaUifo, 
Ifi tengaa Unafia griaM, 
Hlja loy yo dei boea rej 
TlareiaadeCaaliUa: 
Siele fadas me f adaroD 
Ko braios de oo ama mia, 
Qoe andase los siete aSos 
Sola eo esta moDtiSa. 
Hoy se eamplian los siete a2os. 
O maAana en aqnol dia : 
Por Dios te reego, caballero, 
LlévBsme en ta compaiiia. 
Si qnisieres por mnger, 
Si no, sea por amiga.' 
«'Esperaisme tos, senora. 
Basta maSana aqiiel dia, 
Iré yo a tomar consejo 
De ma madre que lenia. 
La niiia le respondicra 
Y estas palabras deeia : 
— ' I O mal haya el caballero 
Que sola deja la niSa t' 



j 



£1 86 Ta i tomar coasejo 

Y ella qaeda co Ia montina.- 

Que la tome por amiga. 

Coando 

No bailara l»ii 

VidoU< 

GoD mu] 

El caballiw ynia»<i<» 

En el loelo t»«Btet 

Detqve fl»>tikahD4Mmáoi 

Etta8.priÉ*naidH*tt 

— 'Cabaltop»«qMitil^iwcb| 

May 

Yo. 

YomoMiélajwIlBlàt 

Que mqMitei plM^i 

Y me amtimi porlaifHa. 



tKfUaUKMK». 



TMA»VCÇil« Wm^EXMA 



The kmgirt had hintitli^, wAHiUBlii-eiMtdtiwAfi 

ffisboodi 

He ito|iped boieath an oak, an old and mighty tree, 

ThttoolU»] 



Tbefauiht kaAlift.hit.«fvlk««lM^MMfeHM»vin; 
Ske bad her Mttoabiik, aaigir^lUiaiMaaini gwa i 
Her |old6B eurls lay daiteriof abore her breaaU of sdow, 
Alt vÍmd lhe breeie vaa westaring, opoo it they did flow« 

—'Oh, fear BOl, gwUe kiii^tl tiíera ia do caiue (br fear; 
I aa a |00d king*t dangUier, long yean enchanted bere ; 
Stvn enal fiúries fomid me, — th^ cbanned a ileepiog cbiM ; 
Seroi yean their charm hath bonod me, a damsel aadefiled. 

' SefCB iraary yean are gone since o'er me eharmt they threw ; 
1 have dwilt here alona, — I hate secn none bot yoo. 
My tmm má yean are epent;— for Chrifi that diad on rood, 
ThoQ BoMe knigfat conaeDt, and lead me from the wood ! 

'Oh, bring ma forth again from ont tbis dailuome placct 
I dare not aleep for l«ror of the miholy raoe. 
Oh, tahe me, gentto tir t TU be a irifa to thee.'— 
ru be thy lomlj leman, íf irllé I may not bet ' 

—'TIO damii lhe morning, mil, thoa lovely lady, there; 
ni aik mother ilraight, for her reproof I fear/ 
—'Oh, íU beteemi thee, knit^t!* said she, that maid forloro, 
'Tbe blood of Uigi to tUght, a lady*t lean to fcoml' 



90 BOMÁNCURO 

He carne irheo moniiiig broke, to feteh lhe maid awiy. 
Bot coold noi find the oak whereiíi she made her stay : 
Ali throagh the wilderneis be loagfat k bover and tiee;— 
Fair lordlingt, mil je gMu nhat veaiy heart had he I 

There eane t loaiid of voices firon np the foraat glen, 
The King had oome to fliid her vith ali hít geotlenen, 
They rode li Bickle glee— t jofoot cafaleade— 
Fair in the mldtt rode ihe, hvt neivr vord the eaid. 

Thoogh onthegreeQhekneltyBohMkmihUiihecait— 
His haiid vu on the hilt ere ali the train «era past: 
— * Oh, thame lo knlgfatly Uood I Oh, iconi to ehíTalry I 
ru die within the «ood : no efe my detlh < ihall lee I ' 



' Ldcfchart, AM ipia BAUAn. 



m 



A XNFEITIQADA 



VOL. 11 



É claramente de origem franceza, e vir- 
Dos-bia porventura com os cavalleiros e os 
troveiros do conde D. Henrique, o lindo ro- 
mance da ' Donzella infeitíçada.' Foi talvez um 
fabliau na soa terra? Quem sabe? 

Aqui é elle muito antigo ; castelhanos e por- 
tugnezes o disputam por seu, e acaso nem 
uns nem outros terSo razSo. Em algumas das 
nossas províncias anda confundido, na versSo 
oral, com o romance precedente do ' Caçador' 
e custa a desinvencilbá-Ios. 

Gollacíonando-o com a cópia castelhana que 
adeante vae, notar-se-ba quanto é mais gra- 
cioso e mais chistoso o texto portuguez : co- 
nhece-se muito mais n'elle o tom e o sainete 
sempre picante do génio francez, que do prin- 



34 UOMANGBino 

cípío foi O que é e hade ser, leve, fácil e in- 
^açado com donaire e agudeza. 

Cbamam-llie em Castella ' Romance de Ia 
infanta de Francia.' 

 anecdota não está nos nossos costumes 
nem nos de nossos vizinhos, nem siquer nos 
costumes das eras ca valberescas. Também não 
è ainda do cyclo da Tavola-redonda, de quando 
os nossos mesmos romancistas puabam todas 
as suas scenas no pais dos Arthiires e Ana- 
dízes. Essa escbola prevaleceu aqui mais 
tarde, e começou talvez a prepondsrar em 
tempos d'el-rei D. Fernando em cuja o6rte 
dominavam ja muito as modas e ^sto inglez 
tpie depois triumpbirdm absolutamaole no 
reinado de seu irMo e soccessor. 

O ar doesta pequena peça é muito mais an- 
ligo ; e por ta) a teem os critioos e collectores 
castelhanos. 



A 11«F£ITIÇAI>ii 



Vai correndo o cavalleiro, 
A Paris levava a fiiia, 
Viu estar uma doniella 
Sentada na penha fria : 
— *Que fazeis aqui, donzel|a?* 
Qne fazeis, ó donzellinha?* 
— 'Vou-me á cdrte^^ -Paró * 
Donde padre e madre tinha; 
Perdi-me no mea caminho, 
Pas-me a esperar -oampanhia; 
GiB(aáa'e8tim de eepemr 
'^èfifsda ita penha frfa, 

* VoB-Bt i cdrte de Fraofa.-^Rffuiui»aiA. 



36 ROMANCBiaO 

Se te praz, ó cavalleiro i, 

Leva-me em tua companhia.' 

Respondeu-lhe o cavalleiro : 

— Tois qae me praz, vida minha/ 

Lá no meio do caminho 

De amores a requeria; 

A donzella muito inchuta ' 

Lhe disse com ousadia : 

— 'Tem-te, tem- te, cavalleiro. 

Não faças tal villania; 

Que, antes que me baptisassan 

Me deram feitiçaria : 

Sette bruxas me imbruxaram 

Antes que eu fosse á pia; 

O homem que a mim se chegasse, 

Malato * se tomaria/ 

Não responde o cavalleiro *, 

Todo na sella tremia. 



* Quereit tós, ó caTãlMro, 

Que 60 Tã em voita oomiiuihiAf ' 

ReqModeQ-lhe o caTtlleiro : 

— *Poit nio qacro, minha vida I -iDATifO. 

* A doowUa moi lisnda, 

Sem ter medo, Ibe ditia-MniLTA. 

* Milato era o bomem liTie que deicU á eoadifio qvitl d« 
«erro e tíUío. No ieDlido flgnrado-qae parece eer o ^m 
— iMNMin peiíUdo, toUiido, inTiUecidot 

* caTalleiro eom mnlo 
Tremendo lhe reepoBdia-iuiiTvo. 



▲ INFSITICADA 37 

Lá para o fim do caminho * 
A d(»izeUa gae surria. 
—'De que vos rides, donzeUa, 
De que rides, donzeUinha?' 
—'Não me rio do cavallo 
Nem da sua fittaria, 
Rio-me do eavalleíro, 
Mais da sua covardia; 
Com a donzelia á garupa 
E catou-Uie cortezia ; 
Soube guardar-se das moças 
E bruxas velhas temia. 
— 'Atraz» atraz, ó donzelia, 
Atraz, atrazy donzellinha, 
Que na fonte onde bebemos 
Deixo uma espora perdida.' 
— 'Cavalleiro, adeante, adeante, 
Que eu atraz não tomaria. 
Se a sua espora é de prata, 
Meu pae de oiro lh'a daria; 
Que às portas de meu pae'' 
Se mede oiro cada dia.* 
— 'Dízei-me vás, ó donzelia, 
Dízei-me de quem sois filha' 
—'Sou filha d*eh«i de Fraa«a 
E da rainha Gonstaniina.' 



* ftitado laiyo camfadio— mhâlta. 

' Qw á» portas de 000 iwbtío—imiiusfu. 



-j 



3l MMíKMtAô 

—'Arrenego eo éò molh^w 
Mais de qaera tt^ettftd se fiat 
Cuidei '4è letar attlàlite, 
Levo uma ifttum mllihft< * 



■ J)c|K>ít d Mtei rente « lioflo <!• IIÍDk»M»MÇ«ttav em fdiiiu 
de monlidAde que fiu o trovador, o que a^ eeli na bócca do ea- 
▼allMiro: 

Amnofo et^MilmMi 



A BIFEITIÇADA 



▼EMSÂ^ CAMTWMMãJiã. 

De Franm» paitió kt niia. 
De Franca la biengiynidft; 
Ibase p«M PÊrit, 
Do padre y madre Moia: 
Errado Neva el camlno, 
Errada llew la via: 
Airiaaraee a on rabie 
Por eeptrar ee myaiia . 
Yió Teair « eafcaMeio, 
Qae A Parto Hera la gnia. 
La lána dee q ae la vido 
Deeta soeria la daaia: 
—'Si «a piMce, eafeaUlro 
Lléresnwao "ta ae^Mitak' 
— 'Ptacana, -dijo» ecfieaa, 
Placeme, dijo» ai Tida»' 
Apeóse dei caballo 
Por hacerle cortesia ; 
Poso la nina eo Ias ancas 
T sobiérase en la silla : 
Ed el médio dei eamino 
De amores la requeria. 
La nifia desqae lo oyera 
Dyole oon osadia : 
—'Tate, tate, caballero. 
No hajas tal TÍUania : 
Hija soy yo de on malato 
Y de una malatta. 
£1 hombre qne á mi liegase 
Malato se tomaria.' 
Coo temor el caballero 
Palabca DO respondia. 



J 



40 ROMANCBIBO 

Yá a Ia mirada de Parts 
La Dina >e sonreia. 
—'De que os reis, mi aefiora, 
De qne os reis, Yida uúzV 
— 'Riome dd caballero 

Y da ta fraa cobardia. 
Tener la niõa en el canipo 
Eeatarieoorteiiat' 

Coo Tengneiin el caballero 
Estai palabras deeía: 
— 'Vaelta, ^-nalte, ni sesora, 
Qne noa ooaa se ma oliMa/ 
La niSa, oomo discrala, 
Dgo : — *Yo no Tolveria, 
Ni persona, anqjM TolTíete, 
En mi ooerpo locaria: 
H^a soy dei ny de Franda 

Y la leina Gonstantina, 

El honbre qaaá mi lleiase 
M QT caro )e coslaría */ 



* Oaru^ Mae rr, fui« l OehM, HMao bk 



IV 



OOITDB TAmO 



Sir Walter ScoU diz, em alguma {Murt« do 
* CiDcioneíro d^s froBleíras da Scooía\ qae os 
lODUiices populares foram quasí todos em soa 
origem poemas mais longos e mais completos, 
que os menestréis depois incurtavam & tran- 
cavam para os podenem cantar em dous ontces 
tays quando muito, como quem diz, em doas 
ou três cantas: o que na integra era impos- 
sível. Que d'abi ficaram assàn pela memoria 
do povo, e assim vieram até nós. 

Se tal é — e eu não deiendo nem impugno 
agora a tbeoria — digo que este beUo ro- 
mance do ' Conde Yanno ' algum menastael 
poriugaez o acoommodou ao gteto popular 
contrahindo-o do poemeto castelhano que aUi 
M chama do ' Conde Alareos e da inftnta So- 
Ii8a.' 



44 ROMANCEIRO 

Em algumas províncias nossas também lhe 
chamam 'Conde Âlarcos^ n'outras 'Conde 
Ânardos'; e até n'outras, por muito visível 
rebaptisaçSo herética, 'Dom Duarte, e Conde 
Alberto.' Tamsomen te nos distríctos mais ser- 
tanejos do reino e menos próximos do conta- 
cto castelhano apparece ' Conde Yanno.' 

Yanno è a mais antiga degeneraçSo do grego 
e latino háavwiçy Joatmes, — dos quaes tanto 
mais próximo está do que os modernos Juan, 
João dos dous dilectos cultos das Hespanbas. 

Assim o nome como omodo de dizer ' Conde 
Yanno' (Conde João) em vez de 'Conde de 
tal' indicam ja grande antiguidade. *E tanta, 
que eu mais me inclino a que o trovador cas- 
telhano alargasse a obra do menestrel por- 
tuguez do que vice versa. E^ ou esta é uma 
excepção das muitas que tem a regra de Sir 
Walter, ou ella não é regra, absoluta pelo 
menos. 

A v^ade hade estar no meio, que é o cos- 
tume. 

Juncto a composição castelhana, e a linda 
versão ingleza de Lockhart: ambas illustram 



CONDE TANNO 45 

O texto e a qaestSo. Comparando-as com o ro- 
mance portuguez, faciimente se dará a palma 
a este, assim no stylo como na invençSo. Tem 
mais drama e mais peripécias, respira mais 
saave meJancbolía e mais casto» e porfim ter- 
mna com um inesperado successo que dá 
prazer. 

Lembra-me, em pequeno, a immensa ale- 
gria que eu tinha quando a minha Brígida ^ 
velha, criada que nos contava e cantava estas 
historias, chegando ao passo em que a con- 
dessa ia morrer ás mSos do seu ambicioso e 
indigno marido, mudava derepente de tom 
na sua sentida melopea, e exclamava: 

* Tocam ii*os sinos na sé . . . 
Aí Jesas, quem morreria?..' 

Morria a má infanta que descasava os bem 
casados, e a pobre condessa escapava. Que 
fortuna ! Tirava-se um peso decoração agente, 
6 a historia acabava como devia de ser. 

As despedidas da condessa moribunda ' a 
tado que mais queria', ás suas flores, ao seu 

* É«la criada Brígida ja foi caalada na dona bmarca. 



M BOMANOBIRO 

filhii^, slo adoiiravais aqui taotbem e de- 
missas oa Ucçao castelhana. 

Emfim, nascesse eile deotro das nossas 
fronUuraa, ou viesse d^além d'ellas, cá sa (es 
mais Undo o romance, nuuto mais. 

SUmondi e Madame de Stael ei^altam esta 
composição acima de todas as do romai^ceiro 
castelbano. Que faria se conhecessem a UoçSo 
portuigueza? 

É geralmente sabido por todo o reino, 
muito popular» e as variantes numerosas. 

Quasi todas as que valiam a pena as incor- 
porei no texto, porque algumas eram cona- 
plementares de outras, e muitas acclaravam 
o sentido e atavam o fio da narrativa. Das 
poucas que ficaram, se apponta á margem al- 
guma que o merece. 



CONDE YANNO 



Chorava a iníáQU, chorava S 
Chorava e razão havia. 
Vivendo tam descontente; 
Seu pae por casar a tinha. 
Acordou eb^i da cama' 
Com o pranto que fazia : 
— 'Qae tens to, querida infanta, 
Que tens to» ó filha minha 
—'Senhor pae^ o goe heide eu ter 
Senão que me péiia a vida? 
DjB três irmans que nós éramos, 
Solteira eu só ficaria.* 

* Chorava a iofaaU SoHia, 

Razão de eborar hatia. — Atamio. 

Cbonva Dona Sylvaiui^irnunfANai* 
' Deiportoa abei tea pM— nmAiTA. 
rOL. II 



4S BOMAMCBIBO 

—'Que queres tu que te eu faça? 
Mas a culpa não é minha. 
Ga vieram embaixadas 
De Guitaina e Normandia '; 
Nem ouvi-las não quizeste, 
Nem fazer-lhes cortezia. .. 
Na minha corte não vejo 
Marido que te daria. .. 
Só se fosse o conde Yanno^ 
E esse ja iiiiiifiár4iavlá^*' * 
— 'Ail ricco pae da minha alma. 
Pois esse é que eu queria. 
Se elle tem mulher e filhos, 
A mim muito mais áe^a» 
Que me não sottbe guardar 
A fé que me prometia»' 

Manda elrei châflMUP e conde, 
Sem saber o qse fttria»: 
Que lhe viesse fallais. . . 
Sem saber que Uie -diria, 
—'ioda agora vim do paço, 
Ja elrei lá me queria! 



' De Leio e de Gastilha—TftAt-os-MOMTU. 
Goitaina é Aquitania, bem clarmiti 

* Só 80 fosse o conde Mkmè-^MumK 

— Só se fosse o fomhMsaete iiieim 

* E esso tem mulher c Gíkmr^muMJU, uiboa. 



Ai í será para jnea bem? 
Ai! para meu mal aeria?' 

Conde Yanno que eftie^va, 
Elrei qae a baâM»« vinha: 
—'Beijo a mio a ^MSBa. atoca; 
Qae quer vossa senhoria ? ' 
Responde^lhf afota o net 
Com grande mcrwwoiia : 
— 'Beijae, que marcé voa faço; 
Casareis com míBlM íUha.* 
CuidoQ de cahir por mrto 
O conde que tal o«vía<: 
—'Senhor rev ^jua sau casaAo 
Ja passa maia d^aan^ o dial ' 
— 'Mattareb voaaa nralher. 
Casareis com minha ilibai' 
—'Senhor, eoma hei do mattá*!a 
Se a morte me aio-mer'eia?' 
— 'CaUae-vo6» eondfc oaUae^vM, 
Não vos quero demaiia; 
Pilhas de reis nao-se ingaaam 
Como uma mulber oaptiva/ 
— 'Senhor, que é imúta eaiio. 
Mais razão que 9$r devia, 
Para me mattar a mim 
Que tanto vos oflondia; 
Mas mattar uma innocente 
Com tamauha aíeivoíia! 



50 ROMANCBIRO 

N*esta vida nem na outra 
Deus m*o não p^^oaiia.' 
— 'A condessa hade morrer • 
Pelo mal que ca fazia. 
Quero ver sua cabeça 
N*esta doirada bada.* 

Toi-se embora o conde Yanno, 
Muito triste que elle ia. 
Adeante um pagem d*elrei 
Levava a negra bacia. 
O pagem ia de lutto^ 
De lutto o conde vestia : 
Mais dó levava no peito 
G*os appertos da agcmia. 
A condessa, que o espoava, 
De muito longe que o via, 
Com o filhinho nos braços 
Para abraçá-lo corria. 
—'Bem vindo scfais, meu oonde^ 
Bem vinda minha alegria!* 
Elle sem diíer palavra 
Pelas escadas subia. 
Mandou fechar seu palácio, 
Coisa que nunca fazia*; 
Mandou logo pôr a cea^ 
Como quem lhe qipetecia. 

• Oqao d*aiite3 d2o faiia— nixho. 
^ V,(mo quem comer qjoerh— usmí. 



CONDB YAirifO 51 



Sentaram*se ambos á mesa. 
Nem um nem oalro eomia ; 
As lagrymas era iim rio* 
Qae pela mesa corria. 
Foi a beijar o filhinho 
Qae a mãe aos peitos trazia, 
Largou o seio o innoeente, 
Como um anjo lhe surría. 

Qoando tal viu a condessa, 
O coração lhe partia; 
Desata em tammanho choro 
Que em toda a easa se ouvia : 
—'Que tens tu, querido conde, 
Que tens tu, ó vida minha? 
Tu^-me já d'estas âncias^ 
Eh^i o que te queria V 
EUe affogava em soluços, 
Re^nder-lhe não podia; 
EDa, apertando-o nos braços, 
Com muito amor lhe dizia: 
— ' Abre-me o teu coração, 
Desaffoga essa agonia, 
Da-me da tua tristesa, 
Dar-te-hei da minha alegria.' 



* A« Ufijwuê eram tantas 

Qm p^ meia comam. — tírus. 
Tbdaa ai TenOes lem asiim : sò a de Lisboa eomo rai no testo. 



Levantou-ae o oonde Yaimo, 
A condessa que o scfuia. 
Deitaram-se aníKM no leKo; 
Nem um nem ostro dormia. 
Ouvireis a des^mçMlA, 
Ouvide ora o que <liaia : 
— 'Peço-te por Dms 4o eeo 
E pela Virgem Maria, 
Antes me tnattes, meu conde, 
Que eu ver-le n*688a m^íim.* 
—'Morto seja qaan lai nanila, 
Mais a siia tyranAiat ' 
—'Ai! nio te hiMAo, meu conde, 
Dize-me, por laa tida. 
Que negra viiMira é esta. 
Que entre nès está mettída^* 
— ' Ventura da sem '^esluni, 
Grande foi toa moAsa*! 
Manda-me elpei que te HMMè, 
Que case oon sm flHia.' 

Palavras nio eram dtttas, 
Inda mal lh'as ouviria, 
A desgraçada eondosaa 
Por morta «o chio ealiiê. 



* MofhM, sul>slanti\o, Uhex pormúfktaUfU, é uMéè^d^tUs- 
■ioos alinima vei ; e comrami hoje M pev» dtt pmwfctilM quasi 



QOMftBTIfilIllO 

Nlo qaiz Dsts ^e alli tatírmm 
Triste que «IK«oinorriat 
Maior dor do 916 a da morte 
A toma a ehanar á vida. 
— ' Calla, calla, oonde Yanno, 
Qae inda remédio haiveria; 
Ai t nlo me mattes, mea eonde, 
E mn alvitre te daria <* : 
A meu pae me naBdarás, 
Pae qae taMo me qmria! 
Ter-me-hão por Mia dooaeKa 
E eu a fe te ifMffdaria. 
Criarei este inaeeoMe 
Qae a oatra não criaria; 
Manter- te-li0l oastMaAe 
Cmno sempre t'a mania.' 
—'Ai OMM pôde Isto 96r, 
Condessa mlftte querida, 
Se elrei «ter ma «dMça 
rresta doirada taoia? 
--'OMa, eaMa, coBd» YamMy 
Qae inda remédio teria^ 
Metter-me^èas n\sat eea^ninto 
Da ordem iftt Iralralla; 
Dar-me^hio o^pio ^ onça 
E a agua por moUda : 
Eu lá morrerei de pena, 

*" Um eomeUid^^tttii ■ ■ WMMfc ■>!■ t. 



• •• 



54 BOMANCSIIIO 



E a infanta o não 
— 'Ail como pôde mo ser, 
(Condessa minba querida. 
Se quer ver tua cabeça 
Testa malditta bacia r 
-'Fecháras-me n'uma torre» 
Nem sol, nem lua veria, 
As horas de minha vida 
Por meus ais as c(mtarta.' 
— *Ai I como pôde isso ser, 
Condessa minha querida, 
.Se elreí quer tua cabeça 
iN'esta doirada bacia?* 

Palavras não eram dittas, 
Elrei que à porta batia : 
—'Se a condessa nao é morta. 
Que então elle a maltaría.* 
—'A condessa não é morta 
Mas está na agonia.* 
— 'Deixa-me dizer, meu conde, 
Uma oração que eu sabia.* 
—'Dizei depressa, condessa. 
Antes que amanheça o dia.' 
—'Ai I quem podôra reuur >S 
Ó virgem sancta 



*< No poemeto castelhano a oondesu reut —e aio é Ma a asa 
fngUên: oiaia bonito e mais poético é o pcuamento do eaoter 
poftagim, que Ibe nlo di nem âaino panroac 



CONDE TAMKO 86 



Que eu não me péza da morte, 
Péza-me da aleivona : 
Mais me pâsa de ti, conde, 
E da toa covardia. 
Mattas-me por toas mãos, 
Só porqae elrei o queria I 
Aif Deus te perdoe, coode. 
Lá na bora da contia ^, 
Deixar-me dizer adeus 
A tudo o que eu mais queria; 
Ás flores doeste jardim. 
Ás aguas da fonte fria. 
Adens cravos, adeus rosas, 
Adeus flor da Alexandria! 
Guardae-me vós meus amores 
Que outrem me nao guardaria. 
Deon-me cá esse menino, 
Intranhas de minha vida; 
D*este sangue de meu peito 
Mamará por despedida. 
Mama, meu filhinho, mama 
D*e8se leite da agonia; 
Que atégora tinhas mae, 
Mae que tanto te queria, 
Ámanban terás madrasta 
De mais alta senhoria. •.' 



" Ma ]ion em qne contar eomtigo, em que te tomar eoBtas. 
È a pkraee eipretiiva dos ingleMt: In Iki hmr ^rtehmki. 



16 BMANOmO 

Tocam n'o9 9ifioft m 96. .. 
Ai Jesus i quem «Romria? 
Responde o ^inlK) ao peífou» 
Respondeu — que maravillui t 
—'Morreu, foi â noêsa faftMa 
Pelos inales que fazia; 
Descasar os bem easados : 
Coisa que Deus nio queria/ 



'* Qaasi todas as lícfOes imvteãMi 0iMiilaii'««idoa8 TCfsM 
últimos desta copla, e o pOMaoieato une «Uei^ÍBOMfftti. Só om» 
lioçSo da borda-d*agQa oâ traz, e julguei que mereciam ler iooor- 
porados DO texto. Eite prO()igio de ratlarem os iteooenlès ao peito 
das mAes, nas grandes f&tQàlilaiictts pftMiéai eu tts grandes 
crises domésticas, era mu ARtMto fies UMMSiNfraBifttma^ode 
O. João I bem sabido é qne uma criança liron todas as dúrídas 
bradando do collo da mie: 'Real Real, peto mestre d'ATÍi rei de 
FM«igal« * K^ofeMJreHNune d^éAa «sllec|Ai, •ile*Mift%eltr&o' 



GOnMCVáMlIO 57 



MMeçAm CAVWMÊMjkmA 

RelnldaartálâiirfiuiU, 

ViTiando mf éimiwAmÈ 
DelaTidftipnleiia, 
Viendo qM 7» 96 piaakt 
TodalâtordeniÉii» 
T qoe ai rey BO la «Mite, 
NiUl 



A qeicn ie^duitiNhii, 
T aeordd nnitf «livy 
Gomo olfM ttOM iola, 
ror (uoHiBMi Moran 
T la intenoiM que Miia. 
▼iBft €l Nf MBé» Haoido, 
OnenoUrdéfavMMa: 
Vldola «HariVaMMia, 
Sola está na tnbpafiia, 
Sa lindo «suo nofMba 
Sflr mais triste fM sslia* 
Goiiucisn iMjfo^lTtPf 
BIflD0io>4|Battfria. 
^^Qoé «i aqwilOi la Mkatat 
iQ9é es afMSlo, ^amlat 



No 

Qoe sabMMlo lairwtfad 

Todo so MMÉiaria. 

—«Menetter mpA, tnm ny, 

BoBodiarlaiUa nia, 

Qae i Tte qiwdé «BeMMOMladft 

Delamadreqaetaila. 




BOIIAMGBIBO 

GoD vergoflDia ot lo denando, 
No con gana qne tenia, 
Qoe aquestof coidadoft tales 
A TOS, rey, perteoecian.* 
Etcschada ia demaadt, 
El boMi rey la raspoadia : 
—'Eia culpa, la inliuU, 
Voestn era, qae no mia, 
Qoe ya finrades catada 
Coo el príncipe de Hno^ta; 
No qoisittet escachar 
La embajada «pie vénia. 
Pões aci eo laa oaeetras odrtat, 
Hija, nal recando habia, 
Sino era el conde Alaitot 
Qae hijos y noger ienia. 
— «Gonvidaldo tos» el my, 
Al conde Alarcoson dia, 
T despoes qae hagais comido 
Deeilde de parte mia, 
Decilde que ai se acnerde 
De la íé qoe dd lenia, 
La qoal él me promelió, 
Qae yo no se la pedia, 
De se^ siempre ni marido 

Y yo qae sa moier seria. 
To foi dello may conienia 

Y qae no me arrepenlia. 
Si caso con la condesa, 
Qae mirira lo qoe haeia, 
Qae por él no me case 

Con el príncipe de Hongría : 
Si caso con la condesa 
Dél es cdpa, qae no mia.* 
Perdiera el rey en la cir 
El sentido qoe tenia. 



\ 



GONDB TAHKO 

Mm ámpm» m ú tomad» 
GooeMjompoMlia: 
--'No MB MlM IM tmÊtioê 
Que mMtn madre oe deeia : 
Umj mal miraeles, MiMla, 
Do eetaba la kenra mia. 
SíTerdadeetodoeio, 
Yoeiln boara yi et |Mrdi4a: 

memne la eooieia Titã. 
Si le haee el eaiamienlo 
Por raiDB 6 por josUda, 
Eb d deeir de lai falei 

Dadme foe» UJa, coomiIo, 

Qoe el mio ao bastaria ; 

Qoe ya ei moerta Toeslra madre 

A qnien eoueio podia.* 

— *Paes ye ot b» daré, boen rey, 

Deste poeoqnetcBia: 

Mate el eonde á la eoadesa, 

Qoe oadie oo b» sabila; 

Y ecbe lama q|w eHe es moeria 

De oa derto mal qoe lenia, 

T tratano'lia el easamieato 

Gomo eoea oo sabidi. 

Desta roaoára, boen rey, 

Mi hoara se guardaria.* 

De alll se salia el rey, 

No eoB plaew qoe teoia ; 

Lkoo va dé pcosamleotos 

GoD la Boeraqoe sabia; 

Tido estar ai eoode Alareos 

Entro modioe qoe deeiá : 

— ;'Qoe apronirlia, caèaNeres, 

Amar j lerrir andga, 



60 



Siendo mtmm penUdo» 
Donde firmezarao hato f 
No puiAtBrpot mà 4mí« 
Aqneste^a» f» dMia. 
Que eo tàêkmpQ ^w Mr«i 
Uoaqae 

Si biflQ U qiúi»4 
Afore aa» J» qMim^ 
Mu por iQicpaãdeB dteír ; 
Qaien bieiii««Ml«Bd6i»W4a.* 
£sU> pal^MMiittBiMMto. 
Vido ai biMJtnsr qM^nua» 
Y htblandMMiel ng^ 
De enire todM.aei«lMfi 
Dqole el 

Uablaado eottiOMlMift 
—'OMMidwiqBi— < 
Por mafiaoâ «a «^mí 4mi, 

Por teDcrme fWnwRifc.' 

—'Que iê>>m de bwftfndo 

LoqaesaallMii^decia: 

BetoMMiQHMfniles 

Por la biMiM oentoitat: 

Deteoemie ba «4ii niiaM, 

Aonqae eslaba d« partida. 

One la 

Segun caria 

Otrodiade 

£lreydemiMi.aa|ím 

LoegoaeaaaBldA; 

Noporgaoftqnataaía» 

Sino por bíd»laraA«e«do 

Lo que bablaili 

Alli fMraa àitt 

Gomoárey 



To<UUg«at«Mii4b 

Qoadóie el wyaoft «1 «MMto ^ 

En la tabla (toMWk 

Empezó el nptkksJbUt 

La embajadif 9M.lreia: 

— 'UiMwaiwm tnig», ooMk», 

tíne daUa% m 0M.|iUai»» 

Por Ia* caê4ik|«i4M ^wiP' 

De vueslra dtMMiMt^i 

ProinetUle».i kbfltfiflU. 

Lo que elia nao» pmUa, 

De «empift iMr •« nuMiw. 

Yielia^MlMUéki. 

Si á OtWI«M>iH1M(itf 

No entro eajflMrpaCla* 
0traeoM4«i4i«e«eQ0di^ ^ . 
DequeiD^a^of pfMaria: 
Que mateiaé lA.€0Mlaat» 
Qee asi cnniilebájk ho»rau»i». 
Scbflis teftdt^MM DMHfta 
De eierto mal qu» leniai 
Y tratanê ba f 1 canamiento 
Gomo cosa 00 Hibída, 
Porqae do soa dtebovadik 
Hija que Uaio ^piHia.' 

OidaSiMftW IMMNk 

El biiea eoodo faipoodia : 
^'M» fmàú B^ar. ol rey, 
Lo qoe la inânU dtCM, 
Sino qq» m miqr gni» verdad 
Todo coaoto me pedia. 
Por miado de vòe ai ray» 
No caaé coa %Mia debia* 
Ni peoflé qoe voeeln alteia 
En eUo eonienliriai 



BOMAMCSma 

DeeuwconlaUifMiU 

Yo, seSor» bíao CMftrU ; 

Mu matar á la eoMlaM, 

Morraj, oolokaria 

Pon|be no dabe norir 

La qoa mal no morecia.' 

— *0e morír tían», boan eonda. 

For salrar la iMinrn mia, 

Pna» no miraste pffBMM 

Lo qoa mirar M 4d)ia : 

Si no mners la oondesa, 

A TOi coitará la vida. 

Por la konra dé Um royna 

Mnchoa «n eolpa morian, 

One moara poaa la wd aia 

No 01 modia maranHa.* 

— <To Ia matará, ImtB rey^ 

Maa no Ma Ia cnlpa mia, 

VétHM aTtndNit MB IMm 

En el fin do TQoatra vida, 

Y prometo á voeetm alteia, 

A fé de cabaUeria, 

Que me teogan por traidor 

Si lo dieho no cuaplia, 

De matar á la oondeia 

Annqne mal no merecia. 

Boen rej, si me daorUcncia 

Loego 70 me partiria.* 

— 'Vayais eon Dioe, el bnen conde, 

Ordenad vneeim partida.* 

LIoraodo le parle el eonde^ 

LIorando lin alegria ; 

LIoraba tambien el conde 

Por tret b^ qne tenia, 

81 ono era de teta, 

Qoo la cond«sa k) cria, 



Qoeao 

I>e trei subm tpmMtík» 

Si DO er» é»M aMira 

Porque bien la 

Losotro^K 

PoeoMDti4»< 

Antes qoe cl I 

Estas 

Vuestra eara dl 
Qoe saldiwiá 
A la fio de Tueita iid»t 
Yo soy el tr j 
Esta coIpA 

Ed didond»<<M $ nkhn i 
Ya la condesa jate» 
Qne nn page iftkMift^Mbo 
Como el conde y* iMMâ. 
Vido Ia coDdesft M Med» 
LatrísteMqo^l 
Viole los ojos 
Qae biochadoa 
De llorar por ti 
Mirando el him ^M 
Dijo Ia eondi» at «oado : 
"^ ' Bieo ¥i^M, kte «» »i lidai 
i Que hÉbâi, «ft«niáfr AlveMT 
4 Porqne UoralAr tid» Mia? 
Que venls < 
Qoe cíerto no •• 
Nopareee 

Ni el gesto qaa aer Mtta ; 
Oadme 

Como dais del'i 
Deeidmelo 
No mateis la vida aia.' 
VOL. II 8 




64 MMANCBníO 

— < Yo lo diré bkn, «ndesa» 
Ciuado It lior» Mria.* 
~'8i DO me lo d0d«, flondo, 
Ciefto 70 rartBtari*.' 
->'Noaifttfi|Mii 
Que DO es la hora veaida. 
Genemos loego, eonditay 
D'aqoflso qoe co eaia haWa. 

— • Apalpado «lá, eondo. 
Gomo otras fMN idia.* 
Senidse el cMda i to OMia, 
No oeoaba oi podto, 

GoD SOS hifoê ai costado. 
Que moy mDoho los qnsria. 
Bchóse sobre los bombios, 
Hiio coDio que donda. 
DeUgrymaidemsojos 
Toda U mesa cobria: 
Mirandole to coodesa 
Qoe to caosa do saUa, 
No le pragDDtaba oada, 
Qoe DO osaba oi podto. 
Lerantósc lue^o el coode, 
Di]oqiiedonDirq«siia, 
DijoUmbieD ta coodesa 
Qoe dia UmbiM domWa, 
Mas entre ellos do habto sooBo, 
Si la verdad se deda. 
Vanse el conde y to condesa, 
A dormir doode soiiao ; 
Dejan los ninos de Iten, 
Que el ooDde no los queria : 
Llováronse el aias eUqoito» 
Elquelacondosacria: 
Kl coDde cierra to poerta, 
Lo que hacer do solto. 



coNDfi yanho a9 



Saqwiò de hablor el conde 
Com doior y coa maaclUa : 
— I <0 desdJcbada coodeta, 
6niide foe U to d6«diclia 1' 
— <No aoy deidicbada, oonds. 
Por diclMMa me tcnla 
Solo en ser Tiie«tra mimer: 
Eeta fuá gren dieha mia.* 
— ' Si bico k) mirais, eondesa» 
Ksa filé Toestra deadiclia. 
Sabed que en tiempo posado 
To amé á qnien senria, 
La cual era Ja ioíaota. 
Por desdicba ^nestra y mia 
I^metí casar con ella, 
Y á ella qoe le plaeia. 
Demándame por marido 
Por la fé qoe me tenia. 
Pnédelo moy bien hacer 
Por rasoD y por jastícia : 
Díjomek) el rey su padre 
Porque delta lo sabia. 
Otra cosa maoda d rey 
Qoe toca en el alma mia : 
Manda qoe maerais, eondesa» 
A la fia de Toestra Tida« 
Qoe DO poede tener boora 
Siendo tos, coodesa, vira.' 
De qa'e8to oyó la eondesa, 
Ckyd en tierra mortecída ; 
Mas despiies eo si tomada 
Estas paUibras decia : 
— 'Pagados soa mis senrieios, 
Goode, coa que yo os servia 1 
Si no me matais, el conde, 
Yo bien os coospjaria : 



^ ROMANCRfSO 

EnTiedesme á mis tiemts. 
Que mi ptdr» iwteniia; 
Yo criaró l u i it i u » ISf» 
Mejor qoe la qip Temia, 

Y os DMrtSDdrí castMad 
Como siempre os manlMiia.* 
^ *De morir habfis, modei», 
Antes que amanetra el 41a.* 

— ' Bien panre, «Mièi» AlarMsi, 
Yo ser sola eu ettt tida, 
Porquo tengo «I |»dre fifljl», 
Mi madre ya m MtodA^ 

Y mataron á mi iMrmaBO 
El boen conde Bon Oarcia, 
One el rey Io maadó matar 
Por miedo qno dél tenia. 
No me pesa de mt mnerie, 
Porqae yo de morir Inia, 
Mas pésame do mis hi^ 
Qae pierdcn mi ooapaftia: 
Macémelos venír, oonde, 

Y veran mi d«*spedida/ 

— * No los vereis, más, «oodesa, 
En dias de \Destra vida: 
Abraxad e^9 diiqnilo 
Qoe aqnoste es él qoe os perdia. 
Pésamo de tos, eoodesa, 
Caanto pesar me potfia. 
No os paedo Talnr, senota, 
Qoe mas me va qoe la tida ; 
Encomendaos A Mos 
Qa*esto de hacprse traia.* 
— ' DejéismA dedr, boen conde, 
Una oraelen qae sabia/ 
— ' Docilda pmto, eoadesa. 
Antes qne ^manetra el dia. 



GDiiDis YAWfo <ar 

— ' Presto Ia babré Uiclio, eonà». 
No esUré ao Ave Maria.' 
Afioojdse cn U tierra 

Y esta oracion deda : 

« En las tos Bianos, Seoor, 
€ Eocomiendo el alma mia : 
« No me jvigaes mis pecados 
€ SegQD que yo merecia, 
« Mas segan ta prao piedad 
• Y la to gracia iofinita. » 
' Acabada es ja, bnen conde, 
La oracion qoe yo sabia; 
Eneomieodoos esos liijos 
Que entre tos y ni babia; 

Y rogad i DIos por mi 
Mientras luviésides vida; 
Qoe i etlo sois oblifado» 
Paes qac sin culpa aMiria. 
I>édesme acá ese bijo. 
Mamará por despodida.' 

— * No to dMperteii, condosa, 
Dejaldo estar qao dormia, 
Sino qae os pido peidon 
Porque ya llegaba el dia. ' 

— ' A TOS yo perdeoo, eoBde, 
Por amor qae vos lenia ; 
Mas yo no pcrdMO ai rey, 
Ni á la infanta so h^» 
Sino qae qoedca calados 
Delanto la alta joslieia, 
Qae allá vayan á juicio 
Dentro de los Ireíota dias/ 
Estas palabras deciendo, 

El conde se apercebia: 
Ecbóic por la garganta 
Una loca quo lenia, 



m ROMAirCBlRO 

Apreló COQ las dos manos 
Coo la foersa qne podia, 
No le aflojó la garganta 
Mientras que vida traia. 
Guando ya la rido el ronde 
Trcspasada y fallecirla, 
Desnudóle los vestidos 

Y las ropas que tenia, 
Echóla encima Ia cama, 
Gubrióla como soiia ; 
DesDodose á su costado 
Obra de on Ave liaria; 
Levanlóse dando vocês 
A la gente qoe tenia : 

— ' Socorro, mis esc^deros, 
Oue la condesa se fina.' 
Hallao la condesa maerta 
Los qoe á socorrer renian. 
Asi marió la condesa, 
Sín raxon y sin jnsticia; 
Mas tambien todos muríeron 
Dentro de los treinla dias. 
Los doce dias pasados 
La infanta ya se moria, 
£1 rey á los veinte y cinco, 
£1 conde ál treinteno dia. 
Allá fucron á dar caenta 
A la jnsticia díTÍna : 
Acá nos dé Dios su gracia, 

Y allá la gloria cnmplida '. 



<MMt, TBMRO K MaUMCOMI, (Mg. 90. 



GOKDB TÂNMO 



TKABVCf &• IM«I. 



^ooe, u mê her vont, she sato, -^ within hcr bovar alone, 
Aione and Tory deioUte Solita made her DM>ao, 
í.aiwnling for the floirer of life, tbat it Bhoold pau away, 
Aod the be oew vooed to wife, Dor see a bridai day. 

Thos said the sail lofanta : — ' I will not bidc my grief, 

m Ml mj &tber of my wroog, and he vill yield relief : 

Tlie kii^, vbea be bebcld her near : — ' Alas t my child' said be, 

' What meaiis tbis ndaDcboly cbear? Reveal tby gríef to me. ' 

~ '6ood king/ ibe laid, * my motber was boríed loog ago, 
Sbe left me to tby keeptiif , none elM my gríef sboald know ; 
1 faiii voold bare a bosband, 't is time tbat I sboold wed ; 
ForfiTe the words I otter, irith iride sbame tbey ' re itid.' 



It wat that the king made answer : — ' Tbit faolt is nono of mioe, 
Toa to the prinee of Hoogary yoor ear ironld not incline, 
Tel roand at liere wbere Ures yoor peerT Nay, name him if you can, 
Eieept the ooont Alanos, and be is a maried man.' 

— *Aik eouft Alareoe if of yore bis irord be did noipUgbt 
Tobêmj hwhand evennore, and love me day and nigbt; 
If he haa bond bim in new vows, dd oatbs be eannot fonake. 
Alas I Ffe hMl a loyal sponse for a false loTer's sake.' 

The food knif itte eonfonided in «lenee for some spaoe, 

At leaglh he made bis animr, with Tery tranbled face : 

— *U vaanol thns jov aocher gire conuei you sboold do; 

Ton 'te doM meh vrong» my daoi^ter; ve're shamed, botb I and yoa. 

<lf it he trae that yoa hâie said» oor honov's loit and gone; 
Afld «Me Iht «mteia ii in lilh, raneed for os is aone : 
Tho«g^ jwllee «lan ipoa onriide, ili4alkers noald not ipare. 
Spcak, damghter, Ibr yoor aother's dead, wbose oovMel eaied my eare.* 



70 • 

— * How can I give you oouiiiel ? — boi littie irit hara I ; 
Bnt oertes cooot Alareot iiftf atkt hitctmUm 4fo : 
Let it be noiíed that si^ness eat sbori ber tender life, 
And Umd let coont AUrcos come and aik me for bis irife. 
Wbat passed betiraen ns long ago, of tbat be noflring sftid ; 
Tbai none ehoaid onr dishODonr know, in benoar ffaaYI I '«ed.* 

The coont was standing witb Me iritads — tbM ta Ike «Mit be «pÉke! 

— * Wbat fools be mcn ! — vhat boots oar pain for comely ironan*s nfce ; 
1 loved a âiir one long ago; ^ (boogb I am a maried buDi 

Sad memory I kan ne'er forego, bow lifl) and lore began/ 

Wbíle yet tbe coont vat speaking, the good Iriíg ouw Ml étn; 
He made hU salotation wilh very coorteoos cbeer. 
— ' Come bitber, coont Alarooi, and dfne wíãi me tUs digr : 
For I bare sometbing secret, I in yoitr ear nmel nty/ 

Tbe king came from tbe ebapel, «ben be bad teaii 4he ■»> ; 
Witb bim tbe coont Alarcos did to bis chamber pass ; 
Foll nobly wera tbej senred (bere, hj pagei maay a ooe; 
Wben ali were gone, and thoy alone, *t ms Úan tbe Ijiig begva. 

— * Wbat news be tbere, Aiaroaa» tbat yon yewirorá did yèl^l, 
To be a bosbaod to my child, and lore ber day and nigbt? 

If more between yoo tbwe did pass, yoorself nty tOMrtbe tfMfli. 
Bot shamed is my grey benf — alas f — andiMomed 2MÍsa*s y««(k. 



* I bave a beavy word to speak» — a Jady fair do 4he tte 
Witbin my daugfater^s rightfoU place, and certe I sbe most die. 
Let it benoised tbat sidnen cataboit berlMdtt ttib( 
Then come and woo my daíOgbier, má sbe thH be ymtmiB. 
Wbat passed betweaayMifoBg ago, «flhitbeMilMifsM» 
Thos nooe^ «bfeH niy dtebeiMW luww -^ tal beMwr JM sMI «Mi. 

Thos spake tbo ooQaÉ'AiasoM.->> ' Tto-mábdll hoiés^t» 
to tbe infanta gave my 




1 feared my Ung «irid Mwr onmt^n-gfim Brtbisiíbir^aghÉw ; 
fiot ob I sfm bv Ibi*'! iMnMit — «roU ibflC 



COmiiB TAWlfO . 74 

-'Shedi0sItbe4iMlUeUB«fipliit;~'íirQnUiiiieinnHBUspii^ 
If goatioM blood BHHt «Mk tu Uot libkh ffUiM tbe Uooa of kaga. 
Era MM^ dMBf bar JifB «oiifBd» a»d tiiJiM Biift to lU dMd. 
Else tboa ob fhameAiIl litockaMlbMd: thenof Um raneed.* 



- 'Good king, mj hÊoú Um» miKftt commaBd, else treason kloti my dumI 
I II Uke the lilé of my dear mlfe^ifioAl une be loi Ike blaaie). 
Ahst Uiat yomii^ and sinleie betei fer elber'» ííb ibeoM Meed 1 
Good lm« ia sonov 1 4ep«rU' — < ICay Ged yeor enand «eed 1 ' 

Ia torrov be departed, éqeoled^ be rode 
Tbe neary jooniey from pelaeeiato bia om abede; 
He griwed for bis flUr eenaten, dwt ae faia bfe trai efae; 
Sore gríeved be for ibat la4y, Md for bis ebildm Uwee. 



Uto one nas jel aa ithai b|kxi Júa aelber^s breaafty 
For tboogb it bad tbrce Bwwe, M liked bar BHlk tbe bett; 
The otbers wepe(y«wg «Uldiw, Abatbad batiiUie wit, 
HaogíDg aboQt tbeir molber'» knee «bile awsiog ibe did siL 



- ' Alas r be gaid, wbea be bi4 «MM «ilbio a liUie 4pa4». 
' Uow shaU I brook IbecbMfMleek «f my kind tadyi fooe? 
To ase ber eoming foilb in^lee te aeet ne ia lay bali, 
Wbn she 10 sooa a ea^iee ímuI be» aad I tbe cMne ef aU 1* 



Jast tben be tâw>her at tbs deer <«ttb ali ber babes^gpeaf , 

(The IHUe page bad ma bafoM le lell bie ford ifia BMi^ : 

— ' Xow ireleoaw honse, my bMdy aor Ufet -- Atoe 1 yea dreep yoor head: 

TeO, eoiBt Alareos, tell yeor wiiiw wbal aiakea^oor egrei'ao led?' 

— * IH tefl yo»aU, IM tett yea aU : it ia oat yel tbe bMf i 
WellsoptavetberintbebaO... TN teU it jou ia yo» haver.* 
The lady broogbt fortb wbat abe bad« aad dovateadebiM iate: 
He saie bcside ber paJb.aad-awUbitt aeiter diaakaorala 



The chiUrea ê^hiaaiie aiae M<he toeed to báwfheBi to), 
Theo OB tbe boaid be laid bii baed, and ea«'bto4eaii4id Aow : 
- Ilaia ipoalidei^..^ i lykiiMdd iieep/ tbetoHftádnRoaeaid. 
Aksl be sare, tbat ihiji iiminHbataii^t víiMb tteb èed. 



10 

wit bafe I; 

ierUfe, 
ir hjf wífe. 

wibanfired.' 

iiithenMitkfl«di€l 
i for comely woiiaa*s nfce ; 
laríedBUB, 



Mr. 



vpaM; 

«rirorádiAfAí^l, 
ly and nigfat? 
my líMW tto tftMi. 
loonno sonsa ■ juuw< 

do lha lia 

te I sbe miut die. 

idartt»( 

i««iíiifersflM, 



«ai 



OOmUI TAMlf o . 7é 

li luílUflM blood mui ««A tte Uot vWdi tUÍM tte kloo4 «I kiifi, 
&• MMÉv 4wB, Jmt lifB WMi«id, and UiiM Auit to tkt deed. 
ElsetlMM omhameAillUMàiMfltoBd: itonof it MroMtd.* 



- Good king, ny toad ttwa aa/at comnaBd, aUe traaioa JilcIf my bumI 
lUuke the life of my dear wife->(GodI bIm tosot Ito Iriane). 
Abi I itol y<Nii« and NAleM toiíi iw oitort dB ttovU Metd 1 
6ood king in lorrov I éepart.' -- 'May Goá yMr erniid ^paedr 

la lorrow ha departed, dqcdadlf to rode 
11» iraary joaniey from paiaflaoBto Iim o«b a todo; 
He grievcd for bis fair ca— teu, drar ai hii life naa ato; 
Sore grieved to for Itot la4r» aad íor bii ckildrn ttoea. 

Tto ooe wat jet aa iafoat qpoBJiii aMltor^t braart, 

for UMMgh it tod Ihrea BBrMi, if Ukad tor aHlk tto beU; 

Tke odwrs mm^tmg cbéklm, «hai tod baiiiOle vit, 

aboat tbeir malber'» boaa vbíle awsiqg tto did «L 



- * Alas r to laid, wtoft to bi^ «oaM «ilbiD a tt«*le «ace. 

- Uow iball I brook tto ctoarfbl ladk «1 ny bind Myt fooe ? 
To fw tor eomiDg fortb io^foa ta wntei ne ia ay bali, 
Wtoatto u ioonaflNpaaaNMtba» aad I tto wweaf «U 1' 



iast tbeo to sav tor «t Ito daif '«Hb ali bar bab8B4ifeay, 

(Tto liute page bad na tofera ia lall bii lord «aa iHu^ : 

~ * Ifov walcoaie toaia, ay laid» aor lifo 1 ~ Aiaa I yaa draap yov baad : 

TeU, cmai Aiaroos, tell yaur wiK wbat aakaajoor «fciao náV 

— MD leU yoaatt, m iall yaa ail : ii iaoM yai Ito baw; 
W«li rap tofeiberintto bali... miaN ii yon â yo» boner.* 
Tbe tody bnagbi fortb wbai «to bad, «m1 doai toaídebia ato: 
Ue ali bcsida bar palb<iBd aad»èa Miltor diariíAor*!^ 



Tto chiMiai i»bia.aidaaaa tol^to toMt to toftt«iflB ao), 
ttoo « ito boaid to laid bii baad, anl aai-Ua laait 4id fov : 
~ 'I fuB n oii á a i aap...^ I fkbiaBaldiiaap; Itoaortlddaaeaaiaid. 
AUs I to tare, tbai ilapaaaaHa tfai aigbt «ilUa Itok tod. 



71 BOMANGBIRO 

Thej carne together to the bower wfaere they irerê uwd to reel. 

Ncoe with them boi the little babe that wai upon the braaH : 

The couDt had barred the cbamber doors ~ They iie*er mn barred tiU tlm: 

— * Unhappy lady/ hê b^fao, 'aad I inosl loit of moil* 

— ' Nov, speak iiot w, my noble lordi my hushand and ny Ufel 
Unhappy nevir ean ihe be that ii Alarooe wife.' 

— * Alas nnbappy lady, *t if bnt liltle that yoa Icnow, 

For íd Ihat nrj word yoo * Ye eaid, is gaihered ali yoor woeu 

* Long sinoe I loved a lady, — long sínce I oathf did pUght, 

To be that lady's hnsband, to lore her day and nighl: 

Her lather is our lord the king, to him the thing is known, 

And now, that I the news shooid bríng t she elaias me for her omtL 

' Alasl my lovel. . alasl my lUé!. . the ríght is od thair nde; 
Ere I had seen yoar face, sweet irífe, she was betrothed my bride ; 
Bat, oh t that I shooid speak the word 1 siooe in her plaoe yoa lie, 
It is the biddiog of oor lord, that yoo thís night most die.' 

~ ' Are these lhe wagee of my love, so lowly and so leal f 
Oh, kíll me not, thoo noble eoont, when at thy foot I kneel t 
Bot seod me to my father'8 house, where once I dwett in gtee. 
There will I liie alooe chaste life, and rear my ehlldreo threo 1 ' 

— * It may not be; mine oath is strong; ere daim of day yoa die! 

— 'Oh well 't is seen how ali alooe npon lhe earth am I ; 
My father is an old frail nan, my molher*8 io her grare, 
And dead is sloot Doo Garci . . . Alas t my broder brave t 

' Twas at this eoward kiag^s oommand they slew my brother dear. 
And now Tm helpless in the land. It is not deaih 1 fear, 
Bot loath am I lo deparl, and leave may childran so. 
Now let me lay them lo my heart, and kiss thon ere 1 fo.' 

~ ' Kiss him thal Uei ipon thy breasi; the rsei Ihon nayit Mt eet.' 

— 'I fainnoold lay an Afé.' ~ *lhm ny it speedij.* 

She kneit her down npon her knee : — 'Oh, Lord I behold my caie; 
Jadge not my deedi, bnt look on me in pity and graat gnea.* 



CONDE YA^XO 73 

• 

Wban iht bad mãáe h«r orísoo, op from hcr knMt she mtê ; 
- 'Be kiRd, Ahreoi, to oar babes, and praj for ray repose ; 
Aad anr fíT» me my boy ooce nore apoo my breast to hold, 
Tkat tbe nay drínk ooe Cuwell drínk, bofore my breast be eold.* 

~ ' Wby woold yoa ivakeD the poor cbild ? yoa see he U atleap ; 
Fnpin, dear -viíe; Ihere is no tíme, the dawD b«|mt to peep/ 
— 'Xow hear me, eooni Alarcotl I give thee pai^lon free; 
1 ['ViioB thee for the lore^s sake wfaerevitb Y to lored thee. 

' Bot tbey ha^e not my pardon, ibe king aod hii prood danghter t 
Tbe cone of God be oq Ihem, for thi9 nnchristtaii slaoghter! 
1 charge thom with my dyíng breatb, ere thirty dayt he gone, 
To meet ne io the realm of dealh, and at God'i awftal thnme t * 

He drew a kerchief roand her necfc, be drew it tigbt and stroog, 
Uatil ihe lay qoite iliff and coM her chamber floor along; 
fle laid har then vilhin the sheets, and, kneeling by her ride, 
To 6od and Mary Motber in miíery he eried. 

TbcBcaUedheíbrhijesqiiiiret: — ohl deep was tbeir dismay, 
Wheii thqr imo the chamber carne, and saw her how the lay. 
Thnfl died ihe in her innocence, a lajy Toid of irrong. . . 
BmGed took heed of her oflenee, hii Teogeance sUyed not kmg. 



twdfe dayt, fai pain and dole, the Infanta paswd airay ; 
The eraal Uog gaTO op hit sool opon lhe tvenlieth day ; 
Alaitoe iiOowed ere the moon had made her roond complete: 
Thne goflty ipiritf itood right soon before 6od't jndgmeot-Mat * 



o OOHin VàhLEMAmLA. 



o romance-xácara do ' Conde d^Allemanha ' 
tem um pensamento bello e moral ; e o stylo 
d*aquella simplicidade sublime e verdadeira- 
mente antiga que é o séUo das composições 
origínaes e primitivas, de quando a arte, es- 
pelho ainda rudo porém ainda ingénuo, não 
bz mais do que reflectir a natureza, mas re- 
flecte-a com toda a verdade. 

Uma filha— uma infanta, pois quasi todos 
estes contos de 'era uma vez ha muito' s3o 
de infantas e princezas — uma filha tem a des- 
graça de vir a descobrir a ' criminal conversa- 
ção' de sua mie com um cavaileiro mancebo 
e extrangeiro, um certo 'conde d'Allemanba* 
—AUamanha, ou também Aramenka, como 
em algumas partes diz a licc3o do povo. EIrei 



78 ROMANCEIRO 

anda á caça, segundo é de uso usado Does- 
tes reinos antigos — ao menos occupavam-se 
n'isso ! — e a filha protesta dízer-Ihe tudo em 
elle chegando, apesar dos rogos e peitas com 
que a mãe a procura fazer callar. Chega o 
pae, a infanta vai resoluta a elle . . . Horroroso 
spectaculo ! A tremenda accusaçio d'adulterio 
proferida pela filha contra a m3ef O terror 
cfaeg» ao seu a«g6, a peripeda è graaie e su- 
blime. . . A ffiba accosa o Mdvolor, maBsitva 
a mie; acousa-o de mn grande aMwtado que 
lhe dere onstar a vid^, mas otitr«, nas difli* 
rente: o de lhe lançar mios violentas, ode 
attentv eoRtra a lionra d^elia iofaolat 

A IMea querella leva o conde ao cadaMso; 
mas o crime verdadeiro fica punido e aiiMra 
do pae deea^fravada sem se retellar t íAfa- 
mia da mie. 

É visível que este romanoe foi composto 
para celebrar ma tátto real etiistorie», algo* 
ma d'essas negras e sangmnotofllas tragedias, 
que tam fk^ueotes se representavam nas es- 
curas camarás de nossos antigos paQos e seria- 
res. Nenhmna justiça ousava inten^ n'esses 



o OONBS VâLimàNHA 7i 

(riiMs dos grandes» neniMima voz osdwn* 
dava ; e a|)eiias o trovador ou o jogral em soa 
rofida de terra em terra, de torre em t6rre, 
ia repettir, tonge ii'uma, o que muito leage 
(l'alli tinha OQvido n'oiitra: — eochos vagos e 
eiMifBSOs da bistoría verdadeira que imq elie 
saberia nem ousaria ooatar toda; e qw nuis 
deaiigiirados e confiísos ficavaai no monotone 
trowr de soas caotadas coplas, cantadas ao 
som uniforme d^aqudla triste melopea que 
akida hoje dura na memoria dos povos, d'onde 
toda se oblitterou, se a^uma houve mmca, a 
Imbrança dos bctos ^e nomes verdadeiros 
d'ésta e de eguaes tradições. 

Facto conhecido na historia de Portugal ou 
de outra parte de Hespanha, não sei queoaae-* 
more este romance; mas inciino*me a cré4o 
de origem portugueza, — isto é, que original* 
mente fôsse composto no dialecto portuguez, 
ou legio-luaítano, porque ainda agora ha mais 
^plicidade e mais natural na edifão (tam- 
bém mais completa) que d'elle nos dá a tra- 
^0 oral do nosso povo, do que na licção es- 
crípta e impressa em que o conservaram os 

YOL. 11 » 



80 BOHAKCEIRO 

collectores castelhanos desde 151 1 que se pa- 
blicou o seu primeiro romanceiro geral. 

Ainda no anno em que isto se escreve, 1841 , 
é esta uma das xácaras mais validas, mais 
cantadas, e mais sabidas da gente dos cam- 
pos. Assim de todas as provindas, até das de 
a)ém mar, obtive cópias d'ella ; algumas visi- 
velmente adulteradas com grosseiros rifatí' 
mentos modernos, addiçoes e 'melhoramen- 
tos' de algum presumido cantor d'aldea que 
pretendeu corrigir estas anttgualhas como os 
nossos architectos de Lisboa corrigiram o con- 
vento de Belém, e apperfeiçoaram o frontispí- 
cio da GonceiçSo-velha. 

Ck>llacionando umas cópias com outras e 
com a licção castelhana segundo Depping e 
Augustin Duran, appurei o que me parece o 
texto mais legitimo e verosímil. 

Juntei no §m alguma variante mais notável 
e que apparecia mais repettida, e também a 
versão castelhana. 



o CONDE IPALLEMANUA 



Ja lá Tem o sol na serra >, 
Ja lá vem o claro dia, 
E inda o conde d' Ailemanha 
Com a rainha dormia. 
Nao o sabe homem nascido 
De quantos na corte havia; 
Só o sabia a infanta ^^ 
A infanta soa filha. 



' la o sol dá na vidraça— mbatuo. 
' Sabiam dona SUtana— Mono. 
Sabiam) dona Bernarda— beiralta. 



82 ROMANCEIRO 

~ ' Não n'as chegue eu a romper ' 

Mangas da minha camiza, 

Se em vindo meu pae da caça 

Eu logo ih*o não diria/ 

— 'Cair-te, caU*-te, la infanta, 

Não digas tal, minha filha, 

Que o conde d'Âllemanha 

De oiro te vestiria/ 

— *Não quero vestidos d*oiro*; 

Mau fogo em quem n'os vestira! 

Padrasto com meu pae vivo, 

Nunca o eu consentiria/ 

Palavras não eram âitas, 
Elrei que à porta batia. 
—'Deus venha c'o senhor pae 
E o traga na sua guiai 
Tenho para lhe contar 
Um conto de maravilha. 



* Mangas da minha camisa, 
N.I0 n*as chegue ea a romper, 
Se em vindo mea pae da missa 
Logo Ih'o não Tor dizer. — mimo. 

* Não quero \e8tido8 de oiro, 
Pois os tenho de damasco : 
Inda lenho mea pae vivo, 

Ja me querem dar padrasto. —ubatwo, Tiuft^>s«mirrE^ 

BCIBALTA. 



o CONl» I^ALUOiANHiL 

Estando ea m sim lear^ 
Seda amarella leda» 
Veio a conde d'AUettaalia 
Três fios d*ella ine tira. • / 

— 'Cair-te, d'ahi, míDha fiUia, 
Ningaem te oiça diser tal : 
Que o conde d'Atteoianha 
É menino, quer brincar.' 
-^^AfwnegO' dos sem lirinees * 
Ifids éOF sen negro Iblgar t 
i||De me tomou nos seus bragos, 
Á eaatt me ipiiz leTar.' 
---^CailBFte ja, níniui ffilia, 
Ningnem te oiça mais feRat; 
Qae em antes que o sol se ponba 
Vai o oonde a degollar.* 

Yeis-lo conde d^Altemanfaa, 
y«s-]o Tai a degonar; 
Ao rabo do seu eavallo 
Lá o levam a 



' Iflando M no DMRlMr 
Ttendo leda imartH^ 
V«ío o condo «fAllenanka 
Tm Sof HM tiroa tfeHik — mmo, • 
Arrenefo de tal emàt-^ 



8( BOMANCRIRO 

— ' Venha ca, senhora mãe ', 
Venha ao mirante folgar. 
Veja um conde tao formoso ' 
Que ahi vai a degollar.* 
—'Mal haja, filha, o meu leite, 
Mais quem t'o deu de mamar. 
Que a um conde tam bonito 
A morte foste causar.' 

Aqo as Tariantei sSq infinitas : é a paaiagen qoo todoí oi 
ingeohos d'aldea se compraseram mais a paraphmear • a Cuw 
tbema de leas floreados e taríaçOes, modernixando-a sem obedecer 
á rhyma certa do romance e quando menos ao sen toante oa assoaste 
obrigado, cojas sereras leis não permittcm qne le mude seolo om 
espaços regulares, e nnoca mais do doas on tree TOies em todo o de- 
curso do mais extenso d*elles. 

Ponho aqoi qma amostra d'estas qne não s2o Tariantei, mu ti» 
riaçOes modernas. 

Vcnba ca, senhora mie, 

Para a janella do meio. 

Ver o conde d'Allemanha 

Infeitado de vermelho. 

Venha ca, senhora mSe, 

Á janella do qnintal, 

Ver o conde dAllemanha 

Gomo rai a degollar. 

Venha ca, ó minha mSe, 

Venha i janella do canto. 

Venha ver o senhor conde 

Como lhe parece o braneo. 

Venha ver, 6 minha mie, 

Á janellinha do poço, 

Venha ver o senhor conde 

Com ama corda ao pescoço. 



o GONDB D'ALUafÂNHA 

— 'Gair-9e d'ahi, minha mie, 
Ninguém lhe oiça dizer tal, 
Qae a morte qne o conde leva 
Não Ih'a faça eu levar *.' 



oópiaf, eipaeialmeDte u da BairtlU e Ribatejo, tra« 
■o im orna «spede de oonehisao ou rabo-tora; o que 6. d« R*- 
chaauria «alo <m f$m (Taj. carç. da Rei.): nonata qoa toda- 
4|aan pelas mamias palaTias em mnitai oatru lá- 

ITiuna campa rasa e triste 
Xa o deixam interrado; 
PMeram-lhe á eabeodra 
Um letreiro bem laTrado, 
Para qosm passar qoe diga : 
— * A^ Jas o malfadado, 
Qqi momo de mal d'amofas, 
Que é mal desesperado.* 



A taa alta va ia lima 
Corno el wl á médio dia, 

Guando el boen conde Allflnaa 
Gon eea dama jada. 
No lo labe bonbre nacido 
Be eoantof an oorie habia. 
Sino solo la eondeia, 
Eta coodeia n li^a 
Atiladninalabablira, 
De etlamanera deda: 
-.'Goanlo ▼léredee, eondeta* 
Coanto Tiéredet enoobrildo, 
DaitM ha el ooode AUemaa 
Un manto de oro flno/ 
—•Mal Amgo le qoeme, madre, 
El manto de oro Uno, 
Coando «n rida de mi padn 
TMmapMlntfanro.: 
DtaIttMflMEiDnnMio. 
Al oMdi «B padn lia liittk 
-'ifoiqpê teaia^Ia.andMit 
Dedd ^qnien Ikrar os hito? 

— To mn «laU ^aoonMkw 
Comiendo MfM aaaâMV 

Bntróele<MfeAltanMi 

Yediólas|wriLf«rtido.' 

Notomeia.dMa|iHu;. 

Qm oloondaaiaiBAx oBobidAi 
Hacerlo h»pnr hoclac* 



j 



o CONDE D'ALLE]IAlfHA 87 

— «Gnando me tomo m los braiM, 

No me qniio rNpetar.' 

—'Si d 01 tooBó eo ras brai09* 

T coo TOB qniao holgar 

Sb aotes que él lol ulieia 

To lo mandâré matar*.* 



iê D. Aog. Dona, tom. ir, p. i. OcImi, nMM. p. 9. 



YI 

DOK ALBIZO 



Tem este romaiiGe um viço, um frescor de 
originalidade que recende. Todo elle respira 
a graça desafleitada da poesia primitiva. E to- 
davia é fino, elegante, cheira a um sal3o de 
castelto da meia edade, aos perfumes do both 
doir de uma nobre donzella do tempo da 'Ma- 
dressilva' ou da 'Âla-dos-namorados.' Se o 
cantaria o condestabre á sua dama? Ou o Ma- 
griço áquellas misses de olhos azues que foi 
defender a Inglaterra? Ou se o traria de Nor- 
mandia o conde de Abranches? 

Sabemos qne estas coisas eram ja mais 
moda então do que as inrevezadas trovas tro- 
vadas d'elrei Dom Diniz e de seus donzeis e 
discípulos, pois temos nos cbronistas a auctori- 
dade de Nun'»ilvare8 Pereira, que era o grande 



91 BOMÂMGKIRO 

modelo de seu tempo, e preferia os romances 
d'elrei Arthur e de sua Tavolla, a iodas as pie- 
guices alambicadas da eschola provençal. 

Não quero dizer que seja ' Dom Aleixo' tam 
antigo como 'Amadis' em sua linguagem e 
composição. Digo que a historia e o modo de 
a contar sabem a esses primitivos tempos. 
Vasco de Lobeira pôde ser mais velho um 
século ou dous; mas o menestrel que disse 
este cantar, não o fez mais moderno, talvez 
menos. Na mesma montanha e na mesma es- 
tacão do anno varia a temperatura, o clima e 
a vegetação por tal modo, que o viajante pôde 
imaginar-se estar no mesmo dia, na primavera 
e no bynverno, no estio e no oulomno, segun- 
do sobe para a cumiada ou desce para a falda 
da serra. Ainda no mesmo ponto e no mesmo 
jardim florece em janeiro a planta que está no 
abrigo, exposta ao sol, livre da geada; em 
quanto sua egual e sua irman gela sem flor 
nem folha ao desabrido sopro do nordeste. 
Será mais dobrada e mais brilhante a flor 
d'aquella; mas quando estoutra rebentar 
aos bafejos da primavera natural, o seu viço 



DOM AUUXO «9 

e perfume hSode ser mais vivos e de mais 
força. 

Assim é com a poesia: na mesma geraçSo 
o poeta lido e lettrado produzirá odes e sone- 
tos que pareçam dous séculos mais modernos 
do que as incultas coplas do seu contemporâ- 
neo. N'aquelies a moda, a imitação dos mo- 
delos estimados do tempo, Ibe estampará com 
todas as lettras o anno de sua composição : 
a originalidade d*estes não traz data, nem 
a tem, porque a natureza não varia com os 
séculos. 

Não vemos nós também a gente dos campos 
em muitas províncias da Europa trajar ainda 
boje as modas de ha seis ou sette centos annos, 
e de mais? Âs populações do Oriente, os povos 
pastores com especialidade, não vestem ainda 
hoje como nos roais remotos tempos de que 
saibamos? 

Faço e escrevo estas considerações, porque 
ellas são precisas para avaliar conjectural- 
m^le o que não tem livros nem monumentos 
nem docunoiento outro algum por onde se es- 
tude ou se alfira. 



'Dom Aleixo' é <tos nossos ronmices po* 
pulares o qiie me chegou mais coirupto, in- 
tnrpoiado, e de que menos licçSes provincíaes 
pude obter; só uns fragmentos da Beiralla 
e owtros de Lisboa. Se nSo fdra a còçni do 
cavalheiro de Oliveira— de que me nSo valho 
senfio em extremos» porque lhe dou menos lé 
que ás tradições oraes do povo — tinha-me 
sido impossível restitui-lo. Ainda assim» al- 
gumas raras palavras foram por mim conje- 
cturalmente substituídas. Taes sSo na copla 
que diz: 

(Hl M ei «Una que aiuU em pmà$. 
Tê farei incommeniar. 

A tradição oral de Lisboa diz: 

JEa por ti DMDM daria: 

O qae nio faz sentido algum; e devia de ser: 

Bn to iaoomnHDdaria; 

sendo alli a rhyma em ta, n3o em ar como 
na nossa. 

O alimento do romance é gracioso e lindo, 
põstoque remate bem tragicamente. De três 
irmans que viviam junctas, a mais pequena 
era tam amiga de saltar e folgar, que uma 



DOM ALEaO 90 

noite se vestiu de pagem, e passeiando, rua 
abaixo ma acima, ao pé de sua casa, fingia 
querer cortejar alguma das três irmans que 
alli moravam, e que tam parecidas eram, tam 
de egualhar, que ella dizia, em desprendido 
stylo leonino — e esse sim que é o mesmo em 
lodosos tempos: 

Das tiM irmls qoe aqui moram, 
A qnal bode eo namorar? 

Dom Aleixo, seu apaixonado d'eUa, sentado 
QO poial aopé da porta, e disfarçado em ermi- 
tão, via com despeito as fanfarronices d'aquelle 
atrevido pagem que não reconheceu, e lhe 
quiz metter medo com uma supposta espera 
que lhe estavam fazendo. Mas a dama-pagem 
tinha ânimos de cavalleiro, affrontou o perigo 
em vez de fugir. E quando Dom Aleixo reco- 
nhece a sua amada e lhe vai a deitar os bra- 
ços, ella o fere mortalmente com um punhal. 
É singela a historia, mas verosímil e interes- 
sante, como sio todas estas que os nossos me- 
nestréis cantavam. 

NSo ai^rece vestígio algum d'este romance 

nas colleccões castelhanas. 

voL. n 10 



DOM ALEUO 



NÓS éramos três irmans ^ 
Todas três de nin egaalhar: 
Uma insinava á outra 
A cozer e a bordar : 
A mais pequena de todas 
Se foi, por noite, a folgar ^ 
Com duas tochas accesas 
Á porta do laranjal 3. 

* É visíTel o erro e oorrop^ das Vic^'* qno, faltando á rhyma 
•jbrípdi, Mem, eomo n'es(a ; 

IV6s eraaiM Ins kaiaiis, 

Todai tres de Djn parenr; 

Uma insinat a á ootra 

A bordar e a coser. — bbi»alta. 
' Andata pelo pomar— íumà. 
' io rador do lonivai— aiouLTA. 



98 ROMANCRmO 

Vestia vestido de pagem, 

Que lhe ficava a mattar, 

Sea punhal de oiro na cinta, 

Sea borzeguim de alamar. 

Foi-se pela rua abaixo, 

Tornou acima a voltar : 

— 'Das três irmans que aqui moram, 

A qual heide eu namorar?* 

Nós de dentro do balcão, 

A rirmos de seu brincar*. 

As tochas tinha apagado, 

Vinha sahindo o luar, 

Passando junto da porta, 

Que os olhos foi a baixar, 

Viu estar um ermitão 

Assentado no poial. 

— 'Que fazeis aqui, meu padre, 

Que fazeis n'este logar?* 

O ermitão, sem responder, 

Começou-se a levantar. .. 

Tam alto em demazia, 

Alto, alto de pasmara 

— ^ Se tu es a coisa má, 

Eu te quero esconjurar. 

Ou se es ahna que anda em penas. 

Te farei inconmiendar *.' 

* Folgtr^ UOLàLTA. 

■ Qm era ooisa de pasmar— luida. 

* Farei inoomineodar a toa alna, reiar por U, diíerniMU, «Ic 



DOM AUaXO 99 

— 'Ea não sou a coisa má 
Que tenhas de esconjurar; 
Tambon não soa alma em penas 
Para ta me incommendar : 
Soa a alma de Dom Aleixo, 
Qae aviso te venho dar^ : 
Sette te estão esperando 
Na escpiina, áqaelie portal, 
E jnram por Deus sagrado 
Qoe a vida te hãode tirar.* 

— ^Pois ea por esse lhe joro^ 

E pela Virgem Maria, 

Que oatros sette qae elles foram, 

Ea atraz não tomaria. 

Oh lá, oh lá, cavalleiros, 

Não levem de covardia, 

Pachem por suas espadas, 

Que ea pucharei pela minha. 

O que não trouxer espada, 

Eu esta lhe imprestaria, 

Qae eu cá com meu punhal de oiro 

Defenderei minha vida.' 

Palavras não eram dittas, 
O ermitão se descuhría, 



* Q« tê Tflofao avitar— usBOA. 

* Foit p«lo aMMDO Uie juro— uiiulta. 



100 BOMANGIIIIO 

Foi a tomá«la nos braços 

Com sobeja demaiia... 

Ella com sen punhal de oiro, 

Que na cintara trazia. 

Tal golpe lhe dea nos peitos, 

Que alli por morto cahia. 

— 'Quem te mattou, Dom Aleixo, 

Quem te mattou, minha vida?* 

— 'Mattaste-me tu* senhora, 

Que outro ninguém não podia.' 

Ergue-te, Dona Maria, 

Bem calçada e mal vestida. 

Agora, por mais <pie chores 

Tua alma fica perdida*. 



* Étta úlUma copla» que «n lodu as ¥n^6m appartoe, parten- 
oará com eflèíto ao ronumce? On Mri íngamOê d» ovlM qne M lhe 
COMO pela ignoraneia do Tulgo? As minhas coi^acUirat indi- 
oam-me á scgaoda d'eftas opiniOet; mat cooserrei a copla no 
taxto por Dlo inoootnur uma s6 Ueçio «m qu eBâ tfotoÉha. Certo 
é poiim que as licçOes aqoi <lo todas fai g Bi t O i . 



vn 

SYLVANINHA 



A rudeza da li Dgoagem , a descompostura do 
stylo, e a nudez, posto que innocente» de al- 
gumas expressões e imagens characterizam 
o romance popular da 'Sylvaninba' por uma 
das mais antigas composições que a tradiç3o 
dos povos tem conservado, de tempo imme- 
moria], na nossa península. NSo dei com elle 
em nenhum romanceiro ou cancioneiro cas- 
telhano ; mas não ha província de Portugal 
onde, mais ou menos completo, se não cante. 

 cópia de que me servi quando pela pri- 
meira vez o publiquei em 1828, como funda- 
mento e iUustracão da 'AdozindaS' tinha sido 
obtida em Lisboa pelo paciente zelo de uma 
menina da minha amizade, que ia escrevendo 
no papel o que ora lhe cantava ora lhe rezava 

* Ytia prabdo e notas do i toI. do homauguío, lesimda ediçio 
(da Adoanda), Uiboa iMS. 




104 ROMANGBIBO 

uma criada velha da proviocia da Minho, ha 
muito anno aqui residente. Vai agora melhor 
restituído o texto com o auxílio de outras có- 
pias qae me mandaram da Beira e do Ribatejo. 

O assumpto d'este romance é feio e desna- 
turai; mas s3o os que mais interessam o vulgo 
em toda a parte, e que preferiram sempre 
06 poetas nas primitivas edades das naç5es. 
O coração áspero e cru, os sentimentos dwos 
dos p(m>s semibarbaros preoisam d*e8sas via*- 
lentos stimulos para vibrar —dia StrWaItir 
9€nMI*— o espírito aind»ião«6lápuírifloado 
bastflDte para fugir, oona em tempos iMte 
eivilisados» átè tam ast^erosos «Mios de «- 
dtMT interesse. 

A vaidade de poeta* inô^ fe2«-iBB esoillRr 
éata<iácara pnra provar ii'eita a>mio>qiiaDdo 
me insaiava ^ tmduxirpsM a língua e poesii 
d6 beíe, algunados^ antigos vestigfos dosiio»* 
soBohsoamsrfliiiosda meia edcnia, por^oeuie 
irritttvam essas mesmas* dHBraMtdea» «^ me 
lisongeava de* as vencer. Oa Sjflvma nasoflíii 
pois a Adozinda, e em tam boa hora que d'ahi 

MiHiTftiLST OF rai sconnsa bmmmí. 



STLV^KOIHA lOS 

data o gdsto da poesia popular entre nós: por 
onde Dão fui iam infeliz, apesar dos escn> 
pulos com que fiquei, assim da perigosa trama 
que escolhera, como da tímida ordidura com 
que a cubri. 

Hoje seria affectaçao ridicula omittir aqui 
aqueile texto em toda a sua crua nudez. Boa 
é a máxima dos romanos : Facínora ostendi 
dum punianlur, flagitia auiem abscondi de- 
bent. Mas não será da publicação pela im- 
prrasa de uma xácara velha, que anda na me- 
moria dos povos, que ba de vir a poUução do 
espirito, e menos ainda o derrancar do cora- 
ção, que é a verdadeira doença-mãe de todas 
as doenças montes. 

Quanto se pôde julgar de uma coisa tam 
desbotada do tempo e das m9os por que tem 
passado, inclino-me a crer que esta singela 
rbapsodía popular è anterior ou, se contem- 
porauea, extranba^ á polida e estudada Kttl^a- 
tora provençal do século xm. 

Qnejano tempo áe D*. Francisco HfanuelíillB 
lIMlo eHa era batida por coisa muilo antiga, 
e de nenbum modo castelhana, temos bom 



106 ROMANCBraO 

documento no seu 'Fidalgo aprendiz/ jornada 
segunda^: 

Buns 
Entoay, por meo praser, 
Qualquer ooiía. 

Sem guitarra? 

wms 
K7lU;iOBa7. 

on. 
'Pasieava-ie Syivaoa 
Por um eorredor mn dia. . . 



Ay senhor ! ea nio qaeria 
Seoio ]ettra cattelhaaa. 

eiL 
Ganlarey algara^, 
Se maiMlayi; pois qoe quereis? 



Uma letra nova quero» • • 

O pensamento, o íiindo das ideas, o pri- 
meiro desenho e, quando muito, o tom do co- 
lorido geral, é o que se deve examinar e con- 
siderar n'estesesbocetos antigos, tantas vezes 
pintados e repintados por pincéis de cada vez 
mais grosseiros e ignorantes, e sobre tudo im- 
penhados sempre em modernizar, pôr á moda 

* Sd. de Lao de França, 1665, pag. M7. 



( 



STLYANnfHA 107 

e fazer bonito o que lhes parecia tosco e gros- 
seiro, só porque era simples e original. 

O stylo» as palavras, a forma toda exterior 
de um d'estes romances parecerá muitas ve- 
zes« á primeira vista, de um século, e d'esse 
è com verdade, porque n'elle foi refeito ja na 
sexta ou septima traducçSo oral; quando ori- 
ginalmeute elle foi composto outros tantos 
séculos antes. 

N3o ponho senão as variantes mais notáveis; 
tem muitas outras, e infinitas quasi, este ro- 
mance, por ser dos mais populares e espa- 
lhados em todas as províncias. N'um curioso 
exemplar da Belralta, em vez]de começar co- 
mo aqui começa e geralmente se diz, o prin- 
cípio é estoutro, accrescentado decerto por 
m3o ignorante e sem tacto : * 

OooDdedeViUa-Flor, 
( Com MT o conde maior, 

Com ter ja tiw filhos bomeDS, 
Lmdot como o menno sol, 
A soa flJba Sjlrana 
De amorss aeeoauDeltia: 
—'Bem podáns to, Sjhana, 
GoBuiiifo fsllar um dia.' 

No resto differe pouco da licçSo geral. 



m JUMIáffOBiRO 

A 'Adoànda' feiU sobre a 'Sylvaoa* % em 
geral a poesia pop^^r poriugtteBa deram m»- 
tiv4> a um iotereseaote artigo que se publicou 
no mmk. xx do Foreign Quarierley fímew 
deLmdreB» otttobro de lS3i. Csfu^^ae aqai 
a ptr(6 pespectíva» nio só pelas curiosas ^ 
servacQes do esoríptor íngiez» mas pelos tra- 
ctos da traduoçãoúigifiia íoais curiose^aioda. 

We have alraady inlioated tbat tho long slightod xaoara lias at 
IdBglh fbood a c iil t i t a le d admirer; and thts aAmirer tt tbe BeiÉior 
AlawidA Gami^ ir tote altiatiOB aanis. lo 'kam ken riailad to 
wbat fonned tbe delight of bis inlaiiej, bj tbe uniTersal modem 
rafB for oM oational tegciids and longs. He has eolleeled tbe fira;- 
DMBtsQÍ manf mlilalid mmrm, and m Um intredmlioD to Èéo- 
ainda speaks of pablitbing them, wiUi Teraioiía so far modernixiag 
tbem as to render tbe tenioa^rand sloríes intéltigible. We are great 
loiara of sodi Ipra; aad Ãs JPortipiewi aalare is so essMitialy 
poeUcal, tbat we are satisfied Lositaaian lispings in namber» masl 
be aaongst tbe sweetost t>f early reonfan. 
* Adosinda is not eiacUj a sfeoitoen of wbat tbis«ork wmkl fce; 
in it tbe xacara fragments baving growo into h poetical romance ta 
fonr sbort cantos, and beinf allered, as weil as dilated and oom- 
pleted. Tbey ooakl not elso hano m ye n t e d ia these days of refloe- 
ment; for tbe tale is Ibnaded onapnssion rewltiog lo boman na- 
tore, and reqnires tbe ntBOSt dalica«y of ■nnogement to render 
it endarable. Cor antbor bas doas mch to soUen ils oflensiireness; 
tndeed, as mncb as in most pails of tke eonliBtnt will, we conceíTv, 
be tboogbt snlBcient. Bngliib ntétn U9\ bowerer, more fasli- 

I &ta vaMadt da pradnie inglen pavoMia-M «fui miil* tim át pespo- 
nto. IVm oóllNtSM iê Ftny • 4t* W. flitn to«tfMt Iam ptwo weÊ^tUiwri* 



dioui; and there ar«.pMl» «f iWs pMn vkick w «mld neithar 
traadAte nor even iDunoata eonforUbly. Wc mntt Iharefore tell 
the itory briefly io oor mm «i^i ir«l givinc Ike deteription of 
DoB Sisiiaiido't retoni hoa» fpoA UMinooriih wi, and conelod- 
iiig wfth eitncU from Ik» mIaíU«|iIw. As OMtl «i ímitote the 
otoitre of lhe original, to iMcb ^taivi tiio ibIwiiiIbi» of anrbjm- 
edlíMt. 

tol wbat erowdfl ledi Ludim pakee 
9Ri«»H laf«Mi<«ho?e th» imrt 
Soondf of var and soooda of mirth 
Tbroagh iU toCIf valU are riogiBgt 
Shakes Uw dnwbrklga, groaos Uie tarth 
Under troops in moiir brifbt ; 
Steedi, caparísoned for fight» 
Onward tramp : -^ o'erbead high fliogÍBg 
Bannen, wbere tbe red croat gtova, 
SUndard-bearao b vry near. " 
Doa Simaodo** lelf is berel 
From bisiffvaitplato flasbes ligbt; 
Plomes tbat aeem-of monntaín snow 
0*or bis danUqg b«linet vave; 
*Tis Sisoando, gmt and bravo! 

'Opcn, open, cattle portais f 
Pages, damteis, swífily more 1 
LoI from Paynim landi retnmmg 
Comes my boiband, lord, and lovel 
Tbos tbe fond Amenda oies 
Tow'rds tbe portal as sbe flies. 
Gales are opened, shonts ring roond ; 
And tbe andsut castle*8 ecbo 
Wakens tolhe «sittTe sooid; 



> te, «■ BMM lahK. Ji|ite • rtumn, wUãlmm^ímim (hiHo, »i 



i 



110 BOMAMCUBO 

*WelcoBeI woleoiM, Doo Siauadot* 

WMpt her joy AoMida meek, 
SireaiM of npton uméáj flow ; 
Down the nereivefaanfiiv chaflk 
Of tlM wwríor ftoat and tteni, 
SteaU a tear-drop ali onheeded— 
Stronger far is joj than voe t 

RaooTeriíig firom bis eoDjogal tran^KMls, Doo Sinaiido aaki 
forhisdanglkter: 

At bis lide his daogbter &ir 
Trembling stands witb downeast air. 
Uke some modest star she seems, 
Io tbo hot and Tivid beams 
Of ibe soo, oprísing brigbi, 
Seeo as beantifíil as erer 
Bat pale, dim, bereft of ligbt. 

Three long years had Don Sinando 
Foagbt against tbe Moorísb crev; 
And onknovn in tbis fair dame 
Now bis dangbter mel bis tíow — 
'See ber bere f ' tbe motber criee, 
Roond ber waist and aim entvining ; 
*See ber bere, my Lord 1' - Wbat ílamc 
Blaies in tbe fatber's eyes 
Fixed npon bis lotei j daogbter ; 
Wonder iritb deligbt oombining, 
Long be stands in raptore mote. 
Adoiinda sigbs and blosbeSp 
Wbispers 'fatberr trembliɫlj, 
Bcnds in langoid gnise ber knee. 
And on tbe paternal band 
Brealbes irilb iey Ups a líiss. 
Wbilit of letra a lomnt gnahes, 
Tears sbe may no more connaad. 



ãTLYAlONHA 111 

Ov hiat M to therafottiogebaraclar of tba ttory may, pêriupt, 
haTf pnp»ná tbe mdor to pcreeÍTO tliat tbe filher bãs íaUcb íb 
toff vitli lút ova damhter. Ádoitoda lud baeo fbrewanied of tbe 
koirort amiliiif bar bj * bamit, to wbom ibo, as a ebild, bad p«^ 
nadad bor nnganlle fittbar to grani boqiitality, and abe bas ercr 
daoe babitiially pataad ber nif^ts io loUtary prayar m a baimted 
irotto. Here bar Catber lorprifet bar» and tbe onl j eieapet tbe im- 
pelooeity of bis loatbsone passko by pramiiing to admit bim io 
b« cbaasber tbe foHowfaw nigbt. Hor stiU IwanliAil molber iakes 
b« plaee; aad tbe fatber, enraged ai dJeeoTeriog tbe bolj frand, 
ifaaCa np Adoiiiida, witboni dotbes or dríok, for soTeo years and 
a day, m a rooAeM tover, vbcre a Moorisb king bad so impritoned 
a fkitUMS vife. He tbeii retires io bis ebamber wbere none may 
imiiide: — 

AndtheíiUberisaloiie. 

Hb alone? Witb bim remain 

Tbey tbat ne*er deeert tbeir om: — 

Sín, renorse and gnairing pain 



Dawns at lengtb tb* appoinied day; 
Adoiinda'8 jears of dooõ, 
Tears and day, ai eve eipire. 
S<oitbed r tb' san*s meridian ray 
Seems tbe solid eartb on flre. 
From yon priJon's snllen vonb 
Bark I wbai aeoents foroe tbeir vay ? 
Aceeots seren long years nnbeard. 
' Tis a Toiee ibai aiks eoapassiOB; — 
Hearfcen to eacb pileons word-— 
' Gife, Ob give a draaigbi of water I 
One sole draogbi for nierey*s sake; 
Here ansheliered I am baining 
And ny very beari «ill break.' 



Tbat vas Adoiiada foir, 
AU ber aeeeois reeofniie; 

TOL. II U 



,ii9 HOMxmsmo 

To her prfaôD tiiroDgs Tvptir, I 

On the kwp-hole llx líirir «yet, 
Aod 'fthe livwl she liT« I' tlwfiAort, 
' Livcs lhe innoant oppregwd f ' i 

Then amidst lhe irootfitiigiwil 
Steríet of her pâliener spresd ; 
Ali lhe yftlaes are eoiiftnssd, 
Of lho Angel moarwd a* dé«l. — 
Haik I agaio Ihose somdt arei heuii 1 
Hark I agahi earh píteowword 
Seeins lhe prison wúU to ^íímIm. 
'Gire, Oh gire a dranghl of ^âlwl 
■ One sole draaghl ftjr iiiwfey'8 «afce ; 
Hcro miftheltored I am boraing 
And my very heart m\\ bwrt.' 

Every breasl ima moved to grief. 
Bnt her falher who mighl hmvet 
Wcoping ihcy IhU ansverijare — 
' Angol, yel a irhite endore, 
Swiíl Jelivcrance is sore. 
llc, Uiy Sire, musl bring relief. 
Now lhe sevcn loBg yeara tte gene, 
And lhe day is well nigh done; 
Yel an hour ' gabil deatti eontcnd, 
Then ihy snfferings mait end.' 

Adoiinda answcrs Ihal abe cannol hoW cal awMlier hour. Sbe 
lolli liow she has bceo snpported agtlMl thlfsl, he«t and coW, 
Ihroagh lho scvcd years by a continoed mirade, boi thal the haDd 
of God has boen v. ithdranm from her for lhe lart Ihree days, and 
shd C4in cndaro no more. She eonelodes by agam repeating h^r 
sunw of supplicriiion. The lidiugs reaeh Don Sisoando ; — 

And vilhin his slooy bret«l 
Craelly has died away, 



SYLVANIKHA H3 

Dawns of pily a faint ray : 

From hi8 parched, tepolchral eyet^ 

Terror, Xhai oa ali impressed, 

By the hand that will cbasUfe 

Tonched, barst teart of hnman angaish. 

• * • • • 

To lhe tow'r he nishes, shooting 

'Waterl quick, bring wal^r here! 

Hasten, basten ali lo aid 

Th' ínnoceot ilUfated maid, 

Mnrdered by her father*s bands 1 ' 

Sbouting lhas be horríet near ; 

And b^eath the prisoD stands, 

Where sad Adosinda moans, 

'Baaghter I yot 'lis timo — Oh live I 

Oaoghter, daughter, Oh I forgive 

Thís vile mard^rcr I ' — Passion's.force 

Choalu bis iccenls, cboaks bis groans ; 

Voioe, strenght, breath, bave sudden failed bim — 

Oo the earth he lies a corse. ^ 

Theso events raise Auzenda from vhat was Ihought her death» 
beá. She totters to the fool of the tower, and orders her daugbler 
U> be released. Bat no cxertions can barst the prison doors, till lhe 
Heruit who had forewaroed Adoxinda arrives. At bis word the 
tover opeos. — Adotinda is dead — and dead he leaves her. Bnt 
Don Siioando ha recais lo lifc, that the sinner may, by long and 
(lainfàl pcnitence, atone bis crime. The goilty father departs irith 
the bennttt and is seen no more; bat cven to the present day, 

Still at midnighfs solemn hoar 
Undemealh that niin'd tov^r, 
Tliroogh th' adjoining chapei, sound 
Voiees míngliog irords and groans — 
' Pardon I pardon I echoes roond. — 
Those are Don Sisnaodo*i looe*. 



8TLVABÍINBA 



Passeiava-se a SyWana 
Pelo eorredor acima <; 
Yiolla de oiro levava» 
Obl qae tam bem a tangia! 
E se ella bem a tangia, 
Melhor romance fazia. 
A cada passo que dava, 
Sea padre a commettia : 
— 'Attreve8*te tu, Sylvana, 
Uma noite a seres minha?* 
—Tora mna, fora doas, 
Fora, mea pae, cada dia; 
Ma* las penas do inferno 
Qaem por mim Ias penaria?* 

Por MO eorredor adina — nomo. 



U6 ROMAHOBmO 

Foi*9e inoontrar eom soa madre 
Lavrando n*iima alOMiiràa*: 
—'Estejais embora, madre, 
O madre ]a da minha alma : 
Peçorvos por Dens do eeo 
Qae me deis mn jarro d'a|iia; 
Qae se me aparta a vida, 
Qoe se me arranca a alma.* 
— 'I>era-t*a ea, filha minha. 
Se a tivera salgada. 
Que ha sette para oito annos 
Que por ti sou mal casada. 
Se teu padre tem Jorado 
Pela cmz de sua espada. 
Quem primeiro te desse agoa 
Tinha a cabeça cortada!' 
Assomoa-se a Syhrana 
A outra vehtana mais alta, 
Foi-se incontrar c'os irmios 
Qoe estavam jogando as cannas : 
—'Estejais embora, irmios, 
Meos irmios ja da minha afana : 
Peço- vos por Deus do oeo 
Que me deis nm jarro d'agQa, 
Que se me quarta a vida, 
Que se me arranca a alma! ' 



* CoMDdo n'iiiitt «laiofiuiâ — 



CTLTANBIIIÀ 119 

— 'Den-fa ea inDin minha. 
Se a tivera impeçonhada^ : 
Qae nosso pae tem jurado 
Pela cnu da soa espada* 
Quem primeiro te desse afua 
Tlnba a eabeça eortada.* 
Assomoa*se a Sylvaaa 
A oatra yentana mais alta, 
Foi-se ineontrar eom sea padre 
A jogar a imboeada : 
— 'Estejais embora, padre» 
Padre mea ja da minha alma: 
Peço*T08 por Deus do ceo 
Que me deis mn jarro d'agiia, 
Que se me aparta a vida^ 
Que se me arranca a alma. .. 
E de hoje por deante 
Serei vossa namorada.' 
—* Alevantem-se, meos pagens*, 
(klados da minha casa, 
Uns venham com jarros de oiro, 
Outros eom jarros de prata : 
O primeiro que chegar 
Tem a commenda ganhada, 
O segundo que chegar 
Tem a cabeça cortada.* 

* 8«ali?enultida^LinoA. 

* Friot enliot da efpada— ALunio. 



Os criado» que duginn, 
Sylvaniiiha qm finava 
Nos braços da Virgem sanou. 
Dos anjos amoitaMiadaii^t 
Yai-te embora, Sylviniiiha, 
Sylvaninha da môilia alma : 
Toa alma vai para t» eeo, 
A minha fica eo^Mila. 



** Dos anjos nrnmpinhain mnwMO 



vin 



BaBHAirfBAjroaz 



Desde qae em 1828 pnbliqaei em Londres 
pela primeira vez a interessante rbapsodia de 
poesia popular qae leva este titulo, ella tem 
feito a volta da Europa, sendo traduzida em 
diversas linguas, ja no próprio fragmentOi ja 
na reconstrucçSo ou imitado d'elle que ao 
mesmo tempo dei á luz. 

Ultimamente recebi de Inglaterra, do meu 
amigo o cavalheiro Jo3o AdamsonS uma nova 
traducçSo ingleza, difTerente e mais acabada 
do que essoutra que dei no primeiro volume 
do RovANCKiRo'; de Hespanba chegou tam- 



* Na LmTAnu numATA, Pari. n, Neveaitte QpOD Une 1846, 
w poblieoo étU nofa tradoeçlo. 
'RovAiiauiio oitAt, r. Liiboa 1843. 



1S4 ROMANCEIRO 

bem ba pouco uma bella e elegante versão 
em castelhano. 

Junclarei aqui uma e outra para satisfacção 
do público portuguez, e em demonstração 
também d'um grande e importante theorema 
que ainda me parece não ser tam geralmente 
demonstrado quanto precisa sô-io entre nós ; 
vem a ser: Que quanto mais nacional» mais 
^tDèmt te piiniBWilí^ «ffetoiíal é uma okra, 
iiKttSiagriKiaiaoafpiícM^iQSiexUnDga^^ mm 
Begum está' dd M^^eoeralimr e ser cooÉiâdda 
AO mundo titlcftiirio.jO<qíie ião tem côr vot- 
tíonal> oique p6d9)sar(paia toitoâ, é q de que 
todQ& faa»ffiíiQfino9ioi6Q« 

Mas não só como obira IHteraritb ou como 
coiaa de. imagJtMoloe obje^o de eoriosidfide 
$ão.intoi;essiaib»aíéBtei&rebqQÍas. Eu creio n'el- 
las;oomo.coi0ahi8lori6a<(E]^Qbo.maí6 fe nes- 
ses doeumentoâ<queiDC)iS'QopserYa o povo com 
ioda a sua ignâraacía»idotque o^easoubros que 
deixou escriptos a sapiência dos lettrados. 
O povo altera, traduz, corrompe, mas não in- 
venta. 

Vou pór aqui, restituído e apurado por lon- 



^ trabalho de (meditado e leoupara^So de 
moilosaemplares, oitaXitotorigíMldo ^fier- 
oal-Fraocez' segundo o conservou H9asa tra- 
^ifio. 

»£«e8t0 «n dosimais beUo$ ewguramQnte 
qoniS' meigos romances >da mossa ipoúnsnla. 
N2o 'ap|)ar8oe>eaoio jain'ontm pailft/dísae^ 
lennMriíiundofiiraÉíiaÉttsiraffi caâtellHBOfi, nem 
na 5iaali>ODll0Octe id0Oot^>ar; e dânola todo 
«Me maisadliguidade^qQe o&maiaaiitígQSiq 
D^aqueUea wdáeefiffieiacbam. iQs Motogísmos 
da dkvio deveshBe áfroansaB^ja refl9rtda&tan» 
lae veB^s,»qlle todas astãOinoiíttriayale.poiíoo 
«aegiiiocofre>da memoria popular em queitôem 
andado guardadas estas veliquias» wsemimais 
autbèfitíca d«^ que leasa flaesma recordação 
immemdrialy bastante «em direito jpana-Qutras 
•posses; poivpie o aoSo ^rá para esta ? 

AlAm de não andar nas collecçte» da uaçao 
vizinha einsan» nenhum vestígio de idiotismo 
SOB, nenhiffla resaibacastelbanafienota n'eata 
eomposifio toda portugoeza. Asiagadezas e 
artificio dos trovadores da corte de D. Diniz 

* Tom. I do BOiuiiGiuo, pa^. M. 



ISO ROMAXCIIID 

e de AffODSO III também aqui sSo eitranhas; 
é mais antiga e meoos polida a civilizaçio que 
a produzia. 

Quando 8M>re esta simples tela bordtí o pe- 
queno poema que se publicou em 1828 com 
a Adoânda, o original de que me servi era 
muito mais imperfeito e ^eio de lacunas, e 
unicamente i&ra copiado da licçio vulgar da 
Eitremadura. Â que dou agora, além de re- 
vista pelos manuscriptos do cavalheiro de (Ni- 
veira, foi apperfeicoada ainda pela collacio 
com as diversas cópias das provindas do 
Norte, especialmente da Beirabaixa, que sio, 
em meu intender, as mais seguras, segundo 
ja observei também ^ 

Gbamei-Ihe entio xácara: duvido agora se 
a classificado foi bem feita; duvido até da 
mesma tbeoria da classifica^ que tenho pro- 
curado estabelecer ásapalpadellas. Âcham-se, 
é verdade, estas variadas designacQes: ro- 
mance OQ rímcmce^ xdcara, soldo, que pare- 
cem indicar espécies; e ainda as que parecem 

■ Vpja o vei. tít. I do MmÀMMtm. 



BUUfAL^FRAilGKX It7 

sermais genéricas, de trava, cantiga, cantar, 
canção: mas o que ellas sempre designem ou 
quiseram designar nlo é facil determiná-io 
cmn segurança, liais modernas cuido que s3o 
as denominações de loa, barca, tenção, cha^ 
coia; etambem estas não estão bem appuradas 
em suas distincçCes characteristicas. Umas 
eran talvez determinadas pela forma exterior 
métrica, outras pelo stylo ou tom, outras pelo 
objecto e assumpto, outras finalmente pelo 
Qso, pela solemnidade a que eram consagra- 
das, pela oecasião para que eram compostas. 

Ja disse que o romance me parecia ser em 
sua origem um canto épico, isto é, todo nar- 
rativo, pouco ornado, pouco lyrico. Os ro- 
mances pastoris, os satyricos, os facetos, os 
eróticos, os mesmos moiriscos do século xvii, 
são ja aberraç&es visíveis, ou, pelo menos, 
Dova» espécies produzidas pela cultura arti- 
fidai da planta primitiva. 

A xáeara é toda dramática: o poeta falia 
p(Mico ou nada, não narra elle, senão os seus 
interlocutores que apenas indica, e nem sem- 
pre claramente. 

voL. n i4 



lâS ROMANCEIRO 

Mas estas duas espécies, se o s3o, juncta- 
ram-se muitas vezes e produziram, ora o ro- 
mance-xácara em que predomina a narrativa 
épica sem excIusSo do drama ; ora a xácara- 
romance em que o dialogo é auxiliado debre- 
veS; brevíssimas indicações, quasi rubricas 
ou direcções de scena, que faz o poeta a raros 
intervallos. O povo, em muitas das coisas que 
recita d'este género, diz as falias em verso e 
cantando, e as indicações narrativas em prosa, 
sem restricç3o a texto positivo, e mais ou me- 
nos diffusamente segundo o talento ou a ver- 
bosidade do recitador. 

O romance e a xácara téem em geral a 
mesma lei métrica, do consoante ou assoante 
flxo e do número octosyllabo^ dos versos. 
O chamado romance hendecasyilabo dos fins 
do século xTii é degeneração completa ; e as- 
sim foi que precedeu logo a morte d'6Ue. 

O soldo será sempre cantar triste como in- 
dica Bernardim-Ríbeiro? Narrativo é elle tam- 

' Appareoem, por excepçSo, alguns romanoei qoe oi nossos 
chamam em endexat, eompostos, segando nus, «n fersoa alexaa> 
drínos do ddze syllabas, segando oatros, em Tersos de seia syllabas, 
tomando o hemyslicUco por onidade. 



BERNAL-FRANCEZ 129 

bem pelo que tam claro nos diz Sa-de-Mi- 
randa. Mas uma coisa n9o exclue a outra. Eu 
iDclíno-me a crer que o soláo è um canto eplco 
ornado, em que as effusões lyricas accompa- 
nbam a narrativa de tristes successos, mais 
para gemer e chorar sobre elles, do que para 
os contar ponto por ponto. 

Cantiga deve de ser a expressão lyrica o 
improvisada de um sentimento. 

Cantar è talvez o género de todas éslas 
espécies. 

A trova mais artificial, mais elaborada, 
achaií-a o poeta com estudo, cingindo-se a 
regras mais severas de metro ou de stylo: 
trovar (trouver, trovare) é achar; e para 
achar, procura-se, trabalha-se. 

Canção também é termo genérico, mas in- 
culca mais artificio do que a cantiga e o can- 
tar: entre nós designa mais striclamente a ode 
romântica da meia-edade com certas fórmulas 
de metro e divisões regulares de strophes. 

Loa virá do latim laus? Pôde ser; é um 
canto de louvor mas por certo modo e regra. 
A loa deitasse ainda hoje nos ciríos dasprovin- 



190 BOMANCUKO 

cias do Sul, recita-se nos presepes do Natal 
das províncias do Norte do reino. É um cantar 
de anjos, de génios, deespiritos; mas dramá- 
tico, dialogado : è um coro iiyeratico que se 
intoa, que se deita do ceo para a terra, que 
entes su periores cantam para ouvirem homens 
e deuses. Os Ttiespis do nosso theatro come- 
^ram talvez por aqui, antes que Gil- Vicente 
e João da Enciiia subissem ao seu tablado de 
novos Eschylos. Na descrípção das festas do 
casamento do príncipe D. Affonso, chronica de 
D. Jo3o II, acho que algum tanto no-lo indicam 
as expressões de Garcia de Rezende; e mais 
claramente ainda o romance de Ayres Telles 
de Menezes — que n*esta coltecçSo achará o 
seu logar respectivo. Ahi diz, descrevendo 
aquellas mesmas festas : 

Depois ledos Ungedores, 

Aa vindi dâ príneen, 
Fiseram fortes rniuores, 

Espanto da natureza ; 
Bmrca» e loas fiseram. 

£ outras representúçõts 
Que a todos graa* prazer deram, 

CQoCsrme snas leoçOet . 

A barca (alguma coisa de barcarolla vene- 



BBBNAL-FRAJTCEZ ||| 

ziana?) era, creio eu, cantiga alternada tam- 
bém, e outra vez a vozes e coro, que o mar 
mandava á terra para tomar parte em seua 
regosijos. Navegantes, tritões, sereias, os ba- 
stantes reaes e os imaginários do outro ele- 
mento, vinham a este, cantar e deitar suas loas, 
qae appropríadamente tomavam n'este caso 
o nome de barcas. Também se adiam vesligios 
de barcas ao dwifw, compostas sobre assum- 
ptos religiosos. Ao deante juntarei, em seu 
devido logar, um documento positivo e mui 
enrioso exemplar d'esta gallante variedade, 
tam natural de nascer em um povo navegante 
e marinheiro como o nosso foi sempre. 

Tenção é o tençm dos provençaes, distico 
breve, em metaphora ou dítto ingenhoso, ja 
acc(M(Dpanhando e explicando o symbolo he* 
raidko de uma empreza, no escudo, na ban- 
deira — ja expressando, em mais pacifico en- 
sejo, os sentimentos intimes e recatados do 
poeta que quer que o adivinhem sem elle se 
exjpKcar de todo. A tenção é ordinariamente 
cortezan, e só tarde e degenerada se relaxou 
ao braço popular. 



132 BOMANGBIRO 

Da chacota, do que ella era pelo meDos 
no século xv e xvi, nos dá muitos exemplos 
e claro conhecimento o theatro de Gil- Vicente, 
precioso thesoiro de coisas populares, o mais 
ricco e variado que temos e, em minha opi- 
nião, mais ainda que os próprios cancioneiros, 
cujos conectores, homens só de corte, des- 
prezaram tudo o que não era alambicado petas 
modas e polida aflfectaçao dos trovadores cor- 
tezãos; em quanto Gil-Vicente, homem do 
povo no meio do palácio, divertia seus amos 
com os dizeres, os gracejos, os modos origi- 
naes, as superstições antigas, as tradições im- 
memoriaes, os cantares rústicos mas cheios 
d'alma, tinctos na cõr fechada e forte que só 
o povo sabe dar e que não desbota. 

A chacota era uma cantiga de rir e brincar, 
mas que mordia nos vicios, e nos rídiculos 
dos homens e dos tempos; uma espécie de 
sirvente menos áspera e severa, nunca séria 
e grave como ella, e mais popular : cantava-se 
a vozes; muita vez era o remate, o coro final 
dos entremezes e das farças. 

A mesma palavra sirvente ou servente^ e 



BBBNAL-FRANGBZ 133 

a designação de versos sirventesios, d3o foi 
extranha aos nossos antigos, que houveram a 
palavra, e talvez confundiram a idea dos pro- 
vençaes. Sabe-se que a sirvente do trovador 
era amarga, satyrica ; por vezes foi o grito de 
guerra, o hymno revolucionário dos Alceus 
da meia-edade contra a tyrannia real e sacer- 
dotal : a sirvente nossa creio que era toda as- 
cética e religiosa, senão é que mystica. 

Blas repitto com sinceridade, que sim te- 
nho consciência de navegar para a verdadeira 
latítude, não tenho certeza da longitude: as 
observações são imperfeitas, e quasi todos 
estes cálculos fundados em hypotheses vagas. 
Os nossos philologos, que elucidaram tanta 
coisa insignificante, desprezaram sempre a lit- 
teratura popular como indigna de seus clás- 
sicos estudos. Faria-e-Sousa, e alguns poucos 
mais, que tinham o instincto da sua importân- 
cia, sacrificaram aos prejuízos do tempo; e, 
oo por credulidade ou por pouco escrúpulo, 
fizeram-lbe fracos serviços, porque os fizeram 
sem verdadeira fe e lisura. 



BERNAL-FAANCEZ 



—'Quem bate á iwiilia porta, 
Qaem bate, «b i «pum *sti ahit* 
—'Soa Bernal-Fraaoei, aeakon; 
Vossa porta, amor, abri' 
—-'Ai! se ó Benoà-FranaK, 
A porta lhe too alwir; 
Mas se é outro cavalkdfo. 
Bem se póée d'ahi ir.* 

Ao saltar de minha cama 
Eu rompi o meu frandil ^ 



* Pranéil, ainda hoje asado enTntKW-MalMjiiipáfM raiia 
no sentido metoiíymico nrtiy, por ctmiaa. M «ibiftlMBoo de 
fralda. 



136 ROMANGBIBO 

Ao descer de minha escada 
Me cabia o meu chapim 2, 
Ào abrir a mijdha porta 
Me apagaram o meu candil. ..' 
Pegàra-lbe pela mão 
E o levei ao meu jardim, 
Fiz-lhe uma cama de rosas, 
Travesseiro de jasmins, 
Lavei-o em agua de flores 
E o deitei a par de mim. ..* 

—'Meia noite ja é dada 
Sem te voltares p*ra mim; 
Que tens tu, amor querido. 
Que nunca te vi assim? 
Se téme-ios meus criados, 
Não virão agora ahi; 
Se téme-los meus irmãos, 
Elles não moram aqui ; 
Se de meu marido temes, 
Longes terras foi d*aqui, 
Por má traça o mattem moiros S 
E a nova me venha a mim ! . ..* 
—'Não temo de teus irmãos 

* Sapato, chineb. 
' Candea, Tala. 

* Má traçai iMirot o mattam. 

Novas BM Talham a mim.— anATuo. 
Mis eotíladas o mattom-^BBiaALTA. 



BEBNAL-FRANGEZ 187 

Que bem sei que sao por mim^, 
ISàiO temo dos teus criados 
Que mais me querem que a ti; 
 teu marido não temo, 
E d*elle nunca temi. .. 
Teme tu, falsa^ traidora, 
Pois o tens a par de ti 1 * 
—'Ai! se tu es meu marido, 
Quero-te mais do que a mim. .. 
Oh que sonho, tam mau sonho. 
Que eu tive agora aquit 
£rgamo'-nos ja, marido, 
Deixa-me vestir d*ahi.* 
— 'Calla-te, falsa traidora, 
Que nâo me inganas assim. 
Deixa tu vir a manhan, 
Que eu é que te heide vestir : 
Dar-te-hei saia de grana * 
E gibão de eramesim. 
Gargantilha de cutello, 
Pois tu o quizeste assim.' 



* Pois canhados sSo de mim — aluruo. 

' Dar-to-bei taia degaarane. — izTagiuDOHA, wêulàlia e riaui. 

Se nSo é oomipçflo de pran oa grSa, eslAlb, roupa tinta da gran, 
TermeUia, só se for deríTa{Ío do fraooei antigo futtrê (de doas c6- 
res)—o gtrtutMX das nossas antigas leis snmptoarias. JSm qnasi 
todas as cópias fem gnorom e nio grtmê: d'ODde me indino a erer 
que tahes a Tordadeira lieçlo original seja gmnmê. Ba adoptei 
grana por íiear mais óbvio o mtido. 



tst BOMáiiano 

—'Deíia-ine ir porqai abaiio^ 
€k)*a minha eapa a caltír, 
Yoa-me tw a minha dama 
Se ainda se lembra de mim.* 
—'Toa amada, men seaber, 
Ê morta, qae ea bem a ti: 
Os signaes qae eiia l0¥a?a; 
Ea t*os âi0o agora êqok : 
Levada «aia de grana* 
£ gibas de «ramezím, 
Gargantilha de enteUo, 
Tado por amar de tL 
Os sinos qae lhe eorroram 
Por minhas* mioa •» cchtí ; 
As andas em qae a levaram 
Eu de negro Ihlaaeobrí; 
- Caixão em quea amortalharam 
Era de oiro ei Manta; 
Os frades qae a aeeonq^ttntaavam 
Não tinham conto nem fim; 
Sahiram-lhe sette condoa*, 
Gavaiieiros mais de mil; 
As donzelias a chorar, 




Mi.ieiiidft4 vifft. — mM^ uMOif. 
6L 
' Foram ao sea Mhimento oa iniAno* 



BBBNAL-PaAN^EZ 139 



Os pagens iam a rir. 
Levaram-na a interrar 
Á igreja de Saii*Gii; 

Palavras nio eram dittas, 
Por morto no chio eahi ; 
Passaram-se horas e horas 
Qaando me tomei a mim. 
Fai-me áqnella sepultura. 
Queria morrer aili: 
— 'Abre-te, ó campa sagrada, 
Esconde-me a par de ti I * 
Do fundo da cova triste 
Ouvi uma voz sahir '^ : 
— *Vive, vive, cavalleiro, 
Vive tu que eu ja morri : 
Os olhos com que te olhava 
De terra ja os cobri, 
Bôcca com que te beijava 
Ja nâo tem sabor em si, 
O cabello que intrançavas ^^ 
Jaz cabido a par de mim. 
Dos braços que te abraçavam 
As cannas vô-las aqui ! 
Vive, vive, cavalleiro, 
Vive tu, que eu ja vivi : 

* Um trista toi ootí— nTKiMA»imA. 
" Af trançai com que folgavai — açôius. 



140 SOHAMCBIRO 

A mulher com qaem casares 
Chamem-lhe Anna como a mim; 
Quando.chamares por ella 
Hasde-te lembrar de mim. 
Conta-lhe os nossos amores, 
Que apprenda na minha fim ^. 
Filhas que delia tiveres 
Insina-as melhor que a mim, 
Que se não percam por homens» 
Gomo eu me perdi por ti.' 



** o poTO, i maneiri do« nossof antigoi Mcríptong, ainda hqj« 
faz fim ora maêcalioo, ora fcmioiíio, mas não mdilliBrailaiMDte 
nem a toa. Fim como alro, objocto, eU. é sempre maseolino; como 
termo, acabamento da vida, oa de oatro estado qualquer, sempre 
feminino, para elles. 



BBBNAL-FRANCBZ U| 



Mais para fazer acceito ao commum dos leitores 
um estudo e um gdsto que infallivelmente hade re- 
generar a nossa poesia e com ella a nossa língua e 
litteratura toda, revertendo-a á simplicidade bella 
de sua origem natural, de que tam afiastadas andam 
pela imilaçáo pesada e contrafeita dos extrangeiros, 
mais para esse do que para nenhum outro firo litte- 
rario, traduzi em linguagem e modos menos rudos 
o Bemal-Francez pela forma que appareceu na pri- 
mdra edição de Londres e depois, com pouca diffe- 
lença, na de Lisboa K 

D'essa que talvez possa chamar-se com proprie- 
dade a 'traducçSo litteraría do romance primitivo', 
ou mais exactamente ainda a 'traducçSo de sala' é 
que se fez a primeira versSo ingleza publicada na 
segunda edição do Bemal-Francez em Lisboa ^ 

Era essa traducção do meu amigo o sr. John Adam- 
son que, não contente assim com elln, me enviou ou- 
tra mais apurada e perfeita, da qual nfto devo pri- 
var os leitores : ei-la aqui : 



' BoHiHcimo, tom. u Ltfboa, 1843. 



ia ftOMANCBIBO 



NAI/-THB-niBlfGB 



To the Ma mal Doa Ramiro, 

Galtef fair the warrior bore, 
From the poop hu conqaermg pennon 

WaTOd defianoe to the Moor. 

Sad th* adieoi at hii departing, 
Pugs of anguah nck'd hie braait ; 

Maoy a yoar aa aniioiu lorer >- 
Scaroa turelte moons a hasbaad blest. 

Yoa may nol fiod a Spaniih maideii 

AsTiolante fair to Tiew — 
Peerless she among earth'8 daoghters, 
Had the heart beeo leal and troe t 

Lood beats tho sea agaiasl the batemeot 
Of the castte'8 toweriog steep, 

Ooe oniy eje in that looe tunet 
Keopi lhe vatch that knovs not sleep. 

Ali is deep repose and slomber — 
An ii lilenoe ~ dose the ward 

Of jealoas gate aod stoot porteultis 
"While airay the warrior Lord I 

Still, at witching hoor of midnight, 
Gleams oo high a tiny spark ; 

And erer silent imdemeath it 
Floats a ewilt and Tonfrons bark. — 



BBBHAL-PBAMOSE 

And Mil|ht to nigbl necMdcd, 
Snoolh or roo^ >lfbt b* tb« »m — 

StUI ibon tha li(hi ■OQld inoibh — 
Stdi bênnth tk* bufc muli be. 

Kii««'tf iboatliu,|ooitR«d«rl|af 
Baf tt fòqat tk* nsnd vorUT 
Wiit muj 1 nlan pMis ud proalw 



Ou Bjfht M taflh ftUI dut iDl dmr, U 

PuUd Iroa lha agoM ihora - 
Wbi n bcn BO BM an Ml ni — 



Al rMDMd lk« bav oí tfjiltof 
Sofl lha U^ b«fu lo |lMM - 

Bnt ao tvUt ■dnaTio» |i>>>WM 
Aantrd lo Ibo tarmi bun I 



Op>'d > Mcnl poMtfD gaM — 
KDoãn aIoM lo Doa Ruiito, 
WvdtrUM ind Iotíh ult. 

BbI, ai d«dlT bomar midnlgbt, 
Tbn' IhatporUJoubMliiDiig; 

Wlo m lAik Muidi tmitT knockiDg 
Al Ibe Ladj'! Bowv-iloiM \ 

VOI-U 



144 



— 'Who irithoat m raériy 

Siumbcr fevm jbi» «jm wmiá mimei 
— 'BeniAl am 1 4if FnMs, Air Udyi 

0p6Q to yow KMfhi «Ml Jnwi' 



Froinh0r bcd 

Robe of flowiif «ilk iIm 
And the fMt Jmt Im4> 

Genlly lho* 



By lhe trembling Iimíí iteM Ub 
To bar homtr, this itmm baM : 

- ' How tf BBblf i ^ ay bfliep< út^WÊHn I 
.ind tbi8 band bow diiU4Ml qqM 1 



Tbeo, witli •i|ht aaá bwMif ^ímmw 

Iq ber palpitotiig Unut 
By tbe faitUeis VistMte 

Were tboso cbilly baarti r>wM'd, 



— * Hast thon comQ kma. hr ' — *Ayt «aof « 

— 'Rough tba Mar— <At Moiu lAora.* 
— ' Goiii'sl thoQ aim'dr Xai «aite. 
Straight to looie eacb cbmM abaáliara. 



In eiMDce para oCAsab 

Qnick tbe welcome krm aba balb'4. 
And on ber dainty conob aba laia bim^ 

AU bi foldf of fitafanoa ««atbad. 



— * Fast tbe veary iá^ ia 

WbUpcr nona daat Uim 
Wbat aiU my Uva t let VialaUa 

Sbara ibe voea ol tbai lav*d àeari} 



BERlTAL-VIUlfCSZ 145 



Bere tbeir foot shall iwver íall, 
Or doth Ramjroi kinnnan óaaaí dbee? 
Feeble he lo nftldi Btomai.^ 

'Uneooseioos aU my loIMi Taisals 
Soondly ileep íd eeU Md tover ^ 

Safe onr lof«, «ye of amtal 

Ifeer sball j^tn» làit Uâám bcmw? 



•Fearsl Ramiro ?-iwlltt«, %no^^ hia, 
Gooe o>r fitold»^ Am lormm; 

Loogi O loity Moor, detoio Um I 
No regrei ibatt bMlt him konê.' 

-' Pear I Bíi thy atoepii^ „Matíi^ 
Sioce miae «n» Itets TMaaIt fte, 

Fear I Dot or frere ee taMONUi -* 
Ftare aad kánian feolli to mtt 



'Fearlnerer DoB 

lDJiir'd Lord — beàold bis hen I 
Here beside thee«- CiitUeH '-— >f 1 

Thiiie thi k«rti«ay qaU irittléar t 

Fair the roíy aoi aew ritVi 

Tips irith «old eiA raek and iMier — 
Fairar tUll~to meet tfce 
Violante leaTes bev 



Goane and hanh Oae Saekdelk ■anile 

That thoM} gBolto IMm kave «■ ; 

RoDgh aad mie tte npe Ihal bMt iMT — 
Rope in plaoe of je«el'd «w. 



145 ROMANCBIRO 

Woep the pagos — iretp the maideiis— 
Pity bidi forgrt lhe crime— 

Down the beard of iojnred Hotband 
Rain the teara like melliiig rhima. 

Deep and dnll the death-hell totliag 
Signal givee the «xe to niie; 

^< >Yeloome death, the deelh I Bcrit:* 
(ThQS thAt erring Lady ptKft) — 

« Low before thee, Doa Ramiro» 
In the dast a boon I ertve— • 

Pardon for the lake of pitf , 

Pardon — not that life thaU nve— 

' Bat for the deadly wroog Fve dona thee ! 

Wroog that madethx boaom Ueed, 
Auoil me as I cower bafore thee 

Id this my hoor of bittor Mod.-— 

* * Faíthless — I alone am goilty — 

Nerer let Ihy veogeanee faU 
On him my banefiil duurmi deladed, 
Spare the irretched Knight Bemal V 

> tíuick the bnsband*! love wae kilidliDgf 

Pardon trembled on bis tongae — 
Bot at name of hated Benud 
Ralh and pity far he inDg — 

f lashd his face wilh vengelU anger, 
As from her he faia nottM saTC, 

Ho toro hIs glanoe — and ana nplilling 
Mad tbo faUl ilgnal gave — 



BBRNAL-FRANCEZ 147 



Oo that neck lo elear aod eryiUl, 
fieaateoos yet, Ihough doadiy wUte - 

With a Tigonr liene and faUl 
Díd lhe Hnebman'! axaaligbt. 

Oh irhat dflose aod loog proeeitioo 
FroiB tbe aodant gate departs I 

Gatberíog crovds íd lileace see it » 
Gaiheríiig erovds wiUi aehing hearts. 



f 
■•1 

1 « 



Torehat and pale vam tapers 
Thro' the darimMt and tiie gloom 

Casl a dim and mooniAil gUmmer — 
Glimmer gnidínf lo the Tomb. 

Closed, witbin thair faooded mantlet, 
Frian a reqaiem chaaol aroond ; 

Tbrob ali hearte vith aveAil terror 
At the heirs appaUing toond. 

Twiee the moon her eonne hath «ander*d - 
In thal loophole ali isdark — 

Tet o'er the channel, fwiAly pauiog, 
Pliei the fwift advenfroos bark.— 

Pretty haik lo light and booyant — 
Bark each billowy wa coold brave — 

Tbe beam, that erst waa nooi lo guid thee, 
Ne*er again ihall tinge the wave t 

Lo, thy gentia Violante, 

Qoeen of erery witching cham» 

For thee a dional death halh snífored» 
Fairn bcneath the Headaman** ann. 



148 



FromtowerorSt.6il 

Hear tt Ihni Mi Ite kMittoy botaf 

See*st thoQ noC lha 

Slow they bMT iMT to tlM Tl 



And now tha tmtnà ríloi 

Fixd tbe eoM lepvdebnl tt«M 
In thosa aislM, to Ulily «ovdiâ, 



AUofblackis 

BUckflr aliU lúftteMM*t wmI^ 
As by tbo n*w nade^ave d wp a iri í n , 

Fiat he cast Md an tlie grcipa. 



— 'Open^holy 

Ope a brakM bHut to feida— 
Upe and fix in dnth Itetnaioi, 

Life to bapleat lava áMJadl 

' OpaD, beijr TflBBb, Hif pertalaJ^ 
Uiding charma ao paatiag btigld ^ 

My dark crina, with Imt W^WalMa, 
Bary in «toaal nigU. 

' Open, boly Toab» tby pirtalal^ 
Takeagilitkalldiavmi- 

Lot meyiaid IbrViolaata 
Life tbat livad on her alana t ' 

Fell bis taare — fell faM aad Hdy — 
Gfoans of aagoM lia«v'tf MsbNait 

Firm be gtaap*d kia traaly fralcMan. 
So to gira kia aanvwsraat. 



BmMi^PMRCBZ m 



\ 



l 

1 



Bnt OD Ok» MH kii kMi* im» 

From lhe dark sepiMnl 
Aroie a voice, still iiiMt 

Bui tB 9nÊÊbà ÉÊià jd mM* • • 

Gold u Ibe dtojr fltmiirhieb It Boimded, ç 

Terror Uvoni^ eadi nenre H spok»; 
The pnlee of Mfe m» ali flospencM, 

Gramp'd ai tha* liy paby itntof 

— < Ufe, Sir Knight, O lire belord t 

Lire tho' 1 00 looger live ~ 
Mine, alODP, vho have deierT'd it, 

fie Uie death our crime shonld gire. 

* Alas, beneath Uiis frona marble 

Where cold horror laps my corse, 
Ali that leems to hint existenoe 

Is my lore aod my remone I 

'Anos, with vhich I oiiceembrac'd thee, 

Fiz'd and rígid lie compOB'd ~ 
Eyet, vhich foodly gaz'd npon thee, 

Glodf of callons earlh haie clot'd : 

*The mooUi forswom with which I kiu'd thee, 

Boasts no more its honied dev — 
The treach'roas hearth with which I loVd thee i 

Oh ! woaid that that were semelees too I 

'Lúfl» Sir Kiu«ht-~0 Uve belord ! 
LÍM.aad maya ibo«.htaMeA be 1 

Mdvhy 




m BOMáKGtlBO 

' The happy maidoí wImb Umni cbooMtii 
Gire her VioUoto*t naBM — 

Be sbe in 1ot6 a ViolADle — 

Id love— bat wm^i betidas Um saine. 

'The treasiir'd childreo sbe may bear thoe, 
Porer than mino tbeir caliiire be, 

Thai iie*er, Ibey lose Ibenuelves in pauioo, 
Aft I have kwt myielf for thee <.* 



t I^Mlt • dM Mtrof ronaiMM qw loniMa o printin loL do mb 
ip iBpnaM MB LUboa, ÍM8; fn o Sr. Adanton o Mgrade toL da n» 
twu UJoniATA' fM Bw dedlaw • M pÉUIcad» «n MkiicutJt 18W. 
dra dapeii«ati« •dicds dai vanta i^liau laa o tasla pertagaaa tm o titalo 
Uiám iMi OB wiaiwHii», iiambjubb im ymmm» «i J. A. and R. C C 



BBBNAL*FRAlfCB2 ftM 

TBADUCÇÃO CASTELHANA 

A tradacçao castelhana do Sr. Isidoro Gil, nlti- 
mamente addido á legação d^Hespanha em Lisboa, 
pessoa de muita intelligencia c gosto, foi publicada 
no jornal de Madrid, El Laberinto >. 

BEBIIAL FRAXCEZ 

Al mar le flié doo Ramiro, 
Rica galera Uwraba ; 
So pendoo, terror dei moro, 
En la alta popa ondeaba. 

Tiema taé la despedida 1 
Yá en mis reeaerdoí sumido; 
Coo iaotos anos de amores 
Ni ono coenta de marido. 

Qne no hay dama en toda Bspaia 
Tan beUa ena! Tiolanto ; 
Ni ifoal la habiera en el mondo 
Si ella Aieae mas constante. 

Bato el mar la barbaeana 
Del alto moro almenado. 
Solo en so torre el vijfa 
No cede ai soeSo pesado. 

Todo ealla y doerme en tomo. 
Todo es silencio é pafor; 
Redobla el eelo en las poerlas 
Con la ausência dei senor. 

'Tomo, n.^3, março de iSU. 



IH BilfálfGBBKI 

Mas, alli eDtnda la noche, 
La w vé «D «oa trtMB, 

Y eo Ia sombra detlizane 
Lava baaaa mitaiwa. 

T Tvalve i vorw otraa QOflhM, 
Ta etté m calma ó nao d nar, 
La misma lui á igsal hora» 
La misma barca pasar. 

^Ignora esto el btea AadrifOi 
Qoe á sa seõor 
Gamplir iel el ji 
Qoeeotre 

IgoóralOt ó no lò IpMm : 
Mas la barquilfat HgMi 
Que ai pié <ls la'l!onrv tanéHI 
Tacia alli cn la rfbeni, 

En noche trísia f 

Delnar 

Qoe foé 

Mas si se íaé, no volviò. 

Y Ia los dei U^rreon 
Viòse á igoal bora bríTIár. . 
Mas la barca a? eoturera 
No llegó & leiaia paiar* 




De la iMa «I pio 
Receia ocall»pofllig0v 
Solo le sabe Violante, 
So esposo, y elíM KoAigo. 



BBBKAL-FIUHCEZ 

Y UB Dcgra balto en ia nnclu 
El poiligD Irujttuia, 

Y á la pDMU da ViolulB 
Blanda Ibnar MMcnAib*: 



— 'Qaiibui Ibaa imi eiUodiT 
Udicq iUunaí Ub I qnMii a»t dMld.' 
— 'Soy Berail-fraiicei. Hion, 
At ;imúr la pnerta obrid.' 



La lina hoLinda ns/tí 



-■DíU-imiMoei 
-■Bfa>uMlaia« 
--Y oilai armai 



154 BOMANCBIEO 

—'Media noche es ya patada 
Sin qae háeia mi te tonares, 
Qae tienes, querido amante, 
Qoe me encobres tos pesarei I 

* Si temes de mis hermanos» 
No han de Tinir basta aqui ; 
Si de mi cofiado temes, 
El no es hombre para ti. 



• Mis criados é vasallos 
A bora tal ban de dormir. 
Mi da nneslro amor so^MCban, 
Ni lo poeden descobrir. 

*Si de mi marido temes, 
Á Inengas terras marebó, 
Alli lo delengan moros, 
Ningon reciMcdo dqò.* 

— ' To no temo á tos criados, 
Joráronme somision; 
Cofiado ni bnmanos temo, 
Mi bermano y canados son. 



*De ta marido no temo, 
Ni tenso porqoé temer. . . 
Jnnio á ti en el lecbo se balia 
Ta la qoe tiemble bas de ser.' 

T alto el sol en ei Oriente 
La torre i medias doraba; 
Violante mas que él bennosa, 
A la maerte caminaba. 



nEBSAL PHAKCÍE 

Alba Ifla. iipcra j Jura 
Cubmdcoaixiilílit»*'; 
Heàú Mparlo áie el taO*, 
EnproiírolaioíUdo. 

Llocan pajea J ilDneelIu 
One el crimPD pirfíi me»!» i 
1^1 miiiDD ol^diílo Bipau 



'De rodillas, doa Bamiro. 
lluirildi! peidoo M pidoí 
■lopidoloíili, 00. 
Qae la iniwrla h» mencUo. 



mi deidichi D> bkwri, 
n, teSor qns dlildíli 
nii hora poilriínnra. 

it loJo fo k; cnIpBblB 
3iir3>liJ v 101 fi>. 
Loinrií. (dlnr, nncania 



Ai|UfI rMuerd» onajoia. 



^M BOMANCBIRO 

Rojo el semblante do cóler.i 
Para no ?er]a aparló, 
Y 811 izqnierda nano alzada 
La fatal sena traaft. 

^Sobre el desmayado cnello 
Be traoiptmle «rísui, 
Gon golpe t wd o y lébito 
GayóelterribtofÉbI. 

1 Oh I que profleeioa qns sale 
Por las poerUi de la torrei 
Qqo de geile aeide i v«ria« 
Qaé triste qoe el poeUo aure I 



Teas de pálida 

En médio la noehe escara, 

Despiden ha raga y irisU», 

Loiqaevailaeeimltara. 

Cnbiertos eMi«ii«apiici», 
Reian moQge* eu redor ; 
El doblar de las eampanas 
Hiela el alma de tarar. 

Oos Boehes soa ya pasadas, 
Ya DO hay las em la troorra, 
Mas pesando y npasaodo 
Va la barca arcotann. 

Linda barca tan Ugen 
Qae en ningon mar aosobi^, 
El fanal qae te goiaba 
No ioee, ya se apago. 



BBBNlU-irKAIlGEZ 

|AjJ to querida Violula, 
Td gloria. ÍD amnU) bailo. 
Por l( «iTrió bombla bmtU- . . 
|Un u;«i iffà u caallii I 



Veitido de nturo IdM, 
Sobro la lambi fíc hinoj 



Si en liili Ml fie tiúaác. 

'Abnlc, lantba lagrada, 
tjan ettoaônt tal hPTnLOftnra, 
Cicoiidc Umbim ml cr[iti«i 
Al par df lu dMienlora. 

' VÍTJr DO ^ian> HU lida 
Que Kilu imatu por ella. 
Vida qne nifrir do pasdn 



158 BOMAMCBIIIO 

Y alli el Ilanto de oomr, 
Lof solloiof de ettállar, 

Y dego empnSar la espada 
Para alli le traspaiar. 

Heló la mano en el pimo 
Voi qne de Uerra salia ; 
Yoi aon suave j dulce. 
Mas tan medrosa y tau fria, 
Del sepnlox) tan ahogada 
Que n eco estremecia, 
Dejando la sangre bélada. 

— <yife. Tive, catallerOp 
Vive, que jo ya títí ; 
El castigo dé mi crimen 
Yo lola le mereci. 

* En el fondo, ay I de esta tumba 
Oacura mansion do horror, 
Solo de TiTir conserro 
Remordimntos y. . .amor! 

< Brasos eon qae te abraiaba 
No tieneo vigor ya «r si ; 
Góbre tierra bAneda y dará 
Los ojos coa que te vi. 

*Boea con qoe te besaba 
Pcrdíó Bo perfume aqui ; 
Goraiou con que te amaba. . . 
Ese siempre | ay ! vive en mi I 

'Vive, vive, eabaUero, 
Vive, vive y sé dicboso: 

Y aprendo en mi triste bisloria 
A ser padre y ser espoio. 



BBBKAL-FRAnCRI! 

'Si tcú diincelJa caairci, 
LllmaU tambies Violanta : 
Nooca 111 amor Mni el mio . . . 
Mai ~ [[ue Kl mas coiuUdM. 

'Hijit qur eo ella Intiardei 
Criai» iii''jor qn* 1 mr, 
Qng no te pierilui por bombctí. 
Coal yo me penli por li '.' 



IX 



Será este Reginaldo, nn Eginaldo, ogallaiite 
eginard rmncez que os nossos Iraduziram as- 
sim, bem como de Bernard fizeram Bernal e 
Bemaldo, de Gerard Giraldo? E è esle o cele- 
brado secretario do imperador Carios-magno 
*fe cujos muito românticos, porém mui [wuco 
platónicos, amores com a Qlha de seu augusto 
aiiio,'estao cheias es historias da meia-edade? 
Thema coifâtante de trovadores e poetas alé 
Eioasí aos nossos dias em qne a suave e me- 
lautiolioa mosa de Millevoye ultimamente o 
ranoçoa no seo mais admirado poema. 

4!8íl'e«e é^qneaqoi se traltó— eencreio 
quaim — vemos que o romance popolar conta 
ocasoinai áiflérente do qne os poetas e escrí- 
plvesidouoitte o referem. É bem sabido qse. 



164 BOMANCBIRO 

segundo esses, a namorada princeza, quando 
o feliz Eginaldo sahia da sua camará, um dia 
de madrugada de hynverno e com a neve alta 
e recemgeada pelos alrios e jardins do palácio, 
o tomara ella aos hombros paraque nao ficas- 
sem impressas na neve as delatoras pegadas 
do amante. O que descubríndo por acaso o 
imperador, que se levantara antes do sol, por 
tal modo se internecéra com aquella prova de 
generosa dedicação, que logo lhes perdoara 
a ambos, casando o ditoso secretario com a 
namorada princeza. 

Talvez o que primeiro contou a historia ao 
nosso povo e lh'a rhymou para seus cantares, 
ommittiu a scena da neve por menos familiar 
e commum n'estes climas do sul; ou talvez a 
ignorasse, ou porventura n3o era ainda tam 
popular por lá como depois veio a ser. Fosse 
como fosse, este Reginaldo parece ser o Egi- 
nard de Carlos-magno, esta infanta a princeza 
sua filha, este rei o imperador seu pae. A troco 
da bella scena da neve que nos falta, temos a 
visita da mãe de Reginaldo á prisão, e o Iíq- 
dissimo soláo que lhe elle canta. O que tudo 



TT 



parece composto no3 mais ternos e desgar- 
rados modos de Bernardim Bibeiro, ou de 
Grysfal. C temos porflm o rei chamando a 
alba ao balcSo para ouvir cantar o preso: 
sceoa verdadeiramente homérica e de uma 
graça tam simples e tocante como não ha 
oatra que o seja mais. 

Estou que nos veio de França este ro- 
mance: não se incoDtra nas collec<;ões caste- 
lhanas; e entre nós é dos que andam mais 
desfigurados e corruptos. Eu tive de reunir 
vários rragmentos para o restituir. No Alem- 
lejo cbamam-lhe Generaldo, no Minho Giri- 
n^do; Eginaldo diz uma cópia da Beira; e 
outra que me veio do Porto trazia por titulo 
— Girinaldo o atrevido. 

As variantes n3o sSo moitas, porque não 
pude considerar como taes as ligaturas absur- 
das com que partes do romance andavam co- 
zidas a partes egualmente desconjunctadas de 
outros, dos quaes tive de o estremar para 
reunir o que felizmente achei que acertava 6 
quadrava D'um todo completo. 

SSo inOnitas e mui disparatadas as varían- 



166 BOMAUGHM) 

tes que desprezei na maior parte ao emendar 
eoDJecturalmente o Tomanoe. Também ião 
Talía a pena de as moacionar em nota. Fiz so- 
mente excepção a favor de algumas que jun- 
etei por mais consideráveis. 

Na citada coll6c<^o do btspo Percy* vem 
uma bailada ingleza que tem por titulo ' Little 
Musgrave and Lady Bamarà,' historia bas- 
tante differente d'esta; mas ha no prioeipio 
uns dizeres tam semelhantes aos nossos, qae 
mais me confirmam n'esta crença em que es- 
tou de que o verdadeiro romance antigo era 
de todos os paízes, como a todos pertencia o 
menestrel, o trovador, o oavalleíro andante, 
csva pátria era o mundo. Fosse onde ftese, 
era sua a terra ou o castello oode> havia Aca- 
nhas que fazer ou celebrar— aventuras para 
cotrer ou cantar. O romance ioglez é dosiQue 
recoiáiecem por^mais antigos os»QoUeotofe& 
d^aqueUa.ni^o. 



i%Ny*« tmuivuã, ãi «M»^ III, boodk ihe fiHt. 



! 



REGINAUM) 



— illíigiualdo, Regioflido, 
Pagem d'6lrei Iam querido, 
Não sei porquê, itegin&ldo ', 
Te chamam o atrevido.' 
— 'Porque me atrevi, aenbora, 
A qnerer o debodido.' 
— 'I^ foras tu Iam covarde 
Que ja donoiras commigo.' 
— 'SeDhora zombais de mim 
Porqoe son vosso caplivo.' 

' A Ucfio da Eilnmiidiiri c moitu oaLrai omiUtoi MlM Kis 

Bem podtraj, Re);iiiildo, 

Domúr ora dia conunlto. 

A adofiUdi DO bulo i do AJudwjo. 



I6S ROMANCEIRO 

—'Eu não D*o digo zombando. 
Que deveras te lo digo.' 
—'Pois quando qaereis, infanta, 
Que va pelo promettido?' 
— * Entre las dez e las onze* 
Que elreí não seja sentido.' 

Inda não era sol posto, 
Reginaldo adormecido; 
As dez não eram bem dadas, 
Reginaldo ja erguido. 
Calçou çapato de panno, 
Que d*el-rei não fôsse ouvido, 
Foi-se á camará da infanta, 
Deu-lhe um ai, deu-lhe um gemido. 
— 'Quem suspira a essa porta, 
Quem será o atrevido?* 
— 'É Reginaldo, senhora. 
Que vem pelo promettido.* 
— 'Levantae-vos minhas aias. 
Que assim Deus vos dô marido ( 
E ide abrir mansinho a porta 
Que elrei não seja sentido.* 
Yela o pagem toda a noite. . . 
Por manhan é adormecido; 



* Entra U uma e as doas 
Quando elrei eeUga dormindo. — ALiimfo. 



Chamava o rei (pie chamava ^ 
Quo llic desse o geu vestido : 
— 'Reginaldo não responde. 
Alguma tem succedido I 
Ou está morto o meu pagem 
Ou grande Iraição ha sido*.' 
Hesponiieram os vassallos = 
Qui^ luilo tinham sentido : 
— 'Morto não é Reginaldo, 
Dtí iomuo estará perdidot 

Yeslin-se elrei mnito á pressa, 
E lova um punhal comsigo^. 
Vai correndo sala ú sala, 
Abrindo porta e postigo, 
Chega ao camarim da infanta. 
Entrou »em fazer ruído. 
Dormiam tam soc^ados 
Como mulher e marido. 

* Li por lõbn i aadrapdi 

Pada tini o mq teilido. — ilurid. 

* Oa tni^ t«D commeltido — unuiiarait. 
Oo InifJo nu bacomoMllido— iiiiiilti. 

* kceoá» d*alii nn pagam 
Qae t da ftagiiuldo amigo : 
— ' Nlo é morto Ragiiuldo 
%em Ir^fio tom commeUido. 
~ ■ EoUo aall Ragiiuldo 

OoiD aphoooa dong iodo.'— niTUilu. 
' Lcta Din Inçado comugo — imiuNnii. 



lio ROMANGBmO 

De nada do que se passava 
De nada davam sentido. 
Accudiram os vassallos, 
Que viram a elrei perdido : 
— 'Nunca vossa majestade 
Matte um home' adonnecido ?.* 
Tira eirei seu punhal de oiro, 
Deixa-o entre os dois mettido, 
O cabo para a prínceza, 
Para Reginaldo o bico. 
Ia*se a virar o pagem, 
Sentiu eortar-se no âo : 
— 'Acorda ja, belia infanta, 
Triste somno tens dormido! 
Olha o punhal de teu pae 
Que entre nós estámettido.' 
— 'Gairtc d^ahi, Reginaldo^ 
Não sejas tão dolorido; 
Vai ja deitar- te a seus pós, 
Que elrei é bom e sofTrido. 
Para o mal que temos feito 
Não ha senão um castigo; 
Mas se elrei mandar mattar-te, 
Eu heide morrer comtigo/ 



' Dè n*iim home' adormecido 
* Vai-te deitar, Reginaldo, 

A feu pés maito rendido. 

Que elni tem bom- oertçio 

B te'hade catar «nimifo. — unuBáUA, ittMiUBVu. 



— 'D'onde vens, õ Heginaldo*?' 
—'Senhor, de caçar sou vindo.' 
—'Que é da caça que caçaste, 
Regina Ido o atrevido?' 
—'Senhor rei, da caça venho, 
Has nào n trago conimigo; 
Que D trazer caça n'al 
A vassailo È defendido. 
So vos li'apo lima cabeça, 
A minha : dae-lhe o castigo.' 
~'Tua sentença está dada, 
Morrerás por atrevido.' 
Vedes ora o bom do rei 
Dando voltas ao sentido : 
—'Se malto a bella infanta, 
Fica o meu reJDO perdido... 
Para mal ta r Reginaldo, 
Criei-(i de pequenino.. - 
Hettã-lo-hei n'nata lArre» 
Por príneipio de castigo. 



' ÊMu im coplu ao onunuui em todu u licflM, mIio u 
AltMiÍB, « «n ama du do Porto. 

" AliC{li) do Alcmliia tamiu o roBunaiqnianiiMiMpU: 

— ' Lerlnla-lP, 6 fítfimiio, 

Rifiulda aMrido, 

O cuU(o qo* !• doD 

£ qm >pju Mq nuida.' 
Oimii o iwSdo m 



m ROMANGBlIiO 

— ' Diz^*me vós, meus vassallos, 
Pois tndo tendes ouvido, 
Que mais jastiça faremos 
N*este pagem atrevido?* 
Respondem os condes todos^ 
E muito bem respondido : 
—'Pagem de rei que tal faz, 
Tem a cabeça perdido.* 

Ja o mettem n*Qma tòire ^i, 
Ja o vão inearcerar. 
Mas anno e dia é passado, 
E a sentença por dar. 
Veio a mãe de Reginaldo 
O seu filbo a visitar: 
—'Filho, quando te pari 
Com tanta dor e peiar, 
Era um dia como este, 
Teu pae eslava a expirar. 
Eu co'as lagrymas dos olhos. 
Filho, te estava a lavar; 



Outra licçSo da meuna proríDCía eoaiinúa ainda depois: 
Reiponderani oi TataalkM, 
Que todo tinham Mntido: 
— < Oh t quem taria a fortvoa 
Qoe Reginaldo tem tido f 
Atéqoi pagem d^oirei. 
Agora filho qoerído 1* ~ Auvnio. 

" Só as verfOet do Ribatejo traion Ofte episódio da torre. 



Gabelk)9 d'egla cabeça 

Com cllcs te fui limpar i*. 

E t«U paeja naagunia, 

Qqg me eslava a incommenJar: 

Emquanto Tosses piqucno 

De búm insino le dar, 

E depois que fòsaes erandc 

A bom senhor te iotregar. 

Ai do mim, irisie vinva, 

Qae te não soube criar"! 

A elrei Ic tlcl por amo. 

Que melhor não pude acbar : 

Tu vais dormir co'a inibia 

De teu senbor natural! 

Perdeste a cabeça, filho, 

Que elrei CamaudacorUrl... 

Ai ! meu filho , antes que morraa, 

Quero ouvir o teu canur.' 

— 'Como heide eu cantar, mi madre", 

Se me sinto ja floar?' 

—'Canta, meu filhinho, cania, 

Para haver minha benção. 

Que me estou lembrando agora 

De teu pae n'esCa prisão. 



* PtDuacDto bTOrito iat d* 



174 BOMàlfCIIBO 

Canta-me o qae elle cinUTa 
Na noite de San* João ; 
Qae tantas vezes m'o oavisle 
Cantar c*o dmo coração/ 

—* Um dia antes do dia 

Qne é dia de San' Joio, 

Me incerraram n*esta8 grades 

Para fazer pena^. 

E aqui estou, pobre coitado, 

Mettido n'esta prisio, 

Que não sei quando o sol nasce, 

Quando a lua faz serio ^K 

De suas varandas altas 
EIrei estava a escutar; 
Ja se vai onde a princesa. 
Pela mio a foi buicar: 



" Em ama licçfto nllimanMDle tiada da Beinlta tem o cpíiòdio 
da piiao com maU orna oopla &*Mla canlar do priío. Aqui poobo 
a dilta copla por loa ringaiaridad», apeur de te oonbeoer D'elU 
Tisivel iotQrpolaçio, e desharmonia de slylo e sentido. InugiK» 
que seri fragmenlo de oatra xicara oo cantiga, segundo Untos 9í 
iQContram em maltas d*dlas : 

Tenho aqui dom pastariolios 

Que Bf mam akaaiftm ; 

Ellee fSoe allee vêem 

Com noTas dos meus amores. 
Alcanídres 1 e traier alcanfiftresT quêáf 



—'Anda ouvir, ó iiimh& Ultia, 
Este tam liaào cantar, 
Que oa ȋo os aitjos no ceo, 
Ou as sereias no mar.' 
— 'Nâo são 08 anjos no ceo, 
Nem as sereias no mar, 
Has o triste sem ventura 
A quem mandais degollar.' 
— ■ Pois ja revogo a sentença 
E ja o mando soltar; 
Prende-o tu, infanta, agora, 
PoÍ9 comtigo hade casar.' 



i* 



A tradição visivelmente coimpia dd por 
titulo a este bello romance 'Dona Ausência.' 
Extremenhos e Alemtejaaos eslão concordes; 
mas nem assim me conformo com seu dizer, 
porque 'Ausência' n3o é noma próprio que 
jamais se usasse em nenhuma parte de Hes- 
panha. 'Ausenda' bade ser, que por séculos 
se incontra em todos os documentos nossos 
da meia-edade, e era dos mais geralmente 
usados e conhecidos. 

Com ser (am graciosa esta xácara, è das que 
menos se valgarízaram : duas provindas ape- 
nas a conservam em Portugal; e no resto da 
penÍDsola dIo consta que baja vestigios d'ella. 
Antiga é, e das mais antigas, porque esta Dona 
Ausenda o este Coade Dom Ramiro teem um 



180 ROMANCSIBO 

sabor musarabe qae n3o ingana. Mas a ponte 
da AUiviada de que aqui se falia é no Minho. 
Como é que a historia de seu ermitão se nao 
conhece alli, e veio ter e ficar-se nas duas 
províncias circa-tejanas? Caprichos e rayste- 
rios da migração das tradiçOes humanas, mais 
difficeis de explicar que os de suas raças. 

Incontram-se aqui várias reminiscências 
—por me expressar na língua musical da 
moda — de outros romances mais cabidos e 
populares. Indicará isto analogia na data? 



\ 



/ 



DONA AU9BNDA 



Á porta de Oooa Aosenda 
Está uma henra liriiâa i; 
Mulher que ponlui a mio 11'eUa 
Logo ae^aeate^Mjaáa. 
Foi pdr^heta maoDtna Atuaiiia 
Em má hora deagiacaáa; 
Assim que fée a onon^eHa» 
Logo se Mittn pjilda K 
Vinha seu pae faia « mesa, 
Veio elia muito appressada 
Para lhe dar agnaés mios, 
Gomo filha bem oeiaéa. 
PÔ8-lhe elle os olhos direitos, 
Blla |BC-ae mui eorada. 
—'Que é iMD,:DoBa Amwndat 
Voto a Deus que estás pejada.' 



' Gmoe orna berra fadada— 
* SMtflMe logo 




182 ROMANCEIRO 

— *Nào diga tal, senhor pae, 
É da saia mal talhada'; 
Qae eu nunca tive amores 
Nem homem me deve nada.' 

Mandou chamar os dois xastres* 
Que tinham mais nomeada: 
— *Vejam-me esta saia, mestres; 
Adonde está ella errada?* 
Olharam um para o outro ^ : 
—'Esta saia não tem nada; 
O erro que ella tem 
É a menina estar pejada.* 
— 'Confessa-te, Dona Ausenda, 
Que àmanhan serás queimada.' 
—'Ai triste da minha vida, 
Ai triste de mnn coitada! 
Sem nunca ter tido aoiores *, 
Vou a morrer deshonradaT 

Foram chamar o ermitão ^ 
Da ponte da Alliviada; 

* Reminiscência do romanoe de Dom Carlos d*Akm-iiuar, ci^ 
Tcna. Vcsía adeante tfeste votama, pag. 107. 

«AUáiates. 

* V^anoUS. 

* Sem nonca saber de amores— bxtiiiuikiba. 

* Foram buscar confeisor 

À ermida da Alliviada— UTMVAMjaA. 



DONA AUSEIIDA 

Era um fradinho velho 
Qne o incontraram na estrada. 
Mal o frade ch^a á porta, 
Deitou-se ã herva fadada, 
Cortou -a peia raii*, 
Na manga a leva guardada. 
— 'Ajoelhae, Dona Ausenda, 
Que a vossa hora é chegada : 
Confessae vosso peccado 
A Deus e ã Virgem sagrada.' 
— 'Padre, eu nunca live amores, 
Nem homem me deve nada; 
Hás artes são do demónio 
Ver-me eu donzella— e pejada'1 
— "Ha quanto lempo, senhora, 
Vos sentis imbaraçadaf 
—'Os nove meies faz hoje 
Que alli n'aquella ramada 
Na noite de San' João 
Adormeci descuidada; 
Senlia o cheiro das flores 
E da herva rociada, 
Sentia-me eu tam ditosa, 
Tam feliz e regalada, 
Que o despertar me deu pena 
Quando veio a madrugada.' 



i84 BSHAHCBI») 

— 'Tomae agora éeta herva» 
Que é una henri libdada: 
Gom a bengio 4pe íbe ea deito 
Ficará herva «agrada.' 
—'Ai! este cheiro, meu padre, 
É o qae ea senti na ramada.' 
Não disse mais Dona AsuNoda, 
Do somno fieoa tomada. 
Virtude tinha aqoella henra, 
Outra virtude ladada : 
Mulher p^|ada quea loque ^' 
Logo fica despelada. 
Allí, sem mais dor nem pena, 
Em<baa bem aheaçeaila. 
Pare um Íiada.ocnB(a 
Bem nascida B<iMm 
Metteu-aolraUa^aa 
Foi-se sem 

Ja desperta DonaAoieada, 
Ja se sente allbptadà; 
De tudo quaoto pasaou 
Apenas está lembrfcds: 
Um mau sonimihe>par6M 
Que a deixou peBtuÂaáa. 
Chamou ipm^siias éoneHee» 



** Com u rexai qne lhe «a mo— ixTMHAmiiLA. 
" Molher qao ponha a mi» «Mli^ 
Se está prenhe, é desprenhada» 



DOKA AUSIHDA 

Chamou por sua criada. 
Veslia suas g&las mais riccas, 
Sua saia mais bem talhada, 
Foi-se incontrar com seu pae 
Que eslava na alpendorada ", 
Vendo armar a fogueira 
Em que a queria queimada : 

— 'Senhor pae, aqui me tendes 
Ja disposta e conressada; 
Agora a vossa vontade 

Seja em mim executada.' 

O pae qne a mira e renura 
Tam esbelta e bem pregada, 
O seu corpo tam gentil, 
Sua saía tam bem talhada : 
—'Qne Mli^ era.esu, tllha. 
Com que estavas intanuada? 
Como se desrez o incauto. 
Que te vejo tam mudada?' 

— 'Fosse elte poder de incauto. 
Ou condão de herva Tadada, 
Quebrou -o a que lie Tradinho 
Da ponte da Alliviada.' 
—'Metade de quanto eu tenho, 
Ametade bem contada. 



186 BOMANCBIRO 

A esse bom ermitão 
Doesta hora lhe fiea dada. 
Palavras não eram dittas 
O ermitão que chegava ^^ : 
— 'Accelto a offerta, bom conde, 
Se a metade é bem contada. 
Se entra n'ella Dona Ausenda, 
E m*a dais por desposada.' 
Riram-se todos do frade ; 
Elle sem dizer mais nada, 
Despe o hábito e o capuz, 
Erg[ue a cabeça curvada; 
Ficou um gentil mancebo. 
Senhor de capa e de espada >^ 
Era o conde Dom Ramiro, 
. Que d'alli perto morava. 
Em boa hora Dona Ausenda 
Pôs a mão na herva fadada 1 



'' Ajiomava— alimtbjo. 

■^ Vestido de capa e eipada— utudusobá. 



RAINHA. B OAPTITA 



IlMiotfMuaodnM>saaalbi9osiiefne:<i:ri- 
pMr alftiHi fel JDOKãõ do beUo-rom^ce da 
'Haiitai eicaplm.' Aoâa,.cnM os pj-ecedeih 
tes, oa tradição oral dopoitO) «pareoe não sec 
dw qae iiiau<aitera«&es teea.podecido, (|uer 
na rónita. ^uer D0<9t]K(r, a^nur da le^evação 
da pataivrafl por qu» deve d» ler passado na 
iosenàvaliinadaiicada liogus. para se iitcoii' 
trv^hoje em pbrue tna correole. 

É geralmotfe aabido. e com pouc;i^ v;ii ian- 
tes » repette desde a Eilmaadura a Trás- 
os-MoDles; sMo-ba lambem oas proviocias 
traosljganas, mas não me veio áf lá cótií<i 
d'elie. 

Brias relerencias a Odliz^ aisenlmriú de 
DM)i ros ainda perlo»el'TetTa de Saneia Maria/ 



190 ROMANCEraO 

que, como todos sabem, é o distrícto d'eDtre 
Douro e Vouga que hoje se chama 'Terra da 
Feirai' ve-se que a historia e epopeia, ambas 
âSo dos primeiros tempos da monarchía. E a 
circumstancía de 'salto' por mar e 'correria* 
por terra lhe dá uma forte cõr do século xn. 

Os poetas populares d3o compunham em 
geral as suas rfaapsodias seuSo sobre Cictos 
recentes. O que passou da historia escripta 
para os versos é ja feito pelos poetas lettra- 
dos de uma civilização — superior nio sei, 
porém mais adeantada. 

O conto conta-se bem no romance, e ex- 
cusa explicado por argumento do compilador. 
É dos mais romanescos, cheio de situações 
interessantes, de lances e de aventuras. Esta 
volta de captivos e renegados christios para 
as suas terras, fugidos com as jóias de seus 
senhores infleis, é uma feição muito sabida, 
e commum nas lendas populares. 

N'esta ha toda a singeleza homérica, todo 
aquelle tom; atè a repettição das mesmas pa- 
lavras e dos mesmos versos quando occorrem 
as mesmas ideas: é a Aurora da Ilíada que 



uanu B c&PTtvA 



sempre abre o ceo com os mesmos ' dedos de 
rosa', os reis qae são sempre 'pastores de 
povos'; é Menelau com a mesma 'cabelieira 
loira,' Jano com as mesmas 'cozas pulchras', 
osmesmos 'olhos de toaro' sempre. À poesia 
primitiva éuma sempre, ás ribeiras do Pamyão 
ou ás do Donro. 

A pintura da m3e baptizando a Qlha com as 
lagrymas de seus olhos, tem ja por si só mais 
poesia grande esoblime do que poemas in- 
teiros de grandes poetas. 



RAINHA E CAPTIVA 



— 'A guerra, á guerra, moiriobos. 
Quero uma chrisUn captiva! 
Una vão pelo mar abaixo. 
Ostros pela terra acima : 
Tragam-m'a christan caplíva, 
Que é para a nossa rainha.' 
Un» vão pelo mar abaixo. 
Outros pela terra acima : 
Os i^ue foram mar abaixo 
Não iacontraram captiva; 
Os que foram lerra acimn. 
Tiveram melhor atina ', 



■ Udbor rortui 


a, iliia 


ram moLboi 


. AJkuid 


» JirtOci di. 


toa MU 


Mi iMisrn que 






É opiiu 


ilo do mcn . 




Sr. Henuraao qai 


podorl 




iito í, I 


1 telha palai 






, uabameni 


lo, relDl 


lido -tora 


aeiptí- 



194 ROMANXEIBO 

Deram com o conde Flores 

Que vinha de romaria : 

Vinha lá de Sanctiago, 

Sanctiago de Galliza; 

Mattaram o conde Flores, 

A condessa vai captiva. 

Mal que o soube a rainha, 

Ao caminho lhe sahia : 

— 'Venha embora a mhdia escrava, 

Boa seja a sua vinda ! 

Aqui lhe entrego estas chaves 

Da dispensa e da cozinha; 

Que me nao fio de moiras 

Não me dem feitiçaria*/ 

— 'Acceito as chaves, senhora, 

Por grande desdita minha. . . 

Hontem condedsa jaraáa ^ 

Hoje moça da cozinha!* 

A rainha está pejada, 

A escrava também o vinha : 

Quiz a boa oa má fortuna 

Que ambas parisfiem n*iim dia. 

Filho varão teve a escrava, 

E uma filha arafadia; 

Mas as perras das commadres, 

Para ganharem aiviçaraaS 

* Qtia DM Bio doD braúna ~ bxtuiudqm. 

* HoDtem condessa de Floras — aíbahio. 
4 Trocarain-n'a8 á nascida — bbibabauu. 



Deram à rainha o tíllio, 

À escrava deram a lilha. 

— 'Fillia minha da minha alma. 
Com que le bapiizaria? 
As lagrymas de meus olhos 
Tc sínam de agua beindiíia. 
Chamar-le-hei Branca Rosa, 
Branca llor dAlexanclria^, 
Qae assim se chamava d'aiile8 
Uma irman que eu tinha: 
Ca|)tivaram-n'a os moiros 
Dia de Paschoa florida. 
Andando apanhando roua ' 
y'um rosal qae meu pae tiiriía.' 
Éslas lásiimas choradas 
Veís-la rainha que ouvia, 
E cu'a3 lagrymas nos olhos 
Muito depressa acudia : 
— 'Criadas, minhas uiadas, 
Uegaiem-me ésia captíva; 
Que se eu não Aka de cama, 
Eu é que a serviria'.' 
Mal se levanta a rainha 
Vai-,*e ter com a capliva : 



IM ROMAIfCBIBO 

—'Gomo estisy ó minha escrava, 
Como está a tua filha?' 
—'A filha boa, senhora. 
Eu como mulher parida.* 
—'Se estiveras em toa terra, 
Que nome lhe chamarias?* 
— 'Chamára-lhe Branca Rosa, 
Branca flor da Alexandria*; 
Que assim se chamava d*antes 
Uma irman que eu tinha : 
Captivaram-n'a os moiros 
Dia de Paschoa florida, 
Andando apanhando rosas* 
N*um rosal que meu pae tinha.* 
— *Se vira'la tua irman. 
Se tu a conhecerias?* 
— *Assim eu a vira nua 
Da cintura para cima; 
Debaixo do peito esquerdo 
Um signal preto ella tinha tV 
—' Ai triste de mim coitada, 
Ai triste de mim mofina itf ' 
Mandei buscar uma escrava, 
Trazem uma irmã minha!* 



" Roía flor d'Aleiandria — mucho. 
* Qoando andara a apanhar rotas — nttnuMBA. 
M Um lanar preto ella tinha — mmuDiiaA. . 
*' Triste de minha mofina —nnALTA. 



RAIKHA B CAPTIVA 

Não são passados ires dias. 
Morre a filha da rainha : 
Chorava a condessa Flores 
Como quem por sua a tÍDlia; 
Porém mais chorava a mie, 
Que o coração lh'o dizia '^.' 
Deram á língua as criadas. 
Soube-so o que succcdia : 
A mae, c'o filho nos braços, 
Cuidou morrer de alegria. 
Nào são passadas Ires hora.", 
Uma á outra se dizia : 
— 'Qupin ae vira em Portugal, 
Terra que Deus bemdiíia!' 
JuncUram muila riqueza 
De oiro e de pedraria ; 
Uma noiíe abençoada 
Fugiram da mo iraria. 
Foram ler á sua terra. 
Terra de Sancla-Maria ; 
Melleram-se n'um mosteiro. 
Ambas professam n'um dia. 



DOK CLABOB IV&LEH-HAA 



■ Dom Claros d'Alem-mar', que em muilas 
partes o povo corruptamente diz 'Dom Car- 
los', não sei se nasceu portuguez ou caste- 
lhano: propeodo para a última origem, ape- 
zar de que, impresso nas antigas coilecçSes 
áos nossos vizintios, o povo de Portugal toda- 
via o canta bastante diverso, mas não peiorado 
decerto. 

Do modo por que assim anda na tradição 
oral portugueza, faz lembrar no seu princi- 
pio o romance francez do 'Conde Ory.' 

Creio que é das mais antigas composições 
d' este género que lemos em Hespantia : nas 
províncias portuguezas é muito vulgar e sa- 
bido, e portanto abunda em variantes. 

Observa-se aqui ser indubitável que certos 



iOI ROMANCURO 

versos e coplas de algoDs primeiros roman- 
ces, certos dizeres d'eUes cahiram em graça 
geral, e ficaram sendo como bordões poéticos 
em todas as línguas. 

D'isto apparecem continuas provas e exem- 
plos, nSo só entre provençaes, portuguezes, 
catalães e castelhanos, n3o só entre dinamar- 
quezes, normandos, escocezes, allemSes e in- 
gtozes, mas ainda de uma doestas graades fa- 
Hiffias f»ra a outfra. 

GoBipare, no presente romaoce, os versos 

Haveri por ht am pagem 

Que o mm pio (joeira comcf t. . 



com estoutros do escoesez ramoB 

coUecção de SirW. Scott ja citada 

' o where wili I get a iittie boy, 
Tbat ivfll Win -bote aod ihooD, 

To riiiiaC'ftMt lo nailitlnii 
And bid fair Eleanor carne V 

Tbm np and apake aVtOe boy, 



'O ni away to Oarlington. 
And Md lair Kleumr «ame *.* 



«le. tom. M, pag. 114, «d. 9»§t» 1WI. 



DOM OLAdMW D^LEH-MAR 



—'Quero huroma apposta, 
Ou eu u5o Mi apostar : 
Claralbda bade ser minha ' 
Ante» d'o e^Ho caniar.' 
— 'Apposiar, appostareh». 
Mas não bavás de ganhar ; 
Que é discreta a Claralindu, 
Ninguém n'a pôde iaganar.' 

dormir wm Uuivmi — inm.». 



Hiú te DwUai a ippoiUr ; 



904 ROMANCEIRO 

Nâo quiz alli dizer nada, 
Não quiz alli mais fallar; 
Vestia trajos de donzeiia 
E se pôs a caminhar '. 
La estava a Glaralinda 
De seu balcão a mirar : 
—'Que donzeiia tam bonita M 
Quem é, e o que vem buscar?* 
— *É a tecedeira, senhora^ 
Que \em das pnlis do mar; 
Tem a sua teia urdida, 
E a falta * vem n'a buscar.' 
— ' Ahi tenho a falta, donzeiia, 
Mas inda está por dobar \' 



• 



Veàlio trajos do donielU, 
Ao jardim foi paiaear. -> himlta. 
« — * Qaem é aqaella domella 
Qae alem anda a passeiar ? ' — biualta. 
— ' Quem bate á minha porta, 
Quem me Tom importunar ? ' — inmo. 
— ' Toccdcira sou, senhora, 
De Ias areias do mar ; 
A leia (enho-a ardida, 
A seda venho-a buscar f * — TtAf-Of-noiim. 

* Falta de teia é o qne apparece d« menos na tecedura en «ics- 
proporçfto com a urdidura. 

* ~ ' £ssa falta eu a tenho. 

Mas nSo a posso dobar. ' 

— ' Dobe-a ja, minha senhora. 

Trate de a mandar dobar. ' — hiraita. 



DOM CLAROS D'ALEII->IAft 

— 'Senhora, que se faz larde 
E eu Dão posso esperar : 

De noilc pelos caminbos' 
Donzellas são hãode andar.' 

— 'Para honra ila dODzelIa, 
Aqui hoje liade poisar.' 

— ' Tendes criados Iam moçoíi, 
Tam alrevidos do olbar. . .' 
^•Par.i honra da donzella 
Xo meu quarto hade iicar.' 

A donzella, de contente, 

à noite não qoiz ceiar ; 
Tinha sonmo, tanto somno. 
Que 30 quiz logo deitar. 
Lá por essa noite adiante ^ 
Claralinda de gritar. . . 
— 'Calla-le, ó Claralinda, 
Kão te queiras diffamar, 
Que eu ãou de nobre gciil<^ 
G coinligo hei de casar : 



De DOild panwm mil. ' - 
' IA jior Rtia nnilí Tilha 
H>iÍ3Qiia do qudiar. — i 



.»' 'LI 



I» 



li 



Fia-le n^eslfei palavra 

De Dom Claros d'Alein-ffiar ^^ 



Passados sâò tasios dias, 
Tam conqNidos de esperar ; 
Nao voltou a leeedeira, 
Mas a teia ia a dobrar 
Aos sette piara oito meies 
O pae à mesa a jantar it : 
— ' Glaralinda, Claralinda, 
Que feio é o teu trajar! ' 
— ' Não diga tal, senhor pae ; 
Ninguém lhe oiça tal Mar ; 
Nao soQ eu, é da vasqninha 
Que é mal feita e dá mau ar.* 



— ' Aos selU) para oílo netei 

Se toa pae ja reparari 

Mandarás uma cartinha 

A Dom Carlos d 'Alem-mar. ' — bbiralta. 

Sen pae quo a estava a mirar. 

— ' que mira, senhor pae> 

O qoe é que está a olhar ? ' 

~ ' Eu miro-te, minha filha. 

E olho no teu desar. * 

— Este tnchume, senhor pae, 

É da saia mal trajar. ' — cotmajk. 

— * Que é isso, Marianna, • 
Que te faz assim estar ? * 

-- • Nào é nada, senhor pae, 

£ a vasquinha mal talhada. ' — porto. 



DOU CLAROS DALKM-UAR 

Haadou chamar alfaiates " 
Para se desinganar : 
Diãseram uns para os outros : 
— ' Xão lem falta a saia tal.' 

Não ha ãtli mais que dizer''. 
Não ha mais que per^nixtar: 
— 'Prepára-le, ó CtaraJinda, 
Que ámanhan vais a queimar.' 
— ' Não se ms dá que me matlem <*, 
Que me levem a queíioar. 
Dá- se -me d 'este meu ventre 
Que é de sangue real I . . . 



Ella uráabaiiaiU.'— coiuu. 



i« hoje lo ajuntam a leniu, 
lunhim (o lilode queimar.'— unuLi 
' Níd í" mo ili qno me ijnclraooi. 



MMAliaiIlft' 

Haverá por M xm |»í«»^ 
Que o mea pâo queira gattlior, 
E qae me lew esta oarta 
A Dom Claws d'Al«»*«art* 
Apparece um pagemsito 
Discreto no sea Miar: 
— < Aqai 6814 m meMageiro 
Que o recaát fotr leirar.' 
— <Se o •nm pio qaêrea 
A toda a prana basáa amiar, 
E intregarás.ésta mrta 
A Dom Cíapee d' Aks»»»ar >«. 

n _ • ^3o ha por ahi am pagem 

Qae se doia do meu mal.— poste-de-uji-». 

Qnem me dera aqui am pagei% 

Que m? fora ao mou mandar, 

Qae me levara esta carta, 

A Dom Claros, de peiar.'— i 
!• — «Se cllo estiver a domir. 

Façam-n'o logo acordar, 

Se elle estiver a comer, 

Nâo o deixem acabar." — i 

— < Se o achares a passear, 

Deixá-Io-has assentar; 

Se o achares a dormir, 

Deixá-lo-hasacofdar; 

Se o achares a jantar, 

Deixá-lo-has alevantar.'— açôris. 

— 'Se o achares a dormir, 

Deiíá-lo-has acordar; 

Se o achares .iccr Jadtv 

A carta lho hasde iateegar.'--BUUi.tA* 



DOU CLAROS IfALKlI-HAR 

— 'Que quereis, ò pagmistto, 
Que vindes aqui buicar?' 

— 'Trago ama carta, senhor. 
Novas de muito peiar; 
Novas lhe irago, más novas" 
Da HU amiga leal : 

Hoje se llie ajnnta a lenlia, 
Amanhaa vai a qaeiniar.' 
Elle pàs-se a ler a cana, 
N3o a padta aetbar; 
As lagrymas eram Untas 
Que o faliam cegar'*: 
^'Oh lá, oh lá, eseudefnw, 
Us cavallos a rerrar; 



^* Uiiiiua mm qnon do 
Vai Imanhaii a qaúmar. 
" Detgntada Haríuina 
Qat M JetaiD a queimar 
UaliLreado do leu inilrr 
Ooe le>3 ucgocrsiir — 
VoDio nM dá quo a qaíir 



210 ROMANCBiaO 

Jornada de quatro dias 
Esta noite se hade andar.* 

Chega a um convento de frades, 
Estava o sino a dobrar : 
—'Por qaem dobra o sino, padre, 
Por quem está a tocar?* 
— 'É a infanta Glaralínda 
Que se está a agonizar : 
Hontem juntaram-lhe a lenha. 
Hoje a ievam a queimar.' 
Era quasi manhan clara, 
Mandou seus pagens deitar, 
Vestiu-se em trajos de frade ^*, 
Foi-a ao caminho esperar : 
— 'Parem iá os da justiça *•, 
Justiça de mau pezar, 

" Vestío*80 em (rajos de frade, 

Ao caminho a Toi esi)erar; 

Em chegando ao pé d'ella 

Aos criados foi fallar. — buealta. 
<• * Parem lá com a liteirai 

E façam-n'a ja parar, 

Qac a mcnÍDa qae ahi leram 

Ainda vai por conressar.'->BBinADAiXA. 

— ' Oh da jasliça d'clrci, 

Alto lá, façam parnr.— coimbrã. 

A menina que ahi levais 

Ainda vai por confessar.— bbiralta. 

— 'Díga-mp, minha menina, 

O porqiio >ai a queimar?* 



DOM CLAROS D'ALBH-HAR 9t( 

Que a meoina que ahi levam 
Inda vai por conressar.' 

Deíxaraiii-n'o ao bom do frade 

Para A inrania conressar. 

Mal se ene riu só com ella, 

De amores lhe foi fallar: 

— 'Venha cá, minha menina", 

Qoe a quero conressar; ' 

No primeiro mandamento 

Dm beijinho me hade dar.' . , 

— ' N2o permitia Dens do eeo > . 

Nem os sanctos do allart I ' 

Onde Claros pAs a bAc«a ** 

NSo me hade um frade beijar.' 



Tin UDom eon Dom Girlix, 

Por iuo too I qociíMr.' 

— 'Poii DomCaHoi looai inmno, 

E BiaiU|0 btid* cuar.'— cunu. 
S<ta^ étU Ikçle da Coinbn âcaba o 
" Qúc toi» CluiH pA< ■ bãe» 

n» bade pAr Daniiaii Frada — iuiult 



•—' Venha cá, minha menina, 
Que a quero confessar; 
No segundo mandamento. 
Um abraço me hade dar.* 
— ' Vai-te na má hora» frade, 
Que a mim não hasde chegar; 
Que a mim nunca chegou hcmiein, 
Se não— inda mal pezarl 
Senão só esse Dom Claros, 
Dom Qaros o d'Alem-mar, 
Que, por meus grandes peocades. 
Por elle vou a queimar 1* 

Dom Claros que tal ouviu, 
Não pôde o riso occultar. 
— *Por esse riso que dais**. 
Sois Dom Claros d'Alem-mar. ..' 
— *Calla-te, ó ClaraUnda»*, 
Que te venho libertar; 



Oac onde o mca bem p6s a bôoca -^wroaA. 

Nio me hade am frade beíiar— tomi-M-iOU* 

Venha om frade bafejar— mmlto. 
'* Pelo sorriso que dais — MiaáiAUU. 
*^ — ' Sim, senhora, soa Dora Garloa 

Que TOS venho libertar.' 

TomoQ-a logo nos bragas 

Poicram-sa a caminhar. 

(jorrem d'alem os criados 

E posoram*se a grilar : 



DOU OrifiOS VlLBlfHAR 

Ja está tecida a teia, 
Vamo-Fs agora & cnrar.' 

Tomou-a li^o nos brados 
Poseram-se a caminbar : 
Estava perto o conventa, 
Viram-o'o os pagens cb^ar. 
ChegaTam, não cbegaríaiD. . . 
A justiça de bradar. 
~'Has nns de meu eanlto. 
Menina, haveis de montar.' 
Assim foi livre a infanta 
Por Dom Claroe d'Alwa-(DaT. 



— ' Svnbar padr», deiíe >>BAfâ, 
Qoa i mmdt tw pm |MiMr.' 

— ■ PlHl lIO dÍKT a SM pM 

thw > Jtobk d bMHT ; 
Ob* <d co'Hle fiim da pnM 
í lima Itw heido ilnnMai.'— na 
— 'Kg PomOaroi, Mm. ■■!■», 
Soo Dom CliTM tUm-tmt : 
Na* incai do nea caiaU», 



Rjipha do HMa f:aT]daL -' 
Afora duea tm paa 
OoeU tcobaca bniear.'— ' 
■'•tu 4Ba* iie(Ou da 3ar 



j|(4 ROMANCEIRO 



A cau Tl el empenulor, 
A saD Joan de \t montiSa, 
Gon el iba el ooode Claros 
Por le (ener eompafiia. 
CoDtandole iba cooUndo 
El menester qac tcoia. 
-.«No me lo digais, el conde, 
Hasla despues la veoida.' 
—'Mb armas tengo empenadas 
Por mil marcos de oro y mas, 
Y otros tantos debo eo Vranda 

Sobre mi boena verdad/ 

— < Uámedme mi eamarero 

De mi camará real ; 

Dad mil marcos de oro ai conde 

Para sus annas qniUr; 

Dad mil marcos de oro ai conde 

Pi» manlener Tcrdad ; 

Dadle oiros Untoe ai conde 

Paraveilirycaliar; 

Dadle otros tantos ai conde 

Para las tablasjngar; 

Dadle oiroe tantos ai conde 

Para lomeioi armar; 

Dadle otros tantos ai conde 

Para eon damas bolgar.' 

— 'Mnebas mereedis, seSor, 

Por eslo 7 por mnebo mas. 

A la infanta Çlaranina 

Vds por moger me la dad; 

ftM minto MM oiM M BMtolhiiiiw o titulo àê *Doi Cki4i 



H^ 



MH CLAROS [fALBH-MAB 



El emparadar que cilo oferi 
Tomo Aedlagnn peur. 
Tuelie riflidu i1 cabillo 
y tonim 1 la ciodad : 
Hanlo liam ar lai partoai 
Pan la bbala ninr. 
UU habld 1* pariras. 



PotqM podricH Uca 
Cabalkm d* m «ia 
Stlaataotminr: 
— 'PéauHi d« *di, Hl 



Piuaw de la críatar*, 
Forqin ei hijo da tom padra ; 
Hu M ba7 aqui algnoo 
Qna bija comiilo mi pao, 
Qoa BM IlauM ma esit* 
k doD GliKH da HontahasT 
AlH babld na pifa rajo. 
Tal mpoetta k faa a dar : 




RMIAHQBIBO 



Que yo se U iré á Uavar.' 
Ta lAt caiiM MB tMrilas, 
El page las Ta A Utur ; 
Jornada de qiíMe díu, 
En ocho la fiMra a andar. 
Llegado batia a loa palacioa 
A donde el boan conde aeti. 
— * Bieo reoiaia, el pacMiat, 
De Francia la oalonl 
;PDes qne bmvm bm tneis 
De la infanta? oomo aeláf 
— *Leed las cartaa, aeiar. 
Que en ellas os lo d«i/ 
De qoe las babo leeido, 
Tal respoesu le taoa 4ar : 
— 'UnoBMdaqMla.1 
Otromedaqueij 
Ta se partia el 
Ta se parta, faae va. 
Jornada de qniaeedias 
Enocbola foerai 
FnáraseaoBi 
Donde los 
Qoitóse 

risUóhábilMdtoteilo, 
FoAraseáleepalaeiis 
De Carlos el eafOMiia. 
—'Mercedes, 
QttcráísaMlas olM^ar, 
Que á mi sewi* la infiuta 
Vos me dejfliacanfeear.' 
Ta lo Ueirabon ai 
AlainfkalȎ 
El coando se fi6 oan ella 
De amores |0 Aw « faiblar. 





DOM CUROS D'AUni-MAB 



Ou nimea Utgò a nii hambn 
Qu túf» tiro en cinM, 
Sina u>lo aqUBl dou CUna 
DoD Clan» da Honulcau. 
Oa« por mil gf indn pKadoí 
Por j] iM qiiem qnemir. 
Hd dor nada p^r mi iDoart», 
hrqiM M cou natural , 



— ' Htrudti, Knar, mcrcedM. 
ODieriiimelu olorfir, 
Uai mi wilora la inruita 
Sln ningnn pecado «iti.' 
Allibabldalcaballero 
Que coo tf la quarta uaai : 
— 'HnlidM, IVaila, mtotidM, 
Qw nã d«i) la lardad.' 
DuaSuae lot im, 

Al apnlMi dfl la ducbaa 
CoooeiAki el miieraBle ; 
Dyo qae el Craila « dm Quoa, 
Dm CJaroi de Hontalian. 
Mali d rraila ai uballani. 
La ioftota librado ha, 
Sn aocaa da n eaballo 
Coniiio la fae 1 llerar'. 



vy 



xni 

OLARALIVDA 



Ao revez do i'oinance precedeote, dós chi- 
mámos ' Ciaratinda ' a esle, que os casldluntos 
lêem muito mais extenso em 3uas colíucções 
com o tilulode 'Conde Claros.' 

O tal Dom Claros, ou Conde Claros, devia 
de ser o Don Juan d'aquelles tempos, á ím- 
mensidade de aventuras e conquistas amoro- 
sas que os romanceiros lhe atlribuem. E talvez 
é um mytho em que os trovadores moralislas 
resumiram todos os Lovelaces ila meia-edade. 

O presente romance mui similhanle, na lic- 
ção portugueza, ao que leva por titulo 'Ro- 
salinda' na primeira parte d'esta collecção', 
ililTere todavia essencialmente d'elle na cõr 

' RoíuinziU), tom. i. Li>b«a 1BÍ3, psg. 177. 



m ROMMIGBIRO 

local, e, para assim dizer, nas decorações di 
scena. O desfecho da aventura é inteirameiíte 
outro. E alem d'isso, aquelie foi construído 
de três fragmentos diversos: era este um 
d^elles. 

Depois de publicado este primeiro tomo, 
obtive uma melhor e mais completa cópia; ja 
lhe não cabe o nome de fragmento : é a que 
aqui dou com suas variantes, e com a mais 
ampla liccio castelhana. 

Seriam os menestréis os que, segundo a 
theoría de Sir Walter Scott, que ja n^outra 
parte mencionei^, contrahiram o romance 
escripto na xácara para cantar? Ou seriam 
os poetas ou os coUectores letlrados que da 
xácara popular fizeram o romance mais 
longo ? 

N'este caso especial não sei decidir; mas 
estou fortemente capacitado de que ora uma 
ora outra coisa succedia, e que é difficii dizer 
quando esta ou quando aquclla se fez. 

O saio de seda, a cintura de oiro e firmai, 

' Romance do co. i>b ya-vno, pap. 43 d'este velame. 



CLARALimiA 



iodicam antiguidade na liccio portugueza que 
oSo desce do décimo-quioto século. 

Em appendíce ponho a lícçlio castelhana. 
Que estado na comparação dos dois lextos ! 
Como reaatta o character das iluus famílias 
e das dnas linguas, tam parenl<;s e tam dis- 
tinctas ama da outra I Como è reservado, 
como é natural o /inchado ponw^wí^ Comi> 
se exaggera e intumesce o cask'llianol Mas 
é inoegavel todavia que ha mais i lonipa e luxo 
de poesia n'este ; assim como ha uv.m verdade 
e mais sentimento n'aquelte. 



f 



CXARAUNDA 



Meia-Doiíejaédada, 
Os gkllos qnerem canUtr, 
O conde Claros na cama ■ 
NSo podia repoasar. 
Cluunou pagens e escudeiros, 
Qae se qaerja levantar; 
Que ibe tragam de vestir, 
Qne Jhe tragam de calçar. 
Deram-lhe orna alva eamiza. 
Que elrei a não tinha tal*; 
Doram-lhe safo de seda. 
Cintura de oiro e firmai. 



' Oinde Cíiroi tra im ieilo— íiimxjo. 



na ROMANCSmO 

Trazem*lhe esporas doiradas 
Para«om ellas raonlar; 
Cavalgou no sea cavalio, 
Pôs-se logo a caminhar. 

—'Deus te salve, Ciaralinda, 
Tam cedo estás a bordar?' 
— 'Salve-te Deus, conde Claros! 
Donde vais a caminhar 3?' 
— 'Aos moiros me vou, senhora, 
Grandes gursas 'ga^raetr.* 
— *Que bello corpo que tendes 
Para com elles brigar T 
—'Melhor o tenho, senhora. 
Para comvoseo lilgar. .. ^* 
Palavras nio eram diAtag 
Um pagem que ia a passar; 
—'As palavras que sio diltas, 
A elrei vou ja oonUir/ 
—'Palavras que dittâs são, 
A elrei não vás levar: 
Dar-te-hei de oiro e de praia 
Quanto possas carregar/ 
—'Não quero oiro nem praia, 
Se oiro e prikta me heisde dar; 



' Tam cedo a caminhar— uiboa. 

* Para com damas folgar— buiuaaika. 



GLABAURDA fl7 



Quero guardar lealdade 
A quem n*a devo guardar : 
As palavras que sao dittas, 
A eirei as vou contar.' 

Foi â*allí o bom do pagem ^ 
Andando de bom andar 
Á casa da estudaria. 
Onde eIrei estava a estudar : 

— *Deu8 vos salve, senhor rei, 
£ a vossa c^roa real t 

Lá deixei o conde Claros 
Com a princesa a folgar.' 
— 'Se á puridade o dissesses, 
Tença «te havia de dar; 
Mas'pois tam alto fallaste, 
Alto hasdcir a míorear.' 

Castigar os chocalheiros 
Boa justiça rfeal : 
Mas o pobpeoonde Claros 
Tãmbem vai a degollar. 

— 'Vinde, vinde, Claralinda. .. 
Como estais a descançar! 
Vinde verio Made Claros 
Que eIrei o manda inattar/ 



* Foi d'alli o pagemzilo— Atflimo. 



ia9 ROMANGBIBO 

— 'Accudi, minhas donzellas, 
Vinde-me accompanbar: 
Que SC elrei lhe não perdoa, 
Com elle quero acabar^/ 

— *Deu8 vos salve, senhor rei, 
E a vossa c'roa real t 
Que vos Tez o conde Claros 
Para o mandardes mattar?* 
-— *Se eu li vera outra filha 
Para em meu reino reinar, 
Juro-te, ó Claralinda, 
Que o ias accompanbar. 
Mas toma-o tu por marido, 
Por genro o quero eu tomar; 
E ninguém mais n'esta corte 
Se atreva a mexericar''/ 



* Com eUe me h&ode malUr— MimK>. 

' A licclo da Sitremadm woenumU ttfú : 

— 'Ganhaste, meieriqueiro. 
Com o tea meseríearl' 

— < Ganhei a morte, senhora ; 
E a vida me podeis dar.' 

— ' Se ella está na Blaha nio, 
A vida nAo te beide dar: 
Para oatra nio faaeres 
Ja irás a degollar, 
£ ao rabo de meu carallo 
Te mandarei arrastrar.* 



CLARALOfOA »9 



Media Dodie era por hilo, 
Los gallot qiMrian canUr, 
Goode CAãTOê por amons 
No podia reposar : 
Dando moy grandes sospiros 
Qne el amor le hada dar, 
Porque amor de Glaranina 
No le deja sosegar. 
Coando Tino la "*f*^ynf 
Que qoeria alboraar. 
Salto dien de la cama 
Que pareoe nn gaTílan. 
Yoces dá por el palácio 
T empeiára de llamar : 
'LeranUos, mi camarero, 
Dadme vesUr y calaar.* 
Presto estaba el camariro 
Para habénelo de dar. 
Diárale ealiai do grana, 
Borcegnis de oordaban, 
Díárale jobOB de seda 
Aiorrado ao lanaoar. 
Diárale nn manto mny rteo 
Que no se poede apreciar, 
Treseientas piedras preciosAS 
Al rededor dei oollar, 
TMele na rieo eakallo 
Que oi la corte no hay sa par, 
Qne la silla con el freno 
Bian ralia nna tíndad, 
Gon tiesdMitos casenbelet 
Al rededor dei peiral; 



190 novAtcoafto 

Los ci«nlo enn d« oro, 

T los CNBto de meUJ, 

T lot deoto soD de pbu 

Por Um Moes ooneonUr. 

Ibace pan ol ptlaeio, 

Pin ol pálido i«il, 

YáUin&nUGittaÉMa 

AUi Ia foen a habltr: 

Tretcientae dsoias eoo rtla 

La ibao a acmptftir; 

Tao linda VA Glanniia, 

Que á todos baee paoir. 

Conde Claros ^ te <fllo 

Loego va i descabftlpu', 

De rodillas en el«ielo 

Le conmó de liihiar : 

>-*llanleQgaDiosA^ta 

-' Conde Clarot^Mm 

Las palabras'9i»tvoilg|Be 

Eran para eoaniMif : 

— * Conde QÊÊrm, «onAHltane, 

El senor de MekWvtn: 

I Como habcJifJMiinaWi wwniu 

Para coo more i I Witr r 

Respondiera ol wdij'€lwmi, 

Tal respoesta Ie)tae4<dir: 

—' Mejor ItfmB^, fldkMtt. 

Para coo daiMvktlgtr. 

Si 70 os^ 

Mi senora, ánd 

Quereria la otrai 

Coo 

Yslátodos 

Qoe me mandas«»qMlar.* 



T no os qnerals aiiter 3 



XSLJOUíLmML 

El qoe qníera aenrhr tfunas 

Ali lo sosle baMar, 

T ai rn^nr m las baUflai 

Bien 86 saben etenMr.* 

—'Si no Io €nm, MikMm, 

For las obna se-wrá : 

Siete anot loa patadas 

UUB ot siBpasé éfí ' 

Qaedenoehejrono 

IfldadiapoadoliDlivr.* 
— ' Siempre os prarfascai/Miia, 
De Ias damas ot burlar: 
Mas déjadiM'ir aios baftos, 
A los bafioB i baftar; 
Coando 70 ua battftfa 
Estoy á Toestro MMlar/ 
ReqModiáralrel botn^SMle, 
Tal respiMMa le-Aná dar: 
— 'Bienubedesvòs, 
Qoe 907 easadenwil ; 
Gaxa qoe teogoeo la' 
Nnnca la poedo^difar.' 
Tomirala por laaMO, 
T para on Teifdl^wtib, 
A la apnibra<de'iin'eipvés 
T debajo d»«n mal 

Mas fortuna <|ve «8 «dffvoa 
A placares 7« peiar 
Trajo alll on «aiakitfr, 
Que no debia pasor, 
Oeiras de noa podeoea 
Qoe rabiauMii^nilar; 
Vido estar ai oaaRkQlms 
GoD la infanla-á liodoiíalgwr: 
Kl conde coando<lo»^ido. 



5BI BOMANCBIRO 

EmpexólodBlUuDv: 
—' Ven aci 16, el cazador, 

Y Dios te gaarde de mal : 
De todo lo que as visto 
Qqo nos gnardes pnrídad ; 
Daréte mil marooft de orO| 

Y si mas qatsieree, mas ; 
Casarte he oon ona doncella 
Qoe era mi prima canal ; 
Darte be cn arras y eo dote 
La villa de MonUUan. 

De otra parte la infanta 
Mocho mas te paede dar; 
El cazador tio mentora 
No les qojso esendiar, 
Vase para los palácios 
Adonde el boen rey está: 
— < Mantéogate Dioe, el rey, 

Y á ta corona real : 
Una noera yo te traigo 
Dolorosa y de pesar: 

No te comple traer corona 
Ni en caballo ealialgar ; 
La corona de la caban 
Bien te la poedes qoitar. 
Si tal deshonra como esta 
La bnbieses do comportar, 
Qoe he hallado la infanta 
Goa Claros de Montalvan, 
Besándola y abraiándola 
En foeslro hoerto reaL' 



Kl rey con moy grande enoiio 
Mandd ai casador matar, 
Porqoe habia sido osado 
De tales nne? as llevar. 



CLARALQI0A W 



Mando llerar 
A prien, no de mgar; 
Mando annar qninienUM 
Que lo hayan de acom p a n a r 
Para qne pnodan ai eoade, 

Y k) hayan de tentar; 

Y mando eanar laa poertae. 
Lai paertas de la eindad. 

A las poerias de palácio 
Alli lã foeran á hallar : 
Preso Ueran ai boen coade 
Goa mocha rignrídad. 
Unos ffríllos á los pies 
Qne bieo pesan on qaÍBlal, 
Las esposas i las flsanos, 
QoB era doior de asirar. 
Una eadeoa i so eoello 
Que de hJSKfo em d eoUar ; 
Gabalfanie en ana nMria 
Por mas deshonraledar: 
Metiáronle en ma tom 
De moy gran eseoridad : 
Las Uares de la prúm 
El lej las qviso llefar, 
Perqoe sin Ikanôa s^yn 
Nadie le podiese hablar. 
Por él rogahaB los grandes 
âuyitos eo U eorte esttti 
Por éi rogaba (Nireras, 
Por él rogaba Boldan, 
T megan kw doce pana 
De Franda la aatoral. 

Y ias monjas do 8anl'Ana 
Contas de la Trinidad 
Llerabaa on cneU^o 
Para el ray poder rogar: 



MUMono 

CoBanuTadansMipo 

T m pnUdo 7 oantaMl, 
]|n4llT0sr «n BFMidB fli^o 

AntMydeiMyMOJido, 
Sot grandes mando Haatr : 
Gaudo y><l0t loboijaiMi 
Empeióletdo^teblar: 
^'Ainigot é Mjos miM, 
A lo qae os hks llimar, 
Ta sabei» ^K el eondo Obiw, 
El seSor de Moaialtan, 
Do nino 70 lehe criado 
HasUponíll»«6dtd, 
T le he gaanMom tien», 
Qoe >a padre le ta»á liar» 
El que morir no debiera, 
Reynaldos )M«fooUivao; 
T por baccIlcMMS gMBle, 
DelomioleifB&sodar. 
Hicele gobenuriar 
DemireíQonMarái: 
El por darme faiailfeDB 
Mirad en qae AvAtonr, 
Que qniso fofaiff^la 
HijamtanaUntl. 
Horabre qa a tota l 
l Qoé senleoaifrle bao-dei d«r^ 
Todos dioen i ancvaa 
Qoe lo baTan d»tieBOllar ; 
T asi la senteMiaMdttIa, 
El biMD rey la AMé^inaar. 
L'aiiobispoK9i^«Mo<%iepa 
Albaenra7fiie'Ail«Mar, 
Pidiéodolo por laaiaaá 
Lioeneia le qaisM dar 



GLARAdLOnMi 

Para ir i ver ai eonde 

Y Sn moerta daBBDoiar : 

— 'Plieame' dijo el boan ny, 
'Plieeme de voiuDtad ; 
Mas ooD ésUcoodidoD, 
Que lolo habeia de andar 
Coo aqaeate pafeciee 
Que le Ta á acoiB|iajSar.' 
Coando Tido estar ai coodi 
En SQ prisioD y pesar. 
Las palabras qaele dioe 
Dolor eran de escachar : 
— ' Pésamei de tós, el ooiula» 
Cnanto me poede pesar, 
Qoe los yerros por amoras 
Dignos Bon.de perdonar. 
La desastrada caída 
De Tuestra snerte y Tenlara, 

Y la nneva á mi veoida, 
Sabed que hace mi Tídb 
Mas tristetioe Ia iristoi»; 
De forma qoe no sé donde 
Paeda yo placer cobrar. 

Y como á vos no se esconde» 
De TOS me pesa, boen conde, 
Porqae asi os qoieren matar. 
Los como Tós esforsados. 
Para las adversidades 

Han de estir apaicjados. 
Tanto á sofrir los coidados, 
Como Ias prosperidades : 
Paes cl primero oo l*atst«6 
Vencido por boen amar. 
No temais angustias tristes, 
Qoe los yerros qoe becistes 
Dig.jos son de porJomtr. 



m BOMARCBIBO 

Ptr TÓs be rogado ai rvy, 
ftaK» mo qaiio Mewhar, 
AnUs ha dado tenteoeia 
^ 01 hayan do dofotUr; 

Y Mio d^ biOB, lObriBO, 

QM •• d^áiodfli doassar, 
Qm «i quo las mogorec ama 
A tal galardoo lo daa, 
Qdo haya do moiir por oilat 
1 fn loa eirodot panar.' 
ftespoBdid presto el Ihmo condo 
Gon orftaono sSngalar: 
— 'Gallodos por Dioa, mi tio. 
No mo qowaii Miojar, 
Qnion DO ama las mogorss 
No ia pQodo hombre liamar; 
Has la Tida qoo 70 te^o 
Por ollas qamo gutar.' 
Rospondióle ol pagecieo, 
Tal reipnesta lo flw i dar: 
—' Condo, bian areotarado 
Siompro os debon de liamar, 
Pbrqoo mnerle Uo honrada 
Por TÓS habia do pasar : 
Mas onTidia é de tos, eondo, 
Qoa maneilla ni pesar: 
Mas qoisiera ser vós, conde, 
Qoe ol rej os manda malar, 
Porqoe moerte tan honrada 
Por mi bnblese do pasar. 
Uama jerro la fortuna 
Qnifln no la sabe goiar, 
Qoe lâ priesa dei eadahalso 
Vós, conde, la dobeis dar ; 
Si no os dada Ia sentencia 
Vós Ia debois do firmar.' 



CLABAURDA »L 

Kl conde coando mIo oycn 
Tal mpiMsta lafoBi dar: 
— ' Por DifM te mego, pafe, 
Bb aaor de caridad, 
Qna Taias i la prínceta 
De Bi parte á le rogar 
Qoe nplieo i so allexa 
Qoe ella ae ulga i mirar, 
Qoe oi la hora de mi maerte 
To Ia poeda contemplar : 
Qm ú mifojoft la ven 
Mi alma ao ha de penar.' 
Ta le parte el pegedco. 
Ta 80 parte, ya le ts, 
LIoraado de los mí ojos 
Qoe qnería revanlar. 
Topara eon la prineesa, 
Bien oireie lo qae diri: 
—'Agora ee tiempo, lenora, 
Qoe hajais de rensediar, 
Qoe á mestro querido d conde 
Lo lletraa i degollar/ 
La íníhnia qoe esto ojera 
fio tierra moeria se cae; 
Damas, doe&as y doneeUas 
Ko la paeden retomar, 
llasta qoe Itegó sa aya 
La qoe Ia foe d criar: 
— '^Qoe es aqoesto, la infoota ? 
Aqoesto ^qoé poede estará' 
— MAy de mi triste mesqoioa, 
Qoe no sé qoé poede estar, 
Qoe se ai coade me mataii 
Yo habré de desesperar/ 
— *Sa1iésedes tós, mi hija, 
Saliésodeslo á qoitar.' 



BOIftUIGUBa 

Ya se paru la infaoU, 
Ya te parte, ya lOTa: 
Faese para el mercado 
DoDdetohaodeiacar: 
Vido eitar el cadaliaUo 
En qoe lo hao de degollar; 
Damaa, doenas y doncellat 
Qae lo saleo á ourar. 
Víó tenir la geote dannaa 
Qqo lo tram i matar, 
Los pregoneros delaate 
Por sn yerro pnblicaf . 
Gon el poder de la «enie 
Ella Qo podia pasar. 
— 'Apartaos, gente d^amai, 
Todos me baced lagar» 
Si no ... por vida dei rey 
A todos mando raalark* 
La gente qoe la coaoce 
Luego le hacun lugar. 
Hasta que llegó ai ooodo 

Y le empezára de hablar: 

— < £sforsá, esfisrxá, el bsen conde 

Y no qaerais desmayar, 

Qae aanque yo pierda la vida, 
La Tuestra se ha de salvar. 
£1 algoacil qae esto oyera 
Comenxó de caminar ; 
Vaso para los palácios 
Adonde cl boen rey osli: 
— 'Cabalgna la vnestra alteza 
A priesa, no de vagar, 
Qae salida es la inlanta 
Para el condo nos quitar: 
Los uDos manda que maten, 

Y los otros ahorcar ; 



CLARALIRDA S39 

SI mestra altaia no acorre* 
Yo DO poedo remediar. ' 
El boeo rey, de qoe eeto oyera, 
CooMDtó de caminar, 
Y foeie para el mercado 
Adoode el conde Itae i bailar : 

— ';Qaé CS aquetto la infanta? 
Aqoesto^ qaé poede Mtar? 

^ La MDlenria qoe jo be dado 
Vós la quereis reTocar? 
Yo JQro por mi corona. 
For mi corona roal, 
Qoe st heredcro tatiete 
Qoe me bnbicso de heredar, 
Qoe i TOS y ai conde Claros 
Víroe os baria qoemar. ' 

— *Oae rós me mateis, mi padre, 
May bien me podeis matar; 
Mas snplifo i vnestra alteia 
Qoe se qniera él acordar 

De los servicios pasados 
De Reynaldos de Mòntalran, 
Qoe morió cn las batalias 
Por to corona ensahar: 
Por los serrieios dd padre 
Lo debcs galardooar; 
Por mal ooerer de traidores 
Vós no lo débeis matar, 
Qoe so moerte será cansa 
Qoo me bayais de disfamar. 
Mu soplíeo á voestra aiteu 
Qoe se qniera coosejar, 
Qne los reys eon ftirar 
Ko deben de leiíteBeiar; 
Porqoe el condo es de linage 
Del rehio mas principal, 

VOL. U *• 



KO HOSANCEIRO 

Porque cl en de los dore 
Oue á ta mesa comes pao ; 
Sus amigos j paríentes 
Todos to qucriiin mal : 
Keroheros ban cn guerra, 
Los reynos se porderán. * 
£1 baen rcy, cuaodo esto oyen. 
Gomenxara á demandar : 
— ' Consejo os pido, los mfos, 
Qne me querais consejar. * 
Luego todos se apartaron 
Por su consejo tomar: 
£1 consejo qne le dteron 
Qao lo haya de perdonar, 
Por quitar males j bn^as, 
Y la princesa afamar. 
Todos firman el perdon, 
El bucn rey lo fue á firmar; 
Tambien lo aconscjaron, 
Faeronle consejo i dar, 
Paes la infanta qnería ai conda, 
Gon él haja de casar. 
Ya desfierran ai bnen conde, 
Ya le mandan desferrar. 
Descabalga de ta mula 
El anobispo á desposar: 
£1 lomólos delas manos, 
Así los bubo de juntar. 
Los enojos j pesares 
Placeres se ban de tomar *. 



I OehMi, «BORO DK ftmuxam, pi«. «4: Am, aflMHno mvuu W*' 

1851, um. I, pig. «18. ITesU nliin» w q H wJii ln sdkcsto, «pi •« a^n m àt^ ; 

d* Madrid quando etioa eorrigindo •• puAn» da fTwanU dviw *•■ ■*!* «n*^ J 

o testo por um {ragmonto tirado do CMvaoeano gboal de 1511. lite 4 w il** / 

romanees qtia flearam imaortalisadoí pdu dtejAM t aUoSai dt CmmíM»^^ j 
KfBt, eap. 9, part. S. 



XIV 

DOH BELTBÃO 



^HQ BOnANCElRO 

Porque dl era de los doce 
Que á ta mesa coineD pau ; 
Sos amigos j paríeotes 
Todos to qocrian mal : 
Revolveros lian en guerra, 
Los r«yiios se porderán. * 
El baen rey, cuando esto oyer». 
Comonzara á demandar: 
— * Consejo os pido, los ralos, 
Qae me querais coasejar.* 
Lnego todos se apartaron 
por su oonsejo tomar: 
El consejo que le dieroD 
Que lo haya de perdonar, 
Por quitar males y bregas, 
Y la prioccsa afamar. 
Todos firman d perdon, 
£1 buen rey lo fae á firmar; 
TambipD lo aconsejaron, 
Fueronle consejo i dar, 
Paes la infanta qneria ai conde, 
Gon ól haya de casar. 
Ya desflerran ai boen conde, 
Ya le mandan desforrar. 
Descabalga de fa mula 
£1 arzobispo á desposar: 
El lomólos de las manos, 
Asi los hubo de juntar. 
Los enojos y pesares 
Placeres se han de tomar *. 




1851, tom. I, p««. «18. VvU ultin* nM »** *» «Mk«9toi ÍP» •• 

d* Madrid quando etlon eoirioiíida •• fKÒmê da 

O testo per om fragmMto tirmlo do CAitaonno csouL de 1511. fiMe tf 

nvuM*» que flcantin imnortalisad» pelas citaflM • allnafiM dt ~ 

jon^ eap. 9, part. ft. 



XIV 



DOH BBLTaiO 



À 



N3o é das menos interessantespara a his- 
toria da poesia popular na Península, esta lic- 
ção portugueza do romance de ' Dom Beltrão ', 
que na castelhana se diz 'De la batalla de Ron- 
cesvalles.' 

A sua origem parece ter sido provençal ou 
navarra ; nós decerto o houvemos pelos nos* 
SOS mais próximos vizinhos, os castelhanos. 
Em Portugal é elle arraiano, e não anda senão 
pelos extremos da Beira e Tras-os-montes. 

Com ser este um dos mais bel los que tem 
o romanceiro de Castella, eu acho-o mais bo- 
nito em portuguez, mais repassado d'aquelU 
melancliolia e sensibilidade que faz o chara- 
cter da poesia do nosso dialecto, e que prin- 



2ii ROMAMCBIBO 

cipalmenle o distiDgue dos outros todos de 
Hespanha. 

O cavallo moribundo que se levanta deante 
do pae de seu senhor, para se justificar de seu 
procedimento na batalha, de como fez todo 
para o salvar — é digno da Hiada e nao des- 
diz do mais grandioso de nenhuma poesia pri- 
mitiva. 

Para que melhor se julgue, ponho em ap- 
pendice a licçâo eafttetbanar. 

Variante» portugueza» bSo cbeganan á mi» 
nha m9o, e este mico texto me vaa deTcas- 
os-montes. 

A novissima edição do 'rouancero grbk- 
ral' do Sr. DuranS obra de 9inimi<> gosto e 
trabalho, julga pertencer esta romance ao xA- 
timo terço do século xv. 



' Em dois vol. gnodes, Madrid, 1949^1851. 



DOM BELTAAO 



— 'Quedos, quedos, cavalleixosy 
Que elrei os manda contar 1 ' 
Contaram e recontarão^ 
Só nm lhe vinha a faltar : 
Era esse Dom Beltrão^ 
Tam forte no batalhar; 
Nunca a acharam de menos 
Senão n^aqueUe contar. 
Senão ao passar do rio 
Nos pwtos 1 do mal passar. 
Deitam sortes á ventura 
A qual o havia de ir buscar : 



• Portos 00 passagens dos Pyrcneas, e em geral toda a passa- 
tre altas cordilheiras. 



SM BOM ANGSreO 

Qae ao partir fixeram todos 
Preito homenagem no altar, 
O que na guerra nmrresse 
Dentro em França se interrar. 
Sette veies deitam sortes 
A quem n*o bade ir basear; 
Todas sette lhe cahiram 
Ao bom velho de seu pae. 
Volta rédeas ao cavallo, 
Sem mais dizer nem fallar. . • 
Que lh*a sorte nao cabíra. 
Nunca elle havia fiear. 
Triste e s6 se foi andando. 
Não cessava de chorar; 
De dia vae pelos montes^ 
De noite vai pelo vai ; 
Aos pastores perguntando 
Se viram alli passar 
Cavalleiro de armas brancas. 
Seu cavallo tremedal K 
—'Cavalleiro de armas brancas. 
Seu cavallo tremedal, 
Por esta ribeira fora 
Ninguém não n*o viu passar.* 
Vai andando, vai andando. 
Sem nunca desanimar. 
Chega áquella mortandade 

-GiTallo tremedal, o que? 



DOM BBLTRAO 147 

Donde fora Roneesval : 
Os braços ja tem eançados 
De tanto morto virar; 
Yiu a todos os franceses, 
Dom Beltrao não pôde achar. 
Yolta atraz o velho triste, 
Ydtou por um areal, 
Tia estar um perro moiro 
Em um adarve a velar : 
— 'Por Deus te rogo, bom moiro, 
Me digas sem me inganar, 
Cavalleiro de armas brancas 
Se o viste porqui passar. 
Hontem á noite seria, 
Horas de o gallo cantar. 
Se entre vós está captivo, 
A oiro o hei de pesar.' 
—'Esse cavalleiro, amigo, 
Dlz-me ta que signaes traz.* 
— 'Brancas sao as suas armas, 
O cavallo tremedal. 
Na ponta de sua lança 
Levava um branco sendal, 
Que lb'o bordou sua dama 
Bordado a ponto real.' 
— *Esse cavalleiro, amigo, 
Morto está n*esse pragal, 
Com as pernas dentro d'agua, 
O corpo no areal. 



Selte Feridas nn pnilo 

A qual fen nrais moital : 

Por utiia lhe pnlra o sol) 

Por oulni lho entra o luar. 

Pela mais pequena d'6l)ts 

Um gavião a voar.' 

— '>>ão lórno niipa a meu Olho, 

>Vm aos mojraa de o imitar; 

Ti-roo a culpa ao aeu cavallo 

De o TÕú saber relírar.' 

Milagre I quem tnJ diria. 

Quem tal pofkrã eonuri 

O ravallo melo meflo 

Alli PP pôs a rallari 

— ' Não me lorne» essa etdpa. 

Que m'a não podes tornar : 

Três vezes o rnilrci, 

Três vezes para o salvar ; 

Três me deu de c«pora s rédea 

Co'a sanha da pelqar. 

Três vezes me apertoa eatiu. 

Me alargou o peitoral . . . 

A terceira Tui a terra 

D 'esta ferida mortaL' 



DOM MLTila 2(t 

ucçlo casi:bi,hjí]va 

En Io8 campos de AIrenton 
Mataran i Dod fi«ltnuii, 
Nooca Io eeharoo mnios 
Hasta los paertot pasar. 
Siete Teces echan socrtet 
Qoien Io rol verá à boicar. 
Todas siete le eopienm 
AI boen tícjo de ao padn. 
Las três fueroD por malieia^ 

Y las coatro coa maldad» 
Vaélve riendas ai catulio, 

Y TuélTosBlo á testar, 
Be aoclM pw el canino» 
De dja por el jaral; 

Por la mataata t» el Wfljo, 
Por la mataota adolanta, 
Los braaos Ileva <»"wdot 
De los moertos rodnur : 
No hallaba ai qua boacaba, 
Ni menos la sa senal. 
Vido todos lo» francaMs 
Y DO Tido á Doa Beltran : 
Maldiciondo iba el vioo, 
Maldicieodo iba el paa 
(El que mrnám 1m moraa, 
Qas no el de la cristiaiidad): 
Maldicieodo iba d irbol 
Qoe solo en el campo oaaee, 
Qae todas las ares dei cMo 
Allí se vienen i aseolar. 
Que de rama ni de boja 
No lo dojabn gosar : 
Maldicieodo iba §1 eaballtro 



!<i>lirai!(|ukiiii!la«alcig: 
Ila1<t>ci>-n<lii iba la nofor 
Qaa liin wlo un bija pan!. 
8i morlgni M la ntlui 
No lime qaim la imgar. 
A ti rnlrailji ii un poMa 
Sal lendo de UB amul, 
Viilo « «lo nUr an ■an 
Qm vntiba ea na alartc ; 
llibl<tlairn:ilinnbi>, 
Cnmii tifiel itno Irim I* ube: 
~ ■ Per Dli<9 lu rtato, A mora, 
Ui dl|u ona tcrdMi. 
(^ballera dí iraiai blatm» 
Si In vltlr aci paur. 
Y ti In lo UdiKi pnSM 
A oro !o pMOfiii ; 



DidM [A qu^ Míat tnc' 

— 'Blucai (mat wn 1u «07» 
Y ri ubsllo a abua. 

Kb vi «rríllo dflrndiQ 
El Knia m» ariiil, 
Qdi> aiando nlAo paqnmo 
Salahlianngxilaa.- 

— '£■!« (iballcro. anígD, 



DCiM BELTRÃO 251 



f(<' ^ 



T el caerpo on el arcnal, 

Siete lanzadas teoia 

Desde el hombro ai ealcanal» í 

Y otras tanlas tu caballo ^ 

Desde Ia cincha ai prelal. f' 

No ie des colpa ai caballo ^ 

Que 00 80 la poedci dar ; 

Siete veces lo lacó 

SÍD herída y sin senal, 

T obas tantas lo volvíó 

Com gaoa de polear *. * 



• Jkuwm, Kouacmo ccsoui, iStO^I, kw. i. (mq. 163. — Kio citarei miit 
eolkecfo ca»rtlMim «i<s«lc qw posuo é<ta, • mait oomplcu e criciuidâ àê 



I 



IV 

DOU GAI7BIE03 



Eisaqui uma Yei'dadeira preciosidade lilte- 
rarla, a edição ou IJcçio portugiteza de um 
dos ouis celebrados romances da nossa peoÍQ- 
suta, 'Dom Gaifeiros.' 

Tinba-o incontrado na collecção maouscri- 
pUt do cavalheiro de Oliveira, mas coaresso 
que fiz injúria á sua memoria, suppondo, sem 
mais eiame, que era pia fraude do bom do 
cavalbeiro, e que elle não tinha feilo mais do 
que traduzir dos romanceiros castelhanos o 
que lá tinha achado em muito boa lettra re- 
donda. N3oé assim; julguei de leve e julguei 
falso; o romance é corrente na tradição de 
Tras-os-mootes. Tenbo em minha mão cópias 
aatbénlicas do cantar do povo feitas por pes- 
soas fidedignas e intelligentes d'aquella pro- 
vei- it *" 



Sit BOHAKCBTBO 

vincia. As cópias não diffeiem no 
Iodas são tnais cúrias do que as liq 
lhanas dos romanceiros, mas iietilii 
gue liUendmenle: e o mesmo faz 
llieiro de Oliveira, <jue é todavia a 
pleta das poilugupzas. 

Appurei por todas eílas o testo i 
o dou, recorrendo, nas frequentes 
des e dúvidas em que me adiei, a 
telliana tal como a dá Duran, qui 
té-la copiado, não do ' Cancioueir 
bers ', nem du ' Floresta de vários, 
um códice muito antigo que tinh 
Esta cópia ', diz elle e é certo, é a 
quadra com a descripçíio de mestn 
' Dom Quixote', u'aqueíle celebradf 
da segunda parle que para sempre ( 
mortal este romance. 

Tliomaz Rodd, o Iraductor ingli 
mances liespanhoes sobre Carlos-Mi 



* Ml oiniim. paru >, cagi. M, 



L, 1»»-3I. Ici 



DOM GAIFfilROS 2^7 

a este respeito que não é capítulo aqueiie que 
se cite, senão que se deve ler e estudar na 
sua integra. E comeOeíto elle é o melhor 
argumento e o melhor commentario do ro- 
mance que pôde fazer-se. Transcrevé-lo-hei 
todo n'esta parte. 

Miren mesaf mercedes Umbieii como el emperador ruelre las 
espaldas, j deja despecfaado á Doo Gaiferos, el coal 7a veo como 
arroja inipadeDto de Ia cólera lejos de si el iablero y las (ablas, j 
pida apríesa las annas, j i Dod Roldão so primo píde preslada su 
espada duríodaoa; j como Doo Roldão 00 se la quiero prestar, ollre- 
ciéndoltf so compaõia eo la difícil empresa eo qoe se pooe; pêro el 
valeroso enojado 00 U qsiere aceptar; aotea dice qoe él solo es 
bastante para sacar i so esposa, si bieo estoTiese metida eo el mas 
boodo centro de la tierra, j coo esto se eotra á armar para po- 
oerse loc^ eo camioo. Voelvan Toesas mercedes los ojos á aqoella 
lurre que alli parece, que se presopooc que es ooa de las tones 
dei aicáiar de Zaragoia, que abora llamao la Aljaroria, 7 aqoella 
dama qoe ra aqoel balcoo parece vestida i lo moro es la sio par 
llelisendra, qoe desde alli mochas Tezes se pooia á mirar el camioe 
de Franci«i, 7 poesta la imajioadoo eo Paris 7 eo so esposo, se con- 
solaba eo so caotivcrio. Mireo tambíeo 00 oooro caso qoe abora 
soeede, qoizá no ústo jamis. 4 No veo aqoelle oioro, qoe callaa- 
dioo y pasito á paso, poesto el dedo eo la boca se Uega por las es- 
paldas de Metisendraf Pões oiirai como la dá oo beio eo mitad de 
los lábios, y la priesa qoe ella ae da á escopir y i limpiárselos coo 
la blaoca oiaoga de so caoúsa, y cooH) se laoieota, y se arraoca de 
pesar sus bermoeos cabellos, conio li ellos tovierao la colpa dei 
maleficio. Mino tambiea eooio aqoel grare moro qoe está eo aqoel- 
Ws corredores, es él rey Marsilio de SaosoeSa, el coal por babcr 
Tisto la iosoleocia dei nwro, poesto qoe era 00 parieote y grão pri- 
vado soyo, le oiaodó loego preoder, y qoe le deo docícotos aiotes, 



jR» ROMATICSmO 

llerindol« por las callei MOttombnula» de U dwlad ooa áuUêà^ 
m delanlc y enTaramíeoto detrás : j tet aqvi doode talen á ejeca» 
tar la sentraeia, aua bien apenas no habiendo sido poesU «n <g»- 
eiidon la culpa, porque entre laoros ne bay Irastado i la pa^te, ■ 
ú, proeba y o«t4.'se, como entre nosolres. 

Nino, nino, dijo eon toi alta i esta uion Don Qi^jote, eegdtd 
«vestra historia linea recta, y no os metais m las curas é trasver- 
«ales, quo para sacar nna Tcrdad cn limpio, mcnester soa mechas 
prnebas y repruebas. Tambien dijo maeee Pedro desde dentro : ma- 
chacho, no te metas en dibojos, sino bas lo qne eso seõor te nunda, 
^qne será Io nas acertado: sigoe ti canto Dano, y no te Betes eo 
'Contrapontos, qne se saelcn qoebrar de sotllee. 

To k) baré asf, respondid el mnchacbo, y pmigiiió diciendo: 
Esta flgnra qne aqni parece á cabaHo, cobierla oon ona ea|»a 
gaseona, es la mísma de Don Gaiferes, á qoien so esposa esperaba, 
j ya vcngada dei alrerímiento dei enamorado moro, eon mqor j 
nas soc«gado eemblanie se ha paesto á loi mbadores de la torre, 
y habla eon so esposo, ereyendo qne es algim passtfero, eon qnin 
pasò todas aqndlas razoncs y colóquios de aqael romance, qne 

Cifcnlln^ fi I Fnincia idat, 
Por GtiferM pr«oiiotad. 

Las enalos no digo yo ahort, porque de la prolijidnd se soeie cn- 
jendrar el fastidlo: basta ver como Don Gaiferos se discabre, y qub 
por los ademanes alegres qne Melisendra haec*, se nos da á entoi- 
der qne ella 1e ha cooocido, y mas ahora qne vemss se deseaelga 
dei baloon para pon?rse en las ancas dei caballo de sn boca eepof». 
Mas I ay sin v<>ntnra f qne se le ba asido ona ponta dei feldellm, de 
•ano de los hierros dd balcon, y está pendíente en el airs sm poder 
llegar ai soelo. Pêro veis como el piadoso eielo eoeorre en lai 
mayores necesidades, pões llega I>on Gaífsros, y vn mirar ú se 
rasgará ó no el rico feldellm, ase de ella, y mal m grado la hiM 
bajar ai soelo, y loego de vn brinco la pane sobre las ancas de st 
caballo á Itorcajadas cMno hombre y la manda qne se lenga làer> 
temente y le odie los bratos por las espaldai, de modo qne los crve 



DOM GAiFEIROS S^»^ 

ca el pwhov p<kr qp« oo se caiga, á caosa que no estala la seSora^ 
MelÍMBdra acostuoibrada á semojaolos cabali^rias. Veis tambien 
coBio Wi rdiodiM dd eabalto dao ianales qoe va contcnlo coq {» 
vaJíflBta j boiDOM eaiga que liara en sa KÕor y en su scnora. Vei» 
eoiM Tuelvea lat espaldas y salco de la ciodad, j alegres y regoci* 
jadM tonan d« Puia la \ia. Vais en pai» ò par »in par de vorda* 
deroi uDaikte»; Ungoeis i aalvamiento á voesa deseada pátria síxk 
que la fortona pooga Mtorbo en rnestro feliz viago : los ojos da 
>«estro6 «mJgM y paríenles oi vean gosar en paz tranquila lo» 
dias (qs« los de Neilor sean) qae oa quedan de la vida. 

Aqei aJió otn vei la toz bumo Pedro, y d^o: llaoexa, mucba* 
ebo, no te «Dcombrea, que toda afectacioo es mala. Ho respondia 
Bâda ei iotéiprele, antes prosignió diciendo: no fallaron algunos 
odMos ojos, que le suelco ver todo, que no viesen la bnjada y U 
sabida de Melisendi^, de qnien dieron noticia & el roy Marsiiio, et 
coal nandó Inego tocar ai arma; y mircn con qne pricsa, qie ya 
Ia ciodad se hunde con el son de Ias campanas, qne en todas las tor» 
res de las mezqoitas saenau. 

Eso DÓ, dijo á esta sazon Don Qnijote; en esto de Ias campanas- 
anda moy impróprio maesD Pedro, porqoe entre moros no se nsaik 
campanas, sino atabales, y un jénero de dulsainas qoe parecen 
nnestras chirimias; y esto do sonar campanas en Sansuena, stn 
doda que es on gran disparate. Lo eoal oido por maese Pedro, 
cesó el tocar, y dijo; no mire Tuesa merced en ninarias, senor 
Boa Qaijole, ni qoicra Ilerar las cous tan por el cabo, qoe no a» 
le baile f Mo se representan por abi casi de ordinário mil comedias 
llenas de mil impropriedades y disparates y coo todo eso, corren 
fe^ziaimamenie so carrera, y se esenchan no solo con aplauso, úaiy 
con adffliracion y todo? Prosigne, mnchacfao, y deja decir, qne 
como yo Ume mi talego, si quiera represente mas impropriedades, 
qne tieoe átomos el sol. Asi es la verdad, replico Don Quijote; y el 
mucfaacho dijo : — 

Mireo cuanta y cnán luzida caballeria sale de Ia ciudad en se* 
guimiento de los dos católicos amantes, coantas trompetas que sue* 
non, coantas dulsainas que tocan, y cnantos atabales y tambores 
que retombao : témome que los ban alcanzar, y los ban do volver 



w» noMUicinio 

tuim l lintiBdrsn aiiimn uballn. qnrvriíir 
cUcala. Vimilo y njnin pon tanla iniRiDu j 
Bm Quijolc, piraclalv Mr biea dar lyndi 1 Um < 
mim4nw m pi(, n iM ilti dijo: sa cobmdIÍi 
ili» jta mi prCMiKu n k bafi laperdwrU i U 
mo r * Ud Ureijilo «oamonulD rumo Doa G*i< 
mil ■ueidj Fuialli, no k >l|ili w pcnigiii; ti ao, 
I* ImIuIIii; t 'tickndo ; birisnlo, deunnuâ li i 
btítuo w iniw juuo ai miUo j om mlnadi j n 
raimuij 1 Ihin^r nckilUd» mbre U til«nra morii 
i mui, dcicabuindo ji atn», rilropundu i nU 
•lool, f (Blrcdlrai nuchoi Iir6 naallibain Ul, q» 
00 M abij.i, «« rnmje y ifratlpa, 1« onmnura 1i 
hi'ilidBd ijup ti fnen lípchi de mau da mitapan. 

A nossa licção porlugueza teu 
characteres fie ser do século xvi. 




DOM GAIFEmOS 



Sentado está Dom Gaifeiros 
Lá em palácio real, 
Assentado ao taboleiro 
Para as tabolas jogar. 
Os dados tinha na mão. 
Que ja os ia deitar, 
Senão quando vem seu tio 
Que lhe entra a pelejar: 
—'Para isso es, Gaifeiros, 
Para os dados arrojar; 
Não para ir tomar damas, 
. Com a moirísma jogar. 
Tua esposa lá teem moiros, 
Não a sabes ir buscar i : 
Outrem fora seu marido, 
Ja lá não havia estar.* 

* NSo es para a ir basear— nAtH»s*iioi«ns. 




P:il)ivni? não eram dillas. 
Os dadus vão pi-lo ar- .. 
A qUR não fura d respeito» 
liíí pessoa e do logar, 
Tavolas e lavoleiru 
Tudo ròra espciiaçjir. 
A iteu tio. Dom Roldão, 
Tni retiposU lhe rui diir: 
— 'Setic annos a busquei, sellc. 
Sem a pnder inconirar; 
Os qusMú por (eira Hrme. 
Os lies sdbre aguas do mar*. 
AnJei por nionles e valies, 
Sem dormir, nem dcseançar; 
O comer, da carne ema, 
Mo satiguo a snle maltar. 
Sangue veitiam ibcds pés 
Cnn(;ado3 de lanio andar; 
E as seuc annos cumpridos 
Sem a podír ineOHinir. 
Agora a f^aber soa vindo* 
Que a S.insonba foi parar; 
E eu sem armas nem eavallu 
Com (jue a possa ir busear: 



DOU CArFEIROé: 

Qae i in«a primo Montczinhoíi 
Ha poaco os foi empreitar 
Para essa fesia de Hangria 
Onde se foi a jn!>lar^. 
Mercê vos peço, meu lio, 
Se in'a vós quiíereis dar, 
Vossas armas e eavallo 
Qoe iii'a! queirae? imprcstar».' 
— ' Sette annos são cumpridos. 
Bem q'os deves Ae coninr, 
Que Helisendra é capliva 
E a vida leva á chorar. 
E sempre le vi rom armas, 
Com caratloe a adestrar; 
Agora qtte estás sem dies 
É que a queres ir buscar? 
Minhas armas não lo impresto 
Que as não posso desarmar ; 
Meu eavallo bem vezeiro', 
Não o quero mal veiar.' 
— 'As vossas armas, meu 1», 
Que m'as não queirais negar. 
A minha esposa eapliva 
Como a heide eo ir basear?' 



•Oadefolitomeir—ii 
* A BÚnbs npAu catre a 
Ea ■ qoaro ir buiur. - 



nOWANCBIItO 

— ' Em San' Juào dt- Lalrâo 
Fiijiiraiiienio no aJlar, 
IK' a iiiiiguem uào presUr anni 
Que mas faca ací ovardar '.' 

Dom Gaireiros, que islo ouviu, 
A espada foi a liriír, 
Sallam-lhe os olLos da cara 
Dp merencório a fallar: 
— 'Bem parece, Dora Roldão, 
Bfm parece, mal peiari 
O muilo amor que me tendes 
Para assim me affrontar. 
Uandae-mo dizer por outrem 
Que me las possa pagar, 
Essas palavras, meu lio. 
Que vos não quero tragar.' 
Accode alli Dom Guarioo, 
O almirante do mar, 
Durandarle e 01 i veiros 
Que os vêem a separar; 
Com oulros muilos dos idte 
Que alli succedeu de estar. 
Dom Roldão muilo 30i'eno 
Assim Ibe Toi a fallar: 
—'Bem parece, Dom Gaifeiros, 
Bem se deixa de mosii-ar, 



DOH GAIFEieiOS 

Qae a Talla de anãos, «íobrinho. 

Em Indo vos faz tiltar. 

Aquelle que mais Ic quer. 

Esse te hade castigar : 

Fdras tu mau cavallciro, 

NnQca te eu dísaera lai, 

Porque sei que es bom, i'o disse. . 

E agora, armar e í^ellart 

Heu cavallo e minhas armas 

Abi estão a leu mandar 

E mais, terás o meu corpo " 

Para te ir accompanhar.' 

— 'Hercds, meu lio, beide ir só ", 

SA, tenbo de a ir buscar. 

Venham anuas e cavallo 

Que ja me quero marchar. 

De covarde a mim! ninpuem 

Nonca me bade appellídar.' 

Dom Roldão a soa espada 

Atli Ibe foi intregar : 

— 'Pois só queres ir, sobrinho. 

Esta te bade secompanbar. 

Heu cavallo é generoso, 

Não o queiras sopear; 



omraeerpo 



qMN ir, mm Uo, tá, 

ra BMlbiir > tirar. ~- na-u-noy 



DÁ-lhe mais reilea que f^ora, 
NVIIe le podes liar.' 

Andando vai Oom Guir«ir<Ki. 
Andando de booi andar. 
Por essas iPiras de Christo. 
Té a moirama cliepar. 
la tmiL' a pensalivo, 
Cheio de grande peinr: 
Meiisendra etn màos de mniro: 
Como lh*a hade satvar í- ■' 
Pára ás porias de Saosonha'' 
Sem s:d>er como hade entrar: 
Estando n'esie cuidado 
As portas se abrem de par. 
El rei com seus cavai leiros 
Sahia ao eatnpo a Tnlfar: 
Mui gallans iam de (esta. 
Hui ledos a caval):ar ■>. 
Furlou-lhe as vollas Gaífeiros, 
Pelas portas foi enlrar; 
Deu ecim um fhrístào raplivo 
(Jiie allí andava a trabalhar: 

— 'Por Deus te pci;o, caplivu. 
E olle te venha livrar! 



" Stltmlia ilii lenipip i lie-la dt 



nnii GAIFBrROS 

Assim me di^ag se ouviste 

íTesla terra anomear 

A uma dama chiistan, 

Senbora de alto solar. 

Que anda caiHiva caire moiros 

E a vida leva a chorar.' 

— 'Deus le salve, cavalleiro, 

Elle le veuh» ajudar! 

E assim me dé oulra vida, 

Que ^sta se vai a chorar. 

Pelos signaes ijue me dfele, 

Ja bem te posso afliruiar 

One a dama que andas buscando 

Em palácio deve eslar. 

Toma essa rua direita 

Que leva ao paço real ; 

Lá verás pelas jaueíias '* 

Muitas christans a Tulgar.' 

Tomou a ma direita 

Qne ao palácio vai dar. 

Alçou OA olhos ao alio, 

Helisendra viu estar, 

Seulada á^uella janella 

Tam liiirejiue a seu pousar. 

Que as outras om redor d'ella 

Hão n'as sentia folgar. 



Rua ab^ixu. rua aciniu 
Gaifeiros a passaiar. 
— 'Oh que lioda cavaMro. 
De Um gentil cavalgar "!' 
— ' Mcllior sou jogando às Jan 
Com moiros a bakJhar! ' 
Mtlisendra que Jslo ouviu 
(^ineçava de chorar: 
Não ja que ella o conheccíse, 
Nem tal it podia azar. 
Tatu iTuliuito de aruias branca 
Tatn dilfrente no Irajnr: 
Mas por ver um cavalteiro 
Que lhe fazia lembrar 
AtiUi'tles (lõie de França, 
Aquella terra sem par. 
As judias e os torneios 
Que Mi suhiam de armar 
Quando por sua liolleza 
Andavam a disputar. 
Com voz chorosa o sentida 
Começou de o chamar : 
— 'Cavalleiro, se a França id( 



mar eo cavalleiro 
. liado puMiar 1 , 
M>all«ra é tiiriíllD 



DOM GAiFetno> 

Recado me heis levar '', 

Que digais a Dom Gaiteiras 

Porque me oão vem buscar. 

Se não é medo de moiros, 

De com elles pelejar, 

Ja serão outros amores 

Que o fizeram olvidar, .. 

Emquanlo eu presa e i^aptiva 

A vida levo a chorar. 

E mais 38 este meu recado, 

O Dão quizer acceilar. 

Dá-lo-heJs a Oliveiros, 

A Dom Beltrão o heisde dar. 

E a meu pae o imperador 

Que já me maude buscar. 

Pois me querem fazer moira 

E de Christo reuegar. 

Com um rei moiro me casam 

De além das bandas do mar. 

Dos sette reis de moirama 

Baioha me hãode coroai.' 

— ' Esse recado, senhora, 

Vós mesma lh'o haveis de dar '" 



" £(ta é 3 mtoxnaiel copla cilada por CarruiM ao Dom Qni- 
Lf « i|w d'ihi oblST< ini urlebridids tnropM. 
'• £a DwsDia lho beiílo iu ; 
Poii Dom CaiMnii laa ea 



Qur vos vem a libeiiar," 

l'alavras não eram diiias ", 
<_is braçns llic fui a dar, 
Klla do halcào aliaiio 
Sv ildlriii sem Itisiís M\m: 
Maldítlo puiTO de moiro 
Que alli andava a modarl 
Em a lios grilos o moiro 
Começava Air liradar ; 
— -Aci-udani à Heiiscndra, 
Que a vccm os chrístãos roulii 
— 'Melisendra, minha espuma. 
Como havemos do escjtparí' 
— ' Com Deus e a Virgem Mar 
Que nos bàodo acompanhar.' 
— 'Melisendra, Mclisendra, 
Aporá é o esforçArl' 
Api-rla a c ilha ao uai'allo, 
A[frouxa-lhe o peilonii, 
Suliou-llie cm cima do um puli 
Si'tn pé no eslrílio poisar. 
Toiiií)u-a pela cintura. 



DOM GAIFEtROS 

Qne o corpo tTgupu por lh'a dar; 

Assenta a esposa à garupa 

Para que o possa abraçar'', 

Finca esporas ao eavallo, 

Qae o sangue lhe fez saltar. 

Ai|tii vai, acolá voa. . . 

Ninguém n'o pôde alcançar. 

Os moiros pela cidade 

A correr c a grilar; 

Quantas portas ella tiuha 

Todas as foram cerrar. 

Setie vezes deu a vnlta 

Da cerca acm a passar, 

O eavallo ás oilo vexes 

De um salto a Toi saltar. 

Ja oa moiros da cidade 

O não podem avistar : 

Ac«de o rei Almanijor 

Que vinha de nionte;ir, 

Com todos seus cavalleiros 

Lá deitam adesfillnr. 

Sentiu logo Dom GaiTeiros 

Como o iam alcançar : 

— 'Não te assustes, Melisondra, 

Que é força aqui apear. 

Entre estas árvores verdes 

Um pouco me liasde aguardar, 



A 



RuMAMcemo 

Em qu;into l-u volto a es»e» cães 

Que os heide aflligetltar. 

Aa boaã armas que trigo 

Agoia as vúu a provar.' 

A[)eou-9& Hcliseadra, 

AÍli ficava a rezar. 

O cavallo, sem mais rédea. 

Aos moiros se foi vollar: 

Caiiçado ia ãt fugir 

Que ja mal podia andar. 

Cheirou-lhe ao sangue maldtlUi, 

Todo é fogo de abrazor. 

Sti bem peleja Gatfeirost 

Melhor éseu pelejar; 

A qual dos dois anda a lida 

Mais nioiros hade maUar. 

Ja cabem tantos e tantos 

Que não lêem canto nem par. 

Com o sangue que corria 

O campo se ia a alagar. 

Bei Almançor que lato via, 

Começava de bradar 

Por Alá e Haruniede 

Que o viessem amparar: 

— 'Renego de ti, cbristão, 

E mais do um pelejar! 



DOM 

Kào ha outro ciLvalleiro 
Que se le possa eguaJur. 
Será esle Urgel de Nani<^, 
Olivfiro» singulur. 
Ou o infame Dum Guariíir 
Esse almiranie do mar? * 
Não ba nenhum d'entre ot liuzo 
Qac bastasse para tal. . . 
Sõ se rússQ Dom Roldão 
O incantado sem par"!' 

Doiu Gaifeiros quo o onvia. 
Tal reíiposta lhe foi dar : 
— 'CaJla-Ie â'ahi, rei moiro, 
Calla-te, não digas tal. 
Muito cavalleiro em França 
Tanto como esses vai. 
Eu nenhum delia não sou, 
£ me quero nomear: 
Sou o infante Dom Gaifeíroa, 
Roldão meu tio carnal, 
Alcaide-mor de Paris 
Minha lerra natural.' 

I4ão qulz o rei mais ouvir 
E não quiz mais porfiar, 



" Sem eggal — ■•. BiOLirn 




nOMANCBtItO 

Voltou rédeas ao oavullo, 
Foi-se eai Suisootia inccrnr. 
Gaifeiros, senhor do campo, 
Não lem com quem i>ele)ar; 
Cheio de grande alegria 
HelistAdra foi buscar. 
— ' Ai 1 se vens Terido, esposo 1 
E que ferido hasde eslar! 
Eram tantos esses moiros, 
E tu sõ a batalhar. 
Mangas de minha camiza, 
Com ellas te heíde pençar ; 
Toucas de mrnha cabeça 
Faxas para te apperlar'*. 
— 'Calla-ie d'ahi, infanta, 
E não queiras dizer tal ; 
Por maia que foram n'os moir 
Não me haviam fazer mal : 
São de meu tio Roldão 
Estas armas de provar; 
Cavalloiro qne as trouxesse, 
Nunca pôde perigar.' 

Cavalgam, vão caminhando, 
liâo cessam de caminhar. 
Por essa moirama fora 
Sem mais temor nem pezar; 



DOM GAIFBIROS 176 

Paliando de sens amores 
Sem de mais nada pensar ^^ 
Em Cerras de chrístandade 
Por fim vieram a entrar. 
A Paris ja são chegados, 
Ja saem para os ineontrar*^ 
Selte legaas da cidade 
A corte os vai esperar. 
Sahia o imperador 
A sna filha a abraçar; 
Palavras que lhe dizia, 
As pedras fazem chorar. 
Sahiu toda a fidalguia, , 
Clerezia e secular, 
Os doze pares de França, 
Damas sem conto nem par. 
Dona Alda com Dom Roldão, 
£ o almirante do mar, 
O arcebispo Turpím 
E Dom Julião de além-mar, 
E o bom velho Dom Beltrão, 
£ quantos sohem de estar 
Ao redor do imperador *' 
£m sua mesa a jantar. 



* Sem do ootro ai nlo pensar — ms. di oumiiA. 
** A Parii a nataral — mi. db olitbiua. 
" É sempre a idea flxa da meta redooda, do ditalo formada) 
prtos parpt, emldnio do imperante. 



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Gracde honra a Dom liaiTitirui 
Os parnbiíns lhe vão dai'; 
Por sua mnila Iwinlade" 
Todos o êstão a louvar, 
Pois liberiQU sua espt^a 
Com v:ilor tam singular. 
As ffslas que se Tizerain 
Não líera conto Bem par. 




é talor, e Bin i.i1"ele, m (lyts i 



UcrXO CASTEXHAKA 

Ateoudo «U Gailvoi 
Ed el paLuio ntle, 
AifoUilo «U ■! Ublera 
Para 1u labial ioian. 
Ln didoí liHie m 1* imim 
Qdc Iui quiare tnvjiM, 
Oundo cntrú por k uls 
Ddd Círios cl tmftnitt : 
De qne atí jngMa lo tida 
Ernpnóte de minn ; 



' €oDU »[> pan lo 
Y|MraMt)lu>iif 
VMKra upoBIli 



No oilD<Kra M ca|«4<Me. 
Gii feras cnaii4a«fto rido. 
Moiido de irm ftan 
LoTanldH dri tsHm 




V Durandaild li gduM. 
Cm ri iiiicbai olulletoi 
Dr to. dí lol d«e t 

Qiil).T(» dnqte k vido 

— 'P« Dioi 01 nirgo, Rii I 
Por Diot o< luiara iDgirr. 
VuraU» annu j ululla 
Vòl nie h> qnorui proUn 
Qm ml Iíd el nD|<Hials 



Por loi moDtM ] ku vdllt 

Uilnenilu Ii ri>ja HUgra, 
Traf milu lui piíi ilucaliM. 
L» dd:i« corcienda lavro. 
Nunca yo lutlUrla podí 
Eo muito pude btucare, 



DOM GAirBtROS 

Abon ti que ttíi « StantA; 
Ea Sinineõa eu dddid. 
SibeU que wtoT >io uballo, 
Sin umu Dl» qv* blc. 



'■Catlad, Mbrído 6utoM, 



Ha q» «lá V ciplidilad* ; 
SinnpfT u bfl liila con inaw 
TcabaltoolraqdeUta, 
Uon qno w lii Icwli 



A1U oi Sin Jau de Latnne 
A aÍDgvi» pntUr iniui 
No nw lai tiagui «birdet : 
Mi cabiUo Mil bian •«uda. 

GiiferoiqiM nutejô 
Li> Nputi faera á uon ; 
Dm nu m mnT wídm 

Empnln dehililir*: 
— -Bicii pare», Doo RaldaB, 
Siempro me qnuiite mais. 
Si olio B» Jo dijm 
Hottnni w mt cobarde ; 



DOM OAV^MS 
Píttlf á Dou BoUu, 



Lliminla Do MaUtat : 
— ' Etpera IB foaa, «otariíc 
Pbm Mb qniraú taiatt. 



Oh li «I ta la ttyt 



Da da npodi ai < 
SiluedíbcMad 
DaiBdIaatoqi 



Tonurl cm «to • 

Y dinot dballo 
Loi (pMhajaiiai 



o» )i ubeii niu rn \o* dorr 
Cama tnalit loIunUilu. 
Y ncj diraii, lunlnj por niP(B>. 
liu 4p» Tdelio por Bbhrdo, 
Qne f D DO toItsi^ bd Vnodi 

Don Biltnn, Ar qat la ojm 
Tm nojido haMara, 
V[ul'BrMBdaial«billo 
y mlTMe «■ ta ejodad. 
Gti[«rt» cn liem de moro) 
Eoipigu de raníDin. 
Jnniicla do qmnet diu 
Bd oFho li lai i taiin. 
For h) lierru do SanHirãt 
Gaifitoi mal airailo tu. 



UaliliciendD ib* ai tíbO, 
Hildiciendo iba ri puo 
(El [>an qna umlan In nut 




DOU GAmíBOS 

Om Ioda) 1u aiM M aondo 
Ka M Tan i qtKbrulin, 
Qd* da nma Bi d* boji 
A] triítc dijan (onrc. 
Dudo «tu TOCM 7 obu. 
A SanUHM ÍM 1 ll*t>" : 




Om wdat» por ha KlnfeM ; 
Daqae lo lida fiuteoi, 
Empník <te hibUn : 
— ' DÍM l« ulta, ai aiMiae, 







0>i>(iIm4uiM»iiUui« 












EmpfiAfíáaUmn, 




Noporq»]»<Mi)or*if 




Ei>dJuluDÍ«iBlLnJ<. 




Uai eo lerio MD ara» bluicii 




A»r,l<,>fri.lo.p.n«. 




ArinJuK df \os pulanos 




DrI omjiLTsdor IQ padn. 




Doji>riH.g>lu, lotma 








Con voi (nila T mj IloroM 




U empei;in da Uiain : 




-'PorDi«.B«iwp..<atoU«a. 


1^ 


QiuraiuiáBuUtine; 



Nú lU lo qarriu acgare 
[Ural bc anu nwoniMiulu, 

Caballero, li á fVancia idu 
For Gaiferoi pre^unlads, 
D<ciilJi< qua li su eipon 



Que ft me jioKi tiampa 

SI 00 nic díja por dúbiIii 
De coo lot BVDs pdini*, 
Debe iam Mm unam. 

De mi no la dejan acontaiw; 
I Lm aiiunld por bi pmaM» 
Ligeroi MB da oliidara I 




II 



SC6 BOMANCURO 

Mas amoKt de Gaílieroi 
No los pacdo 70 otvidare.' 
GaiferM quo eite oyera 
Tal reepoesU le foé á dare : 
— ' No llorets vòi, mi sciora. 
No qnenis ati Honre, 
Porque eias eocomieiídaa 
Vós mesma la podeis dare, 
Qoe á mi sM dmtro en Francia 
Gaiípros soeleo nombrare. 
S07 el ÍDÍanle Gaiferoa, 
Seèor de Paris la grande. 
Primo hermano de OUveros, 
Sobríao de Doo Roldane : 
Amores de Meiisendra 
Soo los que aci me traen.* 
Meiisendra quisto vido 
GoDOSciólo en el bablare, 
Tiróse de la leniana, 
La etcalera foé á tomare, 
Salióie para la plaia 
Donde lo vido ettare. 
Gaiferos coando la vido 
Pnfto la IM i tomare, 
Abrixala con sos brazoi 
Para baberla de besare. 
Alli cstaba on perro moro 
Por los crístiaaos goardare, 
Las fOces daba tan alias 
Qae ai ciclo qaieren llegare. 
Al alarido dei moro 
La dodad mandan oerrare. 
Siele Teces la nHlean, 
No ballan por do escapare. 
Presto sale el rey Almanior 
De la meiqoita renre : 





aS7 




Venii locv ii Lr.nnieU 


1 


'■ 


A pri.'u 1 no d>- .agsn., 


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Vereit armir cabailtrat 


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Tai»li:illMatmJg>rf: 


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TulotHiniuidelgimor» 


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Oue grin cota «e de mirape. 






««liicadrâqDeInlido 






Eo lua pricu lan fnait. 






Con QM Toi deticiila 


A 




Lr «QípcKira do hablarc : 


fl 


1 ' 



|S1 d.'9U empaii, GaifeiM, 
Uabla tfiií.'it que ronUre f 
iVaqaijíeraDiDidDldeJo 
Y Siala Uaria in miulrn 
TaSK lai voatm caballo 
Clima ul dí Don Roldana I 
Uncb.it vFvn 1* cl derir 
£n e] pabciD impflrule 
Onciiishallalncercaito 
De inoroi i-u alpQDO lii^are» 
Al caliaJlo apriela la dieha 
YaBnjibale ri tmiala, 
Uincábalc Ju f ipntlai 
Sin nlninuia prdade : 



Prolo M fuera á apeare, 
Al uliallo aprisW la mnchi, 
YallojlbalecIpreUle; 



S8S ROMANCEIBO 

T Meliscndn i las ancas, 
Qao presto las faé tomare. 
El cnerpo la da y cintura 
Porqoc lo paeda abrazare : 
Al cabalk) hinca la espada 
Sín ninguna piodada. 
Corriendo venian los meros 
A priesa y oo de Tagare, 
Las grandes vocês qoe dabaD 
Al caballo hacen laltaie. 
Cnando fueron cerca los morot 
La rienda le fué á largare ; 
El caballo era ligcro, 
Pásolo de la olra parte. 
El rey moro qaesto rido 
Mando abrir la ciodade ; 
Sieta balallas de moro« 
Todos de saga le vane. 
Volvidndoso iba Gaiferoi, 
No cesaba de mirare ; 
De qoe tido qne los morot 
Le empexaban de cwcare, 
Tohióse i Melisendra, 
Empetóle de bablare; 
~'No os enojeis, mi senora. 
Sérios fuerza aqoi apeaie, 
T en esta graodd esposara 
Podeis, sonora, aguardara, 
Qne los moros soa tan cerca. 
De f nerta nos hao de alcaaiaie. 
Vos, seiiora, no traeis armas 
Para baber de pelearo. 
To pnes qae las traigo boenat, 
Qoiérolas ejcrdtare.' 
Apcóse Molisendra 
No cesando de reiare. 



u rodillu pau n liem, 



El cahillo taá ■ ignjtre. 
QuDda baia da loi mm» 
Puta i[m na pned* anduv, 
T mando Iba hicia efki» 
liu COD raror tin frauda, 
Ou df [ rifor q» Uenbk 
La Otm hida tmblara : 
Donde vida li moritHa 



Taolot nuta da roí morai 
Qoa 00 hij caaila nl par»; 
De la laagn qoe ulia 
ET campo cnNcrto m hae, 
El rejr Atraamor qDcilo Tido 
Empoais da bablan: 



In pofl» H pneda hillare : 
Dabii Kr el eocaiiudo 
tae paladin Roída», 
O dsbe wr ai nforudo 
Reoaldai da HoaMIiana, 
O M Dr|>l da la Uareha 
EiRmado j lii^olara ; 
No hij Dlngnno de Im doea 
Que buIaM baeor b lale,' 
GaifRni qi'aiM <ijá. 
Tal Kfpoetta le (U i dará ; 



SaO BOMAJiGKmo 

— 'Calln, callet, el ref moro, 
Gallos 7 no dif|u Ule, 
Mochos otn» hay eo Fimcia 
Qae tanto como estos raleo : 
Yo no soy nÍBgooo de aHoi, 
Mas 70 me ^ioro noÊoknn : 
Soy el infaale Gatferos, 
Senor dcftrii la graade, 
Primo bermano de Olnaras, 
Sobríno do Dou Addaae.' 
El rey Almantor <|ae 'lo oyon 
Con tal esfiMTBO lialilare, 
Gon los mas moR» qaeifiado 
Se entrara «aia 
Solo quedaba 
No balló eon qi 
Volvió rieoda ai caballo 
Por Metisadn boKan: 
Meliscndra q']e lo vida, 
A rectbir selotile; 
Vidole lai Aivai iilaacat. 
Tintas cn colora 
Con Toz mai Hirte y li 
Lc empezó de |iers«mtare: 
—'Por Dios ot mego, GaifarM» 
Por Dios os qoiero rogue. 
Si traeis alganaberída 
Qneráismela rós aiOBtivo, 
Qoe los moros eran tantoa 
Quizi os habrAo faacko male; 
Con las mangai de mi canin 
Os la quiero yo apnlam, 
Y eon la an rica toca 
Yo os Ia entiendo sanafe.* 
— «Calledes, d(jo Gaiferaa, 
Infanta, no difais tale. 



DOU GAirilROS 

Por nui ijna tMTon liwiBorol, 
Ho me podian liwer malí, 
QDeilai armu ; eabillQ 
Soo de mi lÍD Dm BolUauc: 
CaIwUero que la Inijoc 
na|H>itiipeli|;rare. 
Cditgid pretlD. icnara. 
Qde na a leinpa de aqui ní 



Va cabalgi tUiiHhlia 



Coo el pUurdaaailuejiuiU 
No «MB de cBnÚBín-, 
De nache por hM cuÚBoi 
De diapor loejarate». 
Comiendo U> jerbu veiJej 
y agua li pDsdn halliiv, 
Uaila ijuí eulraron en Sm< 
Y en ticrra de chaLaBdailf : 
Si hatta illl alopiJi fntion. 
Macho UMi de il'iidebDle. 
A la entrada da □■ ponli^. 

Coballcro da aiiiia*blaai;.i< 

GaiRroi desfias lo >ido 

Dlúmdo i Hl MÒon : 
— -Eilo (I mu d* rnslaci'. 
Que iquel tatallero qaa a»i 
Grau ufuRo ci si qae l»e 



È9% ROMANCEIRO 

Qoe sea críiUano ó moro, 
Ftienaieripeleare: 
Apéaos Tót, mi wnon, 
T Teni de mi i la pare.' 
Da la mano le traia 
No casando de llorare. 
Ll^ganie loa caballerot, 
Gomienian aparejare 
Las laoaaa y kw escudos 
En soo de bien peleare. 
Los caballos ya de cerca 
Gomienian de relinchare; 
Mas conodóle Gaiferos 

Y empeiára de hablare : 

— *Perded eoidado seiiora, . 

Y tomad a cabalgare, 

Qoe el caballo qoe alli riene 
Mio es en la rerdade. 
Yo le di mocha cebada 

Y mas le enticndo le dare ; 
Las armas, scgon qoe ?eo, 
Mias son otro qoe lale, 

Y ann aqoel es Montesinos 
Qoe á mi me Tieneo i baseara^ 
Que coando yo me parti 

No estaba en la ciodade.' 
Plogo mocho á Melisendra 
Qoe aqoello ftiese rerdade. 
Ya qoe se van acercando 
Goasi joolos i la pare, 
Coo Yoi alta y crecida 
Empiéianse de interrogare. 
Conósccnse los doe primos 
Entonces en ol hablare, 
Apeironse á gran priesa, 
May grandes fiestas se hacen : 



If 



DOH CAiniBOS 



Bb ticm de criílaidade. 
CnialM olnllenw halbn 
Todos Im ob campaGaii!. 
y dnniu i UtliKiKlri, 
DoDcdlu olTD qiB lilg. 
Al cibo de INK« dial 
APariítanaU^tn; 
Sirle kgqii do U ciodidc 
El Mperador lei lale, 
Coa íl «alB Oliven», 
Goa a ule Don Baldão», 
Cco M el iariDle Goarinot 
Alainale da la oure. 



Ccn M mDcbiM de loi d«ce 
Qgal «] mm cemen paoe, 
T eon A iba Diãa AUla, 
Lo eifOiia de Roldana, 
Coo él iba ioliaoHa. 
La bija dei nj luiiiM ; 
Dociat, daoi» 7 doKdlai 
Lu D» lUu da lioife. 
B «pendor abnu m bija 
Ho <eundo de Honra; 
PaUbra* qoe h dai^ 

Loi doce i Don Gaiíen» 



S94 BOMANCBIBO 

Pões que saco á sa esposa 
Be muy gran captividade : 
Las fleslas qae to hacian 
No tieoeD caeato dí para*. 



'OoMB, MKAicaio onotti, IMMf» Pag. S48» 



XVI 

JUBTIÇA DB DEOS 



A Ucc3o que principalmente aqaí segui é a 
da Beiralla, por ser n'ella muito mais com- 
pleto o romauce. A de Tras-os-montes clia- 
ma-lhe ' O conde proso.' 

Pouus coisas mais bonitas tem o roman- 
ceiro popular da nossa península. Onde nas- 
ceuDuo sei; mas ascollecções castelhanas n3o 
o trazem. A questão porém de se uma com- 
posição d*estas foi Teita n'esse ou n'aquelle 
reino d'Hespanha, além de ser mui difBcil de 
resolver, é de bem pouca importância. O que 
i verdadeiramente antigo e popular, o que foi 
obra do trovador ou do menestrel, nasceu 
talvez em Catalunha ou em Valença, talvez em 
Portugal ou em França, ou em Le9o ou em 
Castella: quem sabe? Viajou e perigrínoa 



198 ROMANCERO 

com a harpa ou com a viola do cantor que o 
compoz ou que somente o apprendeu de cór: 
espalhou- se por essas terras de dififerentes 
dialectos que mais ou menos tiveram de o 
traduzir para o conservar na tradição de seus 
povos. E hoje, ha muitos séculos a ésla parte, 
quem pôde dizer onde foi composto o romance 
que n'esta ou n'aquella província se incontra? 
£ d'aqaella onde foi achado. 

Ja se vê que não appiico esta tbeoria ao 
que traz visível e marcado o séUo de sua na- 
cionalidade, como são os romances propiia- 
mente mouriscos ou granadinos^^os que á imi* 
tacão doestes se fizeram em tammanha oõpía 
nos séculos xyi e xvn, nem tamfiouco aos 
históricos strictanente dittos. 

Advertirei também, ao leètor poucf) versado 
em nossas coisas, que lhe não faça peso, para 
julgar este romance castelhano por fòrça» o 
ver que Q'eUe se tratta de Saoi' Thiago e de 
suas romavias e romeiros. Depois de GaUiia, 
nenhum reino de Hespanba teve jamais tanto 
que fazer cem o apostolo de Gompostelia, eo* 
mo o nosso Portugal, especialmente nas duas 



JUSTIÇA DB DEUS jíU 

províncias do eitremo Norte. Ainda lá vamos 
de romaria, e o temos por nosso em tudo . . . 
menos se Tormos a brigar, porque então vem 
'San' Jorge e avante,' San' Jorge e o seu dra- 
gão, que são dois terriveis matta-castelhanos, 
apezar de lodos os pezares, e das heterodoxas 
dODtrínas de desequilíbrio europeu com que 
□os téem obsequiado ultimamente. 



JUSTIÇA DE DEUS 



Préjo vai o conde, preso, 
Prfeo vai í bom recado ; 
Não rai proso por ladilo, 
Nem por homem ler roattada>, 
Has por violar a donzella 
Qae vioba de SanThiago: 
Não baston dormir com ella, 
Senão dá-la ao sen criado I 
Accommetleu-a na serra, 
Hoi longe do povoado *: 
Por morta atli a deixara 
Sem mala dó, sem mais cnldado. 



303 BOHANCETRa 

Chorou tres dias, ires noites, 
£ mais teria chorado, 
Senão que Deus sempre acode 
A amparar o desgraçado. 
Passou por alli um velho. 
Um pobre velho soldado. 
Suas barbas brancas de neve. 
Em sua espada abordoado'; 
Vieiras traz na esclavína, 
O chapéu d'ellas cercado; 
Chegou-fie â pobre roneífA 
Com muito amor, muito agrado: 
— 'Não chores mais, filha minhaS 
Filha, demais tens chorado; 
Que esse viUào cavaUeir»^ 
Preso vai a bom reeada* 
Levou comsígo a doiueUã 
O bom velho do sokiado ; 
Vão á presQDça d^eirei. 
Onde o conde era levado: 
— ' Eu te requeiro, bom rei. 
Pelo apostolo «agrado, 
Que n*esta soa romeira 
O foro seja guaiúado. 



* Ao soo bordão ínoof Udo — unuLTA. 

* Donzella, «io «iiww «lajs — «bmam* 

* Qoe prèfo Tai e«se coDd»«-nnHLLn. 



JUSTIÇA DB DEUS 303 

Da lei divina é casar-se. 
Da humana ser degollado: 
Que nao valem fidalguias* 
Onde Deus é o aggravado." 

Disse elrei aos do conselho 
Gom semblante carregado: 
—'Sem mais detença, este feito 
Quero ja desimbar^o.* 
—'Visto está o feito, visto, 
Julgado está, bem Julgado : 
Ou hade casar com ella. 
Ou se nao. . .ser degollado.* 
—'Pois que me praz* disse o rei: 
'O algoz que seja chamado: 
Ou ja casar co*a romeira 
Ou aqui ser degollado.' 

—'Venham algoz e cutello.* 
Respondeu o accusado: 
' Mas antes morrer mil vezes ^ 
Que viver invergonhado.* 

Agora ouvireis o velho, 
O bom velho do soldado : 



* Nau> ha fdro on privilegio —buialta. 

* Antei morrerei mil Tens— nAS-os-vonns. 

voun 13 



304 ROMANCEIRO 

— * Fazeis, bom rei, má justiça, 
Mau feito tendes julgado: 
Primeiro casar com ella, 
E depois ser degollado. 
Lava-se a hom*a com sangue, 
Mas não se lava o peccado/ 

Palavras não eram dittas, 
A espada tinha arrojado. 
Despe insígnias de romeiro ^ 
Despe as armas de soldado, 
Nos trajos de um sancto bispo 
Apparece transformado; 
Sua mitra de pedras flnas, 
De oiro puro o seu cajado : 
Tomou a mão da romeira, 
A mão do conde ha tomado. 
Por palavras de presente 
Alli os tem desposado. 
Choravam lodos que o viam. 
Chorava mais o culpado; 
Chorando, pedia a morte 
Por não ficar deshonrado^. 
O sancto bispo o absolvia 
Contricto de seu peccado : 



' Tira o gaivão do romeiro ^ beiealta. 

* Anu*s que ser dcshonrado — tbas-os-montbs. 



JUSTIÇA DE DEUS 305 



D*alli O levam por morto, 
Que nem o algoz foi chamado, 
Justiça de Deus foi n^elle, 
Antes de uma hora ó finado I 
Mas acudiu áquella alma 
O apostolo sagrado, 
Que outro não era o romeiro, 
O bispo nem o soldado i®. 



** A licçio de Tras-os- Montes supprime a interrenção de San' 
Thiago, e também o casamciito do conde, que alti vai simplesmente 
a d«gonar, dedarando a soa áltima vontade n^estas coplas : 

— ' NSo me inteirem na egreja« 

Nem tampoaoo em sagrado; 

FTaquélIe prado me interrem 

Ond^i se f as o mercado. 

Cabeça me deiíem fora, 

mea cabello intrançado. 

De cabeceira me ponham 

A sella do meo caTallo. 

Que digam os passageiros : 

— ' Triste de li, desgraçado I 

Morreste de mal d'amore8, 

Qoe é am mal desesperado.'— tius-os*montks. 



NOTAS 



NOTAS 



Nota A 

tofante no femioino é um latinismo doi Mcnlos 
e iTi pag. 11. 

Nfto é doesta opinião um amigo meu cujo voto lit- 
terario tem muito peso. Diz elle que as terminações 
ante, ente e inte sempre foram invariáveis para am- 
bos 06 géneros; que sempre se disse 'amante, en- 
chente, pedinte ; que infanta portanto é uma exce- 
pção da regra geral, excepção só usada por alpns. 

NotaB 

F6ra o primeiro em que se fiíeram Tersos. . . pag. 80. 

Ésla é a opinião de Sarmiento : Sanchez, nas notas 
á citada carta do marquez de Santillana, a combate. 



310 NOTAS 

NotaC 

llalato fe toraaiia pag. 36. 

O que, a este respeito, fiea apontado na nota mar- 
ginal é a opiniáo do Sr. Alexandre Herculano. Sancta 
Rosa no * glossário' lhe attribue quasi a mesma si- 
gnificação. No sentido porém de gafo, doente, etc, 
a usa Berceo muitas veses no pobma db álexáitorb. 
Na nova edição do romangeibo de Ouran^ ha uma 
^variante d'este romance, que elle attribue a Rodrigo 
de Reinosa, porque assim se diz em um folheto solto 
d'onde a transcreve, cuja linguagem parece mais ve* 
lha, porém que é decerto menos singela que as outntf, 
e sabe mais ao inrevezado das coplas dos proveoçaes. 
N'esta indisputavelmente se ^ malato por gafo, le- 
proso, iniécto de mal contagioso. 

Eisaqui o logar paralleio : 

Está qoedo, caballero, 
NoD filhai tal TilUnia, 
Figa soy de no malato 
Qae iiene la malatiaf 
Y qaien a mi Uegare 
Lnego se le pegaria. 

É notável que n^esta variante se acha o romaoce 
da 'Infeitiçada' confundido com o do 'Caçador 'do 
mesmo modo que o eu inoontrei coniímdido na tra- 
diç^ oral de algumas de nossas províncias. 

' Madrid, I84MI, tom. i, d.» S85, pag. 401. 






NOTAS 311 



Nota I) 



Alèm de nio aodar dos collecções da naç&o vizi- 
nha pag. 125. 

No ROMARCBBO de Daran, nova edição ^ ha um 
fragmento com o título 'El Palmero/ tirado da col- 
lecção de Sepúlveda eai que apparecem alguns versos 
eguaes aos do Bemal. Duran o julga semialegorico, 
e d'aqueUes que na nossa península ja começavam a 
imitar os provençaes no século xv. N9o sou d'esta 
opinifio. 

NotaE « 

A xácara é toda dramática pag. 137. 

Ésta qualificação é exclusivamente portugueza: 
os nossos parentes castelhanos intendem por jacara 
um romance ti-uanesco em stylo picaro e mais pró- 
ximo do que nós chamámos ou chamávamos chacota. 

NotaF 

Loa Tiri do latim ktusf pag. 189. 

Os castelhanos dizem hoje íoor e loar por laus e 
laudare. No 'Cancioneiro do Gollegio dos Nobres' 



* Madrid, Í849-S1, tom. i, pag. 158, d.« 9(tt. 

VOL. 11 ^ 



3il IfOTAS 

foi. 58 V. acha-se hado por louvado. A diversidade 
qae hoje se incontra, n^estas derivações, entre o por- 
tuguês e castelhano, é comparativamente moderna. 

Nota G 

Nio m wnmtra nit ooIImçSm fmtrthaim, pag. 169. 

No nova ediçAo de Duran, tantas vezes e inda agora 
citada 1, apparecem dois fragmentos, o primeiro até 
hoje conservado na tradiçSo oral das Astúrias, o se- 
gundo correndo impresso nos folhetos dos cegos am- 
bulantes: ambos sAo inquestionavelmente relíquias 
dispersas do nosso romance. Alli chamam-lhe 'Geri- 
naldo.' E o mesmo nome lhe dSo em Andaluzia, onde 
o conserva de memoria a gente do campo nos seus 
comos, corriUoi ou carreMoã; que todas estas ap- 
pellações teem as cantigas que o povo d'aquella pro- 
víncia cauta ou recita de immemoríal tradiçSo. 



riM DO yOLUlUt SBQUNOO 



' Tom. I. |»«g. i75, 176, n.' 3*0 o 3ÍÍ 



índice 

Imtboducção V 

RoMANCBraO, LIVRO II, PARTB 1 1 

I BelU Infanta 3 

II O Caçador. 17 

m A Infeitíçada 31 

IV Conde Yanno 41 

V Conde d'Âlleinanha 75 

VI Dom Aleixo 89 

Vn Sylvaninha 101 

Vin Bernal-Prancez 121 

IX Reginaldo 161 

X Dona Ausenda 177 

XI Rainha e Captíva 187 

XII Dom Claros d' Além-mar 199 

XIU Claralinda 219 

XrV Dom Beltrfto 241 

XV Dom Gaifeiros 253 

XVI Justiça de Deus 295 

-Votas 307 



OBRAS 



DO 



y. DE ALMEIDA GARREn 



XV 



{TERCEIBO do R0MA!PCEIII0) 



ROMANCEIRO 



PELO 



V. DE ALMEIDA GARRETT 



III 

ROMANCES CAVALHERESCOS ANTIGOS 

TERCEIRA EDIÇlO 



LISBOA 

IMPBim* HACHKIAL 
187S 

1.' ■' ■ ^ 



AIIIRTEHCIA DA PBIIEIBA EDIÇXO 



Por nlio fazer demaziado volume, dividiu-se 
o segundo livro d'esta collecçSo em duas par- 
tes» cada uma das quaes forma um tomo se- 
parado. 

N'este segundo v3o também em appendíce 
as traducções inglezas de Sir John Àdamson 
de alguns dos romances do primeiro livro. 

O tomo quarto está destinado a conter o 
terceiro livro, que é o das lendas e prophe- 
cias. Se porém apparecerem no intervallo 
alguns romances ainda não descubertos que 
pertençam á classe do segundo livro, accres- 
centar-se-ba uma terceira parte ; e com ella 
começará, n*esse caso, o seguinte quarto vo- 
lume. 

Lisboa, agosto 9, 1851. 



ROMANCEIRO 



LITBO SB6C1IDO 



PABTB SMONDA 



xvn 



ABomtaA. 



Aqui vai outra romeira, e n3o sei se de 
SaDctiago também ; mas creio que nao, por- 
que o diria algures o texto do romance : não 
è orago que deixasse de se nomear. 

É lindo, singelo, perfeito exemplar no seu 
género. Não me consta que ande por mais 
terras nossas do que pelas do Minho e Tras- 
os-montes. So pelas duas versões doestas pro- 
víncias o tive de appurar ; e sem muito custo, 
porque é simples de si, e pouco o alteraram 
na tradição. Tem todo o sabor e ingenuidade 
antiga, conserva perfeitamente os costumes 
crus da edade barbara a que se refere. Tam- 
bém não occorre nos romanceiros dos nossos 
vizinhos, e estou seguro que é esta a primeira 
vez que se vé escripto e impresso. 

As variantes que valem alguma coisa vão 
notadas á margem, e não são muitas. 



A ROMEIB.Í. 



Por aqnelles montes verdes 
Uma romeira desda; 
Tam honesta e formosínha 
Nao vai oolra á romaria. 
Soa saia leva baixa 
Que nas hervas lhe prendia; 
Seu chapelinho cabido 
Que lindos olhos cobria t 
Cavalleiro vai traz d^ella. 
De má tenção qae a seguia M 
Não a alcança, por mais qpe ande^ 
Alcançá-la mú' pedia 

* Alcançá-la nSo podia —TiiAB-os-Mosms. 



II R0MÂ5CEIB0 

Senão junclo a essa oliveira* 
Que está no adro da ermida. 
 sombra da árvore benta 
A romeira se accolhia: 
— *Eu te rogo, cavalleiro, 
Por Deus e a Virgem Maria, 
Que me deixes ir honrada 
Para a sancta romaria.* 
Cavalleiro, de malvado, 
Nem Deus nem razão ouvia; 
Cego no desejo bruto, 
De amores a accommetlia. 
Pegaram de braço a braço : 
Lncta de grande porfia ! ^ 
A romeira, por mais fraca, 
Emfim rendida cabia...* 
No cahir, lhe viu á cinta 
Um punhal que elle trazia; 
Com toda a força lh'o arranca, 
. No coração lh'o mettia. 
O sangue negro saltava, 
O negro sangue corria... 
— *Por Deus te peço, romeira S 



• Alcançoa-a detcançando 

Debaixo da verde oliva. — Tiai-os-MOKTBS. 

• Qual debaixo, qual decima— tbai-os-moxtis. 

• Logo debaixo cahia— trax-os-moktb». 

• Ea Ic peço, romoirinha — trai-oí-iiorti». 



A ROMEIRA 13 



Por Deus e a Virgem Maria, 
Que o nao digas em tua terra, 
Nem te vás gabar à minha 
Da vingança que tomaste, 
Da affronta que te eu fazia.* 
— *Heide dizé-lo em tu'terra, 
Heide me ir gabar á minha, 
Que mattei um vil covarde 
Ck)*as armas que elle trazia.* 
Tocou a campa da ermida, 
A campa que retinia: 
— 'Ermitão, por Deus vos peço*. 
Bom ermitão d*esta ermida, 
Tenhais dó d*essa má alma 
Que inda agora se partia : 
Dae terra benta ao seu corpo. 
Que Deus lhe perdoaria.* 



* Eo te peço, ermitio, 
Por Deoê e saneta MarU 
Qoe interres esse traidor 
Lá na toa sancta ermida. — Tnx^s-MOims. 



xvm 



cxnn>xniLi.o 



So se incontrou este bello romancínho do 
*Conde Nillo' na província de Tras-os-mon- 
tes e nas ilhas dos Açores. Nas collecções cas- 
telhanas é ommisso. Não sei porquê, mas sinto 
que tem o ar francez ou proençal. Ou talvez 
normando? Da nossa Hespanha é que elle me 
não parece oriundo. Tudo isto porém é sentir; 
julgar não, que não tenho por onde. 

Níllo não é nome portuguez, nem sei que 
fosse castelhano, leonez ou de Aragão. De 
donde será? Ou é corrupção, como tantas, de 
outro nome ? Mas de que nome ? Series e se- 
ries de dúvidas e perguntas ás quaes confesso 
a minha completa inhabilidade de responder. 

Seja como for, o romance é bonito, elegante 
e gracioso, tem todo o cunho antigo verda- 
deiro, e não parece dos que mais padeceram 
na sua transmissão até nós. 

voL. m. * 



COIVDE mLLO 



Conde Nillo, conde Nillo 
Seu cavallo vai banhar; 
Em quanto o cavallo bebe, 
Armou um lindo cantar. 
Com o escuro que fazia 
EIrei não o pôde avistar. 
Mal sabe a pobre da infanta 
Se hade rir, se hade chorar. 
— 'Calla, minha filha, escuta. 
Ouvirás um bel cantar: 
Ou sSo os aigos no ceo<, 



* Ifait ootro exemplo do qae en frcqoentc nos antigoi eaotares 
repetirem, de ms para ooirot, certot dizeres que cahiam em graça. 
Vqa no 'Reginaldo' pag. 175, toro. n do aonAXcnto. 



^ ROMANCEIRO 

Ou a sereia no mar.' 
— ^Nào sâo os anjos no ceo, 
Nem a sereia no mar : 
É o conde Nillo, meu pae, 
Que commigo quer casar.* 
— *Quem falia no conde Nillo, 
Quem se atreve a nomear 
Esse vassallo rebelde 
Que eu mandei desterrar?' 
— 'Senhor, a culpa é só minha^ 
A mim deveií Ga»ligar; 
Nâo posso viver sem elle... 
Fui eu que o mandei chamar.* 
— *Calla-le, filha traidora, 
Não te queiras dcslwnrar. 
Antes que o dia aiiianheça' 
Ve-lo-has ir a degoilar/ 
—'Algoz que o maUar a elle, 
A mim me tem de matt^; 
Adonde a cova lhe abrirem, 
A mim me téem de inlerrar,* 

Por quem dobra aqueiia campa. 
Por quem está a dobrar? 
— * Morto é o conde Nillo, 
A infanta ja a expirar*. 

* Senhor pae, <ra lenho a culpa — jlçobbs. 
' Antes que nâeiiofqfia o dia — açorks. 

* A infanta vai a expirar ~a(;obes. 



CONDE NILLO ii 



Abertas estão as covas, 
Agora os vão intcrrar : 
£lle no adro da egreja^ 
A infanta ao pó do altar/ 
De um nascera um cypreste, 
£ do outpo um Jaranjal; 
Um crescia, outro crescia, 
Co'as pontas se iam beijar. 
Elrei, apenas tal soube, 
Logo os mandara cortar. 
Um deitava cangue vivo^, 
O outro sangue real; 
De um nascera uma pomba. 
De outro um pombo torquaz. 
Senta-se elrci a comer". 
Na mesa lhe ian) poisar: 
— 'Mal haja tanto querer, 
£ mal haja tanto amar! 
Nem na vida nem na morte 
Nunca os pude separar.' 



• Veja o qoe, a os(o rwpeilo c sôl»ro a ropctiçifo desta linda 
i, deixo eacríplo na *Ro;»liiula', pag. 163-1C8, tomo i do 

■OHARCIIBO; 

' Um, nobre sangue deitava — Tr.Az-os-Mo.\n8. 

* Scnlava-se elm á mesa, 

No bombro lho iam poisar. — açorks. 



nx 



AUBANnVHA 



Esta pequena xácara, curta, simples e que 
mais parece alludir a uma anecdota sabida, 
do que recontá-la, n3o a incontrei senão na 
província de Tras-os-montes. Três differentes, 
mas pouco differentes, versões d*alli me vie- 
ram; e, approveitando de Iodas, se restituiu o 
texto como aqui vai. Tem não sei que resaibo á 
sarcástica * sirvente ' do trovador. É mordaz, 
epigrammatica ; e até se permitte fazer o seu 
calimburgoj quando a donzella requestada 
responde ao seductor : 

* Poooo tempo s3o tret horas, 
Mas vem depois o contar/ 

Onde a graça do equívoco está em que o verbo 
'contar* tanto signifíca fazer 'contas' como 
'referir o que se passou/ 

Não ha variantes que mereçam a pena de 
se conservar, nem licção castelhana que se 
ache nos romanceiros. 



ALBANINHA 



— ^Albaninha, Albaninha, 
A filha do conde Alvar 1 
Oh! qaem te vira AltNiniDha 
Três horas a mea mandar T 
— 'Poueo tempo são três horas, 
Mas vem depois o contar.* 
— ^Usança de mans vlUÕes 
Nunca a en soubera asar. 
Com esta espada me cortem, 
Com outra de mais cortar, 
Donzella que em mim se fie 
Se eu d*isso me for gabar/ 
Inda bem manhan nao era 
Ja na praça a passeiar; 
Aos três irmãos de Albaninha 
Se foi de braço travar : 



ROMANCEIBO 

— <Ésta noite, cavalleiros, 
Sabereis que fui caçar; 
Em minha vida nao tive 
Noite de tanto folgar. 
Era uma lebre tam fina 
Que nunca vi tal saltar: 
Com três horas de corrida 
Não a cheguei a cançarT 
Disseram uns para os outros: 
— *Bom modo de se gabar! 
Será de nossas mulheres? 
Das irmans nos quer fallar?* 
Responde agora o mais roôço 
Discreto no seu pensar: 
— *Nào vedes qnc é dfe Albaninha, 
Que o traidor quer diffemarf* 

Foram-se os treâ para um «aBto^ 
Poseram-so a aconselhar; 
Diziam os dois mais velhos: 
— 'yaroo**lo'nós amattar?* 
E o roais moço respondia: 
— < Yamo*-la nós a casar?* 
— 'SimI e a dote que ella tei% 
Nós o temos de pagarJ 

Vão ao qnnno de Afbanmha, 
De voda a foram achar; 



ALBANINHA 29 



Duas aias a vestiam, 
Duas a estão a toucar. 
— ' A Ibaninba, Albaninha, 
A filha do conde Alvar t 
As barbas de teu pae conde 
Que bem lh*as soubeste honrar 1* 
— 'As barbas de meu pae condo 
Trattae vós de as honrar, 
Pagando-me ja meu dote. 
Que agora me vou casar.* 



XX 

A PBBXGBINA 



Nio é dos que mais se caDtam» nem tem a 
popularidade de outros muitos» o romance da 
'Peregrina' que alguns também chamam da 
' Princeza '. — A licç3o que principalmente se- 
gui veio-me do Porto, e é a mais completa. 
Das outras províncias só obtive fragmentos 
muito interpolados. Comtudo approveitei bas- 
tante d'elles para restituir o texlo e dar nexo 
e clareza á narrativa. O que se n3o utilisou 
para este fim, vai nas variantes. 

O final, sublime e poética idea que tanta 
predilecção mereceu aos antigos menestréis, 
é' o mesmo de outros romances. Ja notei ^ que 
francezes e inglezes o usaram em suas com- 
posições. Entre nós apparece repetido muitas 



* RoaiHciiBO, I, pag. 181, ed. dt i843. 
fOL. ni. 





34 BOUANGSmO 

vezes. Fez-se um 4ogar commam' romântico 
assim como tantas coisas beUas dos poetas 
gregos e latinos se fizeram, por sua popula- 
ridade, logares communs clássicos. Que Ho- 
mero ou que Virgílio da meia-edade foi o ori- 
ginal inventor d*este ? Nao é possivel sabé4o. 
E sabemos nós se eguaes beliezas da Ilíada ou 
da Eaeada são ou lãa repeUições» reonvs- 
Qweia^ de outros paetaft j»aís antigo» a^ 
obras ou cujos uQniesniach€8araKiaté«ó6? 
A 'Pere^ina' tem fcoda^ os ebaraetares ée 
aaliga a ori^naL É beUa a siaplo» e verdir 
deíra. Nos romanceiros castelbafios uia veoi; 
UÊm ae incontra nada parecido cam a siogeUa 
hi^ria que ingenuamente narnu Mas d'esus 
bistorias houve taotas Q'aqfiaUes ditoisos tem- 
pos da andante cavallaria 1 Blal h^ o damni- 
nhã talento de Gervaates qm a$ fez acabar 
n'iim Dom Quixote e na sua Dolcineai 



A JlfEJXV.Q1XWA 



Peregrina, a pcregriDa ^ 
Andava a peregrinar 
Em cata de um cavaileúro 
Que lhe fugiu, mai pezarS 
A um castello torreado 
Pela tarde foi parar: 
Signaes certos^ que irazia 
Do castello, foi achar. 
— *Mora aqui o cavalleiro^? 

' Anda atrás do caralleiío 

A prineeia a bom andar. —Mnnio. 

Éfta licçSo do Ifmho dá por titato m mntmà *A Friaeiía'. 
* Está em casa o caTalIeiro 

Qne aqni dtva d» monrt— «aí MiWmus. 



90 ROJfÂNGSIBO 

Aqui deve de morar.* 
Respondéra-lhe orna dona 
Discreta no sen fallar: 
—'0 cavalleiro está fora, 
Mas nâo deve de tardar. 
Se tem pressa a peregrina, 
Ja lh'o mandarei chamar.* 

Palavras nao eram dittas, 
O cavalleiro a chegar : 
~'Que fazeis porqai, senhora', 
Qaem vos trouxe a este logar?' 
—'0 amor de um cavalleiro 
Por aqui me faz andar. 
Prometteu de voltar cedo. 
Nunca mais o vi tomar; 
Deixei meu pae, minha casa ^ 
Corri por terra e por mar 
Em busca do cavalleiro, 
Sem nunca o poder achar.* 
--' Negro fad^o, senhora. 
Que tarde vos fez chegarl 
Eu de vosso pae fugia 
Que me queria mattar; 
Corri terras, passei mares, 
A este castello vim dar. 

■ Qoa fSueit porqoi, piteeen. 
Que andais a procurar?— Mnao. 
* Oeixtti mea paa, nlnha fnt«— Taii-os-MOirns. 



A PBRBGRINA 37 

Antes qae fòsse anno e dia 

(Vós me fizestes jarar) 

Com outra dama oa donzella 

Nao me havia desposar. 

Anno e dia eram passados 

Sem de vós ouvir fallar, 

Co*a dona d*esse castello 

Eu hontem me fui casar. . .* 

Palavras não eram dittas, 

A peregrina a expirar. 

— 'Ai penas de minha vida, 

Ai vida de meu penar t 

Que farei d*esta lindeza 

Que em meus braços vem finar? * 

Do alto de sua torre 
A dama estava a raivar : 
— *Levá-la d'ahi, cavalleíro \ 
E que a deitem ao mar.* 
— 'Tal não farei eu, senhora, 
Que ella é de sangue real. . . 
E amou com tanto extremo 
A quem lhe foi desleal. 
Ohl quem não sabe ser firme. 
Melhor fora não amar.* 
Palavras não eram dtttas 
O cavalleiro a expirar. 

* Lefi-ft d'abi, eavalleiro, 
E Tii lançá-la no mar.— mwbo. 



ROtfANGSmO 

Manda a dona do easteUo^ 
Que 03 vão logo interrar 
Em daas eovas bem Aindas 
Alii junto à beíra-mar. 
Na campa do caTaileiro 
Nasce um triste pinhâral"', 
E na campa da piinceza 
Um saudoso canavial. 
Manda a dona do castello 
Todas as canas coitar; 
Mas as.canas das raízes 
Tomavam a rebentar: 
E á noite a castellana^ 
As ouvia suspirar. 



* De raivosa, a castelhaoa 

Os mandou logo cortar. — hcom). 
' Nascea um triste pinhal— ixtaimaboba. 
Noto ósla variante para marcar o uso indisUnclo dai paUm$ 
* pinhal e pínheiraP que a lingua consente. 

• E, por noite, a castellana— «Ae-o»«oiit«s. 
£, alta noite, a casteM tau —ao. 

E, de noite, a castellana— mAS^os-MOirRi. 

A UcçSo qno segui no texto é a qne yeio do Porto, qoe Hinbi^ é; 
mas nSo a acho melhor do qno qualquer ftw<Mffras« 6n{ii«p<lV*» 
no todo do romance, é a mais ooi^lela. 



XXI 

DOK joio 



o assumpto doeste i omance é um casamento 
á hora da morte, uma d^aquelias tardias mas 
solemnes reparações que a religião, a honra, 
o amor tantas vezes téem arrancado á con- 
sdencia do moribundo. 

Os preconceitos de nascimento luctam, po- 
derosos ainda n'esse momento extremo, com 
os deveres da religião, com os sentimentos 
d'alma9 com os mesmos dictames da verda- 
deira honra. Oiro é a primeira coisa que o 
fidalgo expirante se lembra de deixar á infe- 
liz donzella, — infelix virgo I — em compen- 
sação da sua honra perdida. 'Mil cruzados' 
lhe deixa : falta ahi villSo que a queira, bur- 
gaez que a requeste e cubra de seu nome vul- 
gar a doirada fragilidade de uma menina tam 
bem dotada por seu senhor e seductor ? 



4S ROMANCEIBO 

'Mil cruzados não é nada': lhe objectam. 
— *Pois darei mais duzentos': regateia a so- 
berba agonizante. — ' A honra não se paga aos 
cruzados/ — *Pois, terras, villas, senhorios e 
castelios a quem casar com ella. Ha tanto es- 
cudeiro e cavalleiro pobre I Casar com a man- 
ceba de seu senhor, e senhor tam generoso, 
quem hade recusá-lo? E para o que duvi- 
dasse . . . argumento de rei velho e de repu- 
blicano novo: Tenha a cabeça cortada!' 

Forte é o orgulho que asshn iucta, quasidQ 
ja na beira do sepulchro. Tenaz o preeMceito 
que ainda agora fez mentir vittammente o ca- 
vflMeiro pundonoroso, quando, n*nma ãerra- 
deíra esperança de vida, falsamente promrt* 
tia á mganada donzelta *as bênçãos de mi ar* 
cebispo e a estolla da sancta egreja\ Tivesn 
elle, e taes promessas se cumpririam tanto 
como as primeiras que a seduzirarm. Pordea 
mais íorle è a piedade, a honra verdadeira de 
qtfem, até o último, combale esse vío orga- 
Iho, es9e felso pundmor. Era scRr mSe ; iffc 
a mSe én desgraçada, qoe o não ousaria m 
viva era— qoe por wtítura foi monrer de ve^ 



gènha s um caDio.~N9o, mas sua própria mSe 
d'elte» áo moribundo. Verdadeira mulher de 
ahiMi e de coraii^ao, todo o mais lhe esqneee 
e despreza, e ião vé na infeliz, que aili está 
diriimlhada em lagrimas janto ao leito da ago- 
nia, senão uma mulher, uma mulher que è 
victima de seu amor, que ttido quanto era 
deu a qnefrn tudo lhe quer pagar com tam 
pouco. 

A mulher triumphou. Âs últimas palavras 
do vencido são bellas: 

--'Pois fiqiM áiU mão ja fria 
Na fna mSo adorada. 
De Dom Joio é riirra. 
Condessa será chamada/ 

Estes grandes quadros desenhados em pou- 
cos traços, vivos só deverdadee natureza, são 
— não me canço de o fazer notar — os que dão 
á poesia do romance este vigor que se não 
acha n'outras, este character que a distingue 
em todas as nações, em todas as línguas. 

Mais adeantada civilização trará poetas que 
inluminemj que repintem a cores estes sim- 
ples desenhos a lápis do menestrel. Mas crear 



U ROMANCEIRO 

nSo hSode eiles nunca, se nSo fecharem os li- 
vros escríptos, para abrirem o do coração, 
para estudar por elle o homem, a natureza 
que o cria, e o Deus que o fez. 

O presente romance veío-me do Minho; va- 
riantes notáveis nSo me appareceram ; nas col- 
lecções castelhanas não está ; e não o creio 
— isto é, não o presinto mais antigo do que 
o século XY ou princípios do xvi. 



DOM jroÃo 



Lá das bandas de Castella 
Triste nova era ebegada : 
Dom João que vem doente, 
Mal pezar de soa amada! 
Sâo chamados três doutores 
Dos qae téem mais nomeada : 
Que, se algum lhe desse vida 
Teria paga avultada. 
Chegaram os dois mais novos, 
Dizem que nâo era nada; 
Porfim que chega o mais velho, 
Diz com voz desinganada : 
— ^"Tendes três horas de vida, 
E uma está meia passada ; 
Essa é para o testamento : 
Deixar a alma incommendada! 



46 BOMANCEiaO 

A oulra é para os sacramentos, 
Que inda é mais bem impregada. 
Na terceira as despedidas 
Da vossa dama adorada.* 

Estando n*estas conversas, 
Dona Isabel qoe é chegada. 
Ergueu os olhos para ella 
Com a vista ja turvada : 
—< Ainda bem qa» vieste» 
Minha prenda desejada. 
Que tanto queria ver-te 
N^esta hora minguada 1' 
—-'Tenho fe na Virgem aaaela, 
N^ella venho confiate, 
Que me hade ouvir <e salvar-tô. 
Que o teu mal imo será nada** 

—'Oh! qu6 te eu efaegar a «rguer-mo, 
Minha rosa namorada, 
No vaso d*este meu peito 
Fra sempre serás plawlada, 
Co'as bençaoB de \m motímpo 
E de agua benta cegadft^ 
Ck)*a estotta da saneta egreja 
Ao meu eoraçio ^ada.* 

Estando n*e8lae «oomna^ 
Sua mãe que era ehegaâa : 



MM JOÃO 47 

—'.Que tens ta, filbo querido 

Doesta aJna amargorada?* 

— 'TenhOy mae» que estou morrendo, 

Qae esta vida OAtá acabada; 

Com só três lioraa ^r minhas, 

E uma ja meio passada.* 

—'Filho de minhas intranha^, 

Testa hora minguada 

Lembra-te se alg& deve» 

A algmna dama honrada.' 

— 'Minha mãe, que devo, devo. . . 

E Deus me não peça nadai 

Dona Isabel que em má hora 

Por mim fica diffamada. 

Mas deixo-lhe mil cruzados 

Para que seja casada.' 

— 'A honra não se paga, filho; 

Mil cruzados não é nada.' 

— 'Ja lhe deixo mais duzentos 

E a cruz de minha espada.' 

— 'A honra não se paga, filho; 

Os cruzados não são nada.' 

— 'Deixo-a a estes três doutores 

Muito bem incommendada; 

E a vós, minha mãe, vos peço 

Que a tenhais bem guardada. 

O que com ella casar 

Tem uma villa ganhada; 

O que lhe disser que não 



4S ROHANCBIRO 

Tolha a cabeça cortada.* 
— *A honra nao se paga, filho; 
Nem com terras é comprada : 
Se a essa dama lhe queres. 
Não a deixes deshom-adal* 
—'Pois fique esta mão ]a fHa 
Na sua mão adorada : 
De D. João é Tíuva, 
Condessa será chamada/ 



XXII 

BBLENA 



TOL. m. 





Se a Dona Izabel da xácara antecedente 
achou na m3e do seu amante todas as divinas 
compaixões de um coração feminino, Helena, 
a boa Helena d'este romance, n3o incontrou 
na mãe de seu marido senão a proverbial 
'sogra' de todos os rifões e diltados de todos 
os povos. Inredadora, invejosa, má-lingua, 
sogra ^mfim, sogra extreme, e puro sangue — 
como em stylo cigano do Jockey-club, manda 
.a moda anglo-galla que hoje se diga — a sogra 
excita com dicterios e mentiras^ a bruteza es- 
túpida de seu filho : faz com que elle vá ar-* 
rançar da cama, e trazer de noite para sua 
detestável casa, a infeliz mulher que, sentin- 
do-se com dores de parto, tinha ido para a de 
sua mãe buscar o aninho e conforto que juncto 



51 BOMANCBIRO 

da odiosa sogra não podia achar. Cego de cho- 
iera e despeito, o bruto a nada attende. É a 
morte que lhe dá; bem o sabe, mas pouco lhe 
importa. A resignação angélica da victima, as 
suas despedidas ao flihinho recem-nascido, as 
deixas de seu testamento quando se sente 
finar nas desabridas alturas 'd'aqnella serra' 
por onde a levam n'aquelle cavallo andaluz 
que 'anda maisque o luaf^-^tuâo ^oi)^t6zas 
devprimeira ordem, poesia de eora^'e'^er- 
dode. 

Obtive este romance em Maie ée 484S de 
uma saloia velha das vizinhanças de *Liâbea. 
Outra IÍC0O veio depois, da Beiriilta, quMlSo 
differe muito. Sempre doIo porôm tllguma 
variante, pòstoque ellas valham pouco. Vam- 
ce^me portuguez 4e nascença: nSo^ba d'6Ue 
v98tigio em collecçSo castelhana de qm «u 
daíba. 



HELENA 



— 'Ai! que saudades me apertam 
Pela casa de meu pae! 
Também me apertam as dores, 
E minha mâe sem chegar I ' 
—'Se as saudades te apertam, 
Bem n*as podes ir mattar; 
As dores não serão muitas, 
Toma o caminho — e andar T 
— 'E á' noite, meu marido, 
Quem lhe dará de cear?* 
— *Da caça queelle trouver,, 
Eu lh*a farei amanhar i. 
Do meu pão e do meui>vínho 
O que elle quifeérnomar/ 

' Aprestar— BinuLTA. 



U ROMANCEIRO 

—'Onde está mf esposa Helena 
Que me nao dà de cear?' 
—'Tua esposa Helena, filho, 
Foi-se para não tomar. 
. Que ia para sua casa, 
Que nos não pôde aturar. 
Ghamou-me a mim perra velba, 
A ti filho de mãe tal.* 
~'0 meu cavallo andalui^ 
Ja e ja m*o vão sellar. 
Essa mulher, por Deus juro 
Que cila m*as tem de pagar.* 

—'As boas novas, meu genro ^ 
Que tenho para vos dar! 
Filho barão, e tam lindo, 
Um anjo de pôr no altar I* 
—'Novas me dão, boas novas; 
Más as trago eu para dar : 
Que a mãe que o pariu 
Não é que o hade criar. 
Ergue-te d*ahi. Helena, 
Que me tens de aceompanhar.* 
— 'Paridinha de uma hora, 
Onde a quereis levar?' 

*Qo6 me MHem dmd caTsllo, 
Depressa, nio deTagar.— iztmmaoitiu. 

'AlTJçaras, meu innio. 
Que ja m*as devias de dar.— bbaalta. 



HELKNA H 

—Tara perto, e bom caminho; 
Não tem maito que penar, 
Que o meu cavallo andaluz 
Anda mais do que o luar.' 
— *Ande elle, que nlo ande, 
Onde a quereis levar?' 
— <Cair-se d'ahi, minha mãe, 
Ja se havia de callar; 
Que a mulher que é bem casada, 
O marido a hade mandar. 
Que me dem a minha cinta, 
Para eu me conchegar, 
E esse meu gibão forrado 
Para melhor me abafar. 
E agora dem-me o meu filho, 
Que o quero abraçar. 
Ai I doestes beijos, meu filho, 
Se te saberás lembrar? 
Lembrae-lh'o vós, minha mãe. 
Quando elle souber fallar.* 
— <Que dizes, filha, que dizes?' 
—'Minha mãe, isto é folgar; 
Que é tam perto e bom caminho 
Para onde temos de andar; 
E o cavallo andaluz, 
Anda mais do que o luar.' 
O cavallo era andaluz 
Andava mais que o luar; 
O caminho era de pedras, 



66. ROlfiVCSSBO 

Elle iaa.tnopaçfur*. 
Yâo andand<vvãa andando 
Sem um nemjoiUiD faUac^ 
Ella ja tem aamãos.fmsi) 
O corpo estárlbe aiacbar;, 
Chegando ao alt# âa.aecia«^ 
Deu nm aUQPi^dettnaíar» 
—'Que ais são esses^fielena? 
Porque; estás aâuspirar?' 
— 'É que se m» acabaa.yiday, 
— 'É que me estoa a finac : 
Parídinha de uma boca, 
Sinto-me em sangue alag^.! 

Ja se não ten a cavallOy. 
Alli a foi apear: 
Era a agoniai da ioorte 
Que ja lhe estava a api^rtac . 
—'A quem.deixas o teu qíod^, 
Que fo hajam.de estUnac?' 
— 'Dei]iiOro,a mínha&4nna&3#. 
Se tu Ih^o.qi^xeres dar.*. 
—'A q|iem.deixas<Qssa««cGa(, 
E as pedras ^teu.,Gollar?^ 
—'A cruz, deixo-a a* iximba%m2a 

* Lá no mais alto da serra— KxTaBXASUftA. 

* Oiro em stylo camponês qaéf^dlnf*-*- jeito; ofWt^dè^oin} de 
pessoa. 1MU oiro é o oiroieon qamtmaàkm \ niwnm styio 
de cidade a minha prata 6 aLpiHUideiii0iM«nj||l4ftMM4 



HBUEVA. 57. 



Que por mim. Um. hade rezar. 
As pedras não as qoer ella, 
E bem n'as podes guardar : 
Se a outra as deies^ marido. 
Melhor lh'as deixes logjrar.' 
—'Tua fazenda a quem^deixas. 
Que t'a saibam granjear?* 
—'Deixo^f a aiti,.marído; 
Que t*a deixe Deus goear 1 ' 
—'A qmem deixas o tea.íilho 
Que Vo hajam de criar?' 
—'A tua mãe — qae Deus queira 
Amor lhe venha a..g9Uihai:! ' 
— 'Não o deixes. avessa pfurra. 
Que é capaz de t'o mattar. 
Ail deixa-o aotes á-toa. 
Que bem n'o hade criar* 
Com lagrymas de seus olhos 
Bem n'o ella hade- lavar; 
Toucas de, sua cabeça^ 
Tirará para o pençan' 
De ouvir aquellas palavras 
A pobre quiz-se. animar; 
Mas a voz que vem do peito 
A bôcca não pôde achar 7. 
Inda lhe disse c*os olhos 

*£ u toucas da cabeça 
Despiri para o pençar.— BZTRBMAooaA. 
' NSo pôde i bôcca chegar.— bsuulta. 



08 BOMANGEmO 

Que lhe estava a perdoar. 
— 'Nao me perdoes, Helena, 
Que Deus te hade escutar. 
Ai! as penas do inferno, 
Ja as eu começo a penar, 
Que vejo subir ao ceo 
O meu anjo tutelar. 
Mal hajam linguas traidoras* 
E ouvidos que lhe eu tal dari 
Que por amor das más linguas 
Meu anjo vim a mattari 
Sette annos e mais um dia 
Me irei a peregrinar, 
Á porta sancta de Roma 
Me quero ir ajoelhar; 
E aqui um sancto convento 
Fundarei n*este logar, 
Com sette missas por dia 
Cada uma em seu altar; 
Que digam todos que o virem : 
'Aqui foi seu mal-peccar, 
E aqui fez penitencia 
Para Deus lhe perdoar.' 



* Mal hajam as lingoai taet 
E oQfidof qae lhe eo foi dar, 
Qoa por amor das más línguas 
Mea amor fim a mattar.—KTmMAPna k ■ 



xxm 

AMOBBKA 



Esrte romanee é vtílgar na Extremadura e 
-fieira e nas'ãaas provincias d'além do Tejo. 
fiegiiiQ^^se principalmente o exemplar vinAo 
âe Gastello^branco, que era o mais ampto; 
•masipproveitOQ-sede outras iicções praVin- 
'daes o que foi necessário para lhe dartom- 
fflemento. Transmittidas de Meca em bõcca, 
— nSo me canso de o repisar — por tantas 
feraç^es, estas copltasforam-seflflterandoeom 
tBntnflçSes e interpolações graduaes, mas ilSo 
constantes nem unffbnnes. O mstreo menes- 
trel de uma aldeã tinba ás vezes pretençSo 
êe corrigir e eofeitar a áingeleza dos primi- 
<ves cantares ; outras, a tivõ^vefea que os re- 
citava á lareira aos pasmados netinhos, cor- 
tara 6 qae Ibe pareda demais ou t) que llie 



a BOMAKCEIBO 

esqaecia; d3o poucas vezes» algum Macias 
namorado recorreu» na esterilidade de sua 
musa» ao bem parado d'este depósito com- 
mum» e» còm mudanças de nomes e sítios, 
transformou a historia de uma antiga aven- 
tura em monumento moderno de suas glorias 
ou desgraças — como das mutiladas relíquias 
de um templo dlsis se fazia nas eras byzan- 
tinas uma basílica de cbristios; como de 
versos de Virgílio se compunham os celebra- 
dos çentOes; de pensamentos de Homero» de 
phrases de todos os poetas antigos» cozidos 
uns nos outros» se urdiam os poemas latinos 
de ha dois e três séculos ; como ainda até ha 
bem pouco tempo se escreviam também quasi 
todos os mesmos poemas vulgares. Dem des- 
conto á simplicidade da obra e á inexperiência 
do artista» e hãode achar a comparação exacta. 

Fazia-se isto porém desvairadamente em 
epochas e logares differentes; e d'aqui a ne- 
cessidade de collacionar as tradições de ama 
província» de um districto» de uma aldeã is 
vezes» com as de outra. 

No romance da 'Morena' não parecem des- 



A MOBBNA 63 

cnbrír-se vestígios de mui remota antiguida- 
de: assim a adivinhar, deitá-lo-bia pelo século 
dezeseis. A elle sabe o mandar os escravos á 
fonte buscar agua^ o inatUeo de cochonilha, 
e outras expressões que taes. Tem comtudo 
nm certo sabor de originalidade no slylo, om 
tom familiar sem baixeza, um natural tam 
despido de todo o ornato, que lhe imprimem 
o cm)bo verdadeiro e inquestionável da poesia 
primitiva de um povo. Quando quer que nas- 
cesse esta flor singella, foi na serra inculta, 
foi entre o mato virgem das florestas, longe 
das formalidades da arte, das fataes tesoiras 
e indigestos adubos do jardineiro. 

O assumpto é uma vulgar aventura d*aldea 
— d'essas que fez tam communs a devassídSo 
dos mosteiros ruraes: isso mesmo a deixou 
porventura conservar na memoria dos homens 
como historia do que tinha sido, do que era 
e seria. Na última copla ha uma pincelada de 
mestre, dos mestres que faz a natureza, su- 
blime de verdade e profunda de moral: ao ín- 
carar com a victima de sua profana leviandade, 
estendida n'uma tumba, o seductor riu-se. 



«4 ROMARCKmO 

e o mariâo — diz o sincero trovador — o «a- 
riãú é ^fue chorava t 

THo se tomaram aqui Bberftades fie edtor 
que restaura : é o quadro "veTho fímpo, mas 
dTío repintado. Algumas camaSas de cAr-pos- 
*fíça, que tinha pordma, cahíram ao lavar, e 
Bcoumais claro o deseiAo original. TfSo 161 
preciso, como n'outros casos multas veies é, 
f ozer a tella rasgada ou avivar otlesenho sum- 
mtdo : o fundo estava sSo e inteiro. 

Nas collecçoes castelhanas nSo ha vest^o 
tS^este romance; tenho-o por intehamente 
portuguez e absolutamente popular. 



A MOaBNA 



Fui-me á porta da Morena ^ 
Da Morena mal casada: 
— 'Abre-me a porta, Morena, 
Abre-m'a por taa alma! ' 
—'Gomo te heide abrir a porta. 
Meu frei João da minha alma, 
Se tenho a menina ao peito 



* Em ftlgnmai licçòes proTinríaes, deiisoidamcnlc nas da Ex- 
tremaâdra, eomeça aMÍa : 
Ergoeo-M frei Jouiieo 
Um dia de madrugada. 
Vestido de poDto em branco 
E tangendo na gnitarra, 
Foi-w á porta de Morena, 
A Morena etc. — KTnKMADimA. 

vou III. 5 






66 ROMANCEIRO 

£ meu marido á iihai^?* 
Estando ii*e8tas razoes, 
O marido que acordava : 
— 'Qae é isso, mulher minha^ 
A quem dás as toas falias?* 
—'Digo á moça do forno. 
Que veio ver se amassava^ 
Se amassasse pão de leite, 
Que lhe deitasse pouca agua.' 
— 'Ergue-te, ó mulher minha, 
Vai cuidar dar tiMl*éttaj 
Manda teus moços à lenha. 
Tens escravos huscar agua.' 
— 'Ergue-te d'ahi, marido, 
Vai ao monte pMa caça; 
Nao ha coelho mais oerlO' 
Do que é o da madrugada.' 

O marido que sahia, 
Morena que seínféilava; 
Seu manteo de eoehoDilha' 
De doze testões a vara. 
Meia de seda. incarnada 
Que na perna lhe estalava» 

* Qae ó isso, Moreoita— albmtbjo. 
' Com sea maDtinbo de lustro 

Que o vrnio Ih'o levava, 

Sea sapatinho picado 

Qoo no pé lhe rebentava— nnKiiáDnu. 



A Moaamx 67 

Sua beDgaiU na não 
Qae mal no eláo lhe toeava. 
Foi-se (tíreita ao convento> 
Á portaria ebegava^ 
O porteiro é frei João ^ 
Que peia mao a tonava; 
Levou-a à sua cella, 
Muito bemacoilnsava... 
Penitencia queibe deuy 
Logo alii mesmo aresava* 

Á sabida do convento 
O marido que a incontrava : 
— *D'onde vens, ó mulher minha, 
Donde vens tam arraiada?' 
— 'Venho de ouvir missa nova, 
Missa nova bem cantada : 
Disse-a o padre frei João, 
Que assim venho consolada.* 
— 'Consolar- te heide eu agora 
Com a ponta d*esta espada...*^ 
Deu-lhe um golpe pelos peitos, 
Deixou-a morta deitada. 
— ' Nao se me dá de morrer, 
Que o morrer não custa nada; 



* Frei Joio qoe a via chegar, 

Em vez de correr, saltava.— bkiiulta. 

* Com o olho tfetta enchada.— bbuialta. 



ses ROMANGBIBO 

Da-se-me da minha filha. 
Que a nio deixo desmamada!* 
— 'Fôras tu melhor mie que es, 
Nio foras tam mal casada, 
Nao havias de mcvrer 
D*esta morte desastrada.' 

Levavam-]i*a ao «myeato, 
N*Qma tumba am<»talhada: 
Surría-se o Arei Joio, 
£ o marido... é quem chorava. 



XXIV 

DOHZELLA QUB YAI A OUSBaA. 



Apezar de que se não incontra nas colleo 
(ões impressas, sabemos, pelos nossos escri*- 
ptores portuguezes, que este romance é de 
iaquestkHiavei origBm castelhana. Por fins do 
swiik) XVI ainda ^e cantava na somãaie, por 
gMtiS' damas e galantes oavalbeiros; e, ^a se 
¥é» em >castelbano se cantava. D'^sse tevpo 
eacreida Joige Ferreira na auíaobaphu*: 
fN3o <ba enir^A6s guem. perdoe a. bua trom 
'portogueza* qiie muytas vezes be de vanta- 
igem das easleltonas que se tem afomdo 
fMBmosco e tomadoposse do noseo ouvido/ 
Bma As^v^asRS do que^ofieedia do^ seculM 
aiites, di»<tea^>dQJBaarqBíez de SantiUanai» 



n ROMANCEIRO 

que os castelhanos trovavam em portogoez 
para serem acceitos seus dizeres e cantares 
na própria corte dos reis de Castella^ 

Devia dar-se, ao menos entre nós, a este 
romance o seu titulo primitivo 'O rapaz do 
Conde Daros', porque assim lhe chama Jorge 
Ferreira em outra das muito curiosas scenas 
da ja citada aulegrapuia, tam ríccas todas 
de preciosa e rara informaçSo para o estado 
dos costumes e usos d^aquelle tempo. É na 
primeira do acto ni, chistosa e desinfadada 
conversaç3o entre dois galantes do paço, Di- 
nardo Pereira e Grasidel de Abreu, que se di- 
vertem fazendo de Vesprit á moda do tempo 
com agudezas e requintes, em quanto nio 
vem o jantar 'que está para dois toques*. 
Tracta-se entre aquelles fashionaveis da era 
de quinhentos, de fazer alguma coisa ele- 
gante: sonetos, por exemplo, trovas, ou que- 
jandas galanices d'entSo— como boje seria 
jogar um ruber (róber?), experimentar uma 
walsa nova no piano etc. NSo é o menos gra- 

' Carta do marquei de Santillana ao eoodetUftl de Portugal: 
pag. LTD, tom. I da ooUeo^ de SaaoiMi, Madrid 1779. 



DOMZBLLA QUI YAI k GUBRBA 73 

doso doeste quadro, o aparte dos dois criados 
Rocha e Cardoso, que á soccapa estão glo- 
sando e mettendo a ridicolo os alambicados 
conceitos dos amos. Dinardo, que é o mais 
prendado, resolve-se emíim pelo romance e 
a guitarra. 

dimauoo 
Ora poys qoe issi te tocarey : O rapaz 4c Conde Daros, 

ROCHA 

D9 praier Tem tomo amo, aigom pauariíiho novo vio lá. 

CARDOOD 

Veria mnyto má TeDtora, que lempre anda após cstet . . . 

MlfARDO, casUi 

^«gonadas Mn Ia» goem» 
De Frauda eonlra Aragone . . . 

BOCHA 

O qM elle tom para tm remédio he gentil tmI . . . 

DOIARIX^ eoatlaouite a cuilar 
Gomo lat haría trisle 
Vkio emK> 7 pecador? . . . 
(OataM>-lh« on caHa) Ah peiar de Mafoma t 

CARDOBO 

Qfleèroii*]he a prima, inda bem t 

DOtARDO 

Yedee esle detar tem a mntiea, cpiando eetaii no melhor, lei* 
sa>nM «D brmeo ama prima &laa . . .* 



Dei mais largas á curiosa citação por ser, 
como é, tam indubitável e interessante do- 

« AnMUTBA, aet m, ee. I, <òl. 84. 



94 BOMMfGIHIO 

cunuto para â historia do roniMce aa 
Portugal, e porque também sfio ja raris» 
mos os exemplares d*e8sa obra de Jorge Fer- 
reira. 

Afisim andava pois este romance, estran- 
geiro, e por tal prezado na alta sociedade 
portugueza; até que, descendo dos salões 
para o terreiro, a popularidade o naturalizou. 
Era castelhano no paço, foi*se fazer portuguez 
na aldeã. 

Vai em três séculos que Jorge Ferreira nos 
deu as últimas novas d'etie quando andava por 
casas de senhores; acliamo-lo hoje á lareira 
d^algum pobre abegao do Atemtejo, — que 
para riccos lavradores, com fllbas que ja con- 
tradançam talvez, senão é que walsam e pol- 
kam também — é o triste de multo mã com- 
panhia ja. Também das províncias do Norte 
vieram notícias e cópias d'elle; dos Açores 
ê a mais completa ou a mais extensa que mie 
chegou. Desvairados nomes traz das diver- 
sas províncias: aqui è Dona Leorrítf' a18m 
Ifem 'Joio' n'outra parle IDom <!ar!os* "ète. 

Quando ha dez ânuos o erudito ^uictor de 



DONZBLLA QUE YAI A GUERRA 75 

ISABEL OU A HEROINA BE ARAGÃO^ O pubUCOU 

sob O mesmo titulo e como illustração e fun- 
damento do seu poema, era este o quarto 
romance tradicional que apparecia impresso 
emportuguez; contando o primeiro no suspei- 
toso 'Figueiredo' de Fr. Bernardo de Brito, 
6 segundo e terceiro na 'Silvana' e no 'Bor- 
nal- Francez' que eu publicara em i828 em 
Londres. 

Deixo-Ibe por titulo, o que trouxe das ilhas, 
da 'Donzella que vai á guerra', porque lhe 
acho certa graça e simplicidade toda popular, 
bem própria sempre de taes rhapsodias. 

São muitas as variantes, por ser este ro- 
mance dos mais espalhados pelo reino, e mais 
favoritos do povo. 



* Iaabil ou a hbaoua db AniGlo por J. M. da Costa o Silra. 
Luboa,(83S. 



DOBIZELLA QUE VAI Á GUERRA 



— -'Ja se apregoam as guerras ^ 
Entre a França e Aragão : 
Ai de mim que ja sou velho. 
Não nas posso brigar, não^f 
De sette filhas que tenho 
Sem nenhuma ser barão I . . / 
Responde a filha mais velha ^ 
Com toda a resolução : 

* Pregoadaj sSo as goems 
Entre França e Arif io. 
Como as foría trúte 

Velho cano e peocadorf — licçIo asitioa em joaob raMBiikA. 

* As guerras me acabarSo— usboa. 
Triste de mim qoe soa rolho, 

As gnerras me acabario. — ALsirruo, bxtrkmaddsa. 
' RespoDde Dona Guimar—LissoA. 



78 ROMANCEIRO 

— 'Venham armas e cavallo 

Que eu serei filho barão.' 

— 'Tendes los olhos mui vivos*. 

Filha, conhecer- vos-hão.' 

— 'Quando passar pela armada^ 

Porei os olhos no chão.* 

— *Tendes-los hombros mui altos 

Filha, conhecer-vos-hão/ 

— 'Venham armas bem pesadas, 

Os hombros abaterão*/ 

•^Teiide'^loti>«fto* laaliilU»* 

Filha, conhecer-vos-hão/ 

— 'Venha gibão apertado ^, 

Os peitos incolherão/ 

—' Tende' 4as mão» pecioeniiiaft' 

Filha conheoer-TOs-hioi' 



* ' Tendes las tranças campridas. 
Filha, conhecer^TOi-hio/ 
— ' Venham ja umas tesouras, 
As tranças irio ao chio. —Mimo. 
— 'Tendes los olhos gairidet-^AÇOUM. 

* Pela hoste— BamALTÁ. 
Pelos homens — minho. 

* Abaixar&o— LISBOA. 
Inoolherei os meus peitos 
Deotra do meu ooraçio. — mimbo. , 

' Venha ja um alfaiate 
Faça-me um justo gibSo. — BZTHBUofnu, auhtuo, alch^ 

* Delicados ~ ALwmnto, hibalta. 

Muito finos — BBIBABAKA 



DONZBLLA QUB^TM Á OUBRRA 79 

Venham ja goamee d» t&pro*, 
£ compridas ficarão.' 
— 'Tende'-to» pés delieados, 
Filha, coolieeer-Yos^lo/ 
— ' Calçarei botas e esporas, 
Nunca dV^llas sahirio.' 

—* Senhor pae, seiriíorariiiie, 
Grande 4or deoordçao; 
Que 09* oHos do eoode^ Doros lo 
São de mulher; éê^lÉDinem não.* 
— 'Convidae-o vd» mo» filho, 
Para ir oomvosoo áepomar^^. 
Que se elle moffierfor, 
Á maçan se hade pegwr' ». 
A donzeUa por dlsoret», 



' Melte-las-hei n^omas lavas— EXTRBJuomtA. 
Galçá-las-hei D'iima8 lavas, 
D*6llas nonca sahiflo.— itBVfBio, mMBe. 
Veoham manapolai da feno— nut-oi-MiiTBS. 
Os pés bem grandes seriU»— mno, hidalta. 

*' Dom Joio — AÇOEBS. 

O. Martiikbo — lisboa, álbmtejo. 

B. Marcos— IXTBBIfAlHJRA. 

Dom Claros— MOCHO. 
" Jardim— Mnaio, AçonSi usboa.» 
'* Co'as rosas se hade teotar^LtsaoA. 

Com as flores se hade armar— ximho. 

As rosas o hflode buscar — açores. 



80 BOMAHCBIBO 

O camoei foi aptntaari^. 
—'Oh qae bellos cunoeies 
Para um homem cheirarl 
Lindas maçans para damas 
Qaem lh*as podéra levarl* 
—'Senhor pae« senhora mie, 
Grande dor de eoraçSo; 
Que os olhos do eonde Daros** 
Sao de mulher, de homem nao.* 
— 'Gonvidao-o t6s, meu flttio, 
Para comTOseo Jantar ; 
Qae, se eito mulher for ^ 
No estrado se hade hicrasar ^ V 
A doniella, por discreta. 
Nos altos se foi sentaria 
—'Senhor pae^ senhora mãe, 
Grande dor de eora^; 
Que os olhos do eonde Daros <* 

■"Á lima le foi paftr: 

— ' Oh que beilâ lim étU t * ^unoA. 

Uma cidra foi miiar^AiAUTi, amio. 
** Al meimas TariantM rM|MClÍTU. 
'* Porqne do partir do pSo 

Se viria delatar: 

Que le elle o partir no peito, 

Por mulher le hade moflrar.—Açoass. 
'* Baixo assento hade ir basear— mixbo. 
" O mais alto foi bosear-^usioà. 

No mais alio quis estar— «mio. 
*' As mesmas rarianles. 



DONZBLLA Ql» TAI Á GUKBBA 81 

São de oNílher, de bemem nio.' 
— -'Conyidae-o ¥0% mea flUio, 
Para conmme feirar; 
Que, se elle moltep ftxr. 
Ás fittas se hade pegar/ 
A doDzelia, pgr dlacKta, 
Uma adaga foi oomprsrit.- 
— ' Oh que beUa< adaga éata 
Para com homen» Inrigarf 
Lindas fittas para damas : 
Quem Ilfas podéra levar!' 
—* Senhor pae, smboramSe, 
Grande dor de^ coração; 
Que os olhos do eondd Daro» 
São de molber; de homem ido/ 
— 'Convidae*o vós, meu filho, 
Para comvowo nadar; 
Que, se elle mulher fbr, 
O convite hade escusar 2(^.* 
A doniella^ por âlseneta» 
Começou-se a desnudar... 
Traz-lhe o seu' page uma carta, 
Pôs-se a ler, pÔ8«>se a^ ehonnr: 

« If ama adaga foi p^gtr*^ unoi. 

Foi uma espada apreçar — xdibo. 

Oh que lindas fitlas verdes 

Para mdças inganar \ — açoais. 
•• Desculpa yo« hade dar — lisboa. 

Jâ se hade acovardar — alimti/o. 

VOL. m. a 



BOMANGBIRO 

—'Novas me chegam agora. 

Novas de grande pezar: 

De que minha mie é moita. 

Meu pae se está a finar. 

Os sinos da minha terra 

Os estou a ouvir dobrar; 

E duas irmans que eu tóiho, 

D*aquí as oiço chorar.' 

—'Monta, monta, cavalleirot 

Se me quer acompanhar.* 

Chegavam a uns altos paços^i, 

Foram-se logo apear. 

—'Senhor pae, trago-lhe um genro^ 

Se o quiser aoeeitar; 

Foi meu capitão na guerra. 

De amores me quii contar... 

Se ainda me quer agora. 

Com meu pae hade faUar»^ 

Sette annos andd na guem 
E fiz de filho harao. 
Ninguém me conheceu nunca 
Senio o meu capitão; 
Conheceu-me pelos olhofl^ 
Que por outra coisa nao. 



*' Çhe^m jofitot do eaateUo — unoA, 



XIV 

o (upnvo 



Vendido no mercado de Salé pelos corsá- 
rios que o tomaram, um pobre captívo chris- 
tão vai ser escravo de avarento e ricco judeu, 
que lhe dá negra vida. £ o primeiro capitulo 
de uma historia sabida e commum : e natu- 
ralmente se espera ja o segundo, que é na- 
morar-se do interessante captivo a bella filha 
do mau perro judio, animá-lo, consolá-lo, que- 
rer &]gir com elle de moirama. — Atéqui va- 
mos pela estrada coimbran doestas aventuras, 
que por séculos foram quasi quotidianas en- 
tre JBós. Mas d'ahí por deante o caso sai um 
tanto da marcha ordinária. O captivo não 
renega nem foge com a bella judia; e ella 
apaixonada^ rendida ,^ perdida .. . conhece por- 
fim que. não é amada: aos.moUes braços da 



86 ROMAIfCEIRO 

amante, o ingrato christSo suspirava, cho-r 
rava por sua terra talvez, por outros amores, 
quem sabe? Mas 

'Chorara— qoe nlo por ellaf 

Nao se espera a vingança da bella judia : 
da-llie dinheiro para se resgatar, dinheiro do 
seu d'ella ([ue sua mâe lhe deixara. Apertada 
pelo pae que suspeita a verdade, ella confessa 
tudo, mas defende o christao por innocente ; 
e só de uma alta torre, contempla a última 
vela que lhe foge no horísonte com o ingrato 
amante. 

O romance anda por Lisboa, Ribatejo e 
Eitremadora fora ; nSo me chegou informa- 
ção de que se internasse mais pelas provín- 
cias : não deve de ser mais antigo que o meado 
do século XVII se a copla em que se allude a 
Ceuta e a Mazagão não é 'rífacimento' mo- 
derno, como também pôde ser, e me inclino 
a crer que é, porque no resto, o sabor e o 
stylo é mais velho. 

Não apparece nas coUecções castelhanas; e 
se não foi originalmente escripto em porta- 



o CAPTIVO 87 

gaez, nacionalizou-se por tal modo» que se 
lhe nao descobre vestígio bem auctorísado e 
certo de outra origem. Nem façam dúvida os 
artigos lo^ la em vez de o^ a; porque nâo só 
os escriptores antigos, mas o povo de boje os 
substitue assim a miúdo quando Ih'o pede o 
mal soante do byato. Também dizem mi' por 
minha^ padre e madre por pae e mãe; e ou- 
tros que parecem castelhanismos sem o se- 
rem. Jtfe" pae diz ainda boje, por eupbonia, o 
alemtejano, como em tempos de Gil- Vicente, 
se dizia e cantava m' amor por meu amor. 



o gjlPuvo 



Ea vinha jdo mar de Hamburgo^ 
N'iima linda caravella; 
CaptivaraoHnoB os moiros 
Entre la paz e la guerra. 
Para vender ime levaram^ 
A Salé, qneé soa lerra. 
Nao iiooive moiro nem moira 
Qae por mim nem branca dera'; 

* Hea pae era de Hamburgo, 

Minha mie de Hamburgo era.— ãnATifo. 

* Me levaram a Tender 

A Salé, qne é má terra. — bztbbhabvba. 

* Ni blanea é claramente easteibano diicr; mas noa mais porot 
nossos escriptores se inconlra. Dilto familiar qae se iotrodoiio 
entio, como hoje dizemos tanta palarra e phrase francexa oa in- 
gleia, por termos com as coitas, livros e osos d'esUs naçBes o 
mesmo tracto qae então tínhamos com castalhanoa. 



90 ROMANCEIBO 

SÓ hoave um perro jadio 
Que alli comprar-me quizera; 
Dava-me uma negra vida, 
Dava-me uma vida perra: 
De dia pisar esparto, 
De noite moer canella, 
£ orna mordaça na bôcca 
Para lhe eu não comer d'ella. 
Mas foi a minha fortuna. 
Dar c*uma patroa bella, 
Que me dava do pão alvo. 
Do pão que comia ella. 
Dava-me do que eu queria, 
£ mais do que eu não quizera, 
Que nos braços da judia 
Chorava— que não por ella. 

Dizia-me então: — 'Não chores» 
Ghristão, vai-te á tua terra.* 
—'Gomo me heide eu ir, senhora, 
Se me falta la moeda?* 
—'Se fora por um cavallo, 
£u uma égua te dera^; 
Se fosse por um navio, 
Dera-te uma earavella^' 
— 'Não fora por um cavallo, 
Não fora, senhora bella, 

* Eq Ce diria uma egaa — ubatijo. 

* Dar-te-hia nnui gallera — uttoa. 



o CAPTIVO 91 

Qae está longe Mazagão, 
Ceuta tem voz de CasteUa. 
Nem por navio não fora, 
Que eu fugir não qnizera, 
Que era roubar a teu pae 
Dinheiro que por mim dera.* 
—Toma esta bolsa, cbrístão. 
Feita de seda amarella*; 
Minha mãe quando morreu 
Me deixou senhora d*ella. 
Vai-te, paga o teu resgate; 
E ás damas de tua terra 
Dirás o amor da judia 
Quanto mais vale que o d*eUas.' 

Palavras não eram dittas, 
O patrão que era chegado. 
—'Venhais embora, patrão, 
E vinde com Deus louvado, 
Que agora tenho recado 
Que o meu resgate é chegado ^* 
— 'Christão, Ghristão, que disseste 1 
Olha que ó muito cruzado. 
Quem te deu tanto dinheiro 

• Com mfl dobrtM dentro d*élla. 

Co*as mil doblât que oitio n*eHâ.— uiánio. 

* Eite é om dos muitos exemplos de se fUtar de vei em qoando 
á foffada lei da redondilba, aiigmentando-a eom dois nnm ao 
B08IIIO repisado eonsointe oa toante obrigado. 



91 ROMiNGEIHO 

Para seres resgatado?* 
—-'Duas irmans m'o manharam, 
Outra m'o tinha guardado*; 
E um anjo do ceo m'o trouxe, 
Um anjo por Deus mandado.* 
— 'Dize-me, ó chriataoy iijxe 
Se queres ser renegado, 
Que te heide fazer meu genro, 
Senhor de todo o meu estado.' 
^'Eu não quero ser judio 
E nem turco arrenegado, 
£ não quero ser senhor, 
De todo esse teu estado^ 
Porque trago no meu peito 
A Jesus cruciQcadoií*.' 

— *Que tens tu, Qlba Rachel ii? 
Dize-me cá, íiJha amada, 
Se é pelo christao maldttto^^ 

* Qoe por mim sMoa loMftdo — «nuivo. 

Éâta phrase a soldado para dizer: estão flerrindo a uddadOt â 
«ildo, como criados, ctc. foi nora para mim ; vè-se porém qoe é le(i- 
tima portagnesa. Não approTQitni para o texto éita Tariante por 
cansa da amphibologia. 

* Do lodo esse teo reinado — BxmxMADURA. 

** Oatro exemplo de aocresceotar dois versos k redoidiUia, nas 
sem repetir o consoante senão cm aoi d'elles. 
" Anda.c4» à filha Angélica — - lisboa. 
"8e.áp(Biacbriatão qne choras. 
Que te deixou desbonrada.— auutuo. 



o CAPTIVO 93 

Que ficaste desgraçada.' 
— 'Mea pae, deixe o chrístâo, deixe, 
Que elle não me deve nada: 
Deve-me a flor de meu corpo, 
Mas de vontade foi dada.' 

Mandou fazer-lhe uma torre 
De pedraria lavrada; 
Que não dissessem os moiros : 
— *A judia é deshonrada.' 
Yiolla, minha violla, 
Fica-te aqui pendurada'', 
Que lá vão os meus amores 
Por essa agua salgada. 



*' Aqui te deixo por mão, 
Que 08 amores da jndia 
Pelas oodas do mar vSo.— rdatbjo. 



XIVI 



A HAU OATHBimTA 



N3o é para admirar que seja tam geralmen- 
te sabida e qaerída esta xácara. O que admira 
è que d3o seja mais commum entre nós o ro- 
mance marítimo. Um paiz de navegantes, um 
povo que viveu mais do mar que da terra ; que 
as suas grandes glórias as foi buscar ao largo 
oceano ; que por não caber em seus estreitos 
limites de Europa, devassou todo o império 
das aguas para se extender pelo universo, — 
nao pôde deixar de ter produzido muito Goo- 
per popular e muito Camões de rua e de aldeã 
que, em seus pequenos Lusiadas, cantasse as 
mil aventuras de tanto galeão e caravella que 
se lançavam destemidos 

Por máre» nanca d*aatos navegados. 

Temos em prosa muita relação popular de 

VOL. III. 7 



98 ROMANCEIRO 

naufrágios que rivaliza em simplicidade anti- 
ga com os Chronicons da meia-edade, e cujos 
escriptores parecem discípulos do arcebispo 
Turpin, do auctor da 'Formosa Magallona' ou 
da 'Doníella Tbeodora.' Gomo elies» andaram 
muitos annos a cavallo em barbantes no logar 
do cego staciouario, ou no bornal do cego 
ambulante ; e só em meios do século passado 
começaram a junctar-se em volumes na bem 
conhecida coUecçSo intitulada 'Historia tragi- 
co-maritima*.' 

Algumas d'estas narrativas feitas por pes- 
soas que tiveram parte na aventura, s3o pal- 
pitantes de interesse e de verdade, contêem 
descripções inimitáveis, desenhadas do vivo, 
e taes que fazem impallidecer as mais anima- 
das paginas do 'Reddrover' e do 'Pirata.' 

N3o cingraiiam jamais com os nossos argo- 
nautas senão' os Homeros das grandes Odys- 
seas? Nunca um pobre menestrel do povo que 
dissesse na harpa ou na violia esses humildes 
cantares que não cabem na tuba épica, mas 

* UuTOiuA TBAaico-niJutuiA, OB qiw se efcrtv«ia« ele PlorB<^ 
nardo Gomes de Brito. Lisboa occidental, 1735. 



A NAU CATHRINETA 99 

também n3o precisam dos characteres de Ge- 
rardo da Vinha ou de Craesbeck, porque se 
gravam na memoria do povo e se perpetuam 
no livro vivaz das gerações? 

É impossível: seus poetas tem, seus chro- 
nistas, seus historiadores; havia de ter seus 
menestréis e seus trovadores, a aventurosa 
vida de nossos mareantes. 

Mas essas ingénuas rhapsodias, quem as 
apagou assrm do livro popular? Que estúpidos 
monges fizeram palímpsestes de suas páginas 
bellas?— que apenas hoje podemos decyphrar 
a custo algum fragmento oblitterado como 
estel 

Não é fácil responder com precisão. Mas são 
certas as razoes gei^es e sabidas do orgulho 
monachal, e falso gosto de nossos litteratos de 
universidade e de corte. Se tirarmos Gil-Vi- 
cente e Bernardim-Ribeiro, o mesmo ou peior 
diremos dos poetas, que todos ou quasí lodos 
venderam sua alma aos clássicos latinos, aos 
italianos da renascença, e desprezaram, por 
vulgares, as primitivas formas de seus canto- 
res naturaes. 



400 ROMANCEIRO 

^A nau CalhriDeta' foi provavelmeote o no- 
me popular de algum navio favorito; diminu- 
tivo de affeiçio posto na Ribeira-das-nans a 
algum galeão Sancta Catherina, ou coisa qne 
o valha. Dar-lbe-iam esse appeUido coquei por 
3ua airosa mastreação» pelo talhe elegante de 
^u casco, por alguma d*essas qualidades gra- 
ciosas que tanto apprecia o 61ho exercitado e 
fino da gente do mar. Ou talvez é o nome sap- 
posto de um navio bem conhecido por outro, 
que o discreto menestrel quiz occultar por 
considerações pessoaes e respeitos humanos. 
Entre as narrativas em prosa que ja citei» ha 
uma, por titulo — 'Naufrágio que passou Jorge 
de Albuquerque Coelho, vindo do Brazil no 
anno de 1565'— que não está muito longe de 
se parecer com a do romance presente. Lai^ 
e difDcil viagem, lemporaes assombrosos, 
fome extrema, tentativas de devorarem os 
mortos, resistência do commandante a esta 
bruteza, milagroso surgir á barra de Lisboa 
quando menos o esperavam, e quando menos 
sabiam em que paragens se achassem — tudo 
isto ha nn prosa da narração; e até o poético 



A NAU CATHBINETA lOf 

episodio de estarem a ver os monamentos e 
bosques de Cintra sem os reconhecer — como 
na xácara se viam, pela falsa miragem do de- 
mónio, as três meninas debaixo do laranjal. 

Fosse porém este, ou fosse outro o caso que 
celebra o romance, houve tantos similhantes 
n'aquelles tempos, que de alguns d'elles, e no 
fim do século xv ou no xvi, se havia de com- 
por. Mais antigo não é. Além de outras razões, 
è boje averiguado que a poesia primitiva da 
nossa península raríssima vez admitte o mara- 
vilhoso, o Deus ex machina para solução de 
suas ingénuas peripécias. Composição em que 
elle appareça, quasi sem hesitar, se deve attri- 
bair a origem franceza, franco-normanda, ou 
mais seguramente ainda á dos bardos e scal- 
dos que por essas vias se derivasse até nós. 
Depois é que a mythología de todas as crenças 
86 confundiu, e ainda a mais extranha é a que 
mais figurava entre nós. 

Tem muitas variantes a 'nau Cathrineta'; 
as mais notáveis vSo appontadas. 



A NAt CAtHEmETA 



Lá vem a naa Cathriíietái 
Que tem muito que contatt 
Onvide agoi^ suores, 
Uma historia de pasmar. 

Passava mais de amio e áia' 
Qae iam na volla do mar', 
Ja nao tinham que comer« 
Ja nao tinham qúe manjar. 
Deitaram solla de molho 
Para o outro dia jantar; 

* Ora da nao Cathrineta 

D'el]a TOS qnero contar. -uTaikAttMU. 
' Setia aoDOí e um dia~lílMio. 

* Todas ai lieç9«t diiem asiim, métoot a flo A]|áité ^ne adòpteL 



104 BOMANGBIRO 

Mas a solla era tam ríjaS 
Que a nao poderam tragar. 
Deitam sortes á ventura 
Qual se havia de mattar; 
Logo foi cahir a sorte 
No capitão general. 

—^Sobe, sobe, marujinho, 

Áquelle masto real S 

Vé se vés terras de Hespanha, 

As praias de Portugal.* 

— 'Não vejo terras d^Hespanha, 

Nem praias de Portugal; 

Vejo sette espadas nuas 

Que estão para te mattar <.* 

— 'Acima, acima, gageiro, 

Acima, ao tope realt 

Olha se inxergas Hespanha^, 

Areias de Portugal.' 

--'Alviçaras, capitão, 

Meu capitão general I 

Ja vejo terras d^Hespanha, 

Areias de Portugal. 

* Mat a mUa en tam dor», 

Qw a nio podiam rilhar.— imao. 

* ÁqoeUe top« real— uooa. 

* Todas para te mattar— ixtbiiiamba. 
' Vê M ?êc toma d'fieipaiilia, 

Araiai de Portogal.— hhibo. 



A NAU CATHBINBTA 105 

Mais inxergo três meninas * 

Debaixo de am laranjal : 

Uma sentada a cozer, 

Outra na roca a fíar, 

A mais formosa de todas 

Está no meio a chorar.' 

— ^'Todas três são minhas filhas, 

Oh! qaem m'as dera abraçar! 

A mais formosa de todas 

Gomtigo a heide casar.' 

— 'A vossa fllha não quero. 

Que vos custou a criar.* 

— 'Dar*te-hei tanto dinheiro 

Que o não possas contar.* 

— *Não quero o vosso dinheiro, 

Pois vos custou a ganhar.' 

— 'Dou-te o meu cavallo branco, 

Que nunca houve outro egual*.' 

— *6uardae o vosso cavallo, 

Que vos custou a insinar.' 

— 'Dar-te-hei a nau Cathrineta ^^ 

' Tamban tijo tnt BMoiíiat— uima. 
. . . Iiwdoiinllat— noABAiiA. 
*PliA B*6lle caaiptar-MBATuo. 

* A lie-lo de Liibot acaba aqui o romance por dilfereote aedo. 
IMiiBdo o lolMVutoral da tenlaçio do demónio qoe toma a Í6nu 
tegifrifo para tentar o eapitflo D'aqae]le perigo, dipor ferMiira 
a mn f lgi o da terra, e coodoe aieim : 
— ' Que queres ta, meu gageiro, 
Qw alfiçarae te lieide ea dar?' 



106 BOMANCORO 

Para n*ella navegar.' 
— <Nio qaero a naa CaUiiliieU, 
Qoe a nao sei governar.* 
—«Que queres tn, meu gageiro, 
Qae alviçaras te heide darf ' 
— 'Capitlo, qaero a tua alma 
Para oommigo a levar.* 
—'Renego de ti, demónio, 
Qae me estavas a attentari 
A minha alma é só de Deus; 
O corpo dou ea ao mar u.* 

Tomoa-o nm ai^ nos bra^o^ 
Nao n*o deixou affogar. 
Deu um estouro o demónio» 
Acealmaram vento e mar; 
E á noite a nau Cathrineta 
Estaiea em terra a varar o. 



"' E« qnaro a BU GtíliriMU 

Pan ii*fl(b naT«gar/ 

— *A lum GâthrineU, amigo, 

É d>lrei de Portugal. 

Mu OQ Ml Bio sou qwm soa, 

OaaMVabadadar/ 
OWhiTíeçSo taflDÍbnídii n*e8la Utàna eqpla : 

*PéSML to a btreí, gag«ÍrOj 

'X}oe ra olo poda negar. 
" corpo da agna do mar— ribatuo. 
** A bom porto M parar— boatuo. 



xivn 



OOKMlDOB 



A edição arraiaDa d'est6 romance que me 
veio de Tras-os-montes chama-lbe 'A filha do 
imperador de Roma.' Mo a^egui no titulo 
nem em muitas partes do texto, incostei-me 
antes á licçSo da Beiralta. E so estas duas me 
chegaram ; não me consta que n'outras pro- 
vindas do reino seja conhecido. 

Que imperador será este? Teremos aqui al- 
gum episodio da crapulosa historia byzantina, 
ou é outro capitulo licencioso da chronica se- 
creta de Garlos-Magno? O trovador, que a tro- 
vouii'essameia-edade, cujo séllo visivelmente 
lhe pende de todas as coplas, n3o pôs nomes 
nem datas, segundo o geral costume : e adi- 
vinhe quem quizer se este imperador de Roma 
era do occidente ou do oriente, do alto ou do 



110 ROMANCBIRO 

baixo império, Gesar verdadeiro ou Kaiser de 
imitação germânica? Deve de ser d'estes últi- 
mos peia meuçSo do duque de Lombardia que 
no fim apparece. 

A licção da Beira, que segui mais que a 
transmontana, tem muitas variantes obscenas 
que forçosamente deviam ser desprezadas. 
Nem as creio originaes, senão introduzidas 
pelo depravado gosto de algum rotté d'aWea. 

Nos romanceiros castelhanos nSo se incon- 
tra, e para o sul de Portuga! é inteiramente 
desconhecido. Todavia, assim restitaida pela 
collaçSo dos dois textos que obtive, esta ficou 
uma das mais completas relíquias da nossa 
poesia popular que possam incontrsrr-se. 



o CEGADOR 



O imperador de Roma 
Tem uma filha bastarda 
A quem tanto quer e tanto 
Que a traz mui mal criada. 
Pedem-lh'a condes, senhores \ 
Homens de capa e d*espada; 
EUa isenta e desdenhosa 
A todos lhes punha tacha: 
Um é criança, outro é velho*, 
Este que nao tinha barba, 
Aquelle que nao tem pulso 
Para puchar pela espada. 



' Pedem-lb'a doqoes e coodes— TRAS-os*xoyri8. 
* A ODS qoB vio eram homens, 
Ootros qnc não tínham barbas.^TBÁS-os-HOims. 



liS BOMANCBIRO 

Dizia-lhe o pae surríndo : 
— 'Inda hasde ser castigadal 
De algum vittâo de porqueiro 
Te espero ver namorada.' 

Por manban de San* João, 
Manhan de doce alvorada, 
Ao seu bal«k> muito cedo' 
A infanta se assomava. 
Viu andar três oegadores 
Fazendo sua canada; 
O mais pequeno dos três 
Era o que mais trabalhava. 
Fítta que traz no chapéu 
De oiro e seda era bordada; 
Fina prata que luzia 
A foice com que ceifava. 
De seu garbo e gentileza 
A infanta se namorava. 
O ceifeiro vai ceifando. . . 
Bem sabe elle o que ceifava! 

Alli estava a ala discreta 
Em quem toda se fiava: 
— *Ves, aia, aquelle ceifeiro 
Que anda n*aquella cegada? 

' Sabiram-«e a oma Tcntana 
Uma \ientaiia mui aUa.~Tiuf-os*MO!a>KS. 



o CEGADOR 113 

Condes, duques, eavalleiros. 
Nenhum que o ceifeiro valha. 
Vai-m*o chamar em segredo, 
Que ninguém não saiba nada.' 

— *Bom cegador, vem comniigp. 
Que te quer fallar minha ama/ 
—Tua ama, não n*a conheço 
Nem tam pouco a quem me chama^.' 
— *Cegador de boa estrea, 
Traze'la vista mui baixa: 
Alça os olhos e verás 
A estrella da madrugada,! 
—'Vejo o sol que vem nascendo, 
Não vejo a estrella d'alva.' 
— 'Estrella ou. sol, vens commígof 
— *lrei, pois quem pôde, manda.* 

£ntraram por um postigo» 
Que a porta inda era e&màã; 
No camarim da princeza 
O bom do ceifeiro estava. 
— 'Senhora que me quereis? 
Pois venho á vossa chimada.* 
—'Quero saber^se te atreves 
A fazer minha cegada?* 

* Ea ]i2o conheço a senhora 
Ntm tam poaro a criada. —rais-os-MORns. 

voL. m. ^ 



114 B0MA5CEIB0 

—'Atrever, me atrevo a tado; 
Trabalho não me acoovarda. 
Diiei Yós, senhora minha. 
Onde é a vossa cegada.* 
^'Nio é no monte ou no vaUe, 
No baldio ou na coitada; 
Cegador, é nos meãs braços, 
Qne de ti estou namorada.* 

Passou todo aquelle dia^, 
O mais da noite passava. 
Ceifando vai o ceifeiro.. . 
Bem sabe elle o que ceifliva! 
— *Basta, basta, cegador, 
FeiU está tua cegada : ^ 
Yai-te, que meu pae não venha. 
Antes de ser madrugada.' 

> Li junto da mat-noite 

AocigadorpergonUTi: 

— *Diaei-Be, bom cegador 

De qoem ea fieo p^ada.* 

— 'Eo lon lilho de um porqoeiro 

E meo pae porcoa goardata/ 

>-'0h. tritte de nim, oh triste, 

Ob, triste de mim eoiuda I 

I^diram>me coDdes, daqnes. 

Homens de capa e d*espada : 

E agora eis-me aqai 

De nm porqoeiro deshODiada. — trab-os-xoxtis. 
Yesta lioçio do Tra^os-Mootes qne dá a Sr.» Maria Joaípia^» 
•lo logar de Nantes, a xácara acaba com a variante riiada. 



o CRGADOR 115 



Palavras nao eram dittas, 
O pae á cama chegava : 
—'Com qaem fáUas, minha filha, 
Tam cedo de madrugada?' 
— TaUo com esta minha aia 
Que me tem desesperada; 
Uma cama tam mal feita 
Que dormir me não deixava.' 
— 'É forte aia essa tua 
Que a barba tem tam cerrada t 
Yista-se ja a donzella, 
Que, antes de ser madrugada, 
Pelo barbeiro do algoz 
A quero ver barbeada.' 
O cegador muito iuchuto 
Sua sentença escutava, 
Com uma mâo se vestia, 
Com a outra se calçava. 
Saltou no meio da casa 
Como se nio fora nada: 
— *Venha ja esse barbeiro 
Com a navalha aíBada: 
Ao dugue de Lombardia 
Veremos quem faz a barba.' 

O imperador mui contente 
Depressa alli os casava. 
Não quiz senhores, nem condes 
Homens de capa ou de espada, 



Ill aoMAMcsmo 

Senão só o cegaídor 
Que andava em sua cegada. 
Podia ser um porqoairo 
Que a deixasse deshgnrada... 
Sahiu-lho um duque reinante, 
Senhor de alta nomeada. 
Pois tudo é sorte no imindu, 
A sorte foi bem deitada. 



xivin 



A SOIVA ABRAIAITA 



Veio de Almeida esta xácara ; e de nenhuma 
outra parte do reino me chegou outra licção 
d'ella, nemvestigio. Bem antiga me parece. 
O fronteiro que mandou ao mar a armada do 
cavalleiro ausente, faz pensar que isto seja 
coisa do tempo das nossas emprezas de África. 
O logar da scena é inquestionavelmente na 
raia — e bem posto está ao romance o titulo de 
'Noiva arraiana'. Mas aqui ha mar, e armadas 
qoe vão ao mar: não pôde pois ser outra a raia 
senSo a do Algarve. O stylo da cantiga é ingé- 
nuo e puríssimo; os costumes que descreve 
primitivos e patríarchaes ; ha um sabor homé- 
rico n'este narrar e n'este fallar, que ninguém 
pôde confundir com o dizer estudado de tro- 
vadores mais modernos. Poetas de civilisa(^o 



lio BOMAKCEIRO 

mais adeantada não sabem ou não podem che- 
gar tanto a rés da natureza. 

O focto é simples e mil vezes visto. Outra 
edi^o da Lúcia de Lamermoor, outro caval- 
leiro deRavenswood que apparece de repente 
no meio da voda de sua débil e mal constante 
namorada, quando ella, ja desposada com ou- 
tro, menos esperava tornar a ver o primeiro 
aínafite— o seu, o que ella unicamente quer. 
Ootsm se não lembra deWálter-Scoit, e )le 
Doiiizetti também, e do que vibram na átana 
tó palavras de um, as notas do outro, Infira- 
Sus por esta situarão altamente dramática, su- 
blime de angústia e dese$pera{fãò7 

'O nosso trovador arrãiano' tomou as coisas 
eOintnais tento e soó^go; liãòlndoudeceu neu 
mattou a sua Lúcia; e nem d^étla nem do sen 
Itítvenswood nos diz que matta^em a tnsBs 
nl^em. O cavalteiro português faz justiça 
pór outh) modo nos que otinliam atraiçoado. 
L6Vou-Bies a Dòiva, e dèixou-thesficar arotia 
òolJaMar. 



A NOIVA jniRinrjCf A 



—Deus vos salive, míttha lia, 
Na vossa* roca a ílafT 
—Tenha enriMira o caválMro 
Tam corterno^seaTánart* 
—"Má hora se láne^foi, tfa, 
—Há Horatonma a-rtílutr I 
Que ja ningaem o conhece 
De mudado que "hade estar. 
Por lá o macttassem mofros, 
Se assim tinha de tomar I' 
—'Ai sobttnho de minha alma, 
Que es tu p^eteu^fállafl 
Nao ves eMes (Ahos,' filho, 
Que cegaram 4e^ títxoTttífí' 
— *E meirpae trtnhlha itBíe, 



Itl BOMAHCIIBO 

Tia, que os quero abraçtf T* 
— Teu pae é morto, sobrinho, 
Tua mae foi a interrar/ 
— 'Qu'é da minha armada, tía. 
Que eu aqui mandei estar?* 
— 'A tua armada» sobrinho, 
Mandou-a o fronteiro ao mar.* 
— 'Qu*é do meu cavallo, tia^ 
Que eu aqui deixei ficar?' 
—'0 teu cavallo, sdt^rinho, 
EIrei o mandou tomar/ 
— 'Qu*ó de minha dama, tia. 
Que aqui ficou a diorar?* 
—Tua dama faz hoje a Toda, 
Ámanhan se vai casar.' 
— 'Dízei-me onde é, minha tia. 
Que me quero lá chegar.' 
— 'Sobrinho, nao digo, não. 
Que te podem lá mattar.' 
-—'Nao me mattam, minha tia; 
Corteziaeu sei usar: 
E onde faltar cortezia, 
Esta espada hade chegar.* 

—'Salve Deus, ó lá da voda. 
Em bem seja o seu folgar 1' 
—•'Venha embora o cavalleiro, 
£ que se chegue ao jantart* 
—'Eu não pretendo da voda 



A NOIVA ABRAIANA ii3 

Nem tam pouco do Jantar; 
Pretendo fallar á noiva, 
Que é minha prima carnal/ 

Vindo ella là de dentro 
Toda lavada em chorar, 
Mal que viu o cavallein), 
Quiz morrer, qutz desmaiar. 
—'Se tu choras por me veres, 
Ja me quero retirar; 
Se é os teus gastos que choras, 
Aqui estou para os pagar." 
— Tagar devia co*a vida 
Quem me queria inganar. 
Quando te deram por morto 
N'essas terras d'além-mar. 
Mas que fiquem com a voda 
E bem lhes preste o jantar. 
Que os meus primeiros amores 
Ninguém m*08 hade quitar.' 

— ^Yenha juiz de Gastella, 
Alcaide de Portugal; 
Que, se aqui nSo ha justiça, 
Co'ásta espada a heide tomar.* 



XXIZ 



017I1UJI 



DoDa Gaimar— ou Dona Agaeda— de Me- 
xia, como Ibe chama a lícçSo do Alemtejo, é 
um interessante romancinho que apparece na 
tradição d'aquella provinda e na de Extrema- 
dora. Por ambas se apurou o texto que aqui 
dou. 

Nem por outras províncias nossas, nem 
pelas collecções castelhanas ha outro vestígio 
d'elie, que eu saiba. 

Não é muito antigo o stylo. Mas o facto ce- 
lebrado é o de uma morte apparente com a 
qual parece se julgou dissolvido o matrimo- 
nio : e d'isto houve exemplos em tempos re- 
motos em que tinham por certa a morte, e por 
verdadeira resurreiçSo o tornar a si o supposto 
defuncto. 



iS8 ROMANCEIRO 

Seja porém qual for a data d'esta composi- 
ção, ha coplas d'ella que vao de par com o 
mais bello e original da poesia mais primitiva. 
Notarei especialmente a volta de Dom João á 
sua terra n^aquella manban de maio, que os 
passarinhos cantavam, os sinos tangiam e o rir 
da natureza se misturava com o chorar dos ho- 
mens. Também não creio que haja nada mais 
bello que estoutros versos quando a marta vai 
tomando a si e poudo os olhos no amante: 



VolU a vida qne se fora 

Com todd o amor que nio te ia. 



\ 



GUIMAR 



Era a menina mai9 linda ^ 
Qae n*aqaella terra havia; 
Tam formosa e tam discreta 
De outra egoal se não sabia. 
Maito lhe quer Dom João, 
Muito demais lhe queria : 
Seus amores, seus requebros 
Nao cessam de noite e dia. 
Por fidalgo e gentil moço 
Ninguém tanto a merecia; 



■ Kn nina meoina bella 
Difcrato e bem parecida, 
Dom loio a namoraTa, 
MO reqnabrM lhe (aaia.-- ALsariuo. 
VOL. ni. 



139 BOMAKCBIRO 

Senão qae o pae da donzella^ 
Outro conselho seguia : 
Casá-la quer muito ricca 
Com um mercador que ahi havia, 
Sem fazer caso de amores, 
Sem lhe importar fidalguia. 
Dom João, quando isto soube ^ 
Por pouco se hao morria : 
Foi-se d'alli muito longe 
Sem dizer para onde ia. 
Três mezes por lá«ai4ou, 
Três mezes n'essa agonia: 
A vida que lhe pesava 
Soffiré-la ja nao podia. 
Mandou sellar seu cavailo 
Sem cuidar no que íaiia; 
Deitou por esses caminhos 
Sem saber adonde ia. 
O cavallo é quem mandava, 
Cavalleiro obedecia. 
Passou por terras e terras» 
Nenhuma nSo conhecia. 

• Mas o pae d'aqiieUa maça 

Por melhor conselho havia 

Casá-la com om mercador 

Qae áqoellas partee viria.— albxtcjo. 
^ Dom João quaodo isto oa?ia 

Fora da terra 8« ia; 

Por lá estivera três mexes 

Que S0flr&-l0S OSO podia.— fiXTABHADCILV. 



GUIMAB 131 



Á sua tínka. chegado, 
Onde estava não sabia. 
Era por manhau de maio, 
Todo o canpo Aerem^ 
Os pasaaritthoB (amauraDi, 
O prado verde soxvia; 
Lá de dentiro da eidade 
Um triste claoM>n se ouvia - 
Eram sinos Sí.áébmTy 
E era toda a.eJerena, 
Eram nobres» e» povo 
Que da egr<dii.8aiii&. .. 
Entrou de pontats a dentro, 
De rua em nub seguia, 
Chegou á4e sua dama 4, 
Essa sim que a OMabecia. 
As casas onde moaiva, 
Janellas aonde a via. 
Tudo é cuberio de preto, 
Mais preto qoe s«r podia ^. 
Mandou chamar uma dona^ 
Que ella comsigo trazia*: 

* Veio-se a passeiar 

A ma de saa amiga. -Auirauo. 

* Do mais preto qoe bafia-uiBHUDcaA. 
' Mandoo chamar uma dasia» 

Por Deos e á cortezia: 

— ' J>ixo-me to por qoem traaea 

Aoieacias tam doloridas. -Ai.Kii!rcJO. 



I» ROMAMCEIRO 

--'Dizei-me por Dens, senhora, 
Dizei-me por cortezía, 
Esse lutto iam pesado 
Por quem trazeis, que seria?' 
— *Trago-o por miiàia senhora. 
Dona Goimar de Mexia ^, 
Que é com Deus a sua ahna. 
Seu corpo na terra fria. 
E por vós foi, Dom João, 
Por vosso amor que morria*.' 
Dom João quando isto ouviu* 
Por morto em terra eahia, 
Mas a dor era tammanha^* 
Que á força d*ella vivia. 
Os seus olhos não choravam. 
Sua bôeca não se abria. 
Mirava a gente em redor 
Para ver o que faria. 
Vestiu-se todo de preto. 
Mais preto que ser podia tt, 
Foi-se direito á egreja 
Onde sua dama jazia ^: 
—'Eu te rogo, sacristão, 

' Dona Agneda de Mexia -auhtbío. 
' Por vós foi soa partida— nTnuuBauu 
* PaJaiTas nSo eram dittaa— ixiuiudiíbá. 

'* Mas a dor era tam forte -utkuiamiba. 

** Do mais preto que lunia-BXTMifABinA. 

** Onde a sua dama tinha— Auumio. 



GUIMAR 139 



Por Deus e Sancta Maria, 
Ea te rogo que me ajudes ^ 
A ergaer esta campa fria.* 
Alli a Tia tam formosa 
Tal como d^antes, a via; 
Alli, morta, sepultada, 
Inda outra egual não havia, 
Pôs os joelhos em terra, 
Os braços ao ceo erguia, 
Jurou a Deus e á sua alma 
Que mais a não deixaria. 
Puchou de seu punhal de oiro ^S 
Que na cintura trazia. 
Para a accompanhar na morte 
Ja que em vida não podia. 
Mas não quiz a Virgem sancta ^^ 
A Virgem Sancta Maria, 
Que assim se perdesse uma alma 
Que só de amor se perdia. 
Por juizo alto de Deus 
Um milagre se fazia: 
A defuncta a mão direita 

!• Qoé mê ajndM ã erguer 

A eamp& dê minha amiga, -albvtbjo. 
■* Pnchoii por am punhal de oiro 

Por lhe £uer eompanhia. - ALBimio. 
** Pflnnittia a Virgem Hncta, 

AViígem Saneia Maria 

Que le nio perdesse mna alma 

Por om preoeito qoe tinha. -albutuo. 



114 ROMkHGSlRO 

Ao seu amante extendla, 
Seus liados cibos se abrírtni, 
A soa bôcca suria; 
Volta a vida qae se fôra, 
Com todo o amor qne iiãe se ia. 
Sea pae, o foram basear, 
Qae ja estava na agimia; 
Yéem amigos, vêem pafenies» 
Todos em grande alegria. 
Dão graças á Saneta Vargem, 
Cujo milagre seria; 
E a Dom Joio dao a esposa, 
Qae tam bem a merecia. 



A An 



DOK DT7A&D0S 



o último conhecido dos nossos poetas po* 
pulares antigos, o verdadeiro fundador do 
theatro d'H6spanha, Gil-Vicente, não era só 
poeta cómico, segundo vulgarmente se crê ás 
cegas, porque poucos abrem os olhos para o 
ler com atten$3o, para estudar n'elle, como 
todos deviam, lingua, costumes, stylo, c6r e 
tom nacional da epocha : nenhum outro escri- 
ptor portuguez os teve tam verdadeiros, tam 
characterizados e sinceros. 

O romance heróico ou épico, isto é, o que 
C6ldi)rava grandes feitos e successos nacto- 
naes, ou interessantes aventuras de guerras e 
de amores— que d*elle tomaram depois o ap* 
pellido de roíMne^cas, ou porque nSo roft^n- 
cescasf boje mais inglesadamente romanti- 



138 BOMANCBIRO 

COS — este que também rbymou muitas vezes ^ 
devotas legendas de sanctos e de mUagres, os 
passos da historia sagrada de ambos os Testa- 
mentos, e até os próprios mysteríos do do- 
gma ; o romance épico em toda a soa primitiva 
simpleza foi também cultivadoporGii-Vicente. 

Com elle e com Bernardim-Ribeiro creio 
que morreu, litterariamente fatiando, nos fins 
dô seralo xv, prinoiptos áovn, para restisci- 
VÊt depois, á primeira trombeta #o seisc^itts- 
ttto» «omoiodososgefiérosfii^pfllafe^qaefor 
essa reacQftf» PMMififitm; wmrébiwAd e«oih 
ttlíMtoy ^SKMTartle 4ft vtiétdplMi^tti^ pMMie ét 
WMeeitos, escrífNòisitfBM oetti « fmm «'«i 
ia "^Fheniir-PMMÉlft/ 

Qoaiyto«Ite (Oní esMiiadoe^ulli 
ttto em«eiÉ^ de Gf^TiOMite, vê^n^âemiiftos 
logares de seus drmms. G áfai se MStiaiiliiMi 
qiie promisòufliNiiite toMqpmhaiu m ttaasos 
ttwadtfiififs }a no 4i«lMtò ^ GMeAhi, fà m 
ielHdffiigttl, 6<(}tfiiia^omeBmirraiifiiiêi5 oQisí^ 
iAo ^n «e tmiam ^mt utM, «ra if^tim Mfr- 

Vmm^ii^èmf^tfftinniy lei«H0e«oi«átMB^ 



DO» D0A1IMS IM 

O dialago 4o feiticeiro com a ama de Gismeiui 
na scena n de ftobena^. Abi vêem citados como 
portagoezes e em portogoez» apar de outras 
cantigas castelhanaB, mmtos romances que ai* 
gans passam hoje for legitmos fillios (te€as- 
telia -e em suas coileoç&es se incontram ; de 
outros nem por ellas lia memorias. Tal é o que 
eemeça: 

<£a me um Dona Ginlda'; 

de que Tiao achei outro tig^tigíD nem nos ro- 
manceiros castelhanos, nem na nossa tradiçSo 
orafl. Tal é esfonlro : 

'Em Paris eitá Doulda'; 

qpae vem nos citados romanceiros, ptoto que 
diflfereMlemente escripto. 

Também do aioto dos Quatro tmnpos am* 
iMi etíBS ^oM chtgar m presepw/ mmÚB a 
rubrica^, uma cantiga franceza qtw diz: 

f Al dè la Mftle 
VilladeFarisl 

È claro que este é um romance ; e romance 

* GiL-TicniTi, »lifio de Hamborgo i834| tom. n, pag. S7. 

* fbíd. Unn. I, |)ag. 9i. 



140 BOMANCBIBO 

conhecido, e que não era castelhsoio nem por* 
taguez, mas francez. E d^aquí se deprebende 
também mna coisa qae muitas vezes tenho 
julgado intrever, e de que tenho quasí uma 
consciência intima, sem ousar dá-la por certa, 
porque nio ha ainda todas as provas documen- 
taes que se precisam para uma asserção que 
hade parecer atrevida: e é — que os romances 
primitivos quasi que eram communs ás lin- 
guas romanas, e que nenhuma os vindicava 
exclusivamente ; porque o trovador catalio ou 
provençal, portuguez, normando ou castelha- 
no pertencia mais á republica litteraria e ai^ 
tistica de sua profissão, do que a nenhum reino 
ou nação, ou divisão politica do paiz. Cantava- 
se o romance para lá do Ehro? davam-se ás 
palavras desinências mais curtas e contrahi- 
das; dizia-separa cá d*elie? produziam-se mais 
arredondadas. Entre Portugal e Castella me- 
nos era preciso ainda, porque as línguas, ja 
tam similhantes, ainda o eram mais então, e 
no especial dialecto do romance dobrada- 
mente. 
Apponto isto aqui somente como ementa. 



DOM DUARDOS 141 

para mais devagar se reflectir e estudar no que 
indico. Ha grande verdade na indicação; mas 
até onde ella chega, nlo sei dizer porora, nem 
saberei talvez nunca, porque me nSo sobra 
tempo nem paciência para dar professada- 
mente a estas coisas. Vou escrevendo o que 
me occorre como curioso. A sciencia fará o 
seu officio com o tempo. Eu n3o pretendo a lit- 
terato nem a critico, e n'estas coisas menos 
que em nenhuma. Occ^po as minhas horas 
vagascom estes divertimentos innocentes; nSo 
faço mais nada. 

Tomando ao nosso Gil-Yicente, na segunda 
scena — acto, jornada, ou parte n— da Ru- 
bena, canta a Gismena em portuguez outro 
príiícipio de romance mui notável pelo metro 
pouco usado na nossa lingua : 

'Grande» baadM andam na cdrte, 
Traga-me Deas meo bonamore.' 

Muitas outras provas achará alli o leitor cu- 
rioso de que este género era o mais popular 
então entre nòs. Como tal o cultivou Gil-Yi- 
cente; e assim o mostra o romance dosiPodr^^ 



IO aOllàlIGSIM 

no Xi»io ao- auto chi 'Historia de D«us\ o da 
Barca é9s Aiifoa no aalo do 4HirgMorio\ o 
âa Infmum oo aoto das "Cõrtea de Jo{Mter% e 
■MileSi «ulro» dísparsos por $iia& obras dta* 
HUtieas, além doa dois bem eeohíiaidos ^«e 
6X|)re6saHi6itte conapôs» ubí á flM)rte á!^\m 
Dom Maoael, oalro á acclamacão da Dmk 
João IH. 

Es4e prkneíro qoai aqui ponbo à oá& Gkm 
âaaffdQ& qm wm no» fim da li«giQ0aedia 
(aliás drana caMdheireo») do meano tiAula. 
Em castelhano foi escripta a tragt((K)iii6dia». e 
am caâtelbaDO ailâ Tento romance: oa ooUbc- 
çic^ que par ¥eBâ$ tenha citadoí, do oavalheiro 
de OUveira, appaime «m portuguei^.com da^ 
efatração de se iocQttkrar assim Bt"Mm antigo 
manuscripto do século xvr que visivelttonte 
era contemporâneo do poeta. Eu dou-o em 
ambas as línguas. E p6sto que os nossos vi- 
zinhos o codificassem em seus romanceiros 
como próprio, íiaa assim evldeoto o ser elle 
de fábrica portiigueza e do noaso Gil- Vicente» 
gner .piímifi.vamento o eomposeaae elle na 
Dosaa UBgaa» qnar aa d'eUesk ' 



DOMDUAIIMS M 

Artada, antea d» cantar a Mmaaca; 

'For «ei9«rR<l0 tal tnaoQ 
T Iam terríble partida 

Cantemos oaeTO romance 
A la DuoTa despedida 
Peligrosa.* 

Acabado decantar e findo o aato, diz o patino, 
viraodo-se para eirei — não o rei da comedia, 
mas o rei portuguez Dom Jo3o III em cuja 
corte e presença ella se representava : 

. 'Lo mismo iremos cantando 
Por esa mar adelaote, 
Á las sirenas rogando 
Y Vueslra Alteia mandando : 
Qae en la mar siempre se cante.* 

Era poi$ novo o romance, por seu o dava Gil* 
Vicente, que nao precisava nem usava de bri- 
lhar com o alheio, e a elrei seu amo e seu 
protector, como tal o endereçava. Não posso 
deixar de. o crer e acceitar como seu. 

A licç3o portugueza de Oliveira differe al- 
gum tanto da castelhana de Gil-Yicente; e esta 



tu ROMANCEIRO 

Dao poQCO da que vem do roiianceiiio geral 
de Daran e no tesoro de Ochoa. 

JaDtam-se aqui todas três, paraque as cod- 
frontem os curiosos, e se illustre assim a ques- 
tão que, torno a dizer, suscito, não resolvo. 



wmmjétíÊOfo»^ 



Era pelo mer de Abrti, 
De Maio antes mn dia, 
Quando lyrios e rosas 
Mostram mais sua alegria; 
Era a noite mais serena 
Que lazer no ceo podia, 
Quando a formosa infanta, 
Flérída ja se partia; 
£ na horta de sem padre 
Entre as árvores dizia : 
— *Com Deus vos flcade, flores, 
Que éreis a minha alegria! 



• Ucçfto portQgwia tegiindo ouTBBA. 

voL. m. 10 



I4f BOMAMGBIRO 

Voa-me a terras exlrangeiras 
Pois lá ventura me gaia; 
E ae mea pae me buacare, 
Pae que tanto me qaeria, 
IMgam-lhe, gae amor me leva, 
Qoe ea por vontade nio ia; 
Hâs tanto atimou commigo 
Qoe me vencea co*a porfia. 
Triste, nao sei onde vou, 
E ptfigpftm nio m*o dixiat . . .* 
Alli fitlla Dom Duardos: 
— <Nao choreis, minha alegria. 
Que nos reinos de In^atora 
Mais claras aguas havia, 
E mais formosos jardins, 
E flores de mais valia. 
Tereis trezentas donzellas 
De aha genealogia; 
De prata sao os palácios 
Para vossa senhoria; 
De esmeraldas e jacyntbos 
E oiro fino de Turquia, 
Com lettreiros esmaltados, 
Que a minha vida se lia, 
Contando das vivas dores 
Que me destes n*esse dia 
Quando com Prímalião 
Fortemente combatia : 
Máttastes-me vós» senhora, 



DOM DUARDOS i47 



Que eu a elle o não temia . . .* 
Saas lagrymas inchagava 
Flérída goe isto oavia. 
Ja se foram às galeras 
Que Dom Duardos havia. 
Gingaenta eram por conta, 
Todas vao em companhia. 
Ao som do doce remar 
A princeza adormecia 
Nos braços de Dom Duardos, 
Que tam bem a merecia. 

Saibam quantos são nascidos 
Sentença que nao varia : 
Contra a morte e contra amor 
Que ninguém não tem valia. 



I 
▼E«SÍIO €A8TBlJi.«ltA 



£n el me* Ml érAMt» 
De llayo miím ao 4ia» 
GuAodo UriM y ro»as 
lloestran mas su tlé^ría, 
Enlanodie 
Qael el cielo 
Coando la hcro^sa iafoiU 
FIérída ya se parlia : 
En la hacrta de sa padre 
A los irbolos decia : 
—«QwdM» adio% ms^MCi^. 
Mi gloría qiio sar solia; 
Voyme á iieiras Oâlrangeras 
Paes Tenlora alia me guta. 
St mi padre me boscare 
Que grande bien me queria 
Digan que amor me Wéba, 
Que no fué la culpa mia: 
Tal tema tomo conmigo 
Que me vonció so porfia. 
Triste nó se adó tó, 
Ni nadie me lo decia.' 
Alli babla Don Duardos: 
—'No lloreis mi alegria, 
Que en los reinos de Inglaterra 
Mas claras aguas liabia, 

Y mas hermosos jardines 

Y Tuesos, senora mia. 



* Obras de 6il-ticx»tk, ed. de Uambuifo 1834. Tom. n, p. 219. 



DQMDDAWdS 110 

Terneifl tredcotas doncellas 
De alta giaiealogiji; 
De pbta lOD los palácios 

De esmeraldas y jadotos, 
De oro fluo de Tao^iia 
Coo leitreros esnaliadee 
Qm euflotan U iftda asta, 
Goeotan los fiíeadoleree 
Qoe me distata4|BeI dia 
Guando com TiiiaalaeD 
fdertemnile «mbalia : 
Sefiora tos me malaeles, 
Qae 70 a el «0 to tensa. 
Sqs lagrimas coosolaba 
Fláridaqo^Bitotfia; 
Foeroo-se a Ias ga le ras 
Qoe Doo Dnardos ICMa.' 
CÍDcneota eran por^flMDleiy 
Todas vaik«B«QSipania. 
Al son de soadalees ramos 
La priBHMWcadoniia 
Em brasos de D«i Daaréoe 
Qoebieo^ 
Sepan 
AqoesU 

Chie contra tesmwfÉe-y.i 
Nadie no.tícM lalía. 



i5(i ROIIANGSIEO 

U 

£n el mes era de Abril, 
De Mayo uitee sa dia, 
Cuaodo kM lírios y rosas 
Moestnn mas saa alasría, 
En la ooclie mas serena, 
Qn el eielo hacer podria, 
Coando la hennosa infanta 
Flérída ya se partia ; 
En la hnerta àê m padre 
A losárbolesdecia: 
— ' Jamas en caanto viriere 
Os Teré tan solo an dia, 
Ni cantar los núseiiiires 
£q los famos melodia. 
Qoédate i INos, agua dará, 
Qaédaie i Dios, agua firia, 
Y qoedad eon Díos, mis flores. 
Mi gloria qoê ser solia. 
Volme i las tierras eelra&as. 
Pões Tentara allá me giia. 
Si mi padre me boscire, 
Que grande bien me queria. 
Digan que el amor me tteva. 
Que no ftijé la cnlpa mia. 
Tal tema tomo oonmigo, 
Qoe me forsò so porfia. 
Triste nó té donde toj: 
Ni nadie me lo deda.* 

* RoMiNciio oimaAL, ParL u 



DOM DUARDOS tM 

AUi habló Doa Doardos : 
—*No Uonii mu, mi alegria, 
Qw M lof reinM da Inctolem 

Maa dana agma liabia, 
T maa harmoioa jardinei, 
Y Twatroa, aa&ora mia. 
Temeia treadeDtaa doooeUaa 
DaalUfenaalogia; 
De plaU aon loa palacioa 
PamToattntenofia; 
D'aamaraldaa y jaeintoa 
TodAlaUpeçaria; 
Laa camarai ladríUadaa 
D'oro fiw> de Tarqoia, 
Gom lelnroa eimaltados 
One eneotaB la Tida mia, 
GoDUndo viros dòlorea 
Qoe me dléatedei m dia 
Coando com PremaleoQ 
Foertemenle eombaUa. 
Scfiora, TÓa me mataitea» 
One 70 a el no k) temia/ 
Soa lagpf*»* cooiolaba 
FUridA qii'eito oia, 
T fteron-te i las galeraa, 
Qoe Doa Doardoa habia : 
dnaunta enm por todaa, 
Todia van ao compaãia. 
Al aoB de loa doleea remoa 
La inlHita le adonnecia 
Kn braaoa de Doo Dnardoa, 
Qnebien le perteneeia. 
Sepan eoantoa M» naddoi 
AipiaaUaaBleneiamia: 
Qoe eoBln mnerle 7 aflMT 
Hadie no tiene Talia. 



XXXI 



A AMA 



Bernardim-Ribeiro foi natural da villa do 
ToiTio no Alemtejo, vivia por ISns do xiv, 
principíos do xv século ; era moço fidalgo d'el- 
rei Doin Manuel e servia no paço, onde a bel- 
leza e perfeições da infanta Dona Beatriz lhe 
inspiraram uma paixão de verdadeiro 'Macias 
namorado.' Ainda nSo estava tam longe o tem- 
po em qae princezàs e rainhas ouviam sem 
infiido e acceitavam sem desaire as homena- 
gens dos trovadores. Bernardim era moço, 
talvez bem parecido, discreto decerto: ha toda 
a raz3o de crer que foi ouvido com sympathia 



t56 BOMAlfCSmO 

e indulgência. Toda a saa felicidade Gcoa por 
aqai, segundo elle diz: 

'Que para mais esperar 
Nanca ae deram logar.' 

E esta deve de ser a verdade ; ou elle, de flno 
amante, no'Ia occultou : em qualquer dos ca- 
sos devemos crê-lo sobre sua palavra. 

A infanta casou por procuração com o du- 
que Carlos de Sabóia, em Lisboa nos paços da 
Ribeira, a 7 de Abril de 1520 '; e em Agosto 
seguinte partiu para Itália. As 'Saudades'' do 
flffii wiintr fif tmin ttumiiiáinnnMirtmiiiTn 
lixno «que wm «sse iflulo compAs. D^aie m 
esltahiu -eite ^nmmc^ pnqpnMwileiMyte. 
Iodo a|lli.è<€W^d0i6 dMo»pm*«ir qhnI» áe 
anigwis « aUegomas ioteiraiBaile íMUfli» 
veiBtpara^oMft tgnoiaifíflf) ff » w ff/^mãêM nmo 
itMo«uso^adíH*!e4AipniM8W. Zteu tiwaora 
^fWiwdie^growwio « iKMttr^dÉ^aíDoapa*— éio 



* Garèla ae'BauflMÍ6, «da da mrâRTA« ele. 

•4, 



A AVA* 187 

6910 è dblkurAypor definais» e^á fbrça de o ser, 

O argunento sNopIissHKio difr^e em ponca» 
palfffvas. Realri2*e9lá retirada em soa camera. 
Soa paiíSò perBernardfm nSo-é segredo para 
a- boa ama que a oríoii eque tanto lhe quer. 
Gaottt^lhe ésla um ^cantar' a modo de 'sotáo' 
em que tristemeute conta e lamenta afmá ven- 
tura que desde a nascença tem perseguido a 
sua querida menina, e que maiores desgraças 
lhe faz temer no futuro. 

O stylo tem toda a ingenuidade dos antigos 
cantares, todo aquelle perfume de bonina sel- 
vagem que só se incontra pelas devezas incul- 
tas da poesia primitiva. £ todavia, se ainda 
s3o as flores singelas do monte, ja se conhece 
arte no formar do ramalhete. Ja nao s3o as 
notas desgarradas, e ásperas por vezes, do 
primeiro trovar asturiano ou leonez que ti- 
niam á dureza de ferro dos descendentes de 
Pelayo. Ja por aqui andam modos de trovador 
proençal. A melodia porém ainda é puramente 
romântica ; as harmonias é que presentem for- 
mas mais clássicas. Vê-se o antigo toante do 



«38 BOMAliCXIBO 

romance penínsolar cedeodo á difficil e dura 
lei das complicadas rhymas proençaes. Ha 
mais ainda ; ha mna peifeiOio no número dos 
rhytmos que adivinha ja as doçuras italianas. 
É o trovador do século xv dando a mSo ao 
poeta do século xvi. O que predomina todavia 
é o modo provençal ; e este é, repitto, um le- 
gitimo soláo. 



A AMA 



Pençando-Yos^ estou, filha. 
Vossa mâe me está lembrando; 
Enchem-se-me os olhos d*agaa, 
N*dla TOS estoa lavaado. 

Nascestes» filha, entre mágoa; 
Pêra bem inda vos seja! 
Pois em vosso nascimento 
Fortona vos hoave inveja. 

Morto era o contentamento 
Nenhuma alegria ouvistes; 
Vossa mae era finada, 
Nós outros éramos tristes. 

* No Motido de dar o pcoço á criaBça ; com a qnal significação 
o verbo fe deve esereTer com ç e nSo com a. 



100 BOMANGBmO 

Nada< em dor, em dor criada, 
Não sei onde isto hade ir ter: 
Vejo- vos, filha, fennosa. 
Com olhos verdes crescer. 

Não era esta graça vossa 
Pêra nascer em desterro : 
Mal h^a a desaventora 
Qae p69 mais ii*isto qae o érrol 

Tinha aqai soa sepultara 
Vossa mãe, e a mágoa a nósl 
Não éreis vós, filha, não. 
Pêra momrrem por vós. 

Não ovfBm físicos- Taâo, 
Nem se consentem rogar; 
De vosso pae hei mor dó, 
Que de s! se^lia de qoeiíua*. 

Eu vos ouvi a vós si^ 
Primeiro que outrem nfnguem; 
Não fôreis vós se eu não fora: 
Não sei se fi^ mal se'ltam; 

Mas não pôde ser, senhora. 
Pêra mal nenhum nasc^es, 

* Nascida. 



A AMA M 



Com esse riso gracioso 
Que tendes scb olhos verdes. 

ConfBito, mas duvidoso, 
Me é este qae tomo assil 
Deus vos dé melhor ventara 
Do que tivestes téaqui. 

A Dita e a Formosura, 
Miem patranhas antigas, 
Qoe pdejaram um dia, 
Sendo d'antes muito amigas. 

Muitos hão 3 que é phantesia : 
Eu, que vi trâipos e annos, 
Nenhuma coisa duvido 
Como ella é azo de damnos^. 

Nem nenhum mal nio é crido, 
O hem so é esperado : 
E na crença e na esperança, 
Em amhas ha hi cuidado. 
Em ambas ha hi mudança. 



* Tem pan li. 

« Vf nenhuma coisa Javido, qm seja ato de damnos. 
VOL. m. «1 



XXXII 



AYALOB 





Este, que é verdadeiro romance na forma 
assim como no stylo, parece ter sido feito á 
partida da infanta para Sabóia, ou talvez por 
occasiSo da viagem queBemardim-Ribeiro alli 
fez para a ver. 

Fosse como ou quando fosse, elle é admi- 
rável. Ha menos artiflcio métrico, n3o menos 
belleza de poesia que nos outros, não menos 
sentimento. O stylo é mais desleixado, mais 
vago, mais de romance. 

Em todas as vastíssimas collecçoes caste- 
lhanas não ha nada tam bello de elegante sim- 
plicidade. Ja se vô que não faço a comparação 
no género heróico ou histórico; digo-o dos 
romances de amor e aventura. 



AVALOR 



Pela ribeira* de lun rio 
Qae leva as agoas síú> mar, 
Vai o txiíAê de Avalor« 
Nao sabe se hada tonar. 
* As agnaB lev^am seu bemi 
Elle leva o seu peaar; 
E so vaiy sem ecmipaiihia, 
Que os seus fora dle leixar.; 
1 Ga quem nao leva descaoQ^ 
Descança em so caminhar. 
Deseontra d^oude ia a barca, 
Se ia o sol a baixar ; 
Indo-se abaixando o sol, 
Escurecia-se o ar; 

> Que, pois que. 



R01IAIICBI1IO 



Tado se fazia triste 
Quanto havia de ficar. 
Da barea levantam remos» 
E ao som do remar 
Começaram os romeiros 
Da barca este cantar: 
—'Que frias eram as aguas 1 
Qaem as haverá de passar?* 
Dos outros barcos respondem: 
—'Quem as haverá de passar?* 
Frias sio as aguas, frias» 
Ninguém n'as pôde passar; 
Senão quem pôs a vontade 
Donde a não pôde tirar. 
<Tra*la barea lhe v3o olhos 
Quanto o dia dá logar: 
Nio durou muito, que o bem 
Nio pôde muito durar. 
Vendo o sol posto eontr*elle>9 
NSo teve mais que pensar; 
Soltou rédeas ao cavallo 
Á beira do rio a andar. 
A noite era callada 
Pêra mais o magoar. 
Que ao compasso dos remos 
Era o seu suspirar. 



*1Mia, apòia. 

■niA«il«d'elle. 



AVALOR m 



Querer contar suas mágoas 
Seria areias contar; 
Quanto mais ia alongando, 
Se ia alongando o soar. 
Dos seus ouvidos aos olhos 
A tristeza foi egualar ; 
Assi como ia a cavallo 
Foi pela agua dentro entrar. 
E dando um longo suspiro 
Ouvia longe fallar : 
Onde mágoas levun olhos, 
Vão também corpo levar. 
Mas indo assi por acerto, 
Foi c*um barco n'agua dar 
Que estava amarrado á terra, 
E seu dono era a folgar. 
Saltou assi como ia, dentro, 
E foi a amarra cortar: 
A corrente e a maré 
Acertaram-n'o a ajudar. 
Nao sabem mais que foi d*eUe, 
Nem novas se podem achar : 
Suspeitaram que foi morto, 
Más não é pêra afflrmar: 
Que o imbarcou ventura, 
Pêra so isso aguardar. 
Mas mais sao as mágoas do mar 
Do que se podem curar. 



xxxm 



OOIDADO S mSBJO 



Todo este soláo— e creio qae propriamente 
e^ é também um verdade soláo— todo 
elle é alegórico dos mysteriosos amores do 
'poeta das saudades.' 

Bemardím-Ribeiro vaga triste e solitário 
pelas margens de um rio escuro e cuberto de 
arvoredo. Apparece-lhe o seu Cuidado na fi- 
gura de um velho incannecído que lhe mostra 
o seu faial Dese/o todo cuberto de dó; cho- 
rando e pensativo declara-lhe que em má hora 
o viu porque nunca mais o hade esquecer. 
Some-se a visão; e elle caminha rio abaixo» 
até dar 'antre uns medonhos penedos' (se será 
Cintra?) onde a Pkaniasia lhe apresenta sua 
triste Lembrança na figura de uma bella 
mulher de Moiros cabellos e olhos verdes/ 



) 



174 HUMAniieiítu 

cuberta de um ne^ro manto. É Beatriz qae 
elle ama, que o adora e que não pude ser soa! 
Escura noite lhe esconde a visão bemaventu- 
rada; e de um 'alto oiteiro' lhe bradam (por- 
que não dos Alpes, do Piemonte oode lh't 
tinham levado?)— 'Bernardim-Ribeiro, olha 
onde estás.' 

Da demasiada altura onde subiram, seus 
atre^Mos pdQsrareotos lhe fase» reooHar 
quam baixo a tinA»fteto aMrto piip»s&ati«»* 
TW a tarrto.— ^naflionido trov«4or cerra ts 
olhos para nunca mais osffMr. Que Ihererti 
a tíltoqiie ver no mwdo?^ 

Bste romance' seria tfeíle «o ordeasT-ae e 
casanento' da infinita oMi e^iqiiede Sabóia? 
Nao Tem inserto nas saomíMS, como o asto* 
cedente, da Ama, e o subsequente de A valor: 
porissoaqui pds claro o sevaoMe de Bemar- 
dim^nibeiro, que no nyslMaso livro de ca- 
vaMarias, ora se disfarça em afiagrammas de 
sotfi próprias lettras, ora sob as de outros se 
de^gura, para oontoadir e enredar a todo o 
que Dão tivesse a ebave do querido segredo. 
O nome porém da iofsNíita nem aqui, naa 



.J 




CUIDADO B DSSSJO 175 

parte nenhuma o expôs a ser decipbrado pela 
mais remota indacção. N'este romance não ha 
nomes femininos; os que se incontram em 
tudo quanto escreveu, assim podem ser Maria, 
Antónia, como Joanna, etc. Em nenhum ha 
lettras ou sons que se pareçam com os de 
Beatriz. 

Nada digo do stylo, è o mesmo da peça 
precedente. As beliezas são infinitas ; nenhum 
poeta portuguez escreveu tanto com o sangue 
de seu coração. 





r^ 



CUIDADO E DES£JO 



Ao loqgp dp w^ riboira 
Que vai pelo pé da serra, 
Aonde mç a mi fez a gii^rra 
Muito teiDpo o grande amor» 
Me levou a minha dor: 
Ia era tarde do dia, 
£ a agua d^elJa conua 
Por antre nm alto arvoredo,. 
Onde áa ve^s ia quedo 
O rio, e áâ vezea nao. 

Entrada era do verão, 

Quando come^^un as avQs 

Crao seus cantares suaves 

Fazer tudo gracioso. 

vou m. II 



179 ROMANCBinO 

Ao roido saudoso 
Das agnis cantaram dias: 
Todalas minhas qaeroUas 
Se me puseram deame; 
ABi morrer quisera ante 
Que Ter por onde passei 
Mas eu qae dtgo^passei! 
Antes inda heide passar, 
Em quanto hi houTor peiar, 
Que sempre o hi hade haTor. 

As aguas, que de eorrer 
Nio oessayam um momento, 
Me trouxera* ao pemsamento 
Que assim eram minhas mágoas, 
D'onde sempre correm aguas 
Por estes olhos mesquinhos. 
Que téem abertos eamhihos 

Pelo meio do meu rosto. 
E Ja nio tenho outro gosto 
Na grande desdita minha. 
O que eu cuidava que tinha 
Foi-se-me assim nio sei como, 
D*onde eu certa crença tomo 
Que, para me leixar, veio. 

Mas, tendo*me assi alheio 
De mi o que allí cuidava. 
Da banda d'onde agua estava 



CUIDADO B MWBJO m- 

Vi um homem todo eam^ 
Que lhe dava pelo eham 
A harha e o eabeUo. 
FSeando eu pasmado d'ello, 
Olhando eile para mi, 
Falloa-me e dnse*me aasi : 
—Também vai ésla agua ao Teja' 

N*i8io olhei, ti mea Deeejo 
Estar de trás trine e só. 
Todo eoberto de dó, 
Chorando sem diíer nada, 
A cara em sangue kvada, 
Na bôoea posta ift mio, 
Gomo qae a grande paíxio, 
Soa falia lhe tolhia. 

E o velho qoe todo via, 
Yendo-me tand^em chorar 
ComeçoQ a assi JUIar: 
— 'Ea mesmo sio^ len Cuidado 
Que n'0Qtra terra criado, 
PTesta primeiro nascL 
E ess*oatro qoe está aqni 
É o tea Descio triste; 
Que má hora o tnvisle 



' locamicddo, de cabello branco. 

t 



Pois nunca I» 
A t^raemav 
Traspassando a miiila a iV 

Quando lhe eu a^DíAi-ottPPi, 
Soltei suspiras ao-eMro; 
AlUdiTttttaoiite- 
Meus olhos tristes pagaram 
De um bem eè^^n^aflet 
Que outro ramok ati 
Nem o tive, nem iii> 
Nem o esperai 
De só ver M 
Que pêra maie 
Nunca me 



E n*a(iuisto, triste estando 

Gom os olhos tiMra aUnadO' 

D*aqueilas inodas 4'aléai» 

Olhei e nào vi 

Dei^itioa^ 

Rio abaixo, alá.flliegar 

A cerca de MonitaBér. 



G(Mn meus male»' 
Da banda do «raio-día, 
Alli minha Phantasia, 
D'antre uns medrosos penedos, 
Onde aves que fazem medos 



CUIDAM) S BMBJO 

De noite os dÉM vio ter» 
Me sahiu a teeelwr 
Com Qa OMÉyMr féo biaço. 
Que, ao pareeer ée emsaço 
Não podia ter-ae em si, 
Dizendo : — Tda, triste» aqui 
A triste LemlNn&Qa tna.' 
Minha vista enai» aa soa 
Pas, d'eUa todoflw enehi : 
A prima ooisaqne vi 
E a derradeira também, 
Que no mondo vio e vem I 

Seus olhos verdes rasgados 
De lagrymas carregados. 
Logo em vendo-os, pareciam 
Que de lagrynMS «nehiam 
Gontiao as anãs lusa, 
Que eram, gran* lenpo, paoes > 
Antre mi e mess coídados. 

Loiros cabeilos ondados 
Um negro manio cobria : 
Na tristeza paima 
Que lhe conmalia flMMBmr. 
Os seus olhoB4te me ver, 
Como furtados^ tirou, 



PtlM. 



m BOMANCBIIO 

Depois em cheio me ellioa 
Seus alvos peitos rasgando 
Em voz alta se aqueixaiiâo^ 
Disse as« mui só sentida: 
—'Pois que mor dor ha na vida 
Para que houve ahi monrer?* 
Callou-se sem mais dizer. 
Eu de mi gemidos dando, 
Fui-me para ella chorando 
Para a haver de consolar... 

N*isto pôs-se o sol ao mar, 
£ feze-se noite escura, 
E disse mal á ventura 
E á vida, que não moni ... 
£ muito longe d'allí, 
Ouvi de um alto oiteiro 
Chamar : — 'Bemardim-Ribeíro 1* 
E dizer : — 'olha onde estást' 
Olhei de ante e de traz 
E vi tudo escuridão, 
Cerrei meus olhos então, 
E nunca mais os abri, 
Que depois que a perdi 
Nunca vi tam grande hem. 
Porém inda mal, pordml 



XXXIV 



o OOBDiO DB OmO 



Nio parece ésla Qiia»(l'aqirtlU6 verâês me^ 
cdotas que a prosa de Bocacio e os versos éb 
Lafontaine immortalizaram? O stylo é moDOs 
licencioso, porque, siucera e nua ás vezes, 
comtndo é sempre mais casta a poesia primi- 
tiva. O seu pudor é o da ingenuidade que se 
despe porque mal nSo pensa, nio o da bypo- 
crísia que por maliciosa se cobre. Comtudo os 
dois últimos versos são um verdadeiro remate 
de epigramma que faria honra a um poeta da 
eschola de Voltaire, e podia ser feixo de uma 
cantiga de vaudeville de Scribe. Entre portu- 
guezes, só D. Francisco Manuel de Mello ou 
Nicolau Tolentino os faria tam naturaes e tam 
picantes ao mesmo tempo. 

Assim a adivinhar, que é o único modo de 



186 ROMANCBIBO 

enlrar Q'estes pontos, orço a data d*esta com- 
posiçio pelos tempos da guerra da acclama- 
çSo, isto é, por meados do século xvii. 

É ommisso nos romanceiros dos nossos vi- 
zinhos; e em Portugal nSo tenho noticia de 
que se íncontre senão na tradiçio oral deltas- 
os-Montes, onde achei três cópias d'ene, orna 
mais completa que as outras: d'ellas se appu- 
rou o presente texto. As variantes quasí todas 
desprezíveis. 



o COADÃO DE OIRO 



Lá se vai o ca|iitSo 
Cos seus soldados á guerra : 
Duzentos eram qalntados» 
Eram duzentos de leva^. 
Se todos elles i^ tristes» 
Um mais que todos o era; 
Baixa trás a sua espada, 
Seus olhos postos em terra. 
Lá no meio do caminho 
O capitão lhe dissera: 
— Torque vais triste, soldado, 
Essa paixão por quem era?* 



* DnuQto» qnintadM eram — nAt-oi-WMfiM. 



188 BOMANGBIRO 

— -'iNio é piNT pae nem por mie. 
Nem por irmâa que ea ti^era^ 
É peia esptea que deixo 
Lá tam só na minha terra. 
Este eordio de oiro fino, 
Que sette arráteis bem pesa, 
Mais me pesa a mim levá-lo, 
Qne ao partir lh'o nao dera! 
— 'Soldado, tens sette dias 
Para qae voltes a vé-ia. 
Se a ineoMintf^ dMiNUMiè, 
Ficas sette annos com ella: 
Senão, nem mais uma hora 
Terás de agoardo ou de espera.* 
Quem saltava de own t wte 
O meu soMiilli «ra. 

Deixou estrada ^htila^ 
Por atalhos a»«altém; 
Inda não é HBia-neU^ 
A sua porta feoiía. 
— 'Quem baiBá aiiilMt poita, 
Quem bate com lant» piesaa?' 
— 'É um soldado^ w&êèmb^ 
Que vosMtt B0918 ta foefnt* 
~<Mal haja m nona iqae tvÉB^ 
£ mais quem veio trazé-lal 

* NwB por minbíàiÊÊÊmmtàê «eHia -> 



o GORDÃO DB OIBO i» 

Ergae-te tu, minha vida, 
Assoma-te a essa janella; 
De^)eâe-ine esse soldado 
Que a tam má hora aqui chega.* 
—'Amigo, vindes errado 
Go*as vossas novas da guerra: 
Deixae-nos dormir em paz, 
Que bem preeisamos d*elia.* 

Foi*8e d'alli o soldado 
Mais prompto do qne viera : 
—'Bem haja o meu capitão 
Pelo bem gae me fizera! 
Com sette dias de aguardo... 
Nem sette horas carecera 
Para me quitar saudades, 
livrar-me de toda a pena! 
Tomae lá meu capitão 
Os mimos da minha terra; 
Este cordão de oiro fino. 
Que agora inda mais me pesa. 
Minha mulher nSo precisa. 
Que os primos podem manté-la.' 
—'Pois tua mulher tem primos» 
E ^u vinhas com dó d*ella! . . .* 



XXXY 



o oaso 





Ha doas bailadas escríptas em dialecto es- 
cocez por elrei James V de Escócia, que am- 
bas se parecem muito com esta. Uma espe- 
cialmente, 'The Gaberlunzie man/ até no 
metro e nas formas exteriores dá bastantes 
ares da nossa xácara. Começa assim: 

Tbe panky aald carie come ovir lhe lee 
Wi' moDj good-eens and days to mee, 
Siyiiig : Goodirife, for nHm conrtesie, 
Will se lodge a silly poor man? * 

O rei James, que morreu de trinta e três an- 
nos, em 13 de Dezembro de 4542, era um 
joven rei, tunante e maganSo, que se disfar- 
çava em trajos de mendigo, de adello, ou que 

' Perey*» muqobs or ancumt moLiia ponaT, Series u, book i, 

ia 

VOL. m. 13 



194 ROMANCEIRO 

taes, para andar correndo baixas aventuras 
pelas aldeãs ou pelos bairros escusos das ci- 
dades. Cantor de seus próprios feitos, c«le- 
brava-os depois em gallantes trovas, a que nao 
falta a graça nem o chiste do género. A que se 
intitula The Jolly Beggar, e que por licenciosa 
e fresca de mais, a nao admittíu o bispo Percy 
na sua collecçâo, talvez tenha ainda mais mé- 
rito de arte. 

O GaberiunzienmnáàvealbákM^ è porân 
todo inteiro o Cego da nossa sacara, meãos 
em certos ineidenies que sio mais poetioos e 
mais interessantes na ooq^obíçSo portugoeu. 

Disfarçado em trajos de cego mendigo, vm 
senhor de alta jerarchia fallou de amores a 
uma donzelia de muito ixiferior nascimento 
que vivia com sua velha mSe. Poí acc^rdo, 
mais ou menos expresso entre os dois aman* 
tes, se appresenta este por noite á porta da 
vielha com sua caramxmha. A mãe dorme; e 
Anninhas, que responde ao cego, parece tuè- 
lo ou com ironia oa em píqoe de dmoaas, e 
por nenhum modo lhe quer abrir *porta ou 
postigo.' 



o CEGO i« 

Põe-se o cego a cantar lamentosameote a 
sua desgraça ; e com a eborada cantilena se 
abranda oa finge abrandar-se o coração da ra- 
pariga. Desperta a mãe para que o venha ouvir; 
e qaando esta condoída lhe manda dar esmola, 
o cego recnsa, nSo quer senio que o ponham 
no caminho qne perdeu* £ a própria velha, 
coitada, a que diz á filha que llfo va insinar. 
E assim fogem os dois, com a maior tranquil- 
lidade com que ainda fugiram amantes. 

Note porém a maestria do nosso poeta po- 
pular. A fugitiva sustenta sempre aquella tam 
perdoável hypocrisia feminina, último pro- 
testo do pudor moribundo. Fiando homérica- 
mente na sua roca, vai fingindo guiar o cego, 
vai parecendo acreditar que não sabe aonde 
nem a qae vai. Senão quando, apparece um 
tropel de cavalleiros : é a comitiva do nosso 
rei incuberto, príncipe ou conde pelo menos. 
Adeus gaivão de cego, e andrajos de men- 
digo I A cavallo e trotar largo I Ja o cego vé, 
ja a donzella sabe onde vai. E com este seu 
fino e malicioso ditto, conclue a trova : 

Um cego me leva, e vejo o caminho I 



196 ROltAMCEIRO 

Tal é o argumento da cantiga portugueza 
muito mais romanesco do que o das escoce* 
zas, posto que seja o mesmo o fundo da ane- 
cdota. 

NSo duvido suppor que talvez de Glasgow 
ou de Âberdeen trouxessem os nossos ma- 
reantes esta historia, e de Vianna ou do Porto 
se internasse pelo Minho onde ella é mais vul- 
gar. N3o lh'o pagaríamos so em vinho e frutta 
aos nossos amigos do norte, porque em mer- 
cadorias d'aquelle mesmo género para lá te- 
mos exportado bastante. 

A forma métrica é a do romance de Sancta 
Iria. O texto foi restituído com dííBcuIdade, 
porque esta forma se presta ainda mais á cor- 
rupção do que a outra, desafiando o prolífico 
talento dos nossos trovadores de aldeã a bor* 
dar seus pretenciosos floripondíos sobre a sin- 
gela telagarsa do original. 

Yao por ementa, appontadas algumas va* 
riantes menos absurdas. 



o CEGO 



— 'Abre a porta, Anna, abre de mansmbo \ 
Qae venho feriíto, morto do caminho/ 
— 'Se vindes ferido, pobre coitadinho t 
Ireis muito embora por outro caminho/ 
— ^'Ai ! ahre*me a porta, abre de mansinho, 
Que iam cego venho^ nao vejo o caminho/ 
— ^'Porta nem postigo nao abro ao cegninho, 
Ya-se na má hora pelo mau caminho/ 
— ^"Ai do pobre cego que anda so^ho 
Cantando e pedindo por esse caminho!* 

Minha mãe acorde, oiça aqui baixinho' 
Como canta o cego que perdeu o caminho/ 

* — 'Abre a porta, Aima, abre o tao potligo, 
Da«iiM afln leofo, amores, que Tenbo Anido/ 
— 'Se Tíndee ferido, vinde muito embora. 
Porque minha porta nSo le abre agora.' — iiTaiiiAnoaA. 

* — 'Mioba mie acorde do doce dormir. 
Venha ourir o cego cantar e pedir.'— nTanuDURA. 



— "Se elle canta e p«de, da-lhe pão e vinho; 
B o pobre cego que va o seu caminho.' 
—"O leu pão não quero, não quero o tea Tiabo, 
Quero só que Anninbas* me insine o eamiobo.' 
— Toma a roca, Anna, carr^a-a de línbo, 
Vai com D pobre cego, pA-lo a caminba' 

— 'Espioit-se a roca, acabon-se o línbo. 
Pique embora o cego, que este é o seu camiaba' 
— 'Anda mais, Anninbas, mais um bocadinho. 
Sou um pobre cefo, vãú Tejo o camiidra.' 
—Ai I arreda, amda para eele aUabo^ 
Que ahi vêem canlMros pw caee eammhk' 
~'Se vêem caralleiroB, léem de vagHinho, 
Que ha muite me tardam por este camiiAt.' 
A cavallaria pastou de manÍDbo. .. 
Cego, !• ■«! ee^o ja via o eaninbo^. 
Honlou-me aeavsUo csn muito carinho... 
Um cego me lon . . . e vejo o c 




XXXVI 

LIRDA-A-PASTOBA 



Quem desce Tejo abaixo, por esta margem 
do Norte onde está Lisboa, e tendo saudado 
o precioso monumento de Belem, a sua torre 
n3o menos bella, entra no fasbíonavel Pedroi- 
ços e d'abi segue ás praias do Dafundo até á 
Crozquebrada, tem dado o mais bonito pas- 
seio que se pôde dar nas vizinbanças da capi- 
tal, e visitado os sítios que, depois de Cintra, 
mais frequenta a sociedade elegante da nossa 
terra. De Uns de Agosto a princípios de No- 
vembro é que tudo allí corre, e que os banhos 
do mar povoam aquelles bellos ermos, nas 
outras estações desamparados. 

Quem tiver porém o bom gosto de resistir 
ao despotismo tarifeíro da moda, e se abalan- 
çar em Maio ou Junho a este largo passeio, 



JOS ROMANCEIRO 

que no estado dos nossos caminhos é antes 
•uma pequena viagem, creia que bade ser pago 
de sua nobre ousadia. N9o ha palavras que di- 
gdm todas asbellezas d'aquella terra, d'aquelle 
^0, d'aquellas aguas. Á esquerda o Tejo, os 
navios que entram e sabem, as frotas de ba^ 
cos pescarejos, a areia alva juncto á beira 
d'agua, e logo pegada á salsugem, a prodi- 
giosa vegetação das plantas que a amam e «n 
-qae se pasce goUoao e largo á vontade o gadou 
Perto, um saivelro que chegou á terra e cuja 
compsAha pocha ao longo da praia peta reie 
qoe arrasta os innumeraveis cardomes de pei- 
xes que logo víriio saltar na areia. Ã direita 
nas emíneoeias» as ruínas pictorescas áe con- 
ventosdesertos» deaM>í&hÔ8aiiaDdooado8, 4e 
lorles, de atalaias. E tudo islo incaatoada na 
verdura viçosa e florida da primavera que 
ainda nSo queimou o sol do estio. No fim do 
verão quando vai todo o aaondo» ja ui^ ha se- 
tnao resteva nos campos, talos de berras se^ 
-cas nos montes, árvores sem Mha, poeira nos 
ares, e uma ventaneira despregada que nio 
cessa. 



LIff1>A-A-PA9T0RA 

Ja me eram familiares de asnos aqaelles 
sMas ; mas posso dher qne os n3o conheci 
bem e como elles são deveras, senão goando, 
haverá hoje três annos, alli fai am dia pri* 
meiro de Maio. Foi, como de maravilha em 
raaravítba, por todos os pontos que tenho no* 
iseado; mas (legando á ribeira da Jamor, pa** 
rei extasiado no meio de soa ponte, porqne a 
mnea qee d^ahi se extende, reciirvaiiÃ>S6 
peta direita para Carnaxide, e os montes que 
s ãribrígam em deredor, estava todo de uma 
bcUezaqae verdadeiramente fascinava. O trigo 
V0fú% e viçoso ondeava com a viração desde 
« Teigas que rc^a o Jamor, até os akos onde 
velejam centenares de moinhos. Árvores gran* 
dese beilas» como rara vez seineontram n'esta 
pravincia áendroclasia, rodeavam melancbo* 
licaoMBte, no mais fondo do vale, a velha man- 
aSodoBodizio. E lá, em pre^)ectiva, nofcindo 
do quadro, uma aldeã de Suissa com suas ca* 
sinbas brancas, suas ruas em soccalcos, seu 
pneri[)iterio ornado de um ramalhete de faias; 
grandes massas de basalto negro pelo meio de 
todo isto, parreiraes, jardinzitos quasi pen<» 



101 ROMANGEnO 

sis, e uma graça, ama simplicidade alpina» um 
sabor decampo,umcheiro demontanha^como 
é difficil de incontrar tam perto de uma grande 
capitaL 

O logarejo é bem conhecido de nome e fa- 
ma, chama-se Linda-a-Pastora. Porque? NSo 
m. Tem-me jurado antiquários de 'meia4i- 
jella* que o seu nome verdadeiro é NifUi a 
Pastara. Mas emquanto nSo achar algum de 
Hijella inteira' que me saiba dar a raz3o por 
que se havia de chamar assim, meio em por- 
tuguez meio em castelhano, um aldeote de 
aopé de Lisboa— heide chamar-lhe eu, como 
os seus habitantes e toda a gente diz: Linda- 
a-Pastora. 

Namorei-me do sitio por modo, que alli pas- 
sei o verão todo ; e d'aili fiz deliciosas eicur* 
soes pelas vizinhanças, que todas slo bonitas. 
Foi n'este próprio e appropríado sitio que a 
Sr.* Francisca, lavadeira bem conhecida do lo- 
gar, me deu a última e, ao parecer, mais cor- 
recta licçSo que do presente romance tinha 
obtido. Em outras partes do reino traz elle o 
título de 'Pastorinha;' aqui era justo e nato- 



LINDA-A-PASTORA 205 

ral que se lhe desse o de Linda-a-Paslora\ que 
assentei conservar-lhe. 

Na forma é um romance em endeixas, mas 
o fundo é de uma verdadeira paslourella do 
género provençal ; nem a fariam mais graciosa 
Giraud Riquier ou Giraud de Borneill. 

Tem muitas variantes, porque todo o reino 
a sabe e canta. Eu noto somente asprincipaes. 



LINDA-A-PASTORA 



— ^liinda pasUninha, que fazeis aqui?* 

— "Procuro o meu gaÂo que por ahi perdi.* 

— ^^am gentil senhora a guardar o gadol* 

— ^'Senhor, ja nascemos para esse fado.' 

— 9or estas montanhas em tam grande p'rigo!' 

Diga-me, ó menina, se quer vir commlgo.* 

— IJm senhor tam guapo dar tam mau conselho >* 

Querer que se perca o gado alheio t* 

— ^'Nao tenha esse medo que o gado se perca' 

Por aqui passarmos uma ora de sesta.* 



* Não deve ler nobre quem dá tal conselbo — maio, buiabaixa. 

* £a ofto digo isso, qoe o gado se perca, 

Mas que dewaooemos uma hora de sesta. —bubalta, nTai- 
MADinu. 



906 ROMANCEIRO 

—Tal razão como essa nâo n'a ouvirei': 
Ja dirão meus amos que de mais tardei.* 
— 'Diga-lhe, menina, que se demorou 
Co*esta nuvem de agua que tudo molhou.* 
—'Paliarei verdade, que mentir não sei: 
À volta do gado eu me descuidei.' 
— Tastorinha, escute, que oiço bailar gado...' 
—'Serão as ovelhas que me tem faltado.* 
—'Eu lh'as vou buscar ja muito depressa. 
Mas que me espedace por essa charneca.* 

—'Aí como vai grave de meias de sedai 

Olhe não as rompa por essa resteva*.* 

— ^'Meias c sapatos ^ tudo romperei^ 

So por lhe dar gosto, minha alma, meu bem.* 

— '£í-lo aqui vem : é todo o meu gado.* 

— 'Meu destino foi ser vosso criado.* 

— 'Senhor, va-se embora, não me dé mais p«u^ 

— 'Que hade vir meu amo trazer*me a merenda.' 

— 'Se vier seu amo, venha muito embora; 

Diremos, menina, que cheguei agora.' 

—'Senhor, va-se, va*se, não me dé tormento: 

Ja não quero vé«lo nem por pensamento.* 



' Que diiio meos amos em que me oocapei — BSitiLTA. 

* Por euai esteru — almtsjo. 

* Meias e vestido — ubatbjo. 

* Romperem ~ GoniMU. 



LINDA-A-PASTORA 209 

— Tois adens, ingrata da Linda-a-Pastoraf 
Piea-te, en me von pela serra fora''.* 
— ^^enha cá. Senhor, torne atrás correndo... 
Qae o amor é cego, ja me está rendendo.^ 
Sentaram-se á sombra . . . tudo estava ardendo. . .** 
Quando ellas não querem, então *stão querenda 



* Vai goardar %ea gado pela serra fora— bkiralta. 

* SeaU-te a esta sombra que está o mando ardendo. 
— 'En bem dSo queria, mas esUm qnerendo.' 

— *Callarte, pastora, nSo digas mais nada, 
Que a aposta qae ea íli ja estft ganhada.* 
— 'Senbor, vou sentar-me nio por má teofSo.* 
Pois sabe a verdade, qae sou teu irmlo.— iimALTA. 
~'Seote-se a ásta sombra, passemos a sesta, 
Ja poQoo me importa que o gado se perca.' 
Oh geDt0 da casa, aoeudi ao gado, 
Que foge a pastora c'o seu namorado.— mixro. 
VOL. ni. U 



xxxvn 



o lULBQXntZ DE KANTUA 





EMo que se apea de seu dassieo barbante 
em qne tantos aimos eavatgo&, e despmffo o 
papel-fMrde> em que & imbr oHiavaiit os cegos 
e venÂilbõe» de nossas feiras» vera o nobre 
*llarqaez de Manim' tomar o se» legar enire 
os mais venerandos e antigos r omanees do cy- 
do de Carios-HCagDO. S«b nobre origem bem 
sabida é ebem manifesta: franceza on pro- 
Tençal. Se Ibi a língua feeit ov a língua (foe 
a primeva qne faiioo, nio set ; quando atra- 
vessou os Pyreneus e ^eio para nós, certo que 
era ja famíliarcom ambas. Passou muito tempo 
em Hespanha por sereomposíçio de Jeronymo 
Treviõo*; hoje com razão se crê que o Tre- 

' Pelirer, notas a oom qiixotb. 






214 ROMANCEIRO 

vino Dão foi sen3o o editor que em 1398 o im- 
primiu : sem dúvida o romance é mailo mais 
antigo que isso; so da licçio portuguesa me 
parece que posso responder que é dos fins do 
XIV, principios — quando muito — do xv sé- 
culo. E todavia a forma em que eile apparece 
em portuguez nSo creio que fosse a primitiva 
que entre nós teve, e me inclino a que ella 
seja posterior á que teem os nossos viziniios 
castelhanos em suas coUecções^ Aqui é mais 
dramático, lá mais épico : nas multiplicadas 
edições dos cegos chegou a obter o nome de 
tragedia. Todavia, não deixarei de observar 
que revestidos d'esta mesma fónna ha roman- 
ces muito mais antigos do que os narrativos. 
Âs rubricas de aqui falia o marquez, agora 
diz o imperador etc., nSo s3o indisputável 
prova de que a composição f&sse para se re- 
presentar Iheatralmente. 

Sem profundar nenhuma d'estas questões, 
contento-me de sacar do lixo da 'feira-da-ia- 



> Ca1«CK»BIB0 OB ftOMAKCBt; SILTA DB TAKIOS BOJUNCBS ; nO- 

BBSTA DB TABios j 6 olUiiiamente Daran, bomá:icbbo obusbal, ed. de 
184»-0I, fom. I, pag. «07. 



o MARQUEZ DB MANTUA S15 

dra/ esta bella reliqaia da nossa litteratura 
popular e romanesca» e de restituir ao seu 
eminente iogar o nobre marquez de Mantua, 
embora me criminem e escarneçam os super- 
dliosos académicos de todas as academias 
reaes e n3o reaes d'este mundo. 



j 



o MARQUEZ DE UANTVA 



Na caça andava perdido 
De Maotua o velho raarqaez, 
E no peito presentido 
O coração tiraz de envea; 
Mais, nào sabe o soeeeedido! 
Farto ja de caminhar 
Por tam fjragoea momanha» 
Cançado assim sem eofli^nha. 
Sem ter onde repoosar 
N*essa terra tam extranha, 
Vendo o mano tam eemdo^ 
Assentoa de ae apear 
E o sea cavaUo deixar 
Porque estava de eançado 
Que ja nao podia andar: 



Si8 ROMANCEIRO 

--Forlanosa caça é esta 

Qae a fortuna me ha mostrado^ 

Poisqae, por ser manifesta 

Minha pena e gran' cuidado, 

Me mostrou esta floresta. 

Nunca vi tam forte brenha 

Desque me accordo de mi, 

Eu creio que Margasi 

Fez esta serra Dardenha, 

Estes campos de Methll. 

Quero tocar a bosina 

Por ver se algum me ouvirá; 

Mas cuido que nao será. 

Porque minha gran* mofma 

Gommigo começou ja. 

Todavia quero ver 

Se mora alguém n*esta serra 

Que me diga doesta terra 

Cuja é para saber; 

Que quem pergunta não erra. 

Agora vejo-me aqui 

N*esta tam grande espessura. 

Que nem eu me vejo a mi, 

Nem sei de minha ventura, 

Nem menos será cordura. 

DU VALDKVnOS 

— Oh Virgem minha senhora, 
Madre do rei da verdade, 



o MARQUEZ DE MANTUA 2i9 

Por vossa gran' piedade 
Sede minha intei^eessora 
Em tanta necessidade. 
Oh samnia regina pia, 
Radiante luz phebea, 
Custodia animas me», 
Pois está na terra fria 
A alma de pezar chea, 
Pois es amparo dos teus, 
Consola os desconsolados, 
Rainha dos altos ceos, 
E roga a meu senhor Deos 
Que perdoe meus peccados. 

FAL.LA O MAR<2UEZ 

— Não sei quem ouço gemer 
E chorar de quando em quando: 
Alguém deve de aqui estar . . . 
Segundo se esta queixando, 
Deve ter grande pezar. 

FÁtéSéJi YALDSVUIOS 

— Domine, memento meí, 
Lembrae-vos de minha alma. 
Pois que sois da glória rei, 
Nascido da flor da pahna. 
Remédio de nossa lei. 

DIZ O MARQUXS 

— Segundo d*el]e se espera, 
Aquelle home anda perdido, 



00 BOMANCmO 

Ou por venton ferido 
De alguma besta fera. 
^ Qaero ver este myaierio, 
Que a falia me dá ousadia, 
Porqae dois em eompanhia 
Terão grande refiriferio 
Para qualquer agonia. 



— Oh minha espôea e senhora, 
Ja não tereis em poder 
Vosso esposo que assim chora. 
Pois a morte roubadora 
Vos roubou todo o prazer. 
Oh vida do meu viver. 
Resplandecente narciso, 
Gran* pena levo em saber 
Que nunca vos heide ver 
Até o dia do Juizo. 
Oh esperança por quem 
Tinha victoria vencida t 
Oh minha glória, meu bem, 
Porque não partis também, 
Poisque sois a minha vida? 
Senão for vossa vontade 
De haver de mim compaixão, 
Mandae-me meu coração, 
Minha fe e liberdade^ 
Que está em vossa prizão. 



o MARQUBZ DE MAIH-UA 

Madre minha muito amada, 
Qu'é de o filho que parislee. 
De quem éreis conflotoda? 
Como se ha tomado nada 
Quanta glória possuktee? 
Ja me não vereis reinar, 
Ja me não dareia eonaeUiOy 
Nem eu o posso tomar ; 
Que quebrado é o espelho 
Em que vos sabeis oUiar. 
Ja nunca me haveis de ver 
Fazer justas e toroeíoay 
Nem vestir nobres arreíoa» 
Nem cavalieíres veneer, 
Nem tomar bandos attieios. 
Ja não tomareis iiraaer 
Quando me virdes armado; 
Ja vos não virão diaer 
A fama de meu poder, 
Nem louvar-me de esforçado. 
Oh valentes eavaUairos, 
Reinaldos de Monlaivio» 
Oh esforçado Roldão^ 
Oh marques Dora OMvetroa, 
Dom Ricardo, Dom Dodao^ 
Dom Gaifeiros, Dom Beltrão, 
Oh gran* duque de Milão, 
Que é de vossa eorapanhia? 
Duque Maime de Baviera, 



ROMANCEIRO 

Qae é de vosso Valdevinos? 
Oh esforçado Guarínos, 
Quem comsigo vos tivera! 
Meu amigo Montesinhos, 
Ja nanca mais vos verei; 
Dom Akmso de Inglaterra, 
Ja nmiea acompanharei 
O conde Dirlos na guerra. 
Oh esforçado marqaez 
De Mantua, teu s<mhorio, 
Ja não me poreis ames, 
Nem me vereis outra vez 
Gozar vosso senhorio. 
Já não quero o vosso estado, 
Ja não quero ser pessoa, 
Nem mandar, nem ter reinado; 
Ja não quero ter coroa, 
Nem quero ser venerado. 
Oh Carlos imperador, 
Senhor de mui alta sorte. 
Como sentireis gran* dor 
Sabendo da minha morte, 
E quem d^ella é causador: 
Bem sei, se sois informado 
Do caso como passou, 
Que serei mui bem vingado. 
Ainda que me mattou 
Vosso filho mui amado. 
Oh príncipe D. Carioto, 



o MARQUEZ DE M AKTUA 

Quem, sendo tam desegnal, 
Te moveu a fazer mal 
Em am logar tam remoto 
A tea amigo leal? 
Alto Deus omnipotente, 
Juiz direito sem par, 
Sobre esta morte innocente 
Justiça queirais mostrar, 
Pois morro tam cruelmente. 
Oh Madre de Deus benigno, 
E fonte de piedade^ 
Arca da Sancta Trindade, 
De donde o Verbo Divino 
Trouxe sua humanidade^ 
Oh Sancta Domina mea, 
Oh Virgem gratia plena 
Em que a alma se reerea, 
Dae remédio à minha pena^ 
Pois que morro em terra alhea. 

WAJAéA O UAUqVVE 

— Senhor, porque vos queixais? 
Quem vos tratou de tal sorte, 
E quem é o que tal morte 
Vos deu, como publicais, 
Que assas é esta má sorte? 
Não me negueis a verdade, 
Ck)ntae-me vosso pezar. 
Que vos prometto ajudar 
Com toda a força e vontade. 



BOMÁIIGHIM) 



—Muito me agasta» ainigo^ 
Certamente tea tardar, 
Dize se trazes comtiga 
Quem me haja de eoofefisar? 

—Eu nao sou ifiieiii vòscoiiiis: 
Nunca comi vono |iio, 
Mas vossos gritos e ais 
Me trouxeram aonde estais 
Mui movido a rwpiixao. 
Dizei-me vossa agonia, 
Oue, se remédio lí^per, 
Eu vos prometto laaer 
€om que tenhais alegria. 

— Meu senhor, muiias mereés 
Por vossa hsa wmadet 
Bem creio qÊ» me fareis 
Muito mais dofiie<diM9ÍB, 
Segundo vossa toiáade. 
Mas minha dor é mortal, 
Meu remédio lo éviorte, 
Porque estou pando tal, 
•Que nunca homem mortal 
Foi trattado de tal «orte. 
Tenho, senhor, vinte « duas 



o MARQUEZ DB llàNTUA $» 

Feridas todas mortais, 
As intranhas rotas, nuas, 
£ passo penas tam cruas, 
Que nao poderão ser mais. 
Ha-me morto á traição 
O filho do imperador, 
Garloto, a gran' sem razão, 
Mostrando-me todo o amor. 
Não o tendo no coração. 
Muitas vezes re([ueria 
Minha esposa com maldade, 
Mas ella não consentia 
Pelo bem que me queria, 
Por sua grande bondade. 
Carloto com gran* pezar. 
Como mais traidor que forte, 
Ordenou de me matar. 
Cuidando com minha morte 
Com ella haver de casar. 
Mattou-me com gran' falsia, 
Tranzendo cinco comsigo, 
Sem eu trazer mais commigo 
Que um pagem por companhia. 
A mim chamam Valdevinos, 
Sou filho de ehrei de Dacia, 
E primo de elrei de Grécia, 
E do forte Montesinos, 
Que é herdeiro de Dalmácia. 
Dona Hermelinda formosa 

VOL. UI. 15 



Minha madre namral, 
^ylla minha esposa 
De graças espedal, 
Mas com primores famosa. 
Esta nova contareis 
A triste de minha madre* 
Que em Manf«Ki achareis, 
E ao honradb^marqtifií 
Meu tio, irmão de meu padres 



— Oh deseslrado viver, 
,Ofa amargosa ventura, 
Oh ventura sem prazer, 
Prazer cheio de tristura, 
Tristura que nao tein ser! 
Oh desventurada sorte, 
Oh sorte sem soffHmento, 
Desemparado tormento, 
Muito peior do que a morte, 
Morte de desahrimento! 
Oh meu sobrinho, meu bem, 
Minha esperança perdida. 
Oh gloria que me sustém, 
Porque vos partis de quem 
Sem vós nâo terá mais vfda? 
Oh desventurado velho, 
Captívo sem liberdade t 
Quem me pôde dar conselho, 



' o MARQOeK DB flíANTflA Uf 

Pois perdido é o espelho 
De minha gran* elaridiidcf 
Oh minhft lo; verdadeira, 
Trevas do meu coraçSo, 
Penas de minha paifsSo, 
Cuidado, que memattefnt, 
Tristeza de tal trafçfiof 
Porque não qaeitfs faltar 
A este marquei eoitád^. 
Que tio sohieis chaiftart 
Fallae-me; s0MnHo anmd(», 
Nao me façais rebemstr. 

—Meu tonneaio t^m molesto 
Me faz nâo vos conhecer 
Nem na falia, nem no gesto; 
Nem intendo vosso dizer 
Se não for mais manifesto. 
Estou tão posto no fim, 
Que não sei se sou alguém. 
Nem menos conheço a mim; 
Pois quem não conhece a sim, 
Mal conhecerá ninguém- 

—Gomo não me conheceis, 
Meu sobrinho Valdevinos? 
Eu sou o triste marquez 



fi9 ROMARCIIBO 

Irmio de elrei Dom Salinos, 
Que era o pae que vos fez. 
Eu sou o marquez sem sorte, 
Que devera rebentar 
Chorando a vossa morte, 
Por com vida nao ficar 
N*este mundo sem de porte. 
Oh triste mundo eoilado, 
Ninguém deve em ú fiar, 
Pois es tam desventurado. 
Que o que tens mais eouátado, 
Mor queda lhe fazes dar! 

PALLA TALDSTOIOf 

— Perdoa-me, senhor tio, 

A minha descortezia. 

Que a minha grande agonia 

Me pôs em tanto desvio. 

Que ja vos nao conhecia. 

Nao me queirais mais chorar; 

Deveis de considerar 

Que para isso é o mundo, 

Que dobrais meu mal profundo. 

Para bem é mal passar : 

E bem sabeis que nascemos 

Para ir a esta jornada, 

E que, quanto mais vivemos, 

Maior oífensa fazemos 

A quem nos creou de nada. 



o MARQUEZ DB MANTUÂ 21» 

Assim que, necessidade 

Nâo tendes de me chorar, 

Poisque Deus me quiz levar 

No melhor de minha edade 

Para mais me aproveitar. 

Mas o que haveis de fazer, ^ 

É por minha alma rogar, 

Porque o muito chorar 

Á alma nâo dá prazer, 

Mas antes mui gran* pezar. 

Quero-vos Incommendar 

Minha esposa e minha madre, 

Poisque nao tem outro padre 

Que as haja de amparar, 

Senão vós, como é verdade. 

Mas o que me dá paixão 

Em esta triste partida, 

É morrer sem confissão; 

Mas se parto d*esta vida, 

Deus receberá a tenção. 

Vem o ernitio e o pagem. 
Dn o xkmitIo 

—A paz de Deus sempiterno 
Seja comvosco, irmio! 
Lembrae-vos de sua paixio 
Que^ por nos livrar do inferno. 
Padeceu quanto a varão. 



^M BOMAKCKIBO 



DIB 



~Gom coisa mais nâo folgara 
Do que vé-Io aqm chegado, 
Padre de Deas enviado. 
Que se um pouco Riais tardara, 
Nâo me achara n*este estado. 



PALIA O Wâi 



—Oh que desestrada sorte, 
Meu senhor Danes Ogeirol 
Olhae vosso escudo forte, 
Olhae, senhor, vosso herdeiro, 
Em que extremo o pôs a morte! 
Oh desditoso caminho^ 
Caça de tanto pezar, 
Que cuidando de caçar, 
A morte a vosso sohrinho 
Vieste, senhor, buscar. 

Du O Bunrlo 

—A grau* pressa que traaía 
Não me deu, senhor, logar 
De coniiecernem faltar 
A vossa grão* seohoriA. 
N'este erro se ba eulp4» 
Peço-lhe d*eUa perdão. 
Ainda gue a díscrisSo 
Sua me dará dascu|pa- 



o MXROUEZ WE MANTUA 131 

VALIiA O KARQUieZ 

— Rogae a Dea^^ padre honrado. 
Que me qoetra idar paeíâDCía; 
Que o perdão é escusado, 
Porque vossa díligenma 
Vos não deixa ser culpado. 

DIZ O sbuitIo 

—O íilho de Deus enviado 
Vos mande consolação! 
E pois que aqui sou chegado, 
Quero ouvir de confissão 
Este ferido e angustiado. 
Coisa é mui natural 
A moite a toda a pessoa, 
A todo o mundo em gera), 
Poisque a nentuun, perdoa- 
Não a tenhamos. por mais, 
Porque o peccadode Adão 

Foi tam fçro.e 4e tal sorte. 

Que não só foijp^rdifião: 

Kas Deus, que ét salva.ção, 

Quiz também cecdi)er .morte. 

E por tant9,.4ilho meu. 

Não se deve de espantar 

Da morte qpie J)eos lhe deu; 

Pois emjpcoviíQaBto.aeu 

Lh'a deii para.o>sa(var 

Lembre^lhadua, paisuo : 





M BOMAlfCEIRO 

Veja este mondo coitado, 
E nâo o ingode o malvado. 
Que não dá por galardão 
Senio tristeza e cuidado. 
Em quanto, filho, t^n vida, 
Chame a Madre de Deus, 
Aquella que foi nascida 
Sem peccado concebida, 
E coroada nos ceos. 
Esta foi santificada 
E visitada dos anjos, 
E em corpo e ahna levada 
A gloria, onde exaltada 
' Là está sobre os archanjos. 
Assim, que ao Redemptor 
E a esta Virgem sem par 
Se hade, filho, incommendar 
Depois qué aos sanetos for 
Sua vontade chamar. 
As mSos levante aos oeus» 
Faca confissão geral, 
Gonfessando-se a Deus 
E á Virgem celestial 
E a todos os sanetos seus. 

D» O MAMVJWM 

—Oh bonancia abhorredda, 
Oh desestrada fortuna, 
De prazeres gran' tribunal 



o MARQUEZ DE MANTUA S33 

Porque não desemparais 
A quem sois tam importuna? 
Tristeza, desconfiança, 
Porque não desesperais 
A quem não tem confiança? 
Gontae-me, pagem Burlor, 
O caso como passou, 
Quem foi aquelle traidor 
Que mattou vosso senhor, 
Ou por que causa o matou 

VALLA O PAGEM 

—Seria mui mal contado 
Se a sua gran* senhoria 
Não contasse ó que ó passado. 
Eu sei certo que faria 
O que não é esperado 
Contra quem me deu estado, 
E ha feito tantas mercês 
Que nunca meu pae me fez : 
Que é meu senhor amado, 
E mais vds, senhor marquez. 
Estando pois em Paris 
O filho do imperador. 
Mandou chamar meu senhor 
Nos passos da imperatriz: 
Falbúram muito a sabor; 
O que faltaram não sei. 
Se não que logo n^essa hora, 





01 ROKAVGBIEO 

E sem fazer mais âemoca. 
Com quatro detnz de ú 
Foram da cidade ffea» 
Armados aewteniWile, * 
Segando depois oavL 
Pamimos todos d^ahi, 
E Dom Carloto presente 
Também armado ontroaL 
E tanto que aqui chegaram, 
N*este valie de pecar 
Todos jantos se apearam 
E ílzeram-me ftoar 
Cos cavaUos que deixaram. 
E logo todos entficam 
Em este eagaivo JiQigar» 
Onde meu senhor mattararo, 
E depois de o oattai; 
Nos caioJto se moBaram. 
Como eu 08 ;ví tomar. 
Sentindo jmnito tal 40^, 
Temendo 4e. Ibe Jaliar» 
Nao ousei de jieí^gHAtar 
Onde estava meià senhor. 
Vendo-os assim «aminhar* 
Porque.JD^um me Man», 
Quiz a men.iíNihor hnsoati 
Porqae o onRHiio.me4a¥a 
Sobresaltos da. pnur. 
Nlo o ptMJUaíQpar 



o MABQCEZ DB HANTUA JS5 

Porque a grande espessuita 
E a noite ooedrosa, escura 
Me fazia não o achar: 
De que tinha gran' tristura. 
BuscàodoK) eam |[ran' panâo, 
N*aqueile li^arHPMttoio 
O achei d^eaU fe^M). 
Disse-me «ono/á múçio 
O mattára Dom Gaiieto. 
Perguntei porque raiSo: 
Triste, cheio de afiOMe, 
Disse-me com aflUeçao: 
— *Vai-me baastr r owfiialn>, 
Ja se acabaraaii mm» jdias.' 
Gomo taes novas ouvi, 
Com grande tribulação 
E pezar de Té-lo assi, 
Me parti logo d^aqui 
A buscar este ermítio. 
Isto é, senhor, o qoe sei 
D'este caso desastnrllo, 
Quanto me ha perguntado : 
Outra coisa não direi 
Mais do qucibei contado. 



.OH 



~ QuaBd0/aiia> wnjpslade 
Justiça.j»íd.x)iiio fiaer 
Com toda a r<;^ridade. 



BOMANCtlRO 



Á força de mea poder 
Cnmpnrei minha vontade. 



Dis O EMurrxo 



— Ja O senbor se ba eonfesaado, 
E fez aelos de chrístao; 
Morre com tal contríoçâo. 
Que eu estou maravilhado 
De sua gran' discrição. 
Muito não pôde tardar, 
Segundo n*elle senti. 
Acabei de lhe fallar 
Porque lhe quero rezar 
Os psalmos d*elrei David. 

TAU^ TAI.DKTISOS 

— Nio tomeis, tio, pezar, 
Que me parto de vos ver 
Para nunca mais tomar, 
Pois Deus me manda chamar 
£ nao posso mais fazer. 
Tomo-vos a incommendar 
Minha espAsa e minha mãe. 
Que as queirais consolar 
E amhas as amparar, 
Poisque nio téem mais a quem. 

OBAÇZO DE TALDWnNM 

~£m as tuas mãos, Senhor, 
Incommendo meu espírito; 



o MABQUBZ DB MAKTUA |S7 

Poisqae es Salvador meu, 
Meu Deus e mea Redemptor^ 
Nao me falte favor teu: 
Pois» Senhor, me redemiste, 
Como DeaSy qae es de verdade, 
Senhor de toda a piedade, 
Lemhra-te d*e8ta alma triste 
Cheia de toda a maldade. 
Salve, Senhora henigna, 
Madre de misericórdia, 
Pas de nossa gran' discórdia, 
Dos peecadores mezinha. 
Vida doce e concórdia, 
Spes nostra, a ti invocamos, 
Salva-nos da escura treva. 
A ti. Senhora, chamamos 
Desterrados filhos de Eva, 
A ti virgem, suspu-amos, 
A ti gemendo e chorando 
Em aqaeste lagrymoso 
Valle sem nenhum repouso. 
Sempre, Virge', a ti chamamos, 
Que es nosso prazer c gôso. 
Ora pois, nossa advogada, 
Amparo da chrístandade. 
Volve os olhos de piedade 
A mim. Virgem consagrada, 
Poisque es nossa liherdade. 
Dà-me, Senhora, viriude 



239" ROflANtBillkD 

Contra todos meus' imigos ; 
Poisque es nossa saúde, 
Eu te rogo que me a jodès 
Nos temores e perigos : 
Roga wptfT mim, Senhora^ 
Oh Sancta Masdre dé Dens, 
A quem a minha alma addra. 
Pois es rainha dos'cetis 
E dos anjos suf^erlora. 



—Oh triste velho coítádb, 
Oh cans cheias de trísitir»! 
Oh doloroso eoidado, 
Oh cuidado sem Tetttora, 
Sem ventm^adesestradòr) 
Qaehrem:se nahihas intranhas, 
Rompa-se men coração 
Com minha trihala)^. 
Chorem todas as campinas 
Minha grande perdiçSo, 
Scureça-se o sol com dó, 
Caiam estreHas do cen, 
As trevas de Faraó 
Venham ja sobre mim só. 
Pois minha lar se perdeu 
Na luz de mui dano dia, 
Claridade sem darei». 



Minha doce companhia, 
Onde está vossa alegria, 
Que me deixa tal iHsteisa? 
Oh velhice desestrada, 
Sem gloria e sem ptnfí/t. 
Para que me dèhtai^ser, 
Pois que sendo, dSo soa nada, 
Nem desejo de^titurf 
Porque nao vens; ][Ku!èoer; 
Porque nao viMfèJs, Wttnmtbf^, 
Paraque são soffirimeiAOs 
A quem os não quer ja ter, 
Nem husca contentamentos? 
Paraque quero razâOf, 
Paraque quero pradéncfa, 
Nem saber, nem diseriçio? 
Paraque é padenda, 
Pois perdi consolação? 

—Oh meu senhor muito amado^ 
Porque vos tomastes pó? 
Porque me deixastes só 
Em este mundo coitado 
Com tanta tristeza e dó? 
Leváreis-me em companhia, 
Pois sempre vos tive, vtvo. 
Oh minha grande alegria. 
Porque me deixais captivo. 



MO BOMANCSIBO 

MelUdo em UinU agonia? 
Meu senhor, minha alegria, 
Diiei, pOTgue nos deixais 
Com tanta pena notória? 
Lemhraí-vosy tende memoria 
De quantos desemiianis. 
Oh sem ventara Bnriorf 
De qaem serás an^iarado. 
De qaem terás o fiiTor 
Qae tinhas de tea senhor, 
Poisqae ja te ha faltado? 

rXLLA o KSMITÂO 

—Não tomeis, filho, pesar, 
Pois claramente sabeis 
Qae pelo maito chorar 
Nao cobrais o qae perdeis. 
Deveis, filho, de cuidar 
Que nossa vida é um vento 
Tam ligeiro de passar, 
Que passa em um momento 
Por nós assim como o ar. 
Quem viu o senhor infante, 
Tam pouco ha, fazer guerra, 
£ ser n*ella tam possante, 
£ agora em um instante 
Ser tornado escura terra, 
Diria com gran* raxao 
Que este mundo coitado 



Nao dá outro g^lãrdiQ, 
Senão tiiatesa e.paisfto. 
Com a vós (mHpm tfá^úaáo. 
Olhae a elni Salomip 

O galardão «10 4«u; 
A Amon e AhMlio» 
£ ao valente SêatàfK 
£ ao forte Maohw. 
Em a Sacra EacritODt 
Muitos mais. podia cachar 
Se os quizease in/Mc; 
Mas vossa,graiide ooidura 
Supprirá dinde fatiar. 
E poísque nao.tttBi Ja.caca 
O mal feiio e o4)aMaido, 
Gesse a voMa»tdslQBa, 
E demos á sepuUoia 
Este corpo ja IfaMidip. 
Levemo*lo onde convém 
Para que Mja inlorrado; 
E pôde bem serigoardado 
N'aquella eniúda,4u^ vêem 
Até ser imbalsemado. 

Aqui Ipvãm a \'aldeYÍiv>i á croUda. IS entra o imperador, 
o eoMfe Gasalio, e 

—Certo, conde taialao, 
Muito gian' .poria penlemos. 

VOL. UI. i6 



i4t HOMAHCnilO 

Péza-me no oon^U», 
Porqae na eôrte nio temos 
Beinaldos de Montalvio, 
Nem o conde Dom Aoidlo. 
Nem o marques OM^eiros, 
Nem o duque de IDIio, 
Nem o infante GalUeíro», 
Nem o forte Merediio. 

—Muito alto Imperador, 
Muito estou maravilhado 
Porque mostrais tal íator 
A quem vos ha deshonrado 
Com tanta ira e rigor, 
Que, chamando-se Aimansor, 
Com o seu rosto mudado 
Aquelle falso traidor 
Com mui grande deslionor 
Quix desbonrar yosso estado : 
Porquê, senhor, nio sentis 
Que este makado ladrão 
Vos prendeu de sua mio 
Tomando-vos a Paris 
Com muito grande traição? 
Pondo- vos em Hontalvio 
Apezar do vosso império, 
Onde com gran* vitupério 
Estivestes em pridb. 
Sem ter nenhum refrigério? 



o XAIIQUKI DB MANTUA U9 



WàLtêk o 

—Verdade é isso, esnlndo: 
Porém déreis de saber 
Que em ReiniMoe me prender 
Ea mesmo soq o eolpêdo: 
Isto bem o podeis crer. 
Se entSo me quis olfeiider 
Nlo é muita maravilba, 
Pois Ja me qiiiz guarnecer 
Hattaiido eirei Carmeser, 
Que me trouxe a soa filba. 

DIZ «avalXo 

— Vossa real majestade 
Dirá todo o que qniier, 
Mas ea espero a Beltrão... 
Qne se conheça a maldade 
De qaem &e bade conbecer. 

Aqol le vai Oanalio; e Tiem dois enbiiiadorw mandados 

pek) marquei de Maalna, ditwadne Dom Beltrio 

e doqne Amio : e títIo vettidoa de dó: e 

DIS BBLTBÃO 

— Graa' César Octaviano, 
Magno, augusto, forte re^ 
Grande imperador roaumo, 
Amparo da nossa lei, 
Poderosa mj^iestade, 
Senbor de toda a Magança, 



'«U 



Da Gasoiiaha^<da Bnnfa, 
Graa* pafeM^a etebiuidâd^ 
Esteio de septfiaçal 
Pois SOM «ethwr ésB Miliêns» 
Imperador éi0 eiirialits^ 
Soõios vossos 

Amigos lMMe<8ã0B. 



— Ea me ^pMú, Dom Bélttio, 
De vos viEfr ú*a<iftdlai»irte, 
£ a vós, forte daque Amão : 
Nao é esta disposição 
E trajo da nO^sa^lte. 



TãsAsA *o oir^im 



— Muito mai« será espantado 
De nossa triste embaixada, 
E do casotdesestrado 
O qoailhe seii contado, 
Se segturanos é dado. 



DIZ O IMFBRAIMK 



—Bem o padots Aig^Mair 
Sem ter «MédAem teKKur. 
Para que é assomar? 
Pois sabeis que o embaiBaèor 
Tem licença ée^^Uar. 



o MÀBQUK DB HAlITtJA 349< 

— Qniz, sM^wr, nossâ ineflim 
Que o infante Valdeviíies, 
Primo do forte Guannos, 
Fflho da linda H^rmditda 
E do grande rei SaKiio», 
Posse morto á tm^ 
Na floresta sem ventava. 
A tam grande desventara 
Haverá quem nao procura 
De vingar ta* perdição? 

VALLA O DCPEXAOOR 

— É certa tam graif maldade, 
Que o sobrinho do marquei 
É morto, como dizeis? 

—Pela maior bM4(ido 
Que nunca ninguw» tftl fevu 

DIX O IMPESADOR 

—Este caso é desestrado : 
Saibamos como passou 
E quem tam mau feito o|)rou '• 
Que o que tal senhor mattou, 
Merece bem castigado. 

—Saiba vossa majMl^d^ 
Que dez dias ^òà^hvmr 



mô BOMAHCKIBO 

Que o marques foi á eidade 
De Mauloa eom graa* TonUde 
Á ca(a que sobe fuer. 
Andando assim a caçar. 
Da companhia perdido 
Foi por ventura topar 
Gom sen 8(ril>rínho ferido 
Qoasi a ponto de expirar. 
Bem pôde eonsiderar 
O gran' pezar qae teria 
De se ver sem companhia» 
£ a morrer em tal logar 
A eom, que mais qaeria. 
Perguntando a razão, 
Sendo d^ella mui ignoto. 
Disse com grande paixão 
Que o mattára à trai^ 
Vosso filho Dom Carloto. 
A cansa que o moven 
Dar morte tam dolorosa 
A tam grande amigo sen, 
Nao foi outra, senhor meu» 
Salvo tomar*lhe a esptoa. 
Mattou-o á falsa fe. 
Indo muito bem armado, 
Gom quatro homens de pé. 
Qu«m matta tam sem porquê 
Merece bem castigada 
O marquez Danes Ogeiro 



o MABQUBZ DK IIANTUA t47 

Lhe manda pedir, senhor, 
Justiça mui por inteiro : 
Que ainda que perca herdeiro, 
Elle perde successor. 

— Nâo deve deixar passar 
Tam gran' mal sem o prover, 
Porque deve de cuidar 
Se seu íilho nos mattar. 
Quem nos deve defender? 
E mais lhe faQo saber 
Porque esteja apparelhado, 
Se justiça nao fizer, 
Que o marquez tem jurado 
De por armas a íazer. 

O mui valente e temido 

Reinaldo de Montalvão 

Entre todos escolhido 

Está bem apercebido 

Como geral capitão. 

Dom Chrisão e Aguilante 

Com o forte Dom Guarinos, 

E o valente Montesinos, 

Primo do morto infante, 

Primo de eh'ei Dom Salinos, 

E o mui grande rei Jaião, 

De Dom Reinaldos cunhado, 

E o esforçado Dudio, 

E o gran* duque de Milão, 



Mi* 



E Dom Riditfto «iibrQido^ 
O marquez DonfOVMMl^ 
E o faMoom Bte ámBu i fe , 
£ o infante Dom GiiMlm^ 
£ o mui forte RleiMB^ 
£ outros fortcsí «waildf os, 
Todos táem boa^voaiade 
De ajadar ao marqiitt 
Em essa necessidade; 
Porque foi giM' eraddade 
A que vosso filho P», 
Evitae, senhor, ta! dsmo, 
' Pois que sois juiz sett psr; 
Nao vosmoMf^iirilttmfiii; 
Acordae-Yos de Tt^í^nr 
Em a justiça guardir. 
Assim que, alto, e sei ar cd d o, 
Poderoso sem eguri, 
O que fez tam graMs^niái' 
Bem merece ser pulridòi 
Por seu mandè*í»' ii Bper i aL 
E pois, senkDiv IMpnHMMt« 
A causa porque vfèttoê^ 
E saheis o que'qu«!Mmeií, 
Mandae-nor dlir ^t&Ê0èeÊt 
Ck>m que ao Ain|^e£*tMieiiiDS: 

—Oh poderoso SebMèr; 

Que grande é f^v^sê» tÉ^mmél 



Pois para 1110O vimperl» 
Me deste tal «teernsop 
Que deshonrasaéfMeitaiperft. 
Se o que dizetet««»^ierdàde,' 
Como creio que será; 
Nunca rei na^ehríilfliidade 
Pez tam gnode^ erasMidèf 
Como por flrinu se'^raié. 
Por mintacorat |iiro « 
De compríre dt^ mandar 
Tndo que digo e proCMfo; 
Ao marqaeipodi^is &Mt 
Que elle pôde vir i »êg wi^ 
E todos quanto» ti^vw, 
Venham de^gmimvovdii^pw, 
Assim como eMé^qoKer. 
E pois qae jusMç» quer, 
Com ella mnitome^mz: 

BMTRA DOM CA«M»«0|,S Bt^' 

—Bem sei qtmõom frai^panâo 
Está vossa>iM4eMdéP 
Pela falsa inform»clO' 
Que de mim^ eoiicmraziÉ', 
Deram com fpM^ fWaiiiâti 
Porque um fSH^è^M íkm^ 
E tSo grande f0Pa|a»' 
Nao dete st^flrsMi^nonie 
Em caso tal de traifim 



KO MMAlfClIIIO 

Por vida de misha nttdre, 
Qae se Uun grau' âMbonor 
Nao castpgir eom ilgDr, 
Qae me será erael pâdro. 
Não direito jolgidor. 

—Não vos queinis desealpar 
Pois qae tendes tanta col^ 
Qae se o mando vos des^fMt, 
Nio vos hdde ea desculpar. 
£ portanto mando logo 
Que estejais posto a recado, 
Até ser deterâmiado, 
Por conselho do mea povo, 
Se 90is livre oa condeamado. 
liando qae sejais levado 
Á minha gran* fortaleia, 
£ qne lá sejaia guardado 
De cem homens do estado, 
Até saber a certeza. 

FAliLA Wm GABU»TO 

— £ como, senhor, nio qoer 
Vossa real majestade 
Saber primeiro a verdade, 
Senio mandar-me prender 
For tam grande âlsMada? 

—Nio vos quero mais ouvir. 
Levem*no logo á priíio 



o MARQUEZ DB VAKTUA tSI 

Onde eu o mando ir; 
Porque tam grande trai^ 
Nlo é para consentir. 
Vós outros podeis tomar, 
E Gontar-lhe o que é passado 
A quem vos cá quia mandar; 
Que o seguro que iàe liei dado, 
Eu o torno a affirmar. 



AQUI TKM A DfPBBATBB ■ 9ÍZ 

—Eu muito me maravilho 
De vossa grande bondade : 
Que sem razão nem verdade 
Trattais assim vosso flUio 
Com tam grande crueldade. 
Olhe vossa 
Que é herdeiro 
E que toda a christaiidade 
Lh'o hade ter multo a maL 

DIB O OfPBBAIWB 

—A mim, senhora, eonvem 
Ser contra toda a trai^: 
E se vosso filho a tem, 
Castiga-lo-hei muito bem : 
E essa é minha tencao. 
E mais eu vos certifieo 
Que com direito e lígor 
Heide castigar o iniqoo, 





On seja pdbre ou rieecs 
Oa servo on 



rAIXA-A 



-*C<mio qenr foan fiuden 
Infamar e vês» omAd 
Sem cMM, ooB nJ eraeMf - 



— Qnem me cá mandou recado 
N2o foi senioeom' 



—Por tal rectá^y* senliêr» 
Quereis tralinp^dMal serie' 
Vosso filho e saooneerv 
Que depois de^vese» mort» 
Hade ser im pm Éér t ' 

FAIXA O nCPBlkADOK 

Em en mandar prendo* 
Mio coideiv^^iie otaaiMtlD. 
Mas se eUe a BMneer) 
Ba eqMTO de faier 
A justiça do n^sqiuttoç 
Forqpe pae tam pedArose^ 
Sendo de tantos^eMiMfeo^ 
Senio for tam i^pioiov 
Nem elle será bonlMio, 



Nem será rei Jostígofto. 
Que agora, Bial iMoeadol 
Nenhum rei nem julgador 
Faz justiça do maior; 
Mas anteaÁ daapwaado 
O pequeno eem ligor. 
Todo onuftdo é afeifio; 
Julgam com sara remisaa 
O nelire ^pie, sem razão 
Alguma, lem '6paúao 

Ihetocar^jiMliga... 
Que conta yettoeu dar 
Ao Senhor do6>alteB eeoe. 
Se a meu filho não julgar 
Como <wtro qo a iq oer deaniBiM? 
Assim que eacasado é 
Buscar este interooMor; 
Porque Deos de Wazaié 
Não me fez tam fpran' «senhor 
Para minha alma,.perder. 

DU A IMPBAATBIZ 

Ai triste de mim coitadal 
Para que quero lÉver, 
Poisque sempte heideaer 
Do meu alho tam {wiada 
Como uma uriale«iiiiher? 
Pois tao triste heide ser 
Por meu Olho moiío ama d o , 



■J 



V4 ROMAlVCSmO 

Nancâ u«aref praier, 
Senão tristeia e 



— Nio i»içúA tantos extremos» 
Pois díieís que tem desealpi» 
Que antes que sentença dámo& 
Primeiro todos veremos 
Se tem culpa ou nio tem eulpa. 
Moetrae maior soiHraento, 
Qae o caso é desestrado; 
£ í-vos a vosso a|N>8emo, 
Qae elle nao será culpado. 

Aqui M ni a ínpirairít; e vem a Bit « «■paa de VddfYiMi. I 

Da A xZb 

— Oii coraçio lastimado, 
Mais triste que a noite escura! 
Oh dolorosa tristura. 
Cuidado desesperado 
E fortuttosa ventura! 
Oh vida da minha vida. 
Alma doeste corpo meu ! 
Oh desditosa perdida, 
Oh sem ventura nasdia, 
A mais que nunca nasceu! 
Oh filho meu muito amado, 
Minha doce companhia, 
Meu praier, minha alegria, 



o MABQUBZ M MANTUA 955 

Minbâ Irialeia e ettidado, 
Minha 8ab*roM lembrança, 
Qae aerd ea sem vos ver? 
Filho da mfaiha alegria, 
Oh mea desean^o e praier, 
Porque me deiuis viTer 
Vida eom tanta agonia? 
Adonde TOS alterei, 
Consòk) de meu pezar? 
Onde TOS irei basear, 
Poisqae perdido vos hei 
Para jamais vos eobrarf 
Filho d*esta alma me94[iiinha, 
Dos meus olhos elaridade. 
Onde estai», mfaiha mezinha. 
Filho de minha saudade, 
Um prazer e vida mhiha? 



OB A larotA roB voiix itbilla 

—Que ó de vós, meu eonçSo, 
Que é da minha liberdade. 
Espelho da ehristandade, 
Quem vos mattou sem razio 
Com tio grande craeMade? 
Quem vos apartou de mhn, 
Meu querido e meu esposo? 
Oh meu praier saudoso^ 
Porque me deixais assim 
Com cuidado mní penoso? 



Oh minha toik^Madade, 
Oh mea «ppteihe.ieQhfir, 
Minha atofriAwe ¥wude> 
Escudo da chriMBdaáe» 
Das tnst«a «WMlaáar 1 
Que farei pubn Milida, 
Mais que mtàmm^ laaeída? 
Miserável, anguMiada» 
Para que quero lar ^tfi, 
Pois minha ahiia éapamda? 
Oh fortuna 
Trisle, cruel, 
Be praioraa ffwibadsn. 
Inimiga piidBnMi, 
Matta-metee ^•e*^iaiira. 

—Se vossa «mnVniíesiade 
Nao der castigo direito 
A quem lanio mal^hafefito, 
Nem funtriilsr a 'Veniada, 
Nao será jaiii perfeito. 
Não olhe vossa gnadun 
Sua madre dokiroaa. 
Nem sua MAa.tmtaia; 
Mas olhe 4an 4fraii*)|inaGeia 
Com esta ana tqp^p 



o 

--Faz-me laMto inlaalaoar 
Este tam gasi" wtipme» 



o MAR^Mr m 'IMff TU A 9S7 

Que mais qnitaMihpttdir 
Jnnctamente 'VS&a àdpori^/ • 
Que tal meu filli^ faief. 
Mas se a ye piM i i ' M i iin ^é^ 
Gomo ja soa MoraMáOi 
QnetaloMliitlfae^dé 
Que seja be» eamíifadò. 

— Seja jastíça guardada 
A esta orphâ sem màrído. 
Viuva desamparada, 
Tam triste e desconsolada 
Mais que quantas téem nascido. 
Olhae, senhor, tam gran' maf 
Como vosso filho ha feito, 
£ nâo queirais ter respeito 
Ao amor paternal, 
Poisque não é por direito. 

— Senhora, nS» davideis, 
Que ettfarei o qp» hei jurado, 
Se é verdaávo qmediíeis, 
Porqae^oompveia meu eetado 
De fazer o qti»< plo wí s : 
Que maíB qMro tflr odnMwge' 
Fama dp regoridade, 
Que deixar deittr eaatfgo, 
Quem commetteu tal maldade. 

VOL. m. 17 



t58 MHANGimO 

Para qae é ser candillio 
De tanto poTO e tam gnâo, 
E imperador chamado, 
Se nao Julgasse m&a fliho 
Gomo qoalqoer estragado? 
Nio cuidem duques nem reis 
Que, por meu herdeiro ser. 
Que por isso hade viver: 
Que aqnelle que Cu as leis 
É obrigado a as manter. 
Assim que, por bem querer. 
Amizade nem respeito, 
Como agora sohem íázer, 
Nao heide negar direito 
A quem direito tiver. 
E bem vos podeis tomar. 
Fazei certo o que dissestes 
E nao tomeis tal pezar, 
Porque o bem que ja perdestes 
Não o cobrais com chorar. 

—Senhor, nós outras nos pomos 
Em mãos da vossa grandeza: 
Olhae bem, senhor, quem simuos, 
E de que linhagem fomosj 
Pois Deus nos deu tal nobreza. 

OIS ITSIIiA. 

—Olhae os serviços dinos 
Que tanto tempo vos fez 



o MABOUES DB MÂNTUA 



Meu esposo Valdevinos, 
Também seu tio marqaez, 
E eomo foram continos. 



Aqni w fai HwBMUnda e Sybib; e fira Reinaldoí mb ob Mrte 
(jM tomarim a oa pagem de Dom Carloto, e 



—O smmno rei dos senhores, 
Qne morrea eroeifleado 
Em poder dos pharizeos, 
Accreseente vosso estado 
E vos livre de traidores. 

WAJAmA o zmpsbasoe 

—Mui valente e esforçado 
Reinaldos de Montalvão, 
Vós sejais tam bem chegada 
Como a sombra no verão. 
Muito estou maravilhado, 
Invencível e mui forte, 
De ver-vos assim armado, 
Sabendo que em minha corte 
Nunca fostes maltratado. 

PALX.4 MBMÂUXM 

—Senhor, nSo seja espantado 
De ver-me assim d*esta sorte, 
Porque com todo o cuidado 
Ganalão, vosso cunhado, 



Sempre me procura a oifila. 
Bem sabeis qi^ sem nm 
Com vonude mui maiHffMh 
Fez mattar com gran* traiçio 
A Tiraiiae-e-BroeNia, 
E ao feito SaliSo, 
E a mim la qm nanar 
Maitas vtiaa eoaa bmMMi^;. 
E para mais me danais 
Fez à sua majesladí^ 
MU vezes me deelarnuE. 
O grande mal qae OM^pir 
De todo o mundo ó sabido, 
E por isso (fok traaer 
Armas para,4i0sadar» 
Antes que ser ofiondidiib 
Mas deix^jiijli^ialo amn 
Guardado pYa seu logar, 
Onde se hade vi&itf i 
Vos quero, senboEi eoqUr« 
Notório a toda oeturistiO' 
É o peza£ laa(lnipa» 
Do marquez Danea Oflíro, 
Que tem, com justa razão, 
Pela morte do^ faiMMro. 
N*esta n()to»iOuila estão 
Muitos mai>ootaea seaborea.. 
Que sabem (ffm* ^^^^ fidtriOi 
E o nobre du^pid Amão 



o MABQUBZ M MANTUA mi 

Foram seus embaixadores: 
Também este é sabedor 
Das respostas que lhe destes, 
E mais de emno prendestes 
Yosso filho sneeessor. 
Do qual está mo! eontente 
De te-lo pAsto em prizão; 
E tem mui grande razão, 
Porque na carta presente, 
A qual fez de sua mão, 
Confessa toda a traído. 
£ um pagem a levava 
Para o conde Dom Roldão, 
Que na cidade de Boava 
Faz a sua habitação. 
E como não ha fafíia 
Que se possa esconder, 
Tinha o marquez espia, 
Porque quería saber 
O que Dom Roldão fafia. 
Esse pagem imbuçado, 
Sem suspeita e sem revez, 
Ia mui deteilnittado : 
Onde logo foi lomado 
E levado ao marquez. 
Lendo a carta DQKnGuartoOB, 
N*ella contavli a tenção 
Porque oUlttltâra á ItUiÇlo. 
Isto é, senhor, a "Verdade, 



ROMANCBIBO 

E O que vos manda dker: 
Se o que digo é falsidade, 
(Qae por isso a gaiz trazer) 
A lettra é bom conhecer. 
Que é este o sen signal. 
Pois, quem fez tam grande mal 
Bem merece padecer 
Morte justa corporal. 

1>I2 O DKPBSADOR 

Se tal a carta disser, 
Náo se ha mister mais provar, 
Nem mais certeza fazer. 
Senão logo executar 
A pena que merecer. 
E portanto, sem deter, 
Lea-se publicamente 
Ante esta nobre gente; 
Porque todos possam ver 
Vossa verdade evidente. 

CAUTA DK DOM CàSLOTO ▲ DOM BOIAIo 

Caudilho de gran* poder, 
Capitio da chrístandade. 
Esta vos quiz escrever, 
Para vos fazer saber 
Minha gran* necessidade. 
Porque o verdadeiro amigo 
Hade ser no c(Hração, 



o MARQUEZ DS MÂNTUA M3 

Assim como fiel irmão, 
E não hade temer p'rigo 
Por salvar qoem tem razão. 
Porque sabereis, senhor. 
Que me sinto mui culpado, 
Gomo quem foi maUad(Hr; 
E temo ser condemnado 
De meu padre imperador. 
Eu confesso que pequei, 
Pois com Ycmtade damnosa 
A Valdevinos mattei. 
Amor me fez com que errei, 
E o primor de sua esposa. 
O imperador, meu padre, 
Me mandou preso guardar, 
E nunca quiz attentar, 
Os rogos de minha madre. 
A ninguém quer escutar, 
E o marquez tem jurado 
De não vestir nem calçar, 
Nem entrar em povoado. 
Até me ver justiçar. 
Tenho por aecnsadores, 
Reinaldos de Montalvão, 
E seu padre o duque Amão 
E muitos grandes senhcnres; 
O gran' duque de Milão 
Com o forte Montesinos» 
Que é primo de Valdevinos. 



Assim qae toá» meiío 
Accasadores coBtíBiios. 
Pois tanU)t.«ODlra idmi jio, 
Eu vos rogo, «mo ^amifo, 
Qae vós <|íimcw aar i iiiiiji 
Porque, tenio Aom Mfio, 
Nao temo ne^MUiiMnga 

Antes que alganiiiAl CMSçat, 
Façamos o que. 
Pois o sigial 
E pois vemoa qaiò iNMiteaa, 
De mais próva.ijU» euraDMS, 
Nem vós.ftiçAia^aiaiB^é|t0Bça. 
E, pois ja tendas «lioança, 
Podeis diíer ao^inaiiiqiMz 
Que venhaomàr a soileaça. 

Ir-ae-ba Dom Reioaldos,. e Tem a iiqpfrf tns Tt^lida^ d6, 

Senhora, ja não.diíio 
Que fui eu maitiiifiMBaáo, 
Xem que o poendoiaim^railo. 

Pois por 4liâ'C<N|<|ÉA0 

Vosso fiftaiêtoayirioiífludft- 
Yédes a caitAiPtasote^ 
Que foi fritirlnmi rtín 
Para o owdeflomlMdio: 



o MAfKIKIBZ «r MANTUA MS 

A qual miiilii laifUMiile 
Declara toâa a iraiçio. 

DIZ A DIPBBATUZ 

Eu muito me maravilho 
Do que, seitttor, me ha contado; 
Mas, pois ellQ ha oonressado. 
Melhor é morrer o fliho 
Que âeâhontar o estado. 
Mas a dor db cora^ 
Sempre me^liade ficar... 
Peço-lhe com aWei(^ 
Que lhe busque salvação 
E que o queira escKitar. 

Melhor é queàO>«tte(i6S6or 
Padeça iB0V|e «eattáa, 
Que ficar ojiaeiríMdor: 
Que será Mrocar Ji<mor, 
Pela deshoQTia Descida. 
Também eu^i^ad^fio dor, 
Também eu ^iuto paixão, 
Também eu lhe tenho aoior.^. 
Mas antes quero razão, 
i}ue anifzade sem favor. 



Poisque nãotfááoieMipar, 
Eu oib «oiMiiito nem^quero 



Qae vós o hajais de jnli», 
Porque vos podem diainâr 
Muito mais pekNr qa% Nero. 



DDE O 

Nio vivais em tal ingano^ 
Qae também foram caudilhos 
O gran' Trocato, o Trajano; 
E qui^ram, com grau* damno^ 
Ambos justiçar seus filhos. 
Pois que menos farei mi» 
T^do tam grande estado? 
Quem é com razão culpado 
Em maior caso que o seu? 
E portanto eu vos rogo 
Que não tomeis tal pesar. 
Porque com vos en<^ 
Dá-se gran* tristeza ao povo. 



DO A 

Eu cumprirei seu mandado, 
Porque ve|o que é razSo; 
Mas sempre meu cora^ 
Terá tristeza e cuidado 
E grande tribula^. 

kqú IB Tsi a impenlris: t nm o BarqpM de 
vMlidodedók 
oB o uàMqamÊ 

Bem parece, alto senhor, 

Que vos fez Deus sem segundo. 



o MABQUfiZ DB ¥ANTUA 967 

£ de todos superior. 
Dos maiores o melhor. 
Rei e monarcba do mundo. 
Porque vós, seuhor, sois tal, 
Que com razão e verdade 
Sustentais a christaudade 
£m justiça universal 
A qual para salvação 
Vos é muito necessária. 
Porque convém ao christão 
Que use mais de razão 
Que de affeiçãu voluntária : 
Como faz vossa grandeza 
Com seu filbo successor. 
Assim que, digo, senhor. 
Que estima mais a nobreza 
Que amizade n^n favor. 

VAMJ^A O DfPBBADOB 

Não curemos de fallar 
Em coisa tam conhecida; 
Porque n^esta breve vida 
Havemos de procurar 
Pela eterna e comprida. 
Para sentir gran* pezar 
Vós tendes razão infinda, 
£ também de vos vingar, 
Pois foi justa vossa vinda. 
Bem vimos vossa embaixada, 



E a causa d'eUa 
Foi de nós mui tem oRada, 
E nao DMiDOs M flniriaâa 
Mui coDTeQdvel reaposta. 
E vimos Yona teii^, 
E soubemos iwsm^tMo, 
E vemos tendes -rolio 
Pela grande inlMniHi^ 
Do príncipe BemGarioto. 
£ vimosftCDttflssio 
De Dom Carltflotánibeni, 
E soubemos « iniição, 
Como na ctfta contém, 
Que mandavtm Dom Roiáãe. 
De tudo cevMMfto, 
Eu condeMo^^a Bom Qaflelo 
Em tudo o qiiefieíinanâiéo. 

\IM UM i l fc— -PA IMPMMfBXZ DIZXXDO 

A imperatriz, «Mihor, 
Está tam aiMMmMa 
De grande ptixâo e lior 
Que não tem p«lM «êm «or, 
Nem nenhum tlgMl^e-^ML 
Nenhum remeâlo Ibe twn; 
Está n'essft |>a tÉ Oe r 
Sem lhe pudjwwa^er: 
E, segundo^ftWa^eionfa, 
Mui pcMM^iâtfe Tiver. 



o MARQUBZ BE MANTUA 169 

Dia o mrBBADom 

Eu muito me maravilho 
De sua gran* discriçio; 
Mais sinto sua paixão, 
Que a morte de meu filho. . . 
Nlo te quero mais dizer, 
Quero-a ir consolar. 
Pois tanto lhe faz mister. 
Não sei porque é enojar 
Por se justiça fazer t 

Aqui M Tai o imperador -, e virá Reinaldot com o algoi. 
o qual trará a cabeça de Dom Carloto, e 

DIZ RXnrAUK» 

Jagora, senhor marquez. 
Vos podeis chamar vingado. 
Porque assas é castigado 
O que tanto mal vos fez, 
Poisque morreu degollado. 
Fazei por vos alegrar, 
Dae graças ao Redemptor, 
Pois assim vos quiz vingar, 
Sem nenhum de nós perigar 
E com mais vosso valor. 



APPENDIGE 



Qomo natural appendíce e illuslraçSo aos 
dois precedentes livros, transcreverei aqui a 
traducção ingleza de alguns romances do pri- 
meiro^ que o meu amigo Sir John Âdamson 
publicou no segundo volume da suaLusiTANiA 

ILLUSTRATA^ 

E approveito esta occasiSo para agradecer 
publicamente ao illustre biographo de Gamões 
a distincta honra que me fez associando o meu 
humilde nome ao do mais célebre homem 
doestado de Portugal, o lamentado Duque de 
Palmella, quando nos dedicou os dois primei- 
ros volumes d'aquella sua estimada collecção. 



< Lusitânia illus tbata, Part the second. Newcastle-opon-Tync, 
I84G. 

VOL. III. 18 



|7( KOUAKCEIRO 

A versão ingleza tem o raro merecimeDlo 
de ser em extremo fiel e quasi lítteral, sacri- 
ficando muitas vezes a própria elegância da 
linguagem á exacçSo do pensamento e até da 
própria phrase. 



THE NiGHT OF 8T. JOBK 



'iNight reigns o*er Earth and Air— 

St. John, my St John, 
Ere fated bour speed on, 

Hear thou iny prayer! 

Hear me thou, hlessed Saint! 

Ghrístian Saint, hear my prayer, 
Tho* my faíth Moslem were, 
Thíne without taint. 

Far from Mohammed gone, 
Alkoran nonght to me, 

1 bow my heart to thee, 

Saint of Dom John! 



«M THB RiGilT OF ST. lOHIT 

As I consume this pUnt 
In the fire maâe to tliee, 
Love giows uew in me— 
Hearmy heirtpam! 

As borns thís plant on íloor 
In the fire lit for thee, 
So lei the Mack tetrd be 
Of threalening Moort 

As burns the kindUng li^^t 
This thy devoted flow'r, 
So may LoYe*s geniai powY 
Kindle my knight! 

Fnmi height of heav'n amam 
Scatter the garlands gay 
That in this Love spell may 
Spring forth again— 



Marvellous falling dews 

That care Love^s borning 
My SaintI their cool rdief 
Donot reftiset 



Saint! whom soft pitie^s move, 
O St. John, my St. lohn, 
'Ere glide thís blest night on 
Bring me my love!' 



TRB NIGHT OF ST. JOHN â77 

No more the fire yoa see~ 
Hnsb^d is the gashing pray*r 
Yet stíU the maiden there 
Bends on the knee. 

Upraised her anxious eye 

While throbs the glowing breast 
Where Faith and Meekness rest 
Wlth Pttrity. 

Kind]y the Saint lookM od, 
And by his fkT'riDg aid 
Blooms now that happy maid 
Brideof Dom John! 



hOSAtfNbA 



It was the early morn bf Blay Dáy, 
When the song birds wake tbe grovè, 

And teeming trees ánã òpenítig llowéi^ 
Own the glow of kihdling love; 

It was the earty morn of Ifa^ l)ay, 
On the ttes(h1)anlt ofthe wave 

Sattheliíí^úta'Ao8allttAa 
Bent heir flówfrig íôijftsío lave. 

Plowers'lhéV Wilíg*tífr i^étl aftdíbsy, 
Flowers theíy Briôg tór vlfgm Whité- 

But on a blossòiíi soh as sbe Is 
Questing eye may lièvèir li^ht. 



J 



«o BOSAUNDA 

Softer Cu* is lUwaJinda 

Than the rose tint dedcs the tbon— 
Porer tbm Uie poreet lily 

Tliat opes to weep at dswy mon. 

Tlie Coont ffigh-Aâminl paased by her 

In bis gidley of tbe sei— 
0& eacb sida so many rowers 

Told arigbt tbey may npc be. 

Of tbe eaplíTe bands wbo row'd H— 
Ali from AfKe*s bosom toro— 

Some were proud and mi^ty nobtos 
Some of kingly blood were bont 

Betwixt Cenu and Gibnltar 

If one Hòor in safety be, 
lU at ease tbe Lord Coont saitetb 

In bis galley of tbe sea. 

01 bow gentie gttdes the galley 
Answering well tbe goiding oar— 

More gentie still be wbo oommands it, 
8kill'd to letYe or gain tbe shore. 

— 'Coont Lord Admirai tell me tndy 
Fmn yoor galley of tbe sea, 

If tbe eaplives tbat yoo eonqamr 
AU to row oompelled be? 



BOSALINDA ^^ 

— 'Pair Mantat tell me traly 

Withont eqaal, Rose so fair! 
The many slaves that glady tend tbee 

Tire they ali thy flowing hair?' 

—'Ari Uum eoarteous, Cooatt so lordly 
Asking thas— not answering me?* 

— 'Answer tboii, and I will answer, 
To me thou musl not silent be. 

Of the slaves wbo nrand me mnster, 
Bach the allotted task dotb know; 

Some aloft the sails to manage, 
Some npon the beneh to row. 

The lady en^tives soft and gentle 
Twine (m deck the mazy dance— 

Deftly wearing flowery carpets» 
Condi f<Nr Lord in dreamy tranee.* 

_<Thon'8t answer*dy and I answer thee— 
Por good the kw that bids re-pay. 

I have stoves for every porpose— 
Saves who ali my wUl (^y. 

Sane to flt my varied vestments 

Some to tire my flowing hair— 
Por one I keep another offloe, 

Bnt him my toik mnst yet ensnaret* 



W BOSALtKDA 

— 'He*a ta*en-be's thínel So foOj ^torAl 
Tbai ne*er woald be be ransoaiM okM! 

Poli to tbe land^-the land, ye YÈSsds, 
And dríYe tbe gftlley bi^ a^otef 

Tben sweet witb fáirest Rosâlbida 
And noMé Oonnt tbe motnents «peil^ 

Wbile orânte groves ber fofm o*éràteifl&w^ 
And flowrets garhndedlrer bead. 

Bat crabbed fkte, that'^^ not stíSêr 

Any good withom %llay, 
Led tbe steps of tbe kíng^s buiitíMtti, 

As be roamM to i9V^ tbat^VÉV. 

— 'Wbat tbfbe eyes baVe séen, 9 biHMSbiílt/! 

Huntamant prítbeie dottotíÁl. 
Pnrses fiird witb gold I ^fift m^ 

As madb as thon eáb eaffy ^étf.* 

Ali fbe iroyal hantsman ^ft»ess'd 
Did be to tbe King ttake iaíowb, 

On stady bent in piivafe doâlét 
Tbougbtful sltttng smd áloibl». 

— * Whisper Itrír 'tbe ne^^-^ 'yóa-btítífetbe, 
And we gívts fhee gfíardMi títt; 

Raise on bigb tby Yoiee^to ^Oitt& % 
And iV^er^batfgtbee bighlíi air. 



ROaALDfDA IRS 

To ann8--to anoto, my làittlfiil ArdiM» 
Withoat the rainliig wir*p9es MmA, 

My Gavaliera, anê trasty fooi-imii, 
Haste the (yroie to efnsle ronndl' 

It ás sol yil Hm giow oT iM-iaiy, 
Load aad liifg lhe bell dolh ieonif 

It is not yet the gloom oí midníght, 
Walk úiey Mh to meM thelr dooml 

To the soand of Ave-Marías, 

Both are tomb*d in solemn state; 
She before the altar holy, 

He heneath the western gate. 

Soou the grave of Rosalinda 

Did a Royal tree disclose, 
Soon the grave of Gount so nohle 

Show'd a bed of softest rose. 

When the Monarch heard the marvels. 

Qoick he bade them both destroy, 
Giving to the mthless flame each 

Record of departed joy. 

The trees they cut, and roses scatter, 
Stíll the emblems thríve again; 
E'en as the air which them embraeing 
Feeleth neither wound nor pain. 



tu SOSAUnDÁ 

Tlie King whea be was toU the story 

Geued lie to spetk for ây«^ 
And when the Qoeen lhe wondnr heird 

M oaii'd she thus her dying lay : 

— 'Cali me not Qneenl— a Qoeen no kmger, 
She who sneh dread deed halh doiiel 

Two spotiess souto r^ mt asnnder, 
Whom heav^n ^ronld Cun haye Joined in onel' 



GBBEN YINE L£AV£8; OK, 
THE UNCra SUPPER 



Fresh green vine leaves hath tbe vineyard, 
There found I grampes both flne and sweet; 

So ripe are they— so highly 6olour*d— 
They are sayiDg 'come and eat/ 

— *I wish to know who *ti8 that guards them : 

Hast, Mordomo I hast and know* 
Says the King to his Mordomo, 

Bat why did the king say so? 

Because the king saw in that monntain, 
How saw he her I do not know — 

That incomparable Dona... 
My reading does not tell me how. 

Who to her sorrow is a Gountess, 
Countess she of Yalderey : 



296 THB KING'S SLIPPBR 

Ralher would she, by my balídom, 
Rather—a poor peasant be. 

Fresh green vine leaves bath the yíoeyard, 
6raq[»es which lhe king will go to greei : 

So ripe are they, so híghiy coioar*d, 
Tbey are saying 'come and eat* 



Gomes Um ll«rt«n# ghwn Ifte miwinfcin t 

—'Best o# MPM l^yoti VMafr, 
Though the vineyard is vell gnarded, 

Yet have I entefd. Senhor King! 

'The owner is ia oÉber eovnlma» 
When 4Mime -hs back^ I eanool say; 

The gate ia oJd^tiie yieUing pwtres» 
To key of goU gaive ready nay. 

'To a wonder thackey serv'â me; 

AU was soon a^jOBtod so, 
That this eve at hour of midáigfat 

With yon Fll to the vintage ga* 

— 'Your*e worth a kingdom'-*my Mordomo! 

Grand reward TU make to thee. 
This eve then, at the hour of midmght 

Rich grapes shall be eal by me.* 

Fresh green vine leaves bath the vineyard. 
More grapes tban I bofore did meei: 



Tm XI«0'S Sm^fVBi fS9 



So beautiftl an^^a rip^ ai^ tbey^ 
They «re saylpg 'com^ a^d ^ 



In the dead of tl^e míiiigM.tour. 

Went the M<^doim9--^^en^tl|^ kwg.-^ 
Of doblaa.tQ.ttie,p(Wlres8 giy*iv 

'Tis not foç qiQ.Ui^ aeponiitit^. siqg, 

— 'Mordonia!. st^ yaa,at.lh^jt()fftal 

The portal wh^in^4 Wt^ íQr 
Let not gaard^-rdpg^ wi(b me.|[riwl^ 

Whll'st tt^ gifíijm Yoí gatJwriDg/ 

The portress now ti^.tn^t hU wjsh» 
Exchange fof wb;^ be gave d0tb bríng.; 

At the chamber of the Goontess 
Behold th^e. eotereth the kiog. 

Sbe bore a, lampi both rích and roas^y, 

II wns of silver, I could see. 
rs'ought but of silver or of gold 

Is in the house of Valderey. 

The fre<h green leavea are in tbe vineyard» 
The grapes ia it are ripa and aweet: 

So beautiful— so warmly colour^d— 
Ah me^ of them when sball 1 eat? 



Ali in the chamber of tbe Gounto^s 
Gold was with silver suited well, 



II WM the iiMv*n oT thit Angel, 
No more hath my poor tongoe to lelL 

Rieli 8ilk8 were there of Ifilâo, 
The lowels were of Courleitty; 

Tlie King he trembled— if from terror 
Or from good fdth, I eiimoc siy. 

Greeii ellk eurtiiDs hang beforeliliD» 
StUl he iie'er eseay^d to niee; 

The Tision Mgth I may nol siníg, 
That dannted thus his baflied gue. 



It was a thing so pasaing loTely... 

What more to 8ay I do nol ween. 
Dainties other sach as thia^ 

Yoa may not soe. Dor haye I seeo. 

Fresh green vine leaves hath the rineyard, 
Saw I there grapes ripe and sweet : 

So beaatifúl and so ripe are they— 
They are saying 'come and eat* 

Slept shc there so ondisturbM 
As I in heav^n above shall sleep— 

Jesus! ^hen I find thee there, 
If innoceni thy law I keq>. 

On hís knees then ali the night 
Good did the King ill thought wíthstaDd; 



THB KINCS SLIPPBB iW 



GazíDg, wond'ri]ig tbiis to see her, 
Withom moving foot or hand. 

And thos he said— *0h God» my Bire! 

Pardon wbai I a8k*d before: 
This angel liere 90 pare and brígfat 

It is noi I wiU injore her.* 



The vineyard hath fresh green leaves in it, 
Grapes found I ia it ripe and sweet; 

Bat I fear to tamper with tbem... 
Ah ! of them I will not eat. 



Now carne ou the shining morrow, 

Then it was, as goes the tale» 
The Mordomo a whistle heard : 

— 'Jesus Ii0rd> now me avaii!* 

This was the appointed signal 

The mode the Goont was us*d to take-* 
The king did not the cnrtains draw 

Saying: 'I will not ymtage make.* 

Beautifal green leaves hath the vhieyard» 
In it I found grapes lovely sweet; 

But my conscience inward grieves me, 
Grapes like these I will not eat 

Mordomo ran with rapid vigour 
In order that the king may flee. 

VOL. m. 19 



99 THB KI1I6'S SLIPPSA 

—'Alas a slipper I have lost' 
— 'Take one of mine I gíYe to thee.* 

They fled, boi in another insunt 
Since the whistle Ihey did hear, 

Desoends the Gount £rom off tbe mooiíUiíiL 
— 'If he shall eateh os, woe and fearl* 

One fear I)ara9s*d the Mordomo, 

Other fear assailM the King: 
Which of them had reason greater, 

Soon unto you will I sing. 

Green leaves saw I in the vineyard, 
Grapes quite ripe and riehly sweet; 

Bat, by bis tender conscienee goarded, 
Quoth the King: — 'I will not eaí.* 



Seeketh now the Coont bis tower, 
The valíant Gount of Yalderey; 

Ho lit upon tbe broider*d slipper... 
How it chanc^d I cannot say. 

To the chamber of the Gountess 
Góes he... Will he stríke tbe blow? 

Serenely sleeping doth he see her: 
—'Jesus! I know not wbat to do.* 

In disorder is the household... 
— 'God have me in bis boly keepl 



THB KJNCS SLIPPSR SM 

Either witch must be this woman, 
Or this same slipper mock*d my sleep.' 

'The slipper which I have before me, 

The slipper it bespeaks no good : 
'Who coold think that she could slomber 

In so puré and gentle mood/ 

^ild the doubts ihat rise within him : 
—'Help me Heavenl with goiding light, 

Baffling madness lonring round 
Forbids me see my path aright. 

Ohl my vineyard so well guarded! 

The precious grapes which there I left... 
Where is the fruít on which I counted? 

Tell me of which I am bereft?' 



Straíght the Count himself impríson^d 
In highest tower of Valderey : 

— 'Ne*er shall bread assoage my hanger, 
Ne'er shall wine my thírst aliay. 

Beard and haír grown rough and ragged, 
Gare Arom me shali ne*er receive; 

Till the trnth be plain before me, 
Ne*er will I this refoge leave. 

Ohl ye green leaves of the vineyard 
Grapes that I no more roay tastel 



Ml THB KING^S SLIPPBR 

Qaickly may ye pine and wltber, 
Qoiekly pine like me and waste.' 



Tbrice the snn hath sonk and rís*n, 
Slill groaning tfaos be kmely sale, 

While faítfafal Conntess grievíng ntier^d: 
'How shall I soothe bis moninfal statet* 

Whither may she flee for snceonr? 

Who shall aid and solace bring? 
Innocence may challoige pity... 

Wbere shaU sbe went? Unto the King* 

— 'That I some remedy may ílnd thee, 
Faithfu] CoontesSy qnickly go: 

The secret of hís sad afflictíon 
Be't mine or here or there to know. 

On leal word of Cavalleiro 
Troth and faíth I plight to thee, 

Puré yon shall be fonnd and spotiess, 
Or I myself shall recreant be.* 

Oh 1 the green leaves of lhe Vine tree! 

Grapes í sought with eager haste f 
To the soul their beanty tonch' me, 

filoom so puré I dar'd not taste. 



Quíckly thence the Gountess burríed; 
The king, he did not tarry more. 



THB KINCS SLIPPBR 2113 

"What they say I wish to bear, 
So will I listen at the door. 

Histl — A vdee of heaveiily sweetness 

Steals upon his ravished ear» — 
lí^hile thíA sad plaint the mourner sang 

Mocking muaic ol the sphere& 

— 'Once I was a Viae weil guarded, 

Taught by tending Love to grow : 
Now I lack thac fosfring nurlare... 

Why--l scarce dane ask to luaow.' 

Then shone oui Uie Aoyal goodoess... 

Tears of píty diinm^d his eye : 
— 'Quick of the other sida ioform me, 

That -the truth I may deeory.* 

— *My fresh vineyard so well goarded, 

When I enter'd it again, 
Trace of plunderíng thief 1 noted... 

What he stole I ask in vain.* 

Geased the Count o*erwhehn'd with sorrow, 

Bat then laughing said the King : 
(Whether at self or at the mourner 

Aíin'd that laugh, I cannot sing.) 

— 'Twas I who did the yíneyard enter, 
Of planderíng thief I left the trace; 



•M THK KING>S SL1PP8R 

Grapes I saw~bat Rexfn so sare me- 
Not â grape did I dispUoe* 



A fjraetare was there ín lhe portal 
The sUpper from his foot he tore: 

— ^Need*st thoa proof? behold ít here.* 
Its fellow from within he bore. 

Of the joy that foUowed alter 

Little need I more impart, 
Glad the Coant the troth admitted, 

And the Kuig play*d the kingly part 

Fresh green leayes hath the yineyard, 
Richest grapes were those I saw; 

It was fear that k^t them safely, 
Fear of God and of his law. 



Em continuação doappendice, aqqi jancto 
egualmente, para iiiustração do romance ix 
doeste livro qae leva por titulo reginaldo S 
as duas licções castelhanas que d'eile appare- 
cem agora na última recente edição do robian- 
CERO de Duran. 

Na introducção áquelle romance disse eu 
que elle não apparecia nas coUecções caste- 
lhanas, porque em nenhuma das anteriores 
a esta de 1849-51 o tinha podido incontrar. 

Essa parte do texto, assim como a nota cor- 
respondente* precisam pois d*esta correcção. 



* Nota G» PH- W do ton. b. 



GfiMHiXDO 

I 

Levamóse GeríneU^ 
Que ai rey dejan âonnidt: 
Faese paro ia Maata 
Donde estaba es et eastUla 
— Abráisme, digo, sailora, 
Abràisme, emvpo fpnHêk 
—iQvãén soíb ym, «i ealMdleso, 
Qae llamais á mi pofltif»T 
— Gerineldo soy, Miora, 
Vuestro tau querido andfjo»*^ 
Tomárala p«r laioaiio^ 
En on lecho la ha metido, 
Y besando y abrasando 
CpOiiiMlda ae ba donnido. 
Recordado habia el rey 



jM GKBINILDO 

De un sueno despavmdo; 
Três veces lo habia Uamado, 
Ninguna le ha respondido. 
— Gcrineldo, Geríneldo, 
Mi camarero polido. 
Si mi andas en traicion, 
Trátasme como i ai^nigo. 
O donnias oon la infanta, 
O me has vendido el eastíUo.— 
Tomo ia espada en la mano 
En gran sana va eneendido : 
Fnérase para la cama 
Donde á Geríneldo vido. 
El qoisieralo matar; 
Mas criólé de chiqaito. 
Sacara luego la espada, 
Entre entrambos la ba metido. 
Porque descpie reoordase 
Yiese como. era sentido. 
Recordado Mabia la infuita, 
Y la espada ba conocido. 
—Recordados, Gerineldo, 
Que ya érades sentido, 
Que la espada de mi padre 
Yo me la be bien conocido^ 

*RoHAMaM«iiinAi.>1849-5i«tom.i.i»a«. 175.Éstaé4líB(i» 
mais antiga, foi achada m vm fU$f9 «mH», Mha tolanK ■- 
piwto. 



GBRINKLDO SM 

GERINELDO 

U 

— Geríneldo, Gerineldo, 
El mi page mas querido, 
Qoisiera hablarte esta noche 
En este jardim sombrio. 
—Gomo soy vuestro criado, 
Senora, os burlais conmigo. 
—No me burlo, Gerineldo, 
Que de verdad te lo digo. 
— ^A qué hora, mi seâora, 
Gomprir heis lo prometido? 
—Entre las doce y la una, 
Que el rey estará dormido.— 
Três vueltas da á su palácio 

Y otras tantas ai castillo; 
El calzado se quito 

Y dei bnen rey no es sentido: 

Y viendo que todos duermen 
Do posa la infanta lia id<^ 
La infanta que oyera pasos 
Desta manera le dijo : 

— ;Quién a mi estancia se atreve? 
Quién á tanto se ha alrerido? 
—No vos turbeis» mi senora, 
Yo soy vuestro dulce amigo, 
Que acudo a vuestro mandado 
Humilde y favorecido.— 



Eniiâa le ase la maoD 
Sin mas oelar sa carifio; 
Cuidando qae era sa espoao 
En el ieeho se hm metid»» 
T se hacen dnloM balagos 
Gomo mqiaf y naiiáft. 
Tantas carícíaB se kacra» 

Y con tanlB iMge vm» 
Que ai cansado se rindioroii 
T ai fin qnedaron dornúdos. 
El alba salia apenas 

A dar luz ai: oanpo amífa^ 
Quando el ley foiere ^ertine, 
Mas no encosatia soa vestidos: 
—Que UaoMi kGmÊsàá» 
El mi bucB msa qoniéo»-- 
Unos dicen : -^Hdè^ está en casa.-* 
Otros dicen:— No lo he râto. — 
Salta el bnoi ley desu Jecto 

Y vistióse><à».piO¥iMK 

Receloso deÂ^s* ""^ 
Que puede luberie vemdo» 
Al cuarto de EniáiSienUaffa, 

Y en sa tecto Iwtta donnidea 
Á su híja y á sa pqe 

En estreaho^alMraio «ÚÉML 
Pasmado 9iidé y paraAo 
El buenny miy p c Miti v»: 
Pensándose qué 



GBRINBLDO KM 



Contra los dos atrevidos. 
— ^Mataré yo à Gerineldo, 
Al que cual hrjo he querido? 
iSi yo mataré la infanta 
Mi reino tengo perdido! — 
En tal estrecho el buen rey, 
Para que fnese testigo, 
Puso la espada por nieâio 
Entre los dos atrevidos. 
Hecho esto, se retira 
Del jardin á un bosquecillo. 
Enilda ai despertarse. 
Notando que estaba el filo 
De la espada entre los dos, 
Dijo asustada à su amigo : 
— Levàntate, Gerineldo, 
Levántate, duefio mio, 
Que dei rey la fiera espada 
Entre los dos ha dormido.— 
— iAdónde iré, mi senora? 
^Adónde me iré, Dios mio? 
^Quién me librará de muerte, 
De muerte que lie merecido? 
No te asustes, Gerineldo, 
Que sicmprc estaré contigo : 
Márchate por los jardines 
Que luego ai pnnto te sigo.— 
Luego obedece á la infanta, 
Haciendo cuanto le ha dicho: 



Mi GBRIRELDO 

Pero el rey, que está en acecho. 
Se U hace encontradtzo : 
— ^Dónde vas, baen Gerin^do? 
^Gomo estás tan sín sentido?^ 
— Paseaba estos jardines 
Para ver se han florectdo, 

Y Ti que una fresca rosa 
El calor ha desladdo. — 

— Miéntes, miéntes, Geríneldo, 
Que con Enilda has dormido. — 
Estando en esto el Snltan, 
Un gran pliego ha recebido : 
Abrelo Inego, y ai ponto 
Todo el color ha perdido. 
— Que prendan á Geríneldo: 
Que no salga dei castilio. — 
En esto la hermosa Enilda 
Cnidosa llega à aquel sitio. 
De lo que pasa informada, 

Y conodendo el pelígro, 
Sin esperar á que tome 
El buen rey enfurecido, 
Salta las tapias lijera 

En pos de su amor querido. 
Huyendo se va á Tartaria 
Con su amante y flel amigo. 
Que en un brioso caballq 
La atendia en el egido. 
AlJi, antes de casarse. 



GERINBLDO 303 



Recibe Enilda el bautismo, 

Y las jóias que lleva 

£n dos cajas de oro fino 

Una vida regalada 

A su amante han prometido K 



RojuNCiao oiMUAL, 1849-51, lom. i, pag. 476. 



NOTAS 



voi.. m. ío 



NOTAS 
Nota A 

E miaba ma« sem ch^ar pag. 53. 

O rigor do toante pedia aqu qae se escrevesse 
ehegare com $ no fim, como pronuncia o povo de 
Lisboa e n'outras partes da Extremadora. Os anti- 
gos castelhanos também assim regnlarizavam os seus 
toantes. 

B nSo ya tampouco sem notar-ae que assim fica 
demonstrado nSo ser affectaçSo de latinismo o es- 
crever e pronunciar pae em vez de pai, mf e em vez 
de mSi. Ãquella é a verdadeira e popular orthogra- 
phia â'estas palavras. 

Nota B 

Na cafa andava perdido pag. tl7. 

O principio ou introdueçlo d'este romance é con- 
forme a coUecçSo de Oliveira. No íblheto dos cegos 
começa elle logo com toda a forma scenica; e toda- 
via diflere bem pouoo. Aqui se transcreve. 



306 NOTAS 

DIZ O KARQXmZ 

Fingindo andar perdido va caça 

Fortunosa caça é ésU 
que a fortuna me ha mostrado, 
poisque, por ser manifesta 
minha pena e gran' cuidado, 
me mostrou esta floresta. 

Nunca yi tam forte brenha, 
desque me aecórdo de mi ; 
eu creio que Margasi 
fez esta serra d'Ardenha, 
estes campos de Methli. 

Quero tocar a bosina 
por ver se algum me ourirá ; 
mas cuido, que nSo será, 
porque minha gran' mofina 
commigo começou ja. 

Todavia quero ver, 
se mora alguém n'esta serra, 
que me diga doesta terra 
cuja é, para saber; 
que quem pergunta n5o erra. 

Por demais é o tanger 
em logar deshabitado, 
onde n2o ha povoado, 
nem quem possa responder 
ao que lhe for perguntado. 
Gran' mal é o caminhar 
por tam fragosa montanha, 



NOTAS 309 



cangado assim sem companha, 
nem tendo onde repousar, 
n'esta terra tam estranha. 

Vejo o matto tam cerrado, 
que fiz bem de me apear, 
e meu cavallo deixair, 
porque está tam cançado 
que ja nSo podia andar. 

Agora vejo-me aqui 
n'esta Um grande espessura, 
que nem eu me vejo a mi, 
nem sei de minha ventura; 
nem menos será cordura, 
repousar n'este logar, 
nem sei onde possa achar 
descanço á minha tristura ^ 



FOI HO yOLUlCS TBBCBIRO 



' Marqobí Dl BliirnJA, foUieto de Mgo», Lisboa 1789. 



índice 

Pag. 

Advertência da primeira edição v 

Romanceiro, livro n, parte ii . . • 7 

XVn ARomeira 7 

XVm Conde NiUo 15 

XIX Albaninha 23 

XX APeregrina- 31 

XXI Dom João 39 

XXa Helena. 49 

XXIII AMorena 59 

XXIV Donzella que vai á guerra. ... 69 

XXV OCaplivo 83 

XXVI A Nau Cathrineta. 95 

XXVII OCegador 107 

XXVIII A Noiva arraiana 117 

XXIX Guimar 125 

XXX DomDuardos 135 

XXXI AAma 153 

XXXII Avalor 163 

XXXIII Cuidado e Desejo 171 

XXXIV O CordJo de oiro 183 

XXXV OCego 191 

XXXVI Linda-a-Pastora 199 

XXXVII O Marquez de Manlua 211 

Appendicb » . 271 

Notas 305 



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