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Full text of "Sem passar a fronteira"

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A R T t S S C I F. N r I A \' l. R I T A S 




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Sem passar a fronteira 



ALBERTO PIMENTEL 

Sem passar 

a fronteira 



LIVRARIA CENTRAL OE QOMES DE CARVALHO, E 

LISBOA 



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Typ. a vapor da Em preza Liíteraria e Typographica, 
178, Rua de D. Pedro, 184— Porto 



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J* *^ 



AO LEITOR 



N'um livro publicado em 1879 ^ escrevi estas 
palavras : 

«Eu gosto principalmente de viajar no meu 
paiz, quizera, se isso fosse possível, visitar todas 
as aldeias, por mais remotas e sertanejas que 
fossem ; gosto de conhecer as tradições locaes, 
de conversar com os camponezes ao serão ; de 
procurar os pontos de vista ; não me esquivo ao 
incommodo de subir ao topo d'um monte, de 
atravessar uma serra cavalgando n'um burrinho ; 
—mas quero que me cubra o ceu portuguez, o 
ceu sob o qual eu nasci e amei e espero morrer ; 
quero ouvir fallar a minha doce lingua, vêr os 
monumentos da minha pátria, sentar-me melan- 
cólico, no fim da tarde, á beira de um caminho 



Yiag&nã á roda do código udministrativo» 



ou de um rio, podendo comtudo dizer á minha 
alma que não está só, que estou na minha ter- 
ra, em Portugal. ..» 

São passados vinte e trez annos desde que 
escrevi estas palavras, e parece-me que ainda 
agora acabei de as escrever, tanto ellas expri- 
mem o meu gosto de viajar dentro do paiiz e a 
nenhuma pressa de visitar nações extranhas, 
aonde nunca fui, e provavelmente já não ii^ei. 

É moda do nosso tempo correr mundo, agra- 
davelmente, em comboios rápidos ou paquetes" 
velozes. Até se pretende resolver o problema 
de viajar em balão. Os homens de hoje colhem 
o fructo dos trabalhos que os nossos remotos 
antecessores passaram para descobrir e explorar 
terras longinquas ; para atravessar caminhos pe- 
rigosos, infestados de assaltos, emboscadas e 
morticínios. 

No século XIV foi mandado a Roma um por- 
tuguez para liquidar certa questão ecclesiastica. 
Diz um documento da época : «foi seu caminho 
com seu redondel curto de rosete e com seu 
capeirote e seu dardo como homem de cami- 
nho.» 

Hoje ô muito commodo e recreativo viajar 
sem dardo. 



Por isso vae toda a gente ao extrangeiro, 
d^onde nos traz impressões, aventuras, e não 
sei se fábulas. 

É preciso que fique alguém para fallar do 
nosso paiz. Tenho ficado eu, a tomar conta 
n'elle, mais que os governos. 

E este livro, em que resumo lembranças de 
varias épocas, falia de Portugal, o que plena- 
mente justifica o titulo com que o baptisei. 

Lisboa, janeiro de 1902. 



Alberto Pimentel 



j*^- 



I 



I 



RIBATEJO 



Rio acima 

Algomas vezes, alongando os olhos, a perder de 
vista, pélas lezírias do Ribatejo, tem-me succedido 
pensar na suggestSo que a linha recta da terra e da 
agaa ha de exercer nos espiritos ali edacados, dando- 
Ihes o qúe qner que seja de expansão indeterminada, 
de sonho sem balisas, de pensamentos dilatados sobre 
um panorama infinito. 

Âs montanhas agrestes, de outras províncias, po- 
derão gerar ideias grandiosas mas severas ; elevadas 
mas fortes e talvez duras como ellas. 

Não assim a campina rasa do Ribatejo, onde a 
agua, mãe da fertilidade, brilha sob a luz do sol e 
parece cantar docemente um madrigal de voluptuosa 
preguiça, geradora de sensações mais suaves do que 
profundas, mais amplas do que vehementes. 

Assim deve ser, realmente, e assim m'o testemu^ 



10 



nharam dois livros que esta semana recebi do Ribate- 
jo : Através de Santar&m, do sr. João Arruda, redactor 
do Correio da Extremadura, e Sonhando, do sr. Se- 
queira de Carvalho, natural de Benavente. 

No primeiro doestes livros collaborei eu com um 
prefacio, que elle bem dispensava, porque o seu au- 
ctor tem-se adestrado litterariamente na faina do jor- 
nalismo, e só lhe falta porventura o estimulo que os 
grandes centros de população costumam despertar nos 
espirites briosos para os obrigarem a attingir maiores 
progressos. 

O sr. Sequeira de Carvalho é um novo, inexperien- 
te e hesitante, que precisa ainda de um largo tirocí- 
nio e de uma longa preparação intellectual. 

Mas ambos estes livros denunciam um certo cara- 
cter regional que plenamente confirma a theoria de 
Herder, da acção que o aspecto da natureza exerce 
no espirito do homem : são impressões que fogem so- 
bre o papel n'um voo ephemero e livre como o do 
olhar que atravessa rapidamente as lezirias e vae per- 
der-se n'um horisonte sem fim. 

Pelo que respeita á escolha dos assumptos, o sr. 
João Arruda é um pintor impressionista que poe nas 
suas pequenas telas um apaixonado colorido de vida 
local ; o sr. Sequeira de Carvalho divaga pelos themas 
do amor, sem se preoccupar com o scenario da sua 
terra. 

Pois faz mal, porque o Ribatejo tem ainda muito 
que explorar nos aspectos da sua vida laboriosa, na 
cadeia tradicional dos seus usos e costumes e até nd 



11 



seu Cancioneiro galante^ onde ha trovas de um bello 
sabor extremenho^ como esta : 



Salvaterra, Benavente, 
Jericó fica no meio. 
Âs meninas de Si mora 
Bailam com muito aceio. 



A geração litteraria que nos precedeu deu-nos em 
Grarrett e Herculano o exemplo de que sabia ir pro- 
curar o pittoresco onde elle realmente existe. 

Ambos esses grandes escriptores se occuparam do 
Ribatejo^ de Santarém especialmente, e por signal que 
os escriptos de um e outro, além do seu valor descri- 
ptivOy teem subida importância como documentação 
psychica. 

Garrett, no primeiro capitulo das Viagens, revela 
a despreoccnpaçao de um artista, que viaja disposto 
a colher a flor da alegria e a graça da vida onde pu- 
der encontral-as. A reproducção do dialogo entre os 
campinos do Eibatejo e os varinos de Ílhavo, dispu- 
tando entre si primasias de força physica, é um dos 
mais rápidos e mais profundos quadros de costumes 
portuguezes, que se teem escripto na nossa lingua 
com maior desenfado de espirito e coqíieUerie litteraria. 

Vê-se, através d^essas paginas, a alma de um ho- 
mem do mundo, que descarrega cuidados e preoccu- 
paç^^es sobre as aguas do Tejo e quer desinfectar-se 
dos micróbios da politica arejando-se na brisa fresca 
que sopra benigna. 



12 



Lembranças da sua vida passada, dos trabalhos 
«offridos na emigração, das pugnas azedas de S. Ben- 
to, dos golpes do amor malferido, dos desastres e vi- 
-ctorias colhidos nos salSes elegantes de Lisboa, ambi- 
ç3es, soffrimentos, desillusSes ou esperanças, o bom e 
o mau da existência, tudo se varre do sea espirito no 
momento em que desenfadadamente, como artista de 
pura raça, surprehende esse dialogo travado entre ho- 
mens que apenas conhecem como valor pessoal o pres- 
tigio da robustez e da saúde do corpo. 

Notemos agora o profundo contraste que resalta 
do confronto entre a organisaçSo moral de Herculano 
•e Garrett. 

No verão de 1853, Alexandre Herculano, com al- 
guns amigos, foi Tejo acima, n'um barco de vapor, 
visitar Santarém. 

 narrativa d^essa viagem tem estado até hoje 
meio escondida no volume do (c Panorama» correspon- 
dente a junho de 1854. 

O aspecto das povoações ribeirinhas não deu a 
Herculano uma impressão que elle traduzisse embrin- 
€ando palavras n'uma quasi infantil ligeireza de fo- 
lhetim galante. Apenas notou que havia ahi uma se- 
renidade que edolçurava as agruras da vida. 

«Alhandra, Villa Franca, Alverca, Villa Nova 
passaram successivamente por nós com os seus edifícios 
caiados, similhantes a grandes estendaes postos nas 
clareiras, e cuja alvura o sol esplendido da nossa ter- 
ra quasi fazia scintillar. No Tejo cruzavam em diver- 
sas direcções dezenas de velas arredondadas pela bri- 



13 



sa fresca. Âs muiadas de touros, parados gravemente 
pela margem, ou mettidos na agua por entre os cani- 
ços e juDcaeSy pareciam observar o movimento do rio,, 
que alguns atravessavam, ora a nado, ora com agua 
pelos peitos, para o próximo mouchSo, e nos seus me- 
neios lentos, no seu olhar tranquillo ninguém lhes adi- 
vinharia a nativa ferocidade. Na limpidez do cen, nas 
tintas cambiantes das terras calvas, nos verdes va» 
riados da vegetação, no murmúrio do vento havia uma 
harmonia de paz ; havia vida sem tempestade. » 

Dilucida-se n'este trecho a alma severa do pensa- 
dor, que raras vezes e só por momentos se sente alli- 
viada do pezo esmagador de uma vida áspera. 

Diz Herculano que elle e os seus companheiros de 
viagem iam rindo e motejando, mas este relampaga 
de alegria, se o houve, durou pouco, como todos os 
relâmpagos. 

O vapor parou á foz do canal da Azambuja, os^ 
outros passageiros separaram-se ahi^ e Herculano, com 
um só companheiro de viagem, que designa pela let- 
tra B, ficou esperando a «gôndola» em que deviam^ 
os dois, seguir viagem pelo canal até á ponte da As- 
seca. 

Logo na Azambuja se apagou o ephemero relâm- 
pago de alegria, que lhes tinha sorrido de relance» 
Acharam-se «sós, tristes, silenciosos.» 

Á «gôndola > partiu e Herculano e B. foram sen- 
tar-se á ré, separados dos outros passageiros que nSo 
conheciam e que, como elles, tinham entrado na Azam- 
buja, limite da viagem do vapor. 



14 



B.^ que levava saudades de Lisboa, deixou desli- 
sar pelas faces duas lagrimas, 

Entâo^ vendo-o chorar, accordam em Herculano 
^as pungentes recordações da sua trabalhosa mocidade. 

<(Levantei-me e bati-lhe no hombro, conta elle fal- 
lando de B. 

— «Antes de ter a sua idade, disse-lhe, também 
eu deixei uma familia qperida, não por alguns mezes^ 
mas por um futuro indefínito, não para viajar tran- 
quillamente entre concidadãos e amigos, mas para va- 
guear na terra extrangeira, pobre, só, abandonado. 
Keclinando-me doente^ não sobre os coxins de uma 
gôndola, mas sobre o duro pavimento da coberta de 
um navio, também duas lagrimas me rolaram nos 
olhos, mas sustive-as porque me envergonhei de mim 
mesmo; envergonhei-me de ser fraco.» 

É realmente profundo o contraste entre as impres- 
sões recontadas por Garrett nas Viagens e as que Her- 
culano deixou consignadas n*esta sua quasi ignorada 
narrativa de excursão a Santarém. 

Em cada um d^esses notáveis escriptos está photo- 
graphado moralmente o seu auctor : Garrett é o poe- 
ta, o folhetinista, o artista que viaja ; Herculano é o 
pensador, o philosopho, que em toda a parte encontra 
motivo para marcar a fogo uma impressão melancólica. 

Chegado a Santarém, o eminente historiador con- 
fessa lealmente a impossibilidade de fazer um livro 
que, tomando por assumpto a viagem, possa medir-se 
<som o de Garrett e menos ainda supplantal-o ; mas, a 
propósito de Garrett, espreme uma vesícula de azedu^ 



15 



me^ que mais accentúa a divergência entre os dois 
espiritos. 

ffPara nós escriptores de profissão, depois das Via- 
gens na minha terra^ diz elle, Santarém é como um 
pomo vedado: pertence de propriedade ao auctor 
d'aquelle espirituoso e poético livro ; pobre auctor, a 
quem ahi insultaram e calumniaram de visconde ! O 
grande poeta não o merecia. Cam5es morreu no hos- 
pital, e o poeta de D. Branca e de Fr. Luiz de Sou- 
9u morrerá com essa hedionda alcunha atada ao seu 
nome. Dar pão ao génio trajando-lhe o sambenito, 
equivale a deixal-o expirar de fome. Os vultos que se 
elevam tanto Hcima dos outros, e que se chamam Ca- 
mões ou Garrett, deviam dispensal-os, não só de uma 
vida de miséria, mas também de passarem pela cra- 
veira dos agiotas, dos intrigantes e dos galopins elei- 
toraes. Estes govemichos de Portugal serão, porven- 
tura, eternamente incorrigiveis?» 

Depois Herculano descreve a famosa estalajadeira 
Felicia, de Santarém, o padre J. P., sacerdote illus- 
trado e obscuro ; todavia, f aliando da Alcáçova, que 
visitou, escreve uma bella, mas severa tirada, fulmi- 
nante de indignação, contra cada remendo, «cada de- 
dada sebenta», que o vetusto edifício já tinha soffrido 
até esse momento. 

Quem não conhecesse a biographia de Garrett e 
de Herculano ou quem tivesse nascido em época mais 
affastada do tempo de ambos, do que aquella em que 
vivemos, poderia, lendo com at tenção as naj^rativas 
da viagem de um e outro, gravar em traços firmes e 



16 



exactos o retrato sabjectivo, o perfil intellectaal e mo- 
ral âoa doÍB flsciiptores tSo opposb» entre si. 

Esses dois grandes escriptorea, ãescrerendo nma 
viagem a Santarém, Tejo acima, bSo como dois ex^n- 
plares hnmanos das faanas polares, que partindo um 
do norte para o sol, ontro do sni para o norte, viessem 
a encontrar-se sobre a linha equatorial, único ponto 
de referenda commum a ambos, extranhando-se mn 
ao ontro, como habitantes de regiSes diversas e lon- 
gínquas. 

Supponho que este confronto entre Qarrett e Her- 
culano, de qoe efectivamente resalta um profundo 
contraste, não será um dos filSes menos interessante» 
a explorar na historia das viagens pelo Ribatejo. 



II 



Alcochete 



Foi n'um dia da ultima semana que eu naveguei 
pelo Tejo acima em boa companhia de pessoas ale- 
gres, que é a melhor companhia d'este mundo. 

Muitos leitores vão ficar surprehendidos com tão 
extraordinária noticia. 

— O que ? ! exclamará um. O homem teve a co- 
ragem de navegar ! 

— Enjoou? perguntará outro. 

E um terceiro, de hábitos muito pacatos, dirá 
talvez : 

— Pois o senhor não sabe que o Tejo é só para 
ver?! 

Em verdade, para a maior parte dos lisboetas, o 
Tejo não serve para outra coisa. 

Sendo grande de mais para metter dentro de uma 
redoma e pôr em cima de uma mesa, deixam-n'o estar 
onde a natureza o coUocou, mas contentam-se em olhar 

a 



18 



para elle de tempos a tempos como para o retrato de 
um avô illustre. 

É um avô, o Tejo, do qual se contam façanha» 
gloriosas ; portanto, um avô illustre, também. 

Foi grande, muito maior do que hoje, na gloria e 
no tamanho, porque já passou a época em que o po- 
voavam as naus da índia e do Brazil, e porqae lhe 
foram comendo um bocado para fazer o Aterro, um 
bocadão para as obras do porto, de modo que o pobre 
Tejo está dentado, ratado como os juros das inseri- 
pções e o nosso credito. 

Também eu tinha a falsa idéa de que o Tejo, no 
seu estado actual, servia apenas para vêr. Mas um 
amigo meu, o sr. Dom Miguel Pereira Coutinho, 
disse-me que não era tanto assim, porque navegava 
algumas vezes até Alcochete, e que me fosse eu des- 
enganar na sua companhia e de outros amigos seus e 
meus. 

Ainda oppuz algumas duvidas, porque o portuguez 
d'agora é sempre timido antes de sair de casa, e affoito 
depois de ter saído. 

— Mas não irá a gente, perguntei eu, metter-se 
n'algum vau, que nos enrasque? 

Que não ; que até Alcochete havia a agua precisa 
para um vaporsinho de recreio. E que nem sequer 
era necessário fazer testamento, porque estariamos de 
regresso no mesmo dia. 

E então, resolvido a partir, dei-me ares de ir 
viajar muito longe, que é uma fumaça peculiar aos 
portuguezes. ^ 



19 



Fui para a Baixa mais cedo, de modo que me 
vissem e eu pudesse dizer^ com apparencias de muito 
sereno^ que d'ali a momentos ia partir pelo Tejo acima 
a Deus e á ventura. 

— Ora essa ! pelo Tejo acima ? ! 

— Sim^ senhor, na direcção mais perigosa, porque 
terei de luctar contra a corrente, e sabe Deus o que 
acontecerá ! Mas de isso mesmo é que eu gosto — do 
perigo! 

Gesto de assombro do meu interlocutor. 

— Mas então até onde ? A Villa Franca ? A San- 
tarém? A Abrantes? 

— Mundo infinito ! A Abrantes ou Santarém é-me 
indifferente. Mas por ora resolvi talvez ir mais perto. 

— Ao Barreiro ? 
Gesto meu de desdém. 

— Nem tao perto. Ao Barreiro vae toda a gente 
e eu não me quero encontrar com toda a gente. 

— A Montijo, buscar ostras ? 

— Nada, nao. A respeito de ostras, tenho a se- 
guinte opinião: que são ellas que devem vir ter com- 
nosco. . . ao prato. 

— Vae ao Samouco talvez ? 

— Que iria eu lá fazer, se elle, na sua qualidade 
de Sá mouco, não me poderia ouvir I 

— E' então uma viagem arrojada? 

— Pelo menos. Vou a Alcochete, que é uma terra 
aonde nem toda a gente tem ido. E o próprio rei D. 
Manuel, se a quiz conhecer, teve de nascer lá ! 



20 



— Bem se vê que o senhor vae sendo um pouco 
antigo ... em historia ! 

— Porque? 

— Forque ainda sabe onde os reis nasceram ; era 
o que de historia pátria nos ensinavam d'antes. 

— E mais também quantos meninos tinham tido. 

— Ensinavam-nos um almanach ! 

— Mas agora nem isso dão a saber. Agora, o al- 
manach de maior consumo, é o Commercicd, 

— Serio. Diga o que vae fazer a Alcochete. 

— Vou ver a terra, que é uma das coisas que 
mais gosto : vêr terras. 

— Gastará n'isso tao pouco tempo, que terá de 
partir de lá talvez antes de ter chegado. 

— Jantarei bem, que ó uma excellente maneira 
de fazer grandes as terras pequenas. 

— E terá com quem conversar, que é uma coisa 
indispensável para comer bem ? 

— Oh ! se tenho ! Não ha pessoas mais amáveis 
para conversar do que a gente antiga, de boa raça, 
que soube o que era sociedade. Mas são horas de par- 
tir. Ás duas horas largamos do Cães das Columnas. 
Sabe porque Vasco da Gama não partiu também d*ali? 

— Porque foi ? 

— Porque não havia ainda cães, nem columnas. 
Adeus, falle por cá a respeito da reforma concelhia, 
da fornada de pares, de tudo aquillo em que os se- 
nhores, na terra firme, gastam o tempo ingloriamente. 
Eu vou navegar. Sabe que mais ? . • . modéstia á parte. 
Vou descobrir Alcochete. 



21 



Isto da gente ter passado durante alguns annos 
pela litteratura põe muitas teias de aranha na ca- 
beça. 

Peguei a pensar no Garrett^ mais nas suas viagens 
Tejo acima^ e já no vapor^ que ia cortando linda- 
mente a agua^ imaginei que estava vendo Lisboa pe- 
los olhos d'elle 

«Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando 
este magestoso e pittoresco amphitheatro de Lisboa 
oriental, que é, vista de fora, a mais bella e gran- 
diosa parte da cidade, a -mais característica, e onde, 
aqui e ali, algumas raras feições se percebem, ou mais 
exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lis- 
boa das chronicas.» 

Pois é isto mesmo, pensava eu. Aqui vai correndo 
a meu lado a cidade moirisca, muito árabe ainda. E' 
o passado, a tradição, que resiste mais do que toda a 
guarda municipal. Agora chegam as hortas do Beato, 
de Xabregas e de Chellas, onde Francisco Falha 
ouviu cantar a meiga nora. Ainda são as mesmas do 
tempo de Garrett. Mas ha agora uma horta melhor 
para a gente fina . . . aos domingos. £' a Avenida da 
Liberdade, com cadeiras do Asylo e peixe frito que se 
come. . . com os olhos. 

Depois a margem direita começa a ser árida, com 
uns longes africanos. Voltam-se os olhos para a mar- 
gem esquerda, que é plana e quasi toda verde. Só a 
distancia se desenha o cerro de Falmella e a serra 
da Arrábida. Aqui está Montijo com as suas ostras, 
mais para cima o Samouco, e já então principiam a 



22 



apparecer algumas manchas brancas por entre a ver- 
dura. São casas, algumas de boa apparencia. Avista- 
se, ainda a considerável distancia, a Atalaja, e á 
beira d'agua Alcochete, que a um homem que deseja 
navegar, como cu, chega a dar zanga de ficar tSo 
perto de Lisboa. 

O dia está nublado, mas um clarão de sol cae em 
cheio sobre Alcochete, e as vidraças das casas lampe- 
jam fogachos que tremeluzem. 

— E' que Alcochete, dizem a bordo, está em festa 
pela restauração do concelho. 

— E poz luminárias de dia. Copiou a peregrina 
idéa que teve a camará municipal de Lisboa illumi- 
nando a fachada do seu edifício na tarde em que 
Mousinho d'Albuquerque o visitou. 

— Nada d'isso! Alcochete tem mais juizo. 
Vamos cortando uma grande largura de Tejo, quC; 

de margem a margem, dizem que medirá trez lé- 
guas. 

É bello, é grande, porque os homens ainda não 
fizeram ahi aterros, nem querem fazer portos artifi- 
ciaes ahi. 

Chega a gente a desorientar-se, parece que o rio 
está invertido, que navegando para Alcochete se vae 
avançando para a barra e que Lisboa, ligando-se a 
Cacilhas, fecha uma bahia sem sabida. 

Garrett não mencionou Alcochete, e admira, por- 
que foi uma terra nobre, e elle gostava tanto de boa 
gente de linhagem ! Ali esteve a ares D. João i, por 
ser, diz Azurara, «logar fresco e de singular disposi- 



»^ 



23 



{^ para sua saade» e d'ali veio morrer a Lisboa. 
Ali teve residência o infante D. Fernando, duque de 
VizeUy e ali nasceu o que foi rei D. Manuel. Os fidal* 
gOB da casa do duque ali edificaram prédios, que se- 
riam bons, e já não são cousa nenhuma. 

£' diSBLcil o desembarque na ponte. Cousas nossas. 
A Trafaria tem andado ha não sei quantos annos a 
pedir uma ponte. KSío sei se lh'a deram já. Alcochete 
tem uma, mas de pouco serve ; de um cães é que pre- 
iásava. 

A casaria agrupa-se quasi á beira d'agua ; parte 
sobre muralha. Uma chaminé, da extincta fabrica de 
pbosphoros, rompe de entre a casaria. É um canudo 
do progresso n'uma terra que foi árabe, e ainda o é 
algum tanto. 

Mal ponho o pé em terra vou com Nicolau de 
Brito — conversador d'aquella boa escola de Júlio 
César Machado, que ou escrevia folhetins ou os con- 
versava — vou com Nicolau dé Brito ver a povoação 
e a egreja. 

Tudo árabe, uma e outra. Casas embiocadas em 
gelosias ; cabeças de mulheres espreitando por en- 
tre as rótulas. O que quer que seja de melancolia se- 
mítica, n'um descahir de tarde na Arábia. 

Na egreja matriz todo o ar de ter sido mesquita, 
embora D. Manuel a reconstruísse para lhe dar algu- 
ma feição christã. Uma torresinha e uma rosácea; que 
são um apetite. Uma porta lateral^ em ogiva, que é 
outro apetite. E no interior do templo e ainda na faxa 



24 



interna do adro lindos azulejos hispano-arabes^ puros^ 
bem caracterisados, intactos. 

E está visto Alcochete, de relance, que é sl melhor 
maneira de vêr as terras, grandes ou pequenas, por- 
que se colhe uma impressão e nSo se enreda a gente 
em pormenores cansativos. 

As terras sâo como as mulheres. Vistas de repen- 
te, agradam quasi sempre ; mas se a gente coraeça a 
observar as feições, uma por uma, sempre acha algizma 
coisa que valha menos. 

Vae anoitecendo. O cair da noite é triste á beira 
dos grandes rios. 

Mas o sino repica, estalam foguetes pela restaura- 
ção do concelho. 

Junto ao palácio dos marquezes de Soydos toca 
uma phylarmonica, que desvanece a impreasSo melau- 
cólica do anoitecer. 

Nicolau de Brito diz-me que o povo está alegre 
de patriotismo, mas que nós precisamos comer, porque 
nâo nos mandaram de presente concelho nenhum; — e 
que como justa compensação o sr. Dom António Pereira 
Coutinho nos irá dar um jantar excellente, como é seu 
costume. 

No pateo do palácio ha muito povo, que solta vi- 
vas, que está contente e feliz porque cada um quer 
viver independentemente na sua casa, ainda que seja 
modesta. 

Espera-se um momento, passado agradavelmente 
entre pessoas de boa companhia e boa raça ; conver- 



'■'^ 



ai- 



'Zíí 






25 



sa-se, olhando das janellas abertas para o Tejo, onde- 
a agua se vae empastando na esonridão da noite. 

Ouve-se tinir loiças, sente-se passar criados. 

Abre-se uma porta, de qne rompe um darSo 
festivo de luzes. 

A musica, no pateo, principia a tocar um aUegro^. 
que abre o apetite. 

£ uma voz annuncia amavelmente : 

— Meus senhores, vamos para a mesa. 



II 



GASGAES 



No princípio de uma época balnear 

Um vento desabrido, a que talvez se pudesse cha- 
mar o «mistral de Cascaes», sacadia violentamente o 
toldo do Casino. 

Dois lampeoes, apenas^ illuminavam escassamente 
a grande varanda de pedra, onde outr^ora a roleta 
afinava deliciosamente as serenatas de um sextetto. 

Agora, só o vento, sempre o vento, gemia fúnebre 
agitando o toldo, e uma tristeza funda, em face do 
mar escuro e vasto, ao som de longos uivos eólicos, 
parecia invadir os espirites enchendo-os de aborreci- 
mento e treva. 

Oito horas da noite. Não se podendo reagir contra 
o vento, era preciso luctar de algum modo contra o 
aborrecimento, que não tardaria a fazer cabecear de 
somno. 

— E' preciso entretermo-nos com alguma coisa. 

— Não ha meio nenhum. 



28 



— Talvez haja. 

— Qual ? 

— A anecdota. 

Não falha nunca este bom medico, mundano e jo- 
vial, que se chama — anecdota. Nâoreceita^ mas con- 
versa : é a medicina mais efficaz que se conhece. 

— Diga uma anecdota quem souber. 

— Só se fôr a do inglez. 

— Pois venha essa. 

— Outro dia, no Estoril, uma familia inteira espe- 
rava na estação o comboio, que devia passar para Lis- 
boa. Carruagens cheias ; apenas dois ou trez logajre» 
vasios. 

Entra toda essa familia: varias senhoras, algumãs 
creanças, uma criada e um totó. 

Uma das senhoras quer sentar-se, mas, sobre o lo- 
gar qua as outras lhe indicam, encontra um pacote 
volumoso, ao lado de um inglez que fuma tranquílla- 
mente olhando o mar. 

— Faz favor de tirar isto, diz a senhora ao inglez» 
NSo obteve resposta. 

— Tem a bondade de tirar isto ? 

O inglez encarou serenamente a dama, voltou » 
cara e continuou a olhar para o mar placidamente. 

— Sr. revisor, faça favor de mandar tirar isto 
d'aqui. 

E já as outras senhoras tinham exclamações pouco 
amáveis para o impassivel inglez, que não se mostra- 
va disposto a incommodar-se. 

Entra em scena o revisor, que vem da outra ex- 



29 



tremidade da carraagem obedecendo ao chamamento. 

— E* para mandar tirar isto d'aqui. 

O revisor dirige-se ao inglez^ dizendo-Ihe urbana- 
mente : 

— Peço-lhe o favor de retirar isto. 

E o inglez, sempre tranqaillo^ olha para o revisor, 
olha para a dama^ e responde : 

— Mas isto nâo é meu. 

E continua a fumar tranqnillamente. 

Esta anecdota vale o retrato de uma raça : fallar 
pouco e só quando é preciso é, seguramente, uma das 
caracteristicas dos frios homens do norte, tão oppostos 
a nós outros, os do sul, que falíamos muito — e de 
mais. 

O vento continuava a assobiar no toldo como nas 
enxárcias de um navio. 

Oito horas e um quarto. 

Se não saltasse logo outra anecdota, apenas resta- 
ria um dilemma : ir ver jogar o bluff ou ir dormir 
para casa. 

— Era uma vez um empregado publico. 

Este intróito agradou muito. Portugal ó um paiz 
de empregados públicos. Todas as historias que fallem 
d'elles teem um cunho genuinamente nacional. 

-—Pois era uma vez um empregado publico. 

Ninguém quiz saber de que repartição se tratava : 
um empregado publico, seja de que repartição for, ó 
^ma pessoa que toda a gente acceita. 

— Chegou-se ao chefe da repartição e disse-lhe : 
í*eço licença para me retirar por causa de um parto. 



30 



— Oh! isso é am caso de familia muito sério. 
Pôde sair quando quizer ; já^ immediatamente. 

Este bom chefe não tinha tido nunca um parto. . . 
em casa. Era solteirão. Mas, por isso mesmo, ouvia, 
cheio de terror, fallar de partos, como de um cata- 
clismo desconhecido, que incommodava tanto as senho- 
ras. . . como os maridos. 

E ficou dizendo com os seus botões burocráti- 
cos: 

— Que bem que eu fiz em não me casar. Um parto! 
Que bucha ! Pobre rapaz ! Antes elle quereria copiar 
dez officios. 

E, esfregando as mãos, de contente, continuou a 
examinar papeis. 

Oito dias depois, apparece-lhe o mesmo empregado 

a dizer: 

— Sr. conselheiro, tenho hoje que sair mais cedo 
por causa de um parto. 

— Ainda o mesmo ? ! 

— Não senhor; — outro. 

— Como assim? ! 

— Um parto difficil, laborioso: 

Como não conhecia bem a matéria, o chefe con- 
cluiu que havia certos partos como certas oI»*as: em 
dois volumes. 

^- Ah I sink Pode retirar-se immediatamente. Pois 
tiRol Immediatamente. 

lí, saguindo o empregado com o olhar, ficou di- 

Mah quo grande bucha! Um parto difiicil... 



31 



luas creanças ... em oito dias ! Pobre rapaz ! Neo» 
âu sei oomo elle tem coragem para yirer! 

S continuou a examinar os papeis, repetindo : 

— Que bucha ! que grande bucha ! 

Passados quinze dias, entra de novo o empregado 
no gabinete do chefe, que se apressou a dirigir-lhe a 
palavra : 

— Diga-me uma coisa : ambas as creanças vivem? 

— Sim, senhor. São robustas e perfeitas. 

— Valha-nos ao menos isso. 

— Pois a segunda nem eu sei como escapou ! 

— Parto muito difficil ? 

— Difficilimo. 

— E a doente ? 

— Já de pé, como se nada fosse. 

— Oh ! é assombroso. Dou-lhe as minhas felicita» 
çSes. 

— E eu que as recebo com muito gosto. 

— Está bem de ver que sim. 

— Sempre é consolador. 

— Pudera ! E visto que já está mais tranquillo de 
espirito, vou-lhe dar um trabalhinho, que lhe tenho 
ali reservado. É um bom bico de obra. ^ 

— Para hoje ? 

— Seria bom. Mas se de todo em todo nSlo puder 
ser, « • 

— É qt^e hoje.. . 

— Diga ; pode dizer á vontade. 

— Ê que eu hoje tinha. . • 

— Tinha o que? 



32 



— . Outro parto. 

— Outro ? ! Mas isso é de mais ! Pobre senhora e 
pobre pae! 

— O pae é rico, sr. conselheiro. 

— Como assim ? ! 

— É rico, mas, como a mSLe é doente, inspira al- 
gum receio. . . 

— E o que tem o senhor com o parto da mulher 
de^um homem rico? 

— É que minha mulher. . . 

— Oh ! santo Deus ! Tenho medo de comprehen- 
der. .. 

— Mas sr. conselheiro. . . 

— Então o senhor não é o pae ? 

— Não, senhor. 

— Mas sua mulher . . . 

— Minha mulher ó parteira, e emquanto ella vae 
tratar das suas clientes, fico eu em casa a olhar pelos 
pequenos. 

O vento continua ululando no toldo. São oito horas 
e meia. Os do grupo quedam-se a olhar no escuro 
para duas eternidades tremendas: a do mar e. . . a 
do tempo. Ouve-se o silvo de um comboio que chega, 
e todos prefeririam ouvir, em vez de um silvo, uma 
anecdota. 

— Ora então. . . 

— Viva lá ! E estava tão calado ! 

— Coisa pouca. 

— Não I Não ! Falle o mais que puder : é o vento 
que nos dá o exemplo. 



33 



— Outro dia, uma saloia foi ali ao correio ver se 

he tinha vindo carta do Brazil. Tinha. Ficou toda 

contente e, como era natural, anciosa de saber o que 

a carta dizia. Mas no correio nilo hayia tempo para 

Ih'a lerem, 

— Pudera ! Um movimento de cincoenta telegram- 
mas por dia^ além da expedição das malas, que não 
são poucas ! 

— Desceu a mulher a escada com a carta na mão. 
Viu encostado a uma esquina um soldado da guarda 
fiscal e dirigiu- se logo a elle, . . 

O orador interrompeu-se, porque um repellão de 
vento quasi arrebatava o toldo do Casino. 

— Mas depois? 

— Vomecê faz-me o favor de ler esta carta, que é 
de um meu filho que está no Brazil ? O soldado pegou 
na carta com arreganho militar. Abriu o sobrescripto, 
sacudiu com a mão direita o papel e, de sobr'olho car- 
regado, fixou as lettras. Momento de anciedade por 
parte da sr loia. O soldado, muito at tento, medita. De 
repente volta-se para a mulher e diz-lhe com desdém : 
«©lhe, tiasinha, eu com lettra paisana não me enten- 
do.» E a saloia, caindo em si, responde-lhe huníilde- 
mente : «Perdoará. Não me lembrava que vomecê era 
militar.» 

Oito horas e quarenta minutos. Algum somno; 
muito vento. 

— Hoje passou-se admiravelmente ! 
— Admiravelmente. Boa noite. 



II 



Os maridos 



Quem se der a observar a vida das praias, reco- 
nhecerá facilmente que teem de ser classificados em 
varias categorias os maridos, que são obrigados á per- 
petração do que geralmente se chama «a estação bal- 
near d. 

Passaremos a fazer uma classificação, que não repu- 
tamos perfeita, nem indiscutivel ; mas que se funda, 
comtudo, nos factos por nós observados. 

Entre os vários maridos que se impõem á nossa 
attenção poderemos distinguir: 
I O marido roda- viva. 
II O marido methodico. 

m O marido plantão. 

IV O marido rebelde. 

Poucas palavras hão de bastar para justificar esta 
classificação, que respeitosamente submettemos á ap- 
provação da Academia Real das Sciencias, a fira de 
lhe dar alguma coisa que fazer. 



35 



O marido roda-viva ó aquelle que todos os dias 
rae á sua repartição ou ao seu escriptorio, pretex- 
tando o rigor burocrático ou a aíSuencia de negó- 
cios. 

Se está em Oascaes, nos Estoris, Oeiras, Paço 
d' Arcos ou Caxias, almoça ás 9 da raanhã e parte lo- 
go depois para Lisboa, apertando dentro do wagon a 
mao dos seus collegas de horário, por ser gente co- 
nhecida que todos os dias encontra no mesmo sitio e 
á mesma hora. 

Regressa ao fim da tarde para jantar, tendo sem- 
pre os mesmos companheiros de viagem. 

Traz as noticias da Arcada, primeiro que os jor- 
naes da noite ; e espalha-as de graça, ás vezes com 
ares mysteriosos — v/m caso grave — muito gram-- dizia' 
^^—fcdlava-se — era a grande noticia do dia, 

E envolve no fumo do charuto as reticencias, o 
ínysterio da sua informação, dando a perceber que a 
nâo completa por querer ser discreto. 

— Mas você sabe mais alguma coisa . . . dizem-lhe 
credulamente os que o escutam. 

— Nâo sei; palavra de honra, não sei. Vejam lo- 
go as Novidades ; vejam o Coi'reio. EUes hão de fal- 
lar n^isso ; e se não fallarem ó porque foram pedidos 
para guardar segredo. 

— Mas diga-nos quem é o homem. . . 
Ou então : 

— Diga-nos quem ó a mulher. . . 

— Não posso; não devo. São coisas muito serias. 
Ás vezes trata-se de um boato inventado por* um 



36 



dos companheiros de viagem, para ferir um homem, 
para ferir uma senhora, e acreditado de boa fé pela 
pessoa que o ouve e o divulga* 
D^ali a pouco : 

— Mas os jornaes da noite não dizem nada ! 

— Nâo dizem? Então é certo. Houve complica- 
ç3es : o negocio é grave. Comprehendem. . • 

Âs 11 da noite o marido roda- viva vae deitar-se 
para recomeçar no dia seguinte, á mesma hora, a sua 
caminhada. 

Diz elle em Lisboa : 

— A minha família está em Cascaes. 
Diz a mulher em Cascaes : 

— O meu marido foi para Lisboa. 

Mas, quanto a elle, o marido, pôde bem dizer-se 
que não está em Lisboa, nem em Cascaes : está sem- 
pre no caminho, que ó o logar mais certo onde pôde 
ser encontrado. 

Arranja uma provisão de carvão e de pó, que ao 
cabo de quinze dias resiste á acção da escova. 

No inverno dizem-lhe em Lisboa: 

— Você vem melhor ! 

— É do ar do mar. 

Qual historia ! é do pó e do carvão, que elle apa- 
nhou, e que o bronzearam. 

O marido methodico é aquelle que arranja as suas 
coisas de modo que só tem que ir uma vez por sema- 
na a Lisboa, sempre no mesmo dia. 

O que vae elle fazer? É perguntar muito. 

Regular negócios ; comprar os charutos que fuma, 



37 



e que só se vendem no Neves do Rocio ; comprar sa- 
bonetes para a senhora, chouriços para a cosinha, 
queijo para a sobremesa, e yêr se hoave alguma no- 
vidade em casa. 

Pergunta-lhe a familia, á volta: 

— Bntão o que ha de novo por lá? 

— As compras nSo me deram tempo para mais 
nada. 

— Mas esqueceram-te os sabonetes ? 

— Ê que os teus sabonetes acabaram. 

— E o queijo? 

— O queijo era uma peste. Nao o quiz. 

— E os chouriços? 

— EstSo á espera de uma remessa de Castello de 
Vide. 

— E a nossa casa ? 

— Essa é que está no mesmo logar. 

— EntSo nenhuma novidade? 

— Houve um incêndio. 

— Lá?! 

— NSo. Em casa da actriz Josepha de Oliveira. 

— Mas isso já foi ha oito dias ! 

— Eu não tenho culpa de que os jornaes dêem as 
noticias primeiro do que eu. 

O marido plantão é o que, durante a temporada 
da praia, nSo sae de ao pé da familia. 

Sabe tudo o que se passa em casa e fora de 
casa. 

— A sua mulher toma banhos? pergunta-lhe )im 
recemchegado. 



— Já tem 14 e poderia ter 22, se 
dias. Conatipoa-se. 

• — Mas passou ? 

— Costuma paaaar-lhe. 

— E 08 seus rapazes ? 

— Esses não se constiparam. O 
banLos. 

— EoZeca? 

— O Zeca tem 22 e meio. 

— E meio? 

— Sim. MoUion outro dia os pés 
nma boa partida. Eu lhe coQto. . 

E conta logo, porque Tê tudo; dUo 
um instante. 

— Diga-me uma coisa, ó Fulano: 
Juota não está cá em Caecaes? 

— O Canavarro? Pessoalmente nii 

— É um sujeito baixo, entroncado 

— De pêra e bigode ? 

— Tem BÓ bigode. 

— Ah ! já sei. Sempre de chapéo ' 

— Talvez. Em Lisboa costumai 
preto. 

— Que desce as escadas sempre cc 

— Isso mesmo. Mas como reparou 

— Tenho-o visto descer as escadas 

— Que faz eile por cá ? 

— Eeti no Central. Toma banho ás 8 horas, é 
freguez do Figueiredo, e joga á noite o bridge. 

— E tem ganho ? Elle é muito feliz. 



39 



— Outro dia estive ao pé d^elle toda a noite; e 
n'essa noite perdeu. 

— Foi você que o encalistou. 

— Qual ! Amuou-se com o namoro ás 9 e vinte 
minutos da manhã na praia : estava nervoso e jogava 
mal. 

— Mas como sabe você que elle se amuou cora o 
namoro ? 

— É que eu vi o principio da scena ; e a minha 
mulher viu o resto. Depois o Raul também nos contou 
tudo em casa. 

— Mas você não deixa passar nada pela malha ! 

— Pudera ! Estou de plantão em Cascaes. Vejo 
pelos olhos da minha família e a minha familia vê 
çelos meus olhos. 

— É muita gente a ver. Não admira que veja 
tudo. 

— Que remédio senão en tre termo- nos ! A batota 
tem feito muita falta. 

— Mas você ó que não perde . . . pitada ! 

O marido rebelde ó aquelle que vem buscar a 
Cascaes a folia, que n'este momento lhe faltaria em 
Lisboa. Trouxe a familia como bagagem. Pôl-a em 
<5a8a e saiu logo pára a rua. A familia que se divir- 
^7 que elle trata de fazer o mesmo. 

— ííão tenho visto seu marido, rainha senhora. 

— Pois elle por ahi anda sempre. 

— Nem no theatro. 

— Pois elle vae a todos os espectáculos. 

— Nem na praia. 



— pois elle não falta lá. 
Ouve-se rodar um trem, condu 

infeliz senbora com trez pândegos 

— Olhe I U vae elle 1 

— Seu marido? 

— Sim, n'aquelle trem, com n: 
sou. Tenho pena que o nSo visse. 

É um marido que passa. . . ta: 
como para os outros. 

Querem-n'o maia rebelde ás l 
assistência matrimonial ? 

A estas quatro categorias de n 
responder outras tantas divisas, q 
Bjnthetica mente, a saber : 

Marido roda viva : Ida e volta. 

Marido methodico : Viva o velh 

Marido plantão : Paríetárta co 

Marido rebelde : Vive-se,só rnn 

A Academia Real das Scienciai 
em novembro, tomará a peito, c 
esta classificação, com a diligenci 
tão repetidas provas tem dado. 

Quanto ás damas que nos le: 
boa vontade o serviço de as hab 
marido dentro da mesma classifica 

Mas o mais prudente de tudo 
nas solteiras misturassem todas as quatro categorias, 
e depois Ibes applicassem a receita que o dr. Thomaz 
de Carvalho aconselhava para tornar inoffensiva a 



41 



salada de pepino : «Preparar a salada e atiral-a pela 
janella fora.» 

!B a rasao é simples : a solteira pode gosar a sua 
liberdade toda a vida ; a casada, ainda que se dê mal 
com o marido, adquiriu o habito. . . de não ser sol- 
teira. 



III 



A calçada d'Assumpção 



Passou esta semana o dia da Assumpção — uma 
^as quatro grandes festas do anno. 

Bella solemnidade essa com que a Egreja comme- 
mora a entrada da Mâe de Christo no céo. Lindo dia 
em que por voto especial soam festivamente os orgâos 
de todas as cathedraes portuguezas, e muitas povoa- 
ções do paiz vestem galas e pompas de fervorosa de- 
voção. 

A procissão dos pescadores na Povoa de Varzim 
é um dos actos religiosos que, vistos uma vez, nSo es- 
quecem nunca. 

Aqui, em Cascaes, «Santa Maria d^agosto», como 
diziam os antigos chronistas, é o orago da matriz, e 
a calçada, que do largo doeste templo vem descendo 
até á Praça, tem o nome — d^Assumpção. 

Pois é uma das ruas historicamente mais notáveis 
de Cascaes, e ainda hoje a nobilitam alguns vestigios 
heráldicos de sua passada grandeza. 



•r^ 



43 



No espaço comprehendido entre esta calçada e a 
cidadella ficava o castello e dentro d^elle o paço dos 
senhores de Cascaes — esses famosos Castros em cujo 
brazão brilhavam seis arraellas, de que elles tanto se 
ufanavam sobre todos os outros Castros. 

Ainda hoje, quem gostar de contemplar pedras 
antigas pode observar^ na muralha que corre a um 
dos lados da calçada, um persistente exemplar das 
seis arruellas dos Castros e também uma pequena set- 
teira, que deveria servir para tiros de arcabuz. 

Um arco aberto na muralha mostra ainda, na so- 
lidez e espessura, a sua antiguidade, sob a camada 
de tinta com que o modernisaram. 

No prédio n.** 26 da calçada d^Assurapção ha uma 
porta e janella de verga recortada, que devem ter 
procedido dos escombros do paço. 

Mais alguns annos volvidos e as arruellas e a set- 
teira terão desapparecido talvez. Cascaes é uma villa 
que se alinda de dia para dia, graças á iniciativa 
elegante do meu velho amigo Costa Pinto, que nao 
ta reformador mais desvelado do que elle. 

Estas minhas palavras, hoje, teem por fito conser- 
var a memoria dos últimos vestígios do paço dos se- 
nhores de Cascaes, para o caso de que alguns novos 
chaletSf como tem acontecido no antigo recinto do cas- 
tello, venham substituir a muralha. 

Escrevi no livro que se intitula Sangue azul a 
líiographia à'aquelle dos Castros, condes de Monsanto, 
que foi primeiro marquez de Cascaes. 

Era um fidalgo espirituoso, do bom tempo em que 



ái 



08 havia ; sentencioso no fallar, mordaz na satyra, ma» 
sempre philosopho nos conceitos. Dizia verdades chis- 
tosas a toda a gente ; até as disse a el-rei D. Affonso 
VI, atacando-o por balda certa. 

Toda a gente sabe qual era a balda certa de Af- 
fonso VI : era justamente o que elle tinha de menos 
certo. 

O amor foi na pessoa do primeiro marquez de Cas- 
caes um habito refinadamente aristocrático, que fez 
d*elle um galanteador de salão, um gentil-homem pro- 
digamente dissipador em aventuras de ante-salas rea- 
lengas. 

Indo a Pariz por embaixador, no tempo da Res- 
tauração, queimou incenso e dinheiro aos pés de Anna 
d' Áustria, que era então uma viuva ainda fresca, de 
um embonpoint acirrante. Para a deslumbrar, deslum- 
brou Pariz. Depois teve um Jlirt dispendioso com a 
rainha de Inglaterra. Voltou a Portugal quasi arnií- 
nado, mas agora tem-se visto isso em fidalgos que no 
amor nunca subiram tão alto. Soube ser gcdant^uofno 
em todos os lances da sua vida — fallando, gastando 
e amando. Teve graça, teve coração e teve dinheiro: 
hoje seria o primeiro fidalgo portuguez ; n'aquelle 
tempo foi um dos primeiros. 

Ás vezes, como quem toma gosto a utn assumpto, 
oiço rodar uma equipagem e volto-me sonhando que 
seja uma d^aquellas sumptuosas «carroças» doiradas 
que elle exhibiu em Pariz, deixando boquiabertos os 
parisienses do século xvii. 

Nem se comprehende que o marquez de Cascaes 



âaisse á ma de outro modo na propr^ t^rra de que 
era senhor e onde tinha seos paç-Ds acastellados, ceai 
seis arruellas no brazâo. 

Volto-me, âm, e logo se deáfaz o s«:n\o, porqTse 
vejo mu dog-cart ou om phaetcn^ qae n*o lazem senão 
pregoar o adelgaçamento da riqueza nas casas nobres. 
Tado muito encolhido, agora. 
Aqui, nas varandas do seu pa-^o, sentir-se-hia bem 
o marquez de Cascaes, porque tinha deante de si o 
mar, de que elle procurava ser um simulacro na ter- 
ra .. . pela grandeza dominadora. 

Eram dois visinhos dignos um do outro, que de- 
viam dar-se os bons dias de igual para igual. 

Mas de toda essa antiga pompa de Cascaes apenas 
restam as seis arruellas, a setteira, duas pedras lavra- 
das e . . . o mar. 

Esse é que ainda hoje é o mesmo. 
A feição moderna da calçada d' Assumpção salien- 
ta-se n'uma taboleta, que annuncia a mais elegante 
das industrias locaes, a de guloseimas destinadas a 
lisonjear o paladar de pessoas finas, que só comem 
bolos, por não serem bastante nutritivas as flores, de 
que por galanteria desejariam alimentar- se. 
Diz a taboleta fielmente copiada : 

ANTIGA CASA. 

FAS-TUDO 

ESPECIALIDADE EM BOLOS 

REAES, JUANNINHAS E AREIA, 

E OUTRAS QUALIDADES DE DOCES 



46 



É uma pequenina loja de confeiteiro, mas talvez o 
mais afreguesado e famoso estaDeleci mento comraercial 
de Cascaes. Abre logo de manhã; fecha pela meia 
noite. 

Dâo accesia para ello alguns degraus de pedra, 
uma escadinha estreita, que tem sido pisada pelos 
mais delicados pós da aristocracia feminina. 

A lista dos doces ali fabricados . tem o que quer 
que seja do harmonioso compôs vestigios heráldicos, 
que na muralha fronteira memoram ainda o esplendor 
do marquezado de Cascaes no século xvíi 

É toda uma nomenclatura freiratica, um vocabu- 
lário arrebicado de convento, segundo o estylo dengoso 
d^aquella época, em que o travesso Cupido punha o 
avental branco de mirmidao para servir guloseimas 
aos vates, nas grades dos mosteiros, como recompensa 
de insulsas toantes á castelhana. 

Copio textualmente parte da lista : 

IBolos seooos 

De Amor — De Amêndoa — De Areia — Argolas 

— Argolas d^Aniendoa — Argolas Cobertas — Esque- 
cidos — Testinhas — Figos de Chocolate — Joanninhas 

— Lacinhos — Marraellada Fina — Palitos — Palitos 
d* Amêndoa — Palitos d^Oeiras — Suspiros — Torradi- 
nhas — Boking. 

Xíooos fia3.os 3paij:?ai -m-ezai 

Barriga de Freira — Arroz de Bom Bocado — Ar- 
roz Doce — Bolo Real — Bolo Inglez — Doce de Gilla 



47 



— Fatias da China — Leite Creme — PSo de Ló — 
Pão de Ló d' Amêndoa — Pasteis de Marvão — Peixe 
Doce — Queijinhos d' Ovos — Sopa de BorrachSo — 
Sopa dourada — Toucinho do Céo — Lampreias d'0- 

vos. 

Os alambicados diminutivos — Testinhas — Joan- 
ninkoê — Lacinhos — Torradinhas são linguagem pró- 
pria do século raais freiratico que em Portugal tem 
havido. Cheirara a convento de freiras, nao porque o 
houvesse em Cascaes, mas porque d esta villa foi se- 
nhor um fidalgo que possuiu todos os defeitos e dotes 
do seu século, e que deixou tradição local. 

O bolo d'areia pode parecer ridiculo pelo nome, 
pois que no calão moderno — areia — significa toleima, 
mas não deixa de ser próprio de uma praia, onde, de 
mais a mais, ha um pouco de isso . . . 

Quanto aos bolos finos para mesa, a nossa curio- 
sidade encalha logo no que se domina «barriga de 
freira». Comquanto ignoremos sua origem, tanto mais 
difficil de encontrar depois que não ha freiras, porque 
falta absolutamente o campo de observação, é certo, 
porém, que também rescehde á gulodice galante dos 
conventos no século xvii. 

Emfim, a calçada d^Ássumpção, em Cascaes, se 
poucos vestígios archeologicos ainda conserva do tenipa 
cm que a villa foi marquezado e d^elle recebeu brilho 
ô fama, tem na antiga casa Faz- Tudo o que quer 
^^e seja de característico d^essa época, de ucharia e 
galanteio, nas doces Joanmnhas que se comem, nas 
Testinha^ que se beijam e mordem, nos Lacinhosr 



48 



'Com que se enfeita o estômago^ nas Torradinhas que 
dispensam manteiga^ e nas Barrigas de freira a qne 
uma pessoa toma o gosto sem offender os cânones. 

Quando se sobe para o largo da egreja matriz, e 
junto a elle, tornam a apparecer mais vestígios de 
muralha e um mirante, que está hoje branco como a 
<^ara enfarinhada de um palhaço, mas que talvez 
fosse outr*ora um cubêllo da fortaleza, que defendia 
os paços dos senhores de Cascaes. 

Possue hoje a villa a linda avenida Valbom, o 
bello passeio Maria Pia, o tranquillo jai'dim da Pa- 
rada, o solitário Passeio do Visconde da Luz, mas ne- 
nhuma rua pode despertar mais interesse a um my- 
santropo, como eu, do que a calçada d'As8umpçao, 
que tem pedras e doces que faliam do passado, de 
marquezes com marquezado territorial, de galanterias 
e bolos, de amores e conventos, finalmente, de freiras 
<5uja belleza plástica ainda agora é celebrada em 
graciosos monumentos de assucar e amêndoa. 

Cada vez que subo ou desço a calçada d* Assum- 
pção parece-me ter dentro da bocca um rebuçado. 

É o século XVII. 



IV 



Os excursionistas 



Liogo que chega o estio principiam ob jomaes a 
annonciar que tal povoação vae yisitar outra. 

Antigamente viajava uma pessoa; quando muito, 
uma família. 

Agora, na madrugada de cada domingo de veraO| 
accorda uma população inteira ao mesmo tempo, por 
qualquer signal combinado; lava-se á pressa, veste 
fato de passeio, deita raç&o aos cães e aos gatos, fe- 
cha a porta e vae patuscar um dia inteiro com bilhete 
de ida e volta. 

Pode acontecer que algum raro individuo que não 
lê jomaes — ainda os ha, felizarrSes ! — vá procurar 
este ou aquelle cidadão, que partiu com os conterrâ- 
neos para uma excursão de prazer em comboio espe- 
cial. 

Vê todas as casas fechadas, as ruas solitárias. Di- 
Tige-se ao prédio onde reside a pessoa que desejava 



&0 



encontrar. Ninguém responde. Bate a outra porta pa- 
ra oolhêr informaçSes. O mesmo silencio. Vae batendo, 
saocessiyamentei a yarias portas^ até que, do fundo 
de ama alcova, lhe responde um paralytico .* 

— Â populaçSo n&o está em casa. 
Sorprehendido com esta resposta, que ohega a fa- 

zer-lhe medo, porque lhe dá a impressão de pnocntrar- 
se no meio de um deserto, aventura uma pergunta: 
— Mas o que foi fazer a populaçSo? 

— Passeiar. 

— A Pariz? 

— NSo, senhor. Âo Pinhal Novo. 

— Ha lá alguma exposiç&o? 

— NSO| senhor. Foi pagar uma visita, porque o 
Pinhal Novo veio cá outro dia. 

— E quando volta a populaçSo? 

— Esta noite, se o comboio nSo descarrflar. 

— Obrigado. 

— Adeus. 

Recolhe o homem á sua terra, aborrecido, e con- 
trariado por ter de adiar um negocio, talvez impor- 
tante. Conta á familia que n&o encontrou ninguém, 
porque a população tinha ido passeiar. 

— Aonde é que ella foi ? 

— Ao Pinhal Novo, pagar uma visita de ioerimonía* 
Esta revelação não cae em terreno ingrato. Fica-se 

sabendo n'aquella terra que as populaçSes costumam 
agora fazer visitas umas ás outras. O espirito de imi- 
tação — que é, principalmente, o espirito dos portu- 
guezes — traça logo o projecto de organisar uma 



51 



Kcursão de prazer, segando a moda. D'ali a dias 
ambem essa poptdaçSo parte patascamente para um 
egabofes domingaeiroi ficando apenas em casa os pa- 
alyticos e os animaes domésticos. 

Quem por ali passasse, encontraria as roas soli- 
lariasy as portas fechadas ; e receberia a impressSo de 
atravessar um cemitério, se um gallo, senhor absoluto 
ie qualquer quintal abandonado, nSo lançasse por ci- 
ma dos muros o seu canto marcial de sentinella vigi- 
lante da capoeira: 
— Cócorócó. 

Não sei se já repararam que o canto do gallo afi- 
na, no vigor dos tons, pela côr da sua crista : parecem 
ambos vermelhos. 

Às vezes tem a gente a impressSo de que é a cris- 
ta que está cantando. . . 

Como nós, em Portugal, costumamos andar sem- 
pre ao arrepio das nossas próprias conveniências, a 
época adoptada para as excursSes de prazer é o estio 
abrazador, quando o sol parece cravar na terra os 
Beus raios como azagaias ardentes. 

Ê lindo e doce o outono portuguez; dir-se<>hia 
feita de ouro fosco a luz que desce sobre os montes, 
enchendo-os de loira paz e branda claridade. 

Os celleiros regorgitantes e os lagares effervescen- 
tes dão a agradável sensação da abundância e da ri- 
queza da terra. 

Os valles mergulham n'uma tépida placidez, que 
não é a preguiça, nem a moUeza dos dias de estio, 
enervante e espapaçada. 

41 



52 



Sente-se uma pessoa á vontade nos descampados ; 
tem luz sem calor ; respira um ar vivificante, que ro- 
bustece os pulmSes, em vez de os fatigar. 

Mas, por isso mesmo que temos um outono en- 
cantador, costumamos viajar no verSo, sob as gran- 
des soalheiras deprimentes, por entre nuvens de pó e 
de moscas, para irmos regando a terra com o suor do 
nosso rosto. 

Como se já não fosse pequeno inoommodo, procu- 
ramos oatros ainda maiores do que este, inherentes a 
uma viagem de relógio na mSo, com bilhete de ida e 
volta na algibeira. 

Domingo veio de visita a Cascaes, n^estas condi- 
ç8es, a villa de Extremoz, que foi recebida pela ca- 
mará municipal com a amável gentileza, que é o tim- 
bre do seu actual presidente. 

Era meio dia quando o vapor appareceu cortando 
mansamente o claro espelho das aguas dormentes, 
porque a bahia nSlo quiz mostrar-se menos amável do 
que a camará municipal. 

O vento, que costuma ser brutal, nSlo teve ordem 
de sair á rua logo pela manhã. 

Foi uma acertada medida. 

Desembarcaram os habitantes de Extremoz ao som 
de foguetes festivos. 

Bons alemtejanos! ha quanto tempo eu os não via! 
Homens fortes, sadios, de boas cores e boas caras, 
respirando simplicidade e franqueza, que são as ca- 
racterísticas da provincia transtagana. 

Qente habituada ao trabalho rude dos campos, 



53 



qne é excellente escola para a disciplina do caracter 
e o melhor sanatório conhecido para a hygiene do cor- 
po e da alma. 

Muito práticos: de alforge ás costas^ acharia por- 
tátil, que está sempre prompta ; uma borracha com 
agua^ outra com vinho; fato de saragoça, que absor- 
ve o calor e preserva do frio ; chapéo de abas largas, 
que Uvra do sol. 

As mulheres de chaile no braço para o que desse 
e viesse; fresco lenço de seda na cabeça; uma cesti- 
nha na mão, cogulada de queijos e fructos. 

Pergunto a um dos alemtejanos: 

— Â que horas sairam de Extremoz? 

— A uma da noite. 

— Que maçada! Tem somno? 

— De madrugada senti algum ; mas o ar do mar 
Tefrescou-me. 

— Se se deitasse agora, dormiria? 

— Na minha cama, com certeza. 

Na sua cama ! Um alem tej ano, grosso e sadio, não 
podia condemnar em menos palavras a ingente esto- 
pada de se maçar alegremente. 

A (( sua cama j> era como se dissesse — a sua casa^ 
a sua terra, o seu descanso do domingo na paz da fa- 
mília e dos campos. 

Kós outros^ os enervados da cidade, teriamos pro- 
curado logo um quarto de hotel, se não desmaiásse- 
mos antes, o que era muito provável. 

O homem robusto do Alemtejo foi, com os seus 
patrícios, procurar a sombra do Passeio do Visconde 



54 



da JjuZj para assentar arraiaes no chão e comer a 
merenda do seu alforge. 

Mas confessou que dormiria bem, se tivesse ali a 
«sua cama»; e ainda dormiria melhor, se, além da 
sua cama, também tivesse ali a sua casa. 

Comeram em bom portuguez, que os vi eu : em 
vez de pic-mc, chamaram á sua refeição — merenda. 

Depois que li o Tolentino, pintor dos bons costu- 
mes portuguezeSy não tinha ouvido pronunciar este vo- 
cábulo patriótico. 

Em seguida ao repasto^ uma das mulheres, encos- 
tando a cabeça ao tronco de uma arvore, foi cerrando 
os olhos doce e gradualmente. No seu olhar, que se 
apagava em suavidades consoladoras, parecia lêr-se 
esta phrase nostálgica: <Ái Extremoz ! Extremoz!» 

Um velho corpulento levantou-se do chão, sentou- 
se n'um banco, carregou o cachimbo de pau, accen- 
deu-o ; depois recostou-se, inclinou levemente a cabeça 
e pareceu meditar philosophicamente na triste semsa- 
boria que dão as viagens alegres. 

Entretanto, o vento, que não pôde resistir mais 
tempo a uma reclusão forçada, levantou-se de mau 
humor e começou a açoitar as arvores do Passeio e as 
aguas da bahia. 

Perdi então de vista os alemtejanos até ás seis 
horas da tarde^ que foi quando o vapor, que os tinha 
conduzido, deu o primeiro signal de partida, silvando. 

De todos os lados surgiam homens e mulheres de 
Extremoz, correndo para a beira do mar. Os músicos 
sobraçavam os intrumentos e tratavam de embarcar^ 



55 



já perdido o garbo marcial oom que tinham entrado 
em Cascaes. Os botes baloiçavam violentamente; al- 
gumas das mulheres ponham as mios nos olhos, para 
não estontear. A bordo do vapor o vento arrepiava o 
toldo, sob o qual se viam empacotados n'uma grande 
massa negra os chapéus largos dos alemtejanos. 

Dado o ultimo signal de partida, o vapor aproou 
á barra, aos galSes, como um cavallo inquieto, que se^ 
diverte saltando. 

Alguns dos excursionistas tomaram o comboio, par- 
tiram por terra^ porque o alemtejano, que nasceu 
agricultor, gosta mais da terra que do mar. 

D'estes, segundo contaram os jomaes, dois ou trez, 
c[ue compraram bolos doces no Terreiro do Paço, sen- 
tiram-se, a breve trecho, envenenados. 
— Envenenados, como? 

Este numero nSlo estava no programma e alarmou 
justamente a policia de Lisboa, que procedeu a varias 
diligencias. 

Finalmente, descobriu-se como aquelles excursio- 
nistas de Extremoz tinham sido envenenados. 

Sem veneno! A primeira vista, nâo se percebe. 
Envenenados sem veneno ! Mas se a gente deitar con- 
ta a que fora de casa todas as surprezas são admissi- 
veis, mormente n'uma excursSlo de prazer, em que 
cada um se diverte o menos que pode, chega a com- 
prehender que esteja reservado aos excursionistas, 
como remate da festa, um envenenamento platónico 
— para os divertir sem os matar. 



o soneto de Cascaes 



Cascaes é, na poética das praias, uma espécie de 
soneto. 

Pode ter começado mal, mas acaba bem — segun- 
do a lei dos sonetos. 

Agora não sei o que lá se passa, a não ser pelo& 
jornaes, que estão queimando girandolas de adjectivos 
ao noticiar a vida alegre e elegante que se vive n'aquel- 
la praia. 

Mas sei, de sciencia certa, segundo a phrase dos 
tribunaes, como a vida balnear começou ali este an- 
no, e não digo que fosse mal, mas por nenhum modo 
quero dizer que fosse bem. 

O melhor de tudo é contar — tanto mais que apro- 
veitarei o ensejo para fazer uma reclamação. 

Cheguei a Cascaes este anno no dia 16 de julho; 
tarde serena de verão, em que tudo parecia tranquil- 
lo e doce no mar e na terra. 



57 



Ao passar pelos Estorís oomo que tive n'e88a tar- 
de a impressão agradarei de folhear| a oorreri o Al- 
manach das Senhoras. 

Pois nSo é verdade que desde S. João do Estoril 
até ao Mont'Estoril cada chalet é uma pagina de ai- 
manachy que enaltece e glorifica o sexo feminino? 

Todos esses numerosos chaletê da beira mar qui- 
zeram parecer-me outros tantos monumentos de ternu- 
ra domestica, elegantes templos de amor onde a mu- 
lher portugueza recebe publica adoraçSo prestada 
ao seu nome : villa Maria, villa Fia via, villa Guida, 
yilla Aurora, etc. 

Em verdade, um AlmarMch deu S&nhoras^ aberto 
em face do mar, para desafial-o a que dobre a cer- 
viz deante de frágeis creaturas, que fazem genuflectir 
os gigantes e abalar os colossos. 

Já uma vez^ não sei quem, tendo tido a paciência 
de lêr todos os nomes inscriptos nos chalets do Esto- 
ril, chegou ao Hatd de Itália tão preoccupado com 
a leitura, que pediu, por distracção, sopa Leòca- 
dia. 

— Leocadia! exclamou o criado. Sopa Leocadia 
não ha. Só se quizer Juliana. 

— Ah! sim, traga sopa Juliana. Aqui, no Estoril, 
confunde-se a gente com tanto nome de mulher! 

Mas quando eu cheguei a Cascaes, a bahia pare- 
cia um lago azul, que estivesse namorando o lindo 
palmar que hoje contorna a cidadella. 

Capacitei-me de que elSectivamente o mar estava 
€ tomando um gargarejo > com a cara levantada para 



68 



o Passeio Maria Pia, d'onde a palmeira gentil lhe cor- 
respondia em verdadeiro genitivo de galanteio nacio- 
nal. 

E uma vez parecea-me que certa ondasinha volu- 
ptuosa tinha tentado escalar a muralha do Passeio pa- 
ra ir beijar a palmeira. 

Perguntei a um marítimo que esteava encostado ao 
parapeito da muralha : 

— Pôde dizer-me se conhece esta palmeira ? 
O homem do mar sorriu e respondeu : 

— Ora essa ! Conheço-as a todas desde que nas- 
ceram. 

— > Então deve estar bem informado. NSo ha nada 
<jue dizer aos costumes d'esta palmeira ? 

— Aos costumes ? 

— Pergunto se ella sempre se tem portado bem. 

E o homem do mar^ sorrindo^ respondeu com bo- 
nhomia : 

— Nao se me consta nada. 

Então senti brotar da minha alma uma espécie de 
hymno laudatorio das bellas palmeiras de Cascaes, 
tão bellas como puras, apesar de não terem quem as 
guarde de noite. 

E, voltando atrás, perguntei ao marítimo : 

— Acolá no antigo casino ainda servem janta- 
res? 

— Consta-se-me que sim. 

— Adeus, muito obrigado. 

Subi vagarosamente a escada de pedra do casi- 
no, como se fosse a meditar nos pequeninos pés que 



59 



tantas vezes passaram por ali, em noites de luar e 
SQzteto, quando aquillo era casino a yaler. 

Mas, francamente, nSo me lembrei d'is80 ; ia per* 
gontando a mim mesmo, em prosa culinária : Depois 
da prohibição do jogo, que tal se jantará aqui ? 

Trez criados de casaca avançaram para mim como 
disputando a presa. . . d'uma gorgeta. 

— Cáspite ! disse com os meus botSes. A respeito 
de criados está isto muito bem ! 

Emquanto me serviam o jantar, que nSo era mau 
de todo, vi entrar dois francezes que fallaram aos cria- 
dos. 

— Esses senhores querem jantar ? perguntei. 

— Não^ senhor. São da companhia. 

— Qual companhia ? 

— A companhia franceza que representa ás noites 
aqui no theatro do casino. 

— Bravo ! uma companhia franceza em julho ! 
EntSo, em outubro, deve haver companhia de opera 
italiana. Olha lá ! 

E d'ali a um instante perguntei: 

— Muita gente aos espectáculos? 

O criado abriu os braços como se quizesse dizer : 
immensa ! 

Maganão de criado ! que foi de algum modo o meu 
cabrion em quarenta dias de Cascaes. 

Não veiu jantar mais ninguém, o que aliás não 
me importou muito, porque nlU) tenho por costume an- 
dar atrás do mundo. 

Quando me levantei da mesa, disse-me o criado : 



60 



— NSo quer inscrever-se sócio do casino ? Joga-se 
o bridge, o bluff, o voltarete. 

— Não jogo nada. 

— Mas ó aqui onde se reúnem á noite todos os se- 
nhores que estão em Cascaes, e além d'isso os sócios 
teem 50 ^/^ de abatimento nas entradas do theatro. 

— Pois, sim. Serei então sócio. 

E fui inscrever-me pagando a quantia de 4^400 
réis. 

Um cavalheiro francez, gerente da casa, teve a 
amabilidade de me explicar que os 400 réis eram des- 
tinados a soccorros a náufragos. 

— E os 4í5íOOO réis, observei eu, a soccorros aos 
sócios. 

EUe concordou comigo, como eu tinha concordado 
com elle : não ha nada mais bonito do que encontra- 
rem-se dois homens bem educados. 

Á noite fui ao theatro para gosar o beneficio dos 

50 Vo- 

Havia na sala seis pessoas que se divertiam a lèr 

as Novidades. Eu, de vez em quando, contemplava a 

regente, de farta cabelleira preta, typo de artista in- 

comprehendido, que, de batuta na mão, regia com o 

mais vivo entrain os cantores e. . . o piano. 

Mas tinha gestos largos, braçadas de maestro, como 
se estivesse regendo a orchestra de S. Carlos. 

N'um dos intervallos saí para ir tomar ar á va- 
randa de pedra. 

Vi dois sujeitos a jantar com bom apetite. 

E um meu conhecido, que appareceu ali e tam- 



61 



bem quizera tomar ar por estar perdendo ao Uujf , 
6zplÍGoa-me que aquelles dois sujeitos eram os empre- 
sários do restauravAy os quaes, para nSo perder tudo, 
jantavam pelos hospedes. . . que faltavam. 

Homens de espirito e de apetite ! meditei eu. 
Ora, logo no outro dia, começou a soprar um ven- 
to desabrido que arraiava as palmeiras, a bahia e 
até os muros da cidadella, e que durou quarenta dias 
consecutivos — como o diluvio universal. 

Mas, no fim de contas, honrado vento o de Cas- 
caesy que incommoda^ que traz areia e agua á cara 
da gente, sem que todavia constipe ninguém. 

É n'isto, justamente, que está a sua honradez de 
vento forte. 

Não podendo passear de tarde por causa da ven- 
tania, eu esperava encontrar á noite algum entrete- 
nimento na varanda do casino^ protegida por um toldo 
e illuminada por quatro lampeoes pouco brilhantes. 

Durante os primeiros dias, esse criado, que havia 
de ser o meu cábrion^ avançava para mim, muito aza- 
famado, e dizia : 

— O cavalheiro é sócio ? Queira mostrar o seu 
bilhete. 

Grande rat8o! Queria fazer suppôr que, sendo 
muito grande o numero de sócios, elie nâo tinha tido 
ainda tempo de fixar a phjsionomia de todos. 

Os sócios nâo passavam de vinte e trez. Quasi to- 
dos jogavam. Raros vinham sentar-se na varanda, 
onde eu — rebelde ao sacrificio de tornar ao theatro 



62 



— passava as noites a vêr os pharoes da barra e a 
ouvir gemer o mar. 

No dia seguinte, quando eu voltava á varanda, 

corria para mim o mesmo criado e perguntava : 

— O cavalheiro é sócio ? 

Tive de lhe dizer uma noite que se me tornasse a 
perguntar pelo bilhete, desistia de ser sócio e manda- 
va o casino ao diabo. 

Chegava o varino gordo com os jomaes da noite e 
eu corria logo para casa, contente de os poder ir lâr 
entretendo-me algum tempo. 

Quasi sempre ao recolher ouvia a distancia a voz 
áspera do Pêra assada gritando o seu eterno estribi- 
lho : 

Olál Olá! 
Gá está o Pêra assada. 
Viva a bella rapaziada. 

Eram dez horas da noite. 

Aproveitarei, como disse, o ensejo para fazer uma 
reclamação. Tendo dado 4^000 reis para firmar os 
pés, durante algum tempo, n^uma pedra da varanda 
do casino, julgo ter comprado essa pedra e reclamo-a 
como propriedade minha. 

Espero ser attendido : porque não era natural que 
por tal preço m'a quizessem apenas alugar. 

Finalmente, foi assim que principiou Cascaes este 
anno, que o vi eu e experimentei — sabendo-o, por- 
tanto, de sciencia certa. 



63 



Agora houve nada menos que uma semana de 
festas pomposas e a seguir uma toirada» 

Quer dizer que vae acabar o soneto com chave de 
oiro e que offectivamente, na poética das praias, Cas* 
cães é uma espécie de soneto. 

Julho a outubro de 1900. 



III 



A CIGARRA 



Nunca me pareceu que as fabulas fossem um pro- 
veitoso meio de educação. 

Quando a gente as lê na infância, não as encara 
senão pela graça que possam ter no exterior; não at- 
tinge a philosophia de que devem estar recheiadas. 

Âdeantada a vida, não são precisas fabulas, por- 
que sobejam como lição as realidades. 

A mais popular de todas as fabulas, a que certa- 
mente mais dá no goto das creanças, é a da cigarra 
e a formiga. Pois bem ! considero-a perigosa para a 
infância, em vez de ser moralisadora. 

Deixa no espirito dos pequenos um certo encanto 
pela vida bohemia da cigarra, vadia e palreira, que 
não trabalha e passa o tempo cantando sem cuidados. 

Essa agradável impressão fica na memoria como 
a combater o aborrecimento da vida real, em que o tra^ 
balho é lei. Tem o valor de uma iguaria fina que appa- 
reoesse n'um jantar de Sparta, cujo menu diário era 



66 



apenas o caldo negro. Sente a gente vontade de se ati- 
rar á iguaria e de deitar pela janella fora o caldo negro. 

E quando já se passou o meio dia da vida e ouvi- 
mos cantar a cigarra na copa de uma arvore, quando 
já estamos fartos de trabalhar, cansados de viver ar- 
rastando migalhas para o celleiro, folga a gente de 
encontrar essa velha cigarra sempre moça, cantante 
e bohemia, que nSo tomou nunca a vida a serio e, com- 
tudo, vai vivendo sempre. 

A formiga faz -nos então lembrar um agiota, que 
facilmente se teria entendido com a cigarra, se che- 
gassem a entrar definitivamente n^um ajustesinho de 
dez por cento ao mez. 

A desgraça da cigarra veio de não ter offerecido 
juros taludos á formiga, porque logo obteria o emprés- 
timo que desejava. Desgraça ? qual desgraça ! A ci- 
garra continuou a cantar á porta do agiota, sem se 
importar muito com a recusa, e lá se foi governando 
de modo que nem ella, nem os seus descendentes mor- 
reram de fome. 

N'um dia d'esta semana ouvi muitas vezes a ci- 
garra e declaro francamente que senti uma agradá- 
vel impressão, semelhante á de ter encontrada um 
veUio bohemio incorregivel, que eu conheci na minha 
infância, e que continua a ser ainda tão alegre como 
eu próprio era então. 

Comecei a ouvil-a nas quintas do Lumiar, ás sete 
horas da manhã, e confesso que atirei para trás das 
costas os cuidados da vida para me eni^var n^oase 



67 



canto estridulo e forte, que parece dar a convicção 
de que se não pode cantar assim sem se ser feliz. 

Quando o trem descia a calçada de Carriche, pa- 
recea-me que uma cigarra me dizia do alto de uma 
arvore junto á estrada : «Olá ! és tu ! Como estás ve- 
lho ! Tens então trabalhado muito, pateta ! Tens saú- 
de? Não. Estás rico? Também não. O que lucraste 
em maçar-te? Eu estou nova e contente, continuo a 
ser feliz, a despeito da moralidade do sr. de Lafon- 
taine e quejandos fabulistas. Manda-os á fava e canta 
como eu, se queres passar o resto da vida alegre- 
mente.» 

Senti, é certo, uma tal ou qual inveja d'essa ci- 
garra trocista, que dava piparotes na memoria de 
Lafontaine, e respondi-lhe com Anacreonte cantando 
por minha vez : 

Feliz cigarra, invejo te! 
Pousada lá nos pincaros 
doestas folhudas arvores, 
que bem que tu has de estar I 

Gotta de orvalho mínima 
te sobra de Gastalia ; 
que do Parnaso aos cânticos 
desbanca o teu cantar. 

Por associação de ideias lembrou-me o velho O* s- 
tilho, que traduziu do grego estes versos e que, tendo 
trabalhado afanosamente durante muitos annos, aca- 
bou por dar ouvidos á cigarra, cujo canto lhe aligei- 



68 



rava os fastios da vida, as desillusSes e achaques da 
velhice. 

Em 1853y Castilho recommendava o trabalho, 
como sendo a máxima felicidade do homem ; até lhe 
consagrou um hymno, como se o fizera a qualquer di- 
vindade : 

Trabalhar, meus irmãos; que o trabalho 
é riqueza, é virtude, é vigor. 
D*entre a orchestra da serra e do malho 
brotam vida, cidades, amor. 

Em 1862, quando já estava ralado de canceiras 
e desgostos, deliciava-se em ouvir cantar, n'um meio 
dia de julho, a primeira cigarra de Anacreonte na 
copa da sua olaia. 

Quer dizer : tinha regressado em espirito á infân- 
cia, como eu, como todos os que se sentem fatigados 
de trabalhar, melhor ou peior. 

E Lafontaine havia perdido o seu tempo como 
moralista. 

Na Povoa de Santo Adrião, logarejo fértil e gra- 
cioso, que constitue uma freguezia do concelho de 
Loures, ia eu lendo um jornal, que vinha ensombrado 
de apprehensSes sobre a peste bubonica. 

— Safa ! commentava eu. Morrer como um devas- 
so, que se estragou por alcouces, deve ser a maior das 
semsaborias, porque a menor é decerto a morte sem 
babões. 

E, de repente, no arvoredo de uma quinta, res- 
pondeu-me uma cigarra cantando : 



69 



— Não leias jornaes, mea tonto. Eu nlo ob leio 
nonca^ e sou contente. Fez-me um grande favor a for- 
miga em me recusar o empréstimo que lhe pedi, por- 
que se m'o tivesse feito, talvez eu agora estivesse rica 
e caisse todos os dias com os meus dez réisinhos para 
ler qualquer jornal, que sempre vem desconsolar a 
gente com a noticia de alguma desgraça. Assim, nSo 
leio e não me ralo. Pobrete, alegrete. 

Fez-me bem o conselho. Atirei o jornal pela por- 
tinhola do trem e nSo tomei a pensar em peste bubo- 
nica. 

Quando cheguei a Loures, viUa cheia de lojas, 
onde deve haver muita gente que compre, visto haver 
tanta gente que vende, parou o trem para dar des- 
canso aos cavallos, e apeiei-me por um momento no 
meio d'aquelle vasto empório saloio, que envergonha 
todas as villorias dos arredores de Lisboa. 

Não ouvi cantar cigarra nenhum^, mas encontrei 
mn lojista a ler a Pátria da véspera. 

— O senhor vem de Lisboa? perguntou-me elle 
parecendo um pouco preoccupado. 

— Agora mesmo. 

— Já lá está a peste bubonica ? 

— Não, senhor. Está no Porto. Tem-lhe medo ? 

— A fallar verdade tenho algum^ porque as epide- 
mias são redes de arrastar. 

— Olhe, respondi-lhe eu pagando uma caixa de 
phosphoros, disse-me ali uma cigarra que o melhor 
era não querer saber de coisas tristes. 

O tendeiro de Loures ficou a olhar para mim, ea^ 



70 



tupefacto, julgando talvez que eu não estava em per- 
feito juizo. 

Metti-me no trem, mandei bater, e todo o meu 
desejo era tornar a ouvir cantar a cigarra, que, effe- 
ctivamente, parece ensinar á gente que não vale a 
pena ralarmo-nos com coisas tristes. 

Mas a civilisação de Loures tem uma dilatada área 
de acção, que afugenta as cigarras e admitte os jor- 
naes. 

Só quando avistei o Zambujal, lindo grupo de 
casas e arvores reclinado n'uma encosta, foi que tor- 
nei a ouvir cantar a cigarra, e alegrei-me. 

Estavam lavando n'um riacho algumas lavadeiras, 
que não me pediram noticias da peste bubonica. 

Davam ouvidos á cigarra, que as ia divertindo, e 
não queriam saber de desgraças, 

O sr. de Lafontaine mordia o beiço, despeitado . 

Quando chegei a Bucellas, terra de bom vinho, já 
caia muita calma. Eram dez horas da manhã. Não 
ouvi cigarra nenhuma. 

Atravessei rapidamente a villa, onde notei um co- 
reto para musica levantado n'um airoso rocio. 

— Ha aqui, disse-me eu, uma philarmonica, mo- 
tivo por que as cigarras fogem de Bucellas. 

Uma senhora de sombrinha branca ia em passeio. 
Disseram-me que era de Lisboa, e estava a ares. 

Adquiri então a convicção de que Bucellas, em 
virtude do seu contacto com a civilisação alfacinha, 
era menos feliz do que as povoações que apenas go- 
sam no verão a musica das cigarras. 



— Não tarda algaem a pergtmtar-me pela peste 
bobonica, disse eu com os meus bai-^es. 

Fui almoçar, regando nm firan^ ass^o coni o 
bello vinho branco da localidade. 

Foi a primeira vez que o bebi. . . na origem. 

— Ora entào, disse-me algaem na casa de jantar, 
como o sr. vem de Lisboa, ha de saber alcuma c>?isa 
da peste babonica . . • 

— Ah ! sim, sabia, mas já me esqueceu. Uma ci- 
garra disse-me no caminho que nào me ralasse com 
isso. 

—Quem?! 

— Uma, cigarra. Não foi uma; foram duas. Xào 
foram duas; foram muitas. 

— O senhor está gracejando ! 

— Nâo estou. Pois já lhe constou que as cigarras 
deixassem de cantar para quererem saber o que vae 
pelo mundo ? Bem fazem ellas ! 

— Mas o peior foi quando a cigarra quiz comer 
no inverno e a formiga não lh'o emprestou. 

— Sabe se a cigarra morreu de fome? 

— Isso nao sei. 

— Nem eu, mas creio que não, porque se lhe ti- 
vesse acontecido essa desgraça, as cigarras que lhe 
succederam não teriam vontade de cantar. 

Quando eu vinha de retorno para Lisboa, fumando 
um cigarro, tomei a ouvir a cigarra. Apesar da cal- 
ma, achei que a vida não era do todo má entre uma 
cigarra e um cigarro, porque ambos convidam ao so- 
nho e a realidade da existência não presta para nada. 



Segundo uma BaperBtiçSo popular, a cigarra nasoe 
da saliva do cuco ; quer dizer, o estio Buceede & pri- 
mavera. Um 6o de baba prende uma á outra as duas 
eBtaçSeâ maia alegres do anno. Pris3o tenuiBaima, que 
O menor aopro de vento pode quebrar. 

TSo &agil é a alegria na terra ! 

à cigarra l«m carradas de raz^ para não tomar 
a vida a sério. 

ÃgoBto de 1899. 




IV 



o TERMO DE LISBOA 



Esta expressSo^ Termo de Lisboa, tSo vulgar no» 
tempos antígosy está reduzida hoje a fazer-se lembrar 
apenas no rótulo de alguma garrafa : Vinho do Termo, 

Pois outr'ora ninguém se referia por differente mo- 
do aos arredores saloios da capital, vasta região cam- 
pestre que, segundo Luiz Mendes de Vasconcellos, 
media dez léguas de comprimento, desde Torres até* 
Cascaes^ e cinco de largura; ou que, na opinião de 
João Baptista de Castro, ia desde Oeiras até Santiago 
dos Velhos, na extensão de nove léguas, medindo de 
largura pouco mais de trez. ^ 

O que é certo é que Lisboa sempre mostrou dar 
grande apreço aos seus amplos subúrbios, hoje em 
parte cerceados pelo desdobramento da cidade, que se 
foi abairrando e dilatando á custa do arrabalde. 

Frei Francisco Brandão, na Monarchia Lusitana^ 
para encarecer os arredores da capital, diz, em 
ou quatro linhas, o mais que ui^ historiador sisudo^. 



74 



•como elle foi, pode dizer : <r Por todo este termo de 
Lisboa tinham os reis de Portugal suas quintas, e ca- 
sas de recreação, convidados da bondade do sitio, que 
por todas as partes merece ser buscado, e habitado...» 

O Padre Carvalho, na Corografia, em maior liber- 
dade de acção, inflora louvaminhas que entram pelos 
domínios da Poesia, a saber: aGlorie-se embora Pre- 
neste, e Alexandria com suas rosas, Tunes com seus 
cravos, Pérsia com as açucenas, Babylonia com as 
suas boninas ; que a esta cidade e seu termo deu a 
natureza em deposito todas as jóias com que se enfeita 
A Primavera, quando a favorece o brando Zephyro, 
e a variedade de flores, com que pinta Flora seus ta- 
pizes.» 

Apesar de não ser esta a época do anno em que, 
no sumptuoso salão da Primavera, Zephyro e Flora 
dançam o Pas-de-quatre, vamos, aproveitando o bom 
sol de inverno, dar uma pequena volta por a fecunda 
região de Bucellas, que não é o sitio menos famoso 
do celebrado Termo deNLisboa. 

E, como ponto de partida, escolhamos o Freixial, 
para dar o seu^a seu dono. 

Porque ei^ verdade o Freixial ó de todos os lega- 
res da freguezia de Bucellas o mais gracioso e ame- 
no. Vem descendo por uma encosta sob pittoresco ar- 
voredo. Casas brancas sorriem á luz do sol, que as 
aquece e esmalta. Ao sopé da povoação, um riacho, 
muito enconchado entre sombras, serve de oflScina e 
soalheiro ás lavadeiras do logar. 

Nos arredores de Lisboa, poucos sitios haverá tão 



75 



deleitosos e attraentes. £m pleno estio deve ser en- 
cantador. N*um limpido dia de inverno, como foi o 
de hontem^ dava uma profunda sensação de felicidade 
campestre. 

Qae saudável paz a de uma branca aldeã solitá- 
ria para quem tem de viver, enfastiado, no seio de 
uma cidade populosa ! 

£ como uma válvula de segurança, qae de vez 
em quando é preciso abrir para respirar melhor e 
retemperar a vida. 

Continuando a seguir a estrada que de Bucellas 
vai á Ericeira, encontro, mais alem do Freixial, o 
logar da Chamboeira, com a sua venda clássica, a 
venda da tia Brígida. Um alpendre offerece resguar- 
do aos machos dos almocreves, porque para os almo- 
creves a caridade bem entendida começa pelos seus 
machos. E* como se se tratasse d^elles mesmos, sal- 
va a alma : sâo o ganha-pâo, a ferramenta do offi- 
cio, ou, como diria o sr. Carrilho, o orçamento da re- 
ceita. 

A tia Erigida, já durasia, mas bem conservada, 
vem fazer os seus cumprimentos ao medico que me 
acompanha. 

Ficou-lhe grata por a ter curado de uma pneumo- 
nia grippal. 

— Você não morreu, diz-lhe o medico, porque 
n'e8te sitio ninguém morre com menos de oitenta an- 
nos. 

E, para justificar a sua asserção, o medico apeiou- 
se do trem, e foi ver um enfermo octogenário, que 



76 



terá de marchar d'esta feita^ por já haver chegado á 
conta. 

Depois seguimos jornada. Passados uns vinte mi- 
nutos, disse-me o medico : 

— Bepare n'este casal pintada de azul, e n'aquelle 
homem que anda a concertar o muro, 

— Porque ? 

— É o Casal do Coelho. 

— Mas que tem de notável ? 

— Já foi theatro d'um crime abominável, que 
aquelle homem ajudou a praticar. 

— Não sabia. 

— Pois não leu nos jornaes a historia do assassínio 
de um brazileirOy que tinha relações amorosas com 
a mulher d'este Casal, e que ella attraiu aqui uma 
noite para o roubar de combinação com o pae e o ma- 
rido? Mataram-n'o todos trez, e enterraram-n'o na 
horta. 

— Tenho ideia, sim, mas pensei que esse crime 
havia sido commettido no concelho de Mafra. 

— Justamente. O concelho de Mafra é, n'este si- 
tio, limitrophe com o de Loures. 

— Mas este homem^ que foi cúmplice no homicí- 
dio, já anda em liberdade? 

— Comquanto o jury fosse mixto, absolveu-o. A 
mulher teve não sei que pena leve ; o pae d'ella foi que 
apanhou maior condemnação. 

E reparei que o homem do Casal do Coelho con- 
tinuava, muito tranquillamente, a concertar o seu 
muro. 



77 



Se terá remorsos ? Nenhuns. 
O conselheiro António d' Azeredo, director da Pe^ 
nítenciaria Central, conton-me uma vez que em dois 
mil presos que lhe teem passado pela mão, apenas en- 
controu um que manifestou remorsos. . . ephemeroe. 
Era um homicida. Na primeira noite de Peniten- 
ciaria começou a gritar. Dizia elle que em tal dia, a 
essa mesma hora, tinha praticado o crime : via o mor- 
to, ou o seu espectro perseguidor. Na segunda noite 
já dormia bem^ e na terceira ainda dormiu melhor. 
O homem do Casal do Coelho contou, muito natu- 
ralmente, n'uma taberna de Bucellas, a historia do 
crime. 

O brazileiro tinha relações com a sua mulher. 
Nunca o marido se incommodou com isso. Mas um 
dia achou que lhe conviria tirar o maior partido pos- 
sível d^aquella situação obnoxia. Feito com a mulher 
e o sogro^ engodou o brazileiro ; apanhou-o dentro de 
casa, no seu próprio leito conjugal : tirou-lhe todo o 
dinheiro que levava e, com o auxilio do sogro e da 
mulher, matou-o, e foi enterral-o na horta. 

Pois na taberna, depois de absolvido, o homem 
contava isto como se se tratasse apenas da chacina de 
um cevado. 

Também António de Azevedo me disse um dia 
que, apresentando-se-lhe na Penitenciaria um crimi- 
noso recemchegado da província, lhe perguntara qual 
era o seu crime. O preso respondeu : «Roubo.» An- 
tónio de Azevedo replicou «Nâo pode ser. A tua pena 
é superior a esse crime. ]> O criminoso, dando uma 



78 



volta ao barrete, explicou : a Não que elle houve re- 
sistência. i> 

Quer dizer : o roubado reagiu, e o ladrão assassi- 
nou-o. 

Tudo matéria corrente, segundo a theoria dos cri- 
minosos : tão natural era o roubado reagir, como o 
ladrão matal-o. Não havia outra coisa a fazer. 

O saloio é brutal no crime. A comarca de Mafra 
o tem provado, ultimamente, com uma eloquência 
odiosa. 

Deixei, pois, o homem do Casal do Coelho a con- 
certar o seu muro, que a sua consciência j i elle tem 
bem concertada. Sobre esse criminoso de hontem ca- 
bia um sol loiro e puro, o lindo sol de inverno, no 
nosso delicioso paiz. Mas não lhe penetrava a con- 
sciência, que deve ser dura como um escodão de pe- 
derneira. 

Chegamos ao Valle de S. Gião, que tem o que 
quer que seja de paizagem minhota. Basto arvoredo 
ensombra choLets modernos. Cruzam-se ali duas es- 
tradas n^uma espécie de rotunda elegante. Os acci- 
dentes do terreno, muito variados, dão vida e alegria 
ao sitio, sorriem aos olhos, deleitam o espirito. 

Em geral, o concelho de Loures está bem servido 
de estradas, cuja conservação deixa, porém, muito a 
desejar, como acontece em todo o paiz. 

Seriam precisos 4:000 contos de réis para reparar 
o descalabro da nossa viação publica. E, comtudo, o 
actual ministro das obras publicas, não obstante todos os 
aeus bons desejos e esforços, apenas pôde dispor para 



79 



esse fim, no corrente anno económico, de 400 contos. 
Teve de redazir-se á decima parte da verba necessá- 
ria. £ mna gotta d'agaa no oceano. Nào se pode ser 
ministro com taes finanças. 

Fomos subindo para a Cabeça de Montachique, 
onde se tem procurado conseguir o .tratamento da tu- 
berculose pelo ar. Mas o clima é húmido, o terreno sai- 
broso, e a altitude, em relação ao nosso paiz, nao é 
Bufficiente. Não subi á Cabeça, -d'onde se avista, se- 
gundo me informaram, Lisboa e o Tejo. Atravessei, 
porém, a povoação, e vi de relance o hotel, que tem 
uma vasta cerca annexa, mas a que certamente fal- 
tam condições seguras de prophyllaxia, sendo a locali- 
dade, como é, tão frequentada por tuberculosos. 

Em todo o percurso avistei grandes manchas bran- 
cas, de roupa lavada seccando ao sol. Aqui vêem pa- 
rar, a este vasto domínio das lavadeiras saloias, todos 
08 segredos da toilette alfacinha, todas as misérias vi- 
siveis das doenças occultas. Disse não sei quem, creio 
que foi o pae Dumas, que não havia grande homem 
nenhum que se não amesquinhasse deante do seu cria- 
do de quarto. Pois deante de uma lavadeira ainda é 
maior o aviltamento da espécie humana : quem lava 
a nossa roupa tem na sua mão a chave dos nossos se- 
gredos mais recônditos. 

A agua, tão abundante n'estes sitios, canta o hymno 
do trabalho saloio. Alimenta uma larga industria, que 
se mantém florescente, mas rebelde a todos os pro- 
gressos da mecânica moderna. As lavadeiras, baten- 
do a roupa no rio, estimulam a sua actividade sol- 



80 



tando de vez em quando gritos selvagens t- Ui, td — . 
Tudo é primitivo no exercício doesta industria, tão in- 
timamente relacionada com a vida da população de 
Lisboa. 

Não deixa de ser curioso que o vinho e a agua^ 
inimigos irreconciliáveis^ se dêem amigavelmente as 
mãos para beneficiar a região dos saloios. 

Tem grande fama o vinho do Termo, o vinho pro- 
duzido em toda esta mesma região, tão propicia á vi- 
ticultura. 

Exactamente aqui, a par da videira, rebenta a 
corrente : nascem rios de vinho e de agua. É esta a 
dupla riqueza do Termo de Lisboa, a origem das suas 
mais copiosas fontes de receita e prosperidade. 

Abençoada seja a previdência da natureza. 

Passo n'um logarejo, que se chama a Torre da 
Bezoeira, e mais adeante encontro a povoação dos Ca- 
sainhos, certamente diminutivo de casaes, que alem de 
serem pequenos, são poucos. 

Âo sopé de um muro alto vejo sentadas em linha 
sete pessoas, tomando o sol. São cinco velhos e duas 
velhas. Por sophá o granito ; por brazeiro o calor so- 
lar. Já provavelmente fizeram a chronica do dia. Mos- 
tram-se admirados de ver passar duas pessoas desco- 
nhecidas. É mais um assumpto, dois assumptos talvez. 
Quem serão aquelles que ali vão? ao que vieram? 
d^onde vieram elles? Como o saloio ó sempre descon- 
fiado, ficaria pensando o soalheiro que era gente da 
justiça, que vinha para de algum modo inquietar o 
povo. O que for soará. O sol era bom, desannuveado, 



81 



apesar de estarmos em dezembro. E emquanto o pau 
vae e vem, folgam as costas. Pois d'e8ta vez pode fol- 
gar a yélhada de Casainhos, porque da passagem 
d^aquelles dois desconhecidos não virá mal nenhum ao 
legar. 

Mais adeante, á porta de um casebroi uma crean- 
ça^ papuda e corada^ com um lenço vermelho atado 
na cabeça^ tomava o sol sentada no berço. 

Os extremos tocam-se. A velhice e a infância for- 
talecem-se com a mesma droga medicinal : a luz e o 
calor que vem do céo. Misture e mande : e é Deus que 
08 manda. De mais a mais esta botica é gratuita e 
universal ; e os saloios não gostam de pagar a ninguém, 
principalmente ao boticário e ao medico. 

Foram sem conta os cães que, durante toda a ex- 
corsão, arremetteram, sanhudos, contra a nossa carrua- 
gem. O cão saloio é uma fera em plena natureza. La- 
dra e morde, e ás vezes, em conformidade com o rifão, 
morde sem ladrar. É raro encontrar um saloio que 
não tenha sido já mordido por algum cão ; mas dos 
cães bravos é que elle gosta. Se algum lhe mordeu, 
inspira-lhe confiança, porque morderá também as ou- 
tras pessoas. 

Um canzarrão assim é que convém. 

FanhSes, que fica a pequena distancia de Casai- 
nhos, tem prédios novos, alguns d^elles muito garridos. 
O nome d'esta localidade já chegou aos palcos dos thea- 
tros de Lisboa. Eu vi na Trindade Um casamento em 
FarMeSy mas em FanhSes não vi nenhum casamento. 
O que eu vi foi o enterro de uma creança. Fez-me 

6 



82 



impressão ver morta aquella pequena creaturinha; cu- 
jos louros cabellos o sol fazia reverberar. Não pude 
nunca explicar ao meu espirito a morte de uma crean- 
ça. É um livro que não passou do primeiro capitulo, 
e Deus não costuma produzir obras incompletas^ nem 
imperfeitas. 

È para sentir que esta povoação tenha um nome 
duramente nazal, sendo o seu aspecto agradável. Ou' 
trás localidades do Termo de Lisboa condecoram-se 
com nomes brandamente femininos : Friellas, Odivellas, 
Bucellas. Aqui soa o mais aborrecido dithongo da lín- 
gua portugueza, e de mais a mais no plural. Francamen- 
te, o que eu achei de peior em Fanhoes foi o nome da 
terra. Se a chrismassem, talvez me resignasse a viveria. 

Assim, não quero, porque não gosto. 

A carruagem começou a descer na direcção do Tejo, 
e d^ahi a pouco tempo estávamos em Pinteus. 

Este nome ganhou foros litterarios, porque duran- 
te alguns annos viveu em Pinteus a sr.* D.* Maria 
Amália Vaz de Carvalho. 

Ali se reuniu, por vezes, uma corte de poetas. 

Ali cantou Thomaz Ribeiro em 1866 : 



Brindo á musa d*estes bosques ! 
brindo ao seu estro divino I 
brindo ao próspero destino 
que Deus conceda ao seu lar ! 
a seus pais ! á irmã formosa, 
coração de fina essência ! 
á familia — providencia 
dos povos d*este logar t 



83 



O palacete^ onâd a sr.* D.* Maria Ámalia residiu, 
tem aspecto nobre^ oito janellas de frente, brazSo de 
familia, terraço, e portão. 

Na encosta £ronteira alvejam as yelas de alguns 
moinhos de vento. 

Entre o edificio e a encosta corre, saltando sobre 
(^Ihaas, o rio de Pinteus, que as lavadeiras frequen- 
tam. 

O logar é pequeno, insignificante, mas bem pare- 
cido na sua amena solidão. O seu nome, porém, já 
não esquece mais, por causa d^aquelle palácio, que 
poetas celebraram em homenagem á escriptora illustre 
que o habitou. 

Descendo sempre, viemos ter alguma demora em 
S. Julião do Tojal, povoação que é aviventada pela 
fabrica de papel da Abelheira. 

Ha dois Tojaes, Santo Antão e S. Julião. 
Este ultimo tem o movimento que lhe provém da 
fabrica, porque as industrias solidamente creadas pas- 
sam sobre as povoaçSes como um sopro de vida, que 
se espraia ao largo. 

O papel da Abelheira — quem me dóra no tempo 
em que eu o ouvia apregoar no Porto por vendilhões 
ambulantes ! — o papel da Abelheira, que deve ter 
feito muito mal á humanidade como todo o papel, fez 
bem ao Tojal, de S. Julião, ao Tojal, de Santo Antão 
e até ao Zambujal, onde também recrutou operários 
e operarias. 

O gerente da fabrica é inglez, e tem a sua casa 
de residência junto ao Zambujal. Vivenda principesca, 



84 



com largas fachadas^ e lindos jardins adjacentes. 
Sente-se o bom gosto britannico ali: na escolha do 
local, pittoresco e abrigado ; na sóbria elegância do 
edifício ; no grave desenho dos jardins. 

Assim, pode viver-se n'iima aldeia. Os inglezes 
sabem viver em toda a parte. 

Com o cair da noite aguçava-se o frio. O nosso 
trem rodava agora para Bucellas, onde nos esperava 
o jantar. A estrada vae acompanhando a ribeira do 
Trancão, memorada n'um Fado saloio de que apenas 
conheço quatro versos : 

Deu Bucellas ua facada 
Na ribeira do Trancâo* 
Acudiu-lhe a Ponte Nova, 
Camarate e Appellacão. 

E foi assim que, no dia de hontem, eu puz termo 
ao Termo, terminando. 

12 de dezembro 
de 1901. 



MAFRA 



Na placidez do arvoredo 

Parecerá talvez que estando eu em Mafra^ d'onde 
escrevo, nSo terei a dizer coisa que já nSo tenha sido 
dita e redita. 

Pois nSo é tanto assim. 

As terras são como as pessoas : a sua physionomia, 
posto que seja conhecida, nem sempre nos impressiona 
do mesmo modo. 

Uma sombra de desgosto ou um clarão de alegria 
altera muito um semblante ; assim também uma nu- 
vem que passa no ar ou um raio de sol que desce 
do ceu altera consideralvemente o aspecto da paizagem 
e dos edifícios. 

Ha choupanas que, em determinado momento, pa- 
rece sorrirem ; palácios que em determinadas occasi5es 
dão vontade de chorar. Pelo que respeita ás florestas, 
nem sempre nos causam a mesma impressão: umas 
vezes, quasi nos esmagam de melancolia; outras ve- 



86 



zeS; convidam a uma doce meditação^ que tem o que 
quer que seja de sonho . . . 

Quando a gente chega a Mafra, nâo vê senSo o 
real edifício. Esbarra com elle na rua ou á janella ; 
08 seus torreões são como duas bossas de pedra, que 
trazemos ás costas e cujo peso nos opprime. Quando 
nos sentamos á mesa do jantar, é preciso beber um 
trago de agua para engulirmos o real edifício, sem o 
que não poderíamos começar a comer. Quando á noite 
nos deitamos, temos o cuidado de fechar bem a janel- 
la para que o monumental convento não possa chegar 
ao nosso quarto.de cama e asphyxiar-nos. 

Pois bem ! Outro dia dizia-me um cavalheiro de 
Mafra : 

— Ha muitos annos que não vejo o real edifício. 

— Como assim?! 

— Não olho para elle ; nem sequer me lembro de 
que existe. 

Eu não cheguei ainda a esta afínação, mas vejo-o, 
durante o dia, de muitos modos differentes. 

Se o carrilhão está tocando — o que n'esta época 
do anno acontece frequentes vezes, porque todos os dias 
aqui chegam visitantes — parece-me. que a pedra do 
edifício é menos dura, sobretudo muito menos negra. 

Ouvindo a valsa do Fausto tangida em vários si- 
nos, dão-me os torreões a impressão de serem duas 
tartarugas que desatam a bailar com mais alegria do 
que elegância. Tal é o poder da musica, que os anti- 
gos souberam representar nos mythos de Orpheu e 
ÂmphiKo. 



rt 



87 



Cuido entSo que D. João Y chega, de grande ca- 
belleira e casaca de seda, a uma das janellas, mostran- 
do-se ao povo de Mafra sorridente e frascario, dispos- 
to a passar facilmente do minuette para a valsa. 

Sinto-me tentado a perguntar-lhe cá de baixo : 

— Vossa magestade fidelissima quer dançar? 
E julgo ouvir em resposta : 

— Quero, sim. A valsa é muito mais alegre que 
o minuette. Provoca, arrasta, embriaga, e para o meu 
temperamento não é preciso tanto. Mas falta-me a pra- 
tica de valsar. Precisaria uma dama com quem tives- 
se a certeza de acertar o passo. Olha, vae a Odivel- 
las e dize á madre Paula que venha dançar comigo. 
Não te demores . . . 

— Perdão, real senhor ! Eu não sou d^esses que 
fazem recovagens amorosas. 

— Mas tu conheces as minhas amantes, recenseas- 
te-as escandalosamente n'um livro, que eu tenho dei- 
xado correr mundo sem te mandar cortar a cabeça. 
Mais que ninguém me deves obediência. 

— E verdade ! real senhor. Já me tinha esquecido 
essa tolice que eu fiz, e que requer certamente uma 
grande expiação. Estou ás ordens de vossa magestade. 

O carrilhão continua tangendo a valsa do FauatOj 
lançando do alto das torres uma onda de alegria mun- 
^ua que inunda a povoação somnolenta e patriarchal. 
Ao fundo da rua Serpa Pinto ^ sobre o azul da «villa 
velha», os pinheiros parece ondularem docemente n'um 
íythmo de valsa. Os dois torreões andam á roda, aca- 
chapados como tartarugas, sob a suggestão impulsiva 



da musica. E el-rei D. JoSo v fica á janella desejoso 
de vêr-me partir para Odivellaa e regressar em breve 
com a freira. 

Quando o carrilhão não se faz ouvir, quando, prin- 
cipalmente, 88 melaa tintas do crepuscalo da tarde 
Tão apagando os contornos do ediãoío, quando o ar- 
voredo da Tapada principia a converter-Be □'ama 
grande massa negra e informe, a gente, se tem de re- 
colher-ae a casa, volta-se muitas vezes para trás com 
receio de que o real edifioio nos venha seguindo como 
um papão tenebroso. 

E segue, porque é muito grande e parece estar 
em toda a parte dentro da villa. 

— Fechem a porta depressa. 

— Porque ? 

— Forque vem ahi o real edifício e pode quero* 
entrar. 

Desde, porém, que a gente consiga, á força de ha- 
bito, como o cavalheiro a quem ha pouco me referi, 
perder o medo á grandeza do edifício, deva viver-se 
excellentemente n'uma villa onde o vento é uma forto 
vassoira aérea, capaz de varrer myriades de micró- 
bios, se elles tiverem o atrevimento de chegar cá. 

Domingo, por excepção, gosou-se aqui uma noite 
serena, e algum tanto calmosa. 

 porta da Baoamza pSde conversar-se até de- 
pois das onze horas. 

O sr. dr. Thomaz de Mello Breyner, que n'estó 
ar purissimo pretende desfazer-se de umas sezíSes tei- 
mosas, exclamava: 



89 



— Isto parece a noite de S. JoSo em Mafra ! 
Que importa que estivéssemos a trez de setembro? 
O S. Jo^, se tivesse vindo de Lisboa a pé, e encon- 
trasse raparigas pelo caminho, nSo poderia chegar a 
Mafra mais cedo. . . 

Trez de setembro, uma bella noite, serena e quen- 
te. A Havaneza illuminada, portas abertas de par em 
par, grupos conversando em cadeiras, ao ar livre. 

O Garrett não acreditava na civilisaçSo das terras 
que não tivessem botequim. A Havaneza não é pro- 
priamente um botequim ; mas é mais do que isso e 
melhor que isso. Tem jomaes, refrescos, tabacos, bi- 
jouteries, publicações e baralhos de cartas. 

A villa de Mafra deve tudo a dois homens, por- 
que sem elles não poderia existir no passado e no pre- 
sente. A el-rei D. João v deve o real edifício, primi- 
tivo núcleo da actual povoação ; ao sr. Taveira Finto 
deve a real Havaneza, menos pomposa é certo, mas 
não menos prestadia á vida local de Mafra. 
Um edifício defrx)nta o outro. 
E é de vêr a galhardia com que a Havaneza^ pe- 
quenina como um camarote de paquete, se perfila sem 
altivez nem baixeza deante do monumento, parecendo 
dizer-lhe com dignidade : cc Os edifícios são como os 
homens — não se medem aos palmos.» 

K'um recinto da Tapada a que aqui dão o nome 
de Cerco, e que não é outra coisa senão a antiga cerca 
dos frades, ha longas ruas abobadadas de verdura, 
verdadeiros túneis de arvoredo onde o sol não consegue 
entrar, por mais agudas que sejam as suas flechas de 



90 



oiro. Assim as ruas estivessem mais bem tratadas, var- 
ridas e limpas. 

Âs grandes arvores, formando extensas aléas, 
sempre me deram uma funda impressão de serenidade 
6 paz. Não sei se ás outras pessoas acontece o mesmo. 
Mas estou capacitado de que o maior desgraçado obe- 
dece mais facilmente ao aspecto de uma floresta tran- 
quilla do que aos conselhos de um amigo ou aos 
raciocinios de um philosopho. 

É que as grandes arvores são grandes philosophos 
e excellentes amigos. 

Todas as tempestades do mundo se quebram de 
encontro aos velhos troncos annosos, couraçados de 
musgo. A maior dôr humana é frágil vidro quando 
vae bater contra um cedro secular. Parte-se em bo- 
eadinhos^ desfaz-se em pó e a gente^ se levanta os 
olhos para o arvoredo^ acha que tudo o mais é mes- 
quinho e vil. 

Aqui, no Cerco da Tapada, a sombra é doce, 
porque é profunda. É mais consoladora do que um 
livro de moral. Chega uma pessoa a dizer comsigo 
mesma : ccSe eu tivesse nascido arvore, seria mais fe- 
liz por certo.» 

E a serenidade do arvoredo é tamanha, tão supe- 
rior ás luctas do espirito humano, que as arvores nem 
sequer se dão ao trabalho de responder-nos affirmati- 
vamente. E, comtudo, no vasto arvoredo da Tapada 
Real também ha luctas tremendas. 

Outro dia assisti eu a uma : dois milhafres perse- 
guiam arteiramente um bando de gaios. 






91 



O milliafrei com ama só bicada na cabeça de 
qualquer passarinbo, p5e-lhe os miolos ao sol. 

Dízia-me um caçador, emquanto eu seguia muito 
attento as rápidas manobras de defeza por parte dos 
gaios e de ataque por parte dos milhafres : 

— Os estorninhos sSo de todas as aves as que me- 
lhor se defendem do milhafre. Enovelam-se, redemoi- 
nham, giram em turbilhão á roda d'elle, formando um 
compacto núcleo de defeza, que desorienta o milhafre. 

O bando dos gaios, cortando rapidamente o ar, 
voou, fugindo, na direcção da segunda Tapada — por- 
que ha nada menos de trez— e os dois milha&es, se- 
guindo-os a grande altura, apenas esperavam o mo- 
mento de cair a fundo sobre as suas victimas. 

Outro caçador dizia-me : 

— Aqui também apparecem algumas águias, de 
arribação. O mez passado vi eu uma que levava um 
coelho pendurado no bico. 

— Pouca vergonha ! exclamei eu. De mais a mais, 
ainda então era tempo defeso ! 

Mas, reflectindo um momento, lembrei-me de que 
também entre os homens o direito da força esmaga a 
força do direito. 

É a linguagem das grandes potencias a respeito 
das nações pequenas. Tu és coelho e eu sou águia. 
Agora mesmo, n'este momento^ o Transvaal está sendo 
um coelho, e pairando no ar, a Inglaterra, águia dos 
mares, prepâra-se para cair sobre a presa. 

Sentado á sombra de um alto plátano ergui os 
olhos e perguntei a essa linda arvore : 



í-iT.' 



92 



— Qae te parece, ó plátano : os boers saberão de- 
f ender-se ? 

Caía com a sombra uma grande paz sobre o meu ; 
espirito» \ 

N'isto tangeu de novo o carrilhão, para goso de í 
novos visitantes. i 

— Diacho! exclamei eu. El-rei D. João v está á 
espera, e ainda nSo parti para Odivellas ! 

É que tudo o que não seja puro e innocente es- 
quece á sombra dos grandes arvoredos. 



n 



D. João V 6 a velha do Casal 



O meu despertador acaba de accordar-me. São cin- 
co horas da manhSL. 

Ha dez dias que um enorme bando de pardaes, 
moradores na frondosa acácia que defronta com a ja- 
nella do meu quarto, se encarrega de despertar-me, 
com a sua alegre chibreada, ao nascer do sol. 

Não me íncommodam nada^ absolutamente nada, 
estes folgasãos visinhos, que não 'dizem mal de nin- 
guém e parece dizerem bem de Deus ao romper da 
manhã e ao declinar da tarde. 

O provérbio : «Se fores a Roma sê romano», dir- 
se-ia feito exclusivamente para meu uso. Não fui nunca 
um revoltado ; accommodo-me facilmente ás circum- 
stancias em que me encontro, ao trabalho ou á ociosi- 
dade, ao bulicio ou á solidão e não sei se diga também, 
porque supponho que é verdade, á abundância^ á 
parcimonia. 



94 



Tenho d^isso provas seguras, que me permittemi 
estabelecer deânitivamente a minha psychologia. 

 visinhança de uma pardalada revolta^ que não 
pede licença a ninguém para fazer barulho, pôde tal- 
vez horrorisar a distancia o leitor alfacinha, habitua- 
do a nSLo ver amanhecer senão nas operas que em S. 
Carlos mettem aurora. 

A mim, pelo contrario, agrada-me esta visinhança 
alegre, cuja vida observo de perto com vivo interesse. 
Creio que em Lisboa também ha pardaes. • . de cha- 
péu alto. Mas os authenticos, que esvoaçam e chilriam, 
moradores n'uma arvore de que não pagam renda, só 
agora os tenho tido por visinhos e acho-os preferíveis 
ao piano lisboeta, que nos accorda com a marcha da 
Cádiz ás nove horas da manhã. 

Hontem ao fim da tarde vi-os recolher a casa, 
quero dizer, á sua acácia frondosa, em grupos de cin- 
co ou seis. Vinham de «governar a vida» nas searas 
dos lavradores, que são a mesa do orçamento dos par- 
daes. Voltavam alegres, cumprimentando-se uns aos 
outros com expansiva satisfação. Folgaram juntos, 
saltitando de ramo em ramo. Parecia dizerem cantan- 
do: «Boa noite, boa noites». D'ahi a pouco o sol des- 
apparecia; e os pardaes adormeceram. 

Quem tivera visinhos d'estes em Lisboa ! 

Agora, ao romper da manhã, primeiro que eu ou- 
visse o toque da alvorada na Escola Pratica de Infan- 
taria, os ouvi a elles, que me diziam cantando do 
alto da sua copada acácia : «Bom dia, bom dia». 






95 



Ainda não houve n'e8te mundo despertador mai» 
amável ! 

E logo qae eu abri a janella e mergalfaei a cabeça 
no ar picante da madrugada^ os pardaes, convencidos 
de que tinham prestado nm serviço de boa visinhan- 
ça^ partiram para a sna vida, também aos gmpos de 
cinco ou seis, em direcção ás searas, onde me parece 
que foram almoçar. 

Bom apetite, visinhos. E comtado a acácia frondo- 
sa, muito empennachada de plumas verdes, subindo 
sobre os telhados, parece-me uma casa deserta, chega 
a fazer-me tristeza. 

Mas olhem lá. . . Que diacho virá fazer este par- 
dal desgarrado que, suspendendo o voo em frente da- 
acácia, como que se mostra surprehendido de já nSo 
encontrar os outros? 

Âh ! é talvez uma visita que vem da Tapada Real. 

Aproveito a occasiâo de ser amável por minha vez, 
e grito para cima : 

— Os senhores não estão em casa. 

O pardalito canta e eu julgo entender que elle me 
diz: 

— Sairam ha muito? 

Respondo immediatamente, sentindo não o poder 
fazer por musica : 

— Ha meia hora talvez. 
Nova pergunta do pardal : 

— Para onde foram, sabe? 

Felizmente estou habilitado a dar uma indicação* 
wgura : 



96 



— Na direcçSo de noroeste. 
E o pardal^ maito ingénuo : 

— Ah ! já sei ! E' uma boa seara. Agradecido. 

— Nao tem de quê. 

Foram-se os pardaes por algumas horas e nSo tar- 
darão a chegar novos enxames de vespas, que nunca 
as vi em tamanho numero como n'esta nobre villa de 
Mafra. 

Nos primeiros dias extranhei, mas já vou estando 
habituado ás vespas, tanto é certo que facilmente me 
faço romano de qualquer Roma. 

E, aproveitando as circumstancias, tenho repara- 
do na estructura da vespa, que é inquestionavelmente 
um animal elegante, de um primoroso desenho de 
formas, bonito até, embora possa morder a gente, o 
que aliás nos acontece ás vezes com outra espécie de 
animaes bonitos. . . 

A locução — cintura de vespa — não ó uma fabi- 
dade semelhante, por exemplo, ao canto do cysne mo- 
ribundo. Tem propriedade e verdade. A vespa parece, 
realmente, ter nascido para dançar a valsa com quaes- 
quer animaes do mesmo tamanho, sendo facilmente 
cingida pela cintura. Anda sempre espartilhada, e o 
seu vestido, brilhante de reflexos de ouro, faz lembrar 
o de uma princeza que, nascendo na opulência, é tão 
amimada, que só gosta de coisas doces . . . 

— Mas qual será o chamariz de tantas vespas ? 
tenho perguntado eu desde que estou em Mafra. 

— São as uvas. 

Ah ! são as uvas, porque teem assucar. E, com 



97 



«ffeito, sobre os cachos pendentes das latadas esYoaçam, 
zumbindo^ numerosos enxames de vespas, que fazem 
lembrar um rancho de príncezas a saborear golos de 
creme em pequeninas taças de nácar. 

SalomSo disse coisas moito bonitas á SolamitCi mas 
esqueceu-lhe uma : se lhe tem dito que todas as yêspas 
deveriam querer mordel-a^ haver-lhe-ia chamado a 
mais doce das creatoras. 

Eu bem sei que muita gente só yâ na yêspa o 
liTmenóptero que nos pode ferir, causando-nos uma 
dôr aguda ; que se chama vespa a uma pessoa de ge- 
mo intratável ; e que na antiguidade houve o terrível 
cnpplicio de untar com mel o corpo de alguns pade- 
centes, a fim de que as vespas os procurassem e m^ 
dessem, d'onde proveio a locução— me vndem — para 
•auctorisar uma affirmaçSo que se faz sem receio de 
^r punido ou desmentido. 

Mas nSo procuremos apenas os defeitos de certas 
•qualidades. Tudo tem, compensaçSes n'este mundo, e o 
querer encontral-as é meio caminho andado para ser- 
enos quanto possivel felizes. É certo que a vespa nos 
pode dar uma ferroada — quem é que a nâo dá? — 
"lA&B, em compensação, deu-nos algumas phrases, que 
enriquecem o nosso vocabulário ; 
Cintura de vespa : 
Ferroada de vespa ; 
Me melem se eu. . . 

Ha muita gente que nos morde mais e não nos deu 
Ainda coisa nenhuma. 

Que não nos dêem^ mas que ao menos nos não ti-> 

f 



$s 



y6M nada : fftl ^ à tfkiíAa ($hiIòM^1á e á d'aqtsiell« 
Veiàá^ de qiie «è éonfía mn^ len^^ qm m jalg«> rêdÊK 
l^r iik l^àdlçftò atei cMíi pritttek^ tflSo. 

Na segunda Tftpftd», flòbre tMâ éolina, vêem-sé^ 
ainda hoje as paredes ái¥tiiíiàdá« d'iílii antigo prédio. 
É 6 Ca^ol do Abbaãe. Porque se dbama ásnm, não 
éei^ nefíi aqui ò dizem. Mas ás Imdàs sSo sempre mai» 
attraentes quando envolvem utft poiícoohiiilio de mjs^ 
ferio. 

N'esse casal vivia ém tempo de D. JoS&o v um» 
velha. Seria a ama canónica do abbado; que lhe sobre- 
viyesãe e d'elle hefdasse um farto pé de meia. 

Estava ella muito bem descansada no seu casal, ao 
qual a prendiam decerto recordaçõ^ agradáveis da epo- 
ea em que o abbade florescera na robustez da juventude.. 

Mas el-reiy a troco de ter suooessSo, fizera voto 
de mandar edificar um grande mosteiro com muita» 
terras ao redor. Yel-o ali, o mosteiro colossal, que pôde 
resistir ao grande tei'^*emoto do século xviii. 

Essas terras tinham dono, e era preciso adquiril-as- 
por meio de tranisacçSto amigável ou expropriação 
forçada. 

Um dia el-rei D» João v foi pessoalmente ao Ca- 
sal do Abbade com o .propósito de entrar em ajoste^ 
acerca da compra. 

A velha fartou-se de dizer (tréial senhor, real se- 
nhor», como quem quer doirar a pillula, mas nãò ha- 
via meio de a 6onveiicer a alienar o casal. 

Tudo eram mesuras, gestos de humildade, palavras 
doces «meu senhor, real senhor», mas queria muito ao 



99 



sea casal para yendel-o a quem quer que fosse, ainda 
mesmo sendo o rei. 

O senhor D. JoSo v nSo era pessoa que recuasse 
em questões de dinheiro. Achava barato o que aos ou* 
tros parecia caro : o carrilhão de Mafira, por exemplo. 
Portanto^ deixando-se ir ao sabor do seu génio magnâ- 
nimo^ disse á velha, por ultimo : 

— Vende-me o casal, que eu dou-te um barrete 
cheio de peças. 

 velha olhou muito humilde para o rei e com 
um sorriso, que parecia tecido de ironia e doçura, res- 
pondeu curvando a cabeça : 

— Fois, meu senhor, para que vossa magestade 
me nào queira tomar o casal, sou eu capaz de lhe 
dar. . . doas barretes cheios de peças. 

^ao diz a tradiyão como o caso veio a liquidar-se : 
certamente seria por expropriação violenta, tão vio- 
lenta que alguns proprietários apenas foram indemni- 
Bados bO annos depois. 

Mas n'aquelle dia el-rei D. João V, o Magnânimo, 
ficou de cara á banda, porque uma velha lhe resistiu, 
quando as novas não ousavam fazel-o. 

São sete horas da manhã. Um raio de sol bem cla- 
ro cai sobre a minha janeila, pondo uma poeirasinha 
de ouro no meu tinteiro de crystal. Como n'um coche 
doirado chegou n'esse raio de sol a primeira vespa 
que hoje me visita. 

Pensam talvez que vou perseguil-a para que me 
nSo morda ? Qual ! 

Vou admirar-lhe mais uma vez a cintura. 



m 



Um Papa em Mafra 



Encontrei-me outro dia com um Papa. 

— Quantos ha então ? perguntará o leitor. 

— Um 8Ó^ que já lá vae o tempo dos scismas. Gro- 
yema Roma sem Avinhão. Mas é certo que me encon- 
trei ali abaixo^ na Villa Velha de Mafra, com o Pa- 
pa João XXI. 

— Que trapalhada essa ! 

— Tudo se explicará conversando. Sabe o leitor 
que o Papa João xxi era portuguez ? 

O leitor — todo inchado como um académico da 
rua do Arco a Jesus : 

— Sei muito bem, sim senhor. 

— Nem outra coisa era de esperar... Também 
sabia decerto que nasceu em Lisboa, na freguezia de 
S. Julião, durante os primeiros vinte annos do século 
xin. 

— Levou então vinte annos a nascer? 

— Perdão ! respeitável leitor, propenso á chalaça» 



101 



Quero dizer qtie nascen na segunda década d^aquelle 
secnlo, sendo incerto o anno. 

— Qaeira prosegoir. 

— Era íilho do medico JaliSo Rebello; e depois de 
ter estudado em Lisboa, foi a Paris cursar medicina» 
como o pae. Quando voltou á pátria. . • Por que nSo 
hei de eu agora imaginar aqui um romance ? 

— Se lhe dá gosto, imagine. 

— Muito obrigado. Amores mal correspondidos em 
Fariz ou Lisboa — seria crivei este romance se o eu 
imaginasse — fariam talvez que renunciasse á profi»- 
são paterna e tomasse ordens sacras. O caso é que se 
ordenou e veiu parochiar a humilde egreja de Santo 
André ena Mafra. 

— A Villa Velha? 

— Exactamente. Pode imaginar-se o que seria en- 
tão essa modesta povoa, de origem mourisca. Desap- 
pareceram já todos os vestigios do castello: até o 
nome de uma rua que lhe denunciava a existência ^. 
Querem alguns que a mesquita fosse convertida n'um 
templo christSLo, como em tantas outras partes. Se 
assim foi, não sei ; mas o que ahi está hoje de pé é 
mna pequena egreja de portas ogivaes, singela e gra- 
ve, que ao fim da tarde o sol poente doura com os 
seus últimos darSes. Foi ao subir os degraus do adro 
que eu encontrei o joven vigário. 



^ Era a rua chamada de Traz-do-Gastello, que através^ 
sava da rua do Meio para a rua do Paço do Marquez. 



PwíCuntei-Uie ee ettava contente oooi a sna pftpo- 1 
chia. Beapondea qne rim ; que nSo tinha maln nem l 
maiorea flmbÍQ8e§. SoÍB protegido pelo bispo de Lisboa 
jnnto de el-rei — lhe disse eu — e portanto ireia a me- 
lhor destino. 

— Maa tndo isao nSo paaaa de aonho. . . observa ' 
o leitor. 

— Poia é apenaa aonhando que ae pode conversar 1 
com OB mortoa. Eu perguntei-lha se tendo naacido em 
Lisboa e vivido em Paríz, nSo sentia alguma hora 
saudades do mundo. Concentrou-se por instantes, como 
quem tem no fundo do peito um segredo intimo, e res- 
pondeu tranquillamente : t A solidito dá menos desen- 
ganos qne o mundo ; TÍre-se melhor na solidão.» 

— Lá está você, exclama o leitor, a querer archi- 
tectar o romance dos amores mal correspondidos ! 

— Que não será verdadeiro, mas é verosimil. Um 
rapaz, na ílor dos annos, que podendo seguir outra pro- 
fissão, para s qual estudou, muda repentinamente de 
rumo e se faz padre, é por força beroe de um roman- 
ce mallogrado — um romance de amor desventoroso. 

— Mas que disse maia o vigário? 

— Que vinha de paaaeiar no Alto ãa Vda, que 
era o sitio, então solitário, onde hoje está edificado o 
convento. Talvez oa moiroa tivessem ahi construido 
alguma atalaya. Veja o que aão os tempos I No aecolo 
— " "'■ moradores da antiga Mafra vinham passeiar 

solidão da Feia, como os habitantes da villa 
se querem encontrar a solidão, v£o procurar 
\ Velha. E não é preoiso chegar lá para uma 



1«3 



pessoa poijer considerar-ae tr^to • 4Ó, Queoa deaoendo 
pela r^i^ da Boavista aabir pola ma dQ Serpa Pinto, 
terá feito a voUa 4o9 tríãtes^ ogmo aqtv disem boJ9, 
apesar de transitar por entre duas filias de predipa \^ 
bitadoa. ilaa o aitip ^ meLanQoUQo e aileacioao e fcyp 
como panno de fundo o mar e os pinheiros, que aSo fi 
expressa dolorida da paiaageni portagueza. Pedro 
Jalião disae-me que ia fazer a oração do Angdwi e 
recolher-se depois ao preabytexÍ0| porqne aa suaa nok^ 
começavam quando o sol morria. Qae boa noite voa dê 
Deus Nosso Senhor, respondiJhe eu, mas sempre vçf^ 
quero dizer que, joven e protegido, nSo vos demora- 
reis aqui por muito tempo. Diz-me o coração que, coça 
o auxilio do bispo D. Matheus e de el-rei Affonso lu, 
ireis subindo altos cargos, ao oardinalato e ao pontifi- 
cado, talvez. Pedro Julião sorriu incrédulo e pergup- 
tou irónico: «E* uma prophecia?» Eu tomei-lhe de 
prompto : cQue duvida ! Ninguém é propheta na aufi 
terra, mas a minha terra não é esta.» 

— E acertou ! 

—«Acertei. Pedro Julião saiu de Mafra para sor 
thesoureiro*mór d|i Sé do Porto. Depois^ perlustrandP 
^versas honrarias eccleaiasticas, foi arcebispo de Bra- 
ga, cardeal, e papa com o nome de João xki. Se cUe^ 
no Bolio pontifício, ae lembraria alguma vez da sua 
Qiodesta egreja de Mafra ? Sabe o leitor que ainda ha 
cresta villa uma vaga maa errada tradição a resp^itp 
^'aquelle pontifica? Dizqm que nasceu no arrabi^d^ 
^onominado Oabeçoa, quandp ó o^to i&r nascido ei|i 
Lisboa. 



104 



— Viveria lá sendo parocho da Villa Velha. 

— Eu sei I Mas tSo longe da sua egreja ! E tal- 
TeZ| porqne as tradiçSes teem sempre por fundamento 
alguma coisa de verdade, embora desfigurada. Não 
foi Pedro JuliSo, porém, o unioò presbytero que, prin- 
cipiando a sua carreira em Mafra, chegou a uma ele- 
Tada posiçSo ecdesiastica. O patríarcha de Lisboa 
D. Ignacio aqui exerceu o cargo de capellão da er- 
mida dos Mortaes. Mal poderia sonhar então com o 
chapéu cardinalicio, tanto como Pedro Julião com a 
thiara. 

Ora n'aquelle dia, depois de me ter despedido do 
Papa João XXI, parei a olhar para o antigo paço do 
marquez de Ponte do Lima. Diz-se ainda que de uma 
janella do palácio, fronteira á porta da egreja, costu- 
mava o fidalgo ouvir missa. Achando a porta aberta, 
entrei. Percorri todas as casas ; estive no quarto do 
marquez, que tinha alcova e fogão. O rodapé de azu- 
lejo está menos mal conservado ainda. Passei á ca- 
pella, onde encontrei um retábulo em barro, que seria 
fácil restaurar, e alguns santos mutilados, apeados no 
chão. Depois, pensando na decadência das familiar 
illustres, metti caminho abaixo, tomando gosto á soli- 
dão do sitio. 

Apenas encontrei um saloio, em que fiz reparo. 

Os saloios de Mafra deixaram perder as oôre» 
garridas dos seus antigos carapuços, que eram azues 
e encarnados : aquelles, tendo ás vezes uma orla de 
-feltro vermelho ; estes, de feltro branco. Hoje o bar- 
rete é geralmente preto e monótono, dando logo á pri' 



105 



mdra yista a impressão de que, Bob esse Tesgaardo 
negro, fuitcciona um eerebro refractário a todas a» 
ideias extranhas á ooncentraçSo obstinada na ganhnça 
e na avareza. 

A faixa também é negra e sempre foi. 
As cores vivas, que são dynamogeneas, a que cor- 
respondem sentimentos fortes e pensamentos estima- 
lantes, desappareceram absolutamente do trage saloio^ 
Outr'ora^ qualquer que fosse a estação, na zina 
do verão ou no coração do inverno, o saloio usava, 
em todos os actos solemnes, um capote azul de capuz^ 
extenso. 

I^ra a sua casaca de grande gala para casamentos* 
e baptisados. 

Quando no real edifício de Mafra esteve o Colle- 
^0 Militar, um anno, pelo carnaval, os alumnos, 
que não seriam menos de duzentos, correram a ovos- 
de cheiro e esguichos de bisnaga um bando de saloios, 
vinte ou trinta, que vinham assistir a um casamento. 
A saloiada, para salvar os capotes, fugia a pés de- 
cavallo n'uma grande afflicção de medo e os rapazes 
foIi3es, experimentando os seus brios militares, deram* 
lhes uma carga a fundo, varrendo o terreiro n'um 
momento, a ponto de se não saber mais dos noivos,, 
dos padrinhos e convidados. 

Calcule-se o desespero do saloio, se o bello capote- 
Azul apanhou alguma gemmada. Mas, no correr do 
tempo, o capote desappareceu sem ninguém o extin- 
guir. 

Ficou o carapuço negro, ficou a faxa negra, fica- 



106 



vam as calças esticadas, tfto cosidas ás formas do cor*- 
pOy que pódc suppor-se que os saloios já nasçam dç 
^ças. 

O relógio do convento bateu sete horas, fazendo-99 
ouvir ao longe. Retrocedi, vim subindo para a Mafra 
moderna, e entSo deu-me de rosto o convento, que ro- 
l>uçava o enorme vulto nas primeiras sombras da noi- 
ie, preparando-se para dormir. 

— O que vale o saloio vivo, perguntei eu a mim 
mesmo, ao pé do frade morto ? Foi o convento qu9 
fez a villa actual : ella nHo é senão o que elle foi. Por 
isso o frade vive ainda e viverá sempre na memoria 
do povo de Mafra, porque o convento será eterno. 

Tenho ouvido contaj varias historias dos frades, 
nunca as procurei com tanto interesse como agora. 

Quando elles aqui estavam, quem recebia as carp- 
ias no correio eram umas senhoras^ a cuja casa os 
destinatários iam buscar a correspondência. 

Tinha acabado de chegar a Mafra um frade no- 
vo, que foi ver se haveria carta para elle. 

— Então, sr. frei José, perguntou-lhe uma d'aquelr 
las senhoras, que tal lhe parece, a nossa villa ? 

— Minha senhora, sempre é uma terra que princi- 
pia por v,k I 

A resposta não agradou e o frade recebeu em tro- 
-co este epigramma : 

— Quall O peior que ella tem é acabar em F£a! 
Boa esgrima, não ha duvida. 

Dos frades de Mafra conta lord Byron n'uma cart# 
^ sua mãe, que lhe perguntaram, mostrando-lhe a 



107 



bibliotheca do convento, se os inglezes também tinham 
livros no seu paiz. 

Os escriptores deixam-se arrastar em toda a parte, 
até nas cartas familiares, pela mania de a fazer espi- 
rito. » 

Lord Byron reconhece a illustração dos frades de 
Mafra, quando diz que fallaram com elle em latim, 
lingua em que se puderam entender com o seu illus- 
tre visitante. 

Sabiam latim e ignoravam que na Inglaterra hou- 
vesse livros ! Custa a engulir. Mas também, diga-se 
a verdade, n^o se engole mais facilmente aquella pro- 
sápia de lord Byron trazer o latim na ponta da lingua 
para o papaguear com toda a gente que não sabia 
Mar a lingua ingleza . . . 

E, a respeito de prosapias, eu antes me quereria 
com os frades do que com os inglezes . . . 



IV 



A Tapada Real 



Outro escriptor inglez, Thackeray, refere-se, n^um 
dos seus livros, á etiqueta seguida na tapada de Ma- 
fra quando aqui vinha caçar o marido da rainha Dr 
Maria ii. 

Vai isto ha tSo pouco tempo, que muito novo seri 
quem puder dizer que nSo se lembra, de ter visto el- 
rei D, Fernando de Saxe Coburgo Gotha, alto, quasi 
esguio, de pêra e bigode, cabellos negros e annelados^ 
um allem^o que o não parecia, porque nem era louro, 
nem branco, nem rosado, nem gordo. 

O príncipe consorte, como lhe chamavam os do- 
cumentos officiaes, interessando-se pouco pelos negó- 
cios públicos, porque era esse o seu dever e o seu tem- 
peramento, repartia o tempo entre a cultura das bellas 
artes, o bric-à-brac, o theatro de S. Carlos, o castello 
da Pena, que foi um producto da sua phantasia de ar* 



109 



tista, e a eqaitaçSO| as caçadas e o amor clandestino^ 
qae o obrigava a certas cautelas, porque a rainha D. 
Maria ii, comquanto fosse depositaria do cofre das 
£raçasy não era para graças em coisa nenhuma — es- 
pecialmente no ciúme. 

Todo o principe tem obrigação de saber caçar, 
embora com mais apparato do que peiicia. É uma 
tradição realenga, que vem, entre nós, do tempo de 
D. Affonso Henriques, o qual mandou construir no 
Louriçal uma torre para ahi se recolher quando mon- 
teava n'aquella região. O paiz não estava ainda arro- 
teado, de modo que a caça brava era abundantissima 
por toda a parte. Havia ainda o urso, o uãso como 
então se dizia, cuja carne os caçadores saboreavam 
eom prazer. 

D. Diniz esteve para ser victima de um urso em 
Beja. 

Este rei foi dos que mais se dedicaram á caça ; 
até no seu testamento se occupa de assumptos vena- 
torios. 

Affonso IV tanto se afervorou no prazer da caça, 
que lhe advieram d'ahi censuras e desgostos. 

D. Pedro i foi grandemente inclinado a este exer- 
cício, no que o imitou o filho, D. Fernando o Formoso, 
que, segundo a expressão de Fernam Lopes, era mui 
caçador e monteiro. 

No principio da monarchia as caçadas podiam di- 
^r-se combates perigosos, que requeriam muita segu- 
ranga no ataque, principalmente na defeza ; os hábitos 
^ costumes da corte, ainda rudes e fragoeiros, nHo ti- 



tm 



nbam reoelÂdo o Torniz da pragmática, que fei a mae 
do palaoianiamo requintado^ 

Maa, no deoorrer dos séculos^ as oaçadaB reae» 
perderam a sua primitiva asperesa, cenverteram-se 
em passatempos inoffensivos, e a etiqueta da corte 
auctorisou o principio de que mais valia deixar esca- 
par-se uma lebre do que ter um rei de atirar-lhe sem 
as devidas cerimonias. 

A este facto allude Thackeray com a sua habitual 
ironia, escreven^o^ segando a traducção de Fernandes 
Costa: 

«Houve alguém que me disse que, n'um reino on- 
de o marido da rainha é de origem germânica, — deve 
ser em Portugal, porque a rainha doesse paiz casou 
com um principe allemão, que conquistou a estima e 
a admiração dos naturaes do reino; — contaram-me^ 
repito, que todas as vezes que o real esposo se entre- 
ga ao prazer da caça na matta de Cintra ou nas re- 
servas de faisSes de Mafra, vai acompanhado por um 
criado que lhe carrega'^ espingarda, como natural- 
mente deve ser, mas que esse guarda a apresenta em 
seguida a um fidalgo, oíficial ás ordens do principe, e 
que esse fidalgo a entrega então ao mesmo principe, 
o qual depois de haver atirado, restituo a espingarda 
descarregada ao fidalgo, que a passa em seguida ao 
guarda, e sempre da mesma forma; mas nunca o 
principe pegará na espingarda das mSos d^aquelle que 
a carrega. Tanto tempo quanto for aquelle em que se 
deixem subsistir estas incríveis monstruosidades da eti- 
queta, tanto será o tempo em que ha de haver snobs. 



111 



^1 



porqae as trez pesaoaa que desempenliatt o»da uma a 
seu papel na sce&a qoe acabamos de eontar, rik>| £ga- 
86 O que se disser, snobs.» 

£l-Bei D. Pedro v, respeitador das formulas oons- 
titaeionaeSy se bem que propenso por índole a um ab- 
solatismo temperado de bondade e melanoolia, queren-» 
do seguir a esteira democrática do avô aboliu o beija- 

A força de vontade e cuidado, procurou regular 
os seus hábitos democráticos de modo a tomar-se po- 
pular^ o que em verdade conseguiU| especialmente de- 
pois das epidemias. Sendo bom caçador, alterou de 
facto a pragmática das caçadas, e o snobismo a que 
se refere Thackeray, desappareceu. 

El-Rei D. Luiz, caçador habilissimo, seguiu o 
exemplo de seu irmSo. A verdadeira paixão yenatoria 
não consentiria a nenhum caçador ter de esperar pela 
espingarda para atirar a uma peça de caça. E aquel* 
le bondoso rei era caçador de ccajícton». Tanto zelava 
a integridade das suas regalias cynegeticas^ que ra* 
rissimas vezes concede^ auctorisação a um estranho 
para caçar nas Tapadas da Coroa. Uma d'essas aucte- 
risaçSes honrou a pessoa do marqaez Oldoini, minis* 
tro:de Itália em Portugal. NSLo sabemos de qual diplo- 
viata, que obteve concessão idêntica, se conta em 
Mafra o seguinte : 

O carregador, indicando-lhe uma peça de caça, 
passava-lhe a espingarda. O diplomata punha a lu- 
Qeta, pegava na arma e, quando ia a mettel-a á cara, 
dizia4he o carregador: 



112 



— Já lá vai I 

Muito gravemente, o diplomata exclamava : 

— Foi o que lhe valeu I 

El-rei D. Carlos^ actual soberano, tendo levado a 
«democratisaçl&o da Oorôa ainda mais longe que oa 
seus immediatos antecessores, e sendo um cultor apai- 
-xonado de todos os géneros de spart^ especialmente 
^a cjnegetica e da halieutica, caça com o enirain de 
um verdadeiro caçador, que não desaproveita um mo- 
mento nem uma peça para os sacrificar a coisa ne- 
nhuma, especialmente á etiqueta. 

O director das caçadas reaes em Mafra é o sr. 
Hemeterio de Barros e Vasconcellos, atirador perito. 

Elle e seu irmão Eduardo de Barros e Vasconcel- 
los são caçadores ao serviço effectivo da Casa Real. 

El-rei, que possue a memoria feliz de todos os Bra^ 
panças, sabe o nome dos caçadores e até o dos cães 
que elles costumam trazer ás caçadas. 

Mais ainda, lembra-se do pedigree de cada cSo, 
sendo frequente ouvir-lhe dizer, por exemplo : 

— Â tua cadella, ó Bentp Lopes, não chega aos 
^calcanhares da mãe. 

Um dos caçadores auxiliares, o Zé Quintas, 
da Murgeira, certo nas caçadas de Mafra, tem am 
estribilho grosseiro para annunciar cada peça de 
caça. 

As caçadas de caça meuda realizam-se na 1.* ta- 
pada. 

Disposta a linha dos atiradores, el-rei, coUocado 
ao meio da linha, é seguido por dois carregadores e 



113 



mais trez homens que conduzem os cartuchos de chum* 
bo e bala. 

Esses dois carregadoros altemam-se no senriço de 
4ârregar as espingardas de el-rei, armas de calibre 
16 ; uma que el-rei dispara, outra que entretanto lhe 
preparam. 

Na 2.* tapada e na 3.* abunda a caça grossa, 
mas o terreno da 2.* é mais grato aos caçadores. 

Para este ultimo género de caçadas, costuma el- 
lei ir de carruagem até ao CelebredOí sitio magnifico 
para espera. 

Sua magestade apea-se ahi. Os caçadores, de an- 
temão dispostos em circulo, vem apertando o cordão, 
batendo a caça, logo que el-rei chega. O senhor D. 
€arlós espera nos azerves a passagem dos yeados. Não 
atira ás gamas, e não gosta que os outros caçadores 
lhes atirem. 

Quem percorre a tapada em carruagem, o que é 
permittido a todos os visitantes, pôde por seus pro* 
prios olhos certificar-se da grande copia de veados que 
ali ha; muitas vezes acontece irem correndo em ar 
^e folia adeante dos trens ou saltarem de um para 
K)atro lado da carreteira, por susto ou folgança. Fora 
^a tapada, quem desce em carruagem pela linda es- 
trada que de Mafra conduz ao Gradil^ vê dezenas de 
cervos empoleirados sobre os rochedos, como a esprei- 
tar corioBos o que se passa extra-muros. 

Ultimamente vieram de algures para Mafra nove 
porcos montezes, para aclimação e reprodacção. O ja- 
vali é por emquanto novidade em Mafra : um casal 



114 



e«tá isolado em pocilga, a pequena distancia do real 
edifício. 

Antes de sair para a tapada ou no regresso cos- 
tuma el-rei subir aos terraços do convento para atirar 
aos pombos, que ali fazem creaçSo nos respiradouros 
das sentinas. O signal de alarme é dado por um ebo- 
calho, que vibra dentro dos pombaes e faz sair os 
pombos alvoroçados. 

Os que morrem, e s^ muitos, abastecem nos dia& 
seguintes o rancho dos sargentos da Escola Pratica de 
Infantaria 

Estas caçadas tomam-se necessárias para a con- 
servação das searas, cujos proprietários costumam re- 
pellir os pombos a tiro. 

Ainda ha pouco me disse alguém ter encontrada 
perto da Ericeira, isto é, a 18 kilometros de distan- 
cia, um grande bando de pombos, que regressavam a 
Mafra com o papo cheio. 

Pareciam syndicateiros ! 

Setembro de 1899. 



VI 



CARTAS DA ERICEIRA 



à Ericeira, onde estou, é das praias mais pitto- 
rescas e beatificas do paiz. 

Aqui, a par de um amplo horisonte marítimo, de 
um bello espectáculo de ribas alterosas e de famas 
gigantescas, que fazem lembrar os destroços de um 
palácio de cyclopes desmoronado por um cataclysmo 
fonnidando, reina uma innocencia de costumes quasi 
patriarchal, uma simplicidade primitiva de hábitos e 
distracçjSes, que nos purificam de quaesquer paixões 
ruins porventura adquiridas na vida podre de Lisboa. 

Amanhece? O mar, lúcido e magestoso, encimado 
por um ceu formosamente crystallino, convida a pro- 
curar nas suas ondas franjadas de espuma a saúde, 
o aceio, a reacção salutar que subjuga os nervos e 
abre o apetite. 



116 



Emquanto os banhistas mergulham no oceano, 
n'ama ligeireza de toilette que, uma vez por outra, 
vem affirmar a innocencia de costumes dominante na 
praia, porque não escandalisa ninguém, fazem-se ao 
largo os barcos de pesca, que recolhem ao fim da tarde 
triumphantemente carregados de peixe fresco e sabo- 
roso. 

O sol desabrocha, abre, e os banhistas vão pro- 
curar a sombra das arvores do Jogo da òcla, o rocio 
nobre da villa, onde, não obstante a evidencia do lo- 
gar, cada um de nós pôde amezendar-se n'um banco, 
tão real e perfeitamente como se estivesse em sua casa. 

A praça tem hoje outro nome, chama-se da — Prin- 
ceza D. Amdia, mas, á semelhança do que acontece em 
Lisboa com a rua Garrett, que ha de ser sempre co- 
nhecida pela sua antiga denominação de Chiado, o ro« 
cio da Eiriceira continua a ser, para os da terra e 
para os de fora, o Jogo da bóla^ não obstante o seu 
recente chrisma municipal. 

A camará de Mafra não foi inteiramente gentil 
n'este presente que fez á duqueza de Bragança; deu- 
Ihe uma praça de que aliás a tradição de longos annos 
se havia apossado. D'aqui resulta que as pessoas mais 
sinceramente monarchicas, que em nada desejam pre- 
judicar os príncipes, vão insensivelmente esbulhando 
sua alteza da posse nominal da praça, a que conti- 
nuam chamando pelo seu antigo nome. 

Deveu certamente jogar-se aqui, outr'ora, o jogo 
da bola, tradicionalmente arreigado nos costumes po- 
pulares. 



117 



A simplicidade d'cste jogo inculca que a soa ori- 
gem deve remontar aos tempos mais afastados. Em 
Homero, tanto Nausicaa como a sua comitiva recreiam- 
se jogando a bola. Mas tanto na Grécia como no 
Egypto este divertimento tinha um caracter excessi- 
vamente cómico: as damas que acertavam no alvo 
assentavam-se no dorso das que cincavam (n2o encon- 
tro maneira menos rude de dizer a coisa) e, em vir- 
tude d'este costume, as damas que perdiam eram 
cruamente denominadas asnas e tinham que obedecer 
humildemente ás que ganhavam a partida. 

Dupla partida, n'este caso . . . 

Terra de marítimos, homens robustos e saudáveis, 
a Ericeira não escaparia á febre do jogo da bola que, 
durante o século XYi, tão predilecto era do nosso 
povo. 

N^esta praça, a cujas arvores gozamos agora a 
sombra do meio dia, jogariam os marítimos de ha 
trezentos annos a sua partida de jogo da bola, nas 
longas e tranquillas tardes dos domingos. 

cO jogo da bola, diz Rebello da Silva, nSo escapou 
i comminaçUo das Ordenaçdea de el-rei D. Manoel, 
que o prohibiram aos fidalgos e cavalleiros nos domin- 
gos e dias santificados antes da missa, e aos officiaes 
mecânicos e aos homens de trabalho em toda a se- 
mana.» 

TSo popular como o jogo da bola era o jogo da 
péla. Ambos elles são citados por João Baptista de 
Castro no Mappa de Portugal: 

(cOs jogcM^ da péla^ tabdaa^ JxAa^ e cartas entretém. 



118 



os muito ociosos e ás vezes passa a occupaçao clieiar 
de damnos e perigos. Nas academias ou casas publicas 
d'estes jogos é costume dar barato, ou alguma porQaa 
do lucro aquelle que tiver ganhado, aos que estão em 
roda vendo.» 

Acontecia que tanto o jogo da bola como o da 
péla davam logar a rixas e conflictos sangrentos, nSLo 
só entre os mecânicos, como também entre os fidalgos. 

Em 1656 esteve preso na Torre Velha o conde de 
S. João, cunhado do conde de Vimioso, porque, re- 
creando-se com outros fidalgos no jogo da péla, tive- 
ram os dois condes renhida altercação, do que resultoa 
o de S. João ferir mortalmente o cunhado. Foram 
também presos por essa occasião, e encarcerados em 
differentes fortalezas, o irmão do conde de Vimioso, 
o conde de S. Lourenço, Castello Melhor e Ruy Fer- 
nandes d' Almada. 

Para a maioria da geração actual, depauperada 
de forças physicas, seria incomportável o jogo da bola. 
O leitor sabe, decerto, que o celebre filho do capitão- 
mór de Faro jogava a barra com o casco de uma 
bomba, que pesava trez arrobas e vinte e seis arrá- 
teis. Não ha hoje brutos que tenham pulso para barras 
de trez arrobas, ou só excepcionalmente os ha. Mas, nâo 
obstante o enfraquecimento. da raça, os homens, cuja 
profissão lhes permitte maior desenvolvimento de for- 
ças, e n'este caso estão os marítimos, ainda se entre- 
gam ao jogo da bola, e outros jogos que por egual 
exigem ríjeza de musculo. 

Desalojados da praça onde antigamente jogavam, 



119 



6 qae foi destinada a rocio elegante da povoação, os 
marítimos da Ericeira \Uo agora jogar a bola, nns 
domingos por outros, junto á ermida de S. SebastiSo, 
logar pittoresco, d'onde se abrange um largo horisonte. 
Estando o dia muito claro, avistam-se as Berlengas, 
jurando na fé dos referidos marítimos, que nos affir- 
mam que uma ténue sombra, poisada sobre o mar, 
fiâo eflFectivamente as Berlengas. 

Devem ser, se os marítimos nSo mentem, e a geo- 
graphia tanabem. 

Na Ericeira não ha riquezas de vulto, mas ha 
proprietários remediados, todos elles antigos embarca- 
diços, que nos faliam das suas viagens, e que nos dâo 
interessante noticia de tubarões, de baleias, jacarés, 
e mais fauna marítima. 

Muitos d'elle3 voltaram-se para a terra, para os 
«eus campos, as suas vinhas, o seu commercio, e pa- 
recem esquecidos do mar, que aliás lhes soa constan- 
temente aos ouvidos. Outros sentem ainda uma pro- 
funda nostalgia da vida de bordo, e vão sentar-se ao 
anoitecer nos bancos de pedra da capella de Santo An- 
tónio, espraiando a vista saudosa pela vastidão do 
oceano. Um d'elles, velho e jovial, disse-me ha dias : 
— Agora tenho que contentar-me com o Brigue 
Firmeza^ que é este, e que nâo faz viagem, porque 
apodreceu na amarração. 

Indícava-me o banco de pedra em que estava sen- 
tado. 

O pequeno porto da Ericeira, que apenas com- 
porta barcos de pesca, é diflScil e arriscado. As /ocí- 



~T 



120 



nhaãcLSy como elles cá dizem, isto é, os catraios, en^ 
tram de arremettida na onda, vindo varar na arei» 
impetuosamente, parecendo que efectivamente afoci- 
nAa^T) contra a terra. 

Esse espectáculo, como o de toda a lide maritima^ 
attrae sempre curiosos e, diga-se de passagem, tam- 
bém gulosos. 

As mulheres dos pescadores descem á praia com 
os cabazes e Canastras em que o peixe, depois de arro- 
lado pelo fisco para pagamento do respectivo imposto^ 
deve ser arrematado ou conduzido á villa. 

D^aqui vae muito para Lisboa, e não pouco para 
Cintra. 

Ha mezes, uma única focirúiada recolheu cem dú- 
zias de pescadas durante uma só noite. 

Mas, em compensação, saiu ha dias um enxame 
de botes para a pesca da sardinha e, por uma cruel 
ironia do mar, toda essa numerosa fiotilha voltou com 
trez sardinhas apenas. 

A arrematação do peixe é um dos espectáculos 
mais interessantes na lide marítima da Ericeira. 

Anno passado, uma senhora que esteve aqui a ba- 
nhos, quiz comprar uma pescada ; foi arrematal-a. 

De boa fé, elevou a 200 réis o primeiro lanço. 

Teve logo por competidora uma mulher mal vesti- 
da, que parecia á primeira vista não offerecer concor- 
rência. Pois não foi assim. Essa mulher cobriu imme- 
diatamente o lanço com mais um pataco. Finalmente, 
a pescada chegou a quinhentos reis, preço por que 
a senhora a quem nos referimos teve de a comprAr. 



121 



Finda a arrematação^ qaiz a dama saber quem era a^ 
saa competidora. 

Perguntou a um rapazito, que lhe respondeu : 

— É a mulher do pescador. 

Á não ser doestes pequenos logros, não ha outros 
na Ericeira. Tudo aqui é innocencia, acreditem. Nãa 
ha terra moralmente mais lavada pelo mar. Não ha 
politica, não ha jogo de azar, e de maledicência ape- 
nas o quantum satíê. Ás vezes chega um banhista, 
diz-se alguma coisa, pouca, da sua biographia; e se 
se torna a fallar d^elle é só, talvez, depois que se vae 
embora. Vejam se ha, se pôde haver outra terra como 
esta, em que, segundo todas as probabilidades, apenas 
se falia mal dos extranbos duas vezes : quando che- 
gam, e quando partem ! 

Oh ! innocentissima Ericeira ! paraiso terreal á 
beira mar plantado ! 



n 



 minha primeira carta mereceu, n'esta praia^ 
alguns reparos amáveis. 

Duas ou trez senhoras mais contemplativas, e não 
menos contempladas, extranharam que não desabro- 
chasse da minha penna, sêcca e áspera como um gra- 
veto do monte, um único pensamento que se perfu- 
masse da poesia do mar, do espectáculo grandioso da 
natureza, ou, pelo menos, do romantismo mythologico- 
de tritSes e nereidas* 



122 



Accusaram-me ss. ex.*", postoque amavelmente, 
<iomo era próprio do seu sexo, por ter consagrado meia 
dúzia do linhas á pesca da sardinha, e outra meia 
dúzia de linhas á historia de uma pescada. 

Defendi-me respondendo ás minhas gentis censoras 
que a única poesia de que faço actualmente uso nao 
ultrapassa o apertado limite de uma boa postade pes- 
•cada fresca, com a poética e respectiva concomitância 
de batatas cosidas, cebola, e molho de azeite e vina- 
gre. Nem sequer a velleidade de substituir a pescada 
pelo atum, que é certamente um peixe eminentemen^ 
te romântico, me é tolerada pelo estômago. Devo di- 
zer entre parenthesis que feço do atum este elevado 
conceito, desde que uma romanesca dama, que ha 
muitos annos conheci tocando primorosamente Chopin 
n*uma praia de banhos, esteve para morrer com uma 
famosa indigestão de atum. Tinha jantado bem, pas- 
sou toda a noite a moer Nocturnos do seu maestro pre- 
dilecto, e nem assim conseguiu esmoer o jantar ! 

Se infelizmente tivesse morrido, eu haver-lhe-ia 
decerto escripto o epitaphio, fallando mais de Chopin 
«que do atum, e isto por uma simples impressão pes- 
soal : aquella romanesca menina poderia ter morrido 
de uma indigestão de atum, mas eu estive para mor- 
Ter de uma indigestão de Chopin. 

A lição do mundo, a desillusão que vem com os 
annos tem-me posto n*esta dieta lyrica de pescada co- 
sida com molho de azeite e vinagre. E ao fim da 
tarde, quando o sol, como um principe moribundo, se 
.amortalha grandiosamente n'um lençol de purpura 



123 



(permittam-me ainda, por amor da antiga poesia, a 
liberdade de inventar um lençol vejmelho) ; quando o 
mar, n'uma placidez dormente, que deve convidar á 
meditação, parece um lago de orystal, levemente mos- 
queado aqui e ali pelas ligeiras sombras dos barcos 
de pesca, um pensamento sublime vem cravar-se no 
meu cérebro csomo a azagaia de um zulu : «Teremos 
nós peixe ámanhSL ?» 

— Mas isso não pôde ser ! — gritam indignadas as 
minhas amáveis censoras. 

E eu contesto humildemente : 

— Nao pôde ser! Ah! vv. ex.*" nâo querem que 
eu coma peixe ? Pois bem, minhas senhoras, terei que 
voltar-me resignadamente para o beef. 

Quanto á mythologia dos tritões e das nereidas, 
admittindo que as nereidas sejam um simples tropo, 
fundado na relação de semelhança que possa haver en- 
tre as banhistas da praia e as nymphas da Fabula, 
eu peço licença para dizer a ss. ex.**, as minhas lei- 
toras, que o gato escaldado da agua fria tem medo. 
(Não deve admirar que eu introduza um gato em tão 
etherea chronica como esta que estou escrevendo: na 
Ericeira todo o dia se falia em Gatos — que são os al- 
quiles de maior fama n'esta paragem balnear.) A ci* 
tacão do gato tem historia. Eu estive n^uma praia — 
onde isso vae, santo Deus ! — e lembro-me bem de que 
<!hegaei ao cair da tarde, com a minha roupa branca 
e o meu estilo, tudo dentro da mala. O estilo, por 
Mavado, era menos aceiado do que a roupa. Logo 
outros estilistas da minha polpa (gente que ainda não 



124 



pagava decima nem tinha buço), appareccram, pelo 
faro de collegas em rethorica de praias, a convidar- 
me para ir á noite ao Club. Âlleguei que nSo era só- 
cio. E elleSy candidamente, allegaram que também o- 
não eram. Caí entSo das nuvens, mas os bondosos» 
moços insistiram no convite, dizendo-me que tinham 
sido apresentados na noite anterior, e que não duvi- 
davam promoverem-se de apresentados a apresentan- 
tes. Este engenhoso sophisma, aliás pouco desculpável, 
abriu-nos as portas do salão. N'aquelle tempo os ra- 
pazes, em vez de se fazerem banqueiros na rua dos 
Capellistas, dedicavam- se a sophismar a lei regula- 
mentar dos clubs nas praias, e a estafar a rhetorica 
amável nos salões dos mesmos clubs. Tudo isto por- 
que ? Oh ! verdade das verdades : tudo isto por falta 
de dinheiro ! 

Os apresentados da véspera, que foram meus apre- 
sentantes, tiveram a amabilidade de recommendar-me 
á benevolência de uma senhora com quem dancei. Era 
de Castro-Daire. Uma belleza ! Tinha dois pecegos na 
cara. Não supponham que era aleijada ou que tivesse 
nascido pecegueiro. Quero eu dizer que tinha as faces- 
polpudas, rosadas e velludosas como dois pecegos. Da- 
va tentações de mordel-a. Eu, comquanto mais pro- 
penso então a mulheres que tivessem por destino a ilha 
da Madeira do que Castro-Daire por berço, gostei da 
raparigaça, chamei-a para os dominios do sete-estrello 
e da via láctea, fallei-lhe do azul e dos astros. Quando 
eu lhe fallei da via-lactea, ainda corou mais, talvez 
por imaginar que ousadamente me estava referindo ao 



125 



yalle de neve que dividia as daas montanlias do seu 
peito. Longe de mim a intenção : o relevo do vestido, 
o Cabo Bojador do seu espartilho, esse estava mais 
perto de mim do que a intenção. Ã propósito do azul 
« dos astros, disse-me s. ex.* que era de Castro-Dai- 
re, e que dançava muitas vezes, porque tinha na sua 
terra um abbade muito patusco, o qual tocava viola 
franceza para as ovelhas dançarem. Ovelhas metapho- 
ricãs^ entenda-so. « Não faz ideia, dizia-me ella, da 
^aça que tem o abbade h E ria-se muito, parecendo 
qae os pecegos das faces estoiravam de riso. Eu, em- 
basbacado, contemplava-a ; parecia-me divinamente 
belia. E acudiram-me á imaginação exaltada estes 
dois versos de CamSes : 

O pomo que da pátria persa veio. 
Melhor tornado no terreno alheio. 

Sim! O pecegueiro viria da Pérsia, mas aquella 
linda menina, que parecia enxertada em pecegueiro, 
€8tava ali decerto mais florescente e entroncada do 
<iue 08 seus coUegas em Pomona nos vergéis de Telie- 
ran. 

No dia seguinte escrevi para um jornal de pro- 
víncia as minhas impressões d*aquella noite, e, dei- 
xando-me ir ao som da rhetorica, chamei sylphide á 
dama de Castro-Daire, ovelha do abbade patusco. 
Mal suppunha eu que pudesse chegar ao seu conheci- 
Jnento a minha prosa de torna-viagem. Pois chegou! 
A gloria é pérfida: prepara ás vezes cruéis surpre* 



126 



zas.* Não foi precisamente ao conhecimento da daxnst 
que a minha correspondência chegou, mas veio a dair 
na mesma. Foi aquelle mal-aventurado jornal de pro- 
vincia parar ás mãos de um morgadote de Arouca, que 
chegou á praia^ por amor da dama, treis dias depoi» 
de mim. E como lesse a correspondência, e visse que 
eu chamava sylphide á sua bella, veio pedir-me con- 
tas por a ter offendido, dizia elle, com um nome feio. 
Esteve o caso muito serio. Foi preciso reunir um con- 
gresso de banhistas, no qual tomaram assento trez 
académicos em férias: o congresso decidiu por maio* 
ria que eu não tinha offendido a dama. 

Serviu-me esta lição, e desde então tenho-me abs- 
tido systematicamente de fazer estilo com as damas 
que estão a banhos. A pescada, minhas amáveis cen- 
soras, é menos perigosa que o estilo ; e, indigestão por 
indigestão, antes de pescada com batatas que de estilo 
com sylphides. 

Cheguei a esta decadência egoista e prosaica. Maa 
oxalá não chegue nunca a outra decadência peior. . , 

Portanto, fica explicada a razão da minha absti- 
nência de lyrismo balnear, e do tenaz propósito com 
que, á beira-mar, me obstino em não perpetrar após- 
trophes ao oceano, e prosopopêas que figurem nymphas 
saindo do seio das ondas. 

Vejo a Ericeira pelo seu lado positivo e pratico, 
estudando os costumes dos seus . habitantes, do que 
sempre poderá resultar algum proveito, ainda que 
pouco, para os ethnógraphos, e tratando, por um na- 
tural impulso do instincto de conservação, de saber a 



127 



como sai o peixe oom que os pescadores chegam A- 

praia. 

Sentirei muito, minhas gentis censoras, que yy. 
ex.^ me não leiam, mas eu já nSo posso transformar- 
me a ponto de vêr azul o mar quando elle está som- 
briO; e nereidas onde só realmente ha pescadas. 

Entre os banhistas, a conversação que mais me 
agrada é aquella em que ouço contar anecdotas, em^ 
bora seja também obrigado a contar algumas, porque 
as anecdotas divertem e não obrigam a raciocinar. 

É o meu ideial. 

Entre os habitantes da Ericeira divirto-me a ou- 
yil-os contar memorias das suas antigas viagens, his- 
torias da sua vida passada, e também um ou outro casa 
alegre que lhes tenha acontecido com os banhistas, 
que todos os annos invadem a praia. 

Por exemplo : 

Dizia uma vez certo banhista a um ericeirense : 

— Isto aqui, no inverno, deve ser medonho ! Não 
sei como os senhores podem cá viver ! 

E respondia o ericeirense : 

— É que nós, no inverno, não vivemos cá. 

— Não ! Para onde vão então os senhores? 

— Eu lhe digo. Logo que os banhistas se retiram, 
contamos o dinheiro que elles nos deixaram, e vamo& 
todos gastal-o em Pariz. Ás portas ficam fechadas, e 
a villa deserta. Pois então que pensa?. . . Nós cá tra- 
tamo-nos . . . 

O' poesia vaporosa do oceano, ó musa phantasista 
de ondinas e nereidas, perdoa-me, se podes, este des- 



128 



:garrar-me prosaico por anecdotas e pescadas. E vós, 
minhas amáveis censoras^ tapae os ouvidos^ que eu 
•continuo. 



m 



A villa da Ericeira está dividida em dois bairros, o 
do norte e o do sul, cada um com sua praia de banhos. 
As alterosas ribas que dominam a praia do peixe, á 
qual aportam os barcos de pesca, marcam para assim 
<lizer a linha equatorial que separa os dois bairros. 

Nas terras em que ha esta divisão de bairros, 
costumam os respectivos habitantes tratar-se como ex- 
tranhos e ás vezes até como adversários. Em Thomar 
o rio NabSo corta a villa em dois burgos, que rivali- 
sam entre si. Em Alemquer ha um certo espirito de 
acrimonia entre os habitantes da villa de baixo e os 
dá villa de cima. 

Na Ericeira a rivalidade entre os moradores do 
norte e os do sul não se tem accentuado aggressiva- 
mente nos adultos, mas os rapazes de um bairro não 
vão brincar impunemente para o outro. 

No norte habitam principalmente os marítimos, se 
bem que alguns, poucos, residam no sid. Parece-se 
11'isto a Ericeira com Setúbal, onde a classe piscató- 
ria povoa um bairro, o de Troino. Algumas familias, 
de classe superior, moram no no7^te ; mas os chefes 
doestas familias só excepcionalmente vem ao bilhar do 
Club, que fica no sut. Frequentam habitualmente o 
bilhar do António Elisiario, situado ao norte. 



129 



Os banhistas habitatn indiBtinctamente 06 dois 
tairroS; se bem que o maior numero affloa ao ftil, que 
possue melhores prédios. De mais a mais a Praça da 
jprínceza D. Amélia, o roeio degante da villa, e ama 
do Correio, o Chiado ericeirensoi acham-se no bairro 
ffleridionaL £ a propósito vem dizer que ha n^esta roa 
um excellente eatabelecim^to de commercio^ o do sr. 
António Bento, qae bem se pôde chamar o armazém 
Príntemps da Ericeira. 

E aquiy na rua do Correio, que palpita a artéria 
commercial da villa : lojas de fazendas, de loiça, de 
calçado, de alfaiate, e também o coíffewi* du grand 
inonde ericeirense, mestre José Fino, o mais amável e 
obsequiador de todos os Figaro». Elle representa no 
pequeno theatro da villa quando é preciso, elle faz 
parte da charanga ha annos installada pelo dr. Car- 
doso, elle attráe á sua loja, onde ha sempre cavaco, 
Tuna boa roda de freguezes. 

Na Praça da Princeza D. Âmelia, antigo Jogo da 
Bola^ encontra-se a Casa Havaneza que vende, além 
de tabaco, refrescos e licores. Muito concorrida tam- 
bém pelos banhistas conversáveis. 

Como se vê é no bairro do svl que lateja a vida 
elegante da Ericeira. Mas, Deus louvado I a elegância 
ericeirense nâo obriga a requintes de toiletU: vive-so 
á portugueza antiga, sana faípn. 

For isso lhes dizia eu, na primeira carta, que a 
Ericeira era o paraiso terreal á beira-mar plantado. 
Também não ha jornal , . . Que paraiso ! que pa- 
uíbo! 



130 



Para o effeito de annunciar, o jornal ó vantajosa- 
mente substituído pelo pregoeiro, que percorre as x*ua9 
gritando o seu pregão n*uma prosódia muito pare- 
cida com a syntaxe dos annunclos publicados nos jor- 
naes. Para o effeito de noticiar, a lingua substitue a 
penna . • • também vantajosamente, pelo menos quanto 
á velocidade da reportage. Quasi sempre se sabe de 
véspera o que ha de acontecer no dia seguinte. Um 
tudo-nada de maledicência, á chegada e á partida, dá 
& gazeta verbal da Ericeira uma feição de critica mo- 
derada, muito apreciável principalmente para quem 
está habituado a dar e levar beliscSes pela mSo de 
Guttenberg. Quanto a politica. . . não ha. Ó paraíso 
trez vezes ditoso ! O que tem graça é que em alguns 
jomaes de Lisboa vieram publicadas correspondência* 
ácêrca da futura eleição por Mafra e Ericeira. Uma 
noticiava que se apresentavam por este circulo qua- 
tro ou cinco candidatos. Achei pouco, e só vi um, que 
veio aqui de passagem. Mas o certo é que ninguém 
falia em eleições, nem em carneiro com batatas. De- 
liciosíssimo ! 

Os passeios que a Ericeira offerece não são pouco» 
nem despiciendos : para o norte, o de S. Sebastião, do- 
minando o mar ; para o sul, as Furnas e a estrada de 
Cintra, que será o salvaterio da Ericeira pela facili- 
dade de communicação que estabelecerá com Lisboa. ^ 
O que torna maçadora a viagem de Lisboa á Erí- 



^ Já está concluída esta estrada, que foi um bene- 
neficio, sem comtudo ser um salvaterio. 



131 



ceira é a distancia a que ficam d'esta yilla tanto a 
estação da Malveira como o apeadeiro de Mafra. Ora 
a estrada de Cintra está principalmente dependente 
da conclusão da ponte sobre o rio da Senhora do O' do 
FortO; que é o mesmo que tem de atravessar em Chel- 
leiros quem de Bellas jomadea para Mafra. A inau- 
guração da ponte foi agora annunciada para setembro. 

O rio da Senhora do O' do Porto abre a sua foz a 
poaco mais de trez kilometros da Ericeira. O logar é 
pittoresco. Na margem esquerda alveja a povoação 
da Carvoeira. Um anno, por occasiâo da festa da Se- 
nhora do O' na sua egreja parochial, que fica á beira 
do rio, pegaram-se os rapazes de Fonte Boa com os 
da Carvoeira, de que os da margem direita não gos- 
tam, e um mocetão de Fonte Boa foi assassinado no 
conflicto. 

O sitio da ponte, que é de trez arcos de cantaria^ 
tem belleza que farte para competir com as mais for- 
mosas paisagens do paiz. As duas vertentes do valle 
verdejam pittorescamente. Em baixo o rio estorce -se 
em torcicoUos. E o mar, de que se descobre a ampli- 
dão, recebe-o por entre o areial, que branqueja. As 
vinhas abundam tanto na estrada como nas encostas ; 
8âo baixas e defendidas por pequenos muros de res- 
guardo que as protegem contra o vento. E que o 
vento, n'esta região batida pelo mar, não conhece 
meio termo. Dizem-n'o os numerosos moinhos que so- 
brancêam a Ericeira. Um d^elles assenta no Alto da 
forcaj onde, segundo a tradição local, eram outr^ora 
justiçados os delinquentes. 



132 



Para além da foz, sobre o mar, apiiihôa*se a fre- 
guezia de S. Julião, d^onde, segando aqui dizem, era 
natural aquelle fcíso Z>. Sebastião^ que na historiar 
de Portugal é conhecido como sendo propriamente da 
Ericeira. 

Já que fallei das vinhas, fallarei do vinho, que é 
baratissimo aqui. Magnifico vinho de pasto, a pataca 
o litro, e quanto se queira. 

A praia do stdf que é, como já sabem, a mais 
concorrida, não é, como praia, boa nem má, porque 
uns dias é má e outros boa. Na do noi^tôj que não é 
melhor, os banhos são comtudo mais fortes, o mar é 
mais batido. 

Na praia do svi ha uma pequena casa que serve 
de barraca aos banhistas pobres. Pobres é um modo 
de dizer. Eu quizera dizer antes económicos. Tomam 
banho n'uma espécie de caneiro formado pelos roche- 
dos da praia, e antemurado por elles. 

Em qualquer das duas praias, o mar não é para 
graças. Ha annos morreu na do std um inglez, que 
confiou demasiadamente nos seus recursos natatorios» 
Vivia em Lisboa, onde tinha loja de negocio ao Corpo 
Santo. Este deplorável acontecimento ficou celebre nos 
annaes da Ericeira. 

Serviço de salvação para náufragos não ha ne- 
nhum, nem para os banhistas nem para os pescadores. 
Falta imperdoável, que é preciso remediar quanto 
antes. 

Eis aqui uma promessasinha que viria muito de 



133 



geito no programma do sr. candidato... ou de todos 
ellea. 

São os banheiros, são os marítimos que se atiram 
ás ondas, qnando é preciso salvar alguém. For isso 
ha muitos condecorados. O banheiro Piloto, que é um 
homemzarrão muito sympathico, exhibe ás vezes a 
medalha com que foi condecorado pelos seus serviços 
humanitários. 

Ha ainda outro passeio, que é o da estrada que 
conduz a Mafra, em cuja Tapada costumam os ba- 
nhistas ir celebrar os seus pic-nics. 



IV 



O fólk-lore da Ericeira não dá para vasta explo- 
ração. Ê escasso e restricto. Todavia consagrar^lhe-hei 
esta carta, a qual, por isso mesmo, ficará sendo a 
única de algum préstimo, postoque diminuto. 

Como todas as povoaç5es marítimas, que vivem 
em permanente lucta com o oceano, a Ericeira é pro- 
fundamente religiosa. As mulheres, especialmente, en- 
tregam-se á devoção, concorrendo em grande numero 
á egreja, ás procissSes e ás missões dos padres do Ya- 
ratojo, que quasi todos os annos aqui vem. Anuo pas- 
sado os missionaríos vieram no inverno, e á frente 
d'elle8 o cardeal patriarcha, que foi recebido com pie- 
doso alvoroço. O nome de frei António das Chagas, o 
famoso converso que no século xvii reformou o Vara- 
tojo, encontra no coração das mulheres ericeirenses 



134 



um écco de exaltada fé. No mez passado fez-se aqui 
a procissão do Sacramento, e atraz do pállio seguia 
uma enorme multidão de mulhereS| que enchia de la- 
do a lado as raas do transito. 

As festas populares que teem aqui maior relevo 
sSo o S. João e o S. Pedro. 

Na noite de 23 de junho de 1887 estive na Eri- 
ceira pela primeira vez. Crepitavam as fogueiras em 
quasi todas as ruas, mas faltavam os cantos que tan- 
to animam aquella noite nas províncias do norte. Sup- 
puz então que a alma popular na Ericeira seria in- 
differente ás musas ; enganei-me, porém, como logo 
direi. 

Por occasião do S. Pedro os pescadores pintam e 
embandeiram os seus barcos para celebrar festivamente 
o dia doesse grande luminar da sua classe. Como o 
leitor sabe, esta tradição piscatória não é exclusiva 
da Ericeira ; pelo contrario, encontra-se generalisada 
no paiz. 

No dia de Finados costumam as creanças ericeiren- 
ses fazer o peditório do Pão j?(w Deu*, que também 
é commum a varias terras do paiz. O enxame infan- 
til percorre as casas da povoação fazendo larga colhei- 
ta de dinheiro e guloseimas. 

Disse eu que me tinha enganado suppondo que o 
povo da Ericeira não cantava. Já recolhi, n*uma pri- 
meira exploração, cincoenta e nove quadras populares ; 
umas que se cantam nos bailaricos saloios dos arredo- 
res, outras que se cantam propriamente na villa. 
Algumas d'essas trovas são conhecidas^ andam ha 



135 



maito na circulação nacional. Outras sSo toponymicàs, 
privativas da Ericeira. 

Como em toda a parte, o amor é de todos os sen- 
timentos o que na Ericeira mais inspira a musa do 

povo. 

Vamos dar alguns Bjpecimena, por nós recolhidos : 

Fui á aula de dezenho 
Perguntar ao professor 
Com que tinta se pintava 
Esse rosto encantador. 

Se eu porventura alcançasse 
D'esses teus olhos as luzes, 
Mais de quatro ficariam 
Na boca fazendo cruzes. 

És o meu bem que eu adoro, 
És a minha adoração. 
Tu és o meu oratório. 
Aonde eu fago oração. 

Trocaste-me a mim por outra, 
Paciência, nào me importa. 
Ainda espero perguntar-te 
Quanto ganhaste na troca. 

Toma lá meu coração. 
Aperta, dá um nósinho. 
Coração, que é de nós ambos, 
Quer- se bem apertadinho. 

Em qualquer pinguinha d 'agua 
Nada a cobra, brinca o peixe. 
Emquanto o mundo fòr mundo 
Não te temas que eu te deixe. 



136 



Se amor dura além da morte. 
Eterno amor te hei de eu ter. 
Se amor dura emquanto é vida, 
Âmo-te emquanto viver. 

Toma lá a minha mão. 
Aponta palma com palma. 
Entra dentro do meu peito, 
Toma posse d'esta alma. 

Em muitas das trovas populares da Ericeira espe- 
Iha-se a profissão habitual dos ericeirenses : a vida do 
mar. Respira-se n*essas trovas o perfume agridoce da 
saudade pelos embarcadiços que se ausentam, pelos- 
namorados que vSo, em terras longínquas^ procurar 
fortuna. Umas vezes é o amor que chora ; outras ve- 
zes é o despeito, o resentimento, o ciúme que explue 
na estrophe. 

Já lá vae pelo mar fora 
Quem no meu leito dormia. 
- Deus o leve, Deus o traga 
Para a minha companhia. 

Já me vou, já me aparto, 
Já largo as velas ao vento, 
E náo tenho quem me diga : 
— Deus te leve a' salvamento ! 

Tenho um navio no mar 
Com vinte e cinco varandas. 
Hei de subir á mais alta 
Para vèr onde tu andas. 



137 



Eu bei de subir ao alto, 
Que eu do alto vejo bem. 
Todos vejo vir á vela, 
Só o meu amor n&o vem ! 

Vae, amor, por esse mundo 
Procurar maior riqueza. 
Se a não achares, volta atraz, 
Torna-te á minha pobreza. 

A America, tanto do norte como do sal, afflue- 
grande numero de rapazes da Ericeira. Ainda ha 
pouco tempo se encontraram uma tarde vinte ericei- 
renses no botequim da Praça da Harmonia, no Rio 
de Janeiro. As recordações da America abundam nas- 
trovas doeste povo de homens do mar. 

Se fores a Pernambuco, 
Leva as contas de rezar. 
Pernambuco é purgatório • 

Onde as almas vão penar. 

Purgatório de saudades para aquelles que deixa- 
ram a pátria, e na pátria o coração. . . 

Já fui a Montevideo, 
Já passei por Maldonado. 
Ó minha santa Gatharina, 
Rio Grande está tomado. 

As vezes, raras vezes, o coração prende- se longe 
da pátria, e a saudade punge mais o coração do ma- 
ritinio no regresso á terra natal, do que no momento- 






Ae levantar ferro para ausentar-se da sua pittoresca' 

Eríoeira. 

Adeus, ó ilba das Cobras, i 

Cercada d'^ua salgada: I 

No meio tem agua doce, i 
Oade o meu amor se lava. 

Das cantigas propríameote tocaee tou também dar 
alguns êpecimena. Seute-se ahi pulsar esse ardente en- 
tírnsiasmo que cada um nutre pela sua terra catai. 
Conta-ee a anecdota de um serrano da Gralheira, que 
viu Lisboa, e, ralado do saudades pela sua montanha 
natal, exclamara: fLiaboa é coisa boa; mas a Qra- 
Iheira ! . , . a Gralheira ! . , . > N'esta anecdota consub- 
atancia-se toda a sublime verdade do amor pátrio. 

S. Pedro da Ericeira ' 

Ê a minha freguezia. 

Nao Iroco O meu S. Pedro ' 

• Por S. Lucas da Freiria. 

Adeus, vilia da Ericeira, 
Mal de ti nunca direi. 
O mundo dá muita votta, 
N&o sei se p'ra lá irei. 

Adeus, vjlla da Ericeira,' 
As costas te vou voltando: 
Minha hbca. se vai rindo, 
Meu coracáo vai chorando. 



ida canto ; 
leio, 

[uebranto. 



139 



Adeus, ó praia de banhos, 
Que do sul tens appellido. 
Adeus, ó sitio das Fumas, 
Que no verão és concorrido. 

AdeaSr praia da Baleia, 
Adeus, rua do Caldeira. 
Adeus, largo de S. Sebastião, 
Adeus, villa da Eiiceira. 

Das villas que tenho visto, 
Da Ericeira mais gostei. 
P'ra cá com mil regosijos, 
P'ra lá triste retirei. 

S. Joáo de Riba-mar 
Tem ama rosa no punho. 
Quer que se lhe faca a festa 
A vinte e quatro de junho. 

S. Joáo de Riba-mar 
Tem as pontas d*azeviche. 
Também podia-as ter de oiro, 
Viradlnhas p*ra Peniche. 

Se fores a S. Joáo, 
Traze-me um S. Joãosinho ; 
Se não puderes com um grande^ 
Traze-me um mais pequenino. 

S. Jo^ de Riba-mar fica ao norte da Eiriceíray a 
uns dez kilometros de distancia. 

Nos bailaricos dos arredores são frequentes os deS" 
cardes, isto é^ os desafios entre dois cantores de diffe* 



140 



rente sexo. Supponha o leitor que está ouvindo ixixx 
rapaz e uma rapariga do Sobreiro ou de Fonte Soâ. 
cantarem ao desafio: 

EUa 

Muita chamma e pouco lume 
Faz a lenha da figueira : 
Se vens cá por chibantão. 
Podes arrear bandeira. 

EUe 

Eu hei de arrear bandeira? 
Só se o mastro me faltar. 
E se tens a vela rota, 
Trata de a ir arranjar. 

EUa 

Annel de moeda d'oiro 
Ninguém o tem como o meu. 
Hei de rir, hei de zombar, 
Palha dar a quem m*o deu. 

« 

Elle 

Ânnel de moeda d*oiro 
Meu dinheiro me custou. 
Os beijinhos e abraços 
Tudo o teu corpo pagou. 

Ó innocencia primitiva dos costumes campestres !.«». 
onde é que tu estás? Nas trovas dos serSes saloios,. 
vSOf porque ahi a pomographia deoota-se até. . « éi 



141 



nudez. E se ha véo metaphorico é de tarlatana muita 
transparente. Os poetas gongoricos do século XYii tí- 
nliam ao menos a virtude de recorrer á decência. . . 
tropologica ; mas os saloios do secalo xix dizem as 
coisas^d-pd Santa Justa. Ahi vai um exemplo2dnho . • . 
decente : 

A pulga é um bicho negro 
E tem dentes de marfim. 
Fica á noite com as moças. 
Quem me dera ser assim ! 

Esta transmigração desejada pelos saloios nSo é 
lao brutal que Petrarcha ou Lamartine deixassem de 
ambicional-a ; mas também nâo é tão innocente como 
uma canja. 

Aqui para nós^ que ninguém nos ouve : a innocen- 
<:ia só existia. . . no Oeneais, Fora da Bíblia é uma 
patrauba, e dentro também. 



Ainda temos que fallar de alguns edificioS; posto 
que 08 não reconmiende nenbuma grandeza arcbitecto- 
uica. Mais propriamente deveria dizer-se que ainda 
tintamos que fallar d'algumas ruinas.' Na Ericeira 
acode logo á lembrança perguntar pelo solar dos con- 
des doeste titulo, entre os quaes avulta o terceiro, D. 
Luiz de Menezes, auctor do Portugal restaurado. Ha 
uma vasta praça que se nobilita com o nome do 
Conde da Ericeira^ e á qual os ericeirenses dão geral- 



142 



mente a denomÍDação bem menos característica d& 
— Avenida, N'e88a praça, dentro de um muro fechado^ 
conservam-se ainda de pé as minas do paço dos con- 
des da Ericeira, as paredes de uma casa, nem gran- 
diosa nem grande, com duas janellas por fachada. O 
Occidente, no seu numero de lõ de outubro de 1878, 
reproduziu em gravura as ruínas d'este palácio^ mas, 
no decurso de onze annos, o aspecto das ruinas modi- 
ficou-se pela maior devastação do tempo. Desappare- 
ceu toda a cal das paredes e, pelas janellas despidas 
de caixilhos, vê-se o ceu azul — este bello ceu azul 
da beira-mar. 

Eu supponho, com o auctor do Portugal antigo e 
modernOj que o paço do conde da Ericeira não chegou 
nunca a concluir-se. Mas se chegou, o que resta de 
pé é apenas um dos corpos do edifício. Fidalgo tao 
qualificado como foi D. Luiz de Menezes, general, 
deputado da junta dos trez estados e vedor da fazen- 
da, nâo podia accommodar, n^aquelle pequeno edificio 
que lhe sobreviveu, a sua familia e criadagem. 

Segundo a minha hypothese, de que o solar ficou 
incompleto, toda a lenda cai por terra. Já ouvi dizer 
na Ericeira a pessoa illustrada que D. Luiz de Me- 
nezes escrevera ali o seu Portugal restaurado. Ora eu 
não quero crer que o terceiro conde da Ericeira, ten^ 
do em Lisboa o excellente palácio da Ânnunciada, 
onde poderia trabalhar com commodidade, e perto dos 
archivos que naturalmente precisaria consultar, viesse 
escrever a sua obra de maior fôlego n'este solar de 
província que nunca se acabou. 



U3 



A lenda não deixa de aer nobilitadora para a- 
Ericeira, tanto mais que padecendo D. Luiz de Me- 
nezes grandes ataques de melancolia, poderia a gen- 
te imaginal'0 a vaguear, nos sombrios lazeres do sea 
trabalho litterario, á beira do oceano ; parando a es- 
paços no alto das ribas ou nos penhascos negros das^ 
FwmaSy com o olhar triste absorvido na contemplação 
saudosa do mar. . . 

Mas — e as minhas leitoras da Ericeira bem o 
eabem — eu não estou em monção propicia para nor- 
tear o meu batel através das vagas caprichosas da 
çhantasia. Vou escrevendo terra a terra, muito cos- 
teiro com a realidade. Sinto-me até desastrado : quan- 
do não falo da sardinha e da pescada, ataco as lendas^ 
românticas implacavelmente. 

A Praça do Conde da Ericeira representa um 
melhoramento louvável, mas o sitio, fechado por mu- 
ros e casas, carece da largueza de horisonte que é 
um dos maiores encantos da beira-mar, e, praça por 
praça, a do Jogo da bola, comquanto seja mais pe- 
quena, tem a seu favor a confluência das principaes 
ruas da villa, e a sua tradição elegante de rocio no- 
tre. 

Ha na Ericeira, junto ao hospital da Misericórdia, 
um pequeno largo denominado do Pelourinho; mas 
o monumento que lhe deu nome, desappareceu. E 
querem saber como desappareceu ? Oh ! Santo Deus ! 
desappareceu porque o enterraram no mesmo largo. 
Deitaram-n'o á valia, cobriram- n'o de terra, abaúla- 
Tam-lhe a sepultura, e deixaram-n'o sotterrado e es- 



144 



^uecido. Lisboa nl&o só conserroa, mas ainda ha pouco 
tempo restaurou, o seu Pdowrinho. Cintra, a villa 
alegante, nlU> se envergonha de exhibir na sua melhor 
praça um monumento d^essa espécie. Mas a Ericeira 
mandou apeial-o e enterral-o. Oh ! senhores, pelo amor 
de Deus, façam resurgir o Lazaro, tornem a pôl-o de 
pé, tanto mais que os senhores vão vendo desappare- 
-cer dia a dia os escassos vestígios que da antiguidade 
lhes restavam. 

E a propósito direi que também o fallecido conde 
4' Anadia, Manoel Paes do Amaral^ aqui possuiu casa 
de habitação na rua de S. Pedro, a qual, segundo 
vejo de uma carta eivei de arrematação, tinha annexa 
uma adega e quintal. Este prédio foi ^rematado 
pelo sr. dr. Agostinho José de Figueiredo Cardoso, 
que o transformou e n'elle reside. 

A casa do marquez de Ponte do Lima também 
aqui tinha propriedades: são os ten*enos que, na es- 
trada de Cintra, se encontram, do lado do mar^ logo 
á saída da Ericeira. 

Em toda a villa ha ainda um palácio arruinado e 
brazonado, o da familia Monteiro Gorjão, que seguiu 
a politica de D. Miguel. 

E, exceptuando o forte, que está na extrema de- 
cadência, poucas mais pedras, ou nenhumas, faliam 
Ao passado. 

É tudo novo, e banal. 

Faz pena ! Pois o pobre pelourinho enterrado ! . . . 

Eu não trouxe comigo o excellente livro do sr. 
Miguel Martins Dantas, Lea faux Don Sebastien, 



145 



nem me lembra com segurança até qae ponto chega* 
ram as investigações do illustre diplomata, relativa- 
mente ao D. Sebastião da Ericeira. A tradição local 
diz que elle era natural de S. Julião^ povoação que 
se avista ao longe, e que foi justiçado no Alto dafor' 
^a, próximo á Ericeira. Lembrou-me que no archivo 
da Misericórdia encontraria algum documento que, 
pela piedosa intervenção da irmandade na execução 
dos condemnados^ pudesse fazer alguma luz no assumpto. 
Sendo aquella instituição de beneficência fundada pela 
rainha D. Leonor, viuva de D. João ii, presumi que já 
em tempo de D. Sebastião ou do cardeal D. Henrique 
houvesse sido introduzida na Ericeira. 

Enganei-me redondamente. Acontece isto tantas 
vezes a quem procura ! 

A Misericórdia da Ericeira foi instituida um se- 
<5ulo depois. 

Eis o que eu apurei na minha busca ao archivo: 
«Aos 29 de dezembro de 1678 ao som de campa 
tangida se fez uma reunião nos paços do concelho da 
Ericeira declarando Francisco Lopes Franco, cavallei- 
ro do habito de Christo, e morador em Lisboa, no 
bairro de S. Thiago, que pela boa vontade que sempre 
tivera a esta viUa e seus moradores e por serviço de 
Nosso Senhor queria fundar casa da Misericórdia na 
ermida do Espirito Santo, a qual tinha resolvido do- 
tar com mil cruzados de renda em propriedades equi- 
valentes, de que daria escripturas ou padrões que bem 
■o valessem. 

«Pelos mestres dos barcos foi dito que se obrigavam 

10 



146 



a levar em cada barco uma rede para o que ganhas- 
sem com a dita rede ser para a Misericórdia, devendo 
elles dar conta todos os mezes ao escrivSo e thesourei- 
ro em presença do provedor e mais irmSos. Isto come- 
çaria a vigorar desde o dia de S. JoSo de 1679. 

Os homens de mar e de terra declararam que 
fundaria cada qual uma esmola^ -segundo suas pos- 
ses.» 

Por alvará régio de 7 de julho de 1697 foi appro- 
vada a fundação da Misericórdia da Ericeira. 

E, tirante isto, só encontrei uma noticia, aprovei- 
tável, da antiga procissão dos fogarêoa, commum a va- 
rias povoaç3es do paiz, mas que ha sete para oito an- 
nos deixou de fazer-se, por haver sido prohibida pelo 
cardeal patriarcha. 

Diz a noticia, que d^um manuscripto do archiro 
copiei fielmente : 

«Qainta-feira de Endoenças se costuma juntar a 
irmandade para visitar em procissão o Santíssimo Sa- 
cramento exposto, e as mais egrejas da villa, e com 
esta demonstração exterior espertar o povo christão 
ao devido sentimento da Paixão de Christo Redemptor 
nosso, que a egreja celebra n'este santo tempo, e jun- 
tamente mover a penitencia dos fieis christãos que con- 
fessarem seus peccados e por sua satisfação se qui- 
zerem mortificar, e assim o Provedor e irmãos da 
mesa tomarão tempo conveniente para apparelharem 
as cousas necessárias. 

«Sahirá a procissão da Misericórdia pelas seis ho- 
ras da tarde em ordem conveniente ; irá a bandeira 



147 



adiante^ qae levará um irmSo nobre^ e de auctoridade, 
e segair-se-hSo as seis insignias da Paixão de Christo 
com intervallo competente, as quaes levarão trez ir- 
mãos nobres, e trez officiaes, e na mesma forma as to« 
cheiras, e as lanternas, que hão de ir aos lados, e ou- 
tros dois com varas pretas para governarem a procissão. 
Seguir-se-ha a irmandade, e entre as tochas costuma- 
das irá o crucifixo, que levará o escrivão da casa. 
Irão 08 capellães rezando a ladainha, e no fim a insi- 
gnia do Senhor morto. 

<0s irmãos irão vestidos com as vesteas da irman* 
dade, e levarão vellas os que se não destinarem para 
outra cousa, e sendo necessário. Irão fora da procissão 
dois fogaréoa para darem luz, e não levarão os irmãos 
pagem ou criado de maneira que fiquem dentro da 
procissão pela indecencia que n'isto ha. 

«A mesa e Provedor elegerão os irmãos, que hou- 
verem de levar bandeira, insignias, varas, tocheiras, 
e mais cousas, avisando-os antes, para que tendo impe- 
dimento se nomeiem outros, e não haja falta, o que se 
poderá fazer, chamando<os a mesa dia de Ramos á 
tarde. 

«A procissão em sahindo da egreja da Misericór- 
dia irá á principal da freguezia, d'ahi á ermida de 
Santa Martha, e recolher-se-ha pela Boa Viagem á 
Misericórdia de onde sahiu.» 

Isto que ahi fica poderá de futuro aproveitar ao 
a^ictor ou refundidor de algum diccionario chorogra- 
pMco. 

Ha aqui duas celebridades populares, cujo perfil 



148 



desejo esboçar: dois typos excentricoB, talvez dois 
desgraçados^ porque eu pendo hoje a crer que a ex- 
centricidade de alguns indivíduos não é senSLo uma 
desorientação da desgraça. 

Âliy no pequeno porto da praia, como já descrevi, 
elevam-se alterosas as ribas, parecendo cortadas á 
faca, talhadas na rocha, certamente em virtude de 
algum cataclismo geológico. 

 povoação, construída sobre as ribas, domina o 
porto e o mar. Para descer ao porto, isto é, á praia 
do peixe, como aqui se diz, toma -se pela Íngreme 
ladeira, que resvala desde o antigo forte, desmantelado 
e abandonado. 

Pois bem. Desçamos a calçada e lá em baixo, ao 
sopé das ribas, cava-se na rocha uma pequena gruta, 
que o mar, na maré cheia, invade ás vezes. 

Essa estreita gruta é habitada : não por uma fada 
azul, não por uma nereida, mas por um homem. 

Typo originalíssimo, em verdade. Chama-se José 
da Silva, mas é geralmente conhecido pela alcunha de 
João Brandão, Quer esta alcunha dizer que elle seja 
um criminoso ? Não. Desde que aqui está, pelo menos, 
não fez mal a ninguém. Não se sabe d'onde veio, é 
certo, nem d'onde é natural. Mas a ninguém inspira 
desconfiança; pelo contrario, toda a gente tem pena 
d'elle. 

É um velho alto, ossudo, esquelético, muito incli- 
nado para deante, a ponto de parecer que vae cair 
a cada passo que dá. Não obstante, anda com ligei- 
reza. 



U9 



Veste-&e de andrajos ; o seu fato sSo tunas calças 
e uma jaqueta feitas de retalhos e remendos. 

Carrega sal, quando ha barcos á descarga. Outras 
vezes serve de pregoeiro^ anda annunciando pelas ruas 
da yilla que em tal parte se vende vinho barato ou 
peixe salgado. Se não tem absolutamente nada em 
que ganhar a vida, pega n'um bordão, vae pedir pe- 
las aldeias próximas. 

Com o bordão defende-se dos cães que lhe ladram 
quando o vêem aproximar-se dos casaes. O cão é um 
animal bem pouco democrático : arremette contra os 
pobres, os mal vestidos. Âos ricos, aos bem trajados, 
apenas parece ladrar por dever de officio. 

João Brandão habita na gruta da praia ; só de lá 
foge quando o mar o enxota, pondo em risco a sua 
vida. 

De resto, noites de inverno ou de estio, de tempo- 
ral ou de luar, ali as passa solitário, dormindo ou 
velando — quem sabe ! — muitos metros abaixo do ni- 
vel da povoação. 

O seu único visinho é o mar. Não ouve outra voz 
aenao a do oceano. Kão recebe outra visita senão a 
das ondas. 

Em compensação, não paga renda de casa nem 
décima ; não atura o senhorio, não se dá mal com os 
visinhos, porque os não tem. 

Já conheci outro homem nas mesmas condiçSes de 
domicilio. Era o José Maria, um paranóico religioso 
que habitava a gruta de Santa Margarida na serra 
da Arrábida. 



150 



Ali viveu muitos annos, resando iniatemipta- 
mente durante o dia, sempre com os braços abortos 
deante do altar da Santa. 

Às noites dormia sobre palha, e as ondas, umas 
vezes por outras, faziam-no recolher-se para o fundo 
da gruta, o que realisava facilmente, pegando no seu 
feixe de palha, deitando-se de novo, e adormecendo 
a resar. . . 

Morreu ha annos, se das pessoas que vivem assim 
se pode dizer que morreram quando deixaram de 
viver. . . 

João Brandão é pqis um dos typos mais ex- 
cêntricos e, por isso mesmo, mais notáveis da Eri- 
ceira. 

Pôde ser que haja escondido na alma d'este ho- 
mem algum drama de lagrimas. E' mesmo provável 
que seja assim. Mas elle guarda sobre a sua própria 
existência o mais absoluto silencio. Se alguma revela- 
ção faz, nSlo é aos homens, que poderiam denuncial-a; 
é ao mar, que religiosamente a guarda. 

Outro typo muito original é o Achilles, do bairro 
do norte, 

Comquanto viva no povoado, nâo convive com os 
homens. E', a bem dizer, um anachoreta, que não 
tem por companheira uma pomba, como os antigos 
anachoretas, mas sim uma rola, que conversa com 
elle dizendo-lhe coisas que ninguém mais percebe. 

Yae a gente bater á porta do Achilles a pretexto 
de fazer-lhe alguma pergunta. 

Falia -lhe da sua rolinha portentosa, e manifesta o 



151 



desejo de querer saber^ por seu próprio testemunho, 
se é verdade o que se diz: que a rolinha e elle se 
entendem muito bem. 

— E' verdade, sim, senhor ; a rolinha falia, e eu 
entendo-a, mas isso é cá entre nós dois. 

— E é aquella a rolinha? 

— Aquella mesma. 

— Se ella fallasse agora para eu a ouvir. . . 

— Ella tem vergonha de fallar deante de pessoas 
extranhas. 

O Achilles acaricia a rolinha, passa-lhe meigamente 
a mao pelas pennas. 

A rolinha começa a rolar. 

E o Achilles, voltando-se para a gente, observa: 

— Cá está ella fallando. Diz que tem vergonha de 
V. s.* 

E beija ternamente a sua rolinha querida, como 
se fosse uma creança a que^i elle quizesse muito. . . 

Idiota ou desgraçado? Kào sei. Ambas as coisas 
talvez. 



VI 



Fallemos agora do theatro, por cujo palco acabam 
de passar o Valle e o Silva Pereira, n'uma recita 
realisada ante-hontem 

O theatro da Ericeira não pôde competir certa- 
mente com o de S. Carlos, nem mesmo ainda com... o 



^j 



152 



do Rato. Não passa de ser... a suspeita de um theatri- 
aho. Faz lembrar o estojo de um dedal. Os executan- 
tes e os espectadores mettem-se fili dentro resolvido» 
a dobrar acrobaticamente a cabeça com os pés e, quando 
o espectáculo acaba^ toda a gente, espectadores e exe- 
cutantes, sente a desoppressSo agradável de um gym- 
nasta, que tendo feito uma evolução violenta, volta á 
sua posição natural. 

Como não ha sobrado, todos os artistas que passa- 
rem pelo palco do theatro ericeirense são. . . impa- 
teaveis. Taborda canta n'uma das suas scenas-comicas, 
não sei qual, este couplet^ que, na Ericeira, não teria 
razão de ser : 

Olá, senhores, olá, 
Não façam combinação 
De metter as mãos nos bolsos 
£ bater co*os pés no chão. 

Nada mais inútil, para o effeito de dar pateada^ 
do que bater com os pés no chão, no theatro da Eri- 
ceira. 

As cadeiras são de pinho ... em osso e, portanto, 
incommodam ou deixam de incommodar segundo os 
achaques de que os espectadores padeçam. Pessoas ha 
que preferem o pinho ao estofo. A razão da preferen- 
cia é fácil de explicar. . . pathologicamente. Mas não 
são poucas também as pessoas que saiem do theatro 
queixando-se amargamente . . . daa cadeiras, com cO" 
lembofwr e tudo. 

No theatro da Ericeira ha uma orchestra de eoi]r< 



153 



trato, como em S. Carlos : é o mar. E' o mar que se- 
í&z ouvir a despeito de tudo e de todos. For mais que 
os instrumentos desafinem, por mais que os artistas 
berrem e os espectadores conversem, o ruido do mar 
sobreleva todas as fífias e todas as vozes. 

Mas a gente, ao cabo de meia hora, habitua-se a 
ouvir aquillo, como se poderia habituar ao rumor de 
um busio. 

Em Liisboa ninguém teria a coragem de perma- 
necer durante dez minutos dentro doesta boceta incom- 
moda, cheia de terra e de . . . mar. 

Mas na Ericeira ainda ante-hontem aconteceu 
achar-se o theatro repleto de espectadores, especial- 
mente damas. Mais de cem pessoas ali estiveram res- 
pirando em plena zona tórrida, comprimidas entre o 
trópico porta e o trópico palco. 

Vai para quinze dias que o actor Valle chegou á 
Ericeira; e dias depois veio o Silva Pereira. O leitor 
desculpará a rima, mas a culpa não é precisamente 
minha. Que culpa tenho eu de que um actor, que se 
chama Silva Pereira, viesse rimar com uma villa, 
que se chama Ericeira ? ! 

Logo que elles chegaram, pensou-se em organisar 
um espectáculo, mas o mais difficil não foi organisar 
o espectáculo, foi organisar. . . a platéa. Havia especta- 
dores, e nao havia legares. Quatro dias se passaram 
na discussão doeste grave problema : metter o maior' 
tiumero de pessoas no menor numero de legares. Fize- 
ram-se cálculos, gastou-se papel e lápis, sommou-se, 
Dnultiplicou-se^ diminuiu-se, dividiu-se, e, no fim de- 



«ontas, chegou-se a esta luminosa ( 
preciso um logar para cada pessoa. 
é que foi: todas as pessoas tivera] 
havendo aliás logar para nenhuma 
muito mais elástica do que a mathf 
Valle fez duas acenas- cómicas. S 
a Minha família, E ambos ellea dee 
media Ob dai» candidatos. Mas, cou 
na província, tanto nas sconas-comi 
-dia foram incluídas varias piadae i 
por exemplo, Silva Pereira, quaado 
■de ter recitado a Minha família, 
«strambote de innocentes allua5eB 

Quem no banho pínchoa dá, 

É papá. 
Quem o chama de manha, 

lE: mama. 
Quem ao Piloto dá a máo, 

Meu irmão. 

Quem nada sem barbatana, 

É a mana. 

Piloto, já sabem, é um dos banheiros mais caracte- 
rísticos da praia. 

Outras allusc^es eram pessoaes, mas de nenhuma 
.d'ellas resultou duello. Isto nSb é terra para sangue. 
Eu também fui contemplado: 

R (iiinm irastii mais nannl. 



155 



Ão mea lado estava o sr. Joaquim Fiaza, que 
também apanhou: 

Quem de equitação maia usa, 
O Fiúza. 

E, assim como estas, outras allusSes palpitantes 
d'opportunidade. 

Algumas pessoas da colónia balnear coadjuvaram 
os dois artistas. Era a maior novidade do espectá- 
culo. Cantou deliciosamente uma das mais distinctas 
amadoras de Lisboa, e um dos médicos mais consi- 
derados da capital provou exuberantemente que a vir- 
tuosidade não faz damno aos doutores. Outro medico, 
distincto clinico na Ericeira, e muito conhecido no 
mundo litterario, recitou duas das suas mais delicadas 
poesias. Um sportman geralmente estimado fez a 
rabulasinha do estalajadeiro nos Dois candidatos, E 
uma pequena pessoa, que tem o meu nome, molhou a 
sua sopa nas allusoes locaes, recitando estas quintilhas 
bastante hydroterapicas : 

Disse-me alli o Alturas. . . 
Ora adeus ! eu já sabia ! 
Isto de banhos do mar 
É tudo uma hypocrisia. . • 
£u não me deixo enganar. 

Ás meninas- .. tôm nervoso. 
É o costume. . . é sabido 1 
Banhos ! mais banhos do mar I 
Mas fica alguém convencido ? 
Isso sim ! Vêem p'ra valsar. 



156 



Os velhotes co'o voltarete 
Misturam, e têm razão, 
Quanto os possa remoçar. 
Lá vai o seu camarão. . . 
Chegaram ; querem voltar. 

Os rapazes dão á perna, 
Fazem o seu pó d 'alferes. 
Elle é bem mau namorar ! 
** E se hão de fazer colheres, 

Tomam seu banho de mar. 

As viuvas, na seccura 
Em que as deixou o marido, 
Não podendo já chorar, 
Vestem de banho o vestido 
E lá se vão refrescar. 

Os sujos querem lavar-se, 
Os limpos maior aceio. 
Outros gostam de nadar. 
Conveniência ou recreio, 
Lá vai tudo para o mar. 

Mas dizla-me o Alíuran 
Muito particularmente, 
Que só se lembra de dar 
Banho a um único doente 
Desde que elle entra no mar. 

O Miwra» é, como já o leitor terá comprehendido,. 
outro dos banheiros da praia. 

Acabo de dar succinta noticia da recita de ante- 
hontem. 



157 



Algtms outros divertimentos estavam projectados, 
mas circumstaDcias extranhas aos desejos da colónia 
balnear impediram a soa realisaçSo. Um d'esses diver- 
timentos era a regata, que estava annunciada para 
domingo passado. Mas a névoa espessa que, ao meio 
dia^ começou a cair, tornou impossivel o realisal-a. 
E assim tiveram os banhistas que contentar-se com 
musica, fogueiras e foguetes. Projectos não faltam. 
Ha até quem se lembre de celebrar pomposamente o 
eentenario de Silva Pereira. 



VII 

Ai! adeus 1 acabaram-se os dias, 
Que ditoso vivi... 

Que ditosos vivemos ao lado uns dos outros n^esta 
patriarclial Ericeira, faltando muito^ pensando pouco^ 
e trabalhando ainda menos. 

Esta carta é uma verdadeira acta de encerramen- 
to das cortes balneares da Ericeira. 

O presidente Oceano vai cobrir a cabeça gigantes- 
ca com o seu amplo chapéu feito de espumas e algas, 
e prepara-sOy ha dias^ para levantar a voz roufenha 
n'e8ta troante phrase final : 

— Meus senhores, está encerrada a sessão. 

Ah ! quantos corações nao se sentem atormentados 
a esta hora pelo doer suave da saudade t Que de re- 
cordações agridoces ! Que de memorias pungentes das 



158 



valsas delirantes do Club ! Cada dia, a cada hora, 
parte do Jogo da Bola um cha^r-à-bancs carregado de 
inalas e pessoas, de bagagens e famílias. Rostinhos 
chorosos^ como rosas de abril emperladas de lagrimas 
matutinas, espreitam por entre as cortinas de oleado, 
enviando o extremo olhar da despedida aos oltimos 
abencerragens da praia, que, apesar do frio o do ven- 
to, teimam em ficar. 

Ha quarenta e oito horas que todos os chefes de 
familia andam na Ericeira á procura dos Gatos — 
esta grande dynastia dos Gatos que possue o maior 
numero de trens d^aluguer para o serviço da villa. 

Uma pergunta terrível soa a todos os ouvidos : 

— Onde está o Gato ? 

O Gato está em casa do sr. Fulano a receber or- 
dens; em casa do sr. Beltrano a carregar bagagens. 
Não chegam para as encommendas, os Gatos ! 

Nas lojas de commercio, especialmente na do An- 
tónio Bento que, como já tive occasião de dizer, é o 
magasin Printemps da Ericeira, vai uma faina de to- 
dos os diabos. 

Todas as senhoras querem comprar um lenço ou 
um chaile para dar á mulher ou á filha do seu ba- 
nheiro. Os homens liquidam as suas contas, pagam as 
suas dividas : e adeus, até ao anno. 

Através das vidraças da loja as meninas, emquan* 
to as mamãs compram o lenço ou o chaile, espreitam 
para os seus valsistas do Club — como quem se está 
despedindo por um óculo. 

Dão-se então episódios magníficos. 



159 



Diz a mamSl ingenuamente para o caixeiro da loja : 

— Nâo sei se a mulher do PUoto (supponbamoft 
que o banheiro é o PUoto) gostará d'esta cor. 

E a filha, voltada para a porta da loja, responde i 

— Decerto nao. 

A mae, hesitante na escolha do lenço, replicar 

— Achas que nSo, Lili? Deixe-me entSo vêr outros. 
Mas a verdade é que a menina estava respondendo 

a uma pergunta do seu parceiro de valsa, que lhe 
perguntara da rua : 

— Ainda vai hoje ao Club ? 

— Decerto não, respondia ella. 

Decerto nao! Que tristeza n^estas poucas palavras ! 
Que dolorosa duvida a de ir ou não ir aquella noite 
ao Club dar a ultima volta de valsa, fazer a ultima 
^(mefnade em roda do salão ! Tohe or not to be : esta- 
femos a phrase mais uma vez, promettendo-lhe um 
anno de férias, a titulo de recompensa. 

Como acontece sempre nas praias, foi nos últimos 
dias que a Ericeira esteve mais animada. Era o canto 
do cysne, o crepitar da chamma prestes a apagar-se. 

As quadrilhas no Club duravam uma hora — pelo 
menos. 

A pianista (pois que este anno tivemos uma pianista) 
chegava a cair extenuada, mas acudiam-lhe logo dois, 
trez, quatro auxiliares, e a quadrilha, que tinha 
começado a duas mãos, acabava a quatro, a seis, a 
oito mãos — ou ainda mais. 

Nunca vi tantas mãos disponiveis para tocar um 
BÓ piano I 






160 



Hayia sempre um earalheiro qae se enearre- 
gava de marcar as danças, fosse em francez oa 
portuguez. E assim algumas vezes a palavra prome- 
nade foi substituída pelo vocábulo passeiata, e a pa- 
lavra révérence pelo vocábulo contumelia. A alegria 
fazia prodigios de invençSo e de choreographia. Jus- 
tino Soares, se aqui viesse, nSo conheceria a termi- 
nologia revolucionaria da Ericeira. Mas o patrio- 
tismo triumphava em toda a linha — com calemòowr e 
tudo. 

N^o veio cá o Justino Soares, é certo, mas tem 
aqui estado o não menos famoso Fedro d' Alcântara, 
que voltou doente de Pariz, e procura restabelecer-se 
com o ar do mar. 

Andavam a invejar-lhe a felicidade os que conta- 
vam que elie, tendo ido a Roma com desezeis libras, 
regressara a Portugal com dezesete. 

Pois doesta viagem a Pariz voltou o pobre Pedro 
d Alcântara doente, e decerto ninguém agora lhe inve- 
jará a doença. 

Outro dia perguntaram-lhe : 

— O' Pedro, como entendias tu os francezes ? 

E elle, muito bem sentado n^um banco do Jogo da 
Bola^ respondeu : 

— Eu ás vezes é que não queria entendel-os. 

Como estejam aqui alguns distinctos amadores de 
photographia, Pedro dAlcantara tem sido retratado 
de vários modos. 

Ha um retrato em que elle figura com o seu fato 
de viagem, rodeiado de malas. 



161 



Parece Stanley ao partir para ama das suas expe- 
dições africanas. 

A photographia, repito, teve este anno grande 
voga na Ericeira ; e os álbuns também. 

No Club fervilhavam retratos e álbuns. Mas^ 
quanto aos álbuns, não chegavam a ser maçadores: 
estavam em branco. Também é a única maneira de 
86 tolerar um álbum. 

Foi n'uma praia, supponho que em Cascaes, que 
Mendes Leal, segundo elle me contou uma vez, ven- 
do-se muito impertinentado com álbuns, resolveu des- 
pachal-08 todos n'um dia, variando mais ou menos 
esta quadra : 

Que escreverei n'este álbum, 
Que não seja trivial ? 
Escrevo : José da Silva 
E depois : Mendes Leal. 

Thomaz Ribeiro, quando era ministro do reino, 
escreveu em certo dia de abril no álbum d'uns noivos: 

Eu não conheço nada mais sinistro 
Que um vate que é ministro. 

E não conheço nada mais gentil 
Que uns noivos em abril. 

Oonsta-me também que um dos rapazes aqui a ba- 
nhos escreveu no álbum de uma menina solteira esta 
qiiadra popular : 

11 



162 



PiroUto que bate que bate, 
Pirolito que já bateu. 
Quem gosta de mim é ella. 
Quem gosta d*ella. . . sou eu. 

Tem graça, e nSo offende. 

Quanto á necessidade de ter pensamentos subUmes^ 
isto estava peior que na torre Eiffel. 

Mas tudo acabou ou tudo está para acabar^ o bom 
e o mau, as festas e os álbuns, por este anno, na Eri- 
ceira. 

Não sei se em Lisboa ainda teem calor. Aqui, o 
frio vai-nos mandando embora. 

Portanto, encerro com esta carta a minha corres- 
pondência da Ericeira e, puxando do meu lenço branco^ 
agito-o em face do mar dizendo adeus ás pescadas e 
ás nereidas. . . como compensação de me nSo terem 
pedido um chaile do António Bento. 

Agosto a Outubro ^e 1889. 



VJI 



AVEIRO 



Estive ha dois dias em Aveiro e devo dizer, fran- 
camente^ que voltei de lá com boas impressões e . • . 
com sapatos. 

Desde a ultim^vez que ali estivera, tinham pas- 
sado uns bons vinte annos. NSo me atrevi, por isso, a 
perguntar por algumas das lindas pessoas, senhoras 
oa tricanas, que então me haviam ferido mais a ima- 
ginaçlU) e os olhos. Devem ir envelhecendo como eu, 
e de uma gentil dama aveirense ouvi dizer, sem o 
perguntar, que já tomava rapé. Eu ainda não che- 
guei a isso, ao rapé, mas Deus sabe quanto me vão 
attraindo os cómmodos privilégios e egoistas lazeres 
da velhice, que vem rapidamente avançando. 

Apesar de todas as recordaçSes saudosas, que eu 
esperava encontrar em Aveiro, e que não falharam, 
trouxe de lá, mais uma vez o confessarei, agradáveis 
impressões, principalmente devidas a melhoramentos, 
qne eu desconhecia. 



164 



Uma das novidades mais salientes foi a estatua 
de José Estevam, erecta em frente dos Paços do Con- 
celho. 

Esculpturou-a Soares dos Beis, o mallogrado ar- 
tista, e isso deveria bastar como recommendação. 

O grande mérito doesta estatua nao está apenas 
na semelhança phjsionomica, que os contemporâneos 
do grande orador affirmam, aliás, ser perfeita e com- 
pleta ; mas também, e principalmente, na expressão 
característica da pose^ na attitude viva, que, logo á 
primeira vista, revela um orador politico, inspirado e 
ardente, surprehendido, d'aprl8 natwre, em flagrante 
delicto de eloquência. 

Quem visitar Aveiro sem ter a menor noçSo da 
existência do famoso tribuno e da sua gloriosa passa- 
gem pelo parlamento portuguez, ^cará comprehen- 
dendo, ao olhar para a estatua, que o homem que 
ella reproduz não foi um jurisconsulto, nem um phi- 
losopho, nem um actor, nem um litterato eminente, 
mas um orador politico, de palavra pittoresca e arre- 
batada, vibrante de enthusiasmo e calor peninsular 
nas mais accêsas refregas de S. Bento. Ê pois a isto, 
a esta alta qualidade artistiça, que eu chamei a ex- 
pressão característica a pose, a attitude viva, na falta 
de melhor locução. 

Sabe-se, olhando para a estatua, o que José Este- 
vam foi e como foi. Está ali, n^uma cópia de bronze, não 
só o seu talento, mas toda a maneira de ser do seu ta- 
lento. Parece estarmos ouvindo um d'esses vehementes 
rasgos de eloquência parlamentar, que fizeram a glo- 



165 



ria de José Estevam como orador politico. Vale mais 
hoje a estatua de Aveiro do*que os discursos impres- 
sos de José Estevam, que, lidos na frieza morta de 
um livro, nos parecem muito inferiores á fama, á ce- 
lebridade tradicional do grande orador aveirense. 

No conjunto do monumento ha talvez defeitos, 
especialmente no pedestal. Mas a estatua satisfaz o 
espirito mais exigente; é, sem duvida alguma, uma 
das melhores que Portugal possue. 

Outra das novidades que eu fui encontrar em 
Aveiro é a fabrica de loiça da Fonte Nova, uma em- 
preza arrojadamente tentada ha alguns annos pelo 
sr. Carlos da Silva Mello Gruimarâes. 

O que ali está é a realização, já muito completa, 
de um sonho de artista cheio de coragem e audácia. 
O inicio d^essa fabrica representa um esforço de 
vontade individual, a affoiteza de um homem que, 
sem largos capitães e apenas com o auxilio de alguns 
artistas inscientes, conseguiu dotar a sua terra com 
uma empreza industrial que a nobilita, posto tenha 
sido para o seu fundador um tormento glorioso. 

Os pratos, as jarras, as amphoras, as talhas, os 
azulejos accusam já hoje um fabrico primoroso, que 
tem sido conquistado á força de tentativas e de expe- 
riências. 

Caminhou-se ao acaso, ^uasi ás cegas, até se 
chegar ao grau de perfeição que já hoje attingem os 
çroductos cerâmicos da Fonte Nova. 

Foram-se educando os artistas a si mesmos, crean- 
do escola, adivinhando quando não sabiam, caminhan-- 



166 



do por conjectaras e por inducçSeSy e hojoi aquella 
fabrica, ae nSo é, nem pode ser a primeira do paiz^ 
porque para isso lhe faltam elementos de pujante vi- 
talidade^ é com certeza uma das que mais confiimiani 
e engrandecem a iniciativa particular. 

O leitor lisbonense pode verificar a verdade das 
minhas asserçSes, se se dér o incommodo de ir á loja 
do Caetano, na rua Nova do Carmo, examinar as 
faianças^ ali expostas, produzidas nn fabrica da Fon- 
te Nova. 

Eu^ com lealdade o confessarei, cheguei d'esta vez 

á rua Nova do Carmo fazendo caminho por Aveiro, 
o que deve valer o mesmo que ir a França por Ta- 
vira. Quero com isto dizer que, parando sem reflexão 
deante da montre do Caetano na rua Nova do Carmo, 
«ó agora, em Aveiro, dei aos productos da fabrica da 
Fonte Nova a attenção que elles merecem. 

A este respeito dizia-me hontem, na Assemblea de 
Espinho, um sujeito da provinda : 

— Vocês, em Lisboa, não conhecem senão o Chia- 
do^ a Avenida, a Arcada do Terreiro do Faço, S. 
Bento e S. Carlos. 

E um pouco verdade, isto. . . 

Cerro aqui o capítulo das novidades. Perdão ! Que- 
ro ainda mencionar outra — o novo Hotd, que, se não 
«Btou em erro, se chama do Vouga. 

Casa ampla, clara, em boa situação, com boa me- 
sa, a dois passos do centro da cidade, o Hotd do 
Vouga satisfaz as moderadas exigências do viajante 
portuguez, que, sem conhecer os grandes hotéis lá de 



167 



fóra^ estava habituado ás reles espeluncas de provín- 
cia, onde ainda ha meia dozia de annos difficilmente 
Be podia dormir e comer. 

Agora é que^ definitivamente^ cerro o capitolo das 
novidades que fui encontrar em Aveiro, para ir dar um 
passeio^ aliás já meu conhecido, mas sempre delicioso. 
Fui á Barra — desgraça que nSo me aconteceu 
nunca na camará dos deputados. Mas, em Aveiro, ir 
á Barra é um verdadeiro encanto. 

Imagine o leitor que vai deslisando dentro de um 
trem sobre uma estrada que, avis rara^ não está 
pesBima, e que é marginada pela ria de Aveiro, onde 
a cada momento surgem velas brancas, barcos de 
pescadores, que vão singrando como cjsnes. 

Todo este maravilhoso espectáculo se gosa por 
cima das tramagueiras que a um e outro lado orlam 
exaberantemente a estrada. 

Mas, passada a ponte da Gafanha, a ria, nos seus 
caprichosos recortes e meandros, parece envolver-nos 
Q'uma rede de canaes, no complicado labyrintho das 
8^8 ramificaç?5es e sub-divis^es, que chegam a des- 
nortear o espirito de quem procura entendel-as. 

Estamos então em Veneza, no meio da agua, ape- 
gas sobre um palmo de terra firme, por onde a car- 
ruagem vai rodando. 

£ no contorno da ria, por detraz de um filete de 
*reia loira, surge-nos o mar, completando grandiosa- 
mente o espectáculo que a vastidão da agua nos vinha 
oferecendo desde a ponte da Gafanha. 

Trez praias de banhos, que se avistam umas ás 



168 



outras, fornecem a therapeutica balnear da pequena 
cidade de Aveiro. 

São a Barra, a Costa Nova e S. Jacintko. 

Muitas das casas d*edtas praias sSo confortáveis, 
mas conservam ainda o nome tradicional áe palheiras» 
Ora, na Barra, que foi a única praia que eu tive 
tempo de visitar, ha não só prédios confortáveis, mas 
até elegantes, com o que quer que seja de distincçSo. 

Comtudo a vida balnear na Barra é insipida, ape- 
nas hygienica ; o ar que se respira é puro, saluberri- 
mo, vem purificado do mar, é forte e vivificante,, mas 
a praia não tem ainda um club, e creio que nSo tem 
um botequim ou uma coisa qualquer digna d'este 
nome. 

— O que fazem os senhores aqui ? perguntei a um 
cavalheiro, que teve a bondade de me dar explicaçSes. 

— Levantamo-nos cedo, ddtamo-nos cedissimo, fa- 
tigados de não fazer nada e de respirar este ar saudá- 
vel, que nos vivifica e nos cansa. 

Para ter saúde. . . já não é mau. Mas a Barra, 
para ser attraente como praia, precisava de mais al- 
guma cousa. 

Achei muito convencional a distracção que as fa- 
milias de Aveiro estão gosando na Barra. 

E' verdade que essas famílias poderão dizer a 
mesma cousa a respeito de Espinho, onde estou ha 
vinte dias. 

Aqui, onde os olhos de um mortal podem contem- 
plar todas as noites trezentas senhoras, quem mais e 
melhor se diverte, é quem julga divertir-se... 



169 



— Que tem você, que está tSo aborrecido? per- 
gantaya eu^ ha diaS| a um sujeito, que, na Assem- 
blea, parecia indifferente ás trezentas senhoras do sa- 
iSo. 

— Tenho que, estando aqui trezentas senhoras, eu 
lamento a infelicidade de nSo estarem trezentas e uma... 

A vida é assim : o estar bem em qualquer parte- 
Dão depende tanto de nós oomo dos outros. 

Setembro de 1894. 



% « 



VI lí 

ESPINHO 



A vida da praia 

À prata de Espinho é seguramente uma das mais 
agradáveis de Portugal^ pela simples razão, a meu 
vêr, de que tem vida própria — uma franca e alegre 
vida de praia. 

Eu me explico. Quem vem para Espinho traz a 
intenção de passar dois mezes n'uma ociosidade di- 
vertida, em plena liberdade de villegiature, a pretexto 
de tratar da saúde. 

Os empregados públicos estão no goso de licença. 
Os proprietários ruraes abandonam, emquanto aqui 
estão, os seus negócios agricolas. Os commerciantes 
fiâo em pequeno numero, porque os do Porto preferem 
AS praias mais próximas d^aquella cidade, a Foz e 
Mattosinhos, para poderem ir todos os dias aos seus 
escriptorios e estabelecimentos, d'onde só voltam á 
noite. 



172 



Ora é jostamente esta circamstancia qae, diçraatei 
a maior parte do dia, toma desanimadas a Foz^ Mat- 
tosinhoe e Leça: a popalaçao masculina emigra para 
o Porto, ausenta-se por moitas horas, e só regressa a 
tempo de jantar com a familia, isto é, á noite. 

Em Espinho nSo acontece assim. Qaem está, está. 
NSo serSo mais de vinte os banhistas que precisam ir 
todos 08 dias ao Porto tratar da saa vida. 

De modo que ha a certeza de, a qualquer hora 
do dia, encontrar pessoas conhecidas com quem se 
possa conversar ou jogar. 

O mez de agosto em Espinho é dos hespanhoes. 
SSo elles ou antes sao ellas, as hespanholas, que du- 
rante todo esse mez animam a praia, que a dominam 
e possuem. 

Pode-se então avaliar as profundas differenças de 
génio nacional que resaltam entre portuguezes e hes- 
panhoes, comquanto habitem a mesma península, ape- 
nas separados por alguns palmos de terra ou pelo 
curso d'este e d'aquelle rio. 

O hespanhol, muito mais communicativo que o por- 
tuguez, mais desenvolto até, e inquestionavelmente 
mais fallador, traz a Espinho uma animação que che- 
cra a causar inveja ao nosso caracter macambúzio, ao 
nosso génio concentrado e por vezes inaccessivel. 

O que digo do hespanhol pode dizer-se, por maio- 
ria de razSo, da hespanhola. 

Até agora tem sido ella, a hespanhola, a rainha 
de Espinho — rainha no Chiado, nos cafés e princi- 
palmente no salão da Assembléa. 



173 



Durante o dia ranchos de senhoras e creanças 
liespanholas acumolam-se ás mesas e ás portas dos 
cafés, conversando com essa vivaz verbosidade que é 
àttributo da sua naçSo 

A hespanhola pode n?lo ter em que pensar — mas 
tem sempre que dizer. E se durante alguns raros 
momentos está calada^ os olhos e o leque faliam por 
€lla, téem também a sua eloquência. 

À noite, no salão da Assembléa, quando a Hes- 
canha chega^ sente-se logo um alegre borborinho, um 
chilrear festivo, que trezentas senhoras portuguezas 
nlf> seriam capazes de imitar sem grande constran- 
gimento e com duvidoso resultado. 

Quando o Lourenço de Magalhães ^ se senta ao 
piano, e a primeira valsa começa, são ellas, as hes- 
panholas, que figuram em maior numero entre os pa- 
res dançantes e, diga-se a verdade, a sua graça 
nativa, o salero, compensa n'ellas a simplicidade da 
iofUette. 

Gk)stando immenso da valsa, as hespanholas são 
infatigáveis como valsistas e, quando durante alguns 
momentos de descanso passeiam na sala, resurge logo 
n'ellas a alegria da conversação com os seus respectivos 



' Era então o pianista de Espinho. Filho de um 
fidalgo de Braga^ fora educado no melhor 8pm*t do Minho. 
Tendo gasto a sua legitima, era de dia guarda-livros no 
Porto, á noite pianista em Espinho, mas não perdera nunca 
o brio dos seus pergaminhos. Fazia-se estimar e respeitar. 
Ginguem mais o conseguiria senão elle. 



174 



parceiros e o leqae abre-se e fecha-se vertiginosamente^ 
rythmando as phrases e os sorrisos. 

Sente-se que se está em presença de uma raça 
alegre, que nós temos por força que admirar^ porque 
podemos ser tudo o que são os hespanhoes, menos tão 
alegres como elles. 

E curioso assistir aqui á despedida de alguma 
familia hespanhola, que já terminou a sua estação dê 
banhos. 

Ainda que deixem na praia amigos e parentes^ 
e que os amigos e parentes vivam em provincias muito 
distantes, as lagrimas, no momento da partida, são 
substituidâs pelos sorrisos, pelas exclamações de ale- 
gria, pelas apostrophes ruidosas. 

O adiÓB que sai dos lábios dos hespanhoes e das 
hespanholas parece traduzir-se sempre por esta expres- 
são cheia de confiança e de fé : Até logo. 

Não receiam que a morte os surprehenda durante 
a ausência, não se apartam com as duvidas e sobre- 
saltos de dois portuguezes que se despedem- um do 
outro, ainda que seja por poucos dias. 

Adiós ! adióal e o comboio principia a sua marcha 
e os olhos e os lábios sorriem ainda quando já se não 
podem ouvir as vozes. 

E comtudo algumas vezes acontece, e ainda agora 
aconteceu, que a morte vem surprehender, em plena 
praia, um banhista hespanhol, Falleceu ante-hontem 
uma creança hespanhola, de angina djphterica, se- 
gundo se diz. Os seus patrícios — e muitos portugue- 
ses também — foram acompanhal-a á sepultura, ao 



175 



fim da tarde^ no meio de nm sílenoio qne, para os^ 
hespanlioes^ devia representar oin constrangimento do- 
loroso, nm aacrificio enorme. 

Qnando regressaram do cemitério^ era já noite, e 
bfispanhoea e hespanholas dirigiram-se charlando para 
a Assembléa desforrando-se do silencio relativamente 
longo a que tinham sido omstrangidos; e ellas^ prin- 
cipalmente, recorreram á valsa como a nm banho de 
alegria, que lhes desempoeirasse o espirito. 

Durante o mez de agosto, os rapazes portogue- 
zes pediam ás lindas sefiarítaa que executassem as 
âan^ caracteristicas do seu paiz. 

Nao se faziam rogar muito, as hespanholas. Res- 
pondiam com um sorriso de assentimento, e então era 
Têl-as em plena Hespanha, no triumpho glorioso do 
sderoy arrancando palmas, bravos, uma ovação capi- 
tosa, que seria capaz de estontear o próprio João Pin- 
to Bibeiro. 

Agosto fora, hespanhoes fora. 
Com as férias de setembro chega Themis, a deusa 
^ justiça, representada pela toga dos juizes, pela 
beca dos delegados e pela manga de alpaca dos escri- 
vã de direito. 

Segando me informam, costuma haver aqui, duran- 
te o mez de setembro, pessoal mais que bastante para 
fanccionarem simultaneamente dez tribunaes. 

A animação será de certo menor, mas o que não 
^ menor, a julgar pelo que já se está vendo, é o nu- 
Qiero de banhistas. 
Basta o facto de todo esse numeroso pessoal foreu'^ 



176 



■fie que vai chegar ter de permanecer aqui de dia e 
de noite^ para que a praia não seja prejudicada na 
sua movimentaçSo balnear. 

Em vez do hespanhol fallador, teremos o magistra- 
do muito grave em suas maneiras e falias, mas como 
nenhum mudo pôde ser juiz^ nem delegado, nem escri- 
vão de direito, sempre teremos com quem fallar, e 
isso é o essencial. 

Além dos cafés, com os respectivos annexos, e da 
Assembléa, ha theatro, ha praça de touros, ha jardim 
^0 high-life, ha dezenas de comboios, que passam 
aqui durante o dia e a noite; ha sempre que ver, e 
no mez de setembro haverá ainda também a grande 
festa da terra, que costuma durar trez dias. 

Poucas praias, a não ser talvez a Figueira e a 
Povoa, se podem gabar de possuir, como Espinho, 
tantos elementos de attracção, e de vida balnear. 

Accresce a circumstancia de que o commercio local 
não abusa da algibeira dos bfinhistas, parte sensata- 
mente do principio de que mais vale vender muito do 
que escaldar ^r uma só vez os freguezes, que, escal- 
dados, não voltarão mais. 

Se o leitor ainda faz tenção de passar o resto do 
estio em alguma praia, aconselho-o a que prefira Es- 
pinho, tanto mais que se chegar a aborrecer-se, o que 
não é de esperar, pode sair aborrecido da Assembléa 
e entrar logo no comboio, porque a estação fica de- 
fronte da Assembléa. 

Setembro de 1894. 



n 



A dama da roleta 



Das duas ás quatro horas da tarde, nas praias, 
pequenos grupos de banhistas fazem da conversação 
uma barricada para resistir á invasão do enervamen- 
to, filho da ociosidade, que parece cair da sombra 
das arvores e penetrar até á medula dos ossos. 

As senhoras foram já para casa ou tiram ainda 
do piano da Assembléa uns bocejos sonoros, que se es- 
preguiçam em escalas chromaticas ou trechos de^ val- 
sa, executados com uma certa volubilidade indicativa 
de cansaço de espirito. -i 

Ê o peior momento da vida das praias, justamen- 
te o momento em que, não se fazendo nada, não se 
sabe bem o que se ha de fazer. . • 

Alguns maridos resolvem o problema indo dormir, 
•emquanto as respectivas esposas, menos somnolentas 
do que elles, dão tratos á imaginação ou ao piano 

19 



J 



178 



da ÂBsembléa esperando pela hora do jantar de fa- 
mília. 

Nas mesas de panno verde, o jogo, de rasa oa 
azar^ crepita como uma chamma que morre, para re- 
nascer á noite mais vivido e quente. 

O Amor que, de manhã na praia e á noite na As- 
sembléa, se arma de ponto em branco no mergulho ou 
na valsa^ das duas ás quatro horas da tarde faz lem- 
brar uma sentinella cansada, que, apenas por dever 
de disciplina, não abandona o seu posto. 

Ora foi n'um d'aquelles pequenos grupos, que, 
para resistir ao somno, recorrem á conversação, que 
eu ouvi ha dias este caso da vida das praias, contada 
em plena praia^ e, portanto, retinto de côr local. 

Era o Sanches Pereira, a pessoa mais alegre do 
grupo, que estava fazendo as despezas da eloquência. 

— Foi justamente das duas para as trez horas ãa 
tarde, dizia elle, que eu cheguei a essa praia. 

— Qual? perguntou um rapazote, de fato de fla- 
nella branco, que tinha vindo pedir lume a um dos 
do grupo para accender uma cigarrete Jorro. 

— O menino não seja curioso, replicou o Sanches 
Pereira. Se quer ouvir a historia, sente-se, e não in- 
terrompa o orador. 

Biso — como se diz no diário das camarás, quan- 
do algum digno par ou illustre deputado pretendeu ter 
graça. 

— Perguntei logo se havia roleta, continuou o San- 
ches Pereira, e disseram-me que sim. A roleta é o in- 
ferno indispensável n'uma praia, porque o tableau es» 



179 



treita. laços de intimidade, especialmente entre os que 
perdem^ laços que tomam mais agradável a vida bal- 
near. Ora como todos os jogadores acabam sempre 
por perder tudo quanto ganharam, se é que chegaram 
a ganhar, segue-se que a convivência á mesa da role- 
ta estabelece, pela identidade do azar^ uma intimida- 
de que bem depressa troca confidencias de mutua las- 
tima, generalisando-se. 

— Jogaste também? perguntou um. 

— Nâo joguei, porque já tinlia jogado n'outra 
praia, e perdido o que podia perder. Limitei-me por 
isso a observar o aspecto da roleta, a physionomia dos 
jogadores. Encontrei a mesma galeria de toda a par- 
te, pessoas concentradas, embezerradas pela infelicida- 
de; pessoas falladoras, que tinham exclamações de 
desalento ou desespero, e que faziam protestos de não 
tomar a jogar, quando lhes falhava o numero em que 
tinham apontado. Apenas notei uma excepção. 

— Vamos á excepção. 

— Era uma mulher, uma senhora, de cabellos e 
olhos pretos, branca sem ser pallida, com um lindo 
pescoço bem lançado, e uma linda mão de neve, de 
veias azues e annel de brilhante, com que fazia para- 
das consideráveis. 

— Jogava forte? 

— Muito forte: nunca menos de vinte mil réis. 

— E ganhava? 

— Não. Estava em azar. 

— Zangada ? 



180 



— Também nSo. Sabia perder. As vezes até per- 
dia sorrindo^ sem constrangimento. Esperei que saís- 
sem algomas pessoas para me coUocar defronte d'ella, 
em fóoo. Ao cabo de dez minutos consegui o que de- 
sejava, ficámos um deante do outro, apenas separados 
pela mesa. Ella deu com os olhos em mim, notou de- 
certo o meu olhar insistente, e desviou a vista. Acabou 
de perder uma parada de quarenta mil reis, distri- 
buída por muitos números, e tomou a olhar para mim. 
Encontrou os meus olhos, e então as suas pupillas tor- 
naram-se subitamente chammejantes de cólera, de in- 
dignação. Parecia Meduza enfurecida. «Olá ! disse ea 
com os meus botões, declaras-me guerra ? Pois bem ! 
acceito a guerra.» Desde esse momento, combatíamos 
com 08 olhos, havia entre nós a expressão de feroei*- 
dade que enraivece dois exércitos inimigos. Pela mi- 
nha parte,^ esse sentimento de hostilidade era falso, 
postiço, porque essa mulher de cabellos e olhos pretos, 
de linda mão branca com annel de brilhante, causa- 
ra-me uma impressão tão agradável, que faeflmente 
poderia chegar a ser amor. 

— E ella continuou a perder ? 

— Perdia muito mais do que ganhava, é certo, 
mas apenas se levantou da mesa quando a roleta se 
interrompeu para continuar á noite. 

E^ ao levantar-se, tornou a olhar para mim de 
um modo que parecia dizer : «O senhor, que não sei 
quem é nem d'onde veio, pode contar com o mea 
adio.» 

A noite, e nos trez dias seguintes, não desamparei 



181 



o mea posto de guerra, guerra aberta^ cada vez mais 
feroz a julgar pelos olhares que trocávamos. 

— E não trataste de saber quem era essa mu- 
lher? 

— Tratei. Era casada. Mas o marido, que detes- 
tava o jogo, não entrava nunca na sala da roleta. 
Era um brazileiro do Minho, que lia os jornaes, to- 
mava cerveja allei^iã, e fumava charutos de dois tos- 
tões. Ao quarto dia, meus amigos, houve uma inespe- 
rada mutação de scena. No olhar d'aquella mulher 
apagou-se a chamma da cólera : tornou-se doce, vel- 
ludoso, macio, como uma supplica. «Venci!}» disse eu 
de mim para comigo. For aquelle caminho julguei-me 
a dois passos do paiz azul do Amor, cuja porta me 
seria em breve aberta por aquella linda mão branca, 
de veias azues e annel de brilhante. Entrou comigo o 
orgulho, a embriaguez da victoria, tanto mais apre- 
ciável quanto era certo que as minhas informações 
davam aquella mulher como impeccavelmente hones- 
h, apesar de se sentar todos os dias entre homens, 
emquãnto o marido, n^outra sala, tomava, muito des- 
cansado, um copo de cerveja allemã e fumava um bello 
charuto de dois tostões. Comecei então a rever-me na 
minha supposta conquista. Era realmente uma interes- 
sante mulher, de feições peninsulares, em plena força 
da vida, se bem que, como único indicio de velhice 
precoce, duas rugas se lhe desenhassem, como as azas 
abertas de uma borboleta, sobre a boca. «Âquellas 
duas rugas, pensei eu, accusamascommoçSesdojogo: 
86 nSo fosse a roleta, esta mulher teria ainda todo o 



182 



frescor da mocidade» , apesar dos trinta e quatro an« 
nos que eu lhe calculava. 

— Ainda não disseste se era alta. 

— Era alta ou antes era mais alta do que baixa ; 
mas harmoniosamente delineada em todas as suas for- 
nias, muito esvelta. Um dia, quando já entre nós rei- 
nava uma doce paz, que me parecia cheia de reticen- 
cias e promessas, entrei na sala, e não a vi sentada á 
mesa do jogo. «Ter-se-ha ido embora ?j> perguntei a 
mim mesmo. Mas fui ao botequim, e vi o marido, se- 
gundo o costume, a lêr os jornaes, a beber cerveja 
allemã, e a fumar o seu eterno charuto de dois tos- 
t3es. Voltei para a sala da roleta, esperando que che- 
gasse a minha deusa, o meu amor, como eu já lhe 
chamava na linguagem silenciosa do mou coração. 
D'ahi a momentos, quando eu olhava distraído, sem 
interesse, para o taboleiro da roleta, senti tocarem-me 
no hombro. Voltei-me de repente, e vi ainda a sua 
linda mão branca, de veias azues e annel de brilhan- 
te, retrair-se pressurosa. Ao mesmo tempo, a sua 
voz, de uma sonoridade vibrante, proferiu, com algu- 
ma timidez, estas palavras : a O cavalheiro faz fa- 
vor ? » a O felicidade ! pensei eu. Vai decerto pedir- 
me que a não comprometta em publico, que não a 
fite quando estiver jogando, e esse pedido é meio ca- 
minho andado para eu lhe confessar o meu amor e 
para lhe pedir que, visto não podermos amar- nos em 
publico, me conceda, como indemnisação, adoral-a 
n'uma intimidade recatada, cheia de mysterio e de 
encanto, p 



183 



— Chegamos ao ponto mais interessante da histo- 
ria, disse um. 

— Nâo interrompam ! gritou outro. 
E o Sanches Pereira continuou : 

— Ella levou-me para o vSo de uma janella, onde 
a luz do sol punha scintillaç5es de ouro no seu cabei- 
lo de azeviche. Era bella, parecia-me mais bella do 
que nunca. E n'esse momento cuidei vêr a felicidade 
do marido afundar-se no copo de cerveja, que devia 
estar bebendo, ac Desculpe-me p disse ella ainda com 
alguma hesitação. Mas, como se de súbito ganhasse co- 
ragem, accrescentou com certo denodo : < Desculpe-me 
o ter que pedir-lhe um favor. » « Um favor ! excla- 
mei eu. V. ex.* ordena : tem em mim um escravo 
prompto a obedecer-lhe. » « Quero pedir-lhe, continuou 
ella, que não volte mais a esta sala. Visto que não 
joga, nao deve fazer n'isso grande sacrifício. » « Mas 
porquê? ser-me-ha licito perguntar?» Confesso-lhes, 
meus amigos, que esperava a resposta do estilo : 
«Porque sou casada, e o cavalheiro me compromet- 
te. » Mas qual ! « Porque, devo dizer -lh'o com uma 
franqueza, que o cavalheiro decerto me desculpará, 
porque, desde o primeiro momento que o vi. . .» Es- 
ta phrase reaccendeu de novo a aurora das minha» 
esperanças : ia confessar-me o seu amor. Estremeci, 
como se fosse tocado por uma corrente eléctrica. E 
vai ella, com uma coragem que me deixou aturdido, 
fulminado, concluiu a phrase : « porque desde o pri- 
meiro momento que o vi, reconheci, desculpe, que o 
senhor é justamente o ealUxto que eu receava. i> 



184 



— £ boa ! disseram muitos. 

— Tem graça ! disseram outros, 
E uma voz acrescentou: 

— Depois d^essa, vamos jantar, que são Já quatro 
horas. 

Setembro de 1894. 




III 



A romaria da Senhora da Ajuda 



£sta semana foi àe festa em Espinho, porque é> 
no ultimo domingo de setembro que se realiza aqui a 
romaria de Nossa Senhora da Ajuda. 

E' a mesma, em toda a parte, a matéria prima 
das romarias: muito povo, comes e bebes, e alguma 
bordoada. Mas entre o norte e o sul do pai^ ha uma 
sensível differença nos usos e costumes, e essa differen- 
ça accentua-se evidentemente nas festas populares. 

O aspecto da multidão é, nas provincias do norte^ 
muito mais pittoresco do que nos arredores de Lisboa 
e em tpão o sul. As cores, no trajo das mulheres, são* 
mais vivas e garridas, e, quando o JR" brilha, p5e 
deslumbramentos de ouro nas arrecadas, nos grossos^ 
cordões, nos enormes pingentes, de formas caprichosas, 
com que a camponeza do norte costuma engalanar se 
para uma romaria. 

O amor, nas provincias septentrionaes, é um ele- 



186 



mento obrigado de animação e de vida nos arraiaes 
^pulares. Abundam^ como aqui se diz, os ccconversa- 
dos» ou, como nós dizemos no sul, os cnaoiorados.p 
<]!!ada rapaz, apoiado ao seu varapau, «conversa» com 
a namorada durante longas horas, umas vezes em 
verso, outras em prosa, quando n?Lo é, alternada- 
mente^ em prosa e verso. E esse varapau representa 
uma espécie de estacada para conter em respeito os 
espectadores. Ai d'aquelle que se atrever a aproxi- 
mar-se dos dois namorados e a intrometter-se no seu 
dialogo. Se o fízer, apanha immediatamente uma sova ; 
-é quasi sempre esta a causa das maiores desordens 
nas romarias do norte. 

São numerosíssimos aqui os cegos andantes, nos 
arraiaes. Não se pôde dar um passo sem encontrar 
um doestes cantores populares, com o seu respectivo 
complemento : o moço. 

E até na romaria de Espinho foi a morte de um 
cego o «caso sensacional» do dia. 

Pelas duas horas da tarde, um cego e o moço, de- 
pois de terem jantado, foram tomar caffé a um bote- 
quim de lepes. Os dois, que havia seis annos viviam 
em excellente camaradagem, desavieram-se n'essa oc* 
casião : e o moço descarregou na cabeça do cego uma 
pancada com a viola. Causou-lhe um pequeno feri- 
mento na testa, mas, a breve trecho, o cego, empal- 
lidecendo muito, e cada vez mais, fallecia de conges- 
tão pulmonar, segundo se diz. 

Está aqui a banhos um hespanhol, que, n^esse dia, 
por motivo urgente, tinha ido ao Porto. Quando re- 



187 



ressoa, perguntou como a romaria correra. Conta- 
am-Ihe o caso da morte do cego, depois da pancada 
)m a viola ; mas disseram-Ihe, para que entendesse 
telhor, que o moço tinha batido com uma guitarra. 

—jJííra/' observou o hespanhol, que d^a finada 
li&daria la guita/rra ! 

Esta phrase, que foi aqui muito celebrada, dá uma 
Iara idéa do génio hespanhol; caracterisa perfei- 
smente um povo, que tem para cada acontecimento 
im dito de espirito e que^ apaixonado pela musica, 
i^tre a perda de um cego e a de uma guitarra, la- 
menta mais a perda da guitarra. 

No dia seguinte vendia-se nas ruas uma folha volan- 
«, allusiva á morte do cego. O costume doestas comme- 
norações populares, comquanto não seja desconhecido 
ím Lisboa, é muito mais frequente no norte do paiz. 

O texto, composto em verso, principiava assim : 

Na linda praia de Espinho 
Encanto da beira mar, 
Praticou-se agora um crime 
Conforme vamos contar : 



Andavam n'aquella praia 
Que é muito concorrida 
Um cego e mais o moQO 
Ganhando a sua vida. 

O moQo do pobre cego 
Que tocava violão, 
Teve com o próprio amo 
No domingo uma questão. 



188 



Etc. O qne nSo deixa de ser curioso é que o apo 
hre cego» era rico. Tinba andado pelo Brazil, ond« 
ganhou dinheiro. Vivia ha annos no Forto^ e viera s 
Espinho exercer a sua profissão de cantor ambulante. 
No espolio foi encontrada a bagateUa de dez contos 
de réis. Quantos cantores de primo cartdlo téem mor- 
rido sem deixar tamanho pecúlio I Estou em dizer que 
o auctor dos versos também ha de deixar largos ha- 
veres. Isto é um paiz adverso á grande arte e aos gran- 
des artistas. 

A folha volante termina pela seguinte quadra re- 
lativa ao supposto roubo do espolio do cego : j 

Deixemos a quem compete 
Resolver este pleito, 
O que a policia Cizer 
Decerto que está bem feito. 

Esta quadra nenhum menestrel poptdar a compo- 
ria em Lisboa, onde é um pouco moda dizer-se mal 
da poUcia. E eu creio que no norte do paiz o systema 
da policia é não fazer nada, motivo por que ninguém 
diz a seu respeito nem bem nem mal. 

Vou contar, para justificar a minha asserção, o 
que eu próprio presenciei no arraial. 

Estava um homem comprando bolos, os famosos 
bolos do norte do paiz, a que se chama «cavacasp e 
que são aqui abundantíssimos nas romarias. Quando 
ia a pagar reconheceu que estava roubado. Voltou-se 
para outro homem do povo, que viu ali perto, e dis- 
se-lhe abruptamente: 



189 



— Falta-me a .minha carteira ! Foi você que m'a 
oubou. 

O outro replicou indignado : 

— Eu nSo sou gatuno nenhum I Sou um operário 
.0 Porto, e muito honrado. 

— Seja operário ou não seja, falta-me a minha 
arteira, que eu tinha ainda agora. Está você preso. 

A pequena distancia dos dois achava-se um poli- 
cia de Aveiro, que ouvindo dizer — está você preso — 
soltou a cabeça n'um movimento de curiosidade, dei- 
sando-se, comtudo, ficar no mesmo sitio. 

— Preso eu ! replicou o que se dizia operário. 
Preso está você, por me ter insultado, porque eu, di- 
go-lh'o mais uma vez, sou um honesto operário do 
Porto. 

O policia de Aveiro tornou a voltar a cabeça com 
<nu'iosidade, quando ouviu fallar na segunda prisão. 

— Isso tem muita graça ! disse o roubado. A mim 
falta-me a. carteira, e você ainda por cima me dá voz 
de preso ! Ora ande lá comigo até á esquadra^ e lá 
«e verá quem tem razão para prender. 

— Você é que está preso e que me ha de acompa- 
nhar. 

Então, de repente, envolveu-se na contenda um 
terceiro individuo, que principiou por defender a in- 
nocencia do que se dizia operário do Porto. 

Palavra puxa palavra, e o intromettido acabou 
por se zangar não só com o roubado, mas também 
<»m o supposto gatuno, que a principio defendera. E^ 
fiem mais tir-te nem guar-te, prendeu-os a ambos. 



190 



O policia tomou a voltar a cabeça para vêr quen 
era o figurão, que se propunha prender os outros dois 
Mas não se tirou do mesmo logar. 

Este incidente attraiu muitos espectadores^ qu'] 
nSo se poupavam a commentarios. 

Alguns diziam em voz baixa, com a devida cau- 
tela^ que o mais lógico seria que o policia prendesse 
os trez figurões. 

 minha opinião divergia, porém : parecia-me que 
o policia estava com receio de que os trez contendo- 
res acabassem por prendel-o a elle. 

O que é certo é que, depois de uma azeda discas- 
são, tudo se conciliou sem que nenhum dos trez man- 
tivesse a prisão dos outros dois. 

O policia ficou firme no seu posto. 

O roubado ficou sem a carteira. 

O honrado operário ficou sendo operário honrado. 

O intromettido ficou na melhor harmonia com os 
que, momentos ante-;, descompunha. 

O arraial continuou na sua alegre animação. Os 
astros continuaram a gravitar no firmamento. E o 
policia, sempre no mesmo sitio, continuou a velar, se- 
reno e imperturbável, pela ordem publica. 

No dia seguinte, a folha volante vendida em Espi- 
nho affirmava um sentimento de plena confiança n& 
policia, dizendo : 

O que a policia fizer 
Decerto que está bem feito. 

Se fosse em Lisboa, a policia teria provavelmente 



191 



prendido os trez homens. Era de suppor que, a prin- 
cipio, trinta pessoas tomassem o partido dos trez pre- 
sos contra a policia ; dentro de pouco tempo, já nãa 
seriam trinta pessoas, mas trezentas, que acabariam 
por ser trez mil. 

Armar-se-hia uma baralha dos demónios, haveria- 
cabeças rachadas, braços partidos, e a romaria de Es- 
pinho ficaria tristemente assignalada no anno de 1897. 

Tudo isso se evitou, porém, graças á prudência 
da policia. 

E o povo, logo no dia seguinte, reconhecia esta 
verdade, correndo a comprar a folha volante e repe- 
tindo 03 últimos versos da quadra final : 

O que a policia fizer 
Decerto que está bem feito. 

De mais a mais, se a policia fosse acompanhar & 
esquadra os presos, no caso do querer dar-se o incom- 
modo de o fazer, teria de abandonar o seu posto e 
não poderia continuar a vekr tâo solicitamente pela 
ordem publica. 

Havia um certo sujeito que dizia ter sempre ao 
canto da gaveta quinhentos mil réis para valer á af- 
fiicç^o de algum amigo. 

Um dia, um companheiro de infância, vendo-se 
em apuros, foi pedir-lhe que d*esses quinhentos mil 
réis lhe emprestasse apenas trezentos. 

— Nâo posso, respondeu o outro. 

— Mas tu não dizes que tens sempre quinhentos- 
mil réis á disposição dos amigos? 



192 



— Digo, e repito. Mas Be te emprestar a ti tre- 
zentoe mil réis, ficam á disposição dos oatros amigos 
4kpena8 duzentos. E a minha norma de procedimento 
<é ter sempre quinhentos mil réis á disposição de todos 
os amigos. 

O policia do arraial de Espinho resava pela mesma 
<3artilha: se elle acudisse áquella desordem, outras 
poderiam dar-so entretanto e não haveria quem offi- 
•cialmente acudisse. 

Portanto, deixava-se ficar, firme e sereno, á es- 
pera do mais que pudesse acontecer. 
.•1f £ o povo, comprehendendo a rasão philosophica 
-determinante doeste procedimento, apoiava-o com a 
sua confiança, dizendo : 

O que a policia fizer 
Decerto que está bem feito. 

Em se procedendo com razão e acerto, o applauso 
espontâneo da consciência publica é certo e infallivel. 

Durante todo o dia, os comboios do Porto iam e 
vinham cheios de gente. I 

De tarde, o povo, querendo regressar á cidade, 
assaltava os wagons, disputando avidamente a entrada. 
O processo mais rápido não era entrar pela porta d^ 
<}arruagem, mas pelas janellas. Aos homens custava 
isso pouco. Mas, depois de terem entrado de cabeça 
para baixo, puxavam pelas mulheres para dentro — { 
pelo mesmo processo. A operação não era tão facíl 6 
«era muito mais pittoresca. 

Logo que cada mulher se propunha entrar demer^l 



193 



gulho pela janella do wagon, os espectadores rompiam 
em enthasiasticos applausos, que não tardavam a ser 
justificados. Havia sempre um momento indiscreto em 
que as saias ficavam já dentro do wagon, caindo so- 
bre a cabeça das mulheres, e as pernas nuas ficavam 
ainda de fora, á vista dos espectadores, que applan- 
àiam ainda com maior gana. 

As mulheres, como então se lhes não pudesse ver 
o rosto, não se importavam com a exposição do resto 
do corpo, porque diíEcilmente se podem reconhecer as 
pessoas apenas pelas pernas. 

D'onde será licito concluir, talvez philosophica- 
mente, que o pudor é um sentimento que está exclu- 
âvamente no rosto. 

Lá diz a sabedoria das nações : ter vergonha na 
cara, cara sem vergonha, etc. 

E diz bem. Ficou donyngo demonstrado á eviden- 
cia, em Espinho. 

O publico ria, batia palmas, delirava de contenta- 
mento. E a policia, sempre com o mesmo bom senso, 
Dâo se intromettia no caso. Por este e outros motivos 
foi que o auctor da folha volante disse, tendo carra- 
das de rasâo : 

O que a policia fizer 
Decerto que está bem feito. 

Outubro de 1897. 



IS 



IV 



Historia de um fidalgo de Braga e da 

seu lacaio 



Conta-se que um certo fidalgo do Minho, apesa 
de velho e doente, não perdia nenhuma das grandes 
romarias^ que por este tempo se fazem em toda aquella 
província. 

Véjo-me já obrigado a interromper a historia do 
fidalgo e do seu lacaio, para dizer que, desde o Porta 
até Melgaço, cada domingo do estio é um cacho de 
romarias, em que o povo minhoto debica n'uma folia 
de pássaros em parreiral sazonado. 

Sabbado e domingo celebrou-se na Trofa a festa 
da Senhora das Dores, cujo templo fica á beira d& 
estação do caminho de ferro do Minho e do entronca- 
mento do ramal de Bougado. 

Estas duas linhas despejam centenas de romeiros 
na Trofa, onde havia apenas d'antes uma capellinha 
jnodesta, e onde eu vi o anno passado uma egreja es- 



19Õ 



belta; qae graças ás esmolas e donatiros dos devotos, 
iiascea da capellinha primitíva. 

O conde de S. Bento, que já está na terra da ver- 
dade, e que dispendeu rios de dinheiro com todas as 
romarias do Minho, nSo faltava á festa da Senhora 
(las Dores na Trofa, onde os festeiros mandavam ar- 
mar ama tribatia, muito garrida de sanefas e corti- 
nas, para commodidade e honra do magnânimo titular. 

Lá o vi eu, ha um par de annos, empoleirado 
n^esse throno vistoso, assistindo ao fogo de artificio, 
deliciado com o estrondo das musicas o dos foguetes, 
e certamente lisonjeado pela admiração dos campone- 
zes que, de boca aberta, rodeiavam a tribuna, con- 
templando o conde. 

Imaginava-se entSo em Santo Thyrso, onde elle 
residia, que nSo tomaria a apparecer n'este mundo 
outra pessoa que fosse capaz de gastar mais dinheiro 
em foguetes do que o conde de S. Bento. 

Quanto são falliveis os juizos e conceitos huma- 
nos! 

Pois appareceu a breve trecho essa tal pessoa, cu- 
ja existência era julgada impossivel. Está viva e sS, 
e floresce na freguezia de Jovim, a dois passos do 
Porto. 

Por occasião da festa do Santíssimo Sacramento, 
que hontem se realizou n'aquella freguezia, o sr. Ma- 
nuel Pinto Martins, que lá chamam simplesmente o 
Manudêinho, deixa a perder de vista, pelo que res- 
peita a foguetes e morteiros, a estrondosa memoria do 
conde de S. Bento. 



kvJ^Xa».* 



196 



Na historia de Portugal ha, que me lembre, ape- 
nas trez Manueis famosos : o monarcha doesse nome, o 
Jíanuelinho de Évora e o Manuelsinho de Jovim. To- 
dos trez chegaram á gloria por caminhos differentes: 
o monarcha, pela felicidade do seu reinado; o Ma- 
ntielinho de Évora, por ter symbolisado o primeiro 
grito de independência da pátria contra a dominação 
castelhana; e o Manuelsinho de Jovim, por queimar 
todos os annos muitas dezenas de mil réis em fogue- 
tório de arraial. 

D'esta vez dispendeu elle um conto e quinhentos 
em morteiros e zabumbas, porque o seu g(f8to é ouvir 
estoirar a pólvora e a musica, importando-lhe pouco 
que, dentro da egreja, deixe de estoirar o latim da 
missa ou a eloquência do sermão. 

A sua festa ó a que se faz ao ar livre, no terrei- 
ro da egréja; essa é que o Manuelsinho de Jovim de- 
seja bem estoirada e estrondosa. Com o mais não se 
importa. 

Ora o tal fidalgo de Braga, apesar de velho e 
doente, gostava de concorrer a todas as romarias do 
Minho. 

Certamente nao faltaria á da Senhora da Agonia 
em Víanna do Castello, que é das mais pomposas àe 
toda aquella provincia, e que também se faz por este 
tempo, d'aqui a poucos dias. 

Se o fidalgo vivesse ainda, poderia agora matar 
ãe uma cajadada dois coelhos : iria á inauguração da 
praça de touros em Vigo, e viria por Vianna assistir 
ás festas da Agonia. 



197 



Do norte do paiz partiram para Vigo os mais 
eDthusiastas aficionados, porque uma corrida na Ga- 
liza ó uma novidade acirrante, a que nao poderiam 
faltar. 

• Dizia-se a principio que trabalhariam Guerrita e 
Reverte, mas foi boato falso. Ainda assim, os aficio- 
nados portugaezes não faltaram,^ e com elles muitas 
familias hespanholas, que estão a banhos em Portugal 
nas praias do norte. 

Para lá foi também, com seu pae, a linda senoi^ita 
de que eu sou próximo visinho á mesa do hotd, desde 
que sai de Lisboa ; tão próximo visinho, que tive de 
fazer-lhe uma advertência amável : 

— Se o meu braço passar a fronteira, desculpe-me 
ttótecí. 

E, feito este aviso, já os nossos cotovellos se téem 
tocado algumas vezes, sem que esse incidente, depois 
de aclaradas as minhas boas intenções, haja occasio- 
nado qualquer conflicto internacional. 

Uma simples prevenção, feita a tempo, dispensou 
a intervenção do sr. Soveral, a quem preguei a par- 
tida de roubar-lhe assim mais um florão para a sua 
coroa de diplomata venturoso. 

Se eu não tivesse de contar a historia do fidalgo 
do Minho, demorar-me-ia a dizer as impressões que 
tfòxvlio colhido da minha convivência com a colónia hes- 
panhola na Babylonia de um hotel de Espinho. 

Âh I e essas impressões careciam até de um des- 
afogo patriótico. Preciso desabafar, e custa-me muito 
deixar de o fazer. Não resisto ! Sempre direi alguma 



198 



coisai corriendo, como oiço dizer aios meus companhe 
ros de hoid, 

A mesa do jantar está sendo um paiz conqaistad 
pela Hespanha. Quem falia são os hespanhoea e a 
hespanholas, principalmente as hespanholas. E nós, à^ 
portuguezeSi conservamo-nos calados como se fossemc^ 
nós que estiyessemos fora de casa. E de arrepiar i 
patriotismo ! 

Agora percebo eu a raziLo por que o povo hespa 
áhol constituo ainda uma nação forte, apesar dos de 
sastres que tem soffrido, e da guerra de Caba, qu€ 
tanto o atormenta n'este momento. 

É que o hespanhol falia alto em toda a parte, e 
fallar alto revela um instincto de dominação e de su- 
perioridade. O hespanhol chega a qualquer paiz e a 
primeira coisa que faz — é fallar alto. Ha só um mo- 
mento em que o hespanhol abaixa o tom da sua ver- 
bosidade : é quando a morte lhe estrangula a voz na 
garganta. 

De mais a mais acontece que nas hespanholas tudo 
falia cantando, gritando: a voz, os olhos, a alegria, a 
vÍ7acidade. 

De pequenino, principia o hespanhol a fallar alto, 
o mais alto e rijo que pode ser. Dez creanças hespa- 
nholas fazem mais barulho que todos os morteiros e 
zabumbas de Jovim. 

O portuguez é ordinariamente tão calado, que o 
próprio ManueUínho dos foguetes, para fazer falar 
idto o seu dinheiro, precisa de o queimar em pólvora. 

As vezes, durante o jantar, sinto-me tão esmaga- 



199 



h pela garrulice dominadora dos hespanhoeB, que, 
entre o criado que me serve e o castelhano que me 
ioterroga, sinto vontade de dizer homildemente : 

— Se usted dá licença, vou entrando com esta 
myonnaise de lagosta, que parece não ter má cara. 
E fico com o olhar suspenso á espera que o hesr 
fanhol me responda fallando alto com os olhos : 
—Concedido ! 

E adivinho no meu olhar, inclinado para o prato 
^ mayonnaise, uma expressão de humildade agra- 
decida, como se os meus olhos fallassem baixo e 
<lisse88em : 

—MucJuza gradas. 

De todas as hespanholas que eu aqui tenho visto, 
^ & senorito 4: « a menos expansiva na conversação^ 
mas essa mesma não baixa os olhos para evitar que 
^les fallem ; parece baixal-os apenas para levantal-K>s 
áepois e obrigal-os a fallar tão alto, que até as estrellas 
08j)oderão ouvir. 

Quem ha de dizer que nós todos, os portuguezes 
<ie8ta praia, somos tlescendentes d^aquelles valorosos 
Woes que foram dilatar o império por moeres nunca 
ímtes navegados e hastear a bandeira das quinas nas 
temotas paragens d'alem-mar ? ! 

As ondas frementes da conversação castelhana 
uitimídam-nos mais do que as vagas alterosas do oceano 
intimidaram Bartholomeu Dias e Cabral. Fazem-nos 
naufragar entre revoltas correntes de tropos, de hy- 
Perboles, de hesjpanhóladas, que rugem aos nossos 
<)U7Ído8 como tempestades, e das quaes apenas os 



200 



hespanhoes poBsuem o segredo de salva r-se sem par 
cerem ridículos. Dir-se-ia que elles é que pela primeii 
vez dobraram o Cabo e foram á índia, e que nó. 
tímidos e encolhidos, não passamos do chéché do Rei 
tello, que ficou na praia a fazer o elogio do barreti 
de dormir e dos chinellos de trazer por casa. 

Agora reparo que me alonguei mais do que queria 
porque a verdade ó que ainda n3Lo contei a historii 
do fidalgo de Braga e do seu lacaio. Pois vamos á his 
teria, que já temos pouco panno para mangras. 

Havendo- se despedido um antigo criado, foi c 
fidalgo obrigado a tomar outro, a quem logo disse : 

— Preciso que me acompanhes ás romarias. 

Era um annuncio de vida alegre, por isso o criado 
respondeu de prompto :. 

-Sim, senhor. 

— Mas eu vou sempre a cavallo, tornou o fida/go. 

— Faz V. ex.* muito bem. 

— E tu também has de acompanhar-me a cavallo. 

Hoc opus, hic labor est, O rapazola nunca tinha 
montado, mas a perspectiva de mais tombo menos 
tombo não havia de fazel-o perder uma boa coUocaçSo. 

—Sim, senhor, respondeu elle. 

No domingo seguinte, como houvesse uma romaria, 
o fidalgo mandou apparelhar os cavallos, e partiu com 
o seu novo lacaio que, para segurar-se, tratou de se 
agarrar ao pescoço do bucéfalo. 

Decorrida meia hora de caminho, já o criado es- 
tava agarrado ás orelhas do cavallo, em ,perigo immi- 
nente de. ir parar ao meio do chão. 



201 



Então, muito afflicto da sua vida, começou a gritar : 

— Patrão ! patrão ! 

O fidalgo, sem se voltar, perguntou : 

— O que é ? 

E o lacaio, cada vez mais afflicto, respondeu : 

— Acaboa-se-me o cavallo, patrão ! 

Durante a calmaria podre do estio, também aos 
folhetinistas que montam por obrigação, se acaba, an- 
dados poucos passos, o cavallo do assumpto. É preciso 
agarral-o pelas orelhas para uma pessoa se segurar. 
E ás vezes, como desconfio que me aconteceu agora, 
dá-se trambolhão no charco da semsaboria. 

Mas sirva-me ao menos de desculpa a historia do^ 
fidalgo de Braga e do seu lacaio. 

Agosto de 1896. 



Morte da senorita Olgado 



Darante o mez de agosto de 1895 publiquei no 
Diário Popular uma série de cartas de Espinho, a 
•que procurei dar alguma côr local, intitulando-as — 
Em fato de banho» 

Farece-me hoje que este titulo era assaz fresco. 
Mas, como eu nilo tomava banhos do mar, tranquilli- 
sa-me a consideração de que o fato estava enxuto, 
sendo por isso menos compromettedor. 

N'uma das cartas, datada de 6 de agosto, referiu- 
do-me ás noites da Âssembléa, saudava a appariçfto 
«do Fa8'de-quatrej dizendo : 

«Eil-o, emfim, o Pas-de-quatre — este mixto de 
valsa e de bolero, que parece dever ter sido inven- 
tado principalmente para as hespanholas. 

«Não ha Justino Soares possível para ensinar a 
<dançal-o. O Justino é nuUo perante a Graça (nSo 



203 



confundir com a egreja onde em Lisboa se venera a 
milagrosa imagem do Senhor dos Passos) , que é o su- 
premo dote da mulher hespanhola. Poderão' outras ter 
mais belleza, mais elegância, mais instrucção: ne- 
nhama tem mais graça ou mais êalero, como se diz 
em Hespanha, do que as mulheres doesse paiz^ nosso 
próximo visinho. 

cSinto muitOy eu^ que não passo nunca pelo monu- 
mento dos Restauradores sem tirar solemnemente o 
meu chapéo alto^ sinto muito, dizia, não poder dar a 
preferencia no Pas-de-guatre ás minhas amáveis pa- 
trícias que estão veraneando em Espinho, mas é força 
confessar que o próprio João Pinto Ribeiro, se tivesse 
visto a duqueza de Mantua dançar um Pas-de-quatre 
com Miguel de Yasconcellos, portuguez hespanholado, 
nâo teria feito o 1640. 

<Foi domingo, 4 do corrente, das nove para as 
dez horas da noite, que a Graça das hespanholas, per- 
sonificada na seâorita Ang. . . (diacho! ella até tem 
mn nome divino!) fez a sua triumphal entrada nos do- 
mínios choreographicos da Assembléa. 

<N'essa hora, em que o Paa-dequatre estreiou as 
ioirêes dominicaes d'este verão, a beila aenorita, loira, 
^ignomiej alegre como uma creança e leve como um 
p&ssarinho, foi por momentos o encanto dos olhos pe- 
cados dos provincianos que começavam a toscanejar 
com somno. 

«Puzessem a uma andorinha uma cabelleira loira, 
vestissem-lhe um vestidinho de boneca, e 8oltassem-n'a 
lui sala da Assembléa, vêr-se-hia então que as aves 



204 



6 as hespanholas nasceram aladas para a dança^ não 
fsendo fácil distinguir entre ama andorinha que saltita 
na areia de um jardim e uma hespanhola que pula o 
Pas-de-qiLatre no pavimento envernisado de um salão. 

«Do tecto pendiam flores de luz eléctrica em co- 
roUas de crystal, suspensas como estrellas cadentes 
que ficassem seguras pela cauda; o Lourenço de Ma- 
galhães, que é um pianista cheio de alma e de gostO; 
fazia com as teclas do piano um poema ibérico que 
deitava por terra o patriotismo do D. Jayrm^ porque 
ao som d*esse poema harmonioso, o próprio D. João^ 
IV, se pudesse resuscitar, teria de preferencia convi- 
dado a dançar a loira aehorita, 

«O bom pianista não é somente aquelle que toca 
bem, mas principalmente aquelle que sabe escolher a 
musica mais adequada aos estados psychologicos dos^ 
seus ouvintes. 

«Para fazer dançar portuguezes com portuguezas 
qualquer pianista serve, tocando melhor ou peior. 
Mas tentar portuguezes, netos talvez da Padeira de 
Aljubarrota, a irem bailar com uma hespanhola, do 
território lusitano, dentro do districto de Aveiro, 
exercer n'elles uma invencível iberisação pela dança, 
coisa é que só um pianista hábil e suggestivo como o 
Lourenço consegue realizar. 

c Este pianista chega a ser perigoso, tanta é a 
submissão com que o piano lhe obedece para fazer que 
os pares dançantes transponham de um salto a frontei- 
ra e atirem o 1.° de dezembro para traz dos moinhos. 

« Por Bua vez, a 8eno7*ita Ang. . • sabe aproveitar 



205 



maravilhosamente a soggestão iberísante creada pela 
piano da Asaembléa e, logo aos primeiros compassos, 
quando um joven portagaezito procura com os olhos 
om par, é ella, a graciosa, vibrante de salero, que 
lembra logo, que se impõe á escolha de todos os por- 
tuguezitos bailanteSy é ella que triamphai que predo- 
mina^ que enche a sala e a soffreguidáo curiosa dos 
mirones indançaveis — como eu. 

t Diga-se em honra da verdade que os portugue- 
zes nunca foram cobardes^ e que as portuguezas os 
egaalam na coragem. 

< Âs nossas patricias, apesar de reconhecerem que 
para o bom êxito do Paa-de-quatre se faz mister mais 
^d&ro do que Justino, não desanimaram domingo, nem 
por isso se deixaram ficar sentadas; aguentaram-se 
quanto possivel no confronto, que lhes não podia ser 
vantajoso. 

« Dançava a loira senoritaj absorvendo as atten- 
^^s da sala como uma esponja que estivesse embe- 
bida de admirações e enthusiasmos, mas a par d'ella, 
sem cobardia, e talvez sem inveja, dançavam trez ou 
quatro morenitas portuguezas, qae, se não venceram, 
sustentaram pelo menos o brio de Portugal.» 

Devo acrescentar a esta transcripção que recebi 
em Espinho um bilhete postal dizendo-me coisas des- 
agradáveis em nome do patriotismo offendido. 

O signatário devia ser um Magriço qualquer, que 
pretendia desaffrontar as damas portuguezas, as quaes 
^u janiais'offendi, porque tive sempre esta opinião com, 



206 



que ^pero morrer : que entre oa portngaezes o qae ha 
de melhor sSo as portugaezas. 

Dias depois abria-se orna kermesse em Espinho, e 
ea fai instado para escrever algumas quadras que 
deviam acompanhar os boitquetê e flores soltas^ a que 
era destinada uma barraca especial. 

NSo me esqueceu, nem podia esquecer, a linda e 
loira senarita que tão graciosamente dançava o. jPc»- 
de-qwxtre. Dediquei-lhe, pois, esta quadrinha: 

Vendo aquelle Pas-de-quatre, 
Honra e gloria de Gastella, 
Até João Pinto Ribeiro 
Viria dançar com EUa ! 

Eu, na minha qualidade de pessoa indançavel, nSo 
deixava de ir á Âssembléa occapar um logar na mon- 
ia/ahxí como se diz no Parlamento, no Pim-Pam-Pum 
como ironicamente se diz em Espinho, para vêr a 
loira e linda $ehorita dançar o Pcts-de-qtiotre, porque 
cheguei a capaoitar-me de que o Pcu-de-^ttatre tinha 
sido composto exclusivamente para ella, como na» 
operas sfto creados alguns papeis para determinadas 
cantoras. 

O ecUerOf a graça, a vivacidade d'essa gentil creatu- 
rinha alegre e ágil, ao dançar o Pas-de-qtLatre, era 
um poema posto em musica, pelo menos uma estrophe 
que, vitalisada pela alma de uma hespanhola, parecia 
ter azas e voar ao longo do salão, levando comsigo 
para o mundo dos sonhos os nossos olhos e o nosso pa* 
triotismo. 



207 



Passaram dois annos apenas e, justamente agora, 
durante o mez de agosto, a loira e linda õeflarita vinh» 
de Madrid morrer a Espinho, a dois passos da Assem- 
bléa, onde ninguém a tinha excedido no Pas-de-qwxtre^ 
e onde as cordas do piano, na hora em que ella mor- 
reu, deviam ter estalado de dor. . . 

Foi outro dia que ella expirou ali, com vinte e 
cinco annos de idade, ouvindo soluçar o mar, que tan- 
ta ve25 lhe afagara as tranças loiras e tendo a certeza, 
ao menos, de que, morrendo longe da pátria, ninguém 
teria sido mais estimado sobre terra alheia por gente 
extranha« 

 senorita Ang. . ., como eu dizia em 189Õ, era 
Ângelita Olgado, era a linda e loira mignonne do Pas-- 
de-guatrey era em Madrid, em Espinho, sel-o-hia em 
toda a parte do mundo, uma creaturinha adorável, 
cheia de encanto e de graça, de alegria e vivacidade. 

NSo se perdoa, mas comprehende-se que a morte 
a ferisse cruelmente, porque também morrem os pas- 
sarinhos alegres e ágeis, que voam e cantam, que 
téem mais alma do que corpo, e que n!to se sabe bem 
66 nasceram para subir ao ceu ou descer á terra. . . 

Toda a colónia balnear de Espinho fez ao cadáver 
da senorita Olgado as honras espontâneas de uma 
grande pompa fúnebre, d'essas que não se decretam 
6 nascem apenas de um impulso geral de sentimento, 
de uma commoção profunda de saudade, generalisada 
a todas as camadas sociaes. 

Sobre o féretro as flores amontoaram-se como as 
jóias na oorbelha de uma noiva, e tristes esponsaea 



208 



«eram esses, os da mocidade com a morte^ os do salero 
TÍvacissimo da Hespanha com a terra fria de Portu- 
gal- 

Saudei Ãngelita Olgado nas suas horas de triam- 

pho na Assembléa de Espinho, e, apenas volvidas dois 
annosy choro-a hoje com a sincera saudade de quem a 
admirou com o enthusiasmo que a graça feminina, 
mais ainda talvez do que a belleza, desperta em to- 
das as almas que não apodreceram envelhecendo. 

Elm homenagem á sua memoria, deixo de respon- 
der a um viajante hespanhol que, ha poucos dias, es- 
creveu a respeito do nosso paiz : 

«Si no quiere vivir mal 
Váyase de Portugal.» 

Nem é preciso eu responder-lhe, porque os lábios 
frios de Ãngelita se encarregarão ainda de dizer ao 
seu injusto compatriota que em Portugal até os extran- 
geiros sâo adorados na vida e pranteados na morte, 
quando e quanto merecem sel-o. 

A loira e linda aefíorita levantar-se-ha do seu tu- 
mulo provisório para protestar indignada contra as 
palavras do seu patricio, que nem sequer ao menos, 
por amor da verdade e em respeito á justiça, quiz sa- 
ber que não houve em Espinho uma única pessoa que 
deixasse de acompanhar ao cemitério de Anta os res- 
tos mortaes de Ãngelita Olgado. 

A graciosa creatura morreu aqui tão rodeada de 
«carinhos e respeitos como se tivesse expirado na sua 



209 

i terra natal. E dia mesmai completando o sea protes- 
iOy estará repetíiido ao hespanhol, que nos offendeu, 
as ultimas palavras da soa offensa : 

^ Yâyase de Portugal. 

E estendendo a sua pequenina mSo já gangrenada 
i pela morte, apontando com o dedo indicador na direo» 
I <çao da fronteira, repetirá indignada : 

Yáyase de Portugal. 

Setembro de 1897. 



14 



VI 



A anecdotâ do martello 



È naturalíssimo ter a gente o gosto de encontrar 
n'ama praia. . . o mar. 

Durante a maior parte do anno é o mar que vae 
visitar-nos a nossa casa^ quasi sem a gente dar por 
isso. O linguado frito que se come ao almoço, o pargo 
cosido que se come ao jantar, não sSLo, a fallar verda- 
de, senão emissários do oceano, que em vez de rece- 
bermos, na sala, recebemos no prato. 

Em agosto e setembro resolvemos todos, por con- 
venção, pagar pessoalmente a visita, e fazemos uma 
boa caminhada a fim de nos aproximarmos do mar 
para lhe agradecer a remessa dos seus emissários, que 
nos outros mezes do anno nos alimentaram. 

Se saimos de casa para encontrar o oceanO; natu- 
ralíssimo parece que não tenhamos motivo para nos 
admirarmos. . . de o ver. 



211 



Mas devo dizer ao leitor que, procurando o mar, 
eu não esperava encontrar senão a praia. Pois achei 
mais alguma coisa : foi o frio. Sim, o frio, além da 
praia e do oceano com que eu já contava. 

Áh ! doce clima de Lisboa ! que pena nao poderes 
ler vendido, por toda a parte, em garrafas — como as 
aguas de Vidago e de Entre-os-Rios ! 

Estiveram as cortes abertas até 4 de setembro, 
para se arranjar algum dinheiro com que o paiz fosse 
{ovemando a vida até 1895. E ninguém se lembrou^ 
iúnguem ! de recorrer a essa grande fonte de receita, 
a essa poderosa industria que está por explorar ainda: 
a de engarrafar o clima de Lisboa e vendel-o a oiro 
110 paiz e no extrangeiro ! 

Imagine-se a procura que elle teria no Spitzberg 
6 em Braga, na Scandinavia e em Espinho ! Em Es- 
pinho, sim, onde ha trez dias se torna preciso andar 
uma pessoa de capote, por causa do frio, e de chapéu 
de chuva, por causa da cacimba. É o norte — com 
todos os seus rigores ; eu desconfio até que seja o Polo 
Korte. 

Âh ! doce clima de Lisboa, pudesse eu trazer-te 
^garrafado e beber-te aos copinhos, de quando em 
guando, para aquecer ! . • . 

Nos caffés de Espinho a musica está attingindo as 
proporções de verdadeiras succursaes de S. Carlos. 
Ainda ha poucos annos havia em cada Caffé dois ou 
trez músicos somente. Agora funccionam varias or- 
chestras, que investem com a grande opera, e que o 
! fazem com primor. Mas além do ruido próprio dos 



212 



botequins, ha alguma coisa mais^ que não prejudíc. 
menos o effeito da musica : são os espirros» 

Como quasi toda a gente está constipada, um tre 
clio da CavàUaria i^usticana ou da Bohème é cortaà 
por longas series de esternutaçoes ruidosas , que os exe 
cutantes já não extranham, porque elles próprios es 
pirram. 

D'aqui a mais alguns dias ha de chegar-se, certa 
mente, a reconhecer que a Bohème precisa capote, e 
A Cavallaría rusticana nao poderá dispensar o cache 
nez. Se não forem tomadas essas precauções, os 7Íoli 
nos e as violettas cairão doentes com pneum<mias, os 
víoloncellos apanharão catarrhos profundos, e os pianos, 
que tanto téem aqui que fazer, darão baixa ao hos 
pitai com rheumatismo articular. 

Ah ! doce clima de Lisboa, meigo protector ãos 
pianos, que falta que tu fazes aqui ! 

Tu és, no teu carinho philarmonico, uma espécie 
de ama sêcca dos pianos. Tu pareces trazel-os ao coi- 
to, embrulhados em lindas colchas para que se nh 
constipem, tu p3es o maior cuidado em que lhes nuo 
estalem as cordas, e é por isso que em Lisboa flores- 
cem, gozando excellente saúde, uns 999:999 pianos, 
que se estendem desde o Beato até Belém, desde a rua 
do Oiro até ás portas de S. Sebastião da Pedreira. 

Não é, pois, de extranhar que n*um paiz tão pro- 
]|^icio á existência dos pianos, como o clima de Davos- 
ÍÍSktz ou da ilha da Madeira ó favorável á conserva- 
rão dos tuberculosos, os pianos de Lisboa se mostrem 
Bènnpre dispostos a fallar, de dia ou á noite, e a res- 




213 



nder com resignação a todas as mSos que se pro* 
em sondar-lhes o teclado. 

Mas em Espinho, onde o clima está sendo duro, 
de as pessoas e as teclas espirram, om piano preci- 
de ser heroe para agnentar uma temporada de ba- 
os sem cair doente. 
Heroes de Espinho, resistentes pianos, que apesar 
do nevoeiro e do fno ainda nlo destes parte de fracos, 
eu vos saúdo com respeito e admiração, oiço- vos at- 
tentamente e, ao ouvir-vos, faço todo o possivel para 
■ vos nSo interromper espirrando. 

Diga-se, em honra da verdade, que os pianistas 
de Espinho sabem do seu officio, o que deve animar 
I mn pouco os pianos a levar a cruz ao Calvário. Além 
dos pianistas, os outros músicos foram escolhidos com 
cuidado, de modo que os directores das orchestras que 
se fazem ouvir nos caflFés, nâo téem motivo para zan- 
gar-se como um seu coUega, de quem se conta uma 
anecdota authentica. 

Era n'um casino balnear de França. O maestro, 
empunhando a batuta, começou a reger a orchestra, 
mas, n'aquella noite, cada musico tocava para seu la- 
do, por um d'esses enguiços que, nas horas aziagas, 
parece generalizar^mrse. 

O mae8t7*o ralhava com um, descompunha outro, 
írritava-se, barafustava. Quando o infelicissimo nume- 
ro terminou, elle poisou a batuta e, voltando-se cor- 
tezmente para os executantes, disse-lhes com inteira 
gravidade : 



\..^ 



2U 



— Se deixei de descompor algum dos senhores, 
peço-lhe desculpa. 

Felizmente, em Espinho os maestros não téena mo- 
tivo para zangar se, porque poucas vezes terá sido 
possível reunir grupos de artistas tão eguaes e com- 
pletos. Além do Frio e da musica, não sei bem de que 
mais deva fallar. 

As praias de Portugal, por muito que se espre- 
mam, dií&cilmente gottejam um folhetim. 

E preciso recorrer a processos habilidosos para ter 
assumpto ; inventar uma maniversia qualquer para, 
illudindo os meios, chegar ao fim. 

Farei, pois, por imitar, emquanto aqui estiver, o 
impedido de certo alferes muito bohemio, que se dei- 
tava de madrugada e que,, recolhendo tarde da borga, 
queria que o chamassem a horas de não faltar ao ser- 
viço no quartel. 

Nos primeiros tempos, o impedido entrava resolu- 
tamente no quarto do alferes, e gritava com arrega- 
nho marcial : 

— Meu alferes ! 

— Que é?! 

— São horas de v. s.* se levantar. 

— Vae-te pV'ó diabo ! Deixã-me dormir, 

— Meu alferes , . . 

— Deixa-me ! 

— São horas de v. s.* se levantar. 

— Ah ! elle é isso ! 

E o alferes, estendendo um braço até ao chão, 
procurava uma das botas. Logo que a encontrava^ sen- 



l 215 

tav&-ae na cama, atirava com a bota ao impedido, o 
<iual dAva meia volta á esqaerda, e saia do qoarto. 

IMEsts como o alferes nimca chegasse a horas ao 
quartel, o commandante reprehendea-o asperamente. 

Sntao disse o alferes ao impedido : 

Anda cá, rapaz. Tu precisas descobrir um meio 

q^nalquer de me fazer levantar da cama sem teres que 
le^&r com a bota. 

— Isso não é nada fácil, mea alferes ! 

— Bem sei, mas é preciso que se faça. Tu nSo 
tens ideia nenhuma? 

— Só se V. s.* deixasse de usar botas. 

— És tolo ! Procura outro meio. 

— Hei de vêr se encontro, para obedecer a v. s.* 
A' noite, noite alta por certo, quando o alferes 

recolheu a casa, perguntou ao impedido : 

— Então ! Descobriste ? 

— Descobri, sim, meu alferes. 

— O que foi ? 

— Isso agora 6 que eu não digo, para o meu al- 
feres não estar prevenido. 

— Pois bem ! vamos a ver com que te saies. 
Pela manhã, o impedido, depois de se ter munido 

de um martello, entrou de gatas no quarto do alferes. 

Arrastando-se, foi metter-se debaixo do leito e, ali 
intrincheirado; começou a bater com o martello para 
dma: traz, traz; bumba, bumba. 

Desesperado, o alferes sentou-se na cama, sem per- 
ceber ainda, meio tonto de somno, o que significava 
aquillo. 



216 



— O que é ? Quem está ahi ? 

Só lhe respondia o martello : zás que zás ; burab^^ 
que bumba. 

ElntSo o alferes^ lembrando-se do que o impedido- 
disserai f)ercebeu o que se passava. 

Agarrou n'uma bota, debruçou-se e atiroa-a para 
debaixo do leito. 

O martello continuava a martellar : zás que zás f 
bumba que bumba. 

Cada vez mais desesperado, o. alferes agarrou n^ou- 
tra bota, e arremessou-a na mesma direcção. 

O barulho continuava. Chegou n'aquella occasiSo 
o alferes a ter pena de não possuir quatro pés para 
dispor de quatro botas. Acabou por levantar-se, de- 
xnuito mau humor, é certo ; mas não teve remédio se- 
não fazel-o. 

— Podes sair agora d^ahi, gritou elle ao impedido. 

— N^essa não caio eu, porque se nenhuma das bo- 
tas acertou^ pode acertar algum dos pés. 

O alferes riu- se, preparou-se, almoçou e foi a ho- 
ras para o quartel. 

A questão é ter a gente algum modo de conseguir 
o seu intento. . . 

Oxalá que o leitor, lendo esta chrpnica, ria como 
o alferes e acabe por confessar, como elle, que tudo 
se pode conseguir, doesta ou d^aquella arte, comtanto 
que se disponha de um instrumento de lucta — por 
exemplo, um martello! 

Setembro de 1897. 



vn 



Despedida 



I>eixar o meu hotel de Espinho é o mesmo quor 
deixar a Hespanha; e faço-o com verdadeira sau- 
dade. 

Nao é que me encantasse Madrid ou que me en- 
doidecesse Sevilha. 

Eu não cheguei a passar a fronteira de Portugal, 
mas é certo que durante um mez conversei em Ma- 
dridy discuti em Sevilha^ ri em Badajoz... sem lá 
ter ido. 

Não conheço maneira mais commoda de viajar. 

Inventei uma Hespanha para meu uso no Hotel 
Braganza, onde tudo é hespanhol, o proprietário, D. 
António Fernandez, os hospedes, os criados, á cosinha 
e 08 palitos. 

Confesso francamente que me soube muito bem a^ 
conversação e a cosinha dos hespanhoes, que me inte- 



218 



Tessaram agradavelmente o scdero e o colora.rL^ os 
olhos das sehoritoB e os pimentos^ a alegria e o cho- 
-colate, de que principalmente vivem os nossos visinhos 
de Hespanha. 

Apesar das más noticias de Cuba e das Filippi- 
nas os hospedes hespanhoes sorriam ao almoço pas- 
sando os olhos pelo Imparcial e os beiços pelo choco- 
late. 

— Eêto de Cuba éa mui grave I 

E com um gole de chocolate sumiam em si mes- 
mos a tristeza que lhes causava o verem que os ne- 
gócios de Cuba são effectivamente muito graves. 

— Esto de las Filippinas és más una complicacion 
abominable, 

E lá vão mais umas centenas de soldados acudir 
ás Filippinas, para atalhar o incêndio da insurreição. 
Comtudo uma photogravura da Barcelona Cómica ou 
do Blanco y Negro alegrava de repente os hespanhoes, 
oomo se as Filippinas se conservassem mais fieis á 
Hespanha do que um cão a seu dono. 

Que vitalidade de patriotismo ! que nervura de na- 
<5Íonalidade, na hora do perigo ! 

Parecia que tanto as sehoritas como os muchachos 
estavam convencidos de que os banhos de mar^ que 
elles próprios tomavam, haviam de dar saúde á Hes- 
panha, e de que, refrescando-se a si mesmos, refres- 
cavam também a fé na pátria, e a esperança da vi- 
ctoria sobre Cuba e as Filippinas. 

O nosso Garrett tinha carradas de razão quando 
.dizia que se não pode ser grande sem crer em algu- 



; 219 



ma OOÍ8&. Os beqaiJicci crêesa ca H£sp«&£La e. 
da He^ianlia, crêem em Dt':i§w F>a c*5fw eX:- acresci- 
tam em maia nada, nem p-reclsaia. DcUTo £:• se;i P^^ 
ainda que duramoite experin^eniad^ c:s d:Irr.:è tem- 
pos por terríveis calaicidaSes, a esjer&r^ nlo os 
abandona nunca, parque sobre o eeu |:«aiz Treu Deiis 
a olhar para elles, prv>metíeiil>i}:€s p r:«teo.j-2o e aa»- 
paro. £ qaando nm hespanhol se propTe viajar, oc*ido 
fizeram aqoelles qae tive pc»r oompanbeiív^s de hotel, 
levam a Hespanha no coração e Deus na consciência: 
eis a sua bagagem. 

Sente-se a gente mais forte privando com nm po- 
vo forte. Alegra-se a gente convivendo com gente ale- 
gre. Nós^ os portagnezeSy somos desanimados e tristes. 
Para nos inspirarmos na força alheia precisamos ver 
de vez em qaando am leão, e para nos alegrarmos 
carecemos de ouvir cantar. Quanto ao leTio ... eu via 
todos 08 dias o de Castella; e a respeito de cantar^ 
uSo ha povo que mais cante fallando do que os hes- 
panhoes. 

A mesa do jantar funccionava como uma compa* 
nhia de zarzuela em towmêe de verão. Uma íípZe de 
vinte annos contava casos alegres da Assemblóa quei- 
xando-se de que os muchachos nâo pudessem aproxi- 
mar-se das senhoras para conversar, porque, por uma 
sabia resolução estupenda, as cadeiras estão pregadas 
ao soalho. Um tenor de trinta annos ensaiava uma 
ária de louvor á paisagem do Palácio de Crystal, do 
Porto, que tinha ido vêr e que o encantara. Um ba- 
rytono de cincoenta garganteava impressões da guerra 



de Caba terminando por tima nota grave em honra 
de DeuB Nosso Senhor, protector das Hespanhas. 

— Qae vevga eí chocolate, Ramon. 

Ao lado d'e8la zarzuda ambulante, que almoçava 
cantando, e parecia jantar ao som da musica da Qran 
Via, funccionara uma companhia de ninos, que tam- 
bém diziam tudo por musica, e descascavam mão- 
cotonea fazendo da faca batuta para reger nm Passe' 
caiu. 

Floriam alegres os rostos das hespanholas e dos- 
hespanhoes, como se tivesse chegado a noticia de 
que a ilha de Cuba se rendera ; mas no meio d'e8ta 
graciosa vegetaçSo (Io physionomias que sorriam, 
apparecia de onde a onde plantado um cypreste fú- 
nebre : era algum portuguez, que nem sorria nem 
cantava, 

Nilo ha ninguém que saiba aer mais delicado do 
qize um heapanhol que o seja ; mas também não ha 
ninguém maia grosseiro do que um heapanhol que não- 
seja delicado. 

Felizmente, á mesa do Hotel Braganza, eu só en- 
contrei, durante mais de trinta dias, hespanhoes amá- 
veis, primorosos no trato intimo, tendo sempre uma 
phrase composta para doirar uma idéa amarga. 

Em vez de noa chamarem cruamente macambú- 
zios, tinham a delicadeza de dizer — que nós outros, o* 
portuguezes, possuiamoa um caracter muito concen- 
trado. 

Vejam se é possível encontrar outra maneira de 
não faltar á verdade sem faltar á cortezia I 



221 



A historia das cadeiras da Âssembléa, pregadas ao 
«hSOy irritava muito as seiioritaSj que^ aliás^ sabiam 
disfarçar a suspeita de que houvesse sido tomada 
^qaella sabia resolução estupenda com receio de que 
A Hespanha, cansada da guerra de Cuba, nos quizesse 
levar as cadeiras^ para descansar alguns minutos. 

O hespanhol é, como se sabe^ a creatura mais in- 
quieta do mundo inteiro. Pode, portanto, imaginar-se 
o que lhe custaria ter de estar sentado n'uma cadeira 
:fixa. 

— Tienen usteds un caracter mvi concentrado . . . 
hasta en laa sillas dei Casino, 

£, em verdade^ não pode haver uma cadeira mais 
<ioncentrada do que uma cadeira que se agarra ao 
<ilião, como um tolo á sua mania, e que d^ali não é 
«apaz de sair senão á' força de martello. 

à colónia hespanhola poderia dizer que os aucto- 
Tes de tão sabia resolução faziam uma falsa ideia do 
^ue é a vida dos sal3es, onde, para conservar a ani- 
mação, é preciso que as cadeiras voem para onde os 
olhos as chamem, e que não ha amor que resista a 
plantar-se de pé, n'uma evidencia ridícula, deante de 
uma dama convertida em guarita junto de um solda- 
do de arma ás costas. 

Poderia dizer, mas não o disse nunca, e contenta- 
va-se com observar, amavelmente penalisada, que oa 
portuguezes tinham um caracter muito concentrado... 
até nas sillas, . • 

Que fidalguia de critica ! 

tJma das senwntas não gostava de dançar quadrír- 



222 



IhaB marcadas, nem valsava. D'ahi o ter de passar 
todo o mez de agosto sentada n'uma cadeira^ que nem 
sequer podia mover. 

Pois não lhe ouvi nunca um remoque, am quei- 
xume, contra as manobras choreographicas das qua- 
drilhas, e parecia divertir-se de vêr as outras senho- 
ras bailando. 

Como também nSo valsava, as noites de cotH' 
lon nSo eram para ella seguramente as mais diver- 
tidas. 

Apesar d'Í880, parecia sinceramente alegre quando 
sobre a fachada d'Ássembléa apparecia o pavilhão 
encarnado, facto que traduzido em vulgar significa 
na linguagem symbolica de Espinho: cParticipa-se 
ao mundo que se acha a bordo Sua Magestade o Co 
tillon, » 

Pois a encantadora sehoritay quando via hasteado 
o pavilhão, fazia tailette de gala, punha nos seus lin- 
dos cabellos pretos uma rosa, queria saber quanto» 
pares estavam inscriptos, quantas marcas haveria, 
quem as offerecêra, se algumas teriam novidade, e 
admira va-se de que as senhoras portuguezas passas- 
sem o dia sem fallar no cotillon. 

— Tien&n usteds un caracter mui concentrado ^ • , 
j>ero d cotillon és precioso ! 

Uma estimável senhora de Mérida, mãe de tre^ 
nihos graciosissimos, como já estava na reserva, evi- 
tava os assumptos galantes, mas não perdia occasiSo 
de dizer a Portugal coisas amáveis. Por exemplo : 

— El scUon de Espinho es lo mayor dd mundo. 



223 



£ se pedíamos licença para lhe observar que Lis- 
boa também era mundo, e que havia em Lisboa a^ 
seda do riscoj maior ainda que o salSo de Espinho, 
respondia de modo a não contrariar o que tinhamos- 
dito, nem o que ella própria dissera: 

— Lo acredito. Pêro d Casino está mui bien deco^ 
rodo. 

N'e8te ponto nSo tinhamos que constestar rasoa- 
velmente, porque a sala da Assembléa de Espinho pas- 
sou ultimamente por uma transformação agradável na 
respeitante a mobília. 

Agora que nos despedimos d'essa estimável colónia, 
entre a qual vivemos durante a nossa temporada de 
praia, fazemos votos, sinceros e ardentes, porque o 
Deus protector das Hespanhas suspenda a serie das 
terríveis calamidades que téem pesado ultimamente 
sobre o paiz visínho. 

Oxalá que os olhos das damas hespanholas não 
tenham que chorar mais lagrimas pela morte de ou- 
tros parentes sacrificados em Cuba na defesa da pa- 

tria^ 

Forque a verdade é que muitas das nossas encan- 
adoras visinhas vieram este anno a Espinho vestid as 
de luto. 

É escusado perguntar a rasão. 

As balas dos separatistas cabanos explícam-n'a. 

Os hespanhoes amam as cores vivas e garridas, 
de que a sua bandeira nacional dá o exemplo. Só uma 
desgraça de família òu da pátria os pôde obrigar a 
envolverem-se em crepes. 



224 



Foia bem, praza a Deus que a Hespanha, dando 
por bem empregado o sangue que derramou, possa, 
dentro em pouco, readquirir a sua antiga alegria^ 
soltar ao brilho das suas cores flaumiantes^ tranquíl- 
iisar-se e prosperar. 

Deus proteja a Hespanha. 

Setembro de 1896. 



]X 



MATTOSINHOS E LEGA 



. O porto de Leixões 

Quando eu estive em Mattosinhos^ ha cerca de 
<[ez annos^ tinham apenas começado as obras do porto 
de LeixSes. 

Este melhoramento^ que o commercio portuense 
pedia como pão para a boca, era ainda uma creança 
reeem-nascida^ a cujo baptisado eu assistira em S. 
Bento, não como simples convidado^ mas como um dos 
numerosos padrinhos^ que a fizeram christã. 

E por signal que^ como ás vezes acontece nas fes- 
tas de aldeia^ aquelle famoso baptisado notabilisou-se 
pela bordoada de crear bicho com que a moirama da 
opposição desancou o pai da creança^ os padrinhos, as 
madrinhas^ e até a própria creança. 

Mas, n'essa renhida lucta travada entre os chris- 
tlos govemamentaes e os moiros opposicionistas, quem 
venceu foram os christSos^ por se acharem em maio^ 

15 



226 



ria — nma das mais compactas maiorias que téem 
ido a S. Bento. 

Ao passo que nas duas casas do parlamento fervia 
a bordoada oratória, jogada com alma pelos mais ce- 
lebres pimpões do partido progressista, o Porto deita- 
va foguetes, que se ouviam ao longe, e mandava dizer 
pelo telegrapho para Lisboa aos christSos goveraa- 
mentaes: <P'ra frente é que é o caminho, rapaziada! 
Vamos a fazer do Porto, que tem uma péssima barra, 
um rival de Vigo, que possue umabella bahia.» 

Ora, annos depois, quando eu vim a Mattosinhos, 
a creança, que eu ajudara a baptisar, estava ainda 
embrulhada nas faxas infantis, muito engoiadinha, fa- 
zendo descrer a gente de que pudesse vir a ser al~ 
gum dia um senhor porto artificial digno de vêr-se. 

Lembro-me bem de que por essa occasiSlo contei 
algures a conversação que, a respeito das obras de 
XicixSes, travei com um velho lobo do mar, que já Deus 
lá tem agora. 

Muito sceptico, disséra-me esse experiente mariti- 
mo de barbas brancas e cachimbo na boca: 

— Olhe, senhor, isto nSLo pôde ir por diante, por- 
que a fortaleza do mar é muita, e ha-de desfazer tu- 
do o que os homens fizerem. 

Fallaria do mesmo modo qualquer dos nossos avós 
a quem se dissesse que chegaria um dia em que o 
pensamento havia de voar de um continente a outro 
nas azas da electricidade, e em que o caminho de fer- 
ro devoraria as maiores distancias com uma rapidez 
vertiginosa. 



227 



Era a voz da rotina a clamar contra as innovações 
do progresso, e a defender a integridade de uma praia 
que estava sendo invadida por uma chusma de operá- 
rios, de que as raparigas de Mattosinhos e Leça po- 
deriam gostar, mas que os velhos maritimos d estas 
duas praias consideravam como uma horda de vân- 
dalos. 

ComtudOy alguma verdade havia nas palavras 
d'aquelle lobo do mar, de barbas brancas e cachimbo 
na boca. 

Não se doma facilmente o oceano, não se modifica, 
sem ter que vencer grandes difficuldades, a obra es- 
pontânea da natureza. 

Mas a sciencia, a engenharia hydraulica, confiada 
nos seus poderosos recursos, ia encetar a lucta com 
o oceano, e estava certa de vencel-o, não sem violen- 
tas refregas e frequentes conflictos com tão valoroso 
adversário. 

Por sua parte, o mar revirava o dente á hydrau- 
lica, procurava rehaver o terreno que a sciencia lhe 
conquistava, e, apesar de ficar vencido na lucta, ain- 
da não está resignado com a derrota, ainda de vez 
em quando, como aconteceu o anno passado, se arre- 
messa em fúria contra o porto de Leixões para desfa- 
zel-o. K'essa ultima investida do oceano, o molhe norte 
fioflfreu grandes avarias, ficou muito arruinado. 

Voltando agora a Mattosinhos, o meu primeiro 
cuidado foi ir vêr o porto de Leixões, que ha dez an- 
nos tinha deixado no berço. 

Pois, senhores, está um homem feito... perdão! 



228 



está um porto artificial não direi perfeito, para não 
metter a foice na seara dos engenheiros, mas acabado. 
Passei todo o molhe sul, que é dividido em dok pa- 
redSes, sendo o superior revestido de um parapeito duen- 
de se avista, sobre o mar, um panorama encantador. 
Descobre-se d' ali toda a casaria alvejante de Leça 
e MattosinhoSy duas povoaçSes distinctas, separadas 
pelo rio qae deu o nome á primeira d'estas povoações, 
mas que, vistas do molhe, offerecem a illusSLo de es- 
tar unidas, de serem uma povoaçSLo única e extensa. 
Na direcção da barra, apinhôam-se sobre a mar- 
gem direita do Douro as edificaçSes da Foz, que é 
hoje nada menos que uma bonita cidadesinha balnear, 
onde o branco dos muros e das casas sorri batido ale- 
gremente pela luz do sol. 

Para o sul, na corda do litoral, avistam-se, quan- 
do o dia está claro, as praias da Granja e de Espi- 
nho alvejando dentro dos pinheiraes, que um tapete 
de areia loira separa do mar. 

E, enchendo o resto do horizonte, como um gigan- 
te ufano da sua vastidão, desdobra-se o oceano, em 
toda a plenitude da sua força e da sua magestade. 
É bello, é grandioso o panorama. 
Mas olhemos agora para o interior do porto de 
LeixSes. 

A impressão que eu recebi foi a de uma solidão 
onde a agua parece adormecida n'uma vaga melanco- 
lia azul, muito sonhadora e pensativa. 

No primeiro dia em que visitei o molhe apenas 
estava fundeado no porto um vapor extrangeiro. 



229 



Pobre vapor ! parecia aborrecido de se vêr ali tSo 
8Óy sem ondas e sem companheiros. 

Não se enxergava ninguém a bordo, a tolda esta- 
va deserta^ nSo havia da proa á popa o menor indicio 
de vida. 

No segando dia em que voltei ao porto de Leixões, 
o numero dos vapores ali ancorados tinha augmenta- 
do um pouco. Eram trez, sendo dois d'elles inglezes. 
Havia mais algum movimento a bordo d'estes dois va- 
pores^ mas o primeiro continuava adormecido na mes* 
ma tristeza inerte. Tive vontade de o ir accordar. 

For ser dia santo, dia de S. Pedro, alguns botes 
de recreio bordejavam á vela dentro da bahia. Sentados 
ao leme, viam-se rapazes inglezes, fortes e rubros, que 
gostam immenso de viver todo o anno em Mattosinhos 
e Leça, em Leça principalmente. 

A agua é o seu encanto d'elles. De manhã logo, 
tomam banho no rio ou no mar, quando nao tomam 
successivamente banho no rio e no mar. 

Depois de almoço vão para o Porto trabalhar nos 
seus escriptorios, muito entretidos durante todo o ca- 
minho a fumar e a lêr dentro do americano^ sem dar 
palavra a ninguém. 

Ao fim da tarde, vão barquear para a bahia, re- 
mando elles próprios com pulso de ferro ou dando 
grandes passeios uns com os outros e com os seus cães 

de caça. 

No bordo interior do molhe havia muitos homens 
do mar, que se entretinham pescando á linha ou á 
canna. 



230 



E' um divertimento dos velhos marítimos. 

Sentei-me ao pé de um dos pescadores, e proGorci 
fazel-o fallar. 

— Isto, disse- me elle, é o meu maior prazer. Tenho 
ali em Mattosinhos uma lojinha de commercio, mas 
deixo a mulher ao balcão e venho para aqui entreter- 
me todos os dias. 

N^isto interrompia-se para levantar rapidamente 
a canna, de cujo anzol pendia um pequeno peixe que 
se debatia em desespero. 

— Nâo é uma faneca ? perguntei eu. 

— É uma faneca, sim, senhor. D^aqui a dias che- 
ga o tempo do chicharro, e então é que a pesca dá 
gosto. 

E ia pondo _a isca no anzol, recalcando-a, amas- 
sando-a cuidadosamente com a cabeça do dedo pol- 
legar. 

— O senhor verá, continuou elle, a gente que para 
aqui vem pescar depois do meiado de julho. Está todo 
este peredão cheio. Até senhoras ! 

— Sim ? As senhoras também vem pescar á linha? 

— Muitas ! Á linha e á canna. Por tal signal que 
é preciso a gente acautelar-se para não apanhar com 
as cannas pela cara. 

— Veremos isso. E eu mesmo já sinto vontade de 
me fazer pescador também. 

Sim, querido leitor, a gente ali, á beira do porta 
artificial de Leixões, tem vontade de ser pescador. .. 
para fazer alguma coisa. Se nã6 fôr isso, morre-se de 
melancolia, porque o porto tem escasso movimento. 



231 



parece adormecido^ á espera que o transfonnan de 
simples porto de abrigo em porto ooimnercial. 

Mas para qae esta necessária transformação se 
realize é preciso gastar dinheiro, ligar a bahia com a 
alfandega por meio de um caminho de ferro. 

O que está feito serve de pouco^ é, no meu enten- 
der^ apenas meia obra^ falta completal-a, e isso ha-de 
vir com o tempo, qaando houver dinheiro, sabe Deus 
quando será! 

Quero concluir a descripçao do molhe sul fallando 
do titan^ que serviu para guindar os blocos e sobrepôl-os 
formando a muralha. Ê, como o seu nome indica, 
uma machina colossal, que se avista de toda a parte 
6 que, atravessado no ar, riscando o azul do ceu, faz 
lembrar um cetáceo morto, immovel, com uma casi- 
nhola de madeira sobre o lombo. 

E uma balêa de ferro que, do alto, parece con- 
templar o oceano saudosamente. 

 entrada da bahia, na extremidade do molhe 
sul, está- se construindo o pharolim, que eu tantas 
vezes pedi no parlamento, por ser indispensável á 
orientação dos pescadores que, durante a noite, correm 
o perigo de ir esbarrar as suas lanchas d'encontro á 
muralha. 

O porto de Leixões prejudicou as antigas praias 
de banhos de Leça e Mattosinhos, que ficaram mettidaa 
dentro d'elle. 

Foi, portanto, preciso, tanto em Mattosinhos como 
em Leça, improvisar novas praias, e direi de passagem 



232 



qae a de Mattosinhos é excellente, melhor talvez que 
a antiga. 

Junto ao porto passa o ramal da linha da Povoa,^ 
que por ora não tem ainda estação^ mas que deve dar 
interesse á companhia^ não propriamente pelo movi- 
mento do porto, que é insignificante, mas pelo trans- 
porte de peixe para o consumo da cidade. 



n 



Ainda o porto de Leixões 



Volto a fallar do porto de LeixSes, porque elle 
6stá agora sendo muito visitado ou^ anteS; muito pas- 
seiado pelos banhistas de Mattosinhos e Leça. 

O molhe sul é o preferido para o passeio ves- 
pertino, especialmente pela colónia balnear de Mattosi- 
nhos, não só por ser o que lhe fica mais próximo, mas 
também por ser o menos incommodo. 

Âs ondas não ousam transpor este móihe, galgal-o 
íe um salto. Respeitam a muralha, quebrando nos 
Mocos que, encostados uns aos outros, a reforçam, e 
<iue ainda assim não são bastantes a garantir a segu- 
rança da construcção. 

O mar, ao sul do porto de Leixões, é por via de 
regra tranquillo, tão tranquillo que alguns vapores 
fundeam fora do molhe, mas ao abrigo d'elle, para 
evitar a despeza que teriam de fazer se entrassem no- 
porto/ 



234 



Pelo contrario, o mar que bate na maralha do 
norte é bravo, revolto — é esse mesmo mar sempre i 
irrequieto, que banha a Povoa e as Cachinas e qne 
de lá vem correndo em vagalhões para se despedaçar 
d'encontro áqaella muralha. 

E' certo que o molhe norte, como disse na minha 
^sarta anterior, foi ha dois annos muito maltratado pela 
braveza do mar durante o inverno. O temporal soprou 
tSo violentamente, que ainda hoje, depois de concer- 
tado o molhe, restam alguns vestigios da devastação. 
O titan está em terra, como um gigante prostrado ; ou 
antes, tanto está em terra como dentro d'agua, porque 
pende inclinado do molhe para a bacia, meio desco- 
berto e meio afundado. 

Não sei por que o não levantam para salval-o. 
Cousas portuguezas. Caiu? Deixal-o cair. O mar, 
quando vier uma nova tempestade, se encarregará de 
-dar cabo d'elle. 

Não se pôde passeiar impunemente pelo molhe nor- 
te. As ondas^ passando por cima da muralha, enchar- 
cam os passeiantes, dão-lhes um banho forçado, appU- 
cam-lhes uma douche valente. 

Os grandes rolos de espuma, que do norte vem 
galopando vertiginosamente, embravecem ainda mais 
quando encontram, junto ao molhe, os penedos que, 
denominando-se Leixdes (pedras grandes), deram no- 
me ao porto artificial. 

E, tomando ahi maior fúria, apagam-n'a n'um 
jirranco feroz, em que a agua espadana e a espuma 
jsalta em flocos, ao quebrarem-se na muralha. 



235 



Âi de quem passeia sobre o molhe no momento em 
que as ondas se despedaçam, porque vem de lá com o 
seu claro fato de verão sarapintado de pingos d'aguA 
e com as abas do chapéu de coco a chorarem como 
beiral de telhado depois de rijo aguaceiro. 

£' n'este molhe que se acha estabelecida a dele- 
gaçao da alfandega, e é junto a elle que fundeam os 
navios em observação sanitária. 

Aos quarentenários é permittido passeiar no molhe, 
6 certamente não terão muita vontade de o fazer, 
porque o banho ó certo, o baptismo infallivel. 

Ha uma communicaçao, disseram- me, entre o mo- 
lhe norte e as pedras de Leixões, mas eu não a vi 
ainda, porque as ondas a cobrem quasi sempre. O que 
€a vi foram as escadas e a porta que dão saída para 
essa communicaçao. Ainda cheguei a descer alguns 
degraus, mas recuei por ter encontrado na minha fren- 
te as ondas, que galgavam escada acima, e tapavam 
a porta com um denso reposteiro de espuma, através 
da qual brilhava, como ouro fosco, um poente de gem- 
ma de ovo. 

Era bello esse relance, tinha o que quer que fosse 
de phantastico ; fazia acudir ao espirito a lembrança, 
a vaga recordação dos Homens do tnar, de Victor 
Hugo. O panorama das povoações do litoral, Leça, 
Mattosinhos e Foz, ó muito mais pittoresco visto do 
molhe norte que do molhe sul. 

N*uma palavra, tudo concorreria para dar prefe- 
rencia ao passeio n'aquelle molhe se não fosse o incon- 
veniente, quasi certo, de uma aspersão incómmoda. 



1 



236 



For issOy attendendo a que o mar ao sul é dotado 
de melhor génio, um mar pacato, para uso dos pas- 
seiantcs, toda a affluencia de banhistas^ no seu passeia 
vespertino, converge para o molhe sul. 

Todavia, os blocos que reforçam este molhe não 
são ainda bastantes ; é preciso augmentar-lhes o nu- 
mero, o que nSLo ha-de custar pouco dinheiro. 

For conta de quem correrá essa despeza? Eis a 
questão. 

Os empreiteiros allegam que, tendo vindo ao porto 
uma commissão de engenheiros logo depois d'elle cons- 
truido,^ apenas notaram a falta de alguns pequenos 
reparos para maior solidez^ e que esses reparos foram 
logo feitos. 

Fortanto, allegam ainda, essa vistoria constituiu 
uma posse provisoo^ia, desde o momento em que o porto 
foi julgado em condições de poder funccionar, embora 
se não tivesse lavrado a competente acta. Cousas por- 
tuguezas também. 

For sua parte^ o ministério das obras publicas 
allegou em tempo, quando se reconheceu a necessidade 
de reforçar com novos blocos o molhe sul, que a vis- 
toria não significava a posse, e que nem mesmo havia 
acta por onde se pudesse provar que o Estado havia 
tomado conta do p»rto. 

A isto responderam os empreiteiros dizendo que 
estavam promptos a fazer as obras, mas que o governo 
lh'as havia de pagar, porque desde que a junta de 
engenheiros apenas exigira certos reparos, e elles fo- 
ram feitos, se subentendia que o Estado tomara posse 



237 



io porto por o julgar definitivamente concluído. Foi 
n'e8te pé que o sr. conselheiro Bernardino Machado 
deixou a questão, quando saiu do ministério das obras 
publicas. 

S. ex.* nao quiz reconhecer o direito que os em- 
preiteiros allegavam, mas parece que a respectiva 
repartição hydraulica não pensou nunca do mesmo 
modo. 

O que 6 certo é que o porto de Leixões pertence 
« não pertence ao Estado : pertence-lhe, porque é o 
Estado que cobra o rendimento do porto ; não lhe per- 
tence^ porque o Estado não tem ainda nas suas mãos 
um documento authentico da posse. 

O negocio está suspenso, os empreiteiros obstinam- 
se e o ministério dàs obras publicas não resolveu por 
emqnanto o assumpto. 

Mas os technicos exigem, para segurança do porto, 
o prompto reforçamento do molhe sul, pague a despeza 
quem houver de a pagar em melhor direito, sejam os 
empreiteiros ou seja o Estado. 

Parece que ha já projectos, se não pedidos, para 
a construcção de dockas e de um cães acostavel, ao 
sul. Se estas obras vierem a fazer-se, e o porto de 
Leixões for ligado á linha férrea do Minho e Douro 
por um ramal (a que já ha pretendentes, segundo 
consta também), o movimento do porto será decerto 
muito mais importante, Leixões deixará de ser apenas 
um porto de abrigo para ser também um porto com- 
merciaL 

E' muito trabalhoso e dispendioso o modo por que 



238 



hoje é conduzida a LeixSes a carga que os paquetes 
aqui téem de receber. Essa carga, se é de vinho, vem 
directamente de Villa Nova de Gaya em barcaças, 
que navegam difficilmente, e que correm o risco de 
afundar-se. A outra carga procura ordinariamente o 
ramal que a companhia do caminho de ferro da Po- 
voa estabeleceu da Senhora da Hora para Mattosinhos^ 
mas tem de soffrer duas baldeações — uma das car- 
roças para a estaçSo da Boa Vista, no Porto; outra, 
da estação da Senhora da Hora para o ramal de 
Mattosinhos. 

Este processo, o melhor a seguir para o transpor- 
te pela via terrestre, ó moroso e dispendioso. 

Cada um dos grandes paquetes que chegam ao 
porto de Leixões recebe a bordo um considerável 
numero de emigrantes. Os registos da administração 
do concelho mostram que só no anno de 1893 embar- 
caram em LeixSes mais de dez mil pessoas com des- 
tino ao Brazil. 

A entrada e saída d'esses paquetes constitue um 
divertimento para os banhistas de Mattosinhos e Leça, 
que chegam a passar longas horas sobre os dois mo- 
lhes do porto, especialmente no do sul, esperando que 
os paquetes entrem ou saiam. 

E todavia esse divertimento não deixa de ter a 
sua nota triste, commovente. Muitos botes se aproxi- 
mam dos paquetes conduzindo as famílias dos emigran- 
tes, que vão despedir-se d^elles. Lenços brancos flu- 
ctuam no ar, dizendo adeus, quando os paquetes le- 
yantam ferro, e dão morosamente a volta para aproar 



239 



i boca do porto. Ouve-se ás vezes, quando o tempo- 
está sereno^ chorar de rijo, gritar dolorosamente: 
é alguma pobre camponeza que vê partir o filho 
n^esse terrivel momento. Estas scenas de lagrimas re- 
petem-se pelo menos todas as semanas. 

Também 6 frequente ver desembarcar de um bote^ 
no meio de dois policias civis, um emigrante que fora 
apanhado a bordo sem passaporte. 

Finalmente, a eterna questão da emigração, d& 
que tanto se falia em S. Bento, e que, hoje mai» 
do que nunca, é difficil de resolver, offerece-se aqui 
á observação dos banhistas com os seus pungentes^ 
aspectos. 

Muitos dos passageiros dos paquetes saltam em ter- 
ra, vão vêr a Foz e o Porto. Outro dia desembarcoa 
do Gallicia, que se demorou em Leix5es algumas ho- 
ras, uma ingleza de cabellos louros e olhos pretos, 
uma verdadeira raridade, que deixou encantadas to- 
das as pessoas que a viram. 

Essa formosa mias tinha Albion nos cabellos^ e a- 
Península Hispânica nos olhos. 

Na cabeça, nas tranças doiradas que poderiam 
causar inveja a Daphne, era bem do norte ; mas pelos- 
olhos negros, ao mesmo tempo brilhantes e languidos, 
pertencia ao sul. 

Até o meu amigo João Pereira Teixeira de Vas- 
concellos, que está aqui a banhos, e que foi a bordo 
do Gallicia, teve de confessar que em Amarante^ 
n^aquella Amarante^ de que elle é tão zeloso represen- 



240 



iante e defensor^ não havia uma cara tão bonita e sug*- 
gestiva de tentaç^ cosmopolitas. 

Euy felizmente, não estive a bordo do Gallicia, 
nem vi a bella ingleza. T)\^ feLizmente, porque ha 
«spectacalos que são tão agradáveis como incóminodos. 
E esse pertencia a este numero. 



m 



Os inglezôã e o Porto 



Os inglezes sempre gostaram muito do Porto^ e o 
Porto sempre gostou muito dos inglezes. 

Mas, a julgar pelo que tenho observado, as ten- 
dências anglóphilas dos portuenses infíltraram-se de 
tal modo na geração moderna, que chega a ser difficil 
ás Tezes distinguir um portuense de um inglez. 

O espirito de imitação, mas de imitação involun- 
tária, não paródia propositada, resultado de uma an- 
tiga tradição, manifesta-se nos costumes dos rapazes 
do Porto, que vestem na sua maior parte á ingleza, 
usando fatos claros e largos; que se entregam a exer- 
cícios de força e agilidade, á velocipedia principal- 
mente; e que logo que entram n'um carro americano, 
com destino á Foz ou Mattosinhos, abrem um livro e 
mergulham n^elle o olhar, como todo o bom inglez em 
viagem. 

Em Lisboa não é muito vulgar que um U^amwayy 

16 



242 



que vae segoindo para Algés^ se converta em gabi- 
nete de leitura ambulante. 

Não ! Um ou outro passageiro desdobra deante dos 
olhos qualquer jornal, e passa-o apenas pela vista. Os 
outros conversam, e os que não conversam vão entre- 
tidos a observar o caminho, os trens que passam, e a 
gente que vae dentro dos trens. 

Todo o lisboeta gosa sempre um certo encanto em 
contemplar o Tejo, quando passa á beira d'elle, desde 
o Aterro até Algés. E a vista do mar, no Estoril e 
Cascaes, absorve-lhe a attenfão, é para o lisboeta um 
espectáculo attraente. 

O portuense^ muito inglezado nos seus costumes, 
dá pouca attenção ou mesmo nenhuma ao rio Douro, 
quando transita na linha americana que o margina ; e 
não se importa sensivelmente com o mar, quando, via- 
jando pela linha que aqui se chama de cima^ principia 
a avistal-o na Foz, em caminho de Mattosinhos. 

O portuense faz essa pequena viagem lendo, e pa- 
rece que a faz só para ler. Não repara em quem en- 
tra ou em quem sae, senão muito disfarçada e ligei- 
ramente por cima do seu jornal ou do seu livro ; e nâo 
conversa com um conhecido senão trocando com elle al- 
gumas phrases com que rapidamente interrompe a lei- 
tura para reatal-a tantas vezes quantas a interrompe. 

Como saltar dos americanos, quando vão em mar- 
cha, é um exercício de destreza, principalmente se a 
tracção é feita a vapor, todo o rapaz portuense salta 
de um carro ou sobe para elle sem esperar que a ma- 
china pare. 



243 



D'aqui uma longa seríe de desastres, pernas par- 
tidas, corpos dilacerados, mortes horrorosas, como 
ainda aconteceu ha poucos dias, em Gondarem, na 
Foz. 

O filho de um capitalista portuense, vindo na 
plataforma de um carro americano, que era puxado 
a machina, saltou para subir á plataforma de outro 
carro, que seguia em direcção opposta. Caiu e foi 
colhido pela machina do comboio para onde queria 
saltar. Este desastre causou uma grande sensação, 
porque victimou um rapaz a quem nada faltava, nem 
mesmo o dinheiro, para ser feliz. 

E note- se que nem só os rapazes téem pago o seu 
tributo á morte por causa doeste género de imprudên- 
cias. Ha annos, morreu assim um velho advogado, 
que gosava de bons créditos no foro, por ter saltado 
do carro, em frente de sua casa, quando a machina 
ia em marcha. 

O martyrologio da linha americana de Mattosi- 
nhos é já muito avultado, não tanto por causa da ma- 
china que arrasta os comboios, como pelo habito in- 
consciente de exhibir dotes de agilidade e firmeza. 

O inglez vive dentro do Porto e nos arredores do 
Porto sem sentir saudades da pátria. Está bem, acli- 
mou-se, é como se fosse um indigena. A todos os ar- 
redores do Porto prefere Leça da Palmeira, que é 
uma colónia britannica, onde a ingleza passeia, e o 
inglez reina, nada e caça. 

Ha no aspecto da povoação de Leça o que quer 
que seja de melancolia, que principalmente provém 



244 



da visinhança dos pinheiraes solitários e do rio dor- 
mente. Mas partem de Leça boas estradas^ que eon- 
vidam á marcha, tão predilecta dos iaglezes ; o rio é 
uma tina sempre cheia para o banho de agua fria, 
que os inglezes apreciam tanto no inverno como no 
verão ; e a facilidade da viagem ao Porto, onde os in- 
glezes téem os seus escriptorios, converte Leça n'um 
bairro affastado, onde se pôde habitar sem se estar 
muito perto nem muito longe do Fiurta. 

Aqui tenho assistido ao banho quotidiano dos in- 
glezes no rio Leça. 

As manhãs de junho estiveram frias, nevoentas. 
Á beira do rio havia uma humidade, que fazia espir- 
rar. Pois, não obstante, os rapazes inglezes saiam 
das suas barracas vestidos com um fato de malha, 
que lhes deixava as pernas e os braços inteiramente 
livres para a natação ; e conversavam pausadamente 
uns com os outros, de pé, esperando que todos estives- 
sem promptos. 

O relevo dos músculos desenha va-se como no corpo 
d^esses luctadores de circo, que nós conhecemos pela 
reproducção das esculpturas romanas. Os pós, maito 
desenvolvidos, offereciam uma solida base ao peso do 
corpo. Quando o ultimo inglez saía da barraca, todo o 
grupo ia saltando successivamente para dentro d'agaa, 
de cabeça para baixo. Cada inglez desapparecia n'am 
longo mergulho, para reapparecer depois com as faces 
infladas e escarlates, ao lume d'agua. E, nadando pa- 
ra terra, o inglez subia a pequena escada de madei- 
ra, para uso dos banhistas, e tomava a dar novo sal- 



245 



to e novo mergulho, para tomar a subir, e para tornar 
a saltar e a mergulhi^r. 

Alguns dos rapazes ingiezes levavam oomsigo uns 
canitosy que ladravam alegremente ao vêr a folia dos 
donos. E os donos, pegando nos canitos pelo gasnete, 
arremessavam-n^os ao rio, e esperavam que elles che- 
gassem a terra, para arremessal-os outra vez. 

O banho dos ingiezes, cortado por todos estes pit- 
torescos episódios, durava uma hora pelo menos. 

E quando os ingiezes saiam das barracas^ vestin- 
do um leve frack, abarto no peito sobre a camisa de 
Oxford, marchavam vigorosamente para casa, n'um 
passo largo e forte, fumando e conversando. Os cani- 
tos iam aos saltos adeante d'elles, pulando-lhes ás 
mãos, dando cambalhotas, mostrando-se frescos e ale- 
gres como os seus donos. 

Era dentro d'agua que os rapazes portuenses fica- 
vam prejudicados pelo confronto com os rapazes ingie- 
zes. Os primeiros queriam nadar; os segundos nada- 
vam. Os primeiros mergulhavam pouco; os segundos 
mergulhavam sempre. E ás vezes um inglez carrega- 
va na cabeça de um portuense^ seu amigo e coUega 
no commercio, obrigando-o a desapparecer debaixo 
d'agua, e rindo da atrapalhação em que o mettera. 

Mas quando uns e outros partiam para casa, de- 
pois do banho, a differença desapparecia pelo que res- 
peita ao passo e ao fato, subsistindo apenas no tocante 
á coloração das faces. O inglez ia corado; o por- 
tuense ia pallido. Aquelle poderia repetir o banho 
sem nenhum constrangimento; o portuense iria para 



246 



dentro de agua se o inglez também fosse, mas faria 
n'isso um sacrificio, que lhe prejudicaria a saúde. 

Ãté á questão do Ultimattmi, portuguezes e ingle- 
zes viviam em commum no club de Leça. Mas a orti- 
caria do patriotismo, de que fomos atacados por essa 
occasião, chegou também a Leça e fez que os ingle* 
zes tivessem de abandonar o club commum para irem 
constituir um club privativo. 

Mas a epidemia passara, os ares abonançaram-se, 
a harmonia restabeleceu-se. Comtudo os dois dubs 
ficaram subsistindo em memoria d'aquella instantânea 
separação de colónias. 

Inquestionavelmente, o portuense aprendeu com o 
inglez a ser methodico, trouxe do escriptorio do 
inglez, onde porventura foi caixeiro, o habito da regu- 
laridade na hora de chegar a casa, de sentar-se á mesa 
de jantar, e de sair do club. 

O relógio é quem governa no Porto, á ingleza. O 
tempo é dinheiro : perdel-o ó perder interesses. Se o 
caixeiro, que está no Porto, não vê chegar ao escri- 
ptorio, á hora do costume, o patrão, que está a banhos 
em Mattosinhos, fica suspeitando logo que o patrSo 
teve uma grande arrelia ou que a senhora do patrão 
teve mais um menino. 

O lisboeta, sentado á mesa do jogo, pára para 
conversar. O portuense, que joga o bóston, o voltarete 
ou o solo, só trata de jogar. . . emquanto joga. Quando 
chega a «sua hora» vai para casa, ainda que o vol- 
tarete esteja enremissado. As remissas ou se dividem 
ou ficam para o dia seguinte. 



247 



Aqui, em Mattosinhos^ a praia de banhos anima-se 
logo de madrugada. O commerciante vai tomar banho 
muito cedo, porque tem de almoçar e de ir para o 
PortO; a fim de dar entrada no seu escriptorio ou no 
6eu estabelecimento á hora do costume. Passam as 
«emanas, succedem-se, e o portuense não falta um só 
dia no Porto, não faz uma gazeta, uma só que seja. 
Não se permitte outro dia de descanso alem d'aquelle 
que os cânones auctorisam : o domingo. 

De modo que para as senhoras portuenses, que 
fião casadas com negociantes e que estão a banhos em 
Mattosinhos e Leça, o domingo é duas vezes o dia do 
mJior: o dia de Deus e o dia do marido. 

 hora do jantar é mathematica. O «senhor» 
chega do Porto na machina das quatro, das quatro e 
meia ou das cinco horas. Âs criadas e os pratos estão 
a postos, á espera. Ás seis, a familia sai a passeio. 
Às oito, o marido, de charuto ao canto da boca, 
está sentado á mesa do jogo no club. Ás onze e meia 
está dentro da cama. D 'aqui por deante não sei se 
mantém a mesma regularidade em todos os actos da 
soa vida domestica, mas é de suppôr que sim. 

N'uma palavra, o grande figurino do Porto é o 
inglez. O portuense copia-lhe os hábitos sem até dar 
por isso : está na sua educação. E se, por qlialquer 
circumstancia, o portuense se visse forçado a abando- 
nar a sua nacionalidade, far-se-ia ofíicialmente inglez 
—unicamente inglez, pela simples razão de que já o 
^. . . no que pôde ser. 



IV 



o Senhor de Mattosinhos 



No seu numero de terça feira^ l.o de junho^ dizia 
o C<ymm&i*cio do Porto : 

((Já ha oito dias que no largo de SanfÁnna 
— ponto onde começa o arraial de Mattosinhos — se 
acha estabelecida a feira da clouça de Fradoj», essa 
louça de barro cosido, como cântaros, alguidares, etc., 
que tão extraordinário consumo costuma ter, por isso 
que é por esta occasião que os aldeões de Bouças e 
circumvisinhanças vâo ali sortir-se para todo o anno, 
ficando como que exclusivamente para vender aos ro- 
meiros, as gaitas e assobios de barro vidrado, que 
são o tormento dos nossos ouvidos. 

<KÂté hontem os lugares tomados em terrenos mur 
nicipaes para venda de géneros e para outros miste- 
res, no arraial, eram os seguintes : 

ccFara vinho e comida, 88 ; louça graúda, 37 ; 



249 



idem miúda, 107 ; padeiros, 38 : doceiraa, 32 ; hjppo- 
dromos, 6 ; carros com eerreja, 5 ; mesas com limo- 
nadas, 6; barraca para figuras de cera, 1; para 
escola dô tiro, 1; para <pim-pam-pum» , 1.^^ Total, 
322 lugares». 

Não ha Qos arredores do Porto imagem de maior 
devoção qoe a do Senhor de Mattosinhos. 

Tem, como todas as imagens milagrosas, a sua 
lenda, contada n'um farto volume^ que é muito conhe- 
cido dos biblióphilos, apesar de nunca haver attÍDgido 
luna elevada cotação litteraria. 

E, além da lenda^ que me não proponho repetir 
agora, porque não quero perder de vista o tom ligeiro 
de uma chronica, tem um palácio e uma riqueza. 

Quando digo — um palácio, — refiro-me a um vas- 
to templo, que, sem ser monumental, não deixa de 
ter certa originalidade, sobretudo no aspecto da fa- 
chada. 

Ao contrario do que acontece na maior parte dos 
templos do norte do paiz, o frontispicio da egreja de 
Mattosinhos não se arroja para o ar, recortando o 
azul. Não é alto, e n'isto se parece com o da egreja 
de Leça, o que revela que a architectura de um does- 
tes templos foi imitada do outro, se bem que a de Leça 
seja muito mais modesta que a de Mattosinhos. 

Mas, com ser baixo, é ornado sem excesso ; agra- 
dável á vista. 

Tem a apparencia de uma casa apalaçada, cujo 
proprietário a quizesse notabilisar com laçarias e es- 
tatuas. 



250 



Dáy poisy a impressão, oomo disse, de um palácio, 
tanto mais que deante do templo abre-se uma espécie 
de parque deleitosamente sombreado, coberto por ama 
abobada de verdura^ que faria as delicias de um in- 
glez opulento. 

De um e outro lado é limitado o adro de Matto- 
sinhos por algumas capellas, onde estSo representados 
os Passos da PaixSo de Christo. 

Nos últimos dez annos^ a mesa da irmandade man- 
dou construir, junto ao templo, um edificio destinado 
ás sessões da confraria e outro edificio onde estabele- 
ceu uma escola ; á ilharga do templo, fez riscar um 
pequeno jardim onde a agua canta e lindas rosas 
florescem na primavera. 

For detraz da egreja estendese um vasto ciúnpo, 
que também vae receber uma edificação, já começada, 
e que ha de servir de hospital. 

É n^este campo que, por occasião da romaria, a 
qual dura trez dias e começa no domingo do Espirito 
Santo, se queima o fogo de artificio, com a assistên- 
cia de milhares de pessoas, nâo só do Porto, mas de 
muitos concelhos mais ou menos próximos ao de Bou- 
ças. 

Alguns dos romeiros vem de longe, e todos elles 
acampam pittorescamente nas visinhanças do templo, 
especialmente no adro, cuja boa sombra os convi- 
da. Depois de queimado o fogo de artificio, a mul- 
tidão apossa-se do campo onde elle costuma ser ar- 
m&do, 6 ahi passa a noite deitada sobre a terra, ao 
relento. 



251 



N3o creio qae possa dormir, porqae o bolicío do 
arraial nllo se interrompe jamais de dia oa de noite. 

Os descantes, as danças, os pr^Ses, a grita avi- 
nhada dos estordios continuam até de madrugada para 
recomeçar mais alegres e retemperados o(»n a luz do 
sol. 

São trez dias completos de regabofe, durante os 
quaes as barracas de comes e bebes fazem um nego- 
ciarrão, sendo o vinho e o peixe frito disputados com 
impaciência pelos grupos de romeiros que se vão sue- 
cedendo e renovando constantemente. 

Aqui um cego estropia o «Noivado do sepulchro» 
ii'uma voz gemebunda de carpideira d'aldeia. Ali um 
aventureiro esfarrapado mostra um cosmorama a dez 
réis por cabeça. Enxames de pregoeiros annunciam a 
grandes berros as obras famosas da litteratura de 
cordel. Acolá um bohemio de profissão lê as sinas aos 
namorados. Por toda a parte compactas agglomera- 
ç8es de curiosos assistem, muito interessados, aos bai- 
laricos e descantes, em que as raparigas da beira-mar, 
fortes e moreuas, se distinguem pela elegância do 
corpo nas evoluções choreographicas e pela prompti- 
dão do improviso nas réplicas ao desafio. 

Anda na tradição um vasto florilégio de cantigas 
populares em honra do Senhor de Mattosinhos. A pro- 
pósito, seria interessantissimo coordenar as cançòes 
peculiares ás mais afamadas romarias do paiz. Para 
essa coUecção concorreria o Senhor de Mattosinhos 
com um importante subsidio de trovas. Vou citar al- 
gumas, colhidas da tradição oral : 



252 



Meu Senhor de Mattosiahos, 
Que dais a quem voe vem vôr ? 
O adro pVa passeiar, 
A agua para beber. 

Meu Senhor de Mattosinhos, 
O vosso dia está norte. 
Se me tendes de casar, 
Livrai-me d'aigum calote. 

Meu Senhor de Mattosinhos, 
Este anno lá hei de ir 
Ou casada ou solteira 
Para me divertir. 

Meu Senhor de Mattosinhos, 
Gortininhas amarellas : 
Se tenho de ter má sorte, 
Mettei-me no meio d*elias. 

Meu Senhor de Mattosinhos, 
Adeus para nunca mais : 
Que sois pai das extrangeiras, 
Padrasto das naturaes. 

Meu Senhor de Mattosinhos, 
Gortininhas de retroz : 
Se eu tenho de ter má sorte, 
Meu Deus, levai-me p*ra vós. 

Meu Senhor de Mattosinhos, 
Adeus, sagrado mosteiro, 
Adeus, casa dos milagres. 
Adeus, bello castanheiro. 



í 



3Õ3 



Estas trovas téem moita importância ethnologioa^ 
explicam por si mesmas os usos e costumes da popu- 
lação de Mattosinhos. Tomemos ao acaso uma das 
(iantigas para comn^eutal-a rapidamente : 

Meu Senhor de Mattosinhos, 
O vosso dia está norte : 
Se me tendes de casar, 
Livrai-me d'alguai calote. 

O V0880 dia está norte denuncia um povo marítimo 
habituado desde a infância a conhecer a rosa dos ven- 
tos, a orientação do tempo. Livrai-me d'algwm calote 
exprime bem as repetidas peripécias da vida amorosa 
n'uma terra onde as mulheres são bonitas e vivem 
n'uma liberdade de acção^ que as pode arrastar a uma 
queda prematura. 

Adeus, casa dos milagres. 

A casa dos milagres é uma das mais interessan- 
tes curiosidades da egreja de Mattosinhos. Está cheia 
de ex-votos, offerendas, promessaSy como lá se diz, de- 
votamente levadas á imagem do Senhor. As paredes 
acham-se cobertas de quadros, de velas de navio, de 
mortalhas de tarlatana, de braços e cabeças de cêray 
que representam outros tantos milagres. Alguns dos 
quadros, com as respectivas legendas, chegam a ser 
— que o Senhor de Mattosinhos o perdoe — muito có- 
micos. 

Passa em provérbio a anecdota do milagre que este 



254 



Senhor operou em benefício de FuSo, o qnal partiu só 
uma perna podendo quebrar as duas. 

A colheita annual das esmolas em dinheiro é avul- 
tadíssima. O Senhor de Mattosinhos pode considerar- 
se um dos mais ricos proprietários d'aquelles sítios. £ 
um capitalista opulento, a quem a crise económica e 
financeira em nada tem prejudicado. O juro das ins- 
cripçSes foi reduzido, e o Senhor de Mattosinhos nem 
deu por isso. Os bancos do Porto viram-se na neces- 
sidade de pedir uma fusão, e o Senhor de Mattosinhos 
nSo chegou a conhecer o mal-estar dos bancos do 
Porto. 

Possue uma riqueza que todos os annos augmenta, 
acha-se sempre em situação de emprestar dinheiro, e 
de valer aos seus devotos, mediante uma hypotheca 
segura. Se o não fizer, é porque não lhe apraz fazel-o. 

Algumas das promessas deixam a gente de boca 
aberta. Está n'e8te caso a de uma mulher da Foz, 
que prometteu ao Senhor de Mattosinhos ir de joelhos 
agradecer-lhe um milagre. Essa pobre creatura saiu 
de casa arrastando -se, ás nove horas da manhã, e che- 
gou a Mattosinhos, com os joelhos em sangue, ás 
quatro da tarde. 

Tal é a devoção fervorosa que a imagem do Senhor 
de Mattosinhos inspira n*uma área de muitas léguas. 

Por isso lá diz outra cantiga: 

Meu Senhor de Mattosinhos, 
A vossa bandeira pende. 
Ditoso de quem vos ama, 
Triste de quem vos offenie. 



As mulheres de Mattosinhos 



Fosso ter a vaidade e a consolaçSU) de encontrar 
na minha vida litteraria um ponto de contacto^ em- 
bora único, com a de Alphonse Daudet. 

Por causa do romance Aventwas prodigiosas de^ 
Tartarin de Tarascon, elle concitou contra si o ódio 
geral da cidade de Tarascon. Quinze anúos depois 
da apparição do romance ainda os tarasconezes odia- 
vam Daudet, e um d^elles, que visitara a exposição 
de Pariz em 1878, não pensava senão em escorchar 
o romancista para vingar Tarascon. 

O meu caso é semelhante. 

Em 1894 estive algumas semanas de verão em 
Mattosinhos. Queria desafogar saudades de uma praia 
que eu conhecia desde pequeno. Mandava d'ali chro- 
nicas semanaes — a que era obrigado — para o jor- 
nal lisbonense O Economista, então folha diária. 



256 



Contava impressSes da minha villegiature, descrê- 
Tia aspectos da praia. 

Um dia presenceei um caso muito cómico^ um 
quadro de costumes locaes verdadeiramente picante. 
Contei-o n'uma cbronica, e esse folhetim, que foi co- 
nhecido em Mattosinhos, alvorotou contra mim a opi- 
niilo publica, especialmente o mulherio. Um jornal da 
localidade descompoz-me, as mulheres do povo^ quan- 
do passavam pela minha casa, enfureciam-se^ e uma 
noite apedrejaram-me as janellas. Por conselho de al- 
guns amigos, paguei os vidros e abandonei a casa. 

O conde de Alto Mearim, vim a sabel-o depois, 
teve um grande trabalho para evitar maior conflicto. 

Ora a causa de toda essa tremenda zaragata foi 
a chronica seguinte. 

Pôde estabelecer-se o princípio de que o pescador 
portuguez é, dentro do seu lar domestico, um perfeito 
rei constitucional : reina, mas não governa. 

Chega a parecer absurda a transformação por que 
passam os Hercules do mar logo que põem o pé em 
terra, deixando-se tatellar submissamente, como crean- 
ças, por essas Omphales morenas, de saia curta, que 
não são rainhas da Lydia, como a sua coUega da my- 
thologia, mas que exercem um poder verdadeiramen- 
te dictatorial dentro dos respectivos cardenhos, no ani- 
mo dos maridos, e nos negócios da communa maritima. 

O pescador, que é um forte na lucta com as va- 
gas e com os ventos, que se arremessa heroicamente 
contra a fauce hiante do abysmo glauco, e que tantas 



267 



oonaegae venoer os temporaes e resistir aos ta* 
é um firacOy um pusilânime, pelo menos um in- 
erente perante a anctoridade conjugal que a mu-* 

assome e absorve com trínmphante egoismo. 

NSo só, por via de regra, lh'a nSo discute, mas 
é l}i'a reconhece e respeita. 

Parece que o pescador está convencido de que o 

reino é o mar, miicamente o mar, e que, uma vez 

mbarcado, deixa de ser um rei, para ser um súb- 
ito, xun hospede, ás vezes até um escravo. 

Sobre as aguas do Atlântico, a rede da lancha 
lo&rca os limites do dominio marítimo de cada compa- 
nha, como na EEistoria Antiga a pelle do touro, parti- 
da em tiras, contornava a área das cidades nascentes. 

Mas, recolhida a rede e o peixe, cada rei do 
oceano, navegando para terra, parece seguir o cami- 
nho do exílio, o seu poder fica fiuctuando nas aguas, 
á flor das ondas, como um sceptro jacente, como uma 
coroa abandonada, que o primeiro que chegar poderá 
possuir sem contestação. 

As cabanas da praia re{»'esentam para o pescador 
outros tantos tectos hospitaleiros, a que elle irá pedir 
abrigo por algumas horas apenas, mostrando-se obe- 
diente e agradecido, passivo respeitador dos usos e 
costumes que a tradição arraigou nas sociedades ma- 
rítimas, nas povoações alvejantes do litoral. 

Ahi a mulher governa desde tempos immemoriaes, 
é ella que recebe a lancha, que toma conta da rede, 
qae dizima o peixe, que o empilha, que o vae vender, 
c que guarda o dinheiro. 

17 



258 



Gomo é a mulher que governa, e só ella, o marià 
se nSo tem regalias, também não tem responsabilid 
des. NSo é chamado para nada, senSo para ser p. 
dos seus filhos, nSo se envolve nos negocies nem ni 
conflictos da administração commonal e quando n 
benta uma bernarda, quando á descompostura se s^ 
gue o arranhão e a bofetada, o pescador assiste trai 
quillamente á contenda^ em que só as mulheres toma: 
parte, deixando as liquidar a questão entre si, ser 
intervir como cabo de policia ou como juiz de paz. 

Ora, aqui, em Mattosinhos, ha poucos pescadores 
comquanto muitos venham procurar hoje o porto d 
LeixSes, mais facilmente ainda do que outr^ora pro 
curavam a pequena foz do rio Leça, por isso qu 
téem certo o mercado do Porto, que fica perto. 

Mas se não ha pescadores, ha marítimos, que bri 
Iham pela sua ausência, e para o caso da mulher d:^ 
beira-mar governar dictatorialmente, tanto faz ser ca] 
sada com um pescador, que lhe não disputa o poder,' 
como com um marítimo, que foi para o Brazil, e que 
só de longe a longe se lembra de escrever á família, 
quando se lembra. 

Quer isto dizer que em Mattosinhos ha maitâ< 
mais mulheres do que homens, e que são as mulhe- 
res que dirigem os seus negócios domésticos, que dis- 
cutem em parlamentos ao ar livre^ no meio da rua ou 
da praia, os assumptos da communa, principalmente 
quando esses assumptos se relacionam com interesses 
e direitos geraes. 

Algum raro marítimo que por aqui está esperando 



259 



o momento de tornar a embarcar, como um hospede 
qae chega n'um dia a um hotel para sair no dia se- 
guintCy querendo apenas que lhe dêem para pernoitar 
um leito com todas as vantagens que possam ser inhe- 
rentes aos leitos^ segue o systema dos pescadores das 
oatras praias quanto á indifferença com que trata as 
mulheres logo que ellas deixaram de o ser por ter 
nascido o dia e acabado a noite . . . 

A mulher de Mattosinhos grita muito, grita sem- 
pre, e o homem deixa-a gritar, ouvindo-a em silencio 
ou parecendo não chegar sequer a ouvir o que ella 
diz. 

É verdade que nada d'aquillo é com elle, as mu- 
lheres gritam umas com as outras, descompSem-se e 
injuriam-se por qualquer coisa, denunciam os seus es- 
cândalos em voz alta, contam as vezes que o pé lhes 
escorregou, se é que tem escorregado, e d'ahi a mo- 
mentos estão amigas como d'antes, continuam a tra- 
tar-se por tu, a harmonia restabelece-se prompta e 
completamente. 

O homem nem tuge nem muge, ainda mesmo que 
pelas descomposturas que a mulher apanhou elle fique 
sabendo que tem mais razSes para mugir que para 
tugir. . . 

Já aqui assisti a uma desordem de mattosinheiras^ 
e posso dizer, com inteira verdade, que nem em S. 
Bento vi ainda coisa que se parecesse com aquillo. 

Fervia o insulto, o doesto, a injuria, e como se 
não bastassem as mais duras e lascadas palavras, 
Teio em seguida a mimica obscena, uma nova mimica 



260 



que eu desconhecia inteiramente por nunca a ter visli 
em acçSo na Praça da Figueira ou na Ribeira Novi. 

Os palavrões rubros de cólera eram rythmadc 
por sonoras palmadas sobre aquella regiSo do corpi 
humano, que fica ao sul da espinha dorsal. 

Era ahiy ao sul, que a palma da mão resoava com< 
Um martello sobre uma bigorna. E de cada vez qu( 
essa mimica meridional se repetia, a pessoa que poi 
ella se julgava offendida parecia perder o norte, isto 
é, a tramontana, desorientava-se completamente^ dei 
xava-se arrastar pela corrente para o sul, pondo 
a bigorna ao sol, e martellando-a com a palma da 
mao. 

Um marítimo aposentado, fumando cachimbo, olha- 
va tranquillamente para o sul... e achava-lhe sal, 
porque sorria, sem dizer chuz nem buz, como um es-i 
pectador das galerias que, sem fallar, assiste em S. 
Bento a uma discussão violenta, mas, diga-se a ver- 
dade, muito mais honesta apesar de violenta. 

Outro dia uns rapazitos de Leça travaram confli 
cto, á pedrada, com alguns coUegas de Mattosinhos^ 
o que frequentes vezes acontece. 

O theatro da acção era um pinheiral, por cuj 
luminosas clareiras se viam, de longe, as evoluçoe 
marciaes das duas hostes inimigas. 

Uma mulher, que primeiro deu tento da baralhaj 
veio, correndo e gritando, avisar as outras do que 
passava. 

— Ai! que os cachopos matam-se uns aos outr< 
' no pinhal ! dizia ella. O Senhor de Mattosinhos noi 



261 



ralha ! Já ha mortos e feridos^ cabeças abertas, bra- 
ços quebrados ! Ai ! Santa Mãe de Deus ! que desgra- 
ça ! que grande desgraça ! 

E cada mulher saia de sua casa, gritando em di- 
recçSo ao pinhal: 

— Mataram o meu rico filho, meu Deus! O que 
lá vai! o que lá Tai! Senhor dos ÂfflictoSy yalei-nos! 
Senhora do Bom Despacho, acudi-nos ! Rogai por elles 
e por nós, anjos da Corte Celeste ! 

Dentro de 'um quarto de hora havia no pinhal 
maior numero de mulheres que de pinheiros. A grita- 
ria, a choradeira era ensurdecedora, o que pavecia 
confirmar a noticia de ter hayido ferimentos, morteS| 
cabeças abertas, braços partidos. 

Foi ver, e não encontrei pelo caminho um único 
homem. 

No meio de uma magna caterva de mulheres vi- 
nha um rapazito, um só, com a cabeça rachada. Uma 
das mulheres arrepellava-se, chorava, ululava. Atre- 
vi-me a perguntar-lhe : «É seu filho?}» « Não senhor { 
respondeu ella soluçando, graças a Deus, não me é 
nada ! y> 

No dia em que chega alguma carta do Brazil ha 
assemblêa geral de mulheres, a carta, dirigida a uma 
8Ó, é conhecida e discutida por todas no meio da rua, 
ao ar livre, n'um tom de irritação, que chega a pa- 
recer que essa carta adorada desagradou a toda a 
gente, incluindo a destinatária. 

Mas esta semana, o caso foi ainda mais serio, por- 
que em vez de uma carta, que mais ou menos se es- 



262 



pêra sempre por cada paquete^ chegou am homem 
Bem ser esperado. 

Ghritava o mulherio correndo de um lado para o 
outro : 

— Chegou o Manei da Rita. 

— Que me dizes tu?! 

— Sem ter mandado dizer nada! 

— Então nunca elle morreu ! 

— Mas vem doente^ que parece um figo seco ! 

— Ai ! elle vem doente ! ? 

E logo duas mulheres, trez mulheres, corriam a 
berrar: 

— Chegou o Manei da Rita, que vem a morrer ! 

— Está alli, está amortalhado ! 

— Não tem trez dias de vida ! Que desgraça. Vir- 
gem Mãe de Deus ! ficar assim viuva a Rita, uma 
rapariga tão nova, carregadinha de filhos! 

Uma velha, cega de um olho, parou a ouvir. 

— Então o Manei da Rita chegou?! perguntou 
ella. 

— Chegou, sim, tia Carolina ! 

— Mas que pouca vergonha foi essa de chegar sem 
ter mandado dizer nada ! 

E logo outra mulher concordou : 

— Se elles agora dão n^esta, não sabe a gente 
quando os tem no Brazil ou quando os tem pela porta 
dentro ! 

— Pouca vergonha ! 

— Olha o preparo de chegar sem mandar carta ! 



263 



' N'Í8to apparecia a própria Rita, a mulher do Ma- 
mei. 
E^ convencida pela lógica das outras, também ella 

nncordava em que era uma pouca vergonha se os 

Éaridos davam agora na extrangeirinha de vir do 

Hrazil sem terem mandado carta primeiro. 

E o Manei da Rita, que tinha ido rezar ao Senhor 

h Mattosinhos, agradecer-lhe o seu fdiz regresso, 

cbegava n'esse momento, moreno como um árabe, rijo 

como um tronco de cedro, ouvia, por força, o que as 

mnlhereB estavam dizendo a seu respeito, incluindo a 

fiita, e entrava para casa sem se importar para nada 

com o que ellas diziam. 



Julho a agosto de 1894. 



X 



CARTAS DO MINHO 



Os caffés da Povoa 

E' principalmente á noite que a vida na Povoa de 
Varzim^ durante a estação balnear^ attinge o maior 
grau de animação e de interesse. 

Durante o dia tudo se passa pouco mais ou menos 
como em todas as praias. Banhos pela manhã. A' tarde 
affluencia ao Passeio Alegre^ que é o trottoir elegante. 

Algum banhista mais solitário prefere ao Passeia 
Alegre o Jardim, pequeno mas gracioso, installada 
n'uma parte da Praça do Almada (o famoso correge- 
dor Francisco de Almada). 

Os lojistas estabelecidos n'esta Praça abriram en- 
tre si uma subscripção para haver musica no Jardim 
uma vez por semana. 

Na ultima sexta-feira, tocou ali uma phylarmo- 
nica pela primeira vez este anno, e a concorrência aa 
Jardim foi muito maior que de costume. 



266 



Mas, habitualmente, é ao Passeio áiegre e á Rua 
dos Banhos que o banhista se dirige de preferencia 
para passar a tarde. 

No Jardim encontram-se raras pessoas, algumas 
<sreança8 brincandO| algum velho que se diverte vendo 
brincar as creanças. Os extremos tocam-se: a mesma 
infantilidade entretém tanto as creanças como os ve- 
lhos. 

Todavia, quem chegar de tarde á Povoa de Var- 
zim, e se dirigir para o Passeio Alegre, nSo surpre- 
hende a feição mais característica e mais original 
d'esta praia de banhos. 

Para que possa ficar fazendo idéa exacta do que é 
a Povoa de Varzim, da sua grande animação balnear, 
da sua originalidade attraente como praia, tem de es- 
perar pela noite, pela hora em que os Cafféa princi- 
piam a encher-se de gente e a animar-se. 

E' então que a vida se torna verdadeiramente ale- 
gre, é então que a Povoa toma uma feição especial, 
que a distinge de Cascaes, de Espinho, da Figueira, 
dando-lhe talvez uma brilhante superioridade sobre 
estas trez praias. 

Como os Caffés são publicps e gratuitos, toda a 
gente se pode divertir por igual na Povoa de Varzim, 
qualquer que seja a sua posição social, o que não 
acontece n^aquellas praias, onde os theatros e os clubs 
custam dinheiro, além de certos requisitos a que sem- 
pre se attende na admissão de sócios nos clubs. 

Mas na Povoa de Varzim os Caffés são para toda 
a gente, para a rica e para a pobre, para a que faz 



267 



alguma despeza ou para aquella que nSLo faz despeza 
alguma. Logo que os Caffés se illuminam, todas as 
cadeiras são occupadas pelos espectadores, e os que 
chegam mais tarde téem que resignar-se a ficar de pé, 
empilhados como sardinha em tijella. 

Mas os criados não perguntam a ninguém se quer 
tomar alguma coisa, não se aproximam das mesas sem 
que os espectadores os chamem. 

Pessoas ha, que fazem a sua estação de banhos na 
Povoa, e que vão todas as noites a todos os Caffés^ 
sem perpetrar em nenhum d'elles a despeza de cinco 
réis. 

E ninguém lhes pergunta por isso. 
Ê raro, muito raro o banhista que se immobilisa 
dentro de um só Caffê, ficando ali de plantão toda a 
noite. Â grande maioria dos banhistas anda de Caffé 
em Caffé para ver quem está e para ouvir cantar com 
acompanhamento de piano, porque em todos os Cafféa 
ha cantoras e pianistas. 

O maior e melhor botequim da Povoa é o Caffê 
Chinez, 

À sala, amplíssima, está revestida de espelhos e 
de chinoiseries que produzem um conjunto deslum- 
brante. Â illuminação é copiosa, e a abundância dos 
<Jry8taes centuplica o brilho das luzes. 

Ao meio da sala ha quatro bilhares, collocados 
parallelamente ; mas a sala é tão vasta que nas coxias 
lateraes ha espaço mais que sufficiente para as mesas, 
para as cadeiras, e ainda para os espectadores que 
ficam de pé. 



268 



Sobre nm estrado^ limitado por um varandim de 
ferrO| está o piano. 

£ d'ali que a »enorita Todi canta todas as noites, 
empoleirada sobre um banquinho^ e encostada ao va- 
randim. 

Devo dizer ao leitor de Lisboa qnem é a senorUa 
Todi| porque talvez não ligue o appellido á pessoa. 

A Behorita Todi é irmã da famosa corúta gorda 
de S. Carlos. Como a nutrição seja privilegio d^aquella 
familia de artistas, a geiiorita Todi é pouco menos nu- 
trida que sua irmã tão conhecida em Lisboa. Chamo- 
Ihe sehorita em homenagem á lingua hespanhola, por- 
que a verdade é que a senhora Todi nem pela idade, 
nem pelo feitio^ tem já direito a qualquer diminutivo. 
Quando a gente olha para ella, lembra-se logo da irmã 
e. . . do António Maria^ que tantas vezes a reprodu- 
ziu em caricatura. 

Ora a corista gorãay como toda a gente lhe cha- 
ma va, está retirada da scena, vive em Lisboa da ca- 
ridade publica, acho eu, n'uma casa da rua do Diário 
de Noticias. A sehorita Todiy mais feliz que sua irmS; 
conserva-se ainda no exercicio da arte e por essa ra- 
zão, estando fechado o theatro que no Porto a escrip- 
turouy veio cantar á Povoa durante a temporada d& 
banhos. 

E vale-lhe a pena, porque os Caffés pagam gene- 
rosamente tanto ás cantoras como aos pianistas ; ellas 
e elles não recebem menos de trez mil réis por dia. 

O Caffê Universal, visinho immediato do Caffi 
Chinaz, não é tão amplo nem tão brilhante, mas re- 



269 



commenda-se pelas duas cantoras que escripturou : as 
sehai*it<u Encabo e Francez. 

S&o ambas hespaoholas, mas, sem embargo de 
cantarem^ muitas vezes, a dito, ha entre as suas in- 
dividualidades artistícas uma grande distancia. 

A aenorita Francez é um contralto, . . hespanhol. 
Tem a vivacidade castelhana na dicção^ no gesto, no 
olhar. É casada, mas pela alegria do seu tempera- 
mento parece mais solteira do que a smorita Encabo, 
soprano ligeiro, que não é casada. 

A aenorita Francez nasceu para a Hespanha e 
para a zarzuela. Á aenorita Encabo tem pretensões 
ao reportório italiano, é grave como uma cantora de 
opera. Emquanto a aenorita Francez se entrega com 
enthusiasmo a cantar uma petenera^ a aenorita Encabo 
investe denodadamente com a valsa da Dinorah, 

Uma, a contraltOf ri-se para o publico emquanto 
está cantando. A outra, a aoprano ligeiro, defronta-se 
com o publico sizudamente. E ambas conquistam ap- 
plausos por caminhos differentes — até nos duettoa 1 

O Caffé Luzo Brazileiro fica fronteiro ao Chinez 
e ao UniveracU. 

Canta ahi a aenorita Sainz, algo nutrida, muito 
aprumada, alguma coisa strabica. Possue uma voz 
forte, menos mal timbrada, de que nâo ó avara. Can- 
ta com intrepidez, e tem organisaçito para cantar lon- 
gas horas consecutivas. A pequena distancia de todos 
«stes botequins, fica o Caffê David, onde canta a ae- 
norita Fernandes, que tem uma voz pouco volumosa^ 
posto que muito afínadinha. E raro dar uma Jijia. 



270 



Além doestes Caffés ha outros a que ahi em Lis- 
boa se poderia chamar ãe lepes. Pois também esses 
téem musica, também lá se canta, se bem que o re- 
portório seja differente — ó o reportório das ruas, dos 
cegos andantes. 

Uma singularidade offerece a Povoa de Varzim 
n^esta época do anno : é que as senhoras frequentam 
os quatro primeiros Caffés que mencionei, e sILo ahi 
recebidas com o maior respeito. 

Na assistência de cada um dos Caffés pode calcu- 
lar-se que as damas entram com oitenta por cento. E 
justamente este facto que origina e justifica a grande 
animação dos Caffés elegantes. 

Uma compacta massa de gente das aldeãs agglo- 
mera-se ás portas de cada Caffé para ouvir cantar. 
E, logo que o canto acabou ahi, volta-se para outro 
Cafféj onde o canto vai principiar. 

Esta peregrinação de Caffé em Caffé, que toma 
tSo animadas as noites da Povoa, dura para todos, 
altos e baixos, segundo as categorias sociaes, até cer- 
ca das onze horas. 

Além da cantoria nos Caffés, ha varias exposições 
recreativas annunciadas ao som do competente reale- 
jo. Está aqui um cosmorama, a pequena distancia 
dos Caffés, que não pára nunca, e que faz o desespe- 
ro das cantoras, dos pianistas, e dos partidários d'esta 
ou d^aquella cantora (porque também ha partidos, es- 
pecialmente no Universal) visto como o realejo, com 
a sua eterna cega-rega, prejudica os eflfeitos artisti- 
008 as melhores notas, das sobreditas cantoras. 



271 



Mas o sol, quero dizer a luz (pois que tudo ista 
se passa á noite) nasce para todos — tanto para os 
realejos como para as cantoras. 

Como o leitor acaba de vêr, sao justamente os 
Cafféi que imprimem á praia da Povoa a sua maior 
animação, tomando as noites tão agradáveis coma 
breveS; dando a esta estação de banhos uma origina- 
lidade tão característica como attraente. 

Setembro de 1893. 



é 



n 



Uma lenda religiosa 



Aqui, pelo Minho, as lendas, tanto sagradas como 
profanas, pululam ás centenas. 

Mas as que inspiram maior interesse a está boa 
gente minhota, profunda e sinceramente religiosa, são 
as tradições milagrosas, as lendas dos santos, o Floa 
^anctorum popular, digamos assim. 

Estive, domingo passado, na romaria da Senhora 
da Saúde em Laundes. 

Esta freguezia, do concelho da Povoa de Varzim, 
é de um pittoresco melancólico, principalmente forne- 
<)ido pelo basto circulo de pinheiros que lhe fecha o 
horisonte. 

Sobre um alto monte, que sobrancea o pinheiral 
<^rrado, alveja, entre uma escolta de moinhos de vento, 
u capellinha de S. Félix. 

No dia da romaria, muito povo, deixando por ai- 



273 



gum tempo o arraial^ foi, trepando pelo monte, visitar 
a capellinha do santo, segando o estillo de todos os 
ânnos. 

A distancia, parecia que essas devotas pessoas 
eram do tamanho de creanças, que, subindo e des- 
cendo^ ou parando um momento em torno da capella, 
86 divertiam brincando, n'uma chorea mais ou menos 
phantastica. 

Tal era a impressão que se recebia de longe, gra- 
ças á illasao óptica de quem, estando no valle, olhava 
para o alto do monte de S. Félix. 

Ora todas aquellas pessoas, homens, mulheres, 
creanças, faziam essa pequena romaria impellidas 
pela sua grande fé religiosa, que lhes dulcifíca os tra- 
balhos da vida, e que principalmente lhes vale nos 
dias cruéis em que a doença veio bater á porta das 
choupanas. 

O voto, a promessa é uma ancora salvadora nos 
mares aparcellados da existência. E se o voto foi at- 
tendido, este bom povo do Minho poe de parte todos 
03 incommodos e todos os interesses para ir cumprir o 
que promettera. 

A lenda de S. Félix creio que não vem no Flo8 sanr 
ctorum official, o que nâo posso agora verificar ; mas 
pertence, provavelmente, ao Fios sanctorum popular, 
a essa vasta collecção de tradições religiosas que se 
conserva, de geração em geração, na alma do povo. 

S. Félix era, segundo a lenda local, um asceta, 
que escolheu, para fazer penitencia, o monte que do 
santo veio a tomar o nome. 

ia 



274 



Ali^ na Bua cubata tecida de ramos verdes^ adorn 
va a Deus, contemplando a natureza, o ceu estrelladc 
08 campos verdejantes, o pinheiral espesso, cerrado 

Ordinariamente era no alto dos montes que os so 
litarios localisavam o seu eremitério para estareii 
mais longe dos homens e mais perto de Deus. . 

D'ali via o asceta alguns casaes perdidos na es- 
pessura do arvoredo, mas a tamanha distancia, que 
toda a communicaçito com as pequenas povoações ad- 
jacentes era diíScil. 

Uma d^essas povoações constituo hoje a freguezia 
de Rates, também fechada por um denso bosque de 
pinheiros, e celebre pelo seu notável e vetusto templo, 
de uma antiguidade verdadeiramente monumental. 

Pelas horas silenciosas da noite, quando a solidão 
se alastrava mais profunda e raysteriosa em tomo do 
eremitério de Laundes, avistou o eremita uma extra- 
nha claridade que irradiava na direcção de Rates. 

Seria um incêndio, uma queimada, um fogo inten- 
cionalmente acceso para affastar os lobos famintos ? 

Perdeu-se decerto em mil conjecturas a imagina- 1 
çao do asceta Félix, mas a chamma que elle observa- 
va era tão branda e tão persistente, que começou a 
desconfiar de que não se tratava de nenhum incêndio, 
occasional ou intencional. 

Quando amanheceu, quando o sol despejou as suas 
ondas de oiro luminoso sobre os campos e sobre os 
montes, nada observou o eremita que o fizesse sus- 
peitar de que uma catastrophe tivesse occorrido da- 
rante a noite. 



275 



Por mais que alongasse o olhar na direcção de 
Bates^ por mais que quizesse procarar uma explicação 
d'aquella extranha chamma, muito serena e firme^ 
qae toda a noite vira flammejar a distancia, cada vez 
lhe parecia mais mysteriosa e extranha essa chamma. 
Mas a sua surpreza foi ainda maior quando vol- 
tou a noite, e a mesma claridade reappareceu, bran- 
da e persistente, posto que bella como uma aurora 
polar. 

De novo se tomou a perder em mil conjecturas o 
eremita de Laundes, que, de joelhos sobre o alto do 
monte, pedia a Deus que lhe explicasse aquelle mys- 
terio, que tanto lhe estava alvoroçando o espirito, cu- 
ja quietação ambicionava reconquistar, para continuar 
a serie das suas orações, meditações e penitencias 
quotidianas. 

Com o esplendor do dia, apagou-se, sumiu-se a 
chamma mysteriosa, a extranha claridade ; mas, tor- 
nando a noite, a chamma resurgiu, a claridade dese- 
nhou-se de novo no ceu sereno como o recorte de uma 
palmeira alta e resplendente. 

Então o eremita Félix, caindo de joelhos junto á 
sua cubata, tomou esse extraordinraio acontecimento 
como um aviso do ceu, e agradeceu-o a Deus. 
I Já não lhe era permittido duvidar mais. A luz, 
que todas as noites se accendia no horizonte, era para 
elle que brilhava, era como um appêllo que de longe 
', exigia, reclamava os seus serviços. 

Parecia a sarça ardente do Synai chamando por 
um novo Moysós. 



276 



Firme n^esta crença, que a sua fé religiosa faci 
mente avigorou, desceu do monte de Laundes e cam 
nhou na direcção de Rates. 

Foi batendo o pó da terra com as suas sandália 
de eremita ao longo de caminhos agrestes, e seguind. 
sempre a direcção em que nas noites anteriores havíi 
yisto brilhar essa extranha claridade, via-lactea ago 
ra invisível, que continuava a guial-o, embora já nàc 
estivesse patente. 

Chegando a Rates, deteve-se procurando algum 
vestigio que pudesse elucidai- o. 

Apenas encontrou um montão de pedras toscâs, 
grandes e pesadas, que despertou a sua attenção. 

Com Ímprobo trabalho, curvado e suando^ foi re- 
movendo as pedras uma a uma e, quanto mais pedras 
tirava, mais se condensava um doce perfume de rosas 
desfolhadas, que parecia sair do seio da terra. 

Cansado já de ir levantando os grossos calhaus, 
que mão desconhecida ali amontoara, cuidou desco- 
brir o vulto de um corpo humano, que a ultima ca- 
mada de pedra resguardava ainda, como um lenyol 
mortuário, sacrilegamente duro 

E o cheiro a rosas desfolhadas tornou -se mais vi- 
vo e penetrante, a ponto de estonteal-o. 

Mas, arrancadas essas poucas pedras, que ainda 
restavam por levantar, os olhos do asceta Félix, 
cheios de confusão e espanto, não podiam já duvidar 
de que estavam contemplando o corpo de um martyr, 
que os inimigos da fó tinham victimado, dando-lho 
por ultimo uma sepultura irrisória, de calhaus sobre- 



277 



^tos^ coino se quizessem lapidalo ainda depois de 
morto. 

EntEo o eremita comprehendea todo o alcance 
d^essa extranha claridade que, durante as horas da 
noite, havia chamado a sua attenção. 

Era, effectivamente,. um aviso do ceu, um appêlio 
ífi Deus, para que ficasse conhecendo a historia de 
mais um martyrio, e desse sepultura condigna a mais 
mn martyr desconhecido. 

E, caindo de joelhos, com as mãos e os olhos le- 
vantados ao ceu,, agradeceu a Deus a missão gloriosa 
que lhe destinara fazendo-o depositário das reliquias 
mortaes de algum dedicado apostolo, que por amor da 
fé christS padecera martyrio. 

De informação em informação o asceta Félix lo- 
grou descobrir que esse cadáver era o de um grande 
propugnador e evangelisador da religião de Christo, 
que tinha abordado ás praias da Luzitania, e que he- 
roicamente morrera victima da sua coragem e dedi- 
cação inquebrantáveis. 

Chamava-se Pedro, simplesmente, esse propagan- 
dista, esse apostolo devotado á causa de Deus. E, por 
tomar o nome da terra em que foi victimado, ficou 
sendo geralmente conhecido, depois de canonisado, por 
S. Pedro de Rates. 

Tal é, na sua simplicidade primitiva, a dupla len- 
ia de S. Pedro de Rates e de S. Félix de Laundes, 
cada um venerado com intensa e profunda devoção 
nas suas respectivas freguezias. 

Não sei, repito, o que os agiologios dizem a res- 



■I» 

-Ti 



278 



peito de um e outro santo, mas o que sei é que, dir< 
ctamente^ na alma do povo, encontrei esta tradiçã 
religiosa, como se encontra ^im doce perfume em a! 
gumas flores do campo, a madre-silva, por exempl 
E sem tempo nem paciência para folhear livros, 
no das crenças populares, tão ingénuas, mas tao &in 
ceras, que eu estou agora lendo, em pleno Minho. 

Setembro de 1893. 




população minhota 



se de perto o povo do Minho, cliega-se 
[ue em todo o paiz não La outro que 
uilto e alegre, maia resignado com a 
jonformado com o seu destino. 
porque lhe pese pouco o trabalho ou 
; com variadas distracçSes. Nada d'Í8- 
balho é duro, áspero, constante. E os 
Bsistem, especialmente n'esta época do 
es, qae são sempre a mesma coisa, com 
foguetes, com mais ou menoa musica, 
38 dos festeiros. 

) Minho Julgará que são phaatasticaa 
aa que possam contar-lhe acerca doa 
nos nos paizes do Oriente. Ella não 
êr, na existência real de mulheres in- 
vem recostadas em almadraques, que 



280 



apenas saiem á rua de palanquim, e que nSo pode 
andar porque desde a infância lhes deformaram o 
pés. 

E téem razão para o nSo crer, porque a sua exis--! 
tencia é completamente diflFerente da das mulheres da ' 
índia ou da China, os seus hábitos sao inteiramente 
oppostos. 

A minhota nasceu para trabalhar, para caminhar 
e para cantar. Levanta-se com o sol e moureja em- 
quanto elle illumina o horisonte. Está costumada a gal- 
gar léguas sobre léguas, marchando intrepidamente. E 
os seus pés, que aliás nSo s?lo defeituosos, não se pisam 
nem ferem por maior que seja a jornada. Embora vi- 
va pobríssima, cheia de filhos e de dividas, a minho- 
ta não entristece nunca, nem mesmo quando a doença 
principia a definhal-a. 

Por estar doente, não deixa de trabalhar nem de 
cantar, Aguenta-se de pé, soffrendo, mas lidando sem- 
pre. No dia em que tiver de recolher-se á cama, esta- 
rá prestes a morrer. O leito é, para o povo do Minho, 
homens ou iflulheres, a ante-sala da sepultura, o pro- 
logo da morte. 

Provém este facto, naturalmente, de um outro : da 
maneira de encarar a vida. Para o minhoto a vida é 
o trabalho constante, aturado, ininterrupto. Só a mor- 
te pode desculpar o descanso. Por isso, só muito per- 
to da morte é que o minhoto vai descansar para o 
leito. 

Em pleno Minho, o rico trabalha tanto como o po- 
bre. Vi ha poucos dias um grande proprietário rural, 



281 



que tem o melhor de duzentos contos, ajudar os sen^ 
criados a carregar fardos n'ama estação de caminha 
de ferro. 

Um amigo d'elle, que passava por ali comigo, ex- 
tranhou-lhe em voz alta que andasse trabalhando tanto, 
não tendo necessidade de trabalhar nunca. 

E o ricasso sorriu-se e respondeu sem levantar os- 
olhos de cima do fardo que estava ajudando a pôr 
dentro de um carro : 

— Assim 6 preciso, meu velho. 

Momentos depois perguntava eu ao amigo do ri- 
casso: 

— Este homem tem filhos? 

— Nenhum. 

— A quem deixará elle então a riqueza que pos- 
8ue? 

— Aos sobrinhos. 

— Quantos sào ? 

— Dois. 

— E o que fazem os sobrinhos? 

— Trabalham também. 

O tio, que é riquissimo no Minho, e que seria- 
ainda rico em Lisboa, porque duzentos contos podem 
dar na vista até na capital, trabalha porque é pre- 
ciso. Preciso para que? A resposta não pode deixar 
de ser esta : para ter saúde, para ter alegria, e para 
não ir desfalcando, mas aliás augmentando sempre, 
08 seus haveres. 

Os sobrinhos, que sabem que téem um tio que lhes 
deixará o melhor de duzentos contos de réis, traba- 



282 



Iham também, sem ficarem de papo para o ar, como 
em idênticas circumstancias fariam outros em Lisboa, 
á espera que o tio se resolva finalmente a morrer. 

Para o povo do Minho o trabalho não é uma con- 
demnaçao, um castigo imposto á humanidade depois 
do peccado original. Não. O trabalho é uma lei natu- 
ral da existência, uma condição essencial da natureza 
humana. Trabalhar é viver; viver é trabalhar. D'aqui 
resulta que o povo do Minho tem uma vida calma, 
alegre, sem impaciências, sem desesperos, uma vida 
tão regular como a pancada de um rologio de sala. 
Quem chega ao Minho, ouve-o logo trabalhar, traba- 
lhar e cantar, também como esses antigos relógios de 
parede, que tangiam minuettes quando tinham traba- 
lhado durante uma hora. 

Ha pouco tempo principiou a publicar-se no Porto 
um Cancioneiro de muêicaà populares para carito 
j)ia7io. Esta coUecção, se quizer explorar consciencio- 
samente todo o vasto pecúlio poético do nosso povo, 
especialmente o do Minho, deverá ser vastíssima. 

De passagem, accusarei, para agradecel-a, a re- 
cepção dos trez primeiros fasciculos, com que fui obse- 
quiado. 

Louvarei, muito sinceramente, os intuitos da pu- 
blicação, que não pode deixar de ser considerada 
'Como um serviço nacional, altamente patriótico. 

Mas farei reparo em que não haja, n^esta publica- 
ção inter essantissima, mais sys temática coordenação. 
Assim, no primeiro fascículo, foram dispostas, suc- 
.cessivamente, canções de épocas differentes, a saber: 



283 



O lavrador da Arada, Canção do Jigueiral, Canna 
verde^ Então és o meu amor, etc. 

A intercalação da velha Canção do figu&iral do 
meio de outras muito mais recentes, revela que o ta- 
lentoso colleccionador, o sr. Gualdino de Campos, se 
preoccupou menos com a systematisação chronologica, 
ou qualquer outra, do que com a abundância das es- 
pécies recolhidas. 

Também não estou inteiramente de accôrdo com 
algumas das annotaçSes com que o texto é illustrado. 

Logo na primeira canção, a do Lavrador da 
Arada, encontro uma observação, que me parece con- 
ter uma hypothese forçada: «Esta toada ó caracteris- 
ticamente medievica e talvez fosse cantada da forma 
seguinte : uma ou duas vozes cantavam a lenda e um 
coro respondia no fim de cada verso : — Ai Jesus — 
excepto no ultimo que está — Amen Jesus. Provavd- 
merUe foi esta lenda que deu origem ao idiotismo por- 
tuguez : — é o seu ai Jesus ^y> 

Em primeiro logar, tenho duvidas sobre a cara- 
cterisação medieval d'e8ta canção. Mas sobre a hypo- 
these, que reproduzi em itálico, as minhas duvidas 
são ainda maiores. 

Para mim, até que seja convencido do contrario, 
a expressão ai Jesus não ó a generalisação do estribi- 
lho de uma determinada canção; mas um como sym- 
bolo verbal de fé religiosti, que foi sempre innata na 
alma portugueza, uma phrase ellyptica cujo sentido ten- 
de a confundir uma pessoa querida ou um objecto viva- 
mente desejado com o culto votado ao Filho de Deus. 



284 



Será Í3to ou nSo será isto. ifas estes simples repa- 
ros, que srio a expressão da minha impressão pessoal, 
em nada prejudicam o valor da publicação, onde o 
cancioneiro nacional 6 enriquecido, completado pela 
restauração da melodia popular, trabalho Ímprobo, de 
que aj)enas se havia feito ha annos, em Coimbra, uma 
tentativa muito restricta. 

Se esta publicação não for bera recebida, se não 
conse^í^uir divulgar se rapidamente, será esse um tris- 
te symptoraa de que o amor ás tradiç3es portuguezas- 
acabou de vez. 

Aqui, no llinho, ouvindo cantar o povo de dia e 
de noite, eu liguei uma grande estima e um alto va- 
lor á publicação do que estou fallando, porque ella 
reproduz, pela palavra e pela melodia, os aspectos da 
alma popular, sob o ponto de vista ethnologico. 

Ouvir o cancioneiro de um povo vale o mesmo que 
ficar conhecendo esse povo no que elle tem de mais 
intimamente subjectivo, isto é, nas vibrações da sua 
própria alma. 

Mas, como eu ia dizendo, nota-se em pleno Minho, 
apesar das agitações da politica partidária, que são 
sempre revoltas na vida de província, um como bem 
estar, uma resignada conformidade com os destinos 
humanos, que nao se conhece ahi, em Lisboa, onde 
são frequentes os protestos pelo suicídio contra as 
amarguras da vida. Aqui ninguém pensa em matar- 
se, a não ser que tenha a alma contaminada porsug- 
gestões que vieram de longe, e que o espirito publico 



28Õ 



logo condemDa recusando sepultura sagrada, com ge- 
ral applausO; ao cadáver do suicida. 

Isto é corrente nos sãos costumes da provinda. 

Se os desalentados de Lisboa pudessem vir ao Mi- 
nho, e observar de perto esta alegre e plácida escola 
de trabalho, aprenderiam a dissolver na lide de cada 
dia os seus desalentos, fugiriam á morte combatendo-a 
pela absorpção dos sentidos na canseira da tarefa diá- 
ria. 

Quem aqui está algum tempo, armazena incon- 
scientemente uma boa dose de coragem, de energia, 
^e força moral. O Minho, caro leitor, dá tanta saúde 
sjò espirito como ao corpo. 

Venha até cá, se pode. 

Setembro de 1893. 



IV 



Da Povoa a Barcellos 



D'aqui a poucos dias vai realizar-se a romaria da 
Senhora das Necessidades, que é uma das principaeB 
do Minho. 

O santuário doesta popular imagem fica a duas lé- 
guas de distancia da Povoa de Varzim. O templo, que 
é elegante no exterior, recebe no interior a luz por 
um lantemim, que se avista ao longe dominando os 
mais altos arvoredos. 

A ilharga do templo desdobra-se um vasto terrei- 
ro, sobranceado, ao fundo, por montes que se recortam 
em cordilheira. 

Comquanto o dia 8 de setembro seja consagrado 
ao culto de Nossa Senhora, pode drzer-se que a roma- 
ria das Necessidades attinge o seu maior esplendor no 
dia 7, especialmente durante a noite. 

Todo o vasto terreiro se enche de barracas de co- 



le carros com pipas de vinho, de musi- 
mtes, de bailaricos e de romeiros. 

affluencia da gente principia na tarde 

nove para as dez horas da noite o ar- 
sea apogeu. A folia popular vai de foz 
toda a noite. 

da manhH, um padre díz missa, deante 

na varanda envidraçada que encima a. 

o. 

ultidão que está no terreiro assiste & 

into unfl romeiros caiem de joelhos, ou- 

catrapiscando amorosamente, e bebendo 

1 missa na madrugada do dia 8, a mul- 
dispersar, o vasto terreiro esvasia-se, 
de repente, justamente quando devia 

3e ser original, sob este ponto de vista, 
Necessidades. 

laagem para Fio e Esposende que eu 
sitei o santuário das Necessidades, onde 
Fazendo preparativos para a festa, 
i povoaçãosinha garrida, com bonitos- 
i ao dinheiro ganho no Erazil por mui- 
ella localidade. 

ossue um santuário notável, o do Bom 
Bom uma pittoresca alameda, sombrea- 
da de copadas arvores. 

A imagem tem fama de ser uma das mais milagro- 
sas do Minho. 



288 



O rio Cávado corta a planície, deliciosameiíte ame- 
na, e passa por baixo de uma ponte magnifica, levan- 
tada sobre nove pégoes de granito. 

De F2o a Esposende, a paisagem continua a ser 
encantadora, o rio esmalta a planície, alguns barcos 
de pesca oscillam, fundeados, na leve ondulação da 
corrente. Ao longe, um vapor azul, que o sol vai ra- 
refazendo, occulta-nos ainda o oceano, cujas brisas pi- 
cantes se fazem já sentir. 

Uma cantiga local affirma certa rivalidade entre 
XIS raparigas de Fâo e as de Esposende : 

Fui a Fão p*ra ver as moças, 
Não topei senão ortigas ; 
Vim pr'a villa d'£sposeade, 
Topei bel] as raparigas. 

Pois eu, menos feliz que o auctor da cantiga, nSo 
-as topei nem em Fão, nem Esposende. O sexo femi- 
nino brilhava n'esse dia pela sua ausência. Entre Fào 
e Esposende apenas encontrei dois pescadores, cujo 
typo ó aliás muito menos característico que o da Po- 
voa de Varzim, onde ha bellos exemplares de rapa- 
zes, altos, elegantes e loiros. 

Esposende ó uma villa sem vida, de uma monoto- 
nia capaz de matar de siileen. Puff ! Nas esquinas das 
ruas, que são quasi todas esti'eitas, mas que toem al- 
guns prédios de boa apparencia, não se lêem senão 
nomes de politicas progressistas, parece que Esposende 
é, a julgar pelos lettreiros das ruas, uma sucQursal 
do centro progressista de Lisboa. 



289 



S^ todavia,, o actaal depatado é regenerador, por- 
<{fie a votação das aldeãs cobre a da villa. 

Vi o edifieio destinado para escola Sodrigues Samr 
paio. Qae pena que faz aquillo ! O edifieio está ha 
muitos annos ineompletO; e assim se vai amiinitfid<^ 
exposto ao tempo,, senda certo que com pequena des» 
peza 86 podwia concluir. 

N'esta terra apparentemente morta, onde os pró- 
prios indigenas paroce aborrecerem-se, ha comtudo um 
tal ou qual movimento litterário ; publica-se em Espo* 
sende uma BiUiotheca Folklorica Partugneza, de que 
tenho presente um volumesinho, Materiaes para a his- 
toria das tradiçdes populares no concelho de Esposende 
por José da Silva Vieira. 

Quero transcrever do prologo doesse pequeno livro 
algumas linhas, que, depois que cheguei a Barcellos, 
me fizeram impressão. 
Diz o auctor : 

«Não nos domina a vaidade de ser um eloquente 
famoso como Demosthenes e Tullio, nem um inves- 
tigador insigne como e tantos outros que 

o nosso paiz já conta na investigação de taes estudos; 
mas sim, por saber que Plinio Júnior disse a Marco : 
-^não ha livro tào mau que não seja d' alguma parte 
proveitoso; nem tão bom que não seja dos nuãevdos 
defeituoso, — acalenta-nos a generosa aspiração de in- 
vestigar a alma do povo, etc.» 

Ora, logo que cheguei a Barcellos, adquiri a Ms" 
moria histórica d'esta villa, escripta pelo padre Do- 
mingos Joaquim Pereira, abbade de Louro. 

is 



290 



No prologo doesta monographia^ diz o auctor: 

<Bem sei que não sou um eloquente famoso como 
Demosthenes e Tullio, nem um historiador insigne como 
Tucides e Lívio ; mas, por saber que Plínio Júnior 
disse a Marco : — Não ha livro tão rnau qu& não seja- 
d* alguma parte proveitoso ; nem tão boni que não seja 
dos malévolos defeituoso, — acalentando generosas as- 
pirações, etc.» 

O da guarda ! O abbade de Louro escrevia em 
1877, e o sr. Vieira publicava os seus Materiaes em 
1888 ! Ó da guarda ! . . 

Mas vamos lá para Barcellos, rica villa, onde tive 
a felicidade de chegar n*um dia de mercado semanal. 

O Campo da Feira estava litteralmente cheio de 
gente e gado. Â quinta-feira é um dia de grande ani- 
mação em Barcellos justamente por causa do mercado, 
que é sempre muito concorrido. 

Barcellos deu-me a impressão de ser uma minia- 
tura de Braga. 

A rua Direita, principal rua da villa, cheia de 
lojas de commeroio de um lado e do outro, fez -me 
lembrar da rua do Souto em Braga, acrescendo a 
circumstancia de que n*uma das extremidades da rua 
ficava outr'ora a Porta Nova^ como em Braga, con- 
servando- se apenas hoje o nome da Porta. 

A cadea publica está installada n^uma das antigas 
torres da muralha, também como em Braga. 

Na rua Direita vi ainda algumas janellas rotula- 
das, poucas, como as antigas gelosias bracharenses. 

Não ha que ver. A famosa Brachara Augusta, ca- 



291 



pitai da provincia do Minho, estabeleceu o typo das- 
cidades e villas minhotas, e quanto mais importante é 
uma cidade ou uma yilla, tanto mais se aproxima do 
typo. da capital da provincia. 

Visitei o templo do Senhor da Cruz, no Campo da * 
Feira. A imagem é notabilissima entre as melhores 
que do Senhor dos Passos existem em Portugal. E o 
templo, todo de pedra excellentemente lavrada^ avulta 
como um monumento digno da attenção do viajante. 

Fui, rua Direita abaixo, visitar a egreja matriz 
ou de Santa Maria Maior, como d^antes se dizia^ onde 
no século XV se estabeleceu a coUegiada, que ainda se 
conserva. 

As paredes do templo estão revestidas de azulejos 
magnificos. E o coro, que recentemente foi dourado, 
é de boa obra de talha. Mas o orgSlo está incompleto, 
faltam-lhe, . . os canudos. Contaram-me a este respei- 
to uma historia muito ratona. 

Fronteiro á porta da CoUegiada fica o edifício dos 
Paços do Concelho, onde se acham reunidas as dififeren- 
tes repartiç5es publicas, pois que o edificio, sobre ser 
elegante, é vasto. 

A dois passos da CoUegiada, no topo da riba que 
faz despenho sobre o rio Cávado, estão ainda de pé 
as ruinas do solar dos condes de Barcellos, cujo funda- 
dor foi D. AfFonso, 9.o conde do titulo, e l.o duque 
de Bragança. 

Este solar, desmantelado, da mais poderosa famí- 
lia nobre de Portugal, e o próximo solar dos Pinhei- 
ros, visinhos e inimigos dos condes de Barcellos, dão 



292 



ainda á villa um certo canho fidalgo, que apenas se 
coD80rTa hoje Doestes vestígios materiaes, porque a la- 
buta, do commercio moderno foi-se assenhoreando das 
roas do borgo, outr*ora feudatario, e democratásando 
o espirito e os costumes dos seus habitantes. 

O rio CáyadOy indifferente ás evoluçSes politicas 
que se téem operado em Barcellos, vai correndo sere- 
no e pittorescoy cortado de barracas de banhos e de 
açudes, marginado por amieiros e salgueiros e também 
por fragosas ribas, que junto ao Paço dos condes fa- 
zem maior pendor. 

Na margem esquerda do rio fica Barcellinhos, como 
um arrabalde fronteiro a Barcellos e, naturalmente, 
seu adversário, a exemplo do que acontecia outr^ora 
entre os poderosos fidalgos da margem direita, os Bra- 
ganças e os Pinheiros. 

A rivalidade dos fidalgos cessou, mas a das duas 
povoações subsiste ainda. Miram-se, e desamam-se. 
Disseram-me que os de Barcellos chamam, por ironia, 
aos de Barcellinhos — Sales, noticia que d^aqui envio 
ao meu amigo Cândido de Figueiredo como subsidio 
que talvez possa servir-lhe para maiores investigações 
sobre a palavra Sàlatina (Vide Novas liçdes praticas 
da lingua poHugueza, pag. 285). 

Setembro de 1893. 



A' beira do Cávado 



Não quero que os leitores me agradeçam a fineza 
que lhes fiz apanhando por saa causa uma bronchite 
capillar á margem do rio Cávado. Mas a verdade é 
que por me ter demorado ali^ no interesse doestas 
CartaSj comecei, horas depois, a sentir nos bronchios 
um como pipilar de andorinhas, que eu aliás não ti- 
nha dado tino de haver ingerido. 

Chamado um medico, tirou-me todas as illusSes 
românticas que eu estava sonhando a respeito da 
mmha doença. O que eu ouvia chilrear dentro em mim 
não eram andorinhas, mas os bronchios. E se se não 
acudisse logo com uma tela vesicante de Falcoeiras 
& Carneiro, que provocou uma suppuração copiosa, a 
pneumonia haveria chegado a passos largos. 

Comquanto eu tenha a consciência de que foi por 
causa dos leitores do Economista que adoeci, soceguem,. 



294 



caros amigos, que lhes nâo mandarei a conta do me- 
dico e da botica. 

Sim, foi á margem do Cávado, que eu, por haver 
encontrado um assumpto tão inesperado como inte- 
ressante, me deixei resfriar pela humidade pérfida de 
um dia sem chuva, é certo, mas também sem sol — um 
dia inglez em pleno Minho. 

Ora façam idéa de que, casualmente, encontrei 
sentada n'um calhau, a pequena di^ncia do rio, uma 
pobre mulher junto da qual, apesar de não haver sol; 
estava estendida sobre a relva uma grande porção de 
roupa branca. 

A pequena distancia um grupo de lavadeiras la- 
vavam, cantando, debruçadas sobre a corrente do 
Cávado. 

Eu vinha cansado, e parei um momento a olhar 
para o rio e para as lavadeiras. Dei os bons dias á 
mulher que estava sentada no calhau. EUa voltou-se 
para corresponder á minha saudação, e reconheci en- 
tão que era cega. 

— E cega de nascença? perguntei-lhe eu. 

- — Não, senhor. Ceguei de doença ha vinte e trez 
annos. 

— Tem alguma filha a lavar ali no rio ? 

— Não, senhor ; tenho uma nora. E eu estou aqui 
para não ficar em casa sósinha emquanto ella vem 
lavar. 

— Vossemecê é de Barcellos ou d'aqui perto ? 

— Não, senhor. Sou de Lisboa. 

— De Lisboa ? ! repeti eu admirado. 



29Õ 



— " Toda a gente se espanta quando eu digo d'onde 
sou. Mas a verdade é que sou alfacinha, nada e crea- 
da em Lisboa na Costa do Castello. 

!E aqui, como era natural, comecei eu a interes- 
sar-me vivamente pela historia d'esta alfacinha, cega 
e degredada, que estava bem longe de encontrar ali. 

— Mas como veio vossemecê dar comsigo ao Mi- 
nho? 

— Ora como vim ? ! Desgraças do mundo ! má 
estrella das creaturas ! 

— Casou para o Minho ? 

— Não casei. Sai de Lisboa com um soldado, 
que era de Barcellos. EUe veio de Lisboa para infan- 
taria 8 em Braga. E, ao fim de alguns annos^ como 
a junta lhe desse baixa, por doença, viemos para 
Barcellos com um filho que tínhamos. O meu José foi 
sempre de mal a peior, e eu via-me na necessidade 
de trabalhar muito para o sustentar a elle, a mim, 
e ao filho. Ora no hospital, ora em casa, o meu José 
ia definhando sempre. 

— O que tinha elle? 

— Era ético, senhor. Um triste dia morreu no 
hospital, e eu fiquei sem ter nada de meu, com um 
filho de dez annos. 

— O que é feito de seu filho ? 

— E' cantoneiro. Anda a trabalhar na estrada real. 
-m- Já me disse que tinha uma nora . . • 

— Tenho ; está ali a lavar no rio. 

— E em Lisboa nao tem familia nenhuma ? 

— Morreu tudo. Meu pae, que era marceneiro. 



296 



ttoncA mais me quiz vêr por eu ter fngido com o José. 
Endteu-fle de desgosto^ e tomoa amor á bebida. Sm- 
pobreceui porque abandonoa o 'trabalho. Monrea. no 
hospital de S. José. O senhor ha de ter ouvido fa- 
lar?... 

— Sei ; eu vivo em Lisboa. 

— O senhor vive em Lisboa ? ! Veio de lá ha pou- 
co tempo? 

— Em julho. 

— Ah ! então pode dizer-me como aquillo está mu- 
dado por lá. Minha rica terra ! minha linda Lisboa! 
que nunca mais te tomo a vêr ! 

E dos seus olhos entre-abertos e mortos principia- 
ram a correr lagrimas n'uma anciã de asphjxia. 

— Não chore, pobre mulher. Já que o acaso no& 
preparou a ambos esta surpreza, desafogue a sua sau- 
dade, falemos de Lisboai que eu nSo tenho pressa ne- 
nhuma. 

Sentei-me n'uma pedra, sem suspeitar de que esta- 
va offerecendo aos meus bronchios uma excellente oc- 
casiâo de me obrigarem a passar pelo supplicio de um 
cáustico. 

— E a sua mão? perguntei eu. 

— Acabou de miséria e doença. Nunca mais a tor- 
nei a vêr ! 

— NSo chore. Foi no Minho que cegou ? 

— Foi em Barcellos. Melhor Deus Nosso Senhor 
me tivesse levado n'essa hora ! . • . 

— Então o seu filho e a sua nora não sSo seus 
amigos ? 



297 



— SSo meus amigos, mas somos todos maito po- 
bres. EUa é lavadeira^ e também já esteve tolhida- 
com rheumatico. Mas com a graça de Deus arrijou. 

— Com que então quer que eu lhe fale de Lis- 
boa ?. . . De que sitio de Lisboa se lembra mais ? 

— Toda a minha grande saudade é da Costa do 

Castello, que era o meu sitio. Aquillo é que é um 

bairro de eneantar, o monte do Castello ! Não ha sitio 

mais alegre em Lisboa, nem de melhores vistas! O* 

meu rico Castello de S. Jorge, com a sua bandeira 

aos domingos, as suas salvas de artilharia nos diaa 

de grande gala, as suas cometas e os seus tambores- 

de manhã e á noite I Dentro do Castello é uma cidade ; 

fára é uma lindeza ! Logo de manhã, dava çoni^olo 

olhar para o Tejo com os seus navios de guerra, e^ 

as suas fragatas de carga ! Parecia que o sol queimava 

as aguas, tanto o Tejo brilhava ! E ao fim da tarde 

com o ceu a arder em chammas para o lado da barra, 

e as janellas de toda a Costa do Castello reluzentes 

do clarão do sol ! O senhor já reparou nas janellas 

d'aquelle bairro do Castello ao fim da tarde ? Parece 

que as chammas rebentam pelas vidraças I. . . Lem- 

bro-me de tudo. . . Da egreja da Graça, com o seu 

terreiro, ali á ilharga da Porta do Moniz, e com a 

sua imagem do Senhor dos Passos, a que as fídalgaa 

vão beijar o pé ás sextas-feiras. N^aquelle tempo, era 

uma romaria. Não sei se ainda hoje é. . . 

— Ainda é. 

— Lembro-me das torres de S. Vicente, a esprei- 
tar por traz das casas^ e das torres da Sé, enterradas 



298 



na cidade, para o lado da Ribeira Velha. Ainda lá 
eatá tudo isso ? 

— Tudo isso, e muito mais, porque se téem cons- 
truido muitos prédios. 

— Quem m'os dera vêr ! Ainda ha tropa no Cas- 
4;ello? 

— Ha, sim. 

— E ainda lá dão salvas quando o rei faz annos ? 

— Já não dão, porque abalavam os prédios. 

— Pois fizeram mal, porque era uma alegria para 
todo o bairro ! Então já nem no dia do Corpo de Deus 
salva o Castello? 

— Bem sei . , . Quer-me fallar do santo do seu 
bairro — de S. Jorge? A procissão, agora, apenas dá 
volta á Sé, mas o Santo ainda vae na procissão. S as 
salvas de artilharia dão-se no Terreiro do Paço. 

— Isso ó que era um dia de festa no Castello. Já 
vejo que está tudo muito mudado ! 

— Mas, ainda assim, se vossemecê pudesse recu- 
perar a vista, e se achasse agora de repente em Lis- 
boa, correria ao Castello, aposto! 

— Com toda a certeza. Eu já me contentava, se- 
-nhor, com poder vêr o Castello de longe, de S. Pedro 
de Alcântara, por exemplo. Quando eu era nova, ia 
muitas vezes, ao domingo, passeiar com meu pae e 
minha mãe pelas hortas de Valle de Pereiro. Depois 
subíamos pelo Salitre até ao Rato, e vinhamos por S. 
Pedro d* Alcântara, porque gostávamos muito de olhar 
de lá para o Castello, de vermos a nossa casa, com as 
.suas duas janellas de vidraça incendiadas pelo sol . . • 



299 



— Hortas de Valle de Pereiro é um modo de dizer. 
Arrazaram o Passeio Publico, cortaram parte da calçada 
do Salitre, e a Avenida da Liberdade estende-se agora 
desde o palácio do marquez de Castello Melhor ató á 
altura do quartel de Valle de Pereiro. E' muito bonito, 
creia. 

— NEo importa ! O que eu queria tornar a. ver era 
o Castello, meu rico senhor, com o seu lindo ar de 
festa, a sua bandeira azul e branca ao domingo, e a 
sua casaria apinhada, cheia de chammas nas vidraças, 
ao fim da tarde. Mas se eu sou cega, e estou tão longe ! 
Puzessem-me lá n'este instante, e parece-me que o 
Castello de S. Jorge havia de me entrar pelos olhos 
dentro com a luz de Deus. . . 

O leitor comprehende, certamente, a funda impres- 
são que me causou este inesperado encontro d^uma 
alma alfacinha^, saudosamente desterrada, em pleno 
Minho, á margem do rio Cávado. 

Todas as suas recordações de Lisboa parecia 
synthetisarem-se na lembrança rediviva do Castello 
de S. Jorge, com a sua bandeira ao domingo, as suas 
luminárias • nas noites de grande gala, a sua casaria 
apinhada, e as suas janellas incendiadas pelas cham- 
mas do sol poente. 

Esta nota, principalmente, das vidraças rubori- 
sadas pelo clarão moribundo do sol no occaso, parecia 
haver-se entalhado, a golpes de buril, n'aquella pobre 
alma saudosa e expatriada. 

Mal diria eu que no encantamento da surpreza, 
que tão extraordinário encontro me causara, a bron- 



300 



dtíite capillar esvoaçara em tomo de mim, <5om a sua 
aza negra, roçando-me o peito. . . 

Felizmente a tela vesicante; fabricada em Lisboa, 
pôde oarar-me d^essa traiçoeira doençsc que por amor 
de Lisboa, e tSo loDge de Lisboa^ eu batia apanhado. 

O medico chamou-lbe cruamente um cáustico; en, 
para disfarçar a dureza do nome, cbamar-Ihe-liei sem- 
pre uma tela vesicante, que me salvou. . . 

E ainda agora, esquecendo que A pobre cega do 
Cávado foi a causa indirecta d'uma bronchite que we 
fez soffrer durante alguns dias^ estou recordando com 
saudade a tristeza com que ella^ a alfacinha expa- 
triada, se despediu de mim, ficando certamente com o 
coraçào despedaçado de amarguras, ali^ á beii^ do 
rio, que rolava sereno e indifferente as snas aguas 
claras. 

Setembro de 1893. 



VI 



Vinte annos depois 



Esta carta tanto poderia ser escripta no Minho 
«orno em Marrocos, porque em toda a parte o coração 
kamano é o mesmo. 

Mas, segundo a geographia, não posso duvidar de 
<][ue realmente se passou no Minho o que lhes vou re- 
ferir, porque eu mesmo, que estou no Minho, fui in- 
formado pessoalmente dos factos que vou narrar. 

Ha poucos dias viajavam em direcção a Braga 
algumas pessoas, que alegremente, e na maior intimi- 
^de, realizavam uma excursão ao Bom Jesus do 
Monte. 

Havia no grupo senhoras e homens, de todas as 
idades, incluindo creanças. Mas os quarenta annos 
predominavam; estavam em respeitável maioria. 

Em Villa Nova de Famalicão entrou na carruagem 
^'este grupo de tomHstes, um cavalheiro, bem vestido^ 



302 



que se amesendou a um canto do wagon, único logar 
que havia devoluto. 

Representava qaarenta e tantos annos de idade^ 
se bem que lhe não sulcassem ainda o rosto qaaesquer 
indicios de pés-dergallinha ; quero dizer que estava 
bem conservado para a idade que parecia ter. 

Logo que elle entrou, todos os olhares coincidiram 
sobre esse recem-chegado companheiro de viagem, que 
vinha perturbar a intimidade e a liberdade do g^rupo. 

Mas duas pessoas, dois homens, insistiram em exa- 
minal-o com a maior attençâo^ e á medida que o iam 
observando^ communicavam um ao outro as saas im- 
pressões. 

Em tom de confidencia diziam entre si : 

— É o Taveira ! 

— Será? 

— É elle ! Já o não vi ha muitos annos, mas deve 
ser elle. 

— Também já nak) o vejo desde Coimbra. Mas 
parece-me, realmente, o Taveira. 

— Fallemos-lhe. 

— E se não é elle ? 

— Se não for, o remédio é fácil : pede-se-lhe des- 
culpa do engano. 

— Pois fallemos. 

E um dos dois cavalheiros levantou a voz, apos- 
trophando : 

— Ó Taveira ! 

Immediatamente o recem-chegado voltou a cabeça 
procurando a pessoa que o chamara. 



303 



— És tu ! 

— É elle! 

— Que surpreza ! 

— Quem havia de esperar este encontro ! 

Scena de reconhecimento, muito cordeal e muito^ 
eflFasivo : era effectivamente o Taveira. 

As senhoras, cheias de curiosidade, trocavam entre 
bí olhares interrogadores : Quem era aquelle Taveira ? 
perguntavam ellas olhando umas para as outras. E as. 
creanças, desejosas de uma folia qualquer, sentiam-se 
já impacientes de atirar-se aos braços do Taveira,, 
como se fosse uma pessoa muito sua conhecida. 

Trocadas as primeiras expansões e os primeiros 
abraços, os dois cavalheiros da troupe trataram de 
apresentar á caravana o recem-chegado. 

-o meu amigo Taveira... 

— O nosso amigo Taveira. . . 

E, emquanto o comboio ia galgando terreno, o 
amigo Taveira cumprimentava as senhoras, beijavar 
as creanças, explicava a sua appariçâo ali. 

Elle ia, dissera, para o Bom Jesus do Monte pas- 
sar uns dias. 

—r Também nós. Que feliz encontro ! que ditosa 
coincidência ! 

A conversação animou-se desde logo. 

— Conta-nos lá a tua vida, Taveira. 

— Tem pouco que contar. Sou advogado e solteirão : 
está dito tudo. 

— Mas tens publicado alguns livros, nSo é ver- 
dade? 



304 



— Sim, naa horas vagas, para nSo morrer de abor- 
recimento na aldeia, voa colleccionando algumas das 
tolices que escrevi em Coimbra. 

— Coimbra! Coimbra! diz mn. Como ea me lem- 
bro de ti em Coimbra ! Eras, por tal signal, o Fri- 
gideira. 

Gargalhada geral. Apenas uma senhora, emquanto 
todos os outros riam, parecia olhar através da vidraça 
fiem querer rir. 

— Eras o Frigideira, acresceAtou o orador, por- 
que tinhas um namoro em Braga, e nSo perdias férias 
-nenhumas sem que viesses a Braga comer frigideiras, 
dizias tu. 

— Sim, era isso, confirmou o Taveira. 

— Ora o Frigideira l 

— Onde nós viemos encontrar o Frigideira : em 
-caminho de Braga ! Que coincidência I 

— Bem ! disse o Taveira. Agora, que vocês já sa- 
bem a minha vida, contem-me a sua. 

— Eu casei, respondeu um. 

— E eu também, respondeu o outro. 

— Já te apresentei minha mulher. 

— Minha mulher é aquella, a quem foste apre- 
sentado ha póttco. 

— Tua esposa é do Porto? perguntou p Taveira 
it um dos seus dois amigos. 

— Mo. E' de Braga. Ó Maria Luiza, tu nâo te 
lembras de vêr alguma vez o Taveira em Braga? 

— Nâo, respondeu a dama, sorrindo constrangida 
« cumprimentando. 



305 



— Gomo se chamava o teu namoro de Braga? 
— Engracia, respondeu o Taveira, sorrindo. 
— Engracia! repetiram muitas vozes. Engracia I 
que nome ! 

— Pok era Engracia, minhas senhoras. E o caso 
é que eu cheguei a amal-a tão ardentemente, como se 
^ chamasse Beatnz ou Laura. 

Gargalhada geral. 

— O' Maria Luiza, tu conheceste em Braga al- 
guma senhora chamada Engracia ? 

— Não, não coiíheci, respondeu a dama, mostran- 
do-se um pouco contrariada com as successivas per- 
guntas do marido. 

— O' Taveira ! tu não falias verdade ! 

— Verdade completa. Era Engracia, mas ha quan- 
tos auDOS morreu ! 

— De alguma indigestão de frigídevraa ? 

— Talvez. . . Sei apenas que morreu. Recebi, al- 
guns annos depois de sair de Coimbra, essa triste no- 
ticia. 

— Beza-lhe pela alma, e não penses mais n'isso. 

— Tens razão. E tu, disse o Taveira voltando-se 
para o outro amigo, também casaste em Braga ? 

— Não. Eu casei no Porto. Todas estas creanças 
fião meus filhos. 

— Lindas creanças, podes acrescentar. 

— Só tu ficaste solteiro ! Talvez fizesses um voto 
•de eterna fidelidade á memoria da tua Engracia . • • 

Nova gargalhada do grupo. 

— Não sei bem como isso tem sido, acrescentou o 

80 



306 



Taveira, mas a verdade é que' estou solteiro^ e já ago- 
ra, qae é tarde, morrerei assim. 

Foi o próprio Taveira que, oito dias depois, me 
contou no Bom Jesus do Monte toda esta acena, que 
se passara em viagem. 

Só quando o seu amigo Rocha, segundo o Taveira 
me confessou, lhe disse que casara em Braga e, cha- 
mando pela mulher, dissera — Maria Luiza — foi qae 
o Taveira pôde reconhel-a como sendo a súpposta Eu- 
gracia que elle havia amado em Braga. 

— Estava tSo velha, continuou o Taveira, que só 
ouvindolhe o nome foi que pude descobrir os vestigios, 
quasi apagados, das suas antigas feições. Poderia pas- 
sar por ella, cem ou duzentas vezes, que não a reco- 
nheceria. 

— E ella reconheceu-o logo ? 

— Certamente. Porque quando o marido lhe per- 
guntou se me tinha visto alguma vez em Braga, 
estava visivelmente contrariada, o seu sorriso foi con- 
trafeito. 

— E o marido nSo teria sequer a suspeita de qae 
fosse ella a súpposta Engracia bracharense ? 

— Não teve. Passámos aqui, na melhor intimidade, 
oS trez dias seguintes. Ella estava constrangida, evi- 
tava-me; mas o marido mostrava-se extremamente 
amável para comigo. 

— O sr. Taveira nSo sentiu tentações de se dar a 
conhecer a ella por qualquer phrase que alludisse ao 
passado ? 



307 



— NSo, senhor. Senti tentaçSes de me dar a co- 
nhecer ao marido. 

— Ora esflt ? I Mas para que ? ! 

— Eu lhe digo. 

— Ouvil-o-hei com muito interesse. 

— Na aldea^ tenho-me entretido em evocar as re- 
cordações da mocidade colleccionando e revendo as 
minhas tentativas litterarias de Coimbra. Já publiquei 
duas dissertações que fíz na Universidade^ e um livro 
de contosj que escrevi do quarto para o quinto anno 
do curso. Mas perdi todos os versos com que em Coim- 
bra paguei a ApoUo o tributo que lhe deve todo o ra- 
paz, quando não é inteiramente tolo. 

— Perdeu o manuscripto, é o que quer dizer ? 

— Nâo, senhor. Todos os versos que fiz eram de- 
dicados á Maria Luiza e, sem deixar copia, mandava- 
lh'oB de Coimbra para Braga. Ora, se eu fosse franco 
com o meu amigo Rocha, se lhe confessasse que sua 
mulher era a minha Engracia, senhora que eu agora 
respeitava como sendo sua legitima mulher e uma 
respeitabilissima velha, não haveria decerto grande 
perigo em dizer-lhe: «Pede a tua mulher os meus 
versos, que eu desejo publicar como recordação da 
mocidade, e o mais que posso fazer é dividir a meias 
comtigo o producto da venda... se elles se vende- 
rem.» 

Desatei a rir, e o Taveira riu também, de von- 
tade. 

Aqui está, retratado mais uma vez, o coração hu- 
mano. 



308 



Vinte annos antes, aqnelle homem adorava ama 
mulher, fazia-lhe versos, pensava apaixonadamente 
n'ella. Vinte annos depois, qner^ia repartir com o 
marido d'es8a mulher o lucro dos versos que fizera 
em honra d'ella ! 

Setembro de 1893. 



Em Braga 



E' no coraçSo do Minho, na capital da provincis, 
Srachara Âugvgta, qae estou eacreTendo esta carta. 

Ãqoi TÍm para matar aaadadea de om paaaado 
qae, ai d& mim ! parecia estar biographicamente ligado 
a moitas roas que desappareceram, a muitas oasas 
que se desmoronaram, a moitas pessoas qae morreram 

Moralmente, sob o ponto de vista da minha uu' 
dade, eocoatro-me só em Braga, em certos sitios da 
cidade tenho que apurar a memoria para os reconhecer, 
tilo mudados elles estão. 

Vi anoitecer em pleno Campo de SanfAnna, que 
d'ahi a poaco ee illumínou a luz eléctrica' — uma luz 
eléctrica de que os bracharenses dizem mal, 
grande razão para isso. Fareceu-me tSo Ix 
que temos ahi na Avenida da Liberdade, 



310 



Mas qae differença t que profunda differença entre 
aquellas tenebrosas noites de Braga ha vinte annos, 
em que se nSo via um palmo adeante do nariz, e a 
Braga do hoje em dia, perdSlo. . . de hoje em noite, 
com os seus globos de luz eléctrica, uma luz doce e 
láctea, que cobre de um morno luar persistente as 
pedras das ruas e as fachadas dos prédios ! 

Ha vinte annos trez rapazes, que n^uma noite de 
verão se achavam hospedados no Hotd Dois Amigos 
(também hoje mudado. . . no nome, porque se denomina 
prosaicamente Hotd Ansdmo) lembraram-se de sair a 
tomar a fresca no Campo de Sant'Anna ás duas horas 
da madrugada. 

Tinham passado a noite á janella conversando 
sobre mil tolices próprias da sua idade e dos seus 
poucos cuidados, uma das quaes, estou bem certo, era 
uma questão histórica de alta transcendência local. 

Eis o ponto, o assumpto: quem seriam os dois 
amigos que deram o nome áquelle Hotd em que os 
trez estavam hospedados? 

Como em Braga tudo, n^aquelle tempo, tinha obri- 
gação de ser antigo, um dos trez hospedes alvitrou qae 
a denominação do Hotd era mythologica : os dois ami- 
goSf que figuravam na taboleta, deviam ter sido Cas- 
tor e Pollux. ^ 

Mas logo lhe constestaram que essa hypothese era 
pouco provável, porque, a ser assim, o Hotd teria 
sido denominado dos Irmãos geTneos, visto que Castor 
e PoUux estavam n'este caso. 

Finalmente, ao cabo de muita tagarellice alegre. 



311 



refrescada com vários copos d^agiia, porque a noite 
»tava ardentissima; chegou-se á conclusa, por com- 
iam accordo, de que os dois amigos tinham sido Ores- 

e Pylaí^des. 

Assentou-se n'isto, e os trez hospedes foram dei- 
tar-se. Mas d'ahi a pouco uma alluvião de percevejos 
caía sobre elles^ ameaçando sugal-os até á ultima 
^ta de sangue. 

Como nenhum dos trez era aindn contribuinte do 
Estado, extranharam a sangria, desesperaram-se com 
ella. E todos trez, quasi ao mesmo tempo, saltaram 
do leito, embrulhados nos respectivos lençoes. 

Então mudou-se de parecer quanto á denominação 
do Hotel: os dois amigos não tinham sido Orestes e 
Pylades, mas dois infelizes viajantes que n'aquelle 
mesmo quarto^ decerto, haveriam sido tragicamente 
victimados pelos percevejos. 

Para escapar á mesma sorte^ que se antolhava in* 
fallível, os trez hospedes resolveram passar o resto da 
noite passeando no Campo de Sant'Anna n^uma sim- 
ples e fresca toilette de phantasmas, isto é, embrulha- 
dos nos lençoes das suas respectivas camas. 

Dito e feito. O passeio ao ar livre durou cerca de 
uma hora, e a escuridão das noites de Braga era 
n'aque]le tempo tão profunda, que ninguém, absoluta- 
mente ninguém, deu tino dos trez phantasmas, os quaes 
apenas sentiram esvoaçar, em torno de si, a aza negra 
d'alguns morcegos — o que completava o horror do 
quadro. 

Que Braga aquella ! que bons tempos aquelles ! 



j 



312 



Agora, oom a luz eléctrica, que illumina as raa9 
da cidade, foram-se todas essas extranhas phantasia& 
de rapazes patuscos, foram-se também os morcegos, a 
progresso inundou Braga com uma claridade de opala, 
ás duas horas da noite ha sempre luar ainda que nâa 
haja lua! 

Esta transformaçSo impressionou-me profundamen- 
te, e nSo admira que de todas as transformações por 
que a capital do Minho tem passado, seja a da illa- 
minaçSo publica a. . . que mais dê nas vistas. 

£ verdade que a camará municipal, agarrada á^ 
teima de um oaprichosinho cabeçudo, ainda conserva 
a illuminação a gaz nos edifícios que administra e 
dentro do Passeio Publico. 

Mas 08 globos da luz eléctrica, apesar das irregu- 
laridades próprias de uma iniciação, cantam fora 
das grades do Passeio o hymno irónico, trocista, que 
proclama a sua superioridade em relaçSo aos candiei- 
ros de gaz, que a camará teima ainda em conservar. 

E o viajante despreoccupado, que não mexe na 
politica de Braga, dá logo razSo aos globos da luz 
eléctrica, ainda mesmo quando — e este é o meu caso 
— sente saudade da escuridão proverbial das antigas 
noites de Braga. 

Um dos bairros da cidade, o mais infamado pelo 
mau nome das suas travessas e bordeis, o bairro da 
Sé, está completamente transformado, demoliu- se a 
antiga casaria, rasgaram-se novas e bellas ruas, por 
onde o ar e a luz entram agora a jorros. 

E as edificações de recente data são já muitas e 



313 



impor tantesy tem- se construído, n^essas ruas novas^ 
prédios de magnifica apparencia. Alem do bairro da 
Sé, a abertura de outras ruas tem facilitado muito as^- 
eommuDicaçoes dentro da cidade : estão n'e8te caso, por 
exemplo, a rua de Santa Margarida e a rua do Con- 
selheiro JanuarÍ0| já marginadas ambas por bons edi- 
fícios. 

Mas, a respeito de Braga, a minha saudade é tão 
conservadora, que o meu espirito parece ter crysta- 
lisado no antigo aspecto da rua d' Agua, da rua do S» 
M^arcos, e da rua do Souto. N'essas, que não mudaram 
ainda^ foi que eu me senti hoje á vontade, como se 
estivesse no meio de pessoas e de prédios conheci- 
dos. 

A porta de um sirgueiro da rua do Souto vi uma 
dalmatica, que lá ficou pendurada ha vinte annos, 
quando eu por ali tinha passado. Era a mesma, de- 
certo. Conheci-a. E, olhando para o fundo da loja, vi 
trez sujeitos a conversar e a esfregar as mãos, de con- 
tentes ; era a má lingua proverbial da rua do Souto. 
Tanxbem a conheci. 

Esta era a Braga antiga, que cheirava ainda aos- 
suevos, e que n'esse fartum de antiguidade tinha para 
mim a sua melhor recommendação. 

Á Arcada, a famosa Arcada do Campo de Sant'An- 
na, intrigou-me no primeiro relance de olhos : quasi a 
não conheci. * 

O velho Caffó Vianna, por onde se creou um poeta, 
que já morreu, Cunha Vianna, filho do proprietário, 
está de fato novo, vestido de espelhos. Um piano, onde- 



314 



às quintas e aos domingos toca o maestro Dom Praden- 
•cio^ completa a modernisaçSlo do estabelecimento. 

Estive ali ao fim da tarde, e não vi chegar o poeta 
Almeida Braga, nem o jornalista Gonçalo AntSLo, que 
Já estão no cemitério ; nem vi passar no Campo de 
Sant^Ãnna, montando garbosos cavallos, os irmãos 
Preladas, os irmãos Cunha Reis, a flor dos marialvas 
bracharenses de outro tempo. Uns estão mortos^ outros 
aposentados. 

Keceioso de encontrar desfigurado o santuário do 
Bom Jesus do Monte, estive para não ir lá. Mas a cu- 
-riosidade pôde mais que o receio. 

Fui. Oh ! que belleza eterna a d'aquellas arvores, 
que não mudam nunca ! que profunda suavidade e 
quietação a d'aquella paizagem sempre verde e sem- 
pre bella ! 

Pelo caminho, entre S. Victor e o Bom Jesus, en- 
contrei novas edificações, chalets garridos, com bone- 
cos de loiça, que, no meio do jardim, esguichavam 
menos convenientemente. 

Uns lavradores que iam no mesmo americano^ ri- 
ram muito da engraçada ideia de vêr um menino de 
loiça a fazer uma má creação. 

E eu, olhando para o formidável arvoredo que no 
declive da montanha se debruçava já sobre nós, não 
pude deixar de exclamar mentalmente : 

— O' sacrosanta poesia da floresta consagrada a 
Deus, perdoa ao brazileiro que mandou ali pôr o me- 
:iiino de loiça, e perdoa aos lavradores a quem o meni- 
:no de loiça provocou tamanha hilaridade ! 



315 



Saindo do americano, subi no elevador, e achei-me 
de repente em pleno Bom Jesus do Monte, na grande 
paz bucólica do arvoredo, que a suavidade da manhã 
enchia de maior encanto. 

Depois de entrar no templo, e de ir vêr o lago, 
fui a um restaibranty que fica perto do templo, tomar 
um copo de leite. 

O criado que m'o serviu, indicou-me um lettreiro 
pregado na parede. 

Dizia o letreiro : 

Pirolito que bate, que bate, 
Pirolito, que já bateu. 
Quem gosta d*estes biscoitos, 
E' elia, é elle, sou eu. 

— Pois traga, disse eu ao criado, os biscoitos do 
pirolito. 

E, provando os biscoitos, que tinham um sabor acre 
A herva doce, pensei em que era realmente preciso 
que toda aquella floresta fosse tâo bella, aquella pai- 
zagem tão formosa, para que o ridiculo do menino de 
loiça e do annuncio dos biscoitos do pirolito não pre- 
judicasse a emoção, o deleite, o encanto do visitante. 

Descendo as escadas do santuário, encontrei uma 
novidade, que, apesar do meu espirito conservador, 
.applaudi sinceramente. 

A avenida que em zig-zags sobe desde o pórtico 
até ao escadorio, fôi rebaixada, para maior suavidade 
na sabida, e ladrilhada^ uniformemente, a mosaico. 

Fizerani-se novos patins, um dos quaes de grande 



816 



raio, 6 con8truiram-«e novas capellas, que oa estão 
ainda vasias ou já povoadas de judeus com cara de 
gente^ o que não estava nas tradiçSes do Senhor do 
Monte, onde, n'outro tempo, todo o judeu desafiava 
pela fealdade hedionda a cólera dos romeiros ingénuos. 

Quando eu vinha descendo o escadorio, oavi gran- 
de grita de mulheres e hpmens. 

De repentCi passa por mim, correndo muito, uma 
rapoza, de pêUo eriçado, que ia fugindo á perseguição 
atroadora de alguns romeiros. 

— Mata que ó rapoza ! gritavam elles. 

Pobre rapoza ! Ia de certo para o lyceu, cumprir 
o seu dever nos exames da segunda época. 

Se eu fosse estudante, ter-lhe-ia atirado. 

Outubro de 1893. 



vm 



Outra vez em Braga 



Qual foi o assumpto da semana . . . para os ou- 
tros? Confesso francamente que nâo sei. Para mim, 
foi Braga, aonde cheguei n'um dia de chuva, dia 
triste e somnolento como a velhice de um cónego. 

É certo que, em attenção ao diluvio, eu poderia 
ter adiado essa pequena viagem apara quando o tempo 
o permittisse.]> Mas toda a minha vida tenho tido por 
systema o esperar pelos acontecimentos, exceptuando 
apenas aquelles que directamente dependem da minha 
vontade. Disse a mim mesmo que partiria. Portanto, 
apesar da chuva, parti. Era uma semsaboria? Pa- 
ciência ! Quem é que se nKo vai acostumando a sem- 
saborias ? 

Pequena viagem, devia ser. Mas, na linha do 
Minho e Douro, não ha pequenas viagens. O horário 
dizia que chegaríamos a Braga á uma hora e vinte 



318 



minutos da tarde. NSlo houve qualquer embaraço na 
maroha do comboio* Pois^ apesar d^isso, cheg^ámos a 
Braga ás duas. . . em ponto. Tal é a pontualidade 
n'uma linha do Estado. 

Este mau costume do caminho de ferro pegou-se 
ao amj&rícanOf em Braga. Logo contarei um caso^ que 
justifica plenamente a hypothese do contagio. 

Quando cheguei, estava-se levantando o mercada 
semanal no Campo da Vinha. 

A chuva, cada vez mais intensa, punha em deban- 
dada os feirantes. 

Uma vendedeira grilava para uma rapariga do 
povo: 

— O moça ! lebe lá a regueifa por oito bintens. 
O moça ! repeti eu mentalmente. E fui pensanda 
n'uma coisa : que Lisboa tinha estragado esta palavra^ 
tomando-a sinonymo de mulher perdida ! Moça í A 
mulher nova e honesta, na flor da idade e da virtude 1 
Em Lisboa, moça vale tanto como rameira^ a ultima 
degradação da mulher que se vende. Ao menos o 
Minho reza ainda pela velha cartilha portugueza, dá 
ás palavras a sua verdadeira significação. Em Braga 
ainda ha moças, que o ^merecem ser. E dizerem- 
60 cobras e lagartos dos padres do Minho ? ! Ca- 
lumnias ! 

O campo de SanfAnna, que 6 o coração de Braga, 
estava paralysado pela chuva. Frio, morto. Ninguém» 
Debaixo da Arcada, que ó o grande soalheiro iTra- 
charense, havia pouca gente. Ainda assim, ouvi lá, 
por delicadeza, dois ou trez boatos políticos, que os 



319 



jomaes da manhã^ que eu tinha lido no Forto^ já 
desmentiam. 

A curiosidade da provincia alimenta-se principal- 
mente de carapetões. É espantosa a sinceridade com 
que, fora dos grandes centros, se acredita tudo o que 
dizem os jomaes. 

E eu ouvi, por delicadeza, repito, porque nada 
me vai enfastiando tanto como ouvir fallar de politica. 
Para o Bom Jesus do Monte 6 que eu me tinha sobre- 
scriptado ; não para o soalheiro bracharense da Ar- 
cada. 

Mas encontrei lá um amigo, archeologo distinstis- 
8Ímo, o dr. José Machado, e com isso me dei por bem 
pago de ter ouvido dois ou trez boatos politicos. 

Um amigo, em Braga, n'um dia de chuva torren- 
cial, é um achado feliz. Mas nâo foi só um amigo que 
eu encontrei; foram dois, foram trez — o cónego Bar- 
roso, pessoa estimabilissima, e o Cunha Reis (Joaquim) ^ 
que foi, nos seus tempos, um dos mais distinctos sport- 
men de entre Douro e Minho. 

Com estes recursos, que a Providencia de Braga 
me deparou, pude aguentar a semsaboria de um dia 
e de uma noite de chuva. 

 noite fui ao Club ... a nado. Muitos cavalhei- 
ros bracharenses estavam agrupados em torno da me- 
sa de leitura. Sempre o jornal ! O jornal 6 a esponja 
que absorve todos os ócios da vida de província. 

N'aquella noite, quem não tivesse um jornal para 
lêr, era verdadeiramente infeliz em Braga. 

Exceptuo-me a mim próprio. Eu também estava- 



320 



^m Braga, deante de quinze ou vinte jomaeS| cuja 
politica já me nSo di sensaçUo nenhuma. Por isso me 
fui deitar para o HoUH, sem lêr nada, nem uma pala- 
vra. £ adormeci tSo profundamente como se tivesse 
lido muito. 

Accordei ás cinco horas da manhã. Caía chuva 
a potes. Trez ou quatro sinos chamavam para a mis- 
aa. Que heroicidade, Deus me perdoe! nSo é precisa 
para ir á missa ás cinco horas da manhã n^um dia de 
<2huva! 

Voltei-me para o outro lado, aborrecido por crer 
que o mau tempo não me deixaria passar algumas 
horas no Bom Jesus do Monte. 

Tomei a adormecer; a indignação fez-me somno. 
E tanta chuva era para indignar a gente. Accordei 
i& oito horas. A chuva cessara. O sol deixava cair 
sobre o Campo de SanfAnna um alegre sorriso de 
reconciliação com os bracharenses. Tratei logo de apro- 
veitar a boa disposição do sol. 

Almocei, saí. Dei uma volta pela cidade. Na rna 
Nova do Souto, entrei n'uma livraria. Perguntei pe- 
los donos da casa. Um rapazito que vigiava o estabe- 
lecimento, respondeu-me: cEstão na aldeia. Mas se o 
senhor quer alguma coisa vou chamar o caixeiro 
grande.» 

Não, respondi eu, não chame ninguém, porque o 
umericano deve estar a partir para o Bom Jesus do 
Monte, e eu não posso demorar-me. 

Tão tolo era eu, que me fiava ainda na pontuali- 
dade do americano em Braga! O americano partiu 



321 



qoando quiz^ e eu tive de esperar por elle. Mas, á 
volta do Bom Jesus, é que foi ainda melhor ! 

Devíamos partir de lá ás duas e meia. Partimos 
depois das trez. A. meio do caminho, parámos, sem 
que soubéssemos porquê. Âo cabo de um bom quarto 
de hora tivemos, porém, a explicação do caso. 

A machina foi substituida por uma parelha de 
muares. Devendo chegar a Braga ás trez horas, che- 
gamos ás quatro menos um quarto. Tive portanto, se 
nao quiz perder o comboio do Porto, de pagar o jan- 
tar no Hotd sem o comer — que é a peior maneira 
de jantar. 

Faço esta prevenção aos viajantes incautos: não 
se fiem em Braga nos horários, porque são lettra 
morta. 

O caminho de ferro e o americano padecem lá da 
mesma moléstia: preguiça contagiosa. 

Mas todas estas contrariedades me foram compen- 
sadas pele bem que eu estive no Bom Jesus do Mon- 
te^ na mais suave e serena manhã que poderia ter 
desejado para bordejar no lago. 

Nem frio, nem calor. Nem sol, nem chuva. Um 
ceu pallido, mas encantador de suavidade. 

Trez ou quatro famílias apenas, mas todas ellas 
passeiando em botes no lago. A beira d^agua, um ce- 
go e o moço cantavam Fados á viola. Um corcunda, 
uma velha e um céguito de doze annos, António se 
chamava elle, pediam esmola. 

Que profundo contraste entre a belleza eterna da 
vegetação, ali, e a mísera humanidade representada 

2L 



322 



pela velha^ pelo corcunda e pelos dois cegos ! Só Deus 
é grande. . . em si mesmo. Deus estava ali, nas ar- 
vores sempre verdes, na agua cantante^ na montanha 
umbrosa e tranquiUa, mas n'uma creança cega, que 
nunca pudera ver as cores do céu e da terra, não po- 
dia estar. A miséria humana vi eu, menos ainda na 
velha e no corcunda, do que n'aquella creança que 
nSo tinha olhos. 

Os botes deslisavam mansamente á superfície 
da agua. 

O cego e o moço cantavam agora o Fado do Hz- 
UxriOf canção que se entende melhor na boca do povo 
do que na do próprio Hilário, que lhe tira, á força de 
fioritwri^ o sabor popular que é a alma dos Fados. 

De vez em quando, um pássaro descia a bicar na 
agua, e uma folha, que se desprendia da arvore, vi- 
nha morrer, ainda verde, no lago. 



Os teus olhos são estrellas 
Co*o fulgor dos arreboes. 
Quem me dera com dois beijos 
Apagar tão lindos soes 1 



E a voz dolente do cego espreguiçava-se n'um 
doce rythmo de amargura popular, pela bacia do 
lago. 

António, levantando a cabeça para o céu, que nSo 
via, deixando rolar, no logar das pupilas, duas contas 
de aço estaladas, parecia ouvir profundamente, pr 



323 



nma provindencial compensaçSo dos sentidos, a voz 
enternecida do seu coUega em desgraça. 

£ á Tolta de tudo isto, a paz, a belleza, a suavi- 
dade eternas da montanha sagrada, que não envelhece 
jamais. 

Só Deus é grande. . . ali. 

Outubro de 1895. 



XI 



FATAUNCOS 



De todas as notícias relativas á mlUgiatwre de sua 
magestade a rainha D. Amélia nas Caldas de S. Pe- 
dro do Sul^ uma, principalmente, me i€z impressão, 
e de certo também a faria a todas as pessoas que não 
desconhecem os costumes das povoações ruraes no 
norte do paiz. 

Reiiro-me aos pormenores da visita da rainha á 
íreguezia de Fataunços, que pertence ao conedftio de 
Vouzella, e fica a mais de trez léguas de Vizeu. 

Foi a rainha convidada a honrar com a sua pre- 
sença esta povoação, e por bem empregado daria sua 
magestade o tempo que consagrou ao passeio a essa 
aldeia, em que eu apenas posso descobrir um defeito : 
o nome. 

Fataunços nSo é, em verdade, uma denominação 
harmoniosa e poética, mas sobram á terra predicados 
que descontem a dissonância do nome. 

É ameno o sitio, ubérrima a terra, saudável e 



328 



apradvely rica de agoa e de sombra como todas as 
do yalle de LafSes. A opulência dos pastos enverdece 
copiosamente a vastidão dos prados, onde se criam 
vitellas qae passam por ser as mais saborosas de Por- 
tugal. 

Além do pittoresco da região, condecora-se Fa- 
taunços com algumas relíquias archeologicas, taes co- 
mo a Torre doa mouros, solar da familia Lemos. O 
progresso levou á povoação o seu influxo civilisador 
com a creação de uma escola e bibliothecai que em 
1870 foram fundadas por um filho de Fataunços esta- 
belecido como typographo no Porto. 

Chama va-se esse benemérito cidadão José Louren- 
ço de Souza ^ e justo é recordar o seu nome com a 
louvor que merece. 

A rainha, espirito educado no gosto e cultura das 
bellas-artes, apreciaria certamente a formosura da 
paizagem, e o pittoresco das ruinas da torjre mouris- 
ca. Boa e carinhosa para com as creanças, folgaria 
de encontrar ali uma escola construída segundo os 
preceitos da pedagogia e da hygiene, enriquecida de 
mais a mais pela adjuncção de uma bibliotheca. 

Mas quero crer que a recepção que sua magestade 
teve em Fataunços será, no espirito da rainha, uma 
recordação indelevelmente saudosa. 



1 



Tinha as suas officinas typographicas na rua do 
Bomjardim, d'aquella cidade. Foi edUor de muitas publica- 
ções, taes como Almanach Píwíwen«e, Archivo jwridico, 
etc. 



327 



Sstá sna magestade habituada, desde que entrou 
em Portugal e soube conquistar as sympathías dos co- 
raç3es portuguezes, a ser recebida por toda a parte 
com enthusiasticas manifestações de carinho e respei- 
to. ComtudOy nenhuma festa organisada em honra de 
sua magestade poz ainda mais a descoberto a sinceri- 
dade^da alma portugaeza na sua fé ingénua e espon- 
tânea^ que ainda se conserva na vida simples e labo- 
riosa da província, mas que totalmente se tem perdido 
nos grandes centros de população do nosso paiz. 

O Commercio do Porto, descrevendo as festas rea- 
lizadas em Fataunços, dá um pormenor, que, por ex- 
traordinário, não deve passar despercebido. 

. «A entrada da localidade havia um arco ornado 
de lenços de seda e fios de contas de ouro. Grrupos de 
camponezas cantavam canç5es populares.]» 

Foi justamente este pormenor, apparentemente 
vulgar, que chamou e demorou a minha attençâo, 
tanto mais que eu sou um dos raros portuguezes que 
ainda não foram a Pariz, mas que menos mal conhe- 
cem as provineias de Portugal. 

Desculpe- se-me esta vaidade á conta de amor pela 
terra em que nasci. 

Deante doesse arco ornado de lenços de seda e de 
contas de oiro eu descubro a cabeça e curvo-me res- 
peitoso, porque elle é, na sua mais profunda significa- 
çaO| a maior homenagem que a camponeza do norte 
do paiz pode prestar a uma princeza querida e ama- 
da por o povo. 

Não se diga por espirito politico, que inteiramente 



L^ai 



328 



affasto d'e8ta ligeira chronica e qae nXo é manjar que 
me tente o apetite, que Fataunços jaz ainda n'uma 
ignoraneia crassai comparável á que o arcebispo Dom 
Frei Bartholomeu dos Martyres foi surprehender na» 
alturas de Barrozo. 

Como sabemos, ha vinte e cinco annos que em Fa- 
tannços fnncoionam uma escola e uma biblictheca, e 
um quarto de século de instracçSLo alguma luz deve 
ter lançado no espirito d'aquelle povo, dócil e bom^ 
portanto disposto a deixar-se conduzir, se não para a 
bibliotheca, ao menos para a escola. 

O que ali ha nSo é por certo a ignorância primi- 
tiva, mas a primitiva candura, mas a fé immaculada,. 
a sinceridade espontânea da alma portugueza. 

As camponezas de Fataunços, encantadas com a 
rainha que tinham ido vêr a S. Pedro do Sul, quíze- 
ram expressar-lhe toda a estima, todo o enthusiasmo 
carinhoso que sua magestade lograra inspirar-lhes, e 
para traduzir quanto sentiam não acharam melhor 
meio do que arreiar com as suas mais ricas alfaias, 
cem. todo o seu oirOy o arco por baixo do qual a rainha 
devia entrar na povoação. 

Os lenços de seda e as contas de oiro, dispostos em 
bambolins certamente graciosos, representam toda a 
historia da vida aldeã: os proventos colhidos no duro 
trabalho dos campos, ao sol, ao frio, lavrando a terra, 
ceifando a messe, esfolhando o milho, padejando o tri- 
go, malhando o centeio, pastoreando o gado, fomejan- 
do o pão, embarrelando o bragal, tecendo o linho, en- 
xadando a gleba. 



329 



Todo o poema do trabalho aldeSo^ toda a cbronica- 
da cansada vida rural pendia em estrophes d'aquell&^ 
arco de triumpho; escriptas na seda dos lenços e no oiro^ 
das contas. 

Era como se as mulheres de Fataanços quizessem 
disser á rainha : «Toda a nossa existência, com todos os* 
nossos thesouros conquistados á força de trabalho, per- 
tencem a vossa magestade. Vêde-os aqui^ para que os 
honreis contemplando-os.» . 

Nenhum arco de triumpho escuipturado em mar* 
more valeu ainda a significação d'aquelle arco. 

 camponeza do norte do paiz é ciosa, avara das 
suas galas, especialmente do seu oiro. Mata-se para 
conquistal-as, e procura conserval-as como á própria 
existência. Não se desfaria d'ellas para comprar um 
palácio, por mais barato que lh'o quizessem vender ;, 
mas da melhor vontade as emprestou para vestir fes- 
tivamente com os seus lenços e com os seus collares o 
arco por onde a rainha devia passar. 

Chega a ser encantadora esta sincera homenagem. 

E ao mesmo tempo demonstra a honestidade dos- 
costumes campestres do norte do paiz — a ausência 
completa de gatunos, que pudessem pôr em risco a se- 
gurança dos cordSes de oiro das camponezas. 

Não faltou uma só conta, pela simples razão de não 
appareoer gatuno algum. E não appareceu, pela razão- 
ainda mais simples de os não haver em Fataunços. 

Ali vive-se trabalhando, lidando na industria pri- 
mitiva da humanidade : a agricultura. Â terra é a 
grande officina explorada por toda aquella população^ 



830 



rústica. E as alfaias, as jóias que ali estavam expos- 
tas eram sagradas, porque representavam os tropheus 
do trabalho, os despojos opimos da eterna batalha feri- 
da contra a terra subjugada. 

Em Lisboa, n'esta occasião em que se preparam 
as festas antoninas, os arcos da rua do Oiro — que 
tanto ^oiro poderia exhibir — sSo de ferro. Os cestos 
<5om que estão gaveados os mastros da rua dos Ke- 
trozeiros sSto de palha. . . apenas doirada. A bisarma 
monstruosa das escadas de Santa Justa é uma coisa 
que não valeria a pena roubar, e ainda menos cons- 
truir. Nâo ha, cautelosamente, nada de bom e valioso 
que os gatunos possam roubar, porque, se houvesse, 
nem Santo António lhe valeria. 

Em Fataunços o arco era de oiro^ e nâo faltou 
uma só conta quando a festa acabou! 

Ó Fataunços ! ó ditosa e honrada terra, onde o 
Sacarrâo é um mytho extranho, de que se ouve fallar 
com terror pela ideia associada da rapinagem alfaci- 
nha, de que esse grande cabo de guerra policial tem 
sido, por tanto tempo, o perseguidor heróico ! 

A rainha pode dizer que viu em Vouzella um re- 
talho do paraíso terreal, sem a serpente bíblica, que 
tentasse os camponezes a colherem o pomo de oiro 
prohibido, e pode ainda dizer mais que viu e ouviu o 
coraçSo portuguez palpitar no peito de uma população 
ainda não degenerescida moralmente pelas ruins paixões 
de que enfermam as cidades policiadas. 

As mulheres de Fataunços,» em vez de estarem 
inquietas pelos seus lenços e pelos seus cordões, can- 



331 



tavam tranquillas, em honra da rainha, as cançSes 
populares da sua terra. 

Sentiam-se felizes por terem enfeitado esse arco de 
triumpbo com toda a riqueza das suas arcas. 

E nenhum gatuno-Mephistopheles sorria velhaca- 
mente por de traz das arvores, espreitando a occasiâo 
de arrancar dois lenços de seda e dois cordões de oiro. 

Manifestamente, a rainha comprehendeu a extra- 
nha originalidade de tudo o que tinha presenceado 
em Fataunços. Partiu d'ali encantada e commovida. 

O Commercio do Porto concluo a sua narração 
dizendo : 

«cEm Fataunços tocou a philarmonica d'aqui, e na 
despedida sua magestade a rainha, 'Vivamente impres- 
sionada, dizia não esquecer aquella localidade, onde 
prometteu voltar, e emquanto avistou Fataunços ace- 
nava da carruagem com o lenço.» 

O lenço da rainha, despedindo- se dos lenços que 
ficavam pendentes do arco, dizia certamente no silen- 
cio eloquente de uma separação saudosa : «Nunca tinha 
visto isto, e nunca mais o poderei esquecer.» 

Junho de 1895. 



XII 



GUARDA 



Casualmente, ante-hontem á noite relacionei-me no 
Caffé Chinezy em Espinho, com um respeitável cava- 
lheiro da cidade da Guarda, ao qual, segundo um 
velho costume que já não posso perder, fui pedindo 
informaçSes a respeito da sua terra. 

A gente, em Lishoa, apenas conhece a província 
por certos homens e por certas guloseimas que a mes- 
ma provincia produz. 

Assim, por exemplo, todos os lisboetas conhecem 
Aveiro por ser o berço de José Estevam e a pátria 
dos ovos moUes. Eu nunca fui a Paredes, mas houve 
tempo em que ninguém ignorava que o fallecido depu- 
tado José Guilherme era o rei de Paredes, e eu só 
conhecia essa localidade pelo homem que politicamente 
a representava. Por esse mesmo tempo, quem dizia — 
conselheiro Arrobas — era como se dissesse —Setúbal — » 
6 logo acudiam á imaginação, ao ouvir aquello appal- 



334 



lido, as bellas laranjas, o excellente moscatel e os 
deliciosos salmonetes, de que Setúbal se envaidece. 

A respeito da cidade da Guarda, o que eu desde 
muito novo sabia era que por ali saia eleito deputada 
para todas as legislaturas o meu prosado amigo sr* 
Telles de Vasconcellos, hoje par do reino. E também, 
nas cavaqueiras de Lisboa, ouvia dizer que a cidade 
da Guarda era farta, feia e fria. Quando queria saber 
mais alguma coisa via-me na necessidade de ir con- 
sultar O Portugal arúigo e moderno, de Pinho Leal. 

Mas, nos últimos tempos, tem-se falado da Gaarda 
segundo um novo ponto de vista, como estação pro- 
picia aos tuberculosos e foi, n'este sentido, que' eu 
principalmente guiei as minhas perguntas. 

— E' certo, perguntei, que estão muitos tuberculosos 
na Guarda? 

— Infelizmente é certo, respondeu o cavalheiro por 
mim interrogado. 

— Infelizmente, porque ? Pois não dá lucro á cidade 
essa colónia de doentes, que ali vão passar algans 
mezes do anno ? Quantos tuberculosos calcula que este- 
jam actualmente na Guarda ? 

— Este anno, aao são menos de duzentos, certa- 
mente. Lucro dão, porque alugam, por dez e doze mil 
reis mensaes, casas cuja renda, paga aos mezes, era 
de trez ou quatro mil reis. Mas fazem a vida da 
cidade muito triste, e constituem um perigo pelo con- 
tagio. 

— Mas então os tuberculosas não estão isolados? 

— Não^ senhor. Comquanto, na sua maior parte 



335 



arrendem casas para residir, a defeza do. contagio não- 
está devidamente garantida. Quando um taberculoso 
sae ou morre^ a casa que elle habitava^ assim como 
os moreis e as loiças, não são sufficientemente desin- 
fectados. Está ainda dependente da approvação do- 
governo um regulamento sanitário, estabelecendo pres- 
cripçSes hygienicas, e bem preciso se torna que seja 
approvado quanto antes. ^ Mas alguns tuberculosos 
conseguem installar-se no? Jioteis, seja porque a doença 
esteja ainda no primeiro grau ou porque chegam mu- 
nidos de importantes cartas de recommendação^ e- 
n^esse caso o perigo do contagio é ainda maior. 

— Mas disse-me que a presença dos tuberculosos 
entristecia a cidade. 

— Muito. Ouvem-se tossir cavernosamente, a cada 
momento, de dia e á noite. Faz horror. Outras vezes 
encontram-se alguns, passeiando, mas já tao abando- 
nados de forças physicas, que são seguidos por um 
criado conduzindo uma cadeira, em que de momenta 
a momento precisam sentar-se para descansar, no 
meio da rua. Depois a gente affeiçoa-se a este ou 
áquelle tuberculoso, e tem pena de o ver definhar*se 
dia a dia até que morre. Incommóda ouvir os sinos- 
dobrar a finado, e ainda [mais deve incommodar os 
pobres tuberculosos que ficam esperando a sua hora». 



1 Foi approvado pouco tempo depois, em outubro de^^ 
1897. Mas quem^ n'este paiz, pode crer na observância- 
de regulamentos ? 



J 



336 



— Entre os habitantes da Gaarda o contagio tem- 
«e já manifestado ? 

— Sim, senhor. E não havia idéa na Gaarda de 
ter morrido alguém tísico. Pois agora téem-se dado 
alguns casos. E é opinião de um illustre medico que 
dentro de dez annos o contagio ter-se-ha alastrado em 
toda a cidade. 

— Desde que tempo é que os tuberculosos procu- 
-ram a cidade da Guarda? 

— Desde que a sciencia se convenceu de que as 
atitudes são favoráveis á conservação ou cura dos tu- 
berculosos. Antigamente, como sabe, os médicos pensa- 
vam de outro modo : o que se recommendava aos tisicos 
era agasalho, cuidado com as correntes atmosphericas, 
beefs e vinho do Porto. No nosso paiz, foi principal- 
mente o Sousa Martins. , . 

— Bem sei. E parece racional a theoria que elle 
Ião convictamente sustentou. Conhece a comparação 
de leque ? 

— Nao estou lembrado. 

— No prologo aos Quatro dias na Serra da Es- 
trella, de Emygdio Navarro, sustentou Sousa Martins 
que o pulmão minado pela tuberculose era como um 
leque roído pela traça. Para conservar um leque assim 
damnificado, o que se faz? Toda a gente sabe. E' abril-o 
e expol-o ao ar livre. Mas onde é que as correntes 
atmospliericas poderão ser mais puras, e, portanto, 
mais salutares ? Nas montanhas ; nas grandes altitu- 
des. Ora o pulmão, roído pela tuberculoso, está no 
caso do leque ; precisa ser beneficiado pelo ar puro e 



337 



livre das montanhas. Aqui tem, em poucas palavras^ 
a theoria moderna. Mas diga-me uma coisa, pergun- 
tei eu, na Serra da Estrella nSo ha já um sana- 
tório? 

— Em Manteigas ha algumas casas, que são alu- 
gadas pelos tuberculosos. Onde ha um sanatório é na 
Covilhã. 

— Mas se se pensasse a sério na construcção de 
um sanatório na Serra da Estrella, já a cidade da 
Ghiarda se veria desaffrontada da concorrência dos 
tuberculosos. 

— Sousa Martins pensava n'isso, era o seu ideal, 
mas infelizmente a tuberculose victimou-o antes de 
realizado esse emprehendimento, que seria um grande 
serviço prestado á humanidade. 

— Tinha visto ultimamente Sousa Martins? 

— Nâo, senhor. Vi-o na Guarda quando elle ali foi 
assistir ao enterro do doutor Sobral, e por essa occasião 
lhe ouvi o notável discurso que pronunciou. 

— Mas, na Guarda, os tuberculosos nSo procuram 
distrair-se ? 

— Procuram os que podem fazei- o. Alguns chegam 
já tarde. Ainda outro dia um, que lá chegou com trez 
ou quatro criados, e que por isso parecia ser pessoa 
rica, foi mandado retirar immediatamente. 

— Como se divertem ? 

— Passeiam. Vão á Pi*aça ouvir a musica, nos 
dias em que a ha, e juntam-se ás vezes em grupos 
para tomar cerveja ou groseille, 

— Gt)stam de conversar ? 

8S 



338 



— Alguns. Outros, mais apprehensivos acerca do 
seu estado, mostram-se concentrados. E até alguns 
namoram. 

— Namoram as damas da Guarda? 

— NSU), senhor. Os tuberculosos namoram as se- 
nhoras que também ali estão atacadas da mesma enfer- 
midade. 

— E' o idylio á beira da sepultura ! 

— E'. Mas dizem os médicos que nos tisicos ha 
certa excitação amorosa, e por isso se comprehende 
que, n'aquelle estado de que não ha appellaçao pos- 
sivel, o amor consiga distraíl-os. 

— Estou agora a vêr, na imaginação, um d*esses 
idylios entre um tuberculoso e uma tuberculosa, amor 
sem esperança, porque nem elle nem ella podem con- 
tar com o dia de amanhã. Âhi está um bello assumpto 
para um romance. 

— Porque não vae á Guarda para o escrever ? 

— Porque não estou para me impressionar muito 
pelos assumptos de que trato. Devo dizer-lhe, porém, 
que já esse assumpto me tinha passado pelo espirito. 
Contou-me um rapaz brazileiro, que esteve em Davos 
Platz, que lá o amor florescia entre os tuberculosos, 
como planta que encontrasse na ruina dos pulmões 
um terreno propicio. Namoravam-se no theatro, no 
casino, no passeio, amando-se como no vigor da saúde. 
Não aproveitei então o assumpto por ter de o loca lisa r 
n'um paiz extrangeiro. Mas agora, que se trata de 
uma cidade de Portugal, confesso-lhe que, se dispu- 
zesse de mais paciência para trabalhar, e se valesse 



339 



a pena trabalhar com escrúpulo, iria de propósito á 
cidade da Guarda. 

— Disponha-se a isso. Offereço-lhe uma casa, que 
é a minha, e um cicerone, que sou eu. 

— Muito obrigado. Mas não me decido por ora, 
nem talvez nunca. 

— Então em Lisboa não se sabia que a Guarda 
está convertida n'uma numerosa colónia de tubercu- 
losos ? 

— Com tantos pormenores não se sabe; eu, pelo 
menos, não sabia. 

— Pois já alguns tuberculosos de Lisboa téem 
estado na Guarda. Ainda outro dia lá morreu um, 
que era titular ou da'familia de um titular. 

— Lembra-se do titulo ou do nome da familia ? 

— Não me lembro. O que posso dizer é que o 
cadáver esteve em exposição, e que foi muita gente 
vêl-o. 

— A morte de um tuberculoso deve impressionar 
profundamente os outros? 

— Muito. Emquanto essa impressão dura, raos- 
tram-se mais abatidos e desanimados. 

— Então, certamente, o sentimento amoroso ó me- 
nos intenso? 

— Tudo é providencial no mundo. Mas a impressão 
passa, e as distracções voltam. -O amor torna a aca- 
lentar os corações, e os olhares de um tuberculoso 
encontram-se com os de uma tuberculosa n'uma effusão 
de ternura. 



340 



— Diga-me ainda uma coisa: a cidade da Guarda 
é tSlo feia como diz a lenda ? 

— Eu não acho. . . porque sou de lá. 

— Éfria? 

— Fria, é. Quando eu vim para Espinho, já na 
Guarda era preciso andar de capote. 

— Safa ! Que a dizer a verdade aqui em Espi- 
nho chega a fazer-se ideia do que seja o frio na 
Guarda. 

O meu interlocutor sorriu-se : 

— Isso sim ! disse elle. 

— Mas nSo soffre com o frio da sua terra ? 

— Já estou habituado. Com o que eu soffro, pelo 
menos moralmente, é com a visinhança de um tuber- 
culoso, que alugou casa perto da minha, e que passa 
toda a noite a tossir. 

— Coitado ! 

— Incommodam-nos muito e, como já lhe disse, 
constituem um perigo imminente. 

— Deviam tratar de adoptar todas as possíveis 
medidas de precaução. 

— Esperamos pela approvação do regulamento. 
Mas a sua execução nao deixa de ser dispendiosa. 
Parece que será preciso adquirir, por subscripção 
entre os proprietários, uma estufa de desinfecção que, 
segundo ouvi dizer, custa 1:200^5000 reis. 

— Mas vão-se os anneis e fiquem os dedos. 

— Pois está visto. E depois a prophecia é terrível : 
que dentro de dez annos a Guarda será uma cidade 
de tuberculosos. 



341 



— Muito obrigado pelas interessantes informações 
que teve a bondade de dar-nie. 

— E o roàiance ? 

— O romance nao se fará. Mas hei de indicar o 
assumpto a quem o quizer aproveitar. 

Fica indicado. 

Setembro de 1897. 



FIM 




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