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Full text of "Ta-ssi-yang-kuo; Archivos e annaes do Extremo-oriente portuguez, colligidos, coordenados e annotados por J.F. Marques Pereira. Serie 1.a-[2]a"

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TRINDAUE.»^ 

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PURCHASED FOR THE 

UNIVERSITY OF TORONTO LIBRARY 

FROM THE 

CANADA COUNCIL SPECIAL GRANT 



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Editor: JoÁo Bernardo Veiga Júnior 



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ARCHIVOS E ANNAES DO EXTREMO-ORIENTE PORTUGUEZ 



Collisiidos, coordenados e annotados 



J. F. MARQUES PEREIRA 

I o Official, chefe de secção, do Ministério da Mariniia e Ultramar; Official da Or^em de S. Thiago, 
do mérito scientiíico, litterario e artistico; S. S. G. L, 



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C Serie L— Volume I 

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N." [. — Outubro DE 1899 



SUMMARIO 



gravura. 



— Ra^ão da tentativa — com 

— Ra{áo do titulo. 

— O ho". anniversario da morte de J. M Ferreira do 
Amaral e da viciaria de Passaleáo — com 5 gravuras 
e 1 fac símile. 

— Urna resurrciçáo histórica /paginas inéditas d' um 
visitador dos JesuitasJ — cbm i facsimile. 



— Penominacóes dadas pelos chineles ao seu pai:; ao 
Japão, e aos 'principaes paires europeus etc- 

— Subsídios para o e^udo dos dialectos crioulos do 
Extremo-Oriente. (textos e notas sobre o dialecto de 
Macauj 

--Eclios do Extremo-Orienle. 



Ç * REDACÇÃO E ADMINISTRAÇÃO j 

C '• 73, Rua Garrett, yS 3 

ç Antiga C.\sa Bertrand — José Bastos livreiro-editor 3 

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Officina de impressão: Companhia Nacional Editora Colide Barão, 5o. 



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.ARCHIVOS E ANXAES DO EXTREMOORIENTE PORTUGUEZ 



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ARCHIVOS E ANNAES DO EXTREMO-ORIENTE PORTUGUEZ 



Collinidos, coordenados e annotados 



J. F. MARQUES PEREIRA 



1.0 Oíficial, chefe de secção, do Ministério da Marinha e Ultramar; Ofilcial da Ordem de S. Thiago. 
do mérito scientifico, litterario e artístico; S. S. G. L. 



Serie i/ — Volume i,** 



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!lg REDACÇÃO E ADMINISTRAÇÃO ^j 

j|c 73, Rua Garrett, f:> ' Í 

|c Antiga Livraria Bertrand — Successor José Bastos 3| 

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Typogniphia da Companhia Nacional Editora 

5o, Largo do Conde Barão, 5o 

LISBOA 



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A' MEMORIA 



MEU PAE 



ANTÓNIO FELICIANO MARQUES PEREIRA 



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Dedica e consagra 



João Feliciano .Marques Pereira 




Razão da tentativa 




[m julho do anno passado, em conversa com o ultimo ministro da 
marinha e ultramar, sr. conselheiro Dias Costa, tivemos a honra 
de expor-lhe o nosso desejo, que só agora, por circumstancias 
alheias á nossa vontade, começa a ter execução. Em vista das 
palavras animadoras com que fomos favorecidos pelo illustre estadista, di- 
rigimos-lhe, dias depois, uma exposição, da qual destacaremos os seguintes 
períodos que explicam bem os motivos pelos quaes nos abalançámos a ten- 
tar um trabalho, certamente superior ás nossas forças e recursos de intel- 
ligencia, mas para cujo bom êxito empregaremos todos os esforços da von- 
tade. 

«Na conformidade do que tive a honra de combinar com v. ex.^, venho 
expor, por escripto, qual a melhor forma de realisar o desejo, que ha muito 
tenho, de prestar um serviço ao paiz e aos que, estudando a nossa historia 
colonial, encontram sempre difficuldades insuperáveis na acquisição dos ma- 
terjaes necessários para esse estudo, por andarem, parte d'esses materiaes 
dispersos, e por estarem, outros, sepultados nos archivos d'onde, raramente, 
o acaso ou a curiosidade dos estudiosos de factos antigos os faz sahir, dis- 
putando-os á voracidade dos bichos. 

E, se esse acaso e essa curiosidade fizessem descobrir taes preciosida- 
des para as exporem á vista dos que soffregamente esperam a apparição 
d'esses achados para completarem as grandes lacunas da nossa historia, ha- 
veria motivo para bemdizer a feliz sorte que provocou essas projecções de 
luz nos negrumes do nosso passado ultramarino, tão cheio ainda de som- 
bras. Se V. ex.'' me permittisse mais uma comparação, eu diria que em 
toda a superfície da nossa historia colonial, que o esmeril da investigação 
tem, pouco a pouco, tornado brilhante como aço polido, ainda ha manchas 
que a ferrugem dos séculos tem produzido e que é necessário destruir, em 
quanto fôr tempo, para que a oxidação não corroa, de vez, o metal. 



Mas d'essa curiosidade investigadora nem sempre tem resultado a di- 
vulgação dos achados por parte dos descobridores, mais ou menos favore- 
cidos pelo acaso. Uns, movidos por egoismo idêntico ao que determina o 
avarento a desejar o ouro, para o ver e apalpar dentro do estreito âmbito 
do cofre forte e não para o lançar na circulação como semente de novas 
riquezas, — guardam sigillo sobre essas preciosidades encontradas, que a 
morte do achador irá de novo sepultar no esquecimento. Outros, desconhe- 
cedores e ignorantes do valor da descoberta, ou a desprezam, por não sa- 
berem avalial-a, ou a publicam sem os esclarecimentos necessários que a 
sua pouca sciencia do assumpto lhes não permitte apresentar. 

Existem nos archivos do paiz e nos das colónias um avultado numero 
de preciosidades ainda não exploradas; mas é justo dizer que muito se tem 
feito já por parte de illustres e beneméritos investigadores, mais ou menos 
protegidos e estimulados pelo governo da nação, em todo este século que 
vae findar. Os nomes do Visconde de Santarém, de Sá da Bandeira, de Lo- 
pes de Lima, de Celestino Soares, de Felner e de tantos outros, que foram 
desentranhar dos archivos esses segredos que com tanta clareza e tão in- 
telligentemente publicaram, ahi estão para testemunhar o interesse que tem 
tomado Portugal por esses estudos e investigações. 

E' necessário não esquecer, n'esta rápida referencia, os illustres mem- 
bros do benemérito Conselho Ultramarino que redigiram os seus valiosís- 
simos Annaes e bem assim os da redacção dos «Annaes Maritimos e Colo- 
n/aes» que, ainda hoje, constituem uma inexgotavel fonte de informações. Mas, 
em todos esses trabalhos, pouco ou nada se encontra com respeito á his- 
toria antiga da nossa colónia de Macau e ás relações dos portuguezes com 
os povos e paizes do Extremo-Oriente. 

Ainda na primeira metade d'este século o único repositório em que se 
ia buscar e estudar factos da historia das relações da China com Portugal 
e a d'esse estabelecimento, era a obra, em inglez, do escriptor sueco Andrew 
Ljungstedt que teve a felicidade de consultar em Macau muitos documen- 
tos, agora dispersos ou destruídos pela formiga branca ('). Poisn'essa obra— 
«An histórica! sketch of the portuguesa settiements in China» — publicada 
em 1836 (-), o auctor teve principalmente o intuito de negar os -nossos di- 
reitos e de refutar a nossa soberania em Macau. Apesar d'isso, era então 
a única fonte d'onde eram tirados os conhecimentos sobre a historia antiga 
d'essa colónia. 

Reconhecendo os inconvenientes d'um tal facto, o illustre antecessor 
de V. ex.^, o eminente escriptor Mendes Leal, encarregou o secretario das 
missões diplomáticas, que em 1862 e 1864 foram enviadas a Pekim para a 
negociação do tratado com a China, de escrever o relatório d'essas mis- 



(') Esses documentos estão felizmente em Lisboa e bem guardados. Verificamol-o 
depois de laboriosas investigações como os leitores verào, quando, n'um dos próximos 
números, encetarmos a sua publicação n'estes Annaes. São os celebres manuscr/ptos do 
bispo Saiaiva, que foi da intimidade de Ljugstedt, emquanto este permaneceu em Ma- 
cau. O escriptor sueco aproveitou d'elles o que poderia servir de argumento contra 
nós e occultou o que não lhe servia para os seus fins. A descoberta d'esses manuscri- 
ptos e a verjficaçào que, depois de termos escripto essa exposição, conseguimos fazer, 
de que se não tinham perdido e eram os mesmos a que Ljungstedt se refere no seu li- 
vro, causou-nos grande alegria, que s(3 pôde ser comprehendida por quem se dedica a 
este género de trabalhos. 

(■') Foi publicada em Boston. E' livro hoje muito raro. Já em 1832 e 1834 tinha 
publicado umas Historical contributions, que depois colligiu e desenvolveu na obra 
a que nos referimos. 



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Ta-ssi-yang-kuo 



Vnl. 1 - Estampa I. — pag. 9. 




ANTÓNIO FELICIANO MARQUES PEREIRA 
Photogravura de P. Marinho, segundo uma pliotographia de Henrique Góes (1874.) 



soes, precedido de uma extensa noticia da China e das suas relações conn 
os povos christàos, no que se incluiria a historia desenvolvida do estabele- 
cimento de Macau e de todas as negociações até então havidas. 

Esse secretario era meu pae ('), que deu começo a uma longa serie de 
trabalhos e de investigações, que foi publicando, pouco a pouco, nos «Bole- 
tins do Governo» e nos jornaes da mesma colónia, «Independente» e «7a- 
ssi-yang-kuo» (1863-1867), e em livro, como «As Ephemerídes commemo- 
rativas da historia de Macau» (1868). «As alfandegas chinezas de Macau» 
(1870) e O «Padroado portuguez na China» (1873), emquanto não se offere- 
cesse opportunidade de publicar a monumental obra que estava encarregado 
de escrever. 

Não poude, infelizmente, levar por diante a sua tarefa porque, tendo sa- 
bido de Macau e sido nomeado cônsul em Siam e nos estabelecimentos 
britannicos dos estreitos de Singapura, Malaca e suas dependências e, em 
seguida, cônsul geral na índia ingleza, — os deveres officiaes que os novos 
cargos lhe impunham, e a sua morte prematura em Bombaim, impediram 
que ell-e se dedicasse, como até então, aos seus trabalhos favoritos. 

Entretanto, esses estudos e livros vieram lançar grande luz na historia 
das nossas relações com a China e, ainda hoje, são esses trabalhos avida- 
mente procurados por todos aquelles que se dedicam ao estudo das ques- 
tões do Extremo-Oriente portuguez. 

Para se ver qual o apreço em que esses trabalhos foram sempre ava- 
liados, e sem citar os louvores officiaes recebidos do governo nacional, basta 
dizer que meu pae foi eleito por unanimidade, membro de honra da «Reaí 
Sociedade Asiática de Londres» — ramo de Shang-hae — tendo a seu lado 
unicamente e n'essa excepcional e distincta classe d'essa sociedade, os gran- 
des escriptores e sábios sinologos de fama universal, como Rutherford Al- 
cock, Brooke Robertson, Wade, Medhurst, Wells Williams, Harry Parkes e 
Yule ('^). Foi até hoje o único portuguez que obteve tão alta distincção, tão 
apreciada em todo o mundo scientifico. Desde què tive a desdita de o per- 
der, tomei sobre mim o pesado encargo de continuar e completar esses es- 
tudos com o auxilio dos valiosos elementos por elle obtidos nas buscas fei- 
tas nos archivos públicos e particulares — em grande parte quasi destruí- 
dos hoje pela acção do clima e da formiga branca. Já depois da sua sabida 
de Macau, o grande tufão de 1874, que veio destruir os telhados da secretaria 
do governo e innundar os respectivos archivos, acabou de anniquilar grande 
parte dos documentos originaes que meu pae poude ver e que hoje não 
existem. Os archivos do Senado e da Procuratura dos negócios sinicos, de- 
vem hoje, que vão decorrido trinta annos, estar muito damnificados pela 
costumada acção destruidora da formiga branca. 

Julguei ser útil ao meu paiz não deixar abandonados esses estudos 
tão brilhantemente encetados por meu pae e completal-os com investiga- 



(') António Feliciano Marques Pereira, entào com pouco mais de 25 annos. A' sua 
memoria é consagrada esta revista, não como manifestação de orgulho filiai de quem a 
redige, mas como um merecido tributo de reconhecimento d'um portuguez pelo muito 
que trabalhou esse homem que no Extremo-Oriente gastou os melhores annos da sua 
vida em serviço da Pátria, e tanto escreveu pugnando pelo bom nome e pelos interes- 
ses de Portugal n'esses paizes que foram o theatro de grandes e inolvidáveis glorias 
nacionaes. 

('-) Depois, até 1879, só tinham sido eleitos para essa ciasse os escriptores Charles 
ShadweeI, rev. J. Legge, F. Seward e A Wylie e mais ninguém. Vide Journal of the 
North-China Branch of The Royal Asiatic Society, new series, n.o xiii (1879). A sua 
eieiçào datava de 1865, quando tinha 26 annos. 



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ções nos archivos da metrópole, que elle não poude explorar, e ir successi- 
vamente publicando esses trabalhos a que me tenho dedicado nas poucas 
horas vagas que me sobejam dos meus deveres officiaes.» 



Para a realisação dos nossos desejos pedimos unicamente que se nos 
facultasse o exame, com a permissão de tirar e de mandar tirar copias, e a 
licença para a publicação de todos os documentos curiosos e antigos relati- 
vos ao Extremo-Oriente portuguez e que pudessem existir nos Archivos 
públicos, nos do Ministério da Marinha e Ultramar e nos das provindas ul- 
tramarinas; que a publicação fosse feita por conta do Ministério; que se nos 
concedesse um copista para nos ajudar na estafante tarefa; e pouco ou nada 
mais sollicitavamos da protecção official. 

Pedimos, no fim de contas, o que tem pedido toda a gente, ou menos 
ainda, porque não pedíamos nem dispensa dos nossos trabalhos officiaes, 
nem gratificação de qualidade alguma. E, para que não houvesse duvidas, 
dizíamos ao illustre ministro: 

«Para mim não peço remuneração alguma, nem mesmo a que a portaria 
de 10 de Janeiro de 1863 mandava abonar a meu pae ('). Contento-me com 
o numero de exemplares já indicado, destinados mais a offerecimentos do 
que a serem collocados no mercado; e dar-me-hei por bem pago se, com 
esse trabalho, puder prestar algum serviço ao paiz que meu pae tanto amou, 
á terra em que nasci, e souber corresponder á honrosa prova de conside- 
ração e confiança dada por v.« ex.'"* confiando-me esse encargo.» 

O illustre ministro, por falta de auctorisação legal, não poude conceder- 
nos nem que a publicação fosse feita por conta do Ministério, nem o tal co- 
pista, para nosso companheiro de agruras; mas permittiu que tirássemos 
as copias, que publicássemos os documentos, que fossemos recommenda- 
do, para as facilidades na elaboração dos nossos trabalhos, ás outras enti- 
dades officiaes, a que tivéssemos necessidade de nos dirigirmos e, finalmente, 
a que, por parte do Ministério da Marinha, fossem adquiridos um certo numero 
de exemplares. 

Era o mais que o nobre ministro entendeu poder e dever conceder. E 
já era um bom auxilio, pelo qual nos confessamos summamente gratos ao 
ex.'^° sr. conselheiro Dias Costa que, por assim dizer, deu o primeiro im- 
pulso par*a a realisação dos nossos desejos. Os estudiosos, os portuguezes 



(') De 20^000 réis mensaes, que mal chegavam para compra de livros de consulta 
e para pagar a copistas. 



1 1 



do Extremo-Oriente, que lhe agradeçam, como nós aqui lhe agradecemos 
com profundo reconhecimento. 



Faltava-nos, porém, o principal, não obstante termos já conseguido 
muito. A mina de ouro dos archivos tinha-nos sido concedida para que a 
pudéssemos explorar á nossa vontade em beneficio de todos ; havia a cer- 
teza de obtermos um mercado para os productos que d'ella extrahissemos; 
operário havia só um, mas a esse sobejava-lhe a vontade que tudo vence, 
e o exemplo do seu esforço serviria certamente para incitar outros volun- 
tários que o viriam ajudar na árdua tarefa. Mas de que serviria isso tudo, 
sem os capitães necessários para a exploração d'essa mina? de que servi- 
riam a boa vontade e os esforços do operário, quando visse sem sabida as 
tonelladas de metal precioso que o seu braço conseguira arrancar das en- 
tranhas dos archivos e das cavernas da Historia, para as accumular em re- 
dor de si? 

Precisávamos ainda de bater matto antes de vermos realisados os nos- 
sos desejos. 

Em.fim, precisávamos de arranjar um editor, sufficientemente intelligente 
para perceber o alcance do nosso trabalho, e bastante patriótico para arris- 
car capitães em coisas serias n'um meio em que florescem os Paulo de 
Koch, os Xavier de Montepin, os Ponson du Terrail, e a respectiva praga 
de traductores que teem estragado a lingua e o bom gosto nacionaes. 

Lembrámo-nos logo do José Bastos, o honesto herdeiro da firma e das 
tradicções dos Bertrand, a quem tanto devem a historia portugueza e a 
quem se ampararam homens como .Alexandre Herculano, Oliveira Martins 
e tantos outros. Era arrojo da nossa parte ir bater á mesma porta a que 
se abrigaram homens d'essa estatura intellectual ; mas, se nos sobejava a 
humildade, não nos faltava o grande desejo de contribuirmos também para 
que jorrasse mais luz nos negrumes da historia do nosso paiz. 

A acolhida foi franca e leal por parte d'esse honrado moço que conse- 
guiu merecer um distincto logar entre os editores portuguezes; e, depois 
d'uma rápida conferencia, tínhamos fechado, por assim dizer, o contracto 
que deu logar a que se pudesse encetar esta publicação. 

O nome de José Bastos tem, pois, de juntar-se ao de Dias Costa, para 
o agradecimento do humilde apontador de materiaes para a reconstituição 
da historia do Extremo-Oriente portuguez e para o de todos que costumam, 
dar valor ao resultado das canceiras d'esses pedreiros da Historia que tem 
grande semelhança com os que, também humildemente, contribuem para 
a construcção d'esses monumentos de pedra que iilustram a architectura 
d'um paiz. 



12 

A esse respeito, ainda ha dias, dissemos em carta ao intelligente compri- 
lador das antiguidades da Figueira da Foz: (') 

«São canceiras como as d'esses humildes e modestos pedreiros que, pedra 
a pedra, ajuntam os materiaes para a construcção d'esses edificios que se 
chamam os Jeronymos e a Batalha. Ha porem uma única, mas grande dif- 
ferença, entre as funcçòes dos pedreiros d'esses edificios e a dos pedreiros 
que, como nós, tentam reunir os materiaes para o edifício histórico d'um 
paiz. Elles vão cegos, guiados pela mão do architecto, que em tudo manda 
e em tudo superintende. Nós, humildes e modestos também, temos, com- 
tudo, o importante papel de guiar o architecto, porque precisamos empre- 
gar toda a nossa intelligencia nào só na escolha das pedrerras d'onde ha- 
vemos de tirar as pedras, como também no modo de arrumar essas pedras 
que teem de ser empregadas nas suas syntheses ou edificios, pelos archi- 
tectos da Historia ou historiadores. De resto, somos tão modestos como os 
outros. Damo-nos por bem pagos com a própria satisfação do trabalho, aliás 
verdadeiramente violento a que nos dedicamos.» 



E, para finalisar, apresentemos o programma do nosso trabalho. 

A revista tem por tituto Ta-ssi~yang-l<uó (cuja razão o leitor encontrará 
mais adeante) e o sub-titulo Archivos e Annaes do Extremo-Oriente Portu- 
guez e constituirá uma espécie de repositório de documentos antigos, inédi- 
tos ou não, relativos á expansão portugueza n'essa parte do mundo, e bem 
assim de estudos, monographias, apontamentos, sobre a historia, civilisação, 
ethnographia, philologia, linguistica, foik-lore, usos e costumas de todos esses 
povos que estiveram ou estão em contacto com os portuguezes, como, por 
e.xemplo, os chins, os malaios, os siamezes, os japonezes, etc; constituindo, 
por assim dizer, um archivo de noticias ou de dados curiosos que ou estão 
espalhados por diversas obras, algumas raras e difficeis de adquirir, ou por 
manuscriptos, a maior parte inéditos, das bibiiothecas e archivos naeionaes. 
E, quando fôr opportuno, e se tiverem estabelecido relações entre esta re- 
vista e os actuaes centros da vida portugueza no Extremo-Oriente, haverá 
uma resenha de todo o movimento actual d'esses núcleos de portuguezes 
ou de descendentes de portuguezes que existem {^) ainda em Macau, Hong- 



(') Sr. Pedro Fernandes Thomaz, auctor da valiosa resenha ou Collecçào de Ele- 
mentos para a Historia do Concelhio da Figueira. 

(-) No ultimo recenseamento gerai da população portugueza nos portos extrangei- 
ros do Extremo-Oriente, em 1896, encontramos o numero 2371, como representando a sua 
totalidade: figurando Hong-Kong com 1309, Shang-hae com 738, Yokohama com 88, 
Singapura com 71, Bangkok com 71, Cantão com 68, Fucháo com 13, Nagasaki com 
10 e Soerabaia com 3. 

Estes números representam indivíduos com sangue portuguez mais ou menos puro 



Kong, Timor, Malaca, Singapura, Siam, Manila, e em certos portos da China 
e do Japão. Emfim, será uma espécie d'essas revistas ou Archivos publica- 
dos na índia por Cunha Rivara, Nery Xavier, etc, mas elaborado sob um 
ponto de vista mais moderno e abrangendo todas as manisfestações da vida, 
quer passada, quer presente, d'esses povos, nas suas relações comnosco, e 
a influencia reciproca que d'elles recebemos ou que sobre elles exercemos 
por intermédio dos nossos beneméritos missionários, soldados, marinheiros 
e commerciantes. E, para amenisar (condição essencial a toda a publicação, 
que pretenda ser bem acceita pelo publico), será acompanhada de gravuras, 
vistas, estampas, representando munumentos, retratos, plantas de cidades, 
povoações e fortalezas, fac-similes de documentos raros, productos da fauna 
e flora; usos e costumes, etc. Emfim todos os attractivos d'uma publicação 
moderna e que constitua no género uma novidade entre nós. 

Agora, que o publico, a legião dos estudiosos e os elementos officiaes 
nos au.xiliem dentro das suas competências para que o Ta-ssi-yang-kuó pros- 
pere e se desenvolva e se torne em pouco tempo n'um verdadeiro archivo 
de documentos, de factos históricos e de dados valiosos sobre o que Por- 
tugal tem praticado e pratica n'essas longes terras, que vão desde a Índia 
aos confins da Oceania. 

Esse auxilio será a única e verdadeira recompensa que ambicionamos, 
por termos mettido hombros a uma tão arrojada tentativa. 






e de nacionalidade portugueza: nào entrando n'essa estatística indivíduos que, apesar 
de lhes correr nas veias sangue portuguez, pertencem a nacionalidades estrangeiras, 
principalmente á ingleza e hollandeza. O numero seria avultadíssimo se fosse possível 
fazer-se uma ta! estatística. Em Malaca, em Java e outras ilhas do archípelagoda Sunda 
ha muitos descendentes de antigos portuguezes que figurariam n'er.a. 

Nos subúrbios de Batavia (a antiga Jacatra) por exemplo, ainda nos meados do sé- 
culo passado, habitavam descendentes de portuguezes. 

Na obra A Voyage to the East índia in 1747-1748, publicada em Londres em 1762, 
encontra-se uma referencia a este respeito (pag. 84): 

«A gente designada aqui ^ox portuguezes, cuja língua falia, é mais escura que os ma- 
laios, mas usa o vestuário portuguez. São effectivamente descendentes dos portuguezes 
que primeiro habitaram n'este iogar, e que, ligando-se ás mulheres malaias, tornaram-se 
em gente pouco differente dos nativos. Professam ainda o christianismo. Estive na sua 
egreja e vi dizerem missa os padres pretos. São orgulhosos e bulhentos.» 

Dado o devido desconto ao exaggero na escuridão dos padres, a noticia é curiosa 
e merece archivar-se. 




Razão do Titulo 




^íARA O leitor do Extremo Oriente seria escusado e supérfluo dar- 
'■■'I llà ^^^ ^ razào do titulo com que ornamos a primeira pagina d'esta 
(iS^^j publicação. Está ainda na memoria de todos os portuguezes 
d'essa remota parte do mundo, os relevantes serviços presta- 
dos pelo semanário de egual titulo, que viu a luz na colónia de Macau 
desde 8 de Outubro de 1863 a 22 de Abril de 1866, á causa da civilisação^ 
e os valiosos trabalhos históricos que appareceram tão abundantemente nas 
suas columnas, devidos á penna de António Feliciano Marques Pereira, que, 
no 1.° numero d'esse jornal, justificava o extranho titulo do seguinte modo, 
em artigo assignado com as iniciaes M. P. e que reproduzimos para escla- 
recimento dos leitores occidentaes: 

«Devemos aos leitores uma explicação d'este nosso titulo, que uns accusarão d'inin- 
telligivel, e outros hão de talvez estranhar por lhe não verem exemplo em quanto rotules 
innocentes ou irritantes, promettedores ou repellentes, verdadeiros ou falsos, o jornalismo 
tem explorado até hoje. 

Responderemos primeiro aos últimos. 

A épocha nào é de rótulos, ou, melhor dizendo, não é para se levar d'elles, porque,, 
de tal modo os traz malbaratados a competência, que já se pode ter por bom conselho 
esperar menos dos que mais dizem. Assim vemos que são peores as fazendas de fabri- 
cante que as cobre de letreiros e engodativos; que é ronceiro, ou de perigosa construc- 
çào, o navio cujo nome indica velocidade fabulosa, ou eterna solidez; e finalmente, para 
nào alargar a fácil imaginativa de taes exemplos, que é muitas vezes servil em suas 
defezas, ou despótico nas exigências da sua politica, o jornal que preza no titulo, de 
Independente ou de Liberal. D'onde se conciúe que ninguém hoje se acredita por 
suas promessas se não por suas acções, e que, para attrahir as sympathias do publico,. 



h 



i6 

a tanto montava escolhermos n(3s este titulo desusado, como outro de que se tivesse já 
usado, e talvez abusado, do que Deus preserve o nosso. 

E, respondendo agora aos que o não entenderem (que não serão tão poucos, visto 
que a litteratura pekinense não fará tão cedo parte da educação da mocidade portu- 
gueza) diremos que, sendo-nos de todo indifferente qualquer titulo para o nosso jornal, 
menos razào vimos para desdenharmos este, que se recommendava por nos trazer á 
memoria a gloriosa época das nossas primeiras relações com o Império Chinez, cujos 
naturaes empregaram desde então essas quatro palavras como designação do nosso reino 
de Portugal. 

As quatro palavras A ^ ta rflhf ssi V3È y^^* iRffl /<'-'(), dizem, ao pé da 



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lettra, Grande remo do mar de Oeste {^). Quando, no 38." anno do 7\.^ cyclo da chro- 
nologia chineza (1600 da nossa era) o Padre Matheus Ricci penetrou em Pekim com 
os seus companheiros, e Chin-tsung-hien-ti lhes perguntou de que paiz tinham vindo 
á China, foi com essas palavras que elles responderam ao imperador. Como se sabe, a 
província da Companhia de Jesus, que, n'esse tempo, dava missões á China, e a quasi 
todo a Ásia, era unicamente a de Portugal. Os nossos missionários mantiveram sem- 
pre a denominação de nacionalidade adoptada pelos seus predecessores, e, quando 
mais tarde os extrangeiros começaram a entrar no império, essa expressão ta-ssi- 
yang-kuó, ou como também se usa mais abreviadamente, ssi-yang (mar d'Oeste), 
quer fosse em principio genérica para indicar toda a Europa, como alguns pretendem, 
quer sempre nos designasse especialmente, como nos parece mais certo, a verdade é 
que nunca os chinezes a applicaram a esses outros extrangeiros, para cujas nacionali- 
dades tiveram de crear outros nomes, os mais d'elles imitativos, como E-sze-pa-ne-a 
para Hespanha, Fô-lang-tcha para França, E-ta-le-a para Itália etc. 

Ahi está pois explicado o titulo e aclarada a razão por que não adoptámos outro, 
razào que melhor se dá com dizer que adoptámos este, pois que, para acreditar o jornal, 
tanto vai este como outro. Se a alguma cousa nos obriga o que escolhemos, é a re- 
cordar os tempos do nosso passado, excitando a actividade nas condições do presente.» 

Durou o semanário macaense com prospera vida de dois annos e meio, 
até que, em 22 de abril de 1866, despediram-se os seus redactores (entre 
os quaes se notavam, além de António Marques Pereira, os srs. José Ga- 
briel Fernandes, Pereira Rodrigues, Castro Sampaio, Osório Cabral de Al- 
buquerque, José da Silva, Meyrelles de Távora, etc.) do publico, a quem for- 
neceram uma leitura sempre agradável e interessante, apresentando as ques- 
tões sob uma forma elevadíssima e digna, sem as diatribes e doestos que 
tanto enxovalham a maioria da nossa imprensa ultramarina. Mas a parte 
mais valiosa d'essa publicação consistiu nos artigos históricos que n'ella 
appareceram e que tornaram a colleção do Ta-ssi-yang-kuô de Macau n'uma 
inexgotavel fonte de informações sobre o papel desempenhado pelos por- 
tuguezes no Extremo-Oriente, principalmente no império chinez. Infeliz- 



es Isto é: /íi grande, ssi oeste. vij«í mar e l.uo reino, como melhor está explicado em outro artigo d'este nu- 
mero. 



17 

mente essa collecção é hoje rarissima e avidamente procurada pelos estu- 
diosos que não a encontram no mercado, nem a obteem com facilidade por 
empréstimo dos que avarentamente a guardam como uma verdadeira pre- 
ciosidade. 

Resuscitando hoje o Ta-ssi-yang-kuó na metrópole, prestamos não só 
um tributo de piedade filial ao trabalhador tão cedo roubado pela morte ao 
carinho dos seus e á Pátria que tantos serviços lhe deveu, mas a todo^ os 
que se interessam pelas gloriosas tradicções d'esse Grande reino do mar 
d'oeste, que espantou o mundo com as façanhas de seus filhos, que levaram 
<l'um a outro hemispherio a fama do nome portuguez; e a todos esses nos- 
sos irmãos do Extremo-Oriente, que terão reunidos, n'uma, única publicação, 
■os archivos e annaes, a historia e as tradicções d'essas terras em que nas- 
ceram e d'esses homens que foram os seus antepassados e que, com o seu 
suor e o seu sangue, tentaram e conseguiram devassar á luz da civilisação, 
•os negrumes d'essas remotas regiões da Terra, até então quasi desconheci- 
das do mundo Occidental. 

Resuscitando o Ta-ssi-yang-kuó tem.os por fim fazer lembrar que é hoje 
Portugal o único paiz europeu a quem a China dá um titulo, que soa ainda 
nas vastidões do Oceano Pacifico como um longínquo echo da potente e 
•clangorosa trombeta, dessa 

. . tuba canora e bellicosa 
, , que o peito accende e a côr ao gesto muda; 



que entoou o hymno vibrante das nossas glorias, e que é preciso fazer soar 
de novo, para que o oiçam os portuguezes doentes de surdez e os estran- 
geiros, que se fazem surdos, n'esta hora da partilha do grande império, que, 
primeiro do que ninguém, os filhos de Portugal devassaram, entregando-o 
á influencia da civilisação europêa, e á catechese dos missionários chris- 
tãos. 

Que o Grande reino do mar d'oeste, o Ta-ssi-yang-l<uó dos chins, occupe 
o logar que lhe compete e exerça o papel, a que lhe dão direito as suas 
gloriosas tradicções, na liquidação dos interesses europeus no Extremo- 
Oriente, são os desejos que manifesta quem metteu hombros a esta monu- 
mental empreza, para cujo bom fim, espera a benevolência e o auxilio de 
todos os que n'este trabalho querem ver um intuito patriótico e o de- 
sejo de prestar um serviço ao nosso querido Portugal d'aquem e d'além- 
mar. 

Que essa benevolência nos não falte e dar-nos-hemos por bem pago 

dos trabalhos e canceiras e de tanta noite perdida sobre papeis e manus- 

2 



'i8 

criptos, cuja leitura nos leva a esses tempos distantes em que soava ainda 
essa vibrante e clangorosa fama do grande nome portuguez n'esses 

. . . novos portos do Oriente 
que vós outros agora ao mundo dais, 
abrindo a porta ao vasto mar potente 
que com tão forte peito navegais, 



com 



o disse o immortal cantor e melancholico solitário da gruta de Macau. 




Ta-ssi-yang-l<iio 



Vol. I — Est. Il.-pag 19. 




JOÃO MARIA FERREIRA DO AMARAL 



Photoeravura de P. Marinho, segundo uma photographia de Arnaldo da Fonseca, 

retocada por Roque Cjameiro, 1 ;„ j„ i ;=hna 

d'um quadro a óleo pintado em Macau e^xistente na Sociedade de Geograph.a de Lisboa 




o 50.° anniversario 

DA 

Morte de João Maria Ferreira do Amaral 



E DA 



VICTORIA DE PASSALEÃO 



aa- 35 de JLgosto de 184:9 




iNHA sido quentíssimo esse dia de agosto. No palácio abafava-se de calor. 
O trabalho fora violento, conforme o costume; e, terminada a faina diá- 
ria, chegara o momento de se ir respirar um pouco de ar fresco por essas 
várzeas fora até ás praias do isthmo, lambidas por esse mar, cuja me- 
lopéa triste e dolente tantas vezes acompanhara os cantares e as tristezas 
de Camões. 

Era esse o passeio favorito de Amaral, que, pouco a pouco, ia pondo em execução 
o seu plano de melhoramentos em todo esse terreno situado fora das muralhas da ci- 
dade e onde, em arrozaes lamacentos e em chiqueiros de suinos, se espojavam os chi- 
nezes governados pelos mandarinetes. . . em território nosso. O que não era um mar de 
lodo e de lama empestada, convertera-se em monturo de cadáveres putrefactos e mal 
enterrados (') em todos os montículos da cidade e extra-muros. Planeara o benemérito 



(') Enterram os chins os cadáveres n'uma posição obliqua, isto é, collocam os caixões de modo que os pés 
do morto ficam mais cobertos de terra que a cabeça — isto, segundo dizem, com o fim de mais commodamente 
retomarem a posição vertical quando lhes appetecerem levantar-se do tumulo afim de darem uma passeiata por 
este mundo de misérias. 

Esse systema de enterrarem 05 cadáveres, é causa de se verem, em muitas sepulturas, depois das grandes 
chuvadas ou s<.?wa/?-as, desenterrados os craneos dos defunctos, cujos caixões apodreceram. 



20 

governador limpar a cidade de toda a espécie de podridões e vergonhas. Empunhara a 
vassoura e patrioticamente varrera tudo — mandarinetes e cadáveres ; lixo e lama e, de 
mistura, toda a qualidade de torpezas que, durante quasi três séculos, tínhamos deixado 
accumular em enorme montureira, sobre a qual continuava trapejando, impávida e im- 
polluta, a bandeira das quinas ao sopro das brisas do Pacifico perfumadas pelos aromas 
da flora tropical. Mas, nem as brisas, nem os aromas conseguiam supplantar o fétido de 
podridão. Seria preciso um tufão para varrer a pestilência e os coriscos de fogo eléctrico 
para dar morte aos micróbios. Amaral foi o tufão e foi o raio que, se destroem, também 
purificam. . - 



A remoção das sepulturas, a construcção de estradas atravez das várzeas e lamei- 
ros; a extincção dos hopus ou alfandegas chinelas estabelecidas em território nosso; a 
supplantaçáo da auctoridade dos mandarinetes que abusivamente nos davam ordens, ás 
quaes se sujeitara até então o orgulho lusitano: tudo isso Amaral tentara e realisára em 
pouco mais de três annos de governo, tendo de luctar, não só contra a opposição das 
auctoridades chinezas, mas também contra as influencias locaes, que bastantes vezes in- 
utilisáram os esforços patrióticos de outros beneméritos que não tinham tido no reino 
o decidido apoio que Amaral encontrou no benemérito e patriótico ministro que se cha- 
mou Joaquim José Falcão, cujo retrato hoje honra uma das paginas d'estes Annaes (^). E o 
apoio dos macaenses verdadeiramente amantes da sua pátria não faltou a Amaral. O pró- 
prio secretario do governo, que o foi também do conselho do governo, .estabelecido na 
colónia depois do assassinato, era macaense, se bem que de origem reinol i^) ; e n'elle 
e em muitos outros achara dedicações que de bastante lhe serviram para levar a bom 
fim a gloriosa tarefa a que mettera hombros. Na própria população chineza, trabalha- 
dora e infatigável, não havia outra opposição contra o governador senão a que se sus- 
citara pela remoção das sepulturas que lhe ia ferir os seus sentimentos de respeito pe- 
los mortos com prejuízo da hygiene e das conveniências d'uma cidade civilisada que 
tinha quasi dois terços do próprio território convertido em cemitério chinez. E está hoje 
mais que provado que não partiu do povo chinez de Macau a iniciativa do assassinato; 
e ainda mais que provado que não foram as pretendidas injustiças contra essa popula- 
ção que provocou o acto vilissimo de 22 de agosto. A parte da carta inédita, cuja re- 



(M Custou-nos bastante o obter este retrato, o que só conseguimos devido á indicação do nosso bom amigo 
sr. Figueiredo de Bastos, digno chefe da repartição de contabilidade do Ultramar, que teve a honra de servir sob 
as ordens do benemérito ministro. Com essa valiosa indicação conseguimos achar na livraria do sr. Pereira da 
Silva, da Rua dos Retrozeiros. a bella Ivthographia de Santa B.irbara, cu)a reproducção em photogravura, muito 
reduzida, acompanha este numero. Falcão está vestido de coronel d'um dos regimentos de provisórios que havia 
n'esse tempo e foi uma das originaes e curiosas creaçôes do regimen constitucional. 

(-) António José de Miranda, meu avô materno. O seu retrato será publicado no próximo numero. Toda a 
correspondência enérgica e patriótica entre o conselho do governo e as auctoridades chinezas de Cantão, recla- 
mando a cabeça e o braço de Amaral, decepados pelos sicários, foi por elle redigida, e bem assim o celebre ma- 
nifesto dirigido aos representantes das potencias extrangeiras na China — manifesto que mereceu os elogios da 
própria imprensa ingleza. Todos esses documentos ficarão archivados n'estes Annaes. Tenho na minha frente as 
minutas, escriptas n'uma lettra corrida e sem hesitações nem emendas. Estão, porém, um pouco apagadas pelo 
tempo e, em certos sitios, talvez, pelas lagrimas vertidas pela perda do inolvidável amigo cu)o corpo ensanguen- 
tado ajudara a levantar, dias antes, de sobre as areias da Porta do Cerco. 



Ta-ssi-yang-kiio 



Vol. I — Est. IH. — pag. 20. 



^® 




JOAQUIM JOSÉ FALCÃO 
PhotogravLira de P. Marinho, segundo uma lithographia de Santa Barbara (1848). 



Ta-ssi-yaiig-liuo 



Vol. I-Ksl IV — pag. 21 









\ 



Km. 0.aa,_^ 







hac-simtle de parte d'iima carta de Amaral 
secretario geral do governo de Macau António José de iMiranda, escripta de Hong-Kong 
em 22 de dezembro de 1847. 
(Photogravura deP. Marinho) 



21 



producção hoje estampamos (i) é uma prova de que Amaral se preoccupava em não fa- 
zer injustiças aos chinas. Elle não era e não queria ser injusto. Era enérgico, o que é 
muito differente. Planeara cortar todos os abusos; e os que d'elles viviam — com ou sem 



(') Essa carta, cujo original possuo, é dirigida da colónia ingleza de Hong-Kong, onde Amarai estava, ao 
secretario gerai do governo, António José de Miranda e diz o seguinte : 

(iHong-Kong, 22 de dezembro. 

«111.""' Sr. Miranda 

«Eu ciieguei aqui hontem ás 2 horas da tarde sem novidade, e fui recebido com todas as honras, guarnição 
em armas, salvas no mar e em terra, e o general com todos os officiaes á minha espera no cães, etc, etc. 

«Se eu lá não estiver antes de Domingo peça da minha parte ao Barros e ao outro p.'' votarem na eleição da 
camará do modo seguinte : 

JurzEs 
Josà Fran.'^» 
Bramston 

Vereadores 
Goularte 
Brandão ^ 
Lulu (João da S.^) 

Procurador 
Manuel Pereira 

«Diga-lhes que a esmola não he obrigada mas que obsequeiaõ ou servem o governo votando assim, visto que 
a conducta da actual camará tem sido infame, traiçoeira e prejudicial ao estabelecimento, e (entre nós) estou 
decidido a dissolvella se fôr reeleita. 

«Continue a olhar por tudo, e vá a casa do Juiz dar-lhe parte do que ha a fazer. 

«Seu amigo J. M. F. Afnaral. 
u Cuidado em não tratar os chinas injustamente. Mande as cartas aos seus destinos.» 

Repare o leitor n'essas linhas que sublinhamos. Diga-nos se pode attribuir-se ás suppostas injustiças de 
Amaral contra os chinas, o assassinato de que foi victima, como muitos pretendem. Essa carta falia mais alto do 
que quaesquer phantasias de pseudo-historiadores que, no que escrevem, cão levados mais pelas paixões e conve- 
niências, do que pela verdade dos factos. Amaral tinha-se ausentado de Macau na véspera do dia em que escre- 
veu essa carta; d'alii a pouco havia de voltar á colónia portugueza. Pois, apesar d'isso e de ter no secretario ge- 
ral a máxima confiança, e de conhecer quão digno e prudente era esse funccionario, recommendava-lhe que não 
tratasse os chins injustamente. N'esse post-scriptum da carta deu Amaral, sem querer, a melhor prova para que a 
Posteridade pudesse proferir sem parcialidade o seu veridictum. 

Outra carta curiosa, que também possuo, é a seguinte, também escripla de Hong-Kong : 

•iHongKong, 9 de dezembro 

«III.""" Sr. Miranda 

«Tenho presente a sua carta de 7 incluindo outra do Juiz. Emquanto á recepção facão o que quizerem que 
se eu poder desembarcar de noite hei de fazello. 

«Creio que saberá das noticias de Cantão. Matarão 6 caixeiros no domingo, Sir John Davis foi esta manha 
para Cantão na fragata uDcedalus», o doutor Parker (americano j foi hontem a noite, e o • Vullure* vae partir hoje 
com 5o soldados p.* proteger as feitorias. O vice-rei prometteu fazer tudo p.^ dar satisfação plena, pedindo 
que não mandassem soldados. Veremos se isto faz com que tenhamos alguns moradores mais era Macao. 

«Prefiro que a eleição se faça no dia 12 (domingo) do que no domingo seguinte afim de ficarmos livres p.* 
a malla. 

«Saudades ao Leite e Rosa, e sou seu amigo, etc. — J. M. F. Amaral.» 

Em nenhuma das cartas está a data do anno. Verifiquei, porém, que são do anno de 1847, porque o massa- 
cre a que se refere Amaral é o que teve logarem 5 de dezembro d'esse anno.e a que meu pae se refere a pag. i23 
das suas Ephemerides, e D. Sinibaldo de Mas nos seguintes termos no seu livro vLa Chine et les puissances 
chrétiennesK (tom. 11, pag. 72 e 73) : 

«Por esse tempo, seis pacificos commerciantes inglezes que tinham sabido de Cantão para darem um pas- 
seio em um bote, desembarcaram n'uma pequena aldeia situada nas margens do rio e chamada Huang-chu-ki. 
Tendo-se amotinado a populaça, alguns dos inglezes que levavam pistolas, fizeram fogo, mataram um chinez e fe- 
riram outro; mas todos elles foram cruelmente assassinados, expirando alguns depois de estarem sujeitos du- 
ante dois ou três dias a torturas horríveis, 

«Reclamou o governo de Hong-Kong, e apesar do principio adoptado pelas auctoridades chinezas para com 
os extrangeiros, de exigirem vida por vida. ordenaram que quatro ctiinezes (em vez de seis) fossem decapitados; 
mas nenhum d'esses criminosos pertencia a aldeia culpada; eram piratas condemnados á morte: d'aquelles que 
se encontram sempre em grande numero nas cadeias de Cantão, em que se cortam até mil cabeças annualmente.» 

Como os leitores verão, eram da mesma laia os que haviam de pagar pela culpa do assassinato de Amaral, 
emquanto os verdadeiros sicários se esconderiam na sombra, impunes e satisfeitos. 



I 



botão de mandarim do celeste império — tinham necessidade de supprimil-o, como se 
deprehenderá da serie de documentos e informações que irão sendo successivamente 
estampados para averiguação d'esse ponto da historia que tem de ser tão completa- 
mente esclarecido como qualquer outro. 

Dos manejos e tramas das auctoridades de Cantão e das sociedades secretas, mais 
ou menos instigadas pelos mandarins e mandarinetes, fora Amaral prevenido por diver- 
sas vezes por espiões e por amigos que lhe aconselhavam não sahisse a passeio para 
longe, sem ser devidamente acompanhado. Ainda no dia 22 de agosto um seu creado 
chim lhe dera a entender que a tragedia se preparava para breve, e recommendara-lhe 
com insistência que se acautelasse (') ; mas não lhe sotTria o animo mostrar tibieza, de- 
pois de durante três annos ter arrostado com todos os perigos. Ou, antes, era Deus que 
o impellia para o ultimo sacriticio pela Pátria querida, convertendo-o em martyr da au- 
tonomia macaense. 

* 

E assim foi. 

E sahiu n'essa tarde quente de agosto para o seu passeio favorito, afim de respirar 
um pouco de ar fresco e percorrer todo esse terreno que elle emancipara da tutella chi- 
neza. Ia a cavallo, acompanhado do ajudante de campo Leite. Próximo da Porta do Cerco, 
á distancia d'uns duzentos passos, deteve-o um grupo de chinas, d'entre os quaes se des- 
tacou um para lhe entregar um memorial ou um ramiihete de flores. Amaral estendeu o 
único braço que possuia para segurar o que lhe apresentavam. Em vez do ramiihete lu- 
ziu o ferro homicida... e uma taifoada decepou-lhe a mão. A dór fel-o cahir do cavallo. 
O ajudante de campo voltou á rédea solta para a cidade, afim de chamar soccorro. De- 
pois... ficou o cadáver sem cabeça e sem braços sobre os hervaçaes resequidos do 
isthmo, emquanto os gafanhotos e os lagartos fugiam assustados ao bal-ulho feito pelos 
passos dos sicários que se acolhiam ao território chinez, gloriosos da façanha e impa- 
cientes pela paga promettida. 

O que se passou depois, — desde que o glorioso macaense Vicente Nicolau de Mes- 
quita levantou o nome portuguez com o extraordinário feito de armas cuja fama ainda 
hoje resoa em todo o Extremo-Oriente, até á explosão da fragata D. Maria II, cuja fu- 
maceira se foi pouco a pouco dissipando, com as idéas de vingança necessária e im- 
prescindível, — tudo encontrará o leitor exposto nos documentos e transcripções que se 
seguem, feitas com o intuito de commemorar o 5o." anniversario do assassinato do grande 
martyr, do incorruptível patriota, cujo retrato é hoje pela primeira vez estampado (-). 

Devíamos esta homenagem á memoria do emancipador dos macaenses, do homem 
que, mais do que nenhum outro, conseguiu n'este século impôr-se no Extremo-Oriente 
como os antigos portuguezes se impunham — por um inquebrantável patriotismo que 
muitas vezes consegue mais que a força e o estampido dos canhões. 



(') D. Sinibaldo de Mas, então ministro de Hespanha na China, com residência em .Macau, diz no seu bello 
livro *La Chine et les puissances chrétiennesn (pag. iii do tom. 11) : 

i'En 1849, le gouverneur de la dite colonie, Mr. J. M. F. do Amaral, ayant eu avec les mandarms quelques 
diflicultés, c)u'il serait irop long de rapporter ici, on sul qu'à Canton une bonne somme avait étéproniise à qui li- 
vrerait sa tcte. 

iCetie circo7istance n'etaít pas un mysiére pour M. Amaral, et lui-même rti e7i parla deuxjours avant sa 
mort, inexprimant formellemení sa conviction qu' il Jinirait par élre assassine. . ■ » 

(') E' reproducçáo exacta do que existe na Sociedade de Geographia, pintado a óleo em Macau e conside- 
rado como muito parecido com o original. Não temos noticia de que até hoje se tenha estampado qualquer outro 
retrato do grande portuguez. 



20 

E era uma necessidade essa commemoração, pelo menos para fazer lembrar aos que 
•dirigem os destinos de Portugal e ao paiz : que a obra de Amaral não se concluiu e tem 
de ser completada agora, visto sé tratar do esphacellamento da China pelas nações ci- 
vilisadas da Europa. 

Não façamos companhia aos abutres, não nos cevemos como elles no cadáver do 
império chinez. Mas precisamos conservar o que é nosso e readquirir o que perdemos, 
mais por nosso abandono e descuido, do que por imposição de outrem. 

E' preciso que a colónia de Macau seja portugueza a valer, como a deixou Amaral. 
Sem alfandegas chinas e com as suas dependências da Taipa, Co-lo-an, Lapa, Tai-vong- 
cam e D. João, completamente occupadas por nós. Nada mais, mas também nada menos. 

E, para isso e no actual momento, não é necessário aos nossos dirigentes nem a 
centésima parte da energia de que careceram, em epocha bem calamitosa para a metró- 
pole, os beneméritos João Maria Ferreira do Amaral e Joaquim José Falcão, o patrió- 
tico ministro do Ultramar que o impelliu e o susteve com o seu incondicional apoio na 
sua obra emancipadora. 

Qual foi essa obra dil-o-hão essas linhas que se seguem escriptas por meu pae (i). 
Ninguém o disse ainda nem mais portuguezmente nem com mais patriotismo. E por 
querer e diligenciar que a obra do Amaral não fosse despedaçada: padeceu como pou- 
cos, teve a cabeça posta a preço (-) e veio morrer aos 42 annos na Ásia, n'essa Ásia eni 
que passou os melhores annos da sua vida empregados no serviço da' Pátria, que elle 
tanto amou. 



«As referencias suggeridas pela narração que nos proposemos trouxeram-nos insen- 
sivelmente, e mais depressa do que contávamos, ao tempo do governo de João Maria 
Ferreira do Amaral. Não voltemos atraz já agora. Confrange-se o animo na contempla- 
ção d'essa ep.ocha tão infeliz e dilatada, que rapidamente esboçámos. 

Raiou para a colónia este governo em 21 de abril de 1846. 

Precedèra-o de alguns annos um importantíssimo acontecimento na China. Os in- 
gleses, cançados também de softVer injurias dos chins, tinham -se emfim determinado a 
abandonar a attitude submissa com que por longos annos abdicaram, tanto como nós, 
da sua dignidade de nação europêa. A primeira troca de hostilidades fora em 5 de se- 
tembro de 1834. As baterias do rio de Cantão fizeram fogo sobre dois navios de guerra 
ingleses, que entravam, e estes responderam e obrigaram-nas a calar-se. Em iSSfi, o al- 
mirante inglez Maitland exigiu ás mesmas baterias satisfação de alguns tiros que tinham 
feito sobre o navio paquete Bomhay. A satisfação foi- lhe dada por dois mandarins para 
esse fim enviados pelo almirante chinez Kuan. Em iHSq, vinte e nove juncos chineses 
de guerra, commandados pelo mesmo Kuan, atacaram em Chuen-pi as corvetas inglesas 
Volage e Hyacynth^ e foram rechaçados com grande perda, afundindo-se muitos, e sal- 
tando um por explosão. Amiudando-se depois os gravames e insultos em Cantão, reben- 
tou emfim a denominada primeira guerra da China, a qual é de sentir que tivesse por 
motivo apparente, ou immediato, a questão do ópio, quando é certo que outras e injus- 
tificáveis provocações a haviam tornado inevitável. — Pelo tratado de Nankim, cujas ratifi- 
cações se trocaram em 20 de junho de 1843, estipulou-se, afora outros artigos: perpe- 
tua paz entre a Inglaterra e a China e reciproca protecção aos súbditos das duas rtações; 
a abertura dos portos de Cantão, Amoy, Fu-chau, Ning-pó e Shang-hai ao commercio 



(') No livro «As Alfandegas chinelas de Macati^, hoje raríssimo e muito procurado. 

(■) Quem tiver curiosidade de lêr e^a lobrega pagina da nossa historia colonial, consulte os meus artigos pu- 
blicados no Jornal do Commercio de 27 de Maio, 3 de Junho e 12 de Setembro de 1896. 

Faz agora em 1 1 de setembro, dezoito annos, que deu a alma a Deus na cidade de Bombaim, (onde exercia 
o cargo de cônsul geral na índia britannica, para que pouco antes tinha sido promovido em attenção aos seus 
longos e bons serviços na Ásia) pranteado por toda a colónia portugueza. Jaz na egreja portugueza de Nossa 
Senhora da Gloria de Mazagáo. 



24 

de todos os extrangeiros; a suppressão do cong-hang ou sociedade dos anistas; a igual- 
dade de fórmulas e tratamentos entre os funccionarios ingleses e chineses da mesma 
cathegcria; e a indemnisação, por parte da China á Inglaterra, de 21.000:000 de patacas^ 
comprehendendo o valor das despezas da guerra, o de 20:281) caixas de ópio, confisca- 
das e queimadas em 28 de março de i83(), e o das dividas dos anistas de Cantão a vá- 
rios negociantes ingleses. Foi pelo mesmo tratado confirmada a cessão da ilha de Hong- 
Kong á rainha Victoria e a seus herdeiros e successores, — isto em razão (artigo tercei- 
ro) «de ser obvia a necessidade que tinham os súbditos britannicos de possuir na China 
um porto onde podessem concertar os seus navios e guardar as suas mercadorias e man- 
timentos» (1) . 

Esta pnmeira e severa lição dada á China tinha de infallivelmente alterar a face, até 
então singularissima, das suas relações com o extremo occidente. O véo mysterioso, que 
sempre cobrira o vetusto império, começava a ergue-To a mão da civilisação moderna. 
Esses milhões de súbditos e essa área de dominio, incommensuravel e riquíssima, que 
tanto assustavam o nosso pequeno estabelecimento e os navegadores e commerciantes 
extrangeiros que se nos seguiram, não significavam mais do que um povo, ainda activo 
para a industria desprotegida, mas para os impulsos de nacionalidade inteiramente pa- 
ralvsado pelo mais suftbcante despotismo. A altaneira soberba dos mandarins, e a in- 
comprehensivel resistência que a tudo oppunham, era o disfarce da fraqueza, era o jus- 
tificado temor, de deixarem conhecer o que valiam. Desfeito o encanto, o bom senso e 
a razão tinham de predominar como sempre: e as nações livres da Europa não podiam 
ser escravas da China (-). 

Portugal, a primeira nação da Europa que estabelecera trato com a China, a única 
que o mantivera constante, e conservara á beira do império uma colónia ('^), tinha mais que 
todas incontestável direito de aproveitar-se da feição nova que as relações da China com 
o occidente haviam tomado. — Não o soubemos logo entender d'este modo, e em abril 
de 1844 ainda acceitavamos uma chapa (como atraz se viu) em que o iríiperador Tau- 
Kuang nos mandava, por bocca do vice-rei de Cantão, do vice-rei interino, do soto-vice- 
rei e do administrador geral das alfandegas, que não entretivéssemos no coração esperan- 
ças vãs. Dir-se-hia que o esquecimento da própria dignidade se nos tprnara em gostoso 
habito, que ainda aos mais fortes estimulos prevalecia ! 

Amaral foi adequadamente escolhido como governador para dar remédio a esta si- 
tuação, que fora por longo tempo injusta e se tornava já ignominiosa. O seu génio de- 
cidido, por vezes violento e, na defensão da honra da pátria ante estranhos, sempre mo- 
vido de relevantíssimo zelo, deparava-no-To a Providencia como efíicaz e enérgico ins- 
trumento de desagravo e castigo das offensas que por dilatados tempos tivéramos de 
sofTrer aos chins. 

Ordenavam-lhe as instrucções com que o ministro Joaquim José Falcão o enviara 
que restabelecesse a independência absoluta da colónia e dos seus portos; que desse 
cumprimento ao decreto de 20 de novembro de 1845; e que, para supprir a receita pu- 
:)lica, extincta com a disposição do mesmo decreto, collectasse os habitantes, christãos 
e chineses, nunca de antes obrigados a impostos directos. 

Não faltou quem considerasse este prospecto loucura absurda e temerária, e quem 
prophetisasse que ou Amaral o haveria de cumprir tanto quanto os seus antecessores 
tinham podido cumprir as instrucções por elles recebidas, ou a colónia se confundiria 
em breve n'um montão de cinzas e ruinas. 

Amaral cumpriu tudo, cumpriu-o no breve espaço de três annos, e sem que a coló- 
nia tivesse de defender-se contra hostilidades dos mandarins, a não considerarmos tal 
a breve revolta dos «faitiões.» C) 



(') «Os detractores do nosso direito á posse de Macau dizem que foroos aqui apenas admittidos por deferi- 
mento ao pedido, que fizemos, para enxugar e guardar as mercadorias e abrigar os navios durante a contra- 
monção. 

Quando só por tal fosse (e já vimos que não foi) ainda assim não teríamos invocado peores títulos para a 
fundação, fruição e propriedade de Macau, do que os produzidos para a nacionalidade da visinha colónia inglesa, 
cuja legitima acquisição ninguém contesta. > 

Cl «A reacção motivou excessos e abusos que também por sua parte não honram a civilisação europêa. As- 
sim tinha de ser, e a maior culpa é ainda do governo chinez, que não deixa, no que pôde, a sua politica de isola- 
mento e escureza. — Em todo o caso, a nós os portugueses não nos cabe responsabilidade n'este ponto.» 

(") «São conhecidos os ephemeros estabelecimentos hollandeses e hespanhoes, nas ilhas dos Pescadores e na 
Formosa no século xvii.» 

(*) Sobre esta revolta occupou-se meu pae nas suas «Epkemerides commemorativas da historia de Macau» 
c no livro «.4s Alfandegas chinelas», nos seguintes termos: 



2D 



. Odios attrahiu-os, nao ha duvida, - e fôra impossível o contrario: -mas ódios 
impotentes. Os seus actos íeriam profundamente os interesses das auctoridadTs chiie- 
zas mas nao tinham ellas razoes que oppôr á restauração da nossa independência nem 
meios e coragem de a impedir pela torça. O traiçoeiro assassinato, a que recorrèrarS^ 
, provou claramente o ardor d'esses odios, mas não que fossem poderosos e d?gnos de 
temor. Lm pouco de accordo e decisão do ajudante d'ordens Leite repelliria com Li 

innf rffi^^fí u'""fK"^" ^" "'^^""^ ^^^^'"^«^ maltrapilhos e mal armados enã^ era 
depois difficil baldar-lhes com a prevenção o desígnio 

As proporções e o objecto d'este nosso trabalho não demandam particularísada re- 
lação de como João Mana Ferreira do Amaral reconquistou a autonomia d'estâ colonL 
de Macau e dos seus portos: occupando e fortificando a Taipa; abolindo o pagamet to 
lacâZ^utZ T' ^' "^^^^Ç'^°.d«^ "«vios portugueses da pVaca de Maca^ulal mí 
tacao do numero dos mesmos navios; tornando effectiva a posse do território situado 

S ^n.'' '"''^^''' "'"''^^''- ^;' "^^^^" ' ^ P^--^^ ^^ Cerco, e abrindo n'elle estradas st 
^.tando a mipostos e ,urisd,cçao todos os habitames chinas da cidade; prohibindo aos 
mandarins, nos limites da colónia, demonstrações de mando ou poder ; e Lalmemevin 
gando com energia (que muitos lhe accusaram de severidade e.xtremà) o anterior dés- 
preso do exclusivo domínio da coroa portuguesa ('). 

H.^Jf "^^ '^'^'^^ arte reconstruído as paredes- digámo-1'o assim - do edifício da in- 
dependência nacional de Macau, ultimou-lhe depois o tecto e a cúpula com a prohib"- 
çao e expulsão dos ho-pus em i3 de março de i84q. E' essa cúpula que, d°Trubadaahi 

o r^sToTe^iiSl' 'k f'f '"V ^ f^T' ' ?^"^^^"^' ^P°^ d'ella%ão\enha abako todo 
o resto do edihcio, abalado pelo desabrigo ! 

A extincção das alfandegas chinesas era em verdade a parte mais melindrosa da 
empresa commettida ao governador Amaral, por ser a que mais consideravelmente fe 



sem ;?a7j, d^Ino^radTs ! tol^^^s" ^osseríektdlfní píS^^ ""^ '^ embarcações chinas de passa- 

uma pataca á fazenda publica O £'overnpTnr^^Í m • Pí°'^"ratura, e pagasse cada uma o imposto mensal de 
esta proposta. - e, consoando em sfenidant/; T.. l^ ^^'■-"" '^° ^'^^'"'^^ ""^ =^^^^^° ^° *«"^d°' ^pprovara 
dor, que ordenava o r^niy-on,!?^^^ 5 ^-^ "^"^^ embarcações se recusavam a obedecer ao edital do procura- 
sem' n^a recusa ^ ' " '^"'' ''^ ' ^' °'^'"'''° "^^ '^40) em diante, fossem retidas todas as que te.mas- 

os prmcST Sr Se° otodo d°e%ti''nren;L''"H'^''""' ' -""'"f ° ""^ P^S°^^ N°-' consultando ahi com 
officiar para Macau em seu áDPOioeaffiv;.vrmnIf ^''"'"^ "'timaçao. Ao mesmo temoo moviam os mandarins a 
A J^„^ í ^'. *'^" appoio, e amxavam pelas ruas proc amacóes nst eandn t rf vnlta 

cas ^l^i^iB^I^BF^^^ -- e com Ires pe- 

mens e começara .^art;aL^ndJ°aSns portuguesek quT vira '° '°^'" ''' ^"^ ''''' ''^ "^^'^ '' ">'' ^ ^"'"hentos L 

e avaíçaSm ;Sf ?ravessa fronT.^a TelreTJl^nrr, ^°"''°" ^^/^^"^ dispararam sobre ella as três pecas, 
porém que recuassem relorcadoro nnc '. ' António, apesar do fogo vivo que se lhes fazia. Não tardou 

Monte com alg^s rc^i^dadó^e' mu tosVidad1osT,i"r^r' P'" f"" "/'"^'^' ' "'"'^ ^°"^^'^°^' ' °"'^^ <^^ f°«^l"^ <^° 
as pecas e muito armamento TheoldnZtr%A'"l °-^''^"^^'«" ^om grande perda de gente, e abandonando 
os esperava jáuma eTcuna do.ove^^^^^ <fanioes., trataram ae fazer-se de vela para fugir, mas ahi 

das, de particulares! que ?odaf romperam s^rfel 1' fm ?o '"",' '^^ \T''° "f '^^f''- ' "^"^^ embarcações arn.a- 
mados, muitos mettídis a p.queTo^LrcaTareSha^dís^^ '''"°- '"«""^ '°^ ''""°"- ^°''"" ^''°^^^'^°^ ^ '°- 
m,gos^e^'e,'^rq"t:"trv^erdrsremprgaTní^ '^ consideração, a despeito do numero tão superior dos mi- 

cisão '"'''^"'" ''"^'" "'«te dia provas de brioso animo, armando-se promptamente e combatendo com de- 

grande arSados°cí,^=a'J: £,1 .m^.ortaTa a luSl.sTencfrda^^idld "o '"h"''", '^-^"'^^ ^^™^^^ ^^'^ manifestação a 
o senado concedia o que lhe erà ev,^t^n ^,1 n cidade Quando os logistas se conluiavam por este modo 

vam a graça, fazendo sentir o vaorH VI f %^,'^'"'^f^3 «^ suppiícas aos mandarins, que deliberadamente espaça- 
a seguisse Declarou nnr phJ.Í? ~ t-ra esta pratica mediocremente acceitavel e airosa para que Ainaral 

não abnssèm, o ba"ar'serí árraza"d'o"^^^^^ ?Th' '°i^'\?' '^"'\^-' "° "^^"í" ^^^ ^i"'« ^ quatro horas^s lojas .el 
pçáo de uma arrazado pela ariilheria do Monte. Na manhã de 9 as ]o,as abriram todas, sem exce 

deixar^fórfa suaTornS armada. '°'"' '' ''^''^' '^°'' mandarins, a quem o governador fez saber que devenam 

seus sSmeros'de'amulde''.' '"'""""^ '"" '°'"'""'- ° °^^""° ''^ ^"^ ^'^"^ ''^ certificarem ao governador os 

prompta 'remoção dalSo^ulturasXnT^.l^n ^'''T^ '^^ ^"''''' ° '"'S"'" ^''"^^'^° ^"^ '^i^^'^ ''' '^^'"^o com a 
aominio que os chins s^atr-buL ' em M.^.f embaraçavam o traçado das estradas, é bastante advertir-se no pre- 
animo dellL a sLperst.c o ToTaTr^W ' "' "*"«<=""" "^Í"' desilludir, ferindo-os na parte mais sensível do 
quanto se guie peU mo ahdadee nela ,^t?.'."\"'''"' -'™.'^' ser enérgica, sem deter-se em preconceitos, em- 
como irrevlrencm aoT rio fos e em \1.' .n^ '^ remoção de sepulturas, decentemente feita, não pode ser lida 
q,uasi uma terçà^arird^erritoriol coíCi/nL'''' '""°"^ ''° ''"'^'^^ "^''^ "'''"^^^^^ P^^''*" que ainda agora 
Coelho do Amaral mLdoi.r^mh<^^r»,^?. / '^"^''° ''"^ ™ cemitério chinez. O sr. José Rodrigues 

fingiram alvoroço misffirme^^ d an^^^^^^ numero de sepulturas, uo anno de .863 e seguintes. Os chins 

dade de serneThant^ manifTstacóes^ O l. ""'m ' '^"^.'^'o" ' '""^A^do governador mostrou-lhes logo a inutili- 
mostraram-Te á entloTndiffere^i^errL o .^^^^^ da Ponte e Horta praticou o mesmo em 1867, e os chinas 

que estava orohiMdn h, mnft^c ,° '"""^' governo do sr. António Sérgio de Sousa voltou-se a permitt-r o 

^imam^nt: o^Sroso''^^t;^^reV3o"°^és¥e"3: IZT^olTyot ^'"^ '' '''"" '^"° "° ^^■"P°' ^ ^'^ ^'-'S'""- 



26 

ria os interesses dos mandarins. Toda a usurpação e abuso, quanto finais facilmente se 
gera, mais difficilmente se extermina; e n'este caso a difficuldade natural crescia de 
ponto, porque o abuso contava mais de século e meio de existência folgada e lucrosis- 
sima para auctoridades extrangeiras, acostumadas a dominar-nos. 

Estas considerações não eram de natureza que entibiasse Amaral, ou que infirmasse 
a justiça que lhe assistia, mas eram de força para o obrigar a proceder com mais de- 
mora e melhor preparo na indicada parte do seu propósito. Em as attender por este 
modo, reservando para o fim de tudo a expulsão do chamado ho-pu grande, procedeu 
pois com tanta razão e prudência como resolução e vigor. 

Cumpria-lhe, como dissemos, pelas suas instrucções, pôr em execução o decreto dé 
20 de novembro de 1845. O que mandava este decreto, — e o que manda, pois que não 
está revogado na parte que vamos transcrever, — é o que se segue : 

«Tendo pela abertura de alguns portos do império da China ao commercio e nave- 
«gação de todas as nações, cessado as circumstancias excepcionaes que favoreciam o 
«commercio da cidade do Santo Nome de Dcus de Macau, não obstante as restricções 
"que n'elle eram impostas e tornando-se de rigorosa necessidade, em vista da mudança 
«de situação que para aquella cidade produziu aquelle acontecimento, adoptar providen- 
«cias, pelas quaes, modificando o systema restrictivo ati agora seguido, e aproveitan- 
«do-se a vantajosa posição geographica d'aquella cidade, se possa fomentar e desenvol- 
«ver o seu commercio : Hei por bem, usando da auctorisaçáo concedida pelo artigo i." da 
«carta de lei de 2 de maio de 1843 e tendo ouvido o conselho de ministros, e o de es- 
«tado, decretar o seguinte : 

«Artigo I.° Os PORTOS DA CIDADE DE MaCAU, TANTO O INTERNO, DENOMINADO DO RiO, 

«COMO os EXTERNOS DA TaIPA, E DA RaDA, SÂO DECLARADOS PORTOS FRANCOS PARA O COM- 

«MERCio DE TODAS AS nacões, 6 n'e]les serão admittidas a consumo, deposito, e re-expor- 
«TACÃo todas as mercadorias e géneros de commercio, seja qual fór a sua natureza.» 

Seguem dez artigos, cujo estatuto não vem ao nosso caso, e fecha o decreto com 
o duodécimo : 

«Fica revogada toda a legislação em contrario. — O- conselheiro de estado extraor- 
«dinario, ministro e secretario de estado dos negócios da marinha e ultramar, assim o 
«tenha entendido e faça executar. — Paço de Belém, em 20 de novembro de 1845. — 
«RAINHA. — Joaquim José Falcão.» 

Para a devida observância d'este decreto era mister vencer uma difficuldade que, 
antes de outra qualquer, tinha de prender a attenção do governador P^erreira do Amaral. 

O rendimento da alfandega portuguesa, que muito decrescera desde' a paz entre a 
Inglaterra e a China, era ainda excedente a quarenta mil taeis : e esta receita, que já de 
si não chegava para as despezas do estabelecimento, tinha de ser substituida pela de 
impostos directos, que não havia. Conhecida a situação politica da colónia, n'esse tempo, 
e a sua pequenez, pode julgar-se da grandeza do encargo. Não foi só a estranhesa e re- 
sistência que os chins, aqui estabelecidos e moradores, opposeram, como se esperava, ao 
facto nunca visto de os reduzirem a tributários do governo portuguez. Amaral teve de 
Juctar mais, — e antes d'essa, — com a resistência dos cidadãos, que se dispunham dif- 
ficilmente, — o que sempre succede, — a attender a necessidade de se verem onerados 
os seus prédios e a sua industria. 

Emquanto effectuava esta difficil reforma, e depois de a completar, foi Amaral, 
como dissemos, paralysando pouco a pouco toda a interferência do tso-tang e dos man- 
darins do districto de Hian-clian na administração do estabelecimento. A auctoridade 
e exercício do ho-pus ia-se pois d'este modo tornando isolada e exótica, por lhe faltar o 
concurso de outros mandarins a mandarem e disporem no mesmo território. — O tso- 
taug ainda aqui vivia, — é certo, — mas era a sua mesma presença que demonstrava o 
seu decahimento. Amaral permittia-lhe apenas, nos negócios sinicos da colónia, uma 
simples intervenção consular; e preferia conserva-To d'este modo a manda-Fo sahir. 

Pelos melados de 1847, a decadência em Macau do commercio do ópio redusira 
quasi á inacção o denominado ho-pu pequeno, na Praia Grande, que vivera sempre mais 
de peitas de contrabando que da percepção regular de direitos d'essa droga. O falso 
mandarinete, arrematante do dito posto, não querendo perder os interesses e o tempo, 
entretinha-se em extorquir dinheiro aos pescadores, tan-cás e embarcações de passa- 
gem. Amaral mandou-o prender e conduzir á sua presença; e perguntando-lhe quem o 
auctorisára a semelhante prática, teve em resposta que ninguém, mas que assim era 
costume. Para que o costume acabasse, foi o china mandado sahir da colónia dentro de 
vinte e quatro horas, o casebre d'aquelle ho-pu vendido em hasta publica precedendo 
edictos de dez dias, e o producto da venda depositado por tempo legal, para o caso de 
haver quem o reclamasse com direito. 

Entre parenthesis digamos aqui já, por vir a ponto, que, poucas semanas antes de 
escrevermos este opúsculo, — em março ou abril de 1S70,— os patrões das embarcações 
de passagem de Macau apresentaram' um requerimento ao sr. procurador interino' dos 



27 

negócios sinicos, Lourenço Marques, queixando-se de extorsões praticadas pelo posto 
fiscal chinez da Barra, e allegando que ultimamente lhes tinha sido tirada, com o pre- 
texto de conter ópio, uma pequena caixa que so continha dinheiro ; que dois homens 
da embarcação onde ia a dita caixa, recusando-se a entregal-a, tinham sido feridos pela 
gente do posto fiscal; e finalmente que este facto fora testemunhado pela corveta Sà da 
Bandeira e pela fortalesa da Barra : pelo que pediam providencias. O sr. procurador in- 
terino participou logo a queixa por officio a s. ex." o vice almirante Sérgio. — Podíamos 
agora bem accrescentar que nada se fez, por nada nos constar, e por entendermos que 
as reparações exigidas por factos semelhantes têem de ser immediatas e muito publi- 
cas. O nosso constante propósito de exactidão exige porem que se diga que só é sa- 
bido o que ahi fica relatado. 
Voltemos ao outro caso. 

O vice-rei de Cantão, a quem o arrematante da pilhagem da Praia Grande tinha 
ido pedir contas do tempo que lhe faltava a gosar-se d'aquella honesta graduação de 
mandarinato, mandou a Macau um commissario a pedir explicações. Amaral deu-lh'as, 
e oflereceu-lhe por cima d'ellas o dinheiro do casebre, o qual dinheiro o commissario 
teve de não acceitar por não resarem d'elle .as suas instrucções. Regressando a Cantão, 
o commissario foi provavelmente lá dizer o mesmo que já tinha dito o encartado espo- 
liador de ían-cás, e o vice-rei dirigiu ao governador Amaral uma chapa em que, estra- 
nhando-lhe severamente o incrível aclo de se demolir a casa de um vigia e de se ex- 
pulsar da colónia o mesmo vigia, terminava dizendo oque elle vice-rei, alto commissa- 
rio imperial, nunca imaginara que os portugueses, estando em Macau havia mais de 
dois séculos, dependentes em tudo dos beneficios do império celestial, tanto no comer, 
vestir e calçar, como no terreno que pisavam, — em uma palavra na vida e no sustento-, — 
não soubessem ser gratos, observando as leis e os estatutos do mesmo império.» 

Respondeu Amaral historiando o illegal estabelecimento do ho-pii da Praia Grande, 
a sua inutilidade e os seus abusos, advertindo que o china se era vigia, não tinha nada 
que vigiar ali, e mostrando que em verdade nada mais era elle do que «um ladrão que, 
«por lhe faltar a muito antiga ganância que lhe provinha do contrabando infando, se lan- 
«çava qual abutre sobre os tancares, os miseráveis pescadores e sobre os cabeças das 
«embarcações que transportam passageiros, espancando os que recusavam pagar tão 
«vergonhoso tributo» {') 

«Poucos dias se passavam (dizia mais) em que os soldados da minha guarda não 
«fossem obrigados a ir apartar desordens causadas por aquelle individuo tão despresivel 

«pelos seus actos "■,■■'■'/ 

«Quinze mezes (ouçam!) que tantos tenho do meu governo, soffria, com mágua é 
«verdade, que assim fosse enxovalhado o governador portuguez ; mas tantos o tinham 
«sido antes de mim, que força era resignar-me e beber também do amargo de semelhante 
«abuso : no firme propósito,* comtudo, de exigir a saída d'aquella vigia logo que eu aca- 
«basse a árdua tarefa de reformar o governo de Macau, visto que a condescendência ou 
«imperícia dos da antiga governança tinham reduzido os portugueses aqui residentes, 
«mais a vis escravos dos mandarins do districto do que a súbditos de uma nação inde- 
«pendente.» 

A's expressões insolentes da chapa do vice-rei contestava Amaral «que do território 
«que pisávamos tínhamos posse de séculos, adquirida com justiça ; que para comer, ves- 
«tir e calçar o fazíamos pagando, nem, por mais que atormentasse a imaginação, podia 
«achar as razões por que nos devíamos considerar devedores de beneficios ao império 
«celestial pelo facto de comprarmos o fato, o calçado e o pão, ao alfaiate, ao sapateiro e 
«ao padeiro ; e finalmente que, a respeito de vida, nem elle governador, nem os soldados 
«que tinha a honra de commandar, seriam os aggressores, mas que estava decidido a ven- 
«der bem cara a sua vida, e a dos indivíduos que se achavam debaixo da protecção do 
«seu governo, quando fossem atacados.» Assim terminava a resposta. 

Acudiu o vice-rei com réplica muito mais macia, fazendo notar ao governador que 
elle vice-rei fora sempre muito amigo do chefe de divisão José Gregório Pegado, e ja- 
mais dera motivo de queixa á nação portugueza; que os imperadores da China haviam 
manifestado constantemente entranhado aftecto pelos portugueses: e ponderando, quanto 
ao objecto da pendência, que visto achar-se aquella delegação ou vigia do ho-pu estabe- 
lecida na Praia Grande lia tantos annos, mais regular fora punir, de accordo com as 
auctoridades chinesas, quem n'ella abusasse, e dar o cargo a um china capaz de bem 
viciar o contrabando. 



(') «Temos á vista as minutas ou rascunhos d'esta correspondência, escriptos pela própria mão de Joáo Maria 
Ferreira Amarai. Pertencem estes autographos ao sr. José Rodrigues Gonçalves, nosso amigo, e que muito o fci 
do benemérito governador.» 



'28 

Amaral respondeu cortezmente, celebrando estas razões como de bom juízo, mas 
observando que sua magestade fidelissima tinha declarado Macau porto franco, e que o 
facto d\'sta medida evidenciava a inutilidade de vir alguém a esta colónia vigiar con- 
trabandos. Lisonjeando-se em conclusão com a esperança de convencer as auctoridades 
chinesas de que elle governador só tinha desejos e intenções de justiça, assignou-se 
n'esta resposta, «de s. ex,% o vice-rei, muito venerador», 





Recusa-se-nos a penna a proseguir n'este trabalho. 

Desejámos com empenho estampar em qualquer d'estas paginas o fac-simile da as- 
signaTura de João Maria Ferreira do Amaral. 

Era complemento da nossa dedicatória. 

Era justa commemoração de um egrégio governador. Era devido tributo ao heroe 
que afastou de sobre a colónia portuguesa de Macau o abusivo, oneroso e infame jugo 
dos mandarins 

Agora, porém, que apressámos o intento, parece-nos que a afíirmação mais elo- 
quente é essa, e que tudo o que disséssemos nada seria depois do supremo protesto de 
tal assignatura: 

Olhemol-a de espaço, consideremos bem n'ella, e no que deve recordar-nos ! — A mão 
que a traçou, e a nobre cabeça que a dirigiu, foram barbara e traiçoeiramente decepadas 
pelo grosseiro ferro de abjectos facinorosos, vendidos ao rancor de vilissimos mandões 
extranhos. — Este cobarde crime, seguido de hostilidades abertas sobre a força com que 
immediatamente guarnecêramos a Porta do Cerco, acendeu pela primeira vez a guerra en- 
tre os portugueses de Macau e os seus visinhos chinas. Foi uma curta guerra, uma guerra 
de horas apenas, mas nem por isso menos significativa e decisiva. Tornando-se indefen- 
sável a posição da Porta do Cerco, pelo fogo incessante da fortalesa china de Passaleão, 
um bravo official macaista, Vicente Nicolau de Mesquita, arrojou-se á tomada d'esta 
fortalesa, seguido de trinta e seis soldados tão valentes como elle, e obrigou-a a render- 
se pondo em completa fugida os milhares de chinas que dos muros d'ella nos atacavam. 
Estes factos só por si bastariam para firmar a colónia de Macau no mais evidente e in- 
contrastavel direito de absoluta independência portuguesa. Se de títulos carecêssemos 
para justificar a nossa soberania, o assassinato de Amaral, ordenado e protegido pelas 
auctoridades chinesas f^), e a gloriosa tomada de Passaleão, dar-no-Tos-hiam tão valiosos 
como os mais valiosos de quantas soberanias podem existir. Na preclara missão que ou- 
torgou a Amaral, quiz a Providencia que elle não só em vida nos restituísse a dignidade 
de portugueses, mas que também com o sangue e com a morte nos ratificasse a resti- 
tuição ! Por nossa parte o que fizemos mais, — nós os portugueses ?. . . Castigámos de- 
vidamente o crime ? Vingamos dignamente a affronta ? — Não ! Com vergonha o diga- 
mos ! Defendemo-nos quando aggredidos. 

Mantivemos e completámos — é certo — a reconquistada isenção : mas já agora a 
recomeçámos a perder com pressa e como que arrependidos e temerosos de nos haver- 
mos mostrado independentes, dezenove annos! (?) 

Considerado isto, que mais pôde ajuntar-se á persuasiva eloquência da assignatura 
ahi lavrada? Que fórmula de protesto haverá mais ponderosa e enérgica! .''... 

Limitemo-nos pois a concluir este estudo retrospectivo e a analysar succintamente 
a consulta que o desattendeu. Forcemo-nos ainda á breve relação dos factos, que se di- 
ligenciou tornar esquecidos, e á fria indicação dos princípios deliberadamente menos 
presados. 

O resto di-ro o nome de João Maria Ferreira do Amaral I 

Estava dado o primeiro passo com a expulsão do ho-pu da Praia Grande. Comple- 
tar a empresa com a expulsão do da Praia Pequena, era porem de muito maior diffi- 



(') nVej. o ' Manifesto do Conselho do governada província de Macau, Timor e Solor, ou exposição de- 
monstrativa do procedimento das auctoridades Lhinesas da provinda de Cantão, com relação ao desastroso 
successo havido em Macau no dia 22 de agosto deste anno, Macau, 1849 • 

A esie manifesto, que será reproduzido no numero seguinte, já fizemos referencia na pag 20. 

(') De 1849 a 1868. s . ) V b 



Ta-ssi-yang-kiio 




r.íír'^ 



—^^^S® 



VICENTE NICOLAU DE MESQUITA 



I'liotograviira de P. Marinho, segundo um desenho de Nosueira da Silva, grav. de Pedroso, 
pviDlicadu no Arcliivo Pillvrcsco, Xomo VI (1863). 



^9 

culdade, e Amaral teve de deixar passar todo o anno de 1848, emquanto acertadamente 
dispunha as circumstancias para conseguil-o. O ho-pu da Praia Grande era relativamente 
de pouca importância. O da Praia Pequena, conhecido pela denominação de ho-pu 
g}-ande, tinha o prestigio da antiguidade e a força de muito poderio. A's attribuiçoes 
de completa alfandega juntava, como quasi todas as repartições publicas do império, 
uma certa alçada de castigos, que lhe deixava prender e açoutar quantos chinas lhe ca- 
hiam em desgraça. Situado no meio do bazar, e fiscalisando todo o commercio que ahi 
se fazia, tinha este ho-pu inteiro conhecimento de todos os negociantes chineses que 
residiam em Macau, e não era possível a estes manifestar-lhe desaftecto, em favor da in- 
dependência do nosso dominio, sem arriscarem á perseguição e vingança dos mandarins 
as suas relações de commercio, ou de familia, com o território chinez. A gravidade de 
taes obstáculos não a desconheceu Amaral, nem desavisada o inopportunamente a quiz 
vencer. Isolou, como dissemos, o ho-pu no meio do readquirido exercício do nosso legi- 
timo dominio, que em cada dia e mui naturalmente embaraçava e reduzia a auctoridade 
do mesmo ho-pu. Pouco a pouco chegou este a conservar-se mais pelo obstinado empe- 
nho de não abandonar a usurpada jurisdicção do que por lucro verdadeiro que d'ella ti- 
rasse. — Foi então finalmente que Amaral lhe intimou que saisse da colónia e dos seus 

portos TANTO DO INTERNO, DENOMINADO DO RiO, COMO DOS EXTERNOS DA TaIPA E DA RaDA, — 

pois assim o dispunha o decreto de 20 de novembro de 1S45, única lei que podia vigorar 
nos ditos portos: — «ao qual decreto ou lei (dizia a primeira intimação) já de muito 
«tempo elle governador devera ter dado execução completa, se lh'o não houvesse impe- 
«dido o cumprimento de outros encargos de importância não menor.» Recalcitrou o 
mandarim do ho-pu., e com elle quantos mandarins havia desde a Casa Branca até Can- 
tão, dizendo todos á uma que a alfandega chinesa sempre aqui existira e que nunca se 
tinha dado o caso de um governador de Macau a mandar retirar; que a alfandega era 
necessária para evitar ao fisco imperial as lesões que lhe haviam de resultar do contra- 
bando; e que a amizade intima que existia entre Portugal e a China impunha ao governo 
de Macau o dever de protecção dos interesses do dito fisco. Amaral respondeu que não 
tinha o menor desejo de prejudicar os interesses do império, e que muito lhe aprouve- 
ria protegel-os sempre que tal protecção dependesse da sua auctoridade ; que mais do 
que tudo porém lhe cumpria dar execução ás leis da colónia portuguesa cujo governo 
sua magestade a rainha D. Maria II lhe havia incumbido, e que uma d'essas leis era o 
decreto de 20 de novembro de 1845, pelo qual haviam sido declarados francos ao com- 
mercio DE todas as nações OS portos de Macau, tanto o interno denominado dó Rio 
como os externos da Taipa e da Rada ; que o citado decreto não existira no tempo dos 
anteriores governadores, nem a alfandega chinesa desde o começo do estabelecimento; 
que a responsabilidade pela abusiva admissão da mesma alfandega lhe não cabia a elle 
Amaral : e finalmente que os direitos do império chinez só podem ser lançados e exigi- 
dos nos portos do mesmo império, e nunca nos portos livres d'uma colónia extrangeira 
E independente. 

Os mandarins não tiveram que replicar a esta resposta. 

Em 5 de março de 1849 o governador João Maria Ferreira do Amaral proclamou a 
abolição e expulsão do ho-pu, como inútil e abusivo, e sobre inútil e abusivo, opposto 
á determinação expressa do decreto de 20 de novembro de 1845. 

O ho-pu não redarguiu, e menos obedeceu. 

Em i3 de março, Amaral ordenou ao primeiro interprete da colónia, João Rodri- 
gues Gonçalves, que procedesse á definitiva e solemne expulsão da alfandega chinesa. O 
dito funccionario dirigiu-se ao ho-pu com uma guarda de quatro hom.ens, e intimou a 
ordem que levava aos chins que ah encontrou, os quaes embrulharam a roupa e abala- 
ram sem resistência. Feito isto, participou ao governador que o edificio estava abando- 
nado, mas que restavam em frente d'elle um mastro com bandeirolas, taboletas e outras 
insígnias de auctoridade chinesa. Eram insígnias do mesmo género e gosto das que, na 
era actual, projectam sombras vergonhosas nas muralhas e canhões das nossas torta- 
lesas ! — Amaral respondeu por escripto : " Deite abaixo.» A scena cresceu então em so- 
lemnidade e interesse. A multidão de chins apinhados á beira do expirante ho-pu era 
de centenares, e alguns christãos ahi se achavam também : mas esta concurrencia toda 
estava calada e quieta como se não fora viva. Dois ou três negros da extincta alfandega 
portuguesa atacavam a machado a base do grande mastro que durante cento e sessenta 
e um annos vexara a independência da colónia de Macau. Os golpes soavam claros, ás- 
peros e fortes, como se os rodeara o silencio de alta noite. Despedido o ultimo, hesi- 
tou o madeiro instantes, e deixou-se por fim cahir para o lado dos chins, que se desvia- 
ram respeitosos, e logo depois, e sempre calados, se dispersaram. 

«Este silencio (diz o sr. João Gonçalves n'uma carta em que me refere o acto) foi 
apenas quebrado por um christão, de quem me não lembra o nome, e que disse: acabou 
Macau !» 

Não faz falta o nome do morador que antevia Macau perdido com a expulsão do 



30 



ho-pii e curapre-nos até dar-lhe desculpa. Em todos os tempos nunca a peor causa dei- 
xou de ter defensores e ainda ultimamente um periódico de Macau appoiava a actual 
restauração das alfandegas chinesas. No tempo de Amaral appareceram até politicos e 
economistas a demonstrar que Macau só podia prosperar com alfandegas, e especial- 
mente com a chinesa: e em i852 ainda o sr. Carlos José Caldeira, escrevia que talve^ 
incunsideravelmentc se tinham aqui julgado intoleráveis os ho-pus depois da declaração 
do porto franco (i). 

A estes cerebrinos — e agora sonsos, — esquadrinhadores de requisitos para a for- 
tuna de Macau podiamos responder já com a administração do general José Rodrigues 
Coelho do Amaral, pois nenhuma houve até hoje que a maior grau de verdadeira pros- 
peridade elevasse esta colónia. Respondamos porém simplesmente com os dados da fa- 
zenda pública durante a administração do governador Isidoro Francisco Guimarães, a 
qual succedeu á expulsão da alfandega chinesa, mediando apenas o espaço de dois an- 
nos (2).» 



(Continua). 




Brazáo de Amaral 

Desenho de Jacintho de Freitas, 

segundo um sello em lacre (') 



(') nApontamentosde uma viagem de Lisboa á China e da China a Lisboa,» voi. i", pag. 112.» 

(■) «.4s Alfandegas chinesas de Macau' — Macau, 1870. 

('1 O sello em lacre, iá muito deteriorado pelo tempo, fechava uma das cartas que possuo. Devo esse dese- 
nho á obseqaiosidade do estudioso moço sr. Jacintho de Freitas, que com muita paciência e habilidade o exe- 
cutou á vista d'um grosseiro esboço que lhe dei. 



Ta-ssi-yang-kuo Vol . I - Est. VI - pag. 3o. 



PROCLiAMAÇAO. 

HABITANTEa DE MACAOÍ 

Um acto de atroz barbaridade, e de imfane trácio e cobardia acaba Ue pri- 
var a esta Província do seu benemérito e digno Governador, e de roubar ao Es- 
tabelecimento o seu rnais decidido e estrcuuo deílensor, o Conselheiro João Ma- 
ma Ferreira bo Amaral, o qual deixou de existir hontem ás seis e meia horas 
da tarde, viciiraa do punhal de vis sicários. Km consequência deste fatal, e de- 
plorável successo, e atiendendo o Conselho do Governo aqueua falta do Gover- 
nador lhe pertence, em conformidade do artigo 7. ° do Decreto de 7 de Dezem- 
bro de 133S o tomar a gerência dos negócios da Provincia, a assumiu hontem 
mesmo. 

Habitantes de Macao* o Conselho conhece e vós nôo podeis ignorar a situação 
delicada em qaeseacha hoje este Estabelecimento sem aquelle seu Cheio; mas 
O Conselho confia que com o conhecido bom senso, nioderaçáo. e patriotismo, 
qae sempre vos tem destinguido em crizes melindrosas, ella .se supperará. A ordem 
e a tranquilidade publica não tem sido até agora perturbada, e o Conselho tem 
confiança em que o não será ; e para a sua manutençío tem o Conselho dado 
todas as providencias que de si dependiam, e ha de continuar incessantemente a 
dar quaes quer outras que as circunstancias possam ainda vir demandar. 

A Justiça prosegue incessante no descobrimento dos criminosos 

Habitantes de Macao! A Obediência ás Leis, c o respeito ás ordens emmana- 
das das Autlioridades por ellas constituídas .são os únicos garantes da seguran- 
ça publica, c do vosso bem estar. As Authoridades não faltarão ao que delias 
ccpenda, e Como continaeis a nSo faltar ao que o vosso dever vos incumbe de- 
certo supperaremos quaesquer difhculdades. que nos possam sobrevir : Macao se 
coMerrarâ Portuguez, e o Conselho do Governo esta firmemente resolvida a 
manter, a todo o custo, cem toda a sua integridade, a sua emanei paqSo e inde- 
p>ci)deDcia, que acabam de aer soltadas com o sangue do seu Illustre Regenera- 
dor, cuja perda chorataos. — MaUa — Girnãro — Nixes — SimSes — Coularte'^ 
Eirdra. 

Macao 23 de Agosto de 18 19. 



Proclamação, em folha volante, 

espalhada em Macau na manhã de 23 de Agosto de 1S49 

pelo conselho do governo. 

Fac-simile, reduzido a metade do original (Phot. de P. Marinho) 



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Uma resurreição histórica 



(Paginas inéditas á'uni visitador dos jesuitas) 



(1665-1671) 



o celebre manuscripto Collecção de vários factos, que existia no Senado 
de Macau (') (tantas vezes citado por meu pae no seu livro das Ephe- 
jnerides cominemorativas da historia de Macau), encontra-se, a fl. 9 v., a 
seguinte nota em mau portuguez: 



^Advertência. — Que tendo dado noticia dos factos acontecidos n'esta cidade até o 
anno de 1644 não posso continuar a serie dos annos, por quanto as memorias que me 
forão entregues donde extrahio, se achão mutiladas até o anno de i7o2 de cujo conti- 
nuo a extrahir na forma seguinte». 




(') A copia que possuo e que foi dada a meu pae pelo sr. Jayme Rangel, de Macau, é datada de 1794, como 

se vê do frontispício, que transcrevo: 

Collecção 
de vários factos que ão acontecido n'esta cidade de 
Macao pelo decurso dos annos á margem. 
Novamente acrescentada, e com declaração dos nomes das ru- 
as Lugares, e propriedades, que ao presente tem, pois são differenlcs 
dos que antigamente Unhão o q. tudo se fa:^ preci'{0 para a boa 
intelltgencia. 
Dada a Lu^ no a?ino de I7g4 sendo 
correcta e emmendada n'esta edição. 
D. .A. O. 
Leva no fim porção de papel para o curio-^o continuar se qui^tr 

E' escusado dizer que a edição a que o compilador se refere é manuscripta, como todas as outras anterio- 
res ou posteriores que tinham sabido. Eram copias do manuscripto original que devia existir no Senado. 
A que possuo tem Sg foi. e alcança ate ao anno de 174S (10 de dezembro). 



02 

N'um outro manuscripto, de apontamentos sobre Macau ('), e que também encon- 
trei na collecção de ms. de meu pae, lê-se a seguinte nota referente também á mesma 
lacuna : 

«Até 1702 (desde 1644) nada apparece dos factos acontecidos n'esta cidade, pois 
todas as memorias archivadas estão intintelligiveis». 

Nas referidas Ephemerides. ha referencias relativas aos annos de i653, i655, iG56, 
1661, 1678, 1688, 1G89, 1691, 1693, 1697 e 1698, mas nenhuma acerca do periodo decor- 
rido de 16Õ5 a 1671. 

Ora, é exactamente sohre este periodo tão pouco ou nada conhecido que, por um 
feliz acaso, me veio parar ás mãos um manuscripto, cuja primeira pagina (foi. 2) vem re- 
produzida em fac-simile no presente numero d'esta revista. 

O feliz acaso é representado pelo meu prezado amigo e distincto escriptor sr. Au- 
gusto Ribeiro, que, tendo adquirido em um leilão (dos muitos que por ahi se realisam 
e em que se espatifam verdadeiras collecções de preciosidades que ou vão pararás mãos 
de extrangeiros ou para as de vândalos nacionaes que não sabem dar-lhes o devido va- 
lor) um livro volumoso, encontrou, muito bem guardado e entalado entre duas folhas 
d'esse livro, a preciosa relíquia que, por tratar de coisas de Macau, teve a generosidade 
de me oflferecer, fazendo jús mais uma vez ao profundo reconhecimento, que é do meu 
dever exarar n'esta pagina, e á gratidão dos estudiosos que, peia generosa acção (-) d'esse 
meu prezado amigo, vão conhecer — pela primeira vez, depois de mais de dois séculos, — 
uma das mais interessantes epochas da historia de Macau. 



Compõe-se o manuscripto de 28 foi. de papel chinez (cujo formato está exacta- 
mente reproduzido no fac-simile que acompanha este artigo) inteiramente cobertas de< 



I'; Pela lettra parece-me ser do benemérito e grande sinologo João Rodrigues Gonçalves, fallecido em Ma- 
cau em 1870, depois de minado de desgastos motivados pelo seu intransigente patriotismo e pela sua grande dedi- 
cação á causa de Portugal. Opportunamente faremos mais larga referencia a este honrado macaense, cujo nome 
tem de figurar na lista dos martyres que, ou ao lado de Amaral, ou antes ou depois d'este governador, lactaram 
pela independência de Macau. 

Foi um grande e dedicado auxiliar de meu pae, que encontrou n'elle umA'alioso e leal subordinado e zeloso 
cooperador nos seus estudos sobre a China e sobre as antiguidades de Macau. 

E' preciso não confundil-o com outro grande sinologo do mesmo nome (J. A. Gonçalves), auctor dos Dic 
cionarios e da Grammalica da lingua sinica e a quem faremos referencia quando encetarmos a secção biblio. 
graphica. 

(-J Não é certamente a esse meu amigo que se devem applicar estas verdadeiras palavras do sr. Luciano 
Cordeiro, que acabo de iêr no ultimo fasciculo do Boletim da Sociedade de Geographia : 

«Succede, entre nós, com as noticias e os documentos históricos o que succede com a moeda de boa e até 
de má lei. 

O pé de meia, servindo-nos da expressão consagrada, furta a circulação e ao interesse commum muitos 
valores reproductivos. 

Fa;er caixinha é a expressão correspondente, que traduz o vicio vuigarissimo entre os nossos estudiosos, 
de sonegar ao conhecimento dos confrades e da communidade as noticias documentaes encontradas, surprehendi- 
das ás vezes por simples acaso, incidentalmente mesmo, nos seus estudos, ainaa as que não importam a estes ou 
lhe não aproveitam immediatnmente. 

Verdade seja que em muitos casos este vicio se explica e justifica, até, por outro não menos vulgar e bem 
mais indecoroso : — o de se servir e apropriar petulantemente do trabalho, da revehição, da lição alheia, não raro, 
deiurpando-a, e em todo o caso sem a confessar, a nefasta caterva de pseudos-estudiosos e de escribas sem digni- 
dade que miram apenas a deslumbrar fraudulentamente o publico e as camarilhas com a ostentação de uma erudi- 
ção que não se deram ao incommodo de adquirir e que na grande maioria dos casos nem teriam capacidade para 
obter». 

Annotacões históricas de Luciano Cordeiro no Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa, ib.* se- 
rie, n.* it. 



Ta.ssi-yang-kuo V^, , __ ^^^ ^„ _ ^^^ ^^ 












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> lAXjo 



o MANUSCRIPTO INÉDITO DO P.« LUIZ DA GAMA, 
DA COMPANHIA DE Jp]SUS. (1665-1671) 

Facsimile do foi. 2 do original (photog. de P Marinho). 



33 



notas e apontamentos feitos dia a dia pelo curioso chronista. Em certas paginas até as 
margens estão cheias de notas, escriptas com lettra tão miúda, que me levaram horas 
e horas para as decifrar, empregando para isso toda a minha paciência de investiga- 
dor apaixonado. Ainda mais : o mau estado, resultante das picadas da traça e das de- 
vastações da formiga branca, além do desvanecimento da tinta em muitos pontos, veio 
augmentar em muito o meu fatigante trabalho que as abreviaturas, que o auctor em- 
pregou muito a miúdo, tornaram ainda mais difficil. E a transcripção dos nomes chi- 
nezes e asiáticos, nem sempre rigorosa, segundo a moda do tempo, fez com que tivesse 
de empregar não poucas fadigas para a sua interpretação, como o leitor verá das notas 
abundantissimas com que vae acompanhado este trabalho. 

Tem o manuscripto (ou antes tinha, visto faltar-lhe o folio i) 28 folhas e é envol- 
vido por uma capa d'um papel chinez também muito quebradiço^ que facilmente estala 
pelas dobras. N'essa capa, está escripto com lettra muito mais moderna, o seguinte 
distico : 

Original da Historia 
antiga de Macau, cuja 

copia foi na conta de i5 de 

De^ebro de i~j~-\ a\ a f. 33 

Foi achado entre huns papeis velhos 

que ficarão despregados no Collegio 

de S. Paulo 

&.» 

Por este titulo tive logo a desconfiança de que o auctor do manuscripto seria algum 
dos padres jesuítas do Collegio de S. Paulo. Pouco antes tinha sido abolida a Compa- 
nhia de Jesus em virtude do Breve de 21 de julho de 1773 dado por Clemente XIV. Essa 
desconfiança converteu-se em certeza quando, durante o longo trabalho de interpretação, 
encontrei os seguintes trechos. 

A fl. 8, v. : 

«. . .hum cafre nosso Agostinho dizia que aquelle arroz era dos P.''. . .» 

e, mais abaixo, no mesmo foi. : 

«Em vez de buscar canos e caminhos p.' vir mantimento tapã-os : porq." os ven- 
dedores trazendo-os ás escondidas escapão de hu risco da Casa branca e ve dar em ou- 
tro mayor : e o principal ou peyor he, q.' a Immunidade Ecclesiastica fica atropelada, se 
advertir nas penas e escomuníióes q.' o direito põe em semelhantes casos pra?cipue a 
Bulia de Pio V p.» os mendicantes e a de Pio 4.° para nossa Conip." em particular.» 

Depois da leitura d'estes trechos não podia duvidar de que fosse um dos padres je- 
suitas o auctor do ms. 

Mas qual d'elles seria? Um simples padre ou um membro graduado da Companhia:' 
Felizmente, a foi. 9, achei o meio de resolver esse problema com a seguinte passagem: 

«. . suppondo poré que averião do P.'' V.''"'' (Padre Visitador) licença p.» elle (o Pa- 
dre Procurador) ir: veyo a ciásáe falar comigo logo; e eu vistas as razões tão precisas,, 
concedi a licença p." o Sr. P.**"' ir ao Cerco. . .» 

Apurado que foi o visitador dos jesuítas o auctor desconhecido, faltava-me deslin- 
dar o nome d'essa graduada auctoridade que então (Abril de 1Ò67) permanecia no Col- 
legio de S, Paulo. Sabido isto, estava completamente descoberto o filão. Atirei-me de 

3 



34 

novo com tenaz empenho á conclusão d'essa parte muito mais ditFicil das miniias inves- 
tigações. Mas, das diversas pessoas entendidas a quem me dirigi, por julgar me poderiam 
obter uma lista dos visitadores que estiveram no collegio de -Macau, nenhuma me deu 
esperanças de obter o que desejava. 

Felizmente, proseguindo nas minhas investigações, encontrei na preciosa resenha 
ou compilação manuscripta do padre José Montanha «Apamtos para a Historia do 
Bispado de Macao» ('), a lista dos visitadores de que eu tanto precisava. 

Estava finalmente esclarecido o assumpto, com grande satisfação minha e de todos 
aquelles que sabem dar o devido valor á alegria que sente quem investiga quando vê 
coroados de bom êxito prolongadas canceiras e fadigas. 

N'essa lista encontra-se o seguinte : 

«Aos 23 de Julho de fii^ cõ a vinda dos barcos da índia veyo o P.*" Luiz da Gama 
com patente de Viz.»' (Visitador) destas Prov.^', e no mesmo dia começou a governar. 

«Aos 23 de Julho de 697 acabado o triennio do P.'' Luiz da Gama abrirão as vias 
da successão, e na i-^" acharão o mesmo P.% o qual ficou continuando. 

«Aos 23 de Julho (de 1670, acabado o triennio do P.*" Luiz da Gama abrirão as vias 
das successões e acharão na i.-' ao P.'' Mathias da Maya, e na 2." ao P. M."' Rodrigues, e 
por serem já fallecidos, abrirão a 3." na qual acharão ao P.*^ Thomaz Valgarneira, que 
no mesmo dia ficou exercitando o cargo» (-). 

Ora, abragendo o ms. os annos de i665 a 1671 e sendo todo elie escripto pela mesma 
lettra, nenhuma duvida pôde restar de que o seu auctor fosse o padre jesuita Luiz da 
Gama, visitador da Companhias nas provindas da China e Japão durante os annos de 
1664 a 1070. 



Feita toda essa justificação, indispensável e absolutamente necessária em assumptos 
históricos, vou dizer ainda duas palavras sobre os factos a que se refere D principio do 
manuscripto que, por estar truncado ífalta-lhe o foi. i), me custou a achar a ligação com 
outros factos da historia de Macau ou da China d'essa epocha que, como disse, está 
pouco esclarecida por deficiência de documentos que, já no século passado, como vimos, 
faltavam. 

Consultando a obra do padre Rogemont (^), — cuja traducção portugueza de Se- 
bastião de Magalhães, apezar de rara e muito estimada até no estrangeiro, se obtém no 



(') Opportunamente, farei mais larga referencia á obra inédita d'este padre jesuita, que será também trans- 

cripta n'estes Aimaes. 

('■) A esta abertura de vias faz referencia o auctor do ms., na parte final, a foi. 27. v., como os leitores verão. 

D'onde se conclue a exactidão da lista do padre Montanha. 

(') "Relaçam do Estado Politico e espiritual do Império da China, pellos annos de 165g até o de 1666. 
Escripta em latim pello P. Francisco Rogemont da Cópanhia de lesiis, flameufio, Missionário no mesmo Im- 
pério da China. Traduzido por um Relisioso da mesma Comvanhia de lesus. Lisboa na Officina de Joam da 
Costa. M.DC.LXXn. 

O traductor d'esta obra é o celebre jesuita Padre Sebastião de Magalhães, Provincial e confessor de D. Pe- 
dro II. Nasceu em Tanger e falleceu em Lisboa em Julho de 170Q. 

Muitos confundem este padre com Gabriel de Magalhães, de quem apparece.m umas cartas muito intcres» 
santes a pag. 209 a 225 da citada traducção da Relação de Rogemont. Também era jesuita, tendo nascido em Pe- 
drógão em 1609 e failecendo em Pekim em .Maio de 1677. E' auctor também d'uma Relação da China que foi tra- 
duzida em francez e publicada em Paris em 1688 e 1690. 

Tanto da obra de Rogemont, traduzida por Sebastião de Magalhães (abrangendo os annos de i65q e i6(3ô) 
acompanhada da carta de Gabriel de Magalhães datada de Pekim (que alcança até 1669) e da carta de Bartholomeu 
de Espinoza (datada de Macau em 9 de dezembro de 1670), como da obra de Gabriel de Magalhães, (composta 
no anno de 16681, farei opportunamente os devidos extractos, para esclarecimento do que é afflrmado no ms. do 
padre Luiz da Gama. 



35 



mercado por um preço razoável (') — encontra-se a explicação de todo esse reboliço a 
que se referem as primeiras paginas do manuscripto. 

Como em devido tempo farei mais desenvolvida referencia ao assumpto, só basta 
dizer o seguinte para esclarecimento do leitor: 

Tendo-se levantado contra os tartaros-mandchus, que, pouco antes, se tinham 
apoderado do Império chinez, o celebre corsário chim Quesingo ou Koxinga, hasteando 
o estandarte da independência e da emancipação contra os intrusos extrangeiros,viu-se 
mais protegido pela felicidade, dentro dos seus navios, do que os seus desditosos com- 
patriotas, abrigados pela grande inuralha. Venceu e atacou os tártaros em todas as po- 
voações marilimas e expulsou os hollandezes da ilha Formosa; e se a morte o não viesse 
arrebatar tão breve no meio das suas victorias, certamente conseguiria collocar os tár- 
taros, já senhores de quasi toda a China, em situação bem precária. 

Foi então que o imperador tártaro que dominava na China, Sum-che, mandou re- 
tirar para o interior das terras as povoações marítimas, afim de impedir que Koxinga se 
fornecesse ou se apoderasse dos mantimentos n'essas povoações. Ao mesmo tempo esse 
decreto do imperador, promulgado em 1662, prohihia o commercio marítimo das cida- 
des do littoral afim de também impedir que no saque das embarcações de guerra e do 
commercio encontrasse o audacioso corsário o maior esteio do seu poderio. 

Essas prohibições estenderam-se também a Macau; e a isso e ás longas negociações 
dos jesuítas com a corte de Pekim e as auctoridades de Cantão para a continuação do 
commercio marítimo, — base da vida e da prosperidade de Macau — se refere desenvol- 
vidamente Rogemont e os auctores citados. E é a respeito das mesmas negociações com 
os mandarins e mandarinetes de Cantão e de Hian-chan, que só se deixavam vencer pela 
diplomacia do dinheiro ou da força (como sempre tem acontecido até hoje) que o P.*' Luiz 
da Gama trata no principio do seu manuscripto. 

Em conclusão : o grande imperador tinha prohibido o commercio marítimo, de- 
terminando que todas as povoações marítimas recolhessem para o interior. Segundo os 
-mandarins de Cantão, Macau também estava comprehendido n'essa ordem e era preciso 
obedecer, visto o imperador ter mandado. E, para obter a obediência ás ordens do Fi- 
lho do Céo fechavam o Cerco (') e impediam que os mantimentos chegassem á cidade 
portugueza. Mas as ordens do imperador deixariam de existir, os perigos de ser Ma- 
cau tomado pelo corsário cessariam, logo que a gente de Macau recorresse ao supremo 
e costumado argumento dos pães de ouro ou dos taeis, em prata lavrada ou em saici. 
Perante o argumento do vil metal, cediam os escrúpulos dos funccionarios chins, puros 
e limpos de consciência. E é a essa contradança de visitas e de negociações entre os 
preclaros mandarins e os illustres membros da Cidade (■') macaense com os jesuítas, que 
se refere o annotador de apontamentos que vão adiante transcriptos. 



(') 2.S»ooo réis me custou o exemplar adquirido recentemente na livraria do sr. Pereira da Silva da rua dos 
Retrozeiros. 

(') «Muitos escravos dos portugueses de Macau fugiam a seus donos e iam praticar roubos nas povoações 
da ilha de Hian-chan. Este facto deu motivo, em ibji, á construcção da muralha e barreira ao isthmo, a que os 
nossos 6caram chamando Porta do Cerco e os chinas Kiian-chap. — {'ais c/llfandegas chhiesas de Macau, pag. 24.1 

<Construida a porta do Cerco, foi accordado com os mandarins de Hian-cnan que ella se podesse abrir so- 
mente dois dias em cada lua, que n'esses dias os chms fizessem mercado para os portugueses irem fornecer-se 
dos géneros que precisassem, que aos chmas fosse prohibido entrar no estabelecimento e aos portugueses e mais 
extraiigeiros sahir ao território chinez, e que a dita poria fosse guardada por soldados e um otticial chins. Passa- 
dos annos, e já depois de existir o senado, estabeleceuse o mercado semanal, e o procurador recebia dos manda- 
rins uma lista que designava os chinas a quem era permittido vir a cidade, continuando porém a ser prohibido 
a todos habitar n'ella Os que se encontravam sem licença, ou não mencionados na referida lista, eram presos a or- 
dem do procurador como vagabundos. Afinal a Porta do Cerco passou a abrir-se todos os dias, o mercado inter- 
nou-se e fixou-se ; pouco a pouco o zelo dos procuradores enfraqueceu, a brilhante e industriosa actividade chi- 
nesa insinuou-se, fez se bemquista, e foi construindo e multiplicando casas, lojas e officlnas.» lib. pag 27 e 2S.) 

('1 Senado. 



36 



Ha na leitura d'esses apontamentos, feitos dia a dia por um jesuita no silencio da 
sua cella e não com o intuito de serem publicados, muita coisa de aproveitável. D'urr> 
lado, verá o leitor os funccionarios chinezes, os mandarins, os generaes e toda a caterva, 
de abutres que se acoutam em Cantão, venderem as conveniências do seu paiz, pelo oura 
extrangeiro, e enganando-se uns aos outros e tratando cada um de per si de roubar 
mais dinheiro aos portuguezes. D'outro lado, verá a gente lusitana, abandonada da me- 
trópole, sujeitar-se a todas as humilhações para não morrer de fome e não perder o seu 
negocio lucrativo. O impudor reinava, por assim dizer, nos dois lados, mas do nosso ha- 
via a desculpa, n'essa e n'outras occasiões (não sempre), no abandono em que os gover- 
nantes do reino deixavam essa remota colónia. E, dominando chins e portuguezes, o- 
grande poder dos P." da Companhia de Jesus que, do seu Collegio de S. Paulo, faziam 
destacar para os confins da China e do Japão os seus arrojados soldados e governavam 
em Pekim junto do Imperador, á força de mathematicas e de astronomia, e em Macau, 
junto do Capitão-geral, á força de intrigas e da enorme força de que podiam dispor logo 
que recorressem á gente de Goa ou de Lisboa. {') 

Não será muito agradável a leitura d'esse manuscripto por esse e outros motivos. 
Mas a sua publicação servirá, quando menos, para licção dos que queiram negociar com 
chinezes, que, como meu pae disse com prufundo conhecimento do assumpto, toleram 
tudo quanto se lhes fa^ e fa^^evi tudo quanto se lhes tolera. 

Segue a transcripção que, n'este numero, só pode ser dada em mui pequena dose: 



; com esta promessa, e com 4 ou sinco mil taeis q' tomarão (?) effectivos em 
joyas (?), e outras peças, ou fato (') miúdo, se foi o mandary de Ansão (-), e os outros, 
com o Ly Siãm Ciam '^) p^ Cantão. 

Por fim do Novembro seg.'' do mesmo ano de 665, voltou de Cantão o mandary de 
Ansão com o Lv Siãm Cum com outro pé de cantiga por parte do Çurfitô C) e mais 
mandarys do governo: q' elles querião tratar de abrir hua vez o mar; e q' p." os 4 g. '""'<=* 
e mais tutões ('") da Corte afora os do governo de Cantão erão necessárias peitas gros- 
sas, pedirão m.'" mais á Cidade; mas a Cidade com junta q" fez do Capitão Geral, Pre- 
lados e adjuntos e outros cidadãos, finalm.'* prometerão que darião, por se lhe abrir 
o mar e conceder o comercio e navegação livre como dantes, cem mil taeis q' com o q' 
se lhe tinha dado effectivè e prometido dous mil por cada barco, passão de cento e sin- 
coenta mil taeis. E nisso ficarão de parte a parte, mas o mandary de Antão acrecentou 
q' erão necessárias efíectivam.'" trinta mil taeis; e que pois não tinhão prata (•>) q' desse 
peças, e fato miúdo por penhores, p.' em Cantão se poré, a cu)a conta se darião os 
3o mil taeis, p." se ir disponco o negoceo por gastos miúdos (?) por conta dos ditos 3o mil 
taeis : deu a cidade este fato miúdo e outras peças, que levou o Ly Siãm Cum ; mas não 
tanto q' montasse os 3o mil, senão doze ou quinze mil taeis. 

Depois aos 12 de março de 666, voltou outra vez o mandary de Ansão com o Ly 
Siãm Cum e com o mandary da Casa branca, e outro mandary; e intimarão a cidade 



(') E' necessário (para que muitos não julguem erradamente dos nossos intuitos) explicar que estes An- 
naes não são leitos para propaganda nem a favor, nem contra qualquer collectividade ou indivíduos. São um repo- 
sitório de documentos para a historia do Extremo Oriente portuguez, com ligeiros commentarios do compilador que 
só se guiará nos seus juizos pelo que dos próprios documentos poderá deduzir. Os jesuítas, os dominicanos, e as ou- 
tras ordens religiosas que trabalharam e trabalham no Extremo Oriente, teem adquirido bastante gloria em serviço 
de Deus, da Civilisaçáo e da Humanidade para que seja necessário encobrir os seus defeitos e erros que praticaram, 
quer levados pelo egoísmo, quer pelo espirito de seita. Congregações de homens, e participando da natureza das^ 
coisas humanas, estavam e estão sujeitos ao erro. Mas, assim como não se pôde admittir que se encubram as suas fal- 
tas ou desvios dos fins religiosos e altruístas a que se dedicam, também não é justo encobrir os gloriosos trabalhos, 
que, á custa de muito suor e de muito sangue, de muito martyrio e soffrimento nhysico e moral, executaram desde 
S. Francisco Xavier até aos santos missionários que, ainda n'este século, conquistaram a palma de martyres na 
valorosa lucta pela defeza da palavra de Oeus nas terras de gentios e de idolatras. 

A serie d'estes Annaes será testemunha da nossa imparcialidade. 



Foi. 2-- 



q.' era necessário afastarêse os barcos do lugar, onde estavão junto a taipa quebrada, 
p." outro mais longe ; o q.' se fez, levando-os para a enceada de André Fco ; acrecen- 
tando, q.' se não tirasse o fato delles, p." o q.' sempre tiveram postas vigias em barcos 
-espalhados pela praya g.*"' e praya pequena. 

Deixados os barcos na enceada de André Fêo foraose os mandarTs de Ansão e os ou- 
tros aos 14 do mesmo março, q.' foi o Domingo da Cruz. Depois em o íim de Abril, ou em 
Maio se espalhou nova que vinha o Tito (") com hua armada grossa com o intento de lan- 
çar os barcos p.^ fora, ou p.^ os destruhir: a esta voz nomeou o capitão geral a Jero- 
lívmo d'Abreu, (não estou certo em que mez se em Abril, se em Mayo, se em Junho) 
por capitão mór do mar com superintendência nos barcos, nomeandose a cada hu seu 
■capitão ; e tirandose os barcos da enceada de André Fèo, se puzerão em franquia. Não 
apareceu o Tito com a sua Armada ou por se lançar a nova fantasticamen.'" ou por q.' 
teve medo de aparecer cá a vista dos barcos aparelhados p." brigar se acaso os quizes- 
-sê acometer. 

Ficou a cousa em calmaria; e no mez de Junho correo outra voz, que vinhão bar- 
cos de Cantão a comprar o fato; e como os barcos de vigia se afastarão ouve lugar, p."" 
se ir tirando o fato dos nossos barcos, pouco a pouco || Continuou a nova, q.' vinhão os I'ol. 2, 
barcos; em Julho correo tanto a nova que ninguê punha duvida da sua vinda, supposto 
constar de certo q.' o fato em Cantão se metia nos barcos : com q.' ficarão car- 
regados e aprestados p." darê á vela p.« Macao : poro succedeo, q.' indose despedir o 
mandary de Ansão e outros mandarys menores do Regulo (tendo já os mercadores 

-os correntes com o Çumtô, e com outros mandarys do governo) e pedindo o 

ultimo despacho elle lho negou ; dizendo que lho não dava, por não querer que lhe cor- 
tassem a cabeça ; com que ficarão frustradas as esperanças dos moradores de Macau e 

dos de Cantão ; e de facto se tornarão a descarregar os barcos, e não teve sucesso 

sua vinda. 

Correo fama que de novo se mandava avizo a Pekin, representando q.' o fato q.' 
estava em Macao, era fato velho, q.' tinha vindo antes da pramatica justa porq.' se prohibia 
a navegação. Emq.'" este avizo, ou verdadeiro, ou fantástico, se fez, ou fingio se fazia ; fica- 
rão os nossos barcos impossibilitados p.^ podere fazer viagê assim por falta de monçãoi 
como porq.' em q.'" a avia, não tinhão vendido o fato né comprado outro com q.' pudesse 
fazer viage. Pelo q' nenhu barco sahio de Macao para parte algurr,a na monção de fibô., 
tirando p." a Cochinchina p." onde partiu a soma, em q.' forão o P.* Hivas e o P.* 
■Costa, (q.' tinha vindo da Macassar com P." Mont.'" (?) por capitão Piloto) no cabo de 
Abril de 66G., de Cantão sahirão 3 barcos, que avia dous annos estavam reteudos na- 
cjuelle porto,, p." onde tinhão vindo de Sião ; dos quais aos 9 de Março de bhò, chegou 
hú á vista de Macau, e aos 1 1 do mesmo Março chegarão os outros dous, aqui tomarão 
<ilgu fato, e algua gente, e marin.'-' e partirão p.^^ Sião aos i3 ou 14 do mesmo Março. 

Chegou Julho de r)66, e neste mez chegou hQ barco apataxalado que da Costa 
veyo, e passou por Malaca ; este veio em lugar do em q.' daqui tinha ido Gabriel Neto 
■de Souza por Capitão Piloto ; com o qual forão marin.""' de Macao, q ' trouxerão o dito 
barco; tendo o dito Gabriel Neto partido por terra de Massalapatão (•*) p.a Goa cõ as 
cartas. Chegou mais por fim do mesmo Julho 666 hú barco novo, q.' veyo de Sião por 
conta do Capitão geral, o qual tinha mandado marin.'"', p =*■ o trazere, por hú dos 3 bar- 
cos, q.' de Cantão tinhão saido, e por aqui passarão p.* Sião em q e 11 de Março de 
666. ; chegou mais a Macao em Agosto de 666 a soma (9;, q,' em Abril tinha partido 
de Macao, p.'"" Cochinchina; nella voltarão os P." Rivas (i"), e Costa ("). Chegou mais 
-de Sião aos 7 de Agosto outro barco á vista de Macao, (no qual vieram o P.^ Prov.'' o 
p e p.o Marques ('-) e P.« Manuel de Miranda, e o P.e B.ar da Rocha (i^) este só passou 
por aqui e proseguiu sua viage a Cantão, p ^ onde veyo em direitura determinado ; de- 
pois passarão outros dois barcos també vindos de Sião p."- o mesmo Cantão, aonde che- 
garão, e lá ficarão ; nc puderão de lá sair nesta monção por impedimentos q.' acharão. 

Em Agosto ou principio de Setembro de 6f>6 veyo hua Armada á Ilha Samichô ('^). 
Os soldados (?) desembarcando em terra queimarão tudo o q.' acharão de casas; ma- l^ol. 3 
tarão muitos dos moradores, que viviam pobremente de fazer sal ; e levarão p.'^ Cantão, 
m."" cativos. Depois de fazerc esta façanha, voltarão p.-'' Cantão. Logo no fim do mesmo 
Setembro, ou principio de Outubro mandou o mandary da Casa branca pedir ao Capitão 
?eral q.' mandasse soldados a destruir algúas embarcações de ladrões que andavão p.* 




tencia; mas final. '« com risco de algus nossos desbaratarão alguas embarcações queí- 
mandoas, matando alguas pessoas ; e outras embarcações escaparão por fugirc. 

Depois de os nossos balões voltare, ficou o méz de Outubro, e algus dias de Se- 
tembro antecedente em remanço e quietação sem barcos de vigia; e ouve lugar p.<' se 
aprestar o barco novo q.' tinha vindo de Sião por conta do Capitão Geral p." ir p.» Goa; 



38 



e os outros barcos se recolherão da enceada de André Fco p.^ o Manjericão (""') aonde 
se forão concertando hus mais, outros menos, mas nenhús se acabarão de concertar 
mais q.' a Náo de Bento da Fonseca, e outra soma de M.'' de Pina Mello em q.' tinhãa 
sua parte outros Armadores : q.''" mais descuidados estavão os nossos barcos, e q."" 
menos o cuidavão vierão alguas esquadras de somas g.''", e outros barcos mais peque- 
nos q.' ajuntando-se fizerão numero de sesenta entre grandes e pequenos, com sinco ou 
seis mil soldados dentro e todas se vierão por junto dos nossos barcos. 

Foi a Cidade lá com saguates ('") aos Capitães, mas elles os não aceitarão; seu intento 
era fazer q.' ou saissê p." fora os bareos, ou requeimassé p.-' não ficar sinal nlgú de aver 
em Macao embarcação algua ; em razão de terê chegado de Pekim a Cantão i5 Tagís (i"! 
q.'são o mesmo que visitadores, ou exploradores por parte do Emperador p.^ vigiaré 
o mar, e portos, e vere se havia n'elles barcos algus ; e como os mandarys do governo 
em Cantão tinhão dissimulado ou consentido os nossos barcos, pelo interesse q.' esp_e- 
ravão do concerto q.' com os de Macao tinhão feito, _como acima fica dito, p " não 
seré comprehendidos no crime de consentidores, se fosse apanhados nisso pelos Tagís : 
mandarão aquella Armada p." ou por força, ou por vontade fazerê desaparecer os mes- 
mos barcos, p.-'' que vindo a Macao algús dos Ta^Ts (como se dizia, que cada dia po- 
derião chegar) não achasse rasto algu de taes barcos nossos. 

{Continua ) 

Notas 

( ') Fato 

Carga comir.ercial d'um navio, artigos de commercio, mercadorias, etc. Era antigamente muito empregada 
esta palavra n'este sentido. Gaspar Corrêa, a pg. 29 do t. 1 das -Lendas da IndíT", diz: «... Kntáo tornarão a 
recolher todo o seu fato e baldearão o fato da outra não. . .» 

Também se usava no sentido de bens moveis, etc. Fonseca e Roquete dão essa significaLão no seu diccio- 
nario. Ainda hoje em Macau se diz, em dialecto creoulo, cartar fato, isto é, acarretar moreis, fa^er mudança 
d' uma casa ou d' um logar para outro. 

{^) Aiisão OU Aução 

Nomes que os nossos davam antigamente á ilha de Hian-chan, em cuja extremidade meridional está a 
península em que foi edificada Macau. Não é para censurar que os antigos, na transcripção dos nomes chinezes, 
os afeiçoassem á portugueza quando os modernos os afeiçoam á ingleza. Ainda recentemente vi n'um jornal de 
-Macau o mesmo nome escripto assim: Heung-shan O sh pronuncia-se em inglez como o nosso cli em portuguez. 



(^) L)'-siam-cum 



Não é fácil dizer quem seja esse personagem. Parece-me ser o general tártaro da guarnição de Cantão 
ou o Tsiang-kiiing a que se refere Forbes a pag. 328 da sua obra «Five years in China», publicada em I.ondres em 
1S48; o tSHung'-kuung' (segundo Chalmers — «/In english and Cayilonese Poclet Dicíionnary, — Hong-Kong,. 
iS55; ou Tsiang-keun (segundo Morrison — Avien> of China for philological purposes etc. — Macau, 1817). 

A prefixa, que ao principio tomei por Gy, mas que verifiquei ser Ly ou Lin (porque a fl. 8 do ms. está a pa- 
lavra Leal com o primeiro L escripto d'esse modo) é provavelmente o nome do Ínclito general, mais apreciador 
do valor dos taeis que o dos tártaros do seu commando. 

{'*) Çiimtò 

E' o mesmo que Tsun-tting. — Titulo do governador geral ou vice-rei de Leang-Kuang ou dos dois Kuangs, 
isto é, das duas províncias de Kiuing-tung ou Kuang-iong e Kuangsi. (Vide Forbes, o. cit.). Morrison escreve 
Tsung-íuh, Staunton ma Narretiva da Embaixada de lord Macartnev) Tsóng-tvu, que se deve pronunciar em por- 
tuguez Tsong-íií. 

Em cantonense pronuncia-se Tsun-tuuk (Chalmers, o. cit.) donde fizemos o nosso C.untò. 

Também se chama ao vice-rei Che-tae (Morrison, já cit., pag. 92) ou Chih t'ai (Treaty ports of China and 
Japan, etc, por F. Mayer, Dennys e C. King, pag. 141 ) e em cantonense Chai-toi [Chalmers, pag. 621. Os canto- 
nenses também lhe chamam Faan-wong (Chalmers). 

Tem-se confundido muitas vezes o Ciintô com o Fu-yuen ou Fii-yen de Cantão ou soto-vice-rei, que é a 2.''' 
auctoridade. Escriptores entendidos em coisas da China lêem contribuído para essa confusão. Por exemplo, na 
curiosa e interessante Histoire de la conqiiete la Chtne par les tartares mancheoux etc. por Vojeu de Brunem 
(pseudonymo do jesuíta José Jouve), a pag. 334 ^^ 'om. i (ed. de I.yão de 17.54) diz se: 



.■)9 

«Le TsoDíí-tou ;1 Ia Chine différe d'un Touyoen (é erro typograpliico ; deve ser Fouyocn) ou simple Vice- 
roi en ce que ie Viceroi na sous s,a jurisdiction giiioie seule Trovince, ou quim seiU goiívernement general, 
aulieu que le Tsong-tou a toujours sous lui deux provinces ou deux í;rands gouvertiements. Ces Vicerois cepen- 
dant ne dépendent du Tsong-tou que pour certames affaires particuliores ou en cas d'appel.» 

Na relação da viagem da embaixada de iord Macartney, por Staunton (t. de Castera, Paris, 1798) encontra- 

se, na lista dos officiaes civis da Ciiina, a pag. 212 do tom. iv 

«II Tsontoos, ou vice-rois d' une ou plusieurs provinces. 
i5 Foyens, ou gonverneurs sous les vice-rois." 

Na Voyage de l'ambassade de la Compagnie des Indes Orientaíes (em 1794-1795) por E. Van Braam iParis 

179S) tom. 11, pag- 252 : 

'Tsong-tou est, à proorement parler, un vice-roi gouvernant une province. Cet emploi est le plus élevé 
que puisse avoir un prémier mandarin, qui nest pas employé dans une place, avec sa résidence â la Cour. II nV 
a que liuit des quinze provinces de la Chine, gouvernées par des Tsong-lou, et trois de ces mandarins ont chacuív 
deux provinces sous leur admimstration. Les quatre autres provinces obeissent à des Fou-ruen. 

iiL'autorité dun Tsong-tou est immense. On ne s'adresse a lui qu'avec les marques du plus profond res- 
pect : tout chinois, qui n'est pas Mandarin, ne parle même a un Tsong-tou, qu' agenouillé. Le titre dont les chi- 
nois ]e qualifient, en s'adressant á lui, ne pourrait ètre traduit equivaienment en français que par celui à'Altesse.T> 

E a pag. 239 . 

uFou-yen. Cest le gouverneur d'une ville principaie et d'une portion de territoire qui forme le district de 
cette ville. Quatre des provinces de la Chine ont pour chef immediat un Fou-yen. Ce titre est le second de la hie- 
rarchie mandarine aprus ceux que veulent qu'on reside á la Cour.> 

Tem razão este viajante, como se pode ver em Morrisou e em Forbes (op. cit.). Fu-yuen é immediato subor- 
dinado do vice-rei isto é, soto-vice-rei, como lhe chamamos em Macau, onde apparecia de vez em quando em vi- 
sita aos nossos governadores. O vice-rei raras vezes se desloca. Ainda, sobre essa auctoridade, será conveniente 
citar o que diz Morrison : 

«Kuang-tung Seun-foo, the Seunfoo, or Foo-yuen of Canton. The Vice-roi takes prece dence of him, but 
cannot controul him. They are collegues in office.> 

Será também necessário não confundir (e então o erro seria mais crasso) o Fuyen com o Cliifu ou pre- 
leito da cidade de Cantão, que é uma auctoridade muito secundaria mas também muito hábil em apparecer em Ma- 
cau para arrebanhar patacas. Tenho visto fazer, principalmente na imprensa do reino, confusão entre esta auctori- 
dade com o soto-vice-rei, chamando a ambos indistinctamente governador de Cantão. 



(2) Tutôes 



Deve ser o mesmo que 7oM /07« de que falia Staunton (op. cit.) na lista dos principaes officiaes militares 
da China inserta no tom. iv da sua Narrativa, como os mais graduados dos mandarins militares. Ha de ser o 
mesmo que Ti-tò ,ou Tai-tó a que se refere a nota 7. 



(6j Tael 



o tael não tem e.xistencia real. Representa um certo peso de prata pura, que varia conforme as localida- 
des. De maneira que, para se pagarem esses taeis, tinha de se empregar prata em barras, em barrinhas fsaicij e 
piastras ou patacas hespanholas que começaram a ser introduzidas na China no século xvi, por intermédio dos ne- 
gociantes das Philipinas e que tiveram logo a acceitação dos chins. Hoje essas patacas, tão estimadas, desappare- 
ram da circulação para darem logar ás mexicanas, as únicas, de tantas que circulam, a que elles dão o devido 
apreço. 

Brevemente darei um capitulo sobre a moeda da China, com os mais recentes dados sobre o assumpto. 

(7) Titã 

Te-íu/i, Tai-tó, lu-tu, conforme o modo da pronuncia. — E' equivalente aos nossos generaes, quer de 
mar, quer de terra. Os zixmv&mtuíío chs.mzdos Cliui-t:{é-Te-tuh on general Jilho das aguas O gtn&TzX de terra 
de Cantão — intitula-se Lu/i-lú-''Te-tuli. Em cantonense diz-se T'ai-tuuk, 

(Vide Clialniers (op. cit. pag. 21. Forbes, pag. 23o. 23 1 e 3281. 

O próprio auctor do ms. esclarece mais adiante a significação d'esta palavra, porque, a fl. 5, diz: 

<Titô (que he o capitão geral da armada do mar. . .n/; a seguir chama-lhe 'Tai-tô, a foi. 6: «Taitô que Ae 
o geral do mar; a fol.g: «Taitô ou Tito. . .•> 

(^) Massalapatão 

Masulipatão ou Massulipatão — cidade da índia — situada na costa oriental ou de Coromandel. Gabriel 
Neto, indo a Goa por terra, teria atravessado o Hyderabad e o Bejapore. 

(^) [Soma 

Barco ou junco chinez próprio para navegações mais distantes a que os chins se aventuravam, apesar da sua 
predilecção pela navegação costeira. Em occasiáo opportuna darei uma nota, com gravuras, dos barcos em- 
pregados pelos chins. 



4Q 

('í') Padre Francisco 1{ivas 

Foi reitor do Collegio de S. Paulo de Macau no anno de 1674, em que veio de Siam para tomar posse do 
iogar para que fora nomeado em virtude da abertura da successáo em 22 de Julho de 1673. Falleceu em 21 de Ou- 
tubro d'esse anno de 1674, occupando o logar só por alguns mezes. Assim está indicado na lista dos reitores do 
Collegio de Macau, aue vem na obra manuscripta e inédita do padre José Montanha, a que fizemos referencia a 

pag. 34. 

(**) Padre louacio da Costa 

Foi vice-provincial dos jesuitas na vice-provincia da China desde i658 a 1661, segundo a obra citada. 

(12) Padre Pedro Marques 

Foi reitor do Collegio de Macau desde 4 de dezembro de 1666 a 5 de outubro de 1668 por successivas no- 
meações do visitador Luiz da Gama, auctor do ms. que estamos transcrevendo. Na 1.* via de succeseác, aberta 
em 22 de julho de 1673, também loi eleito para o mesmo lugar ; mas n'esse tempo já linha fallecido em viagem 
para a Cochinchina. Abrindo-se a 2." via achou-se n'el!a nomeado o padre Francissoo Rivas, a que se refere a 
nota 10. 

(♦3) Padre Baltha:{ar da Rocha 

Foi nomeado em it37Q também reitor do Collegio ; mas, estando ausente, occupou esse logar o padre Phi- 
lippe Fiesque. 

(**) Samichò 

San-cliaii, San-tsau, conforme o modo de escrever. Está situada a sudoeste de Macau e forma o 
lado occidental da entrada do Broadway ou do rio Hueng. A respeito d'esta ilha encontro no ultimo numero do 
conceituado semanário de Macau O Lusitano a seguinte referencia : 

«A França occupou também ha mezes a ilha de Sam-chao como padrão do seu direito aos territórios de 
oeste ...» 

Na secção Echos do Extremo Oriente encontrará o leitor a referencia por compkto. 

Vide Chinese Commercial Guide (:8(j3) pag. 9 do App. 2. 

(*2) "Balão 

Embarcação de remos, segundo se deduz do que o auctor do ms. diz, quando, mais adeante, se refere: 

< . . .metidos no seu balão derão á vela digo ao remo. . . > 

Roquete no seu diccionario difine-a só como embarcação asiática. 

Ainda n'este século se dá em Siam o nome de balão a uma espécie de barcos, como se vê no seguinte trecho 
d'uma curiosa relação da viagem da embaixada portugueza a Siam em iSb2 e publicada no Bolletim do Governo de 
Macau n."47, do vol. \iu, com o l'nu\o 'Vaginas d' um marinlieiro —iragmenXo d\]m livroinedito— Viagem a Siam i: 

"Alem da casa mobilada e suprida de creados, que el-rei de Siam poz ás ordens do Plenipotenciário portn- 
guez, havia ainda atracados á ponte da casa dois formidáveis balões. « 

O balão em Siam não é areostatico, porem sim um longo escaler ou galiota, tendoameio uma casa com ge- 
losias, de forma abaulada, que serve para os passageiros, indo dentro sentados ou deitados, e e puchado por re- 
ineiros, usando de pás, dispostos em bancadas a vante e a ré da casa. e governada por uma espécie de esparrella. 
Porque lhe chamam balão não sei eu, nem ninguém ni'o soube dizer.» 

(*^) Enseada de André Fèo e Mangericão 

('") Não consegui saber onde estão situados estes dois logares. 

(*^) Saguates 

('") Presentes : termo usado em Africa e em quasi toda a Ásia meridional. 

(«8) Tagr 

•Ta-jin, Ta-yen, Tai-yan, conforme a pronuncia ou os dialectos, i-.' um titulo que significa excellencia, ou, 
litteralmente, grande homem. Os mandarins de elevada graduação pospõem ao seu nome esse titulo. 

No caso sujeito eram uma espécie de espiões de elevada graduação que o imperador costumava mandar as 
províncias para examinarem a conducta das auctoridades. Está em concordância com o que diz o auctor do ms. o 
seguinte trecho do livro cit. vLa coiiqnête de la Chine par les fartares manclteouxv (pag. 334 ^ 3-^^ "^o tom- "i • 

< L'Empereur de la Chine envoie de temps en temps dans les provinces des inspecteurs appellés Kolis (Co- 
los ou Colaus?! ou Kotans (ha aqui erro ivpographicoí qui instruisent exactement le Prince de tout ce qu'ils ont 
remarque de defectueux dans Tadministration des afíaires publiques. Ces inspecteurs ont une libre entrée dans 
les divers Tribunaux de TEmpire pour y assister, non comme juges, mais comme simples examinateurs de la con- 
duite qu'on y tient. lis s'insinuent quelquefois dans les audiences, et lá, sans être connus, ils écoutent les raisoiis 
des parties "et e jugement des Mandarins, qu'ils ont droit d'averiir publiquement, si le cas I exige. Leur pouvoir 



41 



..•etend jusqu'à susnendre les sentences des juges. í.« charges dínspecleurs dans les provinces sont ordinaire- 
mentfort lucratwes; ces officiers etant fort ledoutes a la Chine, et peu scrupuleux quand on sçait les ebloutr 
par l cclalde l-or.> 

Sublinhamos o trecho, porque é bem applicavel aos excellentissimos tafnís que iam á espreita das coi- 
sas de Macau. 

E, como esses, quantos outros e em outros tempos I 

Macau, pelas suas fortalezas, era chamada a Gibraltar da China. - As suas peças, porem, se tinham balas 
de ferro para vencer hollandezes, lançavam pelouros de prata, quando não eram de ouro, para afugentar os rapi- 
iiantes funccionarios do grande e vuro imverio '. 




6 aos iimcíiiaBs pizes Biroiifiiis, etc, 




I ODtNDO alguém julgar pura phantasia o que ficou dito no artigo Tia^ãodo 
j!| Titulo, com respeito á honrosa e distincta denominação que os chins dão 
Ijj a Portugal, em vez dos nomes imitativos que usam para designar os ou- 

E^^^í[ tros paizes da Europa, démo-nos ao trabalho de procurar, em diversas 
obras que possuímos, os mais completos esclarecimentos sobre o assumpto. 

Conseguimos apurar os nomes dos principaes paizes europeus que teem relações 
com a China. E, -para maior e.\actidão, publicando esses nomes, acompanhamol-os com 
os respectivos caracteres chinezes. Foi difficil isto, por não haver em Portugal, quer 
nas typographias particulares, quer na Imprensa Nacional, caracteres typographicos chins 
e não nos ter sido possivel mandal-os vir de Macau ou de Hong-Kong, onde se compõem 
com a maior facilidade textos de escriptura sinica com os caracteres typographicos mo- 
veis. E não admira o não os haver na Imprensa Nacional (onde ultimamente se tem com- 
posto muitas obras com textos ou citações em diversas línguas orientaes) se o leitor 
se lembrar que a escrípta chineza não é sónica, isto é, cada lettra não representa um 
som nem constítue uma parte d'um alphabeto, mas sim uma palavra. Ora sendo neces- 
sário para cada palavra uma lettra, calcule-se quantas lettras seriam precisas para que 
uma typographia estivesse habilitada a compor em chinez! E quanto custariam as ma- 
trizes para a fundição d'esses lypos tão numerosos! 

Vencem essa difficuldade as typographias de Macau e de Hong-Kong, (e melhor 
ainda as de Londres e Paris) porque teem os elementos componentes ou radicaes de 
cada lettra, que entram em outras com significações aproximadas ou correlativas. Mas 
em Lisboa, em que os typographos não sabem a lingua chineza, como seria possivel 
exigir d'e]les que conhecessem o systema de decomposição de cada lettra, para, com' 
esse conhecimento, tirarem do caixotim os elementos necessários para a composição 
que precisassem fazer ^ 

Não havia, portanto, outro remédio senão empregar cada letra ou palavra, que se 
entercalaria no texto como qualquer gravura ou vinheta. Mas deveria mandal-as gravar 
em madeira? Deveria mandar fundil-as ? E a carestia das matrizes? Lembrei-me então 



44 



da photogravura. Desenhando (e é esse bem o termo) todas as lettras de que necessi- 
tasse para cada numero d'esta revista, mandando-as reduzir e photograval-as em chapa 
de zinco, e, depois de cortadas, soldando-as em supportes de chumbo, teria os caracte- 
res moveis de que necessitasse. Assim se Jez, devido á boa vontade que encontrei nos 
distinctos artistas srs. P. Marinho, proprietário e director da importante oíTicina de pho- 
togravura na rua de S. Paulo, e Monteiro de Barros, director typographico das officinas 
da Companhia Nacional Editora. A ambos me confesso muito reconhecido pelo acerto 
e diligencia que empregaram para que a minha idéa tivesse realidade, e apparecesse as- 
sim pela primeira vez em Lisboa uma publicação com caracteres tvpographicos chine- 
zes moveis. 



Vejamos agora se é certo o que se affirmou no alludido artigo d'esta revista. E o 
leitor terá a satisfação de saber que os chins, ainda não ha muito tempo, consideravam 
o mundo como dividido em três partes principaes. i." o grande reino do centro ou do 
meio, ou a China propriamente dita; 2.° o grande reino do mar de oeste, ou Portugal; 
3." o grande reino da origetti do sol ou oriental, ou o Japão. O resto era habitado ou 
por povos tributários do império chinez ou por cães bárbaros, em cujo numero entra- 
vam esses civilisados occidentaes que estão retalhando á sua vontade o império chinez, 
sem se lembrarem de que nós temos, mais do que nenhuma nação da Europa, direito de 
sermos ouvidos e contemplados n'essa partilha ; e — o que é peior — sem nos lembrar- 
mos de que devemos fazer ouvir a nossa voz n'essa baralhada extremo oriental para que 
possamos conservar o que temos, e rehaver o que deixamos perder... de tudo o que con- 
seguimos adquirir á custa de tanto esforço e de tantos trabalhos pela causa da civilisação. 

Cliina. — São diversas as denominações por que é conhecida pelos naturaes ('); 
mas as mais usadas são as seguintes : 



Grcindt' reino ou Império do Centro ou do Meio \ 

(41 



:k 



f 



Grande e puro Império 

(5, 



Grande Império do que está sob o Céu 
ou Grande Impetro do Mundo 



XI 



Grande Império dos outeiros dos Tang 



Oj 




45 



Porlu^al. — Já ficou explicado no artigo 'T^aj-ão do Titulo a origem da designa- 

í| j.gj„„ dada pelos chins a Portu- 



— ^— ' Tã Ziff ssi v-^ y-^T^ff 

^° yW grande \m oeste ^^ mar 



gal ('"), nome que ainda conservamos. Mas, devido aos extrangeiros, que até essas honra- 
rias nos cobiçam, depois de nos terem roubado tudo quanto de proveitoso conseguimos 
adquirir á custa do nosso suor e do nosso sangue, já vão conseguindo que os chins nos 



tirem em certas occasióes esse honroso tratamento. l'mas vezes é o caracter Ta 



■X 



grande, que os nossos fieis alliados, os inglezes, supprimem. Outras vezes querem ar- 
ranjar para Portugal nomes imitativos. Assim vemos no Chronicle and Directory for 
China, Japan (f- Philippines (1881) a indicação de Se-yang-kuó na lista dos consulados 
de Shang-hai, apezar de não faltar no titulo em chinez, collocado superiormente, o cara- 
cter Ta. Na mesma obra, a pag. 285, na lista dos consulados de Amoy, vem o consulado 
de Portugal com a designação de Macowhoi-Kwan, havendo aqui dois erros; primeiro 
o de chamar ao consulado portuguez consulado de Macau, e o segundo o de arranjar 



um nome 



imitativo í xfSj ^l^i ^yJ^ cao ou kiao \ para Macau, quando esta localidade 



é conhecida pelos chins pela denominação de VIEvI Pt ^^^ ^^ pronuncia Ngao- 

mun em lingua mandarina e Gou-niun em cantonense; isto é, Ngao ou Gou babia e 
mun porta. ("). Mas ainda ha mais. No livro recentemente publicado pelo sr. Callado 
Crespo, digno cônsul de Portugal em Cantão (Cousas da China, pag. 162), se vê que o 
desaforo anglo-chinez tem chegado ao auge de querer também para Portugal um nome 
inteiramente imitativo. Diz s. ex.^ : 

«Portugal, Po-cush-tou-kia-li-ya, é considerado tributário desde o reinado de D. Af- 
fonso VI, A-foung-sou, que em ibqo {''■•) mandou uma embaixada para estabelecer rela- 
ções com o imperador da China e pagar-lhe tributos, dizem elles.» 

Que elles o digam não me admira; mas que o nosso distincto cônsul, no interes- 
sante livro que publicou, conte o caso sem uma nota, rejeitando a denominação novís- 
sima, a qualidade de tributário no embaixador de D. Aftbnso VI em 1690 (7 annos de- 
pois da morte do prisioneiro de Cintra!), é que só pode ser explicado pela vontade de 
tornar leve e ligeira de mais a sua obra. Mas temos a certeza de que s. ex.^ não accei- 
taria uma chapa do vice-rei de Cantão, junto do qual está acreditado como cônsul, em 
que Portugal fosse chamado por essa forma. 

l^arece que de nada vale o ser Portugal chamado d'uma ou d'outra forma. Mas na 
Oriente vale de muito e no Occidente. . . alguma coisa, visto se incommodarem, com a 
denominação honrosa, inglezes, francezes e tutti quanti dos que só tem conseguido obter 
prestigio na China por meio de canhões e couraçados. O certo é que também a China 
vae dando mais valor a essa forma de se obter prestigio do que ao nosso actual sys- 
tema de nos confiamos á Divina Providencia para nos conservaras tradicçÕes honrosas ! 

Japão. — Tem também, como Portugal, uma denominação especial. Chamam-n'a 
os chins Ta-jih-pun, Ta-Jih-pen, Tai-yat-pun, conforme os dialectos, como se pode vêr 
em Morrison, Chalniers, Chronicle (D Direciory, etc, acompanhado ou não da palavra 
kuo ou kuok (que, como já sabemos, significa reino ou império). Os japonezes dão ao 



4^ 

seu paiz o nome de Dai-Ni-pon (e não Dai-nippon, como escreve o sr. W. de Moraes 
an sua bella obra); mas, chins e japonezes, escrevem do mesmo modo: 



0^-A-0A 



Jih-pun ou TaJih-pun-kiio, que signifi- 



cam grande império da origem do sol ou do do dia ou G. I. do Levante, representando 
o caracter Jih — 50/ ('^) e o caracter /'w/z, — origem ou fonte. 

Vejamos agora o mais rapidamente possivel como os chins denominam os paizes 
europeus e os Estados Unidos da America e o Peru, sob a forma de 

NOMES IMITATIVOS 



■X 



(que podem ou não ser precedidos da palavra JV Ta — grande — e seguidos da pa 



lavra |pv| /«'"f' — reino ou império). 



Allemaiilia. — 1 H=i ""i^ ^"wv Tay-eh-chu (pron. de Pekin) ou lè-t- 

\j{j^ é^\ 'Uí» 

chih fpron. de Chefú). Imitado da palavra allemã Deittsch, que significa Allemão ('^). 



"•- S i S jjp 



Áustria. — y^l. -tl^O yT/ Tin Ao-ssã-tna-kia (Pekim) Ao-s^e-ma-ka 
Imitado de Áustria {'-•). 



-J:tí!l# 



BeSgica.— YY Á^n Pct* Pe-li-^e (Shang-hai) ou Pi-li-chih (Chefú). 
Imitado de T^elgiqiie ou de Belge. 



f^ 



Dinamarca. — "Tj T<^'i- Imitação da primeira syllaba da palavra dinamar- 
queza Danmark. Na lista dos consulados do Chronicle ainda se nota a imitação mais 
risante com o titulo do consulado em Hong-Kong. Está ^fl ^JÉ" Tin-mak. 



/\j\ 



Estados Unidos da America do IVorte 



• íS 1 M te 



— A-mak-li-ka em cantonense {Chalmers., pag. 5). E' evidentíssima a imitação da pala- 
vra America. Mas, o mais usado para designar-se America, ou melhor os Estados Uni- 



47 



dos, é a palavra _^Ri (precedida da palavra 7i.t e seguida da palavra Aiío), e que se 

pronuncia mei, mi, mai, me, conforme as localidades. E' também a imitação da 2.' svl- 
laba da palavra America ("'). 



;^ 13 ffi 



França. — •íttXÍ ÍaU -^t^ Fo-lang-cha (Morrisou, op. cit. pag. 81) ou 

(segundo o Chfonicle and Directoi-y, e\.c.) j~f^ IaiJ fj»l •^'^-'^■!'"^-^'-^' (Pekim) 



que se pronuncia Fah-lan-se (Shang-hai), Wo-lan-sai (Amoy), 

Fat-lan-sai (Hong-Kong), etc. Usa-se também para designar a França da primeira d'es- 
tas palavras VI -» Fa precedida de 7í7, isto é: Ta-fa. Assim a vemos designada nos 



titulos dos consulados francezes em Kiu-kiang, Han-kau, Chefú, etc. 

Hcspaiilia. — ITI wFl *p|^ IL» HH E-s^e-pa-ne-a (Morrison, 

loc. cit.) ou (segundo o C/zro;!/c/e), etc. ,J — f B^íT j^ IL* t,r-I q^i^ se pro- 
nuncia Jih-ssu-pa-ni-a (Amoy), Zeh-s^-pa-ue-ya (Shang-hae), e Jih-ssú-pa-ne-ya (Pe- 
kim). No titulo da legação em Pekim vem no Chronide substituído o ultimo caracter 

XZTi por yl (Chronicle and Directory, etc, pag. 36()). Primitivamente a Hespanha 

era conhecida e ainda hoje pelo nome de iT j ~ \\ ' ^^^ ^^ pronuncia Leu-sung 

(Morrison, pag. 83), ou, em cantonense, Lué-siiung (Chalmers^ pag. i3i), ou Lui-sung 
(Hong-Kong). E" imitação de Luçon, uma das Philippinas, por onde os chins tiveram as 
primeiriís relações com os hespanhoes. Para distinguirem a Hespanha da sua antiga coló- 
nia costumam chamar a esta J\\ frz. ' A\ * "^^° ^1 Siú-Leií-sung ou pequeno 
Luçon, e á Hespanha 1 a-Leu-sung ou grande Luçon. 

Hollanda. — >ti^ K5t Ho-lan ou Hu-lan, conforme a pronuncia, hnitacão 
da palavra portugueza Hollanda ('"'j. 

-ítt* -fc :X.il 

Ing^latorra. — JXX "ZZ* >1^|| Ying-heih-le (Morrison, \)<íq.^o) em ^q\ú- 
nense, ou Ying-kat-li (Chalmers, pag. 47) em cantonense. E' imitado do nome portu- 



48 

guez Ingle^ ou Inglaterra. Não gostam os inglezes d'essa origem e arranjaram um nome 



mais breve, empregando só o caracter flX precedido do indispensável Tá. Só por 

esse nome de Ta-ying é que vem indicada a Inglaterra nas listas das legações e consu- 
lados do Chronide and HDirectory, etc. Inglez também é designado na China por Ying- 
keih-le (Morrison., loc. cit.). 

Itália. — Q ■ A •* 't' tf ri E-ta-le-a (Morrison,\oc.cix..).i{ouí,QS,unáo 

/U*^ /\ ±: IC 

oChron.) \^ \ "jT^ ylsW ^-^'■'^'-^' ^'^ pronuncia cantonense (Hong-Kong). Tam- 
bém se escreve do mesmo modo, mas com a primeira letlra \, I mudada para Q 

/>* /li** 

como da primeira maneira (MorrisonJ pronunciando-se E-ta-H (Chefú). 



" -^^ 



Peru. — Á\í/\ f)iy^ — Pilú — Como os chins não conhecem a forma repu- 



blicana, a legação do Peru em Pekim tem de se intitular Ta-Pilú-Kuo — o grande Im- 
pério do Peru. E' talvez essa a única reminiscência do antigo, explendoroso e magni- 
ficente império dos hicas. 

Ru«!»i0. — iJfXj yé/C^ «*■/ Go-lo-s^e (Morrison) ou (segundo o Chro- 



« 1 n 

1í& 



)i/V/e, etc.) Ngoo-loo-Sye (Shang-hai). O caracter \j\/ pronuncia-se Go, A^^o, O, 

conforme os dilectos. Chalmers, no seu diccionario dalingua de Cantão, escreve-o d'outra 

forma jfÇ^Bi Nogh, e dá a Rússia o nome de Ngohloh-s^e., em que as duas ultimas 

palavras são escriptas da mesma maneira que vem em Morrison e no Chronide. Tam- 
bém se emprega só essa primeira lettra precedida de Ta. A legação da Rússia em Pe- 
kim dá-se a denominação de Ta-0 (Chronide, etc). 

Síaecía e Noruega. — JffH \rXh ÍKí| fcL ^^^e-n^^y-nau-)vay 
(Chronide and Directory, etc) ou simplesmente Saeivay ou Nau-yvay^ 
É imitação do inglez Sweden e Norway- Algumas vezes dizem simplesmente Sníi 






Sae-naii, supprimindo a palavra 




49 

E, como estes, poderia citar dezenas de nomes dados a outros paizes e todos elles 
imitativos. Mas os que vão transcriptos, são os sufficientes para demonstrar que só a 
Portugal, — de todos os paizes que os chins consideram como habitados por bárbaros, por 
diabos ou por cães, — concedeu a China, acceitou e conservou a retumbante denominação 
dada pelo jesuita Matheus Ricci — denominação que deverá servir hoje como estimulo 
para que nos esforcemos com toda a diligencia afim de occuparmos o logar que nos 
compete — pelas nossas tradições e pelos nossos trabalhos — no Extremo Oriente. 



Notas 

(I) Desenvolvidamente foi estudado este assumpto por meu pae nâ Noticia da China publicada no Boletim 
do Governo de Macau, n." 42, de 21 de Setembro de iSó?, e da qual julgo conveniente reproduzir o seguinte ex- 
cerpto: 

«Fomos nós, os portugueses, os primeiros que, na Europa, designámos este império com a palavra China, 
ou Tchina, pela termos ouvido dos malaios e de quaesquer outros povos da Ásia, que todos, com pequenas va- 
riantes, o denominam por este modo. A pahivra usada na Europa, durante a edade media, — e ainda hoje entre os 
russos, — para tal denominação, era Kitay, ou Calhar, que se deriva do nome dos Kiías, que occupavam os li- 
mites septentrionaes do império no tempo da invasão mongolia. 

Quanto á origem do termo China, a maior parte dos auctores é concorde em trazel-Ta da dynastia dos Tshin, 
cujo fundador, de que ja falíamos de passagem, o celebre Tsnin-chi-hoang-ti, denominado por alguns o Napoleão 
da ("bina, foi quem por suas conquistas, tornou conhecido em toda a Ásia o império de que soubeia apoderar-se. 
Contra esta derivação, por muito moderna, apresenta comtudo Mr. Pauthier o seguinte argumento: 

«Nas antigas leis de Manu deram os Índios a este império o nome de Tchina, e ali se diz que foram os Tcha- 
trias, ou guerreiros Índios degenerados, os seus primeiros povoadores. Porem se é verdade, como se pretende, 
que o nome de Tshin só foi conhecido fora dos limites occidenlaes da China quando a armada do imperador 
Hoang-ti surdiu nos portos de Bengala (2S0 annos antes da nossa era, segundo a historia chineza) segue-se que ou 
as leis de Manú, ás quaes se attribue uma antiguidade de i5oo a. antes de J. C, foram interpoladas, ou que a sua 
redacção é muito menos antiga. Estas duas supposiçóes são inadmissiveis, e nós provaremos n'outro lugar que a 
sssercão contida nas leis de Alanu é em parte verdadeira. Os Índios penetraram com etleito no Chen-si, província 
Occidental da China, mais de mil annos antes da nossa era, e ahi fizeram parte d'um estado denominado Tshin." 
— O desenvolvimento que, n'outra paite da sua obra, Mr. Pauthier dá a este ponto histórico, torna muito ac- 
ceitavel a sua opinião. 

Como designação do seu paiz, os chinezes ignoram porem a palavra China, (e qualquer das suas semelhan- 
tes Jin, Chin. Sm, Sina, T^inista\ como ignoraram as palavras Cathay ou Kilhay de Marco Polo e da edade media, 
e Scrica dos gregos e romanos. O nome que dão ao império que habitam, e a si próprios como habitantes d'ell_e, 
varia muito com as épochas e com o estylo do discurso; mas, ainda hoje, os mais geralmente repetidos são 
Tchiing-kuo (Reino ou império do centrai e Tchiing-kuo-jin (homens do reino ou império do centroi. Quasi to- 
dos os escriptores de cousas da China, e alguns dos mais versados, como o auctor do Midle Kingdom, explicam 
esta expressão com a vaidosa noção geographica que dizem os chinas tinham de ser a terra um quadrado, de cuio 
centro irradiava a soberania universal do Impeno Chinez. Sem desfazer na reconhecida presumpçáo d'ilUmitaaos 
aominios, com que, ainda não ha muilo, o governo chinez se lisonjeava nos seus documentos officiaes, é de jus- 
tiça declarar que, segundo outras opiniões, tal expressão provem apenas de que, no tempo de Contudo, que foi o 
primeiro que a usou, a China estava dividida n'um grande numero de pequenos reinos feudaes que obbedeciam ou 
deviam obedecer a um reino soberano, situado no meio d'elles. cuja denominação de Reino do centro, C[\íe n'essa 
época so indicava a sua posição relativamente aos outros reinos, se admittiu depois como denominação nacional 
para todo o império unido. — Úm outro titulo do império de que teem abusado os escriptores europeus é Tien-chau 
elocução metonymica que significa ao pé da letra dynastia celeste, e que, segundo os proprio^s letrados chineses, 
se deve traduzir por Império da dynaslia que reina por indicação e vontade dos Ceos, e não Império Celeste, 
como tanto a miúdo o vemos traduzido. Do mesmo género é a vulgar designação actual de Tsing-chau (império 
da Pura dynastia, ou da dynastia Tsingl e a antiga, hoje absoleta, de HuaHia (Gloriosa dynastia Hia, que foi 
a primeira que occupou o throno da Chinal —Em actos officiaes, etc , a China é presentemente denominada 
Ta-tsing-kuo limperio grande e puro/ á imitação da dynastia reinante, que se intitula grande e pura. Comtuoo 
afflrma \\'illiams, em refutação a Klaprotli, queo povo chinez nunca dá a si próprio o nome de Tsing-jin ihomens 
de Tsingi, mas sim os de Hanjin (homens de Hanj, Han-ts^ (filhos de Han, que significa também gente boa e 
honrada/, Tang-Jm, etc. —Nos livros de poesia e de historia antiga, encontra-se também indicando a China a 
expressão Sse-hdi itudo o que se contem entre os Quatro Mares), que, bem como as Tcimng-kuo e Tien-chau, 
tem dado logar a controvérsias, e Tien-hia, cuja significação hyperbonca (debaixo do cèoi não será tão fácil atte- 
nuar como a d'aquellas denominações, a não ser com a circumstancia de vir esta mais commummente empregada 
nas obras de moral em que os princípios se devem generalisar o mais possível. Finalmente referem-se também ao 
império, alem d'outras as phrases Tchung-hua-kuo (florido império do centro/ e Nui-ti iterra interior), Li-mim 
(raça de cabellos pretos) e Ilua Yen (linguagem florente) determinam a miúdo o povo e a escriptura chinesa." 



i< 



(2) 

Caracter que significa grande, elevado. Antepunham.n'o os chins antigamente só aos nomes da 



China, Portugal e Jap3o. Hoje os que são designados por nomes imitativos, exigiram que também fossem honrados 
com esse adjectivo. E' pronunciado segundo os dialectos: Tai ou taai em cantonense, la em pekinense, T)a em 
Ningpó. No Japão Dai. (Vide . Chrontcleand Directoryfor China, Japan, the Philippines, etc. for theyear i88r». 
<tAn english and cantonese pocket dictionary por John Chalmers ; etc. 

A antiga forma (figurativa ou hieroglyphica) d'este caracter representava um homem de braços abertos, 

4 



5o 



Reino ou império. Pronuncia-se kuo em Pekim, Tientsin. Shang-hai; koii em Ning-po ; kok em> 

Amoy ; A-)i'o/i- em Hankau; /c/ío/í em Caniáo, etc. iVide Chronicle and Directory ele, eChalincrs). Segundo diz Pau- 
thier /La Chtne, pag. 2 da ed. de i853) é ideographico este caracter, porque é formado d'um quadrado (que na 
fo)-ma antiga se approximava d'um circulo) representando a circwnscripçdo ou os limites do reino, em cujo inte- 
rior está uma lança e uma bocca que, grupadas juntamente, indicam a pronunciação koue, ao mesmo tempo com. 
os dois attrihutos do reino : as armas, a íitleratura ou a sciencia. 



1- 



Caracter ideographico que significa centro ou meto, ou meliior, do centro ou do meio. Re- 



presenta um pequeno parallelogrammo atravessado ao meio por uma linha vertical. Pronuncia-se- Tc/íííM^ em peki- 
nense, e chuimg em cantonense. A expressão Ta-Tchung-kuo apphca-se á China propriamente dita. (Vide «.4 view- 
of China for philological purposes, e/c.,lpor Morrison,— Macau, 1817, pag. ói ; Pauthier o. cit., pag. 283; «A sketcli- 
of chinese hislory^^ por Gutzlatt', Londres, i834, vol. i, pag. 20; Chalmers o. cit., pag. 22, ele. Nome analogoao 
do reino do meio era dado pelos Índios á Índia central: Madhra-dcs'a, isto é, media regio ou regtão do meto. 

(5) __^ 

Tsing 011 Tiísing, que significa pura. — \)\z-^t também Império da pura dynastia ou da dynas- 



tia dos Tsino,—a dos tártaros mandchús que ha dois séculos e meio dominam na China. N'esse caso diz-se Ta- 
Ising-chaii-kuo. Em qualquer dos modos é principalmente empregado pelos tártaros e pelo elemento offlcial. 
(Vide nota i e Morrison, I. cit., e Pauthier, 1. cit.). 

(607) 

■ ^ iv 

hia — abaixo — isto e o que está abaixo do cen ou sob o ceu ou o 



A 7//íe«-céue j^ 



mundo. iJiz-se de toda a China. E" d'esta expressão que provem a denominação europGa Império Celeste dada a. 
China. (Vide nota i e Gutylajf, .Morrison, 1. cit., etc.) 



(8 e 9) 



lU 



1 



Ti!H£r — nome da celebre dynastia que reinou na China desde 61S a 907 da nossa Era ; e 



chan — outeiros ou montes. A expressão Ta-Tang-chan, ou simplesmente Ta-Tang ou Tang-chan, é 



usada principalmente pelo povo cliinez propriamente dito c não pelos tártaros. Em cantonense diz-se T'ong_- 
chaan. (Vide Gut:^. e Chalmers). 

(10) Em cantonense Tai-sai-yang-kuok {Chalmers, op. cit.) 

Por/zf^íiff diz-se abreviadamente ^J |^| --si ^/-f-^ J'i",i' /\^ Jni ou sai-yang yan, conforme 
os dialectos. 

O caracter #\ Jin ou yan sjgniíicd homem. 



A 



Também se usa como adjectivo a expressão se-yang. Ex : Se-yang-ísoong-way, que signitíci Club Portii-. 
gue^. (Vide lista dos estabelecimentos de Hong-Kong no Chronicle & Direclory etc, pag. 320). 

(11) Opportunamente daremos um artigo com esclarecimentos sobre a origem do nome de Macau. 

(12) E' tão verdadeira a pretensão chineza de termos sido tributários do grande Império como a athrmação 
da tal embaixada de D. Atíonso em \6qo, isto é, sete annos depois da morte d'esse infeliz rei, que morreu em i683 
e desde lóóS já não governava. Houve etfectivamente uma embaixada de D. Alfonso vi á China mas essa foi no. 
anno de 1608 e a ella se referiu o visconde de Santarém na sua Memoria sobre o estabelecimento de Macau, pu- 
blicada por Júdice Biker, nos seguintes termos (pag. 271; 



5i 

«Em i66S mandou el-rei D. Aftònso um embaixador A Cmna, o qual foi bem recebido pelo imperador e al- 
cançou d aquelle soberano varias liberdades para o exercício da religião e facilidades para o commercio Ò ai 
ctor que escreveu esta noticia nío diz em que obra a encontrara, para podermos nella verificar se aauella'embai- 
xada havia sido acompanhada de alguma particularidade concernente ao assumpto de que estamos tratando... 

Pois o que não conseguira o visconde de Santarém, nem Biker, hábeis investigadores, conseguimo)-o nós, 
favorecidos pelo acaso, que nos protegeu nas nossas buscas. Na continuação do curioso manuscripto do P.'' Luiz 
da Gama, cuja publicação encetámos hoje, encontrará o leitor na devida altu.-a varias referencias a essa embaixada 
a cargo de jManuel de Saldanha, referencias que serão acompanhadas de vários apontamentos e esclarecimentos 
que conseguimos obter e que dão a luz desejada pelo visconde de Santarém, para esclarecimento d'esse ponto 
obscuro. 

Voltando porem ao tal nome bárbaro de Po-cus!i-tou-kia-lt-ya que o sr. Crespo diz ter sido dado pelos chins 
a Portugal tributário. Para nos varrer qualquer duvida sobre o assumpto tivemos a paciência d'ir rebuscar na 4." 
secção fPin-liJ do Coatgo dos ritos [ritos da hospitalidade em numero de 20) e nas .Memorias ou Annaes dos Ar- 
chivos do tribunal dos ritos (transcriptos por Mornson, a pag. 80 da sua obra A view of China for philololical 
purposes etc») com o titulo The nations wich have brouícht tribute lo China, as ílier stand on lhe records of the 
board of Rites and Ceremonies — 'Sacões que teem trazido tributo a China, conforme as referencias constantes 
nos archivos do tribunal ou ministério dos ritos e das cerimonias) encontramos n'esses Annaes, na verba vi a re 

ferencia a Portugal com o nome de UjA -^e l^pt yang — mar d'oeste, por que amdaihojeé conhecido e não 

o tal de Po-ciish-tou-kia-li-ya, inventado provavelmente por qualquer mandarinete, inglezado á força de pancadas 
britannicas que lhe produziram na mioleira o esquecimento do grande reino que a China hoje não vê nem sente 
por não se ter convertido também n'um dos abutres que lhe retalham o cadáver. 

Com respeito ás embaixadas portuguezas e estrangeiras que os chins pretenderam considerar como porta- 
doras de tributos para o seu imperador, trataremos delias opportunamente para não alongar demais esta nota. 
Vera então o leitor qiie os nossos embaixadores foram dos que mais dignamente se portaram e n'uma época em 
que se fazia outra idèa do poder e da valentia dos chins — e em que a Inglaterra, com receio de perder o seu com- 
mercio, se sujeitava ás mais supremas hnmilhaçóes. 

,i3i Este caracter— yz/z ou yí?/, — escrevia-se primitivamente d'este modo QtS que representava, sob a 

forma hieroglyphica, ou, melhor, figurativa, o sol. Como e sabido, grande parte da antiga escripta chineza era 
figurativa. 

(14) Diz-se também abreviadamente Ta-le-kuo (Tienisin, Shag-haii, Da-ta-kuo (Ningpó), Tai-tek-kuo 
;Amov).ríj/-/!//i--A-/<o, escreveiido-seo caracter Te I j~j. sempre da mesma forma. A pronuncia éoue varia con- 
forme os dialectos (Vide Chromcle and Directory, ela. 

íi5,i Também se diz Ta-Ao-kuo, (Da-Ao-kuo, Ta-o-kuOk, ele), conforme as localidades, aproveitando-se uni- 



No CTiJ-on/c/e, encontra-se também, como denominações para indicara Áustria, as expressões seguintes na 
lista dos respectivos consulados em Chefu e em Hong-Kong: ^íX-f Â\ÊC * § "* foo-liti-yen {em Chetú), e 



B^é 




Yali-man (em Hong-Kongi. Não consegui ainda apurar a origem dessas denomi- 



nações. Com respeito á primeira — Poo-/ín-j'ejj — será talvez imitação da palavra Poland cm Polonha, de que a 
Áustria ficou com uma parte. 



(16) Também encontro na Chronicle and Directory a expressão jf m / /H 'í"^ *' pronuncia Frt-A'/' 



-TL 



ou Fa-kee usada nos títulos dos consulados em .\moy e em Hong-Kong para designar os Estados Unidos da Ame- 
rica, Não consegui também apurar a origem. 



52 

(lyi O Chronide and Direcíory escreve também a primeira palavra ou lettra d'esles modos: 
Who J^Y" (em Shang-liaii e //o y|>|J (emPekim. 



Xota final. — Adoptei na coUocaçáo dos caracteres chinezes a disposição á europea, isto é: liori- 
^onialmeiíte e da esquerda para a direita. Os chins escrevem da direita para a esquerda e verticalmente. Sáo 
em tudo ás vessas dos bárbaros do Occidente! 




■''•■ik:^, 




SilisíÉs íara o esMo flos Electos crioulos 



Textos e notas sobre o dialecto de Macau 



No Boletim da Sociedade de Geographia de Lisboa (n." 3 da 2.^ serie — 18S0), pu- 
blicou o illustre philologo portuguez, sr. Adolphio Coelho, uma curiosa noticia, com di- 
versos textos, dos dialectos crioulos neo-latinos ou românicos na Africa, Ásia e America. 
Com respeito aos dialectos portuguezes, tratou dos de Cabo Verde, S. Thomé, Guiné, 
Brazil, Ceylão, Malaca e Macau. Só estes três últimos é que nos interessam, por estarem 
comprehendidos nos assumptos que pertencem ao programma d'esta revista. 

N'esse Boletim da Sociedade de Geographia o distincto lente do Curso Superior de 
Lettras iniciou, por assim dizer, scientificamente, o estudo dos dialectos crioulos em Por- 
tugal, se bem que, já em i85i, o distincto escriptor José M. de Sousa Monteiro, na 
Revista Popular^ apresentara dados curiosos sobre o dialecto de Cabo Verde, que não 
vejo citados nos estudos do sr. Adolpho Coelho. Mas a este distincto philologo per- 
tence a gloria de ter dado uma methodisação scientifica ao estudo do crioulo, tanto 
portuguez, como extrangeiro, em artigos que sahiram não só n'esse como em diversos 
números e series do referido Boletim, de que darei noticia desenvolvida na parte bi- 
bliographica d'esta secção, e bem assim dos trabalhos do sr. dr. Leite de Vasconcellos, 
que preparou uma memoria, bem resumida, por signal, sobre o dialecto de Macau para 
o mallogrado congresso dos orientalistas. 

Mas nem um nem outro dos dois sábios, entraram a fundo no estudo d'esse diale- 
cto, devido certamente á falta de textos e de bons interpretes. O sr. Adolpho Coelho 
publicou os textos que lhe oftereceram, acompanhando-os de poucas considerações sobre 
o assumpto, sendo aliás bastante prolixo nas considerações relativas a outros dialectos 
portuguezes e extrangeiros. 

Quando tive a honra de ser leccionado por s. ex." no Curso Superior de Lettras, 
sabendo que de ha muito me dedicava ao estudo do dialecto de Macau, pediu-me que 



54 

colleccionasse os dados que tivesse e os fosse publicando como matéria prima para o 
estudo comparativo que se estava e se está fazendo em toda a Europa culta, sobre os 
dialectos neo-latinos na Ásia, Africa, America e Oceania. O sr. dr. Leite de Vasconcellos 
também me fez egual pedido quando um dia me encontrei com s. ex.'. 

Circumstancias alheias á minha vontade, a necessidade de dedicar o tempo a outros 
trabalhos, que me não davam occasião para coordenar os meus apontamentos, obriga- 
ram-me a addiar successivamente o cumprimento do encargo que tinha contrahido para 
com aquelles dois homens de sciencia. 

Além d'isso, desejava que os textos que já tinha obtido, e os que iria obtendo, fos- 
sem acompanhados de notas interpretativas, porque, sem ellas, de pouco proveito seria 
a publicação de documentos para o estudo d'um dialecto pouco conhecido até hoje. Se- 
ria accumular material imprestável pelo pouco desbastamento em que o teria de apre- 
sentar aos que se occupam com tanta sciencia do levantamento do edifício philologico 
e linguistico. Tratei, pois, d'ir pouco a pouco classificando e limpando (i) essas pedras que 
já tinha recolhido e d'ir colhendo mais e mais com a paciência e tenacidade absoluta- 
mente necessárias n'esta qualidade de trabalhos. 

Depois de ter obtido qualquer texto, ia estudando, palavra por palavra, phrase por 
phrase, até lhes achar a significação e etymologia. Para isso tinha de recorrer ás mi- 
nhas reminiscências de creança, á consulta de amigos de Macau, e á de livros portu- 
guezes e estrangeiros que me pudessem dar alguma luz de que eu necessitava. E assim 
consegui fazer alguma cousa, muito pouco é verdade; mas, quem dá o que pôde, a mais 
não é obrigado. 

Tencionava publicar um trabalho em separado sobre os dialectos portuguezes do 
Extremo-Oriente, especialmente sobre o macaista; mas, exigindo a coordenação dos ele- 
mentos, até agora por mim obtidos, bastante tempo que tenho de reser.var para outros 
estudos, resolvi aproveitar a publicação d'esta revista para apresentar o material já 
recolhido, classificado e annotado, que será dado á luz successivamente, á maneira que 
o fòr permittindo o espaço disponível d'estes Annae?. 



Assim como o portuguèz infiuiu no malaio, que conserva bastantes termos portu- 
guezes (cuja lista darei opportunamente), assim o elemento malaio entra em grande 
parte na formação do dialecto macaista, que possue bastantes palavras d'essa origem, 
como o leitor verá nas notas que hão de acompanhar os textos. 

Mas, além do malaio, influíram na língua de Macau, o elemento indiano canarim, 
ou lingua de Gôa, pelas continuas relações, principalmente antigas, entre Macau e a ín- 
dia pcrtugueza, de que dependia, e o elemento chine^. Grande parte das formas syn- 
taxicas são de origem chineza, o que não é de admirar pelo continuo contacto entre os 
habitantes chinezes e portuguezes. Além d'isso, é preciso fazer entrar em Imha de conta 
o elemento hespanhol, pela proximidade e relações das Philippinas, e, mais recentemen- 
te, o elemento ingle^. 

D'esses diversos factores, combinados com a lingua portugueza, nasceu o dialecto 
macaista que se poude ir conservando e desenvolvendo com a falta de escolas, regidas 
por professores originários do reino, que, durante bastante tempo, faltaram em Macau. 



(') A limpeza consistiu em tirar simplesmente os corpos estranhos que estavam á superfície d' essas pedras. 
Se as polisse, perderiam todo o valor para a sciencia philologica. 



b5 



Deu isso em resultado de, ainda não ha muito tempo, ser raro encontrar-se um macaista 
que não fallasse com toda a correcção o inglez, com boa grammatica e boa pronuncia, 
emquanto seria difficillimo achar-se algum que sustentasse uma conversação em portu- 
guez legitimo. O motivo d'esse estranho caso (alem das causas philologicas que expli- 
cam a formação de dialectos) estava em que tinham bons professores de lingua ingleza 
e, raramente, um razoável mestre de portuguez. 

Teem-se modificado sensivelmente essas circumstancias nos últimos annos, coni as 
medidas tomadas pela metrópole no sentido de aportuguezar a instrucção publica da 
colónia. Não é agora occasião, nem este o logar, para discutir se essas medidas foram 
bem orientadas; mas, o certo é que os resultados teem-se visto: quer no modo como os 
macaistas, que nunca vieram ao reino, faliam ; quer na maneira como redigem hoje os 
seus jornaes, na generalidade mais bem escriptos e em melhor portuguez que os indianos. 

Insensivelmente, ia indo mais longe do que desejava na redacção d'estas poucas li- 
nhas com que desejo acompanhar o primeiro texto, inserto no numero d'hoje. 

Reatando as minhas considerações, convém dizer que o dialecto ainda subsiste, se- 
não fallado publicamente e em conversa com os reinoes, pelo menos no seio das fami- 
iias. Não é, pois, uma coisa morta que temos de estudar; mas uma manifestação bem 
viva ainda d'uma forma, ou melhor, de formas glottologicas interessantíssimas. 

* * 

O dialecto não se apresenta sob uma única forma; míis sim debaixo de três, pelo 
menos, que é conveniente distinguir: 

aj o macaista cerrado ou macaista puro (se assim se pode chamar) e que é o mais 
interessante. E' fallado principalmente pelas classes baixas. 

b) o macaista modificado pela tendência a approximar-se do portugiie^ corrente. 
E' usado pela gente mais polida e que está mais em contacto com o elemento reino!. 

c) o macaista /i7//<7Ío pelos chins. 

Das duas ultimas formas possuo dois textos escriptos, muito interessantes e bem 
arranjados. Da primeira forma é que tenho uma colheita abundantíssima de textos — por 
ser a que mais interessa á glottica e á philologia. 

D'esses textos, uns são preparados sob a forma de pasquins por gente que não era 
levada a isso pela intenção scientifica ; mas empregava o dialecto como meio para metter 
em maior ridículo as pessoas visadas nos mesmos pasquins. 

Outros são meras composições graciosas, feitas também ad-hoc para tratar de dif- 
ferentes assumptos picarescos e de scenas da vida intima dos habitantes da colónia. São 
também compostas por pessoas com certa cultura litteraria. Mas, tanto uns como outros 
dos que tenho recolhido, são bem feitos e estão escriptos em verdadeiro e puro ma- 
caista, tal como se falia nas classes populares. E' d'esses textos que tenho visto publi- 
cados pelo sr. Adolpho Coelho; mas o que mais interessa são as poesias populares, os 
contos e historias ('estoria rainha) as lenga-lengas, adivinhas, provérbios e dictados, etc, 
isto é, os verdadeiros documentos que são, por assim dizer, a tal fonte da lingua a que 
se refere o sr. Adolpho Coelho, n'esse seu citado estudo. 

Esses textos são os que menos abundam na minha collecção, não por culpa mi- 
nha, mas das pessoas a que me tenho dirigido e que, em geral, teem uma grande relu- 
ctancia ou difficuldade em me mandarem esses interessantíssimos documentos — os 
únicos que teem verdadeiro valor para a philologia. Não estando em Macau, d'onde vim 



3Ò 



aos oito annos de edadé, tem me sido difficil preencher as lacunas n'esta parte da minha 
collecção, por não poder tirar directamente da bocca da gente do povo esses preciosos 
dados linguisticos. 

Por isso, aproveitando-me da occasião, novamente insisto com todas as pessoas a 
que me tenho dirigido e peço a todos os meus patrícios, a cujas mãos chegar esta re- 
vista, que recolham com o maior cuidado e talqualmente são proferidas pela genie do 
povo, sem modificarem em coisa alguma, nem alterarem a construcção grammatical : 

a) os contos (estoria-rainha). 

b) os cantos (com as palavras e com as respectivas musicas, quando seja possível) 
como o saião ou saian e como aquelles a que já fiz referencia ha bastantes annos fem 
setembro de 1880 no Universo Illustrado (^) ) : 

Pescu já dà fula, 
çabola contente; 
nhonhonha bixigósa 
sab'inganá gente. 

Eu querê pâ vôs, 
vôs querê pà ótro ; 
Deus lò castiga, 
fazè vosso ôlo torto. 

Passa vanda travessa, 
uví mata ade ; 
sangui fazè tinta 
escreve novidade 
e outros semelhantes; ' 

c) as lenga-lengas, como esta : 

Lio-lio lorcha vai Cantão 



Madêra, madèra 
Já vai cava chan. 

— Qui de chan? 
Jà simiá nele. 

— Qui de nele? 
Gallinha jà pica. 

— Qui de gallinha .'' 



d) os provérbios e dictados. 

e) as adivinhas, como : 



Arto, artura \ 

metid_^o na prisán, ^g _. ,„ ,,-;/„/2o 

sen sa batisado, 1 

tên nome de christán. ) 

Arto, artura, ) 

Corta sen tesôra, > sã : céu 

Cose sen agula 1 



emfim, todas as curiosidades da linguagem popular, mas tiradas da própria fonte. 

Todos aquelles que me continuarem favorecendo n'esse sentido com as suas com 



O N'esse artigo já eu promettia a critica sobre a linguagem de Macau, que só poude apparecer agora - de- 
zenove annos depois. 



municações, prestarão um verdadeiro serviço á sciencia, facultando-me o meio de tornar 
esta secção cada vez mais interessante. 



Entretanto, irei publicando o que já tenho conseguido collecionar, encetando hoje 
a serie com uma curiosa poesia, em macaista cerrado ou puro, devida á penna, segundo 
uns, do macaense Antonino Haggesborg, que foi tabeUião de notas em Macau no prin- 
cipio d'este século, e, segundo outros, a José Maria de Oliveira Lima, também ma- 
caense, professor régio de portuguez e latim. Escolhemol-a de preferencia a qualquer 
outra, não só pelo rigor em que está a construcção do phraseado, perfeitamente macaista ; 
pelo verdadeiro chiste e graça que se nota em todo ella e que denota o grande talento 
do seu auctor: pelas variadas informações que dá da vida e costumes da gente de Ma- 
cau (classe media e inferior); mas também porque appareceu recentemente e sob uma 
forma incorrecta e mal transcripta n'um jornal de Macau, desacompanhada de notas ou 
commentarios. Apresento-a sem modificações segundo a copia que me foi enviada de 
Macau em i88õ. De minha lavra só é a disposição, a pontuação e a accentuação, segundo 
a pronuncia macaista (que ainda me sôa aos ouvidos, apezar de ter vindo d'essa colónia 
ainda muito creança) e as numerosas notas que acompanham o texto e que o elucidam 
completamente. 



O assumpto do seguinte conto em verso pode resumir-se em poucas palavras. Nhi 
ou Nhim Taia, que tem por marido Lourenço e uma filha casadoira chamada Pancha 
(doce diminutivo de Ignacia) vem contar a sua antiga ama ou Siára^ (casada com um 
nobre membro do Senado e possuidora d'uma interessante filha chamada ChtcaJ, como 
conseguiu, n'um dia de pesca nos poéticos rochedos de RêJe Chapado, pescar um noivo 
(Vicente) para a dita Pancha. E, a pretexto de dar essa novidade, vae apanhando á an- 
tiga patroa, palanquim e fatiota etc, para a noiva, e promessa de melhoria de emprego 
para o genro. 

O assumpto é simples; mas com que colorido e graça o trocista do auctor faz figu- 
rar esses personagens no quadro que traçou! Só quem conhece os usos e costumes de 
Macau é que pôde dar o verdadeiro apreço a essa chistosa narrativa, que um francez, 
com toda a sua verve, não faria melhor. Aquelle senhor Lourenço a pescar muita coisa^ 
todo calado, emquanto o namorado da filha se atira á agua para salvar a taboa (!) com 
que a futura sogra enrolava a linha do anzol — é de primeira ordem e traçado por mão 
de mestre ! 

E, como esse, os outros quadros d'essa curiosissima composição, que é uma verda- 
deira peça Htteraria, pelo espirito e pelo rigor com que está feita nos verdadeiros ter- 
mos do dialecto de Macau. 



Ajuste de casamentu de NM Pancha cô Nhuin Vicente 



j\Ico (') dia chégd na jinella, 
olá (-) tifiga (^) palanquim (') 
dâfimdo {^) na pjrta rua; 
mas cu nun sa' ("l sã quim. 

Azinha (") core vai (**) dentro, 
vesti meia, botd (^) lenço; 
chégd Chica,fdllá:[}^) 



n^Iai 



Jà vèn Taia de Lorenco ! 



Elle (11) preguntá pà (i'-) Mai ; 
Eu jà manda senta.» 
— « Chica vai fora entretê, 
chomd ('^) Rita lévâ chá ('^). 



58 



Minha Chica garidona ('•') 
olá, Nhonha, ('*"') lâgomeftíe : (^"), 
cabello saram-fimnim ( '**) 
pôde sai diante de gente ? 

Otro laia ('^) de prigiiiça! 
Vós qiiifoi ('^) nunca pintiá } 
Nutt sã drêto pramicedo ? (-i) 
Quanto vez (--) nunca fdlld ?» (~'^) 

— «Mas q'importa, sã estranho ? 
nun sã gente cunhecido ? 
Pos eu nadi trucá rôpa, 
1Ô20 vai cò'este vestido.» 



— "Nun sã? (''») quilaia (^9) jà sabe? 
Unga pedaço de sucam, (^") 
mas certo (^') nunca sã (-') elle 
Nhi Ghana non tên quimão. (•'•') 

Co aquelle dez pataca 
vèn de viaze trezG chita, 
treze cusa laia-laia, (^') 
saraça (^^) ben de bunita! 

Eu nun sa' quilaia pôde; 
mas elle sabe pópà, 
tudo ano tên respondencia, 
virá man (=■') pôde ganha. 



Eu sai/âra da câ Taia 
sentado n^unga cadéra. 
Qui bimito sua chalil (-') 
Côr de ôlo de figuera! (-'') 

(^Ah! qui nova (''') minha oro ? (-*) 



Sã quilaia (-*) lioze (-^) fã vên: 
Nhi Pancha, tudo nhonhonha, 
Nhum Lorenço passa ben?» 



— «Tudo iiôtro (^') nunca doente, 
muto brigado (•>-) pà Siára ; (^^) 
eu nun sa' qui cusa (^*) tên. . . 
non quero crê ? ólá cara ! 

Masquí seza (^■') custura grosso, 
sen ôclo, (■"') non pôde olá, 
pégâ agula, treme man, 
más dos ponto nadi dá.» 

— Nhi Taia, nhonha vên, 
doença na corpo guardai 
NhonJia tnuto sã trinta ano? 
Querc fie d vela (•*") ya .■^» 

— «Tudo laia i^^) Je mizinha, (^5) 
minha Siára, jà fazê.: 

fuma, raspa mordicim, 
bebe chá de pêlo-pê {'^) ; 

suador fresco, chá de peso, 
mizinha saván e faifum : (^') 
minha Siára, té já fazê 
mizinha de maquinfum! (''-) 

Hoje sã prámôr {^^ de Pancha 
qui eu ja vên Siára sua pê, 
jà sã tempo, minha Siára, 
qui cusa logo fazê? 

Nhum Lorenço jà tà velo, (''*) 
eu feto unsa tu-tum-piam ! (''■') 
Acha quim quero Pancha, 
sã proveta de ocasian !» 

— «iVz/!« sã drêto minha Taia ? 
Eu tamen ficd contente. 

MtUo paraben pá nhonha 

sã cdsd C*") câ nhutn Vicente.» 



Casa sempre tên arroz. (■'**) 
Sua mai, tudo irmã-irmã, 
tem saraça laia-laia : 
udo gente nunca ólá??» 

— « Sã por isso qtie eu contente, 
qui tempo eu jd uvi, 

nunca crê. Si sã assim 
Nhi Taia lo (^^) vên aqui. 

— «Aiá ! (60) eu nunca sã cusa, 
bafado ('"'•) non pôde anda; 
palanquim sã gente sua; {^'') 
se pidí, travalo áchá. 

Pôde nadi, vên aqui?! 
Minha biára eu sã (C^) quirn ^ 
Querê vên unga dia cedo, 
conta tim-tim pVa tim-tim.» 

— « Ah ! ben bon mirtha Taia . . . 
hoze ficd aqui janta. ^^ 

— «Eu có muto bon vontade; 
mas moço nadi espera» (6*) ' 

— «^Non tên mas fnoço tia mtmdo ? [^'^) 
Tirá saraça, fica ja! 

Hoze sã minha fortuna, 
Quilaia pode larga ? ! 

Fazê mercê já p'ra mi! 

qui tempo nunca óld cara .'» ('"''') 

— «Hoze vên, nadi déssá 
mercê recebe de Siára. C") 

Eu agora conta tudo, 
se Siára querê uví . . « 

— « Ah ! conta minJia nhi Taia . . . 
Qui de chá ?! — Treze aqui! >• {^''^j 

— Na me; de agosto unga atarde, 
dom-dom ('"''•') panno, vai péscá 
minha Pancha vai juntado, ("") 
Nhum Lorenço companha. 

Anda qui anda, minha Siára, 
perna azedo ("i) ben cansado! 
Nhum Lorenço, sua estúrdia, ('-) 
Vai até RêdeChápádo! ("') 



3Q 



Minha velo {^') pégâ cap, ('^} 
nosso atai (*•') cartà cháton, ("'') 
Eu capí ("') tabu de linha, ("'*) 
Pancha lévá tomtom. C^) 



Vicente subi na pedra, 
sópa-sópa (100) de mulado, ("'i) 
dà minha tabu de linha, 
baça (IO-) ôlo d'acanhado. 



Minha linha ben de novo, 
gente dá; (i^") sã de retróz. 
Ah ! sã certo qui sabroso 
sã pussá, unga cuti dôs ! (*i) 



Pancha azinha esconde rosto, 
limpa lagri na quimão; ("'^j 
Vicente core carera (i*^') 
torna vai pà aguchan. 



Chente (*-) tèn riva de pedra, 
discarço cô aguchan: [^'■^) 
minha tabu 'cai na mar, 
eu grita «Ah ! qui saião ! (*') 



Eu pussá ('0^) linha pesado, 
arde dedo de pussá ! 
Mas qu'importa, vai pussando, 
minha Siara, nunca ólá ? 



Elle qui uví, puchum pum ! . . 
pula na águ lògomente ; 
Pancha panhá subiçalto (**■'), 
grita: «Coitado de Chente!» 



Unga nairo ('"6) de três cate ("*") 
come tudo dôs anzol, 
eu saião (^'**) que já vai tarde, 
chégâ perto de cai sol (i^?). 



Inda bom maré tá enche, 
mas ali sã costa bravo. 
Risca vida d'unga gente 
pá salva unga tabu ! 



Chencho, ('i") então, dà côr ('") de si, 
lárgà linha, de contente, 
— «Este nairo (elle fálá) 
sã drèto {^^•) dá pá Vicente. 



Bica de Chico Bunito C*") 
também tén, tá marisca, [^') 
nunca longe, nunca perto, 
sua fila companha; (^^) 



Masquí seza isca sã nosso, 
sã conta que elle já pesca; 
se nunca mula sua rópa 
nosso linha nadi acha.» 



uví grito. . . larga ostra, 

core ven, cô oteu (^^i na man: 

— «Sã qui cusa sucede ? 

Cudí (S^) na minha Janjan ! (**') 

Olá gente cai na mar, 

vos larga unga cacada?!» (^-) 

— «Aia ! mar nunca sã fundo, 
qui foi medo, non tèn nada !» 

— «Vos tudo sã patarata 
promor de sabe nada ! 
Tudo gente como vôs ?« 

— «Vai azinha! (^^) cudí ná ! {^'') 

Minha Siara : virá ôlo, 
ólá Pancha tá churá, 
sua lagri cacho-cacho (^''j 
Vicente tá li nada. 

Nhum Lorenco vai pescando 
muto cusa, de calado. ('■"') 
córaçan de home, sã certo 
quilaia assim sucegado ! 

Nos ôtro mulér-mulér ('J"), 
sã otro laia — nunca sã ? {^^) 
Contente vai na perigo, 
fica dôda na ocasian. 

Eu virá fállá ("^j cô elle 

— «Qui mau ora hoze já vGn !» 
Mas, minha Siára, sà certo 
tem algú mal vên pá ben. 



— «Sã divéra ("3) sã drêto (i'M 
(Pancha ólá pá mi fálá) 

Sium ('•*') pai fálla mula rópa? 
Risca vidj, nôs já ólá !» 

Eu chómá Acam lògomente 
lévá nairo, lévá chá: (ii-') 

— «Oi ! (ii'^) fálá cô nhum Vicente. 
fazê mercê de acétá.» 

Elle justo bebe chá, (i^") 
mándá atai gardecè ; 
pexe, fala que non quero, 

— qui cusa mas bon querê ? ! 

Fálá : umsong ("**) já vêm cô nôs 
se nunca sã sópa-sópa, 
porque tudo sua desejo 
sã pesca unga gárópa. ("'•') 

Sã linguaze de estudante, 
nôsôtro nunca entende, 
porque, quando elle criança, 
algu cusa já prende. ('-") 

Na estudo de professor 

dos mês intêro já vai; 

cava (i-') vên tempo de viazi ('--) 

já embarca pra ajuda pai. 

Nunca sã como ôtro criança, 
sua lingu caregado ; ('-^) 
vai estudo, vên pà casa 
sã fálá portuguezado. 



6o 



Nòs nun sã chómá porçobe^^o f 
Elle nunca, — Siára ólá : 
elle fállá percebejo, 
tudo r caregado.» (i--*) 

— '^fNhum Vicente ben de esperto, 
trabalhador, viagero, (•'•') 
Nhonha ólá: este anno mesmo 
elle logo ficd ganir o. » { '-'^) 

— «Se Síara querê, ben pôde, 
tanto senhorio parente, ('-') 
pidí cò algú fazè 

mestre de barco pà Chente. 

Síára considera 
que até agora sã sortêro; 
cásá, mestê (i-"*) dá come 
pá unga casa intêro ! » 

— «Sartá ganêro pà mestre 
travalo mestê; \}'^'^) primero 
fazê três quatro viazi 
come paga (i^") de ga7iêro.-» 

— «Masquí ganêro eu contente, 
tudo favor sã de Siára; 
Pancha logo vên gardecê.» 

— ^'•Cerio bem bom, eu tomara .'» 

— «Mercc nadi cai na chan. . .» (^^') 

— fíAid ! este mm sã nada! 
Mandd Pancha vên aqui 
dos três dia de ficada ('■'-). 

Jã tên gente dá vesti ? í'-'^) 
Cadéra pâ aquele dia ? ('^^) 
Alinha Taia : quanto eu pôde, 
logo servi cô alegria..» 

— «Muto cusa (i-"*-») de obrigado ; 
quanto cadéra, eu já lembra 

vai pedi cò Baroneza : ('•"'j 
elle bom, nadi négá. 

Mas vestido de madama i}'^') 
nòs unde logo pedi?. . .» 

— "^Taia, non mestê abdldl 
treze Pancha eu dd vesti. 

Vestido novo de Chica 
jâ fazê pâ core greza, ('•"*) 
renda riva de encarnado 
Pancha vesti, ficd ingle'za» C^'-'). 

— '-Eu nun sabe cô qui cusa ('*'>) 
logo págá tanto favor ; 

mas se Siára honra Pancha, 
na sua dia . sá melhor! ('''i) 

Non tên nada, minha Siára, 
pexe cuscús (^^'') cô brêdo- (i")^) 



sã festa de gente pobre 
logo cává ('-!) ben cedo. 

Eu logo mata dós ade, ("*) 

gente de gudao {^^') logo dà unga pirú, i}'*^) 

fréra-fréra (**") cunhecido 

logo manda gato som-som. ('***) 

Minha Pancha trabalha 
as vezes fora di óra ; 
pôco pôco já junta 
um cento pataca fora, (!''•') 

Anote como de dia 
custura nunca larga ; 
bate renda (i^"), fazê doce. 
Eu nun sa' que já junta. 

Desd' idade de doze ano, 
ganha pá umsomg vesti ; 
lává rôpa de sua pai, 
judá (i^ij cò ancusa (i^-) pá mi. 

Apa muchi (i'^) cô frutazi (''') 
só si dá, logo come ; 
quanto sapeca C^-") gánhà 
na cofre recolê. 

Agora pá aquelle dia 
já tira quatro pataca : 
três pá bolo laia-laia, ('■''') 
unga sã pá compra baça. ('j') 

Ah ! minha Siára nun sabe, 
man fichado qui fichado ! ('•''*) 
òvo de sua galinha 
guarda muto ben guardado. 

Pramicedo vên padêro 
tudo que tên vende ('■'") 
cada unga cinco sapeca 
vai lôgo na cofre enche. 

Justo quando ólá vên pobre 
três sapeca lôgo dá ; 
sua ropa um poço velo 
pá pobre nadi négá. 

— nBon rosto aquelle criança. 
Aquelle unga ar de acanhado 
mas doce, minha nhi Taia, 
cativa gente sua agrado. (/'■") 

315! mêo de nosso estaria 
sinti trás trás bate porta. 

— Rita, azinha, olá sã quim ? — 
Qui de Rita ? . . ■ Têfi na horta. 

Ah ! sã Sium ("■''), vên de Cidade, ('«-J 
lôgr querê trucâ rapa. 
Coitado ! cô este calor 
certo lô vên sópa-sopa.n 



6i 

Notas 



(i) Mco — meio. 

(2) ó/á — vi. 

Os verbos em macaista não se differenceiam nos modos e tempos, nem nas diversas pessoas do singular e 
plural. 

O iifinilo é formado. 

aj dos verbos portuguezes apocopando-se o r final, e accentuando-se em grave ou agudo a uliima vogal ; ex: 
bate de bater; come de comer, /a/Za, (fallar, dizer) grita, nega, etc. 

bl da mesma forma, mas também com syncope ; ex : ólá de olhar. 

cl do malaio e d'outras linguas; ex : cAwi/ (beliscar), cÃz/'/' (apertar), cA.TCiJ íesganar pela luicai, chiqui (es- 
ganar pela frente do pescoço) chuchu (espetar), capi, apertar. 

d) da forma portugueza do presente do inaicativo; ex: vén de vem {'ò.^ p. do s. do p. do ind. de viri que 
significa vir; vae que significa ir ; sã {ò." pessoa do plural do p. do ind. de ser) e que significa ser. Ex: Elle non 
pôde vai; elle non pôde vén (elle não pode ir. elle não pôde vir); vós non sabe sã home (vos não sabeis ser 
homem). 

O presente do indicativo é forma do : 

ai pela forma do infinito; ex : eu gosta de flor\ (eu gosto de floresi china come rato (o china come ratoi, eii 
ólá na jinella (eu vejo na janella). 

bl antepondo ao infinito a palavra tá ou tá (estou, estás, está, estamos, esiaes, estão); eu tá fa^é (eu estou 
iazendo ou laço). 

c; antepondo /í7 á tórma do presente (que exerce então o papel do infinilo, como vimos); ex : e7< /<i xr» (eu 
venhoi eu ta vai (eu vou). 

d) empregando uma forma do presente; ex: vós sá tolo (es ou sois tolo). 

ej empregando em certos casos na forma negativa a primeira pessoa do singu'ar do presente do indicativo 
para todas as pessoas d'esse tempo; ex : eu non quero, vós 7ion quero, elle non quero, nés non quero vosôtro non 
qwJro, illõtro non quero. 

O passado é formado pela forma fundamental do infinito, umas vezes só, como : óla, falia, (por vi, fallei ; 
outras vezes tendo o adverbio yá anteposto; ex; eu fá olá (olhei ou \\)Jáfallá, etc. 

O futuro exprime-se antepondo-se, em vez áejá, o adverbio lago: exemplo: eu logo vai (eu irei), eu logo 
fallá (fallarei), elle logo ólá (elle verá). 

Mas também logo tjá podem exprimir a fornia do presente; ex. : (jà vou ; vou já) Já vai; logo vai já. 

O imperativo indica-se pela forma fundamental pospondo-se-lhe a interjeição 7né; ex: bebé me\ (beba!;: 
fa-{é cama, mé\ (faça a cama, va!i. 

Ha exemplo de se empregar excepcionalmente o subjunctivo, ex : eu masqui se^a sá preto, sã honrado 
(apezar de ser (ou 7nesmo que seja) preto, sou honrado). 

Masqui vem do malaio. N'uma lista de palavras francezas e malaias, que possuo, vem masqui com a signi- 
ficação de malgre, apesar de. 

Se^a está por seja, mudando-sey em i; mas o curioso a notar e que a expressão masqui se;a exige ainda o 
verbo sã, como o leitor viu do exemplo. 

E' conveniente notar que na torma negativa emprega se o não (nun, non, nunca, 7iadii e os verbos do 
seguinte modo: 

No presente, certos verbos exigem o 7ion ou nun, ex. : non quero, nun sabe e não nunca quero nem nunca 
sabe; outros (principalmente os que são antepostos por tái o nunca — nunca cotné, nunca tá come, nunca fa-^é, 
nunca ta fa^é, etc, e não non come, nonfa^é, etc. 

No futuro, com o nadt (derivado provavelmente de não hadei exemplo : nadifa^^é, nadi queré íe não nadi, 
quéroi nadi come. por não farei, não comerei, não quererei, etc. 

No passado com o nunca ou com nunca já. ex. nunca fa^é, nimcajáfa\é, etc. 

l3i í/w^'íz. — Tmbem. se pode escrever unha. Um, uma. Não ha em macaista differença de géneros. Empre- 
ga se indistinctamente tanto o feminino acompanhado do masculino, como vice-versa; ex : unga palaquim, tanto 
pataca. 

(4i ^Palanquim — Diz-se também cadera, cadeira. Espécie de palanquim, muito vulgar para o transporte 
de pessoas em Macau e ainda mais vulgar antes da introducção dos carros japonezes oajinrick shás. As cadeiras 
são levadas por dois culis, ou chins carregadores, que appoiam as extremidades dos varaes ou ;7/k^'i7s aos hom- 
bros e não á maneira usada em Lisboa pelos que transportam doentes nas cadeirinhas. Ojinrick-shá é levado por 
um único chim á força de pulso. E parece impossível como sobem rapidamente as ladeiras com o seu fardo, saben- 
do-se que o alimento do carregador consiste n'um punhado de arroz, de hortaliça e d'uma pequena porção de 
peixe! 



62 



Ainda sobre este assumpto vide nota 134. 

(5) Dafundo — parou. 

(6) Sa' — sabe. .V«h sa' sã quim. — Xáo sei quem seja ou quem e. 

(7) Aginha — Depressa. E' termo portuguez antigo, dos muitos que o dialecto macaista conserva 

(8) Core vai. — Deve-se traduzir: core por correndo, e vai por fui, isto é, fui correndo para. . . 

(9) Bota — pôr; liga-se com core vai, isto é, core vai bota. E' curiosa esta forma da ligação de três verbos. 
(I0| Fallá — Disse. 

(ii| Elle — E' o pronome pessoal ella que não se differença do masculino. 

(12) Pà ou prà — para. 

(i3) Chómá — Chame. 

(14) Leva chá— E' costume em grande numero de casas macaistas offerecer chá ás visitas. E' uso chinez 
adoptado pela população portugueza. 

(i5) Garidona— Augmentativo de garida do portuguez ^'arr/rfa ; mas com significação bem differente n"este 
caso, porque, no reino, garrida, garridice, significam requinte de elegância no trajo e nos modos, ou pretençáo 
ou diligencia para agradar e seduzir, emquanto a Chica do conto em verso nem se penteava! Significa, em 
macaista, rapariga com a cabeça no ar, desleixada, etc. 

116) í\/jo«/ia — Menina solteira ou senhora casada nova. No dialecto de Cabo Verde ique nenhumas relações 
tem e fica tão distante de Macau), diz-se nhanka (no sentido de senhora de casa, mãe de família). — O diminuitivo 
de S'honha é em Macau nina, e em cabo-verdeano nlianhinha. O masculino de nlionha é nhon ou nhum (nhonhó 
em cabo-verdeano) e no plural nhum-nhum. Significa rapaz, mancebo, homem novo. Xhim, nhi, empregam-se 
em vez de nlionha, d'uma maneira mais cerimoniosa ou referindo-se a senhoras de certa edade, matronas. Ha 
também a registar o diminuitivo nhmina. 

(17) Z-õ^s-owfw/e — depressa. 

(18) Saram-murum — desgrenhado ou esgroiiviado. E' provavelmente originário do malaio. Também se diz 
em macaista esgrabiilado. 

[\g) Laia— espécie, casta. — N'este caso : oh que casta de preguiça 

(20) Quifoi — porque. Abi^eviatura àt porque foi. 

(21) Pramicedo — pela manhã cedo. 

(22) Quanto ve; — quantas vezes. — Mostra-se aqui a invariabilidade da forma para designar os géneros e o 
numero no dialecto de Macau. —Não ha, portanto, a forma do plural. Quando muito, repetem a palavra para desi- 

. gnar, o plural, segundo o syslema malaio : tudo nhum-nhum, tudo chinachina, todos os rapazes, todos os chins. 
(;3) Fállá — fallou. — Está aqui empregado no sentido de disse. 

(24) Chali — chaile. 

(25) Cór de ôlo defiguera. — Còr de rebento de bananeira. — Côr apreciada pela gente de Macau. Chamam 
os macaistas ás bananas _;i'^'os e ás bananeiras /i'^í^e/>íjs. Aos figos da Europa chamam jí^os de Portugal que se 
dão mal e pouco na nossa colónia, a não ser em certos quintaes de gente curiosa, adquirindo o fructo pouco des- 
envolvimento, mas um perfume muito accentuado e bem assim as folhas. São deliciosas as bananas de Macau ou 
que ahi são vendidas, trazidas pelos chins das terras próximas As de melhor qualidade são o figo choroso, muito 
notável pelo seu aroma e sabor; o figo d' horta, pequenos e muito gostosos, etc. Ha XAm\>tm ç> figo villáo, de 
maior tamanho, usado pela gente ordinária e comido geralmente assado ou frito. 

Não é só em Macau que se designam as bananeiras por figueiras Consta-me que na índia, em Moçambique 
e em certas terras do Brazil lhe dão esse nome e o de figos aos respectivos fructos. Fr. Gaspar de S. Bernardino 
e outros clássicos dão também ao Pomnm Paradysi o nome de figueiras da índia,' como se verá do estudo, que 
brevemente tarei n'esta revista, da flora de Macau. 

(26) Qui nova ? — Como está ? 

(27) Òro — ouro. — Está aqui por minha Jóia. 

(28) Sá qui laia — expressão admirativa ou interrogativa muito usada no dialecto macaista. Pode-se traduzir 
por: sã, é; qui, que: laia, maneira; isto é, de que maneira, como, etc. 

(2g) Ho^e — hoje. 

(3o) Xhonhonha — plural de nhonha. (Vide nota 16.) 

(3i) Ilótro — elles. — Tudo ilótro — elles todos. Os pronomes pessoaes em macaista, são: Eu, mi; vós; elle, 
umsong ; nós; vôsòtro ; ilótro, umsong. Não se emprega nunca o tu. 

(32) Brigado — obrigado. 

(33) Siára — senhora, mãe de familia, dona de casa. E' o feminino de Sium. Em cabo-verdeano nhára 

(34) Qiii cusa — expressão interrogativa que significa que coisa ? o que ? 

(35) .MasJui — vem do malaio — masqui se'{a — apezar de ser, ainda que seja, etc. Vide nota 3. 

(36) Óc/o — óculos. 

(37) Vela, — velha. Velho diz-se j-e/o. 

(38) Tudo-laia — toda a sorte, toda a qualidade. 



63 

(39) Mi^tiiha — Remédios. No sentido de clyster diz-se ajuda. 

(40, 41 e 42) Fuma — está aqui no sentido de defumar o corpo com ervas, como al/a^ona, alecrim, ele, re- 
médio muito usado entre o povo de Macau contra certas doenças. — Raspar mordicin é processo empregado tam- 
bém na medicina caseira e consiste geralmente em raspar a pelle com uma moeda de cobre (uma sapeca), de modo 
que o sangue atflue à epiderme fazendo uma nódoa negra ou violácea. E para aliviar dores e outros incommodos 
internos, chamando o mal a pelle. Chá de pélo-pé, peso, suador fresco, miyitiha sávan, faifum e maquinfum 
são processrs de cura empregados na medicina sino-macaista, muito curiosos, e que darão assumpto para 
alguns artigos sobre o methodo de curar dos chinezes, que tenho preparados para sahirem em devido tempo n'esta 
revista. 

(43) Prámór ou promòr de — por causa de. E' expressão portugueza, muito usada antigamente. Posso 
citar : 

«A mandarina encaminhou os padres para a corte (do Annam) acompanhados de umas meias galés de seu 
filho jt70r amor dos ladrões. . . -> (Padre ['""rancisco Cardini — Batalhas da (Zompanhia de Jesus). 

«... e veio com elle a Macau, disse que perguntando-se-lhe a elle a razão porque não hia o Embaixador, res- 
pondera que, por amor das letras do Cinkum. . .-> — (Relação da Embaixada que El-Rei Dom João V mandou, no- 
anno de J723 ao Imperador da fartaria e China, eic, pelo .padre Francisco Kuas, secretario da dita embaixada). 

«. . .por amor do livramento destes barcos tiiihão ido aos mandarys de Cantão. (Padre Luiz da Gama, auctor 
do ms., cuja publicaçáii encetei n'este numero.) 

(44) Siara sua pe — aos pés da senhora. Os pronomes possessivos são do seguinte modo: Meus, minhas, — 
minha, minha sua, eu sua; teus, — vosso, vosso sua; seus, (d'elle ou d'ellai — elle sua; noí,f,os,— nosso sua ; 
vossos, — vòsòtro sua; seus, (d'elles ou d"ellas) — ilôtro sua. 

(45) Tutumpiam —um estafermo; uma pessoa sem préstimo. 

(46) Proveta — aproveitar. 

147J Sã casa — está por si sã casa — se casar. 
(48) Nun sã ? — Não é assim ? 
(4q) Quilaia — como. 

(5o) Sucam — sucão — certo emprego que havia em navios mercantes de Macau. 
i5i) Mas certo — com certeza. 
(52) Xunca sã— se não fosse. 

i53) Quimão — casaco muito usado pelos antigos macaistas. A expressão quer dizer se não fosse Vicente^) 
a mãe não teria casaco para vestir». Chana é o diminuitivo do nome da mãe de Vicente. (Vide nota i23.) 

(54) Laia-taia — cusa lata-laia — coisas sortidas, bastantes coisas diversas. 

(55) Saracas. — Uma espécie de bioco ou mantilha usada ainda ha vinte annos pelas macaistas de ciasse in- 
ferior. Carlos José Caldeira, n'um artigo publicado no 1 vol. pag. 27S do Archivo Ptttoresco (i858) diz a esse 
respeito : 

«Mais adiante vão duas mulhores macaenses, envolvidas nas saracas, singular mantilha ou cobertura, so- 
mente usada em Macau. E' um grande panno ou coberta quadnlonga, de tecido de algodão, pintado de ramagens, 
ou listas de cores vivas e flamantes, apresentando como barra certos desenhos em bicos, que se podem dizer clás- 
sicos, porque os deve ter toda a saraça genuína. 

«Mesmo as mais tafulas macaenses, depois de vestidas, ás vezes ricamente, cobrem-se com a desgraciosa 
saraça, que Ibes envolve a cabeça e o corpo, e lhes esconde o rosto quando ellas querem Já um velho bispo de 
Macau declamou n'uma pastoral contra semelhante uso, dizendo que as mulheres com saraça pareciam pagagaios 
derrahados ; e, quanto a nos. tinha razão o bom do bispo. 

"Antigamente custavam muito caras as boas saracas, comprando-se ás vezes por quarenta e cincoenta pata- 
cas ou de quarenta a cincoenta mil reis ; porque só vinham da índia, onde se faziam e pintavam com esmero, ex- 
pressamente para Macau. Hoje estampam-n'as os americanos do norte e as vendem por baixo preço. Também são 
usadas saracas de seda preta para a egreja em occasiães solemnes, e como vestuário de lucto-n 

A respeito das taes saracas da índia a que se refere Caldeira, encontramos na obra de Fr. Gaspar de S. Ber- 
nardino, Itenerario da índia por terra (publicada em 161 1), uma allusão a esse artigo de vestuário que, segundo 
parece, não se asava só em Macau. Entre uns presentes, mandados dar a um regulo da ilha de S. Lourenço (Ma- 
dagáscar) pelo commaiidante da nau que naufragou nas costas d'essa ilha e em que ia Fr. Gaspar, figuravam os 
saracas da Jndia: 

o. . .para isto mandarão hum negro natural da ilha com barretes vermelhos, e saracas da Índia.. .» 

A saraça de seda preta, a que se refere Caldeira, chama-se em Macau do. Segundo me consta, ainda 
não foi completamente abolida pelas macaistas que usam d'ella por occasião de certas festas de egreja, actos so- 
lemnes, etc. 

E os biocos não são previlegio exclusivo de Macau. Em bastantes terras de Portugal e nas ilhas as mulheres 
os usavam e usam ainda, como veremos quando se tratar dos usos e costumes macaistas. A respeito de biocos e 
mantilhas publicou o illustre escriptor e erudito investigador sr. Alberto Pimentel um curioso artigo no Popular 
de 22 de Janeiro de 18Q7. 

(56) Respondencia. — iJinheiro a juros. 

(57) Virá man. — N'uma volta de mãos, n'um virar d'olhos. 

i58) Arro^. — Base da alimentação macaista e chineza. No reino dir-se-hia: '-em casa sempre ha pão.» 



64 

(59) í-ó por /óa'0 — logo. Ló vân — vira, hade %'ir. (Vide nota 2. 

(60) Aiá\ — Interjeição muito usada. Pode traduzir-se poi ota ! 

(61) Bafado, pussá bafado. — Cançado, sem poder tomar respiração, com falta a'ar. 

(62) Sã gente sita. — Tem dono, pertence a outra gente. 

(63 ) Eu sã quim ? — Quem sou eu ? 

(64 e 65) Moco nadi espera. — O palanquim, como vimos, (nota 4) é transportado por dois moços cu culis. 
Sendo o palanquim emprestado, os portaaores não gostariam da demora. Kun léu mas moço na mundo, quer dizer 
que se os culís se fossem embora, poder-se-tiia chamar outros para transportar o palanquim ou CíJí/era. E' o que 
faz muita gente em Macau ainda fioje. Possuem o iirinck shá ou o palanquim e, quando querem sahir, chamam 
uns culis a quem pagam pelo serviço que fazem e vestem com uma libré apropriada. 

(66) Ólá cara. — P"xpressáo affectuosa. Ha que tempos que 7ião lhe vi o rosto.' 

(67) Mercê recebe de siára. — Expressão de reconhecimento respeitoso d'um inferior para o seu superior. 

(68) Para a conversa (Vide nota 14) é obrigatório o chá para molhar a palavra, que, em Lisboa, costuma ser 
molhada com vinho. 

(69) Dom-dom — Levando ao collo com todo o cuidado. Esta quadra e as duas que se lhe seguem teem infinita 
graça e mostram o chiste do seu auctor. Lembra o cortejo dos qne acompanhavam o funeral de Malbourough, em 
que, segundo a conhecida cançoneta franceza, um dos otíiciaes levava a couraça, outro o espadão, outro o escudo 
e outro. . . não levava nada ! Pancha levava rebuçados ! 

(70) Juntado — i\inlo, juntamente. 

(71) Verna a^édo.— Pernas fracas, com tendência para se dobrarem. Certa doença de que se queixa a gente 
de Macau. 

(721 Estúrdia. — Estouvado. — Estúrdio é expressão bem portugueza. 

(7.'') Rede Chapado.— Sitio á beira mar, para além da montanha da Guia, a nordeste de Macau. Era logar 
favorito para passeio, pic-nics, etc. Mais adiante fica a praia de Cacilhas, celebre pelo desembarque e derrota dos 
hollandezes em 24 de Junho de 1Õ22. 

(74) Cap. — Cesto de transportar peixe. 

(75) Atai — Creado chinez de pouca edade. Rapaz. 

(76) Chaton. — Bule de chá, devidamente acondicionado n'um envolucro de junco enchumassado. 

(77) Capi. — Apertando ; levando debaixo do braço. 

(78) Tabu de linha. — Tábua em que se envolve a linha do anzol. 

(79I Tomtom. — Rebuçados. ' 

(80) Gente dá. — «Presente que me deram.» 

(81) Estes dois versos podem ser traduzidos aproximadamente por : Ah ! é deveras bem saboroso puxar (com 
a tal linha) n'um ápice dois peixes d'uma vez! 

(82) Chente. — Diminuitivo de Vicente. 

(83) Aguchan.— Agua chão — Não sei ainda a significação d'este termo. Pode-se traduzir talvez por 
«em pouca agua.» 

(84) Saião ou saián. — Na lista dos termos melaios e francezes, a que já me referi, vem a palavra sayang, 
com a significação de regrei (pena). Também tem esse significado em macaista e é assim que deve ser tomado no 
texto ; mas, em certos casos, exprime perfeitamente o sentido da nossa palavra saudade, como, por exemplo, na 
celebrada cantiga macaista (que transcreveremos n'esta serie de estudos) que termina com o terno estribilho: 

Ai.' saião sã qui saião. 
Alma, vida, coração! 

<85) Panhá subicalto. — Sobresaltou-se. 

(86) Bica. — Diminuitivo d'um nome qualquer de mulher que não tenho presente. N'outra copia, que possuo 
d" esta poesia, está Bica de Chico Bóncô «carcunda.» 

(87) Tamen ê, tâmarisca. — Também estava mariscando «Mariscar» é termo portuguez muito usado pelos 
nossos clássicos. No tom. i da Ásia de João de Barros (ed. de 17701, a pag. 120, vem : ». . .tomaram duas negras 
que andavam mariscando.» 

188) Nunca longe, nunca perto. — Pouco distante, alli perto. Sua fila companha. — Acompanhada de 
sua filha. 

(89) Oteii. — Ferro apropriado para despegar as ostras dos rocnedos. 

(90) Cudí — Acudir. N'estecaso: Acudam! 

(91 ) Janjan. — João. 

(92) Cacada. — Gargalhada. No dialecto norleiro da Índia (falado principalmente em Bombaim), de que es- 
tou recolhendo alguns elementos, também se diz cacada com essa significação. Tenho uma quadra que diz : 



65 



Pulga, percebeio 
casamentu jã pidi; 
carrapata que tinh' darmido 
cô cacada jà ergui. 

O dialecto norteiro de Bombaim é muito semelhante ao de Macau. 

(93 e 94.) Vai aginha.' ciidi nál—iVÁo depressa, acudamln Pode ser também que a intenção do auctor. 
«mpregando essa plirase, quizesse dar-lhe outra significação, isto é: «Ora adeus! temos conversado!» 

i95) Lagri. — Lagrimas. Lagri cacho-cácho. — Lagrimas como punhos. 

(96) De calado. — A' chucha calada, silenciosamente. 

Í97I Mulér-mutér. — .Mulheres. 

(98) Nunca sà, o mesmo que min sá. — Vide nota 48. Em outros casos significa «se não fosse», como vimos 
na nota 52. 

(991 Eu viráfálá có elle. — Dirigi-me a elle, dizendo-ihe. 

(100 e loi) Sopa-sopa de mulado. — Molhado como uma sopa, feito em uma sòua. 

(102,1 liacá. — Abaixar, baixar. N'este caso: baixou. 

(io3) Quimão, quiman. — Como ficou dito na nota 55, é um casaco de senhora, muito usado antigamente pe- 
las macaistas. Os melhores eram de seda. Ha uma cantiga ou lenga-lenga que diz : 

Lio-lio Jorcha vai Cantão, 
busca seda fazè quiman, 
novo novo, nhonha visti, 
velo velo, limpa chan. 

€m que lio-lio torcha significa «remando a lorcha» (barco chinez), ou, mais rigorosamente, «remando com um 
remo só e á ré, dando ao barco uma oscillação especial que vae embalando o tripulante ou passageiro^.. 

(104) Core caréra. — Correr carreira, dar uma corrida. N'este caso : deu uma corrida. 
(lob ] Pussá. — Puxar, puxei. 

(106) Nairo. — Peixe multo vulgar nos mares da China meridional. 

(107) Cate. — Peso chinez que tem variído segundo as localidades e as epochas ; mas pode-se calcular em 
604 grammas e 53 centigrammas (Ctiinese Commercial Guide, por Wells Williams, 5.* edição, pag. 280). 

(105) Saião. — Esta palavra, a que já me referi na nota 84, está aqui empregada como verbo. Eu saião. — 
Tive pena. 

( logl Cai sol — Ao pôr do sol. 

(iio) Chencho. — Diminuitivo de Lourenço. 

(111) Dá cór de si. — Deu accordo de si, tornou a si, deu sigaal de si, — de embebido que estava na pesca 
á chucha calada ! 

(112) Sã drâto. — E' direito, é justo. 

(ii3e 1141 Sã divera. —E' certo, certamente. Vem de deveras, que em portuguez também significa «na 
verdade, verdadeiramente». Sã divera sã drâto. — Na verdade é justo. 

(1 13) Mandou levar o chá como signal de ag,'adecimento peli Jine^a de Vicente, 
(iiól Oif — Interjeição chineza que pode n'este caso ser traduzida por «olhaín 

(117) Justo bebé chá. — Unicamente bebeu chá. Se o não bebesse, seria considerado como mal educado. 

(1 18) Umsong. — Uma das formas do pronome pessoal «ellen. 

(iiQ) Uarópa. — Peixe da família percidas fserranus scriba), muito vulgar nos mares da China meridional. 
Ha intenção no dito de Vicente. A garopa é um peixe grande e de boas formas. Referia-se, pois, a Pancha, com- 
parando-a com um peixe no mesmo sentido com que, em Portugal, se compara uma boa mulher a um peixão. 

(120) Prende. — Aprendeu. Tem uma grande ironia esta quadra e as seguintes, porque alludem á má e in- 
completa preparação que tinham os macaistas na escola de portuguez. 

(121) Cava. — Depois. Cava vem de «acabar», e também significa «terminar, acabar». 

(122) Via\i. — Viagem. Era o grande recurso dos macaistas, para se manterem, a vida de embarcadiço. 

(123 e 124) Lingu caregado. — Em macaista todos os rr são brandos, e não era fácil á gente de Macau pro- 
nunciar os )-)• fortes, á portugueza, como em berro, carro, ro.ia, etc. Mas achar r carregado em percebejo, é força 
de troça da parte do auctor ! 

(125) Kííj^ero.— Embarcadiço activo, que faz muitas viagens. 

(126) Ganéro. — Informam-me que era logar abaixo de dl-spenseiro nos barcos da praça de Macau. 

(1271 Havia eífectivamente em Macau bastantes senhorios de navios nos bons tempos em que os inglezes e 
outros não nos tinham desapossado da navegação e do commercio nos mares da Chma : — n'esses bons tempos em 
que ainda não existia Hong-Ivong e outros portos abertos ao extrangeiro e Macau tinha o monopólio do commercio. 



66 



(128) Mestc.~E' mister, é preciso. — jVon wes/c. — Não é bom, não é preciso. (Juando se recommenda cota 
empenho que se não faça qualquer coisa, dizse : Non mesté fa\é. 

(129) Co/wí:';'^^'^. — Receber soldada. 

(i3o) Iravalo ; vtesU' primero. — E' difficil (saltar de ganèro para mestre) ; é necessário primeiro. 

(i3i) De ficada. — E' portuguez puro e clássico, como muitos termos e locuções dos antigos tempos, que o 
dialecto ainda conserva. 

(i32) Dá vesti. — Dar vestir, que a v!sta (a Pancha). E' costume em Macau serem as noivas líM/Zíias pelas 
suas protectoras ou senhoras ricas. 

(i33) Cadera pra aquelle dia. — Palanquim para o dia do casamento. As pessoas ricas ou remediadas em- 
prestam para os casamentos das suas protegidas o melhor palanquim ou cadeira (Vide nota 4) que possuem, e que 
só é empregado pelas senhoras nas visitas de cerimonia ou quando vão á missa. São, em geral, forrados de vel- 
ludo ou panno fino azul escuro, tendo cortinas de seda ou setim, etc. As cadeiras para passeio|sáo de bambu, muito 
leves e commodas. 

(i34) Muto ciisa — Muita coisa isto é, muitíssimo. 

(i35) Baronesa. — Se a poesia que estamos annotando é do principio d'este século (vide as considerações 
preliminares que acompanham este artigo) referese á baroneza de S. José de Portalegre; se é de data mais re- 
cente, á primeira baroneza de Cercal. Em qualquer dos casos a qualificação de elte bom, — ella é boa, — é justís- 
sima, porque essas senhoras, ambas riquíssimas, faziam muito bem a pobreza de Macau. 

(i36) Vestido de madama. — Empregado no mesmo sentido que na metrópole. A noiva pobre paramentava-se 
com o fato das pessoas ricas e não era raro irem á egreja mulheres que mal tinham para se sustentar, de vestido 
branco e véu, já se vê, dados ou emprestados. O auctor carrega n'este ponto e na quadra seguinte a nota irónica, 
com o tal empréstimo do vestido com renda riva (riba, em cima de) de encarnado. 

(137) Corá gre:{a. — Visitar as egrejas na quinta feira santa, como na metrópole. 

(i38) Fica inglesa. —Outra nota irónica do auctor. Referencia ao modo estapafúrdio como as inglezas 
se vestem. 

(139) Cô qui cusa. — Com que coisa, de que modo. 

(140) Na sua dia. — Refere-se ao dia do casamento. 

(141) CttCíií. — Cosido ao banho maria. 

(142) Brédo. — Hortaliça, couves. E' termo portuguez e bastante usado pelos nossos clássicos. Posso citar: 

«Não comem (os brahmanes) carne, nem peixe, nem cousa que tenha còr de sangue; esta lie a razão de não 
comerem bredos vermelhos porque lançam de si agua vermelha...» (Padre Manuel Godinho 'Relacam do novo 
caminho quefn^ por terra e mar vindo da Índia, etc. (i663) » 

(1431 Ade. — Pato. Em portuguez chama-se adem ao pato real, 

(144) Gudáo. — Rez do chão, loja. Também significa armazéns, casas térreas para arrecadação de mercado- 
rias, etc. Na lista de palavras malaias e francezas, que possuo, está í^oudang com a significação de bureau, 
escriptorio. 

(145) O peru era raro em Macau e custava caríssimo. Não é vulgar no mercado. 

(146) Frera-frera. — Freiras. 

(147) Gato som-soyn. — Nome de certo doce ou bolo que se fazia nos conventos de freiras da cidade. 

(148) Um cento pataca fora. — Para mais ou'para cima de cem patacas. 

(149) Bate renda. — Bater renda, fazer renda. 
(ido) Judá. — Ajudar. 

(i5i) Ancusa. — Alguma cousa. 

(i52) Apa muchi. — Certa qualidade de apas ou pudins doces de farinha de arroz. As apas são muito usadas 
no Extremo Oriente e na índia. Pérsia, etc. 

(i53) Fr«/a{í. — Fructas. 

(i54) Sapeca. — Moeda ínfima de cobre ligado com estanho ou chumbo. E' sufficientemente conhecida e por 
isso só tratarei d'ella quando me occupar do systema monetário chinez. 

(i55) Bóio laia-laia. — Bolos sortidos. 

(i56) Baça. — Vacca. 

(i57) Fichado qui fichado. — O mais fechado possível. 

(i58) O padeiro em Macau também fabrica e vende bolos. Por isso comprava os ovos que a Pancha guardava. 

(159) Cativa gente sua agrado. — Consegue agradar a toda a gente. 

(160) Sium. — Senhor. O marido de Siára, o dono da casa. 

(161) Cidade. — Senado. N'esse sentido também é usado em portuguez para designar a municipalidade. 




(Extractos de jornaes e correspondências) 



SUMMARIO 

A expansão de Macau — A França e a Inglaterra perante a China — A attitude de Por- 
tugal — A projectada legação portuguesa em Pekim — O ?ninistro plenipotenciário 
deve ser o governador de Macau? — O embaixador arara avis» — .4 pirataria em 
Cantão — Um barco portugue:[ atacado pelos piratas — O caso da lancha « Taipinge» 
Falta de segurança no no dOeste — O que derem fa^er as potencias europeias — 
A colonisação de Timor com os emigrantes açorianos de Hawai — A propaganda do 
sr. Gago Coutinho — Os portugue:;es de Honolulú — A colónia portugue^^a no Japão 
— Manifestação a um cônsul — Um discurso do nosso Pierre Loti — Homenagem ã 
justiça do »Sol Nascente» — O christianismo no Extremo Oriente — Morte de dois sol- 
dados da Fé — O bispo de Kiang-nan — Cm jesuita benemérito — Amadre canossiana 
Adelaide Pietra. 



\ expannno de Macau. — Um artigo que ha tempos publicamos sobre este 
assumpto, conseguiu, felizmente, despertar a attençáo de parte da imprensa da capital 
para o perigo que ameaça esta colónia, em presença da constante approximaçao das 
possessões francezas e inglezas que tendemi a envolvel-a ou, antes, a teem envolvida, e 
das probabilidades actuaes do desmembramento do cadáver da China, levado em farra- 
pos na dentuça das nações europeias. 

Quanto á extrema decadência do império chinez e ás intenções que as potencias 
nutrem a respeito da sua partilha, são coisas tão manifestas, e tão reditas em todos os 
jornaes do mundo, até nos portuguezes (n'estes em noticias indiflerentes do estran- 
geiro !) que o repetil-as mais uma vez não pode já, sequer, offender a China. 

Quanto á occupação de pontos na visinhança de Macau pela Inglaterra e pela 
França, é facto consummado e também do dominio universal. A Inglaterra estendeu ha 
poucos mezes a sua colónia de Hongkong até á ponta de Lantau, á vista de Macau, e 
que por leste domina esta cidade absolutamente. A França occupou, também ha mezes, 
a ilha de Sam-Chao ('), com.o padrão do seu direito aos terrenos de oeste, quando fôr 
da partilha; e por mais de uma vez uma canhoneira franceza tem percorrido as aguas 



i') No seu numero de 22 de .A.gosto O Lusitano rectifica o engano. Sam-chao ainda não foi cccupada pelos 
trancezes. (N. do C.) 



68 



do rio d'Oeste, em cuja foz a cidade de Macau está situada, — decerto para affirmar a 
effectividade da influencia franceza na zona que vigia, e onde tem, ou pretende ter, in- 
teresses a salvaguardar. 

E, finalmente, quanto ao perigo para a possessão portugueza de não se tomarem 
immediatas providencias por parte do governo (e, porventura, quanto ao damno de ha 
mais tempo se não terem tomado) só pode não o ver quem não tenha olhos. A posses- 
são de Macau é apenas a península de Macau ('), occupada pela cidade do mesmo nome. 
Como todas as cidades, não vive de recursos próprios. Depois da fundação de Hong- 
kong, deixou de ser um entreposto do commercio entre o e.xtremo oriente e a Europa. 
Não tem industrias, que mereçam chamar-se taes; e que as tivesse, seriam mortas desde 
que o isthmo das Portas do Cerco, que liga a península ao território chinez, a ligasse 
ao de qualquer outra nação, á qual podesse aproveitar o assassinal-a. E o que com as 
verdadeiras industrias se realisaria, se as houvesse, mais facilmente se realisará com as 
espécies de commercio que a cidade entretém com o interior da China, — commercio 
cujo exercício, pela maior parte, como no nosso ultimo numero exemplificámos, não 
entra na cathegoria das profissões lícitas, mas das apenas toleradas por uma moral muito 
condescendente. 

E', pois, a questão que nos occupa, de vida ou de morte para esta colónia. Merece 
ser tratada por aquelles a quem, no reino, compete zelar pelo interesse nacional, e por 
meios que não sejam as phrases banaes gastas na ultima sessão legislativa, bem triste- 
mente reveladoras do alheamento em que vivem os nossos homens públicos a respeito 
dos objectos que melhor deveriam conhecer. Dir-se-hia, pela inconsciência vaga das per- 
guntas e das respostas, que Macau importa aos interesses portuguezes tanto como a 
Papuasia ou a Groenlândia. . 

Se a partilha definitiva da China, ou da costa da China, se fizer á revelia de Portu- 
gal, não serão necessários annos para que a cidade de Macau, isolada do mar pela bar- 
reira de lama que lhe veda o porto, envenenada pelos miasmas que já começaram a 
tornal-a doentia, e excluída de quaesquer relações com os chinas do interior, seja ape- 
nas um montão de ruinas abandonadas. 

Dos jornaes chegados de Lisboa pelo ultimo correio, dois dos mais considerados, 
o Diário de Noticias e O Economista, tratam em artigos editoriaes, referindo-se ao que 
escrevemos, de possibilidade de expansão de Macau. 

Transcrevemos a seguir o artigo do Diário de Noticias. E, se, obscuros trabalha- 
dores de tão longe, nos sentimos lisongeados no nosso amor próprio pela honrosa refe- 
rencia que nos faz o illustre diário da capital, não menos satisfeitos ficamos no nosso 
amor pela pátria, de vermos que em um jornal da metrópole ficam ao menos consigna- 
das algumas palavras de desalento sobre os perigos que ameaçam esta colónia e sobre 
as tristes condições do seu progressivo deperecimento. Se houver de se consummar a 
catastrophe, que ao menos a historia não possa ver no silencio da imprensa portugueza 
contemporânea o testemunho irrefragavel de que tenha sido uma obra de justiça, o me- 
recido castigo da nossa apathia, da nossa incúria, da nossa monstruosa ignorância de 
nós mesmos. 

O Economista não cita o nome do nosso jornal. Sobre o que diz «a imprensa de 
Macau, ou, pelo menos, parte d'ella» faz considerações vagas, entre humorísticas e phí- 
losophicas. 

Lamenta a injustiça das potencias para com o pobre império chinez, e receia que 
a febre colonial, de que padecem quasi todas as nacóes europeias, invada também Por- 
tugal. 

Se assírn tora ! . . 

Havemos de responder ao Economista (-), em um dos próximos números, para o es- 
clarecermos, não sobre questões transcendentes de moral e de phílosophia da historia, 
que não vaiem a pena discutidas a tal distancia, mas sobre Macau, — matéria restrícta de 
que o nosso illustre coUega, com pena o dizemos, conhece tão pouco, não obstante ser 
dos que mais assiduamente tratam os negócios ultramarinos. E para prova de que não 
o calumniamos basta o facto, confessado pelo conspícuo semanário burocrático, de que 
não sabe ao certo onde a cidade de Macau fica situada : quer-lhe parecer que é na ilha 
e districto de Heung-Shang. E' possível que depois de O Economista tirar as suas duvi- 
das seja melhor comprehendido o nosso desejo, — que não é precisamente o de nos 



(') Ha aqui lapso. A possessão de Macau não se compõe só da península, mas também das ilhas da Taipa e 
Coloan, occupadas por nós. E isto, sem contar as ilhas da Lapa, D. João e Montanha, não occupadas, mas que 
nos pertencem de direito, que deve ser sustentado pelo governo nas negociações que sefizerem. iV^ota do C.J 

(^) Effectivamente respondeu no seu numero de 22 de Agosto, que, por nos ter chegado ás mãos depois de 
composta esta secção, só poderá sahir no nosso ntimero de novembro. fXoía do Cl 



ÓQ 



associarmos aos mais fortes na violência iniqua contra os mais fracos, afim de obter- 
mos na expoliação, em que os outros se não contentam senão com provindas inteiras, ao 
menos um modesto districto. 



lO Lmitano (Maeauí de 12 de agosto) 



A projectada leeação em Pekiiu. — Diz o Mercury de Shanghai ter lido na 
Universal Ga^ettc que Portugal tem andado ha tempo em negociações com o governo 
chinez para o estabelecimento de uma legação em Pekin, e que se diz agora que em 
20 de junho foi nomeado um ministro que brevemente irá a Pekin entregar uma carta 
autographa d'e]-rei d^ Portugal ao imperador da China. 

Se o Mercury desse esta noticia como coisa da sua lavra, confessamos piamente 
que não nos importaríamos d'ella, pois que aquelle jornal anglo-shanghaense só por 
inadvertência é que alguma vez dirá a verdade em assumptos respeitantes a Portugal e 
aos portuguezes. 

Mas como elle imputa a paternidade da noticia á Universal Ga^^ette, o caso muda 
algum tanto de figura, e pode ser que tenha alguns visos de verdade. 

E nós bastante estimaríamos que eila eftectivamente fosse verdadeira, porque a 
creação de uma legação portugueza em Pekin é uma imperiosa necessidade que ha mui- 
tos annos se vem sentindo e se não deve protelar por muito tempo mais, se o nosso 
governo toma algum interesse pela prosperidade e o futuro de Macau. 

Até hoje, os ministros plenipotenciários de Portugal perante a corte da China, teem 
sido os governadores de Macau, perfeita anomalia de que nenhuma utilidade poderia 
provir para Portugal e para a sua colónia no sul do immenso Cathay. 

E tanto d'isso se capacitaram esses governadores-ministros, que só. três d'elles 
— visconde da Praia Grande, Coelho d'Amaral e 1 homaz Rosa — extraordinariamente 
procederam como taes. Quanto aos outros, foram deixando socegadas, nas gavetas das 
suas carteiras em Macau, as suas credenciaes de ministros acreditados perante o impe- 
rador do Celeste Império, para so se lembrarem de que também o eram perante o rei 
de Siam e o imperador do Japão. 

D'isto é que não quizeram ou não lhes convinha esquecer-se, seja por amor a uma 
viajata divertida ou a uma gran-cruz, ou ainda porque a missão fosse mais fácil, ou seja 
porque quizessem justificar de algum modo as despezas de representação inherentes ao 
cargo. 

E talvez que, obrando assim, procedessem criteriosamente, e evitassem a Portugal 
um enxovalho da parte da corte chineza, porque, como governadores de Macau, não 
gosavam das sympathias dos satrapas chinezes, e a celestial corte havia de, por isso, 
procurar humilhal-os e desconsideral-os quanto pudesse. 

Mas não é somente o facto de os ministros de Portugal na China serem governa- 
dores de Macau que lhes esterilisa e inutilisa a missão; é-o, principalmente, a circum- 
stancia d'elles estarem muito longe de Pekin, ignorarem o que alli se passa e não pode- 
rem estar sempre na brecha para advogar, defender e promover os interesses de Portugal 
no Celeste Império, como os outros ministros estrangeiros, acreditados perante a corte 
da China, o fazem respectivamente ás nações a que pertencem e representam n'ella. 

O nosso representante perante a corte de Pekin devia, portanto, ser desde ha muito 
tempo um diplomata especialmente nomeado para esse fim e com residência perma- 
nente alli, como os ministros das outras nações, para o cargo não ser uma sinecura 
como, infelizmente, o tem sido até hoje. 

E' por isso que desejaríamos que a noticia, dada pela Universal Ga^ette e reprodu- 
zida pelo Mercury, de que Portugal nomeou já um ministro para Pekin, fosse verda- 
deira, mas isto so no caso de o nomeado reunir as qualidades precisas para o bom des- 
empenho do cargo, e essas qualidades são : 

Ser um diplomata de carreira, hábil e instruído, e. sabendo bem as línguas franceza 
e ingleza, pelo menos; ser um homem serio, laborioso e activo, que esteja decidido a 
trabalhar e não encare o cargo apenas pelo seu lado rendoso e das honrarias; e, final- 
mente, estar perfeitamente conhecedor da situação de Macau e do que para beneficio 
d'aquella colónia se necessita obter da China. 

De outro modo, mais valerá o governo não pensar n'isso, porque um niinistro inex- 
periente, desleixado e tibío produzir-nos-ha mais mal que bem em Pekin, sabendo-se 
de mais a mais que os diplomatas chinezes são exímios em astúcia e machiavelismo, e 
que para lidar-se com elles com vantagem é preciso possuir-se não vulgar habilidade e 
finura, que não podem dispensar-se no ministro que Portugal nomear para Pekin, e 



principalmente agora que devemos procurar obter da China concessões importantes 
para a nossa colónia de Macau, saiientando-se entre ellas a da sua indispensável exten- 
são territorial e uma conveniente delimitação de fronteiras, sem o que aquella colónia 
permanecerá infezada e estacionaria e não verá brilhar-lhe a luz da prosperidade por 
que almeja, por se achar estreitada por linhas que não lhe permittem uma expansão 
profícua e útil até para a própria China, e nem sequer poder realisar os melhoramentos 
do seu porto como elles devem ser e como é de imperiosa necessidade que sejam. 

Em vista d'isto. ousamos esperar que a escolha de um ministro portuguez para 
Pekin recairá n'um homem que de todas as garantias de bom desempenho da sua ele- 
vada e difficil missão. 

O Pon-ir iHon£-Kon!:i de 22 de iulhoi. 



Como os leitores já sabem, a Universjl G^^ette publicou uma local em que diz que 
Portugal estava em negociações com o governo chinez para estabelecer uma legação em 
Pekim e que o respectivo ministro havia já sido nomeado em 20 de junho ultimo. 

As nossas informações, como dissemos, corroboram em parte esta noticia, pofs sa- 
bíamos que o governo portuguez se occupava d"este assumpto e que pensava em man- 
dar um enviado a Pekim para tratar de negociações diplomáticas. Se esse enviado, po- 
rém, já foi nomeado, ignoramol-o: comtudo, é bem possível que assim seja. E, n"este 
caso, só temos a regosijarmo-nos com tal medida, porque nos indica que o nosso go- 
verno despertou emfim do lethargo em que jazia, aitentando para as perigosas condições 
actuaes em que se encontra esta colónia: por isso a noticia da creação d"uma legação 
permanente em Pekim. ou a nomeação d"um enviado extraordinário para resolver as 
questões do momento, deve representar para nos, ao menos, a esperança de que este 
glorioso padrão das nossas passadas conquistas se não afundará ainda em completo an- 
niquilamento. 

Mas não basta isto : Macau tem direito a prosperar, a expandir-se: o seu engrande- 
cimento não depende apenas da regulamentação do commercio, mesmo em condições 
fáceis, com essas aldeias do rio de Oeste, ou da sua limitação territorial nos limifes em 
que se entendia segundo o tratado. Se a obtenção doestas pretenções representa real- 
mente um importante factor para podermos manter desafogadamente esta cidade ainda 
por alguns annos, não é, porém, isso condição bastante para a sua permanente existên- 
cia independente, para um largo desenvolvimento, para uma grande prosperidade. A 
principal fonte de receita não deixará por isso de continuar a ser a exploração do vicio 
com os seus monopólios do ópio, dos jogos do yjje-seng e do faut.in. com os impostos 
sobre a prostituição, e outros: mas esta principal fonte de receita acha-se ameaçada, 
como já em outros artigos o dissemos, com a acquisição pela França de territórios na 
nossa visinhança, visto ser de receiar que esta nação, cujo systema de administração é 
análogo ao nosso, venha a permittir essa exploração nos seus domínios, pois, a nermít- 
til-o, Macau decairá rapidamente, porque ninguém como os francezes teem artes para 
attrahir os ociosos. O commercio, só em si, d'esia cidade com os portos do rio de Oes- 
te, é insutícíente para manter esta colónia, pois luciamos com a absorvente competên- 
cia de Hong-Kong que abastece os mais importantes mercados dessa região. E depois 
esse cerco apertadíssimo em que as alfandegas chinas nos envolvem, ha de necessaria- 
mente matar nos mesmo este pequeno commercio. por melhores que sejam as conces- 
sões que n*este sentido obtenhamos do governo chinez, o que equivale o dizer de sír 
Robert Hart. súbdito inglez. que em prejuízo da sua nação não nos irá favorecer. 

Desenganemo-nos: — Macau, restricto a esta microscópica península, não poderá 
viver dos seus próprios recursos sem o fjn-tan, sem o ópio, sem a prostituição, e arras- 
tará sempre uma existência exígua e ephemera. A facilitação do commercio entre Ma- 
cau e os portos do rio de Oeste é bom, como bom também é o saberm.os por uma vez 
qual é aqui o nosso domínio; mas isso é tão comesinho, tão insignificante para as legiti- 
mas aspirações d'um povo, que, por tão pouco, dadas as condições da nossa má visi- 
nhança. quasi não valerá a pena mandar-se de Portugal um enviado extraordinário a 
Pekin, muito menos o crear-se ali uma legação, cujo pessoal (ministro, secretario ou 
secretários, interprete, e talvez addído) pago em oiro, absorverá o saldo annual desta 
província, sem que isso nos traga uma compensação condigna. Para tratar simplesmente 
d"aquellas duas questões, não é preciso que venha co reino nenhum enviado extraordi- 
nário, o que é altamente dispendioso : temos aqui o governador de Macau, que é nosso 
ministro junto á corte chineza, a quem o governo pode incumbir de tal missão : e para 
satisfazer ás occorrentes necessidades diplomáticas d"este palmo de terra, dispensamos 
o luxo d'uma legação permanente em Pekin: basta que, como até agora, esse encargo 
esteja confiado ao governador d"esta província. 



A verdadeira e rirme prosperidade do nosso domínio n'estas paragens, o solido fun- 
damento em que devem assentar as nossas pretenções para assegurarmos aqui uma per- 
manente existência de vida independente, tem de ser a expansão d'esta provincia por 
forma a abranger pelo menos o districto de Heung-san. N'este caso não teríamos de la- 
ctar com a invencível competência commercial de Hong-Kong, porque o commercío se- 
ria feito em nossa própria casa ; e o rendimento que d'el]e então nos adviria, junto ao 
da producção agrícola de tal território, garantir-nos-hiam só por si os meios sufficien- 
tes de vida, pondo-nos assim em condições de não nos arreceiarmos da visinhança 
da França, se, com os seus análogos processos d'administração ultramarina, fizesse de- 
rivar para si a exploração do vicio. 

Não sabemos o que o governo de Lisboa pensa a tal respçito ; se, porém, não é com 
este fim, de adquirirmos maior área para o nosso dominio na China, muito secundaria 
será, na verdade, a missão do novo diplomata. Em todo o caso, repetimos, a noticia 
dada pela Lu versai Ga^ettc, e em parte corroborada pelas informações que temos, re- 
gosija-nos sensivelmente porque nos mostra que os assumptos respeitantes a Macau, até 
agora tão descurados, estão sendo tratados pelo governo de metrópole, o que constitua 
para nós a legitima e ridente esperança de virmos a melhorar de situação. 

O facto recente, de que no nosso ultimo numero demos noticia desenvolvida, de 
uma lancha com bandeira portugueza ser atacada pelos piratas, em pleno dia, nas aguas 
do rio de Oeste, em que foi ferido gravemente o seu commandante — um portuguez, 
filho d'esta terra - vem-nos provar que a China não sabe ou não pode garantir o livre 
trafico nas aguas dos seus rios, abertos ao commercio. Se este facto, revestido de todas 
as circumstancias que se deram, occorresse com uma lancha ingleza, allemã, franceza, 
ou d'outra qualquer potencia, a estas horas já uma grossa indemnisação estaria prepa- 
rada para ser pedida a este paiz de somnambulos e de corruptos mandarins. E a indem- 
nisação naturalmente indicada, nos nossos casos, seria a doação ou mesmo o aforamento 
do districto de Heung-san, banhado por esse próprio rio. 

Ao vasto império chinez de pouco lhe serve tal districto ; para nós seria uma ri- 
queza. 

{O Liísiíatio. de 3o de julho.; 



* 



A pirataria em Cantão — O caso da laiiclia «Taiping». — No dia 20 
do corrente a lancha a vapor portugueza Taiping, que havia saido de Macau para Kong- 
mun no rio de Oeste pelas G V'2 horas da manhã, foi pelas 1 1 3/-, atacada por uma lan- 
cha de piratas na altura de Pac-quem-tan. 

Eis o caso como nos foi contado : 

A Taiping, de que é capitão o sr. Leocadio Capitulino Ozorio, avistou pela proa e 
navegando na mesma direcção uma lancha a vapor, que reconheceu ser a Hong-veng, 
muito conhecida por andar empregada no serviço de reboques entre Cantão e Samshui. 
e que por isso lhe não inspirou a menor desconfiança; como, porém, a passagem fosse 
apertada e a Hong-veng seguisse devagar, a Taiping apitou para lhe chamar a attenção 
e navegou a toda a forca para lhe passar adiante, vendo com surpresa ao approximar-se 
que a outra se lhe atravessava na proa, disparando ao mesmo tempo um tiro de peça e 
atirando-lhe em seguida um busca-vidas, com o qual a prenderam e obrigaram a parar, 
fazendo depois successivas descargas de fuzilaria. 

A guarnição da Taiping, assim surprehendida, lançou mão das armas e começou 
uma resistência, que parecia efficaz; mas, vendo que a sua lancha começava a ser inva- 
dida, desanimou e escondeu-se em baixo, abandonando o capitão, que se viu obrigado 
a esconder-se também. 

Os assaltantes tomaram então conta da lancha, obrigando o capitão a vir para cima 
e ferindo-o com um tiro de rewolver, transportando depois para a sua lancha toda a 
carga, a parte mais importante da qual eram 36 bolas d'opio, todos os valores que ha- 
via na lancha e que os passageiros levavam comsigo, e ainda um china passageiro e o 
ajudante do comprador. 

íendo então vista a distancia a lancha portugueza \'a-on, que vinha de Kongmun 
para Macau, os assaltantes abandonaram a preza ô seguiram na direcção de Kongmun, 
passando distante da Va-on, que felizmente se não lembraram de atacar e que facilmente 
teriam roubado, porque a guarnição, suspeitando o que se passara, se havia escondido 
em baixo cheia de terror. 

Da Taiping ficou ferido o capitão; e um dos tripulantes, que com medo se lançara 
ao mar, foi morto a tiro; na Hong-veng diz- se que ficaram mortos dois dos seus vinte 
■e tantos tripulantes. 



72 

A Tãiping, depois de reaccender os fogos, que tinha sido obrigada a apagar, e de 
communicar á Va-on o occorrido, seguiu para Macau, onde entrou ás 4 '/v horas da 
tarde. 

Parece que a Hong-veng está ha cinco dias em poder dos piratas, pois que ha tan- 
tos que se dizia ter desapparecido. 

fO Lustlano de 21^ de julho. 1 
* 

Ha tempo a esta parte succedem-se sem interrupção os actos de pirataria na pro- 
vincia de Quang-tung e^em outras partes da China, sem que da parte das auctoridades 
chinezas, parece que acobardadas pelas ameaças dos piratas ou interessadas na divisão 
das suas presas, se tomem as medidas de rigor e de perseguição, que n'outros paizes 
de ha muito, se teriam tomado. 

Tinha acabado de entrar no preio o nosso artigo edictorial em que alludimos ao 
caso do ataque á lancha portugueza Taiping no rio de Oeste, quando recebemos a se- 
guinte noticia de Cantão, que transcrevemos na integra e que nos é dada por pessoa fi- 
dedigna, garantindo por isso a sua veracidade: 

«Os negociantes de seda (em Cantão) estão afflictissimos por causa dos grandes 
obstáculos e até impossibilidade que encontram em poderem trazer para aqui, dos dis- 
trictos productores, a seda de que precisam para satisfazerem aos grandes pedidos fei- 
tos por diversas casas da Europa. 

Os piratas, espalhados por toda a parte e contando com a impunidade, não permit- 
tem a saida das embarcações com quaesquer carregamentos de seda de Sae-chio, Yong- 
kio, Lacklow e outros pontos, sem que se lhes pague primeiro a fabulosa importância 
que elles estabelecem como imposto de passagem pelas suas aguas! 

O desgraçado que se recusa a satisfazer ás suas exigências ou pretende regatear 
com elles, fica sem a seda e é preso até que os seus parentes e amigos o venham liber- 
tar a troco de milhares de taeis. 

Os negociantes, cheios de pavor, procuraram ultimamente o vice-rei, a quem en- 
tregaram uma exposição dos factos que se passavam, pedindo a protecção a que tmham 
direito. 

A resposta dada por aquelle primeiro magistrado da provincia, a quem ali está con- 
fiado o poder superior, demonstra que é indispensável que as nações europeias não pa- 
rem no caminho já encetado do esphacelamento da China, com o que, todos os chinas 
bons e o commercio em geral, teem tudo a lucrar. 

Disse aquelle magistrado: «Estou veJho, cançado e decrépito, por isso preciso de 
viver socegado; reunam os signatários da representação toda a gente de que possam 
dispor, que é muita, e vão bater os piratas prendendo- os e trazendo-os depois para Can- 
tão! !•> 

Os chinas fabricantes de seda que teem os seus contractos para cumprirem dentro- 
de certos prasos, notificaram estes factos ás firmas extrangeiras contractantes, mglezas, 
francezas, e allemãs, pedindo a intervenção dos respectivos cônsules afim de obrigarem 
o vice-rei a perseguir a pirataria. 

O caminho a seguir não é esse: o que convém ao interesse dos próprios chinas, 
que se vêem sem segurança quanto ás suas pessoas e propriedades, é as nações que teem 
interesses a defender e vidas a proteger aqui na China, assentarem na melhor forma de 
se fazer o resto da partilha d'este solo de bárbaros e de rapinancia, e cada um tomar 
conta do que lhe couber, cônscio de que pratica não uma espoliação, mas um acto de 
justiça e de segurança própria, vista a successão continua de ataques contra a vida e 
propriedades dos diversos súbditos d'essas nações espalhados pelo território chinez. 

Para nós, portuguezes, o ferimento feito ao sr. Osório, capitão da lancha portu- 
gueza Taiping, dá-nos todo o direito a uma exigência condigna, que certamente o go- 
verno não deixará de ter feito, mesmo porque seria para lamentar que se deixasse pas- 
sar desapercebida uma tal occasião para, por uma vez, firmar e assegurar os nossos 
direitos de soberania até onde os possamos extender. 

As grandes nações, que ultimamente tanto teem manifestado a sua sympathia pelo 
nosso paiz, certamente nos coadjuvarão nas justas exigências que fizermos. 

fO Lusitano de 3o de julhoj. 



Continua a occupar vivamente a attenção aqui o nefario assalto de piratas de que 
a lancha a vapor portugueza Taiping foi victima ha dias no Rio de Oeste. 

Hoje que já temos mais pormenores sobre aquelle insólito crime, vemos que a lai- 



ping não podia evital-o, pois que nenhuma desconfiança tinha a respeito das malvadas 
intenções da gente da lancha assaltante, que ninguém, a não serem as auctoridades chi - 
nezasí podia suppor que fosse uma quadrilha de infames bandidos. 

De facto a lancha em que elles deram o assalto é a Hongveng ou Hungma, muito 
conhecida no Rio d'Oeste e da qual os piratas estavam de posse ha uns quatro ou cinco 
dias, sem que a tripulação da 1'aiping o soubesse. 

Mas como é possível que as auctoridades chinezas o ignorassem ? 

Deve notar-se que a Hongveng andava empregada no serviço de reboques entre 
Cantão e Samshui, e que os piratas não a podiam ter roubado, armado e guarnecido 
como fizeram, sem que o facto tivesse feito algum ruido e sem que o desapparecimento 
d'ella do serviço em que andava empregada fosse notado pelos srs. mandarms e os seus 
subordinados. 

E' portanto, mais que provável que elles tivessem conhecimento d'isso, mas que, 
na forma do seu costume, nenhumas providencias quizessem tomar para dar caça aos 
bandidos e garantirem a segurança das outras embarcações que navegam no Rio de 
Oeste, onde os piratas é que parece que estão dictando a lei. 

Desde que aquelle rio foi aberto ao commercio internacional, a pirataria tem alli 
campeado infrene e irreprimida, nada tendo feito as auctoridades para que cesse um tão 
intolerável estado de coisas, e chegando mesmo a parecer que, se não teem medo dos 
bandidos, estão coiligadas com elles, tanto mais que o que succede no Rio de Oeste está 
succedendo também em toda a região dos dois Kuangs, onde a segurança de vidas e 
propridades está sendo zero, fazendo os bandidos toda a classe de exacções sem que o 
vice-rei mande força sufficiente para os capturar e punir, ou sem que a mande a tempo. 

Tratando d'este assumpto diz com sobeja razão o Dayli l^ress: 

«A extensão pelos piratas da esphera das suas operações a navios do Rio de Oeste 
com bandeira estrangeira é provável que traga mais proeminentemente a situação das 
duas províncias (os dois Kuangs) ante as potencias estrangeiras. 

O commercio é grandemente obstruído pelas interferências dos ladroes e piratas 
com guarnição nativa; isto torna-se uma offensa intolerável quando esta interferência 
se extende a' vapores estrangeiros. Quando os vapores estrangeiros, por causa da sua pe- 
quena guarnição, são audaciosamente detidos, o capitão morto a tiro ou posto Jiors de 
conibat, e os passageiros e a sua bagagem violentamente removidos, torna-se isto uma 
questão de por quanto tempo mais nos submetteremos a tal coisa. Um correspondente 
suggere que outra canhoneira a Snipe, seja também coUocada no Rio d'Oeste para aju- 
dar a patrulhar esta via aquática, e a idéa é boa e pode ser adoptada justamente.» 

Depois, referindo-se ao caso da Taiping, diz o nosso collega inglez : 

«Com resp.eito á tragedia da Taiping é de esperar que o governo portuguez exija 
completa satisfação do ultraje e que o pedido seja adequadamente apoiado pelas outras 
potencias, especialmente pela Gran-Bretanha. O primeiro passo a dar é agarrar os ho- 
mens que feriram Osório ('), e o outro insistir sobre castigo adequado. Finalmente, deve- 
se insistir por ampla compensação pelas perdas e afflição que os piratas fizeram soffrer 
á gente a bordo da Taiping. 

Suppondo, entretanto, que tudo isto é obtido, não restaurará ainda assim as vidas 
sacrificadas nem, por algum tempo ao menos, restabelecerá confiança nos espíritos dos 
negociantes; nem alliviará os productores de carga do perigo suspenso sobre elles, e 
que serve para paralysar os seus esforços para desenvolverem o commercio. Se a livre 
navegação das grandes vias fiuviaes do í^ul da China teem de ser uma valiosa concessão 
para asnaçÕes de tratado, a pirataria agora desenfreada nos dois Kuangs deve ser posta 
lõra com mão firme. 

Deseja o vice-rei fazel-o, e tem meios para levar a sua intenção a cabo ? 

As auctoridades inglezas não duvidarão cooperar com canhoneiras, mas não podem 
policiar o rio gratuitamente.» 

A isto accrescentaremos nós que não o devem fazer. 

O que nos parece que as nações interessadas no assumpto, e não somente a Ingla- 
terra, deveriam fazer seria tornar' a China responsável pela insegurança que para os es- 
trangeiros actualmente ha no Rio d'Oeste, obrigarem-n'a a pagar por bom preço os pre- 
juízos que elles alli soffrerem, e, no caso de as auctoridades chinezas terem medo dos 
piratas ou estarem coiligadas com elles, occuparem essas nações os pontos principaes 
do rio e fazerem a policia d'elle á custa da própria China. 

E esta linguagem entendel-a-ha ella melhor do que qualquer outra. 

fO Ponnr de 29 de julho). 



Cl No numero 52 áo Liis/íano. de 20 de Agosto, chegado pela ultima mala, já veiu noticia de que tinham 
sido presos pelas auctoridades chinezas oito dos piratas que se acham nas prisões de Namhoi e Punyn. /iV. do CJ 



74 



* 
# * 

A colonização de Timor c o» eutigrunten «Io lla%vaii. — De algum 
tempo para cá, tem-se manifestado entre muitos dos nossos compatriotas residentes no 
Hawaii uma corrente favorável a abandonarem aquelle paiz, que hoje está annexado á 
America, e onde teem a arrostar com a funesta competição no trabalho que lhes fazem 
os emigrantes chinezes e japonezes, e irem estabelecer-se como colonos na nossa ubér- 
rima possessão de Timor. 

Oxalá que não esmoreçam de tal idéa, cuja realisação tanto pode ter de proveitosa 
para elles como para aquella importante colónia, infelizmente inexplorada até hoje, mas 
que, com uma boa colonisação, não deixará de progredir rapidamente, fazendo ao mesmo 
tempo a fortuna dos colonos. 

A estes estamos certos que o governo não deixará de fazer todas as concessões ra- 
soaveis e de isemptar de direitos aduaneiros d'entrada, em Dilly, as alfaias agrícolas de 
que precisarem, bem como os objectos para sua installação que seja necessário irem 
de fora. 

Quanto á segurança de vidas e propriedades dos colonos, não duvidamos que o go- 
verno proverá, ainda que qualquer aggressão da parte dos indígenas nos pareça pouco 
provável, pois elles não ousariam atacar 200 ou 3oo europeus corajosos e valentes, mas 
como o governador do districto dispõe de mui diminuta força militar regular, para se 
evitarem aggressóes ha remédio fácil no armamento dos colonos que, dirigidos pelo 
commandante militar da sua área, não só reppelliriam com extrema tacihdade as hosti- 
lidades dos indígenas, mas até se imporiam ao respeito d'elles, contribuindo não pouco, 
com o seu próprio prestigio e a sua força, para a tranquillidade do districto e o respeito 
á auctoridade 

Largo e auspicioso futuro terão adeante de si os portuguezes do Hawaii ou outros 
que, como colonos agrícolas, se forem estabelecer em Timor. 

Assim lh'o vaticinamos, certos de que não nos enganaremos, e é com summo jubilo 
que estamos vendo desfazer-se a lenda terrorista que tem afTastado d'alli a colonisação 
europea e os capitães que com grandíssima brevidade lhe imprimiriam um enorme 
progresso. 

No Hawaii fez desapparecer, com as suas informações leaes e patrióticas, essa lenda 
terrorista e exicial o i." tenente Gago Coutinho, illustre official da nossa armada, que 
ultimamente serviu em Timor e conhece perfeitamente todo o districto, o seu clima, 
recursos, fertilidade e riquezas inexploradas. 

Visitando Honululu, na sua viagem de regresso a Portugal, foi intervistado por al- 
guns dos nossos compatriotas alli residentes, que lhe pediram informações e esclareci- 
mentos sobre a nossa pérola da Oceania, e deu umas e outros de modo tal que a cor- 
rente de emigração portugueza do Hawaii para Timor parece estar em via'de verdadeira 
execução, e oxalá que assim seja. 

Para o nosso collega o Jaiso, desvelado órgão da communidade portugueza do 
Hawaii, escreveu o illustre official de marinha, a pedido da redacção d'aquelle jornal, o 
seguinte artigo que gostosamente transcrevemos; 

A ilha de Timor é o uliimo despojo que nos resla do nosso outr'ora vasto dominio na Oceania; é a metade 
apenas portugueza Oriental da ilha, e depois de concluídos os últimos trabalhos de delimitação da fronteira en- 
tre os domínios portuguez e hoUandez, fica bem definido o que é nosso e a nossa acção colonisadora pode e deve 
continuar com energia, para não ficarmos peraidos para traz na luta encarniçada pela existência que o novo século 
vae presenciar, 

Timor e montanhoso, e, com excepção dos pântanos da costa, o clima é bastante salubre e mesmo fresco; 
não é esta_ a crença geral, por causa das informações dos que teem ido a Timor, geralmente funccionanos públi- 
cos que não passaram de l)illy ou dos outros pontos da costa; mas os que teem vivido no interior gosam Saude e 
não podem queixar-se de maneira alguma do clima. 

O indígena de Timor e, em geral, inditferente pelo commercio ou pela agricultura commercial ; a terra dá- 
Ihe o algodão com que se veste, o milho, a batata e o arroz que come, o pasto para os cavailos e outros animaes 
domésticos, a madeira, o bambu e a palha com que constnie as suas casas, o tabaco que masca, a «toácan com 
que se embebeda; não precisa de mais nada; e esta fertilidade da terra, que é vantajosa para o europeu alli esta- 
belecido, tem por outro lado a desvantagem d'elle não poder contar com o trabalhador a troco de pagamento, por- 
que o indígena não tem necessidades e é de resto de uma raça muito atrasada, e, portanto, não ha incentivos Das- 
tantes para o obrigar a trabalhar. 

A terra e rica : além de minas de ouro. ferro, cobre, petróleo, ainda não exploradas, e outras que nem mesmo 
são conhecidas, porque a ilha ainda não foi percorrida por engenheiros de minas, o terreno é fértil e produz o café, 
o cacau, o assucar, o tabaco, a borracha, o sândalo e outros vegetaes ricos^ Até agora so o café e o sândalo são 
exportados, porque pouco desenvolvimento lem tido a agricultura ; o café é de superior qualidade e obteni sempre 
o melhor preço que nas índias hollandezas se paga por café imais de '3o patacas mexicanas por picoj para o mistu- 
rar com o café de Java afim de valonsar este. 

Uma companhia portugueza que se formasse com pequeno capital sufiiciente para as primeiras despezas de 
installação de uma colónia agrícola em uma das melhores regiões da ilha. como são, Dor exemplo, as montanlias 
de Fátuméan, poderia em poucos annos progredir muito e concorrer poderosamente para o desenvolvimento da 
ilha, ao passo que os colonos teriam assim um meio fácil e suave de enriquecer em terra portugueza. O governo 



porluguez não recusaria decerto o seu transporte de vela «Pêro d'Alemqueni para transportar para Timor os pri- • 
meiros duzentos colonos que do continente ou das ilhas alli quizessem ir estabelecer-se com suas famiiias : de Ho- 
nolulu iria o pessoal director e os mestres práticos de agricultura, e o governo de Timor daria o pequeno pessoa! 
militar sufficientc para proteger a colónia contra os possíveis mas improváveis ataques dos poucos indígenas que 
actualmente vivem em Fátuméan. 

Náo poderia, é certo, esta colónia contar com a ajuda permanente do trabalho dos indígenas; mas pelo me- 
nos para os primeiros trabalhos de construcçáo de casas, de preparação dos terrenos e hortas, assim como por 
occasião das colheitas poderia o governo do districto, com uma pequena pressão sobre os indígenas, obrigar es- 
tes a trabalhar nos terrenos da colónia e é natural que pelo habito os indígenas tomnssem gosto ao trabalho con- 
venientemente remunerado, e que a colónia pudesse desenvolver-se sem ter necessidade de aujmentar o numero 
dos primeiros colonos. Seria este, sem duvida, um bom emprego para os capitães portuguezes que hão de ficar 
disponíveis depois da rápida transformação que a annexação das ilhas de Hawaii ha de arrastar pela grande af- 
tluencia do capital e do trabalho Norte Americano. 

Eis o esboço das ídéas que as minhas viagens através de Timor me sugeriram e que a prosperidade da coló- 
nia portugiieza de Honolulu me mostrou ser perfeitamente pratico e exequível pelos mesmos portuguezes, que, 
chegados a Hawaii como colonos pobres, hoje formam a colónia rica, honesta e cívilisada que eu ultimamente tive 
occasiáo de admirar. 

Gago Coutinho. 

Pacifico, 24-5-99. 

(O Porvir, de i5 de julho.) 
* 

Parece que a patriótica propaganda do i.° tenente Gago Coutinho em favor da nossa 
Cintra da Oceania, vae já produzindo os desejados effeitos. 

Na sua viagem de regresso á Europa, passando por Honolulu, julgou o illustre offi- 
cial da nossa armada conveniente altrahir para solo portuguez, e, principalmente para 
o solo de Timor, uma emigração valiosa e, a todos os respeitos.^ digna de consideração. 

Achando-se em meio dos' nossos compatriotas do Honolulu, desvendou-lhes os se- 
gredos que a ilha encerrava; demonstrou-lhes o interesse que podiam auferir, indo colo- 
nisar aquella terra, e a fortuna que teriam em perspectiva fixando-se n'ella. 

Timor não e um matadouro, como alguns descontentes lhe hão chamado. Pode ser 
um Éden, ou, ao menos, uma cousa parecida a isso, quando se arrotearem os seus cam- 
pos, quando uma agricultura bem dirigida alli assentar os seus arraiaes, para o que, in- 
felizmente, se não pode contar muito com a cooperação do nativo, extremamente amante 
da ociosidade. 

Toda a gente sabe que o indigena, embalado pela folha amoravel da bananeira, só 
procura repouso e que negligencia atrozmente o trabalho. 

Corno attrahil-o a outra ordem de idéas e fazer-lhe perder a sua tradiccional pre- 
guiça ? 

' Cremos que só a colonisação europeia o conseguirá, porque a força do exemplo e 
o estimulo valem muito, são poderosos agentes civilisadores. 

Também d'essa colonisação brotará a civilisação do indigena, para não dizermos a 
domesticação d'elle, pois, com pesar o dizemos, apesar do nosso dominio tri-secular em 
Timor, o timorense tem-se conservado quasi estacionário no seu selvagismo primitivo, 
pouco ou nada tendo avançado na senda do progresso. 

E', pois, com bastante prazer que vemos estar próxima a derivar-se para a nossa 
despresada pérola da Oceania uma utilíssima corrente emigratoria portugueza europeia. 

Ao que parece, vão inicial -a os nossos compatriotas que actualmente se acham em 
Honolulu, e julgamos que fazem bem e que não terão de que arrepender-se. 

Assim o lemos no Luso, que é quem dá esta boa nova, que em seguida transcreve- 
mos, fazendo ao mesmo tempo sinceros votos para que ião patriótico e utilitário pen- 
samento passe em breve do campo da iniciativa para o da pratica e da realidade. 

Para nós é ponto de fé que este principio de colonisação será a aurora do progresso 
para Tirnor, e que os colonos que alli forem estabelecer-se não só promoverão a ri- 
queza do districto como farão a fortuna própria, e com mais facilidade do que em terra 
extranha, attentas as probabilidades de bom êxito. 

Segundo lemos no Luso, a empreza da primeira colónia portugueza no Honolulu 
para Timor assenta em bases solidas, e é de crer que o governo lhe fará todas as con- 
cessões compatíveis com as circumstancias, pois que o contrario seria de ma politica. 

Pela nossa parte estimaremos que tal empre;'a vá avante e não ííxca fiasco, porque 
isso seria uma dolorosa desillusão, e aos seus iniciadores julgamos dignos dos maiores 
encómios, bem como de todo o appoio da parte dos poderes públicos. 

Posto isto, eis o que a tal respeito diz o Luso, orgáo da communidade portugueza 
no Hawaii : 

«Domingo ultimo foi organisada n'esta cidade, com cerca de 3o membros, uma associação denominada «A. 
Associação Portugueza Colonisadora de Timor» 

Os patr 
ram promov 
tempo se 



nente Coutinlio n"esta cidade, pelas informações recebidas d'elle se convenceram não só da possibilidade de pro- 
mover a emigração como do bom êxito d'ell;i. 

Na reunião foi a Associação orgaiiisada com oliiciaes temporários ate que obtenliam o numero sufficiente 
para a primeira emigração, quer dizer, não menos de cem familias, depois do que serão eleitos officiaes perma 
nentes. 

Foi resolvido n'aquella reunião: 

I. A nomeação duma commissão composta dos srs. J. M. Vivas, A. G. Siiva Jr., J. F. Souza, M. G. St' 
,Anna e J. S. Ramos, com o sr. M. M. Ferreira como substituto, para considerarem as applicaçóes dos pretenden 
tes emigrantes. 

II. Que cada applicante deve depositar no praso de três mezes a quantia de 5o dollars, cuja quantia será 
para quaesquer despezas feitas com a empreza conforme fôr deliberado pela maioria dos cem emigrantes. 

Para arrecadar e deiiositar estas quantias foram nomeados três curadores da Associação, os quaes passarão 
recibos pelas mesmas e as depositarão em nome da Associação, até que seja deliberado que disposição farão d'a 
quelle capital os membros da Associação. 

III. Que fosse aberta uma lista para esse fim (a qual se acha no estabelecimento do sr. A. G. Silva Jr.). 

IV. Logo que o numero de applicantes chegue a cem ser chamada uma reunião geral da Associação. 

V^. Que fossem communicados ao Governo de Portugal, por intermédio do Representante de Portugal n'esta 
cidade, estes factos, suggerindo ao nosso Governo n'essa commuiiicação as concessões e privilégios exigidos pela 
Associação e requerendo outras concessões e privilégios. Devenao a resposta a este communicado chegar aqui 
pelo tempo em que o capiíal subscripto deve estar depositado pelos membros da Associação. 

Esta Associação foi organisada numa base solida è no intuito de ir avante esta empreza que poderá trazer 
a fortuna não só aos membros d'esta Associação, como a muitos outros patrícios que para o futuro emigrem ou 
d'aqui ou de seu paiz para aquella riquíssima Colónia Portugueza.n 

íO Porvir, de 12 de agosto.) 



O» porf ii;;uexo.«i no •Papã.o. — Começou a vigorar desde 17 do corrente o 
novo tratado japonez com as nações cultas, que acaba com o direito de exterritorialidade 
e colloca os súbdito^ extrangeiros residentes no Japão no mesmo pé de egualdade com 
os japonezes. 

Eftectuou-se a transição de um estado de coisas para outro, do antigo para o novo 
regimen, com um fingido pesar, dissimulando alegria, da parte dos residentes extrangei- 
ros, ainda que é extensa em demasia a lista dos registos com que os estrangeiros teem 
de conformar-se, e muitos d'esses registos são extremamente absurdos. 

Em virtude da nova situação politica, deixou Kobe, desde o dia 17, de estar sob a 
regência municipal de que sempre gosára, sendo a concessão formalmente entregue ao 
governo japonez n'aquelle dia. 

— Os portuguezes de aqui acabam de, por despedida, fazer uma bella manifestação 
de apreço e reconhecimento a M. P. de Lucy-Fossarieu, cônsul de França e ex-encarre- 
gado do consulado de Portugal n'esta cidade, presenteando-o com um lindo tinteiro de 
prata e penna de ouro, que custaram uns i35j'ens, e apresentando-lhe um address com 
uma elegante cajm. de xarão, com as armas portuguezas, que custou ma^is de 5o yens. 

O tinteiro tem gravada a seguinte inscripção : 

Em testemunho de gratidão 

otTerecido ao 

111.'"" e Ex."'" Sr. P. de l.ucy-Fossarieu 

Pelos portuguezes de Kobe 

O sr. Fossarieu, agradecendo o brinde, louvou altamente os portuguezes de Kobe, 
mas, sincero e leal como é, não pode deixar de dizer que lastima deveras que, n'uma 
communidade tão pequena como a portugueza, não reine a maior união e harmonia 
como devia ser. 

E" do theor seguinte o address que lhe foi apresentado: 

«Nós, abaixo assignados, membros da pequena colónia portugueza de Kobe, temos a honra de expressar a 
V. ex." a iiossa profunda gratidão pela enérgica protecção que sempre dispensou aos nossos interesses durante a 
sua gerência do vice-consulado portuguez d'este porto. 

Na difficii situação dos portuguezes no Japão vimos constantemente que nos era feita justiça, e certamente 
devemos a sua intelligencia e zelo não ter peiorado a nossa posição. 

Todos de nós que tivemos precisão dos seus serviços fomos sempre alegremente recebidos, e é por esta e 
outras razões que v. ex." tem direito á nossa gratidão. " , 

Pedimoslhe permissão para lhe otferecer este tinteiro de prata e penna d'ouro como testemunho dos nossos 
sentimentos, e, ainda que é de pequeno valor, pedimos-lhe que o acceite como souvenir da sua administração 
d'este vice-consulado e de nós que estivemos sob a sua administração. 

O Omnipotente lhe dè e á sua querida familia longa vida e todas as prosperidades » 

Este honroso e justo documento está escripto nas linguas franceza e portugueza. 
(D'uma correspondência de Kobe datada 29 de julho e publicada n'0 Porvir de 12 de agosto.) 



N'um banquete dado, no dia 1 1 do mez passado, pelo governador de Kobe em honra 
do visconde Aoki, ministro dos negócios extrangeiros do Japão, e ao qual assistiu tam- 
bém o corpo consular, proíeriu o sr. Wenceslau de Moraes, nosso cônsul em Kobe e 
Osaka, o seguinte discurso em francez: 

(lExcellentissimo senhor, sr. Ohmori, e meus senhores: — Dentro de poucos dias entrarão em vigor os no- 
vos tratados, e eu jiiIf;o-me justificado para dizer que a maioria dos residentes extrangeiros encara o tuturo não 
sem apprehensáo certamente, mas ao menos com os sentimentos de expectativa experimentados quando se está 
na véspera de entrar-se n'um novo e pouco commum estado de cotias, ao tempo em que a nossa honra e hberdade 
vão ser confiados as mãos dos juizes japonezes. Como representante de uma communidade europea que, devido a 
circumstaucias especiaes, está sob a jurisdição japoneza ha sete aniios, estou em posição de attesiar o estricto 
sentido de equidade e imparcialidade invaiiavelmente mostrado pelos tribunaes japonezes quando qualquer dos 
meus nacionaes tem estado sob a jurisdicção criminal do império, e expressar a minha convicção, baseada nos re- 
sultados d esta longa experiência, de que os extrangeiros descobrirão em breve que sob tal jurisdicção encontra- 
rão as mesmas salvaguardas e garantias, o mesmo bom e tranquillisador tratamento que tem gosado sob a applica- 
çáo da sua própria iei e a jurisdicção dos seus próprios tribunaes Senhores eu brindo a macistratura japoneza, 
representada aqiii esta noite nas pessoas do sr. Chiba, presidente do Cliiho Saibansho, e sr Kegami, procurador 
em chefe do mesmo tribunal, e e para mim um grande prazer poder fazel-o na véspera do dia em que o Japão en- 
trará na communháo das nações occidentaes, como representante de um paiz cujos navegadores, negociantes e 
missionários, foram os primeiros a iniciar esta Terra ao boi Nascente no conhecimento d'essas nações do Occi- 
dente.» 

lO 'Porvir, de 12 de agosto). 
* 



O christiaiiisnio no Eoctrenio Ofie,nte. — IMorte de dois aoldados da Fé. — Pe\o te- 
iegrapho acaba de chegar a triste e dolorosa noticia da morte de monsenlibr João Baptista Simon, um dos orna- 
mentos da Companhia de Jesus, bispo titular de Kian-nan, sagrado em Shanghae, onde era vice-reitor do collegio 
de Zi-lia-wei, a 25 de junho do corrente aiino. 

Contava apenas 53 aniios d'edade e i3 de missão na China, apresentando uma certa robustez que promettia 
mais longa vida. 

Não ha pormenores sobre o que predeterminou o finar-se tão inesperadamente uma vida tão preciosa. 

O prelado extincto era francez, natural de Nantes, onde um seu irmão, também sacerdote da Companhia de 
Jesus, tanto se affeiçoou ás missões e coisas portuguezas, que pediu para ir missionar para a nossa Zambezia, onde 
se nacionalisou nosso compatriota e onde actualmente esta prestando grandes serviços na missão do Zumbo. 

Este extincto prelado passou quasi todo o tempo da sua missão em Nankin, antiga capital do celeste império. 

Em 1897 foi nomeado parocho dos portuguczes em Hong-lien. Em i8g8 foi chamado á vice-reitona do colle- 
gio de Zi-ka-\vei, onde o surprehendeu a nomeação para bispo no presente anno, sendo sagrado na egreja de que 
era parocho a 24 de junho do presente anno. 

F.ra dotado de tal caridade e maneiras tão attrahentes que até entre os próprios gentios contava numerosos 
ami|;os. Falava perfeitamente o mandarim e o ha e escrevia. Pela sua virtude e talento era apreciado e muito pro- 
curado pelos mandarins, que com elle tratavam muito de perto. Em S lianghae era o pae e o protector de todos os 
portuguezes, que n'elle perderam o melhor dos amigos e o mais disvelado dos protectores. Tantas virtudes e tão 
acendrado amor de Deus e do próximo chamaram-n'o á recompensa soberana, que Deus reserva aos seus amigos 
e servos lieis. Descance em paz tão bella alma! 

(O Lusitano, de i3 de agosto;. 



Depois d'uma pertinaz bronchite que a fez guardar o leito por espaço de 20 dias succumbiu a 22 de junho, 
na Casa de Beneficência de Dilly, de que era muito hábil directora, a madre Pietra, com 62 annos d'idade e 20 de 
permanência em Timor, empregados no mais aturado trabalho e na]mais acrisolada dedicação pela civilisação 
d'aquelles povos e principalmente pela educação das creanças d'aquella remota ilha oceânica. 

Oriunda de Itália e tendo nascido na cidade de Pavia, onde está fundado o i.° e^itabelecimento canossiano, 
logo que professou revelou a mais decidida vocação para as missões do oriente. 

Como, porém, se evidenciasse a sua aptidão para dirigir e presidir ás casas da formação das noviças, foi por 
muito tempo detida em Itália e aproveitada esta sua aptidão nas casas do noviciado da ordem. Todas as vezes que 
alguma caravana de religiosas da sua ordem ou d'outra se dirigia ao oriente, lá ficava « madre Pietra suspirando 
e com abundantes lagrimas pedindo a Deus, dias e dias diante do Santíssimo Sacramento, para lhe ser concedida 
igual dita. 

Depois de tantas supplicas, ouviua o Bom Jesus e foi no meio da mais viva alegria que recebeu a ditosa no- 
ticia de que também sairia para as missões. 



7^ 

Em 1874 veio mandada para Macau onde se abriu a primeira casa do instituto canossiano na freguezia de 
Santo António. 

Como o antigo superior das missões de Timor, mais tarde bispo d"esta diocese, requisitasse estas religiosas 
para Timor, para ahi partiram em 1S78, um anno depois da mstaliação da nova missão portuguesa n'aquelia ilha, 
as madres Adelaide Pietra, Izabel Sequeira e Júlia. 

Tiveram, porem, a infelicidade de naufragar, e perderam tudo o que levavam para aquella missão, salvando 
a custo as suas vidas. 

Já entáo, durante as peripécias do naufrágio, o animo e coragem das duas religiosas Adelaide Pietra e Izabel 
Sequeira, sempre companheiras, eram objecto de admiração para todos os tripulantes e passageiros. 

' Tendo conseguido regressar a Macau n'um vapor que as foi buscar á ilha deserta, em que se relugiaram, 
voltaram no anno seguinte para Timor. 

Foram alli recebidas com grande alegria e enthusiasmo pelos governador e superior da missão, mas tiveram 
que ir residir em casas particulares sobre o pântano e sem condições algumas hygienicas para alli poderem viver 
convenientemente. 

Passados 3 mezes perderam uma das suas mais hábeis e prestimosas companheiras, a madre Júlia. 
Muitos foram os trabalhos e muitissimas as difficuldades que a principio tiveram que luctar. nao sendo das 
menores o não quererem os habitantes de Dilly entrégar-lhcs as suas filhas por causa de superstições e vãos receios. 
Mas tantas ditTiculdades e embaraços souberam vencel-os a virtude, o bom modo e a paciência de tão exem- 
plares e boas religiosas. 

Passados 4. ou 5 annos de lucta com os costumes e com o clima, conseguiram obter um edifício relativamente 
bom, se bem que mal situado, que o governador Lacerda lhes fez construir e que o fallecido bispo Medeiros lhes 
comprou para n'elle se recolherem, edifício que hoje se acha muito augmentado e modificado, sendo uma das pri- 
meiras, senão a primeira, casa da cidade de Dilly. 

Dizer os sacrifícios, historiar os revezes e contar o numero de difficuldades e embaraços de todo o género 
com que teve de hictar o animo varonil e imperturbável da madre Pietra na organisaçáo da sua cruzada do bem, 
n'um paiz tão remoto e quasi selvagem como é Timor, seria empreza que e.xcederia muito os limites d'um simples 
artigo consagrado á memoria de tão benemérita bcmfeitora de Timor. 

Durante o período de 20 annos, entregues ao mais assiduo trabalho e á mais escrupulosa solicitude pela edu- 
cação e direcção das'creanças timorenses, grande tem sido o numero das educadas e enormíssimo o das converti, 
das, inclusive famílias inteiras; e até as próprias professoras das escolas profíssionaes, que. o governo promoveu e 
montou foram alumnas a'estas santas religiosas. 

E tudo isto é sem duvida devido a sabia direcção e á firmeza de caracter da intelligente madre yVdelaide Pie- 
tra. Hoje as religiosas são tão procur.idas e consultadas pelas famílias timores, como por estas o são os seus ami- 
gos mais prestimosos e prudentes. 

Já havia annos que o animo emprehendedor e activo da boa madre Pietra pensava na fundação d'uma nova 
casa de educação da sua ordem na villa de Manatuto. 

Em 18117, logo em seguida ao fallecimento do chorado bispo Medeiros, foi inaugurada aquella residência para 
o que muito contribuiu a boa vontade e coadjuvação do actual governador de Timor. Cremos que ainda esta boa 
madre, digna nlha da marqueza de Canossa, pensava e revolvia na sua mente a fundação duma outra casa que ir- 
radiasse a virtude e a instrucção lá para alguma das provindas d'oeste da villa; mas. Deus achava-a já sazonada 
para tal messe e foi por isso que, acrisolada com tantos trabalhos e rica de merecimentos e boas obras, ceifou esta 
vida tão exemplar, tão santa e tão heroicamente votadas á causa do Bem, que não duvidamos affirmar que no céu 
está a gosar da explendorosa coroa dos seus serviços e virtudes. 
Lux ceterna liiceat et. Amen. 

lO Lusitano de ?o de julho). 




EXTRACTO DO CATALOGO 



DA 



Antiga Casa Bertrand-José Bastos-Lisboa 



Arle da Caça de .4ltaneria, por Diogo Fernandes Ferreira, 2 vol. — 800 réis. 

Atraiez dos Mares. Recordações da índia, por Oliveira Mascarenhas é Antunes 
Monteiro. 1 vol. illustrado com muitas estampas. — 1$000 réis. 

Breve Relaçslo da Embai.iíada que o l*atriarclia D. «loão Bermu- 
<les trouxe do Imperador da Elhiopia. Preste «Poão. 1 vol. — 
800 réis. 

Cartas de AlToiíso de Albiiquercfue. seguidas de documentos que as elu- 
cidam. 1 vol. — 1$000 réis. 

Clironica d'El-Kei O. Fernando, por Fernão Lopes. ^ \o\. — 1$200 réis. 

Clironica €l'KI-Rei ». «loão I, por Fernão Lopes. 7 vol. — 2$800 réis. 

Clironica d*El-Hei it. Pedro I (o Crú ou Justiceiro), por Fernão Lopes. 1 vol. 
— 400 réis. , 

Como se perdeu Ormuz, processo inédito do século xvi, por Luciano Cordeiro. 
1 vol. — 700 réis. 

Commentarios do grande /tfTonso de .4lhu«iuer4ue, capitão das ín- 
dias Orientaes, em 1774. 4 vol — 1$200 réis. 

Coisas da Cliína. costumes e crenças, por Callado e Crespo. 1 vol. — 700 réis. 

De PortuiS^al a Calecut, monographia, por Cavalleiro e Sousa. 1 vol. — 300 réis. 

Década I (xiii) da Historia da índia, por António Boearro. 2 vol. — 2$000 réis. 

Décadas da Ásia, por João de Barros e Diogo do Couto. 24 vol. — 7$500 réis. 

Descoberta da Índia contada por um marinheiro, por M. Pinheiro Chagas. 
1 vol. — 600 réis. 

Documentos arábicos da Historia Portu^ueza, copia dos originaes da 
Torre do Tombo, por João de Sousa. 1 vol. — 500 réis. 

Documentos remettidos da índia ou livro das monções. 3 vol. — 3$000 réis. 

Dois capilães da índia, documentos inéditos entre os quaes, diversas certidões 
autographas de Diogo do Couto, por Luciano Cordeiro. 1 vol. — 400 réis. 

Dos feitos de D. Cliristovam da Ciama, por Miguel Castanhoso. 1 vol. — 
700 réis. 

Eluci<lario das palavras, termos e frases que em Portusal anti- 
samente se usaram, por Fr. Joaquim de Santa Bosa de Viterbo. 2 vol. — 
2$000 réis. 

Ksmeraldo de Sitii Orbis, seguido de numerosos documentos relativos ao 
auctor, collecção de fac-similes de estampas dos documentos reproduzidos. 
1 vol. — 3$000 réis. 

Etbiopia Oriental, por João dos Santos. 2 vol. — 1$500 réis. 

Frei «.Gonçalo Vellio. por Ayres de Sá. 1 vol. —3*500 réis. (Frei Gonçalo Velho 
abriu o 'caminho da índia indo muito alem do Bojador, á Terra Alta em 1416, 
e ás índias Occidentaes, descobrindo os Açores em 1431); edição illustrada com 
estampas coloridas. 

Flora de Cioa a Savantvadi. Catalogo met. das plantas medicinaes, alimen- 
tares e industriaes, por Mgr. Dalgado. 1 vol. — 800 réis. 



EXTRACTO DO CATALOGO DA ANTIGA CASA BERTRAND 



llíNtoria da Proviíioia de §»aiila Ci-iik a que vulgarmente chamam — Bra- 

zil — por Fero Magalhães Ganduco. 1 vol. — 200 réis. 
UiMtoria do deMcolirinionlo o cnnqiiÍNla da índia polON |»oi*tus;ue- 

WA-H. por Fernão Lopes de Castanheda. 7 vol. — 9$000 réis. 
IIÍHtoría doN portu^taexcM no llitlaltar, Zinadim, Mss. árabe do século xvi. 

1 vol. — 1$000 réis. 
Iliiopadexa ou instrucção útil, versão do sãoskrito, por Mgr. Dalgado. 1 Vol. — 

800 réis. 
índia (A) Cliri»*tíl ou Cartas Biblicas, por Pinto de Campos. 1 vol. — 1$500 réis. 
índia (A) Portuu:uexa. Breve descripçào das Possessões Portuguezas na Ásia, 

por Lo2:)es Mendes. 1 vol. — 4f 500 réis. 
infante (0) I». Pedro. Chronica inédita, por G^aspar Dms Landí/n. 3 vol —700 réis. 
índice Clironoio;;ieo das navegações, viagens, descobrimentos e conquistas 

dos portuguezes nas praças ultramarinas, desde o principio do século xv. 

1 vol. — 200 réis. 
Itinerário da Índia por terra até ã illia de Clijpre. 1 vol. — 500 réis. 
Itinerari«» em que we contém como da índia vei<» por terra a es- 
tes reinos de Portugal, António Tenreiro. 1 vol —600 réis. 
«lornadas pelo mundo, por Bernardo Pmdella (conde de Arnoso). 1 vol. — 

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L.endaM da Indâa, por Gaspar Correia. 8 vol. — 8$000 réis. 
Manual para o estudo do sãosKristo clatssico. por Vasconcellos Abreu. 

1 vol. — 1*500 réis. 

]%o Orieoíte. — I>e í^íapoles á Cliina. Diário de viagem. Por Adolfo Loureiro. 

2 vol. — 1$400 réis. 

Ordenações da índia do Itei n. llanuel. 1 vol. — 200 réis. 

Órfãos (Os) de Calecut, romance histórico, por Lopes de Mendonça. 1 vol. — 600 réis. 

Pereg^rinação de Fernão Mendes Pinto, contendo o itinerário de António 
Tenreiro, a conquista de Pegú. Tratado das coisas da índia, por Fr. Gaspar da 
Cruz. 4 vol. — 2$000- réis. 

Premio (O) da descoberta. Uma certidão da Casa da índia, por Luciano Cor- 
deiro. 1 vol. — 500 réis. 

Princípios elementares da gramimatica da ling^ua sãosSirita. — Pho- 
nologia. 1 vol. — 700 réis. 

Relação e descobrimento de Flórida. 1 vol. — 300 réis. 

Relação dits coisas cgue o capitão n. Clii-ístovam da Ciama fex nos 
reinos «le Preste «Doão, por Miguel Castanhoso. 1 vol —200 réis. 

Resposta e reflexões á carta que o bispo de Cocliim escreveu ao 
arcebispo de Cangranor sobM>e a sentença de Mala^içrida, 1 vol. 
— 700 réis. 

Subsídios para a Historia da índia Portusueva. contendo: — IO livro 
dos pesos e medidas e moedas. II O Tombo do Estado da índia. III Lembran- 
ça das coisas da índia, 1525. 1 vol. — 1$000 réis. 

Traços do Extremo-Oriente, por Wenceslau de Moraes. 1 vol. — 500 réis. 

Verdadeira informação da terra do Preste «loão das Índias, por 
Francisco Alvares. 1 voh — 1$200 réis. 

Vestiís^ios da líng;ua arábica em Porlug;al ou Liexícon etimológico 
das palawras e nomes portuguexes que teem origem arábica. 
por João de Sousa. 1 vol. — 500 réis. 

Tida de D. João de Castro, por Jacintho Freire de Andrade. 1 vol. — 300 réis. 

'%'ida e feitos de D. Manuel, por Jeronymo Osório. 3 vol. — 1$200 réis. 

"Vida e viagens de Fernão de Magaibães, por Diogo Barros Arena, trad. 
de Villas-Boas. 1 vol. — 800 réis. 

Revista Liuxitana, archivo de estudos philologicos, pelo Dr. Leite e Vasconcel- 
los. — 2.<*, 3 e 4 " anno, cada — 2$000 réis. 

Pbilologia (A) Portuguexa, pelo Dr. Leite e Vasconcellos. 1 folh. — 200 réis, 

Poesia amorosa do povo portuguez, pelo Dr. Leite e Vasconcellos. 1 folh. — 
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Dialecto miraiidex, por Moraes Ferreira. 1 vol. — 700 réis. 



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(Comprovação de duas façanhas) 




HiLippE 2.° de Hespanha e 1.° de Portugal, seguindo na esteira de 
Carlos V, sustentando a guerra na Hollanda e querendo exter- 
minal-a a ferro e fogo; prohibindo o accesso dos navios nner- 
cantes hollandezes aos portos da monarchia hespanhola e prin- 
cipalmente ao de Lisboa, deu causa, sem querer, á prosperidade e ao bem 
estar dos seus inimigos. 

O intuito do rei hespanhol era impedir que os hollandezes continuassem 
a obter os meios com que negociavam e se enriqueciam, e, por consequên- 
cia, os recursos para sustentarem a guerra contra as tropas hespanholas, 
que desvastavam as terras de Flandres. 

Ora é sabido que os hollandezes serviam de intermediários na venda 
das mercadorias que abarrotavam os armazéns da Casa da Índia, trazidas 
d'essas longes terras da pimenta, do cravo, da noz moscada e de tantas 
preciosidades aromáticas com que os portuguezes despertavam o embo- 
tado paladar europeu. 

Eram os hollandezes, por assim dizer, os nossos melhores freguezes. 
Compravam-nos as especiarias e, com um certo lucro, vendiara-n'as ás ou- 
tras praças europêas. 

A medida prohibitiva do seu figadal inimigo iria reduzil-os á miséria; e, 
com a miséria, perderiam a independência, porque ficariam sem os meios 
necessários para luctarem contra o invasor. 

Foi então que, obtendo estímulos no próprio desespero, se lembraram 

N.o 2. — Novembro de 1899. I 



8o 



de ir procurar as drogas e especiarias orientaes por um outro caminho que 
não fosse frequentado pelas frotas portuguezas e hespanholas. Tentaram ir 
á China e d'ahi ás Molucas pelo norte da Sibéria, atravez dos mares gela- 
dos, com que se acostumariam mais facilmente do que com os ardores e 
inclemências d'uma travessia pelo Cabo da Boa Esperança, até então envol- 
vido nos negrumes do Mar Tenebroso — negrumes ainda não completamente 
dissipados a outros olhos que não fossem os dos portuguezes e hespanhoes. 

Armaram os mercantes diversas frotas que, sob o commando de Gui- 
lherme Barentsz, Jaques Heemskerk e de tantos outros, tomaram o cami- 
nho de Nordeste, e, seguindo pela costa septentrional da Sibéria, se di- 
rigiriam para o Cathay — o grande e mysterioso império chinez — e d'ahi 
ás Philippinas, ao Japão, ás Molucas; emfim ás terras em que abundavam 
essas riquezas que haviam de dar em pouco tempo a prosperidade á Hol- 
landa, tornando-a no mais rico dos paizes europeus. 

Mas a barreira dos gelos tornara infructiferas todas essas viagens e já 
os hollandezes desanimavam quando decidiram tomar outro rumo, devido 
a uma circumstancia que convém relatar. 

Estava em Lisboa, por esse tempo, um hollandez, chamado CorneiiO' 
Houtman, que teve artes para se insinuar no animo de muitos portuguezes, 
que, sem querer ou levianamente, o informaram de todas as circumstan- 
cias relativas ás viagens dos navios que se dirigiam ás índias Orientaes e 
d'ahi voltavam, carregados com as mercadorias tão appetecidas. Houtman 
foi tomando nota de tudo, dando conhecimento d'esses assumptos aos 
commerciantes de Amsterdam. Descoberta a inconfidência, foi Houtman 
preso, visto serem absolutamente prohibidas, pelas nossos, quaesquer in- 
formações d'esse género aos paizes estrangeiros. D'essa prisão só Houtman 
se poderia livrar mediante o pagamento d'uma elevada multa que, em breve, 
foi satisfeita com o dinheiro dos negociantes flamengos. Houtman, livre, di- 
rigiu-se á Hollanda; deu todas as informações que lhe pediram; enthusias- 
mou os commerciantes ; fez com que organizassem a Companhia dos paizes 
longínquos, que armou uma frota de quatro navios, cujos nomes eram Mau- 
licio, Hollanda, Amsterdam e Pombmho. O Maurício tinha por commandante 
o próprio Houtman. Isto passava-se no anno de 1595. Dois annos depois 
voltaram esses navios carregados de poucas mercadorias; mas tinham ar- 
rostado com o terror do Mar Tenebroso e conseguido achar nas ondas 
espumantes do Oceano os sulcos dos nossos navios para lhe indicarem o- 
caminho dos paizes das riquezas. Houtman, depois de reconhecer as cos- 
tas do Brazil e da Africa, de ter tocado em Madagáscar e nas Maldivas 
foi direito ao Archipelago de Sonda. Carregou de pimenta em Java e, depois 
de alguns combates, voltou ao paiz natal, para dizer aos seus patrícios que 
o grande caminho, já não devia metter medo a homens valentes e audacio- 



SOS e que o mar supportaria sobre o seu dorso espumante nautas de todas 
as nações, como por tanto tempo encheu de afagos os portuguezes e hes- 
panhoes, até então os dominadores do Globo pelas suas armadas e pelas 
suas riquezas. 

Estava devassado o segredo por tanto tempo cuidadosamente guardado 
pelos navegadores peninsulares. Estava aberto o caminho para os holian- 
dezes e para os seus futuros competidores, os inglezes. D'ahi em diante 
principiou a grande lucta gigantesca e heróica que os portuguezes susten- 
taram, desajudados dos seus dominadores hespanhoes, nas duas Índias, 
contra os soldados negociantes das duas companhias hollandezas, que se 
fundaram depois, e mais tarde se ligaram n'uma só com o titulo de Compa- 
nhia das índias Orientaes. 

Vencedores na America, vencedores em Angola, vencedores na índia e no 
Extremo-Oriente, tivemos por fim de succumbir, porque não ha heroísmo 
nem valentias que possam sustentar guerras sem dinheiro e sem soldados. 
Os nossos melhores cabos de guerra eram distrahidos para Flandres e para 
a Itália, onde os hespanhoes tentavam sustentar, nos últimos arrancos, os 
restos do seu poderio. 

Todos os nossos recursos eram absorvidos pelo governo de Madrid,, 
que deixava ao desamparo essas vastas colónias que Portugal ainda pos- 
suía nos dois hemispherios. 

Mas o heroísmo portuguez brilhou durante mais de cincoenta annos 
com um grande fulgor, n'essas terras que foram o theatro de passadas e 
explendorosas glorias. Brilhou como uma luz que, prestes a apagar-se, lança 
os últimos clarões vívidos e rutilantes no meio da escuridão. 



Referindo-se a essa lucta, houve um escriptor extrangeiro, Raynal, que 
vomitou esta falsidade : 

«Não ha n'isso (nas derrotas dos hollandezes) motivo para causar espan- 
tos. Os portuguezes, quando chegaram á Índia, só tinham de combater: no 
mar, navios fracos, mal armados e mal defendidos; em terra, déspotas vo- 
luptuosos e escravos trémulos: emquanto os que vinham arrancar-lhes 
o sceptro da Ásia, tinham de tomar por meio da abordagem navios seme- 
lhantes aos seus; tomar de assalto fortalezas regularmente construídas; 
vencer e subjugar europeus, ensoberbecidos por um século de victorías, e 
pela fundação d'um império immenso.» 

E quem escreveu isso foi o mesmo que em innumeras paginas da 
mesma obra se contradiz, narrando as épicas façanhas dos portuguezes 
contra os poderosos príncipes indianos, dirigidos por turcos e venezianos; 



82 



dos que em navios desmantelados combateram contra as frotas dos rumes 
e dos almirantes egypcios nas amplidões do Mar Roxo e do Oceano Indico ! 

É esse mesmo philosopho que se esquece de que contra Diu se dispa- 
raram as enormes balas d'uma potentíssima artilheria que, ainda hoje, causa 
assombro, pela sua perfeição, aos fundidores modernos ! 

E é esse mesmo historiador que reconhece que a Hespanha tinha esgo- 
tado os nossos recursos com a remessa dos nossos melhores soldados e 
cabos de guerra para as campanhas da Europa e propositadamente dese- 
java que perdêssemos as colónias, para que mais facilmente pudesse do- 
minar-nos! 

E não teve duvida de reconhecer o heroísmo nos soldados e marinhei- 
ros de Hollanda, que foram batidos em todos os recontros que tiveram com 
os nossos, sempre que tínhamos balas e pólvora para lhes furar os costa- 
dos dos navios carregados de pimenta e de cravo, que vinham roubar nos 
paizes estrumados com o nosso sangue e o nosso suor! 

E' bom que se diga bem alto, para contrariar essa propaganda antiga e 
moderna de pseudo-historíadores extranhos, que nós vencemos sempre os 
que vieram conquistar o mundo seguindo o sulco das quilhas dos nossos 
navios, sempre que tivemos um pedaço de muralha, um canhão ou um 
mosquete com pólvora e balas, ou quatro taboas de um navio para nos de- 
fendermos dos ataques d'esses piratas que, á semelhança do asno.de fabula, 
só escoucearam o leão quando o viram inerte e moribundo ! 



Entre essas façanhas praticadas no Oriente (que pouco a pouco irei 
lembrando, com a respectiva documentação, nas paginas d'esta revista) 
destacam-se a derrota que os hollandezes soffreram quando, no dia 24 de 
junho de 1622, atacaram por mar e terra a cidade de Macau e o glorioso 
combate naval nas aguas da mesma colónia em 17 de julho de 1627. 

No primeiro d'esses ataques, quinze alterosos navios (segundo outros, 
mais) bombardearam a cidade (desprovida de gente e de cabo de guerra que 
a commandasse) emquanto 800 soldados experimentados e dextros desem- 
barcaram e atacaram por terra os abandonados portuguezes ; no segundo, 
alguns barcos mercantes, guarnecidos não de gente de guerra, mas de mo- 
radores da colónia, derrotaram uma esquadra hoUandeza, queimando-lhe 
uma nau, e apresando armas, canhões e dinheiro ! 

Combatiam então^ os hollandezes contra fortalezas regularmente con- 
struídas? Contra soldados experimentados? Contra marinheiros curtidos 
pelo fogo dos combates? Não! tentaram apossar-se dos haveres, da fortuna 
€ das vidas de heróicos portuguezes que só com a protecção divina, com o 



- 83 

esforço do seu animo intemerato, conseguiram repellir gloriosamente os in- 
vasores! 

Ouçamos o que diz a Historia e tire quem quizer os commentarios que 
da simples exposição dos factos se podem deduzir. 

E' conveniente reunir aqui tudo quanto se tem escripto de mais impor- 
tante sobre o assumpto, tanto mais que abundam os que propositadamente 
negam ou duvidam da possibilidade de façanhas semelhantes. Ainda em 
1861, {dncoenta annos depois de se ter dado a monumental façanha prati- 
cadas por seis navios mercantes armados de Macau contra cem mil piratas 
com 36o juncos e outros numerosos barcos mais pequenos, commandados 
peio celebre Apouchay) houve um escriptor francez (1) que poz em duvida 
esse facto. Que admira pois que ainda appareça quem duvide da authenti- 
cidade d'essas duas façanhas praticadas ha quasi três séculos? 



E' pois um dever reunir os elementos da prova que, mais tarde, seria 
difficil obter. 

A isso me dediquei com decidido empenho. 

Consegui assim obter as referencias que sobre o assumpto, se encontram: 

— Nas Ephemerídes commemorativas da Histona de Macau e no artigo 
inserto no Boletim do governo da provincia de Macau n.° 30 de 28 de Ju- 
nho de 1862, elaborado á vista de documentos authenticos que o auctor 
conseguiu consultar. 

— No antigo manuscripto «Collecção de vários factos, etc.» de que pos- 
suo uma copia e a que me refiro a pag. 31. 

— N'um outro ms. de apontam.entos tirados de documentos antigos pelo 
sinologo J. R. Gonçalves, a que fiz referencia a pag. 32. 

— Nos ms. do bispo Saraiva já citados a pag. 8. 

— Na Ásia portuguesa de Manuel de Faria e Sousa, que teve a fortuna 
de ouvir a narração da própria bocca d'um dos heroes ou por intermédio 
d'alguem que a ouviu ao mesmo (2). 



(1) M. Mallat de Bassillan, no Moniteur de la Flotte n.o 57 de 10 de outubro de 
1861, a quem Celestino Soares, no vol. 2.° dos seus Quadros navaes, deu a merecida 
resposta. 

(2) Como veremos na respectiva transcripção, a narrativa dos combates, feita por Ma- 
nuel de Faria e Sousa, foi tirada dos dados fornecidos pelo próprio heroe João Soares 
Vivas. <^Esta informacion es suya», diz o auctor da Ásia portuguesa. Tei-a-hia obtido 
do próprio Soares Vivas, que talvez viesse ao reino? Não seria para admirar que tal se 
desse, visto serem ambos contemporâneos. Manuel de Faria nasceu em 18 de março de 
1590, e falleceu em 3 de junho de 1649, conforme a obra «Retrato de Manuel de Faria 
e Sousa» de D, Francisco Moreno Porcel. 



^4 

— No Império da China etc. do P.^ Álvaro Semedo, composto em hes- 
panhol por Manuel de Faria e Sousa. 

Mas todas essas narrativas, apezar da sua authenticidade, poderiam ainda 
suscitar suspeitas da parte dos extrangeiros desconfiados, visto serem pro- 
venientes de portuguezes que, por orgulho pátrio, poderiam mentir ao 
mundo. 

Para esses, porém, tinha para confirmal-as as referencias de Ljunstedt 
e Raynal, ambos parciaes, no sentido de nos deprimirem, e que escreveram 
o mais que puderam contra nós nas suas obras «An /listorical s/cetch oft/ie 
portuguese settlements in China» e «Histoire philosophique et poUtiquQ des 
établissements et du commerce des Européens dans les deux Indes». Eram 
testemunhos valiosos contra quem quizesse duvidar da authenticidade das 
duas façanhas. 

Mas quiz mais; quiz vêr se obteria uma narração official das duas faça- 
nhas. Nada consegui, por emquanto, devido á impossibidade de me dedicar 
a esse trabalho nos archivos públicos. Nos da índia talvez se encontrasse 
qualquer peça importante n'esse sentido, porque o Senado devia ter feito 
as devidas communicações ao governo de Goa, de que dependia. Lembro 
essa tarefa aos nossos investigadores que, por estarem n'essa cidade, se 
podem dedicar proficuamente a esse trabalho. 

Mas, se não obtive uma narração official portugueza, tive a fortuna de 
apanhar uma narração hollandeza relativa á derrota de 24 de junho de 1622. 
E' feita pelo commandante do navio Groningue, Guilherme Isbrantsz Bon- 
tekou ou Bontekoe, que fez parte da expedição e entrou em fogo. Tem, 
pois, todo o caracter de authenticidade official essa narrativa que', até hoje, 
não vi citada por qualquer escriptor nosso. 

Mas obtive ainda mais: 

1.° Até hoje só vi referencia desenvolvida a duas tentativas dos hollan- 
dezes: a de 1622 e a de 1627. Pois, n'essas buscas feitas por mim nas nar- 
rativas hollandezas, consegui a prova de que esses nossos inimigos tenta- 
ram um golpe de mão contra Macau por mais três vezes: em 1601, em 1603 
e em 1607 (1). 

D'essas tentativas não encontrei referencia em nenhum dos ms. ou obras 
citadas, nem nos apontamentos de meu pae. Só em Faria e Sousa é que 
ha uma vaga referencia a essas tentativas, sem dizer quaes, nem em que 
anno (2). 



(1) Ljungstedt faz só uma vaga referencia a esta expedição, como veremos mais 
adiante. 

(2) «Traia el Olandes los ojos en este Empório nuestro, y despues de vários aco- 
metimientos, apareció en el. . .» («Asia portuguesa», t. 111, P. Ill, C. XX, pag. 364). 



85 



2.° Que o commandante da expedição Cornelio Reyertsz (como está es- 
cripto na Relação hollandeza), Reyerzoon, ou Reggers, como está em outras 
narrativas, não morreu no combate em iVlacau, como sempre se julgou en- 
tre nós; mas sim dois annos depois, em abril de 1624, na bahia de S. Luiz 
da ilha de Madagáscar. Este ponto está completamente esclarecido, como ve- 
remos adiante. Reyertsz toi ferido; mas não morreu no ataque contra Ma- 
cau. 

3.° Noto e fundamento uma importante duvida sobre quem seria o he- 
roe da façanha de 1627. 

Dito isto, vamos ás citações que acabarão com duvidas presentes ou fu- 
turas, que qualquer pseudo defensor de verdade histórica possa levantar, 
ou na melhor das intenções ou levado por aquelle ciúme de que são ataca- 
dos de vez em quando os actuaes senhores do mundo que comnosco apren- 
deram a navegar nos mares e a combater em terras desconhecidas; mas 
nunca conseguirão esculpir na sua historia as paginas gloriosas da His- 
toria de Portugal. 



«24 de Junho de 1622. — Victoria ganha por esta cidade contra os hol- 
landeses, que, sob o commando de Kornelis Reyerszoon, a pretenderam 
tomar com quatorze navios e oitocentos homens de desembarque. 

As mais antigas memorias d'este feito que já agora se podem obter, se 
bem que resumidas, não officiaes, no dizer descuradas, e n'alguns pontos 
da narração incertas, são accordes em o celebrar como um dos maiores 
que illustraram na Ásia a nossa historia. Nem pode soffrer duvida tal encó- 
mio quando se considere a natureza do ataque e os meios que tinha a ci- 
dade que o repelliu. Por muito que a falta de noticias venha com o andar 
dos tempos a depreciar esta pagina brilhante dos fastos portugueses no 
oriente, sempre de uma parte se ha de ver um punhado de homens, sós 
no extremo do mundo, sem capitão que os dirigisse, nem fortificações que 
os defendessem, mas unicamente ajudados de seus grandes brios e extre- 
mado patriotismo, — e, da outra, uma poderosa esquadra, tão fortemente 
precavida a grandes luctas que, ainda depois de escarmentada n'este com- 
mettimento. se aventurou á occupação de logares arriscados, no archipe- 
lago dos Pescadores, e depois na Formosa. 

Não é para esta brevíssima commemoração de datas a demorada noticia 
que pede este insigne episodio da historia macaense. Com indagação cuida- 
dosa procurei já referil-o n'outro logar.» 

(Ephemerides commemorativas aa Historia de Macau, por A. Marques 
Pereira, pag. 57.) 



Não encontrei, por mais que buscasse, entre os documentos da collecção 
de meu pae, a narrativa ou noticia a que elle se refere, em artigo com sua 



86 



assignatura; mas achei no Boletim de Macau a seguinte descripção, que po- 
deria ser da sua lavra (1): 

«De muita recordação é sem duvida para Macao o dia de S. João — 24 
de Junho — recordação que o passar dos séculos não gasta, porque nos 
falia de glorias antigas — d'essas glorias nacionaes que nos dizem o que 
fomos em heroism^o, e que nos patenteiam o valor e brio de nossas armas. 

Apezar dos tempos, não cedemos ainda do nosso brio nacional, e recor- 
dando os faustos da nossa historia, passando nossas vistas pelas verdadei- 
ras e singelas descripções do prestigio e força heróica de nossos antepas- 
sados, o coração nos pulsa no peito com ufania e nos regosijámos de ser 
Portuguezes. 

Pobres, que importa? Somos ricos em liberdade, e resta-nos o consolo 



Est. VIII 




Outeiro da Guia (estado actual) 
{d"onde partiram os primeiros tiros contra os liollandezes em 24 de Junho de 1622 



de termos aberto os caminhos ao mundo, pelas nossas descobertas e nave- 
gação. Creados na Santa Lei de Jesus, obedientes sempre aos nossos Reis, 
se então o animo nos não faltou, para provarmos com façanhas extraordi- 
nárias, e actos de acrisolado valor, sermos dignos filhos da Nação temida e 
respeitada nas cinco partes do mundo, temos agora a consciência de que 
somos incapazes de trahir a Pátria, por quem ainda daremos a vida se pre- 
cisa fôr. 



(1) Em 28 de junho de 1862, data do Boletim em que sahiu essa descripção, estava 
meu pae em Pekim, como secretario da missão diplomática; mas poderia ter deixado o 
artigo antes de partir de Macau. Pode-se assim explicar a razão de certos erros'que 
ò artigo apresenta e que só se dariam pela ausência d'um bom revisor. Por outro lado, 
estou em grandes duvidas de que o artigo fosse d'elle, porque, como veremos, ha um 
ponto pouco esclarecido relativo ao ataque de 1627; e elle exgotava, com um demorado 
estudo, todos os assumptos de que tratava. 



87 



Não é hoje nosso intento recordar uma a uma as eras da nossa gran- 
deza, porém sim, commemorar uma d'essas façanhas, cuja recordação nos 
embriaga de satisfação, apesar de sobre ella terem já passado mais de dois 
séculos. 

Ainda que não tenhamos nascido n'este paiz, o facto que vamos esbo- 
çar — conforme as nossas forças e os documentos que com difficuldade, te- 
mos podido obter, não só nos archivos públicos, como em descripções fide- 
dignas de pessoas sérias d'aquelle tempo, que foram testemunhas de vista. 



Est. IX 





Monumento do Campo da \ ictoria ou dos Arrependidos 

Sitio onde os hollandezes foram vencidos em 2\ de Junho de 162 

(Segundo nma plioi. do dr. Albano de Magalhães) 



— papeis que pela sua antiguidade se teem em parte tornado inlegiveis, e 
que alguns cavalheiros hoje seus possuidores nos confiaram — faz-nos sen- 
tir satisfação idêntica á que devem sentir os Macaenses, porque, como elles, 
somos portuguezes, e de honra é para todos a nacionalidade e heroísmo das 
armas luzas, seja qual fôr a parte do mundo onde taes actos se praticaram. 

No dia 22 de Junho de 1622 aportaram á Rada de Macau 19 navios 
Hollandezes, resolvidos a apoderarem-se da Cidade, como já tinham feito a 
tantas outras das Colónias de Portugal n'esse tempo de desgraças, devidas 
a circumstancias que não convém avivar hoje. 

Estavam na Rada 3 navios inglezes, que iam para Cantão negociar; a 
estes pediram os Hollandezes coadjuvação, que lhes foi promettida, dando- 



se lhe, á saque a Cidade, o que o inimigo não acceitou, por ser essa a sua 
mira principal, e pela convicção que tinha, fiado na sua grande armada e 
na nossa pequena guarnição, de ter certa a victoria. 

Na tarde de 23, rompeu a esquadra do inimigo o fogo sobre o Forte de 
Sm. Francisco, — que então só possuía a bateria de cima, e não as duas 
que hoje lhe observamos — a fim de irem assim tomando os navios posi- 
ções favoráveis, encostando-se o possível á terra, para melhor desembarca- 
rem a força destinada a atacar a Cidade, e não serem embaraçados pelo fogo 
da nossa artilheria dos Fortes de Sm. Francisco, e Bom-pôrto, hoje conhe- 
cido por Bom-parto. 

Aconteceu n'esta tarde que, ou pelos nossos tiros, ou por outro in- 
cidente que a historia nos não esclarece convenientemente, Um dos navios 
Hollandezes se abrisse de tal forma, que foi a pique sobre as amarras. 

Grande era porem a consternação da Cidade, por haver só n'ella 80 Por- 
tuguezes capazes de pegarem em armas, além de seus moços ou escravos, 
mas ainda assim sem Capitão que os guiasse, pois o Governador Carrasco 
tinha-se retirado a Goa sem que tivesse sido substituído, e o Capitão-mór 
da viagem do Japão também se achava ausente, estando d'este modo o Go- 
verno da Cidade entregue ao Senado. 

Raiou finalmente o dia 24 de Junho, destinado a Macau para alcançar 
a famosa victoria, que tão honroso é recordar áquelles que se prezam de 
ter nascido Portuguezes. 

Os navios do inimigo que desde a véspera tinham tomado posições con- 
venientes, acercando-se da terra quanto possível era, assim que amanheceu 
o dia referido, começaram o desembarque na praia de Cacilhas, e em pou- 
cas horas, servindo-se de mais de 30 lanchas, escaleres, e catraios, favore- 
cidos-pelo fogo dos seus navios, saltaram em terra 800 homens," capitanea- 
dos por Kornelis Reyerzoon, que commandava a frota. 

O inimigo chegando a terra deitou por barlavento fogo a um barril de 
pólvora molhada, para com o escuro do fumo que se desenvolveu, fazer o 
desembarque com mais segurança. 

Observando isto António Cavalinho que morava n'uma casa no campo, 
n'um oiteiro fronteiro á Fortalesa de S. Paulo do Monte, sahio com 5 Por- 
tuguezes e seus moços para lhes impedir o desembarque, tal era o seu va- 
lor; porem reconhecendo a impossibilidade de fazer frente a tão poderoso 
inimigo, occultou-se com a sua gente entre as enormes pedras que guarne- 
ciam aquelle oiteiro (Vide est. Vlll). 

Os Hollandezes avançaram em pé de guerra até ao plano (1) por baixo da 
Guia, onde fizeram alto, por causa de dois tiros que sobre elles foram feitos 
da Fortaleza do Monte, com uma bombarda que á pressa se tinha assestado 
para aquelle lado, sendo estes tiros feitos pelos Padres da Companhia de 
Jesus, que áquella cidadella se tinham recolhido, abandonando o seu convento 
de S. Paulo ás Religiosas de Santa Clara, Senhoras e filhas dos morado- 



(1) Depois da derrota ficou esse sitio com o nome de campo dos Arrependidos. 
Mais tarde foi denominado campo da Victoria. Recentemente soffreu grandes modi- 
ficações com a construcção da Avenida Vasco da Gama, inaugurada por occasião do 
centenário indiano. Do sitio, das suas transformações e do monumento commemorativo 
darei noticia em artigo apropriado. 

A estampa IX é copia d'uma photographia do distincto amador dr. Albano de Ma- 
galhães, digno juiz de direito de Macau. 



• 89 

res da Cidade, que para maior segurança se tinham ido abrigar áquelle 
Templo. 

Estes tiros foram dirigidos com tanto acerto, que um d'elles foi insultar 
a reserva, onde vinha a pólvora de sobrescelente, e uma explosão teve ra- 
pidamente lugar em alguns barris, matando bastantes Hollandezes. 

Precizava o inimigo, para entrar na Cidade, passar ao lado d'um es- 
pesso bambual, que lhe ficava á sua direita e perto da porta do campo, 
bambual de que hoje não restam vestígios, porque sendo destruído em 1791 
por Fellipe Lourenço de Mattos, foi depois tornado em horta a qual perten- 
ceu primeiro a D. Rita Bagmond (1 ) e passando em seguida por novas trans- 
formações, e novos donos, está hoje aquelle terreno cheio de cazas chinas, 
propriedade de Francisco Volong, china naturalisado Portuguez. 

Tendo pois o inimigo de passar ao lado d'este bambual, temeu alguma 
emboscada, pelo facto de não ver pessoa alguma e estar soffrendo não só 
os tiros do Monte, como também descargas successivas do lado da Guia; 
assim mudou de plano, e diligenciou subir ao alto do oiteiro, sobre o qual 
já existia uma Ermida, mas esta subida lhe foi embaraçada não só pelo fogo 
com que Cavalinho os atacava, como também pelo que do alto da Ermida 
lhes fazia Rodrigo Ferreira, que n'aquelle lugar se achava com 8 Portugue- 
zes, 20 filhos do Paiz e seus moços. 

Cessando o fogo nos navios Hollandezes, e reconhecendo os Capitães 
que commandavam os Fortes de S. Francisco e Bom-parto, que o inimigo 
desembarcava, e vinha por terra atacar a Cidade, enviaram a toda a pressa 
João Soares Vivas com 50 mosqueteiros a defender a entrada, e chegando 
este soccorro ao campo no momento em que o inimigo tentava tomar o oi- 
teiro da Guia, unio-se a este auxilio, Lopes Sarmento de Carvalho, encarre- 
gado da porta da Cidade, e com tal furor atacaram os Hollandezes, que os 
puzeram em confuzão, e ainda que o Cheffe d'estes soldados tentasse fa- 
zer frente aos nossos, essa ousadia lhe custou a morte, sendo o inimigo 
carregado até Cacilhas. 

A morte de Kornelius causou tal desordem entre os Hollandezes, que 
estes só procuraram fugir, deixando pelo caminho, armas, correames, tam- 
bores e bagagens, e apezar de terem ficado em Cacilhas duas companhias 
de reserva, estas se apoderaram do rnesmo medo e terror de que seus ca- 
maradas vinham possuídos, e sem pensarem na defeza, trataram apenas de 
salvar a vida, chegando muitos a atirarem-se ao mar para a nado se esca- 
parem, tumulto este de que resultou virar-se um dos escaleres e morrerem 
bastantes, afogados. 

A' sombra dos Portuguezes, corria desenfreado o povo sobre os fugiti- 
vos, sem lhes dar quartel, e conta-se que era tal o furor, que até uma Ca- 
íra matou muitos dos inimigos com um grande espeto, ainda que outros 
affirmam ter sido com uma alabarda que apanhara no campo. 

Os Hollandezes perderam entre mortos e prisioneiros, 500 homens; 
8 Bandeiras; uma peça; 5 tambores, e muitas armas e bagagens. Estas ar- 
mas existiram, até irem para Gôa os Jesuítas, no seu convento: depois, 
ignora-se o destino que tiveram. 

Do nosso lado, perdemos 4 Portuguezes, 2 Hespanhóes, e alguns escra- 
vos, tendo 20 feridos. 

A Hollanda tomou tal horror a Macao, e tanto medo ao nosso ferro, ^que 



(1) Segundo outros — Bagmand ou Backman, como lhe chama o auctor da Flanta 
topographica a que me refiro mais adiante. 



QO 



apezar de se terem apoderado de quasi todo o Sul e de estar Gôa bem dis- 
tante, d'onde só podiam vir soccorros mais promptos, não voltou a inves- 
til-o, ainda que alguém ha que affirma ter sido enviada outra Esquadra a 
atacar esta Cidade, porém que apanhando um tufão ao entrar nos mares da 
China, todos os navios que a compunham se perderam. 

As maravilhas praticadas, por este punhado de homens, principalmente 
aquelles que nunca abandonaram o seu entrincheiramento, são altameute re- 
conhecidas, e muito de propósito procurámos saber os nomes d'estes prin- 
cipaes heroes, para lhes pagarmos, como podemos, o tributo que pelo seu 
valor e lealdade merecem á nossa memoria, e grata recordação. 

Esta victoria de nossas armas, que só ajudada pelo favor do Omnipo- 
tente, poude ser tão completa, deu lugar a um voto feito pelos moradores 
de então, promettendo ir todos os annos, com o corpo do Senado, á Sé 
Cathedral render graças a Deus, na véspera de S. João, de cujo voto existe 
termo no archivo da Camará. 

Ha duzentos e quarenta annos pois que nem uma só vez tem deixado 
de se fazer a procissão que vimos na tarde do dia 23, e a festa solemne do 
dia 24 na Sé Cathedral. 

O Vice-Rei de Cantão, assim que soube d'esta victoria dizem que man- 
dara 400 picos de arroz para os moços que tanto ajudaram a defeza da ci- 
dade, os quaes já estavam forros, parque seus amos antes da peleja lhes 
tinham dado alforria. 

Estávamos n'essa epocha sujeitos ao domínio de Castella, e soccorros 
foram pedidos a Manilha, pelo receio que havia de novo ataque dos Hollan- 
dezes, e encontramos nos documentos a que nos reportamos, que 200 ho- 
mens e um Mestre de campo foram enviados a Macao á industria do qual 
se deve a muralha que hoje observamos em redor da Cidade, porque em 1622 
não havia semelhantes muros e baluartes: algumas bombardas foram en- 
viadas também, as quaes ainda ha poucos annos se encontravam em algu- 
mas das fortalezas, sendo conhecidas por terem as armas hespanholas.. 

Dissemos acima que os Hollandezes não tentaram atacar mais esta ci- 
dade, e assim foi, comtudo mais tarde em 1627 procuraram bloquear o seu 
porto, afim de tomarem os navios mercantes e apoderarem-se da frota que 
segundo o costume devia largar para o Japão, viagem esta que n'aquelle 
tempo era de grande interesse. Ainda que este facto seja passado alguns 
annos depois do que hoje recordámos, comtudo, entendemos que n'elle fal- 
lar-se por esta occasião, não só por ser mais um facto heróico, como pela 
sua veracidade, authenticada pelo Tabellião d'aquella epocha Francisco Ro- 
drigues, documento que encontramos no archivo da Camará. 

No anno pois de 1627, governando Macau, como Capitão Geral, Tho- 
maz Vieira, filho d'esta Cidade, constou em 17 de Julho, que 4 náos Hol- 
landezas (1) bloquearam o porto, afim de capturarem a frota que devia lar- 
gar para o Japão. 

Os homens ricos de Macau, dispozeram-se assim a armar seus navios e 
irem bater aquelles : cinco se reuniram para este firq, e foram elles, Tho- 
maz Vieira (2), Marcos Botelho, António Cortez, António Rodrigues Cava- 
linho e João Teixeira. 



(1) O manuscripto Collecção de vários factos diz uma nau. IVlanuel de Faria e 
Sousa diz quatro, como veremos mais adiante. 

(2) E' o que também diz o ms. Collecção de vários factos; mas em Manuel de Fa- 
ria e Sousa está, como veremos, JoSo Soares Vivas,— o mesmo heroe da façanha de 1622. 



9^ 

Promptificados seus navios, entre si, escolheram para os capitanear a 
Thomaz Vieira, e sahiram a barra a 18 de Agosto. Avistando o inimigo, e 
reconhecendo a Náo-cheffe, a ella se dirigiram como mais poderosa, e depois 
d'algumas horas de combate, a tomaram de abordagem, e queimaram, fa- 
zendo-lhe 33 prisioneiros e 27 mortos, entrando no numero d'estes últimos 
o próprio Capitão : e se apoderaram de 24 boccas de fogo, 2000 balas e 
algum dinheiro. Escaparam as 3 naus, restantes, porque abandonaram a 
acção, ao verem tomada a não cheffe, fugindo a todo o panno. 

Este facto de heroísmo, foi depois coroado por D. Filippe Lobo, Vice- 
Rei da Índia, (1) que por alvará de 29 de Novembro do mesmo anno, con- 
servou no Governo, o illustre Thomaz Vieira.» 

(Boletim do Governo de Macau, n.° 30 de 28 de Junho de 1862.) 



Resa assim o antigo ms. CoIIecçào de vaiios factos etc. a que já fiz re- 
ferencia a pag. 31 : 

«1622. — N'este dia que hera o de S."" João alcançou esta Cidade a 
mayor Vitoria que se pode considerar para aquelles tempos. Lembrando-se 
os Olandezes, q.' neste tempo estaria Macao com pouca gente p.'^ terem 
a mayor parte dos moradores hido a viagem a muitos e diversos portos 
como costumão todos os annos, vierão sobre esta Cidade de Macao 14 na- 
vios Olandezes, achando-se já defronte delia 3 navios Inglezes q.' hião a 
a negociar para Cantão. Os Olandezes cometterão a estes vários partidos 
para q.' os ajudassem a tomar esta Cidade. Os Inglezes responderão q.' não 
tinhão duvida, comtanto q.' o saque seria delles, os Olandezes não querião 
pois q.' tinhão noticia certa de que tínhamos pouca artilheria nas fortalezas 
do Monte ô Barra (2j e que pela parte de terra, nem muros, nem difença 



(1) Ha aqui erro, devido ao que affirma o manuscripto Col/ecção de vários factos, 
etc, como veremos mais adiante. Nào houve vice-rei da índia com este nome. 

(2) Disse meu pae e muito bem no livro das Alfandegas chmezas, a pag. 24 e 25. 

«A construcçào das principaes fortificações effectuou-se no decurso dos annos de 
1612 a 1638. Por occasião do ataque dos hollandeses, em 1622,yá existia afortalesa de 
S. Paulo do Monte, uma das antigas baterias da de S. Francisco, o forte de Nossa 
Senhora do Bom Porto e uma bateria no iogar onde depois, em 1629, se ultimou a 
edificação da fortalesa de S. 1 hiago da Barra. Os fortins de S. João e S. Jeronymo 
e a larga, extensa e solida muralha que liga com elles ainda hoje as fortalesas de 
S. Francisco e do Monte, começaram logo a construir-se depois do mencionado ataque, 
e estavam acabados em 1626. (Assim o affirmam vários manuscriptos e o livro de Lgun- 
gstedt, a pag. 23, e o confirmava a inscripção da Porta do Campo, demolida em novem- 
bro de 1864. Com menos e.xacta informação pois escreveu o sr. Maia (Mem. sobre a 
franquia do Porto de Macau) que a referida muralha com os fortins «communicava já 
as fortalesas de S. Francisco e do Monte quando em 1622 os hollandeses atacaram a 
cidade). A fortalesa de N.a Senhora da Guia teve principio em setembro de 1637 e ter- 
minou em março de 1638.» 

Isto disse meu pae com o conhecimento dos documentos que consultou. O sr. Bento 

da França, auctor do livro «Subsidias para a historia de Macau-^, elaborado sobre as 

Ephemtrides de meu pae, pondo-as em ordem chronologica, diz porém o seguinte, a 

pag. 66: 

«A este tempo (em 1627) parece que já e.xistia a fortaleza do Monte, também co- 
nhecida por cidadella de Macau. /4/o^zy/7S /?/-eíe/7c/e;77 que esta fortaleza tivesse sido edifi- 



92 

tínhamos. Commetterão n'este dia o desembarque, e primeiro q.' o fizessem^ 
baterão com a sua artilharia o Baluarte de S.'" Francisco para embaraçar o 
fogo da nossa artilharia, e neste fazerem seguros o seu desembarque 
na praya de Cassilhas favorecidos do seu fogo. Tinha esta Cidade neste 
tempo 80 homens portuguezes capazes de pegar em armas, com seus mo- 
ços ; mas sê Cap."^ que os governasse, p.^ q.' athé este tempo, se gover- 
nava esta Cidade como Republica, p.^ q.' o governador Francisco Lopes 
Carrasco se tinha recolhido a Goa, e não tinha vindo outro, e o Capitão 
Mór das Viagens do Japão, não estava na terra, razão por q.' a Cidade 
hera governarda somente pelo Senado q.' ainda hoje existe. No ataque que 
fizerão os navios Olandezes, e com a força de batterem o Baluarte de S.'" 
Francisco, hum ficou em tal estado e tão aberfo, que o desampararão, e 
emediatamente foi ao fundo; tudo isto foi em o dia 23. Os outros navios 
se foram chegando mais perto da praya de Cassilhas para mais comoda- 
m.^« fazerem o seu dezembarque no dia 24; neste dia, pois, ao amanhe- 
cer sahirão destes Navios mais de 30 embarcaçoens entre lancha^, escale- 
res e catraios. Carregados de gente, e chegando a praia de Cassilhas, derão 
por barlavento fogo a hum barril de pólvora molhada para com o escuro do 
fumo poderem dezembarcar com mais segurança. Sahio António R.z Ca- 
valinho, que assistia nas suas casas do Campo de fronte do monte (cujo 
hoje he da Guia) e mais cinco portuguezes e seus moços, de facto de lhe 
impedir o dezembarque, serião 800 homens com o seu próprio Comm.« que 
se chamava Cornelio Regres, cujo vinha p.'' Cap."^ desta acção, o Cavalinho 
como lhe não poude impedir o dezembarque por ter pouca gente, se occul- 
tou entre as pedras da Guia. Os Olandezes vierão marchando em forma até 
o plano q ' fica p."" baixo da Guia adonde fizerão alto, e ficaram suspenços 
pelo motivo de dois tiros que lhe fizerão da Fortaleza do Monte .com única 
bombarda q.' apressadam.*^ tinhão posto p.^» aquella parte, sendo os 2 tiros 
feitos pelos P. P.*=' da Comp.^, q.' neste tempo estavão na fort.^, p.^q.' o seu 
Conv.t° estava occupado com as Religiosas de S.^^ Clara, e varias rnolheres, 
e filhas desta Cid.*^ q.' se havião recolhido nelle p.'' mais seguro, caso q.' o 



cada de 1612 a 1616; nós não o cremos, porque foi exactamente por então que os man- 
darins nos restringiram e quasi prohibiram as construcçòes; achámos muito mais pro- 
vável que fosse edificada em 1622, epoc/ia do pânico pe/a parte dos chins, em que 
nos permita ram também que se construisse a fortaleza do Bom Parto ou Bom Por- 
to, como d'antes se chamava.» 

E a pag. 78: 

«Estando plenamente de accordo com Marques Pereira em tudo o mais, divergimos 
de opinião quanto á fortaleza do Monte e mais construcçòes que diz terem sido 
feitas de 1612 a 1622, isto pelas razões já apontadas n'outro logar» (pag. 66). 

Ora bastaria que o sr. Bento da França tivesse lido a Ásia portuguesa de Manuel 
de Faria e Sousa para tirar essas duvidas, que certamente ficarão dissipadas com os 
documentos que transcrevemos. O tal pânico dos chins já existia antes de 1622, por 
causa das tentativas hostis dos hoUandezes em 1601, 1603 e 1607. Não consentiriam 
que construíssemos casas sem sua licença; mas não se oppunham ao levantamento 
d'esses fortes que nos serviam para também lhes guardarmos as costas. 

O sr. Bento da França (cujo amor pelas coisas de Macau é muito louvável e para 
agradecer e já produziu dois livros volumosos) fez mal em não ter tido plena confiança 
n'essa affirmação do escriptor tão repetidamente citado e acreditado por s. ex.a. 

Em artigo especial tratarei opportunamente e com mais desenvolvimento essa ques- 
tão das fortalezas. 



93 

inimigo entrasse na Cid.'*'^; mas tornando ao caso, forão de tão bom effeito 
os dois tiros q.' se atirarão do monte q.' iium delles acertou logo em hum 
barril de pólvora, cuja se incendiou, e abrazou alguns Olandezes, elles esta- 
vão desconfiados, por nos não verem mais gente, e temião que lhes tivésse- 
mos feito alguma emboscada de traz de hum bambual (1) q.' precisam. ^'^ elles 
devião passar quando quizessem entrar na Cid.^ Fizeram deligencia p/ subir 
o monte da Guia aonde estava huma Ermida defensável (2) e nelle Rodri- 
gues Ferreira com 8 homens portuguezes e athe 20 filhos da terra, e alguns 
moços, os quaes cubertos com as pedras do Outeiro lhe forão dando des- 
cargas, fazendo-os parar, e pôr em duvida a subida. Os Capitaens, e Cabos 
q.' assistião na bataria dos 2 fortes de S.'" Fran." e Bomparto, vendo q.' o 
inimigo comettia pela parte da terra derão lugar a q.' João Soares Vivas, 
acodisse com 50 mosqueteiros, e chegando neste tempo ao Campo, conhe- 
cendo Lopo Sarmento de Carvalho, encarregado daquelle posto, juntos am- 
bos com esta pouca gente metterão em confuzão aos inimigos, e tendo-se- 
Ihe ajuntado João Soares foi carregando o inimigo da parte da Cid.'^^ p.^ o 
de Cassilhas, e posto q.' hum dos Capitaens Olandezes fez rostro aos nos- 
sos foi morto. Tanto que o inimigo se viu sem o seu Cap.'" se dezarmou e 
se puzerão em fugida, largando bandeiras, armas e tambores, tratando só 
de salvarem as vidas. Inda á poucos annos que algumas armas destas es- 
tavão no Collegio de S.'" Paulo, e eu fallei com pessoa de credito que as 
chegou a ver, bem entendido antes dos jesuítas serem prezos e conduzidos 
a Goa.» 



Façamos uma pequena pausa ou parenthesis na transcripção do ma- 
nuscripto para nos determos sobre esse ponto curioso. 

Forão os jesuítas accusados de terem levado comsigo papeis e docu- 
mentos importantes, e até o titulo de posse de Macau (3) concedido aos por- 
tuguezes — o que é para admirar da parte de prisioneiros vigiados com a 
máxima cautella nos navios que os transportaram. Outras lendas correram 
ainda sobre os jesuítas; e, ainda n'este século, se não me falha a memoria, 
houve um estrangeiro que se lembrou de pedir ao governo de Macau para 
levantar a monumental escadaria do arruinado convento de S. Paulo afim de 
descobrir os thesouros que os jesuítas tinham deixado enterrados, respon- 
sabilisando-se a repor tudo no mesmo estado, depois da busca feita, con- 
cedendo ao governo uma parte da riqueza que se encontrasse. Correu tam- 



il) No ms. vem a seguinte nota, que condiz com o que está no artigo atraz transcri- 
pto: «Felippe Lourenço no anno de 1791 cortou este bambual para fazer a sua horta.» 

(2) Onde depois, em 1637-1638, se construiu a fortaleza representada na esrampa que 
acompanha este numero. 

(3) E' muito problemático que tivesse existido como documento escripto. Tituios de 
posse adquirimol-os nós n'essas centenas de annos, que se seguiram, em que a ban- 
deira de Portugal tremulou nas fortalezas, em que heroes portuguezes defenderam a co- 
lónia do ataque de estranhos e o sangue de Amaral e a valentia de Mesquita firmaram 
o titulo da definitiva independência e autonomia. 



94 

bem que essas armas (a que o ms. se refere) tinham os jesuítas levado, 
provavelmente orgulhosos pelos dois tiros tão certeiros disparados da for- 
taleza do Monte. Se é para admirar que esses prisioneiros, tão vigiados, pu- 
dessem levar manuscriptos e documentos (e, se assim foi, esqueceram-se 
dos apontamentos do visitador transcriptos no numero antecedente e n'este) 
ainda mais espantoso seria que esses padres conseguissem esconder, tam- 
bores, cornetas, bandeiras, chuços e outras coisas homicidas, e retumban- 
tes na minguada bagagem ecclesiastica. Se tal succedeu não seria d'elles 
a culpa; mas das auctoridades de Macau que permittiram uma tal exporta- 
ção de objectos, nada compatíveis com as exigências ecclesiasticas, e das 
auctoridades de Goa pela sua complacência na importação de tal contra- 
bando de guerra. 

Os jesuítas terão tido grandes culpas de que não deixariam de dar con- 
tas a Deus; mas não me parece que se lhes possa, com justiça, íncrimi- 
nal-os por taes peccados. Entretanto pode ser que me engane e que elles 
enthesourassem debaixo de escadas muitos milhões e levassem de Macau 
armas, provavelmente para matarem. . . o marquez de Pombal. Coisas mais 
extraordinárias se teem visto! 

Mas, visto que estamos tratando de armas tomadas aos hollandezes, não 
continuemos com a transcripção sem notar o seguinte : 

Joaquim Pedro Celestino Soares, no tomo IV dos seus interessantíssimos 
Quadros Navaes, lastimando-se de que fossem destinados á fundição do Ar- 
senal de Marinha cincoenta canhões de bronze que, no anno de 1866, tinham 
vindo de Moçambique na barca Novo Paquete, diz : 

«Quantos (canhões) guarneciam as fortalezas da cidade do Santo Nome 
de Deus, de Macau, na China, fundada em 1557 pelos trinta portuguezes 
que escaparam á carnagem feita nos quinhentos habitantes de Liampó, lá 
se venderam; muitos d'elles fundidos ali mesmo por Bocarro em 1640, ou- 
tros tomados aos hollandezes nos memoráveis dias 20 (a/fás 23 e 24) de 
Junho de 1622 e 17 de Junho de 1624 (aliàs 17 úe Julho de 1627) em que 
estes inimigos bateram o forte de S. Francisco (só o fizeram no ataque de 
1622) e desembarcaram da sua armada de quinze naus, oitocentos homens, 
ficando prisioneiros trezentos, metendo-lhe os navios, commandados por 
João Soares Vivas, o seu almirante Cornelio Reyertz e quatrocentos solda- 
dos, aprisionando-lhe o próprio navio almirante, que depois queimámos, — 
para serem substituídos por artilheria ingleza de ferro.» 

E mais adeante, ao descrever as peças enviadas de Moçambique, diz: 

«N.°5 40, 41, 43, 44 e 47 — cinco peças de calibre O^^jlS. Teem de com- 
primento 2'^,84 e de diâmetro na facha alta da culatra 0"\47. Pesam, a 
n.° 40, 1722 kilogrammas, a n.° 41, 1757 kilogrammas, a n.° 43, 1707 ki- 
logrammas, a n.° 44, 1767 kilogrammas, a n.° 46, 1687 kilogrammas. Têm 
no primeiro reforço um escudo liso, no qual de cada lado ha uma figura re- 
presentando hum satyro. Na facha alta da culatra lê-se : 

Kylianus Wegewart Me Fec/t Capis — 1640 



95_ 

«Teem bolada, primeiro e segundo reforços e supporte para feixos; 
tanto a tulipa como o primeiro e segundo reforços e o botão são lavrados. 

«Estas peças são hollandezas e do tempo da republica, como se vê pe- 
las armas, e só se pôde explicar a sua existência em Moçambique ou por te- 
rem sido tomadas aos hollandezes quando bloquearam o porto d'aquella 
cidade, ou por terem sido mandadas de Macau onae também se tomou ar- 
tilheria aos hollandezes, porque só depois de 1640 é que se mandaram fa- 
zer em Hollanda. Em qualquer das hypotheses são monumentos históricos 
que devem ser guardados.» 

E referindo-se á peça n.o 40: 

«Peça hollandeza que pela data e circumstancia de se achar em Moçam- 
bique, foi de certo tomada aos hollandezes quando bloquearam aquella ci- 
dade, ou mandada para ali de Macau onde alguns navios foram tomados 
quando, durante a dominação hespanhola, atacaram as nossas colónias.» 

A opinião de Celestino Soares pode ter visos de verdade, visto que, 
como vemos pelas transcripções feitas n'esta resenha, no ataque de 1622 
tomamos 1 canhão e no de 1627, em que queimamos a nau hollandeza, nos 
apoderámos de 24 canhões. Mas a data de 1640 que, segundo Celestino 
Soares, se vê na inscripção da culatra? Seria a inscripção posta depois pe- 
los portuguezes? Teriam alguns d'esses canhões ido parar a Moçambique? 
Não o conseguimos averiguar até hoje; nem se ainda existe algum em Ma- 
cau; se foram fundidos para se aproveitar o bronze na celebre fundição de 
canhões que existiu no século xvii n'essa cidade; se teriam sido remettidos 
para Lisboa no presente de 200 canhões que os macaenses fizeram em 
1641 a el-rei D. João IV, em commemoração da libertação de Portugal em 
1640, ou se entraram no numero dos que foram vendidos em hasta publica 
em Macau no tempo do governo do actual sr. conde de Paço d'Arcos (1). 



(1) Affirmou-nos o illustre almirante e actual digno director geral de marinha que 
por occasião da arrematação d'esses canhões de bronze, que poz em praça, separou al- 
guns que poderiam ter algum valor histórico e mandou-os para Lisboa por um dos 
transportes de guerra. Nem outra cousa era de esperar d'um governador illustrado como 
o sr. conde de Paço de Arcos, cujo animo patriótico não consentiria que fossem parar a 
mãos mercenárias as sagradas relíquias de passadas glorias. 

Contou-nos o sr. João Albino Ribeiro Cabral, que ha longos annos exerce com 
muita distincção o cargo de thesoureiro da província de Macau, a forma curiosa como 
se conseguiu embarcar os canhões então vendidos. Como eram grandes e pesados e as 
embarcações que poderiam abicar ao cães, pequenas (por causa do lodo que não per- 
mittia, e hoje ainda menos com o maior assoriamento do porto, a approximação de em- 
barcações grandes) foi necessário partir os canhões em boccados que, pela sua maior 
leveza, podessem ser levados pelos barcos ao navio que os teria de transportar. Não 
havendo cm Macau instrumentos para serrar o bronze, lembrou-se um filho da terra de 
um modo engenhoso para se obter a fractura d'essas peças. Armou-se uma espécie de 
cábrea a que estava ligada uma roldana pela qual passavam grossos cabos que suppor- 
tavam um grande peso. As peças, depois de aquecidas ao rubro na parte onde se havia 



q6 



De tudo isto trataremos em devido tempo, assim como do celebre fun- 
didor Bocarro e da não menos notável fundição que existiu no Chambam- 
bero, próximo da fortaleza de Bom-Parto e de que ainda n'este século havia 
vestígios. Mas não quero fechar esta nota sem me referir a uma reminiscência 
que, apezar de muito creança (oito annos de edade) trouxe de memoria,, 
quando vim de Macau, para onde nunca mais voltei. 

Lembra-me perfeitamente de que me contaram que no sitio da Bocca do 
inferno, próximo da Praia de Cacilhas (onde os hollandezes desembarcaram 
em 1622) existia uma espécie de caverna ou furna por onde o mar entrava 
produzindo um ruido retumbante; e que no fundo d'essa caverna estava en- 
terrada no lodo uma peça que, na vasante, se apresentava meio descoberta, 
comida de azebre ou de ferrugem, e era proveniente dos hollandezes que 
na fuga precipitada para os seus barcos a deixaram ali abandonada. 

Bastantes vezes perguntei a pessoas vindas de Macau noticias da Bocca 
do inferno e da tal peça, sem que nenhuma d'ellas mostrasse conhecer taes 
cousas. Já estava persuadido de que tudo não passava de phantasia infan- 
til, quando, ha tempos, tendo comprado n'um dos alfarrabistas de Lisboa uma 
valiosíssima planta de Macau, (que me parece autographa e inédita) de que 
nunca até então tivera noticia, lá vi marcada ao norte da Praia de Cacilhas 
a já tão esquecida Bocca do inferno. Da peça é que não reza o papel. Que 
investiguem se existe ainda tal curiosidade os meus patrícios de. Macau, se 
a agua do mar a não comeu já de todo, ou se as ostras e mexilhões a não 
converteram á laia de rochedo ou pedregulho. 

E já que fallei em tal planta, não quero deixar de dizer aos curiosos 
que tem o titulo de Planta topographica da cidade de Macau, levantada em 
1837 e reformada em 1838 por Cândido António Osório. D'ella darei des- 
envolvida noticia no catalogo, que estou elaborando, das plantas e cartas to- 
pographicas de Macau. E' a de maior escala que conheço. 



Fechado este longo parenthesis, continuemos com a transcripção: 

«Logo que os Olandezes forão postos em dezordem teve lugar o povo 
miúdo p.3 os hir seguindo sempre á sombra dos portuguezes, q.' os segui- 
rão com tanto Ímpeto, que até huma Cafra fez neste dia as vezes de for- 



de produzir a fractura, eram submettidas a uma pancada secca d'esse peso. Assim se 
quebraram todas e esses pedaços de bronze antigo foram vendidos para se valer ás 
necessidades do presente. Mas, como ficou dito, todos os exemplares curiosos foram 
mandados para Lisboa pelo illustre governador. Onde param hoje? No museu de artilhe- 
ria? Foram fundidos no Arsenal de marinha para machos de leme ou vendidos como 
socata? Nada consegui até hoje averiguar, o que farei em devido tempo. 



■ 97 

neira de Algebarrota ainda q.' com arma mais proporcionada, pois asseve- 
rão alguns q.' ella mattara alguns Olandezes com hum espeto, mas outros 
querem que fosse com uma alabarda das q.' o inimigo hia largando pelo 
campo. Desta forma foi o inimigo seguido até o fazer embarcar arrebatada- 
m.*^, tanto, que alguns o fizeram a nado, sem que lhe servissem as Comp.^^ 
de Reserva, q.' na praia tinhão ficado, sendo baldada toda a deligencia de 
as formar de novo, pois sempre embarcarão em desordem. Deixarão mor- 
tos no Campo, e na praia, com os affogados no mar mais de 500 homens 
e por despojo 8 bandeiras, hum Canhão, sinco tambores, muitas armas e 
alguns prisioneiros, dos quaes até o seguinte se viverão 7. Hera tal o medo 
que neste tempo tinhão ao nosso ferro, e tal orror cobrou a Olanda a esta 
Cidade, que como fica tão apartada de Goa, e se ver depois em grandes 
apertos andando estes nossos inimigos Senhores do Sul nunca mais a in- 
vestirão, posto que dizem haverem perdido com temporaes, outra esquadra 
que vinha a este effeito. Obrarão aquelles portuguezes e alguns hespanhois, 
maravilhas naquelle dia principalm.*'' na primeira rota do primeiro esqua- 
drão, q.' custou algum sangue, e duas vidas, p.''que se bem o inimigo não 
fez a rezistencia q.' podéra fazer, não pode deixar de admirar a resolução 
de tão poucos contra tantos. Isto he o que referem muitas testemunhas que 
vivião em o tempo que se escreveo esta Relação. Como também autênticos 
documentos do caso succedido, como he o próprio termo (1), qife os morado- 
res fizeram de um votto que prometterão de ir todos os annos o Corpo do 
Senado na véspera e dia de S."^ João á Sé dar graças a D.^ pela victoria 
que o mesmo Senhor foi servido conceder-lhe n'este dia, ao que não faltão 
os ministros do Senado todos os annos. 

Consta mais p.^ prova que o Regulo de Cantão sabendo desta victoria, 
que alcançamos dos nossos inimigos, mandou 400 picos de arroz p.^ os 
mossos (2) q.' ajudarão a deffender esta terra, visto estarem forros, porque 
seus amos. os derão antes que entrassem na peleja, o qual Regulo levan- 
tou muito de animo os nossos, pois se offereceo p.^^tudo que nos fosse pre- 
ciso (3). 

Consta pediram os moradores d'esta Cidade ao Governador de Manilla 
soccorro, visto o ameaço em que os Olandezes os deixarão n'este mesmo 
anno, q.*^"^ fizerão o seu dezembarque de que tirarão tão pouco fruto, e ne- 
nhum proveito, o que melhor consta da Relação deste caso a fl. volta. O 
d.° G.°'' de Manilla attendendo a uma necessidade e estarmos sujeitos a seu 
Soberano mandou 200 homens com um Mestre de Campo, por cuja indus- 
tria se murou e fortificou melhor (4) 'esta Cidade, porque este anno não ti- 



(1) Não consegui ainda obter copia d'este termo, nem saber se e.xiste no Senado. 

(2) Repare o leitor n'este facto para responder aos que duvidarem de que Macau 
fosse n'essa epocha considerado pelos chins como terra portugueza. Se assim não fosse, 
se Macau era pela China considerado território do puro império porque não mandou 
os seus soldados, os seus bravos, os seus tigres, defender a terra atacada? Contentou- 
se em mandar arroz para encher as barrigas dos nossos cafres que poderiam ir buscal-o 
manu militari ás terras de Hian-chan. Como esse, quantos outros factos poderíamos 
citar para confusão dos taes duvidosos. 

(3) Chegava a tempo. . . depois dos hoUandezes derrotados! 

(4) Repare o leitor n'esta affirmação que vem corroborar tudo o que já dissemos e 
ainda se verá sobre a existência de fortificações em Macau antes do ataque dos hoUan- 
dezes. 



98 

nha muros nem nelles baluartes; também consta mandar algumas bombar- 
das cujas ainda existem nas fortalezas com as armas de Hespanha.» 

«1627, Novembro, 29. — Consta por hum alvará passado neste dia por 
D. Filippe Lobo, trinxante de S. M. e 0.°'' e V. Rey do Estado da Índia, 
sendo G.°^ e Cap."' GJ desta Cidade Thomaz Vieira, filho desta cidade, o 
q.' se achava p/ cabo de 6 navios, que elle mesmo mandou preparar p.^ 
hirem brigar com huma nao olandeza, a q.' tomarão e queimarão, matando 
27 olandezes com o seu Cap."^ e cativando 33, pelo d.° alvará ficou elle 
Thomaz Vr.^ conservado em o governo d'esta Cid.% facto justificado pelo 
Tabellião Francisco Rodrigues, e conservado na Camará d'esta Cidade (1).» 



No ms. de João Rodrigues Gonçalves a narração do ataque de 1622 
não destoa das versões que tenho apresentado. Segue pouco mais ou menos 



(1) Parece que em 1643 ainda vivia este Thomaz Vieira. Na Co/Iecçào, etc , encon- 

tra-se a foi. 9: 

«1643. Novembro, 25. Consta por outro Alvará passado neste dia por Sebastião 
Lobo da Silveira como Cap."i G.' que hera desta Cid.de a Thomaz Vieira Cap.m de In- 
fant.a peio m.t* cuidado que teve no serviço de S. lYl., e ronda que fazia no Baluarte de 
S."^ Francisco com 150 soldados de ordenança sem que percebesse paga alguma, p.'' 
cujo motivo se lhe passou o Alvará em gratificação, no qual também se assignou o Ou- 
vidor que então servia Luiz Pinto de Figueredo, sendo justificado pelo Tabellião Fran.co 
Rodrigues.» 

Mas sobre este macaense e o papel representado por elle na façanha de 1627 ha 
erro ou embrulhada da parte do apontador da Col/ecção de vários factos, etc. — erro 
que sou o primeiro a notar, pelo cuidadoso exame a que estive procedendo para o es- 
clarecimento d'estes factos d^ historia de IVlacau. 

Não vejo, em nenhum dos catálogos que tenho dos vice-reis da Índia, o citado D. Fe- 
lippe Lobo com tal auctoridade. Manuel de Faria e Souza, como veremos adiante, dá-o 
por capitão (capitão geral?) da praça de Macau. No catalogo dos vice-reis, d'esse au- 
ctor, e nos de Kloguen (vertido e rectificado por Vicente de Abreu) e Francisco Maria 
Bordalo (continuador de Lopes de Lima) não vem esse nome. Quem estava governando 
a índia em 1627 era D. fr. Luiz de Brito, bispo de Meliapor e eleito de Cochim, que to- 
mou posse da governança a 27 de janeiro de 1627 e falleceu a 29 de julho de 1628. Logo 
não podia nenhum D. Felippe Lobo em 29 de novembro de 1627 passar alvarás como 
vice-rei da índia. Portanto, se não houve erro da parte do compilador da Collecçãode 
vários factos, o tal tabellião attestou falso. Alem d'isso, ha uma circumstancia que con- 
vém notar. Não é curioso que o mesmo tabellião Rodrigues attestasse dois factos rela- 
tivos ao mesmo Thomaz Vieira: um acontecido no mez de novembro de 1627 e outro 
no mez de novembro de 1643; e acerca de dois alvarás passados por dois moradores 
com o mesmo nome de Lobo — um, o tal D. Felippe Lobo e outro D. Sebastião Lobo da 
Silveira? 

Alem d'isso, emquanto a Collecção affirma, com o testemunho do tal tabellião, que 
ocommandante da expedição era Thomaz Vieira, Manuel de Faria e Sousa, contempo- 
râneo da acção, diz que foi João Soares Vivas, o mesmo que se distinguiu em 24 de 
julho de 1922 e de cuja informação M. Faria e Sousa se serviu. 

Em quem devemos acreditar? Na palavra honrada do tal tabellião Manuel Rodri- 
gues, sobre cujos costumes nada posso dizer, ou na de Manuel de Faria e Sousa que 
fallava 'Sempre verdade, mesmo em hespanhol? Os leitores que decidam. 



99 



a narrativa da Colleção aos vários factos; mas emquanto n'esta se diz que 
foi morto hum dos capitaens olandezes, o de João Rodrigues affirma que o 
morto era o capitão hollandez. E, como dissemos, este não morreu senão 
dois annos depois. 

Esclarece também (como a narração do Boletim) que o bambual era 
«perto da porta do campo, hoje casarias pertencentes a Chico Volong, china 
reconhecido portuguez, e o bambual foi destruído por Filippe Lourenço de 
Mattos em 1791, tornado horta, que foi depois de D. Rita Bagmand.» 



Est. X 




Macau no século xvii (depois de 1622) 
Fac-similc muito reduzido da estampa publicada por Manuel de Faria e Souza 110 tom. 3." da Asía poríuí;uesa(i) 

Com respeito á acção de 1627 repete o erro da CoIIeçào de vários 
factos, a que já fiz referencia, apezar de dar os pormenores que não exis- 
tem n'essa resenha e que se encontram em Manuel de Faria e Sousa. E 
não notou a contradicção que já indiquei! 



(1) Esta estampa apezar de grosseiramente feita e sem a devida escala, segundo o 
systema do tempo, é muito curiosa por ser a mais antiga das conhecidas por mim e por 
não ver ainda citada outra mais remota. Para sua mais fácil comprehensão marquei 
com números os sitios mais notáveis, a saber: 1 fortaleza do Monte; 2 fortaleza ae 



lOO 



Com respeito aos ms. do Bispo Saraiva encontro a descripção dos dois 
acontecimentos em concordância com que diz Manuel de Faria e a Co/Ieçào, 
com respeito ao ataque de 1622. Com respeito á derrota de 1627 cita Fa- 
ria e Sousa e também não nota a contradicção com o que diz a Colleção ae 
vaiios factos que o mesmo bispo conhecia, visto que o transcreve na in- 
tegra n'um dos volumes das suas memorias manuscriptas ! 



Vamos agora ás narrativas de Manuel de Faria contidas no 3.° tomo da 
sua Ásia Poituguesa. E' escusado fazer notar de novo a importância d'ellas 
por serem feitas por um contemporâneo que teve relações com o padre Ál- 
varo Semedo, cuja obra traduziu (1), e diz o que conta fundado no que foi 
communicado por um dos heroes das duas façanhas, João Soares Vivas. 

Vejamos primeiro o que diz na Ásia Portuguesa: 

Com respeito ao ataque de 1622: 

«Traia el Glandes los ojos en este Empório nuestro, y despues de vá- 
rios acometimientos, apareció en el a 19 de Júlio (2) con dezisiete (otros dizen 
23) naves, y gran confiança de coger la flota q' alli estava de partida para 
el lapon, viniendo ya bien cargado de grandes robôs q' en Ias Felipinas avia 
hecho en diferentes baxeles de la China, con los quales se enbolvió uno de 
Portugueses. Traian dos mil hombres de guerra. Su General Cornelio Re- 
geres, passo luego el pensamiento a conquistar la ciudad, y por espacio de 



5. Francisco; 4 fortim de S. Pedro? ou fortaleza do Bom Porto? ; 5 fortaleza de 
S. 7 hiago da Barra; 6 fortim de S. João; 7 fortaleza e ermida da Guia; 8 fortim 
de S. Jeronymo?; 9 convento de S. Francisco; 10 convento de Santa Ciai a; 11 col- 
iegio de S. Paulo; 12 egreja de S. Lourenço?; 13 ermida de M^ Senhora da Penha; 
14 Porta do Cerco; 15 Pagode da Barra?; 16 fortaleza do Bom Parto? ou um redu- 
cto na parte superior da Montanha da Barra?; 17 ilha Verde; 18 ilha da Lapa ou dos 
Padres; 19 Ribeira Grande e Ribeirinha; 20 fiheos do Bugio ou Malau-Chau; 
21 Ilha da Taipa. 

Como os leitores podem observar, a estampa representa Macau visto a vôo de pás- 
saro das montanhas da Lapa; mas não ha n'elia nem proporções nem escala. E' um 
grosseiro esboço que tem valor pela sua antiguidade. E' também curioso notar que não 
se vê o isthmo para além da Porta do Cerco. Effectivamente consta que antigamente só 
se podia passar pelo isthmo na baixa-mar. Na enchente essa língua de areia era ba- 
nhada pelas aguas. Marquei por meio de cruzinhas o caminho seguido pelos hollande- 
zes e o ponto onde foram derrotados em 1622. 

No numero seguinte apresentarei uma outra hoiiandeza da mesma epocha. 

(1) Moreno Porcel, auctor do Retrato, etc, considera a obra El Império de la China 
não como uma traducção da obra de Semedo, mas como uma verdadeira obra de Ma- 
nuel de Faria, composta sobre simples apontamentos d'esse padre. 

(2) E' um erro typographico. E' Junio e não Júlio. 



JOI 



cinco dias bd.tiô el Fuerte ae S. Francisco (1). Dia' de S. Juan, por la mana- 
na, puso en la arena ochocientos mosqueteros q.' fuerõ buscando una trin- 
chera en q.' se hallava el Capitan António Rodriguez Cavalino, q' si bien era 
hombre de pecho, la desamparo conn moderada resistecia, dexãdo en las 
manos de Rufino Capitan de valor notório algunas armas, y unos orna- 
mentos y caliz, q'el embió a su gente ai mar; ya no como aguero de vito- 
ria, si no como si aquel sucesso uviera sido el ultimo periodo delia. En- 
tonces era alli Governador Agustin Lobo de Sequeyra, e Capitan General 
Pedro Fernandez de Carvalho. 

«Fue marchando para la ciudad ayrosamente, como quien no hallava de- 
lante algun impedimiento, quando le salió con 160 hombres el Capitan Juan 
Sudrez Vivas (esta informador) es suya) hombre robusto, que se hallava ai 
trato de su hazienda en el Fueite de vaira. Corria el enemigo a ganar un 
puesto eminente en el campo de Nuestra Senora de la Guia; y ganoselo 
primero velozmente el Vivas. Rocikronse con la mosqueteria; e luego po- 
niendo mano o las espadas, fue el Hereje obligado a buscar sus embarca- 
ciones más que de passo, sin que la valiesse la prissa, porque en el alcance 
dexò tendidos trezientos por aquella playa, y siete presos con las insignias 
militares; y las armas de los vivos como las de los muertos, porque todos 
las largavan por aligerar-se; y un cafion gruesso. Corrida y vergonçosa- 
mente se embarcaron nadando. Dixeron que um hombre puesto en cavallo 
blanco (2) avia sido su vencedor. Si era divino, y sospecharon ellos que 
assi nos disminuian el valor, vanamente lo sospecharon; pues no será esta 
la primera que Christo, Maria, los Angeles y los Santos se pusieron belico- 
sos a nuestro lado, oponiendonos ai suyo, para terror de Gentiles, y de 
Moros, y de Herejes. Mientras esto passava en tierra, las naves batian aquel 
Fuerte, y el las respondió de manera que metiô algunas en el fundo con 
muerte de sessenta. Despues murieron muchos de los heridos. Seis Portu- 
gueses, y poços esclabos nos costò esta vitoria. Tuvo parte en ella una es- 
claba Cafre, que vestida de hombre cõ una alabarda en las manos peleando 
varonilmente, mato três Olandeses. 

«La Ciudad viendo que el ser tan apetecida la acomodava a ser más 
buscada, resolviose en fortificarse de nuevo (3) en tal modo que o la fama de 
la fabrica suspendiesse los deseos de embestirla, o la guarnicion castigasse 
el atrevimiento. Levanto muralla con seys baluartes. En el de San Paulo, 
eminente a la ciudad, plantaron seys caiiones gruessos; en el de la Varra 
catorze, algunos de 50 libras de bala: ocho en el de Nuestra Senora dei 
buen Parto: cinco en el de S. Pedro: en el de S Francisco que mira ai mar, 
ocho; y três en el de S. Juan. Y porque el monte de Nuestra Seiíora de la 
Guia, era padrasto ai de S. Paulo se guarneció ultimamente de modo, que 
le compáron ai Morro de Chaul, coco de los atrevimientos. Tiene diez pie- 
ças, todas de las de grade estatura. Trabajó singularmente en esto D. Fran- 



(1) Com vista ao sr. Bento da França e bem assim os outros trechos sublinhados. 

(2) Outra lenda, que chegou aos nossos tempos, diz que os portuguezes viram no 
alto da Guia a figura de N.a S.a da Conceição que, com o manto aberto, recebia as ba- 
las dos hollandezes. E as balas, ricocheteando, iam ferir não os portuguezes, mas os 
hollandezes que as atiraram. Com taes visões que admira que os portuguezes vences- 
sem! 

(3) E' bom notar isto: Fortificarse de nuevo, isto é renovar ou melhorar as fortifi- 
cações queyá havia. 



102 



cisco Mascarenas allá General, mas benemérito de mayores gobiernos, que 
sus Moradores dél, despues q'le tuvieron (1).» 

Condiz com esta narrativa a que se encontra na obra El Império da 
la China: 

«Esta fue la causa de que los Olandeses se empeíiassen siempre mucho 
en ganar esta placa, dandoles desde allá dei ojo la codicia, que quanto tardo 
más en ser conocida dellos por estas artes modernas, tanto mas los tiene 
de su mano. Embistieronla varias vezes, y vários fueron bien hostigados 
de sus Habitantes; ni podia ser menos, juntando-se ai natural animo, el 
amor de la fundacion. Las bizarrias militares, que fueron vistas en este lu- 
zido teatro, son assunto de otras plumas; que la mia atiende solamente a la 
milicia Eclesiástica. La ultima prueva que hizieron para este su intento estos 
Rebeldes fue el aiio de mil seiscientos veinte, y dos, con mucha gente, con 
mucha municion, y tambien com mucho animo, y orden. Todavia ninguna 
cosa basto, para que muertos muchos, no fuessen vistos los otros ir ver- 
gonçosamente huyendo a buscar sus embarcaciones con el agua por la 
barba. Conseguida una bellissima vitoria, resolviose la Ciudad en fortifi- 
car-se de otra manera, para que tuviesse más que temer, quien bolviesse 
a desearla màs. Levanto muralla, com seis valuartes. En el de San Paulo 
eminente a la Ciudad, plantaron seis cafiones gruessos: en el de la varra 
catorze, algunos de cincoenta libras de bala: ocho en el de N. Sefiora dei 
Buen Parto: cinco en el de S. Pedro: en el de S. Francisco que mira ai 
mar, ocho, y três en el de S. Juan: y porque el Monte de N. Seiíora de 
Guia era padrasto ai de S. Paulo, se guarneció ultimamente, demodo que 
le comparam ai Morro de Chaul, coco de los atrevimientos. Tiene dies pie- 
ças todas de las de grande estatura.» 



Com respeito ao ataque de 1627 diz Faria na Ásia portuguesa no mesmo 

tomo 3.0 

«En 17 de Junho (2) bolvieron a ponerse en la boca dei Puerto de Ma- 
ção quatro naves Olandesas para robar las embarcaciones mercantiles que 
venian a entrarse por ella; y para coger la frota que se via a punto 
de partir para el Japon. Estava por Capitan de aquella Placa Don Felipe 
Lobo, que como se hallava sin hazienda Real para despender, no pudo 
obrar cosa alguna en la defensa. No dudaron los hombres caodalosos, si 
no por la honra, por la utilidad, de salir a esta accion con sus navios mer- 
cantes, todos de remo (3). Aprestaron cinco Juan Suarez Vivas (4), Marcos Bo- 
tello, António Cortês, António Rodrigues Cavaliho, y Juan Teyxera, Eligie- 
ron por Capitan mayor ai primero, de cuya informacion lo refirimos. Sa- 



(1) A curiosa narrativa do governo d'este fidalgo (cujo fim mysterioso ainda hoje é 
um enygma) será objecto d'outro artigo. 

(2) Ha de ser erro typographico. Julho dizem todas as outras narrativas. 

(3) Repare-se n'esta circumstancia. Quatro naus atacadas por cinco navios ae re- 
mos! Quem o diz é um contemporâneo, que não foi contradictado. 

(4) "Vide nota a pag. 98. 



lOj 



Heron en 18 de Agosto. Abordaron la nave Capitana, q.' era poderosa, pri- 
mero el Botello, y despues el Cavalino; y ambos dexaron en esclavitud 
algunos hombres. Poço mejor sucedió a los otros dos que la fueron si- 
guiendo. Llegó el Vivas, y agarróla. Concurrieron todos y metiendo-la den- 
tro cincuenta soldados la desenxarciaron, y pusieron en estado que le con- 
vino rindirse; no que se escapasse a las llamas, porque ardió enteramente: 
murieron treinta y siete, cautivaron cincuenta: cogieronse veinte y quatro 
cafiones; dos mil balas; algun dinero, y no poços bastimentos. Las otras 
ivan huyendo com menos escrúpulo de la vergueça que dei peligro.» 



* 

* ■ * 

E, para terminar por hoje com as versões portuguezas e reservando para 
o próximo numero as extrangeiras, lembro que, ainda não ha muitos annos, 
existia no cartório do Senado de Macau um quadro representando o ataque 
de 1622. N'um apontamento de meu pae encontro notado o seguinte: 

«Quadro do ataque dos hollandezes existente no Cartório do Leal Senado. 
Tem proximamente 12 palmos de comprimento sobre 9 de largura. Repre- 
senta grosseiramente a cidade de Macau, vista a vôo de pássaro do alto das 
montanhas da Lapa, atacada por 17 navios alterosos holl. e grande numero 
de embarcações de desembarque. No alto do quadro, dois anjos com o 
escudo de Portugal, um com a palma da victoria, o outro com a tuba da 
fama. 

No lugar em que hoje existe a Guia, vê-se apenas uma casinha ou er- 
mida. 

Em baixo o seguinte letreiro: 

«Felicíssima victoria que por intermédio de S. João Baptista alcançarão 
«os portuguezes moradores d'esta cidade em 24 de Junho de 1622 de 800 
«homens militares de nação Olandeza, que a pretenderão tomar em um 
«desembarque que fizeram de bordo de 13 naus.» 

Ainda existe este quadro? 

Não me souberam dar d'elle noticia diversas pessoas a quem perguntei. 
Se ainda existe, ainda que estragado, darei com prazer uma reproducção 
n'uma das paginas d'esta Revista (1). 

(Continua.) 



(1) Assim como d'um outro e de dimensões análogas representando o martyrio dos 
portuguezes, em Nagasaki, em 1640, também existente no cartório do Senado. Darei 
d'elle noticia mais desenvolvida quando tratar d'essa tragedia; mas reitero com empe- 
nho o pedido d'uma copia photographica de ambos, — pedido que n'esta data dirijo 
a um dos meus amigos de Macau. 



o 50.° anniversario 



DA 



Morte de João Maria Ferreira do Amaral 



E DA 



VICTORIA DE PASSALEÃO 



SS-S5 dio Agosto de iSz^q 



II 




NTEs de principiar com as transcripções relativas ao vil assassinato, e ao 
papel patriótico desempenhado pelo conselho do governo que, n'essa 
triste contingência, teve de fazer face ás terríveis consequências que po- 
deriam resultar para a colónia, desprovida de recursos e de auxilio im- 
mediato da metrópole, e de arcar com as responsabilidades gravíssimas que 
lhe pezavam sobre as costas, — convém provar que etTectivamente havia contra Amarai e 
os seus actos certas resistências locaes, do género das que em outras occasiões e tem- 
pos tanto inutilisaram os esforços patrióticos de muitos governadores. Não foram só os 
chins que luctaram contra a obra emancipadora. Houve christãos e portuguezes que, por 
todos os meios, quizeram pôr á prova a indomável energia do immortal patriota. 

D'entre os muitos documentos que possuo, escolhi dois, que frisam bem o estado do 
animo dos que os subscreveram. São duas representações do Senado de Macau dirigidas 
ao ministro da marinha contra os actos de Amaral. Se o Senado não merecesse por 
tantas outras vezes o titulo de Leal ; se não tivessem estado ao lado do Ínclito governador 
tantas dedicações de illustres macaistas ; se não tivesse sido um macaense que, com a 
sua bravura, valentia e dedicação pela pátria, arriscou a vida para lavar da bandeira na- 
cional essa vergonha indelével — eu hesitaria em transcrever n'estas paginas esses dois 
documentos. Mas estou coUeccionando materiaes para a historia e não posso furtar, ao 



io6 



exame dos estudiosos, documentos que podem dar a explicação de factos.que, sem elles,, 
ficariam obscuros. 

Amaral teve de luctar contra a superstição dos habitantes chins de Macau ; contra 
as auctoridades chinezas que lhe preparavam a morte ; contra essas influencias locaes, 
que lhe minavam, pela intriga, as melhores iniciativas, e contra a folta de dinheiro que lhe 
era negado pelo governo da metrópole também em lucta com serias difficuldades. Tudo 
venceu até que lhe tiraram a vida os sicários sob as ordens de mandões extranhos ; mas 
elle previra o fim (i ) e não o temia. Bem amargurados eram, porém, os momentos em que 
se occupava de annullar as resistências e intrigas, como as que se lêem nos dois documen- 
tos que, felizmente, não encontraram echo nos ouvidos dos governantes da metrópole. 

i\las, antes de os transcrever, abramos um parenthesis necessário. . 



Publica hoje a Revista os retratos do presidente do conselho do governo e do secre- 
tario do governo que estavam á testa dos negócios da colónia depois do assassinato. Não 
me foi possível obter até hoje os retratos dos outros membros d'esse corpo governativo. 

Sobre os serviços prestados por esses homens, n'uma crise tão difficil para o paiz, são 

testemunho todos esses documentos que irei successivamente transcrevendo ; mas julgo 

conveniente repetir o que disse Carlos José Caldeira no seu livro Apontamentos de uma 

viagem, etc: 

«O conselho do governo na precedente gerência se houvera ao mesmo tempo com 
prudência, e energia pouco commum nas nossas melindrosas relações politicas. Manteve 
quanto estava ao seu alcance a dignidade da nação, tão atrozmente offendida; conse- 
guiu do vice-rei de Cantão, com ameaças bem calculadas, a entrega da cabeça e mão 
da illustre victima do ódio chinez, e o castigo dos agentes d'este crime nefando, talvez 
Os Ínfimos d'eiles, talvez apenas victimas expiatórias que a doblez dos chinas sacrificou 
ao justo resentimento dos portuguezes, e que foram justiçados em Cantão ; dirigiu um 
manifesto ás nações europeas representadas na China, digno e bem deduzido, que me- 
receu os louvores dos homens intelligentes, e da imprensa ingleza na China; e conforme 
com o sensato pensamento politico que o guiava, e com as precárias circumstancias do 
estabelecimento, deixou livre ao governo da metrópole a decisão d'esta espinhosa ques- 
tão, limitando-se o conselho a manter a integridade da colónia, e uma posição especta- 
tiva.» 

Com respeito ao benemérito bispo D. Jeronymo da Matta tratarei mais detidamente 
em occasião opportuna. D'elle reza um artigo de Luiz Filippe Leite que acompanhou o 
retrato hoje reproduzido n'esta Revista e que appareceu no d-írcliivo piítoresco (pag. 273 
do volume i). 

Com relação ao secretario do governo António José de Miranda basta o seguinte 
officio (que se é muito honroso para esse funccionario, não faz menos honra aos que o 
subscreveram) para substituir um biographia. 

O officio foi dirigido ao ministro da marinha e ultramar, datado de 21 .de maio 
de i83o, pouco menos de um anno depois do assassinato de Amaral. Subscrevem-n'o 
o Bispo de Macau D. Jerónimo, Joaquim António de Moraes Carneiro, João Tavares 
de Almeida, Miguel Pereira Simões, José Francisco de Oliveira, e diz assim: 



(i) A propósito do governo ihe protestar as lettras dizia para Lisboa em carta de 23 de novembro de 184.7 

«Eu respondo com a minha cabeça que lieide cumprir e fazer cumprir tudo o que liumanamente seja possí- 
vel e me seja ordenado pelo governo,' mas sem dmlieiro e sem credito é exigir mais do que pôde um homem de 
um braço so.» 

E cumpriu e respondeu com a cabeça! Que fatal poder de previsão tinha esse homem que conscientemente, 
sacrificou a sua vida a bem da pátria! 



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Ta-ssi-yang-kuo 



Vol. I — Est. XI — pag. io6 



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D. JERÓNIMO JOSÉ DA MATTA 



^liot. de P. Marinho, segundo um desenho de Nogueira da Silva, grav. de Coelho, 
publicado no Archivo Pittoresco, tomo I (i857-i838). 



1( 3^, . Ta-ssi-yang-ku 



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Vol. í - Est. XII - pag. 107 



• »^i 





ANTÓNIO JOSÉ DE MIRANDA 
Pliot. de P. Marinho, segundo um quadro a óleo pintado em Maca 



^•*^íe)| 



IO' 



«o atroz assassínio do Conselheiro Governador d'esta provincia coUocou este Es- 
tabelecimento na melindrosa crise que V. Ex.^ sabe. Os acontecimentos succederão-se 
rapidamente, e o Conselho do governo procurou occorrer como cumpria ao seu dever^ 
e á honrosa mas difficil posição em que se achou. 

■•O extraordinário das circumstancias, a novidade d'ellas, a difficuldade da unidade de 
acção e uniformidade indispensável de pensamento em um corpo collectivo, não era o 
menor dos obstáculos que se offerecião ; mas tudo felizmente venceu o patriotismo de 
que todos os membros d'este conselho se achavam animados, junto com 3. fortuna de 
terem encontrado na pessoa do secretario d'este governo — António José de Miranda — 
um intreptete fiel^ leal e intelligente que tão bem soube exprimir aquelle sentimento na 
vedação de toda a correspondência official, que o conselho teve que entreter, já com as 
auctoridtdes chinelas, já com os Representantes das Nações exlrangeiras aqui residen- 
tes^ já com os commandantes das diversas Estações navaes, etc, encontrando sempre o 
Conselho do governo neste empregado o mais decidido :^elo e boa vontade pelo seu ser- 
viço, como attestam as referidas correspondências e as diversas providencias que o mesmo 
Conselho se viu na necessidade de adoptar. Estas numerosas peças otTiciaes de tão va- 
riada natureza e estylo, e que já mereceram os louvores de Sua Magestade a Nossa Au- 
gusta Rainha, /j//í7/72 mais alto do que tudo quanto o Conselho podesse allegar em favor 
do muito que lhe tem merecido os trabalhos incessantes d'este digno e peloso empregado, 
a cuja efica:^ coadjuvação é devido em grande parte o acerto com que elle se desempe- 
nhou da sua difficil missão. 

«O Conselho do governo entende, pois, em vista do que fica referido, que elle faltaria 
a um imperioso dever de justiça se, no momento em que está próximo a entregar ao 
novo governador (i) nomeado por Sua Magestade as rédeas do governo, não recommen- 
dasse a V. Ex.^ os serviços distinctos, que esta Provincia — o (.joverno — e o Paiz de- 
vem ao actual secretario. Sua Magestade, por proposta de V. Ex.' já premiou alguns 
serviços militares prestados por esta occasião ; mas V. Ex.^ sabe muito bem que se os 
serviços feitos com a espada no Campo são sempre mais brilhantes, não menos valiosos 
e efficazes, posto que menos estrondosos, os que a penna presta no gabinete. Assim o 
Conselho do Governo pedindo a V. E.x." que se sirva levar aos pés do Throno de Sua 
Magestade os serviços relevantes e incontestáveis prestados por António José de oMiran- 
da^ secretario d'este governo, confia que a justiça do Maternal Coração de Sua Mages- 
tade remunerando-os condignamente. Dará mais huma prova que o seu Governo justo 
e forte sabe premiar serviços prestados por quem quer que fôr, ainda nas mais remotas 
partes da monarchi.a» (2). 



Segue a transcripção do primeiro dos taes documentos, cuja leitura representa uma 
boa licção de historia. A cubica e os interesses inconfessáveis sempre se acobertaram 



(I) Pedro Alexindrino da Cunha. Chegou a Macau em 26 de maio d'este anno de iS5o, tomou posse em 3o, e 
trinta e oito dias depcis, em 6 de julho, morria repentinamente. Durante esse pequeno espaço de tempo tratou 
com multa vontade de estudar os assumptos da colónia e dera esperanças de que seria um bom governador. Suc- 
cedeu-lhe um conselho do governo presidido pelo mesmo Bispo, e composto do presidente do senado, J. B. Gou- 
larte; procurador, L. M.irques ; juiz, Sequeira Pinto; commandante da estação naval, I. F. Guimarães {então ca- 
. pitáo-tenente e depois Visconde da Praia Grande e governador de Macau) ; tenente coronel João Tavares de Al- 
meida; e secretario do governo António José de Miranda. 

12) A sua biographia completa encontra se no antigo la-ssí-yaítfi-kuo de .Macau (n.° 44 de Agosto de iSõ5). 
D'esse Elogio histórico se vê que nascera em i de Junho de 1814 e fallecera em i de fevereiro de i863, depois 
de ter exercido, durante 7 annos seguidos, o cargo de secretario do governo (desde 1844 a iS5i), servindo com 
os governadores Gregório Pegado, Ferreira do Amarai, conselho do governo, Alexandrino da Cunha, Gonçal- 
ves Cardoso e Isidoro Francisco Guimarães; e depois o de vogal contador da Junta de fazenda. Fez parte de di- 
versas commissóes importantes e em 1859 foi escolhido, nos termos do decreto de 2 de outubro de i856, como vo- 
gal do conselho do governo. Morreu pobre, como em geral morrem os bons empregados portuguezes que não 
teem fortuna própria. E escusado é dizer que o governo da metrópole talvez nem lesse o officio que transcrevi, 
porque sobre recompensas pelos serviços prestados e tão fortemente recommendados. . . não resa a iiistoria. A 
não ser que se queira considerar como tal um habito de Christo com que foi agraciado mezes antes d'esse officio. 
Mas ao fitar essa cruz e esi^a fita vermelha desbotada pelo tempo, não )algo vêr uma d'essas )oias que enfeitam 
tantas casacas contemporâneas; mas uma d'aquellas cruzes com que nos campos da batalha se premiavam os gran- 
des luctadores 



io8 



com a capa de interesses públicos. E era a voz do negocio que fallava : não d'esse nego- 
cio licito e honesto que, para viver, não precisa do abatimento e da humilhação do paiz 
e não necessita para medrar do sacrifício dos mais sagrados interesses politicos d'uma 
nação; mas d'esse negocio que, pela ganhuça, tudo sacrifica: honra, religião e as tradic- 
ções briosas d'um povo coberto de honras e de gloria. Eram vozes semelhantes que en- 
tão e em outros tempos fallavam altivas e reclamavam regalias e autonomias senato- 
riaes á metrópole e, ao mesmo tempo, aconselhavam serviUsmos aos mandarins e sujei- 
ções ás imposições chinezas, porque, com essa sujeição, vinham riquezas e prosperidades 
do negocio e as bolsas se enchiam emquanto se esvasiava a dignidade. Não eram vozes 
taes que excitavam os macaenses aos gloriosos combates contra os hollandezes e pira- 
tas ; que os estimulavam a que mandassem o bronze para a artilharia com que Portugal 
havia de defender a sua independência e havia de fazer bramir nos estampidos de Mon- 
tes Claros, do Ameixial e das linhas d'Elvas, o santo patriotismo d'essa colónia dis- 
tante. 

Tem Macau brilhantes paginas na sua historia. Essas manchas fazem unicamente re- 
saltar o rutilante fulgor d'esses outros factos tão cheios de patriotismo e de honradez 
que são o orgulho dos macaenses. 

Escutemos, pois, e o leitor suffoque a indignação e conserve a serenidade para che- 
gar até á ultima linha d'esse documento escripto em 27 de fevereiro de 1847 : 

«He em desempenho da obrigação que este Leal Senado se impoz na parte final do 
officio que com n." 2 (i) teve a honra de escrever a V. E.^ em 26 do mez passado, que 
elle vai de novo occupar hoje a attenção de V. E.% confiado em que não será de balde 
que elle procure interessa-la no bem estar do Município que tem a honra de repre- 
zentar. 

He sobre o estado da actual extrema decadência deste outr'ora rico Estabelecimento, 
que tem hoje de faliar este Senado; e matéria he esta de tanta transendencia e vastidão, 
que não é possível nos curtos limites de hum officio, trata-la como m.*o seria p.^ dese- 
jar, em toda a sua extensão ; p.' conseguinte este Senado apenas se fará cargo de tocar 
os pontos principaes, apprezentando ao mesmo tempo hum numero de factos sufficien- 
tes p.* provar athe a evidencia o que elle avançou no seu acima citado officio. 

O pezo dos tributos deve sempre ser graduado pela escalla das possibilidades, ou 
milhor das riquezas dos povos; o Governo que os pretenda lançar sem ter attenção a 
este saudável e justo principio hade forçosamente opprimir e veixar o povo,-e a final, 
se atempo senão retracta, arrasta-lo á sua ruina, e quiçá á sua total aniquilação. Eis aqui 
precissamente o que se esta verificando em Macáo desde que se entendeu que, para 
supprir os rendimentos que acabaram com a extincção da alfandiga se devia taxar o 
povo com pezados impostos; medida que o Governo de S. Mg.'i'* sanccionou do mesmo 
modo que decretou afranqueza do porto de Macáo, a qual veio dar o golpe de morte no 
ja definhado Comercio e Navegação deste Establecim.*o, como se vai demostrar. 

Que a medida do porto franco foi prejudicialissima ao Comercio e Navegação de 
Macáo está provado athe a saciedade: contudo ne p.'' isso se dispensará este Senado de 
fundamentar a sua asserção, mas para evitar prolixidades limitar-se-ha apenas a alguns 
pontos que parecem não forão ainda tocados. 

Com a Alfandega havião os direitos ditterenciaes sobre certos géneros de comercio 
exclusivo dos Chinas aqui estabelecidos, á sombra dos quaes preferiam estes fazer nos 
navios da praça os carregamentos que para aqui costumáo trazer dos portos da Java, e 
Estreito de Malacca ; no que empregão hoje com preferencia, no primeiro cazo, navios 
holandezes, nos quaes gozão o beneficio dos dittos direitos asim na exportação dos re- 
feridos géneros dos portos holaqdezes, como na importação, nos mesmos portos, dos 
que de aqui extrahem; e no segundo cazo, navios Inglezes, que lhes proporcionam huma 
conducção mais barata, o que antes não influía em razão de ficar absorvida a difierença 
dos fretes pela differença dos direitos na nossa Alfandega; donde provêm o estar hoje, 
anavegação de Macáo reduzida a uns oito vasos, os quaes se ainda existem é unica- 
mente p.r que seus donos se não podem desfazer d'elles sem grande prejuízo. Isto 
quanto anavegação. Pelo lado de comercio bem alto fallão os factos que todos os dias 



(I) Não consegui obter copia d'esse officio. 



se estão presenciando. A medida do porto franco foi decretada com ofim de favoreser o 
comercio de Macáo, e promover o Establecim.*o de negociantes estrangeiros nesta ci- 
dade; mas vai ja p." onze mezes (que se não dirão longos) que ella vigora, e não so- 
mente se não tem aqui establecido firma alguma estrangeira, se não que algumas que 
aqui se havião conservado, se tem desde então retirado, e huma ou duas outras que 
ainda ahi estão e cuja occupação consiste em agenciar fretes dos chinas p." navios es- 
trangeiros, tãobem tratão de retirar-se antes do ultimo de Março, em que finda o prazo 
marcado p.^ o pagamento dos dois primeiros quartéis das decimas, cujo lançamento re- 
sultou da franqueza do porto. Accresse a isto que vários Hãos que em si consentravão 
o comercio chinês, se tem fechado, asim como muitas boticas (lojas) de mercadores 
chinas, ao mesmo passo que o comercio portuguez é quasi nullo, consistindo todo elle 
no artigo Ópio; e este mesmo cuja venda p.^ miúdo fazia o trafico de muita gente e 
proporcionava os meios de subsistência a muitas famílias, hoje apenas dá occupação a 
meia dúzia de indivíduos; e p.^ ultimo ja no ancoradoiro da taypa se não vê hum só dos 
muitos navios que outr'orii ali servião de depozito d'opio, e cuja presensa nas proximi- 
dades deste porto entretinhão n'elle aquelle trafico (i). 

Não afirmará este Senado ser afranqueza do porto a cauza inmediata e única de tam 
funestos resultados, com quanto estes datem da promulgação de aquella medida; mas o 
que é serto é que de deliberações precipitadas só podem provir consequências funestas, 
mormente quando taes deliberações são aconselhadas pela inexperiência ou, o que ainda 
é pior, pela ignorância. Nunca pareseu mais clara e evidente esta verdade do que no 
prezente cazo. O Decreto do porto franco foi asignado no momento mesmo em que os 
negócios do Establecim.to, p.r huma fatalissima imprevidência, tinhão tocado a crize em 
que, nos negócios humanos, é sempre arriscada toda a innovação cujos bons resultados, 
p.^ mais proficuos que paresão, não tenhão o cunho da evidencia Não foi tida na conta 
esta doctrina; consultou-se antes as riquezas que os talentos, como quazi sempre a con- 
tese quando se tratam os negócios mais importantes desta terra; finalmente só se olhou 
o lado lisongeiro do quadro; e (o principio infallivel não podia errar) as consequências 
forão fataes. 

Foi necessária esta digreção, mas este Senado passa ja a occupar-se do objecto prin- 
cipal deste ofncio. 

Ex."o Sen."", o Establecim.to de Macáo, que se compõem q.do m.to de 5ooo habitan- 
tes Christãos sem industria alguma propriamente dita, sem artes nem officios, que tudo 
para nas mãos dos chinas, não pode jamais supportar opezo das contribuiçõens, p"" mo- 
deradas que sejam, com as quaes se hade ver opprimido, p.^ isso que será obrigado a 
dar aquillo que nem p." si tem. Com excepção de meia dúzia de cazas ricas, em cujas 
mãos se pode di^er que está monopolisada toda a riqueza do Establecim.to, e se se ex- 
ceptuar hum pequeno numero de indivíduos que, em razão de possuírem hum pequeno 
trafico, não vivem na indigência, o resto da população, seguramente quatro quintos 
d'ella, consta de gente que apenas tem com que se manter, e da qual amaior parte, que 
outr'ora derivava a sua subsistência da navegação, ja como marítimos ja como calafates, 
se vê hoje reduzida a um estado que quasi toca a penúria e mendiguez. Convém repe- 
petir ainda neste lugar que o comercio unico que hoje há é d'opio, e que este mesmo 
tem sido ruinozo nestes últimos três ou quatro annos. Em taes circuntancias é evidente 
que o lançamento da decima é uma calamidade p." Macáo, como bem o está attestando 
o clamor geral dos seus habitantes opprimidos de baixo deste pezo tanto mais insupor- 
tável quanto injusto, p.r desigual ; visto que, pela forma que foi feito o lançamento, vem 
o pobre marinheiro a pagar comparativamente muito mais do que o rico e abastado ne- 
gociante. 

Pertender, p.^ meio dos tributos, tirar de hum povo, como V. E." vê ser o de Ma- 
cáo, o necessário p." a manutenção do Establecim.to se não é qnerer a ruina do mesmo 
povo, é pelo menos pertender um absurdo ; mas quer-se que não só pague tributos a 
população europea, se não que também os paguem os chinas; haverá p.''' quem acredite 
de boa fé que os chinas com ejfeito os paguem? (2) De serto que nem a experiência, 
nem o respeito devido á fé dos contractos, nem ainda a equidade autoriza semelhante 
presumpção. Ha cinco mezes que se traia do modo p."" que se hade collectar os chinas, 



(1) Não foi a franquia do porto que determinou essa decadência; mas a prosperidade do commercio de 
Hong-Kong, que ia florescendo á sombra do mesmo regimen do porto franco, tão amaldiçoado pelo senado de Ma- 
cau! E se náo fosse essa franquia, que aliás foi tardiamente decretada, como quasi sempre se costuma usar nas 
nossas coisas, a decadência de Macau seria ainda mais rápida. 

(2) Pois pagaram e pagam ainda hoje e com muito boa vontade, sujeitos á nossa protecção e livres das con- 
tribuições. . . a tnandarina, que pagariam na China. 



I 10 



e ainda senão asentou em coiza alguma; nem he sem fundam. to que geralmente se re- 
ceia que elles só pagarão sendo forsados como forão os donos dos faeteóes em oito de 
8.bro ultimo; e este mesmo facto está provando que os chinas se não submetterão paci- 
ficam. te a hum tributo que, sabem, p.r direito nenhum podem ser obrigados apagar. 
Elles vivem em Macáo de baixo do seu próprio ifoverno, e não são siig eitos ás nossas 
leis como os estrangeiros aqui establecidos; donde se ve que não podem ser reputados es- 
trangeiros, nem tratados como taes ([); acresse ainda que os chinas pagam ao seu pró- 
prio governo tributos de toda a industria que exersem em Macáo. A' vista disto não 
pode este Leal Senado comprehender como é que se pertende obriga-los a pagar tri- 
butos ao governo portugue:^^ sem se violar os mais comuns principos da equidade^ e a fé 
dos tratados (quaes?) tam religiosamente guardada pelos portugueses á três séculos, e 
sem arriscar hum rompimento em todas as nossas amigáveis relaçóens com o governo 
chinês, tam recomendadas pelo de Sua Magestade, e finalmente sem incorrer huma 
quebra irreparável no credito e confiança que athe aqui temos gozado p."" com os chi- 
nas, de quem dependemos em tudo e p.^ tudo (2). 

O prextesto especiozo que se tem allegado p.^ se taxarem os chinas, p."" que nós 
pagamos ao Imperador foro do terreno que occupamos, é tam manifestamente sofistico 
e oposto a bôa fé, que não carese refutação. 

Chegou-se athe a declarar ao chinas, que se não pagarem, serão expulsos do Es- 
tablecimento, sem se lembrar tal vez que o Establecim to depende d'elles qua^i exclu- 
^livamente pelo seu comercio pela sua navegação, e athe pelos objectos de primeira ne- 
cessidade da vida ! 3." Mas dado mesmo que os chinas paguem quanto d'elles se exija, 
o conhecim.to practico desta gente facilmente convenserá que a circunstancia de serem 
elles quem nos fornese de todo o necessário, lhes facilitará os meios de tirar de nós o 
que houverem de pagar; vindo assim a recahir indirectam.te sobre a população euro- 
peia, que pagará p.r si e pelos chinas, cuja população é oito vezes maior. 

O boro acerto de hum governo não se restringe unicamente a promover os rendi- 
mentos nessesarios p.^ occorrer aos seus encargos, mas consiste mais de presa na es- 
colha prudente dos meios que p.* isso se hão de empregar. Este Senado p."- tem notado 
com magua e espanto que hoje só se cura de haver recursos, sem se attenderaos resul- 
tados que poderão seguir-se dos meios que p.^ este fim se empregam. O que se vê he 
que nem se attende asegurança do Establecim. to ; nem se consultão ás conveniências da 
politica ; nem se observão os preceitos do decoro (3) ; nem mesmo se respeita a moralidade 
publica; pouco mais será precizo sertam.te p » tornar acceito o principia de que os fins 
santificão os meios. Asim foi que aponta das baionetas se cobrou o tributo dos fae- 
teóes ; (4) asim he que se pertende agora fazer pagar decimas aos chinas ; é assim que se co- 
bram direitos do sal que estes vendem na taypa p.^ contrabando, direitos indirectam.te 
roubados ao cofre imperial a que pertencem (5) ; foi asim finalmente que se concedeo 
aos chinas lisença para fazerem loterias dentro da cidade, couza que omesmo Governo, 
que a permitio, havia apenas dois mezes antes prohibido como immoral enociva ao so- 
sego e tranquillidade publica. 

Os habitantes d'esta cidade não ignorão estes factos, todos, nem deixão de antever, 
ainda que não em toda a sua extenção, as funestas consequências que d'elles devem re- 
sultar; e p.r isso já duas vezes, recorrendo aos meios legaes, elevarão as suas vozes athe 
o throno de S. Mg.*- para lhe exporem as suas nessesidades pedirem Se sirva desviar de 
sobre elles as calamidades que os amiação. Tam justa supplica não deixará seguram. te 
de ser bem acolhida, e da sabeduria e justiça do illustrado governo de S. Mg.^ nada me- 
nos se deve esperar do que pronptos e efficazes remédios aos males que ora aftíigem 
este Establecim. to, o qual tendo custado tão pouco á coroa Portugueza, tanto lustre 
lhe tem dado. Este Senado, como órgão fiel do Município que reprezenta, trahiria a 
confiança que n'elle foi depozitada se demorase hum momento em levar á presensa de 
V. E.-', p." ser depozitado aos pes do throno d" S. Mg-'= esta franca e verdadeira expre- 



(n Repare o leitor n'estas aflirmaçôes. Não parece um Senado de. . . chinezes a fallar? 

(2) E' a mesma linguagem, as mesmas expressões empregadas pelos mandarins a quem Amaral deu a res- 
posta constante da pagina 27. 

(3l Os preceitos do decoro consistiria em ter deixado de pé tudo quanto Amaral deitou abaixo: governo de 
mandarins, alfandegas chinas, etc ! 

(4) Veja o leitor a pag. 25 a vileza d'esta mentira. Os chins dos faitiões desembarcaram em tom de guerra 
com uma peça de artilharia e disparando tiros contra a nossa força. Segundo os illustres senadores. Amarai de- 
. veria cruzar os braços em vez de os repellir á ponta da bayoneta ! 

pj O Senado de .Macau convertido em fiscal dos direitos do cofre imperial ! 



1 1 1 



cão dos seus sentimentos que são também os dos seus constituintes; e elle a faz con- 
tanta mais confiança quanto não sente o minimo receio de ser desmentido nem no pre- 
zente pJ factos contrários, nem no futuro pelo tempo e pela experencia. 

O futuro já respondeu, depois da obra patriótica de Amaral e da acção heróica de 

Mesquita, com a commemoração do Jubileu de Amaral feito em Macau e em Kong Kong, 

por macaenses de todas as opiniões, no anno da Graça de 1899! 



(■ Continua.) 



Est. XIII 




Porta do Cerco ou do Limite (vista do lado do território portuguez). 
Proximidades do logar em que foi assassinado Amaral. 



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1 






^^^ 



Uma resurreição histórica 



(Paginas inéditas d'uni visitador dos jesuitas) 



(1665-1671) 



(Continuação) 



Q.do os da Cidade forão a vizitar o Capitão mor da Armada, e ao Mandary da Casa 
branca, q.' também lâ se ajuntou com a esquadra de suas barcas ; intimarão elles aos da 
Cidade q.' aquelles barcos nossos dentro de três dias ou se avião de ir p." fora, ou se 
avião de queimar de man ra q.' não íicasse delles sinal algú: com esta intimação volta- 
rão os da Cidade p.' Macáo; aonde propondose a couza em conselho dos da Cidade e 

dos II mercadores, donos dos barcos, resolverão q.' os barcos q.' pudesse se poi. 3 v, 

fizesse á vela p.» a iiha dos ladrões, e os que não, se deixasse queimar porque 

menos inconveniência averia a queima de 4 barcos velhos do q.' declarar-se co 

a resistência a guerra em tempo q.' estava a Cidade desprovida e 

Instarão os mandarys da armada ao 2.° dia q.' se resolvesse a lhe mandar recado 
acerca da queima ou ida dos barcos. Fez o Capitão geral junta dos Prelados e adjuntos 
á Cidade, com a mesma Cidade e algús cidadãos, propoz a couza, inclinando-se na pro- 
posta a que se deixasse queimar os barcos : votarão os presentes, e os mais forão de pa- 
recer q.' se deixasse queimar os que não pudesse sair p.* fora, pelas mesmas razões q.' 
as do 1.° Conselho dos mercadores: algus forão de parecer q.' ouvesse resistência (en- 
tre elles o m.to R. P. G.or (19) e os Prelados e três ou 4 cidadãos não contra o Empe- 
rador, mas representando q.' se não podião fazer impossíveis em tão breves dias, q' 
lhes desse tempo já p.» aprestarem, já p.» se fazerem á vela; mas essa representação em 
balões (i5) armados q.' causasse respeito. 

Emfim vencida a parte affirmativa a mais votos, e tomada a resolução forão_por 
parte da cidade, o juiz delia, e o Procurador da mesma levar a reposta aos mandarTs na 
conformidade q.' se tinha assentado. Disserão então os mandarís m.to satisfeitos do con- 
sentimento q.' tinhão dado os da Cidade p." a queima, ao juiz, pois ide vós mesmo por 
o fogo aos vossos barcos; e assim o fez o juiz, pondo o fogo ou mandado elle mesmo 
por o fogo a algu, ou algús barcos, ou pondose ê outros por sua ordem. Foi essa queima 
na noite dos 14 de novembro de 666 (20) p." os i5, dia em q.' o barco, q.' se tinha 
aprestado p.' a Índia, deu á vela; tendo-se embarcado nelle aos 14 dia antecedente o 



1 14 

P.e P.o Juzarte Procurador a Roma e o P.e André Gomes a Goa : o qual partindo da 
taipa quebrada, foi pelo Mangerição por juto das 6o barcas e somas, á vista dos barcos 
queimados; sem q.' os da Armada bolissê (21) comsigo. So disserão aquelle faz bem, 
q.' se vai p.'' fora. Os barcos q.' se queimarão forão o q.' tinha vindo no ano de hh5 de 
Sião, o de Gochinchina, de Simão de Souza, o de Jacatrà (22) também de Simão de Souza 
e, mais a galé q.' tinha vindo de Massacar por conta do Capitão geral : queimouse mais 
a soma q.' tinha vindo de Gochinchina, e a soma de Gamboja foise a pique por lhe darê 
furo a soma q.' tinha vindo de Macassar e nelie D." Monteiro por Gapitão Piloto e em 
q.' Reys tinha parte, e foi se com as mais p." o mar e nuca mais apareceo : des- 
garrou o barco apatalaxado q.' tinha vindo da Gosta, de M.e' de Pina e de outros; 
e foi dar á costa na ilha de Sanchão e se fez em migalhas, escapando có vida algus ma- 
rinhos que nella hião; huma soma, q.' tinha vindo de Sião, não estava aqui n'esta oca- 
zião ; porq.' avia um mez q.' se tinha ido p." Gantão : e o barquinho que tinha ido p.» 
Manila e arribado do caminho ; ja estava desfeito antes de vire os 60 barcos. 

(N'este logar do manuscripto ha uma chamada para uma nota á margem da pagina, 
que di^ o seguinte : 

Aqui se deve fazer menção da Novena Soleníssima q.' a Nobre Gidade fez, com 
sua Assistência os 9 dias antes da sua festa, com voto particular q.' lhe fizerão: o in- 
tento (?) foi alentar a Gidade q.' estava toda desanimada có a queima dos barcos, com 
as esperanças q.' tinhão no patrocinio do S.to seu padroeiro (23), p.= no meio de tantos 
apertos, a livrar (?) e conservar, etc.) |! 

II A nau de Bento da Fonseca, q.' estava aparelhada se afastou n'aquelle dia algQ Foi. 4. 
tanto para fora, e dahi a dous ou 4 dias se recolheu p." a enceada da Ilha dos ladrões, 
com mais outra soma q.' tinha vindo de Jor (24) ou Malaca em q.' tmhão parte M.ei de 
Pina Mello, M.e' Goelho (?) e depois ficou cõ pai te Fr.co Nunes e o P.e António Nunes e 
o Sr. Procurador. O barco pataxo q.' tinha vindo da hidia, e depois se chamou a Não de 
Timor com hú furo, q.' lhe tinha dado .leronymo d' Abreu, se tinha ido a pique e só apa- 
recia algúa cousa da poupa e os mastros; forão os chinas, entre elles o mandary da 
Gasa branca p." lhe por o fogo aos 16 de novembro; poré com hua peita prometida de 
mil e quinhentos taeis; o mandarvm da Gasa branca o não queimou; antes p." o conser- 
var ajudou hum dia, e duas noites com a gente da esquadra de suas barcas a lançar fora 
a agua, até q.' ficou em nado, e dentro de sinco ou seis dias se aprestou p.^ se por á 
vela, e foi-se meter cõ os outros dous a náo de Bento da Fonseca e a soma de M.e' de 
Pina na enceada da ilha dos ladroes. 

(Nota á margem : 

Depois da queima d'estes barcos se saber em Gantão, começou a correr por cá, q.' 

o Regulo, Gumtô, e outros do governo, mostrarão sentimento de queima, dizendo 

q.' por sua ordé se não fizera : poré he mentira; e com ella quizerão capear (25) ou dis- 
simular o mal que tinhão feito em mandare as 60 barcas a esta facção (26) feita não 
com capa de hostilidade mas de beneplácito nosso). 

Esta náo de Timor se foi aprestando para em Dezembro ou Jan.ro se fazer á vela 
p." Timor, como de facto partio (e nella por capitão Jeronymo de Abreu e o P.e Ma- 
thias da Maia (27) foi no mesmo barco p.'' de Timor ir lego a Larantura (28) a cap- 
tar (?) em meu lugar a Resid.^ (?) de Macassar: no mesmo barco forão 3o ou 40 mulhe- 
res desterradas pela do S.or G.or do Bispado para Timor) aos 1 1 de Janeiro de 

667 e foi obrigada a partir tão cedo n'este dia, mais depressa do q.' cuidava porq.' aos 
10 do mesmc Jan.ro vierão de Gantão, três Tagís dos 10 ou i5 que tinhão vindo de Pe- 
kim, e com elles o mandary de Ansão e o da Gasa Branca : ne hu dia inteiro se detive- 
rão em Macao, porq.' chegando na tarde dos 10 de Jan.ro se forão aos 11 pela manhã 
até as 9 oras depois de ire ao Monte, aonde lhe dispararão sinco peças, p.' os salvarê 
posto q.' elles queriam q.' á prim.ra parasse a salva: e q.do forão pelo campo p."* o Gerco 
perpassando defronte de Nossa Snrã da Guia, dispararão do forte de Nossa Snrã da 
Guia outras sinco peças; e elles com semelhante género de salva ficarão estortega- 
dos (29). 

Tinha corrido em Gantão por fama no mez de Dezembro de 6Gô, q.' de Pekim tinha 
vindo boa nova da licença p.'' as barcas virem comprar o fato de Macào; poré se foi em 
Jan.ro de 667 aclarando por (?) falsa (?): porq.' ainda q.' nos tribunaes inferiores de Pe- 
kim tinha saido q.' se deixasse vir comprar o fato velho de Macaô, com tudo, q.' quando 
ultimamente fora a cousa ao tribunal dos 4 governadores com o Rev, q.' sairá reprovado 
o parecer dos tribunais inferiores; antes resolveu o Tribunal Real, q.' se não viesse com- 
prar fato; mas q.' por compaixão q.' tinha dos de Macaô estaré expostos aos latrocínios 
do mar junto a elle, ordenava polo bem q.' lhes queria, q.' se fossem p.= dentro das ban- 
deiras (?) das terras do Império; mostrando com palavras brandas que se compadecião 



I ir) 

dos de Macaô, pretendendo com esta pirola dourada dissimular ou encobrir a peçonha 
refinada que nella se continha. 

Finalm.te esta orde que avia perto de hú ano tinha vindo de Pekim e sempre se ca- 
lava e dissimulava, finalm.te se mandou intimar á Cidade de Macao pelo j| Mandarim da Foi. 4v. 
Casa Branca e pelo de Ansão ; aquelle se deixou ficar no Cerco e não quiz vir á Cidade 
e este veyo á Cidade confiado na amizade q.' nos mostrava, tendo p." sy, q.' intimada 
a chapa da retirada p.* dentro não seria tão mal tomada intimada por elle, como seria, 
se fosse intimada por outro em que ouvesse mayor sobrosso (3o) : e de facto aos i5 de 
fev.ro de 667 intimou o mandary de Ansão á Cidade a ordé de Pekim, q.' se entrasse 
p." dentro das terras conteudas (?) nas bandeiras do Império (Vide nota /6j. Respondeo 
a Cidade com cortezia agradecendo o amor q.' Emperador lhe mostrava; mas repli- 
cando q.' o despejo (?) da Cidade p.^ dentro não podia ser, porq to o peixe não podia 
viver fora da agua, como nê elles fora de Macao : e outras cousas q.' o mesmo mandary 
de Ansão sugerio : entre ellas que estavão prestes p ^, dando-lhe barcos, ire sopitar ou 
destruir as trombas que andavão levantadas pela banda da Cochinchina e Camboja, 
etc. 

Alem d'esta reposta disse o mandary de Ansão á cidade q.' se querião q.' se tratasse 
de abrir o mar, q.' promettessê mM copia de prata, respondeo a Cidade que promçie- 
rião q.ta quizesse ; tornou elle, q.' devião prometer duzentos e sincoenta mil taeis; res- 
pondeo a Cidade depois de feita junta do povo, q.' prometião os ditos 2ooo5o taeis (3i) : 
(e prometerião quatrocentos mil se tantos quizesse q.' prometesse, só p.^ ire estendendo 
o tempo até junho e julho, tepo em q.' esperavão o soccorro da índia e do Macassar para 
entretanto ire abrindo o cerco e os não destruire á fome ; depois se fará o que for ra- 
zão) com esta resposta se foi o mandary de Ansão e não voltou senão aos 20 de Abril 
como adiante se verá. E a razão porq.' o mandary de Ansão disse q.' promettesse os 
20oo5o taeis he porq ' o Cuntô e Regulo de Cantão disserão : he possivel q.' regulo de Fu- 
kiem pode conservar os olandezes no trato e commercio com 200000 taeis sendo elles 
novamente vindos : e nos não avemos de ter habilidade p." os Portuguezes tão antigos 
aqui e fieis : ora dem elles os 200000 taeis como derão os olandezes, e acrecentem mais 
sincoenta mil p.^ nos (q.' os duzentos mil, dizião, erão p.^ a Corte) e nos os conservare- 
mos mandado a prata dos duzentos mil á corte e depois elles nos irão pagando, por 
partes sinco em cada anno até se perfazer a contia dos duzentos e sincoenta mil. 

Poucos dias antes de o mandary de Ansão vir intimar a chapa imediatam.te acima, 
tinha vindo por orde de Cantão hua esquadra de doze Barcas, a Outem, com voz q.* 
logo avia de vir outra mayor ; o intento era p.*" pore cerco por banda de outê : da taipa 
quebrada, e Caguião (32), e não deixarê sair lorcha algua a mariscar, pescar, buscar le- 
nha, etc. ; e nò mesmo tempo se fechou o cerco, e avia já 20 dias q.' pelo cerco não se 
deixava vir arroz algú. Depois da Cidade dar a sobredita resposta, e o mandary de An- 
são se ir para Cantão com a tal resposta aos 18 ou iv^ de Fev.ro de 667 se abrio o cerco; 
e a esquadra das 12 Barcas se ausentou, e deixou de correr fama, q.' vinha a outra 
mayor : e o cerco se foi abrindo d'ahi por diante como dantes de cinco em sinco 
dias. 

Gomo depois de partido o mandar^' de Ansão p." Cantão com a ultima resposta da 
Cidade; temeo a mesma Cidade, q.' os do governo de Cantão, depois de a mandarem a 
Pekim, pretendesse elles fazer algú género de hostilidade, e se teme que de Pekim ve- 
nha a resposta em Mayo ou Abril; omnibus non obstantibus, que despeje os de Ma- 
cao, e se vão p." dentro : ordenou o Capitão geral á instancia da mesma Cidade q.' a 
nao de Bento da Fonseca, q.' determinava fazer viagê p.» Sião no fim de Fev.ro ou prin- 
cipio de Março de 667, a não fizesse, p.^ ficar em defeza da Cidade á mor cautella, pelo 
temor fundado, q.' ha de a falsidade dos Chinas finalmente vire em rompimento de guer- 
ra : pello q.' não fez a náo viage, e ficou; e Bento da Fonseca fez petição ao Capitão 
geral, que visto lhe não deixarê fazer viagê senão em razão da defeza da Cidade ; q.' lhe 
mandasse fazer os gestos p.^ sustento da mesma nao; e segurar o risco do casco, cabos, 
anchoras, pelouros, pólvora e mais petrechos e munições ; e algíia contribuição que 
fosse obrigado a pagar ou por peita ou por pena a resp.to da mesma nao q.' elle queria 
mandar, p.^ ficar livre d'esses sobrossos (3o), e com algus ganhos para remédio e con- 
servação da mesma náo. O Capitão geral remeteo a petição á Cidade ; atégora não está 
despachada, q.' são 17 de março de 667. 

=Assim mais sea prestou hú barquinho feito de novo por industria do sr. P.dore de Foi. 5. 
D. o Monteiro dentro de hú mez : na enceada da ilha dos ladrões; e de facto á instancia 
da cidade foi mandado a Larantuca dirigido a Fr.co Vieira de Fig.do p.a lhe dar novo 
avizo do q.' em Macaô passava, p.» lhe mandar socorro de algú barco com mantim.to, e 

p.^ vire juntos os barcos q.' de la viesse o barco, q.' se esperava de Fr.co Vieira, 

o galeão q.' se dizia, tinha vindo de Goa a Timor, p.* aly vir a Macaô; e o pataxo em 
q.' tinha ido Jeronymo d'Abreu ; e o mesmo barquinho, q.' deu á vela da Ilha dos la- 
drões para Larantuca aos 20 de fevereiro de 667 levando por capitão, e Piloto, ao mesmo 



ii6 



Diogo Monteiro, com 12 ou 15 marinheiros; e por todos os q.' forão no tal barquinho 
serião até 24 pessoas, entre g '^''^ e pequenas. 

Como a nào de Bento da Fonseca ricou na enceada da Ilha dos ladrões (33) e junta- 
mente a soma de M.ei Coelho Fr.co Nunes e P.e Ant.o Nunes que se estava apresianJo 
p.a Cochichina ; e foi nova á Cantão por via do Mandary da Casa branca q.' estava aly a 
tal nào; sucedeo, que aos 14 de março chegarão a Casa branca dous Mandarys de armas 
mandadas pelo Taitõ de Cantão com duas esquadras de Barcas, cada húa de doze, das 
quais, doze erão g.'^es e doze pequenas; e aos i5 sairão da Casa branca 8 barcas, e vindo 
a Macâo pedirão hú balão nosso para ir em sua companhia até a Ilha dos ladrões, p.^ 
reconhecer a nào e a soma de Manuel Coelho, Fr.co Nunes e P.e António Nunes, q.' es- 
tava de caminho p.' Cochinchina; a qual tinha ordé do capitão geral, e da Cidade, q.' 
tanto q.' lá aparecesse alguãs barcas, e fosse chegando perto p_." a reconhecer, ainda q ' 
fosse juntamente algu ba^ião nosso com bandeira, q.' lhe tirasse um pelouro, até se vire: 
Aos 16 de março vierão da Casa branca as i5 ou 16 Barcas, q.' restavão, e forão em di- 
reitura da taipa quebrada para ire tambe (como se cuidava) a nâu, p." onde tinhao par- 
tido as 8 no dia antecedente com o nosso balão; porem as 16 barcas não passarão 
avante neste dia, e pararão á vista de Macâo antes de chegarê a taipa quebrada. Cuida- 
se, que assim o fízerão, porque ouvirão alguãs peças, q.' devia tirar a nao ás 8 Barcas, e 
ao nosso balão; virão novas certas e continuaremos por diãte. 

Aos i5 do mesmo mez de março vierão por terra; por ser este dia de cerco 
aberto (34), dous mandarinetes, com outro pé de cantiga,. . . pedindo por parte do Tu- 
tão de Cantão, o fato do pataxo do Fr.co Vieira de Fig.do e do de Manoel de Pina Mel- 
lo, q.' em Junho ou Julho de 663 tinhão vindo de fora, sem o pataxo de Fr.co Vieira sa- 
ber da prohibição do Tártaro acerca da navegação (33); dizendo q.' estava julgado por 
perdido, por vire contra a orde do Emperado: por amor do livramento d'estes barcos, 
tinhão ido aos MandarTs do governo de Cantão 3 mil taeis por via de Lysiam Cum e ou- 
tros três mil taeis por via do Boneca (?) ; e depois de os engolire; vierão |' com esse novo 
requerimento: a q.' cuido se respondeo, q.' q do os dous barcos chegarão a Macao, q.' 
avia ja 4 aiíos, vinha o pouco fato q.' trazião, quazi podre por causa das tormentas ; e 
q.' o q.' ficou apodreceo de todo no espaço dos 4 aiíos passados ; e q ' se querião a paga 
d'esse fato q.' lhe desse ou mandasse os ó mil taeis, a respeito dos taes barcos tinhão en- 
viado a Cantão; e que vindo-lhe esses 6 mil taeis com elles pagarião pois o fato todo 
não poderia valer mais; A respeito d'esses barcos ha perto de 3 anos qu está em Can- 
tão retendo M.e' da Fonseca, Capitão e Piloto do dito barco de Fr.co Vieira e outro 
home Portuguez. q.' foi a Bantão em logar de M.e' de Pina Mello; sabe Deus quando de 
lá sairão, visto não ter geito de se acabar esta contenda, tão cedo. Em Cantão está tam- 
bém retendo Aires d'01iv.''a, o qual no fim de outubro de t)66, foi na sua lorcha de Ma- 
cao até Samichõ a buscar lenha, e algu sal; e lá o apanharão 4 ou 6 barcos e o levarão 
a Cantão ; e lá está prezo, e retendo sem mais crime q.' por levar na lorcha algu arroz, 
e levar por remadores dous ou 3 chinas ; e sabe Deus q do de Cantão voltarão, porq ' se 
como deve os do governo esperar algOa grossa peita e elle a não tem ; tê lançado fama 
que a sua causa e crime está delato (?) a Pekim (?) e não acabará de vir a resposta até 
q,' ou se dê a peita grossa, ou se rompa com guerra declarada, p." ou na agua. . . esca- 
par ou p." o ire acompanhar outros, o q.' Deus dão permitta, q.' ou por força ou por 
vontade sejão levados a Cantão. 

Aos 17 de março de 66j voltarão as 8 barcas, q.' com o nosso balão tinhao ido aos 
i5 reconhecer a nào, e a soma de M.ei Coelho, e Francisco Nunes e P.e António Nunes; 
a somastirou ao balão e ás barcas 3 peças (36), e a Náo tirou sete; com q.' se retirarão p.' 
Macào: Com essa nova, e retirada no mesmo dia 17 de março pelas 4 da tarde mandou 
o Capitão geral lançar hú bando pela Cid.e ao som de tambores, q.' todos os q' passasse 
de 14 aiíos, tomasse armas; supposto andare á vista duas nàos, q.' temião fosse inimi- 
gas, pois se não deixavão reconhecer: p." q.' os chinas com esse pregão ficasse mais 
confirmados, q.' as duas embarcaçois que tirarão as peças ao nosso baião e ás suas bar- 
cas, não erão nossas (37) : e pode ser q.' para com esta capa aver lugar de nos irmos pre- 
parando p =" a defeza dando a entender aos Chinas, q.' assim era necessário p.' as duas 
embarcaçois e outras q.' pode ser viesse nos não fizesse mal, por estarmos desaperce- 
bidos. 

Corre por nova certa, q.' depois de o nosso balão chegar a Macào as 8 barcas em cuja 
companhia foi, forão a Cantão a avizar o Tito (q., he o capitão geral das armadas do 
mar) q.' mandasse cem barcas p." ire reconhecer as duas embarcações e perseguil-as 
ate ou as destruire ou a fazer ir e desaparecer: outros dizem q.' forão avizar, q.' avia 
m.tas embarcaçois de Chinas levantadas; e q.' mandasse as cem barcas assim p." des- 
truir as embarcações dos levantados: como p." ire dar na ilha Samicho (á qual averá 
4 mezes q.' forão por o fogo, matar e cativar a gente, q.' acharão) na qual ficarão algQs 
q.' averá hí3 mez armarão cilada a hu mandary, q.' la foi com 4 barcas; e matarão ao 
mandary e a seus soldados, e lhe tomarão as barcas: e então p." se vingaré destes da 



Foi. 5 V. 



Ilha, e dos levantados, se diz q.' forão buscar excessivo poder, sem o qual se não atreve 
com estes poucos: e pode ser q.' seu intento seja ver se pode destruir a nâo, e o outro 
barco nosso: e depois as da ilha Samicho e os levantados; ou cada um por sy ; e todos 
juntos repartindo o poder por três partes. 

(Continua.) 

Notas 

(<9) O mJ° R. P. G.°'- 

o muito reverendo padre governador (do Bispado! . D'onde se vè que elle e os prelados é que tiveram a ver- 
dadeira noção da dignidade n'esse momento em que os mercantes aconselhavam a ignominiosa sujeição á humi- 
lhante pretensão dos chins. Que se queimassem os navios; mas nada de guerras, por causa do effeito que produ- 
ziriam nos seus negócios 1 Sempre assim 1 

(-*^) 14 de Novembro de 1666 

Fique essa data de memoria para eterna condemnação dos que consentiram em tal vergonha. 

(^^) Jacatra 

Antiga povoação ou cidade da ilha de Java. Estava situada no mesmo logar, onde, depois de tomada pelos 
hollandezes, se fundou a cidade de Batavia. Brevemente darei uma estampa representando Jacatra no tempo em 
pertencia aos portuguezes. 

(^^) Sem que os da Armada bolisse 

Nunca os chins se atreveram a bolir com os portuguezes quando estes tiveram a dignidade de não obedecer Ou 
contrariar os seus ásperos mayidados. E' preciso que nos iembrennos sempre de que os chins toleram tudo quanto 
se lhes f ai e fa^em tudo quanto se lhes tolera. Se adoptássemos sempre uma norma de proceder, segundo esse 
ponto de vista, nas nossas relações com os chinezes, Portugal teria hoje na China uma posição bem ditierente do 
do estado de miséria e de decadência em que deixou cahir a sua colónia de Macau. 

(^3) Santo seu Padroeiro 

S. Francisco Xavier (cuja festa é a 3 de dezembro), segundo se deprehende do seguinte trecho de carta di- 
rigida de Macau para Roma, em 9 de dezembro de 1670, pelo padre jesuíta Bartholomeu de Espinosa : 

«Este beneficio do comercio restituído atribuímos em primeiro lugar a São Francisco Xavier a quem esta ci- 
dade tomou por seu padroeiro.» 

fUçlacam do Est. pol. e esp. do Imp. da China por Sebastião de Magalhães, pag. 226). 

São também Padroeiros de Macau : S. João Baptista, Santa Catharina de Siena e N.* S.* do Loreto. 



(24) Jor 



Johor, Gior, Johore, etc. — Reino ou principado malaio, cuja capital, com o seu porto, fica muito próximo de 
Singapura. Depende hoje dos inglezes, encorporado nos domínios designados por Starits Settlements {estahe\ec\- 
mentos dos estreitos de Singapura, Malacca e dependências). Accentaou-se a sua irremediável decadência desde 
que a Inglaterra elevou a um tão alto grau de desenvolvimento a sua cada vez mais florescente cidade de Singa- 
pura que também deu causa á diminuição de importância de Batavia, apezar de muito mais distante. 

Gior ou Jor foi theatro de grandes façanhas nossas desde que Aftonso de Albuquerque tomou Malaca. Ahi se 
illustrou o celebre D. Paulo de Lima Pereira e, ainda no século passado, António de Albuquerque Coelho, o bene- 
mérito e sympathico governador de Macau e de Timor, conseguiu levantar a grande altura a íama do nome por- 
tuguez n'essas paragens. 

O rajá de Jor foi quasi sempre nosso inimigo, e o seu auxilio muitas vezes serviu aos outros príncipes da 
península malaia e das ilhas de Sumatra e Java para nos collocarem em serias difficuldades. Mas o castigo não 
lhe faltou nunca, até que os hollandezes e inglezes começaram a civilisar o Extremo-Oriente... á nossa custa. 

E, hoje, o rajá do Jor está civilisado por meio d'uma farda vermelha e com a carantonha estampada n'um sello 
inglez! 

Mas do que foi e do que nós lá fizemos ficará em occasião opportuna resenha n'esta Revista. 

(2^) Capear 

E' termo bem portuguez, que se emprega em sentido figurdao para significa re«coèrir. Como verbo neutro 
também tem a significação de acenar com capa ou objecto parecido. No dialecto de Macau ainda hoje é empre- 
gado capiá no sf ntido de chamar por meio de acenos. 



ii8 



(26) Facção 

Está aqui empregada esta palavra no sentido bem portuguez de eynpieia ou expedição militar. 

(2^) P/ Mathias da Maja 

Era natural de Portugal. Foi vice-reitcr do í'ollegio de S. I'aulo de Macau desde setembro de i65i até i6 de 
março de i653. Pregou a Fé na cidade de Kiumcheu na província de Kiiang-tung e em Hainão. Reitor do referida 
collegio e Provincial do Japão em 19 de agosto de i638, conservando o primeiro cargo mez e meio e o segundo 
até 26 de janeiro de 1661, em que foi nomeado Superior e Vice-provincial da Missão da China, de que tomou 
posse anno e meio depois, em virtude da disposição da Bulia de Innocencio X, visto ter largado pouco antes o 
cargo de provincial do Japão. Em 1664 deixou esse cargo. Em 1670, quando se abriram as vias desuccessão no 
collegio de S. Paulo de Macau, viu-se que estava nomeado em primeiro legar para o importante cargo de Visita- 
dor das missões da China e Japão; mas de que infelizmente não poude tomar posse, visto já ter fallecido em um 
naufrágio próximo da Cochinchina. 

Foram importantíssimos os serviços prestados por este jesuíta, nas províncias de Kiang-sí, Huquan, Fo- 
kien e Kuang-tung, em serviço da propaganda da Lei de Deus. 

Taes são as noticias que, a respeito d'este padre, pude obter em diversos manuscriplos antigos que consultei. 



(2^) Larantiica 

Povoação e porto na ilha das Flores ou Mangerai, no archipeiago de Sonda e muito próximo de Torím. 

Era possessão portuguez;i até que, pelo artigo 7.° do tratado de 23 de abril de iSSg, ratificado em 16 de agosto 
de 1860, a cedemos á Hol landa juntamente com os estados de Sicca e Paga na mesma ilha. 

Sobre a importância de Larantuca nos tempos antigos, em que lá tivemos por assim dizer o centro das nos- 
sas possessões n'essa parte da Oceania, tratarei em outro logar; mas julgo conveniente citar n'este momento o 
que, a propósito do estado actual de Larantuca, disse o geographo francez Elysée Reclus a pag. 431 do volume 
XÍV da sua obra, em que nem sempre fomos bem tratados: 

«... mais les portugais quí possederent jusqu'an milieu de ce siècle une partie de Flores (isto é o estado de 
Larantuca e os taes de Sícca e Paga) et les petits archipels voisins, etaient beaucovp plus ^eles que les Hollan- 
dais poiír la conversion des nalifs: aussi ne manque-l-tlpas de vialais des iles qui se disent àlafois ^Porltigais» 
et «Cltrétiensn et ont probablement en effet iin peu de saii^^ portugais dans les veines. Des prétres de Timor vien- 
nent parfois visiier les commimautès , baptiser les enfants, benir les mariages, asperger les lombeaux. 

iiCest une ancienne place fórtifiée des Portugais, Laraiitoeka, siiuée au pied du volcan de même nom et au 
bord du détroit de Flores, qui est devenue le clief-lieu des possessions hollandaises dans ces parages. Tous lesans 
une rtotille de bateaux vient de Ceièbcs avec la mousson du nord-ouest pour aporter des articles; de mercerie, de 
poteries et des métaux, puis elle s'en retourne avec la mousson du sud-ouest, cmportant des écailles de tortue, des 
holothuries (conhecido e muito apreciado na China com o nome de bicho do mar) des mds d'birondelles (outro ar- 
tigo muito precioso do commercio com a Chinai et autres produits du pays. Jadís on exportait aussi des esclaves 
Flores, notamment du district occidental, le Mangeraai 

Avant Tannée 1756, Flores était une des iles oú la Compagnie des Indes Orientales interdisait tout commerce, 
sous les peines les plus sévères, de peur que les navire.s ne pnssent un chargement de canelle sauyage, qui êut fait 
concurrence au produit dont la compagnie s'était reserve le monopole.» 

i^'^) Estortegados 

Ou estorcegados. Significa o mesmo que beliscados, torcidos, deslocados. No presente pode-se traduzir mais 
plebêamente por abananados. 

(3'^) Sobrosso 

Termo antiquado que significa figuradamente «o que embaraça» «que molesta.» 

(''*) 200o5o taeis 

Ha certamente aqui engano ou erro de algarismo que o auctór do ms. repete a seguir. Devia ter escripto 
25oooo, taeis em concordância com o que ficou dito duas linhas antes e por extenso. 

(3^) Oiité, taypa quebrada e Caguião 

Oi-teng — Logar na ilha de Lapa onde estavam situadas antigamente as propriedades dos padres jesuítas. Em 
frente d'este logar está uma espécie de bahía, fechada pelos ilhéos do Bugio ou Malau-chau, sede hoje das alfande- 
gas chinezas estabelecidas abusivamente em 1869. 

Taipa quebrada. — A ilha da Taipa é composta por assim dizer de duas ilhas ligadas por uns baixos e bancos 
de areia que, na occasião das grandes marés são cobertos de agua, ou, pelo menos, o eram ainda nos meiados d'este 
século. A este sitio, em que a ilha está como que partida em duas partes, se ficou chamando Taipa quebrada, nome 
que ainda conserva uma praia que lhe fica próxima e junta ás de Jorge Ribeiro e Maria Nunes, denominações cuja 
origem ainda não consegui averiguar. 

Kai-kiang ou Pofita Cabrita. — Nome que ainda conserva a ponta situada a nordeste da mesma ilha da Taipa. 



i'9 



(^3) Ilha dos Ladrões 

Ou melhor ilhas dos Ladrões, assim chamadas porque n'eilas se acoutavam os piratas, com que a nossa gente 
muitas vezes teve de se haver, como veremos quando se tratar do estabelecimento dos portuguezes da China. De 
entre ellas distinguem-se as de Ladrão grande e Ladrão pequeno, situadas na entrada do Rio de Cantão, a sudeste 
de Macau, á distancia de cinco léguas pouco mais ou menos. A primeira é chamada Lauman-chan pelos chmezes 
e a segunda Pocking-han, e Great Ladrone e Little Ladrone pelos inglezes, que conservam, como fizeram a mui- 
tos outros nomes geographicos da Ásia e Africa, a denominação portugueza. 

i^'*) Dia de cerco aberto 

Dia em que se abria a Porta do cerco ou limite por permissão dos mandarins, para a entrada de mantimentos 
em Macau. 

Vide nota 2 a pag. 35 d'esta Revista. 

(^^) Prohibição do tártaro . . . 

Relere-se á prohibição do imperador Sum-che, de que tratei a pag. 35. 

(^^) Tirou 3 peças 



Atirou três tiros de peça. 



(37) 



Depois d'este acto de energia, o medo e as contemplações, que, em vez de socegarem os chins, os determina- 
ram a maiores exigências ! 




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Sisíis pra o estio is dialectos crioulos 



Textos e notas sobre o dialecto de Macau 



II 



o major reformado A. J. Ruas, em i888, escreveu muito para os jornaes e folhas vo- 
lantes. Com o seu originalíssimo estylo conseguiu a mesma acceitação e apreço em que 
no reino são tidos os escriptos do Rosalino e os do não menos popular Ribeiro de Car- 
valho. 

O seu folhetim u Temos fé e não cremos» (publicado n'esse anno em folha volante) 
contra as mulheres em geral, provocou a espirituosíssima resposta em dialecto macaista 
que adiante publicamos. A inserção d'esta resposta obriga-me á do folhetim que lhe deu 
■causa. Qualquer dos dois documentos e os que inserirei no numero seguinte, com que 
se fechou a desopilante polemica, dará ao leitor alguns momentos de desfastio e de 
alegria e aos philologos alguma coisa de útil nas notas com que os acompanho. 

Teuios fé e nSo cremos 



Quasi ordinariamente se diz e se pensa por bem não attendemos a recta e sincera 
verdade, sim que o amor da mulher é superior ao do homem em razão de ser muito 
grande e agradável e útil e encantador o das nossas mães, o que nós também tendo fé 
não negamos, não acreditando egualmente que o amor e amizade da mulher seja o me- 
lhor nem a mais pura e santo e perfeito, isto é segundo observações não infundadas; 
pois que o numero dos abortos peio toxico e voluntários, e o daquellas que tem suici- 
dado seus filhos depois de o terem dado e visto a claridade e luz do dia, embora como 
alguns querem e pensam e dizem por necessidade e disgostos para occultarem a sua 
deshonra e descrédito as pessoas conhecidas e a mais sociedade em geral, é certo e com 
tudo que esse proceder já mais não pode ter desculpa nem tão pouco ser tolerado, sim, 
por ser muito infame e escandaloso e de malvadez, assim como opposto e contrario os 
bons e sãos princípios da mesma honra e dito credito, bem como a todas as mais vir- 
tudes do amor e caridade e religião e da consciência e moral, e não menos e muito mais 
infesados e nogentos e offensivos e desatenciosas as leis Devinas decretos e doutrina e 
mandamentos lio Senhor: — sim este numero de serpentes tentadoras e castiçaes dos in- 



122 



íernos, e com cara e talho e figura e feições de mulheres anjos bem parecidos e bondo- 
sos, e que por arte de berlique e de berloques e sua rosa greta e elegantes e que tanto 
nos subjugão e emlouquecem e nos attraem enganando-dos, não fallando n'essas pante- 
ras hyenas ou giboias devoradouras e sem nem um sentimentos naturaes, mas sim bel- 
las e formozas e que por magica negra e seductora de bruxaria babilónica também tanto 
nos enfeitiçam e encantam e endoudecem, e que sem o mais pequeno remorso de con- 
sciência e de^dor e de compaixão ao publico os abandonaram fugindo por vicio e luxu- 
ria depois não poucas d'ellas com seus amantes, de certo é muito superior ao dos pães 
que por excesso de amor e bem lhes quererem, e não por odio nem vingança, e maldade 
os tem regeitado e aborrecido mesmo por máos e desobedientes e rebeldes. 

Acontecendo como é sabido que já não em poucas partes e em tempos de fome e de 
guerra e outras calamidades, as mães, e não os pães coseram os filhos e comeram seus 
frutos, desemparandos não menos em certos casos de contagio e impedemia e de peste: 
-—Em nós mesmo já tivemos occasião de acudir a uma criança de dous annos que havia 
sido por sua mãe deitada n'um curral dos cochinos porcos para por elles ser tragada: — 
Não mentimos. 

Dizendo-nos também as leis do amor e d'amizade que devemos ver se os homens 
usam da mentira e da impostura e se são enganadores: tendo desde já como certo que 
em regra quasi geral e sem interesse e vaidade, a dedicação do affecto, e a inclinação e 
simpatia da mulher para com o homem, é sempre volúvel e inconstante, e não poucas 
e muitas vezes traidor e infiel, e pelo que além das perdas, dividas e desordens de que 
tem sido causa e motoras, muitos d'elles sahindo tem deixado os Nushirvans e os Lms 
e os Madens para entrarem e se alistarem na ordem e confraria e irmandades de S. Mar- 
tinho e de Hilários e de S. Marcos : verdade. 

Sendo também certo como se diz que no Diluvio Universal, e por muitos e hão por 
todos conhecido, e em o qual o mundo de certo modo e em grande parte mudando se 
transformou para melhor, menos no amor e respeito e reverencia e veneração e temor 
para com Deos, sim, as mulheres mães e todas ellas além de largarem seus filhos, cal- 
caram-nos e punha-nos debaixo de si e de seus pés para que primeiro se afogassem ; o 
que vendo seus maridos e pães e todos os mais homens, appressando-se e lutando e es- 
forçando-se agarravam como a porfia a uns e outros e a levando em seus braços afim de 
primeiro se cumbirem elles antes de os verem diante de seus olhos desaparecerem ; 
sendo também uma d'estas a razão porque o Filho do Deos — Altissimo C J. abaixou e 
desceu a terra mais depressa para Kemir e Salvar os homens, dizendo >e pedindo o seu 
Eterno Pae que assim o era preciso e necessário, sim, já pela condescendência e ofFere- 
cimento e promessa antes feita e despensada e concedida, como tamnem por ainda em 
as almas e nos corações dos homens haver amor e bons desejos e heroísmo e caridade^ 
ernbora estas nobres virtudes corrompidas e turbas e manchadas e cubertas e involvidas 
e intoldadas por esses negros e infame e malditos e horrendos monstros da soberba e 
do orgulho e egoismo e da ingratidão em injustiças, e não menos pela muita e grande 
ambição e vaidade desregrada e degradante em maldade e malicia e fingimento e ronha 
e vingança e velhacaria; desgraças e infilicidades estas indusidas aos nossos progenito- 
res pela desobediência rebelde dos anjos contumases arrogantes e insolentes e malditos, 
e desde então e como castigo diabos e demónios malignos e mofinos e tentadores, e 
pelo que e por depois e antes de nós a mulher Eva nossa primeira mãe ter sida a causa 
do peccado original enganando e seduzindo ao nosso primeiro pae Adão, desobedecendo 
ambos no preceito e mandamentos do Senhor, Pandora aos de Júpiter, e como creêm e 
dizem todos os sábios mais sensatos e judiciosos e com intelligencia e critério, ellas 
senhoras e mais moças e raparigas formosas e bellas e bemfeitas e bem parecidas, e 
mesmo as fusquinhas e azues e morenas e trigueirinhas, e nunca e não de todo desen- 
graçadas mas sim encantadoras como as pombas e as rolas e andorinhas e as gasellas, 
sim, ellas todas e de certo tão somente obterão e serão contempladas com a graça e 
merecimenios dos justos e dos Santos quando casem poncellas e donzellas, e depois de 
Deos, respeitem seus pães amem e obedeçam e honrem e cooperem e coadjuvem e con- 
corram no trabalho fiel e lealmente e em Virtude e com moderação e urbanidade e pa- 
ciência e em sacrificio na boa e digna educação e instrucção de seus filhos, e governo 
domestico e toda a mais familia, e pela harmonia e bom caminho e solida estrada e de 
acordo com as leis e doutrinas e mandamentos do Altissimo, attendendo também sem- 
pre ao ensino e conselhos probos e honestos e modestos de seus maridos — esposos: — 
Logo e portanto e a nosso modo de intender, o merecimento e o apreço e a validade 
do amor em o homem, e não o da mulher, quando não seja em grandeza e no agradável 
e encanto superior ao d'ellas como assim parece ser, todavia e de certo os dos varões é 
muito mais forte e firme e solido e puro, conveniente e integro e justo e religioso, assim 
como preexcelso e sublime e duradouro; tendo ellas obtido e alcançado por caridade e 
misericórdia de J. C, a dita Beneficência e a soltura da escravidão n'este mundo, e o da 
elegância e ornamento d'elle, sim, em attenção aos immensos merecimentos da pureza 



123 



€ santidade da sempre immaculada Virgem Maria cheia de graça e sua mãe santíssima 
a qual reconhecida e adorada e reverenciada pela Egreja e mais christãos seus servos 
como filho e mãe e esposa e templo sacrário da Santíssima Trindade, Ella embora por 
outro svstema e modo de ver e crer e de peusar, de certo, não fallando nos Luterios e 
calvinos' e um e outro e não ignorantes e muito mais velhacos, sim, Ella, não o é menos 
respeitada e tida e considerada como pura e immaculada e cândida pelos Brahmens, Zo- 
roastres, Mahometanos, Budoistas e outras mais que faliam e dizem e confessão haver 
e existir uma única virgem e senhora predilecta e superiora e adornada e enriquecida 
por Deos com todas as Excellencias do amor em virtude e caridade e patrocínio de no- 
breza e illustre pela dignidade da honra e do mérito em humildade e aftecto e gratidão 
para com o seu Deos e Senhor e bondoza e advogada e clementíssima para com todos 
os que a reconhecem e a imploram, embora desagradecidos e peccadores : — Sim esta 
citada virgem e no proceder de todas as mais mulheres, e como escolhida para a mãe 
do verbo Divino, Salvador dos homens, Ella não pode ser contada nem encluida e con- 
siderada em rigor no numero mesmo d'aquellas que se diz e que os respeitamos como 
anjos bondosos e bemfasejos e que pelo seu bom e exemplar comportamento se tornam 
dignas de todo acatamento e consideração em geral- — sim, feliz e ditoso e bemaventu- 
rado homem joven mancebo ou rapaz que encontrarem uma jóia e pérola tão rica e pre- 
ciosa, sim estimaia e gbedecer-lhe, e lembrai-vos e nunca vos esqueçaes de que tendes 
encontrado muito maior e mais grande thesouro e valor do que aquella pedra diamante 
achada não ha muitos annos em os arenosos desertos do Sul na Africa, e a qual se diz 
e se crê ter o valor e merecimento d'alguns milhões de cruzados e de libras, sim, por 
esta Graça despensada e concedida, oflerece e dae a rende muitos louvores ao vosso 
anjo de guarda, e muito mais a (Divina) (Providencia) ; assim como pedi e rogai-lhe que 
vos livre e defendão d'essas toupeiras ratasanas, lobas-cerbaes e raposas astutas e saga- 
ses e manhosas, que são muitas e que na rua e nas sallas e nas egrejas parecem umas 
santinhas-deusas, sim, m.as que de porta para d'entro e passada a lua de mel^ digo-vos 
que são peores e mais dura e carnívoras do que os cosinheiros carrascos e não condui- 
dos e que por gosto e prazer matam e degolao toda a espécie e género de animaes do- 
mésticos e innocentes e pacíficos, e não os tigres e os leões como fracos e cobardes, re- 
gosijando-sé também deitarem vivos no tacho e frigideira os pobres peixes e camarões 
que nem um mal nos fizeram; sendo que durante o dia e a noite alcunaão e appelidão 
o marido com difterentes diversos nomes, como dizendo-lhc : — Oh José dinheiro para 
arroz, batatas, alhos, cebollas, pimenta ortaliça. . . Oh António money para vacca, gal- 
linha, bacalhau, ovos, azeite, tomates, pinafras. . . Oh João Targent para sapatos, cam- 
braia, chapéo, seda, velludo, fitas, meias, luvas. . . sim, e outros muitos variados pedidos 
e exigências; e ai d'aquelle que não lhes obedece e as satisfaz, sim, pois que quando se 
lhes diga que não pode ser, é certa a grande trovoada medonha e carrancuda que sobe 
e decee cae com todo o seu furor eléctrico de raios e coriscos de violência e destrui- 
dores e fulminantes: -Logo os que se quizerem casar, e para melhor as classificarem e 
conhecerem consultem primeiros os homens sensatos e honrados e mais imparciaes e 
com decernimento e sabedoria e que já antes hajão sido casados, sim ouça-nos e escu- 
tem-nos e attenda-nos e sigam e cumpram e observem os seus judiciosos conselhos: — 
ou por outra emitem e façam e não fujam dos exemplos dos nossos bons e Santos pa- 
dres Callistos (219) e todos os mais srs. coroados que entenderem não deverem casa- 
rem, contentando-se e dando-se por muito satisfeitos em só de graça confessal-as e 
absolvel-as. e isto afim e para se livrarem e não cahirem no laço nem na esparella e ra- 
toeira, o que já é de certo serem mais espertos e finórios do que os pardaes e os ratos 
e os teixugos, que cahem — hem ! . . . Deus os abençoa e se esqueça também de todas 
as suas mais cantigrs e tretas e lampanas. . . e digam lá que não sabem levar a agua ao 
moinho e que são tolos e patetas, sim, mas tsnso e sem juizo sou eu e todos aquelles 
que lh'os chamam e os não conhecem — assim nos parece ser 

Dizemos para fé e certeza real de tudo quanto temos expostos e mencionado e o que 
d'ellas e com provas tem dito e fallado, veja-se e attenda-se o que nos dizem os sábios 
de todos os tempos e os Santos Doutores da egreja, os quaes além de muitos outros, 
são os seguintes : — S. Thomaz, S. Francisco^Xavier, S. Bazilio, S. João Chrisostomo, 
S. Matheus, Sto. Agostinho, S.Gregorio, Sto. António e a santa escriptura sagrada, bem 
como a historia e a tradição de quasi todos os povos cultos e selvagens, assim corno os 
sábios — Bartolo, Condrúz, Sócrates, Hypocrates, Tibério, Tamarlião, Hissiodo, Moy- 
sés, Torres e Quinto Sinio. Sendo também certo que Trova foi destruída e arrazada por 
causa de Helena, e não menos Salomão illudido, Sansão agrilhoado e a santidade de Da- 
vid contaminada, e tudo pelas mulheres e outros muito mais casos e occorrencias de que 
seria impossível o recordar-nos, tendo-lhe também sido vedado como biboras e boubel- 
las e inconstantes e volúveis e cataventos e bandeirolas como se diz, o serem excluídos 
de dizerem missa e confessarem, bem como orarem nos púlpitos e nos tribunaes, e nao 
menos de occuparem empregos d'alta confiança e cathegoria e de grande importância e 



124 

merecimento a não ser debaixo e submettidas a directores e parlamentos; como decerto 
de todos nós é bem sabido e não ignorado. 

Finalmente — As excellentissimas senhoras Merencianas, Izabeis, Annas, Monicas, 
Saras, Estheres, Judithas, Noemias, Simirames, Mahan, Agares, Goôres, Erasias e don- 
zellas Geleaditas, Kauningues e Theadoras e eguaes e semilhantes, sim, pedimos perdão 
e rogamos-lhe que commigo se não zangnem; não pedindo desculpa a todas as mais 
mulheres a que nos referimos e alludimos ; pois que a capa e o capéo e o manto e o véa 
ascoroso e infesados e nojentos é tão somente para aquellas que bem lhe fica, bem lhe 
serve e bem lhe assenta; as quaes e em nosso modo de ver n'este mundo, não são pou- 
cas, mas sim morando e residindo muitas por toda a parte e em grande numero, como 
também de todos nós é bem sabido, sim, oxalá que assim não fosse nem acontecesse ! I 1 
de certo, verdade e não mentira: — Abernuncio — disse. 

A. J. Ruas. 



Nôn qiiêro crê uiasquí (35) sâ verdade 

Seramão dé Santo Aníone de Bara (2ig) 

Pôde crè que sã verdade 

Eu. — Maria 

Que pena eu nôn pôde escreve portuguez assim galante como aquelle bulicioso de 
manjor Rua; mas mesmo cusa (i6.3), tudo portuguez portuguez (ib4) que tá bem curtido 
já com nosso lingu de Macáo, logo entende tudo este rabucenga (ib:)) que eu escreve. 
Logo ri, nôn têm nada (it>t)); deçá (167) ri, basta que sabe que Macáo tamêm tem Maria 
que sabe defende honra credito de tudo môlêr môlêr ; nadi (168) consenti que niung-a 
(1C9) cobra cabronco estende sua lingu assim cumprido pra disacreditá pra nós tudo. 

Minha velicia já nunca sã pra lida com aquelle borecido (170) que já nôm têm más 
nada que fazê vem buli com tudo môlêr mólêr, porisso que eu nôn pôde fica calado ; 
quando levanta ira (171) preciso desafoga. Já que elle pôde esquadrinha tanto cusa pra 
fala mal de nôsôtro, bota tudo de raso, iguala com cachoro fêmea (172), pôde tamêm 
ôví agora com paciência tudo que sai de minha boca. 

Pra aquelle pacovio de manjor, amor de môlêr pra sua marido sã «sempre volúvel, 
inconstante, traidor, infiel.» 

Olá que lai (173) de tolo! Que sabe qualo maliçombrado (174) aquelle que já mete 
na sua cabeça, e elle pronto pra acredita, que tudo môlêr môlêr, cava (121) passa /ua de 
mel^ que sã aquelle quanto dia de casado novo novo, começa fazê locura, perde juiso^ 
perde amor pra marido, perde vergonha, namora com ôtro home sortero, casado ô viu- 
vo. Se sã assim, como elle pôde inda atreve de fala, puçá (175) nome de Nosso Senhor 
Jesus Christo que amor de home sã «puro, justo, relijoso, sublime, durador?» 

Agora eu senti sã divera, que tudo gente que já fica muto tempo na Timor, curtido 
com macaco macaco de aquelle téra, quando volta pra Macáo vem já com juizo trucado 
com moço moço, ô com cabeça inchido (176) de miolo de bufra (177). 

Amor de home, como elle fala, sã justo, sã prefêto, sã santo ! 

Nun sã más bom (178) que aquelle maluco vai recolê (179) com sua tolicia ? Mas já 
que vem buli com minha boca, eu querê agora sabe se amor de china china que sã 
home igual como elle, tamêm sã amor prefêto, amor santo! Cada rabo de porco (180) 
masquí pobre, tem más de ung-a praga; cada ung-a china rico tem quanto môlér de pê 
marado, de pê solto (181) : comprador (182) de Mari tem cinco; sogro de Atông tem du- 
zasete. Olá que casta de amor prefêto, de amor sã este ! E pobre de apô apô (i83j que 
chega de falta amor santo pra com sua marido, que de caçada (184) que nadi leva antes 
de vai para na mão de madre abadessa pra negocio de Sincapur! (i83) 

Amor santo de china china na más sã assim ? Amor de tudo nhum nhum, sium sium 
de tudo nação tamêm sã mesmo cusa. Aiá ! (18G) Rê Salmão (187) mesmo nun sã já vivo 
na sua palácio com um mil môlêr? Mas por amor de Deus, nôn mestê (128) ninguém 
fica reva (188) com este pobre vela que nôn têm tenção de offendê niung-a home home 
com este verdade que aquelle manjor de minha pecado fazê sai de minha boca. 

Amor de mai pra filo sã cusa que elle nunca crê ; sã falso, sã conto 1 Que lai de pa- 
teta ! Já ôvi conta, hade ser, algung-a historia de salvaze, já fica incasquetado na cabe- 
ça, que na tempo de guerra ô de fome tudo mai mai mata filo, coze come, agora se hade 
olá, toca de embirá com nôs, fala que tudo môler môler sã giboia, sã serpente, sã car- 
tiçal de inferno com cara de anjo. 



1-25 



Se nós sã cartiçal de inferno, sã pra orna trono de vósôtro, home home,naquelle lu- 
gar. Vai pra igreza, mau lingu, ali que hade òví vigário geral explica que cusa amor de 
mai ; logo òvi tamèm fala na púlpito que nôs sã que tá cai na laço de vôsôtro que sã 
más forte tentação de que aquelle fruta que Eva já cai de come napariso. Já cava (121) 
tempo de Eva engana Adão, agora sã macho macho que engana fêmea fêmea, porisso 
que algung-a tola, coitado, desesperado de vida, toma remédio pra tapa maldade de 
vôsôtro, incubrí obra de chisco (189), obra de cavalo fogoso. Mas más de vez sã vôsôtro 
mesmo que incaxá remédio pra pobre creatura que vôsôtro disgraçá, pra vôsôtro esca- 
puli E pode inda nega que nunca sã vôsôtro que sã culpado? Ingrato! coração, lorto^ 
falta de temor de Deus ! 

Repara agora pra triste figura que tá faz8 aquelle bobo de manjor. Ung-a ora (190)^ 
toma parte de um pôco de brajero, ôtro ora pincha (191), palavra doce pra nôs tudo, 
fala que molêr molêr azul, triguera, azabicha tamen tem sua chiste 1 Certo que sã que 
tem bastante de triguera que sã bem chistosa, tanto que tá bate, dá capote pra quanto 
branco branco, que masquí tem feção, sã ampaz (192) sem sumo; mas azabicha com 
chiste sã já historia de ôlo suzo (njS). Môlêr azul sã divera que eu inda nunca olá; elle 
que fala que tem, hade ser que já ôlá na Timor ô nôtro téra. Na Macáo non têm azul 
nem verde. Pra elle que já tem pê de galinha na ôlo, na boca, atê na nariz, tudo lai cor 
tem chiste, basta que sã môlêr; que sabe mesmo se já fica incantado tamêm com aquelle 
carinha de Maria chalá c/ialà, anjo de Nilau (194), agora anjo S. Rafiel ! 

Mas eu parece que aquelle home tá um pôco luado, juiso vai vem, ô se não como 
pôde ung-a vez fala que sã verdade, que amor de môlêr sã muto agradável, muto util^ 
muto encantador! ôtro vez fala que nôs tudo sã rato fêmea (172), sã raposa, sã astucio- 
sa, sã lobo fêmea (17:2), sã manhosa, sã luçuriosa que fuzí com amante, sã más émada 
(195) que cusinhero, sã carasco de tudo animal animal inocente criado na casa! Credo 
Santíssimo Nome de Jesus, falta só fala que nôs sã ladrona, pirata, pedrero-livre ! 

Depôs de passa nôs tudo pra alma perdido, inda aquelle cusaçuso (19o) quêrê que 
nôs vai mato mata tigre, mata leão para nôs come, pra dá de come nosso filo fila, nosso 
marido ! Nun sã lembrança de demónio? Mas, mufino, quando já ôlá nôs bota na tacho 
pece vivo ? Nunca sã inventação pra iguala nôs tudo com salvaze de ila de Caneca que 
come pece com tripa ? Pra coze ô frizí pece, nun sã preciso primero tira escama, abri 
bariga, tira tripa, tira guela, depôs de bem lavado com quanto agu, então bota na ta- 
cho .'' Cava fazê tudo este cusa, pece pôde inda tá vivo ? Se nôs deçá de come pece, 
cambrão, porco, vaca, frango, ade (143) ô ôtro animal que gente cria, de que cusa logo- 
vivo ? Elle mesmo, aquelle maluco, que cusa tá come tudo dia ? Mas que sabe se tá vivo 
como bonzo bonza (197», come tafú mui (198) com bredo (142) chacháu (199) na más 
com aroz ? Ninguém nadi crê que elle pôde acha carne de tigre ô de leão tuclo dia na 
tudo téra, muto peor na Macáo. 

Ung-a vanda (200) sã pra gente fica reva, ôtro vanda sã pra acha graça com sua his- 
toria. Quando já sucede môlêr pedi com marido dinhero pra compra ung-a ung-a an- 
cusa, atê alo, sabola, como aquelle inventador fala ! Tudo marido marido que sã empre- 
gado, na principio de tudo mez, logo que recebe paga, costumado entrega pra sua môlêr 
dinhero pra dispesa de casa. Se marido ganha muto, familha pôde come más bom pu- 
cado (201), pôde vesti más bem, pôde frequenta loja de moro (202), pôde vai comedia, 
pôde assisti fonção (2o3); se ganha pôco, môlêr tem de trabalha tamên com costura, 
tem de reguJá gasto, popa quanto pôde pra marido nunca fica com nome de calotêro; 
se algum prega calote sã sua culpa, porque querê juga latán (^204), bebe tanto vinho, 
sustenta. .. sã más bom deçá eu fazê ung-a cruz na boca ! Se marido gasta pra fora, 
nunca dá pra sustento de familha, môlêr nun sã tem de grita pedi? Se nunca pedi com 
marido com quem logo pedi ? Se cure rua pedi esmola justiça pega bota preso, fala que 
sã lei novo, ô manda policia companha leva pra casa. Marido quando sã rico já num.- 
camçá (2o5) fala; familha sã logo passa sempre com grandeza, pôde vai vem Hongkong 
de sua vontade, manda mistre Rôs fazê vestido de anca de tudo quaUdade de fazenda 
de moda, compra chapeo de pruma, sapato de Eropa com fivela lustro como de padre 
padre; logo tem sua mai de casa (206) pra anda com gasto, logo tem boi (207) pra ser- 
vi, logo tem tudo regalo como rainha, como princeza. Pôde fala que nunca sã as- 
sim > 

Agora basta já de perde minha tempo pra lidá com dodo; tá cançado já de escreve, 
ôclo tá turba minha vista, mas logo escreve torna se aquelle buliciosó vem ôtro vez com 
más asnera. Se elle querê profiá {207) com eu, escreve portuguez ; guarda sua latim pra 
quem entende. Quanto vez que elle já escreve latim, eu sempre toma pra lingu moro ; 
mas ung-a vez eu já leva pra minha menino bonito, minha querido confessor, diretor de 
minha alma, de minha corpo, de minha coração, pra traduzi ; elle fala que tá 'erado por- 
isso que pôde confundi com lingu moro. 

Maria Varè-Rua. 



12<3 



Notas 



(Segue a numeração em i63 e não em 162, visto ter havido engano na numeração das notas a pag. 66, 
engano que é conveniente indicar para evitar confuióes. — A nota i3o corresponde á rsg e vice-versa, e a i3r à 
i32, e assim por deante, accrescenlando uma unidade aos algarismos até a r6i, que ficará sendo 162. A i3r 
deve ser substituída por vNadi cae ne chan«, isto d, não liade cahir no chão, não cahirá em esquecimento.) 



(iCiò) Mas mesmo cusa. — Mas é o mesmo. . . 

(164) Portugues-portugue^. — Portuguezes. (Vide nota 22). 

(i63) Rabucenga. — Garatujas. 

(166) Non tem nada. — 'Hão faz mal. 

(167) Decá. — E' o mesmo que deixa, deixar. 

(168) Nadi. — Náo hade. (Vide nota 2). 

(169) Niung-a. — Nenhatn, nenhuma. 

(170) Borecido. — Aborrecido. 

(171) Levanta //-a. — Encolerisar-se. 

(172) Cachoro fêmea. — Cadella. E' este o modo de indicar-se, no maior numero de casos, o género femi- 
nino. Rato fêmea, rata, ratazana ; lobo fêmea, loba. 

(173) Que lai. (Vide notas 19, 28, 49 e 54). 

(174) Maliçombrado. — Mal sombrado, phantasma, aventesma. N'este caso, diabo, demónio. 

(175) Pucá. — Puxar. 

(176) Inchido. — Enchido, cheio. 

(177) Bufra. — Bufala, a fêmea do búfalo. E' animal muito vulgar nas várzeas e terrenos agricultados que fi- 
cam nas proximidades de Macau. 

(178) Más èo?w. —Melhor. 

(179) Vai recolê— Vá recolher, vá a fava 1 

(180) Rabo de porco. — Assim chamam os macaistas e os reinoes aos chins por causa do rabicho que estes 
usara. 

(181) Moler de pê marado. — Mulher de pés amarrados. Refere-se ao uso adoptado pelas mulheres chinezas 
ricas, a quem apertam desde creança os pés para os tornar microscópicos, aleijando-os. E' com o fim de indicar 
que são mulheres que de nada precisam e teem muitos criados, visto esse aleijão as inhabilitar de darem qualquer 
passo, necessitando para isso do auxilio de criadas. Moler de pê solto é a que teve a felicidade de não possuir esse 
aleijão. 

(182) Comprador, china comprador . — China encarregado pelas casas commerciaes europeas de realisar as 
compras de que necessitam nas casas chinezas, em que são muito hábeis, não só pelo conhecimento da lingua, como 
dos hábitos e manhas dos seus patrícios. Teve o comprador uma grande importância nos tempos antigos em que 
os europeus ainda não estavam bem habituados aos trucs do commercio chinez. Os inglezes e outros estrangeiros 
amda hoje lhe dão o nome de compradore. 

(i83) i4/!Ó. — Mulher china. 

(184) Cacada. —Vancíáí, tosa. 

(i85) Negocio de Sincapur. — ReteTe-se á prostituição promovida pelas abbadessas ou alcayotes que recru- 
tam para Singapura a legião de mulheres chinezas que são lançadas na voragem da desgraça n'essa colónia in- 
gleza, onde abundam os chins. 

(i86)X/a.' — Ora! Ora adeus! 

(187) i?éSa//«ao. — Rei Salomão. 

(i88j Fica réva. — Ficar zangado. 

(189) CA«co.— Diabo, demónio. 

(190) Unga ora, oiro ora. — Umas vezes, outras vezes. 

(191) Pincha. — Atirar. Em portuguez pinchar significa, como é sabido, «impellir, fazendo dar saltos, der- 
ribar>, ou, como verbo neutro, «foliar saltando». 

(192) Ampa-{. — Bagaço. Vem provavelmente do malaio. 

(193) 0/0 íK^o. — Olhos que vêem coisas sujas, vergonhosas. 

(IQ4) iVíVai/. — Sitio muito celebre na parte sudoeste da península de Macau. Encontra-se ahi a conhecida 



12' 



foyite ou bica de Nilau ou Litau, a que se iigam certas tradições curiosas sobre as extraordinárias virtudes das 
suas aguas que teem a propriedade, segundo resa a lenda, de : 

quim já bebé agu de fonte de Nilau 
ò lô casa ò lô more na Macau 



Quem bebeu agua da for;te de Nilau 
ou casará ou morrerá em Macau. 

Em muitas terras de Portugal existe a mesma ienda com respeito á virtude de certas fontes. . . casamen- 
teiras. 

A\gb\ Emada — Esfomeada, glutona. Provém esta palavra de Ema ou casuar (strutltio casuaiius de Li- 
maul a que se attribue a mesma voracidade das abestruzes fStruíhio camelus, Lin.) que, para encherem a enorme 
vastidão do estômago, engolem coisas volumosas e duríssimas — até objectos de ferro, segundo assevera a lenda 
com menos verdade. 

Í196) Cusaçuso. — Coisa suja. E' o mesmo que mali sombrado. (Vide nota 174). 

1:97) Bon^o bonja. — Bonzos e bonzas i. e. frades e freiras da religião budhica seguida por uma grande parte 
dos chins. Segundo os dictames d"essa religião não devem esses sacerdotes comer carne de animal, mas simples- 
mente alimentarem-se de vegetaes. 

(198) Ta-fú-mui. — Uma espécie de acepipe chinez. Tem a forma de pequenos queijos e é feito de massa de 
feijão ou coisa parecida. 

(199) Chacháu ou chauchau. — E' o refugado á chineza. P^az-se com dentes d'aIlio e banha de porco. Em es- 
tando a banha o ferver deita-se no tacho um dente d'alho pisado. Em estando frito o alho lança-se o que se quer 
para tomar o gosto. As hortaliças, couves ou bredos, não devem ser cosidas nem demoradas ao lume para não per- 
derem o verde. 

(200) Vanda. — Banda, lado. 

(201) Pucado. — Bocado. 

(2021 Loja de moro. — As lojas dos mouros são as que em Macau vendem geralmente as fazendas de origem 
europêa. Mouros são em Macau todos os indivíduos de religião mahometaiia. 

(203) Fo?icáo. — Bailes, sairdes, saraus. 

(204) Latatt- — E' o celebre jogo tão vulgar na colónia. Em artigo apropriado explicarei o que seja. 

(205) Nuncamcá ou Nunca sã. —Tem aqui o sentido de não é preciso, e escusado. 

(206) Mai de casa. — Mordoma ou mordoma, quem diiige os gastos d'uma casa. 

(207) Boi - Rapaz para servir á meza. Vem do inglez Bor, assim como do inglez procedem muitas palavras 
do dialecto. Verde garrafa diz-se em macaista verde botle. 





(Extractos de joroaes e correspondências) 



SUMMARIO 



Ainda a expansão de Macau — Resposta ao «.Economista» — O altruísmo nas relações 
internacionaes e o procedimento das grandes potencias — O commercw de Macau com 
o rio d'()este — As alfandegas chinejaS — Em que apparece aoccasião de recusarmos 
a cooperação estabelecida pelo protocollo de 1HH6 — • Um aviso do «Porvir» ao governo. 
— Um abuso praticado pelos chins na ilha da Lapa — Os ingleses appoiam a expan- 
são de Macau — -4 opinião favorável dosjapone^es — O direito que assiste a Portugal 
na partilha do império chine^. 



Será pouca toda a attenção do governo e do publico que toma interesse pelas nossas 
questões ultramarinas, para os seguintes artigos extractados do patriótico jornal de Ma- 
cau O Lusitano., que tem prestado um valioso serviço á nação com a sua propaganda 
que tem sido bem acceite, como o leitor verá, até pela imprensa da visinha colónia in- 
gleza de Hong-Kong sempre ciosa de qualquer beneficio que possa resultar para Macau. 
Um jornal japonez também segue essa corrente que Portugal deve aproveitar para levar 
a bom fim a liquidação dos seus interesses na China. Ora quem tem por si a opinião de 
inglezes e japonezes, cuja preponderância no Extremo Oriente é notória, não deve con- 
siderar-se mal acompanhado. 

Além d'isso é grave o que informa O Lusitano sobre o que se passou com uns ex- 
cursionistas portuguezes na Ilha da Lapa, fronteira a Macau, e que tem de ser fatal- 
mente incluida dentro das fronteiras portuguezas. O ultimo tratado deixou pendente 
essa questão. Repito o que sempre disse. Podemos ser infelizes na nossa aspiração á 
posse da ilha de Hianchan, tão necessária á vida e prosperidade de Macau e sobre a 
qual a secretaria do Ultramar ainda no principio d'este século julgava tínhamos juris- 
dição. Mas o que não podemos é deixar de reclamar com os melhores fundamentos e 
direito a posse das três ilhas (visto já estarem occupadas pornós ha cincoenta annos as 
de Taipa e Coloane) que rodeiam Macau — Lapa^ D. João e Tai-vong-cam e a evacuação 



i3o 



da fortaleza de Passaleão (tomada pelo bravo Mesquita) que ha poucos annos foi de novo 
occupada pelos chins por inqualificável desleixo nosso. Isto pelo menos, quando não 
possamos alcançar o mais que aconselha O Lusitano, com o appoio da imprensa japoneza 
e ingleza do Extremo Oriente — fundados na abusiva e vexatória despreoccupação com 
que as autoridades chinas deixam medrar os piratas que pullulam nas proximidades de 
Macau e Hian-chan. 

Inicia O Lusitano a continuação d'essa serie de artigos com a promettida resposta 
ao Economista de Lisboa : 

A doutrina do illustre jornal (O Economista) resume-se em pouco. Que o procedi- 
mento actual das nações europeias para com a China, pobre e desamparada (podia es- 
crever também «corrompida a barbara») é desleal e pouco generoso Que Portugal deve 
ter a dignidade de não se aproveitar das calamidades que assolam o vasto império para 
obter d'elle quaesquer vantagens, nem sequer a da delimitação de Macau, cuja incerteza 
de fronteiras tem dado e continuará dando origem a constantes contiictos. Que as na- 
ções são regidas pelo direito, como os individues, e que o cumprimento da lei aproveita 
especialmente ás nações pequenas e fracas, que, por isso, devem ser as primeiras a res- 
peital-a. Que ninguém pode dar senão o que é seu, nem acceitar senão o que é de quem 
dá; e, assim, está Portugal inhibido de entrar em ajustes com qualquer das outras na- 
ções da Europa para obter territórios ou vantagens na China em troca de vantagens ou 
territórios na Africa, por exemplo. Prevê, ainda, que a cobiça das grandes potencias 
virá a ser a causa immediata da ruina d'ellas. 

E', pois, o artigo, como outro publicado antes pelo mesmo jornal, de sciencia espe- 
culativa : simples expressão de uma doutrina, tão applicavel ao estudo das condições 
actuaes de Portugal em relação á ilha de HeungShan como ao das conquistas de Ale- 
xandre, ao do retalhamento da Polónia, ou até ao das conferencias entre sir Alfred 
Milner e o presidente Kruger. Cabe dentro d'elle a historia universal. O Economista 
adopta para si como doutrina uma fácil ampliação da de Monroe. A China para os chins. 
Da mesma forma poderia dizer: a Africa para os pretos. Este respeito meticuloso, da 
parte do circumspecto semanário, pelo direito de propriedade era, de resto, de espe- 
rar-se de um jornal cujo titulo é por si uma divisa ordeira. 

Já em números anteriores dissemos que o alargamento da pequena possessão de Ma- 
cau por uma extensão compatível com as forças de que possa dispor Portugal, seria não 
só vantajosíssima para o paiz, pelos enormes recursos que lhe traria, mas até indispen- 
sável á conservação do existente, em caso de partilha da China. Mas, como taes razões 
não calam no espirito d'0 Economista, que, louvavelmente, antepõe a todas as conside- 
rações os princípios absolutos do Bem e da Justiça, tentaremos mostrar-lhe que, em face 
dos mesmos princípios, nada haveria de censurável para Portugal em acompanhar a po- 
litica europea na China, de maneira a assegurar a existência de Macau em condições 
razoáveis de vida, no caso de mudar, como tudo indica que mudará em breve tempo, o 
aspecto das coisas no extremo oriente. 

Não discutiremos se é moral ou immoral o procedimento das nações poderosas que 
nos últimos annos teem reduzido o vasto, populoso e riquíssimo Império da China, pela 
falta de fé nos contractos e pela brutalidade nas ameaças, á impossibilidade de defen- 
der-se até contra os mais fracos. Pode ser que tudo tenham sido iniquidades. . . Mas se 
a cólera do Senhor vier por causa d'elias a fulminar os povos, decerto não incidirá so- 
bre a pequena nação portugueza que para tantas maldades nem por ommissão contri- 
buiu, visto que não tinha a força de impedil-as. 

Será perverso o coração das nações. Mas Deus emprega os maus como instrumento 
da sua justiça. E na China ha tantos horrores a clamarem por expiação ! — Deixae pas- 
sar a justiça de Deus, exclamava o padre Huc a propósito do tiagello do ópio. As abo- 
minações, se o são, teem sido praticadas e continuarão possivelmente a seJ-o. A Ingla- 
terra, a Rússia, a França, a Állemanha, todas essas nações endurecidas, fecharão os 
olhos á doutrina d'0 Economista como o povo de Babylonia cerrava os ouvidos á pala- 
vra de Ezequiel. A partilha da China virá a fazer-se. E, se Portugal até então tiver des- 
TÍado os olhos, pelo receio de ficar transformado em estatua de sal como a mulher de 
Loth, a sua abstenção em nada aproveitará á China : aproveitará ao paiz de réprobos 
que se lhe houver substituído na usurpação Em tal altura já não poderemos alíegar o 
que poderíamos allegar hoje : que em certa porção de território temos direito de pre- 
ferencia. Se então o dissermos, perguntar-nos-hão o motivo pelo qual, se tínhamos tal 
direito, o não fizemos valer a tempo. O nosso desinteresse actual na questão será con- 
:siderado como uma cessão tacita. 

Isto dizemos nós como resposta ao Economista. Se escrevêssemos para algum jornal 



i3i 



a quem affligissem menos as grandes injustiças da historia, accrescentariamos que não 
seria razoável Portugal esperar, para fazer as suas exigências á China, por circumstan- 
cias mais prosperas d'este paiz, mesmo sendo provável que taes circumstancias ainda 
viessem. Na historia das relações entre Portugal e a China abundam exemplos da forma 
pelo qual a generosidade e a boa fé portuguezas, em horas afHictivas da China, teem 
sido depois recompensadas. E até d'este século. . . Além de que, quem governa, zela in- 
teresses alheios, e acerca de interesses alheios, a ninguém são permittidas as transac- 
ções generosas. 

Mas voltemos á questão da moralidade. Ninguém ignora a profunda decadência que 
teem attingido as instituições senis do vastíssimo império. O que era primitivamente 
mau mantem-se, por interesse dos dirigentes e por orgulho feroz, em um despreso im- 
pudente de todo o progresso. O que era bom (e muitíssimo era) vae-se por si mesmo 
desconjuntando, como se desconjuntam, entre as immundicias accumuladas de séculos, 
as lageas de mármore das ruas de Pekim. A forma do governo patriarchal, abençoado 
durante milhares de annos, em que assegurou a tranquillidade e a prosperidade do im- 
pério, suicida-se actualmente na intrica, ora trágica, ora imbecil, entre os yamens e as 
legações e sob os telhados amarellos dos palácios da cidade interdicta. O funccionalismo 
cuja forma de nomeação, de entre a classe lettrada, era exaltada como exemplo pelos 
maiores espíritos da Europa ainda no século passado, attingiu um grau de ignorância, 
de corrupção, de abjecção, que raramente terá sido attingido em outras nações na 
agonia. 

E tudo o mais assim. 

Os missionários, em urh trabalho incessante de séculos, quasi nenhum fructo tem 
colhido, alem da palma do martyrio com que de vez em quando são recompensados — 
a morte com requintes de tortura ás mãos da ralé. 

A Europa tem, pois, no vasto paiz de Cathay muito que fazer. Não é apenas um 
duello de interesses : é principalmente, e apezar de algumas violências praticadas por 
mero egoismo, uma cruzada do bem. 

N'essa cruzada não pode Portugal, sem perda da sua honra, deixar de ter o seu lo- 
gar. A cidade de Macau, cuja fundação precedeu de três séculos a dos restantes estabe- 
lecimentos europeus na China, e d'onde, durante tanto tempo, os grandes missionários 
partiram, abrazados de fé e de caridade, a espalhar-se pela China e pelo Japão, precisa 
de existir como cidade portugueza e como centro civilisador, embora restricta a sua 
acção a uma arca limitada, de harmonia com as suas posses, que são limitadas também. 
Ora a vida desafogada da cidade, de maneira a poder assegurar a realisação de taes fins, 
só pode obter-se pela acquisição de uma proporcionada região agrícola de que seja ca- 
pital e de onde possa contar com recursos certos. Essa região deve comprehender todo 
o terreno contíguo a Macau que pelas concordatas de 18^7 e iSSf') pertencem effectiva- 
viente ao bispado de Macau, isto é, deve comprehender a ilha e distncto de Heumg-Shan. 
Mais do que isso seria talvez tarefa demasiada para a nação portugueza. 

De direito pertence ainda ao Real Padroado toda a provinda de Cantão. Mas tal di- 
reito, como em 1870 escrevia no seu relatório o sábio arcebispo D. João Chrysostomo, 
não mais se poderá converter em facto. «Dissemos que a província chineza de Cantão 
«nunca mais poderia pe"tencer ao padroado portuguez, porque a PVança terá bastante 
«influencia na corte de Roma para se conservarem ali os missionários francezes, cuja 
«influencia lhe é sobremodo proveitosa para o commercio na China». 

(O Lusitano de 20 de agosto.) 



Como estamos convencidos de que perdida a opportunidade que ainda se ofterece 
de cuidarmos de definir os nossoos direito de soberania, alargando-os mesmo quanto 
possível pelos meios que ao governo pareçam mais convenientes aos interesses da na- 
ção, não largamos este assumpto de mão, certos de que se alguma cousa se conseguir 
n'este sentido prestamos um serviço importantíssimo ao paiz e a esta colónia pelo de- 
senvolvimento que da sua expansão resultará para o commercio em geral. 

É por isso que, plenamente d'accordo com o que diz a tal respeito o nosso coliega 
o Ultramarino de 21 de julho n'uma bem elaborada correspondência que d'aqui lhe foi 
enviada pedimos licença para a transcrever : 

«Macau, 26 de maio de 1899. 

Desde a abertura dos portos do Rio de Oeste, ha 2 annos, tem Macau perdido grande 
parte do seu commercio d'exportação para as aldeias circumvisinhas, que outr'ora cos- 
tumavam vir prover-se do necessário aqui. 



l32 



Hoje com a nevegação a vapor dos portos de Hong-Kong e Cantão, são estes que v 
lhe fornecem o que d'antes vinham buscar a Macau. 

Hong-Kong, livre de impostos e taxas, com immensos recursos, estando o commer- 
cio estabelecido em bases solidas, sempre rico, florescente e sem rival cá no oriente, 
pôde attrahir os commerciantes das terras circumvisinhas, que sempre procuram os 
mercados mais favoráveis. 

O porto de Kong moon, no Rio de Oeste, é o que mantém mais negocio com Macau 
d'onde dista apenas umas 3o milhas. 

Ha navegação a vapor de Macau a esse porto, que se chama de escala, mas infeliz- 
mente nenhum vapor extrangeiro pôde fazer carreira de Macau a Kong-moon por não 
ser porto aberto. 

Pôde ir a Kong-moon, mas o vapor terá que ir até Sam-Sui, o primeiro porto aberto 
ao commercio extrangeiro no Rio de Oeste, que dista umas 78 milhas de Macau, e com 
que esta cidade não mantém relações commerciaes, Entre Macau e Kong-moon podia 
correr diariamente um vapor de ;oo toneladas, fazendo 2 viagens' por dia. A exporta- 
ção d'aquelle porto para Macau, é de i5o.ooo toneladas por anno, não contando passa- 
geiros chinas e a importação de vários géneros de Macau. 

Cumpre ao governo remediar esse grande mal, instando por que se abra ao com- 
mercio extrangeiro o porto de Kong-moon, que é o único d'importancia com que Ma- 
cau matem relações commerciaes ; pois presentemente todo o negocio se efíectua por 
meio de juncos ronceiros. 

Isto com respeito ao Rio de Oeste. 

Agora com respeito á expansão de Macau. A China é uma espécie d'um grande pas- 
tel, no qual algumas potencias europeas já lhe morderam uns bons pedacitos. Ora Por- 
tugal também deve fazer o mesmo. Para nós, o districto de Heung-Shan, a que está li- 
gada esta colónia, já seria mais do que o necessário. É rico; pôde abastecer Macau, de 
arroz, chá, carnes, etc. 

Nas nossas mãos, haveria lá nas aldeias mais garantias e seguranças para os pró- 
prios chinas. Macau ligado a ellas por uma linha férrea, viria a ser o porto principal de 
exportação das suas grandes riquezas naturaes. 

Consta-me que o rendimento annual é de um milhão de dollars. 

Com a acquisição de tão rico território, já o governo podia abolir em Macau o jogo 
e outros monopoHos e exclusivos. Teria então fontes honestas onde ir procurar receita. 
A meu vèr, deveria fazer-se como em Hong-Kong, cujo governo trata sempre de at- 
trahir o commercio, o£Ferecendo-lhe vantagens e estabilidade. 

Macau com o Heung-Shan ficava então livre da China, não dependendo d'ella para o 
abastecimento do arroz, que é aqui o género de i.'' necessidade. E' esta a melhor região 
a que Portugal pode aspirar, e agora é a occasião de tratar d'isso, antes dos desmem- 
bramentos da China. 

Muitas rasões pode Portugal ailegar em seu favor; não se esquecendo da fidelidade 
em que se manteve quando pelos bandidos ou rebeldes lhes foram offerecidas duas pro- 
víncias, se combatesse com os rebeldes contra a mónarchia então reinante. Waquelle 
remoto tempo, se tal auxilio tivesse sido prestado por Portugal, a mónarchia reinante 
teria sido derribada. Mas ella nada fez, nem então, nem depois. Mais tarde mesmo ba- 
temo-nos coiajosamente contra os piratas ou rebeldes, e nada recebemos também, pois 
que Macau ha muito era já portuguez (i). 

Como se vê, o assumpto é importantíssimo e urge tratal-b diplomaticamente e sem 
detença.» 

Pela nossa parte appoíaremos sempre as ideias da correspondência que acabamos de 
transcrever, as quaes são afinal as mesmas que este jornal tem sustentado até aqui. 

O governo da metrópole deve deixar-se de utopias e tractar a serio de garantir o fu- 
turo de Macau; não por simples considerações de interesse, mas por isso é um dever a 
cumprir para com os nossos irmãos d'estas paragens. 

Os portuguezes no Oriente são em numero muito maior do que se julga na metrópole, 
quasi todos oriundos do Macau, onde teem ou tiveram suas famílias e que amam como 
sua terra natal. 

Tractarmos a serio de garantir a vida d'esta colónia não é mais do que pagar uma 
divida á sua lealdade. 



(I ) O argumento é de pezo . . . para corações generosos ; mas de nada servirá para o coração chinez, duro como 
pedra para reconhecimentos e gratidões com que o governo não poderá contar. O verdadeiro argumento está in- 
dicado na historia de todas as nossas negociações com a China. 



i33 



As deferências com a China não devem prender o governo. Comprehendem-se aquel- 
las com quem as sabe agradecer, ou como paga de outras deferências. 

Ora como nos pagou a China o colossal serviço que lhes prestámos destruindo as 
forças do pirata Cam-pau-sae, que com uma esquadra de 690 juncos guarnecida por 
40 mi) homens ameaçaram derribar o império? 

Pagou-nos com a mais negra ingratidão, indo-se lentamente e dissimuladamente as- 
senhoreando ou pretendendo assenhorear-se até dos próprios territórios onde já está- 
vamos estabelecidos, como a Lapa, D. João, ilha dos ladroes, Vong-cam e até dos pró- 
prios Montes de Passaleão. 

Emíim nem em Macau estaríamos ; e nem aqui nos poderíamos verdadeiramente 
dizer em território nosso se não fosse Ferreira do Amaral. 

Portugal com as suas preoccupações de correcção diplomática foi deixando correr 
as coisas á espera dos taes accordos a bem. 

E' muita força de ingenuidade esperar lealdade da China. 

Se Portugal tivesse entrado em accordo com Cam-pau-sae tinha hoje e desde ha um 
século as duas províncias de Kuang-Tung e Kuang-Si, que o pirata oflferecia officialmente 
ao governo de Macau em troca d'esse accordo e que consistia unicamente em o deixar- 
mos proseguir no seu intento de derrubar a dynastia. 

Os povos d'estas regiões estariam livres das extorsões mandarinicas, o christianismo 
teria feito mais conquistas, e nos cargos supremos do Império chinez estaria outra dy- 
nastia, a qual se lembraria de que devia aos portuguezes a sua ascenção ao throno, ao 
passo que a actual esquecia tão depressa e tão ingratamente que lhes deveu a sua con- 
servação. 

Tal ingratidão é revoltante. 

O governo da Metrópole não pode hesitar um momento em tractar do assumpto, pois 
tal abstenção seria imperdoável. 

Se Portugal deseja respeitar os seus princípios de lealdade diplomática, no presente 
caso não os respeita mas até os affirma fazendo patente um facto que muitos extran- 
geiros ignoram e talvez a historia da diplomacia europeia. 

Portugal não tem outro caminho senão attender ao clamor de seus filhos ou filhos 
de seus filhos que aqui estão pelo Oriente prestes a cahirem no desprestigio de aban- 
donados pela pátria — pedindo á China apenas o pagamento de uma divida em aberto. 

Pelo menos deve obter o districto de Heung-Shan que constitue uma pequeníssima 
parte do que ofTerecia (Jam-pau-sae. 

A situação actual é simplesmente uma vergonha — um verdadeiro ludibrio. 

Estamos aqui sem condições algumas de vida própria, e sob o jugo de ferro das al- 
fandegas chinezas (i). 

lO Lusitano de 3 de setembro;. 
# 

Acaba de chegar ao nosso conhecimento um facto que é na verdade bem extraordi- 
nário, e para o qual chamamos a attenção de s. ex.'' o ministro da marinha e do seu 
collega dos negócios extrangeiros. 

Ha dias um grupo de portuguezes de Macau lembraram -se de ir passear á vizinha 
ilha da Lapa, o que constitue aliás um dos hábitos mais triviaes e indifferentes da popu- 
lação d'esta colónia. De volta do passeio, estavam já todos na pequena lorcha que os 
havia de reconduzir a Macau, quando apparece um china, enviado pelo posto fiscal, a 
pedir direitos de cães ! . . . 

Os nossos compatriotas repelliram essa insólita audácia, fazendo desembarcar im- 
mediatamente o sujeito e dizendo-lhe que fosse pedir taes direitos a s. ex." o governa- 
dor de Macau, que elle saberia dar a resposta. 

Não podemos deixar passar em silencio este facto, que nao tem precedentes, e que 



(I) Sobre as alfandegas chinezas appareceu no Porvir, de Hong-Kong, de 19 de setembro, a seguinte impor- 
tantissima noticia para a qual chamo a esclarecida attenção do sr. ministro dos extrangeiros, principalmente na 
parte que vae em itálico: 

«Consta que as alfandegas marítimas chinezes acabam de abrir uma estaç.ío em Boddam Cove, na ilha de 
Tong-ho, distante umas quinze milhas de Macau, em substituição da estaç;io dt Chung-chau, que é agora territó- 
rio britannico. Todos oi juncos que agora vão na direcção Este ou Oeste de Macau terão de tocar na nova estação. 

E assim vão os nossos bons amigos mglezes sacudmdo d'aqui o pesado jugo das alfandegas chinezes e em- 
purrando-o para perto de Mucau. 

Ora como o prolocollo de i 8li6, entre Portugal e a China, estatue que, respectivamente a alfandegas chi- 
re^as, tal regimen xó dure em Macau emquanto durar em Hongkong, bom será que por lá se va também repa- 
nando alguma coisinha nisto.» 



i34 

é mais uma prova evidentíssima de que a China, longe de considerar o nosso retrahi- 
himento da politica do Oriente como tilho da lealdade e da generosidade, o considera 
filho da fraqueza. 

Nunca, até ao presente, tiveram os chinas a audácia de fazer uma exigência de tal 
ordem aos portuguezes, que vão quotidianamente, podemos assim dizer, passear á Lapa. 

E hoje, quando í^ortugal, por considerações apenas de correcção diplomática, tem 
hesitado em fazer á China, não dizemos já exigências, mas a justa e simples reclamação 
do que lhe pertence, como é que nos corresponde a China? 

O facto que acabamos de apontar é bem eloquente. 

Venha ainda o nosso collega O Economista fazer nos pregações de delicadeza e de- 
ferência para obter respostas como esta ! . . . 

Mas ha mais ainda: 

Ao passo que o collega se vae devaneando com a sua doutrina, que no reino pare- 
cerá bonita e que sobretudo é commoda, os nossos compatriotas vão sendo victimas dos 
assaltos dos piratas ; e nós aqui em Macau, vamos dia a dia entrando n'uma situação 
cada vez mais angustiosa, porque os bandos armados roubam e violentam os contracta- 
dores que tèem de ir ao interior buscar mercadorias e viveres para Macau. 

Sr. ministro dos negócios extrangeiros ! esta situação é terrivel para Macau ; e não 
só para os portuguezes, mas também para os próprios chinas aqui residentes, que con- 
stituem a grande população da colónia, que aqui tèem o seu commercio, as suas pro- 
priedades e a sua familia. 

São estes até as principaes victimas da pirataria, que cada vez anda mais desen- 
freada; sendo o governo imperial inteiramente impotente para a cohibir. 

As providencias tornam-se urgentíssimas. 

E' preciso que a bandeira de Portugal proteja esta gente, que veiu refugiar-se á sua 
sombra e que por isso mesmo é mais perseguida. 

O nosso estimável collega Hong-Kong Daily "Press (i) h'uma noticia que adeante 
transcrevemos, referindo-se aos casos recentes de pirataria n'estas regiões, diz que são 
elles um argumento de grande força a favor dos que advogam a expansão de Macau por 
todo o districto de Heung-shan. 

O sentir do Daily Tress é o de toda a gente, que sensatamente souber comprehen- 
der os interesses da civilisação, a qual tem de começar por manter o principio sagrado 
do respeito da propriedade individual e os mais sagrados ainda da integridade e vida 
dos indivíduos, que egualmente tèem sido por ahi postergados sem que as auctoridades 
chinezas tenham tomado providencias effectivas. 

Não deve pois haver a menor hesitação. 

Portugal deve entrar em negociações com a China, para, nos termos em que nos 
exprimimos no nosso penúltimo numero, obter a adjudicação do districto de Heung- 
Shan, que é uma pequeníssima parcella do que nos ofFerecia Cam-pau-sae. 

Procedendo assim Portugal apenas reclama direitos, como demonstramos, sem que se 
lhe possa lançar em rosto o minimo odioso E' simples e legítimo conco-rrente a uma fal- 
lencia aberta: — fallencia que elle, como nenhum outro paiz teria o direito de abrir e 
não quiz abrir, apesar das provocações, também recentes, a propósito da ilha de D. João. 

Não terminamos este artigo sem mostrarmos o nosso agrado pela referencia, com- 
quanto ligeira para nós, bastante significativa, do nosso collega de Hong-kong. 

Os tratados que estreitam as relações de Portugal com a Inglaterra, e a lealdade com 



(i) «A desordem, diz a folha ingleza, prevalecente sobre toda a província de Kuangtung, está-se agora fa- 
zendo severamente sentir também no districto de Heungshan. Um correspondente informa-nos que em Pakfatao 
e outros legares do districto ha grande numero de ladrões que se constituíram a si próprios em dezeseis quadri- 
lhas ou companhias, chamando-se as principaes divísi5es Lam San Tong, Son VVo Tong, Kit Ee Tong e Kwong Ke 
Tong. Estas quadrilhas teem concertado um systema regular de extorquir dinheiro da gente rica e lojas nos mer- 
cados e exigir tributo dos barcos ae passagem, e o povo está tão intimidado que se submette tranquillamente as 
suas extorsões. No mez passado foram pirateados três barcos de seda, amontando em algumas mil patacas a pro- 
priedade roubada. Cada barco de pesca tem também de pagar tributo, sob pena de lhe ser arrojado o peixe ao rio. 

<Em Macau a inclusão do districto de Heungshan no território portuguez ha algum tempo que tem sido dis- 
cutida. Se o estado de negócios acima descripta ha de continuar, os advogados da extensão da colónia portugueza 
terão um forte argumento em apoio do seu caso.» 

(Hong-Kong Daily Press, de i3 de Setembro, cit. pelo Porvir de Hong-Kong.) 

"Os piratas operando no Rio de Oeste e immediações diz se que são em numero de sessenta mil. 

«Estão bem armados e o movimento cheira mais a rebellião do que a pirataria, oppondo-se os piratas ás au- 
ctoridades locaes e procedendo elles mesmos á cobrança das taxas. Não é um estado de coisas sem precedente. 
No decimo sexto século os piratas chegaram a bloquear Cantão, e foi sómerte com o auxilio dos portugnezes que 
o bloqueio foi levantado. Conseniir-se-lhes-ha na presente occasião que ganhem sufficiente força para tornarem a 
bloquear a capital provincial, ou quererá o governo inglez varrer o mal antes de amaaurecer?» 

(Ib., de 12 de Setembro ) 



i35 

que Portugal os sabe cumprir, a ponto de se lançar n'uma lucta hercúlea quando recusou 
adherir ao bloqueio continental de Napoleão, claro está que tornam a Inglaterra interes- 
sada em que a Portugal se faça a adjudicação, antes que outra qualquer potencia lance 
mão d'essa área territorial. 

Temos presentes as palavras proferidas recentemente em Lisboa, com vibrante en- 
thusiasmo, pelo almirante Rowson, commandante da esquadra do Canal, no banquete 
que, a elle e aos outros officiaes seus camaradas, foi offerecido pelo sr. ministro da ma- 
rinha na sala do Arsenal. 

Se o sentir de todos os inglezes for como o que sinceramente manifestou o respei- 
tável almirante, será dever dos portuguezes o corresponder a esses sentimentos de ami- 
zade ; e será do interesse de Portugal e da Inglaterra o alimental-os e consolidal-os. 

Note-se bem que para nós é principio assente que as relações individuaes poderião 
fundar-se na sympathia mutua , mas as relações politicas, em regra apenas se fundam no 
interesse mutuo. Estas, porem, facilitam muito aquellas. 

A Inglaterra tem todo o interesse em manter no continente essa alliança, única em 
que pode conliar. 

Portugal não tem esquadra, mas tem mostrado ainda n'este século que continua a 
ter, nos impávidos soldados do Russaco e arrojados galuchos das campanhas d'Africa, 
os representantes não degenerados da nossa raça de heroes. 

Precisará da Inglaterra cá fora, como outr'ora a Inglaterra precisou de Portugal ; 
mas lá na Europa, por aquellas serranias de Traz-os-Montes ou dos Herminios, isso 
nunca ; porque, como dizia Pombal, «um homem em sua casa pode tanto, que, mesmo 
depois de morto, são precisos quatro para o tirarem para fora.. .» 

Alli a alliança de Portugal com a Inglaterra representa um grande interesse para esta, 
porque fica tendo, em caso de guerra, um cães no continente. 

E' pois de esperar que essas boas relações de amizade e alliança continuem ; não só 
pelas tradições que já vêem por largos annos desde o casamento de D. João I com a 
Princeza de Lencastre, mas pelo interesse commum. 

Foi isto pequena diversão do assumpto, para não deixarmos de fazer referencia ao 
nosso collega de Hong-kong. 

Isto porem não quer dizer que Portugal envolva a Inglaterra, ou qualquer outra po- 
tencia, n'uma questão que deve tratar directamente, pois reclama direitos próprios e 
exclusivos. 

lO Lusitano de 17 de setembro.) 
# 

Não devemos abandonar este assumpto, da expansão de Macau, porque intimamente 
se prende com o futuro e prosperidade d'esta colónia e com o engrandecimento da Pá- 
tria. Felizmente que com os nossos artigos conseguimos já despertar a attenção não 
só da imprensa do reino, onde elles teem sido transcriptos e discutidos, mas da imprensa 
extrangeira, que vigia todos os acontecimentos e tudo quanto se escreva que se rela- 
cione com a questão do Oriente. Em alguns jornaes americanos, e até em importantes 
jornaes japonezes, tivemos occasião de ver exíractados alguns dos nossos artigos, citan- 
do-se o nosso semanário com referencias que nos animam a proseguirmos n'esta cam- 
panha O Osaka Asashi, de Osaka, a Manchester do Japão, por exemplo, transcrevendo 
a noticia dada pelo O Lusitano, do ataque feito á lancha portugueza no rio de Oeste, 
em que foi ferido o seu commandante, o sr. Capitulino Osório (i), dava como coisa cor- 



(I) No Lusitano, de 3 de Setembro, encontro estas locaes sobre o caso do ataque dos piratas : 

«O governo inglez determinou, em vista do abandono a que a China vota a policia dos seus rios, que uma 
canhoneira partisse de Hong-Kong a policiar, por sua conta e risco, o rio de Cantão. 

«Bem haja o governo britannico. A Chma, pelos seus tratados, obrigou-se a garantir a segurança dos súbdi- 
tos das diversas nações com quem fez esses tratados. 

«Mas a verdade é que não só deixa que os assaltos á mão armada se repitam em plenas horas do dia com 
perda de vidas, de haveres e graves transtornos do commercio, sem providenciar de qualquer forma ; mas ainda 
as suas auctondades se mostram mditierentes em geral ás reclamações feitas, como ha pouco succedeu com os ne- 
gociantes de seda em Cantão, o que deu logar a reclamações de alguns ministros extrangeiros perante o Tsung-li- 
yamen. 

«Por excepção parece que se attendeu a reclamação do sr. governador de Macau, perseguindo-se os aucto- 
res do crime da lancha portugueza Taipin^', tendo sido presos e executados sete chinas como responsáveis pelo 
facto. Não falta, porém, ouem diga que, como na China ha sempre gente de sobra para decapitar, nenhum d'esses 
miseráveis era d'essa conorte qc malfeitores que são o terror dos seus conterrâneos e até das próprias aucton- 
dades. 

«Seja como fôr, a medida do governo inglez deve ser seguida pelos outros governos que nas províncias do 
sul teem interesses a defender. 

«O vice-rei dos dois Kuangs communicou ao sr. conselheiro governador geral d'esta província, em satisfa- 
ção á reclamação que s. ex." fizera sobre o assalto á lancha portugueza Taiping, no rio d'Oeste, que tinham sido 
presos )á e decapitados sete dos implicados n'esse crime, e que proseguiam as diligencias para a captura de to- 
dos os criminosos e para a restituição dos roubos commettidos.. 



i36 



rente e perfeitamente rasoavel, o pedido que siippunha ter-se feito á China dhimaindem- 
nisação territorial. 

Lá fora, como se vê, não se julga nenhuma utopia a these que apresentámos e temos 
defendido, — acha-se inteiramente viável a acquisição para a coroa portugueza do dis- 
tricto de Heung-shan. So os que tenham interesse em que esta colónia continue a ser 
restricta a uma cidade de vicio, em que a corrupção e suborno constituem o ganha-pão 
de muito gente ; só os que, como o nosso collega o Economista preferem o commodo 
do nada fazer aos sagrados deveres de todo o bom portuguez que sacrifica o seu con- 
forto ou a tranquillidade do seu espirito ao bem publico, — só estes poderão oppor-se 
á expansão de Macau, que é, de resto, a única solução que se deve tomar no momento 
presente, em que nos ameaçam tão sérios perigos, se quizermos manter no Extremo 
Oriente, sem futuros encargos para a metrópole e com uma subsistência sem macula, 
este glorioso padrão das nossas conquistas. 



As scenas de pirataria que dia a dia se vão passando no sul da China, e a que nos 
temos referido em números anteriores, vêem incontestavelmente reforçar ainda mais a 
razão d'esta nossa campanha, em que ha mezes vimos empenhados; e são ellas de mol- 
de, — pela sua selvageria e audácia monstruosas que nos fazem lembrar os horrores dos 
tempos passados — a demoverem o governo de Lisboa a cuidar d'esta momentosa 
questão. Nenhuns motivos mais justificados se nos offerecerão para extendermos o nosso 
domínio a todo o districto de Heung-shan, do que essas scenas de roubos e extorsões 
a que assistimos e que impunemente se succedem ahi ás nossas portas. 

A Portugal está naturalmente indicada a iniciativa de um movimento que tenda a 
acabar com essa cohorte de bandidos que ameaçam invadir esta cidade, onde já se ma- 
nifestam os seus nefastos eíTeitos. A raça de heroes que outr'ora exterminou os piratas, 
que traziam aterrados os filhos do Celeste Império e que impediam a livre navegação in- 
digena e europeia, ainda se não extinguiu, como bem eloquentemente o attestam as nos- 
sas ultimas campanhas africanas, que tanto nos levantaram no conceito universal. 

Fomos nós, portuguezes, os primeiros que atravessamos estes mares do Oriente, que 
a crença suppunha innavegaveis e povoados de monstros e sombras phc>ntasticas; fomos 
nós que desvendamos ao mundo as lendas e mysterios que envolviam este famoso Im- 
pério ; fomos nós que, com a nossa invencivel valentia e afamada heroicidade, destruimos 
esse poderoso exercito de rebeldes, que, sem a nossa intervenção teriam derrubado a dy- 
nastia reinante ; fomos nós, ainda, que trouxemos, com os primeiros alvores da civilisa- 
ção Occidental, a tranquillidade, o socego, a paz a estes povos opprimidos por uma mul- 
tidão de bandidos ; e, finalmente, fomos nós, portuguezes, os primeiros que n'estas 
exóticas paragens, aqui n'uma pequena península da ilha Heung-shan, como guarda 
avançada e vigilante, estabelecemos a primeira colónia extrangeira, com permissão da 
orgulhosa China, como reconhecimento pelos incalculáveis serviços que lhe prestáramos. 

E' a nós, pois, que naturalmente está também agora indicada a exterminação d'esses 
piratas que á nossa vista estão praticando as mais inconcebíveis extorsões, os mais 
horrorosos crimes, as maiores atrocidades. Pense o governo portuguez n'estes deveres, 
que os factos históricos lhe impõem ; lembre-se o governo dos direitos que nos assistem, 
sobre todas as outras nações, ao nosso quinhão n'este desmembramento do vasto e ri- 
quíssimo Império chinez. 

(O Lusitano de i de outubro.) 




OPINIÃO DA IMPRENSA 



Ta-SNH-'%'ans-Kiio (Uma nova publicação). — Para os primeiros dias de outu- 
bro, do d'entrada d'este próximo domingo, apparecerá o primeiro fascículo — 64 pagi- 
nas a uma só columna, formato 4.°, com sete estampas e fac-similis — d'uma nova pu- 
blicação subordinada ao titulo chinez d'esta epigraphe, que, em portuguez, quer dizer 
Grande reino do mar de Oeste, sobre caracteres chinas, e com o subtítulo — Archivos 
e Annaes do Extremo Oriente Portugiie^., trabalho este colligido, coordenado e annotado 
por J. F. Marques Pereira (Fernão Lopes), e editado, com o maior esmero typographico 
pelo sr. José Bastos, successor dos famosos Bertrand. 

Honrou, por muitos annos, Fernão Lopes as columnas do Jornal do CommerciOy 
com os seus artigos e chronicas sobre assumptos e coisas do Ultramar, e onde, a par 
dos seus seguros e múltiplos conhecimentos acerca dos successos contemporâneos, pa- 
tenteava uma forte e apaixonada erudição dos factos antigos, para que tenhamos de des- 
envolver, aqui, a alta competência e a larga preparação para os estudos em que ultima- 
mente quasi que se inclausurou, afervorando-se no seu amor pelo passado e pelo dis- 
tante, e tanto mais quanto a isso o impellem os desamores do meio e do momento. 

E' o próprio autor quem adiante nos dirá o que será a publicação que emprehendeu, 
e em obediência a dois sentimentos, qual d'elles mais elevado : o da pátria e o da pie- 
dade filial, pois seu pae, o iilustre escriptor e funccionario ultramarimo e consular, 
António Marques Pereira, teve, em Macau, um jornal de igual titulo e intuito, com a 
differença, porém, da combatividade de folha jornalística. A resurreição, na metrópole 
do Ta-ssi-yaíig-kiio tem, como já vão ver, o caracter meramente documental. 

(Transcreve o programma inserto a pag. 1 2.) 

Resta, agora, que o publico, a legião dos estudiosos e os elementos officíaes auxiliem 
o nosso erudito e talentoso amigo, para que o Ta-ssi-yang-kuo «prospere e se des- 
envolva e se torne em pouco tempo n'um verdadeiro archivo de documentos, de factos 
históricos e de dados valiosos sobre o que Portugal tem praticado e pratica nessas lon- 
ges terras, que vão desde a índia aos confins da Oceania.» 

Fernão Lopes declara não ter outra ambição e não querer outra recompensa. E' justo 
que essa ambição seja satisfeita e essa recompensa seja dada. Lucrarão todos quantos 
para ella concorrerem. E ao Estado impõe-se principalmente a obrigação de auxiliar a 
fiixação dos reflexos de uma obra que tanto engrandeceu, e ainda engrandece, a Pátria 
Portugueza. 

/Jornal do Conimercio, de 29 de setembro). 



■Ta-S«i-Yaiiís-K"o. — O nosso amigo Marques Pereira, o Fernão Lopes á^s 
chronicas ultramarinas que tanto lustre davam ao Jornal do Commercio, vae publicar 
uma revista com. a sub-epigraphe de Archivos e Annaes do Extremo Oriente Portiiguej, 
isto é, todos os documentos officíaes respeitantes ás nossas relações com a China, e no- 
meadamente com Macau. 

O sr. Marques Pereira sabe bem que prega quasi no deserto, mas o seu amor pela 
pátria e pelas lettras anima, a uma empreza para a qual encontrou a boa vontade de um 
ex-ministro da marinha e a dedicação de um editor ligado a uma casa (Bertrand) que 
sustenta as boas tradições do seu fundador. 

Mais um motivo para a benemerência a que teem direito os seus esforços, e bem 
pôde ser que elles mais tarde sejam coroados de feliz esito, se um dia vier a natural 
reacção á triste apathia em que vegetam os trabalhos da hístoriographia portugueza. 

Á epigraphe da revista que vae apparecer a lume em breve, parece extravagante ; e 
comtudo não o é : n'essa expressão chineza está precisamente traduzido um titulo de 
gloria para Portugal. 

Elis como o sr. Marques Pereira explica as razões que o levaram a adoptar a desi- 
gnação apparentemente extravagante para a sua collecção de documentos por onde se 
tem affirmado a nossa existência no Extremo Oriente : 

(Transcreve a «Ra^ão do Titulo» a pag. 10 e seguintes.) 



i38 



Felicitamos o sr. Marques Pereira pela empreza patriótica a que metteu hombros e 
é com o maior prazer que recommendamos a nova revista aos nossos leitores, a todos 
aquelles em summa que ainda se interessam pela nossa historia ultramarina, pondo a 
sua esperança no renascimento da Pátria pela melhor comprehensão dos interesses que 
nos ligam ás colónias, principal titulo e razão de ser da nossa vida como nação autó- 
noma. 

/Jornal de Lisboa, de 29 de setembro.) 



Ta-Ssi-lfans-Bíiio. — Tal é o titulo de uma revista, que deve sahir nos primei- 
ros dias d'este mez. 

E ornada com varias illustrações e fac-similes, occupando-se exclusivamente de as- 
sumptos do extremo-oriente portuguez 

O seu director e fundador é o nosso presadissimo amigo e festejado escriptor, sr. J. 
F. Marques Pereira, bem conhecido dos leitores da Tribuna, pela brilhante serie de 
Chronicas d'além-mar aqui publicadas. 

O sr. Marques Pereira dedica este trabalho á memoria de seu pae, o saudoso e aba- 
lisado escriptor António Feliciano Marques Pereira, tão cedo roubado á pátria e aos 
seus, em plena efflorescencia de talento, e cuja obra o nosso amigo vem continuar. 

Não está, por desgraça, preparado o terreno no nosso paiz para emprehendimento 
d'esta natureza. 

Mas seja qual fôr a sua sorte, — e oxalá exceda toda a expectativa do seu fundador, 
— o tentamen, somente, é digno dos maiores louvores, e coadjuvação dos poderes pú- 
blicos. 

Transcrevendo o capitulo — A }-a^ão do titulo — tão interessante e suggestivo, faze- 
mos votos por que o sr. Marques Pereira veja coroados do melhor êxito os seus esfor- 
ços e sacrifícios de toda a ordem. 

(Transcreve todo o artigo «Ra^ão do titulo».) 

f Tribuna, de i de outubro). 



Ta-Swi-Vaiiiff-Kuo. — Com este titulo, que para quasi toda a geiite é uma per- 
feita e indecifrável charada, vae sahir brevemente uma revista mensal que, estamos cer- 
tos, produzirá sensação e obterá completo êxito. 

O titulo é o mesmo de um semanário que, de i8õ3 a 1866, publicou em Macau o fal- 
lecido e distincto escriptor e funccionario António Feliciano Marques Pereira, e essas 
palavras chinezas significam litteralmente «Grande reino do mar de Oeste», designação 
pela qual, desde a chegada á Pekim do padre Ricci, da Companhia de Jesus, em 1600, 
os chinezes conhecem l^ortugal, d'onde o jesuita e seus companheiros se "confessaram 
oriundos, servindo-se de tal expressão. 

E' o filho do citado escriptor, o nosso amigo e antigo companheiro nas lides de im- 
prensa, o sr. João Feliciano Marques Pereira, o director da nova revista, que do sema- 
nário do seu pae tomou o nome e a cuja memoria dedica o primeiro volume, que já está 
no prelo; e conhecida como é a provada competência com que, sob o pseudonymo de 
Fernão Lopes, tem tratado em numerosas chronicas e excellentes trabalhos os assum- 
ptos ultramarinos, de certeza é que a sua publicação offerecerá sempre aos estudiosos 
um vasto e interessante campo, que se lhes entreabre com a simples leitura do sub-ti- 
tulo que como timbre traz também : '«Archivos e annaes do Extremo Oriente Portu- 
guez». 

Impressa em óptimo papel e pela forma sempre primorosa por que são executados 
todos os trabalhos que saem das officinas da Companhia Nacional Editora, a publicação 
a^que nos estarnos referindo sahirá uma vez por mez, em volume de grande formato, e 
não podemos dar melhor idéa do seu programma do que transcrever as próprias pala- 
vras com que o seu director a apresenta: 

(Transcreve o programma inserto na pag. i-2). 

Concluirernos com a indicação de que o editor da revista é o nosso amigo sr. José 
Bastos, proprietário da livraria Bertrand, a quem como a João Marques Pereira, since- 
ramente desejamos o mais pleno êxito para a sua sympathica iniciativa. 

(Diário de Noticias, de 3 de outubro). 



Ta-^Ní-Vaiis-Kuo. — «.Qá modo que /aliou chim !» dirão os leitores, como o 
bom do Sgnarello ao ouvir a menina tartamudear an, en, in. 

A forma chineza do titulo encobre um excellente fundo portuguez, nobre e leal. 



i39 

Trata-se de uma revista assim intitulada que um intelligente e consciencioso traba- 
lhador, vae commetter o escândalo de publicar n'um paiz em que poucos trabalham e 
não muitos lêem algo mais que os folhetins do Século. 

E essa revista, que pretende ser um valioso repositório de informações acerca do 
extremo-oriente portuguez, deverá a existência e o seu próprio titulo aó culto, dupla- 
mente respeitável, de um filho pela memor/a de seu pae e de um portuguez pelas glo- 
rias mais puras e refulgentes da sua nação. 

Ta-ssi-yang-kiió são quatro palavras chinezas que significam, o-rande reino do mar 
de Oeste. 

(Transcreve parte da Ra^áo do titulo, a pag. lò). 

Assim justificava António F. Marques Pereira, prestimoso servidor da pátria em ter- 
ras do Oriente, o titulo dado em 1866 a um semanário macaense vasado nos moldes do 
jornalismo sabedor independente e cordato. 

Passados mais de 3o annos o homem que herdou esse nome considerado e que se 
mantém fiel ás tradições de trabalho indefesso e independente, e de patriótica devoção, 
João Feliciano Marques Pereira, vem, desinteressadamente e sem ambições, nem illusóes 
acerca da recompensa pecuniária do seu esforço, offerecer ás lettras pátrias o valioso 
subsidio de estudos conscienciosos acerca de regiões em que o nome portuguez soou 
tão alto. 

E se o sentimento nacional se avigora pelo amor e pelo estudo do passado, pelo 
respeito da tradição em nada incompativel com as aspirações ao progresso, relevante 
serviço presta ao paiz quem o excitar ao estudo da sua historia gloriosa entre todas e 
que tantos capitulos obscuros ou truncados encerra. 

Ouçamos o iniciador da nova revista expor-nos modestamente o seu programma. 

(Transcreve o programma a pag. 12). 

O espirito que a esta publicação preside revela-o o trecho seguinte de uma carta 
do sr. Marques Pereira. 

(Transcreve o trecho da carta a pag. 12). 

Não se comprehende de outra forma a historia digna d'esse nome, que recorre ás 
fontes originaes e, despida de paixões e prejuízos, investiga pacientemente a verdade. 

Revista consagrada ao estudo do extremo-oriente e orientada pelo sentimento pa- 
triótico, abre o Ta-ssi-yang-kuó com chave de oiro prestando sentida homenagem a 
um leal servidor do paiz, corajoso até á temeridade e que pagou com a vida o serviço 
que prestara emancipando Macau do jugo deprimente em que havia caido. Refiro-me a 
João Maria Ferreira do Amaral, assassinado ha 5o annos pelos chmezes. 

Homenagem tão justa como opportuna ! 

(Transcreve parte do artigo a pag. 22). 

O trecho que transcrevemos faz parte de um bello artigo de António F. Marques 
Pereira, piedosamente evocado do limbo da imprensa por seu filho e reproduzido no 
primeiro numero da revista. 

Com.o prova do escrupuloso respeito da verdade que se traduz pela paciente inves- 
tigação de documentos authenticos e coevos dos factos a narrar, vae ser dado a publico 
um manuscripto inédito de um visitador dos jesuitas, em Macau, documento de grande 
valor pelo caracter intimo e pessoal de apontamentos tomados dia a dia acerca das oc- 
correncias de um periodo mal conhecido da historia de Macau. 

O Ta-ssi-yang-kuó vem a publico desajudado da protecção official, que se limita a 
modestas faculdades concedidas ao investigador nas horas vagas que lhe deixam as oc- 
cupações officiaes. 

Suppra o publico o que a penúria do thesouro não consentiu. 

Dê elementos de vida a uma publicação sobremodo utii, correspondendo assim á 
desinteressada iniciativa de Marques Pereira e á arrojada confiança do editor. 

(Transcreve todo o trecho contido nas pag. i-j e i8j. 

São esses egualmente os nossos votos, sinceros e cordeaes. — Nemo. 

(Correio Xacional, de 3 de outubro). 



Ta-KNÍ-Vans-IÃuo. - — Archivos e annaes do extremo oriente portuguez. Colli- 
gidos, coordenados e annotados por João Feliciano Marques Pereira. 

O i.o numero d'esta interessante revista deixou-nos muito bem impressionados. A 
historia pátria conta mais um trabalho de fôlego, recheado de documentos curiosos. 

Felicitamos o nosso amigo e collega sr. Marques Pereira, pelo seu novo e importan- 
tíssimo estudo. Referir-nos-hemos mais desenvolvidamente aos «Archivos e Annaes». 

(Correio da Noite, de 4 de outuliro. 



140 



Arollivo!!! e ^iinaes) do Extremo Oriente Portiiia^u^''- — Com este 
titulo iniciou o nosso amigo e consciencioso escriptor sr. Marques Pereira, primeiro 
official da direcção geral do ultramar, uma publicação em que apparecerão colligidos, 
coordenados e annotados todos os documentos que interessem ás nossas possessões do 
extremo oriente. 

E um trabalho duro e bem pouco remunerador, no nosso paiz, este que a si mesmo 
impoz o sr. Marques Pereira, mas resta-lhe a consciência de que prestará um bom ser- 
viço a Portugal e despertará a attenção dos estudiosos que se preoccupam com os do- 
minios coloniaes portuguezes. 

A edição, da conhecida livraria José Bastos, do Chiado, é muito nitida e correcta- 

(Novidades, de 12 de outubro.) 



Arcbívo» e Annae» do Gvtremo Oriente Portíisnea!;. — O nosso 
amigo e distincto escriptor sr. João Feliciano Marques Pereira, muito conhecido pelas 
suas chronicas do ultramar assignadas Fernão Lopes, acaba de iniciar a publicação de 
uma interessantissima revista mensal, de (>4 paginas, trazendo o primeiro numero 7 es- 
tampas e «fac-similes« tirados aparte, e sahindo em series de G fasciculos. 

Este trabalho representa um verdadeiro serviço prestado ao paiz, e o seu auctor não 
tem em mira nenhum interesse mercenário, o que é raríssimo nestes tempos que vão 
correndo. 

Os «Archivos e annaes do Extremo Oriente Portuguez» são uma esplendida publica- 
ção que deve interessar a muita gente e que collocará, por certo, o seu auctor, n'um 
invejável logar entre os escriptores da especialidade. 

(Século, de n de outubro). 



nra-§»MÍ-Vans;-láiio> — É este o titulo de uma nova e interessante publicação, di- 
rigida pelo nosso presado amigo e collega Marques Pereira. 

O intuito d'esta revista é ser um repositório de documentos antigos, relativos á ex- 
pansão portugueza no e.Ktremo Oriente, bem como de apontamentos referentes a chins, 
malaios, japonezes, siamezes e outros povos que tiveram ou teem contacto com portu- 
guezes. 

A Ta-Ssi-Yang-Kito vem preencher uma lacuna importante, servindo de valioso sub- 
sidio para os que se interessam pela nossa historia em regiões orientaes. 

Emquanto á parte material da revista é primorosa, abrilhantando-se de retratos, fac- 
similes de documentos manuscriptos, etc. 

Desejamos a esta publicação a prosperidade e o acolhimento que merece, correspon- 
dendo o publico ao esforço intelligente e estudioso do seu illustre director. 

(Tarde, de 24 de outubro.) 



Ta-^«i- Va.ns;-Mao. 024rcliivos e annaes do extremo-oriente porluguc^). — O auctor 
d'este importantissimo trabalho é o nosso bom amigo e infatigável trabalhador João 
Feliciano Marques Pereira, muito conhecido e apreciado pelas suas magnificas revistas 
ultramarinas firmadas com o pseudonymo de Fernão Lopes. 

Os Qdnnaes constituirão uma obra de primeira ordem, das que ficam e são consul- 
tadas pelos estudiosos, com a confiança que merecem os trabalhos conscienciosos, de- 
vidos a aturado estudo e a reconhecida proficiência. 

O nosso bom amigo fará da sua revista uma espécie de repositório de documentos 
antigos, inéditos ou não, relativos á expansão portugueza do extremo-oriente, e bem 
assim de estudos, monographias, apontamentos sobre a historia da civilisação, ethno- 
graphia, philologia, linguistica, folk lore, usos e costumes de todos os povos que esti- 
veram ou estão em contacto com os portuguezes. 

Edita a revista, que é mensal, a casa do sr. José Bastos, do Chiado. 

; Correio da Noite, de 24 de outubro.) 



EXTRACTO DO CATALOGO 



DA 



Antiga Casa Bertrand-José Bastos-Lisboa 



lfli*iMÕeN d(»!Si •Iewiiitaj« no Oriente no» «eculos X%'l e XVII, por 
Jeroni/mo P. A. da Camará Manuel. 1 vol., 1^000 réis. 

E' uma compilação annotada de nove cartas de S. Francisco Xavier e mais al- 
guns documentos históricos e geographicos. Cartas escriptas de diversas paragens 
da índia, sendo umas em castelhano e outras em portuguez, divididas em três partes, 
a saiDer: !> Evangelisação da Índia, por comprehender as cartas em que relata o es- 
tado religioso das populações sob a administração da coroa portugueza, e o modo 
por aquelle santo varão empregado para as converter ao catholicismo. Addicionam-se 
a estes documentos duas cartas de D. João III, sendo uma ao governador D. João de 
Castro sobre as causas da christandade e outra ao Papa Júlio III communicando o 
desenvolvimento da Companhia em Portugal e seus domínios e pedindo auxilio para 
a creação de novos coUegios. 

Na 2.^ parte que tetn o titulo de Relações geographicas. reunem-se duas informa- 
ções sobre a Ethiopia e o Japão, bastante interessantes, fornecidas á Companhia, a 
primeira por alguns portuguezes que em 1541 entraram nos domínios do Preste João 
com D. Christovam da Gama, e a segunda por um mercador portuguez de nome 
Jorge Alvarez que a deu a S. Francisco Xavier. 

A 3. a parte : Musionarios na índia e no Japão, comprehende o catalogo dos padres 
e irmãos enviados ao Oriente desde 1541 a 1603, representando o movimento expan- 
sivo dos jesuítas na sua obra de propaganda e civilisação. Com o fac-simile do re- 
trato de S. Francisco Xavier e d'uma carta original existente na Bibliotheca Na- 
cional de Lisboa. 

LiUMÍadaM (Os) «le Ijuík fie Camões, com argumentos novos em estan- 
cias heróicas. Grande edição autographica do 4.» centenário do descobrimento da 
índia. Profusamente illustrados com desenhos allegoricos, retratos inéditos de Vasco 
da Gama e Luiz de Camões, vinhetas, letras ornamentaes, finaes de canto, etc, em 
photogravura, pelos melhores artistas, sendo todas as illustrações originaes e ex- 
pressamente feitas para esta edição, prefaciada por D. António Mendes Bello, Arce- 
bispo de Mitylene, e Manuel Pinheiro Chagas: dirigida Tpov Fernandes Costa. 1 vol. in-?.» 
grande com XXXIII — 600 paginas e Índice dos coUaboradores por ordem de estan- 
cias. 18$000 réis. Encadernado em chagrin e percalina, 22$500. 

Cada estancia é escripta por um homem de posição do Brazil ou de Portugal e 
depois reproduzida pela photogravura. 

E' esta edição a mais interessante de todas as publicadas. 

MitraM l..nNítanas no Oriente. — Catalogo dos prelados da Egreja metro- 
politana e primacial de Gôa e das dioceses suffraganeas, com a recopilação das or- 
denanças por ellas emittidas e summario dos factos notáveis da historia ecclesiastica 
de Gôa, por Casimiro Christovam de Nazareth. 1 vol., 2$000 réis. 

O .Marque» de P«ml»al.— Obracommemorativa do centenário da sua morte. 
Mandada publicar pela Grande Commissão Executiva do Centenário do Marquez de 
Pombal no Rio de Janeiro. 1 grosso vol., 5$000 réis. 

Esta obra foi escripta por Latino Coelho, Henrique Correia Moreira, Machado 



EXTRACTO DO CATALOGO DA ANTIGA CASA BEBTEAND 



Assis, Sylvio RomercDr. Thomaz Alves Júnior, lente Angelo d© Gubernati,DrCTeorge 
Weber, Dr. Manuel Emygdio Garcia. Oliveira Martins, Juho de Mattos e Theophilo 

Masnifica edição nitidamente impressa na Imprensa Nacional de Lisboa. Tem 
duas heliogravuras, sendo uma o Marquez de Pombal e outra Sebastião José de 
Carvalho e Mello, copia do quadro de Vanloo e Vernet existente no palácio de Oeiras. 

Batallia!>i da Comi»anliia de Joniin. na sua gloriosa província do Ja- 
pão, pelo Padre António Francisco Cardim. Inédito publicado por Lucmno í ordeiro. 1 vol., 

1$000 réis 

D'este livro que melhor se deveria chamar Batalhas do Extremo-Oriente pois 
que abrange as pelejas travadas pela grande Companhia não so no Japão mas tam- 
bém na China, no Tonkim, no Annam, etc, não havia noticias, posto seja esta a 
obra de maior fôlego e interesse e que, por assim dizer, reúne e consubstancia todo 
o extraordinário trabalho e toda a varia e copiosa informação do nosso viajante e 
missionário. 



1 





^m^é^i^r^Xâm^^íT^^^^^^^ 


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ra^H 



Um inquérito do Visconde de Santarém 




VISCONDE de Santarém, que, como politico, pouco mais deu que 
o que costumam dar os políticos da nossa terra, foi um bene- 
mérito pelos enormes serviços que prestou ao paiz com os seus 
valiosíssimos estudos sob o ponto de vista diplomático e ultra- 
■marino. Essa longa serie de estudos que, nem pesados a ouro, seriam suf- 
ficientemente pagos (1), foi coroada pela já immortal compilação do «Quadro 
e/ementar das relações politicas e diplomáticas de Portugal com as diversas 
potencias do mundo desde o principio da monarchia portugueza até aos 
nossos dias». 

Para a elaboração d'essa monumental obra consultou tudo o que encon- 
trou de notável na Bibliotheca Real da Ajuda; na livraria do extincto mos- 
teiro de S. Vicente de Fora (incorporada depois no Archivo Nacional da 
Torre do Tombo); na Bibliotheca Nacional de Lisboa; na Bibliotheca do 
•Convento de Jesus, incorporada actualmente na da Academia Real das Scien- 



(1) Não os poude pagar o paiz tão bem quanto elles valiam; mas não foi o Vis- 
conde de Santarém dos que com justiça se podiam queixar das ingratidões nacionaes 
— costumada paga dos que não vão com os tempos práticos e positivos que correm, 
em que o bafio das bibliothecas e archivos faz estiolar os investigadores de fronte pal- 
Jida, em quanto nas estufas dos syndicatos medram os rubicundos desprezadores do 
passado. 

Pagou-os o governo portuguez á razão de 6:000<$'000 reis por anno, que o Visconde 
de Santarém recebeu pontualmente até morrer, para a publicação em Paris do seu 
Quadro Elementar. E isto durante 13 annos (desde 1842) perfaz a bonita somma de 
78:000<í['000, s. e. ou o., que com mais 2:000^000 reis annuaes durante os annos de 

X." j. — Dezembro de iXtjíj. 



142 

cias de Lisboa; no Archivo da Torre do Tombo; nas livrarias das casas 
do Marquez de Pombal e do Conde da Ponte; na Bibliotheca Publica do 
Rio de Janeiro; na Bibliotheca Real de Paris e nos Archivos de França, etc. 

Mas tendo logrado publicar unicamente 15 tomos (1) da sua obra, desde 
1842 a 1854, só se poude occupar das relações de Portugal com a Hespa- 
nha, França e Inglaterra, reservando para a secção XVIU, a ultima da serie^ 
a traducção dos Annaes chinezes na parte relativa aos portuguezes e a 
Macau. Mas não poude realisar os seus desejos, porque a morte, que o 
veio prostrar em Paris em 18 de Janeiro de 1856, não permittiu que o 
grande investigador publicasse os seus valiosos estudos sobre as relações 
de Portugal com os potentados da Ásia (2). 

Felizmente escapou d'esses estudos a memoria inédita sobre o Estabe- 
lecimento de Macau, concluída em Paris em Junho de 1845, publicada por 
Júdice Biker no tomo Vil da sua Collecção de Estuaos, e depois, em se- 
parado, com as relações das embaixadas enviadas á China por Portugal no 
tempo de D. João V e de D. José. 



1854-1855 e 1855-1856, completa a conta redonda de 82;000.S'0OO reis. Morto o Visconde,. 
passou o encargo da publicação para a Academia das Sciencias, e bem assim o respe- 
ctivo subsidio de 6:000(^000 reis annuaes. 

Houve uma voz patriótica que em 1860 gritou na Camará dos Pares contra o es- 
banjamento. A essa voz respondeu a de Rebeilo da Silva, que, no n.o 35 da Politica 
Liberal de 15 de Junho d'esse anno, deu a enérgica resposta que vem transcripta a 
pag. 33 do tomo 7.° do Diccionario de Innocencio. 

Mas, no fim de contas, se o patriota não tinha razão no protesto, também a não 
teriam o Visconde e seus continuadores que gosaram da gloria e do proveito de verem 
os seus trabalhos, se não pesados a ouro, pelo menos. . . a prata ou a cobre, que, ver- 
dade, verdade, também representam ouro, porque ouro é que ouro vale. 

(1) A publicação, feita em vida do Visconde, constou realmente de 10 tomos, visto 
que do tomo VIII saltou para o XIV, reservando-se para depois a publicação dos IX, X, 
XI, XII e XIII, que deveriam conter as relações entre Portugal e a corte de Roma. 

Rebeilo da Silva, o continuador da obra, nos tomos XVII e XVIII occupou-se tam- 
bém das relações com a Inglaterra segundo os apontamentos legados pelo Visconde de 
Santarém. 

(2) «Tenho ha muito colligido, pelo que diz respeito ás nossas relações com os po- 
tentados da Ásia, um sem numero de noticias e de documentos, que se acham aqui (em 
Paris) em meu poder, concernentes á Índia em geral, e a Ceilão e Malaca em particu- 
lar; e, pelo que respeita a Macau, tencionava, antes de publicar a secção XXVIII do 
Quadro Elementar, mandar traduzir dos Annaes dos Imperadores Chinezes a parte re- 
lativa ás concessões que elles nos fizeram, e ás relações que hão tido comnosco, das 
quaes, por agora, só posso tratar de uma maneira succinta.» (Memoria sobre o estabe- 
lecimento dos portuguezes em Macau e na China, publicada por Júlio Firmino Júdice 
Biker, pag. 10.) 

Onde param esses documentos e noticias tão valiosas para a historia do Extremo 

Oriente portuguez? Provavelmente nas mãos d'alguns d'esses avarentos das lettras, 

que tão avidamente guardam a sete chaves tantas preciosidades que, expostas á luz da 

publicidade, de tanto proveito seriam para a historia e para as lettras pátrias. 



/ 143 

Na conclusão d'essa interessante memoria, recheiada de dados interes- 
santissimos acerca da historia de Macau e dos direitos de Portugal sobre 
essa possessão, estabelecia o eminente escriptor uma espécie de questio- 
nário, em 6 quesitos, para o governo se orientar nas investigações a fazer. 

Era então ministro da marinha o patriótico Joaquim José Falcão, que 
tanto se interessava pelas questões relativas a Macau, e no Ministério do 
Ultramar se não ligava unicamente importância ás questões africanas, como 
aconteceu depois, até tempos bem recentes. 

A guerra entre a Inglaterra e a China despertara as attenções de toda 
a Europa para as coisas do Extremo Oriente, e Portugal, não obstante as 
convulsões da lucta politica que lhe exgotava as energias, não deixou de 
prestar toda a attenção aos seus interesses na China. D'ahi a nomeação do 
grande Amaral, o emancipador de Macau, como já vimos em outro artigo 
d'esta Revista. Mas, para preparar as profundas e radicaes reformas que sê 
iam tentar na administração da colónia, tornava-se necessário que nos pre- 
cavêssemos com todos os elementos necessários para rebatermos as pre- 
tensões chinezas e as duvidas que se podessem suscitar sobre o nosso 
direito á posse de Macau. 

Concluirá o Visconde de Santarém a memoria em Junho de 1845, como 
vimos. Pois em 10 de Outubro d'esse mesmo anno lavrava o patriótico mi- 
nistro a portaria em que mandava ao governador de Macau (José Gregório 
Pegado) que respondesse ao inquérito formulado n'essa memoria. Em 20 de 
Novembro referendava Falcão o decreto estabelecendo a franquia do porto 
de Macau (1). D'ahi a pouco (em 21 de Abril de 1846) Amara! iria principiar a 
sua obra emancipadora ; mas José Gregório Pegado (2), antes de largar o go- 
verno, teve ainda ensejo de responder ao inquérito do Visconde de Santarém. 

É d'essa resposta até agora inédita que encontrei uma minuta ou copia 
nos manuscriptos da collecção de meu pae, assim como da portaria e da 
conclusão da Memoria do Visconde. Á Memoria ou resposta de Pegado só 
vi até hoje referencia na bem deduzida Mémoire sur Ia souveraineté territo- 
riale du Portugal à Macao elaborada pelo distincto diplomata sr. conselheiro 
Nogueira Soares, que é um dos poucos que em Portugal conhecem a fundo 
as questões do Extremo-Oriente portuguez. 



(1) Vide o que ficou exposto a pag. 26 d'esta Revista. 

(2) Era chefe de divisão da Armada. Nomeado por decreto de 14 de dezembro de 
1842 tomara posse do governo em 4 de Outubro de 1843. Diz Gabriel Fernandes (nos 
seus Apontamentos para a Historia de Macau) que falleceu em Aden no seu regresso 
para a Europa em 1845. Como os leitores verão, ha aqui erro de data, porque em Feve- 
reiro de 1846 ainda elle poude responder ao alludido inquérito. Gregório Pegado só 
largou de Macau para o reino em 28 de maio de 1846. 

Occupar-me-hei opportunamente da administração d'este governador. 



M4 

A publicação da resposta ou memoria de José Gregório Pegado é uma 
necessidade, porque é uma verdadeira defeza dos nossos direitos na China. 
E a reserva com que se fez esse inquérito deixou de existir desde que pelo 
ultimo tratado (ainda que escusadamente) ficaram reconhecidos pela China 
os nossos direitos á perpetua occupaçào de Macau e suas dependências. 

E os nossos leitores me agradecerão certamente o ter dado ensejo a 
que seja conhecido o modo como foram satisfeitos em parte os desejos 
manifestados pelo erudito Visconde de Santarém. 

Seguem os interessantíssimos documentos. 



Ministério da Marinha e Ultramar, secção do ultramar. — 

Havendo o Visconde de Santarém escripto uma extensa memoria sobre o 
estabelecimento dos portuguezes em Macau, e mostrando-se por ella a ne- 
cessidade que ha de supprir com argumentos históricos a falta de documentos 
primordiaes com que possa provar-se o direito que tem a coroa Portugueza 
á posse d'aquella cidade, e que actualmente se torna de muita importância 
para evitar as contestações e duvidas, que a tal respeito pôde suscitar a 
rivalidade das nações, que hoje são admittidas a commerciar com o império 
da China, e que n'elle teem, ou pretendem fundar estabelecimentos seme- 
lhantes ao da dita cidade : Manda a Rainha pela Secretaria d'Estado dos 
Negócios da Marinha e Ultramar remetter ao Governador da^Provincia de 
Macau, Timor e Solôr a inclusa copia authentica da conclusão da referida 
memoria, afim de que elle faça proceder com todo o escrúpulo, e com a 
devida reserva ás investigações e exames indicados nos três primeiros que- 
sitos da mesma conclusão, e de todos os esclarecimentos a tal respeito obtidos 
dê conta pela referida Secretaria d'Estado em uma memoria especial, acom- 
panhando-a com a copia, ou extracto dos documentos, a que elía se referir 
Para a conveniente direcção e execução d'este trabalho poderá o mesmo 
Governador ajudar-se dos conhecimentos e noticias que das cousas da China 
tem adquirido o Conselheiro juiz de direito, Joaquim António de Moraes 
Carneiro, e espera Sua Magestade do zelo, que a ambos merece o publico 
serviço, que esta incumbência será desempenhada com a attenção que o seu 
objecto demanda. Paço de Belém, em 10 d'outubro de 1845. — Joaquim José 
Falcão. 

Ministério da Marinha e Ultramar, etc. — Copia da conclusão da 
Memoria do Visconde de Santarém, sobre o estabelecimento dos portuguezes 
em Macau na China. — Do que fica exposto se vê que somos desgraçadamente 
obrigados a supprir com argumentos históricos a falta de documentos pri- 
mordiaes do direito convencional entre Portugal e a China, pelo que diz 
respeito á posse da cidade de Macau. — A questão ae saber-se qual seja o 
verdadeiro direito que temos a esta cidade, onde, em 1841, era a nossa 
população de 4:788 indivíduos, e a chineza de 20:000, é por extremo com- 
plicada, e envolta em escuridade, e por esse mesmo motivo é summamente 
importante no momento actual do estabelecimentos dos inglezes n'aquelle 
Império, e da abertura do commercio ás demais nações, elucidal-a, discutil-a, 
levando á maior evidencia o direito que nos assiste á posse d'aquelle ter- 



14^ 

ritorio e cidade, afim de evitarem-se agora e sempre as infalliveis contes- 
tações que a rivalidade commercial das nações que para ali concorrerem 
ha-de de necessidade suscitar-nos com o governo e auctoridade chinezas, 
já que infelizmente 05 senhores reis de Portuga/, na época em que fomos a 
primeira potencia marítima do Globo, e quando as nossas armadas faziào 
tremer a China, se descuidarão de assegurar a posse de Macau por tratados 
formaes e obrigatórios, na prudente previzão do futuro, e do eclypse que 
com o andar dos séculos experimenta infallivelmente toda a gloria, por mais 
bem fundada qne seja. Conviria pois proceder-se a longas investigações para 
se fazer uma monographia sobre este assumpto, com a qual se posesse em 
evidencia esta questão. Dever-se-hia examinar: 1.° qual seja a natureza da 
legislação e da pratica na China em matéria de acquisição e posse de pro- 
priedades territoriaes, e até que ponto, e com que condições podem os ex- 
trangeiros possuir terras no império, dentro de cujos limites vivem effecti- 
vamente povos de diversas raças, que são, 5e me não engano, reputados 
extrangeiros. Varias noticias árabes tiradas dos msss. de Massondy em 1718 
pelo sábio orientalista Renaudot provào que não foi só aos portuguezes que 
os chinas concederam licença para assentarem morada nas terras do império. 
No século viii da nossa era os árabes tinham na China vários estabeleci- 
mentos, e tão consideráveis erão elles, que os imperadores lhes outorgaram 
de nomearem um Cady para administrar-lhes justiça; quando porém estes 
povos começaram a derramar-se por Africa, os estabelecimentos que pos- 
suíam no celeste império foram pouco a pouco decahindo até de todo desa- 
parecerem. — 2P Seria mister extrahir-se dos grandes Annaes Chintzes as 
noticias que se encontrassem das nossas relações com esses povos, e o que 
d'elles constasse respeito a ajustes de paz e de commercio comnosco cele- 
brados, e finalmente tudo quanto fosse relativo ao nosso estabelecimento 
de Macau, e quaes fossem as verdadeiras concessões que dos chinas alcan- 
çámos. Na magnifica coUecção de livros chinezes que possúe a Bibliotheca 
Real de Paris existe a maior parte da sobredita collecção dos Annaes, e além 
d'isto a historia dos povos extrangeiros. Abrangem os Annaes um periodo 
histórico immenso e são tão minuciosos que o celebre sinologo Remusat se 
exprime a este respeito nos termos seguintes: 

«Les historiens de la Chine, dont la succession non interrompue embrasse 
une série de 25 siécles, n'ont jamais négligé de recueillir, sur les contrées 
voisines de cet empire, les renseignements qui pouvaient se rapporter à 
rhistoire et à la géographie ; ils ont même forme de ces renseignements des 
collections qui renfçrment en réalité les chroniques completes de la haute 
Asie depuis deux miile ans. 11 n'y a que ces recueils ou Ton puisse chercher 
la solution d'une foule de questions historiques.» 

3." Cumpriria que se examinasse se os chinas estabelecidos em Macau 
pagam impostos ao imperador, e se nos documentos financeiros que o go- 
verno chinez publica todos os trimestres, se faz menção de Macau, pois em 
a Noticia Estatística sobre a China publicada no Asiatical Journal áe setem- 
bro de 1825, pag. 294, não vejo aresto algum a este respeito. 

4.° Devem-se examinar por miúdo as cartas dos missionários a come- 
çar do anno de 1517, e a parte histórica das Bulias dos Papas relativas á 
Macau e á China, e as obras dos Padres Premare, Gaubil, Amiot, Du Halde, 
Mailla, Le Comte, Magalhães, Kirkes, na sua China illustrata, Trigant, Regni 
chinensis descríptio; Teoph. Spirelii, De re litteraría Sinensium commenta- 
ríus; o nosso Semedo na sua Relação da China; a Relação da mesma pelo 
moscovita Nikiposa; a Sina et Europa de Preyelius; o Atlas Sinicus de Mar- 
tinius; os Livros X.° e X\." da obra do Abbade Grosier relativos ao Império 



146 



da China; o Tratado das cousas da China com suas particularidades, etc, es- 
cripto por Fr. Gaspar da Cruz, que passou á Índia em 1548, que se impri- 
miu em Évora em 1570, e foi reimpresso em Lisboa em 1829. Deve-se tam- 
bém buscar a obra que no século XVI. ° escreveu sobre a China o nosso 
compatriota Francisco Ferreira Sarmento, e consultar as excellentes Mémoi- 
res sur /es Relations politiques des princes c/irétiens avec /es Empereurs 
Mongo/s, nas Memorias da Academia Real das Inscripções e Bellas Lettras, 
Tom. 6.° e 7.° e o grande numero de rescriptos, decretos e instrucções dos 
Imperadores Chinezes publicados pelo celebre P.*^ Amiot. 

5.0 Deve-se examinar e extrahir quanto se encontrar acerca de Macau 
nos Livros de Registo da Índia, que se recolheram á Torre do Tombo no 
reinado de El-rei D. José. 

6.° Deve-se igualmente extrahir da Secretaria da Marinha o que ali 
constar acerca das relações dos portuguezes de Macau com os Chinas, se 
bem que em geral os documentos dos Archivos de nossas Secretarias são 
de data recente, não havendo nenhum anterior a 1755; mas, segundo me 
recordo, existem infinitos em um grande Deposito no Pateo das Vaccas, que 
pertencem ás antigas Secretarias. Quanto ao que os extrangeiros hão es- 
cripto acerca de Macau é sobremaneira insignificante, salvo o que se puder 
encontrar nas obras clássicas dos missionários, tudo o mais é superficial e 
cheio de falsidades, sendo um dos peiores La Place na obra intitulada 
Voyage autour du monde. 

Era a minha tenção, quando estivesse para publicar a secção XXVIU da 
minha obra, isto é, a ultima parte d'ella, de fazer traduzir dos grandes An- 
naes Chinezes o que ali houvesse que nos fosse relativo, e miudamente 
não só as obras impressas que acima cito, mas também as manuscriptas, 
mas, como antes de chegar á meta d'este meu trabalho, tenho de concluir 
a publicação das nossas relações com as Potencias da Europa, seria por 
isso conveniente (se o negocio de que se trata pudesse soffrer demora, sem 
detrimento, de alguns mezes) fazer-se um trabalho especial sobre o nosso 
estabelecimento de Macau, o qual serviria de base, e de fundamento de di- 
reito, e ao mesmo tempo de guia para as negociações que por. ventura se 
devessem tratar com a China. — Paris, 4 de junho (1 ) de 1 845. — Está con- 
forme. — Secretaria d'Estado dos Negócios Estrangeiros em 26 de setem- 
bro de 1845. — António Joaquim Gomes de 0/iveira. — Secretaria d'Estado 
dos Negócios da Marinha e Ultramar. — 10 de outubro de 1845. — Manue/ 
Jorge d' 0/iveira Lima. 

N.° 175 

Remette uma memoria especial sobre o estabelecimento dos portuguezes na China, 
em cumprimento da portaria de 10 d'outubro do anuo passado 

111."^° e Ex.'^° Sr. — Logo que recebi a portaria, datada em 10 d'outubro 
ultimo, reconheci a importância do trabalho por ella ordenado, bem como 
a grande difficuldade que elle envolvia, nascida do reprehensivel desleixo 



(1) Na transcripção feita por Biker está Julho em vez de Junho. O erro de qualquer 
dos copistas não tem importância para o caso. 



147 

em que todas as cousas portuguezas teem aqui andado, regidas por um 
Senado composto de homens que só tinham em vista os seus particulares 
interesses ; e muito principalmente attentas as minhas débeis forças para o 
poder superar: animado porem do mais fervoroso desejo de cumprir aquella 
regia ordem com toda a pontualidade, clareza e exactidão que fosse pos- 
sível, reconheci também que as únicas fontes onde poderia achar alguns 
elementos para satisfazer aquelles preceitos, se não completamente, ao me- 
nos pela melhor forma possível, serião o Cartório da Procuratura, que é a 
repartição onde devia existir em ordem toda a correspondência havida com 
o Governo Chinez, como agora succede; o Collegio de S.'" José, onde m.e 
constava existirem apontamentos sobre os antigos successos de Macau; 
bem como o mandarim d'este districto, para se tirarem por elle algumas 
pequenas duvidas, e por elle finalmente poder obter das Secretarias de 
Cantão (sendo possível) alguns documentos. Empreguei portanto o segundo 
interprete da lingua Sinica José Martinho Marques em proceder á neces- 
sária investigação, a quem dei em artigos isolados o que se pretendia saber, 
por confiar que n'elle concorriam os requisitos precisos para bem desempe- 
nhar o serviço de que o encarregava; e com effeito o resultado mostrou 
que não me tinha illudidò; porquanto elle me apresentou os elementos que 
poude achar, dos quaes se formou a Memoria que iuclusa tenho a honra 
de passar ás mãos de V. Ex.^ em obediência á citada portaria. 

Reconheço com o maior sentimento, e bem a meu pezar, que muito mal 
desempenhei a tarefa de que fui encarregado ; mas é muito necessário que 
V. Ex.^ se recorde que a matéria aqui mesmo se acha na maior escuridade, 
como se deprehende de varias razões indicadas na mesma Memoria; e de- 
pois de esforços e diligencias que empreguei para a tornar a mais completa 
e satisfactoria possível, devo assegurar a V. Ex.^ que fico persuadido de 
que em Macau se não poderá alcançar maior somma d'esclarecimentos, 
porquanto recorri com todo o empenho a todas as fontes onde os podia 
encontrar; entretanto que muitos mais se poderão obter em o grande nu- 
mero de obras citadas pelo nosso insigne escriptor o Visconde de Santarém 
sobre o estabelecimento de Macau: espero portanto merecer indulgência. = 
Deus Guarde a V. Ex.^. — Macao, 23 de Fevereiro de 1846 -==111."^° e Ex."^» 
Sr. Min. e Secr. dos N. da Mar. e Ultr. = 7osé Gre^^orio Pegado. 



Documento do officio ii.° 175 para Lisboa de 23 de fevereiro de 18Í6 

Memoria especial accompanhada de notas e documentos a que ella se refere, contendo o rezultado 
das investigações e exames, a que se procedeo relativamente aos trez primeiros quezltos da 
concluzão da Memoria do Visconde de Santarém, sobre o estabelecimento dos Portuguezes em 
Macáo. 

Para se dar o possível desenvolvimento á matéria de que se trata, pare- 
ceo conveniente dividi-la em os quatro quesitos seguinte, de que hiremos 
tratando successivamente, e pela sua ordem numérica; a saber: 

Quezito 1 ." — Qual seja a Natureza da Legislação, e da practica na maté- 
ria de acquizição, e posse de propriedades territoriaes no Império da China? 

Quezito 2° — Se foi só aos Portuguezes, que os chinas concederão li- 
cença para assentarem morada no Império, e com que condições podem os 
extrangeiros possuir terras no mesmo Império, dentro de cujos limites vi- 



148 

vem effectivamente povos de differentes raças que são reputados estrangei- 
ros? (1) {*) 

Quezito 3.° — Quaes são as verdadeiras concessões que dos chinas obti- 
verão os portuguezes? 

Quezito 4.° — Os chinas estabelecidos em Macáo pagão, ou não, impostos 
ao imperador? E em os documentos financeiros que o Governo chinez pu- 
blica todos os trimestres faz-se menção de Macáo? 

SOLUÇÃO AO 1.° QUEZITO 

Desde a mais remota antiguidade tem o Governo chinez olhado para os 
tributos das terras como o meio mais certo e seguro dos seus rendimentos. 

Cada dynastia tem adoptado huma legislação particular na divizão do- 
terreno, e pagamento das taxas. Do primeiro Livro de Mon-tzú (2) vemos 
que no tempo da Dynastia Nia (principiada em 2205 antes da Era vulgar) 
seguia-se hum systema chamado Kemg, pelo qual dava-se a cada colona 
cincoentas geiras de terra (3) e depois de calculado o termo médio do pro- 
ducto de alguns annos, tomava-se a decima parte, e estabelecia-se como taxa 
constante, e invariável, que o cultivador tinha a satisfazer annualmente. 

Este systema foi considerado peior de todos, por que, segundo diz o 
mesmo Mon-tzu»: Nos annos felizes em que tudo abunda, em que não seria 
tirania alguma, se exigisse hum tributo elevado, vem o Governo a cobrar 
pouco em proporção, e nos annos calamitozos, em que o producto não chega 
nem para a cultura das terras, he o tributo cobrado completamente» (4). 

Na dynastia In (começada em 1783 antes da Era vulgar) seguia-se o sys- 
tema Chu, pelo qual seiscentas, e trinta geiras quadradas de terra, erãa 
divididas em nove partes iguaes, a que chamarão Ching, contendo cada 
huma destas partes setenta geiras. A parte do meio, que era a leira do di- 
zimo, chamava-se o campo publico ou commum; porque era cultivado para 
os gastos do Estado por oito colonos differentes, aos quaes se entregavãO' 
as oito partes colateraes livres de tributo. Na dynastia Chou (começada em 
1134 antes de Christo) cada agricultor recebia cem geiras de terra. Nos cam- 
pos contíguos á capital seguia-se o systema da dynastia Hia: pelo qual dez 
colonos cultivavão mil geiras de terra; e nos campos remotos da capital, 
seguia-se o systema In: pelo qual oito lavradores cultivavão em commum 
novecentas geiras ; e das cem geiras do campo publico tiravão-se vinte para 
accomodação dos ditos cultivadores. 

No tempo da ceifa calculava-se todo o producto de ambas as classes de 
terreno, e tirava-se a decima parte para taxa, ficando o resto dividido igoal- 
mente pelos colonos. Este systema chamava-se cbao, que quer dizer Igoaidade. 

Nos reinados dos Imperadores Ven e King da Dynastia Han (A. C. 
179-156) metade das taxas era continuamente perdoada, chegando-se a co- 
brar dos tributos das terras só huma trigezima parte (5). 

Pelo decurso do tempo todos estes systernas caducarão, e substituirão-se 
outros novos como reducções consideráveis, á proporção que os baldios se 
tornavão terras lavradias ; de sorte que actualmente, não obstante estarem, 
as terras divididas em campos de primeira, segunda e terceira classe, com 
tudo hum colono não vem, por hum termo médio, a pagar mais que a quinta 
parte de hum tael de prata, por cada geira quadrada de baixo de certas 



(*) Esta chamada e as seguintes referem-se ás notas de Pegado e-que irão trans- 
cripias no fim da Memoria. 



149 

condições, como se verá das seguintes reflecçòes de Sir. George Staunton, 
inseridas na sua versão do Código Penal chinez, que aqui tjanscrevemos 
para maior clareza do presente quezito. 

«Ha sido esta huma questão desde muito tempo disputada, e talvez ainda 
«considerada como indiciza, se o titulo em virtude do qual, são as terras 
«geralmente possuídas na China, he da natureza de prédio livre, e investido 
«sem limite de qualidade alguma ao proprietário, ou se o soberano he de 
«facto o possuidor universal, e exclusivo do terreno, em quanto aquelle que 
«o possue nominalmente he como o Zemindar na Índia, que não he senão 
«hum mordomo, ou collector do seu amo. 

«Em huma questão como esta, a verdade provavelmente se encontra em os 
«dois extremos; He bem sabido que muitos negociantes chinas que commer- 
«ceão em Cantão com os Europeos, possuem terras consideráveis, e estimão 
«estas possessões como porção mais segura, quando não seja mais impor- 
«tante, das suas propriedades. Os Missionários rezidentes em Pekim, de- 
«baixo da protecção da Corte, tem seus bens de raiz, que lhes forão con- 
«cedidos por differentes Imperadores para manutenção de suas cazas. Alem 
«disso a contribuição ordinária dos possuidores de terrenos a renda do Es- 
«tado, suppõem-se não exceder a hum decimo do producto; proporção muito 
«differente d'aquella que se exige dos Riotes, ou cultivadores do terreno da 
«Índia, e que deixa huma grande parte nas mãos dos possuidores, habi- 
«litando-os desta sorte a reservar para si huma renda considerável; mesmo 
«depois de satisfeitos os Salários dos cultivadores, e tirados os juros do 
«capital que se empregou para a cultura da sua propriedade. Devemos sup- 
«por que d'esta renda he que principalmente se mantém todos os officiaes 
«do governo reformados, inválidos, e sem emprego ; todos os negociantes 
«que deixarão a sua profissão, todas as famílias Tártaras, que possuem 
«bens de raiz na China debaixo de huma espécie de vassalagem feudal ; e 
«finalmente todos os rendeiros, e lavradores que não estão em actual 
«exercido. Como na China não ha fundos públicos, a compra de terras he 
«o meio principal, quando não seja o único, de fazer render o capital hum in- 
«teresse certo, regular, e livre dos riscos a que está exposto no commercio. 

«Por outro lado, deve-se advertir que o código penal claramente prova 
«que ha grandes deducções a fazer das vantagens acima mencionadas ; que 
«a posse do terreno he de uma natureza muito particular e sugeita a hum 
«grão de interferência, e exame da parte do governo, que não se conhecem 
«nem são tolerados nas monarchias mais despóticas da Europa. Pela secção 
«78, o proprietário do terreno parece ser quazi inteiramente sem jus de o 
«poder dispor á sua vontade. Pela secção 88, vê-se que os herdeiros são 
«obrigados a reparti-lo entre si debaixo de certas proporções estabelecidas, 
«Pela secção 90, são confiscadas as terras, que os proprietários deixão de 
«inscrever nos registos públicos do governo, sabendo serem elles respon- 
«saveis pelo pagamento das taxas que d'ellas se cobrão. Porções mesmo de 
«terras parecem ser em alguns cazos sugeitos ao fisco, simplesmente por 
«que não estão cultivadas, tendo proporções para isso. Pela Secção 95, ne- 
«nhuma hypotheca he valida, salvo se o credor hypothecario entra logo de 
«posse do terreno, e dos productos que d'elle se cobrão, e se faz pessoal- 
«mente responsável pelo pagamento das taxas, athé que o terreno seja des- 
«gatado pelo proprietário. Donde se vê também, que afora o cazo de huma 
«hypotheca legal, a nenhuma outra pessoa, senão ao actual proprietário da 
«terra, he permettido responder pelo pagamento das taxas que d'ella se 
«cobrão, e que esta responsabilidade he athé certo grão huma prova de pro- 
«priedade». (Chinese Penal Code, Appendix, pag. 526) 



i5o 



SOLUÇÃO AO 2.° QUEZITO 

Consultando diversas obras, que hoje merecenn acceitação, como — Chi- 
nese Repository — Cantou Miscellany — e outras; obtidas algumas infor- 
mações de letrados chinas, concluímos que, no principio do Século 8.° em 
que o império dos califas se estendeo consideravelmente desde os confins 
da índia até ao Atlântico, e depois da grande batalha ganhada em o anno 87 
da Higira (705 da Era Christã) sobre dozentos mil Tártaros, que tinhão in- 
vadido os paizes mussulmanos, principiarão os Árabes a tomar conheci- 
mento da China e a entrar em relações com este vastíssimo império, en- 
viando no reinado de Valid (708 da Era Vulgar) a primeira embaixada com 
valiosos presentes por via de Cashgar. Levados depois pelo. desejo do lucro, 
e pelo enthusiasmo de propagar a sua religião, principiarão a concorrer para 
ali huns por terra e outros pelo ma^ sendo o numero d'estes maior sem 
comparação, não obstante as grandes dificuldades e perigos, que encontra- 
vão por mares nunca dantes navegados, e sem o socorro da bússola (6), 
nem de instrumentos próprios com que a sciencia depois tanto tem facili- 
tado a communicação entre nações remotas. Então huma feira regular se 
estabeleceu em Cantão, e hum empregado chinez foi nomeado para rece- 
ber huma parte dos productos para o seu governo. 

Nos fins do século 8.° principiarão a estabelecer-se n'aquella metrópole 
com suas mulheres e filhos ; e tanta acceitação e hospitalidade encontrarão 
na China, que desde o principio do grande estabelecimento que chegarão a 
possuir, conseguirão logo terrenos para suas mesquitas e sepulturas, cujos 
vestígios ainda hoje aparecem em as ruinas de huma grande mesquita de 
cento e setenta pés de altura, edificada no tempo da dynastia Tam{7) den- 
tro dos muros da cidade de Cantão. 

Em os fins do século 9.° a frequência dos ditos negociantes veio a ser 
menor, com tudo os já estabelecidos conseguirão livre entrada e rezidencia 
no império, porem já sem governo particular, e sugeitos inteiramente ao 
governo chinez. 

No principio do século 12.° (1108) os chinas lhes franquerão, além do 
porto de Cantão, os de Che-Kiang e Fo-Kien. Hoje se achão seus descen- 
dentes espalhados pelas dezoito províncias do império trajados todos á 
chineza, e encorporados com os povos d'elle, observando os ritos particula- 
res da sua religião tolerada e protegida pelo governo do mesmo império 
desdo o século 13.°. Muitos tem chegado a occupar os primeiros cargos 
públicos, tanto civis, como militares, não só nas províncias mas athé na 
Corte (8) Não se pôde saber com exactidão o numero de mohametanos 
existente hoje na China; porem encontrão-se em todas as províncias, prin- 
cipalmente em Xan-Si, Xen-Si, Honan, e Hupei: na província de Cantão, o 
seu maior numero rezide em Han-King-fú. 

Se igualmente nos remontarmos a maior antiguidade veremos, que antes 
dos Aratbes os povos da Índia no reinado de Huanti (depois do anno 147 
da Era Vulgar) e os Nestorianos antes do reinado de Kao-tsung (antes de 
650 da nossa Era) também habitarão a China, estabeleceram Commercio, 
e propagarão sua religião ; mas nenhum chegou a possuir terrenos no Im- 
pério (9). 

Em nossos dias os Inglezes conseguirão, por meio de huma guerra in- 
justa, adjudicar á Coroa Britânica a Ilha de Hong-Kong, concluindo hum 
tratado com a China, hoje bem conhecido de todas as nações ; e talvez 
ainda consigão outro Estabelecimento muito mais considerável em Chussan 
mediante pretextos novamente suscitados. 



IDI 



Quando os Portuguezes no século 16.° chegarão á China, jà Cantão, e 
outros portos vizinhos erão frequentados pelos mercadores de Siann, Tziampa 
(parte da Conchinchina) Java, Lieu-Kieu, e Borneo (10) porém depois dos 
Árabes, e exceptuando os Inglezes ultimamente, a nenhuma outra Nação, 
senão a Portugueza, foi permittido assentar morada no Império, por meio 
de hum pacto até hoje existente com o governo chinez, regendo-se por 
Suas Leis particulares &.'' como adiante veremos ; o que os outros povos 
que para ahi concorrião nessa mesma época não puderão alcançar. 

Eis-nos aqui por tanto chegados ao ponto mais dificil do nosso pequeno 
trabalho; isto he o de demonstrar authenticamente a veracidade da as- 
serção que acabamos de enunciar. 

Na ausência dos documentos próprios que devião existir no archivo do 
Leal Senado de Macao, aonde se não encontra livro algum de annos ante- 
riores ao de 1630, como se mostra de huma Synopse que temos á vista 
das matérias contidas em os livros existentes, nos quaes se não encontra 
coiza alguma que possa servir de proveito no presente cazo, e não exis- 
tindo igualmente chapas, ou officios das Auctoridades Chinezas dos primi- 
tivos tempos deste nosso estabelecimento, pois os que apparecem são de 
datas ainda mais recentes do que as dos livros: em tão lamentável situa- 
ção somos forçados a lançar mão do único meio que encontramos, para 
conseguir o fim a que nos propomos ; apresentando aqui os testemunhos 
de vários escriptores abalizados, assim nacionaes como estrangeiros, que 
sendo concordes na matéria, esta se encontra também corroborada por es- 
criptores chinas, que para as suas authoridades valem mais do que os nos- 
sos, o que tudo passamos a transcrever para maior clareza. 

Fernão Mendes Pinto, Edic : de Lisboa, de 1725. Capitulo 221. pag. 374. 

«Ao outro dia pela manhã, nós partimos desta Ilha (San-Choan) para 
«outra que está mais adiante seis legoas para o Norte, chamada Lampacao, 
«aonde naquelle tempo os Portuguezes fazião sua Veniaga com os Chins, 
«e ahi se fez sempre até o anno de 1557 que os Mandarins de Cantão a 
«requerimento dos mercadores da terra nos derão este porto de Macáo, 
«aonde agora se faz, no qual, sendo antes ilha deserta, fizeram os nossos 
«huma nobre povoação de Casas de três e quatro mil cruzados, e com 
«Igreja Matriz, em que ha Vigário, e Beneficiados, e tem Capitão, Ouvidor, 
«e officiaes de Justiça, e tão confiados e seguros estão nella com cuidarem, 
«que he nossa, como se ella estivera situada na mais segura parte de 
«Portugal ; mas quererá N. Senhor pela Sua infinita bondade, e Misericor- 
«dia que esta sua segurança seja mais certa e de mais dura do que foi a 
«de Liampó, que foi outra Povoação de Portuguezes de que atraz fiz larga 
«menção » 

Raynal, Edic. de Paris de 1820, tomo 1.°, pag. 221. 

«Os Portuguezes se contentavão com as Cabanas e Feitorias que tinhão 
«em Sanchoan, e com a liberdade que o governo da China havia concedido 
«ao seu commercio, quando se offereceo huma occazião de procurarem 
«hum estabelecimento mais solido, e menos dependente dos Mandarins, que 
«commandavão sobre a costa. Hum pirata chamado Cham-si-lao. que se ti- 
«nha feito muito poderozo por suas pilhagens, se tinha senhoreado da pe- 
«quena Ilha de Macáo, donde tinha em bloqueio os portos da China: este 
«pirata foi pôr sitio a Cantão. Os Mandarins das vizinhanças recorrerão aos 
«Portuguezes, que tinhão navios em Sanchoan ; estes correrão em soccorro 
«de Cantão, e fizerão levantar o sitio : alcançarão huma Victoria completa 
«sobre o pirata^ a quem perseguirão até Macáo, onde elle se matou a si 
«mesmo. O Imperador da China informado do serviço, que os Portuguezes 



ID'2 



«lhe acabavão de fazer, lhes ficou reconhecido, e lhes fez presente de Ma- 
«cáo. Elles acceitarão esta graça com alegria, e edificarão huma Cidade que 
«veio a ser florescente : esta praça foi vantajosa ao Commercio, que elles 
«fiserão benn depressa no Japão » 

La Cléde, Edic : de Lisboa, Hist. Portg. tomo 7/' pagina 322. 

«Desvanecidas pelos Portuguezes com a sua boa fé as ideas fataes, que 
«Simão d'Andrade dera d'elles, requererão licença aos Mandarins de apro- 
«ximar-se até outra Ilha deserta, que ficava obra de vinte legoas do Cantão, 
«chamada Macáo, e foi-lhes concedida. De maneira que até se lhes permit- 
«tio vir depois disso todos os annos a Cantão, e demorar-se quatro mezes, 
«com a condição de retirar-se todos durante a noite para suas embarca- 
«ções. Passado pouco tempo, permittio-se-lhes edificar algumas casas em 
«Macáo, as quaes forào crescendo insensivelmente no numero, e formarão 
«huma cidade assaz grande, e commoda. Hoje tem os Portuguezes hum 
«Governo, que os faz observar huma policia exacta e os chinas um Manda- 
«rim para mostrar que esta Ilha he sua.» 

Memorias do Cardeal de Tournon, Edic. de Veneza, de 1761, Vol 1.°- 
pag. 224. 

«Macáo antigamente era um estéril escolho situado em península, e unido 
«ao continente por huma estreita lingoa de terra, que conduz á cidade de 
«Quam-chau, metrópole da Província de Quam-tung na China. Desde que os 
«Portuguezes obtiverão do Imperador o poder-se alli estabelecer com certas 
«e determinadas convenções, e especialmente com a obrigação de pagar 
<<cadaanno hum reconhecimento de quinhentos taeis, foi crescendo a habi- 
«tação. . . » (11) 

Chronica de Hian-xan, antiga Edic; por Li-choo-Coci e Chen-Hu : vol. 8.*^ 
foi. 23 verso. 

«No anno 32 do reinado úq Kia-chingádi Dynastia M/t? (1553) navios estran- 
«geiros chegarão ao porto de Hao-K/ng {Macáo) dizendo — que tendo soffrido 
«huma tormenta, e achando-se molhados os artigos de tributo para o Im- 
«perador (12) dezejavão que por emquanto se lhes cedessem as praias de 
«Hao-King para enxuga-los ; e sendo-lhes permittido por Vam-pó, segunda 
«Inspector das Costas, principiarão a fazer algumas palhoças ; mas depois 
«os mercadores (chinas) desejozos do lucro, forão-lhes pouco a pouco for- 
«necendo materiaes, com que vierào a fabricar cazas, como em huma cidade, 
«e alli ficarão residindo pagando foro.» 

Pan-su-kiu, n'hum memorial que fez ao Imperador, e que vem inserido 
em outra edicção da chronica de Hian-Xan de 1827. vol. 4 °, pag. 93 verso, 
falando de Macáo, diz: «Na Villa de Hian-Xan ha hum piqueno logar cha- 
«mado Macáo de mais de dez lis (13) de extenção, rodeado por trez lados 
«de mar, que se communica com o Oceano, e unido só na povoação de 
«Chien-xan á dita Villa por hum Isthmo ; he importante não só pela sua si- 
«tuação, como também pela frequência dos navios. Na anterior Dynastia 
«Mim tendo vindo huns navios Portuguezes negociar a Cantão, foi-lhes per- 
«mittido fazer nas Ilhas de fora (14) algumas palhoças para rezidirem, as 
«quaes erào demolidas na partida dos Navios. E quando Sua Magestade Im- 
«perial houve por bem ordenar que se cobrasse todos os annos o foro ter- 
«ritorial, então he que principiarão os ditos negociantes a fabricar cazas em 
«Macáo e a trazer para alli suas famílias. Convidarão depois os chinas a 
«allugar, e a morar nos seus gudões, e construirão navios, que hião e vinhão 
«commerciar sem interrupção. A nossa actual Dynastia acolhendo benigna- 
«mente os que vem de longe, tem-lhes igualmente permettido rezidir em 
«Macáo como dantes...» 



ib3 



Os lugares das chronicas de Hian-Xan que acabamos de transcrever, 
tendo aludido ao foro territorial, que annualmente pagamos ao Imperador 
da (!hina, torna-se por isso próprio fazer aqui menção do mais que das 
mesmas pudemos colher acerca desse foro ; até por ser este facto o que 
talvez com mais evidencia, que os antigos Portuguezes fizerão hum pacto 
ou ajuste com o governo da China, que dura athé hoje, e sem o qual não 
podia existir o dito foro : e he o que se segue : 

«Quanto ao foro territorial (citadas chronicas de 1827, pag. 93 e 96 
«verso) parece que foi sempre pago desde o principio do Estabelecimento; 
«mas ha escriptores Chinas que dizem que o pagamento nãò principiou 
«senão pelos annos no reinado de Va/?-// (1573 em diante); entregando-se 
«além disso vinte mil taeis de Direitos de ancoragem (as mesmas Chronicas 
«pag. 86, Nota) cuja quantia variava segundo o numero dos vazos.» 

Quando começou a Dynastia Tártara, ficou o foro perdoado por alguns 
annos pelo governo de Cantão ; mas pouco tardou que não fosse nova- 
mente exigido, e bem assim toda a importância desses annos, de que re- 
sultou a prisão do lingua em Cantão no anno de 1653, como se deprehende 
do seguinte termo extrahido de humas Memorias sobre Macáo escriptas 
pelo Bispo de Pekim D. Joaquim de Souza Saraiva falecido n'esta Cidade 
no anno de 1818: era em dois volumes manuscriptos que existem no Co- 
légio de S. José (*). 

«Termo que se fez sobre a paga do foro do chão, e sobre as pessoas 
que devião hir a Cantão &^» 

(Vide vol. 1.0 foi. 131 verso.) 

«A 23 de Outubro, (de 1653). . . foi dito. . . que supposto as coizas do 
«Governo erão muito pre . . havia algumas coisas particulares de que era 
«necessário dar as suas mercês parte para nellas determinarem o que mais 
«conveniente e acertado fosse, em razão do que de prezente se offerecia, 
«estar o Jurubaça (15) que a Cantão foi, quando se forão pagar as medi- 
«çòes dos Navios, prezo pelo foro do chão, que. . . se pedia alem de se ter 
«perdoado na occazião, em que a este novo governo Tártaro, se fez por 
«parte desta Cidade dar-lhe obediência, e este se pedia com rezolução, 
«como manifestava a pessoa, que a Cantão tinha hido com a paga dos di- 
«tos direitos, que Suas Mercês determinassem o que nisso se devia fazer, 
«e se convinha que de prezente fossem a Cantão fazendas. O que sendo 
«por todos ouvido, e outras mais circumstancias desta proposta, e entre 
«todos praticado, e ventiladas as razões referidas, forão de parecer, que no 
«que tocava á paga do foro do chão, que se pedia, se fizessem todas as 
«deligencias possíveis por.... a q.'" competisse para bem de verse se 
«podia excusar a pagar-se, e que de não poder ser menos, se passe; e a 
«Cantão se fosse com as fazendas, que cada hum quizesse, hindo com elles 
«pessoas aptas, e sufficientes, para que o Credito da nossa Nação se con- 
«servasse, e com isso se evitassem dezordens, que muitos particulares, que 
«a Cantão tinhão hido, havião feito. E depois disto assim determinado, e 
«assentado por todos, examinarão donde se havia de tirar o pagamento do 
«tal foro, se não houvesse outro remédio &.^» 

Vários esforços se fizerão depois da parte do Senado em 1687 para se 
livrar do pagamento do foro, ou ao menos ser diminuído, porem nunca se 
conseguio, antes em 1691 se vio o mesmo Senado obrigado a pagar seis- 
centos taeis em vez de quinhentos, á requizição dos Mandarins, que allega- 



(*) Existem actualmente em Lisboa, como ficou dito a pag. 8 d'esta Revista. 



ID4 

vão haver Ordem Imperial para assim o exigirem ; Como se vê do seguinte 
assento extrahido das ditas Memorias sobre Macáo, Vol. I.^fol: 156, verso. 

«A 14 de Janeiro de 1691 forão chamados os homens bons, e lhes fo 
«dito que tinha vindo Chapa para pedir o foro com acréscimo de mais cem 
«taeis, alem dos quinhentos que sempre se pagarão, por ser assim decre- 
«tado em a Corte de Pekim pelos tribunaes grandes •-- Consultarão ao Pa- 
«dre Filipuca se poderia haver replica ; respondeu que não por ser decre- 
«tado pelo Imperador assentarão que se dese.» 

Em 1718 tornaram a pagar quinhentos taeis como d'antes, e mais quinze 
de propinas, que agora se dão para reducção a saicy, como se pode vêr 
das seguintes versões das chappas que annualmente se recebeu do Manda- 
rim de Hian-Xan na occasião da cobrança do dito foro, cujo theor he sem- 
pre o mesmo. São estes os únicos documentos que existem no Senado de 
Macáo, mostrando a Concessão Imperial por meio de pagamento d'humforo 
annual, e o pacto feito pelos antigos portuguezes com o governo chinez : 
como acima fica dito. 

1.^ Chapa 

«Lú Mandarim da Villa de Hian-Xan, dirige ao Procurador a presente 
chapa sobre a cobrança do foro. 

«Como o dinheiro do foro territorial do districto de Hao-King (Macáo) 
está despachado para ser remettido ao thesoureiro da metrópole, afim de 
o introduzir na maça dos tributos, e depois dar partes do seu reconheci- 
mento, e applicação ; e sendo esta entrega annualmente feita nas proximi- 
dades do Solsticio do Inverno, para não haver demora na remessa, hé 
justo que se lhe faça esta participação, visto ser já chegado o prazo de 
cobrar o foro do anno — tal. — Em consequência dMsto dirijo apresente 
chapa ao Procurador, para que sirva preparar segundo a conta em boa prata 
Saicy os quinhentos e quinze taeis do foro terretorial do districto de Hao- 
King, do corrente anno, e dar-me parte para as mandar receber pelo meu 
escrivão, e faze-los remetter (á Metrópole) para se prehencher o pagamenta 
das tropas, rogando-lhe ao mesmo tempo não haja n'isso demora. Chapa 
especial. 

«Dirigida ao procurador de Macáo, encarregado dos negócios sinicos^^^ 
Lua tal do anno tal. 

2.^ Chapa 

«Lú Mandarim da villa de Hian-Xan officia ao Procurador para seu 
conhecimento. 

«Como os quinhentos e quinze taeis de foro teritorial do districto de 
«Hao-King (Macáo) devem ser cobrados e remettidos ao thezoureiro da me- 
»tropole, para se encorporar com os mais tributos, e dar parte do seu re- 
«cebimento, e applicação, he justo que sejão em boa prata Saicy, e pezada 
«com os pezos da Balança da Thezouraria para não faltar, o que tem sido 
«por varias vezes recommendado, como se vê no archivo. E como já offi- 
«ciei ao procurador para apromptar o dinheiro do foro do anno — tal — e 
«tenha agora de mandar o escrivão, e o escolhedor, juntamente com os pe- 
«zos da dita Balança a Macáo para peza-lo, e recebido convém que huma 
«chapa lhe seja dirigida para esse fim. Em consequência faço a prezente, e 
«espero que ao receber d'ella, entregue ao escrivão os quinhentos e quinze 
«taeis do foro do corrente anno, que devem ser em boa prata Saicy, e com- 
«pletamente pezados com os pezos da dita Balança, para os trazer pessoal- 
«mente, afim de serem remettidos á metrópole; Não queira uzar de pata- 



i55 



«cas hespanholas, nem peza-las nas balanças portuguezas (16) para não 
«faltar, que cauzará demora na entrega, mandando-o supprir. Chapa especial. 
«Dirigida ao Procurador de Macáo, encarregado dos negócios Sinicos. — 
«Lua tal do anno tah. 

3.^ Chapa 

«Lu, Mandarim de Hian-Xan dirige a presente chapa ao Procurador.:=. 
«Como o Procurador acabou de entregar o foro territorial de Macáo, que 
«foi trazido, pezado, e recolhido no Thezouro, convém que hum recibo lhe 
«seja passado para que conste. Declaro ser verdade haver recebido quinhen- 
«tos taeis de foro territorial do districto de Hao-King do anno tal de taí 
«Imperador, e mais quinze taeis de propinas de Thezoureiro. = Para ser 
«entregue ao Procurador de Macáo. 

«Lua tal de tal anno». 

A' vista do theor d'estas chapas já não se pôde duvidar, que o foro 
de Macáo se paga com conhecimento do governo superior de Pekim. 

SOLUÇÃO AO 3.° QUEZITO 

O que ha de mais positivo relativamente a este quezito, são unicamente 
as estipulações ultimamente obtidas com os despachos ou chapas do Dele- 
gado Imperial, e outros altos Funccionarios de Cantão, datados em 9 de 
Novembro de 1843, e 13 de Abril e 31 de Outubro de 1844, que forão re- 
mettidos por este governo á Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha 
e Ultramar em officios n.°^ 22, 38, 48, 56, 75, 127 e 131, aos quaes nos re- 
ferimos, cujos papeis também encerrào alguns esclarecimentos. Transcre- 
vemos porém aqui, em resumo, as mencionadas estipulações. 

1.° A correspondência official entre alguns Plenipotenciário Portuguez e 
os altos Funccionarios de Cantão pôde ser feita em termos de mutua igual- 
dade ; e bem assim entre o governador, ou o Senado, e o Thezoureiro da 
província metro-politano, e o Intendente do districto, e finalmente entre o 
Procurador, e os mandarins do Districto ; mas o Governador, Senado e Pro- 
curador sô podem corresponder officialmente com o Commissario Imperial, 
Vice-Rei, por officio de inferior a supeiior. 

If" Os direitos d'ancoragem dos vinte e cinco navios do numero (17) 
são pagos pela nova tarifa, como os dos navios europeus em Vampú, com 
a reducção porém de hum maz e meio, que vem a ser três mazes e meio de 
prata por tonelada. Os navios, que vem a Macáo, e não são do numero, 
pagão a ancoragem da nova tarifa por inteiro, que vem a ser cinco mazes 
bor tonelada. 

Nos cinco portos abertos ao commercio estrangeiro, que são Cantão, 
Amoy, Fu-chao, Ning-po, e Shanghai, pagão todos indistinctamente cinco 
mazes por tonelada. 

3.° Os direitos de fazendas importadas, ou exportadas em vazos Portu- 
guezes por mercadores chinas são pagos ao Hopú (Alfandega chineza) pela 
nova Tarifa, segundo a qual todas as fazendas não mencionadas na mesma 
pagão dez por cento ad valorem, sem mais despeza alguma addicional. As 
Lorchas Portuguezas munidas de passaporte do Governo de Macáo podem 
hir a Cantão, pagando os direitos, segundo o novo Regulamento estabele- 
cido para as lorchas de carga. 

O porte destas lorchas está regulado até setenta e cinco toneladas para 
as pequenas, e cento, e cincoenta para as grandes. Aquellas que não tem 
mais de cento e cincoenta toneladas, pagão por cada vez que entrão no 



i56 



Porto, hum maz de prata por tonelada, e as de maior porte pagão, como 
navios de alto bordo, cinco mazes por tonelada. As Lorchas que tem menos 
de setenta e cinco toneladas, pagão, como as deste porte. 

4.° Os Portuguezes podem comprar por si os materiaes precizos, e alu- 
gar obreiros de sua escolha quando tiverem de construir, ou reconstruir 
seus edifícios e navios independentemente de chapas ou Licenças dos Man- 
darins do Destricto, ficando abolidas todas as gages, e despezas addicio- 
naes, que dantes se pagavão. 

S.° Vazos Portuguezes podem hir fazer commercio a Cantão, Hia-Men, 
Fuchau, Ningpó, e Shanghai, sugeitando-se aos regulamentos determinados, 
e estabelecidos pela nova Tarifa, quanto ao pagamento dos Direitos de Fa- 
zendas, e ancoragem de Navios. Ao porto de Fuchau, porem como elle não 
tenha ainda sido aberto ao Commercio Europeo, não podem hir vazos Por- 
tuguezes, em quanto aquelle porto não for franqueado a todas as mais na- 
ções estrangeiras. 

6.° O numero e qualidade de fazendas que os mercadores chinas podem 
introduzir em Macáo, não he limitado. As que tem de passar pela Alfandega 
de Cantão pagão alli direitos, e para serem exportadas por Macáo devem 
vir acompanhadas de desembaraços da mesma Alfandega, e aquellas que até 
aqui, na pratica, não passarem pela dita Alfandega, pagão os direitos de ex- 
portação ao Hopú de Macáo, tudo pela nova Tarifa. 

7.° O porto interno de Macáo he aberto a todas as bandeiras estrangei- 
ras indistinctamente, pagando direitos de ancoragem como nos outros Portos 
da China. 

SOLUÇÃO AO 4.° QUEZITO 

Os chinas estabelecidos dentro da Cidade de Macáo nenjium imposto 
pagão, porem os que vivem extra-muros, pagão annualmente dous mazes 
de prata, ou a quinta parte do tael, por geira quadrada, esta quantia com 
tudo varia segundo a qualidade e classe de terreno, como se vê da Tabeliã 
que vem no fim deste artigo extrahida do cartório de Hian-Xan, por onde 
são regulados todos os impostos desta Comarca, por ser cabeça delia. 

Os documentos financeiros do governo não fazem particular menção de 
cada lugar dependente de huma mesma Comarca, mas só sim da cabeça de 
cada Comarca com os seus rendimentos respectivos por inteiro tanto em 
metal como em grão; e eis aqui a razão por que de Macáo (extra-muros) se 
não encontra menção especial. 

Os rendimentos annuaes da Villa de Hian-Xan, em que Macáo está in- 
cluído, orção por vinte e quatro mil quinhentos e nove taeis (24.509) em 
metal, e quinhentas mil (500.000) gantas em grão. 

Tabeliã a que acima se allude 

Terra seca (afastada do mar, e cultivada desde muito tempo) 

Quatro classes 

Taeis Gantas 

1.^ Classe — Por cada dez covados quadrados, isto he, 

a 6.a parte da geira 0:0394 0:0652 

Se no anno ha lua intercalar, mais. . . 0:0010 » 

2.^ Classe — Por cada dez covados idem 0:0329 0:0492 

Em luas intercalares, mais 0:0007 » 



i57 



Taeis 



Gantas 



3.^ Classe — Por cada dez covados idem 0:0286 0:0391 

Em luas intercalares, mais 0:0006 » 

4.-'* Classe — Por cada dez covados idem 0:0179 0:0200 

Terra salina (contigua ao mar) 

Cinco classes 

l.'"* Classe — Paga por cada dez covados ;.. 0:0146 0:0090 

2.^ Classe — Idem idem 0:0308 

3.^ Classe — Idem idem 0:0256 

4. « Classe — Idem idem . 0:0134 

5.^ Classe — Idem idem 0:0084 

Terra novamente cultivada, e cuja producção he ainda incerta 

Cinco classes 

1 .^ Classe — Paga por cada dez covados 0:0425 

2.a Classe — Idem idem 0:0274 

3.^ Classe — Idem idem 0:0221 

4.^ Classe — Idem idem 0:0098 

5.3 Classe — Idem idem 0:0048 

Despeza addicional 

Pelo desembaraço que se cobra do Governo annualmen- 

te, mais ... 0:0400 

COflClUZãO 



Cumpria-nos talvez dar ainda algumas informações geraes a respeito do 
Estabelecimento de Macáo para satisfazer mais completamente o que nos 
foi ordenado, mas não podendo dizer sobre esta matéria nada alem do que 
se encontra escripto em as varias obras sobre a China que correm impres- 
sas ; hiriamos somente engrossar a presente memoria com extractos que 
nos houvera sido forçozo fazer das mesmas obras, que podem facilmente 
ser consultadas, e que sem duvida não são desconhecidas do insigne escri- 
ptor a cujas instancias se pedirão estes esclarecimentos e noticias. A obra 
publicada pelo sueco Sir Andrew Ljungstedt com o titulo de = Esboço his- 
tórico (Historical Sketch) dos Estabelecimentos Portuguezes na China = im- 
pressa em Boston no anno de 1836, em hum volume, não obstante que pa- 
rece ter as mesmas tendências de muitos outros escriptores estrangeiros, a 
contestar-nos o nosso direito a esta terra por pacto celebrado com o Impe- 
rador da China, he com tudo mui acreditada quanto á origem das suas no- 
ticias, e por nossa parte sentimo-nos inclinados a crer que ella encerra as 
mais copiozas, e interessantes informações, colhidas de vários manuscriptos 
extrahidos dos antigos Livros do Senado (cujos originaes já na época em 
que aquella obra foi escripta o senado não possuía, como o mesmo Ljungs- 
tedt o diz em huma nota depois da sua Prefação) sendo hum destes ma- 

2 



i58 



nuscriptos as Memorias, que temos citado, escriptas pelo Bispo Saraiva, e 
de que elle faz honroza menção na mesma nota, confessando igualmente 
que d'ellas se sérvio para melhor aperfeiçoar, e enriquecer a sua própria 
collecção^"«With His Excellency's friendly permission, 1 compared with his 
«valuable manuscript extracts my accumulated collections : they v^ere the- 
«reby improved so much, that this my humble Essay may, in many respects, 
«be considered a repository of facts, of which the archives of the senate can 
«exhibit the originais no more» ^^^ Ainda que o sueco deve ter extrahido 
destas memorias a melhor parte deljas, como he de suppôr; com tudo acre- 
ditamos que ellas serião ainda huma excellente acquizição para quem se 
quizesse informar sobre as coizas de Macáo, por quanto he certo que ellas 
contem a este respeito valiozas noticias, e informações colhidas dos sobre- 
ditos livros do Senado, e outros escriptos que desgraçadamente já não exis- 
tem. Ellas parão presentemente em poder do actual Bispo de Nankim, que 
as fez copiar dos próprios originaes, que se hião perdendo, e arruinando 
com o tempo, mas faz d'ellas tanto mistério que as não quer largar de si. 

Acerca do direito dos Portuguezes á posse de Macáo convém notar-se 
que com quanto desgraçadamente nada exista escripto, que prove ser elle 
fundado em Concessão do Imperador em consequência de tratados feitos 
entre este e os primeiros Portuguezes, com tudo este direito he compro- 
vado por testemunhos mais sólidos que meros argumentos históricos. O 
pagamento do foro territorial por espaço de quazi trez séculos com scien- 
cia do Governo de Pekim, como acabamos de ver ; as muralhas com portas 
construídas pelos Portuguezes em torno de huma parte da Cidade com con- 
sentimento do mesmo governo, e nada menos que seis Fortalezas regula- 
res, e algumas d'ellas assaz consideráveis como a do Monte, Barra e S. Fran- 
cisco; o facto de se regerem os Portuguezes por suas propr[as leys, com 
hum Governo estabelecido, e reconhecido pelas mesmas authoridades chi- 
nezas, que com elle tem correspondido officialmente ; são testemunhos mais 
que irrecuzaveis, e que ainda hoje attestão o nosso direito convencional á 
posse de Macáo, direito seguramente muito mais indisputável que aquelle 
que os Inglezes adquirirão sobre a Ilha de Hong-Kong, de que se apossa- 
rão com mão armada, e por meio de huma guerra, para que só a sua 
desmedida ambição e má fé podião subministrar pretextos. 

Estes factos todos, secundados pelos valiozos serviços prestados pelos 
Portuguezes ao Imperador da China em diíferentes épocas, com tanto des- 
interesse como efficacia, são de certo titulos mais que sobejos para lhes 
darem o direito de ficarem para sempre emancipados do domino Chinez, e 
em posse exclusiva de Macáo, com seu tratado de paz e commercio inde- 
pendente daquelle que a China concluio com o Coverno Inglez, e que na 
mente dos Chinas devia ser extensivo, como de facto o fizerão todas as na- 
ções estranhas, as quaes com tudo não tem querido deixar de celebrar com 
elles singularmente seus tratados particulares. 

Mas he ao mesmo tempo certo, segundo a nossa fraca opinião, que, 
apezar de justiça da nossa cauza, pouco ou nada lucramos por meio de 
tratados, se nos apresentarmos para o negociar sem estarmos munidos de 
forças, e representação ; e ainda assim sempre se hão de encontrar grandes 
difficuldades, e embaraços, pois nos persuadimos que os nossos novos vizi- 
nhos se não descuidarão de empregar contra nós as armas da intriga em 
que são tão dextros. = Macáo, 23 de Fevereiro de 1846. ^=7ozé Gregório 
Pegado. 



TD9 



Notas para illustração da prezente Memoria 



(1) Os chinas reputão estrangeiros a todos que são de fora do seu paiz, da mesma 
forma que sào reputados pelas Nações Europeas. 

(2) iVlom-tzu ou Meneio, natural de Tson, cidade do antigo Reino de Lú, hoje Pro- 
víncia de Han-tung. Philosopho chinez o mais celebre depois de Confúcio, floresceo 
pelos annos de 350 antes da Era Christaã. " 

(3) A geira chineza (mon) contem (600) seiscentos che ou çovados quadrados. O co- 
vado he igual a hum terço da vara Portugueza. Huma geira equivale a dozentas varas 
portuguezas quadradas. 

(4) Mom-tzu Liv. 1.° Capt.o 5.^ § 3.° 

(5) Commentarios de Su-Xu-Kiai-ên e Je-Kiam-su-Xu sobre o primeiro Livro de 
Mom-tzu Capitulo 5.° 

(6) A Bússola foi immitada e logo aperfeiçoada por Flávio, Napolitano, segundo Tor- 
rente na sua geographia, e outros. Os historiadores chinas porem attribuem a sua in- 
venção ao Imperador Hoam-ti, que subio ao throno no anno 2697 A. C. 

(7) Esta Dynastia começou no anno 620, e terminou em 960 A. C. A mesquita deve 
por conseguinte ter sido edificada ha mais de mil annos. 

(8) Os que chegào a ser empregados do Governo só são aferrados em seus uzos, e 
costumes, em quanto não occupão postos elevados, mas logo que chegão aos do 3.° gráo 
para cima, então, ou pelo frequente trato com os grandes magnates do Império, ou por 
cauza de serem os mandarins superiores obrigados a observar certos ritos religiosos nas 
quatro estações do Anno, e a participar das viandas que nessas occazioens lhes envia o 
imperador, não sentem escrúpulos de dizer abertamente, quando são notados, que ja 
não professão a Religião Mahometana. 

(9) «Nestorianos, sectários de Nestorio presbítero da Igreja de Antio-quia, nomeado 
em 428 da nossa Era, Patriarcha de Constantinopla pelo Imperador Theodozio Segundo. 
Em consequência da herezia, que introduzio pregando não ter o verbo nascido de iVlaria, 
foi deposto, e depois desterrado para Oafis, donde passou para a Thebaida, e alli mor- 
reo entre os annos 439 e 440. Os seus sectários dispersos pelo Oriente, por cauza das 
continuas perseguições, que lhes fazião os mahometanos no século sétimo, principiarão 
alguns a introduzir-se na China, onde no sétimo, e oitavo século empregarão os seus 
maiores esforços para espalhar o Christianismo nas Provindas Septentrionaes do Impé- 
rio; fizerão prosélitos, e fundarão igrejas; porem, as suas conquistas forão somente tem- 
porárias.» (Chinesa Repository Vol. 4.° pag. 273). Sobre este ponto veja-se também o 
Vol. 10 desta mesma obra a pag. 140 a 148; assim como o Morrisorís Chinese View 
of China, pag. 45. Davis's Chinese pag. 6. 

(10) Lhronica de Hian-Xan de 1827 livro 4 foi. 83 verso. 

(11) Pedimos vénia pela ociozidade que tivemos em transcrever passagens de Au- 
thores tão conhecidos, por quanto só tivemos em vista reunir a doutrina d'elles debaixo 
de hum mesmo ponto, para maior commodidade. 

(12) A palavra — tributo — era o termo uzado pelos empregados chinas, desde a 
mais remota antiguidade, nos memor.aes que dirigião ao Imperador quando alguma 
nação estrangeira se apresentava com requizições para poder commerciar no seu paiz; 
e os Imperadores das differentes Dynastias ufanos com a offerta de tributos que lhe 
faziào povos de remotas regiões annuião a supplica; e chegavão até, depois, a «orde- 
nar em 1400 ás Nações estrangeiras para que lhe trouxessem tributos de trez em trez 
annos.» (Ch. Repository Vol. 1.° pag. 369.) Na ultima embaixada ingleza á China em 
1816, arvoravão os chinas no mastro grande da embarcação ern que hia Lord Amherst 
huma bandeira com os caracteres sinicos que dizem — Cum-He e significam — Por- 
tador de tributos — como costumão ainda praticar com as Nações que são effectiva- 
mente tributarias ao Império. Daqui podemos inferir que o mesmo se havia de ter pra- 
ticado com os anteriores embaixadores assim Portuguezes como de outras Nações. O 
termo acima, de que faz menção a chronica, ou foi empregado pelos Portuguezes já 
cônscios dos costumes chinezes pela pratica adquirida nos portos onde negociavào an- 
teriormente á fundação de Macáo, ou pelos mercadores indígenas, os quaes desejozos 
de continuar o commercio com os Portuguezes expulsos de Ningpó, e Chincheo (1545, 
1549) se servirão d'elle para deste modo lhes não ser negada a permissão. 

(Í3) Li, medida itinerária que corresponde á decima parte da iegoa commum de 
França de vinte e cinco ao grão, ou dozentos e quarenta passos geométricos. 

(14) Esta passagem he confirmada pelos seguintes extractos das JWemorias sobre 



i6o 



Macáo, do Bispo Saraiva, Voi. l.o pag. 142: «Até este anno (1553) contractavão os Por- 
«tuguezes com os chinas, na Ilha de San-choan, aonde vinhão quantidade de navios 
«de Malaca a commerciar neste Porto com a condição de tornarem para Malaca aca- 
«bado que fosse o seu contracto, ou para Japão. Nunca os chinas consentirão que os 
«Portuguezes fizessem morada ou cazas nesta terra, e somente lhes davão licença para 
«terem algumas palhoças, como a em que faleceo o Padre S. Francisco Xavier.» E mais 
abaixo: «No principio deste anno (1554) por desconfianças dos chinas, nos fizerão mudar 
«junto com o commercio para o porto de Lampacao, que fica seis legoas ao Norte de 
«San-choan, onde negociamos até o anno de 1557 em que concederão o sitio ou Ilha de 
«Macáo em que hoje estamos.» 

(15) Era o titulo que antigamente se dava ao Lingoa ordinário. 

(16) Estas e outras expressões não são senão meras formalidades das chapas, que 
nunca se cumprem. O dinheiro he sempre pezado com os pezos da nossa Alfandega, e 
pago em prata corrente, que he a Pataca Hespanhola. 

(17) São os vinte e cinco navios estipulados pelo Imperador Cam-h/ no 37.° anno 
do seu reinado (1698) com privilegio de poderem depois de huma vex medidos, conser- 
vando-se-lhe os mesmos números, pagar por outras vezes, que o houverem de ser, so- 
mente a terça parte da ancoragem, que pagarão pela primeira. Deste indulto só pagavão 
os navios de Macáo, e de Manilla 

Macáo 23 de Fevereiro de 1846 = José Gregório Pegado. 



Pela leitura d'esta Mennoria ficou o leitor tendo conhecimento de tudo 
quanto, até então, se poude apurar com respeito ás antiguidades de Macau 
com os dados então existentes na colónia, e na parte relativa aos quesitos 
formulados pelo Visconde de Santarém. Ao que não foi respondido por Pe- 
gado tenciono fazel-o n'estes Annaes; mas apezar da sua deficiência, de 
certos pontos de vista com que não concordo, e de indicar bastantes ver- 
gonhas a que nos sujeitámos e de que nos livrou Amaral, a Memoria apre- 
senta informações curiosas sobre o foro ao cbào que pagávamos aos chinas 
e que Pegado indica como um forte argumento a favor do direito de 
Portugal á posse de Macau. 





Eúlmém^ mnim li@ai 



(Comprovação de duas façanhas) 



II 




o trabalho de investigações, como em tudo o mais, a tenacidade consegue 
praticar verdadeiros milagres, cuja realisação o acaso quasi sempre ajuda 
e favorece. Isto para quem não queira antes attribuir á intervenção divina 
o premio de fadigas, e acreditar no conceituoso dictado : Fa^e pela tua 
parte, que Deus te ajudará I 
E Deus ajudou-me, como os leitores vão ver. 

No ultimo numero do Ta-ssi-yang-kuo lastimava-me por não ter conseguido encon- 
trar uma narração official portuguesa do ataque e derrota dos hollandezes em 1O22. 
Pois, poucos dias eram decorridos, e eu tinha a satisfação de achar o precioso do- 
cumento ha tanto tempo por mim procurado. É uma narrativa feita poucos dias ou mezes 
depois do combate e escripta em Macau, dirigida para alguém de Goa. Que essa narra- 
tiva é official, prova-o a circumstancia de se achar copiada no Livro de Copias de alva- 
rás, cartas e mais papeis pertencentes ao governo económico de Macau, que consegui 
encontrar no Archivo do Ministério da Marinha e do Ultramar (i). Que íoi feita pouco 
tempo depois do combate, provam-n'o as passagens que vão transcriptas em itálico. 

Quem foi o auctor d'essa narrativa? Nada diz a esse respeito o copista de 1769, nem 
tão pouco a quem era dirigida. Seria certamente feita por uma das auctoridades de 



(i) Livro ,i de [] copias \\ de \\ Alvarás, Cartas || e \\ mais papeis pertencentes ao || governo económico d' esta ci- 
dade II de Macau jj Anno \\ de i\ i^ôg. || 

Este titulo é rodeado por uma elegante cercadura á penna. Abre o livro, a foi. i, com a Rellaçáo da Victoria 
que a ctaade de Macau teve dos Olande^^es no anno de 1622, que vae adiante transcripta. 

Tem o livro 9? foi. e no fim um index alfabético. 



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Macau e dirigida talvez ao governador ou vice-rei da índia. Mas esses esclarecimentos 
são secundários, e o importante é achar-se essa narrativa contemporânea incluida n'um 
livro de copias de documentos oflficiaes, o que lhe dá todo o caracter de authenticidade 
que eu tanto desejava. Que o avalie o leitor pela transcripção que passo a fazer, conser- 
vando, conforme o costume, a orthographia do original : 

<<N'este anno de 1622, vierão os Olandezes sobre Macao para o tomar á força de ar- 
mas, como o desejão á muito, porque desta maneira se malquistarião com os chinas, 
pois lhe não fazião a elles guerra, nem multiplicarião povoações de Estrangeiros, que 
tanto teme esta nasção : E alem disso ficarião empedindo os Portuguezes, ou atraves- 
sando este Comercio, que he o mais groço, de todo o Oriente. Não falo no saque da Ci- 
dade, que seria grande, por estar ella ao presente mais povoada, e rica, do que os mes- 
mos mimigos imaginavão; com esta determinação chegarão a^'!/? em 22 ííe^u;?/?» 1 3 vellas 
Olandezas, entre navios, e Patachos, e Galeotas, em' que vmha por general hum Corne- 
lio Regres, e já de antes estavão neste Porto coatro navios, que levavão sua Derrota para 
o -lapão: duas Olandezas, que ainda concorrerão com a sua gente paro o assalto; e duas 
Inglezas, que não entrarão na liga; porque os Olandezes tendo a terra já por sua, lhe 
não querião dar parte nella. Na tarde que chegarão sondarão tudo muito a seu salvo, e de- 
vagar; andando em duas lanchas a tiro de mosquete. Em huma das quaes vinha o mesmo 
General, ou fosse por notar os edifficios da Cidade, ou por dezafiar o Baluarte de Sam 
Francisco, com que se vierão por a bataria duas naus na tarde de 23 de junho; e logo 
na manhãa seguinte, dia de São João, quasi duas horas depois de sahir o sol, estando as 
duas naus com h sua artilharia varejando e atemorisando a Cidade, e dois Patachos fran- 
queando a prava de Cassilhas, pelo meyo dos nossos pelouros, desembarcarão nella em 
02 Lanchas, com falcões, e roqueiros por proa, mais de oitocentos homens de mosquete, 
comtanto esforço, e tão furiosas surriadas, que os não poderão esperar sessenta portu- 
guezes, e noventa Filhos, e homens da Terra, que estavão detraz de hum valle de área, 
pelo mesmo foi dezembarcar o inimigo, e ganhar o valle; que unirem-se, e os nossos 
retirando- se para a Cidade com pouca gente, e menos ordem, que neste dia faltou em 
muitas cousas, assim nossas, como as de Olandezes, os quaes vendo que os Portugue- 
zes lhe deixavão o campo, ainda que a passos fizessem rosto, e jugassem dos mosquetes, 
deixando na prava duas companhias de cem homens para desembarcar a artelheria em 
que determinavão bater a Cidade, se vierão temerariamente marchando com seu campo 
formado, a passos contados pela campina, que corre ao pé da serra de Nossa Senhora 
da Guia, jugando dos mosquetes com tanta ordem e destreza, que ganharão nesta parte 
muito credito para com os nossos. Picou-se n'este tempo o sino da Cidade, e a gente 
que por vários logares estavão repartidas veyo concorrendo, posto que sem ordem, nem 
bandeiras, nem huma Companhia, que tudo faltou de nossa parte, senão a muita pro- 
videncia de Deos, que por esta via de andarem os nossos espalhados, nos quiz dar a 
victoria mais barata, e vinha o inimigo já com o rosto nos bambuaes e Cidade, quazi 
emparelhando com a Hermida de Nossa Senhora da Guia, qunndo do Monte de São 
Paulo, que lhe fica sombranceiro, atodo aquelle Campo, se desparou huma pessa grossa, 
e apóz ella outras menores, que os íizerão parar, e juntamente reparar na muita gente 
que tinhão diante de sy, e valle, e pelo monte acima hia subindo até a Hermida, donde 
forçozamente lhe havia de ficar nas costas se quizece marchar por diante e já neste 
tempo muitos dos seus dando-se por cercados, não quizerão virar o rosto, ou pelo me- 
nos hirem-se retirando; por onde os Capitães consultando brevemente sobre o que fa- 
zião, e não se sabendo deliberar, com pouco acordo forão marchando para a Serra, afim 
de ganharem algum teso em que se defendessem. Os Portuguezes, vendo isto, se forão 
chegando, e animados com boas palavras que no Campo lhes deziam os seus otíiciaes, 
se resolverão em dar Santiago, como fizeram com tanta determinação, que muitos lar- 
gando os mosquetes, e arremetendo de todas as partes, se vierão á espada em que os 
Olandezes ficarão de pior partido com os nossos. E neste dia o tiveráo também, que 
não pucharão pelas suas por estarem muito cançados dos mosquetes, da calma, e de 
subir pela Serra, que hé muito fragoza. Por elle lhe forão os Portuguezes dando nas 
costas, e os Olandezes fugindo tão soltamente que muitos largarão bandeiras, armas, e 
tudo, para hirem mais ligeiros, desta maneira até á praya de Cassilhas onde tinhão 
dezembarcado, com diferente brio. As companhias dos que nella ficarão, vendo os seus 
tão desbaratados trabalharam pelos pôr em ordem, e foi passo em que de ambas as par- 
tes, tiverão huma briga de espadas, e mosquetes muito travada; finalmente não po- 
dendo os Olandezes, sustentar o Ímpeto dos nossos, nem ter mão nos seus de mistura, 
se voltaram ao mar, lancando-se muitos a nado para chegarem ás lanchas com tanta 
perturbação e medo da nossa mosqueteria que os que ainda leva\'ão armas as largavão 
na sgua, aonde também com a pressa e cançasso ficarão afogados mais de noventa. 
Pouco nrenos erão os que morrerão no Campo, e serião muitos mais se os Cafres e 



i63 



mossos de serviço se não occupassem em os despojar, e degolar a todos, como fizerão 
em horra de São João Bautista, em cujo dia estes herejes ficarão mortos no campo, se 
se tirarão do mar afogados, e gravemente feridos, e ainda vão sahindo (sic) ern varias 
partes, se acha, que passão de trezentos os homens que o Cossario perdeo n'esta der- 
rota em que entravão trez companhias de soldados, os milhores, que tinhão na índia, 
gente muito escolhida, e exercitada em Flandres, que por despachos de serviços se se- 
gue que vinhão a esta conquista, como a couza de muito proveito, pouco risco, e ne- 
nhum sangue : Kegerão se por informações antigas, cuidando que tinhamos menos gen- 
te, e asim sabendo, que de poucos annos a esta parte se cazarão aqui muitos Portugue- 
zes bons cavalleiros, e capitaens de bom lugar no serviço de El-Rey, e dos seus, os mais 
era gente do mar, e huma bandeira do Jappão, de que também morrerão doze, ou treze. 
Do numero dos feridos, não sabemos, nem pode deixar de ser grande por se recolherem 
ás lanchas muito devagar, estando sempre os nossos carregando, e disparando nelles ; 
das suas bandeiras, que erão doze, cinco ficarão em nosso poder, sinco tambores, e huma 
pessa de campo, que já tmhão dezembarcado, e outras não sabemos se forão ao fundo 
em duas lanchas, que se alagarão com o pezo da gente, que carregou sobre ellas. Dos 
Capitães morrerão quatro, um se tomou vivo: Entre as alabardas, traçados e mosquetes, 
são mais de mil armas as que ficarão no Campo, e se tirarão do mar. Dos nossos mor- 
rerão quatro Portuguezes, dois Espanhoes e alguns escravos : Os feridos chegarão a 
vinte, que era muito pouco numero a respeito de durar a briga mais de duas horas. Re- 
colhidas as Eanchas, e Patachos da praya, também se retirarão as duas Naus, que esta- 
vão batendo a Cidade e o Baluarte, sem lhe fazerem algum damno; delles huma foi 
muito maltratada dos nossos pelouros; e depois soubemos que se fora ao fundo entre 
as ditas Ilhas : Querendo-a os Olandezes concertar, no dia seguinte vierão com bandeira 
branca tratar de resgate, não sabendo que dos seus só sete tinhamos vivos; respondeu 
a Cidade, que ainda não era tempo, e que como o fosse darião a resposta que julgasem 
ser mais conforme ao serviço de Sua Mag.'' Bem considerada a dezordem dos nossos, e 
o successo da briga, todos a huma voz confeção ser a victoria dada por Deos a esta Ci- 
dade por espaço, e avizo para se murar, e fortificar, comova vai-se fazendo. 

Nem os moradores o encontrão, como até agora o fazião, por verem claramente, 
que temos outros inimigos, de que necessitamos defender, e não fazer guerra aos chins, 
que elles dantes pello seu natural medo cuidavão. Em prova disto o Aytão, que he seu 
general do mar nesta Província de Cantão mandou a esta cidade de presente duzentos 
picos de arroz para os Escravos, por lhe dizerem que no dia da briga se mostrarão 
muito valentes, e fieis aos seus senhores; que na verdade por esta couza forrarão alguns 
no mesmo Campo. Não he menos a fedilidade de huma cafra, que vestida em trajo de 
homem, com huma alabarda, matou dois, ou três Olandezes. 

Podem espera}- grandes bens desta Victoria, porque vendo os Chinas, com seus olhos, 
que os Portuguezes são homens de guerra, quando se não queirão valer d'elles na que 
tracem com o Tártaro, pelo menos os tenham em respeito, querendo os mais por ami- 
gos que por inimigos; isto hé o que brevemente se me offerece escrever a V . . as no- 
vas desta Victoria por entender, que será de grande alvoroço a essa Cidade semelhan- 
tes novas. 

No tempo da briga recolherão seus cabedaes ao Collegio, como também as Senhoras 
principaes se recolherão na Egreja ao tempo da batalha, por ficar o dito collegio de- 
baixo de artelhena do dito Monte, e dali não sahirão emté a victoria ser alcançada.» 



Dias depois de ter feito esse precioso achado, vinha também parar-me ás mãos a 
obra manuscripta e inédita do celebre arrabido Fr. José de Jesus Maria, Ásia Sinica e 
Japonica (i), e n'ella tive também a felicidade de encontrar o seguinte trecho relativo ao 
ataque de i<J22. 

N'elle verá o leitor confirmado o que eu disse sobre a existência das fortalezas por 



(i) Ásia Sinica, e Japonica \\ Macao conseguido c perseguido \\ Obra posthuma do R. P. Fr. \\ José de Jesus 
Maria, Arrabino, '| missionário nos Estados da índia. || 

D'esia volumosa obra não encontrei menção em nenhum dos nossos bibiiographos. Constitue uma inexgotavel 
fonte de informações sobre o que os portuguezes praticaram nas partes do Oriente, principalmente na China e 
no Japão. D'elle e do seu auctor darei mais minuciosa noticia n'um dos próximos números d'esta revista, quando 
■encetar a respecti\a transcripcáo. 



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occasião d'esse ataque, sobre as tentativas anteriores feitas pelos hoUandezes contra 
Macau, e uma valiosa referencia ao celebre quadro existente ainda ha poucos annos no 
cartório do Senado, etc. : 

«Para a defifença do bem espiritual de tantas almas esteve propicia a Igreja, e para 
a conservação das próprias vidas e fazendas, dilligenciarão meios os Portuguezes de 
Macau; porque sabendo o quanto as nações Estrangeiras, emulavão esta Península e 
cheios de inveja e ambição, com especialidade os Olandezes que já nos ânuos próximos 
com o labéo de corsários tinhão cometido contra duas nãos desta terra grave insulto, não 
se prevenirão com mais armas do que tinhão, mas cuidavão logo tm se fabricar boa, e 
grande artelheria de bronze (1), que montarão em bons reparos na Fortaleza da Barra^ 
que para boa detíença, d'esta Cidade, e porto se achava primorosamente acabada, e a 
guarnição de gente e povo em grande augmento crecida. 

Emtanto hião continuando no hir a Cantão ás suas feiras levando muitas vezes em 
sua Companhia Missionários disfarçados, já para os hirem fazendo praticar na Lingoa- 
gem, e costumes do Paiz, já para os hir introduzindo pouco a pouco com vestes sini- 
cas, sendo este o modo único de poder entrar, respectivamente á Lei inviolável do Im- 
pério que (como já temos dito) o prohibe. Os Chinas hião também continuando, e cada 
vez mais, com suas garamufas e trapaças, portando-se com infidelidades como gente 
que hera por profissão infiel ; com os Portuguezes que já vião em mais numero, e sabião 
que em Macao estavão muito mais fortificados se haviao em taes combattes, que por 
receio e ciúme lhe não consintião dormir em terra, temendo de noite algum levante, e 
os fazia hir dormir ás embarcaçoens ; e nos cappitaens mores de Macao que já existião, 
havia annos, hera tão pouca a cautella e cuidado, que só o tinhão em augmentar seus 
interesses, e tratar da própria conveniência, como quem do Estado da índia vinha a 
Macao para este eflfeito : continuavão as suas viajes do Japão premio dado antes de algum 
monumento, certamente nenhum tinhão porque de Macao nada cuidavão. 

Informados os Holandezes deste desgoverno, como também de em Macao haviao 
mais de setecentas familias Portuguezas, e tinhão edificado Fortaleza em que arvoravão 
a Real Bandeira de Seu Monarcha, o que por enveja e soberba mal sofriao, pois nenhu- 
ma outra nação, em terras de tão poderoso Império, tal regalia lograva ; considerando 
estaria mal disciplinada a gente, por não ter cabos de guerra para a regular deftença, se 
resolverão intrépidos no anno de mil seiscentos e vinte e dous, a vir sobre Macao com 
huma Armada de quinze nãos, para a conquistar esta cidade ; com tantos navios para 
tão pequena terra e tão pouca gente, ahinda buscarão subterfúgios, pois occultamente 
fizerão o dezembarque em hum lugar chamado Cacilhas, distante couza de hum quarto 
de legoa a parte posterior da Cidade, o que feito, se vierão as nãos por na sua frente, e 
emtanto marchou a sua gente a querer investir, com boa ordem. 

Os Portuguezes, tanto que o souberão, tomarão armas, e com grande valor os sahi- 
rão a receber no Campo, hindo alguns para a for tale:; a da barra, a deffendella ; enves- 
tirão de huns aos outros, e os Portuguezes de tal valor e animo se revestirão que em 
poucas horas rexassarão o inimigo com tal Ímpeto, que matarão mais de seiscentos 
Olandezes, fugindo os mais tão precipitadamente a buscar as Lanchas, que muitos se 



(I) Ainda sobre o assumpto tratado na nota a pag. 95, com referencia á venda da anliga artilheria de bronze 
que guarnecia as fortalezas de Macau, é conveniente notar o seguinte: 

No relatório apresentado em 18 de Agosto de 1873 pelo tenente coronel D. J. d'Almeida e Barbosa, encarre- 
gado da inspecção do malerial de artilheria, ao governador Visconde de Sam Januário, e publicado a pag. i35»- 
i36 e 137 do Boletim do Governo de Macau e Timor d'esse anno, encontram-se os seguintes dados; 

«Canhões vendidos. Durante a governação de V Ex." foram entregues á ex.""^ junta de fazenda para serem 
vendidas por não estarem nas condições de serviço: 2 peças de calibre 3 ; 2 ditas de c. 4 ; 5 de c. 7 ; 2 de c. 9 ; 2 de 
c. 10; 10 de c. 12; 2 de c. i3; 2 de c. 1 5; 5 de c. 16; I de c. 18; I de c. 19; I de c. 20; 2 caronadas de c. 12 ; 2 de 
c. 16; I de o. 17 ; 6 de c. 18; 2 de c. 29 

Pecas de òron^e. Por oflício de secretaria do governo n " 22S de i5 de março de 1872, dispoz o antecessor de 
V. Kx.' que fossem serradas as peças d'este metal, que estivessem fora de serviço para serem vendidas e o seu 
producto applicado á compra de reparos com rodizios para as peças de calibre 68; e V. Ex.* confirmou a resolu- 
ção tomada para a serragem d'estas peças, como me foi communicado em officio da secretaria do governo n "372 
de 22 de Abril pretérito. 

Entregaram-se á ex."'" junta de fazenda 3 peças já serr.idas, uma em 20 de maio e duas em 19 de outubro de 
1872, que toram vendidas. Contmua a serragem de uma de calibre 36; e na fortaleza do Monte ainda existem cinco. > 

D'onde se vè que já anteriormente ao governo do actual sr. conde de !'aço de Arcos se tinha vendido parte 
da artiltieria de bronze antiga. 

O relatório de que tirei esses dados é bastante curioso e mostra os importantes serviços prestados pelo en- 
lào sr. Visconde de S. Januário no sentido de melhorar as condições defensivas da colónia. 



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afogarão ; e as nãos combatendo a Fortaleza forão de tal sorte com a nossa fatal arte- 
Iharia tão vigorosamente rebatidas, que nunca mais se servirão delias por desbaratadas. 
Ufanos os Portuguezes de Macao com esta primeira e tão feliz victoria, que em qua- 
dros se acha estampada na casa da Camera de.sta Cidade (i), ahinda assim (suposto que 
valerozos), ficarão com o receio de que poderião tornar os Olandezes com mais navios 
e gente e como toda a cautella em semelhantes occazioens he útil, e alguns Portugue- 
zes tinhão morrido na batalha (cujo bom soccesso atribuirão ao gloriozo Baptista, a 
quem no mesmo sitio edificarão hermida, e no seu dia por memoria (suposto que ar- 
ruinada) vão os Militares assistir á Missa que se celebra, e o Senado a esta Cathedral 
adonde como Patrono se festeja) se resolverão a pedir algum soccorro a Manila, que lhe 
mandou duzentos homes, com hum mestre de campo, por cuja industria se entrou a for- 
tificar a Praça com baluartes e muros, cuidando se em )iovas fortalezas e boa artelharia, 
para o que os Chinas concorrerão, vendo que também para a deffença hera útil, por ser 
Macao porto, e porta do seu Império.» 



Todas essas citações seriam sufEcientes para quem, de boa fé, pudesse conservar no 
espirito quaesquer duvidas sobre a authenticidade da extraordinária façanha praticada 
em 24 de Junho de if"i22 por um punhado de portuguezes contra um tão avultado nu- 
mero de forças de terra e mar dos nossos irreconciliáveis inimigos. Mas, como disse- 
mos, poderiam os de má fé ainda vir inspirar duvidas com o fundamento de que taes 
narrações, feitas por portuguezes, tinham o vicio original da mentira provocado por um 
mal entendido patriotismo dos narradores. Foi por esse motivo que, depois de demora- 
das buscas, tentei e consegui encontrar n'uma obra antiga, publicada em Amsterdam 
em 1725, uma relação ofiicial hollandeza feita pelo official da esquadra, que atacou Ma- 
cau, Guilherme Isbrantsz Bontekou, um dos actores d'essa tragedia. 

É d'essa relação que traduzo litteralmente as seguintes linhas: 

«No dia 22 de junho de it]22 surgimos em frente de Macau e ancorámos sobre 4 bra- 
ças, em fundo molle. Tinhamos i 5 velas entre naus e yachts, no numero dos quaes ha- 
via dois inglezes. Passámos revista á nossa gente, mandando-lhe fazer o exercício de 
guei^ra em redor do mastro, o que se praticou também nos outros navios. 

Em 23, os navios Gaitas, o Urso ingle^ e o Groningue avançaram para muito pró- 
ximo da cidade e ancoraram sobre 3 braças d'agua durante o refiuxo do mar. Só distá- 
vamos da cidade a uma distancia equivalente ao alcance de tiro d'um canhão pequeno; 
e, logo que chegou a tarde, disparáriíos sobre ella três descargas de artilheria. A' boca 
da noite o Gaitas e o Groningue adiantaram-se até ao alcance de mosquete, sobre 3 
braças d'agua, entre as duas marés, fundo molle. Resolveu-se que o nosso commissario, 
chamado Boffchert de Delft, e eu, desembarcássemos e fossemos, á testa da nossa equi- 
pagem, ajudar o assalto á cidade. Mas, cm seguida, não se julgou conveniente tirar ao 
navio os seus dois principaes officiaes ao mesmo tempo Mudou-se portanto de resolu- 
ção e eu fiquei a bordo. Com respeito ao commandante da frota, desembarcou também 
e commandou as nossas tropas. 

Logo ao amanhecer do dia 24, canhoneamos a cidade com todas as bandas de arti- 
lheria, sem parar, e tanto quanto as peças poderiam supportar. Tendo desembarcado, 
pouco depois, o nosso commandante com 600 homens, fez-se avançar rente á terra dois 
yachts, afim de estarem ahi promptos para qualquer eventualidade; principalmente para 
protegerem a retirada, se a empreza não fosse coroada de bom êxito e, também, para 
favorecerem a aproximação das nossas chalupas e dos outros pequenos barcos que con- 
duziam a nossa gente e deviam reconduzil-a quando fosse necessário. Os Portuguezes 
tinham construído um entricheiramento no sitio onde se devia realisar o desembarque; 



(i) A pag. io3 fiz referencia ao quadro do ataque dos hollandezcs que ainda ha trinta annos existia no Cartó- 
rio do Senado. Fr. José de Jesus Maria diz quadros. Haveria mais do que um ? Ou referia-se tambcm ao do mar- 
lyrio dos portuguezes em .Nagasaki ? Seja como fòr, o que se conclue é que na primeira metade do século xviii 
(em que viveu esse fradej já existia o celebre quadro. 



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mas fizeram pouca resistência, e quando a nossa gente penetrou n'elle, fugiram logo 
para uni mosteiro ou convento situado n'uma eminência. 

Realisado o desembarque, os nossos lançaram-se vigorosamente ao ataque. Os Por- 
tuguezes, nas suas repetidas sortidas, foraní sempre vivamente repellidos. Mas aconte- 
ceu-nos uni accidente de grande importância, l^egou o fogo a alguns meios-barris de 
pólvora e não houve maneira de ir buscar outros nem de reparar de prompto essa perda. 
Peior íoi o aviso que os portuguezes receberam do caso por um japonez desertor das 
nossas tropas. Tencionava-se occultar a retirada que era necessário fazer-se, o que com 
bastante facilidade se realisaria; mas, tendo esse aviso alterado tudo, cahiram os inimi- 
gos sobre a nossa gente que, sem pólvora, nenhuma resistência podia oppór; de ma- 
neira que resultou um grande numero de mortos. Perdemos i3o homens e tivemos nu- 
mero egual de feridos. N'esse numero contava-se Cornelio Reyertsz, nosso comnian- 
dante; que foi ferido logo no começo, por occasião do desembarque, com um tiro de 
mosquete, na barriga, de que, graças a Deus, ??J0 morreu. Desde que todos tornaram a 
embarcar affastou-se a frota para lima distancia de um quarto de légua, fazendo aguada 
n'unia ilha situada ao sul de Macau.» 



A obra antiga de que extrahimos essa interessante narrativa intitula-se : «Recueil des 
vouiges qiii ont servi à Vétablissement & progrès de la Compagnie des Indes Orientales, 
formée dans les Provinces Utiies des Tays-Bas. Seconde édiíion reveue, é aiigmentée de 
plusieurs pièces curieiíses, A A>nsterdam, che:^ J. Frederic Bernard, MDCCXXV», 12 
tom. com numerosas estampas e plantas de povoações e fortalezas. 

E n'essa collecção que está a narrativa Voiage de Guilhaume hbrants^ ^ontekou, 
de Hoorn, écrit par lui-meme, a pag. 910 do tomo 4.° (2.-' parte), d'onde extrahi o trecho 
transcripto. 

Bontekou partira de Texel, na Hollanda, em 28 de dezembro de 1618 a bordo da nau 
A Nova Hoorn. Depois d'uma viagem horrorosa, toda cheia de peripécias trágicas e nau- 
frágios, chegou a Batavia, onde o celebre general hollandez João Pietersz Coen, depois 
de o encarregar de diversas expedições ás Molucas e aos paizes circumvisinhos, o no- 
meou commandante da Groningue para, em companhia de sete outros navios de alto 
bordo, commandados por Cornelio Reirtsz de Dergton, seguirem viagem «afim de ten- 
tar ã conquista de Macau ou pelo menos ir aos Pescadores e fa^jer todas af< tentativas 
para estabelecer o coinmercio com a China. y> 

A expedição partiu de Batavia em 10 de Abril de 1622 e no caminho até Macau 
juntaram-se-lhe diversas naus que tinham recebido ordem para esse fim. Foi essa ex- 
pedição derrotada vergonhosamente pelos poucos portuguezes no memorovel dia 22 de 
Junho como vimos. Os restos d'essa expedição dirigiram-se ás ilhas dos Pescadores e á 
Formosa onde permaneceram durante algum tempo, sem grande resultado para o com- 
mercio hollandez na China. Quando os expedicionários regressaram á Europa é que o 
commandante Cornelio Reiertsz morreu de doença e não do ferimento recebido no 
combate em Macau e de que se curou em pouco tempo. Tem-se julgado até hoje 
que Reyertsz morreu em Macau durante a acção de 22 de Junho. E' um erro, que a 
narração de Bontekou vem esclarecer completamente. N'esse diário se encontram di- 
versas referencias a esse commandante, e se vè que só em Abril de 1624, quasi dois 
annos depois do mallogrado ataque de Macau, c que Cornelio falleceu na bahia de 
S. Euiz da ilha de Madagáscar. 

A esse respeito, diz Bontekou na devida altura do seu diário : 

«Decorridos onze dias depois de lermos largado ancora n'esse logar, morreu o nosso 
commandante Cornelio Reyertsz. Enterramol-o n'uma ilha que está situada em frente 
da bahià, e que é toda coberta de arvoredo. P^oi ao pé d'uma das maiores arvores, que 
se abriu a cova em que se collocou um epitaphio de seis versos. Quando desceu á se- 
pultura, fizeram-se três descargas de mosquetaria, acompanhadas de 5 tiros de peça.» 



Est. XIV 




Macau no século xvii (depois de i6'<Sj 
(Margem oo porto interior, vista da L^pz)-Fác-sim,le (reduzido) d'uma antiga gravura hollandeza 



Est. XV 




Macau no século kix 
(Margem do porto interior, vista da Lapa;- Pi.otog. de P. Marinho, segundo uma photographia do sr. Carlos Cabral (1898) 



lôg 



Fica portanto sufficientemente averiguado que o commandante hollandez, não mor- 
reu com os seus soldados no ensanguentado campo dos arrependidos em Macau ; mas 
quasi dois annos depois, quando regressava á pátria. 

Nem por isso coube menor gloria aos portuguezes n'esse memorável dia. E o engano 
é tanto mais explicável, que na relação da viagem de Reichteren (que em 1628 partiu de 
Hollanda para as índias Orientaes), feita pelo pastor protestante Jorge Candidius e in- 
serta no tomo V do mesmo Recueil, vem a seguinte referencia á expedição de 1622 : 

«Para melhor fazer conhecer o natural, e as qualidades dos chinezes, vou retrogradar 
um pouco e retomar o fio da narrativa cem respeito ao que se passou em Macau rela- 
tivamente aos Hollandezes, afim de fazer ver o q.' elles ahi soffreram. 

«As ordens para esta expedição tmham sido dadas pelo General Coen e do commando 
foi investido Cornelio Reversz que lá foi morto. A frota era composta de 14 naus, das 
quaes foram primeiramente 12 que se encontraram com 2 da frota de defeza. Havia lá 
ainda 2 navios inglezes e na bahia de Panderan, próximo das ilhas de Macau, a Espe- 
rança e a Fidelidade, commandadas por Jaques le Févre, que se foram coUocar sob o 
pavilhão de Cornelio Reyersz. Henrique Wacht commandava a Esperança, e também 
tomou parte n'esta funesta expedição, em que morreu com muitos outros.» 

Salvo o erro relativamente á morte de Reyersz os dados fornecidos por Candidius 
são interessantíssimos. Até nos dá o nome de um dos capitães mortos, o commandante 
do Esperança^ Henrique Wacht. 



E' reproduzida do citado Recueil a interessante gravura, cujo fac-simile apresento 
n'este numero. Apezar de não ser desenhada com as devidas proporções, assim como a 
de Faria e Souza, que estampei a pag. 99, é curiosa porque é das mais antigas que co- 
nheço. Representa a margem que deita para o porto interior, vista da ilha da Lapa. 
Para mais fácil comprehensão colloquei, como na outra, diversos números que indicam: 
I Fortalecia do Monte; 2 Ermida e fortaleza da Guia; 4 Ermida e fortalecia (?) da Pe- 
nha; 5 Forte do Bom parto? ou bateria no alto do monte imminente á fortaleza da 
Barra ? ; Ti Fortalecia de S. Thiago da Barra; 7 Pagode da Barra; 8 Convento de S. Paulo; 
q Porta do cerco. 

E' curioso notar n'esta gravura: os torreões da fortaleza do Monte; a Guia já com 
fortaleza, o que mostra ser a gravura posterior ao anno de lõSS (vide nota a pag. 91); 
as ameias e canhoneiras que se notam no muro que circumda a ermida da Penha; e a 
indicação d'um reducto ou bateria na altura sobranceira á Barra, de que hoje não res- 
tam vestígios, segundo me consta. E a que vae indicado com o n." 3, que não parece 
seja a fortaleza do Bom Porto, que está na outra margem da cidade e não podia ser vista 
do ponto da Lapa d'onde foi tirada a estampa. 

Juntamente apresento uma outra moderna de Macau, reproduzida (com grande re- 
ducção) d'uma photographia do distincto amador sr. Carlos Cabral e inserta no interes- 
sante Jornal Único publicado por occasião do centenário indiano. Representa a mesma 
margem do porto interior tão irregularmente desenhada na gravura hollandeza. E, para 
o leitor da metrópole e que não conhece Macau, é conveniente dar as seguintes indica- 
ções. Partindo da sua direita (do leitor) verá no sopé dos dois primeiros montes a for- 
taleza da Barra; no cume do terceiro monte a ermida de N. Senhora da Penha; no 
quarto (o mais alto de Macau) a ermida., pharol e fortalecia da Guia; no quinto a forta- 
lecia de S. Paulo do Monte. A pequenina elevação, á esquerda do leitor, é a celebre e 
curiosa fachada da egreja de S. Paulo, de que brevemente darei noticia com a respe- 
ctiva gravura. 

Em occasião opportuna darei uma gravura representando em maior escala essa mar- 



170 



gem do porto interior e abrangendo toda ella, desde o isthmo á fortaleza da Barra, como 
está representado na gravura hollandeza. Para isso soUicitei d'um dos meus amigos de 
Macau uma vista panorâmica tirada dos pontos mais altos das montanhas da Lapa, de 
modo que abranja toda a peninsula de Macau, quasi, por assim dizer, a vôo de pássaro. 
E o leitor terá então occasião de verificar quão justas são as considerações que ha tantos 
annos tenho apresentado na imprensa sobre a necessidade de occuparmos a Lapa, que 
sempre foi considerada nossa pelos próprios chinas que, por occasião do tratado de 1887, 
ainda não tinham lá auctoridade constituída, e que depois d'elle a não podiam consti- 
tuir, visto o mesmo tratado não permittir a alteração do statii quo por qualquer das 
partes contractantes, até se tratar da delimitação das dependências de Macau, delimita- 
ção que de ha muito já devia estar feica e que tem de se fazer quanto antes. 

E, por hoje, basta, ficando para o numero seguinte o final d'esta demorada compro- 
vação de façanhas que tenho tentado illuminar e esclarecer, evitando que se sumam de 
vez na sombria noite dos tempos e se apaguem da memoria dos descendentes dos que 
as praticaram. 

{Continua.) 




o 50.° anniversario 



DA 



Morte de João Maria Ferreira do Amaral 



E DA 



VICTORIA DE PASSALEÃO 



as-35 de Agosto de 184:9 



III 




|(0 ^.r»-jf»igg^ ji] ]Ei.izMENTE para o paiz e para a colónia, Amaral tinha em Lisboa, junto das 
regiões officiaes, dois valentes guarda-costas^ que são geralmente a única 
garantia dos bons ou maus funccionarios se sustentarem e medrarem nos 
postos ultramarinos que, por mercê de Deus, do Accaso, do Empenho ou dos 
próprios merecimentos, lhes são confiados. E se isto se tem dado com 
respeito ás outras colónias, com relação a Macau o caso tornou-se em norma habitual- 
mente seguida antes e mesmo depois das salvadoras reformas que o constitucionalismo 
veiu implantar com a louvável intenção de limpar o paiz de peccados velhos. 

Se a nação ficou lavada de sujidades depois das luctas e dos sacrificios feitos pelos 
heróicos soldados da liberdade, não me compete a mim dizel-o n'este despretencioso 
repositório de documentos que esclarecem uma das mais interessantes paginas da nossa 
historia colonial; mas, que d'essa lavagem escapou a prejudicial instituição dos giiarda- 
costas e dos respectivos protegidos, é um facto que não pôde deixar de ser notado 
por quem queira ser imparcial no exame das cousas da nossa administração ultrama- 
rina. E isto não por culpa d'este, ou d'aquelle estadista, ou d'um, ou d'outro partido; mas 
por culpa de nós todos que adoptámos, como norrfta de vida, o ramerrão e o costume. 
E é por isso que um funccionario ultramarino, bom ou mau, é geralmente conser- 
vado, não por merecimento próprio, mas porque tem quem o sustente com a força das 



172 

suas politicas, ou com ns manigâncias das suas habilidades c influencias que possam 
contrabalançar, junto dos dirigentes metropolitanos, as reclamações justas ou injustas 
dos que os querem ver pelas costas. 

Mas como os peiores meios podem muitas vezes ser empregados para o triumpho 
das boas causas, assim Amaral triumphou das intrigas locaes que o queriam annullar, e que 
nada conseguiram, por que foram impotentes para vencerem a protecção que o benemérito 
governador encontrou nos seus dois amig(;s que o sustentaram até á ultima, isto é, até 
que o punhal dos sicários o prostou para sempre, cortando o fio da prolongada lucta 
de que sempre sahira vencedor. 

Esses dois amigos foram Joaquim José Falcão (1) e Manuel Jorge d'01iveira Lima. 
O primeiro, que desde 20 de maio de 184G deixara de ser ministro da marinha, conser- 
vara toda a sua enorme influencia junto de todos os ministros que lhe succederam no 
cargo, influencia que em dezembro de 1847 '^""^ havia de dar a pasta da fazenda; o se- 
gundo, pela sua alta posição na secretaria do Ultramar, ajudava melhor do que ninguém 
Falcão na sustentação do amigo commum e da sua obra patriótica. 

Se não fossem elles, Amaral, por mais bem intencionado que estivesse na execução 
do seu plano, por mais benemérito que se tornasse . . seria fatalmente esmagado pelas 
intrigas bem urdidas de combinação com os mandarins e mandarinetes chinezes, como 
o foram outros governadores e funccionarios beneméritos que, antes e depois d'elle, 
tentaram reagir, como Amarai reagiu, contra as torpezas e vergonhas favoráveis ás mer- 
cancias e negócios, mais ou menos escuros, mas incompatíveis com a honra da nossa 
bandeira e com o bom nome da nação. 

Se não fossem elles, qual seria o ministro que não acreditasse nas affirmações feitas 
por um Senado condecorado com o titulo de Leal e que se dizia o representante d'uma 
população tão fiel á mãe Pátria ? 

Mas Falcão e Oliveira I.,ima conseguiram não só que essas reclamações não fossem 
escutadas, mas que o governo central repellisse (2) com o desprezo que mereciam as 



(1) Os macaenses, reconhecidos, úsgtT'dm-n' o por ímanimidade deputado por Macau em iode Março de 1S48. 

No Boletim de 11 do mesmo mez, em que veio o resultado d'essa eleição, encontra-se affirmadoo seguinte, que 

confirma tudo quanto teniio dito sobre o importante papel representado por Falcão na obra de Amaral : 

«O nosso Deputado eleito não trabalhou só a nosso lavor quando era Ministro, e posto que não pudesse ter 
acceitado então a eleição por este circulo; tem até hoje advo};ado a causa do estabelecimento perante todos os 
ministros do Ultramar: a eleição pois de S. Ex.* é uma conveniência, ainda mais, é uma necessidade para Macao.» 

Falcão foi, pois, para Macau, o mesmo que, em tempos modernos, foi o sempre lembrado João Eduardo Scar- 

nichia, de honrada memoria. 

(2) No Boletim do Governo de 11 de Janeiro de 1848 publicou Amaral a sua proclamação aos habitantes de 
Macau contra os manejos d' esse Senado, pouco antes dissolvido por conspirar contra a segurança do Estabeleci- 
mento. E, para mostrar o desprezo em que tinha essas representações, exigiu á nova camará copia d'ellas e es- 
tampou-as n'esse Boletim de 11 de Janeiro de i8^8, como verdadeiro castigo aos seus auctores, que as tinham fa- 
bricado á porta fechada, em vez de as terem votado em sessão publica, conforme manda a lei com respeito ás re- 
soluções camarárias. 

E edificante a leitura d'esse Boletim. N'elle se encontram não só a representação que estampei no ultimo nu- 
mero d'esta revista, mas também a primeira e a segunda, de que eu não conseguira obter copia, conforme declare 
a pag. 108. Da 4." (de que possuo uma copia ou minuta que vae publicada n'este numero; e da 5.* não encontrou 
Amaral copia na camará, visto que foram teitas tanto em segredo, que os senadores nem d'ellas deixaram vesti- 
gio nos livros de registo (Boi. cit., pag. 4). 

A essas representações enviadas por Amaral ao governo, por copia, respondeu o Ministro da Marinha, Agos- 
tinho Albano da Silveira Pinto co-n a portaria de 21 de Março de 1S48 (publicada no Boi. de 23 de Maio) em que 
se encontram as seguintes phrases: 

« e a Mesma augusta Senhora manda, pela S. d'E. dos N. da M. e iJ., significar ao referido governador, 

para sua satisfação, que posto nunca duvidasse do esclarecido zelo e sincero patriotismo com que se tem havido 
na importante commissáo, que lhe foi confiada, superando as graves difficuldades nascidas da crise melindrosa 
por que tem passado Macao, e conseguido atravez de todas ellas recuperar e firmar a independência d'aqueile 



nj>_^ 

affirmações como as que se seguem e que parece incrivel fossem subscriptas por por- 
tuguezes 

Lendo essas phrases o leitor se persuadirá que n'essa occasião os gucirda-costas in- 
tervieram em defeza, não só do seu protegido, mas dos sagrados interesses da pátria que 
-estavam em risco de serem postergados, se essas vozes e essas phrases fossem atten- 

t.iidas : 

111.»"' e Ex.™» Sr. 

No seu ofíicio n." 3 de 27 de Fevr." deste anno, de que vai copia junta, levou este 
Leal Senado ao conhecimento de V. Ex." o estado em que se achava este Estabelecimt», 
<: as consequências desastrozas, q.' elle receiava, viriam a rezultar das medidas aqui ado- 
ptadas na marcha do seu governo e administração, das quaes já algumas tem sido in- 
teiramente approvadas pelo Governo de S. Mg.'', e as restantes sem duvida também o vi- 
rão a ser, se as couzas não mudarem, não obstante serem humas prejudicialissimas aos 
interesses, e conservação do E^stabelecimento, outras attentorias da Lei fundamental 
da Monarchia, e dos direitos mais sagrados dos Cidadãos pela mesma Lei garantidos, 
e todas finalmente contrarias a todos os sãos principios da ordem, e da boa razão; € 
agora julga elle dever pedir licença p." de novo occupar a attenção de V. Exa com al- 
gumas outras consideraçoens q' ao mesmo tempo q' attestem e abonem q.'» este Senado 
avançou n'aquelle otíicio, sirvão p." fazer ver a V. Ex." q' nem elle se exagerou os seus 
receios nem mentio nas suas informaeoens. 

Na disposição em que hoje está o Governo de S. Mg.'' a respeito das couzas de Ma- 
ção, este Senado não pode deixar de prever, q' estes seus esforços serão tão baldados, 
como o tem .«ido tantas outros, q' se tem empregado aprol deste Município, e q' talvez 
elles só venhão a servir de grangear aos membros, que actualmente o compõem, ódios, 
e vinganças, q' poucas vezes deixão de ser os únicos apanágios, dos que fallão a lin- 
guagem da verdade; pois q' esta nunca agrada, e muito mais hoje que, segundo parece, 
qualquer empregado da secretaria do ultramar tem a faculdade de remeter extra-official- 
mente aos seus amig."" de cá. Copias dos papeis ofliciaes q' ahi vão ter; papeis, de que 
este Senado suppoem, só se deveriam fazer uzo para interesse ou conveniência de ser- 
viço, e de que portanto não se deve nunca permittir, q' assim se abuzem para fins parti- 
culares, e que so podem tender p." fomentar pequenas intrigas, e provocar dissençõens 
e conflicios, q' sempre redundam em prejuízo do mesmo serviço. Foi tão publico, e 
não será muito, se se disser escandaloza, a ostentação q' o sr. João M." Ferreira do 
Amaral tem feito dá (^opia q' lhe foi remetida na mala passada, em carta particular, do 
officio que este Senado escreveu a V. Exã sob o n." 2 e datta de 27 de Janeiro deste anno, 
primeiro ainda q' fosse respond.". ou mesmo accuzada a sua recepção a este Senado, 
i\ elle não pode deixar de chamar a attenção de V. Exã sobre este ponto, não por dis- 
forço próprio, nem p." se queixar de alguma oflença, que julgue com isso ter recebido, 
que o ofiendido não he no prezente.cazo o Senado, sem embargo de haverem sido os 
seus actuaes membros apregoados, como meia dúzia de tolos, donatos, falços informa- 
dores, e revolucionários, pois se houve ofíensa, he este Senado de parecer, q' foi ella 
mais depressa contra a moral publica, e o decoro e consideração devidas a hum.a Re- 
partição Publica de primeira ordem, como he em toda a parte huma Secretaria de Es- 
tado ; m.as unicamente com o intento de fazer ver a V. Exã a pouca conveniência de 
hum svstema (já de velha uzança) que sobre ser de si próprio desleal, pouco honesto, 
e athe indicorozo, he tão opposto as entençóens do Governo de S. Mg.'', o qual com o 
fim de ser bem informado sobre o estado das províncias ultramarinas, tem imposto, sob 
graves responsabilid.cs^ a vários dos seos Empregados, a mais estricta obrigação de dar 



estabelecimento, prover os meios da sua maiuitençáo, e sustentar a honra e a dijinidade do nome portusuez— lhe 
toi todavia muito lisonjeiro reconhecer, pelo que ci Governador expõe nos aitos Õiticios. quão pouco merecedoras 
de attenção e destituídas de fundamento são as asserções com que n'aquell3s representações se pretende, com 
animo prevenido, desconceituar os actos praticados pelo mesmo Governador M'aquelle intuito, quando deviajr. ser 
coadjuvados por todos aquelles que prezam a honra e os interesses nacionaes.> 

No citado Bolclim de 11 de .Janeiro de 1848, veiu a seguinte referencia ao procedimento do tal Senado: 

«Na Carta Regia dirigida ao Leal Senado quando vem novo Governador, lhe é ordenado, que o aconselhem 
no sentido ao bem do estabelecimento ; o l,eal íienado portanto podia, e devia fazel-o. 

«Quem conhece de perto S. ICx." não se atrevera a acreditar, que o receio, de que os seus conselhos fossem 
brutalmente acolhidos, fez com que o ex-I.eal Senado deixasse de se dirigir a S. tix.", e fazerlhe rellexões, que 
julgasse convenientes a bem do estabelecimento. Ahi estão vivos todos os membros que compunham o conselho 
Cio governo em negócios sinicos, que podem attestar com quanta iirbanidade S. Kx " tratava os membros ao ex- 
l.eal Senado, pedindo-lhes mesmo muitas vezes em Sessão que expendessem as suas opiniões sem rodeios, por- 
que para isso é que ah eram chamados. Os próprios membros do ex Leal Senado não se atreverão a neíiar isto. 
.Mas o ex-Leal Senado, em vez de empregar este meio leal e franco, .ichoii melhor — tratar do bem publico em 
sociedade secreta." 

i 



^74 

todas as informaçoens tendentes a promover o melhoramento das mesmas Províncias ; 
p/ q.'" se, como kcaba de se ver, taes informaçoens só se destinam a proporcionar aos 
seos signatários o previlegio de serem ultrajados e ameaçados, e quiçá opprimidos, e 
vexados, se p." tanto tiverem a desgraça de ministrar ainda o mais fútil pretexto, q' 
quasi nunca deixam de approveitar os q' tem o poder, e delle queiram abuzar, claro 
está que ellas poucas vezes serão ezactas, principalmente no q' disserem respeito aos 
actos dos agentes do poder ; porque não he natural que alguém queira prestar armas 
p." sua própria perseguição, pois não he já tão commum entre os homens aquella abne- 
gação própria só capaz de arrostar tal sacrifício ; podendo com verdade inferir ser da- 
qui que provem essa quasi constante contradicção, em que lem figurado as diversas 
Camarás, com relação humas ás outras, como se deverá ter notado das suas varias in- 
formaçoens ; p." isso q' ha sempre hum interesse immediato (he verd.'' que pessoal 
dos membros da Gamara) em que este lízongèem o paladar de quem delias hade haver 
Copias. Não são com tudo estas consideraçoens bastantes para o fazer recuar no des- 
empenho dos seus deveres ; e o de pugnar incessantemente pelos direitos enteresses do 
município que tem a honra de representar, hé para elle o máximo de todas, e do qual 
releva que elle se occupe todo o instante da sua vida Politica, embora sejão baldadas 
todas as suas representecoens ; pois se o que hoje certas intelegencias repiitão sonJio^fòr 
alí^um dia Viste realidade^ seja a 7-esponsabilidade de quem ouver sido califa de não serem 
estas attendidas ou mesmo acreditadas. Este Senado se gloria de possuir a plena con- 
fiança dos seos constituintes e elle está resolvido a não trahi-la por nenhuma conside- 
ração de pessoa, por nenhum respeito de conveniência ; e por isso tendo presente a má- 
xima de fa^er o que deve, suseda o que suseder^ eile proseguirá no estricto cumprimento 
dos seos deveres, seja qual for a sorte que o aguarde : pois não tem outra mira fora do 
interesse, e prosperid.'' deste Estabelecimen.'", nem tão pouco tem outra responsabe- 
lid.'' fora da quella q' lhe pode caber por infracção da Lei, ou p.'' omissão do desempe- 
nho da sua obrigação. 

Disse este Senado que o systema tributário não podia ser applícavel a Macáo em ra- 
zão da sua escassa população, e do seu peculiar modo de ser; e que da sua applicaçãa 
deveria seguir oppreção e mizeria para os seus habitantes e ruína do Estabelecimento,, 
que são as funestas conseqnencias que este Senado desde o principio receiou de tal 
medida e outras de igual guiza : prevalecendo ainda os argumentos que elle aduzio em 
apoio desta these ; so ao tempo cumpre corroborar-la com factos, e eile não suppoem 
esse tempo muito distante. No entanto o q' se tem já notado he que de 17 mil patacas 
(somma redonda) em que forão calculadas as decimas relativas ao prim "' anno eco- 
nómico, só se cobrarão sete mil patacas á conta dos dois primeiros quartéis, que (este 
Senado m.'" se compraz pode-lo dizer) forão pagas com a devida pontualid.'' ; o q' ma- 
nifesta ciaram.''' a índole dócil e pacifica dos Alacaistas, e da o mais completo desmen- 
tido a sonhadas tentativas de revoluçoens, q' por vezes se lhes tem querido tam injus- 
tamente atribuir, e com tanto empenho se tem procurado fazer acreditar ao Governo 
de S. Mg. com o fim já hoje conhecido de fazer figurar nellas a certas pessoas ; devendo 
d'aqui presumir q' o q' falta cobrar é unicamente o que as apuradas circunstancias dos 
contribuintes lhes não permittem satisfazer •, o q' é confirmado pelo facto de o Governo 
não ter prosedido a respeito destes como prescreve a Lei, mas sim com indulgência. 
He precizo ainda advertir que nem se derão prazos p."" reclamaçoens, nem os que hou- 
veram dirigidas ao Governo p.' alguns contribuintes dos mais lezados no lançamento,. 
forão decididos na forma da Lei ; donde é de supor q' muitas collectas se cobraram que 
se não cobrariam, se houvesse recurso. O que se pode portanto razoavelmente coíle- 
gir deste facto hé, que dos tributos lançados sobre a população christam, só são co- 
bráveis cinco sextos e p.' conseguinte que o Estabelecimento mal pode contribuir para 
hum quinto das suas despezas q' andão hoje orçadas em 80 mil patacas : (o q' faltar su- 
prilo-hão os chinas dirão seguramente^ mas este Leal Senado, q' não pode ainda acre- 
ditar em tal couza, dirá antes sobre os mesmos fundamentos q' teve p.' o fazer no seu 
ofíicio M.° 5, q' os Chinas nunca tal farão ; e agora accresentará que aquelle defecit terá 
de pezar sobre o thezouro da Metrópole, e mais ainda q' em vez de diminuir, a sua es- 
calla será sempre a ascendente, a proporção q' a dos impostos for em sentido contra- 
rio, como hade necessariam.te suseder, por isso q' o Estabelecimento vai decaindo^ 
como bem depressa o mostrará o lançamento p.= o seguinte anno económico. 

A maneira p.'' q' se fez a cobrança dos dois mencionados quartéis nenhuma outra 
couza prova q' não seja a já de ha muito reconhecida docilid.' e submissão dos habitan- 
tes de Macáo as determinaçoens da Soberana ; como ditto fica asima ; e será hum grave 
erro de se equivocar este facto por huma prova de que aquelle pezo os não leza e opri- 
me. Os que forem abastados e poderem p.'' isso pagar, não ha duvida que pagaram 
emq.'° seus interesses os convidarem aqui ficar; mas hum paiz onde, sobre estar quasi 
extincto o comercio, único ramo de sua industria, se perseguem se vexam e se ultrajam 
cidadãos passificos, e se deprimem p.'^ mera formalid.'' créditos e reputaçoens estabele- 



cidas ; onde só por satisfacção, sem que se saiba de quem (de serto q' não da Lei) se 
conservão p.' sentensa retidos como criminosos cidadãos, contra q."' proclama a mesma 
Sentença não haver prova alguma de criminalid/' como com effeito não havia, conforme 
posteriormente o declarou a Instancia superior; onde se pronunciam como criminozos 
actos praticados muito antes de ser promulgada a Lei q" se aponta como p.' elles infrin- 
gida ; onde não so se tolera como se santifica toda a sorte de violências e de arbitrarie- 
dades ; onde o capricho e o alvitre mandão sobre a Lei ; hum paiz em fim onde as Leis 
se postergão com tanto descaro como impunidade, e tão pouco se respeitão os sagrados 
direitos do homem e do cidadão, bem poucos atractivos ofterece de serto p." q' nelle 
possa querer permanescer quem só põem sua segurança na protecção das Leis e só pode 
descansar na fiel execução das mesmas. 

Os Cliinas terão quantos deffeitos lhes hajão querido atribuir homens parciaes e apai- 
xonados q' d' elles tem escripto; mas ninguém, que com elles tenha vivido e tenha estudado 
de perto seu caracter, negará q' são Justos e ra^^oaveis ; e p.' tanto não se pode duvidar 
q' elles conhecerão p." logo a injustiça com que o Governo Portugue^ os pertende taxar. 
Todo o mundo sabe, e os Chinas não ignorao que hum Governo só pode ter o direito de 
impor tributos ao povo que protege ; e querer q' os Chinas contribuam para a manutenção 
de hum Governo cuja protecção não só não carescm, senão que o seu conhecido orgulho 
nacional não sojfrerá q' já mais a solicite, é seguramente a mais impertinente e absurda 
de todas as pertençoens. Ainda se os Chinas dependessem em alguma coi^a dos Portu- 
gueses, ou se estes lhes proporcionassem grandes vantagens poder-se-hia supor ao menos 
provável q' se submetesem aquelles q' por necessidade ou outras circwnst anciãs fossem for- 
çados a aqui permanecer ainda q' neste ca^o tirariam dos christãos, o q' tivessem de pa- 
gar., como já se ponderou no Ojjicio n.° 3, porem se é justamente o contrario, se são os 
Portugueses que em tudo delles dependem, como se pode rasoavelmente esperar q' o façam 
sem ser pela força? Se não, examine-se quaes sejão hoje as vantagens que elles tiram 
comnosco. Tudo quanto se tem desde serto tempo feito aos Chinas não tem sido outra 
couza mais que violências e illegalid.'*; e para prova basta dizer-se que, havendo o Go- 
verno aqui começado a proceder com bastante rigor a respeito delles, como é notório 
dizendo-se attee com bem pouco disfarce q' os obrigaria a pagar impostos da mesma 
forma q' obrigou aos dos fatioens, bastou o occorrido em Cantão em princípios de Abril 
passado com os Inglezes, p." que mais se não falase nas medidas que haviáo sido inse- 
tadas para aquelle effeito, q' p.-' logo se sustaram, ou ao menos se nellas se proseguio, 
foi com muita reserva, o q' deserto não seria se se obrase com legalidade. Bastante se 
tem já feito com tudo nestes últimos i5 mezes p.^ que os Chinas deixem de conhecer 
as disposiçoens em que está o Governo Portuguez de os oprimir, p. q' os vê abatidos ; 
bastantes de usurpaçoens se tem já praticado para que elles deixem de receiar q' também 
os Portugueses são ambiciosos ; bastantes de violaçoens se tem cometido nos nossos anti- 
gos tratados p." q' elles finalmente deixem de presentir q' a fidelidade Portugueja co- 
meça de- degenerar-se, sem embargo q' desde os acontecimentos de Cantão em Abril 
deste anno, se tem procurado modificar algum tanto este modo de proceder, e traba- 
lhado p.' captar a benevolência dos Chinas, a ponto de, com o fim de fazer parecer aos 
Chinas q' em Macáo se faz justiça direita, não só se não empregou deligencia alguma, 
na occazião em q' aqui foi sentenciado Pedro Alexandre Soares, p." lhe fazer valer o re- 
curso do Poder Moderador, m.' ao contrario bastante empenho houve para q' prevale- 
cesse contra elle a excepção naquelles cazos estabellecida pelo alvará da criação da 
Junta de Justiça. Não pertende este Senado com isto dizer que se devia negar justiça 
naquelle cazo aos Chinas ; mas quando se lie tão Português q' se reputa indecoroso á di- 
gnidade nacional o modo por que possuímos Macáo, e q' para o tornar portugue:^ se julga 
licito arrebata-lo violentamente aos Chinas, não se pode menos de notar q' se haja em- 
penhado p." q' prevalecesse aquelia excepção, que seguramente he a única a favor dos 
Chinas a que se pode attribuir odiosidade.* 

A conservação de Macáo na posse da Coroa Portugueza da qual foi athe bem pouco 
tida pela mais rica jóia, e p/ isso invejada de toda a Europa, apezar de os Chinas q' aqui 
vivem comnosco não serem governados á Portugueza nem sujeitos ás nossas Justiças, 
mas ás suas próprias l^eis e authorid.''% e, no q' dizia respeito a portuguezes, ao procu- 
rador q' gozava, e ainda hoje goza p.'' com os Chinas, de authorid.'' sobre elles ; a con- 
servação de Macáo, diz este Senado, por espaço de trCs Séculos, não custou á Coroa 
Portuguesa hum só real ou huma só gota de sangue; foi ella só mantida pela ami:jade c 
boa armonta em q' sempre temos vivido com os Chinas cuja confiança souberão os pri- 
meiros Portugueses grangear: e aquelles que disto duvidarem responda-lhes a Historia. 

E' precizo pois que nos convençamos q' deste terreno só nos pode por ora pertencer 
o domínio útil mediante as convençoens que entre nós ezistem e os Chinas; e o querer- 
mos torna lo directo por meio da força seria aliem de huma empresa muito superior ás 
riossas forças em todo o sentido, hum passo injustíssimo, e desleal, attentas as muitas con- 
sideraçoens q' sempre temos merecido aos Chinas, e muito especialmente ao Suntó I.,ini 



17Ò 



p.' occazião dd prizão dos Inglezes em Cantão em ilSjq, de q' tanto nos i;loriamos. 
Exmo S.', ninguém mais sinceramente do q' este Senado dezeja q' Macáo seja intei- 
ram.''' Portuguez ; já q' nisto se quer empenhar a dignidade nacional, m/ elle já mais 
pode querer "q' tal fim se obtenha p ' meios iniquos e degradantes, como são as violên- 
cias e uzurpação. í^e o Governo o não pode conseguir licitam. '"= como cumpre a naçoens 
briozas e sevilizadas, melhor será q' deixe o Estabelecim.'" como está, e não tentar o q' 
não será capaz de sustentar, p.'" não ter que seder com vergonha e quebra do decoro e 
dignidade nacional. Ainda assim, se a independência de Macáo, conseguida pelos meios 
legaes, deixar de ser indecorosa p." o Cioverno Portuguez, de certo nunca será ella van- 
tajoza p.'' o Estabellecimento ; antes mais depressa este se aniquilará. O Governo de 
Hong-Cong hem forte lie e poderojo, e dispõem de meios q' jã mais se poderão supor ao 
alcance do de Macáo; ali tudo he puramente In^le^, não ha í^overno, nem justiça mixta; 
e no entanto de que se compõem a sua população (Jiiue^af de forra (^idos. e do refugo 
de todos os lugares risinhos; de salteadores e piratas q' roubam constantemente em terra, 
e no mar^ sem q' a numerosa, e vioilante policia q ali tem os Ingleses os possam emba- 
raçar: nenhum so negociante de credito, nenhum sn artista de nome, nenhum China de- 
cente em huma palavra ainda se rio em Hong-Cong ha sete amws q' aquelle Estabelleci- 
mento existe ape:j:ar das grandes vantagens, e interesí^es com q' os ingleses para ali os 
tem incessantemente convidado (i). Eis aqui o que precisam."- se deve esperarem Macáo 
se se premiste no bello ideal de o tornar Portugeu^ ; será um posto militar e nada mais. 
A experiência he fácil de fazer-se : despeça-sejá d'aqui o Mandarim, e pouco ha de tardar 
que Macáo não venha a ficar tão Portugue:^ como vão ficando todas as cou^^as Portugue- 
sas, perdido e arruinado por huma vez, como o estão de ha muito attestando, Moçam- 
bique, Diu, Damão, e Timor. Os Chinas, no abatim.'" em que estão pode bem ser que 
cedam p.' agora aos esforços com q' se procurão subjuga-los; a difficuldade toda será 
em os conservar sujeitos, se o simples insidente de os Inglezes não terem entrado como 
pertendião na cidade de Cantão foi bastante p.''- fazer abater o tom altivo e imperiozo 
c[ se havia empregado para com os Chinas, outros poderão dar-se no futuro que tornem 
necessário o retroceder, o q' já mais poderá ser decorozo a huma Nação athe aqui ce- 
lebrada pela sua fedelidade e firmeza. 

Receia este Senado ter ultrapassado os limites de hum officio, mas com ter ditto ja 
tanto mais lhe fica ainda por dizer. Elle está comtudo certo haver ditto o sufliciente, 
p." que o Governo de S. Mg. possa avaliar as necessidades mais urgentes d'este Estabe- 
lecim.'", e occorrer-lhes com remédios opportunos. Elle não será tão'vaidozo q' crêa 
pode-los aconselhar ao Illustrissimo Ministro que tem hoje 3 direcção dos negócios ul- 
tramarinos ; m.' não pode dispensar-se de declarar a V. Exã q' depois de leis justas o 
Ultramar não preciza senão homens rectos, e probos, q' saibam administrar. Os Macais- 
tas, Senhor, não precisam já, para se julgarem felizes senão q' se executa fielmente, o 
que a respeito delles está na Lei ; não pedem ezençoens nem previlegios, pedem unica- 
men.'*' o estricto cumprim.'" das Leis, e manutenção dos seos direitos : nas actuaes cri- 
ticas circunstancias desta cidade, os seos habitantes nada dezejam com mais anciedade 
do q' a presença de homem probo, recto, prudente e doptado dos precizos conhecimen- 
tos e experiência dos negócios públicos : e se alguma cauza tem de pedir a S. Mg. he 
seguramente a graça expecial de os felecitar com um homem doptado daquellas quali- 
dades todas, q' com mão de mestre os guie, e os leve afinal a porto seguro; q' assim 
como Deu ao Estado da hidia hum Governador q' o soube tirar da miséria em q' jazia, 
De outro igoal a Macáo, ou áquelle mesmo, cujo bom Governo n'aquelle Estado hehuma 
segura garantia de q' este Estabellecimen.'" melhoraria muito debaixo da sua direcção ; 
e se hé licito pedi-lo, Macáo o pede para si, e fortuna será sua se algum dia chegar a 
possuir. 

Macáo, 2 1 de Julho de 1847. 

Depois da leitura de tal papel fico irresoluto sobre o que deva admirar mais : se a 
falta de patriotismo, se a insolência, ou se a bella ortographia de quem o escreveu ! 

Como commentario a esse documento, basta dizer que os macaenses elegeram por 
unanimidade, mezes depois, seu deputado, a Joaquim José Falcão, o protector do gover- 
nador incriminado. 

Nada mais é preciso acrescentar! 



(ij Alé n"isto o futuro os veio desniei);ii- Soh a encri;ica administração ingleza. Hong-Kong converteu se no 
que hoje é... 




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o combate de Passaleão 

Tencionava publicar os seguintes documentos otíicioes relativos a esse extraordiná- 
rio feito de armas na sequencia da curiosa serie que irei transcrevendo pouco a pouco 
n'esta Revista. Mas tendo tido a felicidade de descobrir os interessantissimos quadros em 
aguarella do fallecido Barão de Cercal (i), e não querendo demorar por mais tempo a 
publicação das reproduções desses desenhos que tem todo o valor histórico, porque foram 
feitos por um contemporâneo e na própria localidade em que a grande façanha se prati- 
cou, com grande gloria dos macaenses, destaco antecipadamente da serie esses docu- 
mentos, cujo exame compensará o leitor do dissabor e desgosto que lhe causaria a leitura 
do que foi atraz trascripto. 

O dia 25 de Ag'oslo 

Uma expedição commandada pelo sr. capitão António Fidelis da Costa, de 24 ho- 
mens de tropa regular de linha foi mandada para occupar o ponto da Porta do Cerco, 
limite de Macáo, onde havia uma pequena guarnição China, e um mandarinete. Sem 



III N'o periódico As Colónias l^orluL:.u(j\as, de 10 de outubro de i88j. veio publicado um grande artigo sobre 

\'icente Nicolau de Mesquita e sobre o seu glorioso feito, a tomada de Passaleáo. lilastravam esse artigo algumas 

gravuras, entre ellas uma de grandes dimensões, representando o ataque e tomada ae Passaleão, e a que se referia 

o artigo nos seguintes termos: 

«O quadro, que representa a tomada de Passaleão, é lioje um quadro histórico, devido ao mui hábil e presti- 
moso também lilho de Macau o nosso amigo Barão do Cercal. A elle deve o nosso correspondente o poder cnviar- 
nos a copia, cuja gravura apresentamos. « 

Quando me dediquei com mais fervor a esta serie de estudos sobre o Extremo Oriente e a recolher todos os 
elementos e materiaes para meu esclarecimento, tentei obter uma copia mais rigorosa d'esse quadro que julguei 
tivesse sido feito a óleo, como muitos outros devidos ao pincel d'esse distincto artista-amador. 

Infelizmente o barão do Cercal já não era vivo, e nada me souoeram informar sobre esse seu trabalho diver- 
sas pessoas a quem me dirigi. Recentemente, porém, tendo tido o prazer de travar conhecimento com o genro do 
illustre titular, o meu actual amigo sr. Herculano de Moura, digno ollicial da armada, fui favorecido por este ca- 
valheiro com a informação de que possuía, não um, mas dois quadros, em aguarella, e não a óleo, devidos ao pin- 
cel de seu sogro, e que obsequiosamente me emprestou para os reprodu.íir n'esta Revista. N'este logar renovo os 
meus cordeaes agradecimentos ao sr. Moura por me ter facultado a, puDlicação das duas estampas, que são verda- 
deiros fac-similes das referidas aguarellas, que, 110 original, medem cada uma o'",7o5-fo"',5i5 e que foram muito 
habilmente reduzidas pelo nosso distincto collaborador artístico sr. Pires .Marir;ho e impressas com o costumada 
perícia pela officina da Companhia Nacional Editora. 

Representa o 1 .° quadro a phase do combate em que a força, estacionada junto da Porta do cerco (que se vè á 
esquerda do leitor), destaca os 32 homens que, sob o commando do valente Mesquita, vão atacar o forte de Passa- 
leão, que se vc no cume d'um dos montículos, a direita, em cujas faldas formigam os soldados chuis disparando os 
tiros contra os nossos, que lhe respondem com o continuo fogo da barca cantioneira e da lorchado cidadão Fer- 
reira Batalha, que se vêem a meio rio, á esquerda. As nossas forças (provisórios e do batalhão de artilheria, que se 
vêem na estampai estão em território cliinez, para além da Porta do cerco, junto da qual se notam os dois peque- 
nos quartéis da guarda chineza com os mastros onde içavam as bandeirojas. Essas duas casas foram destruídas e, 
os mastros abatidos, nunca mais foram occupadas por forças chinezas. No tempo do governador Sérgio de Sousa 
dcstruiu-se o muro, que se construiu de novo, tendo iunto a si os actuaes quartéis do destacamento (vide estampa 
a pag. 1 1 1), e a porta foi substituída por um arco não se sabe se tríumplial, se expiatório, pelo assassinato, não vin- 
gado, de Amaral — levantado no mesmo tempo ém que se readmittiram as alfandegas chinezas que são hoje a mi- 
séria e a vergonha de Macau ! 

O 2." quadro representa a phase do combate em que, Mesquita ja estando senhor do forte (segundo monte á 
esquerda do leitor;, os chinas se retiram em debandada para o monte visinho (primeiro ã esquerda) disparando os 
últimos tiros improfícuos. No primeiro plano, os soldados e olliciaes que (içaram guarnecendo a posição do is- 
thmo, commentam alegremente as façanhas que presenceiam de longe, com pena de não terem partilhado a sorte 
dos seus heróicos camaradas. 

Do auctor dos quadros, o macaense António Alexandrino de .Mello (Barão do Cercal), occupar me-hei em de- 
vido tempo. A sua morte, acontecida lia poucos annos, foi pranteada por todos os seus patrícios, que viam n'elle 
um illustre fillio de Macau, tão estimável pelo seu caracter, como pelo seu talento. 



178 

opposição alguma, por estar abandonado aquelle sitio, os nossos tomaram conta da dita 
Porta, e seus pequenos quartéis seriam onze horas da manha de hoje ; mas de um for- 
tiríi china situado defronte da Aldca de Passalhao distante da Porta como um quarto de 
milha, começaram a lazer fogo para os nossos na Porta, sem as balas poderem chegar 
aos nossos, por má pontaria d'elles ; era portanto preciso fazer calar aquelle fogo, que 
elles contra nós despararam primeiro : reforcou-se a expedição com mais 5o homens de 
linha do provisório, e com mais uma peça, e pelas 4 horas da tarde marcharam para o 
forte, que estava cheio de soldados chinas, que faziam muito fogo; e ao approxima- 
ram-se os nossos, descobriram-se também varias baterias pelos outeiros, atraz de gran- 
des pedras e arbustos, dos quaes vinham também muitas balas; mas os nossos com um 
valor próprio de portuguezes, e com bastante intrepidez, avançaram, tomaram a forta- 
leza, destruiram-n"a, assim como os reductos todas pelos outeiros, tendo d'ali fugido 
todos os soldados chinas, voltaram depois ao ponto da Porta do Cerco, com um ferido, 
sem nenhum morto; e como da parte dos chinas os que morriam eram logo levados 
pelos seus, não se sabe o números dos mortos, nem dos feridos. O sr. tenente Mesquita 
foi quem primeiro entrou com uma fracção da força no forte tomado; os srs. capitães 
R. M. Sampaio, J. M. Milner, A. F. da Costa dirigiram o fogo das duas peças de cam- 
panha, um obuz de montanha; e junto a elles o sr. alferes P. P. de Sá, e atraz d'elles 
foi também o sr. alferes Vianna com uma força do provisório, e de alguns soldados da 
linha que restavam, sendo toda a força de 120 homens. Não temos ainda detalhe exacto 
d'esta acção, ficando para quando o tivermos, dal-o ao conhecimento do publico. 

(ho Boletim do Gni>erno, de 23 de Agosto de 1849.) 

Proclamação 

Habitantes de Macau! Gomo ao Conselho do Governo constasse, que a cabeça e mão 
do finado, e sempre lembrado Governador, tinham sido levadas para dentro da Porta do 
Cerco, mandou que aquella barreira fosse occupada por nossas forças, o que se execu- 
tou no dia 25 do corrente; mas do forte do Passalhao tendo os soldados Chinas rom- 
pido fogo contra os nossos, estes vendo a necessidade de fazer calar aquelle togo, pre- 
tenderam lá ir tomar o forte, e destrui-lo. Assim o fizeram na tarde do mesmo dia 25, 
por entre chuveiros de balas do forte, dos reductos, e do outeiro fronteiro, que tudo 
n'aquelle momento appareceu guarnecido. A aggressão principiou da parte d'elles, com 
uma força que se pode calcular de 2:000 homens; mas a victoria a Providencia quiz 
fosse da parte dos Portuguezes aggredidos, tendo estes apenas uma pequena força de 
120 homens. Graças sejam dadas ao denodo, e sangue frio com que dirigiram o fogo os 
Srs. R. M. Sampayo, J. M. Milner, e A. F. da Gosta ; graças sejam dadas á intrepidez e 
bravura do Sr. Tenente Mesquita, que primeiro entrou no forte, tomado com a fracção 
que elle levava d'aquella pequena força para esse fim ; e finalmente graças sejam dadas 
aos mais Srs. officiaes, officiaes inferiores e soldados de linha e do provisório que en- 
traram n'aquella acção. 

Honrados habitantes de Macau! Resta da vossa parte, que conservando-vos na ordem 
e no socego, como até agora, confieis na solicitude do Governo em promover todos os 
meios ao seu alcance para a devida consecução das reclamações e exigências feitas ao 
Governo Chinez; e como os chinas a Macau não tem dado motivos, e os pacíficos das 
aldeias visinhas vem vindo ao abrigo dos nossos muros, é preciso que elles não sejam 
molestados de maneira alguma da nossa parte. — .Teronymo, Bispo de Macau — Joaquim 
António de Moraes Carneiro ^ — Ludgero Joaquim de Faria Neves — Miguel Pereira Si- 
mões — José Bernardo Goularte — Manoel Pereira. 

Macau, 26 d' Agosto de 1849. 

(Do Boletim de 5 de Setenibro de 1S40). 

Ordem n." 46 

Quartel do Governo dj Província de Macau, -26 de Agosto de 1840 

O Conselho do Governo da Província sente a maior satisfação de exprimir o seu vivo 
prazer e contentamento pela brilhante conducta da força que foi hontem empregada na 
Porta do Cerco. A galhardia, e verdadeiro valor, com que uma pequena força de 120 ho- 
mens bateu e poz em completa derrota um corpo de mais de 2:000 chinas; a presteza 
e resolução com que foi occupada a Porta; o denodo e intrepidez com que foi escalada 
e tomada a fortaleza de Passalhao, por uma força de 32 homens, sendo etíectuada a 
marcha desde a Porta até á fortaleza atravez de um foso vivissmio de varias baterias 




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encobertas : tudo testifica a bravura e valentia das tropas portuguezas, e faz honra á 
{"orça que taes íeitos praticou, inda quando maior tora. 

O resultado da acção níío houvera sido tão completamente satisfatório, como glorio- 
so, se a mais perfeita disciplina e subordinação, se a mais restricta obediência ás" vozes 
de seus chefes observada pelos soldados, e finalmente se a boa ordem, que souberam 
conservar debaixo do fogo, não marcassem de um modo tão distincto a conducta de 
cada uma das praças do batalhão e do provisório que fizeram serviço n'aquelle dia ; não 
contribuindo pouco para elle a boa harmonia e fraternidade que reinou sempre entre os 
dous corpos de artilheria e provisório. 

O Conselho do Governo se compraz por tanto em tributar os devidos louvores e 
agradecimentos aos srs. officiaes, officiaes inferiores e soldados de ambos os corpos, 
pela valiosa cooperação de todos, e de cada um d'elles, na manutenção da honra e nome 
nacional, dos direitos e dignidade da Coroa de Sua Magestade, e na' defeza do Estabele- 
cimento. 

O Conselho não se hade demorar em levar ao conhecimento de Sua Magestade o 
relevante serviço prestado por todos n'aquella occasião; e sem querer depreciar o mé- 
rito de cada um, que todos bem mereceram da Pátria, não pode comtudo dispensar-se 
a fazer especial e honrosa menção do sr. segundo tenente Vicente Nicolau de Mesquita, 
a quem coube a gloria de commandar a forca de 32 homens que primeiro escalou a for- 
taleza, e a tomou com tanto credito das armas portuguezas. O Conselho recommenda o 
socego e obediência sempre em todas as occasióes ás Leis e aos Superiores, confiando 
na vigilância do Governo; pois só assim, restringindo-se todos aos seus deveres, é que 
pode o Governo com passo firme dar as providencias, que a crise presente muito recla- 
ma. — António José de Miranda, secretario do Governo. 

(Do Boletim de 5 de Setembro de 1849). 

Coiumnnicação do capitão Mello Sampaio 

111."'" Ex.°"' Sr. Conselho do Governo da Província de Macau, Solor e Timor. — Perto 
das onze horas do dia de hontem fui em consequência de ordem de V. Ex.", mandado 
pelo meu major-commandante em soccorro da posição da Porta do Cerco, que haviam 
tomado as nossas forças uma hora antes. Ali achei os capitães João Miguel Milner, e 
António Fidellis da Costa com as suas forças, supportando o fogo de uma fortaleza 
china, que com mais de vmte grossas peças o faziam ; hostilidade esta, a que elles cor- 
respondiam com a. peça de campanha que haviam levado do Quartel do Batalhão, fa- 
zendo sahir até os postos avançados e setinellas em direcções convenientes e acertadas. 
O fogo inimigo continuou a molestar a posição até que ás 4 e 1/2 horas da tarde depois de 
termos procurado fazer calar os canhões da fortaleza china com mais activo fogo de 
granadas de artilheria, resolvemos avançar áquella posição, a despeito do aturado fogo, 
que nos dirigiam assim a fortaleza, como mais quatro posições elevadas que os mesmos 
chinas haviam guarnecido de canhões. Preferimos este movimento desesperado á posi- 
ção de supportarmos quasi inactivos o fogo que muito nos encommodava. A chegada 
do 2." tenente Mesquita com um obuz, com que se fizeram os tiros por elle dirigidos ; 
as ordens que trouxe, e me foram communicadas, decidiram da resolução que tomamos 
de avançar e tomar a dita fortaleza china, o que se levou a atfeito com uma força de 30 
homens (pouco mais ou menos) com que avançou o dito 2.° tenente Mesquita, seguindo- 
Ihe com igual força o capitão António Fidellis da Costa com uma peça de campanha, 
e outra commandada pelo capitão João Miguel Milner. — Mandei que as peças tomas- 
sem as posições convenientes, com que protegendo a marcha do dito 2." tenente Mes- 
quita para as fortificações inimigas, podessem também corresponder ao vivo fogo dos 
canhões que nos incommodava na nossa avançada. — Conservei guarnecido o posto da 
Porta do Cerco, e do mesmo modo conservei um reforço como reserva para prover á 
força em movimento, conforme as circumstancias. Durante o tempo que esta força 
avançava, um fogo continuado, ainda que sem resultado, se fazia contra as nossas posi- 
ções, e á mesma força, sem que uma igual actividade da parte dos dous canhões que 
tínhamos da barca canhoneira, e lorcha do cidadão António Ferreira Batalha podes- 
sem fazer calar o mesmo fogo. Continuámos a supportar o fogo, protegendo a marcha 
da força, que viria a ser cercada por forças chinezas, que em linha e em numero de 
dois mil avançavam com este intento, se não fossem os canhões e os reforços que da 
reserva de quando em quando mandava á proporção que me vinham soccorros da Cidade, 
para prevenir a marcha dos chinas emboscados em differentes pontos, com a mente de 
conseguir uma acção para o centro. Em fim, o denodo do 2." tenente Mesquita, a intel- 
ligencia com que procedeu a sua marcha, a boa vontade de hostilisar os Chinas, que os 
nossos Soldados tinham, para vingarem a memoria do seu chorado Governador, o san- 



i8o 



gue frio com que supportavam o mais íiturado fogo de peças e espingardas, iriumpha 
ram de todos e quasi inexpugnáveis perigos e difficuldades. 

Logo que a fortaleza inimiga, cuja guarnição era perto de quatrocentos soldados 
(segundo me affirmaram) foi nossa ás cinco horas e meia da mesma tarde, e logo que a 
bandeira portugueza, que já para este fim foi mandada com a força, tremulou sobre os 
seus muros, todas as reservas e forças que protegiam a marcha, avançaram para a fortaleza 
junto com o Capitão Fidellis. Nenhum só soldado se via então dos inimigos, que não 
fosse a fugir; e a mortandade que a força inimiga supportou não pôde ser conhecida, 
por quanto apenas morriam, os seus os carregavam para longe do sitio da acção. Con- 
servei as posições occupadas pelos capitães Milner e Fidellis da Costa para proteger a 
retirada das nossas forças, devendo dizer que ao bom acerto dos seus tiros, e ao sangue 
frio, com que os dirigiam, e avançavam ás ditíerentes posições, se deve em parte o evi- 
tar grande mal, que a espantosa disproporção que existia entre a nossa e a inimiga 
forças, deveria causar. 

Òs inimigos contavam alem das vantagens das posições elevadas e guarnecidas, com 
a força de mais de dois mil homens, quando nós no momento do ataque só tínhamos 
perto' de cento e vinte ! Depois de fazerem-se os estragos do costume nas munições, 
armas e petrechos da fortaleza inimiga, se retirou a força á posição da Porta do Cerco. 

Tive de noite de mandar por algumas vezes, por ouvirmos tiros muito de perto, al- 
gumas forças em reconhecimento, e em uma d'estas vezes, teve uma de taes forças, 
por persuadir-se que os Chinas haviam voltado á fortaleza, de entrar n'ella, e commetteu 
os distúrbios e incêndios dos reparos de peças e outros estragos, tendo de fazer de novo 
fogo contra alguns Chinas que ahi já se achavam. Por toda a noite se ouviam tiros de 
fuzis e peças chinas pelas montanhas ; e pela manhã, mandando de novo reconhecer as 
posições dos Chinas, a força teve de entrar na fortaleza que a hostilisára, aonde a mesma 
força matou um soldado clima, que tentou obstar a entrada, e poz fogo em algumas ha- 
bitações na dita fortaleza, e nas fraldas do monte em que ella se acha construída. Hoje 
ás nove heras recebi ordem de V. Ex." para me retirar á Cidade e mais o (Capitão Mil- 
ner com as forças respectivas que nos foram entregues hontem, e assim se cumpriu fi- 
cando na Portado (>erco 3G Soldados, 2 Cabos, 2 Inferiores, e i Official subalterno, sob 
o commando do Capitão Costa. Não me é possível apontar d'entre as praças de pret 
aquella que mais se distinguiu em coragem e empenho pelo bom resultado da acção, 
pois que todos se portaram com igual impavidez, a não ser o Cabo da 3.-' Bateria Antó- 
nio Francisco, pela circumstancia de ter sido o primeiro que escalando a muralha se 
arremessou á fortaleza só, chamando depois pelos seus camaradas. 

As forças do Batalhão provisório que me foram enviadas durante a acção concorre- 
ram bastante pela sua actividade e disciplina para que o resultado da lucta nos fosse- 
favoravel, e sem algum acontecimento funesto a não ser um só ferido, não gravemente. 
O que tudo tenho a honra de levar á presença de V. Ex.^ — Deus Guarde a V. Ex.* — 
Quartel na fortaleza do Monte, 2h de Agosto de 1841). — Ricardo de M. Sampaio, Capi- 
tão (i). 

('ContÍ7Úia.) 




(i) No fíoletim de 20 de setembro declarou este ofiicial que, por lapso, deixara de incluir no relatório trans- 
cripto o alferes Pedro Paulo de Sá que o acompanhou ao sitio da acção, tendo-se para esse fim otlerecido até cont 
instancia; e que durante a acção se conservovi com o maior sanyue frio e coragem, tendo-se manifestado esta, 
quando o mandou avançar com pequena força em soccorro dos feridos, porque lhe haviam alilrmado serem muitos. 
o que felizmente era falso. 




Uma resurreiçâo histórica 



(Paginas inéditas d'um visitador dos jesuitas) 



(1665-1671) 



(Continuação) 



I Teve a Cidade noticia aos 20 demarco q.' á Casa branca tinha chegado o Taitô ('Sg) Foi. 6 
(q." he o geral do mar e o Aitào (40) q.' he a 2.^ dignidade de Cantão) e mandou dizer ao 
mandary da Casa branca, q.' queria ir vizitar estas dignidades; respondeu q.' como che- 
gasse, então os iria visitar: teve a Cidade aos 24 do mesmo março nova, ou sospeita 
certa de sua chegada; e apresentou-se com oito balõis, e foi com elles em demanda da 
Casa Branca; (neste mesmo dia vierão das lô barcas que tinhão parado antes da taipa 
quebrada, de q.' se laz menção no tim do 3." ^ acima d'este; seis barcas as mayores, 
para a Casa branca, e pararão junto á Ilha verde por ser maré vazante pelas 4 horas da 
tarde; e no dia antecedente tinhão vindo da taipa quebrada outras seis mais pequenas 
p." a Casa branca e lá na Casa branca; estavão 10 barcas grandes com m.'-" lorchas e 
aos 2 5 do mesmo março vierão p.^ Casa branca outras 4 barcas pequenas e não ficou 
nenhúa na taipa quebrada) mas indo já perto da Casa branca lhe veyo de lá bua lorcha 
com avizo, q' voltasse, porq' ainda não era chegado o Aitão: (o Taitó tinha dito aos 22 
de março ao nosso jerubassa (41) Joseph; q' não se avia de fazer outra couza senão ire 
os de Macâo p.-' dentro, e despejar Macào (42) com este recado voltarão p." a Cidade e 
perpassando pelas 6 barcas g.''"' q' estavão surtas junto á Ilha verde, lhe iizerão os sol- 
dados q' estavão nas barcas, alguas acções com os barretes; como q' zombavão delles; 
de q' os dos balões desconfiarão. 

l.ogo aos 25 de março mandou o mandarim da Casa Branca recado á Cidade q 'era 
chegado o Aitào, que o podião ir vizitar. N'este tempo estavão na Casa Branca 36 bar- 
cas grandes e outras tantas mais pequenas : respondeo a Cidade, q' o dia dantes tinha 
lá ido e q' voltarão por assim lh'o mandarem dizer; q' irião, mas q' como nestas aguas 
vazava m '" a maré, não podião os balões chegar a terra p.' desembarcarc sem lodo: e 
q' por isso o querião vizitar na sua barca no mar, foi este recado aos 25, não veyo res- 
posta n'este dia nem no seguinte de 2»'); e comtudo a Cidade aprestou os i5 balões bem 
providos de munições e gente armada, cuidando q' viria a resposta estando elles para 
partir || nos balões, poré como estiverão com os balões preparados desde 2 da tarde até ás Fo' 6 > 



l82 



sinco sem acabar de vir resposta, tornarão-se a recolher os balões e a gente para a Ci- 
dade. 

Aos 27 do mesmo Março pela manha veyo á Cidade recado da Casa branca q' podia 
ir vizitar o Tito (q' o Aitão não era chegado) n'aquelle dia. A este recado se preparou 
a Cidade com i3 balões bem fornidos e petrechados; e á hua depois do meyo dia 
partirão todos embandeirados, chegarão pelas 3 ás barcas do Tito (e tão tarde porq' os 
mandarão esperar, estando já perto os balões, e estiveram surtos perto de hua ora) che- 
gados que forão, o Tito não estava na sua soma; senão em terra afastado hu pedaço 
da Casa branca; e com suas tendas: e aqui estava esperando a visita do balão da Cida- 
de, desembarcou só o Procurador delia e hu juiz e a gente e mais balões se ficarão no 
mar ou rio; chegados ao Tito, e feitas as i."' cerimonias, perguntou pelos mais da Ci- 
dade; e disse q' desembarcasse tambê; q' não tinhão q' ter medo Í43) ; respondeo o 
Procurador, medo ? de que ? q' não desembarcarão pelo não molestarê, não ser neces- 
sário por elle e o juiz bastare; com tudo se queria q' desembarcasse, o farião; foi re- 
cado do P.''"' á mais Cidade; sairão do balão nas cadeiras que o Tito lhes mandou ao 
balão e chegando á tenda do Tito, sahio elle ao,s receber na porta da tenda, couza, que 
não costumão fazer estes bárbaros; e só se levantão em pé: depois de assentados, e 
saudados com suas cerimonias, mandou vir Banquete c' grande fausto e apparato; os 
nossos se escusarão com capa de jeju da caresma (se bem q' este dia de 27 de março 
era domingo) e q' por isso não podião comer; mas não escusarão o convite de beber; 
porque o cha e vinho se lança á vista de todos e he comu a todos (44) ; inter bibendú 
et loquendQ, disse o Tito, que o Emperador mandava ir p." dentro os moradores de 
Macao (42), mas q' elles não podião viver aonde não tinhão de q' se sustentar senão la- 
vrando, o q' não sabião; e que por isso os mandarys do governo de Cantão tinhão tor- 
nado a escrever ao Emperador, q" os deixasse ficar em Macao no mesmo logar; e acre- 
centou q' o cerco se não abria avia 12 ou i3 dias q' tinha mandado ao Tutão (5) a pedir 
chapa, p.* se abrir, porq' o Emperador queria q' vivesse os de Macao: e que lhes não 
faltasse com a sustentação necessária; e q' por isso esperava elle aly até vir a chapa, 
p.» ir em pessoa ao cerco, e ver o q' se dava (45) para o sustento da Cidade, para o fa- 
zer vir, o q' faltasse, dahi por diante: ultimamente acrecentou que o Çuntô o mandara 
vir cà com suas armadas para vir a reconhecer q' barcos erão os que andavam e se oc- 
cultavão na ilha dos ladrões (q' são a náo de Bento da Fonseca ; e outro Barco de M.'i 
Coelho, do P.'" Ant." Nunes, de Fr.'" Nunes determinado p." ir p » Cochichina) que bem 
Foi. 7 sabia q' erão dos Portuguezes; q' os mandasse || entrar mais perto, que lhe davão chapa 
p." isso, e q' ficarião seguros e se acabaria o motivo de sua vinda e de sua armada. A 
tudo se mostrou a Cidade agradecida; e ultimam.''' acerca dos dous barcos respondeo 
q' não erão de Macao, senão forasteiros; e q' elle là se ouvesse com tais barcos, q' 
tratasse de os fazer ir daly, ou de os destruir; pela capa áe cretisare cudi Cretensibus ou 
chine^are ciim Chinen^ibus. Acabada esta pratica se despedirão os da Cidade do Tito já 
perto da noite, e metidos no seu balão derão á vela digo ao remo p.^* Macao, em comp.* 
dos outros 12 balões (em dous dos quaes se tocavão duas trombetas a laVa ingleza) e 
chegarão a Macao ás 7 oras e meva da noite. Tinha procedido, q.''° os da Cidade che- 
garão ao Tito, ofiferecélhe o saguate, q' lhe levarão, de varias peças e se avaliou em 400 
ou Soo taeis; pore elle o não quiz receber, escusando-se, q' sabia a pobreza de Macau; 
q' como tivesse licença do Emperador p." navegar e estivesse ricos q' então receberia 
o q' lhe desse. No mesmo dia, e tempo, q' os balões partirão para Casa branca, foi mar- 
chando por terra até o monte (46) junto do cerco hua companhia de sessenta mosque- 
teiros por ordê do capitão geral, p." estaré alerta vendo se avia là na tenda do Tito com 
a Cidade (47) e balões algu reboliço de armas, p.' q' logo fosse de refresco por terra ; 
e como não ouve nada; assi como os Balões voltarão da tenda do Tito, assim os mos- 
queteiros voltarão para Macao. 

Aos 3i de março veyo com duas barcas o mesmo Mandarv da Casa branca a Macào 
a pedir á Cidade hua chapa, porq' confessasse ,q' a náo, e o outro barco, erão os mes- 
mos q' no dia da queima dos barcos acima ditos, se tinhão saido, e dado á vela por es- 
taré aparelhados: p.^ q" (conforme se entende) com esta conHssão ficasse criminados 
os da Cidade, por terê dito, q' não pertenciam taes barcos a Macào, e por outra parte 
consentiré q' ande p. aqui. Pore a Cidade lhe não quiz dar tal chapa, e sempre negou, 
q' erão nossos os barcos; e acrecentarão, q' se querião os mandarvs, q' elles ou os fizesse 
ir daly ou os destruísse, q' lhes desse licença p.^^ lançare ao mar 3 ou 4 barcos dos q' 
estão nos fossos, e q' com elles, depois de apparelhados irião fazer aauella facção : ao 
q' disse o mandarv, q' não necessitavão de outrê p.'' os ir queimar, q' elles bastavão; 
ao q' respondeo a Cidade, pois se bastão, là vos avinde com tais barcos, e ideos quei- 
mar (48) II . 
Fo). 7 V. I] Aos 3i de março vierão também cartas de Cantão, escritas a 22 e 23 de Março, q' 

davão por novas certas, que o Çuntô tinha mandado fixar hua ohapa publica aos 20 ou 
21 do mesmo março, em q' diz, falando co os mandarys do governo q' depois de tantas 



i83 

ordês do Emperador ha m-'" tardança em se executarem; pello que se busque logo lu- 
gar, em q' se facão casas; e juntam."', q' logo vão com barcos de passa jè, e comias de 
guerra p.'' mudar os de Macao com todo seu fato p." dentro, e isto com toda diligencia 
possivel; e acrecenta duas palavras, que querem dizer mudar, arrancar cô raiz; o mu- 
dar p." agente com fato, e o arrancar p." as cazas e fortalezas; e tiral-as deste lugar: em- 
fim o sitio está tomado e os mandarys menores té ordê p.'' fazerê as casas, ou |3alhotas 
com toda a deligencia possivel. E dize, q' sahio o Çuntô com esta chapa de agastado, 
pelas cousas q' responderão os de Macao ao Mandary de Ansão. q.''" lhes veyo intimar 
a chapa do Emperador, por q' mandava q' fosse p." dentro; em particular por dizerê q" 
se ofterecião para ire sopitar ou destruir as trombas dos ladrões pela banda da Cochin- 
china, e Camboja; porq' isto he afrontal-os, como dizedo, p' pode mais com 4 barcos 
do q' elles com todas suas armadas. E a graça ou desgraça he q' não fizerão os de Ma- 
cao na resposta couza algúa q' não fosse sogerida pelo mandary de Ansão; è elle foi o 
que deu o alvitre pra na resposta, se offerecere a ir sopitar, ou destruir os ladrões; quei- 
ra D.' q' não seja este outro Sinon (49) q' pretenda abrazar esta Troya. 

Aos 2 de Abril sahio o Tito da Casa branca, e tambê as barcas forão indo pouco e 
pouco ; e licarão 6 ou 8 q' costumão aly sempre estar : sospeitase q' foi o Tito com as 
barcas em busca da nao de Bento da Fonseca e de outro barco ; ou q' se foi p.-'' Cantão 
p.'"" de lá vir com o Aitão com outros m.'" mais barcas p.^ fazerê ir p." dentro os mo- 
radores de Macao ; aos quais se costumava a abrir o cerco de sinco em sinco dias, e 
ao presente ha 23 dias q' se não abria, por mais q' o P.dor da Cid.'' tem instado ao man- 
dary da Casa branca q' o povo perece á fome, por se lhe não abrir o Cerco q' he o seu 
comedouro, aonde vão comprar o mantim.'" com a prata, q' de semana em semana ga- 
nhava. 

Aos 7 de Abril mandou á Cidade o Mandary de Casa branca por hiã mandarinete seu 
húa chapa, q' lhe veyo de Cantão p.'' a mandar e intimar a Cidade : a chapa, falava no 
principio dos livros q', os P.'"" tinhso composto, e espalhado pelo Império em q' fala- 
vãò da ley (3o), com q' confundião e perturbavão os entendim.'"' : dizia mais falando com 
os moradores de Macào, q' tivesse amarrado o fato p.'' q' quando chegasse cà o Aitão 
(q' estava ja de caminho p.^ vir) fosse logo p." Cantão, aonde estava sitio com cazas em 
q' avião de morar ; e q'. entre tanto fosse mandando algua gente p." a villa de Ansão, 
aonde estavão esperando barcas de passajê, p." a passarê á banda de Cantão. Dada esta 
chapa, pedio o mandarinete resposta, a Cidade lhe não deu então, q' a darião, ou man- 
darião depois. 

A Nào de Bento da Fonseca, e o outro barco, q' estava em sua companhia (q' avia de fa- 
zer viaje p.-'" Cochinchina), de q' acima se faz menção, estavão j| na ilha dos ladrões : daly se Foi 
tirai ão, e fizerão avela por amor de as barcas g.'''"" e m.'"^ dos Chinas não ire enten- 
der com elles ; neste comenos aos 27 de março lhes deu hu vento norte tezo, e indo 
cada vez mais entezando por modo de temporal g.'''' (*) forão desgarrando p.''' o mar; 
a não como he forte foi resistindo e forcejando por se meter entre as ilhas ; como fez ; 
o outro barco, como era pequeno e fraco não pode resistir ; e por isso hia descaindo 
p.a a Ilha de Ainão (32) e p.a pullo tujo (53), aonde ha baixos m.'" perigosos; e como 
Ant." Fr.*^^" q' era Capitão e piloto do dito barco, sabia m.'" bem o forte, e o gr.'''' pe- 
rigo, em q' estava ; deu a poupa ao Norte ; e por mais não poder, forçado do tempo, 
por se não ir perder nos baixos ; se fez na volta do mar com a proa, ou intentou de ir 
p.a Camboja ; q' p.^ Cochinchina não lhe era possivel, por lhe faltare m.'" cousas ne- 
cessárias p.a a tal viagé ; e ainda q' o barco hia vazio, comtudo como levava algumas 
peças de ouro e seda, e algumas outras miudezas ; disse Ant." ¥r.''o ao Capitão, e Piloto 
da Náo Estevão Dias, q' disesse á Cidade a urgente necessidade q' o obrigava a ir p.a 
Camboja, donde fazia conta de voltar p." a monção de Julho ou Agosto seguinte deste 
aiio de 667 com algú provim'" de arroz: depois se soube, q' Ant." Fr.'" não falou com 
Estevão Dias, mas q' se foi p." Camboja ou p.a Cochinchina. 

Aos 9 de Abril ás 3 depois do meyo dia, (q' foi sábado de Alleluya) fez o Capitão 
geral junta em q' se acharão o M. R. P. G.'"', simão de Souza de Távora, Belchior de 
Barros, João Vieira, Manoel Leal, P." Roiz Teixeira, Manoel (^oeiho e Vasco Barbosa. 
Não se sabe oje 10 do mesmo Abril o q' se tratou, e assentou; sospeitase, q' consul- 
tarão o q' se avia de responder á chapa, q' o mandarv da Casa branca mandou pelo seu 
mandarinete á (Cidade (de q' se faz menção no 2." § acima deste) e depois se vio, que 



(•) Nota á margem do ms.: 

«Aos 2? do mesmo março pelas 9 da manhã tiniia o sei aparecido com hu circolo (3i), q' o rodeava todo e 
com dois meios circolos trasversos de varias cores como do arco da velha, e p.^ a banda de norie se vio um signa! 
como de ollio de bov. íSefiuem se alísunuis palaiTas ntiutelligiivis em latim >» 



184 



s;e tnisladou cm portui^iiez a dita Chapa ; e disse o Jerubassa Rozario, q' no principio 
íallava no P.' Adam (54), q' o q' dizia, e fazia não era por ser Mathematico. mas por 
íeiticeiro, e q' conciliava os corações da gente p.a se levãtaré có o Heino, etc. Também 
iissentarião outras couzas, de cuja resolução se não sabe ate gora. 

Depois disto fiz diligccia, e achei q' a chapa não falava en: o P.'' Adão; senão em 
Mandary, etc e que não falava em Mathematica senão em livros q' se espalharão pelo 
Reino, q' escurecerão os entendimentos de todos e estes livros q' se espalharão s(') tra- 
tavão da lev e doutrina X-"' e estes queimarão os Tártaros ; q' os de Mathematica guar- 
dão elles e por elles se governão. 

O Cerco q' se costumava abrir cada sinco dias ha mais de hum mez q' se não abre : 
da Casa branca não vem arroz, nê outro mantmiento : de Chitài ( q' he outra aldêa da 
ilha de Ansão, q' corresponde a de Casa branca da banda de leste e da Nossa Sen.'' da 
(juia), (55), vinha algum arroz, e outras couzas de comer, q' se hia buscar á formiga ás 
escondidas, e de noiíe : sucedeo poré, q' indo vespora da Paschoa 9 de Abril húa lor- 
cha, em q' hiáo duas após (5G),hu soldado ou cryado (?) da terra e dous remadores ; es- 
tando p.a desembarcar em terra; de cima da terra, tirarão frechas e espingardadas ; e 
Foi. 8 V. hu pelouro [i deu no soldado, matou'o ; e como as duas apôs estavão já em terra, vierão 
os soldados Chinas, cortarão-lhe as cabeças ; os dous remadores remarão e touxerão a 
lorcha ao mevo do Rio ; de onde vierão p." Macâo sem as apôs, e com o soldado morto, 
na lorcha, (aonde estava quando lhe tirarão) e em Macào foi enterrado dia da Paschoa, 
assim mo disse o (>ura da Sé, q' o enterrou. Desorte q' por nenhúa via querc os Chinas 
dar mantim.''' a Macáo ; e assim o pretende ir consumindo á fome ; sem poderc achar 
estes Pobres mátim.'" por mais q' o buscão para o comprar com sua prata. 

Aos 16 d'este abril mandou o Sr. P.''"' (5/) das Prov."' o balão com Miguel da Cu- 
nha a hua aldêa chamada passo Leão (58) q' está ale do (>erco, a buscar algu arroz, por 
intelligencia q' tinha com híi china ; e depois de lá estar toda a noite, voltando pela 
manha com 11 sacos de arroz (14 sacos tinha deixado tomar o Cunha ao (]anarim Es- 
crivão do Capitão Geral, q' também foi no mesmo balão; e q.''" foi ao pagar os 14 sa- 
cos com prata lavrada, o vendedor reparou nélla e dava-lhe quebras para afazer saissy; 
(59) e o canari repugnou dizendo, q' se não davão quebras a prata do Capitão Geral, etc.) 
e por queixa q' foi fazer o canarim ao Capitão geral ; mandou elle (i ou 8 soldados ao 
balão, q' tomasse o arroz q' nelle vinha, sem ter resalva ou beneplecita de algu Supe- 
rior ou do Sr. P.''"' (^7) e o tomarão por força: hu Cafre nosso Agostinho disse q' 
aquelle arroz era dos P.'", arrezoando q' se o quizessé lh'o pedisse; a resposta foi que- 
brar-lhe o sargento a alabarda nas costas ; e sobre isso o ferio na mão; levarão'no amar- 
rado á ordé do Capitão Geral p.^i o Monte, aonde o assoutarão cruelm.''' com q' lançou 
sangue pela boca; sangrarão"no : e là o teve preso 8 dias. Em vez de buscar canos e 
caminhos p.'' vir mantimen.'" tapãos; porc]' os vendedores trazendo-os ás escondidas 
escapão de hu risco da Casa branca e vê dar em outro mavor : e o principal ou peyor 
he, q' a hnmunidade Ecclesiastica fica atropelada, sem se advertir nas penas, e esco- 
munhões q' o direito põe em semelhantes casos precigue a Bulia de Pio V p." os men- 
dicantes c a de Pio 4.0 p.a nossa Comp.<'^ em particular. 

Ao fazer deste i^' q' he aos 20 de Abril se perfazem 41 dias q' o cerco está fechado, 
e os do Governo de (Cantão não deixão trazer arroz ou mantimen.'" algu a esta Cidade ; 
donde bem se deixa ver q" pretende destruir á fome, sem dar por petições, instancias e 
requerim."'^ repetidos q' a cidade lhes faz, p ^ q' lhes mande dar de comer comprado 
por sua prata. |i 
Fo'- í» II Aos iS deste Abril mandou dizer o Mandary de Ansão á Cidade q' elle vinha a Ma- 

cào: os do governo de Cidade mandarão concertar cazas, em q' se agazalhasse, como 
dantes costumava ; e como avia 39 dias que o Cerco estava fechado, cuidando q' o Man- 
dary trazia chapa p." se abrir, estimarão a sua vinda. Pore chegando elle a Casa brãca 
aos 19 do mesmo mez, mandou dizer á Cidade, por via do sr. P.'!»' que escreveo o Man- 
dary "de Ansão q" o Taitò ou Tito lhe impedio embarcação em que q' elle podia vir ; e 
q' por isso a fosse a Cidade á Casa branca p.« là falar cõ elles sobre negocies q' trazia 
q' tratar. A Cidade temendo ou suspeitando, q' debaixo desta capa se encobria algúa 
traça, ou aleivozia, lhe mandou dizer, q' não era costume ire tratar negócios fora do lu- 
gar, emq' sempre se tratarão, e q' por isso não podião ir, q' viesse elle a Macào, aonde 
o estavão esperando. 

Aos 20 do mesmo Abril msndou o Mandary de Ansão carta ao Sr. P.''"' em q' lhe 
dizia, q' elle não podia vir a Macào; mas q' injportava verse com elle p.a bem dos ne- 
gócios da Cidade ; e se não pudesse ir a Casa branca, q' fosse ate o Cerco, aonde se 
verião e falarião negócios, q' demandavão segredo, etc. (n'este mesmo tempo falou hu 
creado do Mandary de Ansão, com o Sr. P.''<'^ ... o q' lhe trouxe a carta e lhe deu a 
razão, porq' seu Amo não podia vir a Macào. . . . porq' o Mandarv da Casa branca, o 
não deixava, por saber, q' o avião de amarrar, se cà viesse) mandou o Sr. P.''<" esta carta 
a Cid.*'; a cuja vista a mesma Cidade veyo ter cõ o Sr. P.''"', q' eslava doente em cama; 



i85 



a pedir-lhe cõ g.'''' instancias quizesse ir com o P.''"' da Cidade em hu palanquim ate o 
■<^erco, p.'' aly se ver com o dito Mandary, e falar os segredos q' tinha, em ordé ao bem 
d'esta Cidade, morm.''' q' deste modo poderia aver via, e caminho p.* se abrir o Cerco 
a este povo, que estava perecendo á fome, e outras rezões de conveniência. Ainda que 
.o Sr. (Procurador) estava em cama, suppostas as razões tão urgentes em ordé ao bem 
comu, se oflereceo p.* ir em hú palanquim có o P.dor da Cidade até á porta do Cerco, 
aonde se veria e falaria com o dito mandary; suppondo porê, q' averião do P.'' V.''^' li- 
.cença p." elle ir : veyo a Cidade falar commigo logo ; e eu vistas as razões tão precisas, 
concedi a licença (6o) p." o Sr. P.''°' ir ao Cerco e falar com o dito Mandary. Ávida esta 
licença mandou o Sr. Procurador dizer por resposta ao Mandary de Ansão q' estava as- 
sentado na Cidade q' fosse elle e o P.''"' da Cidade ao Cerco, q' mandasse elle dizer o 
dia, e ora em q" queria q' fosse : que n"essa irião verse cõ Sua M. 

Aos 21 de Abril mandou dizer o Mandarv de Ansão ao Sr. P.''"" q neste 'n mesmo Foi 9 v. 
dia pela manhã iria elle ao Cerco, aonde o estaria esperando: fez d'isto o Sr. (Procura- 
dor) avizo á Cidade, a qual mandou um palanquim concertado ao Sr. P. ■''■'■, o qual com 
hu dos Vreadores Domingos Gomes de Torres e com O P.''"' da Cidade, Miguel Gri- 
maldo se meterão em hu balão ás 9 oras da manhã, indo o Sr. (Procurador) metido no 
palanquim e foi juntamente o Sr. Luiz de Fig.''" p.'' ser o lingua : chegarão ao Cerco 
perto das 10 oras, aonde os estava esperando o Mandarv de Ansão, o de Casa Branca, 
e outros dous mandarinetes (e estes dous são os de q' acima se faz menção, q' vierão 
pedir o fato dos dous barcos, q' tinhão aqui chegado na monsão de Gb3). Depois das 
primeiras saudações : disse o Mandarv de Ansão, q' a resposta, q' a Cidade deu, quando 
elle vevo intimar a chapa p.' se ire p." dentro (42^, fora bem recebido do Çumtò, e do 
regulo, e Tutão da Cantão. E q' por ella estavão e polo ccntrato dos 20oo5o taeis ; (3i) 
p.» se concertar o negocio da navegação a seu tempo : mas porq' tinha chegado nova 
fresca da Corte, q' El-Rey mandara cortar a cabeça a 3 mandarfs junto a Pekim, por 
replicaré a hua ordé sua, representando acerca do povo, contra que tinha mandado a tal 
ordê, com c\ ficava notavelm.'"' opprimido e ave.xado. E q' por temor de lhe mandarê 
fazer o mesmo, tratavão de executar a ordé de os de Macào se irem p." dentro; e q' por 
asso o mandara de novo intimar por híia chapa em q' dizia q' tivesse o fato amarrado, 
p.^ logo ire p.-" (.lantão tanto q' a Macáo chegasse o Aitào com os barcos de guerra, e 
da passagé. Acrecentou mais o Mandarv de Ansão, que n'este comenos viera outra nova 
da Corte em resposta ao que o Çumtó tinha escripto acerca da mudança de Macào p.' 
dentro (42); e q' esta ordé viera favorável p." Macào, porq.'" dizia» q' se eiles não qui- 
zesse ir p.-'' dentro; q' mandasse elle Çumto dizer isso mesmo á Corte, q' ficasse os de 
Macào no mesmo lugar. Discerão então os dous da cidade, e o Sr. P.''"'' ao Mandarv de 
Ansão, e ao de Casa Branca : pois se El-Rev deu essa reposta em favor de Macào, e o 
manda hcar sem lhe fazeré força; q' mayor força lhe podem fazer q' fecharê-lhe o cerco ?, 
,(q' avia 40 dias estava fechado) e teré tanto numero de barcos do Tito tomado os bo- 
queirões p.^ não ir lorcha algua pescar e buscar lenha, etc. Responderão os Mandarvs, 
.q' assim era ordé do Çumtò, e q' assim avia de ser, em q.'° não desse o fato dos dous 
barcos, q' tinhão vindo em 663 e o q' tinha vindo nos sinco barcos de 6Ó4 por ter vindo 
sentença de Pekim q' todo esse fato era de El-Rev por estar conhscado por navegaré 
contra a ordé do Emperador; (e aqui instarão os dous Mandarinetes, q" tinhão vindo a 
pedir o fato dos dous barcos com ameaças, q' se o não davão, avião de matar em Can- 
tão o Manoel da Fonseca e a João P.'" Capitães delles, e q' avião de vir destruir Macáo; 
e disserão, q' agora se acrecentava mais o fato dos sinco barcos de 664) ou em q.'" não 
ouvesse algú concerto acerca do fato destes barcos. 

Acrecentou mais o Mandarv de Ansão, q' o meyo q lhe parecia mais acomodado 
p.^ se fazer este conserto, era q' os i5 ou 20 mil taeis, \\ q' estavão em Cantão e tinha l''<jl- 10 
levado Ly-siam-Cum e o Boneca p." expedição de outros negócios Hcassé por conta do 
fato dos barcos ; e q' isto não bastava ; q' por isso avião vir de Cantão comprar 10 mil 
taeis de fato ; e q' o procedido delles se avia de por a ganhos em Cantão, p.' com estes ga- 
nhos se ir recompensando tanio q.'" valesse o fato dos ditos barcos pouco mais ou menos. 

Disserão o Sr. P.''°' e os dous da Cidade ao Mandarv de Ansão, q' este negoceo de- 
mandava mais tempo, porq' se não podia concluir alv ; senão em Macáo aonde p." se 
ajustaré as cousas em ordé ao bem comú, era necessário chamar o povo ; e cõ seu 
beneplácito se assentaré ; e q' por isso era necessário elie Mandarv de Ansão fosse a 
Macào; q' não avia perigo algii em sua pessoa ir, antes motivo de m.'" agradecimento, 
pois com tonto zelo e amor, tratava de concertar os negócios da Cidade p." sua quie- 
tação Respondeo o Mandary de Ansão : q' era m.'" contéte, poi é q' naquelle dia não; 
por q."> lhe era necessário ir a Casa branca a convidar ao Capitão da Armada do Tito, 
p.* o ter benévolo ; e q' ao dia seguinte viria a Macào: com esta resposta se despedirão 
'hús dos outros, os Mandarvs forão p." a Casa branca, e o Sr. P.'''"' o Vreador, o P.''"' da 
•Cidade se vierão p,-'' Macao. 

(Continua.) 



i86 



Notas 



(39) Taitó 

E' o mesmo que Tiln, Tetuh, ou tiitú, etc, como vimos nas notas 5 e 7. Mas o general de terra também é 



(*") Aytão 

Não vi nas obras que ttnho consultado coisa que ie pareça com este nome para designar a z^ dignidade de 
Cantão, que, como já licou largamente explicado, na nota 4 a pag. 38 e 39, se denomina 5c?<?//';/íí ou Fu-yucii. No 
trecho da obra do Arrabido Fr. José de Jesus Maria, relativo ao ataque dos hollaiidezes, e que transcrevo n'este 
numero da Regista, vem indicado o Aytão como o general do tnar da provinda de Cantão. 

(^*) Jerubassa 

E' o nome que se dava antigamente em Macau aos linjiuas ou interpretes, como se poderá ver: 

Na obra de Cardim, Batalhas da Companhia de Jesus etc, pub. pelo sr. Luciano Cordeiro em i8()4, pag 238 : 
«O caso foi que um jurubaca filho de pães christáos. . .», e a pag. 41): «Sobre a tarde veio outra embarcação (de 
Nagasaki) n'ella três iurubacas, que são os interpretes ..» 

No <■ Primeiro relatório do capitão geral da cidade de Macau, Diogo de Pinho Teixeira ao vice-rei da ín- 
dia sobre as cousas do Patriarcha de Anthiochta, Cardeal de Toiínion, datado de i." dr dezembro da 1707 e 
publicado no Chronisía de Tissuary de setembro de 1867, pag. 21 5 e seguintes, do 2.° vol.: «para o que me reque- 
reu o dito Patriarcha ordenasse eu á guarda que não consentisse entrasse em casa do dito Patriarcha china de ne- 
nhuma qualidade que não fosse com o Jurubaca, ou lingua, que é o mesmo- . . > 

Na Relação da Embaixada que El-Rei D. João V mandou no anno de 1725 ao imperador da 'fartaria e Chi- 
na, etc, etc. escripta pelo secretario da mesma. Padre Francisco Xavier da Rosa, e publicada por Biker, na sua Col- 
lecção de Tratados da índia, tomo VI, pag. 79: «... qaairo jorobacas ou interpretes chinas. . ■> 

No cit. ms. do Padre ,losé Montanha, Aparatos para a Historia do Bispado de Macau, pag. 7: A cidade ide 
Macau) tem três vereador^es. . . e um Jurubaca, o qual serve de lingua e se chama Jurubaca pelo nome da 
terra.. . . » , 

Qual terra.' Ainda o não pude averiguar. 

Provavelmente a palavra vem do malaio. Na lista de palavras malaias e francczas, que possuo, está djouroii- 
bahssa com a significação de interprete. 

(*^) Despejar Macao 

\"\àt o que ficou dito a pag. 35 d'esta Revista, relativamente ao decreto do Imperador Sum-clie. 

(^3) Ter medo 

Repare o leitor n'este trecho. Medo tinham os chinas, apezar de toda a sua força e de tantas barcas grandes e 
pequenas. Os da Ciaade tinham não medo. mas e&sa paciência e subserviência ás imposições cliinezas que torna- 
ram .Macau quasi cliinez de portuguez que era! 

(^'^) O chá e o pinho ... 

E tinham razão os da Cidade. Na comida podia ir um d'esses venenos tão subtis como vulgares nas relações 
amistosas da gente asiática. 

O vinho que se bebeu foi certamente o chmez — feito de arroz fermentado e distillado, ou de maçãs, etc. 

C'^) O, que se dava para sustento. . . 

o que se dava, tem graça ! IJava-.se o sustento que se comprava aos chinas com o nosso bom dinheiro ! 
A Amaral, em tempos mais recentes, disseram o mesmo. .Mas Amaral não fallava como os da Cidade, e deu- 
Ihes a resposta que o leitor já terá visto a pag. 27. 

(*^) Monte Junto do cerco 

.Montículo perto da Porta do Cerco. N'essa colina está hoje a fortaleza de Mong-ha d'onde se descobre um ho- 
rizonte larguíssimo. 

(47) Cidade 

Está aqui empregado, como em outros legares do ms., no sentido de representantes da Cidade ou membros 
do Senado. 



Bem dada resposta ! Se fallassem asi-im sempre e procedessem d'essc modo, quantas vergonhas se evitariam 

(^9) Sinon 

Um dos guerreiros gregos que assediaram a cidade de Troya. Ficou sendo o typo da dissimulação, da perfí- 
dia e da mentira. Foi elle que, pelos seus artifícios, persuadiu aos troyanos que fizessem entrar dentro dos muros 
da cidade assediada o enorme cavallo de madeira que encerrava a elite do exercito grego. Fazem-lhe os escripto- 
res frequentes referencias quando querem indicar a astúcia e dissimulação de certos personagens. 

A allusão do auctor do ms. é bem achada, na sua applicaçáo aos chinas. 

(SO) Ler 

Refere-se aos livros compostos em ehiiifz pelos padres jesuítas sobre a religião christá e que se iam espa 
Ihando pelo Império. Em diversos artigos d'esta Revista encontrará o ieitor exposto o que se passou então na Corte 
de Pekin e nas diversas províncias do Império com respeito à propaganda do christianismo na China 

(^*) Um circolo que rodeava o sol. . . 

Refere-se certamente o auctor ao conhecido phenomeno luminoso de refracçáo ou antes de diffi-accdo que pro- 
duz o halo ou coroa soLir. O tal ol/to de boi do lado do norte não sei o que seja. Os halos geralmente annunciam 
chuva ou mudança de tempo. 

Não admira que o auctor do ms. manifestasse receio do phenomeno meteorológico. Em 1667 a physica c a me- 
teologia ainda estavam em embrvão. 

(^-) Ainão 

Ilha de Hainan, como modernamente escievemos e pronunciamos. 

(3-^) Piillo Tujo 

Pulo significa, em malaio, ilha ou ilhote. E' esse o motivo de se verem nas cartas do Extremo-Oriente os 
nomes das ilhas precedidas por essa palavia. 

Não encontro nas muitas cartas antigas que possuo d'essa parte do mundo nenhuma ilha com esse nome nas 
proximidades de Hainan; mas sim a de Puto 'íaro, Taya ou Taso, a nordeste d'esta ilha. E' provavelmente a 
mes-na a que se refere o auctor. 

(^'') Padre Adam 

E' o Padre João Adam Schaal de Bell, uma das glorias da Companhia de .lesus na lucta pela christianisaçáo 
do Império chinez. D'elle darei desenvolvida noticia, assim como dos seus trabalhos e obras, em artigo especial. 
O Padre Adam morreu n'esse mesmo anno (i5 de. agosto) em que escrevia o auctor do manuscripto, depois de ter 
estado preso nas masmorras de Pekim. accusado pelos mandarins chinezes de feitiçaria e de diligenciar levantar 
com as suas predicas e escriptos o povo á revolta. Entrara na China em 1620 com o anxilio dos portuguezes de 
Macau, e chegara á alta dignidade de mandarim presidente do Tribunal das Mathematicas de Pekim e a exercer uma 
grande influencia junto do Imperador SLun-che, cuja morte deu causa ás desditas do santo missionário, que, pouco 
antes de fallecer, tinha sido mandado soltar; mas os solfrimentos que padecera nas prisões, para onde tora levado 
depois da morte d'esse Imperador, não lhe permittiram mais longa vida, que se extinguiu no dia da Assumpção de 
Nossa Senhora. O successor de Sum-che, ao chegar á maioridade, rehabiiitou a memoria do heróico missionário 
tão torturado pelos regentes que governavam o império na menoridade desse Imperador. 

(S5) Chitài 

Deve ser a aldèa ou povoação que ainda se encontra em frente das Nove-Ilhas, a nordeste de Macau, e que é 
conhecida actualmente por Ca-lhai. E tanto c assim que o ms. refere-se mais adeante, a fl. i3, á mesma povoação 
nos seguintes termos: 

«... foram alguns homcs de Macao em hua lorcha ás Nove Irmãs, ou aldèa de Chitai (q'está junto as ditas 
') ilhas. . .» 

(•*') Após 

.^lulheres chinezas da classe bai.^a. 

(^■) P.'^«'" das Prov."' 

o Padre Procurador da Província do Japão e da Vice-Proviíicia da China, da Companhia de Jesus, cujas se- 
des eram cm Macau. 



(^^) Passo Leão 



Passalefio, como lioje é conhecido. 1'.' curioso notar que em lOóy já íiiilia esse nome que havia de briliiar 
mais tarde com lettnis de ouro na historia das nossas florias no Extremo-Oiiente. 



(^^) fa:{er saissy 



Vide o que disse na nota ú com respeito ao Tael de prata. Para tazer de qualquer dinheiro em prata 
,ai'rada ou ciaihada, (patacas hespanholas, mexicanas, etc.) saixsy ou saici (prata pura em barras ou barrinhas) 
é necessário ou fundii-o e tirar-lhe o cobre, ou dar a ditierença de valor entre a prata ligada e a prata pura. Essa 
dilferença, ou quebras, varia conforme o toque das moedas de prata, isto e a quantidade de cobre que estas con- 
tiverem. 

liarei, brevemente, como prometti, um artip;o sobre a moeda na China. 

(«0) 

Foi pela leitura d'este trecho que conclui que fora o Padre Visitador o auctordo presente manuscripto. Vide 
o que fica dito a pag. 33 e 34 d'esta Revista. 





Textos e notas sobre o dialecto de Macau 



III 



Quadras do Katal 

Deixemos para o ,fim d'esta secção o final da despropositada descompostura entre o 
major Ruas e a valente defensora das mulheres em geral e das macaistas em particular; e, 
como é agora o tempo do Natal e do Anno Bom, abramos este capitulo com uma poe- 
sia do chistoso poeta macaense Filippe M. de Lima, publicada em iSgS no Almanach 
Liii:^ de Camões, de Hong-Kong (i). 

Com tanta graça como chiste conta o sr. Lima as beDezas do presépio que o padre 
Manuel (?) costuma armar na véspera do Natal, n'este bom tempo em que na copa se 
apromptam o pão de casa, a alua, o doce pinhão, o f rate, o dodol (208) e outras doçu- 
ras e guloseimas para os vorazes estômagos que os hão de tragar no grande dia tão fes- 
tejado pelos macaenses, e no alto de todos os armários, aparadores e guarda-vestidos 
se ostentam, as laranjas (209), essas bellas laranjas de casca fina e de perfume deli- 
cioso como se não encontram na Europa, todas enfileiradas como pequenos lampiões 
ou lanternas amarellas. Que alegria iria por essas famílias de Macau, n'esse grande dia 
tão celebrado em todo o mundo" christão, se não fossem as tristes circumstancias em 
que jaz essa nossa infeliz colónia, tão abandonada e esquecida pelos governos da metró- 
pole, que não tem tido dó d'esses portuguezes que, para ganharem o seu pão, tem de o 



(i) "Sovo Almaiiacli I.iiii; de Camões para o anno bissexto de i8g6 i Ilustrado com o retraio do grande 
épico poríugue; e príncipe dos poetas, accompanhado da sua biographia, por Francisco de Aspilqueta Xavier 
Jorge de Mene-yCs. — Hong-Kong: Typ. 'Hong-Kong Printing Press- —i8g5». i folheto com 9S! pug. e i retrato 
grosseiramente gravado de Camões. 

Náo sei se continuou a sua publicação porque d'esse almanach só vi o exemplar d'esse anno, que me foi 
obsequiosamente emprestado por um amigo. 



igo 



ir soUicitar em terras estranhas, onde gastam a sua actividade, que bem poderia ser em- 
pregada no torrão natal que elles tanto amam e aonde se recolhem quando a sorte os 
favorece e o trabalho lhes é recompensado com uma modesta mediania ! Quando soará 
a hora da prosperidade de Macau, em que de novo se vejam reunidos á mesma meza 
os filhos e os irmãos que nos portos estrangeiros do Extremo-Oriente, longe dos seus^ 
suspiram pelo almejado dia em que juntos poderão festejar o Nascimento do Redem- 
ptor do mundo ? 

Que essa hora soe o mais breve possível; que Macau se levante em pouco tempo 
do abatimento em que jaz ; que os nossos governos olhem pela sorte e pelo futuro 
d'essa colónia, que bem prospera se poderá tornar, compensando todos os sacriHcios e 
cuidados da metrópole : são os sinceros votos que faço, desejando aos meus patrícios do 
Extremo-Oriente que o raiar do século xx seja para elles uma aurora de Redempção e- 
o prenuncio de continuas e duradouras prosperidades. 

M. P. 
Em 33 de dezembro 



24 de dezembro de 1S99. 



Natal já tem traz de porta (-'*') 
Logo cai na quartafêra ; 
Vença (-") nòs arma presépio 
E aranjá candèa cera (-'-) 

Nôs tem sagrada familia. 
Pastor, vacca teTi bastante ; 
E tem também três Rê mago 
Montado na elephante. 

Nòs tem Minino Jesus, 
Sam José com Nossiôra ; 
E tem bastante pastor 
Com dez ou doze pastora. 

Manda fazê unga estrado 
D'altura de nosso peto ; (-") 
Arma presépio de riba 
Logo pôde olá bemfèto, (-") 

Nôs dipois de missa-gallo, 
Vamos sandê todo luz ; 
Chomá gente de vizinho 
Canta Minino Jesus. 

Na Macau padre Manuel 

Com mas dôs ou três sium-sium 

chega festa de Natal 

Canta: gorung, gorungung (-'•"') 

Aqui Adeste fidelis 
E venite e más venite; (-"') 
Como eu non sabe latim 
Ai senti que non tem chiste. 

Padre Manuel na Macau 
Fica na rua de Pala (-'") 
Já fazè unga presépio 
Que ocupa metade sala. 

Sua lapa (^'*) qui bonito. . . 
De fora inchido de fula. (-'9) 
Minino Jesus na pala 
No meio de vaccas e mula 



Nossiôra e Sam José 
Ali perto dozelado (--") 
Cobri corpo de sua tilo 
De frio quasi gelado. 

A' riba de lapa unga anjo 
Aguando- (■-'-') desce de ceo 
Co"unga letréro escrevido 
— Gloria in excelsis Deo. — 

Tem uma estrélla na ceo. 
Qui bonito vòs olá ! (-■-'' ) 
E tem três rés que, de longe, 
Bota óculo, observa. 

Sim, padre Manuel fallá 
Qui aquelle são três rés-magra 
Mas eu senti bem de gordo 
Tudo costa bem de largo. (-■^) 

Unga ré são portuguez (--'') 
Otro moro, tem turbante; 
Otro cafre beco grosso. 
Corpo inchido (' '') diamante! 

N'unga canto de presépio 
Inchido de arve de coco ; (''''■'). 
Macaco subi, desce. 
Igual como jugá soco. (--''•) 

Ré Herode com sua tropa 
Com espada, chuça e lança, 
Core como diabo solto (—") 
Mata tudo ciiança-criança ! 

De tanto ancuza que tem,, 
Que eu agora já esquece; 
Mas tem unga crueldade 
Eu de medo já treme !! 

Vôs olá pVa tudo rua, 
P'ra tudo canto e travessa 
Inchido criança macho 
Tudo morto sem cabeça. 



'91 



Vae tudo vanda ouvi choro (--*) 
Tudo mãi berra, dá grito ; 
Sam José com Nossiòra 
Fuzi com Jesus p'ra Egypto 



Padre Manuel são capaz, 
Elle tem bastante gèto ; 
Agora não pôde olá 
Presépio assim bemfèto. 



Segue a disputa, começada no numero passado entre os dois assanhadíssimos con- 
tendores de calças e de saias — contenda que terminaria a mal para os illustres preopi- 
nantes, se, conforme o costume, se não mettesse de permeio a Nossa Senhora da Paz, 
com grande gáudio dos neutros e talvez algum proveito para os philologos. 

Dizia o nosso poeta Francisco de Sá, a senhora bem o sabe 



— Eu pareço doudo aquelle, 

— Elle parecemo a mmi, 

— Um e outro corta a pelle, 

— Diz de mim, eu digo d'elle, 

— SomoFo todos em fim — 
Exma. Sra. D. Maria 

V. Exa. sabe muito bem escrever, 

Não com entendimento 

Nem com intelligencia. 

Eu não o sei nem tão pouco ler 

Destingo só a sua bruta ideia 

Dos meus bons pensamentos. 

Os sensatos que o digão 
Os Judiciosos o avaliem. 

Agradecemos gratos 

O seu folhetim de báratro. 

Respeito o nosso publicado 

Na ultima semana passada. 

Que em duas classes 

A mulher separa : — 

2 [Anjo abençoado, 

'õ jAnjo da guarda, 

.S j Pérola incomparável 

o. (Não menos engraçada 

_rt /Serpente e Panteras 
c íCastiçaes do Inferno, 
SijCerbaes Loba e 
« (Astutas Raposas : — 

Citamos os factos 

Não falíamos no ar, 

V. Exa. não os combate, 

O que devia fazer, 

Para os refutar e 

Não menos rebater. 

Falíamos de pão 

E ouro e prata, 

V. Exa. de rala 

E alhos e bogalhos ! 

V. Exa. de certo não pode 

EUes são de S. theologos 

Não menos menos philosophos. 

V. Exa. falia de major. 

Não sei se com ódio ! 

Oh 1 . . . sim . . . tórola 

Raiva enveja rancor ! ! 1 

Diga a verdade, sim. 

Pertence á ia. ou 2a. classe ? 



Se áquella primeira, bem está ? 

Veja, não as ei accusado. 

Mas sim acatado e 

Não menos respeitado e 

Também Louvado e 

Assim como recommendado. 

Se a esta a 2a. que diabo ! 

Dizer e fallar a verdade. 

Será ofifensa e peccado ? 

Não pode ser 

Em seriedade : — 

INão faz conta ? 

Não convém ? 

Causa magoa ? 

Oh! . . . é pena! 

Que infelicidade. 

Também desgraça 

Paciência 

Adeus não estou 
para vos aturar. 

Ein? 

Não são versos 
Que não entenda. 
Mas sim deveras 
Epilogo em referencia 
Oh ! nobre senhora 
Preciosa e cara, 
Dame um beijo e 
Também um abraço 
E ficamos amigos 
E dançamos o tango e 
Fazemos as pazes. . . 

sim 

A Vossa Excellencia 
Mil vezes obrigadissimo 
Nada mais, e disse. 
Adeusinha queridinha ! 



A. J. Ruas, 

Limpa Maria. 



(P. S.) — Dizem-nos com certeza, 
O que não queremos ser verdade, 
()ue não é D. Maria fêmea 
Mas sim um patife macho 

Se com certeza assim o é — olé. . . 
Seja leal e franco e diga quem é. 
Afim de sabermos quem diz e nos 
Chama. . . sim : — 



1Q2 



Meolos de búfalos ' 

Tolo 

Pateta 1 Oh ! sim ! 

Mof"^ 1 muito bem 

Maluco ; 

Pacovio l obrigado. 

Bobo I 

Aluado ; 

Nós dizemos — Tu de certo 
pertence a raça dos Caims 
Que por inveja matou ao seu 
innocente e bom irmão Abel; 

E também á do traidor Judas 
Teu irmão como os consortes 
Do tirano Nero teu parente 
E cobarde e grande déspota. 



E bem como da descendência 
de Ganimedes que também 
gostam d'elles machos-femeas 
como tu es ! já percebes ? 

Logo, portanto ; por conseguinte 
Es Caim, e também Judas, 
E também Nero, Ganimedes ! 
Privas ! Favas ! E nada mais. 



A. J. Rlas, 

Limpa Maria. 



Macau, 14 de Junho 1888. 



O senhor «Bem o sabe» este brinco sâ logo puçá cumprido ! (229) 

Já vem ôtro vez aquelle Santo Antone de Bara virá beco (23o) com eu. trapalhá 
minha cabeça, tira tempo de minha descanço. Agora sae de escreve verso que já fazê 
frovc minha' sangue ; se eu já acha prêle (23 1) n'aquelle hora que eu ta zangado, minha 
vontade sã logo chiquí (232) que fazê sae sua grogomilo (233) tora, manda ama pega na 
pê, atai pega na mão. 

Eu já lê más de oncento vez e nôn pôde entende tudo aquelle palavriada que elle 
já incaxá na sua verso; mas minha neta Achinha, que ta prende (234) portuguez na irmá 
de caridade, vivo como azógui, já comprendê tudo, nunca escapa nada. Elle já explica 
com eu tintim pra tintim, fala que aquelle verso ta muto bemfêlo, pôde compara com 
verso de Camões. Chacota que ali fazê pra mi ramendá (235) um póco com caçuada de 
aquelle critico de Bocage (236), porisso que eu nôn pôde entende. Já diimpá (237) pra 
mi de vontade, fala que eu sabe escreve mas nôn têm cabeça, juizo sarado (238), ideia 
bruto. Atê passa pra eu como doda ! 

Pôde elle fala que cusa que elle querê que eu nadi dá cavaco ; mas perdão de Deus, 
nôn mestê salta de reva (23q) quando eu procura tamêm minha desafogo, mas nadi fala 
asnera nem fala rondade (240). 

Agora que aquelle Santo manjor já sae com sua patarata de querê mostra que elle 
tem bom pensamento, palavra e obra como «S. theologo», protelor de sua mina de sa- 
bedoria, exprimentá primero se elle pôde fazê para viaze que sua juizo tá fazê tudo dia, 
passa de cabeça pra pê! ! ! Se pôde, então que eu logo pincha fora minha penna, pega 
na rosário. 

Mas parece que eu logo tem inda muto travalo pra lida com aquelle cabeça duro. 
Cada vez vae ficando más virado nosso historia. Eu aflito com sua moda de escreve, 
elle trapalhado com minha lingu. Parece mesmo tôre de Babel ; elle ali riva, eu aqui 
baço, sem pôde entende ung-a pra otro. Elle pedi mati (241) eu içá tizolo ; eu manda 
atira cesto, elle ariá (242) balsa. Se nunca sã assim, como elle pôde agora fala que elle 
já pedi com eu pra rala pão prêle fazê ôro, fazê prata, e eu já responde que logo sae alo 
misturado com bogalho que eu nem sabe sã que cusa, mas minha neta fala que hade 
ser aigung-a qualidade de fruta que timor timora costumado come. Que sabe se sã 
jamgôm ? ! (243). 

Mas eu más quizilha sã com sua imbiraçâo de querê escreve latim. Eu já fala que eu 
nun sabe latim, nôn pôde entende «folhetim de báratro» sã que cusa. Minha neta que 
tamêm nunca entende latim, mas ladina como sua mestre mestra, querê mostra que 
sabe, fala que báratro sam barata ; mas Papa, nosso conhecido, já n que más já nôn 
pôde, manda abri dicionário logo incontrá que báratro sã barato. Ah ! este inda pôde 
ser, sã divera bem barato minha foletim., tudo gente já lê sem gasta niung a sapeca. 

Nós, môlêr môlêr, ás vez levanta ira, fica cégu com cusa de nada. Eu mesmo, que 
tá cuberto já de cabelo branco, tamêm sã assim. Quando lê tudo aquelle discompostura, 
aquelle chimpada que Santo Antone de Bara atira na cara de nôs tudo, já levanta ung-a 
casta de ira que fazê vem dôr de cabeça; mas cava passa dôr lembra bemfêto, acha 
graça pra ri com tudo este historia ; mas nunca pensa que elle logo vem depôs mima (244) 
pra nôs com palavra doce que sae de sua rosa greta. Se naquelle hora que eu ta com 
ira elle já passa baço de minha janela, eu já lembra de baldia com ung-a orinol de mizo 
na cabeça; mas Deus já livra prêle (245) e anjo de minha guarda e santo de minha de- 



iqo 



voção já livra pra eu. Se já fazè, como eu já lembra, que arrependido que nadi fica ; em 
vez de escreve agora este foletim, logo ta cisma, churá na trunco (246), que sabe se na 
sala livre ô na quarto fichado com chave. 

Agora eu já nunca reva, pôde responde pregunta de nosso Santo vivo, que ta alegre 
como côpo-còpo (247) na primavera na dia de sol. Elle querè sabe se eu sã de primero 
ò de segundo classe. Nun sã pra gente disconfiá que sã fingimento? Eu pôde crê quê 
elle nun sabe que primero classe sã tudo padre padre, segundo classe, sã tudo home 
home ? ! Eu que nunca vesti batina nem casaca nôn pôde intra nem na primero nem na 
segundo classe; pobre como Jô, com minha saia velo de pano Manila (248), bajú (249) 
grande, vivo de beliz maroto, aroz grosso (25o), só pôde intra na classe de apô Í25i) 
pedi esmola. Pôde elle vem ótro vez cubrí pr'eu de excellencia ; pôde torna repeti sua 
palavra de namoracão «nobre senhora, preciosa, queridinha, adeusinha», quê eu nadi 
fica inchado nem logo cae de recebe sua bejo e abraço e de dança fandango com elle, 
como elle ta pedi, pra cava fazè mangação. 

Que sevandizio ! Que bragero ! ! 1 

Como elle gosta de verso, eu já pedi com nosso poeta, Chico de Sal, que elle conhece 
muto bem, pra fazè tamêm ung-a modinha pra manda prêle. Já fazè, mas já sae d'este 
ung-a lai moda que galante ! — 

Eu que já nunca sae fora, Pra este velona, boca chacha (254), 

Pra vosso casa sã nadi vai, Figura de cachoro assado (255), 

Mas minha casa vôs pôde vem Sae querè ucho, querè boca 1 

Se querè dá boca minha atai ("5). . Nun sã gosto de disvariado ? 

Se tá anciã de dá ung-a ucho (252), Mas ôvi, home, o que eu fala, 

Pra amá vela vôs pôde dá. Contenta já com vosso amore, 

Masquí sã feia, fede fumo (253) Vosso pérola que Deus já dá. 

Vosso gosto logo agrada. Vosso diamante, vosso flore. 

Esta modinha se tá bemfèto ô malfèto eu nun sabe, mas Achinha fala que são epilogo 
referencia. Quim já fazè nunca pedi pago; já recebe na más (25ó), muto contente, um- 
chinho (257) de sopa de imbigo de frade (258) que eu umsôm (259) já fuga (260), quanto 
óva de aranha (261), bicho bicho, bolo reva, bolo podre, cinco apa (i52) cucuz (262), 
que eu já manda, comprado com china merenda (203) Akin. 

Mas olá minha nhu-nhum, nhonhonha, sium sium, seara seara (Vide notas: 16, 22, 
3o, 33, iGo), se aqúelle Santo Antone de Bara tem rezão de levanta fúria, discompor 
pra eu, fala que sã ódio, inveja, reva, rancor, que já fazè que eu trata prêle (245) de 
manjor ! Eu que sabe (264), tudo gente grita prêle manjor Rua; se sã más grande que 
manjor, eu nômtèm culpa. Mas, home de Deus, nun sã bonito ôvi grita pra vôs man- 
jor Rua? Eu senti atè indicente trucá ung-a posto assim bonito de manjor com ung-a 
porcaria de posto de Limpa Maria! Pra ung-a cusa de nada dá ung-a nome suposto 
pr'eu — tórola I (torna sae com sua latim) que eu nôn têm pacencia já de querê 
sabe sã que cusa, mas nôn pôde ser cusa bom, porque eu já sofre ung-a caçoada 
de rapaz rapaz na Boa Vista, na quinta-fera, quando eu ta passiá ali. Ung-a de elôtro 
já dá com cutivêlo pra ôtro, fala manso manso, mas qué eu pôde ôvi, «já vem tórola», 
ôtro responde, «tá vae ruça corpo na arial»; então que eu [lembra que talara pa- 
rece que sã tartaruga ! Se sã, deçá ; pra malcriado tudo vela vela sã tartaruga. Mas 
ôvi, alma discumfiado, eu ta corn inveja de vosso posto de manjor .'' Na qualo téra 
vôs já olá môler manjor ? Rainha, sã tem (265) ; eu tamêm já fica rainha quanto 
mez antes de eu cazá, mas rainha só de minha Deus alembra (266). Na tudo carta 
que elle escreve, começa com «minha querida Mariquinha, minha rainha», mas nunca 
passa inda lua de mel, rainha já cai de trono, vae para pra cusinha, rusti (26^) 
na fugão — já cava ramha ! Vosso posto de manjor sã que logo dura atè more. 
Ódio, rancor, sã divera eu nôn têm ; graça Deus, eu ta livre deste pecado. Reva, sã, de 
vez em quando subi na minha cabeça ; agora sã tudo semana, sã minha pecado de querê 
importa com vosso maluquicia. 

Eu já nôn pôde responde mas nada, ta treme de medo com vosso ameaço de P. S. 
(pau sibocau) (268). Mas parece que eu ta livre ; coitado de aquelle patife macho que 
tem de leva de parte de Maria fêmea ! O raça de Caim, irmão de^ Abel, Judas, Nero^, 
Ganimedes, fuzí, fuzí tudo azinha azinha pra Hongkong, e se nôn quero fuzí, vae prende 
sorte (269) pra defende lambada de pau sibocau! Mas olá sium Rua I. impa Maria que 
juizo temerário nóm pôde agrada S. theologo nem philosopho que sium puçá nome. In- 
daga bemfèto lôgo sabe se sa macho, fêmea ô macho-femea que tá pilizá (270) com sium. 
Minha casa sã na Praia Grande, numbro i35. Se querê vem conversa coni eu pôde vem 
antes de eu reza terço, mas nôn têm nada que agradece, pôs nem Maria fêmea, nem 



^94 

patife macho, nem macho- fêmea já falá que sium tem miolho de bufra ; sã uni^-a com- 
paração que eu já faze. «Tolo, pateta, mofino, maluco, pacovio, bobo», sã palavra doce 
na nosso lingu de Macau, quando sae de boca de môlcr móler. Aluado sã cusa que eu 
nunca falá ; já cava (271) tempo de natal; que ora eu logo pensa de alua pra sium, quando 
nem daiôm {272) eu tem na casa ! 

Adeus, ate quando eu recebe más Favas. 

Maria \'aré-Rua. 



Notas 

(Continuação de pag, 127) 

(208) Páo de casa. — Bolo parecido com o pão de ló europeu. 

Alua, doce pinhão, /rate, dodol, etc. — doces que se costumam fabricar em .Macau por occasiáo do Natal. 
São quasi lodos de origem indiana e não chineza. Os doces e bolos chinezes são, na maior parte, indigestos e re- 
pugnantes ao gosto e á vista. Um d'elies, o bolo bate pau, é tão duro que para ser quebrado se necessita do emprego 
do martelo ! E o recheio é áe feijão e toucinho adocicados com jaí;ra ou melaço ! 

D'entre os citados doces indianos distingue-se a alua (na índia diz-se aludi muito usado em todo o Oriente 
como um verdadeiro confortativo para as pessoas fracas. A mais afamada é a de Mascate, que se exporta em ti- 
gelinhas de barro, emquanto a de Macau é feita na forma de tijolos rectangulares. 

Para os leitores curiosos de Lisboa forneço a seguinte receita que pode ser executada com êxito, se fôr se- 
guida á risca. Náo ha em Lisboa o arroz pulu empregado em Macau para se fazer a farinha com que é fabricada a 
alua; mas pode ser substituida pelo arroj de Veneza ou da terra. 

Tomam-se 3 kilos de farinha d'esse arroz, que se lava e se deixa assentar até ao dia seguinte, em que se deita 
fora a agua que ficou por cima. Tomam-se mais. 5 cocos grandes; pisa-se o seu miolo, o qual se escalda com suf- 
ficiente quantidade de agua a ferver. Guarda-se esta infusão e o bagaço do coco à parte. Tomam-se mais: Assucar 
I kilo Vs; Amêndoas doces e no^^es q. b. Mistura-se tudo com a farinha e com a agua e bagaço do coco e collo- 
que-se sobre o lume n'uma bacia de arame. Vae-se cozendo de vagar, mechendo-se sempwe com uma colher de 
pau ou com um pau especial (Vide nota 272) acrescentando-se, pouco a pouco, i kilo do banha ou de manteiga de 
vacca, sem sal. Quando a banha não resudar mais da massa, está cosida esta ; e vasa-se logo para uma meza de 
pedra ou de mármore untada de manteiga de vacca; e, com o rolo, também bem untado, da-se-lhe uma espessura 
egual, cortando-s,e, quando estiver fria, em quadrados ou em feitios que se desejar. Este doce pode-se guardar e o 
leitor que o comer agradecer-me-ha o ter-lhe fornecido para estas festas a receita d'um dos doces mais usados, 
desde remotas eras, em todo o Oriente. 

(209) E' costume em Macau, nas proximidades do Natal, enfeitar com rumas de laranjas todos os frisos supe- 
riores dos moveis —como guarda vestidos, guarda loiças, armários, aparadores, etc. A laranja melhor de Macau 
é a chamada de casca fina, uma espécie de tangerinas grandes, muito perfumadas e gostosas. 

(210) TrOy de porta. — Já vem perto. 
,'211) Vem cá nos arma. — Vamos armar. 
(212) Candéa cera.— Velas de cera. 
(2i3) Pe/o — Peito. 

(214) Logo pôde olá bemfâto. — Poder-se-ha ver bem. 
(2i5) Refere-se ao cantochão. 

(216) Palavras ditas pelo sacerdote na missa do gallo, quando apresenta o Menino a beijar aos fieis. 

(217) Pala. — Palha. 

(218) Em certos Presépios a Sagrada Familia está n'uma gruta ou lapa, em vez da arribana em que o Rei do 
mundo nasceu. 

(219) Fula. — Flor, flores. Garcia da Orta,nos seus Colóquios dos Simples e drogas da índia, emprega tam- 
bém a palavra /tt/íi ou fule no sentido geral de flor, como muito bem fez notar o nosso eminente botânico sr. Conde 
de Ficalho, a pag. 73 do vol. I da interessantíssima edição annotada que fez d'essa obra e que constitue um reposi- 
tario inexgotavel de dados sobre a Flora do Oriente, no qual não sei o que deva mais admirar: se o texto do auctor, 
se as notas do commentador. O sr. Conde de Ficalho indica que Ainslie cita phool como o nome deckani de flor 
e que deve prender-se ao sanskrito f /íií//íj {pronunciar p-hulla) aberto, florido, blooming. 

(220) Do\elado. — Um de cada lado. E' curioso este modo de dizer e para elle chamo a attenção dos philo- 
logos. 

221) Aguando. — Avoando, voando. 
(222) Qiie bonito vós o/íj.' — Que bonita vista que faz 



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(223) E' engraçad'ssima esta quadra, em que se faz a confusão de reis ?Hí7^:,')'0í com reis mai^os... de costas 
bem largas ! 

(224) De Ré português mago. . . não reza a liisloria lusitana 

(225) Arve de coco. — Arvore ou palmeira de coco . 

(220) Em que os macacos sobem e descem como se estivessem a J0í;ar o socco. 

(227) Diabo solto ou melhor sorte. D\z-st de pessoas que correm aos saltos, fazendo esgares e gestos desor- 
denados, 

(228) Vai tudo vanda ouvi choro. — Por todos os lados se ouve chorar. 
(22q) Pucà comprido. — Puxar comprido, prolongar-se. 

(23o) Virá teco. — Virar beiço— Equivale ao portuguez bater liní:ua 
(23i) Achápréle. —Achar para elle — me encontrasse com elle. 

(232) Chiqui. — Esganar pela garganta. Vide nota 2, c. 

(233) Grogomilo, — Guellas. 

(234) Prende. — Aprender. 

(235| Ramendd. — Arv&meáav. Está empregado no sentido bem portuguez de assemelhar-sc. 

(23b) fioca^e. — Poucas ou nenhumas lembranças deixou este poeta em Macau, onde, como se sabe, esteve 
<lesde que se ausentou de Damão em 1789 ate que regressou ao reino em 1790. D'elle e da sua estada em Macau 
mt occuparei em occasião opportuna. 

(237) Chimpa. — Outra palavra macaista de origem asiática (malaia ?). Está aqui no sentido de alirou-me a 
•cara, tosou-me por meio de palavras. 

(238) Sarado. — Cerrado, tapado. 

(239) R<-'va — raiva. 

(240) Rondade. — ruindades, no sentido de palavras ruins. 

(241) Mati. — No sentido geral significa terra do chão. No caso presente tem a significação de argamassa. 
Na índia chama-se também inale á terra vegetal, como se poderá ver nu Arte palmarica do Padre Jesuila„ca'p.\. 
publicado pelo jornal índia Portuguesa, onde diz (n." de 6 de abril de i8o5) : «e por isso é necessário lançar-lhes 
ao pé nova terra ou mate. . .» 

(242) Ariá. — Arria. 

(243) Jangòm. — Milho, maçaroca de milho. Vem do malaio, como se poderá ver em ^^Oiir tropical posses- 
^ions in malayan índia», por ,lohn Cameron, Londres, i863, pag. 99, em que diz: and bolh were contentedly 
chewing atjagong (indian com /...<> e na cit. lista de palavras francezas e malaias, onde está djagon com a signi- 
ficação de mais. 

(244) Mima. — Amimar, amimou. 

(245) Livráprcle. — Livrei para elle ; livrei-o. 

(246) Trunco — Tronco, nome muito usado antigamente em Portugal para designar cadca ou calabouço. 

(247) Copo-copo. — Borboleta branca. — Não sei a origem d'essa expressão. 

(248) Pano Manila. — Pano de algodão estampado de riscas ou xadrez, de cores vivas, muito estimado pelas 
mulheres antigas de Macau, pela sua longa duração.Estes pannos eram fabricados em Manila, cuja influencia, pela 
sua proximidade e pelas suas continuas relações em Macau, foi muito duradoura. Eram também pelos macaistas 
muito apreciadas as deliciosas mangas e os bolos chamados broas de Manila, que, nem de longe, se parecem com 
as celebradas broas do Natal reinol — o mais horroroso producto que a confeitaria lusitana tem inventado para dar 
cabo de estômagos enfermiços I 

(249) Bajit. — Casaco de forma especial que usavam antigamente as mulheres de Macau e ainda hoje as da 
classe baixa. A celebre viajante Ida Pfeiffer, na narrativa da sua segunda viagem á roda do mundo (ed. de Paris, 
j857, pag. i63 e 164), refere-se aos padjus usados pelos malaios. 

(250) Vivo de beli^ maroto, arro^ grosso. — Não sei o que significam estas expressões, nem me souberam 
dar d'ellas explicação pessoas de Lisboa que eu julgo tamiliarisadas com o dialecto. Far-me-hia favor quem me 
podesse elucidar sobre o assumpto. 

(25i) Apò. — Mulher chineza. — .ipn pedi esmola, mendiga china. 

(232) Ucho. — Um abraço muito apertado e terno, rodeando com os braços a cabeça do abraçado. 

(253) Fede fumo. — Cheira a fumo. Antigamente em Macau as mulheres fumavam, uso introduzido de Ma- 
nila, onde as senhoras da classe mais elevada se dedicam a esse passatempo. 

(254) Boca chacha. — Boca de velha, sem dentes. 

(255) Cachóro assado. — Para perceber esta expressão é necessário que o leitor saiba que os chins comem 
cão assado, além d'outros acepipes de igual género. 

(356) Aa mas. — Simplesmente. 

(257) Umchinho. — Um poucochinho. 

(258) Imbigo de frade. — Nome d'uma sopa da cosinha macaista. 
(25()) Unsom ou unsong — Sosinho, a. 



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(260) Fuga — Refugar, refuguei. 

(261) Ova de aranha, bichobicho, bolo rera (raivas) bolo podre, etc. — doces e bolos de Macau. 
(■262) Cucu^ — Cosido em banho-maria. — Vem provavelmente de cusciís ou cuscussu. 

(263) China merenda — China confeiteiro que leva os bolos a casa dos íreguezes, na hora da merenda. 

(264) Eu que sabe! — Eu sei lá ! 

(265) Sá tem. — E' que ha. 

(266) Minha Deus alembra. — Refere-se ao fallecido marido. E' o mesmo que se dissesse em portuguezr 
aquelle que Deus tem. 

(267) Rusíi nafugão. — Significa ir queimar-se ou assar-se Junto ao fogão, ou com a calor do fogão, 
isto é, tornar-se em gata borralheira, como diríamos em Lisboa. 

(208) Pau sibocau. — Não consegui averiguar qual seja o pau que tenha este nome, com que a valente Maria 
traduz as lettras P. S. do post-scriptum em verso do major inimigo das mulheres; mas basta ao leitor, para per- 
ceber o sentido da phrase, que tem muita graça, o saber que a defensora das fêmeas imaginou que o seu contendor 
a ameaçava com um marmelleiro! 

(269) Prende sorte. — Aprender o jogo do pau á chineza. 

(270) Pili^á. — Questionar, fazer questão. Vem de peltjar. 

(271) Jà Cava — Já se acabou. Vide nota 121. 

(272) Daiom ou daiong. — Um pau com o feitio de remo, com que se meche a alua (vide nota 20S) quando é 
feita em muita porção, em grande tacho ou bacia de arame ou de cobre. Ha aqui n'esse trecho um jogo de pala- 
vras entre alua (bolo) e alua e aluado (influenciado pela lua, nervoso). E como o major parece ter ameaçado a 
defensora das mulheres, esta lembra-lhe que ao pau sibocau (que é como interpretou as lettr;is P. S. do post- 
scripto) poderá responder com o daiong de fabricar alua. E' como responderia a padeira de Aljubarrota com a 
pá do forno, se a ameaçassem com um pau. 

Daiom ou daiong é palavra malaia que significa 7-emo, como está na lista das palavras malaias e francezas a 
que me tenho referido e onde encontro daiotig traduziao por aviron. 




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Ura a obra benemérita 



Um appello aos porliiguezes do Exlrciiio Oiieiílo) 



1^^^ ECEBEMOS, já fora de tçmpo para entrar no numero passado da 
i^-M nossa Revista, a seguinte circular da Meza da Assistência Na- 
cional aos Tuberculosos, a benemérita Obra que bastaria para 
tornar immorredouro o bemdito Nome de Sua Magestade a 
Rainha, se outras Obras semelhantes não tivessem já de ha muito consa- 
grado para todo o sempre esse Nome como o d'uma d'essas Soberanas 
que reinam mais pelo Bem que praticam do que pelo Poder que lhes deu 
o Destino. Depois de, com uma dedicação e caridade incomparáveis, ter 
tratado das creanças anemicas e enfezadas que, á mingua de carinhos ou 
de recursos, iam encher os covaes dos cemitérios, victimadas pela doença 
e pela miséria — creando em Portugal a nunca assaz louvada instituição 
do Dispensário, — quiz a Excelsa Princeza ir mais longe e dar maior exten- 
são á sua Obra benéfica e caritativa. Não bastava ao seu coração de Mãe 
tratar de amparar e de proteger as creanças contra a doença e contra a 
fome para garantir uma geração de filhos do Povo aptos para o trabalho 
e para a lucta pela vida. Era preciso á Rainha que essa protecção se es- 
tendesse aos próprios adultos, fortes ou fracos para essa lucta, contra um 
mal terrível, que, n'um relance, pode abater o homem mais valido e mais 
são, como são abatidos os grandes robles ou os carvalhos seculares, 
quando a podridão lhes mina os troncos e as raizes. D'ahi a creação da 
Assistência contida a tuberculose, que foi saudada por todo o paiz com um 
coro de bênçãos e veio completar a Obra emprehendida pela Mãe e pela 
Rainha dos portuguezes. 

Er pequena a nossa esphera de acção, limitados os nossos recursos, e 



'98 

nenhuma a nossa influencia. Mas esse pouco está á disposição da Grande 
Obra, como uma simples pedrinha na grande massa d'um edificio. Por 
isso, pubHcando a circular, levantamos o nosso humilde brado, que cer- 
tamente será escutado pelos nossos patrícios do E^xtremo-Oriente, que 
tantas vezes demonstraram os seus sentimentos caritativos e patrióticos 
sempre que se tem tratado de debellar as calamidades nacionaes. E a tu- 
berculose é uma d'essas calamidades, talvez a maior de todas, que trai- 
çoeiramente mina uma raça, como essa doença traiçoeira das «brandes ar- 
vores pôde abater uma floresta. 
Segue a circular: 

.. .Sr. — Confiado nos sentimentos generosos de T'., vem hoje a Mesa 
da Assistência Nacional aos Tuberculosos, constituída sob a Augusta 
Presidência de Sua Magestade Q.4 Cainha, rogar a í '. que se digne an- 
nunciar ao publico, nas columnas do seu mui lido jornal, achar-se aberta 
■até ao dia 25 de 'T)e:[embro próximo a subscripção geral para a funda- 
ção da Assistência Nacional aos Tuiíerculosos, c receber as adhesôes 
que na redacção d' esse jornal se manifestarem, transmittindo d Secretaria 
d' esta associação, depois de preenchidas, as listas de subscripção que V. re- 
ceberá juntas. 

Sua Magestade Qá Rainha, ao iniciar os trabalhos para combater um 
dos maiores males que afligem a humanidade, manifestou o desejo de que 
todos concorressem para esta obra meritória na proporção dos seus meios 
e recursos; é pois a todos os cidadãos portugueses, que a Me:;a sç dirige, 
por intermédio da Imprensa, afim de angariar os recursos de que ne- 
cessita. 

E nunca os haverá de sobra quando é tão grande o mal, quando são 
tão variados e dijficeis de pôr em practica os meios capares de lhe minorar 
os effeitos ; por isso também não haverá esmola que não seja recebida com 
apreço, nem concurso que não seja acceite com gratidão. 

0,4 V., e ao seu jornal, pede a Me^a que, publicando a presente cir- 
cidar, empenhem toda a sua influencia a bem de uma obra com que a na- 
ção inteira tem máximo interesse; quer promovendo agora subscripçóes, 
quer tornando conhecido o fim que a c4ssistencia se propõe e solli citando 
para ella ulteriores cooperações. — T)eus guarde a V., Lisboa, 1 5 de No- 
vembro de iSgg. — . . . Sr. Director do jornal o Ta-Ssi-Yang-Kuo.» — Mar- 
quey da 'Praia e de Monforte, 2.° Presidente; José Mar'ia dos Santos e 
José Joaquim da Silva dimado, Vice-Presidentes; 'D. Qyintonio de Len- 
castre, Secretario Geral; oAntonio Q.4ugusto 'Pereira de Miranda, The- 
soureiro; Dr. Jlceníe 'J{odrigues Monteiro, Advogado; Carlos l^oma du 
Bocage, i." Secretario; Guilherme Maria da Silva Jones, 2.'^ Secretario. 



IQC) 



A subscripção geral terminou, conforme declara a circular, em 2 5 de 
dezembro, mas, no ultimo período delia, se diz que se acceitam ulteriores 
cooperações. 

Sendo, como é, o Ta-Ssi- Yang-Kuo publicado em Lisboa e, portanto, 
longe dos centros da vida portugueza no Extremo-Oriente, resolvemos não 
abrir n'esta Revista a lista da subscripção, que pôde ser feita pelas diver- 
sas communidades nos seus centros de residência e o producto enviado 
directamente ao Thesoureiro ou a qualquer dos membros da Meza de As- 
sistência Nacional aos Tuberculosos. 

Entretanto, publicaremos com a melhor vontade, todas as listas que 
nos forem communicadas, e incondicionalmente nos collocamos á disposi- 
ção de todos os auxiliares da grande Obra de Sua Magestade a Rainha. 




/ 



OPINIÃO DA IMPRENSA 



(Coara. tlsa-Mação) 

Ta-Ssí-Vaii^-Kaó. — E' este o titulo d'uma revista que deveria ter apparecido 
em Lisboa nos primeiros dias de outubro. E' seu director e fundador o nosso presado 
amigo sr. Joíío Feliciano Marques Pereira, um jornalista distinctissimo, que tem affir- 
mado o seu alto valor de escriptor principalmente nas suas chronicas sobre assumptos 
do Ultramar, que conhece proficientemente. O Ta-ssi-yang-laió^ que quer dizer «Grande 
reino do mar do Ueste», e que tem por subtítulo — Atxhivos e Annaes do Extremo 
Oriente 'Portugiiej, interessa directamente esta colónia ; e por isso é com duplo rego- 
sijo que annunciamos o próximo apparecimento d"esta Revista. 

O sr. Marques Pereira é um íilho illustre d'esta terra, e como tal, é elle aqui sobe- 
jamente conhecido para que nos dispensemos de apregoar as suas incontestáveis quali- 
dades de talento e de incansável trabalhador. A revista, que sairá todos os mezes, cons- 
tituirá um titulo de inolvidável gratidão para o seu auctor por parte de todos os habi- 
tantes d'esta colónia e de todos os portuguezes que se acham espalhados por este Ex- 
tremo Oriente. 

E' ella editada pelo livreiro sr. José Bastos, successor de Bertrand. 

Foi em obediência a dois sentimentos, qual d'elles mais elevado, que o sr. Marques 
Pereira emprehendeu uma tal publicação : — o da Pátria e o da piedade filial ; pois seu 
pae, o saudoso escriptor António Marques Pereira, teve aqui, como se sabe, um jornal 
com o mesmo titulo. 

E' o próprio auctor do Ta-ssi-yang-kuó que nos diz o seguinte, sobre o que será a 
sua revista : 

(Transcreve o programma a pag. 12.) 

Não pode ser mais interessante, como se vê, esta publicação, e principalmente para 
nós a quem mais directamente se refere. Anciosamente, pois, aguardamos a chegada do 
i.° numero do Ta-ssi-yang-kuó ; entretanto agradecemos ao auctor, e comnosco de certo 
toda esta colónia, o' importantissimo serviço que lhe vae prestar com uma tal publica- 
ção. 

(O Lusitano, de Macau, de 19 de novembro.) 



Ta-9Ni>Tanj^-líuó — Archivos e annaes do extremo Oriente portuguez. — Di- 
rector, J. F. Marques Pereira. — Vai no segundo numero de publicação esta notável re- 
vista que o intelligente e erudito escriptor J. F. Marques Pereira, bem conhecido no 
jornalismo pelas suas magnificas chronicas sobre assumptos coloniaes, começou de pu- 
blicar em Lisboa. 

De ha muito que se não intenta entre nós publicação de mais alevantados intuitos 
patrióticos, pois que o seu intelligente director vem desinteressadamente pôr ao serviço 
do paiz o resultado das suas laboriosas investigações de tantos annos, tornando conhe- 
cidos factos e documentos, muitos d'elles ignorados, sobre a historia d'esses remotos 
paizes do extremo oriente, em que o nome portuguez foi temido e respeitado durante 
tantos séculos. 

Para titulo da sua revista, escolheu o sr. Marques Pereira o mesmo que teve um se- 
manário que, entre i8ó3 e 18G6, publicou em Macau seu pae, António Feliciano Marques 
Pereira, distincto funccionario do ultramar e escriptor erudito, palavras que em portu- 
guez querem dizer — «Grande reino do mar de oeste» — nome porque na Chma era 
conhecido Portugal. 

No primeiro fascículo da sua notável revista e dando a razão da sua arrojada tenta- 
tiva, cita o sr. Marques Pereira o seguinte trecho d'uma carta que dirigiu ao nosso col- 
lega Pedro Fernandes Thomaz, a propósito da publicação da primeira parte dos Ele- 
mentos para historia da Figueira : 



202 



«São canceiras como as d'esses humildes e modestos pedreiros, que, pedra a pedra, 
juntam os materiaes para a construcção d'esses editicios que se chamam os Jeronymos 
e a Batalha. Ha porem uma única e grande differença entre as funcções dos pedreiros 
d'esses edifícios e a dos pedreiros, que como nós, tentam reunir os materiaes para o 
edifício histórico d'um paiz. EUes vão, cegos, guiados pela mão do architecto, que em 
tudo manda, e em tudo superintende, Nós, hurnildes e modestos também, temos, com- 
tudo, o importante papel de guiar o architeto, porque precisamos empregar toda a nossa 
intelíigencia não só na escolha das pedreiras d'onde havemos de tirar as pedras, como 
também no modo de arrumar essas pedras que teem de ser empregadas nas suas syn- 
theses ou edifícios, pelos architectos da Historia, ou historiadores. Damo-nos por bem 
pagos com a própria satisfação do trabalho, aliás verdadeiramente violento, a que nos 
dedicamos.» 

A edição, verdadeiramente primorosa, em magnifico papel e largamente illustrada 
com retratos, fac-similes, etc, é da acreditada Casa Bertrand, e o preço da assignatura 
3^^000 réis por serie de b números. Avulso Soo réis cada numero. 

[A Ga-{cta da Fiíiueira, de i3 de dezembro de iSi_)<) ) 



Aiiiiae*i (lo Kxtronio Oriente. — Com o titulo em chinez de Ta-ssi-yango-Kuo 
(archivos e annaes do extremo oriente portuguez), publicou-se uma interessantíssima 
revista, na qual se compilam esses annaes e cuja direcção pertence ao nosso antigo 
amigo e distincto collega Marques Pereira. 

Além dos seus deveres de funccionario intelligente e zeloso, entrega-se Marques Pe- 
reira com profundo amor ao estudo de todas as questões que interessem as nossas pos- 
sessões ultramarinas e muito principalmente ao nosso dominio na China. 

A' memoria de seu pae, sr. António Feliciano Marques Pereira, é dedicada a revista 
de que nos occupamos, e este sentimento de piedade filial casa-se admiravelmente com 
a justa commemoração dos serviços que tão distincto cidadão prestou á província de 
Macau. 

Temos presentes dois números d'essa revista, na qual encontramos uma collecção 
de artigos muito interessantes, e bellos trabalhos cie gravura representando a morte do 
illustre governador d'aquella provincia Ferreira do Amaral, e o c\irioso fac-siviile d'um 
autographo d"um visitador da companhia de Jesus. 

Editada com muito escrúpulo por José Bastos, a revista ArchivoS e annaes do Ex- 
tremo Oriente Português possue muitos elementos para ser deveras apreciada por to- 
dos quantos tomam interesse pelo nosso dominio n'esses remotoslogares. 

Felicitamos sinceramente Marques Pereira pelo êxito da sua louvavef tentativa, sen- 
tindo que circumstancias de todo extranhas á nossa vontade só nos permittissem dar 
agora noticia da apparição d'esta revista, cuja ofTerta agradecemos. 

(O Tempo, de 22 de dezembro.) 




Erratas. — É nosso intento apresental-as só no fim de cada volnme ; mas tendo escapado: a pag. loi, 
SuJre^ por Sucie; ; a pag. 1 18, Torim por Timor ; a pag. 127, IJmau por Linneu ; a pag. 142, Col. de Estudos 
por C. de Tratados; julgamos conveniente fazer desde já as devidas rectificações. 



EXTRACTO DO CATALOGO 



DA 



Antiga Casa Bertrand-José Bastos-Lisboa 



AtravoK doíí Mares* (Recordações da índia), por Oliveira Mascarenhas e António 
Monteiro. 1 vol. com 40 estampas, ISOOO réis. 
Matérias contidas n'este volume : 

PARTE l.a 

Capitulo primeiro: De Lisboa a Ceylào — Diário de viagem: As refeições do Rewa — 
O Capitão Loutit — Musicomanos — O Santos e Silva — O Martins de Barros — 
Tarifa — Tanger — Ceuta — Inglezes e romanos — Pelas costas de Marrocos — 
Amor a bordo — No golfo de Leão — Pelas costas de Tunis — Primeira borrasca 

— Depois do balanço — Zambra e Pantellária — Um concerto musical no con- 
vez do Eeír« — Gozzo — Malta — Grande tempestade junto a Creta — Ligeiras 
considerações com relação á Grécia — A Turquia e o seu exercito — Nas costas 
do Egypto — Damietta — Port-Said — Os vendilhões egypcios — A esplendida 
cidade do Baixo-Egypto — O seu commercio— Os cafés concertos — O bairro 
árabe — Os fellahs e os cophtas — Os mendigos — As almées — A policia e os dra- 
gomans — Costumes — A mesquita musulmana — Pelo canal — As estações fran- 
cezas — Suez — Pelo mar Vermelho - O monte Synae — Um vapor naufragado 

— Aden — Os mergulhadores árabes — A cidade do Yemen — A policia árabe — 
As grandes cisternas — Bedidnos e feheles — Costumes — Os túneis d' Aden — Em 
direcção a Colombo — Socotorá — Bancos de coral — Maldivas e Laquedivas — 
Ceylào — As tones — A magnifica cidade da Taprobana — Seus templos, edifí- 
cios, commercio, industria, habitantes, costumes, viação e monumentos. 

Capitulo segundo: De Ceylào a Gôa — O Bancoora — O fficiaes portuguezes n'um tran- 
sporte de cavallos — Os officiaes do síeamer — Ricardo Dagge — Pela costa do 
Malabar — Cochim — Os marinheiros portuguezes — Um assalto de bandidos á 
guarnição do Bancoora — Decapitação de 72 odaliscas — Encarceramento do rei 
de Burma — Suggestões inglezas — Cidade de Mormugão — Impressões desalen- 
tadoras — Um caminho de ferro infeliz — Descuidos d'uma repartição militar 

— Providencias disparatadas — Sm char-à-bancs para Pangim — Cocheiros e ali- 
márias — Os hotéis — Descripçào de Pangim — Os seus costumes, habitantes, 
commercio, industria, edifícios, instrucção, ruas, praças e arrabaldes. 

Capitulo terceiro: De Mormugão a Bombay e a Damão — Salsete, Chandrovadi e Eni- 
barbacem — <Si7í«5rrr;><JO,s e ca/r/coniíos — Florestas — A Jhidh-Sagôr ~lná\^, bri- 
tannica — Poona — Collina P«rk(íi — .lardim Hira — Yergeis Bundgardens — 
Pelo Beccan ~ Victoria Términus — Bombay — Descripçào da grande cidade in- 
gleza — As dakmas ou Torres de silencio — Dois francezes — Bombay á noite — 
O porto — A Cammatteopoora — Em caminho de Vappy — De Vappy a Damão — 
Uma desillusào — Os trez bairros de Damão — Ruinas e ruinas — Misérias e 



EXTRACTO DO CATAT,OriO DA ANTIGA CASA BERTEAND 



desleixos — O território portuguez, e uma espécie d' ilha sécca — Praganã-Nagar- 
Avely — As aldeias da Pragana — Commercio, industria, habitantes e salubri- 
dade de Damão — Mattas do Estado. . . e diversos assumptos. 

■Capitulo quarto: De Bombay a Pangim, pelo mar — A viagem no Shiravati — As nos- 
sas antigas fortificações — Os Índios e os seus costumes — As noites da índia 

— O Mandovy — O polacio do Cabo — Os fortes da Aguada e Reis Magos — Ri- 
bandar — Velha Gôa — Ruínas d'uma cidade notável — Alguns mezes em Nova- 
Gôa — Festas em honra do sr. Infante D. Affonso — Ranes e maharattas — Ori- 
gem da sublevação — O forte de Nanuz — Roubos e morticínios — A expedição 
do sr. Infante — Barricadas — Campanha de Satary — Pacificação temporária — 
A amnistia — Despedida de Sua Alteza e das forças do seu commando — Rece- 
pção do sr. conselheiro Neves Ferreira — Novos assaltos das quadrilhas — A 
portaria dos fuzilamentos — Repetição dos assaltos, roubos e morticínios — 
Raugy Rane — A imprensa — As columnas dos capitães Soares Branco e César 
Oom — A obra administrativa do sr. Neves Ferreira — O exercito indiano. 

PARTE 2.a 

•Capitulo primeiro: A índia, segundo os brahmanes — Resumo histórico. 

Capitulo segundo: índia cisgangetica — índias ingleza, franceza e portugueza. 

Capitulo terceiro: O que fomos e o que somos. 

Capitulo quarto: Castas hindus — Suas divisões e suh-divisões — Os brahmanes, 
kxatrias, vasyás e sudras — As bailadeiras — Os parses, sua vida e morte — 
As dalcmas — Europeus, nativos, descendentes e mouros. 

Capitulo quinto : Costumes hindustanicos — Leis de I^lanú — Cultos gentílicos — 
Deuses e pagodes — Brahma, Sivá e Vishnú — Dogmas — Seitas — Os saktas 

— Monstruosidades religiosas — Pagodes. 

Capituto sexto : Geologia, mineralogia e flora da nossa índia — Relatórios officiaes 
(transcripções). 

PARTE 3.a E ULTIMA 



Capitulo primeiro: Preparativos de viagem — Jornada nas Novas Conquistas — Dur- 
bate — Pondá — Pagodes de Queulá — As bailadeiras e o capitão Paulo Júdice 

— O rei de Sundém — Historia do reino de Sunda — Regresso a Pangim. 

•Capitulo segundo : A nossa partida por Bombay, Arábia, Egypto, Itália, França, 
Gibraltar e Andaluzia — A peste bubonica — Desolação em Bombay — Um 
grande risco — Atravez do oceano indico e mar Vermelho — Tempestades 
no mar Jónico e no Mediterrâneo — Bríndisi, Nápoles e Marselha — Gibraltar 

— O furto d'uma mala, e os pidc-pockets — A praça ingleza — Em Algeciras — 
Violências do fisco — Uma desforra jogral — Atravez d' Andaluzia — Uma noite 
em Córdova — A cidade do Guadalquivir — Monumentos — No theatro — A ca- 
minho de Badajoz — Chegada a Lisboa. 




ÁSIA SINICA. E JAPONICA 



Macao conseguido, e perseguido 



Inédito do Frade Arrabido, José de Jesus Maria, 



Missicoano nos Estados ái índia. 




^^jo celebre Arrabido, Frei José de Jesus Maria, disse eu (apag. 163) 
I que era a volumosa obra manuscripta que me veio parar ás 
mãos — «/Is/a Si nica e Japonica» (1). 

E o leitor, costumado a manusear o Diccionario de Innocencio 
ou a Bibliotheca Lusitana de Barbosa Machado, terá certamente julgado que 
eu me referira ao conhecido continuador da Chronica úa provinda de Santa 
jVlaria da Arrábida, iniciada por Fr. António da Piedade. 

Também julguei ao principio que fosse o mesmo ; mas esse era natural 
da villa dos Arcos de Vai de Vez, emquanto o auctor da Ásia Sinica e Ja- 
ponica era de Lisboa, como elle próprio affirma no final do manuscripto, 
quando diz: 

« pesso aos leitores de Macao se não escandelizem, e eu me so- 

geitarei de muito boamente por castigo (já que agora me não posso hir, 
pois o respeito e affecto de quem manda e pode, me não deixa, e me em- 
pede) que para a Cidade de Lisboa, em que nasci, delligenceem o meu re- 



(1) Pertence actualmente á Bibliotheca do Ministério da Marinha, 

N." ^. — Janeiro de 1900. 



204 

tiro deste Macao, em que com justa razão (pello lamentável estado em que 
por todo sintido se está vendo e acabando de todo, se alguns sinistramente 
me considerão) eu mesmo me reputo degredado.» 

D'onde se conclue : 

1.° — que o auctor era natural de Lisboa; 

2.° — que o manuscripto foi escripto em Macau. 

E, por consequência, não podia ter sido escripto pelo alludido chronista. 



Além d'esse auctor, Innocencio só dá conta de mais outro com o mesmo 
nome, Carmelita descalço, mestre e chronista da mesma Ordem e natural da 
villa de Almendra. 

IVlas Barbosa Machado, além d'esses, cita mais seis com a mesma deno- 
minação, entre os quaes três Arrabidos e d'estes só um natural de Lisboa, 
de quem diz que teve por pães a Gaspar Rebello de Azevedo e Izabel Maria 
da Silva; que abraçou o Instituto Seraphico em o convento de N. Senhora 
dos Anjos, situado em a villa de Torres Vedras da Província de Arrábida, 
onde professou solemnemente a 26 de março de 1704; que se applicou a 
todo o género de erudição em que sahiu egregiamente versado; que foi 
Pregador do Infante D. Francisco, e três vezes Guardião do convento de 
Santa Catharina de Riba Mar, etc. E dando conta das suas obras, cita : Aca- 
demia singular, etc. — Lisboa, 1737, foi.; Brognolo recopilado, methodo de 
exorcisar, — Lisboa, 1725 e Coimbra, 1727, 8.°; e Jardim evangélico plan- 
tado no campo da Igreja, Sermões, etc, manuscripto in-4.° 

Seria este o auctor da Ásia? 

Mas, se o foi, não é para admirar que Barbosa não fizesse referencia á 
sua estada em Macau, onde compôz o manuscripto entre 1744 e 1745 (1)? 
E se professou em 1704, não é para admirar também que, quarenta annos 
depois, ainda tivesse forças para supportar o clima asiático? Todas estas 
duvidas se tirariam se Barbosa Machado tivesse dado a data do nascimento 
e morte do auctor da Academia singular 

Se não foi esse o auctor da Ásia, também o não foi nenhum dos Arra- 
bidos citados por Machado, cuja obra se principiou a publicar pouco mais 
ou menos na mesma epocha em que o nosso Fr. José escrevia em Macau 
a sua, visto que o 1.° tomo da Bibliotheca Lusitana sahiu em 1741 e o ul- 
timo (Supplemento) em 1759. ' ' 

Com tempo e vagar talvez conseguisse aclarar bem esse ponto obscuro; 
mas, solicitado por diversos estudiosos para que encetasse desde já a pu- 
blicação da Ásia Sinica e Japonica, resolvi deixar para mais tarde esse escla- 
recimento, e satisfazer immediatamente os desejos d'esses meus amigos, 
principiando n'este numero a transcripção da curiosa obra inédita, a que, até 
hoje, que me conste, nenhum escriptor se referiu. 



(1) A pag. 118 do manuscripto diz o auctor, quando apresenta a lista dos capitães 

geraes de Macau: 

«Cappitaens geraes desta cidade athé o prezente anno de 7744.» 

E no Index (Cap. x do L. x): 

« desde o anno de 1740 athé o de 45 em que estamos, no qual dou fim a esta 

obra e me retiro, antes que o veja perecer.» 



2o5 



Tem o manuscripto 351 paginas escriptas pela mesma lettra, muito re- 
gular, com tinta sempre egual, tendo algumas annotações de data mais 
recente; mas também escriptas pela mesma pessoa. Antecede-o uma folha 
onde, por mão differente, se escreveu o seguinte titulo: 

Asia S/n/ca, e Japonica: 

Mac ao conseguido, e perseguido. "* 

Obra posthuma do R. P.^ Fr. 

Jozé de Jesus Maria, Arrabino, 

Missionário nos Estados da índia. 

Segue-se uma outra folha, de formato muito mais pequeno, encader- 
nada (1) juntamente ao manuscripto, mas de lettra differente, com o se- 
guinte Soneto : 

Em aplanzo do R. P. Preg.°'' Fr. José &.* 
na composição de bu livro q.' se intitulla Asia Synica e Japonica 

SONETO 

Neste livro se vem sempre notórias 
Da Asia, e do Japam suas grandezas, 
Que vencerão as armas portuguezas, 
Com guerras y com façanhas, com victorias. 

Eternas ficam sendo estas memorias 
Nestas vossas noticias, e clarezas, 
Dos Luzos as conquistas, e proezas. 
Que Itie cantão na fama tantas glorias. 

Quem este livro ler, sempre Jucundo, 

Verá sem confuzam, e raridade, 

Que sois sábio escriptor, alto, e profundo: 

Pois na historia mostrais tanta verdade, 
Que sendo a Asia a mor parte do Mundo, 
Foi vencida da Luza herocidade. 

dice 

Fr. José (2) 

ex-provincia Algarbiorum. 



(1) O manuscripto foi encadernado ha uns vinte ou trinta annos, segundo se pode 
concluir do estado dessa encadernação, em meia ingleza e papel. Felizmente o enca- 
dernador não lhe cortou as margens, que estão intactas. 

(2) E' curioso notar que o nome foi propositadamente rasgado e não comido o pa- 
pel pela traça. 



2o6 



Segue-se o Index, escripto pela mesma mào que traçou todo o manu- 
scripto. Transcrevo-o na integra, porque por elle verá o leitor a importân- 
cia da obra que tive a felicidade de salvar do esquecimento em que jazia, 
fornecendo aos estudiosos, não só de Portugal, como do extrangeiro, uma 
inexgotovel fonte de informações e de dados importantíssimos para a histo- 
ria da expansão portugueza e da^, propaganda christã no Extremo-Oriente. 

Em muitos pontos da obra Fr. José de Jesus Maria extracta as de ou- 
tros auctores; mas, em outros, presta informações pessoaes de grande valia 
como quem foi testemunha presencial dos acontecimentos. 

Não encontrará o leitor n'ella grandes bellezas litterarias; mas uma pro- 
funda erudição, resultante d'um grande trabalho que teve quem escreveu 
essas linhas que vão ler-se. E o nosso principal intuito não é n'estes Annaes 
apresentar peças de litteratura que primem pela belleza da forma, mas pelo 
valor histórico e pela veracidade dos factos narrados. 

Index dos Livros, e Capítulos, que se coníeem neste volume 

LIVRO 1 
Ãpparato a esta obra. 

Cap. I. — Mostra-se summariamente o Estado do Mundo; desde o seu 
principio até o tempo prezente, na Azia instruído, e destruído. 

Cap. II. — Mostra-se em summa o que é a Azia: a vastidão do terreno 
que esta primeira parte do Mundo comprehende; a multidão de Reynos, e 
Impérios, em que se divide. 

Cap. III. — Da falsa Relligiào, Seitas, e Idolatrias, em que quazi toda a 
Azia, o Indostão, Japão, e China se prevaricou. 

Cap. IV. — Quiz Deos acudir á perdição de tantas Almas redemidas já 
com o preciozo sangue de seu Filho, e manda-lhe ministros Evangélicos, para 
os instruir na verdadeira Relligião, com a Doutrina, e Luz da Fé. 

Cap. V. — Dos volúveis estados, em que depois de morte do Apostolo S. 
Thomé se vio a Igreja nos seguintes séculos, com repetidas opposiçoens á Fé e 
Christianismo, nesta Azia Mayor tão perseguido. Expoem-se socessos vários. 

Cap. VI. — De como os Sereníssimos Reys de Portugal noticiados de tão 
infaustos socessos da Christandade na Azia, intentarão propagar nella a Fé 
de Christo, e emfim o pozerào em execução ahinda a força de armas, sendo 
entre as nações Européas os primeiros descobridores e conquistadores deste 
Empório. 

LIVRO 11 

Mudança que os Portuguezes fizerão do Indostão para a China, depois 
de alcançar tantos tiiumfos. 



Cap. I. ■ — Do motivo que alguns Portuguezes tiverão, para vir habitar este 
terreno. 

Cap. II. — Chegão os Portuguezes a Liampó; e emquanto cuidão no modo 



207 

de se estabelecer, se mostrão alguns socessos, que a outros derão muito 
que cuidar. 

Cap. III. — Mostra-se a Liampó, primeira habitação dos Portuguezes na 
China brevemente elevada ao ser de Cidade populosa, e emfim a breves cin- 
zas reduzida. 

Cap. IV. — De como sendo Liampó já desbaratado, levantarão os Portu- 
guezes nova Povuação em Chincheo: nota-se o que ali lhe socede. 

Cap. V. — De como os Portuguezes que escaparão da perdição de Chin- 
cheo, andarão bastante tempo foragidos por estas ilhas da China, e buscarão 
as de Sanchoão, e Lampacau, para ahi refugiados negocearem. 

Gap. VI. — De como os Portuguezes conseguirão dos Chinas a Península 
de Amagao (hoje Macao) para sua habitação, e comercio. 

LIVRO 111 

Do famoso Império da China, em que Macao se acha situado. 

Cap. I. — Do principio, antiguidade, e primeiros Imperadores desta Mo- 
narchia. 

Cap. II. — Das soblevaçoens, divisoens, e motins, que houve no Império 
da China em tempo de seus antigos Monarchas, conforme o que em suas 
genealogias Mendonça, e Morery escreverão. 

Cap. III. — Da grandeza extensiva d'este Império, seus lemites ordiná- 
rios edeficios, cidades e numero dos seus habitadores. 

Cap. IV. — Da principal Corte da China, em que habita o seu Monarcha: 
Pallacio de sua Residência: guardas e Estado, quando sahe a publico. 

Cap. V. — Continua a mesma matéria com coriosos additamentos. 

Cap. VI. — Da abundância de géneros que ha neste Império, preciozis- 
simos para a subsistência de tal multidão de gente. 

Cap. VII. — Das riquezas e preciozidades que ha neste Império. 

Cap. VIII. — Do modo do governo, justiça e politica do Império Sinico : 
Moeda que nelle corre: Ley que seus habitadores proffeção : e modos com 
que no comer, dormir, e vestir, e morrer, se tratão. 

Cap. IX. — Continua e conclue a matéria do capitulo precedente. 

Attencioso Protesto sobre os Capítulos deste 3.° Livro. 

LIVRO IV 
Macao conseguido. 

Cap. I. — Das primeiras acçoens dos Portuguezes em Macao, tanto que 
conseguirão o habitar neste terreno. 

Cap. IL — Dão conta os moradores de Macao a seu legitimo Rey e Se- 
nhor Dom Sebastião dos felices progressos em que esta colónia se achava: 
pedem-lhe Bispo para bem de tantas Almas que neste Império, como no do 
-Japão se podião reduzir, além das que já estavão. 

Cap. III. — De todos os lllustrissimos Bispos, com que os Pontífices 
Romanos e Reys de Portugal tem concorrido a favor do Christianismo da 
China, e Japão, depois de terem os Bispos Sirianos prevertido a China. 
Vão na apostilla, e á margem, para boa intelligencia as clarezas necessárias. 

Cap. IV. — Catalogo especial dos lllustrissimos Bispos Diocesanos desta 



2o8 



Cathredal de Macao: tocão-se algumas cousas particulares suas: mostra-se 
quem forão os Governadores que nas suas vacâncias teve este Bispado. 

Cap. V, — Dissertação problemática, em que prevalece a parte affirma- 
tiva sobre o Capitulo penúltimo, que contem o Catalogo geral de todos os 
111. "'^^ Bispos que tem vindo á China; e comprova com effeito terem sido 
Religiosos Franciscanos os primeiros que tiverão á sua conta toda esta 
Christandade. 

Cap. VI. — Dos incidentes que occorrerão, e motivos que houverão para 
se faltar ao provimento socessivo de Prellados a esta Diocese de IVlacao, 
do que rezultarão tão prolongadas vacâncias. 

Cap. VII. — Socessos na maior vacância desta Sede: resoUução no pro- 
vimento destes Bispados, e acção justificada que para isso tinhão os Reys 
de Portugal, fundada em diversas Bulias, com que os Pontífices Romanos 
lhe tinhão concedido o Direito do Seu Real Padroado. 

Cap. VIII. — Catalogo dos Missionários, que tem vindo a Macao: nume- 
rando também muitos que forão para o Japão, da Companhia de Jesus. 
Tratados das Relligioens Dominicana, Augustiniana, e Franciscana. 

Cap. IX. — Catalogo dos Relligiosos da Sagrada Companhia de Jesus, 
que por este porto, e porta de Macao entrarão Missionários Evangélicos, 
para propagar a Fé neste Império da China, e daqui se dividirão para ou- 
tras missoens como de Tumkim, Conchinchina, &^ e alguns ficarão nestes 
2 collegios de Macao. 

Faz-se também menção de outros P. P. de diversos Institutos. 

Cap. X. — Explana vários accidentes, que no espiritual e temporal se 
observarão em os annos socessivos, athé o de 1623. 

LIVRO V 
Macao enDobrecldo, e augmentãdo. 

Cap. I. — Nova mudança de governo: creação desta Colónia em Cidade: 
Privilégios que lhe concederão: Cappitaens Mores, que a principio, e depois 
Cappitaens Geraes que até o tempo presente a governarão. 

Cap. II. — Achão-se os Portuguezes de Macáo satisfeitos do novo modo 
de governo desta cidade: empenhão-se para concluir o seu Cerco, e novas 
Fortalezas, guarnecendo-as de boa artelharia ; continuão ao mesmo tempo 
suas negociaçoens ás feiras de Cantão, e ao Japão suas viages, como tam- 
bém a Manila Timor, e outros portos. 

Cap. III. — Decadencias, e infelicidades grandes, que desde o anno de 
1638 Macao experimentou com perseguiçoens e perjuizos de todos seus 
habitadores. 

Cap. IIII. — De como não obstante a hinibição do imperador do Japão 
quiz Macao tentar sua Fortuna: Socessos que experimentou, e varias re- 
prezentaçoens que delles fez, na delligencia de evitar maior mal. 

Cap. V. — Entra o Senado de Macao em requerimentos com El-Rey Fel- 
lippe, para conceder a esta Cidade livre o negocio de Manila para sua sub- 
sistência, soluto o impedimento das feiras de Cantão : toca no final so- 
cesso de todas as dependências do Japão e remette hum expresso, anno 
de 1640. 

Cap. VI. — De como resolveo o Senado de Macao se preparasse hum 
navio, para mandar quatro Embaixadores ao Japão: expoem-se o socesso 
desta Embaixada. 



209 

Gap. VII. — Continuão os socessos mais notáveis deste tempo: acha-se 
jVlacao com o maior excesso perturbado, posto em guerras civiz : acode a 
Malaca com o possivel soccorro, e recebe a infeliz notticia de estar já pel- 
los Hollandezes rebeldes tomada aquella importante Praça. 

Cap. VIII. — Continuão a Macao nos três seguintes annos os seus justos 
sintimentos, e irremediáveis perdas, com eminente perigo da total ruina, 
que pertende obviar. Expoem-se alguns socessos que occorrerão nestes 
annos. 

LIVRO VI 

Toma Macau novos alentos com o Fenlx da Lusitânia renascido, esperando melhorar-se 
nas fortunas com o seu Rey natural. 

Cap. I. — Chega a Macao a certa e feliz noticia da gloriosa acclamação 
de El-Rey Dom João o 4.° deSte nome em o Reyno de Portugal; e com 
ella recebe logo esta Cidade mui generozos favores de um Legitimo e ver- 
dadeiro Rey. 

Cap. II. — Toma posse desta Praça de Macao o novo Capitão Geral, e 
a poucos dias manda requerer ao Senado se convoque, para lhe apresentar 
as ordens do V. Rey que trazia, concernentes ao bom governo. 

Cap. III. — Do Solemne Juramento que fez a Cidade de Macao a Seu Le- 
gitimo, natural e novo Rey D. João o 4.° deste nome. 

Cap. IV. — Do que se passou com os Castelhanos que tinhão vindo de 
Manila, e termos com que o Senado se houve aos requerimentos que fize- 
rão : toca-se em algumas dependências q.' no mesmo anno occorrerão. 

Cap. V. — Entrão os Portuguezes de Macao no systema de novamente 
commerciarem com os Japoens, por meio das embarcaçoens de Chinas. 
Chega de Goa Fragata de Guerra com Embaixador para o Japão: dá-se 
noticia do em que parou este projecto. 

LIVRO VU 
Japão descoberto, e encoberto. 

Cap. I. — Da situação, grandeza, e qualidades deste Império do Japão: 
•das suas demarcaçoens, divizoens, viveres, e riquezas que nelle ha. 

Cap. II. — Da figura, génio, inclinaçoens, e artes da gente Japoneza: dos 
seus costumes, ceremonias. Ritos, e Idolatrias, que cegamente observão. 

Cap. III. — He descoberto pellos Portuguezes o Japão: declara-se o so- 
cesso, as temporaes convencionaes que adquirirão, e as espirituaes fellici- 
dades que os Japoens alcançarão. 

Cap. IV. — Principião com effeito as espirituaes fellicidades no Japão, 
com a chegada do S. Xavier; continuão no Japão aos Portuguezes as tem- 
poraes fellicidades. 

Cap. V. — Mandão três Reys do Japão seus Embaixadores a dar obe- 
diência ao Papa, reconhecendo-o Cabeça da Igreja: da-se sumariamente no- 
ticia da viage, e sucesso da Embaixada. 

Cap. VI. — Partem de Roma para se recolherem a seu Paiz, os Embai- 
xadores Japonezes: faz-se sumaria menção do seu regressb e dá-se breve 
notticia de como acharão o seu Império decadente e em estado lastimozo. 

Cap. VII. — Entra Taycosama a imperar no Japão, e logo a fazer barba- 



210 



ridades ; manda-lhe Deos grandes castigos ; mas obstinado, principia a fazer 
borrivel perseguição á Christandade, e seus Missionários. 

Gap. VIU. — Japào encoberto, porque prohibida de todo sua entrada aos 
Christãos : mostrão-se as rezoens conri que os Japoens se pretextarão para 
negar aos Portuguezes de Macao todo o comercio no que se perjudicarão 
gravemente, sem jamais por algum principio os poder conciliar. 

LIVRO VIII 
Macao ateraorisado. 

Gap. I. — Acclamão os Tártaros em Pekim a Xun-hy seu Principe por 
Imperador da China, quasi ao mesmo tempo que em Lisboa acclamarão os 
Portuguezes ao Sereniss. Duque de Bragança por Rey de Portugal. Ex- 
pende-se abreviada notticia das guerras entre as naçoens Tártara e China. 

Cap. II. — Socessos vários em Macao, depois de acclamados os dous 
Monarchas Portuguez, e China. 

Cap. III. — Continuào os socessos infaustos a Macao athé anno de 1662. 
e acabarão dentro deste tempo ambos os Monarchas acclamados. 

Gap. IV. — Chega Fragata de Goa no anno de 1663 com a notticia de 
ser fallecido El-Rey D. João o 4.°, socedendo-lhe no Throno de Portugal 
Ei-Rey D. Affonso 6." seu filho. Recebe o Senado de Macao huma carta 
deste novo Monarcha. 

Gap. V. — Manda EI-Rey D. Affonso 6.° de Portugal a Manuel de Salda- 
nha por seu Embaixador a Kam-hi Imperador da China, e Tartaria. Refe- 
rem-se os socessos da Embaixada. 

Gap. VI. — Chega a Macao o Secretario da Embaixada; dá conta ao Ca- 
pitão Geral, e ao Senado da morte do Embaixador na China: Mostra a 
Carta Imperial, para se traduzir: com ella, e prezente que trazia se em- 
barca para Goa, a avistar-se com o V. Rey, antes de passar a Portugal. 

Gap. Vil. — Entra o novo Imperador Tártaro Kam-hi no Império da China 
a governar; e antes de ter pleno conhecimento e notticia, se aproveita o 
Regulo de Cantão deste meio tempo para perseguir, e exhaurir a esta Ci- 
dade de Macao, pedindo 47 mil taeis. 

Gap. VIII. — Rezollução admittida pelo Senado e Povo de Macao, no 
modo de pagamento do Regulo de Cantão : hida da Prata das Igrejas : Che- 
gada do Enviado que tinha hido a Pekim. Noticias, cartas, expedições e so- 
cessos athé o fim do anno de 1679. 

LIVRO IX 
Macao já felllcitado, mas perlgozo. 

Gap. I. — Chega a Macao feliz noticia da Imperial resollução, permit- 
tindo-lhe o comercio na China, com insinuação para maiores esperanças. 
Dá-se notticia das disposiçoens, variedades e socessos que occorrerão desde 
o anno 1680. 

Cap. II. — Acha-se Macao embaraçado com vários accidentes socedidos 
desde o anno 1683, os quais (sendo-lhe applicados os meios úteis) ficarão 
remediados. 



j 



21 I 



Cap. III. - Socessos de Macao com variedade de syntomas, desde o 
anno de 168ó. 

Cap. IV. — Entra Goa toda cuidadoza em applicar remédios effectivos a 
Macao no anno de 1689, asignando-lhe o exacto regimento que havia ter, 
para evitar as recahidas, mas estas por outros principios se augmentarão. 

Cap. V. — Continuão a Macao no mesmo anno de 1689 mais perigozos 
syntomas, achando-se quasi de todo malignado. 

Cap. VI. — Modifica-se o padecimento de Macao desde o anno de 1693, 
suposto que pella grande extracção de sangue se ache muito debilitado. 

Cap. VII. — He Macao ameaçado de hum tremendo accidente no anno de 
1705, em que chegou a esta terra o S.*"" D. Carllos Thomás Mailiard de 
Tournon Patriarcha de Antioquia, pellas consequências que logo se recea- 
rão, e notticias da Nau em q.' veio de Manila. 

Cap. VIII. — Continua a Macao o mesmo accidente com syntomas vários. 

Cap. IX. — Acha-se Macao com perplexia, aggravado com maior excesso 
o accidente que sintira, chegando de Cantão o 5.°"^ Patriarcha Antiocheno, 
de quem se dizia, que com remédios violentos, fora da Regra e Arte, lhe 
occazionara. 

Cap. X. — Aggrava-se a Macao com muito excesso o accidente, athé o 
anno de 1710, vendo-se estúpidos seus membros com maior repetição de 
perplexia, sem produzirem effeito os remédios applicados. 

. LIVRO X 
Macao novamente por outros princípios perturbado. 

Cap. I. — Sente Macao desde o anno de 1710 a perda de três navios: 
acha-se com dezuniòes o Senado : mostra-se hum Comandante dezatento: 
tomão-se rezolluçoens varias athé o anno de 1713, e não se esquecem os 
Chinas de inquietar a cidade. 

Cap. II. — Manda o Senado hum Enviado a El-Rey da Cochinchina, com 
um prezente : chega a notticia que dous navios Francezes vinhão esperar 
fora os de Macao: sabe-se que por fora destas Ilhas andavão muitas em- 
barcaçoens de ladroens Chinas á pilhagem : cuida-se em expulsar da terra 
muitos que nella havia, e dão-se algumas notticias desde o principio do 
anno 1713: no de 14 vae prezente ao Imperador. 

Cap. III. — Propostas, rezolluçoens, e socessos vários que se observa- 
rão no governo Politico desta Cidade de Macao desde o principio do anno 
1715. 

Cap. IV. — Chega notticia de ser fallecido Kam-hi Imperador da China, 
e Tartaria: faz Macao publicas e politicas demonstraçoens de sintimento: 
sobe ao Throno lung-Cing seu Filho, sem lhe obstarem os oppoentes: toma 
vingança destes o Novo Imperador: entra a perseguir a Christandade, e 
Macao de novo a sintir perdas, e padecer. Referem-se socessos desde o 
anno 1721. 

Cap. V. — Sente-se magoada e aflicta a Cidade e Igreja de Macao, tira- 
namente offendida com herezias de Jansenius ; mas cortado um membro 
podre, ficou menos perseguida : socedem mollestias á Cidade pella morte 
de hum China: faculta o Imperador embarcaçoens aos Chinas; e referem-se 
alguns socessos desde o anno 1723. Chega hum Embaixador. 

Cap. VI. — Manda El-Rey de Portugal a Alexandre Aletello de Souza e 
Menezes com o caracter de seu Embaixador a iun-Cing novo imperador da 



212 



China com hum presente grandiozo : referem-se as duvidas que occorrerão 
em Cantão, e a grandeza com que em IVlacao e na corte de Pekin foi re- 
cebido. 

Cap. VIL — Manda Ei-Rey buscar 20 peças de artelharia, e outras armas 
para Cantão : passa o Imperador Decreto para os Missionários serem ex- 
pulsos da China: chega outro Decreto imperial para que em Macao se não 
recebão mais moradores do que havia, e de todos pede lista: occorrem en- 
tre os do Governo de Macao grandes discórdias : vem soccorro de Goa 
para Timor: tocão-se alguns socessos desde o anno 1725, athé o de 32. 

Cap. VIII. — Renova o Dezembargador Sindicante seu procedimento para 
com o novo Senado: este, e o Ouvidor se conspirão contra o tal Ministro: 
procura este com ajuda do braço militar prender ao Ouvidor: ha varias de- 
zordens no Senado: chega de Goa novo Sindicante: ha pertençoens, e mo- 
vimentos nos chinas. Referem-se alguns socessos de Macao desde o anno 
de 1733. 

Cap. IX. — Morre lun-Cing Imperador da China e Tartaria: sobe ao 
Throno Kiuenlung: excita-se na China nova perseguição contra os Missio- 
nários, e Christandade: sente-a Macao por consintir: acha-se esta Cidade 
atenuada com empenhos, e grandes perdas. 

.. Cap. X. — Socessos de Macao, que por algumas circunstancias parece- 
rão mais notáveis, e occorrerão desde o anno de 1740 athé o de 45 em q 
estamos, no qual dou fim a esta Obra, e me retiro antes que o veja perecer. 

APPENDICE A ESTA OBRA 

Cap. I. — Do estado deste Império da China no tempo prezente. 
Cap. II. — Do estado desta Cidade de Macao no prezente tempo. 



FIM 



Com esses esclarecimentos e transcripções, ficará certamente o leitor 
mais preparado para apreciar o valor dos capítulos da preciosa obra, que 
irá successivamente sendo publicada, com as necessárias annotações, nos 
]iumeros seguintes. 

(Continua.) 





As fortalezas de Macau 




NiciA hoje o Ta-ssi-yang-kuo a serie dos seus collaboradores com o inte- 
ressantíssimo artigo que nos foi enviado de Macau pelo distincto capitão 
de artilharia, sr. J. Lima Carmona, em commissào n'essa colónia, onde 
zelosamente tem ha annos bem servido o paiz — artigo que nos apressa- 
mos a publicar n'este numero, para não demorar o prazer da sua leitura 
aos que se interessam pelo curioso assumpto n'elle tratado. 

O sr. capitão Carmona, a quem nos confessamos summamente grato pela sua genti- 
leza, elaborou esse artigo ainda antes de ter conhecimento das considerações que fize- 
mos a pag. 91 (nota 2), 92, 94, 95, 96, 99, 100 (notas 1 e 3), 163, 164 e 169, sobre as forta- 
lezas e a artilharia de bronze existentes em Macau, e dos desejos que manifestámos que 
nos enviassem d'essa colónia informações recentes sobre o assumpto. Por isso, ainda é 
mais para agradecer os esclarecimentos fornecidos pelo distincto official de artilharia 
que, pela sua competência profissional, melhor do que ninguém as poderia prestar. 

Na parte histórica das referencias ás fortalezas, accrescentamos, porem, umas ligei- 
ras notas, fazendo lembrar o que ficou dito anteriormente; e, como os leitores verão, 
pouco tivemos que rectificar nas datas apontadas pelo nosso prestante collaborador. Com 
respeito aos canhões antigos de bronze, os esclarecimentos fornecidos pelo sr. capitão 
Carmona, com os desenhos com que também nos favoreceu (1 ), vêem destruir de vez qual- 
quer esperança que pudesse restar de ter ficado em Macau alguma das celebres peças 
fundidas por Bocarro e que deram a essa colónia uma reputação universal com respeito 
á perfeição da sua artilharia. E, se não escapou á fundição dos nossos Arsenaes, qual- 
quer dos exemplares mandados pelo sr. conde de Paço d'Arcos para Lisboa ou dos que 



( i) Estampas XX e XXI, que estão reduzidas a metade do tamanho natural. 

Acompanhamos o artigo também com duas outras, representando o interior áafortaleya de Bom Parto, hoje 
desmantelada, e reproduzida duma photograpnia tiradaha dez annos, pouco mais ou menos; e a fortaleza da Guia, 
de que ja dêmos outra estampa de menores dimensões, a pag. 86, e que, por estar menos nítida, apresentamos esta 
ma recente, reduzida d'imTa photographia, de grandes dimensões, tirad;i em iSgSpelo distincto amador sr. C. Ca- 
bral para o Jornal Vntco, commemorativo do Centenário Indiano. 



2 14 



para aqui foram remettidos de Moçambique no tempo de Celestino Soares (vide o que 
ficou dito a pag. 94 e 95), ninguém mais poderá avaliar a veracidade d'essa fama que 
afugentou para sempre de Macau as tentativas iiollandezas iniciadas e terminadas 
nos primeiros trinta annos do século xvii. 

E, como temos de voltar ao assumpto, em artigo já promettido, damos a palavra ao 
sr. capitão Lima Carmona, a quem rogamos continue a honrar-nos com a sua valiosa 
coHaboraçào. 



Desde os tennpos mais remotos todos os povos cuidaram sempre em for- 
tificar os pontos mais importantes dos seus domínios, com o. fim de defen- 
der e manter a integridade dos seus territórios dos ataques dos invasores. 
Assim, Roma, Sparta, Athenas e outras cidades que na antiguidade repre- 
sentaram um papel proeminente na historia marcial da humanidade, foram 
circumdadas de altas muralhas, de que ainda hoje ha vestigios, construídas 
de modo a permittirem d'ellas a defesa d'aquellas cidades. Carthago teve 
egual representação, mas as suas muralhas de 24 milhas de circumferencia 
não impediram que esta cidade fosse destruída por Scipiào, no tempo das 
guerras púnicas, que a mandou incendiar, durando o incedio 17 dias. 

Com o decorrer dos tempos tem mudado o systema de fortificação e as 
armas empregadas no ataque e na defesa, tendo sido a mudança de arma- 
mento que na primitiva fez desde logo operar uma radical transformação 
na arte da guerra. 

Antes da invenção da pólvora, os systemas de fortiticação adoptados 
eram caracterisados pela excessiva altura das muralhas, torres e castellos; 
porem, depois d'aqueile invento, operou-se tal revolução na arte da guerra, 
que, como era de prever, se reflectiu immediatamente na fortificação, redu- 
zindo-se a altura das muralhas e pondo de parte os castellos que até entãe 
estavam em voga. 

Assim foi que o traçado abaluartado, ainda que irregular mas de grande 
relevo, passou a ser quasi exclusivamente o adoptado. 



A cidade de Macau foi fundada pelos portuguezes em 1557, no reinado 
de D. João 111, por cessão que nos foi feita pela China como premio dos 
serviços prestados no extermínio dos piratas que infestavam os mares que 
banham o grande Império. Não admira pois que os seus habitantes cuidas- 
sem em se defender dos ataques de que os ameaçavam os inimigos que 
iintes aqui se acoitavam, e, por isso, seguindo os preceitos da fortificação 
então preconisados, adoptaram o traçado abaluartado irregular, que, de mais 
a mais, se tornava o preferido pela orographia do seu terreno. 



Kst. XVIll 




Fortaleza, Krmida e Tmaroi. da (jui v 
Pliotofjrav. de P. Marinho, segundo uma phot do sr, Carlos Cabral (i8i)8). 



Est. XIX 




Imehiok ])\ RIU I AU-,;* ui. N " S.^ 00 Bom Paicio 
iliojo desmantelada I 
Pliot^grav. de P. .Marinlui. segundo iiíTia phot liSX. . . lui 189 



21' 



Pelos lados sul e oeste estava a peninsula naturalmente defendida pelo 
mar; concentrando-se todas as attenções para a defensa por terra que, como 
é sabido, só pode ser investida pelo isthmo das Portas do Cerco, ao norte 
da peninsula. 

Por isso, no principio do século xvii (1) foi construída a muralha, n'uma 
linha continua, que corta a peninsula de meio a meio na dirrecção N. O. a S. E., 
como ainda hoje se vê, onde havia as portas do Campo e de Santo Antó- 
nio, por onde se entrava na cidade. Encravados n'esta muralha havia os 
fortes de S. João e de 5". Jerónimo, hoje em ruinas. A muralha, de 16 pés 
de altura, permittia que os defensores n'ella se collocassem em toda a ex- 
tensão, servindo-lhes de parapeito a parte superior que se reduz a um muro 
de 3 pés de altura por 1 de espessura. 

Interrompendo a muralha existe a fortaleza de S. Paulo do Monte, co- 
meçada a construir em 1617 e terminada em 1626 (2) como é attestado por 
uma lapide collocada por cima da porta de entrada, desde a sua construcção. 

O traçado d'esta fortaleza é abaluartado, occupando uma área de, pro- 
ximamente, 2.000 metros quadrados. Exteriormente apresenta dos lados N. 
e O. explanadas adherentes ás muralhas, e, do lado E., vestígios de obras 
avançadas adjacentes á fortaleza, taes como: fossos destacados e revelins, 
inherentes ao traçado abaluartado de maior importância. 

Affirma-se, e é de crer, que foi esta fortaleza construída por frades (3), 
pois junto a ella havia o convento de S. Paulo, que um incêndio devorou 
em 1835, e de que ainda hoje existem as ruinas magestosas da egreja do 
mesmo convento. 

E' de presumir que houvesse alguma communicação subterrânea entre 
este convento e a fortaleza, apesar de dentro d'esta não se notar hoje ves- 



(1) Só depois do ataque dos hollandezes de 1622. Vide nota a pag. 91. 

M. P. 

(2) Exacto. Vê-se que o sr. capitão Carmona não participa das duvidas injustifica- 
das do sr. Bento de Franca. Vide nota a pag. 91 d'esta Revista. 

M. P. 

(3) Tem todos os visos de verdade esta opinião, porque tenho presente uma narra- 
tiva d'um livro hollandez que conta o modo engenhoso como o celebre capitão geral 
D. Francisco Mascarenhas conseguiu tirar a primitiva fortaleza do Monte das mãos dos 
jesuítas que a occupavam. A seu tempo, contarei a curiosa anedocta, que não vi até 
hoje relatada em outro qualquer livro. D. Francisco foi o primeiro que teve o titulo de 
governador e capitão geral de Macau, aonde chegou e tomou posse do governo em 
1623, acompanhado de alguma tropa. Das suas questões com os moradores de Macau 
(que tinham soUicitado a sua vinda depois do ataque dos hollandezes) e do seu desappa- 

recimento trágico e mysterioso, tratarei em outro logar. 

M. P. 



•iiS 



tigio algum de tal communicaçào. Todavia, na explanada, junto ás ruinas da 
egreja, vê-se uma escada estreita de cantaria, de proximamente 20 degraus, 
que communica com uma excavação rectangular da mesma largura reves- 
tida de cantaria e por onde é possível se seguisse a communicaçào subter- 
rânea que porventura existiu. O baluarte da fortaleza mais próximo d'esta 
excavação é abobadado e suppõe-se que ali existiu uma cisterna, que com- 
munica com o terrapleno da fortaleza por uma escada de 43 degraus, cujo 
local foi por muitos annos, até 1887, o paiol do Estado e hoje está trans- 
formado em prisão. 

Esta fortaleza constitue, pode dizer-se, a cidadella de Macau; mas, em 
presença dos modernos preceitos da fortificação, não tem hoje senão impor- 
tância histórica. 

Foi antigamente residência dos governadores, e ainda não vae longe a 
epocha em que n'ella se celebrava a posse dos governadores nomeados. 
Hoje ha ali um quartel para 50 praças, e o presidio militar. 



Organisada a cidade defensivamente para impedir as invasões pelo lado 
da terra, tratou-se a par e em seguida da sua defesa marítima. 

Assim, em 1622, já estava concluída a fortaleza de S. Francisco (1), junto 
do quartel do mesmo nome hoje existente, construído no local do antigo 
convento de frades franciscanos; e em 1629 existia já também a fortaleza 
de S. Ihiago da Barra, (2) ao sul da península. Uma e outra são fortifica- 
ções costeiras sem valor real na actualidade para a defesa. 

Seguidamente foi construída a fortaleza de Nossa Senhora da Guia, em 
1637 (3), ficando dentro d'ella a ermida do seu orago, aonde hoje concorre 
grande numero de devotos. 

Esta fortaleza constituía uma obra destacada do antigo systema fortifi- 
cado de Macau, e pelo seu commandamento sobre a cidade e sobre todos 



(1) Em 1622 existia uma das antigas baterias da Fortaleza de S. Francisco. Vide 

nota a pag. 91. 

M. P. 

(2) Em 1629 ultimou-se a fortaleza da Barra. No tempo do ataque dos hoUandezes 

já existia uma bateria no mesmo sitio d'essa fortaleza. Vide nota a pag. 91 e o que diz 

Faria e Sousa por mim cit. a pag. 101, etc. Fr. José de Jesus Maria, como vimos a pag. 

164, até dá esta fortaleza \)0x primorosamente acabada por occasião do ataque dos 

hollandezes. 

M. P. 

(3) Exacto. Foi principiada a construir em 1637 e terminada em 1638. 

M. P. 



219 

os pontos que d'ella se avistam, constitue um bom observatório. O seu tra- 
çado é o de um quadrilátero irregular, com uma área de quasi 700 metros 
quadrados, com pequena importância para a defesa. 

Está ali situado o pharol, mandado construir em 1865 pelo governador 
Coelho do Amaral, que é notável por ser o primeiro pharol que houve nas 
costas da China. 

Em epochas menos remotas foram construídas as fortalezas de Acossa 
Senhora do Bom Parto (1) e de Mongha. 

Uma e outra estào bem situadas; porém a primeira está desmantellada 
desde 1892, e a segunda, magnifica, e em parte inexpugnável quanto á sua 
posição estratégica, é a única das existentes que merece a pena ser arra- 
sada e reconstruída, pois que actualmente o seu terrapleno interior está de 
tal forma defeituoso que mais serve de entrave á defesa do que de obstá- 
culo á invasão pelo isthmo da península. A de Nossa Senhora do Bom Parto 
é costeira e bate perfeitamente a rada de Macau e o espaço morto da Ba- 
teria 1 P de dezembro, que adeante se menciona. 

No melado do presente século foi construído o forte de D. Maria II, que 
serve de apoio á fortaleza de Mongha. 

Em 1872 foi iniciada a construcçào da Bateria rasante 7." de dezembro, 
a cavalleiro da qual está a fortaleza de S. Francisco. Esta bateria foi recon- 
struída em 1887. 

Primitivamente esteve guarnecida com três boccas de fogo de grosso ca- 
libre, sendo duas Armstrong, de 7 pollegadas, e uma Blackely, de 9 polle- 
gadas. Estas peças foram offerecidas ao governo portuguez quando gover- 
nava esta colónia o contra-almirante Sérgio de Souza, as duas primeiras 
pelo governo da vísinha colónia de Hong-Kong e a ultima por um cidadão 
americano (2). 

IVlacau, novembro de 1899. Lima Carmona. 



(1) Ha aqui engano, para cuja rectificação chamo a attenção do illustre articulista 
para o que ficou dito a pag. 91, 93 (cit. da Col. de vários factos, etc), 101 (art. de Fa- 
ria e Sousa), 102 (idem). Por occasião do ataque dos hollandezes já havia o forte de 
Bom Parto ou, como também antigamente se chamou, de Nossa Senhora do Bom 
Porto. 

O forte de Mong-ha é effectivamente de data mais recente, porque foi construído 
nos meados d'este século e por mais d'uma vez reconstruído ou concertado. 

iVI. P. 

(2) Não será um d'estes canhões a celebre pef a c/o yí/Zz, assim chamada por ter sido 

adquirida por subscripçào publica iniciada pelo integérrimo e benemérito juiz Ferreira 

de Lacerda (cuja morte prematura toda a colónia de Macau chorou) por occasião dos 

ameaços de ataque á cidade pelos bandoleiros da fiscalisação chineza em 1870? Sol- 

licito com o maior empenho informações a respeito d'essa peca. 

M. P. 



220 






Breve resenha sobre as bocas de fogo mais antigas, existentes em Macau 

Ha 3 peças de bronze de alma lisa de calibre Ç'^"', de carregar pela boc- 

ca, fabricadas no anno de 1800. Nada teenn de notável senão a nrianeira 

conno n'ella está mencionada a data do seu fabrico. Assim, por exemplo^ 

tendo o seu fabrico sido em 1.'^ de setembro de 1800, teem gravada na faxa 

da culatra: 

1-9-00 



Ha também um obuz de bronze (I) de 15'-'", fabricado em 2-1.^-26,. 
sendo director do arsenal do exercito (tenencia de artilharia) Manuel Go- 
mes de Carvalho e Silva, tenente general da artilharia do reino. 

A fundição d'este obuz foi feita segundo os preceitos seguidos pelo il- 
lustre tenente coronel de artilharia Bartholomeu da Costa, que se tornou 
notável pelos melhoramentos que introduziu no fabrico da artilharia e ainda 
por ter sido em 1773 quem dirigiu a fundição da estatua equestre de 
D. José 1, que existe na praça do Commercio, em Lisboa. 

Este obuz é caracterisado pela existência de 3 azas com a forma de gol- 
phinhos, duas próximas dos munhões e uma na culatra, e pelas armas reaes 
com escudo, em relevo, situadas no primeiro reforço. 

Nota-se n'elle a perfeição com que n'aquella epocha se fazia o trabalho 
de lavrante. 



Finalmente, ha mais um outro obuz de bronze liso de 15-'", de calibre 
como aquelle, mas do systema de La Ruelle, (2) fabricado em 1842, o qual 
tem o peso de 98 kilogrammas. 

Este obuz parece ser de fabrico hespanhol e conta-se d'elle a seguinte 
narrativa, aliás pouco verosímil : 

Um obuz, que não era este, seguia ou vinha de Macau para Timor, ha 
já bastantes annos, como carga do governo portuguez, devidamente segu- 
rada, contra o risco de perda. Succedeu que durante a viagem, a algumas ho- 
ras de distancia das ilhas Philippinas, o navio teve de alijar carga ao mar 
em consequência d'um forte temporal que apanhou. Porém, a companhia 



(1) Vide estampa XX. 

(2) Vide Estampa XXI. 



Est. XX 



>2^-/'Q3Síf»-^^ 



^^V'^^- 

V 









\ ■• 



V 



'A,-:v> 



r' 






11. GOMES DC CAR. ES. ^ TB C.?U. DAAar. DD R 



O TE COROMEL BARTOLOMEU D,l COS TA E M LX . 17 75 



2Í.2G 

Desenho e legenda da culatra d'lm obuz existente lji Macau 

(redacção a nietade do tamaniio natural) 

l'hot. de P. Marinho, segundo um esboço enviado pelo sr. cap. L. Carmona. 



Est. XXI 



°J¥yELLUIliM 



Muiiliáo (lirsilo 





i^l'inlt.'.o e'fííioi\i 



Legendas na culatra e nos .munhões d'u.m outro obuz existente e.m Macau . 
Pliot. de P. Marinlio, reducçáo a '/» d'um esboço enviado peio sr. cap. L. Carmona. 



22J 



de seguros não desejando pagar a importância da indemnisação que lhe 
era pedida, por a achar excessiva, resolveu mandar um mergulhador apa- 
nhar o obuz. 

Effectivamente um obuz foi apanhado n'aquelle local, com grande satis- 
fação da companhia de seguros, que o enviou ao seu destino; porém, reco- 
nheceu-se que o obuz recebido não era o que tinha sido enviado pelo go- 
verno. O mergulhador, no local a que desceu, levantou outro obuz, que, a 
ser verídica esta narrativa, estava próximo d'aquelle que tinha motivado a 
ida do mergulhador ao fundo do oceano, onde ainda hoje talvez esteja o 
obuz procurado. 



Quanto ás peças de bronze que no governo do actual conde de Paço 
d'Arcos (1) foram postas em leilão e até serradas depois de vendidas para 
serem transportadas, conheço unicamente o facto, e nenhumas outras de 
alma lisa existem hoje em Macau, além das que ficam aqui mencionadas. 

Macau, novembro de 1899. 

Lima Carmona. 




(1) Como vimos, na nota a pag. 164, já anteriormente ao governo do sr. conde de 
Paço d'Arcos, no tempo do sr. conde de S. Januário, se tinham serrado parte das peças 
antigas para se venderem. 

iVlas continuamos a perguntar: onde param as que foram mandadas, como exem- 
plares, pelo sr. conde de Paço d'Arcos, para Lisboa? 

iVl. P. 




o 50.° anniversario 



UA 



Morte de João Maria Ferreira do Amaral 



!•: íiA 



VICTORIA DE PASSALEÃO 



22-35 cie JLgosto d.e 184.9 



lY 




r.KaMa.-^aa»JBryi N} cKSSiDAOK de acompanliar as estampas do numero passado com a res- 
pectiva explicação, obrigou-me a destacar da serie de documentos, pu- 
blicados no T^oletim, os referentes á tomada de Passeleão. Principio 
hoje com a transcripção de toda a correspondência que o benemérito 
conselho do governo, sob a presidência do Bispo Jeronymo da Matta, 
teve de sustentai' com as auctoridades chinezas e representantes estrangeiros em 
Macau, e bem assim dos artigos que julgou conveniente publicar no boletim acerca 
do assassinato e do brilhante feito d'armas de 25 de agosto. Não são vulgares os exem- 
plares do boletim d'esse anno e dos immediatamente posteriores e anteriores, e mesmo 
os que existem não podem estar em muito bom estado, devido a terem sido impressos 
em papel chinez, muito quebradiço e de pouca dura. 

A publicação d'esses documentos torna-se pois uma necessidade, para que se não 
percam de vez esses preciosos testemunhos do muito que trabalhou esse grupo de ho- 
mens que tiveram de sustentar a honra e a dignidade da nação portugueza, vilmente 
conspurcadas pelas auctoridades chinezas, n'uma epocha de verdadeira crise para a co- 
lónia de Macau. 

Veja o leitor, na serie d'esses documentos, quão dillicil foi essa lucta contra os man- 
darins e mandarinetes, instigadores e cúmplices no alientado, para que restituíssem a 



226 



cabeça e o braço do nobre assassinado ; e como, quando, mezes depois, essa restitui- 
ção se verificou, esses restos mutilados appareceram frescos e como se tivessem sido 
cortados de véspera ! 

Tinham sido salgados para que se não corrompessem, porque eram necessários aos 
mandarins para negociarem a sua restituição, em troca dos cúmplices que tinhamos se- 
guros em Macau I E assim fizeram, dando a mais completa prova, se d'essa prova Por- 
tugal precisasse, de que as auctoridades chinezas foram conniventes no vil assassinato. 

A falsa fé, a doblez, a humildade, depois da victoria de Passaleão; em seguida, a in- 
solência, quando ficaram certos da impunidade, — tudo ahi encontrará o leitor n'essas 
chapas dos mandarins e mandarineies. 

Não sei se Portugal negociará brevemente com a China; mas, se o fizer, — como deve 
e não pode deixar de fazel-o, — o diplomata q-ue se encarregar d'essa negociação bicuda, 
que não deixe de ler, além d'outros de tempos anteriores e posteriores, esses documen- 
tos da inala fide chineza. Aprenderá a tratar com representantes d'um governo que se 
humilha quando lhe falam alto, e humilha os que se lhe dirigem... segundo o modo 
por nós adoptado em muitas negociações com o Império da pureza. 

Aos seus funccionarios diz a China, quando lhes dá ordens : Treinam e obedeçam ! 
Só tremendo é que ella obedece ás ordens, que, sob a forma de negociações, lhes dão 
as nações occidentaes. 

Se a expedição á China, resolvida em 1849 e i85o, tivesse sido levada por diante ; se 
não explodisse a fragata D. Maria 11 no ancoradouro de Taipa ; se não se tivessem 
dado outras circumstancias conhecidas de lodos, e, finalmente, se o feitio portuguez 
não manifestasse essa vulgar tendência para a pouca tenacidade, de que enferma ha dois 
ou três séculos, — a "China teria tremido, .\maral seria vingado e a ilha de Hian-Chan. a 
da Lapa, com tudo o mais, seriam nossas. 

Assim. . . será ainda o que Deus quizer ! 



A serie do Boletim abre com a Proclamação, cujo yi7f-i'/;72//í? demos a pag. .3o d'esta 
Revista ; e, a seguir, os documentos, cuja leitura deve ser feita demoradamente e com 
toda a attenção, e que vão transcriptos pela sua ordem': 



Ulmo. e Exmo. Sr. — O Conselho do Governo, tendo assumido em virtude da lei, o 
Governo da Província, em consequência da morte do Exmo. Governador, o Conselheiro 
João Maria Ferreira do Amaral, occorrida hontem ás seis da tarde, tem de cumprir com 
o penoso dever de levar ao conhecimento de V. Exa., as circumstancias que accompa- 
nharam aquelle atroz assassínio commettido por Chinas. Voltava o FIxmo. Governador 
do seu costumado passeio a cavallo accompanhado do seu Ajudante d'Ordens quando 
a meio caminho do Isthmo foi accommettido por um numero de Chinas disfarçados, os 
quaes derribando-o do cavallo lhe deceparam a Cabeça e a Mão, que levaram, deixan- 
do o seu Corpo estendido, e cuberto de um cem numero de feridas, e o Ajudante d'Or- 
dens ferido. 

Este attentado é de sua natureza tão atroz, e revestido de circunstancias tão extraor- 
dinárias, que não pode ser reputado simples obra de assassinos, mas ao contrario é re- 
vestido de todos os characteristicos de um acto premeditado e de caso pensado, como 
é evidente, pois V. Exa. não pode deixar de ter conhecimento dos avisos e annuncios, 
que ha tempos se propalaram em Cantão, os quaes, ha bons fundamentos para crer que, 
se não originaram das authoridades Chinas, pelo menos tiveram o seu apoio e sancção; 
e por tanto este Conselho protesta a V. Exa. pelo insulto, e assassínio commettido pe- 
los súbditos chinezes, na pessoa do Representante de Sua Magestade Fidelíssima, como 



um attentado nunca visto, e que pede um desaggravo igual ao delicto ; e em quanto S. 
M. F. não Der as suas ordens a este respeito, este Conselho exige e demanda de V. Exa. 
a immediata captura dos criminosos, e entrega da (>abeça, e Mão do Assassinado Go- 
vernador para serem sepultados com o seu Corpo, como o povo Macaense deseja; e em 
caso contrario este Conselho nào responde pelas consequências. Entretanto, previne 
este Conselho a V. Exa., que a exigência que agora faz pela necessidade de dar á sepul- 
tura honro/.amente o Corpo da i.-'' Authoridade e Representante de S. M. F. em Macao, 
não prejudica de forma alguma o Direito da S. M. F. Ofíendida, pelo qual Direito, este 
Conselho protesta de novo a V. Exa., porquanto similhante acto de traição, e barbari- 
dade, tendo otíendido o Direito das gentes, e particularmente a Soberania de S. M. F., 
)á mais este Conselho pode delle precendir-se. 

Este Conselho finalmente previne também a V. Ex. de que elle vai dar conhecimento 
deste lamentável successo aos Ministros de Hespanha, França, e dos Estados Unidos 
de Americc, e bem assim ao Governador de Hongkong todos aliados de S. M. F., a cada 
um dos quaes vai ser remettida a copia deste protesto. Macao 20 de Agosto de 1849^ 
— Alatta^ Carneiro^ Neves, Simões, Goularte, Pereira. 



N." t'io. — Ulmo. e Exmo. Sr. — Tendo V. Exa. accedido ao convite deste Conselho 
para assistir á sua Sessão de hontem á noite, V. Exa. foi naquella occasião informado 
do modo bárbaro e atroz porque foi assassinado o Exm. Sr. Conselheiro João Maria Fer- 
reira do Amaral, Governador desta Provincia ; e o Conselho do Governo tem a honra 
de transmittir agora ás mãos de V. Exa. uma copia authentica do protesto, que elle 
nesta datta dirige ao Suntó de Cantão sobre aquelle deplorável acontecimento, para co- 
nhecimento de \'. Exa. e fins convenientes. — Deos (juarde a V. Ex.'' Macao 23 de Agosto 
de 1849. — Ulmo. e Exmo. Sr. A. de Forth Rouen, Ministro de França na China. — 
Matta, Carneiro., Neves., Simões, Goiãarte, Pereira 

N. B. Idênticos foram os Ulmos, e Exmos. Srs. Sinibaldo de Mas, Ministro Plenipo- 
tenciário de Sua Magestade Catholica na China — John W. Davis, Commissasio dos Es- 
tados Unidos na Chma — Commodore D. Geisinger, Commandante das forças Navaes 
dos Estados Unidos na China. 



N." 5q — Ulmo. e Exmo. Sr. — O Conselho do Governo tendo na forma da lei assu- 
mido o Governo da Provincia em consequência da morte do Exm. Governador, Con- 
selheiro João Maria Ferreira do Amaral, tem o sentimento de participar a V. Exa. que 
esta tarde ao pôr do Sol, voltando S. Exa. o Sr. Governador do seu costumado passeio 
de cavallo, foi accommettido a meio caminho do Isthmo por um bando de assassinos 
chinas que, assaltando-o subitamente, conseguiram derribar a S. Exa. do cavallo, e O' 
assassinaram deshumanamente, ferindo também o seu Ajudante d"Ordens, o qual com 
tudo felizmente escapou com vida. 

A' vista deste facto, e de algumas circumstancias que o accompanharam, as quaes 
nem o tempo, nem os sentimentos de que ao presente se acha possuido este Conselho, 
lhe permittem referir neste lugar, o Conseiho receia com sobejo fundamento que a se- 
gurança do Estabelecimento corra risco, e por tanto elle se apressa a leva-lo ao conhe- 
cimento de V. Exa esperando que, a exemplo do que em occasião idêntica praticou o 
antecessor de V. Exa. em Outubro de 1846, V. Exa. se digne prestar a este Estabeleci- 
mento e aos Súbditos de Sua Magestade nelle existentes o auxilio de que possam care- 
cer em occasião opportuna. 

Este Conselho tem finalmente de passar aqui junto as mãos de V. Exa, uma copia 
do Protesto que elle nesta mesma datta envia ao Suntò de Cantéo, para Conhecimento 
de V. Exa.*— Deos Guarde a V. Exa. Macao 23 de Agosto de 1840. — Ulmo. e Exmo. 
Sr. Samuel George, Bonham, (lovernador de Mongkong. — Matta, Carneiro, Neves, Si- 
mões, Goularle, Pereira. , 



Legation de E.^pana en (>hina —Exmos. é Ylmos. Sres. — He tenido el honor de re- 
cibir la comunicacion de V V. E E. fecha de hov, en la cual se sirvem acompaiíarme 
una copia de la protesta dirigida ai Virev de Cantón con motivo dei horroroso asesinato 
comettido en la persona dei Exmo. Sor. Don Juan Maria Ferreira de Amaral, Goberna- 



2 2'*^ 



dor de esta Província. En la scsion dei Consejo ;i que tuvieron á bien V V. K E. invi- 
tarme en la noche de ayer, manifeste personalmente á V V. E E : y de nuevô les reite- 
ro, la profunda sensation que habia causado en mi ânimo el infame atentado referido ; 
y desde luego debo manifestar á V. V. E. E. que darc detalladamente noticia d mi Oo- 
bierno de este triste acontesimento, remitiendole copia de la comunicacion que se han 
servido dirigir-me. — Dios (íe, á V V. E. E. Ms. As. — Macao z3 de Agosto de iS^i). — 
Su Attento e Leal Servo Q. B. S. M. — Sinihaldo de Mas — Exmos, é YÍmos Sres. Míem- 
bros dei Consejo de (lovierno de la Província de Macao etc. 



Macao, August 23rd i''^49. — Excellent Sirs, — I have the honor to acknowledge the 
receipt of your communication of tc-day, covering an authentic copy of the Protest of 
"lhe Council of the Government of Mncao, addressed to the Vicerov oi' Canton, in refe- 
rence to the atrocious assassination of His E.xcellencv, João Maria Ferreira do Amaral, 
(lovernor of this Province, and shal embrace the earliest opportunit}' of conveying In- 
formation thereof to the Government of the United States. 

I avail of this occasion to assure the Council of the Government of my deep sym- 
pathy in the grievous loss, sustained by the death of the late Governor. ~I have the 
honor to be, Very respectfully, Your Obedient Servant — D. Gcisinger, Commandin:^' 
U. S. Squadron Èast hidies. — To-Their Excellencies the Honorable Members of the 
<>ouncil of the Governement of the Pro\ince of Macao, Ove. (i). 



His Britannic Magesty's Ship Amajon Macao Roads. — Thursday, 23rd August 
1849. — Gentlemen — Hearing of the atrocious murder of His Excellency the Governor 
of Macao I hasten to condole with You on that melancholy event, and in lhe hope that 
the presence of one of the Britannic Majesty's Ships might be of service, 1 have the ho- 
nor to acquaint You that I have this evening anchored in Macao Roads in H. B. Ma- 
jesty's Ship under my command. — I have the honor to be, Gentjemen, Your very 
Obedient bervant. — .S'. N. Troiibridge — Captain and Sénior Officer China. — The 
Honorable the Commissioners, for executing the Government of Macao (2). 



Ulmo. Sr Foi presente ao Conselho do (joverno o Officio de V. Sa. datado de 

honrem o qual foi recebido ás 9 horas da noite, communicando a este Conselho que, 
"tendo chegado ao seu conhecimento o atroz assassínio do Exmo. Governador desta Pro- 
víncia, V. Sa. se dera pressa em dirigir-se a este porto com o navio do seu commando, 
na persuasão de que a sua presença nestas agoas poderia convir ao bem do serviço 
deste Estabelecimento. 

Este Conselho sobre modo penhorado e reconhecido por este testemunho de dedica- 
ção e interesse de V. Sa. pelo bem do Estabelecimento, se apressa a agradece-lo a V. Sa. 
em nome do Governo de Sua Magestade Fidelíssima; e, posto que actualmente não haja 
receio de que seja alterada a tranquilidade do F',stabelecmiento, este Conselho acceita o 
valioso ofterecimento de Y. Sa., e muito ha de estimar que o navio do seu commando 



(Vi .Macau 2'} d'Agosto de 1S49. — F.xmos. Srs. — Tenlio a lionra de acciízar a recepção da sua communicação 
■desta data, cobrindo uma copia authentica do protesto do Consellio do Goverrto de Macau, dirigido ao \'icerei de 
Cantão, com referencia ao atroz assassínio de S. Kxa. João Maria Ferreira do Amaral Governador aesta Provín- 
cia, c me aproveitarei da primeira opportunidade para remetter a informação delle ao Governo dos Estados Unidos. 

Aproveito-me d'esta occasião para assegurara o Conselho do Governo a minha profunda s\ mpathia na sensí- 
vel perda soffrida pela morte do finado Governador. — Tenho a honra de ser com todo o respeito Vosso Oliedieute 
Servo — 1). Gcisiní;er, Commandante da Esquadra dos Estados Utiidos nas índias Orientaes. — A S. Exas. os 
Membros do Governo aa Província de Macao etc. 

(2) Navio de !S. M. B Amaion, Rada de Macao. quinta feira c? de Agosto de 1849.— Srs. Constando me a atroz 
morte de S Exa. o Governador de Macao eu me apresso a condoer-me comvosco por occasião deste melancó- 
lico accontecimento; e na esperança de que a presença de um dos .\avios de S. .M. B podia ser de utilidade, eu 
tenho a honra de participar-vos que me aportei esta tarde á Rada de Macao no Navio S M. B sob o meu com- 
mando. 

Tenho a honra de ser, Srs.. Vosso muito Obediente Servo —S. X. Troitbndge, ■Ca.pháo e Otllcial Sénior rn 
China — Aos honoraveis Commissarios que representam o Governo de Macao. 



22q 



possa demorar-se alguns dias na Rada de Macao, porisso que a sua presença ali não 
pode deixar de reforçar as mãos deste Governo na presente occasião. 

O Conselho agradece a V. Sa. a expressão do seu sentimento por occasião daquelle 
triste accontecimento. — Deos Guarde a V. Sa. Macao 24 d'Agosto de !84(). — Ulmo. Sr. 
b. N. Troubridge, Commandante Superior das Forcas navaes de Sua Magestade Britâ- 
nica na China. — Mallj, Carneiro. Neyes^ Simões. Goiílarte., Pereira. 



Legation de Fránce en Chine — Macao, 24 Aou 1^40. — iMessieurs. — J'ai reçu avec 
la piéce qui s'y trouvait jointe, la lettre que V V. E E. m'ont fait Thonneur de m'a- 
dresser en date d'hier et je m"empresserai de porter cette communication à la con- 
naissance de mon gouvernment, en lui faisant savoir en mcme temps, les déplorables 
incidents de Thorrible attentat commis dans la journée du 22 sur la personne de Son 
Excellence M. le Gouverneur de Macao. 

Tous les memhres de la J.egation de France en Chine s"associent, messieurs, du plus 
profond de leur cccur, à 1' affliction générale qu' excite en ce pavs, parmi les na»i""^"^- 
comme parmi les etrangers, la mort de M. Amaral, mort qui prive S. M. T. F. 




ment de Macao 



Legation of the L'nited States in China. Macao, August ■i4th 1849.--T0 the Monou- 
rable Council for the Gouvernment of Macao. — The undersigned has the honor to 
acknowledge the receipt of Your Communication of yesterdav, ín relation to the base 
and daring assassination of His Excellency the Govenior of Macao, bv Chinese subjects 
on the 22d instant, with said communication was also received a copy of Your protest 
to His Ex. the Vice-rov at Canton upon lhe same subject, copies of both these do- 
cuments will forthwith be lorwarded to the Government of the United States. No lan- 
guage can adequatelv portray the gloom that this sad catastrophy has cast over the nu- 
merous friends of the deceased, and in this mourfull event no one has his sympathies 
more sincerelv excited than — Your Obedient Servant. — J. TI'. Daris (1). 



Eu o Procurador faço saber ao Sr. Mandarim (2) que havendo esta tarde acontecido o 
atroz attentado contra a Pessoa do Exmo. Sr. Governador João Maria F"erreira do Ama- 
ral que teve lugar junto a Porta do Cerco; como ao Sr. Mandarim se fez sciente perante 
o Conselho do Governo, exigindo a prompta entrega da cabeça, e mão ; em quanto que 
o Governo vai proseguir em tomar outras medidas a fim de se descubrirem os assassi- 
nos ; o mesmo Conselho do (íoverno determina que por este Officio seja o Sr. Manda- 
rim avisado que se dentro de 24 horas não forem a cabeça e a mão entregues, o Go- 
verno não respondera pelas consequências que disto se originarem. O que de ordem do 
mesmo Conselho do Governo, passo a communicar ao Sr. Mandarim, exigindo a prom- 
pta entrega dentro do praso indicado, e protesto por c]uaesquer consequências. Macao 
22 de Agosto de 184(1. — Manoel Peretj-a, Procurador. 



Eu o Procurador faço saber ao Sr. Mandarim que tendo-lhe eu, segundo a delibera- 
ção do Conselho do Governo, otFiciado exigindo dentro de 24 horas a entrega da cabeça 



íil Legação dos Estados Unidos na China. .Macao, 24 de Agosto de iS-io- — O abaixo assi^nado tem a honra 
de accuzar a recepção da Vossa cominiinicaçáo de ho|e, relativa ao vil e temerário assassinio de S. Kxa. o Go- 
vernaJor de .Macao por súbditos cinnas no dia 22 do corrente ; e com a mesma communicaçáo recebi uma cf- 
pia do vosso l^rotesto a S. Kx-a. o Vice Rei de Cantão sobre o mesmo assumpto. Copias de ambos estes documen- 
tos serão immediatamentc remettidas ao Governo dos 1'^stados Unidos. Não lia linguagem que possa adequaaa- 
mente pintar a magoa que esta triste catastrophe tem causado aos numerosos amigos do tallecido, e a nutguem é 
ella mais sincera du que em o Vosso Obediente Servo]- John \V. Davis. 

(2) Mandarim chínez tsotang ou csotaii^, residente em .Macau, e que, depois da morte de Amarai, fugiu para 
nunca mais voltar. O sacriíicio a'essa preciosa vida serviu para limpar a colónia de mais essa vergonha. 



23o 



e a mão do (jovernador assassinado pelos Chinas em 22 do corrente, e tendo-se exce- 
dido este praso sem que o Mandarim desse cumprimento á minha exigência, ficando 
por isso sem ser ainda enterrado o cadáver; torno portanto a insistir na minha exigên- 
cia, protestando que no caso de faltar a ella até amanhã ás 10 horas, o Governo não res- 
ponderá pela segurança das authoridades Chinas, nem por quaesquer consequências. — 
Macao, 24 de Agosto de 'òS^(). — Manoel Pereira^ Procurador. 



Eu o Prccurador faço saber a vós todos os habitantes chinas de Macao, que sendo 
de urgente necessidade tomarem-se todas as medidas enérgicas, a Hm de se vir ao co- 
nhecimento quem foram os agressores d'um horrível attentado contra o Exmo. Gover- 
nador d'esta Cidade, e de se descobrir a cabeça e a mão de S. Kxa., que os assassinos 
deceparam; afim de com isto, acalmar os enfurecidos ânimos dos Portuguezes que não 
cessam de pedir vingança por um tão horrível attentado contra a Pessoa de S. Exa., e 
um insulto a Soberania da Nossa Rainha, cuja commoção mal pode o Governo conter; 
e estando nós todos persuadidos, que jamais poderia este inaudito procedimento ser 
praticado pelos negociantes pacíficos, e gente boa ; vos faço pois saber, que podeis con- 
tar com toda a segurança em Macao, e continuar tranquillamente nos vossos negócios ; 
na certeza de que só serão perseguidos e punidos, como sempre tem sido, os malévolos 
que intentarem perturbar o socego da terra. Macao 25 de Agosto de 1841). — Manoel Pe- 
reira^ Procurador. 



O Mandarim Csotang-Vam, etc. — Faço saber ao Sr. Procurador que, em resposta ás 
suas repetidas exigências pela entrega da cabeça e mão do Nobre Governador que foi 
assassinado antes da Porta do Cerco; sou a dizer-lhe que nessa mesma noite que tive 
noticia expedi gente para todos os lugares para examinar, e aprehender os assassinos, 
e apanhar a cabeça e mão ; e eu finalmente fui em pessoa por todas essas aldeãs fazer 
averiguações, porem até agora ainda se não pode encontrar vestígio algum. Grandes pré- 
mios já se otiereceram a quem apresentasse os assassinos, e a cabeça ; e agora ultima- 
mente o Mandarim de Hiangxan, e o Vice Almirante, á minha requisição, sahiram tam- 
bém com a sua gente em demanda dos assassinos e descuberta da cal^eça e mão. Logo 
que ellas portanto forem descubertas, e aprehendídos os assassinos, se lhe fará a com- 
petente entrega (da cabeça e mão), de que será o Sr. Procurador antícipado. 

E' quanto tenho a responder ao Sr. Procurador, 7 da 7a. Lua do Anno 29 de Tau- 
kuang, 24 de Agosto de 1S4M.— Tradusido por mim abaixo assignado — João Rodrigues 
Gonsalves. 



E com a maior consternação e sensível dor, que redigimos este artigo do Boletim 
do Governo!! O Chefe- do Governo desta Província, o representante de S. M. F., o 
Ulmo. e Exmo. Sr. Conselheiro João Maria Ferreira do Amaral feneceo cruelmente ás 
mãos dos Chinas assassinos ! ! S. Exa. tinha, segundo o seu costume, sabido ao passeio 
de cavallo com o seu Ajudante d'Ordens, á PoVta do Cerco; e ao voltar, seriam seis e 
meia da tarde, quasí no meio do Isthmo, um bando de assassinos (>hínas, em numero de 
seis, cercaram a S. Exa., e dois ao Ajudante, que vinha muito atraz, entrando logo a cu- 
tiladas de laífós (espada curta chíneza). Este ataque inesperado, e cutiladas pelo corpo 
de S. Exa. e espantando-se o seu cavallo, o derribaram em terra, assim como ao seu 
Ajudante, quando levou este uma cutilada na perna; e quando o Ajudante pôde levan- 
tar-se, os dois Chinas dando-lhe um golpe na cabeça, que não foi mortal, correram a 
unír-se aos seis, que estavam sobre o Exmo finado, golpeado pelo braço e pernas, e cor- 
po, a decepar-lhe a cabeça, e a mão; que logo levaram correndo pela Porta do Cerco 
dentro ; não medeando todo este successo, "nem 5 minutos. Não podendo o Ajudante 
valer a S. Exa. quando se livrou dos Chinas, olhou em roda, e vio ninguém, senão três 
Estrangeiros, que entravam da Porta a cavallo, e tomaram o lado da estrada em que es- 
tava S. Exa. no chão, fora da estrada, e sobre elle os Assassinos, em total desamparo. 
E' deste cruel modo, que acabou o Deffensor deste Estabelecimento que por 40 mezes 
soube sustentar a Honra Nacional. Um insulto de similhante natureza á Dignidade de 
um Governador da Província, em território Nscional, é-o tam!)em da Magestàde da Rai- 
nha e da Nação Portugueza ; e por tanto uma satisfação condigna precisa ser tomada 
por quem pertence toma-la. Divulgada a triste noticia no Paiz, foi grande a commoção 
em todos os ânimos ; o Conselho do Governo, que por Lei devia tomar logo as rédeas 
do Governo, se reunio no Palácio do mesmo Governo. Uma Proclamação dírígio-se 



23l 



logo aos Habitantes, para que confiados no Conselho governativo não se rompessem 
erii excessos. Participações se fizeram na mesma noite aos Ministros das Potencias Es- 
trangeiras, aqui residentes, os quaes logo compareceram no Palácio ; e offereceram os 
seus" serviços, caso o Conselho do Governo precizasse. Um officio foi também dirigido 
ao (joverno de Hongkong nos mesmos termos. Um Protesto foi logo feito ao Suntó de 
Cantão exigindo a cabeça, e a mão do Exmo. finado, e seus assassinos. Um officio fõi 
também dirigido ao Mandarim Csotang, e.xigindo o mesmo, protestando não responder 
pelas consequências se acaso não forem restituídas a cabeça, e mão, que reclamava o 
Governo. O Publico verá das peças acima transcriptas, todos os passos, e medidas, que 
o Governo deo na mesma noite, e espera da-los com toda a energia possível, não para 
satisfazer cabalmente o insulto, por ser isso da immediata competência de S. Magestade, 
mas para sustentar o Decoro Nacional aggravado, e não perder aquelie grau de inde- 
pendência, que o Exmo. Finado conseguiu, e por sua morte legou ao Conselho do Go- 
verno. Também para não prejudicar o socego publico da Cidade, se vai guardar o ponto 
da porta do Cerco com tropa Portugueza. 

(Boleíim de 2; de Agosto de 1849). 



(Segue a local do mesmo «.Boletim^y, já publicada a paff. ijy e ijS d'esta <(Rei'ista».J 



Csoiang-Vang de Macao &:c. — -Faço saber ao Sr. Procurador, que em consequencia 
de ter o Nobre Governador na occasião do seu passeio á cavallo antes da Porta do Cerco 
sido atacado e morto; e o Sr. Procurador me ter officiado para diligenciar pela apre- 
hensão dos assassinos, e entrega da cabeça e mão (Scc. sem perda de tempo tenho con- 
junctamente com o Vice-Almirante e Mandarim de Hiam-Xan, ido pessoalmente com as 
nossas gentes fazer as diligencias, até offerecendo grandes prémios; o que tudo já te- 
nho communicado. Por que é que hontem pela volta de meio dia haviam de fazer fogo 
de artilheria contra o forte de Passalhão e apossar-se do dito forte ? Officio por tanto 
ao Sr. Procurador, que uma vez que estamos com estas diligencias até promettendo pré- 
mios, e indo nós pessoalmente por todas as aldeãs a examinar; o que se pode dizer que 
estamos fazendo as mais restrictas averiguações; convém também que haja mutuo soce- 
go; para que se possam continuar com as diligencias a fim de as obtermos. Espero pois 
que mande letirar a força Portugueza do forte e da Porta do Cerco, e entregar aquel- 
les Postos para se evitarem dezordens. — O que me pareceo conveniente officiar-lhe — 
Q da 7a. Lua do Anno 2q de Taukuang, 20 de Agosto de 1S4Q. — Traduzido por mim 
abaixo assignado — João Rodrigues Gonsalves. 



(Zsotang-Vang de Macao &c. — Faço saber ao Sr. Procurador, que em resposta ao 
seu Officio em que me exigia com instancia a cabeça e a mão, e aprehensão dos assas- 
sinos ect. — -Sou pois a dizer, que logo que tive noticia deste successo, mas que não 
sube se os aggressores foram Chinas ou Estrangeiros immediatamente fui com os Mei- 
rinhos por todas estas aldeãs para examinar e prender, e para esta diligencia requisitei 
também ao Mandarim de Hiang-Xan e o Vice-Almirante, os quaes taml)em foram com 
a sua gente. 

Porem sem pensar que os Soldados Portuguezes fossem prender três soldados da 
Porta do Cerco, e apoderar-se daquelle posto e depois do forte de Passalhão. Peço por 
tanto ao Sr. Procurador que mande entregar os ditos soldados, para que se possa con- 
tinuar com as diligencias, e em resposta torno a pedir para que mande soltar os ditos 
três soldados, pois que já mais deixarei de fazer todas as diligencias para serem apre- 
hendidos (os assassinos) e descubertos (a cabeça e a mão). É o que tenho a officiar. — 
>) da sétima Lua do Anno 2() de Taukuang, 2t') de Agosto de 18411. — Traduzido por mim 
abaixo assignado — João Rodrigues Gonsalves. 



Em resposta ao seu Officio sou a dizer-lhe, que todas as razões da sua parte são fú- 
teis e o Governo as notou com indignação, uma vez que até hoje não se deo cumpri- 
mento a nossa exigência. O Governo como visse a demora da parte das Authoridades 
Chinas, e como pela declaração do Ajudante d'Ordens, que vinha na companhia de 
S. Exa. e que foi gravemente ferido, se soube que os aggressores passaram peia Porta 
do Cerco, tomou o expediente de mandar citar a gente daquelle posto para se tirarem 



202 



as averiguações; da primeira vez encontraram-sc três individues 'I"an-Van. Cibo — 
Chou-Kam-Ium-^iTr^t^n/o — e Siz-Vax- Soldado- — Os quaes, sendo interrogados, o Tan- 
Van declarou que com effeito por ali passaram nessa mesma occasião uns 7 ou 8 Chi- 
nas armados com toda a pressa; que tendo elle ido com a sua gente persegui-los, não 
os pôde apanhar; e como continuasse com as diligencias em mandar chamar os que lá 
estivessem encontrou-se aquelle posto abandonado; o Cioverno mandou então uma pe- 
quena torça para o guarnecer temporariamente, para detíesa daquelle lugar. Um Ofíicial 
íoi primeiro examinar o posto, e ao retirar-se das eteiras, do cerco lhe dispararam dois 
tiros de mosquete; e depois quando entrou a torça, do forte de i^assalhão rompeo pri- 
meiro o fogo sobre a nossa gente, e assim continuou até as 4 da tarde, quando os âni- 
mos estavam já desesperados, avançou a gente debaixo do fogo para o forte, onde esta- 
vam postados e por todas as colinas e matos vizinhos um corpo de mais de dois mil 
homens; os quaes depois de fazerem fogo sobre nós abandonaram o forte, e fugiram; 
e nossa gente retirou-se para a Porta do Cerco. Tivemos noticia que a cabeça esteve 
até as 1 1 horas da noite na Porta do Cerco, onde, com ella fizeram libações ao Pagode, 
e que depois levaram para a praia de Catai onde esteve uma lorcha, que a levou para 
C^antão : também ouvimos dizer que levaram a cabeça para Caza Branca. Cada vez por- 
tanto estamos mais persuadidos que um acto tão bárbaro commettido ao pé de uma 
estação militar, por onde não passariam os aggressores sem sciencia do vigia, não po- 
dia deixar de ser apoiada pelas Authoridades, e de mais achou-se na caza da vigia uma 
cabaia ensanguentada. Ora se os Portuguezes tem essas noticias, sejam verdadeiras ou 
vagas; quanto mais a Policia Chineza se para isSo quizesse fazer dilligencias ? O Governo 
já por vezes tem protestado que não respondia pelas consequências; e os ânimos dos 
Portuguezes estão exesperados; não basta dizer o Sr. Mandarim que está fazendo dilli- 
gencias, mas é necessário que se entregue quanto antes a cabeça. E quanto tenho a 
responder-lhe. Macao 27 d'Agosto de !8_|o. — Manoel Pereira, Procurador. 



(Sci^iic a comiiiuiiicação do capilão Mello Sampaio, ;\i publicada a pai;'. /; 



Mandarim Csotang-Vang &c. — Faço saber ao Sr. Procurador que em resposta ao seu 
OtEcio em que me exigia com instancia a cabeça e mão do Nobre Governador etc. Sou 
a dizer-lhe que não tenho cessado de fazer as mais estrictas diligencias para as conse- 
guir, até ir eu pessoalmente a fazer as averiguações, por todos esses lugares promettendo 
prémios aquém pudesse entregar ou descubrir os aggressores; coadjuvando-me nestas 
diligencias o Mandarim de Hian-Xan. e o Vice-Almirante. E vejo agora segundo o que 
o Sr. Procurador me diz no seu OfFicio, que os aggressores devem estar distantes já 
daqui; e por isso devem-se dobrar as diligencias para aprehende-los ; se como diz que 
ouvira falar que a cabeça esteve na Caza Branca ; o Mandarim desta Cidade ainda não 
veio tomar posse do Mandarinato, e não se pode ainda saber; e estas noticias assim 
espalhadas, as diligencias continuando com tanto vigor, os aggressores jamais quere- 
rão deixar-se cahir no laço. A vista disto, e do que já tenho otliciado, peço que leve ao 
conhecimento do Conselho do Governo para que entregue o forte de Passalhão, e a 
vigia da Porta do Cerco; e os três Soldados da dita vigia. Isto otíicío ao Sr. Procurador 
para que communique ao Conselho do Governo a tim de que esteja certo que se estão 
fazendo diligencias, e se otierecem grandes prémios ; e mande publicar isto mesmo 
para inteligência de todos (os Portuguezes). Nestas circunstancias espero haver entre 
nós mutuo socego, para que os aggressores cada vez se não auzentem para mais longe. 
Para se fazerem diligencias é preciso que tudo esteja em socego; e logo que se descu- 
brirem, sem demora será anticipado o Sr. Procurador, e se lhe fará a entrega. 

Quanto o dizer que os do Forte principiaram o fogo, não podia ser ; porque como 
os Portuguezes faziam fogo, do forte não puderam deixar de se detíenderem. (Quanto ao 
dizer que do muro íizeram dois tires de mosquete; não se pode saber quem foram. Eni 
tim espero que indague melhor sobre isto, mas também não é precizo que haja sobre 
isto fortes argumentos e so espero reinar entre nós mutuo socego para que possamos 
continuar com as diligencias. 11 da sétima Lua do Anno 21) de Taukuang, 28 de Agosto 
de iSqi). — Traduzido por mim o abaixo assignado — João Rodrif^iies Gonsalves. 



A ultima resposta do Sr. Mandarim não p(')de deixar de ser notada ainda com mais 
indignação pelo Conselho do (joverno, a quem fiz presente este meu Ollicio, per ver 



:33 



que o Sr. Mandarim Ionize de corresponder ás exigências, que o Governo Portuguez lhe 
tem por vezes feito com grande instancia, sobre um caso tão grave e de tão grande 
consequência como este, se quer servir de pretextos frívolos e negando factos públicos, 
presenciados não só pelos Portuguezes, mas por outras nações, e pelos seus represen- 
tantes, e por todos quantos presentes estavam em Macao, para evadir-se ao cumpri- 
mento do que demanda a prompta justiça Já na minha resposta anterior lhe respondi, 
sobre o forte, e da Porta do Cerco, donde foram soldados Chinas que tizeram fogo de 
mosquete. Já lhe fiz ver que é inútil dizer, que se offereceram prémios ect:, é preciso 
que se entregue quanto antes a cabeça e mão. Finalmente confirmo o que por vezes te- 
nho significado ao Sr. Mandarim, que protesto pelas consequências. Macao 28 de Agosta 
de 1849. — Manoel Pereira. 



N." 241 ). — Victoria, ílongkong, 24th August, 1849 — Excellent Sirs. — It is with extreme 
pain that I have the honor to acknowledge the receipt of "^'our Despatch of yesterday's 
date, with its enclosure, which has )ust reached me, relative to the distressmg subject 
of the death of Your late Excellent Governor. 

Early yesterday the sad tidings of the melancholy events reached me, and Captain. 
Troubridge of Her Majesty's Ship Ama^on. the Sénior Naval Officer at this Station, 
having volunteered his services to proceed immediately to Macao, left this Harbour 
about mid-dav, together with H. M. Steamer Medea. These vessels no doubt arrived last 
night, and I am in hopes that their presence wiil prove sufficient to ensure the tran- 
quilhty of Macao, and to suppress the excitement that must naturallv be expected in a 
settlement the (iovernor of which has been deprived of his life in so atrocious and. 
brutal a manner. 

Captain Troubridge will rcmain at Macao for the present, and I trust the arrival ot 
H. M. Vessels at this juncture ^vill be sufiicient to shew the (2hinese Authorities that 
the British Government fully sympathize with that of Her Most Faithful Majesty on 
this distressing occasion, and that the (>hinese will, if evilly disposed, be induced in 
consequence to refrain from any further acts of aggression. 

I yesterday addressed a Eetter to the High Commissioner on the subject of this 
atrocious murder, and informed him that I conceived it to be one in which ali the 
Representatives of the Foreign Powers in China were directlv concerned, and that í 
fully expected that he would cause the perpetrators of the Bloody deed to be at once 
apprehended, should thev have taken refuge within the dominions of the P^mperor of 
China. 

Condoling with ^'ou as I do in ali sinceretv on this distressing occasion. — I have 
the honor to remain Excellent Sirs — "\'our Most Obedient Servant — S. G. Bonham. 

The Right Reverend — Dom Jerónimo; Bishop of Macao. His Honor Joaquim Antó- 
nio de Moraes Carneiro, Major Ludgero Joaquim de Faria Neves, Miguel Pereira Simões, 
Esqr, José Bemíirdo Goularte, F.sqr, Manoel Pereira, Esqr, Council in Charge of the 
Government of Macao. 

Tradiicção 

N." 24() — Victoria, Hongkong 24 de Agosto de 1849. — Exmos. Srs. — E' com o- 
maior sentimento que tenho a honra de accuzar a recepçã(> do Vosso despacho de hon- 
tem, que acaba de chegar-me com o documento nelle incluzo, relativo ao melancólica 
acontecimento da morte do Vosso Exmo. Governador. Hontem pela manhã recebi a 
triste noticia daquelle fatal acontecimento; e o capitão Troubridge da fragata A)iia:;otu. 
Commandante Superior desta Estação, tendo- se otferecido ir a Macao, partio effectiva- 
mente deste porto hontem quasi ao meio dia, levando também comsigo o vapor de guerra 
Medea. Estas embarcações deviam alli ter chegado hontem á noite, e eu espero que a. 
sua presença será sufficiente para segurar a tranquillidade de Macao, e supprimir o ex- 
citamento que deve naturalmente esperar-se em um Estabelecimento cujo Governador 
acaba de fenecer de um modo tão atroz e brutal. 

O Capitão Troubridge ha de por ora permanecer em Macao, e eu confio que a che- 
gada ali dos navios de Sua Magestade na presente conjunctura será bastante para mos- 
trar ás Authoridades Chinezas que o (íoverno Britânico inteiramente simpathisa com o 
de Sua Magestade Fidelíssima nesta lamentável occazião, e bem assim para fazer que os 
Chinas se abstenham de quaesquer outros actos de aggressão que possam ter meditado. 

Eu escrevi hontem uma carta ao Alto Commissario acerca deste atroz assassinio, e 
lhe declarei que este assumpto é da natureza daquelles em que eram directamente inte- 
ressados todos os Representantes das Potencias PZstrangeiras na China, e que esperava 
confiadamente que elle faria que os perpetradores d'aquelle sanguinolento feito fossem.^ 
logo presos, no caso de se terem refugiado nos dominios do Imperador cia China. 



234 



Com a expressão do meu mais sincero sentimento por esta lamentável occasião, tenho 
a honra de ser — Exmos Srs. — Vosso muito Obediente Servo — S. G. Bonhain — Ao 
muito Reverendo Dom Jerónimo, Bispo de Macao — Ulmos. Srs. Joaquim António de 
Moraes Carneiro — Major Ludijero Joaquim de faria Neves — Miguel Pereira Simões — 
José Bernardo Goularte — e Manuel Pereira — C>onselho encarregado do Governo de 
Macao. 



EDI TA L 

Reclamando a segurança da Cidade durante a presente crize os serviços de todos os 
Cidadãos, que não estão impossibilitados por moléstia ou outro qualquer impedimento 
justo de se empregarem na vigia da Cidade, houve o Conselho do Governo por conve- 
niente crear um Corpo de Policia, composta de todos os Cidadãos, que ou por cauz;i 
da idade, moléstia, ou qualquer outro motivo estejam dispensados do Batalhão Provi- 
sório; e determina c mesmo Conselho que os referidos Cidadãos se appresentem ama- 
nhã ao meio dia aos Srs. Commandantes da Policia, os das freguezias da Sé e Santo 
António ao Tenente Coronel Joaquim Pedro da Costa Britto, e os de Sam Lourenço ao 
Tenente Coronel António Pereira para saberem os serviços que terão a fazer; sendo os 
pontos da reunião a Igreja de Sam Domingos para as primeiras dlias freguezias, e a de 
Sam Lourenço para a deste nome. O que para constar se publica por este Edital, que 
<le ordem do mesmo Exmo. Conselho e affixado nos lugares do estilo. — Secretaria do 
Governo, i". de Septembro de 1849. —Autoiíio José de Miranda^ Secretario do Governo. 



A Aggressão Chineza. A Porta do Cerco. 

(Artigo da <<Pjr/e nJio official» do «Boletim» de 5 de Setembro./ 

A defeza é do direito natural. Os homens no estado em que os deixou o prinieiro' 
humano, inclinados a fazer mal uns aos outros, deram motivo para os oífendidos nos 
seus direitos repellir a aggressão; daqui pois nasceo o direito da guerra, o direito das 
gentes, e todos os outros, que tendem para a conservação da sociedade, e deliende-ia 
da aggressão. 

Postos estes princípios, que são da eterna verdade, examinemos a catástrofe da tarde 
de 22 de Agosto de 1849. Não é o assassinato do Conselheiro João Maria Ferreira do 
Amaral uma aggressão privada, ou particular; não é acto de inimigtis pessoaes; nem 
talvez os seus assassinos o conhecessem, se não pela falta do braço direito; é sim uma 
aggressão ao Governo de Macao; ao Representante de Sua Magestade Fidellissima, pes- 
soa sagrada para lhe não ser cortada a vida atraiçoadamente como o foi. 

Sendo, como é certo, que os seus assassinos foram Chinas, o facto de decepareni a 
cabeça e mão da immolada victima, e levarem-nas, revela ser tudo actos ordenados pelo 
Governo China : mas com que vistas? sem duvida para humiliar aos Portuguezes, e in- 
sultar a todas as Nações Europeas, para que se não animem a exigir delles o cumpri- 
mento dos Tratados, que os Mandarins pretendem inutilizar de facto, e obterem lucro- 
sas preponderancias como d'antes. 

Não é nosso intento desenvolverm.os aqui as ideas da Politica Chineza, coberta da 
ronha de quatro mil annos; basta-nos, que conheçamos ser aquelle assassinato, uma 
•aggressão com vistas politicas, para nos pormos em estado de defeza, para o mais que 
seriarh consequências da mesma Politica. 

O ser feita a morte aquém, e não alem da Porta do Cerco, é talvez á primeira vista, 
ou primeira consequência da aggressão: mostrar quererem sem duvida os Mandarins o 
direito Chino no território do campo, desde os muros da cidade á Porta do Cerco ; por- 
que assim queriam elles desde 1810 ou 181 1; então para deprimir a nossa ufania de 
termos extinguido o grande pirata Apáo-Chae, e agora porque não podia o orgulho Chi- 
nez tolerar que o finado Governador collocasse sobre a porta a pedra que diz — Portj 
do limite — que isso mesmo quer dizer — Farta do Cerco — e é o que nella estava escri- 
pto,, desde a antiguidade, em caracteres sinicos. 

K a Porta do Cerco, e o muro delia, uma barreira, um limite entre os Portuguezes, 
e Chinas; e entre Chinas, e Portuguezes; e por tanto um ponto commum a ambos, cujo 
fim é so mostrar o limite. Se consultarmos a Chronica de Hiam-Xan, acharemos, que a 



235 



barreira, ou Porta do Cerco, foi construída no 2." anno d d Imperador Vanly, em iSyS; 
e que por ali vinha o arroz aos Portuguezes de Macao seis vezes em cada mez, abrindo- 
se a porta para este fim : concluídos os negócios, e fechada a porta, diz a Chronica, 
voltavam os habitantes para a sua povoação, que era formada em uma grande rua divi- 
dida em quatro quarteirões, com grades de madeira atravessadas de um lado a outro, 
fechando as entradas, para assim se fazer respeitar a virtude. São palavras da dita Chro- 
nica Chineza de Hiam-Xan, em cuja península se acha Macao. 

Quem não vê disto que a Porta do Cerco é um limite ? Quem não vê pelas palavras 
— de grande rua, e quatro quarteirões fechados com estacadas de madeira — que a po- 
voação Portugueza era na grande planície do campo, onde ha muitas fontes de boa agoa, 
que muito se requer para uma povoação, e que agora regam as grandes vargeas dos 
Chinas ? Quem lendo as memorias antigas, encontrando nellas, que os Holandezes des- 
embarcaram em 1622 em Cacilhas, praia próxima áquelle campo, para attacar os Portu- 
guezes, não diria que sem duvida os Holandezes nao procuraram attacar campo vazio, 
ou vargeas Chinas, senão a povoação ali existente? E' por tanto certo, que a nossa pri- 
meira povoação foi na planície do campo. Depois do attaque de 1G22 os Portuguezes 
fizeram as muralhas, e fortalezas, e então, para evitar novo encontro com os Holande- 
zes, o todo da povoação passou para dentro; mas isto não nos priva do direito sobre o 
campo até o limite (1). 

Pela porta deste limite passaram os assassinos do Sr. Amaral nessa tarde de 22 de 
Agosto, sem obstáculo algum da parte dos Vigias Chinas ali existentes : prova de que 
os assassinos estavam munidos de ordem superior, e por isso passaram incólumes, le- 
vando a cabeça e mão da victima que immolaram, segundo a doutrina de Caifaz; dentro 
daquellas habitações se encontrou uma cabaia ensanguentada, prova do concurso, ou da 
protecção dada aos assassinos. 

Os Portuguezes chamando aos Chinas da Porta do Cerco para indagar o facto, não 
os hostilisaram, mas os Chinas pelas seteiras dispararam duas balas de mosquete contra 
o Official do Provisório, l^edro Marques, na manhã de 25, e depois abandonaram o sitio. 
Era forçoso aos nossos occupa-lo; pois aquelie ponto era commum a ambas as nações, 
■Chineza, e Portugueza; e tendo-o elles abandonado, nos tocava a nós occupa-lo tempo- 
rariamente em nossa derteza, e em nossa segurança. Neste sentido ordenou o Conselho 
do Governo a sua occupação. Não é esta uma idéa nova, ella o foi também em Agosto 
de 1840, quando os Inglezes bateram aquelie sitio, para atterrar os Mandarins, e estes 
abandonaram aquelie posto ; mas não se realisou então a occupação da nossa parte, 
.porque não tínhamos motivo, que temos agora, isto é a nossa defteza, e ha apenas um 
• anno que na Porta esteve por algum tempo estacionada uma força nossa. Occupado 
aquelie ponto pelos Portuguezes, os Chinas principiaram a aggredir-nos do forte de 
Passalhão, um quarto de milha distante, com tiros de grossa artilheria, que supporta- 
mos até a tarde. Esta aggressão foi de todos vista; as forças estrangeiras desembarca- 
ram para proteger a cidade; depois da aggressão principiada da parte dos Chinas aos 
nossos no ponto do limite; e é á vista de todas as Nações, que os nossos nessa tarde de 
25 partiram do ponto do limite para a fortaleza China, para fazer calar aquelie fogo 
inimigo; e no combate se descubrio melhor a traiçoeira aggressão nos reductos occul- 
Tos pelos montes, e multidão de gente que se ajuntou para nos'destruir, que se não fosse 
o valor Europeo, que repelio taes aggressores, indo poucos contra muitos, elles entra- 
riam a porta, violariam o nosso território, para trazer a perturbação ás portas da Ci- 
dade, revindicando o campo, e destruindo sem duvida as nossas estradas, que se fizeram 
á nossa custa, não so para nós, mas também para elles Chinas. 

Eslá portanto manifesto que a aggressão principiou da parte dos Chinas, e não da 
nossa: e que uma tal aggressão é Politica sistemática, com fins por ora muito occultos; 
mas que revela o ódio contra os Europeos na generalidade. A satisfação condigna da 
Magestade offendida pertence á mesma Magestade; e a nossa deffeza não é vingança, 
nem aggressão; mas prevenção de males, que sem ella de certo teríamos já sentido os 
effeitos da principiada aggressão Chineza. 

Um futuro destino está pendente sobre Macao. A estratégia no seu verdadeiro sen- 
tido talvez seja conveniente no estado presente, e não a diplomacia de iSSg, e 1840. O 
tempo mostrará o acerto de se preferir aquella a esta (2). 



(li Tiataremos d'este ponto em devido tempo. Pôde muito bem ser verdade o que diz o articulista sobre o 
logar da primitiva povoação do.s portuguezes ; mas, quando os holiandezes desembarcaram em !()22, já a parte 
principal da povoação não estava nesse sitio, mas sim onde tioje esta. 

M. P. 

(2) T<;m razão o articulista. Tudo ficaria mudado, se se tivesse adoptado n'essa occasião e depois a tal estrc' 
tegia. 

M. P. 



236 



Temos visto a narração dos recentes acontecimentos de Macao feita nos diversos 
periódicos de Hongkong; e com quanto cada um garanta a fidelidade da sua, comtudo 
ha em todos mais ou menos inexactidão. Da confrontação dessas folhas com a relação 
que demos no nosso numero de sahbado passado, se conhecerá melhor o que se tem 
dito de menos exacto ; comtudo nós não podemos deixar de nos fazer cargo de rectificar 
aquellas noticias em algumas partes essenciaes, que tendem a alterar a verdade dos factos. 

Em- primeiro lugar cumpre explicar como fci o accidente occorrido ás duas tancás 
mortas de um tiro disparado da lorcha do Cidadão António Ferreira Batalha. Com quanto 
lamentamos muito aquelle desastre, não vemos razão nem justiça em criminar aos por- 
tuguezes por aquelle acto, que o Fr-iend of China qualificou de indesculpável crueldade. 
Não foi durante a acção, mas ao crepúsculo da manhã seguinte, que de bordo da lorcha 
— que havia sido estacionada a cima da Ilha Verde, com ordens para obstar á passagem 
das embarcações com Chinas armados, e registar as que fossem suspeitas — se divisou 
a embarcação, que vinha á muita pressa do lado da Casa Branca, e que ao depois se 
soube, que conduzia a famiiia do comprador do Cônsul Americano. Da lorcha gritaram- 
Ihe para que atracasse para ser registada, e não sendo a voz obedecida á terceira vez, 
atirou-se-lhe um tiro de pólvora secca, e só depois de desatendidas todas estas adver- 
tências é que foi disparado o tiro de que vieram a perecer as duas tancás. A embarca- 
ção conduzia gente e á pouca claridade que então havia, não era possível distinguir-se 
a qualidade da gente que era; aquella medida de precaução era necessária para obstar a 
que os lanchaes, e outros Chinas malintencionados se introduzissem na Cidade pelo 
escuro da noite ; e nestes termos é evidente que os mesmos da embarcação são os cul- 
pados do desastre, que lhes aconteceo, pela sua tenaz teima em não obedecer á voz da 
intimação; e nem é admissível no presente caso o pretexto da ignorância, por que já 
outras vezes tem sido estacionadas lorchas no Rio para o mesmo fim, e todas as em- 
barcações Chinas já conhecem muito bem o que delias se exige em taes occaziões; e alem 
disto o China comprador que vinha na mencionada embarcação entendeo perfeitamente 
o que os da lorcha pertendiam, mas insístío em não obedecer á voz, por entender que 
não podia a isso ser obrigado, como nos consta que elle mesmo se explicou ao depois. 

Não é também exacto, que na fortaleza do Passalhão se tivessem cortado a cabeça e 
a mão esquerda a um Mandarim ; um China que ali tentou oflender a um dos nossos 
soldados na occasião destes entrarem na fortaleza, cahio de uma baila que o attraves- 
sou, e depois de morto foi degolado. Quizeramos de certo que taL excesso se não ti- 
vesse commettido, mas no calor do momento é para admirar que algum excesso se 
commettesse ? Pelo menos não ha razão bastante para se acoimar aquelle acto de bár- 
baro e brutal no momento em que elle se praticou; nem é justo, quando mesmo fosse 
justa a increpação, attribuir-se a todos os Soldados Portuguezes, cuja moderação na 
occasião a que se refere, é merecedora de todos os elogios, o acto de um só. 

Também affirmam os nossos contemporâneos de Hongkong, que a Tropa de Macao 
dera mostras de insubordinação, exigindo do Governo a nomeação dè novo Comman- 
dante etc. Não era possível fazer maior injustiça ao Batalhão de Artilheria de Macao,. 
do que suppôr naquelle Corpo o menor espirito de insubordinação. Se ainda fosse pre- 
ciso haver provas do bom estado de disciplina, e ordem que aquelle Corpo tem sempre 
sabido manter abundantíssimas as está dando a crize porque estamos passando; e é de 
justiça que digamos, e dizemo-lo sem receio de exagerar, que em parte alguma se en- 
contrará Tropa mais snbordínada e obediente que a da Guarnição de Macao. 

Os Militares assim como os demais Habitantes de Macao não desconhecem a crize 
momentosa, em que hoje nos vemos collocados; e todos tem já dado sobejas provas da 
sua moderação, e bom senso, para que se possa com fundamento, e muito menos com 
justiça, suppor-se nelles o menor intento, ou o mais leve desejo de sahir fora da cami- 
nho legal com que tem até agora sabido conservar-se. Todos conhecem perfeitamente 
a necessidade de marcharmos sempre cingidos á legalidade, e que ao primeiro passo 
que se desse fora delia, ficaria pei dida e arruinada a cauza justa e santa que deflende- 
mos. Temos a razão e justiça da nossa parte, sejamos unidos todos como um só homem, 
apoiemos o Governo, e prestemos inteira obediência ás leis, que seremos sempre ven- 
cedores, nunca vencidos. 

Por ultimo declaramos que a Chapa ou Officio do Exmo. Conselho do Governo para 
o Suntó de Cantão, de que o Friend of China imaginou ter sido portadores os Senhores 
Paiva, e Pereira, foi-lhe enviado pela mesma via porque até aqui era costume enviar-lhe 
toda a correspondência deste Governo. 



As peças que abaixo transcrevemos deveram ter sido inseridas na Parte Official desta 
folha, da qual ficaram excluídas por um engano que não foi conhecido se não a tempo 



237 

de já não poder ser remediado ; e por esta razão vão aqui estampadas com a declaração 
de ser Official a sua publicação. 

Temos a satisfação de accrescentar neste lugar que a Cidade tem continuado a man- 
ter-se em socego, e a tranquillidade publica continua sem ser alterada, achando-se assim 
os Habitantes como a Tropa animados do mais excellente espirito. 

Tem-se observado vários movimentos da parte dos Chinas nas diversas povoações e 
aideas vizinhas, os quaes comtudo não são motivos de cuidados. O Governo continua a 
receber provas de simpathia dos Ministros estrangeiros, e dos Commandantes das forças 
navaes de França, e Estados Unidos aqui estacionadas ; e prosegue com actividade e 
energia a prover de modo a todas as exigências da crize actual. 

OFFICIO DO SUNTÓ 

Siu, Vice-Rei de Cantão, etc: — Respondendo ao Officio do Conselho do Governo 
de Macao dattado de 5 da presente Lua (22 d'Agosto) sou a dizer que li com grande sur- 
preza a desgraça que aconteceu ao Nobre Governador. Tive também participação deste 
successo, da estação de Hian-Xan, e do Mandarim de Macao, acompanhada da copia do 
Edital do Conselho do Governo. Neste Edital, pois vejo que os aggressores não podiam 
ser gente pacifica e negociante de Macao. Logo não haviam de ser os indígenas que com- 
mettessem esta aggressáo, mas sim os de fora. Sendo pois assim como é que com tanta 
pressa se pode saber ? 

O Nobre Governador como em vida foi de génio assas cruel, quem sabe se os da 
própria nação que lhe tinham aversão aliciassem gente para lhe fazer este mal a fim de 
satisfazer o seu ódio ! O dizer que em Cantão tem havido pasquins e proclamações, e 
que as Authoridades Chinas deviam sabe-lo ; segue-se então que este assassínio fosse 
obra das Authoridades ? — De mais é precizo que prendam os assassinos para se saber 
onde estão a cabeça, e mão; sem isso donde é que lhas poderei entregar? E' por tanto 
fora de toda a razão o que n'Officio vem exposto. 

A Lei sobre o assassínio está clara ; é necessário que as indagaçees se façam, tanto 
por um como por outro lado, para se vir no verdadeiro conhecimento do facto, a fim de 
poder julgar e sentenciar. A vida do homem é devida aos Ceos, não se deve por tanto 
lançar confusamente juiso neste ou naquelle. — E' quanto tenho a responder ao Con- 
selho do Governo de Macao 10 de 7a. Lua do anno 2q de Taukuang, 27 de Agosto de 
1849. — Traduzido por mim abaixo assignado — João Rodrigues Gonsalves. 

RESPOST.A. 

Ao Siu, Vice-Rei de Cantão. 

O Conselho do Governo de Macao, respondendo ao Officio de V. Exa. de 27 do cor- 
rente, em resposta ao que este Conselho lhe dirigio em 22 deste mez, tem de dizer a 
V. Exa., que em resultado do exame e averiguação a que este Governo mandou proce- 
der, solDre o attentado atroz e cruel commettido na tarde do dia 22 deste mez, ficou 
evidentemente provado: 

i." Que aqueile bárbaro e brutal acto foi perpetrado por Chinas á luz do dia, á vista 
e a pequena distancia do posto da Porta do Cerco que estava guarnecido por Soldados 
Chinas, sendo isto attestado por testemunhas de vista. 

2." Que os assassinos, depois de consummado o crime, se dirigiram, levando a cabeça 
e a única mão do Exmo. Governador, para a Porta do Cerco, por onde passaram incó- 
lumes, como attesta a declaração por escripto do Cabo China de guarda daquelle posto; 
constando também que os assassinos ali se demoraram algum tempo e fizeram sacrifí- 
cios e libações ao Pagode, o que é comprovado por uma cabaia ensanguentada que ali 
se achou, ê pelos vestígios de sangue que se encontraram ainda de fresco em varias 
partes do edifício. 

3." Que o attentado não foi simples obra de assassinos e salteadores é evidenciado 
pelo facto de se terem sido levadas a cabeça e mão do illustre finado, o que mesmo 
V. Exa., talvez sem o querer, reconhece no seu Officio, e uma vez que é certo que os 
assassinos levaram comsigo as provas do seu crime sem receio algum, não é natural a 
presumpção de estarem elles protegidos pela segurança e certeza da sua impunidade 
quando commetteram o crime? e esta presumpção não somente é bem fundada, mas 
cada dia está sendo confirmada pela morosidade e mesmo negligencia com que as Au- 
thoridades Chinas se tem havido neste negocio, não obstante ser elle tão grave, e de 
tão serias consequências : e quem não vê, dos que tem conhecimento da actividade e 
recursos da Policia Chineza, que o pouco que ella tem adiantado no presente caso, é a 
consequência de algum calcullo a cujos fíns talvez não seja muito difficil attingir? 



238 



A' vista do exposto verá V. Exa. cjuão mal cabida é a asserção de ser fora da razão 
quanto este Conselho expoz no Ofihcio que escreveu a V. Exa. em 22 do corrente ; e 
com quanta justiça poderia agora este Conselho fazer boa applicação do termo ao Offi- 
cio a que está respondendo ; do qual se vc claramente qual é o desígnio das Authorida- 
des da Província a que V. Exa. preside; e o Conselho vem de novo declarar a V. Exa. 
que similhantes evasivas e tergiversações não somente são indignas e aviltantes ao cha- 
racter de funccionarios da cathegoria de V. Exa., e de quem alardea princípios de jus- 
tiça e boa razão, mas jamais poderão servir ao fim, que talvez se tenha em vista de 
evadir a responsabilidade no presente caso; porquanto o Conselho, reiterando agora o 
protesto que enviou a V. Exa., em 22 do corrente, renova a reclamação que então fez da 
prizão dos criminosos, e da restituição da cabeça e mão do Illustre e sempre chorado 
Governador, pondo a cargo e responsabilidade de V. Exa. todas as consequências que 
puderem resultar de não ser pronta, e cabalmente satisfeita esta reclamação, ficando 
livre e salvo o Direito de Sua Magestade Fidellissima A Rainha de Portugal Óíiendida 
na Pessoa do seu Representante. 

O Officio de V. Exa. é concebido em termos de tanta indeferença quanto ao facto 
accontecido, e tão otFensivo ao character do illustre finado, e ao credito de todo este 
bom povo portuguez, que este Conselho o não pôde ver senão com espanto e indigna- 
ção ; e ao mesmo tempo que repelle a maligna insinuação que V. Exa. se não pejou de 
íançar em um papel official assignado do seu próprio punho, o Conselho protesta a 
V. Êxa. contra este novo insulto e ultraje por V. Exa. feito á memoria do Illustre Re- 
presentante de S. Magestade Fidellissima, o falecido Governador, e á dignidade c bom 
nome da Nação Portugueza, representada pelos Habitantes desta Cidade. — Jerónimo 
Bispo de Macao, Joctquivi António de Moraes Carneiro, Ludgero Joaquim de Faria 
Neves, Miguel Pereira Simões, José Bernardo Goularte, Manoel Pereira. — Macao 3i 
de Agosto de 1849. 

(Continua.) 



Acompanha estes documentos o retrato de Manuel Jorge de Oliveira Lima. Pelo que 
dissemos a pag. 172 d'esta Revista, era um dever a sua publicação a par dos dos outros 
cooperadores da obra de Amaral. 

Manuel Jorge nasceu na cidade do Porto, a i3 de outubro de r8o4, e foi baptisado 
na freguezia de Santo Ildefonso. Foram seus pães : Joaquim d'0]iveira e D. Leocadia 
Leonor de Lima. 

Sendo um liberal convicto emigrou para Hespanha, para evitar as perseguições de 
D. Miguel. Esteve na Bélgica, França e Inglaterra. Voltou a Portugal entre os ■j.Soo do 
Mindello. Pertenceu depois sempre á Secretaria do Ultramar, onde- por muitos annos 
foi seu Official maior e Secretario geral do Ministério. Tinha a carta do Conselho e as 
commendas de Christo e de S. Maurício e S. Lazaro de Itália. P"alleceu em 1 1 de julho 
de 1876 na sua casa e quinta do Muro, concelho de Penafiel, e jaz na egreja da fregue- 
zia de S. Miguel de Paredes, «por ter por mais de uma vez manifestado, nos últimos 
tempos de sua tão boa e querida companhia, desejo de ficar n'aquella egreja, á sombra 
do lodão, que está ao lado da mesma egreja», segundo me informa pessoa que muito 
lhe quiz. 




Ta-ssi-vang-kuo 



Vol.I-Est. XXII.-pag. 2?S 




MANUEL JORGE D'OLIVEIRA LIMA 
Photograv. de P. Marinho, segundo um cliché da Photographia Universal, de Solas 





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240 



Cathrina, minha (lathrina^ 
Cathrina meu de travessa (273), 
Nunca bom^ficd tristi^ Cathrina^ 
Vós logo fica condessa (274). 

Riva de vosso porta, Cathrina^ 

Três tàu (275) logo botâ^ 

Alo maciío (276), tingili (277), Cathrina^ 

Sabsana cõ ocá (278;. 

Cancôm (278) já dá fula (219), Cathrina^ 
Lumhrigajd irgm em pê (279), 
Formiga cõ porçobezo, Cathrina^ 
Core rua pidi come. 

Capam (280) de minha horta, Cathrina^ 
Já sabe dança shotiz (281), 
Branquinha cô minha Nilo (282), Cathrina, 
Já sabe caça perdiz. 

Tudo ratazana, Cathrina, 
Pidi carçam (283) vesti, 
Aranha cõ carapato, Cathrina., 
Casamento já pidi (284) . 

Poço já seca ago (285), Cathrina, 
Chatotn {~6) já non tem chã; 
Bicho-nune (286) já cae aza, Cathrina, 
Gato furta leva. 

Gotn-gom (28;) canta saião, (84), Cathrina, 
Pardal jugá turúm (288), 
Andor inho furta casa, Cathrina (289), 
Sapo dança la7idum. 

Pomba puçá (290) ago, Cathrma, 
Ade virá piam (291)? 
Porco toca viola, Cathrina., 
Mosca lava buiam (292). 

Mosquito dá caçada, Cathrina, 
Manduco limpa cambrám (293), 
Grilho toca guitara, Cathrina, 
Cabra sandê (294) lampiám (295). 

Macaco toca piano, Cathrina., 
Barata capi-ôlo (296), 

Quim õze (29) lembra cazá, Cathrina, 

Certo são tnuto tolo. 



241 



Eva na paraizo, Cathrina, 
Jd engana Adam; 
Amor d'ôze em dia, Cathrina^ 
São pior que paço-huiam (^297). 

Babalúa (298) jd sae fora, Cathrina, 
J'onte jd 7iõn tem ãgo, 
Rapariga olá nhum-jthum (16), Cathrina, 
Boca core babo (290). 

Cangi (3oo) de fida-papaia (3oi), Cathrina^ 
Ciúme logo curd (3o2), 
Nhame (3o3) aréca (30.4), cô caco, Cathrina^ 
Réva (239) logo tird. 

Côpo-côpo (247) monta cavallo, Cathrma, 
Morcego querê casa, 

Nhonhonha {iS) /ald de amor, Cathrma, 
Coração abri fichd (3o5). 

Qiiim buscd amor, Cathrina, 
Ung-a dia logo churd; 
Amor de ozê em dia, Cathrma, 
Pôco logo durd. 

Pece (3 06) de pescaria; Cathrina, 
Provê to Lõgo dá; 
Pescaria de amor, Cathrma, 
Fresctira lõgo acha. 

Gente curto- curto (3o7), Cathrina, 
Séria nadi faltd, 
Mmina ôlo preto, Cathrina, 
Capaz (3oS) namord. 

Branca, sã intiocénte, Cathrma.^ 
Morejta, capaz fmgí, (3o8) 
Preta abusadéra, Cathrina, 
Vingança sempre pidi. 

Quim querê casa, Cathrina, 

Primero deve sabe, 

Lavd-rópa, cuzinhã, Cathrma, 

Piiçá ágo (290), compra sâm (3o9), bare (3 10). 

Cathrina, minha Cathrma, 
Relógio td dá hora. 
Nunca bom tristi, Cathrma, 
Adam lago vem agora. 



242 



Lagri^ qiiitiz-qitiiiz (3 11), Caiiinna, 
Ranho ^ fitifoto (3 12), 
Babo criá escuma, Cathrina^ 
Coração piti-poto ( 3 1 3 ) , 



Devo á obsequiosidade do distincto capitão da guarnição de Macau, sr. Cláudio Igna- 
cio da Silva (1) a communicação d'essa cantilena, que, pelo titulo de/»aroíin7, me parece 
ser imitação de qualquer outra do mesmo género de origem reinol. São vulgares.no 
cancioneiro do reino, as cantigas, cantilenas g fados em que os animaes de todo o gé- 
nero desempenham um papel importante para tornar mais risivel o sentido. Ainda no 
entrudo do anno passado wví\^. parodia ou dança carnavalesca cantava por essas ruas de- 
Lisboa os seguintes versos (2): 

Fallei com a bocca fechada 
Aos olhos de uma perdiz, 
E vi correr vinho tinto 
Da bicca de um chafariz. 

Fui n'um bote ao Lumiar 

E vi lá mil maravilhas, 

Voltei em trem para Cacilhas 

Sem ver agua do mar ; 

Mas vi coisas de espantar 

De dar pouca gargalhada : 

Uma velha já mirrada 

Em discussão com um mudo ; 

Para curar um surdo 

Falei com a bocca fechada ! 

Vi um gato reinadio 
Brincando com uma carocha, 
E, segurando uma tocha. 
Um linguado sadio ; 
A comer azeite frio 
Vinha tristonho chamari^ ; 
Vi dois lagartos zangados 
Atirando rebuçados 
Aos olhos de uma perdi^ ! 

Vi um gato cosinhar. 
Um rato cantar o fado, 
E n'um sino empoleirado 
Um lindo cão a pregar ; 
Vi dois gallos A jogar 
A roleta com um pinto, 
E n'um carro do Jacintho 
Um perfeito rapagão 
Metter a faca no pão, 
E vi comer vinho tinto ! 



(1) O sr. capitão Silva tem uma verdadeira paixão pela terra em que nasceu e por uido quanto lhe diga res- 
peito. E' um dos bons auxiliares com que o Ta-ssi-yang-í;uo pôde contar. 
Í2) O Século, de 12 de feveiro de 1899. 



243 



Uma gaivota garota 

O lobo tudo papou 

No restaurante do Matta 

Na rua de Santa Martha, 

E fugir a codorni^ 

Vi lun pintasilgo petiz 

Que tinha ares de valente ; 

E vi correr agua ardente 

Da bica de um chafariz ! 



E, como essa, poderia citar centenas de canções populares em que se apresentam os. 
animaes praticando despropósitos para gáudio e divertimento dos circumstantes e ou- 
vintes. 

O leitor encontrará as notas elucidativas nos números correspondentes da serie que 
estou publicando n'outra secção desta Revista, com o titulo Subsidias para o estudo dos. 
dialectos crioulos, etc. 




Catalogo dos Vicários Geraes e Visitadores das Missões do Norte e do Sul de Goa, 
e dos Superiores Ecclesiasticos de Cranganor, Cochim, Meliapor, Macao e ífo- 
çambipe e suas circumscripções, acompanhado da recopilação das ordenanças 
por elles publicadas. 

I. Norte 
a) BOMBAIM 

1 5. . — Ps João Soares: «Chaulensem antistitem» o chama MatFaei Opera omnia 1,390. 

i38i — P.^ Cláudio Rodolfo Aquaviva, jes., visitador das missões do Norte: do que 
fez n'essa visitação dá elle mesmo amplas noticias na sua carta, transcr. nas T>e reb.ja- 
pon. indic. et periian. epist. recent., Antuerp. i6o5 p. 809, 10 e seg. 

i58. .. — P." Nuno Fernandes de Siqueira, nom. pelo arcebispo D. Vicente da Fon- 
ceca visitador das egrejas do Norte (i). 

i6o3 fev. i3. G. r. «Também me dizeis que o arcebispo de Goa D. Aleixo de Mene- 
zes estar (sic) determinado de ir visitar n'aquelle verão as fortalezas do Norte, lhe pedi- 
reis quizesse ir invernar a eilas, para com sua presença e auctoridade aquietar a cidade 
de Ghaul e provir as mais, a que elle se olTerecera mostrando n'isso muito zelo de meu 
serviço, e partira em 25 maio. . . ; que o arcebispo procedeu como convinha a meu ser- 
viço, e que depois de ter visitado e cumpriíio com as obrigações de seu oíficio pasto- 
ral, entendera na arrecadação de minhas rendas, em que achara muitas desordens e que 
reformara isto de tal maneira, que cresceram nove mil pardaos de ouro nas ditas rendas». 
«Que andando visitando o arcebispo as egrejas de Tannah», achara também ahi muitas 



(•) Já depois de termos quasi prompto todo este fascículo fomos favorecidos com a valiosa collaboraçáo do 
sr. P.*^ Casimiro Christováo de Nazareth, o erudito investigador das Mitras lusitanas no Oriente, cuja i * Parte, 
publicada successivamente nos Boletins da Sociedade de Geographia e depois em volume separado, constitueum 
verdadeiro monumento elevado em honra da ligreja portugueza em Goa. A 2." Parte, que vem hoje iniciada n'esta 
revista, occupa-se com grande desenvolvimento das dioceses sufiraganeas do arcebispado de Goa, entrando n'este 
numero as de Macau, Meiiapor, etc. Entra, portanto, esse assumpto no nosso programma, e é com verdadeiro pra- 
zer que nos congratulamos com os nossos leitores pela lembrança do sr. P " Nazareth em nos favorecer com a 
publicação no Ta-ssi-yang-kuo da sequencia de uma tão apreciada obra — que é das taes que ficam, porque será 
sempre con.sultada por todos os que de futuro precisarem estudar a expansão do cathohcismc no Oriente. 

( I ) Archivo fortg oriental, III, 197. 



240 



malversações, e dera ordem no pagamento evitando despesas phantasticas; cjue achara 
ainda muitas desordens nas fortalezas de Baçaim e Damão (2). 

Em iõo5 em virtude da pastoral do mesmo arcebispo Menezes (1 P. p. ii3), foram 
authenticados, não consta por qual superior ecclesiastico, 120 milagres obrados por 
N. S. Remédios, titular da egreja do mesmo nome em Baçaim, alguns dos quaes refere 
a Hisl. S. Domg. III i. .^. c. i5 e o Santitar. Mar. VII , ■i\i. 

Em \C)\5 estando de visita ás egrejas do Norte o arcebispo D. Christovão de Sá (I P. 
p. iiQ e 606), intentou fundar em Baçaim um recolhimento, «para guarda da honesti- 
dade das donzellas e casadas moças, cujos maridos acontece andarem muito tempo au- 
sentes»: não se levou a etfeito esse projecto pelo desapprovar s. mag. em c. r. de 20 de 
fevereiro lõiS, movido pela seguinte informação do vr Ind. (1616 dez. 3o): "Neste in- 
verno passado estando o arcebispo. . . em Baçaim, tratou de edificar ali um mosteiro ou 
recolhimento de mulheres, e se entende que o effeituaria se a cidade que a principio lhe 
pediu ou facilitou, o não encontrara depois, e posto que o arcebispo sabe da ordem que 
ha de v. m. em contrario, todavia para que ella se cumpra melhor, convirá que v. m. lhe 
mande escrever sobre isto e advertil-o que não se intrometta nestas obras» (3). 

Estão publ. nos Doe. revi. Ind. IV, 78, o documentos relativos a accusação que se 
fez ao dito arcebispo, de ter pretendido entrar em Baçaim a cavallo debaixo do pallio, 
e que o levasse de rédea um dos fidalgos daquella cidade. No arch. t. tombo encontia- 
se a c. r. de i5 março iljiy mandando, que os bispos da índia não entrem em seus bispa- 
dos a cavallo debaixo do pallio; e outra c. r. de 7 março itjiq em que elrei se dá por 
satisfeito das justificações e informes enviados pelo arcebispo de Goa, a respeito de sua 
entrada em Baçaim. Outrosim encontram-se copias da c. r. de 27 março 1G20 exigindo 
informação do vr. Ind. sobre as egrejas que o mesmo arcebispo mandou erigir de novo 
no Norte, — e da resp. do vr. de 18 fev. 1621. 

Em ih 17 (?) escreveu o vr. Ind. a s. mag. : «O arcebispo d'esta cidade veiu o anno 
passado do Norte onde era ido a visitar, e correu pessoalmente todas aquellas terras em 
que trabalhou aiuito» (4). 

1616 — Provincial dos jes. em Goa : foi visitar as suas casas do Norte (5). 

■Na obra ms. do arcebispo de Goa D. Ignacio de S. Thereza Estado do prés. est. da 
Ind. % 46 se diz, que «em Chaul fizeram os moradores uma descortezia a um bispo go- 
vern."', a quem visitando a fortaleza deram de propósito um encontrão e o fizeram cahir; 
principiando ao mesmo passo da queda do prelado o descaimento e ruina d'aquella ci- 
dade». Não aponta o nome do bispo nem o anno em que isto se passou: ^eria D. Fr. Ma- 
nuel de S.'" António, de quem adiante faço menção? 

1617 ? - P.'' Francisco Callaça., cónego da sé de Goa, nom. pelo arceb. D. Christo- 
vão visitador das missões do Norte. Em itJi8 Vasco da Gama, capitão da fortaleza de Ghaul 
afrontou este visitador, mandando botar fora da egr.^ em Chaul a cadeira posta para 
seu assento ; do qual aggravo queixando-se o arcebp.'' ao vicerei, foi por este reprehendido 
pelo desacato feito contra a egr.^ o dito capitão, e com mais razão do que o vicerei fi- 
zera com D. .loão Silveira e João Cayado de Gamboa, pelo que commetteram contra 
o bispo de Malaca (V. adiante capit. Malaca), sendo em caso mais leve (õ). Por sua 
parte queixando-se dessa reprehensão a s. mag. o d." V. da Gama, e mandando elrei in- 
formar o vicerei, respondeu este em 18 fev. 1Õ21 que encarregara ao chanceller da relação 
a inquirição desse facto, e o chanceller disse que «estava lembrado que o capitão de 
Chaul V. Gama se queixara á relação do arcebp.", o mandar notificar com cominação 
de censuras. . ., que se não intromettesse em defender a jurisdicção real, e deixasse esse 
cuidado ao ouvidor a quem pertencia. E que também se queixara de Francisco Callaça, 
dignidade dessa sé de Goa visitador do arcebp.", indo a Chaul se tratar com pompa 
episcopal, sentando-se nas egr."' em cadeiras d'espalda de veludo sobre alcatifa com si- 
tiai diante». . . 

1620 .'' — P."" João Fernandes íi'^4/?»(?/t/<7, inquisidor, visitador das egr.*"* do Norte; 
acerca de sua visitação informou o vr.lnd. a s. mag. em 12 dez. 1621 : «Resultou muita 
fructo desta sua jornada, assim por muitas cousas que havia que remediar, por haver muitos 
annos que não tinha passado aquellas partes (do Norte) outro ministro da inquisição; 
como por o inquisidor (Almeida) se haver nella com muita inteiresa e prudência, deixando- 
grande satisfacção de seu procedimento nesta visita». 

Deferindo a pretenção do arcebispo D. Sebastião de S. Pedro, da visita que queria 



(2) Bolet. Goa 18S0 n.» lor, v. ib. 1881 n.» 143. 

(3) Documt. rem. Ind, IV, 343, — Bolet. i883, n." 267. Lè-se na Rebdion de Ceylany los progr, de su conq.y 
Lish 16S1. pag 65 que o arcebispo invernou em Baçaim em 1618. 

(4) liolet. 1884, n." i5. 
{b) Bolet. i8S3, n.<'267. 

(ój Chronisía Tissuary, 1869, n." 42, Doe. rem. Ind. IV, 21 1. 



247 

fazer ás partes do Norte, e pedia embarcações e mais cousas que se deram aos seus ante- 
cessores quando foram visitar aquellas missões, mandou s. mag. em c. r. de 1G29 fev. 23, 
que se desse ao arcebp." o que se costumou dar aos seus antecessores para esta visita. 

Do relatório ou representação que fr. Frei Sirnão de Nazareth, provincial dos fran- 
cisc. em Goa dirigiu a s. mag. em i.< dez. 1629 consta, que no Norte possuíam aquelJes 
relig."* 18 egr.'- com mnis de j.rooo christãos (7). 

Em i63o jan. 4 escrevia o vr. Ind. a s. mag.: «Lembrei ao cabido mandasse visitador (ás 
missões do Norte), e ao bispo D. Apoliinar d'Almeida que passa a Ethyopia ordenei 
chrismasse, como o fez, em todas as cidades do Norte» (8). 

Em i63õ e nos annos ant. e post. o prior do conv.'" dos august. em Mascate, era vigá- 
rio da vara de todo o estreito e christandade do mar Pérsico. 

i636 — Fr. Jerouymo da Paixão, visitador das egr." do Norte, como vigário ger. dos 
dominic. e como governador do arcebispado de Goa, que então era juntamente (9). 

Em 8 março desse anno 636 o vr. da Ind. deu conta a s. mag. «de um crime. . enor- 
me. ., que se commetteu no Norte., e foi que indo fr. Jer." da Paixão, vig. ger. da ord. 
de S. Doming., que se achava no Norte (onde era ido visitar seus conventos,'^ com pode- 
res de commissario do s. officio), a uma aldeã da jurisdicção de Baçaim por nome Cas- 
sumba, de que é senhorio um fidalgo por nome André Telles de Menezes, levando com- 
sigo um relig." seu companheiro e o r.'^" Francisco Calassa vig. de Baçaim e outras 
pessoas e officiaes do eccles.", para o efTeito de mandar quebrar um pagode de grande ado- 
ração dos gentios, que na dita aldeã estava com notável escândalo dos christãos, e por 
ser em terra de v. m., e querendo executar o intento que levava, lhe saiu ao encontro a 
gente da mesma aldeã com muitas armas, e com grande Ímpeto e alarido feriram mor- 
talmente os d.°^ p.*"* e olíciaes que com élles iam de feridas, de que em breves horas 
morreram com grande senti m.'° dos christãos, porque o dito fr. Jer." era relig " de exem- 
plar virtude e santidade». lN'outra c. de 11 nov. seg. dizia o mesmo vr.: «Fr. Jer." da Pai- 
xão morreu no Norte pela nossa s.*^ fé. ., e os relig."^ da sua ordem me affirmam, que 
seu corpo em Baçaim onde está, obra muitos milagres de que se está fazendo averigua- 
ção». 

Acerca do que obraram em Baçaim sobre matérias eccies.^', os visitadores das for- 
talezas do Norte despachados pelo vr. da Ind., «que passaram uma provisão para os vi- 
gários das freguezias não levarem azeite nem outras cousas pelos casam.'" dos gentios, 
nem pelas ramadas que para elles fazem, e queimas de corpos mortos de parentes, e não 
conhecerem das causas dos seus freguezes, e outra para se lhe cumprirem ao povo gen- 
tio as^ provisões que tivessem em seu favor, e para os pais dos christãos não tomarem 
seus filhos por órfãos», — declarou s. mag. em c. r. de i636 fev. 19, «que os visitadores 
seculares se não podiam intrometter nos matrimónios dos gentios, nem mandar aos vi- 
gários cousa alg." sobre elles..; porém sendo o que elles ordenaram conven.*" ao serviço 
de Deus e bem das christand.^% vos encom.'^° (ao vr. Ind ) que chamando o arcebispo de 
Goa, trateis com elle a matéria, e achando que convém o que os visitadores haviam or- 
denado, o faça elle executar por provisões suas dirigidas aos vigários, pois a elle tocam 
estas prohibições, e advertireis também ao arceb. que lhes não consinta tomarem co- 
nhecim.'" das causas de seus freguezes, mas que naquelles casos que por direito e con- 
stituições synodaes lhes pertencer fazel-o .» 

i636 — Fr. António Baptista, dom., visitador das egr."' do Norte: depois bp." eleito 
de Macao. 

Na c. r. de t63í) jan. 14 se diz: «Sobre a provisão que se passou para os botiqueiros 
da fortaleza de Chaul, avençaes de minha fazenda, poderem vender nos domingos e dias 
santos os mantimentos que quizessem, ante missa com a porta meia aberta e depois pa- 
tentem.", e os escriptos que sobre a matéria escreveu ao secretario desse estado, o bispo 
de Cochim sendo governador delle .; e outra semelhante provisão (que passou D. Jero- 
nymo d'Azevedo), que o bp." dizia não constava se praticasse, nem era justo que se 
mandasse nella ao vigário da vara ecclesiastico que a obedecesse ., (resolveu) que esta 
provisão se recolha e não use delia, por quanto na jurisdicção eccles." aguarda dos pre- 
ceitos da s.'" egr.^ cathol." se não pode intrometter outrem». 

A I out. 1641 foi acclamado elr. D. João IV em Chaul, presidindo a funcção religiosa 
o p. Gonçalo Fernandes de Sá, prior e vigário da vara da matriz collegiada de Chaul, 
como se vê do respectivo termo d'acclamação e juram.'", que existe no arch. t. tombo. 

Existe também nesse arch. a queixa qiàe em 1642 dez. 20 fez a s. mag. fr. Manuel 
de S.'" André, que servia nas terras do Norte de pai dos christãos desde i636, de que 



(7) Bolei. 1S84, n.» 109. 

(Si Ib. 1884, n-°5i. 

(9) V. I. P. doestas Mitras, pag. i4'o, — Rei. ac. sum serviços rei. dominic, pag. 10. 



248 

os ministros seculares não guardavam os privilégios e isenções dos christãos novam."' 
convertidos ; sobre a qual s. mag. em c. r. de G44 ab. 4 exigiu informação do vr. Ind. 

Em 1644 era fr. Fernando ds Rosário, aug., visitador das missões de Mascate. 

1646 — P." Gregório Domingues, jes., nom. visitador dos collegios, casas e egr."' dos 
jes. no Norte; foi-lhe arbitrada em 64o nov. 3 ordinária pela fazenda de Goa. 

1648 — Fr. Francisco da Conceição, franc , visitador das egr."" do Norte. «Visitei as 
partes do Norte o an. pass. (diz elle a s. mag. em uma representação dat. de 649 jan. iG), 
onde fiz dous baptismos geraes de infiéis de mais de 700 almas, que por suas livres von- 
tades vieram ao grémio da s. madre egr.^, e o que é mais de considerar, muitos orphãos 
se baptisaram com grande applauso do christianismo, como se pode vêr pelas certidões 
que apresento». 

i65o ? P." Bento Ferreira, jes., reitor do seminário de Rachol, nom. por seu pro- 
vincial visitador das egr."' de Bombaim. 

D'um «vescovo missionário» que achava-se em Chaul em 1G72, falia fr. Vicente M. 
de S. Caterina de Sena Viaggio aWlnd or. 129. 

Pelos an. de 1Ò82 entrando pelas terras do'íS'orte com um formidável exercito, o ter- 
rível inimigo da religião christá Sivngy, destruiu q.""" egr.*' pôde a ferro e fogo (10). 

A p. 100 da I P. d'estas Mitras ficou dito que o arccb. D. Agostinho da Annunciaçao 
mandou visitadores, que por elle visitassem as missões do Norte. 

Desde 1G9S até 172S os relig."* francisc. que parochiavam as egr.^' do Norte, haviam 
convertido e baptisado 1009 gentios, perto de 3oo dos quaes em tp.° do arceh. D. Ignacio 
de S. Theresa : no Discurso apologet. em que se mostra a fals. da queixa que os cana- 
rins remetteram ao cons. de ultr. contra os rei. francisc. . . (ms. bibl. nac. Lisb. e arch. 
t. tombo), está inserta a estatística d'esses indivíduos baptisados em cada uma das so- 
bred.'"* egr."". 

1704 ? P." Manoel João Vieira, inquisidor, e deão da sé de Goa, nom. visitador das 
egr.** de Bombaim (11). 

171 5 — D. Fr. Manoel de S.'" António, bp." de Malaca; achava-se n'esse a. 1715 em 
Goa; acceitando a jurisdicção do cabido da sé prim.^"' passou a Bombaim com a delega- 
ção de visitador das egr.-^* ('2): propoz a s. mag. que era m.'" conven."^ haver um bp.° 
portuguez em Baçaim, e el-rei mandou em c. r. de 12 ab. 17 18 informar sobre esta ma- 
téria ao vicer. da hidia. D'uma desattenção que fez a este bp. visitador o general da 
praça do Norte, faz menção o arceb. de Goa D. Ignacio de S. Theresa no Estado do 
prés. est. da Ind. § 48. . 

Em c. r. de 26 out. 1716 dizia s. mag. ao vice rei da índia : «... Se viu o que escre- 
vestes em carta de 1 1 jan. d'este an., em como. . . a falta de fragata fora causa com que 
o bp.o (de Malaca) se detivesse n'essa cidade (de Goa), sem embargo de se lhe ter defe- 
rido a todos os seus negócios que o obrigaram a vir a Goa, e que representando-vos o 
cabido que visto se achar n'essa cid." o bp.° de Malaca, e não serem as terras do Norte 
visitadas havia 3o an.% seria conven."' que o dito prelado fosse a esta dilig.", e como jul- 
gáveis ser este negocio tanto do serviço de Deus^ em ordem a se castigarem alg." escân- 
dalos que não faltavam naq.'"" terras, propuzereis ao bp." esta matéria, e que assentindo 
n'ella, e que para este etfeito vos resolvereis a dar-lhe embarcação para seu transporte^ 
me pareceu bem dizer-vos que obrastes bem n'este particular de que me dais conta, e 
que espero de vós que recolhendo-se o bp.° d'esta visita para Goa, concorrais com to- 
dos os meios para que vá para o seu bispado, onde se considera fará gr.'''= falta a sua 
pessoa para o pasto das suas ovelhas, que ha tantos annos estão sem terem quem os 
governe.» 

Respondeu o vicer. em 17 jan. 1718: «Quando cheguei do reino..., se achava já 
n'esta cidade o bp." de Malaca, que se havia recolhido das terras do Norte, logo que 
chegou a ella o arceb. primaz» : accrescenta que para a viagem d'aq.'° bp.'^' para Timor 
aprestara um patacho. 

Em 19 jan. 1719 respondeu assim o vicer. da Ind. a sobred. c. r. de 12 ab. 1718: 
«... O bp.° de Malaca se achava em Baçaim, e não devia ter muita vontade de voltar 
para Timor; supponho que por essa razão deu a v. mag. arbítrio de criar-se novo bp.* 
para o Norte. . . Não sendo tão larga a viagem, podem os arcebispos de Goa ir visitar 
alg.'* vezes a prov.-^'- (de Baçaim), hoje a melhor e maior da sua jurisdicção» : allega 
que a faz.*^* pub." não pode pagar mais a côngrua de novo bp.°, e que no mesmo sentido 
de não ser conv." a criação de bispado em Baçaim, se deliberou no congresso do povo e 
senado da camará de Baçaim no dia 2 d'aq.'° mez. 



(10) V, Santiiar. Marianno VIH, 217, 23, 4, 60, 2. 

■II' Arch porlí,'. or. VI. i5g. 78. 

(12) No Dolet. 1861, n " 23 estão publicadas as 2 cartas do vicer Ind. de 5 e 6 nov. 1714. propondo ao dito bispo 
que va visitar aquellas missões, e a de 3i de julho 71Ó, remettendo ao cabido a carta que do Norte escreveu o 
bispo. 



24 9 

Em 1717 o p. Jorge Pereira era vig." da vara e prior da matriz de Chaul. 

171Q ou 20 — Fr. José de SM Theresa, dom., visitador das missões do Norte. 

Creio que em 1728 era em Chaul vig. da vara e prior da sé o p. Peregrino de Mes- 
quita. 

Em 1738 maio 17, q.''" os marathas conquistaram Salcete, destruiram mnumeraveis 
egr.»", conventos e santuários (i3). 

Em 1744 foi nom. pelo arcebisp." de Goa um «visitador para as terras do Norte».. 
Não sei quem fosse. 

Em 1789 intentou o arceb. S '^ Catharina nomear o ^. Eusébio Luciano Carvalho Go- 
mes da Silva, vig. g. em Bombaim e mandal-o por seu visitador ás terras do Norte, com 
faculd.'' para conferir o sacr.'° da confirm.*" mas por modéstia elle se excusou (14). 

1789 — P." João António da Silva, parocho da Raia e desembargador da rei. eccles. 
de Goa; nom. por provis. archiep. de 7 maio vigário ger. de Bombaim; e por outra de 
5 maio visit. ger. das missões de Tanna e Baçaim. Conseguiu que os missionários car- 
melitas da propaganda, estabelecidos em Bombaim que se haviam apoderado de todas 
as egrejas fundadas pelos portuguezes no Norte, aproveitando da injusta protecção da 
governo britannico em 1720, prestassem juramento a i5 maio 1789 (5), de não reconhe- 
cerem ali outra autoridade que não fosse a do primaz do oriente, a não obedecerem 
mais que a este só e aos seus delegados, e finalmente a se não intrometterem em cousa 
alguma relativa ás suas egrejas. Por indulto pontifício de 20 jul. 1738 chrismou a muitos 
fieis. Regressando à Goa fal. na Raia a lò dez. i8i6(ió). 

1790 — P." Ignacio Gomes, vig. g. por nom. do arcebispo (17): tinha sido antes vig. 
da vara de Baçaim, do qual cargo foi deposto pelo arceb. em 17Õ7, e depois reconduzi- 
do. Publicou as seg. ordenanças (como vig. da vara) : 

i) 1779 Dezembro 3o. Circular do vig. da vara de Baçaim Ignacio Gomes. Diz que as 
justificações na falta de assentos dos baptismos, casamentos e óbitos são da competên- 
cia do vig. da vara, e não dos parochos por não serem juizes no foro externo, como de- 
cidiu o arceb. de Goa. Introduziu-se esse abuso de fazerem as justificações os parochos^ 
no tempo em que elle (vig. da vara) foi privado deste officio, mas como agora está rein- 
tegrado, quer que corram as cousas por sua ordem, e declara por nullas as justificações, 
que outrem fizer (18). 

2) 1774 Setembro 16. Decreto do mesmo vig. da vara. Determina que: i o vigário de 
N. S. Remédios tirando rol dos que não costumam ouvir missa de preceito, proceda con- 
tra elles conforme está prescripto no § 8 da pastor, archiep. de <')o(sic). (iq) ou lhes im- 
ponha penitencia publica. . ., 2 mande fazer pia baptismal que não ha, e seja q.'" antes, a 
custa da fabrica ou do povo, fechada, para se conservar nella a agoa sagrada, por não 
ser permittido fora dos casos de necessid.*^ baptisar-se sem ella; 3 como não tem com- 
promisso a confraria de N. S. Remédios formada pelos fieis na egr.* principal deste ti- 
tulo, nem a de N. S. Mercês na egr. filial das Mercês, manda que em b mezes segundo o 
§ 1 1 da cit. pastor, do arceb , os confrades façam compromissos e lh'o'S remettam para 
elle os submetter á approvação do primaz, sob pena de serem dissolvidas as irm. ''''"; 4 o 
vigário mande dar melhor forma e devida composição ao retabolo do altar collateral 
que designa, e acha-se desconcertado, e seja a custa da fabrica, do povo etc. ; 5 em tempo 
compe.''^ o vigário mande o rol da christ.''" para ser registado no cartório do varado, 
como o arceb. ha determinado; 6 o parocho seja mui solicito em dar as suas ovelhas o 
pasto espiritual da divina palavra na lingua vulgar, em instruir as parteiras da freguezia 
no modo de baptisar os recemnascidos, e a todos no modo de receberem os sacram.'"* ; 
7 se tenha a egr.'' com gr '''-■ decência e limpeza, para o que deverão contribuir os fre- 
guezes, e lhe dè parte q.''" elles não puderem fazer, para se providenciar por outra via. 



(i.^) Relac. guerr. hid. desde 1736 até 1740, Lisboa, 1741, — 67zro». constitua. Goa, i836, n." 5â,, — Notes on 
the hist. and'anliq. of chaul and Bassein, J. Gerson da Cunha, Bomb. :876, pag. 199. Consta da Gaveta de Lis- 
boa, 172(5, n.* 52, que em abril 1725, o Pelogy eo Muratta invadiu contra a fe dos pactos que tiniiatn teito com o 
geneial D. Luiz da Costa a provincia do Norte, roubando e queimando 12 aldeias, empregando 14 000 homens- 
ifesta expedição. V. mesma Ua;eta 1732, n.'"' 28 e 29. 

(14Í Compend. da vida do dito Eusébio Silra. cap. XIIL 

{i5t Resp. ao <Address d'0' Connor', i38, — Aíe/Ze.v sobre o padr. portug ij, — Addenda to ílte Patriot ior 
june 18/8, Bomb., pag. 12, g, — Plain facts plainly told., Bomb. i885, pag. 58,— Times of Goa, i885, n.° 14. 

(i6j Report from lhe select committee appotnted, lo reporl the nature and substance of the laws and ordi- 
nances existing inforeign states, respecling lhe regulation of their rom. cathol. subjects in ecelesiasí matters, 
and their intercourse with the see of Rome, or any foreign eccles Jurisd. i8i3, i85i ináo indica o anno nem o 
logar da impressão) foi. — V. P. José Kijf 1867 pag. 276, 77 n., — Relai. e prop. que apresent. acommiss. dasmiss. 
ultr. aí. T. S Leitão Castro, Lisboa iSS3. pg. g,— Anglo Lusitano, 1888 u." iii,—Jnd!0 imparcial, Bnmb. 1844 n.* 

(17) The padroado question, Bomb i885 p. 44, — Plain facts vlainly told 41,— Times of Goa i883 n ° 14. 

(18) Encontram-se esta e as seg. ordenanças que dizem respeito as egrejas e missões de Bombaim, nos livros, 
paroch. do Espirito S., N. S. dos Remédios, Sandor, l'alle e Hapri (Baçaimi, e de Mazagão, S. .Miguel de Mahim,. 
Tanna, etc. 

(IO; Kefere-se á pastor, do arcebp." de Goa de 1760 setb. 27 (l P. destas Mitras p. 283j. 



2D0 



Cabe aqui, para se observar possivelmente a ordem chronologica, intercalar summa- 
riamente as seg. circ. d'um vigário da vara de Baçaim : 

3) 17. . . Circular do vig. da vara de Baçaim Nicolao Francisco da Conceição. Em 
execução da ordem (sic) do arceb. de Goa de 3o de maio (não indica o anno) determina 
que, cessando o abuso de servir-se para administrar o baptismo «de agoa benta que se 
instituiu ad effugandavi omnem potestatem inimici nostri, e não da agua sagr." com chris- 
ma, que se dedica para ministério» deste sacram.'": 1 se faça pia baptismal nas egr.-''" que 
a não tem. ou de pedra ou de latão dentro em dois mezes, sob p. de susp. ao parocho e 
multa de 5 rp. ao fabriqueiro; e entretanto se faça pia lacreada por dentro e por fora 
para conservar agua benta com chrisma; 2 sempre se conserve nessa pia agua sagr.e 
com mistura de santo óleo de chrisma sob p. de susp. ao parocho: remette formulas 
d'oraçóes para essa benedicção que os parochos devem copiar nos seus rituaes ; 3 nas 
egrejas «não correrão nem valerão os livros actuaes e futuros, que são dos baptisa- 
dos, dos óbitos, dos casamentos, dos cofres e das justificações, que não forem rubricados 
por mim ou por meu antecessor». . . (adia se neste logar mutilado o livro donde trans- 
crevo esta eircul.) 

4) 1786 Janeiro 20. Circular do mesmo vig. da vara Conceição. (Não sei como ella 
principiava, por se achar mutilado o respectivo livro). . . Transmitte aos mission."'^ co- 
pia do decr. archiep. de 19 maio 17S5 para ser publicado nas egr., registado no livro 
compet.'' «em ordem de conservar o seu vigor a todo tempo, para emenda futura de 
todos os sacerdotes absolutos, e seculares perversos sem medo de Deus», e depois afi- 
xado á porta da egreja. 

i7()5 — /*.*' António Pinto de Gloria., n. de Bombaim, vig. da vara de Mahim e Bom- 
baim, eleito pelo povo para vig. ger. em 25 maio, e por tal reconhecido pelo governo 
britannico em 2q do mesmo mez ; resignou o cargo em iS jun. 1798 (20). 

Aqui deixo archivada a seg. ordenança, d'essa época, d'um vig. da vara de Baçaim. 

5) 1795 Outubro 28. Edital do vig da vara e visitador das missões de Baçaim Vi- 
cente Filippe Peres. Annunciando aos missionários e fieis a sua nomeação em visitador 
das egrejas e capellas deste varado de Baçaim, pela provis. archiep. de 11 set. deste an. 
de 1795, com faculdade de conferir o sacram.'" de confirmação aos fieis, e de julgar as 
causas pertencentes ao foro contencioso eccles., diz que vai abrir visita as egrejas e ad- 
moesta ao povo a que venha denunciar no seu tribunal se souber das cousas seguintes: — 

I Se o seu vigário é omisso nas obrigações parochiaes, não faz estação nos dias de 
guarda, a procissão das almas, os actos de fé. . ; 2 se não executa os ritos da eg.'' de- 
centem.'""; i se morreu algum christão sem sacram.'"" por culpa do vigário. . ., se o vi- 
gário administra os sacramentos aos indignos ; 4 se não derisca por si no rol da chris- 
tandade aos confessados e commungados da quaresma ; se confere sacramentos aos ex- 
commungados, ou abençoa os casam.'"" dos que não sabem a doutrina christã ; 5 «senos 
casam.'"" tomam algum dinheiro mais do que é devido, lisongeando ou desculpando aos 



(20) V. I. P. destas A/í/ras p. 359 pastor, do arcebp.» de jun. 1793, — Report atraz cit. n," 16, — Relaí. Leitão 
Castro p. 10, ii, — Insí. portí,', educac. e ínstr. jto or. ], 223 

O Patriota, Bomb. i88o)an. p. lí, — e o Re:at. Leitão Castro p, 8, i3 e 14 trazem a resenha dos seg. vigários 
da vara de Tanna e Salcete : 

Padres André da Silva, Francisco de Mello, João da Silva, Jacintho da Silva eleito em dezb. 1819, Francisco 
Gonçalves eleito dez. i836, Ignacio da Silva el. out. i853, Diogo Manoel Gomes iiom. jan. i854, Pedro Avelino 
Veríssimo de Souza nom. 14 ag. 187S. 

l~)epois de muitas investigações eu apurei mais os seguintes : 

Padres Henrique Soares nom. em ijSo, Bartholomeu do Horto nom. em 1765 ?, e deposto pelo arcebp ° quando 
elle era vigário em Condoiini ; Ignaeio de Noronha, punido pelo arcebp." com excom., a qual ihe levantou outro 
arcebp ", Santa Catharina, e o reconduziu no officio de vigário da vara ; o licenc. Francisco da Cruz vara de Tanna 
e Baçaim nom. em 1773?; António Pinto da Gloria, vara de Mahim e Bombaim (1794?/; Ignacio Pereira do Monte 
vara de Tanna (1810?) António Marianno Soares, vara de Bombann, Baçaim e Mahim, nom. em i83i ; João Braz 
Fernandes, nom. 1 ag. 1S87 e Gabriel Francisco da Silva, nom. novb. 1890 — V. p. 2 da The so-Cíilled pastoral 
and monitory eircul. lelter ido sr. A. T. S. Leitão Castro de 23 maio 1S79) agaitist tfie ensiiin^ elecíion ofanew, 
víc. gen. i)i the Tannah collectorate. wilh notes, observ.: thereon, printed at the Educat. society's press Byculla, 
(Bornb.) jul. 1S79 foi. de 14 e 9 pg, — Relator, da nova dioc. de Damão, pelo seu i." bp." D. António Pedro da 
Costa, Bomb. 1892, p. 8. 9 e 29. 

Dos vigários da vara de baçaim pude colher os nomes seg. : 

Fr. André Baptista, aug., nom. pelo arceb. D. Alei.\o Menezes (1597?) (I P. p. logi, e padres Thomé de Mello 
e Castro, vig. foraji. de Baçann nom. em i658; D. Rodrigo de Noronha, vara em tp> do arceb. D. Ignacio de S. 
Theresa; em 1729 dizia esse p. Noronha que <no decurso de 12 ans. três vezes tem exercido este cargo» ; Manoel 
Vicente Feio, prior e vig. vara de Baçaim em 1739: Ignacio Gomes, deposto pelo arceb em 1767 como atraz ficou 
dito; Cypriano João Godinho nom. 17Ó7, perseguido atrozmente pelo seu antecessor I. Gomes teve de fugir de 
Baçaim no mesmo a. 1767; Ignacio Gomes reconduzido 1767; Francisco da Cruz vara de Tanna e Baçaim (1773?); 
Nicolao Francisco da Conceição; Vicente Filippe Peres nom. 12 set. 795; Gregório Corrêa da Graça, suspenso 
pelo arceb. a 10 jan. 1807 ; Diogo Agostinho de Souza ; António Marianno Soares vara de Baçaim e Mahim 83i, 
José Scipião Pedro António Gomes 183.), Mathias José Lobo nom. i8 out. 83o, Filippe Ant." Pinto nom. 804, 
Francisco Xavier de Nazareth, fal. y fev. iSgóe Foque Hermenegildo 15arretonom. 17 março gõ — Seco7ida spedii. 
airind; or. di mons. Seb. Giusep." di S. Mar., Roma 1672 p. 37; \'enet. 1083 p. 22, 3., — Chroi:. consíituc. Goa 
i836 n." 54, — .\n7iiiar. archid. Goa 1S97 p 134. 



25l 



•contrahentes, ou se as multas e condemnações applicam para si» ; 6 se os officiaes da 
■egr.'' são desobedientes aos seus parochos ; se insinuam aos cliristãos para não denun- 
ciar os crimes na visita, ou reprehendem aos que denunciam ; 7 se elles (officiaes da eg.) 
não sabem a doutrina christã, ôu não ensinam nos dias de guarda, ou não ensinam aos 
casandos ; 8 se não tratam da limpesa da egr.* e dos altares, ou se usam dos paramen- 
tos para uso profano. 

Q Se sabem que é algum christão feiticeiro, vai ao pagode, consulta os infiéis sobre 
eventos futuros, ou contribue com alg.-"" pensão ao bagateiro ; 10 se algum christão faz 
•ofFertas ao pagode ; 1 1 se alg.'" christão blasphema do nome de Deus, da Virgem SS. ou 
dos Santos; 12 se algum filho bateu em seus pais ou ascendentes; i3 se algum pai ven- 
deu seus filhos aos mouros; 14 se algum christão é usurário; i5 ou possue os bens 
alheios injustam.'''; ou anda namorado, ou tem largado a sua mulher; 16 oii leva as cau- 
sas da nossa religião ao juizo secular, para não obedecer ao seu parocho, ou aconselha 
a outrem para não obedecer ; 17 se alguém deixou de baptisar os seus filhos em 8 dias 
depois de nascidos, ou não pediu os sacram.'"" estando gravemente doente ; 18 se alg."' 
<;hristão não ouve missa nos dias de guarda, ou não observa os preceitos de Deus e da 
•egr.* , 20 se alguém é casado com sua parenta, ou é casado com 2.-* mulher, vivendo a 
primeira. Manda q os parochos leam este edital ao povo. 

? — P."^ Francisco de Mello, visitador geral de Bombaim- Em 1808 administrou o 
sacr.'° de chrisma a m.'"" christãos. 

? — P.'= Gregório Corrêa de Graça, vig. g. (?) do Norte (21). Nos decr. que expe- 
diu para as egr. de Baçaim usava da formula seg. : «Padre Mestre Gregório Corrêa de 
Graça, Professor Régio da Real Universid.'' por S. Mag. Fidel., Sindico das Ordens dos 
Menores nestas terras de Norte, Missión." Apost., Vigário da vara e Visitador de Ba- 
çaim e seus districtos ...» Os seus decr. são dados «na casa Recoleta de Agaçaim». D'um 
livro da egr. do Espirito S. (Nandakal, Baçaim) p. 52 consta que por port. archiep. de 10 
de jan. 1607 foi suspenso este p. Graça, tanto do ministério de parocho, como de vig. 
da vara de Baçaim em consequência «dos enormes crimes e desordens por elle commet- 
tidas.» Delie achei as seg. ordenanças: 

ú) 1804 Agosto I. Circular do vig. da vara de Baçaim Gregório C. Graça. Alegra-se 
por ver em socego as missões deste districto; diz que do prelado de Goa recebeu po- 
deres para dar remédio aos males que sobrevierem; determina que os mission."" ins- 
truam os seus parochianos nas matérias da fé; no tocante á religião e a jurisdicção ec- 
cles." os christãos reccorram aos superiores eccles.°% e de nenhuma sorte aos tribunaes 
civis, sob p. de excom., como prescreve o decr. (de lõ out. 1804) do arceb. ; manda que 
se registe esta circul. nos livros compe.'" e se publique ao povo em 3 domingos. 

7) 1804 Setembro 6. Circular do m."'" vig. da vara Graça. Conforme ao direito diz 
que pertence aos superiores legítimos a nomeação dos mestres-capeila, «e por nenhum 
principio ao despotismo» dos parochos e seus freguezes. E porque lhe está encarregado 
pelo arcb. o governo destas províncias, e lhe incumbe provêl-as do que importa para o 
bom regimen delias, quer que os parochos notifiquem os mestres-capeila para haverem sua 
instituição, que ha de passar no cartório do varado a requerim.'" deiles com prévio 
exame de sua aptidão. Para obviar as tristes consequências de se descobrir o impedi- 
mento do parentesco entre as pessoas que contraíram já o matrimonio, como já tem 
succedido, ordena que todos os contrahentes sem excepção, tenham ou não tenham im- 
pedim.'", façam a justificação no cartório do seu juizo, a qual se ha de fazer depois de 
correrem os banhos; o que manda aos parochos avisar aos seus freguezes. 

8) 1804 Setembro 18. Decreto do m."" vig. da vara Graça. Prescreve o seg. regulamento: 
I procurarão os vigários extremada limpesa e aceio em suas egr.''% especialm.''' dos alta- 
res que devem estar decentem.''' ornados, de modo que inspirem veneração em os que 
os visita, e depois de acabadas as missas se cubram ; também estejam decentes as egrejas 
aggregadas á principal ; 2 não permittam se faça nas egr.^* estrépito e conversas, ou se 
falte respeito ao templo ; as mulheres não estejam ahi descubertas ou vãmente ornadas-: 
nisto sejam os parochos os primeiros em dar bom exemplo; 3 guardem com veneração 
e limpeza os s.''" óleos, a fonte baptismal, a taça com que se baptisa, &. 

4 No fazer as sagr.^' funcçóes, especialm.*" para missa e doutrina tomem o tempo mais 
commodo ao povo, sacrificando os seus próprios commodos, e 5 ajuntem á modéstia o 
decoro possível, para que causem devoção aos que assistem á essas funcçóes; b não re- 
cusem já mais ouvir confissões q.'''' lh'o pedirem ; q.'" aos enfermos ponham toda adilig." 
a que estão obrigados ; 7 nos dias solemnes ou em que se pode lucrar alg.* indulg.^ 
como o arceb. tem concedido a alg."' egr.-"", sejam diligentes em ir para o confessioná- 
rio logo que for dia, e avisem ao povo publicando a indulg. 



(21) .1 Conjiir. de j-jS-j em Goa, nota a arv. goncal. da famil. Pinto de Candolim 11. 4 p. ibb, — Anglo-Lusi' 
íano 1SS7 n." 7Ó. 

4 



252 



8 Não confessarão aos freguezes atropeiadamente sem espirito de mansidão e pru- 
dência; diz que elle tem observado certos confessores «fazerem reprehensões tão áspe- 
ras no acto de confissão, em vóz alta de maneira que todos ouvem, e ainda cliegam dar 
pancadas. . . Nesta matéria observem a praxe que nestes dias hei de publicar, e não tar- 
dará muito» ; até então sigam a praxe de bispo de Meaux ou de Verdum. 9 No ensino 
da doutrina christã se façam ajudar de meirinhos capazes, para instruir os meninos no 
mesmo tempo que os vigários separadam.''' devem instruir aos adultos : este exercício do 
cathecismo não farão tão tedioso e prolixo, que deixem muitos de assistir a elle ; 10 em to- 
dos os domingos farão a estação explicando o evangelho, guardando-se de fazer apologia 
em sua defensa, ou queixarem-se dos damnos que lhe tenham feito os freguezes; e 11 
não omittirão os actos de fé, etc, recitando-os de joelhos em voz alta, clara e devota com 
o povo. 

12 Tenham a sacristia limpa e em boa ordem prohibindo nella conversações, princi- 
palmente aos seculares, os quaes não devem entrar nella sem necessidade : lembra que di- 
zem trinta doutores que, se as cousas destinadas para o santo sacrif." da missa estives- 
sem notavelmen.'" rotas ou immundas, se peecaria mortalm.'"' celebrando com ellas. i3 
com magoa diz que tem observado «em alg.'" egr."* as hóstias tão menos aceadas que 
ás vezes parecem apas» ; recom.'^^ aos parochos cuidado em ter hóstias bem feitas de 
flor de farinha de trigo, escolhido ; o vinho de boa qualidade; ter um ierro bem polido 
para aparar as hóstias e partículas, e uma pequena taboa lisa para sobre eila as corta- 
rem, e não sobre os bancos, caixões: as hóstias sejam do tamanho de 12 vinténs; as 
pessoas que as fizerem tenham limpas as mãos. 

14 Devem pôr toda a vigilância em arrancar os escândalos dentre o seu povo, appli- 
cando os proporcionodos meios, como admoestações &, guardando nellas mansidão; 
aliás os devem denunciar ao superior legitimo, que é elle vig. da vara. i3 Na visita dos 
enfermos tratem de lhes administrar os sacramentos. ..;. 16 procurarão que nenhum 
dos seus freguezes morra sem que o tenha a cabeceira (ao vigário) ; esta assistência é 
uma das mais importantes obrigações do parocho : seria em balde toda a vida occupar-se 
na santificação das aim^as dos seus freguezes, se por fim o demónio faz nellas presa 
naquella hora, e isto por seu descuido d'elles par."^; 17 tb."" lhes devem fazer assistência 
corporal soccorrendo aos enfermos pobres ; porque «havendo bens eccles.°% devem os 
sobejos da côngrua sustentação redundar em soccorro dos mais pobres, e obras de cari- 
dade». Não aconselhem aos freguezes. . . disposição alg." perpetua, nem outra qualquer 
que possa redundar em prejuízo de outrem ; nem que lhes deixem alguma cousa com 
obrig."" de lhes celebrar tantas missas, tantos legados em seu favor, para fugir a nota de 
avarentos». 

19 Avisa aos vigários e admoesta a todos seus jurisdiccionados que, passado o tempo 
determinado para acabar as confissões annuas, ficam os omissos incursos na excom.,. 
sem tirar a qual por despacho superior, os vigários não confessarão em semelhantes 
casos. 20 Não permitiam os vigários que entrem as mulheres no cruseiro, mas fiquem 
fora das grades. 21 Não se elejam fabriqueiros sem licença do superior a quem o direito 
commum dá esta regalia, «e não devem ser eleitos por despotismo dos freguezes, que 
não tem por nenhum principio poder para isso em direitos» : esses fabriqueiros eleitos 
«com licença do superior e nomeação do parocho, se conservarão até o rendimento do 
vigário ao novo que lhe succeder, não havendo justo impedim.'" para acceitar a sua de- 
sistência.» 22 Como nestas missões não ha cofres com 2 chaves para recolher os rendi- 
mentos das egr."', determina que tudo quanto pertencer á fabrica e irmandade, fique em po- 
der do vigário dando eile conta ao superior. 

0) i8o5 Fevereiro 12. Circula?' do mesmo vig. da vara Graça. Condoendo-se do estado 
lamentável da pobresa em que se acha constituído o povo, quer que os parochos: i o não 
opprimam cccom exorbitantes legados», mas observem o regulam.'" estabelecido d'ac- 
cordo do povo e do vara passado, ainda com alguma diminuição nos seus próprios emo- 
lumentos, mas não nos pertencem á fabrica e irmandades ; 2 não podem perceber emo- 
lumentos das certidões do baptismo, extrahidas dos livros de sua parochia, por ser isto 
contra o sobredito regulam.'" e contra c estylo ; que restituam o dinheiro percebido, 
aliás serão castigados; 3 nem perceber dos casam.'"* mais do que o estabelecido, antes 
seja menos, attenta a miséria do povo. 4 O vigário de Purim a quem commissionou 
para fazer as justificações sobre o parentesco, não perceba coisa alg." destas justifica- 
ções, e se tiver percebido restitua. 

(Continua.) 

P."" C.\si.MtRO Christov.^o de N.\zai<eth. 



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(Comprovação de duas façanhas) 




(CONCLUSÃO) 

NARRATIVA dc Ljungstedt, que declara ter lido a communicação do almi- 
rante hollandez e um documento manuscripto pertencente ao archivo do 
Senado relativos ao ataque de 1622, nada adianta sobre o que já ficou 
transcripto; mas confirma tudo que vem contado nos trechos citados. Não 
vale a pena transcrevei -a, nem tão pouco a referente ao ataque de 1^27 
sobre o qual diz o mesmo que o auctor da Ásia Portuguesa. 

Vamos, pois, exti-actar do citado Recueil as referencias ás tentativas feitas pelos hol- 
landezes em 1601, i6o3 e 1607 contra Macau. Constituirão, certamente, novidade para a 
maior parte dos leitores, porque não vi que até hoje se referissem a ellas auctores por- 
tuguezes e, em livros extrangeiros, só no Recueil é que encontrei narrativas sobre o as- 
sumpto. 

* 



27 de setembro de 1601. — Jacques Van Neck, na sua segunda viagem ás índias 

Orientaes, partiu da Hollanda em 28 de junho de 1600 como almirante d'uma esquadra 

de seis naus: aO/ímsterdam (almirante), a Dordregt^ a Haerlem, a Leide, a Delft e oyacht 

Goudã. Esta esquadra, depois d'uma viagem bastante difhcultosa, teve em Ternate, em 

2 de junho de 1601, um violento combate com os portuguezes, ficando muito mal ferido 

o referido almirante que perdeu uma das mãos. Tendo-se restabelecido, foi com dois 

d"esses navios em direcção á China, com o fim de fazer algum commercio no rio de 

Cantão, visto os ventos lhe não permittirem dirigir-se a Patane, na península Malaia. 

Os dois navios eram o Amsterdam e o Gouda (yacth). Diz o narrador hollandez d'essa 

viagem : 

«Em 20 de setembro (iGoi), ás duas horas da tarde, acharam-se perto das ilhas do 
grande império da China, onde, depois de ancorados, enviou o general a chalupa com 
remadores e pilotos, para ver se se podia passar mais adeante. 



2D4 

"No caminho encontrou-se um pequeno barco de pescadores que, á pergunta que se 
Jhes fez sobre onde ficava a ilha de São João (San Choan), responderam levantando 
sete dedos e apontando para a banda de leste, do que se concluiu que estava situada a 
sete léguas d'esse- Jogar. Quando se separaram, fizeram os pescadores presente d'um 
grande peixe, que o piloto quiz pagar, não acceitando elles o dinheiro. 

«Em 27, navegando em redor das ilhas, viram uma grande cidade construída pouco 
mais ou menos á maneira das cidades de Hespanha, o que causou em todos bastante 
surpreza. Tendo ancorado á distancia de meia légua da cidade, dirigiram-se a bordo, 
meia hora depois, duas embarcações chinezas, em cada uma das quaes se encontrava 
uma família inteira, composta de marido, mulher e duas ou três creanças. 

«Informou essa gente que a cidade que estava á vista se chamava Macao ; o queau- 
:gmentou a surpreza dos hollandezes, que não sabiam como poderam avançar tanto no 
TÍo de Cantão, por meio de tantas ilhas e bancos. Mas nem por isso ficaram menos con- 
tentes do que surprehendidos. Immediatamente se mandou uma canoa com um homem 
que falava malaio e um outro que falava hespanhol, para se informarem na cidade mais 
exactamente sobre o estado das cousas. 

«A canoa não voltou a bordo n'esse dia. Na manhã do dia seguinte descohriu-se de 
cima dos navios, muita gente reunida no alto d'uma montanha (i), o que causou tristes 
suspeitas, visto temerem os marinheiros de que tivessem dado (os da cidade) morte aos 
seus camaradas porque tinham sabido de João Hugo Linschoot que a cidade de Macau 
era habitada por Portuguezes, com um Commandante e um Bispo. 

«Foram todos de opinião unanime que se ancorasse mais perto da cidade. Para esse 
fim mandou se a chalupa grande com o primeiro Piloto para sondar o fundo. O Piloto 
mandou fazer um signal para prevenir de que havia fundo bastante ; mas não foi possí- 
vel aproximar-se porque um vento furioso que principiou a soprar fez com que, em vez 
■de se suspender a ancora, fosse necessário deixar cahir uma outra. 

«Vendo os habitantes da cidade que os navios se não podiam aproximar, nem a cha- 
lupa voltar para bordo, enviaram cinco juncos armados para a atacar. A tripulação da 
chalupa vendo-os avançar sobre ella, levantou a fateixa e içou a vela. Mas, sendo mais 
veleiros os juncos, abordaram-n'a e tomaram-n'a á vista dos navios, apezar da tripula- 
ção se ter defendido valentemente e repellido os juncos por duas vezes. 

«Esta aventura funesta fez com que os Hollandezes perdessem o seu Piloto, de nome 
João Dirckz d'Euchuise, e um quartel mestre do Almirante com alguns marinheiros do 
yacht.-o 

«Em 3 de uutubro, tendo os hollandezes feito todos os esforços para tomar algum 
junco e enviarem cartas para Macao, afim de pedir a liberdade dos prisioneiros, e 
tendo estado por diversas vezes em perigo por causa da tempestade e dos navios da- 
rem á costa, resolveu-se continuar a navegação que se tinha determinado em direcção 
a Patane. Para esse fim os navios seguiram entre as ilhas e o continente da China. 

«Depois de se ter passado com grande difficuldade, e quasi sempre com a sonda, por 
entre baixos e baixios, sem conseguir informação alguma de gente da terra, acharam-se 
ás três horas da tarde no mesmo sitio em que tinham ancorado pela primeira vez nas 
aguas da China, o que causou contentamento por se verem em sitio já em parte co- 
nhecido. 

"Ahi, o general reuniu as tripulações e perguntou-lhes se não sabiam d'algum meio 
pelo qual se podesse libertar os prisioneiros. Não havendo pessoa alguma que o indi- 
casse, resolveu-se, de commum accordo, que se continuasse a viagem, tomando o Gene- 
ral e todos por testemunhas dos cuidados que elle tivera para retirar os seus compa- 
nheiros do captiveiro em que estavam. 

«Por cartas que se encontraram depois n'uma carraca que os Hollandezes tomaram, 
soube-se que os dois principaes d'estes vinte prisioneiros tinham sido transferidos para 
Goa, sendo os restantes enforcados.» 



30 de Jnlbo de 1603. — A proe^^a foi praticada por 3 navios da esquadra de 9 navios 
que, tendo sabido de Hollanda em Junho do anno de 1602, chegou a Bantam em Abril 
de ióo3. D'aqui destacaram 3 navios para a China. Na narrativa da viagem de Cornelio 



(1) Provavelmenfe no Monte, ainda sem a fortaleza de S. Paulo, construída annos depois. 

M. P. 



) 



255 



de Veen, descreve-se a tomada d'uma carraca portugueza em frente de Macau. Não en- 
contrei referencia a este acontecimento em nenhuma obra ou manuscripto doa que te- 
nho consultado. 

Admira que os portuguezes de Macau, que em it')0i se tinham mostrado tão destemi- 
dos, deixassem os hollandezes durante oito dias descarregar a carraca e deitar-lhe fogo, 
sem se atreverem a intervir. 

Diz assim a narrativa : » 

«Em I de Julho ancoraram em Patane, onde se aprovisionaram de arroz e contra- 
ctaram um piloto chinez que os conduzisse a Cantão, na China. 

«Em 1 1 íizeram-se á vela. Em 3o chegaram em frente de Macau (que sem duvida é 
Macao) (i) e encontraram uma carraca mui ricamente carregada e prompta a fazer-se 
á vela para o Japão. A carga consistia em sedas da China, em tecidos de seda e ou- 
tras mercadorias preciosas das índias. Regosijaram-se os Hollandezes bastante ao verem 
uma tão bella presa que se lhes apresentava. 

«Pelo contrario consternaram-se bastante os portuguezes prevendo o que ia aconte- 
cer e não se sentido com bastante coragem para se defenderem. Depois de reflexionarem 
bastante, acharam que o mais necessário para elles consistia em salvarem as próprias 
vidas, e, para isso, saltaram nas chalupas e retiraram-se para terra, abandonando d'este 
modo aos hollandezes a carraca, a presa e 20 mouros que n'elle estavam ainda. Os mou- 
ros foram mandados para terra, para irem fazer companhia aos seus senhores, e occu- 
pou-se de descarregar a carraca desde o dia 2 a 9 de Agosto. A 10 poz-se-lhes fogo que 
a queimou até á flor d'agua. 

«Esta presa tão considerável e inespereda, fez mudar o desígnio que tinham estes 
navios de se dirigirem á China.» 

Eff^ectivamente os navios seguiram para Bantão e depois de terem combatido e to- 
mado em 18 de Setembro um junco de Siamezes, a quem depois largaram, por serem 
seus alliados e amigos, chegaram ao seu destino em 10 de Dezembro, em que carregaram 
o resto que lhes era necessário para a torna-viagem. l*]m 27 de Janeiro de 1604 partiram 
para a Europa com a sua rica carregação e chegaram a Hollanda em 3o de Julho se- 
guinte, exactamente um anno depois de terem feito a proeza nas aguas de Macau. 



Setembro de 1607. — O Almirante Gornelio Metelieff" tinha partido para ir soccorrer 
Ternate em 3 de Maio de 1607 com uma frota de oito navios; o Orange (capitanea), o 
Mauricio, o Erasmo, o Enchiiise, o Delft, o Pequeno Sol, o Pombinho, e um hiate — com 
uma tripulação de 55 1 homens, sendo 481 brancos e 5o negros. Depois de ter estado, 
sem conseguir grande cousa, em Tidore e em Ternate, e construído com grande diffi- 
culdade um forte n'este ultimo logar, seguiu Matelieff para os mares da China em 29 de 
Junho do mesmo anno de 1607. 

Não é meu propósito dar conta do que aconteceu n'esta viagem, porque brevemente 
a transcreverei n'estes Annaes, devidamente traduzida. E, por isso, basta indicar, por 
agora, que Metelieff chegou a 28 de Agosto ao rio de Cantão, e que, depois de longas 
negociações com os mandarins, que o cançaram com os costumados subterfúgios e len- 
tidões desesperadoras da diplomacia chineza, teve em 9 de Setembro seguinte de fazer 
frente a 6 navios portuguezes sabidos de Macau. 

Estavam os hollandezes fundeados junto á ilha de Lenteng-Van ou Lin-Tin. Fez o 
almirante falia aos marinheisos e preparou-se para o combate. Mas isso não impediu 
que a frota hollandeza fugisse vergonhosamente de vir ás mãos com os portuguezes até 



(I) A nota deniro de parentiiesis é do auctor da narrativa. 



2 56 



que, no dia 12, se atfastaram das aguas de Macau, depois de terem perdido um navio, o 
yacht que acompanhava a esquadra, e que foi mettido no fundo pelos próprios hollan- 
dezes, segundo diz a narrativa por elles feita. Com mais alguma determinação da parte 
dos portuguezes, os três grandes navios ficaaiam prisioneiros e poderiam os nossos en- 
trar em Macau com mais esse tropheu de victoria alcançada contra esses corsários que 
nunca conseguiram apoderar-se da cidade do Santo Nome de Deus em todas as repeti- 
das tentativas que para isso fizeram. 



E, para concluir, transcrevo da Gaveta do Povo, de 2 de Agosto de 1871, as seguintes 
linhas relativas á construcção e inauguração do monumento (cuja estampa dêmos á 
pag. 87) commemorativo do ataque dos hollajidezes em 24 de Junho de 1622. Por este 
artigo verá o leitor que o auctor d'esse monumento foi o eminente artista Manuel Maria 
Bordallo Pinheiro (pae e avô d'esses outros artistas que são hoje verdadeiras glorias da 
nação portugueza), auctor também do bello busto, em bronze, de Camões que existe na 
gruta de Macau (1). 

«Agora que a attenção publica tanto se preoccupa d'esta nossa bella possessão, não é 
fora d'occasião cumprirmos o que ha tempos promettemos, e recordarmos algumas das 
antigas glorias alli obtidas pelos nossos maiores. 

Em 26 de março ultimo foi inaugurado o monumento para memorar a grande victo- 
ria contra uma poderosa esquadra e expedição hollandeza, que tentou conquistar Ma- 
cáo, na desgraçada época da perda da nossa independência. 

Eis o curioso documento da inauguração, que copiámos do «Boletim da Província 
de Macáo e Timor", de 3 d'abril do corrente anno: 

Auto dj solemnidade da inauguração do monumento para commemoração da victoria al- 
cançada em Macáo pelos portugue'^es contra a frota hollandeza, que em vinte e tre^ (2) 
de junho do anno de mil seiscentos vinte e dois desembarcou na praia de Cacilhas. 

Aos vinte e seis dias do mez de março do anno do nascimento de Nosso Senhor Je- 
sus Christo de mil oitocentos setenta e um, n'esta cidade do Santo Nome de Deus de 
Macáo na China e praça da Victoria, sendo governador o conselheiro vice-almirante 
graduado António Sérgio de Sousa, na presença do leal senado da camará, chefes das 
repartições do estado e mais funccionarios civis e militares, formada a guarda de honra 
pelo batalhão nacional, se procedeu á inauguração do monumento erigido, por proposta 
e iniciativa do leal senado da camará de mil oitocentos sessenta e dois, para recordação 
do triumpho, obtido em Macáo contra uma força hollandeza no dia vinte e trez (2) de 
junho do anno de mil seiscentos vinte e dois; salvando por esta occasião a fortalesa de 
Nossa, Senhora da Guia com vinte e um tiros. 

Este auto depois d'assignado ficará no archivo do leal senado da camará, e um ou- 
tro egual guardado na secretaria do governo. 

E para documento authentico de que esta solemnidade se fez pela forma que dito 
fica, lavrei e assigno o presente auto, eu secretario das obras publicas. — António Au- 
gusto Ferreira, alferes secretario. 

Segue-se a assignatura do governador, e a de todas as autoridades e pessoas notá- 
veis de Macáo. 



(i) O artigo da Gaveta do Poro foi-me obsequiosamente communicado por um dos filhos d'esse grande artista, 
o distincto tenente coronel de artilharia sr. Feliciano Henrique Bordallo Prestes Pinheiro, a quem Macau muito 
deve pelos relevantes serviços prestados na Direcção de obras publicas d'essa cidade, onde tanto trabalhou na 
reconstrucção de edifícios e na reparação dos estragos causados pelo calamitoso tufão de 1874. A esses serviços 
farei em devido tempo a merecida referencia. 

12) Este auto pecca por estar errado n'esta data; e poderá assim servir para enganar os vindouros sobre a data 
exacta do desembarque, que se realisou, como vimos, no dia de S. João e não em 23 de junho. E, como este, quan- 
tos outros autos falsos e sem valor histórico ! 

M. P. 



Este monumento foi peio leal senado encommendado ao sr. Carlos José Caldeira, 
que incumbiu o plano e execução d'elle ao sr. Manuel Maria Bordallo Pinheiro, já co- 
nhecido e apreciado em Macáo como autor do modello do bello busto em bronze de 
Luiz de Camões, que orna a celebre gruta d'este nome em Macáo, e do qual existe ou- 
tro excellente exemplar no museu do arsenal do exercito, onde foi fundido. 

Foi o monumento conduzido no vapor «Saida», que em junho de 1870 conduziu para 
Macáo um contingente para a guarnição. O governo da metrópole generosamente auxi- 
liou o leal senado, enviando-lhe livre de frete o volumoso monumento. 

O padrão compõe- se d'um grande supporte octogonal, que sustenta as armas de Por- 
tugal e as armas da cidade de Macáo, ornadas de carvalho e loiro, sobrepondo-se aos 
dois escudos a coroa real portugueza. 

Ao meio do fuste do monumento estão ligadas por grossos cordões duas grandes 
cartellas, no estylo do século xvii, tendo a cartella que fica do lado das armas de Por- 
tugal a inscripção seguinte : 

PARA PERPETUAR NA MEMORIA DOS VINDOUROS 

A VICTORIA 

QUE OS PORTUGUEZES DE MACÁO 

POR inter(:ess.á.o do bemaventurado 

S. JOÃO BAPTISTA 

A QUEM TOMARAM POR PADROEIRO 

ALCANÇARAM 

SOBRE OUTOCENTOS HOI.LANDEZES ARMADOS 

QUE DE TRESE NÃOS DE GUERRA CAPITANEADAS 

PELO ALMIRANTE ROGGERS 

DESEMBAKCARAM NA PRAIA DE CACILHAS 

PARA TOMAREM ESTA CIDADE 

DO SANTO NOME DE DEUS DE MACAO 

EM 24 DE JUNHO DE 1622 

E a que fica do lado das armas da cidade de Macáo outra inscripção como se segue: 

NO MESMO LOGAR ONDE 

UMA PEQUENA CRUZ DE PEDRA 

COMMEMORAVA 

A ACÇÃO GLORIOSA DOS PORTUGUEZES 

MANDOU 

O I EAL SENADO 

LEVANTAR ESTE MONUMENTO 

NO ANNO DE 1864 

Por isso que a acção se passou no século xvii, entendeu o autor do projecto e dire- 
ctor da sua execução, que deveria adoptar para este monumento o estylo da archite- 
ctura d'aquella época, e portanto procurou dar á cornija e á base do padrão formas aná- 
logas ás que então se usavam, não esquecendo fazer gravar as duas inscripções sobre 
cartellas, que, além de serem elegantes, muito se conformam com o mesmo estylo. 

O monumento assenta sobre dois soccos e estes sobre dois degráos, elevando-se ao 
todo á altura de seis metros. Em torno dos degráos, deveria ser collocada uma gradaria ( i ) 
composta de pequenas lanças ou dardos tendo em cada angulo do octogono uma pe- 
•quena pilastra de ferro fundido, coroada por um elmo seiscentista. 

Ao sr. Lourenço Marques, um dos cavalheiros mais distinctos e estimados de Ma- 
cáo, é que se deve a iniciativa da idéa d'este monumento, quando em 1864 estava pre- 
sidente do senado, e á inauguração d'elle assistiu em 1871 na mesma qualidade de pre- 
sidente.» 



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(I) Foi collocada mais tarde, mas sem as elegantes piiastras encimadas pelos elmos, como o leitor verá na 

gravura a pas. 87. 

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Textos e notas sobre o dialecto de Macau 



IV 



Apreciação por uma macaista dos melhoramentos públicos de Macau feitos em 1887 

Uuia critica graciosa (i) 

Recebemos d'uma nossa assignante uma critica ao projecto do aterro da Praia Gran- 
de, e vamos publical-a n'este logar pela sua importância e para amostra, aliás questio- 
nável, do dialecto usado geralmente em familia. 

Eil-a 

MAS UM-A DISGRAÇA 

Eu já oví fallá qui tudo china rico tá querè pedi com governo deçá elôtro intuía (3 14) 
mar de Praia Grandi pra fazê casa pra lugá (3i5). 

Num sabi agora qui cusa governo logo fazè, mas qui saiám (84)! tapa um-a rua as- 
sim bonito qui nim Hongkong, ni Cantam, nim ôtro téra pôde chega ! Já nadi pôde olá 
vapor intra nim sai; já nadi pôde olá rada fSiG); já nadi pôde olá lorcha pescador passa 
vai, passa vem (3 17) ; tudo logo fica tapado com casa casa china, igual como Patani (3 18). 
Nadi (168) olá más nada qui rabo di porco (180), sem cabaia, calção ragaçado (3 19), apò 
pê marado (181 e i83), cara caiado (320), na janella. 

Ai qui triste logo ser ! Num basta agora tudo casa de Macáo qui já vende pra chi- 
na (32 1;, elôtro já virá fazc elôtro sua moda pra elôtro fica, inda querê dá este lugar pra 
china ! Qui feia logo fica nosso Macáo. 

Quando aquelle mufino tufão de 74 já quebra Praia Grandi (322), governador S. Jua- 
nario já toma trabalo de fazc aquelle rua assim largo, assim bunito, sumia (323) tanto, 
arvi (324), gasta assim tanto de pataca pra fazè muro (320), pra agora querê distragá (32Ó). 

Eiôtro china china num sabi qui cusa logo fazè com elôtro sua pataca ? Pôde dá pra 
pobre pobre, pôde fazè mutu bom obra aqui. num cançá (2o5) columbrá (32?) deste lu- 
gar pra interá elôtro sua riqueza. Na Cantam, na tudo téra china tem qui lai tanto di 
cham pra fazê casa, num cançá toma mar pra fazè téra. 



(i) Do Independente, semanário de Macau, n." i33 de 19 de fevereiro de 1887. 



26o 



Eu senti sam um-a pecado disfazê um-a cusa qui Deus já dá. Si tem aqui sium bispo 
nadi deçá fazê assi lái cusa; nadi consenti qui atira nim um-a mão di mati (241) na 
agu (285). 

Más eu tamêm senti qui governo di aqui nom tem culpa. Elôtro são di alá, sempre 
logo querè granziá (328) vontade di sium rê (329), fazê força pra junta más dinhero, por- 
isso querê dá este lugar pra china pra pode tem más casa, tem más decima, pôde manda 
trazê tudo navio podre pra concerta aqui (33o). Quando cofre tá bem inchido logo olá 
então òlo grande grande, boca aberto, só pra leva bolada di pataca pra alá. 

Nosso gente agora tudo morto; más qui dromido (33i). Deve junta tudo grandi 
grandi (332), quando nom quero junta piquinino piquinino (333) tamêm, pra grita cum 
governo di alá. 

bium Escarnicha qui cusa tá fazê alá qui nunca olá tudo este ancúsa (334) ^ Klle qui 
já fica assim tanto tempo na Macáo num sabi, qui cusa são bom qui cusa são num presta? 

EUe já caba di acha tanto voto pra diputado, agora senta, nom quero fazê nada, dá 
pontapé pra tudo. 

Sium Pachecam torna já fica prisidente di senado. Qui diacho tá fazê qui nunca olá 
este mufinazi di cusa ? 

Elle qui já promete qui elle pôde fazê tudo quanto, pôde más qui governo, agora fica 
calado como um-a pau? Tudo fala qui elle tá entretido com preço di porco (335) qui 
agora tá assim caro, porisso qui nunca importa com ôlro cusa. Elle tá ganha algum cusa 
com negocio di porco ? 

São tolicia di tudo este gente qui já vota pra elle! Agora elle tá mutu contente na- 
quelle cadera, já nunca lembra ôtro cusa más si nam assisti festa, companha pruci- 
çám (33o), tenta (33-) tudo janella janella, vái vem palácio, sumia cóvi coco (338) na 
íugar di guarda vaca di puçá careta di suzo (33(_)). 

Eu ovi fala qui tá querê fazê cais di vapor na Praia Grandi. Vapor tem sua cais alli 
dentro, tá muto bom, tudo gente já tá custumado ; fazê cais aqui fora, nadi pôde im- 
barcá, nadi pôde desimbarcá, quando supra vento leste ; um-a dia logo ovi disgraça. 

Oví fala tamêm qui querê estende cano atê alá fora. Qui cusa fazê (340) ? Quanto 
más tanto cano, más mau cheiro, más tanto gente logo fica doente. São pra dá trabalo 
pra dotor, pra padre padre, para covero. 

Este são lembrança de gente qui nom tem cabeça. 

Di tudo manéra fala, intulá Praia Grandi sam divéra num presta. Vai chegando más 
fora, agu fica más fundo, cai gente certo logo more fugado (341) igual.como Hongkong. 
Inda ôtro cusa : logo tem trabalo di muda nome di Praia Grandi ; quando nom tem mar, 
certo já nunca sam praia. 

Si fazê tratado cô China pra fazê um-a cusa assim, mas bom nunca fazê. Dá aqui, dá 
alli para china china, ramatá logo fica tudo Macáo pra China torna. Si sam assim, más 
bom rasga de um-a vez este posse qui nosso rê já bota aqui más de três seclo. 

Coitado di governador Amaral ! Vem aqui, já vem sem um-a braço ; assim mesmo 
já fazê tanto ancúsa qui já perde sua cabeça, tudo pra bem di Macáo. Si elle hoze pôde 
irguí di cova, logo cai ôtro vez morto di réva (342). 

Tudo serviço di portuguez sam assim ; tem principio nom tem fim. Tolo 1 abri ôlo ! 
olá, qui tudo ôtro nação cada vez tá más rico, vôsôtro sempre pobre i Sabi qui foi (20) ? 
Num sabi fazê serviço bem feto ; querê somente bastante de pataca cô perna um-a riba 
de ôtro (343). Qui tal si tudo nação são assim, tudo logo fica pobre como vôsôtro. 

Guarda tudo vôsôtro sua politica ! bota tudo na um-a canto ! Olá para tudo este an- 
cúsa qui tem más precisam ! 

Politica nom pôde dá pam (344). Fazê disordi amigo cô amigo, irmão cô irmão, tudo 
pro cosu di eleção di um-a chusma di diputado pra nunca fazê nada! Este sam politica- 
di tolo. 

Já gasta assim tanto di pataca pra sium Lorero vem Macáo insiná gavartá lama cô 
droga (Í45) : agora fica calado, nunca fazê nada. Lorcha tancá tamêm tá nom pôde anda ; 
rucá vai, ruça vem riba di lama, já nom quero falá di lorcha grande nem di vapor qui 
sam pior. Tudo navio estranzero já nom quero vem aqui ; si vem nom pôde intra, tem 
di senta na rada, fazê dispeza pra leva comedoria, basta. 

Tudo sium sium diputado más bom olá pra tudo este disordi. Imbrulá (346), inla- 
criá (347), guarda bem feto tudo vôsôtro sua politica ; quando precisa pôde abri, usá. 
Assim sam tem juiso. 

Tudo sium sium grandi (332) nô mestê fica réva pro cusa di eu falá tudo este verda- 
de ; sam cusa qui amestê falá. Tanto tempo qui tá atacado já na coraçãm qui fazê doi 
costa, doi peto, porisso qui eu preciso di disbafá (348). 

Tudo minha desejo sam olá nosso Macáo luzido como tudo terá estranzero tá luzí. 
Sam divéra (ii3 e 1 14) vergonha olá Macáo, olá Portugal assim morto, pagado, qui tudo 
naçam, até China, tá fazê caçuada. 

Si vôsôtro sium sium grandi, querê oví minha fraco conselo, nunca bom deçá di olá 



20I 



azinha azinha (349) pra tudo este ancúsa (334) ; fazê serviço bem fGto pra nunca deçá 
ôtro nacám ri, chacotiá de vôsôtro. 

Eu nunca sam querê fica cholido {35o), mas tem di avisa: Vôsôtro fazê como eu 
fallá qui um-a dia logo ganha grandi fama. 

Adeus. Bom sono"(35i). Nunca bom dá motivo pra gente fala. 

Tares.\. 



Notas 



(Continuação de pag. 196) 

/De 273 a 3i3 referem-se ao t-Cancioneiro musical crioulo», publicado a pag. -jSq e seguintes d' este numero.) 

(273 e 274) Prophetisa o auctor da quadra a Catharina, que mora ao meio da travessa, que ainda liade vir a 
ficar condessa. 

(27?, 276, 277 e 27S) Sâo mi^itthas ou remédios macaistas com propriedades não só therapenticas, mas tam- 
bém contra os bruxedos, maus olhados, etc. Três pau são três raizes que se reduzem a pó e se tomam como remé- 
dio contra os ataques de cholera, cólicas, etc. Alo macho é o alho vulgar que, assado e collocado sobre o umbigo 
das pessoas atacadas de dôr de barriga, constitue santo e efticaz remédio. Tingili é o fructo, em conserva, d'uma 
espécie de leguminosa. Sabsana, ou melhor sapsana, é o remédio dos três paus ou raizes em pó e misturadas con- 
juntamente. Oca é casca d'ostra queimada, também com propriedades extraordinárias e de muita virtude contra 
qualquer doença ou feitiço tenebroso. 

Devo estas informações á obsequiosidade de pessoa competente e recentemente chegada de Macau, que tam- 
bém me explicou que os remédios, a que me referi nas notas 40, 41 e 42, são applicados: chá de pelo pé contra sus- 
tos ; chá de peso contra cólicas e dôr de estômago ; sitador fresco contra tosse ; mi^inlta savan (composto de la- 
biadas aromáticas) contra a melaria, peste etc. ; maquinfum, ou melhor mãquenfum, contra sobresaltos de crean- 
cas ; e finalmente mi^itiha /ai/um contra os encolhimentos ou retracções do penis, de que os chins são a miúdo e 
gravemente atacados quando se entregam á cópula depois das refeições. 

Í278) Cancóm. — Espécie de grelos, com mais flores do que folhas, muito apreciado na cozinha chineza e ma- 
caista, preparado segundo o modo indicado na nota 199. 

(279! Dá fula. — Deu flor, floreceu. 

(280) Capam. — Capão, gallo castrado. 

(281) Shoti{. — E' a celebre dança Scottish ou Scliotíisch. 
(2821 Nomes de cãosinho e cadellinha. 

(283) Carcam. — Calções, calças. 

(284) Note o leitora concordância do final d'esta quadra macaista 



Aranha cô carapato 
Casamento |á pidi 



com a seguinte quadra, em dialecto norteiío de Bombaim, a que já fiz referencia na nota 92 a pag. 64-65: 

Pulga, percebejo 
Casamentu já pidí; 
Carrapatu, que tmh' durmido, 
Cô cacada já ergui. 

(285) 'Ai:o ou agu. — Agua. — Já seccou a agua do poço. 

1286) Bicho-nune. — Não sei o motivo porque em Macau se dá este nome aos conhecidos insectos da lamilia 
dos Libdlulidios da ordem dos Orthopteros — as elegantes Libellinhas (Libellula depressa) e Don-^ellinnas (Âgi- 
ron virgo/.Pe\2i proximidade dos lodos, qne rodeam todo o littoral de Macau e circumvisinhanças, enxameam, em 
certas epochas do anno nos campos da colónia, nuvens d'esses insectos que, com os seus abdómens muito alonga- 
dos e de cores variegadas c muito vivas, e a palpitação das suas azas diaphanas e irisadas provocam a perseguição 
que lhes fazem as creanças com o mesmo furor com que caçam as borboletas. 

A respeito d'elles diz o sr. Paulo de Moraes a pag. 724 da sua interessante Zoologia agrícola : 

«Estes insectos vivem nas proximidades das aguas, alimentando-se de outros insectos; sustentam o vôo por 
muito tempo e com impeto; apanham as suas victimas ordinariamente voando, e despedaçam-n'as pousadas n'um 



202 



ramo. Macho e fêmea são muitas vezes matizados de diilerentes cores. A emea deixa cahir os ovos n'agua, mer- 
gulhando n'esta a extremidade do abdómen. Alguns géneros, porem, (p. e. Calophorix, Agrionj (e são estes os 
mais communs cm Macau) largam os ovos nas plantas aquáticas. As larvas vivem n'agua e são da mesma sorte 
carnívoras 

(287) Gom-fj;om. — Nome onomatopaico do bezouro . 

(2S8) ./«fTiJ turum. — Parece-me ser um jogo de pau, ou cousa qne o valha, muito usado pelos chinezes. 

(289) Furta casa. — Julgo ser o mesmo que correr os cantos da casa. 

(290) Pucá ago. — Puxar agua (do poço). 

(291) Virá piam. — Dançando ou saltando, dando voltas ou girando sobre os calcanhares, como um pião. 
{292) Buíam. — Boião. 

(293) Manduco limpa cambam. — A rã descasca camarões. 

Os crioulos de Macau comem a rã (que é de maiores dimensões que a de Portugal) guisando-a como se fosse 
gallinha, com que se assemelha no gosto da sua carne, segundo dizem os í;ourmets da localidade. 

(294) Sandc. — Accender, accende. 

(295) Lampiam. — Lampeáo, candeeiro. 

(296) Capi ôlo. — Piscar os olhos. — Capi também significa apertar (Vide nota 77 a pag. 64). 

(2971 Paço buiam. — Certa qualidade de louça ou utensílios de barro, muito frágeis e quebradiços, que sáo 
geralmente vendidos por chins ás portas dos freguezes. A comparação c bem feita, porque se refere á fragilidade 
do amor de hoje em dia. 

Ha também uma qualidade de louça que se chama paço dettte. 

Também se chama paço a um ourinol, a um alguidar, etc. 

(29S) Babálúa. — A lua, prmcipalmente a lua cheia. São contemplativos os macaistas, como todos os asiáti- 
cos ; e, nas bellas noites de lua cheia, como as não ha na Europa, senão talvez em Lisboa, cantam o saião, fitando 
o astro da noite deslumbrante de luz no bello ceu da Ásia. E quando uma nuvem impertiijente vem velar por mo- 
mentos o rosto de Diana, entoam as creanças a plangente cantilena : 

Babálúa, Babálua, 

Vem fora come arroz crua, 

como esses garotitos de Lisboa, que por occasiões de chuviscos, guincham aos nossos ouvidos a gritada lenga- 
lenga: 

Nossa Senhora da Conceição 

Dae-nos sol ; chnva não ! 

Também as creanças de Macau, de dia, cantavam, segundo as mudanças atmosphericas, 

Chúa e sol : 

Navio hespanhol ; 
ou 

Sol e chúa : 

Navio de Gôa ; 
ou 

Chúa e vento: 

Navio intra dentro. 

Ainda, sobre o termo Babálúa para indicar a lua, é conveniente notar que se chama em Macau ás creanças 
muito pequenas babáchaí, composto do termo indiano (?) babá e do chinez chat (creança). 
Babálúa já sai fora, significa : a lua já nasceu. 

(299) Boca core babo. — Ficam com a boca babosa, ficam babosas. 

(300) Cangi. — Canja, caldo. 

(3oi a 3j4) Outras substancias usadas para mizinhas dotadas de certas propliiedades e virtudes therapeuti- 
cas e. . . psychologicas. 

Fula papaia é tlor de papaia íCarica papaia) que possue alem da propriedade, que a quadra lhe dá, para 
curar ciume, grandes virtudes verminosas contra as lombrigas e outros bicharocos intestinaes. 

A papaia madura é comida crua em Macau. E o fructo verde é muito empregado na cozinha macaista. 

Nhame é o conhecido inhame, tubérculo da planta da familia das Hliaceas (dioscoreal. E' nr.uito usado em 
Macau, cosido, com sal ou assucar. O mais estimado é o nhame de Melacca. 

Areca é o fructo secco da arequeira (areca catechu, de Lin.) que os macaistas usam mastigar, mas sem o 
betei, como os outros povos orientaes. 

i3oí)) Abrijichá. — Abre e fecha. 

(3o6) Pece. — Peixe. 



263 



(307) Genle curto-airto. — Gente exquisita, de costumes immoraes. 

(308) Caras namora. — Namoradeira, com geito para namorar. Capa^ fi'K~'> com habilidade para o fingi- 
mento. 

(3og) Sóm. — Comida, condiicto para o arroz, que é o pão dos macaistas. 

(3io) Baré — Varrer. 

(3i I a 3i3) Quiti^-quitix, fiti-foto, piti-poíó. — Expressões onamatopaicas do barulho produzido pelos lagri- 
mas que cahem gota a gota, do ranho que suflbca quem está chorando, e da palpitação do coração d'uma pessoa 
angustiada. 

(3 14) Intuía, — Entulhar. 

(3i5) Lu^a. — Alugar. 

{3i6) Rada. — A Rada de Macau, em trente da Praia Grande. 

(3i7) Passa vai, passa vem. — Navegar, andar d'um lado para outro. 

(3i8) Vatani. — Aldca a noroeste de Macau habitada por chins, mas dentro do nosso território. 

(319) Ragacado. — Arregaçado, a. 

(320) Cara caiado. — Cara com Ttb\qvics, pintada com alvaiade e carmim. 

(32i) — Refere-se ao modo como os chins (qne no principio do estabelecimento nem tinham licença para per- 
manecerem em Macau), foram pouco a pouco aproveitando-se das más condições dos habitantes portuguezes para 
se apoderarem, por meio de compra ou de hypotheca, dos melhores prédios da colónia. 

(322) Refere-se ao medonho cataclysmo que assolou Macau em 22 de setembro de 1S74, destruindo grande 
numero dos edifícios públicos e particulares da cidade e havendo innumeras mortes, principalmente na população 
chineza — e á benemérita activiaade do governador visconde de S. Januário que conseguiu não só remediar os 
estragos produzidos, mas embellezar Macau com as obras que emprehendeu e levou a cabo. Como notei a pag. 256. 
muito o ajudou n'essa tarefa o distincto olficial de artilheria sr. Feliciano Bordallo Pinheiro. Em occasiáo oppor- 
tuna me referirei com mais minuciosidade a esse pavoroso tufão. 

(323) Sumia. — Semear. 

(324) Arvi. — Arvores. 

(325) Muro. — Muralha. 

(326) Disíragá. — Estragar, desmanchar. 
(127) Columbra — Cobiçar. 

(328) Gran\id — Grangear. 

(329) Rê — Rt\. — Sium /íf— senhor Rei, El-Rei. * 

(330) Refere-se aos saques continuados feitos pelo thesouro da metrópole ao cofre de Macau, e a enorme 
-cifra que esta colónia tem pago a pretexto de augmentos e reparações da marinha de guerra. 

(yii) Dromido. — Dormido. 

(332 333) Grandi grandi. — Os grandes, a gente grande. Piquinino piquinino, os pequenos. 

(334) Ancusa. — Plural de ctisa — cousa, cousas. 

(335) Preço de porco. — Preço porque a carne de porco (a mais usada em Macau) é vendida na cidade, onde 
-existia e existe o exclusivo de venda. 

(336) Prucicam — Procissão. 

(337) Tenta — Olhar com attençáo. Vem de Atentar. 

(338) Covi coco — Repolho. E' assim chamada essa couve pelo seu feitio que se assemelha ao do coco. 

(339) Sí/?o. — Matérias fecaes, lixo.— Vaca de pucá careta de su\o—ho\% que puxam a carroça do lixo ou o 
carro de matérias fecaes. 

(340) Qui cii^^afa^â 'f — Para que serve ? 

(341) Fugado. — Afogado. 

(342) E' justa essa referencia a Amaral. Oh! se ressuscitasse e visse o que, depois d'elle assassinado, fize- 
ram da sna obra muitos dos seus successores, cobriria as faces de vergonha e preferiria certamente recolher-se 
■de novo ao silencio tumular. 

(343) Terna uma riba de ótro. — De pernas cruzadas uma sobre outra ; gosando o dolcefar niente. . . 

(344) A politica dá pão a uns e pau a outros, ou melhor, uns trabalham para outros comerem. 

(343) Droga. -Draga, pela qual ainda hoje (i3 annos depois!) ainda estão esperando os macaistas. Quando o 
mar de lodo sepultar Macau então despertarão os patriotas. . , 

(346) Imbrula. — Embrulhar. 

(347) Macrid. — Enlacrear, envernizar. 
(3481 Disbafa. —Desabafar. 

(349) Ayinlia. — Depressa. Aginha aginha, muito depressa. 

(350) Cholido. - ? 

(35i) Bom sono. — Hom somno. Os macaistas não dizem boa noite, quando se despedem na occasiáo de se 
deitarem, mas sim — bom sono. 



EXTRACTO DO CATALOGO 



DA 



Antiga Casa Bertrand-José Bastos- Lisboa 



Almanach Bcrfrand. para 1900. coordenado por Fernandes Costa — Pri- 
meiro anno de publicação — Commemorativo do 4/' Centenário do Descobri- 
mento do Brazil. — Antiga Casa Bertrand — José Bastos, editor — Lisboa, rua 
Garrett, 73 e 7õ. 

Elegante volume, de mais de 300 paginas, a duas columnas, profusamente illus- 
trado, com mais de 500 gravuras, das quaes 170 retratos de personagens notórios 
em Portugal e no Brazil. Primorosa capa lithographada, a 7 cores e oiro, composi- 
ção do distincto aguarelista Roque Gameiro. 

Se, pelo formato, este Almanach dá idéa do conhecidissimo Hachette, que tão bem 
recebido e estimado é, em toda a parte; pelo seu contheúdo, afasta-se propositada- 
mente d'elle, tendo fugido a imital-o, bem como a todo e qualquer outro Almanach 
nacional ou extrangeiro. 

O seu fundo é genuinamente portuguez, e occupando-se de tudo quanto pertence 
a um livro da sua espécie, fal-o sob um ponto de vista original e próprio, compra- 
zendo-se em ter o seu especial caracter, sem arremedos nem imitações. 

■'Litterariamente. pode o Almanach Bertrand considerar-se ainda muito superior 
ao Hachette^, dizia O Século de 17 de janeiro. E, já na véspera, fazendo a mesma com- 
paração, o jornal As Novidades dizia, também: "pôde affirmar-se que, se não o ex- 
cedeu, egualou-o brilhantemente. „ 

O Almanach Bertrand apresenta, sob a forma mais attrahente e amena, uma 
somma copiosissima de noções úteis, que convém divulgar, e procura corrigir grande 
numero de erros e inexactidões de uso corrente, o que faz em artigos de superior 
valia, mas inteiramente ao alcance de todos, procurando acima de tudo ser agradá- 
vel, sem nunca se esquecer de que lhe cumpre ser útil. 

No género passatempos apresenta a maior e mais original collecção que se pôde 
desejar, fugindo, porém, de todo, ao género já muito gasto e atrazado da charada, 
do logogripho, do enygma figurado, etc, que foram o recreio dos nossos avós. Os 
passatempos do Almanach Bertrand são todos muito engenhosos, e dirigem-se á in- 
telligencia e agudeza dos leitores, contando com ellas para lhes encontrarem as 
curiosas soluções. 

Insere o Almanach Bertrand um jogo interessantíssimo, intitulado : Jogo da Es- 
phinge, em 52 quadros, espalhados por todo o volume, verdadeiramente precioso 
para entretenimento de serões de familia, e que tem todos os requisitos para ser 
festejado como merece pelos seus intelligentes leitores, e sobretudo pelas suas gra- 
ciosas leitoras. 

São mais de 600 os artigos curiosos e instructivos, que contém ; no género ane- 
cdotas introduziu a innovaçào de illustral-as, o que lhes dá um relevo e graça espe- 
ciaes, completando as figuras, na sua disposição, e na verve do desenho, o espirito 
que já reside no conceito. 



EXTRACTO DO CATALOGO DA ANTIGA CASA BEBTRAND 



Em summa, o Almanach Bertrand é muito superior ainda ás mais lisongeiras re- 
' •commendações, que se lhe possam fazer ; e não é possivel vêl-o sem se ficar de tal 
modo captivado com o aspecto d'elle, que se torna inevitável a sua acquisiçào. 

Esta é facilitada a todas as bolsas, por um preço tão excessivamente barato, 
que nunca em Portugal, nem mesmo no extrangeiro, nenhum outro livro do mesmo 
mérito e do mesmo apparato se apresentou a competir com elle. 

Tendo sido confiado pelo editor á direcção competentíssima de um conhecidís- 
simo homem de lettras, que é ao mesmo tempo um homem de sciencia, e um dis- 
tincto académico — o sr. tenente coronel de artilheria Fernandes Costa. — o êxito 
correspondeu por completo á boa fortuna d'essa escolha, o que toda a imprensa tem 
confirmado espontaneamente, em noticias de muito louvor. 



"Foi dirigido pelo scintillante e conhecido escriptor Fernandes Costa, que se 
saiu da afanosa tarefa com o engenho e perícia que lhe são peculiares. „ 

Novidades, de l(i de janeiro. 

^No género do bastante conhecido, entre nós, Almanach Hachette, acaba a livra- 
ria Bertrand, do Chiado, de editar um livro da mesma espécie, que o talento de Fer- 
nandes Costa dirigiu com um inexcedivel cuidado, podendo collocal-o galharda e 
ousadamente ao lado do seu similar francez.^ 

o Secttlo, de 17 de janeiro. 

^0 sr. José Bastos, actual proprietário da antiga livraria Bertrand, acaba de 
trazer a lume um esplendido Almanach, no género do da casa Hachette, de Paris. 
Dirigido pelo brilhante homem de lettras, o sr. Fernandes Costa, além de todos os 
esclarecimentos e dados, que são de uso publicarem os livros d'esta cathegoria, 
apresenta mais: grande copia de gravuras interessantíssimas, artigos, anecdotas, 
etc, e bellos artigos de litteratura amena. „ 

Correio Nacional, de 17 de janeiro. 

'•Este Almanach, publicado sob a direcção do illustre homem de lettras, sr. Fer- 
nandes Costa, constituo um verdadeiro primor litterario e recreativo, altamente 
curioso pela diversidade dos assumptos, que contém, e magnificas illustrações, que 
ornam quasi todas as suas paginas. „ 

o Jornal do Conimercio, de 17 de janeiro. 

"Recebemos o Almanach Bertrand para 1900. Nova e formosíssima publicação 
que em tudo revela a mão experimentada que a dirigiu e o fino gosto e critério do 
escriptor illustre que a coordenou, e que foi o nosso amigo e collega sr. Fernandes 
Costa. . . E' uma publicação, que, desde a capa, primorosamente illustrada a cores 
e impressa na Companhia Nacional Editora, até á ultima pagina, se recommenda, 
mais do que nenhuma outra congénere, pela acertada e variadissÍLua escolha dos assum- 
ptos, pela extraordinária profusão das gravuras, pela vasta copia de indicações 
úteis e próprias de um livro d'esta natureza, n'uma palavra, pelo savoir faire de 
quem presidiu á elaboração de trabalho tão complexo e ingrato. 

•'0 Almanach Bertrand está, pois, destinado a um completo êxito, por todos os 
motivos merecidíssimo.,, 

Diário de Noticias, de 18 de janeiro. 



Mais de 300 paginas, a duas coluinnas. — Magnifico papel. — 520 pliotogravuras 
e zincographias, das olficinas de Pires Marinho. — 170 retratos. — Eiegantissiuia capa 
artística a cores e oiro. — 50 anecdotas illustradas. — O interessantissimo Jogo da 
Espliinge. — Innumcros passatempos. — Esplendidas gravnras dos principaes monu- 
mentos da próxima Exposição Universal. — Desenhos originaes de distinctos artistas, 
«te, etc., etc 

Preco 400 réis — Provincia 460 




ÁSIA SINICA, E JAPONICA 

Macao conseguido, 8 perseguido. 



Inédito do Erade Arrabido, José de Jesus Maria, 

Missionário nos Estados da índia. 

(Continuação) 

LIVRO I 
Apparato a esta obra 

CAPITULO l 

Mcstra-se summariamente o estado do Mundo desde o seu principio atiié o tempo prezeníe, 
na Azia instruído, e destruido. 




UANDO Deos com sua Divina Omnipotência, e Sabedoria infi- 
nita em o principio não da Eternidade, não do Evo, mas no prin- 
cipio do tempo, e do mundo, quando com o mesmo mundo prin- 
cipiou d'este a duração, creou o Ceo, e a terr'a, (a) não em 
tempo, mas em o primeiro momento do tempo ou primeiro ins- 
tante do Mundo, antes de outra alguma cousa ser creada (b) (contra o que 
Platão, Aristóteles, e outros antigos Filósofos sintirão, entendendo não ser 
o mundo eterno, pois Platão com os Estóicos disserão que o mundo sim 
fora feito por Deos, mas de matéria eterna, e ingenita: Estraton Lampsaceno, 
que o mundo fora ingenito, e só por sua própria actividade e virtude ab 
seterno existira: os Peripateticos, que Deos não livremente, nem por von- 
tade, mas por necessidade de natureza, ab aeterno creara o mundo: Epicuro, 
que o mundo por fortuita conjunção de átomos fora produzido:) (c). Logo á 



(a) Genes. i. cap. i. v. j. =--• (b) D. August. Lib. i in Genes \\ D. Ambros. D. Basti, 
homil. I. Exam. \ Concil. I.atcran. Cap. — íinniier = (cj Tertiiliamis. 1; Hermoí^enes. 
N." 5. — Fevereiro de 1900. 



266 



Soberana Voz de seu Divino Innperio appareceo instantaneamente creada esta 
Pag. 2 famoza maquina orbicular || do Universo, podendo crear outros mais mundos, 
e desfazer a todos o mesmo Senhor que os creara, pois Sua Divina Omni- 
potência não se exhaurira, e para toda esta Obra tão magnifica hum só Fiat 
lhe bastara (d). 

Hera o mundo em seu principio hum corpo vácuo, e todo de escuridoens 
coberto (e), athé que a poucos instantes creara Deos a Luz com que o illus- 
trou, (f) hera vácuo, porque ahinda sem creatura alguma racional, ou irra- 
cional que o habitasse, (g) sem arvores, plantas, fontes, rios, montes, me- 
taes, nem mineraes, (h) sobre o que cantou Ovidio : 

Unus erat totó naturae vultus in orbe, 

Quem dixere Chãos, rudis, indigesta que moles; 

Nic quidquam, nisi pondus iners, congesta que eodem, 

Non bene junctarum discórdia semina rerum. 

Bem poderá Deos, se quizera, logo naquelle instante de tempo em que 
creou o Mundo todo, deixa-lo na sua ultima perfeição; mas sendo congruên- 
cia que a natureza das cousas (cujo Creador he Deos) pro.ceda de menor a 
maior perfeição e luzimento, quiz mostrar aos homes que havia de crear, 
serem dependentes de Deos as cousas todas, não só em seu primeiro prin- 
cipio, mas em seu felix e final adorno; ou porque se Deos no principio creara 
o mundo na sua perfeição ultima, muitos no tempo futuro o considerariào 
increado (i), ou porque com sua ultima providencia o dispôs assim, para que 
os homes á imitação Divina nesta obra, guardassem a mesma ordem em as 
suas, operando, e proseguindo com augmento, e esplendor suas acçoens (i). 

Também Deos, se quizesse, bem poderá depois de creado o Mundo todo, 
e posto em sua perfeição ultima, pois que não o creou por partes, como nós 
o dividimos, mas todo junto depois do Ceo, no mesmo instante de tempo 
(depois das obras todas prodigiosas que formal e potencialmente fez nos 
sinco primeiros dias da Creação do Mundo) mostra-lo todo não só a Adam 
nosso primeiro Pai que no sexto dia formara (m), mas aos filhos que teve 
de Eva sua Esposa, assim como a Caim mostrou parte das terras da Azia, 
como foi Edem, Haran, e Mezopotamia circumvezinhas (n), e outras a seus 
descendentes, na primeira idade do Mundo; mas por seus altíssimos juizos 
passados já 1657 annos, que tantos correrão desde a Creação do Mundo, 
athé o fim do diluvio, então he que aos filhos de Noé deu permissão de 
habitar a terra toda (o), e ahinda estes a não descobrirão toda, tendo a 
posse (p). 
Pag. 3 II Alargou-se mais este conhecimento do Mundo aos Netos de Noé, que 
forão descobridores e fundadores, dividindo entre sy Ilhas e terras (q), le- 
vantando povoaçoens, e cidades (r), e emfim Sem, Cham e Japhet para 
varias partes do Mundo se dividirão (s), e Sineo filho 5.° de Chanaan Neto 
de Noé descobrio e povoou a China ou Sina nas vizinhanças do Japão, 
como entendeu o Alapide, cujas palavras são para notar (t). Sinxum Sindei, 
hic sunt Sinse juxta Japoniam degentes, de quibus ad Christum convertendis 
prophetavit /saias, Cap. 49. V. 12. in Hebraeo, ut ibi dixerat. 



(d) Ex. Ts. 3-2. V. 6. il Esdrce 6. v. 38 \\ D. Basilhis. i| Rupcrtiis == (e) Genes. i. v. 
2. = (f) Genes. i. v. 3. = (g) Jonathas Chaldceus = (h) Symachus Theodosion. || Onlce- 
los ad. Lib. Sap. \\ ii et jo hic.= (i) Ita D. outubros, in \\ Hexam. c. ~. = (1) Ita etiam 
D. oAmbr. = (m) Genes. i. cap. i. =-- (n) Genes, 4., v. 16 \\ Genes. 8. v. n. \\ E^ech. ■2-j \\ 
Isaice. 3-. = (o) Genes. c. g. v. 7. = (p) Ex Hebraico. = (q) Genes 10. v. 5 =- (r) Jbi. v~ 
10. = (s) Genes. 10. v. 32. = (t) Com. Alap. ad cap. 10. \\ Genes, n." ij. 



207 

Muitos P. P. e Doutores attendendo ao que se lê no Livro do Génesis (u) 
entendem que esta primeira divizão dos Netos de Noé, forão tão somente 
nos continentes a que ciiamamos Azia, primeira parte do Mundo descoberta; 
e depois do louco intento a que se applicarão de fundar a torre de Babel, 
vindo de Arménia a Babilónia, e Campo de Sennaar, confundindo-lhe Deos 
as lingoas (x), as principiarão a fallar diversas, dividindo-se então pello 
Mundo todo (z), não fallando athé aquelle tempo mais que a Hebraica. 

Destes he que nascerão todos os Povos, impérios, e Reinos com diver- 
sas Lingoas, permittindo-o assim o Creador para fermozura do mundo, athé 
que com o decurso dos tempos, vendo já Deus ao mesmo mundo povoado 
e a Moyzés nascido no anno 2374 da creação do Universo, 717 depois do 
Universal Diluvio (a) tendo-se em todo este tempo regulado os homes pella 
Ley natural já adulterada, couza porque Deos tinha procedido com vários 
castigos, e também uzado das suas Mizericordias (b), tendo já elejido aMoi- 
zés por capitão do seu povo (c), lhe deu por ministério de um Anjo no alto 
do monte Sinay os preceitos do Decálogo, para fazer observar (d); e depois 
de ter Moizes recebido todos os preceitos e Leis ceremoniaes, e judiciaes 
(e), finalmente para corroboração de tudo, o chamou Deos ao alto do mes- 
mo Monte (na Azia situado), adonde lhe deu as taboas da Ley Hscrita, a 
cuja observância todo o povo se obrigou (f), mas prevaricando e faltando 
em breve tempo no que a Deos por Moizés tinha promettido, logo primcipiou 
a idolatrar (g), dando as costas ao Verdadeiro Senhor, de quem tinhão rece- 
bido incomparáveis benefícios, e quebrando-se a Santa Ley, foi tão grande 
Pag. 4 a Divina Mizericordia, que não só compadecido das supplicas de Moizés, || 
mas das lagrimas daqueles peccadores, lhe perdoou Deos, e reconciliando-os 
a Sy, lhe reformou as taboas da Ley despedaçadas (h). Emfim passando 
Moizés da prezente vida no anno 2494 da creação do mundo, 837 annos 
depois do diluvio, com 120 de idade, o forão substituindo outros famosos 
Capitaens. 

Emtanto se hia cada vez mais propagando o Universo, e extendendo-se 
cada vez mais os racionaes viventes pello âmbito da terra, que hião desco- 
brindo, sendo a todos os mais incógnita, fundando povoações, e estabele- 
cendo novos Reinos, cahirão também em novos erros, pois já a multiplicidade 
de indivíduos snbdiviza em um confuzo labyrintho de systemas, sujeitando 
as idéas loucas do seu entendimento aos cegos apetites da vontade, se des- 
penharão em um profundo pélago de innumeraveis delírios, certamente re- 
pugnantes à Ley Escrita, porque negado o culto a hum só verdadeiro Deos, 
fundando-se huns em apparentes razoens, e outros em próprias opinioens 
sofisticas, viciando outros o que os Profetas escreverão e as Sybillas vati- 
cinarão, seguirão com peccado grande só aquillo que quizeram, e a innu- 
meraveis Ídolos (affectando n'elles divindades) rendião culto. 

Neste deplorável estado se achava já o mundo quasí todo arruinado e 
perdido, cometendo os homns mil barbaridades, do que novamente Deos 
compadecido, vendo que á sua Divina Imagê e semelhança formara o home (i), 
que cativo do Demónio pella culpa parecia, se não lhe acudisse com a efi- 
caz providencia de Sua Infinita Mizericordia, determinou que seu próprio 
Filho viesse ao mundo a assumir natureza humana nas entranhas de huma 



(u) Genes. cap. lo \\ Idem. cap. ii. = (x) Genes. ir. v. 6', e /. = (z) Genes, ibi v. 8. 
= (a) Exod. et ejus Exposit. =^ (b) "Vide Exod. iisque ad cap. ij = (c) Vid. per tot. 
Exod. iisg. ad cap. i8. = (d) Exod. cap. io. = (e) ibi, et cap. 21. usqiie ad. 23- = íf) 
Exod. cap. 24 per tot. et cap. 3i. v. 18. = íg) Exod. cap. 32 ibi. — (hj Exod. cap. 84. 
= (i) Genes. 1 cap. i. 



268 



Virgem pura, para que assim capacitando-se a poder dar pelos mesmos bo- 
rnes a vida, os resgatasse do captiveiro do Demónio com Seu Sangue Pre- 
ciozo; e se as terras da Azia tinhão já sido gloriozo theatro de maravilhas 
desde que Deos criara o Universo, na mesma Azia se admirassem todos os 
mistérios da Redempção do mesmo mundo, Encarnação, Nascimento, Vida, 
Paixão, e Morte de Jezu Christo. 

Em o anno pois da creação do mundo 5199, depois do Universal dilu- 
vio 2957, e 1510 depois de Moizes extrahir o povo de Deos do cativeiro de 
Pharaó nasceo Christo em Bethlem, cidade da Judêa, na Palestina, e em 33 
annos que neste mundo andou, athé dar pello nosso amor a vida no alto 
do Monte Calvário em Jerusalém não só cuidou em substituir a Ley Escrita 
Pag. 5 a Ley de Graça, mas por Sy mesmo, por doze \\ Apóstolos, que elegeo e 
72 Discípulos, sabiamente com todos os seus ápices, para nossa espiritual 
e temporal utilidade, a todos a promulgou, instituindo também os sete Sa- 
cramentos para nosso espiritual e eficaz remédio, querendo pelos impulsos 
do seu amor deixar-se Sacramentado para asistir com os homPs emquanto 
o Mundo durasse (i). 

Pella mesma Azia toda, como mais próximo terreno, sahirão os Apósto- 
los com grande efficacia de espirito a pregar a Fé de Christo; forão-se di- 
vidindo para todas as partes do mundo (m), e na Azia se especializarão o 
Evangelista S. João e o Apostolo S. Thomé, que a penetrou athé o centro 
da China (n) na qual se tem achado e descoberto pello decurso dos tem- 
pos, em varias partes muitos, e muy asinalados vestígios (o); e suposto 
nesta, e nas mais partes do mundo obrarão então os Apóstolos maravilhas, 
hoje se acha a Azia quazi toda lastimosamente perdida pella multidão de 
vicios, variedade de seitas, e abomináveis idolatrias em que o paganismo 
vive influído, e só a poderoza mão de Deos o poderá outra vez. subordinar. 

CAPITULO 11 

Mostra-se summariamente o que hé a Azia, a vastidão do terreno que esta primeira parte 
do mundo comprehende, a multidão de Reynos, e Impérios em que se divide. 

Tanto que a providencia Divina se dignou de querer mostrar aos ho- 
mês a estupendíssima fabrica do mundo todo que creara, e aos mesmos ho- 
mes deu conhecimento e ciência dos modos com que podião, ao menos con- 
jecturalmente, perceber que couza o mundo hera, logo estes, ou por corio- 
zidade e appetencia de mundanas glorias, ou por ambiciozo dezejo de lo- 
grar delicias e riquezas, (a não serem altos juízos de Deos, para a propa- 
gação do Universo,) uzando de varias artes adquiridas com laboriozo dis- 
vélo, Arithmetica, Mathematica, e Geografia, por esta o mensurarão, e em 
partes o dividirão, chegando a perto de oito mil léguas a circumferencia que 
Pag. 6 lhe derão, sem mencionar a altura dos Ceos, |j grandeza, e movimento dos 
Planetas, que a tudo confiadamente se atreverão, fazendo globos, mapas, ou 
cartas geográficas para a humana percepção ; e como a Azia fora a primeira 
parte do mundo descoberta, conciderando alguns a esta com maioria entre 
as outras (suposto haja opinioens contrarias) a subdividirão em Azia maior, 



(1) Math. 28. i'o. et cap. i. v. 7. -= (m) Acta Apostol. a cap. 10 et dei>Keps.= (n) Apoc, 
I. 4. IJ Extrad. P. P. et D. D. = (o) Vid. Faria e Sou^a na Ar^ia Portug. == Fern. Mend. 
'Tinto na sua Peregrin. e outros muitos auct. 



26g 

e Azia menor, expondo os dilatados Reinos e Impérios que huma e outra 
em si contem. 

Para eu dar alguma breve noticia dos continentes da Azia, me deverti 
em ler coriozamente o que escreverão o P. Martinio Martin Italiano (p), o P. 
Athanazio Kischavi Romano (q) João Vighovium Olandez (r) M. de Lemierrs 
Francez (s) D. Francisco Giustiniani em Hespanriol (t) Manoel de Faria e 
Souza Portuguez (u), tendo já lido em Portugal, sem este intento as Déca- 
das de Barros, Fernando Lopes de Castanheda, e as obras de Diogo de Couto, 
que das terras da Azia nos dão vasta noticia (x), como não menos Nicolao 
Trigaucio e Marco Paulo Veneto, que entre todos se reputa o mais antigo 
(z) ; mas como os discursos dos homes sempre forão vários, e difficilimo 
sempre o poder conciliar a todos, difirindo alguns nos graus de longitude 
e Latitude do terreno, outros nos continentes dos rios e mares pellos quais 
huma da outra Azia dividirão, exponho o que mais comuamente escreverão 
e se reputa verídico quanto aos Paizes. 

Acha-se a Azia cercada pello septentrião com o mar de Galacia ou Tar- 
taria; pello meio dia com o mar Occeano, ou das Índias, e Arábia: pelo Oriente 
com o mar da China: pello Occidente com o mar Roxo, que a separa da 
Africa, ficando em 73 graus de Latitude Septentrional que fazem 1450, e 
sua longitude entre os 35 e 195 grãos, mas em opinião moderna se tem 
observado ficar entre os 47 e 160 grãos, contando desde a extremidade da 
Natolia athé á China, occupando huma grande parte da Zona Tórrida, toda 
a Temprada Septentrional, e alguma parte da Fria. 

Tem a Azia seu principio em os Dardanelos junto a Constantinopla, e 
girando grande parte do am.biío da terra finaliza em a Rússia ou Império 
dos Moscovitas, incluindo em sy parte d'este Império, todo o da China, o do 
Japão, o dos Tártaros, o do Gram Mogol, o dos Persas, o dos Abixins, e 
grande parte do Império Turco, todos com muitas Províncias, e innumera- 
veis Reinos, mas quanto á Tartaria não abraça o Império todo. As provín- 
cias principaes que o Império Turco tem na Azia são a Natolia, Syria, Tur- 
comania, Diarbek, Geórgia, e huma parte da Arábia, com varias Ilhas de maior 
Pag. 7 e menor grandeza. | Em a Natolia, tem Bithynia, Smirna, Ancira, Paplago- 
nia, Mitridate, Nicomedia, Nicéa, Chalcedonia, Epheso, Erostrato, Halicar- 
nasso, Sardo, Lidia, Mileto, Tróia, Pergamo, Caramania, Tarso, Antiochia 
de Piriade, Amazia, Trapizonda, Capadócia, Cesárea, Marast, e Jasso. Na 
Syria tem a Phenicia, Palestina, Judêa, Antiochia, Alexandreta, ou Escande- 
rone, Samosate, Tripolé, Ptolemaida, Sidónia, Jeruzalem, Sichem, Bethlem, 
Joppé, e Gaza. 

Na Turcomania, a Arménia maior, Erzeron e Berlis, com outras muitas 
povoaçoens. Na Diarbek, a antiga Syria, que em huma parte tomou o nome 
de Mezopotamia e em outra a de Chaidéa, ou Babilónia, Mossul, Edessa, 
Harran. Na Geórgia a Mingrelia, Colchide, Cardual, Suram, e outras que por 
menos conhecidas não repito. Na Arábia, a Pétrea, a Dezerta, a Feliz, Meca, 
Medina, os celebres montes Horeb, e Synai, lam.an, Moía, Mascate, e outras 
muitas terras com varias e notáveis Ilhas, em que entrão as de Chypre, 
Rhodes, Metelim, Samos e Pathmos, ao que tudo incluindo os Abixins cha- 
mão os mais dos Escritores e Geógrafos Azia Menor. 



(p) Martin. Mart. Q/lílas et in tom. Ital. idiom. conscr. = (q) Athan. Kircher. in 
Chin. <£Momi))it'níis ^= ir) João Nighov. in Legat. Batav. trad. a Georgio Hornio Lai. 
idiom.— (s) cM. de Limiers II Cieuce de Ia Cour ~ (t) D. Franc. Giust. en el Atlas abre- 
viado impr. em França =^ (u) óManoel de Far. e í^ou^ja nas suas Q/ípas Portug. -= (x) 
Vide et iam Siipr. dict. A. A. si plac. == (z) Nicol. Trigauc. || M. Paulo Venet — ride. 



270 

Na Azia Maior se comprehende muito parte da Gram Tartaria ou Impé- 
rio dos Tártaros, hoje diminuto, e dividido em Tartaria Meridional e Septen- 
trional tendo n'esta só o Czar de Moscovia sinco Provincia, Astracan, Cir- 
cassia, Bolgar, Cassan e Sibéria, com outros muitos Paizes, e em toda tem 
o Imperador da China e outros Princepes dilatado seus domínios ; seus Li- 
mites são ao Seplentrião o Occeano Septentrional, ao meio dia as Índias da 
Pérsia, mar Caspio e Geórgia; do Oriente o mar Oriental e a China; do Oc- 
cidente a Moscovia. Entre os Tártaros e os Turcos ficão os dous Impérios 
dos Persas e dos Mogoles, ambos famosos, suposto este se ache hoje em 
grande parte distruido por Tamar Kaulikan, que vendo não estar o Império 
dos Persas tão grande como quando Dário o possuhio, o quiz á forsa de 
armas e industrias extender. Outros Princepes lhe possuem muyta parte, e 
todo o Indostão, que hé grande porção deste celebrado Império. 

Dividia-se antigamente em trinta e sinco Reinos, hoje contem só 19 go- 
vernos, e he o Indostão a parte mais concideravel da Índia, e tomou este 
nome do famozo rio Indo, que o rega com crystalinas aguas, conservando-lhe 
este nome todo o dilatado terreno a que chega a sua profluencia. Os geógra- 
fos dividem este Império em três partes, Septentrional, Occidental e Oriental: 
á primeira asignão por confins, do Oriente a Gram Tartaria, e a península 
Oriental da índia; do Poente a Pérsia; do meio dia o golfo de Bengala, e a 
Península da índia da outra parte do Ganges. A segunda que he Península 
Occidental, e está cercada do Occeano Oriental, ou Mar da índia, excepto 
Pag. 8 da parte do Septentrião que está unida ao Mogol, se divide jl em sinco par- 
tes : 1.^ contem o Reino de Visapur, em que se acha a grande Ilha de Goa, 
Dio, Damão, Onor, Cananor, Baçaim e outras muitas que os Portuguezes 
conquistarão, do que em seu logar farei menção. 2.^ contem o Reino de Ga- 
lionda ou Heiderabel. 3.^ o governo de Bisnagar, em que está situada a ci- 
dade Meliapor que possuhimos. 4.^ a Costa de Coromandel hoje sogeita a 
diversos Princepes. 5.-'' a Costa de Malavar, em que temos a Cochim, e ha 
varias ilhas. 

Ainda se reputa maior que as outras a terceira parte, que he a Penín- 
sula Oriental, e tem por Lemites ao Oriente a China, e o Occeano Indico : 
pello meio dia e Poente o mesmo Occeano ou mar da índia: pelTo Septen- 
trião a Gram Tartaria. Subdividem esta Península ahinda em outras três 
partes, Septentrional, Meridional e Oriental: A 1.^ tem o grande Reino de 
Ava, a que muytos chamão Império, suposto que tributário antigamente, 
contem seus Estados e sinco Reinos que lhe pagão feudo. A 2.^ tem o Reino 
de Sião com onze Provindas, e o Reino de Camboya ou Cambodia seu tri- 
butário: nesta vizinhança fica a Península e Estreito de Malaca. A 3.^ que 
he a parte Oriental se divide em dous Reinos, que são o de Tunkim com 
sete Províncias da sua obediência, tributário ao Imperador da China; O ou- 
tro hé o Reino de Cochinchina subdividido no Reino de Chiampa que con- 
quistou, e Pégú, com seis populozas Províncias. 

Emfim para dizer em summa tudo o que contem o grande terreno da 
Azia, e o que chamamos índia assim Oriental como Occidental, he tudo o 
que corre o mar Indico, he pella parte do norte da Costa e Contra-costa to- 
dos os Reinos, Províncias e diversas naçoens de gentes que as habitão, he 
tudo o que embóca e dezembóca o estreito de Malaca, em muytos e gran- 
des Ilhas povoadas e despovoadas, mencionando as Molucas, Maldivas, Bor- 
neo, Ceilão, e Samatra, athé chegar a parte de Moscovia, comprehendendo 
toda a China. Da parte Occidental se pode já numerar a famoza Ilha de Ja- 
va, as de Solor, e Timor, as Fillípinas com sua capital que he Manílla tudo 
povoado; as Ilhas do Império do Japão com vários reinos feudatarios, athé 



271 

fexar outravez com a China, da qual dista tão pouco que em 40 oras de 
viage se pode estar em ambos os Impérios, dos quais em seu lugar fallare- 
Pag. 9 mos, pello que respeita á prezente obra. 1| 

CAPITULO III 

Dã falsa Relligião, seitas, e Idolatrias, com que quazi toda a Ãzia, o Indostão, 
Japão e China, se prevaricou. 

Bem poderão os Egypcios pelas pragas e castigos que no tempo de Moi- 
zés experimentarão (a), ter com evidencia conhecido quam poderoza e pe- 
zada he a mão de Deos, para que retrocedendo de uma vez os caminhos 
errados da perdição, nem elles, nem os Gregos em tempo algum por dou- 
trina de seus sábios o seguissem, nem a outras naçoens da Azia os partici- 
passem. Consta por asseverações de Heródoto, Plinio, Diodoro, P^uzanias, 
Plutarcho e outros antigos Escritores (b), que depois da invazão feita no 
Egypto por Cambisses Rey dos Persas, sendo então Numa Pompilio o se- 
gundo Rey dos Romanos, destruirá em grande parte aquelles povos e pro- 
cedera rigoroso contra os Sábios, é Sacerdotes dos ídolos, mandando quei- 
mar os simulacros de umas Deidades fementidas, despedaçar Altares e de- 
molir Obeliscos e pirâmides, dando principio a esta acção pelo Ídolo — 
Apin — que reputavão sua maior Deidade, ou Boi Sagrado que loucamente 
adoravào vivo, e tudo reduzio a cinzas. 

Os Sacerdotes com outros muitos Sábios, e insipientes do povo por es- 
caparem á morte ou a algum áspero desterro, o tomarão voluntário, fugindo 
peregrinos a diversas regioens; e como a gente hera muyta, alguns por 
maior segurança dezencontrando-se, entrarão pello seio Arábico, vindo pa- 
rar á índia ou Indostão, como já muitos annos antes tinhão feito (conforme 
a sua traddição) Hermete, Bacho, e Ozirides; e nestes paizes tão remotos 
entrarão com deligencia a suscitar o que El-Rey Cambisses destruirá no 
Egypto, empenhando-se com o pretexto de grande zelo a influir nos enten- 
dimentos simpleces o quanto hera precizo ter muytos e vários Deozes le-van 
tando-ihe Estatuas para adorar, como meio eficaz de os ter sempre propícios. 

Tornou logo aqui primeiramente a reviver o Boi Sagrado com o nome 
de Apides, a quem sem muita repugnância aquelles povos persuadidos de- 
rão culto, sendo capacitados primeiro que ninguém no futuro século havia 
ter salvação, se no extremo da vida se não pegasse á cauda dhuma vaca, 
tendo-a na mão athé os últimos alentos. Logo se seguio a seita da Trans- 
Pag. 10 migra- i; ção das Almas de cuja superstição fora Pythagoras o Mestre, e 
entendendo com certeza passavão com effeito as Almas de huns animaes 
para os outros se abstinhão de comer tudo o que fosse animal vivente, e o 
que delle procedesse, como Leite, queijo, ovos, etc, para que não socedesse 
engolir e gastar com o nutrimento huma Alma de algum Heroe que no 
mundo tivesse florecido. Herostrato escreve que com effeito forão os Egy- 
pcios quem no Indostão ensinou esta doutrina (c) que por toda esta parte 
da Azia athé Camboya, Tunchim, Laos, Conchinchina, Japão, e China toda 
foi seguida e praticada, athé o prezente tempo, e em varias naçoens com 
todos os seus ápices e rigor. 



(a) Exod. a cap. 7 1/5^. ad 9 et hic v. 14 =^ (b) Heródoto, Plinius, Diodorus, Pau- 
^an., Pluíarch , et alii in vâr. Libr. et histor. niundi. = (c) Erostrjt. invita Q^pollonii. 



272 



O mais acérrimo sectário desta falsa e supersticioza doutrina foi hum 
Architeto chamado Brachman, que em todo o Oriente a praticou, acrecen- 
tando a esta outras superstiçoens innumeraveis, introduzindo também a fa- 
bula do Elefante branco, cujos animaes desta cor tiverão por estes Reis 
gentios tanta estimação como a mesma Monarchia, reputando-se bemaven- 
turados os que os chegarão a possuir, para idolatrar. Este impio Brachman 
a que os Chinas chamão Xéxian, e os Japoens Xaca, e atrevidamente de si 
próprio afirmou que nem na terra nem no Ceo havia outro Santo que elle, 
teve tão numeroso séquito de discípulos, que chegarão a oitenta mil, e por 
elles semeou tantas e tão horriveis sizanias, que parece incrível o dizer-se, 
praticando finalmente oitenta mil transmigraçoens em todo o género de ani- 
maes, incluindo sempre o Elefante branco, e que em seis giros ou rodas se 
mudavão as Almas de huns a outros por seis pennas, ficando na sexta ro- 
tação com participaçoens de Divindade, feitos Pagodes (d). 

Outros ahinda hoje entendem, observando aquella doutrina, que esta 
transmutação das almas se regula pelos méritos e deméritos, virtudes e ví- 
cios dos sogeitos com correspondência; porque as dos Tiranos se transmu- 
ta© em Tigres, as dos Lascivos em Porcos, as dos Gulozos em Caens, e 
pello coutrario as dos brandos e pacíficos em ovelhas, etc, mas sempre as 
dos Reis em Elefantes brancos; e finalmenie chegaram a praticar outros 
ahinda mais especulativos delírios que não relato por fugir á extensão e se 
podem ler em vários e doutíssimos Escritores (e). 

Os Brachmanes dizem trazer de Xaca já mencionado a sua origem, e se 
querem confundir nas idéas e ciências tão supersticíozas com o mesmo Py- 
thagoras e Trimegísto. Tem por especiaes Deozes a Bruma, Vesne, e Bu- 
tzem, aos quaes dizem se subordinam trinta e três milhoens de Deidades, e 
que do Deos Bruma procedera toda a geração dos homens, e de catorze 
partes do seu corpo catorze mundos, correspondendo os homes com suas 
Pag. 11 inclinaçoens e génios àquele mundo em q.' cada hum foi nascido. '| 

Quanto á origem e creação do mundo praticão vários disparates que 
hoje os Sarracenos ou Mahometanos ímitão, tendo estes que (pello vocábulo 
— Cabala) na ponta de hum Boi se sustenta todo o globo da terra, aquel- 
les que em huma serpente de mil cabeças ajudada de oito elefantes se sus- 
tenta. Outros Brachmanes (isto he Sábios e Mestres) ensinão que huma 
Aranha he a primeira couza de todas as couzas, a qual com uma contínua 
evolução dezentranhada formara primeiro os Celestes Globos, e continuava 
a sua obra athé completameute aperfeiçoar o mundo a que hade também 
cauzar o fim. 

Outros Brachmanes, Mestres ou Discípulos do Demónio, com inaudita de- 
mência praticarão não menos que dés íncarnaçoens em Deos (f), e os In- 
dianos d'alem e d'aquem do Ganges lhe derão inteiro credito. Ajuntarão 
três pessoas, ou seus ídolos em arremedo da Diviníssima Trindade : Brachma. 
Bexno, Mahex ; dizíào que o primeiro hera natureza ou esencia do Ente Su- 
premo : o Segundo, dizião ser o seu apetite concupiscivel, e o terceiro seu 
apetite irascivel ; davão-lhe seiscentos nomes para insinuar daquelle Ente 
os atributos, e reputavão huma só natureza em todos três. Não exponho 
os modos das des Íncarnaçoens, por ser prolixa e infructuosa leitura. 

Os Ídolos e Idolatrias, as Seitas, e Superstiçoens que destes se deriva- 
rão e segue este cego Paganismo, são innumeraveis : huns adorão o Sol, 



(d) T. liobert. Nob. in Theol. 'Brachm. = íe) Odoficus ord. ÓM. \\ Bolland. in VHa 
S. S. tom j. Jau. i5. |; Mívin. in anal. [| et alii. =^ (f) 'P. Henric. Grot. 



>^o_ 



outros, a Lua; outros quando esta he nova adorão e festejão ao som de 
batigas o Dragão para que lha nào coma ; outros tem Ídolos com figura do 
Demónio (como eu vi n'esta Cidade em hum Pagode publico), e o adorão 
para que os não persiga nem lhes fassa mal algum. Huns adorão (e são muy- 
tos) a Amidas, outros a Menipe, Jano, Júpiter, Diana e Pussa Cybeles si- 
nica, em varias e difrentes figuras, tudo partecipado dos Egypcios e Gregos. 
Tem públicos templos e Pagodes dedicados a muytas Deidades : Templo 
do Dragão do Mar ; Templo da Rainha do Ceo, isto he da Lua no seu sin- 
tir : Templo ao Ceo : Templo aos Demónios : Templo aos Montes e Rios : 
Templo a Marte : Templo do grato animo : Templo á Paz : Templo ao Es- 
pirito da Medicina : Templo ao Prezidente dos Muros : Templo ao Prezi- 
dente dos Matos. Emfim, ao Deos da Chuva, ao Rei das Aves, e a outras 
lg. 12 Deidades fementidas (g.) Para ultimante se commu- i] nicarem ao coriozo 
leitor todas as Seitas, Superstiçoens, Leis, Ritos, Ceremonias, doutrinas, 
idolatrias, modos de adoração, pagodes sumptuozos e multidão de ídolos, 
que conforme os Escritores são mais de noventa mil em todo o mencionado 
Continente, seria hum processo infinito ; só concluo com dizer, que como 
estes bárbaros gentios levantão facilmente pagodes e idolos a quem que- 
rem, com a mesma facilidade se lhe não diferem promptamente ao que sup- 
plicão, transmutão todas as adoraçoens em desprezos fazendo-lhe vilipên- 
dios, arrastando-os, despedaçando-os, queimando-os, pois tem em tudo 
inconstancias. 

(Cont/núa). 




(g) Vid. in Jambalico | M. Paul. Uenet. | Ciem. Alexadrin. |i Athan. Kircher. 'i| 
SMútrlinio <£Martin. ! Ludovic. Froes. \ P. Griíberits. ■} Christoph. liur. \\ Joan. Lopes. ,| 
oApollon. T/iyando. ,1 Erot7\ito. i| Ludovic. Gusm. \ Trigciuiio \ Faria, e Sou:fa. || oMen- 
des Pinto. 



Catalogo dos Vigários Geraes e Visitadores das Missões do Norte e do Sul de Goa, 
e dos Superiores Ecciesiasíícos de Crangaoor, CocMin, Meiiapor, Macao e Mo- 
çambique e suas circufflscripções, acompanhado da recopilaçâo das ordenanças 
por elles publicadas. 

(Continuado de pag. 252) 



10) 1804 Julho 17. Circular do mesmo vig. da vara Graça. Inculcando as vantagens da 
oração mental, e mostrando que o mais tacil methodo de orar é, — tomar um livro, 
como o evangelho, aos poucos lêl-o, considerar attentam.''' as verdades que nelle se tra- 
tam, procurar nutrir-se delias, e destas passar a outra verdade ou outra consideração, 
— em consequência da determinação do arcb. prim. manda aos vigários que : i exhortem o 
seu povo a que façam a oração mental nos dias de guarda, ao menos por um quarto de 
hora antes da estação, fazendo meditar por si os vigários um ponto breve sobre os vi- 
cios mais predominantes; 2 façam elles vigários exercícios espirituaes por o dias em sua 
própria egr." sem a desamparar, por serem obrigados a residência, assim nem uma noite 
e um dia inteiro poderão demorar-se em outra parte, e sendo preciso sair lhe dêm par- 
te ; 3 preparem-se para prestar exame de moral e liturgia até i5 agosto; 4 lhe remettam 
o rol de sua christand.'' e uma relação dos omissos; e 5 ao vir ao exame traga cada um 
a sua provisão. 

i8i I — P/ João de Sou^a e Silva, vig. da vara e visitador ger. das missões de Bom- 
baim, nom. por provis. archiep. de 9 fev. Expediu a seg: — 

11) 181 1 Setembro 2. Circular datada de Mahim de baixo. Annunciando aos vigários 
a sua nomeação pela provis. do arceb. de Goa. de 9 fev. ant., em visitador das egr.*' e 
capellas estabelecidas nos districtos de Mahim, Bombaim, Tanna, Garanja, Baçaim e 
Tarapor, com a faculdade de conferir chrisma aos chriâtãos, manda que elles avisem ao 
povo que, por não poder o arceb. pessoalmente visitar estas missões, fará a visita elle vi- 
sitador : também recommendem aos fabriqueiros e thesoureiros, que deixem as contas es- 
critas nos livros competentes; avisem as irmandades, ao clero e povo para a sua rece- 
pção delle, segundo o ceremonial da egreja. . . 

Em seguida transcrevo outra circul. desse anno : — 

12) ]8i 1 Setembro 2?. Circular do vig. da vara de Tanna e Salcete Ignacio Pereira 
do Monte, datada de Bandorá. Communica aos vigários o contexto do ofificio que recebeu 
do arceb., no qual manda sob p. de susp. que nenhum parocho saia de sua freguezia, ainda 
no tempo que o direito lhe permitte, sem licença do prelado ou do vig. da vara ; sendo 
muito escandaloso elles saírem para divertim.""- inúteis, com prejuízo grave de faltarem 
a administração dos sacramentos a seus freguezes. 



276 

i8i2 — Ps Francisco Tan-js^ mission. em Mazagão; nom. pelo arcbp. Galdino vig. 
ger. do Norte: em i3 maio 812 deu parte de sua nomeação ao gov."" britannico (22). 
Exerceu o cargo por ló annos, e regressando a Goa em nov. 829 , tal. i5 out. 83/ com 
87 an. d'idade. 

Delle tenho a archivar as circul. que seguem : — 

i3) 1812 Junho 22. Circular. Suscita a observância das ordenanças promulgadas pelos 
arcebispos Neiva Brum e Sta. Catharina: especialmente manda que os missionários cum- 
pram o disposto no >$ 19 da pastoral de 27 de setembro de 1700, permittindo comíudo 
que os parochos assistam independentemente de sua licença, aos enterros nas outras fre- 
guezias, ou vão a ellas para se confessarem ou ouvirem de confissão, ou para satisfazerem 
outra necessidade urgente, devendo recolher-se á sua egreja com brevidade. 

14) 1812 Novembro 12. Circular. Diz que do arcebispo de Goa recebeu exemplares 
das Constituições d'este arcebispado, que os missionários mandem buscar na sua resi- 
dência, e as observem ficando obrigados a pagar o, custo da impressão, se o governo da 
metrópole assim determinar (23). Avisa que por estas constit. nenhum decr. dos arce- 
bispos de Goa fica revogado ou derogado. 

i5) 1817 Junho 4. Decreto. Manda que os missionários cumpram o decr. archiep. de 
I jun. 1809 (I P. p. 372): quanto ao prescripto no § 4 delle, se observe a rubrica do 
missal, relativamente a hora da celebração da missa, seja resada ou cantada. Para obviar 
os inconvenientes de concorrerem para as festas dos oragos das egrejas, os parochos 
abandonando as suas christand.*', quer que não assistam a ellas mais que 5 padres; o 
6.° que assistir, se)a convidadci ou não, fique suspenso: esses 5 padres, tomada a refei- 
ção depois da festa, se recolham a suas casas debaixo da mesma pena: os que hão de 
assistir serão os mais visinhos, e de preferencia os que não forem parochos. Se não hou- 
verem em Baçaim mais que 3 padres, só 3 serão convidados, que com o próprio paro- 
cho farão o numero de 4. Se houver na egr.* alg.'' funcção no dia immediatoa festa, se- 
jam chamados para esse dia naquelle mesmo numero e forma acima ditos; os quaes 
findo o acto se recolherão a suas egr."", sob a pena sobredita. Lembra o que o arceb. 
tem determinado acerca da oração mental quotidiana de manhã ; o que elle vig ger. 
mandou fazer nas tardes dos domingos. Transmitte copia da circul. de 4 set. 1783, do 
vig. da vara de Baçaim Nicoláo F. da Conceição (24). 

Insiro neste logar mais as ordenanças que seguem : — 

16) i83. . Provisão do vig. da vara de Baçaim p.* Diogo Agostinho de Souza. Deter- 
mina : i que os cadáveres dos defunctos sejam enterrados nas covas que os interessados 
livrem." escolherem, e pelos funeraes se recebam legados prescritos pelo regimento de 
cada parochia, não obrigando o parocho «a fazer legados grossosa ; e não se dê sepul- 
tura aos que a denegam as constit. do arcebispado de Goa e o ritual rom. Será punido o 
parocho que «constranger alguém por augmento de legados.» 2 O producto das colle- 
ctas e mealheiros da egreia reverta em benef." da fabrica ; 3 pelos baptismos receberá o 
parocho um quarto (de rup.) dos pais do baptisado, e dos padrinhos 2 larins ; o mais é 
voluntário: não se usará de capa, se a não pedirem pagando. 

4 O benzimento das casas como não seja de estricta necessidade e obrigação fazer-se 
no tempo paschal, os parochos não podem exigir proes salvo offerta voluntária, nem os 
freguezes obrigar o parocho a benzer suas casas, «sem ainda attender ao tempo nem 
modo.» 5 Os bemfeitores das egrejas e os presidentes que tiverem feito festas se mor- 
rerem pobres, o parocho averigoada esta circunst.^ por depoimento de 4 ou mais pes- 
soas juramentadas, enterre seu cadáver no logar que lhe destinarem, e de preferencia 
n'alguma cova em que fosse enterrado algum dos seus antepassados, sem exigir nada 
da cova e franquia das insígnias da irmandade, devendo o parocho acompanhar o cadá- 
ver como d'ordinario, resar uma missa e fazer 6 sinaes. 

6 Se o parocho não pode obrigar ninguém a fazer legados avultados, deve comtudo 
antes do enterro haver os seus emolumentos, ou serem elles garantidos por penhor equi- 
valente ou fiança de pessoa abonada, a qual passará ao parocho uma obrigação em pa- 
pel sellado, podendo aquelle penhor ser vendido se dentro em um anno não fôr resga- 
tado, ou haver-se o credito dos fiadores, se a parte não solver a divida. 7 Para as mis- 
sas solemnes taxa o estipendio de 5 rup., sendo i rp. para os músicos cantores; para as que 
se cantarem aos domingos, sendo de um padre 2 Vv rp., sendo V2 ^P- para os músicos; para 



(22) Cottineaii no seu Journal ou diário, vcrt. em portg. e publ. no Insl. V. Gama IV, ■/■] , 2bS, -o, 2, — Rep07-l 
eh. atraz n. 16 p. 3, O e s?g., — Relc.t. Leitão Castro n, 2. 

[20) «Do penultiino capit. das mesmas constit. (diz a pastor, do arceb. de Goa de 1812 out. 4), se vê a obriga- 
ção das fabricas comprarem cada uma um e,\emplar, para ficar permanentemente na egr., mas como a mente de 
8. alt r. é daUas de graça aquellas egr. que forem pobres, especialmente as de missão, determinamos que as 
fabricas que não puderem compral-as nos requeiram, e as que puderem as comprem.» 

(24I Da circul. de 4 set. 1783 a que nesta se allude, não acl)ei registo em livro algum: será a que atraz n." 3 
ficou transcripta ? 



277 

as missas cantadas em dias de semana i '/v rp., sendo i/j aos músicos: em todo o caso o 
parocho porá 4 velas no altar. 8 Não poderão os par."« sem consultar o vigário da vara 
castigar os freguezes pondo-lhes ossos ao pescoço, nem absolvel-os da excom. pu- 
blicamente. Q Manda dar aos meirinhos 18 rup. annuas do cofre da fabrica, e r. rp. lhes 
paguem os parochos, ricando desonerados dessa contribuição os freguezes : poderão elles 
meirinhos haver dos contrahentes do matrim " 3 poiças, e pelo baptismo 2. 10 A des- 
pesa de guizamento para missas correrá por conta das fabricas. 

Em additamento aos ^^' 3,4 e 7 manda que os par."" benzam as casas dos freguezes 
segundo o estvlo e ordem antiga, e hajam a offerta voluntária: quanto a offerta pelo ba- 
ptismo continue o antigo costume, e pelos repiques hajam o que prescrevem os regu- 
lamentos dados pelo vig. da vara V. F. Peres. Onde fôr costume haverem os músicos 
2 larins, pela missa cantada do estipendio de 1 '/-i ^P■^ estejam por este costume, e nada 
pelo baptismo salvo offerta voluntária (25). 

17) 183- Setembro 20. Circular do vigário da vara de Tanna, Francisco Gonçalves. 
Por ordem da auctoridade ecclesiastica de Góa manda aos parochos, que «os contractos 
esponçalicios sejam celebrados entre os contrahentes de 12 a 14 annos«, perante elles 
parochos, pratica que elles procurem introduzir com suavidade evitando perturbações. 

18) i83q Abril i5. Circular do mesmo vigário da vara, F. Gonçalves, dirigida aos mis- 
sionários de Baçaim e Sanjan (sic). Tomando em consideração o que ponderaram os 
christãos do districto respectivo, e, d'accordo com os parochos de N. S. dos Remédios 
e Purim, determina: i que reverta ao cofre da fabrica o dinheiro que nos mealheiros 
se encontrar em domingos, dias santos e dias festivos, ao qual os vigários não tem di- 
reito algum; 2 o benzim."' das casas se faça dentro do tempo paschal, recebendo os pa- 
rochos som.''= o que voluntariam.''' cada umquizer dar; 3 pedindo alguém ao parocho 
para usar de pluvial nos baptisados e casam. '"% d'elle poderá receber o costumado; 4 por 
conta da fabrica correrá a despesa da egr.'', do guizam.'" e salário do meirinho; 5 ne- 
nhum vigário poderá mandar fazer seu serviço privado como moer, encher agoa, rachar 
lenha aos noivos que vão á egr.' aprender cathecisrno; (3 nem obrigar os freguezes a fa- 
zerem festas contra vontade d'elles, nem funeraes cuja despesa exceda a suas posses; 
7 não poderá «enterrar pessoa alguma fallecida sendo digna tora da egr." ou do cemité- 
rio <, recebendo sua espórtula : recom.''" a todos os missionários de Baçaim não dêm ao 
publico semelhante escândalo. Manda que se lêa esta circul. nas egr."" ao povo. 

19) 1849 Maio 16. Carta circular dirigida pelo mesmo vigário da vara Gonçalves aos 
seus jurisdiccionados e freguezes da egr." de Manne. Communica-lhes a resposta tida do 
governo local, denegando sancção á nomeação de certo clérigo, feita pelo vigário apos- 
tólico de Bombaim, em parocho da egreja de Manne; e manda que continuem a reco- 
nhecer por seu parocho ao p.*" Manoel Marianno Godinho, sem dar ouvidos aos sedu- 
ctores (26). 

Em i836 e 1839 foram decretadas pelo governo inglez subvenções mensaes, aos mis- 
sionários portuguezes que parochiavam certas egr.'"" dos districtos de Salsete e Baçaim ; 
talvez fosse devida esta concessão á diligencia do juiz que era em i83õ no Concão, 
Jorge Giberne (27). 

Em 1839 tentaram os adversários do padroado usupar a egr." de Mane: tendo os pa- 
droadistas recorrido aos tribunaes, foi decidido o litigio e a appellação a favor do mis- 
sionário portg. (28). 

N'esse a. i83q se reedificou em Baçaim a egr.* de N. S. Remédios : custou q.Soo rp. (29). 

1839 — P." Q/íntonio õMariaimo Soares, desde 1829 missionário em Mazagão (3o), 
promovido em out. i83i a vigário da vara de Bombaim, Baçaim e Mahim, e finalm.''= 
nom. vigário ger. do Norte, cargo que exerceu desde i83g até 18&G. Sua correpond.^ of- 
ficial com as auctorid.'" superiores sobre matérias de jurisdicção. ., está exarada no 
Appenso ao n.° 35 do Bolet. 1S44, — Defens. do r. padr. 11,49, — Bolet. i85o, n."47; i853 
n." 5i ; iS54 n.''*^ 28, 33 e i858 n."^ 73, 74, 73, 76, 77 e8o, — Abelha 'B ...^ ~ Revol. setb. iS5i 
ag- n.°" 2642 e 2814. 

Em seu nome, dos mission."" e christãos seus jurisdiccionados dirigiu á s. sé em 
dez. i83o. uma representação em forma de ladainha (3i) contra as invasões de propag.'^^ 

Em 1848 depois de fal. Fortini, vig. ap. em Bombaim, a grande maioria de catholicos 
nativos d'essa cidade e suas dependências (225 individues), dirigiram á s. sé outra repre- 



Í25) Do livro paroch. de Nandakal. 
(2?) Abelha Bomb. 1849 »•" 35. 

(271 Patriota Bomb. ísóo n " i. V. Memor. J.oureiro p. 222, 3. 
(281 liolet. 1837 n."» 7 e 8 e i8?8 n.» So. 
(2q) Bolet. 1858 n."7i. 

(3o) V. Calend. eccl. e lil. Goa 1871 p. 334. ' 

(3i) Publ. essa ladainlia no Defensor do r. padr. II, 36: foi composta por p. Agostinho do Rosário Lourenço, 
então administrador do hospício do Culabo. 



278 



sentação, pedindo a creação dessa capital de presidência e suas jurisdicções em bispado 
suffraganeo da metrópole de Goa, nomeando para ella um bispo portug. (32). 

P/' Soares foi um dos quatro mission."* portg. de Bombaim, declarado na camará dos 
deputados em uS53 por benemérito da pátria, pela sua adhesáo e lealdade aos direitos 
do padroado portg. (33). 

Promoveu q.'" estava a seu alcance a educação e a instrucçao da mocidade de Bom- 
baim (34). 

Condecor. com o hab. de Christo por decr.de 3o jun. 1841, e com o da Conceição 
por outro decr- de 26 fev. i85i ; nom. por decr. de 19 ab. i85i (35) arcediago da sé de 
Goa, concedendo-se-lhe a faculd.'= de usar desde logo das honras, insígnias e prerogati- 
vas desta dignid." independentem.''' da respectiva posse, e emq.'" permanecer no exer- 
cício de parocho da egr. de Mazagão e vigário geral das egr.'" do Norte. .-\ port. r. de 
5 ag. i852 (36) louva o p.*' Soares pela sua firmeza na justa defensão dos direitos do 
padr."; e manda que pela faz. pub de Goa lhe seja abonada a prestação mensal de t")0 xs. 
Outra port. r. de 2*1 fev. iS5õ (87) o manda elogiar pelo zelo relig." e patriótico com que 
se houve na defensa dos direitos do padr.". Por decr. de 17 fev. 1 838 promovido a thesour."- 
mór da sé de Goa, e pelo de i5 jul. 68 a chantre. Recolhendo-se a Goa em 1866 ahi fal. 
em 14 jul. 72. 

A port. r. de 7 nov. 1S40 (38), em resposta a uma representação dirigida a s. mag. 
pelos procuradores dos cathol."' portg. de Bombaim, louva o zelo e activid " com que 
elles tem pugnado pelos interesses dos seus constituintes, e pela defesa dos direitos da 
coroa portg. ao padroado das egr." da Ásia, e lhes assegura que o gov." tem novam.'*" 
reclamado perante o gov." inglez, afim de que se expeça ordens aos governadores ingle- 
zes da índia, para que mantenham na conformidade dos tratados os direitos do padroado 
de s. mag., e faça restituir ao diocesano de Goa e a seus suflíraganeos as egr."* portg. 
usurpadas pelos propagandistas. Outra port. r. de 3o jun. 1841 (3()), em resposta ás re- 
presentações dirigidas ao governo pela «commissão erecta em Bombaim para a conser- 
vação e reivindicação dos direitos do padroado real das egr.-"" do Norte», se lhe declara 
quê estando restabelecidas as relações com a corte de Roma, e estando nomeado arcebp." 
para a sé de Goa que não tardará em ser sagr.", em breve os votos da commissão serão 
satisfeitos, e o seu zelo e esforços premiados. 

Em 1846 tentaram os mission "' da propg.''" empolgar a capella de N. Sr." da Con- 
ceição de Baicallá; propoz-se demanda em nome de Miguel de Lima, que na occasião 
do seu casam.'" illudido pelos d."* mission."" se sujeitara a sua jurisdicção, renegando a 
legitima do arcebispado de Goa; esta demanda durou alg." mezes e em junho do m.°"' 
anno foi decidido que a capella pertencia ao padroado portg., como filial da egr." de Ma- 
zagão, e foi condemnado o autor nas custas (40). 

Em i84() edif. a egr." de N. S. Mãi de Deus, de Palie, em Baçaim : custou 6000 rp. (41). 
Em i83o novb. reverteram á jurisdicção do padroado os freguezes da egr." de N. S. Sal- 
vação de Mahim, sendo reivindicada a d." egr." usurpada, por sentença judicial de 
i3jun. i85i: custou essa demanda mais de 7000 rp. (42). 

Por sentença judicial de 7 dez. i873 foi reivindicada a egr." de Mane: dessa sentença 
tendo appellado o vigário ap. de Bombaim, foi decidida a appellaçào em 23 jul. i835 a 
favor da jurisdicção do padroado, declarando-se que ao mission." portg. pertence a posse 
da egr." e casas parochiaes de Mane (43). 

Em 1854 jun. 20 se reivindicaram as egr."-' de S. Miguel de Mahim e S.'" André de 
Bandora; por sentença de 22 jun. foram mandados restituir á irmand."^ de S."> André de 
Bandora, os trastes de prata e ornam.'"" roubados pelos satellites da propg.''" (44). 

No mesmo a. 183^ tendo sido impedida pelos gentios a fabricação da egr." de S.'" Cruz 
do Monte Calvário em Baçaim, os christãos recorreram aos tribunaes, os quaes decidi- 
ram a contenda a favor do mission." portg. (43). 

Creio que foi nesse a. 1854 que se fizeram importantes obras (8000 rp.) na sobred. 



(32) Observador Bomb. 1848 n.» 25. 

(33) V. 1 P. destas Mitras p. 5iS, (), — Jorn. do Commerc. Lisb. i86*< ab. 18, — Ind. Porlfi. 1868 jun. 2. 

(34) V. Abelha B. i855 n." 363 e Bolet. i856 n.° 6 onde está pub). o discurso deste vig. g. Soares, recitado por 
occasião dos e.xames dos alumnos da escola portg. de Cavei. 

(33) Bolet. iS.Ti n." 23, — Abelha B. iS5i n." 142. 

(36) Bolet. i85j n." 41. 

(371 Ib. i856n."3i. 

m) Bolet. 1841 n^h. 

(191 Ib. 1S41 n." 36. 

(40» Bolet i836 n.° 7. 

(41) Ib. i858n.»7i. 

(421 Bolet. i85on."47; i85i n." 26 e 1857 n." 9 e 10. - Abelha B. i85i jul. 18. 

(43) Bolet. i8S3 n." 5i ; 1854 n."^ 28 e 33 e i855 n.« 3i. 

(44) Bolet. 1854 n." 28. 
^45) Ib. i854 n." 33. 



^7Q 

egr." de S. Miguel, — e em Baçaim foi reparada a de S. Thomé, custando 0875 rp.; e 
edificada em i856 a de N. S. Mercês, custando rp. õooo (46^. 

Aqui vão exaradas três ordenanças do vig. g. Soares, e outras quatro de um vig. da 
vara, dessa epocha : 

20) iS5o Novembro 9. Provisão. Levanta a suspensão injusta e incompetentem.'" ful- 
minada, contra o p." J. Braz Fernandes, de Bombaim, e o nomea para parocho da egr." de 
N. S. Salvação de Mahim, absolvendo-o de qualquer censura se em alg.^ incorresse (47). 

21) 1854 julho. Aviso da camará eccles. Diz que em 16 d'este mez haverá preces na 
egr. de Mazagão, pelo feliz successo das armas do exercito anglo-francez no Oriente (48). 

22) 1857 Agosto 19. Circular. Reprova os meios tortuosos por que pretendem alguns 
sacerdotes serem providos em parochos, lhes pede não escandalisem por este modo os 
christãos, e ameaça com a pena de suspensão a quem persistir nesse propósito. 

23) i85i Agosto 4. Circular do vigário da vara de Baçaim Pe. óTvIathias José Lobo (49). 
Diz que por ordem superior estão dispensados os missionários do seu districto, de apre- 
sentarem ao prelado as suas provisões (pastor, de iq de maio iSbi dovií^. cap. do arcebp, 
de Goa)., das quaes podem usar pelo tempo que lhes foi concedido ultimamente. 

24) i856 Abril 24. Alvará do mesmo vig. da vara Lobo. Em execução da ordem do 
prelado, que o manda visitar as egrejas d'este districto de Baçaim, designa os dias 5 a 8 
do seg. maio para a visita que pretende fazer a 4 egr.^*^ que aponta, e quer que os parochos 
cumpram o que a respeito de semelhantes visitações lhes prescrevem as constit. goan. e 
o regim.'", e deixem as contas das fabricas e irmandades promptas e outros livros ; e 
avisem o povo. 

25) 1857 Fevereiro 14. Circular do mesmo vigário da vara Lobo. Diz que se estende 
ás missões do seu districto o indulto de comer carne, e aos missionários a dispensa por 
dez annos, de applicarem a missa pro populo nos dias santos abolidos (pastor, do vig. 
cap. de Gòa de iq julho e 23 agosto i8>6). 

26) 1857 Maio i3. Circular do mesmo vigário da vara Lobo. Annuncia aos missioná- 
rios do districto, que o prelado de Gòa concede aos christãos dispensa do jejum nos 3 
dias das rogações. 

1867 — Fe. Diogo Manuel Gomes., desde i853 vigário da vara de Tannah (5o), no- 
meado superior das missões de Bombaim por port. archiep. de 8 fev. 67, e vigário ge- 
ral em 1870. Cavai, da ordem de S. Thiago da Espada por decreto de 26 fev. tu. Pode 
■ vêr-se sua correspondência acerca dos negócios ecclesiasticos no Bolet. i85tJn."Mo; 
i858 n.o 78 e 1860 n." 3. " 

A pedido dos clérigos seus conterrâneos de Bombaim compôz uma Collecção das 
praticas em marata., ou discursos fa?}iiliares d'um parocho a seus fregueses, e a'wii pai 
de familias a seus filhos e súbditos (por um missionário indígena) : foi impressa esta 
Collecção em caracteres romanos à solicitação da commissão ahi estabelecida para pro- 
mover o bem da religião, Bombay i8(Jo typ. de Luiz Maria de Souza, em 2 tom. em 80.,. 
contendo o i." vol. III — 204 pag. com 27 praticas, e o 2.° 288 pag. com i'i praticas. 

Foi pelos esforços empregados por este vig." da vara, que os tribunaes inglezes de 
Bombaim mandaram restituir á jurisd "" do padr.", o que se verificou em 16 nov. i'^'"i2^ 
a egr. de Versovah, que na noite de 2 julho ant. tinha sido por traição do parocho delia 
fr. Maurelio do Espirito S., egresso do conv. de S. Francisco, invadida e usurpada pe- 
los miss."' da propg.''". 

P.* Gomes fal. a 5 ag. 1878, e está sepultado na egreja de Dabul com o seguinte epi- 
taphio : 

Aqui ja^em os restos mortaes do muito reverendo 

1)iogo Manoel Gomes, 

Cavalleiro da ordem de S. Thiago,, 

Vigário geral das missões do Norte, 

Fallecido n'esta cidade a 5 d' Agosto de 18-8., 

Da idade de 64 annos e 1 1 me^es. 

Oriundo de Q/lmbolim de Salcete de Norte, 

E ordenado presbytero em iSSj,, 

Parochiou successivamente as egrejas de 

Caliana, Malvana., IJersova e Condotim, 

Com as aggregadas de SS. Trindade e oAldeamar. 



{4(3) Bolet. iSiSn.oji. 

(47; Abelha B. i8f)o n." iii. A pena de susp. fora intimada a p J. Braz Fernandes, em carta do administrador 
ap. de Bombaim A. Hartmann de 3i de out. i85o, publ. na cit. Abelha e na Revol. selb. i83i ag. n.' 2642. 

(48) .'Xbclha B. i854 n." 3o2. 

(401 Nobiliarch. ffoana H, 220, — Bolet i838 n." 71 : ficou atraz notado que o p. Lobo foi nom. vig. da vara 
de Baçaim, por provis. de 18 de out. 18.^0. Fal. em parocho de Siolim, a 7 jul. 1873 — Bolet. 73 n." i'i. 

(3o) V. Abelha B. i854 n.° 279, — Patriotas Bomb. 1880 jan. p. 12. 



28o 



Reedificou com muita lida e sacrifícios pessoaes 

cAs de Condotim e Trindade, que achou em ruinas e sem meios ; 

Aíelhorou todas as outras onde parochiou, 

E fundou uma nova em Matheran. 

Foi nomeado Uara do districto de Tannah em i853, 

Superior das missões do Norte em hSfJ-j, e 

Vigário geral do Norte em i8~(j. 

Por seus relevantes serviços no varado, 

Foi condecorado pelo l^ei Fidelissinto. 

Esta cova perpetua foi-llie oferecida 

Pela freguesia de Dabul, em reconhecimento 

Do seu effica^ apoio para a sua erecção. 

Pede-se um P. N. e A. M. 

Publicou as seguintes circukres : — 

27) 1867 fevereiro 14. Circular. Transmitte aos missionários copia da port. archiep. 
de 8 deste mez, relativa à sua nomeação ao cargo de superior das missões do Norte, e 
representante do arceb. metropolitano perante as autoridades locaes. 

28) 18C8 Agosto 20. Circular. Communica aos missionários que o sto. padre pela 
sua encycl. de 17 out. 1B67, manda fazer em todo o orbe preces publicas pela defeza da 
egreja perseguida, com indulg. pi. aos que recitarem essas preces; designa praso para 
se satisfazer as condições prescriptas para lucrar a indulg. 

29) 1868 Dezembro 19. Circular. Remette aos missionários copia da port. archiep. 
de it) deste mez, que contem certas providencias para a construcção de cemitérios, visto 
prohibir o governo local, a sepultura de cadáveres nas egrejas. 

30) 1870 Novembro 19. Circular. Para se cumprir, manda aos mission."* copia da 
port. archiep. de 29 set. 1870, na qual se prescrevem preces pub.'", por achar-se o papa 
em grave tribulação. 

3i) 1873 Novembro 24. Circular. Communica ao vigários copia da port. da junta gov. 
do arcebispado de Goa de 12 deste mez, pela qual se prohibe aos mission."% abençoa- 
rem os matrim."*' dos indivíduos naturaes de Goa, sem lhe apresentarem certidão dos 
proclamas publicados na parochia de sua naturalidade. 

32) 187Õ Julho 25. Circular. Manda que os mission."" avisem a seus freguezes, que não 
demorem levar á sepultura o cadáver do seu parente ou amigo, que venha a falleccraccom- 
mettido de cólera ou bexigas, como se insinua no ofhcio do chefe de saúde publica, 
que a este acompanha por copia (5i). 

33) 1877 Novembro 22. Circular. Transmitte aos missionários copias da port. archiep. 
(de 22 maio ant.), que nomea visitador das missões do Norte o p.'' A. T. S. Leitão Cas- 
tro, e d'um I do oflhc. archiep. de i5 deste nov., dirigido a elle Gomes, no qual declara 
que, por não permittir agora o estado d'elle vigário geral longos trabalhos e fadigas, ne- 
cessárias para tomar contas da administração dos cofres das egrejas, tem nom. visitador 
no temporal das egrejas o dito L. Castro. Quer que os missionários cooperem para este 
visitador desempenhar sua commissão. 

34) 1878 Março 2 Circular. Remette aos missionários copias das circul. do arceb. 
(de 21 fev. ant.) e do vigário gerai do arcebispado (de 20 fev. ant.), pelas quaes se man- 
dou fazer suffragios por alma de Pio IX, e preces pela eleição do seu successor. Diz 
que não duvida estejam feitos os ditos suffragios, como também as preces sobreditas, 
que el!e próprio prescrevera na sua circular promulgada logo que se recebeu pelo telegra- 
pho, noticia da morte do papa. Participa que está já eleito papa Leão XIII, pelo que 
manda se cante nas egrejas Te-Deum. Avisa que o arcebispo por doente regressa de Ma- 
drasta, interrompendo a visita pastoral. . . 

35) 1878 Junho 12. Circular. Prescreve preces por 3 dias ad petendam pluviam, e no 
seg. domingo manda que se cante um sol." Te-Deum pelo restabelecimento da saudedo 
arcebispo de Goa. 

1877 — P." António Thoma^ da Silva Leitão e Castro, nom. por port. r. de 22 de maio 
1877 para servir em alguma das dioceses do real padroado na Ásia, segundo a incum- 
bência que lhe fôr dada pelo arcebispo de Goa; e por provis. archiep. de 14 nov. 1877 
e de I maio 78, nom. visitador das missões de Bombaim e Gates, com o encargo de to- 
mar contas ás fabricas, irmandad." e associações pias das egrejas (52). 

Expediu as ordenanças que seguem : — 

30) 1877 Dezembro '3. Circular. Annunciando o começo de sua visitação ás egrejas, 



(5i) Do livro paroch. de Marol. 

(32) Boíet. 1S77 n." 49, — Obias de D. Ayres 492, — Palriota Bomb. 1878 jiin. p. 22, — Clero Portg. Lisb. 
1890 n." i5g. 



28l 



exige dos missionários no emtanto: i um inventario dos bens moveis e immoveis, que 
possuem a egreja principal e as egrejas e capellas annexas, e as confrarias nellas insti- 
tuidas ; 2 a folha da receita e despesa ordinária delias, e da extraordinária provável ; 3 
outra folha com as contas do ultimo mez, pela forma que indica. Manda avisar os tieis 
que elle receberá quaesquer queixas e accusações, que porventura tenham de fazer acerca 
da malversação dos fundos dos cofres. . . (53j. 

37) 1878 Janeiro 11. (Arcular. Prohibe: i que os gerentes dos cofres das egrejas sem 
licença do arcebispo alienem os bens das egrejas e confrarias ; 2 acceitem ou recusem 
legados pios ; 3 arrendem os prédios das egrejas por mais de 3 annos. 

38) 1878 Fevereiro (k Portaria. Prohibe que no districto de Baçaim, se arremate an- 
tecipadamente o producto das futuras esmolas, que os lieis hajam de lançar por devo- 
ção no mealheiro ou cepo das egrejas. 

39) 187S Fevereiro 8. (Jircular. Exige dos missionários resposta aos seguintes quesi- 
tos : I se na sua freguezia se receberam legados pios, com encargo de satisfazerem per- 
petuamente, ou só por um certo tempo: 2 em que consistem esses legados, se em mis- 
sas, festas. . . ; 3 se se acceitaram alguns legados e quaes, durante a gerência do actual 
missionário; 4 se houve para esta acceitação licença superior (54). 

40) 1878 Maio ib. (Arcular. Para ser lida ao povo e registada, transmitte aos missio- 
nários, copia da provis. archiep. de i deste mez, relativa á sua nomeação para visitador 
das missões (54). 

41) 1878 Maio 3i. Circular. Na conformidade das const. goan. declara incursos na 
pena d'excom., os ecclesiasticos e seculares que sonegarem qualquer propriedade, al- 
faias, valores, livros ou documentos pertencentes á fabrica, confraria . ., bem assim os 
que retiverem em seu poder, destruírem ou falsamente affirmarem, que não existe, al- 
gum livro ou documento d'essas fabricas, confrarias. . . ou lh'os não entregarem a elle 
visitador (54). 

b) GATES 

Em 1826 fundou o mission." portug. fr. Clemente da Mãi Dolorosa, a egr." de N. S. 
Conceição em Belgão ; reedif. em i85i. 

i85*') ? — P." João Marianno Gonçalves., mission. em Mahvane ; nom. por provis. de . . . 
visitador, e por outra de. . . 185- vigário g. das missões dos Gates (1) : os relatórios de 
sua visitação ás missões estão publ. com doe. no Bolei. iS5~ n."' 9 a 11 e i858 n." Gq (2). 
O decr. de 24 nov. iS53 (3) lhe concedeu as honras de cónego da sé de Goa ; e o offic 
do gov. da Ind. de 21 jun. i85o o poder usar a medalha, que a christand."" de Malwane 
lhe ofFereceu em 21 out. 55.^ como testemunho de gratidão pela fundação da egr.'' 
daquella missão (4). Nom. parocho d'Anjuna por decr. de 14 maio 55 (5). Port. r. de 
20 jul. 57 mandado louvar pela fundação da egr.'' de Vingorlá. Outra port. r. de 21 jul. 
58 approvou o arbitramento de subsídios, que lhe fizera a junta da faz. de Goa. Fal. 18 
maio 1878. 

Por sentença judicial de 27 maio i85b foi reivindicado, o terreno adjacente á egr.^ 
de Caladique que havia sido usurpado por dois gentios brahmanes (6). 

Poucos annos antes de i856 foi erecta a egr.'' de Savantvady, por diligencia do p. 
João António de Souza (7). 

A port. r. de 18 nov. i85() (8) louva o zelo com que o mission. de Bellary e Adoni p. 
Luiz Gonzaga Rodrigues, se houve na reivindicação por sentença dos tribunaes inglezes 
da egreja de Muduniguiry, e se emprega em obter igual resultado a respeito da egreja 
usurpada de Raichur. 

Em 1857 reivindicou-se judícialm.''' a egr." de Tamaricopa, usurpada pelos mission."' 
da propag.''" ; e por sentença judicial de out. 58 se mandou restituir á d." egr.» portg. de 
Tamaricopa, os trastes de ouro, prata, imagens e roupa que tinham sido roubados (9). 



(53) Impressa em Bomb. foi , e transcr. no Palriola 1878 jun. p. 22. 
(b^) Estas 3 circul. foram todas impressas em líomb. foi. 

i\) V. ports. r. de 3 marco e 10 set. 1857 — Susteníac. do clero paroch. i35, 40, i. 

(2) V. Bolei. i85t3n "43. 

(3) Ib. i834 n '• 10. 
(41 Ib. i856 n." 49. 

(3l fíolet. i855 n " 2(j, — Obras arceb. Amorim 111, i56. 

(61 Dolet. i836 n." 47. 

(7) Ib. i85() n " 43. 

(8i Ib. 1857 n " i, — Abelha B. 1857 n» 2. 

(91 Rolet. 1857 n.»» 9 e 10 e i838 n." 85. 



282 



Em 1859 se obteve sentença judicial sobre o cemitério de Darvhar, a favor do mis 
sion.° portg. (lo). 

O visitador Gonçalves expediu o seg.: 

42) i856 Novembro i3. Edital. Dá por aberta a visita nas missões dos Gates, em 
desempenho do seu cargo de visitador. 

1877 — 'P." António T. S. Leitão Castro, nom. visitador das missões dos Gates por 
provisão archiep. de 14 nov. (11). 



II — Canará. 

IÕ38? — Fr. Simão da Graça., aug., visitador das egr."" do Sul. 

Pela c. r. de 1645 março i3 se encommendou ao vicer. Ind., que se enviasse a Onor, 
nos invernos, um religioso que instruísse aos moradores nas cousas necessárias para sua 
salvação, e lhes pregasse o evangelho. 

1648 — Fr. Francisco da Conceição, franc, visitador das egr."" do Sul (depois de o 
ter sido das do Norte, como atraz p. 248 se disse). N'uma representação que elle dirigiu 
a s. mag. em 649 jan. 16 diz: «Visitei as partes do Sul, e achei muitas egr."'' nossas met- 
tidas pelas terras dos reis de Malavar, que é gr.'''^' gloria para v. m. cathol. vêr que tem 
vassallos fieis nas terras e reinos dos reis infiéis». Diz que assistem relig."" franc. em 
Cranganor, Calicoulão, Porca, Vaipim, Coitote, Cariture, Betimano, Alapar. . . e outras 
christ.*^" e egr."'. «E agora de novo alevantei duas no pagodinhocom titulo de N. S. Con- 
ceição e no mato da rainha. ., onde muitos se querem converter á fé, que por falta de 
ministros por não terem de que se sustentem o não fazem, que com mil pardaos cada 
anno ganharam milhares e milhares de almas para o céo.» 

1649? — P.^ oAfidré Gomes, vigário da vara da missão do Canará, e depois parocha 
da egr." de S. Lourenço da ilha de Goa. No Prompt. Dif. Indic. p. 91 se diz que elrei 
D. João IV, pelos serviços que elle fez na dita missão do Canará, o nomeiou para bispo 
delle e o papa lhe passou letras de sagração, que trouxe o p."" Pedro Borges, vigário que 
foi da egr." de S.'" Luzia (Daugim), vindo de Roma, e por chegarem depois da sua morte 
(1657 jul. 3) não surtiram effeito (i). 

Eram a esse tempo «les circonstances de cette mission (do Canará) tristes et graves. 
Lorsque les troupes portugaises se virent forceés d'évacuer les derniéres places fortes 
qu'elles occupaient sur la cole du Canará, les archevêques de Goa abandonnérent aussi 
cette mission, qui fasait partie de leur archidiocese. ils y furent peut-être contraints 
par les circonstances» (2). 

( Continua. ) 



(10) Bolei. 1859 n." 8^ 

(11) V. atraz p. 281. 



(i) Sebastião Gomes— é o nome pelo qual designa este vigário foraneo do Canará, a Memor. dirig.peta chris- 
taniade de Mangaloj- a A. Bofinand, Nova Goa, 1868. Muito duvido da confirmação em bispo do Canará, d'este 
meu conterrâneo padre André ou Sebastião Gomes; só a este concederia o papa a confirmação, que como é sabido 
e eu liz ver na I P. d'estas Milras, p. i58 e 611, tão renitente foi em denegar a outros prelados propostos por 
D. João IV, D. Aftonso VI e D. Pedro I[ para as dioceses do continente e ultramir? Ainda mais descreio d'essa 
confirmação, porquanto o Canará não era a esse tempo bispado, nem houve lá bispo portuguez antes de 164Q nem 
depois de 1637, muito pelo contrario foi então que começaram as derogações do padroado portg. no oriente. Estas 
considerações moveram-me a eliminar na 2.» edição do I vol. desta minha obra, o que a este propósito consignara 
na I.* edição, reservando só para este logar do II vol. os apontamentos que vão no texto. Tirando o cit. Prompt. 
Dif. Ind., em nenhum outro impresso ou manusc, de infinidade delles que me tem passado pelas máos, em archivo 
algum publico de tantos que na índia e em Lisboa tem sido objecto de minhas diuturnas investigações, encontra-se 
documento ou referencia qualquer ao p. André Gomes. Para elucidação da matena pode vèr-se o folheto que publi- 
cou em Goa, Bastorá 1897 typ. «Rangel», o sr. Philotheio Pereira d'Andrade com o tit. — Padre André Gomes, 
esludo bibliogr., biogr., epigr., hist. e cril., o qual chegou-me ás mãos estando já na imprensa esta parte do meu 
trabalho. 

(2) UApôlre de Ceylan p. Josepli Va^, por Ladislas Michel, archev. de Thebes, deleg. ap. des Ind. or. , Cal- 
cutta 1896 p. 12. 



o 50.° anniversario 



DA 



Morte de João Maria Ferreira do Amaral 



E DA 



VICTORIA DE PASSALEÃO 



sa-a5 de Agosto de 184:9 



V 



EM poder contar com os auxílios e recursos mandados da metrópole, teve 
o conselho do governo de recorrer ao patriotismo dos macaenses para o 
lançamento d'um empréstimo de 5o:ooo patacas, que serviu para debellar 
as difficuldades financeiras com que luctava o estabelecimento. 

E esse patriotismo mais uma vez se manifestou (i), como os leitores 
poderão ver nos seguintes documentos, que vão publicados juntamente com a sequencia 
da correspondência trocada entre o referido conselho e as auctoridades chinezas de 
Cantão e o mandarim Cso-tang de Macau. 




O Conselho do Governo da Província de Macao, Timor e Solôr determina o se- 
guinte. 

Reclamando o bem e a segurança deste Estabelecimento, que o Governo fique quanto 



1 1 ) No que náo foi correspondido pelo governo da metrópole porque, ainda em i852, náo tinham sido embolsa- 
dos da quantia emprestada, como se pôde ver no citado livro de Carlos .losé Caldeira, pag. 117 do i." vol. 

"Muitos dos moradores de Macáo também n'esta occasiáo se mostraram beneméritos por diffcrentes modo_s, 
principalmente concorrendo para um empréstimo gratuito que subio a avultada quantia, da qual ainda hoje estão 
em desembolso, náo tendo o governo de Portugal dado providencia alguma a tal respeito, como a justiça pede.» 

Se foi feita justiça depoi.-; — pagando-se o devido — náo sei, porque náo me foi possível verifical-o até hoje. 



284 

íintes habilitado com os meios necessários para poder accudir de prompto ás urgentes 
exigências do serviço na presente delicada crize em que se acha, e sendo preciso no 
actual apuro dos cofres da Província, recorrer para aquelle fim a um empréstimo em 
termos compatíveis com as forças do Estabelecimento; havemos por conveniente en- 
carregar a uma Commissão composta dos Cidadãos José Vicente Jorge, João Baptista 
Gomes, e Camillo Lelis de Souza, de promover por conta do Governo da Província um 
empréstimo até a quantia de cincoenta mil patacas, que poderá ser entregue ao Governo 
por parcelas ou soluções, segundo a necessidade o reclamar, sob a hypotheca dos ren- 
dimentos todos desta Cidade. O Governo confia do conhecido zello, intelligencia, e pa- 
triotismo dos mesmos Cidadãos, que a Commissão que elle vem de nomear, ha de em- 
pregar toda a actividade e diligencia para sarisfazer com toda a brevidade, e com con- 
dições as mais vantajosas possíveis, ao encargo que lhe é commetido, com o que de 
certo fará valioso e relevante serviço ao Estabelecimento. 

Das Repartições Publicas se lhes prestarão todos os esclarecimentos que elles jui- 
garem necessários para o bom desempenho da sua commissão — As aulhoridades a 
quem pertencer assim o tenham entendido e executem. Macao, 4de Septembro de 1849. 
— Jerónimo Bispo de Macao, Joaquim António de Moraes Carneiro, Lud gero Joaquim 
de Faria Neves, Miguel Pereira Simões, José Bernardo Goularte, Manuoel Pereira. 



Ulmo. e Exmo Conselho do Governo 

A Commissão tendo recebido a Portaria de V. Exa. sob N. 2, datada de 4 do cor- 
rente, para promover um empréstimo até a somma de cincoenta mil patacas para occor- 
rer as despezas pelo motivo de actuaes circunstancias; depois de ter feito serias refle- 
xões, e investigado o meio de satisfazer os dezejos de V. Exa., sente que não seja pos- 
sível promover esse empréstimo : entre tanto lembra a Commissão, que sendo necessário 
accudir ás despezas extraordinárias, que a actual crize torna necessárias para salvar os 
habitantes e suas propriedades, pondo-se a Cidade em defensiva, que os moradores de- 
vem habilitar ao Governo para sua própria segurança, e de suas propriedades com um 
empréstimo sem juros para afrontar essas despezas extraordinárias e necessárias sob a 
garantia dos rendimentos públicos da Província: nestes termos a Commrssão aprezenta 
uma relação dos moradores, que julga pelo seu trafico commercial capazes de concorrer 
com o empréstimo notado na mesma relação, fazendo-se com isso o máximo sacrificio, 
e talvez o único, em razão das actuaes circumstancias decadentes do Paiz; devendo ser 
esse empréstimo pago sem falta em quatro prestações igoaes, das quaes a i." seja en- 
tregue até i5 deste mez na mão de um Commissario recebedor; e as seguintes nas res- 
pectivas épocas por prévio avizo deste, pelo Boletim, em o qual deve aprezentar a conta 
respectiva para constai- o útil emprego deste dinheiro — O rezultado do referido em- 
préstimo deve ser unicamente destinado para as despezas extraordinárias, as quaes de- 
vem estar a cargo do mesmo Commissario Recebedor, nomeado por V. Exa. ad hoc, 
com instrucções para regular o seu exercício. Pensa também a Commissão, que aquelles 
moradores, que tem de contribuir com a quantia quotada, quizerem applicar para o pa- 
gamento das futuras decimas a que são obrigados, parece que se pode admeti-los a fa- 
ze-lo. Macao 5 de Setembro de 1849. 

José Vicente Jorge — João Baptista Gomes — Camillo L. de Sou^^a. 

Relação dos contribuintes que devem concorrer com empréstimo para o Governo 
para attender as despejas urgentes em deffeja do Estabelecimento 

António Carlos Brandão íí> i,5oo 

Bernardo Estevão Carneiro » i,5oo 

Cláudio Ignacio da Silva » 2,5oo 

Camillo Lelis de Souza « 2,3oo 

Cypriano António Pacheco » i,5oo 

Cabido » 1 ,00o 

Emigdio Jozé do Rozario » i ,3oo 

Francisco Jozé de Paiva » 2,5oo 

Guilherme Bramston » 2,5oo 

Gonsalo da Silveira » Soo 

João Baptista Gomes » 2, Soo 

Jozé Vicente Jorge » 2, Soo 

João Joaq. e Maximiano dos Remédios » 2, Soo 



285 



Jozé Maria da Fonseca 

Jozé Bernardo Goularte 

Jozé Manoel de Jesus 

João Maria da Silva 

Joaquin:! Peres da Silva 

Jozé Gabriel Fernandes 

Lourenço Marques ... 

Missão de Pekin 

Missão de Nankin 

Manoel Pereira 

Manoel Jozé Barboza 

Mariana da Costa . . 

Manuel António de Souza 

Maria Izabel de Silva 

Maria de Espirito Santo Reis 

Mosteiro de Santa Clara 

Vicente Caetano da Rocha 

Vicente Paulo Pitter Salatwich 

Patacas 



i,,5oo 

i,.'ioo 

i,5oo 

5oo 

3oo 

5oo 

.')00 

6,000 

4,000 

i,5oo 

i,5oo 

5oo 

5 00 

5oo 

3oo 

1,000 

i,5oo 

5oo 



0,300 



Jo-^é Vicente Jorge — João Baptista Gomes — Camillo Lelis de Souza. 



N." 62 — Ulmos. Srs. — O Exmo. Conselho do Governo, tendo reconsiderado a ma- 
téria do parecer de VV. SS. datado de 5 do corrente, e tendo ainda alguma duvida 
acerca da applicação do empréstimo, sobre que versa o parecer, deseja obter de VV. SS. 
algum esclarecimento, pelo que me incumbe de dizer a VV. SS. : i.° se o rezultado do 
empréstimo deve ser unicamente destinado, como propõe a Commissão, para despezas 
extraordinárias ; n'esie caso, ficando de garantia ao empréstimo os rendimentos públi- 
cos, a Fazenda não terá com que pagar as suas despezas ordinárias, por que os ditos 
rendimentos que constituem a sua receita ordinária ficam como hypothecas ao paga- 
mento do empréstimo, e por tanto fora da disposição da Junta para outra qualquer ap- 
plicação — 2." Quando a garantia se entenda ser dos rendimentos futuros e que a Junta 
da Fazenda fica habilitada a empregar os actuaes para o pagamento dos seus encargos 
ordinários, parece ao Conselho que convinha que esta condição fosse explicita no pa- 
recer que VV. SS. deram ; mas ainda assim o Conselho julga que tal crausula poderia 
não convir, por que ella iria mais tarde pôr a Junta da Fazenda nos mesmos embaraços 
previstos na primeira hypothese: porquanto não é de esperar que a receita deste Esta- 
belecimento, que ora constitue a Dotação da mesma Junta melhore a ponto de a habi- 
litar a prehencher ao mesmo tempo os seus encargos ordinários, e o pagamento do em- 
préstimo ; e quando a idéa da C^ommissão seja que os mutuantes esperem pelo embolso 
até quando a Fazenda o posso verificar, sem prejuiso das despezas a que tem de occor- 
rer para o serviço ordinário do Estabelecimento, importa que esta idéa se consigne ex- 
plicitamente ou no parecer da Commissão, ou no termo de condições. 

Nestes termos parece ao Conselho, que seria talvez mais vantajoso assim para a Fa- 
zenda como para os mutuantes, que o rezultado do empréstimo fosse destinado para o 
pagamento de todas as suas despezas ordinárias pela Junta, recebendo esta doCommis- 
sario Recebedor, a quem deverão ser entregues as prestações do empréstimo, as quan- 
tias mensalmente precizas ; e as extraordinárias pelo mesmo recebedor, para cujas mãos 
deverão passar mensalmente o producto da receita publica, que em cada mez a Junta 
for apurando, para encontrar com o empréstimo, e o ir desde ja amortizando. O Conse- 
lho por tanto dezeja que VV. SS., tomando novamente em consideração este objecto, o 
habilite com o seu parecer a optar pelo partido que mais conveniente e vantajoso se 
julgar. — Deos Guarde a VV. SS. Macao 8 de Setembro de i84(j. — Ulmos. Srs. José Vi- 
cente Jorge — João Baptista Gomes — Camillo Lelis de Souza. 

António José Miranda — Secretario do Governo. 



A Commissão respondendo ao Officio de V Sa. datada de 8 do corrente, pedindo de 
ordem do Conselho do Governo a explicação sobre o parecer emetido pela mesma Com- 
missão, em data de 5 do corrente, com referencia ao empréstimo : cumpre-lhe dizer 
quanto ao i." e 2." ponto do citado Officio, que esse Empréstimo foi votado para accu- 



286 



dir as despezas extraordinárias, que a actual crize havia apresentado, pelo motivo de 
não ter a Fazenda Publica meios de as fazer, sendo próprias de seo cargo, deixando 
para se fazerem as despezas ordinárias com os rendimentos públicos actuaes, as quaes 
de futuro serviriam para a garantia d'aquelle empréstimo, de cuja garantia lembrou a 
Gommissão no seo parecer, por isso mesmo porque o Conselho do (loverno a havia of- 
ferecido, esperando, que o mesmo Conselho do Governo recorrendo aos meios ao seo 
alcance, ou ao Governo de Sua Magestade removesse de futuro quaesquer embaraços, 
que por acaso occorressem em fazer effectiva essa garantia de futuros rendimentos, e é 
por isso mesmo que a Gommissão também não marcou o tempo, e o modo do paga- 
mento do empréstimo, assim como não tratou da maneira da arrecadação d'aquelles 
rendimentos, de que sem duvida trataria se desde já, ou desde certo tempo quizesse fa- 
zer eflectiva essa garantia. 

Quanto porem ao final paragrapho do citado Officio a Gommissão entende não de- 
ver confundir o rezultado do empréstimo com a receita dos rendimentos públicos para 
afrontar uma e outra despeza, pois que os rendimentos públicos tendo sido rezervados 
para as despezas ordinárias, as quaes com elles sempre se fizeram, o empréstimo fora 
votado para as despezas extraordinárias não devendo por isso destrahir para outro des- 
tino nos termos do parecer da Gommissão : E quando o Conselho do Governo pense 
que reunindo as receitas dos rendimentos públicos com o empréstimo para afrontar as 
despezas ordinárias, e extraordinárias se poderá ir amortizando o mesmo empréstimo, 
nesse caso se torna mais effectiva a garantia do refferido empréstimo, aplicando-o so- 
mente para as despezas extraordinárias. 

Deos Guarde a V. Sa. Macao, lo de Septembro de i84(). — Ulmo. Sr. António José de 
Miranda, Secretario do Governo. — José Vicente Jorge — João Baptista Gomes — Ca- 
millo L. de Sou^a. 



EDITAL 



Eu o Procurador ect : Faço saber que constando ao Governo, que muitos lanchaes 
se estão introdusindo na Cidade para cauzar perturbações, e convindo muito haver toda 
a vigilância e pesquiza para o socego da terra ; Ordens, por tanto, estão dadas. 

\.° Que no rio nenhuma embarcação entre depois d'escurecer, as quaes todas deve- 
rão ficar surtas de fronte da Barra. 

2.*' Que depois do tiro das 8 horas nenhuma embarcação se mecha no rio. 

3.° Que desde o amanhecer até o anoitecer poderá entrar as embarcações, sujeitan- 
do-se ao registo do Porto. 

4.° Que ao anoitecer todas as embarcações, e lorchas de tancares ficarão arredadas 
das praias ; excepto os Potões de carga, e passagem que poderão ficar atracados ao 
cães do Huppú até as 7 horas da noite. 

6." Que pelas ruas não andará gente occiosa aos três, aos cinco, ou mais, em qual- 
quer hora do dia ou da noite. 

b." Que da Porta do Cerco não entrará de dia gente em tumulto, nem armada : e de 
noite nenhum grupo com lanterna, ou sem ella ; que immediatamente se fará fogo. 

7.° Que nenhum China andará de noite sem lanterna depois das q horas. 

8.® Que na occasião de incêndio nenhuma embarcação de fora virá atracar ao cães, 
que logo se lhes fará fogo. 

9.° Que nas casas publicas na Cidade não poderá haver reunião de Chinas, pelo que 
são responsáveis os inquilinos, ou proprietários. 

Para que chegue ao conhecimento de todos mandei fazer publico por este Edital, 
que será affixado nos logares do estillo. Macao, 12 de Septembro de 1849. — Manoel Pe- 
reira. 



Officio do mandarim Cso-Tang-Vang. — Faço saber ao Conselho do Governo que re- 
cebi um Oíficio do Mandarim da Casa Branca em que dizia, que recebeu do Gan-cha-su 
um outro officio mandando-lhe dizer em como o Mandarim de Shon-Tac prendera um 
aggressor, e descubrira a cabeça e mão do Nobre Governador, os quaes tinha conduzido 
a Cantão para serem julgados. Que O Soto Vice-Rei depois de julgar, e sentenciar man- 
dara a um Commissario conduzir a cabeça do assassino para Macau para ser exposta ao 
publico, e ao mesmo tempo entregar a cabeça e mào do Nobre Governador. 

Que os três Shen-Tong-Leang, Si-Lin-Pin, e Tang To-Shen convém que sejam pri- 
meiramente entregues para se mostrar assim a boa fé. 

A' vista disto officio ao Nobre Conselho para que mande entregar immediatamente 



Ta-ssi-vang-kuo 



Vol.I-Esl XXIV.- pas. 287 



n 











'U/Lc<yt 



íW^::;^- 



Y^.- 



MANOEL PEREIRA 



Photograv. de P. Marinlio, segundo uma photograp. de W. P. Floyd 
(Hong Kong 186 . .) 



287 

os três Shen-Tong-Leang, Si-Ling-Pin, Tang-To-Shen para eu poder transmittir ao co- 
nhecimento superior, e logo que venha o Commissario officiarei de novo. 6 da 8a Lua 
do Anno 29 de Taukuang, 20 de Septembro de 1849. — Traduzido por mim João Ro- 
drigues Gonsalves. 



Resposta ao Cso-tang. — Eu o Procurador etc. faço saber ao Sr. Mandarim que tendo 
eu apresentado ao Conselho do Governo o seu Otficio d'hoje, o mesmo Conselho manda 
dizer ao Sr Mandarim, que já sobre isto recebeu Officio do Vice Rei de Cantão man- 
dando dizer que por um Commissario vinham a ser a cabeça e a mão entregues ; cum- 
pre portanto, que quanto antes se faça a entrega sem mais clausula nem condição al- 
guma, para se receber depois de reconhecida ser a própria ; e que do contrario não res- 
ponderá pelas consequências. Outro sim manda também dizer que jamais consentirá 
-que a cabeça desse miserável, que foi executado, seja exposta em Macao. Finalmente 
manda o mesmo Concelho advertir ao Sr. Mandarim, que a sua authoridade não é para 
corresponder com o Conselho ; que o Sr. Mandarim não ignora a marcha que neste cazo 
deve seguir, e que nenhuma correspondência mais receberá directamente dos Manda- 
rins do Districto. Macao, 20 de Septembro de 1849. 

Manoel Pereira. 



Circular n.° 6g 

Ulmo. Sr. — Para poder o Governo occorrer de prompto a todos os meios necessá- 
rios de deffesa e segurança do Estabelecimento na presente delicada crize, lhe é abso- 
lutamente indispensável ter recurso a um empréstimo, cujo producto o habilite para 
aqueile effeito. Para conseguir este empréstimo resolveo o Exmo. Conselho do Governo, 
depois de ouvir o parecer de uma Commissão, que nomeou ad hoc, appeliar para o pa- 
triotismo dos Moradores de Macao, entre os quaes o Conselho confia encontrar todo o 
apoio, e dedicação que delles é de esperar. 

A quantia precisa foi portanto distribuida entre aquelles dos mesmos Moradores, 
que pelas suas circumstancias se julgaram os mais habilitados a poderem contribuir, 
cabendo a V. Sa. a quantia de ip 2,5oo a qual o mesmo Conselho espera, que V. Sa. se 
não negará a prestar em tempo opportuno, entregando-a em quatro prestações á pessoa 
devidamente authorisada para recebe-la, mediante os saques que o Governo ha de fazer 
á medida de que fôr precisando ; ficando previnido que a primeira prestação terá de ser 
daga em i5 do corrento. 

Este empréstimo fica garantido pelos rendimentos Públicos do Estabelecimento, e o 
seu producto destinado ao pagamento das despesas acima lembradas, sendo da intenção 
do Governo dar conhecimento ao publico do uso, que fizer dos meios assim obtidos, 
para^ que se veja a sua útil applicação. 

É quanto me incumbe communicar a V. Sa. o Exmo. Conselho do Governo, espe- 
rando o mesmo Conselho da dedicação e patriotismo de V. Sa., que não negará ao Es- 
tabelecimento um serviço de que depende a sua segurança e conservação, ainda mesmo 
a custa de algum pequeno sacrifício. — Deos Guarde a V. Sa. Macao i3 de Setembro 
de 1849. — Ulmo. Sr. Francisco José de Paiva. 

António José de Miranda — Secretario do Governo. 

Idêntico mutatis mutandis para os Ulmos. Srs. António Carlos Brandão, Bernardo 
Estevão Carneiro, Cláudio Ignacio da Silva, Camillo Lelis de Souza, Cypriano António 
Pacheco, Ulmo. e Rmo. Cabido, Emigdio Jozé do Rozario, Guilherme Bramston, Gon- 
salo da Silveira, João Baptista Gomes, Jozé Vicente Jorge, João Joaquim, Maximiano 
dos Remédios, Jozé Maria de Fonseca, Jozé Bernardo Goularte, Jozé Manoel de Jesus, 
João Maria da Silva, Joaquim Peres da Silva, Jozé Gabriel Fernandes, Lourenço Mar- 
ques, Reverendo Padre Joaquim José Leite Administrador das Missões de Pekim e 
Nankim, Manoel Pereira, Manoel José Barbosa, Mariana da Costa, Manoel António de 
Souza, Maria Izabel da Silva, Maria de Espirito Santo Reis, Abbadeça de Santa Clara, 
Vicente Cândido da Rocha, Vicente Paulo Pittir Salatwich. 



Officio de Siu Vice Rei de Cantão e Quansy ect. — Respondendo á requizição do 
Nobre Conselho, passo a communicar-lhe, que o Mandarim de Shon-Tac em 26 da 
y." Lua prendeo um aggressor por nome Sen Chi-Leong, que commetteo o assassínio 



288 



do Governador Amaral, e descubrio a cabeça e mão, que esteve escondida em Sam- 
Itm (i) uma aldeã de Shon-Tac, e os conduzio para Cantão. 

Eu inquiri pessoalmente ao dito aggressor e elle declarou ser o próprio assassino. 
Em 29 foi o dito Sen-Chi-Leong amarrado para o patíbulo onde foi justiçado, e um 
Commissario leva a cabeça para ser exposta ao publico no lugar onde se commetteo 
o crime para escarmento dos outros. Remetto também, para ser entregue ao Nobre 
Conselho, a cabeça e mão do (governador Amaral, e o Nobre Conselho mande imme- 
diatamente devolver para o seu Posto os três Soldados Chinas que ainda estão detidos, 
hicluza remetto a copia da confissão do assassino Sen-ChiLeong — 3o da 7.^ Lua da 
anno 29 de Tau-Kuang (lõ de Septembro de 1840). — Traduzido por mim abaixo assi- 
gnado João Rodrigues Gonsalves. 



Resposta ao Siu Vice-Rei de Cantão. — O Conselho do Governo da Província de 
Macau, Timor, e Solòr recebeo em 18 do corrente o Otficio que V. Exa. lhe escreveo 
em data de 16, participando-lhe que tinha sido preso, pelo Mandarim de Shon-Tac, um 
assassino do Exmo. Governador João Maria Ferreira do Amaral, e descobertas em Sam- 
Tin, aldeã do mesmo lugar, a cabeça e a mão do lUustre Finado, que V. Exa. remettia 
nessa mesma occasião por um Commissario, encarregado de as entregar a este Conse- 
lho ; e bem assim que, tendo V. Exa. inquirido pessoalmente a esse criminoso, cuja 
confissão veio remettida, por copia não authentica, com o dito i. fficio, V. Exa. o man- 
dara justiçar, e ordenara que a sua cabeça fosse entregue ao mesmo Commissario para 
ser trazida a Macao, e exposta no mesmo lugar em que foi commettido o crime, para 
escarmento dos outros. 

Este Conselho havia reservado responder ao sobredito Officio de V. Exa, para de- 
pois que tivesse recebido a cabeça e a mão do Illustre Governador, mas não se tendo 
até esta data verificado a sua entrega, o que é summamente estranhavel depois de V. Exa. 
haver dito positivamente que havia feito a remessa do dia 16, o Conselho julga não de- 
ver deíferir por mais tempo esta resposta, muito principalmente por que lhe incumbe 
nesta mesma occasião repellir o modo insólito por que V. Exa. achou conveniente tra- 
tar este negocio, e protestar contra o novo insulto, que no referido Officio foi dirigido 
ao Governo Portuguez, como melhor se verá no desenvolvimento desta resposta. 

Em primeiro lugar cumpre a este Conselho insistir de modo o mais positivo na 
prompta entrega da cabeça e mão do Finado Governador; cuja retenção não pode ja 
mais justificar-se depois da declaração ofificial por V. Exa. feita no seu supradito Offi- 
cio, á vista da qual é de certo muito para estranhar, por extraordinária e inconsequen- 
te, a demora que tem havido. 

Quanto ao procedimento havido para com esse infeliz denominado Sen-Chi-Leong, 
que se diz, declarara ser o próprio assassino, ninguém o deve lamentar mais do que 
V. Exa. mesmo ; por quanto, não havendo elle sido legal, antes em opposição a todas 
as leis e pratica observadas em todos os paizes civilisados, sem exceptuar o mesmo 
Império da China, onde o processo em casos taes seguem mui differentes tramites, e 
que n'este foram evidentemente atropellados, o desvio que no presente caso houve 
tende muito a aggravar a posição das Authoridades Chinezas em relação a elle. 

Por qualquer lado que se olhe o procedimento havido para com aquelle desgraçado, 
se ha de forçosamente notar uma precipitação, que revela um demasiado empenho, da 
parte de quem tão summariamente o condemnou, em o fazer desapparecer da scena, 
onde elle tinha de representar um papel importante. 

É publico e notório, que o attentado do dia 22 d'Agosto foi commettido por sette 
chinas: e, ainda admittida a hypothese de haver um capaz de accommetter a dois ho- 
mens montados, já mais era possivel a um só, naquella occasião ao menos, e no curto 
espaço do tempo que durou aquelle acto atroz, o consuma-lo tão completamente, e com 
tanta barbaridade, como o podem attestar todos quantos viram o cadáver dilacerado do 
sempre chorado Governador. Sendo portanto evidente, que Sen-Chi-Leong, se elle 
realmente foi um dos assassinos, teve cúmplices ; e sendo o criminoso um reo confesso, 
cumpria que antes de o mandar justiçar fossem descobertos, e identificados não só os 
cúmplices, mas ainda os que fossem cônscios do crime, e se procedessem ás necessá- 
rias averiguações, e outras formalidades indispensáveis por serem exigidas por lei, não 
só para se conseguir o exacto conhecimento da verdade e satisfação da parte offendida, 
mas, no presente caso, até por interesse e dignidade das Authoridades Chinezas, para 
quem era este o meio único de desviarem de si a responsabilidade que sobre ellas 
ainda peza. E finalmente se não foi aleivosa a allusão que V. Exa. fez em um dos seus 
Officios anteriores, e que vem agora repetida na presente confissão do réo, á possibili- 



(1) Campo das Amoreiras. 



•289 

dade de haverem sido aliciados os assassínios por portuguezes, era esta a occasião de 
V. Ex.^ a justificar, e se ella se não aproveitou não é culpa deste Conselho, a quem só 
incumbe protestar, como protesta, contra todas estas violações de Direitos offendidos, 
e mais especialmente do de Sua Magestade a Rainha de Portugal a Quem é devida in- 
teira e cabal satisfação. 

Ao papel que veio incluso no Officio de V. Exa., e que V. Exa. pertende seja tido 
como confissão do réo, este Conselho ha de apenas alludir n'este lugar para declarar a 
V. Exa., que alem de elle não ter character algum de authenticidade, carece de todas as 
formas íegaes para poder ser valido, não obstante ter V. Exa. pessoalmente interrogado 
ao réo ; e de raais-entre este papel e o primeiro officio de V. Exa. nota-se tal identidade 
de idéas, de lingoagem, e mesmo de characteres, que induz a supposição de que ou am- 
bas aquellas producções procederam de uma mesma penna, ou que se quiz approveitar 
a occazião para reiterar na confissão os insultos, e as aftVontas do Officio ; e nesta sup- 
posição o Conselho os repelle, renovando o seu protesto anterior; e elle tem de exigir 
de V. Exa. a revogação da ordem que diz, dera para ser exposta a cabeça do justiçado 
em Macao, na certeza que o Governo Portuguez já mais ha de consentir, que em terri- 
tório seu se faça similhante exposição. 

Em conclusão dirá este Conselho a V. Exa., que o acto por V. Exa. praticado longe 
de attenuar, aggrava a sua responsabilidade no caso do assassínio do lllustre Governa- 
dor desta Província, e que em vez de ser elle uma reparação das leis, e dos Direitos of- 
fendidos, ou satisfação á Justiça ultrajada, elle parece ofFender todas as leis, e todos os 
direitos, e ultrajar a mesma Justiça, que já mais se dará por satisfeita com similhantes 
subterfúgios, tão indignos de si, como derrogatórios de quem os pratica. 

Em ultimo logar, este Conselho tem de declarar novamente a V. Exa., que compe- 
tindo a Sua Magestade a Rainha o desaggravo da offensa a Ella feita, este Conselho re- 
serva o direito livre e salvo da Mesma Senhora para haver a satisfação que lhe é devi- 
da, como melhor Lhe aprouver na sua alta sabedoria, limitando-se este Conselho, como 
lhe incumbe o seu rigoroso dever, a protestar a V. Exa.: i." contra a mjustificavel re- 
tenção da cabeça e mão do lllustre Governador, que cumpre sejam entregues quanto 
antes — 2." pela prisão dos authores, e cúmplices do seu assassínio, pela qual V. Exa. 
se constitue dobradamente responsável depois da apprehensão do mencionado Sen-Chi- 
Leong, a qual devia ter habilitado as autoridades competentes a descubri-los — e 3/' 
contra a projectada exposição da cabeça daquelle desgraçado em Macao, fazendo a 
V. Exa. responsável pelas consequências, que do contrario possam resultar. Macao 25 
de Septembro de 1S49. — Jeronymo líispo de Macau, Joaquim António de Moraes Car- 
neiro, Ludgero Joaquitn Ferreira Neves, Miguel Pereira Simões, Jo^é Bernardo Goií- 
larte, Manoel Pereira. 

(Da Parte não official (datada de 26 de setembro de 1849) do Boletim n." 81-82.) 

Durante as duas semanas, differentes alarmes tem havido de noite, tanto em Macao, 
como na Taipa, provenientes de receios já de piratas, já de Chinas de desconfiança, 
que se suppunham vindos de fora; mas felizmente foram os rebates falsos, e a tranqui- 
lidade publica não ficou perturbada. 

O Conselho do Governo continua a dar todas as providencias em prol do Estabele- 
cimento, não deixando de repetir ao mesmo tempo, ao Governo Chinez a exigência da 
cabeça, e mão, do fallecido Exmo. Governador Amaral. 

O mesmo Conselho provendo a segurança externa do Rio, que até agora não havia, 
e fazendo progredir as obras do Forte da Montanha para segurança do nosso limite no 
Isthmo; promoveo um empréstimo pecuniário para fazer face ás despezas extraordiná- 
rias que as precizões do paiz reclamavam em própria segurança, como tudo melhor se 
verá das peças officiaes. 

Consta-nos que muitos dos Cidadãos promptamente se prestaram a contribuir com 
as quotas, que lhes foram designadas. Certamente é digno de louvor este rasgo de pa- 
triotismo. 

Ao concluir este artigo, veio ao Procurador da Cidade uma Chapa do Mandaram 
Cso-Tang, noticiando ter chegado á Caza Branca o Commissario do Suntó de Cantão, 
trazendo a cabeça e mão, do finado Goverdador. O Conselho do Governo ordenou um 
programma fúnebre para o recebimento delias, que tal vez terá lugar amanhã mesmo. 



Sr. Redactor do Boletim de Macao. 

Para comprazer com um amigo de Hongkong, o qual deseja, que a circular, que tem 
corrido n'aquelle estabelecimento, seja inserida no nosso Boletim, remetto com esta 



29 ^ 

a V. — a copia, que delia recebi, para este fim. bem persuadido, que V. — não deixará 
■de dar este gosto, assim ao dito amigo, como a todos os nossos briosos patrícios, que 
hão subscrevido a mesma circular. Ella já sahiu traduzida em Gazetta, e lingua estran- 
geira, saia também na nossa, e no nosso Boletim. Sentimentos de nobre gratidão pa- 
triótica, dados á quem delles se fez credor, a ninguém podem offender: Oxalá disper- 
tem elles em todos os Cidadãos o mesmo espirito, e valor ! Macao 6 de Septembro de 
1849. — Seu muito Venerador. — O Jiiij de lá Va^. 



CIRCULAR 

Julgando alguns dos Macaenses, residentes nesta colónia de Hongkong, que é dever 
de justissima gratidão, dar um testemunho publico ao Sr. 2.° Tenente, Vicente Nicolao 
de Mesquita, seo benemérito patrício, pelo singular valor, denodo, é intelligencia que 
mostrou na acção memorável do dia iS de Agosto próximo passado; e muito em par- 
ticular pela valente captura do Forte de Passalhão, felizmente effectuada com só 32 bra- 
vos do seo commando, debaixo do vivo fogo da artilheria e mosqueteria China ; feito 
este, não somente glorioso para as Armas Fortuguezas, mas que salvou a nossa Cidade 
e famílias, a alarma, terror, e quiçá, de mortes, e incêndios ; hão-se lembrado de oífere- 
cer ao dito Sr. Tenente uma Espada por subscripção, como monumento do seu apreço 
e vivo reconhecimento. 1£ persuadidos que idênticos sentimentos são de todos os seus 
conterrâneos, que vivem neste Estabelecimento, os quaes com justificada razão levariam 
a mal, se privados fossem de ter parte nesta publica demonstração; resolveram que a 
todos os Macaenses referidos, sem excepção alguma, fosse esta circular aprezeniada. — 
Hongkong, 3 de Septembro de 1849. 



Trogi-anuna do cerevionial que se lia de observar 

no acto do reconhecimento, verificação, e recebimento da Cabeça e Mão 

do finado Governador o Exmo. (lonselheiro João Maria Ferreira do Amaral 

1° As Justiças, e a Junta de Saúde, logo que receberem avizo, procederão para a 
Porta do Limite a fazer o auto d'exame da identidade da cabeça e mão do defuncto : 
devendo ir acompanhadas de uma força de quarenta homens do Batalhão d"Artilheria, 
e de um Official Subalterno com musica, mandados por um Capitão ; cuja força o Ma- 
jor Commandante do dito Batalhão terá prompta no quartel para marchar á primeira 
voz; devendo ella ficar postada em frente do muro da horta do Pagode Novo fronteiro 
á dita Porta. 

2." Ao referido acto d'exame assistirá também o Interprete, devendo elle ser feito 
debaixo do arco da Porta, que é ponto limitrophe, onde de antemão se farão os arranjos 
necessários. 

3.° Na Porta do Limite, no terreno do lado de Macao, estará preparada com a decên- 
cia e aceio possível uma barraca com uma meza e cadeiras necessárias, onde, findo o 
acto d'exame, se depositarão a cabeça e a mão até a sua conducção para a Cidade. 

4.° Concluído o exame e verificada a identidade, de que se lavrará o auto respe- 
ctivo, da barraca na Porta do Cerco se fará sígnal içando a Bandeira Nacional a meia 
hastea, no mastro que para este fim estará preparado; e a Guarda Militar logo passará 
as armas em funeral. 

5.° O posto da Montanha repetirá logo este signal, que o será também para a Forta- 
leza do Monte içar immediatamente a sua Bandeira a meia hastea, no que a immitatão 
as de mais Fortalezas; começando ao mesmo tempo a do Monte a fazer tiros de ampo- 
Iheta de cinco em cinco minutos, e signaes fúnebres nas torres das Igrejas, continuando 
uma e outra cousa até depois de recolhido o préstito fúnebre ao Palácio do Governo. 

6.° Immediatamente depois de feito o primeiro tiro do Monte marchará uma guarda 
de quarenta homens do Batalhão Provisório, e um Official Subalterno, com Banddira 
mandados por um Capitão, para o Pagode Novo, onde se postará no mesmo terreno que 
a força de linha, e á esquerda delia. 

7.° Ao mesmo signal do tiro do Monte, sahirão também para a Porta do Limite o 
Conselho do Governo, as Authoridades, e o Leal Senado da Camará ; e logo que ali 
estiverem todos, se procederá ao acto do recebimento, de que se fará também o Termo 
competente; concluído o qual serão a cabeça e a mão mettidas n'um cofre, para este 
fim preparado, para serem condusidas para a Cidade, procedendo o Préstito da seguinte 
maneira para o Palácio do Governo, guardando-se o mais profundo silencio. 



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8.° Irá adiante a Guarda do Batalhão de Artilheria, tocando a musica marcha fú- 
nebre. 

Em seguida, o cofre levado por pessoas para isso convidadas. 

Immediato ao cofre irá o Conselho do Governo, e a par delle os Ministros Estran- 
geiros, que serão convidados; e depois o Leal Senado da Gamara. 

Em seguida os Officiaes militares, nacionaes e estrangeiros, e os empregados do Go- 
verno ; e atraz virão os particulares que accom.panharem este acto, fechando o Préstito 
a Guarda do Batalhão Provisório. 

g." Finalmente, chegando o Préstito ao Palácio, ali se recolherá logo o cofre na Ca- 
pella, onde se colocará junto ao corpo, e o Reverendo Cura de Sé ali rezará um Res- 
ponso, com o que se dará por concluído este acto. Macao, Secretaria do Governo, 26 de 
Septembro de 1849. — De ordem do Exmo. Conselho do Governo. 

António José de Miranda — Secretario do Governo. 



Mas a entrega dos mutilados restos não se realisou n'esse dia. Ainda havia de de- 
correr bastante tempo primeiro que a cabeça e a mão do nobre martyr pudessem ser 
juntos ao retalhado corpo que jazia no féretro depositado na capella do palácio do go- 
verno. 

O vice-rei de Cantão necessitava que soltássemos os cúmplices do attentado. E era 
para esse negocio que retinha em seu poder, bem conservadas, as lúgubres relíquias ! 

{Continua.) 



Acompanham este artigo duas gravuras, representando uma d'e]las o illustre ma- 
caense Manoel Pereira que, em vida e depois da morte de Amaral, tanto se evidenciou 
pelo seu nunca desmentido patriotismo, quer como particular, quer no desempenho do 
importante cargo de Procurador da Cidade. A correspondência (que tem sido transcri- 
pta n'estas paginas), sustentada com o mandarim Cso-tang, feita segundo as indicações 
do benemérito conselho do governo, de que fazia parte, é uma prova bem manifesta do 
quanto esse illustre funccionario soube cumprir dignamente o seu dever, fallando no- 
bremente e de cabeça levantada perante a insolência chineza. Manoel Pereira, que era 
pae do nosso prezado amigo e patrício sr. conselheiro Alfredo Pereira, digno director 
geral dos correios e telegraphos, veiu morrer a Lisboa em avançada edade, depois de 
ter consagrado toda a sua vida em serviço da pátria e em praticar o bem. Em occasião 
opportuna farei mais longa e minuciosa referencia á biographía d'este illustre cidadão. 
O retrato, do photographo de Hong-Kong, Floyd, foi tirado ha pouco mais de trinta 
annos. 

A outra gravura representa a vista da Praia Grande de Macau em 1840, isto é, tirada 
6 annos antes da chegada de Amaral a Macau. E' uma reproducção reduzida, mas exa- 
ctíssima, d'uma lithographia sem assígnatura ou indicação do auctor, que o livreiro 
francez Dufossé (a quem a encommendei) diz, no seu catalogo, ser de St. Aulaire e 
Freeman, com a seguinte rubrica subordinada ao n." 18:968 (pag. 886) : «.Macao. Vue 
générale de la Viíle prise de Vautre côté du port par St. Aulaire e Freeman 1840, in-fol. 
oblong.n Essa lythographía em três tons (amarello, negro e branco) tem no original as 
dimensões 363 X 260 mil. 

Os números que coUoqueí superiormente representam : 1 Fortaleza do T3om Parto; 
2 Egreja de S, Lourenço (?) ; 3 Egreja de Santo Agostinho (?) ; 4 Fortaleza do Monte; 
5 Forte de S. Jeronymo ; 6 Fortaleza e ermida da Guia ; 7 Fortim de S. Pedro 8 barco 
mandarim ; 9 Fortaleza de S. Francisco. 



2Q2 



Os dois barcos, ;i direita do leitor, quasi no primeiro plano, são : o maior, um tancá- 
juâe (nome que se dá aos tancás ou lançares de maiores dimensões), e o que traz ban- 
deira e remadores, um sapateão^ muito empregado nas regatas chinezas. 

A estampa está muito exacta, com excepção do terno tète-á-tete do mandarim e 
mandarina no sopé dos rochedos do Bom Parto. . . 

Não haveria nem haverá mandarim que se abaixasse a um colloquio amoroso em 
pleno dia e nas bochechas dos bárbaros ! 





Chine^^ices • . • 



Notas para os "bárbaros" occidentaes 




Jantares e comezainas 

ABiTANDO no Extremo-Ofiente, não admira que os chins adoptem, em cer- 
tos US03 e costumes, não o meio termo tão preconissdo pelos prudentes 
occidentaes, mas sigam os dois extremos na sua conducta e no seu modo 
ae vida. E ainda menos é para admirar que tal systema adoptem, quando 
vemos esses prudentes conselheiros do outro extremo do mundo segui- 
rem uma norma exactamente contraria á que aconselham. 

Isto vem a propósito para mostrar que é bem falsa a opinião, corrente na Europa, de 
que os chins são o povo mais sóbrio do mundo e de que se alimentam completamente 
com uma chicara de arroz, um punhado de hortaliça e uns pedacitos de peixe secco ou 
salgado, bebendo por cima uma chávena 

de cançado chá que ferve 
com essa a sétima vez, 

como aquelles bons ratões de Tolentino. 

Outros imaginam que não ha rato nem cão que os chins não appeteçam, e apoiam-se 
na auctoridade de Fernão Mendes Pinto que affirmou terem-lhe contado os chins que 
nos açougues de Pekim se vendiam dodas as carnes quantas se criam na terra, por- 
que toda esta gente come vitella, carneiro, bode, cavallo, bufara, bada, tigre, leão (!), 
cão, mulato (1), burro, zebra, anta, lontra, texugo e, finalmente, todo o animal a que se 
pode pôr nome (i).» 



(i) A carne de (jato é comida pelos ferreiros e ourives, porque, segundo elies, é fresca, e serve paracombat e 
o calor a que estão sujeitos esses operários. 



294 

Ora, se Fernão Mendes Pinto não tivesse acreditado em tudo quanto lhe disseram, 
se também não tivesse comido a patranha de que se vendiam quartos de leão em Pe- 
lam, nãò teriam passado os seus admiradores pelo desgosto de verem alcunhadas de 
mentirosas as sua?, aliás tão verídicas quão curiosas. Peregrinações. 

Mas, assim como não é verdade que os chins só comem arroz e pedacitos de peixe, 
também é certo que dispensam perfeitamente no seu passadio a fritada de serpentes, e 
não se queixam por não verem á sua meza a lingua de tigre com cebolinhas ou a sopa 
de rabo de leão. Mas, é também verdadeiro que, como extremo-orientaes, adoptam os 
dois extremos em questões de comidas. A barriga chineza é excessivamente elástica, 
porque tanto se satisfaz com um simples jantar de arroz, peixe e hortaliça, como tem 
capacidade para se encher com os quarenta ou sessenta pratos d'um banquete. 



A base da alimentação é o arroz (i), a que chamam mi, quando cru, e fan depois de 
cozido e preparado para se comer. O qual preparo consiste simplesmente em ser cozido 
n'um vaso com egual porção, em volume, de agua, sem ser mexido durante o tempo de 
cocção, que deve ser feita sobre um fogo activo. Em pouco tempo o arroz ferve com 
a agua, que se enxuga pouco a pouco ; e quando já não deitar espuma é tirado o vaso 
do lume e abafado com uma tampa. E em seguida o arroz deitado para um cesto, d'onde 
é tirado para as chávenas sem azas ou tigelas, que os chins levam á bocca, como se vê 
nas gravuras (2). E devoram esse arroz com o auxilio de pausinhos ou pequenas varas 
(Jai-chis), que tanto podem ser de madeira pintada, como de ébano, marfim ou qual- 
quer substancia mais preciosa. E é com essas varinhas, seguras á laia de tenaz entre 
os dedos, que apprehendem toda a sorte de conductos, quer de peixe, quer de carne, 
que successivamente lhes são servidos, sem para isso terem necessidade de mudarem 
de talher e de tigelas, que são também successivamente cheias de arroz á maneira que 
as vão despejando nas boccas insaciáveis. Ora, com esse arroz, que serve de pão, são 
servidos os conductos, cujo numero se pode elevar até quarenta ou sessenta, entre- 
meiados com diversas sopas mais ou menos substanciaes, que bastariam para fartar 
qualquer dos dyspepticos alfacinhas. 

Mas, não se julgue ser esse o system.a habitual das refeições chinezas. Mesmo os 
ricos se contentam diariamente com um pequeno numero de pratos, em que predomina 
o regimen vegetal e os peixes e mariscos, sem que lhes falte a carne, que as classes 
pobres não podem comer. E os miseráveis, quando conseguem encher a barriga de ar- 
roz, acompanhado de peixe podre e de hortaliça, já se julgam muito felizes. 



Os ratos são comidos geralmente pelas prostitutas e mulheres embarcadiças (tancás), porque dizem que a 
carne d'esse animal é anti syphilitica. 

O cão preto é também muito apreciado por certos gastronomos. 

Só os mendigos é que comem indistinctamente qualquer qualidade de carne, até em principio de putrefacçáo 

Vide o que diz Castro Sampaio no seu curioso livro Os chins de Macau, pag. 3i a 33. 

(11 Com excepção das províncias septentrionaes onde, por ser mais raro e caro o arroz, é usado o milho co- 
sido ou uma espécie de pão ou bolos de farinha de trigo ou de cevada. Comtudo, nos banquetes ou nas mezas ri. 
cas, é usado o arroz como no sul. 

(2) Outras vezes o arroz é cosido a banho-maria no próprio cesto (como se vi nas gravuras), que se introduz 
n'um vaso com agua, e que vem depois para a meza. 

As duas gravuras representam um jantar de artistas e aprendizes e outro de família de poucos haveres, em que 
se nota o pae, a mãe, o morgado e as duas filhas ou a filha e a nora. Tem de bom esses jantares das classes po- 
bres, porque as mulheres sentam-se á meza, emquanto entre os ricos as mulheres comem á parte, porque são con- 
sideradas entes inferiores e gosam por isso de muito menos consideração do que enire a gente do povo. 



Est. XXVI 




Um Jantar Chinez 

(operários e aprendizes) 

Phot. de P. Marinho, segundo uma phot. do dr. Albano de Magalhães (?). 



Est. XXVII 




Um Jantar Chinez 

(famiiia modesta, em dias ordinários) 

Phot. de P. Marinho, segundo uma phot. col. de Gillot. 



^97 

Mas o chinez que se preza, quando convida alguém, ou quando vae a uma casa de 
pasto, nunca deixa de mostrar a sua elevada posição ou hierarchia, comendo ou ser- 
vindo aos seus convivas o maior numero áe pratos que a imaginação oriental é capaz de 
inventar, mettendo n'um chinelo os mais abalisados vateis da cosinha franceza ou os 
.cosinheiros romanos de celebrada memoria. 

Conta o bom do Padre Huc, no seu interessante livro sobre o Império chinez, que 
■existem na China hospedarias ou casas de pasto em que essa vaidade é habilmente ex- 
plorada pelos respectivos donos, cozinheiros e moços de serviço, que adoptam o sys- 
tema de servirem os freguezes trazendo ostentosamente os pratos, cantando em altas 
vozes as diversas denominações, para que os mais freguezes ouçam que estão servindo 
um grande fidalgo de excessivo bom gosto que sabe pedir pratos tão caros e tão finos. 
E ojidalffo, enchendo-se e inchando-se de vaidade e de comida, vae deixando avolumar 
a pansa juntamente com a conta que terá de pagar á sabida, em que é entoada nova 
cantiga exaltatoria da voracidade e da riqueza do freguez. A esse respeito diz Huc: 

«Quando terminou a refeição, o primeiro creado do hotel ou casa de pasto, colloca- 
se á porta (se o freguez jantou em gabinete) e entoa uma canção que não passa d'uma 
nomenclatura dos diversos pratos com um estribilho compo*^to do total das despezas. 
E' então que os convivas sabem, n'este momento incontestavelmente solemne e critico. 
Vão-se com um ar contricto e humilhado os que jantaram economicamente e procuram 
occultar-se aos olhos da multidão (apinhada na sala geral da casa de pasto). Pelo con- 
trario, os que comeram sumptuosamente cousas caríssimas, sabem lentamente, com o 
.cachimbo na bocca, de cabeça levantada e com um olhar altivo e desdenhoso.» 

Mas, como muito bem diz Huc, se o costume se implantasse na Europa, de se berrar 
íios quatro ventos as qualidades e os preços dos alimentos consumidos, haveria muito 
freguez occidental que apanharia uma indigestão, levado pelo amor próprio e pela vai- 
dade como os comilões do Extremo Oriente. 

Mas os chins é que não apanham essas indigestões e n'isso está a sua verdadeira 
força, digam o que disserem os bárbaros do Occidente. 

Mas não é sõ a vaidade que pode levar os chins a porem á prova de explosão os ven- 
tres ultra-elasticos. Também a necessidade os poderá determinar a esse excesso de 
jcarga alimentar. 

Os chins que acompanhavam Huc na sua viagem pelo norte da China, não querendo 
carregar com as provisões que teriam de transportar para se manterem durante o per- 
curso d'uma povoação a outra povoação mais próxima, adoptaram o processo origina- 
líssimo de comerem por junto ou adiantadamcnte, isto é : quando entravam em qualquer 
povoação onde podiam tomar as suas refeições, calculavam o tempo que levariam para 
ir ter á paragem seguinte onde pudessem encontrar comida, e, se esse tempo era de 
vinte e quatro horas, almoçavam, jantavam e ceiavam por atacado, logo pela manhã, e 
tão satisfeitos se mostravam nas horas de jejum seguintes, como se tivessem tomado 
nas horas convenientes as respectivas refeições I 

E esses mesmos estômagos que podem comportar, d'uma vez sõ, três refeições to- 
madas por junto, sustentam-se muitas vezes com um pouco d'arroz, d'hortaliça e de 
peixe secco ! 

E' ou não verdade, caríssimos leitores, que os extremo-orientaes adoptam os dois 
extremos em questão de alimentação como em muitas cousas mais ? 



Desejo dar uma idéa d'esses jantares pantagruelicos que duram horas; mas primei- 
ramente é conveniente que o leitor saiba certas particularidades, que se poderiam re- 



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sumir na seguinte regra: n'iim jantar chine^ adopta-se exactamente o contrario do que 
se vê nos jantares europeus. Se não vejamos: 

— Na Europa serve-se a sopa ao principio do jantar; na China a sobremeza.. 

— Na Europa usa-se de toalha; na China a meza sem nada. 

— Na Europa limpa-se a bocca a um guardanapo que se mette na respectiva argola; 
na China a um papel que se deita fora. 

— Na Europa ha talheres e pratos que se mudam ; na China pausinhos e tigelas que 
se empregam até ao fim do jantar, quer as comidas sejam de carne, quer de peixe. 

— Na Europa gela-se o vinho, que se serve em garrafas e em copos ; na China aque- 
ce-se o vinho que vem para a meza em bules e se bebe em chávenas. 

— Na Europa bebe-se o chá no fim do jantar e com assucar; na China ao principio 
e sem doce. 

— Na Europa é grosseria levar o prato á bocca ; na China sorve-se o arroz da tigela 
que se mette entre os dentes. 

— Na Europa é má educação tirar com a colher os molhos dos guizados ; na China 
ha colheres apropriadas (de louça) para os convivas lamberem esses molhos. 

— Na Europa as viandas são servidas por inteiro (e quando cortadas estão os peda- 
ços reunidos no mesmo prato) aos convivas; na China cada conviva tem o seu pratinho 
com as viandas cortadas em pedacinhos. 

— Na Europa seria, alem de nojento, grosseiro, que um conviva pretendesse com o 
seu garfo introduzir na bocca do visinho qualquer iguaria ; na China é o supra-summo 
da delidadeza, do bom-tom, o apresentar ao visinho, na ponta dos pausinhos bem lam- 
bidos, um pedacito de qualquer petisco ! 

Emfim, seria um nunca acabar se eu quizesse contar-vos todas as particularidades 
de um jantar chinez em que o Europeu verá tudo ao contrario do que aprendeu como 
regra do bom-tom occidental. 



O primeiro dos menus (e perdoe-me o sr. Cândido de Figueiredo o estrangeirismo, 
aliás adoptado em todo o mundo... culinário e gastronómico) que vou apresentar-vos 
é o d'um jantar que foi engulido por Eugénio Buissonnet (i), na casa de pasto ou restau- 
rant das Quatro virtudes, em Tientsin, no norte da China: 



ACEPiPEs (Hors d'(vuvre) 

Pevides de melancia torradas. 

Ovos apodrecidos em aguardente. 

No^es rançosas cobertas de assucar 

(pralinées). 

Assucar candi. 

Uvas frescas. 

Romãs. 

Marmelada em quartos. 

Jujubas fumadas. 

Quartos de peras. 

Porco em óleo de rícinos. 



Pato secco (salgado) em pedaços. 
Feijões com camarão. 

I." SERVIÇO 

Sopa de a^as de pei.ve (tubarão^ 

e raives de bambu. 

Miolos de peixes em molho branco 

com gengibre. 

Carne picada em pasta molle. 

Pastellinhos doces com banha. 

Batatas caramellisadas. 

Cebolas de lirio em caldo assucarado. 



Ii) Vide: De Pekin a Shanghai, por E. Buissonnet, pag. 72 e 73 



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Gallinha colida com gengibre 
Oliithurias em molho preto. 

■1." SERVIÇO 

Sopa de bicho do mar e massa (aletria?) 

Gui:^ado de presunto em talhadinhas. 

Gallinha assada, em pedaços. 

Rins e fígados na frigideira. 

Sopa gorda com gengibre e pimentos. 

Picado de carne com alho e aipo. 

Pastellinhos folhados e assucarados. 

Cogumellos em vinagre. 

3.» SERVIÇO 

Sopa de presunto com couves e camarões. 



Sopa de ninho de andorinhas 

ou de salangana. 

Peixe guarnecido com cebolas e rebentos 

de bambu. 

Pato assado e cortado em pedacinhos. 

Arro'^ co^fido em agua. 

UQUIDOS 

Chás differ entes. 

Sam-chú quente e frio. 

Vinho quente de arroj. 

Vinho de sorgho, quente e frio. 

Aguardentes de sementes mais 

ou menos fortes. 



Apezar dos ovos podres (salgados, quereria dizer o auctor), das nozes ranço:[as, do 
porco em óleo de ricinos (seria o óleo de gergelim?) — verdadeiros exageros do gastro- 
nomo que, na sua qualidade de francez, não poderia deixar de carregar de algum 5a/ a co- 
mida — nem por isso o mesmo gastronomo se queixou de incommodos depois de ter 
engulido essas dezenas de pratos. Pelo que me vae parecendo que o clima do Extremo 
Oriente tem a propriedade de tornar também elásticas as barrigas europêas ! 



Mas ha barrigas portuguezas que também não deram parte de fraco e se mostraram 
heróicas na sua excessiva elasticidade perante a valentia gastronómica chineza. 

Passemos de Tientsin para o sul da China e encontraremos á meza d'um restaurant 
o nosso illustre cônsul em Cantão, sr. Callado Crespo (i), que, com diversos amigos, 
comeu o seguinte jantar, onde ha uma pequena concessãosinha ao gosto europeu, 
servindo se as quatro (!) sopas logo a seguir á sobremeza: 



Pevides de melancia. 

Canna de assucar. 

Fructas : — Lichias, conquinhos, mangas, 

laranjas, etc. 

Sopa de a^a de peixe. 

Sopa de ninho de pássaro. 

Sopa de miolos de gallinhas com feijão. 

Sopa de algas marinhas 

com membranas de pés de pato. 

Adens (patos) recheiados. 

Bicho de mar. 

Ovos pretos (ovos conservados em cal) 

de pata ou gallinha. 

Manducos (rãs) (2). 



Salada de camarão secco com conserva 

de pepino. 

Cogumellos guisados. 

Figados de gallinhas. 

Peixe fresco. 

Patas de tartaruga. 

Mayonnaise de cogumellos. 

Nervos de baleia. 

Canja de arro^. 

Arro^ secco com molho picante. 

Carne de cão (ensacada como chouriços). 

Algas marinhas em geleia. 

Kamecon (espécie de espinafres). 

Peixe salgado. 



(1) Vide Cousas da China, por J. H. Callado Crespo, pag. 232 e 233. 

(2) O sr. Crespo chama-lhes espécie de sapos (!). 



DOO 

Ovos salgados de adens (patas). 

Aletria com cogiimellos e presunto. 

(Caranguejos vermelhos. 

(Conservas picantes (entre outras 

a de rebentos da planta de mostarda). 

Qiieijo fresco. 



Maçãs e damascos em doce de calda. 

Doce de ovos. 

Pão de 16 (de farinha de arroz). 

Bolos folhados. 

Bolos seccos. 

Vinho quente de arro^ (Tsué). 



Commentando, diz o sr. Crespo (que não declara no seu interessante livro ter-lhe 
sabido mal o sapo nem a carne de cão ensacada) : 

«Serviram-nos durante o jantar o vinho de arroz (bebida quente) a que dão o nome 
de Tsué, e chá ; não fazem nunca uso do vinho de uvaL,, cerveja, café ou chocolate. 

«Terminado o banquete todos se levantaram para fumar uns op.io e outros tabaco, 
voltando pouco depois para a meza, onde foi servido novo jantar, quasi egual ao pri- 
meiro, e de que alguns convidados comeram como se só tivessem almoçado ! 

«Não podemos atlirmar que as differentes iguarias a que acima nos referimos fossem 
egualmente aquillo por que eram designadas. Mas outros convidados de quem nos não 
é licito duvidar, garantiram-nos que os nomes de todos os pratos traduziam a expres- 
são da verdade, e que por isso o jantar devia ter sido carissimo, o que é a forma 
porque os chinezes patenteiam a consideração que lhes merecem os seus convidados.» 



Poderia, pelas palavras finaes d'essa citação, ficar o leitor em duvidas se os taes no- 
mes seriam ou não a expressão da verdade ; mas não só para que essas duvidas se des- 
façam, como também para prestar homenagem a outra barriga portugueza,que também 
mostrou no Extremo Oriente quanto vale um ventre lusitano, em competência com es- 
tômagos chinezes, vou terminar com um tnenu authentico d'um jantar que, ha poucos 
annos, foi ofiferecido ao tão sympathico quão distincto secretario geral, que então era, do 
governo de Macau, o meu prezado e bom amigo sr. dr. Manuel Paes de Sande e Castro, 
que me presenteou com a interessante lista que se segue. A traducção foi feita rigoro- 
samente pelo interprete sinologo sr. Eduardo Marques. Que me conste, é a primeira 
vez que se publica, com um tal caracter de authenticidade, o menu d'um jantar chinez. 

O lauto banquete foi offerecido por um negociante chim e foram n'elle observados 
todos os requintes da etiqueta ctiineza : 



(A) Os QU.VTRO PRATOS FRIOS Sl-I-ANG-FAN. 



-^^^: 



Costeletas cm molho de siiiate. 



Pui-knat . 



2 — Ovos de pata salgados Pi-tan . 

3 — Camarão salmourado Chou-mi 

4 — Conservas azedas Pi-ha . . 



Uvas . 



lai-tsi 






(B) — Fructas passadas Si-keng-kuo .... yrr> "5^ »S. 



OOI 



1 1 — Carambolas Yowií^ t'on V-^ /O"'?-) 

^ ik Jí 

ÍKJÍ f^ 'f" 

i6 — Manduco juizado com presuttío.. . . Tin-cai-toi **' -^«^ J%^^ 

(F) — Os ONZE PRATOS GRANDES KaN-TAI-UN JX^ J^S^ j^^f» J 

19 — Gelatina de gallijiha com aza de ^^ »-^ ^gL 1 jq 

peixe Kai-iung-ú-chi . 3^ ^^ *^ A if* 

20 — Ninho de pássaro com presunto. ■ ■ ■ In-vo v^!^ jí§l 

2 1 — Bicho de mar Hoi-sam \ jíl» jè\^ 

22 — Bucho de peixe lã-tu ^ j^i» 

23 — /'ú!/í7 com recheio de cevadinha e h>^ * 
carne de porco e presunto Chun-hap j^**- ^^• 



6 — Trate Lin-tsi . . ■ 

7 — Amêndoas Hang-ien . . ■ 

8 — Pevides Hung-kua. . . 

(C)— FrUCTAS Sl-SANG-KUO 

9 — Laranjas Titn-cKaní; . 

10 — Peras SiVAi 



1 2 — Tanger Í7ias ..■.....• Tim-cdm 

(D) — Os SEIS PRATOS QUENTES 'LoC-NGUIT-SEC 

13 — Guisado de po/tibos sem ossos Pac-cap-pm ■ . 

1 4 — Codorniz picada com presunto Am-chon-song . 

15 — Pelle de pé de pato recheiado de iC»fr l^ã 

presunto e carne de gallinha ■ . . Chan-hap-cheon, "* 



17 — Céu de porco com presunto Vong-han-tm-tai. 

18 — Gelatina de fungus com carne de 

galli?iha Su-ngi 

(E) — Bolos, salgados e doces, de fa- 
rinha Aam-tim-lim-sam. 



24 — Ka^rado molle Ton-sam-soi . 



■7 

25 — Gallinha cozida. . . Yun-io7ig-kai. . . . J^^ ^^^^J^^^ 



302 



26 — Coguniellos Tong-ku . 

27 — Porco gordo assado Kau-ioc • 



28 — Bolos de farinha com carne de porco 

gordo Ho-ip-hin 



29 — Caldo de gallinha com ovos Tan-fú-long . ■ 

(G) — Os QUATRO PRATOS PARA ARROZ. . . SlN-FAN-CHOI 

30 — Pato salgado Lap-hap 



3 1 — Chouriços Fung-cheong .... \ 



32 — Ovos salgados Ham-tan .... 

33 — H ervas cozidas Chiang-choi . . 

(H) — Temperos Mei-tip V^ 

34 — Semente de mostarda Kai-lat 






-% 



Â^ih^ 



35 — Sutate branco Pac yao v^ l py 



36 — Manteiga de porco Chu-yao 

37 — Vinagre preto Chút-chú 

(I) — Adubos Ku-iut 

38 — Pimenta Au-chu-fan ... 

39 — Molho de pó de feijão Tini chiong .... 

40 — Vinho de ameixas Cheng -mui-cliao. 

41 — VinJio aguar dentado Fan chão 



^ Â 



Escusado será accrescentar que o nosso bom amigo comeu e bebeu de tudo! 



Merecem justos louvores esses heróicos lusitanos que se chamam Callado Crespo e 
Sande e Castro ; mas sobrepujou a todos um portuguez que, na acção que vou narrar, 
levou a palma aos que no passado, no presente e no futuro honraram ou possam hon- 
rar Portugal nas lides gastronómicas do Extremo Oriente. 

Refiro-me ao governador de Macau, José Gregório Pegado, o antecessor de Amaral. 



3o3 



Tendo chegado, pouco antes, a Macau, foi convidado pelo celebre vice-rei Ki-ying (i) 
{que então exercia as funcções de delegado e alto commissario imperial nos dois 
Kuangs) para um banquete em Cantão. Acceitou Pegado com alvoroço o convite, tanto 
mais que tinha de conseguir do vice-rei que deixasse estabelecer, sem protesto, uma casa 
forte ou fortaleza na ilha da Taipa, uma das mais próximas de Macau. Mas, antes de 
se dirigir a Cantão, tratou de se inteirar de todas as regras da etiqueta chineza, princi- 
palmente das referentes ao modo como se deve comportar á meza um homem de dis- 
tincção. Ensinaram-ihe, entre outras cousas, que comesse de tudo, e que nunca regeitasse 
o que o vice-rei lhe ofterecese com os próprios pausinhos ou fai-chis. 

José Gregório fixou tudo na memoria e marcílou para Cantão na resolução firme de 
seguir á risca tudo quanto lhe disseram, persuadido, como estava, de que muitas das ne- 
gociações que se mallograram entre as auctoridades chinezas e os diplomatas europeus 
o tinham sido, não só pela fraqueza demonstrada por estes, mas muito principalmente 
pela ignorância das regras da etiqueta chineza, e de que com malcreados os cerimonio- 
sos mandarins nada querem. 

Animado d'essas tão acertadas quão razoáveis intenções, Pegado chegou a Cantão, 
visitou e foi visitado pelo vice-rei, e, d'ahi a pouco, realisava-se o grande jantar. 

Pegado comeu heroicamente de tudo j tudo achou bom e excellente, apezar de não 
se ter ainda habituado á comida chineza; mas a idéa da Pátria amparava-o no nobre sa- 
crifício. 

Queria a ilha de Taipa e havia de tel-a ! 

Já estava no fim do jantar e esperava o momento em que, no meio do fumo dos ca- 
chimbos, de tabaco e de ópio, poderia encetar a questão com o vice-rei, quando este 
lhe perguntou, a propósito de não sei que iguaria, se em Portugal havia porcos e se 
eram grandes. 

Pegado, inflammado em patriotismo, por via do interprete descreveu ao vice-rei as 
excellentes qualidades dos nossos suinos, d'essas bellas raças que dão os presuntos de 
Lamego, os paios de Arrayolos e os chouriços alemtejanos ; fez ver que eram muito 
mais gordos e avantajados que os porcos chinezes, tão rachiticos pela falta de bolota ; 
gabou as enormes mantas de toucinho que, depois de salgado, tão bom paladar dá ás 
sopas portuguezas.. . emfim, ia continuando na apologia dos cevados lusitanos, quando 
o vice-rei o interrompeu : 

— Então V. ex." deve gostar muito de toucinho ^ 

Pegado, lembrando-se da recommendação sobre questões de etiqueta sinica, que lhe 
tinham feito os entendidos de Macau, respondeu, sem hesitar : 

— Gosto muiio. E' dos manjares mais aprec