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Full text of "Theatro comico portuguez, ou Collecção das operas portuguezas: que se representárão na Casa do ..."

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HVPL RESEARCH UBRAWES 



3 3433 07437436 8 



CH EAT RO CÓMICO 

íORTUGUEZ, 

o u 

i COLLECÇÃO 

I>\S OPERAS 

?ORTUGUE.ZAS, 

Que fe reprefentárão na Gafa do Theacro {Ai* 
blico do Bairro AIco de Lisboa, 
O F F E R E C I D Á S 

A' MUITO NOBRE SENHORA 

PECUNIA ARGENTINA 

Por *** 
Quarta ImprefsSo. 

TOMO SEGUNDO 

r Labyrintho de Creta. 
n^^^A^ J Guerras do Alecrim , c Mangerona»* 
Comem -J Variedades de Protheo. 

V Precipício de Faeconte. 

l/L I S B o A: 

Ua OfKc. de Simão Tmaddeo Ferreira. T788« 

Com LiCffiça da "Reaí Me^fl ãa Co mm t/são Geral foirc 
o Exame f $ dnfara dos Livros* 






y^ífdc-fi M^ mefmâ Offiçwat 






r 48fjf>48 

'^ ^ iifòí taxado éftè t;|wo*:im papel a rrezc 
tos c feãchca reis. ÍStcza^JF^c Abril de 179 

' /ií r: ^ V ^ :: j Com íTfí ruh(cA 



V- 



L A B YR IN.tru Q ; 

C R E T^^, 

ue Je reprelentou no Tpeatro ^oBaitrò Altor 

de Lisboa , no rac? áé Noveiiil>to' déiryií. -^ 

• ■;^ ■ ' ■■. ■■: ^^.^■\. :^.. 

--! *■■ .. ■- . ú - 

ARGÚMÉ^NtÒ: 

1 ^'^ -:•.»: w '. ..... 

^ Uccedendo matarem os A^imienfeí em 
itn tprneio a Anàrogêo , \ filho de ^Mi^- 
^s j Rei de Creta ,. ^Jkfuray vingar 
morte do filho y depois d& reduzir a> 
'thenas d /na obediência ^>íêinV vânce*- 
7r lhe impõ^ hum figoroja .fribtito y^ 
? que lhe pagaria todos ^ '4smHosfetâ 
lancebos , que ferião forê^ado^ f por^ 
%o haver eoccepçHò fia qudSdadè das 
^Jfoas y dç cujo feudo fe, alimentava o, 
Unotauro ^ que exifiia n& Labyrintho 
hr içado por Dédalo. Çâhí(f aquelle itn" 
• a farte fúbre Tczeo , Principe ' de 
^henas y que fefido para effe effeito 
idnzido a Creta y o intmdrao com 
A;u > in- ' 



I 



indujlrias libertar Fedra , e Aríadna ^ 
lhas 'do hkpHo Minos. Até 'k Jahida 
Creta logrou Ariadná^ as pritneiras Cj 
mações em:;TezeOj ainda que ao dep 
perferiJJe^.a^Fedra^ deixando aAriaa 
émhmnk^Jhrta líba ; porém como fó tf 
tamos neJlaObra dos fuccejfos de Teze^ < 
Creta , por ejjarazaofe manifejia a Tez 
mais amante de Ariadna , que de Fedt 
\:. 0^'màtpvo^ que Jè toma para ot 
treâhoda prefejite Obra, he o confie 
rar-fi ait^zeo jd devorado pelo Mif 
taum j e fendo reput{ido por mor ti 
manter-fe efte. engmo ,até o fim , triu 
fanio do furor, doMitiotauro , do enk 
do Labyrintbo y o das iras de Minos. 



-Mt-í 



INTERLOCUTORES. 

Titio 9 Príncipe de Âthenas , amante de Ar 

dna. 

J^it^Sf , Rei de Creta. 

JjiJoro 9 ' Prinfcipe de Epiro i amante de Ariad. 

Tehandro , Príncipe de Chypre « amante de Fed 

Dedah > Barbas, 

laicas , Embaixador de Athenat. 



. jmella f Criada Je Ariaina. 
ÍQa^aixuga j Vftkà , èriúda^^dç Pedra ^ , 
Esfuiiote 9 Gracíofo » criado de Tcsr^* 
Sêldaios^ 

A Sceiiá fe figura em Crttz. 



SCEI5JAS DA I. PARTE. 

L Bofque , t Marinha» - .' 

II. Temptam de Vénus , c Cupido. 

III. Comera. 

IV. Gabinete; 

ir. Sala Regia. 

SCENAS DA líí PARTE. 

L Comera» 

II. Labyriatíiê. 

III. ^tf/fl. 

IV. Gabinete eem efpelhom 

V. 5tf/tf <f< columnata. 

VI. Labyrintho. 

VII. Bofque-9 f Mariaké^ 



PARi 



P AJR T É I. 



^V 



S C E N A L. 

BofijUe , e Mmnhd , e hdverâ no lado do Thea^ 
tro huma gruta , e depois de fe ver no mar 
buma armada rfifsãtáOfidocom umpèlUde , Ja^ 
biráo por jumo da marinha , Tezeo , e Èsjêê* 
ziote , tropeçando ^ e cabindo em terra fim 
ver bum ao outro. 

T<?zea. "T X Ãtha-n^ €> dcô ! Cabe. 

Esjuz. \/ Valha-me a terra ! Cabe. 

Tezeo. T Haverá , como c)i , homem mais 

infeliz ? *- 

Bsfuz. Haverá infeli;i: ipais. hpinem do qué 

eu ? ... 

Tezeo. Pois parece que conjurados os Deofcs, 

os fados, e os elemifincos contra mim, neni 

nos Deoíes acho piedade , nem nos fados. 

fortuna , nem nos elementos abrigo. 
JEsfuz, Pois a pezar dos ventos , das ondas , e 

Tubarões me vejo são , c falvo nefta praia. 
Tezeo. Mas ai , infelices companheiros meus , 

fe naufragantes neíle golfo tiveftes urna cryfi. 

tallina , mais liquido monumento nas minhas ^ 

lagrimas crijo a voíTas memorias^ , para que' 

lèa a poíteridade nos Ccftotafios de meus luf- 



piros a voffa lembrança:^ e o meu agradeci- 
mento. .. '. 

Esfuz* Ora boni^ he contar da tormenta 9 que 
melhor he ftfízti pingando nefia ribeira (eito 
chabriz da praia , do que fer fonte da pipa 
em vafa barris* 
Tezeo. A efta defena praia mé conduzirão às 
minhas infelicidades , adonde até para o ali- 
vio me falta a communicação dos viventes. 
Mas que vejo i Tu não és Esfuzio te i / 

Esfuz. E vós. Senhor^ não fois Tezeo ! 

Tezeo. Tal eflou. que não fei quem fou ; mas 
dize-me , como indo a pique o noflo navio 
te pudefie falvar! 

Esjuz. Porque femprc fiz boas obras^ 

Tezeo. }á te julgava morto entre as ondas. 

£sffiz. Senhor , a minha fortuna cÚieve em. 
achar huma ancora a que me agarrei , e fo- 
bre ella vim boiando, até dar comigo nefta 
praia, onde tenho a fortuna de te ver, pois 
rambon entendi efiarias a etí^ horas cubana 
de limos. , e caramujos» 

Tezeo. Para qiie , foberanas Deidades , defen- 
dcíles a vida de hum infcli? ? Para que pro- 
pícias melivraftes deílFc Jalóbre marinho monf- 
iw das aguas , fê quando me redemis da mor- 
te , he ío para p«rder a Vida ! 

Esfíiz. £is-aqui o que eu não aturo : de| forte , 
Senhor , que quando te vias na tempciftade , 
luJo êrão votos , lagrimas ^ e promeUas., e 
agora ingipto contra d Ceo' , depois que te. 
và em ierra firme ^ acçufas a piedade dos 
- i f Deo- 



. • • • 

íl Labyrffftho 

Dcofcs , que te livrarão ? Ora , Senhor 
zeo y ponhamp-nos djc joelhos , e com a 
ca na arèa efdevamos ç0ní iiipgaz loi 
rcs a Bacho;j /qae hõs lívtob de bebcn 
agua falgada. 

Tezeo. Deixa-mc , Esfuziçce , precípítar.me 
era vez nèíTás ondas, para que com efte 
rojo emmende o erro dos' fadbsr- 

Eífíéz.'l(lo hc fallar;^-' ' 

Tezeo. Pois tu ignoras o' meu valor ? Não 
bes que foii Tezcò. 

EsftiZm Eu b?ra' fei que hc ô valcrofo Tez 
Príncipe de Aihenas , cujas façanhudas ol 
fizeráo , com que a fama deixaííe o clarí 
para ficar com a bo.ca aberra : item , fei , 
hô aqueile Tezço companheiro de Hercul 
que terh mono mais gente , do que eu | 
lhos , po»^ém fâlvA pâce j ainda me náo cc 
ta qíie algum dia fizefTes a heróica acção 
te lançares ào mar , e morrer afFogado. 

7*ezeo. Pois^ãra^que o vejas , c contes ao M 
do , que. Te^o^ pomo valente, c Eftoi 
antes que jghomínioramcnte perca a vida , |: 

' cura fe^li9r-fè tieíTe monumento de cryí 
Faz <me fi íança ao mar. 

£sfuz. Tenha mão , Senhor ; veja que aqu 
não he cryftal , são; agua^ vivas , que ma 
a gente : ora pcrfuádo-mé , que na tormc 
fizéfle algum :voto de morrer affogádo. 

Tezeo. Deixa-me j JKsíuziotc, tt^HeTlofo • 
vez comigo. ' ^ . t'^' ' 

ÈsJ/iz. He £òa X)bfa' pia querer matàr-fe afin 

' tóòl Tezei 



Te%eo. Paia ^aé qucró cu viver ? w. 

Esfuz. Pará viver ; e hecáo pouco í Pois eni 

quanto ò páo vai , e vem 3 folgão a& coftas. 
Tezco. Ai mífero de lÃim ! - • .1 

Z)cni. Dedal. Ai, infeliz!- ' 
Ttzeo. Nio ouvifte , Eiifuziote , huma funeíla 

voz i 
Esfuz. Eu bèm^não quizera ter ouvido j nevi 

ouvidos neflf hora : ai Senhor , que fera 

ifto> ' 

Dem. Ao bofqtie, á felva. 
Dent. jíridd. Adotidc te efconderás , cerdofo 

bruto ,• do acelerado furor das minhas fettas i 
7ezeo. Vènatorits vozes sAo slú que agora ouvi ! 
EsftÊZ. Aqui' valerá mais a caça grofla do que 

a fina. • h. 
Tezeo. Em que Paiz eftaremos ? 
Esjíiz. Poi» fempre cuidei qae eftavamos em 

alguma deferta praia , enfi que fomente reina 

o birbigSo com a ajuda das ameijoadas. 

Cantd'fe dentro o feguinte Coro. 

Chegai', moradores de Creta , chegai , 
Offerecei , <lôdicaí. 

A viâima pur^ d( hunia alma rendida . 
Ao Templo divino de Venús , e Amor, 

Tezeo. Efpera , não ouves ao longe fonoras vo» 
zes de feftivos hymnos ? 

£$/«z. Já que fupóes que eu fou furdo , que- 
ro rambeaoL imaginar que és cego : não vèa^ 
defcer pdC^liquelle monte huma formofa {(O^ 
pa de balhadeicas i 



i 



10 i^bpiitíhò 

Tezeo. Que vaçip^^q -de affeélos r.s^' mefi 
. tcmpe admiro nefta que julguej .ÍK^rbarav^ 

cofca níoncanha! QW i:e.parcce: ifto^ 
£5//!^z. Se o noíTo navio aportade em Cr^et 

para donde levava direita 0;rpiti.Q > diffei 

Senhor ,: qu^ efti^vg]9K>s .em oXa&y^nmho 

Creta. 
ITezeo. Ohi, nao me.i&Hes en^J^r^tti^^ iquer 
/^i pequena . fojrcuna O; não fornos nell 

mas aíHrmo-ce que não poíTo penetrar o n 

tivo de tâo difrcrencfs , e. d*W>:<Íe8 vqzc 
■ pois^ quando, da-cavernof^. boca dfiq^dle roei 

do ouvi o funefto cop^ quediizía.^;, ..* • 
Dentr. Dedal. Ai mifero de naím ! Al infeli 
Te:UOi £ ao niefmo lempo efcu€ar o vago 

trepito de venacorias vozes , proferindo c( 

(uzas. • . . . '!•:•:) 

DfWír. Ao monte, á felva, tó, ib^l. 
Tezeo. E ifto acompanhado de fon<xra melo. 

de acordei accembs larticulando alegres. 

Cama o Gorç^ 
Chegai » moradores ck Ccecá , cbegal 
Ao Templo divino de Venos , c Amor, 

JEí/tfz. Senhor , façamos aqui pbhtç^ doL^àdrrti 
çío , que as Ninfas já ' fe vem apròpinl]uí 

"' da.'- .-*,.'-. ^ 

Tezeo. Pois occultcnio-nos nefta gruta j. fó { 
ver iftò no quc^xíra, ,.: 

JSsfíáz.yi feito ', mas a meu veir^^iílío não | 
xa aqui. ; **'Ã<f 



JSfemiení'fi. va boca da gruta. ^ eja^iráõ 

nas\Ninfas dançando ao/m do Coro ^eja" 

t Síngmxuga , ^aramella\ e Fedra^ e céfu- 

o Coro. ■',' ^ 

■ ■ 1. 

Chegai, moradores de Creta*, chegai 'C 

4o Templo divino de Vénus , e Amor^ "> 

lg. Aada rapariga , não te trefmalhes , e t6 
>èrcas por çffcs montes. 
ram. Ai tia , que já vou niui canfada ! . 
%z. Se quizer d^fcançar , «e; fazer penitepcii^ 
omí^o nefta cova , nlo feçá céremonia , 'en- 
te ca para deíitro. • ' -,- 
ram. Ai minha tia^ que mé.iaUárão dac]uéN 
a cova ! Vavfi. 
lg. Foge , TaramcUa , que fera algym Sa^y- 
o falvage. P^ahfe. 
'íiz. Senhor , nao fabe que txavéflbs olhos 
láo os daquellâ boginíca ! ', 
leo.. Atiende , e não' fallcs. . . ( 

Sabe Fedrã. 
Ira. Nio;ceffem, Ninfas, os reverentes cul- ^ 
os, que em harmoníofos hymnos dexiica; o v 
loflo affeílo ás Deidades de Vénus / e Ctç; 
)ído , por ver íe com a nofla melodia fe ap- 
Jaca o feu furor. 

leo. Viftc mais peregrina formofura ? • r 
uz. Aitenda , e não f alie. , 
ra. Profegui o acorde faaificio de noffas 
ozes 5 dizendo : -,- 

Sahe Tebandro. 
Md. Galharda Eedra j^ para^qu^ te fatigai^ 

cm 



r 



j 

IS Ijtiyríntbo j 

•:etnf fubir a cffe elevado Tcmiío de Vcnus^ ; 
'•■cAmor, fe aqui nefte lugar acharás as Dei ^ í 
"^^ílidès que procuras ? n [ 

JFedrãí Prjncipe , náo vos emendo. t 

Tehand. Náo buícas a Vénus , c Anaoc ? . != 
JFedrs.ESe he o meu reverente intento. í 

"^ebani. Pois fe bufcas a Vénus , outra mais 
^ bèlla fe admira em tua^ formofura *, e fe que-* 
re^ amor , procurado em meu peito , que nel« 
le o acharas. 
tedrã. Náo he eflc o amor, a quem eu facri- ^•; 
fico. • •; Hji 

J^eband. Talvez que foffc bem empregada a vi- J 
ílima^ deíTe àffeéto nas aras defte amor , quo ^ 
fem a impropriedade de céço , tem mais ^ 
olhos do que Argos , para adniirar-te , e mais ; 
• chammas , que o Vefuvio para abrazar^-mc ; i 

admiite pois. .... ' 

Fedra. Baíta Tebandro, bafta Príncipe de Chi- '; 
pre; fe me julgais Deidade , náo queirais fa*- - 
crilego ultrajar d meu decoro com táo impró- 
prios íactifícioi , que mais offendem do que 
applacáo. 

Tezeo. Hirei impedir-lhe náo pade a mais o feu 
atrevimento i pois antes de ter ánior, jà fin- 
to zelos. 
Ésffáz. Ui Senhor ^ voffa mercê he o guarda da- 
mas ? Deixe à gente fazer o feu amor ? Q/iod 
tibi nón vis ^ àlteri non factos. 
Teband. Senhora , fe atrevido o meu rendimen- 
to che8;ou. . . . . ' ^ 
tedra. Náor mais , - Priticipè , nSo mais : maé ', 

■ . ai.; 1 



de Creu. l:^ 

ai de mim , que já as NinEsis do Cora vão mui 
diftantcs ! Vou-me cm fcq fiH;úimemo. Vaufe. 
Teband, Ai de mim ,. que. FeJra auel con- 
j ira o meu amor accclcrada fc aufcntou ! Po- 
TCfD fe te apana& , tyranna , por não ouvíc 
as minhas vozes , o mefmo venio , que te 
dco azas pr» a foga , te levará os ecos dot 
meus fufpiros. 

Cama Tebandro ^ feguinte 

Se foges , tyranna , 

De oeyir.meus íufpjrps, ' 

Sufpende os retiros; 

Porque de meus é cos c 

Não podes* fugir. 

CMi quanto te etiganas. 
No mal , . çom que abrazas } 
Se amor , que tem azas 
Te íabe feguir? \ VaUfi; 

Sabem Tezeo ^ e Esfuzioie da gruta. .^ 
TeziO. Oh quanto me arrepen^lo ,• Esfuziòtc, 
de não haver fahido da grqt4 ^ para adui^ar 
de mais perto aquella foberana belleza ^^^^i^^k 
tigar a temeridade daqueUe açr^vifjo {«'aptov^e 9 
qne imenteu dominara^ luzes de. tanto S9I.I 
Fsfifz. Tudo quanto os Deozes fazem ^hepoc 

melhor. 
Denif^ A' felva , ao bofqiie. 
Dentr. Jriad. Deofes^ valei-mc.j quemimefoc'- 

corre ? - ' ; r" 

Tezeo. Daquelle vizinho bofque njo jouviftc f»j 
udas^ e affliélas vozos^dc; ham^ inulKeui^ j' " 



hk lÀfyrintbo 

fe/ite Senhor , cu não fcí que nas vozes ha* 

•• í^rtiacHõ^; e fèrtiea* 

Dàitn^jári^d. Dcofcs , valei-me ! 

Tezeo. De fnulhcr hc a v6z , náo ha duvida > 

]' 'èrh que me detenho , qaç náo vou a foc- 

"■ • corrdla í Qit^r ir-fe. 

íy^tnDedali' Ai mifero de mim ! 

Ikd^l. e Ariad.Ai infeliz ! 

Tezeo. De humá- mefma caufa pafece nafccm 

tão differentes vozes: a qual das duas acodí- 

rei primeiro ? "' . • ' 

£5ff4z. Eu 5 Sefíhdr., aqui tiáo «fthò voz aíli- 

va , nem paffiva; '■ • / 
Dentr. Ariad. Náo ha qúém 'm'6 ftícdorra ? 
Tezeo, Sim ha. ' - ' Fai-fe. 

Esfiiz. Ah Senhor , éfpère , hão fiíe deixe aqui 

fó em poder' déft^òútra' vdzj'^e «fou capaz 
^de $car fem falia, •''"« - 

"'^'-Sahe Tezeo com Ariadna "defmaiàda. 
Tezeó. Que cftranho fucceffo ! Que venturofo 

* "idsdb ! Poiá a nâo fer eu , feria efta infer 
^.:- lfeTOireza'defp6jo da ferocidade de huma fera ! 
Éifíií.^ He^^ ftra defgraça ! He fera beileia ! 
: 0e^ fêrò deímaio! 

JTezfo.^Bélliffima Deidade , ceíTe o violetuo ccly- 

• pféyrf teus raios , que os Aftròs dependen- 
tes das tuas luzes náo podem brilhar , quan- 
do desfalleceis, 

jíríiiírMonftro' feroz ^ c irfdomiror ihas ai de 

ipim, que vejo!. 
-^?è^Âr^'átoregai , Senhora , que civ náo fou ã 
^áià que rosr quis offendec. 



Ssfuz. Nem çuí/tãb poacDip j*. ^ . • 
Tizeo. Qttó eiaaíis vos fDfpencie 08 alentos \ 
Ainda nãtí crçdes que ribo^quem vos defen* 
* ^e , e nâp quem voi^oflciidc l 
jiriad. CoQKi ignoro o modo «de agradecer tão 
generofaacçãòv que mento i me faltem as või 
. zes, je me íobrèm as admirações! 
T^ezeo. Huma bafuaHdade náo he digna de agra« 
: dcc!mento>5 'más já qiãe/o deftino me concK 
liou a forninajidçXec.cQ' o ^ditofo inftramento 
.'da voíla vida , quizera vos compadecereis da 
iminhai,:'qiie^íim pacocirmbs^ já quafifallec^e ás 
^.niíáos d&.nama dace -violchcia. .'* 

Ariãd^ Ett vos {iiiom^tto defendes a voíía^^ida ^ 
já í(jue^taatOf;;n3e encareccífca 0'4eu perigo V c ' 
aíHm dizei-me , qual he o deliéh) xpic ^^% 
-obriga 'a -viv» focagidcí entre êflfas bretibárli 
•Que gèmil prefewpiíi . ií: j '' * d fane. 
Tezeo. Senhorz ^ fendo vós a culpada^ 'eniifae 
«qu^rfoucóíijddftnquence* .'; ç r" •' .v^^r.^l: 

Artad. NáoentetidoeOè;novo(iÉio4ò decrim^imr« 
Trzeo. Ctafetac licença quç^n» explique. ^- VX-^ 
jíriad. DizeL. i '■ ■• . , •- "■'' .■■-^^ " 

£iftiz. Eilo ahí meu amo inamorado ! Eíbmoâ 
.. bem aviados ! ::■:'• . .'. .* â fomi 

Tezeo. EíTa animada .esfim u|e-|KlIezR -j que >em 
artraâivos íocetidios ,: ícndó luminbfo imáia de 
meu peito 9^ foi luzída^^remofiade .aieu aivist 
drio , quejperdendo efttt-a natureza de^livic ^^ 
íe cottfidera prezo , para augmtncar os defpo*. 
joa tio carrèr do amor. : - 1 1 - • • t • .:> . 4'":. 



tó Lídyrkéõ 

5|ue o igtiQffacès quem eu fou: ^ e o acha 
e obrigada a ininha vida ao volTo braçc 
M fiz com que reprima o caftigo deiía temer 

dade. Oh dura lei do decoro ; pois me 1» 
kOde.oSender do mefmo que me agrada! â j 
EífWé Toma lá e(Ie píáo na unha : ainda bem 

quanto folgo l- . í - 4 pon 

J>»«?» ' Notável he ovoíTo rigor! f . . 
jíriad. Maior he o voílo atrevimento. Oh qu 
< eípirito tiigno de animar o peito de hum Prir 

cipe ! , . . . . i par 

Tezeo», ]á que a voda tyrannia faeiigual á* vo 

fa belleza, permitti áo menos, que vos-ann 

, d dentro em meu peito ,> para que os fúm< 

. d^ viâima não efcureçáo as luzes- :da Vò(i 

í^Divittdade. , . . :. ■ ■ 

JÍpiadi-Vãta, iflb nio he neceflaria licença m 

,'Rh^ ^ que não podo impe(tfr< ios .feitos d 

jjralvedflo* ; : *• • ' . - ■' ■ 

Tezeo. Vido líTo , poderei , amando comigo 

«;efperar fcr ditofeiAlgum dia í ^r^ •; ' i . 

jíriad. Bem podeis nefperar;^ porém /em erperai 

ça. Valha-me amor, ou não me valha ^^po 
y^mõquen precipitar ! 0-. h[ . " • ã pat 

Tezeo^ Defcnganai-me , Senhora j para que c 
.•r com a efperatiça (e .alente o meur. amor , c 
'. acaibe a minha vida na defeípecaçiOà 
AriaÀ. Náo feí,.o.que vos diga^ Vóu-me, ai 

jtesque alingoa obedeça: ao^ }mj>Ql/bs. do o 

• xãçio. dpárt.'. :•' , ; rrjQí^r ir-/ 

Tcíeo. Sem dar-ipe repofta , náoliQ J»zic 

^ :qf»liQ% vâdd> ^já/que abacefitts o&i.Voòs ji 

5í,^' mci 



A CrHâi Í7 

b aihof , deixai aò meoò^ voíir a minhíi 

crança,\ 

^ Senhor , úíhâ que re deitai a perder no' 

t pedes ; pois fe qneTés qtò vòc a tua .ef^ 

rança , ftcarás ícm çlla. ■ •. 

9. Dcixa^me, louco. Di2«f-R!e i Sehhofa y 

íí fclÍ2 ? . / • 

1. Eu vo Io digo. 

Canta Jnridnd 4 fèjpmte 
; Ari Ài"'.' 

Ócosf fitiòisàffêéíos ' ■ • 

Ncfta alma confcrvô :' ' ■ • ' 

Hbm délles refervo. * 

Se he amor ^ òu piedade y 

Dizello n5o fci. 

Poréirf fe no extremo^ 

Porfias confiante j ' 

Aífeílb' de'- rfmamcf ' 'í 

Que feja', farei; '\ f?/ f^aife^ 

1. Efpefá', efqufva D^iíadèl fé queres cor-" 
mais ligeiras ,- deixa ò alvedrio; <^ue me' le- 
, e Icw ás penai (^uc- meideixaflè^' 
u E-rttenJò qó'ií''fé a|;or'á vier'a çutra fiitvi 

ier<ícifa" VC2' te namoravas ? ' 
K Ai i Esfu2íioie'i que ínc firtto abrazar cm 
bfogõ. . . ^ 

r Pois Tiíftça-fe açora ao^'mar , que lie boa= 
ifião. Mas dize-me , Senhor , quando vifte a 
ia , 'rtãô querias mâiar'' ao Príncipe dè. 
pre coi» «refo*; delia- ?• Pbié como láo de- 
fa te queres matar a d pelo amor <hfta^ 
•íofa cdçíactec* í ^ ^' . 



I 



i8 fAbyrín^p 

Tfzeo. ;Náo ínjaría 90 Sol quem antes àç o 
ver adorou huma ^ Edrdia , porém depois de 

; :V&fta o fei^ '(^pland^r , feria aggravo de fu^ 
;Iuze^ não preferíllas a todps os aiiros* 

Èsfíêz. Vês , Senhor ? Se eu cc deixara lançar 

, iEM> mar j^ ^c^r^. querias ;, ^ não tiveras vilto 
agora tanta formofura j não te arrcbat^as ^ 
não te namoraras^ não te . abrasaras ^ e»*^. 

Ttz€0. E não te^macára também^ pois íc me 
não inpediras laqçarrme a eíTas aguas , não 
fentíra agora efta viokfwa. cha.nima de amor; 
t pois tu és a; caufa deífta violência , fentí* 
rás parte do eftrago , que me arruina^ Da-lhe. 

Msjfáz. fíi Senhor vp^ra que me dá agora cíTe 
csfuziote ? beixí por ora eíles namoricamen- 
ros , lembre*(è.qqe o efpcca a devorante goella 
de hum Minotauro. t 

Tezeo. Ainda por ilTo duplicar mais á tua culpa , 
.pois 'com o precipício do mar efcufára fentir 
z% , fúrias deftes moníftros de amor , e Míno^^ 

..taurp. Ai tyranno Esfuziote, que meprivafte 
do maior bem , que era o morrer !, 

£$f4z. Ui , Senhor ^ não fej^ efla a duvida , fe 
ío por huma caufa te querias matar , agora 

:"quc tens ilu.i$ 9 toma duas mortes. 

Jkntr. Dedal, Acabem-fc jk por huma vez tan- 

í còs pezarcs y rebente: a mina, única idéa do, 

í. njeu • defaío^Orf , : .: .v • 

Esjiiz. Ai Senhor y que alli ha mina ? VamoHios 
a dia ; ai ! Minai temos i Grande fortuna me 
■» c/f era. \ .. ; • • 

ylo irje chegando £$/fi?.íw ç^tíi dentro d4 



/áe Cretáé t^ 

HUM 9 rekntâ ejla com eftrondo j e íaBaredd ^ 

' ficárí Esfaziafe íubrmrgida dtbaixo das rui* 

ias , Aas ^aes fdhifà Dedalú. 

Esfuz. Ai quem mê acede , c)qe dei á cofta tat 
mina! 

Tezea. Qaé horreiKÍo' eftampídb f Parecfr que ai 
rerra p^efagx Jaf minha ririna env eftragos pu'-' 
blica a minfr» deígraça. 

Sdtf IXidalffr 

DtdaK Valha-ifte o Çeo f 

^TiZio, Qvitffoi rfta,Ésfa2iore ? Levanttfre^ fXté 
que novo efpcéi^fctflo fe ofFèrecc í minha ad- 
miração í''Qucm é»^ etjpamofv s^borco dedb- 
penha > 

JkâáL Sotr biMTf míkw ínfeff? f e rão defgrt^ 
çado I que a rerra , fenda mâi coinmua pa^ 
ra Hxky) , a miiM de fi me arroja , como' ma« 

Idrafta^' 
Etfm. SenFror Tezeo , fefafcffe-me defta efpe» 
lança 9 adomte eftou enterrado^ 
7i2fo* Efperar y não vos vadc» em quanto vo« 
acodir ^ e(te pober criado »q«e jaz opprimw 
do debaixcí da rnina daquelTa gruta, 
£f^. Ande ideprefTa , Senhor^ ^ que eftas pedras^ 

me não edificão maíco. 
lizeú. ErgBe^tç* j anda -, he bem feiro para caí* 
'tt|;o da tua ambição: quem ce mandou ir ver 
1 mina i 
hjtn. Parque , tão frací bcr a minha amlrição ^ 
que civctie pavor de chegar a e(Ta mina > Maa 
aí de mitti , qçe eftoa tnkiada de dores , ^ 
• tomara algiirg» cctiiraiiiina ^ crae^ D^ faraíTe o* 
^fl j^ ii Jfh 



7'xzeO: Homem ; <]ucm quer. qye .és y cor 
V.nica-me a caufa das cuas.pecia^. > pois fe 
. ào o arrojo, que itnenufte , parece na 
^ de algum extraordinário motivo» 
JDedãL Se fuppóes extraordinária :i caufa < 
excedo, como polTo; fiar- ide ti a narraçá 
.nícus fucceíips fern faber. com quem fa 
pois no fílcncio confervo a mifihavida 
aflim fabendo p»mejra quj^ tu es , entã< 
bcrás quem cu fou.' r^ : 
E$)Uz. Efte lém duvida .fce aquçllc Senho 
-. voz groda , que nos mCítia medo. 
STí^eo.Pata que vejas que. a minha curioi 
de he fmcéra , quero dizer-te quem fou , 
• ra que d^ minha pefloa poflks inferir, 
-jfop capaz. dt? fer inllrnmenro, da tua feíic 
.. d.c. iDeppisi quç os AtHcniçnfcs barbara 

aleivofamcnte em hum torneio matarão ao P 

1 . çipe i Aí^dríjgeo , ílho de Minos ,^ Rei 

Creta , eíle.H^ítam^nte, indignado contra 

í! Aihenier^íe^j wzendo huma.ligaoffenfivax 

.,os Príncipes dç ,ArchipeIago j, fe lançarão 

bre Athenas, para refuícitat còm o eftrq 

•« ^s armas o ma^rcial^efpitíto: de Andrpg 

Trcs annos cílcve Athenas cercada , e re 

. zida á ultiiíla j)M/eria ) ate ique ^ra falvar 

:.prí)0fados fra^rpentos d^ tantas vidas , \ 

inermes perecião á violência da fome, c 

counpçáojf.levant.aníjo-fç o povo- tumultua 

^Weíiie ,' capiçdáióo çom ElReí .Minos , o. 

; rpccnda-fe á •fvií.iidifcriçào, : 

^(//^ iT.^do^ jqiUlí» m& .contâya . minha . A 



it Cretil »ft 

TfzeO O bárbaro Rei vendo qiic òt buma Vir 
náo podia beber o íangue dos Athenienfes , 
impóz o ri^^orofo-iributo , de que iodos os 
annos pagaíte Acbenas fece mancebos para ali* 
menco de hum iponftro , Que chamáò Mínõ^^ 
taciro , que dizem habita denno em hum L%- 

■ byrímho; 

Ikiâl. Ai de mim ! 

Tcaeo. Que ? Sufpjras ? 

J>tiát. Profegui , que os meus fufpiros nlo são 
fem (undameÁco. 

Tiaío. Era poisa forma defte tributo fem esr- 
cepção depeíToa alguma, por mais foberana ^ 
quê foíTe j para o que todos em buma urna 
hoçavSo os Teus nomes ^ epòr force fetíra- 

' ^io kit mancebos , qde fe enviavão pára; 
Creu a ferem combuflívo feudo do Minotauro. . 

£tf«E. Se ifto riâo eftivera eití letra redonda'^ 
iiavião de dizer oue era mentira. 

TiLCO. Efteanno (-ai infeliz !) entre ós fere 
do tributo fui eu hum delles ; que nem o náf« 
lier filho' delRei^le Athenas , e fer o valò- 
rofo Tezeo , bem conhecido . no Mundo pêlo 
incu valor , foi baíbnce para ifentar-mc defto^ 
tributo ; para o que preparada huma armada , 
vínhamos para Creta , em cuja viagem os veti* 
kos , não feí fe propícios , oú indignados , 
depois de fer ludibrio das ondas , defpeda- 
Catido onoflo baixel , fem duvida perecera , 
ie huma taboa delle não fora p dèlSm de 
liifhha vida , que piedofo' me conduzio a eC- 
Us praias , fem faber aonde efti^u. E {>ois 

ji 



jiá te.ttnho fati$feko^ |ia agora de mim lap 
feps Xucceflos , pa.i;a quç ;tçhcs em minha; 
£eneu:ofi4ade o {avor i^u^ iis .t^as mU^iísj 
. eftão cpaçiJiiaQdo.. 

jg^^z.. Veja^nos 9^or4 çí^ta qw íe dbfcarti 
. efte Jbarhulo^ 
Í>fi4* Quando eu ase coiiíid^raya o mais iclrf- 

gc^çado de todos 0$ homens , acho que fel 
jOocirps 90^ nafcèrao jpom mais infeliz j^ 
. .«elfelt .. ■ 

Trzifa. Explícft^e , n&o me çetibas (ufpenio^ 
jjEi^^ Vamos , Senhor » díga> ia%um^ (Gafa ,i 

aiiida qu^ fej^ huma f^uU. 
pedal. Eu fou generoib Principe ,. ò in&Us 

Dédalo , .aquelle « ,que por fpas eycraordinjttíu 
.< . máqujnas ^^e fublimes inyençpes Te lem fei(dt 
., conhecido por todo Mundo^ - 
jrjflZCi9, 39^ que (bis aquelie célebre JDqdato;^ 

cujas arcifícjpfas Máa%.cj04n oierecido os elogios 
r-do Orbe? Náp fabeis qaanito me alegra ^ííí 
. . bum homem ijio grande, 
^ifuz, Q^fta que vofla merdè he o Senhor De< 
^ dato 9 pi^drè meílrc dâs minas a pezar doiíseu 

corpo I Ai I efpere ^ voflTa fncrçè nao hcc c 

pai do Senhor ícaro í 
Í}edalf Tu çonheccfie a ícaro , meu filho ?; 
fisfuz* Eu náo Senhor , mas lembra-nie de c 

ver pintado com ht^mas azas , que cahindo ea 

huni rio , fj^ foi como hum paflarínho» 
Tezeo, CaU-te nefcio ^ profcguí Dédalo» 
pe4al. Prpílgo ; Vivendo eu na Corre delRe 
. Minos de Crei^ 9 çoi^ jx çftímaç ^ que me« 



Í€ Creu. is 

rêciSoiM minhas raras idéaH ^ rúceedeò qàa 
Vcrtuí' indignada contfa pSol^qãe cm cerca 
occa(iáo't>atemetoiU asfuaá totpezas, n3a -^o-- 
dendo vingar-fe em fuás* luzes, pedia «Teu 
filho CijpStoiii, '<|ue»^«ctíwtó*»a *aihha Pazife 
fulminaííe o feu rigor , fazendp Cupido *a mf- 

I tancíaá de Vetitís y ^e Pazífe ' fe naiparáflS 
de hum Touro. 

fí/itei. De hum^Tpuro? Teve muito bom «jgòft 

' ro a Senhora Patife. 

Ikdal. Pazife èókribacida de tão toõ>e , ene&n* 
do amor ^ pedio^me que lhe oèlTe remédio 

: a; tio louco incêndio Vem que fe abrazàVa , 

' fiizendocom (àlg^tiniá íÂáquína minha , còm 
-qde cila pibdeííe lograr» o feu intiento ^ árítes 

5|ue a fua cegueira produzifíe Olhos , qujC Vif- 
èm publicamente efta hnnca vifta temeridade 

de Cupido : eu em 6m por ercufar maior tU 
- candatò , meVefoIvi- á fabricar huma Vaca \ 

eom tanto artificio, que apenas fe diftingui^ 
' dasi oúrras ViVètites ; pois n6 movitnento ^ t 

afp^o, parece quiz efta vez coihpéiír aar« 

te óom a nãturfea. ^ 
Esfuz. E eíla Vaca havia de fer -.deleite para 

Pazife, * 

Dedal. Fabricada aílim a Vaca , por huma cf- 

cxjtilha , que nclla fiz , fe tnrroduzío Pazife , 

em cufa figura artificioramence transformada 

foi facil enganar ao Touro, a quem amava; 

o demais calta-o o filencio , porque fe nao 

offenda a modeftia. 
Ss/ttz. Sim, bem entendo $ íifn , Senhor*/ o 

Touro, c a Vaca, &c. Z?c* 



t4 Laibyriíubo 

peddL Dâftft o^fatido anior tufceo jiunn monfir 
irp de duâs efpecie^ , poij. era míio Ho?- 
merp , e meio. Touro , por^uja çauí^ o cha- 
marão Minotauro* ^ 

^/«fss. Deíles , inoçkftros J|)^ inuica3 ao Mon- 

■ do. í 

•JTfs^^o. Ai pedalo < que ca fofkt a occaftãodir 
minha defgraça ! 

peM^ E t^I^eoi ^a minha >* /pra Acrende ; Vetije 
do Minos naquelle mon(^iro a fua perpccua 

^ jnfamia, cae ordenou qqe.pígra morada dek 
|e fabricaffe hqm eliupeddi^ » • e graode Palá- 
cio 9 com tão equívocas entradas , ci fabidas , 

' ,que queni nelle íç ^íacroduziÀfe ^ não pudede 

' atinar com a poeta para f^hlr , ficando prozo 

na fua oierma liberdade -, que por -eíle eorc* 

dado artificio fc chaçoqii o Labyciacho de Oe- 

ta,^, .:, 

^ezeii. Secunda vez te confidero anifíce de ipi? 
nhãs infíelicidades. 

'JBsJuz. Que direj cu ^ que tenho p .corpo ef- 
parramado ) 

pedal. Éih fim, como não ha coufa que fe 
não faiba , quíz a miaha djefvemura que 
chegalTe á noticia dclRei Minos , que eu .ti- 
nha coppciaiQ para o nafcimenco do Mino? 
xauro , ppr cuja caufa me mandou encerrar 
X\0 aicfii^o Labyrintho , que eu fabriquei , na 
parte mais inferior delle , adonde a minha 
induftria , c defcfperaçáo , fez com que mi. 
nando com ardenccs materiacs as entranhai 
/da cerra ^ íahiile d;:íla gruca j como vifte. 



4e Creuk ** , 

TeziO. Vífto lílp eftambsL w>! Creta ,. é 4t 
portas do U^ibyaniho ^ 

^JHz, EM porsas da morte; Ou o cerca he #, 
Senhor, que donJe.has de if"» a4o has de 
mentif ^ por- iíTo ^ tanto qge eu puz o$ narK» 
z# em scena , logo. me chei;oa a LAyúti^ 
tho. .■„ ■ .i . 

TVzri). Ning«iem pôde íjTeuttr-feid? violência dos 

. &des. •!•':. ■ -. 

Jkdal. Príncipe , já; que neâe bofque da mit" 
ggem fòQiCB viAoyi.ercond^í^yo^ nefta mofoni 
mina , ate qtp tínhai^ opcaíiáo.de fugir da 
morte 4 que vos cfpera,. ; .jii ^ ..'ir 

7fz<(2. Que quer dizer jiigi^ ^: He acção .flue 
nunca e\erci(ej, Que (jirli O/^Mundo . fe fe 
difltr que Tezeo higio da morre , e que\^ 
acovardou hun> monfltrp , qqando tancQs te- 
jjho vencido J ' ; 

£sftiz, Nãp jem que fe can&r. >;:q«c eftc JSe: 

, nhor ãnda^ moito por fe (natar*. ..^ t vi 

^di/. Como vos não quereis eii^ondcc , e .çer« 
tamente haveis de ir paxar ao l^abyríncbo • 
eu por acompanha^vos nelle merefolvo ft:6^' 
outra vez habitador da fua confusão , p^ra 
que ao n)enos com a minha iaduftria ppH4Ís 
vencer ede monftro , e vingarmo^no^. deiTe 
cyraqno Rei qge á vpfla Facri^ , e f n^m 
wnto offende. 
Tezeo. O' Dédalo , eu te promctto que fe 
<mro em Athenas iriunfame., fçrás em minba 
Corte prcmjado, corno merece ião generpf^ 
ícfão. ..... .. . . "\ ■' . 



^S Lnh^rinAo 

JDedaL Pois adeot , Príncipe , que lá te éfpc 
Torna ã ir-Jè peUgru 
Xsfiêz. Adeos , ^Senhor Dédalo , veda mercê 

ça inuiro boa jornada. 
Tézeo. Adverte , Esfu2iote » que- Te revelares 
' que ouvjfte , feras caftigado por EIRci n 

|)ai , pois o braço de hum Rei chega, a 
'■ ^a a parte ; e fe fores fiel , e eu tiver a f 

turía de vencer eftc monftro , cè pome 
'hum- premio igual i tua lealdade. 
£$Jhz. Senhor , nem todos os criados hSo 
J^íer ianríbareíros ; peça a Deos que me 

tiha mão na língua , que eu da minha d 
' le farei o àuè puder , ainda oue me cufti 
- ^ Sabe Liças Embaixador. > 

jtitas. Ai Tezeo, que infeliz ventura foi ai 

nha ! Pois quando te julguei nàufragante n 

fas ondas pela tormenta , em que tatuos b 
'■ icei» da nona armada perecerão , aqui te ' 

nho a encontrar , depois de procurar-te | 
'^jcoda cfla marinha , para feres alimento 
. "Minotauro r Oh que defgraça ! 
7n0O, Liças amigo , muico me alegro de v 
' «e ; « pois que ern Creta tiVes cóm o ca 
^ der ^e Embaixador de Arhenas , para fa: 

res afttoefta entrega dos íete infçlices tril 
-taíi6s do Minotauro, vem a aprcíentarmc 

efle tyranno Rei , para que íacíe em no 
• Tangue a fede de fuá impiedade. 
XJc^s. Oh quem não tivera tal incumbcnci 
JB$fuz. Ah Senhor Embaixador , faiba Vo 

Senhoria , que eu n&o morri na tormenta. 
'" '■ Li 



lieãs. £fii«QO a tua fortuna » EsFuzíôtc ; vamos 

Tczco, 
TtziO^ Dize^Hiif primeiro quem era huma Níh* 

ianque fegoícb de outras , em hum feftivo 
. coio por aqui, paílou chamada Fedra ? 
Ucds» He íiama Infama , filha mai6 velha dei* 

Rei 9 que com a bella cotpixiyt híi<^ para o 

Tcmfte <le Venua s ^ Cupido , a qnem íw^ 
„ alicio todos os annos, parA que fe aplaqi«p 
' o fcu riçor, fazendo com que ceíte a iiifa- 

me injuria j^ Minotaurçat» . 
Truo. £ não era mais fácil matar o Minotaii* 
. . ro , ^afa q^e ceffc a .fua affronra i > ^ í 
TJci^p N3io» quecfte mon^ro, como confagra* 

do a Vénus ) i^ Cupido^ corre por conca dcf* 

us Deidades a fua conferyaçio. 
Bifuz. E diga-me , Senhor - Embaixador , quem 

era huma (eminrínfa 9 chamada TarameUa , 

quç {Ai9Í)çm. hia, ncHa turba multa r^p^igã; 

c por (inal que quando andava levantava os 
< pés ido çMo ? . >_ 

7ruo. N.ao te cailarás ? 
^i^, .'Ui Senhor 9 cadaqud pergunta pelo que 

lhe pertence^ * t :^ 

7ese(). E quem era omra Ninfa , que no cxier« 

cicio da caça a livrei da ferocidade, de 1bu« 

ma fera? 
UcéU. Seria r^m devida a Infanta Ariadna^ £• 

lha também delRei Minos , que mais adora 

a Diana nos bofquey , do que a Vénus nos 
. templos» 
TiZiO, Ai Ucas 9 9110 .eíla Ariadna. . « • . 



i8 JLd^iffiha 

Xicãt. Senhor , vamos i nâo cuides pòtoraniíTci» 
^Tezeo» Foi a homicida. . . . ' 
Esfnz. Senhor, leriibre-fe dá fuá álnu, c dct 
* xé Ariadna. 

"J^ezeo. Da minha vida primeiro j que o Mino» 
laúro- . ;. . ' ' . * 

X/f^. Vamos , Senhor, f^^íi-Je. 

Tezeo. Vamos , Liças : ai Ariadna i Fái-fe» 
JStJíêZ^ Ai Minotauro J ■ Fai-fc, 

S C E N A n. ^ 

templo com 4s tfiatuas de Venui , e Oípiio s 

€ buma pyra ardendo. Sabe Lidoro , € 

cama-Je o feguinte 

Coro... 

« Chegai , moradores de Creta , chegai 
'Alo Templo divino de Vcnus , e Amor. 

Zidóro. /^ Uiz anticip^r-me nèftc Templd 
V^ de Vénus , e Cupido , por ver 
fe nelle .encontro a beHa Ariadna ^ 
ê moftralhe a fem razão de fua tyrannia ^ 
c o jufto motivo de meu incendia ; pois 
fem que me valha o fer Príncipe de Epyro , 
t ter deixado a rninha Corte , por vir a cf- 
i* de Creta , f6 a pertender o feu ditofo 
Himenêo , com tudo o feu ríçor fempre im- 
jMacaveí fe moftrá alminhas fiheiatf. O' Dei- 
dades fobôranas de Vénus, c Amor , érti cu- . 
jâs araci acde a viâima dê meu coraj;ão , fa^. 



2e^ quff Jiejjl ditçf^ 9 <{uem fabe fér comnW 

te. 
^úi:(. Quct violenta vinha algum dia a eftâ 

Templo de Vénus , è Amor ! Porém , dcjpois qu9 
, -noboíqueViaqueUe, . . Mas quem cfta aqui ?' 
lidor. Qaei^ ha: de fer, fenão huma fombra 

infeparayel do voílo -Sol , que por inãuxo 

deíTe (neímo Aftro fe cõiiíàdera Clicie de voC* 
. fo rcíplcndor ? . 

Ãriad^ Bem podereis 5 Lidofo , deixar efl&í lau- 
: cur^ de voflo. amor : não tem baftáda tancoa 

defenganos^ para defpprfuadír-vos , que mais 
, fácil fera que o Sol não allumie , que. t ef- 

curidade reiplendeça , e que o fogo esfrie , que 

no mcú peito :poffa haver amor , cora que. 
. correíponder^yos ^ . ^ 

Lidor. Em fim , Senhora , ,eííc he o ultimo de» 

fengano da yQÍTa tyrannia ^ ^ . 
jíríaaí AJmiro-me que tenhais efte defengana 

pelo ultimo , quando podereis fazex efTe COtH 

ceito do .primeiro. 
LiAoT, Afliin premiais as minhas finezas > , 
uíriad. Para que «as pbrafies fen^ minha licençfty 

fabendo que niílò me offendieis? 
JLídor» Pois para.;que náo vos oíFenda quemTa 

vos dcfeja agradar , eu me retiro dos volTos 
olhos , que fó por dar-vos eííes prazerr^ fereí 
aud para comigo. . Qfser. ir-fc* 

. fabem o Rei ^ Fedra , é Tebandro. ^ 
JRei. Lidoro , que he ííTo } Quando todos vimos 
a ftfte annual facrifício, que em oMaçio te« 
r^jreme coníajgu o noíTo rcndimcmo uas ait^i* 



•dcfiaí rteidadcs de Vcnus , é Artlof , tttt-^ 
tirajT i 

jUifon Senhor, a procurar-te faia^ yendo qM 

■ tadavos^ 

jíW. Fedra , Aríadiia , não çeítem as vedas 
rogativas , para cjue eitas deidades ntcfdos it^ 
dignadas nos livrem da pcrpécaa infemia defle 
Minotauro 9 ^omo labéo aiFroncofo da nòflTa 
regia eftirpe< Ai Paziíe frágil , feja a tuft 
menníoria abomirtaVcl tios fcculos fdttiros ! - 

Ttbãnd. Senhor , temo i|ue cíTa melancolia -te 
r acabe a vida: lembra-te que és ElRci Mi- 
nos , para que com a tua conftanria tòléret 
os golpes do ptzar* 

Fedra. Senhor , Vorta Mageflade deve btifcar 
algum meio cfficaz , para que ccíTc a fqa 
■ mkgoa , e a noffa affronta. ' - 

jAdor. Indo poderá ler remédio ^ excepto o 
meu tormento^ *• â páHe*- 

jfriad. Senhor , fc eílamos nefte Tcmpío de 
Vénus , e Amor , porque náo cònfuhas o 
feu Oráculo , para que nos declare ^ quandb' 
<cerá fim a vida do Minotauro!' 

iíeí.» Ariadna , cflTe confclho hc filha do teu 
'fubfll engenho ; pois actenção , que neftaffer-- 
iftia confulto o feu Oráculo. Vénus fóberaná ^ 

' ^tòmpadecida a noflbs gemidos , e grata z 
•iibtlbs voios , declara-nos , quarído teta fimi a 
vida dó Minotauro ^ cuja exiftenda- aviva a 
'tioffi Ignorância* ' 



•v':?- CRXb 



it Oitá. %fL 

Cântâ o OfÃCfêh o feguinie* ^ 

Quando defle bifocme monftro horrendo ' 

Vires fer alimento combuftivo 

Ham yívo mono , e hum morto vivo. 

Âeu Enigmática , e prodígiofa he a rcpofla ; 

. pois diz , que terá fim ávida do MioQtauro^ 
quando lhe fervir de alimento hum vivo mor» 
to , e hum morto vivo. Quem vio maioF 
confusão ! ' ^ _• ' 

lidor. He eflilo dos Oráculos refpotklerem fot; 
enigmas. 

Fedr44 Que prodígio ! / t :^ 

U^or. Ainda em maior duvidaificamos; . pois 
como poderá fervir de^ alimemo huín moK 
to vivo , c hum vivo morto ^ 

Todos. Quem fcrà eftc morto »ivo ? 

Dentr. Liças. Tczeo , entra. 

jRfi. Tczeo difícrão alli } parece royíterio , n 
Qoe Teria ca fualidade. :^ 

Tebãnd. Cafualidade he $ pojs quem poderá 
fer morce, e-vivo ao mefmo tempoi? . . / 
Sabem Tczeo ^ Liças ^ e Esjuziote^ ;^ 

Tezeo. Eu ^ eu £ou , ó Rei Miaos , o Prínci- 
pe Tezeo , hum dos feie infcli.ces qucAch^r 
nas envia para o feudo do Minotauro- 

Ucas. Tczeo , Príncipe de Athenas , foi< folire 
quem eftc anno cahio a infeliz forte : do tri-j 
buto } tio rigoroso he o efautinio , que ncad 
a foa regia peíToa fe pódc izentar* ;v 

Rei. Tudo o que vejo ^ão prodígios ! VmW» 
Tczeo ^ z meus brados. . ;: . :. 



^ Ldbyrintha j 

Tizeo. Senhor ,. a çcus pés fe offcrecc quértl. f 
já nem f^e fenhor da lua vida para- dediqar> jE 
ta •; porém eftcs brcvrs inftantcs ; qué o| 
alento fc me dilata , defejára dimingillosií 
para* qúc ftiaís dèprellá fe fatisfaça a toá vo^- ^ 

frade. ajoelbÉi 

Jttii Levahtai-voâ 5 efclàíeddo Jc2eo , qué fupj 

' podo vos conduzíííe a fortuna a tÍo infdíz > ^ 

^•fcftado , fereis entrtí tanto rcfpeitado como 
Príncipe , e nao como rco. 

JSsJuz. He mti.Ro boa coftfolaçâo ! Aquillo he è 
mtímo c]úc cngcrdar para matar. 

jíriad. Ai de mim j qne Tezeo foi quem mtf ^ 
livrou daquííllá íéra no bofque! â p,-' 

Fèdfú. Oh quem pudera livrar a Tezeo de do ^ 
funcfta morte , pois a fua j>r€fença conciliou - 
em meu pelm j iiáo fei fc amor , ou cont-^' 
paixão ! i p^ 

T^ZiCF.' Príncipe , finto com a minha vidi ntó^ 
poder remediar a vofla ; porém OVoíTp valot 
Mrw o lenitivo delia 'infeíicid'atíc?i 

Lidor, Tc?eo , os que hafcemos Piiflclpes iíen-t 

tos da jutifdícção humana , nâo~ nos podemó^ 

éftiniir da violência dos aftros , que inriuèm^ . 

"íigòrôfos V t- aflim hão hc ncctflari6-lertibrair- 

vos de quem (ois , para infundir alentos ao, 

:voffo eípirito. . i 

Ti^eo. O meu agradecimctíto , e as voflas pie^i 
í:âade« nefta occafiio são inòteis. ' 

Bsfíêz. Que íftcja meu amo recebendo em fna^ . 

4irída''os pezaflKs da fua morte ! Hr boa ^k^\ 

<rtiorra ! *■ J '■"** - '• ^ ^ 

9 %a Tc- 



Teteo. Esfuzíote ^ aqnella não he a Ninfa 
jque eu tive em meus braçx)s dcfmaiada d 

Èijwz. Sim 9 Senbor » cila he t mefma , e ve- 

.;'iào o que cem crefcido! Ah Senhor ^ e tam- 

• bem a outra he aquellouira. 

Jitu Dizci-me ^ Embaixador : e todos os fctc 
mancebos do cribuco : vem com o Príncipe 
Tczco> 

Ucã$. Coitio houve , 'Senhor , huma grande 
cempeftade , em que o baixel naufragou ^ 
moita parce.da gente pereceo , e dos tribu- 
tários fó íe achao féis com o Príncipe. 

Sfi* Eu não hei de receber menos numero 

. oue o de íece í pois nem ainda todo cíTe 
íaneue he baílante para illidir as manchas de 
voflías aleiyofías. . 

Bijtiz. Eftc Rei fera amigo de farapatel \ áp. 

Tezeo» Senhor , fendo eu Príncipe , parece 
que valho por dous. 

JJças. E quando nio , aqui eAà efte criado , 
que compJerarà o numero dos fete. 

£sfít7,. Irra ; Ah Senhor Embaixador , faça-me 
mercê de fc não meter com as vidas alheas : 
he boa graça i v 

UcâS. Não vfes : que ElRcí çftá teimofo em 
que fejão fete, enão ha fenão féis ; e co- 
mo tu eftár; aqut ^ pec força has de fer hum 
dellcs? 

Esfuz. Senhor Minotauro , requeiro a VoíTa 

Mageftadc.^...: 
JTezeò. Adverte que EÍRei. chama-fc Minos, 

. e nio JSSinggiuro* 
Tom. IL ^* C 3Ef. 



H4- Lãtyrintbo 

JEsfiáz. De Minos a Minotauro pouco vaf. - 

LícdS. Senhor ^ Vofín iVIageftade faiba que ef» 
te homem he hum. conto. " ^ 

£sfuz* Sim , Senhor , íòu cáo tonto , que •def- 
fe monftro nâo quero fer comido por conco- 
mitância^ e logo requeiro a V^oíía MageíhKh 
que o Minotauro me náo pôde comer. 

JRei. Por que? '. . 

£sfíáz- Porque he meu inimigo capital. 

£ei. Por ilTo mefmo te comerá. 

£ífuz. Não , Senhor ,; que quem tne querin^A 
me não pode tragar. ' ' 

Lidor. O homem he divertido , quero apuíál» 
lo : homem , o Minotauro hão fabe fá2eir 
dífFerença de amigos , e inimi^gòs. * 

Esfaz. Ainda eíTa he peior I Pois j Se^^^O' í'^^* 
defengano ,' qoc fc o Minotauro me come*, 
bem lhe pode abrir a cova , que íriorrc íem falra^ 

Lidcr. Por que ? •';•;. 

JSsfaz. Poqut fou hum víiftetiò.*'' ■'^ 

Lidor. Também o Minotauro hè venenofo j c 
hum veneno «â(í rtnáta outro veneno. 

JEsjuz. Pai-a que^ fe cansão ; -Senhores ? Saí- 
• bão que eu para alimento foii líiuUo 'indigefto, 

RiU Seja' como for*, cUcs ^hão^dè fer fcte níaiir» 
cebos os dotíibuto. ■ ' .- 

Jisfuz. A que nfe VèíTa Magèífede , Senhor, 
por força hão de fcr fcte jpanccbo5. 

Rei. Aflim foi â capitulação. ■ •' ' ^" 

Esfuz. Pois eu nâo poflo fervlf pára Jflb/ ' 

iidor. Porque 'rtâtfj - '»'":' '" ; ' C 

Esjuz. Porque não j porqfac" eo nâp foíiíctc 
•■ •"•'■fa'a- 



4^ Oet/U %$ 

nuiticebos, fou hum fó ; t ainda eíTe fabe 

Deos o que vai por cã. 
Lidor. Ô Minoratiio náo hâ de engolir os fe- 

ce mancebos juntos por huma vez , fcnão 

Viam a hum. 
Esjffz. Ui , 5 Senhor , que tem o Minotauro 

3ue fe amancebar com a minha vida ? 
or. Senhor 3 o aíado convém confervallo , 
Que he galante. 
Mct. Andar , cuidaremos niíT© : o Embaíjcador 
hofpéde a Tezeo ^ Lidoro , vem comigo. 

Vdor. Ainda fem eíTe preceito iria , fò por não 
ver a huma ingrata , que tanto tyranniza os 
tneus extremos. Fai-fe. 

Fedra. Toda a minha alma occupa a peíloa de 
Tezeo : verei fe acho alguni meio de redi- 
mir a lua vida. â p. e vai-fe. 

Ithand. Vamos , coração , a experimentar no- 
vas tyrannias em Fedr^. a p. e vãUJe^ 

Lteãs. Tezeo , vem. Fai-fe* 

Tezeo. Vai , que eu te figo. 

Esfuz. Và-fc c'os diabos Embaixador de humâ 
figa , que eu lhe pregarei. 

Tezeo. Beliffima Ariadna., que venturofa feria 
a minha morte , fe eu levara a certeza de 
que ao menos na tua memoria vivia confer- 
vado cfte extremo de pnreu amor ! Lembra- 
te , bella homicida , não de me ifcntarcs da 
morte , que me eípcra , mas fim deflc amo- 
rofo rormento , que me attlige. 

jlrUd, Tezeo quat^do no bofqúe vos confiderçí 
^ C ii fo- 



?8 Lahyrhithõ . . ^ ^ 

JESfjíéz. Qiiero fingir que fou Vénus, ' Oi 
CantA Esjiêziote o feguinte cm faífete. . * 
Taramclla, fe queres marido 
Aqui roefmo no Templo , no Templo o dareu 

Tdram» Ai que Vénus me refpondeo favoraV^ { 
i minha petição ! O^ minha Deofa, dizef ' * 
me outra, vez quem {era o meu ditofo marido || ^ , 

Canta Esfiáziote ojeghne Rechada emfalfeti^ 

Teu marido fera eín teu conforto 

Hum morto viro,' e hum vivo morto, ■ 

TT^ram^ Quô galante rcpofta !' Entendo qba 
nunca cafarei ; pois como pócle ícr meq m^'^ 
rijo hum vivo níortô ? 

Sabe Esfiiziote, 

Esfhzi Agora eu: SapièntilHmâ Taraniella , hum , 
naufrangante peregrino , cónibatído das on- 
das , mareado dos mares, açoitado dos ven-* 
tos , e enjoado das marefias , vem hoje aòf^ 
ferecer o traquete do feu amor aos joanetes 
de teos pés , para que dependurado no tem- 
plo de tlia formofura , fe oftente croféo âá tua 
galhardia'. 

Taram. Que galante coufa ! Explique-fe •, que - 
eu ainda não fei oque.voíTa mercê medifle. 

Esjt^z. São effcitos do crepitante incêndio, cjuo 
o bolcáo de meu peito tranfpira pelos metos 
do idioma. 

Taram. Senhor Eftrangeiro j cu não entendo 
palavra. . . 



de Cretav ;9 

I Bfifz. TJL ^uè não entendes de «flylos crefpos , 

It suarei cm fr«:Bís cftiradat. Eu •, Senhora 

Tittivntílã , fou iium Spldado éa iomina ^ que 

.a. venho bufcar mais dicofa no conjugio de 

• vofla merciè. . • . ' 
"fáfÂm. Tire-fo para lá não venha zombar da 

geme;, ande , va-ÍJe ,.deixehme acabar de var- 
.Kt(^ para que entre o lixo' do Templo en* 

coacre o marido , que a.Deofa me pomettc. 
Esfitz. Sufpende , galharda Ninfa , efla vofloira 

dofi íentidos., jeíTa efcova das almas, edebaf* 

culho do coração , eííe efpanador das poren- 

c;as , e eíle esfuHnhador dos afieé>os ; pois 
. já por ti me coníidero Mouco varrido. 
Tarmn. Ai Senhor , nãb me falle níflb , que 

eu fou muico (izudinha , e huma moça don- 

zella 9 que eftoú iaquí para honra , e caía-* 

mento* 
Esfuz. Se eftás aqui para honra , c cafamenio , 

Qido achafté em mim.: ' 

Târéun. E de que force? 
Esfitz. Eu te diço : fc eflás para cafamenrô , 

aqui tens marido , c fe para honra , honra 
'/Serás fe cafarçs comigo; eiião digo omaits , 

pois (em faber fe me queres ^ não te direi 

quem íbo, • ' 

Tarm. Pois fó faberei querer , quando fouber 

quem voffa mercê he. 
Esfuz. Pois Taramclla , promettes pôr o teu 

nome na boca ? 
Taram. Sou tão callada que não como por não 

abrir a boca. 



40 LábytíntBo 

£$ffêz. ]á que és tio (cctetz j ftheás^ mim 
fou o Pcindpe Tezeo fòbre qucm^càhity i 
fórce , ( ou o azar , para melhor -dizer) id( 
fer alimento do Minotauro: eu para efcapai 
deíla comichão , me ajuftei por hunia gnMd 
fomma de dinheiro com hum criado meu 

. chamado Esfuziote 3 para que -diflcflc qu^tr; 

. tu y c déíTe a vida por . mim } e como o cria 

. do me queria bem , não foi diificil a morre 
por mim*. - ^V- 

7'aram. E ha homens que fe matáo por di 
nheiro. 

£sfiáz. Filha, todos morrem por dinheiro. En 
iim trepámos os veftidos ^ e os nomes; poí 
elle morre com o nome de Tezeo , e cu vi 

. vo com o de Esfuziore, 

Tdranu Ai Senhor , Voffa Alteza , fendo quen 
he , quer cafar com huma rafcoa, .podend( 

, emin-egar-f^ em huma Pi^inceza^ jljoitbà 

Esjf*z* Levantai-vos : promctti a Vénus em hu 
ma tempeftade , que tive , cafar com a pri 

^ meira mulher ^ue vilTe em terra , que fofi 

. tu , fe acafo te lembra hum bilifcão » qu 
te dei : boje , vindo tu dançando por eflc 
bofques. 

Taram. Ai , he verdade i bafta que foi V 
Alteza J 

Esjiíz. Fui eu que te quiz inarcar com a unha 
para a todo o tempo tt conhecer^ pois qu 
dizes > Eílá juílo o teu amor , ou ainda pe< 
ca em alguma dcfconfiança ^ 

laianu Senhor « tudo eíiá muito bem 3 m^ 

Vc- 



dfe CfHê. 41' 

'Vénus mft difle , que havia fcf meu marido- 
hum vivo mono , e VofTa Akeza nio he 
morto vivo* 
t,%fwL. Mo hc o que te parece; queres veréo- 
. mo eu fou eíle y que te difle a Deofa \ Ora 
aaeode» 

S O NET O. 

Ea fou j '6 Taram ella , o vivi morto , . . . ;.\ 

Sae por ti me imagino morto , c vivo ;- 
as não cuides , que vivo » porqae vivo , 
Pois ainda que vivo ^ vivo. morto :. 
: Na cova de huo) defcém me enterras, morto t 
No aceno de hum favor me alentas vivo y 
Se me affagaSy.defperto como vivo, 
Se te ágaflas ^ esfrio como morto :, 
Nefla baulha , pois , de morto >e vivo , , ^ . 
Na vida de num favor me* alentas morto » 
Na morte de humdeídem me matas vivo. 
Soa em fim morto vivo , e. vivo ^ mortp , 
Se qual Fénix nas cinzas, quando vivQ^^ . 
Maripofa nas chammas , quando morto. 

Tárm. li fel que VoíTa Alteza he o vivo , 
e morto que me difle a D^ofa ; mas como 
cafa por voto 3*0 não por amor, fera o feu 
matrimonio mais por força oue por vontade. 

£ffuz^ Taramella, no amor toda a vontade hò 
forçada pois quem por feu gofto ha de ap- 
perecer os fopapos de Cupido , e os pontapé» 
de Vénus , que para adorno do feu rigor fa- 
zem galla da tyrannia ^ e gallacé do mar« 
ryrio? 



4^ LâbyfintBo 

%^m^ Para. que focc^ue a minha dercon& 
>Ç*i c acredite o fcu amor, meça Voíla á 
teza a mio naquelle fogo de Amor , no qv 
ie . experimenta dos amantes a conflrancia ; 
, j| chamma o , nio abrazar , reconhecerei qi 
me quer bem , e quando não , he cer 
que qu?m fe queima alho$.come , que el 
nc a virtude 'efpeçial daqúelle foeo. 
Zí/tfz. E -qUé o "tem amor com oí alhos í 
Tar4m. Náor vê que b alhò dèftroe a virco 
dof- ImaH ^ que^he o fymbolo ck) amor^ , 
Esjíáz. líTò he coufa de Poetas ; imas fcqnete 
^lè jHèlameiíamoflmeta-a máo neíftfogò , 
Q fe^ei , qúê* fetíle' ftlò abraza a quem ant 
feguro tftou dt offfthder-me-ó feu itíccndio 
Tarkm. Oíra vàv «^ ftáo tremii. 
Cantão Esfuízicte ; e Tardmelli' /r Jeguiuie 
ÁRIA A D U O. 
Ta^Mm. Meta a-rtSo na chamma ardente, 

< \ ' E vcíd o- fca arftor; 
EsjtêoSk' Tm vòrás como valente' • 

' Níò me abnza o feu airdoí' ; 
Mas af , que jfie ábrazo I Aíetc d m 
,. . . Mas at^ 4"^ ^^^ queima! ^ ' 
Tdram. Adopta, ., 

i^W, .Eju. alTopro^ : ■' ■ 

tirm.. Vá-fe idahi ^ r r. ?^-^'l?',/' 

.. ... Já fei me tóo atna. -, ^ ^^ ^^^^ 
B^iiLk Se vès» qufí^ me mflainmo';i para o 
-" •; . Por iflo. tc-amo. , j^ííí»-, ^ 

AnihosK : E Ce icafo ainda o duvidas jr^*^* T^'^ 
Eftc/o^o to^dirà. ^^'"''-^ 



\ 

\ ie Creta. 4) 

iirmn. Já tenlio entendido , ^5f palavra 

£,/«. ]á t«thô alcançado . • Z,„':^;Z 
lárnm. Que o cego Cupido , ^ p^,-^^ ^g £/; 

fí B/ai. Que o monftro vendado, fu^. e efte pa- 
Ambos, Jbi náo cftá. ^« « py^- 

4Í4Íbe Sãíí^iêlxttgã., 
Siíir. Tambcfh leftc murro tó dirá , défavcrgo- 

nhada , louca , furada do miòUo ; .tu aqui 

untando fó hum Duo. com hum machacází 

Ai mofinos feflenta e trcs annos ! ' . 

Taram. Minha tia , náo íe agafte , que mal fa- 
• bc-o que vai. 
Sâhg. Que vái , nem que vem ? Que fazias 

ahi dando á raramella com eíTe ma^àhO ? 
Tgrâm. Ai que blasfémia ! Não diga tal \<p^^ 

inãl fabe quem alíi èftá. 
JEi/urz. Sempre hei de encontrar com velhas ! 

He bom fidario ! 
Sang^ Pois dize-inè , que honícm hè eíle ? 
Târgm. He huni homem grande ; nói fallare- 

mos ináis it vagar. 
Sang, . Homen) grande he befta de páo ,' e .tu 

és befta em carne, que te deixas engariàirdc 

femelhantes velhacos. 
Bf$$z. Que hé iílo , Taramella i 
Taram. Senhor , he minha tia, que fe Vem 

por aos pés dê voflía Alteza. Tia , faça o 

que lhe digo , que náo fabe a fortuna , que 

nos efpera. á p. 

S4í9g. Senhor , Vofía alteza dè-mc os fcus pés, 
£sfuz. Se vos der o$ meus pés , ficareis com 

Quatro. 



44 Zd^yrint^Q 

^Attg. Senhor , Vofla Alteza releve a mini) 
delatenção , que eu o não conhecia, 

Esfttz* Nád vos cuípo o não cpnhccer-me , qa 
nós 0$ Príncipes não temos fobrefcripto , 
àjnda que o tivera , comp não fabeis ler 
não podíeis foletrar -no alfabeto de minha pej 
foa os caraãeres de minha nobreza : levantai 
vos.: como vos chamais^ 

'Sd^g* Sanguixoga ^ mqu Senhor. 

£sjuz. Sanguixaga ? Não vospeze , que cm cei 
ta parte valereis muito, 

Sang. Iffo são favores que Vofla Alteza me feí 

£sjífz. Pois ficai, vos embora , e dizei a vofl 
íobrinha , que vos partícipe o bem que Jk 
efpera : guardai fegredo , que a vós tambei 
vos caiarei com o meu Embaixador , para qi 

; <a|..yí>pra defcendencia faia á luz. 

'Sang. Ai Senhor , cu já fou quínquagenaria 
^nãp fei fe pdderei caiar. . 

Esfitz. A'jgora j, ainda eftais capaz de romp< 
numas fohs ; e no cafo que vos Teja nece 

, fafia menos idade , eu vos mandarei paíl 
huma ; provisão , para que tenhais fómcn 
quinie annos. f^ai-f 

Sdng. Rapariga ^ que diabo . he iílo i Çonta-mc 

....<jue cftou confufà. 

tíar^m. Serthora ^ aqui não he lugar diflb ; v 

. ,mos para caía , que lá fabqrá.coufas nun 
villas, Fão-j 



SGG 



?, 



' ■ :'\ . • . . 

S C E N A III. 

Cámera. Sabe ^ Fedra. 

Teirâ. r\Epois que no templo ▼! ^o Prín- 
U cicipc Tczeo , nio lei que doce at- 
traâivo fe occulta em fua peíTóa ^ que por 
mais que o dcfvie do penfamcnto , me pc- 
ncira d coração ! Oh , ninguém eftranhe os 
precipícios ide amor , que do mais ifemo peita 
fabe triunfar ! E pois me coníidero âmance , 
bem he que defenda a fua vida 
Sabe Lidoro. 

Udor. ]à que as incríveis finezas de meu ex- 

. tremo lamencão os defprezos de Ariadha -y re- 
correrei ao ultimo artificio de amor , que he 
abrandar o feu defdém com outro deídém ; 
para o que me quero declarar amante de Fe- 
dra. Mas ella aqui eítá. 

RdrOi. Lídoro , que profunda trifteza vos pena- 
liza ? . Por ventura minha^ irmã não merece 
júbilos em voflb coração i 

IJdor^ Bera he verdade , Senhora , que quan- 
do cheguei a efiá Corte de Creta a preten- 
der efpofa tia Regia eftírpe de Mínos , vodo 
Sai por achar ao Principe de Chipre preten- 
endo a voffa belleza , foi precifo por não 
defgoftar ao Príncipe no feu empenho , ícrvir 
cu a Ariadna ; porém como cftc rendjmefito 
era mais hypocriíia da politica ^ que rendimen* 
io de hum verdadeiro culte ^ lempre atdco 

íbv- 



r^ Ldbyrhfbo 

impuro a viclima , e violento o facrafici 

■ porque o mcfmo fufpifo 5 que o incendi; 

era parocífmo , que o anniquilava : e aíBr 

galharda Fedra , fc até aqui vivco opprími 

, a minha inclinação a violências de hum r 
peito , agora que impaciente a rbinha dor , rot 
pe o reverente filcncio , defejâra , não q 
me premiaíleis a minha fineza , mas íini q 
recebeíleis o tributo de minhas adoraçócs- 

Fedra. Cuido , Lidoro , qae o voíTo amor c 
generou em loucura. 

Sabe AriadfíA ao baftidor, 

jtrUd. Verei fe encontro a Tczco. Ma» tq 
eftâ Fedra còm Lidoro : cfperáreí que fé vá 

ZÀdor. Só a vós , galharda Fedra, confagro • 
finos ardores de meu peito. 

Fedra. Ainda que me fora licito acreditar e 
fineza j como toda a Corte íabe , que p 
.. blicamente fervis a Afiadna , fecia ind^cèr 
defatençáo correfponder eu a hum amante 
■vmi4iha irmã . 

Ariai' . Q'je ouço ! Lidoro pertende a Fedrj 
Se eu lhe tivéca amor , . motivo havia pa 

. rcr -zelos. 

. íidor, O moftrar-me algum dia amante de Ari 
dna j^póde fe etncndar com algum pretexto 
razão de eftado , que nos Príncipes he liei 
o variar de intentos j pois jfempiè fc dpa 
a. defaiençáo com o interefíe da Monarqai 
^s cuido que ahi .veio Arladna : cu r 

, lexiro. Senhora 9 para que ycjais que fó 1 

. ..vofla vifta inc elevo^ 

BJ 



tu 
e 



/ 



de Creta. 4j 

EJMidife Lidoro junto ão baftídor\ e fabe 
. Ariadna. 

Jfidd. Agora verá Lidoro fâ fei vingar os 
meus dcfprczos. 

Sabe Tebandro ao bajiidér. »^ 

Tffovirf. Vou receber de Fèdra o uUiitio dcfeti- 
gano. Moa com Ari^dna eftà ; eu me retiro. 

Anâd. Como na monarquia do amor o interef- 
fe fabc dourar defatençóes , pòr cffc motivo 
me animo a.dizei«te , que como lei defdenhas 
ao Príncipe Tebandro , e eu tombem por na- 
tural amiparia aborreço a Lidoro , que tro- 
quemos os amantes , para que na ' mudança 
dos fu jeitos mude também o coração de af- 
feâos. 

Uior. Ah tyranná inimiga , -não fem caufá erao 
os teus dcfvios. 

Tebami. Ariada me Êivorece , tlião fera defacer- 
10 vingar-me de Fedra. 

Ariàd. Só deíTa forte fera dicpfo o n oflb himl^ 
nèo. Fedra , que dizes ? • 

Rdra. Eo não troco aquém adoro pôr nenhum 
outco amance ; pois vi^o tão faci^feita com 
o meu amor , que náo acho outro equívalen- 

. te qoc .o poíla recompenfar. Ai Tczco^ fó 
a ti fc dirigem os mudos fufpíros de meu 

. pcítQ. . : 4p. 

Ttbãftd. Alma-, refpíremos. 

lÂior. Quem vira o feu amor tâo premiado ! 

Jhiãi. Sc :fci defprezas á Tebandro , para que 
affe^s cffe carinho ^ fó para que náo fcnha 
a fonuna de ve-roe cjuerida dclle ? Olha, 
qnc cm Lido f o achãiw melhores finezas. 



^ íabyrindfOf 

I^edra. Porque i]efprezas á qnem \t XJàtmàdk 
jiriad. Porque não fei amar a quem aborrep 
{ÀdQft ]ã me falta o foíTrimento ^ vou-mè at 
ces que me acabe a deíefpcraçáo. ydhf 
Fedrã. Se \\i tiâp- podes amar a quem aboreces 
.f ta nàopoflò aborrecer a quem amo« *^ 

Cmta Fedra ajeguinu - 

..Ária. 

Siueren Jo a quem amo , 
áo bufco mais gloria , 
Não quero outro amor. 
. No bem , que me in6ammo ' ■ 
^.r; Confceue a memoria 

Triunfo mayor. Qifer ir-fi 

Sabe Tebandro. 

TVí^itri. .Crpera conftante Fedra ; deixa qo 

rendido ao bello fimulacro de tua Deidade' 

.. cpnfagrç edorações quem fe acha favorecidc 

dos teus agrados. 
Fedra. Não fei que coufa vos motiva t «d 

rendiíAsnto ? 

T^eband. O ver correfpondída a niinht fineza* 

Fedra. Que quer dizer correfpondída a voila fi 

neza ? Se cu entendera que o meu coraf ã< 

era capaz deíle fentimemo , o arrancara á 

meu peito. " ^ , 

Teband. Parece impróprio eíTc defdem á vai 

da confifsão que agora fizcftes. 
Fcdra. Quando as vozes íe encontrão com' lo 
affeâos, melhor heçrec a cites ^ do que àqaél 
las. raufi. 



de Oetãi 49 

Sabe Lidoro ao bajiidor. 

Uà. Impacicnre em nenhuma parte foce^o. Mas 
que vejo ! Tebandro com Ariadna ? Óbíerva'-. 
rei o fttii intento. 

Tehand. Qoem vio , Ariadna , o feu amor em 
maior confuzâo ! ]k náo quero amar a hu« 
ma ítigrara , que me offende ; e pois feí que 
para o -ceu agrado prefere à minha fortuna 
t de Lidoro , quero feguir as luzes de teu ef- 
plendor , já que propícios allumião a esfera 
de meu peito , e aíRm. ... 

Ariad* Muito me offcndeís neílê vil conceito 
que de mim formais; pois a fer poflivel que. 
t chamma do amor ardeiTe em meu peito , 

' nio ferieis vós a caufa deíTe incêndio ; pois 
naquelle , que me idolatra , fobrão motivos 
para o meu rendimento. Ai Tezeo , fó atua. 
nneza fera premiada. á p, 

Ud. Coração , torna a reviver. 

Tiband. Pois vós mefma náo diíTeíles a Fedra » 
qoe na mudança dos íu jeitos mudatía o co« 
ração de affeâos ? 

Ariad. Se vedes agora contrários c^ts affc6los ^ 
crede aos olhos , e náo aos ouvidos. 

Tebmd. Já fei , que dcfenganado , fó amnrei a 
minha morte. Oh louco amor , que nefcio 
be quem fe fia das tuas inconftancias ! Fai-fe. 
Sabe Lidoro. 
Udor. li (ei , Ariadna, I que não fon tão infe- 
liz como imaginava ; e fuppofto me confi- 
dere fem mentos , para alcançar teus fobeta- 

nos bíWiesj a rua piedade j comi^àtcUa. Ò5) 



5© Labyrinto 

meu tormento ^ já me coroa uitinfante c 

teus repuidos. 
^riad. Lidoro ^ como enfermais de amante, íi 

duvida eíla idca fera delírio da fancaíia. 
Lidor* Parece incpmpaiivel eíTe defvio., e aqu 

la exprefsão ; pois aíHrmaftes que naqu( 

;|Uí vos adorava, ( que jà vè , aue fouci 
obravão motivos para o voíTo rendimento. 

jiriad. Não ha duvida que o meu amor. a 
feíTi rendimentos , e por i(To como rendi 
vive prcfionciro.de hutn defdém , qui he 
que (o triunfa na batalha da voíTa porfia. 

Li dor. Ah tyranna , cruel , inimiga , não 
melhor deixar , que a contingência da forn 
mudafle o teu rigor , c náo com o defen 
no fepultar a viva conftancía da minha fé 

Ariad. Náo , que a voíTa porfia fõ fe defva 
ce com hum total defengano. 

Lidor. já que dcfenganado morro ás violem 
,defle nunca vift> rigor-, náo eítranheis 
delirios da minha magoa nos últimos pci 
do6 da minha vida. 

Canu Lidoro ã figuinte 

Ária. 

Já que eu morro j ó fera Hircana , 
.Sem remédio a teus rigores, 
I mpacicnte , louco , Oimantô , 
' Delirante, 
Com gemidos , e clamores. 
De ti aos Ceos me hei de queixar. 
Amlnha alma, vaga^ errante^ 

N 



IJr Creta. S4 

NSo te âiTt^fteS) quando a vir^s , 
Que por mais que te retires , 
Te ba de Tempre acompanhar. Vai-fe* 
Jrfá<{. Ninguém pretenda violentar a vontade , 
quando vivo ligada ás violências de outro amor«. 
Ai Tezeo , que as noílas vidas ambas íe con« 
íitferao tributarias , fc a tua. ao Minotauro » 
a 'minha ao amor ! 

Sàt Esfuziote com bum papel na mSo ^ e ajoi^ 
Iba. 

ísfitz* Deos vá comigo : Senhora , hum reque^ 
lente da fua vida vem hoje a prentçnder no 
Tribunal de voíTa piedade a renovação demais 
vidas em hum prazo ibreiro á mone , que 
o querem julgar por devoluto ao Minotauro^ 

3n% intenta ler o direito Senhorio defta vi* 
a; c fe Vofla Alteza j Senhora , me alcan- 
ça a fúpervivencia , eu lhe pagarei o foro 
da cotifciencia com o laudemío de mil lou* 
vores. 

Ãriad. Levantai-vos y que he o que quereis i 

hfiêz. Efte murmurial o dirá. 

Ariai. Lede-o vós mefmo. ^. 

Mhz. Pois já que eu fou o pio leitor ^ fejá 
Yoflia Alteza a piedofa ouvinte. 

DECIMA. 

Diz hum pobfê Esfuziote 
Condemnado a não ter vida 
Çhkt certa ifll|f^, atrevida 
l^e quer pregaivKàm calote : 

JDií Qvit 



si Ldhyrihtbo 

Que pois nâo he D. -Quixote ' 
Para acções defta relê ," 
Pede humildemente que , 
^ Antes que morra em taes damnos ^ 

Lhe dem de vida cem án|ios 9 - 
■, E receberá mercê. . i v 

'jiriad. .Supponho que fois a quem o Embaí» 
xador de Atheaas oiferéceo aElRei mea.pai 

Eara completares o numero dos fete do^^tjÇ^ 
mo.. 

JSsfuz. Sim,, Senhora , eu íou o próprio , a queo; 
impropriamente o Emibaixador ,' que o díabc 
o leve, me malfínou a Sua Mageftadè j ^< 
Deos guarde. 

jírtad. Ó Embaixador hSo andou bem. 

£sjuz. Como havia de andar bem , fc elle h 
zambro i pois náo fendo eu nenhum dosfc 
te , fobre queni câhio á forte , como que 
deftà forte trocar a minha force, pois iítbl 
tiáo deve fazer de nenhuma forte ? 

'jiriad. E vós a que. vieftes a Creta ? ^ . 

Esft$z: Vim acompanhando ao Príncipe Téza 

jíriad. Sois feu criado? . ' . , 

£sfuz. Algo mas , fou fèil gentil-hòmem >^è* i 
Vezes em caio de neceflídade íirvo dè c 
mareiro. . . • ' 

jlriad. Na verdade que finto muito a defgraj 
de Tezeo. 

£f/«z. Mais, a fente clle ; porém parece qi 
elle não fente tanto a morte , como outra co< 
fa 3 que di2 tem atravétTada na garganta c 
mo efpinha de caç$o* 

Jriaà. 



ie Oeta. s\ 

Ati^. 4Qae confa {lóde. haver, que finu mais , 
que o morrer ? 

Sj^i^. Segundo o que lhe ouvi dizer hum dia, 

, p^ece que hum menino cego , e nu , pef- 
pegpu.Ihe com Kuma fetta no çoraçáo , que 
o panio de meio a meio ; e cíle golpe 9 por 
Uie xct chegado ao vivo , o tem quafi morto. 

Aiád. IMo que dires , Tezeo, pfidece ornai de 
amor. 

BsfiÊS^ Nâo Senhora ; eu cuido que he mal 
de Áriadna , pois fempre o ouvi queixar : ai 

' Ariadna • que me matafte ; ai Ariadna , que 
me fizeue , e acontecefte ; com que Ariadná 
he p Teu mal , . e não o amor. 

Ariad. Pois dizei a Tezeo , que efla Ariadna. . • 

Fai andando. 

Bsjffz. O que hei de dizer, Senhora^ 

jtiaJ., Mas não , hao lhe digais nada. 

Esfuz. Sim , Senhora , eu lhe direi iflb ; po* 
rém , Senhora , terá defpacho o meu me« 
morial i 

Ariad. Baila feres criado de Tczeo para vos 
apadrinhar. 

Esfiiz. Ora não fe efqueça de fer minha ma* 
drinha nefte negocio. 

Ariad: Ouves tu , dize a Tezeo que não he elle 
fó o que. .^^ mas tião , não digas nada. Lou- 
co amor , não me prôcipitcs, 4. p. Fai-fe. 

Esfuz. Que cafta de recado he efte : Dize a 
Tezeo , não digas nada a Tezeo ; a mim 
me melem íe o nada defta Infanta não he ai- 
guou coufá , e fenão quem viver verá. 

Sa^ 



y4 LabyrinAo 

Sabem TàramelU , e SinguiiU^i; ' 

^arâm. Senhor Tczeo. 

£sfuz. Tá^tà, Taramella, não me diaitt 
Xezeo Canto ás claras y que no Paço àtêl \ 
paredes tem ouvidos ; rraca-me por Esfuziou 
em ordem a maior disfarce. ^ 

Sang. Meu Senhor , efta rapariga teni o mio 
lo muico leve, por iflfo não peza o que diz 
e Vofla Alteza ( perdoe«me ) fez muicò ma 
em communícar-lhe fe^edo de canta &ppo(içã(í 

Esfiêz. Olhe tia. 

Sang. Aí Senhor , eu tia de Vofla Alteza! 
Quem fou eu para tanta dignidade ? 

Esjuz. Náo poflo tírar-lhe o gcáo ^ que por af< 
finidade lhe pertence. " 

Sang. Serei o que Voflía Alteza for fervido. . 

Esjíêz. Mas j tia , cortio hia dizendo , não pu* 
de deijtar de communícar a Taramella t /ni* 
nha regia profapia , que quem ama deveras , 
não fâbe mentir. - ' 

Taram. Pois Senhor , he poílivel que eu de 
criada hei de paflar a Princeza ? 

Esjííz, E não he peior naffar de Princcna a cria' 
da? Pois fabe que delTas monftrofidades fe 
achão nas hiftoriás ; mas com tua licença ha< 
vemos mudar efte nome de Taramella , qUc 
não he decente para huma Princeza de Athe* 
nas , pois taramella he coufa que anda poi 
portas , c não por thronos. 

Sang. Tudo fe fará: mas diga-me , Senhor, 

1'i VolTa Alteza diite ao Embaixador , que eu 
uvía de cafar com élleí 



de Creta. SS 

lsf$ê%. Sim ,.Cm^ já lho infinuci ; e o Embai- 
xador , vendo que era gofto meu efte fati- 
guixugal matrimonio , dilfe gue eftava promp- 
lo ^ com que em o vendo , Falle-lhe na ma« 
teria. , 

Saig* Ui Senhor, pois eu fendo mulher hei 
de fàllar primeiro a hum homem cm xafar l 
Appello eu por mrm ! 

hjuz. Não fe lhe dè diíío , que o tal Embai- 
xador he mefmo acanhado de íi , curto- dos 
nós , e ^vergonhofo. Ao menos tiáo fe* livra- 
rá o Embaixador do Minotauro defta Velha. âp. 

TãTéOn* Tornando ao noíTo intento ,' digo , Se* 
nhor , que já me tomara ver neíiâs Jimpezas , 
para ver fe Fedra , e Ariadna sáo melhores 
do que eu. 

Èsftn. ^ ralvez que çmáo tu as náo queiías 
por tuas criadas. 

Taram.' Efíz mefm^ grandeza me faz defc^fi- 
fiar da fua palavra. 

Sang. Vi^tolla , tu chegas a dizer, que def- 
.ronfias da palavra de hum Príncipe i Senhor, 
releve , que são raparigas , que cuidáo que o 
iMfmO' são ^Ihos quç bugalhos. 

Esjm Já hc coftume nas fcnhoras mulhewsr 
cuidarem que os homens fen^pre as enga- 
não : pois para quç vejas que mais dcprefla 
faltará agiia lio mar-, do que amor tm meu 
peito 5 quero praguôjar-me , que hc o vcída« 
. deiío "juramemo dos amames. 



Can- 



56 lâl^itttbo 

Canta jEsJUzrote afegmníc 
Ária. 

Se cuidas menina , 
Qqc eu feja prejuro , 
Pois olha , eti te juro , 
Hum taio me pana. 
Me abraze bum corifco » 
O diabo me leve i 
JSe eu falfo te for. 
Mas ai 9 Taramella , 
.: Se és linda , fe és bellâ .9 

Terás em meu. peito 
. Seguro o amor. f^Oi-Ji 

Sabe Liças Embaixador. 
Liças. Vifte a Tezeo por aqui í . 
Sang. Ainda agora daqui fe vai. • • . Nio h 
defpeciendo o meu futuro . noivo ! â f 

Liças. Vou a fallar-lhe , que importa. 
Taram. Efperc , Senhor , que rainha tia ten 
que lhe dizer coufa dé importância : falle » tu 
.Sang. Ai rapariga , deixa-me tomar o fôlego 

que eftou embaçada. 
LicAS. Diga depreiTa , que não tenho muito vagai 
Sang. De forte , Senhor, que eu bem fei qu 
• .Aio fou capaz de fer fua criade. 
Llcas. Que mais ? 
Sang. Que mais hei de dizer ? Voffa Senhori 

náo me entende já p que quero dizer ? 
Taram. Ora Senhor , não feja acanhado , qú* 

ííTo he não fer homem. 
Liças^ Que dizem ^ que as não entendo ? 
•vr» S4th. 



^tfi(g. Kão fc^ça.,:(gora moqucnço^, jà fabemot 

quche COTO 4ps43Ós.. . '. . : * 

Tjur^tir. ]^áo,4^fcérO negodo; não feja vêf^^ 

S»hpfp. 
LfC4f • Efiá galante Uíloria ! Que lie p ^ue quci 

rem de tíáv^Í ' 
Sái^. O ,nwaimbnio* . . 

Ucis. Que matrimonio? Que hc íílo ? 
Sâíig, Faça-fe agora de novas. 
Ucas. Defxeni^me, doidas , quê diabo querem} 
Sing. Tiíir/?m»^ Q. matrimonio. ; 
Uus. E&fLs mulheres eftão loucas; vão-fe ]zi^ 
náo me pcrfigão./ ., . Vai-ft. 

[ ^^i\ T^ranL O inatrimomó. Senhor Embaí* 
I xador , matrioionío.. Fâó^fe* 

S Cí Ê N A IV. 

Gabinete. Sabe Tezeo^ 

Tezeo. A Gora acabo de conhecer , que he 

. -/x o amor mais valente , do que a 

. norte , pois quando por inftanres me ícpara 

a faria do Minotauro , vence na minha me* 

n|oría mais a tyrannia do amor ,.. que o ima- 

. einado. eftrago da Tua crueldade. Mas ai , fo* 

Dcrana Ariadna , quanto finto , que a cruel 

Parca corte o vital alente da rninha vida , 

pois qiiizera eternizar a minha fineza a pezác 

da mefma morte í 

Sàbç Tear A. 
hira. Inviílo , c fempre efclarccido Tczeo ; 

eu- 



\ 



'^ LâhyriHÀê 

' CQJo vilor , " dèf)ois de fcr úéonào ''hBo-ii 
Orbe, pafloQ a dominacr ái ftrías áo Cod- 

"to; commovida' a mmha' piedade 'áe-^òètiS: 

^^ generofo alento feja infeliz defpojo doía fc* 

'* ra , intenta falvar a voflà vida. 

Tizeo. Galharda Fcdra , fe tu nas infelicidades 
fou tio . venturofo , dcvò cfiimar á ixiinh 
defliraça. 

Sabe Ariâdnâ ao ba^idor. 

Ariai. Aqui Fedra , e Tezeo i Ai dô mim , 

* aue )á o coração começa a temer! 

Feâra. Para tríunfíirdcs pois dc(fe invencível 
monfiro ^ dar-vos^-heí numa ceitá conféiçSc 
compofta^de tão adívo veneno, que ao mi* 
nimo contaâo do Minotauro fique proílrada s 
fua furía^ fem que vos pofla oíFcnder o feu 
furor. 

Ariad. AquéUa fineza he mais que piedade : z^ 
. los , náo vos declareis , que ainda ipe não con- 
vem moftrar-me amante. ' 

Ttzio. Que recompenfa poderei acha rem mim j 
quepoíla fcr igual a voíTa generofidade ? Ef- 
ca vida. Senhora, de cujos alerttos ft)is tu- 
telar divindade, vereis que como milagre de 
agradecimento a dedicarei nas aras da voflà 
bellôza. 

,:A^tAd. Ah falfo amante , não te quiz^ra agra- 
decido. ' 

fedra. Não quero outra recomipenfâ mais que 
vos lembreis de não fer ingrato a quem, cx« 
põem a fua vida por rcdetóir a vofla. F^J^i 

Ti-: 



fieeo» Qiiem viu cfte amcúrem Âcfâdnft^*, OQ 
' t fiU belleza em FcdcaJ. ...:,<. 

Sabe Ariadnà. 
Ariâi. Príncipe , coriío para a izençio d^ ràúÊ^ 
te iiio baíta íp vencer o Minotauro >, pois 
fempre ficareis prezo no enleio do Labyrín« 
tho, e para que com a. foga completeis e(« 
ÚL ferina , qnero prevtnír o remédio da vot' 
fâ liberdade. 
Tfzeo. Atiadna fem duvida (abe ú intento jSt 
Fedra. á part. Senhora , fe Fedra compaíUva 
da minha defgraça. .. • 
Ariai. Para que me contais o que eu fei ^ 
Tezeo. Foi preaTo , que agtecido.... 
Ariâd. Já fei que agradecido vos moftraftes i 

fua fineza. 
Tizeo. Porém 9 Senhora, nunca o meu amor. • « 
Ariad» Náo tendes que facisfazer-me : não fa- 
beis quanto me agr^adà faber que fois agra- 
decido , nem em vofTa peflba cabiao defat- 
tenções ; e para que também eu o feja na 
vida , que me deftes j quero dar-vos a liber- 
dade ; para o, que arareis na porta do Laby- 
rintho hiim fio , que fendo farol naouelle pe<t 
lago de confuzões-, vos conduzirá -a liberda*! 
de , e cofh elia podereis totnar para Athenas 
vofTa Pátria. 
Tfzeo. Se cuidas que com a liberdade hei de 

Erdervos dos meus olhos, nunca (ah irei do 
by rincho , que ao menos cm Creta náo 
vivó dcftcrrado da vofla vifta. 
Ariad. Pois eq acafo habito no Labyrintho 
Vwa que ncUc me poffais ver í T^- 



c 



6o IjibyrifuBo 

Vewh i^Se Vos . nio encontrar: no Liaibyxi 
de Creta 9 fempre vos. acharei noiah^ri 
do amor. ' ;. . ^ . . 

^Atiáâ. ' Muito' tendes adiantado o voí& p 
mento:;; nao cuideis que como amante 

. i proponha a iiiduftda do fio para a voíi 
í berdade; pois^fó o. faço obrigada ao jura 

4 tor, qur dei de falvar a vofla vida , ag 
cida ã que me deftes. 

Ifosfo. Póís, Afradua , fe o intento de red 
me be fó como agradecida , e não como a 
te , procedo ás iupremas Deidades deíTe 
rano Empirèo » que já não quero mei< 
falvar a vida » e a liberdade ; pois íem a 
teza da vofla eorrefpondencia , nem libere 
nerti vida quero. 

Cmu Tezeô a fegmnte 

A R 1 A« 

Na magoa que ílnto , 
No mal , que padeço , 
A vida aborreço ; 
Que affliâo ^ e confufo y 
Maior laby rincho *. 
Encontro no amor. 

Não temo çffe monftro » 
Que horrivel me éfpera; 
So temo eda fera 
Cruel tyrannia 

De tanto rigor. ^ 

Jriad. Efpera , Tezco » que fe o meu ri 

precipitai a minhj^ fineza te livrara. P 



Ze Cntâ. ét 

• S'CE NA V- ' ■ 
SâU jR^id. Sabe El Rei. ■ ^ 

Sei A; Gora fim, rcfpire dlegre^ o nicir- coU 
-/jL ração , pois qoc hum Príncipe de 
Athenas ne hoje o tributo, do ' Minotauro : 
finta Atfaenas a pena de Talião, que fe aleU 
voíamente confpírou contra a vida de roeu 
-filho * Androgeo , bem he que Creta íe. anne 
vingativa contra Tezeo* 

Dentro. Peguem nelle , peçuem nelle.' . \ 

Esfuz. Senhor , Voffa Mageftade me valha. 

Rei. Que tens? que te fuccedeo í c de quem 
fages ? : ■' ' ' [ 

EsfUT. Fujo de Voffa Mageftade. 

Rei. Se foges de mim, como vens para mim 2* 

Esjuz. Porque fujo de Voíla Mageftade 'jnfti- 
ceira y para Vofla . Mageftade^ commiferame 9 
iujo da juiftiça para regiarme na mifeficordi^* 

Rei. Que te fuccedeo ^ , 

Esfaz. Qae ha de fcr? DerSo em dizer qup 
eu era hum dos fete peccados monae^^.que 
vinha para o inferno do Labyrintho a fec 
comido do bíabo do Minotauro 9 e fem que 
me valeíTe o fagrado de palácio , quizerão 
levarme â força , ô- invito domino , quan- 

. do fci que VoíTa Mageftade náo quer que íe 
force ninguém. 

M. Ainda .que fegunda .0 p^ãeado ^qj[n Athe- 

nas. j 



Lab)lfinAo 

nas , não devera receber menos numero que 
o de íecc mancebos y com xudo efta vez que- 
ro dirpenfar na lei para comcígo a tnftan- 
cias de rainha filha Ariadna y z" quem hoje 
deves a vida. 

'JEsfriz.:liío fabe quanto folgo com.effa non« . 

' cia ^ não por mim 5 que não temo a morte , • 
por não eftar muito conrente da minha vida; ^ 
lenão por quebrar a caftanha na boca a mui« 
ta gente. 

Rei. Porem entendão 09 Achcníenfes, que pa- .' 
ra o anno hão de fer oito os do tributo. 

JEsfuz. Sim 3 Senhor, e fará VoíTa Mageftade 
muito bem ; porém Vofla Magedade lem ef- 
perar para o anno que vem , póde.agori 
' mefmo completar o numero dos fete. 

Jtei De que lórte ? 

£sf(êz. Mandando VoíTa Mageftade que o Em- 
baixador fuppra efta faiu , que como tem 
grande cabe^^a , e muita carne no cachaço > 
rerá o monftro que roer. 

J?W. Os Embiixadores pelo direita das gentes 
gozão de inviolável immunidade. ' 

Esffit: Pois ,* Senhor , em minha confciencit 
acho que fó o Embaixador era capa2 de 
dèfcfnpínhar aquelle lu^ar , que peio feu bom 
modo até com a rtiorte havia de ter bons 
termos. 

£ei. E tu fenâo quizeres ir para- Athenas , po- 
derás ficar em Creta íervirido-me em palácio. 

£sfuz. Aceito o favor de VoíTa Magcftade ; e 
já que cm palácio fico'i tomara ter algum cnv 

ptc* 






4i Creia. íj-^ , 

f^SPi 90c ^ fc me cafaíTe com p g^Rio^ 

que quando a occupação be forçada , a(é 9 

palácio ha galé. 
iri. Elege ta a occupação que queres, igaa| 

à tua esfera. ' ^. 

EsJHz. Gomo /oo refpondão, quízera fer rcpof« 

tcifo. 

TocSo caixas dejiemperaãas. 
Rei Mas aue trifte , e coníufo fom rompe a 

vaga raridade dos ventos í 
Esfiíz. He hum moço que eílá aprendendo .'a 

umbor. 

,^ Sabem JÀdoro , e Tebandro. 
j;W.JLidoro9 e Tebrandfo , que he ífto? 
Lidor. He chegada a occafiãb de fer o FrincN 

p6 Tezeo conduzido ao Labyrintho. 
Ttband. È certamente que o Príncipe não hê 

merecedor -de femelhante infortúnio^ 
fyL Não vps compadeçais de Tezeo , que ai 

fim hc Athcnieníc. 
Esjíiz. Ai pobre Tezeo j tomaras tu fer Es&i^ 

ziote nefta hora. ^ 

Sabe Fedra.,^ 
tedra. Como a Tezeo jà entreguei o- remediot 

da fua vida ., não quero pcrckr os ínftantes 

de vello» d paru 

Sabe Ariadna, 
Ariad. Como Tezeo jà tem o fio , com p qual 

fc ha de livrar do Labyrintho , venho lénl 

fttfto notar a afílícção do feu fentímcnto.. 



-P<- 



S4 £ãbyrintbo 

2 Sabe Licás , e dâ porta diz ^ qaefe fegíte. 

Xicàs. Entre fó Tezeo , e fiqutrt os mais cípa 
; rando aré a ultima rcfolução dclRci. 

ÁeL Eftâo promptos eíTes ínfelFces , pára fercw 
conduzidos ao Labyrintho ? . • 

Xicas. Sim ," Senhor , que nunca fbí itmiflk i 
noffa obediência. . -• 

Sabe Tezeo.' 

ífzeo. Sinto , ó inclyio Rei Minos de GrcaiJ 
que efta acçáo , que parece precifa leP. da 
tributo 3 náo feja voluntatio feudo do mrt 
affeâo., para que mais do que a morte na 
vida 9 tenha império ' a vioncàde ha obediência. 

Esfuz. Aquillo he fazeír da neceflidadê vini^» 

J^ei. Sempre os Athenienfes forJte maisloqõa- 

zes que fieis. Tezeo, o rângTÍ& de.Andibgcò 

I cm purpúreas linguas efta pedindo vingança 

' contra as vodas aleivofías , é aflim não cfpe* 

. reis remédio na vofTa defgraça. 

Xidor. Senhor , VoíTa Magçftade fe compâdfri 

ça de Tezeo , que ai fim ò alenta o regío 

cfplendor de Príncipe. 

7'eband. Adverte , Senhor , que he iftdipia da 

* /Mageftade a tyrannia ; e affim perdoa a Tezeo. 

Jtei. Aqui não obro como Rei , fenáo como 

Juiz. , 

Esfuz. Ea bem fei que fe pcdiíTe a ElRcf 
' jpor Tezeo , que o havia de perdoar , mais liáo 

3íiero dar-lhe'effa confiança. â pàrt. 

ra. Ainda fendo fingida aqueUa 4iumildade 
em Te^eo , he em mim verdadeiro o pczar. ip; 

Ari- 



í ie Creia. ' 6$ 

I AfXàà. Parece realidade o Teu fingimento, à p. 
Uus. Rei y e Senhor , fe o motivo de(Te im- 
placável rigor be o eíparfido fangue de An- 
drogeò , vede que o não refurcicaíjs com a 
morte, de Tezeo ; e mais quando a demen-^ 
cia nos Prjndpcs he attribuio infeparavel dji 
faa grandeza : perdoa , Senhor , a Tezeo , qu6 
ttmbem o perdão he ham generofo modo de 
caftfgar, 
Jfoj. Inútil he o voíTo requerimento. 
^ Tezeo. He definitiva e(Ia fentença? 

iú* £nio ha mais para onde appellar. O' lá; 
leTat a Tezeo » e a efles míferos com|xmbei« 
)é ros ao Labyrincho. , para ferem defpojoa da 
yi Minotauro. 

u Zífái/ Pois fabe, tyranno Rei, que Athenas 
cornara cruel vingança da tua crueldade , re- 
duzindo a Creta á ultima ruina. Vai-fe. 
tou A mim com amea^ ! Se não (oras Embai- 
xador , pagarias cob a vida.ede a(çevimenro« 
EsJ»z. Era l^em feito ^ que ElReí o mandaíTe 
• efquartcjar. ^ . â parte. 
Udou O Embaixador fallou com infolencia. 
Tiband. Sinto ^ Senhor , ver ultrajado o teu 

refpeito. 
Jfeí. Por iffo mefmo fera Tezeo conduzido ao 

Labyríntho , para o Minotauro o devorar. 
^€Z€0* Não cuides , tyranno Monarca , que has 
de, ultrajar o meu decoro , por me confide* 
teres reduzido a efta miferia , pois em qual« 
quer ^ftado fempre fou Tezeo, que fabecei 
vingar 2 mia/m, íajarisí. 



€6 Lãbyrintbà 

Rei. Nâò fabes <jijc és meu priííonciro? Po 

como me tratas com rança foberba , fabend 

que te poffo caftigar ? 
Tezeo. E não fabes , que no meu braço con 

íifte a cuá raitia^ e a minha felicidade? 
£sJui!íi'Máo y mÁo , ifto me vai cheirando 

carolo : queira }upícer que Tezeo náo feç 

* das fuás ! ^ ápátí 
Ariad. Temo , que Tezeo padrça maior Snfefí 

tunio. ' • -.' . ' á pM 

Fedra. Ai de híim, que Tezeo quer defvanece 
. o remédio de fua yidá ! apan 

iMor. Se até aqui - mé compadeci de vós , agon 
' ' cremino a VõSa íobcrba. * 
Teband. A náo eftares tão perco 'da morte , eí 

def|5icarii;> a . Jéíôírtcnçáo da Mag<>íèade. \ 

'JRti. Bafta que ''^'Minotauro me vingue , levaí-a 

■•■•;ií'- '■■ Fai'fe, 

Esfuz. Eu iã<^ 1>e-m me" vou , antes que rne Ia 

* vem pòr erro. Fsi-fe. 
U^ezeo. A\ Ariàdria , qu« por ti reprimo o to 

' • íor de meu peito ! á pdrti 



Oxv* 



'ifc Creta. YJ7 

CantA Tezio: ofogmme Recitado , e depvis can- 
tão as duas Damas ^e os dous Principcs 
jcom /Ttzeo -ã Ária». 

'" R É C I T A;DO, 

Bárbaro Rei , eu vou ao Labyíintho , 

Mas fabc que . não íinlo 

Effa t3iaanna «norte , que me cfpeft ; 

Que a fer poffivcj , dcfcerei á esfera 

Deffe fulfureo', c^ wpido Gocka . ' ^ . , 

E do trifaucc tnonftro a fúria, incito. 

Porque vejão V'iftic;nada me imitóída 

Pecder a cárx vida. 

be curro monftco?» (^ai anxH: ! ) fó temo aicaL^ 

Que cyranno coni^^fa 

Hum veneno, tão forte y 

Que ainda por faror coucede a niorte ; 

Pois com. doce influencia - .- ; 

Faz feja fympaihia b que he violcrcia^ . . ' 

Efte monftro de amor , efta chimera 

Me horroriza , me aííufta , e defcrpera. 

A R 1 A A 5* 

TcTJCO. Não me acovarda á mone , 

Porque he vida 

Efte modo de morrer. 
JLidor, Como intentas deíla forte. 

Sem refpéito 

Hum decoro aflíim perdei \ 



11 



TtJL- 



yo Ldhyrimbo 

com o Embaixador , porque fendo eu Embti* *j 
xacriz , direi ao mar que ronque , e aor rip'. 
que murmure. ' ' ' ii 



j 



Sabem âo bajiidor cada buma péla fua parUf ^ 
Ariadna^ e Fedra , e cadabfma com bth "■ 
ma banda na mSê. 

jiriad. Amor me defcubra meios para o meu 
incenco. Mas alli efiào Taramella , e. Sangue 
XQga \ tomara que me não videm , por me ^ 
tiáo obíer varem os paffos. ^ . ".>.A 3 

Tcira. Que impoauno encontro [ Sanguíaoiga, i 
e Taramella fe me vem com a batida ^ que ■: 
levo , poderão penetrar o meu defigiúo; ef«. 
perarei que fc vão. 

Sang. E que dizes tu , cuidarem todos ent Pa- 
lácio , que o Príncipe Tezeo he morto ^ ^o 
o fendo \ E na verdade que quando ás vezes 
ouço fallar na morte de Tezeo , não poflb fufler 
o rizo. V 

Tâfam. A induftria todavia não foi má. 

jíriad. Aí de mim , que já fe fabe que Te* 
. MO he vivo ! 

Hdra. Ai infeliz , que fabendo-fe jà que Te- 
i zêo não he morto , algum .damno experi* 
. mentarei ! 

IrM^am. Porém não nos dilatemos mais , que 
as Infantas podem procurar por nós. 

«SVfwy. I^3is , rapariga , não ledefcuidcs de bateira 
o mato ^ tu l^em me entendes. 



FaHc 



^ de CnU. ép 

PARTE II. 

S C P N A I. 
OtmerM. Sabem SanguixugA , eTaramelld^ 

5mg. f\\ Aramella , vai-te enfaiando para 

.1 Princeza , toma bem a i lição / 

■*". aprende de Ariadna a fcverídade » 

c de Fedra. o carinho ; que temperar a aípe- 

reiza com afiâgos he 'z verdadeira maxinu 

do reinar. 

J^ion. Bofe 9 tia , que me não canfarei ootn 
iíTo ; porqoe fendo Princeza , quer feja aze» 
da ) quer doce » aíllm me hão de tragar ; po- 
rém fe tal for , que djráõ de mim os mur- 
murado res ^ OUiem a ranhofa , ha deus dias 
roixella, e hoje Senhora de mão beijada ! 

Sáng. E logo te hão de defcozcr a geração; 
e ao fom do villão também eú hei de m à 
baílha , pois não faltará quem diga: que ' feja 
poflivel , que a fobrinha de huma criftalietra 

' nos falle já por vidraças ! Hontem em. chi*" 
chellos , e hoje em berlinda ! ' 

T^Mám. Olhe, ria, por amor deites raios nãck. 

quero thronos. 
Sang. Ai filha , não fc te dê diffo , c^ue tam- 
bém os Reis tem co&sis \ tomaia t>vx caiAX 



7% Labyrindfo 

Taram. Ah tyrannos zelos , qoe me deixais eoof 
a alma a huma banda ! ^ â fárU. 

jirUd. E como cu , pela continuação que tem 
em hir ao Labyrintho comigo ,' já íabes m , 
caminhos , vaí*ce ao ccncro delle , e leva t 
banda a Tczco , para que venha ao faráo et 
ta noite , c Oibcrei agradccer-te como merece 
a tua lealdade. Fãi-fíé 

Taram. Haverá no mundo mulher mais àt^ 
graçadaM Quando eu cuidei que fó fabii 
que Tezeo era vivo , também Ariadna o nki 
ignora ; e demais a mais namorada delle ! Aí 
como remo , que me tire a íortuna ! E fobre 
tudo (azer-me alcovite ira do meu mermoamatt- 
te ! Que farei nefte cafo ? Se não levo o re- 
cado , e a banda , encontro as iras de Aria« 
dna s e fc a levo , atiço mais o feu amor ; 
não fei de que banda me vire. Eu bem 4x1- 
dcra com a raiva dos zelos romper a banda 
em fanicos : Mas não quero fenão cara a ca- 
ra dar-lhe com a Tua ialfidade nos narizes. 

Sabem Fedra com b/ma banda branca na nu$j 
e Sanguixuga. 

Sang. Vai re daqui , Taramclla , que ao depois 
temos muito que fallar. 

Taram. Também cu : vou huma víbora. 

âpan.evai-ft. 

Fédra. Como tenho dito , libertei a Tezeo da 
morte i c para que venha ao faráo cfta noite» 
Icva-Ihc cfta banda branca, Qdá-lbe a banda) 
para>que (aiba , que he o alvo de minhas 

• finczjã^ e por eíla dívífa o pofla conhecer. 

Bem 



Jk Oitd. 7; 

Bem vis 9 que te ^nfticao feaetaría de mea. 
peito j efpero que náo defmereças o con- 
ceito 9 que faço da tua prudência. ]à que o 
fabe y ao menos tenha preceito para o não 
dizer. á pârt. e vái-fe. 

Sdng, E para dízer«nne huma coufa , que eu já 
fiDÍa 9 efteve fazendo mil efcarcéos , coman* 
do-me duzentos juramentos. Porém que farei 
- fut 9SDCa defta banda , pois fe a levo a Te- 
izco^idou armas contra minha fobrinha Ta- 
mnella ? Ai , não permitta Deos que eu íe« 
ja traidor ao m^u fangue , que primeiro cftão 
parentes dq qpp dentes. 

Sabf Tebandro. 

TihmJ. Sanguixuga , não me dirás , porque 
motivo defpreza Fedra tão tepetidos extremos 
do meu amor ^ Por ventura não fei amat 
não fó as perfeições, mas ainda os feus ri* 
gores i Defengana-me já fe aquelle defdem 
invenu a fua. tyrannia , pí;ira apurar a minh^ 
fineza ^ ou para defenganar a minha conf* 
uiicia. 

S0ig. Senhor Tebandro , não fabe que huma 
futura noiva fempre aíFefla rrpudios , defde- 
nba carinhos, inculca ^crueldades , e atropcl- 
la finezas , e no cabo eílá dcfejando , que 
já chegue a hora de fe ver nos braços de feu 
efpofo ? 

Tebâtid. Aqoelíe defdem riáo pode fer appa- 
lente ; e (e me não dás outra certeza de feu 
amor 9 hirrí fentir os feus defvios em Chi- 
pre; para que lá fó finta a memoria ^ e não 
tqui U)das as potencias. Sang. 



74r Láfyrimbo 

SMg. Qoc me 'àaí Voíh Alresu fd Iheler 

- homa cerceza do feo amor ^ -Mas cu não. ](bQ 

- jncereffeira ; agora matarei com hum cajado 

' dons coelhos. . . âparu 

Ttbând. Não .faças ludíbrio de hum defgraçado. 

SáOí^,., He fáo verdadefro- o amor de Fedra y 

qoc te envia efta batida , para que entre oi 

mafcaras te poda conhecer á noite no faráo, 

Tfband. Que dizes i Eu mereço 09'a^adoa:^'de ^ 
Fcdra? . -- ■.■-•"%. ■; 

Sang. SabcDed» o qdc me term cuftado polia | 
cm termos de dar a conhecer ^ fua Indtóa- ■ 
cão : mas VoUa Alteza tudo merece. | 

Twdnã. Acceítá por õraefta joía , como prin- \ 
dpio do níicu a^radedmèhtò. ' ' 

Smh^. Dadivas de Príncipe não fe rejeítSo ; ora 
já tenho prertda que dar áò Embaixador, 
quando caiarmos ; porém Pedra enganada j 
t o Príncipe deÍTánecído túdò lie hum. 

'á part. e vai-/e. 

^tbãnã. Ainda nãopoíTo acreditar a minha ven- 
tura , pofs quando ' á* tea ardente do Hyme- 
fi&o jàqoafi fe extinguia aòs afTopros de hum 
defcngano , vejo qnc torna a incendcr^fe com 
os alentos de bum futpird. Oh ditofo éu , 
que depois dos pezares alcanço** prazeres. 

Ctnu Tehandro a feg/í^nte 

A K 1 A, . 

O tuvegante , 
Que combatido ^ 

^ .... , :.:■ pc 



de Creta. ys^: 

De bama tormenta 
Logo expcrimenca ' 
Quieto o vento 
Tranquillo o., mar* . 

-Coma. eu , nem tanto 
Sd alegra ,: vendo , 

Sue vai crefcendo 
inba ventura , 
£ ^ai ceiTando 
De niéu gemido . 
O fufpiíar. 

, S C E N A 11. 

Lahytimbo. . SaBeTel^Q. 
# 
Ttuo. T^ Sta. he a ultima efiancia' defte in- 
XZi trincado Labyrintho , aonde Dédalo 
fixoD a meta a feus artifícios^ Atarei o fio 
de Ariadna a efta columna , para que meCr- 
>a Áe Norte em o pélago de tanto enleia. 
Qpc admirável edifício ! Que variedade de 
arqujceéhíras ! Que pórticos ! Que mármores ! 
Que colomnas T A<]ui toda a confusão ale- 
gra , c toda a alegria fe confunde ; pois , 
equivoco o horror , e a bclleza , horrorifa . o 
bello , e deleita o horror , que neíle quadro 
■de luzes , e fombras. , -bríiháo af^ fombras , 
e aíTombrão as luz^. .Porém Dédalo , que 
ficou de efperar por n>jm ttefte lugar , fem* 
■jduvida arrependido da palavra ,. jfe quiz apro*, 
ireicar àã awa que ^brio^, 

Seir 



^ Lâhyrhiío 

Sibt Dtàãlo da efcotilba , que eJUrá nd boa 
do Tbeatro. 

i Dedal. Tezeo ^ Dédalo nSo falra ao que pnhi 
mette , pois efcondido ce efperava na. boeu 
defla mina , aue vai ás ribeiras do mar , de 
donde me viáe fahir , quando te encofiticL: 

Tezeo. Vem a meus braços , fiel amigo , e re- 
leva-me o errado conceito, que de et rormcí: 
mas quizera faber como eftando eu no cencfO 
do Labyrintho , não encontro |io Minotauro ! 

Dedal. Ainda o náo folcariao talvez , porque 
o tal monftro vive encerrado em hum íuncC* 
to cárcere , c quando ha viflimf humana de 
fua tyrannia , o foltio , para que enfurecido 
venha por dirigido conduélo a efte lugar j 
que he o campo da batalha do feu fíiror. 

Tezio. Defejo , que já effe monftro feroz ve» 
nha a accometter-me , que a pezar da fíia vo- 
racidade , me verás triunfador. 

Dedal. Eu eflou prompto para ajndartc nefta 
«mpreza , c vè fc queres que difcorramos 
cm alguma induAriofa máqaina para o veii* 
ceres, fcm que perigue a tua vida. 

Tezeo. Se eu o quizera vencer -a meu falvo, 
remrdfo trago comigo , admíniftrado por hu<- 
ma Deidade , com o qual feguramente poflFo 
triunfar ddle monftro ; mas não intento valera 
me de extraordinários remédios , quando no 

^ mfiu braço lenho a defcza da minha vida. 

Dedal. Aí , quanto temo que efta cemeridaJê 
feia a caufa de tua ruína ! 

Te- 



i€ Cretê. 77 

Tezeo. N&o temas , que fetnpre a fonniia foi 
companheira da temeridade. 

. Esfítzioie dentro diz o Jegutnu. 

Esfuz. Em boa efiou mettido ! Ai <\vtt não 
atino CQm a poru ! Vamos por aqui : peior ! 
Vamos por alli : repcíor ! Ai mifero Esfu- 

. ziore 9 que eflás quando nada mettido nai^ 

. pofundas do Labyrintho , e a cada paíTo me 
parece que encontro o Minotauro. 

Tmo., Alli cuido que diíTcião Minotauro» 

Dtdãl. E paflíos também ouvi : fcm duvida já o 
ídnriâo. Tezeo , outra vez te requeiro te 
nio exponhas a tão evidente perigo ; e fe pa- 
(i| ra o vencer tens o favor defla Deidade, (já 
que te não queres valer do meu ) não pere- 
ças como tepierario 9 guarda o teu valor pa* 
ra mais heróica façanha. 
'e| Tfíio. Msíi$ vai morrer , valente , que. viver co- 
barde : retíra-te tu que eu com fubito furor 

: fem mais armas que os meus braços 3 vcn- 
cârei eílk fera. 

Sabe Esfíiziote. 

JEsfuz. Vamos por aqu^ , faia o que fahir. 

EJconde-fe Dédalo : toem-fe Tezeo a traz do 
bafiidorj por ande fabirâ Esfuziotecom ava- 
ra para o povOj e ao fabir^ Tezeo o invéjlt 
repentinamente y e Ima eom elle. 

Tezeo* Morrerás , ó monftro , defpedaçado em , 

meus brados. 
£sfMz. Ai de mini , que cahr nas gui^ dio^^iK&e» 
,£ÊiKaurQ ! Quem rOíe açode ! Tc^ 



78 Lalyrintho 

ÍTVssft). Eflic he Esfuzioce : orâ- maí eíHcn h 
huma fancafía ! ápãfi 

Esfuz. Ai dcfníiíij que m^mtoco a garra çn 
cheio pelo vazío-y-rn me íinco'á\othado\ adi 
fei . fe ne fanguò y' fuor ou outra coofa iMaísn 
fcrior. 

%ATgaTezeê 4 Esfuziote ^ eeftcefiarãcom'ã 
tHaos no rolio.^ 

Tezeo. Esfuziote , não te affuftcs. 

Esfiáz. Ai que o Minotauro já me fabe o 

' nome ! 

Tezeo. Não me refpondes ? Olha- para mim. 

Esftáz. De burro ^iit eu tal dlHe, qúatido rttan 

• pintado o quero ver. 

Tezeo. Que tens , <]ue'*ficafté ímmovcl ! 

Esfíáz. Eu bem fel o que tenho. S6 a voz^ 
elle tem me faz aitiédremar. ' ' áfárU 

Tezeo, Deixa lottcuras : dize-me , quem te itod- 
Xe a<fXabyriniho ?• 

Esfifz. Os meus"'p«:cados vchiaes , que ago» 
são mortaes. ' '* • 

Tezeo. Falia , fcnão te dcfpedaço aqui. 

Esfítz* Senhor , voíTa monftrofidade não me, fi- 
ca per?jUntas , que eftau com a língua pega- 
da ao ceo da boca ; deixcme hir embora em 
corro^ia , antes que o.mçdo dsftemperc eni 
alguma defcorrczi.a ; pois n^p ^e razão quí 
depois de comer hum Prit^cipc., queira en^ha 
o feu bandulho com a carne dura , e m» 
^rá pelhancra de hum lacaio. 

Tezeo, Quem cuidas tu que fou cu ? 
£'s//i^z. Eu bem o fc\; 



rrzro. Poiaf^bp. ^e não fou qui^m ca cuidas» 

Eff«íz. Pois quwn hç > Quj^m rbiS:? 

Ts%€Q. OUú , e , ycràs. . V.. *, 

Eijfii^* Senhor, medo ^ ; Gi>m lí.cença , deíxe-mô 

. abii.r pUc^noe^tç os olhos, Ah que d^ElRet 
qoe he xali^ia. de Tezco..! Ai q«c eftou fei- , 
ID iiom trcmedario! Tiraaniãodosolbos. 

Te%eo. Nefcio: qoe. alaridos, $á9 efles ? -. 

Esjuz* Faiiu£ba', chiméra ., íomhia , illuzão , 
coco , c.papãa,- tjue hç 'o quQ- otc qutics? 

Tezeo. Olha que 4ba Tezeo, . , 

Esfmz. Tanto Jortms^ *f não le cheguei a. mira, 
alma vadia , errante 3 e vagabunda. 

TezeOé Vem - xá vj»o .fujas. 

JVífcf Dedâlo. •: 

2M^/* Esfttzipte :,^ etí aqui ' eftou também 9^ náp 
cuides que Tezeo morrco. 

Tixeo. Graçaà aòs Deofes íçjojfit.aindi cftou vivo* 

Esfitz. Eu bem fei que as almas nunca morrem. 

Tizeo. BaAa que cuidaíle que eu eia nooito.^ 
Ccriamenfcyqueo ceu medo te allucinou.-. 

Esfaz. Eu , Senhor , vendo que te chegavas 

'para mim" ,: qôc havia íuppor j 'fenáo que cia? 
coufa mà; porque, coufá boa nunca para mim 
fe checou ? . .- ■ . ' " r • . 

Tezeo. Coihío te atrevefle a penetrar até oceturo 
do Labyrintho ? Não cuidei que tinha 'vaior 
para tanto.^' • . r -:; 

^jfiiz. Se eu. fora lironjeíro , bem te podia di- 
zer , que quiz vir. acompanfaar-te nas tuas pe- 
nas , para ajucda^ce a matar o .Minotauro : po- 
ràn ^ Senhor y a minha fraqueza \^c xA > 



8o Lâbyrínéo 

qae me não pode deixar mentir ; e fiH\\ 
cafo : Depois que rc rróuxerio para -o ' 
byrincho , como o boi folco lamoe-fe to 
nâo me pezou o pé huma onça , e como', 
de hum pullo entrei por huma porta , ii 
pela outra , anJei , defandci , corri , defcor^j 
ri para dencro , para fora , diqui para alli , 
tté que dei comtigo neftc lu^ar , nefte Labf 
rintho , nefte diabo , que bem efcufado era.1 
que o Senhor Dcdalo tabricafTe eftes enredos i^ 

. mas por donde cada hum pecca , porihi pgàr- 

Dedal. }á'por meu mal me não podo eximkS 
dcíTa ccnfura. 

Tezeo. Ainda te não fei encarecer a árUficiofi!! 
máquina dcfte portento ! • 

Esjfíz. Também o filho da puu ^ que tal fet^ 
merecia as mios cortadas. 

Tezeo. E que novas me dàs de At iadna ? Se» 
te muito a minha aufencia i 

EsfHZ. Muito , e com tanto extremo , que efli 
noite fazem hum faráo por exéquias da tua 
morte. 

Tezeo. Cruel he a Tua condição ! Pois não te 
fallou em mim J 

£sfí4z. Nem fallar niíTo he bom , e mais ago- 
ra que anda hum rum rum em Palácio , que 
Lidoro caía com Ariadna. 

Tezeo. Ai infeliz , que fe eu hei de ter vida 
para ver a Ariadna em poder de Lidoro , uto 
reíiftirei ao Minotauro -, aue antes quero qoe 
a fua fúria me; devore ^ do que o$ zeloa^ me 
defpedacem l 

Et. 



i€ Oeu: ti 

'Ssfitz* Pois ainda o Minotauro cflá ví^o i 
Tezeo. Ainda ; e do feu furor me ngo hei de 
eximir. 
r EsJHz. Btm aviados eftamos ! O Minotauro vi- 
vo, e eu aqui ! Pois com licença , que eu 
^me náo quero minotaurear agora , nem ef* 
perar pela morte aqui a pé quedo ; pois eu 
cuidava , que eftavas vivg , por teres morto 
I * ao Minotauro. 

I Tneo. Aonde has de hir , que o podes encon- 
i< ' irar i Não te acobardes eftando comigo. 
f Esffiz. Por ventura Voíía Alteza he alguma 
i' coura danta , ou faia de malha , que me fa- 
\ ' ça impenetrável aos dentes minotaurinos ! E 
quando allim feja , fe quizermos furrar-lhe a 
i volta j t fugir , como nos havemos efcafeder 
daqui fora , fe em cada paffò encontramos 
' mil barafundas , e circumloquios ? 

Dedal. Mais hcil fera matar ao Minotauro , que 
atinar com os^ caminhos intrincados do Laby- 
rintho. 
Te%eo. De hum , c outro me verás viíloriofo. 
Esfiiz. A mim também não me cheira. 
Tczeo. Para que o faibas > attende. 

Omu Tezeo a feguinte Arid\ e 

RECITADO. 

Nunca piedofo o Ceb á hum dcfgraçado 
Negou favores de hum. dicofo aufpicio^ 
Pois com antícipadas influencias , 
Antídotos prevenio a meus pezarcs , 
Dando-me Fedra a indúftria peregrina 
7é;m. /Á E tio 



94 JUhyrinM 

, i^ttera valer-ttae decí panít (Hitm emprc 

ior , que a do Minocauro.;. ' . ; 
Esjuz. Senhor, fc cu não pude com. a: 

como hei de/^poder com a maior ^ 
Tyzeo, Píi^ comniunjcar-me com Aríadi 

reco que amor te candt^zio a efte L 

lho. , 
J)eilal. Pízadas ouço , parece que vem 
Esfuz. Senhor, não fera licico que te 

pois todos te julgâo morto. r, 

TVz^o.: Dizes bem:. Dçdalo , aonde nos 

deremo5 ? : • » 

DedaL^ No concavo defta diáfana colur 

hum pequeno , c limitado gabinete , 

muito apenas cabem; duas peíloas , n 

nos poderemos efconder. 
Te%eo, Pois vamos deprcíTa. , que o ru 

vem perto. 
Xsfíáz. Efcondão-fe cobardes , que eu fc 

clcei aos Minotauros. 

Efcondem-fe Dédalo , e Tezeo atr/tz 
Imna , que ba no meio do Labyrmtho , 
"faramella com buma banda azul na mii 
Taram. Quero obedecer a Ariadna , í 

invrftigar os meus zelos : mas entre 

enleio aonde acharei a; Teico ? 
Esfuz. Ay que he Taramclla em carne 

me vem bufcar em oflTp de çprrcr ! 

duvida que a induí^ria de fazer-me Pi 

a tem feico andar numa dobadoura. 
Tjíranu Mas clle ahi cfld : ah fementido 
Y cipc ^ já vejo. que hc c^tu ^vvia fal 



<fc Crtta. ^ 89 

Isfmí. TarameU^ , já feí què o lâbyríntho 
da caa faudade te trouxe por teu pé a efte , 
aonde por ri duas vezes áiè confidero per- 
dido. 

ráfâm. Para que he llfongeiro ! Logo me pa- 
receo , que o feu amor era fingido, $e adora 
a A^íadna , para que me engana ? E. fe ella 
o buíca , para que me perfegue ? 

Tezeo. Que he o que ouço ? á p. 

Esfaz. Menina ^ iífo são tramóias de tua tia ^ 
por ver fe nellas efcorrega o arlequim de 
•meu amor. 

Tiram. Ainda, (e atreve a negar , que adora a 
Aríadna ? 

Eif«3f« Eu a Aríadna? Apello ^u! He mulher 
que nunca me cahio em graça. 

Tirsm^ Sim, que Ariadna havia dç fazer ex* 
Gdlbs por quem a nao rèqucftafle primeiro 
muito bem. 

Esfifz. Se ella para querer-me achou motivoí- 
na minha gentilomeza , que* culpa tenho eu ? 

Tezeo. Que enigma fera efte de Esfuziote com 
efta moça. Á partm 

Tâfâm. Bem fei que ella he huma Princeza, 
e eu huma criada ^ mas tenho a confol.içao , 
que cu o nao roguei- para que mequizeíle. . 

Isjuz. TaramelU , não venhas a arengar : tan- 
to fc me dá a mim dâ Ariadnas , corno da 
lama da rua* Tu cuidas que eu faço cafo 
de Princézas ? he engano; pois mais me re- 
gala huma fregcina defenxovalhada , que os 
mclíodres/e fil^r4rla» de huma Ptlticez^. 

Ta* 



S6 Ldhyrintbo 

T^rant' Nada dífío me entra cá ^ pois êu coiihc 
, -ÇP ^ génio ide Ariadna , e íci , que fcm. i 
[nfequeftar lhe t)ãò havia, mandar eila bãn4a. 

para com cila hir ao íario , que fe faz em Pa* 

lacio efta nõíce. . Dáabandá, 

Tezeo. Tomara jà faber <]ue banda feiá çifa 

de Ariadna! ijMft. 

Esfuz. Pois Ariadna manda-me efta banda} Dar* 

^.feha cafò que me namore, fcm cu o faberi 

^Arm^ Não fc faça de novas ; e para que spt 

. ja , que a mim me não engana > vá , và ao 

faráo , oafe com Afiadna , que cu me vjn- 
; gareí em pedir juftiça ao Ceo. contra hum 

falfo enganador, Juftiça! juftiça! VdUfu 

Xsftêz. Efpcrt 9 TarameUa, não fechei ^.0/9, 

à minha innocencia, ''[i^..r 

■ ' *fí 
Sabem Tezeo , e Dédalo. "' V' 

Tezeo. Larga cfTa banda, infolente. 
Eiffiz. J?QX todas as bandas me vejo combatido i 
ahí eftá a banda. Dâ d bãniá* 

TíZf 0.. Que dizia, de Ariadna eíía mulher? 
Èsjiiz., Foi galante caio! Supponho que cm 
tendeo que eu era Tezco peio circunfpeão 
, da minha perfonagem , e da parte da Senhora 
Ariadna dco-mc efta banda, para que colfl 
cija foíTe ao faráo , que íc faz efta noicfl 
: em Palácio^ 
Tezeo. Ailim fera ; porém fe cuidava que ia 
eras Tezeo , como te dava ciúmes , c indi- 
gnada comra ti foi pedindo juftiça. 
<£f/^/^. Ião mcfmo çÍUnii tvi ^»^ vs^çiccgania 



tfe Creta* 87 

agora. Dar-fç-ha cafo , Senhpc , que Vofla 
Alceza aigum dia bichancreafTc eíla criada? 

Tezeo, ÈRis louco? Mas cu para que lhe davas 

• fatisfações í 

Esfuzi Porque entendendo , que Vofla Alteza 
tinha tinha de amor cora efla rabujenca. cria- 
da » não quiz deixafle de comer por mal co- 
zinhado ; e aíEni lhe fui refpondcndo a tro-. 
xc moxe. 

Tezeo. Não te quero apurar mt\s pQr ora ; e 
pois eftiv he a pfimçira fortuna ,. que amor 

* me facilita , vamos , Dédalo, a procurar 
ipafcara , que quero hir ao faráo , que com- 
cila de ninguém fcrei conhecido , e fó de' 

%fiÂÍzàn3í ^pàsi divifa defta banda. 

j^|ir2» Giribanda me parece ifto : oh queira Ju- 
-píer ) qôe^ neíTa dança não haja algum con« 
'trtitèmpo da "fortuna. 

Tíieo. Vamos , ^^So nos dilatemos. 

Dedal. Sempre fkerei temendo não fe te que-^ 
bre ò fio, e te percas no Labyrimhò. 

Tezeo f Quem eom favores me alenta , ta^nbcm 
com cautelas me defende déíTe cuidado. Fai-fe^^ 



■ .* / 



^C^- 



88 LAhyrintbê 

S C E N A III. 

Sdld , f huma cadeira. Sahetn Tebaniro tem • 
mafiara cabida , e Lidoro fem cila , e depois I 
põem Tebandro a mafcara ^ e no fim fe cQf' \ 
rerá a corrediça do meio , e apparecerá toià 
. a Sala , em atéc haverá buma meza compof" 
ta em Jdrma de banquete. 

Tehand. t IJoro , vós fem mafcâra , quan- 
jLá do codos já vimos caminhando a 
efte lugftr do farào ! 

Lidor. Deixa*mc , Tebandro , voar nas azasda^ 
minhas penas aos incultos defcrtos da Lybif^j^^ 
aonde não ha)ão ipemorías defte infeliz. ''•':!í^i 

Teband. Não derprezeis efta occafiáo em qM. 
as Infantas cambem danção , para que no coti»,^ 
taélo de tanta neve podais mitigar os incto*' 
dios do voíTo ardor. 

Lidor. Náo quero merecer ao rebuço da maf- 
.cara^ o que fem ella não alcanço. 

Teband. Também eu vivia na mefma defefpc- 
raçáo; porém Fedra compadecida dos golpes , 
que a fetta de amor fulminou em meu co* 
ração , para ligar as feridas ' me enviou efta 
banda. 

Lidor. Goza tu , ó Tebandro , effa fortuna y 
pois fofte mais feliz.no teu amor i que eii 
defenganado , por não morrer muitas vezes , 
hirei morrer huma fó. F/U-fe. 



ie Creta. 8p 

f^ fahitiAf Jriadna , Fedra , Sanguixugd , e 

Taramdíâ com mafiarilhasy põem Tehafidro 

d fuã i fahc ElRei fem ella^ que fe ^ffeti- 

' tara ; é em quanto vão fabindo , cantar-^fe- 

ba o feguinu. 

CO RO. 
Numa- alma ínflammada 
De amor abrazada 
Crael labyrimho 
^ ? . F^ibriça o An)or. 

P^rcin <jwern efpôra 
O bem de huma fera;. 
Acertos de hum cego , . 

De bum monttro favor ? í 
lefi. He tal o prazer , que tenho de ver viti« 
piéz a morte de Androgeo com a de Tezeo, 
. qoe não cabendo cm meu coração , o inten* 

to publicar nefta exterior alegria. 
Feira. ]á alli divifo a Tezeo pela fenha da ban* 
. da branca ; defejára me tíraíle* a dançar, a fm 
Afiad: Ainda não vejo a Tezeo aqui ; fení du- 
vida fe quebraria o fio no Labyrintho. Oh 
quantos íuftos padece quem ama ! á partm' 
Sáng. Quem pudera conhecer ao Embaixador , 
que ò havia de facar a «paííeio;. â part. 

Taram. Se Tezeo me feffe amante leal , para 
bem não havia de vfr ao faráo. ÁpíMé^ 

Sabe Tezeo com mafcara. ' 
Tezeo. A bom tempo chego : quem pudera co* 

nhecer a Ariadna ! ^part»,, 

Ariad. AUi vejo Tezeo ; jà defcan^rá o: meu* 
CQía<^ío« ;n,*- > . íiJ^tw^ 



90 Labyrinãío 

Taram. Aquellc da banda azul he Itezea , tfàí 
ÍG.ai ella o não conhecera , « fXMs tão g^ 

- Ihardimentc fc foube disfarçar , cenot^ãoQl^ 
, mem males, " ápdnl: 

Sabe Esfuziote commâfiara nudto horrenda. 

Esfíáz. Só agora <]uc tapo o rofto» he que te- 
nho cara de apparecer. Queira Dros me não 
perca nas voltas de Andreza. 

Smg. Ai que galante mafcara entrou agora ! 

£ei. Dè principio ao faráo a cahofa armonia 
dos inftrumentos. 

Teband. Seja eu o primeiro ^ que na ordem do 
amor devo preferir a todos. Aquella fem da* 
vida he Fedlra ; dançarei com ella. 

iipáf^; Fortuna foi oconheceZ-me Tezeo. 4fc 

J'ebétnd. Galharda Ninfíi, apcrmltcida faculdade 

.. dcfta occafiãofeja o indulto defte atrevimento. 

fèdra. Se a òccaíião o permitte , hão pôde a 

-/vontade deixar de obedecer. 

•'. fim^ão , e cantão os doas o fegninte 

V ' MINUETE. 
Xtband. Inda não creio. 
O bem que gozo: 
Serei ditofo • 
r . .No meu amar? 
FMr4*ys Eftss as voltas 
São -.da- fortuna : 
...- Sorte opportuna... 
.*», . . Amor te dá. ' * 

%tkAni. Serás-jámante í 
FfiAféê.. Serás confiante í •■ \ ••- 

-4^. „■ Atfí" 



4f Creta. ^t 

Ambos. Efta conftancia 

Firme fcrá. . • '; 

Fedra. ' A' manhã á nohe re' èfpero na falados 

cn^nos do Labyrintho. .- á part. para Teb. 

Tibãtíd. Amor , tanta fortuna junta , temo me 

- mate t>^gtífto rde pofluillas, â partia 

J?//. Qoeirt dâtiço.u com Fedra 'J fem duvida foi 

V Tebandr^ ; e o fez galhardamente. ã' part» 

Fa^ Atladna acenos para/Tezeo.. 

Tezeo. Aguèlla por acenos mecliz atire a dan- 
çar ; iem dúvida he Ariadna , que me co- 
nheceo peU banda. OK que, yagaroibs são os 

BlTos de hum^ acelerado dçfejo ! . Formofa 
infa , para que me não perca no labyrií^tjio 
da datrça , permitti que o norte de ,vo(Tas 
luzes' ícja o índice de, meus acertos. 

a wart, para Ariãd. 

Jriaá. Bem he que aprendais acertos, iiefte 

Labyrintho, para que.no de amor não. vos 

percais. â part. para Tezeo. 

Dan^ão , e cantão os dons ofegairtte 

MINUETE. 

Tczeo. Na pura neve 

De teus candores - • '- 

^ Os meus ardores . » 

Se ateão mais. \ . , 

Ariad. Se eíTa ventura 

Feliz alcanças , , 

Neffas mudanças 

Temo o meu mal» „ 



^t LabyrinAo 

Tezeo. Serás amante l ' ■ \ ^ 

jíridd. Serás conftamc } - , 

AmbQS. Efta cónftancia 
Firme fcrL 

Ariãã. Na Sala dos enganos erpert^me á mi- 
nha a cftas boras. â fsn. psrd Tezetu 

Tizeo. Ao mea defcjo , e ao cea preceito obe- 
decerei. 

Réi. O que dançou agora com Ariadna , feria 
Lídoro. Quem me dera ver já concluídas cf- 
tas ditofas núpcias ápâr$. 

Esfuz. Aquella das ancas roliças he Taramella ^ 

- e ainda 'que o não fcja , como imaginauo 
facit caufam , fupponho que he ella ; e já 
que hs menina do açafate , dançarei*com el- 

,1a huma gi^a. Senhora mafcarada, aqui to- 

] .dos fomos huns , erga o rabete , e vamos 

■ dançando. 

Taram. Bsm condizem as palavras com o gef» 

•4o ; tenho entendido , que em tudo he ridiculo. 

£sjr4z.^ Elh he fem duvida , que agora a co- 
nheço melhor pelo faHb metal da voz : ora 
cmiriccmo-nos em forma dançatriz. 

A R I A A D U..Q 

Em forma de MitiítetCi ' 

Esjuz. Tnda que ^afte 

Duzentas folas , ' 

Mil cabriolas / 

Por ti farei. 

Tí^m. Ai que bichakcro ! ' - - ^ 



Qoediòrrétida ctra! 
Qaem lhe cafcàra . 

Ham cambapc. Faz Es}, que trope^aé 
ÈsfíÊZ. Dá4iic effamão. 

Para me trgact. 
Taram. Vá-fc dahi , 

Quem hc voflc í 
Esfãtz» SoD qoem por ti 
JVIQ cabriolas. 
Juncas farei -, 
Qú6te$?m verj 
Ora lá vai, 9 
; Huma» duas , e três , e quatro , e crtW 
cx>, e feís. Em pulos. 

Ambos. Mui buliçofo 
Tens eíle pé ! 
.RtU 3afb «.dêmos por acabado o* faráo. Olá ;^ 
preptrem-fe as mezás , pois quero banqueceac. 
cfta noite aos Prmcipes* 
Taram. Vámo*nos , tia « que os Príncipes que- 
rem caar. Ah ialfo Tezeo , txx me vingarei 
de li. âfart. tvai-Jç. 

JW»;. E qqfc fc pãflâíTe a noite fem haver .himi* 
Enibajyador 9 que comigo dançaíTe , para mof- 
uar, as minhas habilidades ! Paciência , vamos 
tt codcar. . âpart. evai-fe.: 

Coru-ft, a corrediça do meio , appereee buma. 
meza^ e tirão todos as mafcaras ^excepto 
• r Tezeo , e Tebandro. 
Rei. Prjncípeá , tirai as mafcaras , que não há« 

veis de comer com ellas. 
Ttuo. UReu pcsáido,, & ElRei ttxTWi^ «tw 



f6 La^mha 

eu ainda «gora entro- , fem que em ' ncfthiid 
tempo foflc inobediente a ceu preceito í 

Tird a mêjcsrái 

Jírí. 'He boa dcfculpa efta , Lidoro \ querá 

. contradizer hnma occular evidencia. 

Lidor. Hum Príncipe de Epyro não fabe mcn* 
cir j e para que me acredites , pergunu-o a 
elTes Soldados , que comigo vierão. 

Sold. I. Aflim he, Senhor, que oPríneipeLi* 
doro comnofco entrou. • '. 

Esjw- Jíío eilá muito bem y mas o caldd eda* 
rà de neve. âpãrU 

jfiriêd. Eftímo que foíTe Lídoro o culpado, â p. 

Rei. Lidero , eu creio o que ' me di?eis ; po^ 
. rém deixai que creia também aos meus olbos j 

. que virão hum mafcara dançar cora Âriadna 
a quem mandei fe dcfcobriíTe , cuja dcfobedi- 
encia foi tal , que para íéu caftigo me obri- 
gou a chamar a cfies Soldados de mínhi 

. guarda. 

Xfdor. Pois, Senhor, eu não dancei com Aria« 

dna , que a minha fortuna fcmpre- advcría 

. me privou deflfc bem, por náo querer confe- 

r guir favores no disfarce Je quem ha realida- 

. de me defprcza ; e affim pcço-te , me dès K- 

• cença para rctirar^me : á minha Corte , que 
como Ha em Palácio quem dance com Aria<' 
dna , e ha nelKt rqjudios , xjue -me defcn- 
ganão , baftante motivo parece qUe abona 
o meu ;eriro. • ',- Qfierir-fe. 

Rei. Náo vos aufenceis ,. Lidoro ,• levando hum 
efcrupulo cão indecente ao meu decoro. Eu 



vos ptomieita Averiguar quem £>i o que djn- 
çou com Ariadna » para o <}ue empenho, a 
mrnhâ Real .palavia^ ^ ^ . . , 

^sjuz. lílo aflim íeíá -^ pqrcm â fopa esfriata eft. 

jiriad* Lidoro , Te pelos meus defvios vos au- 
famais , digo .qDô tendes fa^áo ; porém fcm\ 
prç apda,ftes . defcomcdído em dizer , que ha 
cm Palácio <)uem dance comido ; quando r>áo 
pode haver tao atrevido peníamento , que ^n- 
rentaifre com o dilíihiulo do disfarce aprovci- 

■ tac-fe do contado* da min}ia mão \ pois fó 
com a pcrmitcjda faculdade d'ElReí . ^omm^t* 
terias , com efle indulto , ,eííe delicio. ,; ^ 

tidor. De táo.^i^fo criçie defejàra fer; o cul« 
pado. ..-■,»... ■ -.•.■! 

Esfifz. . Sienhprcs , guardem iffo pata fobrc me- 
., za , pois . naquelia . ba'by]onla dê paios não faN 
tio lingqas para, deslindar eííe novo càfo da 
confcicndia. . . ^ 

Mei. Eu confc0o, qi^e eftou perplexo, e ainda 
não poíTb crer que não dançaftea çpm Ariadna. 

ÍÍ4or^ ^cm ao menos .^^elo veíf:ido pudefteâ 
. diftino;nír .fe me paricia eu com efle m afeara,,; 
<juc dançou ? i 

i^ff • . Cpnio já os anrios me vão privando da 

Crfpicacia tio mell>or fcntido^ não fiz apre-* 
nfão,.. no veí^ido ^ diga-p Ariadna, e Te? 
handro. , 

Tthand. Não ha duvida , 4\\xt o vcflido era díf-^ 

■fcremcra efte de Lidoro. ^; 

Ariúd. Pois a meo-. ver nenhuma difFercnça u- 
nha iy c para que JLidçro f o çio ílVi^n^ raw 



p8 Labyrintbú 

minha presença a proferir tão mau3f tá? offén- 
ías , Voffá MígeftaJc me pcrmitta licença, 
pois que nâo potTo caftij^ar o feu arrevimen- 
CO , ao menos me retire de ouvir tão loucas 
palavras. f^ahfe.^ 

£sfíiz* Ora ifto já fenão pode aturar; eu não 
iiei de fer Tanralo , ainJa que cfteja no In- 
ferno ; vaihão^mé as minhas ràpames habili- 
dades, que com a dífputafínha em nada rè« 
paráo a eftas horas, • 

Sfcende-fe Esfuziote debaixo da: meza , é^i 
ijtiândè em quando deita a mÍo em b»m pratto^ 

JUfi. O cafo cftá duvidofo. 

Esjtiz. Por iíTo vou commerirando. Deitt a mão. 

Hei, Liíjoro , defcançai , que vos promçtto ave- 

" ftguar quem foi , o que dançou com Ariâ* 
dna; pois a não fcreá vós, como dizeis', c 
não vermos retirar-fe o ouiro , que fe ftip- 
póem , náo fei quem pofla fer j falvo /e fof 
o vivo morto , que' o Oráculo prediíTe paW' 
total extinção do Minotauro. Vai-fe.^ 

Esftíz. Iffo dizem todos á boca cheia. Comendo* 

Teband. Vou confufo , fem faber , porque cau- 

,fa me diria Fedra , que me não dércobrifTe. 

; á parte evai^fev 

Lidor. Quem vio maior confusão ! '* 

Esfaz. Pergunte-mo a mim' , que eo porei ifto 
çm pratos limpos, j^ á partm 

Ltdor. ^Que enleio lerá efte ? Tudo em Creta 

são labyrinthos , e enigmas I Pois aíRrmaf EI- 

* Rei , que eu dancei com Ariadna ', quando 

yínha para cfle cffeico , c o que mais he , 

tá» 



éeCreÍâ.\ pp 

bSo àppafecer , ocmifaber-fe quem com eila 
dançou > não (ei o que prâfumo ! 
EsjHZh O fupino de prefumovhe o frefunto , e 
eftc que não hc mád! aparte» 

Lidor. Frefurnir cm Ariadna , que admitte ou- 
tro amante , hc defacorto , por nâo hav<fr em 
^Ocff fiquem ji mereça : .cu , vacilante no 
' Oceano tempc{{uoTo de tanta confusão , náo 

fel dífcernir o* "que feri ifto.' 
Bsfifí&. He chouriço , que fabe como gaitas, ápí 
ÂMáon Oh nunca caprichara em nâo vir ao bai- 
le ;- que fe a tempo chegaílc, nunca haveria 
quem tanta fortuna confeguíra ! Oh que tor« 
.mcnro me. penetra o intimo do coração , pois 
em tanra duvida não polTa defcífrar a caufa 
lét minhas penas! 

EsfiÊZ. Na verdade , que ifto he hum bocado , 

' que fe não pôde tragar : valha o diabo ao 

cofinhciro ^ que deixou o gallo com efporões. 

í.'f:'í . . , ' ■ . ■ y 

JSepiU Lidoro o feguinte 

SONETO. p : 

'.•■•.■•■■ 
Se 4fte mal y que padeço , hei de moftrallo^ 
JPerifrazis não acho a definillo,. 
•Arír. quando dentro d'alma fei fencHIo , 
B^ribociente be'ó gemido a decfarallo: 
Por mais que intento em vozes dcfcrifrallo i 
Me (uffbca o pezar aa pròierillo , 
.Fois contém efte mal hum tal {Ig^vWo ^ 
j Qat parece hc deliéh - o publicilio ; 

G ii %í^ 



456648 



:í 



100 iMbyrinth 

Sa o tormentor,"^ que ii^alma fe reftmse i ^ c-^-i- 

Refidc inexplicável cá no^umcmo •:• -í 
' Do pcito^ donde finto huni vivo lume : ^ 
Somente caberá feu mal eterno, '--i 

Ou na língua do fogo. do ciúme , ' .' »«. 
. Ou na boca voraz da mefmo inf cxno. i> 

Esfiêz. Já q deu ò xnote , cá vai a gfoTa. 

Jí4be Tdramella. 

7irr/fw.. Já que o falfo Tezeo cçrrefpondc*a.AiJá*. 
. dna , pois com a banda ,. quer. lhe dei en[i<~£d. 
^..nome , veio ao- faráo , e com elia donçèa 
. com notório defprezo de minha polToa', que 
.efpero , que me não vingo, eftorvando 09 in* 
tento? do feu amor? • ^.) ' r.tj 

£sftiz. Là vem Tarameíia , ft me não engano: 
, e como vem còmifinha ! . ' l 

Taram. Senhor Lidoro tão fó por aqui a eflts 
. horas ? ]á me não perguma por Ariadna i j 
Lidor. Já fe acabou eíTe cuidado , que como 
Ariadna tem quem dance còrn cila ,\nâo he mui- 
to que encontre mudanças na minha fonuna* 
Taram. Tem muita razão VòíTa.Aheza , c mui- 
to mais dançando com quem dançou. 
Esjíiz. Temos ò caldo entornado r que aitncfr^í 
ça he capaz , como eu aqui faço , de -dhc 
com a lingua nos dentes. : ápâlu 

Lidor. Pois , Tararaella , tu fabes quem daiúçàa 
com Ariadna ? "..;.■ •.?. : ■ ' 

Taram. Se guardas frgredo , cu ro direi. ZelMj 
he rcmpo de dcrramir já tanto veneno, ápm 
JEsJuz. Fcjáo lá, fcaftvti com^ xn^iR-vx ^telir 



sÍ2L'^mb Lãby4rÍQth^3 íe z déSê á Vtzco^ qutf 
tal Teria ? .>.. ., -i •. : ! " 

Lidor, Di>c-tno', ; T^icaibcllari: xr para que vçjaf 

/o meu a^raJecímcnto , ahí rcn.s neíU jom o 
. ahtlapadò -rptómio :.yo itièia affiífto. D2 a joiâí 

Tiáram. Ai Senhot, ^para, mim nà6 ha mais jóia , 
que o fcu bom modo , ecorteziji; íjue o mo- 

-'do, com .iqut /e .dá , aogmenca/ o valox dà 
dadiva. 

£f/í»25- Porcm^ /cmpr© lambeíido. . . áparí. 

jjdor. Dklc ,, não tenhas pejo. 

Èttfuz. 'Eu cuido , que^ eil^ ef^i^pejada « póls 
a vejo efn ternríçs . de vomiiir. ^ ^ã parte. 

Taram. Vic;ie náo tenha Ariàda ^ .qne fe nriç 

* ácHa 'fallando com Vdíli Alieza fó por fó -, 
me nutarà certamente ; pois diz , que hèm 
CGafa fua quer qde com Vorfa Alreza falle: 

Lidor, Podes dizer , que ella náo vem agora,.. 

Taram. Pois , Senhor , faberá , que quem dati* 
çoa com Áríadtia. ... ai Senhor , veja pof 
lua vida não venha cila. 

Lidor. Dize quç.nâo vem j pois quem foi ? 

TarajiL Foi Tezeo. 

Lidor. Tezeo? Que dizcíí > Como póJe fer, fe 
clle morreo no Labyrintho í Vai-ce , c dcixa- 
mc com cflT.is quimeras. ". , 

Êsfaz. A mulher hc capaz de idefchterrar mor- 
tos. 

Taram. Senhor Lidoro , Tezeo hao morreo : 
Ariadna fe correfponde com élle , e veio ao 
baile , e por íinal. ... • - 

Udor. Eíperã. que a/iívcní Athà^ ?í^x ^o>\^V 
ã ídla. • Ta- 



vè ! Efconda-mc em, algures. : c^. :i .' ? 
£|/ivz, ficttt haja ^ia4|v«<}Tquc 'veio'; notltea t 

!^ ^pc.-dífã; ■• ; ^ xuk .*.<:;.,;.■":;;.■; ' j ^ 
Xírfcr» Em qiianibr, efliphpaflíãi^^ef^ 
,:xo da''qiidhf.'meÍ8i;£Tme«<^'ráa^ 

latmtu- Pi)is.vai*é(|t:icéondo\ e«y!fe4De 4<^ 
do íc vai, . . • ■- r.f. 

Ss^s^z. Anda panii» ,'' que eojreiJergiintyrcI,;:::^^^^ 
£jçonde-fe Taramell^ debâlw W^mézái ^ dà9Í 

.-,1 • •' ■■*!.<.*• '* ' .' rt"t 

Tfirm. Ain^a cftot^YIJímpin^a 4c fe^ 

íí/iz. ' A^wi jfe ,ç«êió cilas,, velhaca , embõl 
" fieira. '."' ■■"';^-, ". 

X^ram. Aí , quê nao fri quem aqui efti ! 
^j/i^^. Cala-íc ,.inarâfona. ' 
Taram. Ahv que *d'ElReí , acuda-me Senhor Ía 
Hofo ; acudarine Vofla Alteia. Cabe d mezá 
Bsftêz. Antes que té vejáò , Esfuztoce , vai-i 
, esfgziandQ, , ". . P^ai-fi 

J^idcr. Quem vai ahi í Qnem he , Tarainêlta 
Taram. Elle afii vai , veja fe eu fallo verda<i|^ 
Udor. tíci -cmieju fíguimcnto^ Qyer i/vjp 

Sabe yltiadna. \., • 

jlti^d* Emfeguímcnto dô.qucm ^ Que foí iflo 

.Tarainêlla.? Que, difturbio hc eftc? 
Taram. Vindo levantar a mcza , eftava htii 
cio ãQpihh bum offo V (qv dlt ^ (\qe n 



ie Creta. lo; 

. qoeria levar a carne da perna por amor do 
oíTo , que para ambos foi de correr ^ cu para' 
lugir, e o cáo pára morder-me ; c com o me- 
^do tropecei na meza , e vejo ,cudo ao chão, 

JLfdor. Que náo pudeíTe diftinguir quem era 
o fluç fugio ! Mas quem havia de fcr fcnáo 
quem diíc TarameIJa ; que talvez por cílc 
refpeito vicílc Ariadtia a eftc lugar ^ cftorvan- 
Jo-me o.fcguillo? â part. 

Ariad. Vai chamar quem levante a meza. Ou- 
ves , dirás a Tezeo , que fe por acafo me 
não. ouvio nobaiíe,,que o crpeio n^ fala dos 
enganos á manhã k noite. .^ ã p/trt. 

Taram. Eu vou , Senhora. -Olhe o negro cáo 
o fufto que me metteo ! . . % 

JJior. Cuido , Senhora , que já vindes carde ; 
mas quem he vivo fcmpre; apparecc. 

jfriad Não entendo elTa nova fraze de fallar-me. 

JJdoí'. Náo fem caufa eráo os teus defvios , 
ingrata ; pois defprezando a: viva confcanc»a , 
com que te adoro, idolatras a hum morto 
na apparencia , que vive em teu coraçSiQ na 
realidade. 

Àriad. Ai befgrada ] Que he o que ouço ? ã p. 

lÀdor. Agora morrerei com mais fuavidade , co- 
nhecendo a cauía de teus defvios ; mas náo dc- 
ferpeiado na incerteza da çaufa de teu dcfdefp. 

Ariad» Como defactento a meu decoro fabri- 
cais em voíTo penfamento eíTes tejíncrarios con- 
ceitos iníligiQ? de minha fobcrania ? 

Lidor. Qje offenfa faço em dizer , c^ue atn^^ 
a , Tczea, c qae foi quem comovo íl^tx^ovi 



.I04 tãhyritmo 

dísFarça^So ? E fc hum Príncipe como Ttóco 
hc o rcu emprego , cm qu? fe póJc oflfcn- 
dcr o ICO decoro ' * 

jíri/ul. Que tnâís claro o ha de dizer ? Louco 
Princípfe , bem íc vè qqe codas- as mácràt» 
nas , que fabricas , são fundadas cní' aer^eat 
dcfconfianças ;' pois* ainda que Xe^eo 'podeile 

- Tefufcitar a^Ofa , nem v6$ , htrm^c|lé , nem nSn- 

' fiuem }'odia contraftar a mirtha ifençâò; ide-voç, 
ide-vos « bárbaro ,c6merarío , que eflías fingidas 
idéas náo [ õdcm efcurecer as purezas do Sol* 

ZiHor. Advirti , que c Sol com fcr puro, não 
deixou de amar a Daphne. 

./riad. Idc-vos , tenho dito. 

Lidor. Eu me vou ; porém não fci , fe me tOr» 
narás a verj cjuc os zelos , em que me abra- 
zo , náo cabendo dentro do coração , ralycz 
facão maior eftrago , do que imaginas. Val-ft. 

jíriad. Ai demim^, que Lidoro zclofo , faben- 

' do que Tezeo hc vivo , o hirá communicar a 

• ElRei I Que farei ? Amor, infloe accrios a meus 

• inícntos , pàrá que Tezeo náo fique oppri- 
mido a violências ilc hum ccir^o ciúme. 

/ Canta Ariadna a fegninu 

A K I A. . . ,. 

Confufa , e perdida , 
. ' ' Sem almn , e íe.m viJa , 
Alivio -em mciH males 
Aonrtê nch?.rei ? 

Se a infi-1 ryranMÍa 
De hum céi^^o mú f^uía , 
E^n tantos cnleioá 
•''-' Qíjc acenos uici í Fa\-f<. S^C»^- 



-dè CyetJL íóf 

SC E N A. f IV. 

Gabinete , e ejpelho no fim delle. Sabem TV* 
%eo^ e Dédalo. 

IkAéã* "^TOtavel foi atraca., com que; te 
i^ fahifle do faráo ! . E pois 'enrâo 
lografte eíía forturta , nâo he ■ jiíftó cncen Jas , 
<jac fcmpre terás os -fados propícios. 

ffzeo. Nunca nic-vi em láp evidente perigo; 
porém por maior que feja , nunca- deixarei de 
ver a Ariadna *, que hum efpirito armado de 
amt^r , nãò teílie as iras de Marre; ^ 

Didãl. > Eílas palavras sáo eíFeitos de hum Juit 
ven!l ardor j algum dia roputarás ignoriamcia 
o mdfmo , qiie agora julgas dircrição : di- 
ga-o eu , quando fabriquei efte Labyrimho , 
cípecialmenie efte gabinete , no qual empe- 
nhei com parricularidaJc a minha fciencia ; 
porém o que naqUelle tempo foi vangloriada 
idéa , hoje vejo que foi erro da fanrafia. 

Tezeo, Em todloô os quartos do Labytintho ad- 
miro tanto artificio , que náo . fei difcernic 
qual he o melhor ^ efte nâp ha duvida que 
admira , mas náo excede. 

Dedal. Se tu , Senhor, íouberás a virtude quô 
tem aquelle efpelho , verias o quanto efte ga« 
biaete hc di^^no de eftimação. . • - 

Tezeo. Náo me dilates o «ofto -de. fabello. .. 

Dedal. Aquílle efpelho j que alij vez , fica fron- 
iciro à]uclla j^nella>.da qual ,: ainda-^jue muF^ 



to diftante , tt vem os jardins de 
e fcm cmbaíTgo da fua diftaflcia , 
artificio com que fabriquei eíTe efpe 
.Cíquelte: ^bjeílo remoto o avifínlia i 
olhos, que nçíte fediftingue a mir 
daquelle jardim: repara , e vê# 
TfztO'^ Não ha duvida. Que ameno pef 
: que muito', íe Ariadna oftentando 
, d&ile jardim, vefte de pqrpuras as 

de candores as aíTucenaS/ ! 

Ded/íl. Conheces quem he aquelle , que 

TíCZeo. }à vejo , que he Lidero , e t 

ílíimente ,r como fe eftiveíT? aqui c< 

Por detuz do tfpelho Appéorect Lu 

Li4o^* Aitida me não polTo capacitar , 

zco, hç vivo, fó pelo leve infor-me 

ramella j hfi ncceffario maior averi^u 

n qíie com mais certeza o communÍ4 

- Rei em vingança dos meus zçlos : 

que as conjcíGuras são elficazes ; pc 

ver qviem com Ariadna dançaffe , fei 

viíTc quem foi , c logo fahir hum hó 

. baixo . da mézã com arrebatada fu§ 

trgue huma' quafi- verofimilidade , de 

zeo . he vivo ; porém para conden 

Ijaftáo indícios. 

Dedal. Mui trifie , e penfativo eílá Lie 

Tezeo. J^m duvida os dcfvios de Ariat 

a caufa de feus pezarcs. 
VeJaL Lá vem Ariadna ; vè que mais 
Âpptrece Âriítdna por detraz do ef 
T^zea. K como v^m ^ív\Wi4ík V . ôiv 



, mc^ coaÇdiçM) oac^ellis efpelhQ. ai propricda- 

;. 4c& de. IJftçrio j pois na esfera de (e u^; ra^os 

-liid ^hrazõ Salamanclrai ^ d« - (u^s iuzes , íe^ já 

.jnáo 'hft. Telescópio 9 cm 'que divifo a hçlU 

^r^ndeza. dasjueile aftro, 
jíriãd. A^ui çí^ Lidpro : xfuanio temo,- que 

do^ feus zelos a iuria fínta Tezeo ! . Quero 
. de(Vaiv?cd)Q8 r. moftrando-me amame ; quc-tiiaç 

guerras de amor ^ vencer com enganes heonie* 

Ihor fyftema.^w.< ápart. 

Udor, Vcffa Alteza , Senhora., táo fó por eilo 

jardim , , podendo efta^ ..acompanhada no j[pa<- 

oyriniho ? . . ^ r 
Ariad^ Lidoro ., ainda fç. vos não defvaneçeo 

efla fantafia ? Pois fabci , que a fer • poffiycl 

viver Tczfto, 5,^, c eu çapí^z de amar , nunc^ 

por Tezeo 'defprczára, . . 
Ttzeo. Quen) nn^dera poder ouvir o que fallio 

Ariadna , e Lidoro ! ^ 

Vedais A tanto não pôde chegar a fcicnçia 

Opcica. 
TV.z^o. PoJ8 para que me facilitafie o ver , fe 

me haveis negar o ouvir ! *■ 

Lidor. Se aié jqiii , cruel j me matavas comdç 
■ fenganos , agora com enganos me queres ty- 

rannizar ? Nâa me; defvaneças com poffiveiSiCa- 

rinhos aifenção-dp teu peito., que bem in» 

formado eftou , que adoras áTczeo vjvo , ou 

ao menos as memorias de Tezco morto j poift 

de toda a focre fei que o amas. 
Jriad^ Pàtz defvanecer eíTr errado pro\c£\o dci 

teu cjpmc^ quero , vipieauado ^ tck\u\a tvac^ 




Ç68 Bí^fffmh 

fcílos- Perdoa , Tc^ep , líflfáar ilngfi 
-'-de^líá fâltifè»a,'qáétoda5^èâò'kAri«tiií-^' 
^'?bW' libcvdatle; Í-- - ' ^ •> ^ ^^^ ^Wpm 

-' éòVn taHra cfficSfcíaí -''•^^- ^^-^íi.f- >'' wí^í;; 
ÍJfif©^• Bfilliflirrla Arla|dna, agora- clbnfiflt^o^ itt 

• '^rão indífcíaSs^^s itííA >>'SS^^ con^-feiiifa 

favores ^ premeias os meus delíâos**.^<le)xjl' ip 

'^ -prfilífadò \ noVahi'ènté-'á mkihá^iitórdtaè li 

'*>fi[CTÍfiqu?.'' •■■ •'^' ■ '■ '*"-•■' * «'■' 

mm'^/eí iírftro iife JfO€ftor,> iPAriáiáú ò /^Mií 

Tezeo. Que hç o que vejè * Al tíd-^m , Odiab 

^'líjâe ftnpbrtaeftir aqui 'odofó ò-oavidã) í 

os Qlhos COTIO teí]temuriha<? die >ifta 'me hi' 

'formão dbsimèus*Í2e!a3.?-'NáoVifte a Lií(ÍoA 

rendido aos pés de Ariadtia ; e ella cora <'«lc 

gier*6iHnFioís rccçbendo a' viâiifii de fuasadO' 

rações ? ....":..-; / , 

ikXAL Poíè fer , que' não fejà de amor o hiò 
"'livd.dcílc rendimento , "malonneme qutiidi 

-nãonódís ouvir o qúe^ dlzèrrt/ ■ / ' 
TèTieb. Huhi irftpacierire amante y comn Lido 
^' Vo /'(jAc^ànPum^ofpdia ter parar as' Tua*! vo 
^ 2CS., fenft) c??prersÍ5í5 de feú amor ? Ai' ih 

íeiiz », que çóiid báfilifco <fcw zelofs a mín 

JTiefmo me-tnico ^ ciuandô os vejo^no^ -dii 

fãào ' (ían uelfC' cfptlVio \ ^ *- •'- . 



it CreU^\ top 

Lidor. Porém yk que, o fuave cfpíriro de. tiu 
fineza conimuníca 'novos alentos k minha tC- 
perança , peroftute-mc algum 'íinal externo de 
tua confiancia. . . • 

Afiad. Crefça o cpgano , atigraemeríc a in/duQ 
uia. Suppoíto quç O' abono de minha pala* 
Tfa para me acreditares baftava , com tudo 
eftc retrato mcii féiá ofiador^I para que creias 
mais á copia ,5 qucr ao origitiãl. , . " ' ' \ 

; i .:■•.:- ! r Dá-lbe «o mrajUk^, 

Udor. Com o favor deftc retrato aèentas ao 
meu coração, de viyas cojrea.; • s, - ? 

Tezeo. jQjie: dizí» , Dcdarlo > Pode as:<>ra cnga- 
nar-fe a Miftjl*:.^ ^&o vifle dar Ariadna hum 
retrato feu^, ,qu« no peitoj tr azia , a LidotóJ. 
Qtie mais .data. evidencia da fua falfidadc'i 
Ah ine;rata/.Ah falfa Ariadna í Edas erãa aí 
tuas iíençóes ? Porém fe ósjmulber , que rtiitfi: 
to fejas miid»^el ! ., . -. . -. . ., 

Dedal, Oh quem ni^nça frflQxera a TesCeo a eílc 
lugar! ;,-•; .' «. Mr:r> ^ :.. .- ' ' .'..:', Iv 

Udor. Para que me jl>offa váligl«*!at de ditofo » 
fó fjilta quB.hiím favoe mij.jcpiiceda». .•yr- ..V 

AfUd. Dize, : . " .' í 

ilíJer. Attende. , . : . '. .V \ 

CâHtãó Lj(doro y. Ariadna i r' Tezecí' a fegatútç 

- . .. .r\U AR I..A. 

itdor. Se . oflemas no pintado . » 

Coi)(lante o teu. agra do ^ 

•:» - Oh peço-tc não feja ; .1 

Mf,. ' Piaj»d9:9tcuJ%Yfi^^ . ,. . ., 

'•^. VAtV. 



IM> UUyrhm 

J/iria^* Se' o^vario deílaí"ícpres z^"' 
• ' ; • Aáons por íavores ,' ■' '".:v 
•// '-::.- Nas fotnbra$ da pirftuKi 

Mitiga o teii ardor. ■ -- 
Tezeá. . Falfav c^íJ^I , avara , ' 
- ; Na duvida^tepàra , • 
' : Verás n^flíe rctraro ; •: ': 
ií> ;Yj Copiada 1* mmha dôr, o;. 
Lid6f. Dizc , feras 1 00 nftanc^?e - \^ 
jí^âã. A miriiMiáo mo pergameil ; 

O tempd tt>'idiríí; .í o 
Tezeo. Tyranna ,- ca^ defcfpero ,' 

• Eli me abrazo, éii enldiWtíe 
í»^ Quem vio tormento íj^at! 

Zidor^^ i\ copia \)uft me artitfite , . 
jlriad, A $;loria qoe^me alenta , 
ifezeo. A dor que me atòrmeiíta ', 
Tmlos. Se intenta i^ícernizâr. 
Zidor. Mas ai , que eíTa Foftattt 
'^'A. -íNío poíTo a<:r<5ditar ! ! ' • 
jíriad. Mas ai , qnc a tua idca 

' Se pô*ô';4lltfcinar ! 
TVzeo. Mafs ai''^»quc- o meu ciúme ■< 

Me quer precipitar ! 
Ltd. Ar. Pois que ouço , -^ "* 

TeZfi^y Poisv^q^ vcJQ « . . > ^ ^^ ' 
Todosí Que nada no Orbe conftante 
Vio-fe Lidoro , e 
Dedal, Príncipe , rtid te entregues lod 

timento , deijfa loucuras de amor; 
Tezeo. Nada me dif^asi deixa-me fe^ 
iaa iaicnig^ , que nt Ii^^^tvuí^' 4a 



ie Creta. iii 

dim 'fcoftenra- Vénus dâfqoelfo* AJonís ; poM 
rém o meu mavórcio furor crn fanguinolentât 

c toetamorfòfe efcreverà nas folhas das branca» 
rofas as rubricas de minha vingança. 

Quebra o efpelha^ 

Beáal. Que he o qoc intentas ? . . ;' 

Tfzeo. Arrancar aquclla traidora dos braços de 
feu amente. • 

Dsdál. Que culpa teve o cryftal , para cxperi-. 
rocniar o teu rigor , qnaíido nelle (& pòr te^ 
flexo vífte a cauft de luatf penas í 

7t2i0. Ainda que errei o tiro, femjpric acertei 
o golpe j porque efpdhõ ^ qúe foi theatra 
dos meus zelos , he bem qile em atomos^ deJF-* 
fallcça , para <que ao eftragò de feus cryftâes 
fe rjsprefente melhor a tragedia de meu ambr ;. 
já que o ftiror . , <]ue me abraza , não fabe 
liquidar no efpethcr de meus olhos d cryftaí 
de meu pranto. 

LedaL Em bum inftaitte deíVáneccíle o rrabk- 
lho déramos annos. ' ' ' í 

Taea.. Dedala , gula*t1ie á fãlá dos engano^^ 
aonde me diíTe Ariadna á cíperaíle eíta nõi^ 
te ; pois já o Delio Planeta em ipal diftin^ 
âas luzes qúaír toca a diáfana meta doul'' 
timo horizonte. ' - ■ 

Dedal. Para oue procuras a Ariadna , fe t vi£-^ 
te feguir a Lidoro. * 

Tfzeo. Por iíTo mefino para que na fala dos 
enganos encontre 6 ultimo defengano.. Ar De* 
dalo , que ha no rout)do mais làbyrinthos do 
sue cuidas! 



112 Lãbirimbo 

Xkd^^Umo Teí^ que até aqui jhaj» oOrro )'ffS 

; ra dcfte. '; - : v , . r ji 

^i^eo. Pois fabe, que deacro deAc :LabyritWK 
exifte outro kbyrincho. ■ : .. i . ■ oi j 
Jkíiai. Não emendo. 
T€Z€0. Para que me entendas ,.auènde , ey^rjl 

SONETO. 

-.. .■'•■:• ■ .. ^ •, ^ •.. . .\:\.(i 
La^yrincho maior.,, mais intrincado-^ .' , 

Tem amor em, meu peito conftruido , ;.. 

De quem fç qfjçjita, aos golpes do gemido ^.^ 
; -Sjnzel a magoa , arciíice o cuidado^ 
Na' memoria fe vè.jJelineado j , -^ j 

j.;P tormento de hum go^o amortecido ^ 
■ .Na confusão da dor p bem. perdido 
-.íNuçca. fe encontra, ainda quando achacjo.-.. 
jjL'. máquina mental dcfta eftrvidlura • i 

Adornáo , era funeftos parallelos , : ., 

Lamina o? fgfto , fombras a pintura : ' « 

Cdunmas são os mi feros dcfvélos - . ; 

ILftatua o defcngano fe aíHgura ^ 

Fio a efperança hc , monftros os zelos. Kll-/f. 

DtdaL Quem: duvida, que amos he o maioi 
labyrinihoJ Vi^H^* 



SG& 



{ ie Otta. irt 

S C E N A V. 

Sala áf eolumnas j que afea temfo cabiráS ^ € 

fcarâ tudo em outra vifta , e no fim da 

fala haverá buma Faca. 

Sabe Esfuziote. 
Esfuz. \ Gdra que a boca da noite vai en* 
-r\. golindo o manjar branco do dia : 
não digo bôm ; agora que a lingua do Sol 
fe vai encolhendo na boca da noite, aquém 
o cadeado do íilencio lhe fura os beiços da 
efcuridade , venho fegunda vez ao Labyrincho ; 
que fe a primeira vim , porque nelle me 
perdi , agora venho porque fóra delle me 
querem deitar a perder. Fiai-vos lá em 
mulheres , que em tendo zelos são peiores 
que cies damnados ! Tomara perguntar a Ta- 
ramella , para que foi dizer a Lídoro pá pé , 
todo quanto lhe di(íe , e por hum iriz , que 
me nio apanha com o rabo na ratoeira : não 
lhe pecdo*o o mào cozimento , que me cau< 
fou com os fuftos ; porém para me livrar det- 
ks , e delia , hirei bufcar a Tezeo ; que an« 
tes quero viver no Labyrimho , que morrer 
ca Palácio ; que pode fer , que fe lhes met- 
ia em cabeça , que eu fou Tezeo de verda- 
de , e me torção o peftoço aflim como quem 
dSo quer a coufa; poisçafio daqui íóra. Oh , 
cfta (em duvida he a Vaca , que di(Te D^d;x* 
lo fzhfícirjí pãíã Pazifel Cá cftá íiclcox\\V^^ 
-^íw Z/í jj, ig^^ 



^ 



114 Labyrínth 

por onde a tal Rainha vío os touroi 
lanqne ! Mas ea , . fc ine náo cngan 
vem gente ; fcja quem for , cfcotilha 
jufto pccca i eu mc^cfcondo dentro 
qqinha feito Rainho", aèé que pai 
quer que h^.- ^ 
Bfconde-fe Esfuziote na f^aca, efabe Ta 
Taram. Oucro recado temos de Ariad 
Tezeo; He para ver fe fc hamoráo 
/cha callada ! Bem fiz cu em dizello 
ro* Efta he a fala dos pnganos pa 
hei de dizer a Tezeo , que" venha : ; 
h& quafi noite , para hh: ao centro d 
, rintho , e temo que me . anoiteça a 
nho ; o melhor fera hirme. embora ^ 
íim como aflim já náo tenho mais qi 
que certos são os touros. 
Esfíêz. Mais certa he a vaca : efta h 
mella ; náo fci fe lhe falle , pois q 
fua falíidade me eíconde ^ a fua bel 
èfcancarea ? 
Taram. Ai ! Ainda aqui eftá efta ncgr; 
Não feí como fe confenté efte trafte 
ís/wz.Bom trafte és tu.. 
Taram. Só de a ver me irc/nem as ca 
Esfuz., A rapariga tem tremendas camaj 
Taram. Oh maldito fcja Dédalo , que 

para occaíiio de tanta ruína ! 
Esfuz. Oh malditas ícjas tu , que tão L 

ra és ! 
Taram. Ella fem duvida parece roufa 
£sffiz. 0£à viva quem fc cKç^^* 



de Oretd. 115 

Taram. Para que mais , até a pclle xtm cabellos. 

Bijaz. A occafíão pelos cabellos. Efpcra , ca- 

beiluda Deidade , que hoje o pente de miru 

carinho te tirara as Icndeas de tua defconfi* 

anca. Sahe da Vacn. 

Tãtâm. Ai ! Quem me acode , que a Vaca fa- 
be Miar > 

EsJ»z. HsL coufa mais eloquente em hum ban- 
quete 9 que huma ikigua de vaca ? Mas t 
tua com. tua licença mrrecia fal , epimema. 

fimm. Ui ! VoíTa Alteza cá edá na fala dos 
enganos ? Nio quiz deixar de obedecer a feus 
amores i Fez muito bem^ que ella tudo me- 
rece, 

Éífftz. Quem he eíTa ella , Taram ella ? * 

Tiram. Ja lhe efqucce l He aquclla , com quem 
dançou o noite paflada. 

hjíÊZ» A noite paíTada dancei comtigo. 

Tãrâm. Não me queira defcfperar ; cu não o 
vi dançar com Ariadna com a mefma banda 
azul , que lhe levei ao Labyriniho , e por íi'. 
nal que dançou melhor que ninguém ? 

Bfuz. A'gora , já cftou mui pczado j iílo he 
chão , que já foi vinha. 

Taram. Logo não iiega 3 que dançou com Aria- 
dna i 

Esf/tz. Nio , filha , que eu não podia dançar 
bem , fenão comtígo. 

Taram. E a banda azul. 

Esfítz. Azul he ciúmes ; quem 05 tem , anda 
cego ; quem anda cego , não vê ; e quem 
nio vèj náo pode julgar de cores. 

Hii Td- 



ii6 Làhyrintbo 

Taram. Ora , Senhor , tenho entendido , <q 

VoíTa Alteza faz zombaria de mim. 
Esftiz. Jà te diflc , qus me não altezces , q 

o amor 5 e a Mageíhde , fcmpre fe aíToi 

ráo em iguacs tripeças. 
Taram. Senhor, com que eftamos ? Voíla 'k 

teza pôde negar ^ que eu lhe trouxe hui 

banda azul ao Labyríntho em nome de Aríadn 
JBsftíz. Aílim foi*, que a verdade manda DcQ 

qu3 fe dij^a. 
Taram, Pódc. negar , que agora o acho ac; 

nefta fala dos enganos , na qual me díííe An 

dna a cfperaíTe Voíl^v^ Alteza , ' por fc aca 

não tivcíTc ouvido bem , o que cila lhe difl 

He ifto verdade ? 
Esftéz. Verdade hc , que eu cftou aqui. 
Taram. Logo digo eu bem , que namora 

Ariadna ? 
Èsfuz. IlTij he mentira. 
Taram. Como pode fer verdade , e menriíai 

mefmo lempo. 
Eijaz. Porque ncfte tempo tudo são ntentirai 

c verdades. 
Taram. Se iíTo he conceito nSo o entendo. 
EsJiíZ Pois eu era ião dcfconez , .que difld 

conceitos na tua prefcnça ? 
Taram. E para mais prova, diga, quefaírad 

baixo da nieza efcondido , fendo hum Principc 
Esfiéz. Eftava para fazer certa prova. 
Taram. Prova ? 'De que ? 
£sjuz. Da tua falfidade , pois fofte tão línp 

itiz , que diílcflte aLvàat^a^ c^% t.^cfttviti 



dt( Creta. 117 

Dize , cyranna , aflim defempcnhas a . ca- 

. do teu nome ? Sc és iTaramella , ^or- 

:e não fechas? Mas fe és Taramella de- 

, por i(To te abrifte 5 defenterrando mor* 

ptra enterrar vivos : que dizes agora ? 

. Digo , que fiz moico be'm ; pois jà qud 

náo hei de lograr , não quero que me 

também ; já que eu choro o íeu def- 

I. finta Ariadna o que eu padeço ; mas 

me: por ventura quando íc metteo de- 

3 da meza , jà fabia o que eu havia de 

a Lidoro ? 

Caltc , cola , mecantca , hão fabés que 
3S Príncipes temos o dom de adevinhar } 
ra que o vejas , efla jóia j que trazes no 
, le deu Lidoro ;, não hc verdade í 
. He verdade , pois que temos ? 
Temos embargos a iílo : dize-mc , itafo- 
, leviana , frágil , pois tu aceitas {oiat 
/idoro , eftando para cazar com huiii Prin- 
de Atheuas ? 

EHe não ma deu por mal. 
Pois eu por .mal a to- CTird a jóia. y 
Jarga effa joià , indigna futura Princeza , 
náo hc decente á minha honra , que 
le teu péiro falfo, diamanfes finos. He 
graça ! feftou aidendo í E quando nada 
íi a jóia por bom modo. áp/in* 

. Com que VofTa Alteza me lèva a jóia , 
i cm cima de me fer desleal ? 
Olha , fiiha , aqui ningucm nos ouve -^ 
em fei qud Lidoro te não àcu çot ttvA 



líÔ Liliyrmió 

efTa )oia ; mas liáo He brio mea que tu 

gas diches dcfTe feivandijii. 
Tarm. Senhor, eftava muito bem, fe \ 

Alceza não amafle a Ariadna. 
Esfíiz. Olha , pcrmitta Daos , que fe cu 

com Ariadna , que berrando vá a rninh 

ma parar aos quintos infernos a fazer 1 

zes cohi Plutão. 
Taram. Qtianro mais jura, mais méiue. 
Êsfaz. Que por amor de meu amo pere 

e(Ta tòlã ! Ora vem cá , minha Taram< 

faÇamo^ as pazes , cem laftíma defte aa 

coração, que por ti chora pelas barbas abai» 

mó numa criança. Não te compadecem os 
' ços de hum Ptincipe , que aíToando o i 

CO da magoa no lenço da ingratidão, i 

Ia o nariz da fíneza o cftitícído do { 

mento ? Digo alguma coufa ? 
Taranu Ai , deíxe-mé , não feja imponuno j 

tes que lhe perca o refpeito. 
Bsjuz, Perdc-o muito embora , que tiiffo 

ço fe perde. 
^aram. Pois já que me dá licença , ouça 

b devido refpeito. 

Canu Taramdla a fegíêinte 



A R I A. 



Que tremulo marres , 
Que cílatico morras , 
Que eftitico mirres , 
Que morras , que marres , que mii 
E a mim qu^ í^ ta^ ^^^- 



de.Cretd. irp 

Por mais que em teus males 
Em anciãs te cftales 
E em prantos te eíliles , 
De balde fera.:. 
Quer irfe i e Jklfe Sánguixugã. 

Sang. e Esfuz. Efpera , aò^de vás , Taramella ! 

Taram. Deixe me que vou defefperada. 

£f/Ms. Oh quanto fplgo , que viefle tua tia ! 

Séttign He poiíivél , rapariga , aue me faças vic 
tropeçando por efTcs^ Labyrincnos y vendo que 
neiie entraíte a eflías horas i Que loucura 

í' ioi eíla I 

Taranu He vir fegunda vez verificar os meus 
zelós , para que com duas teftemunhas de 
vifta fentencce a efte falfo Principc a perpé- 
tuo defterro de meus carinhos. 

Esfiêz. Bem folgo eu 5 Senhora tia , que víeP* 
fe vofla SanguixupuiíTe , fó para ver a info- 
Icncia , com que íua fobrinha trau ao feguti- 
do filho primo^enico d^ElRci de Athenas , 
. fó porque a Infanta fe aíFeiçoou de miiii -, d 
veja , lia , que culpa tenho eu de fer querido ? 

Sang, Senhor , fe minha fobrinha lhe não tt- 
vcíTe amor , não teria zelos. Que fará fe ella 
foubcfle que Fcdra também o namora ? ã p. 

Esjtiz. E foi tão ínfolente , que em vilipendio 
da minha pcíToa accçícou humájoia da Piin- 
cipe Lidoro. ' 

Sang. Ai ,' Senhor , não feja ciumento , que cm 
Palácio he cftilo darem os Príncipes* jóias :u 
Criadas ào Paço. Olhe , efta que ac\\iv ^"^ ^ 
«u dea ò Príncipe de Chypre. E^- 



I20 Láiythiéo 

Esjwz. Inda mais eflfa temos ? Venha » tia, cfla 
)oia muito depreflfa. 

Smg. Ai ! A mitiha joía ? Para que > 

Esjiêz. Para que fím^ fenio ÀJortiori lha voa 
tirando. Arre lá , a tia vindoura de hum Prio- 
cipe de Athenas ha de trazer jóias do Prin* 

: cípe de CliiFre ! Ido não ; nio Senhora , em 
quanto eu tiver o olho aberto. Já temos doas 
' ]o\zs. ã farte. 

Sang. Dè-me a minha jóia , Senhor. 

Esftéz. Nada , nada , n^o tem que fe cançar. 
Que dirá o Embaixador , que he zelofo co* 
mo os diabos » fe lhe vir e(Ta jóia ! Nio 
queira pelo pouco perder muito. 

Smg^ Eu entendo que iffo do Embaixador 

' he palhada, pois ha muito que o náo.rejo. 

Esffiz, Como rccufava o teu matrimonio , man* 
dei- o degredado para a Aia Pátria , mas lo- 
go vira deiíar-fe a rcus pés. 

Tiir.Tia, náo gaftemos tempo ; vamos que he urde. 

fs/tfz. Diga-lhe primeiro « que faça as pazes co- 
migo ; e para que náo cuide , que amo a Ária* 

^ dna , aqui mefmos neíle lugar quero cazar 

• com fua' fobrinha ^ ande , leve o diabo quem 

f não quer. 

Sang* Ai menina , aproveiía-tc da occâfiio. 

Taram. Ah falfario , não cuides que.- me has 
de lograr, â part. Pois Senhor Tezeo » meita» 
fe ontra vez na Vaca , e eípere por mim f 
que eu vou bufcar luzes , para celebrarmos 
o marrimonio com luminárias. Tn verás conoe 
me vingpé í \axu e vãi-fc. 



ie Oetã. \ ilt. 

SMg. He polEvel que hei dê ver com efles 
olhos esbugalhados a minha fobrinha Prinoe* 
zai Senhor, faiba VoíTa Alteza, que poref- 
ta obra pia de amparar huma órfã fem vcãk 9 
h&o de os Deofes fazello viâoriofo de feus 
inimigos. f^^i'fi* 

Esfuz. Eu fou o noivo , e levo o dore em joiasf: 
com efta cafta de gente fou eu gente. Apare» 
Iha-te , Esfuziote , que hoje has de fenhoreac 
a melhor Deidade , que calçou cothurno. Aí » 
que já eftou pulando ! Ora fem duvida , que 
â tazer-me Príncipe muico me grangea ná con* 
feiraria do amor : vamo*ncs efconder na Vâ« 
Cl ; comece a obedecer *, quem principia a , 
triunfar, 

jMmJí Esfaziote na Faca. Sabem Tezeo^ e 
Dedal. 

Dedal. Efta he a fala dos enganos : n^slla.não 
' temas perigos, que no maior , em que efti- 
veres» ce defenderei com hum certo artificio » 
qoe fó para mim refervei. 

Tezeo. Pois não te apartes nunca de mim , em 

Quanto efpero OtIoI de Aríadna , para clarir 
içar a opaca fombra deft?*cáos^ c quando não 
o Cometa de meus zelos fera luzido farol , 
que me allumie. 
Eswz, Frito feja eu , fe aquclla voz parda não 
he de Tezeo azul no feu ciomc : alguma can* 
caborrada temos!- 

Sabe Tebandro. 
Tebani. Mui valente he o amor , pois deíçtc- 
zandp honores ^ c confusões * me c<^xví^vv7i ^ 



itr Labyrifith 

' cRe confufo abyfmo de enirios , hcúnando^ 

- me o caminho a efla fala dos enganos ham 
*i prático defte Labyrincho. 

Sm^e» Ariadtia pela parte de Tebandro , e Fedra 

^'"'l pila- de Tezeo. 

Aríad. Não diíTe bem , quem aíHmíou , que o 

- amor carecia de olhos , que a íer cego , n&o 
\ me guiaria a efta faia dos enganos , lo a bi^* 
^ car o bem que adoro. ^ 
Rdra. Verdade folloa , quem diíTe , que o amor 

■ era lincí , ( Sahey que a^nãô fer , mal me 

* 'conduziria a efte pélago de horrores , a pro- 

* cfurar ^ caufa de meu tormento 

Tezeo. Paflbs ouço; (em duvida he Ariadtiaé 
Teband. Gente vem ; mas quem ha de fer fe- 
" náo Fedra ? 
Tezeo. Vem , brilhante cftrella de Vénus , ft 

* influir. . . mas que digo ? Tu náo es a lyraa* 
na , que me pfFcndeftc ? 

£sfuz. Eftrella de Vcnus he eftrella Boeira , 

aqui deve de haver algum touro , que vem 

-namorara eftaVaca. 

' Teband. Feliz mil vezes eu , que em anricípa- 

' das luzes vejo confundir os raios da. Aurora 

com os refplendores da Lua. 

Esfuz. Se a Lua tem cornos , clarp eftá que 

falia com a Vaca metaforicamente. 

, Tedra. Es ru actfo aquelle ingrato , que nao 

faba correfponder á minha fineza. ? para Tezeo. 

Tezeo. E tu , fem fcr.acafo , não es aquella 

mudável, que grata, e carinhofa te oftenrai^ 

ic coín LidoiQ êfta urde nQ\3iiàvtckl \íixa Feã. 



ie Ctetâ. rt^ 

Kirâ. Vft que te cneanas. 

ArUd. Oh qaanto eítimàras mais neftâ occar 
íião j que'€u não foíTe ea ^ fenão minha ir* 
fnã , a quem como agradecido faberás f ec . 
amante. para TebanAr§^ 

Ttbàià. Tu não íabes , galharda Fedra , que 
nonca Arudna memerecco hum cuidado l 

para Ariadna^ 

Ariad.' Tezeo cuida que fou Fedra : ah cruel , 
que mal pagas hum confiante amor! áparu 

EsJHZ. Que diabo de fuíTurro ouço aqui i Sem 
duvida ifto he algum viveiro de cochichos! 

fidra. ^Não feí , que motivos tenhas , para fik^ 
bricar eíTe penfamento contra a lealdade com 
que te adoro i 

Tt%€0. Se tu fouberas o como te vi com M* 
doto , talvez que o não negaíTes ; porém ma! 
poderio as mas vozes contradizer aos àieiis 
olhos? 

Fedra. Já fci que iflb he hiaxima , que inven- 
ta a tua falíidade , para que me falte o tem- 
po de dizerte , que fó eftimas os favòíes de 
minha irmã > más fe o teu amor não fora ce- 
go , talvez que fouberas avaliar as finezas, 
que me deves. 

Tezeo. Tu bem fabes *, Aríadna, que, femprc 
foftc primogénita de meu amor , fem que lo- 
grafle Fedra já mais as prerogativas de que- 
rida. 

JFedra. Ai de mim, que Tezeo cuida , que fou 
Aríadna ! .Oh ingrato Príncipe j qucaiv\VLV\c^\A 
coahccèn! Àípcin. 



i;^ ^ Lalyríntbo 

Es faz. Mmo tarda Taramella : eú confdh 
*. aue ià não polFo eftar embezcrrado. 
Tibând. Já não fei y formofa Fcdra ^ quando 
?;^c:v/írcí completamente feliz. 
jíriâd. Dêixa-mc , ingrato, traidor, quejime 

faha a paciência para ouvir as tuas faliidadet. 
Teband. Júpiter com feus raios me abraze , fe 
.' algum dia quiz a Ariadna , pois fó a ci for* 
. mofa Fcdra. ... 
Afiãd. Cala-te : ai de mim , que cada vez me 

offendes mais ! 
ff dm. Baila que nunca ídolitrafte a Fedra { 
^ezeoi Sò tu , ingrata Ariadna , a pezar dai 

ruas falfidadcs foubcfte ufurpar toda a líberda* 

de de meu alvedrio. 
fedra. Calia-te , defagradecido , que já te nlo 
' poffo efcutar. 
TV^fO* Eu nunca amei a Fcdra ; tu a Liàoro 

fim ; dcíxa-me , ingrata , não te compadeças 
. da minha vida. 

Haido dentro. 
Dedal. Tezeo , retira-tc , ahi cuido que eftá 

alguém, 
Fedra. Reiira-re por hum pouco, ingrato ^ que 

Teme não eng;ano, alli vem gente. 
Tezeo. Será illusão ; mas com tudo por amor 

de ti me retiro. 
Esfuz. Ainda náo vem efta maUrta TãraracUa 5 

pois o verde de minha efperança fc vai VfíUr 

dando no amarcllo da defefperação. 



n- 



de Oetá. 125 

Efionde-fe Teúo , c Dédalo. Sabe Lidoro com 

e/pada na mão , e Taramella. 
Tiram. Senhor Lidoro , efta he a faia dos en-t 

g^nos , bufque-o na Vaca , que elle lá eíU 

efperando pela Senhora Aríadna. 
I^mti Ah folfa crad , hoje me vingarei de ti , 

edeílc tyrannO) que me oâ^nde. Mas^ quem 

eAá aqui i ArUdna he fem duvida. 
Eneomra-fe com Fedra. 
Rikâ. Quem ha de fer? Jà me desconheces'^ 

He a rua Ariadna, 
Udor. Não m^ enganou Taramella. apan. 
Tèbánd. Querida Fedra , cuido que gente veio. 
Ariad. Não fou Fedra , falfo traidor amante. \' 
Tebãad. Ai de mim ! Quem feri > 
Lidar. Dize , ingrata Ariadna , ainda não achaf- 

te nefia efcurãade a luz de teu.<: olhos ? 

para Fedro» 
Dedah Efpera , Tezeo , aonde vãs com effa 

efpada ? 
TVzfO. A vingar injurias de meu amor } mònra 

o traidor que me offende. 
Sohe Tezeo com efpada , briga com Lidorox^-je 

com a conjusão fetrocão as Damas, ^can^ 

do Fedra ^40 lado de Tebandro ^ e AriadâA 

ao de Lidoro. 
lÁdor. Morra o aleivofo , que me opprime. 
Fedra. Que defgraça ! Ampara-me Príncipe*. 
jíriad. Que infelicidade ! Sempre a teu lado 

morrerei confiante. 
Dedal. Que confusão! 

Teband. Fedra ^ primeiro cfià a tua vida: vem 
comigo. "Ev- 



u6 Lifbyrtntho 

£sfuz. Nefta arrenegada da confusão fahio p 
trunfo de efpdas: ainda bem , que cftando o 
tneu Sol em Tauro , eftou metido i:m hum íinQ. 

Sr<r4m. Ai mofina de mim , que eu tive a cul- 
pa dífto ! Hirei chamar quem acuda. Acndão 

. todos 9 acudáo a eftorvar a tnaior defgçtip,, 
que já mais fe vio : acudáo ^.acudáo. Fai*fi* 

Tezeo. Debalde refifl^ ao. Vi^oroío impqlfo de 
meu braço. 

Lidor. Por ííTo fera maior o meu triunfo: ▼»• 
lente fois! 

Tezeo. Tenho amor, e tenho zelos. 

Esjtíz» He hum regalo ver tobtos de .palatK||ift 

Tebâni. Fedra , fegue-me. 

Fedr4n Como , fe eftou quafi mortal ? 

'Ariad. Senhor , ampara a minha vida. 
Dentro ElRei. 

Rei. Cercai todos o Labyrimho , para que. fe 
inveftigue a caufa defle albororo. 

Dedal. Rctiremo*nos , que vem ElRei. 

'TeTiteOi Dédalo , agora he tempo para que a toa 
/ induftrta me vaíhi. 

Dedal. Anda comigo , que defta forte nos p&o 
poderio feguir. Hetirão ff. 

Sabe ElRei , e hftm criado com luz ; e dejois 
que ElRei diz : Sufpendei a& armas , Váo-Jt 
T^ezeo , e Dedth , o qr^al dará buma grá»; 
de pancada , e cabem as columnas ^ e ficã €m 
vifia de pateo. 

Rei. Sufpendei as armas. Mas ai de mim , qoc 
a fala toda vem vindo fobra nòs ! Eftraiiho 
fucccffo ! 



de Creta. tvj 

Liior. Ifto hc terremoto fem duvida ! . 

7(^dos. Deofés demcncia ! 

Ei^uz. Senhores , que diabo fera ifto ^ Tanta 

• bulha , e algazarra ao redor da Vaca ? Sem 
duvida ifto ne algum aíTougue ! 

!«• Perplexo, e conhjfo, náo íei o que pronuncie. 

ánad. Lídoro aqui , e Tebandro ? Tezeo fem 
duvida fe retirou , antes que o viíTem. Oh quan- 
to eftimo que o não encontraíTem ! Á paru 

Mra. Aonde cftarà Tezeo í Talvez fe aufen- 
cou , vendo .que vinha gente. á pari. 

Ttbán4* Com quem brigaria Lidoro , náo ef- 

tat!^ aqui mais do que eu , e elle > Á paru 

t Uder. Tebandro foi fem duvida o com quem 

I brigoei. . âparí. 

< Jtei. Ainda não eftou em mín^ , confufo entre 

unto aflbmbro. Lidoro , Tebandro ; que foi 

i&o nefta fala i 

Liáor. Sé bem reparo , Senhor , ifto não foi 

terremoto , feria algum artificio de Dédalo , 

que occuko: eftaria aqui ; pois outro novo edi- 

ficio fe deixa ver , a pezar daartificiofa rui* 

na das colun^nas.: 

Reu Iflb he fem duvida ; porém como. Dédalo 

ainda vive encerrado no Labyrmtho , delle 

mefmo me poderei informar ; mas por ora 

não me importa faber iflb tanto, comaacau* 

fa de voíTos infultos , 'inquietando o filencio 

da noite,, e o.fagrado defte Labyrimho com 

defafios ; e o que mais he , ver eu aqui as 

Infantas iièfte íitio , e a efias horas » e vàâ! 

Lidoro ^.xom cflía efpada na mão« 



128 Labyrintbo 

Arlad. Eu , e Fcdra , Senhor , víndo»no8 a dt- 
vercír , e admirar , como femprc , efte Laby* 

. rincho , faccedeo anoitecer nos ; e perdendo 
o tino na coaFusio da noite , e do lugar , 
começámos a chatear quem nos acudíílcy e 
os Príncipes , talvez informados das nolTas- vo- 
zes , e clamores , fe animarão a vir libercac- 
nos defte enteio* Efta he a caufa , Senhor , 
de nos achares aqui , e VoíTa Magaftadd me 
premitta licença , que a fadiga do fuílo me 
obriga a que me recolha. Féli-ftm 

Fedra. Bem fingio Ariadna. âpãru 

Esjuz. Também quem quer que he » memc que 
trezanda. 

Teband. Como Vofla Mageftade já efta infor- 
mado da verdade , não tendo inais que faber , 
não tenho eu mais que efperar; mas fim a 
Fedra. Ai louco amor , quando teráo fim os 
meus males ^ ípàn. e VÃt-Je. 

Lidor. Por cuja caufa , Senhor , não bavia vir 
defarmado , vindo a efte lugar. Disfarcemos 
ainda a falfidade de Ariadna. á pãrt. 

Rei. Já tenho dito , que quando quizerem vir 
ao Labyrintbo , nãc venhio deiacompanha^ 
das 7 e )á que fc fez inútil o meu preceito s 
ago^a inviolavelmente ordeno fobpena de mi- 
nhas iras , que nem vós , nem Ariadna , ve- 
nhio. maii3 ao Labyrintbo. 

Fcdvã. Senhor , . Vo(Ta iMageftade. ... cu fe. . . 

£sfíêz, Aqueila finge, que eftá turbada. 

Jlei. Eu evitarei eílcs fuftos : e vos , Lidoro « 
jà tendes vífto) c^uc uio \MicmGicca^ quem 



de Oeta. ttç 

pudcíTç. ^nçar com Ariadna ; e allím fatisfci- 
to,o voffo cfcrupulo , podeis eleger^ ou o 
hírvos para Epyro , como queríeis , ou ca- 
£v com Ariadna , como pcrcendo , por náo 
hzcr infruflifera a voíTa vinda. 
ÍÀàou Como já fei <]ucm foi o cjue dançou 
coin Ariadna 3 fera juílo que eleja o hirme 
.para Epyro. 1^ 

Sn. Pois que efpcrais , que o náo dizeis í 

ftirá. Que fera ifto ^ 

EifiÊSL. Li vai Tezeo com os diabos deíla vez; 

Rtu Vedc^.Licloro^ não fcja i(ío delirio de vof*- 
fos zelos. 

lÀioTr Não são dclirios , são realidades , pòís 
me .acrcvo a mollrallo ncílc mefmo lugar. 

Esjuiz. Agora ido tomara cu ver pelo buraca 
defta efcotilba. 

Rtu Nefte mefmo lugar ? Aonde , fe aqui não 
cftà ninguém \ 

Uior. Dentro daquella Vaca acharás quem com 
Ariana dançou. 

Esjuz. Ai que eiics comigo ! Por aqui anda 
Taramella. 

Fidra. Tomara já ver quem dançou com Aria- 
dna. â parte. 

£ei. Olá , inveftigai e(Ta Vaca , que fcgunda vez 
fe conferva para a minha afronta , já que 
o meu <jefcuido a náo rcduzio em cinzas , 
para que na minha lembrança íò fe confer- 
vaíTe efta memoria. 

Cbegd bum Soldado a tirar Esfuziote i^J^aca. 

Ltàor. /\goca me vingarei de Ariadna. â vart. 
Tom. //. I * • SqV- 



1 ?o Lahyrimbo 

Sold/td. Qiicm ahi eftá faia para fofra. 

Esffiz. Vaca não tem faia. 

Soldad. Vá fc fahindo dihi. 

Esjaz. A Vaca He de páo , e náo pódc andar. 

Jtei. Quebrem eíTa Vaca. Dão néíVács. 

Esffêz. Querem carne de chacina? Efperem' , 

qoe cu me patenteio antes que me merSo os 

tampos dentro. Pois ^uc he iftò cà í Sábi. 
Lidor. Que hc o qae vejo ! Eftc he Tezeo , 

^ue me diffe Taram ella ? í péOi. 

Ret. Que hciíTo, Lidoro ? Efte criado he ortae 

dançou com Ariadna ? Vès qoe tudo foi 

delírio do teu ,ciumc ? 
Lidor. Náo fel o que refpond^. Senhor, já fci 

que o meu ciúme me pode allucitiar , mas não 

foi fem fundamento. Eftou corrido \ áp.e vai-J^ 
Esjtiz, E eu parado. Senhor , fírvo aqui deí- 

guma coufa , fenão quero bufcar minha^ vidf í 
Rei. E ca EsFuziotc , que fazias dentro defla 

Vaca ; Dize. 
Esjuz. Hc que tu femprc fui muito amigo de vaca. 
Jfe/. Refpondo a propofiro. 
£sff4z. Senhor , como fou Filofofo natural , me* 

*ri-mc dentro di Vaca , por ver fe fc dava vaca 

ip rerttm natura, 
Rei. Se náovfallas a verdade, martdo-te lançar 

ao Minotauro. 
Esfrtz. O Minotauro já me não mete medo , 

para dizer a^ verdade : faberà V. Real Magef- 

rajc , gue fui criado át Trzeò ,' 'mié o efçu- 

ro^Cocito haja ; qutfnJo de mím le apartoiki,' 

n:c pedio de joelhos com lagrimas dcqaatra 



de Creta. ni 

em quatro,, que fizcíTe cu muito por lhe 
apanhar alguns rOÍTos fcus , que fobejaíTem ao 
Minotauro^ e que os çnviaíle para Athcnas pa- 
ra coníolaçáo de fcu Pai ; pois náo queria , 
que quem Jhc comco a carne , lhe roeffe os 
oíTos. Eu por lhe cumprir a fua ultima von- 
tade , entrei ncíle Líibyrintho , c cuidando , 
que a vaca era tarneiro , entrei nella, para 
ver fc achava algum oíío , a tempo qde fe ar- 
mou buma briga , e veio Voíla Mageftade , e 
acabou-fe efta biitoria. 

Ãei. Por feres fiel a teu amo ^ te perdoo eílc 
exceílo ; porém le ordeno , que náo venhas 
mais ao Laby rincho , alíáz te matarei. 

Esjuz. Sim , Senhor , vâ VolTa MagcftaJe def^ 
cançado. 

£ei, JFoIgo que ficafle defvanecida a prefump- 
çáo de Lidoro : vem , Fedra. Fai-fi. 

Tedra. Eu te obedeço. Faufe* 

EsfíáZ. Ifto já anda muito bólido com enganos, 
c chifmes de Taramella ; hirci avifar a Te- 
zeo , que fe çafe daqui para íóra , pois fe EI- 
Rci me aperta mais , eu fem eftar bêbado , 
me esborracho , e lá hia quanto Ariadna 
fiou. Fai-fe. 

Lidor. Todos fe forâo , fó comigo ficou o rop^ 
cuidado j pois ainda que o que citava e^^* 
dido ria Vaca não era Tezeo , ccmo.y^ "*"^ 
Tarfiinella, com tudo pódé íttA^^ \^^^^ 
vcqçao variaíle o íacccffo , p^s nem Tara- 
mella me. havia de enganar , nem podia dcU 
conhecer o fujeito ^ que denuo n^ N^c«>\^ 
I ii ^^' 



i?t Labyríntbo 

efconieo. Oh funefto labyrintho de amoi 
aonck até os defenganos são confusões ! 

Cama Lidoro a fegunte Ária , € 

RECITADO. 

Quem Terá , juftos Deofes , 
Effe Feliz amante , que efcondido ^ 
De Ariadna no idolo elevado 
Viélimas facrifica? ^ : 

Quem fera ( ai de mim ! ) eílé gigante 
Que a tanto ceo de amor Aibir pertendêí 
' Que fuppofto não veja eíTe incentivo 
Que meus zelos fabrica , 
Com tudo o coração fempre preíago 
Não fei que vaticina; 
Pois tímido , cobarde , e penfativo , 
Cada objcflo que vejo , he hum ciame ^ 
E are do que não vejo zelos formo. 
Que muito fe eu de mim , em tacs dcfvelof 
Por amor de Arladna tenho zelos ! 

A K I /• 

Qual Leoa embravecida 9 
Que fe vê deftituida 
Do filhinho tenro , c caro , 
Q lè com fúrias , e bramidos 9 
Rompe a terra , c fere o ar : 

Aííirn eu em meus gemidos 
Bramo , peno , finto , e choro , 
Vendo ( oh Deos ! ) o que cu 
Noutros braços dcfcançar. 



f 



de Crcta^ ij? 

S C E N A VL 

Labyrintbo. Sabe Tezeo. 

Ttzeo. /^^ Randc confusão caufaria a fubitt 

V-T ruína das columnas , entre cujo hot' 

jror pudemos íabir , fem Termos notados de nin« 

gqem; porém que írnporca , que de hum fuí^ 

. to me redima , fe de hum cuidado me hão fe- 
paro ? Quem feria ( oh duras penas ! ^ aquel* 
le 9 que appeliídandp de ingrau a Ariadna , 
quiz çpm inftrumento de Marte vingar oífen- 
las deaiâor } Afãs quem havia fer , ícnáo 
Lidoro 9 tyranno ufurpador de minha fortuna ? 
Sabe Ariadna. 

Jriad. Tezeo y o amor , e o medo , ambos vne 
derão azas para bufcarte» 

Taeo. Olha que vens enganada , pois emendo 
que bufcas a Isidoro. 

áriad. Deixa por ora cíías loucuras^ y e &Ue« 
mos no que mais importa. 

Tezeo. Haverá cpufa, que mais.mporce ^ que 
08 meus zelos, í . 

Ariad. Quc.zelos í Que Lidoro? Que delírio 
hc cffe > . : , , . 

Tfzeo. Pergúnra-õ ásflore$ do, jardim , que tef- 
temunhario- os recíprocos carinhos , com oae 

. atttahífte a LiJoro , que ao d.epois na falados 
enganos , chamando-te iogràjia , jme inten* 

-: lou matar. 

ArUd. Quanto ao jardim , logo Vetas cyuc tívílV^ 

• le àçísiido^ do que te oííendo, -, e c^uatvvol 



I )4 Labyrintbê 

faU dos enganos , ha n\\h que apurar na tua 
inconftancía / que na míaha firmeza ; pois cuí- 
danJo cu que cu era Pedra , por quem cal- 
vez cfperavas , me diíTcftc que nunca Ária- ; 
dna cc mereceo hum fó cuidado. Vè agwi* .^ 
fe achas dcHbulpa a cftc deliílo ? 

Tezeo. Ariadivi , a língua não cem mais vdto 
que as que lhe dií^a o coração , aonde fèiMn- 
lerva ctrrno o original de tua hclleza ^ fite* 
ihor qu: a lua copia no peito de* Lido^ ;• e 
alKm não intentes recompenrar huma fmgMa j 
oifenfa com hum as;£;ravo vcrJaJeiro. i 

jíriad. Para que não formes cíTe conceito -çAn- ' 
tra a minha lealdade , fabcrás que como- a i'^ 
Li J 3ro aborreço a pezar de feus extremos , me J 
dilTe hum dia , que a caufa de meus deftid» j 
era , porque eu te adorava , pois fabia , que 
tlnh;is triunfado do Minotauro. Confídefa <a 
que fuftos eftis para hum coração amencei' E 
para que zclofo o não communicalTe á El- 
Rei , fui mantendo a fua efperança com fin- 
gidos carinhos , até que te vieílc »vifar ; -piri 
que com a fuga nos iíenralTcmi^ deftlç imi- 
nente perigo, que nos cfpera. Vè agora' )b 
pôde íer desleal , quem ião finamente fãbc 
íer amante ? Mis como veíf> que fó Fedít 
te merece cuididos , j:í não he licito , q»ie eu 
te acompanhe, mas fin avifane do perigo, 
por não faltar ao jura tienco que dei de dc- 
fenjer a tua vida , em remuneração da que 
me dcftc no bofque. Qíier irjeé 

Tezeo. Efpera, Ariadna , que nãohcjufto que 

ao 



de Creta., i^j: 

'ao m^fmpi^i tempo que me deixas agradecido , 
te aufemcg qucixõfa. ]á fei p çxtrenao do teu 
amor nío te perfuadas que Fedra , fendo 
capaz para a minha veneração j o po(Ta fer 
para^ a minha fineza ; tufo, beliílima Aria« 
dna y occupas dicoíamente todo o meu coxa* 
çap y de forte que nellc não ha lugar que 
poíTa acçommodar outro objefio. 
j4rÍ4d* Mal te pofío acreditar , guando efta noi- 
te te ouvi differentes exprefsocs. Deixa- me, 

f ingrato , que efles affeflos fó são para Fedra. 

Trz^eo. Farás com que defefpere na incredulida» 
de de meus extremos. 

CéOttio Tezeo , e ArUdna a feguinte. 
_ . AR I A A D U O. 

Ttzeo. Tanto te adoro , tanto , 
5 .' Qu^ cm ondas d© meu pranto 

j, Fluftua o naeu amor. 

Méii* Tu. dizes que me adoras. 
Que gemes, e que choras, 

. ./. . . Eu não tç creio , não. 

Tfíio. Pois , cruel j para que me creas , 

. •• . Rompe o peito , abre efta alma , 
,yerâ^ fiçllc o meu ardor. 

Ariâà. Na tua alma , e no teu peito 5 
Que de ^ngajnos acharei? 

Teijeo. Somente &mezas , 

Aúidm Nenhumas finezas 

^«ifoí. Neíle peito .encontrará^. 

Tszeo. Oh quem moíirar pudera ! 

Ariid, Oh quern le conhecera ! 

Ambos. Ingrai-^ y mas talvez 



1 \6 Labyrimbo 

Que* as chammas, .que diéfprczas 

Em cinzas acharás, Quek jrfi Ariad. 

Tezeo. Ariadna , não augmentes a minha def- 
graça com a tua fcmrazão. 

Ariãi. Ai que lá vem Fedra ! Confídera , h* 
grato , fe ha motivos para a minha quel5e<. 

Tezeo.' Se Fcdra vem, não fera ^ pois cuj. 4* 

jíriai. Não he agora tempo de ouvir def culpas , 
íó tomara efcondcr-me , para que me rtãoWtflé. 

Tczeo. No concavo deíla columna há huhi li- 
mitado ga!íin-te , em que apenas çabbm duas 
pcíToa!? , efconde-tc , já que aflim o qnitres.' 

jíriad. Obfcrvirei as tuas falíiJadrsi' Efcond^fe. 

Tczeo. Qual fera o intento de Fedra^ Queira 
amor náo fe encontre com o de Ariadtia. 
Sahe Fedra. *' ^ 

Fedra. Tezeo , parece que quereni os fados fe- 
ja eu femprs tutelar de tuas infelicidades ^ a 
pezar de ruas ingratidões ; c porque humâ^^iW» 
empenhada a defender a tua vida não era juf* 
to defiíliíTe defte nobre intento ; fabe auc 
já em Palácio ha claros indícios de que •»& 
vivo ; e aífim , antes que ElRei o cheguei 
faber , trata de aufentarte com - a brevidade 
poílivel. . .M '1. 

Tezeo. Será forçofo feguír o teu confelho, 

Ariad. Náo fei que intenta Fcdra còm rãntcis 
extremos I ■■. ■" * 

Fedra. E pois não ignoras que eu fui o ihf- 
tríjmciuo dl tni viád na mone do Mmorau- 
ro, para que fc náo venha a faber , que ca 
dei armas conrra cfle monílrq j e linta a in* 



de Cretai 157 

dignaçSo jd^EIRei , fera forçofo que me . Ic* 
'ves comtigo. paca Aihenasiíe acaio o dar*cd, 

duas vâzcs a vida te pode fazer menos ingrato. 
Teno* jNotavel .empenho l Que rcfpondcrci a. 

Fedra 9 cnivindotme Aridna^ . . âpart. 

jíriâd. E quc:.yje(íe Fedtâi^por o ultimo : fim à 

minha defgrap ! ã pari. 

Ftdrd. ■ Não ' iné^ rèfpondes ? Porem nada me tlt» 

gas 5 qáe fe.tU tivera osmcçicos de Ariadna^ 

tatvcz fe(re:''venmrofa a.minha fupplica. . ■ 
TVzrò^Nio: crimineis i Ariadna» pois nelU na ca 

encontrei huma fô piedade:, nem crtia que 

hpma lembrança \ pois he. fem duvida qu^ 

imaginará, que eftou morto;-. 
Artãúk "^tm ícH^Tezeo cm neg^Uo- . 
J%<ír4*. . Como .fóde fer que Ariadna ignore 

que tU'jés.ivivoi9.fe ria fala; dos enganos efta 
' -noitc^' adndeiXó diíTe , me èfperafles , dftando 

-w comigo^r.;.. 
TeziOi- Eípéra;ífne èílás enganada , pois nao ítix 
*' <Sto «u á^^fata^' dos enganos., mal te podia, fal- 

lar, Oh-'qtie incentivo , para os zelos de Aria- 
-' Jnal • ^ ápirt; 

Ariâd'. Por iflb o traidor me chamava Fcdra , 

cuidanjo ' que fallava com cjla . 
Fidra. Se huma evidencia imencas CQntradizer, 

já ^não- tenho mais que te. arguir^^ . c affim i 

• Tfzeok .■...! /^ ' 

^ Sdbe JEspizicte, 
JEsJiiz.^ Senhor , efconda^me por vida fua ^ que 

ahi vem Elftei , c fe me vè , ccrtametnc me 

cnlabyf/iidba pâíã fcmpcCé: AL à^í^tít^^. ^M 

Juziocel 1^* 



10 Lâhyrintbo 

Tezeo. Que dizteí ElRei vem ahi? 

JSsJísz. Sim Senhor.,. ElRei em peffoA : ercoo- 
damo-nos depreda.: . 

Fcdrd. Ai dr miftv fe ElRei me vè ; poisic^ 
nho inviolável jpceòsico para níot virão Laby- 
rincho ! Tezeo , efconde^nol antes que perU 
gue a minha vida. 

Ariad.Qúc nocavelxlefgraça fe ElRei vir a Tezeo l 

Tezeo. Efte fim^yxpc he. verdadeito laby rincho 

em que ipe vejo^ poia nâo ha aonde efcondec a 

*Fedra , íenão aonde eftá Aríadna ! Quedbfád 

' fc fc encontrão ? . * ! • » 

Tear a* Tezeo , efcohdc-me , ?c.tu:vtambem pára 
que ElRei nâo* nos. i veja. : ^ . 

EsJHL. Senhor, efconda-me ániím fe quer; 

T^zto\ Senhora , o lugar Que')ha capa£.' para cf* 

• fe minifterio , apenas he-fuÇicience. pam oocul- 
târ buma peífoa ; e aíHm hunnt.rdenpa' hà.de 
ficar cxpofto ao perigo de .ElRei nos vcf, 

Esf/4z. Senhor , veja que Dédalo tk : outra vez 
ÁIÍÍQ , que alli cabíão duas ' pefloas: ; e affim 
cu' , e a Senhora Fedra bem cabemos nelle. 

Rdra. PoisTczco, perigue a minha vida., an- 

< tes que a tua y que melhor he eotMv^t''9, 
hun morto , que livrar da morte a hum vivo. 

A^riàà. Oh quanto invejo aqucHa fineza de Fedra ! 

Tezeo. Não he razão. Senhora., que eu por 
/alvar a minha vida, exponha, a vp (Ta ao.pe- 
rigo ; cccultai-vos , que o tropel já vem per- 
to. Perdoe Aríadna , qu^. cfta acção he filha 

■ do meu brio, e não do meu amor. . Ápart. 

Fedra. £ fe fores vifto d'£lRci ^ que fera de ti ^ 

. 7^- 



4e Cret4,\ 1551 

Jiíuo. Omdkqt^ pode f^z^c^nçinatar-mc; 4n« 

ijr/%z..- E tícty Senhor , aonde í he boa graça ! 

^rf AÍ. . Pm mo h^i ^. íçíf jíflifn ; , que Jçz,to 
nâo .ha de fiwtjexpc^P :?!9:rigor d'ElRei. Tc- 
2eo , f e tu por falvar a Fedra, ^xpões a tua 

. vida ; Mi pôr » r/^demir-l^ ^lua offereço a_?ni« 
nha : ^nda^^^ ^fKiPOnderte ao^dc eu tilava , quê 
. ífto he /al^;CQnfei;vajr fi. >tua; vida. 

Tezeo. AriadtVkyílIOfe <xc^o,iraafceriJe aos Ji- 
mítis da ^pFl^^:^finte?a^^. çoirna^ eíconderte , 
ícoSq pp*i JdpiBsr foberano tei ^o , que amr 
bos aqBÍ> fic^rtnvw. 

JEá/m* Mfi)hQt.fyjfii que nttít. lu^ac: ,1x1^ ^^Ç^" 

•-.dio-a^mj^is ;"ã : . ■ ; ^.■- .J 

Ariâi. Primeiro cftà â tvia vida.. - 

!rrtf0...lâ^ tuacrfí^ prinieiro. *♦ ,, , -r 

Hdf^.. Âquella he Ariadna y quen^ viqnt^ipr pgn- 

^ ^fusio^f.. Ah .if^Qf.Tezeo ! ., ,:, , ; ' ■ 1^ -^ 

Tipzro, Occgltacíip í,: /\riadTia , qv^e eju. bufçarei 
jnduftrias' quft-oiíí defendáo-, . . .^ 

Esfíêz. Senhor, que dia,bo' he i|Íp ?; Não ouvení 
. a- eftropeadá ■. já neda. cafa. vifmha \ 

Ariad. Comoic^Aâo queres occuhar , quero con- 
fervap a niiçAa. vida , para. defender a lua. 

Efcpndcrjk. Aríadha^ Sahe JEI^^i fm olbar pa^ 
•'-> , r^^ra Tezèo. 

Esfuz» E agòtà., Senhor Tczeo ? . 

STczeo. Põcmrieiatraz de mim ,. e íegue os meus 
movimentos.) .r 

Jlei. Já parece que he tempo 4e, perdoar aDe- 

iia- 



140 ItêiyrintBo 

• àúq o delido de fabricar a Vâcá Dart Ptzf* ' 
fe 9 pois baftame caftigo he a dilataaa , e hor« 
ipíroía prizãò , ciá que eftá , ecotn omotívô 

' de fua liberdade poder-me-ha declarar toàoi 
os arciliciòs deftc Labyrimho , qae mahio jgii<K 
ro , como ^ de cahirem as còlumniis na fala 

• dos enganos, • r . . 

Tezea. Em grande perigo eftou! Valha-me todo 
o meu valor , e loJa a minha índuftría* 

Esfuz. Eu eftou aqui cio agarrado como pio- 
~ lho ladro em fovaco de afmocfeve. 
Vai-fc El Rei i^oltdnda pârá Tezeo. 

Xei. Eu me refolvo ; eu vóu a líbernar a Déda- 
lo. Mas ai de mim ! Que he o que vejo i 
'Parece^ que fe itie Bgura náquella errada foin- 
bra a imagem de Tczeo ! Ai infeliz , que os 
cabellos fe me eriçio ! .::.'.. 

Ttzeo. El Rei fe aíTuftou de verme ; pois o feu' 
engano me valha. â pãrt. 

Esfíáz. Ah Senhor , já que me leva ao reboque , 
não haja por ora vento cm popa. 

Rei. Pálida fombra , vago horror da f ancafía , 
que pretendes de mim í 

Tezeo. Bárbaro Rei , efta que vês em corpó- 
rea forma he a alma de Tezeo que erran- 
te por efte Labyrincho vem a nociciarre da par- 
te de Plutão , fupremo ]uiz do Cocyco , a 
tua malevolencía , e injuftiça , com que ty- 
rannamente me ufurpaííc a vida , para que 
vivas na certeza , que hão de os Decfes vin- 
gar a minha morte com o eterno fupplicio 
que te efpera. 

Es- 



de Ontd. . 141 

iffãz. Ningaém faz papel de defunto como mea 
aroo l Andar , je não fomos duas almas tm 
' hum coxpo 9 ao menos fomos doas corpos 
em buma alma. 

iíet. Não^me horrorizes mais, funcflo eíjpe£b* 
cílio ; já feji^ que fui cruel para comtígo. 

JEsfuz. Ái que nos vamos fubmergindo! Não 
lerá a primeira vez que. os ames levem com« 
.: i^o OS; criados ao inferno. 

STezeo ecm p4fjos v/ígarofos fe metterã na mina 

com Esfuziou j 4e Jorte qí$e 4 efte o não 

veja ElRei. 

jlriad.^ Com bella indufiria fe livrou Tezeo ! 

fedra. Notável idéa por certo! 

JteL Quafi que não tenho alentos para refpírar. 
Olá da minha guarda , acudão todos. 
Sabe Tebandro ) e Soldados. 

Ttband. Senhor , que te fuccedeo ? Que tens ^ 
oue tão pàllido o teu femblante nos infomaia 
oe algum extraordinário fucceflb ? 

Rei. Não.fei fe poderei dizer o que vi , que o 
fufto me, privou doufo de todos os fentidos^ 

Tebátid. Conta*me 5 Senhor ^ a caufa de tamè 
excelTo. 

ifeí. Tcbandor , eu vi diftinftamcnrc nefte lugar 
huma agigantada , disforme , c horrorofa vi- 
záo , que caminhando para mim com paflbs 
lentos , e vagarofos , mediííe com voz irada 9 
c rouca , fer o cfpirito de Tezeo , que da 
parte de Plutão me vinha notificar , que pela 
jnjufta morte , que lhe dei ^ fe me efperava 
hum eterno tormento , e com ífto y abrindo- 



142 Ijiíjrtnáo 

fe a rr^^ cryn 'rfpiTtofo bfamria , o fepoiíóo 
cm foií cnirarhx?. 
^rí^. S^nyrz o meio repr*ícnca maior oi 

^ebâni. Hff cafo verda jtíraramce notável f VeiUi 
Senhor , a ff^^tnir algum remédio a ciTe foflo. 

Jfrf. Vamos , T-ffbanáro : c vós oncros cerrai tt 
poms defte Lab^Tíniho com traveflTas , além 
das ^/Jardas , para ()ue fique inhabiuvetrpara 
feinpr-j cfte cadafilfo , aonJe ouvi a fiãiiteâ- 
ça (i*i minhi condcmnaçáo. 

Teband. Senhor , e Dédalo , e o Minotauro ? 

/Tc/. Morra Dédalo , pereça o Minotauro ; pois 
hum , e outro foriu ínítrumentos de meu pre- 
cipício. Vio-Jc. 
Sahem dâ columti/t Ariadn/t , e Fedra. 

Âriad. ICIKei ( ai dcr^raçada ! ) nrwnda fechar 
o L.ihyrinrho ; como íahircmos daqui ? 

fedrA. \ que fim , Ariadna , vicílcao Labyiíntho ? 

jírLid, A rt^pofta que tu me havias de dar , 
íc cu o mefmo te perguntara , fervirá , para 
a ma pcrp^ntua ; mas agora náo hc tempo de 
averiguar zelos , quando maior caufa nos afflige. 

Fedrít. Nunca me enganei ,que Tezeo amava 
a Aiiaiinn. ápart. 

ylriad, Qu.^ dizes, Fedra, da noffa dcfgraca ? 

Fiuliéi, Dcixa-me , que o coração dividido a len- 
lir rantos goliX's , não fabe diftinguir os fca« 
timenios. 

ylri^d. Aonde elhr:í Tezeo ? Tezeo ? 
Sdbem dd m.w.i Jezeo , e Esjuzhte. 

'Jirir.rí>. A} en.is iaio Jvt hum ^^eii^o , guando Io- 
^v me vejo cm ouuo navot\ E^^ 



de Creia. 14; 

Esfuz. Não 'ha coufa como fervír a Príncipes ^ 
cjuc ainda depois de mortos ampar&o os criados. 

jíriad. Não cuides , Tezeo , qae qacro argairte 
de tuas falfidades , vendo aqui » Fedra ; fõ 
quero dizerte , que EIRei mandou fechar o 

. L^byrintho : vê como havemos^ daqui íáhic, 

com tal brevidade) que EIRei nos não ache 

: 'menos em Palácio ; e quando por mini o não 

faças , faze-9 por Fedra , que tanto te merece* 

ÉÍf0Z0 Ainda mais eíía temos i Ém boa me víiti 

' eo meter i 

tedra. Não te- perturbes , Tezeo , nem o meu 
refpeito te obrigue a fer menos extremofo pa- 
ra com Aríadna , de cu]a vida compadecido , 
irê -como has de livralla , que pelo mefmo 
camitiho , que a libertares , me (alvarei á fuft 
fòmbra y fó por te não nrerecer algum favoc 
efpecíal. 

Tezeo. Que farei em tão precipitado empenho ? 
isfut. Senhores , VoíTas Altas Potencias, deixem 
por ora coufas , que não . vão , nem vem ; 
cuidemos em material de vir , e hir daqut 
para fora, não tanto pelas Senhoras Infantas » 
quanto por mim , que tenho occupaçâo no 
Paço , e não fera razão que falte ás obriga- 
ções d^EIRci" meu amo. 
^riad. -e Fedra. Que dizes , Tezeo ? 
-£s/«z. Senhor , diga alguma coufa pois já fe 

. náo pode livrar das bailas defta Infantaria. 

'^hwo. Senhoras V ^ão vos afflijais que tudo 
terá rcmedip, Dédalo , Dédalo , pódcs fabir 

" fetnftiftO, : 



^44 \L4byrhiibo 

■ Sdbe- Dédalo às mins. - 
ZkdãL Que me ordenas i Mas que vejo ! Aq 

Vo(Ia« Altezas ? í , - 

jiriad. Dédalo 5 fabe que também viemos a: 
» companháiras na tua defgraça* 
fèãr^a. Quem te dííTera , que; para noflo eftra 

fabricavas efte Labyrintbo ! 
JDedaL São altas diipofições dos Deofea » q 

fe não podem evitar, 
Tezeo, Dédalo , por fucceíTos de amor ^ e fi 

tuna , fe achão aqui hoje as Infantas ; o L 

byrintho por ordem d^EiReí eílá Inchado 5' 

por onde havemos de fahir ? 
. J)edaL Por aquella mina , que vai ter' ás rib( 

ras do mar, como fabes , pois não ha qot 

caminho. 
*Tezeo. Bem advercifte. 
Dedal. Oh quanto me peza haver fabricado e 

te Lahyrintho ! 
Esfuz. O certo he que cfte labyrinthp , ç 

que eflamos , não o fabricou o Senhor Dedal 
jirUd. Pois quem foi ? 
Esfuz. Foi o amor , que hc maior archíte^ 

que quantos Dédalos ha no mundo ; e íe 

querem faber , dem-me airençãò a cfte. 
SONETO. 
Ser labyrintho amor , ninguém duvida , . 

Que cfte rapaz cruel, cego frecheiro, 

Frabricou , como quiz , meftre pedreiro ^ 

Dentro de huma alma hum beco fem.(ahU 
O maeano tomou bem a medida ; 

Va/na-re o diabo simot ^ c^m^ i^ mitcalheir 

Vi 



i€ Oitâ. 145 

Pois por dar cos narizes nnm (celeiro 

' No alfuje cie hum rigor lança hama vida ! 

Anda nefte Palácio , o mais diilufo » 
O trifte coração num corropio , 
Porque rodo o querer he parafufo : 

E por mais que da idéa arda o pavio , 
Em rrocicolos mil fe vê confufo , 
Pois fcmpre no melhor íe quebra O fiow ^ 

jlrtêá. Na tua rofca fra2e diíTefte verdades puras; 

^HZ. Que me faça bom proveito. 

Tezco» E pois eftá determinado o fugirmos pe« 
la mina. para nos trafporrarmos para Atne* 
nas 9 fera precifo quê vá Êsfuziote lôgo' cont 
jóias a fretar huma náo , e que junto á mina 
tenha efcateres promptos para o embarque , 
fcm que declare as pelíoás , que hão de hic 

' nella , e te efperemps na boca da mefma mi. 
na , ao dares fcnha , <jue fcrá efta : Fenhão , 
Senhores : e já que acé o preíente tcnâ fida 
£el y efpero que com efia acção coroes a 
ma fidelidade. 

Esfiiz. Eííi muito bem 9 mas falhamos por on«» 
de hei de hir cu i 

Tezeo. Por aquella mina , que vai dar ao mar: 

Bsjfiz. Qual mina > Aquella onde cahio femtvivo 
o Senhor Minotauro ! De burro que eu tal vã. 

Tezeo. Tu bem vifte que o Minotauro cahío 
morto , c jâ não podes ter medo , pois De. 
dalo 9 eu , e tu eftívemos a^ora nefta mina < 

Esfiêz» Eu com. o medo não fei aonde me meti ' 
t era cu capaz «aquella hora de mrvttt-t«v 
,7m* l^* K ^tV^ 



14^ LabyrinUfO 

pelo fundo de huma agulha , que tio peque* 
no me rcduzío o pavor : com que , Senhor , 
eu não vou pela mina y que o mcrmo íerá 
lembrar-me no caminho o Minotauro , que fi- 
car tolhido fcm poder dar hum pado. 

Dedal. O^ Esfuziote , parece mal dizer hum ho- 
mem que rem medo. 

Esfuz. Pois os homens são os que tem medo , 
que quanto aos animaes , eíTcs ínveftem como 
brutos. 

Fedra. Pois como ha de fer , que cada vez fe 
difHculta mais a noflà liberdade ? 

Dedal. Eu darei o remédio : como . Esfbzídce 
rccufa hír pela mina , hirá pelo ar com hu« 
mas azas , que lhe hei de pôr , e com ellai 
voara tio feguro , como qualquer ave. 

Tezeo. Agora tião tens defculpa ; que dizes 3 Ep 
fuziotc i 

}:sfrn, IiTo rem que cuidar : vamos , que enten- 
'fiij que para ifto de voar nio ferei defaza- 
do r venha , Senhor Dédalo. Vái^fe. 

Dedal. Tu verás o meu anificio. Vai-fe. 

Fedra. Tezeo , cípero de ti que em Achenas 
faibas agradecer as finezas que me deves. 

Á parte e vai-fi. 

Tezeo. Tu veras a minha conftancia. ãp. pard Fei* 

jjriad. Em fim me levas a mim , e a Fcdra í 
Já fei que vou experimentar , ingrato ,^ as 
tuas inconftancias. ^^^"J^* 

Tezeo, Náo temas variedades no meu amor. Oh, 
Deofes foberanos, fe for ingrato a Fedra', não" 

. me cremincis j pois náo podendo fcr cfpofo de 

am« 



de Creta* 147 

.mba$ , e a amb^s devendo iguae& finezas , ra« 
lo fera que fique ifenta a vomadc para pre- 
ctU SL Ariadtia. Fái-fe. 

S C E N A VIL 

fq»e j e marinha, , como no principio ^ e a mef^ 
nu grau > mas desfeita y e dizem dentro 
o feguime. 

L 13 Urquemos todos as Infantas 5 nio fique 
JD penha , ou tronco , ppr mais. inculto , 
|ae ,ç> noflo cuidado nâo inveftigue» DenfrOk 
foK 'Ariadnà , aonde te eícondem osteusdef* 
rios? . ., , M y Dentro, 

hand. Querida Fedra j quem te aparta dos 
nfius olhos? Dentro^ 

iorl.fiufquemos as Infantas, que não appa- 
:eccm. Dentro^ 

Slabem Sang(áix»ga , e Taramella. 
^•'Aí defgraçada , que Fedra amolou aspa* 
aqganas.! 
ram. Q«c fera de V. m. minha tia ? 

2^. Que fera de ti , minha fobrinha ? 
45. Que ícrà de nós ? 
í'4m. ^ o peior hç qqe o Senhor Tezco cn« 
tendo fugiria coni Ariadna , e hirá cazar com el** 
la.\ Ah cruel Tezeo , que me deixafte burlada ! 
ng. Antes cuido que hirà cafar çom Fedra , 
que por mim em cerca occafiáo lhe mandoa 
noma banda*. 

tom. Ou café com húma %, ou com outra , 
cu fiquei chuchando no dedo. 

K ii Sxxíi^. 



148 lÁbyrtnihò 

Sang. E eu fem Embaixador, por meus pecçadbs ! 

Taram. E fobre nio cafar comigo , levar-me a 
jóia , que me deo Lidoro , que ncUã cinha o 
roeu doic ! 

SéOfig. £ a mim a jóia que me dcó Tebandro ! 

Taram. 0\\ Príncipe de huma baila, os diabos 
tê levem. 

Sang. Óh Príncipe de huna figa, má raios cd 
partão. 

Taram» Eu fem Ariadna , e fem jóia ! 

Sang. Eu fem joía , e fem Fcdra ! 

Anwás. Que fera de mim l 

Fâi-fo SanguixugA , t âppârece Esfiniett rôm 
ã$ éoas vúânàií. 

JBsfaz. Nenhum alcoviteiro fc vío até o ptefen- 
te cm maiores alturas! Ifto he que iie fu- 
bir de hum puUo ! Agora nada me dá cuida- 
do com ter tantas penas , pois nunca me vi tio 
dcfempenado como agora , que me vejo com 
azas: eu em minha confciencia, fe quizer, 
daqui podo mijar no mundo. 

Taram. Cada vez que cuidp naquelle infoltu- 
le , não fei como nío defefpero. 

Esfuz.Orà olhemos agora c'a para baixo. Mui- 
to grande he o mundo ! Ai que lá eftà Ti« 
ramella feita mulher do mundo ! Pois^ cu que- 
ro debicar hum pouco com ella : nás. Gbr* 
g4ndo-fe ao ouvido de Taramellá. 

Tarm* Ai ! Que bizouro me anda pelos ouvidos \ 

f.sjuz. Trás tris. 

Taram. Xó daqui maldito bizouro. 

Esfuz. Adeos^ Taramella, itás. 



.ie Oitd: 149 

Tiíié. Quem me falia ao ouvido , fe aqui não 
cflà nmguem ? 

Esfaz. Taramellà , Tczco quertc muito , mas 
ne aqui para traz» 

TãTãm. Quem he que me falia ? Ifto he encanto. 

Bsjin. Âmor^ que tem azas, he e^^que falia. 

TdrOfn. Aonde èílás i 

JEsJítz. Aqui atraz, 

TéWéun. Que he o que vejo ? Não és tu , fingi- 
do ingrato Tczeo , a quem fem duvida os Deo- 
fes , por caftigo da tua falfídadô , em ave td 
converterão? Anda capara baixo^ que eu te 
abaterei os voos* 

£sfm. A quem nSo attrahiráõ tquelles doces re» 
ciamos 2 Vefce. Ai Taramella » que já preza 
a minha liberdade no vifgo dos teus olhos , 
deixo por elles o ceo de Vénus, em que mé vi ^ 
pelâ esfera de tua belleza , em que me ^razo. 

TTarâm. Agora que cahio no laço , não me ef« 
capara. â part, 

Ssfttz. Vês 9 tyranna, que as tuas faUidades me 

• Êizem aéreo i 

Taram. Quem deo eftas azas a Vofla Alteza? 

£sjiiz. Das penas que medas, nafcèrão as azas 
que me vê$. 

Tardm, Bem fei que penas lhe caufo , e fô 
Ariadna lhe dà glorias. 

JEsfíiz. Não queiras , traidora , com èfle fingi* 
mento encobrir o engano de me mandares met- 
ter na Vaca , paratomar degoladouros na ef- 
pada de Lidoro , a quem duas vezes míxiriquei* 
xa mcentafteeatregar-mci vai te ^ que já com- 



i 



I^o Láhyrimbo 

tigo não quero nada , pois pzn fugir. 4^d[; 
já lenhò azas. ' \ 

Taram. Quem me dera que viefle alguém, «ta- 
ra o agarrar , e cntregallo a EfRei ; • porerii 
eu o deterei com carinhos, á part. Meu Senlioci 
meu eípofo , meu bem , meu , meu • . • • 
£sjfiz. Calce , calce , Taramella , que eftás can* 

mellando í 
Taram. Eu . . . porque foi o meu amor. . • . por- 
' que os zelos . . . mas eu promecto ... | 

£sfttz. Nada y nada , não admito lograções ; ]í fou i 

pnlTaro çafaro , que não caio com eíTa facilidade. 
Taram. Olhe , verá que nunca mais , nunca maiSi 

Cànu Esjuziote a> feguinte Ária , c 

RECITADO. 

Deíxa-me , fucinhuda Taramella , 
Que eu não quero cahir nc(Ta efparrella 
Tu falfa , tu cruel , tu aleivofa , 
Com fucinho de gata langanhofa , 
Querias cm tacs penas 
Que firaffe fem filho EIRci dc.Athenas? 
í*ois hum chuço amolado que te paíTe , 
Huma faca flamcrlgâ que te efpiche , 
E huma bomba de fofi;o que-te efguiche. 
A R I A. 

Não ha coufa como ver 

Huma deftas prcíumida , 

jMui lambida , c dcstambida , 

Com mil chularias , 

Com carr.s de monos , 

Com unhas de arpias^ 



de Oeta. -i^^ 

Lidor. Ah cruel Âriadna , que paca ver a t^a 
fàífidadç fuftentaftC/de enganos* a minha 'cf- 

Ecrança I Logra tu eflc Hymenièo , que cu 
erei feniír a minha forte infeliz. 

TTeband. Senhor , licíla òccafião he juftoqueós 
favores de Fedra premeeih asj minhas firmezas. 

Jtei. Fedra , rieconhcce a Tcbandro por teu efpofo, 

JFedra. Não podo refiftir ao teu irnpcriò. pi>c- 
deçamos aos fados. ápart. 

Liças. Oh quanto eftimo eftji concórdia ! 

Tezeo. E tu , Dédalo , vem comigo para Atbc- 
nas a receber o premio de tua lealdade. 

Dedal. Não quero mais p(cmio que a tua fe« 
licidade. 

Sang. E que fícaíTe eu lograda , fem jóias 5 e 
fcm Embaixador! 

Taram. Bafta , Esfuzioté , que me enganaftc , di- 
zendo-me que eras Tezeo , para que tantas ve- 
zes enganaíle a Lidorò J 

£$Juz. Não fé perdeo mais que o feitio ; po- 
rem podo affirmar-te , que te não enganei^ 
pois quem duvida que quando eu era meni- 
no , era infante ? porcnà fe fó he Príncipe , 
quem faz acções generofas , eu quero fazer 
huma eftupenda que he cafar comtigo j porque' 
em fua cafa cada hum he Rei , e fenhor de feus 
narizes ; venha a mão , Taramella , com li- 
cença dos Senhores. 

Taram. Do maí o menos , vá feiro. 
,Ilei. Repitão todos os vivas deíla foberana gloria. 

Tezep. Efperai que primeiro Lidoro me ha de 
dar hum retrato de Ariadna 3 que fingidamente 
lhe dou. , • Lidar^ 



ifS 'Z4hyiitHBò ãe Oetd: 

'XJdoK Râ2!o tendes ; tomtÍK> que náo he bêiA 

!|ue conferve a verdadeira copia de ham fal- 
o original. Dd o rHroio. 

TiTXO. Agora fxm , publiquem todos o maior tri« 
unfo de Cupidp , confeíTando que fó o amor 
lie o verdadeiro labyrintho. 
^^sftsiz. Vá de fefta , e folia , ceIebrando*fe efie 
defpoforio com harmoniofas vozes. 

CORO. 

Numa alma inflaimnada 
De amor abrazada 
Cruel labyríatho 
Fabrica o amor. 

Porém quem efpera 
O bem de huma fera , 
Acertos de hum cego , 
De hum monftro nvor? 



F I M. 



\ 



GtJER- 



G U E RR A S 

ALE C°R I M; 

mangeVona, 

OPERA JOCOSERIA, 

Que {é reprefentou no Theatra do Bairro Alto 
de Lisboa , no Calnaval de 17^7. 

INTERLOCUTORES. 
D. Gilvaz, 

D. Fua$. -^ 

,D. Tiburcio. , , ''.■ ■-- 

D. Lanferoce, ^Wto; 

d! mt } -^^*""*^^ ^-o- -t^/^^* 

Sevadílha , Gracioja ^ Criadd, 

Fagundes , Felba , Criada^ 

Simicupio , Graciofo , Otádo de D. Gilvaz^ 

SCENAS DA L PARTE. 
f • Prado y tom çajaria no fim. 
IL Comera. 

III. Praça. 

IV. Gabinete. 

SCENAS DA n. PARTB. 

I. Praça. V. Comera. 

II. «fi</^. VI. 3P4rá/m. 
lU. Comera. yiL d*4/4. 

IV. ÍV4Í4. PAR. 



15^ Ciurrâs, do Alecrim i . 

PARTE 1. 

S C E NA I. 

Praão , com cafaría no âm. Sabem D. Cloris > 
JD. Nhe , e Sevadiíba com os rojlos ctíbff* 
tbs i e JD. Fuás , D. Gilvaz , e Simicftpiò , 
fegf4Ínio-as. 

D. G. Tr\ I^na. deftcs^ bofqaes , . ceílem os 

I W acelerados dcfvios deííe tigor , pois 

-**^ quando remora me fufpendcis , fois 

iman , que me attrahis. oard D. Oár* 

2>. F. Flora deftcs prados , furpendéí a farigada 
porfia de voflo defdem , que eflíà difcordc fu- 
ga com que mç defenganaís , he armoniofa 
attracçáo de meus carinhos ; pois nos pàflbs deP 
fcs retiros forma * cònipaíTos o meu amor. 

para D. Nize. 

Simic. E tu y que vens atraz , feras a fíringa 
dcftas brenhas ; e para o feres com mits pro». 
priedadc , deixaste ficar mais acraz , pois a' 
pczar dos cfguichos de teu rigor , Hei de {pt 
çonglutinado raboleva das tuas coftas. 

paraSevadUbd. 

D. Clor. Cavalheiro , fe he que o fois ^ peço- 
vos , me não íigaís , que mal fábeís o peri« 
go , a que me expõe a voffa porfia, pârã D. G. 

J). G. Galhardo impoflivel ^ em cujas nubladas 



[ tMagerona. 190 

esferas ardem occulcos dous foes ; e fe abra« 
za patente hum coração ; pcrmícti que efta 
vez feja finíèza ' a defobediencia ; porque feria 
; aggravo dé voíTos reflexos ncgar-lhe o inteiro 
' culto na vifuaíidáde deíTe efplendor ; porque 
[ ' alfim j formofâ Ninfia , ou hei de ver-vos , ou 
[ feguir-vos.9 porque conheça, já que nio o 
l foFdeffe oriente , ao menos o. oriente deíle foi. 
[ 2). Clor. Que ícrâ de mim , fe efte homem mè 
feguir ? ã part. 

. 2)r Mz. Jà parece teima e(Ta porfia : vede , Se« 
nhor , que íe me feguis , que impoílibilitaís 
o meio para vcr-me outra vez. 
- 2). F* Para que são , belliilimo ' encanto , ttíes 
avaros melindres do repudio ? Se já comecei 
a qocrer-voy , como poflb deixar de feguir^vos i 
. Pois até não faber , ou queni fois , ou aon- 
de habitais , ferei eterno gyrafol de voíTas luzes. 
Sevad. Ora baila ja de porfia , fenão vou revi- 
rando, para Simictípio. 
Stmic. Tem mão , Sargeta encantadora, quà 
com embiocádas denguices feita papão das al- 
mas , encobres olho e meio , para matares 
Sente de meio ólho : efcufádos são efles efcon- 
erclos , pois pela unha deíTe melindre conheço 
o leão defla cara. 
2>. Cl(»r* Ido já parece teima. 
D. G. Ifto he querer-vos. 
J>. Ni%. líTo he porfia* 
D. F; He adorar-vos 
Sevâd. Iflb he empurração. 
Simic. Angora ^ ifto he bichancrear , pouc« 
aãíãj 00 meãos. D. G% 



^6o Guerras io Alecrim i 

2>« G. Senhoras, para que nos catifamot ? Aíh- 
dá que pareça groíTeria não obedecer; enten- 
dei c^ue a nofla curiofidade , e amor n&o per- 
nitcira que vos aufemeis , fem ao menos oôm 
â certeza de vos tomarmos a ver , dando^ 
nos também o feguro de onde morais ^ para que 
poíTa o noíTo amor multiplicar os votos na pere« 
grinação dedes animados templos da (brmofiinu 

jy, F. Eis-alli , Senhora , o que queremos. 

Sevad. Em termos fem tirar , nem por. 

JD.Qor. Pois , Senhor, fe (õ por ifio efperais., 
baftará que e(Te criado nos figa ; porque .de 
outra forte defiruis o mefmo que. edificais. 

D. G. E admittireis a minha fineza ? 

D.Oor. Sendo verdadeira ,v porque nio } 

J). K Admitireis os repetidos facrificíos demco 
amor ? 

D. Niz. Sim , fe for amor conftante» 

D. G. e D. F. Quem eíla dita me abona ? 

J). Niz. Efte ramo de Mangerona. pârâ D. Pm 

J). F. Na minha alma o dcfporei, para que fempre 
em virentes pompas fe oftente croféo d& Prima- 
vera. 

D. G. Mereça eu igual favor para fegurança da 
vofla palavra. 

D.Clor. Efle ramo de Alecrim ,que temas raízes 
no meu coração , fcja o fiador que me abone. 

D. G. Por único na minha eftimação fera eftc 
Alecrim o Fénix das plantas , que abrazando- 
fe nos incêndios de meu peito 9 fe eternizar- 
rà no ícu mefmo ardor. 

Simic. lílo he bom, fegurar o barco } mas a. 

lad-. 



i Mdngerottá. ríi, 

tácita hypotheca nio me cheira muito digio 
\, o que quizerern os Jardineiros. 
* D.dor. Cada huma de nós eftima tanto q^al- 
[t* quer deíTas plantas , que mm fácil fera perder 
\\-- a vida , do que ellas percão o credito de ver- 
> dade^ras. 

•- Simic. Ai ! Baila s bafta, já aqui não efláquem 
^r :' falfa^ji : voíTas mercês perdoem , que eu não 
. . fabia-que erão do rancho do Alecrim , e Man- 
. gctona : refta-me também , que tu cofinhei- 
laíinha vivas arranchada^^om alguma ervinha , 
qae me dès por prenda , pois também me que- 
ro f^^urar. 
Si¥âd. Eis-ahi tem efle malmequer ^ que eftehe 
o meu rancho; eftimeo bem , não o deixe 
•murchar. 
Simic. Ditofo feria eu , fe o teu malmequer fe 

murchaffe. 
2). dor. Pois , Senhor , como eftaís fatisfèito , 
'dcfejarei eftimafleís eíTe ramo , não tanto co- 
mo prenda minha , mas por fer de Alecrim. 
D.NizX) mefmo vos recommendo da Mangerona. 
2>. Gor. Advertindo , que aquelle , que maiéfcx- 
cremos fizer a noíTo refpeito , coroará de tri- 
unfos a Mangerona , ou Alecrim , para que 
fe veja qual deftas duas plantas tem mais po- 
dcrofos influxos para vencer impoíliveis. 
Z). Niz. Defejàra , que uriuntaffe a Mangero- 
na. Faife. 
2). Oor. E eu o Alecrim. Fai-fe. 
Sevad. Cuidado no malmequer. Faifc. 
Simic. Cuidado no bem^mequer. 



i6z Giãtrras do Alectim , 

^>2). G. O' Simícupío , vai fegíndo-as , pirá faber i 

mos aonde moráo ; anda, não as percas Je vifla s 
«r/miV. Elias já Ti vSo a per(}cr de vifta filiai i 

cu pelo faro as encontrarei , que fou Uiidi 

perdigueiro para eftas caçadas. - ^^^'fi 
D. F. Quem feráo , ainigo D. Gilvai cl&s tàk 

mulheres ? ."ti"' 

D. G- Etia perg;nnta não tem repofta , pois befll 

• viftes o cuidado ,.com <jue vendarão ;òròfiD|, 

Í>art ferir os corações como Cupido ; msispe^'^ 
o bom cratamen^ , e aceio , - índicão fer gcft»: -: 
te abadada, ... -. ..i - 

jD. F. Oxalà quéiiíltm fora , porque àm tá 
cafo , admictindó .t)s -meus carinNos ,/i{Kxterei 
coçn afortuna de efpofo fer, meeiro oóicabedil. 
D. G. Ai, amigo D. Fuás , que direi ça.^f que 
ando pingando, pois já uáo morro de- fonte» 
por não ter fobre que cahir morip ^ 
JP. F. Elias forão atordidás com palânfrciriaú 
Z).G. }á que do mais fomos fammtos» ao me* 
nos íejamos fartos de palavras, 
Sahé Simicupio* 
Símic. }à fica aiiinaUda na carta de tnarear co- 
da a Cofta de Lefte a Ocile , com rens ca- 
chopos , e baixos, 
D. G. Aonle morão ? 

Simic, São as npfías vífíihas , fobrínbas de D, 
• : Lanfcroie , asjQ^ÍIe mii'teiro velho , que ?eio 
das minas o aiino palfáJo, 
. 1)../^. Ba III que sâp elTas if Por iílo ellas cobri- 
rão o rofto. . 
Simic. líTo tem ellas , que não são dcfcaradat ; 



SimU. Válha««c o diabo , que' me dcitafts agut 
nâ fervura!. Eu não tenho mais remédio que 
aquictar-tne 5 . fenáo virá como remcdio â^m 
páo (anto^ fobrè mim. ..ápârt. 

• J!^« Seoho^rcsy elíe éílá mais íoce^ado depois 
.da.aeua;.venbãò jantar que ameza eftàpofta. 
2). L. vai bufcar o meu capote y c cobrço-o , 
que. eftá çreiAendo o mifcralvavel.^ -1, 

. Simic. He macavilba que bum mifei^vel >cli|>ra 
... outro« . âpatt. 

: 2)* T. Aquillo sSo convulsões , mas bom he co- 
•^;. (brUlo pt>!f amor do ar. , i. 

4RiAe Fagundes com hum capote.^.- 

: f^^ Eisnabi o capote; feelleo babar ,babadb:íio£{rã; 

Simic* Anda , tolla , que nio me babo. ^ thpart* 

J). L. To i Sevadilha , tem fentido neftc hòmèhi , 

em quanto jantamos: vínde^obrinhe.' «f^ínfe. 

Z). T; .Vamos » que tenho huma fdme horrenda. 

/. ITdif^. 
X>.Niz*Jit sfálante figura o tal meu primo. Véá^fi» 
D. Ci!0r.' Fi^uodes , agazalha efle alecrim^ 1 
Fag. Tantome importa .;. fe fcra Mangerona , 
ainda ,/aindafc ftãirfe. 

^ Seyad. Soiíík». .me faltava ). ficar ç.a guardando 
. a efte drfunio ! . . -, hiíí" 

íf/wíV. Vejamois quem he efta Sevadilbíl ,rt|ue £♦ ia 

cou por .minhíi enfermeiraw Ai quc/ fu^ponho 
.. que hera mçjiina. do maloiequ^ ^ ;<\viçik.tXflz 
hurti no cabçllo ! Vamo-no» erguendo ,; por 
ver ra:,Do$-*c[ucr bem', • ;. •• ITaf-fc erguendo. 
.Sevad* Dpite^fe í dpire-fe*-* Ai que -o homeai 
tem frepfiftí ! AcudiQ^cít -.;/ ... 



176 Gumâs lio jilicrim , ' 

' Simic. Ctltc , Sevtdilha , nio fferti^ibés efta pri- 

< meira occaíiáo de ineaamòr. 
: Sú^ãã. Deixe^fe cftar cabertò.r ^ ■ 
^*Sknic. Bem fei que o calafrio' dtf n!iea'amor 
. he tio grande ^ que fe pôde <sc4>fif *'cliam6 d^El'* 
.r Réi'^ mas confeífo-ce que ja nio- polTo ^acurar 
• ' :ogravamen defte capote; "^ i * 

Seva. Ai que ofaòmem eftà .touco jiciíiriofo! 
Simit. A fúria com t|i|e teaufencaSy tHe £12 eu- 
V louqúecer : não fujas, Sevadilha, qoe tufou 
; aquffile fujeito do malmequer^ #>^o- fajttca 
aos teus impérios > que foa -himi criádò de 
vofla mercê. ^ > . '- >■ • • 

.^Sevad* Eu te arrenego, majdito homem t Tu 
• ^C8o dcfta manhã tv. 
, Simc* Cuidavas qae não ^avia faber buicar 
/^ modo para ver-te > 

rSivdd. Queres que và chamar a D. Qolísy 
.,A;ou D. Nize? 
Stvad. Logo irás chamar a D. Ch>rís> nias pri- 
meiro actende àchamma de meu amor , que 
fe o fogo lem Imguas , e as paredes tem oo* 
vidos, bem pôde a dura parede de teu rigor 
efcucár a levareda em que me abrafo: mtríta 
coufínha te poderia eu dizer ^ porém a occafiáo 
' f*^ nâo^ he para iflb. " 

Sevad. Nem eu eftou para eíToutro» 
Simic. Eu (f diflera , que o teu malmequer nao 

hc para* menos* 
SèVãd* Nem ã tua pefloa he para mais. 
Simic. Pois iíTo hc de veras ? Olha qõe defconfk). 
Sevad. Bem aviada cftou- cu! Bom amante te- 
nho! 



.lÍK»! Boniicr.cras m mu aturai vime aiínoí 
4e defprezòs^; como na muitos qqe aturáo » 
levando com. as janeUas nos narizes y. dor- 

' ntirtdo feias cfcadas i áturandjO calmas ^ fof« 

^ - freodo geadas , apàrando-re. em Romances , 
dando defçances , feitos cÃaclias de amor iioi 
lempfo d^.yenus j e ^òm todo eftão âiof 
conietite^ ái íua vida \ e .^^L&n para ofxt me 
bnfcas í , 

Shnxc, f arsf qbtf ihe deleng?ines , w me quéí- 
rcs, otf náo. 

Se^áA, Peiígunta-o ao malmequer^» que efle to dirá:* 

Smic. Se eu o tivera aqui , £íi;eia efla expck 
rícn^ia. ^^' , 

Sâvad. E/ aoMe eíta o qtié ei| te dei? . 

^rmiV» La o t^nho empapelado ^ ^ue cui4o^ qjoe 
o ar mo íev^ 

Sevaâ* Affini fc. lete ò diabo^ . . 

Jimic. LeWâ que he muito capaz díffo^^ Pots em' 
que ikamos? éem me queres^ou mal me quere$ i 

Jevad. Apanha aquelle malmequer , que efiá jun- 
to áqueUa pona ,• e pergúntalho , que eilc to dlrà. 

Sintíc. Pois acafo na^ iloíhas. do malmequer eftáo 
cfcríios os teus amores ^ Oit es teus defdcçs.} 

Sev^ãy Da mefma forte que a buena dícha na 
palma da mão. 

Simh. Eu voi> apanhar o dito malmequer. . Vâirjé: 

Styad. Qiíem me deia q»ie ficaflc cm malmc^ 
quet., para o fazer andar i prática! 
Sabe Simicupio com hum malmequer. 

'Sijmic* £i$-aqui o malmequer:, ora vamos aiflb; 

. que fe M jSorCf ^uc são d<f(e^^júÍ9 da yít 



xyB Cuihds ■ do AUctim ; 

da , cfta o fcrà do «mor.- Sevadilhâ , 'Mtoa 
fcntído , vè fefica no bem ' me quer. 
Seyaá. Irto hc como humà forte: 
J^ím/V. Queira Deo$ não fe converta o md me 
' inuer em azar. Tem fentído , Sevadilha : tfttor, 
;' íc fahe a coufa como eu quero^ eu teprotiiec- 
to hum arco de pipa , e hama vtfndi boi 
Komolares cm que ganhes muito diiiheiftk 
Canta Simicupié a Jeguinte 
■ ' '■'^■'■Á RIA. j:'". ■ 

Oráculo de amor 
Propicio rrtérefpondé 
Nas Eneias <}éftc ardor 
Bem me queres , mal me querft * 
Çem me cjtícres , mal m6 queres ^ 
Mal me queres , diíTe a flOir. 
Al de mim ».que me quer mal 
Teu ingrato mal me quer í 
" Acabòú-fe o meu cuidado 'i 

Que mais tenho que efperar > 
Vou-me -agora a regalar j 
Levar boa vida, comer, t beber* 
Sabe D. Ooris. 
4^3 2). Clor. Oh quanto folgo , que jà eftejas bom ! 
'Simic. E tão bom , que 'parece que nunca ;ive nadaC 
Z>. Clor. Com que farafte í 
Sintie* Com o mefmo mal ; porque também ht 
- males que vem. por bem. 
2). Clor. Que dizes , que te náo entendo í Ef« 
\á$ louco ? 

Simic. M^u ^^^ ^'*^^^ ^ ^^^ ^^^^ ^^ ^ ™ ^ 
' iteídc ^w tt vift fdDwk. por maior ,. «» f»^ 



* ^JlhS ; % ' ífHth,' pata íignífiç^ritc a treménfiffiiiík 
/ leSficíiclá dçjfcu amor j acjui'^ me manda ^;i.çcus 
''''pés";Í*'mÍ'n^p/ao'? reu ácçnios , para que cóm 
<6s' âisfirctf5*áo''AÍccrím poffa merecer os teus 
..agradoSf.. ' . 
jb, Õbr. ScvaÃlha ^^ pôcrn-tç a efprcitar haò ve* 

nha^,^&u.Cfn* . '. ...... r .,v 

Sfevaã.' Sim ,*Sçp1ióra. Arçelá com o ardil dd 

homçn?'!',; J. ;. . ;; . t^Ái-ptl 

l).Úàr\^['i3fizm he ^ffc leu amo, que tàhtà 

me adorá'r ' ," . . 
Simic. tíc Q Senhor d. dtilvaz cavalheiro de tSo 
lindas prendas , cdino w<r|^f graua. Londres ^ 
e Paris. " 
D.CIor. Que famcio ; rcni V 
«RmiV. Ha de cer hutn de detuhcos' quando morrer* 
jD. Clor. E cin quanto vivp , cm que feoccupa? 
Simic. Em môcjCAr por volla i^érçi^. ' 
wp. dor. Falia á propofito. 
«Sím/V. Senhora , meii[ aipo nao nccèíEta de o(R« 
cios jpara mamer os feu^/iblífa^ps , porque ceai 
yârias prj[ipjucdadcs,çojmfigp^ tnuitÒ boasi aléfa 
âiflo iàin hujiía quinta nâ"fcm2ina , que, fiei 
j/intre a, qui^rta., e a fcfta ,.;tâo grande ,jquc 
'hetiecelíariò vinte e quatro horai para íe^cór} 
jef toda,' ' . j . 

jÒ.'àoK Quanto fará joda jàffcni^ ? 
éSimiç^ Náo, fc pódc íaber ao certo ; feí >qi|t 
' íçm yarW rendas cm Fhndes^ J^ oufc^s em Be- 
. fiíché , ■ ç eftas bem gtoffaí ; itam^pm cem. hiun 
•foro dÊ édalgo, e humirjurq^ dç.ftobrc2a# .. : 

D.,.C/íJr. Bafta que h-è fâalg^^ .^ *" 

Mii »• 



'** •'! 



^ipt, Gíênrâi , de^ AUcrijn » 

Sevái. Como mo ka díê cirar.dp corpo 
o náo .tenbo^ ':'" ' "' ^ ' \ . ■ 

D.L. Dcfta forte. ';«'>' 

Oin/io 2). Lanferote , r SévdíUbét d fetuiiu'^ 

. ÁRIA A Dií O.; : ,r 

2). £,• Moça tonta, dcfcuiJada, \ / 
Sfv^d.^ Ha mulher Aiais áéígraçáída ' . 

" * ' Ncftc^ "Ç^^^^Pr i Não ,'"náp. ,hat ' . -V. ^ 

2). Z. ' Sc nao das o mea capote*, '. "..' ^ 

Tua capa hei de ràfgar. , . * • ,í 

Sevaã. Não me rafgue a minha ;.'cãpa. ']* 

D. Z. Dá-me , mojrag^ p níeu''capõce\ ^ . '^ 

*V4<Í*.. Minha ,c?Pá.J*":;;\ • •' ' '.''.: ' /• \[) 

JD.l." Meu capòrt.-'"'' ..' ,.,::/'■'" ;■ 

jímbos. Trata logo de o. i>agaL.r., , . ^ .;j, 

J).Z. Meu capote aflim furtado.;. ,V: . : 

«Tev^í» M^:u. adoçijp. ^(Hm ^raígado,? ^ ^ i . 

Jmífdu Que' dcfgraça' ! ' ; ^ j.' J^ . .; 

Meu capote* dc^yí^rf^f-^. ■- r^-Jf^ 
. 1ipanháríó'na eiVípreíi. jvl/ií^je^jjfij. iqupW 



Simic. Lá efltà biim vulco , .ei]p£|uçado no mciò 

do caminho rj. queira pççisQâ^ inc cheguem, 

20 vulto ; náofei fe/tbrnê 'para traz ^ mas 

peior hemoftrar cobardia i. ep. faço das. ccipas 

coração ,^ vou chçgmdo , m^ fcrppre dç Jooge. 

X>f G* ÉUc .íç vem chçgâa3o,^i '^ , èu cçfiícílo 

1^ quç não eftou. iodo tfi^. • ; ^. ,.-; 

^fimic. Efte hoR^em não e(u.^í,paTa.Vom fíttt ; 

eu finjo-me v^enie : aía^*£e; la.^ déixç-mc 

paliar, ai ias o^paflareiu, .^. :• 

D. G. Vofli mc^cà pode JpaiTa^ . .\i\\^ 

Simic. Ai, que. bc D..,(jilJ JRois a|;orf;fc^rel 

com que mçjtenha ppi v^ioxofo. .Qy^^çfii 

. ;ihi; Falle» qúaodp. f^S^Q^jic^fiç^r(^^áçCá'.yi'- 

..da, quCyp iMndo j jurava puçra^.. \^ .^ 

í). G. Primeiro pícfderáa,Írua,^.à?cra me intçn- 

^^ta^reçQn)>ecer.'^.; ■ /"Xj.u.. .^r ; .-V-.í 

Simte. Tenha mão. Senhor @. Gilva?;;;i^què 

fou SimiçupiOf.. , . V ■" fr :..: ..: í .'.. S:. 

X). G. Sc não/ íaÚa;5 , talyjb;^ q$ii^ .ag^açÂie. f^^^ 
,..hiílc çarí|^^f.,> . -^ ,.\-.,. ^ ' . .! .. :../ ,1 
Sintic. Igual voflTa mercê, -qyiq ie..Okpão:;^CQi>he* 
ço pela voz, fem duvida , Senhor D. GiíváJt^ 
ik<^P^k^,9í>^ 9 f« noinq >n?ij,^*i • [..^^,^ 
D. G. Deixemos iíTo , dànsnc; jp5^as«deJXC)o* 
risj dize,podeftc dar'-ÍW;o r«í^4p'í»5 .-^\.^ 
Simic. Náo.Xabcvqwft í^iífso.gc^ir-.dos àfcovitci- 
.:/íosí Çuiij,. ^^, e vfiVifÀj ,b kc-.v :::.^ .v-AT, 
J^.C Dá-me hum abraça, meu SimicHpipirjff 
^imic. N^í>?flVW^>brai8ps,ifi^l^a.^s»^^ 
.-fcnâo.^ea«Bjí^esi. çefflar.QçíiçiíOí.;,,, ;5^ --.,.. 



'i84 GueArâi fy Aeeffm » 

2). G. Em cafa tas dácei : cotiu^me ptiAÍeirQ ^ 
qoe fazia D. Gloris ? 

Simic. Iflp são cbntos largos » cftávâ toda rodea- 
* da de brazeiros de Aiecrim , coni huni gran- 
de molho delie no peito , cheirando a Rainha 
de Hungria , mafcando Alecrim , como quem 
inafca tabaco de fumo ; e como acabava jè * 
jantar , vinha palitando com hum palito dê AleK«fi 
çrim , e finalnicff^tê , Senhor , com a Aleerfaé. 
anda roda tão* verde , como fe tivera tiricia* 

jD. G. £ do mais ()ue pa^afte i 

ilfimic. Iflb hc para ípais de vagpr , bafta qoè 

: faiba por ora , que apenas lancei o tnzol no 
mar da íimplicid^dè de D. Ciorts , picando lo- 

§o na minhoca do* engano y ficou engafgalha- 
a com o engodo- de mH patranhas , qúe Uie 
encaixei à mio- téiite. 
J)* G. Inçrjvcís. sio as tuas habilidades i e que 

capote he cfTb ? ^ 

SimiC' feftc hc o dclpojo do meu triunfo \ jo* 
' guei cont o velho os centos, eganhei-lhe cf* 
te capoto ; e íc voíTa mercê íouberji a . virtude 
qué'cHe tem , rãlmaria. • ' '-■ ' 

P. G. Que virtude tem? 
Simiciit hum grande, remédio para Tarar lecH 
''dentes de' gota coraf. *•" 

J?.C Çontà«mé fíTo. "\< 

Sabe D.FHâs embfi^àiò.' 

^imie. Fallerpos de. ihanfo ,- que ahí vem hãm 

homem, j • . • 7 '1 

S). E Eíla ht a-jatiêna' dacofíhha dè Ò. Nize ^ 

jsuc^ã pe2ai^'4ã ofcuridide da^Whb/a eoVihe- 



c^ 



' eé o tneir iloftinâo pelos efiluvidf odoríferos ^ 
que exhala a Paticava chqóella Fenix; - 

2). (7* Simicúpío ^ hum homem ao pé^ da janelki 
de D. CbrÍ8^. íAo niome cheira bem. 

J*/m/V« Gomo- lhe h» de cheirar bem , fc ifto 
aqui- he hum monruro ? 

AppàHtt FMgunãts ájandhu 

Fâg. Cé, |ie voflTa mercê 'meímo ? 

2>. /% Sou eu mefmo y e nSó outro que ímp|« 

• cfence efpero novas de meu bem. 
Z);(?. Não ouvrfle aqi^llo , Stmicupio? -. 
Sinác^ Aquiilo he que inib chetta bem, %^ 

nhor D. Gilvaz* / ^ . 

Fãg. Nâo bafta que voflTa mércè diga qínfc lie 

• meímo ; he nectíTario a ftn^ 3 e a contrafeàhaK 
J>. F., Pois atendi* 

CfifM XL Tuâ% oljigkinté : ' 

MINUETE.. 

' ]à ^e a fòrttóiâ"' ■ ' ^* 

Hoje me abona |^ 

AMangerona- *' - ;* ">- 

íDufro exaltar. 

-f^Nõ feu trítihfo' ■ ^^ 

Que a fama eàeoti; • • ^V 

■ ■ Patma ,; e coiPoi' .* ''"■■* " ' '' ' "- •'• •■- 

Ha de levar. 
Hu àè por c^Oa. '■■' ' V^' 
■ -.Oufe-^fua^raraè'^^*^^ " '''- .. 
• Ni- vez dafeha'-'" - •■ - •' -'^ '■ 
■■ SS?nfipré-andâ*4i • ^- ■■■• • -- ■ 



fkS8 Gftéifás ãp AUéflm ^ 

SAf JS. Nizé. ; ' . 
J>.Niz. Que ruído hc efte , FagiimlfS ,^. ' ^^ 
D. /% Sinto, Senhora Dona Nize 1 que tprF- 

meira vez que mé facilicais cfta iorcum » m^ 

Iloípedtís cóm 4Eélos, / 

D.Ntz. NSo fei.quQ moei vo|ia)a para o8 haver:». 
JD. /*• £fte Senhor mbuçado , que aqui me yeiBB 
i feguirido ^\ c àiz que procurar o mefroo qií& 

eu bufca 
Ti.Níz. Sabe elle por ventura o que vó^pi^opiraíf |[ 
D. F: EUe qiie diz que fim , cerco he qiie o isiikm 
Jp.Niz. Senhor'^ vâ$ acafo vindes aqui & me» 

refpéito> " * fâUD.Gít 

'A ^v, Nada hei de refponder. . V. ^ V0f^* 

JP'.. i^' Quem catla' çonfente: ' nSò. ^yçrigaõBõf 
' ' Tnafi , Senliprá Dona Nfze , fó finto qúe á foa 

Klangeroná .tdttictã'. enxértof dè outra .planais, 
^'iNh, í^e he o pago due me dais, db'i3« 

mitiir a voíTa correlpondcncfa 9 de oí>rac^êae 

* çxceflp a Vóíío refpeitò , ç dçme expor tA 
« te píírfgó põí Voflà caúfa'> ' • J . ' ■ 
jí:jP^M%\hoT fprà ^efcngWr-me y que.eflaéi? 
^" a mçlhbr fineza; '^ue yc^-^poídía 'm^^ 
3>J7VÍ2- PoÍ5 çu digò-vbs , que cí^' Innòcèn-* 

* 'it\ que rvíò cíinhíço, cttc nbfftcftt^ àlnÍB|^* 
. íçcc que baíh dÍ2eÍlo i^ara '*roé';acr 

7?. 7^. fi bciftava yércu 6 çofterjírjÃ^^ 

" àcredKár cíTij tícfcalpás- ' ' * '" " 



NÍ%. Pais víftoViíTo, fidíi'tiiÍioí^c0Íã^ datttcs; 



-tv <, 



C«a- 



Supp6n1ia , Senhor , ' ^ 

Qu^ ndnca me yío, . * 
£ que be o íéii ámof 
Aifim como a jBor ^ 
Que apeiiss iiafceo, 
£ loçp murchou/ ' ^ 

Poi$ tanto me àk 
De feu penctider^ " , 

Que fimne fupponhd 
^ !{cria algum fonho» 
Que pòiico durou. rdhjpf; 

J>. t. Ni2e auel , iflo ainda ke maior tyniti^ 
nia \ efcuta-me. Vãift^ 

tág. Vá ládar-lhe ratUfaçõet , que ellá hébo« 
fiita para edás graças. Evoflfa mercê , Senhos 
rebuçado ^ a que nm quiz profanai o(a^a4b 
^efta cafa? 

J). G. A vct ú bem que adoro. 

Af . Vofla fhefcè eftá zombando i Aqui nfo 
ha qi]em'i>p(ra fer anuih^dé voflâ hiéit^.j^ 
pois bem ,y^. d. recato , e honra .defta caía. ' 

2>. G. Eu beíii vqo o recato:, t honra defta cja* ^ 
(a* Que ? Aqúillò de Aibir huin homeiti'jáit 
huma )ánç11a,).èhic-fc para(ícnilbatra2 dehp^ 
má mulher , liáó he tuda i 

fdg. Aqueileliòniem he primo carhal da Se« 
nhora D.íííze. ^ 



to (ia Sen^íáírí t). CIdfl8Í\)W*ftjra-inc o fii- 
vor de a hir chacnar. . 
F4g. Que diz ? A ,§çnhc|ra D. Çlorijí Olha tu 
la D. Cloris nSd 'íc enganes ; fim. ,a oam, 
que anda cubertaf cie cilícios ,i jejuànao a pio, 
e agua; tire daíiJ ò^fentido , meu penhor. 
D. G. Sc anão fofesqhamar,^ a hiréi 'iu buf^^ , 
Fag. Ai Senhor, voíia taerc^ tcni átganu Ifr ' 
giáo de. diabos np corpo' i È que jremedio t^ 
nho fenão chamatla , antes' que p homem \ 
faça alguma afneicà. que elte itin cara de a^ 
remeter. , ■ .; . ,^ „ • . . -> ^^'-/í- 

JÇiiÇ#^ Venha logo '/que cu^ titó poflb erperat 
'''mdlto tempo. A vêtha quéfíã^oorrraje : oafta 
que lha dê J), Fuás. . ,. ^ 

Sdhe D. Oeris, / ; . '' 

3). Ooh Senhor , vpíTa mercê cjuc penindô 
,^ com tantos excefros? A quem pfocurá? ;^ 
Z)t G. JEu , Senhora D. Cloris j foiiO. Qilvâi , 
''"Sii^uélle Impaciente amante 'qu^'iftfopél)anflo 
impoílivcis vem , qual faUm^drá de .andor ^i- 
. a . abrazar-fe nas chammas do/feii Alecrlõa^t 
\ comq viélimV da mefma cKarhfna. 
2). jC/or. Senhor D. Gilvaz , conip entendo o 
' íeu amor fô féiencamihha ao Jidío jiGm. dc.fej^ 
^ méu eiporo , por líTo lhe facilito os nie^ir 
^agrados , mas não iSo francqmçTiiic , que pri- 
, Dneiro hão haja dè e>k]perimétiéar no çllfotda 

.Gon(]lancia^os raios do fcu amO|r;/ ' 
jD.CMuT' póucò conceito fázets ãâ voíla hU* 
Jezji.i P9's (ip^ fintes de admirar e(Ta fòrmoGiia^. 
cín''õccu^^^^^^ foubtíftífíiflWiirnô-* 

'^ As» 



rar o ináHiPpãnctitd déferfcrçio* ^ 'pòdl^a 
haver em^ff^iiiçi^oiicr^rcuidado mais qu? o 
de adorar- vos com tão immovel conílancia , 
que primeiro fe {tioveráa as^ eftrçUas fixas » 
que f6)S<) eà^ncesas mífiKàs *adoríiç3es i 
D. dor. líIo-Kfè deveras^ Schifeí D. Gil í 
D. G. Se 6u«bttfrrD dê verás, como hei ãc&I^ 
lar zombandól* • ' •> 

SO N %3C Ov .^ 

Tanto c - quero i' a Glori- , fánto', 'tatiá^' ; 
E tenho nefte' tinto tanfò tcttcoj v''í 
Que em cuidar qiie te per^ /.me efpaVènto ; 
E em cuidar quf me dcixis , me ataranto. 

Se náo fabès ( ai Cloril ) ov^anió o (fUaato'"^ 
Te idolatra rendido d penfamtfnto , v • ^^ ' • 
Digão-to os hieus iufpírt)! êeiko acenar;: ^ 
Soletra-o nos meiss òlh(« pranto a pranto^ k 

Ohr qoem poderá- tóbra'cíiicartfcertc * ^''* 

Os exqQÍfiro mocfos de ^adéi^rte 
Que ânior.fôcito • inventar para qi^rêr^e -h • ^^^ 

Ouve, Gorí; mas não^ <qúe heide aduftárte ||í 
Porque bicai ò meu incêndio , que aodiaEemí^ 
rFicáfás Qir'^t^ de abtazarte; 

D. Oor. SenKiÀ^rÔ^ Cil« «rTiá^ 

encarecidas.^-pètden} %■ efl^o^çiftr 4^^, verdaciei*' 
tas; que quem ^cèm a Ip^^ tio folta para 
os encarecimentos , terá" pré2a a vontade pa* 
ra os extrem«*r- -' 

X>^ CL Coma ha de haver- cSêMrienoiaf íia mi* 



1^ óun^K JúAlwufif 

UiV» cenftancia^ fefSo e$ fttcccíTg^ 4e^ intuiu» 
énwnB fl/i chroniftat de mçu amp^ 

<»nta t). Gil ãfeguimc * 

Viftc» O dw, aÃ^.gigame^ 
Que procura firme , aroame , ■ \ ' 

;. rSe^uir fcmpre a luz.do^Splt \ ] 

t)efla fone, fem deúnaios*, i 

Sol '^ue gyra são teus niíot-^ 
E meu peko JGryrafol. 

Mas ai y Glorí , ^nt a luz punt 
De teus raios mais £e apara. 
^ Uc nieii .peiro no aifol. 

íDk Úí>f.' Ceda , meu bem , de encarecer-me 9 
teu amor ; )á fel são verdacjeíras as luas ex* 
prçfsões. Oh fa ^u tivera a fortuna que ef« 
fasrvozftS as não levaíTe -o v«nto , para aug- 
menc^rr com ell^s a força de fua Incondancia ! 
Sèibt Seyadilba. 
Stvâd. He bem feiro ! Ht bem empregado Í 
d&. Cltít. O que , Sevadilha > , ^ 

Sevâd. Ó Senhor , aue ^fiá acordado. 
JD.Clor. Não podejcr a eflas hoiai ; n^ te 

creio , que és huma medrofa. 
Jtvad. Fallo verdade, e não; mmc«* a 

€kmf Sévâdilbá lá {iguinH 

. . A K 1 A. 

Senhora , qUe o velho; , 
5e quer. kvanur ! 



/'êMangireiuk tp; 

. Mofina de mim , 

Que ouvi efcarrar $ . 

Fallar-, c toffir ! 

Senhor, váfc embora, para D. G» 
Vá já para fora. 
Senão o papão 
Nos ha de engotif* 
Fdg. Ui , Senhores , ifto hc cotifade brmco ? O 
Senhor feu tio eftá com tamanho olho aber- 
ro , que parece huni leão , que efíá dormin- 
do ; deite fora eílc homem , e vcnha-fe ag;a- 
. zathar, que iá vem amanhecendo. 
.2). Clor. Pois deitem fora a D. Gil : meu bem , 
eftimarei qujS as fuás obras correff oadáo ás 
fuás palavras. ^aife. 

Sabem D. Nhe , e />• Fuás. . 
IX Niz. Fagundes , encaniinha aD> Fuás., que 

meu tio eftá acordado* 
D. F^ Ainda o ^mbpçado aqui eftí i He para 
ver^!; Ah <:rucl I 4 farL 

D. Niz. Anda , Fagundes. 
jFag. Senhora , que não ha efcada para defcerem.^ 
D. Niz. £ aquella por onJe fubu) aonde efla ? 
Fdg. Empurrei-a com fatia) homem j ^ue. tam* 

•bem queria fubir ,, h^^ 

D.G. Óevia fcr Simicopío» ^ fdrt. 

p. F. Pois como ba de fet^ .\ 

^ev4Í.Não ha mais remédio que faltaf pela janella. 
JPãg. Mas vcjão náo caiáo no alfuje. 
2>. G. Em boa cftou meijdo \ & pa-U 

D. F. Aonde eftá a chave da porra ? 
Sfvad. A chave tem guardas, c eftá aeazalha. 
.Tom. IL N à^ 



da no travefleíro do' Vèlhò i ptír'hto dormir 
n^uma porta. c .1- !v! ; > 

^•,Z^ Fagundes^ venha- àbrír eíla jàftcila que 

*'• já Vem amárihectmdò. ■ ^ Dentro* 

Fãg. £ís-aqut voflâs mer^ o que qiifzerão ! 

D. L. Fagqndes , que fa2 qité'nio vem ^ Dentro. 

lãg. Eftou/cn[xotandò"d''gato dà vffmlia : cape 
gaio. Senhores efcondío-fê aondcf' biJ -f 

j). Niz, Aí que def graça ! 
• I>. X. SévadítKa , quê hé jílo I& í : í Den^o. 

Sevad. Hèò gaco da vifinha, çape gato. Dentro. 

Simic. ÀbrSo a porta qut' fe qbeimá a éáfa \ fo* 
í|o,fogo-^- I * tkrttro. 

Isg»^ Aí que ha fogo ná -cafa! SSo Már^l. . 

D iVíz. Eu cftou mortal ' ; í » 

D. ClTor. Ai que fé queima a Icafa 3 que deferaça ! 

D. F. Peior he cfta ! {^Subt. 

jb.G. Ha horas minguadas! 

Simie. A brio a porta , que 4)á fògo 3 fògò. Òentiro. 

Sevàd. Mofina de mim , que ia vão os- meus 
tarecos ! .- ./ ... 

Simie. Não ouvem -? Pois Ia vai a porta pela 
porta fora. ■ Dentro. 

Sabe Simicupio eom bumã quarta â$ éofidt , t 
ao me/mo tempo fabe D. ÍMferoti Wí fral- 
da de camiza , e D. Ttburcio embriilhaSo 
em btém leriçol , eom bmna eandeia de garéh 
vaio na mao. 

Simic. Fogo , fogo. 

Fag. Adonde he, meu Senhor, 

D. T. Que he ifto cá ? 

D.L. Fogo aonde-, íe cu não vtjo forno? 

SimiCm 



, ê MMgifMM: 'fp5 

ilFmfV; Como ha de ver ò fiimo » fe o fumo 

faz não ver ? 
D. T. Aqui me cheira a Alecrim queimado. 
2). L. Dizes bem : Clorisj accendcfte algum 

Alecrim > 
D. dor. Eu , Senhor , nSo « • « foi • • « porque 

rem(>re*«... 
2>« ^ Caílate 3 . <fOé eu porei o Alecrim com 

dono) ha mais mofino homem ! Lá vai o fuor 

de tantos annos. 
Shtfic: Com elle podia voflfi mercê apagar efte fogo. 
D.Gi Eftoa admirado de ver a traça de Sinoi* 

cupio ! á pátt^ 

D. T. Senhores, acudamos a ifio,t)iic fe acaba 
• a torcida. 
D. Im Vede, fobrínho, ainda alfin) nSo feen* 

tome o azeite. 
D. Niz. Ai os meus craveiros de Mangerona ! 
2). CFor. Ai os meus olhos de Alecrim ! 
Fag. At a minha canaftra ! 
Scvdd. Ai o^ meus tarequinhos ! 
Z>. £. Aí a minha burra ! 
D. T. Ai o meu alforje ! 
Sim̀. Af com tanto ai ! Senhores aonde he o fogo, 
Z). X. • Vejão voflas mercês bem por eflas cafas 

aonde fera. 
Simlc. Entremos y Senhores , antes que fe atec 

o incêndio. 
D. G. e D. F. Vamos. 

Entrão Simicupio , D. Fu4s , e D. (?/7 , 

e /cjjo forwíb /f fahir. 

D. Z. Vereis vw irampofinba , c^ua fim leva o 

Alecrim. N ii I^-^^?* A 



iptf, Guerras do Aíej^im ; 

J).Clor.O Alecrim nio cem fim,que nmicâ murchi; 
Sabem os três. 

J>. G. Não fe aííuftem , que não he nada« 

JD. F. ]i fe apagou , Deos louvado. 

D. £. Aonde foi ? 

Simic. Foi. no almofariz , que eftava ao pé da ifca* 

Sevad. Pois eu não fui a que pecifqueí. 

Fag. Pois cu nem no ferrolho. 

Simic. Pois eu ainda eílou cm jejum. 

J). L. Ora , meus Senhores , vofias mercês Éie 
vivão muitos annos petat honra , one me fizerão; 

D. G* Sempre bufcarcí occafiões de fcrvir a cila 
cafa. Vãufe. 

jD. F. E eu não menos. Fai-Jc^ 

Simic. Agradeça-nos a boa vonrade. não mais. 

Fág. Se não hoovcíTcm l>oa$ almas , )à o jauib*. 
do eílava acabado. 

D. Cor. Eú eftou pafmada dofucccffo! ip4rt'k 

D. Niz. E eu náo cftou em mim! ápárt. 

D. T. Ord com licença » meus Senhores, qu^ 
me vou pôr em frcfco. Fai-fe. 

D. L. Eu todavia ainda não eftou foccgado 
Vio volTa mercê bem na chaminé ? 

Simià Para que voffa mercê defcanfô^ de todo 9. 
vazarei efta quarta nos narizes daqúelta velha f 
que são duas chaminés. 

Fafr^ Ai que me enfopou ! Senhor que mal ihc fiz í 

Simic. H<^ dar-Ihe a moIKadura de cerra obra. 

Di' L. Que fez vofTa mercê ^ ^ 

Smͣ. Deixe , Senhor > ifto he para que fe lem- 
bre, e tenha cuidado no fogo que falcilmen* 
tt fc rode atear por hum accidence. 



jt MÃTigeronâ. ' 197 

Fdg. Vou mudar de camifa. Vaife. 

D. Niz. Tomara aproveiur os cacos para a mi- 
nha Mangcron.u 

D. L. Efta advertência merece efta moça , que 
he huma defcuidada , que por feus deímazellos 
me deixou furtar hum capote. 

Cantão D. Lanjerote ^ Scvadilba^ Stmmpio ^ 
D. Cloris , e D. Nize a. feguinte 

A R 1 A A 5* 

2>. L. Tu moça , tu^toma 

Sentido no fogo , 

Senão tu verás. 
Sevãã. Debalde he o íeu rogo » 

Que fogo fem funio 

Nâo he bom final. 
Simtc. Que linda piíhage 

Num fogo (alvage 



Oue lambe voraz ! 
r. Náo 



D. Úor. Náo fente quem ama. 
D. Niz. Não temo cffa cha/nma. 
Jambas. Que he fogo de amor. 
Z>. Z. Cuidado no fogo. 
Sevad. Debalde he o feu rogo. 
D. L. e Sev. Que fogo fem fumo 

Não he bom final. 
2>. L* Sentido , cuidado. 
Simic> Quò fogo falvage. 
Todos excepto D. L, Que hjs fogo de amor. 
Todos^ Cuidado , poísi , cuidado , 

Que algum furor vendado 

1*^1 mina tanto ardor. 



ip8 CuenéU do Aktrim , 

PARTE II. 

S C E N A I. 

Prá^â. Sabem D. Gilj e Simie/fph. 

Z>< G. Á Inda não, fei cabalmente apptiiH 
/\^ dir a tua Indaftria < 6 infigtie Si- 

^ ^ micupio* 

Simícé Nem applaudír 3 nem agradecer , Senhof 

a Gilvaz. 
D. G. As tuas ídéas são tão impofliveis de afv 

plaudír , como de agradecer ^ pois todo o pr^ 

mio he diminuto , e todo o louvor limitado. 
4r/míV. Vifto íílo eu mefmo tenho a culpa de 

não fer premiado ', porc|ue fe eu não fervira 

tão bem , eAaria mais bem fervido. Senhor 

meu , eu nunca fui amigo de palanfrorios ; 

mais obras, e menos palavras^ eu quero que 

me ajude a minha coma. 
J). G. Pnra que ? 
Simic. Para pôr-me no olho da rua y que ferêi 

mais bem vifto. 
D. G. Simicupio , nem fempre o diabo ha de 

eftar arras da porta. 
Simic. Sim ,. porquê entrará para dentro decafa» 
Z). G. Calte , que fe configo a D. Cloris com 

Teu doce , e arras 3 eu te promctto , que aa- 



e Mangeronã. , - ippi 

Simsc. Senhor , nâo me ande com , a cabeça á 
roda -com eílas pròmeíTas ; era melhor que 
os prémios andefltm a rodo. . . .. 
Sabe Fagundes. ' 

Fag. Là deixo a D. Fuás metido n^uma caixa ^. 
para o introduzir com D. Nize em cafa fem' 
íuíios 9 como da outra vez ; tomara acKar 
hum homem , que ma carregaíTèV 

2). 6*. La vem a^ velha , criada de Dona Cloris* 

Simic, Retircfç voíla m^ercè ^ e deixc-me com cila, 

JXG. Pois eu 4qui te efpero. J^dife., 

Pag. O"^ Slhó i por vida vofla quereis levaMue 
huma caixa ? ^ . . ' 

Simic. Com que achou-me vofla mercê . com 
hombros de máriol^ > ' \ ' 

Fág. Pois pcrdoc-nic , qiic cuidei que era ho- 
. mem ds ganhar. . 

Simic. Todos nefta vida fomos homens de ga- 
nhar j porém o modo he que defauthoriza. 

Fàg. líío não era mais que levar huma caixa 
ás coftas. 

Simic. Pois fe nâo he maíf? d9 qi^e iiTo , emen- 
do que náo eftc-jrâ. mal. á .rriinha pcíl<^á. 

Pag. Qual mal í Antes lhe éílàra níuitò bem, 

Simic, Mas advirta que ifto em n\im ruò, ,hc 
ofRcio, hc huma mera curiofidade.. . 

pag. Ora Deos lhe dê faude ; olhe , elfa' peza 
pouco , c vem aqui para cafa de D. Lanícroie. 

Simic. E de qupm he a caixa. ? ' . 

Fag. He mítiha , que à qiie eu tinha , .coda fc 
desfaz em caruncho. . . 

Simic* Pois cfta àão (• liy^ar^ da. V^^S^9^,9^ 



200 Gfêerrás do Alecrim , 

intento ufar com cila. 4 parte. Vimos, Se- 
nhora. Fm^ft. 

Fdg. Ande , meu filho. * Féttfi. 

Sãhe D.Gil. 

29. G. Aonde hirá Simicupio com a velha } O 
maldito nio perde occafião : com íemelhanie 
jardineiro náo murchará o Alecrim de Dona Q^ 
ris^ porém elle lá vem com huma caixa ás coftas. 

Sabe Simicupio com buma caixa ás cofia ^ elo* 
go a põem no chão. 

Simic. Derencomrei-me da velha » qoe ándari 
tonta por mim. — - . 

D. G. Que hc ifto , Shnfcupio ? 

Simic. Náo lhe importe , i^á-fc enrolando , que 
fe ha de mctter aqui derltro , e hei de levar 
cflc corpinho a cafa de Dona Clorís. 

D. G. líTo hc quimera ; como poíTo eu caber ahl í 

Simic.^ líTo nio me importa a mim; abata ai 
prefumpçõcs, que logo caberá em toda a parte, 

D.G. E como havemos abrilla , que eflá fechada í 

Simic. NI» fabe , que a irmá gazúa fcmpre me 
acompanha ? Eu a abro. abre. 

D. G. Efta tramóia hç mui arrifcada: que tem 
dentro ? 

Simic. Eu vejo huns trnpos eftcndidos : Ande , 
ande , qac nos importa a nós. 

D. (y. Ora vamos a ilío : aí Cloris , quahto me 
culhs ! 

Alcteje D. Gil na caixa ^ e a fecha Simicfspio^ 

e togo a pSem ás enfias . e dentro também 

virá D. Fii.lS. 

SiiHic: Nãfc/ ha iit fer má cita cncaixaçSo. Arr« 
ó'(]ac pczà i criança \ D^ F* 



e Mangermâ^ 201 

D.P. Ai que me cfmagão os narizes! 
D. (/. Quem eftá aqui \ Efpera , vejamos o qut be; 
Stmic. O que for là fe achará. 
2>. Í7. Efpera , que iflo he traição. 
D. F. Homem dos diabos nio me esborraches» 
D. (/. Aque d^ElRei , nSo ha quem me acuda i 
Simic. Calle-fc , tamanhão ^ que para boa cafa 
vai. - FSuhfi. 

S C E N A IL 

Sala. Sabem D. Tiburcio , e Sevadilba. 

2>. T. C Evadilha , agora que eftamos f6t 
O quero-te pedir hum confelho. 

Sevad* Sevodt mercê acha que lhos podo dar , 
proponha, que eu rcfolverei. 

2). T. Tu bem fabes que eu vim para cazar 
corn hdma dcfta^ duas primas minhas : am* 
bassão bdlas, ao que entendo i Í6 me reftt 
faber as manhas de cada huma , pra que ef^ 
colha do mal o menos, 

Sevad. Senhor , ambas são mui baftantes mb* 
Ças, a Senhora Dona Qorishemui perfeita, 
íabe fazer os ovos moles muito ^bem ; a Se^ 
nhora Dona Nine tem melhor juizo i muito 
aííento , quando não eftá de levante ; grande 
rapacidade , e tanto , que fendo tão rapariga , 
já lhe nafcco o dente do íizo ; porem na cóii» 
dição he huma víbora aílanhada. 

*D. T. Não fei , Sevadilha , o que faça neftc caio» 

Sevad, Não cafar com nenhuma. 

JD- T. Pois eu vim éft por bcfta de páo ? 

Sevad. Eu dfgo o que emendo cm Inmha cont 
«ncítncia, • • D*T% 



y» Cuerrií do AUcrim^ \ 

D. T. Oh fe pudera eu cazar comtigo ^ Sevi^, Í 
^ Uia , porque fó tu me cahífte em graça ! j^ i 

JVW. Ai que graça ! Diga-me iflfo outra ?»• \ 

D.T. Não zombo , qus náo eftou fora deb* ^ 
, zer.cu huma parvoiffe. 

Jfey^. Não fera a primeira» 

J).T. Creres tu que fujamos ? Olha , que et 
^ cou com minhas tentações de te fazer jdona 
da milha caía» 

Sevad. Díga-me deiTas , que gofto dííTo. 

J), T* Sevadiiha , não percas efta fortuna. 

^vad. Quem he a fortuna i 

i). T. Sou eu , que te quero. 

S$vâd, Sç he fortuna, fcrà inçonftanre. . 

d). T. Ai que a moça me falia por equívocos! 

^ Es difcrcta. 

Seved, Ora va-fe com a fortuna. 

Sahe Simictipio com a caixa ás^cofi^s^ 

Simic, Quem toma conta deftc arcaz i 

D.T. Quem a manda ? 

Simic. Huma mulher já de dias grandes 9 por» 
que era baftantcmenre velha. 

ij. T. A mim me melem fc ifto não he,)á al- 

' guma preparação para o cafamcnto. 

Simic, Voffi mercê parece que advinha , pois pa- 
ra cafamcnto he , fegundo ouvi dizer a hum 

. terceiro. 

2). T. Sabes o que virá ahi dentro' ? 

Simicn Cuido que he hum veÔido, 

X). T. E que tal ? , ^ 

Simic. Bcllo na verdade , bordado coni huns vi- 

^ vos brancos , e de cores cio vivas ^ que eftão 
fâkãnào. D-T.' 



2X T. He de mulher , ou de homem i 
Simic. Tudo o que aqui vem he para muQiér. 
D.T. Cuidei que era pára mim. 
SfVâd. Aquelie he Simicupío ; elle que carrega 
a caixa , não he fem caufa. a Pdrt. 

Sináe. Sevadilha lá níeeftà deitando huns olhos ^ 
que fe vão os meus traz delle$. âf^rt. 

2). T. Já te pagarão i 

Slmiç, Não Senhor ; mas eu efperarei pela velha. 
Z). T. Pois , Savadilha j em que ficamos l Ajuf* 

temos o negocio ? 
Stvad. He boa efia, ouvindo-me Simicupío! 

^ á farte. 
2). T. Olha ,' Sevadilha , eu te quero tanto , que 
fecharei os olhos a tudo , fó por cafar comtigo. 
SímÍ€. Tome íe lá , o que eftavão ajuftando os 
dous! Eu lho eftorvarei. Ápãtt. 

2). T. Que dizes , rapajriga í 
Simic. Ah Senhor , pague*me o carreto da caixa. 
D. T, Efpera , que logo vem a velha. 
Simic^ Sim, pois a moça logo vai. âp/tri.^ 

/>• T* Tu ainda es menina , não fabes o que 

te convém» 
StváA* Eu não neccffito de tutores. 
2>. T. Olha , que eu fou Morgado na minha 

cerra , c terás tantos , e quantos. 
Simic. Senhor , pague-me o carreto da caixa ^ 

que não podo efperar, 
2>. T. LA>go, efpera: ora^^Scvadilha iíTo ha de fcr ^ 

dá-me hum abraço. 
Simie. Venha ò carreto da caixa , he boa efla ! 
Svfêi. He boâ cdmal . 



M4 Otêenât do Alecrim i 

X>. T. Pois dá-me ao menos eíTe malme(}aer pofe '\ 
, prenda tua. 

Simie. Ora venha já eíTe carreto , fen&o tsA 
- vai cos diabos. * 
D. T'. Efpcra homem , ouve , mulher. 
Sevâd. Va-fe dahi , mal creado , aleivofo naiK 
' gao j he o que me faltava ! 

Cofíta Sevadilba a feguinte 



A R I A* 



Que hum tonto jarreta , 

' Que hum nefcio pateta, 

Mâ falle em amor , 

Ou he para rir , 

Ou para chorar. 

Náo cuide, cm amores « 
Que neíTes ardores , 
Se pôde frcgir , 
Se pôde abrazar. Féúfe. 

Sintic. Rcgalou-me cfta Ária ; vou dizer a Se- 
vadilha , dí^a a Dona Cloris que alli eftâ 
meu amo , e finjo que me vou. Senhor , adeos : 
eu virei n'outra occaíião. f^^i-fi'^ 

Sabe D. Linferote comhum ujli^al ^ eveUãce^ 

za ^ e a porá em cima às caixA , donde 

ao depois fe ã[fentãrãõ. 

D. Z. Sobrinho , vós bem fabeis que hum hof- 

. píde « palTados os três dias logo fede , como 

cavallò mbrto; ifto nao he dizer que fedeis , 

mas vos áffirmo , que me não cheira bem cf- 

fa vo^x irrefolufáo » vendo que indecífo ain- 



da não elegtftes qual voflas primas hi de (ti 
voíla confone. 
D.T. Senhor» as perfeições de cada huma sSo 
cão peregrinas » que vacilla a vontade na elei- 
çio dos fuieitos i pois quando me vejo entre 
Qotis > t Nize , me parece que efiou encre 
Scylla , c Caribdis. 

í). L. Pois, Sobrinho , refolver , refolve Iogo,e ia. 

D. T. Pois Senhor ^ fe a hum enforcado- fe dio 
ures dia» , eu que no cazar noto a mefma 
propriedade ,. pois bem fe enforca quem mal 
fe cafa , peço três dias também para me lefolver. 

D. L. Três dias peremptórios concedo ^ e para 
que não hajáo duvidas no dote , adentai-vos^^ 
€ fabettis ^qúe havds de levar, jífféntãò^ 

D. T. IiTo hc fanto e bom , para que nãó líj*^ 
a noiva de contado , e o dote de promenidó* 

D. L. Eu, meu fobrinho , fuppoflo tenha. corri- 
do muiro mundo , com tudo^me acho alcançadÍ9>'. 

D.T. Iffo he bonito! ^ A 'l 

D» L* Primeírainentc cada huma de mihhak (d^ 
brinha.tçm muito boa limpeza. ' - 

JD. T. Sim Senhor ,' são muito afleádas 9 níflb 
não ha duvida. ■' 

2X L. Além S\fío : eftai attento , meu fobrliihó^, 
tiáo deis. ffulabancos com a caixa , que ittò^ik 
manha de beftas» Bole A caixa. 

Z).T1 Eu eftou com os cinco fenttdos bem quietòsi 

D* L. G)mo digo , fabereis , que todo o meu 
cabedal anda fobre as ondas domar. Não^f* 
urêis quieto ? BoU 4 caixâ* 

Z). T* Não ibu eú por vida minha. 



jotf Gu€nâ$ dú Alecrim ; 

J>. L. NSo vedes a caixa t faltar? ' 
2). T. He verdade ; fera <le contente. 
Cabe 4 caixd com $s dom. 
D^L. Ifto agora he mais comprido. 
IX T. E ifto he mais eftirado. 
D.L. Ai , quem me acode com homa hiz! 
Séd)cm Dona Cloris , Dond Nize , Fagimdts , e 

Sevâdilba com luz. 
Todoí. Que fuccedco ? 
jD.T. o maior cafo que virão as idades. 
2>. Z. Eu , que na maior idade vi o maior cafo. 
J). Niz. Pois oue foi > 
IX Clor. Que luceedeo , Senhores > 
JíPVA/. Que he ifto? 

Hfg, Que foi i Que fuccedco í Que he iftoi 
2), T* Efta caixa. 
J). L. Efta arca. 
JD* T. Que em torcicolos. 
J). L. Que em bamboleios. 
D. T. Com pulos. 
27» L. Com faltos. 
jSlT. Deirou-me no chSo. 
2>. Z., No chio me eftendeo. 
2). Aíz. He raro cafò ! 
D^Vor. He cafo raro! 

Sitvãd. He , nâo ha duvida : ai que eDa coma 
. a bolir ! Fujamos , Senhores. 
Fág. Valha-te o diabo ^ D. Fuás , que tão itv- 
quiero éy? aparte. 

2). Z. Efta caixa tem algonx encanto , abramo-la. 
D. 7*. Diz bem ; abra-fe a caixa. 
2>» Niz. Ai de mim ^ que íerá de D. Fuás ! if f • 



iXfáfigertmâ. «7 

dMor. Qaè fera de D. úW 1 ' â faru 

RT. Vá o tampo dentro. 

Sévad. Tenliáo mio ^ que pode vir á^niTô^ al- 
gum ^díaiDantc, que nos mate aquilatados* 

f^^' APfanto breve da marca ! v 

D. Niz. Senhor ,fc fe abre a caixa 9 deftfiaia* 
mos todos aqui. - - - ^ ^ ^ 

2). i. y amo-nos , que a prudência fcc mdhoc 
que o vilor. Jf^M-ft^ 

D.T. Pois Í6 náo quciõ fer valente» x ^ 

Faifei t Uva aúuz. 

Stvâã, Ai, NSo feiquépcsme hârf de Ibváàl 
Ande , Senhora. ■ í .i»íy; 

D.Clor. Fazes bem em disfarçai até isíò^d^ís.. 

Fâg. A caixa parece que tocou a recoBrèt/ 

D, iVíz. E não foi ò peior o fièarmos ás eí^ 
curas , que aílim teráõ todos medo de vir áq^ 
ora abre a caixa , c dize a D. Fuás quefaia» 

Fâg. Ai , a caixa eflâ aberta ! Seria com AbÍSí- 
hbancos: faia, meu Senhor, e perdoe ^;def- 
commodo. ^ ■ 

jíhe â caixã , e fabe D. Gil* . "^ ,. 

D. G. O' tu noâuma deidade , que no 'calfj^ 
nofo bofque deftas fombras brilhas carbuttcu- 
lo da formofura , aqui tens fegunda vciz^ no 
ciheatro de tua bcUeza rép^^ífemante a'''mliiKt 
conftancia na Tragicomedía de meu arner: 

Fâg* Senhora, quem ásefcuras hé tão dífcréro^^ 
que fera ás claras ? • ;'; *- 

D. Niz. Já vou acreditando 9 \mga ber^ as tuas 
finezas -, porem . . . • 

&4- 



'9oB Gm^iíxào-Àlittm 9 

V. - , Sabe Z). fl$as da cmu* r v " j 
D. /•' Porém o teu engaru> ,. falfa jtiitnig».^' 
i fisgunda vez k repete^ para roea diríengano y 
.?,::*. tua aflTroiua* . 

2>* iVifz. Que he ifto 9 Faguades!? • C^e^ ^t- 
. ç: rAioias sio eftas 2-:. 

. JFé^^ Eu eftou befta , pois fó a D. Èuas meu 
:.>;íti^tca^a j -.'..■.. 
jD*'>iyiÍ2. Potscomo ha aqui outro tõi^. D. Fúas! 
jig. Eu. não feiy em minha .cotifcifHKia -, que 
.> Oão -he ma. 

;i>v/^ Senhora D. Nize , para que s$o effes fin- 
. gimentos l Peleije agora com Fagpnde3 » para 
::irlç'moftrar ionoccme. 
^JDiij* Efta he Òona Nize; eu me. recolho to 

\efi11ariO9 até, que vcn|u^ Dona Gloria. . 

M^t^Je D. Gil na caixa. ^ 

Jkf,Niz. ]á dilTe , Senhor D. Fuás ^ que a mí- 

^r nha ionílancia vive iíenca deitas òalumnias. 

JE>. J% A que d^EIRei , Senhora , quereis que 

.,.4^k com a cabeça por efías paredes i He .pof- 

fivel que ainda intentais ne^ar o que ! tão 

repetidas, vezes tenho expcrímci^c^afjlç ? 
2). Niz*, Senhor^ he pouca fortuna «ie minha 

.firmeza , encQncr<ir íempre com accidentes de 
.:, fall^adç. 
i5íf^. Senhor p.:Fuas, não cuide voflTa mcrcè 

quç^:fomo? cí nenhumas mulheres dte caçara- 

,çá-j mas all|. vem gente. 
^ 2). Niz. Recolha-fc ourra vez , que eu em tanto 
í.jaqui me retirp. Anda , Fagundes. Fai^e* 
Pag. Senhor l nós ]à comamos. Fairfc. 

D. F. 



,. e AÍ4ngtroná; 109 

i^/v Mais a,thiiv/ia confcryaçSo ^ qiiô ao teu 
^ . rcfpeíto , òbècjíCÇOi 

iffwde-fe t>. i^s hà caixa y t fahè Z). Óoris. 
p. fcfpr. Que fc cxpczeílô D. Gil ao P«rigo 

de' viir ém huma caika á tneu reípcico ! Oca 
. o carto hé qiie náò ha ft\à\9 cxtretnofo amatt* 

le j J>orcm os fumos de Alecrim ictn a mef-* 

ma vittude, <]ue o incetifó nos pombos, que 

oft faz tornar ao pombal. Mas àdpnde eftâri 

aqui a cai^a i Efta rúpponho qíiehe. Jàmeii 

bem podes fahir fem fufto. 

SaJje I>. í^uas da caixá. 
D.P. $iTú , tyranna , pois já ihe nao afluâáa 

as tnas falíidades. 
J).Oor. Que Faffidadcs ? Qiae dizes ? Ehlòtíquc* 

drfle^ ou ignoras com quem falias? 
2>« F. Oomlígo failo , que coin outro amante dua< 

vezes infiel te. encontrou a minha infilícídadc 
D* Oaf. Cuido qiie hão são tantos os ehcon<* 

troe que tèmoà tido; 
D. Ú. Aquelta vòz he de D. dlóris efiou aN 

dendo co,^ zelos!. íMrtm 

Dé F. )à eftou defertgãtiado. da ttia falfídade. 

]ã íei oueeA'oútro amante, que vive encer* 

rado nefla caixa , he o que fõ merece os tous 

agrados. 
D. C. E como que ò mèrécè , pois fó elle hc 

digno deíTe favor; e áqúem o impedir ^ lhe 

meterei eftã efpada até às guarnições. 
D. F. y& , ingrata , fc he certa a minha ftifpefta ? 
C>. dor. Eo efiou confufa , c oãç Ui a qu((m 

fatisfaça ! 



SIO Ctfenés do jfíecrím ^ 

2). G. Ainda conrinua , infolenre ? Nio (i 

que efia Duna hc coofa minha ? 
D. F. ]á agoca por capricho , a pezar das ft 

aleifofiaf hd de dar a vida por mi ^n 
2X Oflf. Stah oi t s , ()nc deígraça ! 
X>. G. & aio cflircra ás elcuras , to feria] 

a^lO ie cajcibis iias. 
iX /l ^M it oio fora a cfcorídade , co te 

ZSBX T9 o CKo brio ; mas arnda affim , 

iQir ài^H^ « òè ioaie der. 
^ Oar^ Sa à iO it » ^ «km de oianfo y tíío os 

ca »n xiow 



«. ^». 



3i if. 



j:. 



^^ 






rDofU Cfofíí^ 



?• 




5& tão fera per não fei qac , 
Te maniri mefmo acjoi. 
Sr itio foia o velho alli 9 
T^ £isra hom não fci qoc. 
I>e oomnho , pocca bolha ^ 
Cftkt CTaiKa « cake gralha , 
Pei^par o Telho ha "ds acordar^ 
Pw a<;ci i&ei manfimenie 
jybrcm eAe bfoknre. 
CQ peit caQaia 
1 K»ha efjp«da. 
De ^^a» »o im de riio i 
^fl^çgc ^ v>eSbo ba de acordar^ 
riaâcva cm uma luu 



t>. 



t Mmgeronâ. 211 

^ 21/1 />.'£7. Se não grito nefte cafo 9 

Sou c^paz de rebentar. 
D. dor. ■: Mais c]ue eílalcm , c ancbcmem ; 

Não íe ha de aqui ^llar, 
Joior. Não fe pôde ifto aturar ! Fio-ft. 

Sabe Simlcupto ftU mio de Sevâdilbd. 
Jímic» Donde me levas , Scvadilha } 
'fiiVãd. Ande ^ não me faça perguntas. 
Sbmc» Não ha hnma candeia hefta caiaque ícmt 
meta n^ mão , que eftou morrendo por ce Tcr i 
Avéíd. Melhor fineza he amar por fe« 
Simie, Como , fe eu não dou fc de ti i 
Stvâd. Ande , que o amor fe pinta cego. 
Shmic* Muíco vai do vivo ao pintado» 
fkvãd. Affim eftamos niais á noíTa vontadt. 
Simic. Andar , fupponho que tenho o meu uêêoí 
na. Noròega : mas- ainda affim ifto òtebarm 
cícoras » não he grande coufa pua faon ho» 
mem dizer à fua Dama quatro hipcAtolcf^ 
•pois íê não ve}o , como poderei diz£s«^ 
^oe CS eftatua de alabaftro fobre pltmos áeyA» 

Sy neve vivente , e racional forvrte ^ «ag 
carapinhada , pois negra ce confide» «cfia 
Erhiopiaroh ncgregada occafiiQ, tm^fatfoi 
faka de hunu candeia não (afae á la a lot 
fe/mofura ! 
Sevàd. Pois o fi>go de ren siBor sâs ht&jL m» 
ra allumiar efta cafa l *^ 

(fm/r. Se a loz exceffiva hz enm. tMi^ci a 
minha chamnoa por rTrrffintfii aTi^xi ; n^ 

dom luda \&o nío nc% tmtmm ca iUxsr> 



2 to Cuerrds dó Jtectím 9 

J). G. Ainda continiui , infolémè ? Náo m» 

que eíU Dama he coufa minHa i 
J). F. Já agora por capricho , a pezár dà fbtt 

aleivoíias hei de dar a TÍda por mi ámiu * 
D. Oon Senhores , qtie defgraça ! 
. D. G. Se nio cffivcra às eicuras , ra fâriàt o 

alvo de minhas iras. 
2). F. Pois fe náo fora a efcorídade , cii lef fr 

zera ver o meu brio ^ mas ainda affim , ta 

vou dando , dè donde der. 
J>. Clor. Senhores 9 dem de manfo, ASooiiMi' 

Ç9L meu cio. 

Cdntão D. Fms » 27. Gil^ e Dom Úwhn, 
feguinti 

A A t A A )• 

2). (7. STe não fora por nSo fei qtft , 

Te matara mefmo aqui* 
2>. R Se nio fora o velho alíi , 

Te fizfcra hum nâo fei que. 
JE>» 0or» De manfinho ^ pouca bulha f 

Calte gralha , calce grulha , 

Porque o veího hl de acordkf^ 
j). (j. Pois aqui mui manfamence 

Macerei efte infolcnre. 
J). F» Também eu pela callada 

Meterei a minha efpada. 
D. 0on De vagar não dem de rijo j 
^. . Porque o velho ha Jc acordar^ 

ítóios. Quem pudera em tanta luta 
p Soa doK dcfabtfit l ■ 



' f Máfígeronâ.' ' 2 ri 

D,F. DIG. Se náo grito nefte cafo » 

Sou c^pAZ de rebentar. 
2>. ÚOT. •: iAú% c]ue eílalcm ^ c arrebentem ;; 

Nâo íe ha de aqui ^liar. 
Todos. Nâo fc pôde ifto aturar ! Vio-p. 

Sabe Simícupio peta ntão de SevadilbA. 
Simic. Donde me levas , Sevadilha ^ 
^evad. Ande ^ não me faça perguntas. 
SimiCé Não ha homa candeia hefta cafa que fcmé 
meta t\% mão , que eftou morrendo i3or te ver l 
Sevad. Melhor fineza he amar por fe« 
Simic. Como , fe eu não dou fc de ti ? ' 
Sevâd. Ande , que o amor fe pinta cego, 
Simie. Muito vai do vivo ao pintado» 
fievãd. AiHm eftamos mais á nofla vontade. 
Simic. Andar ^ fupponho que tenho ó meu amoe 
na: Noròega : mas- ainda affim ifto de eftar àj^ 
cfcuras y não he grande cobfa para hum ho» 
mem dizer â fua Dama quatro hipérboles^ 
* pois fe não ve}o , como poderei dizcr«te ^ 
que és eftatua de alabaftro fobre plintos dtf jaf» 
pe , neve vivente , e racional forvete , más 
fó carapinhacia ^ pois negra te confidero nefiâ 
Ethiopia :* oh negrègada oceaítão i em que poc 
falta de huma candeia não fahe >á luz a iu« 
fo/mofura ! • . > 

Jevif^. Pois o fogo de teu amor itão Ufta pa^i 

ra allumiar efta cafa ^ 
ifimic. Se a luz exceflmi hz cê^ar\ também * 
minha chamma por ezceffivâ nio allimiía f .nMl 
cpm ludp ifto não nos meiaiws no ^€£m«> } 
O ii S^ 



2Tt Guerras do Àletrim , 

faltemos claro : como cftamos nÕ9 dâqniOc i 

que chamamos amor ? 
Sevad. E como eftamos nós do malmequer, 

que cíTc hc o ponto i 
Simic. Cada vez eftà maisviçofo confi acopíoi»- i 

ia inundação de meu pranto. j 

StvAd. E teu amo com o Alècrjm > ^ 

Simic. Ido são contos largos , o homem, mik . 

doido ; tudo quanto vê lhe parece qile'he 

Alcaim ; eft'outro dia eftava teimofo ^ em qot 

havia de cear fellada de Alecrim , mair qot . 

o levaíTe o diabo. Olha , para contar-te il 

loucuras que faz, aflentemo-nos , que ifio fe 

nâo pode levar de pé. 
'jíjfenta-fe Simicupio na caixa , éjue efiarâ iem 

o tampo levantado j e cabe dentro da em' 

xa ^ qtêe fe fechará com a dita queda. 

Simic. Mas ai Sevadilha, que cahi n'um poço 

fem fundo ! 
Sevad. Aonde efiás , Simicupio ? 
Simic. Não fei aonde eiJou \ fó fei que eftoo aqui. 
Sevad. Aonde hc aqui? 
Simic. He aqui. 
Sevad. Aqui aonde? 
Simic. He boa pergunta * Eu fei cá donde iao 

os aquis na cafa. alheia ? Sei que efiou aqui 

n'um fole como criança que iiafce Implica* 
' da ^ mas fem ventura. 
Sevad. Pois fahe dahi , e anda para aqui. 
Sinnc. Iffo he fc eu foubera faír daqui para ahi; 
i£emd»' Quem 't« impede? 
Jím, £fipu entupido. 

-•■Cl .§^S 



Sln^ad.Di doQS efpirros. ■■■•,' 

Simc. Falta-me a Sevadílha , que á nSo acho , 

por mais qa» ando to cheiro delia. Ora^fiiha , 

-lira-mc daqui» tu nao ouves! 

Stvâd. Eu bem ouço ; porém não vejo aonde eftáf^ 

^mc. 6ufca-me fora de mirti ^porque naoef*^ 

. cou dentro em' mim metido nefta fcpultura , 

idonde íó campa por infeliz aminha deívenrõfa. 
Sevâà. Ctltc Simicupío , que ahí vem gente 

pom luzes ; adeos até logo. Fâi-fe. 

Shnicm Efiou no mais apertado lance 3 que niti^ 

guem fe vio ! 

. Sábm D. LOttferote com hmnâ tuz^ e D. 
Tibíárcio. 

J>. ' £. Apuremos efte encanto. Sobrinho , nós 
havemos ver o que fe encerra nefta caixa » 

; ainda que o cabcllo fe arripie. 

Z). 7*. Sc for coufa defta vída , ficará fcm ella , 
e fe for da outra, a mandarei para o outro 
^Wtundo. ' ^ 

2>. L. Pois fobrinho , abri pOí caixa com intré- 
pido valor. 

Z). T. Abra voffa mcrcè , que he mais veího , 
"C em tudo tetn o primeiro lugar. 

D. L. Deixai cutnprimcntos , que aoccafíáonSo 

• be para ceremonías. 

JD. T. Por nenhum modo: nío tem que fe can- 
çar , que lhe não quero tirar a gloria dcfta 
' empreza. \. 

P. £. O magano contraloçrou-mc ; pois eu con- 
feflb que cftoa tremendo de medo. a párt* 



114 Gucrréis do jfíccf^m I 

D. T. Queria amimtr-me o gigante 'i He bem ' 

erpcrta. i fmu. 

D.L' Ora pois » hei de ir eu , ou haveis de ir vòi } 
D. T. Vá , hão haja comprimencot» 91^ eo (m 
. de cafa. 

J). L. Não ha mais remédio que ir Ç!ii 9^. 
corpor e alma , a ver efta âlma fem corpo | ^ 
ou ede corpo fem alma. Deos vi comijp^ikj 
>\njo da minha guarda , e codo o Floi S», 
Aorum me deFeoda. 
Jp.T. Ande tío/não tenha medo que eu eitou^Kful.. 
2)« £• Pois fe não fora i0b » já eú deítava.a.correr; 

Simie. Ai! que'fcni duvida eftou tia caiap» êm 

que trouxe a D. Gil, e f.^gundo o que aqui 

ouço dizer , me intenção reconhecer : tu lhes 

. tocnr^i a caixa. 
CbegA'fe D. tanferote ã eaixa , e tanto fisc 4 

abre 5 deita Simiciépio á cabeia de jota , . 

e da bum affopro na vélâ* 

D. L. O' m quem quer que és , * que eí^ás nef- 

-ta caixa .. » mas aí , que me apagarão a véU 

com hnm affopro ! 
jD.T. Affopro! 
Simie. Mui fraca era aqqella luz , pois de bum 

affopro a derribei. 
D. L* Sobrinho , y6s eftaís ahi ? 
J). T. Como fe não eftivt ra. 
J3. £. Qjcm feria o craci , qut tão aleívofa* 

mente matou huma innocence luz a afloproi 

frios ? ' 

Deos lho perdoe 9 que er^ huma luz á 

10* 




\9 Aídngeront,, 1x9 

todas as fazes boa ; mas ea quero çafar-mé 

da:]ai , e cema marrar de narizes com algoem ; 
mas que remédio > 
.D. £«. Agora vos chegais para mim', cobarJâ 

íptffiiiho } Hide , que por vofla culpa não ac:^* 

,jbei de defencaticar efte eacanro. 
' HfX* Veja voiTa mercê como chama cobarde ? 
^Pf Lm C:|Iai">vo8 9 abóbora j que degenerais de 

^oem foís« 

J^. 7*. A mim abóbora > 
Jâiiír.' Agora he boa occafiao de hirme ; porque 

.ainda que encontre com algum, cuidarão qoe^ 

s^o murros: lá vai o primeiro. * DâJ 

ÚÍL. O' mal enfinado^ pondes mãos violentas 

^.voSo tio \ 
Smc. Eu abrirei caminho defta fone» dando a' 

troxe moxe. Dá. 

2}.. 7!. He boa e(& ^ Senhor tio , alEm fe dá 

n^um barbado i 
H.JL* Calai-ros , maganão , que não haveis de 

^ca&r : mas aí , que me déftes hnma bofeta-» 

'da com a mio abcna ! A que d^ElReí Tobre 

Içftc magano de meu fobrinho ! f^di-fe» 

DlT. a qued^IRei fobre efte caduco de meu 

cio í f^aiTe. 

ijmk. A que d^ElRci que yz me deíxiuo ! Fai-Je. 



SC& 



i!$ êi^errà do AUcrfm i 

S C E N A iir, 
€mers. Sabem D. Gil , f A Nizi^^ 

p. G. C Enhora Dona Nize '^ fe acafo éití itrot 
O fa piedade pódé achar ^mparp Irbt^, 
"^ defgraçado, pcço*vos que me oculceii; poii 
ji a rubicunda Aurora em rifonhas vpzeir noi ** 
avifa da chegada do Sol ^ aflim ^ voíEaKíííiH- 
gerona fe veja. coroada de Jouro. feK;^ Çàptl.^ 
tolío.do anior. *' 

JD. iV/z. Já o Àíccrim pôde fa votes á Mangctolu;} 

í). G. Sc Dona Çlòris náo appaV eco ^ ijuç q^e? 
reis que faça ? t . . 

Jp. Nizs Pois cfcondei-vo.5 neíla alcova , çm ^QÂiH. 
to a vou chamar. ' . ij* 

J^fconde-fe D. Gil , f fabe D. Ftíâi. 

1). f . Aonde vàs , tyranna ? Prqcuras acafo O tec^ 
amante? Oh murcha feja acua Mangerooa.,. 
que como planta vençnofa me tem morco. 

D. Niz. Homem do demónio ou quem quer 
*que CS , que em negra hora xt vi , eaihe;r', 
que defconfianças são cflas l Que amante he 
eíTe , com quem me andas aqui apurando a^ 
paciência , e fem que , nenrx para que , dei* 
compondo^ minha Man^rona ? 

J). F, Pois quem era aquelle , ,'que fahio da cai» 
xa a dizer-te mil colloquios^ 

D. Niz. Qu^ fei eu quem era ; falvo fgíle, • ., 
Mp<? rctira-ic quô ahi vem jG;ente. 

J). f, Efcondcrinc-hci aonde for. 

Sfé^r ejdcr-fi onde efid D, Gil. 



• "e Áfangmná. ' tíf 

J}.Nii. N5ò Ws eícondas ahi. Aí Se mim, que 

íc D. Frfaà vè a^ b. Gil, fará o fcuciuhiLC 

verdadeiro! .' 4}sri^ 

J). F. NSo queres , que jitc efcotida ahi > Ago^ 

ra por*H!oinefmo, '* ' 
X), Niz. Tem mão ,.ádvéríe . ; , . . 

Í).JF. Quárl 'adverte? T^ns ahi acafo cícondrâò 

p teu' amarite ? - '• ' '. 

J). Mi. Nío j D.Fih»', porqtie fó tu..; 
J).F. Ç^e he iíío? Múdâs dè cor ? ' \ - - 
X). J^Hz./Sé^ á;còr he accidcnté , eftou para dèf« 
jDailir, Vendo a fémrazão com que me crimiita9. 
Sabe D. Ctaris. 
P* Ctvn Nlzfc 'j que alarido hc eflfe ? Queres 
que vcnba d lío , c ache aqui cfte eftafcrrho.í 
2>. iWz. São loucuras dehumzelofo fem*èauri« 
J), F* $ão zelos de hurna caufa f em loucura. 
•E fciifo diga-õne', Senhora D, Cloris ,'■ por vi- 
da jdo penhor feu Alecrim , não he para tet 
2e!os ver Vepètidas vezes a burn íu jeito prò- 
qirar ^ D. Ni?e.com tão repetidos extremos 
qpe hunia eoufa he vellò , e outra dizello , b 
'fo{>ponho o tem agora efcondído naquella ai-* 
cova de donde me dcfvia para efconder-mrí 
D. Cíbr. Iflo verei eu , que também me impor^ 

ra eíTa averiguação. 
25. iVfz. Cloris não te cancrs , qi^e rjò h?s^ 'de 
ver quem.ahiôftá. E fiou perdida ! áf/jrf. 
D. F. Hé para-' que ve]â. Senhor , a razão qús 

renhp. Ah tyranna ! 
JE>. Clor. Jâ agora por. caprithò hei' de vrrcrrm 
abi cftá.. Voflamcrcè he, Scthor D. Gilvaz} 



r QacJic iíTo í Quer enxertar o (iicttAkcfim 
, coin a Mangerona. dt Dona Nij^e. , 

JXGl ÍFía cafo fciiienianic í ' * 

p. P. Falfo , rr^Mqr amigo , com# Tabenj^ 

que cu pretendo a D, Nizcy.te^cxpçcft «env» 

baraçar o meu emprego > 
p.i.G; P.^CJIpris f D,. Fuás, para qpe «io eftei 

extremos ^ quando a Senhora D. Níze nem a. 

vós vos o£&nde , nem. amímime^eorrefpondeí 
jD. jF; "Kfingucm fc efconde fcm ddiílo,> 
jP.\ Çfor. Ninguém fe oçcula feni mptíyo. 
^ Niz. Ora agora nio quero, dar, ia;íj^açdes , 

nemí a huma Iquca» nem a;.hum temerário: 
^ hç inuica verdade ^ efcondt a D.Gi{^ P<>>^ud 

}\\ç quero bem j pois que temos í • 
p., J^. C^tiíko iqStx a minha paciência! Ah 
* itigratal 
Z). õor. Qud ifto tolerem os meus zelos \ Ah 

..f^lfo amcntc ! .. 

jp.Cr^ A Senhora D. Níze eíU zombamb, e 
. aquiUo nella he ga Jantaria*. 
Z>. Niz. Não he ícnão realidade , e tet>ho dito^ 

JD- X Nío ft vio mais defcarado rigor ! Efpera 
crueU e verás com os teus olhos os ultrajes , 
que faço à tua Mangerona. P^ãife^ 

ip. Ciar. Senhoi- D. Gil , venha <}cprcffa o meia 

Alecrim. 
'jDl G. Oteu Alecrim he infeparavel demeu peito. 

Jp. Oor. Deixemos graças , que cu não zombo». 

i). G. Pois emendei que D. Nizc falia dô, 



Z)» Cíor, C^f.t/alUffc de vçw i quer nSo.^ v^ 

^nhá , venha o meu. Alcçjfiin. 
jpt. G. Qe^guc ^jfojte qucrçs.que ic fatUfaja^ 
I^tu)ràs,|^carp ^f firmezas, ^e m^ «^napir i ; 

> Ciifl4 2). Gil > ftgmntc 

• ■ A 'r I .A.; ' '• 

l^orbôlqa namorada , 
(^úe nas luzes abr;|zada , 
Quando cfpira nosL incêndios • 
Solicita o n^eimp jirdqç. 

Tal , ó CIocj 3| me jtn^gíooy ...• ^ 
Pois parece . que o ácftipa 
Quer ^ por mais qíic ta nie matçs» 
Que. ajp^etjeça o itx^ jigor, :, 

SábmSimlmpiOj é S&adUbd. 

Jtltm^ Senhor. P« Gilvaz, çunca Siipjcupía Xd 

vio em calças, mais pardas. . ' / 

JO.G. Porque? : . 

Sevai. Porque o v^lho )à ahi vem camiòhahdoí 

conio hnrn^ .cçntopeÍa,\ 
D. Clor. Axsis^yt)^ Gil , pár^ dentro até que 

haja occafiSçí pára fah^icçs* ^ 

jp. G. Vàs ainda com çfçropulos na minha con>* 

jftancia ? . .! 

jp.Clor. Cí dejntro apurare ir c$ çíTas finezas. F/fi* /I 
J). G. O' Slmicupío , vè cciro hav^^n^cs (ahít 

daqui , quei.bemTabes , qu|5 tenho dc.ffcrc.vc^ 

hoje para o corrçio. ^^''j<». 

Simic. Tomara gue o iizefícjn im fcflas.^ e qi 

ievaíTc harzabu ás vinte. 



iío Gaerrãs io Ateerhn ; ^ 

*Sevad. E Te lhes não dizemos c]i]c vinht'iv6^ 

. lho , ainda fc nSo hiâó. ' ;* 

Sfmic. E hía-fe a hifloría . ÍE^tn Vi6s iEazeimòl 
noíTop^ípcl de Alfazemas por cadla âo Alecrita. 

Sevad. Nio me dirás, Símícapio-,>em qaèht 
de parar toda cík barafunda ? 

Simic. Em algum cafamenco , . ido u fe fabe; 
tomará eu tanibem que i^é diflefles, em quã 
havemos nós parar. 

Seviã. Em correr, que fe parámos aqui , talvez 
que nos envidem O refto. 7 

Slmic. Não embaralhes o fehtido* èni que te fal* 
lo. Ai Sévádiiha , que não fõ me cbegafte 
ao coração , mas também aos nãrhies ! Eaf- 
íim não ponhas por eftanque ôs teus favores ; 
antes aíFavel dá^me alguma amofirínha de tua 
. inclinação. 

"Sevadt Quem te mcrtco eíTcs Wmo$ na cabeça ! 

Simie, O dó que tenho de te ver ião matadora. 

Seyád, Vai-te dahi , que tenho nojo de chc* 
çjar-mc a ti. 

Simic. Eu rião te mereço que mè defcompo^ 
nhãs o carinho ,' com que te- trato. Ai Seva* 

^ dilha , que íinio aíTar-me nos iefpctos quentes de 

*'* ieus olhos , aonde os repetidos efpicros de 
ntóu incêndio. ... 

Sev/td. Se me difícras iíTo em dous dedos de pa- 
pel , ainda te crera. 

Simic. Não fó em dous dedos, mas em toda a 
mão da folfa , donde verás de teu Simicu- 
4>iO as finas claufulas de fuás fímicopadas. 



'CMUh%SimiflÊftOy efpirrando tio fim àt cãdi 
verfo^ a feguimc 

A R 1 A. ' 

N40 poflfo , ò ySevadi • . ; • i 

Dizerce j^: o que pa4^ « ^ • < 
Que o. meu amor trave « • • • 
Oíiegando^ine aos hari,. ••• 
lN'uin moto continuo me faz òTpirrar. 

Mas fé he cafuUaría 
Efte vício dç <fuçrcr-ic , 
Toda inteira hei de forver-iô. 
Por mais que me veja morrer , e eftatlar; 

Siváâ. Ora Oeos o ajude com tanto efpirrac. 
Sabem 2). Lanjerou , ej). Tibarcio. 

D* jL Bafta fobrinho que não foftes vós 9 o que 
me derreares ? 

2>. T. Pois acha voíTa mcrcfc que havia põe 
as máòs violentas nas reverendas barbas de voír 
fa mercê ? Igual eu tne podia com maia ra- 
zão queixar de voíTa mercê ^ que me fez em 
eftilhas. 

JP«X. ]£u 9 fobrinho ? líTo he engano; eu b^via 
erguer a mao para vos , quando fó as devo 
levantar, ao Ccd para dar-lhc graças , por da«- 
me pârahuma de minhas íbbrinhashum noivo 
táo i^cntil-homem ? 

2). T. Náo, vai a dar quebranto. 

Sevád. £ elle y que he mui bello. á parti 

JP* T. Pois fe nenhum de nós reclprocameoca 
deu hum no outro » quem feria? 



he, <}iie a cafjcA^^p^íra.nós: foi de gffr^a. 
Sevãd. E para o noivo | de tartaruga do Além- 

teto. N^ â pa/f. 

!>•*£• Sevadtlha -y ;áhda cà 9 fiSò ò'nCgàes : quem 
^ andará nefi^ caJfá ^ hi ihbm px^ de noitces qiie 

fmcd j^randerébiilt^} ' ■ ' " * 
«TfViá. Senhor, -eU^tra jpiáta itilõi /fàé éítã 

càfií !ás; efcdrás htí á(ÍÍombrada* • " 
2). £i Tens vifto âlgtímá coufa ? / V 
Sevãã. Ai Senhor f» ténh^i' .viftò ÚÁaà á^iifas ^ 

oiie nSo ttàc^áitífêp á dtzellãéV' ** ' '* 
"2KXVDizèé^«írr*^ri^: ...■.•../..... 
jlMiá: Só em cuidar liò qiie vi ^ eftdã pata me 

'definaíar. ' '''''' -."-> 
p. i, Era còlifá^ óôrfò fràndòí 
2rèi^iii« Qual do omrà mundo , f e etí avinefteè 
JD. JL Èra fántafma í 
«Tevi/f. P quê' he fáfitáfmá? 
D. t* tíehaJna còúk branca qtie poiíh õs òlhot 

crh alvo. 
JWirf. Scnhoí j ' èi! tilo Mó que íiè ; fei ío- 
. mente que vi fahir ' de htímá^ caÍ3i:a htima 
' còufa cómò furacão de vetitò 9 qtíe mé dcii 
""muita pancada; 
X>. L Vedes , fobrínho i He otiíermò que noa 

fuccedjí cm carne. 
J).T. Na carne aíiàsi 
J). L. Aqui não ha obtrò rchied»o' mais qnb 

Çafares logo , e já , c levares vofla mulher couh 

vtifco , qdc cu jHinho cfcritos nai cafas , e 

mudo-mc á$ carreiras. ' 



D.T. tffo he ò VirtdftleiíW * ■- :''' - 

Í>. Z^-Sevadílha, vai cbaitiar as fiçztigzi y, <{úê 
vcrihio cá acpfelfa. ^ •- > 

JVviií. Gcoro., e fògro nSp ós vi mais l)6fta$ i 

-'- 'ipâtu iVài^fh 

j). T. Par^ fpkt ihahda yoíTá tncrcè chàttur i 
minhas primas táo deprcfla ; -' 

D. £• Logo vereis. 

Sãbeni t>, Cícrís y e í)i lííie. 

Ambds. Otie nos ordenas. Senhor? ^ 

D. JL. Scírinhd 3 ellas ahi eftâo» efcolheihuiÉl 
das duas paà volbi eípofa. , 

D: dar. Eá fté voco de fer fieitai ^ sílim iiSo 
poífo ca2af< 

D.L Pois csité D, Ni*. 

JD. IJiz. Èo menos, qoc iqàtfd fer dónzetfií: 

Í7. X. iíb )á nSò pôde fer , qtie dei a líirfiKa 
palavra , otíe vaí má^ <]i]e túdo^ 

2>* !fi Eti ja mie réfolvéra a àttírar à rifpídá con* 
díçSo de £^ona Kize ^ sias ftm ineceMr o da- 
te , nSo ftte recéboi ' ' 

t>.L. Andai ^ qúe ípis hum impolitico : atfgoio» 
homem que tem brio fàlla tm dote í 

D. T. £ at^úm hpoKem qòe qoer àoit ^ átcia- 
ta em bno ? 

Sábm 2). iOtfii » D. Oil , t rS^mtnpk 'VffiiêMí 
de nuflber com mântóf. 

Simc* Senhor ^.eftainduftría nos valha , qwf fMfV 
li fahír feropre foi boa bania ftta. i 

2>. C. Qógn ferve a Cupido » ' aio bc thom 
qoc fci albunc. H¥l^ 



S24 Guerm dQ Âleerjm; 

2>. F. Aié nífto moí^i o amer, qi|e he coba^ 
de. i firt, 

2>. L. Que mulfierês sáo citas ^ que (aliem da 
nolTa alcova ? . . 

p. Çlor. Eíbu tremendo não fe defcubra a crir 
ijiQja.^ áfâH» 

Sintic. SnhoT D. /fiburclo, as mulheres hooi^ 
das , como eu , fe nÍo trarão deftá forret 

D, T. Senhora , yoffa mercê vem enganada. 

D. L. Qtíe he ido , fobrinho ? 

2). T. Eu o não fei em minha confciencia« 

jD. £• Senhoras ^ como .entraftes nefta cafa! 

Siptiç^ Efte Senhor fobrinlio de vpíía mercê me* 

. recia que lhe deitem duas facadas , pois fem 
alma , nem confcieticia f depois de o intro» 
duzir na minha cafa , para cazar com huma 
de minhas filhas ^ que voita mercê aqõi v&^ 
teve tacs ardis, que enganou a ambas, e de 
ambas triunfou ; e para mais pena^ feotitt 
eíla madrugada nós mandou VieiTemos ,a efia 
caia , que diite era fua , e no cabo fei que 
não he , e eflá para cazar com huma fobrinba 
de vofía mercê. Ah, traidor, ladrão , não fei co* 
mo te não efgadanho , e te arranco cílai goellas» 

JD. L. He notável cafo í Sobrinho defalmado f 
ene he o que fizeftes ? 

2). T. Senhor , eu eftou tolo de vir memir ef- 
ta mulher ! 

í?. G. Ah falfo D. Tiburcro, o Cco me vin- 
gue de ruas falfidades. 

p. F. Ainda negi o roas^ano l Tal eftou que 

^ lhe arrancara cilas barbas. 9 



úfímic. DciKííi i; afilhas ^ ,dc|xaf;, , q(ic aMa.^ap 
Ceo ha raios, et)o inferno a calqeira de ?ero 
Botelho para^ftigo de vcth^os*. Vamos , me- 
ninas. . yão-ft. 
D. Oor. Já e(hmos livres dcílc fufto. á part. 
D. Nh. O criado vai hum milhão. á foru 
J). L. Senhoc i^obrinho ^ voíti mercê a tem fei- 
ro como P8;.íeas narizes ; bafta que voíTa 
mercê he ufeira ^ c viféirp a enganar moças? 
D. T. Senhor, *; eu não conheçp «es mulheres. 
D.L* Se não iendes outra 4cfçijlpa ^ eíTa não 
me fatisfaz » e agora yejo^ quiB pòr ido di* 
laláveis oiazar com MoQa^. primai fingindo ir- 
refoluçóes ,. C itegaceandoçè d^. . . 
2>. T. Senhor , permitta Deos /que fc eu ... . 
•D.Z. Nào ju«ja falfo ; di?ci mQ,-e liycftQS.aççf- 
vimenco de meteres mulheres em cafa ^ iem 
aitenção ao decoro de voifas primas^ 
Z). T. Primas do meu coração^ eu eftou para 

enlouquecer^ pois eftou cão innocente. • . « 
D.ClaK ealíc-fe*, tenha juiza; bafta ^ iquccom 
^ .eíTc feitio nos ^eria lograr ? \ . . si 

D» Niz. He, o Senhor, fízqdo .que não appro^ 
vava os ranchos de Alecrim , e Mange.reiía ! 
iD* T. Ora bafta quê diga eu que náo coiifa<"> 

ço racs mulheres. 
2). Clor. Calle-fe , tonto. ^ 
D. iViíz. Çalle-fe ^ fimplez. 
J>. Clor. Basbaque. 
2?. Niz, Infoleote. 
jimhAS. Que i Agoí\ cazac } Aqpí para traz. 

,J«Uf. //, P B.T. 



I 



ií6 XSH&m do Atecrim , 

^D.T. Senbar.tb, dcnttc accenç&o , fènSo^de- 
fcfpertrci. ' - '■ > - 

^ CiUítÉ^^^È.LínferottlpgklHU 

Efs aqui : eu eílou perdiJo^ 

Gallo tcíio , noiva p rompia , .>k 

Porra ibi:rta , e csfa tonçí* i t 

Ah fobnnho I Mas que digo? '^t 

Empreítar-mc a voll.i ffpadi^ *Cl 

Qi3^ me ^]ucro dci^olíar. ■ '^ ' '- *A -Cl 

Oh prodenci:! deit^raçHidl, ^ 

Poi» náo faço huma taíLida" J. , 

Por ninguém me ouvir ;;ritar. ' ^i 

D, 7". Qu^ iílo a mim me fucceda ? Náo ha 
homtm mais infeliz ! 

S C E N A IV. ^ 

Pra^âSabm Í>. 6// , V Simicuph. 

D, C T T Uma , e muitas vezes te confidero , 

XX Simicupio , prodigfofò artífice de 

meu amor , «poli; com as mas maquinas vás 

erigindo ò rctóTcido thalam« , que na de fef 

throno do mais ditofo Hymenèo.. 

£imic. Já diffc a voflía mercê , qiie mais obras, 
e menos palavras : Simicupio , Senhor , já fe 
acha mui canfado , tomara que me apofcn- 
laíTc com meio foldo , que eftc officio de al- 
cofa hc mui pcrigofo , que fuppofto tenha aza» 
para fugir^ lambcoí as azas cem penas para fentir. 



mos de deitar efta náo ao líiár, qàe énilLç^ 

Shnk. E no. cabo' de tantas enèfíences tudo nfda. 
D. G> Anda , não defmaies , qqe hoje have(íiò^. 
moftrar ao Mundo os triunfos do Alecrim; "' - 
Simic. E a Matigcrona todavia nío raenois '^?r^' 
çofâ com osfeò^fos de Fagu^diíí. • '"^ 

D.G» Mas a galiimaria he , c(nè^ todas, as iÍGra$ 
-♦^dcas redundfó' cm noffo jwVí^loV ' '' '^ 
Shnic. Ahi he que eílá a. ^ag^tia do, jogo. ., 
'^TáÀradèi áícfticá^ c nósi^%lhtr, -"^^' 

:Lf r-^ Sébtv.St^Mlbé somjfiamilbâ.^ . i^, Wt 
D. G. Aquella que lá vem , nao be Sevadilhá ? 
-Wm/r.' Pdo chdtó affim nad járccí. :-i»v.\ 

BÍ&í Que novidade he cffa , Sevadííha? Tà\í8^ 

AvÂfv''Quc bi^ fcr? A «laíor- def^ráçííW 
mundo. %•* • "' ' *^ 

DíGi Que > Mòrreo o velhd > ^^ ^^''^ 

JVvjrfi-Jrto eníáô féria fortuna- ' - V^ 

D. G. Pois que tot ? '.7. 

^evad.' Fo» ^e O. Ttburdio com a pena dè^ 
fe ver accoiufcaeccido de três mulheres , conto 
vioffa mercê ífábe; á vífta das noivas , « dc?> 
fogro tomou tal paixão, que lhe deu éfta hlDÍf|e 
huma coHca , e cftá quaíi indo-fe por mim 
fio ; e adim cu por huma parte 9 Fagunáiès , 
'^, o- Galego por ambas ^ vanios á chamar &-' 
Médieo. Adcos, que me nio poflb deterá 
JíéG* Efpejra. 

PU S^vttd. 



ziB G/imas da Ahtrtfn , 

Sevad. Nío poílo, que D- Tiburcio èftà tnor* 

renda por inflames. 
Simic. Náo íe canícs , que já o achas morto ; 

ande cá , tenha tcíçio , c fiça palcftrâ. coju^ 

os amigos, ^ /, 1^ A 

2), G- Que faz [>ona Cloris í ,», ,^f 

-íTffV;!^, »áí> me detenha , sdeos. í,i.c|; 

J*ífWÍr, Dizí-me primeiro, que wl te pareci,,^ 

tra^^es de mulher ? / ^^ 

Jeváá, Nãn eilou para ilTo , dcixe-mc hír^^que 

cftou dcprcíía, ^ 7 

Shnh^ Ha tal preíla 1 Como {p eftivere alguém 

para mofrer ! 
Seydd. Náo vès^que vou 'àidofdjc^a éAá grande 
c çeceíIiJade»: ;^ * .[ 2; '\ 

^mic. Vai te , filha; vai*rd, não te foí!raf. 
éS!ev4d» Bem puderas tu poupar-me eíTas pafl^-í 

das , e hir chamar hum Medico ás carrçiras. 
Sffniq. Vai defcanç^a , que ep chamarei o Medico, 
JD. (7. Sim , com muito j^ofto, # 
Sevdd, Ora faça- me efle favor ,eadeos. Fauft. 
D. G. -Anda deprefTa , vai chamar ó Medico. 
Simic. Que Medico i Cuide nVutra coufa. 
Í>iG. lííò he zombaria? Náo permitca Deos , 

que o homem morra por nofla, omifsio. 
Jlimic. Vamoá , que eu , c vofla mercê have- 
. mos fei os Médicos na enfermidade de D. 

Tiburcio. 
D. Q. Eftás louco i Pois nós (abemos Medicina .* 
Sift^ic. A(Gm como ha Filofofia natural, porque 

não haverá natural Medicina ? 
D. G* £ íe o doente ^grier por falta, de rcmetjio ? 

Si- 



Sttò^WsâilSèptiSi morrerá por Htuitos remédios. 

D. (7. E aqç lhe havemos apph*car i 

Simic. Tudo ^ò*t|tté nao íor venetio \ porque a 

' que*' nicí-ífcaf a V engorda. 
D. G. Mo he temeridade. 
Simié. Vamos ^ Seiihor , e Deòs fobre tudo. 

Sebe B.Fuds. 

2>. /. Efpera , traidor D. Gil. 

Simie. Ai , qut ido he alguma efpera ! 

D. G. Que me quereis , D. Fuás ? 

2>. J% Que metais a mão a eSa efpada. 

D. G. Para que ? 

Simic. He boa pergunta ! Para que fera ? He 
para fazer 'alfeloa magana. 

D»F. Vereis que fabe o meu valor caÃígar 
ofiênfas de' hum dmigo desleal : pois faboi* 
dò v6s^ qtie fíona Ni2e era o idolo da mi- 
nha vetieràçãoj^ chegaftes a profanar o mça 
culto com òs^ facrilegos votos de voflbs À- 
crifidòs , a quem fuaviíarão os odoríferos há- 
litos da Mangerona. 

jftrffic^ Ahi cos diabos ! 

D. F. E aflim metei a mio a eíTa efpada , pi- 
ra que fe conferve Dona Nize, ou reguràna 
templo de imeíi peito / ou nb de voílb coí-ação, 

Simic. Scnhclf , aaui -náo he Itijgar de defnii^s , 
vamos para Vai de eavallinhos a ibgar os coutes. . 

D. G. D. Fuás, eftaiíi louco ? Vede que ícm 
caufa he a vofTa queixai 

2>. F. Náo quero fatisFaçõcs , vamos puxando* 

4£rfii^. Eftc homem vem puxado. 

D.G. 



I). G. Pois para qne vejais ({qc fj f^isf^zer^vos 
náo he lerper-vos.,. •,«• . ; 

Saffe^/íg^descomj^amílbar, 

FAg, Cé, ah Senhor D. Foas ^ j^uma- palavri^ 
nha dcprefla , que imporUf >: 

D. F. AqueUa he Fagundes 5 que me quererá ? 
Eíperai, D. Gil , em quanro iFallo a cfta mulher. 

Simic. Senhor , não codiinto , òu fallar, ou hrii^ar. 

D. C?. Deixai mulheres, c brigai , que eílou 
prompco a faiisíazer-vos por elle modo. 

Fag. Senhor , venha já depreíTa. 

Simic. Jà vai, <jue quer^qui primeiro meter .a 
efpada pelo olno a hum amigo. 

JRjyj, Ande ícnã0.vowm<?. 

Jb. F. Efpera , qne eu vou. 

^. G. Briguemos , D. Fuás. 

.Simic. Vamos a iífo , antes que fe acabe a cólera. 

,jp. F. D. Gil , fe rendes brio , çfperai , qne eu 

,. venho já. ,, .r.ti para Fjg, 

Simic, Or^ vá de feu vagar, 'qne cfta penJen- 

. cia não he Jc cçremonia. Senhor D. Gil , aba- 
lemos com os cachin>bos , que brigar com 
loucos he fer mais louco. P^ai-fe. 

D.G. Tomo o teu confelho. Fai fe. 

,Fag. Sim , Senhor , a caía eftá revolta i D. Tibur- 
cio nos artículos da mone , e quafí moribun* 
do; o velho banzando, e tudo banzeiro; e 

'^ à vifta difto pode voiTa mercê introduzir fe em 
câfa o mais dcprefla que pnJer , em alguma 
íònna que intentar a fua induftria , e adcos. 

2). .F. Ouça cá. 

Fag. Não polTo , que vou á botica, 

D.F. 



D. F. Pois em ingrata de Dpna Níze ainda. . • • 
Fi^. Não eftoa\^ra; ouvir nj»da:^ 
D. F« Efpere . tome lá effts vinténs pelo trabalho. 
%. MòRrltíí^dfcprefl?. -^ - ' '-^ 
A-f. Ora di^-m^ , joís Ddífei^ íííze. . . . . 
fig^ N^outra occâfião falltré^s: ', venhii iflb 

depreíTa. -. ■\,\ 
^^f^.TM\eJk Vn\M diga-roe ,^çin quanto tiro- 

a boHá, Vila hlfa , eíTa cruelj. . V 

jD^ F. Eipeçtj,, ,que lenho p ^tóçíé por ótái dá r 
algibeira. \ ., ,• L T !/ 

Fag. Pois Sçphçí » íe a fqVl^Éolia 'eí& afcrroi». 
Ihada , a minha lingua eftà ferrugenta, f^/ii-^» 

D. F. Muito ,wcreíreira hcefta velba^! Masaon* 
de ettà D^Gaj D.Gil? Foiíe o coljar^c; 
mas á fé de i)iM;fn fou , que a$ nío ha (Jc j^r- 
der comigo; f^^tu , ingrata ISsIiiçe.j. hoje. mrei 
a verte cUsfarçadp \ qqis. i|viÁ^ das tuas falíi- 
dades hç Ji^fto^. que me rieyifta h(io fó (lâ Qis« 
tro habito , mas tambein de, outro affeéto.,. , , 
CMtê D. Fuás d féguinte ''\ . 

A R 1 .A. , ' * '^ ^/ 

De hum amigo , e de huma ingrat^ 
Otfei)dido , e ultrajado, i i..^ .., . . 

Quemmç dera ver vingado fr 
Oh nãp/ei como. z^aàgLjpM^ •;. 

No meu peijo^taiiiçadorr 

Mas ílm cabe ^ porque aV pcnat 
Nos cftragQS repartidas - 

Pelas bocas das fçridas. 
Sahirá com mais vigor. f^ai-fi. 



2)2 Gtitmís áh jfíèerm i 

S- C E N A V. ' .1 

'* • • . ■ » ' 

CãtntTé. Hávtrâ huma eamâ^ e nefl/f efiári J)». 
TibfârctQ deitado^ affiftido 4e p. Lémíircíif 
(;2>0M Úorisy Dona Nize ^€ Sevãdilbã. 

D. L. r\ Que tarda eftc Madico I 

^évâdí V^ Náo pode tardar muito ; róis «ir 

diffe que jác vinha, . / \, 

D.^L. Cotno eftaís agora', meu fobrinhp ^/ >^ 
jD. T. Depois que ârrorci , ftcho«náe ixiiifs aliviado. 
JD. iViz. Valo.máo náo quebra. . àf^? 

D\ 0of. Se fora çoufa boa tião Kam de efca- 
par. ápárte. 

JD. L, NSo fabeís quanrc fofgo com a voíia me- 
lhora , pois. me eflava dando euidado o enter- 
■ fO'| c me podeis agradecer a boa vonradé , pois 
' vos fci^uro que havú fcr luzido; vós o veríeis. 
D. T. Outro lamo défejo eu Hr^t a v, m. 
S^m D. Gil , e Simkupio vejiiâòs de Medico. 
Si mie. Veogrdtias. 

D. L. Entrem , meus Senhores Doutores. 
D. G* Em boa me meteo Siniicupío ! Cu nSo 
fei Ò que hei de dizer. aparte. 

Simic. Qual de voflàs mercês he aqui o doeme? 
D. L. He efte ^òe aqui cftà de cama. 
Stmic. Logo nié prareceo pelos {Ihtomas. 
Sey^ad. Senhora, que sio Simicupío; eD. Gil. 

' pifs D. Oor, 
D. dor. Bem os vejo •• Nize , que te parece í 
2). Niz. Que faz melhor eíFeíto o ceii Alecrim , 
•^c a minha Mangerotia. 

$4- 



Kg. Entre ^SÍ5^fp<>utor , âqâi vétti cBhft' 

tàor \ qúé ^tàxéíàtn k entende -muito bciiri' 
D. F. Ncftfe ItíftWic chego de fora ^ ittii , 
quando- logo tnc chamou effil';i»ullier /'^e 
vieílc ver a. hum enfermei ^ \ *• ■; 

D. L. Já eira cfcufado , poro» Witre , e fentc-fè^ 
D. Clor. Niz^ 9 D. Fuás ik^ttiftte nas fiHèz;» 
t-*dW B.Gúi - ''^' ^^-•* ■•'' ••>^^'*^''- 

D.iViV'Ní0 mfr peza. •'3n3ifc^^ > 

j&- F/Àquettes sior D.Gil i é Sknícupiò ;4ftoà 
*' ardendo! ' - • ' • aparte 

Simic: Ah Senhor V não vès a^Dj Fuás tfitrtfeém 
coroo gente i para D.GiL 

D.G. ]à fei. ' " 

D. T. Ai roinhft barriga , que morra ! Acdtíài' 
*mfc,^ Senhor Doutor. - '- • v '.^ 

4f/m/r. A^ora vou a ifíb : ora diga^e,que lhe ÍIÍ>fe í 
D. T. Tenho na barriga húnks dores mui-Unasi 
4f/miV. Logo as ' engroflarcmos^^c tèwí o V^re 
tpmido, inchado , c puHullante^ .>u.r..\ 

D. T. Alguma coufa. 

Simie. Voíia mercê he cafàda j ou foltek»> ^^ 
2). T. Porque , Senhor pouior > '^> 

4rmriV. Porque os fmaes são de prenhe. ' '' 
D. L. Não Senhor , x\\xc med-íbbrinho he ma^ho. 
Simie. Dianteiro , ou rtazei^ V 
JD. L. Ui f Senhor Doutor ! ^Dí go que- íneii 

* fobrinho he -varão. 
Simic. De aço, ou de ferro? ' tu. -,7. 

J5i L. He homem, não ipc entende ?' ^ i\ 
Simtc* Ora acabe com iflo: eis-aqui coqm^^c 

tal- 



hXxz de in£pfipaçáo morrem os ijoçoiei ; pois 

^^.(ie liM.niap efpej:vilára iíTo com iniu^ezt » cmç^. 

dendo que era ' naacho ,• lhe applicava huns içti- 

fOji.,^ e fe. foflfe vario , humas iitnat ; 6,co* 

!.^ojà íei que he homem > logo veremos o 

^w fe lhe ha de fazer. 

jp, Lp Eis*aqqi çoxfuk gofto de ver os Médicos 

j^ji^ cfpcculatíyof. 

Simie. Pois o mais he afneíra : diga-n^é o^íf i§ i 
ceou demafiadamence a noite paliada T i'/ ;v. 

/). jT. Tatuo como a; futura , |>o(que <dê((]e qiie 

.íe me acabarão as chouriças, que trouxe nb 

:iIfojrp;e , me um meu tio pofto a p&o , e 

, .Úratija. 

2X L* Aauillo são delirios, Senhor Doutor, 

Simicm Amn:i. devç,; fer por força , ainda qucnio 
queira , pois conforme ao atorifmo Òm bêr* 
rígd dolet , c^tera membra dolet. . 

2>*,T« Não são delírios. Senhor Doutor, que 
cu jeílou em meu juizo perfeito. . 

Simic. Peior , pois quem diz que tem juízo , 
não o tem. 

D. Lv Senhor Doutor , o homem eftá allucina* 
do depois quehuma fantafma , que fahio de 
huma caixa , o deíancou ; e fobre i(To a gran* 
de pena , que tem tomado de humas moças , 
que aqui introduzio em cafa > enganando-as » 
de cuja ínfolencia fe me veio aqui a mãi queí- 
xar , que era mulher de bem , ao que parecia. 

Simic. Ella he muito criada de voíla mcrcè. 

Z>. T. Deixemos iíTo ; o cafo hc que a minha 
^baccíga não eftà boa« 



^ms^ Cút-k t qwí. ainda) hf^.4e..ce^ ^<^<^t 

barrígada : dcire a lingua fofa.,- i,..; ^ -jcg 
D, T, Eí-U âtjiií. ^ : ,,! »M^.3,a 

ifimiV, Deite mais,, mais. íUv :i..<..í.. • ^ 3i:>c 
D, 7"- Náo ha rnais,. ■ ..n-i : :. f, í ^r,> 
if/i7ifV. Efli baftam : he forte linguado ^ ^l^cni 
mui boa |K>n ca . de HngpA ! V^jáo vofl^s. mer- 
cês , Senhores Doutores, ^^^ . :■: o, ir* 
D.Ç. A língua hc de prata,i : ' >< 
D.F. Húmida eííá baítameroente. ^ r. * 
Simic. Venha o pnlfo : eftá iniermitemc >\Ia[nh 
guido , e cqnvulfívo : ó menina tomou a^ aguas j 
Sevád. Ainda não veio o aguadeiro. y, *. 
Simie. Pergunto fe o doeme fez a, mija }.., 
D. T. Nefta cafa ifio ha ourinoí. . : . í, 
Simie. Pois tome-as , ainda que fej^ n^urmax fri- 
gideira em todo o cafo , quiA p€iíçrini$ optifne 
cognofcimr morbus, n; 
2). Z# Ah Senhores , grandç . Medico ! . >r> 
Í>.Niz. E D. Fúas como eftà melancfiiíç^ii 

i pATâ D. <^Í5. 

D.Qor. Eflará cuidando na receita. .j^nii 

Simie. Qrn. Sejihorcs , capitulemos a Qoeisefe 
Eftc Fidalgo ( fè he que o he , que iftprj^ão 
pcnence á Medicina 3 teve huma coloríca pro- 
cedida de paixões internas porque o. efpjrito 
agitado da rcprefcntação fii^mafmal ^ e (k inr 
veftida feminil , reirahindq-fe o ínhgue aos vap- 
fos linfáticos , deixandp eacauridas as ma^ri-t 

, zes fanguinarias , fez huma revoIuçSo no, in^, 
teftino refto; ecomo an>ateria c-raíTa j c Kit* 

c cpfa 3 que havia nutrir; o /iicco pan^reanconi 

cela 




H%6 Guerras do Akerim , 

í pda fua turgençía fc achaíTe Jeílífuida do vh 
gor j por falra do apperite famclico , dc^c- 
Bçrou cm li(]iiído5 : eftcs pela fiia vinadc 
acre , e mordaz vilicatido , c pungindo as runi* 
cat , c membranas Ao venincuTo^ eacaltàráoíc 
05 fa*s fixos f c vohtcíí por virtude do aci- 

*' ^ do alcalino , de fone t]uc fez copn que o Se- 
nhor and^ifíe com as calças na máa toda efta 

" noite: in cãljis andãtur ^ qui ventre ev^Jfiw- 
rjsíT, diíTc Galeno, 

D. L^ Eu tiáo lhe entendi palavra. ^ 

D, T. Eu inoTro , fem faber de que. ' 

Sínik^ Conhecida a queixa, votem o remédio»- | 

. qne eu , como mais antigo ^ votarei em ul- 
timo Uigar- 

D. G, Eu fou de parecer qac o fangrem, 

D. K Eu que o purguem. 

Simic. Senhores meus , a grande queixa , gran* 
de remédio ; o mais efficaz he , que tome hu- 
mas bichas n^ía meninas dos olhos , para 

'^^^9 o humor faça retroceíTo debaixo ;^ para 
íirha. 

D: T* Como he IfTo de bichas nas met)inas 
dos olhos ? 

Simic. Ut hum remédio topicó ; nlo fe aílufte , 
que não he nada. 

D.T. VoíTa mer<íè me quer cegar? 

Simic. Calle-fe ahi ; quantas mefiinas tomão bi- 
chás , e mais nao tégão. 

D. L. Càlai-vos , fobrinho , que cllc Medico 

^ he , c bem o entende. 

D. T. Por vida de D.Tiburcio, ijtie primeiro 



rhàíicAtv^ p diabo ao Mfisdico » e á t^cdta (1 
que cu em tal confiiua. iv-.' ^ttltes^fi» 
Simie. Deit^e-fe , deite-í(í: cp jhpmem éfti^A 

niaoo,iíCifiiriofo. ,; / 

I),,L. Áqoieui*vos, foÍ8 alguma criança ^r;j& 
Z). iVís. Ora Senhores Doutores , ja t]uô volbt 
mercês tqui Tc achio , btm he que Oft ia-^ 
formemos , eu , e aunha irmã , de varia&q^^ 
xas que padecemos. -i ./jut 

JíiMÍc, Inda mais efla ? Ora digão* 
D. C/or- Senhor , o nollo achaque he tâo fc- 
melhantc^ que com huma fó receita ÍCí^gP- 
dem curar ambo« os males. 
D, Nh. Náo ha duvida que o meu achaque 
hc o mcflno cm carne que o de minha ir.ml^ 
Simic, Achaque cm carne perccnct a Cirurgia, 
J}. Cicn Que como dormimos ambas, r< nos 
communicou o mefmo achat^uc ^ c aílím ,:Sc- 
nhor j padecemos humas anciís ní> cor^çã^^ 
humas melancolias n^almâ, huma inquietação 
nos fcnddos , huma iravAfTura nas poiencias ^ 
e finalmente , Senhor Doutor > he tal «ftc 
mal , que fe fencc fem fe femir i que doe^^ 
fem doer ^ que abraza fem queimar^ queaic^ 
^ra enfriftpcendo , e entriftece alegrando. 
Simic. Bafta , já fei , iíTo he mal Çupidifta. 
Z>p L. O que he mal Cupidifta,quâQunca uí q»^í| 
Simk. ^t hum maj da moda, ^ . /, 

D. Niz. Que remçdio nos dão voflas mefcfo ?^ 
D. F. Eu difTera , que o òleo de Manjerona 

era cxccllenie remédio* 
D- G. O verdadeira para eífa Qfiké%^ w^ ^s V^- 
mãf2s da Akaim. t>- í* 



r^ 



1}.KJ^* Ui Sétibor 't)ómot , a MangeAMS» lA bom 

.'4^Uenre remédio. ^ t.u n 5 

2fe(^<?.' Nada chegk ao Alecrim, cujas ekldiencef 
virtudes são tamas , oue para ndnníeraHastiio 
acha h(iitiero o álgaríimo s enáofal(kAi ^ucoà 
^slHtretame^Kâ 4K^ diamaíTe planca bèmdítâ, C 
R\ J^ Sei^entrarmos' a efpecuUt >vfr8udeK » at 
-iáii^Viaiigerôtia^O^iiiiiaque asM<la hetva ianta. 
Slmic. Daqui a polia no ahat 'ni6 vaf fiadas'' 
JD.^ F. A Mangatona Oic^tnitar -^t Ve^u^y^ 
-'^uj|W ramosvn^^rdavCupido ^^'«''^rafi tnál 
-'(CupfdMfta rfáo' p6de ' háv«r melhor rethtdio 
que huma phnta de Vénus ; poitf Te nocar* 
-iiíéí'^^ perfèijfio-com que^ariarútèza arevoí^ 
•ifiÒida^eHas^UTunioi^as fc4hinh para que to« 
dCiÍ;è^hiio^ fejSd ')eYoglifí&0'da th^òrtalidaie'^ 
^Mu^tlefuavilíimo' aroma , de ^á frangraii-» 
' tíâc ht hidropico o ol-fato , dia he ' a delicia 
•rdfrvFlora , o mimo ^6 Abril ; e^aí píciscralda 
nó annel' da primavera. •-• ' • i 

Simic. He verdcre í-Aâo: ha dúvidas - -• 

D' Nm^ Eflou tio contente! . * ápan. 

D, •(?.'- O Alecrim , Senhor , rielá ftia exccUett- 
cia I^ titular na republica aasí plantas , cujas 
flore^%' dc^pois^^dè' ferem bclla imitação dos ce- 
rúleos globos ,' sib a doçura do mundo nos 
•mtflifluòs òTcôtoií' das abelhas * '- • '; 
Simic. Todavia a matéria he de apitíbiês. 
D. £?. Elle He a coroa dos jardins , ojenço ve* 
getável das lagrimas- da Aurora : n» charn*- 
mas he Fénix ; nas aguas Raiiihá ; e final- 
mente he o antídoto univerfal de codos osma* 



lés 9 e a maifCicgurji c^bog^ ^ ví<la , qotndo 
no mar das queixas aflbprSo os vente» infi« 
cionfulos ; e^ fim piova dií^ fyítemi^ te|^ 
rei traduzido ao) Poi:togite2.%l(ilm Épi^Mina 
do Pfocò^ttédi^o Aviceiiã::i*-^oétíi iKkbbfMt 

Htim dia para Siques mit-itííc^-*' —-'^ ^^^^ 
Huma grinaMá bclla'to6fíôárv,- ' '/^ 

E por*lnaiS qoè bnícou,'n|ò pdde^áehat^ 
Flor do feuf^goiflío cmwían» flon • "''^ 

Derprezou do jaírtltti í^'í<íli Q^jatíri^^- ' ^^^ 

E r tóft iiíi» ^iz p<ír* #i<ih»T ,c; 

Ao gf^z(xA^tíkoSktonrAofcftt^^\ noii uJ 
Ettò^ jacy«ho^^eixdu fiaí^fitt-ttòr.^^^ *^''^>^ 
Mas tanto í^'^hegon' Cv^tiámytf -'V^l 

Entre virentes pompas o/ Alecrim, 
- Hofti aetít 4ráttio preféncfóa Ébftcír ^ • vA .O 
Tl? íó ?nc agradas, diffe^ póis"^ íiríi*» ^ "^ 
Por -ti ddpife» , fó' por te ^Áèhèr J '^ -^ -^'^ 
}acyntho,'^árol, rdzâ^,^^^)afmtmJ '^^^P 

• í o:*í:->> í; .\:b f;np 

2>. Cfor. Vf^ a Senhor Doutbi^i eâ'4utB4S 
fbmãças do ' Alcaiití * - ^ * '^' ' * "^ , ^ ''1 

2>. T* E morra ò Senhor dòéíite : ar>ittif(ha 
barriga! '' / -/v.íi*: •. :. .."; .Vu-m;7> 

D. Jl Sc verfôs podem fervi/- iJetcwos,' dfeu- 
re hans^ dé hum Amegoniíla • deffe Auchor a 
favor dai A^gerona petos mefmõs cMfo^h^s» 






1^ emt» ioJhev»» 






oLiif-;- .' .«. O N E T O^' -^ - ■' • 

•nr. 3'. • '^ "V" '" "^L <;*'■ *" n 

Pur^^ vencer ki Jpucs q\^4 jwròc;. ^^^ 
f.íjSllltas de MM^eiona.^içill^ ^^ 

Jg^.â^rçta, eleição, pois (ijiíiKadiaí L 

Quem foubeíle yeaçer a tpJa a flor. 
O jafmim defrxHfòu^no féíi xitlAot ^ 

A roza comfÇ9|u.fei4 efpinAwrj-.fiq .!; 

No gyrafol fyi^ylco o inc|irjjMjí :^ ;: • 

Entre as ycnçída^^ifloresippdí-vcç-: , í, / ; 
Rcurar-fç .ftjgidp -p; Alecrim ,:•. ,í. , , . .j 
Que aipor;,pani. vlngac-f^jf. ^Iz /cplher^i 

Cantou ^as. «i^ h» ^nut^fo^ V viW ^ ». - /. 
Nem os.id<fppjégnquií j:{?pr<vf)jÍo, quereir,:.^ 
>cyntho.;,,gyr^W , rofa ^ -^ijalpw.'. . 

D* Niz. Vivf.o Senhor Dourp^^ c|| quero o re* 
mcdio-^^ JV^ngerona. > :: T 

J>. Z. Não cuidei <)ue a Miiug<^i;ona , e Ale- 

- crim nt?hãa;.,caçs .virtudes. Vejamos agora o 
que diz o Senhor Doucor. 

'!>• fft: Que cephp 4?u com ííTq, ?, Senhores , vof- 
fas mercês me vierão curar, .^^mím, ou ásra- 

^ 'pl«ig3^9 ? Ai im«tíia$ barrigas 1 

Simú. Calado cftive ouvindo a^ eftcs Senhores 
da Efcola mode^pa; , encarecendo, s^ Màngerq- 
na , e Aíq«isn^;Náo ha duvida- ^ ,. pro fãíra* 
^U€ .pduej[i^!U?!^i nervofos ,argqimçntos , em 
que os Doutores Alecriniftas ^ e Mangeronif- 
<as fe fundão ^ e tratando Diofcorides do Man* 
seronifmo , e Alecrinífmo , allenta de pedra , e 



Cal 5 que part o mal Cupidífta sío remédios 
ioanes ; porque tratando Ovfdio do remédio 
dmoris , não achou outro mais genuíno con« 
tra o mal Cupidifta que o Malmequer, . poz 
virtude fympacica , magnética , diaforética , e 
diurética , com a qaiil cmamr Atnorenu -Re** 
petirei as palavras do mcfmo Ovídio» 

SONETO. 

Eíla que em cacos velhos fc produz 
Mangerona mifcríima fem flor,: 
EíTc pobre Alecrim, qqe em fcu ardor 
Todo fc abraza por íahir á luz. 

Ainda que fe vejão hoje aíhiz. 
Desbancar nas baralhas do amor , 
Cuido que éllas o boUo háo= de re]>or , 
Se náo negro feja eu como hum lapuz. : 

O Malmequer , Senhores , iílp fim , 
Q ue he flor que defcpgana , fera fazer 
No verde da cfpcrançâ amor fem fim. 

Deixem correr o tempo , e quem viver 
Verá , que a Mangerona, e o Alecrim ^ 
As plantas beijaràõ do Malmequer. 

Sevad. Viva , e reviva o Senhor. Doutor , « já 
que he tão bom Medico , peço lhe me cure de 

. htnnas dor«s tão grandes , que parecem feitiços. 

Simic. Dá cá as pulfeiras. Ah perra quç ago- 

, ra te agarrei ! Tu eftás marafmodrca, e im- 
piamatica. Ah Senhor , logo , logQ , antes que 
fe perpetue huma febre. podre , he necefl^ario 
que efta rapí^iga ,(ome huns Simicupios. , ,. 
Zm. lí. Q Str 



ftM Gaerrm^ 4^ Metrim , 

JíiíGi Ai CIom,<]ue'qQándQomal6eâêiilitf); 

'.í&. o morrer he rcoiedíolí r^Fàife^ 

J}*iv Finjo qae me voo ^ por vcf ftfolhjjpk' 
rar a falfidade (]e Dona Nize. ' yêhfe. 

D. T. M.inde-me cerrar ftfte miomliD^ qée yúa 

: o ctt^ando eni hum foor copíoío» abafetn-me bcsv 

2). L. Aqai fervia o meu capote : paciência! 
vamo-nos , e deixemo-lo fuar, ninguõnlbe 
faUe á mão. '^í'J(r. 

D.Úor. Vamos 9 Nize y a moralizar os enx6- 
mos deftes amantes* Fãi fe. 

2)« Niz. Tanto me importa , vamos a reear os 
noíTos craveiros. rdi-fi. 

Fég. O diabo iíe Simicupío temo què me met- 
tJi em hnm chichéllo com feus ardis. FéUfc. 

Sevdd. He para ver fe o meu Malmequer tam- 
bém entra em reftea. Vâi^. 
Sabe D. Fuás. 

2>. F. ]á todos fe for^o. Quem me dera encon-» 
trar a eíla tyranna , cruel , falfa , inimiga. 
Sabe Fagundes. . i 

Fág. D. Tiburcio íica a fuar coipo bqm eaval* 
lo. Mas ai ! Quem efíá aqui ? 

2). F. Sou eu 3 Senhoca Fagundes , nãòie âflbfte» 

Fâg. Senhor y que temeridade be. cÒz ? Voda 
mercê não vè que ainda, hf kizçpie*fiifque í 
Como fem deixar anoitecer penetra eflas pa* 

• redes » aonde até o So). entra às fortaddasií 
«ZX \F« Não reparei, que ainda era dia3rpC))t.no 
. abyfmo de meu ciúme femprc eftout. its (;|fcu« 

• ras. Aonde efla- efta cruel Dona .Nizeí.v^/ , 
jaEpé:£ífejrá no jatJiroí^-.^ , .c ■ ': ...;. » . 



r y e Áíangeronã. rjp; 

J). F. Pois vamos lá , e de caminho quero me va 
• dizendo de meter-me na caixa a mim,e a D. GíK 
Fig. Vamos , que eu lhe conureí o que fòí -, 

ande por aqui com pés de lá. Ai Senhor D« 

Fuás quanto me deve! 

■ S C E N A VI. 

FyU dei/uintalj em que baverãõ alguns ategiè^ 
ies j e hums capoeira 9 e vem D. Gil 9 e Si' 
micupio defcendo por bum4 corda» 

D. G. O Imicupio., deixa-me defcer eu primei* 

O ro^ par;i que fe não quebre 'a jpprda 

com o.<peza de ambos. ?. . Xkfce»^ 

Simic. Agarrc-fe bem á cotda , t daixc-fc cf* 

* conesar. . v / • 
JD. G. Ora jà cà eftou ; mas eu não paro aqui , 

• âié encontrar com Di>na Cloris. f^^ije^. 

Sabe D. Lanferote. 

2). lí Efte ;qsiíntal . he o meu ' divertimento , e 
encanto ; mnm homem aqui afíentado , e to» 
mando o rrefco , não ha maior regalp. 

Simic» Agora já poderei defcer. afoitamente. 

X>. L. Que^e ifto ^ que cahe fobre mim \ Quen^ 
mc' acode!- y 

Ao dejcer Simicupio cahe fobre D.. Lanferote. 

Sfnãc» Não he nada ., efcárránchêi-me no velho 
. cuidando que era poial ; efloo bem aviado ! á p. 

D. L. Mas que vejo ? A que d'ElRci , ladrões I, 

Simicl Não. 0^- diflfe . eu i 

J). L. LadrãO'^ yelhacáo , tu defcendo por hu- 

V aU' corda 5)1 altos flPíucos de mfiuqamt;(l \, Pois 



246 Guetrâf io^ Alecrim , 

com eiía mefma corda te atarei de ' ))£b , e 
.' mã'09 até que atiiatiheça para encregat-te à 

juftiça. .' . '. 

Sánie. He bem feito ^ .jâ que eu tneímò dei 

a corda para me enforcar; . 
J). L. Dá xà. os braços. 
Símh. Já eftá naeu a/nigo* Q«ef-mc abraçar > 
JDf^Lp Anda cá, ladráo , inofíra caos puifos., 
^imiç. Não tenho febre. 
D. L. Anda, que atado has de ficar. 
Simic. Senhor , por fua vida que ilie tião ite ; 

bàfta o enleio em que me vejo.? 
2). L. Dize , a que viefte a eíie quintal i 
Simic. Ora Senhor , ateime muito embori^ , mas 

nâd me ajxrrtepor iíTo, ' .: '. 

2). L. Por iílo hc que eu te apcfrto.; has de 

confeflTar a que viefte. 
Simic. Eu eftou atado , não fei o que lhe reí« 

pohda. aparte. 

D. L. Qiul foi o fim queiaofoi te trouxe ? 
Sifnit. A dár fim à minha vida , por dar prin- 
cipio n minha morte por meio defta corda, 

que falfa me cnrrei^ou nasmáos de voiTà mcrcè.. 
J9.L- Vicftc roubar-me , nâo he -veniadb ? .•■- 
Simic, Sim, Senhor, mas foi a roubar-lhe as 

atrcnçóes. * * . 

D. L. Anda, ladr&oíinho , para a capoeira don" 

de ficarás atado. . .! 

Simic. Para onde , Senhor ? 
D. Z. Para a capoeira, até qtíe veoha b Sol á- 

íer tcftemuftha do wu latrocínio. - . • . 
Simlç. Pois voíTa mcrcè ^uer cncapoeicar-n» i 



' IGhraçâsaa Deo9 que não foti cá . nòkihujmá 

vgGitlinha^ roas fabe porque falia ? porqué> me 

icha^tatado^quando não ha víamos jogar as«crrftas. 

2). L. Anda , ladrão , que aqui ficafáv até amar 
nhcccr. f^^i/e. 

Simic. Ofa críaído Senhor Simicupio >: já fabe- 
mos . qiie iílo - be meio* caminho anda;do ^ fa- 
rá a^^lorca ;■' mas he bem- feito- que ífte' a 
mim me focceda. Que tinha cu cá 'dom .D. 
Gil? Eois paia que eUe fofife. gallo , me ve- 
jo ea feito ^allinha , íe bem que já podia íer 
franco pelo esfrangalhado } o magana eflaiii 
a eftas horas entre glorias , e eu entre penas 9 
elle' voando na esfera de amor"^' e éu .de aea 
cahida na gema dos ovo^. - - 

' Sal)e Fagundes. ; . . > 

jRay. Que mais me falta para f>zcr ? Eu já fiz 
a cama a todos; já' fiz afeitada de raboâ pa* 
ra cearmos! ; já temperei as 'gaitas para o gal- 
lego i já alTci o, fricaíTc ;. já cozi hum guar- 
danapo ; agora me falta deitar os arenques de 
molho , para ficar com a$ mãos lavadas. Ora 

• íou huma rom^ , efquccia-me o melhor, yí^uc 
he matar huma galinha para o doente , e mais 
crazía a f^ca^na mio para iffp* 

Simic. Eu o eílava dizendo ; grande defgraça 
he fcr hum; honionk gallinhii^ pois até de htmia 
mulher tem ^medo. ; - . : í 

Ajg'; Mas xor^fi^íTo -que não fou para ver fangur 
que logo-deíf^aia^ porém eu fecho os olhos , 
e meto a faca, qú6 alguma ficará <rpichadâ. 

Simic. Oh mulher \ Deos te tire íílo do penfa- 



Fãg. C^al! Eurfòii: nniito mcfihdrofifti: tf lo» 
: .ziUníma ; oáo c<^ho valor para matii h^gM» 
. formiga^ Ora .lá vai a Deos ^ e á iieotofa^ 
^iúic. Sem âlltci|sjg L^u morro dç mottej^^ 
.'.\nhal: nio ha mais remédio que £iUâf ave- 
.. lha } mas fe lhe íallo , he capaz dejacocdat 
-. o .cáo do velho » que eftá dormindp , c..«w 
r cerrarrme em .parte mais apertada : oSo; fci » 

'que faça; pois tal eftou, que fe a,velhâ:i|Be 

mata , tião teabò no corpO; pinga de 'fangoe 
• para, deitar. : - , j « ; 

Fág. Paia que hecançar^cu nio fou íangufauriMlia«» 

Sabe Sevadilba. ..:': 

jjh^tfdí. ..Fajgundes , o Senhor eÃà deftfperadc^ 

por vollc j que faz ahi J 
Fag. ]i quevicfte, matarás huma gallinha , qn^ 
. cu nao me atrevo. Vai-ft^ 

Sitnic. Li vem a Sevadílha : ora. o certo be que 

donde a gallinha tem os ovos , ahi Xe lhe 

vão os olhos. 
Sevad. Aborrece-me gente melindrofa ; vejáo 
:• agora que dó pôde haver de matar hum 
'animal? Verão como eu faço iílo brincando. 
Simie. Não são bons brincos eíTes ^ Sevadilha ; 

mas fe tu já me. tens morto ^ para que me 
. qperes tomar a matar ? . '. ' 

Sevãd. Aí que cftámos em tempo que^ faMão 

os animacs ! Éfte pela voz he Stmiciipiò, 
óitnic. Eu fou que te. falio de papo s he o ici 

Simicupio queeftá feiío fimígallo*. , 
Sevàd. Qipem te metteo ahi ? 
Simi^. O velho 9 por cu fec mctcdiflb») . .^ 



r r MangèroHar ' 24^ 

Sevad. Pois como foi? .'.:a:\L 

Simic. ]á me mo lembra , que eu tenho me- 
moria de gallo. 
Sevad. Anda cá para fora. ..o''.'\ 

Simíc. Náo poíTo , fcm ta me enxotares daqui. 
Sevad* Como não podes fe eu fei , que: mui» 

to pôde o gallo no leu poleiro ?; 
Simic. Iffo feria fe o veJhoime não' defezáriu 
Sevadi Não fabes o bem que me pareces nefla 
capoeira! Eílás 'guapo! Eftás frança! ,. -.'l'^ 
Simic. Sim, eftou frança, porque eftou feito gallo. 
Sevad. Pois dá<me das tuas penas para hum regalo. 
Simic. Pois tu te regalias com as minhas penas? 
Sevad. Não , mas folgo de verte feito alnorai cth 

pena. 
Simic. Que fark fe fouberâs que cftoíu. xodà 
coberto de penas vivas ? Ora anda , Sevadi* 
Iha^ tira- me de más penas. ' 

Camão Simtcupioy e Sevadifbê a feguiiite 

JL K í A A p V . o* j 

Sevad. Meu frangaínho 

Tupetudo 1 

Como he galantinho li . • » 

Quô lindo , que cftá l 
Simic» Minha belia .; . J_ . ; r: * 

Malfazeja, \ 

Cahi na. efparella » . 

Libcrta-me já. :. 'V 

Sevad» Coitada da. pila ^ r 

Pila^ pila, pila , 

Que 16 bio de pílarr . ..í^;; 

J2. 



%{» Gfierráf io Ahcrim , 

Stnúc* Acode-me , filha , - > . ^»-\\ 

Que cftoo bft meia hoa -í \i.t :* 

A cacarejar. 
Ambos. Que trifte cantar :. i 

He o cacarejar! 
Sin^ad. Mas não te agaftet « o 

Que etivoo-te a íbírifé •. f 

éfiMfc. . Vem jài, <f»c não poflo ' > 

Mais tcmpopenar, - < 

Ambos. .Que ha pesa:, que he^ magoa > 

Que hunia ave ;dC'peoa 

N^o poíía- vpan 

Amír^ Atida , xleíca*me'peIa<porta fórà 9 ainda 
que fcja aos coices. Vâi-Je. 

Skvãd. Oca vamos. ' ' Fésife. 

— .S4he D. Ffias. 

2). F. Para cfte quintal ou jardim , ou o que 
for me diff^rfagundcs viera Dona. ÍJizç a 
regar a fua Mangerona ; mas cm quanto* ella 
náo vera , me eíconJerei atrás dcfte canteiro 
de Alecrim , pois da Mangevona náo- quero 
auxílios para encobri r me dos r.rgentados ef- 
plendores da liua , qnc tão clara fe oftenca 
efta noite , talvez avifando-me na clara inconf- 
tancía de feus raios a variedade de Dona Nize* 
Efcoudefe da batida do Alecrim, 
Sabe D. (?«.- 

Z). G* Grande temeridade foi a minha , pois fem 
avifar ^a Dona Cloris , me eirpu^z a penetrar 
os quartos defla caía , com o pecigo de me en- 
contrar D. Lanfcrote y mas f^m davMa Cloris 

vira 



virá a 't1kç-{cu:J^r^ -z nsLíàiMXuo hu Alt' 

cilicie aíKm oiÍBOçdido n^fombras deftas 

o/planusvy •.ioMft$> ^'lAfae hc Matigçrcàia ÍlP^ 

dçoíiy .Cloris^ .íspt .cfia acção líoi huá) acafo , 

e náo eleição, .c ...n >? íj. —' • 

Efeonde-ff -úâ banda ' da Mangerarúú 

Sabem bana 'lt\ii^ yppnfi,jClifirk,çada huma 
feia fua parte çmyèg0dqré^ynji m , re- 
gandOi\e\can^^^ r.^ 

Z>. Niz, Sois. na eco de Flora , ; 

Mangerona .bella .,. : :> . '^ S-. 

. Náo fó vctdc jeftrclla.^1,. . . » 

Mas luzida flor. 
2). Clor. Alecrjo) florida, - 

Que dé Abril na esfera 

Sois >iia píiròayera . 

Fragranrc primor^ L. // 
jttnbas. Efta .pura neye:)^ 

Que tributa Fiora , • \ , • - ^ . 

Sãfi .rifos-ida Aurora-^, ' 

£ lagrimas dâ amor»; 

;./:..,)Rf;rfí,..r.tAl;l;-Q. ' "'' 

Dé Níz. Mas querivcjo.?; ( Ai de Itnim ! ) Quem 
.arrogaineíS.^ 
Da Mangécona ufcirpa b fòr Cugatue 1 
B. Ge : Quem:, ó Mize; efcotkKdo; amamt ^/j^era. 
•. .0 SoL quú- > axioro . ncfti verde, esfera í. 
, .::■.■. • ) Sabe. . 

27. /• Poi»raidor5komo ajfRm cyrantio iiiceKtai^ 
Roímfftoe^^Nize^.iOueBieu peito adora > 
Sabe. ¥. 



^ rE-^rfidfit. inimiga M» ài tMtoÇ ^^'' 
<í'>- Qiieciiial. a uittá peni 9 ior itUltr 
JSk tf. -' E m fâUb D.Qilt foc etn lorpe-teifolco 
^<' ', Bafct»aMâ»cetomaii|NiQi!é^.^^ 

Deixa-foe , fementido, min - v^r. ^ 
;SlG. -;• Atende-^ .*Cidfi'í\-ti>iv'\: 

Que fem caiif;i fulmina^ .te^s^ri^ores.^ ^ 
'••• ^ancto cÂi. Mrâi iátd^es ' "* - 

Nài chknèMsdbAl&tim feliz Ale ab^^^ 
2>. ATiz. Sdn"«oéívo V' D;^è, Ynè Viminas . 
pofqoe cu firmCi»';. . tí .'V 

D. (?• E eu conftame» ^ . . ; í 
D. G. € D. Niz* Bki te adorou, «te boiico amante. 

A a i-a" -a;» 4..^' .".'.O .^V 

D. (jfV. Attende ^ õ Clori , attenJe 

Verdades' de quem fabe^ 

Ser firme em te adorar. \-^ v 

2>. Oon Sufpende ^ infiel , ifufpende 

Injurias. c^ quem' fabe 

]à ntiais te. acreikcár. 
D. Fms. Nize ínnauí , in^cl. ,amigo , 

Cede a ftarbará indebencia , 
' . . Que a evidencia': <':' '•'-■ « - •^^' 

Não fe pódeiCQUÍvocar. 
D. G. tD. N. Pois m íó querida pfendi, 
D. F.tD.O. }á não creio òs teus enganos-^ '^^ 
X>. G. €D*N. Nas purezas-, de: meii .peftp 

Felizmente víviras^ 
IKF.tD. 0. Nos rigores de niéu^ peito • - -^-^ 

Teu caíiJgo encontiiiái* : 



Ti^tfl.; . j , . Mis I (ó .<:c^ tmor lyrâtino , 
Gomo- podo ettt tanto damno 
-Tl : Teu cftfi^o idolatrar. ?• 

Sabe TagUndéi. ' / \ 

jFag. }á acabarão <ie cantar l Foit^^gora entretH 
a chorar. . ^ * • ,♦ < . ? . 

D. dor. Porque , íagundcs ? . -/:: 

J^gL ; Porque o S^hòrfeu tio diz y, qut logo 
vem ao quintal , aíErniando queha ladrões 
em caía ;^e diz que fe náo ha de; deitar efiâ 
noite, ainda que faça rèra:.dHrít)a..\^ 

D. (?. Aonde eftarà SimicupíO'?.: c 

Fag* Não apparece ; Senhores , efcondão-fe^ e 
não digão ao depois que duro fo{,e mal fe cozeo^ 

D, Mj5. MetâQríc.iHfib capoeira entre tanto* 

D. G. £ qt)e remédio ^ já que Simicupio nac^ 
apparece ? 

D. Á. .A nècéffidtde fabe unir a quem fe deze- 
ja feparar. Nize cruel , eti me efcondo na ca- 
poeira 4 qoejól» I^igar das penas he. o. cen* 
tro dt hum amejn^p infeliz. Jkíete-Je na capoeira. 

D. G^ Quem* ferve a Cupido , ás vezes: he leão , 
ás vezes galinha^ v - Meu-fe na capoeira. 

A^* Ah Senhores < não jme efma^uem os ovos 
de hu^ia gallinha ^ que ahi eftá de choco» 

Saberfi t>. Tíkiirció , e Scvàditba. 

Sevad. ScnhojT, o^rme. periga: olhem o dia- 

ho: do- hontjeml. . ... 
Z). TV Ahi noqui^K^l, te-j-queror -Mas aqwi.eflá 
. CUkís )ie Nis^t ccmedjjiire^ qt negocio* EÍU mo* 



que etf t^pêMrii eÍM)htMri<'^ 
2). Cíor. Qúa^-tol iffo f cPrfhio'? iCohio cftaodo 
doente , c tão,, pçrfgofç , ycm á- cfta» horas 
ao fercno? •^^••^* ^ -^••** 

finar elia rapariga j pois nada lhe>^digd.-, f)ue 

náò faça ais avedas^^ :De'?rorn5:r''^âe'^ftíd fcz 
r:vtOAri « fiftirr4trii('>dHlr^'''como' detféTpefíKfe 
ír^das^pcrttaJtPqi» i»C-^'«; .• '-' .i;' • • <- *' 
D^Niz. :*Ttí>rt*b ^ères , SeVidilha ,• fenão fer 

defcqrtez.oiivÀ^Ki Primou 
í5m^. Voílas níetcí^ nôbí q^énwi^í-^ref ^ qvtk 
c há<}e/a!9Eer^deftai[i^â;ipeftdr 
JR^ilif. Fam^ qde:eftáfn&«.'e<MÍréa6 eacóitadas ? 

O Senhor rX Tiburcidikíid^íithic^acfucarfc ,' e 
' não me "defx^ boma horr^-rtkim ínftitice. 
D. T. Calte, mentirofa. 
ikg. líTo íem' írlla qcfe Ic^áms; hum 'tcftcma- 

• nho , ctímd qtíértf • levanta hbma palha;^ : 
D. C/or. Não nos mpor#á« éfla- aVtftíguação ;. fó 

digo, Senhor D. Tíburdo s que parede mui- 
to mal eftarvoíTa mçrcè-^ífai eomnoíèo a^f- 
tas horas , e que pódc vir itieò.Tio , íf achar- 
ttos com' Vpffà ttnerc* ;-q(ie«f!ijE>pfto íôja pri- 
mo , è com tenraçõcs der ii oito , feilftpre o 
recato, eckcencía fe d^vatcbnfçrví^r ; c affim 
lhe pedimos ciíí còfteziaTc va pirá ò fcú quarto. 

Sivad. Ande , -va '«e^qfíhdò^ó hèié\'-' '-'. 

JD. T. Ncm.cu quizera ^ue meíi Tio mèatlíaf- 
fe'àqui por nenhimi^,»niôilfo'. Mas 'coitado dir 

• mim • qéé-élt lâ' Véitt^T- TómàHi qnc m «ão 



Sfvaã. Pois efcorida-fc neíRa oipoelrai-n r-_ \ 
D. T. Dizes hetn. • i.^r ;>, 

D. C/or. Eftás louca , Scvadflha ? Mmi Prtfnò 
ha-de-fc 14 morrer n'umâ capoeira ? ifíó nlOé 
D. T. Não importa , que para confervar a • fcu 
recâco me metterei na pane tnais iimitti^tWk^ - ' 

Entra naiapoeira. 
JD. Niz. Eftamos perdidai', que lá ítf etiêcHura 

com os doi»! Que íizeftc , maldita i 
^evad. Eu bem fci o que fiz: verib que ptça 

lhe prego. 
D. G. Efte deve fer Simicitpío; Ee tu, Símicopfo ? 
J^. 3\ Qual Simicupío ? Soo huinaí Sirtiíbalâ- pa- 
ra ellc : quem eftár aqui ? O' ScvadilHa ,. abre- 
me a porra , que eu quero fahir , corra a agtía 
por onde correr. 
Sevad. Callc-fe, que ahi vem o velho. • "[ 
D. f. Que tal me fucceda ! ■ • • 

D.6. Eftou tremendo! ' •' 

D. Niz. e D. C/or. Eftamos perdidas ! 
Sahem D. Lanferote com huma luz námXd , V 
Sítnicfápio veftido de Minijiro cottf vara 

na mão. .- 

Simic. Náo fe aíTuftcm , minhas Senhoras j que 

ifto nâo he mais que huma diligencia. 
D. Z. VoíTa mercê poupoumc o irabaího d« o 
hir procurar de manhã para lhe entregar huoi 
ladrão que tenho preze naquella capoeira. 
Slmic. A iíTo mefmo venhd^, que j^ tive quem 

difíb me avifaíTe. 
Z>. iV/^. Que fera ifto? ;• jãfOrt^é 

Z). C/or. São ínfortonlos^meWf : 'Íf4ne. 



S€\fad. Fotgo por amof de D.Tíbutciò. J.|iic»lr^ 
éàMi H0))e |QKlàl^blf^demamar>o€hafeãvc|Q• 
.< 'ã- QiAlucn^, ine f bei de dar Ja conhecer.!^ Ora » 
r,imcu3&9bQrj, iCotno:ibí efte. calo i . ■ ' 
^2>^Air Stspponltt roâíà mercê > que acabada Jiu* 
,T.*Mi'^Uk'd« M^icos', que vierão afliflír a- meu 
srJ^ktíiitio ji/kvíio jáquafi noite^ «áftaoilo eu 

afTentficlo jtimo-.daqaeila Mang;erona » que ^nio 
.-me dcjxará niçiicír, veio dtfceodo hudn ho^ 

mem por huma corda ; e cuidando que ett era 
' .poial me^pcKS Q pé no cachaço. > . 
Simic. KTo tbi omefmo, que pór opé nopeÍF- 
- xoço:-.n&o ha jmaior deraforo!..;^ : 
JDfJU AflTgíieiíAe ^ não ha duvida , quando me 

vi daquella force opprimido.; mas cornando a 

mim , foi fobre elle , e conhecendo que era 

ladrão , o prendi neffa capoeira ^ donde a pref- 

pícaz diligencia de voíTa mercê faberá melhor 

obrar do qus eu íallar. 
-Simia. E como conhcceo voda mercê que eia 

ladrão i 
D.L. Pela cara, que era amais horrenda que 

meus olhos virão. 
Simic. Eftou já defenganado , que fou feio*, áp. 
J)» X. Ande voíla mercê , e verá. 
Sbnic. Ah fô ladrão , faia cà para fora. 
D^ F. Voíla mercê vem enganado , porque eu 
.. (^Sabf^ ha maior defgraça ! fou- hum homem 

bem nafc'do. 
Slmic H^ D. Fuás , quem me dera ver a D. Gil ^ 
.y.qw he o que .cá. mestras» :.' Ãp4^c^ 



2). £.-' Senhor 5 efte não he a ladrão ^ que ca 
encerrei. 

Simi^y^ -Se vè ^ que cftc não hc tão feio i co» 
jvioívoflà riíerc^rliTi ;í vejamos fe eftã iá mais 
algum ^ Oh cà efiá nfaís óutro ; venite aã eam 

, p4râ firam. Ai. que he DJGil! Jà eftou díf- 
cançado. * > í parte» 

D, L. Também não he efte ó ladrão , que Ai 
aqui encerrei.. . íj .. 

P. ió. Claro ^cfta , que não foa eu \ poís'eu j gra- 

. /ças. a Deos , náo neceílito de fiartar. 

D. L. E que fazião voíjTas meroès aqui, foiíSò 
erâo ladroes ?.;. > . .. . v 

Simk. EíTa inquirição me pertence a mim , que 
fou )ui2 privativo deílacaufa; evolTa mercê ^ 
oieu amo 9 não-fc coíiumc a mentir aos MU 
niftros de vara groík, dizendo-me ^ que o 
ladrão era feio , e horrendo , quando vemos , 
que eflâs Senhores $âo mui bcna eftreados. ' 

D. L. Senhor }uiz , por vida minha , que erá 
o mais feio homem , que vi è\n meus dias. 

Simic. Calle^fè, não minta , que o hei /de man- 
dar carregar de ferros. > 

JZ>. Z. Ora, Senhor, rorne voffa meircê a vera 
capoeira, que aífim como achou dous,.que 
cu não metti , talvez que ache o que eu tincerrei. 

Simic. ]á t\ão tenho mais que bufcar. 

D. Z. Faça-me effe gofto , que pode lá tftac 
ainda mais algtím. 

Sevad. Iffo que fe perde? Veja , Senhor Doutor. 

Simic. Bem fei que vou debalde , mas eu vou : 
mas não ., cmre voiTa tnèrcè y que me não 
Tom, II. R. <\ae- 



258 Guerras do AUerím , 

quero encher de piolhof ; tode ^ que Ibe doa 
patente de quadrilheiro, 

D. L. Eti tòu 9 que quero açora apuíar efte eni- 
gma. Ai que eUe aqui ^Qa j Náo o dKTc eu i 

Simic. Traga-o cà paraufóra. 

JD. £. Eilo aqui. Mas ^uevejo.! NÍo foisv&s^ 
meu fobrinho i 

jD»T. Eu fou por meus peccados. 

D. L. Eu eftou beíU em befta. 

Simic. Efte (im , que h'e o ladrSo , que retai 
horrendiflinoa cara ; todos três venháo comigo. 

D. Niz^ Ai D. Fnas , que eftou fcm alma ! ap. 

D. dou Ai D. Gil , que eftou fem yida ! 

D. L. Senhor , advirta que efte he meu fobrinho. 

Siwxc* Por fer fcu fobrinho , náo pôde fer ladrSo > 

D. L* Senhor , elle mal podia defcer pela cor- 
da , pois eftava dcente de cama, 

Simic. Pois acafo elle dorme na capoeica í 

D. £,. Náo Senhor. 

Simic. Se não cjorme, que fhzia ndla feitoro- 
c\H% criminis dcftes dois machacazes i 

2>. L. Sobrinho , a que vieftes á capoeira i 

D. T. Eu Senhor cftando 

Simic. Chíton , não me ufiirpe a jurifdicção ; 
jà diffe que èftas averiguações fó a mim me 
pcncnce: vamos andando ad cagarronem. 

D. L. Não importa ; hide fobrinho , que Deot 
he grande. 

X). T. A minha innocencia me livrará. 

D. Zi. Como he a iua graça , meu Senhor ? 

Simic. O Bacharel Pctrus in cmílis , Juiz de fo- 
ra daqui com alçada na vara ate o ar. 



i7t 
INTERLOCUTORí^S. 

Çfrene , Rifutádé , PrineczA de BeocU i 
deftinaia para efpofa de Nereo. 

Dorida y Princeza de Egnido , depnadaef- 
pofa de Proteo. 

Nelto. \ fi^bos^delRei Ponto. 
Ponto y . Monarea de todo o ÂrAipeléfgo. 
Polihio^ . Pai encuheno de Cyrene. 
Aékrefiaf Criada de Dorida. 
Caranguejo^ Òiado de Proteo. 

A Scena fc reprefeiicâ em TIegra. 



SCENAS DO I. ACTO. 

. !• Selva , e mar com ponte. 

II. Gabinete. 

III. Sofjue 9 e montanha. 

SCENAS DO II. ACTO- 
I. Sala. 
IL Gabinete. 

SCENAS DO III, ACTO. 

!• Jardim. 

11/ Sala. 

III. Templo de Aftria. 



\í k\L- 



«72 



jís F/trUdadts. 



5 C ENA L 

Porto (lenfar , em aue haverá huma porke / aon* 
de checarão èfcaléres para (fiefembaríifèe de 
Dorida y que q fa)râ vela ponte acompanhada 
de Proteo , e nella efiará Ponto , Caranguejo , 
e mais Criado» ; > antes dijlo apparecerã htima 
nâo â vela: e ao mefmo tempo pajfarâ bum 
coche pelo Profcerfió ão Tbeairo , que fera de 

^ Selva , e nelle vira Çyrene , e Polibio , e re- 
colhendo-fe , fahiraõ os mefmos. Tudo fe execu- 
tara em quinto fe toca a Sinfonia , e cantão 
alternadamente os Coros. 



CORO. 



!• Coro. 
2. Coro. 

1. Coro. 

2. Coro. 
Amhos. 

1. Coro. 

2. Coro. 
Ambos, 



EM hora ditofa 
Venha Cyrene , 
Em hora fcfliva 
Dorida venha. 
A fer de Nereo , 
A fer de Proteo , 
Êfpofa feliz. 
Os prados com flores , 
Com perlas os mares , 
Os Sceptros efmaltcm 
Ds eterno matiz. 



Rei. 



Jtíi* Humâ , e mui^s vezes repicão as Nâiadet , 
dos bofques , e a$ Ninfas da mar o.fuave 
Melibeo de akemadosi vivas » para que fe cccr- 

. nizfrm os applaufos no mar, e na xcnra , ao 
. meímo tempo que fe mulciplicão as felicída* 
des em ambos os elementos. Em hora fcfti*. 
vt , e ditofa , tomem a repicer , qua fcjáo bem 
vindas, à minha Corte de Flegra as iliuftres 
Princesas de Egnido ^ c Beócia , para que nas* 
f^ias núpcias de meus filhos Pruceo , c Ne-* 
. leo^^fc perpetue a ícmidea eftirpe das marí- 
fíníUis Deidades. 

Qften. ]á que a forte me deftínou., õ excelfo 
Ponto Monarca; do Archipelago , ás fortunas 
de pfpofa de Nereq , com a gloria de filha 
tua, não invejo o throno de Juno, nem os 
dominios de Thetis. 

Açrc*^ Nem eu , 6 Cyrene, com cíti bclleza 
p Sólio de }ovc» e o líquido Império de Neptuno. 

JEr/. .Cyrene , quando cm hum fó dia fe encon« 
trão untas felicidades , fejão mudos interpretes 
. de meu alvoroço os internos júbilos, do co- 
laç&o. E tu , ioberana Dorida ,. vem a nieus 
braços , em quanto nos de Proteo te não en- 
lata anrior no mais ditofo Hymenêo^ 

Dond. C^ vinculos y com que amor nie enlaça 
em Proteo , primeiro fcráo cadeas de mitiha 
efcravidão., que voluntária offisreço a Vofla*. 
jiageftade, aquém já refpeito como pai, e 
. ycwíQ como Senhor, 

PorteOé Ai de miai, que fó eu na msúor ventu- 
ra .fp{i o RÍais ihfeliz ! i . Ápdrt* 

'fm^ 77. s ha; 



274 ^ Tâfíidâàit 

Itef» Piroca, fecn duvida que o pn:2!er'ldefte 
dia fe ftz inexplicável nas cuas vozes / Ao- 
rando no teu filetKÍo a tua rufpcasáo. - ■ ^ 

Prouo. Pois com eíFeíco Dorida vem deflinadi^pára 
efpofa mFnha, e Cyrenc para meu irmio Nereo ? 

Jtii. Eflía pergunta parece ociofa , pois ahces do 
tranfporcc das Príncczas já eftava deftinada Cy« 
rene para Nerèo , e Dorida para eípofa tua. 

Prouo, Náo cem remédio o meu cormentò. â part* 
Poderia fer , Senhor que mudades o primei- 
• ro interno j achando , que as riquezas de Egní- 
do feiiáo mais convenientes a Nerèo , como 
mais moço^''e que ft túm me fobrava. o peque* 
no património de Beócia ^ que a minha von- 
tade não fe rege por outro império ^ que o 
do teu preceito, 

a^ang. Adcos minhas encommendas : Prote* , 
não he nada , ora efcutemos. âpátt» 

Nerèo. £nganas-te , Proteo , na ambiçio que 
me* fuppõès nas riquezas de Egnido , poísef» 
timo tanto a Cyrene Princcza de Beócia, que 
a julgo infépáraVcl do feu eftado •, que ò ré- 
gio langue' de feus progenitores a faz digfla 
de maior Império , e a mim me inhabilica pa- 
ra outro defejo > e tanto que a Ter menos ré- 
gia , e mais opulento o feu eftado , a não re- 
cebera éípoh. 

Pòiibio. Que ouço ! Grande arrojo foi o meu ! 4p* 

Càrang. rroteo todavia parece quo defcja albor- 
car a noiva ; pois eu não trocarei ha«ia còtt* 
linha que lá vejo, nem por quantai Píih- • 
ktíJii tem a Berbcciti • J<íp^Vh. 



-JfC^/PtPíinçipcs,L* faw eftábnçadar,Cyr.enc )^ 

4çNerto, E>oridg d^l^rocep; ^. Polibip, que 

conduzío a Cyrene , venha comigo » recebcK. 

fts cft!inaçprtf/»,tr^ç fe dçvem a h:\ fcílo^.-^ 
.«•poisuCoda 9 Çprj^Ç:; impacienta no^ efpera cont 
;fçftÍyo3';,,í|>pUMÍo|i., nto . dHaiCino* a noffq^v 

entrada. : ,; s , Faufe. 

Nereo. Vamos^ fofrnofa.Cyfenc, Fai-Je. 

Cyrtn. Polibio , .. náo ... xe . apartes de mim hi^fn 

íníftante. f^^^-Jf* 

Prvteo. Vaincs, :D:<>r|da , vamos. Oh quem pu->' 

dera trocar a force , fe bc Í6r<e, a que. me 

acompanha! Ávârie ^ evêuft. 

Dofid. Q coração pccfágp náo lei que me va* 

ticina. á fdrt^ , € vai'Je. 

Ji44f€J. Vou -çaintialcando ^ pois me parece que 

ainda eftou no ■ na vi o , Q^íer ir-fe. 

Cáf^fig* l^fpcrc, menina ^ donde fe vai mcccr 

entr« a barafunda das carroças i Deixc-fç ef- . 

lAt , que em vazando a marc » fe .embjifcaflá 

na fua carruaje» 
Maref. A mim me farão lugar em toda a pac^e. 
Cârang. Não vè t encangalbaçáo que lá vai i 

Vi , mas veja qucf ha de fqar bem para fe inc- 

trr na fua eflula* 
Mifref. Parece que affim he : ora vofla mçfcl 

viva mil annos pçla advertência.. 
Carang. Como pofícrci viver annos mil , fecnr ', 

conifo mil mortes cm cada olhãdiKt de vof- 
la. mefcè ? 
Aíaref. Tão máos olhos tenho eg qu^ dcm 

S ii C«r 



r76 ^As ^i^iàts 

* i$L mercl ; mat litn pelo ^tiiííitiro' é!ft-'ítfíte. 
MMrtf. VQ\tip€ ítkt,>, *'■-';: ' c^í 

Cètâng. Sint<>-me-tniti. iqiscbratirádt>/ •' > «^ 
Jl/^rf/. Naticá vif'^ ^òebiíáiicb tm còufa^^^itii. 
iÚrá9ig;r ScSítíiAàsHtí cei^â^Mã?^ jbenf^«rát<ra- 
fá ioc cú ; náo pelo que tenho de vieraMia- 
ib > ma» porque coda á âhãà d^-ijbirmofonh 
a tenho -transferida :tm liiiA'ámcftè''Pi||>thaj^ri*> 
«o de tua belleza, .- -'■ 

Mâref. Inrolence , dercomèdAlb i '''^(le tntt^hc^ 

eflía de fallar-me? - ;»?: ^ = - 

CMráng. Náo fei Hírazear melhor ^ e- fécada bam 
' enterra feu pái Jcdmo/fòt^ V - ^ reiufcitó 6^ 
.'meo amor eomo fei. 
Jtíaref. Pafa t/ttc fe lhe* defVttidçsa «(Ta ttntaçSb, 
íaíba -logo cm continente , €|ué tenho feito a 
Diana hum voto Iblcfnnedéperpétua cattidade.-- 
Carang. Náo pibí-ittíu voto. 
Marej. E affim ^fpero que efta fe)a a ultima 
. vez , que tal cou<a ouça ; porque o meu v«- 

to náo he coofa de brinco. 
Cárang.^ E quem vetou niflb i 
Mêftf. h minha devoção. 
Cárjtng. Pois anc^tf queres fer cafta que caftíçir 
Mârej. Hei de fer foiceíi^ para que êm mim 

fe acabe a minha geração. 
Cdrang, Vejáo lá de que cafta he cila > Pois eu 
te armarei huma'trempe, que tu te verás em 
faias pardas : Ora diga, e náo pôde anuUac 
'■^C vo?ò i - 

AíareJ. Eflárcvalkladoc^tautvxix^^xa^^ 



QfNU^^ Ppí^i^ filh^ 9 fenão desfazes cíTe voto, 
/«;cras todos aj/ròyo para te íacrificarem. 

Tocão os tnjirumentps do Coro. 
Af4ref. ,Çoiiio».>he iíío ? 
Ç4^rang. iiiq, hp.cempo agou de -o faberet » 

pois a comitiva )á fe vai pondo cm marcha. 
M4jef. Dize^ mais -duas palavras: como heiffi^ 

da facrificioí' ,: . 
Carang. Tu o fabêrás anda depreíla para o teo 

carrinho ^ que em Palácio to direi. 

Cãfita o Coro. 

'l SC E N"A II.' 
Gabinete. Sabem Proteo , e Caranguejo. 

t: j -'Ml, rj; ■ . ' 

PifOteo. ;T^;Ei|ç^i|v? » não me perfigas , qu#^ 
X^nio ha maior tormento para hum 
ip^liz 9 qu.e % J^riffação do retiro. 

Cdrang. SenhpÇ:.rf^éo , que mania he eila i 

fAo mcímp; len^po que te vès proptnquo a 
cafar te vejo próximo Ja enlouquecer 2 Nioef- 

. l^rav^^. com- a^oroços a Dorida Princeza da 
Egnido ? Nãp dizias muitas vezes lamentando 

^jWt cpftas do ipar : ( fp he que o mar 
téín coftas ) vem querida Dorida ^ . e fe por fal* 

.«fa de 9guas encalhou o teu navio, asdcNimeus 
olhos te trarão ao reboque > Nio andavas fa- 
zendo Sonetos a huma aiufenda , e cantando 
n)inuetes a huma faudadei Pois como agora 

^^epois de ppíTuir o que defejava^ i parece que 
náo defejas o que poflues. 



178 A% rãHiiéiãi$ 

Protee. Tudo i(Td affim he; porém ib i^sfeíhá 

incidentes tSo forces ^ <)ue ddftroèm o níaii 

firme penfamento. • ■■ -^ 

Carang. Por ventura , ou por defj^nijra \ niò ht 

Dorida muito bella , e fenhofa àt wxvtk Rciíioi 
Proffo. AÍIim he. 
Carang. Pois cjue hiats defeiM i O cerco he , 

que da Deos nozes a quem nÍo cem denres. 
Protco. Sabes to o que he amor í 
Carang. Oxalá que o nio foubera tánco ! AnH>r , 

ainda que nul pergunte.^, qos homens he o 

mefnío que queref bcni ; "íÀs b.ftas muares 

mormo , d nos outros anii^ae^ appetite. 
Proteo. Pois como queres '^ue nÍo enlouqueça , 

fc cu tenho amor í- v :» . ^•.? , 
Carang. Para que sio eíTes terremotos j quando 

eftás quafi propinquo a ftt tní -'teus. braços^ a 

Senhora Dorida? ' 
froteo. Ai ! fe fouberas qúls •• : mas nio ; íc- 

pohe-fe comfgo a caufa éó' meti' tormento. 
Carang. Se he por i(To , diga-rrto *, que em ínlrn 

ficará fcpultado efle ' íegrcdo. 
Proteo, Beni fel qiie não deÍMereces a eftUna- 

çáo que de ti faço ; porém .... 
Carang. Porém quej Çom que eftamosí Qàc- 

rcs que to diga ? 
Proteo. Náo , háb me prives da gloria de o plò- 

nunciar. 
Carang. líTo he gloria do ceo da bòctt. 
Proteo. Cvrene he a caufa do meu tormento. 
Car/iftg. Náo o diflc eu'? Oh <on.o hê cerco 

o ditado da gallinha da jnkiha vifínhal • 



4f. P.<irtfp.^^ r^9 

PrQêfÚK ^Of^(ÇJTp-(ç. que tal foi a. violência , coif 
que me arrebatou a fua em tudo p.eregrinâ 
belleza 9 qi^ nio tive' acordo pára dcfmentir 
a inclinação: vífte áquella perFciçãa que im- 
morralizando-fe nas fuás galrv^rdías fe fe^ 4da- 
rar como Deidade i Vifte aqoelles plhòs qut 
fe adoptarão aftros para adornaf^a. esfera da 
fua formofura *? .Vifte aquella qcvc, que der- 
retida de melhor eftrelia , roul>e congelar os 
corações ? Vifte aquelle ondea/do epilogo dà 
luzes, em cujos annéis preza a memoria não 
fq lembra de outta igual marayilha ? Yífte. •• 
Cârahg. Efpçrt ^ Senhor, com quem faiía ? .Iflb 

he comigo ? _. . i 

Vroutk .Sim , porqiie yf^a.r fe tem.fl^fculpa t 

minha loucura^ ^ ^ ... 

Carang. Agora ye}o, que iíTq he loucvii;a 'refina- 

<la. .^u por ventura i;;! nada diiío que dizes} 

Ea yi aftros , ^(bel};^,. Deidades , nem luzes } 

Eu vi mais quf hupaa mulher > - ou huma 

Prinçeza, quo tudp. be mulher, formofa fím, 

. porem não agora lí.cottfa .^o^íci^ eftrello*^ 

Proteo. Calte^ nèicio,' que q.tçj}- génio g/oflcK 

ro não fabe diftinguir perfeiçõffs. 
Cârang. Eu cá ,nq\tpep amor figo outra filo«^ 
foãa mais natural^>.íbrmofura ça, para mim ha de 
(er clara , paipâv^\ que todos a ctuendão^ 
comO: as paftoras do tempo antigo, 
Proteo. Oh quanto invejo a fortuna de Nereo , 
e quanto temo que efte incêndio , em que 
me abrazo , confuma faaile^ameotc os facri- 
icios de ambos os Hymeneos ! 

Cá' 



í8o ^ . A$ Tarieiaáes 

Câran^. E que deterrainas com edil defonfena» 

da indinaçSo ? * '' * 

Proteo. Deixar a Dorida , e perteild)fr a Cyrene 
a pezar de todos os impolHveis. 

Caratig.. ENereo teu*innio que dirá neflfe caib^ 

Proteo. Terdoe jNereo , que eu nio poflo r^ei 
a violência da minha inclinação ; Numen lo- 
periór parece que t domina. 

Cãrãng,. Em quanto a Nereo , já não he a du- 
vida ; porém Cyrene como ha de correfpon- 
dcr-te , fe he noiva , e Princeza ? e o faltar- 

' lhe em amor íerá crime, de -leza magèftade, 

Proteo. Tudo vence o tempo. 

Carang. £ fe faltar o tempo ^ 

Proteo. Náo faltatáõ oséittmnos, pois foir Pro- 
teo , que me faberci transformar èm vari^ fór- 
' mas , para poduir os (avorèá de Cyrene. 

Carang. Se não fora GVrcnc Prihci?za , te dif- 
fera aue ce transformaífès; 'í&ivpte eih ' buro , 
que he a melhor fórmá para attrahír. 

Proteo. Enaofefá d^facerro participa r-té a mef- 
ma virtude dè" tf asfof mar jpeio que pôde fuccedcr, 

Qtr/vfig. Eu,'SèhhJbr ?' / » 

Proteo. Sim,tií. »' *i 

Carang'. Se eu fou capaz diffo , já me começo 
a transformar na tua vontade , e me veras 
não fò transfojmado , mas formado na faculda* 
de amAtotia j c ainda que fou Caranguejo , 
farei muito que ande para diante o teu 
annor. Vaufe» 



Sã- 



êtòe Qfrmunti' t tfiará J^rouo vottadàicm r^ds 
cofias para ilia. ^m- : 

Qrf». PrittCipe? : . . .^ . í^tí 

Proreo. Qi]tf^<ocdena$ , ói^iaceza! ': í 

Offitt. Cuidei que era Nerço. . rt 

Froteo. }à fei que não ha taúot . infeKcidade 
que fáí Preceo. .:.• \i 

Çyren, Porque? .* - 

froteo. Porque fendo Nereo^ tivera a fortuna dâi 
mcrccer-te cffe cuidado. 

Cyren* Nereo , em quanto- Nereo , não mereci, 
mais que Proteo , em quanto Proteo ; a, quali- 
dade dê efpofo que eftà para confeguir*^ fae 
que forma a difFerença dê.::Nerco a Proico.t 

Porteo. Eíla qualidade , óCyrcne^, hc a. que mais 
qualifica 'a minha defventura. i 

€!yr€rt. Se aformofura de. Dorida não pMde0e fa- 
zer dicofo ao maisdeígraçado^podcrit' quei- 
xar-fe de infeliz a tua íórrç : mas ccixia na« 
fua belleza cílào vinculadas; às fortunas ,':;.nial-. 
pódea apetecer af drf Neréo» por inferiorctk , 

Frotto. Mas coro tudiO' a fc^ poílivel quort)s 
aftros mudaíTem de -:^fpeâo) e que os Plaiue- 
ras , que íti6âírão nomeu^horofcopo^ pudef- 
fem commutar os feus influxos entre mim ,:>c 
Nereo , eu fora mais ditofo oao fendo Pxoteò 9 
do que o mefmo Nereo com a dica que goza. 

Cyren. Enigmas pareceih 'ás:mâs palavraíS; 

tíroteo. Se Nereo foubècá.,. Senhora. .••» r -r. 
Sabe Dorida. 

Doridm Oh quanto te agradeço , Cyrene , que 
divirtas ai adancolíos de Proteo ^ mas cuido 
3 Q{k^ 



**:- , 



f ^iqnecibA: eftilo em Fiesn i c ct l i èim 4> 6 ip-cfi 

pofas com poni(fai fuQebre. 
Prouo. Sempre at coufas intenCif iprodozem ^« 
fekos concraciof.^.põíft alfim ootoo ha lagri- 
mas de gofto ,• porque Jiio haverá ■ vAm» 
r'ffàtU^ at^ia? . ^ ..i 

Dorid. Nem íempre sáo conaínoo^i effi^ fiaaet 

no exceíHva affèfto. ^ 

C^eii.'.Dbrída v poriqae^é^litolerá o afftâo ^ fe 
o amor for cxceífivo ? ...... 

JDornf. Porque affeí£k>-! que <uo <fabé'' mudar 

' iide afi^efto , .hc afFeébdaxiemonftfáção' da von- 

t''tade^ .Proreo ,>' bom-^fetique aatuai prendas 

imreci&ò mais Xelia. Bríncezia ^ e mais digna 

'•e%ofs[;/.a tu9 rrifleza-me (lerAiade o deígoí**. 

ro de noTo Hymenèo^ epoqae nSo perigoe 

' t realidade na con je6hira, deiengana-meí^que aia* 

da he cempoXe ácafo ea motivo os leas pezaresí 

Ptotio. To Dorida ^ ta és a caufa de minhas penas. 

Jbarii* -Infelír fui ;. uorém. ... > . 

JRrar#o;-'Nio te aflofte efta exprefsão , qoe co- 
inô>>'na- {;lotfa do amorrjha fombras de infenio^,. 
4]ue\moito me emrífteça .6 meímo, que me 
alegra? Pois quando comttgo vejo a gloria 
que me eleva ,- vejo cambem em ti o abffmo 
què 4ttc pettafíza*:^ * / 
C^en. Que bem ezprríTado txn«mo ! 
VoTid. Que mal fingida .-fineza ! 
Pntio. Que .nul eiucpdbb affeâo ! dfârie^ . 
• . ». ■ 'A \ .' ■■ 
V' c- ■'■ ■ /u ^ ■: ' .:. . w 



í. 



' '^'" ántâ Proteo s f^íítme ^^ 

Etn ci mçffha confidero .-. > 

De meus^iiDales o motivo , 
Por u niorro ^ por ti. vivo , 
Tu me macas , lu mç alentas , 
i Pofs/c^mttgp cfti meu mal^ Vi 

E comtigò cftà meu bem, .' 

Deixa , pois, qtíjctrífte viva ^ 
Quem alegre bufca. a morte , , ; 

E veras que» -dcfla fone v v Jj. 

Efta vida me horrorifa , ..i ' 

E efta morte me convém* ^4Í*/h> 

Vorid. Que te parece, Cyrénç^ efte novo mo- 
do de querer? -m : ( ' .. -^.O 

Çpm. He queto^^fcu amor náo.he vulgar. ^ > 

jèorid^- ^ Achti^ aca^ em Ncf eo . femclhantcs qjc- 
preisCes ? ;.:.i:».-.. * • 

Qoíè/f. Ainda náa^oaVe occáfião<para.a experiencia'A 
? Sabe Carah^uej&. •. , ' . -:> 

Carãtig. Se eu dcfta me (aio bem , tenho tnoi- 
co que contar lik cflão.asidcias Pritkce2ás , Cy^^/ 
:j«nes , e ^Doridas , eu darei, o recado de.iov^l 
te qoe Oyreti^ meJvncendav e Dorida fique 
<jero jejum t.tKMio-mc pateta ^.c.mentecapto. Ain- 
da que me matem- não hei de cafar. 

Cyrat. Que homem he cftc íi - .^ 

Dêtid. Sefk algunr oonto ^riçoqi <{ucm os Pcin*^ 
cipes fe diveiwm, . j 

CáTáng. Tenho dito : contra minha vontade não 
it €uifem« Bv 



|84 Aè ffmUiâÍÊ9 

Daria. Náô H;Pf^ gpajpi açhi^^jaçCbi ttams í 

Vai-tc daqut ' ' ^ 
Qfrtn. Deixa- o, qae gôfto de o oavir. 
Ourang. He boaotdóka!v DigRrtjiKimio quero 
cafar. Irrar!"*A' força iheiífaBiim cáéaixar hu* 
ma mulher^ á.-qoeiiiu| ifiu^ln ii v^ 
Çyrtn. Que xtm yiomo i ■ .- :n »«• / 
\ dr^iíijf. DigO':^ ^qoe nia qtproiywá^fe a noiva 
' para a fua icrnwf' ./• in./- ' 
Dor/V. Que noiva ií)p . /ioC 

Caráng. Tu cruel y vaiíexom/.Satanás. 
Doridi Arrebatado nó feu fiDentái imagina que 

falia corn alguém; ' .t r* ív í..; '. 
Ç^mr^o cafar htz foa cctma./b :: 
Cárimg. Ai adorado impoffivel , que fò co me 
•CKçaías eftk^abnari .•>:; ^ • . í^'^ \ 

Cyrtn. Com quem falias? ^ v . . * , 

Caré^g. Comtrgo^.comrigo bei de morrtír apéK 
•fornos: efpera:, nio fujas , qcDSs do» braçds^éh 
teu amante te arrancarei. Vm*fe. 

Dútii. Aa' palavras defte louòoT^naò fti qiie> 
éco formarão na 'idéa , qne me penetrarão 
-io coração. . ? l .... .%?. 

^Cffin.^ío foças caio de humlfimplcs^ . . :n 
Ijmid. Se o coração não<=eftivera firidç contas 
triftezas de Proteò'^ dcfprezára aímieílaa vagas 
loucuras; porém às vezes sáo jpêelagfCfi' as>ci« 
fualidades; pois tcmo.i'; .é \r-ff; v; jl . '\> 
Cyren. Que temes?. :/ - i .;.•,. i.i o.,: ;;t(.> 
.DorfJl Ai Cyronev que os cemnçett não . fe/ft^ii 
bem tanto explicar como í«ndnv;.> hj 

csr? ■ " .. ;: : tíj:ií 'ííi'. . ;.. i . .--.ír^ 



*" Càitd ' Dorida a Jeguinu ^ ;; * 

' Nio- 'tenhas por delírtos 
McuS' tetnorc^y 
Que em amores 

Em duvida he melhor • : " 
Temer j que confiar)^ ^-^iV 

"Oh-credula náo fej^ . i 

De/ amor no cego encano, ^ 

Qda cm tal darono^ ^ 
Ctes males o peior- ^ * 

Devemos efpcrar,:' f^aúfe. 

Cj/ren* A' vifta daquellas «sprefsõfs de Proceo ^ 
venho a enceiíder qúe nio sio fem furidamen- 
CO os temores de Uorida;, (fiem verdadeiíii a' 
íimplicidadei do Criado. Ohf^go amor , xpc- 
de abfurdos vàs fulminando ^ c que de horro- 
res vás produzindo i ' . ' . 
Sâbe^ Polibia. 
Polib. Filha Cyrene ^ nâò fei fe me peza do 
engano -qut tenho fabricado, trazendo-te pa- 
ra efpofa de Nereo, em iugar de outra vtíy- 
rene , veidafdeíraPrinceza de beócia; qoereiH) 
'do-me aproveitar do feu óbito ,. e do teaxio- 
me femelhante ao delia 9 pois já com as cf« 
limaçóes de verdadeira Princeza fé me diffi-' 
<:ulta o ver*te as vezes que o meu paterhár 
amor defeja. 
Cyren. Pat^^vC Senhor , fe náo houvera oucfgi 
mal Mt /temer ^ cífe com iacilidade fe podjÉl 



4ft JsmÊfdfidéOa 

Polib. Pois Wií teceis ^ |cv}ti4p^^J^ booipritf-^ 
ctpio a ricnià *KiUuftrià > ~ 

Qreií. Temo ooc (é^ di^oc a dbfcobrir ^ que 
a verdadeira Qyitftie'^ PriiioelA:.deiJB^bcía , he 
Mecida , t que tu és.mea. paUft eu incriira 
Prioceza ; e pôde fjtr^ qoc ufc convena cm 
luto toda cfta pQmpaffe(tita9.ftri^|umcial appari^to 

Polibé Af emprezas difficoltofip n|ó. fe mtentlo 
fem perigo ^^fi km fufl*- ^à&O '.^e adquire 
buma Còroa«< BemL-fei exponbò.aiiiíoha vi«^ 
da pela tua elevaglo 9 porem. rQOõfid.mndo a 
brevidade com quQ fe ha.-.drneffiHtaar cfte 
flymcnto, e que quanda f e 4(r(çiib'fa o eti- 
gâno' tCv acharás Senhora do alvedrio de Ne* 

, ceor preto *ròs bn^ dctua foriqorurl, AjcÃj» 
dmando como fortuna o reajKngano, teràdi** 
. tofo fim o noúb ^premeditado .intento. >• . 

C)mi. Oh queiíiovòs Deofcs pfofpcrállo ! 
Sâbt.Ntno. 

Nereo. Cyrene , como f^i eftimas o exercido 

da caça, t>or te.dar die alívio ^ tem ElReí 

i meu Pai determinado divertir-^cemhuma ca* 

:ç^da Teal , donde vejas : a 4eftresa , e vabr 

-^òs .nolTos>tnonteirQ0«'. . V. •. . \ 

Qfrtn* Impuifoíisib da benignidade^ dcIRci , a 
-flquem agra4eço>. ^ a voffa Alteia o cuidado 
'de meu divcrtimenioi '^ .. r 

Nètito \ tâo alta Princeza todo âessccdo hedevído. 

Pbifb.pATccCi Senhor, que ;apoftáráo oa fados 
a fazer-ce dirofo, unindo na efpota, quepof* 
ufaes , a ultima períèiçáo dá {ormofueàn 1. /. . 

Hiíio» Poiíbio> hiima focmfura hla bf di«á(b 



lie Pwm. . íSÇks 

hom Príncipe: os lUafircs Heroes^^de quem 
ckfccndc Cyrenc , a fazem digria dá minha 
veneração : a be&eza he vuigar anraâivo de 
ham animo piebeo : a regiti afcendencia he 
digna eftimação de hum Príncipe.: à formo- 
fura caduca oom o tempo : a nobreza íe, im» 
morcaliza na pofteridadc ; e aflim , . Polibio , 
podes entender ^ que a fér Cyrcne menos 
regia , abandonara o thalamo , e deípreizifaív, 
a formofura , não fendo adornada da ^&Iage{« 
tadc.^ - Fai^feji 

Cj)nn. Eque dizes agora, Senhor ? Eftims(rá Ne» 
reo com flf fortuna de pofluir a-miiihar^xdfè^ 
za o íeo engano ? Vès cabida por terr;( >a Jà- 
f e , tonde erigias as tiias n^àquinas'^ Ai 'de 
mim 9 Senhor 9 quanto mçlhor me for)t viver 
occulca , coroo efiava , nas ruAícas aldeai d«- 
Beócia , que ver*me quaíi propinqua a cahir 
da eminência de hum throno no abyin^o de; 
rua ambição! i . . . 

Polib. Não «me afflijas ccfm eíTa ponderação r po- 
rém não foi pequena fortuna poder no an* 
cicipado defengano de Nereo bufcar o rcm^\ 
dio dcfte ifehfnenre damnoj eno emianco'fn>^ 
curar dcívanecer-lhe com profiados cárióbos a. 
violência de fua inclinação. r 

Cttnta Pdibio 4 feguinti 

A & i A». . 

Na on<k repetida; - 
Do' Zéfiro JtKpcllída ' i» :.. 

' Tidm a dura pati)ia •. r . r 



9^ Js^^Mkdáitt 

in^rtp :.!AoiaEme IBanckfifeiilii ;r?- ri rrri/-^ 
crfiTR: Seu Kqoido triftaL 

itÁ i>^r.;Tflofeo detham «oace alcança: ^/^l-' 
«o.nidi Bei»; p6dfi haver mudança - • - > 
«ml T^í Na inftaocia 4^ catinbc» .. ^ . > -* .\J. 
Do génio ieq báL . .J^rfg. 

JUiM^, Dorida te «%efi..^Çteiiiiocil» paia iavstá 
-lodoAÓm. . .. ... .]. _ , ,..- \ .'.xv> . 

Qmi.aEu vou. Oh loiíKa ambiçio, aonutoiot 
• fiftcipitas! . ■',■■•.:■ /■. .-■:•;' j,c. :r4Í*/êp. : 
jlÃf^isTonúca qne Canuigncjo: aieriivabaBe 
-dfeeexpttcar aqueUajarenga do Saarifieb:* que 
rflhc' náo p^de perceber com a balha:da$ cA- 
vtafoUas ; porém fccai he » antes hei dedaf h^m 
: olho ao dcmo^ que huma máo ao.aniDr* 
SMbt Cdráuigfáejo. 
Cãtãng. Eu afEm. como toUo àt\ a emwder' a 
Cyrcnc o intento de Proteo , :C: eUa*a meo 
-ver nur não deixaria de emender» qoe.iMi 
olhos de grande mbercula»; 
MâTtf. Senhor Caranguejo. 
Cintf^» Senhora Marefia minha Senhola* 
MMfrf. Ha muito aue nos nio vemos. 
Càtéttig. Que ha de ier i Efia oocupaçãoile So^ 
ra-Miniftro, de Vénus não me deixa huma ho- 
ra livre pafá ter ò meu regaboFe. ' 
Mãref. Bom oíficiodeve elle fer. 
Carãtig. Bom he ; mas para o meu ^Qiio não 
he muito coufa ; efia tarde facrlficaoios qoa« 
tro moças y como.quatfo to|^rcs^.:pMnioque- 



iti%^ <aCa» S .e cpnieíTo-ce ^ que qviando le^; 
V4n^i &machdvlif)h4Lflparft.'clercáíregaf o golpe ^ 
que me fagio- o fangue do corp^k 

M^réi[,r Ai de mim .çoiçâck! ' Digàrinc , Scnhof 
oC^cangnejo. ,^ ., :, .>•;/' 

Cajrang. O quiet ^;5enh6r4 Ca^âtiguejola í 

A^4T^^ E/fa tei ije cumpte tanco a rifca ^ quê 
(ptjft$ que nãx> casão joaorirem? i 

d^rÃtii. Vif como^doúà) e três são nove: fat- 

..l^^;(.iç nerqucionãò fabe) que todaaqod- 

ia mulher que . Ct moAu crquiva^ e def^. 

• é/^hoí^ i como V. g. aquelías que úida me fie-' 

àt , te nao^bfandac a cpi^diçâo ^ ^a de íer 

.facríâcio d^ ^Venus cpmo Deofa.dos amores. 

Aíflfff* Não Ha -lei j[naís. barba» dob que eíTa.^ * 
cj^^Wf^r, Wle/itW ft;.V!Ç>nHde ! -.' -" 

Cáràng. Bçm fe pôde cafar íehi vontade % pois 
^-quantos fe câ$âo contra vontade ? .\ 

M^^^ Cafamento fein vontade não he tafame mo. 

Cmr^ngy A^^uiMPi olha , a vontade he coufa 
•xque te nãq vè 1 e vendo hum homem a noi- 
yai-inão lhe abre o coração para lhe ver a von- 
tade , pojs bafta fabe^r que cem as três potencias 
da alma^j^m^tHorkiy entendimento , e vontade; 
porque iíTo de caiar fempre. vai na . ié dos 
padrinhos* v •? . ^ ,'j 

JUaref. E quemterií ó magano , que tal lei 
inventou ? ^ •?■ - ' :; -' 

Carang. Calte , p^p fejas blasfémia ; olhi que 
foi ApóIIo era defpiquc do tígof dê- Daphne, 

Màref. B m haja cila ; o mefmo fizera eu. Por 
força ? lílo não ^ ainda -guc (t\aL Wcw "^cXs ^ 



tfio Ai JnífMâies 

- além dí(ro:4enho fclto^ voto deièftiAAf^a 
, £)iana , xjue me mpoffibíHca o cíídt i^t' hti 
de cumprilio , jDais <}uc mC matem. 

OtTfng. Por :fnímifá^ o qoe quiseres , qul' f*-" 
CO não he mais que íiiíinuar y que fupponoiYiSo 
fejas iiiih1iaí^ò«ima.ir'poís ^a ku carinFWH-V^ 
vo apartado , ''<am - tqdo és criada de DoVjdáV^ 
e tenho dó do5 teu» p«Aicosfthnò9; Còkadrfihà^ 
que ]aftima>enho de d ! Náo^oHres para-inihiv' 
quic cada vez querè vejo, (e nléfaítté etcòra^feó. 

JUdref. Não te compadeças- dtf tuim. ='' "^ <' 

Carang. Não pode ler , que' Toii rhuí áiaft)5%; 
em apettaado câ blhos logò< ehoftk* ; / ^'^ 

Mâ^f. ilffo" vai de tft bonft- toràçío. • >í;íi'^m 

CffTilifí^.jAncei ^ísaid^cíer bofts <)lhas',/qué iiMJb^ 
nunca me choroii o còraÇão M cbrpò , CDitic^ 
as crbnças na barriga. * i ■ '^ :>^'«*- 

M^ref. Pois , Sentior Caranguejo , Mareíia «fio 
ha dtdefcer da burra ainda que a leve o diabo.* 

Carang. Poised montarei a-.cavallo ^ e irei àii^' 
pane ã juftiça 9 èíòmeme por defcargOVde 
> minha confciencía te -tomo a lembrar a rigo- 
rofa^ fevera, e fulminante lei de Apóllo,'a 
qual de cabo a rabo he a- Seguinte per /ormi- 
lia verba 9 ibi. 

DEC í M A.. . ;. .- 

Toda a mulher que não for 

Inclinada ao matritnbnlo , - 

Ha dè Icvalfa ò dèmenío ^ 
^ Se a não levar to' arooi : 
< J/are Jogo de deçôr 



"■■ ^ífeii tyrannb • ddfijcnhár } ' '^ 

Porém fe-iftócl-^àtjrdridá> ^ ' ?[ l, *" 
Seu rigor, deye efcolhír ' T '' 

Ou morrer , pqr rt£o ci ftr , ; f^aife. 

Àfàref: tii - cnraiadtírí fehitlha n tç ! Káo tci ò * 

:*<}uc Kèrdefazcr nèrté tafo ! Sé íf^fo^ he líii-- 

' taf-fi«í {í ft iVaò 'cafó/i' hfe morrir r 'oh que" 

apertado cafò ! Pois. fc todo íifc inofcér , êr* 

colherei á morre , oíÃ^/Riê \toY fria is fuàve: T 

, ,.NáQ ^ha quem nic díeá . '.^ . ' ' .. 

^ — ípbr^ífts cídaScí^;' V...-; ■/ .';- 

^■'- ■ Se devo àrfaf i' "^ ' .'••"-■■" 

• ■■ . ''Se;nío^ ^''{tfimY\ ' "■ ■ ^' 

• ' .'.Poren;! qae vèrdacfc ^ 
' Me' pôdeift dizer í 
„ i&[<e éti be! de 'morrer 

Aílíhi còmò afiím? f^ai-fi.^ 

.$ G E N;A líl. 

Sofyu€í *Mdyérâ bmiifotiíè nMízaáodeffíirn^ 
r ^ fóm; de bamá Sinfonia dt trompa bttiô) 
Jãbindo vários montéiroí com* irtflntfnéntQs ve- 
nmorÍQS f Je verÃo cr^zâr o Tbejòfo Vári&ç 
animaés filyelires , e fabirão enconiiâáot Òjh 
tene^, è^Hertú. 

Náh. /^ITrèhé^ nSò te cmpenheá taritò no 

• V^ feguimcnto deíTas terás , nem i}i>v . 
ntoí dfíWtàftehtò^ avemurte i tu\ N[\^^ \ tl-^ 

T ii \v^ 



jpçrs , c verás , . que .apcefe^fco nas dias de 
tua formofura o liyiis $tro?: javali , qucoccul- 
tâo eftcs bofquçs. í^ , ,.^ 

Qren. Não , Príncipe , Áí^\ie o exceflb do 
^teu valor , qâe^fèmo eni ti a trage<íía áe Adónis. 

Ne¥€0. T^doilá yentiirâ c^.niorrer ncs braços 
d^ifla melhor Yi^niis , ambiciofo bufcaret a mon^» 

Çyrin. Sét W comparas f^i.Vctius,^ já feí. Uii 
fingida ei&i jiiezai^. ' • .. j/ 

iVrre^: í?rng:kja » jpoçljqa^^^^ V^ 

Qrren. Porqqç ,<l f^n^o^ÍMjL fííMr fi não te podo 
obrigar a tfênWm çxceni»^ nâo fendo anima- 
do do Régio faiigue,. , / 

Nereo. Affim he > mas qmindío a Megc^ade fe 
une a belleza , são mais^ yeperados os Idolof 
da formofara : mais.forinpia , ap que^parece , 
hc a Lua, ma$ por fer tão baixa a fua ef- 
fera , nâo merece tantos elogios de bdla , co- 
mo a miníma ellrella , pelo elevado folio, em 
que fe oftenta galharda maravilKa dps Ceos* 

Cyhn. Vifto iíTo 5 a nâò fer cu Princeza , não 
feria objeílo de teu amor? 

Nereo. Náo fapponfias hum impoífivel, qu^o al- 
canço a fonuna de poíTufr-te Prínceza^e formofa. 

Ç^en, Pois adverte, (já que me appellidas de 
Vénus ) que como Deidade eftimarei mais os 
cultos de (ormoía , que os tributos de 
Princeza. 

JVereo. Para mim não ha mais formofura que 
a nobreza ; e amando-te como Princeza, te ado- 
ro como bella, 

Ç^r^/r. Defík forte imçofflbiUus o Hyrnenêo, 



it Prouoi lp5 

que defejas ; cr paíVa o confeguíres , lias <Íe Ima- 
ginâr-me fem qualidade Je Princeza^ aliás««.« 

JVereo/ Que? ' 

Sabe Èl Rei. '. 

/?ef\ Que te afítígc , Cyrene? 

Q/rew. Acbaf , Sefihor , hútti cfpõfo ; que tnc 
adora por polftica^más não por affecfbo. ííiier irfe. 

Rei. Efpcra. 

Sete huma fera eórrendo. 

Çyren. Mal poderei , até ftSo vingar nefta fera 

' asoíFenças de òutrà. ^ ffáirfe. 

Rei. Que foi ifto , Nereo ? ' 

Nereo. Senhor , pefmítte-me que evite em Cy- 
rene , algum perigo no feguimento daqueíla 
fera. \' ' f^^i-fe. 

Xei. Efta condição de Nered atiffiéra , elevada *, c 
^foberba, feni duvida motivoo em Cyrene al- 
gum dcfeofto ; não heaffimProteo, cujo gé- 
nio mais docilbe o attraélivo dos corações. Fe« 
liz Dorida fera com tal efpofo:mas ella alli vem. 
Sabe Dorida. ' 

Rei. Dorida , eftimarei aches alivio no diverti- 
mento da caça. 

Dorid. Antes me penaliza ; por não achar a fé«- 
ra 5 que bufco. 

Rei. St efcondería talvez temerofâ do teu valor. 

Dorid. Antes pfiJcra cu eíconder-rtie temerofâ 
da fuá ferocidade. i.r.íf .': .. 

Rei. Se a temes V .como' a' biifcas ? ''^^^ 

porid. Para dcfertganar-me da qualidade da faz 

■'' efpecie , poÍs"'tÍ5ndò á vift<j 'Virias vítii ^ tiâs^ 
íçi diítíngffíT 2 fua natmcxa. - / . 



jfUi. DeííIâra-iM cff^ . cçigipa i. qu dízc^mc,. j^oht 
de habiia cfla fér^"? • ^.V: .. : 

'jPoTídí Em paiacjio/ 

Rei. Em paUçio qiie fera f:)óde haver cprnoeÍT 
fá quç dizes ?,/,/..'.. 

J)prf4-/Q^5!Cn f . Pro/çò. . , ^ . 

jírf. Protcóí powQ nap me tc- 

"^^ nhãs confufd. ç • *- ; 

I)orid. ProuRO ,, SeiTihpr ,^ ,jçq.)o gcnip indómito 

/ *em Q poiitiç^ o j^erfíjadi a íet mais atteii^ 
CO , nem á fazaò de'e())ofo'0 obriga a fcf 
mais amante. /, > ■ - ' 

£ei. EfoiCQ. j Ç^íp me prríuado. 

^ri4. Vês' por^ vçntura aqui a Protão , ao mt* 

"* pós para lifóngèar-me com as alliftehcias de 

,. efpQfpi^, ao^mefmc^ tempo que Nereo fegoio- 
dp a Cyrene j ado;a os fcus veftigios ? 

JSÉçL Não ifj>ãgisves em Proteo menos actençáp 

'' â tua peíToa.; ;^ cafuaijdade de feu defvío ncf- 
ta occafiáo não feja argumento de feu defa- 
mor, Ah fe fouberas a fuave índole de Pro-r 
teo , verias que não cabem em feu peito as 
ferocidades, C|ue lhe imaginas! 

^rid, Ah fe foubcras, qu^e ainda lhe não me- 
reci hiim íó agrado ! 

jHei. A não. íerem tão dignas* de fé as tuas pa- 
lavras , as duvidara por incríveis. PrvUeo , ou 
mudou a natureza , ou perdco u juízo ; po- 
rém , antes quç fe a.ccumulcm novos incen<- 
tivos ,4 queixa , na brevidade do Hyrrienèç^ 
remediarei a^.dçfoçdçns da mocidade, a parti 



/iiK<9e/c.íS^^ fesablmiii.fera vem 

. 1 j correndo ; aenfaif db anôM !^ i&í I^ik^ ella : álli v^m ! 

TACudãò«-me::?IOl]o8."<Vâ|: rnwi ';i; •, :. 

• Hií. Scsfiilhhíti jÍ9rçofo;itDòvidarv'Tmra.-t^ ^jqúe 

cedo (íaréí prmdencia à-iecu reniirnrqtoiTííii^yè. 

DòTíd. Segiie«iiiCb^ir/l3que)rT>s inftaoces':|B|ueí.aqai 

r.iQC.dilaco íent Proceo^^ sãoixonchiuact» ójfen- 

.'.fas do meu .decóíb/-" ?'> r-' ^ \Wài'fe. 

Mar^tf Tom^ío^t )í doifisib crm 'lègoas ! i 

jí^.f.tfUeriKJr-feíMarefw^- lbe^fab< aoneií^tro 

.Qirangíiejo itrsnsfpimaAkoem poná montczu 
Carang. Não fera Êrérfc -ít oí 'ff; • ^i\.' «! 
Maref. Aí de mim , que {xirê0» tío i^rcq! \^. 
CíW/íf. Queiri^amor ,cfttfl aafeçít^iih^ar .";.'; 
Maref. Ai , «pie oporei me-iRvefte! Vai-te da- 
qui , não me emporcalhas^ '^^^ Mi. 
Câráng. Não fujas , quer eu fbu o mais aífev 
do porcalháo qiic temo Mundo^ . .>í'.fc\>*\ 
Maref. Nem atemos tenho pérafíifuçiiuvSâiiÈlpc 
porco monrez,.por vida^dc'-£sbsí^bacoririht>SL» 
que nâo fujc o fcu dente corri 0'nieu fangue, 
Carang. Attende prinieirD ■ a efta ■ amante . porC^» 
ria , fenão fico entendendo <]a6 tk não piíla 
da garganta , efta álpiirca.'' . > 
Invefle ^ c cahe iMiréfu defmaiAdé^^ e tonta C4r 
rang;4ejo na Jà4 jorna.' ' • * > 
AéatefJ Aí de niira.l Qu^em rtie acode que.m»ttíij 
Cí^rang. Ocsí ea:a^. fiz como -os ineusTwriies ! 
Deímalou-fe iMarcfu fem dizer rfqui eílòu ! 
': X)' Marefia , ó.;Taparto ç;deftccitóúaL-5?Ç'4^AfiSr 
morrcie, olha que Sdx^JÇu* ÇLw^x«^^^v^^^ 



•^ At ^éukiáiet 

j,\M:.V^. »fÍP icfolves., qa^ cuiiHrfhao*eídofer 
-■..;9 J>6lcguiii^ ». qpc (ç leve ás aras de Venas. 
Martf. Que conç lu.que eu inoru? 
ijOtTáilig^ Porqpe quem le A.vira,'bem te quer. , 

"• ' ' Cânu ÇtratiguelQ à ff^uinu ^ 

.: ::ii ..Qu^ndD*yÍrés :0 ;dtlca:jClltélo \j 

Na tua garganta luzente vibrar ^ 
i.Ale^dir^y : hafta , bafta ^* eu me cafo ; •. 
Porém fem remédio , que encão grogotó. 
Bufca amame a dicofo conjugio > 
,.a.*: fir.di?e a Oiana que vi bugiar, 

E anteatte* aperte o nó do Hymenfeo, , 
Do- que nà garganta te aperte outro nó. 

,; ■ ' I^aifi. 

j-Máref. Oh dcfgraçada MareCa ! Para iflo vira 
' eu cá acompanhando a Dorida ? Não me fò- 
, ia melhor ler no mar alimento de hum tuba- 
rão , que fer em terra défpojo de .Carangue- 
jo ? Oh voto , quem nunca te fizera ! Mas que 
digo? Ainda que morra náo hei de cafar. Vai-fe. 
Sabe Çyrene. 
Çyren. Que loucura fera efta com que andão 
eftes criados , poi^ antes q^ierem a morte do 
que cafar? Porém para afadiga da caça , pa- 
rece que efte vírentç monte , a quem a Auro- 
. ' ra bordou de perpl^s , e Abril dé flores , me 
eftá perfuidindo com vegfitíiíites linguas , que 
ncUc defcance , em quanto nãp cheg^ a comitivg. 



Jlíâref. Sòfr"touir cfcrtipulofa feèflk ^ihttéH^l^di» 
• ze ^ Ga r^n^uejo por tua vídft » «chils' » qúe Que- 
brei o voto,- eftando etíi téas bríços? ■ v*- 

Càtartg. Nio eftou bem ccnoi dcita-te eõtra^è^ 
nus meus |)r^ços, para ^ ver. cqi7> mais circunf* 
pecçáo fe'*(fbèbrafte- o Vota' ' ' ' 

JlÍATeJ. Deígraçada .dq tpim ! Eu nos braços de 
hum homem ! C^ue me Êrá Diana fe o fouber ? 

Carang. E quètn lho ha nie diberi Eu ^r mim 
livre cftte.^ 

^aref. Antes • 9 javali me > emporcalhada qutf 
• v€r-me em-reu$ braços. ' fí^ : '^- '^ 

Carang. Para que tanio rigor? • ? 

MareJ. Por nio querer qaè Diant mé roace« 

Carang. Pois porque fugiam da = feri ? '] 

MareJ. Por n}ô perder a irida, . i 

Carang. Pois tolla , fc fugias por querer viver , 
porque- não foges da morte, qiie i!è eípèíiík> 
íacrifio de Vénus , pela rebeldia do teu dòfdcm í 

Màref. Porque affim como és de fegrcdo , para 
' não dizefes a Diana que eílíve em ceu« bra« 
ços , também o feras para não contares a Vc* 
nus que íou dcfdenhofa, 

Carang. A Diana poderei íer desleal , mas não 
a Venos, que íôu feu facerdotifo j e àffim, 
Mãfrefía , deixa-tc deffas loucuras ; trata dé buf» 
car marido , não queiras escpcrimentar o ri^io^^ 
rofo golpe do facrificio, 

Maref. Pois tu , que és o verdugo , n}o has de 
ter dó de me matar? 

Carang. Dó-refeij^mas ha de fec de^v& &v\xix 



ffio Ai Fiftíiátts 

ém ti- mê ari^btu y pôde defculptr o meo tr« 

TQJo , e comraAtf a caa iTcnção. 
'^ffeúi Loiico Príncipe j quê ihtenras com ceui 
' ' «xciiemos ? 
'Prote^. Amar-té/ 

Cyreny¥íLt3í qdtyfè fabes que nSo poflb cor- 
' \rcfporidcrte? . 

PorteOé Para querer-te náo neceffitò t]a tua cor* 
'•fefpòiidetftia ; que feria menos pura a chani- 

ma de m^u dmor', fe para arder neceíEtaflc 
' ée rciis favores. ' 
Çyrftt, Pois fe 'amas independente, pára que mé 

•btiftas amam^?' 
'Proteo. Para que nSo ignores o meu racríficio. 
Oyi^èHJ E^^cfiíc importa deixar de ó faber > 
Ptòíeãi Seria ufurpar-te a gloria defle triunfo , 

occultãndo-te o defpojo da vitoriar. 
Cyren. Viflo iffo , como cftàs fatisfeito , fica-c* 
" embora. 
Proteo. Efpera. 

Cyrtn. Que mais queres , fe fatisfeito cftás ? 
Froteo. Que te lembres do meu amor. 
Cyrífi. Pará que , fe háo hei de premiar-tc ? 
Proteo, Por náo fer precifo tornar-tc a íignifi- 

car o quanto te aderò. ' 
Cyren. Por evitar efta occafiáo , íó por iffo me 

■ lembrareP. r ' - 

Pròfeo. 'Adverte , que fe te diflíe que não ef- 
«fícrava favores^ nâb he jufto que experimen- 
-"<e$' deív^l^czos,* 

íy^/f;' 'Não, íeí '^ue tíítlo' hajt entre amar , • c 
- ^jaborrotíerv • : ■ ^ -• 



Pròteo. Huma inclinação , que nem he amor^ 

nem deixa de a fcr. , 
Cyrett. Mas poderá Ter amor. 
Proteo. Se o for, feríi banigoidade taa y* mar 

nâo que eu o efperc»!. 
Cyrcn. Oh, <^ue fc efta chaipQta ardefÍAemNc- 

reo, fem fuflo con^cg^trià a Coroa] 

.1 ■ . ' .^: ; * 

Cdnta Proteo o RecU4Íí>:.^e,:f€xfigfk^ e dè-^ 
pois Untâo os dMSi4\4T^a a d0o. 

,* ■'■'! í.i ■ . - ' í 

» ».C *iT -A í» O. . 'í- VA. 

Bcliflimo prodígio ^ «mado-.^^nciuuOy 
Se te eu diíTera o quanto ./•. 
Finamente te adoro <,. .|... .-.y . 
Julgaras fabuloia :a< cnlMâde ^ ; .. - ív .\.v: 
Com qne me abrazjEi jainance ■:< . .f; ..:. 

Maripofa de amor :ii<;0ef' ]^iiA.-oIlu>f^ i 
Que animadas eftr^Upf. /V 

Nortes luzidos sãOv^í^ hprn p^r^giino^ 
Qnc cm votivos ^xÁpvf^^^ , ' < 

OíFerece, lacrimoío efi): tfH^nali^rcs-. r( 
Dom líquidos inccndkM fiB|.«dw3 maroíi 



í^■^■~ . 



a.^\^ 



fst As P^drkàádei 



ARlA A DITO 

Moiro. Se acafo et éfqueceres ^ 

Das lagrimas que choro 
• ' - A fé ccfm qae te adoro 

Lcitibrar-tò fabèrá. 
Cyrtn. Káò cabe na memoria 
» Tea loco defváTÍò , 

• Pbis Jò tni piraátò o rio 

Do Avemo fó fera. 
Prouo. Ah , lembm-tt de* mim ^ 

Que cemo te adorei. 
Cyren. Efqiiéce-ir-de mirtS , ' 

Que tua não (tttu 
Prouo. Mal poderei efquccéMtiej 
Cyrtn. Mal poderei íembrar-rtc. 
Ambos* De tão vilemo' áfdof;. 
Proteo. Porcfúc ían^â impiédide, 

Cyrene infiel , porque i 
Qrfn,. pDrqbe^fikár^Hío *vd' 

De eípofa á fadrâ fé. -\ 
Jmbos. Oh falle ítl^nléif^ atento i 




A. R 4 A A -> ,tr 0^/' ■■•■' ■■■■ 

Hfmò^ St átatò t#J|ífiíué<?effes. ■' ^> '- ' 

Das lagrimas .qrfé chòrb /- "P 
--V' í:í. a íé' ccWif ejátf fc adoro y : * "^-^ 
» £<rtíi"bhir.ife ífafciApa'.' -- •• '"• f- ' ' 

Qiren» Nâó cabe ha memória 

•Vi^ 'i •Fa>\íotor>^fvAM'; 

.Pbíaidè VtSb: jJira#pê' ».o íirf 

Do A?emò fô feri. 
A-o^o. Ah , lembtii-iit \íe» miriii / 

Óuc temo tt adorei. 
Cyrew: Ef qitóíMtn«c«>í«iíf« ^ • = ' '^> ;5 <^ - ' • 

Sue tua não fôíèí;' •' i-"^ 

ai pódcrflfi efquccér*^rtie | • •/ 
Çyrett. Mal poderei : íeriibWtt*"rtc ,^ 
Jimbos. De ião viIeftto^áYdof>/ 
Prí?ífo. Porcpt' tarftíâ ihipitólde,' 

Cyrcne infiel , porqiie ^ ^ . • 
ÇvTfW. Pofqôé.fiWr^fiío »v6* * 

De eípofa à íadOi' ffc 
j^m^of • Oh' falte d' irtétf ^ aíenro y 



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, •.. .! . •-. .-•■'... (:-. ■"..-? '.••■I. •. •> .■•'■Al 

Meu TT À^ '<MÍe:^ PrinccM©'Jvjvseiil"ifftinitihfO 
I das da<} d^fetehçoc» de? Nerao'; e ■ Pi»- 
^ ttfo'5abbrevidr 4(iiupajas^ fora o ivnpeo 
remedia v^rt que' céiíe :^ toii.èftuhiriop Fo- 
Irbio-, tenhó-^deimninádo ^«iJho)B)iíe condoa 
o régio IÍymQtito"dtirimàk ^ílhbt 7^^rfarr«>4s^ 
tua diligencia^' i que if o - :excerjar' *at)ira!bo ois- 

iatí graçis^fbf írlío>gr£iadi>.rfi^cdè*.^ pètil Mm- 
^bem -me»' «ofhpttcih as 'gbblapldeâei'dia/'Ub 

i?ef. A ri j^^jjowjue^èn ;. ri r, oi!oD\,b f:£?lvib 

Fojib. J^òf^^iit^ aflionona ds>l^JcocòQdQ'jàHCyift. 
-rene^; }á'f^(io^e^ifldíci cdesfievT^i oimdibíiBr. 

i?f I: Coín' 'i(fb»^TeUit«MK> ««rdvibfdins: doprrFDtt- 
cipe» ; ' <}M*-^^4r «Hlii^âi^ s^iyqaBBf : ohe^ • caúítn )Be 
grandes' rairKls3'^ fcyjjí.;^*-. chncQ mJÍ .ino 

PoffK Acdt^éir -Ito d» nii^'^\vúdenc{a:r.rna. Unia-» 
-dftde conflftea^iiiir^cinraicMi. i^^fmtéi^ê vâi-fe. 

JDurfV/. Vo(Fa':M«íèfifiklr , rS^bcBci^c^ :^;ccw^ 



^^♦^ As ^driedadité 

mada , nue me trouxe infauftamentc a Ficgfa , 
^n^e- £e. .u^o%aiigiçen(e maior injufj^^-^HOiW, 
nlià P^ffoi ; pdís quem ariies^dc fcr eípou/mè 
defeírimi^ , que»poí7o efpei^ac depois , oigindo 
as faáalSládes^yi marido igriorarem joialmeiue 
os eííylós. do carinho * 
Sei. Dorida , a e({i d^cOnfiâtiça Iirevemente fatis- 
£urdi i c adverte 5 que l^roteo he meu filho , 
c não f^ltaâo.ls', Qlxcigáçóe^ de ícu /Auigue. 
Sabe Qreni. 
QrHilfr iSenhor; cotna no. PijiKJpe N[er9> nSa\ 
«ÉNDÍco honra» , .jiem eAado^ ^ c poj^. elles , e 
«j^offlles iné deti a.fertiina ^ c a natureza 5 ain- 
-dV qot^.Feiidacarjaiateu vafip Íniperi4> ; eco- 
.•snto nft doce. uojáo de -Hymehèo deve fó rc- 
^mi a vontadd ás lleía do, am0r 5 e não ás da ra* 
-Eão d.«jeíbdo;^. cem Nereo tudo são politica» 
•t)9>ir«ti :flnv)r)<lígp , Senhor-, ;<)ue.qqcro ic-me 
^í^mc BjrqcJaii^i jsor náo (offrcr o mcQ ^eniò»' 
-qu99 ba^a de '<& amar em mim , ou a pofteri* 
dade^ ou t afocúd^ncÍA, ficajadf^ -vacilante na 
divisão do culto a independetncia do. amor. • 
if^flÀRigOffoibs iDeofos 5 corado, aflim ides tro:^. 
.tarfídb em pdzaxes.^s minhas ,^m fut^adas ef- 
'pcránças ^ Printfllzas , oflas idercQrtfiança$ sSo 
rdemaíiados efempuios de. háima faocazia tndif- 
creta. Em Dorida a queixa heP^ais? betofun- 
•ifcidijmas èm-.ítliCyrcnc, hefcmfuhdam^n- ; 
•to*» eftimulpi; pois- nlo põffo comprehendcr 
cila metafyfica derdnior.Eiú' fim, penhoras, por- 
nqiac nio fufpeite d Mundo nèlles í-^^feíTos maioc ; 
çãuíã do que effr„;hoí\t fc c^^Ucará clTc 



■ii Proíeo. ■:, ^05 

'Hf mento, eentio vereis defvatiecklos osvof» 
fos temores» 

Dorida ^ iQ/rene com os lenços nos olbos. 

Dorjd, }à túo ha tempo de efperar eííe defen* 

^gano ; è V]uando não me permutas licença , 

nas corretftes de meu pranto navegarei para 

Egnido. 

Cfren. E eu voarei para Beocít nas azas dé 

.minhas penas. .^^ 

Mti* Haverá quem pofla refíftir a untos mar ty rios ! 

/!:.. Canta El Rei a fegmnte ^ 

A R I A. ^ ^ 

-Tf^vt ReFreSi O: pranto". Dorida I 
•f. : Cyrehe , não lamentes > 
V- Nàomais, não me atormentes 9 
<ji%4 • Que pôde íer que troques 

As mágoas em prazeré 
^r.'^ Deftèrra o medo pânico > Para Çyrettí 
-u . . Alenta no receio | Para Doríd. 

Alenta, pois que creio , 
^ Que contra o meu império 

O mal nio em poder. 

^ ..I. E que defgraça foi a noila , Dorida , ou 

para melhor dizer a minha ^ pois tenho buai 

rtípofo , que adora mais os meus progenitores , 

do que. a mim; porque tudo he encarecér-me 

^a minha aícendencia amando mais opaíTado, 

do que o* prefente ! . . 

Dorid. Pois eo , Cyrene , em nenhum tenipo « 

fou amada ; vè cu qual he jaúot infelicidade, i 

tm. IJ. V Ot 



Çyrni. Em Prmeo ferárerpeiio cfTeílcfTiofipiítf 

tne conda he extreniof» amante. . 
Dorid* Sabes mai« do qoe cu.' 

Sáb^m Carángtêêjo , e Marefia cádâbttm porfM 

farte j fim verem as Princezas , ' 4omo Jal^. 

lando fá comjigo. 

Mdref. Por maia que me miitem nio hei de CR&r. 
Cfrdtig. Não hei de caiar ainda que me matciii^ 
Dormi Ha loucura femelhante ! O peior ht qc» 

cfta criada .eftá com o mefn^o ijídixio í Ma« 

refia , que lens \ Dommonicóu-cèefte fimplez a 

tua loucura J 
Car/ing. Aqui- fé defcobre a patfanha; ":ã fgru 
Mare/n Minha Senhora , qoero embarcár-me fSk^ 

ra a minha terra ^ porque nefta , ou hei der 

morrer , ou hei de cafar; e eu nem qí>M:o 

cafar , nem morrer. 
Dorid. Ainda mais eíTa pena renho que fenrir ^ 
*vèndo-cc neíTe cftado í £ftà também a Iouccoih 

firmada I Que te parece , Cyrcne ? 
Cyren. Será força de aftro ,' que influa aefte 

hemisfério. 
Màref, Senhora , eu me quero embarcar por 

náo morrer. 
Dorid. Ha cafo igual ! 
Cãrang. Senhoras , digão-Ihe aue íim , que íc 

lhe contradizem, he capaz de fe matar. 
Msref. Ot forte- que eu fiz voto decaftidadoa 

Dfina> e aiGm. ... 
Csrânf. Sim , fim , o que tu quizeres. 
Jlíárejn Náo frie deixarás. Caranguejo ^ 



CâTáng. Mòi áoidinha eftás ! Vàí-re datiij náo 
. vçz que eftàs diante das peffoas Rcaes ? ' 

JUaref. Poli' cu àtjuí não hei de dar a oíTada , 
iílo ftáo, ^ Fdi Je. 

Cyren. Ea ti louco^ quem te ha de repr ehcndcr ? 

Cardng. Eu louco J He mui boa calía de lou* 
CO cfte 5 Louco feria eu , fe por amor de meu 
irmão me cafafle contra vontade : i(To não; ain- 
da que meu pai me lançaíTe a maldição com 
si miò direita. 

Jborid. Cállá-'re , ncfciq > qu6 te abot'ri?ço. 

Çyrén. Muito fe declara o fingido íimplez. âpdrt. 
Quem he teu amõ ?' 

Cãirang: Eu Tou huttia virgula delRei Ponto , 
* quando eftamos juntos fazemos pohto, e virgula* 

Dorid* Cyrene , diverte-re com o louco, queea 

, võu. fentir meus malesi ' ' 'Fai-Je. 

àyretlé Anda cá , fingido ; ctiidas que'iiáo pe-' 
iletrò as tuas íimuladas frazes ? 

Caifang. Iflò metaos he ó que eu queria. 

Cyreti. Quem tão atrevidamente te induftriou i 

Cdrang. Hum louco de amor. 

Çyreni Quem he eíle l0tíco ? 

Cdrang. He ca hania creaturã , que por mais 
que lhe diíTe , Senhor Proteo , veja que a Se- 
nhora Cyrene , queãífim fe falia em aufencia , 
íie cfpola de fcu irròão Nereo , e que ^Aâo po- 
de cafar com elia ; porque ainda que queirão 
os contrahcnces , hão de haver grandes impe- 
dimentos f mas elle , aíferrando os dentes , 
barco o pé na caía , e pondd a mão no peiro 
diíTe y ou Cyrene ha de fer minha , ou eu não 
hcj de fer cu, Y Vv 0|^ 



íjo8 Jsrétrhdâdes 

Cyrèn. Com queProtco concebeo tSo aneviJo 
pcnfamcnto ? 

Câ^dnjr. Mso Senhora , n&o foi P.rptco , foi cá 
huma creatura* 

Cyren. Adverte que a dÍo querer fazer ruUíca 
. cíTz temeridade , experimentarias o cafFigo de 
teu arrojo^ Vai-r^ daqui infoientc j aDtes que 
a cóleia domine a prudência. 

Câiang. Tudo ido lhe dííTe eu: parece que ade^ 
vinhavâ , pois lhe difle; olhe creatura que 
a Senhora Cyrene íe ha de cnFsdar ^ vai » 
cceacura , e diz-me : Í3om remrdio ^ quando 
vires que fe agafta^ àizt^ que eftas louco : 
co.n que , Senhora , não faça caio do qoe 
diz hum louco ; e aflim tomando ao meu luci* 
do íntervalio , digo » que não hei de cafar ^ 
ainda que me matcm^ f^ãi-Jem 

Cyren. Quem fe vio cm maior enleio ! Mas já* 
que a ambição de meu pai fabricou efte en- 
gano , porque não quizeftes , injuftos fados , 
que vieiTe dçílinada eípofâ deProreo, no' qual 
a cegueira de feu amor não diflinguiría qua- 

^ lidadcs |>ara amar , como em Nereo que. • • 
Sabe J^ereo* 

iVerfO. Ventorofo Ncrco, que euvio pronunciar 
o fcu nome neíTe vivo Oráculo de Vénus ! 

Cyren. Ai de mim ! Se me ouviria i Não ouvifle 
mais que o teu nome ? 

K^reo, £(ía foi a uirima claufula que re ouvi. 

Cyreif. Bem cftou. ã pãrt. Pois fe não ouvifte 
mais , ouve agora o que não ouvifte. 



de Proteo. ?op 

Sàbt^ Proieo ao baflidor. 

fhroteo. Bufcando yenho o prodígio q»e adoro ; 
^ nias fom Nerco ^á ; ai infetiz ! 

J^erto. Não dilates o vèqturofo diTcurfo de qqcnft 
foi aíTompto á minha ielicídade. 

Çyrcn. Dizia , pois , que fda pbffivel que não 
encontre cm Nereo hom vcrdadcifo amor , que 
dòsluftre o luzido da fua c^ámma com os fu- 
mos da politica ! Qcie ame em mim mais o 
fanguc do que as vêas ! Qae venere o pincel » 
f não eítíme a copia ! Oh qt^ indigno amor ! 
Ifto dizia 3 Nereo i e f e quetes deftruir elle 
conceito, muda o fyftcma do teu amor, 

ífereo. Effa dÍTÍsão que intentas fazer da for- 
mofura , e da qualidade , he impraticável n^ 
fnitiha idéa ; e fenão dize-me : teria decente , 
qqc p^ra efpofa minha efrolhcflc outro fujei- 
to menos que huma Prince^uii 

Cyr^^> Ai de mim! ã parte. 

Nereo. Refpondç. * . 

Cyren, AíEm hc. 

Nereo. Refpondc-nie mais: feria licito qué in- 
' flammado ena huma vulgar formofura , abatefr 
fe o cfplendor da Mageftade , antepondo o 
meu ardor ao meq decoro í Gomo fe confcr- 
y^ría ^ nobreza fe fó o anfor foíle^ o dirc-^^ 
ftor dos Hymenfos ? Enri finj , Cyrcne , oáo 
imagines que dçfeftimq a t^a.. formufura poc 
eftimar a tua grandezi j que quando as adoro 
unidas , n|o fei díAinguir a caufá de tritu amotv 

Proteo. Que ouça ifto , c qúé vWílV 'V ' * *' . 

Çyrfjf. O amor , SJetw i» í^i^n^ -^^ «x^vcfívíJk 'i 



)io Js^ Fâriedédes 

e níú indiff^ence ; que quanto maior he t dm- 
íz j donde fe origina , tanto mais efficaz he 
o (eu efieico: a qualidade pôde infundir ]yiene- 
rações, maf não amor ^ tformofura He^aqucl- 
le vinculo mais force, oiie prende a vontade jj 
e como fó a chamma do amor ha de ardeç 
na facra têa de Hymenèo, falcando-ce a oc- 
cafiáo defle amor , não fcrá luzido o céu 
Hymenèo. 

PrQteo. Notável capricho de Cyrene! 

NirtQ. £n(ina-me a fazer eíía differenç^ , para 

; faber no aue erra o, meu amor. 

Çyreti. Haa de imaginar*me , não Princeza , po- 
tém hnma particular formofura , a quem (ó op- 
ino amante tributes adorações. 

J^^reo. E paia que he eíTa difFêrença ? 

Cyren* Porque fe algum dia perturbarem os fa- 

' dos eAa 'proQ)eridade , que gozamos j arrui- 
nado o throno , quebrado o fcèptro , c mur- 
cho o laurel , náo me dcfcftimes, porque ]á 
não fou Princeza. 

iWeo. Quando lal acemeça , contentar-me-hci 
com que tenhas íiJo Princeza ; e porque te 
não canfes còm mais explicações de amp^r , 
cfte he,o uhimo defengaiio que te dou. 

Cdnta Nereo a Ária que fe fegiie , eofe^mnie 

RECITADO. 

Deixa , Cyrene , deixa eíTc exquifito \. 

Novo modo de amar, que em meus ardores 
Náo djílÍ9g9_ouUQ modo de querer-te 



de PorUQ.\ çil 

Nefte extremo de amarrote » 
Mais <]ue hum puro adorar-ce » 
Com láo c^ga violência , . . 
Que confunA^jeiíi meu pcko o requiHto , 
Qoc em e^igm^s propõv s a meus fencidos ^ \ 
Pois que effa fomiofuiia me perfuade 
Que belleza não faa fem Magçfiàde. 

A H 1 A, . 

Se em Maio ofteata a rofa 

Os timbres de formofa , i 

Nào deve á formofufa ^ 

As glorias de Princcza , 

Quê a Purpura ^ qpe vefte , 

CHe deu a inveftidura 

Pe bella Imperatriz. 

Poía ró fe na beUeza 
Amor fe vinculara , 

Que cedo lhe a^eabár^, ■,.::"■' 

Do tempo : nos eftragoa 
A pompa dos Abris, f^éiife. 

Sabe Proteo. 
pfoti09 Acafo^ belliilima Cyrene, vive ainda 
na cua-memoría aquellç eãícaz extremo d(^ 
«MU amor> 
Q/ren. Não me lembres tanto , que ás vezes o 
muito lembrar faz efquecer. j 

JProteo. Pois nem queres qqe te lembre a tnU^ 

nha conftancia í \ 

ifj/ren. Para qnOt fe me nSoefquece } Que mais 
-. queres? ,.: r 

PWÇÇf N*l4 miei «4 WC. ^W^% Sifftt Vr^ 



t»t JsTmeáadef 

Çyrcn. Ouves i Não lorfiei maíf a lembrar-me 

Faz é/fte fe viã. 

ProtiO. Adverte que te não hás de- efquecce. 

Qren, De que ? 

Proteo, Qtie derejára , fe poflivel foflfe , não fè» 
rei quem és. > . *? 

Cyr€n. Para qne ? . ' . 

ProttO, Para amarce independente da tua grande- 
za i pois baftava' pára' fjizer-me feliz , poíTuír 
a tua belle^a' em qualquer eftado da for- 
tuna. ■ ' ; . ' . I 

Çyren, Que ouço? Apurarei a fua fineza. âp4ru 
Não vès , que nSo eftaría bem aò teu cara- 
cler menos e(pofa , que huma Prínccza } 

Proteo. Em hum Príncipe fem amor aflim he ; 
mas quando fe fente abrazar b coração na 
fotmofiua , rornprmfe as leis da politica » e 
fc promiil^áò as de Cupido. 

Ç^Tcn. Pois a não fer eu quem fou j me adptá- 
ras com o rrteímo cxtrertio ? ' 

Prõito, Eu nfio adoro cm ti mais que a bcN 
Jczn , de cniopetegrinò império ambiciofo de- 
ra pslo confeguTr, quanto poffúo : ainda >fte 
^ pouco , desa à libctdâdf : nada encareço , dera 
• mcfma vida , fc uido \i tivera confngirado 
em os tyrannos tirares de" tco -rigor. 
C^ren. Como íabes fcr im}M>flivel deixar da fer 

'-* quem fou , por íffo affeclas cflía fineza. -'^» 
Prouo. O' Cyrene, pelos Deòieií do império 
do mar « edo abyfmo te faros que asexprW* 
soes, que me ouves, náo são hntiftlcas , fe- 

nio veidadetros eifirítos de meu amoi. 



'''•lie Pràtié^^ ??f4 

^eri» Btftâ , Príncipe , que iflb hc mais que 
-•'lembfíNme o wu querer. • i V.vl 

Proteo. He' lembrar-te com as ci^cofiftatiicías 
^:■ cóúi que ce adoro. '-^^ 

Cyren. Mas jà fíi>es que fenia eíperanÇa do premio, 
'^hfçteò, Baftà-tnc*. náó viver ignorado na tua j4çà , 
• por não haver premio , que corr^pònda a meu 

aa[)or,vtietik ^çrecimeiup» que còntafte a lisa. 

iíenção. " ,• ;. 

S O NETO. 
N£o intento favores mereccr-te. 'i 

Cyrené , quando chego a idoli|trar*te , 
Que excedendo os llmkesíó de amár-te t 
Nunca os principios toco de querer*te. 
'"-^Gofn raiã0 poderias oíiêtuier*te , 
Se ambiciofo cnegára a defejar-te 9 : 
Que pata fer mais fino no adoràr«te , 
Sftn> premio o fá^rificto hçi de incender«r^. 
' Amar, niohe- querer, qqe imj)ura ardera 
•A' ehàinma de Cúpido , fe efperara 
FrmoS , adonde ludo be Piimavéra ; 
' E ít àcafd-, ó Cyrene , imaginara. 
Que na tua belleza premio houvera , 
Pelo premio a bèlieza defprêzáca. Jf^éi^ft, 

Çyren. Se direi a Proteo quem <fou , para iefla- 
- belecer 'melhor a minha fortuna ? Más cóm4, 
f ' fé Dorida , e Nereo embaráção a minha proC* 
peridade ? Em Nereo vacilla a Coroa ; em Pro- 
teo tenho eonftante Sceptro : oh defgr^içad^ 
-•• Cyrene! A tua felicidade refaz mais infdíz. 



%í4 'M Fétriedáda 

' ''•' Sabe Polibio. í 

fyi^. Chegou o vencurofo dia , em que fe hSo 

: fàltr coroar as noflas eípertoois com o diade* 
nt da pode ; pois ordeiK>u ElRei que hoje fe 
comduão 08 Uymetièos dos jPríDcipes. 

Qnn. Mas, Senhor., nio ce IcmbrSo as pali^ 
vras de Ncrco ? ■ • 

Pom. Nem tudo o que fe diz, k odcoiUp , 

fyreii, E fe o executar i 

¥/Aik. E que remédio , fenão obedecer aos (t- 
^os > Que fe todos os Tuccefl)^ fe premed«cáft 
fem , nenhutpa acçio extraordinária fe ituen* 
tária. Vamos , que na brevidade coníifle mui'? 
ta parre da npfla fonvna. , 

Çyren. ^fpera , Senhor , qoe pode fer qoe ffm 
fijíb a couiigamos. 

Poiíb. Dizc. 

Çyren. Proteo me adora tãoexceflivamenre, que 
chegou a publicar entre irarias exprefsões do 
feu amor , que ainda a não fer cu Princeza , 
como fuppóe , me faria efpofa fua , e revar 
lidou com cães juramentos , que me fez pre? 
fiiadir a fua realidades. 

Polib. Saberá acafo que tu és minha filha } 

\fyren. Não , Senhor ; e parecia-me , qi|e fç pii- 
• dcíle eu fer de Proteo , e. . . 

fpHb. Cala-te nio pronuncies tal , que para iflb 
ailim fer dependia do confenti mento delRei , 
da vontade de Nereo , c do beneplácito de 
Porida ; quanto mais , que pretexto decoro* 
fo para iíTo poderia haver ? Sigamos o pre- 
pncditado dcfígnío , qiic os Deofes nos ferio ;pro- 



ãePr0U$.\ ^^1:5 

Çyfeti. Jâ nem eíperanças içnho de fijfifcKz , 
pois vejo fruftrados todos os meio^ (^ fo^ 
di^o fazcr-me ditofa. .^ ^. : 

Canta Cyrehe i Jegnintç ^ * - 

A R I A. 

Mifera ]i não poflb , 
Fugir á ciucldade , r 

$e hum pai me perfqad^ 
Qws figa o vil dçftjno 
. . p« llum bárbaro furor, . 

Rarecc-mc que vejp 
Nos braços de Ncrco 
A morte por trofêo 
/ po ícu cruel anpior. J^dhjk 

S C E N A II. 

Gabinete adornado de cadeiras , e biêm Relógio , 
e [abe Mareia. 

Aíaref. C>E Dorida me n^o m^nda para a mU 
*v3 nha terra , foq capaz de me enfor- 
car pelas minhas mios; pois ames quero firt 
çtí carrafc;^ de mim mefma , que dar eíTe go(^ 
to a Carahgueijo. Mas aí de mim-j que me 

- nSo poffb ter cm pé, que de continuo çon- 
fiderar na niateria^ caio -com vírtige^ ! A\ ^ 
ai , que tenho o miolo Cofo !• Se me náo {ex\r 
to, caio de liar izes. , Que feria de. miip-, fe 
não fora o balfamo apopletícò^ qae me.cçyç^ 
robora o celebro? .. 

^Ífenu-Je em buma cadeira ^ que fubitamenfi 



7)1^ Ai Fifieâãdes 

t fe transforma tm Caranguejo^ em qaem fi^ 
€arÁ affmada Marcfia , cuidando qat eftã 
na cadeira. 

Carang. ]á que Marefia eftá de aíTcnco , verei 
íe poíTo furrepricíimente aproveiur-me de feus 
cularraes favores , já qae tio acrazado eftou 
no feu amor. 

Marcf. Se não fora efte voto de caftidade , que 
me dera a mim de cafar^ 

Çarang. Agoro que amor navega vencò em pop- 
pa, verei quanto péza efte índiatrcó planeta. 

Maref. Se eu tivera a certeira , que Diana It 
nio havia enfadar ^ )à me caiara rebolindo : 
mas eu peccádora , comp o hei dê faber > 
3çit| podia Diana , vendo a ban&nda eni 
que me acho , nio digo cara a cara , mas di- 
zer-me ao ouvido o que nelle cafo devo obrar. 

Çarang. Gafar. 

Jlíaref. Que ouço I Clitofa orelha , que tal ou- 
viftc ! Logo pofTo fem offendcr-tc caiar í 

Çarang. Ate rebentar. 

M^ref. Bem : vifto ifÍQ p voto não vai de tuda í 

Çârang. Nada. 

Marcf. E a promeffa vai de pouco* 

Çârang. Como hum coco. 

JidãreJ. Não renho mais que ouvir : you«mc 
deprcfTâ a dar ordem a nfamorar-me para ca- 
far anfs que Diana fe arrependa. 
QHer levantar fe , e 4 detém Carangvfejo. 

pfftw^» Sn^penda. 

Mtret. Quem me agarra i 

piràn^. A minha cartai • ^. 



ie Poruò.p ^17 

JUétrtf. U^$ tu Caranguejo > Ha maior ififolen- 

cia ! Eu adcntada cm ti ! Gomo foi iftp?:. 
Cârang. Eu o não direi: o que fei h^ oucef- 

undo aíTencido em hum tamborete , . vicfftc ui , 

e te féntafte nas minhas cadeiras^ 
MdreJ. Tal eftava com as virtigens i .qu<i não 

reparei aonde me aíTencava : e tu porque te 

não deíviafte? 
Cârang. Eftava dormindo , e não te fenti. 
MéO^ef. Por iíío eu dizia comigo : valha^me Deos^ 

que duro he efta aílento ! 
Cãrang. t^or iíTo eu cambem dizia : válha-me amor^ 

que moUe he efta aflentada ! E logo aflenteí 

comigo fazer diíío hum aílento no cat^henho 

jde minha memoria. 
Jííaref. Ouvirias também o que eu ouvi ? 
Carang. Qút ouviftc tu? 
AÍArej. Nao 9 dize tu primeiro^ 
Carang. Não quero , dize tu. 
Man]. Eu não hei dizer fem cu dizeres. . 
Cdrang. Com que eftamos aqui dize to díjrei 

eu > O que eu ouvi foi huma voz , ou hum 

éco fuíTurrante que dizia azar , azar< 
Híaref. Cafar he que dizia. 
Carang. Cafar diria , ainda que eu não ouvi maif 

do que azar; porem cafar, e azar todo; beo 

mefmo. . . ' 

Maref. ]á'fei que não foi fancafia , nela me 

enganei no que ouvi. 
Carang. Pois que era? 
Maref. Não era nada : que te impona ? 
Carang. A mim dous caracóis s minça tivp e^ 



tW jit Fârieããies 

fi(o de ínqtferedor ;"ò'qtue rae itnportft fabtr^ 
ht', fc ain(k eftás com eftoma^o de feríacrt- 
BCààz que o cempo fe raí acabando ^e Ve*, 
nuá já me prep;unroaí : efta moça caía , ocr ião 
cafa.^ E eu fiz que a não oq via , poir ouvir* 
^ te ò ckimo defetigano : pois que di>.es i 

JHártfi Sétihor Carángtrejo ^ eu ja eítoor refolt^ 
ra a cafar^ i 

CatÂfifl* Eu fempfe diffe que tú morrias j?or cafar^ 

AÍAref. Quero cáfar ; que hei de hzti > 

Cârang. Que dizes minha Marefia ? Da ca hxm 
abrsrço em alv içaras de(Ta boa nofaé 

Mâtef. Abraço ? Humá balia. 

Cdràng. Que defabailado rigor ! 

Maref. Quero que Vénus • me devi cflSa fineza. 

Carang. Elfa te agradecerá ; porém agora he ne- 
ceílario efcolher marido logo , • já. 

MdreJ. Ahi com canta preíía ! Hei de efcolher 
muito de meu vagar. 

Cararig. Qual vagar ) Vcnus hc mui executiva , 
qiíe fe todas di(Te(Tem , ainda nâo efcoihi ma- 
tido , com eíTe pretexto punca cafariáo : não, 
Senhora , efcolher logo , ou para melhor di- 
zer , não efcolher , fenáo fechar os olhos y e 
cafar, feja com quem for. 

Mdrèf: líTo agora he mais apertado. 

Cdrdng. Nâo tem remédio. 

^ifre/.'Com quem hei de cafar fe nao conhe- 
ço ninguém ? 

Carang. Lança os olhos por efla cafa ; vè , vé 
fe achas aqui com quem te empregue^?., 

Mdref. A^uí fora ellc não eftá ninguém. 



Cãréing. Pois cafa com cfle^eUe. 
Màtef. Que? Comtigo ! . - 

CarAng. ComrigQ. não , comigo^ ,. 

yHãteJ. Pois hei dé cafar comigo. 
CéO^dttg.t Hio^ com eu. 
M^^f* Ora iílo hé o que me. faltava; rate ) 

morrer, qoe'»caÊir comtigo. - . . :.^ 

Carang.. Pois cu 'foo mais feio que a moRc-? 
Aidref. Sim , que pódcs fcr morte da morte* - 
Carâng. Nào me tportifiques , com ciíe clogjío' . 

fúnebre;, -'/--■ . - V 
MâreJ. Era o c^ue tne faltava, r /. 
Cãiâng. Talvez que' te falte quan& me bufeares* 
Márei. Se forip^ra ido nunca. to! appareças^ 

CaniA Mdrefia a^tgmnti 

• A R, l' A.; *.' 

Não yjmo meu;noÍYOi/. 

Como h^ gaiantinbó ? ;; t.;.. 

Com effe fqcipho, íi-j '.>: 

Queria muthen? ' < h; - '' 

Que tolo, qoie (implei^qucrflecio hc vofsèi 

Bemúeí não merciço: v 
Tão lindos amorfcs^i,. ?- 
Porém taes fávorer .; . / : 
Os lanço de mim, co^ ponu do pé. 

Cdrsng. Ora , Senhores, digiooqué quizerimn; 
a tal Marefít -Te nâo fedtrá ^ era huma galt|u« V 
AC mocet0Q«:;r pprqme ainds^ jqua m não qu«^ 
diflc-mc quanto: quiz* V 



Çfrifi. tfouco qu5 fazei íhijfar.O í ^h.;..- .^HnVfi 
OÊTángi EOava ^einfar eOe séog^í.tfíLt h^t^poò 
ma galante ptflaive me dÍi(Iérié^i^ciQ^:'dbv^{i^> 
ná por minuetes 9 que paiiKe^gon^»^.^^fie.|fíiní(>- 
QfittV' Oomefta^ cem «a nitf loiíadtasiii^ J «t^Vk 
Õirang. Não,, Senhora^ «gói^tiio^tenboikinlH 
^gíoMeroDQomadòj maiefpdre^queeUccMf.^iO 



-<Màal3 



*lt>'. - ; 



. Tdda-i fiimb afanu -^ 

$e.«b^,aii^Qref^ í.ív: 
E a caáa inftamt 
Morrendo eftà. ' 

Maia que os mimnoa 
Sio meus ardores , 
Nos teus rigores í ^ : 
Conta nio ha. -' - /' 
• 'filas ai tyránna ^ . 
Se a^^fuém te ad^a 
l^oíle cfta hora 
Hora de amar ) 






vjrrríf. iito he nuis que artificio Imiiiáno ! Coii- 

f^éftour-- ■•• ■ -■•' r ■■ " '.". .■; 

f. Eflou vendo ^e ha de vir tempo cm 
os reiagfos^c^mSO) e cafem^ c^tcnh&o-Afaos. 
Quem me dera que toimaífe a /repetir cf- 
u /uaviâima coatouitidi» 



ie Proteo. ^zt 

Xiárâng. O relógio he de repetição ; fc o quer 

tomar a ouvir ^ toqae-lhe naquelie ferrínnoj; 

e vccá. 
Oreif. Tu parece que fabes o fegredo dcfte relógio^ 
Carkng. Sim , Senhora , o fegredo defte relógio 

fó eu , e elle o fabemos. 
Qreif. Pois faze com que repita. 
árang» Para que? Toque VoíTa Alteza mefoiOf 

com o feu altiíEmo dedo ; que tem mais ga« 

lançaria a mão de huipa Senhora no moíua» 

dor de hum relógio. 
Q/ren. Pois eu toco. Mas ai de mim ! Proteo i 

como affim. . • • 

Toca Qirene no retogio 9 ^ efie fe transforma 
em Proteo. 

Proteo. Não te admires, Cyrene, que bufquc 
o meu amor artifícios , para communicar-te » 
que donde não vence a força dos carinhos 9 
venção as fubtilezas da induftria. Tu fabes o 
quanto te adoro ; não ignoras o extremo- coni 
que te idolatro ; e quantos mais impoíTiveís 
encontro para poíTuir-te , mais incentivos me 
arraftão para qnerer-te. 

Çyren. Príncipe j o teu amor , ou o teu deliria 
não pôde ter reconipenfa : não fabes que ef- 
tou deftihada efpofa de teu irmão , e que eCf 
tas eleito conforte de Dorida ? Como poders^ 
hnm^ paixão cega vencer tantos impofli\:i;^^ 
e difficuldades? 

Prouo. Logo fe as não houvera. , confeguirift t^ 
tua belleza? 
Tom. IL, X €$• 



%U ^s Faríediies 

Çjfnn» Para que» fe ta amas independente Ja 

premio ? "' ^ 

Csrang. Se dá corda ao relógio , não parará hnm 

inftance. a pme. 

PfOte$. Ainda que ame femerperança , niõd^f*' 

mereço o premio. 
Çyren. Iflí^) mefmo he efperar o premio do me- 
recimento. 
Pfoteo. Nâo , que bem poíTo merecer fem crperar. 
Càrang. Se efpero que iilo fe acabe , tenho bem 

qúc efperar. â parte , e f^ãi-fe. 

Troteo. So liuma fupplíca le faço. 
Qren. E hc > 
Protto. Que nío bufques os braços de teu ef- 

pofo 9 que iião ferão tão firmes , como os meus. 
Sabe Polibio ao baflidor, 
Polib. Que vejo ! Cyrcne , c Procco ! Obferva- 

rei o que dizem. 
Cjren. Nâo fci fc me declare com Proteo , que 

aquella fineza não l)e para dcrprcz.ir. âpart. 
Proteo. Que te fufpcudeo , Cyrcne ? Imaginas 

nos obftaculos , que propozcftc ? Pois fabc 

que tenho no mar poder , e no peito fogo pa« 

ra confumir a mais forte oppofição. 
Cfren. Ai Proteo , quem pudera experimentar a 

tua conftancia ! Mas cèmo dcclarar-te. . . . 
Polib. Ai de mim , que Cyrene fe declara ! 
Proteo. Não recees que defcftimc aoccafiãodc 

pofTuir cila ventura , que me negas tyranna, 
Cyren. Píoimcics , Proteo ? Ai de mim I Nác 

fci o que digo ! Se acafo foubcres. . . . Qu( 

enleio me embaraça ? 



ie Porteoí ^t^' 

Polib. Eftou perdido ,í fe lhe declara õ fegfeda V 
Proteo. Que reccas í Não fabes o meu amor? 
Cyren. Pois Proieo , já que o teu extremo mc\ 
fegura o receio ^ faberàs. que cu. • • • 

Sabe Polibio. 

Polib. Eu lho eftorvarei. i/>4rr. Senhora , Élr: 
Rei ordena que venhas jà , para que £eef«^ 



fcicue hoj« o Hymcnêo. 
Cyren. Ai de mim ! 



Proteo. Hoje mefmo? 

Polib. He vontade delReí. ^. 

Proteo. Não p6dc haver dilação > 

Polib. Nenhuma: vem. Senhora, 

Proteo. Efpera , Polibio , que celeridade, he eíTa ? 

Polib. He obedecer aos impérios do Soberano.; 

Proteo. Obedece , mas nio excedas -, que iflb* 
mais parece violência, que obediência. 

Polib. Mais vai p exceflb em hum vaílallp , quç 
a defobediencia em , hum íilhò. 

Proteo. Tu me reprehéndes^ bárbaro-, foraftci- 
ro ? Não rc lembra que viefte de Beócia a 
mendigar favores em Flegra ? Sc náo fora.. . 

Cyrerí. Senhor , Polibio nos (eus annos cem a 
dcfculpa de fcu exceíTo. 

Polib. Senhor , como ElRei manda que não 
vá fem a Princeza , todo o exceflo hc louvá- 
vel. Senhora, nãO te dilates. 

Cyren. Príncipe , he força obedecer. 

Proteo. Pois vás com effcitò ao Hymenèo ? .;■ ^ 

Polib. Infallivelmenie. 

Proteo. Náo te perfumo atr-, comC^^^a^,^^^- 



)24 As Vmeiâies 

PoHb. Pois cu por ellt refponcio , que deixar ir 

feri impoflivel. • 
Práteo.. E eu rambem por dia refpondo 9 qae^ 

ir nSo pôde. 
Políb.^ Eu fetn ella não hei de ir. 
Protiò» E eu matido que vás (em elia. 
Polib. Cyrene nSo he Dorida. ^ 
Pratep. E eu fou Proteo , que huma vez em- ' 

penhado em impedir-te que leves a Cyrene , 

o não has de confeguir. 
Qiren. Príncipe, que te perdes ! Polibio, que fazes ? 
Polib* Obedecer a ElReí. 
Çyren. Príncipe , adeos: vou fem alma ! ápart. 
ProUQ. Efpera. AI de mim ^ que a vida , e o co- 
ração me levas ! Á pãrt' 
Polw. Venha voíTa Alteza , que a(fim importa- 
Proteo. Pois bárbaro inftru mento de minha mor^ 

te roubarei a tua vida , em recompenfa da que 

me levas. 
Puxa Proteo bum punhal contra Polilfio , e/e* 

re a Cyrene ^ que le mete de premeio j e cá' 
be aefmaiada. 
Polib, Que ínrcntas 
Cyren. Sufpende , Senhor : mas ai que me fcrif- 

te , e o Tangue. ... ai de mim ! 
Proteo. Que vejo I Cyrene ( ai infeliz ! ) cnfan- 

guentada ! Ah cruel , que tu fofte a caufa. • • 
Polib. A tuá imptudenc ia. • . Ha tormento igual ! 

Senhora ? Cyrene ? 
Proteo. O fanguc he copiofo. Mas eu vivo , e 

Cyrene deímaiada ! Eu me tirarei a vida p9- 

ja cafiígo de meu innocence delícflo : morre , 

infeliz Proteo. Aq 



\ 



de Proteoh ;Í5 

Ao querer ferir-fe Proteo , Polibh o ditem , fí- 

rando'lhe o punhal , efied com efle na mio. ' 
Pqlib. Senhor, que fazes?. Não fejas homicida 

de li mefmo. 
Proteo. De què me ferve a vida , vendo fem 

vida a Cyrene ? 
PoVtb. Larga o punhal ; não ^re mates, ' 

Proteo. Não he necelTario mais inftmmcnto pa^ 

ra a minha: morte quã a minha pena. Vãi-fem 

Sabem El Rei , Nereo , Dorida , e Aíarefia. 
Rei. Que exceffo he ' cfte ? 
Nerèc. Ai de mhn ! Cyretis enfanguentada ! 
Dorid. Sem alentos Cyrenô ! 
JRei. Quefoi jfta, Políbio^ ^ . 

Polib. Quem ^evio ism maior afflicção! aparta 
Rei. Emmudeíces? Não refpondes? 
Nereo. Queres mais refpofta que aquelle punhal i 

c aquejlc fãngue ? . 

Rei. tRcrírem aPrinceza , c cuidefe cxa£hiín6r* 

te na fua Jauí^e. 
Maref. VaAfhos; coitadinha ! Ainda aflim oTaQ« 

gue real he Vermeliho coíbo os ouf ros fangues. 

- ^^ LevM aQiren^m 

Rei. Dizc , infame ti^érarío , que efpiríto ík* 

crilego animou eíTe braço para cantd inítilto ? 
Nereo. Não perguntes ; cafti^ fem dilação. 
Polib. Senhor , què direi? %fte braço não fo 

armou oontra Cyrene ,* porque. ... 
Rei. Pois quem , feeííc punhal te contradiz ? 
Nereo. AtfáeDt ferida te condemna. 
Dorid. E aqueUe fangue te accufa. 
Polik. E c&ã vida me falte . í^ tu« ; % » ^ 



.^l6 Àt^ Fârtfdadet 

Nerto. Em vão negas , quando vemos em ti p 
punhal , c em Cyrene o golpe. . 

Polib. OhDeofes! Quem fe vio em maior conf- 
lernaçáo ? Pois fe críminíno a Procco , ha de 
provalecer a iua deteza^ e aniinha innocen- 
çía perecerá. â pari. 

Rei. Nenhuma defculpa dás i 
' :Polib* Cyrene o dirá. 

JRei. Pòis em quanto o não diz , levem-no á 
torre de Palácio, aonde fe apure o feu deli- 
do , e da íua culpa o caftigo fique ao arbi- 
trio de Nereo , como parte mais oilTendida. 

Polib, Nào pôde haver çaíVgo aonde não ha culpa. 

CdHta Polibio o Jeguinti Recitado , defoi$ do 

qíêal cantão El Rei y Dorida^ Nereo ^ eo 

mefmo Polibio a Ária a quatro. 

RECITADO. 

.Não me alTuflia, 6 Monarca eíle caftigo. 

Que me intimas irado, 
. Que o fangue de Cyrene idolatrado 
^Derramar não procura y quem o eftima , 

Qual outro pai ; porém fe a forte ímpia 
.Pxetendc aflim que eu inorra , 

Morrerei faiisfeíto : mas adverte , 

Se acaío a minha vida 

A fua duplicara hoje no throno. 

Eu feria homicida de mim mefmo » 

E já na morte exangue 

Lhe fervi rá de purpura o meu fangue- 



K^VK 



de ProtiOé . JI7 

^ • A R t Al A 4. 

Polib. Secn culpa ao . f^pplici^ - « 

Me leva hum rigor. 
ieu Infame, traidor. 

Sem culpa não he. 
Ncreo* Não he ; porque a culpa 

Bem clara fe vô. 

Polib^ Teu rogo propicio PáU Doriãi 

Senhora inièrceda 

Por efte infeliz. 

Dorid. Não podo, qúè a culpa 

. ^^ Defcuipa oão icm. 
PolOr*^ Não ha quem. acuda 

. '-; Por (íôc infeliz ? 
D^f RíJ.Ner. Não ha ^ pprqqe a culpa* 

' Bem cj^ra^^ fe vè. , . 

Volib. Quc,^^ mbçro mnoçcrjtc 

• . . Vó$.Pçpfã3 Xabeis. ' 

i)or.iíeí\JV<rf. Dáç jy0a,,vingatiça .'. 

^ , O ei^^oD^o lereis* 

Polih. t)a injuíta vingança : 

Aos Çff^ damareí. 
Dor. jRd. iWr. Os Uçoíea fulminecn; . ^ 
: Hum gi^ye caftigct ^, 
Que A hpm bárbaro dÂ. 



'^AlU 



Íi9 jisVaríeiáies . 

PARTE III. 

. S C E N A I. 

^^firdim^ em que tjlarâ fobrebuma pilaftrd bmit 
' vdfo de amor perfeito , e em outra mais inje^ 

rior outro de cravos amarellos , e Jabe Elf 

Rei Ponto. 



Rei. y*^ Ucm me aconfélhará em tantos com- 

\9 ^^^^ ^^ duvidas , quantos aflaltSo 
\^ a efte afflifto coração ? Deixo as im* 
. prudéncias dos Príncipes na defattenção das Prin- 
cezas , como mal que pôde ter remédio ; mas 
d ferida de Cyrcne não cem cura na minha 
magoa. Que furor fulminado do cavcraofo 
Abyfmo impellio o peito de Polibio para tan- 
to excedo ^ ' Não cabe na imaginação o fea 
atrevimento. 

Sdbe Cyréne. 
Cyren. Senhor , a teus pés. . . . 
Reu Que. cxceíTo he efte , Cyrene ? como te 

vejo ncfte lugar ainda mal convaiccida ? 
Cyren. A ferida não foi ião grave como fe ima- 
ginou , pois a penas penetrou a região da cu* 
eis i porém ainda que fora mortal y nem por 
itTo deixaria de vir a teus pés. 
-Sif/V Que caufa pòàegbt\^^i:\^ acanto excedo í 



ie Protèo: ^igi 

t^rén. A liberdade de Políbiô , por quem Se- 
nhor intercedo ; e fç o meu valimento pode 
merecer- te alguma attençãó , efpero da tua beni- 
gnidade fatJsfàças ao empenho do meu defe]o. 

Het, Quando eu cuidava ^ue vinhas a fomen- 
tar o feu caftigo , vens á interceder pela fua 
liberdade? 

Cyren. Por ido mefmo 5 porque a vingança nSo 
cabe em peitos generolos* 

XeL £ que diria o Mundo , vendo imputiido 
hum rao grave dellfto? 

Çyren. Melhor he que o Mundo ignore que 
houve atrevimento cm hum vaflallo para .cri« 
me' tio execrando -, ciueha cafòs àsvc?eii èm 
que he melhor diflimular a culpa , que caftí- 
Çar o dílifto. 

Rei. E nâo podes penetrar o deíignío defla te- 
meridade de PoUdÍo, ou que intereflé bufca* 
va na tua morte ? . * 

Cyren. Não fci mais 'que pédjr-te a fua liberdade; 

£ci. A ^ereo , como parte mais offeitididá , eu* 
creguei a culpa de Polibio ; delle depende a 
fcntcnça ; a cUe podes recorrer. P^M-fe. 

Çyren. .Ai de mim í Que fendo Pròteo o que 
me feriffe, feja Polibio o culpado? Más Po- 
libio , que íe defculpou com Protéo , moftran- 
do a fua innocenVHa , fém duvida que o quer 
confervar para o fim de fcus intentos.^ Ai ama- 
do pai , quantos extremos tedèyò iVok pé- 
la minha fortuna offerece^ a tua. vida! Mas 
para que nefte pceancrdè cònftfsoes fáibk o 
norte que dcvoftgUiri Hiéf tnvVaxtí Viim«v^ 



I^Q jíslfariedd4es 

, fo occuiro nas flores de hum ratnjíhere » pari 
que com efta cauceQa fe encubra o meu de- 
(ignío. Eftè amor perféiió feja o ii\ftrumento 
de minha fortuna^ 

jto .tirar hum rxmo de amor ver feito ^ defappãm 
tece d ,pileflra , e o v4fôftciíndo em Proteo ,. 
em cíêjà mio je me a de Cyrene\ cfêidando 

, gf^ M^^na flor, • 

Ai de mim ! Quje vejo ? Atrevido Proteo , 
folca-me a mão, n^c queiras com os disfar- 
ces - de flor encubrír #s venenos de afpide , 
que tu não és o arnor perfeito que cu bufco. 

Canta Proteo ojéguim Recitado » t 4^0* 

RECITADO. 

Amojr perfeito , fou Cyrene bella , 

Quej^inutidado da copia de meu pranto 

Ao Empyreo fe eftendc ,4 minha rama; 

Que fp no Ceo de fogo bufco a chamou , 

Conià cçnno feliz de meu incêndio i 

E fc jíquella fçrida , 

Belliflima homicida , / 

Augmenta. teu rigor neífa impiedade , 

Puma çafúalidaJe . 

(Ai ^^e. mim ! ) deftruir nâo pode aquellaí 

jbocer cfpcrança , que me promettias ; 

Mas fe á innocence culpa que não tenho 3 

Teus rigores augmenta , 

Verás ( oh Ímpia forte ! ) 

Bi/ícar na minha doi a minha morte, . 



déProM.. «1 

A R 1 A* 

Se AmojT^ fç a Parca irad* 
Qualcíueç tirar-me intenta , 

A vida <|ue me ^alenta ; 
Mais .vai qi>€ eu feja , ( ó bella,) 
Triunfo ^tnão da morte, - 
Dcfpojoí fim do amQr. ;, 

Pois quaniío affliâo intento 
Bufcar maior tormento. 
Morrendo fo de amante. 
Será o^pctiar maior. Qu^t ir-fif 



Cyren. Efpera , Proteo , qiie nâp te crimino, 

'i p^M^ te cadigares; bem fci que cuí mefma 
me entreguei fio :goIpe^ quando intentava fe* 
rijf. % Ppíibip. : , / 

Proteo. Também fei que eu aipda que inno- 
' çcfiZQj fui Q/inftriímento de teu cclypfc i c 

-/ainda que no fagrado de tuabelleza acha ím- 

. ■ Hnuiiixiade a Itiinna culpa , permitte«me , Cyr 
rene, que a fatísfaça morrendo. 

Cjiripn: Nãohe tempo agora de ouvir fínezar$ 
fabe que Polibio 

Proteo. Já fei que. a Polibio fe imputou o de- 
iiélo dé fcrir-te , e que prezo eftá na torre 

t *'dcv Palácio. 

Cyren. E fabe quê por te náo criminar , con- 
fentio mudamente no crime que fe lhe im- 

.';:pQK : ígora^Proteo he cfcufado lembrar-t<^ ^ 

. 0br(gação , em que eftás de o libertarei , co- 
mo JPfincipe , ,c :çoino gâuttob> s ofx^ V^ t^- 



({^2 Jí VârUãâãet 

zio te empenhes em defender ha nu ínix>ceii4 
' te vida , que pela tua tranauillidadc fe ex- 
põe ao mais fúnebre cadafatlo. 
Proteo. Suppofto feja Polibio q inftrumento de 
minha ruína na celiridade de teu Hymcnípy 
com tudo , como te empenhas na íua liber- 
dade 3 por ella exporei a minha vida ; que mor- 
rer por ci , ó Cyrene , nio he novidade no 
meu amor. ■ 
Çyren. Não he neceíTarlo por ora tocar o ulti- 
mo extremo da fineza ; vença a índuftria prí- 
* meiro y e depois a deferpetáçio ; e fõ eíTa ac- 
ção poderá perfuadir-me a tua condanda. 
Ptoteo. Pois ainda delia duvidas ? * • " • 
Cyren. Sim , pois até o prefente nSo experimen- 
tei em ti mais que varídades na tua forma: 
deixa pois o mudável, e sè firme na efiica- 
•' cia de tua fineza. 

Vroteo. Ainda que tenha por natureza o muda- 
- vel , iflfo he quanto ao exterior , pois codas 
^ : eflas mudanças são demonftrativos de' tnt* 

nha firmeza. 
Cyren. Pois , Príncipe , na liberdade de Polibio 

a experimenrarei. 
Proteo. Na liberdade de Polibio o verás. 

Jo irem-fe , fahem ao encontro Nereo a Cyrene t^ 
e Dorida a Proteo. 

Dorid. O que ha de ver , Cyrene ? 
Proteo. Na vida de Pplibio o caftigo. de fiia" te- 
meridade. Vêi'[e. 
Nereo. Que imenias expetimcwarí 



J 



it Proteo. ■ . ^^ 

Cyren. A tuâ fitieza ha liberdade de Polibio , 
a pczar dos empenhos de Proceo. 

Nereo. Ah tyranna, ^ue bem percebo, a toa ^n- 
duftria ! Aparte. 

Cyren. E affim , Nereo , efpero da tua gentro- 
(idade , que libertes a Polibio ; que com ef* 
te premio lhe iatisfaço o fer dicofo inflrumen- 
to de eu poíTuic a felicidade de efpofa tua , 
na condução de Beócia para Flegra* 

Nereo. Parece que algum fufto, ou perplext* 
dade te fez mudar a intet^io de tua fuppli*' 
ca. • , . Ah tyranna ! a part. 

Cyren. A anciã que tenho de liberta a Poli- 
bio , quando me afiflige o> coração , não me 
perturba o acordo para pedir-^te a íua liberdade. 

Nereo. Para te oftentares generofa , bafiafabef^ 
fe, que intercedefte por Polibio ; roas eu çq« 
mo duas vezes oíiendido tu íúa vida , vinga-» 
rei as minhas oífenfas. Fai-fe^ 

Cyren. Que fe falte ao refpeito a huma efpofa 
e a huma Princeza ! Dorida, intercede tam- 
bém por Polibio , que talvez > feja mais ven^ 
rurofa a tua fnpplica. , . 

Dorid. Pede a Proteo , que não deixará de ia* 
tísfazer ao teu empenho ^ que eu me embarco 
para Egnido fem dilação , pois já conheça 
a cauía , donde nafcem os defvips d^ Pcotcp» 

Cy^». Donde , Dorida ? 

Dorid. Donde não imaginava , Cyrene. Fai-pé» 

Cyren. Ai infeliz , que Proteò me intenta pre- 
cipitar com fcus extremos 9 pois do femblan* 
te de Nereo ^ e dos palavtas d^ Doíi>à^ \x\V^ 



im As Fâriedaãts 

ro os zelos , em que fe abrazio i AhTroceo ,■ 
p, que tu és a caufa de todofs . os meus males , 
sè algum dia inftrumenro de minha fonuna. 

Canta Cyrtne a feguime 

A R 1 A» . 

Fortuna que ineonflance. 
Te oftentas rigorofa, 
Quando ferei ditofa i . 
Quando ferei feliz ? 

Sufpende por hum pouco 
Teu moto acelerado , . . 

Não feja fempre o fado 
Cruel a huma infeliz. Fâi-Je, 

Sabe Marefía. 
JHaref. Agora me diíTe Dorida que .me prepa- 
raíTe , que nos havíamos embarcar para a nofla 
terra ; iíTo jà havia fer ha mais tempo ; e fem 
dizer nada a Caranguejo , me hei de defp^ 
dir em Grego , que ainda he peior que em 
Latim ^ e quantos traftes y e cacaréos tiver , 
tudo hei de levar comigo. £ para facriâcar a 
Diana , Deofa dos bofques , levarei efte cravei- 
ro de cravos atnarellos, em memoria da de- 
fefperação , em que me poz o facerdotifo Ca- 
ranguejo ; e aílim já o vou levando , ainda 
que feja ao coUo : 
jío tomar Marefta o craveiro nos braços , fe 
transforma efte em afigura de Caranguejo , 
e diz Marefia o figuinte 
Maref. Mas ai ! Que diabo he ifto ? 
Carang. Não he diabo j fou eu mefmo que 
fou endiabrado. 



ãe Proteó. ^?í 

Maref, Es tu ? Deixa»m« negro mofino. 

C^râng. Mofina, és tu , que nenhum favor ni« das. 

Maref. LzTgz-mc j fc não hei de chamar. â que 
delReú ^ ; ■;; 

Càrang. E eu hei de chainár a que dé V^nus.' 

MareJ. Tu não queres? 

Carang. Quero, quero. 

Marej. Pois toma, Atira com elle ao chão. 

Carang. Só i(To me podes dar ; mas cahitido a 
teus pés não quero m<iior fortuna. 

Marej. He muito atrevido:com enganos comigo? 

Carang, Deixemos íffo Marefia , que jâ nâò ef- 
tamos ncfTcs termos , pois fó a teus pés pròf- 
trado põe aboca hum Catanguejo amante 9, c 
te pede com lagrimas de Tangue^ que f e ba$ 
de efcolher marido , que feja efte pobre nien* 
digo de teus favores , pois nido wis hu\ha 
obra pit ; porque fou num moço oríãb fem 
pai , nem mâi. 

Maref. Jà não fe me dà de Vcnus , porque ho- 
je me embarco , e mais Dorida, e nos va- 
mos defta maldita terra. 

Carang. Iflb he fallar. 

Marej. Quando o vires , op quando me não tí* 
res , então o. crerás. 

Carang. Não poderás ter feito iíTo ha mais tem- 
po , e cfcufar de andar dando tfato^l ao jfuizOy 
empenhando-me com Vénus , pedindo*lhe amo* 
ratorias para te efpcrar , ficando eu por rea ^ 
fiador, abonando a tua peíToa i {fto tudo te- 
nho obrado a teu refpeito, e agora que ha 
^c ícr de mimi 



5?6 JÍs P^driedãdes 

'JMáref, Cada qual forra a faa pelle. 

Cârâng. E a minha, ha de ficar cativa para Ve- 

xiui me tirar do coiro a fiança ? 
JUáref. Que tenho cu com iílo i 
Qarang. He boa eíTa ! Não , Senhora , qqe ett 

fiquei por vofsè que havia de caíac mais dia j 

menos dia ; e agora quer efcapolir > Nada: 

mandado de fegurança no cafo. 
W^rff*^ Eu não vou poc minha vontade , qoe 

Dorida me leva. ^ 
Càrang. Pois cafa primeiro antes que te vits , 

ainda que feja comigo , e vai-te depois âiuir 

to emtera , que iíTo bafta para eu ficar liber> 

tQ no forro interno. 
^Manf, Qual cafar ? Se eu por amor dtflo me 

vou» e comtigo muito menos. 
Càrang. Efle menos he que he o mais. 
Mdreji O que poiTo &zer , he defpedir-me de 

ti : fe queres direi que te fiques embora. 
Càrang. Eu fempre ouvi dizer que quem fe def- 

pede fe abraça , e fe me has de abraçar , def- 

peçamo>nos já. 
Maref. Hum abraço Francez não fe nega a nin- 
guém. Abra^a-o. 
Càrang. Ora feja pela vida , e faude do Senhor 

feu pai : a'braçada feja a tua alma todos os 

dias da tua vida* 

Cantão Caranguejo i e Marefta a feguinte 

ARI A. 

AioTif. Senhor Caranguejo ^ 
Adeqs que me vou. 

Cá- 



" ie Paruo:. ^57 

CárMg. Li vai o meu bem , 

Meu mal me matou» 
Mdref. Não choce barbado , 

Vofsè he rapaz? a.t 

Cârmtg. Amor he que chora , 

Que amor he rapaz. .'•■• ^ 

M^ref. Adeos,^ que me vou 5 

(^Mg. Não. digas tyranna. 
Ambos. Adeos que me vou. 
Mãref, Oh quanro me cufta i 

Dcíxar*ie fem mim ! 
Oargfíg. Oh quanto me aflufta . ,z :.ir. 

. . . Eiear-mc fcm ti ! • ■ : 

Ambas* Porétn paciência , . • 

Que na agua do pranto 

Amor fe afiogou. . • •. ' f^úlfu 

S C E N A IL 
Sálâ^ Sabm Nerco , e Qfrere. 

<^fif. /T:T,Er ^lEvel Nereo , que :oS rogos 
XjL de numa efpofa não tenhio vali- 
'memo tia tua attenção? 

JNereo* Por iflb mefmo que para que fe faiba 
o quanto eftímo a minha eípora , hi^i de moí- 
trar o quanro fei vingar á fua cíj^^fa. 

X^^^^^Se.feu demittodeimím efla oflenfa^ játe 
não .fica acção para a caftigar. • 

Nftei^ As offenfas da efpofa são recíprocas ao 

. cfpòfo; e fe da tua parte demittes a injuria , 
da minha nio perdoo a offcnfa : 6 lá , era* 
Tom. //. Y ç,io 



/ 



^' 



^|S Af rdritdaies 

gSo aqui a Polibio , para que vtfi Cjtent 

no feu caftigo o meu amor. 
Ç^ren. Barbara fitieza Irò e(Ta ^ Nereo : quem vio 

maior defgraça ! * á psrtc. 

Sabe Polibio com càdeasj e Omardaur,. .- 

Polib. A' tua prefença chega o fnfelii> Polibio , 

e tao infeliz , que pela meíma acçáò , qtvç 

devera fer prímiaído , íe vè na coníUrnaçio 

de perder a vida. 
Cyren. Mal poílo conter as lagrimas. 
Nerto. Polibio , jà fabes que fou o .Fífcal de 

tua culpa ; do caftigo não duvides ;v porém pá^ 

ra que feja menoshorrorofo/a efiitíflaculo , 

quero me digas , qual foi o fim der tãoenòfr 

me deli-lo ? ■ 
Poíib. Que delidte? .;.... -í ;c. /. 
Nereo. Ainda re atreves a negar, ou imaginas 

que não dclinquiftc ? ! • ^. 

Polib, Sim , porque não offcndi a Cyrene. 
Nereo. Náo inteticcs .negar hariíTleLfâD^, que nSo 

cem defeza , que quafí aos noflbs olhos foi 

tx>mmetrfdo > íà qtiero me di^s.<)uC(n terfanpclr 

lio a tanto éxceffo? 
Polib. Senhor, eu não offendi a Gyrencs ella 
' fabe a^ minha innocencia. " .1 

Nereo, Pois quem? t-y o 

Polib. Cyrene o dirá. ^^ . •• • i 

Nereo. Cyrene , fe queres .a vida de- polifajd)^ 

porque não declaras ooífcnfor? i- í .*: íi" 
Çj/ren. Ai infeliz ! Qc^fe ftlrei emre .hum {^i^^ 
• hum amante ? ^ ^n^/párt. 

'NereQ* Que dizes ^ Mas^ i;iada diigas%: qite o^-reu 



Í4 PfQUO^. %%9 

r ISéácio €il0()tieme ine diz que {bi Polifajo} 

que fe não foíTe, quando Ibc dcfejas^ « ljber« 

dade , accufarias vo dçlinqutmte ; não cenho mtig 
. . que averiguar : feja Polibio conduzido ao Tem» 

{^a de Aftréa , aonde no risor da : judiç» 2^ 

gtie com a vida o feu deli.ao, - 
ChtgSo os gaardas a Uvát $ P^UkiOy • 
Ofren. Erperai , que Polibio não be a d^}tnqpence( 
Nereo. Pois quem , Cyrenc í r -. r . 
Çyren^ Que direi ! Oh abyfmo de cKmfuz6es ! 4'pi| 
Nereo. Lavai a Polibio , que Cyrene o.çfíjnde^Ki^ 
Polib^ Vamos , que hum reípcícò tn< cfiiqiikifl^ 

Cyrctt. Vença ao imqr a, ^lUresiitefr iftífp^i^lefí^ 
que eu declaro quen[) foi o dclin(|U.^tHe* ■■ 

Nereo. São cfcnfedos .et1iç5,4rcifk^.f^^ 

der à exccuçâa :* leveih^ a Pòljbio 9 que- 'CtUf 
he o delinquci)te» ._. -r ; ,.. 

Q«:^. Mio he , Nerco ; não hc;t eu hc que jii^ 
a delinquente, .^r-: : *, 

JíertOk De .que fóftti ? ^; í.: , ^ - 

Cyren* Defta force : como determitxin EiRei a 
bsevidade do noíTo B^oieh^^k . ; 

Sabe Próteo^4Í^\èjiiiA^\^:€^ ^^ támbm 

'■.,.■' ^í'^ ifí^h :*^. OfrfingUeJQ Amado, 
Nereo. .Que he iílo vProceo í . 
/âro^úb Libertar '« Polibio , pára que a fopplka 

de Cyrenc nâo4ique fem iacisfnç&o decente à 

fua píríToa. * . kí 

Nereo. Pois ta incenxa» dcffrfcar u iaçiiJKi^ 41^ 
••■'■mmhi'-e^fiii.> ;•■■ . -. . \ .^,*v^^. 



'ij4o A^VAfieãàies 

Proteo. Nao: mas as injorias de htmá Dánu 

-' offcndida, fim. 

Cyren. Mâiôt dámno fe vai originando, ápart. 

Pólih. Proteo obra como Príncipe. apém, 

Cdrang* Hoje ~h^ de ir cudo com Berzabá. 

Nereo. Proceo ^ enldiíqaecefte l Não fabes o pe- 
rigo a c|iic te expões ? 

Plroteoi)i fei. 

Ncreo. Pois aue intentas , fe o fabes ? 

Proteo. Defínoer^a Polibio. 

Nereo. Como ? • 

PnottM). Dífta fórtp. Brigão. 

Cârânf: M que aqui eftá o homem ! Que he iíTo là ? 

Ifeftn. Mcdetice^ Preteo ^ fabereí caftígar a toa 
temerídade. ' 

Polib. Valha^^e ò valor de Proteo. 

Cjren. Nereo\: Proteo , que internas ? Ai de mim ! 
Polibio, recifíi-te. 

polib. N|o poíTo que as prizões me embaração* 

Proteo. Polibio , fegue-me, 

Nereo. Não em quanto efta cfpada fe unii a 
efte braço; - ^ ' - - . 

Carang* Ah -cobardes, hoje ha de fentir o Man* 
do as mordeduras deue Caranguejo. 
Sihem El Rei ; e ^ Dòrtdd. 

Rei. Que infulto hc efte ? Qiíe he iíTo, Prin- 
cipes ? Sufpendei as arhias^ 

Proteo. Friifhou-rc o meu fÀtento.: ? áfortm 

Dorid. Qic laftimofa tragedia! .1". -- 

C^rang. Bom padrinho tiverâo. * •• •' 

JfeiV Neíeo , que exceflb for efte ? 

IVI^reo» Arrojo de Pcoceo que com cfia violencu 



de Proieà/ :54r 

intentou libertar a Polibio por fatisfazer aos enr 
penhos de Cyrene. 

Jlei. Temerário Pfoteo , como fem attenção ao 
decoro defte Palácio com mão amada a£m 
o profanas.^ . 

Cf r^Mj". Ponto de interrogação. 

Proteo. Senhor , hum precipitado empenho não 
repara em artenções í que a cega paixão, que# 
predomina cm meu peito 9 não faoe .diílingutr 
a purpura , mais que a do fangue , que in- 
tento verter pela liberdade de Polibio. 

£ei. Bárbaro louco, imprudente, aífim me refpotK 
àcH ? Não fabes que íou teu pai , e teu Rei ? Le* 
vem-no prezo , e junto com Polibio feráõ ambos 
víâimas de Aftréa. Quem viomaior infulto] 

Carang. Ponto de admiração. 

Proteo. Mais me vangloría9 com eíTe caftigo» pois 
quando não poíTo defender a Polibio , ao me- 
nos me fervirà de defculpa o não tçr vida pa?» 
ra libcrtailo. 

Çyr^n.Eipirou a minha erperança^e eu com ella. âjf^ 

Dorid. Sem embargo das ingratidões de Prot^O^ 
por elle fupplico. Senhor. 

Rei. Náo peças por hum ingrace» 

Dorida Baila lhe. «ter o nome de erpofomeu» 

Rei. Deíica ,. Dorida ; deixa , que fe viiigueRi 
em hum (ó caftígo tantas oíFenfas: fçjãolevadpf^ 
como digo , ao Templo da Juftiça , > aonde no 
feu Tangue fc purifiquem as fuás cubas. 

Polib.Uzo vai a mfciha innocencia coturaeife rígor> 

Cyren.Não póãe. ^«ivev pranto abcaud^f t([\à3QS!ã2& 



XW. Não pôde, não vai , não fe attende ; *Ic* 
val-os. f^^fe. 

Cdrãflg. Aquillo he pomo imal, 

Çjliftn. Crael crpofo , porque tião ce )aâcs ^qoe 
triunfas de minhas lagrimas , não has de ter 
o prazer de que eu veja a execução de tua 

' tihf^itíçà \ pois defefpcrada bufcarei quem me 
vingue defta injuria. ^ f^dijcn 

PoUh. Os Ceos moftraráõ a minha innocenda. 

Fai com os gMãrdáin 

Nereo. Vá também eíle tyranno irmão penurba- 

* dor do fõcôgo de meosfentidos, 

Tràteo. Não ha de ter eda jaclancia. ápdrU 

JOúfíL Vé , NereQ, que contra hum irmão he 

' indigno e(Te procedimento. 

Nereo, Se fouberas , Diorida , o que eu não igno- 

' n> , náo intercederás per elIe. 

Dmid. Quem nunca o foubera ! â fdrt* 

'Cardhg. Sk(^ boa cafta de irmãos eftes i Por cl-j| 
les fe pode dizer : qmndo froíres Jmt bonl ^ 

" ftmt bonifrates. 

^ereo. Em que vos detend^ss , que o não le- 
vais i 

Proteo. Na forma delRel me transformarei, i pu 
Trasfomi-fc Protão na figwra delRei. 

Wereb. Lèvai-o : não me obedeceis ? 

^Sold. A quem , Senhor f 

Nereó. A Pròteo. 

Sol d. Ptoico não eíbí ^ui. 

iN&eo. É cffe quem hè? tá» que vejo! Se- 
"^nhor , Voffá Mageftade como aqui , c Proreo ? 
.J^frou confuC(>l QtitvVVMãa hcdiaí 



ãe Protèó. ^ ^A% 

Proieà. Sc PfOtco nâo ppparcce biifqucfr^io ^ 

que imporu -não ficar fem cafiigo. FAhfe. 
Cétrang* Ficarão pafmados: o cerco he que eu ^ 
- e meu amo j íomos dous. . :. 

Nereo. Dorida , não vide a Procco ficar entre 

os$;uardas, quando fe aufemou EiReií 
Dorid. Não ..ha duvidai 
NertQ» Pois como Proceo y fem que o viffemot ^ 
' deíappareceo? e ElRci efiava entre ost guardas } 
Carang* He que foi precifo iazec dous pontos 

na oração. 
Dmid. He cafo maravilhofo ! ; 

Nereo. Que fugiíTe Proteo , fera que ^elie pa« 
r deíTem os meus zelos vingar-fe ! O' lá , coda. ef« 

{a comitiva , que armada veio com Proteo naTu- 
1 Uevação, feja conduzida ao tiiais efcurò cárcere. 
•Cârang. Boas noites tenhão voiías mercês» : 
Nereo. E haja particular . vigilância nefle criado. 
Çármg. Sempre obrigado : cá para nós não he 
/ nece^ario ceremonías. He bem feito ! à fart* 
J)ond. . Nereo , "efle criado he louco. :: 

Cãrang. He verdade j nern tal me lembrava» 
Nereo. E como fabes- quÁ be.ióuco^ 
Dorid. Pelo ter vifto varias vezes, 
Carang. E(Ta ainda he melhor ! Que i Prender* 

me para cafar ? Pois defenganem-fe • que aio* 

da que me matem, nãoN^ei de cárar. 
Dorid. Com aqucfla; teima anda fempre. 
Nereo. EíTe por louco , pois o .abona Dorida, 

fique , e levem os mais. b- 

Levio os guardes os que vierMo tom Proteo. 
Ourang. De boa efcapeí! .Vi'a«ioncTdiantedoa 



>í: 



!l{4« As Fâricãadit 

> 'Olho9. O cerco he que st vidados nefcios^ 

e loucos he maior que a dos entendidos. 
- : À parte , e vêi-fe. 

Doni. Nereo, nãa te afili)as com ranro excef- 
'-' fO) bufcando na tua pena a tua morte , que 

mais importa a tua vida. 
Nereo. Ai DoriJa , que o ^meo fentímenco por 
. fiiez[dicavcl he mais íenfivel ! . , 

Dorid. Aprende de . meu foíFrimento , pois fen* 

> tlndo o mefmo mal que tu padeces , pro* 
curo íuavizailo com o retiro. FéU^fe. 

Nereo. Dorida com prudência me deu a enten* 
' der 06 feus xelos : ai infeliz , que já com ãtk^ 
-' plicado indicio póie defafogar publicamente 
a minha dor nos zelos de Cyrene! Ah Prin- 
ceza indigna de tão foberano epicheto ! Oh 
Proteo aleivofo , digno de eterna infâmia nos 
annaes da memoria ! Huma contra as fobera- 
nias do caraíler , outro contra as leis da leal- 
dade , e da natureza fe armário inftrumemos 
de minha magoa no tprmento de meu ciúme» 

Canu Nereo a fegiêlnte 

A R I A» ■ # 

Selvática fera ^ 
Da brenha mais tcfca - 
Se enaefpa, fc enrofcai 
Se a cara coníórte 

SOS braços encontra 



^<^ 



de Prouo. ^4$. 

Se.o ruftíco inftin£lo 
De hum bruto padece ^ , 

Defculpa iperccc 
Huina alma abrazada 
Dos zelos no mal. Fai-Jt. 

S C E N A III. 

l^implo dt jiftréd , cm fimttlacro da Jufti^d. 
Sahe Marefia. 

Maref. /^ Om eftas embrulhadas de Palácio 
Vianda tudo tão mexido, e^remexi* 
do , que eftou vendo como fe ha de fahir dei- 
ta mexuda: o que mais finto he dilatar fep 
noflb embarque por caufa das traições do Se- 
nhor Polibio , que fem alma nem confciencta 
quiz tirar fangue donde o nào havia : pois hei 
de regalar-me de o ver pemear. 
Sabe Caranguejo. 

Cãtãng. Aqui fe pagão eilas : vês coroo o tea 
peccado te trouxe por teu pé ao miferando 
fupplicio no Templo de Vénus ? 

Maref. Que dizes ? Efte he^de Venuís o Templo í 

Carang. Aílim dizem os comtenplativos. 

Mareja Pois a Eflatua de Vénus hedaquella firVcte^? 

Carati^. Sim , Senhora^ mas não . me admira 
que não conheça a Vénus quem não quer càTar» 

Jlíaref. Vénus com os olhos tapados , mais me 
parece Cupido , que Vénus, 

CarangMc que a formofura tem o amor nos olhosJ 

Aíaref. Mas fe he mulher , porque traz efpada ? 

Cojrar^* Por amor dos virgies que dà na gente. 



%4^ At Vmtàâátt 

*Mdref. E as balanças que (igníficão ^ - 
Carãng. He para pezar ts finezas*; fnas advcr« 
ce y que aquellas balanças não tem fiel , por- 
que, codas as Vénus são fidifas* 
•MâTtf. Ora muito me contas. 
Carang. E tu naJa me dizes do cafamcnto ? 
Aíaryí Verdade he que já tazía tenção de cafar, 
Cârang. Filha-, as tenções livráo as almas , m» 

não os corpos. 
MAteJ. Eu fim caiara comtigo; porém não fei 
'■ qus te diga. ■ . \ 

-Otrang. Náo fei como a Marefia te não faz 
^ vomitar tudo quanto tens no bucho. 
'Jlíattfé Não fei como és ; não fei , que ce ial- 

ca^ para feres de meu gofto^ 
Carang. Nada me falta , porque o cea rigor 
i me tem acabado. 

Maref. Acabado fim , mas não perfeito. 
Carang. E plufquam perfeito: ora dize , leve o 
^ diabo paixões > aonJe havias to achar quem 
^ mais te quizeíTe? Por ti fendo muito limpo ^ 
^ me fiz hum porco i por ti me fiz cadeira de 
' braços , para ter pé de te poffuir ; e finalmen- 
te po»- ti me amortalhei em hum craveiro de 
^ ' cravos de defuntos , para renafcer como bicho 
• ' dis feda no capulho de teu agrado; e fe tup 
-' do ifto te não move , vè de que forte me 
-■ queres , que para tudo fou de cera. 



Omr 



áe Proítò. * %Af 

ÇásM Caranguejo a feguimc y-. 

Tomara fa2cr-me - . 

£m mil pedacinhos , \ 

Por ver íç os carinhos 
Tc poíTo colher : 

iSe queres líic ver . \ 

Gigante, aqui eflou : Faz^Je Gigante* 
Vê lá como fou 
Âilim tamanhão ? 
Se quês que me abaixe 
. Serei hum Anáo. Faz-fe AijiSo. 

Klas náo , Anão não ^ 
Que Anão he agoiro , , 
Serei ^manhão. Faz-fe Gigante^ 

( Se affim não te agraào , 

Serei defgraçado 5 
Mas não feanchão, 

Maref* Bafla com tanro dcfengonçamento. Masi 
ti, efpera, dcixa-me efconder naqnclle caliã* 
nho que lá vem hum homem correndo z qua« 

- tro pés 9 mui^o afroflurado co^ huma faca na 
jnSo* EJcondi-Jcm 

Càrdng. Efpera , aonde te vás efconder ? 

Sabe Proteo íqm bum funbal na mão, "; 

Proteo. Junto á arado facrificio deAftréa^me 
occuttareí^ e com efle punahl matarei o í>arba« 
ro executor da juftiça , quando intenre. tirar ^ 
vida a Polibio. 

Carâng. Ah^ caio igual ! Senhor , vcns-te meAfer 

- na Boca • do |obo •' ]ji que te tratisforp^fte/ cm 



m^ Js Vmeiaies 

Ponto tão poncualmence parft efcapir das gar- 
ras de Nereo , como lhe queres agora cahir 
nas unhas ^ Para que Senhor .' 

Proteo. Ou para nutar , ou para morrer ; qucfe 
hei de perder a Cyrene , que imperta qoe 
perca a vida? 

Cárang. Ainda aílim ^ aquillo de viver hc bom 

. para a (aude. 

Proteo. E tu como pudefte efcapar acompanhan- 
do-me também ? 

Cárang. Pelo f^rivelegio de louco , que he mui 
grande ; que Te eu tivera entenãímento , don* 
de eftaria a eftas horas ? 

Proteo. E. Cyrene , ( ai de mim ! ) quie diz ? 

Çarang. Ella alli vem, e Dorida* 

Proteo. Occuitar-me quero, como diíTe. Amor, 
íe CS Deidade , favorece os meus intentos. 

Efconde-fe Proteo junto â EJiatua dét Jufti^âf 

e fabem Cyrene accellerada , e Dorida de- 

tendo-a. 

Dorid. Cyrene , que exceflb he efte ? Náo atten- 
des ao teu decoro ? Aonde caminhas precipitada \ 

Cyren. Dorida , não eftou em mim ^ que que- 
res que faça huma defefperada , huma afflíéh , 
e huma infeliz ? - 

JDorid. Retiremo-nos antes que fe honrorife a 
vifta com o funeíio efpcáaculo de Polibio-, 
que já caminha para efte Templo- de Aftcéa. 

Cyren, A iflo mefmo he que venho , não por 
vera fua tragedia , mas por impedir a fua morte. 

JDorid. Para que te empenhas em hum impoílir 
Yclf quando N^t^Q v^o^çtlLldo % náo íei de que 



occulto feotimento intenta vingar-fc ..na fàá 

vida? Porém jà occupados * os pórticos: de bu» 

ma immenra turba , jmal nos poderemos: retiiar; 
Toeão tambores. 
Carang. Grande trovoada fc vai armando ! 
Çyren. Ai qué^ a vida fe me vai acabando ! Nem 

Proteo ajâíjjarece para maior pena roinfia! Que 

farei {òui afflifta em tanta multidão de pezarcs l 
Sabem ^iRei Pomo , Nereo ^ e depois Polibio. 

eom guardas -, e fabe Marefia donde efia- 

va ejcondida. 

Hei. Com efFeito náo tem apparecido Proteo ? 

Nereo. jParcce que a tecra o cragou por caftigo 

de feli delifto. 
Rei. Ai Proteo! Quem pudera.. .. Mas náo, 

náo merece piedade hum filho ingrato. 
Nereo. Agora verá Proteo. fe pôde libertar a 

Polibio ,^ que nas Aras de Aftréa boje ha de 

fer vi£tiiíiíi de feu rigor. 

Catita Polibio a Atia , e ojeguinte 

R B C I T A D o, 

. . í 

Aftréa Soberana , / . . 

Sagrada fillvi do brilhante, Qyilmpo , 
Como aíEm confentes que huma inQo<íencit 
Profane teu9 altares 
No impuro façrificio,. 

Sue íncender hoje intçnw hutna impiedade I, . 
as jà fei, infeliz , que, como és cégn 
Náo verás da fentença a iniquidade; ' 



<y$o Jr FáHeãkdes 

Osve fao menos os mizeros damorei : 

Dofta inculpaTcl vfda , 

Poisjiiio pede a }uftiça , 

Ver no Templo de Aftréa huma injuftiça* 

A R I A. ) 

: Se o tcSko inftrnmento , ' ; 

Qae vibras ingente 
De huma alma innocente 
Cafligo náo hc : 
- Ao duro fupplicío » 

Impávido vou. 

Náo fujo, náo temo . •''" 

Da morre os »~ horrores, 
Que a rígida efpada 
Em -vida inculpada ^ 

- Já mi is penetrou. 
Q/mendo Polibio caminhar pirá á Efiama di 

Aftréd j o impede Cyrene. 
Cyren. Aonde vás y Polibio ? Efpera. 
Polib. Quem me defende ? 
Cyreff. Cyrene te ampara. 
Eeu Tu não podes impedir a execução da juílíça* 
Nereo. Execute-ie a fentença. 
Carang, Embargos temos. á part. 

Cyren. Náo pôde execurar-fc a fentença ; porque 
fendo falfa a culpa , não pôde fer a pena ver» 
dâdeira. . 

Nerco. Se clle a não contradiz , quô mais evi- 
dencia pode haver? Morra Polibio* 
Q^elf.' Polibio cttkitfttorccmcí aíRirmo que rat 

não podia oíFender," ?? ' 

Jieu Porque ? 



z^eProuo. ^ if* 

^^fr. Romp9t*(e o filencio por huma vez. é f4Tt% 
Porque he meu, pai. : y 

líerea^ i?«. Teu pai Polibio ? Que dizçs í 

PoUb. Cahip a máquina die minha iáéà.. á.p4rtm 

Çyre^ Senhor g meu pai he PoliNo , ti^o q <lqyí4es. 

Polih* Não fou pai de Çyrene : não à\]^\^s ^ 
Senhora, com eíTe engano o ceu Hyv^njt^ 
deixa^ que eu morra j que pouco preço bfi<h|ir 
ma vida para comprar hum. Reino.. 

Sei* Que mais podia excogicar a tua induftrí^ 

-; para libertar ^- Poliljio ? . 

NiftOm A fentença fe execute fem dilação* 

j0Tetf.'. Soberano Monarca , não são induftriaf 
da idéa , são reahdades da natureza > Polibio 

í he meu pai,- - .... 1 

iSeú Gomo .póflè. iQò.fer fe tu és filha, i^ci 
de Beócia ? ' • 

Çjfrem Attende^mc, Cífaberáâ: Não ignoras fi|; 

' revoluções , . Cj euer/as • que houv^ ,em. Bg^^ 
pto , aonde Pj^ipío íoi cabeça de huma par- 

- tíalidade; ecomo efta ficaííe íuperada» íe?re« 

- ..xírõu a Beócia ! comigo , e ahi me deixou oc« 

cuíca em a fuftica montanha de.b.Mtpa Aldta , 
paira que o ftii!Or inimigo, não triunfítne.i.dlp 
injnha ínnocencia : paflbu Polibio a : Fiegra a 

- ícrvir^^te , cpmo fabes^ a <)uMn • déítç o ?cará- 
Qitt de EmbaiKaddri paca BçQcia.ar;coiyÍ9ZÍc 
ã: foa Princeza para.efpofa- diP Nec^o: :,chc- 
'gando Poljbjj^^ 9 S^oeik raqbou Ter falecida 

aquella Princeza , também chamada Cyronc i 
. e :diífimulando o motivo.; itre {louxè a vwini 
, |i>t|a Ncreo ; querendo com efta induílria^ycr* 

me coroada Princeza. Pr^* 



1 



liít As Fárieàaies 

Prouo. Se fera illusio o que ooço ? í páH: 

Cyren. Ejá que eftc impcnfãdo acafo defcobrio 

efte engano , a teus pés , Senhor , eu e PoU« 

• bio pedimos perdão defta temeridade, pari 
que num deliâo verdadeiro fejá indulto deoii* 
iro que o nSo he. ^ 

Xtu Ha cafo mais extraordinário ! 

"Nèreo* Nem alentos tenho para refplrar, 

Dorid. Prodigíofo fucceíTo ! 

■Jldatef. Quando eu vi que rinha o Tangue ver** 
mclho como o meu , logo duvidei que ibf- 
fe jde fangue Real. ã foru 

C^rdftg. E o que mamou de Altezas & ohnehà 

' calada ! ; i ^ pârt. 

Polih. Defta forre , Senhor , conhecido quem 
'fou , bem fe vè que nio podia intentar a 
morte de Cyrene. 

Iffe/* Pois como tinhas o punhal na mão ? 

•Polib. Porque querendo maltar-me Proteo , Cy- 
rene commovida do amor de filha , fe met- 

* teo de premeio, e cafuaímente a fério\Pro- 
'^ teo ; ficando o fcu punhal f>or -outro fome- 

- Ih^ante incidente na minha mão. 

Jíe/. "XJuanto defle crime eftàs perdoado ; mas 
não ficará fem caftigo eíTe que maquinafte 
para coroar a Cyrene. Dlze , atrevido , e in- 
fame Polibio , como fabricafte tão perníciofo 
'^- engano em ludibrio de minha Coroa , perden- 
do por tua caufa Proi^ò a Patllâ , e eu a fua 
companhia? .\^..: 

If^reo. Deixa , Senhor , que* eu vingue efía of* 
tcnfa 9 pois eu era o alvo do fca engano, 

e 



ii Vortéo. ns% 

e ifliiii , fdmanriído, bárbaro^ traidor , eim 
meus braços. « • . 

Ao accommeuer Mf^ a Polibio i fábeProteo. 

Ptílib. Nío ha qu0m me fcccorra ? 

ProtetK Proceo te 4Íe»fefidèrà ; fufpende o furor » 
Ncrco. r. ' - 

Qr<ff. Oh extremoífo amante! ápOHe, 

MeL Proteo , és tu ^ ou he engano da ÈintaCt 
o que vejo ? = 

Nereo. Ainda intentas amparar a hum traidor ^ 

Cyren. Néteo , fe acall> aquelle apparente nome 
. de eípofa j^de concjliar no teu peito algum 
tffcéio y rogo-te qúc- releves os exceflfos d« 
hnma indiTcréta ann>içSo. 

Neri(o. Ainda te atreves , fementida , tyninna , 
a lémbrar-me o nome de efppfa ? Por iíTo in- 
tentavas com cautelas que te adoraíTe como 
bella , e não como Prínceza i Pois agora , que 
nâo variei de fyftema , nâo fendo m quen^ 
^n imaginava , dcfprézo a tua iormtrfinra , poir 
não fer adornada de Mageftade* 

Cêrangi Eflo mifmò quiete la' mona. 

Proteo. Pois na minha eftjmação tanto vai a for* 
inofuta de Cyrene ^ como a mais egreg|iâ Prin-* 
ceza ; e affim , Rei , Pai , e Senhor, a céus 
pés proftrado te pe^ , me dêsâ Cyrene poc 
efpoia) que fuppoftò-nSo f^ia*£(ha.ddKei de 
Beócia , o nobre fan^ue det Polibio , & a iua 
belleza , pódcm compensar iiuin incidente da. 
fortuna. 

Reu Que dizes, Proteo > Ehionquecííle acaíb l 

Proieo. Sc me nceas efta -ventura ^ qom «de vivi 
2ÍM. y/. % x&A 



^ %S4 A Féfrífj^d» 

«hal ^11)6 cífirei a vUla^tifaíi ftm G^tene 
tudo hc morrer. 

Rei. E a Qcridii omid.<6 Jbiv4e íwtfiser ? 

Dorii. K" vifla .daqiíolKe ewrMUo .de amor , ^ 
poib;e(ptm? Logrq:,í^^{f^ 

Rei. Coino Dorida confemc tiõ defejo de AmS- 
let V s^ Ncreo dctniiic^rft Qyreiíe , náo poA» 
difliciiluHf ^ tuÀ fopplica ftiUyrme he tua, Pnoteà 

IVoífO^ Amada Cyrcoc, fucua t>elleza cMÉfig» 
o maior* Í9HNMÍO. ; ^p ,-. -. .^^ 

Cyrm. E.m» rq tcq amor â maior iiytoiUu*^ . • 

Polib. Sempre fé logrou Q0itu imento: dítDfi|.idca! 

RH* Dorida 9 Tc acafo qi^xerei aue Ncvéo -f»* 
)a ceu feliz efpofo , coAík efla dita fe alcaa> 
cará boin.Qomplcto çráízer. . /-^ 

VoriJU NiO" poíTo rcfiftir.ao teu preceito. -. . ^ 

Nereo. Nem -cu deixar de agradecer eflâ bene- 
volência «, -^ando acho , em ti a qualidade^., 
que fó 'adorp unida á tua belleza. 

Catâng.M^W&k^ quòres tu agora facrífícar-te a 
cafar comigo por dc(carjgo.xiekua€Qnfctencía^ 

Mdref. Mais Tal l%um ruim concerto ^rque ho- 
ma boadenMnda;^ and4cafértu)s , que ao me- 
nos em. hum marido tenho hum efcravo. . 

Cardug. Pois então leve. 9 diabo paixões i . todos 

ficão acodlnmo^dos , e façisfeitos ce«i asíoa 

oonfoiteSf^e Proâ^o^Miis que nenhum $ pois 

' com as fuascVariedadea^ c mudanças , moflrou 

a maior ãrmoza tios^^amoKes de.Cyrene. 

Proteo. E já que os fados profperário os meus 
mcentos % Pepita, outra vez o tdtemado acceor 
••«aí fcflivoajttbilo»ií;. .^í- 
'■ r. ■ l V., jBflp- 



ie ProUo. %if 



c o & o« 

!• Oro* Em Jiori Jicc^a 

Venha Cyrciw», 
2. O^rOé Em hora íeftiVa 

Dorkia venha. 
i.Gvo. A fcr de Nereo^ 
2. Coro. A f er de Proteo , 
Ambos. Efpòfa feliz. 
i.Cbro. Os prados com iorct» 
1. Coro. Com perlas os mares , 
AinbQS. Os Scepcros efmaltem 

l>e ecemo matiz. 



F I VL 






I 



i 



ZH ^!Wi^ 



precipício 






F A ETONTE, 

OPERA QUE SE REPRESENTOU 

no Theatro do Bairro Alto dã Lisboa , 

no mtz de Janeiro de 17^8. 



ARGUMENTO., 

T Afies , irmão ie Tirrenq , j^eí ie, Itdiâ 9, 
ufurpa efie Rèitio , o qn4l perteftce d Ege* 
ria , í^nfd do Eridano , ' ejtlhd di^irreno. f/fe- 
tonu , filho do Sol , e reputado por filho de bum 
Pafíor de Thejfalia , vendo o retrato de Egeria , 
rendido lhe tribtéti o jeu amor ; e para melhor 

d4r a conhecer a Egeria , fahe de The (falia , 
e fe occf$pa na Itália em acções do agrado defta 
Ninfa ; por ctija caufa fahe de Thaffalia o Ma- 
gicn Fiton em fegtéimento de Faetonte^ para o 
defviar defte amor j por quanto ainda nefie tem- 
po ignorada Factónte o jeu verdadeiro pai , t 
Fiton lhe receava a ruina , quando o chegajfe s 
tonbecer. Eftahelecido Faetonte nos agrados de 
Egeria <9 ejta para refíaurar o Reino pelas ac- 
0e% daqúelles , que a pretendião , para efte fim 
ufa occultamente prometter a mão de efpofa a Me* 
cenas ^ e a Ftietonte , em que confiftem os maio* 
res lances defla Hijioria. jílbano\ Príncipe de 

Ligurià 5 pretenda Jer efpo^o d« iÇmene , filha 

1 -- * ..'.'" i». 



?57 
i€ Tdges. Efle, éfuanão Fdetonte fe deeldrafi- 
Ibo do Sòl\ ò pretende para efpofo de Jfmetíé ^ 
€ pdra o de Egefid d Albano.^ o$,auaes ftngidd" 
mente fe áeclâmf àmdntes conrd/eridd dos ze- 
los. Jppdrece Apóllo , é declara a faetome por 
Jeu filho : èfít lhe pedi fdcaldkdt para g^rét na 
caro^d do Sol. Sefifte ApoVo ; porém inflando 
Fdetonti , lho concede -, e efle depois á vtfta dt 
Egerid fe vé preeipitddo no Eridano. O mdis fe 
verá no contextptdd Hiftorid. . . 



INTERLOCUTORES. 

Baetotire , Filho do Sol. ^ . 

Albano , Princípc dp Ltgarid. 

Mecenas. ^"^ 

Tages , Jtei. 

Fiton , Barbas 3 Magico. 

Chichisbeo , Críado de Faetome. 

Egeria, Primeira Ddmã ^ fobrinbd de Tãr 

ges. • . 

Ifmene, ' Sef^mdd Ddma^Jtlhd deTdges. 
CfairinoU» Qiddd de Egerid. 



V3k^M 



/■í J 



ni. Cmmâ. ' '' ■ 

SCENAS DO IL ACTO. 

II. Selvd. . 

IIL Gabinete bem adornado. 

IV. Típmp/a rfe Hymenêo. 

SCENAS DO III. ACTO- 

I, Camerd. 

It ^4/4. 

ni. Bofqae ^ como ino principio. 



Prtcipieiot át Fâttonte. ^5p 

P ARTE L 



• : A 

S C Bi>J A L 

Bofque froniofo nús Ribeiras à$ rio EriiêiiD. 
Em quanto Facionu canta fegémè Recita- \ 
do, trijahinio Egma em bumof cmtéba tira' 
da for doHs Dilfinu 

a E c 1 T A D o•^^? .'"• 

Faih .^\7\ Gtút peregrina, 

Waj Do fagradp Eridatio Ninft bèlla , 
"* ' Deixa.o cerúleo, errame , trono vago^ 
Em que habitas [)eidade ; : 
Que fe aguas procuras cm taes 'mágoas 
Vem a meus olhos, que também tem agoas. 

Cama o Coro. . ^^^ v 
'Alenta, reípira , . . . . ^ 

Galhardo Paftor^ 
Pois vês, que a teurógoi. 
Partido o ayftal . - <• 

& abrazão .as-agpas: : . '^ 

Em fogo de iunç^r. ;- »'' :^* 

Faet.St.àt Itálica csfént. <. - - Jw-.r. - ' 
Tutellãr Divindade te appellidas 9 
Ampara hum peregrino ^ 






I 



^éò Pmipichs X ^ 

Quê a reu facro ETtdino ficndct 
Omro rio cm fcu panto : oh quanto temo ^ 
Que tinido o facríGcio i Divindade , 
Sf Itimdc o Ofbe einZií[aÍda impiedade I 
ál ^ c o a o- 

Alema , rcfpira , 

Galhardo Paftor , &c- 



..FMt, Outn vez , e rail vôzes 
Tc bufco impaciente , 
For ver fc ri^orofo meu dcftíno 
Nos influxos brílliantçs de rcus fâios 
Acha feguro afylo , c o pafTo crranie 
De hum animo conílântr 
Encaminha propicia » porque vejas, 
Qtic idôtatra numera em vagos gyrot 
Tanios os votos , quantos os fuípifos, 

^ '^ y ,.}-r.i .. ^ . . . C O R O. ^ ^ 

Alent:^ , refpira , ^ 

.^^ínGalhardo Paftor i&x. 
r- ;:■» .íKj 'i , ■ - ■ ■ ■■ ■ 
A ejla ultima cUufàla do Cbro ^defetnlfarcâ £ge^ 
riâ , e cantd a figuinte Ariã^ e 

R Ç C l T ' A. I> i o. 

Hum peregrino* affeâoj 
Me occupa o coração, qttando «inquieto ; 
Nem as aguas do maf ly ou mcos foípiroc , 
Surcando em doas milngytog : i 

Me deíxio reípírar , porque em meu peito 
Me abraza o eégo zxiài 4^ WBták perfeito. ^ '"> 



▲ R tAt 



ir Pdemte. ' tfgt 

■ '• ' A Sl'l A»' 

Mão fei que novo affc3o 
Sinto no amante peito ; 
Só íri que ofcu cffeito 
Me obriga a te adorar. 

Do teu doce-artraâivo 
]â iente o amante peito » . 

£ á vida não compeco 
Gofto mais fingular. 

Eger» Rrrame peregrino ^ a euji vifta cdbrmovi- 
do oEridano divide ocryftai de faa^' aguas» 
para multiplicar a tua fórmfi nos feils eípelbos ; 
que incógnito attradlivo occukas em ti, pois 
até eu como Deidade déflas aguas , ce eflou 
amando, fem faber a ctufa porque lequeM.^ 

Fáit. Nao fei , Egeria , náo fei ; pergunta aos 
Aílros , de cujos influxos íe originão as fyoi- 
patías: fó fei que harvctá três dias, que oc- 
culto me tens nede Frondofo boTqoe , verdes 
obeiifcoa do EriJano , mais como foragido » 
quccomo habitante. 

£^^r. Tatober» fabes , quèem rodo effe tem- 
po nâo merecerão os meus agrados arraficar 
CO profundo íilencio de teu peito quJSem^^iTy 
e a caufa de tua peregtinaçio. 

Faet. Mio- fei mais de mim , <\ut ferfitím Pai- 
cor , com efpiritos tão altamente nafcídos^que 
intentáo competir com os Deofes mais bri« 
Ihantes . do Firmamenio« ♦' í.-» 

Jl^fr. Como pód«m em hum Paftorcaber^Jtio 
altos peniamemos^ * '-.^j 



^ FdH. Porque a almii^^ue me tníma , ou nSo 
he defte oorp^ti WttW corpo miKhrxitquel- 
la alma. . .jjr. . 

f^ff. Dize-me m omuos. o tçu 0ome , e t 
roa pátria ? ..,..•• 

J4fi. FactoQtê boTomeii nQmc,*.e a minha., « 

Iger. Efpera: Faetonn.teçbanaif Aí de mim ! áf. 

Fdet. Quecens^Egerit.^ AilíiftòttrCQomeuiiofne? 

J^er. Sim , Faetooce.f^pQÍii no qmvíUo pronim» 
ciar , me ienci abrazar em hum viva incêndio» 

Am. -Em fim i S^qrn^ paia c]iMr te^obackfa 
em^ tudo f ThçffaUji Ma inínha. pátria. 

rJEgtir.,Ji porque dalU:!U apanafte ? 

Fnir^ A{ d^mim! X^em poderá dedarar^! i fM. 

;í)j«r.' £mmt|decr« ? >, • . ^ 

ivfei.M Como quer«i'^ (e comivefle em :Tbeíralía 

1. ..hum coração , cpic.nrão cabe era rodoiO mun- 
,do; pois ió nas «thereas Regiões. cerd limi- 
te a pxinha ambjçãor.^ 

£ger. A Kor« entendo i^Faetootc , que algum t>ro- 

I pício^ Numân te cooduzrp a Itajia.^ para teres 
venturofo i,nftrumcnto. das minhas idéas; pois 
-fó-.O teu valor. ,>e >a via. an)biçãiO .póderáô fuf- 
v pender a roda de minha, jnfaufta fortuna. 

JiíUti^ :Pois em. que^ tO: dilatas ^ Propõe ,: galhar- 
da f^in(a, qu^.íaut^u refpeiro' j( fe ne^arío 

«rh.ftr) Trotfbaiei ás. linees ao-Soli^iaJilep^noo 

:tio uidênie., e ps caios a lu^trer^p^ra que 

':''cQi\[kfii^ÍQ$ « tridente^Kie luzes., poffli" triunfar 
do Sol , do Mir y ^c do £m^yK]i^.b>;f 

€j^er«')é<)ue a altivcízde teus pcnfamentof liie 
perfuade a minha ventura v-i^br*^ «9ve:'eB:rou 



ii FaeiOHte. ,%6^ 

ia ipfeliz EgcrJA, filh^ deTirrcno, Reifloe 
foi defta Rfgião ; o qofA.deJx;indo.me pvipil- 
Ia debaixo d^ lutcUa díjíagc? >. feu innão, 
c meu lio ^ cflc lyranuaxncmc me tem ufur- 
pado o Sceptro , intentando perpetuar a asinha 
Coroa na /ua.dBfccndencia.^,ta2cndo com que 
Ifmene ,fua ifilha, feja hcideica de mipl^ for- 
tuna, caíahdo-a com Albano feu fobdnho , 
Príncipe da Liguria. . Ah cruel Albano !^Ah 
'fcilfo amanri I â psfie. 

Fdct. Que foffrâo òs Deofes fcmclhantcs injuftíçasf 

£ger. Albano pois , com as armas da ^Liguria 
intenta fegurar o thronq de Ifmcnp ; ij affim 
dcfvallida , c fcm amparo^ confinto efta vio- 
lência 9 efie actentado , e efta iojuria , até 
que «o teu valor, animado de tão altos efpi- 
jriíos faiba fegurar-me o thorno , que me ufur- 
p4 huma tyranna » para. qu^ ambos coní)ga« 
mos, ea a minha Coroa., etu aminhamão* 

Fâtt» Pois eu , Egeria , hei ^de fer Rei de Ita|ia? 

Egif^ Coidej que perguntavas fe havias, d« 
fer meu efpofo. .-^ 

Fdet. Sem o c^rafler de I^eí^ icu efpofo jponio 
poderei fcr^í ; . 

E%er. .Sim pciàêrias , pela violência \ con^ «c 
roc actrabe o .teu nome , t^. toa peflbi,;,-^ 
pois da minha p^tp cftá p amor, eftejã \^ 

. tua a fortuna. / *! 

fdct. E ^Axi,.^^t 9 tua fc dftabeleçi , drfcpr* 
ranpíoR o meio para a cot^feggifcsl ' / ' 

j^er. Não acho oucrQ noais effipaz que fer^sip 
homicida de ifmene, c eu dé Albano ^..p^ifa 



\ 'tpt defiiíitia jf«k feopfctW M^^ítetr de 

' fíêifétdtcct 6 Unrei' nai fuás «áBeças ; voh ex- 
imai iffim V èft»ik'Real , pút feífet me tf^ 

• dartimarfô Príntóéá hefcdiurít. 

' j4llí.;Mió fetâ hiéffiòi' qne^ '^Ibatia fiéaífeao 
ai^trio de mhlM#:)ra8 » è tíitobíè ao das tuas , 
1^ qaé isa itàfíídkié dot 'ffitoa ficatfe fem 
'"perigo k tehmçio^ 

Bgtr. Nio , pofia|kié ' fe nio ha de brcrtimir , .xpe 

jiQfiu mulKet naja de (cr homiéída dé tem 

liomem se alEm no maior dMifírtçe <t enicb* 

' .Virá omatòr^verieno : e pois iicfta qtmítt^ 

^^ finha aò Eridano yive^ElRei , aella te Qica- 
inioha aonde cfpero introdazir ce. Mayi aí . Eae^ 

^: totire , hiò feí fe- me fab^^correfpotâdf \ 

^Ti^tl Não fabej que a infidelidade nio cabe 
cm mfti peito } E fe me não acreditas , fede* 
me teftemunhas v6s Padre Erídano , yos ce- 
rúleas Ninfas , que neíTes pélagos habitais , de 
. que já mais ferci infiel a Egería ; e fc ofor, 
permltci qué (iqao as vofTaÉ aguis os fifcacs 
do meu deliíVo, / . 

^ger. Bafta, Factomc; mas Í5 te advirto , que 
has de fcr o homicida de Ifmene. 

JPãct. Para qné me lerhbra.7 cflá circumftancia í 

)E^tt^ Para que tfSo adies defculpa na.fua formofura. 

taii. A que eu 'ádorò hc objeíte lâo peregrino 
que, nio admine hofpedar-re em meu peito 
- outra qualquer belleza ; e affim a f!c Ifmctii 
nio poderá fer rètnora de meu impulfo. 

'J$f «r. Níáò me diíyaneças com âffeoadõs pe- 



Tatu Que mal entendes aonde fe dirigem os 
meus fufpiros ! í, faru Mas cambem adverte 
que has de (er homicida de Albano. 

'Egff. Para que me ratificas o que eu feí ? 

Tãtu NSo lei o para oue ; fó (ei que Alba- ^ 
no he Pfincipe , € poderofo \ e tu defvalida , 
« fem amparo.^ 

igtt. Sõ no teu braço feguro a minha fortuna* 

tÀ€U Pois , Eeería , a emprçnder. 

iMf. Pois , Faetonte , a confeguir : mas lem* 
bro-tc outra vez , que has de íer Monarca de 
Itália , e que Ifmene he farmofa ; cinge a 
,Çoioa nos olhos » para que fejas Cupid<> da 
túa ambição ^ e não do teu amor. 

Cánm Égnii , e Fsamc ajeguinu 

íger. Se acafo a formofura 

O golpe te íufpende. 

Na fufpensâo attende 

A' gloria do reinar. 
Fátt. A' copia , que idolatro 

Tributo extremo tal , 

8UC íõ no original 
;c poffo retratar, 
JBgcr. Oh peçoHo não fejas 

A tanta fé traidor ! 
FaeU Oh rogo-te que creias 

\ As veras defte amor. 
Ambos. Quei affedlo tão confiante 
^ . Mudável não féiá. 



?tó^ . firMpUío • , 

£gtn' Nâ^a <jtífc"<Sfiç' pomcttcf " •:* 

• Sòccgá X) íiMru cuidado : - 
FãH. O mea atTfbr prdftrado 

Fíd feifâ ébmtigo. ; 

jí^kâí. 1*018 vè conr fcgúrátnçâ * 

c ^ ^ ' No bem ^ qae' am«nr6 fod , ' ' 

A gloria que terá. • f^^^-fi JBt^^ - 

Dentr. Por aqui fof ; fe^t^ todos. v /. ' ' * 
JFM: Qài rumor fera e&éf Séà táo^let^^ 

-bcctricitr-itoe. -''■'■ ; ' '^ 

Efeondtje^ Fatúm€% e fáifé'Aiák com Mi 
lim HM m3ò'i à0t 49 icpúis d lémcirá A 
chão, efe dtfpi: ^ - ^ ^^- *• 

fiton. Aonde açKará refugio hum jnfeliz l Def- 
pojar-itne qoer^ cfãfta recopilada' tòefida , 'que 
inútil me não ampara; e para;c|]ue mais dif- 
farçado poíTa efcapar defte bárbaro furor , (era 
precifo mudar de trage ; e ainda que me prdl* 
dio ) dizendo que nao (ou quem bufcio , dei* 
xarei ao menos vacilante o feu inceiíto. Oh 
fciencíasjaté quando deixareis dd fer perfeguiddA ! 

Dentr. Vamos ao Eridano. 

Fiton. Oh tu frondofo Bofque ^ sè propicio re» 
fqgio de hum defgraçadb , occulcandò-me em 
teu verde labyrintho. Más quem cílà aqui í 
Ao bir efionder-fe , ertcomraje com FdttoMe^ 

Faet. Que vejo ! Tu não és Fiton ? 

Fiton. Faetonte, hepoffivél que reencontro? 

Fdet. Náo, te deixei em Theffalia ? 

Fiton. Sim ; mas como foúbe qué precipieaclt- 
mcore vinhas a ItaUa a bofcac o oirij^al da* 



ãe FmMíí' níy 

Ia copia , que cafuaknet^^e veíò , ás tuas mãos , 
foi prettfi) reguÍNce , para que te nÍo arruinar* 
fem os teus pcnfanientos. Oh nunca te eu 
diíTera que em Itália habitaivâ cflfa fotmofura ! 

Fm. Poid;já que eftamos em Itaíla , porque 
me não declaras quem - he eiía foberaaa bel* 
leza ? Para que me occulras o originai de tSo 
beliâ copia , quando vês que vagando por ef* 
as r^iões , venho louco .amante a ver fe 
enqomro o idolo , que adoro em fombras , e 
me abraza cm chatnmas? 

Fhott. Fáetonte 5 convém i tua confervação ó 
ignorares de quem he o retrato ^ pois tenho 
alcançado pelas minhas fciencía$ Magicas , e 
Aftrologicas , que o original dcda copia ha de 
fer t cau& do teu precipicio -, e fe longe do 
perigo te recatei o dizer^to , agora que eftás 
perto ^ damno , como to poderei declarara 

Fm. Como ? Defta fórçe : arrancando-te do pei- 
to o coração, já que nSo poflb o fegredo, 
que me occultas. 

Luta Faetonte com Fiton. 

Fium. Louco mancebo , que fazes \ 

2>eif/r. Cercai rodos effe bofque. .-» * 

Fiton. Eípera , não queiras, que ambos aqtfi 
pereçamos 9 pois fei que câa tropel vempa* 
ra- nos prender. Com efte engano eftorvarei 
Q feu furor. , â parte. 

Fdet. Deixo-te 'coni vida , para em melhor oc- 
cafião^ fáber a caufa de meu precipício: anda* 

FÍ9Qn. Vamos, que por mais que to^ clBpenhes , 
o não bas de íabcr. T^í-Je. S^«^ 



Sée 'Gbiéiàeo. ^ f'!^^> 
tífiA^ Ord foa bem afnoMUu-iiio cnduTit»*' 

Spnha ^' ív disser; qoe y^otu co palltiiftní» 
Q derde .TheíTalb^asé^qaiacrftZ' deboorbifí*, 
CO 9 00 de humi Faetodce , que tcHló'heV^ 
oiefino ! £ o peior he qa6 mé défencMWf 
dclle , e ando perdido pelo moçp !' Qjmt tá 
de fazer o pobre Chichiri>eo, poftono ccih 
iro. de Itália , fcm. /aber a^ai aonde«;^cai 
caTa^ Iftçaiédas, t( o qtn maia he, feiííifW 
tríni ? O que me vai ha ffer ca Chichljibcfõ ^ 
quQrtercí . entrada fràncaòtm roda i' ça(A )iil * 
A)4<wHc^.íflo que &Ut cAá^í' Ora vcjámOíS oh» 
he^ hu9^ veftído qae cfiá. dcfpidb ; «^'.fabta 
Deo> qoe já efte mea x;ftavà por hoo* fot 
ie me- chegará ? Vejamos : bello! |iiflàiDen> 
te! Al£;um^ útm algebíbifta fe compadeceo 
da minha piranguíce. . Olá , temos mais bom 
livro? Náo ha duvida , he livro ; e he de 
razão que o veja : ora bem dizem, que ,cm 
- Itália nafcem os livros , coma nafccm as mal- 
vas : vejamos fe achamos nelle alguma cou« 
fa , pois dizem que tudo fe acha noslívrof. 
jíffentáfe , e come^ ajolhtar o livro^ Abra* 
B>os , .e vejamos o que contem ; Libet afthh 
hmagiio: Irra T Magico! Pafla iõra: vejâo 
lá que matéria úo peçonhenta contém o lat 
Ijvrinho ! Libera me ! Ora ainda aíEm ;, Tal* 
va a confcíencia , vamos vendo o 'Jndix rr* 
Inm notabilium. Capítulo primeiro , «le fipMO' 
mU , (jnod eft nárjgomm conjrontatio : tfto 
b9;de íer galanfie. dapitolo feguodo i^ de iVí- 



{rromantid ; ifto bc couía jàf^ negros ! nej^n 
ciência he ellâ ! £u náo quero ver mais , quç 
fc me vão .arrimando os cabe)Ios. 
y^ao fabindo por detrás de Cèichisheo Mecenas ^ 
li r. e-. 0$: Soldadas. \^ 

Jiíecen. Aquellq; fistn.^uvida he^o Nigroiranríco 
..x]ue bufcamos ). vamos deí;q[)9nfô, e levemo- 
-lo i^rezo» com rofto tapsidòi pÁ^^ qae Hos 
-jinão offemla icom algum encanto».' .-; 

Cbkb^E o diabinho noo ejftà dizendo que ior« 
* rxK outra vez , a abrir o livro : íõa ce^caçs^ | 
•'.nía fei fe còníinra nclía. ; - ' i ; -> 

Chegão os Soldados ^ tofãoo rofio. a CbkbiJ^ 

beoy.e o vao If^^ndo, 
Jlíeeen. Leven)*no .deprçfíf , 



i^ 



Cbicb. Eu o díflevá! JÈ^ite , encantadoras , qúe 
: me quereis i Hwtúc rçcheis os olhos <| que ain« 
. da náo eAou^para morier. . { 

Mècen. G^VuGríe^ 4bís levent 'também dTelivro^' 
Cbicb. Deftà ninguém fe livra, 
: Mecen. Vamos , vamos^ í 
Cbicb. PâtSL ondç? Para o inferno i 
Mecen, Lá o yeiá. - . ;, 

Cbiçb. Là o nrei) f<i mcdeiUparem os oljbot; 



\: .: 



Jm.21. hi '^^^V 



'^V ;"íi^cENÍ:tt. ■■/'■■■■ 

jf/^^/l. r\ Uarvk» , *6 b««a Aurora , has àt 

^^ amaniieGcir riibtlhá , t aiegre m hoÉl 

Àoremofo aUMifitt ; para que mac 

^ elidas '4ej Kineae f« acabem a6 «línbta elpcr 
ranças \ Mas que difU Egería «Ia minha in- 

*' Uracidio > Razia toai ;* fui4lie Ingraco ; vog 

K ^coLii0|J(xMa não fcr , fe amor , e an^ifão ven- 
cerão a minha conftanciat fehe quc«raa»(« 

' xUneía , conftancia qtK fr iiuidoQ 3 
• J^lbe Egeriâ. 

Eger. Dizcm-me , Albano , que d mão de Ifr 

' mene te fubtlma hoj$* Ho ckfono de iuUa.^ è 
affiti como mais imereiiada rios teus trixMrfos 
venho a dar*te os parabéns de tanta fortnna. 

AthM. Qae has de rcfponder ^ ingrato cora- 
ção ? i ^birtf* 

JS^er. Quem já poderá ccflítít a teu poder ? Sc 
aos dominíos de Líguria une« as jproviíicias 
do Eridano , que inimigo te podefa roíiftir ! 
Como ferio copioTos os teus exércitos ! Tra« 
ta de erigir templos à tua fortuna , e altares 
à tua bella efpofa , por não feres ingrato ; 
porque a ingratidão , ó Albano , he huma 
mancha , que deslufbra o peito mais fobcrano» 

albano. Bem entendo a Egería ; vou-me fem 

refponder-lhe. â parte. Q^r ir-Je. 

J^er. Que he ido ? Te vãs fem refponder-me í 

Já te deívanecc o íuiut^ à<ivcivci\^ *. Ç^^^ira ao 



r mfetiój', jji» para o jrelpeiio çlitadíi^qM fSkí 
defvalída , (ou filha de Tirrena^^- Monaroi 
qwe foi dtífe 4legíáaí r c- , .: :^ ;.:;.« ,, ,jV 

jjlban. £geria , em mim nio. Ike^deÊUeDçSo 
êfte r edN>-; ti«k:6iÁp;ide»>iHmr da roa àcíffoç^ 

Eger. Bem o moftras , fome^nda a itilttfaa^ mi- 
na , pur cnthronizar hupia tyrámMi; diáò ,. IkW 
mco 5 não pfoAMtielke' ^ef^nd^rc i; millj^ 
tnftiçi , ò6 to' mè(UÍ8 £Kurr-roe 'I^lMè^ 

■ Lígurid ?' ' • ' ' • ' ■■•> «f "'"* ' 

Jlhan. Affim-be; nMtiil0 feife tck]igii<)M('«; 

J^ef. Que iHfs dè^Uiacr ^ -ingitait^ ji &jba^ que 
já tiio' neeeiCtó' dó^ifètís favorei', poi» slfue* 
dádè de AbifiJ^Mtm fez;Nili£i'dõ^Brídâ^ 
aonde etpérõ ^t^uhht de hum cvi^MUto , qw 
me uforpa aCõroà, e de hum hdfi» am«Me , 

Sue crnet' mé oflfeiide. ' - :. . jj 

/ff». Pots-ii Eger») fe já ccmiOiDeidade lé 
yls jniinéíica&teiklo I nio necióffifarás d6 Mfu$ 
atixiRos. ^' :..«■■■.! '.v"Í 

JBger. Mas m nèeeffiiariís de minhas piedàdei; 

Alban. £u de mas piedades > De ^e fónoi,' ^. 
Sâbf Mtãid rpMgH.*' "^ 

J?eí. Albano;'^ aqui fe mc^avira- que Fkeil) 
'áqueilecékbre Magico de Theflalia^ fe acha 
ikfta Provtrtcia i dei ordem - qiue: mo tttntíitk 
fem de quâli^r parte onde eAeji, parar que 

^ délle faibft 08 oeeuttoefegfedos» q«elmpoRio 
k mínhe Céiòá ; para que afltm eòm Wais 
foeego poflTa eompteterio teui Bfmeniè. 

jílbdn. O wtí preceim^', fi^enk^ i \x% ^ trfjè!cv> 

A» ii ^«^ 



Mfeimu 'A' Hisk» túo. ^'kfMn- 'o fotúhl :> 
Chub, M.15 podii «lerinihtr:ifb , que me h> 

.cede de -prçimie. i ^;. . 
jfíbML Senprot foi jJnii(irío :4Íos Ixunent doatof 

negarem o que fabem, . - 

£0L Hà V '>imior homent d» UcmJo ! '. • . ' ^ 
CEitté. O oarni lic ^-cjue d pomo eftá «m dize- 
rem que hum homem he fibio, que kíot* 
ça o ha de Ter, «inda que (ejsL hum padaça 
<' d'aTno. , á pârL 

JBei. Fícon , tem entendido «|ue cftou fcdèan* 
.temente capacitado de qaem ^; e M&i ít- 
: berát -que ha rres noites que em fonbfltfe 

- anc TcpfidícsiKa , que hu**) inaacebo , filho do 
.' Soi , habita occulto «m Itália ; tománt toe de- 

clirifr:s aonJe eifó , para qye como fittio de 
Apotto Iht confa^re os calcos -que te lhe devem. 

i^/r. Fi^ho do Sol ! Qiicm feri ? á pOfU. 

Cbicb. iíi% eftámaito bem ; mas (t eu oia fou 
adevinháo , como podo dizer aonde eftã ef* 

- Ife fení^òr filbo do SoM i& demais , Senhor, 

Jue renho fiara mim que íflo foi foaho. 
. Amda ^mifn , be táo repetida efia viaSo , 
que me perAiade n6oíer errb dafamafia* . 
Orch, Pois , Senhor , nio he etio coaíitfiino 
encsnder que o Solfem filhou Bem feí qna 

Eela x^ffx do Súl , Solide mugil , que o Kol 
e maioulioo , e nem por iflo fe íegae , que 
tenha filho , porque Ati$fã , Mi$fd , kt fe- 
ininino , c com tudo at Maias sio caftu : 
jngo 8cc. não fci fe me cicplico ? 
éRif\ ik ião bexMm; vtta eantadido que im^ 

"^bsn^ 



ãecJPámme. '^ 

hâf de i^áizefo aliás fe ^aI>ar4:;jÇ0ltí t ma. vi- 
da a tua fcicncia, Jl^êhfi» 

Albãfi. Homem , vè ta em . çfat xt omucs ii^ 
de fazer a vontade a ElRei»/ . V^Je» 

Cbicb. Ha femelhante tmatadura ! Qi^ei dua 
Mageftade á for(a que • eii^ (eja IcifictHfd i E 

. dado cafo que o tosa ^ . cu. pof ventilra*. ibu 
cáarod^ doe çtí2jPt^àf>9 fui Uhet àmfíhos 
alheios ? Ah 5enl^,^ Vofíi SenhQ^íii,defeMí|ny 
oe a EiRei » que em rila dar A<í»giea ^tíã^ifei 
por onde elía corre, 

M^cen. Fiton , acho que eífo repetida* Mglr 
çlò he já iníprudefKJ» : to4#8' fabcmo^ .4^<m 
és ; e pois a force le <ondu9BÍo.ai efle Paiz , 
a tua fciencia M .de íer o meio da noiTa rran- 
quiUidade ; porque Egeria ^ efiar f riiDcexa ^u6 
vès y vivo efppli^da do dwòino de ie« |piW^f#- 
laa víolçtv?ia$; cklRei^ qne imcnca cntIvQiMzar 
a filha, caCaíiidò-a com Albano Piiiuripe de 
Ligaria. $ mas iftohe efcitfado dJzer-to», fois 
tu comor. Magico a. n2o haft: dè ignorar. . 

Oncb^ Não me dígai joada ^ eotaa- verá St eu 
fei alguma coufa. 

.Ç^. Queimairas,: Mtfceads^ 

Mtctn. Commwicat a Fitti» os noITos imenros , 

Sra que poflâmos tdon&a > ainda ^«etfeja 
agicamentè* : 
J£g€r. E tens a cetteza que todos os Mágicos 

são fieis , e leaes? ( 

Meéen. Não ; mas como*. eHes ttidtr aficançSo pe- 
la fua fciencia j não ignoraiá .Ck pisão que 
temos celebrado d^ idm&t^U. ^ v»»cw^ ^^ 



^ PncipFrío' 

*í'tca (>irf'ieòttf'*â fortuna de /âr'eu teu cf*' 

poíó. 
EgeK Pò\i'^ Fitoa , fe a ' tua fcieocia tuda ai** 
'- can^a , pcço-te qae a empenhes coda ^ para 

2ue coiníiga a Coroa, qtic meufurpa a am^i 
içáo ^delllci meu • tio : favorece os intento» 
^: 'de Mecenas ;' pòls oonfegaindo. a fortuna , que 

- efpcro' ,' tõ prortirtto fe«. agradecida. Vãi^fe. 
Çbkbi Senhor Mecenas , com quem efteve hU 
^'Uando agora aquella, Senhora Egeria , que pot 

nome náo perca ? 
Mecitt» ■ Cofntigo. ' 

Cbicb. Comigo ? hc bôa teimai Pois acha Ver- 
. fa Senhoria -que fe eu pudera dar Coroaa » 

- que as nio tomara para mim , por não efiac 
■ às''Ordens de ninguém ? 

Jií^cem Deixa loucuras : bem vès o empenho, 
em' que eftou de coroar a Egeria -, patrocina 
os meus deíisinios , que do feu bom exíco pen- 
de toda a minha fortuna; pois icconfeíTo, Fi- 
ton , que ardo em hum vivo incêndio de amor » 
ecé^o intento emprendcr porEgetia as maio* 
rés diíRculdades. 

Chicb. Ahi vai parar tudo: jii me a mim ad^ 
míravi que o trampofo do rapaz não havia 
mecter a fua colherada ! 

Cama Mecenas a fegmntt 

A R I A. 

Naquclía Deidade 
Galharda , que vifte 3 
. Coníifte 
Dí minha vetvtsitx 



de FâttoOk: i;rt 

Se a f6rtc m« nega : - " . a - 
iPortuna tio bctla 9 

Scin cUa y ^ -^ ^ 

Scmí dc/gNiçido , 

Serei infeliz. ^irf/e. 

■ • ' . :.v 
Ob/Vi&. Ifto já vai de foz em fóra ; eu emei)d« 
que ifto he realidade pura, e não Magica ;lo- 
nhada ; c o peior he. que eu íou d x]ue iiçokia 
oração , e cuidão que fou Magico ! Em. oe* 
gra hora apanhei o cal viftido , e o tal livri- 
nho! Mas aindf^ilim} devo muito a tod«s; 
pois hmn me defcobre o feu peito , outro 
me vomita o feu bucho ; c eu com tanta 
coufa eftou para rebentar. : (,: 

Sâbtm iMonu , t Fxtm. 

Fatt. Ainda nSo- creio que me veja habitar em 
palácios: quanto meaçradUo eftes mármores ! . 
Quanto me recreia efta magnificência 1^ Parei' 
ce que neftas altas torres habítão ' os meus 
pcnfamcntos ; neftes edfficíos fe eleváo o« 
meus cfpiritos! Eftes póttidos' sáo poUidos c€- 

" pethosdr minha ambição 4 eftas columnastaN 
vez fe erigirão pam netlas fe coUocarem suí 
meus triunfos ! 

Titon. Nãa gaftes o.tempo em aéreos penfametl- 
tos , quando fabes que és filho de hum Paftor. 

Faeu lambem Apolio foi Paftof de Admeto : 
nada me injurias com ido. 

fiton. Oh quem pudeib^ declarar-te quemvifrí l 
Reprinac-iflc génio •, náõ bvác^aLt^ tíS^ ^^'^'i 



i 



f^ PHcificio ^ 

corho-te a recommcndar ; pois mal f abes arot« 
,. na que te cfpera , . Faêtònce» 
Cbicb. Faecontc Í\Ílt ? Ai que aÚi -eftá meo 

amo ! Pois por vid^ nUaha que hei de magí« 
; \caccom ellc. 

FãH. }á que me não queres dizer o que te per- 
^ gumo y recorrerei a. outro Magico» 'que me 
' diile agora Egeru habitava em Palácio » e el« 

le nie informará^ quem .he o adorado enigma 

que adoro : mas aquelie hc^ irguudo os & 

.naes que me deu Egeria. 
Cbf^« Elle comigo. \ 
fatti O' tu fabio potcento da N^romaficía , 

compadece-te de hum peregrino y.que inflam* 

mado de amor procura o original, de huBU 

cópia , que 

Chich. Que acheftè cm ThèíTalia que te diíTc- 

fio eftava em Itália^ que vens em cata dei* 
; la ; hio h;ifto , Faetontc ? 
JFãit. Que ouço ! Nada ignoca : Fiton , que te 
. parece í 

Flton. Quaíi que me confundo. 
afile^ Pois dizcmcj de quem he eftc retrato? 

Aíoftrd o retrato. 
Onicb. FiAoAmHs \ queres que to diga 2 Mas ao 

depois talvez , que te arrependas, 
Uton. Não lho digas , fe achas que lhe |>óde 
. fucc?der algum damno. 
Fset. Dcixa*me cruel; que damnò p6dc cauíàt 

a formofura ? 
Omhr Que damno ? Muito grande ; porque ba 

fotmoíuras damnaçtas : olha 9 huma amlber lor- 

mo» 



it Fãnmlli. ^9 

Hfort por fyxçt ha de fex prefumidâ ; dapi^» 
fumpçaò 7ègue-re o fcr tblla ; da toUice o fa* 
ztr aíneiras ; das afneíraá o dar couces ; quem dá ' 
couces, tem macadarasiicom que Senhor^ 
quem albardar huma formofura , ha de aturar 
o fer raivofa , zelofâ , comichofa , pedincho* 
na , defvaDecídajL-poia fe. tiver accidcmes da 
madre , ainda $ão .ouorof quinhentos, 

Faet. Se tudo iflo sáo cffeitos da formofura $ 
nada temo , tendo tio foberana caúfa \ dizer 
me, não mecenfias íoipenfo. 

Cbicb. Com efleíto queres que te diga de quem 
hc o retrato ? 

íã€t. Dize. 

Cbicb. Áo depois não te arrependas^ 

Fãet. Dize , que me nio hei de arrepender ; de 

; quem lie^ ' . / ' 

Chich. He de boina mulher* 

Faet. Mas que mulher he ^eíTa , e aonde eflfc \ 

Cbicb» .Cíbi: pinuda erh cobre , nãp a vè ? ' 

Faet. líTo he a pintura. 

Cbicb. Sim , a piauira ; pois que pergunta yof« 
fa mercê ? 

Faet. De quem hé o retrato ? , 

Cbicb. Fareoe-mç que he de Apèlles ; ou eo 
me enganarei. 

An« )á me deféíperas : dize-ihe ,.e defengana* 
nie p, qual he p original dcfte retrato ^ 

Cbub^JíSo he outra coufa : ^ tpc renrato ; e pa« 
ra lho dizer com mais certeza ^ deize-mç ver 
tiof mein ialfairabíoié ' 



ç8p .Prmfkio' 

Tolbianão Chicbisbeò o livro , citmã ifeeumtc 

7. ■ -A R -l. Ju.. •;.:;.-■ 

Vagos eípiritoa 

Do negro Cocito 

Refpondci-mc já 
ÍV-: Por magica , megicâ , migíca ,' 

Quem he de Faecontc 

A bcUà Frcgona <'■- ' ' 

Seu pai, feu av6, ' 

Quem he , quem feri? > ' 
f ' Qu« â ^ría fomcnre > 

Do abyfmo fervente ^ 

. De homa mulher 

Saber poderá. 

£iton. Senhor, agora reparo, aquelle heotnea 
livro , e o meu veftido : cfte homem ■ dcvt 
■ fér àl^um velhaco. 
Faet, Affim me parece ; ]k fei que cfi humfin* 

gido ignorante. 
Cfi ícfr- Sabes mais do que cu. - 

Fiton. Quem te deu elTc livro. 
Chich. Ninguém porque o achei. 
faet: Pois como ínfolente , me pretendias 

enganar ? 

Cbicb, Venha cá ; tão louquinho eftà , que tnt 

não conhece ? Não vè que íou Chichisbeo í 

Faet. Agora reparo : Chichisbeo , he ipoifivel 

. que te vejo ? 

Cí^ich. O verme he o menos , que iílo fará quem 

mo for cego : g aLcVai-m^ ^wí^v?j«í he o 

mais. ^^"^ 



ÍJif.7C«m9vJbc:iflb? Corttá-ttioi : - > ^ .Ir ;j 

CÍ&Í46.. PepQjs que de ThcíTalía: partimos wás 
^' .ori gí (lai daíquelle rotldíto rjetrato ,. ch«gà« 

;.ri9>f|s t^-^^ '«- quapd^lfo^ duas Ipalhetadas , 
embrenhandor^ vofla incccè pelos bofques do 
Eridano, o perdi de \\R.9,\i íem que á íot09, 

/^•*<k (diligencia : o podefle defencovar : Qafta fofi* 
frogicídade andava , quando palavras nao.erão 
dicas ,. Iorque eu não dizia palavra.; eis-quft 
acho efte. veftidpj e.;^fte livró > eis-que ape- 
nas eu o abri ; eis-que mê prendem , e tnc 
prefentão a ElRei empeíToa., aíHraiandp ^ 
que cu era Fiton , aquelle Magico de Thef- 

, íalia , que ep nunca vi^:e Por roais qu6 mi 
defempulhei , não foi poílivel ciraf^ihe dos caf- 
C03 que eu. era Fiton/: ! r. "»^ 

JFHon. Mais fcguro eftoq; .agora disfarçado trtx 
Chichisbcb. Á part^ 

Fdet. ]á (me iens,eilii fortuna, vai vivendo com 
o tempo. 

Chich. Idot íim ;^)nas fe me pedirem que fx* 

?:a alj^úmt magica , como na de fer fe eu* 
. ou defazidp ip^ra i&o ile- paéVo&. 
Fiton. Não tenha ínedo diSo ^ que fará quan- 
to i]uíier, ,^ : • ; ; ^ .* 
Cbicb, Ah Senhor, queoaihe efte Japuz, que 

tambcR) (t qoer metcer em reftear nugicaí. 
FMé H« hum criado* que tomei na ^ud falta. 
Cbich; Pois vofeè me legura .que hei de fa- 
zer ^magicfisP » . 
Fhàn. Parece-me que íim ^ que <]itiHn cen»' c(b 
livro í»Z::msím9 quer; j . ..^.^ 

■ • ■ ■ Qov^ » 



?8x '"Pmiffih- 

Cbicb. Com tuda ifío náo he poftv^riifevMlHílr 
! quem he hum filhd do Sol , aâd em Itália 

; babica ; e diz EtRei que lho Ml de dfêer, 
porque elle ò foithoá , t que fénSa, Hhe ha 
de fioparar a alma^do corpOk 

Jíin: Filho do Sol? 

J^ton. Como fc altera Faetotice! ipâru 

Faet. ChicKisbep , em co(io*o cáfo m fcas de 
di^er a ElRei que eu íbu o (itiio do Sol, 
para com eíTe pretexto co^eur as minhas 

* idcas. • ■■'"' ' ' : ' 

fUon. Ai de mim , que Faetente- procura a fua 
ruína ! i part. 

Cbicb. E fe depois apparecer o verdadeiro filho 

. do Sol , e me apanharem na niencira ? 

Faet. Nunca tal fuccederà , porque nSo ha filho 
do Sol 5 e fe o ha ferei cu 9 pelo elevado 
efpírito , que me anima. 

Cbieh. Se voíTa mercê tivera os cabellos louros 9 
ainda , ainda. 

Jfíton. Que inicatas ? Não fabes , que he facri- 
légio appropriar-tc a ti a di^nídadi^ ' d^ filho do 
Sol y eque ApoUo irritado pode caftigar-te , e a 
quem para ifTo concorrer? 

Chich. He verdade que eu fou o cotKurrente: 
não temos nada ffritOt 

JFaet. Deixa-me , infame eftorvo de minhas fe- 
licidades : que tens tu que me arruine ? Ho« 
mem, dize que eu fou o filho do Sok 
0)ub. Se es hum filho das ervas , como que* 
iCi fer filho do Sol > 

Iket. Advercc , c^uc tCviS.^ vt ^^<* ^^ ^«dc 



ie Faeiome. %%% 

"ízrm ; porque tn , ou has de dizer quemlitv 
. í o filho do . Sol 9 ou ce hão de maçar* 
(3hich. EiTa razSo concluio-me r^vóíTa «croè liÉ 

o filho do Sol , c tenho dko : CoH(ftitm ir 

úUumSolis. r . ;^> 

Ftton. Oh violento poder dos fados ! Quei»po« 

de reíiiUr a tens impérios ? á.fêxh 

Fâ€t. Ná« ftbes quanto efiirao efta ocdrfião , 

para que aflim poíía frequentar fem perijgo *ef- 

te palácio , e fervir aos defigoiòs de Egeria^^ 

huma Princeza, • . « 
Chich. Sim, Senhor ^ huma Prinçéza filha de quem 

Deos tem efDoriada dochrotK) ^ não he aíHm } 
FáiU Muitor faDes. ' > 

Chid)^ Não v que fou Magico l Pois aiodai 

fei mais. 
Faet.Dizt. ' 

Chicb. Não poflò , t]ue efiá Jàb: figillo mágicalL 
Fãeu Na4^ |ne importa faber mais que. obel^' 

lo original defte retrato^ pois quanto interno , 

he para ver fe deícubro efle encanto de amon 
Cotiji latMttt dJ^Mintt 

Nas pupillas de meus olhos ^ 

O meu bem hei de bufcar , • ; 

E verei fe poflò achar. 

Entra a cópia de meu-mnto .; 

Dcfta cópia o exeniplar.V 

Sete encontro, objedo amado ^ ' v 
Acharás nefta alma amançé 
,Hnm morrer a i:ada ínfianMj 
ftium. viver mn te tàíàivi^ aV^ \^*^ 



^84 .i^itipích 

^ton^ Vake errado mancebo , que aIgM»r<Iu 
le pezarà do engano que intentas fabricar, á f. 

'Mtoní'^9 diz-?;^ • ' ■ . .i 

Cbicb. Não diga a ninguém que eu fow.Magí* 
►cw^ :entendcò-mc ? 

J$ítt)i9.'Bein entendo; mas. eu farei còm que te 
« cfenhão p6r Magico ,exerdtando na toa peíloa 
-j ovados encanros , para que fiquem na certeza , 
c.de Que caai^ítoQ , que buícão ^ e^ eu Uvre 
de cnegar às mios delReí. Foi ftn 

\. ■ >! : Sabe Chirínola.^ 

Úfirin. Venho Pc antepé a ver c&é Magico , que 

.'tèm alvoraçado iodo èfte palácio, e he cou? 

fa que nunca vi em minha vida. 
Chicb. Que eftarâ efpreicando aquella moça ? O' 

menina , procura alguma coufa ? 
Chirin. Vinha a ver hum Magico, que eftá cm 

palácio. 
Chichi E para que? 

Chirin.Sò por ver como he a cara de hum feiticeiro. 
Chie. He como efta que voíla mercê èftá vendo. 
Cbirin. Pois voíTa mercê mefmo he o feiticeiro ? 
Cbicb. Para íervir ao diabo , c a voíTa mercê, 

que tudo hc Jium. 
Cbirin, Ai , difs;uc-(e para lá que fe me arre^ 

pião os cabellos! 
0)icb. De que te affuftas ? Que cuidas tu , que 

he íer Magico ? 
Úfirin. Coni licença/ de voíTa tnercè , dizcnj 



CtM. ;Eíbs. tio outros , aue eu ca nSo fallo 

com o diabo , o diabo ne que falia comigo» 
Cbirin. Iflfo. ttido vem a fer o mefmo. 
Cbicb. E t ti que fe re dà diíTo ? Tomaras m ^ 
. ^Dc hum M^ico delTes te amafíe^ então ve- 
. :ri«8« • • . . Qâo digo tiada. 
Cbirin. Deos "me livre } 
Ctliib^ Queres tu que eu fejt teu Chíchi8beo^ 

Zombaria fóra. 
OAíiU Para que ^ Não jure*, que bem lho creio*: 
Cbkb.' Hei de fer o mais fino ChichisbeOj que 

(ha-^e haver. em coda a Italia« 
Cbirin* Vá-fe dahi , que he Jium feiticeiro. 
Cbfcb^ Feiticeira és tu , que me tens enfeitiçado* 
Cbirin^, Só de huma forte me poderá render. 
Cbicb. Como?. 

CbkiH. Renunqando o pa<íb, e depondo a Magícaé 
Cbitb. St hítfi^' çonCtíte , já renuncio, não fó 
.Í.Q paélo y.mas tudo que te pofla dar pena; 

pois fó quero , que voe o ineu amor á ef- 

téra dos teus olhos. 
C^ffffif. Eflamos/ judos ; porém veja lá o que 

faz: ag^ra o apurarei, i piír^ Oradíze, co- 
.010. me chamo eu ? 

Cbicb. Se eu já não fou feiticeiro , como poflo 
r :tdevinhar o teu nome i Eftá galante a Chírinola! 
Cbirin. Não temos nada feito; va-fcdahÍ3 que 
'; 4inda he quem de antes era. 
Cbich. Porque ? . 

Cbirin. DiíTe^lhc que me adevinhaíTe o nome^ 

e mo efcarrou na bochecha 
Cbicb. Eu o teu ngmc i De que forte i 

Sm. IL Bb QhU 



^S6 Pncipitío 

Cbirifi. Não difle Chirínola ^ Qae vkA tmià 

de dizer í itio* 

C*/ffc. Poil to te chamas Chiriiiolâ> 
Chirin. Sim, Senhor, faça-fe de- novas. -^i 
0}ich. O' Chirinola 3 emchíríndla meiohiae«U| 
fc cu fabía que tu te chamavas Chiriaola. 
Chirin. Pois para que diíTe Ghirmofa ? ■• *^ 
Chicb. Nunca fe vío hum Upffis nomihis-^ Sé 

havia de dizer charamella , diíTe ckiiiiAiá* 

Cbirin. Òn fldmttto a defcttlpa , mas nío llic^ 

fucceda outra. » •'.'■■/ 

Cbicb. Qual outra ^ Eu qoero mais enctnrb, 

i]ue ' e^à bélleza , '- nem ma'8 tdèvihhar* qod 

os teus pemfamemos , nem mais paâo^'4p^ 

effè Cyfne de. Vénus , de cuids azas fotmòà 

Cupido as Tuas , de cujas penas avmod ai/<A;^ 

ias para féfrir , e para voar ? Tco ChicM^o 

hei de fer , e fô o não for , náb fcja embora; 

Chrrin. Vcjaí lá o t]be diz , olhe bem paca mim. 

Ckicb. Tenho dito. 

Immediâtarrteme lhe crefce o nâtlz a CbtdisbtB 
com desjormidáde^, 

Cbirin. Ahi que nariz ! Ifto atura-fe ? Ha ho- 

méih mai5 mentirofo ? 
Oíkh. Que fiz eu ? Que nariz ? Explicate nío 

fallís pelos narizes. 
Cmin. Como queres que creia , fe ao mef* 

0)0 tempo , que dizes não hás de fer Magi* 

CO, facas por hum nariz tamanho -oomo ho* 
'' iff , e. á manhã? 
Qdçb^ He verdade ! Crefceo-me o nariz íHà 



de Fánom* 18? 

: cafo igualJ Oh Chirinola , efte nSo.he o meú 
tiAriz , e niftp podes aíTencar. 

0}irín. V^-fefUhí» embufteiro, Magico , feiticeiro; 

Cib/(6. Filha do meu. coração , eU eftou innocen- 
te ; verdade he qoe me rebentou efte nariz 
á áor da cara , mas eu não concorri para iíTo» 

Chirin. Não ? Fui cu ? 

Chicb. Vê tu não feja iflo algum IcicenJíoV 

Cbiririf He nariz em nariz. 

Cbkb. Tu tens razão ;he fone penca! 

Chirin. Arre là ! com nariz mais da marca > If- 
fo não fe atura: ande, vá«fe3 ^"^^ 94? '^ 
chegue r^os narizes, ^ , r 

Canta 0irinolá a fcguitíte * 

Se quer adprat«me 9 

Pa Magica Aija ; 

S^ qqer defprezar-me , 

Fará o que quizer. ; 

Qué he muito fenhor v " 

Do Senhor feu nariz. 

Bem fabe não goftp ■■' 
Pft feitiçarias , 
Que sãp rapazias , 
Que eftalão num trás, 
E eftão pojT hiini triz, Vãt-fe. 

Cbicb. Vio-fe náríz mais intrbmetido do que 
efte inea ! E que por amor , delle vá Chiri* 
noiá ventandb por ahi f<^ra ! Ifto deve fer <;on- 
tagio do tal livrinho :. arre com tal i\ax\x^ 
Mês aonde cBÁ elle ?,£fc<wide*k-\b% ^ tvwvt.^^^v^- 



^68 PMdfkh 

^- inio-re> SSeM i1uvi4a fyi onátíz ãxá^^ãtQú* 
riiiola 4 pcdíMhe bom qaarccli/^mis tu- voa 
a pcdir«Uíe as (dvíçatas i 6Cliirfaiolt.y c6eitt| 
qot jáí' êftM 4efnar)gado. ^^»í^ 

. -.," ^$x: EN A!fin. • "-..n^ 

Cfmer4 ^í-rfpi.ate haverá bitm kbfeíe^ ^ f^ 
efiihiêmd vífU àccèfd i é bãveri imiV ,lmfM( 
Cadeira, J^Aem Ifinaie , ^jítbmo p 1 0éwM 
paJfarA do bâfUdor. . ,. ;. 

i/jfmefi; 1^ Afta até aqui ^ Albano.' ' 

^mrn. He eftilo do dec6m ^ e da^^licicá poc 
limites á entrada dos efporps , aonde habirSo 
as efpofas ; e aflim ja (abes que aqui nio 
podes eftar j e hc prccifo Vctirar-cc, 

Albán. Poderia fe o doíIo hymenèo voara mtis 
acelerado. 

Ifmen. NSo bafta a cercexa da pode pára fuavi» 
zar o martyrio da efpcrança ? 

Albân. Não , Ifmene , que toda a poíTe he da- 
vidofa , que tem a eíperança por fiadora* 

Jfmtn. Quando eu » e ElRei a abonamos ^ fe- 
Ruro podes eftar. 

jllban. Pois Senhora , já que não tenho licen* 

Í;a para me dilatar , nefte papel veras a cao- 
a de meu tormento. 
Vãt4e Albano^ dando bum papel a Ifmene, e 
éftaajfemafe a Mio , e fàe ao bà^idor JSff- 
' ri'd,' e Faetome eom bítm pmhãl na mão , 
f ifmene eftará & Jàr^ y ^z. Ifet uo veja 



de Faemte: ^89 

JEger. Chegou o xcmpo da noila vingança ; altí 
cens a límene ; a occafião hcopportuna, ef* 
grime o yaleroíb braço , pois para te coroa-/ 
^ ires tieceffirás ^a purpura daquelle fanguc. Vai-fe^ 

Fáet* t.EStoxjL immovel 9 pois^4>arece efpecíe de 
cobardia marar~ huma momer. 

j^nun. Enigmas me pareceín as cifras de Alba- 
no^quero repctiUas para as comprehendcr melhor. 

tãét. Mas em que reparo, fe muitas vezes a 
cjrjrannia he o primeiro dagráo para fubír ao 
mrono ? '^ 

Ifmen. Senhora , ( diz Albano aqui ) cfte cxcef- 
fo cblRei em procurar o íilho do Sol me per- 
fuade , que achando-o i quererá dar-lhe a glo- 
ria de teu efpofo » para divinizar com hum fi- 
lho de ApoUo a fua defcendencia. Quem fera ef- 
te filho do Sol > 

^0^. Não pareça a dilação cobardia; triuiife Egeria. 

Jfwim, Diz mais : E temo , Senhora , que ef- 
te ôHui. do^-Sol , ufurpando me a foi^una de 
teu Hymenèo 3 feja inftrumento da minha mor- 
te, tirando-me a vida. 

Fdit. Morre, infeliz SâbCm 

Ao bir levantar o braço fará ferir ^ Ifmene , 
a vê 9 erfe fufpende , e tila fe levanta. 

Ifmen. Aí de mim ! Como , traidor , alfím. • ; 

Féiet. Que he o que vejo ! Nâo he efte o bel- 
Ib original da copta que adorp ? Immovel 
^ftoa! Deixa cahir o punhal. 

Jfmen. Olá , acudi , que hum traidor. • . 

Faeti Sufpçnde a voz, Ifmene; não digas traí-^ 

. ' doir 3 amante íim. 



)9D Pmdfhh 

Ífneff. Com ham pofahaL^f;;. > ' ' \/ 

*âeu Achou t òcçultâ caofa defeu iticttnáiBu 
íMoiv Imenca rinr-me »:tidii -. « /j^ 

Ar»/ Sem tila efloa^ vendo ilaiiifeUz «tdnas* 
poi» ie affiimo , qne tp^ofioriiièdia «riflRUtew'^. 

Ífmen^. Mas intentavas maitrAéiet. - A: 
'âii. Sim ; mas tanto ^oe tt vi , mafqfpsnil 
o biaçi o ájftâo, com ^ se tdórbw ^ -? 

Ifimn. Ttt^adoiar-me f Creres com hiiOMi i 
fa apadrinhar hom ddiâoi? . Acodi todoii^ 
tcs qiie o traidor fe aofeme. 

Ae». SSrnhora , que intentas } . 

Jkntti Aocudamos ao quarto da fíkiceÈtu 

FãH. Ai de mim, que Ke itiiaUivel -a m 
ruína ! Bem o dme Fitoa: aonde me éfaso* 
derei? Qi^ efcmêer-fe» 

Jfmen. Ef^^era, traidor , que te nlo hu de áofemar i 
que tirâibem tenho valor para te farpender. 

Jfmene pegd em Faetonte , e efie inunu hêfiá^ 
• do ^ tlrar-fé dat mios deíléU 

Fâet. NSo me fejas duas vezes homicida , dei- 
xa me ao menos aufentar. 

ifmen. Sem caftigo nio has de ficar. 

JFâeí. Oh qiiem diflera , que me abrate Ifim- 
ne , e que eu fuja de feus braços! Deixa-me 
Ifmenc. 

tiêntr. Aqui tío u vozes. 

Faet. NS&o há mais remédio j que apagar a:hz* 

Jpagé ásiuss. 

Mien. Qoe fazes? > . " 

'KM. Fugir àt ti f pata buicár-te oucrA Vei. 

FfÊhfe. 



filmfiijnimnó-^ agiria ^ e bum criado: com luz. 

Alban. Que tens, Ifmeoiçi Quem ce motiva a 
dar vozes ? 

WgéL- (^ oe. fpccedeo i Aí 4e mim', .que (e 
fruíiroo o meu incento ? r^ \^ á.part. 

jyhfeir/ Eoapnorâíle acafo Imm tcaidor , que b^r* 
bara'i e albí^ramtme? me quizrdraríia vida i 

dlllifli^ Quèin Yfriâ a 'atrevido ^*;-qtie^ concthiU) 

-^vt&o^iiofflvetlpcnfarnÉnco 7 / > 

J^fm-oAíiida náo- creio-que cftàs faim vtda. 

jílban. E para onde fugío ? 

:^#k''^Hãia (d;,..pov^e âpa^u a loz '^.' para com 
as ron4>ras ^írverttobrir faielhor^ I^c^-o , Al- 
bano , que o traidor não poderá efiar longe , 
e caftiga a .&a temeridade* 

Eger. Ai infeliz , Faetonte ! ã part. 

Albãn. Em vaà a-bofcaãoj vetâs'^ tomo vingo 
a tua ofFeofa. / ■ - 

Egcr. Aonde vás , ingrato^! Tanta iinézã le me- 
rece Ifmene 9 para expores a :cua. vida á: der 
fefperação de hum infiel agrcflor.- 

Alban. Nio (abes que feu amante^ e eípofoí 
Deixa me., Egeríai ' i « 

J/ineif. Vai não te dilates. . 

Èger. E a (ba.vida?' ' ^v' 

^nen. Os Deoíêt^a detendcráõ. c; .;.i 

Eger. Para que he bufcar remédios extraordi- 
nários , quando fem e(Te recurfo o podemos 
evitar ? AíEm darei tempo para que fuja Fae- ' 
fonte. á paru 

Alban. Que tens com a minha vida^ Máo me 
detenham. 



I9é 



^MMVft»'^ 



t}»®» <r ^-í?«tgg?® ^^ « f ?• Wí 



partíé:^ 






Jíkém. 



dor, fe«'^ 




o tni* 
fthtidó: 
mca^aridad^ toáS^*V;iiiUge 
como poderia entéstr éft» MW^'/ c -1 
fem te vífto d» 'flfiMicfiit; , ' i i'»i ? .iv^.A.v 
Sabe CMcbíAeo/' ' '^ -^^ .' 

CftM. Donde eftari éíte FâeconM';' que nló.he 
poffivel atinar com etie ? Eiá-á^fil otra cpvt^ 
do hum homecA' havia fer feicieekip^ ... 

^Ihan. Fiton, *■'"•; "■' 

Gb/db. Que manda ' Vofb Akéka iifiiicg Ifereiiada \ 

JRbãn. Que me dedãrei quem %i o criÚorf 
que qoiz offender a Ifmcne efta notce ; ejá 
tiefte diameose te antícipo o pemío de toa 
(ciência. - *^ y: » DáAbe btm ântl 

Cbieb. Aceito o diamante , porque me ferve cá 
para certa coofa de minha fciencia desfeito em 
vinagre; pois que diz VoíTa Alteza^ 

JUhãn. Saber quem foi o traidor de Ifa;iene » 
(jue a quiz matar efta noite. 

€btA. A que horas i 



JridJ. FazU luar , ou cfcuro ? ^ / 

4ibMn^ Náo reparei. 

Çbicb. Nem ^u ^ mas fem oíía çircumftAticift: paf- 

faremos; e diga-me mais » o tcáiçbr^xAegoa 

a ferir a Ifmeiíe í . . 

Jllb n. Náo , porque 'acodi a defenddla, "-^ /: \ 
Cbicb. Pois (liba yoda Alteza ^ qute ft? uãàÁMb! 

tou 9 ;€ que viva cftá ; quer kbci maâs algob 

ma coufa ; 
Albàn. Quem he o traidor he .que mec iitopor- 

u íabcr, c aonde eflá. //. i 

Obicí^. Sabe Voila Alteza por onde elfe \àm i 
Alhan. Se eu o foubera , .mo to perguntara, 
ÕjM. Pois também eu Uio não perguntara* fe 

o (òubera. 
Jilban. A ti nada te he occulco^ poismo^tô^ 

lume dos aftros lès todos os lucceflbs do Mundo* 
Obicft. IlTo aílím he, mas he ^m oculoa» . 
Alban^ Não me éntretenhas com frívolas èd^ 

culpas ; <u efiou empenhado a que me à\%Éi 

o que te pergunto, quando não aqui ficams 
. fcpultado. >' > 

CWro/Não me ameace ^ qije por m^L aiâdaiie 

Eeior : olhe , Senhor , h quer fabér iqoem 
e o traidor ^ vá ao bofque ^o Erídanò, 
o primeiro homem que^ahi encontrar, cflie^e: 
porém fíãgredo no cafo ; poai^uc cu cá JiSo 
fon honlem de mexericos. 
jllban. Pois , Ficon , fe acho cerio o oue «ned(« 
^es 9 ainda íerá maior o meu amdecimemo* 

Cbuh. VaHc cos 4iabo8 ^ foit fp foi ne ym 



^ Pntlfièh 

vre èkqddla fimgiiixàga , Ihê èiúk <fiit ^Sã* 
Y« no Eridino : nio mè temkoií doer-ibe 

•'^Mieftiva tioi i]iiÍiiiot Infemot^ por vèr fe 

^' tiUa^lá bafcftr. 

Mfl. Fltt»? i 

CUeft. . Avie^d : ouort immiqaçlo mncM. 4 fM* 

ÈH. Awa icitncU*, nem ooca6ia C& fne pSde 

íhrrar de hum empenho. Qieiii foi o que 
*u«.irmene.,^.» •■'•■-, 
0>iib. Qoiz matar eft» noíte^-fecilo dez lio- 
:' .fáif? iá dHTe a AU>anp, qoc faBe toEridaRòj^ 

tmoM o achafia# 
Xef. iPtodigiofo homem! Vem ci> Pitou , Te 

eras cio iníigne Magico , para^^ntfavatí 
tUcb.Poí não ter applaafos; pois loa tfo tni« 

mt^o de rompantes laadatorios , que por iflb 

fugi de Theffalia. 
^Mgcm, AténiíTo moftra que hc verdadeiro Sabia. 
Mtu E como eftamos do filho do Sol }^ 
GMfifr. Já o cenho quafi defcoberco aré o pef* 

toco ; falta-me fò ver-lhe a cara para o conhecer. 
tlBei Pois quem te impede/ o. feu coul conhe- 
-r. dmenco? 1 . » . - 

Cbidf. Os vapores craíTos da teita » que eftão ef- 

icorecendo o brílhan^ dos aftros ; mas a pe- 

Tzt de tudo hei de trazeUo aqd pelos caoel* 

los, fobpena de enforcar os livros. • . 
ÍM^mt. Senhor^ lembro a. Vodâ Magefiade, 
,:.ique- Albano pcecendeo algum dia a E^pria ef- 
..pofa, e não fei , fe o traidor feria. •• • 
UtikCúi^ ) Ueottòa ; k^ax ^ çecoèbo ; AI- 



de Fáètúnk. ^ 

• bino he Príncipe I e quando o nSofodè ,^ iiiait 
intereíTe acharia em Ifisienc « qne em. E^ietia* 

Aíecen. ElRci muito confia em /[Ibana^ eas 
minhas idéasmuico fejrccardão na cs^cctiçio^ 
por não achar a opportunídade i]ae defeco. 
Ai Egcria , que a tua infelicidade me fnfperk» 
de o arrojo , e me efconde a occafião ! Man 
fõ tu , ó Fiton , compadeccndo-te do meu 
amor , podes remediar o meu empenho j que 
me refpondes , Fiton > Fiton , não ouves i 
Arrebatado em extafis eftá* Fiton ? 

Obicb. Não me deixatá 9. Senhor Mecenas , que 
eflava agora ideando àquíllo , que Vofla Se- 
nhoria me recommendou acerca da Senhora 
E^eria 9 e o tinha já quaíi concluído , fe md 
nao chama? 

Mecen. Até niíTo foo infeliz ; mas bafta*me pa- 
ra alentar a minha efpérança , faber que te 
nap efqueces da minha pertenção; masfó te 
digo , que defejára que Albano cabide do va^ 
limento , por não confeguir o Hymenèa, que 
pretende, e unir maior .poder .ao meu con* 
trario. 

Gbicb. Tudo bem fe fará* > 

Sãhe CbirinoU ão bafiidor j e Meeetids oiyê. 

Cbirin. Graças a Deos , que )à achei efte Me* 
cenas! Tomara fallar-lhe fó por fó, femque 
me vifle o meu Chichiabco. Cé. 

Mecen. Que me quererá aquella Criada } Fi* 

' ton , rctira-te que importa ficar íó; depois 
fallaremos. 



JlAm. Qfib llir:lk ikMORy^Caiirfllàlt r Vv <. 

•oM fe^aãbi^ dfv6nítidp;v)eni hacha a 
«nfl^ras do Eudano } «pe oMervfs ot 
.:; iiiifteniòi y ' qoe - podo ^ díer aches 
. ' fifto.^fn^ o intento. . , ,;5 -^ 

^Âílim^ Dizc-lhe , qnt ^ repofta hr a -àbedlai» 
: aeik>oom que exorátofoi fens ^octíam^-f^mi-fe. 
Cbhb. Temos àCbirinotal.fèin skoViceini ! 
CNr^k <£tt não Cci €ffiaiaSt upúCàiáA efliA 

CfMdk^HQviMido nSs bèjiMrem tieovbairas. Sáte. 

íjbhhi. FzHc claro, ecí&í me dè remoques. 

Ú)icb. Ora não fiava de ti que ti?eflfeff táo bai- 
lia ^olficto , fendo tu á primeira : terceira , qos 
ètt vi .tio deftem)>erada neíTa matéria ! 

Cbtrm^v^E quem to diílei^. 

ClriitL Herboa pergunta: efla ! A hum Mágico 
•ãp' (e» pergama quenr lho difle. 

Cbcrm;.. Perdoe » que. cuidava qtw jk tiíótti 
Magico. 

CbM. Ai, que me nSo lembrtvá dápromèflâ, 

. que « fiz ! Eftou zontibando: ; eo siáo fei 

. Moa. 

OMtuilftfio não foQ àlcovheiía? 

^Coicb. C>ial stcovfteiFat ' 

CSiVf »•; ' fiefn fe coahèoe o remende que oSo 

. U«dç meimo paooo; .< 

Cbidf. Ah GhitinoU ^ Cabe Dtoa aa ttahas oom 



.que cMb, ^njiartfe ciòzeitdçiifenoos/gakniMÍaf 
amatorias ,f e lailfino^ em cpufai iiziidaà* 
S(ím» PcHa'i)Vft:4)a.4c..tK>vaa ' '/ - , 

3)icbk O «cu igfiiMV ■'•: \ 
El^íffti. Posa ^(?o jà não he v^elhp > 
Dhfr^. Njb.véa .que os velhos são du^a vcces 
ui nietiinos ? ••■••..' i ;?• . , . ■' ^ •; 

0ri>CK. Pois qqciquer o -DoejcMno ? ; ; - 
CWíô>i Quer nanar, v ;1 

CairirMu PdiSí bftfquc quem o «ttbalej. -'-'''-^ 
Cbicb.' Sempre me.rtndas. ea)}>alando' tom^^i^ 
UigafelNlo vès que írn, teu Qhiçbisbeo., » 
quem fe devem os carinhos de jWib,.,Ç:. por- 
ta franca os agrados ? 
Gb/rí/f. Ai9d!i».^íftai8 cârínhos ^ ainda «mais agra* 

dos dos que lhe eu faço i 
Cbicb. Iflb íim ; mas ... ^ 
Chirin. Mas que i Diga : mas que ? 
Cbkb. A mim me. tinbão díio i^Q i)>uitp fe men« 
te nefte mundo.!: ) que os Çhichifcbéos abra- 
ça vão as fuás Chidiisboa^ ; quererão duasaU 
mas n^um corpo ; o. que buitv , queria , outro 

Íjoería; qm^ a fé amaniti^ çra inviolável ; a af- 
lílencia contiiHia : cl cuidado fiequente ; e que 
.. éfiavão olhando hum-^para , o outro fempre 

fem peftanejar , e no cabo nada difto acho em 
■ Itália : que fera í ^ 

Cbirítt. Eftás muito alheio no cafo. 
'3)icb. Angora , eu eftou muito bem certo nas 

leis do Chichisbeato. 
Cbirin. Nada fabe fenão ter atrevidos penfa- 

mentos : não fabe que hum Chichisbeo ha 

,7 4ft. 



de paflTai o$ tftnirél^^dfapfãttflci f« ^ciir . 

ide&di, que nÍo cxifte Ar^VfnMI ll^bl»-^*; M 
homa ci[À V^lftfe Yè délu^ífc^ M> bllMs IM 

'-^<tepl4^^ fita>'<i'^«(gàr ià4[it í^^'e (|itka 4s^ 
também aos cirçomflamer; e não oAú^ yWM'tt 
l)eb Un^yC^iie-èadler^ò^iefifttiri^^ 

GbfVfii. Seja o qoe for , iffo ht'4$''^-iá fe nfi. 

^irhl lílo' tútfmtct liem; ' -^ . « > .*.;•) 







lfi-:Í 




A B. 1 A» 


! -:::J 


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""•" Cara' mia ; cara f dira*! •'-• 

• 'Per «a mio cor ttafitto 

*' «Smarfito, sbí^rritc'"' ^-f^'"-' • v ■' 
H dardo fenti d^anciorr^:' * 

• Mofírôy má qual 9Fcnioe; ;'í 
Che ncl fiioco fao fidice -^ Ti 
Pià bella rtvivtfallofi'' Fâifi. 

Gb/rm. He o mais galante Chlchi^o que' te- 
nho vifto! . f^di-Jt* 






de Faetõfite. 401 

SC EN A IL 
Silva. Sabem JEgeriá^ e JPáemte. 

Egeu /^Uaato, Faecome, finto fe malògraf- 
V^ fc tão bem premeditada acção T 

TAet. Bem vês , Egeria , como obedeço aos 

teus preceitos , e comp defempenho a minha 
palavra; falta cumprires da tua parte com a 
morte de Albano. 

EgeTé Ainda não falca o tempo: cuidemos pri- 
meiro em falvar a tua vida , pois he certo, 
que de Ifmene fofte vifto , e fe fazem dili- 
gencias para te prenderem; e aílím fera pre- 
cifo, que feja outra vez efte bofque do Erí- 
dano verde afylo de tua peíToa. \ 

Faet.' Ai de mim-, que mais finto o cruel def- 
terro , que perder a própria vida , pois quí- 
zera que Ifmene me vifie mil vezes traidor ! 

Eger. Para que he tão inútil acção \ 

Faét. Pari executar a minha fineza nos contí- 
nuos facrificíos à tua formofura. 

Eget. Muito te devo. 

DentK Ao bofque , a felva , tó , t6. 

Eger. Mas alli vem Hmene ; póe em execução 
o teu intento , que eu me retiro , e occulta 
nefte arvoredo eftarei obfervando o teu valor : 
( «flim fingirei , que o vejo , para que fe alen- 
te na execução 5 â part. ) que huma coufa he 
defejar a morte , outra vella executar. Vaufe. 

Faet. Efpera , E^eria , mas ai de mim ! Quem 
fe vio em maior confternação ! Pois eíperar 
Tm. Ilé Ce t.^- 



402 '' JPf^^f^^. , 

Egcria pela moné de Ifineoe » Ifmene aqod* 
le foberano idolb dá mniot ^ cuja copia ^ádo* 
rei primeiro , qoa o fea originat i VerW 
Eeeria açreflòr ^ e ver ^ ^ Tfnfòne âmatue ! 
Oh qae intrincado labyrin^ de amor ! Abs 
dia ia vçm chegando ^ e ca para íácisfazcr 
a amoos os,' empenhos^ fingirei y ooe me de* ^ 
feficomro , e no cm canto gozarão oi olhos ' 
por entre eftas ramas o beliò Sot , que me 
abraza; . ' Èfiande-ft. 

Sêbem Ifmeue cúm árcQ , e feUãs , e âlgms 
Híoníeiras. 

^mtn. AV\ fb moverão raràos , fem dúvida qoe 
alií £6 embféniioo a fera. Efpcra veloz jcro* 

Í^iffico do vento , que eo com efta iEcta te 
urpcnderei a fuga. 

AÚTA bíimA feUA ^ e iâ tm Faeíonte , e cábe 
atravetfado com ella aos pés de Ifmene. 

Faeí. Ai de mim , tyranna ^ que ine maufte! 

IJmen. Que vejo ! Ai infeliz ^ que cuidei eras 
a fcxa 9 (]ue vinha feguindo ! Levania-te , ho- 
mem , que as minhas piedades far&o menos 
horrível a tragedia deíle acáfo. LevâHféi-o^ 

Facu Com t&o feliz remédio íerà ditofa a ini^ 
nha morce: perdoe Egcria, que a occafiâo 
não permitte at(ençõe$. Á parte* 

ffmen. Aotide foi a ferida i 

faet. No peíro. 

Jfmen. E he_penôcranie ? 

pM. Chegou me ao coração. 

ífinen. Ao coração ? Se alRm fora não efiarias 
com vida. 



dt Paettmte. 40; 

Faet. EÍIe he o privilegio do teu golpe , quç 
imtnorcaliza a mefma morte. 

Ifmen. Agora vejo que eftás mortal, pois que 
deliras : leyai efte homem , e de fua feida 
o remédio correrá por minha eonta. 

Quer Ifimni ir-ft^ e Faetome a dttem 9 e can- 
ta afegmnte 

Deixa que eu morra 

Defta ferida , 

luc he melhor vida 



m! 



orrer por n. 

Se me defejas 
Da morte izento , 
Não te retires ; 
Pois fô me âlenéò 
Com ver-te aquL. Cébe. 

JJmm* Levai , levai efle homem » que ftoe hor- 
.rorifa ver tamo fangue. ^^*/^ 

íabem por hma parte Aibíme^ e da oittra to- 
go depois Mecenas , Fhon » e Cbicbisheo. 

AlBan. Efperai: que homem he efle? Qiem o ferio? 

Múnteir. Ifmene com huma fetta. 

Mban. Sem duvida , que efte he o traidor ^ que 
quiz maiar a Ifmene, pois he o |)rimeitfa ho- 
mem que encontra tios feoíques do Eridirtto , 
como me difle Fiton ; e pelo conhecer ITtiie' 
Nê, valcfoft íe qui2 vingaf pelas faas iníòs. 

Faet. Ai de mim ! Efpera , i»&ú «e Vis , t^rin- 
fit toubadork da minha vida , )>ois com a mf- 
Ce ii tvKi. 



404 Precipício 

nha mone náo extingaes o ardor , em qut 
me abrazo. LiVámémiíhfe. 

'Albãn. Ainda fulminas vinganças, infame 9 trai- . 
dor ? Mas fe femivivo ce deixou a piedade de If- 
mene, a minha vingança ce acabará de huma vez. 

PtoA por bum pfmbdl , e fãbm Aéecauá ^ B- 
ton , e Cbicbisbeo. 

Faet. Ainda que exangue me vês, labe que te- 
nho efpir jtos paia fappcdícar o. ceu arrojo : 
larga o punhal , e vem a meus braços. 

0*icb. Em grande perigo efiá Faetonce ! O en* 
gano me valha. Sufpende o braço , facrilego 
Albano: Mecenas, e&t he o filho do Sol 9 
por quem tanto fufpira ElRei. 

Mecen. Que dizes? 

Alban. Efte náo he o filho do Sol , be o trai- 
dor de Ifmenc , e nelle quero completar o ref« 
to da vingança , que deixou Ifmene principiada. 

Chich. Ora náo o fabereí eu ? e fenão perg^n- 
tC'ihe , e verá o que elle diz. 

Fâet. Deixa , Fiton , pois lhe vai a fua igno- 
rância , para que ApoUo , como a faailego , 
o náo caftigue com feus raios. 

Fiton. Não ha mais remédio que obedecer aos 
fados y para que náo perca Faeconte a vida ; 
e para maior evidencia de que elle he o filho 
do Sol , fará ApoUo que íe mováo eftas ar- 
vores , mudando o fítio , em que habicáo, 

Moyem-fe as arvores de hiíma parte para a outra. 

Todos. Prodigioío fucceíTo ! 

Fact. Grande Maj;ico he Fiion ! á pari. 



†FâéttmU: 40$ 

Jt9Nlrfr;^Sc eu foubéra fazer difto', dava duas & . 

gas na inveja. âpm. 

Jiíecen. Que mais evidencia úueretnos ^ Vem , 

venerado 'filhô; do Sol , a ennobrecer efta regi&d•^ 
AibM. Ficon'^ Senhor , heo culpado no meu 

êxcefío 4, |fai& tiie diffe que a ^írimciro hò- 
- m6tftrque':>6ncontra(Te nos bofqiies do Erida*» 

no , 'qoe.eflfe era o traidor^ que quiz matar 
.'4 ^líhiene ; e como fofte o primeiro , que en- 

'contreí , c orret-cé ferido por Ifmene , me 
'. perfuadi , - que eras o traidor \ e aíGm defculpa 
• 'O» meu i^trevimenco y pois fó Fíton por énga- 

miír-iné merece o caftigo. 
CbíA. 'fNão nego , que eu diííe que o primei- 

ro^ homem que encontraííe , era o traidor; 

porém Faeconce , ( que aífiin íe chama efte Se- 
nhor Çlho do SÓI) n&o he femideo$ : logo 

nSo o enganri. . ^ : . 
Fatt. li o ferir*m'e Ifmene foi huma cafuaiidadò. 
Mtcen. Vamos \ Senhores 9 não dilatemos o dar 

a ElRei efte prazer : vem ^ efclarecido Fae# 

ronte. • ^ • Vdufe» 

Taet.^m principio levão 09 meus intentos. Vãl4ii 
Alban. Vou fem alma^ pois tetno nefle filho 

do Sol o cclypfe do meu 'amor. Fâi-fi. 

Fiton. Oh quatitc; em vão pretende a prudência 

humana íufpender a tnovimehca xlas eflrelta&r 

Cbicb. Ora yejão as coufas deftè inundo como 
são ) pois eu fendb huftrafnaem peíToa , ef^ 
r^ feito fáoripa era .camè"; e; FaetoiítA ít»r 
dohumniiipjem , lávaiaiecNttvm&c^ xl^sc»^ 




40$ Bm/Ub . 

fflha do Sol ! Se iOo afe pastr : 
deflunpiçSo ^ mnof vicb ptt 

Iget. CnUickifa venho fmfiiber fe ] 
cocaria o favento ;fDat allí cfláFiio% dfe me ». 
femuiá : Fim vem a atai^K déJiiiat «knidk 

CfM. Não poffOf Senhora , qoe andai mdio < to- 
vobo com o nofo fucceffo , qèoiígofa aàm- 
tecfo. ' * -Véá^fit. 

Egif. Qoe fuoceflb? ETpenii mait confofip of» 
roo ! Mas oocm davida ^ riarà .^a mooe 
de Ifmene? Porém qoevqo! Alviçaiaaiv ao- 
raçSo ; todo efte peado eftí innnidado deiai* 
gne , não pôde haver mais (egoro .iodidò V 
poifl haver ftnjnie oo higir 9^ aonde deixei a 
Faetonce ^ e Ifmene ; dizer-me Fíron accele* 
• rado que andava tudo revolto com hum no* 
vo fucceíTo , que pôde fcr fenio o que imagi* 
no? Oh valcrofo Faetonte i Oh extremofo 
amante ! Só o teu valor me podia coroar de 
triunfot. 

Sétí)€ Cbirinolã. 

Oúfin. Senhora , que fera iflo } Todo cfte pra- 
do cheio de Tangue ^ e alli encontrar a Albano 
pailído , como K^btdaltado , e Mecenas » que 
ievavão hum homem como prazo ^ 

Efiir. Vifte que homem era ? 

à>kh. N&o o pude diftinguir , por ir cercado 
da muita gentiiiv. 

jBgtr. Ai de mim que fera Faetonte ! Semedo- 
vida que morta Ifinene ^ não poderia efctpar ! 

Ckmm Poia » Senhora , que faria tflo ^ 



^ir. Runnía felicidade. ;^ e hurba del^ça a^ 
mefnío cempo ; aqiielle que vifte m prezo ^ 
era ( ai de mim ! ; o mais exmmofo amante 
que mie adoiiava: chjsgafldò a ramo a faa fi- 
neza , €pie chegou- a dar a mortte a" limene , 
cujo fanguc he efte, <pie» mariz^i efte prado. 

Chirin. Ora jà fe acabarão os teiii cuidados á 
ciifta do fangue alheio. 

£^er. As armas da jufl(||t sSo mói poderofts. 

Coirin. Agora , Senhora^ que te vês ^em op« 
pofição no throno, lemdNraMé da mir^ha lealdade. 

Bger. Ainda náó creio éfta fomina. Oh ambi* 
ção de reinai a quanto obpfga» ! Oh cégsf . 
amor a quanto te deliberas ! . 

Cémui^ Eg§né^ Jê fegmmt- 

A R I A. 

Verdes louros ^ Bridano , 
Só aflifH nó fdiíi»* u(tino • 
DéíTe faMue matizados 
Vóa me naveís de coroar. 

fiba ó tu dicofQ> amanHht 
Que por mim penando vis , 
A teu peito iicl cohftante 
Eu pcometco lihert»^. Fái-fè. 

. S C EN A^.tti. . .'^ ^ 

Gabinete bem aiorndâò. S^em Ritíofift y 
é Cbicbisbeo. 

Cbicb. /^ Ra Senhor filho dé^ $òl , fejarlfte-maí- 
V^ to parabém a voíía femideida^e <^ ooU 
gue fe vê palaclego ,. tanetiÀo àw* çwA» > 



4o8 JMíriPf^ 

»»Si if»m«pcço|4hd«ii>aiejá <|iie Oi&nliDr) 
fcn. pií;.iiih ^vpfiylnftof . m .ooro de^irime e 
qi^ii]aiJJbHÍ(s» qM siflm cbbigp èm:fa$ 
mineoie^.; aluando iifié t baí. <k pollo imjoJIio 
dj^ 4iu.il ^cqoRo qow» bci^ 

ftWfJBíW ÍMt^Chichlibeo, que db-cpitpéi: 
com que me hdlas , hc homa rigaíou jOMOI 
de; nou, fufiumeocoílmto fe o nafoer nobui. 
he JoTò da-fbrciipaji-c^ o nmtnlM^^X) 
t nM«'i|^bftfja.l/et9eMlrei : effa acftfo* : jiiv 

(>iV6. K como.^^íttt da fcM^í Z ./.... 

^^2 Odafi «Sq à fofça do aâlToe ffen^diM 

CKw* E quem te feiíaí ' f ; •.«> > 

jFmi. irmetie* earuâlmeoi^ .eon hxvam íettt , qoc 
]?ara hum bruto a defpedio do arco. 

Cbieb. Andar ^ nunca errou otjro. 

Fãet. E mais fentira fe.o ^ràra* 

<:bicb. Nio emendo eíla filoíoiia. 

Fátt. Porque lípaene he o bello original daqnd" 
la copia , que de Thelhlía me uúúxe em ft^ 
netico delirio* r ^ 

Cbicb. Ifmcne . meffpa } 

FéUi.^ Ifmene , porque aqoella bdieza íb de bum 
animo Real poderia. <cr adorno. 

Cbicb. Caro tè cbftou oacbraliá , pois zomban- 
do^ zombando, jte hia. .cuft^ndo.a vida. ^ 

fáet. 'Inímbem o >So achal(a. me cuflaria 'o 
mefmo. 

Cbicb. Que pretendes agoit depois de filiado na 
cafa do Sol? 

An» Efoifada pei^unta^ quando fabes os es- 



ie FàHomei 409 

- fremes que fiz por Ifmene , quatído pinta- 
da : pdis qnem tão finamente adorou as fuás 

• fombras , como deiícará de* idolatrar o dato 
de fuás lu2es > 

Cbicb. Eu o creio ; mas com tqdo não falta quem 
diga, que huma mulher he" melhor pinuda^ 

' que viva-;' pois o pincel he corio ò folimíQ 
que mata <}$ defeitos* ; f 

Fmíí, Em Ifmene tudo fcãfit. perfeições. 

Cbid>. Com que Egeria'<jir' la vai c'os diabos^ 

FdeL Não tem que fe loflfbnder Egería-, pois 
primeiro adorei a. Kroene.-i 

Cbicb. Na verdade, que fe fouberas o que ha 
na matéria entre Egerià^ e Mecenas^ que ha 
mais tempo que a hàvíaé ter repudiado. ' 

FMet. Conta*me, para que poffa cohotidSar-o 
meu defvio. 

tbicbé Senhor 9 eunão-fou^de mexiricbs; ntfla 
certeza faiba voflà mercê 9 que Egeria' fe± á 
Mecenas efaíto »de cafamehto 9 ou coofa que 
o valha , e fe lhe mete na cabeça,* que ka 
de 'por a Egeria no throno ; e não deixSo 
de ter. feus colloquio). anoatorios. 

Fáet. Qt/em to diffe i 

Cbicb. Eúf^ que o ouvi com eftes olhos ieprt- 
tendèrãoi^.' que eu déflfe algum foccòi'ro itaa- 

Sico nanuteria ; ccmn.que , Senhor, ifto an- 
a mui. folapado , e. combalido ^ hzf o teu 
negodo , gema quem- gemer ; já eíiíis feito 
filho do Sol, e como rát podes cafar'^ aonde 
puzeres o dáio meminho. 
Faet. Não fabes quamò eftiino eifa Alfidade 

4s^ 



4m Pntífieio 

úê EgeMa, P^a que iem efcrapulps it eèn« 
fiíincja foÔz livrcmetiDe pêrtendcr x Ifmene» 
Okk. Çim , Senhoc» Ifincne , e niaís irmem ^ 
que o mais be cuvio de facaria^ 

jf^ée, yinene. 

.$^,CiM(]adof4 da .toa faude Venho expte&r- 
te 0;C}uanco eáimarei a tua melhora, para que 
no allívjo da queixa fe mitigue o pezar defer 
eo a caufa da rua moleftia. 

fy^ P^: melhor vontade receberá- os parabcns^ 
da ferida , que o«, dib melhora ; pois morren- 
do^os eolpes da tua fetca , acharias no la- 
vCrificio da rainha vida os cultos de quero te 
adora como Deidade^ Oh quantas vezes , IF- 
. mefie , aliomino a arte que inventou antído- 
tos para curar-me ; pois quizeca no mortal 
da ferida immorcalizar a minha fineza ! 

Jfinm* Bem inftrúido cfiás nas lifonjas da Cor- 
te, n^s como effes affe6los são mais eCFeítos 
do- entendimento , que da vontade , te agn* 
< daráõ mais os elogios ^ que a correfponJen- 
cia ; e pois fatisfeita vou , vendo te convale- 
cido , prcmitte-me que me retire. Quer irjc. 

fiêih Não te vás ^ fem que primeiro te infor- 
mes de outra enfermidade maior , que padeço ; 
que fé piedofate ollentas com os males, do 
cocpo , lerá rázâo que propícia te encontre no 
f^ai que minha alma padece. 

Cbiel>. Aquelle mal d^alma, como coufa occol- 
ta , f6 a mim me pertencia dizello , a quem 
toca revelar os fcgredos animaes ; porem diga 

Q 



ie Faeumte. 411 

o Senhor Faeconte , ^ue em fim mais íabe a. 
collo no feu , que o difcreto nó alheio. 

Faet. Havetá hum anno ^ formofa Ifmcne ^ que 
te vi, ou para melhor dizer, que ceguei de 
te ver ; e aflim como o Iman procura o fer^ 
rb , o Eliotropio o Sol , e fogo oar , áf- 
fim- defde ThcíTaiia, onde .te admirei, a prô* 
Cfeirar*tc veto o meu affeâo duas vezes pere» 
grino: deixo de encârecerte os defvébs, os 
, cufdadqs , e os fafpiros , que me mòtivaíEe^' 
p«r . te náo horrorizar a tragedia do mc^ 
tormento. 

IfiHen.'\'St nunca fui a Theflalia , como neUa, 
ns/r podias ver? 

Fdti. Nefie retrato. Aíqfbrá^ o retráiOé ^ 

CbUh. Eu foo muito boa teftimunha , 6 niais 
por. final que o vio em jejum , . e logo ficou 
náo fci como. 

Jjmm* E de que (oRt veio a teu poderá 

Fatt. Achando-o nas ribeiras do mar, entre os 
fragmento^ de hum nauEragio. 

Obfdr. Ah^ Senhdr,peça perdão a Sua Alteia 
de achar o feu retrato na praia , que nSo he 
lugar decçínte. 

JfjTufeit» At àc mim , que efte he o meu retrato i 
que fe enviou ao Príncipe de Rhodes , çius 
infeKz naufragou com elle , vindo«me receber 
por cfpofa ! â fâH. 

Féut. Tc, enternece ver o teu retrato, on.de 
ouvir os meus fnfpiros ? 

límtn. De ambas as coufas : o retrato pelo ver 
fom dono 9 e os teus fufpirospor inúteis. 

iMãU 



fispde "^cn^ inateir éi íoiproi| Mmbèni fi^ 
cãéét' dizer alguim^fiDoãfii pelo dMco «de w- 
-cèi«rf pofémnKh*-» <{iie Voffii^AUezft nioha 
•Ide^disrprezirihQoi filho do Sol h^dttio, m 
•46j jpor ser oor avó de íàm fittm jk>'o1oo 
•^tdo ,Sol y^fXMéni dkr. ot olhe» da CM».^ ' 
]fmi»M Pm que tanto ce empenhas por Faeconte l 
CltA0/Vúnpm -a ApoUo ftô pai defo o «jut feí , 
:por fér o.Meftie em. anoi^. Jiagtaa ,' 01 At 
crològicai. «u^iu*^* 

j^ínon «Faeconte ^ taida cheg^o «ot niéot oo>^ 
vidos os teus rafpiros , pois jl Too. <fe Albano» 
Jímu*:Mwu^*mt defcng^nari- cmaTí Ddieí 
paé;niènpsmsncer«(e a minha efperança nairaiW 
:dade de que po0o merecer- es tet^s agrados. 
Cbicb. Ahi vem EiRd. //" ' 

jrfnan. Eftímo por atalhar os (èus difcorfos. ip» 

Sâbc ElRei. 
JteL Dicofa ItalU ! Ditofo Monarca ^ que tem a 
,Í9nuna de puflbir o filho do Sol noa ambiò 
tòs do feo domínio! Permicte pois : que proA 
trado a teus pés confagre a teu rcfpeito^ repa- 
, tidas venerares.- ... fjtz-^ãjoêlis*. 
Pm» Setrfior , Vofla ,Mageftade nSo deve eftat 
.deflii forte ; os meus oráçot ferio, o thtôno 
.tlonde melhor fc coUoque a tua fobeninia. 
Bé^ Galhardo, afprâo ! Vès, Fttoo^^^uõ o que* 

fonhei não foi erro da fsmáfía/ 
Obidhé He que^VoíTa Mageftadc fábr mais dor- 
mindo • que acordado» 



i€ Faemte. 41^ 

MeL Mas í^ptt te agradeço o Teres cu o di- 

cofo inftrtimento da bem qtie poíTuo. 
Cbiib» P0Í5 na verdade que bem me cuftoo a/ 

dar com cllc. 
ittf. Rcfta agora que me defcubras o agref- 

for de IfmeDç. . 
Cbicb. Pattléttim^ não vai a eftafar., 
JRti, Suppottbo , Faetonte , que já ceras releva- 
do a límene a caíualidade de> íerirte no bof- 
, €{uti e para aue com huma acção facisfaça 
a dous empenhos , vem comigo ao templo de 
Hymenèo, donde depois de facrificara Apoilo^ 

fraco ao beneficio de permictir, habice comigo 
um filho feu , affiftiràs aos defpoforios delf- 
.snene.com ^Ibano^para que com ceu infiuico feja 
^Sempre faufto , fempreditofo ofeuHymenèo. 

Fatt. Que ouço ? Ai infeliz ! , ã parte. 

Cbicb. Là vai quanto MarUu fiou ! d paru» 

Hei. Vem, Faecontc. 

Faet. Senhor. ... Ifmene. ,. . oHymenèo.. .. 
poderia. . . «porque. . • . Não fei o que digo. á p. 

JteL Que cens? Que ce perturba ! 

Cbicb. Náo repare VoíTa Mageftade , que codc^ 
os filhos do Sol maftígão as palavras , e engo- 
lem 05 conceicos : quer dizer , que fe podia 
dilacar o cafamento i porque ainda fe acha mal 
convalecido , e lhe tremem tanto as p/:rnas 
que não pode dar huma paliada. 

Sei. Peno fica o templo ; ppis convém n/ío di* 
lacar, antes que outro traidor impuHo inten- 
te malograr as njinhas ídéas. Vem Senhor. 

rdi^fe. 



Xm. He precife obiíkoà : irnMie , ImAfa-ie 
de mim. " »' F^e. 

CMrft» Ande , Senhor , que honra ^ e préfémi» . 
nSo cibe n'um facco. • /W/r. 

j^Smi. Qiie urde Tiefte ; tXiM do Sol » omn 
▼ez como a dizer, eqoeiccelenfido voas Hynie- 
nèo de Albano f AfttSá dèhMI » e a nt- 
dança de oucto tio hoje os taeem Aros di 
minha magoa. ^ ^ ^ 

4Meiii .^ma» # CbiriniAên ài^^ffim^m nio 
vtjã ê/fmenè. ' *' 

diriii» Senhora , récolbamo-nos deplreflá- ao tco 
qoano » ipiira <fat fe nfo ftffdte em nó» ai- 
Ãmattàiçios ^lMlfcki*^iecoiiie«onfefle ode*. 
UAo, djrtmoa awoffla fiftrtadai ditemb qoe 
eflivemoa lem caía, 

J^. Pois anda , qne até Aão faber de Faetoti- 
ic , nSo focegarà o mea coração ; e pois Já 
o Ceo me vingou deAa tyranna , de íeu fan- 
gnft tf^méam a -mfiiiha Coroa. Mas que be 
o que VQ}o ? Aí 4e mim ! Fé a IJmene. 

Cbirin. O que > O qoc, Senhora ? Hfc verdade! 
A qoe delRei ^ íAé fni eu ^ nSo fui eu, Ifnaenc. 

Migitr. O àfenro «c falta; Mfncne, não crimi- 
na â mfliha fiiinocartoia pot^ Faerome. . . 
tt^as ai de 4nhn ! Dcjmái4je. 

J/mm. Que hb iflo^ Que perturbação he eíb^ 
. E^jeria , «oma em tK Diife ru^ que foi ifto? 

P4tã Chirinolâ. 

Cbifki. Tottúra-me defmaiar ; nfiás não poflb. 

Jfftíen^ Ha oonf^sio rtmelliance ! De que te af- 
^ I^íilibras f Sou algvoDa &x^(taaL ^ 



ãe Fáetonte. 4** 

Cbiriti. Efpcrc aue já vou perdendo o medo ; 
pois VoíTa Alteza he mefmo Vofla Alteza^ 

(jfriffff. Pois quem hei de fer ? 

Cbirin, Deixe me apalpar, - 

Jfmtn» Para que ? > 

Cbirin. Com que Vo(U Alteza náo morreo? 

Ifmen. NSo^ me vte P 

0)irim Bem vejo ; mais nlo íei ífe he à^u- 
ma coufa do outro Mundo. 

Ilmen. Deixa derpropoíicos , acudamos a Egcria : 
Egeria ? Egertâ ? 

Bger. Perdoa-me 9 Ifmene, que eu hiL ••• 

Chirin. Ai que fe declara ! Senhora 9 Senhora , 
que não he morta a. Senhora Ifmene , não a 
matou o javali na caça como differão ; não 
tenfia fufto. 

Bg€T. At de mim ! Que horrível fancaíia ! 

íxvanu-feé 

Jfnten. Que foi ifto ^ Egeria ? Que enigma 

. he èfte? 

Chirin. He o que eu diíTe 9 Senhora ^ pois nos 
affirmárão , que hum javali dèfpcdaçàra aVof- 
fa Alteza , que Júpiter guarde , t por final 
nos moftrárgo o fangue^ nós eípãVoridas , ia* 
ventando outra vez a moda do arripiado, 
viemos correndo a bom correr , para calhar 
hum par de choradeiras $ quando de repente a 
vimos a Voíía Alteza ; e como fomos medro* 
ias, cuidámos que era huma cadavera. 

Eger. Bem remediou: â parte. Ifmene , dá-me 
hum abraço , que a tua morte muito me tem 
cuftado ^ c porque o iufto ainda ms occupa 



4MJ$ , Pmifkio 

iB|ika*parte dot femkkt , permkte ooe im 
leiÍjBe. :\ : r4Í-yê. 

Cbirin. Arreia coin t Étteaciriíiba , que' iiot bit 
dando na cabeça! . - . ^^'fi* 

^jffmen. Que enigmas .ferie éflet ! :£gcriá athOa- 
dt; iimgiiiar-ine defuóu ; pedindoHM pcr^ 
e que a n&o crimine? Nia fet o queconje* 
ânre ! Bbs ai infeliz,' que aqaellet fuAos ^ e 
a^ellas palavras « ainda qae mal explicadas i 
dizem muíco ! Oh fede de reinar , quip ím- 
pia , c facrilega he a tua ambição l Qoe máqui- 
nas não ínvenus! Qne cjEtanoias ntoeiKcacss! 

Cãiiid Ifmmi^ é fifuum • 

A R I A. 

Dicora Paftorinha ^ 

Que alegre cm verde prado^ ^^ 

Só cuida no feu gado 

Ao íom da melodia ^ 

Que infpira a rude ftauca 

Do amante feu Paftor. 

Policicas uâo ufa , 
Nem máximas inventa , 
Ufana fe contenta 
Das flores 5 que tributa 
A' fé de hum cafio amor* VAvft. 



^t^^ 



4$. jpÃitonU. 4t7 ' 

' ' SrCE NA IV. 

Templo dé H^menêOy em cajo fimulscro Je verá 
' bt$ma têã incendida. Sabem Chichisbeo y e 
Cbirinola. 

Cbicb. A Nda dq)re(ra , fe queres ver o noi- 
jHL vado^ antes que le incupa o tem^ 
,I>lo de geme. 

Cbirin. Ha de ter muito que ver , pois dizem 

•: que o filho do Sol também aíEfte muito bizarro. 

Cbicb. Põe«te ahi , e dal^i te não bulas. 

Cbirin. Sim Senhor , mas a mini me confta 
que voíTè ainda he hum refinado Magico , e 
que anda adeyinhando o feito , e o por fazer. 

Cbicbm Se eu eáivéra mais de vagar, eu tedif«~ 
fera por onde o gato vai ás filhozes* 

Cbirin. > Eu bem fei por onde. vai. 

Chicb. Por onde ? 

Cbirin. Pela trapeira. 

Cbidí. Pela tripeira has de dizer , pois tudo quan* 
CO faço he por amor da tripa : ah Chirino- 
la , que bella occaíião para nos cafamios ! 
Olha náo te faz cócegas ver allí oDeòs dos 
caíamentos cpm a-fua luminária ateada, na cha- 
miné de Cupido y em cujo fogo falvat^e fe 
abrazão os miferaveis do jugo araatorio? Di* 
ze , não tenhas vergonha. 

Cbirin. Voíft tem a culpa de não ter o que defeja, 
pois fe não fora feiticeiro , caiáramos agorai. 

CbiA. Ainda crés que fou defles ? 

Cbirin. Eu fou alguma tolla > Mão viês que 



4Tt) .fntífítí0* 

qaem o demo coma ».feiiipre., lhe fica hum 
Çcito? . ' - 

Cbtcb. Eu oáo fei qoe eetco hei de dar éiAo: 
Se lhe declaro t criud&V peide^fe FatcoBce^ 
fe me callo , perco a Chinnola , e efit occa- 
(iáo qoe ainda he mais ôlvãi qae Chirinobu á f. 

Ú)ifin. Que diz? Picou pafmado? * 

CbiA* Bom fei , que qoem qoe^ bem , diz do 
que fabe , dá do que tem ; mas m has de 
guardar hum (cgredo daqoeúès de maço , a 
mona , e entio íaberás ooufás , ainda qoe fo- 
nhadás , nunca viftas. . 

tí^im. I(Iò corre por minha, conta ; pds que he i 

ebiíb. He hum iegiredo. 

Cbiriní Di2cM>» 

Cbicbé Não IO poíTo dizer, pois (ò eu o ídi 
e mais certa pelica ; e fe cu o fouberes já não 
he fegredo ; porque paflando de dous acabou-» 
fe o legrcdo. 

Chirin. Pois dize-mo fem fer em fegredo. 

CAicb, Então que fineza te faço eu em dizcf 
hnma coufa que náo<he de fegredo ? 

0jirin. Pois «ie que forte o hei de fabcr? 

Cbich» De ncniuima , pois não fabendo tu o fe- 
gredo, vens a fabcr que ha fegredas q|»^ 
ne o qoe te baila. 

Òtirin. Và-íe daW ; volíè he o que fe preza de 
amante i VoíTò he Chiehisbeo i He huma 
baila. , 



>»\w% 



ãe Faetonte. 41$ 

Canu Cbirinola a feguinte 

A R I A. ' 

Se não fias de mim o fegrcdo , 
Eu da teu amor me náo qtiero fiar ; 
<^ue fe nâo pode dar eonnafiça $ 
Em quem dcffconfia íéu peito irtòftrar. 

Fia , pois , fe não queres <]ue defconfie 
Do pouco que fias de mim ce âar^ 
Porque na fianjra daquellè fegrcdo 
Fiada confio os exciemos de ainar. 

Cbicb. ^bailemos daqui , que para efte lugar vem 
correndo muita gbnte. Retirao Je d bum lado. 
Sabem Faetome , e Fiton. 

Faei. Fícon , fabe que eu eftou quafi defefpe- 
rado. Albano , e Ifmene hoje fe defposão ; e 
eu fe tal chego a ver morrerei infallivclmen- 
te ; e fe por evitar os meus precipios tamo me 
recatafte dizer , que era de Imiene aquelie 
retrato ; agora que o fci , c que o náo fer 
minha me ha de cuftar a vida , rt^medea a 
minha mágoa no infaliivel de minha morte. 

Faúje. 

Fiton. Dos dous males o menor fe ha de ele- 
%^^\ c Póís dizem oue o fabio domina os 
aftros , verei íc j)oflo emendar com hum 
precipício outro precipício. Ápart. 

Cbich. A^da eá tu 9 que ainda não tens nomc^ 
ncfta Hiftoria; como te chamáo ? 

Fiton. Chichisbeo. 

Chicb. Chichisbeo fou eu deíla menina^ 

Fiton* Pois eu o fou de meu amo* 

^- » Dd u €bV. 



Cbicb. E elle qac te aderia :qiie ce cfteve fiil* 
lando com braços. , olhos , e nariz , moi af« 
froflaradoi; 

Fi0n. • VoCEi meccfe como lie Ilagiça nSo Mcef- 
fua ooe lhe di(gi* v< 

Ojicb. Eu ja dí(fe oio feí nada , <|ac eífa menina 
me dea aoacardina paia fó me kmbrãr delia. 

dirin. Aquillo he g;ilamaria«* 

Chieb. Náo he; que falío emitueos finco fen- 
tidos. ^ . . i • • 

Cbirin. Eftás colhido. 

Ú>icb. Não eftoB colhido» 

Cbirin. Eftás» pois ié dizes que .^edei an^ar* 
dina, como ainda tens todos qb finco fenci'' 
do9 > que fe affim fora havias perder hnm dslles i 

Fiton. I cm razão. 

Cbicb. Mas &ica4he a iuftiça , porque ca por 
meus peccados tinha fcis ícntidos , náo me- 
nos ; os finco já fc fabe. 

Cbirin. E o outro qual he ? 

Cbicb. He o que tenho em tf. 

Cbirin. Mas qual delles perdefte por amor àt 

* mim ? \ 

Cbicb. Perdi o ver; mas més tal, que nio fa- 
zes carreira a cego. 

Fiton. Menina, . o Senhor Fíton fc^eftã dbfar- 
Çando , que elle he Magico .como ninguém. 

Cbicb. Magico feri elle , e fe não fora» • • maf 
tiles lá vem , tu me pagarás. 






it Fàmnte; 421 

VSo fdbindo ElRei , Fdetonte , Mecenas , Jf- 
meney e Albano ^ coroados de flores. 

Canta o Coro. ' 

Na tèâ lozentc 
Do facro Hymenèo 
Se acccnda brilhante 
O raio flammame 
Do filho do Sol. 

Sgu Aquella ardetítè tèa^, que itlumina o facro 
Hymenêo , feja immortalizáda cóiti as lo:ies 

^ de Apollo , para que fempre clara a miníiia 
defccndencia 9 configa perpétua duração a pézar 

t dos eftragos do tempo, i ^ • 

Alban. Propicio itbxSt , já pozeftfe Itfnire a mi* 
nhãs efperanças. • .;,' ' 

FaeU ]á me vai faltando a pacicncia , para to- 
lerar èfte violento rigor dofad^. âfort. 

Ifmen. Faetonte náó aparta os olhos de mim. âf. 

ObfVi!^. Olha , aprende bem , Chirmola ^ aâc^re- 
monías matrimoniaes , para quando ch^ar a 
noflã. occafião. '*' 

Rei* Ifmene , reconhece a Albano Príncipe de 
Liguria por teu efpofo ^ e naquella fagfada 
tèa de Hymenêo , que êm brilhante pyra aò 
Ceo fe dirige j abraza o teu coração no revê- 
tente amor conjugal s a. auem profperem os 
Deofes , e felicitem os fados*. 

Jfmen. Sem ufo do alvedrio me conduz a efte 
templo o teu preceito , 'como viílwa de H^í- 



4lt .iRWMVM^ 

Arr. Vfli-fe conclaifido a minlit^ vid^; mu <g 
jnorlM^ naift nbbreiatfitt. ípài. pátáfímk 

JPHon. Eff^erâ» fêú tt ítbtMk». 

Cbieb, CafiuneniD no meio M galhofa nona 
tal vi! ^ 

^Ibân. Princesa , já qoç n fibn» mà deftinon 
tio aba fonuna, /foiiMi.capi(4ijllia mio o de- 
creto do propiciç fidffift qM^ içverence a le- 
ceberei com ambas pam fiaiHcy fiqprança da 
minha feliddade. i. JifirMi ãmio^ 

Fátt. Efpera , ai de mim I 

idtínín, ;Qpe dy? «|;, Faeiomc if ; : . . 1 i 

BMk, Quft.vjaa^ a .Iffz 4f HlIPfeçfio » qoft.ao 
-'ibrea^-iliylo a límene, (e fxfif^ío^ ;: 
i?e/. InfauRo prefagiò ! SMTpendahfe p Hymt8^> t 
i.pois a íoa Deidade , ofocwliaiido a. \\xZi QM 

avifa de alguma fatal roina, - 
JBl^í, He calo nunca vifloj 
^ere/i. E n^le fe /rncerra pródigo gjrande»' 
^llfan* Se Hyqneaèp of;.coltou aãiamn^a hepor- 

Í|ue fobrava a de^ meu amor » em coja pre? 
ença hão podia lazír a fua , bem como aa ef- 
trellas á vífta do Sol; eaffioíi permíttc » rSe- 
' - nhor , que defprezido efte ., que imaginas pfCr 

faglp , ie cffeirae o noflp Hymenèo. 
Jleh Sonfticos fundamentos 9ão podem prevale- 
. cer a tãp^^KCraordinario acontecimento «olé jque 
Fiton nos declare a caufá de extingpir-fe 
aqoella luz. 
^Faet. Diga Fiton, 
0^« Sou chatc^âo ^ c^ti(tMií^% . : 



JlhM. Da^taafemftnsa pendia. Ji mjnha vida» 
.4 pén. pm CbUbisbeq, 

itW. Di^fi, Fi.tpfi, pojquf) tQmii^ fir apagada 
aqudla luz? v: .:_ 

Cbicb. Porque rç[ acabou a corçícúè : 

Faet. Refpqndc ferio , ç.vMá oqq« bz^u 

â paru para Chichisbeo. 

jílban. Fiton com aguelja galantaria vem a di- 
zer que foi cafualidade , e não myftcriora a 
extinção daquelU )uz. 

Cbicb. Tal não dígq , 6 aii não fou lâo efcuro 
que neceffite de jpai vieiho para commencar- 
me : refpondí allita ^ porque \\io quero dizer 
que o Deos Apoilo p^^ 4§^ luzes n&o leva a bem 
efte matrimonio , âk j^.çg^Q 4ífto eu. a direi a 
Sua Mageftad^ ^ ;por..fp r\[k (l^i)^ gabinete. 

Ifmen. Ha enleio f^j^iMllh^iHí^ ! 

Faet. Viva a mitiha çípçr^fiça, â part. 

Rei. Vês , A^^t qwç QÍfl ^9} f«m myfterio ? 

E pois devèmgf i^^^ás^^ » AÍH.4â. #P mínimo 

' i|çepo dos Deo/cs ^ , já pgp pòiie Jfmene ler 

'tua , pois que Hymenèo efconde a luz , pa- 

. :jcjji/cp»lfitf «V. ffMphras o inu 4}rf(?jo. , 

'€ãiitét^^bên& d fegiêinn Ária , e 

Oh fnfoliz , pb írifl» í«in allivio., . 
:Wíf*» mtganiíf^^.cQR^p fw límcnç ^ 
Vjvirqjf! Í^Qfí;^fci g|| ^fo gplpt .... 
pa ftwfe»fí| firuei, .qu^. fpíí fegár^ 

Cuja iwi|§ íkpiqíf liggq cpnfla^e.;,, .. 



AH WHitfileh 

Oh Júpiter piedofq» deft ieifiEn -^ 

O nrtfalco nuor de cea incetufio 

Coom, hum peho iafèlb fdmitia ingente 9 

Que para pcovocar og ceosíbrores^ 

Incentivo nio ha ttiais ^Ademido ,^ 

Qaf nafcer infeliz bum «K^jttçado* 

Irada , e languenre , 
Frenético , e amante , 
O' injofta Deidade, 
Da nu impiedade 
A ]ove roprèmo ; 
Ble^ quero qoéisaif; 

Se a luz mé nfúrpafie 
Do facro Hymehèo » 
Cruel te enganafte. 

Sue em chânuna níafi puia 
inha alma confiante 
Se fente abrazar, FéUftí 

Chicb. Parece que lhe trdeo a jeropíga ! â fári. 

Rei. Deofes fotMcranos , em que. pôde ofiènder- 
vos o Hymenèo de Albano , para que me prt« 
veis da gloria defte dia ? Más quem p6de com* 
prehender as voíTas ahas difpofiçõés ! Vem» 
Facconce a facríficar como aiíTe^ a Arx^lòtea 
pai , náo fó para gratificar a tua vinda » mas 
cambem para applacar a foa indignacSo, re- 
petindo o mefmo Coro ^ para que a lemhran- 
f a da culpa ítja mcci»m da piedade. 



c «o ■*; ^i ^r]:. 

Dõ^^facro Hyniento'^.' / -*' 
Se acenda brilhante 
O raia flainniãme ' 
Do filho do Sol. 






't ri;. 



■t i:.ú\ ja 



BAK- 



«4 .^nritf^ofi 

Ir A iVí.3b!E .:I1I« 

S C fej»; A:, hui O 
Canutâ. Sábtm Fáitmtu ^ € Fmn. 

Fáit. X* 7^ Em 9 Eicon , a meus braços , poii 
^ á tua fciencia devo a vida , que 
^ refpiro; que fe náo excit^aias aaoel* 
la loz em H^menèOi. em cinzas me reduzi- 
ria a (ba chaini^su.^^- 

Jboif. Faetonte 3 -a^r^ ; que^de todo tens fupe- 
rado o violento ^ror dos fadas , e te vis nef- 
ta profperidade ifi^nip do |;rande danino , que 
te efperava , te dedUrarei o que antas ve- 
zes recufei dízcr-ce. '' Sabe que cu és na rea- 
lidade o verdadeiro filho do Sol , e de Qi- 
mene , aquella ínftufta belleza , que exDofta 
aos rigores de Diana entre os montes riabi- 
ta como fera. 

Fáet. Ai de mim ! Que fempre has de fer crael 
para comigo! pois ao meimo tempo confun- 
des a delícia de hum prazer , com o rigor 
de hum pezar ! 

Fiton. E affim rcleva-me o não háver-ie com- 
municado ha mais tempo efie fegredo ; poraue 
como eftava decretado dos fados , que a faoe* 
res .tu quem eras , efla fciencia havia de fer 



r. tjçu prcc^cip por cauta; flc. ^umu fortqofu- 
raVpor^ido teoccultei efte défeneano ; {K>réi]| 
agora ,q^q.fupf!onhq.tru]OJF^. dê léus deorecoí,*^ 
razão' hj^^ie .^iunfcs taçnb^mj ^ mftu fUencio» 
faet. Fuderui áU^f-tiifx^ «m tenipo 9 Qoe .fçâtif 
. to agradecedè-; maf . tçttípfc '«ftimo íâber cà« 
':']o mhil[>,fofM'f(o bem >niada., me dizes de no- 
vo y pois Zr.^U\yçz,dc ^jx^pus penfamemos náo 
poderia, ter meoos: pr^gçnitor,: eu te relevo .i| 
roubo ,,qp,e ça<;:iizefte,4o^t6ippo9 que igMf 
,^c'i4 gjí^ria.djç.me j^íW, filho do Sol. 
Fitoh. Era precifo obedecer aíoinfiuxo dos afiros; 
i^/. JMãp^reas DeíTaa. quimeras: de ro^us fucc 
cefío^ pò^ <«oUigír ô quan? ^rrad^ he t já* 
. diciarU ^pecuíaipáo 4^ f &ltll9$ 5 cuja.,f€içti(cia 
. '^ta^fo vf^r9sr|](us rei^ira-^fi^queabi vqp.Eg^l$a« 

£í«r^. J^r^.Quç.^ f ^tí^f ,,na.e .ocçulravas qufm 

eras ? Bem me parecia f mim que .0 ceo 
r.tbripfo. %}ç!pto tipha mais. fol^er^a prjgeiTii. ^ 
JF40t. . Q9tór<>c«]iíli4í qwiçnirlírít ^ para j{)u^:,d Amor 

prefjprHTer iapsrerpeito m u?a jndiDRçlo» » < 
Jf^fr. Sc effi^hi^ilhanto/D^yfl^e» qjipfi ifpnior- 
;.r caliza;.4fviç}a ^, que teQ)é$, .qge não ^bi|§.4p 

executar 9^ morie de Ifmené , pois yí^Pf^ èv^Sí^ 
.' vezeci d^ixaí3:e^ burlada a mii^a expeâaitiyifi ? . 
JFaet. Como fei. que Mecenas toro a.im<çiínft 

incumbência^ )à nio poderei executar o^ipu» 

defignio3. 
^er. Vi^fdade.he que Mecenas cçnnpade(jdo 

da minha defgraça , intentou reftituir ao thro* 

no 



- nò de InOêjAt^^^ttiú^ 

^"^íar féTidé WlMtt'ttMi^ò^ fino. 

I3#.^^ da Tu ipiíKé <fflf b lÃ^^ 

^''«íltfá a c6nffànctií'i<^còm qúcteiâiilHtf i porém 

*^a3idò, FaeionccV'^ .HTe iScâkla cramê fe 

•í^^wghto de ál^fAP%bcnt> 'èdsait<f. ^• 

rdèí:- Occulto iriOd^i^bcH ;''^«Mi tb éã dílftn 

'^mt (ámbeih'írefemj^'r-víd#'fc 

lei |Jahi que fitii,^^ulvet 'fii^^aâw&ii iâda- 
•*34í o^íniai 'cífefeé.- ^ - • - ^ ' • • or-> :•?.-; f.-* • . ■. • 
j^r. 'L?ttta qué "féjáif^^iiiift 'Mio' «flikM% nlk 
-''dé Albano , itítKfeMoft dê !N«biÉl[ ^'cMÍa ao 
£iytííiãpio prect^iaSfi m mWmáèk^è^^áJhít' 
•^'fípi^ilà^^-eá-éi^fcM^ fíé na 

•''i^Madc dos fexos fioue (ttà jperígcí a iefokiç&0| 

• deíTa forte , nem- a fermofora de Ifmene te faC- 
f *|^d^à o golpe' ,c nem a Vida" de»^ Albano, a 
<* 'lelos te incitará. '• 

Fa&i: P^ara cabal fatisfação de meos zelos to 
'«'imcrma has de fer homíeida dõ Albano; alià^ 

enteifdmi, qiíe-sa' piedade teretka ò braço > 
* e o amor te fúfpãide o golpe. 
IBger. O mefmo podo eu dizer de Ifmene pa« 
' iá comtígo. < 

Faaí Fátá defvânectr eíTa fufpèftay baflainten- 
r .tar 'O golpe duas vezes , ainda qiié de nenhtí- 
' ' ma fé confeguifle ; e ãffim nSo tens que te 

eximir , que Albano fica ao arbitrio de tuas 

iras. Affim fegurareí a vida de límene. áp4n. 

• -Ví .•..-• . .. ■ . .;.." 



ii fditçme. 42^ 

Sabem El Rei ^ e^Cbichisbeó. i 

Seu Bafla , que efla foi a caufa porque fe ex- 
tinguio a Juz do Hymen^ i 

Cbicb. Sim, Senhor, que hcvomade dcApoIIo, 
qne feu filho Faetonte feja genro de Vofla 
Mageftade, e a Senhora Ifmeoe nora, eVo(- 
fe Magçftada íogro de Faetonte , e efiema- 

. ridf da djta Senhora. ... 

XèL ! Faetonte , como o obedecer aos Deofest 
ke prji|;Dj|ria obrigação de hum Monarca , m^l 
poderei refíftir aes mudos preceitos de Apol- 
16 teu pai ; pois he (lia vontade que If* 
mene feja tua efpofa, e^oãp de Albano, poc 

. cuja caufa, ufurpou a luz no feu Hymenèo. 

Cbicb. Do que pão ha a menor dúvida , auen-' 
to fecreto magicali, â paru 

JSger* Ai infeliz, que ouço! 

^eu Ai feliz , que ouvJ ! 

fyi. E pois tu , como filho de Apollo , eflás 
mais obrigado a. obedecer-lhe , entendo te fa- 

{'eitarás ao feu império : bem conheço aue efti 
fmene faltão méritos para fer efpofa dehunv 
' filho do Sol ; por^m huma cega obediência 

náo repara em qualidades. 
Cbicb. Pois que lhe ha de fazer , fe he vontadò 
do Senhor feu Pai ? Feche os olhos , e diga 
que íim , que no acceitar vai o ganho. 

á psru para Faetonte. 
JReh Que dizes, Faetonte ? 
JFaet. Que , hei de refpooder ^ ouvindo-mè Ege- 
ria? iparu 

Rei. Emmud^ces i 



CbUb. He véiMnlioro' ent Iht ftOâliBo em ca- 
'- far : di^ « Satfhor ^ quê fe as bdlozâs tS» Ún- 

dadet» Uimne: em tedá- o defaieneoe^ 
rSgtr. Bloito me aegrava FaécoAté èàupclh ^ 

lendo. " " " 'i ■" • ijiiit. 

Ac». Bem fei que afonnaTÉri dê^Ifltiráe he 
^ dignt 4o me(mo Jtkfricér , ^k fitKopi y D^ 

nae, e Leda n^o cívérfio raáif'' -líeUak perfd- 

^çjkt ; porém. : ; Há déigraça fieiAlBiiaiiell i ]pi 
Cbicb. Pdrém , ^oe? Qve diabo \1M bálbu- 

tienie? A tolpa tenho eo. * ' à part. 

Mti. Que refelvesi Fàêtonte? ' 

€biib. SèfAor, flio.cem'<iue ^éíblver^ porque 

- eOe iietia AiatMafiSo .ceflçí Voto: ea fou o 

' qoé hei de dar t ttMutío ; t affim digo * 

Vofla Mageftade que eHe quer , e requer , 

que fe faça logo, e já o câramento, eeu, 

?ue entro a fazer o rcquerimenco , certo he 
be tenho n^tiità ratáò para o faber. 

Xtu AfRtn o entendo , c aa boa índole de Fac- 
tòhte òutfa coUfâ íe nio podia efperar ; e pa- 
ra que faiisfaÇa á prctençSò de Egeria , fup- 
pondo qnè tttú algum domínio á herança dcí* 
ta Monarquia , quero que café com Albano , 
pois com o Priticipido de Ligurk , fica ( ain- 
da que não em tudo) em parte fatísfcita a 
fua queixa. 

£ger. Ainda que Vbíía Mageftade pudera repar- 
tir os domínios de Líguria , niò poder.í con- 
traftar ò alvedrio de Albano, <me adorando 
a Umene » o confidero agora foorc aaianre , 
zcloío. ' 



de Faemie. ^ ^í 

Sei. Quando o não vença a ra2ão , o convencerá 
a' violência: véni , Fitort , tjiie importa^ cònii* 
tnunicar«te macerias de importância, f^v-fe, 

tíbicb. Valha-me Dcos ! Tomará fer privado' de 
íer privado, ' f^Ai-fe. 

Faeu Egerta , a que mais pôde afpifâr -o teu 
dcfejò ? Já confeguiÔe o Hymènào <te Alba- 
no : feras Princeza de Liguria 5 e cóAí asr ar- 
mas de teu efpofo poderás reftaurár à túá Côrpa. 

Eger. Sendo tu o Monarca, e aiil^iliadóí dò6 
raios de ApoUo , qde exercito cè reíiftifá ? Pote 
para ficar vencido bafta ter porcóntrâtio a<$ Sol. 

Faeu Se aí&m fofle , eu me dftisiára veAftef 5 íô 
para que tu triunfiiãcs.' 

CantA Faetonte a feguinte 

A R I A. 

Serèa encantadora 
AíFaga o navegante. 
Que intrépido , e nadantê 
Fugindo do fèu canto ' 

Intenta triunfar. 

Repara que á belleza 
Contém tal hartiionía , 

Sue em dece itielodia 
briga a naufragar» Fai^Je. 

Eger. Que aíFeéladas finesas ! Ab tyranno aman- 
te , que o teu génio atilbfciofámente elevado 
ce fará efquec^ do tâèu ^Mtbr. 



4%t «IVMflri^ 

Sábf Mmui. 

^jilhm.: Qpm ma d«ea ikber o« qae cerí fcwe- 
lada Ficon ácerct da cninçSo daqaeUi luz de 
meu infeliz HymenèQ ; pois ftodantc o ca- 

. caiçio da foa repofia , nem bein vífo , nem 
bem morto eflá. 

jEger. Vès , Albtno , como os Dcòfes «affi^ 
a hum prejuro , a hum filfo 9 t ã bom oai* 

. dor amanc#! 

jilbéut. Ignoro o que dizes. 

JEgiTi Pois fabe , para qae o nfio J«ioics: D^ 
darou Ficon , que a éxcíncçlo diqttelia Uiz 

. tra hum mudo império de Apdlo , infinntil- 
do fer fuáf vontade qoe FteoMite fe dcTpd* 
zafle com Ifinenc ; no que ElReí convéio por 
não defobedecer á ínfínuaçSo de hum Dcos. 

Albán. Immortal devo de fer, pois jnio rendo 
a vida a golpe cáo cruel. 

Eger. Se foubsra que havia de fer tão peno- 
fa p»ra ti efta nocicia , não ta dera ; e aífim 
efcufarei de^di2er-te , que infallivelmente Fae* 
tonte fe de^fa com Ifmene, e tu ficas et* 
cluido da floria de poíTuir fua bcUeza. 

jllban. Vençáo os acertos da prudência as vio- 
lências de hum pezar. aparte. Não fabcSf 
Egeria , o quanto eftímo eíía mudança de meu 
Hymenèo , para que dcfenganado das inconf- 
tancias da fortuna , em que até agora naufra- 
guei , poíTa tomar o norte, que perdi: Ateus 
pcs, Egeria , fe proftra a minha culpa i não quero 
acumular defculpas ao deliflo , por nào díf* 
£cultar o perdão. jljoelbã. 



JEy^r. Quê fazes. Albano? 

Alban. Revalidar o primeiro .voto , que confa- 
gíei nas aras^de cea amor. 

Eger. Ainda- que pudera vingar-me de teu aleí- 

* vofo proceder, quero Ter extremofa comtigo, 

pois íe não houvera ingratidões não haverião 

finezas. Ailim conyem para os meus intentos. 

á parte. 

Albân. Pois, Egeria , fe a ma. piedade meam- 

' pára , eu te prometto preparar te o thronò , atro- 

peitando todas as diificuldades. ^ocra Faetonte. 

Ihntr. Viva Faetonte. 

Eger. Morra Faetonte , t também Ifmene. 

JDcnír.yiva Ifmene. 

Eg^j^r Que encontrados écds refpondem ás nof- 
fas idéas ? '. 

Dentr. Viva Faetonte , viva Ifmene; • 
Sahe CbirinoU. . . 

Cbirin. Senhora , que eftà tudo alvoroçado com 
danças , coros >• e bailes , applaudindo o no- 
vo cfpofo de- Ifmene, que dizem he bum fi- 

, lho do Sol^ que eu por final vi. jutyò com 
Ifmene , tio. refplandecence , que era huma 
coiíía nunca vtfta. Ai Senhora , efpere pam o 
yer, que eile para cà vinha caminhando. 

fyer. Por ifTo: mefmo irei mais depreila. Oh 
cruel pezar , não fejas ufurpador de minha vi- 
da , em quanto a fortuna me não facilita ò 
meio da vingança! Fai-fe^ 

Cíbmn. Vamos, vamos Senhora, depreda.. Fohfc* 

jilkân. Haverá homem mais infeliz > Para que 
injuftas Deidades, vos efnpenhaftes a fazer* 
Tam, 7Á Ee tw:» 



4VÍ .\ P^atifiéi *. 

me dicoro » fe depòit que toe elevei i6.ai» . 
de- cancã vennira, 'me^lavieit de derpènhard» . 
bem , que cheguei t pofhk:í Mas ta , 6 cnút ^ 
Monarca, fe me ofofpafte a veomca com t cQmh . 
fa mjuftamence , eu juftamence ce arraacaM 
com o Soepcro a amoiçio ; porque . a juftiga 
de £a^Ha me darit amias. paca crínnEar Jà tti> 
«ruelàade 

Jfmeni Gonfafa^f e vacUance no pcocelbfp mar 
^cantas variedades acé me £ilca none pan nãF 
vcgar 9 fegocâ na perígoía carreurãí de do ino^: 
pinados luctcflbs. Mas quem eAá soai í.. ./.v 

Albân. Quem ha de fer? He boma lomlm dê. 
Albano , x|iie. fé t^ )à pcíarido.Je toda. a haij^.. 
depois que peideo ò foi de cua fbmiofara. , 

Jfmen. Pois fe és fombra , como não defappa* í 
reccs ^ Que com os rcfplendorcs do Sol fo« 
gem as fombcas. 

jilbân. ]á fei , cycanna , pfxt como Ave do Sol 
ce queres cicroú^r nas luzes ; 'mas não he la^ 
záo ^ que rdigíoiamente negues o teu coração 
a Cupido , para fazer cklle facríâcio a Apollo» 

J/mm. Que queres , Albano , qoe cc ref^KMKb , 
fe hum Pâi , hum Monarca , e huma Divin- 
dade sio cr ipl içados Tinculos , que me prcn- \ 
dem o alvedrio } Supõe que nonca me viAe « 
fupó^-níe a mais anel , a mais cyranna icia 
das hiccanas breahas , para que croques em 
odio^ a que. foi amor. 

jfítém. Amor que foi , fempre he ; pois nSo CMi 
mais 4)iie bom coafo^ e voe iâb & ptou encimo; 



de Fanome. 4:;$ 

Sabe Faetonte* 

Fáet. Galharda Ifmicne., não pôde xhegar a roais 

. o excedo , a que fe fublimà a minha for- 
tuna, do que a ver-me coroado com as ver- 
des ramas da efperança de poduír te. 

ÃlhA}u Ha- tormento mais cruel J Sem duvida,. 
Fáetonce , que ainda te não poíTo. encarecer , 
*o quanto te venera toda a Itália. 

tàèt. ]à feí , Albano ; porém adverte , Ifmene , 
•qne menos eftimo nafcer filho do Sol, que 
refiiifcer na esfera de teus braços. 

jilbofl* Se nos meus.:dominíos te. ' poíTuíra , ve- 
'ttíis arder toda a LiguriarCm maiores demonfr 
uações de prazer. 

Faetm £0 o reconheço. Bem quízera , Ifmene ,' 
tnoftrar-te, que aquelia fetta , com que me 
acfaveíTafte o péíto, te deu amor para ferir* 
me, cuja cicatriz, fera o mais vivo íigillo, 
aue eterno acredita a eiHcacia de meu querer. 

AlbsHé Ett defefeeror â pane; Porém , Faeton- 
te, -ypara recotihectres o meu aíFeé>o;.. 

Faet. peixa-me, Albano, que efiás itnportuno. 

Alhàne*¥o\s cala-te, Faetonte, que eíiàs infup» 
portável. 

Faet. Se te pcza de ouvir me , rctira-te , c dci- 
xa-me íignifícar á minha bella Ifmene , os ex- 
tremos, com que a idolatro» 

jfíban. Nem podo deixar-te, nem poflo ouvír-^ 
'ce t bem feí , que hum fupremo Nmcen te , 
dèftínou^^bfta fortuna). roas aáo ignoras, quê 
adorei a Ifitiene com attenções de efpolo , c 
o ciúme he hum monflro iníòfrivsL 
'= Ec ii ía«x. 



4^0 Prerípich / 

Faet. Pois , Albano , que remédio , fenão fatrj* 
ficar a vontade ao império tioà Deofes ? -Bem 
fei , que te fobrão motivos para a tua mágoa , 
porém fentirás agora o meímo mal , que eu 
padeci. 

Alban* O mefnio não ^ que feo.padecefte , foi. 
em texpo , cfot não tinhas alcançado os fa« 
vores de límene , e mal pode fec o fenti- 
^mérito, que hoje me penaliza ^7 igual iaflio», 
l^io , que te arr^fiava antes de favorecido; 
que então fentias coaio zelofo pretendeme , 
e eu padeço hoje como zdofo defefperado. 

Fâct. Se deíefperafte , já. te não fica mais que 
cfperar. 

AUfan. Enganas^ce^ Faetontc » que aioda me:fi? 
ta a efperança de faber o'mou' valor caftigtr 
a caufa da minha defeíperação. 

Faet, Pois tu tens oufadia , para te oppor a hum 
filho do Sol? 

Alban. Ainda contra o mefnao Sol íe ha de ani- . 
mar a minha arrogante temeridade, porqt^e a 
cegueira, com que os zelos me tHuçiináo , 
me não dà lugar para ver^ as ímpoiribílid^des , 
que cmprendo. 

Fdeu Bárbaro , verás no poder de meu braço 

o caftígo , que merece a tua oufadia arrogante. 

. Empanbão as efpadas. 

Jfmen. Que intentas, Faetontc ? Albano^qiíe fazes^ 

Alban. Perder a .vida ; que fecm te perder fico 
fcm alma j bem hc que: quem lyrannamcnce 
me ufurpa a^ alma y feja violento verdugo , 
que me tire a vida. 



de Fmànu: 4?7 

i^mhtí Aiéud&or >todos , que fe matíto* 
JS>^iiiri No quarto da Princesa hè a pendência* 

. -'. p Sabem EtRei i e Soldados. 

Jírj.^ Albano , Faetome , que atrevimento heef- 
Vi.^xc^ Affim fe ultraja o mèu decoro? Sufpen- 
dei o furor da voíla indignação. 

Faèu Senhor , Albano me provocou de forte , 
V que com precipitada arrogância cheguei a pro- 
fanar a immunidade do Palácio, íem attender. • • 

Jíef\ Pois tu , Albano, feni attenção ao meu 
rcfpcito, fem temor das minhas iras, tivcftc 

^. ouíadia , para^roniper em tio inopitiado iofultò l 

Alban. Huma paixão cega não pode actendec^a 
rcfpeitos , quandoe^ fó rcfpeita o defafo^o j que 
intenta conleguir na vingança; e aínnu. • 

^eL Não pertendas córarr com apparcncés: def- 
culpas o teu deliâo, que henhunia fatisfação 
pôde condecorar a tão grande culpa. Per* 
doe Albano , que primeiro eftá a anciofa am- 
bição , com. que intento divinizar t m-^nha 
regia eftirpe.-r . â fãtte. 

Alban. * Não irnagines , tyranno Monarca , que 
pertendo acclimular defculpas á temeridade , ' 
em que me empenhei; que o meu intenta fó 
fe encaminha a figniSeaf^te a razão , que te- 
nho , para cafiigar as femrazões ^ coni que 
me ufurpas a vida , na efpofa qtre me tiegas. 

Rei. Pois tu , Albano , empenhas*te , contrari- 
ando írreligiofamente os divinos decretos > 

Jllban. Sim j que decretos injuftos , nem. sãò di- 
vinos, nem decretos ; pot<^ue nenhum decre« 



4»8 .-Pnei^idâ 

to Tem joftifa p6de vioIema»)A. libeidib^dM 
. iilvédrios* E fe en a4oio t ITmenò oomÀo 
fino extremo , que fendo em nós doas as von- 
^ ctdes i hft Dhico o qúèitr , como me queres 
tu perfuadir que oi Deofea pèttendemcbcAlfi* 
gM duas vomadea 9 as quaea recipiocaiaeme 
onio o amocí, 

Cânu Albano o ftgnim 

R B C I TA D 0« 

iSf' me negas o bem» que 'fino adoro» 
AoNijje fecorrcféi^, - 

Sen&owaó fòrtevvaiòr^ que ha .em meo |ieico? 
- SeneUe mais perfeito ' 

?' Tenho o rancor fegnro^>e o cafltgo : 
Porque vineue dos zelos a violência , 
Que efte falfo traidor, efle inimigo 
OríginSo em minha alma , 
Levahdo*me com barbara indecencia 
Em Ifínene Divina a cara vida ? 
Sinta pois , ( ai de mim ! ) minha vingança i 
Quem a vida me ufurpa em tal mudança. 

A R I A A 4* 

V Alban. 0$ Deofes nSo podem 

Dous finos affeâos» 

Que amor vinculou , 

]à mais feparar. ' 

Rei. ". Se os Deofes o querem i 

Quem o ha de eftorvar? 
Albém. Amor , que os unío , 

Quç 08 cmet c»(i(tvi«t. 



A Fanome. 41^ 

Tdel. Amor he mudável » 

Tal não pôde obrar. 
jilban. Que dizes, Ifcnerie , 

,A canto pezar ^ 
Jfmen. A taoiós decretos 

Não poíTo faltar. 
Albâfi. Se a vida me falta 

Na tua mudança , 

Que poflo eípcrar > • 

Do iado a violência 

Dos zelos o mal. 
Alban. Do iniufto decreto» 
J?eí/ Da iníqua fjpntença » 

Jfmm.: Da minha' efquivança, 
Faeu Da tua mudança , 
Todos. Aos Ceos pedirei ^ 

Soccorro , clanendft 

Em mal tão fataL VSõ-ff* 

S C E N A II. 

SaU^ Saht Cbirinola. 

Cbiritt. TT" Alha-mc amor , c a Deofa da ca- 
ir riofidade , ( fe he que ha curiofi- 
dade nos Deofes ! ) Que tenha eu* paciência , 
para fupponar ha tanto tempo hum appecítc 
dífto 9 a que chamãõ querer fabcr o que?fe 
pada , e que paífe fem lazer aquelias oxtiaor- 
dinarias diligencias :^t ^que todas coftumanhos» 



4^ riPnei^elá 

para facar afiim ^do bõ^f' ft Ftoii efla fe^ 
ipedo^ que tamo me o^oht ( Teinâra jà aptn 
nhallo , qoe o hei de fioer ' iromicac li^ fà 
pé cado quanto fabe. : -. 

Sábi Cbiebidm^* /• 

OftM. He boa efta ! Eftà ^^Faeiome por anot 
de mim enchronizado » logrando de aflemo<>f 
agrados de lúnene ^ e ea por limor delle ef* 
wvL de aza cahida not iavorer dè ChírinoU ! 
■e defgraça nio poder voar a:niinha efperao* 
^a íl esfera deToá ãcceicaçio !' ^:« . 

Cbirin. EUe cà/vem: darei {adsfaç&o^á minba 
corioiidade. 

Cbicb» Faetonte , como dtgo , eAà afiando of- 
tanhas no aflador da correfpondencia ; e eu ef- 
cou foíFrcndo os eftouroa nas brazas dos deT* 
prezos : eflou ardendo ! 

Cbirin. Senhor Ficon} 

Cbicb. Senhora Chirínola? 

Cbirin. VoíTa mercê deve andar mní occupado 
com a Fadiga da fua privança ; pois ja ha 
canto tempo que me privou da fua vifta i 

0)ich. Grandes são os negócios que eu , e El- 
Rei temos por ora entre mios ; porém nunca 
cftes feráo baflantes,, para dar de mão á lam- 
buje dos teus favores ; e para que vejas , que 
nio he a privança a que me faz efquecer de 
ci , já não quero fer privado delRci mas fó 
teu , minha Chirinola. 
- Cbirin. Meu , porque í 

Cbich. Porque na minha eftimação és a mais ce- 
lebre privada pax^ Vra^ca ^tvH^à^K 
1^ .. . QívtW 



? €fti>iff. Guftrde-fe para lá, que não crêío f)^^ 

vras IiToiigeúa$: náo venha^ zombar da geme. 

rCbích. Se eu amo de veras , como pòíTo fallac 

zombando? 
t Cbirín. Poia fe ama de veras , diga-4nc por oti« 
: r de andou , que ha tanto tempo que me não 
vè ? He Chichisbeo , e falta às condições da 
Çhichisbeticc ! v 

Cbicbffíiío foi por minha culpa. 
Cbirin. Pois de quem? 

Cbicb. De EIReí ^ que andamos confultando va-^ 
,/. riQS nego^lps pertencentes ás razões de.^^dp, 
Chirín. Eôado de que? 
OHch. Eftado de límené ; nao fabes que jà fe 

não defpofa com Albano? <0: . 

pJirin. Pois com quem? .;,. ' 
CHcb» Com Fíietonte ; lobre ilTo he què cu em- 
penhei a eificacia da minha íciet^cia ; e ain* 
^ da que me fuou p topete , li no volume dof 
^ adros , qup ella íiavia de fcr fua ; porque a 
extinção da tèa de Hymenêo não foi por lhe 
roerem os ;i:atos a crocida « ou por lhe chu- 
parem os morcegos o azeite. 
Cbirin. Pois que toi ? 

dicb* Foi huma muda infínuação com que O 
. Deifico Planeta quíz moílrar^ que o Senhor Fae^ 
tonte havia de fer o ligitímo matido da Senhora 
Ifmene , e .a- Senhora Ifmene a legitima mu- 
lher do Senhor Faetonre ; mas com tal pa- 
&0y e condição , que Sua Mas;eftade havia de 
dar o Reino , para ligitimar eâ:e matrimonio. 
Cbirin. Com que voíTa mercê foi o que deci* 
. ffsou efle enigma í - Chkh^ 



^44^ ' Preeipich ___ 

tSficb. Ku foi o Icgkrmo decífrante" V porcjúe mi 

cifras dcíTe ceruleo globo li as juftas caufas, 

que havia , para affim fc difpôr ; c tambcin 

vejo as baftardas dcícuípas 5 com que cu cngci- 

tft^ o meu amor , e me tens feito andar com a 

V cabeça n roda , confiderando na caufa dos 

t' tpus fc|>udios, - 

Cbirhu Quai amor , nem que alforjes de li pre- 
ta ? Eu não quero nada com Mágicos^ ^ 

., , A.,^ Sâhe Mumás ãú bãfiidtíu, " 

^"Áémn* Quê não pofla eu alcançar de Fíton il: 
^ guma infinuação, que facíUrando os meus de- 
f i Agnks fegurc as efpcrançasdc poíTuir com E|e- 
lia o Scepcro , que pcrtendo ! Mas clle aqui 
eftá com Chidnola r erperarci que fc vá, 
t **• Fkã ao bâfiidm * 

""CfeH». Não quero nadt com feiticeiros, 

Sâbi Ifmcne m bajiidor^ ^ 

J^mm, Aonde achará huma def^^áçada allivío as 
- Aias afHicções ; Mas aqui cHá Chtrinola com 
^* Fitofi : eu me retiro; Fica ao bafiiàou 

Cbich. Chirinolt , eu ftáo fou feiticeiro^ 
Cbirin. Porque? 

^C3&/c*. Porqud não fpu Magico. • ^ 
ÚÍírfif. Se iiâo hc Magico cotKO áecifrou tan- 
' té enigma ? ' ^ . *- 

Chieh. Áhi hequc cfta enigmática a tttinha dcf- 

veniura. 
Cbirin. Dectare-fc. 
Cbich. Não pofio. 

» fiWrm; Purque ? ' ' 

; T ^ - : > Chich. 



di Fáetímte: 44) 

Cbifb. Porqae he fegrcdoj e temo. •;• 

Chirin. Que teme ? 

Cbkb. Que dès com á língua nos dentes^ e me 

\ tirem as ganas de comer* 

Chirin. Não me falle por encrcdentes, que ea 
não entendo equivocas.. <. 

Cbícb. Eu vomíto-lhe o fegredo aos bocadinhos i 
que jà náa poflb aturar a purga dos defpre- 
zos. i parte. 

Chirin. íiio auer abrir aboca para fallar ^Pois 
feche os olnos , para nunca mais roe ver* 

Gb/c6. Eípera ^ Chirinola ; qáo vires as coftat 
à minha efperança , deixa navegar a náo de 

. meu carinho no mar da tua correfpondencia , 
que eu prometto defcarrcgar na falua de teus 
ouvidos a commirsão defte fegredo , ainda qaô 
beba q falgado trago da morte. 

Cbirín. Pois dize , meu rico Fiton , que eu te 

i«'. prometto dar hum bom. refrefco , e fegurar o 

teu amor com as amarras de meus braços. 

Cbicb. Quem não dará á cofta no mar daquel- 
les braços! Adcos fegredo , boa viagem, 
que enjoado nas ondas dos favores vomito as 
tripas. Pois ^alto Chichisbeo , defem bucha , e 
padeça quem padecer ; que primeiro efiã o 
íalvamento do teu amor , do qjue o bom fuc- 
ce 00 de Faetonte : In écquali pericalo dcbet 
quis fihi prius conjulere. 

Cbirin. Que diz ^ Senhor Fiton ? 

Cbicb. Eu não fou Fiton , Chirinola , fou femi- 
criado daquelle que fe quer fazer femideos : 
Não fou Magico , filha ; porque nunca adevi- 
aAcí mais que os teus ]^(amtCAos. 1^ 



Jfmen. *Ai Albáfto , «me lOò títtíúílàk éifiíU 

tuas defconfianças ! - * / . • 

''Mkcifí^Vbiòt hvftííúàk eftranhd Ibccdlo! , I 
C&rr/ir. Para que difleOe, ^ eit::filho'do Sélll 
'Cbfdf: Paní qiié^ElRd^me itio dèafle^vidai 
qae ateirooo em ih0t'f qu« hti^lft defiDobrir 
^ Vfilhò dó Sdfc í'-; ^ • > 

•' Jsàrà que caftigue efte ínrulco.' 
GNrlif; Para * que^^ diflcfftd da txtíiif!lQ^'da luz d# 

tbm. Porque Fatcomé quiz que atiçaffe aEt\ 
Rei 9-para íe n&o apâ^r a luz da foa efeemi- ' 
' Ç>; pois também queria accender nocaunpn- i 
to da^Senhòra Ifmene a fua luz» 

ObrWrr: Faetonte nio ama á Egeria ? 

Cbich. Foi antes de ver a Ifmene , que ao de« 
pois ficou Egeria a perder de vifta. 

Chirin. E ciucm he efte jFaecome^ .♦, 

Cbicb. He hum Paftor aflim chamado filho it 
hum homem , que nunca ouvi nomear ; e de 
huma mulher , que habita emrei^ as feras de 
Diana. 

G&irm;Vai-t6 embora que és hum refinado Magico. 

Cbicb. O* Filha » fe me nSo crés , aqui com to- 
da a folemnidade o jurarei. 



C«\« 



de Faeíonu: 445: 

CdntSo Cbkbisbeo 9 e ChirínoU a feguinte 

A K 1 A A D V o* 

' r • . . j-.in 

Cbítb. Se cuidas , que poíTo . 

pa Magica lifar^ . ... .; 

Te enganas menina 9 ^/^ 

Cbirin. Náo creio effe eng^not , . ' 

CbiX^. Bçm..ft>e pódes^crer. _ / ^ • A 

Chirín. Sabendo outra coiiía , . 

Iflo não farei.. ^ 

Cbicb. £u falio verdade. 
dfirin. Não falia , infolente , . 

Voffê mente. 
Cbícb. Não minto, não 9 não* ^ 

Cbirin. Pois jure. 
Ckicb. Eu juro, 

jímbos^ ^ E trejur- 

Que leve o diabo ^ 
. . Quem Ma^'co hc. . 
Cbirin. Se juras , já fei. . . . * 
Cbich. Pois crê, que jurei. 
Ambos. Não fer feiticeiro, 

Queq;i não adeviíiliaj 

Bem claro fe vè. Fáije Ckid>* 

V.': Sâht Ifmenc.. 
IJmen. Efpcra , Chirinòla , quê tu has^ de fer ^ 

ditofo inárumento das n^inbaB felicidades. 
Cbirin. E^ ^ Senhor i De que fórie P 



44^' PtéHpkÍQ '■ 

\ .Ssbe ^ÍM^. 40, bãfiii^r^, ., , 

JUbm. Aonde acbanl^ham infeliz refrigério , pt- 
n lenitivo do mal ^ que ò pttiafízt , fe pa- 
ia qualquer parte V^^e cáminlúi;;' cMre pãni 
O maltratar com aceleradot paflòf a fiái' detntf 
f»í Mas aqui eftk.Ifmènef AK iiiigrâJba! Ra* 
tiro-me , qoe nÍo *q|éerò vèr diè (nca a on 
a canfa das miriiás-iáfflicçõi^.- -^ ' ; - 

'^rnn. Nlo negues ; -ji- ÍA ffit vã/^lk Fitòn i ' 
he Ghichisbeo. f •-••''' .-■..:•• 

Cbkin. Meus peçcados ! Lá tai tf fegredo ç'oi 
diabos! P«ís Vofla Alteza fhefmo èuvio 'io- 
do da mefma fórte-f-Ai deígNÍ^^da •demilBr 

Jfmn. Tudo ouvi. 

Cbirin. Ora diga^fne. Senhora: è^M^^l^aettfote 
não era filho do SoH 

Albm. Que ouço ! Alma refptra , què )á nlo 
he diíHculcora a tua felicidade. . . 

Jfmen. Também ouvi iíTo , não ha dúvida, 

Cbirin. Senhora , veja por Tuà Vida , fé ouvio , 

?ue eu não quero ficar em má conta com 
Jhichisbcb? 

JJmen. Dize que eu te einpenho a minha Real 
palavra , para apadrinhar a Chichisbeo. 

Cbirin. Aflím foi , Senhora , mas veja nSo me 
engane , que fe o nãò onvió , eu não quero 
faltar ao feçredo ; porque ainda que rapariga » 
não fou cá de mexericos , iíTo não. 

Ifmen. Dcfcança: Tu has de dar a ElRei efta 
noticia, e a Albano , para que tom tão feliz 
aunurtcio alente á fua amorofa^preicnção. 



ie FaetottUé 447 ;. 

Sabe Albano. 

Albân. AlbaAO, Senhora , já á~teus pés com 
reverente acatamcnco ijuer gratificar a felici- 
dade de fe ver favorecido na tua lembrança* 

l[men. Vai , Chirinola , noticiar a EIRei cíle 
defengano. * 

Cbirin. Ui Senhora , Voíla ^tesa não fabe , 
que Qiichísbeo me reooimmeadou tanto o fe- 
gredo ? E entio que conta poíTo eu dar de 
mim 9 fe o foubet EIRei , c .todo o Mundo } 
Oh curiofidade , em que. afâicções me me- 
icfte! Vai'j€. 

tfmen. Vai , e não te dilates» J^i Albano ^ e 
que pouco conheces o, jubilo, que em meu 
peito amante caufou efte feliz defehgano ! 

^Ibârié Eu o reconheço 9 pois fcropre nabalMifft^ 

' de minha, eilimação foqbe contrapezar os re- 
quintes,, a que íe fublimárão os quilates de 
ceq fino amor^ por iíTo íenti^com tio vebc- 
pente .defgof^p o duro golpe , que com in« 
jufta violência quiz cortar o efireito vincukK, 
com. que Cupido nos unío os corações ; -mas 
^ff>^^ » <i}ue. iBe : confidero outra vez unido ao 
bem , de quem me fpppunV feparado , coni 
cQtitinuos ^eradecimentos correfponderei a tão 
fucceflivos favores. 

Jfmen. Na minha firmeza, acharás eterna a leal* 
(dade , com qu«i confiante te adorei. 

jUban. Nella eterniza amor a gloria de fuás fe- 
licidades» 



Caxi-^ 



448 Precipício 

Canta Albano a fcgmnH 



A R r A« 



'-< Ifmètie querida » 

Meu bello ponenro j 
Náo mudes de iiuemo) 
Pois mágoa feria, 
.Que chegue á morrer > 
Quem morre de amor. *- ' 
^ Na toar lembrança . 

Só viva a memoria 
■ Da célebre gloría, 
Que caufá hum favor. - ' Véd-fc^ 

í2/»fCTf. Que hc ifto', que por mim páfla ? Al- 
' bano por hum câfual accídente ficou fencindo 
o duro golpe de ininha apparente mudança ; 
Faetonce com cautelofos enganos pretendia 
íeparar os eftreitos vínculos, com que amor 
ik>s enlaçou os ifFeélos ao mefmo tempo, 
qúe Com reciprocas finezas fe correfponde 
com Egeria I Oh queira amor náo fejâo maio- 
res os fingimentos de Faetonce, para eu náo 
ter mais impoílibilidades que vencer no Hy- 
menêo de Albano ! 

Sabe Factonte. 

Faet. Que tens, adorada Ifmene?'Se Albano 
te occafionou algum motivo de fehtimento, 
faze-me participante da queixa , que logo com 
a fua morte verás fatisfeita a tua pena. 

Jjmcn. As minhas penas , Faetonce , nafcem das 

pe- 



: EP^í^.^fl^^ me dás ; 'nlo, voes tâc^ ^Ito , que 
/ fçgô y minhí^'dcfgraça ábaierá as azas com 
^^qucji^eira cprre, ^. p^iji diiíiçulijlc as minhas 
]^ fciicidadesé ■ ^*^ ^ -j , , /^ ^ i ,. 
íjWí.. N&9 te tmcnío^i^lfixiíiic./ '= ^'■■ 

i/fíiefi. ,|5òis bçm^ me çnfenclo , Fattonte ; ,c tòr- 
^ ncHcc''t advertir , que o muiço voir náo hc meio 
^ eiííca^^ pata fubir ^ mas. mofivo jnfaflfvel . pa- 

^' ra, hftdn amj^icíofo fe^ atãTer.;,^^'/ ' ■ '^ífi'/^* 
JRfirlt 1^1 de, liifm^ gjic is paUyfti dç irmçne 
*^j|pJUiidJ;iâ em àie^ timidci coraçip.'. nág» -{eí 
^/<liid^ oiículto^cneno ,' que parece nâo cabçja 
. dêmrp eiri rneu peito, c quíi demimfáhlrn 
^,por nâo Tc açtiar^çm comigo! Mas eu em 
} Irmenc apuTSLfeJ às cònfusães dcâe áiligma: 
j Òípeu^ Ifmêne. ; 

'^^^^ Egkid^ . . , . _ , ' 

J^er. Que ha dè efperir j falfo , traidor; àmán- 
le ? Que èfquetjdo ao juramtnto , que fizef- 

" rCj de defender á rninhá caufa , fertl êaàfá , 
nem moií^o » que poíTa condecorar á fua m- 
fehcídadc , bufças á Ifnjetie , pára iiít oíféii- 

. der ingrato.' .; 

Pàit. Deixa-nriè , Egera i fé á deígráça ctfidacío-' 
fa cê /eguè , pára que me perfegues tu tio 
dilígetfte i fe nio motiyo as tuaç infelicidades ? 

Eger. ]à te deixo ,. infame ; já fujo da tua víf- 
ca , fementido ; porque, nio quero ver nas 
foiftunas de ifmene á occafiao da minha mor*» 

, ce.: e aífínr. como. Ninfa do Èridai>p vou já 
inúYidat a cópia de fúas cryftallinas aguas , com 
as correntes de mihhás enternecidas lagrimas. 
Tom. II. líí «Jt 



4ÍO Prèclfiitío '' 

até' (]ué o Ccò , compadecido Áz i))infn ^ètí* 
ventara, e júfticdro k tuaí infilícidaãc , vIih 
f^ue corti teu prédpidio a minha queixa. ''.^/'ir/e. 

Faet. Vaiha-me o Ceo ! Iflo he fonho"^. oa.rea* 
lidade? Ifmene advenmdtíf^me , ;qu'eli amfilr' 
fáp de fubir he tropeço pára med^lDeiihar^ 
e Égcíia cult>ándd-me dé {i^oto y pedindo ad 
CjCQ juftí^ : Joílos Deofes i quê vàueinios 
ááò eftes , que amedrentio éfte timiâp' <òra^ 
fSb^ tíe verdade que' eu protôetcL a Egeè», 
defender á Aia eaufa ^ p\ámj^i a ÊoVõã ^ tta« 

■ foi fem fal?<f,'que havíá dfc oáfr^ 
pura á cudá do^ia^gue da tfiiJ^ne^^ pbisftal 
poderia tirar » vida ao orfgirial ^ q^Çi^' J^' 
rteirò entregoà" í "cópia tòdá iattha. "AO^^ 
mene , que tu ç» a motoraf das minHàs d!?f- 
venturas ! forque fe figo a canfa de ^geria, 
precifó-me a. tirar-te a. vida , ena préçisáodsí 
tq^ vida fícò fem alma':, Sé deixo a Êgcria, 
para te fe^píV., cenlro contra' mfm a perfcgui- 
ção dos Deofes y pois concorro na culpa de 
perjuro. Mas ai de mim , qúe ahí vem Ifine- 
ne com ElRei ! Rctiro*me , por não vct a 
tiuma ingrata. Âetira-Je aobafiidor. 

Sabm ElRei , Ifmerte , jílbano , Mecenas , e 
Cbhrinoléi, . 

£ci. Fois Faetonte , hc hum pobre Paftor , e nio 

filho do Sol? 
Faet. Ai de mim ! Qúe ouço ? Eftoú fem alma! 
Jlbané Aflim o confeíTa Chichísbeo > coropadc' 

eido do nofló tue.\wo« 



" Ú€ Fàeióme. 4si 

Pàet. Ah ihfiel.^ t^icon , que tu rhé precípítafte 
M^ceh. e lfm€fí. %^ o ouyl dizer a Cniriíio la* 
Cbirín^ Aà}U eiiçrçí ^u : queira Júpiter , qu^ èii 
'oMfga de 'fòirté j que femprc fique cm fegrcí- 
do por' não .faltar á GHlchisbçp. 
jRtL Chmrinoja ,* deíbrígana-nos : Quem te diíTe ^ 

que Cliíchisbio , era Factonté.'? 

Cbfrin. Senhor , eu , fô o poífo' dizer efn fegfre-' 

'deY Se Voík I^ageftgde proáietté hão feveUc 

^ t nada ^ ei) ètuâo direi' ^ que hé hum I^aftor , ,e 

* jpqt final , gue.fua ínái hç outra Paftoca ', qdte 

' áuárda aà feras de humà JDpna Diana ^ qiii; he 

Senhora dos 'bofques. 
Reié Oh como ^ndei accelaradp* enií àdmíttjr.a 
Faetònte p^ir ;flíKo dó Spl , e em crer as.m- 
gijas in(inu9,ÇQes do Magico ! perdoa , Afba-* 
no j' ã injuÁa^ repugnância do teu I^ymeneo ; 
..inas conK> .fabç>', qtie a extinção da lôz 'me 
deti apparetíre$ 'motivos , para .fiippor éra infi- 

Ífbaoão Tk)S t)eoTe$ a demora das núpcias ,^ en- 
etido , que iné fòhrão fundamentos para a^.mi- 
Ilha defculpa •, e paira que a alegria da poíte 
Tuaví^e o Jefgoíio da derefperaçao , já Ilhie- 
ferà tua feliz efpofa a pezar dos fingimentos 
do engatiofo Fiton , e Talfò Faetònte. ' 

Fàet. Ai de mim infeliz! Efte fim , que heo 
meu maior precipício ! ' 

Alban. Senhor , mal pôde fer culpa o que iiáo 
foi advertência , pois padecemos rodos o ihef- 
mo encano. 

Çbirin. Voffa Míigcftade njio .di ja. nàdã\ a nin. 
£uem; peçõ-lhc pelavlda di *&tiS&^VÍ \^ttN&- 



nc; e part <{ue o não dig^, Iiâ <Íe me píXH 
metcer homa còuía. 

,Ífeí. Que hc>. 

Cbirih. Que, nâp. lia de hÍL^t tnál a ÇhíchiT- 
hcò , porqbè ellè não i^c culpa nefias aren- 
gas , çomo^ f^i>e fua Alteza. 

^^Èèi. Náo merece perdão tio g/ande culpa ; ànf-' 
, bos padecç^áõ p rigor de mmhas iras. 

.Ofifin. Senhor^ , lá fe a venha ^ . ha dé mç h^ 
zer bòa a palavra., que me deo« 

'4/mêm. Scnh«r^ .eu proméfti t Chfrínola a vída 
dç Chichisbtfo ,' Ye ella cohfeíTíiffe ; c affun. . 4 

jRii. Bafta , Príncèta ; eu Ibe perdo-o, poistti 
,0 apadrinhas, c * 

jfib$n* Pois Sétihor, fe eu qual^Arabica Fenit 

"dgs cinzas do efqiiècimetiíto rénafço para ter 
nòvá vida na esfera de tua lembrança; peço- 

' te 9 que náo caflígucs aFaerontç; porque que^ 
ro. antes , que morra aos golpes de huma fu. 
riofa defcfperaçâo , do que vcllo perder a vi- 
da aos fios de hum cutelo ; e aflini. .' . 

[Jíet. Bem eflá : fique Aiuito embora padecendo 
as violências de huma mõne fuccefliva na? 
mãos da dererperaçãp^ ; porque a loucura , que 
o incitou a tão inopinado infulto , fica inca- 
paz de todo o mais caftigo.r Vamos ^ Albano. 

jiiban. Obediente te figo. 

Fão-fe todos com El Rei. 

0)irin. Ainda que não guardei o fegredo , te- 
nho fegura a vida de Chichisbeo , que he o 
que mais iniporta. 

\Faet. Immortãl devo fer, pois não perco a vi* 

da 



ie Faetonu. a5\ 

"'■ 'ii tid òh , em que pttfo a íònene ! Ifoie- 

^nç,efpcra, , , 

TfiheH. Que queres , Factóntc ? 

^^ffl* Que te lembres de minha amordfa conf* 

"', cancia , para que affim mitigue com a f orífi-^ 
.deraÇâo de, lembrado p duro Ç^lpe dè desfa- 

/.Vprccido; porqud jíium amor..,.'. 

JFpHfft. Que dizes , Faecotice ? Ainda a rua louca 
cêmcridade prefiftc no meifmo delirip ? Advçr- 

'yt ' S^^ ^^ permicti eitos afFeflúofas exprçlT- 
;^ft, quando ce coníidêrei filho do Sol, ago- 
ra que fonheço feres hum humilde Paftor , 
te não poíTo conceder o mefmo indulto : vai- 
' tê, que em Egeria acharás propicia a Forjcp- 
flia , para vares premiado o teu amor. 

Faz gfêe fc vaL 

fdif. Senhora. ... 

Jfmen, Não mais , Factonte, 

Fdei. Adverte. . . , 

jQf^en. Náo ht que advertir, 
, Faet. Que eu femprc. » . 

Jfmen. Não quero 'otivir-tc. . , 

Féft. Rendido. ... 

Jfmen» Não p^íícs ^diante. 

Fdet. Te deciíquci o meu amor, 

Jfmen. Deixa-me, Faeronte, 

Faet. Como te poflb deixar , fe íempre dcfvela- 
da t2 bufca a minha fé ^ 

ffmen. Chirinola , chama quem prenda ede louco. 

Cbirin. Eu vou, Senhora. Fatfe. 

Fdet. Louco fim ; mas he porque delirante o 
ipçu cuidado enJFerma de adorar*te. Equepou- 



«í;^ 



4í4 Frecipich 

CO correfixiodes , Ifmene , tos delírios àfBx 
fino amor ! . 

JJmen. Vai-te, Fâçtonte; náo queiras (|oe' a ji^ 
Ilha indignação le precipite. • 

Fãet. Que giaís precipício , que o da minKa 
efpcrança, cahindo dò Çco dlefla bcllcza pa- 
ra o abyfmo da minha clefcrperaçio ^ AiJtr- 

' mene , què me tyránnizas a alma ! E para qut 
vejas, que defc(timó a vida, voa buícár " á 
minha nriorte ; ciúc fe rnorro pof ti , . quanjlo 
te adoro •, .quando ce^iercp , bem, hc qué per- 
ca a vida. ^ * Vài-fe^ 

Ifmen. Eprcunà , poi$ eílamos fós , refponde is^ 
queixas de huma infeliz. ( Se hecjqe á hp- 
ma infeliz oovio as fuás queixas a forrtiii2u) 
Se queriaJs, que admíttiffca Faeiòntc, por- 
que não ancícipaílc a occaíião de vello , para 
lhe dar a primazia na coirefpondencia? Pois 
fc fò Albano logra as primícias de meu amor, 
para que me pcrfegues com âs opppfíçóe^ de 
Facrontc ? Oh , fufpende a roda de tuas in- 
coftanciaç , para. que eu féguré as 6rmez^ diç 
minhas felicidades! 

Canta Ifmene a feguinte 

A R • A. 

Fortuna , que ínconftante 
Te oftenras rigorofa , 
Quando ferei ditofa ? 
Quando fet«i feliz ^. 



Suíp^ode por hqm pouco 
Teu masc> acp.ckra<te. 
Mão feja femprií o fado 
Cruel ^ huma 'infeliz. Fâifií. 

S CE N A III. 

fofquê y como éo principio. Sabem FâHme^ 
e FitQp.^ 

Pçntr. /^ Úârdçm dó loi^^o ^ guardem/ do 

VJ!.io.ocol.: 
JFáet. Vèj, infid^Pitòn, <\^t já eftou fcítò at 

yo* da ircisãp. popular > 
/Tiroif. Eiqpal bçiâ içaq&r 9^ move fàl làdibrio } 
fítU A tua ^ jnfiddidad^ ; pois difTefte não era 
^u £{ho do^^ó^^^^^ c fe jpda.nia aleivofia c^e- 

Í;o a tal opprpbrio , coni á tua mprtje darei 
atisfâcão ás mitit^s iras* Pnxâ ppr bunipunhãt. 
ffton. Façcome^ ,nio te predpite?., .<y]e c^íU^ 
tnésít^o : ,( primeiro eiU que mdo a.minha 
vj£) con\0:,Mdia eu negar» o que )í tan-r 
tas ve^eá confcffpi ? T^ és o verdadeiro filho 
do Sol.^ e jpar^ jç|ue te défeáganes, chama a 
^Appllò tçvi pjài^.que ellc refppnderà benigna 
'às tua$ vozes.".! .. 
J^fd. Iti^reís .çpníidero.todas as prpGa& ; que as 
\ozcs de huiin infeliz nem Ainda, o vento as 
ouve ; mas Te .a diUgencia hc prp^enitora da 
^ccqna , não quero maloga( ss, ÍQrcpnas por 
çmi&ão da diligencia.. 



Cftxi- 



4fí Precipício 

í .r 

CAtitâ Fdeumte $ fig/êimq 

R 1( C I T.A .0' o» ' 

Q^ tu luzida ant(>rch4 , , > 

Que nefla cthereá Sala predominai 

A brilhante caterva •'.:.,. 

De todos os Planetas, 

Oqve 03 ecos, as vozes ^ os clao^orcs. 

De hum miicre irifcriz ",' a quem 9 fóuft 

Dá na vida p çígor da mefqpa tòttc. ' . 

■ ■ ■ I o . . . í i "*■■..,..' .' "í . 

JfdU Imperial do Sol , em quedpp/íreçerâ AvoU^ 
lo ^ qtée ilifcíeiá ertíbuniâ 'h^yém ; d qfía[ird\ 
■ W M/r p^ríe efiffierda outro ^djfifitá pdrd fdc-^ 
tome \ e cantio ambos àlftfnMivfinmtè d^ 
feguinte 

R' E C 1 T A D o: 

JlpoL Qtrem he que terrtamentç''' 

RcmeiíC ão Dcos ApolW a fua queixa ? 

Fae$. Faetonte tt bufca , ó Deoi luzente , 
Para que' a tua picdide ' 
lhe dè horira , nobflézâ , è Mageftadc : 
Hum humilde Paílor todos me cniibao 9 
E aflim faber pencndo , * 
Qual he mhha nobreza j pois p.reAimo , 
Que a fer fílho do Sol , háo pecfhíttír;t 
Ver com tanta igncmía ultrajado 
O régio cfplcndor , que tenho herdado, 

jIpoL òufpcnde , Faetgnte , cila quimera 
Dl rua fanrafia ; 
Do Sol Kccias os xííq^ ^cswa<\uc brilhas : 



t€ ipàéúnàe. iff 

% fc gueres dcíííf rar èffe fcéá^r , 
Pclo';Úágt) Averhò ài^i W )uro 
Dií^tC^facílijir tqrfò b ffgutóy ' T 
JFâet. Sc mcvfás facàí^adeV'':^ : 
>píí/. Para taâô ta doó. ' ^ "\ '^.<.' 
i5f«. D que te pétd 7 *^''^ .^ *^ 



Me leves . jao càèíttí ^lít^níçâto , ^ 
E do^^^ÇÍb' "tíàmiíiintif 4 - ' ■ V '^^ 
'rtíf 'íjàiP^gyraí o <yçBçT-^ ' /, ^ ^' V- - 
Me cnxregoés -o dótiímíd. ^ V' 
^fo/. ífifpdffivíiP * ' ^ ^ ^ \; -" * 

Será de cotifcgulr/ ' ' ■ . i •'* "^ 
\jRlrt. Porcjue? ^ -- ^ . 

yípo/. Porque remo o tèà jpcí^di' ^ * M*' 
^4e/. .Não teinás , x\i6^-xtçiií%. Jy] i . ■. v 
-rfK Confidcra, V " ^-^ 
Faeu ííad* confidctó, - ' - •' ^/> ; 
ví)7o/. Adverte , Faètótitç. ' ' ' 

/vl«. Nada ha que advèrjirr -' " 
Deílc carro fl|iminátlté; " 
Hei de governar bòj!e á luz brjíhatue ^^ 
I^ára que toda á áfmr Orbícuiâr 
Conheça a fidalguia , , , 

'•'■' QtemèaTèt«i/«hróBrèèç 
jÊpot:-^ Ná2U- lÂlçm cdmtigo Itóttieus. iefíi(^tó:>! 
Art:^ Inqtèls/ Slt) > t feit7ffató< eíTa pocffeiy ' 
Que quem do Sol herdou os refplatidores 
As htóéf do mefmò SfoF tàbe fetóiir'- ^'* 
Qual Águia Imperatriz ^, que efla Hii^ porfa^ 
Se|ue fem ctftnor,a bufca doníi ventura. ^ 
: E le nas mSos do deíprezò héi de ácaUr.^ 
Melhèr fera 3 que mòrrâ ' 



4f8 picij^h^ 

HooràdQ 9 js enrtobrecidp j -t 
Coipo filbo do Sol lÊcpTfhedda^ 
'JpoU Vetiça, ^ig, hoje a ^nduftfia 
A violência dos fados , .^^ , 
Que inftçúzido prifnciro^^ji./r'! 
Girará com yentqri .. V. \ 

JFaet. i^c ttifmd^^A^wi, 

jipoL Sobe coniigo , ]t vent i% B\tt0í3fmtc^ 

Qcffa çele|íç;e!ffçra,;..^^^ 

Aonde cumpriras o céàJoten^o^^ . .^ 
Faet. jíá goftofp iç íigo > .^.' , ; '■] : 

Ppís jà nobreza cenho. ^ • -^ .• v 
^pol. Nobi;cía terá$/ 

Com pompa luzida, 
Se ha hoje de ver 
No claro faroj. 
A €;loria. fubiaa , 
Com que refplandecíi 
O fiiho. ç[o Sol, 

Sóhe JFaefQntc eUyddo de hkinuheçíiimA Mé ft 
[entar riA ntfvem. f^ão-fe , y i-d^fappareee 4 
Sala f ficariflo em bojfque como ao principio. 

fiton. Qh queira Júpiter ache Faetonte a fortu- 
'na profpera , para fuperar o rigor dos fados, 
mas como temo , que a remontada eminência , 
a que a fua ambiciofa cegueira o eleva , fe- 
Ja a mefma que o leve caiitetofa para o mais 
' cmi- 



. çmincQce ^^fpenho! Klâs aqui vem .Chícm(* 
; béb : rétiro-me 9 para òferetvar os' ícuii^^ 

Sdhe Çbiçbhbeo. 
€bicb. Doti eu ãDeos aquem item ^m^imcQ- 
*'to, que de hum deftes lógò^fetefajter tu- 
do com muito íí;^q, como fçz oí mçu \afl|ijpP 
Faèromc i^ne pata móftirar , 4\íiç não 'èra de 
todo coUo , poz o corpo em arrecadação i. é 
deixou a minha vida por hcikQ fio; 
fíton. Não foras tu nefcio. '*,\' ' ^ PJf^f, 
Çbicb. Foi ò cafoí Vio Factonte q caldo "en- 
•" tòt*na3o , ' e, qúè fez ? Deíi as palangatnas , deí- 
' «fando o^ jyrrfxll de Chichisboo para pràtínho 
' dó dekrifiÁé dak irás dcL^éí/, que'a eftas ho- 
' lis fuppotiho,' que .fe.cotnie de ràiva, poren-* 
^olir a tógráção da minha Maeíçf ; ,e cem. mui^^^ 
tá razão , que tião heèí^(f Bócadd tão íyffnó"' 
f o , que fe poflfa tragar. 



J^uon. Por tua;"c<ilpa fcv^ ^^^^9"^^ Pí*Prp.<Wfj^ 
' *ao níaiór* predpicío. ' '' . â parte. 

Cbich. Ainda &(Em , era l>em .f|;úo , que El^l^qí, 
' mepòzcffe ás mãos, e''alK>a vontade ^' qpé' 
' eu tfve a culpa de rodos cÍlcs.''enrredos ; .que 
fe 'hie riãomettèra á deícp^Vír o filho doSpI^ 
^nlo yeria agora poílá ac Sol a minha mentira* 
" ' ' ' Sahe Chirinola. 
OJirin. Por mais que corra , c que difcorrn , 
não poíTo encontrar a Chichisbeo , paralH^ 
intimar a Tua ventura, na foríuna , que teve' 
na benignidade delRei. Mas ai , que ellc aqui . 
efiá ! Defcança coração. Chichisbeo ? 



r 



Çbiçbf ^inda me tu app^jrces , £Ufâ.t!hiKQbhj! 
'Dize-me, embufteira, timo pèjd te Tezhíim 
fegredo , que no. mefnnp jnftante l em que o 
CQncet>.eÍ|e , p vpoijtafte^nas bochechas delRei ? 

Pífotf. jÉm hpa- ff «^euria òineccoo, para fe niò 

*. revelar. . . ^ ''",'. . 

Çhirin. E que havia eq dê fazer j^ fe Ifineqe tu- 
do ouvio ' . , ' . 

CbUb. Negar a iroxé moxe, ... 

0ÍTW. E que fazia com ifto? 

Çbícbj Pqz q cafq em dúvida «pqrqqe o cafo 
negado nunca jie bem provai; e em qnatv^^ 
to fe averiguava a verdade, tjnha eu tempo 
de por o vulíco na guardaroupa dá fegurança » 
é pot tua culpa e(tou açora em tçrmpi cfé o 
veres pendurado no cabide da forca» 

0írítt. Nãp temas tal , que Ifmçnç pedio a tua 
vida a felRei. . . 

Chich. Vi(lo iífo não morro defta tratada? 

Cbirin. Trata tu de te livrar de outra. ». que def- 
ta eftá livre a tya vida. 

Cbicb. Vivas milito annos : fempre agradecido 
ao livramento da foltura » que me nlp podido 
fazer bom cabello as ligaduras día morte* 

Fiíon. Vafo máo nunca quebra. 

Cbicb. Ora dize-me , Ghírinola , que fe diz em 
Palácio de Faetonte'^ ífmene fentio não fer 
fil|io do Sol ? 

Ojirin. Ífmene de nenhuma forte ; antes pare- 
ce que o eftimou. 

0ich. E Egeria que diz à tyrannia , com que 
a dcíprczou ? 



ie FaetonU.^ 4fi 

n. Út Egeria não fèi nadâ^ fó fei , qae 
patíentét ie atiTentob para ú !kgjià$ àò Eri- 
10 , aonde habita ccrmo f^ihfa. 
h Hiria tCmar banhols de paciência parare- 
gerio do calòr da (tefefpera^^ò ,' em qué si 
zcrio as chammás dos zelolr ; liiás tem tu 
lo que fe me nSo engana a Viíbt ella an- 
paileandb a pé enxuto asiigiias de Erída* 
^: cheguemos nós para lá pé ante pé ^.pn^» 
'pèfqáímos algdma toufá do qiie eUá diz. ' 

obre/e d marinha , e ãpparece Égeria hú 
no mim éU) fríntipío i^^t MiU 'é- jÊgulH^j^-- 

&ed(e$' rpbéràtios, fe fois' ju^ílos ^ 
\o afiiòi perhiittis iri)u(bíifadite y /" ' 
tium Ibíáúr , fcmcnifddr, / * 
o', eptrjiírò amante- * * 

laffiCtó confiante • '^ ' 
>rezè ,, fcm tçtnoí de VoffáTs iráíi ? 
cando^me ukiràjadá 9 

âa, e impaciente, "^■' 

zelos padecendo o aélivò ardor ,' y' ,, 
^llívio, íenà rea^edío a tánítai dorf .'* 

Kas ehamtíiás dos 2élo8 
^Minha alma abrazada^. 
Com fúria ardente , 
Impaciente j 
Ddirame* 



] : tit hutD h\to amante 
Aos Deofcs (uprçnos 
.^ S€ chega a quei^çan 

. Com jufta violência 
. yihgatrçA , caftígo , 
Cpncra cfie inimigo 
Os Ceo8 me hão do darw 



■'.i 



<Íkb. 



C|iê^a-te yitiL eíla ^ e apara-lhepOa %a<' 
pos ^ áquillo he défefperaçSo refinada. ' 

Jppsrtii Fdeíomè tiq Jlto, Mm bum rtJflMàt^ 

Egtr. Para quapdo, ô Deofcs foberanos , gptr^ 
dais a voíTá indignaçãp , fe a hum falfa aman* 
te , que tanto ^urlou as minhas eíper^nçasi 
deixais ifcríco de caftigos ? Júpiter tupremo % 
para quando sãó os raios , fe não abrazais hum 
peito fementido , que tão tibio .corrcfpondeo 

' aos incêndios de hum fino amor 2 Oh venhãò 
as voíias vinganças , para que o Mundo , co* 
nhecendo o caftígo , reconheça a equidade 
da vofla juftiça. 

FáQU Agora que em Iumit)ofo carro ( como fub- 
ftitúto Á6 meu pai Apollo ) alento os Plane 
ias com raios , e te Volvo a celefiial esfera com 
gyros , quero gyrar a esfera terrcftrc ,. encami- 
nnando o meu brilhante curfo ás caudalofas 
correntes do Eridano, para que Ifmene feaí- 
fombre em hum epilogo de luzes , já que me 
fubmergio em hum pélago de defprezos. Ve- 
rá r^es , c vctà ^oà^ ^ Voíií^^ cwJca^wizado 



■ .' ' . . ^' ■. • . • 

\ funãio com aDyfboçde hamiídades; 

jpiion. ]á Faetcnre fé vè nò radíahté carro/ do 

"^ Sol : queira Jojpicer; qiie as ibiinhás fcieiitíaí 

. íejáo ^bulom. 

Faet. ]à divífo á Região de Itália ; jà diiifo a^ 
cryftallinis enchcnce& do undòíb Ef ídano .; pbts 
iqiae faço y que não encaminho os meus gf- 
ros nos feii^ criftaes , para retratar ncUes; ^ 
-gratAliofa pompa dè meus luzimebcbs ? Mas 

•'ai de mim^ t]áe os brutos enftrbârdos còr'^ 
rêm (tiÁ gòvdrno ! Mas quò tnuitò Te difcor- 

' tòtíl^giiiiidòâ da rtiitiha infetkidade ! 

_' Rmdó diàitfo. 

3>fWíV; Dôofcsí piedade! Júpiter jfdíccfo^ro! 

Úfêtrús. Que me quein^o ! Qjj^ ihe abrazo! . 

ÒttProsl Clemência, Deofea? Fàyôlr , jilpirêr!* 
"^ S4hirÁS ioàòi 

fítofi. Ài ínf&Iiz Páetònte, qtie nlíd fòrão ftm 

'; fundamento as tninhas cautelas ! 

Paet. Inúteis são todas as porfias : ál Êg^ri^ , 
que os Deofeis conjurados contra mim y que* 
rem que pague com meu precipício a culpa , 
^ue comniettí, faltando ao júraihento que te dei ! 

Pdjfâ bftm hio atravèffaúdo o carro , e çãhè 
Faeiontè not hrd^s de Egma.^ . 

Eger. Ai de mim infeliz ! Mas que vejo ? Não 
és tu o fementido Fackonte , a quem os Dro- 
fes, compadecidos da minha injuria, precipí- 
tio jufticeiros paira caftigo da tua infidelidàife t 
Olhai 9 fe as aguas do Ffidano hãó forSò' as 
qóe ce etígirão decente tumuíõVÇ^Mi fi^ltar 



4<4 Pwifkio . 

A rua higratidÍQ> as corrente it meip, 'prancò 
féjáo as que puri&quem as manchas de lua 

. jnconftancía par^ gue fe paccncccm os realces 
da cuá firmeza i Mas ai ! Ai que ja cncregoií 
nas mãos da mone os ulrlites e/pirítos.^ paca 
d^ixsi de todo fein alentos a minha efperanja ! 

Tçdos. Horrofo caáigo ! 

iíd. Qpal íerá a caula de unu ã>nftemaf ao > 

fhon.Hc tempo de romper as prizões ao filen- 
cio , qòe^ perdido Factome , já nao l^^mais 
que perdícD . . á parte. , ,. ' : Sabe. 

Eu (ou ínviâo Tages , o infeliz Eicon , ^e 
feguindo a Faecoiue vivi disfarçado.^ no teu 
. Reino com 6 nome de Chichísoco. 

&U£. O meii oomc feico ciapa de relhacos ! Se 
nâo fora EIRéí. * . . . 

Fitoh. Porque a minha folicita diligencia quiz 
triunfar datua proBada vigilância; pois a faber 
Faciontc quem era ,^ efta mefma icíencia lhe 
havia de lérvir de inaior ruitía por caufa de 
huma formòfura. E como agora fe faz preci* 
fa a narração defie tio inopinado cafó , não 
poíTo occuícar-ce quem fsu , nem deixar de 
.rhahife({ar*tè ó intbrcúnío de Faeconte. 

Chicb. Ouçamos , que ifto ha de fer galante. 

Fitòn. Sabe , gue cÔe me quiz tirar a vida (re- 
fentido dás ignominias ,com que fe vio ulira- 
jado de ti , e de todos de leu Reino ) fe 
lhe não. ceruficafle o illúftre brazáo de fua fo- 
berana origem ^ e como ellc he o verdadeiro 
filho do Sol , e como cal fempre das minhas 
ícicncias lefpeitado » icicentei « para defvíar o 



yf^iihfiE fc;2. filM^icp ^feem: j j^ímí jpMmtiro »fiIftáo 
denÍ:es , que f>aM(§W^: ^â,ifiê4$:é€ne: êrúhiata 
inciph àje ipfo. 

havia de invocar a Apollo feu píi: cftc def- 
eco a rccebelFo com ^ompa raageftoíi , e com 
a mefaia magcft^dç o conàiziõ i celefte gíT. 
fera , para governar q carro do Sol , do qWl 
cahío dcrpephado para os braços de Bgeriá. 

CbUh. O certo hc que zombando »fe dizem ás 
verdades. .* ^. ;; 1 > 

JZ^i. Nio forão íUusõea , mas .verdades, as qiie 
íonhei. : ' , r. . , . >* 

Fhon. Efta , Senhor', foi^a canfa t|uô me índ- 
lou a viver disfarçado no teu Reino; efte o 
infortúnio do infeliz Façttíííte!^ que de nenhu- 
ma forte puderão as, minhaa (ciências «vítaf^: 
antes me parece, qu^ todos os prineipios*, 

^ que intentei para reparo doi.prfiicípicio., forSo 
meios infalliveis com que lhe aéblel^ei o defpenhtit» 

Chicb. líTo fQÍ;o meímot, que errar; os* princí- 
pios de meio a meio por todos os pritKipioi. 

Todos. Eftranho caio! : - '' 

Chicb. Hc cafo qMiem nenhum cafb fc =p6dò 
cafar com outros cafos., 

ReL Temo, Fiton', que Apollo refcntidò dò 
injufto defprezo, com que ultrajei a Faeton* 

/ je , com injuda indignação empregue cm mrch 
o poder de fuás iras.. 

^oif. Appllo> Senljor^ 'bcmconheqe jque ignft- 



R E C 1 T A DO. 

Sabei,. que Apòllo fou o Deos flaimnant 

Qoe na esfera brilhante 

Deíle celefte globo , 

Com luzida influencia * 

A todos os Planetas ilIumino« 

A Facconte dou por filhoearo 

De femideos a gloria fempre excelia, 

Nova vida cobrando 9 

Para que refufcite 

Novo amante de Egería. ' 

Ifmene fera de Albano eípofa : 

C em doce Hymenfto todos unidos, 

Ifmene na Ligiiriacom Albano 

Factonte na Itália, e Eridano , 

Reinarão ;* porqtie fique defta íòttt 

Egeria fatisíeita , 

Pois com t>omDa luzida 



^«mioitnentd -quando reconheço a jaftiça de 
Ègerift na fuecersád dcfta Monarquia. 

Q/fS^ylflb bc fazer da neçcffidade virtude. 

JFÒet. .feliz noil' y^zes ^ quem rerufcicando vtve 
..f&rií cpofagrar: nas aras de lua belleza huoM 
novar.^ida , ' c tão nova , que fe aquella poc 
não viver comiigo me conduzio is mãos da 
. mocfc^ ; . efta me encaminha para a vida, 
jpoia vivo ')á de jnorrer por ti. 

Xgtr. pa morte dos defprezos paflbu o meu 
amor para a vida dos favores. 

Cbicb. I(ío he paílar da morte para a vida ^ co* 
mo quem paíTa da vida para a mone. 

Jfmm* Albano , fe como Princeza fui alvo de 
teus favores , agora não permitias , que cu 
feja o objeâo dos teus defprezos. 

Albém. Enganas-te , Ifmene ; não ha maior im- 
pério , que o da tua belleza , da qual fempre 
vaíTallo fe confeíTa o meu amor. 

Cbid)» Chirtnola , jà vès , que enforquei os li* 
vros da Magica : acorda-te de mim. 

Cbtrin. Eu femjpre fonhei em te querer: Tua 
fou. 

Cbiib. Pois enrão que fazes ? Dã cã eflfa mão 
de papel , que quero imprimir nelía as cifraa 
da minha affeição. 

M^ctn. Perdida Ê geria ^ com o amor voou a ef- 
|>erança de reinar. 

Cbicb. Senhor Mecenas conrente*fe vofla mercê 

neflcs cafamfintos com o fcu nome , que me* 

Ibor fe ha de cafarcom o ofRcio de padrinho. 

. Rtu Efclarecido Faetonte , relcva-me o$ defpre- 



jcom, mcliflaai cònronancias',- pubtièand(f Íif' 
geftadc íupfema., a que trte êtêvouafertuhjif^ 
,lJpfpeiiosii, ^qup coíifigo coiMo filho^do iSÍoU' 

.-." j . '> '• ■•" ■• c ò"-'K- o,; ■ ■ ' 

> - Na tea^ luzente ' • ' r 

l>o fàcro Hymente'' -.''_ - ^ 
Se acenda brilhante^ * - * 

O rwo flammam-e^ \' 

- Do- filho do S0I.Í ' ; 



FIM DO SEGUMDaTOMO; 



PROTESTAÇAa 

DO^COLLECTOR- 

AS palavras Deojes , Nunten , Ri- 
do , Divindade , Omnipotência , e 
Sabedoria , íe devem fomente entender 
no fentido Poético, e não de nenhu- 
ma outra maneira ; porque fomente íe 
ufa delias neftas Obras como necef- 
farias\ para adorno da com{X)íiçâo Dra* 
matica , e exprefsâo dos Epifodios Có- 
micos*, e não com intenção de ofien- 
der em coufa alguma aos dogmas da< 
Santa Madre Igreja , a quem çomO' 
obediente filho me fujeito em tudo O 
que ella determina. 



IN D ICE 

I DAS OPERAS , QJJE CONTEM 

I eíb fegundo Tomo. 



L 



Jbyrintbo de Creta. Pagina 3, 
Guerras do Alecrim , e Mangerona. 
: Pag. ....... . 1^7. 

As Fariedade de Proteo. Pag. . 269. 
Trecipich de Faetonte. Vz^. • * 3jrér. 



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