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Full text of "Tradições populares de Portugal"

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f 



1^ BUíiEcii Eiimiincii pomuGUEZii 



I 



TRADIÇÕES POPULARES DE PORTUGAL 



■■■ ' ■ "^ ■ I I f I I I 1 1^ P. I HI IM II U . 1 1 



■••■ 



OUTRAS OBRAS DE J. LEITE DE VASCONCELLOS 



«M**Mtf^n^a^i# 



POESIA 



A Consciência dos Séculos (poema)^ i880. 

Rimas portngnezas, i88i. 

Bailadas do Occidente (para entrar no prelo) 



TRADIÇÕES POPULARES 

Romances populares portngnezes (em publicação). 

Fragmentos de Msrthologia popular portugueza, 1881. 

Estudo ethnographico (a propósito da ornamentação dos jugos e 

cangas dos bois)^ 1881. 
Oictados tópicos de Portugal, 1882. 
As Maias, 1882. 

GLOTTOLOGIA 

O dialecto mirandez, 1882. 

Linguagem popular portugueza (em preparação). 



PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS 

Cancioneiro Portuguez (de redacção com Ernesto Pires), 1879-1880. 
O Pantheon (de redacção com MonfAlverne de Sequeira), 1880-1881. 



TRADIÇÕES POPUURES 



DE 



PORTUGAL 



COLLIGIDAS E ANIfOTADÂS 



POR 



J. LEITE DE VASCONCELLOS 

ALUmO DA B80B0LA MEDICA DO POBTO 



PORTO 

LIVURIft PaRTOENSE DE CUVEL t C- EDITORES 

119 — Bna do Almada — 123 

1882 



.L5S 



Typ. Ottoldental» ma da Fabriea, 66— Porto. 



(^H ^V^9^/7^ 



DE 



MEU PAE 



INTRODUCÇÃO 



Oada terra eom lea uso, 
Oada roea eom sen ftiso. 

(Adagio populab). 



I 



Estou certo de que grande parte dos leitores 
doeste livro hão-de acha-lo uma cousa fútil, ou, 

âuando muito, um assumpto de simples curiosi- 
ade. Não me admiro : as ideias, antes de se im- 
porem completamente, precisam de passar por 
um strugglefor li/e; além d'isso, os objectos com 
que se está mais em contacto são de ordinário 
os que menos vezes despertam a attenção, pois 
que o habito não deixa reflectir nelles. 

As superstições, os costumes, os jogos, os 
contos, as cantigas, as adivinhas, as rimas infan- 
tis, os ensalmos, as orações, as xacaras, todas 
essas tradições que constituem o Folk-lorCy pare- 
cem na verdade á primeira vista objectos desti- 
tuidos de importância, e próprios exclusivamente 
de espíritos ignorantes e rudes; a inyportancia po- 
rém do estudo scientiflco das tradições populares 
resulta das seguintes razões, entre outras, e eu 
peço aos que combatem esse estudo o favor de 
m'as refutar: 



vm 



1) As tradições populares manifestam o mo- 
do como o povo encara actualmente a Natureza e 
como vive na sociedade, no que vae uma ne- 
cessidade de exame para o demopsychologo e 
para o historiador, nenhum dos quaes pode afflr- 
mar que surprehendeu todas as manifestações 
cerebraes, que entreviu a evolução da intelli- 
gencia, ou que conhece conscienciosamente o 
seu paiz, sem primeiro ter interrogado o povo, 
que, se, por um lado, é um órgão atrophiado do 
grande corpo da humanidade, por outro, é ainda 
um embryão a desenvolver-se, e em ambos os 
casos representa uma das forças mais importan- 
tes de uma nação. 

2) As tradições populares elucidam-nos so- 
bre o passado, porque no geral nenhuma d'ellas 
é moderna, como se reconhece pela comparação 
com o que existe nos differentes paizes ou com 
o que num mesmo paiz existe em differentes epo- 
chas. Foi para mostrar isto aos meus conterrâ- 
neos que o não soubessem, que, além da parte 
puramente popular moderna, introduzi neste li- 
vro mais duas: uma antiga, extrahida dos mo- 
numentos litterarios e epigraphicos da Lusitânia 
e do Portugal archaico, outra extrangeira. Se nas 
duas primeiras eu não podia ser completo, muito 
menos nesta ultima, em que existem centenares 
de publicações em todas as linguas, publicações 
nem sempre fáceis de consultar, principalmente 
no nosso paiz, onde escasseiam os livros folklo- 
ricos. Com quanto a existência de algumas tra- 
dições eguaes em differentes páizes, por ex. certos 
adágios, possa ser explicada por uma producção 
espontânea e independente nesses paizes, a má- 
xima parte tem de se explicar por dois modos : 
a) transmissão de povo a povo, ex. certas fabu- 



IX 



Ias que por intermédio dos sacerdotes budhicos 
foram communicadas aos escriptores brahmani- 
cos, dos quaes passaram á Pérsia e d'ahi a Cór- 
dova no tempo da dominação árabe na peninsula; 
b) propriedade commum das raças anteis da sua 
separação. — Qualquer d'estas três causas, a pro- 
ducção independente, a transmissão de povo a 
povo, a origem commum, é interessante, no pri- 
meiro caso para a demopsychologia, nos outros 
para a historia. As superstições, os contos, as poe- 
sias populares, etc, são frequentemente o ultimo 
vestígio de mythos primitivos, como acontece com 
as fogueiras do S. João, o cepo de Natal, as Maias, 
etc, em que se celebra, sob um aspecto mais 
ou menos catholico, a lucta do Verão e do In- 
verno, da luz e das trevas. Como aconteceu a 
todas as religiões, o Ghristianismo, para se im- 
plantar profundamente, precisou de substituir 
muitas festas pagans por festas da Egreja; nesta 
mudança de crenças, mudança quasi sempre ex- 
terior^ umas ficaram como simples superstições, 
outras foram consideradas como obras do Diabo, 
que, do mesmo modo que o Christo, a Virgem, 
os Santos e os Anjos, é em parte o represen- 
tante de muitas divindades decahidas. 

3) As tradições populares, principalmente a 
poesia, dão a média da capacidade csthetica do 
povo que as repete. 

4) As tradições populares habilitam-nos para 
avaliarmos o grau de communicação que houve 
entre os escriptores litterarios e o povo, porque 
as litteraturas são tanto mais verdadeiras, tanto 
mais ricas, quanto em maior grau essa commu- 
nicação se exerce. 

5) As tradições populares revelam proces- 
sos naturaes, e formas archaicas e dialectaes 



da linguagem, cujo conhecimento importa para o 
campo da Glottologia, como por exemplo a des- 
coberta de um astro para o campo da Astrono- 
mia. D'aqui se vê a conveniência de relacionar o 
estudo da Glottologia com o do Folk-lore. 

6) As tradições populares tem uma impor- 
tância práctica, pela sua applicação á educação 
infantil. Uma boa educação consta de três par- 
tes: educação physica, moral e intellectual; ora 
para todas ellas as tradições populares offerecem 
themas variados. As forças physicas robustecem- 
se, por ex., nos jogos, como os cantinhos (§ 84) 
a cabra-cega (§ 324-^), o assim-se-amassa (pag. 
232); muitos adágios, contos, fabulas e romances 
offerecem desfechos de alta moralidade; as facul- 
dades intellectuaes desenvolvem-se, por ex., na 
decifração das adivinhas, na perícia dos jogos 
(o pião, a pella, etc), na poesia (parte esthetica). 
As creanças amam naturalmente aquillo que co- 
nhecem, e por isso ser-lhes-ha muito mais agra- 
dável começar a ler algumas ingénuas cantigas 
do berço e do S. João, do que as paginas assu- 
caradas e massudas de algum pregador delam- 
bido. Os costumes populares no ensino têm ainda 
a vantagem de fortalecer o cérebro da creança 
no respeito da nacionahdade, aqui representada 
num dos seus mais importantes elementos, — a 
tradição. Muita gente achará extraordinário o 
que digo, mas o que é certo é que na Allemanha, 
e outros paizes mais adeantados do que o nosso, 
se practíca assim; e então Portugal não fazia nada 
de mais se os imitasse. Antes se incuta a vene- 
ração da pátria por meio da educação, do que por 
meio de luminárias nas datas históricas do 1.** de 
Dezembro e do 9 de Julho ! 

7) As tradições populares estudadas scien- 



XI 



tiflcamente, ofTerecem ainda outra vantagem prá- 
ctica, porque, preparando a interpretação d^ellas, 
desfazem muitas crenças erróneas. Se os inqui- 
sidores tivessem tido conhecimento da histero- 
epilepsia, escusavam de ter queimado tantos in- 
felizes condemnados como possessos. 

Além d'estas razões, o Folk-lore é, como disse, 
um objecto de curiosidade para o povo, porque 
contém a sua obra. 



II 



Nascido numa aldeia da Beira-Alta, e tendo 
passado a juventude em convivência diária i3om 
o povo, eu possuía em mim mesmo um bom 
numero de factos, quando em 1876, dos 17 para 
os 18 annos, edade em que vim para o Porto, 
comecei, enthusiasmado pelo grande movimento 
scientiflco do século, a occupar-me do Folk-lore, 
esboçando e dando a lume os meus primeiros 
ensaios em 1878 (na Aurora do Cavado, de que 
é redactor o snr. dr. Rodrigo Velloso). 

Este livro contem a máxima parte dos arti- 
gos que publiquei em vários jornaes portugue- 
zes e extrangeiros, augmentado de muitos factos 
novos. Pôde a Sciencia confiar na fidelidade d'el- 
les^ porque os factos foram todos ou colligidos di- 
rectamente por mim ou por pessoas de inteira 
confiança, e, num e noutro caso, o numero das 
versões eguaes ou pouco diflferentes authenti- 
ca-os de sobra. Convém aqui consignar, com o 
meu profundo reconhecimento, os nomes d'aquel- 



xn 



las pessoas a quem devo informações: para as 
tradições da Beira-Alta, meu Pae, minha Mãe, e 
os académicos Manoel Maria de Sousa, João Fi- 
gueirinhas (meus condiscipulos) e Augusto Pinto 
Brochado; para as da Beira-Baixa o snr. dr. F. 
Martins Sarmento e o meu condiscipulo António 
Manoel Gomes; para as do Minho os snrs. dr. F. 
Martins Sarmento, Adolpho Salazar, A. Carneiro 
Guimarães, Custodio J. de Freitas, e os meus con- 
discípulos José Ferreira Aguiar e Celestino Gau- 
dêncio Ramalho de Barros; para as do Douro^ a 
snr/ D. Maria Peregrina de Sousa, os snrs. dr. 
José Carlos Lopes, Marciano Azuaga, S. Rodri- 
gues Ferreira, Ernesto Pires, J. Alves Barbosa, A. 
Moreira de Sousa Baptista, João Vieira de An- 
drade, e os meus condiscipulos Aureliano de 
Vasconcellos, António de Sousa e Joaquim Ma- 
noefda Costa; para as de Tras-os-Montes, os snrs. 
Sequeira-Ferraz, Branco de Castro, Júlio Trigo, 
Costa Macedo, os meus condiscipulos G. de Mo- 
raes, J. J. Pinto, J. J. Alves, e meus primos Hen- 
rique Guedes Pereira Leite e Roque de Moura 
Coutinho ; para as da Extremadura, meu Tio Antó- 
nio Leite Pereira de Mello Cardoso e Vasconcellos, 
o snr. Teixeira Bastos e o meu ex-condiscipulo 
Carlos Galrão; para as do Alemtejo, o snr. Júlio 
Irwin; para as do Algarve, o snr. Reis Dâmaso. 
E' possível que me escapem muitos nomes, mas 
eu peço desculpa da falta involuntária. De todas 
estas províncias, exceptuando o Alemtejo, eu re- 
colhi pessoalmente muitos dados, já percorren- 
do-as (Beira-Alta, Tras-os-montes, Extremadura, 
Minho e Douro), já interrogando populares de lá. 
Ao distincto glottologo o snr. F. Adolpho Coe- 
lho, que, pela severidade da sua critica e vastidão 
dos seus conhecimentos, é o primeiro folklorista 



XIU 



portuguez, agradeço também as informações que 
me enviou e as quaes adeante indico. 

As tradições populares portuguezas podem- 
se estudar nas seguintes fontes : 



I. Monumentos. — Ex. os penedos dos casamentos (§ 200)^ os 
jugos dos bois (g ^77-g, etc.). Cf. mais a introd. ao cap. vi e os g§ 
201^ 203, 203, etc. 



II. LiTTERATURA. — Esta fonto compreheade : 

1. Leis: 

a) civis (Ordenações, .Foraes) ; 

o) municipaes (Postaras) ; 

c) ecclesiasticas (Concilies, Constituições). 

2. Documentos de Inquisição (processos, etc.). 

3. Documentos diversos (como foios particulares; cf . § 342-6&^. 

4. lÃtteraiura propriamente dita : 

a) Chronicas, Agiologios, Topographias e Memorias. 
bj Obras mysticas (ex.: Contos de Gonsalo Trancoso, 
Horto do esposo, Exorcismos), 

c) Livros de medicina ; 

d) Cancioneiros e poesias várias, ((]anc. da Vaticana e 

de G. do Rezende, Gil Vicente, Camões, Sá de Mi- 
randa, etc.). 

e) Romances litteraríos e dramas. 

f) Obras diversas. 

q) Livros populares (litteratura de cordel : Lunario per- 
petuo, Livro de S. Cypriano, Prophecias de Ban- 
darra, etc). 

III. Povo. — (Tradição oral). 



XIV 



Todas estas fontes aproveitei, como já dei a 
entender. Não alterei absolutamente nada do que 
recolhi. Indico entre parenthesis o nome das ter- 
ras em que as tradições foram ouvidas, podendo 
comtudo estas pertencer a muitas mais. Com- 
quanto Portugal nao seja perfeitamente egual em 
tudo, pois que os differentes meios geographicos, 
— a montanha, o campo e a beira-mar — , impri- 
mem ás populações caracteres diversos, e ha além 
d'isso variações, ainda que pequenas, de Hngua- 
gem, as tradições populares acham-se profusa- 
mente distribuídas por todo o paiz, em virtude das 
seguintes causas: 1) a pequenez do paiz, e falta 
de linguas muito diversas; 2) os grandes traba- 
lhos campestres que chamam gente de muitas 
terras, como o azeite no Alemtejo e o vinho no 
Douro; assim, na minha terra, sempre ao finda- 
rem as vindimas do Douro, vêem modas e canti- 
gas novas; 3) as romarias, aonde, com as cruzes 
das differentes freguezias, e mesmo sem ellas, 
concorrem innumeros descantes ou sturdiaSy que 
espalham egualmente modas (de musica e canti- 
gas); 4) os descantes que acompanham os mor- 
domos ou festeiros que andam de terra em terra 
a pedir com os santos das festas; 5) os cegos 
que vão também de povo em povo a pedir, can- 
tando e tocando; 6) uma infinidade de pequenas 
cousas, que á primeira vista parecerão insigni- 
ficantes, mas que o não são, como almocreves, 
criados de servir, etc, etc. 

A indicação dos nomes das terras tem im- 
portância, não só para authenticar os factos, mas 
por causa da linguagem. A linguagem da Beira 
differe da do Entre-Douro-e-Minho ; esta da de 
Miranda (no § 366-d dou um specimen do diale- 
cto mirandez); esta da do Alemtejo e Algarve: 



XV 



não ha dialectos muito distinctos (com exclusão 
do mdz. e talvez da linguagem do Suajo que es- 
pero estudar este anno), mas ha dialectos reco- 
nhQciveis, como terei occasiSo de mostrar noutro 
trabalho. 

Inclui as tradições populares da Galliza, do 
Brazil e das nossas possessões, por motivos fá- 
ceis de comprehender: a Galliza, ethnica e lin- 
guisticamente, é um appenso de Portugal; as ou- 
tras regiões foram povoadas e dominadas pelos 
portuguezes. 

Na colheita das tradições populares encon- 
trei as mesmas difficuldades que vejo indicadas 
por outros collectores. O povo é desconfiado, pelo 
que se torna indispensável muita táctica aflm de 
lhe captar a benevolência; suppõe que o interro- 
gão para zombar d'elle, e por isso, ou responde 
torto, ou esquiva-se a responder. Foi-me preciso 
algumas vezes dar dinheiro ou metter empenhos, 
e dizer sempre primeiro algumas superstições e 
versos populares, para provar a minha sinceri- 
dade nas perguntas. Também me servi d'outras 
precauções que recommendo a todos os collecto- 
res que ainda não tiverem usado d'ellas : quando 
eu desejava averiguar qualquer facto que eu sus- 
peitava, nunca declarava este facto directamente, 
porque o povo tem muito o costume de respon- 
der que sim a tudo, mas servia-me de linhas tra- 
vessas. 

A maioria das tradições populares traduzem 
a crença viva do povo; não assim outras, como 
se reconhece pelo aspecto fragmentado e apagado 
d'ellas, pelas contradicções que apresentam, pelo 
tom faceto que revestiram, e pela forma métrica 
que perderam no todo ou em parte. 

Os fins, porém, do foiklorista são: recolher 



XVI 



todos os factos gue entrarem nó domínio do seu 
estudo, e classincal-os mais ou menos methodi- 
camente para facilitar esse estudo; compará-los 
com o que houver de semelhante nos paizes» es- 
trangeiros, e por ultimo tirar as conclusões pos- 
síveis. Satisfazer, tanto quanto coubesse nas mi- 
nhas forças, aos dous primeiros fins, foi o que 
aqui tentei; mais tarde me occuparei dos dous 
restantes. 

Se, ao reunir esses fragmentos soltos da alma 
do nosso povo, muitas vezes me chamaram doi- 
do, por supporem frivolo o que a mim me pare- 
cia ouro; se houve mesmo no Norte do paiz um 
jornal democrático que se recusou a publicar-me 
alguns factos do Folk-lore pelos julgar ridículos, 
quando a obrigação d'elle, como folha do povo, era 
amar o que pertencia ao povo, e combater a igno- 
rância, mostrando a importância de taes factos; 
se, emflm, algumas canceiras intellectuaes e phy- 
sicas tive de dispender, — devo, porém, confessar 
que nunca senti maior prazer na minha vida, 
do que quando, no meio aos trabalhos agrícolas, 
á fogueira do lar das aldeias, nas romarias ale- 
gres da egreja, — nas montanhas, nos campos e á 
beira-mar,-— eu apanhei da bocca dos aldeões, 
simplórios e bons, tudo isso que aqui coordeno, 
e que, á proporção que me ia apparecendo, me 
ia annunciando um mundo novo e cheio de re- 
velações extraordinárias e desconhecidas. 

Ao menos esse prazer, e o de ser útil á mi- 
nha pátria e á sciencia, hão-de compensar de sobra 
as zombarias dos insensatos I 

Porto, Julho de 1882. 

^. T/eite de ^asconcellos. 



CAPITULO I 



Os astros 



[Os escriptores antigos não nos deixaram muitas informações 
a respeito das ideias mythicas o religiosas dos povos que outr'ora ha- 
bitaram o território hoje Portugal. Na Ora marítima de Avieno^ es- 
criptor do 4."» século da nossa era^ que parece traduziu um auctor 
lÃienicio do século vi A. C, folla-se sim da Pelagia insula (situada 
talvez perto do local de Aveiro : vid. o notável estudo do sr. dr. Martins 
Sarmento^ Ora marítima, Porto^ 1880) dedicada a Saturno, e do Cabo 
de Santa Maria (chamado Cautes Sacra) também com a invocação de 
Satomo^ ete. 

O geographo Strabão diz do Cabo de S. Vicente: «Vul^fo enim per- 
hiberi ait Posidonius (135-49 A. C.)^ solem ibi ad oceani litus occidere 
maiorem^ editoque strepitu^ quasi si maré strideret sibilaretque eoquia 
in íbnâum deferatur exstincto : quin prseter hoc vanum esse etiam iilud 
qaod aíont statim ab occasu noctem inseqai.» (Strab. Geogr. lib. ui, 
eap. i, 5^ ed. Didot> 1853). O poeta Ausonio numa epistola (xix) a 
Paulino escreve no principio : 

«Oondfderatjam SoHi eqaoi Tartesla Oalpe 
Stridebatque freto Titan insígnia Ibero.» 

Lúcio Floro confirma a mesma supersti(jão : «. . . cadentem in 
maria solem^ obrutumqne aquis ignem^ non sme quodam sacrilegij 
metn^ & horrore deprehendit.» De Roman, Gesiis, Évora, 1671, ii 
eap. xvn. — Da epoclia luso-romana restam inscripções em que o 



culto astrolaiico se affirma: SOLI. ET. LVNAE || CESTIVS. ACI- 
DIVS II ele. (inseripçâo achada junto ao cabo de Cinira, o antigo Pro- 
montório da Lua, como até diz Gamões nos Lus, c. in^ est. 56 



.... nai »errcu da Lua conhecidas 
Subjuga a fria Cintrci, o duro braço.) 

SOLI. AETERNO || LVNAE D PRO. AETERNITATE. etc. (ins- 
cripçào trazida de um local próximo a Goliares); LVCINAE || 
MLNER II VAE. SOLI || LViNAE. etc. (dada como tendo existido ao pé 
das Caldas de Vizeiia.) (Estas inscripçoes foram extrahidas dos au- 
ctores porluguezes peio sr. E. Híibner iias Noticias Archeologica^ de 
Portugal (trad. da Academ;),-Li*toa-t€f7i, a pag. 15, 16, e 82.) 

Na Gitania de Briteiros (Miuho), segundo consta das explora- 
ções do intelligente archeologo o snr. Martins Sarmento, tem-se no- 
tado uma tal ou qual orientação de certos objectos para o Nascente; 
appareceu mesmo ao pé do monte urna cara do Sol lavrada em pe- 
dra; mas nada se pôde affirmar de rigorosamente positivo a respeito 
do culto solar nos citaníenses. 

Nas moedas ^hi^panicas daepocha romana também apparecem 
ios astros represetiiados. Docalto astrolatíco no secuiovi da era ehpistã 
^bo ia seguinte ctínosa dispoMção na Ac/a do concilio que sediz oe- 
{Mnradó em Bra^a (Bxctin, die oai. Mamrum) : «Non iieeat Chrtstfa- 
'Hfs^tenere traditiotte6'Getilium, «t observare veli^oiere etemeâta, 
saiit lanãe, atlt stelliarum eursâm» (gollbgtio oonóiliqfrum Hispaniíb, 
*^M«Jir!ti MDcni,— cap. tóxtti — íz.^ Concilio.) 

^A9 Gomtituiç^s ^j)»$co;Kids, posteriores a esítadftta;cof»tiQuam>a 
dispor contra a veneração pelos astros: «E prohibimos «obfyetiia-de 
ex»^Ufihào (excõtnuobao) maior, que fienhôa pèíToa. . . . I^a juizo, 
(OU levairte fígoras pelos movimentos, òu aspectos do fol> lua, ^ou 
lesirelas, ou por qnaesfiuer outras coufas, paraproviostioar as acções 
iMlinttaiias.» (Con^(»/f)i^d5 '%mKftii?« c/ô hi^adú da Gua^^, — Lisbda 
«MDCXx, ttv. v, tit.*iii, oap. I, 3, fwag. 242) Na mesma pagina, § ^, 
-iê-sé: «'Porém deciUramos^u^»^^^ probibído fazer ooíijectujpas, 
*& juízos pelas cõstellações do Ceo;. . . . mas st^mmifte se diga eofije-. 
cturalmente o que pôde acontecer.» 

Nas ConstUuiçõeíi do bispado do Porto (ordenadas em 1687 em 
seguida às de 15Ô5, reimpressas no sec: xviii, aainda vigentes) ha 
porém uma disposição mais clara, porque se m'ànda, sob pena de 
enérgicos castigos, que se não rese á lua nem ás estreitas. (Liv. v, 
tit. 3.«'(»nst. 3). 

. Duarte Nunes de Leão, na Primeira parte da Chronica ios 
Réis de Portugal, menciona um eclipse succedido no tempo de D. 
Sancho l.o, e «por cujo espanto os homens e mulheres de todo esta- 



*do, eoidando qfie^erA o fim do inundo^ deixando soas casas e fáeea- 
ida, se acolheram ás egrejas^ qaerendo nellas acabar.» (ed. de 1600 
Lisboa^ pag. 61.) 

A propósito da Astrologia, de qae a Constituição supracitada 
fallava, temos ainda mais factos na nossa Historia. O iafante D. 
Henrique, duque de Yizeu, o homem a quem Portugal deve a iaicia- 
4i va das descobertas que fizeram grande este paiz e abriram ao mun- 
ido horisontes dilatados e fecundos, escreveu o Secreto de los secretos 
de AstrotogM (vid. Boletim de Bibliographia Portugueza, redigido 
feto sr. A. Fernandes Thomaz^ vol. l.», pag. 53-85); de todos é 
«em sabida a prophsGia de mestre Guedelha na coroação de D. 
Duarte, .que a não quiz.attender, mas em cuja livraria fi^rava um 
traetádo de Estrologia : vicio dos reis da epocha, mas vicio lógico, 
«qae a serie dos acontecimentos preparou e depois destruiu. 

Numa Prcctica de exorcislds e ministros da Igreja, traduzida 
XK>r P. Manoel Rodrigues Martins, e que mostra ter tido muito uso, 
Tô-se: «tixorciso te immunde ipíritus, & per ipsumte conjuro i^ 
per quem omnes montes humiliabuntur, & vales omnes implebun- 
lur. Per illum, in quo Sol, & Luna obscuraMítur, db fteJlce cadent 
de ecelo; ante rujus aspectum Angeli prseibunt, & omnia si mui tur- 
Ite^lmatur in tempestates ignis.» (ed. de Coimbra, annode 1694, pag. 
■224.) Era a traducção da tremenda ideia medieval : ubique Doemonlj 



a) o Sol 6. a Lua 



As tradições do Sol andam em parte juntas com as 
^a liua, de raodo que as não pude separar em dois sub- 
capitulos differentes. Note-se de passagem que a Lua-nova 
é a phase mais celebrada nas nossas crenpas populares. 

*1. Quando Deus foi fazer o Inferno ficou Luz- 
de-Vela (Lusbel?) na cadeira divina; ao voltar, não lhe que- 
-íTia iMz-de-Veia í:%^X\\mr a cadeira, allegaado que o Senhor 
Jh'a tinha dado. 

Dizia o Senhor : 

— lA cadeira é minha, emprestei-t'a, não t'a dei. 

Luz'de-Vela ateimava muito, e pôz uma .demanda com 



o Senhor. O Senhor apresentou a Lua, a Agua e o Sol co- 
mo testemunhas de que tinha emprestado e não dado a 
cadeira. A Lua e a Agua juraram falso ; o Sol jurou a ver- 
dade, respondendo ao Senhor: 

— O que é dado, é dado; o que é vendido, é vendi- 
do; o que é emprestado, é emprestado. Portanto a cadei- 
ra é vossa. 

Deus então castigou a Lua (que era tão linda como o 
Sol), tirando-lhe os raios para os dar ao Sol; castigou tam-^ 
bem a Agua, obrigando-a a correr sempre, sem nunca es- 
tar queda. 

Luz-de-Vela era antes d'isto o maior Anjo do Ceu; de- 
pois ficou o maior Diabo do Inferno, e chama-se Lucifê 
(Lúcifer). ' [Còmmunicapão da sr.* Anna Joaquina de Souza, 
do concelho de Famalicão.] 

2. O Sol é irmão da Lua e deseja que o mundo 
dure sempre ; a Lua não, porque está constantemente a ser 
retalhada ('phases da Lua.) * [Mogadouro]. 

3. Uma vez andava um homem a trabalhar ao Do- 
mingo, apanhando silvas. Appareceu Deus e disse-lhe: 

— Então tu andas a trabalhar ao Domingo? 

— Senhor, aqui nmguem me vê neste canto. • 

— Pois deixa estar que toda a gente te ha de ver. 

Depois Deus collocou na Lua o homem com o molha 



1 Uma parte d*este capitulo sahiu já nos meus seguintes arti- 

ris : Cosmogonia popular portugueza in Vanguarda (26 Dez 1*880 — 
Fev. 81); Traaições dos corpos celestes, ibidem (29 Ag. 80—1^ 
Set. 80), etc. 

No § i.<» allude-se á crença, nao só portugueza, mas de ou- 
tros paizes, de que houve um tempo em que tudo faltava. 

2 Nos Peruviaoos, á Lua ó irmã do Sol (Tylor, Civil. Primi^ 
tiv. irad. fr., 1. 1, pag. 330-331). Nos Ho de Chota-Naypore (ao N. E. 
dollndustào) a Lua é fendida pelo Sol em duas metades (íd. ib., pag. 
409; Cf. pag. 407). 



4e silvas às costas. E' elle que, andando lá, produz a$ 
manchas doesse astro. (Freixo-d'Espada-Cínta, Carrazeda 
Kl'Ânciães, etc., etc. Em Mafra existe a mesma versão com 
■a, única variante de ser uma mulher a castigada, e não um 
homem.) • 

4. A Lua articulava com o Sol, dizendo que ella 
•corria mais do que elle. O Sol, zangado, atirou com lama 
é. cara da Lua. D'aqui as manchas. Uma cantiga diz: 

Quem me fora como o Sol 
E corresse como a LHa : 
Não n^ havias de escapar^ 
Amor^ em parte nenhCa. 

(Famalioto) 

5. O Sol comepou a disputar com a Lua, sobre qual 
era mais bonito. A Lua dizia que era ella. O Sol, com inveja, 
atírou-lhe à cara com lama, ou areia, ou terra. A Lua ati> 



8 Esta tradição é semelhante a uma que F. M. Lurei traz na 
Revue Celtique (vol. 3.^ pag. 451-52) referida à Bretanha. Cf. mais : 
«Un paysan voulait, le veadredi saint^ aller cbercher du bois dans 
la forèt^ comptant aae le sarde n*y serait pas re jour-1à, etc. Le pay- 
san a été transporte Sans le ciei et il y conduit éternellement le Cha- 
riot (apud Ga^^toa Paris, Le Petit Powet, aot. 23). Nas Obras en prosa 
y verso de Bartrina vem o adagio : 

Qoaa rhome dei eel treu branya 
Bruni lo vent i U montanya, 

a que O A. faz este commentario: «Indudablemente esta locucion se 
refiere ai Hombre de la luna — » e cila vários auctores, Daate^ (In- 
ferno XX, 424-126; Paraíso, u^ 49-54), Benevenuto de Imola, (Caim 
anda na I.ua com um mólho as costas semelhante ao que trazia no 
mundo), Plutarcho, e a obra ingleza JVo/^^ and Queries (1852),— onde 
parece haver, vestidos da mesma crença. O dr. Prato, de Spoleto> 
tem um trabalho sobre Caino e le spine secondo Dante e la iradizionã 
papoíare. 



rou á cara do Sol com agulhas. D'aqui a origem das roan- 
chás da Dua e dos raios solares, que ainda hoje, quando 
fitamos O' Sol, se nos espetam pelos olhos. (Famalicão,. Porto, 
Guimarães, etc.) 

6. A Lua era tão bonila ou mais do que o Sol. O 
Sol, com inveja, atirou-lhe á cara com terra ou cinza ; e 
ella a eUe com alfinetes. (Leça do Balio, Carrazeda d'Anciães) . 

7. A Lua era mais linda do que o Sol, e uma vqtl 
comepou a dizer: 

— O' Sol, eu sou* bem mais bonita do q'a ti (do» 
que tu.) * 

O Sol pegou numa pouca de cinza e atirou-lhe con^ 
ella. A Lua ficou turva. (Vimieiro). 

8. A Lua eru mais linda do que o Sol. O Sol queria 
casar com ella, mas a Lua não lhe dava cavaco. EUe então^ 
despeitado, atirou-lhe à fiice com cinza, e ella a elle com as 
agulhas da costura. A Lua ficou sem brilho, e o Sol cheio 
de raios. Amda nos eclipses é o Sol que batalha com a 
Lua. (Porto, commuhicação do meu condiscípulo António do 
Souza.) 

9. A Lua dizia que era tão bonita como o Sol, e o 
Sol dizia que não. A Lua passou um dia pela porta do Sol, o 
elle atirou-lhe com cinza á cara, e a Lua a elle com agulhas. 
(Torre-de-Dona-Chama. Em Gondomar também se falia da 
Lua ter atirado com agulhas ao Sol.) * 



^ Na Mu^h. comparée de Girard de Rialle 1é*se: <r. ..des Kha-^^ 
sias de Tlnde qui croient que Ia lune est un individu épris chaque 
móis de sa bellé-mère qui lui jelte de la cendre au visage, cequipro- 
diUt les taches de la lune (pag. 149). Tylor dizomesino, citando Hoo« 
ker. Vid. obr. cit. pag. 407. (cf .outra Iradi^o no mesmo Tylor, tam- 
bém a pag. 407). 



No concelho de Penafiel diz-se que a Lua atirou com 
sal ao Sol e este ficou mais lindo. 

10. O Sol- tem o nome de Ma/noel. (Mondim da Beira, 
Guimarães, etc.) Quando elle nasce, dizem os trabalhadores : 
— «M vei» o Mtmeh, Quando elle se pôe, dizem :-rT«Là 
se vae oMmeli Vaimos embora». (Guarda;) 

Esta denominarão é importante, porque pôde estabde- 
cer uma tal ou qual relação com Christo, que também se 
chama Manoel (Mondim da Beira,, etc). Uns versos incom- 
pletos que recolhi no Porto, dizem.: 

S. Joào é filho dô Santa I$abel^ 
Depois foi padrinho de Christo 
E-poz-lhe o Dom^ Manoel. 

A- relapãp entre o Sol e o Christo não tem nada de ex- 
traordinária, como sabem os que se dedicam a estes estu- 
dos, e como se mostrará no correr da presente obra. * 

Ouvi dizer que ao pé de Vizeu. diamam ao Sol o Luiz^ 
o Luizinho (Cf. Luz). O mesmo noutros pontos da Beira- 
Âlta. 

Mf. O Sol é considerado como uifi olho. A. expres- 
são o oUio do Sol ou o olhinho do Sol^ ouve-se a cada passo. * 



^ Cf. a Rev. de Ethnolog, e de Glottolog. do méu amigoosnr. 
F: A« Coelha^, pai^ 10; ad ií; of. Dopais^ Orifimàfi t9dos of,(^tQ$^. 
possiin^ eUii 

6 Mata-ari é o olho do dia em Java e Sumatra : MasorAMéim 
é'ain68mft.coasa\em Madagáscar (Tylor, ol]|r. cit« pag^ 40d);O oltío 
él0. Sid DO Big-Veda é o oikO' de Mitras de Yarona^ é de Agpi (apQA 
TyioF ib.^.pag. 498). Eo) Hesiodo é o olho de Zeus qm. vé tudo. Noy 
Zand-Afmiaia Sei ^ o olho d^ Ahura^Màzda e if^ MÚhra (ib» ikà 
«Aiosi une ehose établie aujf)>urd'bai. eà rideotílé de rirlapdàJa ^wí 



8 



O olhinho do Sol 
Que nos alameie 
Q'aQto mais milhor. 



(VoazelU). 



Também se diz a cara do Sol e a cara da Lua (Fama- 
licão). Os auctores dos reportorios e as creanpas pintam até 
estes dois astros como duas caras. Uma cantiga diz: 

Já lá vae o Sol abaixo^ 
Rei das caras, deixa-o ir ; 
Que amanhã por estas horas 
Rei das caras torna a vir. 7 

12. Em muitos paizes.o ouro é consagrado ao Sol e 
a prata á Lua. O sanscrito harana signifia ouro^ e hari si- 
gnifica amarello côr de ouroy sol. AUude á mesma represen- 
tação esta cantiga ? : 

O Sol é cai]La de oiro 
A Lua é a fechadura; 
As estrelias são a chave 
Da minha pouca ventura. 

Note-se porém que em vez do primeiro verso também 
se diz: 

O Sol é caixa de prata. 



«oeil» sualis, et dubreton^^/ite/^ «soleil» (A. de Jubainville,— Rev. Ar- 
eheologique pag. 217^ Out. 1877). Não fallarei aqui do olho do 
Cyclope. 

7 O Sol; nos VedaS; é chamado a face de Aditi, a face dos deu^ 
ses. As nações teutonloas chamavam-lhe também a face do seu deus. 
<Vid. Max-Mílller, Myth. compar., 2.* ed. franceza, pag. liO). O 
anctor medieval Martiano Capella^ chama ao Sol^ num hymno^ ver^ 
ãadeira cara {De Nuptiis Philologiae, liv. 2.°). 



13. Quando uasce o Sol costumam saudal-o com es- 
tas palavras : «Là vem o Sol ao Nascente ; lá vem as três 
pessoas da SS. Trindade e as cinco chagas de N. S. J. Chris- 
to», e rezam P. Nosso e A. Maria. (Districto da Guarda). 

Ou dizem: 



Em louvor do Sol nascente 

Que nos não dôa mão nem doDte. 

(ib.) 



Em Mondim-das-meias (Beira-Alta) ao nascer o Sol, 
descobrem-se, e rezam ao SS. Sacramento. Saudam-n'o 
assim: 

Com bem nos aches^ 
Com bem nos deixes. 



Em Vouzella dizem na mesma occasião: 



Em louvor de S. João 
Que venha alumiar 
Todo o fiel christão. 



Ou: 



Là vem o Manei do dia > 
Que tudo cria. 



a A adoração do Sol nascente encontra-se em muitos povos. 
Tácito^ por exemplo^ diz : «et orientem solem (íta ia Syria mos est) 
tertíani salutavere» {Historiar,, Wh m, cap. xxiv). O mesmo costume 
se' encontra entre os Índios amigos e modernos. Chez les Esqui- 
manx . . . le soieil ... est salué par des crís de joie^ par des danses^ 
par defi chants. (Apud Ad. Coelho^ Rev, de Ethn, pag. i5). 



12 



17. Ao pôr do Sol também em Mondim-das-meias é 
costume sauda-lo. 

Em Vouzella dizem : 

Jà lá vae o Manei do dia 

Que nos tem alumiado todo o dia. 

Ouvi dizer á mãe de uns barqueiros que o Sol mer- 
gulha no mar e que, quando mergulha, faz uma certa res- 
tolhada [esta ultima parte, porém, só a ouvi a uma pessoa]. 
(Porto) ^^ Depois do sol-posto não se deve varrer a casa, 
porque se varre a fortuna; ou, varrendo-se, deve deitar-se 
no cisco uma mancheia de sal (cone. de Penafiel), 

No monte do Castello (Vermoim, no Minho) ha umas 
hervas taes que quem passar por ellas, depois do sol-posio^ 
fica encantado, e só se desencanta em o sol outra vez nas- 
cendo. [Nesse monte está uma Mou/ra.] (Vid. o meu opús- 
culo Fragm. de Myth. Pop. Port,^ pag. 2). 

A ideia do Sol doente está nestes versos ; 

O Sol-posto vae doente 
A Lua o vae sangrar : 
O Sol-posto ata a fita^ 
Pega na marga o luar. (maiga) 

(Ao pé de Vizett). 



11 Cf. os trechos qae na íntroducçâo a este capitulo citei da 
Strabão e Floro. — Taiíito escreve a respeito do pôr do Sol nas aguas : 

^Sonvm insuper emergentis auiiiri persuasio adjicit» {De mor^ 

Germdn,, cap. xlv) ; e Juvenal : 

Audiet Hercúleo ttridenUm gurgite solem. 

(Satik. xiv, y. 226, ed. Paris 1771). 

A phrase : O sol mergiUhou-se no mar ó vulgar. 



13 



18. No Sabbado em que não houver Sol tem o rei 
um carneiro (Vouzella), ou mandam as freiras de Vairão um 
carneiro às de Arouca (Porto), ou tem as do Louriçal um 
carneiro (Extremadura). A' mesma crenfa de que não ha 
Sabbado sem Sol se referem os versos populares : 



Nao ba Sabbado sem sol 

Nem alecrim sem flor. 

Nem menioa bonita sem amor. 

(Ifoneorfo). 



Não ba Sabbado sem Sol 
Nem velba sem dôr^ 
Nem menina sem amor. 

(Porto). 



Não ha Sabbado sem sol^ 
Nem Domingo sem missa^ 
Nem Segunda sem preguiça. 

(Porto). 



Non bái Sábado sin sol, 
Nin romeiro sin frol, 
Nin dama sin amor. 

(Oram. Oalleg a de Saeo Arce, p. 974) 



Nao ha Sabbado sem Sol; 
Nem rosmaninho sem flor; 
Nem casada sem cinme^ 
Nem solteira sem amor. 

(Coimbra). 

isto é, choverá. 



Sabbado sem Sol, 
Chuva de maior; ** 

(Voazella). 



19. Quando ha eclypse do Sol (Sol cris) põe-se uma 



1' Nesta superstição de que não ha Sabbaáo sem sol, poder-se- 
ha ver um yestigio da consagração dos dias da semana? Nos nomes 
financezes (Lmiúi = Lunae aies; Ms^rái =» Martis dies;\eTíáreá\== 
Veneris dies, etc), hispanhoes (Lunes, Martes, Viemes, etc), ingle- 
zes (Monday, Saturday, etc), allemães (Montag, Freitag, etc.) ba 
ainda esse vestígio. O Domingo era o dia do Sol (Sunday, Sonntag), 
e nos chrístãos é o dia do Senhor, emquanto que as relações popu- 
lares com o Sol são no Sabbado; mas os primeiros chrístãos observa- 
vam o Sabbado como os judeus. Nas Ordenações Philippinftà (1595) 
manda-se que se não guarde o Sabbado (nem Quarta-feira), nem se 
coma e beba por causa áhsmissas dos Saobados (Liv. v^ tit. v. apud. 
F. A. Coelho, — Ethnographia Portugueza, § 61). 



16 



*Stà o Diabo a bater na mulher 
C*o rabo da colher. 

(No eoneelho de Psiwfiel). 



Quando chove e faz Sol, estão as feiticeiras a pentear- 
se, e o Sol é o alcoviteiro da chuva. (Vianna do Castello). 

25. Disse-me uma velha de quasi cem annos que o Sol 
é uma rosa divina que o Senhor deitou ao mundo. (Gandra). 

 canção popular também diz : 

O Sol é divina graça 
Que todo o mundo aquenta; 
O amor não é tào firme 
Consante se representa. 

(Concelho de Gkiya). 

26. Existem vários adágios ao Sol : 



Ha sol que rega 
E chuva que sécca. 

(Beira Alta). 

Ruivas ao Nascente 

Desappõe os bois e foge sempre. 

(Famalic&o). 

27. Terminamos, reunindo algumas cantigas em que 
o astro do dia é celebrado : . 

Esta noite choveu oiro O Sol^ q'ando nasce^ inclina 

Diamantes orvalhou : A*s pedras do teu annel : 

Ahi vem o Sol divino Também eu me inclinei 

Enxugar quem se molhou. Aos teus olhos, Manoel. 



17 



Se ea quizera, bem pudera. 
Fazer o dia maior : 
Dar o nó na íi ta verde 
E fazer parar o sol. 

O Sol prometteu à Lua 
Uma fita de mil cores: (arco íris?) 
Quando o Sol promette prendas, 
Que fará quem tem amores ( 

A' entrada d'esta.rua 
Dei um ai que nunca dera : 
Recolheram-se as estreitas, 
Sahiuo Sol à jenella. 



Já lá vae o Sol abaixo 
Mettido numa paneila : 
Já lá vae o brio todo 
Das meninas da Gancella. 

Já lá yae o Sol abaixo 
Mettido num cantarão: 
Já lá vae o brio todo 
Das moças do Alvação. 

Já lá vae o Sol abaixo 
Mettido num pucarinho : 
Já lá vae o brio todo 
Das moças de S. Antoninho. 



Não sei que mal íiz ao Sol 
Que não dá na minba rua : 
Vou-me vestir de preto. 
Que de branco anda a Lua. 



Já lá vae o Sol abaixo, 
Elle é lindo como o ouro; 
Já lá vae o brio todo 
Das meninas de Ridouro. 



O' Sol, que te vaes embora 
Lá para trás do Marão, 
Dize ao meu amor que venha. 
Senão morro de [laixão. 



Já lá vae o Sol abaixo 
Mettido num cravo duro : 
Já lá vae o brio todo 
Das meninas da Cruz do Muro. 



O Sol anda e desanda 
Para tornar a nascer : 
Eu nem ando nem desando 
Estou firme no bem-q'rer. 



Já lá vae o Sol abaixo. 
Já lá vae e vae de pé : 
Já lá vae o brio todo 
Das moças de Ponte de Pé. 



Já lá vae o Sol abaixo 
Fica a ribeira sem luz : 
Valha-me aqui, ó menina. 
Com as chagas de Jesus. 



Já lá vae o Sol abaixo 
Mettidinho numa canna : 
Já lá vae o brio todo 
Das meninas de Cucana. 



Já lá vae o sol abaixo, 
O Sol vae, a sombra fica : 
Vae o Sol admirado 
Da sombra ficar t^o rica. 



Já lá vae o Sol abaixo 
MeUido numa jenella; 
Já lá vae o brio todo 
Das moças de Sernadella. 

(CantigaB do Minbn. e Traz-os-Montei.) 



18 



28. a) A Lua parece considerada como uma lanceia 
nesta cantiga : 

Lá vem a Lua sahiado 
Cuma lanceta na mão 
Para sangrar Mariquinhas 
Na ponta do coração. 

h) A phrase : está nos cornos da Lua é vulgar, e o 
povo mesmo afflrma que a Lua tem cornos, ^* 

c) A Lua é considerada como um queijo, em dous 
contos populares que ouvi na Beira-Alta e no Minho: Um 
lobo e uma raposa vêem num rio reflectida a imagem da 
Lua, e parece-lhes um queyo; neste sentido pretendem es- 
vasiar a agua para o comer. ^* — Conta-se que uns homens 
da freguezia de Sobrado (c. de Vallongo), tendo visto num rio 
também a imagem da Luá, cuidaram que ella era um unto^ 
e andaram toda a noite mettidos na agua a ver se o apa- 
nhavam. D'aqui o chamar-se aos habitantes d'aquella fre- 
guezia : os da broa d'v/rUo. 

29. Contam que na occasião da restauração de 16l0 
foram vistos «uns signaes na lua, nos quaes se represen- 
tava uma hóstia e duas figuras humanas que pareciam An- 
jos», (cf. o folheto Apparição d^umíia hóstia no céo em Bra- 
ga em 1640, por Silva Caldas, Braga 1879, pag. 4). 

30. Quem espreitar por um lenço ou por uma penei- 



1^ Num caatico russo ha esta invocação : *Lua t Lua ! cornos 
de ouro /» (Gubernatis^ Myth. zoolog., trad. fr. 1. 1^ not. 1 a pag. 447). 
No Rig-Veda (i^ i54^ 6) todas as estrellas ou todas as vaccas reuni- 
das formam muitos cornos (id. ib. pag. 19). A Loa com chifres ó re- 
presentada como uma cabra benéfica (id. ib. pag. 447). 

^^ Este conto é idêntico a uns slavos^ que vem em Guberna- 
tis^ obr. cit. t. n^ pag. 140. 



19 



ra para a Lua, vê lá um homem com um molho de silvas 
4s costas. (Beira-AUa; cf. § 3.") Para se saber quantos dias 
tem a Liia, põe-se também um lenço nos olhos; quantos ris- 
cos se virem, tantos dias tem. (Gabeça-Santa no c. de Pe- 
nafiel) . 

31. Se o luar nos dá na cama, ficamos com a boca 
iorta (Minho). 

A' noite diz-se: 

Lá vem o luar 

Pr'a nós podermos andar. 

(Voiuella). 

32. Diz-se usuahnente : os cães ladram d Lua. ^^ 

33. No anno ha treze Luas. A primeira vez no mez 
que se vê a Lua, mostra-se-lhe dinheiro de cruzes (um pin- 
to, doze-vintens etc), faz-se-lhe uma cortezia, e diz-se-Uie : 

Lua-nova 
Tu bem me vôs^ 
Dà-me dinheiro 
Pr'a todo o mez. 

(Minbo). 

[Tanto estes versos, como a vénia, são três vezes.] 
Quando se vê pela primeira vez a Lua, é bom ter com- 
sigo cobre, prata e ouro (ib.) ". 



^6 Na França eré-se popularmente que os lobos uivam á Lua. 
€f . o provérbio : Eneu garde la lune des loups. 

Quando a Loa se esconde atrás de uma nuvem^ dizem que fo- 
ram os lobos que a comeram, para poderem entregar-se aos ataques 
« aos roubos (E. Rolland : Faune populaire, pag. 123, Mammifères). 

17 Esta snperstí^o com a Lua repete se noutras partes (Fran- 



20 



Ao ver a Lua, mostra-se uma moeda qualquer, dizendo 



Lua nova^ 

Deus te acrescente. 

QiuDdo passares pela minha porta^ 

Traze muita d'esta semente. 

(Porto). 

Lua-nova, 

Eu n.âo te vi senão agora ; 

E quem te fez nova 

Que te faça velha, 

E eu uma sua serva ; 

Santa Ignez 

Prata e ouro todo este mez ! 



(S. Martinho de Gandra; communicafão de uma vellia 
de quasi cem annos). E' bom acrescentar que o povo tem 
uma viva fé nisto. 

34. Quando apparece a Lua-Nova, as velhas sau- 
dam-na: benza-te Deu^! (S. Pedro do Sul, etc.) e resam-Ihe 
(jpassim) . ^di abbadia de Villa-Cova de Carros (no concelho 
de Paredes) ouvi a um velho as seguintes quadras que se 
dizem á Lua quando ella se mostra pela primeira vez : 

Benza-te Deus, Lua Nova, Benza-te Deus, Lua-ncva, 

Com todos os teus crescentes, E mais teus quatro crescentes; 

Que eu peço a Sanía Apollonia Emquanto eu peço ao Senhor 

Me livre de dor de dentes. Que me livre de dor de dentes. 

Eis mais saudações ã Lua : 



ça^ Bélgica, Suissa, etc.) com o cuco : quem tiver dinheii:p no bolso 
quando ouvir cantar o cuco a primeira vez, tem-no todo o anno; 
n^as «hat man kein Geld in der Tasche, so hat man das ganze Jahr 
keínes.» (£. RoUand, Faune pop., n^ pag. 92). 



21 



LQa-Nova Lua-Nova, 

Benzedeira, Benza-te Deas; 

A irmã de miaha madrinha Maria 

£' a S.^ da Oliveira. E' mãe de Deus. 

(GuimarSes). (Bouças). 



Loa-Nova, Deus te veja, Lua-Nova, 

Benza te Deus; E ao teu S. Matheus, 

Minha madrinha^ Que me gardes os meus dentes^ 

Màe de Deus. (?) 

(Maia, Porto). (Barro ao pé de Lamego). 

Deus te salve, Lua-Nova, 
Lúinha de S. Math(^us; 
Q*ando te doerem os dentes. 
Assim me doam os meus. 

(Villa Marim). 

Benza-te Deus, Lua-nova 1 

Quando lá chegarem sapos e serpentes 

Bonda então que mo doam os dentes. 

(Guimar&ea). 

Benza-te Deus, Lua-Nova, 

Que me não morda bicha nem cobra 

Nem cadellinha raivosa. 

<3 vezes e P. N. e A. M.) " (Matho^inhoa). 

Benza-te Deus, Lua-Nova, 

Que te vejo agora pela primeira vez. 

Que me não empeça mal de fora. 

(Concelho de Faíé). 



18 Na Baiia-Brelanha,— «c*estoit une coustume receuê de se 
mettre à genoux devant la nouvelle lune, et de dire TOraison Domi- 
nicsàe en son honneur.» (Rev. Celtique, ii, pag. 485). 




22 



Benza-me Deus e á Lua-Nova 
E aos seus divinos acrescentes^ 
E a virgem N. S. Santa ApoUonia 
Nos livre de dor de dentes. 

(Galmar&es). 

Deus te salve Lua-Xova, 
Que me livres de três males : 
Priíneiro, de dor de dentes; 
Segundo^ de fogos ardentes; 
Terceiro^ de línguas de [uà gente 
E do inferno principalmente. 

(Serra da EatreUa)» 

Bénza-me Deus 

E à Lua-Nova ! 

Todo o mal que eu tenho 

De mim vá fora. 

(P. N. e A. M.) (Guimarães). 

35. Quando se vê a Lua pela primeira vez, mos- 
tram-se-lhe as creanpas e diz-se : 

Lua^ Luar^ 
Toma o teu ar. 
Deixa os meus meninos 
Crescer e medrar. 

(Porto), 

Lua, Luar, 
Toma là o teu ar. 
Deixa- me a minha menina 
Comer, beber, dormir e passear, i^ 

(Guimar&ea, etc.) 



19 Os selvagens do Brazil mostram á Lua os recemnascidos 
para ella os livrar de doenças (G. de Rialle, Myth, comparée^ 1. 1> 



23 



36. A propósito do § 12.*» eis uma cantiga: 

Oihae para aquella Ltia^ 
Gomo stà enramalhada : 
Por deutro é oiro Qqo^ 
Por fora prata lavrada. 

(Qttimar&es)* 

37. O eclipse (ecris, Lua-cris) da Lua é considerado 
como uma doença d'ella. A Lua apparece amarella, porque 
está doente da icterícia, e a pessoa que então olhar para 
ella arrisca-se a que se lhe pegue a doença. (Villa-Cova-de- 
Garros) ^. 

Na província brazileira do Maranhão ha um grande ter- 
ror quando a Lua voe fazer cris^ e todos se acautelam. «As 
prevenções são estas: logo que principia o eclipse, acor- 
dam as pessoas que estão dormindo, porque, se não as 
acordam, ficam sujeitas a dormir eternamente, ou a passar 
por outro qualquer infortúnio. Todas as pessoas da casa 
saem para fora, ou para o quintal, gritando ás arvores fru- 
ctiferas : Acorda, laranjeira, olha a lua cnz ; aborda, man- 
gueira, segura os fructos e as folhas, olha a lua criz. E cora 
estas gritarias vão dando nos pés das arvores com cordas 
ou sipós; dão muitos tiros e batem nos pilões, para as ar- 
vores ficarem bem acordadas. Nas roças fazem o mesmo e 
isto quer o eclipse seja á meia noite, quer de madrugada». 
(Alm. de Lembranças, para 1870, pag. 255) *^ 



Í)ag. 150) . Gnbematis diz : «Noas savons que Tépoque de la pleine 
une (qui est un symbole phalliquo) était regardée comme la moment 
le plus propice pnur les mariages». (Obr. cit. vol. 2.°, pag. 220). Aos 
primeiros dias do noivado chama-se em Portúfal : Lua de mel. 
«> Gf. Pictel, — Orig. Indo-Europ., Paris, 1863. 
>^ Gomo se sabe, muitos povos explicam os eclipses pela ba- 
talha do astro com um monstro. No continente pot tuguez ainda não 
achei vestígios certos d*isto; só sim no jornal beirão ODistrictode Vizeu 



24 



38. Adágios : 



Ao luar de Janeiro 
Se coota dinheiro. 



Lua-nova trovejada 
Trinta dias é molhada^ 
Senão emborraltiada. 



O luar de Janeiro 
Não tem parceiro; 
lASL^ lá vem o de Agosto 
Que lhe dá no rosto. 



39. Cantigas populares : 



A Lua vae amarella^ 
Meu amor, vamo-la ver; 
Não ha mal que chegue à Lua 
Nem ao nosso bem querer. 

Ta és Sol e eu sou Lua^ 
Q*al de nós é mais stimado? 
O Sol de inverno é mimo. 
Sombra de v'rão é regalo. 



O* luar, que alumeías 
Lá no mar os pescadores; 
Alumeia-me na terra. 
Quero ver os meus amores. 

O* luar da meia-noite. 
Tu és o meu iuimigo : 
Stou à poria de quem amo 
E não posso entrar comtigo. 



Cantiga gallega : 



A lua vae encuberta 
Con panos de tafetan ; 
Os olít)s que me ben queren 
Nesta terra non estàn. 

(Pamtuo PoH. Mod. pag. 896). 



(a.<» 68 de 27 de Junho de 1880), vem, entre varias superstições que 
se encontram em Portugal, a seguiote: «Quando ha eclipse do sol 
(sic), rufa-se em caixas para espantar o leão que está comendo a 
lua» ; mas como não traz indicação d'onde é, ignoro se nos pertence. 
Os chinezes de Macau fazem muito barulho na occasião dos eclipses 
{Alm, de Lembr. de 1863, pag. 181). Tácito fallando de um eclipse 
da Lua, escreve dos que o presenciavam : Igiiur aeris sono, tiibarum 
cornuumque concentu strepere (Annal. lib. i, cap. 28). Etc, etc. 



*l 



25 



b) Estrellas, Planetas, Cometas 



40. A Via-Lactea é chamada a estrada de S. Tiago, 
por onde as almas dos mortos vão para S. Tiago, pois que 
em S. Tiago de Galliza ha um buraco no qual toda a gente 
tem de passar em vida ou morte (passim). 

Os versos populares dizem: 



S. Tiago de Galliza 
Vós sendes tão intresseiro^ 
Ou em morte ou em vida 
Hei-de ir ao vosso mosteiro. 

(Carregosa). 



S. Tiago de Galliza 
E' um cavallciro forte : 
Quem là uào fôr cm vida 
Ha-de ir là depois da morte. 

(Carrazeda d'AneI&ea). 



A origem da romaria de S. Tiago, contou-m'a assim 
uma mulher de Famalicão: 

— Deus mandou S. Tiago a pregar á Galliza, e elle 
dizia que lá era uma terra muito remota, onde ninguém o 
iria vér. Deus disse-lhe então que fosse para lá, que todos 
o haviam de ir lá visitar, mortos ou vivos. 

Da mesma romaria falia o rifão : 

No camino de Santiago 
Tauto anda o coxo coai'o sano. 

(Saco Aree, Oram. gallégcif p. 273). 

O meu condisçipulo António de Sousa disse-me saber 
de vários populares portuenses que a Via-lactea se chama 
também ponte de N, Senhora das Silvas (mas nunca ouvi 
isto senão a elle) **. 



2s Esta crença da Yia-Lactea encontra-se também em muitos 



é 



26 



41. A quem conla as eslrellas, nascem cravos ou 
verrugas nas mãos, tantas quantas se contarem (passim). 

42. Não é bom ourinar voltado para as estrellas 
(concelho de Paredes). 

^43. Ha três estrellas [o povo no Minho diz stréllas^ 
— do lat. stella com a epenthese de um r, como o pop. listra 
ao lado de lista^ — em vez de estrellas. A respeito de estreito, 
estreitos, vid. adeante] chamadas três Marias (Guimarães, 
Briteiros), que acompanham a Lua (Briteiros. Cf. § 16). Em 
Guimarães ouvi também chamar-lhes três Ave-Marias, 

44. Ha outras stréllas, chamadas cinco chagai e sete 
chagas^ que se vêem, olhando pela trama de um lenço (Bri- 
teiros). [Estas estrellas não são a constellação chamada sete- 
estrêllo,] 

45. O povo chama sete-estrêllo ou sete-estrêllos [^es- 
trêllo é o masculino de estrêlla, estrélla, como por ex. pa- 
nêllo o é de panélla] ás Plêiades ^^. A esta constellação se 
referem as cantigas : 



Os sete-estrêllos vão altos, O sete -estrêllo vae alto. 

Menina, vá-se deitar: Mais alto vae o luar. 

Que eu também farei o mesmo. Mais alta vae a ventura, 

Que tenho de madrugar. Que Deus tem pêra me dar. 



povos : Os Basutos chamam-lhe o caminho dos deuses ; os Ojis o ca- 
minho dos espíritos por onde as ahnas vào para o ceu; as tribus da 
America do Norte a entrada das almas; os Siamezes o caminho do 
elephante branco; os Turcos o caminho da palha, etc. (Vid. Tylor, 
obr. cil., I, pag. 412 e sqq.). 

23 Os Alletnàes chamam ás Plêiades Siebengestirn, nome que 
também é ilado á Ursa-maior (apud Gaston Paris, — Le Petit Poucet, 
p. 11 e not. 12). 




27 



O sete-estrêllo cabia 
Nua pedra^ íicou coxo : 
O lírio com soidades 
Logo se vestiu de roxo. 



Strellas do ceu, vinde à terra^ 
Eu quero escolher a minha : 
Das quatro quero a màór^ 
Das três a mais pequeninha. 



46. Ha umas estrellas, creio que em numero de sete, 
as quaes me disse um homem de Vianna se chamam rábico 
do sete-estrêllo. 

47. O povo conhece também um grupo de estrellas 
chamado engaço (Minho, Traz-os-Montes, etc). Ao engaço 
ouvi também chamar cajato (cajado) ; e quando elle nasce, 
os homens que andam nos lagares despegam do serviço 
(Taboaço). 

48. A Ursa-menor não sei que tenha nome. A es- 
trella polar dizem vulgarmente estas cantigas : 



O* estrellinha do Norte, 
Agulha de marear. 
Tu és por onde r» p eu guio, 
Q'ando te quero fallar. 



Puz-me a contar as estrellas. 
Só a do Norte deixpi : 
E por sé-la mais bonita^ 
Gomtigo a acoinparei. 



49. A Ursa-maior tem differentes nomes : barquinha 
(Penafiel, etc), barca de David ou da vida ** (Maia), arca 
de Noé que Deus pintou no ceu (Ovar, Gaia, Minho), barca 
(passim). Em Paredes de Coura dizem que a Ursa-maior é 
um carro: quando está virado para baixo, é tempo de se- 
meiar; quafido está para cima, não. — Disseram-me que 
umas estrellas que ha no ceu se chamam assim : três são 



2* Os francezes chamam à Ursa choriot âe David (c^mo os 
Egypcios vehiculum Osiridis, na Suécia carro de Thor, etc.) Vid. 
Gaston Paris, ib. not. 25. 



i 



Í8 



um carro, duas os bois, uma que vae na frente é uma mu- 
lher que serve de paquete dos bois (guia), uma que vae 
atraz, 6 o carreiro (lavrador). Acrescentaram que outras 
duas mais atrasadas eram dois ladrões. — E^ provável que 
haja aqui uma allusão á Ursa-maior ^* (Taboaço). 

50. Quando alguém leva uma magoadella na cabepa 
diz : vi as estreitas I (Traz-os-Montes, Beira-Alta) ou : vi as 
estreitas no ar! ^® 

51. Para se talhar o ar, leva-se o menino ao pé de 
uma fonte (á meia noute), esparrinha-se agua sobre elle, e 
vira-se depois o menino para as estrellas. Diz-se então : 



25 o sr. Gastoa Paris, no seu pequeno, mas abundante e ia- 
teressante livro, Le PetU Poucet et la grands-ourse (Paris 1875), 
mostra que a Ursa-maior foi encarada pelos povos indo-europeus já 
como sete bois, jà como um carro com o seu timào, já como um 
carro (as 4 estrellas) arrastado por três cavallos ou bois (as 3 de 
deante). A pequena estrelia g foi olhada como o conductor do carro 
celeste, PeiU-PoH>cet, que na terra é um homem pequeníssimo 
que figura em vários contos populares, incluindo contos da Uis- 
panha (vid. Reoue de Lingmsíique, Janeiro de 1876, pag. 241 ad 
243) e de Portugal (vid. Conlos populares portuguezes do sr. F. A. 
Coelho, n.® 33, Historia do grão de milho), apesar do sr. Gaston Pa- 
ris dizer que não achou o Petit-Poucet na Hispanha (pag. 52). Com 
a tradição correlativa citada a pag. 15 do Pelit-Poucet, extrahida de 
Grimm, — (O. M. 688) prende-se evidentemente a nossa do lavrador 
da arada, em que esse lavrador que acolheu Christo foi por este 
transportado á Glória; na lenda allemà o lavrador é transportado ao 
ceu, onde se transforma cm estrelia ; mas a Gloria do lavrador da 
versão portugueza é effecti vãmente também o ceu. (A lenda do lavr ar- 
dor da arada foi publicada nas seguintes partes : Romances pop. e ri- 
mas infantis por F. A. Coelho in Zeitschrifl fúr rom. Phílologie, pag. 
70 (romance x), in Romanceiro pop, (n.® 43) e Cantos do Archipeíago 
Açoriano (n.o 7o) por Th. líraga: in Estudo ethnographico (Porto 
1881, pag. 24-23) por J. Leite de Vasconcellos). 

2tf Diz-se o mesmo na Bretanha. Vid. Proverbes et dictons de 
la Basse-Bretagne, por Sauvé, n.° 645. 



I 



29 



Ar vejo, 

Li5a vejo. 

Estreitas vejo : 

O mal do meu corpo 

Pr'a trás das costas o despejo. 

(Coneelho de Fafe). 

52. Quando nascem empigens nas mãos, volta-sc a 
gente para a eslrella mais brilhante do ceu, e diz-se três 
vezesy muito depressa sem tomar respiração: 



Estrolla reluzente, 
A minha empige' 
Diz que seques tu; 
Eu digo que seque ella 
E que medres tu. 

(Maia). 



53. Umas cantigas populares comparam uma cara 
cheia de bexigas a um céo cheio de eslrellas : 



Sou picado das bexigas. Vós ehamacs-mc picadinha. 

Foi Deus servido eu tô-las : Porque eu tenho pica*Iellas : 

Não ha nada mais galante Não ha coisa mais bonita 

Que o ceu com suas estrellas I Que o ceu com suas estrellas ! 

(Maia). (Quimarães). 



54. A respeito do nome da Serra da Estrella, na 
Beira Baixa, conta-se a seguinte lenda: aAnda em livros 
antigos memoria de ter havido uma cidade perto da Lagoa 
Escura^ e que ahi viveu um pastor muito afortunado, que 
viajou por muitas terras, guiado por uma estrella, que foi o 
que deu nome à serra, e que o pastor voltando foi ahi rei, 
e deu grandes festas com cavalhadas e jogos de cannas, e 



30 



andaram embarcados nas lagoas e vieram ahi muitos prín- 
cipes estrangeiros». (Eduardo Coelho, — Quinze dias na sei'- 
ra da Estreita^ no Diário de Noticias n." 5595 de 30 Ag. 81.) 

55. Ha um conto popular segundo o qual nasceram 
a uma rainha dois meninos, cada um dos quaes com sua 
estrellinha de owro na testa. (Vid. a minha Cosmogonia po- 
pular port, in Vanguarda) ^. 

56. Recolhi varias adivinhas relativas ao ceu po- 
voado de astros. Nas seguintes, figura o céo, as estrellas, 
o sol e o vento (como no Rig-Veda) : 



Campo largo^ Campo redondo^ 

Yaccas muitas Ovelhas ao longo. 

Boi formoso. Pastor formoso. 

Cão raivoso. Cadello raivoso. 

(Famalicio). (Rezende). 



Nesta é o céo, as estrellas, a lua e a noite : 



Campo grande. 
Semente meuda. 
Menina bonita, 
Gao gaedelhudo. 

(Amarante). 



A noite, as estrellas e o dia são ainda representados 
assim numa adivinha : 



^ Cf. A. de Gaberaatis: Mythologie Zoologique (trad. fr.) 1. 1, 
pag. 438; e u, pag. 31. 



31 



Sae é^ que é, 
ma viuva presumida^ 
Toda de lato vestida^ 
E de flores coroada^ 
£ do 17^/^0 persegaida; 
Quaado o velho a persegue^ 
Ella faz a retirada? 

^ (Famalielo). 

57. A's estrellas cadentes chama-se lagrimas de S. 
Lourenço, segundo uma nota do Universo ilhistrado de Lisboa. 

O 'povo, quando as vê, diz que são estrellas que vão 
cahindo (Minho, Beira, Apores), ô teme que destruam a terra 
(Beira, etc). 

Em muitas terras (Traz-os-Montes, Minho) dizem, quan- 
do vêem t^ma estreita a cahir: — DeiiS te guie I 

Em Mondim-das-meias, guardam-lhe muito respeito, 
tiram o chapéu e dizem-lhe : 

Deus te guie bem guiada. 
Que no ceu foste criada. 

No concelho de Penafiel, dizem : Assim corra a minha 
alminha para o céo. 

58. O planeta Vénus, de manhã, chama-se estreita 
da manha (passimj, e á noute : estrêíla dos pastores (Mon- 
dim da Beira), e boieira (Covas-de-Barroso, e Carrazeda de 
Anciães). 

59. Os cometas são chamados estrellas com rabo e 
suppõe-se que annunciam desgraças, como guerras, etc. 
(passim). 

60. Cantigas às estrellas : 



32 



Puz-me a contar as estrellas 
De cima de uma colua : 
Nove, oito, sete, seis. 
Cinco, quatro, três, dois, ua. 



Ás estrellas do ceu correm 
Todas nua çarreirintia ; 
Assim correm os amores 
Da tua mão para a rainha. 



Puz-rae a contar as estrellas. 
Contei oito, contei dez: 
Ia p'ra contar as onze 
Cahi morta a teus pés. 



O so1-|)osto vae doente 
A Lda já vae sangrada; 
As estreitas são lancetas 
O luar pega na malga. ^^ 



28 Cf. § 17. Quando o sol vae sem brilho, o nosso povo diz 
que elle está doente. O mesmo na Itália. (Gubernatis, M. Z., n, 2-3). 



CAPITULO II 



Fogo, Luz e Sombra 



[Qaal fosse a origem do conhecimento do fogo^ não se pôde sa- 
ber. O que é certo é que muitos selvagens^ como na Austrália e na 
Tasmania^ conhecem sim o fogo, no emtanlo nào o sabem produzir; 
quando se lhes acaba, vão buscá-lo ás tribus visinhas (Lubbock, — 
Uhomme prefiistorique, Paris 1^76, pag. 404 e 409). Álvaro de Sa- 
avedra conta até que em certas ilhas do Pacitieo, nunca os habitantes 
tinham visto o fogo {id, í6., 510) ; comtudo o homem prehistorico 
mais antigo usava o fogo, como se reconhece pelos carvões, cinzas, 
etc. apparecidos nos diversos jazigos. Alguns selvagens (Terra de 
Fogo,— Lubbock, ib, pag. 510) obtém o fogo por meio da percus- 
são; outros por meio da fricção de dois pedaços de pau (ilhas do Mar 
do Sul, — ib. p. 510). D'estes processos primitivos firaram vestígios 
nas eeremonias religiosas: a Egreja Gatholica accendia lume novo no 
Sabbado santo, feriado sílices: Ignis de lapide excutitur, et cum eo 
dccenduntur carbones, diz a Liturgia (ppud Joly,— Uhomme av>ant 
les métaux, Paris 1879, pag. 202. Cf. o processo actual dos fumistas 
que, para accenderem o cigarro, inílammam uma wa em lume 
petiscado numa pederneira com um fuzil de aço); na índia, Agni (o 
fogo, ignis) «he it is whom lhe íwo sticks have engendered, like a 
new-born babe». {Co^.— Mythology of the Aryan nations, Londres 
1878, pag. 192). Emil. Burnouf, no hvro La Sc. des Relig., Paris 1876, 
pag. 240, diz que o swastika representa as duas peças de pau do arani 
onde se produzia o fogo (Agni). O swastika apparece nas Catacumbas 
coroo o mais antigo signal da cruz christã, e além dMsso em muitos 
objectos archeologicos da Grécia,' Itália, etc. Em Portugal achou-o o 



34 



snr. Martins Sarmento num velho monumento (ao que parece uma 
fonte sagrada, à qual se ligam superstições) do [noiíte da Saia (Mi- 
nho). Nas muralhas mídievaes do casteiio de Guimarães o swasiika, 
na sua forma perfeita, e supponho que noutras modificadas, consii- 
tue uma das marcas que os artistas deixavam nas pedras dos edifí- 
cios. 

A lareira onde ardia o lume foi era verdade uma poderosa 
causa para a constituição da famiiia; mas nào se pense que, assim 
como o uso do fogo data de uma alta antigurdade, se conheceram 
sempre os vasos para aquecer a agua. Muitos selvagens aquecem 
eflFecti vãmente a agua, mas lançando -lhe dentro pe<lras em braza 
Cstone-boilersJ, e Strabào diz o mesmo da Lusitana, (lib. 3.°, p. 128, 
ed. Didot de 1833), — processo semelhante a um portuguez moderno 
que consiste em amornecer com un> carvão acceso ou pào torrado um 
copo d'agua fagua panada ou ferrada . Vid. o meu Estudo ethno- 
graphico. Porto 1881, pag. 13 e 14). Ha até alguns povos que nào 
conhecem a agua a ferver. Os do Thiti nào a conlieciani antes da che- 
gada dos Europeus (Joly, ib. pag. 187): o historiador Justino aflQrma 
que os povos hispânicos aqua valida lavari post secundum belliim Pu- 
nicum a Romanís didicere. (lib. lxiv, 2). 

Já que falíamos de costumes primitivos com relação ao fogo, 
mencionamos mais estes factos: Na serra de A rga (Entre Douro e 
Minho) «—pela falta de azeite ufaò os moradores de huns paofinhos 
accefos, que lhe fervem de candea, e lhe dao luz com que fe allu- 
míaÕ — » CDicc. Geogr. do P. Luiz Cardoso, Lisboa 1847, vol. l.«, v. 
Agra). Noutras terras de Portugal os pobres aecendem pãos de pi- 
nheiro com resina, pinhas, etc. em vez de candeia. O costume por- 
tuguez aproxima-se do de outras nações. Ex.: «La gente Setten- 
trionale, fottopofta a le lunghiíTime notti, 11 ferue di diuerfe forti dí 
lumi, per fare gli efen^itij di casa. — eglino comunemente per le 
case, ri feruono in cambio di candele, di legni di Pino, che natural- 
mente hanno la ragia.» (Sloria d*Olao Magno, arcivescovo d'Vspali^ 
de* costvmi de* popoli settentrionafiy trad. de Homizio Florentino, m 
Vinegia 1561, pa^f. 46-47; obra que está na bibliotheca municipal 
do Porto). Entremos agora nas superstições portuguezas. Veremos 
o caracter profundamente sagrado, domestico, do fogo.] 



61. O lume sahiu da boca de um anjo, no principio 
do mundo, e por isso é peccado cuspir nelle (Sinfães, Douro, 
etc.) Cuspir no lume é cuspir na face de Deus (Extrema- 



35 



dura, Douro) e só o fazem os judeus (Vimieiro, Mondim da 
Beira, etc.) O lume é sagrado (Vimieiro). Ourinar no lume 
causa dôr de cólica (Porto) ou dôr de pedra (B. Alta). 

Cuspir no lume é o mesmo que cuspir na felicidade 
(Douro, etc.) *^ Cuspir no lume é peccado (Minho, Mafra, 
Beira, ele.) Não se cospe no lume, porque são almas que 
vão para o Purgatório; quem cospe é judeu (Villa-Real). 

62. Ninguém deve dizer: o Diabo do lume, — ou cousa 
semelhante (Minho). 

63. Quando as creanças brincam á noute com lume, 
ourinam depois na cama (Minho, Beira, etc. etc.) 

64. a) Quando o lume começa a bufar ^ é porque es- 
tão a mârmw^ar de nós. Então deita-se-lhe sal, dizendo : «An- 
da, falia agora.» A pessoa quemchmúra^ fica calada (Cabeça- 
Santa no c. de Penafiel), b) Segundo outra versão (Famali- 
cão) quando o lume está a ralhar (a fazer zoeira), diz-se: 

Quem de raim mal diz 
Aqueime a liogua a mai-lo nariz. 

Quem de mim mal falia 
Aqueime a língua e a barba. 

c) Segundo outra versão, quando a labareda do lume no 



29 Muitos povos cuidavam ou cuidam que da conservação do 
fogo eterno, do fogo nacional, dependia a felicidade do paiz. Os sel- 
vagens da Africa, da America, os Gregos, os Romanos, entram nesse 
numero. Cuspir no lume corresponde pois a cuspir na felicidade, 
porque o lume a representa. Esta ideia da felicidade acha-se de al- 
gum modo ligada à casa, porque varrer o cisco para a rua depois do 
sol posto é lambem varrer a fortuna, (cf. o meu art. Culío do Fogo 
no jornal O EstudoJ, 




36 



lar faz barulho, deita-se-lhe um punhado de sal, dizendo^ 
para evitar que murmurem: 

Quem de mim stà a fallar 
A suã líniiua venha aqui assar 
E este sal ha-de trincar. 

(BritelroB). 

d) Em Paços de Ferreira cuida-se que o lume estala 
porque as feiticeiras estão a ourinar nelle. Dizem : i^Arre- 
nego-te, Porco Sujoh 

e) Quando a lenha que está no lume não arde, dei- 
ta-se-lhe azeite para o Diabo fugir de trás da porta. (Villa- 
Flor). 

65. Quando se tem medo, deve-se deitar sal ao 
lume, antes de entrar a porta da casa (Sinfães). 

66. O lume nào se deve esgadanhar com as mãos, 
porque leva-se a fortuna (cf. | 55); deve-se esgadanhar 
com um páo, um caco, etc. (c. de Famalicão). 

67. * E' peccado apagar de todo o lume com agua 
(Minho, — apud Gonsiglieri Pedroso, Varía, | 497). 

68. Quando se tira uma panella do lume, dève-se 
mexer a cinza sobre que ella estava, senão vae para lá o 
Diabo dançar (Sinfães). 

69. Quem vem de fora e traz lume acceso (uma lu- 
mieira, etc.) não o deve misturar ao que está no lar a ar- 
der, — porque se apega o fogo á casa (c. de Famalicão). 

70. Faz-se lume novo todas as vezes que alguém 
vae para uma jornada de pouco tempo (Minho). 

. 71. Nas aldeias é costume as mulheres andarem a 
pedir aos visinhos uma brasa de lume para âccenderem as 






37 



suas cosinhas, brazas que levam em palhas, num testo, etc. 
Quem empresta o lume, põe no testo um bocado de bosta 
<í^6oípara impedir que aquelle se apague, — o que impli- 
caria desastre na casa do emprestador (MinKo). 

72. A mulher que ourinar no cisco da cosinha flca 
pejada do Diabo (Sinfâes). 

73. Não é bom ir pedir lume á casa onde houver 
umacreançaporbaptisar(Vouzella, Guimarães, Famalicão). ^^ 

74. Para uma roupa ficar bem lavada é costume, de- 
pois de se lhe dar uma lavadella, metê-la num cesto, deitar- 
Ihe cinza por cima e em seguida agua quente. A isto chama- 
se fazer a barreia. Se se passar sobre a cinza da fogueira 
em que se aqueceu a agua da barreia, apanha-se ar ruim, 
o qual porém se evita, atirando uma mancheia de sal á cin- 
2a e dizendo : 



Agui te boto sal beoto^ 

Nào é por te desprezar, 

E' só para que Nosso Senhor nos livre 

De tamanho mal. 

(Voozella). 



75. Ninguém veste roupa lavada sem a passar pelo 
ar do lume (Minho). 

76. Não se deita a farinha na masseira sem se cor- 
rer três vezes esta com um tição de lume (Minho). 



80 Cf. estas palavras de J. Grimm: «Bo laage eia kind un^- 
laoft ist, soli maa das feuer nicht lôschen» (Deutsche Mytholoqie, 
^. de 1871), pag. 501). 



38 



77. Para se fazerem sahir os bichos da casa, quei- 
mam-se farrapos (Sinfães). 

78. No dia de S. Vicente (22 de Janeiro) vão esprei- 
ar os ventos ao alto de um monte, com uma lumieira de 

palha na mão, á meia noute. Conforme a chamma se inclina, 
assim sabem d'onde vem o vento. ^^ Se vem debaixo, tomam 
mais um criado para a lavoura, porque ha fartura no anno : 

Vento Suão 

Cria palha e grão; 

se vem de cima, mandam embora um criado, porque ha 
esterilidade e a lavoura custa menos. O vento Norte não dá 
chuva; mas 

Quando Deus queria 
Do Norte chovia. 

(O. de Famalicão). 

79. Num dolmen que ha ao pé de Pinhel (Beira- 
Baixa) é costume queimar (sobre a mesa do dolmen, parece) 
as primícias dos fructos. Se o fumo sobe direito, isto annun- 
cia boa colheita; se não sobe direito, annuncia o contrario. 

80. Quando alguém morre, queima-se-lhe a palha do 
enxergão. Se o fumo sobe direito, a alma foi para o ceu ; se 
se inclina para a direita, foi para o Purgatório ; se para a 
esquerda, foi para o Inferno. (Basto, etc. O que não sei é 
qual a orientação que o observador deve tomar) ^^ (Cf. | 96). 



81 Cf. Plínio, H. N.y xvni, 76 e 77. 

32 Os selvagens da Austrália, como outros mais, pensam que 
sl morte é o resultado de alguma pratica de feiticeria. Para adivinha- 
rem quem é o feiticeiro, observão a direcção da chamma da pyra 
funerária fB. Tylor, — in Rev, Scientifique, t, xiv, p. 50). Segunda 



39 



81. Quando alguém soffre uma trilhadella costuma 
dizer (Minho, Beira-Alta): useja pelas almas!»; quando po- 
rém se queima, não pôde dizer tal, porque as almas dos 
seus parentes, se estiverem no Purgatório, penam muito 
mais por causa d'essas palavras (Minho). 

82. No dia de S. Lourenço acontece sempre arder 
uma casa, porque aquelle santo morreu queimado (Beira- 
Alta). 

83. Pelo anno ha differentes festas (S. João, S. Pe- ^ 
dro, S. António, Natal) em que é costume accender foguei- 
ras pelos largos, ruas e monles. No dia de Todos os Santos h- 
zera-se magustos nos soutos e montes. (Vid. Fastos popu- 
lares), 

84. Ha um jogo infantil em que as creanças andam 
a pedir umas ás outras uma brasinha de lume. E' o jogo 
dos cantinhos. Estão postadas numa sala, em differentes to- 
gares; emquanto uma vae pedindo lume de logar em logar, 
as outras mudam-se; se a que pede lume pôde apanhar um 
logar vasio, toma-o e fica substituída no peditório pela dona 
d'esse logar. E assim por deante (Mondim da Beira). 

85. Ha muitos ensalmos em que entra o lume, ou cora 
os quaes se talha o fogo. Para curar um terçol é costume 
fazer uma casinha pequena com 5 pedras, accender lume lá 
dentro, deitar-lhe sal e largar a fugir, dizendo : 



os Mazdeus, se à terceira noute depois da morte de alguém^ sopra so- 
bre o tumulo um vento Sul cheio de bons aromas, a alma está inno- 
cente; se sopra um vento empestado, a alma está em culpa. (G. de 
Rialle, Les dieux du vent Vâyu et Vala in Rev, de Lingmstique, p. 
358 t. VI). 



40 



Aquelderei, quem acode ao fogo (^'í»® d'ei-rei) 
Na casa do terçôgol 

(Beira-Âlta, Minho, Douro). 



[Uma mulher de Guimarães chamou a este lume, — 
Iv/me-novo,] 

No meu art. Carmina magica do povo portuguez, pu- 
blicado na Era-Nova, inseri estes ensalmos : 



[n.^ 4] 

Sempre-verde venerado. 

Na campa do Sr. fostes achado 

Sem ser nado 

Nem samiado : 

Talha este fogo. 

Este reborado. 

Ar de vivo 

Ou morto excommungado. 

Tudo aqui talha 

Pelo poder de Deus 

E da Virge-Maria, etc. 

(Famalie&o). 



[n.^ 10] 



Sempre-verde bem fadado. 
Fostes nascido sem ser semeado. 
Na campa de N. S. J. Christo 
Fostes arhado, 
Para talhar este fogo 
E este reborado, 
E este cão e este mào olhado, 
Dé lume e cama e lar sagrado. 
Em louvor de S. Tiago. 

(Minho) 



86. Quandoseaccendealuz ánoute, diz-se: (íLouvado 
seja N. Senhor J, Christo! (Beira, Minho, Galliza, etc.) ou 
simplesmente: boas noutesi 

87. A pessoa que apagar uma de três luzes, não casa 
nesse anno (Douro). 

88. O azeite da candeia que alumia os mortos não 
deve alumiar os vivos (Mondim da Beira). Em Mondhn da 
Beira, quando morre alguém é costume cada visinho levar 
uma candeia ou candieiro cheio de azeite á casa da família 
do morto, para alumiar a este. 




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89. Quem bebe g^ua com uma luz na mão, bebe o 
juizo, (Douro, Beira, e}6,) ou sofifre golla (Meires). 

90. Queimar ramos bentos ou toco de cera benta 
(que cresce do candieiro das Trevas) afugenta a trovoada 
(Beira Alta, elçj.. >. '. ..^ ,. .. '•..",, > 

91. a) Quando ha um casamento, a luz do altar que 
estiver mais morta e mais próxima de algum dos noivos 
indica que esse noivo morrerá primeiro que o outro (Porto). 

b) Na noite do casamento, aquelle que no quarto 
apaga a luz primeiro, é o que primeiro morre (apud C. Pe- 
droso — Varia^ n.® 333). 

92. Quando uma candeia esparrinha, é porque algum \í' 
presente está para vir (Sinfàes, Mondim da Beira); se po- 
rém se fallar no presente, já não vem (Sinfàes). ^r 

93. Em muitas partes (Beira-Alta, etc.) os ladrões ,.^ ^ , 
quando vão roubar, diz-se que levam a mão de um defunclo >*' ; ■ 
accesa {Tuão de finado)^ porque elia torna immovei num ^ "^;' 
profundo somno as pessoas da casa. Em Gaia diz-se que <^* 

esta mão ha-de ser cortada a gente viva. Em Carrazeda- - ,-^ : 
de-Anciães accrescenla-se que a mão accesa perde a virtude - ,» 
se for mergulhada em vinagre. ^^ 



8* A crença na mão de glória, ou mão de finado, como a 
maior parte das nossas crenças populares, encontra-se noutros pai- 
res. Cox escreve: «Once more, the lightflashiDgfrom thedim anddusky 
storm-cloudbecomes the HandofGloi-y, which, fornied of a dead nian*s 
lioibs, aids the mediãevai treasure-sceker in his forbidilen searcb^ 
whether, in the deplhs of lhe earth or after his neighbour*s goods; 
nor have we far to seek in much older writings for the very same 
iinage wilhout its re[>ulsive transformation. The hand of glory is thô 
red light of Júpiter, wilh which he sniites lhe sacred ciiadels f Horac. 
od. i. 2); and wilh this we may compare the mylhof lhe golden hand 



c 



^> 



42 



94. Para se dizer que uma freguezia tem tal nu- 
mero de habitações, diz-se : tem tantos fogos (lat. focus, i^ 
fogo, lar, casa). 

As labaredas exprimem-se usualmente por esta phrase: 
línguas de fogo. ^ 

Certas doenças cura-as o povo com defumadouros. 
Uma das fórmulas é: 

A Virgem N. Senhora Asp.im esta creatura fi<íue limpa 

Pelo Egypto passou; Assim como seu filho fícou. 

C*um rairiinho d*aleorim Em louvor de S. Silvestre 

Seu diviuo filho defumou; Qne elle para estas coisas 

E' o divino mestre, ^s 

(Marco de Oanavezes). 

95. Acredita-se que o mundo ha-de acabar por meio 
de fogo. Eis um conto curioso, (recolhido no Minho), a este 
respeito : — Um homem ia uma vez por um caminho, quando 



of Indra Savitâr» — (The Myfhofogy of the Aryan nations, — London, 
1878, —-vol. n, pag. 219 cl 220). iNo Diccionario do século XIX áe 
P. Larousse, v. Main, pôde ver-se a mesma superstição. Cf. ainda o 
nosso P. Manoel Bernardes, na Mva Fiar esta, Lisboa 1708, t. n, pag. 
242. ^ ^ 

34 «— [AgniJ He is the tongue (of fire) through which gods and 
men receive each their share of the victims offered on the altar — •» 
(Gox., ib. ib., p. 191). 

35 Nos Livros de exorcismos (que estão a par dos ensalmos 
populares) vem várias orações para a benção do fogo em (jue se 
hão-de queimar os instrumentos dos feitiços (P radica de exorcistas, 
(Coimbra 1694, p. 324): e para a benção do incenso, arruda e outras 
cousas para a fumigação do fogo bento (Brognolo recopilado e sub- 
stanciado, Lisboa 1738, pag. 303). 

O livro mystico Mestre da Vida, Lisboa 1788, traz dois capítu- 
los (x e XI) com Exorcismos e Bênçãos. Eis parte da benedictio can-^ 
delarum extra diem Purificationis B. Marim Virginis : «. . . . infunde 

eis. Domine, per virlutem Sanctae Cruzeis, bcnediclionem coelestem, 
qui eas ad repellendas tenebras humano género tribusfti ....... 

(pag. 383). 



^ 



43 



ouviu tocar á missa. Era ao romper do dia. Dirigiu-se a 
uma capella próxima e encontrou lá um padre paramen- 
tado e prompto para dizer missa, esperando por um acó- 
lyto. O viajante ajoelhou e ajudou á missa. Dita ella, o pa- 
dre mandou-lhe pegar nas duas velas e disse-lhe que as 
fosse deitar ao mar, que não ficava longe. O homem ia des- 
empenhar esta coramissãq, quando encontrou uma mulher 
que lhe perguntou o que ia fazer. O homem contou-lhe o 
succedido; a mulher tentou em vão dissuadi-lo de deitar 
as velas ao mar, — sendo obrigada a declarar-lhe que era 
N. Senhora, — e acrescentou que se as velas fossem deita- 
das ao mar, o mundo se incendiaria, porque seu filho es- 
tava irritado contra os homens. O viajante entregou pois as 
velas á Virgem, e esta prometteu applacar as iras de Christo 
(Louredo, etc). ^ 

96. Quando uma mulher quer saber se traz menino 
ou menina, faz uma bóia de estopa e incendeia-a sobre um 
plano horisontal; se no fim de tudo, a cinza dá um tombo, 
traz menino, se não, traz menina (Alm, de Lembr, para 1859, 
p. 260. Cf. ii 78-80). 

97. As Bruxas andam de noute invisíveis a petiscar 
lume (Prazins ao pé de Guimarães). 

98. Ha uma lenda segundo a qual uns pastores ata- 



^ Esta missa mysteriosa, difa por um padre que estava a es- 
perar por acólylo, lembra aquelles contos onde tainbem figuram sa- 
cerdotes que, em virtude de um castigo, ião a cerlas horas da noute, 
paramentados e promptos, para o altar^ até acharem alguém que 
lhes ajudasse á missa. Já ouvi este conto em Portugal e pôde ver-se 
a este respeito: VeWées bretonnes (Morlaix 1879) por F. M. Luzel, 
pag. 7 sqq.; e os tomos i (p. 426) e n (num confo)da Revue Cellique 
de H. Gaidoz. Depois de isto impresso, publicou- se o fasí*icuIo iv da 
Bev. de Eíhnoiog. do snr. F. A. Coelho e nelle a pag. 174 vem um 
conto portuguez análogo a estes últimos. 



44 



ram um lampeão acceso aos chifres de cada carneiro ou cOr 
bra, fingiudo assim um exercito, para afugentarem os ini- 
migos com quem andavam em guerra. — Esta lenda, em 
Vizeu, é referida a Viriato contra os Romanos e localisada 
na Cava; no concellio de Paredes, é referida aos Mouro» 
(vid. o meu Presbyterio de Villa-Cova, i); noutras partes é 
referida aos Francezes (guerra peninsular), que já em alguns 
casos vão substituindo os Mouros na crença popular. 

99. Diz -se que o homem tem duas sombras : uma 
mais uegra, outra mais leve í uma do Anjo-da-6uarda, ou- 
tra do Demónio (Famalicão). 

100. Quem quizer apanhar os lobis-homens, as feiti- 
ceiras ou bruxas, atira-lhes á sombra com pedras, etc. 
(Villa-Real, Famalicão). Se se espetar uma navalha na som- 
bra das bruxas, ellas ficam quietas (Chaves). 

101. Olhar para a sombra é o mesmo que olhar para 
o Diabo (Villa-Real). 

102. É mau pizar a sombra de uma pessoa (C. Pe- 
drozo, íb. n.^ 395). 

103. Adivinhas populares da luz: 

Qual é cousa, qual é ella, Qual é cousa^ qual é ella^ 

Do tamanho d'uma bolt»ta Do tamanho d*uma abelha 

E enche a casa até á porta? E enche a casa até á telha ? 

Qual é cousa 

Que cabe dentro d'uma rasâ 

E enche toda a' casa ? 



CAPITULO III 



A atmospliera 



[o escriplor Justino conservou^-nos a seguinte crença lusitana a 
respeito do vento : In Lusitânia jvxta fluvium Tagum vento eqtias 
fetus concipere^ multi aucíores prodidere. (historiar, philip., Ub. 
XLIV, 3). 

Na Practica de exorcitas e ministros da Egreja (Coimbra 1694) 
encontra-se isto a respeito do nevoeiro etc: «E p«ir ter viQo, que 
muitos fe enganão em entender, que o demónio levanta o nul)lado 
ou nevoeiro, & que vem ein aquellas nuves, caufaíido ioda a tenipef- 
tade trovões & relâmpagos, he nerePaiio que eníedào tndusque pro- 
cedem de caufas naíuraes, como largamente o eníina Aristóteles em 
os Metheoros— » (op. cit. p. 97). E mais adeanle: «Daqui se infere 
que os curas* & clérigos de Aldeia, por verem algum nulilado, nao 
neceíTitao de fazer logo feus conjurosy íb nAo é quando tiverem muito 
sufficiente refào pêra o imaginar, que tem demónios nelle.» (op. cit. 
p. 98). A pag. 97 tinba-?o dito também: «E aflim não fazem bem mui- 
tos ignorantes, em que ao levantar-se huma tempestade, logo Fobem 

a terra, ou logar eminente, pêra conjurar ao demónio » (Cf. os 

|§ m, e seg. d'este livro.) 

Num livro muito querido dn povo e intitulado— O nonplvs ultra 
do lunario, e prognostico — , mas mais conhecido pelo nome do Luna- 
rio ou Lunairo, vem, a propósito dás mudanças atmosphericas, vá- 
rios signaes que se encontram na tradição oral: 

«Quando as Andorinhas voão por cima das aguas, &que quaíl 
vaõ tocando a agua com as azas, fígniílcaõ tempeftades de agua & 
vento». 



46 



«Quando os finos foam mais rijo do costumado fem fazer vento, 
denota chover muy brevemente.» 

«Quando a ferrup;em da chaminé cahe por fi, & muyla, denota 
chover, & brevemente.» (Op. cit. ed. Lisboa 1703, áfi pag. 218a23l). 

O escriptor romano Ph'nio traz pre?agios semelhantes: 

«Quuíu orifmlis atque occidentis radii (do sol) rubent, coirepla- 
vias (Gf. adiante). 

«Si circa oocidentem rubescunt nubes, serenitatera futurae diei 
spondent. (Cf. adiante). 

«ilirundo tam juxta aquam volitans, ut penna síepe perca- 
tiat. . . (annuncía mau tempo). 

«... turpesque porei ahenos sibi manipulos feni lacerantes.... 
(idem, — como na irad. poringueza). {Hfs. Nat. lib. xviii, 87 e 88). 

Nas Constiiuições dos bispados, esses ricos ihesouros de super- 
stições populares, encontram-se várias disposições contra o costume 
de meri<uihar santos em agua, para pedir chuva. Ex. na de Évora, 
1534, XXV, 1 (cf. o meu art. Tradições das aguas, 8, m Aurorado 
Cavado). 

Contra as trovoadas prescreve- se no livro mysilco Mestre da 
Vida, ed. de Lisboa de 1878 (ha outras edições), a seguinte fórmula: 

« et eas despergatis in locis sylvi^stribus, et incultis, quatenus 

nocere non pussint hotninibus, animah*bus, fructibus, herbis, arbori- 
bus, aut quibuscumque rebus, humanis usibus deputalis»> (pag. 269). 
Esta formula é análoga a uma que vae arliante e a outra bretã reco- 
lhida por Mr. Luz íi e cilada por xMr. Sauvé nos Proverbes et Didons 
de la Basse-Bretagne, n.^ 909. —Cf. o meu art. Carmina magicado 
povo portuguez, in Era-Noca, n.<>» 11 e 12.] 



. Enumerarei tradições a respeito dos seguintes plienp- 
menos : vento, nevoeiro^ nuvens .^ chuva, geada, arco-iriS) 
fogos-fatuos, auroras-boreaes, fogos de Sant^Elmo e trovoada* 



a) Vento 

104. Quando se produz um redomoinho de vento, ^ 
que o povo na Beira-Alta e noutras partes chama borborí^ 



47 



>, 'acredita-se que então anda no ar o Diabo, ou Bruxas 
qualquer cousa md. Para estes seres fugirem, faz-se uma 
iz com a mão, ou diz-se: Credo , santo nome de Jesus! 
fe); ou atira-se-lhes com um canivete aberto, — e nesse 
»o sae do borborinho uma Feiticeira [talvez Bruxa]. (Mon- 
To). Também se cuida que no balborinho (borborinho) 
3, não tanto os Diabos, como as almas penadas que não 
raram no ceu por não fazerem certas restituições aos 
os. O povo foge d'elle^ mas como que o vae seguindo, 
endo: Santo otome de Jesus! Credo! Abrenuntio! mas 
ncipalmente: vae-te para quem te com,eu as leiras! Fa- 
n-Ihe cruzes, e acompanham depois com a vista a queda 
s palhas levantadas pelo vento; onde ellas caem cuida-se 
e foi o sitio em que houve roubo de terra (Briteiros, — 
nmunicação do meu amigo Sr. Martins Sarmento). Em 
imarães ouvi dizer que quando o barborlnlio levanta mui- 
\ folhas, vae um Diabo em cada folha. ^^ 

Em S. Pedro do Sul dizem ao borborinho, para elle 
?ir: 

Bolborinho do pecxiado 
Vae-te com Santiago ; 
Bt.lhoriuho do Demoriho, 
Vae-te com Sanl^Antoiího. 

105. Quando faz muito vento, diz-se que morreu 
^m judeu (Vimieiro), ou algum escrivão (Mondim-da-Beira, 
mieiro, Melres, e Minho). Ha um ven*.o particular chamado 
"^togallego; quando clle sopra, diz-se que foi algum gal- 
go que morreu arrebentado (Torre-de-Dona-Ghama). 



37 Os mtísulmanos pensam que as tromb.is de areia no Deserto 

3 levantados pela fima de um máo àjinn ; e ao E. d'Africa chamào- 

38 demónios fpVi^po). {T\\or, — CaiL Primit., p. 335-0). O vento. 

Gongo, é personilieado em Bouiigie. O mesmo em alguns povos 

Aniurica. Cf. as tradições indianas, gregas e latinas. 



48 



106. Quando o vento Iraz ás vezes uns sons de' sino 
muito piedosos é signal de morte próxima (Famalicão). 
Quando o vento sopra de certas bandas e se ouvem os si- 
nos, é signal de mudança na atmosphera (passimj. 

107. No dia da Senhora das Candeias (2 de Feve- 
reiro) procura-se d'onde vem o vento: d'onde elle soprar 
á meia-noute, sopra quasi todo o anno (Melres). [Cf. | 78 
d'este livro.] 

108. Ha vários rifões do vento : 



Mudam os ventos Vento suão 

Mudam os tempos Chuvâ aa mão, 

De inverno sim 
Qem foi ao vento De verão não. 

Perdeu o assento. 

D'Hispanha nem bom vento 
Vento e ventura Nem bom casamento. 

Pouco dura. 

109. Diz-se que as gallinhas vêem o vento (Beira 
Alta). 

110. Ha um conto popular em que se falia no reino 
do Vento, 

b) Nevoeiro 

111. Para fazer desapparecer o nevoeiro, deve ir 
uma velha chamada Maria virar-lhe as costas, curvar-se um 
pouco para deante e levantar a saia (Mondim-da-Beira). Pa- 
rece alludirem a isso os versos : 

Nevoeiro, 
Sobe ao outeiro; 
Meu c... é tào lindo 
E o teu é tão feio. 



112. Quando está nevoeiro cerrado e os pastores an- 
dam no monte, dizem isto, em grandes berrarias, para os 
lobos fugirem 1 

m 

Nevoeiro, nevoeiro, 
Põe-te atrás d*aqQelIe oateiro. 
Lá está o João Ribeiro 
Com as tripas de carneiro. 
Bem lavudas^ mal lavadas, 
Qoe te corram pelas barbas. 

(Vimieiro). 

Para o nevoeiro fugir tenho ouvido várias fórmulas, 
que não differem no essencial. Eis algumas : 

Foge, foge, nevoeiro ^ 

Lá pVa trás d^aquelle eiteiro. 
Que lá vem o S. Romào 
G'uma cacheira na mão. 



(Melr<M). 

Carujeiro, carujeiro, »« 

Põe-te atrás d'aqueile fiteiro. 

Que lá stà teu companheiro 

Co'a cajatioha (páo) derrabada. 

Quem na derrabou?— Foi o fogo. 

Qu*é do fogo? —Stà no monte. 

Qu*é do monte? — Comcram-no as cabras. 

Qu'é das cabras?— Foro parir os cabritinhos. 

Qu'é dos cabritos?— -Fizero-se em odrinhos. 

Qu*é dos odrinhos ? — Foro buscar o vinho. 

Qu*é do vinho ? — Bebéro-no as velhas. 

Qu'é das velhas? — Foro sachar o milho. 

Qu'é do milho? — Comêro-no as gallinhas. 

Qu'é das gallinhas? — Foro pôr os ovos. 

Qu*é dos ovos?— Comêro-nos os crelgos. 



38 o nevoeiro, (navoeiro, naboeiroj é também chamado carti- 
iro, carujeira e cainjo. 



50 



Qa'é dos crelgo3T<»-Fôro dizô-la missa. 
Qu*é da missa?— Stà no altar. 
Qu*e do aliar? — Stà no chào. 
Paler-Noster^ Kyrie Eleison. 

(K*iidr9e8 ao pé de Villm Real). 



Navoeiro, navoeiro, 

Vae p'ra trás d*aquelle oiteiro^ 

Qne fá stà o João Ribeiro 

Go'as eabriahas derrabadas. 

Quem nas derrabou ? 

— Foi o filho da Caçaria. 

(S. Pedro do Sal). 

Navoeiro, navoeiro, 

Vae pYa trás d'aquelle outeiro, 

Lá está teu irmào 

Go'as tripas do meu carneiro. 

Eu quería-lh'as tirar, 

EUe qniz-Die avançar, 

Eu qu*ria-lhe fugir, 

Elle qu'ria-me engolir. 

(Oab. de Basto.) 

Varre, varre, nevoeiro. 
Lá p*ra trás d*aquelle oiteúro^ 
Lá stà um pecegueiro 
Carregado d*avellà 
Meia podre, meia sã. 
Carreguei o meu burrinho 
E deitei-o ao caminho, 
E chamei pelo barqueiro. 
O barqueiro não me ouviu ; 
Mas ouviram-me os ladrões 
Com três facas de botões 
E corlaram-me os calções 
E botaram-me a um poço 
Com três pedras ao pescoço. 
Que me cobrisse de rama 
Por amor da minha ama 
Que stava doente na cama. 

(Qnimar&ei). 



Vae-te, vae-te, nevoeiro. 
Lá p'ra a serra do Pinheiro, 
Que là stà teu companheiro 
C*uma burrinha queimada. 
Quem lh'a queimou? 

— Foi a velhiuha. 

— Que é d'ella, a velhinha? 

— Stramp^hou a pitinha . 

— Que é d'ella, a pitinha? 
-Stà a carmear a lanzinha. 

(Fofeôa). 

Navoeiro, navoeiro. 
Por trás do outeiro^ 
Là stà João Ribeiro 
Cuma saca de dinheiro. 
Perguntando o gue era bom. 
O que era bo!h já là vae. 
Barreia, barreia 
Por trás da Portella, 
Desanda-lbe o torno 
E vae... 

(Nota. Os pegureiros dizem 
isto, subindo a um penedo, e vi- 
rando as costas ao nevoeiro). 

(Oabeça-Santa). 

Neboa, neboeiro, 
Vae pVa trás d'aquelle oiteiro. 
Que lá anda João Cabreiro 
Com as calças queimadas. 
Quem lh*as queimou foi o fogo. 
O fogo anda na mata : 
Que a mata deu a cabra 
E a cabra deu o leite 



51 



E o leite é p'ra as velhas 
S as velhas dão o milho 
E o milho come-o a galliiUia; 
A gallíaha p5e os ovos^ 
E os ovos coine-os o cura 
E o cura diz a missa 
Atrás d'aqueila arrabiça. 

(Serra da EUtrelU). 

Varre, varre, nevoeiro. 
Para trás d'aquelle eiteiro 



Que lá stá o Joáo Moleiro 
G'uma espada de cortiça 
Para matar a carriça. 
A carriça deu um grito 
Que se ouviu em Santo Thyrso ; 
Todo o mundo se espantou. 
Só uma velha escapou 
Embrulhada num sapato 
Para parir um gato. ^9 

(Prazim, ao pé de Oalmar&es). 



113. Ouvi um conto era que um [agulheiro?] cheio 
úe cinza se muda em nevoeiro. Da Beira-Baixa disseram-me 
o principio de outra fórmula : 



Rema, rema, nevoeiro. 

Lá p*ra casa do agulheiro. ^ 



114. Onde, no 1.® Domingo de Agosto, se vir o ne- 
AToeiro pousado, ha moléstia certa. (Guimarães, etc.) 

115. Em S. Martinho de Recesinhos (Penafiel) diz o 
povo que, quando ha nevoeiro, se sente um cheiro a azeite, 
que é produzido pelo Tatro azdteiro. As tecedeiras espan- 
tam o TatrOy de noite, ao acabar do serão, fazendo mover 
o caneleiro do tear. (Informapão do meu condiscípulo Aure- 
liano de Vasconcellos). 



116. Adágios do nevoeiro: 

Nevoeiro na lama. 
Chuva na cama. 



Nevoeiro na serra. 
Chuva na ternr . 



•**9 Este Gnal é análogo ao Sermão de S. Coelho. 
^^ No mesmo conto se dizia que um agulheiro cheio de agulhas 
:se nindava em floresta. Cf. Gubernatis, Myth. ZooL, n, i3. 




52 



117. Segundo a crença popular de hoje^ D. Sebastiãi^ 
virá Id da Hha encmberta (Bandarra, Sonho segundo, 1 5, ed. 
1822) num dia de nevoeiro (Beira-AKa, etc). 



g) Nuvens 
118. As nuvens nesta adivinha são chamadas vaccas : 

Curral redondo, .... (ceu) 

Vaccas ao lombo .... ínuvens) 

Cào ravinhoso (vento) 

Moço formoso ..... (sul) 

adivinha que foi recolhida pelo sr. Th. Braga nas Origem 
Poéticas do Christianismo, p. 257 [não sei se em ao lombo 
haveria equivoco; noutra que recolhi vem ao longo]. 

Ii9. Quando á tarde as nuvens apparecem coloridas^ 
e com formas extravagantes, como cavalleiros, soldados, etc. 
alguém pensa ver ahi signaes que Deus manda (Beira-Baixa,, 
Melres, etc). Disseram-me da Beira-Baixa que varias pessoas, 
quando vêem as nuvens assim, vão resar numa capella. *^ 

420. A nuvem que passa muito carregada, leva ex- 
commungados (Pindellaj. Acredita-se que o excommungado 
não vae nem para o ceu, nem para o inferno, mas vae vi- 
ver numa nuvem, tolhendo todo o mundo. Muita gente, ao 
ver uma nuvem, sente de repente uma dor de cabeça: é a 
ar ruim do excommungado. Para nos livrarmos de ar de 
excommungado e de outras cousas más, é bom resar 3 ve- 
zes (fazendo 3 cruzes da testa ao ventre, e d'hombro a hom-^ 
bro) esta oração, que termina com uma Salve-Rainha : 



^1 A mesma supeirstição no Piemonte (Gubernatis, ib. i, 228)^ 



53 



J. Ghristo naseeti^ 
J. Ghristo morreu, 
J. C. resQscitoa : 
E assim como é verdade 
O Sr. me tire esta dor. 



Este mào olhado 
De vivo, de morto 
Oa de excommungado 
Pelo poder de Deus 
E do Sr. Santiago. 

(Minho). 



121. Das nuvens tiraram-se vários adagies: 



Ruivas ao Nascente 
Chuva de repente. 

(Pamalie&o). 



vens: 



Quando estão as ruivas ao mar 
Pega nos bois e vae lavrar. 

(ib.) 



Ruibas ao Nascente 

Desappõe e vôn-tè. (vem-te embora) ^> 

(Ib.) 



122. Â poesia popular também não esquece as nu- 



No mar se formam as nuvens. 
Nos eampos as novidades. 
Nas conversas os afièctos. 
Nos brincos as libardades. 



Lá no ceu vae uma nube 
Que leva e'roa de rei : 
Yae chamando justiça 
Por que me deixas meu bem. 



d) ChuTa 

123. A chuva é a Maria das pernas compridas^ por- 
|ue chegam desde as nubes até á terra. (Gondifeilos no c. 
le Famalicão). 



42 



Aurora rubia 
O' viento ó Uuvia. 



(Apud. Obras en prosa y verso de J. M. Bartrina, —Barcelona 
^1 : La metereologia popular, ii. Agradeço aqui ao meu amigo 
eixeira Bastos o trabalho que teve lazeado-me alguns extractos 
'aquelle livro). 



54 



A chuva também se chama Maria MôUva. Quando se 
vê chuva, ou ella está para vir, diz-se : 

Ai 1 que ahi vem Maria Molha 

G*am saco de folha. 

(ib.) 

124. Quando está muito tempo sem vir chuiva^ e vem 
uma chuiva branda, chamam-lhe graça de Dev^; se ella é 
tanta que prejudica as searas, dizem : sào os nossos pecca- 
dos; e se ella é excessiva, então é a fim do mimdo [a firn^ 
não o fim^ é vulgar] (V. N. de Foscôa). 

125. Pelas aldeias vê-se ás vezes apparecer um ho- 
mem com um molho de varas de guarda-soes velhos ás 
costas; uma bigorna pequena com seu pé comprido; mar- 
tello e outros instrumentos ; um folie muito simples ; peda- 
ços de lata, — emflm, uma mobilia inteira. Este homem 
annuncia-se por um grande barulho de metaes. E' o caldei- 
reiro. Correm todos os rapazes logo a arranjar-lhe mossas 
de lenha. O caldeireiro firma então a bigorna em terra, e 
improvisa uma oíBcina (Beira Alta). A gente do povo diz^ 
quando o ouve, que temos chuva (ib. etc). D'ahi o adagio: 

Caldeireiro na terra 
Chuiba na serra. 

(Garrased« cfÂnei&es, Foseoa). 

126. Quando chove, costuma-se dizer em Guimarães: 

Chove, chovisca. 
Agua moirisca^ 
Filha do rei 
Maria Francisca. 

127. Para a chuva fugir, dizem os rapazes muito alto 
(Avintes e Guimarães) : 




55 



Espalha^ espalha^ 
Cum saco de palha; 

Esteia^ esteia^ 
Cam saco de areia. 



Esteia^ esteia 

Qae te dou um saco d'areia. 
Para os teus porquiolios 
Que estão na cadeia. ^ 



128. Ha uma lenda a respeito de Fevereiro ler en- 
ganado a mãe ao soalheiro, mandando-lhe chuva. Como em 
Fevereiro faz muitas vezes chuva e sol, diz-se : 

Está a chover e a fazer sol 
E a raposa a tocar no foi. 

(Mondim da Beira). 

Quando chove e faz sol ao mesmo lempo, estão as Bru- 
xas a pentear-se (passim), e deixam cahir lêndeas (Guima- 
rães). Também dizem que caem pérolas (Leça do Balio). 

Nesta pccasião gritam os rapazes : 



Ghove^ cbove^ 
Anguinha mol' 
Qao amanhãa fará sol 
Fra cantar o rouxinol. 

(Moncorvo). 

Stá de chuva 

E vem de Sol^ 

Qae já canta o rouxinol. 

Passarinho derrabado 

Não tem mula nem cavallo 

Só tem uma mula cega 



Que o leva a Castella^ 

De Castella a Casteiião. 

Sr. Tio dô-me pão 

Fra mim e pr'a o cãosinho 

Qne stá debaixo do navio: 

Chilro vio, vio, vio. 

A gaiola aberta 

O melro fugiu 

Pr*a o meio da horta 

E mais a carocha. 



(Galmari«s). 



^ Cf. a seguinte fórmula hispanhola : 



Nube negra> 
Dios te estienda; 
Nube rubra, 
Dios te destruya; 
Nube blanca, 
Dios te esparza. 
Amen! AmenI Amen! 

(Obroê de Bartrina, ib. lu, S.) 



&e 



Stà a chover e a fazer Sol Cando chove e (ái sol 

Faz a raposa em ViUa-maior. \ae o Diaão p'ro Ferrol 

(8. Pedro do Sol). Gafgado de teaôdores 

Fra espínchar ôs hofoes. 
Stà a chover e a fazer Sol (Oram. gaiin» da 9. í^m«» ssi). 

Nâo ha regalo melhor. 

(!b.)- 

(Cf. o S 24 d'este livro.) 

129. Na occasião de uma grande tempestade, diz-se 
usualmente: parece que se abre o ceu! ** 

Também se diz quancfo chove muito : Chove a cântaros. 

•» 

130. O povo, quando quer chuva, costuma mergu- 
lhar os santos em agua, e não os tira sem chover (passim). 

Em migares (Moncorvo), por ex., deitam ao rio um S. 
Tiago, no meio de festas. Noutras partes é um S. António. 
A este propósito citarei o costume da Torreira, em Aveiro, 
(que vem descripto no Univ. illustradò, i, p. 28ft, qjoem 
jà ouvi também a várias pessoas) de fazer uma festa a S. 
Paio (advogado das sesSes), mergulhando-o então em vinho; 
as mulheres bebem o vinho e cantam : 

O' S. Paio da Torreira, 
O' milagroso santiuho, 
Hei-de eá voltar p*ra o anão 
Lavar o santo, com vinho. ^ 

Quando ha muita sêcca e é preciso chuva, « — jun- 
tam-se nove donzdlas, que é essencial se chamem Marias, 



^ Com effeito, na China, diz o I-King : «O ceu e a terra abrem- 
se, e o raio e a chuva apparecem.» 

^B Sobre os costumes estrangeiros de metter santos em agua 
para vir chuva, vôde por ex.: A. Maury (La Magie et VAstrohgie, p. 
158, 4.* ed.), Gubernatis (Myth. des plantes, i, 26). Cf. as Superstú- 

gks da Bmxa-Bretanha n^ sec, XVII (in Rev, Celt, i, 485) e G. de 
ialle (Myth. compar., 178), etc. 



57 



vão em procissão a distancia de meio-quarto de legoa, a um 
sitio chamado Lameira de Aziíxíiate^ e alli voltam de baixo 

Sara cima uma grande pia de pedra que pesará 30 arro- 
as (senão mais), regressando depois para casa á espera 
da chuva (Foscôa: in Alm. rfe Lembr. de 1860, pag. 160). 
Ouvi a mesma superstição a varias pessoas ; segundo ellas, 
esta operação é de madrugada.) ** 

131. Ha vários rifões e ditos tiradoa da chuva: 

A chuva DO S. João 

Bebe o vinho e come o pão. 

Pelo S. Tiago Ha sol que rega 

Cada pinga vale um cruzado. E chava que séoca. 

— quem voe d chuva, molha-se; a chuva não quebra osso; 
elrrei nào manda chover, ma/nda andar^ etc. 

132. Uma adivinha representa assim as telhas do te- 
lhado quando chove: 

Muitas senhoras, muitas senhoras. 
Quando meija uma, meijâo todas. 

133. Aos Sabbados chove muito (apesar de não haver 
Sabbado sem sol, cf. § 18), segundo dizem os adágios: 

Chuva de SaVbado Sabbados a chover 

Nunca se aisaba. E bêbedos a Imber, 



(OnlniAriles}. 



Nunca ninguém os pôde vencer. 

(CoTaa de Barroto). 



M Quando os Romanos queriào chuva, ia o sacerdote arrastar 
psura ft cidade ama pedra que estava ao pé da porta Capena. Cf. Mi- 
ehel Bréáí,— Hercule et Cacus, 35. 



â 



58 



134. A fabula da chuva de Maio é mencionada em 
vários auctores nacíonaes. Cf. estes versos de Sá de Miranda: 

Dia de Mayo .cfaoveo 

A quantos agoa alcançou^ 

A tantos endoudeceo. 

(Ed. de 1677, p. 17S, est. 33). 

135. Vários animaes, como as gallinhas, os porcos, 
as andorinhas, etc. dão signal de chuva. 



e) Geada 

136. Quando se vô muita geada de manhã (ao que 
no Minho chamam neve, ideia que porem é differente), cos- 
tuma-se dizer: «Ah! A Velha esta noite peneirou bemi» 
(Famalicão, Guimarães, Barroso, Moncorvo, Regoa). O arcadico 
F. J. Bingre escreveu também (O moribu/ndo cysne do Vouga^ 
Porto 1850, pag. 5): 

e, gelo agudo 

Peneirando^ o telhado me cubría 
De gelada farinha. 



f) Arcoiris 

137. O nosso povo chama ao Arco-iris, Arco-da-Ve- 
Via *' e Arcchceleste. Também no Minho lhe ouvi chamar por 



*^ Os Israelitas chamam ao arco-iris, arco de Jehovah; os Hin- 
dus, arco de Rama; os Finnezes Arco de Hermes, etc. (Tylor, ob. cit., 
I, 341). A palavra Velha nas nossas tradições é possível que substi- 
tua uma qualquer entidade mythica, assim como Moura etc. Com 
efTeilo, diz-se Serrar a Velha (Quaresma), noite Velha, a Velha a 
peneirar (gear). 



59 



vmas mulheres Arco-ira, mas aqui ha, como se vê, influen- 
cia da palavra irís. 

138. O Arco-da-Velha, dizem na Beira-Alla, Minho, 
etc. que mergulha nos rios para beber a agua que depois 
cae em forma de chuva. ** Em Vouzella acrescenta-se que 
no silio onde elle pousa está uma Velha a coser, lendo ao 
pé um novello de linhas e umas tesouras. Em Moncorvo di- 
zem que onde o arco-da-velha pousa, apparece um pinto 
em prata. ^ 

Diz o povo que vem dous anjos estender o Arco-da- 
Velha, e depois apanhá-lo (Cabeça Santa, c. de Penafiel). 

139. O Arco-celeste é um signal de que Deus está bem 
comnosco (Minho). 

140. O Arco-da-Velha é signal de chuva. Cf. o adagio : 

Aroo-da- Velha 
Por auga espera. ^ 

(Guimar&es, ete.) 



^ Esta trad. é análoga a uma da Birmânia e a outra dos Zu- 
lus (Tylor, ob, dt. p. 336-7}. 

^^ Entre os Bascos o arco-irís da manha presagia chuva para a 
larde (F. Michela Le pays bosque). Na Escócia diz-se: 

A rainbow in the morning is the shepherd's warning; 
A rainbow at night is the shepherd*s delight. 

(Popalaf Kbymea of iJeotland| p. 15S, apud Lê paya bcuque). 

Refere-se ao areo-ires o adagio ? 

Arch de Sant Marti ai mitj dia 
Aygua tot lo dia. 

{Obra* <le Bartrina, Pronotticoê). 

Na Bretaoha diz-se : 

Arc-en-ciel au soir 

Pluie ou veat le lendemain. 

(Proverhu «to. por Saavé, n.^ 788). 



60 



141. Quando se vê o Arco-da-Velha, díz-se isto pan 

elle desapparecer: 

\ Arco-da-Velha, 

Vae-te deitar^ 
Qae dizem os Moiros 
Que te hào*de matar 
Com facas, agulhas. 
Da banda do mar. 

(FaíSa e Cabeça Santa). 

Ha ainda muitas fórmulas que os rapazes recitam ao 
avistarem o Arco-iris : 



Arco-da-Velha, 
Vae-te deitar. 
Que ahi vem os ladroes 
Que te querem matar. 

(Gaimaries). 

Arco-da Velha, 
Vae-te deitar. 
Que ahi vem a chuva 
Que te pôde molhar. 

(Minho). 

Arco-da-Velha, 
Põe-te na toca : 
Pega, Maria, 
Vae fiar na roca. 

(Mlnbo). 

Arco-da-Velha 

P5e-te na quelha. 

Fita burmelha, (vermelha) 

Menina bonita 

Não ó para a Velha. 

(Famalicio e Maia). 



Arco-da-Velha 
Gag. . . na quelha. 
Bota dinheiro 
A' tua jeneila. 

(Valhmso). 

Arco-da-Nova, 
Arco-da-Velha, 
Nào bebas ahi 
Que mijou a Velha. 

(Vnia Real e Bastos). 

Arco-da-Velha, 
Cordões de retroz. 
Meninas bonitas 
Não são para vós. 

(VoazelU). 

Arco-da-Velha 

Vae para Castella, 

Faze uma casa 

Mette-te n'ella; 

Tu c'um machado, 

E eu c*uraa serra 

Ganharemos pão 

P'ra comer dentro d'ella. ** 

(Slnfftei, no e. de Boií^e). 



^ CL que os nossos rapazes dizem ao peru : 



61 



142. E' uma phrase vulgar esta: Fez mt disse coto- 
SOS do arcchda-velha, — para indicar uma cousa extraor- 
dinária. 

g) Fogos-fatuos 

143. Os fogos-fatuos pensa o povo que são alminhas 
(lo outro mundo (Beira, Traz-os-Montes) . Muitas liistorías ouvi 
em pequeno doestas luzes dos cemitérios. 



h) Auroras boreaes 

144. As a/wi'oras boi^eaes diz o povo que são sangue 
espalhado no ceu. Por isso indicam terríveis guerras. Quando 
• povo as vê, chora e resa (Sinfàes, Porto, etc). 



i) Fogos de Sant*Elmo 

< 

145. Este phenomeno eléctrico, de que Camões disse 

Yi^ claramente visto, o lume vito 
Que a maritima geote tem por sranto^ 



Peru velho. 
Queres casar; 
Menioa bonita 
Não has de lograr. 

(Comroimieaçio do tnr. F. Adolyho Coelho). 

•Aqx eoTiroos de Saiat-Bríeuc, poor détoumer rar«'-en-ciei et 
Kempécber d*ameiier ia plaie, on cracbe dans sa maín ^uche, et 
on coupe som crachat d'uu coap de la maio droite, cnrnme avec une 
lame, ea disaot! «Arc-eo-cfel, si to pa^-ses par mon Mé, je te coD|»e 
par la moitiél». La méme choso se prati<iue á Sarzeau, c'estce qo^on 
appelle creter Varc-en-ciel: voici la formule nu*un dii en méme temps 
(traducçõo): «Arc-enciel de juur, are-eo-ciel de nuil, — Crève d'ici de- 




62 



é pelos nossos marinheiros, segundo elles me informam, 
chamado Corpo santo. Quando apparece, os tripulantes re- 
sam-lhe (Porto. O mesmo diz a Historia Trágico -Marítima^ 
I, pag. 313, Lisboa 1735). 



j) Trovoada 

146. E' um phenomeno complexo que se resolve nos 
seguintes : 

a) Relâmpago, Quando faz relâmpagos, o povo cuida 
que é o ceu que se abre (Mondim da Beira, Sinfães, Fafe). 
Eu conheci em pequeno um velho que dizia ver o ceu na 
occasião do relâmpago (Mondim da Beira). Cada vez que o 
relâmpago brilha, diz-se: S. Barbara! S, Jeronymol 

b) Raio, O raio é uma pedra (ou uma cimha de f&nVy 
— Gondomar, etc.) que cae e se afunda sete varas ou bra- 
ças, levando sete annos (cada anno sobe uma braça) a 
vir á superfície (Traz-os-Montes, Minho, Douro, Beira-Alta, 
Extremadura). Na occasião em que a pedra cae (a versãa 
da pedra é mais vulgar que a do metal),, dá muitos saltos 
no chão, deixando a terra esgadanhada (Rio Tinto). A pe- 
d/ra de raio ou é posta nos telhados (Moncorvo) ou dentro 



main soirl».On a soin de frapper droit sur le crachat^ de manière à 
]e couper par le miliea. II y a de graves discussioas eatre les eafants, 
pour savoir à qui revient Thonneur d'avoir biea crevé rarc-ea-ciel. 
Get usage a lieu eacore daQS plusieurs localités bretonnes. II a 
dégénéré aussí, à Saint-Brieuc, dela manière suivante: « — Tu vois 
bien cet arc-ea-ciel?— » Et pendaat que Tautreest occupé à le regar* 
der^ on allonge délicatemeDt les deux doigts les plus proches du pouce 
de la maiq gaúche, on crache dessus, et, d'un coup de Fautre maÍD> 
OQ lai écrache cela sur la figure. Voici la formule en usage du côté 
du Morlaix pour éloigner rarc-ea-ciel (atec la méme céréraonie que 
ci-dessus (traducção) : «Arc-en-ciel, coupe ton cou, ou je te le coupe». 
— Ernault, in Melusinej i, 502. (Devo esta informação ao meu amigo 
o snr. F. A. Coelho, a quem aqui a agradeço). 



^ 



63 



de casa (Douro), para livrar de raio. Quando troveja, ella 
começa a sallar muito no sitio em que a teem guardada 
(Douro, etc). 

O povo chama pedras de raio (também pedras de tro- 
vão em Neiva no Minho, segundo me communicou o Sr. Mar- 
tins Sarmento) não só aos instrumentos de pedra prehisto- 
ricos (possuo um, encontrado no concelho de Mafra, — e que 
é um machadinho de pedra polida. O povo lá liga-lbe a 
mesma superstição, segundo me informa o meu illustre con- 
discipulo Carlos Galrão a cuja amisade devo a posse do 
machadinho); mas, — é o mais vulgar no norte do paiz, — 
aos crystaes de rocha (possuo seis crystaes de rocha, cha- 
mados pedras de raio^ que forão quasi todos encontrados 
nas raizes de arvores, segundo a crença). Tenho ouvido tam- 
bém dizer que ha pedras de raio redondas, — o que con- 
corda com o que diz o padre J. Baptista de Castro (apud o 
Sr. Fillippe Simões, — Introd. d Archeolog.^ pag. 4), mas 
nunca vi nenhumas. Ouvi também dizer que ha pedras de 
raio e pedras-de-coiisco (Moncorvo, Famalicão) ; não sei bem 
em que consiste a differença, com tudo a de corisco parece 
que é mais pequena. " O citado padre João Baptista explica 
phantasticamente a formação das pedras de corisco, pela 
acção do frio e do calor. O nosso povo (Vouzella) explica a 
trovoada pela combinação da fnura e da quentv/ra. Uma 
cantiga de ao pé de Vizeu é explicita a este respeito : 



fii A crença em pedras de raio existiu na Hispanha antiga 
{Galha, vni, por Suetonio), existe na França (Cartailhac : Lâge de 

{)%erre dans les souvenirs, etc., pag. 10), na Inglaterra (id. ib.), na 
talia (Joly, Uhomme avant les metaux, p. 200), no Japão (id. ib.), 
no Brazil (Cartailhac, ob. cil. ib), etc. Cf. ain<!a: Plínio, — fl/5f.iVa- 
tur, XXXVII, 51 (sobre as ceraunia») ; Gubernatis (Mitologia compa- 
rata, Milão 1880, pag. 101); Cox (Myth, of the Aí^an nations, Lon- 
dres 1878, V. n, p. 212); J. Grimm (Deutsche Mythologie, Berlim 
1875, vol. I, p. 149-150); etc. (Vid. o meu art. Notas de Prehistoria, 
11, in Paníheon, p. 364-365). 




64 



Entre o calor e o frio 
Se gera a pedra do raio : 
Quem irie dera a fortaleza 
Que tem o trovão em Maio. 

Alem da pedra de raio ha vários meios de afugentar o raio: 

Quando troveja, toca-se uma campainha benzida; aonde 
chegar o som, não cae raio (Famalicão). " Põe-se no lume 
o casco das pinhas queimadas no Natal : aonde chegar o 
ftimo não cae raio (Famalicão). Dm Agnus-Dei posto na ja- 
nella, ura toco de cera dB Semana-santa, livrinhos bentos, 
ramos bentos queimados, o cepo do. Natal posto ao lurae^ 
certos arbustos, como o azevinho, o loureiro e a oliveira^ 
são outros tantos preservativos. 

O raio não se apaga com agua; só com lume (Beira^ 
Douro). 

Os santos protectores contra o raio, e em geral contra 
a trovoada, são S. Jeronymo e Santa Barbara; alé o pro- 
vérbio diz : só se lembrarn de S. Barbara quando troveja. 

Eis uma oração a S. Jeronymo (Sinfães) : 

—Para onde vaes, S. Jerômyuo? Nem baíioho de menino, 

— Vou espalhar a trovoada. Nem leira nem beira, 

— Espalha-a bem espalhada. Nem raminho de figueira. 

Lá para Castro-Marinho Nem pedrinha de sal, (^ casa?) 

Para onde nào haja pào nem vinho, Nem cousa a que faça mal. 

As de Sanla Barbara são pelo mesmo teor : 

S. Barbola se alevantou. Que pelo mundo aníklo armadas. 

Suas santas mãos lavou, — Arrama-as bem arramada». 

Seus sapatinhos calçou. Por d'oude nào haja pào, 

S. Francisquinho encontrou. Nem grão, 

— Tu, Barbola santa, onde vás? Nem mantença de christào. 

— Vou arramar as trovoadas, (Foscôa). 



52 Os Godos, quando travejava, faziam grande barulho com 
martellos metailicos, comoelles suppunham que os deuses faziam. (Cf, 
Caríailhac : Uâge de pierre etc, p. 55). Em varias partes ó costume 
tocar os sinos na occasiào de trovoadas. 



65 



}ara bemdita 
' ceu estaes escrita, 
ipel e agua benta, 
lae esta tormenta 
a a banda dos montes, 
,0 haja pào nem vinho, 
or de rosmaninho, 
) ouça cantar os gallos 
ípenicar os sinos. 

(Minho). 

íorinha se vestiu e se calçou, 
ninho se botou, 
lor le preguntou : 
larborinha, onde vaes? 
Senhor, comvosco vou. 
!ornigo nào irás, 
terra ficarás: 
os trovões que vier 



Todos tu abrandarás; 
Tu 08 levarás 

Para onde não haja gallo nena gallinha 
Nem toque smo nem campainha. 

(Melres). 

S. Barbora bemdita 
Se vestiu e calçou 
Ao seu caminho se botou, 
A Jesus Christo encontrou 
E Jesus lhe preguntou : 

— Tu, Barbora, aonde vás? 

— Vou espalhar as trovoadas 
Que no ceu andam armadas. 
Deitá-las p'ra a serra do Marào, 
Onde não haja palha nem grão. 
Nem meninas a chorar. 

Nem gallos a cantar. 

(Vnia Real). 



inda existem outras orações (Vianna do Minho) : 



ro e S. Simão 

8 chaves do trovão: 



Assim como os santos são santos 
Assim os trovões sejam mansos. 



í — Santo Deus, SantT forte, Santos immortaesf Mise- 
flobis! Chagas abertas, chagas cerradas, sangue derra- 
de N. S. J. Christo se metta entre nós e o perigo — » 
Real). 

j) TrovâJb. O ruido do trovão é produzido pelo ba- 
que Deus faz no ceu a ralhar (Alijó, etc, etc.) [ou 
astar as cadeiras (passim) depois de jantar (Sinfães).] 
ido o sr. Consiglieri Pedroso, diz o povo que quando 
ovões são carros rodando no ceu (Trad, popul, port,, 
:to do Positivismo, Varia, n.® 448). *' Quando troveja, 
3 bom fechar as portas ou janellas, porque seria dar 
3llas na cara do Senhor. ^* 



»* O deus do trovão, Thor, na Mylh. do Norte, ia num carro. 
>4 A maior parte d'este capítulo sahiu já em artigos meus pu- 
38 na Era-Nova (Trad. das Pedras e Trad, da AtmospheraJ. 




CAPITULO IV 



A agua 



[Vários eseriptores antigos, como Poniponio Mela (De siiu or- 
Ifis, lib. III, cap. I), Strabão (Geogr. ed. Didot 1853, lib. iii, cap. m, 
5), Lúcio Floro (De Roman. Gestis, ed. d'Evora 1671, pag. 70), dâo- 
nos o rio Lima^ no Minho, (flurnen Obiivionis, Lethes, Limia) como 
um rio que produzia o esquecimento. (Um poeta relativamente mo- 
derno, Fr. Agostinho da Cruz, diz doHio Lima, referindo-se a Diogo 
Bernardes de Ponte do Lima : 

O tempo lhe deu nome de esquecidas. 
Até lh'o dar Bernardes de lembradas.) 

O culto das agUHS na epocha luso-romana é-nos attestado espe- 
cialmente por estas duas inscripções : 1.») achada nas Caldas de Vi- 
zella, onde ainda se conserva (está numa pequena ara) : MEDA O VS. 
CAMALi II BORMANi J| CO.VSLM. O nome deste deus Bormanim, 
como se reconhece pela comparação com os nomes dos deuses gauleie> 
Bormo, Borvo, Bm^manus, Bormana, (vid. Rev. Celtique, iv, p. 6^ 
sqq.) e com vários nomes em dialectos célticos modernos (vid. d0 
Belioguet, Ethnogenie Gauloise, 2.» ed. 1872, n.^» 400-401, pag.37S- 
379), contém a ideia de fervura. Littré no seu Dict. dela lang. fr., 
V. bourbe, diz : «Borvo oxiBormOj nom gauloisde Bourbon rArchâm- 
bault, ò cause des eaux qui y bouillonnent». O nosso Bormamcui 
era pois a divindade tutelar das aguas thermaes de Yizella. — 2.») 
achada em Bencatel, junto a Villa- Viçosa, (também numa ara): 
FONTANO II ET. FONTaNAE || PBO SALVT. AL |1 BL FAVSTL AL- 
BIA II PAGINA. V. S. A. L.— Nesta lemos um dous Fontanus (pala- 



67 



ra derivada de Fons; cf. Tiberinus de Tiber) e ama deusa Fontana 
)alavra egualmente derivada de Fons; na linguagem da decadência 
mtana, ae, significava fonte). 

Aproximando-nos mais dos tempos modernos^ encontramos uns 
fragmenta quae citantur ex ConcUijs Bracarensibtis, et in eis non 
isAant, onde se lé íex concilio Brac. c. 22): Si inalicuius Presby- 
teri parocbía mildeíes autfacuías íncenderint^ aut arbores^ aat fon- 
n%y aut saxa venerãtur, ...» CCollectio concilioruTh Hispaniae, Ma- 
driti^ 1603). Nas constituições posteriores lé-se (estes trechos das Con- 
tíituições sào extrahidos de Ethnograph. Port. do snr. Ad. Coelho, 
p. 26 sqq.) : «oem vejp (veja) em agoa : ou cristal : ou em espelho : 
ou em espada: ou em outra qualquer cousa luzente:» (de Evorá, 
1534; XXV, 1.) : — «Nem levem as Imagens dalguns santos acerca da- 
goa : fingindo que os querem lançar em ella : e tomando fiadores: que 
^ ate certo tempo ho dicto santo lhes nom der agoa : ou outra cousa 
que pedem que lançaram a dieta imagem na agoa.» (ib. ib.) ;— «Nem 
benzam com espada que matou homem : ou que passasse ho Douro e 
Mnho três vezes.» (ib. ib.); — »Póde-se também pôr em exemplo 
<de soperstíçào), no que se tem introduzido em dia de 8ão JoãoBau- 
iista, que se colham as hervas, e levem a agua da fonte para casa, 
KKi se lave a gente, e os animaes neila, antes do Sol nascer. . . » (de 
Lamego, 1639, v, 8). — Gil Vicente, o poeta que mais se inspirou do 
inaravilboso popular, traz nos seus autos as fadas marinhas, 

E aquellas fadas 

Que tem as ribeiras de verde pintadas. 

(ObraSf Hamburgro J834, t. iii, 110.) 

A agua tem uma grande virtude na Egreja ouando benta ou 
havtismal. Na Praclica de Exorcistas (Coimbra 1694), jà por mim ci- 
tada neste livro, vem uma oração para a benção da agua: ««Exorcifo 
^teereatura aquse in nomine Dei Patris,. . . ut fias aqua exorcifata ád 
I tfogandam omnem poteftatem inimici. . . etc. (pag. 325). As benzedei- 
!;ras populares fazem também muito uso d'ella para talhar. As virtu- 
*8 oa agua benta expoem-as a mesma Praclica a pag. 327-28, extra- 
^Vdas das Obras de S. Vicente : «Prima virtus eíl faecunditas corpo- 
isyiis: Nam fí uxor, qudB nequit habere prolem : accipiat die Domini- 
Q), & bibat, & divote faciat Crucem supra ventrem cum nomine lefu 
«bebit prolem^ etc. Secunda virtus eft ubertas temporalis fcilícet af- 
l^rgendo vineam, vel campum devote cum nomine Jezu etc.» Ainda 
loja se fazem ladainhas aos campos, e os padres aspergem as se- 
«eoleiras. Para pedir chuva, usa a egreja varias ceremonias. (Cf. 
^pp. cit. p. 383 sqq.).— Num ms. cuja copia existe na bibliotheca pu- 
inca do Porto, — Diálogos Moraes, Históricos e Politícos. Fundação da 
éiade de Viseu, etc. por Manuel Botelho Ribeiro Pereira,— Viseu 
aíiBO de 1630,— lê-se o seguinte: «—Costuma haver mulheres qua 



68 



debaixo do nome de mestres (mestras) uzavão curar enfermos com w- 
provãdas artes diabolíeas superstiçoens etrtre ellas foi hnma Reânaèi 
como era era a noite de S. Joào Banharem os enfermos em aqoelte^ 
rio onde se mete a Ribeira de S. Thiago passando-os por elle três ve- 
zes : fazeúdo algumas ceremonias e dizendo algoas pialavras bofts e . 
santas, de modo que se ouvissem pára cuidarem os simples qúe por 
virtude d'ella e d'aquella agoa saravâo.— » (cap. 5.«; o ms. não tetti 
paginação). — Daepocha das nossas descobertas são conhecidas varias 
fendas e superstições^ bem como os dictados : 

Quem passar o cabo de Nao Quantos irão 

Ou voltará ou não. Que não voltarão !] 



147. I — As AGUAS EM GERAL, a) A aguE foi con- 
demnada no principio do mundo a correr sempre ; como to- 
das as cousas, também então tinha falia (vid. | 1.** d'este 
livro), b) A agua dorme todas as rioutes, e na meia-noutc 
do S. João está benta (Mafra), cj Quando alguém bebe 
agua, riuma corrente ou charco, diz, fazendo uma cruz: 

Esta agua encharcada. Agua corredia, 

Yalha-me a Yirge sagrada; Nào faças mal à minha barriga, 

Esta agua corrente Nem de noite nem de dia^ 

Valha-me o SS. Sacramento Nem ao pino do meio-dia. 

(Qlstrieto da Guarda). (Bai&o). 

d) Se duas pessoas bebem juntas, morrem uma quando 
outra (Melres). e) Quando bebem dois de um copo, o se- 
gundo sabe os segredos do primeiro (Minho, Douro, Beira 
Alta, etc.) ou bebe-lhe a força (Famalicão), f) Não se deve 
beber agua com uma luz na mão porque causa gôtta (Mel- 
res), ou bebe-se o juizo (Beira, Douro), g) E' raào beber 
agua antes de almopp (C. Pedroso, Fam, 312). Cf. o adagio: 



Quem bebe agua antes de almoço 
Gliora antes do sd-posto. 



ê9 



148. Ao lavar-se a cara de manha é costume dizer 
(Gondifellos) : 

Minhas mãos môlho^ 
MiQha eara lavo, 
P'ra fazer serviço a Deas 
E arrenegar o Diabo. 

149. a) Uma creança depois do baptismo, em quanto 
estiver sem mammar, ainda que caia á agua não sè afoga; 
mas se tiver mammado, e cahir, afoga-se logo (Gondifellos). 
b) A creança que vae a baptisar deve ir bem lavada, senão 
o corpo enche-se-lhe de feridas, c) Na primeira agua em 
que se lavar uma creança, deita-se dinheiro, sendo ella me- 
nino; e deitam-se objectos de ouro, sendo menina. E' para 
que a creança seja amiga de riqueza (ib.) d) A primeira 
agua em que se lava a creança deve ser deitada fóra, para 
um quintal, se é de rapaz; para a loja ou pelo soalho, se 
é de rapariga. Isto, porque a felicidade da mulher está na 
casa, e a do homem, fóra de casa (Apud o meu art. Costu- 
mes pop. da prov. do Minho, | 18, in Penafidelense), 
e) Quando lavam os recemnascidos a primeira vez, fazem- 
lhes uma cruz com a mesma agua e dizem : 

Agaioha a lavar^ Againha a eorrer 

O Senhor a abençoar; E o menino a creseer. 

E' bom deitar agulhas nessa agua (Guimarães, ib. § 
47). f)k creança ficará a ourinar na cama tantos annos 
quantos forem os pingos da agua baptismal que cahirem no 
chão (Guimarães, cf. | 63 d'este livro). 

150. a) Os rapazes, quando vão tomar banho (nadar), 
benzem-se, contam um certo numero de areias (parece que 
nove) e atiram-nas para trás das costas para a agua, dizendo 
(Gondifellos) : 



70 

Maleitas, maleitas. Maleitas p'ra Braga> 

Ide para o mar. Maleitas pr*a o Porto, 

Que eu voa nadar. Maleitas p'ra fora 

* Do meu corpo. 

bj O sr. Consiglierí Pedroso no seu opúsculo, As mou- 
ras encantadas^ (extracto do Positivismo) traz esta supersti- 
ção que também já vi mencionada, se bem me lembro, m 
Almanak de Lembranças: «Na Maia, curam-se [aliás: obsta-se 
a ellas] as sesões apantiadas n'agua pela forma seguinte: a 
pessoa que vae nadar, quando sae da agua, atira cinco pe- 
drinhas ao rio. Tapa logo os ou\idos e fecha os olhos para 
não sentir o som da pedra cahindo n'agua, nem ver esta 
mexer. Em seguida pega na camisa, atira-a três vezes às 
costas dizendo: Agita na fonte^ maleitas no monte! — » 
(obr, cit, pag. 14). 

151. Um homem tomou um criado e disse-lhe que a 
agua se chamava Clarenda, a estopa Stopaciencia, e o gato 
Tranquitana. Vae o criado ata uma pouca de palha á cauda 
do gato, e bota-the o fogo. Começa o amo : «O' moço, traze 
auga!» Responde o moço : aClarenciu! snr. meu amo. . . que 
se apegou o fogo á Stopaciencia 1 1> Como se vê, o amo já 
não dizia Clarencia, dizia auga (Gondifellos). 

152. No S. João tiram-se varias sortes com a agua 
(Vid. Fastos populares), 

153. Para vir a chover, mergulham-se os santos em 
agua (vid. | 130. e a introd. a este cap.). 

154. Chama- se lobo da fada ou lobo da gente a mn 
lobo que vae sempre ao corrente de agua e lambe a gente, 
mas não faz mal (Mirandella). 

155. Qualquer pesspa mordida por cão damnado, vè 
a imagem do cão pintada n'agua (Beira, Traz-os-Montes etc). 



71 



156. Ourinar na a^a é peccado, mas dizendo : «Morra 
o Diabo, viva o menino Jesus!» flca-se livre de peccado 
(Moncorvo). 

i 

157. Quando morre alguém, deve-se despejar to^fi a 

agua que houver em casa, porque a alma vae-se lá banhar 
(Porto, — apud Ad. Coelho, — Rev, de Ethnolog. 1.^ vol. 
p. 178). 

158. Não se deve vasar agua fora, de noite, por uma 
janella ou porta, sem primeiro pedir licença aos defunctos 
de um e outro sexo (Ilha do príncipe, — id. ib.). 

159. Os rapazes, na Beira-Alta, costumam capa/r a 
agua^ isto é, atirar com uma pedra quasi horisontahnente, 
a uma poça, de modo que ella atravesse a agua* numas 
poucas de partes. Quanto maior fôr o numero de cortes que 
a pedra fizer na agua, maior é a habilidade do capador. 



160. 11 — Fontes e póços. Nas aldeias é raro ver-se 
uma fonte que não tenha uma cruz ou um painel, ás vezes até 
com um pequeno nicho com vasos de flores. Ha muitas fon- 
tes com designações sagradas, ex. : Fonte scmta, Fonte da 
Senhora do Carmo, Fonte de S. Qualter, etc. ; outras com 
designação de Mouros, ex. : Fonte da Moura (passim) ; ou- 
tras com designações do Diabo, ou ainda mais extraordiná- 
rias, como Fonte dos sete carvallws (em Briteiros). ** 

4 

161. a) Uma vez S. Pedro de Rates [que, segundo o 
povo, se chama de Rates^ porque, quando morto, lhe appa- 
receu na cabeça um ninho de ratos. W uma das muitas 



5^ Estes nomes e invocações das fontes sao vestigios do culto 
pagão das aguas. 



72 



etymologias conforme o processo popular; podiamos citar 
mais exemplos] vinha a fugir dos de Braga e Póvoa de 
Lanhoso, e cahiu ao pé do logar de Rates numa pedra, 
onde os joelhos do cavallo qpi que vinha fizeram dois 
buracos que ainda là se vêem; d^esses buracos nasceu 
uma fonte, cujas aguas gosam de certa virtude entre o 
povo d'alli (na quinta da Piedade, freg. de Ballazares de 
Povoa de Varzim, pertencente ao meu condiscípulo Ma- 
cedo Aguiar, a cuja creada devo esta noticia). A fonte 
chama-se FoiUe de S. Pedro, ^ b) Na freguezia da Ri- 
beira de Homem ao pé da Senhora da Abbadia (Minho) ha 
um penedo com duas pegadas ahi deixadas pela burrifiha 
em que ia Nossa Senhora; d'uma das pegadas nasceu uma 
bica de agua. c) No monte da Saia (Minho) ha ura monu- 
mento arruiniado que ao snr. Martins Sarmento (a cuja be- 
névola amisade devo a informação que se segue) pareceu 
um templo talvez d'uma divindade das aguas. Ao pé d'este 
templo existe a Fonte do Pegannho com reputação de santa; 
as suas aguas podem-se beber sem fazerem mal, mesmo 
que se esteja suado, e além d'isso curam a dor de dentes. 
A pessoa que informou o snr. Sarmento aproximou a pala- 
vra Pegannho de pegada^ porque a fonte tem três nascen- 
tes, uma das quaes deriva de uma cavidade arredondada, 
aberta na rocha pela pata da burra em que ia N. Senhora. 
[Neste monte appareceram círculos concêntricos gravados 
em rocha, que são vulgares ao pé da Gitania, — e, o que é 
mais notável, o swastika. Vid. p. 34.]. d) Em Santa Baia de 
Rio de Covo (Minho) ha a capella da Senhora das Aguas que 
alli appareceu e fez rebentar uma fonte. Tem uma romaria. 
é) No sacrificio de Santa Anominata, na serra do Espinheiro, 
junto a Tourega (arcebispado de Évora), rebentou uma fonte, 
chamada Fonte Santa,, abundante em milagres. (Agiologio, 



^ Cf. o cavallo Pégaso^ ferindo a terra e fazendo nascer a 
íontelde Hippocrene. 



73 



Lisboa 1866, tom. 3.^ pag. 6). f) Cf. esta linda oração po- 
pular de Vianna do Gastello : 

Senbora S. Anna Oh! que agua tão doce! 

Subiu ao monte: Oh i que agua tão bella! 

Aonde se assentou Anjinhos do ceu, 

Abriu uma fonte; Yiude beber d'ella. 

162. A mulher (e parece que qualquer fêmea) a quem 
falta o leite, para que elle volte, vae beber da Fonte do 
leite (em Ponte da Barca) e leva á agua uma oíferta de pão, 
vinho, linho, azeite, etc, ofiferta que depois pôde com di- 
reito ser tirada pela primeira pessoa que por alli passar. 
(Cf. os meus Fragm, de Myth, Pop, Port., pag. 5. Nelles 
sahiu por engano Ponte do Lima em vez de Ponte da Bar- 
ca). 5^ 

163. A agua de sete fontes, colhida na manhã de S. 
João, tem certas virtudes (Beira-AÍta, Minho, Galliza). 

164. Para se enganarem as ^naleitas (sesões) levam-se 
três bocados de alimento e poem-se ao pé de uma fonte. O 
doente (que não deve ter comido nada) diz : «Come tu, que 



w E' outro vestígio do culto pagão da«* fontes esta offerenda 
que seleva ás aguas. Nos naizes estrangeiros abundam vestígios idên- 
ticos. Todos conhecem as fontes d'Arethusa^ Castalia etc. da antigui- 
dade clássica. 



O fons Badusiae, spleodidior vitro^ 
Dulei digne mero non sine floribus^ 
Gras donaberis hoedo. . . 

(Hor., llb. III, «d. S.«) 



Esta superstição do § 162 vem UiiQdbem meftckmada no (^us- 
oqIo do sor. Pedroso^ As mouras encantadas, pag. 14 ; mas não sei 
por<}ue extraaba contradicção eUe a considera como um reflexo da 
ooncenção das Mouras como génios malefícoe. Pois a agua ^ão tem 
aqui um sentido benéfico ? 



74 



eu já comi». As sesões passam-lhe, mas a pessoa que co- 
mer os bocados fica com ellas (communicação do snr. Sar- 
mento. Vid. os meus Costumes pop. da prov. do Minho, 

i 11). 

165. a) Na Fonte Sarita, lambem chamada de S, Chiai- 
ter, ao pé de Guimarães, é costume na noute de S. João á 
meia-noute, banhar as creanças doentes e deixar na agua 
a camisa d'elias. — Numa pequena edição popular, Historia 
e vida de S. Gualter, (Guimarães, Typog. social, 1881, — 
de 8 pag.) lè-se : «A' Fonte de S. Gualter, hoje mais conhe- 
cida pela Fonte Santa, começou de ir lavar-se muito en- 
fermo, por se espalhar que aquella agua tinha virtude. 
Effectivamente com esses banhos foram curados — nove to- 
lhidos e aleijados, dois quebrados, etc.» (ob7\ cit,, pag. 5). 
b) O snr. C. Pedroso no citado opúsculo {As mouras encan- 
tadas)^ pag. 14, traz uma superstição idêntica, referida a 
Bragança. ^ c) Num conto de Bruxas, (que eu publiquei 
no Penafidelense de 3(> de Nov. de 1880) figura uma Fonte 
da Senhoi^a da Luz cujas aguas curam a cegueira (versão 
de Moncorvo). 

166. a) Na Fonte do Concelho, em Moncorvo, appa- 
rece na manhã do S. João uma Moura a expor os figos ás 
orvalhadas, e ouvem-na cantar da meia noute até á madru- 
gada. (Apud os meus Fragm, de Mytk., pag. 1). ^^ b) Na 



ô8 Nesta superstição o meu amigo o snr. Pedroso cahiu^ quanto 
a mim, no mesmo engano mencionado na nota 57. Com effeito : em pri- 
meiro logar aqui não se falia em Moura; em segundo logar a fonte tem 
um caracter de virtude ; em terceiro logar a mesma superstição está li- 
gada a S. Gualter, em Guimarães, d*onde se vé que nem tudo o que se 
refere à agua se deve referir à Moura.— Na Rev. Celtique, 1. 1, p. 488, 
diz-se qao na peninsula de Cornualha levam às fontes as crianças, 
porque as aguas tem virtude. Ha ainda mais costumes semelhantes. 

&9 Nesta superstição^ como na seguinte, as Mouras gosam o pa- 



k 



76 



Fonte de S. Tiugo^ em Moncorvo, quando se lira a agua 
toda á fonte, ouve-se um ai muito sentido (ib. íb,), c) Em 
Lamego conta- se que uma Moura que vivia numa fonte 
pedira a uma rapariga que lhe levasse na noite de S. João 
uma hôla de pão quente; a rapariga só pôde ir um pouco 
mais tarde, o que fez dobrar o enca/nío á Moura (ib. ib,), — 
Ouvi na Regoa a mesma lenda, localisada na Fonte da Moira, 
com a única differença de, em vez de pão quente, ser um 
cavallinho de massa, feito sem ninguém ver ; uma amiga, 
porém, da rapariga quebrou uma perna ao cavallinho, o 
que dobrou também o encanto à Moura {ib. ib.), d) Em 
Penella ^Coimbra) é crença que na Fonte da Doença appa- 
recém Mouras encantadas na noute do S. João, antes de 
nascer o sol. Quando as raparigas lá vão buscar agua, as 
Mouras começam a agradecer-lhes o terem-lhes quebrado o 
encanto. As bolhas d'agua que apparecem â superflcie é 
que sao as encantadas. Estas depois vão beber dos cânta- 
ros das raparigas a agua benta d© S. João (C. Pedroso, As 
mouras encantadas^ pag. 5). e) Nas Caldas da Rainha, na 
madrugada do S. João, apparecem Mo uras em figura de 
frades vestidos de branco (id. ib. pag. 5-6.). fj Em Penafiel 
está uma Moura encantada numa poça; indo uma vez um 
homem abrir a agua, a Moura, que nessa occasião lavava 
meadas de oiro, pediu-lhe que a não abrisse, e prometteu- 
Ihe parte da meada; o homem resiSliu, e a Moura fez com 
que a agua se sumisse (Vid. os meus — Fragm, de Myth, 
pag. 1). g^ No castello de Torre-de-Dona-Chama (Traz- 
os-Montes) ha uma cisterna com uma Moura encantada em 
mulher da cinta para cima e serpente da cinta para baixo ; 
uma vez passou por alli um homem, e a Moura cha- 
mou-o e disse-lhe que fosse lá ao outro dia desencantá-la, 



pel de divindades das aguas/ como as Nimphas^ as Wasser-Nixen, 
etc. Cf. os seguintes artigos meus : Presbyterio de Villa-Cova, Ethno- 
graphia dos Lusíadas, Tradições das aguas, Fragm, deMyth,eic, 



,70 



e que não tivesse medo, porque ella nesse dia appareceria 
Ioda serpente, mas o homem ficaria rico. O homjem foi. 
Quando a serpente ia a subir pelo homem a cima, assim 
que chegou á garganta, este intimidou-se e atirou-Ihe com 
o casaco. A serpente enroscou-se, fugiu e exclamou . «Ah I 
que me dobraste o meu encanto!». Ainda assim ella man- 
dou ao homem que a certas horas fosse lá a um logar, ondç 
acharia uma pedra com doze vinténs em cima, todos os dias. 
Nessa cisterna, na manhã do S. João, ouve-se um tear a 
trabalhar (ib. ib. pag. 1-2). h) No Figueiral, concelho de 
Tondelia, ha o Poço da Grade, que é encantado e foi feito 
pelos Mouros. Correm para eúe as aguas, mas ainda que 
levem enxurro, não deixam cahir nada nelle. Nesse poço, 
na manhã do S. João, ao nascer o Sol, apparecera bezern- 
nhos e boisinhos de oiro^ á tona da agua. Quando os vão 
apanhar, fogem (Communicapão particular), i) Ao pé de 
Briteiros, num campo, ha a Fo7ite da Cavada com um sino 
d'oiro lá dentro; tem por fora numa pedra um signal gra- 
vado, descoberto pelo snr. M. Sarmento (Vid. o meu cit. 
op. Fragm, de Myth,^ p. 10). j) Na cisterna do castello de 
Silves (Algarve) apparece na noute do S. João uma Moura 
a cantar e a remar num barco (C. Pedroso, obr. cU.^ pag. 
6). k) As Mouras apparecem frequentemente á beira das 
fontes a pentear com pentes de ouro os cabellos tambena de 
ouro. (Cf. o seguinte romance popular que vem a pag. 26 
do R(ymanceiro geral do snr. Th. Braga: 

Lá pela noite adeante 
Um liado cantar se ouvia : 
Deitou i»s oHios ao largo. 
Viu lá estar uma donziila 
Penteando o seu cabello 
Em um tanque de agua fria). 

l) Na Gajliza também « — dificilmente nuestros campesi- 
nos hablarán de los encantos, sin hacer mencion de una 
hermosa senora, lujosamente ataviada, arreglando la blpuda 



77 



cabellera com peines de oro, sentada ai lado de uúa fuen- 
te. — » {AfUiguedades de Galicia^ por Sivelo, Coruna 1875, 
pag. t77). m) Ligada á creoça de que a agua na meia-noute 
on manhã do' S. João gosa de muitas virtudes (e por isso 
não só a gente se lava nella, mas leva os gados ás fontes e 
rios) anda a de se tomarem as orvalhadas na mesma occa- 
sião. A respeito das orvalhadas do S. João vejam-se estes 
versos (Douro, Beira- Alta; cit. nos meus Fragmentos^ p. 12): 

Orvalheiras, Orvalhadas, Orvalhadas^ 

Orvalheiras^ Orvalhadas, Orvalhadas, 

Viva o rancho Viva o rancho Viva o rancho 

Das moças solteiras! Das moças casadas! Das moças viuvas! 

167. Ha em Baião uma fonte cujas agua-s não são 
saudáveis, porque antigamente se metteu lá um frade, que 
ainda hoje lá se conserva (cf. | 149, ej, 

168. Ha em Cuba (Alemlejo) uma Fonte do Diabo, 
onde se acreditava que se reunia o Diabo com Bruxas e 
LobishDmens a cerlas horas. Quem a essas horas passasse 
aHl sem fazer o signal da cruz era agarrado e afogado. Nas 
terras visinhas quando alguém convidava outrem para ir a 
Cuba, dizia-lhe : a Então queres ir ver o Diabo a CiibaH 
{Alm. de Lembr, para 1859, p. 373). 



169. 111 — Rio!l. lia dous rios ao pé de Mirandella, 
chamados Tudella e Robaçal. No tempo em que os rios fal- 
lavam, dizia o rio Tudella: 

Arreda, arreda, 
Rio Tundeila : 
Senão quizeres àrrodar, 
Ahi vem o Robaçal 
Que elle te fará arredar. 

Porque o rio Robaçal leva mais aguas do que o Tu- 
della (Torre-de-Dona-Chama). 




78 



170. a) Havia três rios irmãos : o Tejo, o Guadiana, 
e o Douro, que combinaram deitar-se a dormir, dizendo que 
o que primeiro acordasse partiria primeiro para o mar. O 
Guadiana foi o primeiro que acordou : escolheu lindos sitios 
e partiu de seu vagar. O Tejo acordou depois, e como que- 
ria chegar ao mar antes do Guadiana, largou mais depressa, 
e já as suas margens não são tão bellas como as d'aquelle. 
O Douro foi o ultimo que acordou ; por isso rompeu por 
onde pôde, sem se importar com a escolha de sitio, e eis 
porque as suas margens são tristes e pedragosas (Mondim 
da Beira, Porto), b) Numa versão que recebi do logar de 
Loiros (c. de Famalicão) diz-se que é o Tâmega um dos 
rios : e que o Douro, por castigo, ficara cora as aguas bar- 
rentas, c) Noutra versão do Porto diz-se que é o Minho 
um dos três rios. dj Numa versão da Serra d'Estrella (in 
Diário de Noticias de 29 de Ag. de 81, n.® 5594), que con- 
corda com as antecedentes, que foram publicadas por mim 
muito primeiro, entrara o Mondego, o Zêzere e o Alva ; o 
Mondego foi o primeiro que acordou e por tanto escolheu 
melhores sitios; o Alva foi o ultimo, ej Noutra versão 
que eu ouvi a um homem da Serra d'Estrella, e na qual 
figuram egualmente o Mondego, o Zêzere e o Alva, conta-se 
que raarcarara (quera ?) o carainho ao Mondego com o dedo, 
dizendo-lhe : 

Vá o Mondego 

Pelo risco d'este dedo:^ 

Por isso dá elle muitas mais voltas que os outros. *• 



60 Esta lenda do somno dos rios foi pela primeira vez publicada 
por mim nas Tradições das aguas, 1. Conla-se uma lenda egual na 
Rússia a respeito do Volga, do Vazura, do Sozh, do Dnieper, etc. 
(apud Myth. Comparée, de G. de Rialle, pag. 37). Numa interessante 
carta publicada pelo snr. Ad. Coelho no Diário de Noticias (n.® 
5617) e reproduzida no Jornal de Viagens, explica- se esta lenda pela 
ideia dos rios gelarem. A immobilidade do gelo é um verdadeiro 



79 



171. Na Ribeira do Barco (Barro ao pé de Lamego) 
parece em certas noutes uma Moura a pentear-se com 
ntes de ouro. [E' pouco vulgar a crença de Mouras em 
>s ; é mais em fontes, cisternas, pedras e outeiros] , 

172. E' vulgar a crença de que as Bruxas andam, ou 
stidas de branco, ou em forma de patos, a patinhar nos 
is. Na Galliza lambem se pensa que as Meigas, vestidas de 
anco, vivem ao pé dos rios. — Uma vez vinha um carreteiro 

Ponte da Barca para o Porto, e ouviu as Bruxas, vesti- 
s de branco, a darem muitas risadas [as risadas são um 
racteristico das Bruxas] e a patinharem no rio da Barca, 
s-lhes o homem: «Lavae-vos bem lavadas!» Immediata- 
inte recebeu uma bofetada com uma mão de ferro. [Na 
ira-Alta ouvi muitas vezes, em pequeno, contos em que 
trava de noite uma mão de ferro a dar bofetadas], 

173. a) Quando alguém passar um rio (ou qualquer 
ua) e levar ovos, deve deitar ao rio ou migalhas de pão, 

sal para obstar a que a agua tire aos ovos a virtude da 
ração (Paços de Ferreira). Em Famahcão e noutras mais 
rtes suppõe-se também que ao passar um rio, os ovos 
ram. bj Ao passar-se um rio, péga-se em três seixinhos 
leita-se-lhe um á entrada, outro no meio e outro no fim. 
3rra da Estreita. Quem me contou isto, não soube dar a 
zão). c) Quem passar um rio, deve pegar-se num seixi- 
e metté-lo na boca (Moncorvo). ®^ 

174. Uma mulher que está gravida vae á meia noute 



mo. Em Portugal, na Beira- Alta, lambem acontece ver-se um rio 
iilo, e até passarem sobre elle os gados; mas não é no facto por- 
uez que se deve buscar a explicação do mytho. 

61 Os Cafrss não atravessam um rio sem lhe pedirem pertnissão 
he oíferecerem uma pedra depois de o lerem passado, (apud Rialle, 
cit. p. 42). 



80: 



para a ponte. Qualquer pessoa que alli passe, não pódj 
eximir-se de ser padrinho ou madrinha da futura creanpa, 
que, com esta condição, será feliz toda a vida. A mk 
sô-lo-ha eguataente (Minho). 

175. Alguém que adoece, vae á Ponte-de-S. João, ao 
pé de Guimarães, à meia-noute em ponto, levando comsigo 
uma benzedeira ou um padre que lhe leia os exorcismos. 
Concluída a leitura, o doente atira ao rio com meio alqueire 
de milho meudo ou painpo e depois com três punhados èe 
sal, — largando logo a fugir. O Diabo vae contar os grãos 
e deixa a creatura em paz (Apud Portugal Ant. e Mod, dô 
Pinho Leal. O mesmo se faz noutras partes para afugentitf 
as almas penadas). 

176. Nas pontes vèem-se ás vezes alminhas ou cru- 
zes. Muitas pontes tem também vários versos, para indicar 
quem as fez, etc. 

177. E' crença popular que o Diabo construiu muitas 
pontes (Ponte de Val-Telhas e Abreiro, ponte da Alliviada, 
ponte de Misarella, etc. Vid. o meu art. Mythologia Portvr ; 
gueza no Panthcoriy pag. 49-50). 

178. Quando vae um corpo morto no rio Douro e se 
vê da terra, diz-se-lhe: Fulano., vem a sagrado; e elle vem 
ao pé da pessoa que o cliama. O corpo assim que chega ao 
pé da pessoa da família, deita sangue pela boca [Diz-se que 
os assassinados também deitam sangue a pedir vingança]. 
E' também costume, para procurar um afogado, deitar -á 
agua uma vela benta accesa, espetada numa cortiça; a vela 
anda, anda, até encontrar o morto, e em o encontrando, 
pára (Porto). 



179. IIII — Lagoas. As tradições que vamos referir 



81 



rtencem todas á Serra da Estrella. Estas lagoas gosam 
um grande prestigio no paiz, devido em parte á lenda 
lusitano Viriato alli localisada. Não ha ninguém que não 
lha ouvido que ellas communicam com o mar e que lá 
parecem ás vezes fragmentos de navios. Tudo phantas- 
o, porque as sondagens pouca profundidade lhes deram. 

• 

180. a) Na Lagoa Escm^a existe um palácio, onde se 
arda a capa de um rei coberta de diamantes e para a 
tura da qual foi preciso vender sete cidades. Quem qui- 
r entrar no palácio, tem de fazer com que uma cabra 
eta atravesse a agua, — e esperar que o sol esteja a pino 
ra dar numa fisga que é a única entrada. Um aventu- 
ro que lá entrou, nunca sahiu, apesar de ter recitado as 
•ze palavras do Anjo Custodio. (Vid. as minhas Tradições 
pulares da Serra da Estrella^ in JusUça PorPiugueza n.° 
2). h) Na Lagoa Escura nenhum pastor da Estrella vae 
3ar, porque dizem elles que lá ao meio os puxam para 
xoy e que existem nella bichos que comem a gente {Ldario 
Noticias^ n.° 5595). c) Na Lagoa Comprida ouvem-se ás 
ses como que carpinteiros a martellar ^ib. ib.) d) Na 
70a Esciira ha o palácio de um Mouro encantado, guar- 
lo por um gato selvagem que se desencanta com as treze 
lavrai sagradas, ou Oração do Anjo Custodio (fb. ib.). 

181. V — Mar. Apesar de Portugal ser um paiz de 
vegadores, não tenho recolhido nem muitas, nem muito 
traordinarías tradições do mar. O que ha abundância é 

cantigas maritmias. 

182. S. Pedro tem duas chaves na mão : uma do ceu, 
tra do mar. A primeira é de oiro, a segunda é negra. A 
ua do mar trabalha sempre, pelo castigo de Deus {vid. 
1), mas não sae do seu logar, pelo poder da chave de S. 
dro (Famalicão). O mar é traiçoeiro como um lobo; só 
er agarrar gente (Ancora^. 



A 




„ sagrado. 



,■6 por isso não se lhe devem 

>as lançando-lli'as, elle deita-as 
-^'ia^r sagrado contem-ae nestes ver- 
<í^,0tho, Douro, Beira-AUa) : 

Quando Deus formoa Eva 
De uma cos te II a de Adão, 
Hem o mar arí s^ado, 
Ni;m as lerras davao pSo. 

Se vires o mar vermelho. 
Não IG a^susESã, que é sacado. 
Que são laiçrimas de sangue, 
Que por li lenho chorado. 



175.- 
pé úe Gat^ 
unia liep' 

184. ^'^ ^^^ também andam Bruxas vestidas de braa- 

íiater palmas [outro caracterisUco das Bruxas] e a 

'^'rai sobre as ondas. Os pescadores jà se não assustara 

i85. A crença nas Sereias é ainda viva. Elias são ra- 
parigas da cinta para cima e peixes da cinia para baixo, 
^lam muito bem e enganam os navios (Minho, Bèira-Alta, 
Traz-os-Montes, Galliza). ** 



Ouvi canlá-la Sereia 
Lá DO meio d'e<:3e mar : 
JMuito navio se perde' 
Ao som d'aquelíe cantar. 



Là DO meio d'e8se oiar. 
Ouvi cantar, escnitei : 
Sahiu-me a Senhora Sereia 
Lã no palácio d'él-rei. 



São vulgares estes versos, fragmentos d 
popular, mas que se dizem como cantiga : 

Esta noite, á meia-noile. 

Ouvi um liodo cantar : 
Eram os anjos no ceu 
Ou as sereias no mar. 



°' E' a mesma ideia da ^mliguidide clássica. 



83 



\ 



Na Galliza dizem: 

A Sereia no mar 
E unha linda bizarra^ 
Que por unha maldicion, 
Téa-na Dios nesa auga. 



Valla-me Dios ! como canta 
A Sereia no mar. . . 
Os narios déron volta 
Para y-a ouir cantar. 



Nos Açores (vid. Th. Braga, in Harpa^ p. 61, 2.* serie) 
^ainda existe a crença nas Fadas marinhas^ ou sereias, que 
vêem pentear-se á praia. Nuns romances da ilha de S. Jorge 
{Cantos pop, do Archipelago Açoriano^ por Th. Braga, n.^® 28 
€ 32) diz-se: 



-Que vozes do cóo são estas, 
^ue eu aqui ouço cantar 7 
Ou são os anjos no céo. 
Ou as Sereias no mar. 



Escutae se qVeis ouvir 
Ufn rico, doce cantar 1 
Devem de ser as Marinhas 
Ou os peixinhos do mar. 



186. No nosso povo falla-se do mar coalhado^ aonde 
Ds navios em chegando não podem ir avante. E' o oceano 
glacial. (Cf. Rev. de Ethnolog, de Ad. Coelho, fascículo 4.°). 



^ tawAr 



187. a) Quando alguém toma banhos de mar é bom 
tomar numero impar d'elles. b) No dia de S. Bartholomeu 
-cada banho vale por sete. Nesse dia o povo vae em roma- 
ria com musica e dança ao mar, em honra do santo, que, 
•ao que parece, gosa o papel de uma verdadeira divindade 
marítima. 



O' vida da minha vida^ 
Õ' lari, ló lé, sou eu : 
Venho da Senhora-Nova, 
Vou p'ra o S. Bértholomeu 



Esta viola é minha 
Este pandeiro ó meu : 
Este bandinho de moças 
Vae pVa o S. Bértholomea. 



188 Os navios, tanto os antigos como os modernos, 
têm invocação de santos. Nuns e noutros se vêem na proa 
figuras symbolicas. 

189. Cantigas às aguas : * 




I 




para a poiít 

eximir-ao 

que, cwr ^ 

siMo-to ^'Jj^^' 

^^■^^ 



"" ,. João por vér »s moças 
/»! ama fcmie de praia; 
^B moças não vào a ella. 



fe;íí«""»" 



ioelhos. 



^&W do mundo. 

- nedíU » Í>«M PfflXOB, 

O ■'^iH»r acompanhado -. 
pi^^J^niar quer comp&ahía, 
0*(iri um desgraçadol 



O mar pediu a Deus ausa 
E os peixes a Deus fundura : 
Os homens a Deus riqueza, 
E as mulheres formosura. 

Jã me vejo no mar largo, 
Psrdi esperança á terra : 
Já não vejo senão auga. 
Mar e Tento que me leva. 

Lá vem o barco á vela. 
Lá vem a sardioha boa : 
Lã vem o meu amorzinho, 
Asseatadiuho na proa. 

Também o mar é casado, 
E' casado, tem mulher : 
E' ca.sado com a areia. 
Bate nella q ando quer. 



190. Adivinhas populares : 



33o três consaB : 
Õma diz qoe vamos, 
OubTi que fiquemos. 
Outra que dancemos T 



Que é, que ó. 

Redondo como um cesto. 

Comprido como nma corda? 

(Po,.). 



Alto como um pinheiro. 
Redondo como nm pandeiro 7 

(P090). 



191. Dictado popular: 



Ãgna molle em pedra dura 
Tanto dãj até qoe fura. 



CAPITULO V 



A terra 



[Ao descrever a Lusitânia e a Gallaecia^ diz Juj^tino : «In bujas 
gentis fínibus sacer mons est^ c[uem ferro violare nefas habetur; sed, 
si quando fulgure terra proscissa est, quae in his locis assidua res 
est^ detectam aurum^ velut dei munus^ coiligerepermittitur.» (JtMst,, 
iib. XLiv, 4). — Nas Inscriptiones Hispaniae lalinae, áo snr. E. Hd- 
bner, vem, a pag. 363, esta inseri pçao achada em Orense em 1835 : 
TELLVRI II C SVI.P |1 FLAVVS || EX VoTo || . — De Isis, que parece 
symbolisar a terra, traz Hubner uma inscripção, ISIDL DOMINAE etc; 
(Notic. A7'ch. de Port. p. 26) e em Bra^ na tradição de um templo 
à mesma deusa. —Aproximando-nos mais dos tempos modernos, en* 
contramos nas Constituições do bispado de Lamego (anno 1563, p. 135) 
esta disposição : «Defendemos e mandamos que com as procissões 
nam vam a outeiros , nem penedos, mas soomente aa igreja, ou her- 
mida, onde se faz .bo officio divino. E nellas nam vsaram doutras pa- 
iauras nem de eiál^iores, etc.» 

Do antigo culto dos montes parece ter ficado uma lembrança 
nas modernas denominações : Monsanto, Monsão (Monte santo), etc] 



192. No principio do mundo, quando o homem ca- 
vava a terra, esta abria bocas e gritava. O homem quei^ 




86 



xou-se ao Senhor, e o Senhor disse á terra : «Cala-te, qufr 
tudo crearás e tudo comerás.» (Beira-Alta, Beira-Baixa, etc). 
A cantiga popular diz mesmo : 

Se passares pelo adro. 
No dia do meu enterro, 
Dize á terra que não coroa 
As tranças do meu cabello. 

193. A ideia do ceu chovendo sobre a terra é para 
muitos povos uma ideia sobrenatural, e em vez do pheno- 
meno meteorológico, vêem o phenomeno de fecundação, na 
sentido animal d 'esta palavra. No Velho e Novo-Mundo en- 
contra-se a prova do que dizemos. Quando chove e ao 
mesmo tempo faz sol, afflrma também o nosso povo, segundo 
me informa o meu condiscípulo Chaves de Oliveira, que é o sol 
a mandar pérolas para a terra se enfeitar (Porto. Cf. || 24 
e 128). «» 

As cantigas dizem egualmente: 

Esta noute, ehovea ouro^ Lá vem o sol peneirando 

Diamantes orvalhou^ etc. Aljofre sobre as meninas^ etc. 

194. E' uma phrase usual : F. é filho (ou filhote) d& 
tal terra. Também se diz : mãe pátria. 

195. Quando ha um echo num valle, monte, etc, diz^ 
sempre o povo que é uma Moura encanta4(^ a fallar (Gui- 
marães, Regoa, Famalicão, Paredes, Santo fhyrso, etc). ^ 



«3 Na Polynesia diz -se que os nevoeiros sao suspiros da terra 
para o ceu, seu esposo. As gottas de orvalho são lagrimas que o ceu 
lança sobre o coração da terra sua esposa. (G. Grey, Polynesian 
Mythology, p. 1 etc., apud Tylor, op. cit. p. 371). Cf. a c/iwro de ouro 
de Zeus sobre Daoac. 

6* Toda a gente sabe que na mythologia clássica, por ex.>. 
este phenomeno acústico era personificado na nympha Echo. 



I 



ir 



87 



196. Poucas terras haverá era Portugal, onde se não 
falle de Mouros ou Mouras habitando grutas, montes e ou- 
teiros, a) Em Castro Daire ha uma Cova da Moura, b) No 
monte da Orada (Cabeceiras de Basto) existe uma furna cora 
Mouros encantados; d'antes, quem os queria ir ver, ia á 
boca da furna e mostrava ura lenço vermelho : elles vinhara 
logo ao verraelho. c) Em S. Pedro-do-Sul diz-se que as Moiras 
estão encantadas nos outeiros, metade cobras e metade gente. 
Quem deitar leite nas lages, ou mostrar cousas burrnelhas 
(vermelhas), como um lenço, uma faxa, etc, dizendo: «Toma 
lá esta prenda, e deixa a que trazes, mas deixa-a desen- 
cantadas, a Moura deixa um monte de dinheiro; mas se 
se lhe disser: «Deixa-a encantada», fica um monte de car- 
vão. As Mouras apparecem de manhê (de raanhâ) antes de 
nascer o Sol (e também na manhã de S. João) a estender 
meadas de ouro por riba (por cima) dos outeiros. Os en- 
cantados tem muita força, e até podera cora um outeiro à 
cabeça; foram os Mouros que puzeram a Sé era Vizeu, nuraa 
só noute. d) No monte do Castello de Santa Christina (ao 
pé de Vermoira no Minho) havia d^antes uraa Moura em 
forma de cobra com orelhas. Toda a gente fugia, que ella 
até tombava oraatto quando passava; raas ura rapaz que 
proraettêra matá-la, tomou uraa arraa, e sentou-se nuraa 
pedra á espera; tanto esperou, que adormeceu. A cobra veiu, 
deu-Ihe ura beijo e transforraou-se nuraa bonita raôça, que 
casou cora o rapaz. Depois viverara rauito felizes, e) Con- 
tou-rae ura horaera de Rezende que uraa vez cahira nura 
campo uma arribada (terra e parede que se esboroam), por- 
que estava lá mettida uraa Moura, que logo fugiu, f) Nura 
monte da freguezia de Mosellos, concelho de Feira, exis- 
tem três pipas enterradas, uraa contendo peste^ outra 
azeite e outra oiro; todos querera ir buscar a do oiro, raas 
receiosos de encontrar a peste não vão lá. — A estas pipas 
ou talhas anda ordmariamente hgado o nome dos Mouro». 
Em Portêllo, ao pé da Regoa, falla-se de uraa mina com 
peste e oiro do tempo dos Mouros ; mas para ir desenter- 




88 



rar o oiro, tem de se passar pela peste, o que causaria a 
desgraça da povoação próxima, g) Na Serra da Bstrella .; 
ha, segundo a crença; muitos haveres (thesouros) encantados. 

197. Segundo diz o snr. Gonsiglieri Pedroso ^em O Po- 
sitivismo, pag. 451-452, Estudos de Mythographia Port. i)ha 
dois montes ao pé de Penella, em cada um dos quaes esta- 
beleceram outr'ora dois ferreiros gigantes as respectivas 
forjas; os ferreiros tinham um só martello, mas, apesar dos 
montes distarem uns 2 kilometros, atiravam-no um para o 
outro quando precisavam d'elle. Uma vez o martello des^- 
cavou-se ; o ferro cahiu na encosta do monte Mello, e abi 
brotou logo uma fonte; o cabo, que era de madeira, espe- 
tou-se na terra, a mais de 2 kilometros, e ahi se reprodu- 
ú\x um zambujo que deu nome á terra do Zambujal. 

198. Num sitio de Santa Leocadia de Briteiros, numa 
mina, ninguém passa porque está lá o Diabo Negro nó meio 
de uma fogueira. Quem ahi passasse de noite, seria peto 
menos derribado. 

199. Na maior parte dos montes ha capellas cltti9- 
tans ; quasi sempre as imagens são achadas por um pa^or 
ou pastora de gado, e levadas para a egreja mais pró- 
xima; mas depois fogem para o mesmo sitio, o que sigair 
fica que ellas querem ter alli um templo. 



\ 



CAPITULO VI 



As pedras 



[Segundo o historiador grego Ephoro, havia no Sacro Promon- 
tório (cabo de S. Vicente; a designação de sagrado não se perdea) 
um fanum Herculis; apesar porém distou o geographo btrabão 
âiz: «Sed ibi neque fanum UercuHs monstrari {id enim Epho- 
rutn finidsse), neque aram^ neque alius uUius deorum^ sed lapides 
mnltis in locis ternos aut quatemos esse compósitos^ qui ab eo 
venientibus eu more a major! bus tradito convertantur translatique 
fíngautur.» (Strab. Geogr. ed. Didot, Paris 1853, cap. i, 4). O facto 
afflrmado por £phoro não fíca destruido com as palavras de Strabão: 
Ephoro morreu 330 ou 30i) annos antes de Christo; e Strabão no sé- 
culo i antes da era christã, de modo que em tanto espaço de tempo 
podia a tradição do fanum ter desapparecido. Ainda que Strabão se- 
guisse a opinião de Artcmidoro, este pertence ao mesmo século que 
elle. Além d'isto sabe-se que Ephoro era um escriptor consciencioso, 
e que, não muito longe, no Calpe, havia as celebres columnas. 

No trecho traoscripto do Concilio de Braga ípag. 67) vimos em 
vigor o culto das pedras (saxa) no principio aia E<1ade-media; o 
mesmo culto nos apparece nas Constituições do bispado de Lamego 
(sec. XVI) citadas a pag. 85. A virtude das pedras de ara, e o cos- 
tume de lançar pedras em agua para chover acham-se patentes em 
varias Constituições (ex. : de Braga de 1538 p. 72; de Lamego de 
1563, p. 208; de Évora 1594, xxv, 1). A's pedras andam ainda liga- 
dos muitos costumes e superstições. Num documento da era de 949 
(apud PoRTUGALiAE MoNUM. HiSTOR., — Díp/om. et Chartae, doe. 
xvii^ pag. 11 e 12), tractando-se da ternUnatio terriíorU Ecclesiae sive 



r 



90 



Monastevii Dumiensis, díz-se : •Incenimtui ibidem in petra caracít* 
rem Sancti Vicentij. et ex inde in alia petra inverUmus Cruce» e íal* 
ja-se dâ barca, qui sedei sculta in petra; da petra sciipta ubi dicet ' 
SawJae Eolaliae, ubi dicidet Dumio, Culina etc; da petra scripta, 
ubi dicet Terminum, e de varias petras petas, qui ab antico-pro ter» 
mino fuerunt constituías (De Petraficla parece ter resultado o nome 
de povoação Perafita ou Pera^tta, pela mudança normal do primeiro 
t em d,—Petra==Pedra—, queda d'esle, — ex. mare=madre — ,ea8' 
similação ou syncope do c.) — As freguezias e concelhos sàoaioda - 
hoje separados por cruzes esculpidas em pedras, ou marcos de pedra. 
Em um d'estes marcos na B. Alta dizem-me que ha ou houve uma raza 
esculpida^ que era a medida do concelho.— Nas ruas, aqui no Porto ^r 
ex.^ abundam umas pedras cyliudrícas, chamadas Frades, cujasiguifi- 
cação está perdida^ mas que são evidentemente um vestígio de cultos 
phallicos^ como se reconhece pela comparação com outras de Italia> 
et(*. £m algumas torres de Egrejas^ por exemplo na da Senhora da 
Oliveira em Guimarães ha^ num angulo, uma figura licenciosa de pe« 
dra, muito notável. -Nas aldeias encontrani-se a cada passo pene- 
dos isolados com cruzes ou painéis^ no meio de caminhos solitários; 
muitos d'elies (o que porém lhes não é peculiar), tem já uma caixa 
para esmolas^ já em volta uma multidão de braços e pernas de páo 
que os devotos allí deixam como um ex-volo. Além d'este ultimo re* 
dexo do culto pagã«) dos penedos^ temos ainda os Senhores da Pedra 
e as Senhoras dó Pilar e da P^nfea. — Deixamos em claro o que a 
sciencia prehistoríca no nosso paiz nos revelou sobre as pedras^ isto 
é, do uso d'ellas para os primitivos instrumentos e para os monumen* 
tos dointenicos^ cromlecks^ menhires^ pedras-balouçantes^ etc; basta 
que digamos que os instrumentos se transformaram em pedras dê 
raio (§ 146^ b), etc.^ e que alguns dolmens se chamam Pedras dos 
mouros, etc.] 



200. a) Quem quer saber se casará ou não, e quando, 
vae ao Penedo çlos casamentos que fica ao pé da Povoa de 
Lanhoso, volta-lhe as costas, e atira-lhe com uma ou mais 
pedras; conforme a primeira, segunda, etc. acerta ou não 
acerta no penedo, assim a pessoa casa ou não casa nesse 
anuo, no seguinte, d'ahi a três, etc. b) Em Prazins, ao pé 
de Guimarães, ha outro Penedo dos casamentos, que o snr. 
Martins Sarmento e eu visitámos em Abril de 1881 ; é um 
penedo de granito, sem signal algum archeologico, mas fica 




91 



pé do Monte de S. Miguel^ onde existem tradições de 
aros e vestigios de antiguidades, c) Em Baião ha uma 
riante d'estes oráculos; o penedo chama-se Penedo dos 
mudos. (Cf. o que adeante dizemos do cuco). 

201. Na egreja de S. Miguel do Castelio, em Guima- 
es, ha uma Santa Margarida advogada dos partos. A mu* 
er que quer saber se terá fUho ou filha vae atirar ím 
Mnhas a uma fresta que existe por cima da porta tra- 
nsa do sul; se alguma das pedrinhas entra pela fresta, 
ríf filho; se não, terá filha. (Cf. outro processo idêntico 
leante e no J 96). 

202. Em Gondomar, uma legoa ao nascente de Bri- 
iros, margem esquerda do Ave, a mulher que anda no seu 
Jtado interessante vae ter com o padre da freguezia para 
ite raspar um pedaço de pedra de Ançào (que vem d'um 
onte próximo onde houve uma capella a S. Simão) ; a mu- 
er recolhe numa saquinha umas pitadas de pó, e trá-las 
) seio para ter um parto feliz. A saca é^de novo entregue 
S. Simão. 

203. Na serra de S. Domingos, ao pé de Lamego, ha 
na pedra comprida, na qual as mulheres estéreis se vão 
íitar para serem fecundas. [Uma pessoa da minha família 
nhece varias mulheres que lá foram para o fim indicado]. 

204. Em Portugal existe a seguinte cantiga popular: 

Três Toltas dei ao penedo 
Para namorar José : 
Namorei-o em ^res dias, 
Yaleu-me a mim dar ao pé ; 

qual o snr. dr. Theophilo Braga faz o seguinte commen- 
io {Orig. poet, do Christianismo^ p. 134-5) : «o culto das 

iras phallicas apparece aqui na ideia de casamento 

ado à de uma dança em volta do penedo ou menhir. » 



92 



205. a) Na freguezia de Requião (c. de Fí 
ha um penedo, chamado Pedra leital^ com umas 
nhãs [naturaes ou artiíiciaes ?] aonde as mulheres para 
o leite que lhes falta, vão mammar. Nesta occasião, aai 
Iheres dão três voltas ao penedo. Ao pé está a cap^a 
S. João da Pedra LeUetL Independente da tradipão (Mal, 
contro no padre Carvalho o seguinte: «Ha aqui (1 
uma Ermida de Nossa Senliora de Pedra LeiUd^ aonde' 
parte de fora está um penedo com uma verruga a modo^ 
peito de mulher, aonde vão mamar as que lhes falta 
para criarem os filhos» (Corografia^ p. 288, Braga li 
Carvalho prende esta superstição com uma idêntica qaeii 
em Jerusalém, b) As mulheres trazem ao pescoço pi 
que uma pedrinha chamada leituarw (Traz-os-Montes), 
uma conta chamada conta leiteira (Beira-Alta) para altr»j 
rem o leite ao peito. ^ 

206. a) O rapaz que trouxer uma pedra de ara 
mais feliz nos seus namoros (Fife no Minho; Gaia), hj 
mulher que tira/ um bocado de pedra d'ara do altar, 6»! 
quanto o padre diz missa, não terá filhos (S. Thyrfio)ij 

c) As mulheres que puzerem a mão na pedra d'ara, níft 



65 



Nos §§ precçdeutes vé-se o caracter mais ou menos 
das pedras. Nada disto nos é particular. No valle de Labroust 
neus), principalmente nas aldeias de Poubeau, Portet, Jurvieille, 
vão os sacerdotes mandam destruir as pedras junto das quaes os vaA 
morados combinam encontrar-se (E. YÀ^oXy — Uélanges sderUifiq^] 
Paris 1879, pag. 210). As mulheres do Ganges banham com a agjfltj 
sagrada os signaes gravados em rocha, para serem fecundas (td. ib« 
p. 201). Na aldeia de Mouthier, em Bresse, as màes cujos filhos ti- 
nham morrido, iam rolá-los ^\2í, pedra de S. Vito, na esperança de os 
ver resuscitar (íd. ib. p. 20â). As mulheres de Oisaus tinham moft 
superstição idêntica com a peara de 8. Nicolau, de forma cónica (14. 
ib. ib.). Os recem-casados vão ainda esfregar o estômago pelo m^ 
nhir de Kerloaz, para serem fecundos (F. Simões, —Intivd. áAnAi 
p. 78). Etc, etc. 



93 



V$Huo filbos (Moncorvo), d) As pedras de ara trazidas ao 
pescoço, em saquinhas, gosani de certa virtude ; perdem po- 
tésh a ^rtude, se se lhes tocar, ej W peccado pôr a mão 
QMS i^edras d'ara dos altares (passim). 

aÒ7. Disseram-me que no fundo do monte da Ranha, 
u» pé de Mondim da Beira, ha uma pedra muito lisa cha- 
IMida Pedra de Nossa Senhora, onde ninguém deve passar, 
pcMrqae é o mesmo que pisar a Senhora. 

208. a) No Marão, junto á antiga estrada de Villa 
Real para Amarante, e na serra de Mantellinha, estrada de 
^fiHa-Real para o Douro, ha muitas cruzes que indicam mor- 
tes ; junto das cruzes cada viandante resa um Padre-Nosso 
& deita uma pedrinha (Informação do snr. Bernadino Re- 
bello). b) Ao pé de Rio Tinto, junto à Serra du Mulher 
Morta^ conserva-se também o costume de deitar uma pedra 
B' resar um Padre-Nosso, ao pé de uma cruz de ferro que 
bM há e assignála morte. Ninguém deve tocar nos monti- 
cides de pedra (Informação do snr. Leite de Faria. Vid. o 
meu art. Tradições das Pedras, na Era-JSova pag. 78, % 
?.•). c) O meu amigo Teixeira Bastos, no op. Conservação 
e EvoVução^ p. 12, (extracto do Positivismo), dá conta de 
um costume idêntico em Cabeceiras de Basto. Tenho ouvido 
fdlar do mesmo costume noutras niuilas partes, d) Estes 
montes de pedra eram chamados Fieis de Deus, e d'elles falia 
Titerbo no Elucidário. Em Lisboa ha uma travessa com essa 
^fenoffiinapão; e em Mondim da Beira um caminho). ^ 

209. São vulgares os penedos em que se diz que 
Qdste a pegada ou de um santo (pegada de S. Gonsalo^ no 



66 Este costome eneontra-se em mais partes fora de Portugal. 
Buta-me citar Sven Niisson. Babit,primitiv, da Scandm.^ trad. fr.^ 
|i: S89> Spencer^ Princip, de SoCí, h P- ^^> 6^- 



94 



Penedo da Moira ao pé de Felgueiras) ou de um burro (ao 
Penedo da scmta no Paraizo ao pé de Guimarães. Esta ul- 
tima pegada é apenas uma lascadella natural e irregular; o 
snr. Martins Sarmento e eu visitámos em 1881 este pe&edo 
e não se lhe encontrou cousa notável, só ao pé, no monte, 
onde abundara fragmentos de telha antiquíssimos, appareceo 
um machado prehistorico de pedra polida), ou de Mouros (no 
Penedo dos Mouros ao pé de Braga), ou ainda de Jesus 
{pego da de Jesus em Cabeceiras de Basto). Ao pé de La- 
mego ha a Fraga do Diabo com pegadas de animaes e 
gente. Na Galliza ha varias pegadas da Virgem (Férrol). 
Ao pé de Taboaço ha um Penedo da moura, onde se vê es- 
culpida uma chinella. Também ahi está o cavallo de pedra 
que era onde d'antes os Mouros andavam a cavallo. No ca»- 
tello de Cabris (Taboaço) vêem-se nas pedras como que aça- 
fates e pratos esculpidos, do tempo dos Moiros. *^ 

210. a) Em Mondim da Beira ha o Penedo EncavaU 
lado^ em que na noite de S. João apparece uma Moira sen- 
tada a pentear os cabellos de ouro, ou a estender meadas 
também de ouro, tendo ao pé uma mesa posta com figos 
seccos; quem metter no bolso os figos fica rico, porque 
elles transformara-se em ouro (vid. os meus Fragm. de 
Myth. Pop.y % 1.**). b) «Na noite de S. João apparecem 
nas fontes e nos penedos, as bichas niouras sob a figura 



67 Desde urna alta antiguidade se encontram superstições idên- 
ticas. Heródoto falia das pegadas de Hercules na Scythia. Na America 
do Norte apparece lambem vários foot-prints of man (vid. The ar- 
cheological coliection of the United States National Museum, by Cb. 
Rau, Wasiiington 1876^ p. 57). No moate Olivete vô-se a pégaida dê 
Christo, Na Ásia ha muitas pearas com a pegada de Budha. O nosso 
grande Camões, diz de um monte de Ceylào (Lus. x, 136) : 

Os naturaes o tem por cousa santa, 
Pela pedra onde está a pegada humana. 

Cf. Desor, oh, dt., art. Lú pierres a écuelles, p. 184, 207, etc, 




95 



de cobras, com cabello na cabeça. Trazem uma tesoura de 
ouro nas mãos, e, quando encontram alguém, perguntam- 
Ihe : «qual quereis vós, os meus olhos ou a minha tesoura?» 
Se a pessoa responde que quer antes a tesoura, as «bichas 
mouras» vão-se embora muito tristes; se pelo contrario a 
pessoa interrogada diz que antes quer os olhos, ellas tre- 
pam por ella a cima, dão-lhe muitos beijos e desencan- 
tam-se, transformando-se em formosas raparigas, depois do 
que dão em paga muitas riquezas.» (Oliveira de Azeméis. 
Apud C. PedrQSO, As mouras encantadas^ pag. 7). c) Na 
Serra da Estrella, os tesouros guardados pelos Mouros cha- 
mam-se haveres. Na Talada, debaixo de uma lapa, ha uma 
caldeira com um haver; só ha-de desencantá-lo 

Maria Guedelha 
Ou Ota de orelha^ 
Ou ferro de relha. 

No Fragão do Pecego ha outro haver; mas o fogo não 
entra com a lapa que o cobre, e mais já se experimentou. 
A broca salta, e o fogo solta-se da pedra, e foge para o ar. 
(E. Coelho : Quinze dias na Serra da Estrella^ in Diana de 
Noticias n.® 5596). d) No monte da Orada (Cabeceiras de 
Basto) disse-me um homem que ha uma pedra de Mouros 
com riquezas; já lá foi um padre cora uma gallinha preta, 
um cão e um gato (cf. os meus Fragm. de Myth.^ pag. 8) 
para as desencantar, mas começou a trovoar muito (trove- 
jar), e transtornou-se tudo. — Esta circumstancia da trovoada 
tenho-a encontrado em mais partes : No sitio de Sumes (ao 
pé de Guimarães) appareciam umas Moiras na manhã de 
S. João com enfusas mâréllinhas (amarellas); uma vez foi 
lá gente e começou a trovoar com grande tempestade, e 
appareceram muitos mosquitos.— Num sitio da Galliza (se- 
gundo ma informou um gallego) havia também uma Moira 
encantada, que apparecia da cinta para cima a penteàr-se, 
mais linda que a Lua; foi lá uma vez um padre com sete 
freguezias para a desencantar, mas ella disse que queria 



96 



tornar a baixo a buscar as jóias, e apenas foi, armou-se 
tal tormenta de relâmpagos e trovões, que todos tiveram 
de fugir, e o padre até deixou ficar o livro dos enccmtos. ^ 

211. a) As Moiras andam ás vezes a fiarem com a roca 
á cinta, acarretando ao mesmo tempo pedras á cabeça para 
certas obras, como o convento da Vilia da Feira e a torre 
de Leça do Balio. A pedra formosa da Citania de Briteiros 
foi por uma Moira levada á cabeça desde o alto de S. Ro- 

• mão até S. Estevão, emquanto flava na roca. Em Prazins, 
ao pé de Guimarães, ouvi representar as Mouras do mesmo 
modo (Vid. os meus Fragm. de Myth, Pop.^ p. 9, § 3.**). ^ 
b) Ao pé da Serra da Estrella aíTirma-se que na construcçào 
de uma ponte andava a Màe do Diabo, fiando numa roca, 
a levar pedras á cabeça para lá. (Vid. o meu art. Trad. 
pop, da Serra da Estrella, na Justiça Port,, n.® 115). 

212. Um homem tinha uma vez uma pedra quadrada 
com (fue gradava as terras. Disse-lhe uma voz que botasse 
a pedra ao rio, mas que ficasse com um bocado. O homem 
assim fez. Ouviram-se logo grandes gargalhadas pela agua 
abaixo, e o bocado com que o homem ficou mudou-se em 
oiro. Eram Moiras encantadas (Moncorvo). 



^8 Assim como no nosso paiz os monumentos prehistorícos (dol- 
mens) são lutbitados pelos Mouros^ na Baixa-Bretanha^ por ex.^ são 
habitados petos Nains (Ao6es). 

As Mouras dos montes e penedos é provável que não sejam 
o mesmo que as das fontes. Ainda que as aguas saíam tam- 
bém das rochas e das montanhas, o culto das pedras acha-se muito 
bem estabelecido na creoça popular para que o possamos confundir 
com outro. As Mouras tem uma signincação mais vasta do que à pri- 
meira vista pôde parecer. 

^ J. Grimm ao fallar da analogia entre as gigantes (ríesen- 
jungfrauen) e as fadas, diz; «die feen tragen un^eheure felsblôcke 
auf dem haupt und in aer schUrze, wãhrend sie mit freier hand ihre 
spiadei drehen.» {Deutsche Mythologie, Berlim, 1875, p. 342). 



\ 



97 



213. No concelho da Maia, quando alguma rapariga 
não porta bem, é costume junlarem-se as donzellas da 

Ta com grandes abadas de pedras e irem à noite ape- 
ejar-lhe o telhado (Informação do snr. Leite de Faria). '^ 

214. a) Quem vae a primeira vez a uma terra, deve 
gar a patenta ou a cabrita^ isto é, deve pagar vinho, 
ce, etc, a qualquer amigo, e metter na boca um seixinho 
ra memoria (Taboaço, Carrazeda d^Anciães, etc. ; cf. § 
3). bj Em Rio de Moinhos, ao pé de Vizeu, cada pessoa que 
e a primeira vez á romaria da Senhora da Lapa de Longe^ 
o só, em certo sitio da jornada, mette um seixinho na 
ca, mas deita uma pedra ao pé de outras mais que es- 
) em monte (cf. § 208j, e paga a cabrita ou patenta (pa- 
ite) aos companheiros. 

215. As pedras de calçada não se devem empregar 
construcção de muros ou paredes, porque ao fim de 

te annos dão uma volta (C. Pedroso, Varia, 235). 

216. O raio é uma pedra. Cf. § 146, b. 

217. Só junto de um penedo é que a operação de ta- 
ir surte effeito. Se é creança quem tem de ser talhado, le- 
-a o pae e não a mãe (Guimarães). 

218. Ha uma superstição de que as andorinhas abrem 
olhos aos filhos com uma pedra que se chama pedra de 
doHnha (Douro). "^^ 

7^ O antigo castigo do apedrejamento é muito sabido para 
ò me seja preciso insistir neUe. 

71 Na Gornualha falla-se numa pedra polida e em forma de oyo^ 
3 tinha a propriedade de dar às pessoas cuios olhos eram tocados 
n ella a faculdade de ver os Anões {Ncúnsj quando estes se tor- 
rara invisíveis (Trnd. e Superst. de la Bassé-Bretagne, por Le Men, 
Rev. Celt, ly p. 23i). Cf. também L^s admirables secrets d'Albert 
Irand, — Lyon 1768, p. 93-96. 



98 



219. Ha vários dictados das pedras. Ex. : pelos santos 
se adoram as pedras e as paredes (Maia, ele.); faltar com 
sete ped/ras na mão; armas de Santo Estevão; dorme como 
mna pedra; as paredes têm ouvidos (passim); faz rir as 
pedras (passim). Aos dois últimos se referem as cantigas: 

Namorados, faUae baixo, Se eu soubera cantar bem^ 

Que as paredes têm ouvidos; 78 Como sei notar cantigas^ 

Os amores encobertos Eu fizera ril-as pedras, 

K que são os mais queridos. Q'anto mai-las raparigas! 

220. Eis outras cantigas em que entram as pedras. 

Fui lastimar minba sorte Assubi-me ao penedinbo 

Em cima de dois penedos : Para a auga ver correr; 

Um se levantou e disse : Nào sei que amor é o teu 

— Nào descubras teus segredos. Que me não pôde esquecer. 

221. Ha dous jogos chamados o jogo das pedrinhas 
(Beira-Alta, Minho) e o jogo das mécas (Moncorvo), em que 
os rapazes e raparigas tem yjn certo numero de pequenas 
pedras na mão que atiram ao ar a pequena altura. ^^ 

222. Ha entre nós, por ex. no concelho de Tarouca, 
várias pontes ped/iinhas, por opposição certamente a poív 
tes das taboas (no mesmo concelho, por ex.). ^* 



72 Os Italianos dizem : Anche i boschi hanno orecchi. Na Edade 
Media dizia-se também : Aures sunt nemoris. 

73 Estes jogos são alguma cousa parecidos com o jogo dos As- 
tragalizontes^ descripto no Dicc. des Aníiq. Rom. de Aothony Ricb, 
trad. fr. 

7* A palavra pedrinha é um adjectivo, derivado de petrinusa, 
que se encontra em Du Gange^ como significando lapideus, e petra 
factus, e é evidentemente derivado de petra. Du Cange cita doe. 
com muro petrino, monumenta petrina, etc. Ponte pedrinha, signi- 
fica pois a letira : Ponte de pedra. 



\ 



CAPITULO VII 



Os metaes 



[Temos encontrado muito poaco nos escríptores antigos a res- 
Deito dos metaes. A pag. 85 citamos já um texto de Justino. A pag. 
o7 citámos uma Constituição em que se fóUa de benzer com espada. 
Nas Ordenatííes Mennelinas (século }cvii) manda-seque nem faça pêra 
adeuinhar figuras ou images algUas de metal (apud. Ethnogr, Port, 
de Ad. i^oelho^ § 43. Cf. o meu art. Tradições dos Metaes, § iO).— 
A respeito da espada^ sabe-se que D. Sebastião pediu aos frades de 
Santa Cruz de Coimbra a espada de D. Affonso Henriques, para ven- 
cer com ella em Africa; a fenda acrescenta que a espada esqueceu 
no navio. Este facto faz lembrar nào sò a espada invencível de 
Balmung mas o facto succedído com Nidung, que, marchando com 
um exercito contra o inimigo^ reparou que se tinha esquecido da sua 
pedra de vicíona. — Gil Vicente, obras ii, p. 415, no acto de intro- 
duzir a Moura para fadar D. Beatriz, ennumera as três cousas que 
•hade levar: o terçado para vencer, o dedal e o annel para saber o 
que se faz pelo mundo (ainda hoje se diz que temos um dedo que 
adivinha) . Do annel e da espada falia o adagio : 

A espada e o annel 
Segundo a mão onde estiver.] 



223. As Bruxas são principalmente afugentadas por 



100 



meio do ferro e do aço, como se vae ver. ^^ a) Quando' 
uma mulher dá à luz um filho, espeta um prego de aço no" 
chão, para a creança não ser enfeitiçada (Penafiel, etc.). 
b) Para as Bruxas não sugarem o sangue dos recemnasd- 
dos, deve pôr-se debaixo do travesseiro uma tesoura de 
aço aberta em cruz [aqui â virtude do aço está reunida a 
da cruz] (Vimieiro, Sinfães). c) Para as Bruxas não ouvi- 
rem o que se diz d'ellas, deve-se ter de deante uma tesoura 
ou navalha aberta que contenha aço (Sinfães). d) W muito 
usado no Porto (nas ruas mais afastadas do centro da ci- 
dade), Beira etc, pregar na pórta da casa uma ferradura 
de pé esquerdo e com numero pernão de buracos, por causa 
das Bruxas, do arejo, etc. [Segundo o Snr. Th. Braga,— in 
Harpa, 1876, p. 61, — nos Açores é também costume pregar- 
no mastro da ré uma ferradura de pé esquerdo de uma 
mula; é para livrar de raios]. '^ e) Do borbúrinho sae uma 
Feiticeira ou Bruxa [quem me disse isto, confunde as desi-: ■ 
gnações de Bruxa e Feiticeira] quando se lhe atira com um 



75 Tylordiz: «Les djinns de TOrient ontunetelle terreordtt" 
fer, que soa nom seul est uu charme eontre eax (Cf. § 223, g) : ^\, 
méme^ suivaat les tradilioos populaires de notre Europa^ le fer dis*.! 
perse les elfes et les fées cl dèlruit leur pouvoir.» (Civil. Primit., i, 
p. 166). 

'«* Note-se na superstição portugueza a coint^idencia de ser im- 
par o numero de buracos (Numero deus impare gaudet: Verg., Efi, 
vHi, 73), de ser esquerda a ferradura (o lado esquerdo é agoureiro;, 
cf. entrar em casa com pé esquerdo), e de ser a mula um animal' 
amaldiçoado^ segundo a crença. 

O mesmo ethnographo Tylor continua : «Or, quant au fer, les 
sorciers sont de la catégorie des elfes et des esprits qul causenl le 
cauchemar. Les Instruments de feries ticnnent à aistance. A cetusage 
on emploie de préférenee les fers à cheval, comme noas le montrent, 
ea Anglelerre, la moítió des portes (l*éiables.» (ib. p. 166). 

Os indígenas da Africa trazem uma argola de ferro ou cobre 
nos pés, ao que chamam o seu feitiço (Alm. de Lemb. 1874, p. 121). 
Plinio diz que se pregava nas portas das casas de campo um rostiim 
lupi por causa de cousas más (H. N., xxvm, 44).— Além das ferrada- 
ras^ o nosso povo usa ainda dependurar nas casas chifres^ etc. 



ÍOl 



livete aberto (cf. | 104). f) Trazem-se anneis de apo 
3 dedos para evitar feitiços, gota, etc. (Beira-Alta, etc). 
gundo uma versão de Gondomar, este annel deve ser feito 
i 5.* feira santa, g) Para se fazer fugir uma Bruxa que se 
contre, cruzam-se as pernas e diz-se (Minho; Alman, de 
mbr. de 1870, p. 140): 

Tu és ferro, 
E eu sou àço, 
Tu és o Diabo 
E eu te embaço. 

224. a) Quando troveja, e está uma gallinha no choco, 
le-se um bocado de aço entre os ovos para elles não go- 
rem (Moncorvo, Gondomar, etc.) h) Quarta feira de tre- 
s põe-se um ferro sobre a ave que choca ovos, para elles 
o gorarem {Alm. de Lembr, 1860, p. 202). ^^ 

225. Quando por acaso cae uma tesoura ao chão, 
m uma visita (Porto). Ha vários meios de fazer com que 
vá embora: deita-se sal no lume (C. Pedroso, Varia^ n.® 
5); ou põe-se atraz da porta uma vassoura com o cabo 
ra o chão (Extremadura) ; ou diz-se (se a visita não vae 
ibora por causa da chuva) : 

EUe chove 

E choverá: 

Quem stiver Da casa alheia^ 

Se tiver vergoahaj, ir-s*ha. (Oondifeiioi). 

A visita diz também comsigo : 



77 Plinio e Columella dizem exactamente o mesmo. Na Sicília 
, saperstições idênticas. A. de Guberoatis^ que as cita, diz que lhe 
reoé^ pdia interpretação de um hymno^ que na antiguidade védica 
Istiam superstíç^s^iaenticas. (Myth. Zool, t. ii^ p. 296-97.) 



102 



Se ea stivesse em minha casa^ 
Assim como stou ua alheia^ 
Mandava tirar o jentar 
E caidar na ceia. 

(ib.). 

226. a) Quem dá um alfinete, quer significar a 
de um anno e um dia (Beira, Douro etc). b) Achar 
alfinete e apanhá-lo é signal de testemunho (C. Pedn 
Superst.y Varia, n.® 255). c) 'Achar uma agulha não é 1 
(Porto), d) Das agulhas e alfinetes eis uma cantiga dei 
corvo : 

Alfinetes sao ciúmes^ 
Agulhas variedades : 
É o maojar dos amores 
Quando vivem afastados. 

e) Quem tem cravos, espeta-os com um alfinete e i 
ta-os ao lavadouro para se elles irem embora ; quem dej 
levar o alfinete, fica com os cravos (ib.). ej No livro J 
satempo honesto de Enigmas e Adivinhações de Frane: 
Lopes, cuja 1 .* edipão é do sec. xvi, vem (Part. i, n.® 8, 
de Lisboa 1753, — cit. por Th. Braga, in Era-Kova^ p. 2 
247) uma adivinha aos alfinetes muito semelhante a < 
que recolhi em Guimarães e de que possuo mais duas 
riantes : 

Que é, que é, 
Semos quinhentos soldados 
Todos postos e armados^ 
Campos brancos em fileira; 
Todas as moças nos põe 
No logar mais augmentado 
Deante da nossa fronteira. 

27. Quando alguém, sem querer, espeta em (; 
quer parte do corpo um prego, ou outro qualquer obj 
de metal, como agulha^ etc, deve ir espetà-lo numa cet 




103 



para não fazer ferida (Douro, Minho). Na Maia diz-se na oc- 
casião em que se espeta a cebola : 



Espeto^ espetão^ 
Agulha^ agulhão. 
Maldito serás, 
F*rida uão farás. 



228. a) A chave do sacrário tem certas virtudes, como 
livrar do fanico e do Diabo; para isso trazem-na numa fita 
ao pescoço, h) A chave mocha faz passar accidentes epi- 
lépticos (Alm, de Lembr. 1855, p. 324). 

229. «No dia em^que o mordomo da Cruz é empos- 
sado no seu logar, não deve pegar em objeto de ferro por- 
que isso traria uma epidemia á freguezia. Se esta se mani- 
festou por semelhante cousa, bastará, para a terminar, que 
o mordomo atire com uma alavanca de ferro por cima da 
egreja para o outro lado. — Se alguma mulher tiver o mau 
gosto de puxar pela corda ao sino, e que elle toque^ não 
poderá ter o seu bom successo sem que o marido vá tam- 
bém tocar o sino, puxando a corda com os dentes». (Alto- 
Mlaho, — ilím. de Lembr. 1863, p. 228). 

230. Ha ainda varias superstições em que entram os 
metaes, como o sino, o annel, o dinheiro de Charonte, o 
aio, o ouro das Mouras; mas estas vão noutros legares. 




CAPITULO VÍII 



Os vegetaes 



[Eis âlgamas disposições do concilio de Braga do anuo de 598> 
die Kal. Maiarum^ 3.° aaao do rei Ariatniro : «Non liceat iníquas 
observationes agere Kaleodarum^ et otiís vacare gentilibus : neqae 
lauro^ aut viriditate ciagere domos. Omnis haec observatio paga- 
nisnii est.» (Collect, Concil, IKsp., Madrid 1603, cap. 73). —«Non li- 
ceat in coUectioae berbarum, quae medicinales suat, abquas obser- 
vationes^ aut ineantationes attendere, etc.» (ib. cap. 74). — Jàapag, 
67 citamos outro trecho em que se prohibe o culto das arvores. —Na 
Consíit. do bispado de Lamego (sec. xvii), jà lambem citada a pag. 
67, falla-se da colheita das hervas do S. Joào, hervas que noutro 
qualquer dia, e depois do Sol nado, não tem egual virtude. — Nos 
exorcismos, como nas benzedellas populares, entram a cada passo a 
rudaoM arruda e outras plantas.— Nas Ordenações philippinas (1595) 
diz-se : «E por quanto entre a gente rústica se usao muitas abusões, 
assi como passarem doentes por Silvão, ou Machieiro, ou Lameira 
virgem, » (apud A. Coelho : — Ethnogr. Portug., § 54).— As plan- 
tas sagradas encontram-se em toda a parte. Nas Gallias havin o culto 
do olmo, e continuou mesmo a plantar-se um olmo deante de cada 
egreja cbristâ. Quem fôr ás nossas aldeias encontra a cada pa^so uma 
carvalha à porta dos templos. Aqui mesmo no Porto a Egreja da Lapa 
tem o seu lucus e o adro da de Cedofeita está rodeado de arvores. 
Na Chorographia do padre Carvalho lê-se isto, que se refere a um 
antigo culto pagão christianisado : «Indo pois caminhando a santa 
(Santa Senhorinha, —cuja lenda recolhi do povo minhoto) com as 
suas religiosas a povoar o seu mosteiro (no Minho), chegaram a um 




105 



logar^ que chamam Carrazedo^ e qaerendo todas descançar à sombra 
de um grande e froadoHO carvalho, cujo troaco ioda hoje se mostra, 
e por ser verde pavilhão para reparo do sol d'aquellas santas sorvas 
de Deos, nam falta a devoção dos fleiscatholicosd'aqueHes contornos 
para o irem ver e darem nove voltas ao redor d'elle. (Chorogr. ed. 
1868, p. 133).— -S. Francisco de Assíz «—entrou no nosso reino de 
Portugal; e junto à cidade da Guarda existe ainda um carvatho, a 
cuja soníbra esteve o Santo descansando na hora da sesta. Esta ar- 
vore que sempre foi tida em veneração pelo povo, etc.» (Paraíso Se- 
raphico por Fr. J. Baptista, Part. ii, p. 249).— Todos tem ouvido fallar 
na Senhora da Oliveira de Guimarães, invocação que provém do 
reverdecímento e fruclificação instantânea de uma oliveira secca (Pi- 
nho Leal, Port, Ant. e Moa. v. Guimarães. Cf. meu Estudo Elhnogr,, 
not. 55); a aguilhada de Wamba floresce e f meti fica egualmente ao 
darem parle a^sle íie que ia ser rei (P. Torquato,— JWlemor. resuscit. 
da amiga Guimarães, Porto 18'^5, p. 145-146) : o bordão de Santo 
Apoliinar, arcebispo de Braga, opera o mesmo prodígio (Hist. Eccie- 
^iast. do Arccb. de Braga, part. i, p. 269). Cf. ainda Catalogo dos 
Bispos do Porto por D. B. da Cunha, Porto 1742, p. 179: e a Bihlia, 
Ub. Numerorum, cap. xvii).— Na lenda de S. Isabel falia -se tamliem 
da transformação de pães em flores.] 



231. a) Quando as plantas fallavam, o chorão protes- 
tou com Deus que havia de chegar ao ceu. O Senhor dis- 
se-lhe que nunca lá havia de chegar, porque quanto mais 
crescesse, mais havia de virar para o chão (Gondifellos). ^® 
bj Quando a Virgem ia para Belém, passou por um campo 
de tremopos. Como elles rugiram, e a Virgem não queria 
que elles fizessem barulho, disse-lhes: «Amaldiçoados se- 
jaés vós! Quem vos comer, nunca se satisfará!» E de faclp 
precisam de estar de molho 24 horas para se poderem comer 
(Ih.), c) Também quando a Virgem ia para Belém amaldi- 



w Lembra a Torre de Babely a Pyramide da tradiçio ameri- 
cana, e todas essas lendas em que a humanidade castiga os que se lhe 
querem aproximar. 



106 



coou as pinhas dos pinheiros porque, como ellas estavam 
a abrir com o calor, faziam barulho e denunciavam a passa- 
gem da Virgem (ib.). d) Na mesma occasião perguntou a 
Virgem a uns lavradores que andavam a semear trigo: 
«Que semeaes?» Responderam elles: t Semeamos pedras». 
Tornou a Virgem : «Pedras vos naspam. D 'aqui a três dias 
vinde quebrar os penedos». Logo ao outro dia appareceu o 
campo coberto de penedos. Chegou a Virgem a um segundo 
campo e perguntou: «Que semeaes?» «Trigo». «Trigo vos 
nasça. D'aqui a três dias vinde segá-lo». Effectivamente 
d'ahi a três dias vieram os judeus e perguntaram aos la- 
vradores : « Visteis aqui passar uma mulher com um menino, 
a cavallo numa jumentmha?» Responderam os lavradores: 
«Vimos. Andávamos nós a semear este trigo». Tomaram 
elles : «Ah! isso então já foi ha muito. Podemos ir embora^». 
Assim escapou a Virgem '^ (Ib. etc). e) Quando se queima- 
va a lenha no principio do mundo, ella gritava (cf. | 92) ; foi 
por isso que o Senhor lhe tirou a falia para não coramover 
a gente (Norte do paiz). f) A videira ainda chora (seiva) 
quando a podam ou a queimam (Traz-os-Montes, Beira-Alta, 
etc). Dma cantiga de Mondim da Beira diz mesmo: 

A ponta da vide chora 
Lagrimas a seis a seis : 
Também os meus olhos choram ; 
A causa bem na sabeis. 

g) D'antes a lenha vinha do matto por seu pé para 
casa; mas uma velha rogou-lhe uma praga e agora é pre- 
ciso ir buscá-la (Gondifellos). 

232. Para facilitar o nascimento das creanpas lan- 



79 «... Celto plante épioeuse (genévrier) est particuh'èrement 
vénérée des paysans, parce que, d'après la tradition, elle aurail sauvó 
la vie à la Madone et à Tenfant Jésos dans leur fuit en Egypte* (Gu- 
bernalis, Myth, des Plantes p. 129J. 




107 



ça-se a Rosa de Jericó numa vasilha de agua. Quando a 
rosa estiver aberta, tem a crean.:a nascido (Rezende, Mon- 
dim, etc). 

233. O homem que plantar uma nogueira, morrerá 
quando ella fôr da grossura d'elle (Tondella, Penafiel, etc). 

234. a) Não se colhem figos depois do dia de fina- 
dos, porque nessa noute vem os defunctos ourinar nelles 
(Maia), b) Para que uma figueira não seque, deve enter- 
rar-se um cão debaixo d'ella (concelho de Figueiró dos Vi- 
nhos, — apud Topographia medica das Cinco Villas e Arega^ 
por A. A. da Costa Simões, Coimbra 1860, p. 100). ^ c) Cer- 
tas mulheres tem a propriedade de fazer seccar uma fi- 
gueira, quando sobem a ella (ib., ib.). d) Não se sobe 
à figueira em hora aberta, (hora das Trindades), porque 
é provável que se caia, o que seria morte certa (Maia). 
e) Depois de tocar Trindades não é bom sentar-se a gente 
debaixo d'uma figueira sem a sangrar ^^ (cortar-lhe uma fo- 
lha), porque dando o mal na figueira, a gente fica arejada 



^ Poder-se-ha comparar esta superstição com o costume antigo 
e espalhado de enterrar auimaes etc. na» fundações^ para estas fica- 
rem mais seguras ? Tenho procurado vestígios mais directos oo nosso 
paiz^ mas de baldo. Ha apenas o adagio casa feita (hm ninho feitoj, pega 
morta, que não sei se terá alguma relação com isto ; e a crença de que 
o Diabo ajudou a edificar certas pontes com a condição de receber a 
alma do primeiro folgo ou fôrgo vivo que passar, mas é eagarjado por- 
que fazem que um gato, por ex., atravesse primeiro a ponte (Douro, 
etc.). — Ha costumes ou vestígios de enterrar victimas na occasíão de 
fundação de um edifício ou abertura de um poço, na Bulgária, Smyrna, 
Athenas, entre os Árabes, os Turcos, índia, Africa, Polynesia, etc. 
(Vid. Tylor, Civil. Primitiv., 122 e seg.; Rev. Ceít,, vol. iv, n.» 1). 
O engano que se faz soffrer ao Diabo encontra-se exacfamente na Al- 
lemanha (Tylor, ib.), Bretanha (Rev. Celt., i p. 423-5), nos Bascos 
(Basque Legends por W. Webster, p. 48) etc. 

81 Gubernatis dá conta de um costume italiano idêntico a este 
(sagnari l'arvuluJ,-^Myth, des Plantes, 111. 



108 



como ella. f) A figueira dá fruclo sem flor (sic)^ porque Ju- 
das enforcou-se nella. Outros dizem que elle se enforcou 
num salgueiro, e por isso elle não dá fructo. g) E' crenpa 
que Adão no Paraíso se vestiu de folhas de figueira, depois 
que, peccando, se viu nu. 

235 a) Para se saber se alguma pessoa que está 
ausente, tem saúde ou não, corta-se a herva de Nossa Se- 
nhora e põe-se no telhado: conforme a herva se con- 
serva verde ou murcha, ou sécca, assim o* ausente passa 
bem, ou adoeceu, ou morreu (Mondim da Beira, etc). ®* 
b) Noutras terras corta-se um bocado da arvore da fortuna 
e pendura-se numa linha: o presagio é o mesmo, cj Ha 
uma planta chamada jarro, que annuncia se o anno será 
fértil ou estéril (Ucanha; cf. | 79). 

236. Quando numa esfolhada apparecem espigas ver- 
melhas, o rapaz que as acha, abraça as raparigas todas (Mon- 
dim, Vimieiro, Penafiel). Estas espigas de milho chamam-se 
abraços^ e é bom guardá-las, porque cozidas, serve a sua 
agua para curar as solturas. 

237. E' costume plantar cyprestes e murta nos cemi- 
rios, bem como esculpir nos mausoléus uma arvore derri- 
bada. Da murta falia a canpào popular (Beira-Alta) : 

Meu ramo de murta fína^ 
Eu bei-de-te combater : 
A murta dà-se a quem morre^ 
Eu por ti quero morrer. 

Do cypreste, diz Camões nos Lusíadas : 



82 Na America^ lidia e Allemanha ha superstições idênticas 
(Max-Mâller^ — Ensaios de Myih. comparada, trad. fr.^ p. 318). 




109: 



Está apontando o agudo cypariso 

Para aonde é posto o ethereo Paraíso ^. 

238. A respeito do alecrim dizem estes versos de 
Villa Nova de Gaia: 

Quem pelo alecrim passou 
£ oao cheirou^ 
Se mal estava^ 
Peior ficou. 

239. Com o S. João e as plantas ha muitas tradições 
no nosso povo. a) A mulher que quizer que lhe cresça o 
cabello deve ir na manhã (^o S. João, antes do sol nascer, 
cortar as pontas do cabello e pô-las sobre o rebentão de uma 
silva. Se alguém cortar a silva, o cabello nunca mais cresce 
(Sinfães). Em Guimarães ouvi que o cabello deve ser met- 
tido numa silva aberta ao meio, á meia-noule do S. João. ®* 
b) Da meia-noute para a madrugada do S. João enrama- 
Iham-se os campos com ramos de castanheiro para o bicho 
não fazer mal ás sementeiras ®* (B. Alta), ou para o milho 



83 É nm velho costume collocar arvores nos túmulos (Guber- 
natis^ Híyih. desPl., 171).— Suetoniofallacdo de uma arvore plantada 
pelos Césares, diz: ... et observalumest, subcujusque obitum, ar- 
borem, ab ipso institutam, intcrit (Vida de Galba, i). 

^ •A Venise, ceux qui sont chauves vont recueillir la rosée 
de la nuit de Saint-Jean, qui a, dii-on, la propriété de faire repous- 
ser les cheveux. D'oú le chant populaire vénetien : 

Anema mia, de la zuca pelada. 
Quando te crcssarà quei bei capeli I 
La note de San Zuane, a ta ro^^ada, 
Anema mia de la zuca pelada I 

Apud. Gobernatis, Myth. des Plantes, p. 187 e nota \. Entre 
nós creio que também ha umas palavras allusivas, mas ainda não as 
pude recolher. 

8* «Taprends aussi que, dans certaines localités de la Russie, 
on place les herbes recueillies la nuit de Saint-Jcan sur le tolt des 
maisons, spécíalenient des étables, pour en éloigner les mauvais es- 
prits.» (Gubernatis, ib. ib.) 



110 



crescer tanto como esses ramos (Gondifellos). c) Quem na 
noute do S. João, á meia-noute em ponto, apanhar a se- 
mente do feto real (Osmimda regalis Lin J, alcançará tudo o 
que quizer. Nessa noute reunem-se junto do feto-real o Dia- 
bo e varias sombras a danpar, e é muito perigoso passar por 
alli nessa occasião (Maia), d) Segundo uma versão de Gon- 
difellos só na noute de S. João é que cae a semente á fei- 
telha^ á meia-noute, porque vae o Diabo sacudi-la. A pes- 
soa que quizer apanhar a semente, estende um lenço debaixo 
ãdi feitêUia^ preso não sei como, para o Diabo o não levar; 
ao lado risca-se no chão ura sanselimão (signo-samão), e a 
pessoa mette-se dentro para o Diabo não empecer. — Segundo 
uma variante de Gaia, o lenço é posto dentro do sanselimão ®*. 
e) Na noute do S. João costumam os namorados deitar as 
alcachofras^ isto é, queimá-las na fogueira, dizendo: 

Era louvor de S. João, 
A ver se o meu amor 
Me quer bem ou não. 

e depois pô-las ao relento no telhado: conforme ellas de 
manhã tem reverdecido ou não, assim os namorados são 
felizes ou infelizes (B. Alta). A este poético costume allude 
a cantiga de Mondim da Beira : 



88 O feto tem vários nomes no nosso povo : feta-real (Maia); 
feitêlha (Gondifollos, c. de Famalicão), feito {Douro) , ãeito (Lamego, 
Carrazeda), fenlo, fentêlha (Minho). A uma mulher de ao pé de Vi- 
zeu ouvi fênfão, e feite. «Ea Russie. . . ou prétond que le paporotmk 
(Aspidium filix mas L.) fleurit seuleraent la nuit de Saint-Jean a Theure 
de minuit, (como entre nós, no Minho, se diz também do feto). EnPe- 
lite-Russie,- on prétend que celui qui parvient à trouver la fleur de fou- 
gère aequiert la sagesse suprènie. La fougère ne fleurit, dit-on, qu'ua 
instam, à minuit, èt pour la voir fléurir il faut vaincre le diable lui- 
méme.» (Gubeaatis, ob, cit., p. 188). Ha ainda mais particularida- 
des. 



lil 



Nã manhã do S. João 
Muita pancada apanhei^ 
Por via das alcachofras 
Qae por ti^ amor^ deitei. 

Em Azueira (Extremadura) dizem a mesma cantiga, 
apenas com esta variante no 1 .° verso : Na noute de 5. An- 
tónio. Em verdade S. J^ntonio é também um santo casamen- 
teiro, e) Em Villa-Cova-de-Carros (no c. de Paredes) cortam, 
na noute de S. João, dois pedaços de junco muito eguaes, 
representando um d'elles o conversado (namorado) e outro 
a conversada (namorada) ; o junco que na manhã próxima 
estiver mais comprido é o que denuncia maior amor. A isto 
alludem estas duas quadras, que naquella terra recolhi 
era 1878: 

Dizem que me queres hem, Não corte-lo junco verde 

Inda o belde sprímentar : Que não é sprímentação : 

Na noite de S. João Se tu queres sprímentar, 

Junco verde heide cortar. Sprimenta o meu coração. 

f) Em Alemquer queima-se á fogueira da véspera de 
S. João a herva pinheira^ e depois leva-se para casa e pen- 
dura-se á cabeceira; conforme ella ao outro dia de manhã 
tem reverdecido ou não, assim o rapaz ou rapariga que a 
queima é correspondido ou não nos seus amores (Apud C. 
Pedroso, em O Positivismo^ 2.^anno, p. 331). g) Na Beira 
também é costume colher uma folha de figueira, passá-la 
pelo fogo (da fogueira?) e pô-la depois no quintal ou no te- 
lhado ao relento; se de manhã está orvalhada é que a pes- 
soa é correspondida no amor, se não está, não é {Alma' 
Tiak de Lembr, 1868, p. 244, — cit. por Pedroso ib. ib.) *'' 



^7 «G'esl dans les herbes de la Saint-Jean que les jeunes filies 
européennes cherchent des présages sur leurépoux futur... Oaplace 
le bouquet sous le coussin du lit, et oq tache de s*y endorrair et d'y 
rever.» (Gubernatis, ob. cit., p. 191). 



A 



w 



crescer tanto como ÇM^'' ^^J rendida, vão com ella três 

nopte do S. João, * .^«^'^'youes, à meia-noute do S. Joào, 

mente do feto r*- y-^.''^ dos Joões racha nm vime, e os 

que quiíer. N , ^e-'Ç''cres.aça. pela abertura do vime para. 

Ijo e varia* i^-^/iwes: «Que fazeis vós?». Respondeir». 

allines?' /; ■^''}J''^ "^ 
direito' ft^^i^'- • 

U^ f"'" nsmos linho asaedado 

f^ wra ligar o vime 

Qoo O uicniuo é quebrada, 
djz-se Ires vezes, O vime depois é atado; se sot_ - 
''^'"«"S o menino siira; se não, não (Miniio). j) Xuiii^^ 
díí.^^jjo porto, vae com a creança doente o padrinho e e« 
i^íf^jja, á meia-noute do S. Joào, ao pé de um carvalhc» 
"'rtuín'"' '• racham-no e passam pelo meio d'elle a creauça- 
"^ódida- O padríniio, ao passar a creanpa para a madri— 



Aqui tens a lua afilhada (ou ^aibido) 

Que nos dizem que está quebrada (on quebrado). 

Responde a madrinha, ao recebé-Ia : 

Eu que a ainMilo sã e s^va 

Comu ua hora em que foi nada (dskii*). 

i) Numa versão de Alijú vae um João e uma Maria, 
ambos puros, ao pé de um amieiro. A Maria, ao passar a 
creanca para o João, diz: 

joãoi 

Toína lá o meu meuluo quebrado 
B hãs-de-Qi'o dar são. 



Depois : «Em louvor de João, um P. Nosso e uma Ave- 



il3 



ria». Três vezes, k) Numa versão de Fafe (Minho) vae 
ia Maria virgem e um João. A Maria ao passar a creança, 
) João ao recebê-la, dizem estas palavras : 

o i Maria I 

rego-te o meniao quebrado. Pelo poder de Deus e da V. Maria 

-de-m'o dar são. O menino são ficaria. 

l) Numa versão de Valle-de-Passos, diz-se : 



Quando este carvalho fechar 
Também o menino hade sarar. 
Em louvor da Virgem Maria 
Um Padre Nosso e Ave Maria. 



A operação repete-se três vezes, mj Numa versão de 
ooa ouvi dizer que a planta escolhida é um vime, e que 
em as mesmas palavras que em j. O meu amigo o snr. 
Pedroso num curioso artigo já citado (m Positivismo^ p. 
T^-S) dá conta de um costume de Lisboa semelhante aos 
ecedentes ; nesta versão diz-se que a camisa da creança 
tasgada e que com ella é atado o vime aberto, n) A 
•g. 303 da Bibliographia critica de hist. e litterat, encon- 
^^ num art. do snr. F. A. Coelho, o seguinte para cura da 
irnia ou quebrad/ura^ — versão de ao pé de Coimbra : «Vão 
ias creanpas, uma do sexo mascuUno, cujo nome de ba- 
ismo seja João, outra do sexo feminino, cujo nome de ba- 
ismo seja Maria, e que possa pela sua edade tomar em 
'us brapos a creança que tem quebradura; colloca-se João 
iwn lado e Maria do outro, e trava-se o seguinte curto 
alogo : 

Joio: Toma là^ Maria. 
Maria : Que me dàs, João ? 
JoAo: Um corpo quebrado 
Para m'o pôres são. 

E João passa a creança quebrada pela abertura feita 

8 



é 



crescer tant" 

nonte dr 

mente - 

qaer 

bo' 

ar 



y iía manhã do S. João, quando 
■ 'dâ nascer o sol, diz-se (Vianaa 



Oh que liado loar fas 
Para colher a jnarcelta t 
Vamo-la tMilher ambínhos. 
Faremos a cama nelia. 



/^ iC sâbP, ha muitas nervas bentas, e o mesmo 
, í:!''^ yiekd. {Serm. t. i, p. 509) diz: «todas as pen- 



/i«>^, 



j4,>5-t)tís, tem a sua virtude» ; mas no S. Joi 



/'" /■'"^"jp, é mais geral, como dizem as cantigas (Mondim 
;:^"^< Minho): 
-. herfas são bentas, 

^* irevo coiiadinho 
ftJàe rastos no clião. 



Toda-las herbas tem preatimo 
Na raenhâ de S. João, 
Só o trevo de q'airo folhas 
CottiJdo na má tenção ... bs 



Quem metler o trevo de quatro folhas debaixo da pe- 
% d'éra, {d'ara) sobre a qual o padre diga missa, pôde 



w Soíire o costume de ligar as arvores para llies comm^nica^efl^ 
tas doenças, vid.Gubemalis, ob. ri/., 30i, Grimm, D.M.p. llISsqq. 

Nai! superstii^ões inencioDadas nestes %% h-n, note-se qaer t 
associação dos nomes Havia e João, quer a pureza d'ambos, quer o 
numero três. No nosso povo as três Mnrttis figiiraiíi em muitas su- 
perstições, como veremos adeante. Ct. § 130, a este priucipio denmi 
oração gallega (apud Parnaso Port. Mod., 290-1) : 

Padre naestro pequenino, 
Léva-me por ho camiiio, 
Alõ fun, aló cheguei, 
Ties Marias encontrei, ele. 

SB ccTontes Jes barbes, mime les mauvaises, les venéneuses, Iw 
malfaisantes, pcrdeiit, la nuit de la Saint-Jcan, Jeur poiMtii ei leor 
pouvuir di aboli quosD, mas : il^ jnur miíme de la Saint-Jean, c'es{-á- 
dire. après le tever du soleil, il .'<erait dangereus de cueilllr lesher- 
bes.. iGubcroalis, ib. p. 187). 



115 



ntar qualquer pessoa (Gondifellos). q) Certa* hervas, 

Digitalispurpv/reay Lin. (a que o povo chama traque on 

\ alecrim, funcho, rosmaninho, sabugueiro, colhidas na 

jdo S. João, livram do raio (cf. pag. 64), e servem 

^ defumadoiros (Minho). Do troque diz o dictado de Car- 

itdzeda d'Anciães: 

Quando o troque troqueleja 
Já a cereja vermeleja. 

r) Quem na manhã de S. João se esfregar no linho, 
livra-se de comixões (Minho), s) Algumas plantas tem o 
nome do S. João^ como Cinaria humilis^ Lin., Achillea Age- 
ratum^ ib. etc. ^® 

240. a) O primeiro fructo de uma arvore, sendo ella 
do género masculino (ex. pereiro), deve ser cortado por uma 
mulher; sendo ella do género feminino (ex. pereira) deve 
ser cortado por um homem. Se não se fizer assim, com esta 
troca de géneros, fica a arvore a dar fructo um anno sim 
e outro não. (Norte do paiz). b) No Minho diz-se que o 
primeiro fructo deve ser comido pelo dono, senão fica a ar- 
vore armeira^ isto é, fructificando um anno sim e outro não. 

241. Ha em Baião, próximo ao rio Ouvil, uma nogueira 
tal que quem passar por baixo d'ella, ao pino do meio dia, 
é morto logo por uma gotta que cae de repente. 

242. aj No tempo em que o centeio floresce, as ra- 
parigas colhem uma espiga, tiram-lhe a flor, e mettem-na 
no seio. Passados momentos, se a espiga estiver outra vez 
com flor, é porque a pessoa por quem ella foi deitada quer 
bem ás raparigas; se não, não (Freixo de Espada-Cinta). 



^ Gubematis^ ob. cit. p. 191^ cita muitas plantas com a mesma 
denominação de S. João. 



1Í6 



b) Os namorados, para saberem se são ou não corres- 
pondidos, costumam pegar num mal-^ne-quer^ e, á maneira 
que lhe vão tirando cada pétala, vão dizendo : mal me que- 
res^ hera me queres etc. ; se acontece dizerem mal me quer 
à ultima pétala tirada, não são correspondidos ; se acontece 
dizerem bem me quer, são correspondidos. Cf. a cantiga 

(Penafiel) : 

Bem-me-quereSy mal-me- queres 
Tenho eu no meu jardim ; 
Bem me queres já acabou, 
Mal me queres nâo tem fim. 

243. aj As plantas são personificadas: 

Fui-me deitar a dormir Manjarieão da janella, 

Ao pé do triste sargaço ; Que tendes, que eslaes tão murcho? 

As flores me responderam : — Foi o anno muito seeco. . . 

— Não chores por quem te é falso . Ficar eu verde, foi muito ! 



A oliveira se queixa. 
Se se queixa tem razão; 
Quando lhe colhem a baga, 
Deitam-lhe a rama no chão. 



O cravo tem vinte folhas, 
A rosa tem vinte e uma ; 
Anda o cravo em demanda 
Por a rosa ter mais uma. 



b) Os amores das plantas são referidos nestes versos 
recolhidos de Coimbra por Adelino das Neves (nas Musicas 
e canções populares, Lisboa 1872) e de Rezende por mim: 

O cravo por sympathia 
A' linda rosa se uniu ; 
Forani laços tão estreitos 
Que amor-perfeito sahia. 9i 



91 O poeta Claudiano descreve assim os amores das plantas fDe 
Nup. Mar., v. 6S) : 

Vivunt in Venerem frondes, omnisque vicissim 
Félix arbor amat : nutant ad mutua palmae 
Foedera ; populeo suspirat populus ictu. 
Et platani platanis, alnoque adsibilat alnus. 



in 



c) A origem celeste nestes: 

O cravo cahiu do ceu^ 
Deu na pedra^ Ocou coxo; 
(> lírio^ com sentimento^ 
Logo se vestiu de roxo. 9* 

d) A realeza nestes (Minho e Douro) : 



O' alecrim, rei das harvas, 
Já meu peito foi teu vasa; 
Já lá tens outros amores, 
Jà de mim nào fazes caso. 

Veja que cravo le eatrego 
Para dar aos seus amores : 
Pois no jardim não lia oitro, 
E' o capitão das flores. 



O' alecrim, rei das hervas, 
O' oiro, rei dos melaes. 
Quem dá falias a brejeiros, 
O que recebe são ais I 

O* alecrim, rei êas hervas, 
E ó- jasmim, rei das flores 



93 



244. Na nossa litteratura de cordel ba vários livri- 
' nhos coflfi a Imgiiagem das plantas^ cores, etc. ; comtudo 
nem sempre existe ahi a tradição genuína, porque os au- 
ctores inventam muito. Conheço também um livro antigo 
ÍDtitcúado Tratado das significações das plantas, flores e fru- 
cêos que se ref&^em na Sagrada Escritura, por Fr. Isidoro 
àe Barreyra, religioso da Ordem de Chrislo (Lisboa 1698), 
no qual abundam citações de escriptores ecclesiasticos, 
clássicos e da Bíblia, mas onde a tradição portugueza está 
pouco representada; eis algumas significações que tenho 
ouvido ao povo e que se acham nesse livro : videira é em- 



*^ E' curioso: comparar o seguinte verso do Rig- Veda (sec. 8, 
leit. V, pag. 576, trad. fr.) : 

«J'ai ehanté les Plantes qui desoendeat du ciei autour de 
noas.» (v. *1). 

^ Â aaajogta é tão notável que não posso deií^ar de transcre- 
ver este verso do Rig- Veda (ib. ib.) : 

«O Somalatá (Asclepias acidaj, tu es la reine de toutes ces Plan- 
tes abondantes et sages» (v. 18). 

Noutros legares do Rig-Veda, Soma«ó também o rei dOrS hervas. 




k 



118 



briaguez; Uywreiro é victória; rosa é graça; lirio é casti- 
dade; ccmna é inconstância; diva é prisão; alecrim é ciú- 
mes ; manjerona (ou manjarona) é prazer. 

As cantigas populares alludem frequentemente à lin- 
guagem dos vegetaes : 

Se te mandei um raminho 
De murta e nada mais : 
A murta — é para os mortos. 
Se morro, vós me mataes. »* 



Apanhei murta — queé dor, 
Da manjarona, fiz molhos : 
Pr'a te ver torço caminhos 
Feiticeira dos meus olhos. ^^ 



Cravo roxo, — setUimento, 
Que ea bem sentida estou. 
Por amar quem me não anm, 
Q*rer bem a quem me deixou. 



A horlellã — é crueza, 
Menina, não seja crua : 
Diga a sen pae que a case, 
Acceite quem a procura. 



Gravo roxo à janella 
E* signal de casamento ; 
Menina, recolha o cravo. 
Que o casar tem muito tempo. ^ 



245. Em Resende e noutras partes, as noivas, quando 
donzellas, levam para a egreja no dia do casamento um 
ramo de flores, espetado numa laranja ou maçã, coberto por 
um lenço branco bordado. Estes ramos, em Resende, são de- 
positados no altar da Virgem do Rosário. ^^ Cf. esta cantiga: 



M-95 Cf. § 237. 

^ Sobre a signiOcação symbolíca das flores, vede Gubematis, 
Myth, des Plantes, p. i5i, not. 2. 

07 p^as egrejas do rito grego dons jovens põem uma grinalda 
sobre a cabeça dos esposos. Em Creta os noivos dão um ao outro 
grinaldas de flores e deixam-nas suspensas na egreja durante qua- 
renta dias. Num canto búlgaro, S. João coroa os esposos Stoían e a 
Samodiva. Em Claudiano, De raptu Proserpinae, a joven, sem o saber, 
colhe flores e faz uma grinalda para as suas núpcias (Cf. Gubernatis, 
Myth. des Plantes p. 103, not. i). 



Ii9 



A oliveira — ^0a2í 
Que se dá aos bem casados; 
O alecrim é ramalhudo 
Que se dà aos namorados. 

246. O povo acredita que o gyrasol anda conforme o 
Sol. O padre António Vieira também diz: «Aquella flor a 
que o gyro do sol deu o nome, chamada dos gregos helio- 
tropio, immovel e com perpétuo movimento, jamais deixa 
de seguir e acompanhar a seu amado planeta» (Sermões, 
t. I, p. 574). ^ 

247. A' meia-noute do S. João vae muita gente co- 
lher o azevinho {Ilex aquifolivm ? Lin.) ; andam em roda 
d'elle a dançar, a tocar violas e a cantar: 

Azevinho^ meu menino^ 
Aqui te venho colher, 
Para que me dés fortuna 
No comprar e no vender, 
E em todos os negócios 
Em que me eu metter. 

Nesta occasião deitam-lhe vinho em borrifos ; depois 
cortam-no e poem-no à entrada da casa, ou em sitio escon- 
dido. Quando troveja, étambem bom queimá-lo (Ouvido no 
Porto). ^ 

248. E' vulgarissimo o emprego dos vegetaes para 
livrar de males, a) Quem tem sesões, vae a um logar de- 



^ Os nomes do gyrasol (os nossos lavradores também lhe 
chamam sol, segundo uma vez ouvi) nas differentes linguas, fr. tour^ 
nesol ou soleil, it. girasole, aliem. Sonnenblume, etc. mostram-nos 
quanto esta superstição é espalhada. Cf. Ovid., Metam, iw, 264 sqq. 

^ E* um verdadeiro sacrifício, que, porém, nada tem de ex- 
tranho/ porque no México, nos Cafres, em Guiné, etc. é costume 
tamhem levar offertas às plantas. 




igo 



serto, ao pé de um trovisqimro^ põe lá uma pouca de palba^ 
um panno velho, uma pinga de vinho num caco, e migalhas 
de pão, e diz três vezes: 

MaleiêaSy fieae à sombra d'este trovisqueiro; 

Aqui fica palha para te deitares^ 

Pão para comeres^ 

Vinho para buberes 

E panno para te alimpares. 

Depois corre para casa, sem olhar para trás. Se al- 
guém se servir d'aquellas coisas, fica com as sesões no 
corpo ; senão, ficam os bichos com ellas (Maia, — corarauni- 
cação da ex.™* snr.* D. Maria Peregrina de Sousa), b) Se- 
gundo uma versão de Paços de Ferreira, botam-se fora as 
maleitas assim : Leva-se o doente para o pé de um trovis- 
queiro^ bem como um caco com agua, uma faca velha, um 
pequeno panno, um pequeno bocado de pão e uma sardi- 
nha; depois o doente dá três voltas em redor do vegetal 
e diz de cada vez : 

« — Deus lhe dê bôs dias, sinhor capitão ! 
Empreste-me a sua camisa 
Para uma funcção : 

E aqui tem pão e carne, faca para partir, auga para se labaf ^ 
panno p'ra se alimpar». 

Feito isto tira-se-lhe a casca que é trazida para cas^' 
e posta ao fumo : conforme ella fôr seccando, assim a mo- 
léstia vae desapparecendo (Informação do meu amigo Jero- 
«ymo Alves Barbosa, a quem devo muitas outras, todas va- 
liosas). ^^ 



m 

100 Cf. §§ 164 e 1^. Plinlus Valcrianus, au qtíatrième siècle, 
eonseillait de lier un arbre eu prononçant une certaine formule, poui 
se délivrer de la fièvre-quarte : «Panem et salem in linteo de lyco 




151 



c) Qaando as creanças tétn a LucUy o que succede to- 
s as vezes que ellas dormem cora os olhos abertos, rieto 
rti ter edade para isso, eLc, faz-se-lhe o seguinte tracta- 
3into : A' noute sae a mãe á rua com a creanpa ao coilo, 

estando a olhar para a Lua, apanha do chão o que quer 
le seja, sem saber o quô ; em seguida toma um ramo de 
oeira (Pistacia lentiscus? Ltn.), um ramo de alecrim^ cin- 
i folhas de oliveira^ cinco trapos de diversas cores (noutras 
irtes do c. de Santarém são cinco bagos de trigo em vez 
)s trapos) yG cinco pedras de sal; mistura tudo com o que 
)anha na rua, e põe-no ao lume numa frigideira; depois 
fflteça a passar a creança sobre o fumo que sae da frigidei- 
i, fazendo cruzes com o corpo d'ella, e dizendo muitas vezes : 

Assim como N. Senhora 
Defumou seu amado filho 
Para bem cheirar. 
Assim eu te defumo 
Para o mal te deixar. 

(Santarém). »o« 

d) Um ramo de sabugueiro livra de mau olhado; um 
lo-pôrro comprado no dia de S. João e posto em casa 
igenta os espirites malignos; no loureiro, oliveira, etc. 
o cae raio; os ramos bentos queimados (que íicam da 
ita dos Ramos) livram de raio, ele. e) O alho é que é um 
ôservativo excellente contra as Bruxas e maus olhados, 
cios os lavradores de manhã, antes de sahirem para o 



-t et circa arborem licio alliget et juret ter per panem et salem: 
^stino mihi hospites venluri sunt (c'esl-àdire, la fiévre); suscipite 
►s; hoc ter dicat.» (Myth, des Plantes, 202). 

101 Informação do meu amigo Carlos Galrão, que me deu mui- 
* outras egualmente importantes. Cf. § 3o, e esta outra superstição 
^G nào pôde ir no seu logar : quando uma criança e^^lá doente, é bom 
ostrá-la áLua, dizendo : «Lua, eu te entrego o meu menino, quede 
a Yéle e de noite durma» (Alijó). 




122 



serviço, trincam um dente de alho por causa d'ellas e do 
Diabo. A este respeito contam-se vários contos. 

Até é costume, quando vão vender os porcos á feira, 
untar-lhes o corpo com um, ou três, ou cinco (numero im- 
par) dentes de alho (Rio-Tinto). 

249. Quem se fere numa silva deve, para sarar, cor- 
tar a silva em que se feriu e queimá-la em seguida (Villa- 
Real). *o« 

250. E' costume em varias partes (Beira-Alta, Douro 
etc.) capa/r as plantas, como o melão, o morango, o feyão, 
etc, — isto é, cortar-lhes um bocado d'um ramo. 

251. Eis aqui em que consiste a virtude de várias 
plantas : a) O jarro annuncia se o anno será farto ou es- 
téril (Dcanha). b) Nos ensalmos figura sempre um grande 
numero de plantas : — com o sempre-verde (geralmente sor 
bugueiro) talha-se a erysipela e a fogagem : 

4 

Sempre- ver de venerado. 

Que na campa do Seohor fostes achado. 

Sem ser nado nem samiado, etc. 

— com as palhas-allias talha-se o cobreio (herpes); e uma 
fórmula de talhar o bicho diz (Mmho e Gaia) : 

Eu te benzo com três palhas-alhas. 

Com três maravalhas 

E tres da Anna do Matheus 

E tres do meu cão. 

Vae-te embora 

Que já stou são ; 



102 E' a pena de talião, tão vulgar noutros tempos. 




123 



— quando alguém se ortiga, esfrega cora menthrasto a 
parte ortigada e diz (Villa Marim) : 

Ortiga me ortigou 
Meutbrasto me sarou; 

— o alecrim serve para talhar o ar: queima-se e rece- 
bem-se os vapores (cf. pag. 42); — com a hera péga-se 
em nove folhas, depois raolha-se cada uma em agua, 
faz-se com ellas uma cruz no sitio ezipellado, e diz-se esta 
oração nove vezes : 

A ezipella foi ao monte, E a auga fria. 

Chorando, gritando. Polo poder de Deus 

Quem le acudiria? E da Birge-Maria 

Acuda-le a hera, Ella mun*haria. 

cj Contra as feiticeiras é bom trazer uma pedra de 
ara, com aipo, arruda, loureiro, oliveira, herva de inveja, 
tudo numa saquinha. ^®* d) Para fazer seccar o leite ás 
mulheres deve pôr-se-lhes ao pescoço um coUar de contas 
de páo de figueira, ou metter-se-lhes debaixo dos braços 
ramos de salsa verde, ou ainda coUocar-se-lhes nos bicos 
dos peitos laranjas azedas assadas (Maia), ej Contra as 



los E' muito vulgar as mulheres portuguezas trazerem com- 
sigo saquinhas com varias cousas de virtude. Num processo da inquf- 
siçao de Évora (sec. xvn) falla-se de um saquinho pequenino de li- 
nho com pós pardos, um papelinho, um feijão, pedaços de pedra que 
pareciam de ara, ele. (C. P&ávofio, — Contribuições para uma Myth. 
Fop. Port,, VI, pag. 7). Em Gil Vicente (Obras, ed. d'Hamhurgo, p. 
96-7) diz uma feiticeira : 

Vou polo alguidarínho 

A candeia e o saquinho etc. 

A propósito da virtode das plantas lé-se no fiig-Veda (vers. 91 
sec. 8, leit. v, da trad. fr.): «Les plantes chassent la maladíe loin 
de DOtre corps etc.» 




42i 



bichas nas creanças serve um rosário de raiz de lírio o» 
alho (Mondim da Beira), f) Num conto pop. que ouvi em 
creança entravam estes versos : 

Quem compra flores 

Que curam mal de amores? 

g) A arruda, o aipo e o alecrim são bons contra o Demó- 
nio (cf. c). h) A herva de Nossa Senhora livra do Demó- 
nio ; quando a colhem, dizem (Porto) : 

Herva de Nossa Senhora, 
Aqui te venho colher, 
Fra me livrares do Demónio 
Que me nào torae a appareccr. 

i) No Domingo-de-ramos é costume irem os rapazes 
egreja com grandes ramos (varas altas rodeadas de flores) í 
estes ramos são benzidos pelo padre, vão na procissão do^ 
ramos, e depois, queimados, servem para afugentar a tro-^ 
voada (cf. pag. 64 e | 248, d), 

252. E' costume guardar penduras de uvas de um 
annp para o outro, para que se não acabe o dinheiro na 
casa (Villa-Real). 

253.. a) No 1.® de Maio é costume enfeitar as portas 
das casas com ramos de giesta (Vid. Fastos populares) 
b) Quando os pedreiros acabam de fazer as paredes d'uma 
casa, põem ramos nellas (Beira, Minho), e) Também é cos- 
tume na Paschoa, quando o Padre vae buscar o foliar, en- 
feitar as portas com murta, alecrim, ete. d) Um ramo d=e 
loureiro á poria indica uma taberna. 

254. a) Quando Deus quiz formar a mulher, tirou 
uma costella de Adão mas poz-lhe em vez d^ella uma cos- 
tella de salgeiro (Minho). D'aqui a phrase usual: o homem 




12Ã 



n uma costella de salgueiro^ ainda que noutras partes se 
i que o homem tem uma costella de menos. ^^* b) A 
'oposito da relapão do homem com as plantas diz-se ainda: 
. é fidalgo de cepa; — qti£m a boa arvore se chega^ boa som- 
"a o cobre ; — boa arvore não dá ruim fructo ; F. está na 
t)r da mocidade. ^^^ Também temos as arvores de geração 
as famílias, c) Eis varias cantigas do Douro em que se 
Ilude á mesma relação : 

ODíei no meu quintal Samiei no meu quintal 

semente do repolho; O brio das raparigas .* 

sceu-me uma velha careca Nasceu-me uma rosa branca 

iD)a batata num olho. Cercada de margaridas. 

não tenho pae nem fnae. O' minlia canninha verde, 

n nesta terra parentes; O' minha salta-paredes : 

filha das tristes hervas, Inda m'hasde vir ás mãos, 

a das aguas correntes. Como o peixe vem às redes. 

d) Dm conto popular de Rebordainhos (c. de Bragança) 
- • — Havia uma vez três irmãos. O mais novo tinha três 
casinhas de ouro, e os outros, para ver se lh'as tira- 
^, mataram-no e enterraram-no num monte. Depois nas- 
^ na sepultura uma canna. Certo dia passou por lá um 
stor que cortou um pedaço da canna para fazer uma 
^^ta; começou a tocar, mas a flauta, em vez de tocar, dizia : 

Toca, toca, ó pastor. 
Os meus irmãos me mataram 
Por três maçãsinhas de ouro, 
E ao cabo não nas levaram. 



^0^ «L'aune est bon pour les sorcières du Tyrol, qui, d'après 
annhardl (BaumkuUus der Germanen, 116), s'en font des cotes» 
lyth. des Plantes : 39). 

105 Lueano diz de um jovcn : Fios Hesperiae; Séneca diz d'ou- 
)! Fios Graeciae; Catullo também diz: Viridisstmo flore puella. 
irislo é para os padres da Egreja : Fios campi. 



126 



O pastor, quando ouviu isto, chamou um carvoeiro e 
deu-lhe a flauta. O carvoeiro começou também a tocar, mas 
a gaita dizia o mesmo. O carvoeiro passou-a a outra pes- 
soa, e assim ella foi andando de mão em mão, até que che- 
gou ao pae e à mãe do*morto; a flauta dizia ainda o mesmo. 
Chamaram o pastor que disse onde tinha cortado a canna. 
Foram lá e encontraram o cadáver com as três maçãs de 
ouro. (Contado*pelo meu amigo João Cândido de Sousa, que 
o ouviu ao povo).— O meu amigo Carlos Galrão disse-me 
que o mesmo conto era popular em vários pontos da Ex- 
tremadura, apenas com esta variante: em logar das três 
maçãsinhas é a flor do lirolar (?), e a cantiga que a gaita 
dizia era : 

Não me toques^ meu pastor^ 

Não rae deixes tocar : 

Meus irmãos me mataram 

Por causa da flor do lirolar. i^e 

e) O snr. Ad. Coelho traz nos seus Contos populares 
portuguezes (n.® xl) um, no qual se falia de uma roseira 
que nasceu na sepultura de uma menina. Quando alguém 
colheu d^ella uma rosa, ouviram-se vozes que disseram : 

Não me arranques o meu cabello. 
Que miaha mãe m'o creou^ etc. 



106 «Dans le dix-septième conte du cinquième livre d^Afanas- 
sieff, la soeur lue son frère, Petit-Jeaa, pour s'emparer de ses frai- 
ses rouges et de ses petils souiiers rouges. Sur sa tombe pousse uo 
roseau; un berger en fait une flúte et quaad il la porte à seslèvres 
elle module une plainte en ces termes : 

Joue doucement, doueement, petit berger; 

Ne blesse pas mon coeur ! 

Ma petite soeur, la traitresse, 

Pour les petites fraises rouges, pour les petits souiiers rouges. 

Quand c*est Ia soeur qui met la flúte à ses lèvres, au lien des 
raots «petil berger» elle dit «petite soeur, tu m*as Irahi», et le crime 
se découvre ainsi» (apud Myth, Zool., i, 211). 



Í27 



f) Comparem-se os ensalmos onde se diz que o sevítr 
pre-verde brotou na campa de Christo. (Vid. o raeu art. Car- 
mina magica do povo portugioez, ín Era-Nova, p. 519-520, 
e este livro § 251, b). 

255. Em contos de Bruxas falla-se, como veremos, dos 
silveiraes e dos amendoaes. 

256. Nas arrematações e leilões é costume empregar 
a ^hrase: entrego o ramo. Alguns leiloeiros trazem mesmo 
um ramo na mão. 

257. Azeite derramado no chão é signal de ralhos : 
por isso, em elle cahindo, se lhe deita sal em cruz, dizendo ; 

Q'aDdo este sal chigar ao mar 
E* que havemos de ralhar. 

(D* ao pé do Porto). 



258. a) Costuma-se dizer em forma de dictado : deixa 
zoa/r a carvalheira, para indicar : não faças caso (Beira- 
Alta). bj Eis varias cantigas a propósito das plantas (Mon- 
dim da Beira) : 



Pela folha da oliveira. 
Conheço a da ramada : 
Faço-me desentendida 
A mim não me escapa nada. 

O' alto lírio roxo, 
Cobre-me com lua sombra : 
Eu furtei uma menina. 
Não tenho adonde a esconda. 

Eu tenho à minha jenella, 
O que tu não tens á tua : 
Raminho de violetas 
Que alumeia toda a rua. 



Q*ando o sobreiro der baga 
E o loureiro der cortiça. 
Então te amarei deveras, 
Que agora tenho preguiça. 

O serpão é miudinho. 
Nasce no meio do cravo ; 
Se tu tens outros amores. 
Não me enganes, que é peccado ! 

O serpão é miudinho. 
Tem a folha ao desdém; 
Olha que já passa d'anno. 
Amor, que te quero bem. 



128 



Deitei o limão correndo, 
A' tua porta parou : 
Se te quero bem ou não 
O limão o demostrou. 

Herva cidreira do monte 
E' allivio dos pastores : 
Deitam o gado a ella, 
Vão fallar aos seus amores. 



Deitei o limão oorrendo. 
Navegando foi ao fundo : 
Para mim já se acabaram 
Variedades do mundo. 

Nossa Senhora é rosa 
£u sou íilha da roseira : 
Não me posso apartar 
De rosa que tanto cheira. 107 



c) Eis outras cantigas que são como um hymno sa- 
grado ao carvalho (Penafiel) : 



Grande arvore é o carvalhinho. 
Que deita a raiz pYa o monte : 
Quem me quizer ver contente, 
E* pôr- me o amqr defronte. 



Grande arvore é o carvalhinho 
De quatro castas de fructo, 
Bogalhos e bogalhinhas 
Lanares e maçãs de cuco. 



d) Os seguintes versos de Villa-Nova-de-Gaia estão um 
pouco incorrectos : 



O trigo disse pr*a o centeio : 
— Caía-le lá centeio, centeiaço, 
Que tu não fazes 
As fuQCçoes que cu faço. 



O centeio disse pTa o trigo : 
— Gala-le lá, trigo espadanudo, 
Quo Ucào acodes 
Ao que eu acudo. 



A aveia disse : 

— Eu sou a aveia negra e feia. 
Mas quem me tiver em casa 
Não vae p'ra cama sem ceia. ^^s 

e) Como variante dos versos do § 231, /", cf. estas 
quadras de Moura, no Alemtejo : 



10'^ Esta cantiga será o fragmento do uma oração? Não é 
muito raro apparecerem fragmentos de orações e romances em forma 
de cantigas soltas. 

108 A forma d*estes versos não parece rigorosamente popular. 



129 



Os gomos da silva choram 
Lagrimas de quatro em cinco : 
As penas que eu por ti passo 
Deus sabe se eu as siato. 



Os gomos da silva choram 
Lagrimas de cinco em duas : 
Também os meus olhos choram 
Por ter soidades tuas. 



f) Como variante do § 238, diz-se na Extremadura : 

Quem junto do alecrim passou^ 
E um raminho não apanhou. 
Do seu amor nâo se lembrou. 

g) Eis ainda mais duas cantigas, a primeira de Oliveira 
d'Azemeis, a segunda da Extremadura : 



Dizes que eu nâo conheço 
A arruda pelo cheiro. 
Que sou tao afortunado 
Gomo os cães que acham dinheiro. 



Tens a parreira à porta, 
Nâo a sabes vindimar; ^^^ 
Tens o amor defronte. 
Não o sabes namorar. 



h) Adivinhas a respeito dos vegetaes: 

Alho : Tem dentes e nâo come 

E tem barbas como um home. 

(Extremadara, ete). 

Cbbola: Chapéu sobre chapéu. 

Chapéu do mais fino panno : 
Nâo adivinhas este anno. 
Nem pr'a o outro que vier. 
Senão se t'o eu disser. 

(Extremadura). 



; Laranja : Qne é, que é, 

AHas castellinhas. 



OoKiço. Altetes, altetes. 

Com seus carrapetes^ 
Verdes e amarellinhas ? Co'o riso que lhe deu, 

(Minho). Tudo se perdeu. 

(Minho), ««o 



10» Nas terras (e principalmente atóeias) ée Portugal ó muito 
, eostume ter à porta jà uma simples yldeira, já uma ramada em forma 
de coberto. 

110 Parte d*este capitulo sahiu nos meus artigos Mytholagia 
'i Botânica o. Cosnw§(ma popular, in Vanguarda de Lisboa. 



9 



CAPITULO IX 



^ 



Os animaes 



[Strabào, fallando dos Lusitanos diz: «Maximecaprosedont^et 
Marti caprum immolant^ praetereaque captivos et equos. Quia et 
ritu Graeco hecatornbas cujusque geaeris lastitQunt.» (ed. Didot, 
1833, pag. 128). Noutro logar, o mesmo geographo refere ura costa- 
me lusitano de tirar agouros da inspecção das vísceras de um cavai- 
lo.— Aindalque a seguinte noticia nào se refere talvez a uma supers- 
tição lusitana, menciona la-hei : Q. Sertório levava sempre comsigo, 
através das rudes montanhas da Lusitânia, uma bicha branca qtiA 
o advertia do que devia fazer e do que devia evitar (Valério Max., 
lib. I. cap. II. 4). —Si velo traz nas Antiguedades de Galicia var^8 
estampas de cobras em penedos. — Aproximando -nos de tempos cnaift 
modernos encontramos os seguintes factos que se acham reunidos Bi 
Eíhnog. portugueza, (extracto do Bo!etÍ7n da Socied. de Geogr, ét 
Lisboa) do snr. F. A. Coelho: «Outros passam agoa per cabeeadft 
€am pêra conseguir alguu proveito» fOr^í^n. manuelinc^ 1514. h.% 
tit. xxxni). «Outro si defendemos que pessoa algua nom benzá(»es, 
ou bichos nem outras alimarias»> (ib. ib.).Do agouro causado por om 
corvo a uma dona, diz a estrophe : 

Nunca taes agoyros vi 
des aquel dia que nacy, 
com'aquest'ano ouv'aqui; 
e ela quis prouar de ss'yr. 
e ouv'um corvo sobre sy 
e Dom quiz da casa sayr. 

{Carte, Vatie. n.» 107f>. 



131 



No interessante Auto das fadas de Gil Vicente diz uma feiti- 
ira. (Obras, iii, 93-98, ed. Hamburgo) : 



ido pelos adros nua 
ini companheira neuhua 
nào bum sino samão 
3ttido n'hum coração 
i gosto preto e nao ai. 

Lvalgo no meu cabrão 

vou -me a vai de Cavallinhos, 

mta é a gata que pariu 
Uo negro, negro he o gato. 
>de negro anda no mato^ 
>gro he o corvo e negro he o pez, 

1 c'o sangue do Leão, 
íxido c'o nabo da Huja, 
alli o fel da coruja. 



Isto be fersura de sapo 

Eis aqui mama de porca. 

Barbas de bode furtado, 

Fel de morto excommuogado. 

Com dons ratos no meu lar. 

Fel do morto, meu conforto. 
Bolo cornudo, vós sabedes tudo. 
Bico de pego, azas de morcego, 
Bafo do drago, tudo vos trago. 
Eu não juro nem esconjuro. 
Mas gallo negro suro 
Cantou no meu monturo. 



(Gil Vicente enumera os animaes que entram nos feitiços, 
iiante veremos como algumas d*essas superstições chegaram até nòs) . 

Nas Const. do bispado da Guarda lô-se : «Prohibimos estreita- 
3nte a nossos súbditos, que não usem de Agouros, fazendo conje- 
iras por as vozes, ou encontro dos animaes, ou do cantar, ou voar 
.8 aves, ou cousas semelhantes» L. v, tit. iii, c. 2). Nas Const. do 
$pado do Algarve, anno 1673, v, 8. e nas do Porto, anno 1585, tit. 
I, const. i, e Lisboa, anno 1588, xxv, prohibe-se que se benzam 
imaes, ou sé arnente e encommende o gado perdido, sem manifes- 
rem ao prelado as palavras que dizem. (Ainda actualmente nas al- 
ias da Beira-Alta, o gado ou outros animaes mordidos por cão 
mnado, são benzidos por certos padres, que tem poder para isso; 
tes padres até benzem o pão que esses animaes hão-de comer.] 



259. I. ZOOPHYTOS. — Diz-se que os coraes annun- 
am melancolia ou prazer na pessoa que os traz, conforme 
tão baços ou lirapidos (Beira- Alia). 



260. IL MOLLUSCOS. — a) Quando suam as mãos, é 



132 



bom esfregá-las numa lesma (pron. pop. lésmiaj para faze: 
desapparecer o suor. [Egual effeito se alcança- esfregandi 
as mãos nas paredes de um templo aonde se vae a pri 
meira vez] (Taboaço). bj Quem tem fraqueza, cura-a, poiKh 
sobre a boca do estdmago uma lesma esmagada (Minlío). 
c) E' um dietado vulgar : isto não vale wra caracol. 

261. III. ANNELADOS. — Neste grupo apenas conhece 
tradições a respeito das seguintes classes : arachnidos^ my- 
liapodos e insectos. 



262. A. Arachnidos. — O único arachnido de 
conheço superstições é a aranha: a) Quando se vê uf&a 
aranha, sendo grande, é signal de dinheiro, sendo pequeaa 
é signal de falso testemunho (Gaia). O meu amigo Consi- 
glieri Pedroso traz a seguinte variante': se a aranha é preta; 
annuncía dinheiro ; se é branca, annuncia falsos testema- 
nhos {Contribuições etc, Varia, n.<* 344). b) Uma outra va- 
riante que eu recolhi de Vouzella diz que teia de aranlli 
branca é felicidade, e preta é infeUcidade. c) Se uma a»* 
nha passeia pelo vestido de qualquer pessoa, tem essa 
pessoa de receber dinheiro: em prata, se é branca; es 
ouro, se é amarella ; em cobre, se é negra (A. Luso,— 
Erros acerca de alguns animaes, in Livro de Leitwa de 
A. Leão, 1.* ed. pag. 63). ^" d) Se alguém tentar matar 
uma aranha e o não conseguir, ella vae depois ter í 
cama da pessoa (iMinho). cj Quem quizer fazer arreliar « 
alfaiates é fallar-lhes em aranhas, porque se conta (fÊ 
foram precisos muitos alfaiates com as tesouras abertai, 
para atacar uma que Itie^â ^*ppareceu. D'aqui o dictadt 
que se usa quando alguém está muito embaraçado ea 



111 II y a en Toscane une très-iatéiredsaiite superstition ráàtíf 
à Taraignée : on croil que si Ton voit une arai^nèe le soir ii ne fou 
pas la brúler, car elle doit porter bonhear; mais quand ou ia voiti 
matio, ii faut la jeter au féu sans la toncher.» (Myth. Zòoh vl, i71] 



133 



usa de pouca monta: tlsto são sete alfaiates para ma- 
r uma aranha» (Beira- Alta) . Eis varias cantigas, a pri- 
3ira da Beira-Alta, e as outras do Minho, sobre o mesmo 
sumpto : 

teccDtos alfaiates Setecentos alfaiates 

ra matar uma aranha : E' tudo : — farei, farei : 

rtes sào os alfaiates Para matar uma aranha 

le nem isso apanham ! Gritam : — aqm d^el-rei t 

ate cÍQCo mil alfaiates Aqui d*el-rei quem acode 

dos postos em campanha^, Ao fogo de Santarém I 

oi as tisoiras abertas Acudam os alfaiates 

ra matar uma aranha. Em quanto os homens não vem. 

O meu amigo F. Adolpho Coelho disse-me ter ouvido 
gamente que em certo ponto de Portugal ia num jogo, ou 
usa semelhante, uma aranha levada em andor, f) Ouvi 
1 pequeno um conto chamado, ffistoria das sete parvoíces^ 
qual um homem, tendo-se recolhido na toca de um cas- 
iheiro para passar a noute, começou de manhã a gritar 
lito, porque viu sobre a toca uma teia de aranha, o que 
e julgava ser uma prisão (Beira-Alta). g) D'alguem que 

vê qualquer cousa que lhe mostram, costuma-se dizer 
e tem teias de aranha nos olhos. 

26â. B. Myrupodos. — O único myriapodo de que co- 
3Ç0 superstições é a centopeia, a) Quando uma cento- 
a desce por uma parede a baixo, é signal de chuva; 
uado sobe é signal de sol (Guimarães), bj Quando se 
urqa centopeia, diz-se três vezes para ella parar e poder 
morta (Gaia, Guimarães, etc.) : S'. Bento te prenda^ ou, 
i-bem três vezes : S. Bento te tolha (Porto) . Assim quç 
disser isto, a centopeia pára e nâo pôde fugir. [Tam- 

1 ouvi, mas só a uma pessoa, que o mesmo se faz com 
ranha]. 

264. c. Insectos. — - Grillo. a) Para fazer sahir um 



134 



grillo do buraco, costumam os rapazes pegar numa palbh 
nha de centeio e engravatar o buraco, dizendo (Guimarães): 

Sae grilliaho^ 
Sae grillão. 
Que lá vem 
O S. João. 

b) Noutra versão de Guimarães, diz-se : 

Sae grillinho^ 
Sae grillâo. 
Que aadaai os porcos 
No teu lameirão. 

c) Numa versão de Vouzella, os rapazes levam ou uma 
candeia accesa ou uma lumieira de palha, chegam a luz ao 
buraco e dizem: 

Grillo grillioho 

Sae do buraquinho i^*. 

.d) Os grillos nas aldeias são muito estimados, e, quanda 
elles cantam nas pilheiras das cosinhas, dizem que é signa! 
de fortuna para a casa (Beira- Alta). No citado art. do snr. 
A. Luso lê-se: «e que fortuna não é para a casa onde can- 
tar o grillo branco !» (íb. pag. 63). Nas cidades costuma-se 



112 A. de Gubernatis, Myth. Zoologique, u. pag. 77-79, trar 
várias fórmulas^ semelhantes ; cuàmos uma para amostra : « Je tronve 
dans Du Cange, qu'au moyen âge les enfants avaient coutume de » 
reunir le soir dè Noêl avec des perches^ munies à chaqae bout â*aa 
torchon de paille à laquelle ils mettaient le feu, puis ils aUaient aa« 
tour des jardins et s'approcbaient des arbres en chantant : 

Taupes et mulots 
Sortez de mon cios, 

Sinon je vous brúlerai la barbe et les os.» 



135 



Ler em casa o griilo nuraa pequena gaiola. A respeito do 
canto do griilo, cf. esta cantiga da Feira: 

Agora cantara os gr i lios, 
£' signai de tempo quente. 
Adeus^ amor de algum dia, 
Jà que não fostes pr'a sempre. 

e) No Brazil diz-se que quando canta um griilo negro 
é signai de morte em casa ou na visinhança, e quando 
canta um griilo pardo é signai de boas novas (Alman. de 
Lembr. 1860, p, 182). f) Recolhi de Villa Real um conto 
popular, chamado Historia de João Griilo, no qual entra o 
adivinhão João Griilo que adivinha por acaso differentes 
cousas. Numa terra chamaram-no e perguntaram-lhe, aper- 
tando na mão um griilo: «Que está aqui dentro?» Elle, 
como não sabia, disse a lastimar-se «Ai ! Griilo, Griilo, onde 
estás tu mettido!» E assim cuidaram os outros que elle ti- 
nha adivinhado. [Em pequeno ouvi na Beira-Alta uma va- 
riante do conto]. ^^* 

265. Louvddens, — a) Em Villa Real, quando se vé 
um louvddeus (louva-a-Deus), diz-se-lhe a seguinte fórmula, 
e elle fica quieto, alevantando as mãos: 

Louvádeus, louvàdens, 
Ergue-as mãos para Deus. 

bj Era Vouzella, quando se vê um louvàdens, pergun- 
ta-se-lhe : «louvinhádeus, pVa que banda foi o lobo.^» E elle 
alevanta as mãos para a banda para onde foi o lobo. 

266. Bicha d*âl-rei. Ha um bichinho chamado bicha 
d'ál-rei^ que quando se lhe diz 



"3 Cf. Myth. ZooL, n, 49 e not. 50. 



136 



Bicha d'àl-rei. 

Põe nâs mãos p'ra o ar^ 

Seiiáo matarei^ 

ergue logo as mãos (Sandim). 

267. Joanninha. — a) Para caçar a Joanninha, diz-se- 
Ihe (VUla Real) : 

Joaninha^ voa^ voa^ 
I^va as cartas a Lisboa. 

b) Duas variantes .de Gaia, que, cora muitas outras 
tradições, devo ao meu amigo J. Vieira d'Andrade, dizem: 

i.* Vôa, vôa, joaanioha. 

Que teu pae stà em Lisboa^ 
Comendo rabinho de sardinha^ 
E a tua mãe está em casa. 
Comendo caldo de gallinha. 

2.* Joanninha, avôa, avôa. 
Que teu pae stà em Lisboa 
C'um rabinho de sardinha 
Para dar à joanninha : 
Joanninha não no quiz, 
Deu-le um p. no nariz. 

£à * • . £à t . . jEi ... í^ ... 

268. Mosca. — a) Quando entra em casa uma mosca 
vareja ou varejeira {Musca carnaria) é signal de visita 
(Porto). Na Extremadura diz-se o mesmo e acrescenta-se 
que também é signal de presente próximo, b) Recolhi de 
Cabeceiras de Basto ura conto popular em que entra um 
tolo que, entre varias parvoíces, fez a seguinte na occasião 
em que ia comprar doze vinténs de carne ao açougue: 
«Stábo (estavão) là as moscas, zum-zum, zum-zum ; pega 
elle e diz: — ó minhas sandeirinhas, tendes fome? pegae 



137 



lá a carne. — Vae o carniceiro pega nella e põe-na no ta- 
lho. D'ahi a oito diaS; torna lá que le desse os doze vinténs, 
e o carniceiro disse que Tos [le os = lhe os]. num dava. Des- 
pois elle foi chamar um doutor para citar o carniceiro. O dou- 
tor o conselho que le deu (ao tolo) foi que assim que visse 
as moscas, fosse onde fosse, que Tatirasse co'a moca, e que 
as matasse. Neste comênos, pousa-se uma no nariz do dou- 
tor, elle (o tolo) dá-le co'a moca e rachou-ra cabeça; o doutor 
inda por fim le deu os doze vinténs.» [Ouvi em pequeno 
um couto, semelhante a este episodio, no qual um homem 
que era apoquentado pelas moscas foi consultar um doutor : 
o doutor disse-lhe que lhes atirasse com a moca onde quer 
que as visse; nisto as moscas pousam na cabeça do dou- 
tor, e o homem executa ahi mesmo as ordens do lettrado]. 
c) Uma adivinha da mosca diz (Douro etc.) : 

O que é que nasce na deveza 
E vac comer co'o rei á mesa ? 

269. Abelha. A respeito da abelha que dá mel para 
os vivos e cera para alumiar os mortos, diz se em Torre- 
de-Dona-Chama esta adivinha: 

Qual ó o animal que voa^ 
Sem tripas nem coração. 
Que dà luzença aos mortos 
£ aos vivos consolação ? 

No concelho de Bouças diz-se também a seguinte, cuja 
fórmula inicial é commum a outra adivinha do morcego: 

Estudantes que andaes no estudo 
Nos livros da philosophia, 
Dizei-me qual é uma ave 
Que nào tem peitos e cria. 
Que dà tristeza aos vivos 
E aos mortos alegria. 



/ 



138 



Nesta, ao contrario da de cima, a abelha dà tristeza 
aos vivos por causa dos mortos que ella alumia. 

270. Formigas. — a) Em Guimarães, as freiras da 
Carmo, para evitarem que as formigas fossem ao doce, pu- 
nham na porta dos armários um papel com este letlreiro: 

Em louvor de S. Bento 

Que nào venham as formigas cá dentro. 

Em Taboaço também onde se não quer que as formi- 
gas vão, põe-se um escrito era honra de S, Supriano (S. 
Cypriano). Em Santarém põe-se no mesmo sitio um papel 
com estas palavras: Esta casa é de S. Francisco, b) Os 
rapazes, quando, num sitio em que possa haver formigas, 
faliam de um ninho, dizem que elle tem pedrinhas ou cassa- 
pinhos conforme tem ovos ou pássaros pequenos, — isto 
para as formigas lá não irem (Beira-Alta). c) Em Arco- 
zello, ao pé do Porto, diz-se o seguinte, que parece uma 
imprecação : 

Deus le dê tantos annos de vida. 
Como de palmos tem uma formiga. 

d) Também ha uma quadra que diz (Oliv. de Azeméis) : 

O diabo leve os ratos 
Mai-los dentes ás formias^ 
Que me roeram os livros 
Onde eu studuva as cantias. 

ej Uma adivinha de lou (concelho de Valle-Passos) re- 
presenta assim a formiga e os seus óvulos : 

Que é, 

Tem pescoço de cabra. 
Bico de torquez. 
Branca como a neve, 
E preta como o pez ? 



139 



271. Piolho, — O primeiro bicho (piolho) que appa 
rece na cabeça de uma criança deve ser morto na aza de 
um cântaro para a creança cantar bem (Douro). 

272. Pulga. — Em Oliveira d'Azemeis diz-se: 



A pulga disse que a mata^se^ 
Mas que a não estorcegasse. 



273. Boa-nova, — As boas-novas (borboletas) quando 
entram em casa annunciam cousa boa, -se são brancas, e 
cousa má, se são negras (Beira-Alta, etc). Em Santarém 
também se diz que as mariposas são signal de boa nova. ^^* 

274. Besouros, — Os besouros são agoureiros (Extre- 
madura). 

275. Vdccaloura. Os appendices córneos da cabeça 
d'este insecto trá-los o povo para livrar de ar, feiticeria, etc. 
fMinho, Beira-Alta, etc.) Em Rio de Moinhos (Vizeu) Irazem- 
nos no hombro, por dentro. Muitas pessoas costumam até 
encastoá-los. [O insecto no Entre-Douro-e-Minho cliama-se 
vdccaloira^ em Resende carrôa, em Rio de Moinhos car- 
rócha^ etc.]. 



11* Gubernalis falia também do «papillou (peut-étre le petit 
papilloQ noir à taches rouges) qu'oii appelie ea Sicíle, le petit oiseau 
de bonnes nouvelles (occidduzzu bona nova), ou le petit cochon de 
saint Antoine fpurciduzzu di san Antoni) et qui croit-on, porte bo- 
nheur quand il entre dans une maisoii. On reni:>age à veiiir à la mai- 
soD qu'on ferme aussitôt qu'il a pénólró^ aíia d'empécher le bonheur 
d'en sortir. Quand rínsecti3 est eutré^ on lui chante : 

'Nlr'à to vucca latti e meli, 
'Ntr'à mè casa saluti e beni. 

{iiyth. Zoai: ii. 224 e not. 1.) 



Í4Q 



276. IV. VERTEBRADOS.— Neste grupo conheço su- 
perslipões a respeito de todas as classes : 

277. A. Peixes. — a^ Umas cantigas populares dizem: 

O mar pediu a Deus peixes, O mar pediu a Deus peixes. 

Para andar acompanhado : Os peixes a Deus fortuna ; 

Quando o mar quer cornpanhia, O homem pediu sciencia 

Que fará um degraçadol A mulher a formosura. 

b) As creanças corh asthma devem trincar um peixe 
em dia de S. João para sararem (Dcanha). c) Quando os 
pescadores vão ao rio Vau e Tâmega ao peixe, ouvem uma 
voz (do Tardo) que lhes pergunta : «O peixe é para mim ou 
para vós?» Se os pescadores dizem que é para elles, nào 
pescam nada; se porém dizem que é para o Tardo, são fe- 
lizes. O melhor peixe que apparece, trincam-no com os den- 
tes e deilam-no ao rio, para serem felizes. O mesmo fazem 
para o mesmo fim ao primeiro peixe que apparece. (Infor- 
mação de uma senhora de edade, de Gab. de Basto). "^ 
c) No meu escrito Cosmogonia popular portugueza (in Van- 
guarda) publiquei um conto intitulado — A torre de Babylonia^ 
quem Id vae nunca mais torna y — no qual um pescador que 
vae ao mar encontra o rei dos peixes que lhe pede que o 
não pesque, mas que a final é pescado por instigações da 
mulher do pescador. ^^^ d) Para se saber se uma mulher 



"5 Nesta importante noticia, em que o Tardo figura <wmo uma 
verdadeira divindade das aguas, parece estarem confundidas três ver- 
sões distinctas: ou a felicidade da pesca depende da resposta dos 
pescadores (1/), ou da offerta do melhor peixe (2.*), ou da oiferta 
do primeiro peixe pescado (3.*). 

116 Nos Contes populaires de la Hanfe-Bretagne, por Paul Se- 
billot (Paris 18S0, in 8.") vem sob o n.» xviii um conto Le roi des 
Poissons no qual o rei áo^ peixes pcile ta'nbem ao pescador que o 
nào mate; porém o pescador, a instigações da mulher maia-o. Vid. 
também Gubernatis, n, 361 (Myth. Zool.J e Tylor (Civil. Primil. i> 
p. 387). 



m 



que anda gravida traz rapaz ou rapariga tira-se a espinha 
a uma sardinha e deita-se ao lume ; se a espinha se vira, 
nascerá rapaz; se não, nascerá rapariga (Minho, Sinfàes, 
etc). e) De uma rapariga que é muito bonita costuma-se 
dizer: Aquiílo é um peixe! f) Apesar de haver peixes, 
como os atuns, os músicos^ etc, que produzem uns certos 
sons, costuma-se dizer em forma de dictado: é mudo como 
um peixe, g) Um ornato frequente nos jugos dos bois é o 
peixe (Vid. o meu Estudo Ethnographico, pag. 38 e sqq.). 

278. B. Batrachios. — Conheço superstições a res- 
peito das rãs e dos sapos. 

279. Rans. — a) Matar as rans causa dores de ca- 
beça, porque ellas vão todos os dias ao ceu lavar os pés 
do Senhor (Paços de Ferreira;, b) As rans quando cantam 
annunciam bom tempo. ^^^ 

280. Sapos. — a) O sapo teve desavença com a co- 
bra e cortou-the o rabo. Um dia quiz pôr termo á desa- 
vença e foi ter com ella, mas a cobra disse-lhe: «E o meu 
rabo?» ^S. Christovão de Nogueira de Sinfães). b) A codor- 
niz passando um dia por certo sitio, viu o sapo à porta do 
seu covil, e como elle só tivesse visivel a cabeça, a codor- 
niz encantou-se da belleza dos olho^ d'elle e pediu-lhe que 
sahisse para fora; o sapo obedeceu, mas a cordoniz ater- 
rou-se tanto com a figura d'elle, que se retirou bradando: 
mTem-te lál Tem-te lá! Temrte tó/» D'aqui acredita-se que 
veiu a forma do seu canto (cf. adeante) (Paços de Ferreira). 
c) Quem está atacado de feitiços cose os olhos a um sapo 
com retroz vermelho, prende-o com um barbante à perna 
do leito e detém-no alli por espaço de Ires dias, ao fim dos 



"7 Cf. Plínio, H. N., liv. xvm, 78-88.— A pronuncia popular 
da rã em alguns pontos é arrã (a-rã). 



142 



quaes o levantara ao ar três vezes, e em seguida o quei- 
mam numa boa fogueira (Paços de Ferreira), d) Muitas 
fórmulas para talhar começam : 

Eu te talho, 
Bicho bichào^ 
Sapo, sapão, etc. 

e) Tem-se muito terror do sapo, por que se cuida que 
elle é venenoso. /; Quando se quer matar um sapo, se elle 
não ficar Ijem morto, vae de noute ter á cama de quem lhe 
fez o delicto (Porto), ou vae lá ourinar (Penafiel), g) Para 
fazer mal a qualquer pessoa, apanha-se um sapo e criva-se- 
lhe a cabeça de alfinetes. Todas as dores que o sapo sentir, 
senle-as a tal pessoa até que morre, e o sapo não sente nada 
(de) (Apud Consiglieri Pedroso, Superst. pop,^ — vaiia^ n.^ 
439A h) Quando se encontra um s:ipo, deve espetar-se 
com uma canna, da boca â barriga, deixando a mesma 
canna, assim cora o sapo, enterrada na terra. Ninguém que 
passe o deve tirar d'aquella posição, porque, se o fizer, lira 
a fortuna á pessoa que o espetou (Id. ib. n,^ 257). i) Uma 
pelle de sapo, cortada do laraanho de doze vinténs em 
prata, e posta de raôlho era vinagre durante quinze dias, 
livra de anthrazes (Id. ib. n.® 305). j) Devera-se matar os 
sapos, espetando-os num páo, por causa dos feitiços (Villa- 
íleal). k) aE' tal a aversão que o povo lhes tem (aos sa- 
sapos) . . . que chega mesmo a dizer que se deve cuspir 
três vezes fora, todas as vezes que se fallar em sapo, para 
que não nasçam sapinhos na boca.» (Augusto Luso, — Er- 
ros acerca de algwns animaes^ in Livro de Leitura pag. 72). 
l) Diz-se que, quando chove, os sapos nascem das gottas 
da chuva. 

281. c. Reptis. Conheço superstições a respeito das 
cobras e dos sardões. 

282. Cobras. — a) As cobras são inimigas dos homens 



e amigas das mulheres (Beira, Douro, etc). b) «As cobras 
no principio do mundo pediro (pediram) a Deus pernas. O 
Senhor preguntou-le p'ra quê. Disséro que p'ra correr a trás 
dos bornes. O Senhor não le deu as pernas» (Cabepa-Santa 
no c. de Penafiel), c) Sonhar com cobras é signal de di- 
nheiro (Minho), d) Dm rapaz que quer captivar uma rapa- 
riga passa pelos olhos d'uma cobra uma agulha enfiada, e 
depois pelo vestido da rapariga (Mondim da Beira, etc). 
Era Guifões (c. de Bouças) disseram-me que, quando um 
rapaz quer captivar uma rapariga, apanha uma víbora^ ma- 
ta-a, e pôe-na em agoa corrente, de modo que a agua leve 
a carne toda e fique só o esqueleto ; depois pega no esque- 
leto da vibora e toca com elle a rapariga : esta fica logo ena- 
morada do rapaz, e) As cobras são inimigas da luz ; qutmdo 
ha' um caminho cheio d'ellas, deve pôr-se no chão um ar- 
chote acceso; ellas não descanpom emquanto o não apaga- 
rem a bater-lhe com a cauda (Perníimbuco). fj Para en- 
cantar a cobra, diz-se a Salvè-rainha ás avessas; depois 
pôde pegar-se n'ella, que não faz mal (Portêllo ao pé da 
Regoa). g) W muito espalhada a superstição de que as co- 
bras gostam de leite (Norte e Sul do paiz) ; dizem já que 
ellas se escondem nos estábulos das vaccas, já nas camas 
com as mulheres que andam a criar, e acrescentam que 
emquanto mamam no seio da mulher tem a ponta da cauda 
mettida na boca da criança para a enganar. Ligada a esta 
superstição anda a seguinte : que quando entra pela boca 
dentro a qualquer pessoa uma co])ra, é bom, para ella sa- 
liir, pôr ao pé uma bacia com leite (Beira-Alta, ect.). O 
conto n.** XX da collecção do snr. F. A. Coelho (pag. 46-48) 
allude á mesma superstição, h) Uma cantiga diz (Sinfães) : 

Lindos olhos tem a cobra, 
Q'ando olh«i de repente : 
Ninguém so fie em mulheres. . . 
Quanto mais juro mais mente. 

i) Diz-se que as cobras quando vão beber deixam a 



144 



peçonha sobre uma pedra ; se alguém puder tirar a tal pe- 
dra, ellas, quando vem de beber, ficam muito arrenegadas 
por não poderem tornar a ser peçonhentas, j) Quando se 
arranca um cabello pela raiz e se mergulha em agua muite 
tempo, engrossa até se transformar em cobra (Mafra, Do«- 
ro, etc). 

283. Sardão, — a) O sardão é amigo dos homens e 
inimigo das mulheres, a respeito de que se contam vários 
casos; um d'elles é que, estando uma vez um homem a 
dormir e vindo uma coÍ)ra para lhe entrar pela boca dentro 
(cf. § 281, ãy g)^ o sardão começou a bater com a cauda 
na cara do homem para este acordar (Beira-Alta, Douro, 
etc.) Outro é o do sardão que ataca uma tecedeira, def^ 
dendose ella a deitar-lhe novelos que elle vae engolindo. 
Cf. também a lenda da Senhora da Lapa^ na Beira-Aita. 
b) No principio do mundo, o Senhor perguntou aos sar- 
does se qtterio pernas : elles dméro que sim. «E p'ra quê?i 
«Para fugir dos homes». O Senhor deulhe então pernas (Ca- 
beça Santa. Cf. § 281, b). c) Para encantar os sardões, diz- 
se o Padre Nosso ás avessas, e atira-se-lhe com uma moe- 
da de 10 reis; elle morde-a e quebra os dentes (Portêllo 
ao pé da Regoa. Cf. | 281 /;). 

284. D. Aves. — Ctico. a) A poupa foi uma vez cha- 
mar o cuco para a ajudar a fazer certo trabalho ; disse o 
cuco (Gondifellos) : 

Eu, se estiver puão, 

Vou-te dar uma de mào, 

E se estiver de nevoeiro, 

Quero ir para o meu cuqueiro. i^s 

b) A poupa era a mulher do cuco, mas a poupa andava 



's Cuqtieiív, — ramalho onde canta o cuco. 



Í45 



nigad<i (amancebada) com o mocho; depois o cuco man- 
3u bater [com licença . . . , — nota da informadora] no c . . . 
) mocho; o mocho dizia: ui! ui! quando lhe batiam; e o 
ico: no C...I no c,,,l; e a poupa: poucas! poucas! 
rondifellos) . c) Quando as raparigas andam a aprendera 
ir e ainda pouco sabem, dizem-lhes que ellas andam a fiar 
ira as calças do cuco (Guimarães ; Gaia), d) Se as raparigas 
ío mostrarem um fiado ao cuco, elle tira-lhes os olbos [Di- 
m as mães isto ás filhas para ellas trabalharem]. (Fa- 
jã no concelho de Fafe), e) Assim que se ouve cantar 
cuco, cuidam as mulheres em curar as suas meadas, por 
pporem que elle anda a metter a bulha ás que não fiarem 
iiiho, — apud i4/m. deLembr. de 1854, p. 136). f) Quem 
ive cantar o cuco, de manhã cedo, não morre nesse anno, 
Quando qualquer pessoa em jejum ouve cantar o cuco, 
stuma dizer: «Lá vem o cuco que me caçou em je- 
m.» "^ (Fareja no cone. de Fafe), h) Uma quadra de A, 
'de Castilho, publicada no Almanach Occidental para f 879 
orto, Typ. Occid., 1878, pag. 48), diz o seguinte que pa- 
ce referir-se á superstição de que o home, cuja mulher 
3 é infiel, se chama cuco: 



Lembrou-se de casar Thomé caduco ; 
Porém nào quiz : -~ a causa ? ao pôr do sol 
Enterneceu-se ouvindo um rouxinol ; 
Mas já de tarde tinha ouvido um cuco- . . 120 



Um meu amigo disse-me de cór esses versos de ura 
eia nosso : 



119 «Si Ton entend chanter le coucou à jeun, ou será vouen 
i ouraun engoardissement de tous les membres) toute Tannée. On 
• alors quo le conrou a-t-attrapé, (Faune pop. de la France, par 

RoIIand. Paris 1879, t. n, p. 95). 

120 Tous les noms da coucou s'appliquent également aux maris 
3mpés (E. Rolland, Faune, etc, ib., pag. 89). 

10 



146 



i) A seguinte quadra da Beira-Alta e do Douro an- 
nuncia o tempo do cuco : 

Se o cuco não vem 
Entre Março e Abril 
Ou o cuco é morto 
Ou não quer vir. i«a 

j) O cuco é uma ave phallica e casamenteira por ex- 
cellencia; as raparigas, rapazes, ele, quando o ouvem ciscar, 
costumam perguntar-llie (Minho, Douro, Beira-Alta, etc.) : 

Caco da gesteira^ CuquÍQho da beira-mar^ 

Quantos annos me dás solteira ? Quantos annos me dás pr*a casar? 

Cuco da carrasqueira^ etc. Cuco da carvalhadà. 

Cuco da carvalheira^ etc. Quaotos anãos me dàs de casada? 



Cuco da ramalheira^ etc. 



Cuco da vidarada^ etc. 



Um tabellíão caduco^ 
Com mulher moça casado^ 
Vae fazer papel de cuco 
Tomando o novo estado; 



Cuco de Janeiro^ 

Quantos annos me dàs solteiro? Cuco da Carraspuda^ (logar) 

Quantos annos me dàs de viuva! 

Cuco de Maio^ 

Cuco d'Aveiro^ Cuco da rameira, 

Quantos ánnos Quantos annof^ me dàs de vida^ 

Hei-de estar solteiro? Dou-te seis vinténs na algibeira? 

Depois contam-se as cucadas do cuco : tantas vezes 



121 Como esta estrophe traz E. Rolland diversas (Faune, etc.^ 
p. 83-85). Eis uma: 

Entre mars et aivri 

Chante, coucou, si t'ó vi (vivant). 



147 



elle disser cvrcu, tantos annos se está solteiro, casado, 
etc, (Cf. § 200) *". 

k) Cf. a seguinte cantiga de Mondim da Beira : 

Voa- me casar a Salzedas^ 
Qae me deram por degredo^ 
Que ó terra de muito padre^ 
Cauta là o cuco cedo. 

l) Do cuco é costume dizer (1 Arcozello; 2 Gondi- 
fellos) : 

!• No tempo do cuco *• O cuco. 

Chove de manhã. Pequeno corpo. 

De tarde está enxuto. Grande apupo. 

m) «Era Villa Nova de Famalicão a melhor festa para 
os habitantes da villa é a do cuco. E' sempre no dia de S. 
Bento (21 de Março). Vae o cuco-mór mettido em uma li- 
teira puxada por dois burros lazarentos; depois do cuco- 
mór segue-se o trem, que consiste em taxos, bacias, cal- 
deiras, etc, tudo muito velho, carregado em jumentos; e atrás 
de tudo segue-se o brazâo d'armis dos irmãos da confraria, 
que é outro jumento carregado de chifres de boi. Em todos 
os largos pára esta linda comitiva, e o cuco-mór envia en- 
tão varias aves pequenas, como pardaes, chascos, etc, di- 
zendo: «Ahi vae um cuco para a freguezia de tal, outro 



12S E. RoUand traz várias fórmulas semelhantes (ih., p. 93-94) 

Goucou Coucou des villes, 

Boloutou Coucou des bois, 

Regaide su ton grand livre Combé ai-z'y d'années 

€omben i a d'énées è vivre. A me maria? 

Em Bemoni (Credenze pop. venez, p. 60) lé-se : 

«Al Cuco, nella bassa Lombardia, si rivolge questa dímanda : 

Cuco dia cua bianca, 
Quanti ani voet che scaropa?» 



ua 



para a freguezia de tal»^ e aasira corre toda a vill^-n^i 
{Aim. de Lembr, para 1857, pag. i46). fedepeodentemente 
doesta noticia, disseraia-me que ao di^ da fe^ta do e^co é 
costume travarem-se pouco mais ou menos estes diálogos 
entre os habitantes da villa : « — íhye quem é que vae bus- 
car o cuco?» « — E' o sijr. P. que tem UOS hois bi^ancost. 
— Depois flnge que vae basear os cucos, e que manda um 
para cada uma das freguezias onde ha mais raparigas.- 

285. Gallo. — a) O gallo d'antes fallava. QuaíidoQ» 
Apóstolos estavam á mesa, alDrmavam elles que Christo não 
era Deus, e Christo respondeu que era tanto Deus como o 
gallo fallar; foi então que o gallo disse: Coroado! E é ainda 
hoje a sua linguagem (Penafiel), b) Quando Christo nasceu 
disse o gallo : Jesus-Christo é hd. . . d-- - d. . . do (mio), 
£ é esta a sua linguagem, c) Os gallos velhos põem us^ 
ovo d'onde nasce um sardão, que matará Q donq da q9^ 
(Minho), d) «Diz o povo que o gallo aos sele aTOOS pô^ 
um ovo, do qual nasce uma cobra j> (A. Luso, — 'M'f^'08 dcerc» 
de alguns animaes, in Livro de LeUurOy pag. 74). é) «O g^Uo^ 
estando sete annos numa casa, põe um ovo d^oiide sae uma. 
serpente. Se esta fita primeiro o dono da casa, este^ morrei; 
se é o contrario que se dá, ó a serpente que morre» (Goa- 
siglieri Pedroso^ ^- Superst. pop. — Varia — , n.® 514). 
f) O gallo, ao flm de sele annos, põe um ovo doiide sae vm 
bicho mau (Moncorvo), g) «Quando um gallo canta quatro 
vezes antes da meia noite, é signal de morte» (C. Pedroso, 
ib., n.** 188). h) Para tirar o medo a qualquer pessoa, é 
bom que elía coma atraz d'uma porta cristas de gaUo assa- 
das (Douro), i) É (ou era) costume em muitas partQe (Dohío, 
Traz-os-Montes, Beira-Alta) correr o gallo por occasião do 
Entrudo. Estende-se uma corda, de banda a banda, ás pa- 
redes de umcarniobo e pendura-se nella o gallo. Os rapa- 
zes vm armados de espadas, e dizem (Moiiçorva) : 



149 



Este gallo ó malvado, 
Desboorador das galliobas ; 
lada bem nao amanhece^ 
Jà atida peláâ ttirtitihàs ^» 
Cà^ Orá^ cá. * . á. • . á. . • 

Este galk) é malvado 

Da cabeça até ao rabo^ ete. 

Depois os rapazes erguem a espada para o apanhar, 
mas nesta occasião os que eslão de cada lado do caminho 
puxam a corda, e o gallo sobe, de modo que é preciso 
muita destreza da parte dos guerreiros para o matar. O 
gallo morto é levado ao mestre-eschola (Moncorvo). — Em 
ChiifSèà (conó. de Bouças) também d'antes se corria o gallo 
pot occasião de qualquer festividade. Quem lhe cortava a 
(^be^ com a espada, ficava com elle. -—Tanto em Moncorvo 
6òmo em Mondim da Beira, etc, dizia-se na occasião da 
t(fttiáÁ do gallo: 

tiallo^ gallarós^ 
tem nas pernas de retrós^ 
Quatido vae para o poleiro 
Vae cag. para vós. 12* 

Outro meio de correr o gallo, em qualquer rifa, etc., 



183 Curtinha, tanto em traz-os-Montes como na Maia^ ó o campo 
da porta (campo áo pé da porta). 

^^ «En Allemagne^ on íaísait danser des coqs^ qu'on sacri- 
fiait eíisaite le 25 JuiUet, Jonr consacré à saint Jacqnes (le saint qui 
vide là bOQteiHe, comme on dit en Piémont), à saint Ghn^itophé et à 
Fánéien diéu du tonnerre Donar (Myth, xooL, n, p. 298-299> trad. 
fr.). «D'après un usage en vigueur dans les fétes des coriités d'Gssex 
et de Norfolk . . . un individu, les yeux bandas, gagn<í un coq sMl réussit 
à Tatteindre sur les épaules d*une autre personne (ou bien étaut ren- 
ItírtD/é dans on not élevé à ámte ou qaatorze ttièds de teri^, centre 
lequél on lance dee projectiles — Le saeriíiee dm iboC( était en vaátià 
ásiks rinde^ en Gròee et m Allemagae» (ib.> p. 305)i 



150 



era (Maia, etc), enterral-o com a cabeça de fora, e ir o 
espadachim cora os olhos vendados a ver se lhe cortava a 
cabeça com a espada; cortando-a, ganhava. 

j) A respeito de quando matam um gallo, ha na nossa 
lUteratv/ra de cordel vários livrinhos com o testamento do 
gallo. De Cab. de Basto recolhi também estes versos: 

O gallo ó guerreiro, 
Dà um grito no poleiro. 
O' galliiihas, vinde ver 
Que este gallo está a morrer. 
Tenho o meu dito acabado, 
Não tenho mais que dizer. 

k) Por meio de um pequeno golpe dado no pescoço 
de um frango preto, extrahe-se-lhe sangue com o qual se 
dá uma fricção forte nas costas*da creança doente de lom- 
brigas, até que appareçara borbulhas que depois são apara- 
das com uma navalha de barba, na crença de que essas 
borbulhas são as cabeças das lombrigas que acudiram ató 
ao cheiro do sangue (A. Luso, — Erros, etc, ib., p. 74).. 
/) O canto do gallo annuncia a vinda do novo dia. Cf. este 
hymno da Egreja : 

Gallus jacentes excitat : 
Et somnolentos increpat^ 
Gallus negantes arguit. 
Gallo canente spes redít^ 
Aegris salus refunditur. 

{Bnviarium). 

m) Gallo que canta de gallinha é mau agouro (Vill^ 
Real), n) O canto do gallo á meia noite faz dissolver â 
assembleia do Diabo e das Bruxas ^^. o) A noite do Natal 



12^ «Dans TAvesta, le chant da coq accompagne la fuite des 
démons^ óveille Faurore et fait lever les hommes (Myth, zoai. p. 297 
tom. n). Yid. este livro num dos cap. seguintes. 



151 



ama-se a noite do gallo, porque á meia noute se diz a 
issa do gallo (Moncorvo, etc). p) Nos telhados dos edi- 
ios e principalmente nos das torres das egrejas é muito 
stume pôr um gallo de ferro pintado de vermelho ou de 
'eto a servir de cata-vento ^**. q) Adivinhas do gallo : 

Foi, nao é; (frango?) 
Gome e bebe 
E anda em pé. 

(Tell5e«, o. d' Amarante). 

Que é, que é, 

A' meia noite se levanta o inglez. 

Sabe das horas e não sabe do mez. 

Tem esporas e não é cavalleiro. 

Escava no chão e não acha dinheiro? (Ouimar&ea) 

r) E' mau agouro cantarem os gallos antes da meia 
•ute. Cf. este § em g. Um adagio minhoto diz : 

Gallo que fora d*horas canta 
Cutello na garganta. 

s) Ouvi em pequeno (na Beira-Alta) um conto popu- 
) que infelizmente não tenho todo na lembrança, más em 
5 entravam quatro animaes de que dois eram o gallo e 
rato. Estes quatro animaes dizem, não sei a que pro- 
lito : 



. í^ «En Hongrie (oú Ton place un coq de fer blanc, peint de 
érentes couleurs, au sommet des grand: édifices pour indiquer la 
ection du vent, — c^est la girouette (weathercockj d'Ang|eterre et 
^lie; noQs avous tous entendu parler du coq de Ia tour de Saint- 
rc à Venise, qui fait sonner les heures), on croit que pour apai- 
'. le diable il faut lui sacriíler un coq noir. Le coq rouge^ au cen- 
tre, est un signe dincendie» (Myth, zooL, n, p. 304; cf. not.). En 
Grimm acho a seguinte noticia, no cap. do fogo: « — Das volk 
rgleicht dicses element einem von haus zu haus fliegenden hahn : 
'h will dir eincm rothen hahn aufs dach setzen' ist drohnng des mord- 
mers— (Deutsche Mythologie.—eá. de Berlim, 1875, pag. 500). 



é 



152 



Vamos todos quatro, 
NiQgoem nos mette papo. 

Não sei também a. que propósito, dis o gallo, noutra 
parte do conto : ^mosPí^a-lhe a ordem I mostrchlhea ord&aúi. 

286. Gallinha, — a) Eis aqui uns curiosos versos in- 
titulados A minha gallinha pinta^ e recolhidos em Cabeça 
Santa (cone. de Penafiel) pelo alumno de medicina o meu 
amigo A. M. de Souza Baptista a quem devo muitas outras 
informações [Também na B. Alta ouvi em pequeno parte 
d'estes versos] : 



A minha gallinha pinta 
Põe três ovos ao dia; 
Se ella puzera quatro^ 
Que dinheiro não fazia t 

Jà me davam pela cabeça 
Uma vaquinha moresca; 
Jà me davam pela crista 
Uma vaquinha moirisca; 
Jà me davam pelo bico 
A renda do senhor bispo; 
Já me davam pela língua 

ÍL cidade de Cfoimbra ; 
à me davam pelo pescoço 
Uma dama com seu moço ; 
Jà me davam pelo papo 
Raza e meia de tabaco ; 
Já me davam pela moela 
Uma vaquinha moirela ; 
lá me davam pelo coração 
A renda de S. João ; 



Jà me davam pelas tripas 
Duas feixadas de fitas ; 
Jà mjB davam pelo rabo 
Um cavallo enfreiado; 
Já me davam pelas azas 
Na ribeira umas casas ; 
Jà me davam pelas pennas 
Duas vaquinhas morenas; 
Jà me davam pelas pernas^ 
Umas meias amareiias; 
Jà me davam pelas uubas 
Cento e meio de agulhas; 
Jà me davam pelo corpo 
Toda a cidade do Porto ; 
Já me davam pelo dl (rim) 
Um porrão de sahiL ^^ 

Gallinha que vale tanto 
Vae-Sft levar ao convento^ 
Para que as freiras digam : 
«Chô pr'afóra... chô p ra dentro. 



b) Quando as gallinhas se espiolham é signal de chuva 
(passim). g) Para as gallinhas não fugirem, paasam-se por 



^ Porrão é om pote; sahil ó um certo liquido combustível. 



153 



baixo de uma tripeça, e diz-se três vezeâ (Oliveira de Aze- 
méis) : 

Eu porqai te passo 
E aqui te torno a passar; 
Qaaodo eu te procurar 
Aqui te veuba achar. 

Segundo outra versão (que recolhi de Paços de Fer- 
reira) diz-se, fazendo cruzes com os pés no lar junto da 
^^dlinba: 

Minha galliaba^ meu lar^ 
Oude te perder 
Eu te tome a achar. 

Segundo uma versão do snr. G. Pedroso (Vai^^u.^ 488) 
deve esfregar-se-lhe o rabo pelo lar, e dizer-se : 

Se eu te procurar 

Aqui te veoha encontrar. ^^ 

Segundo outra versão passa-se a gallinha debaixo do 
banco da cosinha (Paredes de Coura), d) Devem matar-se 
as gallinhas quando cantam de galío, por que isso é pre- 
nuncio de desgraça próxima (Extreraadura, etc). No Douro 
diz-se que 

Gallinha que canta de gaHo 
Quer em breve o amo no adro; 



1^ Cf. o costume aue ha em muitas partes (Beira-Ala^ Mi- 
nho etc,)^ de escrever nos livros o seguinte^ por cima da assignatura 
do dono : 

Livro meu muito amado^ Cavalheiro que te achar^ 

Tfaesouro do meu saber, So tiver uso de honrado, 

F<rigarei de te encontrar Se nao souber o meu nome 

No dia em que te perder; Eí-lo abaixo assignaâo. 




154 



e por isso a matam, dizendo: 

Agoiro 

Venha pelo teu coiro, i» 

é) No principio do mundo, quando os animaes falla- 
vam, a gallinha dizia (Penafiel) <<que muito se medisse e 
nenhum se vendesse» [o que certamente se refere ao grão 
que as gallinhas comem], f) Gallinha preta em casa livra 
o dono de ser abi^angido pelo diabo (Papos de Ferreira). 
g) Não é bom que as gallinhas entrem na incubação á quarta 
feira (ib.). h) Os ovos que a gallinha puzer em quinta feira 
de Ascenção, do meio dia para a uma hora, nunca apodre- 
cem, e livram de certas doenpas (C. Pedroso, — Va7ia,n.^2W). 
i) Gallinha preta tem alguma cousa com feiticeria (id., ib., 
n.** 486). j) Não é bom deitar gallinhas quando troveja, 
porque grolam os ovos (id., ib., n.® 207. Cf. este livro 1 224). 
k) Para botar uma gallinha assobem acima d'um forno com 
umas calças vestidas com a cuada para a cabeça, e dizem: 

Era louvor de S. Salvador, 
Tudo pitiohas^ só um gallador. 

e rezam um P. N. e A. M. (as mulheres antes querem piti- 
nhas que franguinhos: Cabeça Santa e Penafiel). Conheço 
ainda mais fórmulas, uma já por mim publicada e outras iné- 
ditas, — para a occasião de deitar os ovos á gallinha: 

Em lougor de S. Gonsalo Em lougor de S. Salvador 

Para que saia tudo pitinhas Para que saia tudo pitiúhas 

E um só gaito. E um só gallador. 

(Paçoa de Ferreira). (Ib.) 



^^ Quando la galina canta de galo^ la ciama disgrazie o morte^ 
bisogna tirarghe súbito el colo. (D. G. Bernom,'-' Credenze popo- 

ri veneziana. — V^nezia. 1874. D. 21). 



e bisogna tirarghe súbito el colo. (D. G 
lari veneziane^ — Wenezih^ 1874, p. 21). 




155 



n louvor de Santa Rita Em louvor de S. Romão 

ne saiam tudo gallos Que nasçam tudo pitas 

ama só pita. Só um cantão. 

(Oaia). (Beira Alta). 

l) Para alguém saber da sua sorte, deita um ovo de 
illinha num copo bem limpo e cheio de agua (de modo 
le a gemraa se não desligue) ; depois põe assim o copo 
ra da janella ou porta, desde o anoitecer até ao amanhe- 
r: se o ovo tiver forma de esquife, annuncia morte; se a 
'er de navio, é viagem para o Brazil ; se a tiver de egre- 
é casamento, etc. [Isto é na véspera de S. Pedro ou S. 
ao] (Paços de Ferreira, etc). m) Adágios da gallinha: 

Os ovos que se botam em Janeiro 
Já vem a pôr no rolheiro. ^^o 

(Gaia). 

A gallinha de Janeiro 

yae pôr co'a mãe ao colmeiro. 

(Oliveira d'AzemeÍ8) • 

Gallinha pedrez 

Não a comasj nem a vendas^ nem a dôs. ^s^ 

(Passim). 

Pouco a pouco enche a gallinha o papo. 

(Pa«8im). 



íw Isto é, vem a pôr no tempo das rogas, porque o rolheiro 
i meda de trigo, centeio, etc. 

»8i O snr. C. Pedroso (Trad. pop.. Varia, n.« 485) diz : «K* 
bom agouro ter uma gallinha pedrez. Cf. o provérbio : gallinha 
írez, — nem a vendas nem a dôs». — - Não sei se elle ouviu a su- 
rsiiçào ao povo, se a concluiu do provérbio : por mim, tenho ou- 
lo a varias pessoas (Reira, Douro) que a razão do provérbio é por- 
e a gallinha pedrez põe muitos ovos. Cf. o dictado siciliano (Myth. 
oL Uj p. 300 e not. 1) : 

La gallina cantatura 
Num si vinni, nè si duna 
Si la maneia la patruna. 

A superst. siciliana annexa parece porém indicar agouro. 




156 



n) Gostuma-se dizer que pita qUê oania qk^tr gcãff, 
cf. esta cantiga de Mondim da Beira : 

Ai lari, lari, ló léla. 

Eu venho do S. Gonsalo; (romaria no oonoelho) 

Toda a vida oovi dizer : 

—Pita qne canta quer gallo. 

o) Adivinhas do ovo e das gallinhas : 

4 

Qoal é coisa, qual é ella^ Pij[)eirlnho, pipeirole, 

Capellinlia branca Nao tem por onde Ibe tire 

Sem porta nem tranca? Nem por onde Ibe bote. 

Redondinbo, redondoqae, — O que é que bebe e não mija? 

Não tem fundo, nem batoque. — A galliuha. 

— Cebo para quem tanto adivinfai. 

287. Andorinhas. — a) «Quando na beira do telhado 
de uma casa ha ninhos de andorinhas e alguém os des- 
mancha, é signal de que se desmancha a casa, porque o 
ninho de andorinha é sagrado e traí felicidade á casa onde 
está». (C. Pedroso, — Vaiia, n.^ 329). Em Mondim da Beira 
ouvi em pequeno dizer que só os judeus é que são capaxes 
de desmanchar os ninhos ás andorinhas ***. b) Não se d0- 
vem matar as andorinhas, porque ellas são gallinhas A 
nossQ-Senhor (Extremadura) ^^. c) As andorinhas vão to- 
dos os dias ao ceu lavar os pés ao Senhor ; por isso não #- 
devem matar os filhos d'ellas (P. de Ferreira; Cf. § 279— a) 



M 

132 «En Aliemagne; comme en Italie, les hirondeUes soAtiOM 
siâérées des oiseaux d excellent augure; c'est un pécbé mortetrap 
tuer ou de détruire leurs nids (Myih. Zool, ii, 253). Na firetaom 
ninho das andorinhas é sagrado; d ahi o provérbio: «Uirond6lle,in 
ton nid— A me petíte feuôtre, en Bretagne» (Sanvé^ Proverhes et é 
ctons de la B, Bretagnê, n,^ 919). 

133 Um dos nomes que E. RoUand traz da andorinha é Fiml 
de Dieu, «parce qu'elle joue un role dans les legendes pieuses» (Tom 
pop. de la Franóe, n, p. 315 e not. 2). 




m 



Quando as aa<JK)riahfts andam rasteiras é signal de cbuva 
íira, etc.) "*. e) Diz-se isto ás andorinhas (Minho) ; 

Andorinhas loneast 

Ides muitas^ vindes poi^^afi. 

f) Vid. I 218, A pedra de amdorinha é boa para as 
olestias de olhos (C. Pedroso, Vaiia, n.^ 471) ^^^. 

288. Milhafre. — O milhafre no Minho tem o nome de 
ifhk>k> e diz-se-íbe (Gondifellos) : 

^* Minhoto^ miaboto^ Passou pelo rio 

Que levas no goto? Ç mào se molhou, 

— Sardinha assada. Comeu uma broua 

— Quem t*a assou? E não se fartou, 
Maria Goa-Gou ; Comeu um bolo 

E arrebentou. 

2. Minhoto, minhoto, 

Fazd uma rodinha (volta no ar, a fugir?) 
Que eu tiB darei uma.pitinba. 

O povo teme o minhoto, porque elle leva frangos, gal- 
nhas, etc. 

289. Pombos. — a) Quando os pombos abandonam o 
ambal, é desgraça para alguém da casa (Paredes de Coura). 
[ Quem nma vez tem pombas, nunca mais deve deixar de 
\ tftr, porque é agouro (Extremadura) ^^^. c) Quem não^ 
m pombas ero casa não é afortunado (Gaia), d) Deve-se 
Aimar o pombal e os primeiros pombos que nelle entram, 
X^ depm3 nao fugirem; não fazendo assim, fogem todos 



18* O mesmo em RoJIand, ih., ih. p. 315. 
135 Cf. E. Ronaad, obr. cit., ii, pag. 317, sqq. 
i9e «Quando se dibtruge la razza dei coiombi, xe disgrazie». 
*noni, — Credenze pop. venez. pag. 22.) 



158 



(C. Pedroso, Vcma, n.® 240). e) Um provérbio, citado por 
Pedroso (ib. 299), diz : 

Casa de pombos^ 
Casa de tombos. 

o que é o contrario do que se disse em c. 

290. Corvo. — a) Uma vez andavam un§ pedreiros 
no monte a arrigar um penedo, o que lhes custava; passoa 
um corvo por cima e disse: Scabaí scabal scabal (escava?). 
D'aqui lhe veiu a sua feia voz (Papos de Ferreira), b) O 
corvo é uma ave agoureira ; quando alguém está doente, 
e anda um corvo por cima do telhado a gritar, ô doente ■ 
morre. Sempre porém que se ouve um corvo é mau (fm- 
sim) ^^^. c) Em Vouzella, quando o ouvem berrar, di- 
zem-lhe : 

Corvo negro do peccado, Vae ao Porto, 

Não insertes ^^s o meu gado^ . Que 'stà lá o teu pae morto; 
Nem no negro nem ao branco^ Come- lhe a carne. 
Nem ao que anda misturado. Deíxa-lhe os ossos 

Para amanhã pela manhã 
ao almoço i»» 



137 Esta superst. parece que tem uma forma mais primitivani 
Bretanha franceza, porque ahi cuida-se que dois corvos presidem a 
cada casa, ligados à existência dos chefes da familía; se um d'e8tei 
está para morrer, a ave sinistra vae para o telhado soltar gritos higa- 
bres^ e ahi íicaaté que o cadáver saia a porta; depois foge e não vol* 
ta^ porque era o génio ligado aos destinos do mundo CR^v. CeUiqu, 
pag. 269-270). — Em E. Rolland (t. n, Faune pop., pag. il6) vem 
a seguinte menção : « Wenn díe raben krãchzen wird in der nãhe âo 
ungluek vorfallen» (Tyrol, Zeitsch. f. d. d. Myth., i, 238). 

138 Insertes, O povo diz insertar por encetar, 

139 Noutros paizes também as creanças lhe recitam fórmulas 
Ex. (Rolland, ib. ib. p. 114) : 



159 



291. Gavião. — a) Os pastores (Vizeu) dizem ao ga- 
vião uma fórmula, variante do | antecedente em c: 

Gaviào do Dlabo^ Se queres caroe, vae ao Porto^ 

Nao me entres no meu gado^ Que stà lá o teu pae morto^ 

Nem no negro, nem no branco^ Eotre odres de vinho 

Nem no que anda misturado : E um quarto de carne assada (sic). 

b) D. Francisco Manoel no Fidalgo Aprendiz traz esta 
seguidilha : 

Gavião, gavião branco. 



ido. 



Yae ferido, vae voando. 

292. Coi^uja. — a) «Suppõe o povo que ella mora nas 
torres e telhados das egrejas, para roubar e beber o azeite 
•das lâmpadas» (A. Luso, — Erros acerca de alguns animaeSj 
no Livro de Leitwra^ p. 64). b) «Se, pousando sobre o 
íelhado de uma casa, deixa ouvir o seu grito rouquenho ou 
o sopro seguido, que se assemelha ao resonar d'uma pes- 
soa com a bocca aberta, entende o povo que ella chama 
liguem á sepultura; e com a ideia da noite e visinhanças 
dos cemitérios, olha a coruja como ave fúnebre e mensa- 
geira da morte, declarando-lhe a guerra mais atroz » 

(Id., ib., pag. 64). c) O povo teme principalmente os gritos 
-da coruja quando ha um doente numa casa (passim). 

293. Codorniz, — Nos arredores de Guimarães cha- 
gam calcoré á codorniz porque dizem que ella canta cal- 
€o-ré. Quando a ouvem cantar contam os gritos, e tantos 
ella der, tantos tostões custa o alqueire de milho nesse anuo 
(Guimarães, Avião, ele). 

Corp, corp. 

Vai t'en a la mar. 

Es tu que manges lous corses; (cadáveres) 

Tous petits manjoun la car 

E tu rousigues lous osses. 




160 



294. Pov/pa. — cAs pessoas mais abastadas^ e cuja 
tulba não estava aioda varrida, por Maio e Jimbo, costa- 
mavam emprestar a famílias mais pobres de trabalhadores 
etc. as medidas de grão que precisavam nestes mezes es- 
capos; para os quaes popularmente se dizia ás crianças, 
que a poupa aconselhava, em seu monótono povnpou^ pov,* 
pou (linguagem da poupa), a economia e reserva^ tradu- 
zindo-se a cantiga aos meninos em a Poupa o pão pWa 
Mcm^. Taes empréstimos eram fielmente restituídos, ou em 
espécie ao chegar a nova colheita, ou em trabalho nas ter- 
ras ou vinhas, etc.» (Sernancelhe na Beira, — Saraiva e 
Castilho^ 2.* parte, Londres 1877, pag. 162). [Sobre a poupa 
ver I 283 d'este livro, e o conto xii da coUecção de F. A. 
Coelho]. A pronuncia beirã é poupa (d'onde o trocadilho pow- 
par), mas no citado conto (de Ourilhe no Minho) vem escripto 
popa^ comquanto eu já tenha ouvido poupa no Minho. 

295. Rouxinol, — É, como se costuma dizer, o poeta 
das noites de verão ; e só quem vive no campo pôde bem 
apreciá-lo, quando elle, empoleirado num loureiro, á luz 
da lua, deixa ouvir as harmonias do seu canto dulcíssimo. 
O povo corresponde-lhe, referhido-lhe innumeras cantigas, 
sob as quaes andam ás vezes encobertos pensamentos arao^ 
rosos. Nellas o amante é comparado ao rouxinol, a) Eis 
quatro cantigas, as três primeiras da Maia (Villar ào Se- 
nhor) e a quarta de Gondifellos : 

O reixinoi; cando canta^ 

Hebolbe as pennas no bico : 

Assim são nos meus amores, 

Cando comigo se pico. (i. é, se zangam) i** 



í^o Reixinol=roixinal = rouxinol, como eiteiro = oiteiro = 
outeiro (v. pg. 49 e 51); pícó=pícom=píeam (se picar). O povo, 
no Entre-Douro-e^Minbo, desanaiísa as vogaes nasaes finaes atonas; 
assim diz chamo = chamam (chamom). Na Beira-Alta, etc. também 
se diz virge, home, etc. 



161 



O reixincd do loureiro Sao-te d^iíbi^ reitinol. 

Tem no miitar matutam : **^ Deixa a t»^ do losreirOy 

Gomo pódeièf jaf2o Deixa domn-ii meoinii^ 

Quem toãa ^ vida lòi Tárío T Que e^á no sonmo pnniBica. 

O rouxinol^ cando canta^ 

No meio dà um assobio^ 

Como o filho do vigairo 

Que chama ao paa,*^MAer tio. ^^ 

b) De alguém que canta bem, diz se que é um rou- 
xkiol. 

296. Arvéla. — Os rapazes (em Ventosa, c. de Vou- 
zeDa), para as arvelas irem para o ninho e elles depois po- 
derem tirá-lo, dizem-lhes : 

Arveiioha a cima, 
Rebolão ao chão. 
Que stâo nos filhos 
A* espera de pão. 

[A palavra arvéla corresponde provavelmente a arve- 
loa, alveloa], 

297. Pei*diz. — a) « — E' mào agouro ter orna per- 
diz viva em casa, porque morre muito cedo o chefe da fa- 
mília — 9 (Superst.^ — Varia n.° 422 de Gonsiglieri Pe- 
droso), b) Cantigas de Mogadouro: 



1^^ Noutras cantigas é solitário em vez de scUutario. 
2^ E* eostome os filhos de padres chamarem Ucs {efi/»fyinhos) 
l éoB pães.— Effi farias terras (na B. Alta por ex., e princi(âlmente na 
• flerra) o povo não só chama íto« às pessoas desconhecidas^ mas ás 
pessoas mais velhas da terra; ouVe-se a cada passo: ti João, ti Jlfo- 
tiâ, ti Anna. 



11 



162 



A perdiz anda no numte A perdiz anda no monte» 

E o perdigão no vallado; Come da berva qne qoer; 

A perdiz anda dizendo : E* como o moço solleiro 

— Anda eà, men namorado. Emqoanto não tem moNier. 



298. Gaivota. — Em Gaia diz-se às gaivotas: 

Fagide^ gaivotas. 

Que iâ vem o Diabo co*as botas. 

299. Mocho, — a) O piar dos mochos é agoartíro 
(Estremadura, ele), b) Caçador que encontre ura raôcho, 
pôde crer que não mata nada nesse dia (Bxtremadura). 

300. Pardaes. — Quando se ouvem os pardaes é sigMá 
de sol (Vouzella). 

301. Papagaio. — a) Costuma-se dizer (passim): 

— Papagaio real 
Para Portugal, 
Quem passa? 

— E* o rei que vae à caça. 

6) No conto pop. port. (publiquei na minha Cosmogo- 
nia pop.^ in Vanguarda de 6 Fev. de 81, duas versõe3,*^e 
tenho ainda oatras) da rainha que tem dois fllhos que são dei- 
tados numa condecinha ao rio, e depois salvos è educados 
sem o pae saber d'elles, entra um papagaio muito intelligente, 
que, num banquete a que assistiram os dois rapazes e o 
rei, avisa este de tudo o suceedido com os filhos. 

302. Pato. —o) As Bruxas, como veremos, iDetamor- 
phoseiam-se em patos, b) Segundo Eduardo Coelho-(0mn« 
dias na Serra da Estrella^ no Diário de Noticias h.^ 55i<5) 
o lobishomem na serra da Estrella toma a forma de pitíò 




163 



mafrecoj habita as lagoas da serra, e rouba as aguas de 
rega. 

303. Rolas. — Quando as rolas cantam, é signal de 
chuva (C. Pedroso, — Varia n.® 401). 

304. Pavão: — «O pavão esmorece quando olha para 
os pés, por os ter feiosi (C. Pedroso, ^^ Fam, 205; o mes- 
mo em Trai-os-Montes). 

305. Peto. — cO peto costuma às vezes quebrar uma 
varinha e voar com ella no bico. E' uma varinha do con- 
dão, e feliz d'aquelle que a a^panhou, se esta ave a deixou 
cahir» (C. Pedroso, Varia, n.** 470). 

306. Pega. --^ a) Da pega conheço um adagio: 

Ninho feito 
Pega morta. ^^ 

b) Ha uma tradição histórica portugueza a respeito das 
pegas de Cintra. 

307. Peru. — Os rapazes dizem ao peru uma fórmula 
que vae a pag. 61, not. ao § 141. 

308. Melro. — O melro é outro cantor dasnoutes es- 
trelladas, como o rouxinol^ mas d'elle pouca cousa posso 



1^3 E. Rolland cita estes provérbios : «Nid tissu^ oiseau ea- 
Yolé»; «Nido fatto, gazza morta» (Faune pop.. p. &08). Ainda que na 
nota 80 citei o adagio portug.^ a explicação d*elie parece estar mais 
ekura nestes dois estrangeiros : é costume vulgar dos rapazes nas al- 
^as aniarem aos ninhos, e o facto do ninho descobre a ave^ Joncie de- 

Sis ó agarrada com laços de linha postos em volta do ninho (Hondlm 
Beira etc.) 




í^k 



àqià dar: cf) Quknão àlguein t€fm sede, òòstuma dizer: 
cAgua ao melro, que tem no bico sêcco». Numas cant^ag 
numeratívas do Trango-Mango recolhidas por mim de Von- 
zella, di'z-sfe indífifereàtemente (vid. ^ meu ai-t. Tradiçõei 

Popul. na VangiMardaáe èl Ag. 8t): 

fihtth IA mai^PâfStthas JSrana Ik mairaâohas^ 

Todas a í&zer um doce : Todas a (i^ser um doce 

Auga ao melro, sécca o bico, 'Deuríh^ o TÃAKtío lAikimo iMte, 

Não ficaram senão doze. Não ficaram ^não âoze. 

'i) Nos Cdntoí fopul, póYtvig, de F. Ad. Coelho, van, 
sob ò n.^ Tííi^ um em que se traduz assim a língua^^ de 
melro: dcfí-élro/merlo, mérlo, cíhelroi^ (ob» ctí. p. 22). 

309. Alma de mestre, t — Encontram-se no alto mar 
umas 'avesinfias qtle dão setítidiésimos e largos |líDs, às 
quaes os marinheiros puzeram o nome de almas de mestre, 
crendo supersticiosamente tftíe 6ãõ as almas dos mestres 
ou capitães de navios Çue se -p^i^dèram, e que andam na- 
quelle fadário de pios, emquanto seu corpo não chega a 
térrà, e não oBtftn sepultura chtístã^-^f (Almeida Garrett, 
— Camões^ not. ao canto v). "* 

3 to. Hto-nu, — Havia ma paásaro sem pemíBfs cha- 
mado pito-nu. Todas as outras aves Ihte emprestaram pe- 
nas para elle se vestir, e a coruja ficou por fiadora d'elle 
pára com ellas ; TOas o pito-^u apenas se àgftrroa TOstido, 
fugiu. A'coi*uja nunca appareeede diaxom medo de que«B 
outras aves a piquem, pelo facto de ella não poder resti- 
tuir as pennas do pito-nu. (Ao pé da Guarda) "**. 

**/' ■ tf itI ; - 



^tu A òrièhçáae abBáS'ém'fôrEna'âe- aves não: ósóhoaM' ^ 
.■pprex./ííoTòmb l*, çág. 900/da Retfue Cêtíiquêút^.^G^Á&^i 
art. mtlfMddii^l J^oiès, ix 'por W. 6lokes/o qual d»: »Tli»t aorii 
assuróe^tlíe tDrtns ofbiWs, ele.» 

1^ Cf. Tylor, C. P. i, 475; E. RoUand, Faune Pl^4>' M^(Atq4. 



m 



311. Pto>-5í4f 01. — r.O Pito-SujFO eacíirFçgQ^-^ de ir 
Sar ao Re para lhe expor o resultado dfi o^p^piraçãp de^ 
illos e frangos que se qMeix^vsMV de s^r^ W^^^ pelo 
)mem, O Suro^ no caminho, encontrou um rio que lhe disse 
le o não deixava passar: o. iSwnj f ogalíu-o ; encontrou um 
medo enorme e depoi? am enxame de vespões que lhe 
sseram o mesmo que o rio : o Swro engoliu tudo. Chegou ao 
lacio, não o deixaram entrar e metteram-no no gallinheiro, 
ide elle vomitou o rio; depois metteram-no na cavallaripa, 
eBe vomitou lá as vespas ; por flm métteram-no no jar- 
ra, e elle vonjitou lá o penedo. O rei, obrigado por tan- 
s destroços, mandou-o chamar, mas não o pôde attender, 
apenas lhe ÇQncedeu a vida a elle (Minho; cf. também o 
Oto XI dos Cont. p. port. ^e F. ^. Coelho, ep verso de Gil 
cente, cit. na introd. a e^tjp cap. ; M^^s gc^llQ negro svã-o). 

812. Ãve-iíwerta. -r- í^No AlejmteJQ ha ilRia av^ (qu^l?) 
le, se algum caçador a matar, a alma penada d'ella, fica 
fando pelo mundo ^té que o assassino v4 p^o egpaço de 
^tft aoites gritar por ella s^ uqi G^miterio— » (Ç. Pedroso, 
iria, 373), 

3i9. Factos diversos. ^-L Fórmulas p(wa enxQ.-; 
r QS fcmaros cfas semenfeirc^. a) CoUoca''S0 fèl de boi 
litro de ^m púcaro d^ barro, e enterra-se de noite n^ 
ára de paiaço qae se que^ livrar da pas^ara^s^* Depois 

eikterrado o puearo, anda 4 volta do eainpo uo^ homeqí^ 

mulher em fralda de cf^fgi^^ a dizjer : 

Passarinhos, deixae o meu painço^ 
Qae tem fel ! 
I4e para ^ raofit^^ 
Que tem mel! 

Quando se aproxima o teo^po ida ceil^ fom^ )4 ;a ^ps^ 




166 



o painpo ficava amargoso. (Vid. o meu Est^uio Ethnogror 
phico^ Porto 1881, pag. 22). b) Eis outra fórmula de YiDa- 
Marim (mas ignoro as ceremonias) : 

Xô, passiarada! 
Foge do meo linho, 
Vae para a cevada. 

(Vld. um meu «rt. na JBra Nona, pag. 646). 

c) Para as aves não irem ás sementeiras, ' pega-se 
numa panella com a boca voltada para o peito, e anda-se 
três vezes á volta do campo, dizendo (Sínfães) : 

Passarinhos áe arzel (úc), ao monte> 
Que o monte tem mel 
E a minha sementeira 
Tem fel. 

(Vid. o meu art. IVod. Portug,, i, S4, na Aurora do Cavado de 95 de Af. da 1880). 

314. II. Jogo das pitinhas. — Assisti a ^este jogo em 
pequeno, e uma mulher de Taboaço contòu-m'ó tambeitt, 
mas como eu conservo poucas ideias d'elle, e a mulher ex- 
plicou-se mal, — postoque o que ella disse concorda como 
pouco de que me eu lembro, — não posso aqui dar uma des- 
cripção tão exacta como era preciso. — Assentam-se unos 
poucas de creanças, nos regaç;os umas das outras, em car- 
reira, havendo mais duas que fazem uma de gallo e ou- 
tra de raposa ; a raposa vem roubar as pitinhas (as que es- 
tão encarreiradas), e, a cada uma que leva, o gallo dà 8i- 
gnal, cantando. I 

315. Na 5.* feira d'Ascensão os pássaros não vão 
aos ninhos, do meio-dia para a 1 hora (Extremadura). 

316. E. Mammiferos. — Cão, a) O cão, porque é 
um fiel companheiro e amigo do homem, um guarda solli- 
cito das casas è das quintas, merece da família porta- 



•\ 



167 



gueza uma estimação especial. — Quasi todos os cães têm 
nome próprio, tirado já de rios, jà da Mythologia, ji de ou- 
tros animaes, etc, como: Nilío, Tejo^ Minerva, Leão, TU 
grcj Pombo, etc, etc. — Também é costume pôr ao pes- 
coço dos cães colieiras de metal com o nome do dono e às 
vezes da casa ou quinta a que pertencem, para, se ás ve- 
zes se perderem, elles poderem ser restituidos. ^** b) 
Quando alguém tem um inctiaço, uma ferida, etc. acha 
um remédio no bafo do cão (Beira-Àlta, ele). Um adagio 
do Algarve diz : 

Bafo de cão 
Até com pão. ^^^ 

c) Costuma-se dizer que os xíães ladram á Lua. *** 



^^ Cf. o seguinte : Os romanos coilocavam colieiras com bul- 
ias ao i)escoço dos escravos fugitivos. Eis algumas inscripç5es d'es- 
tas oolleirasi —inseri pções semelhantes às dos nossos cães, que são 
apenas mais concisas: Bulia iene me ne fugia(m); — Tene me quia 
fugi, et revoca me domino meo Bomfatio Unario; — Reboca me ad 
damum THeodelenis ad dominum meum Vitalione(m), Na Revue AT' 
cÊ^eolog,, d*onde tiro estas noticias^ lé-se mais que o uso das buliam 
nas oolleinui substituiu o castigo de marcar a cara com um ferro em 
brwi»— e accrescentarse que depois a superstição popnlar se apoderou 
das Mlái, suppondo que ellas evitavam a fuga dos que as traziatío. 
(06. ^.y pag. 102-109, voÍ. 29.^— L^ collien et le$ bulleã dêê ês- 
claves fugitifs aux derniers siècles de Vempire romain, -^ por Loais 
liOfort). 

U7 «El can ga '1 bálsamo su la lengua. Co* se ga piaghe, d 
ean co la lengua le fa guarir» (Bemoni, — Credenze popolari vene- 
ziane, Veneza 1874, pg. 37). 

1^ Vid. g 32. Uma adivinha com fóf ma litteraria diz : 

Sou uma dama preciosa 
Dos mancebos de^[ire8ada : 
Os ceies comigo tem rixa, 
Só no mar sou desejada. 

Um provérbio latino diz: «D^/ta luaa eanibus*, porque Delia 
oa Diana, tf caçadora, (Lna) andava acompanhada de cães. 




'^ 



m 



d^ Quaadauiva um cio, é preciso descalçar o pé asquerdOi 
e, voUa&do a sola do sapato para cima, (Úzef,, pan^ « 
agoiro ficar sem effeito (cf. % 2&5-<í} : 

Todooagmro 
Sobre o teu coiro 

[Quando outro qualquer agoiro assusta os aldeões^ 
elles deitam sal no lume e ficam descançados. (Ibiâem)].. 
e) Quando alguém é mordido por cão damnado (cf. também 
a introd. a este cap.) apéga-se com S« Romão, rezando-lhe 
e dizendo (Youzella) : 

Senhor ^. Romãa 

Nos livre dos cães damoados 

E por damnar 

E todo o bicho 

Qne ao de cima da terra andar. <^ 

(Cf. tombem Pinho Leal, — Portug. AnL é Mod.^ v. 



■?*■ 



1^ «Quando che 1 cani ziga co on urio, mor qualcbidun deli 




jjlifíh. Zool. n,jfg; 39. 

^ Na Sieiliá^ o advogado é 5. Vito, a qnem ama oraçS^ po* 
polar pede: 

Pri hl nooma di Haria 

Liga stu cani 

Ch' hsgu avanti a mia. 

(O. Pttrè, — Sfpdtaeoli « FttU, Palermo Uti, p^. SSl). 

Em Veneza^ «Cq* le ioooDtra cani cativi o cani rabíosi^ per no 
•essar morsegai, se dise : 

Santa Maria Madalena 

Tegni qad eaa a la caeaa, ete. 

(BefMMii, oK dkg y. 44). . 



i;fi9 



S. Romão, e este livro^ | í 55). Ett Cabeça Santa (Penafiel) 
diz-se a seguinte oração para livrar de cousas más: 

Ea me entrego á híz, 
E à belta santa craz 
E ao rei da virgindade. 
E às três pessoas da SS. Trindade^ 
Que nos hvre âfí lobos o Ioím^, 
Cães danmados e por damnar^ 
D'hôme morto, mà encontro^ 
D'hôme vivo^ de mâ p'rigo. 
S. Komão seja comigo. 

f) Quando alguém é mordido por um cão (não da- 
ninado) frita o pello do cão em azeite e põe-no por cima 
da mordedura. Até se costuma dizer : curar$e a mordedwra 
eam o pello do mesmo cão (Beira-Alla^ etc.) ^** g) O povo 
traduz, como temos visto, a linguagem de vários aoima^, 
A linguagem do cão é esta (Gabeça-Santa) : . 

Stnlíca-te, minha perna, 
Arrebita-te^ meu rabo. 
Quero achar a porta aberta 
B mulher de ma recado. 

[Isto é, mulher que deixe a comida mal acautelada]. 
h) Fm Vouzella, Minho etc. dizem-se estes versos do 
cao, que são ao mesmo tempo uma fórmula numerativa : 

Eu tenho um cãosinho, Ea tenho um cãosinho. 

Você tem dois, Tocé^ten qnatro^ 

Adeus, amorzinho, Adeus, amorzinho. 

Até ao dispois. Coração, ingrato 



ui «En Sieiie> quand quekii»*uo est morda par un cbien> oa 
Goape a celui^i une tobflé de poil qu^a pionge dana ou via av«c 
m eharbon ardent; on bit boire ee via à la peraoaae mordiia'* 
(3^^. Z9oi., n, 39). Tyk>r, ciuodo a mesma sugerst^ uaa^^evâ 
esta pbrase dos Eddas scandioaviqo^ : «O pelio do cao cara a UIOcA^ 
dura» (Civilm^ pfiimt.^ tradt Ir., i> Pgr 98*99). 




i70 



Ea tenbo am câosinbo. 

Você tem três. 

Adeus, jtmorèiolio. 

Até oitra vez. ^* M^ 



Estes versos tem uma musica própria, j) Ha com 
allusão ao cão alguns díctados de terras que eu r6UQinos 
meus Dktados tópicos de Portugal ^ ex. : 

Guimarães 
A cada porta 
Sete eães. 

k) Nas tampas dos antigos túmulos, por ex. nas ^ofi 
de D. Pedro 1.*^ e D. Ignez, em Alcobapa, vêem-se cães ô^r 
culpidos aos pés das estatuas dos deftmctos. Explica-se vD^ 
garmeute o facto por ser o cão o syml>olo da fidelidade*' 
mas é preciso reserva nessa explicação. /) Adágios' 



-%» 



Quem tem medo, cumpra um cão. Cão que ladra não morde • ^ 
Estão como o cão e o gato (i. é, muito arrenegados). Preso por tef ^^^ 
e pelo não ter. 

m) Adivinfui (B. Alia) : 



Tem rabo e coração ; 
Ad'vinha^ tolo, que é <^. 



^^* Os tractamentof que o povo portnguez usa entre eila 
três: vossemecê, você e f u (e às vezes também o sinhor), — Aj^ala 
vossemecê^ pelo intermédio vossamecêg deriva de vossa mercê ; a ( 



laVra você, que também é pronunciada võeê, vucê (e com b-v), den^*^ 
de vossemecê pela forma mtermédia vámecê (que é usual ^m ve< C^^ 
vossemecê) on antes vóm^cê (pronunciado o m). 

^^ U can che abbaia non morde dizem ositalianos. 



171 



n) Quando ura de nossos cães fizer ura buraco de- 
rate de casa, morre qualquer pessoa [da farailia?] (Arre- 
res do Porto), o) Costuma-se dizer em forma de impro- 
rio, ou brincadeira, a outra pessoa: ah cão! ah s&u cão! 

317. Gato. — a) Os gatos Tazem aslhraa; e os gatos 
etos curam-na, comendo-se guisados (Extremadura). Uma 
rsão de Paços de Ferreira diz-me só que elles são bons 
ntra a asthma. b) Quando um gato se lava com a mão di- 
ita annuncía visita de homem [com a esquerda annun- 
i-la-ha de mulher?] (Arredores do Porto; cf. |§ 268-a 
225). c) Quando um gato lava a cara, deve-se notar de 
le lado é : ao outro dia, o vento está d'esse lado (Arco- 
lio de Gaia), d) Se um gato está sobre o forno a la- 
w-5e, voltado para o Nascente, temos chuva; se está 
iltado para o Poente, temos bom tempo. — D'ahi os se- 
lintes versos que juntamente com esta explicação recolhi 
) Cabeceiras de Basto: 



Sobe o gato ao forno^ 
Lava-se para o Nascente^ 
Ghoiva de repente ; 
Lava-se para o mar. 
Velhas a assoalhar. 



e) Para os gatos não fugirem de casa, deve-se-lhes 
itar as patas com azeite (Gaia), f) Quando as creanças 
idem que lhes contem histoiias, é costume dizer-lhes esta 
rmula (ha outras differentes, que também tenho coUi- 

das) : 

Era uma vez 
Um gato maltez, 
Alça-lhe o rabo 
Chupa-lhe o pez. 

Resposta : 



Í7Í 



CbB|Mt-Jh'e IQ, 
Qoa ós maia eort^s. 
GhQpa-lh*o bem : 
Qaánto mais chupas, 

JHftlS fvIOa 

(Moneorvo). 

g) Q coalho pediu ao gato que lhe déàse a rabo, e q 
gato disse-lhe que lhe desse leite ; depois foi pedir leita a 
vacca, para leite dar a gato, para gato lhe daiF rabo, rwà 
vaeca disse-lhe que queria herva ; foi então pedir a mo^Q 
que lhe desse berva^ para herva dar a vacca, para vaoo» 
lhe dar leite, para leite dar a gato, etc.,--r-Q o m6ço dísn 
ae-lbe que queria sapatos ; o coelho foi a sapateiro pm 
este lhe dar sapatos, para sapatos dar a moço, para moga 
lhe dar herva, para herva dar a vacca, etc, ~^e o saps^ 
teiro dissct-lhe que queria sedas ; o coelho pedi<|i a pcm 
que lhe desse sedas, para sedas dar a sapateiro, para sh 
pateiro lhe dar sapatos, para sapatos dar a mopo etc...** 
(Sinfães. — Esta versão está incompleta, porque numa ver- 
são que em pequeno ouvi em Mondim da Beira, o porco 
quer farinha ou fareUos que ç^ão pedidos ao moleiro ; este 
quer uma mó que é pedida ao pedreiro; este quer picos 
que são pedidos ao ferreiro ; este quer carvão : depois a 
raposa que nesta versão entra em vez do coelho, e quer o 
seu rabo para Domingo ir d missa^ — vae ao Marão ar- 
rancar lenha para fa^r o carvão, e ainda là anda). 
h) Diciados do gcUo.'' — Não é por ahi que vae o gaito ás filh/ih 
9es;-^f%z d'ellê gato^sapaU>^ — de noiie todos os gatos sãQ 
pairdos ; -^ gato eisoaldado, d*agua fria tem medo. Quajito Q 
bafo do cão é bom, quanto o do gato é mau ; d'ahi o adi» 
gio algarvio : 

Bafo de gato 

Que nem chegue ao fiato (eL g 3i6-ò). 

í) Adivinha: Qual é coisa, qual é ella> que tepft ore- 



Í73 



as de gato e não é gato? — Dma gata. *** j) A respeito " 
» gato e da creação da mulher, vede adeante. A;) Gostu- 
a-se dizer que o gato tem sete folies^ — isto é, sete órgãos 
spiratorios, — (Beira, Douro, ett.) 'e que a mulher vale 
»r sete gatos (Douro). lía Extrerfiadura diíetti que a razão 
ir que o gato leva tanto tempo a morrer, é por ter sete 
les. I) W muito mau dar comida quente aos gatos, por- 
6 08 faz derramar [damnar] (G. Pedroso, — Varia n.^ 
•6). m) Os igalos também tem nomes como os cães (vid. 
316-a). n) Aos homens pobres que, por dinheiro, vão 
8 enterros com tochas, etc., chama-se gatos pingados (Por- 

[Cf. adeante]. o) Considera-se o gato como o symbolo 

ingratidão. 

318. Porco. — a) Quem tem uma doença de pelle, 
amada be9*tueija^ deve ir embrulhado deitar-se nos ni* 
os dos porcos (Arredores do Porto), b) A quem se as- 
ita nas pias dos porcos nascem alporcas [cf. alparca e 
rca] (Gabeça Santa), c) Em algumas aldeias, onde se 
)tumam deitar os porcos para as estradas, é uso para 
6S se não perderem, medir-lhes a cauda com um pau, e 
itter depois este debaixo da pia (álmanach de Lembr. 
61 pag. 303 ; cf. § 286-c) d) As porcas com cria trazem 

pescoço uma fita vermelha ou uma fita de trovisco, por 
isa dos máos-olhos (Famalicão), e) Sonhar com carne 

porco é signal de desgosto na família (G. Pedroso, — 
ria n.® 444). /) No conto de João Grillo, citado a pag. 
5, § 264-/'; perguntam ao Grillo, apertando na mão um 
3ado da cauda de um porco: cque está aqui?» 6Ue, 
no não sabia^ disse o adagio : aqui é que torce a porca 
rabo. Os ouiros cuidaram que elle tinha adivinhado. 
E' costume matar os porcos no Natal, no S. André, e no 
Thomé : 



154 Gf. Devinettespopul. de la Basse Bretagne ín Rsv. Celtique, 



174 



No dia de S. André 

Quem nio tem poroo mata a amlher. 

Pdo S. Tliomó 

Faz o poreo qu-é. . . ftt-é. . . ^^ 



Na Beíra-Alta (Hoadím da Beira) e arredores, um poreo 
mata-se assim : esteodem-no duíd Icogo banco de madeira 
e atam-no com uma corda, segurando-o além d'isso varias 
pessoas ; depois com uma grande faca fazem-llie um ba- 
raço nas gueias, até que elie morre. Horto, chamuscam-DO 
com palha accesa, iavam-no, rapam-no com uma pedra, e 
em seguida com navalhas, até a pellc ficar bem limpa. Úm 
certo osso com pouca carne tem o nome de assadura; a 
assadura é dada a uma creança que a come assada (por 
brincadeira chamasse assadura das palhas a um rolo de pa- 
lha que se introduz no anus do porco). Alguns dias depois 
da matança do porco, faz-se o jantar da sdrrdbulhdday a 
que de ordinário assistem amigos e parentes do dono do 
porco. A sârrdbulhada (cujo nome provém de sârrábuiiiOy 
ou sangue de porco cosido) consta quasi só de carne de 
porco, h) O Diabo apparece nos corgos (ribeiros, — Beirar 
Alta) em forma de Porca com sete leitões. Um dos muitos 
nomes populares do Diabo é Pófxo-sujo. i} D'alguem qoe 
é muito rico cosluma-se dizer qi^ é rico como um porco» 
j) A alguém que não é limpo chama-se porco, k) Os por- 
cos, quando andam a esfossar muito na palha ou no cisco, 
annunciam chuva. /) Conto popular :=Q'ando Deus andava 
pelo mundo a mais S. Pedro a pedir, achàro quatro po^ 
quinhos no caminho, e déro-nos a criar a uma mulher, e 
disse-le o Sinhor: cTome conta doestes porquinhos, que 



1^ Este costame encontra-se noutras muitas partes, cf. Rev. 
de EthnoloQ. de A. Coelho^ (ásc. i.«^ Myth. Zool. de A. de Gubema- 
tis, t. n, etc. 




175 



DÓS cà vimos para o anno para os partirmos e para ser 
dois seus e dois meus». Os porquinhos crescio muito, oqoe 
fazia admirar. Chega-se o anno e viéro elles para partir os 
porquinhos, e elia tinha escondido dois para dar conta só 
dos oitros dois. O Sinhor préguntou por elies, e ella disse: 
«Dois morrêro, e os oitros dois inda ahi stão». Mas o Si- 
nhor como sabia que elles que éro vivos, e que ella os ti- 
nha escondido,- disse assim: 

Pois estes dois qa'aqai stào 

Seus e meus serão, 

E os qoe stão naqaeUe haido fichados (heido) 

Por essas serras irão—» 

Foro elles que despois lá ficâro porcos-montezes bra- 
vios — (Cabeceiras de Basto). 

319. Cavallo. — a) Quando se vê que nm cavallo (e 
boi, porco, etc.) anda triste e não. come, benze-se com a 
eamisa do homem que houver em casa (Arredores do Porto). 
6) Sonhar com cavallos é signal de casamento, c) Quando 
pare alguma egoa ou burra, deve pòr-se ao pescoço do fi- 
lho uma bolsa, presa por uma fita vermelha, com aipo e 
alho, por causa das bruxas (Sinfães. Cf. § 251-c). d) Quaado 
tosse um cavallo dizem logo: S. António! tantas vezes quan- 
tas elle tosiíir (P. de Ferreira), e) Lenda. Em Vizella (Mi- 
nho) raostram-se umas ruinas a respeito das quaes se conta 
que noutros tempos morava alli um fidalgo cuja mulher 
cohabitava com um cavallo da casa. Diz-se mais que o ca- 
vallo, apenas sentia os passos da mulher em cima na sa- 
la, começava logo a relinchar. O fidalgo então incendiou o 
seu palácio e tudo quanto havia dentro, mulher, cavallo, 
etc. ^^ 



^^ Nos códigos de Egreja encontram-se disposições contra o 
ajnnctameoto do ser humano e do bruto. 



17B 



320. Macho. Os almocreves costumam pendorar na 
testa* dos machos um pequeao chifre artiflcial para livm 
de c(yusas ruins (Norte do reino). 

321. Mula. O povo diz que a mula é amaMiçoaÉi 
porque comeu as palhas em que o Meoino Jesus dormia no 
presépio de Belém (Norte do reiuo). 

322. Burro. — a) No principio do mundo oburrofid- 
laya, e dizia que tanto geasse que lhe cahisse a beiça (Pó- 
voa de Lanhoso). Dma versão de Carregosa (Douro) dá 
estes versos (que em Cabeça-Santa se dizem do cavallo) : 

O burro disse que tanto nevasse 

Que até as ventas se lhe arreganhasse. 

b) Nos campos espeta-se um pào com uma caveira de 
burro (ou com um chifre, etc.), para afhgentar oe màòô 
olhados (concelho de Paredes), c) A denominação — bumi 
dada a alguém é uma injuria, porque desigtia estupidez. 

d) Quando os burros andam pouco ou não querem andar, t 
-06 flistigam, dizem-lhes: «Quem te mandou a ti ser burro!i 

e) Quando num certo negocio se notam obstáculos, etc. 
difi^^se: «Aqui anda caveira de burro», f) Dictados do 
burro: 

Quem burro vae a Santarém^ 
Burro vae e burro vem. *" 



^7 Há outras rimas populares onde entra o nome Santc^em, 
eomo: 

Minha mae tem, tem 
Tripas a coser 
Em Santarém. 

Gf. ^ rifão histórico a respeito de D. Fernando (Pernao Lopes^ 
Chron. de D. Fernando, cap. 36^ apud Era-Nova, pag. 151) : 



177 



Antes burro vivo do que cavallo morto. — Burro morto, 
vada ao rabo. g) Ha entre nós um conto, (muito espa* 
ado por todo o mundo), em que um principe tem orelbas 
I burro ^. Noutro conto os excrementos de um burro são 
iro. h) Quando nasce um burro, pde-se-the ao pescoço 
na colieira escarlate com uma bolsinha cbeia de alhos e 
ruda, para Mvrar o burro de feitiços, e a mãe de lhe sec- 
r o leite (Minho, — apud Alm. de Lemòr. 1857, p. 376). 
Cf. o conto Lxvi de Ad. Coelho. 

323. Boi e Vacca. — a) No principio do mundo, 
lando tudo fallava, 

O boi disse que tanto chovesse 
Que até os cornos lh*aaiolleoe8se, 

(Penafiel, ete.) 

b) A quem for na companhia dos bois não acontece 
ai nenhum ; as feiticeiras não enUram com elles (Douro, 
c.) c) Quando se lançam as sementes à terra, cbegarse 
) focmho do boi a cesta que as contém, para este as ba- 
jar, e a sementeira produzir, porque o boi bafejou Ghristo 
) presépio {passim no Minho e Douro), d) Quem soffre 
) tizorelho põe no próprio pescoço o jugo quente do boi 
'amalicão, Guifões no c. de Bouças), e diz (Guifoes) : 

Tizorelho^ 
Vae-te d'aqni> 
Que bois e vaoeas. 
Cangam aqui. 



ExvoUo YSA, 
Kxvolk) vem^ 
De Lixboa 
Para Santarém. 



^8 Cf. Contos popuL port, de F. A. Coelho^ e um. art. d'esta 
Bsmo escriptor no PosUivimo, pag. 74 sq.--tiabeniati8^ Mu^. EooL, 
pag. 404^ etc. 



19 



178 



e) O excremento (bosta) de boi serve para barrar as 
portas dos fornos (Minho e Douro), f) Nos melantíaes es- 
peta-se um páo com um chifre de boi na ponta para afu- 
gentar os maus olhados (Paredes, Maia, Dcanha; — cf. § 322-è), 
g) O boi que berra á porta de uma casa onde ha raparigas 
annuncia casamento (arredores do Porto), h) Em Sando^ 
mil o boi bravo vae á egreja para o benzerem. í) Em Al- 
ter o padre lê o Evangelho entre os chifres do boi bravo 
para o amansar, j) O boi vae em muitas festas, como em 
Braga, Penafiel, Basto, etc. (boi bento). Em Alter-do-Cbi) 
entra na egreja o boisinho de S, Marcos, a que os empre- 
zadores (irmãos de S. Marcos) dizem, batendo-lhe com umas 
varinhas : 

Eatra^ Marcos^ 

Em louvor do senhor S. Marcos. 

O boi chega até ao altar-mór. Depois da festa offere- 
cem-se ao santo muitos bezerros que também fazem a soa 
entrada no templo (vid. o meu Estudo Ethnographko^ — 
pag. 28 e.29). k) Quando tosse algum boi, dizem k^o: 
5. António I tantas vezes quantas elle tossir (Paços de Fer- 
reira; cf. § 319-d). ' l) A respeito do fel de boi, vid. § 3J3^í. 
m) Quando uma vacca está a berrar, as pessoas solttíras 
devem logo metter a mão na algibeira, que é para casa- 
rem cedo. Vacca que berra é signal tJe casamento na terrg. 
Sonhar com um boi é signal de casamento breve (Pedroso, 
— Varia n.^' 315, 430 e 443). n) «Quando a uma vacca 
ou cabra lhe foge o leite, para que elle volte, deve atar- 
se-lhe uma corda a uma orelha e a outra extremidade dl 
mesma corda a um pé» (Id. ib. n.® 371). o) O bafo das 
vaccas é santo, porque J. Christo nasceu junto de uma 
vacca (Extremadura, cf . este § em c) . p) A's vaccas, quaodo 
andam com as crias, ata-se-lhes á cauda um farrapinho ver- 
melho por causa do mâo olhar que causa dadas nellas (Fa- 
malicão; cf. I 322-/i). q) Nas lendas de Moiras encanmOi 



179 



muito vulgar entrarem vaccas, sendo menos vulgar en« 
rem bois. Eis dois casos, que extraio dos meus Fra- 
wntos de Mythologia Popul. Portug., pg. 2-3 : Dm camppnez 
itumava mandar uma vacca a um monte da freguezia de 
sellos (c. da Feira), e, como varias vezes ella apparecesse 
i casa com a barriga bem cheia, e os uberes vasios, pe- 
u um dia e fechou-a. A's horas de sahir, a vacca saltava 
mugia desesperada; á vista disto o dono abriu-lhe a 
rta e seguiu-a, até que a vacca entrou numa caverna 
e ia dar a um viçoso lameiro. De repente appareceu uma 
3ra espantosa que disse ao. homem: «Deixa-me tirar o 
te de que preciso, e dar-te-hei uma grade d'oiro». O ho- 
ím consentiu, e a cobra deu*lhe a grade, com a condi- 
) de elle nâo fallar em Deus ; mas elle, apenas se viu cá 
a, tão contente estava, que disse para a vacca : «Anda 
cora Deus: com Deus tudo, e sem Deus nada». Iramedia- 
aente a grade se transformou em carvão. A cobra era 
ia Moira, — No monte do Castéllo de Guifões (Mattosinhos) 
alisa-se uma lenda semelhante; mas ahi uma rapariga 
arda a vacca, e a Moira tira o leite, dando à pastora um 
50 que esta só deveria abrir passado um anno. A rapa- 
a abriu-o antes do praso expirar, e achou-o cheio de bo- 
bas amarellas, que já iam a mudãr-se em ouro. A mesma 
ira mandou uma vez deitar ao visinho rio Leça uma pe- 
i que se mudou em grade de oiro. r) Ha um conto 
[)., de que tenho duas versões e estou em vésperas de 
•aiqar terceira, no qual uma rapariga, a quem a madrasta 
er mal '^^, vae por ordem d'esta para o monte com gran- 
3 tarefas de liar e dobar, e depois faz a dobagem nos chi- 
s da vacca, que além disso a instruo sobre varias cou- 
i, A vacca em castigo foi morta, e, quando a rapariga 



iw Cf. o adagio : 



Madrasta 

O nome. lhe basta. 




1«0 



Ibe lavava as tripas, fugia ama pela agaa a baixo ; a ra- 
pariga correu a trás da tripa e foi ter ã casa de umas fih 
das, que, por ella llies varrer e preparar a casa, a faih 
ram muito bem (Beira-Alta) . s) AdivinhM: 

JuvTA OB BOif (e£ 9 814-<-«). 

Oito batem na calçada, (patas) 

Quatro olham para o cea, (chifres) 

Um guia a cangalhada, (lavrador) 

Outro toca o cmrioeu. (moço que vae a trás) 

(Porto). 

Boi -Mil mannhinbo8> (pelles) 
Mil mariDh^es, (pelles) 
Dois parafitas, (chifres) 
Quatro tanchões. (patas) 

(C. d'ABei&e8). 

vacca — Qual é coisa. 
Qual é ella. 

Quatro na cama, (uberes) 
Quatro na lama, (patas) 
Dois parafusos, (chifres) 
E um que lhe abana (cauda? moço?) 

(S. Martinho de Moaros). 

• 

324. Cabras, Bodes. — a) O nome vulgar da cabra fll^ 
Beira-Alta é chiba^ chibinha; os bodes também se chamUft 
chibos, b) De alguém que tem as barbas grandes dia^ 
que tem barbas de chibo; de um rapaz que é desinquieto 
diz-se que é um cabrito, e de uma rapariga diz-se qu6 é 
uma cabra. Também se diz : Feio como v/m bode. c) No 
principio do mundO; quando tudo fallou, disse a cabra : 

Que tanto sol fizesse 

Que até as pedras rachasse. 



tai 



o Diabo apparece em figura de bode. e conhece-se 
Imente pelo pé (passiiA). e) O co^ae D. Pedro, a 

da genealogia da casa de flaro, conta a lenda da 
^é de ca6m, lenda que A. Herculano romantisou no 
o Lendas e narrativas. Segundo D. Pedro, andava 
i D. Diogo Lopes á caça e ouviu cantar muito alto 
na penha uma mulher, que elle viu ser mui for- 
mui bem vestida; casou com ella, com a condipão 
a se sanctificar, mas uma vez que, estando à mesa, 
m Santa Maria^ logo a Dama pé de cabra fugiu 

montanhas, em guisa que a nom viram mais. 
ndo falta o leite a uma cabra, para que elle volte, 
ir-se-lhe uma corda a uma orelha e a outra extre- 
da mesma corda a um pé». {Varia^ n.° 371, por C. 
323-n). g) Ha um jogo infantil, conhecido pelo nome 
ia cah^a cega : uma das creanpas {cabra cega) leva um 
tapar os olhos e vae correr a trás das mais, até 
outra, que é depois a cabra cega e faz recomepar 
\ntes de principiar o brinquedo, trava-se o seguinte 
entre a cabi^a e a creança: 

cega, d'onde vens? — Cabra cega^ 

lho de Guimarães. — D'onde vens? 

izes de venda? — Dé YizeUa. 

anella. — Qae trazes de lá? 

) da merenda? — Pão e canella. 

me «a venda; — Pia-me d*eUa? 

> vioho, —Não que é para mim 

Edembra. E para a minha velha 



(Visen). 



— Zape-te nella. i«o 

(Onimarias). 



Gomo este verso dà entender (zupar é bater em algnem^ 
as creanças jogam mutuamente o murro^ em quanto cor- 

u vez de VizeUa^uxfitiei^mfl^^^i^^yí^m 
inla de Taboaço^^ semelhanle.à 2.* àue aicmi d^âcaba; 
nella (zumbar é bater, eomd zuj^arVu logd da dStra-i^ga 
Monado por Gil Vffe^te, t tto tiarMilmfn noatres tiaizes 
raga, Osjogês pop, ia BfãrNáBO, p. 356-7). 




182 



h) Eis daas cantigas populares de Vouzella, allusiva» 
á cabra: 



.1 



liíf 



O* minha cabra amarella^ 
O' mea sino sem badallOi 
Qneira Deas nào sejas tu 
O amor com qaem eu fallo. 



O' minha cabn amarella, 
Pellada pela barriga. 
Eu também me estou pellando 
Por aquella rapariga. 



í) Adivinhas da cabra (também se diz do boi a 1.*; na 
2.* é a uva que falia á cabra). 



1.' 



2.» 



Quatro batem na calçada, (patas) 
Dois olham para o ceu, (chifres) 
Dois fazem a queijoada^ (uberes) 
E um toca o berimbeu, (cauda ou moço?) 

Alto me miras^ / 

Comer me querias; 
De ti sahirà (o odre) 
Quem me levará. 



j) Sobre pagar a cabrita^ vid. § 214. Num jornal d^ 
província lê-se o seguinte : «cabrita, é o costume de aquellô 
que compra uma junta de bois na feira, pagar uma conve- 
niente quantidade de vinho a todos os que entrarem na 
tranzação, quer como partes principaes, quer secundariast. 

325. Carneiro^ Ovelha. — a) No principio do mundo 
disse a ovelha : 



Que tanto ventasse 
Que até a lã lhe voasse. 

(PeiuUUI ; Qaift). 

. W 'tIttMt:*veí -uma' jBiilher viu um carneiro à porta da 
casá(! Cej3[^'í,&otQu,-^}be as mãos, más como fallasse no. nome 
de Jesus, o cánieiro sumia-sé, deixando um cheiro muito 
mau. Era o Diabo (Cab. de Basto), c) Ha um conto popu- 



183 



: (Santarém) no qual entra ura Moiro encantado em car- 
iro (vid. os meus Fragm, de Myth,^ pag. 3). d) «Para 
ver fortuna numa casa, é bom pôr em cima da porta uma 
mação de carneiro preto e uma ferradura» (C. Pedroso, 
MTia n.® 313). e) As tecedeiras costumam pendurar chi- 
5s de carneiro nos teares, por causa das cousas ruins 
Bira-Alta). f) J. Christo é chamado o manso cordeiro; 
s versos que se cantam em Mondim da Beira dizem : 

— Manso cordeiro, 

— Pr'a onde caminhaes ? 

— Pr'a o monte Calvário. 
•— Bemdito sejaes! 

g) S. João Baptista, a quem os pastores com especial 
voção veneram, e em cujo dia os gados vão a banhar, é 
presentado com um cordeiro ao lado. Uns versos que 
m outros ouvi no Porto, dizem : 

S. João, chora, chora 
Lagrimas de prata fina. 
Por lhe ftigir o cordeiro 
Por aquella serra a cima. 

h) Conto popular (de Villa Cova, c. de Paredes). — Uma 
z um lobo encontrou uma ovelha que andava a pascer ^^\ 
aisse-lhe : «O' ovelha, eu corao-te !» Respondeu a ovelha : 
ois sobe alli para cima, que eu entretanto vou pascendo, 
depois entro-te lá mesmo pela boca dentro». O lobo su- 
i para o alto do monte e esperou. A ovelha, assim que 
i o lobo longe, fugiu. O lobo começou a correr atrás 
dia, e, como a não pudesse agarrar, iisse : 

«Que eu sou lobinho-cão, 
Nunca corri tanto em vão». 



ici Pascer, termo popul. da localidade. 



é 



■ ■» ^ 



184 



Respondeu a ovelha : 



«Que eu sou ovelhínha rassa. 
Nunca eorrí tanto de escaramuça». 



i) Adagio: 

Ovelha que berra^ 
Bocado que perde. 

Ir buscar 11 
E vir tosqueado. 

j) Adivinha (Villa da Feira; cf. | 56) : 

Branca larada 

Que vae pela estrada, 

Não fia nem tece 

E seus filhos veste. (Ás ovelhas) 

326. Rato. — a) Ha um conto popul., Hist. da ca/ro- 
chinha^ que vem na collecpão do snr. F. A. Coelho (n.* l) 
e que eu também ouvi em pequeno, — conto em que a ca- 
rochinha casa com um rato (João Ratão), b) Para a etj- 
mologia pop. de Rates vid. § 161-a d'este livro, c) De 
unr homem jovial, etc. costuma-se dizer que é um ratõo, 
ã) Adagio: 

O que se ha-de dar ao rato 
Dd-se ao gato. 

Sobre o adagio : cQuem lanparà o cascavel ao gato?» 

vid. Rev. de Ethnolog. de A. Coelho, pag. 143, fase. n-m. 

/) Cantiga : 

Oh quem lôra rato^ rato^ 
Que ratara pelo chao> 
Que ratara as maçarocas 
Das meninas do senlol 

(T*b«aço). 




185 



327. Toupeira. — a) A toupeira é cega e diz-se vul- 
gannente : é cego coma ^®* a toupeira *•* (passim). fr) Cor- 
ta/r a toupa é o nome que as mulheres dão à cura de^uaes- 
quer furúnculos que ellas dizem devido ao ser peçonhento 
da toupeira. Para se cortar a toupa^ é preciso matar 
uma toupeira, guardando d'isso segredo de ujn annò. A 
forma do curativo é esta : benze-se nove vezes o furúnculo, 
sendo uma vez cada dia, e acompanhando esse acto com a 
seguinte fórmula (vid. Alm. de Leinbr. 1876): 

Bicho, bichinho matei, 
* Do que segredo guardei. 
Em louvor da Virgem Maria 
Padre Nosso e Ave Maria. ^^ 

(MoDalo). 

c) E' costume caçar as toupeiras no campo por meio 
de certos tubos de barro mettidos na terra. 



16S O povo diz, em certas phrases comparativas, coma em vez 
de como. A forma coma apparece em Gil Vicente (ex. obras, t. ni 
pag. i6i^ Hamburgo) e em gallego. A pronuncia do adagio é : «cego 
cumá toupeira». 

168 «Cest nn préjngé assez répandu de croire la taupe aveu- 

Íle» (Rolland,-: Faun^, maromifères, p. i3). M. de Norguet (apud 
oliand, ib.) cita um provérbio bretão : 

Si taupe voyait, 

Si sourd (salamandre) entendait, 

Le monde finirait. 

Cf. a seguinte cantiga pop. (apud Ad. das Neves, — itfiMtraf e 
eanç. pop,, pag. 87): 

Quando a pedra nadar 
E a cortiça fôr ao fundo. 
Então se hão-de acabar 
As murmurações do mundo. 

iM «A certain jour de la lune, on étouffe une taupe dans la 
main. Dès lors la mam est taupée et peut guérir certaines maladíes» 
(apud M. Rolland, ib. pag. 13). 



186 



328. Furão, — Os furões, quando vêem uma mulher 
menstruada, morrem ; por isso não devem ser Iractados por 
mulhefls (Paredes de Coura). 

329. Coelho. — á) Do Sermão de S. Coelho, a quej4 
allude D. Francisco Manoel (na Feira cie Annexins), obtive* 
duas versões, a primeira de Guimarães, a segunda que eu 
ouvi em pequeno na Beira-Alta : 

Sermão de San Coelho Sermão de San Coelho 

Tem o rabo bem vermelho; Tem o barrete vermelho 

A carriça deu um grito E uma «espada de eortiça 

A' porta de S. Francisco; Para matar a carriça; 

Toda a gente se espantou^ A carriçal deu um berro. 

Só uma velha ticou Todo o mundo estremeceu^ 

Embrulhada num sapato 

Para mandar de presente 
Ao abbade S. Vicente, iw 



t) No art. Os jogos popul. e infantis (in Era-Hovdy 
pag. 360) traz o snr. Th. Braga esta quadra : 

Oh Senhora Anna, 
Guarde o seu coelho. 
Que me vae à horta 
Do feijão vermelho. 

(Minho). • 

c) Cantigas: 

Caçador que vae à caça O coelho é matreiro. 

Não vae caçar o coelho. Dorme co'os olhos abertos, 

Vae por ver uma menina 

Do colletinho burmelho. 



d) Vid. Cont. pop. port. de Ad. Coelho, pag. 7. 



^^ Ao meu amigo Adolpho Salazar, de Guimarães, devo aco' 
Iheita d'e8te sermão, bem como de muitas outras poesias pop. do 
Minho. 



187 



330. Lobo, — a) Quando ura lobo vê qualquer pessoa 
n a pessoa o ver a elle primeiro, esta perde a falia (pas- 
q). ^^ 6) O lobo nos contos pop. é chamado compadre 
bo e entra a cada passo com a raposa (cf. Contos pop. 
rL de Coelho, n.*" vii, ix). c) Sobre os lobos e o ne- 
eiró vid. este livro | 112. d) Em pequeno ouvi muitos 
atos em que figurava o lobo ; eis algumas reminiscências : 
Uma vez uma mulher tinha uma figueira e passou um 
oiem que pediu figos á mulher [velha ?], dizendo-lhe que 
Java com ella; dito e feito, a mulher deu-lhe os figos; o 
mem foi-se embora e disse-lhe que se chamava Nonovi 
i Nonovio : não-no-vi) e que voltava tal dia para celebra- 
n o casamento ; o dia chegou, mas o homem, não ; a mu- 
ir perguntava a toda a gente pelo seu Nonovi^ ninguém 
5 dava noticias, antes se riam ; ella então botou-se ao ca- 
nho á procura d'elle, e anoiteceu-lhe ; depois, como visse 
longe um lobo com os olhos muito briDiantes e cuidasse 
e era o noivo, começou a dizer toda contenle [a ideia é 
a, mas parece-me que o dito era em verso rimado] : «Lá 
ai o meu Nonovi com tochas accesas que me vem bus- 
•!»; o lobo aproximou-se, fez ão! e devorou a velha 
)ndim da Beira). — Uma vez uns lobos tinham enterrado 
L carneiro para o comerem em certo dia ; mas um d'elles 
ás escondidas e comeu-o sósinho ; os outros, quando vi- 
n que o carneiro tinha desapparecido, disseram que ha- 
Lm de saltar todos por cima de um carro com eSladu- 
»s, (carro de bois), que o criminoso ficaria espetado nos 
adulhos; saltaram, e o criminoso ficou effectivamente €»- 



166 Virgílio (Egl. IX, 53-4) diz : 

— Vox quoque Moerím 

Jam fugit : lupi Moerim videre priores. 

«La vue d'un loup rend un homme muet» (Rollaadj ib. pag, 
•—Pia Romarúa, x, pag. 289, M. Darmesteter menelMià a tnesma 
rst. em Plinio, S. Ambrósio, Isidoro de.befilha, Thòò^ÊtÉor, Pia- 
Virgílio, e no Avesta. 'i ..'. 



188 



petado nos pàos. "^ (ibidem), e) As povoações da Beira, 
principalmente na serra, são com frequência atacadas por 
lobos, aos quaes até fazem montarias os caçadores em cer- 
tas occasiões ; por isso, quando alguém (gente pobre) con- 
segue matar um lobo, vae depois com a pelle d'dle empa- 
lhada pedir pelas portas, — como eu fui testemunha muitas 
vezes. — f) Cf. o conto vi de Ad. Coelho/ g) Adagio: Do conr 
todo come o bbo^ isto é, ninguém deve considerar uma cousa 
como segura, alludindo ao pastor que, apesar de ter o gado 
contado, vê o lobo levar-lhe uma rez (Vimieiro), h) Dos 
lobishomens e lobeiras fallarei adeante. , 

331. Raposa. — a) Do mesmo modo que o lobo é o 
compadre, a raposa é a comadre, b) A raposa é .o typo da 
astúcia, c) O figado frito de raposa é bom para certo mal. 
d) Na manhã do S. João, antes do Sol nado, devem proca- 
rar-se as raposas nos campos e chamar-se-lhes muitos nomes 
como porca, bêbeda, lambareira, etc. para ella não vir bus- 
car asgallinhas (Sinfães). e) Conto pop. — ^Era deumacc- 
casião uma rapo3a e foi buscar seccôrro para os jQllhos (co- 
mida) e depois vae e foi là o coelho ao buraco d^ella, mas 
em antes de ir tinha feito um buraco no valle, largo de uma 
banda e estreito da outra, e dipois preguntou aos filhinhos 
da raposa pela mãe, e dipois os filhinhos, indo là aqueUlB 
homem, quando a mãe chigou disseram : — «O' minha mãe, 
veiu (A um homem com as orelhas esguiadas, que le ha^ 
de fazer e acontecer». — Vae ella e pensa: cAil que fdo 
laárão do coelho I Esperae ahi que eu le vou fallar». — K 
ella foi á procura d'elle, mas como elle entrou pelo buraco 
mais largo e sahiu pelo roais estreito, vae ella e seguiu-o e 
ficou encravilhada (i. é, presa) e elle vae de volta e diz-le: 



. iff ,. hmbrsL 08 eelebres juizos de Deus de edade-media (tam* 
bem^osiliqaye em Portugal^, vid. Panorama, vol.iv^ Crenças portug. 
—por A. Herculano). 



189 



«O* minha raposinha, 

E' dizô-lo 

E fázéio ! 

Zus, catroz! — » 

(Malft). 

f) Cf. OS Cont. pop. do snr. Ad. Coelho, sobre a raposa. 

332. Morcego. — «Para apanhar os morcegos, quando 
à noitinha andam voejando pelo ar, é bom levantar uma 
canna e gritar-lhes repetidas vezes: 

Morcego! morcego t 

Vem à canoa^ que tem eebo». 

(Ooiuigllerl PedroM,— 2Veul. pop,, VftrU, a.* 449). 

Em algumas terras, quando o morcego entra ã noute 
numa sala, os rapazes costumam apanhà-los, agitando cha- 
péus no ar, etc. (Mondim da Beira). "• 

333. Baleia. — Uma vez um homem foi engolido vivo 
no mar por uma grande baleia; mas, como elle levasse 
comsigo um instrumento cortante, cortou o ligado do ani- 
mal, que, morrendo, foi pela agua trazido à praia. Uns pes- 
cadores, vendo a baleia morta, começaram logo a desfa- 



iM. * «Pendant les ehabdes soirées d,'été les enfánts diercbent à 
attirw las chaaves-souris ea agftant eo Tâir soit un mouchoir blanc, 
soit m cbapeao, soit une longne perche et en leur adressant certai- 
nes paroles mysterieuses» (Faune pop,, mammif,^ p. 5). M. RoUand 
traz entre outras, estas formulas (ib. psig. 6) : 

Cat-sori t 

Passe par ichi 

On fdonnera dp |9ia mnsi. 

Bloody, bloody Bat, 
Come into my bati 



190 



zê-la para guardasoes, oleo, etc; nesta occasíão o ho- 
mem, que ainda estava vivo, gritou e foi salvo, recebendo 
até o animal que elle havia morto (concelho de Paredes). ^" 



i«9 Também^ se a memoria me não engana, onví em peqofiDO 
um conto parecido. A semelhança entre elle e a fabula de Jonas é 
tanta, que é provável que o conto não seja popul., mas> por ex., in- 
troduzido por algum pregador em sermão, ete. 



APPENDIOES A ESTE CAPITULO 



I. — Vozes para chamar os animaes. a) As galli- 
nhãs chamam-nas assim na Maia: chu-chu^ chu-^hu,; (m\ 
pi-p% pi-pi; assim em Mondim da Beira: plmha^ plMae 
também, fechando os lábios como quem dá um beijo ; em Gui- 
marães chamam-nas como na Maia, e assim : xtirrinha, hm- 
rinha] em Mondim enxotam-nas dizendo: xô^ x6! (cf. § 
313-6). b) As rolas : rú! rúl (Guimarães), c) Os gatos : bkhl 
bich! bich I ou : bichinho, bichinho; para os enxotar dizem: 
sape! sape gato! sdpe éCahi! (passim). Cf. os versos (Porto): 

Sape, gato 
Lambareiro^ 
Tira a mão 
Do sucareiro. 

d) Os cães em Guimarães chamam-nos íd, tô; eraM(Midim 
da Beira : boch, boch, boch; ou ainda : poch! póch! (p-6) Ott 
boca! boca allil e) Os porcos em Mondim da Beira' chamam* 
nos: bico! bico! ou: bicd! bicd! hicdtóy tô, tô. . ./naltò 
dizem bicd^ bicd bica ou reco ! reco ! (um dos nomes do porco - 



191 



Da Beira-Alta é reco) ; em Mondim para enxotar os porcos 
4ambem dizem : tôJ tô d'ahi! f) Aos bois na Maia dizem- 
:lhes assim: toma^ torna (como em Mondim); quando o la- 
vrador anda a lavrar, conversa com os bois e falla-lhes 
como se elles o entendessem (Beira-Alta) ; para guiar os 
bois diz-se: ^^é! uó! (Mondim etc). g) Para fazer parar 
K)s cavallos diz-se: chó! chó (Mondim), e para os fazer an- 
dar produz-se um som dobrando a lingua com força; o 
almocreve também conversa com os machos. Quando os 
cavallos vão beber, assobia-se-lhes (passim). [Se alguma pes- 
-soa está bebendo, e outra, por brincadeira, lhe assobia, diz 
(Porto) : 

Nunca a agua me prestou 
Senão quando um burro m% assobiou.] 
* 

II. — Armadilhas para apanhar pássaros. 

a) Alçapão. — E' uma espécie de gaiola quadrada de 
0,"*1 de alto pouco mais ou menos, tendo na parte supe- 
rior uma porta que abre para cima; esta porta, na parte su- 
perior, sustenta um chumbo, para que, desarmado o páo que 
-a sustenta, ella caia e feche a gaiola; d'ella se suspende 
oima espiga de painço, de modo que o pássaro a não possa 
tocar sem tocar no pau que a sustenta. Os alçapões são ge- 
Tabnente destinados a pintasirgos (pintasilgos), e por isso 
Junto d'elles se põe uma gaiola com^m pintasilgo dentro 

para chamar, os outros (Guimarães). 

b) Caniços ou Nassas. — Estas armadilhas são feitas de 
vime ou varinhas de choupo. Tem a forma de um covi- 
lhete "® suspenso de um lado por uma varmha e d'outro 
lado assente no chão. Debaixo deitam-lhe migalhas, etc. 
para que os pássaros, vindo comê-las, bulam na varinha e 
iaçam cahir o covilhete, que logo os encarcera (Maia). 



>^ Covilhete (Mai^, Mondim da Beira, etc.) é o nome de uma 
tigela de barro. 




192 



c) Ha uma outra armadilha semelhante à precedente, 
mas com esta differença : faz-se no chão uma cova pequou 
onde se deita a isca, e por cima põe-se uma UdK)a, do 
mesmo modo suspensa e que do mesmo modo cae (Gni- 
marães). 

d) Caixão. — E' um caixão ordinário que se arma por 
meio de dois páos e um fio preso nas duas extremidades 
do caixão que pousa no solo. E' destinado ao pombo (Gui- 
marães). 

e) Castellão. — E' ura arco cujas duas extremidades 
estão tensas por uma corda. Na curva do arco prende-se 
uma rede cónica. E' destinado a caçar sombrias; o cba« 
mariz é um grillo ou mosca grande (Guimarães). 

f) Rede,^ — A rede emprega-se para apanhar os pássa- 
ros bravos nas medas onde vão pernoitar ; cerca-se esta 
com a rede, bate-se a meda, e os pássaros, ao fugirem, fl- 
cam presos nella (Guimarães). 

g) Laço, — O laço é feito de fio, com um nó corredio;, 
dentro do circulo formado pelo laço põe-se milho, e quando, 
para o comer, entram as pombas dentro do laço, poxa^ 
pelo fio, ficando presas pelos pés (Guimarães). Em Mondim 
da Beira é costume cercar o ninho de qualquer passara 
com o laço, e depois puxar por este quando o pássaro entra. 

h) Armelos com uisco. — Os mais usuaes são feitos ooia 
uma linha de 0/^3 de comprido, pouco mais ou menos, QO- 
berta com visco e preso nas duas extremidades um bocado 
de pão, sendo preferivel côdea, por ofiferecer maior resis- 
tência ás picadas do pássaro que toma o pão, e tentando 
voar com elle, fica com as azas presas no visco. 

Pode servir também um bocado de piassava^ comadit 
ferença de levar pão só numa das pontas; o pássaro pren- 
de-se da mesma maneira. Tanto á linha como ao piassava 
dà-se o nome de palheiras. 

Também se applica o visco em palheiras, propriamente 
ditas, para apanhar os pássaros no bebedouro: coaheddo 
este, que é quasi sempre procurado diariamente, coUocam-ae 



193 



volta d'elle dé distancia em distancia pedras ou torrões, 
bre os quaes se põem as palheiras. Não deve porem ji 
a altura, isto é, adistancia entre o chão. e a. palheira»,, 
ceder muito a do pássaro, para que este^ passando sojb 
tas para beber, se envisque. 

Ha pássaros que não comem pão (boieira ou levan- 
5ca, — ^nome usual) e então em vez d'este, coUSo-se pres^ 
tias azas, numa palheira de piassaba, 6 ou 8 fnoaças^; 
ie-se a paUieira assim arranjada sobre duas pedras, mas 
d pouco obliquamente, de modo que quando teutão comer 
insectos a palheira lhes cae sobre as azas (Guimarães.) 

i) Costellas. «— Para apanhar os pássaros usam-se na 
rtelha (Beira-Baixa) umas armadilhas, (chamadas cp$téí- 
i) de rede, com um pincho, onde se põem aúdes (formigas 
azas) ; quando os taralhões vêem apanhar os aúdes, a 
madilha cae e elles ficam presos. — NaBeira-Alta também 
o conhecidas as costellas para os pássaros, mas não 
sso dizer em que consistem. 

j) Abuizes. — Os abuizes São uma espécie de armadi- 
i com um laço de cabello e aúdes (Sortelha). 

A) Inxôzes. — Estas armadilhas compoem-se de . uma 
va com umas taboas, de tal modo que abrem quando a 
irdiz passa, e tomam a fechar (Sortelha). 

in. — Armadilhas para APÁNaAR peixes. 

a) Chmnbeira (para peixe metido). — É umja rede em 
rma de saia cosida na cintura, e g^uari^ecida de espheras 
í chumbo para poder ir ao fundo; na parte estreita tem 
na corda de quatro a cinca braças de comprido, corda 
2 que se pega quando se atira a rede ã agua. A cbum- 
lira fecha por meio de um artificio e traz o peixe (Mmho., 
luro, Beira, etc). 

b) Noça. — E' uma rede semelhante á do castellão^ com a 
iterença de ter na boca uma rede mais pequena para obs- 
r a que o peixe que entra não possa ser levado pela cor- 
ute; colloca-se na parte mais estreita do rio (Guimarães). 

18 



194 



o) Alvitana. — E* outra rede comprida que se atra- 
vessa no rio, durante a noute, para apanhar o peixe na 
. corrente : outras vezes a alvUcma põe-se adeante dos alo' 
quês que, assim tapados, são batidos com um pau para o 
peixe fugir e cahir na rede (Guimarães). 

d) Aranha (para lampreias e sáveis no rio Tâmega e 
Douro). — Parece-se com uma teia de aranha, d'onde Ibe 
vem o nome. 

é) Ainda ha outros meios de pescar : ã canna cpm o as- 
zol (differente para as trutas e para os bordalos); amas- 
sando trovisco com lama, embrulhando-o num panno e met- 
tendo-o nos aloques das enguias, que, assim atordoadas, são 
apanhadas (Minho, Beira-Alta, etc). De redes, como &(^ 
queiro^ estremalhOy barbai, lampreeiroy cabaceira, etc tão 
sei mais que os nomes. 

IV. — Factos que não puderam ir no seu logar. 

a) D'alguem que anda muito vagarosamente diz-se ; m 
a passo de lesma, b) Os alfaiates são chamados arcmhas. 
c) A Ucha d'dlrei do | 266 é chamada cavallinho d^ekfi 
em Sinfães. d) Para expulsar a lagarta e o pulgão das 
vinhas, vae um certo padre (pois nem todos têm essa vir- 
tude ou se prestam a isso) com resas e agua benta correr 
as vmhas, excommungando aquelles animaes (Cadaval etc. 
Cf. as Practicas de exorcistas) . e) Cantigas da pulga e do 
piolho (a 1.% de Cab. de Basto, a 2.* e 3.* de Vizeu, a 4.' 
e 5.* da Feira) : 

De Lisboa me mandaram A pulga e o piolho 

Um presente com seu molho : Andam na várzea a sachar : 

As costellas d'uma polga Lá vae o persevelhito ^^^ 

O coração de um piolho. Com a cesta do jantar. 



171 O povo ha Beira-Alta diz penevêlho correspondentemente 
^persetéjo. 



«.; 



195 



Uma palga den^me um coaoe 
Deitou-me a baixo da cama : 
Não ha coisa qne me agrade 
Como ttioiía mídlier roeaiana. 

k pulga é bicho negro. Santa Luzia do Couto, 

Tem os dentes de marfim^ ' S. Matbeus de Mandail, 

[)orme no meio das moças^ Tirae os dentes às pulgas 

2uem me dera ser assim t Que me não deixam dormir. ^^2 

f) Adivinhas (I .* p&ifúe e piolhos ; 2.* piolho ; 3.* pulga ; 
i.* mosca; 5.* formiga): 

^•* Tamanho como um cavaco, s-' Semente preta 
Vae buscar os bois ao matto ? Terra mimosa. 

Salta a semente, 

»•• Todos o tem. Fica uma rosa? 

Ninguém o quer ter; 

E depoiá que o vêem ^* O que é que nasce na deveza 
Ninguém o quer perder ? E vem comer co'o rei à meza t 

>•* E' negra como o pez 

E agarra como a torqnez . ^^^ 

g) Quando se dá com um ninho de pássaros, deve dl- 
ser-ôe para as^ formigas não irem là : 

. Formigueiro, 
Vae ao oiteiro^ 
Se tiver ovos, chuchae-os. 
Se tiver passarinhos, esmigalhae-os. 

(Gonáomar). 

---Para as formigas não irem aos ninhos não se deve di- 



^"^^ Cf. os epigrammas citados pelo snr. Gastou Paris no Pe- 
«í Poucet, pag. 22-23. 

"» Vid. Era-Nova pag. 254, 435 e 438. 



196 



zer, debaixo de têlha, qrie elles tem ^ovos ou passarinhos 
(cf. § 270-Ò). h) p sapo ék Qfjudante e companheiro das 
Bruxas (Maia). — Quando um sapo noa fita é preciso dizer 
de repente, três vezes, cuspindo sempre fora ^aia) : 

Santos — émmim^ 

Quebrantos — em ti (cf . % íSO-jy, 

— Cuida-se que o sapo, quando vê uma cobra, começa a 

•gritar, e se lhe vae metter na boca ijpassm); cf. acanígt 

(Porto) : 

O sapo é feiticeiro^ 
Ningnem o ha-de dizer, 
Mette-se na boca á cobra 
Para ^élla o comer. 

i) As Moiras ençcmtadas apparecem em. fornia dé co- 
bras (vid. adeante). j) A galliniha preta em casa livra de 
coisa má, porque esta acanhará a ave negra e não a geirto 
Rev, Univ. Lisb.yiv, 267. Cf. este li\TO 1 286-/^. k) Quando 
dá mna moléstia qualquer num rebanho de ovelhas, proes- 
ra-se uma cobra muito pequena, mette-se dentro do^chocar 
lho ou campainha que a ovçlha guiadeira traz, e tapa-ft 
com uma rolha de cortiça. A cobra fica viva dentro do 
chocalho até o gado estar todo bom (Moncorvo. Apud Ál- 
man, de Lembr, de 1S59, p. 260).— Nas aldeias é costumo, 
pendurar ao pescofo do gado, meudo e grande, chocalhos e 
campainhas: as campainhas são de metal amarello, e os 
chocalhos são de lata e compridos (estes usam-se só im) 
gado meudo). — Quando o gado ou a gente tem o bicho iér 
ta-se em agua chifre de veado, e lava-se nessa agua o gado 
e a gente (Famalicão). Z) Sobre o coelho e o gato vid. o 
conto xni da coUecpão do snr. Ad. Coelho. — Uma cantigt 
da Feira diz : 



. i 



197 



O eodbo é matreiík), 
Fé-la eaioa na queiró; 
E' como a moça solteira, 
Fá-4a cama e dorme só. 



m) Os ovos que jse deitam para a gallinha choc^ir não 
>vem passar por logar onde esteja agua, porque se estra- 
im. Se porém tiverem forçosamente de passar, deve dei' 
r-se-lhes por cima. ou saJ ou hrôa (pão de milho) esmiga- 
ada [provavelmente por o pão levar salj (Maia), n) «O 
Hraz (peixe) tem duas malbas, uma de cada lado da ca- 
^. Diz-se entre o povo que é o signal dos dedos de S. 
dro, quando num dia em que andava pescando apanhou 
te peixe» (C. Pedroso, Trçid. pop., — Varia n.^ 446).— 

o) Cdk). — Abel tinha um cão que estimava muito; 
tando Caim matou Abel, o cão foi pelo mundo fora a di-. 
t\ Caim. » . Caim. . . D^aqui o grito do cão, quando lhe 
liem (Mafra). A este grita do cão {cairrhy caim...) cha-i 
Me em Mondim da Beira, etc. canJiar. — Para fdue^ seç- 
f: o leite às cadellas^ põe-se-lhes ao pescoço uma saqui^ 
ia com certas cousas (creio que uma conta) (Extremadu- 
). — O cão pediu ao lobo que o ensinasse a uivar, e o 
bo pediu-lhe que o ensinasse a farejar. O lobo ensinou^ 
uivar, mas quando lhe pediu que o ensinasse a farejar, 
cão disse: 

Se te eo ensinasse a farejar, 
Â' cama me ias matar. 

(De ao pé dA Qoarda). 

p) Bv/TTos. — Os burros tem as orelhas grandes, pelo 
guinte motivo : Quando Deiis creoii ós animaes, deu o 
ime a todos ; d'ahi a dias veiu verificar se elles se lem- 
avam ainda dos seus nomes ; todos se lembravam, menos 
burro; Deus então puxou-lhe muito as orelhas, e disse- 
3: «burro, burro, sempre hasde ser burro!» (Mafra; cf. 
322-c-d). — Quaudo se passa por um sitio onde se en-» 




198 



contram burros a espolii^àrem-se no chão, deve-se, para 
não nascerem trilhaduras nas plantas dos pés, cuspir na- 
quelle sitio três vezes (Norte do reino), q) Quando se 
lança ã panella o sangue do porco com o fim de o coser, 
deve dizer-se para o sangue crescer: Bica! bical que éa 
voz com que se chamam os porcos (Maia), r) Âdàgk) (Pa- 
pos de Ferrehra) : 

A mulher e a ovelha 

Quer-se como o Sol na cortélha. 

s) Quando as gallinhas desovam, devem-nas passir 
pela perna esquerda de um homem para tornarem a pôr 
ovos de casca dura (Minho), t) No principio fallava a ser- 
pente, o sardão, o sapo, etc. Deus perguntou-lhes se que- 
riam ter pernas, e ferrar. A serpente disse que não queria 
ter pernas, mas ferrar. O sardão disse que não queria ter 
pernas e não ferrar, mas ser avesso ás mulheres. O sapo 
disse que não queria ter pernas nem ferrar, mas ter o 
corpo feio, e os olhos bonitos (Lef a do Balio ; cf. §§ 280-6, 
282-6 e 283-a-6). u) O sapo tinha cauda e a toupeira 
olhos. Depois trocaram, e a toupeira ficou cega e com cauda, 
e o sapo com uns lindos olhos e sem cauda (Chaves ; df. 
327-a). t;) No principio do mundo a ovelha fallava. Í31a 
estava presa, mas queria que lhe abrissem a porta, porque 
tinha chegado Março e já havia que comer, e ella disse 
então : 

No Março 

Onde quer eu passo ; 

No Abril 

Abre a porta^ deixa-me ir; 

Em Maio 

Onde quer eu caio. 

Mais tarde, quando a Virgem ia para o Egypto, andava 
a ovelha no monte a berrar : Belém ! Belém I A Virgem não 
queria que ella berrasse, para se não saber que ia alli, e 




199 



i ovelha continuava sempre a dizer aquíllo; pelo que a 
^irgem a amaldiçoou e a condemnou a berrar (Famali- 
ão, etc.) w) Adagio: Tão velho como a serpe (passim)» 
j) «Quando o gallo canta ao anoutecer, indica moça que 
ístà para fugir da casa paterna» (Brazil; Alm. de Lembr. 
le 1860, p. 182). y) Em vários pontos da Beira-Âlta cos^ 
umam metter um gato vivo numa panella tapada e coUo* 
á-la no fogo do galbeiro de S. João : o gato morre assim 
ssado no meio da alegria barbara dos rapases ^^*. — Ao pé 
le Vianna do Castello é também uâo queimar um gato no 
m das malhadas {Alm. de Lembr. de 1859, p. 87). i^* 



17* Temos aqui certamete o vestígio de um antigo saorifioio 
Id. os meus Fragm. de Mytk, p. i2). 

^73 Tanto neste cap. como no antecedente nao puz os nomes 
íentificos nem dos «viimaes^ nem dos vegetaes, porque, se isso era 
5il nuns casos^ era difficil noutros ou impossível, visto não se sa- 
r a que variedades as superstições se referem às verses. 



CAPITULO X 



o homem e a mulher 



334. I. Origens primitivas. — a) Quando Deus qnií 
formar Eva, tirou uma costella a Adão, mas veiu um cão è 
levou a costella. Deus correu atrás d'elle, e, agarrando^e 
pela cauda, fez d'ella a mulher, dizendo : 

Tanto vale fazer Eva 
De uma costella de Adão 
Gomo do rabo de um cão. 

(B. AlU). "• 

b) Noutra versão, diz-se que em vez do cão foi uma ra- 
posa. D'aqui a manha da mulher (Tras-os-Montes). c) Nott- 
tra versão diz-se que foi um gato, e que, tendo-se mettído 
num buraco, o Senhor puxara tanto que a cauda se arr^ 
cou: Deus não querendo ir tirar outra costella de Adio, 
porque este poderia acordar, fez da cauda do gato a mulber 
(Guimarães), d) Andava unia vez a mulher a bulhar com 



176 Cf. Gubematis, Myth. Zool, n, 39. 



I 



201 



)iãbo. Deus mandou S. Pedro apartà-Ios. O santo Ibí, cor- 
L a cabeça a ambos e voltou. O Senhor perguntou-lbe ; 
' Pedro, tu que fizeste?» «Não se queriam, accommodar^ 
3u peguei e cortei-lhes a cabepa». Tornou o Senhor : cEu 

te mandei fazer isso ; toma a pôr as cabeças nos seus 
^ares». S. Pedro foi, mas ao coUocar as cabeças sobre os. 
scoços, enganou<se e collocou no pescoço do Diabo a ca- 
ça da mulher e no doesta a do Diabo. Eis porque a mulher 
n a cabeça tão leve (D'ao pé da Guarda). "' e) Sobre a 
fgem do homem, já se disse que elle tem uma costella de 
Igueiro, etc. (cf. § 254-a). 

335. II. Antes do parto e no parto* -r— Infância. 

Uma mulher grávida não deve cheirar flores, porque 
sce a creança com ellas no corpo (Arcozelío). b) A mu- 
3r grávida não deve trazer chaves, nem nada com feitios, 
ra a creança não nascer com signaes (passim). c) Para 

saber se uma mulher traz rapaz ou rapariga temos va- 
>8 meios : 1 .^ cospe-se na boneca da castanha e deita-se 

1 lume; se estoira é rapaz, se apenas bufa é rapariga 
londim da Beira, Fafe etc.) ; 2.** Observa-se com que pé a 
ulher desce o primeiro degrau de uma escada: se fôr 
im o direito nasce rapaz ; se fôr com o esquerdo nasce 
ipariga. "8 (Braga). [Cf. §§ 96, 201 e 277-dí doeste Uvro]. 

Quando uma mulher tem um parto difflcil deve-se vol- 
r uma telha de egreja ou capella para a alliviar (Villa- 
ôal). Numa versão de Poscôa diz-se que é o marido que 
Ide levantar a telha (Alm. de Lembr. 59, p. 263). e) Quando 
na mulher está a dar á luz, para ser feliz, devem ir nove 
irias, todas virgens, dar nove badaladas no sino, puxando 
an os dentes na corda (Escalhão, — A, de Lemb. de 1861, 



"7 Cf. Gabematis, Myth. Zool., i, 325. 

^^8 Cf. a seguinte superst. do Espiro : «IVadtmi autem sipost 
imi ad dextram partem abeani taun, generatos mares esse; si in 
^am, femnas (Plínio, — H. N. vni^ 70). 



202 



pag. 375. Também já ouvi a mesma superst.). /} A mu^ 
Iher gravida que passa por debaixo do paliio, numa procú- 
são, terá bom-successo {A. Lemb. de 1856^ p. 271). 
g) Para apressar o parto deve cor tar-se com uma tesoura 
um fio de retroz vermelho (esta côr é essencial) em peque- 
níssimas porções e dá-lo em vinho a beber á doente (Uca- 
nba). fi) Quando nasce uma creança, não se embrulha num 
saco, porque, se se embrulha, sae ladra (Maia). í) Quando 
se lava a primeira vez um recem-nascido, deita-se-lhe na 
vasilha onde o lavam dinheiro, para a creanpa ser traba- 
lhadora (Maia. Cf. I 149-c-d). j) Quando os meninos es- 
tão por baptisar (i. é, quando são moiros) e andam ao collo 
da mãe, é preciso pôr-lhes atravessadas no braço as cal- 
ças do pae, para as Bruxas os não levarem (Chaves). 
k) «Não se deve deitar uma criança com a cara para a Lua, 
porque fica amarella» {Varia^ por C. Pedroso, n.° 453). 
l) Quando se entra em casa de uma mulher parida, deve 
dizer-se : Benza-te Deusli^ (P. de Ferreira), m) Ha mulheres 
com leite, as quaes pela sua presença gosam da propriedade 
de o tirarem a outras. Para evitar isto é conveniente, quando 
duas mulheres nessas condições se despedem, dizerean: 
«Adeus, F., eu não quero o teu leite». — Se o leite desap- 
parecer, para que elle volte, é preciso pôr um coUete ao 
relento da noute, três noutes a fio, e de todas as vezes dar- 
lhe muitas pancadas; ao fim de três noutes veste-se ocd- 
lete orvalhado antes do Sol nascer (Extremadura). n) Para 
o leite seccar às mulheres, quando andam a criar, fatae 
qualquer das seguintes cousas : põe-se ao pescoço um &àr 
lar feito de páosinhos de figueira; mettem-se ramos de 
salsa verde debaixo dos braços ; poem*se laraqas azedas 
nos bicos dos peitos; lança-se leite no lume (Maia, etc.). Se 
uma mulher, que anda a criar, deixar cahir leite ao chão, e 
vier uma cadella, uma gata ou qualquer ammal feminino 
que crie, e o lamber, secca o leite da mulher e augmenta o 
do animal (Maia, etc). o) A' uma mulher que beber agoa 
ou outro qualquer liquido por um vaso por onde outra mu^ 



203 



Ihèr tenha bebido, secca4he o leite. Para o leite tornar, é pre- 
ciso que a nmlber a quem elle seccou beba primeiro e dô 
à outra de beber (Barcellos). f) As mulheres que criam, 
devem trazer comsigo azeviche, por causa das dada$ nos 
peitos (Guimarães). As dadas curam-se assim : pega-se num 
pente com o airepio para cima, [corre-se ?] no peito doente 
e diz-se (resando em seguida) : 

O bô hozQe me deu pousada^ 
E má mulher me fé-ia cama 
Em eima das vides. 
Em eima da lama. 
Bai-te, dada, d^essa mama. 

Uma versão de Sinfães explica d'este modo a fórmu.a : 
Jesus Christo pediu pousada uma noute a uma mulher, e 
esta fez-lhe a cama sobre vides e sobre lama, por o marido 
annuir ao pedido de Christo contra a vontade d'ella. Em 
castigo, nasceu uma dada no peito da mulher, mas Christo, 
a pedido do homem, curou-a com a fórmula supradita (Vid. 
o meu art. Carmina magica in Era Nova, | 3.*^ e 37.°). q) k 
mulher que tem filho pequeno não consente que lhe baloi- 
cem o berço vasio, pois isso o tornaria bravo (Minho, — 
Alm. de Lerr^. 1856, p. 271). r) Duas crianças que ainda 
não faliam não se devem beijar^ pois, se o fizessem, não 
fallaria depois uma senão quando fallasse a outra (Ib. ib.). 
s) A mãe que amamente um filho, não deve beber quando 
o tiver ao peito, sob pena de ficar com ataques epilépti- 
cos ; ha todavia um remédio : se encontra um d'estes sa- 
cerdotes novos, sabidos do povo supersticioso, e que não 
perdeu as ideias que bebeu com o leite, pede-lhe qiie ao 
acabar de dizer a missa nova metta na boca um bocado de 
pão de ló, e ficará este sendo antídoto do mal que fez a 
mãe da creança (Ib. ib.). t) Â primeira camisa vestida por 
um recemnascido, guarda-se e não se lava; pois aconte- 
cendo ser a creança accommettida pelas feiticeiras, mette-se 
a camisa dentro de uma panella a ferver ao lume, pelo que 




204 



a feiticeira eâtrárá pela porta dentro a ãescobtir a panella 
para tirar a camisa (Paços d e Ferreira) . u) Qaando se vé ama 
criança com o cabello levantado é en^^o^íã, e por isso deve co- 
mer detrás da porta do forno parte de um bolo de pão denn- 
Iho com aseíte, e deitar o restante a um cão preto (Douro, 
Beira-Âlta, Qtc). v) No dia do baptisado de uma criança 
a madrinha deve dar pão-trigo a qualquer pessoa que o 
pedir; este pão charaa-se samagaio (Guimarães), w) Quando 
se baptisa uma creança, e ella não chora durante a cere- 
monia, morre cedo (Maia), x) As creanpas que tem uma 
cruz no ceu da boca [cruz resultante da articulação dos 
maxillares superiores com os palatinos] tem o dom de curar 
umas certas doenças, e adivinham o futuro (Extremadura). 
y) Quando a madrinha entrega o pequeno baptisado á 
mãe d'este, diz-lhe (Guimarães) : 

Entregou-m'o amoirado> 
Aqui Ih*o entrego bem criado; 

ou (vid. ParUheon, pag. 106, not. 1, num art. de Martins 
Sarmento) qualquer d'estas fórmulas : 

Levei-o amoirado, Levei-o pagem (pagão) 

.Trago-o baptisado. Trago-o christom. 

z) Não é bom deixar levar aos gatos a embiga (sic) ou 
cordão umbilical, porque a creança ficará ladra (Famali- 
cão), a') E' preciso queimar a envide (cordão ombilical). 
V) Se antes das creanças fallarem, estas se mirarem num 
espelho, ou se alguém lhes cortar o cabello, ficam sem falia 
(Minho). &) Põe-se um^. tesowra aberta [à virtude do apo 
une^se a da cruz], arruda e alecrim k cabeceira do berço 
das creanças para as Bruxas as não chuparem (Minho, Alm. 
de Lembr. 1856, p. 271). c') As creanças é que costumam 
tirar as sortes nas rifas, etc. (B. Alta), d') As creanças cos- 
tumam trazer em volta do pulso um cordão com os seguintes 




205 



»jectos enfiados : um vintém em prata, uma conta de^azevi- 
e, uma figa, etc, — ^^por causa dèòoims más (Beira-Alta, 
»uro, etc). ^'), Quando se vê uma creànpa a primeira vez 
ive dizer-se (Famalicão) : 

Benza-te Deus! 

Bons alhos te vejam 

E os maus quebrados sejam I 

f) Para as creanças perderem o medo faz-se um dos 
guintes remédios; a creança leva um frango preto a S. 
,rtholomeu-do-mar, ao pé de Esposende; — ou <;ome dè 
jis da porta crista de gallo assada (Minho), g') Ascrean- 
s, quando tiram um dente, devem deit&-lo para trás das 
stas, dizendo três vezes (Gaia etc.) : 

Dente fora 

Outro melhor na cova. 

Outras formulas : 

Dente fora 

Oitro mjlhor na cova ; 
Em louvor de S. João 
Que me dé oitro milhor 
P*ra comer o pâo. 

(Voosella). 

Dente fora 
Cagalhão na cova. 

(Mondim dft B. ete.). 

Dente podrig^o Em louvor de S. João 

Este fora e outro são. Toma là o meu dente podre 



(TaboAfO). 



Dà-me cá um sao. 

(Norte do reino.) 



No Brazil as creanças, quando chegam á edade de 
idar os dentes, tiram um, deitam-no ao telhado e disem : 



206 



Mourão^ mourão^ r Ip , 
Tomae vosso dente podre 
E dae-me cá o meu saò. "^' 

(^m, dê Xemb.» 1864, p. Í8S). 

h') Quando se lava a roupa das creanças não se deve 
torcer, porque se torce o crescimento d'ellas (Maia) t) Para 
amansar as creanças bravas conheço dous meios: — i.° Ba- 
tem com as cabeças d'elias na do animal que S. Marcos, 
padroeiro de S. Marcos da Serra, tem aos pés, pausando as 
pancadas com estes versos (Algarve, — Abn.deLemb. 1859, 

p. 331): 

Mé sinhor san Marcos, 

Que amansas toiros brabos^ 

Amansai-me este filho. 

Que é pior q*a todo-los diabos. ^^ 

2.° Levam as creanças a uma capella de S. Gonsalo, 
pondo-as em cima do altar emquanto a madrinha (e parece 
que a mãe) dão nove voltas á capella; depois com o ca- 
jado do santo dão nove pancadinhas no rábistel das crean- 
ças (Villameã, em Traz-os-Montes). j') A creança que vae 
crescendo, e não falia, pôde ser curada por dois modos: l.** 
E' levada dentro de um folie às costas da madrinha a sete 
casas {três ou nove^ segundo outras versões), dizendo esta 



179 Estes versos of!ereçem-nos várias particularidades de lin- 
guagem. A respeito de mé (meu) sei que no Sul, etc. se diz mê e mei] 
a respeito de amansas (amansaes) esta forma corresponde ás 2.*" pes- 
soas pi. do gallego, 

Ay ! si nom me levas pronto. 



Pombas, qu' arru/ds nas eiras, 

(Gantares gallegos). 



posto que neste dialecto do port., ao lado de levas, existe levades, 
etc. como no port. archaico; a respeito de q*â (gail. ca), esta palavra 
ô olat. ^[uam. 




207 



Esmollinha á crean^ do foUe, 
Que quer (áUar e nao pôde, 

igando um bocadinho do que lhe dão, e mettendo na 
da criança o restante. A madrinha com a creanpa deve 

ir por uma porta e sahir por outra (Minho, Douro). — 
creança muda ha-de passar, com um cartucho de con- 

; na mão^ debaixo do andor de S. Luiz (numa festa de 

i), por três vezes, dizendo quem a leva: 

S. liOiz, rei de França, 
Dae íáUa a esta creança 
Que ella quer fállar e caoça. 

k') Se o menino, que está a criar, embala o berço 
ido vasio), chama por outro que hade nsiscer breve; 
se o berço é embalado por irmão ou irmã mais velha, 
> é perigoso, porque a creança que dorme no berço 
dores de barriga (Maia). /') Para as creanças dormi- 
é costume cantar-lhes cantigas, ao mesmo tempoque 
embalão os berçós. Eis algumas d'essas poesias do 
3 (Minho): 



nana, meu menino, O menino quer dormir, 

k mãesinba logo vem : O somno num le quer vir : 

,var os teus panninbos Anda somno, anda ta, 

3ÍDha de Belém. Para o menino dormir. 

• 

lino quer dormir, Quem tem meainos pequenos, 

mo num le quer dar : Num se Vinora o cantar : iso 

somno, anda to, Quantas vezes se le canta 

o menino nanar. Gum bontade de chorar! 



1^ A mulher que me disse os versos explicou-me assim, esta* 
í : Não se faz escariuso do cantar. —Jíiò Cadaval (Pecsà) ignorar 
ca extranhai', o que faz muito sentido Bminmkte.fmopao 



208 



Embéla, berço, embéla^ Qaem tem .meninos piqueoos. 

Com paasinho de oliveira, Allevia a criaj^âo : 

Embéla-me esta menina De dia tem-no nos braços. 

Que a quero metter freira. A' noite no coração. 

Também ao berçõ se cantam estes versos do menino 
Jesus (Cab. de Basto) : 

!•' O' meu menino-Jesns, '«^ O* mea menino-Jesos, 
Descalcinho pelo chão : Descaleinho sem chapenf 

Mettei os vossos pésinhos — Venho lá da Via-sacra, 

Dentro do meu coração. Lá do caminho do Geu. 

*•• O* meu raenino-Jesus, *•' O' meu menino-Jesns, 
Qu'é do vosso sapatinho? Da bandeirinha burmelha, 

— Deixei-o em Santa Clara Vós sendes o pastor d'almasi 

Mettido num buraquinho. Eu heide ser vossa ovelha. ^ 

Ainda tenho ouvido outras cantigas em varias partes: 

O meu menino é d*oiro, Vae-te Caca, vae-te Coca, 

De oiro é o men menino : Para cima do telhado, 

Heide mandâ-Io arranjar. Deixa dormir o menino 

Em quanto que é pequemno. . Um somninho descançado. 

m') Anedocta. Contaram-me no Minho a seguinte : « 
mulher embelava Ga criênça e dezia: 

Nina, nina, nina, nina, 
Já tem dentes a menina; 



cantar (não se lhe estranha o cantar). Depois de isto escrito oavi una 
cantiga que diz 

Quem tem meninos pequenos 
Não se lhe estranha o cantar etc. 

— O povo diz ÍYMrar= ignorar-, e diz num = não, mas só antes de 
outra palavra (como nam em Lisboa) e nunca isoladamente, 

^^1 A forma undes (sois) ao lado de sêmos (somos) é por ana- 
logia com tenàee ao lado de temoê ; mas diz-se tão ou som na 3.» pess. 



ã09 



E o home dixe: 



Nana^ nana^ nana^ nana/ 
Já se me acabou a gana. 

» (S. Tarqnato á» Qnimar&es). 

n') E' costume dizer em Arcozello a respeito do nas- 
mento dos dentes das creanças : 

Quem oedo indentece 
Cedo irmandece. i^* 

o') Prodígios infantis. — E' espalhada a crença de que 
n certas circumstancias a creanpa de muito tenra edade 
mce a natureza, fallando : — Conta Fernão Lopes (escriptor 
) sec. xv) que na acclamaçào de D. João 1.° uma creanpa 
í leite saudara o monarcha Chronica^ ed. 1644. — A esse 
esmo milagre se refere Camões, (Limadas, iv, 3). 

Quando em Évora a voz de uma menina^ 
Ante tempo fallando^ o nomeou; 
e;^ como cousa^ em fím^ que o Ceu destina^ 
No berço o corpo e a voz alevantou : 
Portugal i Portugal! alçando a mão. 
Disse, pe/o Rei now, Dom João. 

— Diz Garcia de Resende, escriptor do sec. xvi {Mis^ 
úkmea^ in Livraria clássica porPug.^ p. 88) : 

m Évora vi um menino, 'Esm de maravilhar, 

ae a dous annos não chegava. Ver seo saber, seo fallar, 

entendia, e fállava. Sendo de vinte e dous meses; 

era já bom latino. Monstro entre portugaezes 

dspondia e perguntava : Para ver, para notar. 



^8 Irmandece (« Irmandar) ter irmãos? Cf. serandar (fazer 
rSo). 



14 



210 



No romance D. Sylvana^ (versão do Porto) diz-se : 

Estando o menino ao peito, 
Inda nem nm mez teria. 
Tocam sinos em palácio : / 
— Minha mãe, quem morreria? 

Nos meus Rom, pop, (n.** xi) diz-se : 

Um menino de três dias 
Será milagre fallar... 

p') Quando, a brincar, uma creanpa passa por cima de 
outra, esta não cresce mais, e, para crescer, é preciso qae 
aquella passe outra vez em sentido inverso (Douro, etc.) }*) 
Ha vários meios de pôr medo ás creanças, como veremos DO^ 
cap. seguinte, r') As creanças antes de baptisadas cha- 
mam-se moiras (cf. este % emy); e, se morrem nessa occa- 
Sião, vão para o limbo (Villa-Real). Também se diz que as 
creanças, quando morrem, passam pelo Purgatório, por causa 
do leite que mammaram (Mondim da Beira). 

336. III. Sonhos. — a) «Pôr as meias penduradas á 

cabeceira da cama, quando nos deitamos, faz sonhar muitoi 

(G. Pedroso, Varia^ 219). b) Sonhar com um cemitério é 

signal de herança ; com dinheiro é phrenesi ; com chuva é 

temporal; com peixe é banquete; com touro é morte de 

parente; com laranjas ou agua limpa é signal de gôçtos; 

com agua suja é signal de desgostos; com botas é sigaal 

de que alguém se vae embora de casa (C. Pedroso, ib* 

n.^' 200, 201, 208, 209, 256, 317, 418 e 320).— Sonhar 

com cavallos é signal de casamento; com uvas pretas, é ay 

gnal de que havemos de receber cartas ; com uvas branca$ 

é signal de lagrimas ; com gatos é signal de traição (Douro). 

— Sonhar com ovos é signal de mexericos ; com egreja é 

morte ; com J. Christo crucificado é raartyrio ; com o Se- 

nhor-fóra é mau sonho; com gatos é ralhos; com galliuhas 



211 



é penas (cf. pmnas-pmas) ; sonhar que um morto está 
vivo é signal de que está no ceu; sonhar que um morto 
está morto é signal de que está penando ; sonhar com ara- 
nhas é falso testemunho; com oiro é hospedes; com ce- 
rejas é casamento ; sonhar com agua clara a correr é for- 
tuna; com rios turvos é desgosto (Norte do paiz). c) Re- 
sa-se a nossa Senhora de Belém uma salve-Rainha^para que 
os sonhos se nos tomem em bem (Porto), d) Quem so- 
nhar três noites a fio com dinheiro enterrado e o não dis- 
ser, encontra o dinheiro ; mas, se o disser, então não o en- 
contra (Beira-Alta, etc.) e) Ha sonhos directos e indirectos ; 
os directos ficam apontados, os indirectos são estes : quando 
se sonha que uma certa pessoa morreu, é porque ella ahida 
está muito vivedoura (Beira-Alta, ete.) ; ^^ quando alguém 
sonha que está a cahir, é signal de que hade crescer mais 
{Ib. ib.). f) Adagio: . 

Sonhar que eae um dente 
E' morto áe parente. 

(Beira-A. eto.). <•« 

g) Sobr^ uma oração a Santa Helena para os sonhos 
vid. um meu art. in Era-Nova^ p. 542. 

337. IV. Amores. — a) Nò Minho e Douro os namorados 
€hámam-se conversados. Transcrevo para aqui uma descri- 
ppão curiosa : «Todos os rapazes e raparigas conversam. Ora 
nao sei como hei-de explicar o que elles chamam conversa^ 
que o não é, nem namoro, nem galanteio, mas que parti- 
cipa de tudo isto. E' a conversa entre um só rapaz e uma 
rapariga ; e ninguém passa entre elles, ainda que longe es- 



183 Cf. Tylor, (Civil, Primtiv,, i, p. 142-143). 

184 Quando che se se insogna che caçca on dente^ mor on pa* 
rente; ete. (Bernoni, — Cr^d. pop. ven. p. 24). 



212 



tejam um do outro, nem os interrompe, a não haver extrema 
necessidade de tal, e menos ainda se atrevem a metter-se 
ná conversa dos dois, que todavia faliam alto, principal- 
mente se se fiam no seu saber, que é quando mais loucu- 
ras dizem. ... A rapariga que só conversa com um rapaz 
é muito criticada, porque já é conhecido que ha affeifao 
entre ella e o seu conversado : a que é mais cuidadosa da 
sua boa fama conversa com todos os que a procuram nas fes- 
tas, até que o seu casamento esteja justo». {Costumes f(h 
pulares no Minho^ por D. M. Peregrina de Sousa, in Rev. Um. 
Lisb.y IV, 347). h) «Quando um rapaz namora uma rapa- 
rijgá, e ha outra que o quer namorar a elle, deve esta dd- 
tanr sal à porta da primeira. Desde este momento já elia 
não pôde tornar a ver o mesmo rapaz por grande que s^ 
o amor que lhe tenha.» [Varia n.° 230, de ConsigUeri Pe- 
droso), c) Para um rapaz não abandonar uma rapariga, 
deita esta no caminho uma mancheia de terra, de modo 
que o rapaz, ao voltalr da missa, a pise sem saber; ott 
mette um bocado de qufé^o debaixo do braço e dá-Ih'o a 
comer sem elfé'saber;— ou arranca um cabello do bigode 
d 'elle e trá-lo de volta do dedo mêndinho (mínimo) da 
mão esquerda^ alg:un8 dias, sem elle saber (Villa-Real}. 
d) Quando uma rapariga quer que um rapaz lhe venha fal- 
lar, diz o seguinte três vezes, ao toque das Trindades, ba- 
tendo cada vez fcdm o pé dirfeito no chão: «F^ não come- 
rás, não beberás j nem dormirás, hem escreverás, nemdes- 
cançaWis, sem comigo vires fellar» (Porto). Outra versão 
que publiquei nõs meus Costtumes populares da prov, do Mi- 
nho^ jpela primeira vez, menciona o seguinte: Quando um 
namorado está de mal com a sua ella, pega num limão, às 
Trindades, durante três dias, e diz isto três vezes, espetando 
de cada vez um alfinete no limão : 



213 



Assim como eu i^oo este limão^ 
Assim pipo o teu coração : 

Sne não possas cov^qTj, 
em beber, 
Nem dormir, 
'' ' Nem descançar. 

Em quaato não vieres Mar. 

e) Quem quiser casar com a pessoa desejada, deve 
pedir isso ao levantar a Deus, pondo primeiro debaixo da 
ped'ra d'era (pedra d^ara) o trevo de quatro folhas colhido 
na manhã do S. João (Vid. Cost. pop. da prov. do Minho, 
n.^ 57. Cf. este livro § 239-p). f) Para se obrigar uma 
pessoa a olhar-nos com amor, diz -se-lhe (Guimarães, — Apud 
Cosium. pop. dó MinhOy n.° 44 — informação de uma Bruxa) : 

Com estes dois te vejo (dois olhos) 
Com estes cinco te arremato^ (cinco de4os) 
O coração te trinco 
E o corpo te parto. 

gr) Para se captivar alguém (cf. § 282-d) pega-se num 
bocado de pedra d'ara, toca-se com ella na pessoa que se quer 
captivar (basta tocar os vestidos) e diz-se (Minho, — ApiM 
08 meus CosL pop. n.® 43): 

Deus te salve^ pedra de ara^ 
Que no mar foste creada i 
Assim como bispo ou arcebispo 
Pôde dizer missa em ti^ 
Assim tu F. (nome de pessoa) 
Mão te possas separar de mim (mit). 

h) Para dois namoradores saberem quem^ tem mais 
amor, se elle, se ella, fazem duas bolmhas de estopa ou 
linho, dando a uma o nome do rapaz, à outra o da raparip^a, 
e depois apegam-lhe o fogo : a que primeiro subir índicf^ 
mais amor (Gaia, — cf. § 96 etc. e pag, llQi-Ml), P$^:asa 
saber se dois casarão, fazem-se dois flóeos 40 linha muito 




214 



fofos. Um floco representa o moço, o outro a moça. Põem-se 
ambos os flocos a par, melhor no lar. Pega-se-lhes o fogo ao 
mesmo tempo. Se os dois flocos a arder se levantam jun- 
tamente, ou, pelo menos, sobem ambos, casamento certo; se 
um se desvia, não acompanhando o outro, a pessoa que alie 
representa não gosta da outra (Briteiros). i) Uma velha en- 
sinou a seguinte receita : quando uma rapariga quer que o 
namoro a ame de veras, faz um bolo de pão, palmilha-o nas 

mãos e diz : 

Chapa d'aqai> 
Chapa d'aUi^ 
Quem te comer 
Morrerá por mim ; (mi ?) 

depois mette-o no forno, e assim que estiver cosido, dá-o 
ao rapaz para elle comer. — Gonta-se que uma vez um na- 
morado a quem a sua ella tinha preparado o tal pão, o dera 
ao cavallo em vez de o comer ; o cavallo, assim que pôde 
fugir, apresentou-se á porta da donzella, dando muitos cou- 
ces, — tudo por influencia do feitiço (Paços de Ferreira,— 
cf. I 3 1 9-e) . j) Para uma rapariga, quando tem por exemplo 
três namoros, saber qual d'elles lhe é mais afeiçoado, &> 
o seguinte : corta três papeis e num escreve — muUo^ nou- 
tro — pouco^ noutro — nenhmn: depois dobra-os egualmente, 
baralha-os à meia noute de qualquer dia, e põe um de- 
baixo do travesseiro, outro atrás da porta, e outro fora da 
porta, na rua ; pela manhã vae examina-los : o do traves- 
seiro indica mais, o da porta pouco, e o da rua nada (Paços 
de Ferreira), k) Como se sabe, os namorados correspon- 
dem-se por meio de cartas. Eis algumas cantigas alludindo 
a isso, as três primeiras por mim colhidas numa serra da 
Beira-Alta (Pinheiro, no c. de Mondim) e as outras em Mon- 
dim da Beira \ 

Se lo papel consentira Se lo papel consentira 

Tinta burmélha em si^ Tinta berde e amarella^ 

E8crevera*-te eu ua carta, Escrevéra-te em íSa carta 

Co mesmo sangue de mim. Que tu chorasses por ella. 



215 



Se lo papel consentira 
Tinta burmelha aos ramos^ 
Eserevéra-te eu tia carta 
Com trinta mil desenganos. ^^ 



Carta vae d'onde te ea mando^ 
A'qjiellas mãos de marfim : 
Garta^ põe-te dr joelhos^ 
Dàrlhe um abraço por mim. 



Vae-te carta aventurada^ 
Ao jardim da perfeição^ 
Onde tenho meus sentidos^ 
Alma^ corpo e coração. 



l) Os namorados costumam dar varias prendas uns aos 
outros. As cantigas também alludem ao costume : 
1) Annel (Beira-Mta, Douro): 



Meu annel das sete pedras 
Ninguém no tem senão eu : 
Antes que meu pae me mate^ ^^ 
Heide amar a quem m'o deu. 



O anne) que me tu deste 
Quãrta-feira^ amor, de tarde» 
Varri a casa com elle, 
Sastifíz minha vontade. 



Deste-m'o annel de vidro^ 
Milhor m'o deras de prata, 
t^ois, se o vidro logo quebra, 
Logo se o amor aparta. 



O annel que me tu deste 
Quarta-feira do Senhor ^w 
Era me largo no dedo 
Apertadinho no amor. 



Annel d'oiro não é prenda. 
Muito menos o de prata : 
Annel de contas miúdas 
£' de amor que nunca aparta. 



Tenho três anneis no dedo. 
Um inteiro, dois cubrados. 
Também tenho três amores. 
Um firme, dois enganados: 



O annel que tu me deste. 
Era de vidro, cubrou, 
O amor que tu me tinhas 
O annel o demostrou. 



O annel que tu me deste 
Trago-o no dedo mendinho : 
Toda a vez que tu me lembras 
Dou no annel um beijinho. 



1^ São estas cantigas o único caso da litteratura popular do 
continente em que tenho achado o ant. art. lo em separado. 

186 o povo diz antes que em vez de ainda que. 

187 Variante : Antoninho lavrador (Feira). 




216 



O annel que ta me deste Fostes ao Sinhor da Serra, 

Anda-me aos saltos no dedo :. Nem um amiel me trouvestes. 

Se ta me qaizeras bem. Nem os Moiros da Moirama 

O annel estivera qoédo. Fazem o que tu fizestes. ^ 

Um romance popular (cf. os meus Roma^es pop. j^ort 
n.^* XVI e xvn) acaba assim : 

Amosti*a-me o annel d*oiro I 

Que ea comtigo arreparti : | 

Amostra-me a tua ametade 
Que a minba ei-la aqui : 



2) Lenço: 

Vae-te lenço venturoso Abre este lenço e verás 

A's mãos do meu bem parar. Quatro ramos floridos, 

Vae âitf)so possuir No meio encontrarás 

O qoe eu não posso gosar. Nossos corações unidos. 

Neste lenço deposito Quem acbar o que eu perdi, 

As lagrimas que por ti choro : E' um lenço quasi novo : 

Não posso viver, menina. Tem em cada ponta nm 9 

Ausente do bem que adoro. No meio dois : Ai que eu moml 

Efifectivamente é costume vender lenpos com canpffes, 
nomes> e corações^ pintados para os namorados. 

3) Varia: 

Aqui tem este raminho Se fordes ao S. Gonsálo. 

Que da minha mão se offerece : Trazei-me um S. Gonsalinho; 

Não é como eu queria Se não puderdes co*elle grande 

Nem como o senhor merece. Trazei-me um pequenino. 

Apesar porém do que fica dito, lê-se no Alman.d^ 
Lembr. de 1858, pag. 303, que é de mau agouro darem-se 
dous namorados o presente de um lenpo, um santo e um 
rosaria; o lenpo enxuga lagrimas da separação, e então a 
pessoa que o dà deve receber de outra uma moeda qual- 
quer (mesmo 5 reis) para se fingir que foi comprado; a 
respeito do santo e do rosário, a pessoa que os quer dar 



•1 




'* 



217 



L outra onde elles estão, para ell.a os ir ][)uscar, e assim 
ingir que forão roubados (Minho), m) Poucos paizes 
Tá que tenham tanta abundância de poesias amorosas 
) Portugal. Esta poesia traduz-se em cantigas, as vezes 
m sentimento admirável, como (Beira-Alta) : 



inha pombinha branca, 
inba branca pombinha ! 
do has-de dar ura vôo 
ta jenella à minha I 

agrimas faço contas '^ 
que reso às escuras : 
)rte que tanto tardas^ 
cia que tanto duras ! 

i hoje não comi, 
) lagrimas com pão, 
3stes são os alimentos, 
38 meus amores me dão ! 

ia machado que corte 
z ao pensamento; 
ia lettrado que diga ^^a 
B eu tenho no intento. 

me espedir do rio, ^^ 
ledrinhas de lavar : 
ue despeço de ti, 
)r te num ver chorar I 

ls, adeus, ó Mondim, 
Dstas te vou virando; 
ia boca se vae rindo, 
» olhos fícam chorando 1 



José amo, José quero, 

José trago nos sentidos : 

Por amor de ti, José, 

Trago os meus somnos perdidos ! 

Este mundo é uma vinha, 
Heide mandà-la cavar. 
Pêra sãmiar desejos 
Pêra comtigo Mar. 

Não me atireis com pedrinhas^ 
Que eu sou um menino quedo. 
Eu sou fíiho d*um pedreiro, 
A's pedras não tenho medo. 

Fui-me deitar entre as nuvens. 
De uma estrella fiz encosto, 
Àbracei-me a uum d'ellas. 
Cuidando que era o teu rosto. 

O teu cabello, menina, 
Mette-te infinita graça; 
E' como meadas â'oiro 
Aonde o Sol se embaraça. 

Quem me dera ser ditoso, 
Como o linho que fiaes ! 
Quem me dera esses beijinhos 
Como vós no linho daesl ^^^ 



^88 Contas é synonimo de rosário. 
^8ô O povo chama lettrados aos advogados. 
i»o Espedir = despedir. (Cf. o andaluz escubri, espredá, etc.) 
191 As mulheres quando nam, precisam de levar o unho â boca, 
► para o beijar. 




218 



Ea heide amar ama pedra^ Adeus, adeus, ó Mondim^ 

Deixar o teu coração : Sobre ti heide dar ais : 

Se uma pedra não me deiíca, Arrecolheis os estranhos, 

Deixas-me tu sem razão. Botaes fora os naturaes ! 



333. V. Casamento — a) Quando os noivos vem da 
egreja é costume em muitas terras armar-lhes arcos com 
flores, fitas, buxo, etc. para elles passarem por baixo, fim 
S. Tiago da Cruz, no Minho, penduram no arco um limão e 
uma maçã ; a noiva pega no limão e o noivo na mapa, tro- 
cando em seguida entre si estes fruclos. O limão é para 
viverem com gosto ; a maçã para a noiva não ter tentações. 
— Na Extremadura (não sei bem em que terra) pendura-se 
um bolo no arco e põe-se ao pé uma banca com uma gar- 
rafa de vinho e copos. Quando os noivos chegam, o noivo 
deve apanhar o bolo e dá-lo á noiva, que o divide pelos 
convidados. Em seguida bebem todos o vinho. — EmMaroo 
de Canavezes os noivos passam por debaixo de três arcos. 
No primeiro está uma roca e papel e tmta : a noiva fia, e 
o noivo escreve alguma cousa. No segundo está um livro e 
uma almofada : a noiva cose e o noivo lê. No terceiro estt 
uma meia e uma espada : a noiva faz na meia (i. é, tral)a- 
lha na meia) e o noivo desembainha a espada .^ Em Sin- 
fães põem ao pé do arco uma enxada e uma twoura para 
indicar as obrigações dos noivos, e armam uma mesa com 
pão e vinho : os noivos devem comer e beber, e deixar di- 
nheiro, h) «E' costume na freguezia de Pombalinho (a 4* 
leg. de Coimbra) e suas immediações, estender guardanapos 
em cima das pedras das ruas por onde tem de pássaro 
préstito de algum casamento : ao voltarem os noivos da 
egreja, munidos cada um de seu sacco, vêem pratos cheios 
de hervilhas, favas, batatas, etc. e mettem tudo nos saccos 
e o levão para casa» {Aím. de Lemb, 1861, pg. 263). — Em 
Trancoso, quando os noivos vinham da egreja, punham-lhes 
pelo caminho mezas, umas com doces, etc, outras com uma 
roca, um fuso, livros, etc. para. indicar as obrigações dos 



219 



noivos na casa. cj Na Extremadura o padrinho do casa- 
mento deve deitar confeitos ou dinheiro aos rapazes; se não 
dá nada, os rapazes cantam-lhe o seguinte: 

Desqae morreu o Feh'x 

Ioda não vi casamento tao reles ! 

— Na Beira- Alta, era varias terras atira-se aos noivos, na 
volta da egreja, com grãos de trigo, d'arroz, flores, etc. — «Fa- 
Eem os noivos (em Pederneira) com antecedência os seus convi- 
tes a todos os parentes, amigos e conhecidos, que no dia do ca- 
samento (que é quasi sempre de tarde) os bão-de acompanhar 
á egreja. Nesse díh começa o noivo a correr as moradas dos 
convidados; depois de reunidos vão a casa das madrinhas e 
todos juntos se dirigem a casa da noiva, que já os espera; 
ahi se atirão aos futuros cônjuges muitos confeitos. Cami- 
nhão depois todos para a egreja matriz, indo o noivo adeante 
com os convidados, e atraz a noiva entre as duas madri- 
nhas ; depois da benção do padre, e na igreja ainda, torna 
a cahir sobre os noivos segundo aguaceiro de confeitos. No 
regresso dirigem-se todos á casa em que devem habitar os 
noyos esposos, e alli os espera um abundante jantar, flndo 
o qual começa a dança, que dura até alta noute, ao som 
de uma ou mais guitarras : acha-se a noiva sentada no meio 
das madrinhas; da entrada da porta é então complemen- 
tada pelas suas amigas e conhecidas, e também pelas de 
seu esposO; com grandes doses de confeitos impellidos ás 
mãos cheias com tal força, que muitas vezes tem succe- 
dido ficarem as madrinhas, e mesmo a noiva, com algumas 
contusões na cara. E' repetida aquella scena todas as vezes 
que chega alguma pessoa do conhecimento e amizade dos 
noivos. A casa de baile acha-se sempre apinhoada de gente, 
e dura a dança até os circumstantes cançarem, porque o 
noivo não tem ahi voz activa nem passiva, e fora uma 
grande desfeita aos convidados e mais pessoas que alli con- 
correm, se fossem despedidos antes de se fartarem de dan> 



320 



par. Esta festa é de um ou mais dias, segundo os haveres 
dos noivos ; e no flm d'ella ha quasi sempre bordoada, eu 
consequência das fortes e continuas libações a que proce- 
deram os convidados. Ainda não ha muito que os noivos se 
deixaram da especulação de mandarem na véspera do ca- 
samento um prato pequeno d'arroz cozido com assucar a to- 
dos os seus convidados e ás pessoas principaes da terra; 
e cada um, segundo a sua generosidade, dava pelo pre- 
sente 240 e muitas vezes 480 réis ; acabou porém o coft- 
tume assim que se começou a dar pelo presente o que àk 
valia. Passado o casamento^ e no próximo domingo ou dia 
santo, é do grande tom ir a noiva, no meio de suas madn- 
nbas, acompanhada do noivo e com o seu melhor fato, ooh 
vir a missa chamada das onze, a que de ordinário vai mais 
povo; apenas entrão na igreja, ainda que já esteja o padre 
a celebrar a missa, todas as vistas se dirigem para elles, 
e corre de boca em boca, ahi vem os no^^;o5, fazendo^se com 
isto um grande sussurro. Depois d'este acto, que é o final, 
ninguém mais se importa com os noivos, nem mais caso 
se faz d'elles.i> (Alm. de Lembr. de 1860, p. 373t4). 
d) Nos arrabaldes de Soure (Minho) os noivos vão para 
a igreja num carro de bois com campainhas, muito ^ 
feitado. O noivo deve levar as pernas de fora e voltar com 
ellas dentro. Se a noiva é pura, ha muitos foguetes ; se tem 
alguma mancha, não ha nada. é) Em Lanhezes e subart»OB 
(Minho), no dia do casamento, a noiva faz-se acompanhar do 
seu dote (geralmente uma caixa com muita roupa) num cano 
de bois: ao chegar o préstito á porta da egreja, desap- 
poem-se os bois, e puxam os dois noivos ao carro para dea« 
tro da egreja até chegarem ao local do casamento; terott- 
nada a ceremonia, tornam os noivos a levar o carro para a 
porta, onde de novo se appoem os bois ao carro. Dizem 
que a significação d'isto é o noivo receber a mulher com 
dote, sem o que não tinha direito a elle. f) Os casamentos 
no Jarmello acham-se assim descritos no Alm. de Lembr. de 
1859, pag. 309 : cVae o noivo com os seus parentes e coa- 




2il 



Vidados buscar o noivo a casa, onde os parentes e amigos 
d'esta mostrão resistência em a deixar sabir, cedendo po^ 
rém a final, e partindo todos caminbo da igreja. Goncluida 
ahi a ceremonia, voltão todos para a casa, tendo grandes 
difficuldades a vencer pelo caminho fora: numas partes 
encontrão-se mèzas cobertas de alvissimas toalhas e açafa- 
tes de ramalhetes, que são offerecidos aos noivos e mais 
pessoas da comitiva a troco do alguns patacos, ou quartos 
de pão, que os mais previdentes levão jà partidos em bur- 
naes ou lenços; noutros sitios apparece a estrada mterce- 
ptada com uma fita ou cordão, e é necessário pagar a por- 
tagem segundo a generosidade de cada um ; mais adiante 
topa-se com outro obstáculo, que é preciso vencer á força 
de dadivas. Ghega-se a final a casa da noiva, aonde ha 
ainda a pagar alguma espórtula : próximo à entrada, reco- 
Ihe-se a noiva, e o noivo marcha com os seus convidados 
para sua casa. Sahem então de dentro da casa da noiva 
duas ou três mulheres, cada uma com seu taboleiro de pa- 
pas estendidas sobre toalhas, e cortadas já em quadradi- 
nhos, e mesmo á mão os distribuem a todas as outras mu- 
lheres e crianças que por alli se achão. Para os homens 
vem também dois ou três serventes, com açafates de cus- 
cureis e um copo de vinho para cada um. Acabada a dis- 
tribuição, entrão os convidados e achão já a mêza servida; 
asseutão-se índistinctamente, o amo com o criado, o paro- 
cho com o moleiro, o barbeiro com o cavador, o principia 
o abundante banquete patríarchal: ao empinar o ultimo 
copo, apparece o noivo com os seus convidados para con- 
duzirem a noiva, e então é que são os maiores trabalhos : os 
de fora querem entrar para tirar a noiva, os de dentro oppõem- 
se, e trava-se uma lucta, em que figurão principalmente os 
trovadores, que em versos à sua moda pedem a sabida da 
noiva ou recusão entregal-a a seu marido, a quem por fim se 
dâ licença para a levar; é então acompanhada em triumpho 
por todos os que assistiram ao casamento, e com isto acaba a 
funcção.» g) Os casamentos em Cabo Verde descreve-os as- 



222 



sim o Alm. de Lembr. de 1861, pag. 67 : cQaando casa uma 
donzella, vai sempre a cavallo numa égua até á porta da egre* 
ja *^ para ser fecunda; e, não sendo donzeila, a pé; o noivo 
vai a cavallo, de calça branca, lenço branco na mão direita 
com as pontas cabidas para o chão, e ao pescoço cordão d'ouro 
que o padrinho é obrigado a pedir emprestado quando o não 
tenha. E'-lhes probibido rirem e comerem neste dia, salvo se 
os padrinhos lhes mettem alguma cousa na boca, sempre em 
pequena quantidade. Desde que chegão da igreja até serem 
conduzidos pelos padrinhos à casa em que devem dormir, 
ficão os noivos sentados numa espécie de tribuna no inte- 
rior da casa. Pela noute adeante ouve-se um tiro, esperado 
com anciedade pelos pais e parentes, que então parecem 
doudos de contentes, batem as palmas, dão guinchos e pi- 
notes, ha batuque e chaveta (toca-se e canta-se). Pela ma- 
nhã vão os padrinhos acordar os noivos, e acompanbão-nos 
até à rua^ onde estão já uma mêza e duas cadeiras para 
estes se sentarem ; vem uma mulher, põe em cima da mêza 
um corte de camisa, outra um corte de paono, outra um 
corte de saia de chita; os homens, uns dão 240, outros 
320, outros 480, conforme suas posses. Ha aqui menina 
que nesta occasião apanha para cima de 60j$l000 réis; o 
que vale é serem mais raros os noivos que vão a cavallo 
do que a pé.» h) Era Villa-Cova-á-Coalheira (Beira-Alta) 
fazem-se assim os casamentos: A patrulha (comitiva) do 
noivo vae a casa da noiva, e d'aqui, com a patrulha doesta, 
segue para a egreja. Os visinhos juntam-se então ds wor 
nadas e pertendem roubar a noiva; mas esta, como vae 
bem guardada pelas patrulhas^ resiste; o povo vinga-s6 
então lançando açafates de grão de trigo sobre a noiva ô 



^92 Cf. o conto popular (Beira- Altâ)> Historia das sete partH»* 
ces, na occasião em que se narra este episodio : ia uma noiva a ea-* 
vallo (era o costume da terra) a entrar a porta da egreja^ mas^ como 
nào coubesse^ dizíão uns da comitiva gue se cortasse a cabeça á noiva> 
e outros que se cortassem as pernas á cavalgadura. 



223 



companhia, — havendo grandes algazarras e alegrias. Aca- 
bada a ceremonia do casamento, cada assistente encom- 
menda um padre-nosso ou ura responso ao parocho pelas 
obrigações particulares. No fim d'isto, segue a patrulha do 
noivo para casa d'este e a dã noiva para casa d'esta, 
bavendo em ambas as casas grandes bodas. Apenas termina 
a boda do noivo, vae tudo para casa da noiva, onde se 
toma a comer. Aos jantares succedem danças e cantorias 
ité alta noite. ^^ i) No Barroso é costume ir o noivo e seus 
a casa da noiva bater á porta. De dentro pergunta-se: 
itQuem é, e que quer?» Responde-se de de fora: «E' F. 
<[ue vem aqui procurar gente, honra e fazenda». Torna-se 
de dentro : «Entre, que tudo encontrará». *^ Os presentes of- 
erecidos pelas donzellas á esposada constam de flores, e 
de doces dispostos em forma pyramidal, que são encetados 
pelos noivos e depois passam para os padrinhos e convi- 
vas se servirem d'elles. No offerecimento dizem-se ver- 
sos como estes (cf. pag. 216): 

Aqui tem^ menina^ este ramo, 
Que da minha mão se offerece : 
Não é como eu desejava 
Nem como a senhora merece. 

{Álm. de Ltmb. 1859» pg. 883). 



193 Mac Lennan^ num trabalho sobre o Casamento primitivo, 
mostra que as Inctas e roubos que se fingem na occasião dos casa- 
mentos não são senão symbolos do que se fasía primitivamente quando 
JSA mulheres erão levadas como captivas. — Theophilo Braga^ na f^t^^ 
Universal, i.^ vol., p. 48, relaciona já os costumes portuguezes do 
combate no casamento com os costumes primitivos. — Gonsíglieri Pe- 
droso, na Familia primitiva, estudou as mesmas relações, que depois 
desenvolveu numa memoria lida ao Congresso de Anthropologia e 
Arch, Prehist. realisado em Lisboa em 1880. 

194 Comp. com este dialogo o costume mencionado in Romã' 
nia, X, 553. 



224 



]) Se chove no dia do casamento é signal de ventum 
para os noivos (Oaia). D'aqui o dizer-se : chove^lhe na boda 
(B. Alta), k) No dia do casamento, o que primeiro sobe 
para a cama é o que primeiro morre (Gaia), l) W bom 
guardar a camisa do casamento para a levar para a cova 
(Estremadura), m) «Na noite do casamento, nos arredem 
de Lisboa, é costume uma pessoa da familia ir lavar as 
costas à noiva, antes de ella ir para o quarto, a fim de 
ser feliz» (C. Pedroso, Varia n.° 239). n) cQuando uma 
pessoa, por engano, calça uma bota e um sapato, desman- 
chasse algum casamento que haja contractado na familia» 
(Id. hc. cit. n."* 290). o) Quem tem saião (planta) à porta^ 
não se casa (Extremadura). p) Quem comer os cantinhos 
do pão, sem fallar, casa (Douro), q)' Três luzes numa mesa 
é signal de casamento (Douro, cf. § 87). r) Aquella pes- 
soa em quem outra que andar a varrer embarrar com uma 
vassoura, não casa nesse anno (Douro), s) Quando umara- 
pariga deseja casar, sendo convidada a qualquer casamento, 
deve procurar, mesnío por chalaça, pôr na cabeça o chapéu 
do noivo, ou então deve fazer com que a noiva lhe dé uma 
parte do ramo que leva (Douro), t) O viuvo não deve 
consentir que lhe varrào os pés, porque é prognostico de 
que nunca mais casará (Brazil, — Alm, de Lembr. de 1864^ 
pag. 284). u) Em Reriz, ao pé de Castro Daíre «— aía- 
milia é organisada de um modo particular. Os pães esco- 
lhem ura filho ou filha para chefe de familia; o cônjuge ordi- 
nariamente vem de fora, e o dote, que équasi sempre em di- 
nheiro, encorpora-se no casal. Outro filho ordena-se, eníre- 
ga-se-lhe o governo da casa, e forma na familia um centro 
de união e fraternidade» (Alm. de Lembr. 1861, pag. 366). 
v) Eis uns versos (de Cabeça Santa no c. de Penafiel) e© 
que se allude ao casamento do velho, mas onde ha elemea- 
tos do romance das Maravilhas do velho que publiquei noft 
meus Rom\ pop. port, (n.® 2) : 



225 



ir comtígo, velho^ 
Mm 4al partido : 
le morrer cedo^ 
leide enterrar vivo. 

•r comtigOj velho, 
;om tal contracto: 
na cama molle, 
Hho co*o gato. 

ílho, ah ! seu velho, 
5lho, velharrâo, 
SIS barbas sojas, 
iV ao carvão! 



Aht seu velho, ab ! sen velho, 
Ah! seu velho, velharraz. 
Você tem as barbas sujas, • 
Retire-se lá para traz ! 



Novidades do meu velho 
Tenho para lhe contar : 
Eu foi (fui) dar co'o velho morto 
Antre as virges do lagar, ^^ 
Foi (fui) chamar as choradeiras 
Que o viesse chorar. 



linda mais cantigas a propósito do casamento (Ca- 
.a) : ^ 



, p*ra me casar, 
me três ovelhas, 
a, outra cega, 
tia, sem orelhas. 



Minha mãe casou-me em Maio, 
Minha sogra nãò tem pão, 
Doe-me a barriga com fome. 
Ai! que dôr do coração. 



, p'ra me casar, 
me quanto tinha : 
ne ver casada 
1 folie sem farinha. 



Minha mãe, case*me cedo. 
Em quanto sou rapariga. 
Que o milhão sachado tarde ^^ 
Puxa palha e Dão dà spiga. 



as de varias partes: 



, muito velha, 
^mo á saragoça, 
le em casamento, 
)rnou a moça ! 



Uma velha, muito velha. 
Mais velha do que um chapéu, 
Fallaram-lhe em casamento. 
Levantou as mãos p'ra o ceu! 



Virges são paus altos que abraçam o feixe do lagar. 
Sm muitas terras (B. A. etc.) núlhãoé synonioio de mt7/io. 



15 



j 



iit 



Outras da Galliza {Pèfirnaso Port. Mòd.^ ÍO^S-*) : 



Mma nai fen três ovellas^ 
Todas três mas ha-de dar^ 
Unha cega y outra coxa^ 
Y outra qqa non pode andar. 



O eaasiâ» eatò qner^ 
O solteiro no lia dan« 
O que l^rde sor casado 
Ha<de saber i^^uSar pan. 



w) Eis umas cantigas dos noivados (de Moura, tio Àl^ 



tejo) : 

Senhor noivo^ eu lhe peço 
Que a noiva não tracte mal : 
EUa sabe o que deixou^ 
Não sabe o que vae buscar. 

O* senhora mãe da noiva^ 
Some á porta^ venha ver, iw 
Venha ver a sua filha 
Que se foi arreceber. 

Quando p noivo a no^i^a abraça. 
No dia do sèu noivado. 
Eu invejo a linda sorte . . . 
Quem me dera ser casado I 



Esta casa está jatieada 
De junquilhos dá ribeira : . 
Viva o noivo mà-la noiva, 
Mà-la sua parentela 1 ^^ 

Trago dentro áo meu pdto 
Um canivete dorrado. 
Para partir pão de; ló 
No dia do meu noivado. 

Quem qtuier jcomprar ea, ^mk 
Um ramo que estou gnaroando: "' 
O estado de solteira 
Para mim stà-se aoabaado. - 



Voaste dar os parabéns. 
Queira Deus que p'ra bem toja, 
Di a rosa que arrecebeste soo 
Hoje à fácia da egreja. ^^ 

x) Em muitas terras, como Beira, Traz-os-1 
Douro, é costume dar muitos tiros no dia de um ciifr 



I I >■! 



197 



Some assome. 
»08 Má4a (mais la), mais a. 

id9 Estes versos creio que alludem a um costume popoltf^ 
mas não posso agora indicar a qual. 
«00 Díaa^rdèa (dá).. 
«1 Fâeia^^^Hee. 



227 



lento. '^ y) O aso de danpas, cantos e airemèsso de 
igQ aos noivos, de que a dma fidiei, acha-se ji em (SI 
Icente {Obms^ m, ed. Hamburgo, paç. 145, 146 e 154) 
t Força de Itlez Pereira^ r^resentada em 1523: 

usnk 



Fieae oom Deos. desposados. 

Com prazer e eom sânde, 

E sempre elfe tos ajoás 
^ ,. GomqoeTiTusdescaBsados. 

EttafesU foiafim, 
«ii"**SíIÍ5íSr'*"**' Mas mdhor será outrora. «* 



Eq quero die^r allí 

Gbaoiar meu amigo ca, 

E bailano de terrnro (sahe) 



Ora Tae tu affi, IiieE. 
B Inflareb três por três. 



LBonoa 

Ora âaeHme essas mios ca 
Sabeis as patatTrast si I 



Tu eomooseo^ Luzia, aqui; 
Ba desposada alli; 
Ora Téde qual direis. 



«Mal herída iba la garza 

«Enamorada 

«Soia Ta j gritos dalia*. 



Eiisíiiárao-m*as a mi;^ 
Porém esqoeeem-me já. 

UOHOR 

Ora diaei eòmo eu digo. 



Ora seolKves honrado^ 
Ficae com Tossa meree, 
E nosso Senhor TOS dé 
Com que vivais descansados. 



E tendes vós aqpii trigo 
Poa nos geitar p(v rma? 



z) Sobre o casamento vid. §§ 91 e 245. 



SOS Este costume existe noutros paizes. Cf. este S em à. 
><» Cf . as cantigas d'este | em «?. 

>o* et o Romaneero dd Cid (ed. da snr.* D. Carofioa Michaò- 
s^ Leipdg, 1871, p. 30-31), no casamento do Cid. 



228 



339. VI. Vida DOMESTICA. 1) Comidas. — a) Os no- 
mes portuguezes das comidas são : a parva^ o almoço, a có- 
dea^ chamada iBinbem fatiga {fatia)^ o jantai- (pron. pop.já»- 
íar, jintar)^ a merenda^ a ceia e o ceiote (pron. pop. ciôte^ 
verbo cíoíím'), kpdrva consta de pouca comida, como azeito- 
nas com pao e agua ardente, e dá-se antes de almoço m 
trabalhadores, os quaes dizem então que vão maia/r o bicho 
(Beira-Alta). O almoço é a comida da manhã. A côdea é um 
pequena refeição entre o abnopo e o jantar (Carrazeda d'An- 
ciães). O jantar, nas aldeias, é geralmente à hora domeio-dia. 
A merenda (só ha merendas desde 25 de Março até 8 de Se- 
tembro) *é à tàrdê. À ceia é ao anoitecer. O ceiote é geral- 
mente á meia noile, e dá-se aos homens que andam em cer- 
tos trabalhos, como de lagar etc. (Tabòaço). b) Em nlgu- 
mas partes é costume dizer certa oração ao começar a co- 
mer. Nos conventos liam-se em voz alta livros espirituaes 
durante a comida. No escrito Policia e urbánidade chrístõOy • 
— appenso ás Histoiias proveitosas de 6. F. Trancoso, lê-se 
no cap. I, doe. i, § 7: «Ao benzer da mesa e dcw graçaSj 
estar com o corpo direito, sem vos recostar, e com as mãos 
decentemente compostas, e quietas, e com os olhos bai- 
xos»; e no cap. vui, | 9 (pag. 387): «Layae primeira- 
mente as mãos e logo respondei alternativamente ao qaeí 
benze a mesa: se não houver outro que lance a benção, 
vós a lançae, mas seja (como já disse no cap. i) com a 
cabeça descoberta». — O uso de dar graças a Deus no fim 
do jantar (e ás vezes da ceia) é geral. Diz-se uma pequena 
oração, como : Nosso Senhor nos dê muito e sustente com 
pouco etc. c) Em quanto se come, não deve estar dinheiro 
sobre a mesa, porque é signal de traição ou pobreza (Villa 
Real), d) A' mesa. do jantar não nos devemos seníar entre 
medico e padre, porque é signal de morte (Douro), e) Se 
estão treze pessoas á mesa, morre uma nesse anno (pas- 
sim), f) aNão se deve comer ao luar, porque quem come 
ao luar, corho a lua» (C. Pedroso, — Varia rx.^ 453). g) Não 



229 



se deve estar na quina da mesa, porque quem ahi está não 
casa (Porto), h) Adágios : 

Qaem canta antes de almoço Em Março 

Chora antes do sol-posto. Merenda e pedaço. 

Em Abril 
: Das largas ceias Merenda e merendil. 

. Estão as sepulturas cheias. (OamtoM). ■'. 

i) A' parte da comida que não é caldo chama-se con- 
dôita ou peguilho; até se diz a alguém que está a comer 
pão: ($peguilhcH) com algwma coisa (Beira-Alta) j) Em 
quanto que se faz a ceia, a família está ao lume e resa a 
corda de Nossa Senhora em coro (aldeias da B. Alta). 

2) Oosero pão. — a) Ao acto de peneirar e amassar 
chamasse governar o pão. Depois do pão governado^ e finto 
ou levedo ^ é tendido e en/bmado. — Eis algumas ceremo- 
nias executadas ao cose^^ do pão. Quando se deita o sal 
na agua que serve para amassar a farinha, diz-se : 



Em louvor de S. Gonsalo, 

Que nem saia insôlso nem salgado, soe 



Quando se acaba de amassar a farmha, fica a massa na 
masseira e gravam-se com a mão direita três cruzes na 
massa, dizendo: 

á i.« «ma: Q Senhor te aecresceiite, 
O Senhor te levede; 



505 Levedo ou levado é com o fermento; verbos fintar e levé^ 
dar, tender o pão é dividir a massa em pães e bolas. 

506 jnsolso, se não ha eií]uivoco na informação que recebi^ .ã 
ama forma intermédia entre o lat. instUsus e ensôsso. 



280 



4 2.» eras: s. Mamede 
Te levede; 

is.«eras: S. Vioente 

Te aecrescente. 



Quando o pâk) se não leveda, põe-se um rosário %m 
cima da massa ou um objecto do vestuário dos homens ; e, 
se, ainda assim, elie não se leveda, é signal de que algam 
rato ou aranha passou pela masseira. Em seguida, pega-se 
Aum tifão do lume e gira-se 'Com elle por cima da massi. 
3e o pão estiver levedo e o forno ainda frio, para a massa 
se não azedar, péga-se em uma faca que tenha a^o, e met- 
te-se a faca na cruz existente sobre a massa, mas com o 
cabo para o ar. Não pondo a Cs^a, póde-se também introda- 
zir no meio da massa um copo cheio de agua fria até qoe 
o forno seja aquecido. Também se devem introduzir lia 
Qircumferencia da massa algumas folhas de figueira. Âlgn- 
mas vezes faz-se um bolo da mesma massa e introdoi-a» 
no forno; aquecido o bolo, introduz-se este na massa, mas 
sobre a cruz. Finalmente, quando se mette o pão no forno, 
faz-se uma crfiz com a pá á ports^ do forno, e diz-se: 



O Senhor te acrescente 

Gomo o folie da semente^ * 

Deiyúro do fOroo 

E fora do fômo^ 

Gomo acçresoentou o mundo todo : 

Nós a eomer^ 

E tuaoreacer^ 

Todos seremos çb^ia8 

Gom bem pouco comer. ^^ 

fDonro). 



■1 ^ •■ •! 



ultlVo 00 verbo) ppjr a çfn^^^ QfoxU^ oic*)? 




m 



mrEsta formula iev^ yariaateâ que pouco differ^n, címuo 
(e aote-^ a Ungui^gem) : 



S. Levede 
Te levede; 
S. €!r^80entè 
Te âérèscente. «^ 



Sbftceremate 
S« Levede 
Te levede^ 
S. Joio 
Tèfáçapão^ 

S. Levede 

Tolevede 

S: VioeDte 

f^ acereeeeme^ 

S. Jc3o 

Tefá^pSo. 

Í9. Se&bora te dê à vinade 

Baaòiasaudê. 



Deug te abençoe 
Dentro do forno^ 
E fora do forno 
E o meu visinho 

Que coma um corno. 

(Giiim«r&eB). 

S. Vicente 

Te accrescente^ 

S. João 

Te faça bom pao 

S. Maria llagdàlena 

Te bote a absolvição. ^^ 

(Tr«s-ot-]iimtef e Dttwo). 



i* ■ 



I -j i . i 



' ^M Esta fórmula rchrela-itos o pbenomeno do nmnen, numén, 
8. Clreeeente e B. Levede eio o craomUe do pfie e o lei>edar. -rNás 
Md^ breiat^ por e;iC., lambem «orforj a ebamia,: 4e9 um S. Alar, (ef. 
$1^ fr^twã^m i ?fiO<\qafi prpteme m campos (Ap- Devinettes hreton- 
H^ dg Sauvd^ in Rev, belt., ly}. — Em Roma tôlnos nm facto análogo 
ttttú *Pihumu8 ePicmnnui, sonrenotnes de Marte. P&umnus é o d€fne 
dos padeiros^ e pilum epila o gnl e o pilão do trigo; JPt^immiis úb 
atai^o^^^loader» foiintmrectdo lOooKii^iielle a qqem ^ consagrada 
^9mMU$ (M. Breàl,-^ Berçuk ei Qm^ir 

*» O gni*. Sateimone Mailnò pcAll<Mu no Architio per le trch 
ãiséioni poptOati, pag. i19, mtia fmábk siciliaoa sMelhaete á por- 



Fani. erísci 
Gome Diu tt binidlsid; 
CrisiÂ, ^uá, 'nta lo flmiti 
Coma Dia crisdu a lu romuiu 



San Franciscu^ 
y^ani friísca I 
ftoCantáiM 
fvá càxar»! 4tc* 



/ 



232 



-—Do acto de coser o pão tira-se um jogo que consiste bo 
seguinte: duas pessoas dão as mãos uma à outra, fazem 
um movimento de vae-vem, e dizem : 



Assim 86 aqiasBá, 
Assim se peneira; 



depois dão uma volta (com as mãos sempre agarradas) de 
modo que fiquem com. as costas uma para a outra, dizendo 
nesle acto: 1 

Assim se dá volta 

Ao pão da masseira. ^ 



b) As portas dos fornos, pequenos quadriláteros, de pe- 
dra (e ás vezes de ferro), tem geralmente uma cruz esculpi- 
da ; quando as assentam na boca do forno barram-nas. com 
excremento (bosta) de boi (estando dentro o pão, já se vê). 
Na própria parede do forno, sobre a porta, ha também fr^ 
quentemente uma cruz. c) As povoações costumam ter um 
forno publico, a cargo de um fomeíro^ que, pelo seu tra- 
l)aUio, recebe um pão chamado jxíía (Taboaço). Na casa 
doeste forno, quando está frio, costumam juntar-se os aldieõeSí 
para se aquecerem e conversarem (B. Alta), d) Quem(íí)» 
o j>ão dà sempre â porta do fômo, às Çreanpas pobres, iim 
bocado de bola [a bola é mais acatada que o pão] (MoudiiD^ 
da Beira). . ,, . i 

3) Serões. — Os serões {reflro-me à^ Beira Alta, e ceia 
especialidade a Mondim) são reuniões nocturnas de muBie^ 
rps para trabalhar (geralmente n^ meia). JSsdolhe-se de ar?, 
dinario uma loja que seja quente : as mulheres assentamHse 
á roda, tendo no centro da roda, ou num velador;, ou, pen- 
durada do tecto, a candeia que alumia o tr:abalhò. Os se- 
rões começam em setembro e acabam nos fins de março. Co- 
meçam já depois de ser noite e duram ahi até á meia-noate. 




233 



Os serões são uma causa de communicação e conservação 
das tradições populares, porque alem das cantigas soltas e 
romances que se cantam, tambeni se contam muitas histo- 
rias, O acto de fazer serão chamà-se sm^andar. Cf. as se- 
guintes cantigas do concelho de Gaia : 

Esta moda da seranda A seranda por castigo^ 

E' uma moda bem ligeira^ Mija por um assobio : 

Faz andar as raparigas O aía1)o da seranda 

Gomo o trigo na joeira. Até no mijar tem brio ! 

O' seranda, ó serandinha^ O seranda^ ó serandinba^ 

Toca^ toca a serandar: Eu hei-de ir ao teu serao^ 

Vamos dar a meia volta^ A fiar uma maçaroca 

Se é de vira^ troca o par.* Do mais fino algodão. 

A seranda por ter brio. Gosto muito da seranda. 

Mija por uma cabaça : .Só pelo andar à roda : 
O aiatx) da seranda Lá aarà contas a Deus 

Até no mijar tem graça ! Quem inventou esta moda i 

' A*s vezes os serões são interrompidos com os descan- 
tes que os rapazes lá levam alta noute; jà se vê que co- 
meçam depois todos a dançar. 

> 
340. Vida agrícola e pastoral. — 1) A principal ri- 
queza de Portugal provém do campo; também não é o 
campo o menor assumpto de superstições, como já por va- 
rias vezes se tem mostrado neste livro, a) Em Maio vae 
o padre com o povo fazer ladainhas pelos campcfe, para as 
sementeiras produzirem. Numa Practica de exorcistas (tra- 
dúc. do P. Rodrigues, Coimbra 1694, pag. 357) ensina-se, 
por occasião da benção dos termos, a seguinte formula: 
«Benedictio Dei Patris Omnipotentis gg Filii gg et Spiritus 
Sancti gg descendat et maneat super agros, vineas et fru- 
ctus». b) Na noite do S. João, o homem que quizer que 
as forças productoras do campo do visinho venham para as 



m 



4'elle, moata num cambão/ atravessa assim o campQdQ ví^ 
CfinhQ em direcção ao próprio cao^po, e di;^ ; 

Aqoi Toa oeste eaiabio 
Na nokQ 4e S. João, 
Para trazer atrás de mim 
Pipas de vinho e carros 3e pio. 



Segundo outra versão, também da Míabo^ moata-se 
num cambão de sete chavelhas (sete buracos para chave- 
lhas), fustiga-se asperamente ao atravessar a propriedade 
do visinho e diz-se: 



Vae boi, vae vaeca, 
£sta terra é fraca: 
O renovo que ella der 
Cahirà na minha arca. 



Dito isto, o homem do cambão pega num malho e vae 
dar tre3 pancadas nas medas, de centeio que o visi^lw) tem 
iia eira. c) Neohum lavrador começa a lavrar sjç^m s$ Jbeft* 
zer primeiro (o que geralmente se faz no começo d^ qualr 
quer serviço). Em Cabeceiras de Basto, ao terminarem a 
semenieira, rezam um P. N. e dizem: 



S. Frituoso 
Milai^osol 

para gue o santo (^ Frujçfiuoso) f^ç^ nascer b$m ins foicm^ 
Em S, Martinho de Guifões» (c, de Bouças) diizem aa m^sM 
pcc^sjão: 



Deus te poidia a virtude, 
B em QOs .a s^^ide. 



A3J5 



Em Taboaço resam a Santa Eufemia, d) No § 3 1 3 enu- 
ereí vários meios de livrar os campos de acções malefi- 
is. Eis outro : atira-se com três pitadas de sai ao campo 
diz-se (Minho): 

TriBta eom trista^ • 

S. João Evangelina 

De redor d'^ste renovo assisU; 

Fra que, se algoipa Bnua oo Feiticeira 

O quizer levar, 

EaAe (sk) eontar as estrdlas do eea 

E as areias do mar. 

Com a d^beç^ piar^ o chão 

E as pernas para o ar : 

E com este siu ba-de apanhar. ^^ 

e) Na impossibilidade de mencionar as diversas espe^ 
^ de trabalho campestres e os usos annexós, limitar-m&r 
ú ao seguinte : Quando andam os trabalhadores a cavar 
• vinhas, o ultimo à direita do cordão que elles formam 
ntos é o rei da cavada^ e o da esquerda é a rainha. Para 
^opi comer diz o rei (sem elle o dizer não ^e pára) : «Loih 
ido seja N. S« J. Ghristp I» Â rainha quasi não faz nada. 
que anda no meio chama-se vctssallo e é o que mandei 
r o pipo com vinho para todos (Taboaga). Na Ilcanha tam-r 
)m ha annos (não sei se ainda) durante os trabalhos da 
voura se elegia um rei (o da direita) e uma rainha (o da 
iquerda). O rei tmha por obrigação dar o signal das co^ 
idas, e do trabalho ; dizia : 

Gomam e vamo$^ 
Llanpem |i3 iNMTbasi, 
Atem os pannos; 

I is vezes por chalaça : 



»o vid. o meu Estudo Ethmfirafh. pag. I^fi. 



i 



236 



Gomam e vamos 
Atem as barbas, 
-Limpem os paonos. '^^ 

A rainha exercia as funcçoes só dos sabbados á noite. 
— A segunda cava das vinhas chama-se redar e sPravessa/r 
(Taboapo); erguer é levantar as vides do chão ; a isto segue-se 
o enxofre e a vindima. As vindimas do Douro, a que concorre 
gente de muitas terras, são, como os serões, outra causa 
de communicapão e transmissão de trad. O povo não traba- 
lha, principalmente as mulheres (que andam em grande 
quantidade nas vindimas), sem cantar; alem disso, os vin- 
dimadores, quando vão para o Douro, levam descantes ani- 
mados. — No trabalho de maçar e tascar os linhos, as mu- 
lheres tem duascomidas.de manha, alem do jantar: oaí- 
môço e a fatiga [verbo fatiga/r cí. § 399-a] ; no fim do dia dá-se 
a cada mulher, a fora o respectivo salário, uma estriga para 
madrugar mais (Taboapo). — A sementeira do milho cha- 
ma-se vessada. O dia da vessada é um dia grande para a 
casa. Os trabalhadores, durante esse trabalho, dão muitos 
vivas aos donos da casa. Depois da vessada ha a picada 
em que as mulheres vão com uma vara aguçada metter na 
terra cada grão de milho solto [este processo da vara é 
perfeitamente primitivo e encontra-se em alguns selvagens]* 
Ha ainda outros trabalhos como esca/na/r^ i. é, tirar as folhas 
deixando só a espiga, cascar^ esfolhar ou escamisoTy i. é, 
tirar o cósco (folho da espiga). Seguem-se as malhadas^ cpe 
se fazem em eiras^ espaços de terra lageados tendo uma casa 
ao pé para recolher os instrumentos da lavoura, etc. ; o ins- 
trumento com que se malha tem em Mondim da Beira, etc. o 
nome de mangoal^ e compõe-se de um cabo comprido, tendo 
em cima preso por um couro um páo grosso com que bate 



3^1 Os Romanos tinham também o seu rei damega, o qual de- 
terminava o numero de copos de vinho que cada conviva devia be- 
ber. Horácio diz (L. i, od. 4) : Non regna vim sortiere talis. — (ã. 
adiante o imperador dos moleiros. 



237 



nas espigas. Riscar ou desbolhar o milho é tirar o grão ás 
espigas (qaando estas são em tão pouca quantidade que não 
vale a pena malhá-las) com o furào (pequena e estreita 
vara de ferro aguçada na extremidade e encabada num páo 
em que se pega). Perto de Vianna do Castello era (ou é) 
costume no íim das malhadas queimar uma meda de palha 
moida tendo sobre ella posto um gatoiíuma panella. Q gato ás 
vezes morria assado, outras vezes fugia, se a panella que- 
brava. (Vid. este livro, a pag. 199). Noutras partes do 
Minho, no ISm das malhadas, ha um desafio a mangoaes. Os 
que mais bulha fazem são os vencedores e bradam aos ou- 
outros; « — Leva a gata! Leva a gata — » {Alm, de Lembr. 
1859, p. 87). — Quando os carros tem de levar batatas, 
milho, esterco, etc. pôe-se-lhes a séve (Beira-Alta) chamada 
caniça no Douro, armação de vergas para segurar o que elles 
levaín. Quando não levam séve^ levam estadulhos (B. Alta) 
chamados fueiros no Douro, páos a pino mettidos em buracos 
ã volta do carro. — A vara que o lavrador leva na mão e que 
tem em cima um ferrão para picar os bois chama-se agui- 
Ihada fB. Alta) ou aguilhào (Douro). São 'bem conhecidos 
estes instrumentos arado^ charrua^ grade^ sacho, sachólo, 
sachóla^ enxada^ enxadão^ engaço^ padiola (ou carreia na 
Maia) para que tenha de me demorar cora elles. Os carros^ 
no Norte do paiz, são de uma fabrica primitiva, e só um de- 
senho dará perfeita ideia d'elles. Sobre os jugos e cangas 
vid. o meu opúsculo Estudo Ethnographico. — Cantigas do 
campo (as primeiras de Mortagoa e a ultima de Guimarães); 

Dizem que não sei sachar. Eito fora, eito fora, 

Que todo o milho arranco : Eito ao cabo do chão. 

Ainda Deus me hade dar Depois do eito fora 2i3 

Uma leirinha no campo. »i* Descança meu coração. 



812 Ura dos caracteres das cantigas pop. é serem em quadras 
de redondiíha maior, rimando apenas o segundo verso com o quarto; 
se nesta cantiga rima também o primeiro com o terceiro é por acaso. 

B18 Eilo—é a porção de terra que cada um sacha (Mortagoa). 



286 



Quem me âéra cà o verio^ Quem tné dera qae vfèsséf 

O tempo das êicamUfidas O tempo que ha-dé yir. 

Para dar ao mea amor O tempo dias esfolhadas, 

Quatro castanhas assadas. Para me ea adeyertir. 



2). — a) Ligado ao trabalho da lavoura anda o cuidado^ 
do gado. O gado divide-se em meudo (ovelhas, carneiros e 
cabras) e graúdo (bois e vaccas). b) Os pastores do gtííS 
tem differentes denominações : pastores propriamente XU» 
(pássim), e pegureiros (Resende) ; aos ajudantes dos^ pasti^ 
res chamasse zagaes em algumas terras do districto de Bnh 
ganpa. As pastoras do gado em Vouzella, Mortagoa, etc. 
chamam-se doeiras, como até as cantigas pop. dizem : 

Vae-te d'ahi para fóra^ Não me namoram coraes^ 

Pernas de ralo assado^ Nem pendentes das ordbíts, 

Vae seguirão o teu caminho, Namoram-me os tens aedos, 

Deixa as doeiras do gado. Doeirifiha das ovelha$. 

cj Os pastores, quando andam a guardar o gado, tra- 
zem sempre uma pequena flauta a que na Beira-AIta se 
chama pifaro (pifano). Estas flautas em algumas terras de 
Traz-os-Montes, onde se chamam fraitas^ são muilo bem 
gravadas. 

341. VIII. Doenças e Remédios. — a) Quem tem um 
pé ou mão dormente, faz-lhe por cima uma cruz com o dedo 
molhado em saliva (Mondim da Beira). No Porto e arredores 
usam-se estas fórmulas contra a dormência : 

Desadormece, pé^ Desadormenta*te pé^ 

Que está um lobo atrás da sé; Que lá vem o lobo mê 
Elle qner-te comer Pela casa do Thomó 

Tu num podes correr. Que te hade qnerer comer 

E tu não bades poder correr. 

b) Quando cae um argueiro num olho, cospe-se fora 



$ veies part dle JT imcvr [salrir] (6an). e) Pbommet- 
medo ás pessoas qoe tem sidnços, pin dles pansaron 
ia etc.)- d) Quando as mnliíeres estio atacadas de se- 
s, prometton ir, se sararem, em romaria a S. Coniâio 
Igo S. Comâho) no cooceD» de Montirte (Alemt^}, le- 
ido-lhe mna dinia de diifies que teriíam sido adiados 
m. de Ltmbr. de 1858, pag. 234). e) Qoem padece 
dores de ouvidos deve levar a S. Ovídio (vulgo Samio 
miefo, por etjm<dog. pop.) uma tdha nova, mas que 
a roíibada (Dooro). f) QoaDdo se tem sarampào (se- 
^po) é bom vestir uma saia de baeta encarnada (Bitre- 
dora). *^ g) Qnando as mulheres teem oma dõr de ca- 
^ e snnioem qoe essa dôr é dada (prodozida por mn 
tar muito forte), devem, para sarar, e^regar a cabeia 
n a mai^a esqoerda da camisa de mn bomem, estante 
3 com ella vestida (IGnbo}. hj «Qaando ama criança pe- 
ena não se desembaraça a andar, poe-se a nm canto na 
:asião de darem as Ave-Maiias, dizendo-se por três veies : 



Ave-lbrias a dar 

B o men menino a andar!» 



(C. Pedroso, — Faria n.® 215). — Em Lisboa diz-se 
id>em: 



Andar, andar. 
Com pésinbonoar, 
Fra da terra 
CfeB^raoar. «^ 



O neme do serimpo na B. Alfa é sgfWÊ^Sh. 
s>& Anda, mío^ anda. Anda, nina, aí 

?ieDioslelomaada; QoeDiosiBlo 

la ^lyen Maria, . Si no andas boy 

Qoe anda todo d dia. Andarás maiona. 

CP.a 



240 



i) c Quando uma pessoa está doente, e se desconfia se 
foi mal que lhe fizeram, deve dizer-es : 



Fulano (nome da pessoa) 
Deus te cheirou. 
Deus te criou. 
Deus te tire o mal. 
Que nesse corpo entrou.» 

(O. Pedroso, Ib. n.* S5S). 



jj Para se fazer vedar o sangue que se soUou a qualquer 
pessoa (i. é, que lhe sae pelo nariz) deve-se fiazer ás escondi- 
das da pessoa uma cruz de palha nas costas d'ella (Tatoico, 
etc. Cf. Pedroso, ib. d.° 1 19). k) Quem tem uma emi^geoi 
talha-a assim (Minho, Alm. Lemb. 1861, p. 144): 

Impija (impije ?) 

Rabjja, 

Assim como eu hoje comi e bebi 

Assim tu não saias d*aqui. 

— Sobre doenças vid. outros §| d'este livro. 

342. IX. Morte e funeraes. a) A alma de quem 
morre, passa por uma ponte tão estreita como o gume de uma 
faca (Mondim da B., Famalicão), b) Quando alguém morre, 
se o cadáver está parecido, a alma está em bom logar;86 
não, não (Arcosello). cj O fel dos defunctos rebenta ao 
terceiro dia, (ou sétimo). Quem ajoelhar numa campa, an- 
tes de findo este praso, tem gôtta ou Uríz [icterícia], e por 
isso se marcam as campas com ura ramo de murta (Minho). 
d) Quem veste um defunctp, vae-lhe dizendo : crlevanta o 
braço, F. (nome próprio)», «levanta a perna, F.t etc., i 
proporção que o vae vestindo (Minho), e) Quando morro 
um homem, o sino dá três signaes (toques)'; quando mulher, 
dois; quando aiyinho, apenas repica (B. Alta), fj Quando 



241 



trre um homem, não se deve, durante um anno, frictar no 
^0 em casa, deve-se ir frictar a casa dos visinbos, parque, 

se frictar, Mcta-se a alma do deftmcto ; — mas isto é só 
respeito dos homens, a respeito das mulheres póde-se 
ctar à vontade (Maia) . g) Se, mesmo casualmente, se apa- 
ir a luz que alumiou um defuncto, a pessoa que foi causa 
isso está mal: o defuncto vai a trás d^ella (Minho). 

Qaando morre qualquer pessoa, deve-se-lhe virar o col- 
tão e collocá-lo ao alto, dos pés para a cabeça ; não fazendo 
lo, morre breve outra pessoa (Douro), i) Quebrando -se 
vidro de um espelho, morre uma pessoa da familia (Douro). 

Não se deve ver passar qualquer defuncto até se perder 
> vista, porque senão morre-se nesse anno (Douro). 

Bispo do Porto que và chrismar á egreja de S. Pedro de 
ragaia morre dentro de um anno (Douro), l) Os pobres 
orrem todos de feitiçaria ; para se saber quem na fez, pe- 
ne na camisa com que falleceram, mette-se dentro de 
Da panella de barro com agua, barra-se o testo d'esta, e 
fe-se ao lume, porque a pessoa que fez o feitiço vem des- 
pá-la (Douro), m) Quando vamos dar os pêsames por al- 
iem que morreu nosso coubecldo, não nos devemos sen- 
P do lado do dorido, porque isso é signal de outra morte 
ouro), n) Quando nosso Pae (o Senhm^-fôra) vae a al- 
«n enfermo, se a glótia acaba dentro da porta, o en- 
rmo não escapa (Douro), o) Para nos esquecermos de 
tt morto devemos resar um padre-nosso com a boca fe- 
ada (Villa-Real). p) «Se houver um assassinato, sem se 
nhecer quem foi seu perpetrador, lança-se a victima de 
npos no chão, e mette-se-lhe debaixo da lingua uma 
oeda de 400 reis, que logo o assassino se descobrirá. Se 
^èm este fôr experiente, basta que vista a camisa ás 
essas, e m'nguem lhe porá a mão em cima» (Brazil, — 
»». de Lemb. 1864, p. 284). — Quando alguém é assassi- 
do, diz-se que lhe fica o sangue no chão a pedir vin- 
nça (B. Atta). q) Em Paraduça, ao pé de Leomil, o do- 
lo fica um mez com a camisa suja no corpo. No fim doeste 



i 



242 



tempo vae o povo ãcompanhà-lo à missa. — Em Gondifellos 
(Famalicão) o dorido fica um mez sem fazer a barba. 
r) Na freguezia de Villa-Cova de Carros, (c. de Paredes), 
no primeiro domingo depois do fallecimento de. alguém ha 
um obradorio (responsos), e no. fim d'eUe todos os assisten- 
tes bebem e comem à porta da egreja. — Em varias terras 
de Portugal (Beira-AIta) é costume, no dia do enterro, dar es- 
molas de pão aos pobres, ou à porta do cemitério ou da 
casa do defuncto, como presenciei muitas vezes.— £stes 
usos modernos tem relação com outros usos antigos, segundo 
a Gonstit. do bisp. do Porto: <E cada um dos parocbos, 
sob pena de lhes dar em culpa, não consintam em suas fire- 
guezias abusos e superstições nos acompanhamentos, enter- 
ros, ofilcios, exéquias e trintarios, nem que se coma sobre 
as sepulturas^ nem façam resas com ajuntamento da fregue- 
sia á porta da Igreja, em que se costuma dar de come 
(Liv. 4, tit. 2, const. 9, p. 471 da ed. vigente). "« s) Na 
freguezia de Guifões (c. de Bouças) deita-se no caixão do 
morto dinheiro de cruzes para o morto passar S. Tiago de 
Galliza, onde ha um buraco por onde toda a gente tem de 
passar ou em vida ou em morte (cf. | 40). Em Cimbres, 
(c. de Mondim da Beira) delta-se no cakão dinheiro para o 
morto passar a barca (ou a ponte). O mesmo costume de 



216 No meu escripto O Preshyteno de Villa-Cova mostrei eomo 
o costume dos banquetes fúnebres era antigo e espalhado. Parece qoB 
já existia nos tempos prehistoricos (Lubbock, — O homem prekislV 
ed. fr., 157 ; Bachner, — : L'/iomme selon la science, trad. fr., 2.' ed. 
p. 24^ etc). Nas inscripções romanas da Lusitânia falla-se do ban- 
quete fúnebre. Sobre o costumo nos Romanos^ Normandia^ Chineies, 
selvagens, etc, vid. entre outros : Crenzer, — Religions de farUiqiútéf 
t. 2.% part. 1.*, pag. 454-7; Tylor, — Ctw/ Primit., p. 19; Maorj, 
—La Magie, 4.* ed., p. 18 e La Terre et Vhomme, 3.* ed., p. 600; 
Cantu,— JKsí. Univ,, (2.* ed. porl.), p. 240; T. d* Aragão,— JReteío- 
rio sobre o cemitério romano descoberto próximo de Tavira, Lisboa 
1868; Estacio da Veiga, — Povos balsenses, p. 14; Magasin Ptítorêt' 
que, m, 276-7. 



243 



aleitar dinheiro pára passar a barca existe em Sinfães e creio 
que no Minho. *" No Porto e em Villa-Real espeta-se um 
Àflnete no habito do morto, para este se lembrar dos vivos 
perante Deus. t) Em AI|jó^ mal se tem coberto a cova, 
íanpa-se umamão-cheia de terra sobre o morto. — Em Mon- 
dim da Beira vi, no enterro de um padre, ir cada padre do 
acompanhamento lanpar uma enxadada de terra na sepul- 
tura, u) Quando passa um defuncto devemos levantar-nos, 
senão morremos cedo (Minho, Resende etc). Se o préstito 
parar á nossa porta é mau agouro (Minho), t;) Quem vae 
4 missa nos Domingos, em Alijó, deita agua benta sobre as 
campas que estão nas egrejas [porque outr'ora, e ainda 
actualmente em algumas partes, como já tenho visto, enter- 
rava-se nas egréjas]; quem também vae aos cemitérios 
quando ha agoa benta, deita-a nas sepulturas (Mondim da 
Beira), w) Em Guimarães, no dia dos Fieis defunctos, vão 
ao cemitério as pessoas a quem morreu alguém enfeitar as 
campas com flores, x) Em Basto (Minho) quando um de- 
functo tem de atravessar a ponte para ser enterrado na 
freguezia limitrophe, o seu padre acompanha-o até ao meio 
<ia ponte. Ahi pousa-se o corpo. Todos os que o acompa- 
nham, parentes ou amigos (só do sexo masculino) levam 
punhados de areia fina, e cada um por sua vez atira a areia 
ao rio, dizendo aP. (nome do morto), tantos anjos te acom- 
panhem para o ceu, como areias cahem na agua». Ao ati- 
rarem as areias tapam os ouvidos, de modo que não ouçam 
o barulho da queda na agua. Em seguida, o parocho da 
outra freguezia, que vem do lado opposto da ponte, levanta 
o cadáver e condu-lo á egreja. y) O uso das choradeiras 
ou carpideiras^ mulheres assalariadas que iam nos acompa- 
nhamentos a chorar pelos mortos, era outr'ora muito vivo 
entre nós. Basta abrir qualquer Constituição de bispado, que 
lá veremos disposições contra ellas. Na do Porto (1687) 



2Í7 Vid. o mesmo era Maury, La Itlagíe, 4 ed.. 158. 



244 



por ex. lé-se : «Probibimos que nos dittos acompanhamen- 
tos, e enterramentos, e nas egrejas em qne os defuntos se 
enterrarem, se consintam pessoas que vão dando vozes di9- 
compostas^ ou fazendo exPraordinariose desconcertados prm- 
tosiÊ (Liv. 4, tit. n, const. 9, p. 471). Gil Vicente parece 
alludir ao mesmo costume : 

Prantos fazem em Lisboa 
Dia de Santa Luzia» 
Por el-rei D. Manoel 
Qoe se finou nesse dia. 

O romance popular D, lÀnda^ que ouvi em Guimarães 
a uma velha, termina assim : 

Ella depois que o viu morto. 
Logo se poz a chorar : 
«Chamem-me padres e fírades 
Para o vir enterrar. 
Eu mando chamar senhoras 
PWa me ajudar a chorar*; 

aos quaes versos a velha acrescentou este commentario: 
« — porque d'antes, quando esfallecia alguém, chamavam 
choradeiras para irem assistir, e ainda hoje se diz d'ellas 

Choram o meu e o alheio 
Por um quarto de centeio--». 

O meu amigo o snr. F. A. Coelho, a propósito de um 
art. que publiquei no Pcmtheon (p. 82-84), dignou-se man- 
dar-me uma nota com esta facécia popular (versão de Coim- 
bra) : «Era uma vez uma mulher que estava a carpir um 
finado, e vae ao despois perguntou-lhe uma visinha o que 
estava a íázer, e ella disse : 

Estou aqui a chorar o marido alheio 
Por um alqueire de trigo ou de centeio; 
Nâo sei se m*o darão meio^ se cheio. 



2*5 



Nisto â viuva do defoocto, por quem a outra estav« ti 
carpir, poz-se a saltar no meio da casa e a dizer : 

Hade sec calcado (o alqueire) 
E repimpado, 
E ainda por cima 
Um grande punhado.» 

Outra versão que ouvi a uma velha da Terra da Feira 
fliz assim : «Era uma vez uma mulher, cujo marido estava 
morto, e depois foi às visinhas pedir se ellas o vinham cho- 
rar com a saia preta pela cabepa, e as visinhas começaram 
a dizer: 

Ai! ai! 

Quem hade chorar o alheio 

Por um quarto de centeio ! 

A viuva respondeu-lhes : 

Ghorae-o mais bem chorado 
Que vos dou mais um punhado.» 

O costume das choradeiras está actualmente decadente. 
Sm Villa Chã de Cangueiros (c. de Mondim) vigorava ha 
^jmosí (não sei se ainda). — A respeito do Alto Minho deram- 
me a segumte informação. « — Na freguezia do Suajo (Arcos) 
costumam ir carpideiras^ mulheres com saia pela cabeça a 
chorar ao pé do morto, para o que recebem uma posta de 
bacalhau, um vintém de pão, e vinho ou dinheiro corres- 
pondente a um quartilho — ». Uns versos que me manda- 
ram da Maia (e de que ha outras versões) dizem assim : 

Marabilhfts do meu bélho Que To tornasse a mandar 

^ue tenho p'ra bos contar^ Para comprar o toucinho 

Qne me deu real e meio Para fazer am jintar. 

P'ra me bestir e calçar; Lebantei-me muito cedo^ 

£ d*isto o que sobejasse Fui-mo pôr a eosinhar, 



r 



246 



Boa dar co'o mea bélho morto 

Antre as pedras do lagar^ 

Atirei-Ie c'am faeiro^ 

Aeabei-o de matar; 

Fai chamar as choradeiras 

Qae o biésse chorar : 

Bem chorado ou mal chorado 

Bà o belho a enterrar. 

Gatos da misericórdia^ 

Que o meu bélho lubaes^ 

Retirae-m'o das paredes 

Que num salte elle aos quintaes^ 



Que elle era amigo de figos 
E de peras carbalhaes; 
Elle era amigo de grelos^ 
Destérrou-me os meus nabaes; 
A coba que le fijérás^ 
De sete báras de medir^ 
Olhae que elle é muito fino^ 
A casa num torne a bir; 
A pedra que le butares 
De peso de cem quintaes, 
Olhae que ella é muito fino, 
A casa num tome mais. ^^^ 



Transcrevi o romance todo, porque nelle se relata» 
varias particularidades, como os gatos [no Porto chama-se^ 
gatos pingados àquelles que de casaca e com uma tocha vão 
por dinheiro a enterros], e à pedra sobre a sepultura. *^ 
Numa outra versão d'este romance (vid. os meus Rom, pop.> 
n.® 2) diz-se: 

O* meu mestre sapateiro^ 
Manda cà o teu mocinho. 
Que é p*ra tocar a sineta : 
Já morreu o meu velhinho; 

versos em que se allude ou ao toque dos IBnados na torrei 
ou a este costume que ha nas aldeias (Beira-Alta) de, pôOr 
cos momentos antes do enterro, andar um rapaz pela raa 
a tocar uma campainha para juntar gente, z) A' frente dos 



218 O costume das choradeiras existia nos antigos BomaBO^ 
(vid. Lei das doze Taboas; Horácio, Art. Poet. v. 431-2; Van*>> 
iib. 6.% cap. 3.0), nos Egypcios (Dr. Favrel, Funérailles et SépVil^ 
res, Paris 1868, p. 144) e em muitos outros povos, que seria longo 
enumerar. 

>i* Cf. o seguinte costume andaluz : «El pájaro verde llâiD^ 
en Osuna 2à isucio ataud que sirve para los entierros de caridao* 
{Juan dei PwWo,— por F. B. Marin, Sevilla 1882, p. 73). 



247 



terros vae a bandeira das alnms onde se vê pintado o 
rgatorio e S. Miguel a pesar as almas. Os seguintes ver- 
3 (Romanc, geral de Th. Braga, n.» 49) referem-se à su- 
rstipão : 

S. Miguel^ pesae as almas^ 
Ponde pesos na balança^ 
Os peccados erão tantos^ 
Foram com elles ao châo^ etc. 



aaj Em algumas terras, quando morre alguém, é cos- 
ne os visinhos mandarem a comida á familia do morto. 

bbj LucPaosa. — Sobre o tributo funerário da l/uctuosa^ 
nscrevo as seguintes linhas de um documento (praso) 
ativo á quinta de Margaride (ao pé de Guimarães), quinta 
rtencente ao meu amigo o snr. Conde de Margaride, a 
em agradeço o eu ter podido ver aquelle e outros docu- 
mtos : c . . . pagará de lutuosa por falescimento de cada 
ma das vidas deste praso a milhor pessa que ouver de 
)vel nas cazas da dita quinta. . .». O praso tem a data de 
de Agosto de 1678, e a luctuosa era paga ao directo se- 
orio. **® Outros mais textos podia citar; mas creio que 
sta este. 

cc) Estes versos do romance D. João e D. Marias que 
colhi de Traz-os-Montes alludem á hora da morte : 



2^ Semelhante a este costume da luctw>sa era o ^prazerosa, 
e consta da Vida de Manuel Machado de Azevedo (da casa de Cas- 
i, no concelho de Amares^, pag. 35 a 36 : «mando Manuel Machado, 
B le pagassen otra (pensão) com titulo de placerosa, todas las ve- 
r que a Tos Senores^ que fúessem de la casa de Castro, les naciesse 
primero hyo varon; e gue essa fúesse una hogaza, un carnero y 
a calabaça de vino ... si bien algonos plazos dizen one la calabaça 
i de agua y la hogaza de cénica» (Ap. Pereira-Caídas, A Praze^ 
sa, jn Revista litteraria do Parto, p. 43, an. 1867). 



í 



248 



Tres dias te ea doa da vida^ 
Três horas e sem mais nada : 
Uma é para testamento 
E para vens da tua alma : 
Outra é ^ra sacramento 
Hora mais bem empregada ; 
Outra é para espedmiento 
Da tua querida e amada. 



Bens d^alma são as missas etc. que o moribundo manda 
dizer por sua alma. dd) Sobre a mào de finado também 
chamada mão finada (Minho), e, por etjmologia pop., mào 
refinada (Guhnarães), vid. § 93. Sobre outros costumes dt 
morte vid. § 8Ò, 88, 208, etc. ee) Quando morre al- 
guém, a primeira cousa que se ouve no ceu são os sinos 
{Villa-Real). O povo traduz em verso a linguagem dos si- 
nos. Aqui apenas mencionarei a do toque de finados: 

•—Morreu a velha. . . — Gà morreu um pó . .ó.. .Im... 

— Que te deiKou? —Que te deixo.. ô..ôa? 

— Uma manta velha. — Z-uma manta vó. .é. .Iba.** 

(Tr»«^«.M«ntc8). — Partimo-la, partimo-la ! » 

(OUvelTE d'ABeBi0KO. 

343. X. Misteres diversos. — Já no decorrer doeste 
livro lenho alludido a alfaiai (§ 262-^, e p. 194), posftM 
(p. 238), lavradm^es (| 340), etc. Pouco me fica pois paraaquL 
a) Cantadeiras e cantadores. São mulheres e homens que, 
medeante certo salário, vão cantar ao desafino a differentes 
terras por occasião de festas, etc. Â este costume allude 
uma cantiga: 



^1 Esta costume existe noutros paizes. Segando o meu apdflD 

o snr. dr. G. Pittrè me disse numa carta «Una campana di FalannD, 

che sonava verso Fora delia scuola^ secondo il popolo, diceva: Ami 

Pepé^ Scola c'è (bis). Un* altra d'un monastero di Clarisse : Semu íM- 

(málate) (bis)». — Gf. também Rev* Celtique, ui, 215. 



249 



Cantadeira^ canta alto^ 
Que este povo quer ouvir! 
Se ta não podes do peito^ 
Quem te mandou aqui yir? 

(Mala). 



vezes a satyra é fina, outras vezes, mais frequen- 
quando os versos são improvisados, é baixa. *** 
iheiros. Os marinheiros, quando se vêem em aflK- 
) alto mar, proraettem levar a vela de ofiTerta a 
' imagem, principalmente a Santa Clara ; depois an- 
1 ella pelas ruas da cidade a pedir até obterem o 
Ha, que depois dão para a imagem (Porto), c) O mo- 
?undo a crença popular, devia ser despresado^ mas 
porque moeu a farinha para as hóstias de Ghristo 

— Na Beira-Alta diz-se porém que ser moleiro é 
I, porque o moleiro paga-se por suas mãos (quando 
laquia do pão moido). — A crença em que o mo- 
despresado não parece porém ser, ou muito es- 

ou muito arreigada, porquanto, num doe. ms. 
), figura como homem-bom (ena Guimarães) um 

— aNa villa d*Eiras, uma légua áo norte de Coim- 
;tia o costume, que datava d'antigos tempos, de ele- 
lalmente entre os moleiros da villa um imperador. 
narcha, acompanhado da sua corte, subia no do- 
3 Espirito do Santo ao cimo da serra, onde está si- 
capella da S. Sabastião, e d'alli deitava a sua ben- 
aa outra capella ^^ que está na fralda do monte sõ- 
lal se ergue o convento de Santo António dos OU- 



Estes costumes portuguezes do desafio aeham-sedeseriptos 
heque tmverselle et revue suisse, n.o 228 Dez. 1876. Sobre 
semelhantes extrangeiros vid.^ por ex.^ Aràhiviojperletrar 
polari, I, p. 93 e seg. (Des Dayemans pelo snr. C. de Puy- 
-Juan delPuehlo por F. R. Marin, p. 43, etc. 
B* a do Espirito Santo, edificada ha séculos. 



i 



250 



vaes. Na madrugada da segunda-feira seguinte dirigia-s& 
com a sua commitiva à egreja dos frades bernardos de Gel- 
las, e ahí, depois de coroado pelo capellão, era brindado 
pelos religiosos, aos quaes elle fazia algumas mercês. Con- 
sistiam os brindes em grangéa, confeitos miúdos, que allí 
denominam pastilhas, e lhe eram ofiTerecidos numa salva d& 
prata com um garfo para elle se servir, e apoz isto maiyar 
branco e mais algum doce e vinho. Depois doeste cerimo- 
nial voltava ao seu império onde encontrava na praça da 
villa um grande tablado, e nelle uma cadeira de espaldar 
para se sentar, e em frente uma mesa com comida franca. 
No fim doeste banquete havia cavalhadas, que as mais das 
vezes resultavam em forte pancadaria» (Cf. p. 236) {A Uber- 
dade^ de Viseu, n.° 419). d) O pedreiro está amaldiçoada 
porque atirou com pedras á Virgem ; e a Virgem disse lhe: 



Pedreiro^ pedreirete, 

Hade ser sempre pobrete e alegrete. 



Com effeito, accrescentou a minha informadora, o pe* 
dreiro canta sempre e assobia, mas nunca tem 1 reis (16- 
nho). — Os pedreiros quando andam a subir pedra para os 
edificios, costumam produzir um som alto e agudo, que pouco 
mais ou menos se traduz assim : dôvrôu^ d&urdró-ôu^ coffi 
uma grande monotonia e tristeza, e) O ferrador devia sff 
despresado, mas não o é, por ferrar os cavallos do rei 
(Minho), f) Como já por varias vezes vimos, o povo cos- 
tuma traduzir em linguagem os gritos dos animaes e dos si- 
nos ; do mesmo modo traduz as acções da vida ; assim a lin- 
guagem do sapateiro, que, ao coser as solas, tem de aías- 
tar as mãos para ao lado ao mesmo tempo, é esta -.'nâfí^ 
tra Cd d^elles! não entra cd d^elles! (B. Alta). Ao sapatdW 
se diz também (B. Alta): 



"\ 



251 



Sapateiro remendão 
Bota-me aqui um tacão. ^^^ 



inguagem do alfaiate, também ao coser, é: é impôs- 
ilt é impossível! (Mondim da Beira), g) Cada vendedor 
) anda pelas ruas não só tem um estribilho para apre- 
iT, mas um tom ou musica especial para cada género de 
imercio. No Porto, as sardinheiras dizem : Espinho bíba.. . 
mha. . \ (sardinha viva de Espinho) ; as que vendem fa- 
ia: faneca fresca. . . ; as vendedeiras de melões : qvèm 
%pra melões de Coimbra? . • . melões de Coimòra. . . tcio 
- . . ; as que vendem uvas : uvas de cima do Doiro. . . ; 
vendedeiras de manjares e pasteis: paneis de Santa 
vral (convento); manjares fresquinhos! etc. Na Beira- 
a os vareiros *^^ apregoam assim o peixe : quem compra 
*dinha nova? (salgada); fresca como auga! — De terra 
ra terra variam não só os tons, mas os estribilhos ; assim 
garotos que apregoam jornaes tem no Porto, em geral, 
\ tom áspero, emqiianto que em Lisboa, tem quasi sem- 
ô um modo cantado e doce. A voz das mulheres que ven- 
m melões no Porto é uma perfeita musica. ^^ 

344. XI. Varia. — a) Quem, depois de ter sonhado, 

vira na cama, esquece o sonho (Gaia, Porto, etc). 

Não é bom dormir com os pés para a porta da rua (Gaia, 

}.) M^ c) Para um homem entrar numa casa, onde haja 



í«* Cf. Cantos popolares espanoles de F. R. Marin^ Sevilla 
«, vol. I, n.« 15i. 

225 Vareiro (por ovareiro=de Ovar) é o termo genérico que 
signa vendedores de sardinha (na B. Alta^ etc). 

«í6 o sor. dr. G. Pitrè puoiícou no Archivio per le traâiziom 
y>lari, p. 289-92, um estudo sulle voei dei venditori ambularUi na 
lia. 

^^ Cf. Smerstidones popuL andaluzas por A. Guichet y Sierra> 
31 (ia El Fotk-lore andaluz, pag. 63, íasc. 3.o). 



r 



252 



cães, deve ir nu ; os cães não ladram nem fazem mal, por- 
que um homem nu é a imagem de Ghristo (Ârcozello de 
Gaia). — Na Beira-Âlta também se diz que um homem narsh 
presenta Ghristo). d) Para se fazer com que uma visita sê 
vá, embora, faz-se uma fogueira grande (Garregosa; d. § 
225). e) Não é bom ter espelho partido em casa, porque 
a casa (i. é, a fortuna da casa) anda para trás; para tor*- 
nar a andar para deante, é preciso mandar lançar os fra- 
gmentos do espelho a um rio, num sitio abaixo da passagan 
(Porto). ^ f) Quando se muda de casa, a primeira cousa 
que se deve levar para a nova casa é lenha e sal (Gaia); 
uma versão do Porto diz: azeite, pão, vinho, carqueja e 
carvão. ^^ g) Não é bom coser (remendar, pontear, ete.) 
a roupa no corpo ; mas desapparece o mau effeito se se 
disser : 

Senhor-do-Olho-Vivo, 
Goso o que está roto 
E não o que está vivo. 

(OaU). 

h) Ao benzermo-nos devemos dizer (Arcozello) : 



Deixa-me benzer co'a mão canha, (esquerda) 
Que não diga o Diabo que é manha. 
Deixa-me benzer co'a mão canhéta, ^^ 
Qae não diga o Diabo que é peta. 
Deixa-me benzer co'a mão toda. 
Que não diga o Diabo que é pôrr. . . ^^ 



«» Gf. A. Guichot, id. n.» ai7. 

s^ «Go* se va a star su 'na casa nova se porta prima 8ai,m 
ogio, legne e un poça de çeoare» (Bemoni, — Creâenze^ pag, ÍSj, 

^0 Canhêta, Ghama-se camôto a um individuo esquerdo, iiA> 
é^ que se serve da mão esquerda em vez da direita. 

^1 Estes dois versos finaes serão mais modernos? 



253 



Também as crianças dizem de brincadeira ao benze- 
m-se: 

Pelo signal 
Da santa carracha : 
Vinho madnro 
Na minha borracha. 

(Beira, ete.) 

Pelo signal 
Do bico real^ 
Comi toucinho^ 
Não me fez mal; 
Se mais me dósse 
Mais comia... 
Adeus Padre 
Até outro dia. ^^ 

(Porto). 

i) Quando uma de nossas orelhas" está vermelha, es- 
a fallar de nós: em bem se a orelha é a direita, em 
ai se é a esquerda (Douro, etc). ^^ j) No fim de uma no- 
3na deve-se comer e beber, senão ella não é acceita (Es- 
.rreja). k) Duas pessoas que abrem a boca ao mesmo 
^mpo, hão-de ser comadres (Minho), l) Quando alguém 
Dceja, deve fazer com o poUegar muitas cruzes na boca 
n quanto tiver esta aberta [de alguém que não tem que 
)mer diz-se: faz cruzes na boca] (passim). *** m) Quando 
:guem espirra, os circumstantes descobrem-se e dizem: 
lesus I Dómis teco! (Dommus tecum), Vival*^ uso (jue 

pouco e pouco vae desapparecendo na alta sociedade. 

costume de dizer Jesus! etc. (que é o mais geral no 



»« Cf. R. Marín, Cant. pop. espanoles, i, n.^ 90 : Por /a sefkU, 
De ia santa canal etc. 

»» Cf. A. Guichet y Sierra, ih., % 33. 
S84 Yid. a not. à superstição segmnte. 



254 



povo) explica-se bem pela comparação com os de outros 
paizes, como se vê na nota; mas o seguinte conto, qae 
ouvi a uma mulher de Famalicão e a um homem de Basto 
(Minho) contém a chave do enigma : clima vez o Diabo e 
um ladrão combinaram^ aquelle entrar numa môpa e esto 
roubar uma junta de bois, mas com a condição de o ladrão 
não dizer palavra nenhuma quando o Diabo fosse a entrar. ; 
A moça deu um espirro, e o Diabo ia a entrar; mas nesta 
occasião o ladrão disse: aDómistecoh e o Diabo não pôde 
conseguir os seus fins, pelo que começou a berrar para se 
livrar do ladrão: «O' lavrador! acuda ao haido (heido) dos 
bois, que um ladrão anda a roubar-lh^os». Assim nem o 
Diabo entrou, nem o ladrão fez o roubo.» *** n) A um ra- 
paz que tem o cabello cortado de pouco diz-se ^ondim da 
Beira) : 

Tosquiado, molinhado, 
Leva os porcos ao malhado. 



Em Cabeceiras de Basto, também a namorada diz aa 
seu rapaz, quando este está tosquiado de fresco: 



^^^ Para se comprehender o uso de saudar alguém qneespina 
ou boceja, é preciso saber que existe uma crença de que os espirUf» 
entram no corpo da gente, sobretudo para produzirem doenças. Q& 
Amakosas, quando espirravam, invocavam o seu divino senlMff 
Vtixo, mas depois que foram convertidos ao christianismo, dizem* 
Volve os teus olhos para nós, Deus salvador ! ou: Creador docmeéoi 
terra! (Callaway, — JRe//^. of Amazulu, apud Tylor, CiviL Prtfmt.V 
115). Nas ilhas Samoa dizem Fst^a/ exactamente como nós. Os negros 
do Velho Calabar dizem : Longe de vóstfBzenáo um gesto, como para 
repellir um mal (Vid. Tylor ib. pg. 114 ss.). Doestes factos se conclne 
que o Diabo, no conto, representa o espírito ruim, e que o nome de 
Jesus é para o expulsar. Noutras enis, em vez de Jesus, devia pois 
invocar-se outro nome de divindade. — As cruzes na boca, durante o 
bocejo, tem a mesma origem. 



255 



Looriado^ louriado^ 
Vae p'rã cima do telhado. 
Que là stà um bnrro morto, 
Vae-le puxar pelo rabo. 



o) Quando se vê um individuo defeituoso, diz-se em 
Igumas partes: 

Deus que o assignalou 
Alguma coisa Tachou. 

p) O coixo, o calvo e o gago são mal vistos pelo povo, 
orno os seguintes versos de Oliveira d'Azemeis dizem : 

Se vires o coixo bô, 
Gontae-o por novidade ; 
Do calvo que Deus nos livre. 
Do gago que Deus nos guarde. 

!f. o seguinte soneto, — Agouros — , do arcadico F. Joaquim 
»ingre (in iscellanea poética^ jornal semanário, 20 de Fev. 
le 1851, pag. 62): 



Ha três noites me ladra no telhado 
Uma agoureira c'rQja, e pia um mocho ; 2»6 
Logo que me levanto, encaro um côko, 
E os bons dias me dá um corcovado. 



Pelo dia adeante um mao olhado ^^^ 
De arremesso me dá um torto e chocho; 
Um calvo, ao pôr do sol, com boné roxo 
Me faz um rapa-pé empaturrado. 



21. 



8W Cf. §§ 292-6, e 299.a. 

2»7 Cf. este 8 em r, e o § 335-e\ Cf. mais A. Guichot, ib. 



( 



256 



Todos estes malditos agoureiros 
Sempre foram Araspices dos mortos; 
E da hora fatal os mensageiros. . . 



Crnjas^ mochos^ carcundas^ coxos, tortos, 
E calvos, — seus eguaes— , ^o marinheiros. 
Que levam os baixeis, da morte, aos portos I ! I 



q) Superstições da barba. A respeito da benção da bo/rk 
no sec. XI em Portugal, transcrevo estas linhas de uma carta 
de João Pedro Ribeiro ao arcebispo Cenáculo : cTalvez Y. Ex.' 
não tenha ainda encontrado a pratica em Portugal da Ben* 
ção da barba que traz o Pontifical. Achei-a em hum doca- 
mento de Pendorada que he a Doação feita na Er. 1037 por 
Bellita a seu sobrinho Velino, em que selè:=Do tíMipsa 
larea in die de sagratione ad confiimándum benedictione díf 
Pua barba. Em outra da mesma data feita ao mesmo por sua 
Thia Autilli se lê : = Do tibi ipsa lanea in benedictione de ítw 
barba in die de illa sagratione. (Apud Boletim de Biblwgr^ 
Port. dirigido pelo snr. A. Fernandes Thomaz, vol. i, pag. 
34). — ^A venerafão pela barba é antiga, e o penhor das bar- 
bas de D. João de Castro creio que se funda numa crença 
muito anterior. — Diz-se que a um homem que trabalha na 
meia não cresce a barba (Mondim da Btíra), Cf. estes ver- 
sos popul. de Arcozello de Gaya : 

Homem sem barba. 
Falha amulherada. 
Muita festa p'ra festa. 
Mais d'isso nada. 

— São também de Arcozello os seguintes : 

Home de barba ruiva 
Uma faz, oitra cuida. 




257 



Costuma-se dizer, apontando successivamente a barba, 
boca, etc. : 

Esta barba barbeirinha 
Esta boca comedeirinha 
Este nariz de eangifâo 
Esta testa de nabarro ^^ 
Este pello de cão. ^ 

(C»rr«aeâA d*AaeUiM.) 

Gf. este adagio (ap. Bloteau, Vocabulmio, v. barba): 

Mais vale migalha 
Que pello de barba. 

r) Gostuma-se dizer (B. Alta) : Tem uns olhos capazes 
! fazer secca/r uma figueira; tem ims olhos que fazem 
me debaixo d' agua ; tem hime no olho. 

t) Arroz (ou batatas) eom pão 
fi' eoffler de toleirão. 

(Maia, «to.) 

t\ As saudações que o povo usa geralmente são : Guwr- 
-o b&us ! lúuvado seja N. S. J. Christo ! Vd com Deus ! 
husíeic. u) Quando uma mulher se penteia, não deve 
atar o cabello fora, sem lhe cuspir e fazer três cruzes, — 
»r causa da feitiçeria (Arredores do Porto), v) «Quando 
parece uma malha branca na unha é signa! de presente 
oximo» (C. Pedroso, — VaHa^ n.® 224). — Também se diz 



558 í^abarro, augmentativo de nabo? Gf. velh-arr-ão a pag. 
S. F. Diez suppõe qqe no suffixo — arr ha um elemento ibérico 
ramm. des langues rom., — trad, fr. u, 340). 

559 pêllo por cabello. Em hispanhol^ como no dialecto miran- 
i, |)^^o. significa cabello, Gf. pellar, e estes versos (R. Marin^ Juan 

Pueblo, p. 22) : «. . .tener por cabecera^ las trencitasde txipelo». 

17 



é 



258 



(Beira-Âlta, Douro) que esta malha denota que a pessoa que 
a tem disse uma mentira. — «Quando apparece uma malha 
branca nas unhas da mão esquerda é signal de mentira ; se 
apparece nas da mão direita, é signal de presente» (G. Pe- 
droso, iò. 225). w) c Quando cae uma saia a uma mulher 
casada, é porque Jbe andam com o marido; se a mulberè 
solteira é porque lhe andam com o namorado» (id. ib. 236). 

x) «Quando uma pessoa vae para calçar um sapato e o en- 
contra de lado é signal de revez» (id. i6. 237). y) Quando, 
por engano, se veste um collete, casaco, etc., do avesso, é 
signal de presente (Beira-Alta). **** z) Vozes do povo: Quando 
se quer saber qualquer cousa, chega-se á janella, à hora 
das Trindades (outros dizem que a qualquer hora) e díz-se: 
= Meu S. ZachariaSy meu santo bemdito^ fostes cego^ sv/ráo 
e mudOj tivestes um filho e o nome lhe puzestes João : decla- 
rae-me nas vozes do povo se eu... (formula-se aqui o q® 
se deseja saber). — Em seguida correm-se as ruas, sem pa- 
rar, recolhendo os ditos que se ouvem, e applicando-os ao 
fim, no que elles tem de applicavel. — A fórmula diz-setres 
vezes, e a ceremonia dura três noutes seguidas (Minho). - 
No Porto, antes de se correrem as ruas, vae-se rezar à iS^ntoro 
das Verdades (ao pé da Sé), e, emquanto se anda pelas ruas, 
não se falia com ninguém. — A isto chamà-se ir (k^ 
zes. [O snr. Martins Sarmento, que me deu a informa^ 
do -Minho, accrescentou-me : «cf. voa? populi^ voxJkh]^ 

aa) Quando se tem a orelha esquerda quente, estão a Ss^ 
zer mal de nós, e por isso se faz o seguinte : dà-se um bA 
muito apertado no lenço de asoar, ou ... . [não pude sabK 
o resto] (Arredores do Porto; cf. este | em i). bb) QhÁ 
quer objecto que tenha de ser vendido não deve ser posto 
sobre a cama, — senão perde-se a venda (Arredores do 
Porto), cc) W bom duas pessoas terem o mesmo pensa- 
mento ao mesmo tempo (Villa Real), dd) «AqueUe por 



'^ O mesmo na Andaluzia : Guichot, ib., n."» 2o. 



259 



cima de quem se passa, fica enguiçado; para desmanchar 
o encanto [i. é, desenguicar] é necessário passar-lhe de 
novo por dma, mas em sentido contrario» (Brazii, — Alm. 
de Lembr. de 1860, pag. 181. Cf. § 335-p'). —Quando um 
rapaz passa sobre o outro, diz (Gondifellos) : 



Eu te enguiço 

Pda porta do carriço^ 

Que não cresças mais do que isso. 



ee) Quando alguém veste uma roupa nova, bate-se-lhe 
ao de leve, dizendo que é para assentar as costuras (passim). 



345. Ciomo appendice ao art. u d'este capitulo, julgo 
interessante mencionar alguns termos da linguagem infan- 
til portugueza. A origem da maior parte d'elles é fácil de 
conhecer; a) ou provém do lat., como bmn-bum (lat. frua, 
bu: et. Diez, Gr. i, 8) pdpa (ib.), maman (lat. mamma^ 
ib.}, etG. ; b) ou provém de reduplicaçao da syllaba tónica, 
ptoce^Bo familiar às linguas selvagens, e que mesmo em 
Isit. se encontra {cecidi. etc.), — como ti-H; c) ou provém 
àe onomatopeia, como tó-tó ; d) ou provém de imitação do 
facto, como fazer biquinha. — Eis os termos (Beira-Âlta) : 
hó-bó (avó), bum-bum (beber); chicha (carne); fazer cdca; 
fazer biqmnha (ourinar) ; mama/n (mãe) ; nârni (berço) ; na- 
nar (dormir); papá (pae); papa/r (comer); pi^i (piu); 
pu (crepitus ventris) ; ti-ti (tia) ; tó-tó (porco) ; um dóe (fe- 
rida) ; íci (abraço, — d'onde as rimas : xi do coração^ pipa 
ie vinho, caixa de pão) ; Beto (Alberto) ; Lé-Lé (Helena) • 
rj-Li (Luiz) ; Né (Manoel) ; etc. 



CAPITULO XI 



Seres sobrenatusaes 



MARAVILHOSO POPUUR 



346. I. LoBiSHdMKNS. *" »0s nomes populares da 
lobishomem são : Idbushóme^ lâbushómem (Beira-Alta), tótò- 
hõmem (ftfioiío, Algarve), labishome^ l/ubishémem^ IuÚMm 
^ssim). '^ O nosso povo dá ainda ás vezescomafiyEoaimos: 
Corredor (Minho, etc.) e Tardo (Papos de Ferreiía, eic.) Os 




ui o meu amigo Z. Gonsiglieri Pedroso escreveu aiBaeraâitl 
^nograpbia sobre os Lobis-homens {Trad. pop. pott. n.^ vn» ?M 
ÍBSi, 18 pag.)) onde compara a crença portuga còm Varias eren^ 
iextrangeiras. Nessa monograpbta diz o snr. Pedroso (|tie'liÍa'6a6M»' 
troa men^o de lobishomens nos sec. xvi e xm nem em naisie tN^ 
zentoà contos que tem recolhido. Veremos no presente eap. 4|Qe#lfK 
lúshomem era conhecido no sec. xvi (portanto no sec. xvii] 
em contos pop.^ postoqne nelles o mishomem désémi 
àiialogo ao do mkarapo noutros coiiítos. Veremos mais' 
;algalls fatstos do art. do snr. Pedroso que parecem oxtmtcdttiianM. 
-Gonyem pois sempre» oomo elle fez, apontar todo o qoe se 0Q?e. 

2^ Em fr. o lobishomend ehama-se Iqup-garou, em sneco w* 
utf, em aliemao» wahrwólf, em inglez were-wolf, etc., palavras ttw 
lia a ideia de homem e de lobo.— O port. lubishomem creio qoB as- 
senta sobre o lat. « lupus-homo (cf. lâbushcmíem). 



26t 



^mes dos lobishomem fêmeas são (alem de Lobisomem^ com 
. variantes), Pedra e Lobeira (Minho). 

347. A mais antiga notícia que conheço dos lobis*- 
>mens é a seguinte, do sec. xv ou xvi, do Cancioneiro de 
ircia de Resende, — ed. 1515 (Rifão, fl. 28): 

•Sois dàmnado lobishomem, 
Primo d'Isac nafu». 

D. Raphael Bluteau, no Vocabulário, ed. de 171&(v. 
òishomem)^ cita estes versos de F. de Sà de Miranda 

BC xvi) : 

«Bénto^ mãos lobos são hom^s 
E mais 08 d'essas montanhas^ 
Que ha cem mil lobiêhomens : 
Cuidava eu que erão patranhas!» 



estjouíros de um certo poeta; 



De noite^ qual lobishomem^ 
Correi o fadário embora : 
Ou anâae como Estatinga 
Que nessas pai?tes se encontra. 

). conhecimento dos lobishomens no sec. xvii falia F. A. 
lelho, in Rev.de Ethnologia^ pag. 179.— Do sec. xviii ha 
enpão oa Anacephaleosis medico tíieolôgioi^ etc. por Ber- 
lirá) Pereiyray etc. — No PorPugat JUecIicç de Bra? Lffíz de 
km {eâ. de ti%6).^ íivxo, que o iUiist)i;Q leat^ da Eschola 
)dica do Porto, o snr. dr. J. Garlosy Lc^es se dignou^ offerôr 
r-me para os meiís estudos de tradições pcpulares, felte-se 
n?l;)em d^ Lycqmthropía^ conj: «hum^ accãcí^d;ejpiravii,tfa dàa 
Quldades r^tjúcmi que repre^en^tão o hi^oim debaixo ila 
pecie de Lobo» (p. 588, n.® 38). 



262 



348. Em todo o paiz se falia de lobishomens; mas, 
como todas as versões são fragmentadas, acho que o me- 
lhor meio é apresentá-las assim mesmo, sem tentar dar-Ibes 
ordem, a) Quem tiver sete filhos a eito, rapazes ou rapa- 
rigas, não sendo uns padrinhos dos outros, um qualquer 
d'elles tem de ser Corredor^ i. é, tem de correr fado; ô 
vae empoleirar a roupa na arbre mais alta que houver, e 
espolinha-se em espolinheiro de bicho, e fica no alimal que 
se alli tiver espolinhado. Só se lhe quebra o fado, fazaido- 
lhe sangue no rabo (que é o dedo mendinho), *** ou quei- 
mando-lhe a roupa no forno, — vindo elle, neste ultimo caM, 
trupar [bater] á porta nessa occasiâo. *** Se se lhe nao 
quebrar o fado durante um certo tempo, o Corredor trans- 
forma-se em Lobishome^ e depois come tudo quanto encon- 
tra, cães, gatos, cadavles^ jimentos^ gente, etc.7 — emdle 
passando a LoÚshome^ dixe! [i. é, fica Lobishomem toda a 
vida]. *** O Lobishome só é Lobishome nas noutes de Quarta 
e Sexta-feira, mas à Quarta anda mais; na Quinta e Sabbada 
de manhã cedo lança pelo boca fora tudo quanto comeU; e 
fica gente como nós (versão da Maia). **• b) Quando o pa- 
drinho deixa de dizer certas palavras na occasiâo do ba- 
ptismo de uma creança, esta tem de correr fado; para isso, 
quando está já crescida, mas antes de chegar á edade da 
communhão, vae-se espolinhar no espolinhadoiro de uma 
encruzilhada, pendura a roupa na arvore mais alta que 



**8 Cf. C. Pedroso, O Lobishomem, pag. 13. 

2^ Segundo uma versão do snr. Pedroso (ob. cit., pg. 14)^ olo- 
bishomem tenta tirar o fato do fogo e às vezes morre : mas, se resiste, 
fica salvo, e mata a pessoa que lhe fez isto, se a pôde encontrar. 

*^ A forma pop. dixe ! (que existe em gallego e que neste caso 
significa em portuguez: acabou-seí) coivespouáe Sí disse, pelaimi- 
dimça dos ss em x, (ex. crassa <= graxa) e não immediatamente, coma 
alguém já disse, ao lat. dixit, cujo x=cs. 

^ A presente versão e a iseguinte estabelecem gráos de CorrS' 
dor (ou Tardo) para Lobishomem, O mesmo ouvi vagamente a gente de 
Paços de Ferreira. 



263 



honver, e fica nm animal ; cbama-se Tardo. Se durante sete 
annos lhe não quebrarem o fado^ Cazendo-lhe sangue, passa 
a ser Lobishomem, e então come gente. Tanto o Tardo 
como o Lobishomem, andão de dia em forma de homem, e de 
noDte em forma de animal. Não descobrem nunca a sua sorte. 
Ckmhecem-se por uma grande magreza, (pois que nonca en- 
gordam) e amarellidão na cara' (Vallongo). c) Em Guima- 
rães disse-me uma velha que o Ic^ishomem passa ás Terfas 
e Sôxtaa-feiras, fazendo tanto barulho como um camboio. O 
fiido do lobislumiem chama-se fado corredor, c) Um indivi- 
duo que practíca qualquer acção má [segundo uns ; segundo 
outros, pôde ter deixado de a praticar] corre fado. Altas horas 
da noute transforma-se em animal, quasi sempre em burro, e 
corre desalinhadamente grande extensão de terreno. O faJAo 
dura sete annos, e só pôde ser quebrado por meio de um 
ferimento no lobisbomem. dj Os Lábushómes são filhos de 
compadres e comadres (Sandim na Beira), e) A mãe que 
tem seis filhas successivas deve pôr á sétima o nome de 
Eva por causa do fado (Penafiel, — onde ainda ha poucos 
annos se deu o caso da imposição d'esse nome), f) Uma 
mulher tinha um marido que sabia todas as noutes e vol- 
tava sempre muito frio e a lançar pela boca fora bicharia, 
como cães, gatos, etc. Uma vez a mulher foi a cima de um 
pinheiro muito alto buscar a roupa d'elle e metteu-a no 
forno a arder: assim lhe quebrou o fado (Cabeceiras de 
Basto), g) Uma pessoa de Guimarães fez-me a seguinte 
dislincção: os Ijobishomens comem gente; os Corredores 
andam a correr fado em forma de animaes. h) Quando o 
Lobishomem sae à noute (meia-noute) enterra a roupa que 
despe, deita-lhe pedras por cima e diz : 

Quanto mais te carregar. 
Mais hei-de andar. 

Qud)ra-se-lhe o fado, picando-o. O Lobishomem anda 
em forma de cavallo, à Sexta-feira; por isso é mau andar- 



264 



mos de noate então, O Lobishomem provém do coito de mni 
mulher com um compadre (Villa-Qor, — informação do mea 
condiscípulo Guilhermino Augusto de Moraes), i) Os lobis^ 
homens vão espojar-se nas encruzilhadas, transformando^ 
depois em cavallos, — ás Sextas-feiras. — Quem casar oobe 
comadre ou cunhada tem os filhos lobishomens ; para qoa 
isto não aconteça, deve ser queimada a primeira camisa 
que os filhos vestirem (Villa-Real, — -inform. do meu ex-eon- 
discípulo A. Apparício Ferreira), j) Os lobishomens correm 
sete freguezias cada noute. Podem ser apanhados, atiraur 
do-se-lhes á sombra (Villa-Real). k) O lobishomem p8^ 
de o fadário quando se lhe vira o fato dentro de um mA- 
nho. Deve-se-lhes virar muito depressa, para que elte não 
apparepa no local onde se faz a operação (Bxtremadim). 

l) aA pessoa que tiver sete filhos deve ver lobishomoD 
um d'elles. Deus é quem, nos altos mysterios da sua sabe^ 
dona, ordena isto. Esse filho, no tempo que lhe está deter^ 
minado, despe- se e vae coUocar a roupa no cime de qhi 
pinheiro, aonde mais ninguém possa chegar; depois descs 
nu para baixo, e espoja-se no chão, metamorphoseand(Hie 
acto continuo çm o animal «que no mesmo sitio se havia ul- 
timamente espojado. Começa em seguida a correr fad(y: 
tem para isso certas e determinadas noutes. Acabado o 
tempo, vae buscar a roupa ao pinheiro, e, apenas pega 
neJla, volta ao estado humano. Se porem alguém lhe fim 
sangue durante o tempo do fado, quebra-se este. O lobislto* 
mem corre como o vento. E' indicio da aproximação de «d 
lobishomem o latido desconfiado dos cães (ViilarCova^de-Gar'* 
ros, — vid. o meu Presbitério de Ville^Cova^ ir, Lobishomens)^ 

m) Conto : — Era uma vez uns casados que. tinham três fr 
lhos. Numa occasião de inverno, tinham fome e não tinham que 
lhe dar. Foram levá-los a um bosque e deixaram-nos lá ficar. 
Era quasi noute, e as creanças, quando se viram sós, cami- 
nharam por um caminho pelo bosque adeante ; viram ao longe 
uma luz, dirigiram-se a ella. Era uma casimha habitada por 
um Lobis-homem e mulher. O Lobis-homem tinha sabido, a 



26S 



^ mulher deu de cear às creanças e deiloa-as num carA) 
ad(mde eUa tinha também três filhas, as quaes dormiam 
«empre cada uma com sua carapuça na cabeça, que era o 
motivo, de ^e differençarem das outras creanças que alli iam 
ter, para o Lobis-homem, quando viesse, não comer as que 
^iham a carapuça, que erão as filhas. O Lobis-homem> 
quando diegou, tjnha^he a mulher uma boa ceia preparada 
para elle se encher e não faier mal ás creanças ; elle prin- 
cipiou a dizer que lhe cheirava alli a carne humana, e a 
mulher dizia-lhe: — «Come, come, que não é ninguém, e 
vae-ie deitar que estás enfadado». Elle assim fez, foi-se dei- 
tar. Já tarde, de noute, levantou-se, foi ao quarto e procu- 
rou as ereanças, matando e comendo aquellas que não ti- 
ngiam carapuça. Os pequenos, que tinham tirado as carapuças 
das filhas do Lobishomem, assim escaparam ã morte; em- 
quanto o Lobis-homem comia as filhas, por engano, — fugiram 
eltes. Pela manhã, foi o Lobis-homem e a mulher procurar as 
filhas e não as encontraram ; lembraram-se então do que os. 
rapazes teriam feito^ e, para se vingar, o Lobis-homem cal- 
çou umas botas de sete legoas **^ para os apanhar mais de 
ptiessa; de uma passada que deu, passou mais adeante e 
deiJioa-o9 ficar atrás, e como estava enfadado deitou-se a 
diormir; em quanto elle dormia, chegaram os pequenos e 
conheeeram-no ; um d'elles tirou-lhe as botas, calçou-as, 
pegou nos irmãos ás costas, e fugiu; só de uma passada 
estava na casa d'elle. Os pães, quando os viram, ficaram 
muít;o contentes. Botaram isto ás folhas. O rei chamou estes 
pequenos á presença d*elle e pela esperteza d'elles deu-lhe 
um prémio para viverem felizes. O Lobis-homem foi para 
casa e bateu muito na mulher, por ella ser a causa de 
elle flcar sem as filhas e sem as botas. — Vicioria, Vi- 
ctoria^ — Acabím-se a Awííom.= (Cumieira c. de V. Real), 
n) Os lobishomens devoravão gente, mas só rapazes de 



«*7 Cf. C. Pedroso, op. «ti. pag. 12. 



266 



1 a 14 ãDDos. Era uma vez um carvoeiro, tinha sete fi- 
Itaos, e, como não tinha dinheiro para os sustentar, queria-o» 
impor fosse como fosse ; e o mais pequeno de todos, ctia- 
mava-se o dedo pollegar ^^ ou simplesmente o dedo; tíie 
desconfiava que se querião desfazer d^elles e metteu-se uma 
noite debaixo da mesa para ouvir o que os pães dizião. Os 
pães disseram que quando fossem uma vez ao monte os 
iiavião de lá deixar ficar todos. O dedo sabiu pela porta 
fora, foi ao ribeiro e trouxe muitos seixos e metteu-os m 
bolso e foi-se deitar na cama. Depois sahiram pela manhã 
muito cedo e o dedo foi deixando cahir os seixos um a um 
para marcar o caminho ; no fim, quando tinha jà quasi todo 
acabado, parou o pae a cortar lenha, e disse-lhes que ficas- 
sem alli todos, que vinha já. Foi, mas não voltou, e os 
pequenos já estavam desesperados, fira já tardito, e co- 
meçou o pollegar *** a dizer muito afoutamente. c Vinde co- 
migo», fi forão indo pela estradmha dos seixos até casa. 
Assim que chegaram a casa, ficaram todos à porta e um 
vismho que devia dinheiro á mãe, deu-o ao pae e mãe. A 
mãe foi ao apougue e trouxe carne, etc. A mãe estava á 
mesa a comer e diz para o homem: «Ai Manuel, quem dm 
aqui os nossos filhos! Onde estarão elles!» Responde o p^ 
qiíeno pollegar: cAqui minha mãel» E repetiram todos: 
«Aqui mmha mãe ! » fintraram e ceiaram. Emquanto o di- 
nheiro durou, os pequenos estiveram em casa sem ir ao 
matto; mas acabada a semana, emquanto o pae eamãe 
estavam a ceiar, o pollegar metteu-se outra vez debaixo da 
mesa a ouvir, e ouviu que era preciso outra vez impô-lM. 
O pequeno metteu-se outra vez na cama por amor de mo 
desconfiarem. Emquanto estavam todos a dormir, o pollegar 
sahiu de vagarinho para procurar a chave da porta para ir 
buscar seixos ao ribeiro ; a porta não tmha chave ; & tor- 



2tô «Era muito baixinho^ era um anaio» (exacto). Cf. not. 25. 
**» Também o pequeno pollegar. 



267 



nou-se a deitar muito aíSicto, sem dizer nada aos irmãos. 
Pela manhã muito cedo os pães deram um pedaço de pão 
a cada um : todos os irmãos comeram o pão, menos o dedo 
que o guardou. Quando sahiram para o matto, o dedo foi 
botando as migalhas de pão pelo caminho; acabou-se-lhe o 
pãO) e os pães num certo sitio pararam e disseram : <Es- 
perae aqui, que nós já vimos». E foram-se desviando; os 
pequenos estavam entretidos a jogar, só o dedo vigiava 
sempre. D'ahi a pouco os pães desappareceram. Â' tarde 
começaram os outros pequenos a chamar muito pelos pães, 
mas, nada! Mas o dedo àisse^ Stdnde calados! e vinde; 
mas os pássaros tinham comido as migalhas e ficou também 
a chorar. Era quasi noute e elles sem comer, e começava 
a ouvir-se os lobos a berrar, e depois o dedo assubiu para 
uma arvore a ver se veria uma luz a distancia, mas só via 
uma muito pequenita lá ao longe. Lá foram todos para ella; e 
chegaram a uma casinha muito pobre; bateram á porta e 
veio uma mulher e abriu, e elles pediram-lhe agasalho para 
a noute. Ella disse assim : <eu de comer dou» e fez-lhe uma 
fogueira muito grande e todos se puzeram a aquecer; mas 
disse-lhe: <eu aqui não vos posso dar agasalho porque o 
meu home é lobishome e come os meninos». Nisto bateram 
á porta e elles todos atarantados metteram-se debaixo da 
cama. O lobishomem entrou e perguntou pela ceia, a mulher 
disse-lhe que já estava prompta e pôz-ra mesa, e começa- 
ram a comer. Diz elle: «hoje é o dia dos meus annos, va- 
mos a beber mais uma pinga»; foi buscar o barril e bebeu, 
já estava assim meio tonto e começou a arreganhar o nariz 
e a dizer: «aqui cheira-me a folgo-vivo» ; diz a mulher; «tu 
stás tolo» ! Diz elle: ^dgora *^ stoui^; e começou a procurar 
todas as partes e foi dar co'os pequenos debaixo da cama 
e diz : «bôa caça!»; e começou a tirá-los todos um por um, e 
disse à mulher: <dá-le bem de comer para que stejam bem 



«w A'gora significa não. 



368 



gordinhos para amanhã comer e mais os outros lobishomeg 
môus amigos»; e mandou à mulher armar uma cama para 
os amigos dormirem^ «mas entretanto podes lá deitar os pe- 
quenos», e começou a amolar a faca. Os peqaenos deito- 
ram-se, e o dedo ficou toda a noute acordado ; as pequer 
nas (filhas do lobínho) tinham todas na cabeça uma coroa de 
metal e o dedo tirou-lh'as e pô-las na cabeça dos irmãos e 
d'elle. O lobishomem depois veiu com uma faca e procuron 
os pequenos, mas como lhes sentiu a coroa, cuidou que erio 
ãâ filhas, e foi â cama d'ellas, e como lhes não sentiu acd- 
roa, cortou-lhes a cabeça ô foi dormir mais. O dedo assim 
que o sentiu a resonar fugiu com os irmãos. Ao outro dia 
a mulher poz-se a pé, e como visse as pequenas num lagar 
de sangue, chamou o íobinho ; este calçou as botas^ de sete 
legoas com as quaes, a cada passada, andava sete lagoas 
(os lobishomens usavam essas botas). O dedo viu-o e escoai- 
deram-se todos no vão de um penedo; o lobishomem dá- 
tou-se a dormir, e o dedo tirou-lhe as botas, e como ellas 
serviam a todos os pés, vestiu-as, pegou nos irmãos 2M) 
coUo-, e fugiu ; chegou a casa, largou os pequenos, foi ao râ, 
e, como elle andava em guerra, disse-lhe que se promptifr 
cava a dar-lhe noticia do exercito, ouja noticia ha muílo não 
sabia. O rei pagou-lhe o preço justo, e o dedo partiu ; U-ouxe 
a notícia e o rei ainda lhe pagou mais. O dedo fcS levar o 
dinhtíro aos pães, e em pouco tempo ficou rico, com a io^ 
nada. — Victoria^ Vietoria^ — Acabou-^e a /wsíoría,a=a= (Guima- 
rães.) oj Os lobishomens são provenientes do illicito coito 
carnal do padrinho com a afilhada ou da madrinha com o 
afilhado (Bragança, — apud Ccmsiglieri Pedroso, O lobisho- 
mem^ pag. 7). p) Uma Bruxa, pronunciando certas pafer 
vras, pôde fazer gerar espontaneamente um lobishomem 
(Lamego, — apud o mesmo id. ib.) q) Pondo-se ao recém- 
nascido, no caso de haver sete filhos a fio, o jíiome de Jero- 
nyma ou Bento, conforme o sexo, evita-se que elle tenha de 
correr fado (id. ib. pg. 8). rj «Quando uma mulher der i 
luz successivamente sete filhos varões, deve o mais velho 



269 



sangrar o dedo minimo [cf. este § em a] ao jiiais íqoviq 
para evitar que o ukiino ^ja lobisbomem ; e o mesmo deve 
foaer-se quando forem sete fêmeas :para que «a ultima não 
seja hirã (vid. adeante] (Gabo-Verde^ — id. ib. ib.). s) Qu$U- 
qaer pessoa que morre de Bruxaria transformarse em lobis- 
omem fLamego, — id. ib. ib.) t). Os lobisbomens, mesmo 
no estado natural, são magros, de côr amarella car^cteris- 
tlica, tris4es (G. Pedroso, ibi pg. 9). A gente de Vianna ouvi 
que os lobisbomens são muito altos. Aiz o snr. F. A. (loe- 
^: cE' a côr extremamente pallida, sem doença appa- 
tente que revela o lobisbomem na sua íòxim. humana» 
(Kev. de Etímolog,^ pg. l&Q, § 259). Os lobisbomens, no es- 
tado natural, dístinguem^se pelas orelhas compridas, ventas 
arrebitadas e os cabellos da cova do ladrão de uma côf 
parda com laivos escuros (C. Pedroso, op. cit., pg. 80. 
u) Os lobisbomens correm sete adros (Oliveira do Hospi- 
tal), — sete freguezias matrizes numa hora, em fórm^i de 
eão, gato ou gallinha (Caldas), passa sete pontes e sete rios, 
entre as cmae e a meia-noute (Mafamude), — corre s^ete la- 
goas, sete «ncruzilbadas, sete ribeiros, e a pessoa que Ibe 
^iaer quebrar o fadário tem de o acompanhar a casa, se- 
&ão elle volta outra vez a cumprir o seu destino (Regoa)^ 
—correm as sete partilhas do mundo *" (Oliv. de Azeméis)., 
-^ sete villas acastelladas, *^* sete vaes, ^ sete outeiros e 
-sete encruzilhadas de estrada, mas só andam ás terças e 
sextaè-feiras da meia-noute para as duas horas, ficando tão 



^1 O snr. Pedroso escreve «sete partilhas (sic) do munâo». 
Deve entender-se sete partidas. Cf. o livro da litteratura de cordel, 
As sete partidas do rei D, Pedro, e o dictado usual a propósito de 
alguém que anda muito: correu as sete partidas do mundo. 

^2 O snr. Pedroso escreve «sette villas acastelladas (sie)». 
Mo sei qne duvida haja aqui para pôr o sic, porque villas acastella- 
das são villas fortificadas. 

2*3 o snr. Pedroso escreve com razão «sete vaes (sic)»>. A pala- 
vra vaes pôde ser (por valles) o plural de valle, cuia pronuncia usual 
é vai; cf. bordaes, (por bordallos de bordallo, bordai). 



«70 



moidos que no dia seguinte não podem levantar-se, e p^ 
dendo a côr (Lisboa, — superst. citadas por C. Pedroso, ib., 
pg. 10). vj Os lobishomens apparecem á tiora do crepus: 
culo nos legares sombrios, fazendo muito barulho, que é 
ouvido pelas pessoas a quem querem iníluir (Alm. de Lmbr. 
cit. por Pedroso, ib. pg. 10). wj Os lobishomens, quando 
vão na carreira, apagam ás luzes (Pedroso, ib. pg. 11). 

x) «Uma vez estava uma mulher á janella e viu passar uie 
lobishomem. Este, mal a viu, investiu com ella, mas apenas 
lhe roçou pelo fato sem lhe fazer mal. No outro dia, a mu- 
Iher foi a olhar para o marido e viu-lhe atravessados nos 
dentes uns fios de baeta encarnada das roupinhas que ella 
tinha vestida» (Coimbra, id. ib. p. 12). y) Quando se fere 
um lobishomem, é preciso que o sangue não salpique á 
pessoa que o fere para esta não ficar com o fadário. Por 
isso, em vez de fouce que tem o cabo curto, tornasse pre- 
ferível uma vara comprida com um bico na ponta, e ainda 
assim deve largar-se logo a fugir para longe (Lavadores, 
— apud Pedroso, ib. p. 13). Só a mulher do lobishomem é 
que o pôde picar com um alfinete, sem o sangue lhe fazer 
mal a ella, ainda que.se salpique (Caldas, id. ib, ib.). Tam- 
bém a baba do lobishomem, cahindo numa pessoa, faz passar 
o fadário para esta (Lisboa, id. ib. ib.). z) «Quando o lobis- 
homem não é bem picado, em vez de se desencantar, dobra- 
se-lhe o fado (Caldas, id. ib. ib.). aa) Uma vez uma mu- 
lher, cujo marido era lobishomem, virou-lhe o fato que elle 
deixou em casa ; immediatamente o lobishomem voltou aos 
pinotes, já no estado natural, mas nu (Bucellas, id. ib. pg. 
14). bb) A edade em que o lobishomem começa a correr 
o fadário é, segundo certa versão, aos treze annos (Ad. 
Coelho, Rev. de Ethn. e de Glott. pg. 180, § 258). cc) Em 
Coimbra havia na couraça de Lisboa, na muralha acima da 
Alegria, uma pilastra ou ameia que, era fé no sitio, fora 
derribada por um lobishomem (Ad. Coelho, ib. pg. 18U. 

ddj Sobre o lobishomem em forma de pato, vid. § 302. 

eej Os lobishomens correm o seu fado em virtude de feití- 




271 



ços ou de promessa não cumpridas (Minho, — Almanachde 
Lembranças^ citado por F. Adolphe Coelho, in Revista de 
MthnolQgía e de Glottobgia, pag. 183, § 267. 

ff) Â superstição dos lobishomens é commum aos Apores 
^ â Galliza. gg) Conto popular: Era de uma vez uns meni- 
nos, e depois foram pVa o monte guardar o gado, e depois 
encontraram uma velhinha a fiar na roca, e a velhinha dis- 
se-lhes assim : 

— Ondes ides, meus meninos? 

—Nós andamos aqui a guardar o gado. 

— Vossês não tendes fome? 

— Nós ind'âgora.adormecemos, mas já temos. 

— Antão eu dou-vos um bocadinho de pão. 

— Pois sim, senhora. 

EUa deu-lhes o pão, e elies começaram a comer. E as- 
sim que comeram forão indo com as -varas na mão. E de- 
pois tornou-os a chamar e disse-lhes : 

— Aquelle boi (ia um boi a correr muito) vae a cor- 
rer, e aonde elle for parar está lá uma casa, e nessa casa 
moram dum Lobishomens (sic), mas acautelae-vos que ellas 
talvez vos queirão comer. 

— Pois sim, senhora, muito obrigada. *^* 

E depois foram indo p'ra deante e viram uma mulher 
á porta da tal casa, e ella disse-lhes assim : 

— Quereis bolo quente? 

— Queremos, shn senhora. 

— Antão, vinde cá dentro. 

Depois entraram, e ella disse-lhe assim : 
— Antão esperae ahi que eu vou-o fazer. 
Elies esperaram, e ella disse-lhe assim: 

— Sabeis dançar? 



3^ Quando qualquer pessoa do povo tem de agradecer, diz 
obrigada, se a pessoa a quem se dirige é do sexo feminino ; e obri- 
gado, se esta é do sexo masculino. 



232 



B ell68 disseram : 

— Sabinos, sim senhora. 

— E sois capaz de dançar em cima d -esta pà, si^ 
fiahir fora? 

— Não sentiora. 

E ella disse: 

— Mas eu sou. 

B elles disseram : 

— Então dance lá : 

BUa poz-se em cima da pã, e elles agarraram e atira- 
ram com ella ao forno, fecharam a porta, sahiram cá para 
fora e esconderam-se para o lado da casa. 

Depois veiu a mãe da que estava no forno (^a velha) 
e não viu a (ilha e começou a dizer: 

-r-r-Âh! bom, ella não está cá, é porque foi ver se en- 
contraria alguma caça . . . 

B como visse carne no forno diase muito contente: 

— Ah I que temos caça ! 

E começou a comer. 

Depois os meninos foram-se desviando para o pé da 
porta e começaram a gritar: 

RíRia^ minha velha^ rilha> 
Os OS908 da tua filhai 

Ella não deu fé, e contiuou a comer. *** 

Victoria, Victoria, 
Acabou a historia. 

(Guimarães, cont. por Leocadia de Fafe; não sabia ler). 



253 Ha ainda outros eontos em Portugal nos quaes se mendona 
um facto semelhante a este. — Cf. a lenda de Thyestes^ ete. 



^n 



349. a) Na casa em que havia sete filhas a seguir, 
uma d'ellas tinha de ir para Lobeira, mas este mal podia-se 
evitar se a mais velha fosse madrinha dá mais nova. A Lo- 
bevra ia governar nos lobos; todos os lobos andavam ao 
mando d'ella, que estava mettida numa cova, porém em 
forma de rapariga. — Se em vez de haver sete filhas, hou- 
vesse sete filhos, um d 'estes ia para Corredor ou Lobisho- 
mem (Cabeceiras de Basto), bj O meu amigo o snr. dr. 
Martins Sarmento fez o favor de me recolher a seguinte 
versão : — Lobishomem fêmea: A sétima irmã é fadada para 
Peeira dos lobos. Vae viver sete annos com os lobos; 
dorme na cova d'elles; os lobos alimentam-na, e, se ella 
falta, ficam furiosos. Se se pergunta ao povo o que significa 
Peeira^ elle responde : «a que vive ao pé dos lobo&ií ; mas 
a palavra só é conhecida com a applicação supra (Ancora, 
— onde ainda ha alguém que conhece uma Peeira dos lo- 
bos, ou pelo menos ha alguém, parente da pessoa que a 
conheceu). **® 

350. II. Olharapos. ^^ a) Além do nome Olhara- 



25« Nas Mythological Notes, xn, de W. Stokes, lê-se «The story 
told by Giraldns Cambrensis, Top. Bih. Dist. 2, c. 19, of themanand 
woman transformed rato wolves every seven years is too well known 
to be cited here. The irish name for a female werw^olf is conoeL Co- 
noel, i. ben tet a conrecht (a woman that goes loto wolfshape), H. 
2. 16. Ck)l. 98. In H. 3. 18, p. 634, col. 3, there is a similar gloss: 
Conel t. hen téit % cúánricht (a woman that goes into the form of a 
little hound)». In Rev, Celti(fae, t. n, p. 202-203. 

^7 A primeira noticia que dei dos Olharapos foi nos meus 
Costumes pop, do Minho (in Penafidelense de 12 Junho 1881). O 
sor. F. A. Coelho fallou depois também d*elles na Rev. de Ethnolog. 
p. 161 ; e o sor. C. Pedroso traz no Arckivioper letrad.pop., p. 270-1, 
um conto pertencente ao cyclo dos olharapos, — chamado Alicornio, 
denominação popular imprópria, por confusão entre um só olho e um 
só corno. Alicornio, por Unicórnio, é vulgar, e já acho essa forma 
condemnada como popular por D. N. de Leão — Orth. dalÀng. Port., 
ed. 1576. 

18 



27i 



po e Olhara/pa^ ó também popular o de Olhapim (em 
Tras-os-Hontes). b) Os olharapos são homens differentes 
de nós, anthropophagos, com um só olho no meio da testa, e 
que vivem num paiz distante (fieíra-Alta, etc«}. c) Segando 
uma versão de Gab. de Basto, os olharapos tem três olhos, 
dous na frente e um no cachaço, razão pelo qual tanto 
vêem para trás como para deante. d) Em Guimarães tam- 
bém ouvi dizer que tanto vêem para trás como para deaoie. 
e) Gente de Arouca fallou-me de gigantes com um só cibo 
no meio da testa, fj Segundo outra versão do Minho, o 
olharapo é anthropophago e tem quatro olhos : dois adeaóte 
e dois no cachaço, g) Os olharapos são povos ainda exis- 
tentes. Uma vez um homem do Souto (ao pé de Britdros, no 
Minho), que os antepassados de quem contou isto conhece- 
ram, estava na terra d'elles passando grandes perigos. En- 
trou certo dia na casa onde uma creança se occupava em 
fazer vários preparativos de caçarolas, parece. Depois de 
algumas perguntas o homem soube do pequeno que o$ 
pães andavam por fora, e não tardarião a entrar, e que o 
comeriam. O homem allegou que tinha necessidade de sahír, 
6, assim que se apanhou fora, subiu para cima de um pi- 
nheiro. Em seguida viu o olharapo e a olharapa entrarem 
em casa e sahirera pouco depois com chumieiras ^*® na mão 
a procurá-lo por todo o pinhal sem o descobrirem. (Apudo8 
meus Cost. pop. do Minho^ i^)- ^) Em creança ouvi um 
conto semelhante ao n.** xxviii [Os meninos perdidos) da 
collecção do snr. Ad. Coelho, no qual figurava uma mulher 
chamada Dona Loba^ que tinha só um olho no meio da 
testa, i) Conto popt^iar:= Era uma vez um homem e tinha 
tantos filhos que já não sabia a quem chamar para padri- 
nho. Appareceu-1^ Santo António, e disse : 
— O' hominho, tu que tens ? 



^^ Lumieiras de palha. 



£76 



— Tenho tantos filhos. Agora nasceram dois juntos, nãa 
tenho a quem chamar para padrinho. 

— Diz, arranja madrinha, que padrinho vou eu ser. 

O homem arraigou madrinha e foiS. António ser padrinho. 

Depois d'isso, disse S. António: 

— Toma conta doestes meninos e, assim que elles tive- 
rem três annos, leva-m'os para á serra de tal banda e dei- 
xa-os lá ficar. 

O homiobo, assim que elles chegaram a essa edade, 
assim fez, e deu-le pão e cebola e disse-le : 

— Ficae meus meninos aqui, e esperae que eu venha 
por vós. 

Os meninos assim fizeram. 

A' noite, disse o menino para a menina: 

— O' Maria, nós como havemos de ir, ao correr da agoa 
ou ao luzir do lume? 

Diz a menina : 

— Ao luzir do lume. 

A menina tinha botado os casquinhos da cebola pelo 
caminho e por elles foram ter a casa de seu pae. 
O pae disse-le assim : 

— O' meus meninos, quem vos ensinou o caminho 
para casa? 

— Diz a menina: Fui eu que tinha deitado os casqui- 
nhos da cebola e vim por elles. 

O Santo António chegou nessa occasião e disse : 
— O' compadre, tu levaste-me lá bem os afilhados 1 
Diz o pae : 

— Eu levei-os, mas elles tornaram a vir para casa. 
-^Pois amanhã leva-m'os lá e não le dês nada. 

O homem assim fez. Não le deu nada e disse-le que 
ficassem lá. 

Os meninos ficaram muito tristes. Chegou à noute e 
fizeram a mesma pergunta um ao outro. A menina deu a 
mesma reposta. Depois foram pelo monte a baixo, e encon- 
traram uma olhardpa. A olharápa le disse : 



276 



— O' meus meninos, quereis vós vir para minha casai í 
Dizem elles assim : 

— Queremos, sim, senhora. 

A olharàpa Ievou*os para casa, metteu-os numa caixa 
de castanhas sêccas. Os meninos agarraram um 4*ato e tira- 
ram-le o rabo. De cada vez que a olharàpa dizia : <rO' meus 
meninos, botae cá o vosso dedinho fora», os meninos bota- 
vam o rabo do rato. Depois perderam o rabo do rato, e 
botaram-le o dedinho. 

— Ai, meus meninos, já estaes gordinhos, sahide para 
fora. O' meus meninos, agora haveis de ir por um braçadi- 
nho de lenha cada um. *^® 

Elles foram. Nisto apparece S. António, e disse assim: 

— Olhae, meus meninos, ella mandou-vos á lenha mas 
é para vos queimar, mas quando vós virdes o lume acceso 
ide ver á maceira se lá está pão ; e se não virdes lá o pão, 
ella despois que o lume estiver acceso, diz-vos assim : 

— Espoleiae-vos aqui, meus meninos. 
Dizei-le vós assim: 

« — Espoleie-se Vm.®^ primeiro, para nós aprendermos.» 
Quando ella vos for a dizer como é, dizei vós assim: 

«Ajudae-me aqui, S. Pedro, 
A enforoar este bezerro.» 

Depois metteide-a dentro do forno; cando vós abrir- 
des a porta ao forno, cada um dos olhos d'ella hão-de ter 
seu cachorrinho: um ha-de ser Ares outro Vento: depois 
servirão para tu ires á capa. 

Os meninos assim fizeram. Apenas a velha le disse, 
apenas elles a metteram dentro. Depois pegaram nos dous 
cachorrinhos, e o menino ia com elles á caça. Aonde con- 
stou que havia uma bioha de sete cabeças que comia uma 



259 Ir por, — significa : ir buscar. 




277 



pessoa por dia, aonde já não havia nessa terra senão a 
filha de um rei para comer. O rei tinha promettido áquelle 
que le salvasse a sua filba de casar com ella. O rapaz, 
«ando lhe consta aquillo, começa a ouvir a bicha ; elle apro- 
ximou-se a ella. Aonde a filha do rei le disse : 

— Fuja, fuja, senão é comido também. 

Elle disse : 

— Embora eu seja comido, a bicha hade morrer. 

E accrescentou : «Ares e Vento, vinde cá!» 

Apenas elles chegaram ao pé d'ella, mataram-na logo. 
Ficou a filha do rei salva. O rapaz chegou ao pé d'eUã, 
cortou as lingoas à bicha e embrulhou-as no vestido; le- 
vou-as para casa. Depois disto foi a filha do rei para casa 
e o pae ficou todo alegre por a não ver comida por aquella 
infernal bicha. E disse assim : 

— Minha filha, quem matou a bicha? 

— Foi um menino pobre que lá chegou com dois cachorri- 
nhos, e apenas chamou por elles, elles degoUaram-na logo. 

— Mmha filha, manda-o chamar. 

— Meu pae, elle.é muito envergonhado e não vem. 
Vae um curioso, pega nas sete cabeças da bicha e le- 

va-as ao rei. O rei disse: 

— O' minha filha, aqui tens o teu marido. 
Diz ella: 

— Meu pae, não é esse. O meu marido não traz as ca- 
beças, traz as lingoas embrulhadas no meu vestido. Vae a 
menina á janella e vê-o passar. E disse : 

— Meu pae, alli vae o meu marido. 
— Chama-p para cima. 

O rapaz mostra o bocado do vestido com as sete lín- 
guas. Logo que elle chegou, o rei le fallou casamento para 
a filha. O rapaz casou, e á irmã metteram-na num conven- 
to. O rapaz ficou rei alli, e a irmã do convento arraiyaram- 
le casamento noutro reinado e foi ser rainha. Aqui está o 
milagre do S. António. (Contado por Margarida Rosa, dè 
Cabeceiras de Basto, em Janeiro de 1 880). j) . As olharapas^ 



r 



278 



segundo se diz ao pé da Regoa, tèm^um só olho. k) Se- 
gando outra versão de Guimarães, os olharapos chamam- 
se também olhapins e tem quatro olhos, dois para diâf^ 
e dois para trás; mas, por uma contradição, vulgar na 
trad. pop., são muito baixinhos, são uns anaios. ^ 

351. m. ÂLMAZONAS. a) As il/ma^Tona^, também cha- 
madas Almajonas^ mulheres muito grandes e gordas, dei- 
tam os seios para trás das costas e assim alimentam os 
filhos às costas (Haia, Minho, Beira-Alta). ^^ Até na Maia se 
diz de uma mulher nutrida: Âquillo é uma almazona. 
b) Havia um reino (das Almazonas) onde as mulheres se 
governavam umas às outras, e os homens, que erão escra- 
vos, faziam o serviço próprio d'ellas. Mas porem forão orna 
vez vencidas na guerra, a rainha posta fora e os homens 
tomaram a occupar o seu logar (Cabeceiras de Basto). 



^^ A crença portugaeza olharaúos ou olhapins prende-se vero- 
similmente com a dos cyâopes^ que ao mesmo modo erão gigantes^ 
anthropophagos e com am só olho no meio da testa. Nos HigMands 
as tradições faliam dos Famhairans, gigantes d'um só olho.— A pro- 
pósito do Tártaro nos Bascos^ lê-se em Webster: «Who, or wfaatis 
the Tártaro» ? — «Oh f you mean the man with one eye in the middle 
of his forehead», — is the prompt and universal answer. The Tártaro 
is the Cyciops^ the sua's round eye. (Basque Legends, Londres i877, 
pag. i).— A lenda dos Cyclopes não parece peculiar dos gregos^ roma- 
nos e mais povos da Europa, porque, M. d'Abhaâie (apud Webster^ op. 
c.^ p. 3) ouvin na Africa Oriental um conto doestes a um homem 
que nunca tinha sabido do paiz.—- Na palavra Olharapo ha eviden- 
temente o radical olho ou omar.-^ No folheto que o snr. dr. Stanis- 
lao Prato se dignou oflerecer-me, — Qtia/ro novelline pop. roman., 
1880, vem a pag. T, um conto Lòcchiaro análogo ao citado do sr.G. 
Pedroso. A i^lavra òcchiaro parece corresponder a olhtírapo.^QL 
mais Archivio per le trad. pop,, p. 160-2. 

^1 A palavra Almazona, ou^ pela mudança de z em j (cl. 
Isabel- Jabel^ etc.)^ Almajona, é evidentemente o mesmo que Ama- 
zona. Já D. Nunes de Leão^ in Orthogr. da Ling. Port., ed. 1576> 
dá almazona como a fórma popular de amazona. O l proviria acaso 
da analogia com alma. 



279 



c) A lenda das Amazonas soffre uma variante notável em 
Gondifellos (c. de Famalicão). Là faz-se distincpão entre 
Almajonas (mulheres grandes) e Allamâas, As AUamôas ■•' 
erâo mulheres do reino da Allamcmha *^, que traziam os 
filhos às costas mettidos num taleigo, e nunca deixavam 
andar os homens com ellas. Os homens ião lá só uma vez 
cada anno; ao flm de certo tempo ellas botavão-nos fora. 
Quando nascia uma menina, ellas flcavão com ella; quando 
nascia um menino, mandavão-no para os homens. Os homens 
erão os Allamões^ gente muito alta. *^ 

352. IV. Gigantes, á) Como já vimos, os o/Aarapos, 
segundo certas versões, são gigantes, b) Os gigantes figu- 
ram em algumas lendas populares. Segundo Gonsiglieri Pe- 
droso {Estudos de Mythographia PorPugueza^ in Positivismo^ 
n, p. 452) ha dois montes próximos a Penella, onde outr'ora 
trabalhavão dois ferreiros gigantes, c) «São raras hoje em 
Portugal as tradições acerca de gigantes, segundo cremos. 
Os gigantes, os ogres, foram substituídos na tradição por 
ladrões. Mostram-se em diversos logares (por ex. num monte 
entre Barcellos e Víanna do Castello) covas do ladrão^ e 
correm acerca d'ellas apagadas lendas» (Ad. Coelho, in 
Re^j, de Ethnolog.^ p. 165). Pela minha parte pouco também 
tenho apurado no povo a respeito dos ^gantes. O mesmo 
professor transcreve na cit. Revista um trecho da Chorogrch 
phia de Carvalho (iii, 221) a respeito da lenda de um la- 
drão gigante. 



2^ Allamôa. por allemã on allamã, é nm feminino popular de 
Mamão (aHamom), como barôa de barão, cidadâa de cidadão, ate. 

s^3 A linguagem popular portugaeza tem Allamanha em vez 
de Allemanha; aquella forma ó directamente o lat. Alammama, qoe 
se encontra nas inseripções^ nos auctores^ etc. ? 

^^ Tanto as Aimazonas como as Alamôas são evidentemente 
as Amazonas da antigaidade. 



á 



280 



353. V. ÂNAOS. — Da mesma maneira que sobre os 
Gigantes, pouco sei sobre os Anãos, a) O termo anão (lat. 
nam^) tem como synonimo no Minho anato e anainho. 
b) Segundo uma versão portugueza, não me lembro d^onde, 
havia uma terra de Anãos (ou Anões) ^ onde tudo era muito 
pequeno, aves, quadrupedos, homens, etc. c) Cf. o conto 
do §-n, em que figura o Dedo pollegar^ rapaz muito pe- 
queno, d) Segundo ouvi a gente de ao pé de Ovar, aqueUas 
creanças por cima de passam, estando elias no berpo (cf. 
§1 p' e dd) ficam anãs. 

3B4. VI. Momos.— Jà neste livro alludi por varias 
vezes a lendas de Moiros e Moh'as (c. §§ 166, 171, 195, 
196, 210, 211, 212, 323-í, 325-c, pg. 196, § 335-y, etc.) 
que em parte extrahi do meu opúsculo, Fragm. de Myth. 
Pop. Port.^ (Porto, 1881) onde pela primeira vez em'grupo 
estudei as Moiras sob estes três aspectos : Moiras enoank^- 
das com thesouros (em aguas, pedras, montes), Moiras pro- 
duzindo, um echo^ Moiras fiandeiras; por isso aqui pouco 
mais tenho que dizer : a) « — Os Moiros são gente da Moi- 
rama; stivéro cá antigamente; depois botára-uos fora os 
portuguezes, e elles foro para a Moirama, que é um reino 
muito lenge; mas ficàro cá algumas Moiras encantadas» 
(Gondifellos). — A Moirama é, como se vé, a terra dos Moiros, 
o que se affirma em todo o paiz, pelo menos no Norte. 

b) Todos os monumentos antigos arruinados foram, segundo 
a crença, feitos pelos Moiros, que erão muito ricos. E' notá- 
vel que em todas as partes se diz que, quando passa 
um rio perto de algum monte ou castello de Mouros, exis- 
tia um caminho subterrâneo doesse monte ou castello para 
o rio, por oDde os Moiros levavão os cavallos a beber. 

c) A ' 1 kil. ao norte de Minde existe uma caverna ou lapa, 
chamada o Regatinho. Foi por muito tempo crenpa arrai- 
gada em Minde que próximo do Regatinho havião os Mouros 
enterrado uma capa de ouro (para fazer a qual se empe- 
nharam cinco villas; cf. § 180-a), e um jogo de bolas tam- 



281 



d^owro. Próximo d'esta caverna ha a Cova do JUouro^ 
i na manhã de S. João o povo via uma formosa Moira a 
alhar thesouros e cantando harmoniosamente varias can- 
, uma das quaes dizia assim : 



«Mais vale a Pena do Poyo 
Só com os seus penedaes^ 
Que Santarém e Lisboa 
Com todos seus cabedaes». 



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« 



O Poyo ou Penedo do Poyo é um olho d'agoa a 2 kilo- 
•jos de Minde e onde, segundo a crença, existem num®- 
s riquezas encantadas (Ap. Pinho Leal, Port. Arú. e Mod., 
llho de Mira), rf) A 12 kilometros da villa de Mantei- 
(B. Baixa) está o píncaro de Alfatema, de que se conta 

lenda : Quando os Mouros foram d*aqui expulsos, deixa- 

alli ficar escondidas as suas riquezas e puzeram-Ihe 
•das encantadas, que eram formosas mouras. Por esse 
30 o rei mouro de Manteigas 'tinha luna filha chamada 
na, muito linda, e a quem em extremo queria. Os chris- 

das visinhas faziam todas as diligencias para lhe con- 
tarem o estado e captivarem a filha e as riquezas : o 
fez-se forte na villa, mas não podendo resistir, fugiu 
s mais occultas veredas da serra, levando a filha e o 
ouro que não tinha ainda escondido. Quando chegou a 
3, tinha Fátima desfallecido de cansaço; mas na sua 
te se abre um formoso caminho, calçado de pedras fi- 

e no fim uma luz que o illuminava todo. Foi isto para 
louros signal de salvamento, e tomando todos por esse 
inho foram dar a um magnifico palácio, onde tudo era 
ai esplendor que o próprio rei ficou deslumbrado. O que 
se passou ninguém o soube; mas no dia seguinte des- 
,m da serra uns pastores que ninguém conhecia, e que 
lemoraram algum tempo no paiz, fazendo ao Curuto de 
lema (nome que elles deram ao cabeço) repetidas visi- 

e por fim desappareceram sem que ninguém mais ti- 









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282 



vesse novas d*elles. Eram os mouroà disfarçados em ^Bãkh 
res, e por elles se soube que uma fada, madrinha de Fá- 
tima, a guardara no seu palácio encantado, até á volta dos 
mouros a Portugal. Continua a lenda : D'ahi a muitos anoor, 
passando por Alfatema, numa madrugada de S. João Baptista, 
uma pobre mulher, sentou-se alli a descançar e a comer nm 
bocado de pão que trazia. Viu então a seu lado um grande 
estendal de figos seccos. Encheu d'elles uma cesta que le- 
vava e partiu. Chegando a casa, e ao vêr a cesta, ficoa 
pasmada, porque os figos se haviam transformado em bri- 
Ihantes e grandes moedas de ouro. A mulher ambiciosa, 
voltou ao corucho, na esperança de encontrar mais valores. 
O sol dourava os píncaros da serra, e o encanto tinlia-se 
quebrado, e os figos desapparecido. Ouviu então uma voz 
que lhe dizia : 

Era teu tudo o que viste ; 
Agora tomaste em vão ! 
Não passes mais neste sitio 
Na manhã do S. João. 
Não te perdeu a pobreza. 
Pôde Qiatar-te a ambição. 



A mulher voltou, e contentou-se com o que tioha; 
comprou muitos bens, e só tarde declarou a origem da ri- 
queza. Esta formosa lenda, em que por aquelles sitios pia- 
mente acreditam, é contada pelas velhas da Beira Baixa às 
suas netas, nas longas noites de inverno, ao redor da pa* 
triarchal fogueira. (Apud Portugal AnL e Mod. de Pinho Leal, 
vol. 5.°, art. Manteigas), e) Um homem ia para Roma; 
perdeu-se e foi bater a um povo chamado Foz d^Ároiça. 
Pernoitou numa casa onde uma mulher lhe procurou de que 
sitio era.EUe respondeu: «De fíego da Videv. jElla pergun- 
tou-lhe se sabia o sitio d'uma fraga que tinha um buraco; 
elle respondeu que sim. Então ella disse-lhe : <Eu convidou 
bem e ba-de chegar ao dito buraco e dizer três vezes : «Ba*^ 



283 



zilia». Elle foi e respondeu-lhe uma voz de dentro: aQuem 
pelo nome me chama notícias de minha Mãe me traz». A 
dita mulher entregara-llje uma jumentinha de masaa, que 
elle devia conservar inteira até ao momento em que a voz 
lhe respondesse (cf. 1 166). Assim a devia lanpar ao tal buraco. 
Elle, porém, levando-a no bolso, deixou-Ihe quebrar uma per- 
na. Quando a deitou ao buraco, ouviu : «Que infeliz tu foste I 
Dobraste o meu encanto. Alem do dinheiro que minha Mãe te 
deu, ficavas senhor d'um grande haver. •** Com tudo volta- 
rás e aqui acharás todos os dias um tostão.» Um dia elle 
estava a jogar e disse : 



Troco e tomo a trocar. 
Que a fraga da Moura 
Para tudo ha-de dar.» 



Desde então não deu a fraga mais nada (Villa-flor)* 
f) A phrase no tempo dos Moiros significa grande antigui- 
dade; vae, porém, como certas lendas (cf. | 98), sendo 
substituída por esfoutra : no tempo dos Francezes. Os Mou- 
ros foraõ os últimos dominadores, e por isso os que mais 
vivas impressões deixaram. Não me consta que na nossa 
crença popular haja lembrança de outros povos, excepto dos 
Âllamões no § 251, e talvez dos Romanos neste nome S. Ro- 
mão dado a capellas em montes legendários onde appare- 
cem vestígios de antiguidades. Num art.=0 que podem ser 
os mouros na trad. pop.=^ publicado pelo snr. Martins Sar- 
mento na minha revista O Pantheon^ concluiu este escriptor 
que a designação Mouro substituiu na crença a designação 



stô Duarte Nunes de Leão, entre as palavras que dá como anti- 
quadas (Origem de Ling. Portug.J, p5e atier (haver)por fazenda; mas, 
como se vé, entre o povo a pa&vra tem o significado de thesouro en- 
cantado de Mouros (cf. g 2iO-c). Podiam ainda citar-se mais factos. 



284 



Pagão. Ainda que os factos da crença popular actual qãè 
abonem essa conclusão são poucos, ella é comtudo prová- 
vel, g) Como vimos no § 335-í/-r', um pequeno porbaptisar 
é chamado Mouro ; também se dá a mesma denominação a vi- 
nho que não tenha agua. h) No Barroso a phrase mom 
significa negro^ sujo (cf. moreno)^ em phrases como: mãos 
moiras, 

355. VII. Fadas, a) A palavra Fada (cf. it. fata^ 
cast. hada^ pr. fada^ fr. féé) assenta sobre o lat. Fata (pi. 
de Fatum tornado singular, como debita^ de debUum^ ele.) 
que apparece numa inscripção de Diocleciano, como syno- 
nimo de parca (Cf. Diez, Gramm. i, 13). Ao lado de fada 
também na nossa lingua ha fado^ synonimo de sorte^ no 
sentido primitivo. — No Cancioneiro do Vaticano já se falia 
nas Fadas (vid. Ethnogr. Port, de A. Coelho, § 64). 
b) No Elucidário de Viterbo deflne-se assim Fada: «mu- 
lher fanática que supersticiosamente pronosticava futuros. 
Também se tomaram as Fadas más por trabalhos, e as hm 
por felicidades». A distincçào entre boas e más fadas acha-se 
justificada pelo adagio: cá e Id — más fadas ha, Gil Vicente 
diz {Auto das Fadas) : 



E das boas fadas 
Nas encruzilhadas. ^^ 



c) Ouvi algures a seguinte definição de Fadas: tSão^ 



866 o povo tem muitas superstições ainda hoje com as encro- 
zilbadas dos caminhos (trivium, quadrivíum): apparece lá o Diabo ao 
meio-dia, meia-noute e Trindades; ha lá reuniões de Bruxas^ ete. 
Nas aldeias todas as encruzilhadas tem em regra uma cruz de pedra 
ou de pào.— A Const, do arceb. de Goa, de 1568^ e a de Évora, 
de 1534, alludem também às encruzilhadas (Ap. Ethn, Port., SS 
Í45ei52. 



285 



mulheres que tem o poder de transformar tudo, e de se 
transformarem a si, por meio da vannha do condão^. — Na 
AnacephaleosisAe^. Pereira lê-se: «A va/rinha do condão^ ou 
vara de Aveíeyra^ conforme se inclina ou tdrce para a parte 
onde ha ouro, assim mostra os thesouros escondidos nos mon- 
tes e minas» (pg. 118). — Na Prosódia de Pereira vem o ada- 
gio : tem varinha do co^idão, — A respeito de condão é vulgar a 
a phrase : tem o condão de fazer tal ou qual cousa, d) O 
povo acredita que as Fadas fadavão ; no romance a Infanta 
de França (versão do Porto) diz-se: 



Sete fiadas me fadaram 
Por sete annos e um dia. 



Ha gente bem e mal fadada. No conto pop., Historia da 
vaquinha ou da Gata borralheira^ a rapariga que dobava 
as meadas nos chifres da vacca, foi, por uma peripécia do 
conto, ter a casa das malfadadas (ou bemfadadas^ — duvida 
da narradora), as quaes «deram-le uma varinha do condão^ 
e dixeram-le : = Vá ao penedo d'Alcantra, e diga : — Varinha 
do condão, dae-me tudo o que eu precisar, — logo o penedo 
se abrirá e apparecerá tudo; e ao spois, para o tornar a 
fichar, diga: — varinha do condão, íichae-me este penedo». 
— Noutra versão que recolhi da Beira-Alta, d*onde é aquella, 
diz-se positivamente Voas fadas em vez de Mal fadadas. — 
No romance popular, D. Claudina (B. Alta) diz-se em duas 
partes da narração : 



Uma torre bem fechada^ Uma torre bem fechada^ 

Para metter Claudina, Para metter Gaudina, 

Claudina a malfadada. Claadína a bemfadada. 



Uma cantiga popular diz ainda : 



/ 



286 



Esta noite me prenderam, 
A' cadeia me levaram ; 
Por Via das malfadadas ««^ 
Ferros de el-rei me botaram t 



Effl Gil Vicente {AtUo das Fadas) lê-se também: 



Ando nas encmzilhadas, 
A's horas qae as bemfadadas 
Dormem somno repensado. 



e) Conforme eu disse no meu art. Tradições portugue- 
sas (in Avâvra do Cavado) a crença nas Fadas está quasi 
oblilterada no continente; ellas figuram apenas em canti- 
gas, romances, contos e adágios, f) Sobre fadário^ vid. o 
seguinte de Gil Vicente {Obra m, p. 234) ; 



Em dia de algum fadairo 
Foi quando vós^ pae^ nacestes. 



g) Sobre b.s fadas marinhas^ vid. § 184 e o art. se- 
guinte. 

3B6. VIU. Sereias, aj Sobreda entidade mythica das • 
Sereias (lat. pop. Sirena) já fallei no § 185, e por isso pouco 
mais tenho que accrescentar. bj No Porto ha, na rua da 
Bandeirinha, uma casa, denominada a Casa das Sereias^ com 
umas sereias de pedra á porta. Vêem-se também muitas 



8«7 Sobre as malfadadas, cf . o seguinte, a respeito do ant. fr. 
maufé (que durou até ao sec. xv): «L'etymologie de ce mot estie 
latin Yulgaire malus fatus qui se trouvo dans Pétrone et dans piu* 
sieurs inscriplions funéraires pouf malum fatum* (G. P., in Roma- 
rUa, V, 367). 



287 



em fontes e navios, como já notou Ad. Coelho (Rev. de Ethn. 
% 204). c) Eis duas cantigas gallegas, (a primeira foi-me 
dada pelo snr. Ad. Coelho, a segunda recolhi-a eu) : 

A S^ma^ cando eanta^ 

Canta no pego do mar : Oin cantá-la Sereia : 

Tanto navio se perde. Valla-me Dios que asi canta 

Oh que tan dulce cantar 1 Unha cousa tan pequena i ^^ 

d) Gil Vicente allude também ás fadas marinhas^ que 
parecem ser o mesmo que as SereiaSy segundo o que se 
disse neste livro a pag. 83. 

357. IX. HiRÃ. — cA //irá dizem que é uma mulher 
de cabeça muito volumosa e d'um corpo franzino, a qual, 
em chegando k edade de 12 annos, se metamorphoseia em 
serpente e vae viver no mar» (Almanach de Lembr,^ 1872^ 
pag. 195, cit. por C. Pedroso, O Lohishomem^ pag. 8). A 
Hirã é a ultima das sete irmãos que nascerem a seguir (ib.) 

358. X. O Fradinho da mão furajda. a) O se- 
guinte conto popular, que recolhi em Guimarães, caracterisa 
esta entidade, que, segundo o povo, é o Diabo :=Diz que uma 
occasião ia um soldado por uma estrada adeante e ia muito 
cançado, e depois appareceu uma mulher e elle começou- 
Ihe a pedir agasalho porque tinha muito frio. EUa disse que 
lhe não podia dar agasalho, e elle perguntou-lhe se por 
alli não haveria alguma casa onde lh'o podessem dar. E ella 
disse: «Porqui num ha, só ha alli uma casa muito grande, 
mas é deshabitada, porque dizem que lá anda o Diabo». E 
elle disse assim : «E' o mesmo; eu vou para lá; não tenho 
medo». Foi para lá, fez uma fogueira, comeu o que lhe de- 



^33 Cf. uma híspanhola no op. Cinco cuentezuelos de F. R. 
Marin. 



/ 



288 



ram na aldeia, e deítou-se a dormir, mas sempre estava 
sobresaltado. Â' meia-noute ouviu muito barulho pela cha- 
miné, e entrou-lbe pelo quarto dentro um frade cpm as mãw 
mettidas nas mangas do habito. E o frade perguntou-lbe : 
«Quem te deu licença de entrares nesta casa?» «Ninguém. 
Precisava de dormir, porque vinha muito cançado, e entrei 
nesta casa». Disse-lhe o frade: «Já que és tão animoso, 
vaes ver a reunião, mas se não quizeres seguir o que ellas 
seguem (as Bruxas) eu não me importa; e se quizeres di- 
nheiro também t'o dou, vae alli ao canto da chaminé qoe 
lá está quanto tu quizeres». O soldado respondeu que oâo 
precisava de dinheiro. Depois o Frade entregou lhe a chave 
da adega, da despenca, de toda a casa, onde elle encontra- 
ria tudo o que quizesse. D'ahi a pouco começaram a vir 
muitos vultos negros que vinham beijar a mão fvjrada que 
o frade lhe apresentava. E cada ura dos vultos, que erão 
Bruxas que ião todas nuas, untadas de preto, começou a 
dar conta do que tinha feito [o soldado conservava-se dei- 
tado]. Uma dizia que tinha chuchado um menino por bapti- 
sar, e o Frade não lhe ralhou. Outra disse que tinha chu- 
chado ura menmo baptisado, e elle tarabem não lhe ralhou. 
Veio outra e disse que tinha chuchado outro menino por 
instipiar [sem ser baptisado em casa, apenas nasce], e o 
Frade ralhou-lhe muito. Cada uma das outras começou à 
proporção a dar contas, e depois acabou-se a audiência. O 
soldado depois ficou muito rico. Victoria^ Victoria^ — Acor 
bou-se a ^wíona.=(6uimarães). b) Diz Fylinto Elysio {Fabvr 
las^ trad., p. 267, — ap. Th. Braga, Superstições pop, in 
Volta do Mvmdo^ 2.° vol., p. 171): «Creio que ainda em 
Portugal dão o nome de Trasgos aos Fradinhos da mão fvr 
radait-^íio Auto do Mov/ro encantado diz António Prestes 
(apud Th. B., ib., p. 91): 



... 6 o Pesadelo também 
Da mão furadas que tem 
Arrecadas nas orelhas. 




289 



A confusão entre o Pesadelo e o Fradinho acha-se 
mbem em Guimarães (vid. o art. seguinte a este) e na 
ia de S. Miguel, onde, segundo o snr. Th. Braga (ib. p. 
)), é popular a designação de Pesadelo da mão fwrada. 
na versão que um amigo meu me mandou do Algarve con- 
m o seguinte :=0 Fradinho da mão furada entra por alta 
)ite nas alcovas, e pelo buraco da fechadura da porta 
f. as Bruxas]. Tem na cabeça um barrete encarnado [cf. 
Diabo]^ escarrancha-se á vontade em cima das pessoas e 
elle são attribuidos os grandes pesadelos. Só quando a 
íssoa acorda, é que elle se vae embora. = Eis duas ora- 
íes que ouvi a uma velha em Guimarães, e onde se allude 
Mão furada: 



1) S. Bértholameu me dixe 
Que me deitasse e dormisse^ 
Que de três coisas me livraria : 
Do tombo^ do lombo e da má sombra, 
E da mão furada e da unha revirada. ^^ 



2) Nossa Sinhora me dixe 
Que me deitasse e dormisse^ 
E que medo num tomasse^ 
Nem ó (ao) mar^ Dom à onda^ 
Nem ó home de má sombra^ 
Nem ó fraco Pesadelo 
Que tem a mão furada 
E a unba revirada, ^^o 



c) A mão furada tem entrado na litteratura erudita : No 
chivo Pittoresco^ vol. v, 1862, publicou-se uma novella 



269 Um dos nomes populares do Diabo é, segundo Âd. Coelho 
ev> de Ethn., § i82)^ o da unha revoltada. 

270 Comp. com estas orações a de S. Bartholomeu a pag. 157 
i Cant. pop, do archip. açoriano, de Th. Braga. 



19 



/■ 



290 



intitulada O fradinho da moo f v/rada (vid. um extracto na 
Rev. de Ethnologiay § 220). — Na Revista Brazileira^ Se- 
tembro de 1880, sahiu a peça O Diabinho da mão furada 
por António José da Silva (Cf. Rev. da Socied. de Instr, do 
Porto, I, 90, — art. da snr.* D. Carolina Michaélis). 

359. XI. Pesadelo. — Como já vimos, ha uma certa 
confusão entre o Pesadelo e o da Mão furada. Eis algumas 
versões mais caracteristicas d'aquelle: a) O Pesadelo é 
um bicho que vem tapar a boca a quem está dormindo; 
mas, como tem um buraco na mão, não deixa morrer aba- 
fado (Guimarães : quem contou isto, aílirmou que já sentiu 
o Pesadelo), b) O Pesadelo é o Diabo que vem com uma 
carapuça [cf. art. x] e com uma mão muito pesada [cf. art. 
xii]. Quando a gente dorme com a barriga para o ar, o P9r 
sadêlo põe a mão no peito de quem dorme e não deixa 
gritar. Se alguém lhe pudesse agarrar na carapuça, elle 
fugia para o telhado, e era obrigado a dar quanto dinheiro 
lhe pedissem, em quanto lhe não restituíssem a carapuça 
(Vallongo: quem contou isto, aflirmou que já sentiu o Pesa- 
delo), c) No livro raystico. Pedra iman, por Padre Angelo 
de Siqueira, — Porto, 1753, 2.* ed. — , vem uma oração la- 
tina contra o Pesadelo (a pag. 35). 

d) Segundo Ad. Coelho (citada Rev.^ %% 222-3) o Pe- 
sadêlo chama-se também Insônho ^^ e é um espirito ou 
uma Bruxa; uma faca ou garfo debaixo do travesseiro [cf. § 
223-6] evita o Pesadelo (Cabo Verde). 

360. XII. Mão de ferro, a) O Diabo anda ás vezes 
invisível a dar bofetadas (Taboaço). b) Quando está muito 
vento, se a gente se metter debaixo das arvores, vem uma 
mão de ferro invisível dar bofetadas na cara. c) Quando 
as creanças caem sem quê, nem para quê, vem o Diabo 



S71 Lat. insomniium. 



% 



291 



com uma mão de chrnnbo apanhà-las. d) Havia uma mu- 
lher que dava tudo ao Diabo, porque dizia a cada passo : 
tStrenôque-te para o Diabo li^ Uma vez estava ella na cama 
e veiu a Mào de ferro e deu-lhe uma bofetada. Ao outro dia 
uma visinha notou-lhe: «Ahi tens. . . Andavas sempre a dar 
tudo ao Demónio, elle trouxe-te a paga» (Cabeceiras de 
Basto), e) Na Universidade de Salamanca havia, segundo 
a crença, uma mào de feiro espetada na parede; ouvia-se 
uma voz, e a mão ensinava os estudantes. No fim de sete 
annos, ao terminar o curso, tinha de ficar um estudante, 
cujo destino se ignorava. Uma vez, quando iam a agarrar 
um, elle deixou a capa, mas em castigo ficou sem sombra. — 
Dizia o povo que os estudantes iam para o pé de um pofo 
com uma vara batendo na agua, e lendo num livro, e que 
faziam levantar nuvens. Existe até uma fórmula contra as 
nuvens carregadas de tempestade (produzidas assim ou 
d'outro modo) : 

Tên-te, anubrado, (nublado) 
Pà la tierra de Saiago. *7í 

Alem da fórmula, é costume também tocar os sinos 
para fazer fugir as nuvens ^^ (Duas Egrejas no c. de Mi- 



^3 Em dialecto mirandez.— Também se diz que na terra hispa- 
nhola de Prana ha um poço d'oade nascem as nuvens. D'abi o dictado 
mirandez : 

Nuve de Prana, 
Nunca cá venha 1 

273 Os Nuberos das Astúrias, segundo me informa o meu amigo 
o snr. Âd. Coelho, apresentam o caracter koboldico muito pronunciado ; 

Sor ex., os toques dos sinos fazem-nos desapparecer. — Na Foz do 
^nro, quando ha nevoeiro, toca-se o sino; mas a interpretação (pri- 
mitiva ?) que dâo é que é para os navegantes pelo toque conhece- 
rem a dirêsçào da terra. (Isto me disse o snr. Coelho ; eu próprio o 
ouvi também a gente da Foz). 



292 



randa do Douro. — Cf. || lli e 120). f) Sobre a mão de 
ferro vid. | 182 d'este livro. 

361. XIU. Trasgo. a) No Vocabulário de Bluteau, 
V. Trasgo, vem uma definição desta entidade, h) tEm 
Tras-os-Montes e Douro crê-se na existência do Trasgo, 
que parece se apresenta nalguns casos como um espirito 
do nevoeiro [cf. | 115 d'este livro]. Os Trasgos perse- 
guem principalmente as mulheres, fazendo-lhes varias ju- 
diarias, quando ellas estão na cama; atiram pedras pelas 
janellas, quebram as louças das cozinhas» Ad. Coelho,— 
Rev, de Ethnologia^ § 217). c) Uma criada, natural de 
Moncorvo, disse-me o seguinte, em que o Trasgo figura 
como um verdadeiro espirito caseiro^ o que está de accordo 
com os AA. que tem faltado do Trasgo: — Uma vez uma 
mulher andava a mudar de casa; já estava tudo mudado, 
só faltava um banquinho ; nisto o banquinho começa a an- 
dar; pergunta-lhe a mulher: «Onde vaes?» Responde elle: 
cPois tu não te mudas ? Então também eu : para onde tu 
fores, vou eu também». O banco era o Trasgo loiceiro» 

d) De qualquer pessoa mà diz-se : «Aquillo é um Trasgo» I 
(B. Alta, etc.) e) Também se diz que o Trasgo é o Diabo. 

362. XIV. Tardo, aj O Tardo é o Diabo, e anda só 
de noite. De alguém que costuma andar de noite, diz-se: 
«AqueUe é como o Tardo» (Guimarães), b) O Ta/rdo anda 
de noite e vae affrontar à cama algumas pessoas, que de- 
pois acordam com um grande pesadelo. O Tardo chama-se 
também o Pesadelo e o Tardo moleiro (Gondífellos). c) Na 
Maia um lavrador disse-me o segumte: «O Tardo num é o 
Diabo : é um bicho mau tal e qual coma um cachorro pi- 
queno. Se alguém for por um caminho, de noite ou de dia, 
e o Tardo lhe oirinar nas pernas, a pessoa fica intardada^ 
e depois num sabe já p*r'onde hade ir; só c'o tempo é que 
se desintarda. O Tardo apparece em caisquer caminho ; mas 
nos regatos é pior», d) Em Aveiro parece que lhe chamam 




293 



Tardo y porque elle vem tarde, e) Segundo algumas versões 
o Tardo é o lobishomem (cf. art. i). fj Gente de Avança 
(Douro) disse-me que o Tardo apparece na figura de um 
gato, cão, cabra (cf. este § em c) ; Uma vez estavam uns 
homens à noite a conversar e viram um gato no chão a 
andar muito; de menos em quando, o gato dá um salto, e 
zanga um grande carvalho que alli estava. Era o Tardo. — 
Outra vez uns homens à noite viram uma cabrita ; não sei 
que disseram, e a cabrita saltou por um bajóco *^* e met- 
teu-se num vdllo^ ^^ onde, por mais que bateram, não foi 
possível dar com ella. Era também o Tardo. 

363. XV. Trado. — «O Trado é um medo, ou ente 

invisível, que persegue de varias maneiras as pessoas. 

Ouando alguém pára numa estrada, sem saber porquê, ê o 

Trado que o faz parar» (Penafiel: Rev. de Èthnobg.^ | 
218). 276 

364. XVI. Tatro.— Vid. o § 115. 

365. XVn. Pedro das Malasartes. a) Em vez de 
Pedro das malas artes (Pedro das mâs artes) diz-se tam- 
bém: Pedro malasartes. Esta palavra-phrase é análoga ao 
hisp. Urdemalas (urde cousas más) que apparece já em 
1247 como appellido (vid. Bibliographia critica, pag. 103). 

b) De um modo geral diz-se que o Pedro das Malas artes 
é o Dabo. c) Nas Operas portuguezas^ representadas no 



^^ Bajôco é uma espécie de charco, ou cova com agua^ pe- 
dtas^ hervas^ etc. (Avaaca). Em Baião diz-se bajônco. 

275 Vállo é uma tapagem natural que cerca um campo^ geral- 
mente à beira de um caminho^ feita de silvas^ salgueiros e outras 
plantas (Avança^ etc; é o lat. vallim). 

«76 o snr. Coelho supp5e que Trad4), por Trasgo, resulta de 
orna confusão com trado, lat. taratrum. 



294 



Bairro-Allo e Mouraria, lê-se (opera Encantos de MerUn 
an. 1741): cpois graças ao senhor Pedro de Baylarde, que 
me fez a mim Pedro de Malas artes^ ensinando-me em pagi 
de o servir em Paris a Magica branca, ou a negra Magicai. 
d) Conto popular: Era uma vez o Pedro Màiasarles e íâ 
ter a uma serra aonde havia uma casa de ladrões, e depoi» 
elle pediu soccorro que era um triste barbeiro que andava 
a fazer barbas, e depois elles fugiro todos d 'elle, e só ficou 
um resolvido a gardar o jantar, e depois o Pedro Malasar- 
tes dixe assim: «O' meu snr.: trá-la barba tão grande... 
eu fapo-ra». O ladrom afastou-se e elle fêz-Pa barba, e de- 
pois dixe-le que le botasse a lingua de fora, e cortou-1'a e 
comeu o jantar; depois o ladrom começou a fugir pelo monte 
a baixo e dezia : fiExplorae por mim /» porque não podia 
dezer esperael E os outros cada vez fugio mais. Depois elle» 
foro fazer o jantar para outra serra. O Pedro Malasartes su- 
biu para cima de um pinheiro na serra, e levou para li 
uma cancella velha, e elles stavo por baixo a fazer o jan- 
tar; assim que estava o jantar feito, elles descobriro nas (as) 
panellas e elle mijou por cima d'ellas, e depois dizem elles; 
«Este molhinho vem do ceu, ha-de ser gostoso» ; o Pedro 
Malasartes fez então a sita vida sobre as panellas, e elles 
dixéro que a marmellada que era boa ; depois elle botou-le 
a cancella velha pola cabeça a baixo; e elles dixéro assim: 
«Ora sempre isto agora foi de mais; se vem ahi o ceu ve- 
lho^ logo vem no novq; vamos a fugir». Depois olhárop'ra 
cima do pinheiro e dixéro: «Ai que elle é o Pedro Mala- 
sartes; vamos a fugir!» Depois dizem elles: «De que modo 
nos havemos de vingar?» Foro para a beira de um rio e 
ilzero um homem de visgo. D 'ahi a poucos dias^ elle passou 
por lá: «Ora para que stará este home aqui? Deixa-me 
dar-le um ponta-pé». Deu-le um ponta-pé, e ficou lá co'(> 
pé ; deu-le oitro ponta-pé, e ficou lá co'oitro pé ; deu-le co'o 
braços, ficou lá também ; emfim ficou lá todo. Depois steve 
lá três dias ; stava quasi morto ; passou lá o ladrão que tei 
o home de visgo e atirou ao rio o home de visgo e o Fe- 



295 



dro. = Adeus j ô Victoria, — Acabovnse a historia. (Contado po? 
Margarida Rosa, de Cabeceiras de Basto, em Janeiro de 
1882, e confirmado por mais duas pessoas de Guimarães que 
o ouviram contar. Em pequeno ouvi também um quasi igual 
a este), e) Âo pé de Miranda do Douro conta-se também a 
respeito do Pedro um conto que, á hora em que escrevo, 
não pude ainda recolher.. 

366. XVIII. Medo. a) O snr. Coelho definiu muito 
bem o Medo assún: «é a personificarão de tudo o que é 
vago, desconhecido e assustador. Nada ha mais terrificante 
do que o Medo, pelo seu próprio caracter indefinido» {Rev. 
de Elhnolog.^ n.^ 215). b) Para perder o Medo, é bom co- 
mer a trás de uma porta cristas de gallo assadas (Gaia, 
etc). c) Quando se quer metter medo a alguém diz-se 
(Gondifellos) : 

Quando aramos vivos^ 
Andávamos pelos caminhos : 
Agora^ que somos mortos^ 
Andamos pelos barrocos. . . 
Alevantae-vos, mortos^ 
Que vos não focem os porcos! 



d) Eis uma narração do JUêdo^ em dialecto mirandez: 
^lou sali de la villa de Mogadouro, e Ihebába la cochina 
[porca] ^'' preza c'ua corda, e, ai chegar a la borda d'ua 
capiélha [capélla], saliu-me um Miêdo^ que s'appar'cia a 
um home miii *^® alto, bestido de branco, e puze-se-me de- 
lante de la cochina e seguiu-me um cacho [espaço] de ca- 
mino ai miu Ihado, e quedaba-se ais ratos [aos poucos], e 
iou olhaba para trás, e viê-lo [via-o] mui longe e Ihôugo 



*w O som do eh é forte (tch). 

^8 Jiftít, proQoncia-se como se escreve^ e não mui. 



296 



[logo] num instante estaba ai piè de mi; mâs, quando dú- 
guêmos á la borda d'Ga cruz, el ^* Miédo puze-se-me à las 
bôltas de la cruz, e allii quedou e desappar'ciu» (Duas Egre- 
jas no concelho de Miranda. — Quem me contou isto, ouviu-o 
a um velho), e) A leitura do conto xxxvii da collecção de 
F. A. Coelho, e. do Jean sans peur dos Contes pop. loiram 
de E. Cosquin (in Romania^ vol. x), fez-me lembrar d'um que 
ouvi em pequeno, e que recomponho assim, indicando en- 
tre colchetes os factos sobre que tenho duvida := Era uma 
vez um homem que não tinha medo de nada ; disse que [só 
se casava] quando achasse alguma cousa que lhe mettesse 
medo, e partiu a ver se a achava. [O futuro sogro] deu-lhe 
uma caixa (a respeito da qual não me recordo do que lhe 
elle disse). O homem chegou a uma terra e pediu pousada; 
mas responderam-lhe que só poderia ficar numa certa casa 
onde ninguém queria dormir, porque apparecia lá o Medo. 
Foi o que o homem quiz ouvir, e foi para lá. Alta noite ou- 
viu : «Eu caio !• . .» Diz elle : «Pois cae para ahi». E cahiu 
um braço ; depois idem, e cahiu uma perna, etc, até que os . 
fragmentos que cahiram constituíram um homem completo, 
que levou o que não tinha medo a um subterrâneo em que 
havia três montes de dinheiro, um em ouro, outro em 
prata e outro em cobre. Diz o Medo ao homem : O ouro é 
para ti, a prata é para os padres dizerem missas [por mi- 
nha ahna], e o cobre é para os pobres [me resarem por 
alma]. Depois [o Medo desappareceu] e o homem seguiu o 
seu caminho ; lembrou-se da caixa e foi-a abrir ; mas, ao 
abri-la, sahiu lá de dentro, com muita pressa, uma pomba, 
o que assustou o homem, que por isso tornou para trás [e 
casou] (Ucanha; cf. os meus Pragm. de Mytholog.^ pag. 3), 

367. XIX. Medos das creanças (Mythologia infantil), 
Põe-se medo ás creanças fallando-lhes nos seres imaginários 



879 o som do eemel é muito surdo. 



297 



cuja menção se segue : Carantónha (Rio de Moinhos ao pé 
de Vizeu), Coca (passim), Côca-Loba (B. Alia), Farronca 
(Carrazeda de Anciães), Ferrancónha (B. Alta: uma criada 
que eu tive em pequeno muitas vezes me intimidou com 
esta phrase: Ai! a Ferrancónha !), Ferrantónha (ib.), Ma- 
ria da manta (Carrazeda), Papão (passim), Tendeiro (Car- 
razeda). De três doestas entidades posso dizer alguma 
cousa em particular: a) Coca, Gil Vicente tem o termo 
Coco (i, p. 269) ; João de Barros (ap. Bluteau) falia dos Co- 
cos^ como de medos que se põem aos meninos : Bluteau traz 
Coco e Coca no Vocabulário. — A Coca^ segundo a crença, é 
um ser do sexo masculino ou feminino, de figura humana. 
Tem um grande capuz enterrado pela cabeça, deixando só 
ver os olhos brilhantes como dois carvões (Algarve). Quando 
qualquer pessoa a quer imitar, basta que cubra um capuz ; 
dizem logo: «Ahi vem a Coca!» (Algarve, Beira-Alta). — Ha 
uma cantiga da Covilhã, em que figura a Coca (vid. pag. 
208). ^ Noutras variantes d'ella, em vez do primeiro verso, 
diz-se : «O' Papão j vae-te embora:» (Alemtejo, Algarve, Douro, 
etc). Segundo João de Barros, a palavra coco proviria da 
semelhança do phantasma com o fructo do coqueiro : creio 
que tem pouca razão, por isso que o coqueiro é pouco 
conhecido em Portugal, em quanto que a Coca é vulga- 
rissima. b) Papão, Como fica dito a pag. 259, papar ^ em 
ling. infantil, significa comer; por isso, papão é aquelle 
que papa os meninos. Cantigas do Algarve : 

O' Papão, vae-te embora. O' Papão, vae-te embora. 

Que o menino não está cá : Deixa dormir o menino. 

Foi para casa da avó. Que elle não chora com fome. 

Sabe Deus quando virá! Chora por ser pequenino. 



^^ Na Hispanha : «El coco : sér imaginário con que se infunde 
miedo á los níiios; así se dice: *<Más feo que un coco». Ha cantigas 
semelhantes às nossas (Vid. Rodriguez Maria, CarU, pop. espanoles, 
n.o 38). 



é 



298 



O' Papão, vae-te embora^ O' Papão, vae-te embora 

Qae o menino quer dormir : Tira-te d'ahi: 

Venhara-nos anjos do ceu Menino bonito 

Ajudarem-no a cobrir. Não é par^ ti, (cf. § i4i). 



c) Maria-da-Manta. Era Carrazeda de Anciães intimi- 
dam-se as creanpas com este nome Maria-da-Manta^ a pro- 
pósito do qual se dizem os versos (apud. Sequeira-Ferraz, 
— in Folha Nova^ n.° 322) : 

A Maria-da-manta Tem leite nas teteliôilas, ^^ 

Tem os boches na garganta ; Corre montes e valles, ^^ 

Tem lume nos olhos E pés d'altares 

E lenha nos cornos; E mata meninos aos pares. 

368. XX. Coisa ruim. a) Coisa ruim é outra de- 
signapão semelhante a Medo. b) aA's Trindades, que é hora 
aberta^ é quasi de fé que nas encruzilhadas se vê coisaf 
ruim^ na forma de uma porca com bácoros, ou gallinha 
com pitos, ou uma d'estas mães com os pequenos da ou- 
tra. Coisa ruim o que venha a ser, não sei; parece porém 
ser coisa mandada pelo Diabo, ou o Diabo mesmo» (D. Ma- 
ria Peregrina de Sousa, — Superst, popuL do Minho^ in 
Rev, Univ, Lisbon.^ v, 267). c) Ha muita cousa ruim: ar 
ruim^ md olhadv/ra^ etc. Contra a md olhadura ou nfté^ 
olhado é bom um como de veado. Quando estalam vidros, é 
por eflfeito de mãos olhados (Gaia), d) As cousas más man- 
dam-se para o Mar coalhado (cf. § 186) e para Coira. A 
fórmula é: <iSternocO'tet (cf. § 360-d) : vae-te para Coirali^ 
(Minho). 

369. XXI. Trango-mango. a) Trango-Mango, Tan- 



^1 Teteliãla parece um derivado de teta, 

2^ Correr montes e valles é phrase mui volgar. 



299 



gro-Mcmgro ou Tranglo-Mango são palavras que egualmente 
designam o mal, de um modo vago. De alguém que tem um 
achaque, etc. diz-se: «deu-lhe o trango-mango». b) Eis 
umas canções numerativas, onde se allude ao Trango-Mango 
(Beira-Alla) : 



Vinte e quatro marrafínhas 
Todas a fazer um doce : 
Deu-lhe o Trango-Mango nellas. 
Não ficaram senão doze. 



D'essas sete que ficaram 
Mandeí-as cantar os reis : 
Deu-lhe o Tranco- Mango nellas^ 
Não ficaram senão seis. 



D'essas doze que ficaram 
Mandei- as buscar um bronze: 
Deu-lhe o Trango-Mango nellas^ 
Não ficaram senão onze. 



D'essas seis que ficaram 
Mandei-<as comprar um briuco : 
Deu-lhe o Trango-Mango nellas^ 
Não ficaram senão cinco. 



D'essas onze que ficaram 
Mandei-as lavar os pés : 
Deu-lhe o Trango-Mango nellas^ 
Não ficaram senão dez. 



D'essas cinco que ficaram 
Mandei-as lavar um prato : 
Deu-lhe o Trango-Mango nellas^ 
Não ficaram senão quatro. 



D'essas dez que ficaram 
Mandei-as dar esmola ao pobre : 
Deu-lhe o Trango-Mango nellas^ 
Não ficaram senão nove. 



D*essas quatro que ficaram 
Mandei-as outra vez : 
Deu-lhe o Trango-Mango nellas^ 
Não ficaram senão três. 



D*essas nove que ficaram 
Mandei-as fazer biscoito : 
Deu-lhe o Trango-Mango nellas^ 
Não ficaram senão oito. 



D*essas três que ficaram 
Mandei-as apanhar uvas : 
Deu-lhe o Trango-Mango nellas^ 
Não ficaram senão duas. 



D*essas oito que ficaram 
Mandei-as fazer um spéque : 
Deu-lhe o Trango-Mango nellas^ 
Não ficaram senão sete. 



D^essas duas que ficaram 
Mandei-as enxotá-la pr0a: (perua) 
Deu-lhe o Trango-Mango nellas^ 
Não fícoQ senão Qa. 



#* 



300 



D'essa tia que fíeoa D'essa meia que ficou 

Mandei-a (ázer na meia : Maadei-a amassá-lo pão: 

Dea-lbe o Traago- Mango nella^ Deu-lbe o Trango Mango nella. 

Não íicou senão meia. Acabou-se a geração. ^^ 



370. XXII. Maria Margella. — Em S. Christovão de 
Nogueira (cone. de Sinfães) falla-se no bordão de Maria, 
Marcella e diz-se : 

Qnem acbar o bordom de Maria-Marcella 
Sustentará Portugal e Castella. 

Segundo a crença, o bordão de Maria-Marcella é muito 
grande e lodo de ouro. Quando ella vivia, enterro u-o num 
sitio hoje completamente desconhecido. Diz-se mais que o 
bordão está á beira de uma estrada, e que já os carros tem 
rodado por cima d'elle. 

371. XXIII. O HOMEM DAS SETE DENTADURAS. — Se- 

gundo o snr. Consiglieri Pedroso {Trad, popuL portug.^ 
n.^ x), este personagem mythico é um génio maléfico que 
apparece no sitio do Cerro Vermelho (Algarve), á hora do 
meio-dia. ^^ 



283 Algumas versões, em vez do verso: Deurlhe o Trango- 
Mango nellas, dizem : Deu-lhe o mal da moda nellas (Feira)^ ou : Auga 
ó (ao) melro, sécca o bico (Vouzella) ; outras em vez de vinte e quatro 
marrafinhaSy dizem : erão vinte e quatro sécias (Feira) ; ou : nasceram 
dez meninos (Penafiel^ — apud Ad. Coelbo^ Romance popuL e rimas in- 
fantis, in Zeitschr, f. rom. Ph,, m): ou: ó marrafas, o marrafas (Gaia). 
Numa versão do snr. Th. Braga fÊsòoço di Mytholog. ibérica, no jor- 
nal A' Volta do Mundo, i), figuram doze freiras que a Abbadessa dis- 
tribuo de diverso modo. 

2^ O meu amigo o snr. Pedroso estudou^ sob a designação 
provisória O homem das sete dentaduras, um certo numero de cren- 
ças relativas à hora do meio dia. Não sei se certos factos que elie ahi 
oà como próprios da hora do meio-dia serão accidentaes em vez de 



301 



372. XXIV. Jam. — No Algarve acredita-se na existên- 
cia de umas mulheres chamadas Jãs ou Jans que gosam da 
virtude de, deixando à noute no borralho do lar um pouco 
de linho e um bolo, encontrarem pela manhã o linho fiado 
tão fino como cabello. Se ellas porem se esquecerem de dei- 
xar o bolo ao pé do linho, este de manhã apparece quei- 
mado. — Muitos indivíduos sustentam que os seus antepas- 
sados d'elles possuíram lençóes fiados pelas Jans, — Tam- 
bém no Algarve é muito costume dizer «Probe Jam!» ou 
«Probe Janes!» por «Pobre Diabo!». 

373. XXV. ExcoMMUNGADOS. — Já no § 120 eu disse 
que os excommungados vão para as nuvens para tolher o 
mundo, como verdadeiros espíritos das tempestades. Os ex- 
commungados são muito temidos, Gil Vicente diz (iii, 235): 



Algum grande excommungado 
Me olhou à minha partida. 



374. XXVI. Almas penadas, a) O meu amigo o snr. 
S. Rodrigues Ferreira, de Penafiel, deu-me a seguinte noti- 
cia, que já me era conhecida, mas sem os versos : «As al- 
mas d'aquelles que morrerem, sem restituir o que devem 
voltam a este mundo, por favor de Deus, e imploram de 
algum amigo ou parente que restitua a cousa roubada. Os 
parentes ou amigos vão então despejar de uma ponte a 



essenciaes, como o Diabo ás soltas (cf. este livro, § 187-Ô), o gallo ao 
meio dia (hora de jantar na aldeia) e o Rosemunho (cf. § 104 d'este 
livro); parece-me também que o A . devia ter posto em connexão com 
o meio-dia, a meia-noute e as Trindades (horas abertas). — A ideia 
fundamental, porém, de que ha entre nós uma superstição meridiana 
não padece duvida nenhuma (cf. este livro, §§ 14, 15, 16, 374-6, 
ete.; e o meu art. Fastos do Povo Portuguez, i, 1, publicado em 1880 
in Penafidelense). 



302 



baixo uma saca de painço. Emquanto se despeja o painço 
no rio, um padre, ou pessoa dada a estes misteres, diz : 

Triste alma penada^ Tantos annos quanto tem 

Vae para sempre degradada^ A saca que vou despejar : 

Por esse mundo alem, Vae p*ra nunca mais voltar! 

Depois do saco despejado, a alma vae degradada tan- 
tos annos quanto os graeiros da saca». ^ bj Ao meu amigo 
Reis Dâmaso devo a seguinte informação: «E' crença geral 
no Algarve, que apparece por alli de tempos a tempos, isto 
é, de sete em sete annos, uma alma penando, na figura 
d'uma zorra, e que se algum mortal a arremeda, é perse- 
guido pela sombra d^ella até à morte. Chamam-lhe a Zorra 
berradeira ou a Zorra de Odelôca^ que anda continuamente 
a berrar, — sendo melhor ouvida depois da meia-noite e ao 
pino do meio-dia. Diz-se que durante o tempo em que ella 
não apparece (sete annos) anda por outros paizes. Dá-se o 
caso que no verão apparece nó Algarve um pássaro de arri- 
bação, negro e grande, que imita perfeitamente o berro da 
raposa. O povo naturalmente supersticioso crê ouvir nesses 
guinchos do pássaro os berros d'aquella alma do outro 
mundo. Conta-se que dous compadres tinham cada um a sua 
fazendita separadas apenas por um marco de pedra. Uma 
bella noite de luar, depois da meia-noite, um dos compa- 
dres foi arrancar o marco e collocal-o de maneira que rou- 
bava ao outro uma geira de terra. Foi o bastante para que 
a alma do pobre homem se perdesse. — Isto é antiquissimo, 
e marca-se o sitio que é próximo á ribeira de Odelôca^ que 
nasce de entre as serras de Monchique, vindo desaguar no 
rio de Silves. Eis a rasão porque a zorra tem este nome. 
Em todos os povos d'aquella província, é crença que as al- 



285 Cf. este livro no g 175; Rev. de Ethnologiaáe Ad. Coelho, 
n.o 277 sqq., e Rev. Univ. Lisbon. iv, 402. 



303 



mas dos grandes peccadores se transformam em vários ani- 
mães, vagueando assim por alta noite pelos campos, junto 
das egrejas e cemitérios». 

375. XXVII. Bentos e pessoas entendidas, a) Na 
Beira-Alta ha certos homens de virtude (derivada de Deus) 
a que o povo chama na sua ingénua linguagem : bentos. O 
nascimento d'elles é predestinado, porque em quanto an- 
dam no ventre materno faliam ou choram ^®^. Na minha in- 
fância conheci um bento^ do qual eu tinha muito medo. Elle 
era um homem encorpado, de voz pausada, e bêbado ; ves- 
tia á moda antiga da serra: chapéu desabado de panno 
grosseiro, nisa (espécie de casaca mui curta) de saragoça 
com botões lisos de metal amarello, calpão também de sa- 
ragoça, e grandes meias negras. Este bento procuravam-no 
muito de toda a parte, pelo que varias vezes tinha sido 
condemnado pelos tribunaes. Quando ia ás curas, levava 
sempre uma burrinha para carregar os fructos que lhe da- 
vão, porque nunca acceitava dinheiro, segundo se dizia. Na 
occasião de curar, fazia muitas resas, bênçãos, mesuras; 
pegava num santo-Christo suspenso posteriormente por uma 
fita, de modo que parecia firme, sem amparo, sobre os de- 
dos, e com isto illudia os crédulos. Receitava com frequên- 
cia defumadouros, e bebidas feitas de agua e cinzas da ca- 
misa dos doentes, b) Em Leça de Palmeira e Mathosinhos 
ha mulheres entendidas que com um baralho de cartassabem 
noticia de pessoas ausentes. Quando as mulheres voem vir no 
mar os filhos ou maridos, estando o mar bravo, accendem 
uma luz deante de qualquer imagem e o azeite restante é 
lançado ao mar, o que applacarà as ondas {A, de Lembr. 
1857, p. 376). cj Como eu já por varias vezes disse neste 
livro, o povo costuma talhar certas doenças por meio de 
formulas e ceremonias (vid. |§ 20, 85, 94, 251, etc). 



^^ Cf. varias lendas da Egreja. 



304 



Qualquer pessoa pôde talhar: o caso é saber; não é pre 
ciso ter virtude sobrenatural para isso (Beira Alta, etc). 

376. XXVIII. Vedores. — «Os vedores d'agua tema 
virtude especial de ver onde corre a agua debaixo da terra. 
Ainda hoje vigora a crença em taes vàdores, de que ha 
menção em obras dos séculos xvi, xvii e xviii» (Ad. Coe- 
lho, Rev, de Ethn,^ % 282). Na Beira- Alta conheci vários 
d'estes homens tidos como vedores. A palavra védor^ se- 
gundo coUigi da conversa que tive com um moleiro de ao 
pé de Mathosinhos, parece que tem também a significação de 
homem sábio, indagador, etc. 

377. XXIX. Imaginários. — «O povo chama imagi- 
rumos a homens, geralmente lavradores velhos, fortes em 
prognósticos de lavoura, que se deitam a adivinhar o fu- 
turo, e lêem sinas {buena dicha)^^ diz in Rev, cit. | 286, 
o snr. Ad. Coelho a quem um imaginário lera a sina. Nas 
aldeias tenho visto por varias vezes homens que levam pás- 
saros que com o bico apanham papelinhos onde se acham 
consignadas varias sortes: quem quer saber a sorte dá 
10 reis. Ha mesmo livros relativamente volumosos, onde 
vem muitos versos em forma de prognósticos, e que ser- 
vem para entreter a ociosidade das meninas que desejam 
saber quando casarão se cedo ou tarde, e com quem. 

378. XXX. Feiticeiras, aj As Feiticeiras adivi- 
nham. Quando querem enfeitiçar alguém, apanham com uma 
moeda de três vinténs em prata (dinheiro de cruzes) a terra 
da pegada do pé esquerdo da tal pessoa, e com a terra en- 
canham a pessoa, que por isso fica muito magra, fraca, 
doente, etc. (isto é, encanhada) (Villa Real), b) As feiticei- 
ras, quando querem enfeitiçar alguém, apanham a terra da 
pegada do pé direito (sic), atam-na num panno e depois ati- 
ram-na á cova de um defuncto; quando o defuncto estiver 
desgastado, morre a pessoa (Guimarães), c) Sobre o feitiço 



305 



(lat. facticms, a, um) diz o Ccmcioneiro de 6. de Resende 
(fl. 137, V.): 

Renego de seus feitiços 
B das que tem ruim fama. 

d) Adagio: Virou-se o feitiço contra o feiticeiro, e) So- 
bre as feiticeiras ha muito, não só nas Obras de Gil Vi- 
cente (ex. Auto das Fadas) ^ mas nas Constituições dos Im- 
pados e nos Docv/mentos da Inquisição, 

379. Creio ter cabimento neste art. dizer alguma 
cousa de S. Cypriano e do seu Livro, a) S. Cypriano, se- 
gundo a crença popular, foi o primeiro feiticeiro que houve. 
Lêr o livro d'elie é peccado; mas, quem o lêr, assôbe ás 
nubes (nuvens) sem azas (Gondifellos) . b) Em Guimarães 
diz-se a seguinte oração a S. Cypriano : 



Meu S. Supriano ^^7 Com ellas falias tes, 

Meu S. Su{)naninho^ Comestes, e bubestes; 

Meu feiticeiro. Vossa sorte botastes. 

Meu feiticeirinho, Mílhor a tirastes: 

No mar andastes, Dizei-me agora a minha 

Onze virges encontrastes, P'ra saber se casarei. 



c) O Livro de S. Cypriano gosa de uma extraordinária 
popularidade, e ha d'elle varias edições. Serve principal- 
mente para desencantar thesouros. Em Paços de Ferreira 
um velho (sapateiro) ensinou o seguinte, que serve para o 
Demónio dar o dinheiro que está encantado com as Mou- 
ras : = «Obtido que seja o livro, é precisa uma vara de oli- 
veira. O individuo que a tiver de cortar tem de munir-se de 
uma foice (para o golpe ser rápido), subir á meia noite em 



3^ A pron. pop. de Cypriano é Supriano (por influencia da 
labial). 



20 



306 



ponto para cima da oliveira, e, logo que o sol desponte no 
horizonte, fazer cahir immediatamente a foice sobre a vara. 

ê 

Cortada a vara, é necessário mandá-la benzer por um padre ** 
e em seguida escolher o dia para a acção, entrando nella o 
padre e dois homens mais, para cada um segurar na mão 
uma vela de cera, accesa emquanto durar o acto. Escolhido 
o dia, isto é, a noite que se segue a esse dia e que deve ser 
tenebroza, dirigem-se os três, ahi por volta das 1 2 horas, ao 
local e alli descrevem com um pau uma circumferencia den- 
tro da qual devem collocar-se ajoelhados. O padre de sobre- 
peliz e estola principia a resa e em seguida começão a ap- 
parecer lufadas de fogo que chegam até á circumferencia 
mas não a ultrapassam ; os pinhaes fustigam o solo ; apparece 
grande quantidade e variedade de bichos, cujo aspecto é da 
maior ferocidade, e emflm Lúcifer que pergunta : — «que que- 
reis vós?» — responde-se-lhe : «queremos aqui já o thesouro 
que se acha em tal parte.» — Pôde elle suscitar suas duvidas 
com relação á entrega; mas nada de o attender nem temer, 
porque por força o hade entregar. Não se deve temer quando 
se observa aquelle espectáculo aterrador; do contrario nada 
feito. Depois de recebido o thesouro, téem de fazer-se ou- 
tras orações para o que se chama imposta. Então começa 
tudo a retirar, nada se vendo a final; e os três persona- 
gens vão para suas casas, repartida a somma.» — d] Este li- 
vro tem ainda outras virtudes, como declarar o auctor de 
um roubo, de uma morte, etc. 

380. XXXI. Bruxas, a) Na Anacephaleosis de Ber- 
nardo Pereira (ed. 1734) diz-se que ha Bruxas e Bruxos ^* 
(pag. 23-24). Da palavra Bruxa deriva o verbo embruxar^ e 
os substantivos bruxedo e bruxaria^ muito usados pelo povo. 



28« Que desgraçadamente os ha próprios nesse concelho. 
289 Du Cange traz Brochas; em casl. ha Bi^ja; em gall. 
Bruxa e {Meiga), vid. Dicc. Galleg. de Pifiol, e § 172. 



307 



b) Diz-se em Sinfães que quem tiver sete filhas a seguir, ha-de 
ter uma Bruxa (cf. | 348), a qual deixará de correr este 
fado^ se for assignalada (i. é, se nascer com algum defeito) 
ou se algum dos irmãos lhe servir de padrinho ou madri- 
nha, c) Já se disse no | 1 72 que as Bruxas andam ves- 
tidas de branco, ou em forma de patos^ a patinhar nos 
rios; segundo outras versões andam em forma de ratas 
grandes^ que furam as popas (Vouzella). As Bruxas correm 
as aldeias com luzes na mão (cf. § 97), e ás vezes vão em 
forma de gansos lavar para os chavascaes (Guimarães). As 
Bruxas batem muito as palmas, soltam grandes gargalha- 
das, uweiam [uivam] como os cães e dão bofetadas invisi- 
velmente (Villa-Real). As Bruxas andam nos pinhaes a bater 
as palmas, a dançar e a dar grandes gargalhadas (Vouzella). 
As Bruxas andam nas encruzilhadas e ao pé dos rios, e en- 
tram nas espadadas de linho (Prazins ao pé de Guimarães). 
d) Da meia-noute para a uma hora, as Bruxas untam-se 
em casa com azeite zimbre^ e vão para as encruzilha- 
das, onde fazem um sino saimão, dentro do qual se mettem. 
D'ahi é que partem para as differentes partes a fazer desa- 
catos. Passadas as duas horas da noute^ as Bruxas não tem 
mais poder (Villa-Real). ej Diz-se que as Bruxas se reú- 
nem, á noite, numa certa casa, e untam os cabellos com 
azeite e vão a Sevilha. Antes de partirem, exclamam: 



Por cima de silvaes 

E por baixo de olivaes. 290 



Sobem pela chaminé da cosmha e partem para Sevi- 
lha. — Conta-se que um homem presenciara uma vez esta 
scena, e unctára também os cabellos; mas enganou-se na 
formula e disse: Por baixo dos silvaes — E por cima dos 



*w Cf. Bosque Legends de Webster, a pag. 70. 



r 



308 



olivaes^ em virtude do que rasgou a roupa toda e as carnes 
por baixo das silvas, e não pôde chegar a Sevilha (Freixo de 
Espada-Ginta). P Uma mulher de ao pé de Guimarães con- 
tou-me o seguinte: «Dm moço encontrou-se com as Bruxas 
e depois ellas dixéro-le: «Onde vaes?» Responde elle: «Vou. 
comvosco». Elias dixéro-le: «Has de dizer comnosco: 



Nós por baixo de carvalhaes 

E por riba de sirvadaes. (siivadaes) 



E elle dixe €por riba de carvalhaes^ e por baixo de 
sirvadaes» ; e depois andava sempre por baixo das sirvas, 
e ellas dezio-le assim : «Anda par dente» [para deante] ^\ 
e elle dezia: «Já num posso». Ellas: «Anda, vamos buber 
alli». Ellas e elle entráro pola fichadura da porta e foro ó 
vinho ; elle viu a pipa a botar fora, e o vinho a sortar-se e 
dixe: «Santo nome de Jesus! ^*». Ellas dixéro-le: 

«Tu fallaste no Tiru-lu, »» 
Fica-te p*ra ahi^ home nu». 

E deixáro-no ficar nu a ter mão á torneira do pipo, e fii- 
gíro» . g) As Bruxas reunem-se ás Terças e Sextas- feiras de- 
baixo da presidência do Diabo, e transformam-se em pombas 
(sic) (Villa Real), h) Segundo F. Manoel do Nascimento a au- 
diência ou conciliábulo das Bruxas chama-se senzala (not. à 



291 Viterbo (Elucidaria) traz adeante (=para deante). 

29* E* uma fórmula exclamativa vulgar. 

293 o liru'lu é Jesus. — Noutro conto fragmentado que ouvi 

SDouro)^ um bocado de pào estava no lume; nisto ouve-se Tru-lu-lu; 
liz o pau: «Quem és tu ?» Respondem de cima : «Tra-lai^ tra-lai, — 
Sou tua mãe; ó meu fílbo vô se o podes enfeitiçar». Toma o pau: 
«Não posso minha mãe^ que tomaram o alho» (cf. § 248-e). — Más 
aqui o TrU'lU'lu desempenha um papel contrario^ parece. 



309 



traducção das Fabulas de La Fontaine, p. 302) ; mas, ape- 
sar de eu ter perguntado muitas vezes o nome d'este conci- 
liábulo, nunca ouvi tal designação ao povo. ^^ i) Cf. um 
conto que publiquei no Penafidelense^ n.^ 305 e outro que 
publiquei no Archivio per le tradizioni popolari, vol. i, p. 
282. j) As Bruxas entram pelo buraco da fechadura da 
porta, ou pelos buracos do telhado, e vão chupar o sangue 
ás creanpas, sem as mães darem conta. As creanças ás ve- 
zes apparecem debaixo da cama por causa do bruxedo 
(Villa Real). As creanças mortas por Bruxas apresentam 
muitas pisadellas pelo corpo (Minho). Quando uma creanpa 
morre, e se suppõe que foi chupada pelas Bruxas, não se 
diz que morreu, mas põe-se a ferver, numa panella barrada, 
a roupa da creanpa, e a mãe varre a casa ás avessas (da 
porta para dentro), e diz : 

Assim como eu na minha casa ando a varrer. 
Assim quem matou a minha menina (ou menino) 
Aqui venha ter. 295 

Depois, vindo a Bruxa, dão-lhe uma grande coça (Fa- 
malicão), k) Era uma vez uma mulher que tinha um me- 
nino, e era visinha de uma Bruxa. Dm dia disse-lhe a 
Bruxa: «Queres que as Bruxas não façam mal ao teu me- 
nino ? Diz muitas vezes isto, todos os dias : 

Reconcol, reconquista. 
Ao redol d'esta casa. 
Anda S. João Baptista. 

A mãe ficou muito contente e no outro dia logo pela 
manhã, quando foi vestir a menina, disse a fórmula, mas 



2^ O nome fr. ó Sabbat; basco ó Akhelarre (Basque LegendsJ' 
^5 A vassoura tem certas relações com as Bruxas. 



310 



em vez de dizer «ao redol [ao redor] d'esta casai^^ disse 
«ao redol d'esta comarca j^; por isso a Bruxa foi ter com 
ella e pediu-lhe que não dissesse comarca^ mas dissesse 
casa^ porque senão ellas não podiam fazer mal a ninguém. A 
mulher assim fez, e o seu menino era o mais gordo de to- 
dos, porque as Bruxas iam chupar o sangue aos outros ** 
(Saúde, no c. de Santarém). /) A superstição de que as 
Bruxas chupam o sangue é commum á-Galliza, como se vê 
d'uns versos de Murguia {Cantares gallegos), m) Vid. | 
222-6. n) Para evitar a acfão das Bruxas deve dizer-se ao 
deitar da cama (Minho) : 



Oca, Mamôca, Três vezes trista. 

Três vezes ôca, S. Pedro e S. Paulo 

Pó no pô, E S. João Evangelista 

Freio na boca, De redor da minha casa assista. 

Trista com trista ^^^ gg 344.^ ^ 37^.^^ 



Ainda ha outro meio de evitar as Bruxas, como fazer 
um sino salmão e metter-se a gente dentro. Quem tem uma 
cruz natural nas raias da mão está livre d'ellas (Villa Real). 
Cf. §1 248 e 251. oj Ha vários meios de reconheceras 
Bruxas: se se deixar na egreja, ao fim da missa, o missal 
aberto (Rio Tinto), ou se se deitar na pia da agua benta 
uma moeda de cruzes (Chaves), ou, se, emflm, ao levantar 
a Deus, se correr o cadeado da porta (Minho), — as Bruxas 
que estiverem na egreja não podem sahir de lá. pj Se se 
pregar uma navalha na sombra das Bruxas, ellas ficam quie- 
tas (Chaves), q) As Bruxas andam de noite e beijam o 
Diânho, que é o bezerro dos cornos pretos, e ficam logo 



2»6 Por aqui se vê que as Bruxas cumprem um fado e não ope- 
ram por livre vontade. Â gente de Vouzella ouvi mesmo que Deus dá 
ás Bruxas um fado como aos Lobishomens. Cf. 279-6. 



311 



com o fadário (Godim). r) Não é bom deitar o cisco fora, 
depois das Trindades, por causa das Bruxas (Villa Real). 
s) Carro da condeceira : O carro da condeceira é o carro 
das Bruxas, que anda só de noute. Uma vez ia elle a passar 
pela Rua-dos-gatos (Guimarães), e ura curioso veiu à janella 
ver o que era, despertado pela grande chiadeira que o 
carro fazia : iramediatamente levou uma bofetada monumen- 
tal, t) Conto : Uma vez um homem deitou na pia da agua 
benta dinheiro em prata, pelo que Acaram na egreja varias 
mulheres. A' noite o homem foi levar a ceia a um pastor; 
no caminho taparam-lhe a boca, sem elle ver quem era, e 
despirara-no, pondo-lhe cada peça de roupa em seu carva- 
lho, menos a camisa e o coUete, porque neste levava pão, 
e as Bruxas não podem tocar em cousa benta como o pão. ^^ 
Depois metteram-no num regato, deixando-lhe apenas a ca- 
beça de fora. Esteve nesta posição até ao outro dia de ma- 
nhã, em que liguem que passou o achou quasí morto (Chaves 
na freg. de S. Miguel de Nogueira). ^^ 



297 Effectivamente no povo díz-se que o pão é bento; até 
quando cae um pedaço de pão ao chão, costumam beijá-lo ao apa- 
nhá-lo. — Com relação ao conto, parece pouco próprio levar o homem 
pão no collete; será antes dinheiro de cruzes? Ou serão as duas cou- 
sas em duas peças de roupa diiTerentes ? 

298 No povo, e mesmo nos AA., acham-se a cada passo con- 
fundidas as designações Bm^a e Feiticeira; creio porém que nos fa- 
ctos que apresento ticam soffrivelmente discriminadas estas duas de- 
signações. As Feiticeiras não passam de simples adivinhadeiras com 
o poder de faz3r feitiços (em questões de amor, etc); as Bruxas são 
mais alguma cousa do que isso, porque podem soífrer metamorpho- 
ses, tornar-se invisíveis, chupar creanças, etc. As Feiticeiras, como 
me disse unia mulher do povo, operam por arte do Demónio, em- 
quanto que is Bruxas operam por fado que Deus lhe deu, posto que 
andem ligadas também ao Demónio. As Feiticeiras representarão por 
ventura o venigio de alguma antiga sacerdotiza; as Bruxas o de al- 
guma divindade decahida. Note-se mais a associação das Bruxas com 
os elementos da atmosphera (§ 104), com o lume (§§ 97 e 379-c), 
com a noute (§ dldd-e); o seu caracter por assim dizer espiritual (§ 
379-j), etc. 



312 



381. XXXIl. Diabo, a) Os nomes com que o povo 
representa o Diabo são (que- me lembrem) : Diabo, Diabinho, 
Diabelho, Diabiltio, Diabrete, Diacho, Decho, Diânho, Diálho; 
Demo, Demónio, Deraônho, Dementes; Salanaz; Mafarrico; 
o hiimigo, o Inimigo-mau; o Porco-Sujo (cf. | 64-c?); Bar- 
zabu, Barzabum; Veneno; Bicho-feio; Bicho-negro; o Ga- 
lhardo; o Provinco; o da Carapupa- vermelha; o Trasgo; o 
Crespo; o Manquito; o Zangão; o Cão-tinhoso; o Pedro Ma- 
lasartes (nem sempre) ; Pêro Botelho ; o Peccado ; o Farra- 
peiro. — E' menos peccado pronunciar alguns d'estes nomes do 
que outros, h) Phrases: Diabos te levem! Só pelo Diabo! 
Málo haja o Inimigo ! Valha-te o Diabo ! Manta do Diânho ! 
Ora o Diacho ! Olha o Porco-Sujo ! O Diabo do homem ! E' 
um pobre Diabo ! Que Diabo é isso ? Anda o Diabo às soltas ! 
E' o Diabo a quatro! Isto tem Diabo! c) O Diabo figura 
como o constructor de pontes, etc. Quando o Diabo fez a 
ponte da Alliviada (ponte celebre pelas lendas diabólicas, 
sobre o rio de Varzea-de-Ovelhas, confluente do Tâmega, ao 
pé do Marco), chamou S. Gonsalo, que andava a fazer a de 
Amarante, e disse-lhe que a não benzesse; mas o santo er- 
gueu a bengala a modo de cruz, assim como qaem ao fallar 
aponta; o Diabo então fugiu para cima de um monte d'onde 
começou a atirar pedras ao santo, as quaes elle desviava 
(passim). — Diz-se que na tal ponte da Alliviída o Diabo 
fricta sardinhas, cujo chiadoiro é ouvido por quem passa. 
A pessoa que cahir á agua debaixo da ponte, nunca mais 
apparece. Nesse mesmo sitio vagueia á meia-noute um 
phantasma embrulhado num lençol (Marco de Canavezes). 
— Quando um pae diz para um filho: «Diabos te levem!», 
á hora que o padre na missa diz amen!^ o Diabo leva a 
creanpa para a ponte da AUiviada. Depois é preciso ir là o 
padrinho, a madrinha e um padre. O Diabo perguata de en- 
tre os penedos: «Como quereis a creança? Gomo veiu ou 
como está?» Se lhe respondem: «como veiu», a creança sae 
bem; se lhe respondem: «como está», sae negra e come bi- 
chos, que é o sustento que o Diabo lhe dava (Porto). — Vid» 




313 



a nota 80 d'este livro. — Ha também lendas sobre as pontes 
de Val-Telhas, Abreiro, Misarella (cf. a rainha revista O Pan- 
theon^ pag. 50). d) Dm dia ura chapeleiro tinha de arran- 
jar uns chapéus e não tinha quem o ajudasse. EUe disse : 
«Não apparecer ninguém que me ajude, nem que seja o 
Diabo do inferno!». Appareceu alli um homem e disse: «Ve- 
nho ajuda-lo a enfortir». E foi-se pôr a enfortir, ao tabo- 
leiro, os chapéus, e enfortia tão depressa que em pouco 
tempo tinha já muitos promptos; pelo que o homem, admi- 
rado, poz-se a olhar para elle e viu-lhe pés de cabra, e disse ; 

Pè de cabra ao taboleíro 
Arreoego eu do sombreireiro. 

O homem fugiu polas castanheiras abaixo, a fazer muito 
barulho. E os chapéus ficaram na mesma (Carregosa). 
e) Quando casualmente um banco de três pernas (Iripepa) 
está com ellas para o ar, é porque o Diabo anda a dançar 
(Arcozello; cf. este | em /). f) Quando se perde qualquer 
cousa, é bom atar a perna ao Diabo^ para ella apparecer. 
Atar a perna ao Diabo, é atar um lenço á perna de uma 
cadeira, dizendo: 

Aqui te amarro^ Diabo; 

Aqui te amarro o teu rabo 

A' perna d'esta cadeira; 

Emquaoto (aomeia-se a cousa perdida) nao apparecer 

Aqui hasde padecer. 

(Braga). 

Uma versão de Gaia diz que se emprega um cordel, e 
chama à operação atar o rabo ao Diabo. (Cf. para a analo- 
gia do Diabo e do banco, este | em e e o § 361-c). g) O 
Diabo apparece pelos corgos [ribeiros] era figura de uma 
Porca com sete leitões (Mondim da Beira). Em Resende di- 
zia-se que no sitio do Boqueirão do Paço apparecia uma 
Porca ruça cora uraa manada de sete leitões ruços, e que 



314 



este Porco era o Diabo, h) Quem falia sósinlio, falia com 
o Diabo (passím). i) Quem anda para trás, ensina o cami- 
nho ao Diabo (Mondim, etc). j) A quem vae a andar de 
noute e a olhar para trás, apparece o Inimigo (Taboaço, 
etc). k) Diz-se vulgarmenle, quando acontece qualquer 
desastre: «O Diabo é tendeiro; onde quer as arma». Cf. 
esta cantiga da Feira : 

O Demónio é tendeiro 
Vende titãs amarelJas; 
Venha outros que lh'as compre^ 
Que eu não quero nada d'elles. 

Cf. mais o dictado : 

O Diabo é tendeiro 

E arma tendas sem dinheiro. 

/) Uma vez um rapaz apostou em como havia de ir a 
uma esquma onde apparecia o Diabo; foi e viu lá um 
homem muito alto, com uma carapuça vermelha na ca- 
beça : era o Diabo. O rapaz durou só três dias depois d'isto 
(Taboaço, Rio de Moinhos, etc.).— Chama-se vulgarmente 
ao Diabo : o da carapuça v&i^melha. m) Havia na minha 
terra uma velha que dizia ver o Diabo numa fogueira em 
forma de Porco, n) O Diabo chama-se, como disse, o 
Crespo, Para as Bruxas saberem se o Diabo irá ou não á 
sómbleia [assembleia, i. é, Sabbat] d'ellas dizem (Cabecei- 
ras de Basto) : 

Sapo^ Sapão, 

Virá o Crespo ou não í 

o) O Diabo, quando anda entre as Bruxas, chama-se 
Za/ngão. Um rapaz de Santa Leocadia (Minho), por mais cru- 
zes de canna que punha á cabeceira, não se podia livrar 
das maldictas. Uma noite viu-as a mais o Zangão; travou-se 
logo este dialogo entre ellas e o Zangão : 

—Que lindas rosas — E que lindo cravo 

•Por estas hervasl Por meio d^ellasl 



315 



O rapaz durou pouco tempo depois d'isto. — Numa ver- 
são, porem, de Cabeceiras de Basto, diz-se que o Zangão é 
um homem como nós, e que, quando as Bruxas vão faz&r 
sómblda (no sitio do Froco às terças e sextas-feiras), elle é 
sabedor de tudo o que lá se passe. O Zangão, segundo a 
mesma versão, tem pauto com o Diabo. —Diz-se em forma 
de dictado: «Não ha Bruxa sem Zangão» (Gab. de Basto). 

p) A's creanças turbulentas dá-se o nome de probincos^ 
e diz-se que Probinco é o Diabo (B. Alta). — No Livro dos 
Pregos^ cit. por Th. Braga in Volta do Mundo^ pag. 171, 
diz-se a propósito da procissão de Corpo de Deus: «II. 
Diabos e dous provincosi>. Segundo ainda Th. Braga, nos 
Apores chama-se ás creanças inquietas previncos mdos. *^ 

q) Ao pé da Serra da Estrella ha uma ponte feita pelos 
Galhardos (i. é, pelo Diabo). Independente d'esta versão, 
já tenho ouvido nomear Pontes dos Galhardos, r) Em pe- 
queno ouvi um conto em que o Diabo fazia arder tudo 
aquillo em que tocava. 5) Em Guimarães, quando os ra- 
pazes cantam os Reis, e lhes não dão nada, cantam, entre ou- 
tros, estes versos : 

Esta casa cheira a pinho. 
Aqui mora algum diabinho. 

Ha também uma lenda dos Diabinhos que foi poeti- 
sada pela snr.* D. Maria Peregrina de Sousa, t) «A habita- 
ção do Diabo é o inferno, A toponymia revela que a ima- 
ginação popular viu a abertura do inferno ou a entrada para 
elle em differentes pontos : assim diversos fojos são denomi- 
nados bocca do inferno^ alguns valles valles do infernoit 



299 Provinco na ling. port. arch. significa proíwmo e parentela, 
o que é o lat. propinquus (p=b==v) ; pôde ser esta a origem oa designa- 
ção do Diabo, como Trasgo loiceiro, Tardo moleiro, Tatro azeiteiro, 
Diabo tendeiro, etc? A etymologia que dá Th. B. é um pouco pban- 
tastica. 



/ 



316 



Çká. Coelho in Rev. de Ethnologia, § 180). «No inferno ha 
uma enorme caldeira onde as almas são deitadas em azeite 
a ferver e que é chamada caldeira do Pêro ou Pedro Bote^ 
Ihojf (ib. ib.). Também se diz Caldeirão de Pêro BoteUio. u) 
São vulgares lendas de assumpto semelhante ao indicado por 
este titulo de uma que tenho ms. (sec. xviii) : «Dous De- 
mónios vierão á Igreja do Mosteiro de Paço de Souza e le- 
varão o corpo de Melchior Pacheco de Bulhões» (em 1651). 
Vid. pg. 254 e §1 104, 168, 198 etc. 

382. a) Ao lado do Diabo existe a Diaba, Segunda 
uns, a Diaba é a mulher do Diabo; segundo outros é a 
mãe d'elle. *^ b) A Diaba tem unhas de cão muito escan- 
chadas, e figura de mulher, c) Segundo uma velha me 
disse, ha na freguezia deMidões (Minho) um templo, no altar 
do qual está o Diabo e a Diaba, que é uma mopa muito 
aceiada; S. Bento está a ler, e o Diabo a apontar-lhe ape- 
quena^ a ver se o tenta; diz mesmo o povo: «Olha a Diaba 
a ver se tenta S. Bento !» d) Em Jorge Ferreira (Eufrosina^ 
255) encontra-se a forma Diaboa, e) Num documento da 
Inquisição (apud C. Pedroso, Contnbuição para uma Myih. 
Pop, Port.^ VI; pag. 10), figura ao lado de vários nomes má- 
gicos, este de Diaba (sec. xvii). g) Adágios: «Ui! disse o 
Diabo quando viu o cu á mãe!» «Tal é o demo como sua 
mãe» (Apud Rev, de Etimologia^ % 185). 

Seguia-se naturalmente tractar dos Santos e outros 
personagens da Egreja, por isso que nelles se acham muitos 
factos pertencentes ao maravilhoso popular; mas esse as- 
sumpto tractá-lo-hei no volume destinado aos Fastos populares 
portuguezes^ que deve seguir-se a este, e no qual entrarão 
as tradições das horas, dias, semana, mezes, as festas^ etc. 



soo Nas trad. pop. francezas o Diabo também tem mãe (H. Gai- 
dez, — Gargantua, p. 13). 




■*»■ 



índice 



Pao. 

IntroducçXo vn 

Capitulo I — Os astros 1 

Capitulo II — Fogo, luz e sombra 33 

Capitulo III — A atmosphera 45 

Capitulo IV —A agua 66 

Capitulo V —Aterra 85 

Capitulo VI — As pedras 89 

Capitulo VII — Os metaes 99 

Capitulo VIII — Os vegetaes 104 

Capitulo IX — Os auimaes 130 

Appendice a este capitulo 190 

Capitulo X — O homem e a mulher 200 

Appendice 259 

Capitulo XI —Seres sobreuaturaes . . • 260 




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